{"id":96740,"date":"2017-01-26T12:48:10","date_gmt":"2017-01-26T14:48:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96740"},"modified":"2017-02-14T09:34:56","modified_gmt":"2017-02-14T11:34:56","slug":"memorias-do-carcere-volume-ii-graciliano-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/memorias-do-carcere-volume-ii-graciliano-ramos","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere (Volume II) &#8211; Graciliano Ramos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\"><a class=\"links\" href=\"#1\"><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Terceira<br \/>\nParte <\/strong><\/span><\/a><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: medium;\"> <a class=\"links\" href=\"#2\">Quarta<br \/>\nParte <\/a><\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Graciliano Ramos<\/h2>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>TERCEIRA PARTE<\/h2>\n<h2>COL\u00d4NIA CORRECIONAL<\/h2>\n<p>1<\/p>\n<p>ENTRAMOS num sal\u00e3o bastante limpo, de pintura nova, ainda com cheiro<br \/>\nde tinta fresca, mas desprovido inteiramente de m\u00f3veis. Era o Pavilh\u00e3o<br \/>\ndos Militares. O ch\u00e3o liso, as paredes nuas valorizavam demais o conforto<br \/>\nescasso perdido uma hora antes: o colch\u00e3o magro, a cama dura, o guarda-vento.<br \/>\nIr\u00edamos para a Col\u00f4nia? Essa pergunta muitas vezes se repetiu;<br \/>\nuns aos outros os homens em redor avivavam receios, queriam suprimi-los, enquanto<br \/>\nse ambientavam, de c\u00f3coras pelos cantos, sentados nas bagagens. Macedo<br \/>\nn\u00e3o tinha d\u00favida. Ir\u00edamos, claro. Dizia isso tranq\u00fcilo,<br \/>\nindiferente \u00e0 miser\u00e1vel perspectiva, arrumando os tro\u00e7os<br \/>\ncom pachorra, a concentrar o engenho no problema de armar a rede. Trouxeram-nos<br \/>\nesteiras e len\u00e7\u00f3is. Bem. Davam-nos agasalhos, a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nera melhor que nas pris\u00f5es das galerias, molhadas, cheias, a gente<br \/>\nmal conseguindo estirar-se no espa\u00e7o ex\u00edguo.<\/p>\n<p>Despi-me, busquei nos muros um prego que me servisse de cabide; em falta<br \/>\ndisto, dobrei a roupa, coloquei-a em cima do chap\u00e9u de palha. Retirei<br \/>\nda maleta o pijama, vesti-me, arriei na esteira a carca\u00e7a, junto \u00e0<br \/>\nporta, Macedo abriu o saco de lona e ofereceu-me um travesseiro. Homem arrumado<br \/>\ne previdente. Com o saco de lona parecia fazer m\u00e1gicas: extra\u00eda<br \/>\ndele os objetos necess\u00e1rios e requintes de luxo, at\u00e9 fronhas.<br \/>\nAgora exteriorizava contentamento: achara meio de pendurar a rede entre duas<br \/>\ngrades. Sentou-se nela e acendeu o cachimbo. Tentei repousar, mas um burburinho<br \/>\nconfuso e as id\u00e9ias fragment\u00e1rias impediam-me o sono. Imposs\u00edvel<br \/>\nconservar-me em posi\u00e7\u00e3o horizontal. Ergui o espinha\u00e7o,<br \/>\nencostei-me \u00e0 parede, entretive-me a examinar os companheiros; contei-os<br \/>\nv\u00e1rias vezes, sem atinar com o n\u00famero certo; mexiam-se demais,<br \/>\nentregues \u00e0 arruma\u00e7\u00e3o, e atrapalhavam-me a contagem.<\/p>\n<p>Findos os arranjos, atenuada a lufa-lufa, convenci-me afinal de que \u00e9ramos<br \/>\ndezessete pessoas, cinco nordestinos e doze paranaenses. Fixei a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nnestes, quase todos rapag\u00f5es fortes e brancos, j\u00e1 percebidos<br \/>\nvagamente no andar t\u00e9rreo do Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios,<br \/>\nenvoltos em largos sobretudos espessos. Tinham pros\u00f3dia esquisita,<br \/>\ne sobrenomes ex\u00f3ticos feriam-me os ouvidos: Petrosky, Prinz, Zoppo,<br \/>\nGarrett, Cabezon. A minoria, vulgar e mais ou menos cabocla, usava designa\u00e7\u00f5es<br \/>\ncaseiras, expressas na fala arrastada, familiar no por\u00e3o do Manaus,<br \/>\nquatro meses atr\u00e1s: Guerra, Macedo, Jo\u00e3o Rocha, Jos\u00e9<br \/>\nGomes.<\/p>\n<p>Entre os sujeitos ali reunidos, atentei num velho encorpado, vermelho, de<br \/>\n\u00f3culos, muito s\u00e9rio, visto dias antes na fila, \u00e0 hora<br \/>\nda b\u00f3ia. Conversamos essa noite, e descobri que ele se notabilizava<br \/>\npor v\u00e1rios motivos: falava polaco, citava com abund\u00e2ncia vers\u00edculos<br \/>\nda B\u00edblia e era danadamente reacion\u00e1rio. Precisava desabafar<br \/>\ne segredou-me confid\u00eancias: fora preso por engano; sim senhor, engano,<br \/>\ncal\u00fania de inimigos. Via em mim uma pessoa de considera\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; e julgava por isso que n\u00e3o ir\u00edamos para a Col\u00f4nia Correcional.<br \/>\nChamava-se apenas Eus\u00e9bio. Tinha um cargo p\u00fablico (ou n\u00e3o<br \/>\ntinha: provavelmente o haviam demitido) e era pequeno propriet\u00e1rio.<br \/>\nEm desassossego, evitando conviv\u00eancias prejudiciais, buscava no ambiente<br \/>\ninsalubre um homem de posses, conservador, esfor\u00e7ava-se por segurar-se<br \/>\na ele e tranq\u00fcilizar-se. Iriam mandar-nos para a Col\u00f4nia Correcional?<br \/>\nE porqu\u00ea? Francamente, seria poss\u00edvel que nos mandassem para<br \/>\nl\u00e1? A viagem me parecia certa &#8211; e o velho Eus\u00e9bio desesperava.<br \/>\nN\u00e3o senhor, grunhia aflito e encatarroado. N\u00e3o nos fariam semelhante<br \/>\ndesacato. Arregalava os olhos, querendo enxergar em mim qualquer coisa al\u00e9m<br \/>\ndas apar\u00eancias, elevar-me e salvar-se: &#8211; Uma pessoa de considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desenganei-o. Conhecendo-me a pobreza, desanimou, sentiu-se desamparado.<br \/>\nExtinta a fugidia import\u00e2ncia, em v\u00e3o buscava em roda um sustent\u00e1culo,<br \/>\no ar de c\u00f3lica, o sorriso mofino, uma longa tremura a envolver-se no<br \/>\ncapote. No descampado social nenhuma sali\u00eancia. E a criatura infeliz<br \/>\ncontinuou a chatear-me remoendo o seu caso, arrepiando-se em cochichos por<br \/>\nver-se misturado a indiv\u00edduos suspeitos. Vivera sempre longe de confus\u00f5es,<br \/>\ngemia fanhoso, terminando os per\u00edodos numa interjei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndemorada e asm\u00e1tica &#8211; &#8220;An!&#8221; Explicava-se, defendia-se, pegando-se<br \/>\n\u00e0 religi\u00e3o, utilizando peda\u00e7os do Velho Testamento, como<br \/>\nse isto lhe proporcionasse vantagem. Apesar da minha franqueza, teimava em<br \/>\nn\u00e3o julgar-me inteiramente pobre. E afastou-se rosnando com seguran\u00e7a<br \/>\nfraca: &#8211; Uma pessoa de considera\u00e7\u00e3o. Acha que mandam? L imposs\u00edvel.<br \/>\nAn! Essa despedida n\u00e3o me trouxe o isolamento necess\u00e1rio ao<br \/>\narranjo das id\u00e9ias e ao sossego. As idas e vindas no cub\u00edculo,<br \/>\n\u00e0 toa, a ouvir palavras sem nexo, a procura de objetos mi\u00fados<br \/>\nna arruma\u00e7\u00e3o da bagagem, a dificuldade em amarrar a gravata<br \/>\ne cal\u00e7ar-me, enfim a mudan\u00e7a de gaiola tinham-me fatigado em<br \/>\nexcesso. Que dist\u00e2ncia hav\u00edamos percorrido? Cem metros, duzentos,<br \/>\nno m\u00e1ximo uns trezentos. Isso me parecia uma caminhada extensa, e o<br \/>\nmeio novo, as fisionomias indistintas, vozes a confundir-se exigiam-me grande<br \/>\nesfor\u00e7o para simular calma, apreender a significa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma pergunta e dar a resposta conveniente. A covardia obtusa do velho Eus\u00e9bio<br \/>\ncausava-me desgosto profundo. Largos dias, talvez meses, as lam\u00farias<br \/>\nbambas iriam importunar-me, endurecer-me o cora\u00e7\u00e3o. Nenhuma<br \/>\nsimpatia, absoluta aus\u00eancia de piedade. Receava impacientar-me, suprimir<br \/>\ncom raiva as lamenta\u00e7\u00f5es pegajosas que nos sujavam, lavar-me<br \/>\ndelas. Queria dormir, mas sempre estavam a reclamar-me a aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA imobilidade e o sil\u00eancio adquiriam de repente enorme valor. Dificuldade<br \/>\npensar, e obrigavam-me a isto.<\/p>\n<p>Um paranaense loquaz avizinhou-se, entabulando camaradagem f\u00e1cil,<br \/>\nesteve meia hora a narrar-me as diverg\u00eancias existentes no seu grupo,<br \/>\nintelectuais de um lado, oper\u00e1rios de outro, abominando-se ou desprezando-se.<br \/>\nA curiosa revela\u00e7\u00e3o desanuviou-me um instante e despertou ligeira<br \/>\ncuriosidade. Intelectuais? Que diabo significava isso? Inteirei-me a custo.<br \/>\nDesignavam-se desse jeito os indiv\u00edduos alheios a qualquer of\u00edcio<br \/>\nmanual: Herculano, estudante de m\u00fasculos d\u00e9beis e rosto enxofrado,<br \/>\no velho Eus\u00e9bio, alguns pequenos funcion\u00e1rios de uma estrada<br \/>\nde ferro. Mais essa. Iam for\u00e7ar-me a conviver, tempo indeterminado,<br \/>\ncom pessoas que se justapunham, sem chegar a entender-se. N\u00e3o me eximiria<br \/>\nde muitos erros: certamente esqueceria as diferen\u00e7as e a minha linguagem<br \/>\nferiria susceptibilidades.<\/p>\n<p>A fadiga me entorpecia a carne, mas o fervedouro de pensamentos desconexos<br \/>\nn\u00e3o me deixaria repousar. Livre do informante, alonguei-me na esteira,<br \/>\nfechei os olhos, envolvi me no len\u00e7ol curto demais. Os p\u00e9s ficaram<br \/>\ndescobertos, o ar frio da noite picava-me as orelhas. Encolhi-me, tentei defender-me<br \/>\ndas ferroadas penetrantes, vencer os arrepios. A umidade atravessava o tecido<br \/>\nfino, e n\u00e3o havia meio de aquietar-me. Escolhera por desgra\u00e7a<br \/>\no pior lugar, junto \u00e0 grade; um ventinho insinuante e velhaco trazia-me<br \/>\na garoa de julho. Se o esgotamento n\u00e3o me prendesse, iria alojar-me<br \/>\nnoutra parte. Nem me lembrei disso, provavelmente, e na sala n\u00e3o havia<br \/>\ncanto dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>Descerrando as p\u00e1lpebras pesadas, inteirava-me de min\u00facias<br \/>\nque n\u00e3o se articulavam; o conjunto era uma aglomera\u00e7\u00e3o<br \/>\nde tipos reconhec\u00edveis um instante e logo a esfumar-se em neblina;<br \/>\nenvolt\u00f3rios de redes e capotes davam-lhes a fei\u00e7\u00e3o vaga<br \/>\nde fardos inst\u00e1veis. A fraqueza visual impedia-me identificar as pessoas<br \/>\nmais distantes. Necess\u00e1rio usar \u00f3culos quando me soltassem:<br \/>\n\u00e0 luz escassa dos cub\u00edculos, durante alguns meses as letras<br \/>\nhaviam dan\u00e7ado no papel. Falas vagarosas me arrastavam de chofre ao<br \/>\npor\u00e3o do Manaus, e tr\u00eas figuras ressurgiam: Jo\u00e3o Rocha,<br \/>\no pequeno dentista Guerra, Jos\u00e9 Gomes. De que modo iria comportar-se<br \/>\no pobre Guerra, dias antes acometido por um acesso de terror, a urinar-se<br \/>\ne a tremer, querendo a presen\u00e7a de mam\u00e3e? Garrett e Petrosky,<br \/>\nencostados ao muro, estavam silenciosos e carrancudos. Tinham esses nomes,<br \/>\nsem d\u00favida, mas n\u00e3o consegui saber qual dos dois era Garrett,<br \/>\nqual era Petrosky. Incomodavam-me as frases soltas, para mim vazias como tagarelar<br \/>\nde papagaios. Descobri aos poucos sentido nelas: os oper\u00e1rios arredavam<br \/>\npreocupa\u00e7\u00f5es contando anedotas escabrosas. Jos\u00e9 Gomes<br \/>\nria-se demais das pr\u00f3prias hist\u00f3rias, repisando min\u00facias,<br \/>\ncomo se desconfiasse da intelig\u00eancia dos outros. N\u00e3o alcan\u00e7ando<br \/>\no resultado previsto, de nenhum modo se alterava: divertia-se imenso com as<br \/>\nnarrativas ins\u00edpidas. A gente do sul procedia de igual maneira, pouco<br \/>\nlhe importando o ju\u00edzo do audit\u00f3rio. A aus\u00eancia de esp\u00edrito,<br \/>\na monotonia, a pobreza de concep\u00e7\u00e3o, a linguagem perra, tudo<br \/>\nindicava falta de exerc\u00edcio mental, insinuava-me cautela, a precis\u00e3o<br \/>\nde acomodar-me ao conceito simples e direto: um paradoxo ali originaria incompatibilidades<br \/>\ninevit\u00e1veis. Desagrad\u00e1vel naquele meio o di\u00e1logo curto<br \/>\nque tive com um trabalhador. O homem falava-me nas vantagens da autocr\u00edtica.<br \/>\nE eu, sem refletir: &#8211; &#8220;Exato. Devo conhecer os meus defeitos, para conserv\u00e1-los<br \/>\ntodos com muito cuidado.&#8221; Surpresa viva, interjei\u00e7\u00f5es &#8211;<br \/>\ne este desgra\u00e7ado remate incompreens\u00edvel ao interlocutor honesto:<br \/>\n&#8211; &#8220;Claro. Se os meus defeitos se sumirem, deixarei de ser eu, mudar-me-ei<br \/>\nnoutro. Quero guard\u00e1-los, n\u00e3o perder um.&#8221; Opini\u00f5es<br \/>\ndesse g\u00eanero alarmariam as criaturas singelas ocupadas em remoer fac\u00e9cias<br \/>\nestultas.<\/p>\n<p>S\u00fabito uma pilh\u00e9ria cheia de sal arrancou-me uma gargalhada,<br \/>\nabriu-me os olhos, virou-me na esteira, ergueu-me sobre o cotovelo. Fora Cabezon<br \/>\nque me provocara esses movimentos, o indiv\u00edduo a quem davam tal nome,<br \/>\ncom certeza um dos intelectuais mencionados pouco antes, amanuense oficial<br \/>\nadministrativo, ou funcion\u00e1rio pequeno de uma estrada de ferro. A situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndele era mais ou menos igual \u00e0 minha. Revelava-se num trocadilho obsceno,<br \/>\nmas isto n\u00e3o causou grande efeito na assist\u00eancia. Os casos insulsos<br \/>\ncontinuaram. O velho Eus\u00e9bio tentava levar a conversa para assuntos<br \/>\ngraves. E Macedo, balan\u00e7ando-se na rede, cachimbava e sorria.<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>NO DIA seguinte pela manh\u00e3, Herculano trepou-se a uma janela e, agarrado<br \/>\naos var\u00f5es, ficou l\u00e1 de poleiro como papagaio, buscando entender-se<br \/>\ncom as outras celas. Gritos nos deram a not\u00edcia de que uma turma viera<br \/>\ndias antes da Col\u00f4nia e estava ali perto. Desejei saber os nomes dos<br \/>\nrec\u00e9m-chegados; como a voz fraca me impedia comunica\u00e7\u00e3o,<br \/>\no estudante amarelo encarregou-se de transmitir a pergunta. Berraram-nos uma<br \/>\nlista, abafada e incompleta; algumas pessoas reduziam-se a s\u00edlabas<br \/>\nescassas, n\u00e3o havia meio de reconhec\u00ea-las; quatro ou cinco surgiam<br \/>\nclaramente, quase todas enviadas na primeira leva, naquela noite em que Desid\u00e9rio<br \/>\nlevantava o bra\u00e7o com raiva, entortando mais o bugalho vesgo, e Tamandu\u00e1<br \/>\nse empavonava, metido no poncho vermelho.<\/p>\n<p>Trouxeram-nos o caf\u00e9, muito ralo, e um p\u00e3o sem manteiga. A\u00ed<br \/>\nnotar\u00edamos uma advert\u00eancia, se ela fosse precisa. O p\u00e3o<br \/>\nera exatamente igual ao fornecido no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios,<br \/>\nmas tiravam-nos o pouco de manteiga ran\u00e7osa, obrigat\u00f3ria l\u00e1.<br \/>\nCom certeza n\u00e3o procediam assim por economia: a supress\u00e3o visava<br \/>\na um fim, aliava-se \u00e0s esteiras, ao ajuntamento em local ex\u00edguo,<br \/>\naos len\u00e7\u00f3is curtos e finos em tempo frio, a indicar-nos uma<br \/>\ndegrada\u00e7\u00e3o. Iam impor-nos outras mudan\u00e7as, apagar de<br \/>\nchofre os restos de conforto ainda conservados na v\u00e9spera e for\u00e7ar-nos<br \/>\na contrair novos h\u00e1bitos. Esses choques nos perturbam em demasia, e<br \/>\no pior \u00e9 n\u00e3o sabermos at\u00e9 onde nos levar\u00e3o: a<br \/>\ninstabilidade nos impede entrever qualquer limite.<\/p>\n<p>Mandei comprar pelo faxina um litro de leite. Dias compridos o meu alimento<br \/>\nseria esse litro de leite, o p\u00e3o e alguns canecos da lavagem turva,<br \/>\nde gosto adocicado, que eu insistia em beber, esquecendo o aviso misterioso<br \/>\nde um preso velho e experiente. Em geral nos davam essa refei\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a porta fechada: o bico do bule se encostava a uma travessa, estir\u00e1vamos<br \/>\nos canecos e receb\u00edamos os p\u00e3es atrav\u00e9s dos ferros. Nos<br \/>\ncub\u00edculos era assim que faziam. Mas naquela manh\u00e3 destrancaram<br \/>\ninopinadamente a grade, os faxinas entraram com o saco de p\u00e3es e o<br \/>\nvaso enorme de folha, e o guarda nos permitiu andar no p\u00e1tio.<\/p>\n<p>Engoli o caf\u00e9, abalamos todos em busca do Pavilh\u00e3o onde se<br \/>\naboletavam refugos da Col\u00f4nia. Encontrei um bando a comprimir-se numa<br \/>\nabertura estreita, e nos espa\u00e7os que havia entre os corpos surgiam<br \/>\nrostos magros e desbotados. Outras fileiras deviam empurrar-se, invis\u00edveis,<br \/>\npois do fundo, escuro, fumacento e fuliginoso, partiam vozes percebidas em<br \/>\nqualquer parte. Os homens da frente, quase nus, cabe\u00e7as lisas, tinham<br \/>\nmuita sujeira, muita amarelid\u00e3o, \u00f3rbitas cavadas, bochechas<br \/>\nmurchas. Deixavam provavelmente a enfermaria. A primeira vista n\u00e3o<br \/>\nreconheci nenhum. Quando principiaram a falar, depressa, em desordem, como<br \/>\nse o tempo n\u00e3o desse para todos, fui notando aqui e ali sinais guardados<br \/>\ninconscientemente. Sorriam, descobrindo as gengivas p\u00e1lidas. O esqueleto<br \/>\nque o mo\u00e7o da rouparia tinha no punho voltou-me ao esp\u00edrito.<br \/>\nOs \u00e1cidos n\u00e3o haviam desfeito a medonha tatuagem. Por cima da<br \/>\ncicatriz que repuxava a pele e se estendia num desenho r\u00f3seo, sobressa\u00edam<br \/>\ncostelas, v\u00e9rtebras, o riso da caveira. As figuras estranhas apinhadas<br \/>\nali riam. Riam para mim, como se eu fosse uma carca\u00e7a tamb\u00e9m.<br \/>\nQuantos meses fazia que tinham vivido comigo no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios?<br \/>\nDois meses. Era, dois meses, pouco mais ou menos. E estavam assim. Talvez<br \/>\nignorassem que estavam assim. Estremeci. N\u00e3o me acharia daquele jeito?<br \/>\nOlhei o pijama curto e rasgado. Ultimamente dormia pouco, alimentava-me com<br \/>\ndificuldade. Extingui a compara\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel. Farrapos.<br \/>\nRegressavam da Col\u00f4nia, farrapos. Iriam reconstituir-se, renascer, mas<br \/>\nali eram farrapos. Examinei-os. Bem. Aquele devia ser o Newton Freitas, o<br \/>\ncamarada alegre e ruidoso que no Pavilh\u00e3o soltava risadas enormes,<br \/>\ncom ou sem prop\u00f3sito. Era ele, pensei descobrindo nos ossos do rosto<br \/>\nl\u00edvido sinais do antigo Newton. Sem d\u00favida, l\u00e1 vinha<br \/>\na gargalhada, uma fria gargalhada sem \u00e2nimo. E o sujeito baixo, de cuecas,<br \/>\nbarbudo em excesso, a mexer as mand\u00edbulas com jeito de caititu? Seria<br \/>\no Pessoa? Com os diabos! Anast\u00e1cio Pessoa, tipo neutro, alheio \u00e0<br \/>\nquest\u00e3o social, posto em liberdade, sup\u00fanhamos. Inofensivo e<br \/>\ndiscreto. &#8211; Voc\u00ea tamb\u00e9m, Pessoa? Recordei-me dele, vi-o na fila,<br \/>\nmanejando um romance ingl\u00eas, \u00e0 espera da comida, num apuro escandaloso.<br \/>\nN\u00e3o se decidia a vestir pijama, nivelar-se aos outros, pois ia de morar<br \/>\npouco entre n\u00f3s. Um equ\u00edvoco, tinham-no agarrado por engano.<br \/>\nCom certeza iam cham\u00e1-lo, explicar-se, mand\u00e1-lo embora, com<br \/>\ndesculpas. E nesta convic\u00e7\u00e3o isolava-se, de meias, sapatos lustrosos,<br \/>\ncal\u00e7a de casimira, suspens\u00f3rio, camisa de seda e gravata. Havia<br \/>\nde ficar ali sem saber porqu\u00ea? Sa\u00edra &#8211; e por isto recebera abra\u00e7os<br \/>\ne parab\u00e9ns. Agora voltava da Col\u00f4nia Correcional sujo, magro,<br \/>\nhirsuto, de cueca e tamancos. No risinho insignificante e nos modos encolhidos<br \/>\nlogo distingui Bag\u00e9. O nome dele me surgira pela primeira vez na galeria.<br \/>\nDistra\u00eda-me a olhar as paredes e o teto, um dos poucos meios de encher<br \/>\no tempo ali. As paredes estavam cobertas de inscri\u00e7\u00f5es e desenhos;<br \/>\nno teto oscilavam penduricalhos feitos com essas l\u00e2minas finas de metal<br \/>\nusadas em carteiras de cigarros. No meio dos letreiros, alto, onde n\u00e3o<br \/>\nchegava bra\u00e7o de homem, uma lista de presos, em tinta azul. Embaixo,<br \/>\numa data e o motivo da pris\u00e3o. Alguns indiv\u00edduos expostos no<br \/>\nrol tinham-me aparecido mais tarde. Numerosas voltas e viravoltas arbitr\u00e1rias<br \/>\n&#8211; e diante de n\u00f3s se achavam dois: Bag\u00e9 e Medina. Tamb\u00e9m<br \/>\nreconheci Agr\u00edcola Baptista, o Tamandu\u00e1, que, em briga da Coluna<br \/>\nPrestes, recebera uma bala na perna e claudicava. Um guarda veio abrir a porta,<br \/>\nreunimo-nos \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore no p\u00e1tio. E as not\u00edcias<br \/>\nchoveram, em peda\u00e7os, de cambulhada.<\/p>\n<p>&#8211; Bichos, exclamou Tamandu\u00e1. Vivemos como bichos.<\/p>\n<p>Um Tamandu\u00e1 diferente, s\u00f3rdido e escuro, sem a cabeleira arrepiada.<br \/>\nE o poncho, que fim levara o poncho vermelho, afrontoso e ostensivo como bandeira<br \/>\nde guerra? &#8211; Num curral de arame farpado, como bichos, prosseguiu Tamandu\u00e1.<\/p>\n<p>Disse mais coisas a respeito de latrinas, banheiros, disenteria e falta<br \/>\nde papel, mas o rebanho de criaturas humanas em curral de arame farpado buliu<br \/>\ncomigo e afastou o resto da exposi\u00e7\u00e3o. As min\u00facias embaralhavam-se,<br \/>\nperdiam-se.<\/p>\n<p>&#8211; Para onde v\u00e3o mandar voc\u00eas? perguntou Medina. Para a Col\u00f4nia,<br \/>\nevidentemente; isto me parecia claro. Medina espalhou a vista em redor, analisou-me<br \/>\na cara, refletiu e moveu a cabe\u00e7a discordando: n\u00e3o nos meteriam<br \/>\nna Col\u00f4nia. Aborreci-me. Quereria tapear-nos com emolientes? De nenhum<br \/>\nmodo; interpretei mal as disposi\u00e7\u00f5es do mo\u00e7o: n\u00e3o<br \/>\nnos enviariam \u00e0 ilha Grande, infelizmente. Procurou exibir-me a vantagem<br \/>\nde permanecer l\u00e1 umas semanas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o digo meses, que voc\u00ea n\u00e3o ag\u00fcentaria. Algumas<br \/>\nsemanas apenas. Muito instrutivo.<\/p>\n<p>Era um rapaz frio, risonho, desdentado. No Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios<br \/>\ntinha uma cabeleira vasta e barba longa, mas isto desaparecera. A boca murcha<br \/>\ndava-lhe um ar insignificante e avelhantado.<\/p>\n<p>&#8211; Boa experi\u00eancia, creia; material abundante. Seria magn\u00edfico<br \/>\nvoc\u00ea estudar aquilo.<\/p>\n<p>Em seguida \u00e0 estrid\u00eancia e aos arrepios de Tamandu\u00e1,<br \/>\nn\u00e3o me entusiasmei com as palavras de Medina; achei-as realmente absurdas:<br \/>\nse resolvessem matar-me, a abund\u00e2ncia de material seria in\u00fatil.<br \/>\nNewton Freitas anunciou o prop\u00f3sito de narrar em livro a viagem no<br \/>\npor\u00e3o do Campos. Excelente id\u00e9ia. Eu \u00e9 que n\u00e3o<br \/>\ntinha desejo nenhum de escrever. O guarda surgiu com o molho de chaves. Fizemos<br \/>\nas despedidas e novamente nos trancaram.<\/p>\n<p>3<\/p>\n<p>AGORA na pris\u00e3o havia mais espa\u00e7o: deixaram aberta uma grade<br \/>\ne nosso mundo se estendeu alguns metros, pudemos andar na sala vizinha. Estive<br \/>\nali parte do dia, a contar os passos de uma a outra parede, a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\npresa no curral de arame, as palavras insensatas de Medina fervilhando-me<br \/>\nna cabe\u00e7a. Esfor\u00e7ava-me por varrer essas coisas aflitivas, um<br \/>\nminuto conseguia amortec\u00ea-las, embalar-me numa vaga impress\u00e3o<br \/>\nde esquecimento; logo se reavivavam, eliminando recorda\u00e7\u00f5es,<br \/>\na insinuar-se nos fatos da vida nova. Caso singular: a desgra\u00e7ada perspectiva<br \/>\nme dava prazer. N\u00e3o era talvez isso, pois ao mesmo tempo sentia o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesmaiar numa esp\u00e9cie de ang\u00fastia, e alarmava-me servir de campo<br \/>\nao medonho jogo de emo\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis. As not\u00edcias<br \/>\nme arrefeciam, animavam terrores latentes, e em v\u00e3o queria livrar-me<br \/>\nde uma horr\u00edvel curiosidade mals\u00e3. Na verdade Medina tinha raz\u00e3o:<br \/>\npus-me a afirmar isto sabendo que afirmava uma estupidez: as minhas observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nno lugar infame n\u00e3o valeriam nada. Mas a sujeira imensa, a disenteria,<br \/>\na falta de \u00e1gua, um milheiro de homens a apertar-se num curral de arame<br \/>\nn\u00e3o me deixavam sossegar. Aquilo merecia ser visto, pelo menos serviria<br \/>\npara indicar a nossa resist\u00eancia, de algum modo fortalecer-nos. Havia<br \/>\nnesse desejo m\u00f3rbido quase um desafio aos maus tratos, \u00e0s humilha\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne se de repente nos largassem na rua, nem sei se me consideraria em liberdade<br \/>\nou v\u00edtima de um logro.<\/p>\n<p>O velho Eus\u00e9bio veio trazer-me a sua camaradagem mofina, entrou a<br \/>\npassear comigo, a voz bamba a sumir-se na pergunta ansiosa mastigada na v\u00e9spera.<br \/>\nEstivera no p\u00e1tio, debaixo da \u00e1rvore, os olhos e os ouvidos<br \/>\natentos, e os molambos de esperan\u00e7a guardados preciosamente iam-se<br \/>\nesgar\u00e7ando.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s v\u00e3o mandar para a Col\u00f4nia? Ser\u00e1 poss\u00edvel?<br \/>\nNovamente a confus\u00e3o pronominal, observada no Pavilh\u00e3o, me chocou;<br \/>\nn\u00e3o havia de acostumar-me ao diabo da sintaxe encrencada. Isso jugava-se<br \/>\naos receios e \u00e0 moleza da criatura, aos gestos amb\u00edguos, \u00e0s<br \/>\ncita\u00e7\u00f5es do Velho Testamento, e uma forte repulsa me enchia<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o. Impacientei-me, acho que fui grosseiro; nenhuma piedade<br \/>\nme levava a minorar os sustos do menino grisalho. Respondi com monoss\u00edlabos<br \/>\n\u00e1speros, continuando a absorver-me nas impress\u00f5es de Tamandu\u00e1,<br \/>\nna extravag\u00e2ncia de Medina. Restar-me-iam for\u00e7as para ag\u00fcentar-me<br \/>\nna piolheira infame? Essa pergunta j\u00e1 me viera ao pensamento ao aniquilar-me<br \/>\nno por\u00e3o do Manaus, respirando a custo, andando sobre porcarias, meio<br \/>\ndesfeito em suor no calor de fornalha. Na primeira noite julgara-me perto<br \/>\nde enlouquecer; depois me habituara: uma semana a ver as algas pela vigia,<br \/>\ntrepado numa costela do cavername; a fumar na rede presa \u00e0 boca da<br \/>\nescotilha; a redigir notas a l\u00e1pis no camarote do padeiro. A gente<br \/>\nse acostuma depressa \u00e0s mais inesperadas situa\u00e7\u00f5es. O<br \/>\nque me alarmava era ter vivido muitos dias em jejum. Provavelmente ia agora<br \/>\nsuceder o mesmo; enj\u00f4o \u00e0 comida, a l\u00edngua seca, os bei\u00e7os<br \/>\na rachar; o est\u00f4mago j\u00e1 se entorpecia, como a bordo. Certamente<br \/>\nme acabaria de inani\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sim. \u00c9. Claro. O senhor tem d\u00favida? Essas concis\u00f5es<br \/>\nfaziam brechas na arrepiada lengalenga do paranaense, queriam destru\u00ed-Ia,<br \/>\nmas o esguicho de lam\u00farias n\u00e3o cessava, atingia-me, dissolvendo-me<br \/>\na estranha dem\u00eancia. Idiota. Nenhum sujeito normal deseja rebaixar-se<br \/>\ne arriscar-se a morrer de fome. Que me importavam as figuras tristes consumidas<br \/>\nno curral de arame? Prefer\u00edvel n\u00e3o conhec\u00ea-las. Para qu\u00ea?<br \/>\nLadr\u00f5es, vagabundos, malandros. Tinha-me arrastado mais de quarenta<br \/>\nanos longe deles, sem cogitar da exist\u00eancia deles, e surgia-me de chofre<br \/>\na necessidade besta de uma aproxima\u00e7\u00e3o in\u00fatil. Idiota.<br \/>\nInjuriava-me por dentro, mas a zanga exterior convergia para o velho Eus\u00e9bio,<br \/>\nrevelada nas s\u00edlabas cortantes:<\/p>\n<p>&#8212; Isso. Pois n\u00e3o. Claro, claro. Todos. N\u00e3o est\u00e1 vendo?<br \/>\nReceava exceder-me, engolia improp\u00e9rios. Afastei-me, a arrasada personagem<br \/>\nme seguiu ronronando o seu caso, inocentando-se. Desculpava-se usando o plural,<br \/>\nenvolvendo-me na justifica\u00e7\u00e3o. Havia qualquer suspeita contra<br \/>\nn\u00f3s? N\u00e3o havia. T\u00ednhamos entrado em desordem? N\u00e3o<br \/>\nt\u00ednhamos. \u00c9ramos inimigos de barulhos. E ent\u00e3o? Porque<br \/>\nest\u00e1vamos ali? Hem? E porque essa hist\u00f3ria de Col\u00f4nia<br \/>\nCorrecional? Os lamentos enfureciam-me, atazanava-me por evit\u00e1-los;<br \/>\na maneira hostil e as passada largas frustravam-se: em qualquer parte achava-se<br \/>\nao p\u00e9 de mim a sombra queixosa. Essa conviv\u00eancia de naturezas<br \/>\ninconcili\u00e1veis, prolongando-se, chega a ser tortura, e explica brutalidades,<br \/>\nrompantes de que n\u00e3o nos julgamos capazes e nos envergonham.<\/p>\n<p>Afinal, depois de muitos ziguezagues nas duas salas, refugiei-me num v\u00e3o<br \/>\nde porta, busquei distrair-me olhando o p\u00e1tio, jogando miolo de p\u00e3o<br \/>\n\u00e0s aves residentes na \u00e1rvore pr\u00f3xima. Eram pardais sem<br \/>\nconta e devoravam tudo com rapidez enorme. Algum tempo isolei-me; o rumor<br \/>\ndas asas, os chilros e o verde-claro dos ramos na manh\u00e3 luminosa acalmaram-me.<br \/>\nVencidas as id\u00e9ias malucas, resolvi descansar na esteira, decifrar<br \/>\na conversa dos oper\u00e1rios, mas n\u00e3o consigo lembrar-me do que<br \/>\neles diziam. Os pardais tinham-me dado uma tranq\u00fcilidade aparente. Levantava-me,<br \/>\ndeitava-me, bebia goles de leite e canecas do pretume doce e repugnante que<br \/>\no faxina vendia \u00e0 grade. O futuro j\u00e1 n\u00e3o me inquietava;<br \/>\nesva\u00edam-se as tremuras do velho Eus\u00e9bio, o desconchavo de Mediria,<br \/>\ne a viagem para a Col\u00f4nia deixava-me indiferente; impacientava-me, por\u00e9m,<br \/>\nficar sentado, im\u00f3vel, na incerteza. Dif\u00edcil desenovelar tais<br \/>\nincongru\u00eancias. Experimentamos isto, suponho: os acontecimentos de amanh\u00e3<br \/>\nn\u00e3o nos interessam, s\u00e3o como se se referissem a outra pessoa;<br \/>\nhoje n\u00e3o encontramos paz, as horas longas enchem-se de fatos desagrad\u00e1veis,<br \/>\nnecessitamos fingir paci\u00eancia e isto cada vez mais nos enerva.<\/p>\n<p>Herculano, em r\u00e1pida arenga, despertou-me a aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nArrolou as nossas dificuldades, exprimiu a conveni\u00eancia de mutuarmos<br \/>\naux\u00edlio e acabou sugerindo que esvazi\u00e1ssemos os bolsos, cont\u00e1ssemos<br \/>\no dinheiro e o divid\u00edssemos eq\u00fcitativamente. A inesperada proposta<br \/>\nn\u00e3o causou entusiasmo. O velho Eus\u00e9bio franziu o nariz e arredou-se;<br \/>\nos homens da estrada de ferro e os oper\u00e1rios fizeram-se desentendidos;<br \/>\nos nordestinos encolheram-se reprovando. Ante a negativa fria e silenciosa,<br \/>\nchamei de parte o estudante: &#8211; \u00d3 Herculano, se n\u00e3o \u00e9<br \/>\nindiscri\u00e7\u00e3o, quanto \u00e9 que voc\u00ea possui? &#8211; Eu? Nada,<br \/>\ncochichou o rapaz. Tinha vinte mil-r\u00e9is, que perdi no jogo.<\/p>\n<p>Diabo! Um truque infantil. E eu havia ganho a pobre c\u00e9dula do companheiro,<br \/>\ndeixando-o mais fraco e mais p\u00e1lido. &#8211; Porque n\u00e3o me disse,<br \/>\nhomem? Dei-lhe esse preju\u00edzo, sem querer.<\/p>\n<p>Abri o porta-n\u00edqueis, retirei uma das poucas notas l\u00e1 escondidas:<br \/>\n&#8211; \u00c9 uma restitui\u00e7\u00e3o. Talvez seja a mesma que recebi naquela<br \/>\nnoite.<\/p>\n<p>Aliviada a consci\u00eancia, pus em ordem os meus tro\u00e7os, coloquei-os<br \/>\njunto \u00e0 esteira, ao alcance do bra\u00e7o, o chap\u00e9u em cima<br \/>\nda valise, a roupa dobrada em cima do chap\u00e9u. As notas redigidas em<br \/>\nv\u00e1rios meses davam-me receio. Apesar dos longos intervalos de marasmo<br \/>\ne pregui\u00e7a, alargavam-se em quarenta ou cinq\u00fcenta p\u00e1ginas<br \/>\ncobertas de letra mi\u00fada, as linhas t\u00e3o pr\u00f3ximas que as<br \/>\nemendas se tornavam imposs\u00edveis. Ocultavam-se entre cuecas e len\u00e7os,<br \/>\nmas com certeza n\u00e3o conseguiriam entrar na Col\u00f4nia. N\u00e3o<br \/>\ncabiam dentro dos sapatos; imaginei guard\u00e1-las por baixo da camisa,<br \/>\nenfaixar as pernas com elas; necessitava barbante para amarr\u00e1-las.<br \/>\nEscapariam \u00e0 revista? Os di\u00e1logos em roda iam-me descobrindo<br \/>\nalguns indiv\u00edduos. Petrosky era o sujeito louro, grande, forte, de<br \/>\nrosto severo. O mo\u00e7o de cabe\u00e7a redonda e fala doce e engrolada<br \/>\nchamava-se Zoppo. Como se arranjaria na viagem desgra\u00e7ada o pequeno<br \/>\ndentista Guerra? Um dia ca\u00edra da cama, esperneara gritando por mam\u00e3e.<br \/>\nCoitado. Iam arras\u00e1-lo. Agora havia sossego no p\u00e1tio; o calor<br \/>\ne a claridade recolhiam entre \u00e1s folhas os p\u00e1ssaros mudos.<\/p>\n<p>Um guarda de olhar manhoso destrancou a porta e os faxinas entraram com<br \/>\no almo\u00e7o Fugi, um aperto na garganta, examinei o exterior deserto,<br \/>\npara n\u00e3o ver a comida, n\u00e3o podia evitar o cheiro dela, e a n\u00e1usea<br \/>\nme atormentava. Sensa\u00e7\u00e3o igual \u00e0 experimentada meses<br \/>\natr\u00e1s, no por\u00e3o do Manaus. A l\u00edngua seca, os bei\u00e7os<br \/>\niam rachar-se, a ponta do cigarro se colaria \u00e0 pele sangrenta. Agachados<br \/>\nnas esteiras, diversos homens sentiam prazer em mastigar, e o apetite deles<br \/>\nme causava uma estranha indigna\u00e7\u00e3o. O som das colheres nas marmitas<br \/>\nferia-me os ouvidos, era insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>4<\/p>\n<p>PASSOU-SE o dia, outros dias se passaram, quatro ou cinco, talvez mais. Uma<br \/>\nnot\u00edcia entrou a circular: embarcar\u00edamos para o sul. Os paranaenses,<br \/>\nem maioria, admitiram logo o boato, sem procurar saber quem o trouxera. Ningu\u00e9m,<br \/>\nprovavelmente; originara-se ali, mas o curso, a repeti\u00e7\u00e3o, complementos<br \/>\nan\u00f4nimos, davam-lhe prest\u00edgio, mudavam-no quase em certeza, e<br \/>\nPetrosky, Zoppo, Cabezon, Garrett esperavam ler num jornal imposs\u00edvel<br \/>\na passagem de um navio para o sul. Guerra, Jos\u00e9 Gomes e Rocha tinham<br \/>\na certeza de que viajar\u00edamos para o norte. Esfor\u00e7ava-me por<br \/>\nfechar os ouvidos e isolar-me, e n\u00e3o conseguia deixar de contaminar-me,<br \/>\nver nos desejos ambientes realidades poss\u00edveis, aceitar a informa\u00e7\u00e3o<br \/>\nchegada a n\u00f3s sem ve\u00edculo, atravessando muros. Essa credulidade<br \/>\nme desgostava; busquei afast\u00e1-la pensando em Sebasti\u00e3o F\u00e9lix,<br \/>\nmudo e sombrio, ausente do mundo, em contato com os esp\u00edritos num cub\u00edculo<br \/>\ndo Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios. Deixava-me levar, contra vontade;<br \/>\nas fisionomias mostravam convic\u00e7\u00e3o, e por minutos incorporava-me<br \/>\na um dos grupos. Em seguida reagia, certamente por n\u00e3o querer deslocar-me<br \/>\npara cima ou para baixo. N\u00e3o me tentava o regresso \u00e0 minha terra.<br \/>\nE que diabo iria fazer no Paran\u00e1? Livre do cont\u00e1gio, Macedo<br \/>\nsorria e cachimbava na rede, falava sobre a perman\u00eancia na Col\u00f4nia,<br \/>\nsereno, como se isto figurasse nos seus planos. Continuava a servir-me do<br \/>\ntravesseiro dele, macio, de penas, mas t\u00e3o mi\u00fado que, para erguer<br \/>\na cabe\u00e7a, tive de coloc\u00e1-lo em cima da valise. A cal\u00e7a<br \/>\ne o palet\u00f3, dobrados, formando um volume pequeno, ficaram sobre o chap\u00e9u<br \/>\nde palha, junto \u00e0 parede. N\u00e3o me incomodava a aspereza da esteira,<br \/>\nmas, na friagem da noite, enrolando-me no len\u00e7ol curto, adormecia,<br \/>\nacordava, as orelhas e as m\u00e3os geladas. Arrepios, des\u00e2nimo na<br \/>\ncarne. A apatia sexual, notada meses atr\u00e1s, depois esquecida, novamente<br \/>\nme causava surpresa. Tentei venc\u00ea-la enchendo as horas de ins\u00f4nia<br \/>\ncom cenas l\u00fabricas; isto se convertia depressa num exerc\u00edcio<br \/>\nmental penoso, e era como se me faltassem partes do corpo. A lembran\u00e7a<br \/>\ndas mulheres n\u00e3o me dava nenhum prazer. Porque me havia aparecido aquilo<br \/>\nde repente? Chegara-me a impot\u00eancia completa. Bem; se fosse definitiva,<br \/>\nn\u00e3o valia a pena mortificar-me; iria talvez eximir-me de excessivos<br \/>\ntormentos, da horr\u00edvel necessidade insatisfeita, que me perturbava<br \/>\no trabalho. Iria comportar-me direito, como um frade, relacionar id\u00e9ias<br \/>\nfugitivas, obrig\u00e1-las \u00e0 disciplina; as hist\u00f3rias se arrumariam<br \/>\nno papel sem as freq\u00fcentes suspens\u00f5es inevit\u00e1veis. Para<br \/>\nser franco, esse entorpecimento me agradou; se n\u00e3o fosse ele, a reclus\u00e3o<br \/>\ndemorada se tornaria dolorosa em extremo. E continuei a beber caf\u00e9,<br \/>\nmuitas canecas de caf\u00e9, n\u00e3o percebendo nisto sombra de inconveniente.<\/p>\n<p>Das fun\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas permitiam-nos apenas assimilar,<br \/>\ndesassimilar. Abundante e ruim, a comida nos chegava em marmitas de folha<br \/>\namolgada, a empanturrar um caix\u00e3o que varais ladeavam. Agarrando esses<br \/>\nap\u00eandices, os faxinas do transporte pareciam animais atrelados a uma<br \/>\nliteira. Grandes nacos de carne, farinha de mandioca e arroz, de mistura nas<br \/>\ngamelas sujas, causavam repugn\u00e2ncia. Com o material existente ali um<br \/>\ncozinheiro teria podido sem esfor\u00e7o arranjar pratos regulares. Desperd\u00edcio<br \/>\ne desleixo. Convidavam-me em redor, insistiam, afirmando que a b\u00f3ia<br \/>\nn\u00e3o tinha mau gosto, mas a minha fraqueza arrepiada contentava-se com<br \/>\no p\u00e3o seco oferecido pelo governo e um litro de leite comprado por<br \/>\nmim. Ao cabo da refei\u00e7\u00e3o gorda, os homens se estiravam nas redes,<br \/>\nnos capotes, ressonavam pesada sesta. A um canto, \u00e0 esquerda, n\u00e3o<br \/>\nlonge da porta, duas paredes baixas angulavam, formando um compartimento ex\u00edguo,<br \/>\nque escondia a latrina e uma torneira. A car\u00eancia de pia tornava as<br \/>\nmais simples necessidades de higiene muito dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Uma tarde, ao cair da noite, subitamente nos achamos em situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nembara\u00e7osa; diante do imprevisto, embuchamos, a surpresa nos cortou<br \/>\na fala e escureceu o esp\u00edrito. Como de ordin\u00e1rio, os meus novos<br \/>\namigos haviam devorado o almo\u00e7o, lavado as m\u00e3os no esguicho<br \/>\nmesquinho, repousado; findos os cochilos, entregaram-se aos exames das probabilidades,<br \/>\nao corte das unhas, \u00e0 arruma\u00e7\u00e3o e desarruma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas bagagens. Quando o jantar veio, ainda estavam fartos. Alguns olhavam a<br \/>\ncomida com indiferen\u00e7a e afastavam-se bocejando; outros pegaram as<br \/>\nmarmitas e depressa as largaram. Inapet\u00eancia contagiosa, recusa geral.<br \/>\nOs faxinas jungiram-se aos varais, o caix\u00e3o desapareceu, a chave tilintou<br \/>\nna fechadura. Passou-se meia hora, e o guarda velho de cara manhosa surgiu<br \/>\ncom uma indaga\u00e7\u00e3o desconcertante. Porque hav\u00edamos devolvido<br \/>\no rancho? O diretor queria saber se est\u00e1vamos sem fome ou se se tratava<br \/>\nde insurrei\u00e7\u00e3o. Longos minutos ficamos desorientados. Espantava-me<br \/>\nver um caso t\u00e3o insignificante engrossar, exigir sindic\u00e2ncia.<br \/>\nNingu\u00e9m tencionara rebelar-se, era evidente, mas todos se fechavam,<br \/>\ncom receio de confessar isto, de qualquer forma revelar covardia. Chateavam-se,<br \/>\nresmungavam. Para o diabo. N\u00e3o se explicariam, n\u00e3o dariam a<br \/>\nimpress\u00e3o de recuar; dispunham-se a assumir responsabilidade por uma<br \/>\nfalta inexistente. Isso manifestava-se em peda\u00e7os de frases, em gestos<br \/>\ndesabridos; e havia tamb\u00e9m um mudo assombro, dificuldade em compreender<br \/>\na exig\u00eancia impertinente. O guarda insistia na pergunta, mas falava<br \/>\na dezessete indiv\u00edduos; e nenhum se julgava na obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde responder. Ouvido em particular, cada homem diria sem esfor\u00e7o a<br \/>\nverdade: aus\u00eancia de apetite, apenas. No conjunto a confiss\u00e3o<br \/>\nesmorecia, quase se desagregava, era dif\u00edcil algu\u00e9m arriscar-se<br \/>\n\u00e0 iniciativa de expor intuitos alheios. Ag\u00fcentar\u00edamos as<br \/>\nconseq\u00fc\u00eancias, iam mandar-nos para as galerias, provavelmente.<br \/>\nEm situa\u00e7\u00e3o normal tem\u00edamos isso; agora se atenuava o<br \/>\nperigo, dividido por muitas pessoas. Com certeza ainda pens\u00e1vamos nele;<br \/>\nmais grave, por\u00e9m, seria uma afirma\u00e7\u00e3o irrefletida, em<br \/>\ndesacordo talvez com os sentimentos do grupo. Com as melhores inten\u00e7\u00f5es,<br \/>\nengendramos ali dentro incompatibilidades insol\u00faveis, em v\u00e3o<br \/>\ntentamos explicar-nos, e isto \u00e9 pior que todos os vexames causados<br \/>\npela pol\u00edcia. E temeroso arvorar-se um homem, sem mandato, em representante<br \/>\nde uma sociedade fluida, a vacilar entre opini\u00f5es e interesses opostos,<br \/>\nora pelo p\u00e9s, ora pela cabe\u00e7a. Um momento julgamos interpret\u00e1-la,<br \/>\ndecidimos por conta pr\u00f3pria enfeixar as aspira\u00e7\u00f5es coletivas,<br \/>\ne sucede esva\u00edrem-se os desencontros, uma s\u00fabita unanimidade<br \/>\nsurgir contra n\u00f3s; imaginamos ser \u00fateis &#8211; e somos imprudentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o refleti nisso. Indispens\u00e1vel uma consulta r\u00e1pida,<br \/>\nsupus. O guarda, amolado, esperava a resposta, uma s\u00edlaba apenas. Sim<br \/>\nou n\u00e3o? Houvera bagun\u00e7a, intuito subversivo? Se a quest\u00e3o<br \/>\nse formulasse de outro modo, permitisse delonga, recursos, os meus companheiros<br \/>\nn\u00e3o se engasgariam, a s\u00edlaba atravessada na garganta, como um<br \/>\nosso. Mas o diretor exigia uma dificuldade: sim ou n\u00e3o? Achamos resist\u00eancia,<br \/>\no guarda se dispunha a retirar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Um instante.<\/p>\n<p>Veio-me a tenta\u00e7\u00e3o de lan\u00e7ar-me ao jogo, exatamente<br \/>\ncomo quando, no bacar\u00e1, arrojava todas as fichas numa cartada: &#8211; Vamos<br \/>\nresolver isto. Voc\u00eas estavam no prop\u00f3sito de esculhambar a administra\u00e7\u00e3o?<br \/>\nSe estavam, porque havemos de calar-nos? \u00c9 arriar a trouxa e esperar.<br \/>\nSe n\u00e3o estavam, parece bobagem mostrarmos uma valentia que n\u00e3o<br \/>\ntivemos. Penso haver falado pouco mais ou menos assim. Em redor me afirmaram<br \/>\ndisposi\u00e7\u00f5es pac\u00edficas. Bem. E dirigi-me ao funcion\u00e1rio<br \/>\nde rosto manhoso: &#8211; Diga ao diretor que n\u00e3o tencionamos fazer revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\naqui dentro. O jantar voltou porque era demais. \u00c9 imposs\u00edvel,<br \/>\ndeitados, sem exerc\u00edcio, digerirmos tanta carne, tanta farinha: n\u00e3o<br \/>\ntemos est\u00f4magos de jib\u00f3ia. Ignoro se a comida \u00e9 ruim,<br \/>\nnunca toquei nela, a minha parte sempre foi devolvida intacta. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 protesto, \u00e9 que n\u00e3o posso engolir isso.<\/p>\n<p>A interven\u00e7\u00e3o produziu bom efeito. Arrancando ex\u00edguas<br \/>\npalavras, limitara-me ao essencial: os companheiros conservavam-se dignos,<br \/>\num diretor invis\u00edvel recebia explica\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel.<br \/>\nDepois refleti na inquiri\u00e7\u00e3o. Iam tratar-nos com dureza, submeter-nos<br \/>\na uma justi\u00e7a diversa da usada no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios.<br \/>\nL\u00e1 rebent\u00e1ramos a lou\u00e7a toda, e ningu\u00e9m se lembrara<br \/>\nde indagar motivos; em conseq\u00fc\u00eancia t\u00ednhamos recebido talheres<br \/>\ne pratos novos. Agora tencionavam descobrir malevol\u00eancia em ninharias<br \/>\nPesos e medidas diferentes. Queriam talvez desforrar-se, obrigar-nos a ajustar<br \/>\ncontas com dois meses de atraso. Na verdade os paranaenses estavam alheios<br \/>\n\u00e0 bagun\u00e7a. Mas isso n\u00e3o tinha import\u00e2ncia. Rigor<br \/>\npara todos.<\/p>\n<p>5<\/p>\n<p>UMA novidade nos chegou, retalhos de novidade; n\u00e3o houve meio de cos\u00ea-los.<br \/>\nOuvimos um barulho grande, vozeria para os lados do Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios,<br \/>\ne o faxina preto nos cochichou que a pol\u00edcia especial tinha aparecido<br \/>\nl\u00e1 e quebrado muita cabe\u00e7a. Porqu\u00ea? O informante erguia<br \/>\nos ombros; tinham-lhe dito apenas aquilo: v\u00e1rias cabe\u00e7as partidas.<br \/>\nComo o rumor distante se prolongasse, apertei o guarda com perguntas v\u00e3s:<br \/>\no patife baixava o rosto, mordia os bei\u00e7os, com ar de inoc\u00eancia<br \/>\nmuito safado. N\u00e3o sabia. Por detr\u00e1s dele, o negro arredondava<br \/>\no bagulho cor de leite, fazia caretas, negando a ingenuidade sorna. O grupo<br \/>\nera burlesco e irritante. Embora n\u00e3o houvesse d\u00favida sobre as<br \/>\nescapat\u00f3rias do homem, os gestos simiescos e a zombaria silenciosa<br \/>\n\u00e0s costas dele estorvavam-nos a possibilidade vaga de por um instante<br \/>\nenganar-nos.<\/p>\n<p>Desordem no Pavilh\u00e3o, gritos e pancadaria; certamente Agildo se comprometera<br \/>\nelevando no fuzu\u00ea a voz fina e o gesto macio de gato. N\u00e3o me<br \/>\npodiam dar uma not\u00edcia, dizer ao menos se houvera transfer\u00eancia?<br \/>\nNesse caso, os estrangeiros iriam roer o osso mais duro: Ghioldi, S\u00e9rgio<br \/>\ne Snaider gramariam tormentos f\u00edsicos e morais; a cole\u00e7\u00e3o<br \/>\nde selos de Birinyi desapareceria, e o pobre homem, desesperado, tentaria<br \/>\nde novo abrir as art\u00e9rias. Onde estavam Ghioldi, S\u00e9rgio, Benjamin<br \/>\nSnaider e Valdemar Birinyi? O guarda sacudia a cabe\u00e7a, bonach\u00e3o,<br \/>\nna maior ignor\u00e2ncia deste mundo; n\u00e3o trabalhava por aquelas bandas,<br \/>\ne, no meio de tantos presos, nunca ouvira os nomes das quatro pessoas que<br \/>\nme interessavam. Esses miser\u00e1veis segredos nos arrasam, nos deixam<br \/>\nem pandarecos. Vemos um sujeito sem as unhas dos p\u00e9s, sabemos que elas<br \/>\nforam arrancadas a torqu\u00eas, e a nossa curiosidade n\u00e3o vai al\u00e9m;<br \/>\nos sofrimentos findaram, as unhas renascer\u00e3o, a mem\u00f3ria da v\u00edtima<br \/>\nse embotou; horr\u00edvel \u00e9 imaginarmos a redu\u00e7\u00e3o de<br \/>\numa criatura com tenazes quando pensamos nela, exatamente quando pensamos<br \/>\nnela. A limita\u00e7\u00e3o profissional de um guarda e a bisbilhotice<br \/>\nvaga de um faxina levam-nos a criar medonhas realidades; as imagens surgem<br \/>\ncom vida intensa e em v\u00e3o tentamos afast\u00e1-las: vemos perfeitamente<br \/>\ndorsos lanhados, carne sangrenta, equimoses vermelhas, azuis, pretas. Essas<br \/>\ncoisas, percebidas de relance numa porta de cub\u00edculo, avultam em demasia<br \/>\nquando se ausentam, e \u00e9 horr\u00edvel a express\u00e3o de um rosto<br \/>\nmeio esquecido, num instante recomposto. Palavras obliteradas se renovam,<br \/>\nterrivelmente claras. Um berro nos chega aos ouvidos: &#8211; &#8220;Pol\u00edcia.&#8221;<br \/>\nE uma voz tr\u00eamula desmaia: &#8211; &#8220;N\u00e3o ag\u00fcento mais. V\u00e3o<br \/>\nmatar-me.&#8221; Foram esses, creio, os piores momentos que vivi no Pavilh\u00e3o<br \/>\ndos Militares, agachado na esteira ou refugiando-me perto da grade, olhando<br \/>\no v\u00f4o dos pardais. Realmente nunca me supus arriscado aos lanhos, a<br \/>\nsapecar-me no fogo do ma\u00e7arico; achava-me livre disso, estupidamente<br \/>\nlivre, at\u00e9 rebentando a lou\u00e7a do governo, por insinua\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Agildo. No \u00edntimo devia julgar-me uma esp\u00e9cie de Anast\u00e1cio<br \/>\nPessoa, pequenino e invulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>A desgra\u00e7a era indeterminada, uma desgra\u00e7a fluida e abstrata,<br \/>\ninfluenza sentimental. Essa impossibilidade de isolamento, a obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sentir a mis\u00e9ria alheia, \u00e9 imposta l\u00e1 dentro. In\u00fatil<br \/>\nespalmar as m\u00e3os nas orelhas: o chilro das aves pr\u00f3ximas n\u00e3o<br \/>\nabafa o alarido cont\u00ednuo. Al\u00e9m dos gorjeios, destacavam-se,<br \/>\nnos dois ou tr\u00eas dias de celeuma, as conversas de Zoppo e as cantigas<br \/>\nde Herculano. Zoppo era excelente camarada, ing\u00eanuo, simples, uma crian\u00e7a.<br \/>\nFalou-me de parentes revolucion\u00e1rios perseguidos pelo fascismo e tentou<br \/>\nensinar-me a extra\u00e7\u00e3o do ouro nas minas. \u00f3timo tipo.<br \/>\nA cara redonda iluminava-se, a voz doce, lenta, engrolada, narrava projetos<br \/>\nde minera\u00e7\u00e3o e os tios que Mussolini prendeu e matou.<\/p>\n<p>Os cantos me enjoavam. Ao chegar ao Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios,<br \/>\nainda sentia o gosto do caf\u00e9 torpe bebido na galeria, tinha debaixo<br \/>\ndos p\u00e9s a oscila\u00e7\u00e3o das pranchas do Manaus, e o Hino<br \/>\ndo Brasileiro Pobre me endireitara o espinha\u00e7o derreado. Essa composi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque os jornais da pol\u00edcia confundiam de prop\u00f3sito com a Internacional,<br \/>\ndera-me alguma confian\u00e7a em meu pa\u00eds chinfrim. Ou talvez a confian\u00e7a<br \/>\nfosse em mim mesmo. De fato precisava dela: uma semana de jejum, os bei\u00e7os<br \/>\na sangrar, o interior em cacos, a hemorragia s\u00fabita. O Hino do Brasileiro<br \/>\nPobre me servira bastante. A corre\u00e7\u00e3o de alguns versos maus<br \/>\nfizera dele coisa menos ordin\u00e1ria que a arranjada para imbecilizar<br \/>\na inf\u00e2ncia nas escolas. As repeti\u00e7\u00f5es me haviam fatigado<br \/>\ne logo exasperado. Amolava-me sobretudo este peda\u00e7o, anterior \u00e0<br \/>\nemenda: &#8220;Brasil, que lembra o fogo e lembra a \u00e1rvore.&#8221; Altas<br \/>\nvozes em pris\u00e3o vizinha: um infeliz a pedir \u00e1gua. Os berros<br \/>\ne o hiato roubavam-me o sono. Todos os dias, \u00e0 mesma hora, ecoava a<br \/>\ninsipidez morna das can\u00e7\u00f5es, alternando-se a marchas de carnaval,<br \/>\nsambas, e isto era uma esp\u00e9cie de morfina, afastava-nos do esp\u00edrito<br \/>\na viagem prov\u00e1vel \u00e0 Col\u00f4nia. Vinha o sil\u00eancio, findava<br \/>\na anestesia, chegava-nos a depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora n\u00e3o nos pod\u00edamos iludir: receios esparsos juntavam-se,<br \/>\nengrossavam, e debalde nos esfor\u00e7ar\u00edamos por amortec\u00ea-los.<br \/>\nContudo Herculano trepava \u00e0 janela, segurava-se \u00e0s traves de<br \/>\nferro e ordenava que todos cantassem. Donde lhe vinha aquela autoridade? O<br \/>\nvelho Eus\u00e9bio fungava, ia encolher-se na outra sala. Insens\u00edveis<br \/>\n\u00e0 exig\u00eancia ruidosa, nem nos mex\u00edamos nas esteiras, quase<br \/>\ntodos macamb\u00fazios, alguns a expandir-se em conjeturas desagrad\u00e1veis.<br \/>\nO tumulto n\u00e3o findava no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios. Durante<br \/>\num minuto era balb\u00fardia enorme; em seguida esmorecia, ficava um rumor<br \/>\nsurdo: com certeza havia gente escalada para deitar lenha na fogueira sonora,<br \/>\nn\u00e3o deix\u00e1-la apagar-se. Que estaria sucedendo? Herculano deixava<br \/>\na janela, indignado, como se assistisse a uma deser\u00e7\u00e3o. O canto<br \/>\ndevia ter para ele a import\u00e2ncia de um rito, e a nossa indiferen\u00e7a<br \/>\no molestava.<\/p>\n<p>6<\/p>\n<p>DESPERTARAM-NOS antes de amanhecer, ordenaram que nos vest\u00edssemos<br \/>\nsem rumor. Lavagem precipitada na torneira, r\u00e1pida mudan\u00e7a de<br \/>\nroupa, leve tilintar de chaves, um sujeito invis\u00edvel \u00e0 porta,<br \/>\na exigir pressa. Findamos os arranjos, tomamos as bagagens, sa\u00edmos.<br \/>\nEscurid\u00e3o l\u00e1 fora, com certeza o dia estava longe, os pardais<br \/>\nainda n\u00e3o tinham acordado. Movemo-nos algum tempo entre as \u00e1rvores,<br \/>\ndeixamos a pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Um tintureiro nos aguardava na rua, abriu-se para receber-nos. Ignoro como<br \/>\nentrei, acho que subi por uma pequena escada. Provavelmente com receio instintivo<br \/>\nde maus tratos, empurr\u00f5es, muitas vezes referidos, mergulhei r\u00e1pido<br \/>\nna abertura, \u00e0 traseira do ve\u00edculo, se n\u00e3o me engano.<br \/>\nOutros me haviam precedido, e no ex\u00edguo espa\u00e7o n\u00e3o descobri<br \/>\nmeio de acomodar-me. Arriei sentado n\u00e3o sei onde, em posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nm\u00e1, sem poder virar-me. Um objeto duro, mala ou fardo, esmagava-me<br \/>\nas coxas e um corpo me tombava, pesado, no ombro direito Jogam-se ali homens<br \/>\ne coisas, de mistura, e n\u00e3o indagam se o carro tem capacidade bastante<br \/>\npara carga; depois batem a porta. Se algu\u00e9m ficar com a perna levantada,<br \/>\nviaja equilibrando-se num pe e escorando-se no vizinho. Provavelmente o sujeito<br \/>\nque me ca\u00eda por cima do ombro estava assim, uma perna no ar, buscando<br \/>\napoio, sacudindo-se, mal arrumado naquela esp\u00e9cie de lata de conserva.<br \/>\nSe houvessem permitido que nos ajeit\u00e1ssemos, achar\u00edamos talvez<br \/>\nlugar para redes e sacos. Mas com semelhante az\u00e1fama, afund\u00e1ramos<br \/>\n\u00e0 toa no buraco sombrio, \u00e9ramos uma confus\u00e3o de membros<br \/>\ne pacotes. Em v\u00e3o nos esfor\u00e7ar\u00edamos por endireitar-nos.<br \/>\nAli\u00e1s, diante de nossas preocupa\u00e7\u00f5es, a imensa trapalhada<br \/>\nvalia pouco. Senti uma dor aguda no baixo-ventre. Uma opera\u00e7\u00e3o<br \/>\nanos atr\u00e1s, o corte de pe\u00e7as necess\u00e1rias, demora no hospital<br \/>\n&#8211; e, em conseq\u00fc\u00eancia, a perna a fazer-me pirra\u00e7as. Largo<br \/>\ntempo a claudicar, um aprumo dif\u00edcil. Novamente me desarranjara na<br \/>\ncadeia: vinham-me repux\u00f5es na carne do\u00edda, arrastava-me a cambalear,<br \/>\ne os dias longos no Pavilh\u00e3o dos Militares, a aus\u00eancia de comida<br \/>\ne a friagem do ch\u00e3o tinham-me arrasado. O diabo do volume saltava sobre<br \/>\na coxa doente, chocava-me na barriga, exatamente na regi\u00e3o aberta pelos<br \/>\nm\u00e9dicos. Cercavam-nos trevas cheias de manchas luminosas. As paredes<br \/>\ndo carro eram crivadas de furos redondos, as luzes da rua entravam por eles,<br \/>\ncorriam em dan\u00e7a louca, punham, tra\u00e7os vivos e inconstantes<br \/>\nnas figuras em redor, e isto me dava a impress\u00e3o de ver gente incompleta,<br \/>\npeda\u00e7os humanos, olhos, bocas, orelhas, a aparecer e desaparecer continuadamente.<br \/>\nPalavras soltas indicavam que alguns tipos se orientavam chegando-se aos buracos<br \/>\ne ainda queriam enganar-se examinando o exterior: imaginavam pisar num cais,<br \/>\nembarcar em navio para longe, muito longe, da Col\u00f4nia Correcional. Essas<br \/>\nfantasias n\u00e3o me pareceram absurdas, teimamos em pegar-nos a ilus\u00f5es,<br \/>\nsabendo perfeitamente que eram ilus\u00f5es. Virei-me a custo, e as marteladas<br \/>\nno p\u00e9 da barriga cessaram. Consegui levantar-me, romper a massa compacta,<br \/>\navizinhar-me dos orif\u00edcios, enxergar uma esteira de asfalto molhado.<br \/>\nNesse instante um prazer inexplic\u00e1vel e uma id\u00e9ia esquisita<br \/>\nme assaltaram. Devia ser del\u00edrio, mas depois esse pensamento doido<br \/>\nme importunou com freq\u00fc\u00eancia. Tentava libertar-me, vencer o desprop\u00f3sito,<br \/>\nhorrorizava-me sentir prazer em tal situa\u00e7\u00e3o, mas o asfalto<br \/>\nmolhado e os farrapos de luz me fascinavam. Quando me decidisse a escrever,<br \/>\nem futuro remoto, produziriam bom efeito numa p\u00e1gina. Como nos entram<br \/>\nna cabe\u00e7a maluqueiras semelhantes? Queremos extingui-Ias, voltar a<br \/>\nser viventes normais, e as miser\u00e1veis insistem. Em per\u00edodos<br \/>\nvagos, num livro distante, surgiriam de novo o asfalto molhado e a desloca\u00e7\u00e3o<br \/>\nvertiginosa das r\u00e9stias. Queria convencer-me de que isso n\u00e3o<br \/>\ntinha nenhuma import\u00e2ncia, zangava-me por estar satisfeito, e a leseira<br \/>\npermanecia.<\/p>\n<p>O carro parou, rolamos uns por cima dos outros, esbarrando nas trouxas e<br \/>\npacotes. Abriu-se a porta, descemos. Quando sa\u00ed, j\u00e1 diversos<br \/>\ncompanheiros se moviam entre duas filas de soldados. Espantou-me conservar<br \/>\nna m\u00e3o a valise, guard\u00e1-la inconscientemente naquela balb\u00fardia.<br \/>\nNa claridade amb\u00edgua da manh\u00e3 nascente focos el\u00e9tricos<br \/>\ndesfaleciam.<\/p>\n<p>Avancei tonto, um homem de farda e fuzil \u00e0 direita, outro \u00e0<br \/>\nesquerda. March\u00e1vamos num corredor estreito, renques de pol\u00edcias<br \/>\na isolar-nos, e por detr\u00e1s das cercas m\u00f3veis curiosos embasbacavam<br \/>\npara n\u00f3s. Essa indiscri\u00e7\u00e3o me aborreceu. Est\u00fapidos.<br \/>\nBaixei a cabe\u00e7a, e escaparam-me os arredores. Na barafunda mental a<br \/>\nindigna\u00e7\u00e3o transferiu-se. Est\u00fapidos. Havia esquecido<br \/>\nos basbaques; impressionava-me a in\u00fatil exposi\u00e7\u00e3o de<br \/>\nfor\u00e7a. Bobagem, fanfarrice besta. Para vigiar um doente bambo e tr\u00f4pego<br \/>\n&#8211; dois sujeitos armados. Mergulhamos numa esta\u00e7\u00e3o de estrada<br \/>\nde ferro, mas s\u00f3 percebi isto ao entrarmos no carro de segunda classe.<\/p>\n<p>Arriei no banco estreito, ladeado pelos tipos que me custodiavam desde o<br \/>\ntintureiro, espalhei a vista em roda, colhi fragmentos de mis\u00e9ria em<br \/>\ngestos moles, em fisionomias decompostas. Criaturas arrasadas; provavelmente<br \/>\ndevia achar-me assim. O trem moveu-se. Para onde ir\u00edamos? Naquele momento<br \/>\na Col\u00f4nia se tornava bastante duvidosa, n\u00e3o sei porqu\u00ea.<br \/>\nDos soldados pr\u00f3ximos um esteve em sil\u00eancio durante a viagem.<br \/>\nO outro, um rapaz magro, puxou conversa em voz baixa: &#8211; Ordem pol\u00edtica<br \/>\ne social? Atrapalhei-me e confessei: &#8211; N\u00e3o entendo.<\/p>\n<p>&#8211; Pergunto se \u00e9 preso pol\u00edtico, insistiu o rapaz. &#8211; Ah! sim.<br \/>\nPorque pergunta? &#8211; Porque ladr\u00e3o n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Admirei a sutileza do mo\u00e7o, desejei experiment\u00e1-la- E se eu<br \/>\nquiser dizer que sou ladr\u00e3o? Assustou-se, deu uma espiadela em torno,<br \/>\nexaminou-me fixo, cochichou: &#8211; N\u00e3o diga. Isso prejudica. Mas se dissesse,<br \/>\nningu\u00e9m acreditava. O senhor pode ser assassino. Tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\n\u00e9. Se fosse, tinha ficado. Para l\u00e1 s\u00f3 v\u00e3o presos<br \/>\npol\u00edticos e ladr\u00f5es. Ladr\u00e3o n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem. Vejo que tem muita pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, pouca, \u00e0s vezes me engano. Os da pol\u00edcia civil<br \/>\nconhecem os ladr\u00f5es de longe, na rua, pelo andar.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem. Para onde vamos? Olhou-me surpreendido, certamente a<br \/>\nduvidar da minha ignor\u00e2ncia, e permaneceu calado.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos para a Col\u00f4nia? Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a afirmando.<br \/>\n&#8211; Horr\u00edvel, hem? Hesitou um momento, segredou: &#8211; N\u00e3o \u00e9<br \/>\ntanto como dizem n\u00e3o. Agora est\u00e1 melhor. Isso contradizia a<br \/>\nafirma\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios indiv\u00edduos, mas se tivermos<br \/>\numa corda no pesco\u00e7o e algu\u00e9m nos vier sorrindo negar a exist\u00eancia<br \/>\ndela, acho que nos convenceremos facilmente. Um gazeteiro chegou \u00e0<br \/>\njanela apregoando.<\/p>\n<p>&#8211; Julgo que podemos ler, n\u00e3o? &#8211; Com certeza.<\/p>\n<p>Comprei um jornal e, com esfor\u00e7o, repisando a leitura cheia de lacunas,<br \/>\nagarrei a not\u00edcia infeliz: o estado de guerra ia ser prorrogado. A<br \/>\npatifaria inicial n\u00e3o me deixara mossa, de fato nem me perturbara o<br \/>\njogo de xadrez, talvez por achar-me est\u00e1vel no cub\u00edculo 35;<br \/>\nnenhuma refer\u00eancia a ela nos pap\u00e9is guardados no bolso; agora<br \/>\nfaltava-me estabilidade, era-me imposs\u00edvel pensar nisto ali dentro,<br \/>\na rolar para a ignom\u00ednia, e a renova\u00e7\u00e3o do ato canalha<br \/>\ndava-me arrepios. Larguei a folha em des\u00e2nimo profundo. C\u00e2mara<br \/>\nprostitu\u00edda. Mais tr\u00eas meses de arrocho, ficar\u00edamos pelo<br \/>\nmenos tr\u00eas meses na ilha, no curral de arame farpado, na sujeira imensa.<\/p>\n<p>Tento lembrar-me de qualquer coisa exterior, vista nos campos, nas plataformas<br \/>\ndas esta\u00e7\u00f5es. N\u00e3o me lembro de nada, in\u00fateis as<br \/>\npessoas, in\u00fatil a paisagem. Rod\u00e1vamos no meio de laranjais,<br \/>\nobservei-os no regresso. N\u00e3o havia laranjais. Havia apenas a informa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesgra\u00e7ada: mais tr\u00eas meses de guerra. Guerra a quem, malandros?<br \/>\nA quem, filhos de umas putas? Essas explos\u00f5es internas causam enorme<br \/>\ndesarranjo a um organismo combalido. N\u00e3o nos revolta a safadeza, revolta-nos<br \/>\na estupidez. Conformismo idiota, pulhice, tudo a encolher-se na ordem &#8211; e<br \/>\num reconhecimento de guerra nesse marasmo. O soldadinho magro e p\u00e1lido<br \/>\nera uma criatura boa, n\u00e3o tinham for\u00e7a para incutir-lhe ferocidade.<br \/>\nO instinto o levava a conversar comigo, a ver em mim um tipo como ele. Uns<br \/>\nmiser\u00e1veis o a\u00e7ulavam debalde: n\u00e3o sabia morder. Com<br \/>\ncerteza desejei agradecer-lhe, e o receio de parecer covarde abafou o impulso.<br \/>\nN\u00e3o me recordo, isso me aconteceu algumas vezes. Nevoeiro mental, fugas,<br \/>\ncar\u00eancia de nexo, o estado de guerra e os buracos do tintureiro.<\/p>\n<p>Um volume sobre a Col\u00f4nia, o livro que Medina esperava. Detinha-me<br \/>\nnessa afirma\u00e7\u00e3o maquinal, embora considerasse o projeto irrealiz\u00e1vel:<br \/>\nnem queria ouvir falar em semelhante g\u00eanero de trabalho. Haviam-me no<br \/>\nPavilh\u00e3o dado conselhos, mostrado a conveni\u00eancia de narrar a<br \/>\nvida na cadeia; a tarefa imposta me esfriava, em horas de aborrecimento vinha-me<br \/>\na tenta\u00e7\u00e3o de berrar que n\u00e3o tinha deveres, estava longe<br \/>\nda terra e imbecilizado. Os buracos do tintureiro e as r\u00e9stias movedi\u00e7as<br \/>\ncontinuavam a perseguir-me. De quando em quando me apalpava, tocava os pap\u00e9is<br \/>\nescondidos nos bolsos do palet\u00f3. Se fosse revistado, atira-los-ia pela<br \/>\njanela do vag\u00e3o. Sobressaltava-me, as figuras de Tamandu\u00e1, Newton<br \/>\nFreitas e Medina apareciam-me n\u00edtidas. Um curral de arame farpado,<br \/>\num rebanho a definhar. As r\u00e9stias deslocando-se no tintureiro. Punha-me<br \/>\na esfregar as m\u00e3os de rijo, depois tateava o manuscrito dividido, inquiria<br \/>\nde esguelha se ele estava muito vis\u00edvel. No caso de revista, joga-lo-ia<br \/>\nfora. Em que estariam pensando o velho Eus\u00e9bio, Guerra, Herculano,<br \/>\nZoppo, Macedo? Ignoravam talvez a minha presen\u00e7a, absorviam-se como<br \/>\neu, faziam gestos inconsiderados e tentavam emendar-se. Na ratoeira que andava<br \/>\nem cima de trilhos, sem decidir-se a parar, na verdade \u00e9ramos bichos<br \/>\nbem mesquinhos. Todos bichos. Mencionei a prorroga\u00e7\u00e3o do estado<br \/>\nde guerra, desdisseram-me com azedume; exibi o jornal, repeliram a nota agoureira:<br \/>\na unanimidade alienaria provisoriamente o sucesso aziago.<\/p>\n<p>Dessa viagem realizada fora do tempo, armas e fardas a ench\u00ea-la, a<br \/>\nguardar as portas, ligeiros tra\u00e7os hoje se esfumam. P\u00e1gina meio<br \/>\nbranca Avultam nela contudo as palavras do soldadinho Conven\u00e7o-me de<br \/>\nter sido fiel reproduzindo o nosso di\u00e1logo; ao cabo de tantos anos,<br \/>\nas perguntas e as respostas v\u00eam n\u00edtidas, parecem recentes; n\u00e3o<br \/>\npreciso enxertos, pelo menos julgo isto. A magreza e a palidez do mo\u00e7o<br \/>\nainda se conservam. O resto era confus\u00e3o. O jornal, armas e fardas,<br \/>\nos meus dedos \u00famidos e frios, as m\u00e3os inquietas esfregando-se,<br \/>\nmetendo-se nos bolsos, os companheiros a recusar indignados a not\u00edcia<br \/>\nruim. Nada mais. Uma janela in\u00fatil.<\/p>\n<p>7<\/p>\n<p>O TREM parou, desembarcamos em Mangaratiba. A\u00ed me chegaram algumas<br \/>\nid\u00e9ias claras, fui capaz de observar qualquer coisa; agora as recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\navultam e se articulam. Achara-me num sorvedouro; ou antes, n\u00e3o me<br \/>\ndeslocara em sentido horizontal, mas para cima e para baixo, a subir e a descer<br \/>\nnas roscas de um parafuso. Est\u00e1vamos em Mangaratiba. Vi este nome na<br \/>\nplaca da esta\u00e7\u00e3o. Bem. Cheg\u00e1vamos enfim a um canto da<br \/>\nterra, e isto nos dava consist\u00eancia. Rol\u00e1ramos fora dela, ausentes<br \/>\nda realidade.<\/p>\n<p>Ao sair da caixa m\u00f3vel, Jos\u00e9 Gomes, o velho Eus\u00e9bio,<br \/>\nGuerra, Zoppo, deixavam de ser sombras, ganhavam corpo: lembro-me deles. Mangaratiba<br \/>\n\u00e9 um lugar mi\u00fado, que pro curo fixar na mem\u00f3ria para<br \/>\nn\u00e3o me esquecer dos companheiros. Uma povoa\u00e7\u00e3o triste<br \/>\ne abafada, com montes em redor. \u00c9, parece que tem montes em redor.<br \/>\nNada mais.<\/p>\n<p>Deixando o vag\u00e3o, marchamos em frente, pisamos num tablado sobre<br \/>\n\u00e1gua: com certeza \u00edamos embarcar. Faltavam-me cigarros. Como<br \/>\nembarcar sem cigarros? Talvez n\u00e3o tivesse fumado no trem, mas ali,<br \/>\ncom os bolsos vazios, uma ang\u00fastia me vinha. Os dedos a entrar nos<br \/>\nbolsos vazios, a apertar-se em v\u00e3o. Procurei aux\u00edlio, enxerguei<br \/>\nperto um soldado negro, dirigi-me a ele. Estava sem cigarros. Entendia? Imposs\u00edvel<br \/>\nviajar sem cigarros. Ofereceu-se para comprar alguns ma\u00e7os. Dei-lhe<br \/>\nvinte mil-r\u00e9is, fiquei olhando algumas senhoras que desciam do trem,<br \/>\nda primeira classe, ingressavam no embarcadouro, em companhia de um sujeito<br \/>\nmagro, baixo, de cara chupada. Algu\u00e9m me disse que o tipo se chamava<br \/>\nSardinha, era m\u00e9dico e mandava provisoriamente na Col\u00f4nia Correcional<br \/>\nde Dois Rios. Punham-me em contato com um mundo estranho, vago e dif\u00edcil.<br \/>\nBusquei adivinhar, pela fisionomia do homem, o que ele tinha por dentro. Nenhum<br \/>\ncontato, enganei-me. Aquele rosto impenetr\u00e1vel, chocho, aparece-me<br \/>\ncomo silhueta recortada em mat\u00e9ria dura e fria. Um rosto de l\u00e2mina,<br \/>\ncortante. Percebi a roupa escura e, al\u00e9m disso, um envolt\u00f3rio<br \/>\nde rabugice, pimponice e hostilidade. Nunca me fez mal; pelo contr\u00e1rio:<br \/>\nmais tarde me livrou de ser roubado; mas naquele momento me causou impress\u00e3o<br \/>\ndemasiado repulsiva, e instintivamente dei um passo para tr\u00e1s. Recuo<br \/>\nin\u00fatil: embora estivessem pr\u00f3ximas, em cima do tabuado ex\u00edguo,<br \/>\nas pessoas vindas da primeira classe muito se distanciavam de n\u00f3s.<br \/>\nAtentei nos rostos delas &#8211; e, que me lembre, nunca vi tal express\u00e3o<br \/>\nde estabilidade, seguran\u00e7a. Firmeza em cima de pranchas mal pregadas.<br \/>\nUm homem baixo e magro, mulheres bem vestidas. Certamente se haviam habituado<br \/>\na olhar trastes como n\u00f3s, espalhados no ch\u00e3o, eram tipas importantes,<br \/>\nn\u00e3o nos enxergavam, naturalmente. Carregados de embrulhos, redes, malas<br \/>\ne sobretudos, gente do sul e do norte, pobres-diabos, n\u00e3o val\u00edamos<br \/>\nnada, \u00e9ramos lixo. N\u00e3o nos distinguiam. Acostumadas ao lixo,<br \/>\nandavam cegas, podiam pisar-nos. O homem de rosto murcho, recortado em l\u00e2mina<br \/>\nde faca, mexia-se procurando meio de acomodar as senhoras. Trouxeram cadeiras,<br \/>\njulgo que vieram cadeiras de vime. Talvez fossem de vime, n\u00e3o sei bem.<br \/>\nAs senhoras sentaram-se, tranq\u00fcilas, conversando alto. Est\u00e1vamos<br \/>\nali, arrumados nas pranchas, com os nossos embrulhos e a nossa desgra\u00e7a<br \/>\n&#8211; e elas n\u00e3o nos viam. Lixo. Se quisessem levantar-se e andar, caminhariam<br \/>\nbem, pois n\u00e3o tom\u00e1vamos espa\u00e7o, \u00e9ramos coisas<br \/>\ndiminutas, rentes \u00e0s t\u00e1buas. Passariam tranq\u00fcilas por cima<br \/>\nde n\u00f3s, machucar-nos-iam com as solas dos sapatos, como se f\u00f4ssemos<br \/>\npontas de cigarros. Excitava-me o sossego das mulheres e c\u00f3cegas me<br \/>\narranhavam a garganta. Desejo de rir. Desenvoltas, em desembara\u00e7o perfeito,<br \/>\npareciam trancadas num quarto, podiam despir-se.<\/p>\n<p>Duas id\u00e9ias me perseguiam: o soldado preto n\u00e3o voltava com<br \/>\nos cigarros, e n\u00f3s \u00e9ramos bagatelas, cisco em cima das t\u00e1buas,<br \/>\npontas de cigarros. Os meus vinte mil-r\u00e9is estavam perdidos. E se uma<br \/>\ndaquelas senhoras quisesse mijar? Esse pensamento burlesco um minuto me agravou<br \/>\nos arranh\u00f5es da goela, o desejo de rir. Nenhum motivo para acanharem-se,<br \/>\nmijariam facilmente na rede de Macedo, no capote do Zoppo, na minha valise.<br \/>\nT\u00e3o grandes e afastadas, assim pr\u00f3ximas e mi\u00fadas, em<br \/>\ncadeiras de vime! Est\u00e1vamos em p\u00e9, as nossas mis\u00e9rias,<br \/>\nos nossos embrulhos, no ch\u00e3o. O soldado preto n\u00e3o regressava.<\/p>\n<p>Uma lancha avizinhou-se, atracou. Saltamos para ela, houve confus\u00e3o<br \/>\nde passageiros no transbordo, gente a entrar, sair. Fizeram-nos descer uma<br \/>\nescada que levava ao por\u00e3o. No primeiro degrau ouvi algu\u00e9m chamar-me<br \/>\nfamiliarmente e dei de cara com um sujeito desconhecido, alegre e ruidoso.<br \/>\nQuem diabo seria? Reparando bem, julguei-o, pelos modos, um tipo encontrado<br \/>\nmeses antes, no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios, buscando entender-se<br \/>\ncom Birinyi num italiano incompreens\u00edvel. Vinha num grupo da Col\u00f4nia<br \/>\ne sa\u00eda do por\u00e3o. Criaturas indefinidas. A nossa escolta apoderou-se<br \/>\ndeles, a que os havia trazido encarregou-se de n\u00f3s e ficou l\u00e1<br \/>\nem cima, a vigiar em torno da escotilha.<\/p>\n<p>Descemos. Em meio do caminho ouvi um grito e, levantando a cabe\u00e7a,<br \/>\ndistingui o soldado preto a acenar-me. Subi ao conv\u00e9s, recebi v\u00e1rios<br \/>\nma\u00e7os de cigarros e caixas de f\u00f3sforos. Ao met\u00ea-los nos<br \/>\nbolsos, encontrei as folhas de papel cobertas de letras mi\u00fadas e joguei-as<br \/>\nna \u00e1gua. Representavam meses de esfor\u00e7o, nenhuma composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nme fora t\u00e3o desigual e custosa, mas naquele momento experimentei uma<br \/>\nsensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio. N\u00e3o me ocorreu o preju\u00edzo.<br \/>\nO certo era que as notas significavam culpa, e se fossem descobertas isto<br \/>\nme renderia aborrecimentos. Haviam escapado \u00e0s fogueiras inevit\u00e1veis<br \/>\nnos cub\u00edculos do Pavilh\u00e3o quando nos anunciavam revista. Imprud\u00eancia<br \/>\nconserv\u00e1-las naquele tempo. Agora isto era absurdo: n\u00e3o entrariam<br \/>\nna Col\u00f4nia. Perda escassa: estavam pessimamente redigidas, e longos<br \/>\nanos tantas vezes me sucedera queimar prosa ordin\u00e1ria que n\u00e3o<br \/>\nme abalava a destrui\u00e7\u00e3o de mais algumas p\u00e1ginas. De certo<br \/>\nmodo aquilo desculparia o des\u00e2nimo e a pregui\u00e7a, serviria de<br \/>\npretexto para furtar-me \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o cacete. Iam-se diluindo<br \/>\nna \u00e1gua as minhas lembran\u00e7as esparsas; n\u00e3o me seria poss\u00edvel<br \/>\nreconstituir com seguran\u00e7a os cub\u00edculos povoados de percevejos,<br \/>\na sala escura da galeria, as redes oscilantes e o camarote do padeiro no por\u00e3o<br \/>\ndo Manaus. Tornei a descer a escada curta, penetrei na jaula que nos reservavam,<br \/>\nfui sentar-me a um canto, sobre a maleta.<\/p>\n<p>A lancha desatracou e partiu, algumas pessoas entraram a enjoar. Como era<br \/>\ngrande o calor, tirei o palet\u00f3 e a gravata, afrouxei o colarinho. A<br \/>\nperna encrencada aperreava-me em excesso. Ao embarcar atrevera-me a um passo<br \/>\ncomprido &#8211; e a dor crescera, muito aguda. Isto me alegrava. Se me inutilizasse,<br \/>\ncom certeza me deixariam morrer num hospital. A perna do\u00eda. E cultivei<br \/>\na dor, imaginei acabar-me depressa fora do curral de arame descrito por Tamandu\u00e1.<\/p>\n<p>Macedo estabeleceu-se junto a mim e come\u00e7ou a realizar uma opera\u00e7\u00e3o<br \/>\nminuciosa e lenta. Despiu-se, tirou o dinheiro, enrolou as notas em longos<br \/>\npavios e meteu-as no c\u00f3s do pijama. Em seguida substituiu a cueca pelo<br \/>\npijama, vestiu a cal\u00e7a e aconselhou-me a fazer o mesmo. Restavam-me<br \/>\ncento e poucos mil-r\u00e9is e n\u00e3o julguei preciso escond\u00ea-los.<br \/>\nA barca jogava muito. E em redor olhos compridos enlanguesciam, fechavam-se,<br \/>\nabriam-se, fechavam-se de novo. Lembrei-me do pavor de Guerra, no Pavilh\u00e3o.<br \/>\nBatia com a cabe\u00e7a nos ferros da cama e gritava, injuriando o governo,<br \/>\natirando \u00e0 pol\u00edcia nomes sujos. Como iria ag\u00fcentar-se?<br \/>\nEsquisito: Guerra se comportava bem, ria, pilheriava. Estaria a fingir-se<br \/>\nalegre por fanfarronice? Talvez n\u00e3o. o movimento e o riso pareceram-me<br \/>\nnaturais. Os homens do Paran\u00e1 tinham modos bovinos. Sentados nos capotes,<br \/>\nas costas apoiadas \u00e0s t\u00e1buas das paredes, fechavam-se, l\u00fagubres.<br \/>\nOs \u00f3culos do velho Eus\u00e9bio procuravam socorro imposs\u00edvel;<br \/>\na voz era um t\u00edmido murm\u00fario, a interjei\u00e7\u00e3o do<br \/>\nfim das frases quase se sumia. Espanto e receio nos rostos. N\u00e3o me<br \/>\nsurpreendia viajarmos em por\u00e3o, mas aquele era baixo demais. Talvez<br \/>\nMacedo e Guerra pudessem ficar ali em p\u00e9; se Petrosky se levantasse,<br \/>\ncom certeza bateria com a cabe\u00e7a no teto.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quem teve a lembran\u00e7a de me oferecer comida. Prinz<br \/>\nou Cabezon. Surgiram postas de peixe seco e rodelas de p\u00e3o num papel<br \/>\nengordurado, certamente contrabando fornecido pelo faxina preto. Desviei-me<br \/>\nengulhando, os rapazes insistiram, a princ\u00edpio com paci\u00eancia,<br \/>\ndepois irrita dos: uma exig\u00eancia dura. Bem, tinham raz\u00e3o. Escolhi<br \/>\num peda\u00e7o de peixe, o menor, tentei ingeri-lo devagar. A l\u00edngua<br \/>\nseca, aperto na goela, os bei\u00e7os gretados e queimados. Se tivesse um<br \/>\ncopo de \u00e1gua, tudo se arranjaria. Mas com semelhante secura a dificuldade<br \/>\nera grande. Mastiguei o peixe at\u00e9 que ele se transformou numa esp\u00e9cie<br \/>\nde serragem, longo tempo estive a ruminar em v\u00e3o. Afinal o espesso<br \/>\nfarelo me atravessou a garganta, arranhando-a. Como areia. Resisti \u00e0<br \/>\nn\u00e1usea, apertei os queixos, entortando a cara, retesando os m\u00fasculos<br \/>\ndo pesco\u00e7o. Talvez aquela fosse a minha \u00faltima refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegou-me a sede. E como limpar os dedos sujos de sal e gordura? Esfreguei-os<br \/>\nnum peda\u00e7o de papel, mas continuaram sujos e tive receio de enodoar<br \/>\na roupa. Tirei dos bolsos as carteiras de cigarros que o soldado trouxera,<br \/>\ndespejei-as, limpei as m\u00e3os nos inv\u00f3lucros, demoradamente, at\u00e9<br \/>\nficarem t\u00famidas e vermelhas. Desmanchando as carteiras e friccionando<br \/>\nas m\u00e3os, tinha entre as pernas juntas uma pilha de cigarros soltos.<br \/>\nEspalhei-os em v\u00e1rios bolsos, inquieto: haviam-me dito que s\u00f3<br \/>\nentrava na Col\u00f4nia um reduzido n\u00famero de ma\u00e7os; veio-me<br \/>\na esperan\u00e7a de salvar aqueles, dispersos, misturados a len\u00e7os<br \/>\ne objetos mi\u00fados. Percebi em volta olhares cobi\u00e7osos, urg\u00eancias<br \/>\nde fumo, e arremessei, com um gesto liberal, o palet\u00f3 recheado sobre<br \/>\nas t\u00e1buas. O valor dos cigarros diminuiu.<\/p>\n<p>Petrosky, Zoppo, Garrett, Prinz, Cabezon &#8211; que nomes estranhos! Bichos brancos<br \/>\ne vagarosos, de outro mundo. Prinz tinha um sorriso fatigado. Cabezon tentava<br \/>\nconversar e desistia. O tormento do velho Eus\u00e9bio reluzia nos vidros,<br \/>\nsoava na respira\u00e7\u00e3o de gato. Duas figuras me impressionavam:<br \/>\nMacedo, tranq\u00fcilo e gordo, cachimbando, a arrumar as suas coisas sem<br \/>\npressa, e Guerra, agitado e falador, com estrid\u00eancias na voz e amea\u00e7as<br \/>\nna ponta do bigodinho, um Guerra muito diferente do que rolava na cama, aos<br \/>\ngritos. Do velho Eus\u00e9bio restavam depress\u00f5es. Por cima das nossas<br \/>\ncabe\u00e7as, ladeando a entrada, viam-se as perneiras, as fardas, os bon\u00e9s<br \/>\ne os fuzis da pol\u00edcia. Petrosky, o homenzarr\u00e3o silencioso e<br \/>\nlouro, arriava-se a um canto, invis\u00edvel no escuro, entre caix\u00f5es.<br \/>\nSe tentasse erguer-se, n\u00e3o conseguiria aprumar-se. Sentado na valise,<br \/>\narrimado \u00e0 t\u00e1bua, pouco a pouco me entorpeci, achei-me longe<br \/>\ndo por\u00e3o da lancha, do carro de segunda classe, do tintureiro. Todos<br \/>\nali eram desconhecidos, meses antes n\u00e3o me havia chegado o nome de<br \/>\nnenhum deles. Eu mesmo era um desconhecido agora, dilu\u00eda-me, tentava<br \/>\ndebalde encontrar-me, perdido entre aquelas sombras.<\/p>\n<p>Uma frase repetida, que se despojara de significa\u00e7\u00e3o, martelava-me:<br \/>\no estado de guerra ia ser prorrogado. Isto me aborrecia. Para o diabo o estado<br \/>\nde guerra. Imaginei-me em pa\u00eds distante, falando l\u00edngua ex\u00f3tica,<br \/>\nocupando-me em coisas \u00fateis, terra onde n\u00e3o s\u00f3 os patifes<br \/>\nmandassem. Logo me fatiguei dessas divaga\u00e7\u00f5es malucas e dei<br \/>\num salto para tr\u00e1s, vi-me pequeno, a correr num p\u00e1tio branco<br \/>\nde fazenda sertaneja, a subir na porteira do curral, a ouvir os bodes bodejarem<br \/>\nno chiqueiro. De qualquer forma, enveredando no futuro ou mergulhando no passado,<br \/>\nera um sujeito morto. Necess\u00e1rio esquecer tudo aquilo: o por\u00e3o,<br \/>\no carro de segunda classe, o tintureiro, os cub\u00edculos, a recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\nda inf\u00e2ncia, o pa\u00eds distante e absurdo, ref\u00fagio imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quem me tirou dessa horr\u00edvel apatia, algu\u00e9m<br \/>\nque me pediu um cigarro ou ofereceu qualquer coisa. Regressei \u00e0 realidade,<br \/>\nenxerguei fisionomias sucumbidas, invadiram-me palavras soltas, o riso estridente<br \/>\nde Guerra, a fala engrolada de Zoppo, o laconismo, a resigna\u00e7\u00e3o<br \/>\nbovina de Petrosky. Jos\u00e9 Gomes estava abatido. Lembrei-me do Manaus.<br \/>\nA noite Jos\u00e9 Gomes fazia com as m\u00e3os uma corneta, erguia a voz<br \/>\nimitando um locutor: &#8211; &#8220;R\u00e1dio Clube do Por\u00e3o. Vamos ouvir<br \/>\nPaulo Pinto, rei do samba.&#8221; E Paulo Pinto, negro, rei do samba, cantava;<br \/>\ncom amores, tolices, onomatop\u00e9ias, reduzia o calor da fornalha, o cheiro<br \/>\nde amon\u00edaco, os v\u00f4mitos, o arquejar penoso, as cascas de laranja<br \/>\natiradas da coberta sobre as nossas redes. Agora Paulo Pinto estava na Col\u00f4nia,<br \/>\ne Jos\u00e9 Gomes se imobilizava no sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Em redor, nos cantos sombrios, caixas, bagagens, sacos. E pelas frestas<br \/>\nque separavam as t\u00e1buas grossas e sujas, v\u00edamos a \u00e1gua<br \/>\nescura l\u00e1 embaixo. As minhas folhas se desagregavam nela, a plumbagina<br \/>\nse dilu\u00eda, perto do embarcadouro de Mangaratiba. Amizades r\u00e1pidas,<br \/>\ncasuais, um instante a fixar-se e logo a estremecer nos sacolejos dos navios,<br \/>\ndos carros, seriam em breve part\u00edculas indecisas no mar, part\u00edculas<br \/>\nindecisas na minha mem\u00f3ria. Na Col\u00f4nia, iriam mexer-me nos bolsos,<br \/>\ndespojar-me, recolher-me fraco e desarmado.<\/p>\n<p>Resolvi guiar-me pelo ju\u00edzo de Macedo, homem cauteloso, em geral<br \/>\nentregue a min\u00facias razo\u00e1veis; imitei-lhe a prud\u00eancia.<br \/>\nRetirei da valise a cal\u00e7a do pijama e introduzi no c\u00f3s dela<br \/>\no dinheiro de papel que me restava; deixei no porta-n\u00edqueis uma c\u00e9dula<br \/>\nde cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is. Despi-me, vesti a pe\u00e7a fraudulenta,<br \/>\na roupa de cima, com a aprova\u00e7\u00e3o t\u00e1cita do meu companheiro<br \/>\nmeticuloso. Bem. Agora me alentava um pouco; as notas amarradas \u00e0 barriga<br \/>\ndavam-me a esperan\u00e7a de conseguir mexer-me, n\u00e3o perder a iniciativa.<\/p>\n<p>Ergui-me, fui at\u00e9 a abertura por onde hav\u00edamos descido, subi<br \/>\nos degraus inferiores da escada curta. Entre as perneiras dos soldados, vi<br \/>\no mundo l\u00e1 fora, o sol, \u00e1gua, ilhas, montes, uma terra pr\u00f3xima<br \/>\na alargar-se.<\/p>\n<p>8<\/p>\n<p>SUBI mais uns dois degraus, vi telhados, \u00e1rvores, depois, mais para<br \/>\nbaixo, uma povoa\u00e7\u00e3o e as t\u00e1buas de uma esp\u00e9cie<br \/>\nde embarcadouro, aparentemente melhor que o de Mangaratiba.<\/p>\n<p>A lancha atracou. Mergulhei os olhos no buraco onde ainda me achava meio<br \/>\nenterrado, percebi alvoro\u00e7o, homens agarrando embrulhos, fardos, sobretudos,<br \/>\nmaletas, sacos e as redes sertanejas insepar\u00e1veis dos nordestinos.<br \/>\nEram grandes e tinham aplica\u00e7\u00f5es v\u00e1rias, essas redes.<br \/>\nPresas nos armadores, serviam de camas, cadeiras. Estendidas no ch\u00e3o,<br \/>\nsubstitu\u00edam cobertores, len\u00e7\u00f3is. Dobravam-se, enrolavam-se,<br \/>\nentre as varandas metiam-se objetos mi\u00fados &#8211; supriam sem dificuldade<br \/>\nos ba\u00fas de folha usados no interior. E como no nordeste conduzem nelas<br \/>\ndefuntos para o cemit\u00e9rio, n\u00e3o \u00e9 tropo afirmar que os<br \/>\nmeus amigos do por\u00e3o do Manaus levavam \u00e0s costas os seus pr\u00f3prios<br \/>\ncaix\u00f5es. Matuto degenerado, nunca pude utilizar essa complica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE ali estava no meio da escada, a valise debaixo do bra\u00e7o, leve, transportada<br \/>\nmaquinalmente. Dentro da valise, cuecas, len\u00e7os, duas camisas, dois<br \/>\nou tr\u00eas pares de meias, alguns l\u00e1pis, um bloco de papel inocente<br \/>\ne branco, bilhetes, cartas, fotografias, correspond\u00eancia de minha mulher.<br \/>\nPouco me importava que tomassem tudo isso. Nada comprometedor. Pap\u00e9is<br \/>\ninofensivos, bilhetes an\u00f3dinos, l\u00e1pis, nenhum dinheiro, retratos<br \/>\nde meninos. As notas, \u00fanicas for\u00e7as restantes, arrumavam-se<br \/>\nno c\u00f3s do pijama, faziam na barriga um chuma\u00e7o pequeno em cima<br \/>\nda cicatriz da opera\u00e7\u00e3o. As folhas prejudiciais tinham sido<br \/>\natiradas na \u00e1gua. Estavam comigo not\u00edcias ing\u00eanuas, a<br \/>\nfigura de meu filho mais novo, de olhos grandes. Apenas. Bem. Valise insignificante,<br \/>\nque a minha fraqueza podia transportar sem custo. Bem. N\u00e3o me constrangiam<br \/>\ncoisas pesadas e inc\u00f4modas.<\/p>\n<p>Enquanto os outros arrumavam a dif\u00edcil bagagem, trepei os \u00faltimos<br \/>\ndegraus, cheguei \u00e0 coberta. Alguns minutos de espera. Macedo e Zoppo,<br \/>\nGuerra e Cabezon, Petrosky e Z\u00e9 Gomes desenroscaram-se l\u00e1 embaixo,<br \/>\nsubiram &#8211; e achamonos em linha, passamos ao tablado que servia de ancoradouro.<br \/>\nUm sargento, mulato gordo e fornido, entrou a distribuir-nos, e as dezessete<br \/>\npessoas, em fileira, num instante se sumiram. Dois sujeitos armados tomavam<br \/>\nconta de um preso, exatamente como ao descermos do tintureiro. Arrog\u00e2ncia,<br \/>\nexposi\u00e7\u00e3o besta de for\u00e7a. Dois pol\u00edcias para escoltar<br \/>\num indiv\u00edduo inerme, de bra\u00e7os ocupados, seguro \u00e0 bagagem.<br \/>\nO sargento volumoso e escuro tinha carranca selvagem, mas o instinto me levou<br \/>\na entender-me com ele. A primeira leva desembarcara ali em noite de chuva,<br \/>\nsubira montes e descera montes, \u00e0s carreiras. Lembrei-me do relat\u00f3rio<br \/>\nde Chermont. Se um infeliz escorregava no barro molhado e ca\u00eda, obrigavam-no<br \/>\na levantar-se com pancadas. Agora os caminhos estavam enxutos, o dia claro.<br \/>\nInfelizmente a perna me atormentava e n\u00e3o me seria poss\u00edvel<br \/>\ncorrer. Declarei isto ao sargento. Examinou-me, talvez procurando no meu rosto<br \/>\nsinais de mentira.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que o senhor tem? perguntou \u00e1spero. &#8211; Fui operado.<br \/>\nN\u00e3o consigo viajar depressa. Refletiu, decidiu: &#8211; Vou pedir um cavalo.<\/p>\n<p>Isto me aborreceu: desagrada-me incomodar algu\u00e9m. &#8211; Talvez n\u00e3o<br \/>\nseja preciso. Qual \u00e9 a dist\u00e2ncia? &#8211; Doze quil\u00f4metros de<br \/>\nserra. &#8211; Que horas s\u00e3o? &#8211; Dez.<\/p>\n<p>&#8211; A que hora devo chegar? &#8211; A tarde. Chegando \u00e0s seis chega bem.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, sargento. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio o cavalo. Vou<br \/>\na p\u00e9.<\/p>\n<p>Voltou-se para os dois policiais: &#8211; Este senhor est\u00e1 doente, n\u00e3o<br \/>\npode acompanhar os outros. Andem muito devagar com ele, parando para descansar.<\/p>\n<p>Afastei-me capenga, disposto \u00e0 marcha penosa; no fim do tablado recuei,<br \/>\nvexado por n\u00e3o me ocorrer um agradecimento razo\u00e1vel. Afinal<br \/>\na criatura nada tinha com os meus desastres. Atentei na fisionomia agreste:<br \/>\n&#8211; Aquilo \u00e9 horr\u00edvel, hem, sargento? Alongou o bei\u00e7o grosso,<br \/>\nresmungou: &#8211; N\u00e3o. Para o senhor, n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! Porqu\u00ea? &#8211; Em qualquer parte o senhor est\u00e1 em casa.<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o me chocou. Ter-me-ia acanalhado? Comportar-me-ia<br \/>\ndireito em excesso, buscando captar a benevol\u00eancia da for\u00e7a?<br \/>\nUm r\u00e1pido exame interno sossegou-me: ti nha-me expressado conciso e<br \/>\nfrio, apenas manifestara a impossibilidade completa de mexer-me depressa.<br \/>\nAntes de me retirar, o homem se avizinhou, segredou uma pergunta inesperada:<br \/>\n&#8211; Tem dinheiro? Surpreendi-me. Contudo n\u00e3o senti desejo de fechar-me:<br \/>\n&#8211; Tenho, pouco, mas tenho.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o caia na tolice de entreg\u00e1-lo. S\u00f3 lhe consentem<br \/>\nlevar cinco mil-r\u00e9is. Guarde o resto. Vai passar fome, sabe? H\u00e1<br \/>\nde comprar comida fora.<\/p>\n<p>S\u00fabito revelei ao sujeito o esconderijo das notas, e n\u00e3o julguei<br \/>\nser imprudente. Estavam no c\u00f3s do pijama, entre as cal\u00e7as e<br \/>\na cueca.<\/p>\n<p>&#8211; Acha que v\u00e3o descobri-Ias na revista? Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a<br \/>\nnegativamente: &#8211; N\u00e3o h\u00e1 perigo, a busca \u00e9 formalidade.<\/p>\n<p>Referiu-se de novo \u00e0 falta de alimento e repetiu o conselho de aferrolhar<br \/>\no dinheiro, economizar: ser-me-ia indispens\u00e1vel prover-me em neg\u00f3cios<br \/>\nclandestinos. Falava r\u00e1pido e baixo, a conversa durou talvez dois minutos.<br \/>\nAinda avancei uma interroga\u00e7\u00e3o: qual era o meio de obter coisas<br \/>\nno exterior? Alguns rapazes da pol\u00edcia arriscavam-se a esses favores,<br \/>\nafirmou.<\/p>\n<p>&#8211; Quer apresentar-me a um dos seus homens? &#8211; N\u00e3o. O senhor ser\u00e1<br \/>\nprocurado, com certeza.<\/p>\n<p>Duas ou tr\u00eas vezes introduziu no di\u00e1logo esta observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nintempestiva: &#8211; N\u00e3o lhe acontecer\u00e1 nada ruim. Uma pessoa inteligente<br \/>\nnunca se aperta.<\/p>\n<p>&#8211; Agradecido, sargento.<\/p>\n<p>Arredei-me a coxear, aproximei-me dos guardas, pisamos terra. A reflex\u00e3o<br \/>\ndo sargento era burlesca; e fazendo-a, parecia referir-se, n\u00e3o \u00e0<br \/>\nminha intelig\u00eancia, mas \u00e0 dele. Que ria talvez aparentar sagacidade<br \/>\nnotando em mim prendas ocultas, pois nenhum recurso intelectual se revelara<br \/>\nnas minhas palavras. Longe disso: houvera-me estupidamente, confessara a exist\u00eancia<br \/>\ndas c\u00e9dulas e a pe\u00e7a de roupa onde se metiam. Deixara-me levar<br \/>\npelo instinto: n\u00e3o enxergara um inimigo no tipo sombrio. Ou ent\u00e3o<br \/>\nme surgira o desejo de arriscar-me, avaliar a minha resist\u00eancia e as<br \/>\ndisposi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias. Algumas vezes isso me acontecia,<br \/>\ne, presumo, durante a reclus\u00e3o estirada n\u00e3o precisei simular.<br \/>\nDe qualquer modo a conversa ligeira nas t\u00e1buas me convencia de que<br \/>\na viol\u00eancia organizada era bem prec\u00e1ria: os agentes dela se bandeavam,<br \/>\nnos momentos dif\u00edceis vinham cochichar-nos informa\u00e7\u00f5es<br \/>\ne conselhos. Bem. O mulato rijo e de tromba, os soldadinhos fracos a aborrecer-se<br \/>\ndebaixo dos fuzis pesados n\u00e3o tinham interesse em magoar-me. Os generais<br \/>\ndeviam procurar saber como as suas ordens se cumprem. Berram, amea\u00e7am,<br \/>\nt\u00eam apar\u00eancia de terremotos &#8211; e ali me achava a manquejar, seguido<br \/>\npor dois sic\u00e1rios inofensivos.<\/p>\n<p>&#8211; Como se chama este povoado? &#8211; Abr\u00e3o.<\/p>\n<p>Na ponta da rua uma bodega me sugeriu a id\u00e9ia de comprar cigarros.<br \/>\nEntrei nela, pedi um milheiro, diversas caixas de f\u00f3sforos, enchi a<br \/>\nvalise, acabei de empanzinar todos os bolsos. Deixariam penetrar na Col\u00f4nia<br \/>\naquele desprop\u00f3sito? Os soldados me incutiram otimismo. Bebi um c\u00e1lice<br \/>\nde conhaque, larguei a nota de cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is e guardei o<br \/>\ntroco no desv\u00e3o do porta-n\u00edqueis; \u00e0 mostra ficaram apenas<br \/>\nalgumas moedas. O \u00e1lcool \u00e9 proibido com rigor, mas nem me ocorreu<br \/>\nfalar em consentimento: a disciplina se relaxaria ante a necessidade forte.<br \/>\nSa\u00edmos, perdemos de vista as \u00faltimas casas da aldeia. Top\u00f4nimo<br \/>\nesquisito: Abra\u00e3o. Um dos condutores me corrigiu a pron\u00fancia:<br \/>\n&#8211; Abr\u00e3o.<\/p>\n<p>Certamente havia morado ali um sujeito importante com esse nome. Algum judeu?<br \/>\nNa Alemanha a designa\u00e7\u00e3o torpe e sem\u00edtica se haveria<br \/>\nriscado, mas a esculhamba\u00e7\u00e3o nacional n\u00e3o atentava nisso.<br \/>\nE o Abr\u00e3o continuava na geografia mi\u00fada, possivelmente um velho<br \/>\nAbr\u00e3o de olhos vivos e nariz curvo, parente vago de Gikovate e Karacik,<br \/>\ntransferido um m\u00eas atr\u00e1s para a Sala da Capela.<\/p>\n<p>Distanciamo-nos da costa, assanharam-se os declives, entramos a subir e<br \/>\na descer ladeiras. Vegeta\u00e7\u00e3o farta. V\u00e1rias pontes sobre<br \/>\nos rios estreitos, ziguezagueantes, que haviam batizado a Col\u00f4nia. A<br \/>\nluz forte do sol feria montes escuros e nus; em certos pontos \u00e1rvores<br \/>\nesguias disfar\u00e7avam a calv\u00edcie da terra pedregosa. Veio-me o<br \/>\ndesejo de perguntar como se chamavam essas plantas, mas a curiosidade morreu<br \/>\nlogo.<\/p>\n<p>Ao calor do meio-dia, estazei-me. Horr\u00edveis picadas na perna; vencer<br \/>\nalguns metros de rampa custava-me esfor\u00e7o enorme. Respira\u00e7\u00e3o<br \/>\ncurta, suor abundante, falhas na vista. Procurei dominar a fraqueza atentando<br \/>\nna paisagem. Inutilmente. A cabeleira escassa dos morros j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nme interessava. As dores no p\u00e9 da barriga avivavam lembran\u00e7as<br \/>\ninsuport\u00e1veis do hospital. Meses compridos vira-me for\u00e7ado a<br \/>\namparar-me a uma bengala; esse arrimo agora me fazia grande falta, e os passos<br \/>\narrastavam-se tr\u00f4pegos, indecisos, parando a cada instante. Os soldados<br \/>\ncome\u00e7aram a impacientar-se, e isto agravou a dificuldade. Tentei elastecer<br \/>\na carne entanguida, propensa \u00e0 imobilidade; experimentei a sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ter um dreno de borracha metido no ventre. Mordia os bei\u00e7os queimados<br \/>\ne arfava. Imposs\u00edvel continuar. Pus a valise em cima de uma pedra e<br \/>\nsentei-me, indignando os condutores presos ao cambalear penoso, recusei-me<br \/>\na prosseguir. In\u00fatil a insist\u00eancia, arquejei. N\u00e3o viam<br \/>\nque estavam exigindo o imposs\u00edvel? Contudo inclinava-me a julgar aquilo<br \/>\num achaque passageiro; nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o. Iria restabelecer-me<br \/>\nquando me surgissem de novo as mesas e as camas, objetos remotos, improv\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ergui-me, reencetei a caminhada bamba, detive-me ao cabo de cem metros,<br \/>\njoguei-me outra vez para a frente. R\u00eas cansada; nenhum aguilh\u00e3o<br \/>\nme apressaria. Inquietava-me a posi\u00e7\u00e3o do sol, e uma pergunta<br \/>\nme vinha com freq\u00fc\u00eancia: ainda est\u00e1vamos longe? Com certeza.<br \/>\nAfligia-me causar transtorno aos dois homens. Um deles puxou conversa. Era<br \/>\nde Palmeira dos \u00edndios, em Alagoas. E inteirando-se de que eu vivera<br \/>\nali muitos anos, pediu not\u00edcias de personagens locais, perguntou como<br \/>\niam de sa\u00fade seu Aureliano Wanderley e seu Juca Sampaio. Achei gra\u00e7a<br \/>\nna curiosidade e afirmei: &#8211; V\u00e3o muito bem.<\/p>\n<p>Nas escarpas da ilha Grande, a esfalfar-me, a aproximar-me vagaroso da Col\u00f4nia<br \/>\nCorrecional, papagueava com um matuto fardado sobre gente do interior, meio<br \/>\nesquecida. O rapaz me interrogava como se eu tivesse a obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde conhecer Juca Sampaio e Aureliano Wanderley. Palmeira dos \u00edndios<br \/>\n\u00e9 uma cidadezinha, os habitantes andam l\u00e1 em contato for\u00e7ado.<br \/>\nApartara-me deles, mas n\u00e3o hesitava em referir-me \u00e0s duas pessoas<br \/>\nmencionadas. Estavam bem. Pelo menos deviam estar melhor que eu. Essa tagarelice<br \/>\naplacou o trajeto ronceiro.<\/p>\n<p>As esta\u00e7\u00f5es espa\u00e7aram-se. O terreno ia ficando menos<br \/>\n\u00edngreme, o calor diminu\u00eda. Era certo chegarmos antes da noite<br \/>\ne n\u00e3o precisava agitar-me em excesso. As punhaladas no ventre esmoreceram;<br \/>\no que agora me incomodava era o torpor na coxa direita. A dorm\u00eancia<br \/>\ncrescia, chegava ao joelho, dava-me a impress\u00e3o nova de mexer-me com<br \/>\numa perna artificial. A voz lenta do sertanejo escorregava-me nos ouvidos,<br \/>\ntrazia-me ao esp\u00edrito as largas campinas da minha terra, os cardos<br \/>\npujantes na seca, as flores amarelas das catingueiras. Em redor, coisa muito<br \/>\ndiversa dessas evoca\u00e7\u00f5es familiares: sombras, matas, as estranhas<br \/>\n\u00e1rvores delgadas a vestir a peladura negra dos montes.<\/p>\n<p>No fim da tarde alcan\u00e7amos um p\u00e1tio branco. Ao fundo, enorme<br \/>\ngalp\u00e3o fechado, e junto a ele cercas de arame, certamente o curral<br \/>\nonde nos confinariam. A vista fixa nas paredes baixas, na cobertura de zinco,<br \/>\ndurante algum tempo n\u00e3o percebi as casas alinhadas no terreiro. Surgiram-me<br \/>\nde chofre, como se se tivessem constru\u00eddo naquele instante, sem d\u00favida<br \/>\nresid\u00eancias de funcion\u00e1rios, reparti\u00e7\u00f5es, cozinhas,<br \/>\ne alojamento da tropa. Na confus\u00e3o da chegada, isso me vinha desconexo,<br \/>\nvago e sem limites. Am\u00e1lgama incoerente. Que pensariam de mim os dois<br \/>\nrapazes? Movera-me at\u00e9 ali conversando, a exumar fatos e indiv\u00edduos<br \/>\nmeio extintos, e n\u00e3o revelara falha na mem\u00f3ria, nas id\u00e9ias.<br \/>\nDe repente me achava incapaz de localizar os edif\u00edcios, desorientava-me.<br \/>\nS\u00f3 queria saber se a perturba\u00e7\u00e3o vinha \u00e0 tona,<br \/>\ntransparecia nos modos, ou se ainda me seria poss\u00edvel exibir uma apar\u00eancia<br \/>\nrazo\u00e1vel. Continuava a falar, com pausas, ignorando a significa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas palavras, e examinava os interlocutores, buscando neles marcas de espanto.<br \/>\nNada enxerguei. Naturalmente fazia perguntas, mas n\u00e3o tinha consci\u00eancia<br \/>\ndisto; as informa\u00e7\u00f5es resvalavam no entendimento paralisado.<br \/>\nIncapaz de relacionar as coisas mais simples, senti um prazer absurdo no exame<br \/>\nde plantas am\u00e1veis, de grandes folhas verdes, crestadas, a adornar<br \/>\na terra clara. Concentrei-me nessa decora\u00e7\u00e3o, no movimento e<br \/>\nna cor: as folhas mortas, fulvas, ca\u00edam lentas, voavam na aragem fria.<br \/>\nPara onde me levavam? No caminho surgiu-me um velho mi\u00fado cheio de<br \/>\nrugas. Vestia zebra e manejava enxada, ocupando-se em retirar do ch\u00e3o<br \/>\numa nesga de grama. Ao passarmos, interrompeu a tarefa, diligenciou erguer<br \/>\no espinha\u00e7o curvo, estirou o bra\u00e7o tr\u00eamulo, gemeu quase<br \/>\na solu\u00e7ar: &#8211; Uma esmolinha de um cigarro pelo amor de Deus. Meti a<br \/>\nm\u00e3o no bolso prenhe de cigarros, tirei um punhado, larguei-o na m\u00e3o<br \/>\nda criatura.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor est\u00e1 doido? gritou um dos soldados. Espantei-me: &#8211; Porqu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Dar quarenta cigarros a este vagabundo! Est\u00e3o a\u00ed bem quarenta.<br \/>\nH\u00e1 de haver dia em que o senhor n\u00e3o acha um cigarro por dinheiro<br \/>\nnenhum. Escute bem. Por dinheiro nenhum.<\/p>\n<p>Essa perspectiva me trouxe um arrepio. Enfim, paci\u00eancia Que se havia<br \/>\nde fazer? Na verdade n\u00e3o me instigara nenhum sentimento caridoso ao<br \/>\nespoliar-me em benef\u00edcio do velho. Estava meio convencido de que n\u00e3o<br \/>\nme deixariam guardar aquela enorme provis\u00e3o de fumo. A minha filantropia<br \/>\nesvaziava um pouco a algibeira prejudicial. Reduzido o &#8216;volume, talvez me<br \/>\npermitissem conservar o resto dos cigarros.<\/p>\n<p>9<\/p>\n<p>LEVARAM-ME a uma das formalidades inevit\u00e1veis na burocracia das pris\u00f5es,<br \/>\nnum dos edif\u00edcios baixos, limites do p\u00e1tio branco. Sala estreita,<br \/>\nacanhada; homens de zebra a mexer-se em trabalhos aparentemente desnecess\u00e1rios.<br \/>\nPorque me encontrava ali? Devo ter feito essa pergunta, devo t\u00ea-la renovado.<br \/>\nImposs\u00edvel adivinhar a raz\u00e3o de sermos transformados em bonecos.<br \/>\nProvavelmente n\u00e3o existia raz\u00e3o: \u00e9ramos pe\u00e7as<br \/>\ndo mecanismo social &#8211; e os nossos pap\u00e9is exigiam alguns carimbos. A<br \/>\ndegrada\u00e7\u00e3o se realizava dentro das normas. Que me iriam perguntar?<br \/>\nN\u00e3o disseram nada. Os homens de zebra exigiram apenas que lhes entregasse<br \/>\na roupa. Ora essa! Queriam ent\u00e3o que me retirasse dali nu? N\u00e3o<br \/>\nera bem isso. Tinham aberto a valise, arrolado os tro\u00e7os, achavam poss\u00edvel<br \/>\ndespojar-me da indument\u00e1ria civilizada. Estava certo. Era preciso despir-me<br \/>\nem p\u00fablico ou havia lugar reservado para isso? N\u00e3o havia. Perfeitamente.<\/p>\n<p>Despojei-me da casimira. E como tinha por baixo a cal\u00e7a do pijama,<br \/>\ncom o dinheiro minguado no c\u00f3s, vesti apenas o casaco. Achava-me regulamentar,<br \/>\ntanto ou quanto regulamentar e rid\u00edculo, a prendei a camisa nas virilhas,<br \/>\nsujeitando o pano \u00e0 carne resistente. Achei-me coberto enfim deste<br \/>\njeito: camisa \u00famida, colarinho, gravata, pijama bastante amarrotado,<br \/>\nos p\u00e9s coagidos nos sapatos duros, poeirentos. Os tamancos deixados<br \/>\nno cub\u00edculo 50, no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios, faziam-me<br \/>\nfalta. \u00c9 est\u00fapido mencionar isso; contudo n\u00e3o conseguimos<br \/>\nprescindir l\u00e1 dentro de tais insignific\u00e2ncias. De fato n\u00e3o<br \/>\neram insignific\u00e2ncias. Os sapatos duros e estreitos magoavam-me os calos;<br \/>\nseria bom juntar aos p\u00e9s inchados peda\u00e7os de madeira presos<br \/>\ncom tiras de pano. Os tamancos me dariam folga, relativa liberdade.<\/p>\n<p>Antes de largar os trapos ao funcion\u00e1rio de zebra, recolhi os cigarros,<br \/>\nenchi os bolsos do pijama, fiquei obeso. Para emagrecer um pouco, recolhi<br \/>\no cinto, apertei-o \u00e0 barriga, avancei dois ou tr\u00eas furos al\u00e9m<br \/>\ndo ponto normal: a aus\u00eancia de comida facilitava-me a opera\u00e7\u00e3o:<br \/>\na magr\u00e9m for\u00e7ada compensava a gordura exterior. Em relativo<br \/>\nequil\u00edbrio, tentei conservar a carteira, onde havia alguns pap\u00e9is<br \/>\nisentos de valor. Um sujeito de zebra tomou-a. Reclamei.<\/p>\n<p>&#8211; Para que \u00e9 que o senhor quer isso? S\u00e3o fotografias. Veja.<br \/>\nN\u00e3o interessam.<\/p>\n<p>O homem fez orelhas moucas e guardou a carteira, sem me deixar nenhum vest\u00edgio<br \/>\nda subtra\u00e7\u00e3o. Depois me conduziram \u00e0s cercas de arame,<br \/>\nao galp\u00e3o temeroso. Numa saleta, os meus companheiros de viagem, com<br \/>\ncerteza chegados horas antes, amolavam-se \u00e0 espera de formalidades<br \/>\nrotineiras, mais ou menos indecifr\u00e1veis. Em torno de uma banca figuras<br \/>\nse moviam, davam-me a impress\u00e3o de mexer-se em densa neblina: a minha<br \/>\nvista se turvava, era-me imposs\u00edvel notar min\u00facias. Na imobilidade,<br \/>\nreapareceram-me as dores, ferr\u00f5es me atravessaram a carne entanguida.<br \/>\nN\u00e3o me ag\u00fcentei de p\u00e9, fui encostar-me a uma parede, curvo,<br \/>\nderreado para a direita, a m\u00e3o no p\u00e9 da barriga.<\/p>\n<p>Nunca pude saber como, em tais situa\u00e7\u00f5es, nos chegam not\u00edcias<br \/>\nprecisas. De que modo se transmitem? Parecem adivinha\u00e7\u00e3o. Estamos<br \/>\ncercados, vigiados; algu\u00e9m nos sussurra algumas palavras, e recebemos<br \/>\nnum instante esclarecimentos indispens\u00e1veis. Uma cadeia se forma, conjugam-se<br \/>\nreminisc\u00eancias, o aviso se amplia; quando nos referimos a ele, notamos<br \/>\nap\u00eandices, interpola\u00e7\u00f5es, acr\u00e9scimos r\u00e1pidos,<br \/>\nan\u00f4nimos. Nesse trabalho coletivo a mem\u00f3ria e a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ncooperam de tal jeito que nos \u00e9 imposs\u00edvel saber se o informe<br \/>\ndecisivo \u00e9 falso ou verdadeiro: entrosam-se nele os pacientes exames<br \/>\nrigorosos e a credulidade excessiva ordin\u00e1ria nas cadeias. Em torno<br \/>\ndivisei homens fardados, mas a minha escolta havia desaparecido. Indicaram-me<br \/>\nnessa altura um sujeitinho e segredaram-me o nome, a \u00edndole, os costumes<br \/>\ndele. O anspe\u00e7ada Aguiar, nanico, tinha p\u00e9ssimas entranhas,<br \/>\ncompensava a escassez f\u00edsica normalizando a viol\u00eancia; arrogava-se<br \/>\npoder imenso, de fato ali dentro superava as autoridades comuns, adstritas<br \/>\n\u00e0 censura e \u00e0 regra. J\u00e1 me haviam falado nesse tipo Exigia<br \/>\num respeito absurdo, e na presen\u00e7a dele todos n\u00f3s dev\u00edamos<br \/>\nguardar sil\u00eancio e cruzar os bra\u00e7os. Inclinava-me a julgar isso<br \/>\nexagero; dif\u00edcil admitir que tal insignific\u00e2ncia tivesse meios<br \/>\nde criar normas, sujeitar a elas v\u00e1rias centenas de indiv\u00edduos.<br \/>\nO cochicho r\u00e1pido fez-me virar o rosto, atentar na minguada personagem.<br \/>\nO movimento n\u00e3o lhe passou despercebido. Olhou-me seco e frio, com<br \/>\ncerteza o surpreendeu a minha postura encaranguejada. Chegou-se a mim, resmungou<br \/>\n\u00e1spero, distante e superior: &#8211; Est\u00e1 doente? Balancei a cabe\u00e7a<br \/>\nafirmando. Retirou-se, momentos depois reapareceu trazendo uma cadeira. Sentei-me,<br \/>\nagradeci num gesto. O homem n\u00e3o era t\u00e3o ruim como diziam. Essa<br \/>\noferta da coisa necess\u00e1ria numa situa\u00e7\u00e3o crua me dispunha<br \/>\nfavoravelmente. Bobagens sermos suscept\u00edveis naquele meio. Era poss\u00edvel<br \/>\nque as grosserias do pequeno soba apenas existissem cotejadas ao proceder<br \/>\nexterior. No lugar estranho iam surgir-nos rela\u00e7\u00f5es novas &#8211;<br \/>\ne era ingenuidade pretendermos conservar os nossos h\u00e1bitos.<\/p>\n<p>Correra o tempo, chegara a noite, em redor da mesa os preparativos longos<br \/>\nescapavam-me, atos desconexos. Fixava-me num pormenor, noutro, ainda me sentia<br \/>\ncapaz de observar, mas sem continuidade. N\u00e3o sei quando me chamaram.<br \/>\nVi-me ao p\u00e9 da mesa, junto \u00e0 valise aberta, m\u00e3o a revolver-me<br \/>\nos bolsos. Deixaram-me os cigarros, e isto me trouxe imenso al\u00edvio;<br \/>\ndurante o dia, no consumo lento das horas, a priva\u00e7\u00e3o do fumo<br \/>\nabsorvera-me. Respirei, as algibeiras pejadas, a enorme provis\u00e3o de<br \/>\ntabaco e f\u00f3sforo salva, de mistura com len\u00e7os e cuecas. Exig\u00eancias<br \/>\ninsignificantes, formalidades. Pegaram no porta-n\u00edqueis, abriram-no<br \/>\ne logo o devolveram, sem examinar o conte\u00fado. N\u00e3o tiveram a<br \/>\nid\u00e9ia de mexer-me no c\u00f3s do pijama; o dinheiro l\u00e1 guardado<br \/>\niria ser necess\u00e1rio: talvez a minha exist\u00eancia dependesse dele.<br \/>\nTomaram-me os l\u00e1pis e o bloco de papel. Por muito que me esfor\u00e7asse,<br \/>\nn\u00e3o consegui mais tarde recompor as fisionomias das pessoas que realizaram<br \/>\nessas opera\u00e7\u00f5es. Naturalmente fizeram perguntas e dei respostas.<br \/>\nN\u00e3o me lembro de nada. Os meus companheiros de viagem deviam estar<br \/>\nali perto, mas isto \u00e9 suposi\u00e7\u00e3o. Qual deles me cochichara<br \/>\no nome do anspe\u00e7ada e me avivara passagens do relat\u00f3rio de Chermont?<br \/>\nUma balb\u00fardia, pensamentos a debandar. Tentava expressar-me direito,<br \/>\nn\u00e3o me custava fingir calma. Aspecto normal, a voz ordin\u00e1ria;<br \/>\nconvencia-me de que nas minhas palavras n\u00e3o havia incongru\u00eancias,<br \/>\ne esta certeza me parecia insensata.<\/p>\n<p>10<\/p>\n<p>FINDA a vistoria achei-me no p\u00e1tio, sobra\u00e7ando a valise, a<br \/>\nandar sob as \u00e1rvores de grandes folhas invis\u00edveis agora. Entramos<br \/>\nnum sal\u00e3o estreito e escuro. Pendiam l\u00e2mpadas do teto baixo,<br \/>\nvidros fuscos, fios incandescentes, a espalhar uma luzinha frouxa e curta;<br \/>\na alguns metros delas os objetos mergulhavam na sombra. Distingui duas alas<br \/>\nde mesas compridas; eram duas, se n\u00e3o me engano, ladeadas por bancos.<br \/>\nTombei num deles, cansado.<\/p>\n<p>Reparando bem, notei que as mesas se formavam de t\u00e1buas soltas em<br \/>\ncima de cavaletes. O ar estava nauseabundo e empestado, havia certamente nas<br \/>\nproximidades um bicho morto a decompor-se. Juntei os cotovelos \u00e0s pranchas,<br \/>\nsegurei a cabe\u00e7a fatigada, comprimi as narinas com os polegares, fiquei<br \/>\num minuto a arfar, respirando pela boca. Um sujeito se avizinhou, manso, quase<br \/>\ninvis\u00edvel na escurid\u00e3o. Arriei os bra\u00e7os, ergui os olhos<br \/>\nin\u00fateis: imposs\u00edvel enxergar as fei\u00e7\u00f5es do homem.<br \/>\nO cheiro de carni\u00e7a invadiu-me os gorgomilos, trouxe-me enj\u00f4o,<br \/>\nl\u00e1grimas, embrulho no est\u00f4mago. Outra vez levantei as m\u00e3os,<br \/>\napertei o nariz, receando vomitar, cerrei as p\u00e1lpebras.<\/p>\n<p>Tocaram-me num ombro. Sacudi o torpor, abri os olhos, vi um prato junto<br \/>\na mim.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado.<\/p>\n<p>Nos arredores vultos indecisos, provavelmente os meus vizinhos da lancha,<br \/>\ndo carro de segunda classe, do tintureiro, matavam a fome. Depois de tantos<br \/>\nabalos, nordestinos e paranaenses tinham apetite naquela situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nRepugnava-me, inquiria mentalmente se o olfato deles se embotara ou se o fedor<br \/>\nhorr\u00edvel era uma cria\u00e7\u00e3o dos meus nervos excitados. Inclinei-me<br \/>\na supor isto. Dif\u00edcil admitir a insensibilidade estranha em v\u00e1rias<br \/>\npessoas; o defeito estava em mim, um sentido me enganava. Tocaram-me de novo<br \/>\nno ombro, da figura indistinta veio um conselho doce e lento: &#8211; Coma.<\/p>\n<p>Soltei a cabe\u00e7a, aspirei um pouco de ar; estupidez negar as emana\u00e7\u00f5es<br \/>\ntorpes.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado. N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>&#8211; A comida est\u00e1 boa, foi preparada para os senhores. Acendi um cigarro,<br \/>\npus-me a fumar depressa, buscando vencer a infeliz sensa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo prato havia manchas escuras, talvez peda\u00e7os de carne.<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a um esfor\u00e7o. Amanh\u00e3 o senhor n\u00e3o ter\u00e1<br \/>\nisso. A comida foi feita para os senhores. Experimente.<\/p>\n<p>A fala branda era um murm\u00fario. Espantava-me da curiosa solicitude,<br \/>\nqueria desembara\u00e7ar-me dela: &#8211; Agradecido. \u00c9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Apesar da recusa, a criatura af\u00e1vel, isenta de fisionomia, continuava<br \/>\na embalar-me com a oferta vagarosa, insist\u00eancia mole, gorda e \u00famida.<br \/>\nO rosto se escondia na m\u00e1scara de trevas; a voz blandiciosa me escorregava<br \/>\nnos ouvidos, causando-me um vago mal-estar; n\u00e3o a poderia esquecer.<br \/>\nNunca imaginara que um homem se dirigisse a outro daquele jeito: desvelo excessivo,<br \/>\numa ternura fl\u00e1cida e tr\u00eamula. S\u00f3 me ocorriam as s\u00edlabas<br \/>\n\u00e1speras de agradecimento. De fato reconhecia a bondade esquisita, mas<br \/>\nera prefer\u00edvel n\u00e3o a receber. Escapava-me a origem dela. A aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nespalhada, a fumar sem descanso, desejava retirar-me. E achava-me ingrato,<br \/>\nfazia esfor\u00e7os por descobrir alguma coisa am\u00e1vel para juntar<br \/>\n\u00e0s frases curtas. Logo me distra\u00eda ouvindo o rumor das colheres.<br \/>\nDefendia-me da repugn\u00e2ncia envolto na fuma\u00e7a do cigarro, e os<br \/>\nindiv\u00edduos irreconhec\u00edveis tornavam-se mais confusos. Terminaram<br \/>\na refei\u00e7\u00e3o, erguemo-nos, lancei uma despedida vaga e maquinal:<br \/>\n&#8211; Obrigado. N\u00e3o, n\u00e3o. Era imposs\u00edvel. Adeus.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos e, em linha, fomos levados ao casar\u00e3o baixo. A alguns<br \/>\nmetros da porta uma grade se descerrou, e a fileira pouco a pouco mergulhou<br \/>\nnela. O tempo se desperdi\u00e7ara nas idas e vindas, nas buscas, no refeit\u00f3rio<br \/>\nsombrio. Quantas horas? A falta de um rel\u00f3gio me desorientava. Suponho<br \/>\nhavermo-nos retardado ali, de p\u00e9, meio indiferentes, avan\u00e7ando<br \/>\num passo, outro passo, como bichos mi\u00fados a caminhar para uma goela<br \/>\nde cobra; mas isto \u00e9 reminisc\u00eancia quase a apagar-se, neblina<br \/>\nde sonho. Nessa paralisia da vontade os minutos se encolhem ou se alongam<br \/>\ndesesperadamente. Afinal fui engolido, achei-me num estreito v\u00e3o, barras<br \/>\nnegras de ferro em frente e \u00e0 retaguarda. A esquerda um sujeito de<br \/>\nzebra indicou uma cadeira e entrou a desculpar-se: infelizmente era obrigado<br \/>\na tosquiar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia, declarei sentando-me, a valise<br \/>\nnas pernas.<\/p>\n<p>E o barbeiro iniciou a tarefa, meteu-me nos cabelos uma pequena m\u00e1quina<br \/>\ncega. Verboso, prosseguia nas justifica\u00e7\u00f5es, pensando causar-me<br \/>\ndano; carrasco am\u00e1vel, queria harmonizar-se com a v\u00edtima. A<br \/>\nloquacidade me aborrecia; era espantoso imaginarem-me capaz de guardar ali<br \/>\nqualquer esp\u00e9cie de vaidade.<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, n\u00e3o se preocupe. Vai muito bem. Continue o seu trabalho.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 incomodando muito? &#8211; De forma nenhuma. Vai muito bem.<\/p>\n<p>O infame instrumento arrancava-me os p\u00ealos, e isto me dava picadas<br \/>\nhorr\u00edveis no couro cabeludo. A opera\u00e7\u00e3o findou, ergui-me,<br \/>\npassei os dedos no cr\u00e2nio liso, arrepiado na friagem da noite. Diabo.<br \/>\nEst\u00e1vamos no inverno, a cabeleira ia fazer-me falta. Um burburinho<br \/>\nextenso anunciava multid\u00e3o.<\/p>\n<p>ALGU\u00c9M me chamou, perto, avizinhei-me da grade interior, percebi no<br \/>\noutro lado uma figura indistinta. Reconheci-a pela voz mansa, dormente. Depois,<br \/>\nhabituando os olhos \u00e0 luz morti\u00e7a, divisei as fei\u00e7\u00f5es<br \/>\nde Vanderlino, o mo\u00e7o calmo, vagaroso, que no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios<br \/>\ngastara semanas destruindo um cabo de vassoura, talhando pe\u00e7as de xadrez<br \/>\na canivete. Parecia \u00e0 vontade, como se estivesse em casa, e manifestava<br \/>\num prazer absurdo ao ver-me ali. Ficou um minuto a falar oferecendo qualquer<br \/>\ncoisa, mas n\u00e3o consegui entend\u00ea-lo: a minha aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nfixava-se no lugar sombrio onde ele se achava. Atrav\u00e9s das barras de<br \/>\nferro uma turba confusa me surgia de chofre, corpos indecisos a mexer-se,<br \/>\nem p\u00e9, de c\u00f3coras, estendidos, espalhando o surdo rumor j\u00e1<br \/>\nnotado enquanto me raspavam a cabe\u00e7a. Nenhuma particularidade, som<br \/>\nou vis\u00e3o, se destacava nessa balb\u00fardia. Apenas o novelo animado<br \/>\na desdobrar-se no escuro e o burburinho a rolar. Um cheiro desagrad\u00e1vel,<br \/>\ncomplexo, indeterminado, provocava tosse.<\/p>\n<p>Abriu-se a porta, avancei, num instante me vi mudado em part\u00edcula<br \/>\nda massa heterog\u00eanea. Achavam-se ali provavelmente os bichos curiosos<br \/>\nexpostos no relat\u00f3rio de Chermont.<\/p>\n<p>Perdiam-se naquele fervilhar de corti\u00e7o a zumbir, e a minha curiosidade<br \/>\nminguava no alvoro\u00e7o. Capotes e redes indicaram-me os companheiros<br \/>\nde viagem, num grupo. Haviam entrado antes ou depois de mim? Vanderlino prosseguia<br \/>\nna conversa. Levou-me para o centro do galp\u00e3o, e s\u00f3 a\u00ed<br \/>\ncompreendi a oferta muitas vezes repetida: era-me poss\u00edvel dormir ali.<br \/>\nReuniu a esteira dele \u00e0 do vizinho e conseguiu arranjar o espa\u00e7o<br \/>\nnecess\u00e1rio a tr\u00eas indiv\u00edduos. Sentei-me na urdidura gasta<br \/>\nde pipiri, fiz da valise travesseiro, pus-me a fumar, n\u00e3o distinguindo<br \/>\nbem as palavras de Vanderlino.<\/p>\n<p>Surgiram-me de relance caras j\u00e1 vistas, umas conhecidas, outras duvidosas.<br \/>\nCansava-me fazendo perguntas mudas: &#8211; &#8220;Onde terei visto esse tipo?&#8221;<br \/>\nA dois passos alguns sujeitos nos examinavam fixos, indiscretos; julguei-os<br \/>\nespi\u00f5es, interessados em descobrir um movimento, ou olhar suspeito,<br \/>\navisar a pol\u00edcia. Joguei fora a ponta do cigarro, os homens se lan\u00e7aram<br \/>\nsobre ela, empurrando-se. Levantaram-se. A ponta do cigarro tinha desaparecido.<br \/>\nCom um estremecimento, recordei-me do aviso do soldado, no p\u00e1tio; a<br \/>\ninesperada vileza dizia claro o valor do fumo na pris\u00e3o. Desejei distribuir<br \/>\ncigarros aos infelizes; acanhei-me, fingi distra\u00e7\u00e3o, receando<br \/>\nvex\u00e1-los. Continuaram perto, observando, a rondar.<\/p>\n<p>Chamaram-me da porta; levantei-me, para l\u00e1 me dirigi, estranhando<br \/>\nque algu\u00e9m j\u00e1 me soubesse o nome; andei lento, fazendo curvas<br \/>\ne ziguezagues, entre as esteiras muito numerosas no ch\u00e3o sem ladrilho.<br \/>\nAvizinhei-me da grade, vi al\u00e9m dos var\u00f5es um rapaz magro, pavoneante<br \/>\nna farda nova. Em crian\u00e7a, tinha-me conhecido: era filho de Jos\u00e9<br \/>\nPl\u00e1cido. Jos\u00e9 Pl\u00e1cido? Tentei lembrar-me. Um sapateiro<br \/>\naleijado das pernas, compadre de meu pai.<\/p>\n<p>&#8211; Sei. Morava na Rua do Gurganema. Ainda \u00e9 vivo? Estava morto, presumo,<br \/>\ne com isto a minha curiosidade terminou. Esse encontro n\u00e3o me deu nenhum<br \/>\ncontentamento. Pl\u00e1cido mo\u00e7o ficou um instante a encarar-me severo,<br \/>\nexibindo superioridade; constrangi-me supondo nele o intuito de acabrunhar-me.<br \/>\nArredou-se, outro soldadinho veio substitu\u00ed-lo, propondo-se, num cochicho,<br \/>\na servir de intermedi\u00e1rio se eu precisasse qualquer coisa do exterior.<br \/>\nRealizava-se muito cedo a promessa do sargento. Agradeci. Haveria de precisar,<br \/>\ncom certeza. N\u00e3o me comportava de maneira conveniente: a postura e<br \/>\na linguagem violavam as normas. Sem ambages, o anspe\u00e7ada Aguiar encarregou-se<br \/>\nde me explicar isso. Mi\u00fado e teso, surgiu, olhou-me duro, resmungou:<br \/>\n&#8211; Cruza os bra\u00e7os, chefe.<\/p>\n<p>Em mudo assombro, devo ter-me conservado longo tempo im\u00f3vel, a vista<br \/>\nescura, as id\u00e9ias em fuga, o cora\u00e7\u00e3o a estalar de raiva<br \/>\ne desespero; o ar frio da noite veio outra vez morder-me o couro cabeludo.<br \/>\nTer-me-iam largado aquela frase? Inclinava-me a duvidar, t\u00e3o inconceb\u00edvel<br \/>\nera, e esfor\u00e7ava-me por admiti-Ia, conjug\u00e1-la a farrapos de<br \/>\nnot\u00edcias, compreender a situa\u00e7\u00e3o. Achava-me est\u00fapido.<br \/>\nEvidentemente as palavras tinham sido proferidas, necess\u00e1rio repetir<br \/>\nisto. Surpreendiam-me nelas dois pormenores: o sujeito usava ironia, chamando-me<br \/>\nchefe, e tuteava-me. Na surpresa, virei-me para os lados, procurando ver se<br \/>\na ordem singular n\u00e3o se dirigia a outra pessoa. Atrav\u00e9s da n\u00e9voa<br \/>\ndistingui a pequena dist\u00e2ncia os \u00f3culos do velho Eus\u00e9bio,<br \/>\ncapotes, redes, confusas lembran\u00e7as da semana inc\u00f4moda. Tolice<br \/>\nquerer enganar-me: aquela miser\u00e1vel insignific\u00e2ncia falava comigo.<br \/>\nPorque me espantava? Casos semelhantes me haviam sido v\u00e1rias vezes<br \/>\nnarrados, causando abalo r\u00e1pido. Julgara-os, desatento, fatos poss\u00edveis,<br \/>\nimprov\u00e1veis. Agora me atordoava, buscando aflito meios para resistir.<br \/>\nNada achei. Dentro de mim \u00f3dio impotente, enleio, a carne a inteiri\u00e7ar-se,<br \/>\narrepios a subir-me o espinha\u00e7o, a torturar-me o cr\u00e2nio pelado;<br \/>\nfora, trouxas, pacotes, figuras nubladas, os \u00f3culos medrosos do velho<br \/>\nEus\u00e9bio. In\u00fatil pensar em defender-me. Certo a criatura nanica<br \/>\nera d\u00e9bil, mas fortificava-se por detr\u00e1s de barras de ferro,<br \/>\nas armas do governo a protegiam, davam-lhe emp\u00e1fia segura. No desarranjo<br \/>\nmoment\u00e2neo o que mais me impressionou foi sentir-me inteiramente s\u00f3.<br \/>\nHavia em torno um milheiro de homens, com certeza, mas a horr\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde isolamento empolgava-me.<\/p>\n<p>Cruzei os bra\u00e7os, aniquilei-me. A vontade sumira-se, o meu corpo<br \/>\ninfeliz era um conjunto de trapos bambos. Vendo-me assim, vazio e inerte,<br \/>\no anspe\u00e7ada Aguiar disse-me que as esteiras viriam no dia seguinte;<br \/>\naquela noite dormir\u00edamos na terra nua.<\/p>\n<p>Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Ia retirar-me, um guarda me deteve com esta decis\u00e3o incompreens\u00edvel:<br \/>\n&#8211; Na formatura re\u00fana os seus homens l\u00e1 no fundo.<\/p>\n<p>&#8211; Os meus homens? gaguejei atarantado.<\/p>\n<p>&#8211; Os seus companheiros. Mande que eles formem l\u00e1 na porta.<\/p>\n<p>Sucumbido, fui apontar aos recrutas o lugar onde nos alinhar\u00edamos.<br \/>\nIsto me rebaixava mais que a atitude humilde na presen\u00e7a do anspe\u00e7ada.<br \/>\nUm momento me anulara, incapaz da m\u00ednima rea\u00e7\u00e3o, meio<br \/>\ncad\u00e1ver. Pretendiam agora infamar-me, transformar-me em vigia dos meus<br \/>\namigos. O terror me obrigaria a mant\u00ea-los na disciplina e, sendo preciso,<br \/>\ndenunci\u00e1-los. Um instrumento dos verdugos enxameantes al\u00e9m da<br \/>\ngrade. Cabo de turma, com horror senti-me cabo de turma. Chegaria a conseguir<br \/>\nbastante vileza para desempenhar esse papel? Enquanto me dirigia ao grupo<br \/>\ne indicava a extremidade obscura do galp\u00e3o, atenazava-me a pergunta<br \/>\nansiosa; e a resposta se esbo\u00e7ava no rosto zombeteiro de Jo\u00e3o<br \/>\nRocha. O mulatinho parecia felicitar-me com um risinho encolhido e enviava-me<br \/>\nespiadelas de soslaio, exibindo respeito burlesco. Patife. Os outros, glaciais,<br \/>\ncome\u00e7avam talvez a desprezar-me. Tencionava amparar-me neles, e a dura<br \/>\nreserva feria-me, pior que bofetada. Esses desentendimentos originam fundos<br \/>\nrancores, \u00f3dios, e n\u00e3o nos surpreendemos se uma criatura hoje<br \/>\nse inflama a cantar hinos revolucion\u00e1rios e amanh\u00e3 cochicha<br \/>\npelos cantos, envia cartas \u00e0 autoridade. Reunindo a custo indecisos<br \/>\nfragmentos de energia, julguei-me incapaz de chegar a isso &#8211; e a desconfian\u00e7a<br \/>\nt\u00e1cita flagelava-me. Novamente a solid\u00e3o me envolveu, aqueles<br \/>\nhomens se distanciavam, como se ainda estivessem no Rio Grande, no Paran\u00e1,<br \/>\nterras desconhecidas. Separei-me deles, voltei ao meu pouso, sentei-me na<br \/>\nvalise; o esquisito abandono pouco a pouco se sumiu. N\u00e3o valia a pena<br \/>\natormentar-me com a opini\u00e3o alheia. Era enorme o alojamento, sem d\u00favida<br \/>\nestava ali um milheiro de pessoas.<\/p>\n<p>Vanderlino me interrompeu c\u00e1lculos dif\u00edceis e apresentou uma<br \/>\ndelas, rapag\u00e3o espada\u00fado, simp\u00e1tico, o olho vivo, de<br \/>\ngavi\u00e3o. Uma curiosa madeixa de cabelos brancos enfeitava-lhe a testa<br \/>\ne o l\u00e1bio superior se erguia, descobrindo os dentes, num sorriso sarc\u00e1stico.<br \/>\nFisionomia aberta, ar decidido. Admirou-me a franqueza de Vanderlino ao dizer<br \/>\no nome e o of\u00edcio da personagem.<\/p>\n<p>&#8211; Ga\u00facho, ladr\u00e3o, arrombador.<\/p>\n<p>Um insulto. Como se ofendia um homem daquele jeito, cara a cara, sem met\u00e1foras?<br \/>\nExaminei os dois um instante, reconsiderei. No Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios,<br \/>\nVanderlino era um sujeito de excessiva delicadeza; a voz calma n\u00e3o<br \/>\nse alteava; nunca melindraria ningu\u00e9m. E Ga\u00facho nem de longe<br \/>\nparecia injuriar-se. Tinha a apar\u00eancia de uma ave de rapina. Estendeu-me<br \/>\na garra larga, acocorou-se junto \u00e0 esteira, p\u00f4s-se a conversar<br \/>\nnaturalmente. Apertando-lhe a m\u00e3o, declarei ter muito prazer em conhec\u00ea-lo.<br \/>\nTinha. N\u00e3o era apenas curiosidade. Finda a surpresa, confessei a mim<br \/>\nmesmo que poderia tornar-me sem esfor\u00e7o amigo do ladr\u00e3o. A firmeza,<br \/>\na aus\u00eancia de hipocrisia, a coragem de afirmar, tudo revelava um car\u00e1ter.<br \/>\nLembrava-me dos modos esquivos dos meus companheiros, da mal\u00edcia estulta<br \/>\nde Jo\u00e3o Rocha. Bem. Cortavam-me v\u00e1rias amarras, vidas estranhas<br \/>\niam patentear-se no formigueiro em rebuli\u00e7o. Dos r\u00e1pidos minutos<br \/>\ndesse encontro apenas resta o bom efeito causado pelo tipo anormal. Ga\u00facho<br \/>\nfalava g\u00edria, de quando em quando me obrigava a interromp\u00ea-lo:<br \/>\n&#8211; Que significa escrunchante? Escrunchante? Ora essa! O lunfa que trabalha<br \/>\nno escruncho, quer dizer, no arrombamento. Era a profiss\u00e3o dele. S\u00fabito<br \/>\na palestra morreu.<\/p>\n<p>&#8211; Formatura geral, gritou um negro l\u00e1 da porta. Deslocaram-se com<br \/>\nrumor os objetos espalhados no solo, uma nuvem de poeira toldou as luzes escassas,<br \/>\ntoda a gente se moveu, organizaram-se \u00e0 pressa numerosas filas. A minha,<br \/>\nao fundo, era a mais curta e algum tempo ficou ac\u00e9fala. De repente<br \/>\nmandaram-me sair de forma e achei-me em frente aos dezesseis homens firmes,<br \/>\ndireitos, de bra\u00e7os cruzados. Cabo de turma, realizava-se a previs\u00e3o<br \/>\nfunesta. Mas n\u00e3o me conservaria no miser\u00e1vel cargo: era-me imposs\u00edvel<br \/>\nfiscalizar os outros; naquele instante cerrava as p\u00e1lpebras, ignorava<br \/>\nos acontecimentos em redor. Uma voz long\u00ednqua chegava-me aos ouvidos,<br \/>\na cantar n\u00fameros, e nem me ocorria perguntar a mim mesmo a significa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeles. Abrindo os olhos, convencia-me da exist\u00eancia de vultos indecisos<br \/>\na transitar para cima, para baixo, certamente fazendo a contagem. E desgostava-me<br \/>\nenxergar a careta manhosa de Jo\u00e3o Rocha. Tirou-me desse enleio um forte<br \/>\nbarulho. Despertei, vi a dois passos um soldado cafuzo a sacudir violentamente<br \/>\no primeiro sujeito da fila vizinha. Muxic\u00f5es terr\u00edveis. A m\u00e3o<br \/>\nesquerda, segura \u00e0 roupa de zebra, arrastou o paciente desconchavado,<br \/>\no punho direito malhou-o com f\u00faria na cara e no peito. A fisionomia<br \/>\ndo agressor estampava c\u00f3lera bestial; n\u00e3o me lembro de focinho<br \/>\nt\u00e3o repulsivo, espuma nos bei\u00e7os grossos, os bugalhos duas postas<br \/>\nde sangue. Os m\u00fasculos rijos cresciam no exerc\u00edcio, mostrando<br \/>\nimenso vigor. Presa e inerme, a v\u00edtima era um boneco a desconjuntar-se:<br \/>\nnenhuma defesa, nem sequer o gesto maquinal de proteger alguma parte mais<br \/>\nsens\u00edvel. Foi atirada ao ch\u00e3o, e o enorme bruto p\u00f4s-se<br \/>\na dar-lhe pontap\u00e9s. Longo tempo as biqueiras dos sapatos golpearam<br \/>\nrijo as costelas e o cr\u00e2nio pelado. Cansaram-se enfim desse jogo, o<br \/>\ncafuzo parou, deu as costas pisando forte, soprando com ru\u00eddo, a consumir<br \/>\nuns restos de furor. O corpo estragado conservou-se im\u00f3vel. Estremeceu,<br \/>\ndevagar foi-se elevando, ag\u00fcentou-se nas pernas bambas, mexeu-se a custo<br \/>\ne empertigou-se na fileira, os bra\u00e7os cruzados, impass\u00edveis.<\/p>\n<p>Todos em roda estavam assim, firmes, de bra\u00e7os cruzados, impass\u00edveis.<br \/>\nNenhum sinal de protesto, ao menos de compaix\u00e3o. Tamb\u00e9m me comportara<br \/>\ncom essa horr\u00edvel indiferen\u00e7a, como se assistisse a uma cena<br \/>\ncomum. \u00c9ramos frangalhos; \u00e9ramos fontes secas; \u00e9ramos<br \/>\ndesgra\u00e7ados ego\u00edsmos cheios de pavor. Tinham-nos reduzido a<br \/>\nisso. Qual a raz\u00e3o daquela ferocidade? A cabe\u00e7a fervia-me; as<br \/>\ndores no p\u00e9 da barriga tornavam dif\u00edcil a posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nvertical: debalde tentava aprumar-me, inclinava-me para a direita. Precisava<br \/>\ndescansar. J\u00e1 nem me importava saber a causa da sev\u00edcia imprevista.<br \/>\nFalta ligeira: algum descuido, gesto involunt\u00e1rio, cochicho a perturbar<br \/>\no sil\u00eancio. Est\u00e1vamos reduzidos \u00e0quilo. Derreava-me tanto<br \/>\nque julguei perder o equil\u00edbrio, estender-me na terra. O cafuzo viria<br \/>\nlevantar-me com a biqueira do sapato. Est\u00e1vamos reduzidos a isso.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto durou o supl\u00edcio. Debandamos, houve uma lufa-lufa<br \/>\nno arranjo das camas. Andei a capengar na multid\u00e3o, em busca de Vanderlino.<br \/>\nAlcancei a nesga de esteira, pude sentar-me, fumar. Os sucessos do longo dia<br \/>\nmisturavam-se, pesavam demais. Imposs\u00edvel dizer qualquer coisa. Estirei-me,<br \/>\nca\u00ed num sono de pedra.<\/p>\n<p>12<\/p>\n<p>UM toque de corneta ergueu-me, e ouvi o grito da v\u00e9spera: &#8211; Formatura<br \/>\ngeral.<\/p>\n<p>Ainda quase a dormir, vi-me arrastado pela multid\u00e3o que fervilhava<br \/>\ncom rumor, dobrando cobertas, enrolando esteiras. Andei \u00e0 toa, maquinal,<br \/>\nignorando o motivo da agita\u00e7\u00e3o; acordei, a mem\u00f3ria funcionou,<br \/>\no grito adquiriu sentido Pela primeira vez me sucedia levantar-me durante<br \/>\no sono e despertar caminhando. L\u00e1 fora havia trevas. Porque nos vinham<br \/>\nperturbar t\u00e3o cedo, roubar-nos alguns minutos de repouso? Essa pergunta<br \/>\ninexeq\u00fc\u00edvel juntava-se a outra, formulada com certeza no meio<br \/>\nda confus\u00e3o: onde me deveria colocar? Os meus companheiros de viagem<br \/>\nsumiam-se dispersos, eram fragmentos na balb\u00fardia.<\/p>\n<p>Novamente cantaram n\u00fameros, uma longa tabuada. Na inconsci\u00eancia<br \/>\ne na ataranta\u00e7\u00e3o, achei-me numa fila, n\u00e3o longe da porta.<br \/>\nFelizmente ocupava o quarto ou quinto lugar, podia ocultar-me, n\u00e3o<br \/>\nver a tromba e os olhos vermelhos do soldado cafuzo que tanto me havia perturbado<br \/>\nna v\u00e9spera. Dois ou tr\u00eas passos atr\u00e1s de mim o velho Eus\u00e9bio<br \/>\nse aniquilava, e alguns capotes na vizinhan\u00e7a indicaram-me a dissolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo nosso grupo. Isto me sossegou, vi-me livre do humilhante dever imposto<br \/>\nhoras antes. N\u00e3o me deixariam no cargo infame, decerto, mas surpreendeu-me<br \/>\nnotarem t\u00e3o depressa a minha incapacidade. Bem. Ia tornar-me invis\u00edvel,<br \/>\nacabaria acostumando-me \u00e0 vida no formigueiro.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 est\u00e3o na bagun\u00e7a! exclamou algu\u00e9m com estrid\u00eancia<br \/>\narrepiada.<\/p>\n<p>Virei-me, enxerguei um tipinho de farda branca, de gorro branco, a passear<br \/>\nem frente \u00e0s linhas estateladas. Era vesgo e tinha um bra\u00e7o<br \/>\nmenor que o outro, suponho. N\u00e3o me seria poss\u00edvel afirmar, foi<br \/>\nimpress\u00e3o moment\u00e2nea. Um sujeito mi\u00fado, estr\u00e1bico<br \/>\ne manco a compensar todas as defici\u00eancias com uma arenga en\u00e9rgica,<br \/>\nem termos que me arrisco a reproduzir, sem receio de enganar-me. Um bichinho<br \/>\naleijado e branco, de farda branca e gorro certinho, redondo. Parecia ter<br \/>\numa banda morta. O discurso, incisivo e r\u00e1pido, com certeza se dirigia<br \/>\naos rec\u00e9m-chegados: &#8211; Aqui n\u00e3o h\u00e1 direito. Escutem. Nenhum<br \/>\ndireito. Quem foi grande esque\u00e7a-se disto. Aqui n\u00e3o h\u00e1<br \/>\ngrandes. Tudo igual. Os que t\u00eam protetores ficam l\u00e1 fora. Aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVoc\u00eas n\u00e3o v\u00eam corrigir-se, est\u00e3o ouvindo? N\u00e3o<br \/>\nv\u00eam corrigir-se: v\u00eam morrer Embora n\u00e3o me restasse ilus\u00e3o,<br \/>\na franqueza nua abalou-me: sem papas na l\u00edngua, suprimiam-nos de chofre<br \/>\nqualquer direito e anunciavam friamente o des\u00edgnio de matar-nos. Singular.<br \/>\nConstitu\u00edamos uma sociedade numerosa, e n\u00e3o t\u00ednhamos<br \/>\nnenhum direito, nem ao menos o direito de viver. Esquisita afirma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nV\u00e1rias pessoas estavam ali sem processo, algumas deviam quebrar a cabe\u00e7a<br \/>\na indagar porque as tratavam daquele jeito; n\u00e3o havia julgamento e<br \/>\nexpunham claro o desejo de assassin\u00e1-las. N\u00e3o nos faziam amea\u00e7a<br \/>\nv\u00e3, como notei depois. Atanazavam-me as palavras do caolho: todos iguais,<br \/>\nnenhum direito, os soldados podiam jogar-nos impunemente no ch\u00e3o, rolar-nos<br \/>\na pontap\u00e9s. E finar-nos-\u00edamos devagar. Isso me trouxe ao pensamento<br \/>\na brandura dos nossos costumes, a \u00edndole pac\u00edfica nacional apregoada<br \/>\npor sujeitos de m\u00e1 f\u00e9 ou idiotas. Em vez de meter-nos em forno<br \/>\ncremat\u00f3rio, iam destruir-nos pouco a pouco. Certamente era absurdo<br \/>\nresponsabilizar o Brasil, quarenta milh\u00f5es de habitantes, pela senten\u00e7a<br \/>\ndo zarolho. Ali dentro haveria criaturas bem intencionadas, mas n\u00e3o<br \/>\nnos valeriam muito na engrenagem que nos agarrava. Lembrei-me do sargento,<br \/>\nda voz morna a gemer um conselho brando, no escuro. N\u00e3o podia alimentar-me,<br \/>\ne esses prop\u00f3sitos generosos deixavam firme a revela\u00e7\u00e3o<br \/>\ndura: &#8211; &#8220;V\u00eam morrer.&#8221; Sem d\u00favida. Quando chegaria a<br \/>\nminha morte? Embora a julgasse pr\u00f3xima, de nenhum modo me desgostava.<\/p>\n<p>Amanhecia. Uma das paredes laterais do galp\u00e3o fechava-se, inteiri\u00e7a;<br \/>\nhavia na outra janelas altas, inating\u00edveis: Por uma larga porta v\u00edamos,<br \/>\natrav\u00e9s das barras, as cercas de arame. Abriu-se, as filas moveram-se,<br \/>\nmarcharam, entraram no curral, volveram \u00e0 esquerda, transpuseram a<br \/>\ncancela e, engatadas em linha extensa, ondularam no p\u00e1tio, sob as \u00e1rvores<br \/>\nde grandes folhas amarelas, dirigindo-se ao refeit\u00f3rio. And\u00e1vamos<br \/>\nlentos, em fundo sil\u00eancio, os bra\u00e7os cruzados. Invadimos a saleta<br \/>\nestreita e longa, novamente me achei sentado num banco, as m\u00e3os a descansar<br \/>\nem t\u00e1buas postas sobre cavaletes. Aos lados, em frente, pessoas estranhas;<br \/>\napenas reconheci a figura bamba do velho Eus\u00e9bio. Importunado pelo<br \/>\ncheiro desagrad\u00e1vel, acendi um cigarro. A luz da manh\u00e3, as pranchas<br \/>\nnuas eram horr\u00edveis. Em torno, caras macilentas. Chamaram-me a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nforquilhas de numerosas pontas, arbustos secos feitos cabides, onde se penduravam<br \/>\ncanecos de lata, formando cachos barulhentos. Homens de zebra mexiam neles,<br \/>\ndistribu\u00edam r\u00e1pidos as vasilhas nas mesas. Atentei na minha,<br \/>\nsuja, enferrujada, a asa cheia de lama, quis mostr\u00e1-la ao sujeito que<br \/>\nnos servia; moderei-me: imposs\u00edvel reclamar, e todas eram mais ou menos<br \/>\nassim. Um tipo de fisionomia repulsiva, manejando enorme bule de folha, vazou<br \/>\nnelas uma beberagem turva. Baixei a cabe\u00e7a, vi um p\u00e3ozinho redondo<br \/>\nsobre a t\u00e1bua; no l\u00edquido frio boiavam cad\u00e1veres de moscas.<br \/>\nN\u00e3o percebendo em roda sinal de nojo, tentei vencer a repulsa, mastigar<br \/>\na comida insuficiente. Em v\u00e3o busquei dividi-Ia: a massa obstinou-se,<br \/>\npegajosa, mole: tinha a brandura resistente de borracha. Soltei-a, fiquei<br \/>\nalgum tempo a olhar as moscas mortas. Enfim me decidi: retirei-as, bebi o<br \/>\ncaneco de \u00e1gua choca. Seria mate? Veio-me a id\u00e9ia extravagante<br \/>\nde que a miser\u00e1vel insipidez era uma infus\u00e3o de capim seco.<br \/>\nNada me levava a supor isto, mas a id\u00e9ia permaneceu. O rumor de centenas<br \/>\nde corpos em movimento deu sinal de regresso. Ergui-me, saltei o banco, ia<br \/>\nenfileirar-me quando um vizinho me bateu no ombro, indicou o p\u00e3o el\u00e1stico<br \/>\nabandonado sobre a mesa: &#8211; Vai deixar isso? &#8211; Claro.<\/p>\n<p>No rosto do homem havia espanto e censura: &#8211; Guarde. Vai precisar depois.<\/p>\n<p>O enj\u00f4o me impedia aceitar o conselho prudente; murmurei a recusa<br \/>\nmaquinal jogada \u00e0 noite diante das manchas quase invis\u00edveis<br \/>\nnum prato invis\u00edvel: &#8211; Obrigado. N\u00e3o tenho fome.<\/p>\n<p>O sujeito, r\u00e1pido, meteu o p\u00e3o no bolso. Entramos em forma,<br \/>\nvoltamos, cabisbaixos e de bra\u00e7os cruzados. Houve uma az\u00e1fama<br \/>\nno alojamento: desfizeram as camas, espalha ram-se no curral, estenderam len\u00e7\u00f3is<br \/>\ne esteiras ao sol. Deixei-me arrastar, sem perceber direito porque nos mex\u00edamos,<br \/>\nachei-me sentado junto a uma cerca de arame. Lembro-me de ter lan\u00e7ado<br \/>\nesta pergunta v\u00e1rias vezes: quantos \u00e9ramos? As respostas divergiam,<br \/>\nmil, novecentos, e obstinava-me na indaga\u00e7\u00e3o, como se tivesse<br \/>\ngrande interesse em fixar o n\u00famero exato. Convenci-me enfim de que<br \/>\n\u00e9ramos novecentas pessoas; a curiosidade esfriou e derramou-se.<\/p>\n<p>Na leve neblina da manh\u00e3 uma sombra vermelha passou perto de mim;<br \/>\natentei nela, distingui nos ombros de um rapaz moreno o poncho revolucion\u00e1rio<br \/>\nde Tamandu\u00e1. Nas idas e vindas, no intermin\u00e1vel borbulhar de<br \/>\nespuma, os objetos deslocavam-se, em trocas, em ofertas. Surpreendeu-me ver<br \/>\nmuitos indiv\u00edduos com as roupas pelo avesso, os bolsos para dentro.<br \/>\nEra desnecess\u00e1rio explicarem-me a raz\u00e3o dessa cautela: a singular<br \/>\nsociedade permitia o furto e resguardava-se, nem sequer fingia dissimular<br \/>\nos receios. Talvez o rapaz moreno houvesse abafado o poncho rubro.<\/p>\n<p>Novecentos homens num curral de arame. Pensei na estrid\u00eancia, nos<br \/>\narrepios de Tamandu\u00e1: &#8211; &#8220;Bichos, viv\u00edamos como bichos.&#8221;<br \/>\nA grade tinha ficado aberta. Al\u00e9m dela passavam criaturas meio nuas,<br \/>\nvarrendo a pris\u00e3o. Que nome tinham as plantas esguias do monte pr\u00f3ximo?<br \/>\nNovo esclarecimento me chegou: piteiras. Bem. O guarda vesgo de roupa branca<br \/>\nse excedera: ainda me restava o direito de informar-me. Estavam ali novecentas<br \/>\npessoas e as \u00e1rvores finas se chamavam piteiras.<\/p>\n<p>Vi organizarem-se as filas do trabalho e incorporei-me numa, ao acaso: mandar-me-iam<br \/>\ncom certeza carregar tijolos, pois me faltava habilidade para o servi\u00e7o<br \/>\nna horta ou na cozinha. No transporte de tijolos ocupava-se a maioria dos<br \/>\npresos. Avizinhamo-nos pouco a pouco de um tenente de pol\u00edcia, alto,<br \/>\nde bei\u00e7o rachado, que fazia a distribui\u00e7\u00e3o O companheiro<br \/>\nda retaguarda sussurrou-me a alcunha dessa figura: Bicicleta. Procurei o motivo<br \/>\ndo apelido curioso, nada vi semelhante ao objeto da compara\u00e7\u00e3o:<br \/>\num homem atento, grave, de rosto inexpressivo. Ao chegar a minha vez, examinou-me<br \/>\nde relance e determinou conciso: &#8211; Volte.<\/p>\n<p>&#8211; Porqu\u00ea? murmurei atrapalhado, esquecendo o lugar onde me achava.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 doente.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Estou bem, respondi \u00e0 toa, vexado com a exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Seria uma prefer\u00eancia injustific\u00e1vel? Bicicleta passou-me o<br \/>\nrabo do olho e insistiu: &#8211; Volte.<\/p>\n<p>Sa\u00ed da fila, dei as costas, de novo me sentei ao p\u00e9 da cerca,<br \/>\napoiando-me numa estaca. A minha fraqueza era ent\u00e3o vis\u00edvel,<br \/>\njulgavam-me incapaz de resistir ao peso de tr\u00eas tijolos. N\u00e3o<br \/>\nme sentia t\u00e3o combalido, apesar de mexer-me a custo, e afligia-me o<br \/>\npensamento de lesar Vanderlino, os homens do Paran\u00e1 e do Rio Grande,<br \/>\nenviados em turmas. A exce\u00e7\u00e3o me envergonhava: tinha apar\u00eancia<br \/>\nde favor, e isto era desagrad\u00e1vel. Algumas palavras em conversa ligeira<br \/>\ndissiparam-me os escr\u00fapulos.<\/p>\n<p>&#8211; Que idade tem o senhor? perguntou-me algu\u00e9m. Veio-me o desejo de<br \/>\nconhecer o meu aspecto: &#8211; Calcule.<\/p>\n<p>&#8211; Sessenta e cinco anos, disse o interlocutor sem vacilar.<\/p>\n<p>&#8211; Por a\u00ed, pouco mais ou menos, concordei num abatimento profundo.<\/p>\n<p>Sessenta e cinco anos. Andava em quarenta e tr\u00eas, quarenta e tr\u00eas<br \/>\ne meses. Atribu\u00edam-me sessenta e cinco. Essa carga de vinte e dois<br \/>\nanos explicava a recusa do oficial: &#8211; &#8220;Est\u00e1 doente. Volte.&#8221;<br \/>\nUma espiada de trav\u00e9s e a decis\u00e3o: &#8211; &#8220;Volte.&#8221; A noite,<br \/>\no anspe\u00e7ada Aguiar, vendo-me curvo, a arrimar-me \u00e0 parede, tinha-me<br \/>\noferecido uma cadeira. Percebia agora porque me haviam mandado reunir os novatos<br \/>\nno fim do alojamento a velhice me permitia essa infeliz vantagem. Mas achava-me<br \/>\nt\u00e3o bambo, t\u00e3o murcho, que me deixavam logo em sossego. Uma<br \/>\nru\u00edna, imprest\u00e1vel, nem servia para carregar tijolos. Para bem<br \/>\ndizer, o est\u00f4mago desaparecera; a dorm\u00eancia da perna alcan\u00e7ava<br \/>\no joelho; as ferroadas no p\u00e9 da barriga n\u00e3o cessavam. As dores,<br \/>\no torpor e o v\u00e1cuo n\u00e3o me pareciam contudo sintomas graves,<br \/>\ne espantava-me sab\u00ea-los percept\u00edveis. Sessenta e cinco anos.<br \/>\nSe pudesse ver-me num espelho, notaria medonhos estragos, devasta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO guarda manco e vesgo afirmara: &#8211; &#8220;Aqui n\u00e3o v\u00eam corrigir-se.<br \/>\nV\u00eam morrer.&#8221; Certamente. Era assombroso, por\u00e9m, aquilo realizar-se<br \/>\nt\u00e3o depressa. A morte se aproximava, surrupiava-me de chofre vinte<br \/>\ne dois anos; o resto iria sumir-se, evaporar-se. Antes de saber isso, distra\u00eda-me<br \/>\nbuscando articular frases e gestos, olhando os montes e as piteiras a emergir<br \/>\nda luz e da bruma, o p\u00e1tio claro, as \u00e1rvores douradas. Num instante<br \/>\na curiosidade amortecia. O poncho vermelho de Tamandu\u00e1 voejava perto,<br \/>\ndava ao rapaz moreno uma vaga fei\u00e7\u00e3o de ave provocadora, a bater<br \/>\nas asas agoureiras. J\u00e1 n\u00e3o me interessava descobrir se ele estava<br \/>\nali por compra ou furto. As dores no ventre e o torpor na coxa avivaram-se.<br \/>\nIncr\u00edvel: tinham notado isso melhor que eu. Devia achar-me na verdade<br \/>\nmuito doente. A luz ruim dos cub\u00edculos do Pavilh\u00e3o debilitara-me<br \/>\na vista: para ler, era-me preciso afastar o livro, esfor\u00e7ando-me por<br \/>\nconter a dan\u00e7a caprichosa das letras. E havia tamb\u00e9m a estranha<br \/>\ninsensibilidade, o desaparecimento repentino dos desejos sexuais. Todos os<br \/>\nsentidos esmoreciam. Velho. A decrepitude me agravaria as macacoas se a senten\u00e7a<br \/>\ndo guarda n\u00e3o fosse realizar-se. Quando seria? Onde iriam enterrar-me?<br \/>\nDentro de uma semana, alta madrugada, os faxinas me levariam para um cemit\u00e9rio<br \/>\npequeno e l\u00e1 me deixariam, an\u00f4nimo. Depois, o sil\u00eancio.<br \/>\nUma semana de jejuar. O organismo achacado n\u00e3o resistiria mais. Sessenta<br \/>\ne cinco anos. Na v\u00e9spera, coxeando nas ladeiras, era-me imposs\u00edvel<br \/>\nimaginar tal coisa. A gente mais ou menos v\u00e1lida tinha sa\u00eddo<br \/>\npara o trabalho, e no curral se desmoronava o rebotalho da pris\u00e3o,<br \/>\ntipos sombrios, lentos, aquecendo-se ao sol, catando bichos mi\u00fados.<br \/>\nOs males interiores refletiam-se nas caras l\u00edvidas, escaveiradas. E<br \/>\nos externos expunham-se claros, feridas horr\u00edveis. Homens de cal\u00e7as<br \/>\narrega\u00e7adas exibiam as pernas cobertas de algod\u00e3o negro, purulento.<br \/>\nAs mucuranas haviam causado esses destro\u00e7os, e em v\u00e3o queriam<br \/>\ndar cabo delas.<\/p>\n<p>Na imensa porcaria, os infames piolhos entravam nas carnes, as chagas alastravam-se,<br \/>\nn\u00e3o havia meio de reduzir a praga. Defici\u00eancia de tratamento,<br \/>\nnenhuma higiene, quatro ou seis chuveiros para novecentos indiv\u00edduos.<br \/>\nEnfim n\u00e3o nos enganavam. Est\u00e1vamos ali para morrer.<\/p>\n<p>13<\/p>\n<p>RECOLHERAM-NOS, fecharam a grade, fomos arriar pelos cantos as nossas morrinhas.<br \/>\nTinham espalhado no galp\u00e3o uma camada espessa de areia, e quando entramos,<br \/>\nacabavam de jogar nela baldes de \u00e1gua. Supus nisso um des\u00edgnio<br \/>\nperverso: obrigavam-nos a descansar no ch\u00e3o molhado. Reconsiderei:<br \/>\ntalvez quisessem apenas reduzir, pelo menos algumas horas, a poeira sufocante.<br \/>\nRecebi uma esteira nova e curta. Estendi-a no ch\u00e3o, perto do lugar<br \/>\nonde me havia estabelecido na v\u00e9spera. Sentei-me, abri a valise, receoso<br \/>\nde algum furto durante a aus\u00eancia. Tudo em ordem, meias, cuecas, len\u00e7os,<br \/>\numa toalha mi\u00fada, a provis\u00e3o de cigarros e f\u00f3sforos.<br \/>\nAinda nenhum furto, mas era conveniente n\u00e3o separar-me dos tro\u00e7os:<br \/>\nas roupas vestidas pelo avesso anulavam tristezas, davam-me desejo de rir<br \/>\ne sugeriam-me cautela. Um grito e um aceno levantaram-me, aproximaram-me do<br \/>\nnegro que fizera a chamada e ordenara a organiza\u00e7\u00e3o das filas.<\/p>\n<p>&#8211; O seu n\u00famero \u00e9 35.35, anunciou.<\/p>\n<p>Fiquei um momento absorto, pouco a pouco me inteirei da supress\u00e3o<br \/>\ndo meu nome, substitu\u00eddo por quatro algarismos.<\/p>\n<p>&#8211; 35.35, n\u00e3o se esque\u00e7a. &#8211; Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Nada mais ouvindo, afastei-me e colhi informa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o<br \/>\nsei porque o sujeito me impressionara. Chamava-se Cubano, tinha este apelido.<br \/>\nEm geral se usavam pseud\u00f4nimos naquele meio: Ga\u00facho, Paulista,<br \/>\nPara\u00edba, Moleque Quatro. Cubano dispunha de autoridade enorme. Na falta<br \/>\ndos guardas ou do anspe\u00e7ada Aguiar, mandava e desmandava; submetia-nos<br \/>\na disciplina rigorosa e uma den\u00fancia dele trazia os castigos mais duros<br \/>\na qualquer um. Ao chegar a primeira leva, esse vasto poder se confiara a Moleque<br \/>\nQuatro, mas a en\u00e9rgica personagem, forte na capueira e no samba, n\u00e3o<br \/>\ndera conta do recado e em pouco tempo se degradava no transporte das vigas,<br \/>\num tormento. Cubano ag\u00fcentava-se no papel de c\u00e3o de fila. Era<br \/>\num sujeito de meia altura, encorpado, grave, de fala macia. O cocuruto principiava<br \/>\na desnudar-se, ia tomando fei\u00e7\u00e3o de tonsura. Caminhando, movia-se<br \/>\ntodo, para um lado, para outro, como se as juntas n\u00e3o funcionassem<br \/>\nbem. Essa maneira de andar, reum\u00e1tica, dava-lhe jeito de boneco e de<br \/>\nlonge o tornava reconhec\u00edvel pelas costas. Naquela manh\u00e3 apenas<br \/>\nme disse e repetiu o n\u00famero do batismo: 35.35. Ou 33.35, n\u00e3o<br \/>\nme lembro direito. Recordo-me dos algarismos, extinguiu-se a disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeles. Extinguiu-se de chofre: ao deitar-me na esteira, j\u00e1 se baralhavam,<br \/>\napesar do aviso: &#8211; &#8220;N\u00e3o se esque\u00e7a.&#8221; Na chamada seguinte<br \/>\nCubano berrou o n\u00famero muitas vezes, debalde; convenceu-se depois de<br \/>\nque me era imposs\u00edvel t\u00ea-lo de cor e deixou de mencion\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Formatura geral.<\/p>\n<p>Agita\u00e7\u00e3o de carneiros, entrada ruidosa nas filas. Estive alguns<br \/>\nminutos de p\u00e9, aguardando a causa do movimento. O cochicho de um guarda,<br \/>\ne voltamos aos nossos lugares. Novamente a exig\u00eancia de Cubano: &#8211; Formatura<br \/>\ngeral.<\/p>\n<p>E o tropel de bichos mansos na areia molhada. Ordem para debandar, regresso<br \/>\n\u00e0s esteiras, \u00e0s camas, \u00e0s t\u00e1buas juntas ao fundo.<br \/>\nTerceiro chamado, quarto, quinto. Havia t\u00e1buas e camas, perto das paredes;<br \/>\nn\u00e3o as notei a princ\u00edpio, e na barafunda perdiam-se; mais tarde<br \/>\nconsegui atentar nelas. Os homens do trabalho foram chegando, sujos de p\u00f3<br \/>\nvermelho, suarentos. Cerca de meio-dia sa\u00edmos do galp\u00e3o, outra<br \/>\nvez nos dirigimos ao refeit\u00f3rio. Vi-me sentado entre as figuras vagamente<br \/>\npercebidas pela manh\u00e3. A direita enxerguei o rapaz que havia metido<br \/>\no p\u00e3o no bolso. Colheres e pratos de folhas tiniram, chocando-se na<br \/>\ndistribui\u00e7\u00e3o, e logo veio a comida: feij\u00e3o negro, farinha,<br \/>\num peda\u00e7o de carne. Uma insignific\u00e2ncia, ningu\u00e9m podia<br \/>\nalimentar-se com t\u00e3o pouco.<\/p>\n<p>Mas o que me assombrava era o aspecto da b\u00f3ia. Horrorizei-me, pensando<br \/>\nem v\u00f4mito, em lata de lixo. Afirmando a mim mesmo ser imposs\u00edvel<br \/>\num est\u00f4mago suportar aquilo, observava o contr\u00e1rio, numerosas<br \/>\npessoas devorando s\u00f4fregas, insens\u00edveis \u00e0 porcaria e ao<br \/>\ncheiro teimoso de podrid\u00e3o. O olfato, o paladar e a vista acomodavam-se<br \/>\n\u00e0s circunst\u00e2ncias. E havia um clamor surdo. Evidentemente n\u00e3o<br \/>\nse abalan\u00e7ariam a pedir qualquer coisa. Mas achavam-se esfomeados,<br \/>\nnovecentos indiv\u00edduos esfomeados a procurar migalhas nos pratos vazios.<br \/>\nGestos aflitos, desespero nos rostos, um sussurro a aumentar, queixa longa.<br \/>\nN\u00e3o os inquietava a qualidade: atormentava-os a insufici\u00eancia<br \/>\nda refei\u00e7\u00e3o torpe. Em redor de mim tudo se consumira, e obstinava-me<br \/>\na chupar o cigarro, olhando a infame ra\u00e7\u00e3o. Na farinha escura<br \/>\nhavia excremento de rato. Apesar da n\u00e1usea, parecia-me necess\u00e1rio<br \/>\ncomer, retardar a previs\u00e3o do guarda zarolho. Chegaria afinal a habituar-me,<br \/>\ncomo os outros, conseguiria vencer o enorme enj\u00f4o, matar a sensibilidade.<br \/>\nFiz um tremendo esfor\u00e7o, meti na boca uma colher de feij\u00e3o,<br \/>\nengoli r\u00e1pido. Um gosto horr\u00edvel deu-me tremuras. Percebendo-me<br \/>\nas contra\u00e7\u00f5es, um vizinho me segredou que deitavam potassa no<br \/>\nfeij\u00e3o para cozinh\u00e1-lo depressa. Atordoado, recusei-me a aceitar<br \/>\na informa\u00e7\u00e3o. Depois ca\u00ed em des\u00e2nimo profundo,<br \/>\ncontinuei a fumar, os cotovelos na prancha, num desfalecimento, as p\u00e1lpebras<br \/>\ncerradas. N\u00e3o havia meio de evitar o medonho vatic\u00ednio do zarolho.<\/p>\n<p>Tocaram-me o ombro direito, sa\u00ed da in\u00e9rcia, notei um pedido<br \/>\nfaminto na cara do homem que havia metido o p\u00e3o no bolso. Compreendeu-me<br \/>\na ren\u00fancia muda, agarrou \u00e1vido o prato, deixou-o limpo num instante.<br \/>\nA educa\u00e7\u00e3o desaparecera completamente, sumiam-se os \u00faltimos<br \/>\nresqu\u00edcios de compostura, e os infelizes procediam como selvagens.<br \/>\nNa verdade \u00e9ramos selvagens. Esgotou-se o tempo, buscamos os nossos<br \/>\nlugares, pusemo-nos em marcha; o zumbido lamentoso decresceu e findou na extensa<br \/>\nlinha resignada e lenta. A viagem curta esfalfou-me. Entrando no galp\u00e3o,<br \/>\ndeitei-me e adormeci logo. O berro de Cubano despertou-me: &#8211; Formatura geral.<\/p>\n<p>Com certeza aquilo iria prolongar-se indefinidamente, n\u00e3o nos deixariam<br \/>\nem sossego. Queriam apenas isto: mexer-nos, obrigar-nos \u00e0 correria<br \/>\nest\u00fapida. Um sono pesado amortecia me as dores agravadas ultimamente,<br \/>\ne \u00e0 ordem, sempre renovada, movia-me como son\u00e2mbulo, procurando<br \/>\nadivinhar se estava muito longe o toque de sil\u00eancio. A princ\u00edpio<br \/>\nmolh\u00e1vamos os sapatos; mas a terra secou e depois do almo\u00e7o<br \/>\numa nuvem de poeira se erguia \u00e0 cont\u00ednua desloca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAtenuava se um pouco, engrossava, e mergulhados nela respir\u00e1vamos com<br \/>\ndificuldade e toss\u00edamos. Ergui-me trinta vezes e andei como barata,<br \/>\nda fila para a esteira, da esteira para a fila. As id\u00e9ias baralhavam-se<br \/>\nem confus\u00e3o doida, um torvelinho; dilu\u00edam-se pensamento e vontade,<br \/>\na consci\u00eancia falhava. Tentando agarrar-me a qualquer coisa, absorvia-me<br \/>\nna contagem mec\u00e2nica dos exerc\u00edcios in\u00fateis.<\/p>\n<p>&#8211; Formatura geral.<\/p>\n<p>Trinta vezes. Em seguida perdi a conta. E os sucessos em roda esmoreceram,<br \/>\nfindaram. A tardinha me achei na sala comprida, em frente do jantar, mas ignoro,<br \/>\ncomo cheguei, como sa\u00ed. A repugn\u00e2ncia havia desaparecido. Insens\u00edvel.<br \/>\nnem vi quando o vizinho me retirou o prato imundo. Sei que fez isso porque<br \/>\nassim procedeu v\u00e1rios dias. N\u00e3o me lembro. As vozes abafadas,<br \/>\no rumor das colheres, o cheiro nauseabundo, a comida nojenta, as pranchas<br \/>\nnegras apagavam-se. Julgo haver dormido. Novamente no galp\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Formatura geral.<\/p>\n<p>A revista, a enfadonha cantilena dos n\u00fameros, os guardas examinando<br \/>\nas fileiras im\u00f3veis, os olhos sangrentos e maus do cafuzo, a investigar<br \/>\nculpas. Noite. Irradiava-se per to das l\u00e2mpadas uma luzinha ba\u00e7a,<br \/>\nos cantos do galp\u00e3o mergulhavam na sombra. Debandamos, cessaram as<br \/>\nchamadas e o burburinho espalhou-se.<\/p>\n<p>Estendi-me na esteira, a arquejar, descoberto, sem \u00e2nimo de abrir<br \/>\na valise, retirar alguns panos, envolver a cabe\u00e7a nua, defend\u00ea-la<br \/>\ndo ar frio. A esquerda, Vanderlino tentou puxar conversa. N\u00e3o respondi,<br \/>\nseria preciso demasiado esfor\u00e7o para entend\u00ea-lo E o solil\u00f3quio<br \/>\ndo vizinho morreu. A direita, um homem se acocorou. Distingui o riso ir\u00f4nico<br \/>\ne a mancha de cabelos brancos de Ga\u00facho, o arrombador que me havia<br \/>\nentretido na v\u00e9spera. Seria bom conhec\u00ea-lo. Se n\u00e3o fosse<br \/>\na enorme fadiga, distrair-me-ia ouvindo o rapaz, buscaria sondar os pensamentos<br \/>\ne os sentimentos de um ladr\u00e3o, mas a curiosidade arrefecia, os m\u00fasculos<br \/>\nfrouxos recusavam-se a gesticular, as p\u00e1lpebras ca\u00edam e apenas<br \/>\nme era poss\u00edvel enxergar a esquisita madeixa, o curioso ricto am\u00e1vel<br \/>\ne sarc\u00e1stico, nos membros e no peito marcas de tatuagens.<\/p>\n<p>14<\/p>\n<p>VEIO a ordem de sil\u00eancio e os corpos estenderam-se. Mas n\u00e3o<br \/>\nficaram em repouso e o sil\u00eancio era imposs\u00edvel. Findo o rumor<br \/>\ntumultu\u00e1rio das conversas, formaturas, chamadas, combina\u00e7\u00f5es,<br \/>\nrixas, avultava um ru\u00eddo complexo feito de tosses, ofegos, arrotos,<br \/>\nborborigmos, ventosidades fraga rosas. O barulho dos ventres n\u00e3o me<br \/>\ndeixou descansar, estrondo cavo, ininterrupto Ao cair na esteira, achava-me<br \/>\nt\u00e3o bambo que nem conseguia entender Vanderlino e Ga\u00facho. A<br \/>\nfadiga permanecia, os olhos fechavam-se. Desejo imenso de dormir. Na v\u00e9spera<br \/>\ntombara no ch\u00e3o como pedra, e as coisas em redor tinham desaparecido<br \/>\nnum instante. Agora o sono vinha, fugia. As vezes me embrenhava em agoniada<br \/>\nmodorra, e logo um sobressalto me sacudia. &#8211; &#8220;Est\u00e1 doente.&#8221;<br \/>\n&#8211; &#8220;Que idade tem o senhor?&#8221; &#8211; &#8220;Calcule.&#8221; &#8211; &#8220;Sessenta<br \/>\ne cinco anos.&#8221; Essas palavras me perseguiam. Na verdade o tenente Bicicleta<br \/>\ndevia ter raz\u00e3o. Um frio terr\u00edvel, frio de maleita, a carne<br \/>\na eri\u00e7ar-se, os dentes a ranger sem descontinuar. Haveria por ali um<br \/>\nterm\u00f4metro? Com certeza n\u00e3o era o cont\u00ednuo rolar do ign\u00f3bil<br \/>\ntrov\u00e3o que me causava a ins\u00f4nia. Durante o dia quase me imbecilizara<br \/>\nna agita\u00e7\u00e3o maquinal, os queixos desgovernavam-se em bocejos,<br \/>\na morrinha alquebrava-me e uma neblina me envolvera no refeit\u00f3rio Desejava<br \/>\ncom desespero o esquecimento e a imobilidade. E na hora de aquietar-me l\u00e1<br \/>\nvinham as pontas de alfinetes impedir-me o sossego. Julguei-me intoxicado<br \/>\npela colher de feij\u00e3o engolida no almo\u00e7o. N\u00e3o era sen\u00e3o<br \/>\nisso. Abreviara a senten\u00e7a do guarda zarolho, querendo afast\u00e1-la.<br \/>\nMarasmos curtos, estremecimentos. Os roncos medonhos das tripas enchiam a<br \/>\nnoite, secretas necessidades org\u00e2nicas a manifestar-se em p\u00fablico.<br \/>\nIndignava-me o impudor coletivo, a aus\u00eancia de respeito m\u00fatuo,<br \/>\ne queria explicar esse comportamento sujo. Coitados. A miser\u00e1vel b\u00f3ia<br \/>\nlhes arrasara as entranhas, vencia melindres, anulava a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As tremuras sacudiam-me, nos bei\u00e7os queimados o cigarro colava-se.<br \/>\nN\u00e3o ag\u00fcentei a posi\u00e7\u00e3o horizontal, sentei-me, enojado,<br \/>\ncuspindo. Muitas criaturas velavam tamb\u00e9m, mexiam-se nas esteiras,<br \/>\ngemiam, escarravam na areia, e ouviam-se vozes desconexas, divaga\u00e7\u00f5es<br \/>\ndelirantes. Sem cessar vultos se erguiam, deitavam-se, gente se deslocava<br \/>\nnum vaiv\u00e9m cont\u00ednuo, aglomerava-se no princ\u00edpio do alojamento,<br \/>\n\u00e0 direita. A precis\u00e3o de um mict\u00f3rio chegou-me forte,<br \/>\nlevantou-me, dirigiu-me \u00e0quele ponto. J\u00e1 me havia achado ali,<br \/>\npela manh\u00e3, de volta do curral, mas ent\u00e3o o ref\u00fagio estava<br \/>\ndeserto. Agora havia ajuntamento, e o que percebi horrorizou-me. Estaquei<br \/>\nindeciso \u00e0 entrada, com desejo de recuar, mas a bexiga repleta obrigou-me<br \/>\na permanecer no lugar infame. Era uma sala quadrada, o ch\u00e3o de cimento.<br \/>\nPendiam do teto alguns chuveiros, quatro ou seis, e junto a uma parede se<br \/>\nalinhava igual n\u00famero de latrinas, sem vasos, buracos apenas, lavados<br \/>\npor freq\u00fcentes descargas rumorosas. Em todas viam-se homens de c\u00f3coras,<br \/>\ne diante deles estiravam-se filas, esperando a vez, cabisbaixas na humilha\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntorcendo-se, a exibir urg\u00eancias refreadas a custo. Essa mostra indecorosa,<br \/>\na falta da m\u00ednima dignidade, encheu-me de vergonha e medo, tolheu-me<br \/>\na a\u00e7\u00e3o. Olhei com desespero em redor, procurando ver se n\u00e3o<br \/>\npoderia urinar noutra parte. N\u00e3o, evidentemente, era preciso aviltar-me<br \/>\nincorporando-me num dos grupos. Absurdo. Uns restos de pudor fechavam-me os<br \/>\nolhos, o quadro inveross\u00edmil sumia-se, isento de realidade, penosa<br \/>\nvis\u00e3o de pesadelo. A tiritar, a arder, chegava a supor-me enganado<br \/>\npela febre, peda\u00e7os de sonho mau a torturar-me. O peso na bexiga impedia-me<br \/>\no regresso.<\/p>\n<p>Encostei-me \u00e0 ombreira da porta, os bra\u00e7os e as pernas a vacilar,<br \/>\nbra\u00e7os e pernas de velho. &#8211; &#8220;Sessenta e cinco anos.&#8221; A vista<br \/>\narruinada me iludia, e restava-me uma cons ci\u00eancia a minguar, consci\u00eancia<br \/>\nd\u00e9bil de sessenta e cinco anos. A necessidade intensa despertou-me.<br \/>\nAs linhas resignadas mexiam-se lentas. Abeirei-me de uma, entrei; a cena ign\u00f3bil<br \/>\ndominou-me brutal, invadiu-me os sentidos. Esfor\u00e7ara-me por neg\u00e1-la,<br \/>\nao menos atenu\u00e1-la; apesar da clareza, era um fato novo, inadmiss\u00edvel,<br \/>\nqualquer coisa semelhante \u00e0 apari\u00e7\u00e3o de um fantasma.<br \/>\nConseq\u00fc\u00eancia da febre. Na porta, embalava-me nesta afirma\u00e7\u00e3o,<br \/>\na vista ba\u00e7a a espalhar-se no conjunto indeciso, evitando min\u00facias.<br \/>\nIngressando na fila, esse desgra\u00e7ado recurso me fugia, o exame impunha-se.<br \/>\nCaras macilentas, o suor a escorrer nas barbas crescidas; magr\u00e9m e<br \/>\nsujeira, chagas negras medonhas produzidas pela mucurana; fadiga, nudez mal<br \/>\ndisfar\u00e7ada em trapos imundos; gestos de impaci\u00eancia, in\u00fateis<br \/>\npedidos silenciosos. As pessoas agachadas contorciam-se em longos tenesmos,<br \/>\nretardavam-se arfando; limpavam-se em farrapos, len\u00e7os, fraldas de<br \/>\ncamisas, erguiam-se exaustas, e ao cabo de minutos v\u00e1rias iam de novo<br \/>\ncontrair-se numa cauda de fila. Passariam a noite a arrastar-se na viagem<br \/>\nde alguns metros, nas horr\u00edveis esta\u00e7\u00f5es. Os sucessivos<br \/>\njatos de \u00e1gua lavavam n\u00e1degas. Apesar disso, havia filetes de<br \/>\nsangue \u00e0s margens das latrinas, co\u00e1gulos de sangue. Lembrei-me<br \/>\nda informa\u00e7\u00e3o cruel \u00e0 hora do almo\u00e7o. A potassa<br \/>\narruinava intestinos. Arriscara-me a ingerir uma colher de feij\u00e3o,<br \/>\ne apavorava-me submeter \u00e0quela ignom\u00ednia. J\u00e1 me submetera,<br \/>\nn\u00e3o tinha meio de escapar, e ainda queria iludir-me. Era abjeto achar-me<br \/>\nno desfile repugnante, obrigado a ver fisionomias decompostas em desmaio de<br \/>\nc\u00f3licas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei que tempo estive a deslocar-me ronceiro. Passos curtos, paradas<br \/>\nextensas, os olhos baixos, fingindo n\u00e3o perceber os dolorosos movimentos<br \/>\nespasm\u00f3dicos. Aguardava com dificuldade o momento de aliviar-me e sentia<br \/>\ndores vivas na pr\u00f3stata. Afinal pude esvaziar a bexiga, livrar-me da<br \/>\nexposi\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel, tornar ao galp\u00e3o. Tinha sono,<br \/>\nmas n\u00e3o consegui dormir. O frio espica\u00e7ava-me, os queixos batiam<br \/>\ncastanholas.<\/p>\n<p>15<\/p>\n<p>DE MANH\u00c3, no curral de arame, achei-me capaz de fixar a aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncoisa que ainda n\u00e3o conseguira fazer. As minhas observa\u00e7\u00f5es<br \/>\ntinham sido fragment\u00e1rias e dispersas, as rela\u00e7\u00f5es escapavam-me,<br \/>\nhavia sulcos na mem\u00f3ria, fatos de pequena import\u00e2ncia avultavam<br \/>\ndemais. Agora diminu\u00eda a perturba\u00e7\u00e3o. Tinha febre e uma<br \/>\ntossezinha renitente me aperreava, mas as tremuras da noite j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nme sacudiam.<\/p>\n<p>Aquecendo-me ao sol, apoiado a uma estaca da cerca, distingui v\u00e1rias<br \/>\npessoas conhecidas: Arist\u00f3teles Moura; o portugu\u00eas que no Pavilh\u00e3o<br \/>\ndos Prim\u00e1rios cantava como galo; Fran\u00e7a, o padeirinho tuberculoso<br \/>\nde riso franzido; Van der Linden, M\u00e1rio Paiva, Manuel Leal, meus companheiros<br \/>\nno por\u00e3o do Manaus. Quando as turmas sa\u00edram para o trabalho<br \/>\ne a gente inv\u00e1lida se recolheu, distra\u00ed-me a reparar na gaiola<br \/>\nenorme. Da porta lateral do fundo corria uma linha de camas de ferro, juntas,<br \/>\nas cabeceiras encostadas \u00e0 parede; nenhum espa\u00e7o entre elas;<br \/>\nfaziam gin\u00e1stica para ocup\u00e1-las, galgando as extremidades. Aus\u00eancia<br \/>\nde colch\u00f5es. Os forros eram esteiras presas com barbantes. Precau\u00e7\u00e3o<br \/>\nindispens\u00e1vel: se as deixassem soltas, desapareceriam. Esse exagero<br \/>\nde cautela e as roupas vestidas pelo avesso n\u00e3o nos permitiam esquecer<br \/>\no meio onde nos ach\u00e1vamos. Era preciso vigiarmos sem descanso os nossos<br \/>\nobjetos; n\u00e3o me separava da valise. No muro oposto havia uma esp\u00e9cie<br \/>\nde lavat\u00f3rio. Sempre as torneiras abertas, rumor cont\u00ednuo de<br \/>\nl\u00edquido nas pias, tilintar de canecos, chiar de escovas, lavagem de<br \/>\ncuecas e len\u00e7os, a higiene prec\u00e1ria dos tipos que voltavam das<br \/>\nlatrinas. Na \u00e1gua morna vinha areia, mas n\u00e3o t\u00ednhamos<br \/>\noutra para beber.<\/p>\n<p>A direita, perto da entrada, alojavam-se as criaturas mais doentes. Em cima<br \/>\nde uma t\u00e1bua um preto novo gemia grosso e arquejava, pedindo uma inje\u00e7\u00e3o<br \/>\nde morfina. Perto da grade que dava para o curral um homem p\u00e1lido e<br \/>\nmagro se consumia despejando hemoptises em duas bandas de len\u00e7ol presas<br \/>\nentre as coxas. Esses peda\u00e7os de pano agitavam-se como asas feridas;<br \/>\na criatura exangue suava, fechava os olhos e abria a boca, sem f\u00f4lego;<br \/>\na esteira da cama estava coberta de manchas vermelhas.<\/p>\n<p>Atentando bem, reconheci o Neves, um sujeito visto meses atr\u00e1s no<br \/>\nPavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios, cheio de m\u00e1goas recalcadas. Parecia<br \/>\num dos indiv\u00edduos postos \u00e0 margem, sem que se perceba claramente<br \/>\na raz\u00e3o disto. Alarga-se e aprofunda-se uma vala em torno deles. Tiveram<br \/>\nresponsabilidade num organismo revolucion\u00e1rio, mas sentiram-se de chofre<br \/>\nenvoltos em desconfian\u00e7a e amofinaram-se no desprest\u00edgio. Ignoram<br \/>\nquem os acusa; os exames ponderados e as cr\u00edticas se tornaram imposs\u00edveis<br \/>\nnas mudan\u00e7as repentinas de pris\u00e3o. Alguns sujeitos se re\u00fanem,<br \/>\ndiscutem hoje, e amanh\u00e3 se avistam de longe noutro lugar. Nem se conhecem<br \/>\ndireito. Surge uma d\u00favida sobre qualquer deles, refor\u00e7a-se,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 meio de verificar se \u00e9 justa ou injusta. Escasseiam<br \/>\nas informa\u00e7\u00f5es, truncam-se as not\u00edcias, e em v\u00e3o<br \/>\nnos esfor\u00e7amos por evitar uma credulidade infantil, conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\ndo isolamento. Vemos um capit\u00e3o de nariz bicudo a cochichar, supomos<br \/>\nque est\u00e1 fazendo uma tran\u00e7a miser\u00e1vel nos cub\u00edculos.<br \/>\nNotamos desagrega\u00e7\u00e3o quando ele sai e afirmamos: &#8211; &#8220;\u00c9<br \/>\nda pol\u00edcia.&#8221; Mas n\u00e3o temos plena certeza. E os fuxicos<br \/>\nbrotam, indicam-se numerosos indiv\u00edduos suspeitos, denunciados pelo<br \/>\ncapit\u00e3o de nariz longo. Afinal j\u00e1 nem conseguimos distinguir<br \/>\namigos de inimigos: o nosso parceiro no xadrez, no poker, na literatura, no<br \/>\ncoletivo, pode ser um agente policial disfar\u00e7ado em comunista. Fechamo-nos<br \/>\nem reserva silenciosa, tudo em redor \u00e9 inconsistente.<\/p>\n<p>Neves, pelos modos, era uma dessas criaturas ressentidas. No Pavilh\u00e3o<br \/>\nvivia \u00e0 parte. E agora se desfazia, derramava os pulm\u00f5es nos<br \/>\ndois peda\u00e7os de len\u00e7ol, na esteira amarrada a barbante. Nenhuma<br \/>\nqueixa. O suor corria nos sulcos da pele cor de enxofre, os bugalhos sumiam-se<br \/>\nnas \u00f3rbitas profundas e a caveira estava t\u00e3o vis\u00edvel<br \/>\ncomo se se expusesse num ossu\u00e1rio. A resigna\u00e7\u00e3o entrevista<br \/>\nmeses atr\u00e1s na fila da comida, \u00e0 porta de um cub\u00edculo.<br \/>\nResigna\u00e7\u00e3o ou indiferen\u00e7a. Dentro em pouco o Neves iria<br \/>\nenterrar,se ao p\u00e9 de um morro, a fam\u00edlia o procuraria em v\u00e3o<br \/>\n&#8211; ningu\u00e9m se lembraria da exist\u00eancia dele.<\/p>\n<p>Van der Linden e M\u00e1rio Paiva tamb\u00e9m cuspiam sangue. No por\u00e3o<br \/>\ndo Manaus tinham perfeita sa\u00fade. M\u00e1rio Paiva me bebera meia<br \/>\ngarrafa de aguardente e me chateara em demasia: &#8211; &#8220;Lobato tinha uma flauta.<br \/>\nA flauta era do Lobato.&#8221; Pobre do Van der Linden. J\u00e1 nesse tempo<br \/>\nse isolava, cercado por antipatias contagiosas, vagas censuras encobertas.<br \/>\nA velha blusa de mangas curtas exibia os bra\u00e7os finos, as costelas,<br \/>\no peito d\u00e9bil. Outro passageiro do Manaus, o chauffeur Dom\u00edcio<br \/>\nFernandes, estava nas \u00faltimas: perdera a fala e certamente n\u00e3o<br \/>\nregressaria ao nordeste.<\/p>\n<p>No fim do galp\u00e3o, sobre enormes t\u00e1buas, arrumavam-se muitas<br \/>\npessoas. Devia ser ali, distante dos guardas, que se faziam as reuni\u00f5es<br \/>\nclandestinas de que recebi not\u00edcia pouco depois. O exame do ambiente<br \/>\ndesviou-me as id\u00e9ias negras, a certeza da morte pr\u00f3xima. Via<br \/>\nantigos companheiros finarem-se e apegava-me a insensatas esperan\u00e7as:<br \/>\nn\u00e3o me achava como eles. As mis\u00e9rias patentes &#8211; gemidos, queixas,<br \/>\nvozes d\u00fabias, escarros vermelhos, dispn\u00e9ia &#8211; livravam-nos dos<br \/>\nperigos incertos que em v\u00e3o quer\u00edamos figurar. &#8211; &#8220;V\u00eam<br \/>\nmorrer.&#8221; Experimentamos um choque. O pior \u00e9 n\u00e3o saber a<br \/>\ngente como vai morrer. Ali no canto da sala enorme, \u00e0 direita, os nossos<br \/>\nreceios se limitavam: desaparecer\u00edamos daquele jeito, iguais ao Neves,<br \/>\na Dom\u00edcio Fernandes, ao negro ansioso que pedia uma inje\u00e7\u00e3o<br \/>\nde morfina. Essa perspectiva de nenhum modo era desagrad\u00e1vel; t\u00ednhamos<br \/>\nimaginado torturas, a chama do ma\u00e7arico devastando carnes, e o consumo<br \/>\nlento, a inani\u00e7\u00e3o, quase nos surgia como favor. Provavelmente<br \/>\nuso subterf\u00fagios, justifico-me de n\u00e3o haver sentido compaix\u00e3o<br \/>\nexcessiva diante dos cad\u00e1veres que ainda se mexiam. Os vivos preocupavam-me;<br \/>\nao desespero e ao des\u00e2nimo sucedia uma intensa curiosidade. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o me achava obtuso, conseguia refletir.<\/p>\n<p>Esse dia foi menos agitado que o primeiro. A cantiga dos n\u00fameros<br \/>\ne as formaturas espa\u00e7aram-se, \u00e0s vezes fic\u00e1vamos em paz<br \/>\numa hora, encaixando-nos pouco a pouco na rotina da pris\u00e3o. Horr\u00edvel<br \/>\nera entrar no refeit\u00f3rio, sentar-me num banco, envolver-me na fuma\u00e7a<br \/>\ndo cigarro, os cotovelos em cima da prancha, os olhos fechados. O vizinho<br \/>\n\u00e0 direita comia s\u00f4frego, num mastigar enervante, depois me arrebatava<br \/>\no prato imundo. Necess\u00e1rio tapar as narinas; imposs\u00edvel ag\u00fcentar<br \/>\na vista e o cheiro da coisa s\u00f3rdida. Novamente no galp\u00e3o, a<br \/>\nfumar, um embrulho no est\u00f4mago. A curiosidade se extinguira logo, sem<br \/>\nd\u00favida.<\/p>\n<p>16<\/p>\n<p>RETIRARAM-NOS do galp\u00e3o, conduziram-nos a uma sala onde ser\u00edamos<br \/>\nfichados. O h\u00e1bito nos enfileirou diante de uma banca, e o respons\u00e1vel<br \/>\npor aquele servi\u00e7o, rapaz de boa apar\u00eancia, met\u00f3dico e<br \/>\nvagaroso, nos submeteu \u00e0 praxe enfadonha das inquiri\u00e7\u00f5es<br \/>\nregulamentares. Rec\u00e9m-chegados, calouros, \u00edamos afrontar um<br \/>\nlongo question\u00e1rio a desdobrar-se na larga folha amarela, diferente<br \/>\ndas fichas at\u00e9 ent\u00e3o conhecidas.<\/p>\n<p>Vi de longe numerosas linhas de papel extenso, quesitos imprevis\u00edveis<br \/>\nque nos encheriam de espanto. Haviam-me citado num deles no Pavilh\u00e3o<br \/>\ndos Prim\u00e1rios: &#8211; &#8220;Tem v\u00edcios secretos?&#8221; O funcion\u00e1rio<br \/>\ncuidadoso ali presente, decompondo um dos meus amigos, traduzira a pergunta<br \/>\nassim: &#8211; &#8220;\u00c9 pederasta passivo?&#8221; Tinha-me falado nisso meses<br \/>\natr\u00e1s, e parecera-me inacredit\u00e1vel que algu\u00e9m tornasse<br \/>\nmais cruel e mais grosseira a horr\u00edvel inj\u00faria.<\/p>\n<p>Nordestinos e paranaenses iam-se deslocando pouco a pouco, estacionavam<br \/>\njunto \u00e0 banca, zumbidos mon\u00f3tonos aliavam-se aos cochichos burocr\u00e1ticos.<br \/>\nEstaria o mo\u00e7o a ultrajar Macedo e o velho Eus\u00e9bio daquele jeito?<br \/>\nAs vozes esmoreciam como num confession\u00e1rio, a pena chiava na folha<br \/>\namarela. Dois passos, uma demora comprida. Afinal percebi a fala engrolada<br \/>\nde Zoppo, em frente a mim.<\/p>\n<p>&#8211; Com dois pp? indagou o empregado meticuloso, aferrando-se a uma consoante.<\/p>\n<p>&#8211; Com dois pp, afirmou Zoppo. &#8211; Italiano? &#8211; Filho de italianos.<\/p>\n<p>E as indiscri\u00e7\u00f5es da norma estenderam-se num sussurro; palavras<br \/>\nsoltas perdiam-se. Agucei o ouvido em busca do insulto. Nada ouvi. Findas<br \/>\nas declara\u00e7\u00f5es, Zoppo desviou-se, foi juntar-se com outros,<br \/>\na um canto. Avizinhei-me. O funcion\u00e1rio passou-me a vista, r\u00e1pido,<br \/>\ne indagou: &#8211; Apendicite? O rapaz era m\u00e9dico, o h\u00e1bito profissional<br \/>\nse revelava no exame instant\u00e2neo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Pso\u00edte. H\u00e1 uma eventra\u00e7\u00e3o. &#8211; Deixe<br \/>\nver.<\/p>\n<p>Abri a roupa, mostrei o p\u00e9 da barriga. O homem palpou-me a cicatriz<br \/>\ndo\u00edda: &#8211; Realmente. Se quiser, n\u00f3s podemos operar isso.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui, doutor? gaguejei num sobressalto, metendo os p\u00e9s pelas m\u00e3os.<br \/>\nObrigado. N\u00e3o estou com desejo de suicidar-me.<\/p>\n<p>Notei o escorrego na inconveni\u00eancia, detive-me confuso. O mo\u00e7o<br \/>\nergueu os ombros, sorriu e principiou o interrogat\u00f3rio. Admirei-me<br \/>\nde ver um tipo educado sujeitar-se \u00e0quele of\u00edcio e achei improv\u00e1vel<br \/>\nque ele houvesse jogado a horr\u00edvel ofensa a uma criatura indefesa.<br \/>\nOs modos eram corretos, frios, mec\u00e2nicos; as palavras incisivas, r\u00e1pidas,<br \/>\nindispens\u00e1veis. Lan\u00e7ava-me um olhar de trav\u00e9s, lia as<br \/>\ndeclara\u00e7\u00f5es prestadas, \u00e0s vezes escrevia duas, tr\u00eas<br \/>\nlinhas sem fazer perguntas. Derreando-me capenga, distingui no papel a insol\u00eancia<br \/>\nimunda; a caneta andava muito depressa, num minuto ia alcan\u00e7\u00e1-la.<br \/>\nEst\u00fapida exig\u00eancia. Evidentemente n\u00e3o me seria poss\u00edvel<br \/>\ndar nenhuma resposta: se um infeliz tem v\u00edcios secretos, n\u00e3o<br \/>\nos vai confessar. Resolvi calar-me, embora isto me trouxesse conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndesagrad\u00e1veis. N\u00e3o queria admitir que algu\u00e9m se atribu\u00edsse<br \/>\no direito de me falar daquele modo. Sentia-me num enxurro, nivelava-me a ladr\u00f5es,<br \/>\nvagabundos, malandros, esc\u00f3rias das favelas, reduzida a apanhar no<br \/>\nch\u00e3o pontas de cigarros, e, apesar de tudo, achava imposs\u00edvel<br \/>\ndizerem-me tal coisa. Talvez dissessem, mas, se me conservasse mudo, provavelmente<br \/>\nn\u00e3o insistiriam: sem dificuldade haveriam de compreender que a frase<br \/>\ntorpe n\u00e3o fora redigida para mim.<\/p>\n<p>A pena alcan\u00e7ou a inj\u00faria, suprimiu-a com um risco, desceu<br \/>\numa linha. Procurei os olhos do m\u00e9dico; estava de cabe\u00e7a baixa<br \/>\ne n\u00e3o parecia ter querido ser am\u00e1vel. A \u00e1spera delicadeza<br \/>\napenas significava a elimina\u00e7\u00e3o de um quesito in\u00fatil.<br \/>\nDiabo. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil notar, depois de alguns minutos<br \/>\nde conversa, que um indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 homossexual. E o<br \/>\nm\u00e9dico, trabalhando no meio s\u00f3rdido, conhecia essa gente, sem<br \/>\nd\u00favida. Na linguagem crua, tencionava ser claro, sem rodeios. Julgava<br \/>\nenxergar num rosto fugitivos ind\u00edcios amb\u00edguos e largava a express\u00e3o<br \/>\nadequada; provavelmente isso n\u00e3o molestaria os indiv\u00edduos num<br \/>\nlugar onde a invers\u00e3o sexual era fato comum. O trabalho acabou e despedi-me<br \/>\nem sil\u00eancio, evitando qualquer sinal de agradecimento: seria idiota<br \/>\nagradecer n\u00e3o me haverem ofendido.<\/p>\n<p>Regressando ao alojamento, esfor\u00e7ava-me por n\u00e3o julgar \u00e0<br \/>\npressa, investigar a raz\u00e3o de certos atos prejudiciais l\u00e1 fora,<br \/>\nmas talvez indispens\u00e1veis ali dentro. Inclinava-me a justificar tudo.<br \/>\nEsse exagero de compreens\u00e3o pode ser funesto, levar-nos a aceitar iniq\u00fcidades:<br \/>\nexaminamos as coisas, inertes, e somos incapazes de revolta. Uma impertin\u00eancia<br \/>\ncome\u00e7ou a roer-me o esp\u00edrito: se o m\u00e9dico me houvesse<br \/>\ndirigido a infame pergunta, achar-me-ia disposto a analisar-lhe o procedimento,<br \/>\nbuscar explica\u00e7\u00f5es? Retra\u00ed-me vexado. Eximira-me pouco<br \/>\nantes de fazer um gesto de reconhecimento; agora desculpava o sujeito, e isto<br \/>\nme aperreou. A condescend\u00eancia de um agente policial, a cortesia desdenhosa,<br \/>\n\u00e0s vezes redunda em suborno. Precisamos ter os olhos muito abertos.<br \/>\nCa\u00edmos numa excessiva desconfian\u00e7a, somos injustos com pessoas<br \/>\nbem intencionadas; n\u00e3o conseguimos divisar os elementos de corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nque nos cercam. Depois de ter vacilado, a acusar e a defender o m\u00e9dico,<br \/>\na a\u00e7\u00e3o de um companheiro de viagem deu-me f\u00faria de cachorro<br \/>\ndoido Sumiram-se de chofre as pondera\u00e7\u00f5es. N\u00e3o refleti,<br \/>\nachei-me num instante inimigo do homem, irreconcili\u00e1vel. T\u00ednhamos<br \/>\nentrado no galp\u00e3o. Um sujeito do Paran\u00e1 falou-me risonho, t\u00e3o<br \/>\nrisonho que ningu\u00e9m lhe adivinharia qualquer sentimento ruim: &#8211; Faz<br \/>\nfavor de me dar um cigarro? Estendi-lhe o ma\u00e7o. O rapaz tirou um cigarro<br \/>\ne deitou-me um n\u00edquel de cem r\u00e9is na m\u00e3o Sem abarcar<br \/>\ndireito a mesquinharia est\u00fapida, senti uma onda quente subir-me ao<br \/>\nrosto. Logo o frio me envolveu. S\u00fabita explos\u00e3o e blocos de<br \/>\ngelo a desmoronar-se. Revi o por\u00e3o da lancha. O meu palet\u00f3 se<br \/>\nabria em cima das t\u00e1buas, e o fumo comprado em Mangaratiba estava ao<br \/>\nalcance das figuras piongas, de c\u00f3coras. N\u00e3o se lembravam de<br \/>\npedir. serviam-se naturalmente. No Abr\u00e3o viera-me o plano de contrabandear<br \/>\ncinq\u00fcenta ma\u00e7os obtidos numa bodega; ocultos em bolsos de capotes<br \/>\ne dobras de redes, v\u00e1rios se tinham extraviado no caminho. N\u00e3o<br \/>\nme ocorrera a sovinice de cont\u00e1-los; seria miser\u00e1vel ter d\u00favidas,<br \/>\nnaturalmente haviam ca\u00eddo; as explica\u00e7\u00f5es me atrapalhavam.<br \/>\nO meu gesto deve ter sido instant\u00e2neo, n\u00e3o dei tempo ao sujeito<br \/>\nde riscar um f\u00f3sforo. Tomei-lhe o cigarro, sacudi-o no ch\u00e3o,<br \/>\ncom a moeda. O sorrisinho encolheu-se e findou nos bei\u00e7os odiosos.<br \/>\nVoltei as costas. E nunca mais pude olhar essa criatura.<\/p>\n<p>17<\/p>\n<p>GA\u00daCHO come\u00e7ou a procurar-me. A noite acocorava-se junto \u00e0<br \/>\nminha esteira, ficava at\u00e9 a hora do sil\u00eancio a entreter-me com<br \/>\na narra\u00e7\u00e3o das suas complicadas aventuras. Esfor\u00e7ava-me<br \/>\npor entend\u00ea-lo, \u00e0s vezes o interrompia buscando compreender alguma<br \/>\nexpress\u00e3o de g\u00edria. Vanderlino trocava-me em linguagem comum<br \/>\na prosa obscura, e na aus\u00eancia dele a conversa arrastava-se, cheia de<br \/>\nequ\u00edvocos e repeti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Os homens, dizia Ga\u00facho, dividem-se em duas classes: malandros<br \/>\ne ot\u00e1rios, e os malandros nasceram para engrupir os ot\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ria-me com a franqueza do meu esquisito amigo: &#8211; Eu, naturalmente, devo<br \/>\nfigurar na categoria dos ot\u00e1rios, n\u00e3o \u00e9 verdade? &#8211; Se<br \/>\nvossa merc\u00ea n\u00e3o \u00e9 malandro&#8230; S\u00f3 h\u00e1 duas<br \/>\nclasses. Logo no segundo ou terceiro encontro o arrombador me fez esta observa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncuriosa: &#8211; Vossa merc\u00ea usa panos mornos comigo, parece que tem receio<br \/>\nde me ofender. N\u00e3o precisa ter receio, n\u00e3o; diga tudo: eu sou<br \/>\nladr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim, retruquei vexado. Mas isso muda. L\u00e1 fora voc\u00ea pode<br \/>\nachar of\u00edcio menos perigoso.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, nunca tive inten\u00e7\u00e3o de arranjar outro<br \/>\nof\u00edcio, que n\u00e3o sei nada. S\u00f3 sei roubar, muito mal: sou<br \/>\num ladr\u00e3o porco.<\/p>\n<p>Diversos profissionais corroboravam esse ju\u00edzo severo, ostentavam<br \/>\ndesprezo \u00e0 modesta criatura. Eram em geral vaidosos em excesso, fingiam<br \/>\npossuir qualidades extraordin\u00e1rias e t\u00e9cnica superior. Tentavam<br \/>\nenganar-nos, talvez enganar-se, mentiam, queriam dar a impress\u00e3o de<br \/>\nrealizar trabalho perfeito. N\u00e3o se misturavam com os indiv\u00edduos<br \/>\ncomuns, e o natural expansivo do escrunchante exasperava-os. Obtive l\u00e1pis,<br \/>\npapel, comecei de novo a tomar notas, embora fosse quase certo jog\u00e1-las<br \/>\nfora.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Ga\u00facho, perguntei, voc\u00ea sabe que eu tenho interesse<br \/>\nem ouvir as suas hist\u00f3rias? &#8211; Sei. Vossa merc\u00ea vai me botar num<br \/>\nlivro. &#8211; Quer que mude seu nome? &#8211; Mudar? Porqu\u00ea? Eu queria que sa\u00edsse<br \/>\no meu retrato. Logo se esquivava, humilde, engrandecia os talentos de alguns<br \/>\ncompanheiros: &#8211; Mas vossa merc\u00ea est\u00e1, perdendo o seu tempo comigo.<br \/>\nEu sou um vira-lata. O pouquinho que fa\u00e7o, aprendi com minha mulher,<br \/>\nque \u00e9 uma rata de valor: trinta e duas entradas na Casa de Deten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAqui vossa merc\u00ea encontra muitos homens sabidos. Conhece Para\u00edba?<br \/>\nPara\u00edba tem cabe\u00e7a, \u00e9 um vigarista de respeito. E seu<br \/>\nNunes? Mo\u00e7o de qualidade. Procure Marcelle, o maior de todos, escroque<br \/>\ninternacional. Vossa merc\u00ea fala com ele numa l\u00edngua estrangeira,<br \/>\nque Marcelle n\u00e3o sabe portugu\u00eas nem entende a nossa g\u00edria.<\/p>\n<p>J\u00e1 me havia detido no exame desses tipos. Para\u00edba era um mulato<br \/>\npretensioso, cheio de l\u00e1bias e sorrisos; gestos brandos, voz dul\u00e7urosa.<br \/>\nNunes, uma besta, vivia a mencionar a import\u00e2ncia da fam\u00edlia.<br \/>\nAchava-se ali por engano, e qualquer dia os parentes, com influ\u00eancia<br \/>\nno governo, mandariam busc\u00e1-lo. Um idiota. N\u00e3o me disseram como<br \/>\nse chamava o terceiro indiv\u00edduo. Tinha no peito o nome de Marcelle,<br \/>\nem tatuagem magn\u00edfica, e da\u00ed lhe viera essa alcunha feminina.<br \/>\nS\u00f3 uma vez me aproximei dele. Vestia um cal\u00e7\u00e3o de banho,<br \/>\ntinha-se fatigado a carregar tijolos. Estendeu-se na areia, as m\u00e3os<br \/>\ndebaixo da cabe\u00e7a, esteve alguns minutos olhando o teto. Virou-se,<br \/>\ndescobriu perto um grupo e indagou lento, carregado e gutural: &#8211; Como \u00e9<br \/>\nque se vai fugir daqui? Fingiram n\u00e3o ouvi-lo, o homem renovou a pergunta<br \/>\nusando as mesmas palavras, como se as tivesse de cor: &#8211; Digam. Como \u00e9<br \/>\nque se vai fugir daqui? &#8211; Provoca\u00e7\u00e3o, rosnou um sujeito.<\/p>\n<p>E o grupo dissolveu-se.<\/p>\n<p>&#8211; Covardes, grunhiu Marcelle.<\/p>\n<p>Voltou-se, continuou de barriga para o ar, olhando o teto. Viv\u00edamos<br \/>\nentre delatores, um vagabundo estava ali de orelha \u00e0 escuta e levaria<br \/>\na imprud\u00eancia ao tenente Bicicleta. Prov\u00e1vel. Tamb\u00e9m pod\u00edamos<br \/>\njulgar Marcelle um espi\u00e3o: largara a frase para sentir o efeito dela<br \/>\ne denunciar algu\u00e9m A prud\u00eancia fechava as bocas. Nesse meio fecundo<br \/>\nem ciladas a confian\u00e7a de Ga\u00facho me sensibilizava.<\/p>\n<p>&#8211; Seu Nunes me fez hoje uma proposta, e eu estou pensando em topar esse<br \/>\nneg\u00f3cio quando sair daqui. S\u00e3o quarenta contos de j\u00f3ias<br \/>\npara dividir com seu Nunes: metade para cada um. Ele me d\u00e1 a planta<br \/>\nda casa e eu entro de olhos fechados. Que \u00e9 que o senhor acha? N\u00e3o<br \/>\npodia deixar de rir-me ouvindo semelhante consulta. Depois me interessava<br \/>\npelas transa\u00e7\u00f5es do meu novo amigo, temia um fracasso e arriscava-me<br \/>\na dar-lhe conselhos: &#8211; Eu, no seu caso, n\u00e3o aceitava. Nunes \u00e9<br \/>\num imbecil. Porque \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o trabalha s\u00f3?<br \/>\nQue precis\u00e3o tem de s\u00f3cios? O escrunchante ponderou e, se n\u00e3o<br \/>\nme engano, a oferta de Nunes foi recusada. A noite Ga\u00facho ficava uma<br \/>\nhora de c\u00f3coras, junto \u00e0 minha esteira, a divagar por numerosas<br \/>\naventuras. A posi\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda n\u00e3o o fatigava. Queria<br \/>\ninstruir-me e ambicionava ler tudo aquilo impresso.<\/p>\n<p>&#8211; Vou comprar esse livro. Quanto custa? Erguia-se, tentava reanimar Paulista,<br \/>\ncriatura arrasada, um molambo: &#8211; Se vire, homem, tenha coragem. Desse jeito<br \/>\nvoc\u00ea endoidece.<\/p>\n<p>Paulista ouvia sem nenhuma rea\u00e7\u00e3o, a cara inerte, os bra\u00e7os<br \/>\nca\u00eddos, a ag\u00fcentar-se mal nas pernas bambas, a boca entreaberta,<br \/>\nquase sem f\u00f4lego, murcho, p\u00e1lido como um defunto. Fran\u00e7a<br \/>\nandava a empurrar id\u00e9ias revolucion\u00e1rias no esp\u00edrito<br \/>\nrombo desse infeliz, e a aprova\u00e7\u00e3o t\u00e1cita, a passividade,<br \/>\na falta de resist\u00eancia davam-lhe esperan\u00e7as absurdas. A teimosia<br \/>\ncega do padeiro alarmava-me. Aquela gente estava perdida, sem esfor\u00e7o<br \/>\nv\u00edamos isto &#8211; Se vire, insistia o ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltava a agachar-se ao p\u00e9 da esteira: &#8211; N\u00e3o sei como certas<br \/>\npessoas se metem nesta vida. Eu tive um aprendiz assim, n\u00e3o dava. Foi<br \/>\num pivete muito ordin\u00e1rio, e quando cresceu, chegou a descuidista,<br \/>\nn\u00e3o passou a ventanista. E queria ser escrunchante. Eu dizia: &#8211; &#8220;Rapaz,<br \/>\ndeixa de novidade. Tu n\u00e3o tens nervos para lunfa.&#8221; Mas o desgra\u00e7ado<br \/>\nteimava em me acompanhar: &#8211; &#8220;Me leve, Ga\u00facho.&#8221; Eu cedia.<br \/>\nBotava a caneta na fechadura, e o garoto come\u00e7ava a tremer. Um dia<br \/>\nse estrepou. Arrumei um assalto, guardei na mem\u00f3ria a casa toda e a<br \/>\nvizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 que voc\u00eas conseguem isso? interrompi.<\/p>\n<p>&#8211; Bom. \u00c9 preciso estudar o terreno, bancar vendedor ambulante, consertador<br \/>\nde fog\u00f5es, caixeiro de venda. Eu \u00e0s vezes me emprego, fa\u00e7o<br \/>\no papel de criado uma semana, saio com as pe\u00e7as de cor, o lugar dos<br \/>\nm\u00f3veis: posso trabalhar no escuro. J\u00e1 lhe disse que minha mulher<br \/>\n\u00e9 uma rata de valor? Junto dela, eu n\u00e3o valho nada. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 do escruncho, faz o servi\u00e7o \u00e0s claras. Entra num botequim:<br \/>\n&#8211; &#8220;Ser\u00e1 que d. Esteia, a mo\u00e7a do setenta e cinco, est\u00e1<br \/>\ndoente?&#8221; Arranja a informa\u00e7\u00e3o de um carregador: a mo\u00e7a<br \/>\ndo setenta e cinco n\u00e3o \u00e9 d. Estela, \u00e9 d. Zulmira. Sai,<br \/>\nvolta no outro dia, fica bebendo cerveja, espiando o setenta e cinco. Depois<br \/>\nde algumas visitas, conhece os nomes das pessoas, os costumes da fam\u00edlia,<br \/>\na hora da missa e do cinema. Enfim, achando o campo livre, d\u00e1 o golpe:<br \/>\navan\u00e7a, empurra sem cerim\u00f4nia o port\u00e3o do jardim, aparece<br \/>\nna cozinha: &#8211; &#8220;D. Zulmira, a roupa.&#8221; D. Zulmira foi \u00e0s compras,<br \/>\na cozinheira e a copeira n\u00e3o sabem onde a roupa est\u00e1. A\u00ed<br \/>\nminha mulher se aborrece, fala com energia a uma empregada: &#8211; &#8220;Minha<br \/>\nfilha, tenha paci\u00eancia, fa\u00e7a o favor de ir buscar a roupa. Moro<br \/>\nlonge e n\u00e3o posso gastar o meu tempo com viagens \u00e0 toa. Ou ent\u00e3o<br \/>\ndiga a d. Zulmira que n\u00e3o volto. Ela marcou para hoje. V\u00e1 buscar<br \/>\na roupa, fa\u00e7a o favor.&#8221; O pessoal fica tonto, \u00e1 lavadeira<br \/>\nvai ao quarto, estira uma colcha em cima da cama e agadanha o que pode, leva<br \/>\nat\u00e9 r\u00e1dio. Volta com a trouxa na cabe\u00e7a, naturalmente:<br \/>\n&#8211; &#8220;Adeus. J\u00e1 vou. Lembran\u00e7as a d. Zulmira.&#8221; Isso \u00e0s<br \/>\nvezes d\u00e1 certo, outras vezes n\u00e3o d\u00e1. Se n\u00e3o d\u00e1,<br \/>\n\u00e9 preciso ter a retirada livre. A gente prepara a sa\u00edda para<br \/>\no caso de ser necess\u00e1rio pirar. Como eu ia dizendo, o meu ajudante<br \/>\nn\u00e3o prestava para nada. A \u00faltima vez que me acompanhou endoideceu<br \/>\ne nunca mais se levantou. Arrombei a porta, fomos \u00e0 copa, achei um<br \/>\nqueijo, comemos uma banda; piquei o resto e despejei querosene em cima.<\/p>\n<p>&#8211; Porqu\u00ea? &#8211; Por nada. S\u00f3 para fazer mis\u00e9ria. Subimos<br \/>\numa escada. Na sala da frente estava dormindo um casal de velhos. No guarda-vestidos<br \/>\nafanei uma carteira com grana e um bobo. Um bobo, sim senhor, um rel\u00f3gio.<br \/>\nAndei na casa toda, que n\u00e3o \u00e9 direito sair deixando gaveta fechada.<br \/>\nNo orat\u00f3rio havia muito santo, mas nessas coisas de religi\u00e3o<br \/>\neu n\u00e3o mexo. Enfim consegui muamba regular para o intruj\u00e3o.<br \/>\nNo derradeiro quarto vimos uma lindeza com os peitos de fora. A\u00ed o<br \/>\nsujeito perdeu a a\u00e7\u00e3o, ficou besta, de olhos arregalados, como<br \/>\nse estivesse diante de uma imagem do altar. Puxei a manga dele, chamei e tornei<br \/>\na chamar: &#8211; &#8220;Vamos embora.&#8221; Nem ouvia. De repente subiu na cama<br \/>\ne deu um beijo na boca da mo\u00e7a. Calcule. Foi encanado e escrachado,<br \/>\nnatural. Larguei-me escada abaixo, soltei a muamba, sa\u00ed da casa, atravessei<br \/>\no jardim, pulei a grade. Felizmente salvei a carteira e o bobo.<\/p>\n<p>A curiosidade me levava a pedir min\u00facias: &#8211; \u00d3 Ga\u00facho,<br \/>\ncomo \u00e9 que voc\u00ea consegue destrancar uma fechadura? O paciente<br \/>\nindiv\u00edduo n\u00e3o se espantava da minha ignor\u00e2ncia, mencionava<br \/>\na caneta, usava express\u00f5es t\u00e9cnicas obscuras. Aproximava-me<br \/>\ndo rosto o indicador e o polegar, manejava delicadamente uma pin\u00e7a<br \/>\nimagin\u00e1ria, introduzia-a num buraco, segurava com ela a ponta de uma<br \/>\nchave, ia movendo a m\u00e3o &#8211; assim &#8211; para os lados, avan\u00e7ava depois<br \/>\nos dedos para os meus olhos. Falava com abund\u00e2ncia &#8211; e a palavra e o<br \/>\ngesto davam-me id\u00e9ia viva da opera\u00e7\u00e3o: vencido o obst\u00e1culo,<br \/>\na chave, impelida para diante, ca\u00eda.<\/p>\n<p>&#8211; Mas isso faz barulho, Ga\u00facho.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor. Eu estiro um n\u00famero do Jornal do Brasil por<br \/>\nbaixo da porta. Puxo o jornal e trago a chave. Se ela n\u00e3o vier, meto<br \/>\na gazua na fechadura.<\/p>\n<p>Explicava a maneira de cortar uma vidra\u00e7a, com diamante. Dava um<br \/>\nmurro no vidro, que se deslocava, batia sem rumor em cima do Jornal do Brasil.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Ga\u00facho, informei-me estranhando a repeti\u00e7\u00e3o,<br \/>\nporque essa prefer\u00eancia? Outro jornal n\u00e3o serve? O ladr\u00e3o<br \/>\nrefletiu e esclareceu, muito grave: &#8211; Vossa merc\u00ea compreende: o Jornal<br \/>\ndo Brasil tem mais p\u00e1ginas, \u00e9 mais grosso.<\/p>\n<p>Vanderlino, na esteira pr\u00f3xima, divertia-se. E Ga\u00facho, exposta<br \/>\nessa utilidade nova da imprensa, estendia-se por um dos seus numerosos casos.<\/p>\n<p>18<\/p>\n<p>UM SUJEITINHO de olho agudo foi visitar-me; acomodou-se na esteira e apresentou-se<br \/>\nfanhoso: Nascimento. &#8211; O companheiro necessita alguma coisa? Essa pergunta<br \/>\nj\u00e1 me era familiar. Antes de me fazerem qualquer pedido, lan\u00e7avam<br \/>\ngenerosos o oferecimento. N\u00e3o, obrigado; pudor excessivo me impedira<br \/>\naceitar no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios um ma\u00e7o de cigarros.<br \/>\nAgora, em completa mis\u00e9ria, o Coletivo esbarrava em dificuldade imensa<br \/>\npara levar a algu\u00e9m o mais insignificante aux\u00edlio, e a oferta<br \/>\nperdia o sentido, quase se mudava em f\u00f3rmula de cortesia.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado.<\/p>\n<p>O sujeito de voz nasal n\u00e3o insistiu e pegou assunto diverso: &#8211; Bem.<br \/>\nN\u00f3s precisamos do companheiro. Trago-lhe uma tarefa: corrigir isto.<\/p>\n<p>Deu-me um peda\u00e7o de l\u00e1pis e duas ou tr\u00eas folhas de alma\u00e7o.<br \/>\ncobertas de letra mi\u00fada, sem claros. Passei a vista nas primeiras linhas.<br \/>\nRelat\u00f3rio a um deputado, narra\u00e7\u00e3o minuciosa da Col\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente.<\/p>\n<p>Pus a valise em cima das pernas cruzadas e nesta esp\u00e9cie de banca<br \/>\niniciei o trabalho. Logo no segundo per\u00edodo, al\u00e9m de pequenas<br \/>\nmodifica\u00e7\u00f5es, substitu\u00ed uma palavra.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, op\u00f4s-se Nascimento. Esse tro\u00e7o foi discutido<br \/>\ne vai como est\u00e1. N\u00f3s desejamos \u00e9 que voc\u00ea bote<br \/>\nas v\u00edrgulas e endireite os verbos.<\/p>\n<p>Reli o trecho, infeliz, desanimei: &#8211; \u00c9 imposs\u00edvel, meu caro.<br \/>\nIsso n\u00e3o tem sentido. A corre\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>O homem refletiu um instante: &#8211; Bom. O que posso fazer \u00e9 levar aos<br \/>\noutros o seu palpite. Eles decidem.<\/p>\n<p>Tomou os pap\u00e9is, encaminhou-se ao fundo escuro do alojamento, onde,<br \/>\nsobre t\u00e1buas, v\u00e1rias pessoas se reuniam \u00e0s vezes, cochichavam,<br \/>\nrabiscavam. Al\u00e9m do padeirinho Fran\u00e7a, juntavam-se ali algumas<br \/>\nfiguras negras, curiosas: Claudino, esgalgado, rijo, s\u00e9rio, de voz<br \/>\n\u00e1spera; Francisco Chaves, gordo e baixo, sempre em luta com dificuldades<br \/>\nimensas de express\u00e3o; Aleixo, estivador na Bahia, se n\u00e3o me<br \/>\nengano, criatura am\u00e1vel em extremo, a fala mansa, um brilho de intelig\u00eancia<br \/>\nnos vidros dos \u00f3culos redondos. Provavelmente esses indiv\u00edduos<br \/>\nn\u00e3o iriam achar imprescind\u00edvel a mudan\u00e7a de um adjetivo,<br \/>\ndispensariam a minha coopera\u00e7\u00e3o. Ao cabo de meia hora Nascimento<br \/>\nvoltou: &#8211; A sua proposta foi aceita. Pode continuar. Recomecei. Vendo-me cortar<br \/>\numa frase, redigi-Ia de novo, o medianeiro quis retomar-me as folhas. Segurei-as:<br \/>\n&#8211; Um instante.<\/p>\n<p>Li a p\u00e1gina at\u00e9 o fim: &#8211; Meu amigo, se voc\u00ea for reunir<br \/>\na c\u00e9lula para examinar cada emenda, isto n\u00e3o acaba. \u00c9<br \/>\nabsurdo. A reda\u00e7\u00e3o est\u00e1 cheia de erros, sou obrigado<br \/>\na riscar muito. Vamos ser pra ticos: eu fa\u00e7o as corre\u00e7\u00f5es<br \/>\ntodas, voc\u00eas estudam isso depois, em bloco.<\/p>\n<p>O sujeito considerou, ronronou: &#8211; \u00c9. Talvez seja melhor. Vou falar<br \/>\naos companheiros. Afastou-se, foi segredar a consulta, a um canto, regres<br \/>\nsou: &#8211; Eles concordam. Meta a cara no servi\u00e7o.<\/p>\n<p>A empreitada me levou dois dias. Em \u00e9poca normal estaria pronta numa<br \/>\nhora, mas achava-me confuso e dificilmente conseguia fixar a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nna prosa obscura. Surgiam-me d\u00favidas, via-me for\u00e7ado a recorrer-<br \/>\na Nascimento: &#8211; Que significa isto? Obtinha a explica\u00e7\u00e3o, manejava<br \/>\no l\u00e1pis sem gosto. Pregui\u00e7a e bocejos. Que lengalenga comprida!<br \/>\nFatigava-me, guardava os pap\u00e9is na valise. Retomava-os, escrevia alguns<br \/>\nminutos, interrompia-me. Encolhido na esteira, Nascimento conversava durante<br \/>\nessas pausas, dizia a utilidade presum\u00edvel de um burgu\u00eas como<br \/>\neu: &#8211; Vamos supor que a gente amanh\u00e3 tenha uma pretens\u00e3o qualquer<br \/>\nnum minist\u00e9rio. N\u00f3s n\u00e3o sabemos tratar com ministros.<br \/>\nVoc\u00ea pode servir de intermedi\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ria-me da esperan\u00e7a louca! &#8211; Meu amigo, voc\u00ea est\u00e1 equivocado.<br \/>\nEu n\u00e3o sou burgu\u00eas, n\u00e3o exploro ningu\u00e9m. Se fosse<br \/>\nburgu\u00eas, n\u00e3o estaria aqui. N\u00e3o perten\u00e7o a nenhuma<br \/>\nclasse, vivo numa camada vacilante, sem car\u00e1ter. E nunca me entendi<br \/>\ncom ministros, ando muito longe dos ministros.<\/p>\n<p>Aleixo tamb\u00e9m me aparecia. Com certeza vinha sondar-me, agente da<br \/>\nm\u00e1quina secreta que funcionava na pris\u00e3o. Misturava \u00e0<br \/>\nlinguagem dos manifestos e dos com\u00edcios express\u00f5es amb\u00edguas,<br \/>\nt\u00e3o dif\u00edceis como a g\u00edria de Ga\u00facho. As altera\u00e7\u00f5es<br \/>\nde forma e sentido chocavam-me; convencia-me lento de que proleta era uma<br \/>\nredu\u00e7\u00e3o de prolet\u00e1rio. Defesa de criaturas perseguidas;<br \/>\njuntavam-se naquele meio o vocabul\u00e1rio dos malandros e o dos militantes<br \/>\nde organismos pol\u00edticos ilegais; pouco a pouco esse aglomerado ca\u00f3tico<br \/>\ninvadia a l\u00edngua comum. Aleixo referia-me greves, peleja nos sindicatos,<br \/>\nrebeldia na estiva; narrava essa mat\u00e9ria violenta com do\u00e7ura,<br \/>\nbaixinho, completa mansid\u00e3o nos bugalhos cor de leite; parecia-me compor<br \/>\nmadrigais \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, enternecia-se por ela.<\/p>\n<p>&#8211; Formatura geral! gritava Cubano.<\/p>\n<p>Interromp\u00edamos a conversa, procur\u00e1vamos os nossos lugares.<br \/>\nA lufa-lufa desaparecera, achava-me agora tranq\u00fcilo e mec\u00e2nico.<br \/>\nUm dia o moleque largou o berro de comando e volveu para mim o seu andar curioso<br \/>\nde boneco de molas: &#8211; Quando eu mandar a formatura, n\u00e3o \u00e9 preciso<br \/>\no senhor se incomodar n\u00e3o. Sente-se numa daquelas camas, l\u00e1<br \/>\nno fundo.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, Cubano.<\/p>\n<p>Escorreguei para tr\u00e1s das filas, instalei-me perto das pias. Habituei-me<br \/>\ndesde ent\u00e3o a passar ali horas escrevendo O local era inconveniente:<br \/>\nda grade o pol\u00edcia me via entre tido no arranjo da literatura explosiva<br \/>\ndo relat\u00f3rio. Alheio ao perigo, n\u00e3o tomei nenhuma precau\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne esta imprud\u00eancia ainda hoje me espanta. Findei os remendos, restitu\u00ed<br \/>\nos pap\u00e9is a Nascimento, embrenhei-me na composi\u00e7\u00e3o das<br \/>\nminhas notas. Uma tarde, esfalfando-me nelas, vi a pequena dist\u00e2ncia<br \/>\num vagabundo a estirar o pesco\u00e7o, a lan\u00e7ar \u00e0 escrita<br \/>\nolhadelas furtivas.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que h\u00e1? perguntei com mau modo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o queria interromper, disse o tipo. Estava esperando que o<br \/>\nsenhor acabasse.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea? &#8211; Eu sou lavador. Se o senhor tiver alguma roupa suja,<br \/>\nn\u00e3o se esque\u00e7a de mim. Lavo barato.<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Certamente o indiv\u00edduo era espi\u00e3o, mas n\u00e3o achei que<br \/>\numa den\u00fancia dele me fosse prejudicial. Naquele momento as folhas,<br \/>\nrecopiadas, andavam longe, sem d\u00favida, talvez j\u00e1 estivessem<br \/>\nna c\u00e2mara. Um soldado servira de portador. Havia diversos que se encarregavam<br \/>\ndisso. A dire\u00e7\u00e3o do estabelecimento, de orelha em p\u00e9,<br \/>\nesfor\u00e7ava-se por descobri-los.<\/p>\n<p>19<\/p>\n<p>AQUECENDO-ME ao sol da manh\u00e3 p\u00e1lida, vi um guarda al\u00e9m<br \/>\nda cerca e dirigi-me a ele: &#8211; O senhor me poderia fazer o obs\u00e9quio<br \/>\nde mandar trazer minha roupa? Estou com os pijamas sujos.<\/p>\n<p>N\u00e3o enxerguei no caso nenhuma ofensa ao regulamento, mas naquele<br \/>\nestranho meio o mais insignificante pedido constitu\u00eda infra\u00e7\u00e3o;<br \/>\nningu\u00e9m tinha o direito de reclamar. O sujeito lan\u00e7ou-me uma<br \/>\nespiadela torva e rosnou algumas palavras de anu\u00eancia contrafeita. Um<br \/>\nrapaz, junto, ouviu o pequeno di\u00e1logo e teve a id\u00e9ia infeliz<br \/>\nde exigir qualquer coisa usando quase a minha linguagem. O funcion\u00e1rio<br \/>\narremeteu contra ele como um touro furioso, derramou improp\u00e9rios em<br \/>\ngritos, parecia querer derrubar a cerca.<\/p>\n<p>Atordoado, sem perceber o motivo da zanga s\u00fabita, responsabilizava-me<br \/>\nde algum modo por ela; se n\u00e3o resolvesse imitar-me, o pobre mo\u00e7o<br \/>\nn\u00e3o estaria a ouvir desaforos e desprop\u00f3sitos. Arrimado a uma<br \/>\nestaca, pois a perna doente n\u00e3o consentia firmar-me direito, assisti<br \/>\ncom indigna\u00e7\u00e3o impotente \u00e0 cena ign\u00f3bil. O tipo<br \/>\nse descomedia num discurso tr\u00f4pego e incoerente, avan\u00e7ava e recuava<br \/>\naos tombos, agitando os membros \u00e0 toa. Num desses movimentos desordenados,<br \/>\navizinhou-se demais e senti no rosto uma baforada viva de \u00e1lcool. Depend\u00edamos,<br \/>\nassim, de consci\u00eancias turvas, j\u00e1 pela manh\u00e3, cedo, a<br \/>\nextravagar. Qualquer ato nosso, qualquer gesto, provocaria doidas c\u00f3leras,<br \/>\ne n\u00e3o havia meio de nos defendermos. Os restos de paci\u00eancia do<br \/>\nanimal tinham-se esgotado comigo, a ira extravasava logo, atingia o primeiro<br \/>\nindiv\u00edduo exposto.<\/p>\n<p>Vinte e quatro horas depois, enquanto os homens se distribu\u00edam nas<br \/>\nfilas do trabalho, chamaram-nos para entregar os objetos deixados na secretaria,<br \/>\nao chegarmos. Alinhamo-nos, os bra\u00e7os cruzados, e o sujeito da v\u00e9spera,<br \/>\nnovamente na embriaguez, come\u00e7ou a dizer n\u00fameros e a jogar pacotes<br \/>\npor cima da cancela. De repente houve uma suspens\u00e3o na tabuada e percebi<br \/>\no meu nome preso a um t\u00edtulo: dr. Fulano de Tal. Aproximei-me, vi um<br \/>\nsaco de estopa negra, aberto, al\u00e9m do arame. Um embrulho arremessado<br \/>\ncaiu-me aos p\u00e9s. Ergui-o, cheio de espanto: era uma trouxa \u00famida,<br \/>\nescura, de causar nojo; pareceu-me que a tinham molhado, machucado, amassado,<br \/>\nat\u00e9 dar-lhe a apar\u00eancia de um bolo repugnante, seguro em cord\u00f5es.<\/p>\n<p>Voltamos \u00e0 gaiola. Desatei os barbantes, desdobrei a coisa s\u00f3rdida:<br \/>\na cal\u00e7a e o palet\u00f3 surgiram, mudados em trapos de mendigo. A\u00ed<br \/>\nprincipiou a &#8216;revelar-se a bondade estranha de Cubano, impercept\u00edvel<br \/>\nquando ele cantava a lista da chamada e reunia o pessoal nas formaturas. O<br \/>\nar de t\u00e9dio, gestos maquinais de fantoche; ningu\u00e9m adivinharia<br \/>\na\u00ed um cora\u00e7\u00e3o. Achei, contudo, que me ia tomar amigo<br \/>\ndaquele negro vagabundo, e n\u00e3o me iludi: a amizade at\u00e9 hoje<br \/>\nresistiu. Era uma criatura esquisita, empenhada constantemente em nos prestar<br \/>\nalgum servi\u00e7o, obrigando-nos \u00e0s vezes a aceit\u00e1-lo \u00e0<br \/>\nfor\u00e7a. Nunca vi ningu\u00e9m assim. Notando-me o apuro em descobrir<br \/>\nlugar para a farpela enxovalhada, Cubano chegou-se, \u00e1spero e breve:<br \/>\n&#8211; Eu guardo a sua roupa.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 que voc\u00ea tem onde guard\u00e1-la, Cubano? hesitei,<br \/>\nreceando furto.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se preocupe, disse o moleque decifrando-me o pensamento. Estando<br \/>\ncomigo, eles n\u00e3o mexem.<\/p>\n<p>Tomou os panos, estendeu-os na cabeceira da cama, vizinha \u00e0 porta.<br \/>\nFui acomodar-me na esteira, aborrecido com a exce\u00e7\u00e3o aberta<br \/>\npara mim no curral de arame. Doutor, que estupidez! Essa ironia besta anunciava<br \/>\ndesgra\u00e7a. Tinha-me esfor\u00e7ado por esquivar-me, ser uma part\u00edcula<br \/>\ninvis\u00edvel na turba, linha de quatro algarismos no cat\u00e1logo de<br \/>\nCubano. Obrigavam-me a sair da massa an\u00f4nima, personalizavam-me e, al\u00e9m<br \/>\nde tudo, conferiam-me distin\u00e7\u00e3o perigosa. Aquilo era t\u00e3o<br \/>\nburlesco e t\u00e3o lastimoso que me senti_ como um ator infeliz chamado<br \/>\n\u00e0 cena para receber vaia. Tive a impress\u00e3o de me haverem posto<br \/>\num rabo de papel e orelhas de burro. O horr\u00edvel esc\u00e1rnio levava-me<br \/>\nao desespero. Talvez n\u00e3o fosse esc\u00e1rnio: era possivelmente vaidade<br \/>\nmaluca, desejo de apontar no rebanho triste e submisso um animal diferente<br \/>\ndos outros. N\u00e3o me sa\u00eda da cabe\u00e7a o aviso do zarolho:<br \/>\n&#8211; &#8220;Quem foi grande l\u00e1 fora esque\u00e7a-se disto.&#8221; Conselho<br \/>\nsup\u00e9rfluo. N\u00e3o me perseguia nenhuma recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\nde grandeza: ocupava-me em of\u00edcios mi\u00fados e entregara-me \u00e0<br \/>\ndif\u00edcil manufatura de alguns livros pouco mais ou menos desconhecidos.<br \/>\nTinha raz\u00e3o para julgar-me um autor in\u00e9dito. Curiosa defer\u00eancia<br \/>\nnum lugar onde os homens se nivelavam, deitados na areia, nas esteiras podres<br \/>\nRevolvi os miolos, a buscar sentido no caso absurdo. Convenciam-se da exist\u00eancia<br \/>\nde um doutor no meio ign\u00f3bil, a definhar na piolheira, o cr\u00e2nio<br \/>\ndevastado a m\u00e1quina. A enorme queda e o imenso contraste deviam interess\u00e1-los.<br \/>\nEra agrad\u00e1vel ter ali uma import\u00e2ncia extinta, lembrar isto,<br \/>\nagravar a abje\u00e7\u00e3o. &#8211; &#8220;Cruza os bra\u00e7os, chefe&#8221;,<br \/>\nordenara-me no primeiro dia um miser\u00e1vel pigmeu. Qualquer pol\u00edcia<br \/>\nb\u00eabedo se esgoelaria dirigindo-me insultos, depois aludiria ao meu prest\u00edgio<br \/>\ninexistente. A incoer\u00eancia golpeava-me, e a chaga iria ser revolvida.<br \/>\nO quesito infame exposto na ficha amarela vinha-me ao esp\u00edrito, fixava-se:<br \/>\n&#8211; &#8220;Tem v\u00edcios secretos?&#8221; 20<\/p>\n<p>TORRANDO ao sol ardente, ficamos bem duas horas sentados no ch\u00e3o,<br \/>\nesperando que o m\u00e9dico nos mandasse chamar para a consulta. \u00c9ramos<br \/>\nuns vinte doentes, os mais arruinados, a tossir, a expor as horr\u00edveis<br \/>\nchagas escuras, trabalho das mucuranas. Bocejando na demora longa, procurei<br \/>\ndistrair-me vendo o servi\u00e7o na lavanderia pr\u00f3xima: \u00e0<br \/>\nbeira de um tanque, alguns indiv\u00edduos se atarefavam mexendo na \u00e1gua<br \/>\npe\u00e7as de roupa zebrada. A luz forte, o monte parecia avizinhar-se,<br \/>\ne as pedras ferruginosas tinham cintila\u00e7\u00f5es \u00e1speras.<br \/>\nAs piteiras se imobilizavam.<\/p>\n<p>Entramos enfim, despimo-nos. E em fila, nus, passamos a um pequeno gabinete,<br \/>\nsegurando pijamas e cuecas. Sentado a uma banca, o mo\u00e7o que dias antes<br \/>\nhavia feito as nossas fichas iniciou o r\u00e1pido exame in\u00fatil.<br \/>\nApesar da inutilidade, estiv\u00e9ramos duas horas ao sol para exibir ali<br \/>\na magrem, a sujeira, a palidez. Mais tarde receber\u00edamos alguns frascos<br \/>\nde rem\u00e9dio, que seriam despejados na areia do alojamento. N\u00e3o<br \/>\nt\u00ednhamos confian\u00e7a na beberagem. Que faz\u00edamos ent\u00e3o<br \/>\njunto \u00e0 mesa, despidos, a expor mazelas? O meu desejo era saber se<br \/>\nme achava mal, se poderia resistir ainda algum tempo ou se me acabaria logo;<br \/>\nbuscava adivinhar isso observando a cara e os movimentos do rapaz. Esperava<br \/>\ntamb\u00e9m que n\u00e3o deixassem morrer de fome, na repugn\u00e2ncia<br \/>\ninvenc\u00edvel \u00e0 cenoura.<\/p>\n<p>O doutor varejou-me a carca\u00e7a, deteve-se no p\u00e9 da barriga,<br \/>\npela segunda vez exprimiu a id\u00e9ia maluca de operar-me, atendeu \u00e0<br \/>\nrecusa e anotou os meus achaques. Afastei-me, vesti o pijama, estive uma hora<br \/>\na ver a linha avan\u00e7ar lenta para a formalidade burocr\u00e1tica.<br \/>\nA pasmaceira me fatigava, queria recolher-me. fechar os ouvidos \u00e0 tosse<br \/>\ncont\u00ednua, desviar-me das pernas cobertas de algod\u00e3o negro, purulento.<br \/>\nQuando nos retiramos, julguei imposs\u00edvel tornar \u00e0quela exibi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ao jantar, mandaram-me para a mesa dos doentes, num \u00e2ngulo do refeit\u00f3rio;<br \/>\nno prato de folha machucado serviram-me um caldo morno e ralo onde havia algumas<br \/>\nrodelas de b\u00f3ia s\u00f3rdida exposta sobre as t\u00e1buas negras<br \/>\ndos cavaletes Era uma insignific\u00e2ncia, mas n\u00e3o tinha o aspecto<br \/>\nasqueroso da refei\u00e7\u00e3o comum, e pude ingeri-Ia. Dois ou tr\u00eas<br \/>\ndias sentei-me entre as figuras macilentas, tomei a sopa desenxabida e escassa.<br \/>\nDe repente julgaram-me indigno da exce\u00e7\u00e3o, talvez por n\u00e3o<br \/>\nhaver tornado ao consult\u00f3rio, devolveram-me ao lugar primitivo, e de<br \/>\nnovo me abati no banco negro, os cotovelos em cima das pranchas, os dedos<br \/>\nm\u00e9dios comprimindo as narinas, os polegares cerrando as orelhas, a<br \/>\nboca aberta, os olhos fechados. O vizinho \u00e0 direita engolia r\u00e1pido,<br \/>\nem seguida me retirava a b\u00f3ia s\u00f3rdida. Imposs\u00edvel comer.<br \/>\nAgora o que me restava era o caneco de \u00e1gua choca, imita\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mate. Percebia a necessidade urgente de mastigar o p\u00e3ozinho redondo<br \/>\ne el\u00e1stico; palpava-o com des\u00e2nimo, a resist\u00eancia viscosa<br \/>\ntrazia-me enj\u00f4o. Certa manh\u00e3, depois de beber o l\u00edquido<br \/>\nsensabor, esqueci o ambiente, dirigi-me ao copeiro, distra\u00eddo, como<br \/>\nse estivesse num caf\u00e9: &#8211; Quer fazer-me o obs\u00e9quio de trazer<br \/>\nmais? Compreendi logo o desconchavo, estremeci vexado com a perturba\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo homem. Era um mulato claro, de fisionomia doce; vestia a zebra vergonhosa<br \/>\ndo estabelecimento. Ainda n\u00e3o me havia ferido a aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas o singular procedimento que teve levou-me a examin\u00e1-lo r\u00e1pido.<br \/>\nHesitante, dirigiu-se ao sujeito de cara repulsiva encostado \u00e0 ombreira<br \/>\nde uma porta, junto ao bule enorme e \u00e0s forquilhas de pontas numerosas,<br \/>\ncabides estranhos das vasilhas. Cochichou um momento, cabisbaixo, em grande<br \/>\nembara\u00e7o. A criatura repelente descerrou os queixos num riso sinistro,<br \/>\njogou-me de trav\u00e9s uma espiadela desdenhosa, soprou agastada: &#8211; Quer<br \/>\nmais, hem? Estamos num hotel, hem? O mulato, confuso, aproximou-se do cavalete,<br \/>\nmurmurou sucumbido: &#8211; N\u00e3o pode ser. Desculpe. Eles n\u00e3o d\u00e3o.<\/p>\n<p>A voz suave num instante me revelou o mo\u00e7o. J\u00e1 me havia impressionado;<br \/>\napenas de outra vez n\u00e3o estava assim tr\u00eamula. Era ele, sem d\u00favida.<br \/>\nAcabou de falar, e as l\u00e1grimas correram-lhe no rosto p\u00e1lido.<br \/>\nEssa anormal sensibilidade me causou violento choque, e lamentei com desgosto<br \/>\na exig\u00eancia imprudente que originara tal desarranjo no esquisito indiv\u00edduo.<br \/>\nEra ele, recordava-me bem.<\/p>\n<p>No encontro anterior n\u00e3o havia a tremura, a palidez, o choro; esquecer-me-ia<br \/>\ndele se a voz dul\u00e7urosa n\u00e3o me escorregasse nos ouvidos, trazendo-me<br \/>\na cena meio apagada. Noite. Das l\u00e2mpadas morti\u00e7as espirrava uma<br \/>\nluzinha curta, as sombras envolviam a sala estreita e longa, o ar se empestava<br \/>\ncom um cheiro de carni\u00e7a. Entorpecia-me num banco, as m\u00e3os segurando<br \/>\na cabe\u00e7a pesada. Em frente, em cima de t\u00e1buas vagas, manchas<br \/>\nescuras num prato invis\u00edvel. Perto, um vulto sem fei\u00e7\u00f5es<br \/>\ngemia um conselho frouxo: &#8211; &#8220;Coma. Fa\u00e7a um sacrif\u00edcio.<br \/>\nA comida est\u00e1 boa, foi preparada para os senhores. Experimente.&#8221;<br \/>\n&#8211; &#8220;N\u00e3o. Obrigado. \u00c9 imposs\u00edvel.&#8221; Novamente<br \/>\na fala morna a embalar-me: &#8211; &#8220;Fa\u00e7a um esfor\u00e7o. Amanh\u00e3<br \/>\no senhor n\u00e3o ter\u00e1 isto. A comida est\u00e1 boa. Experimente.&#8221;<br \/>\nNa sombra espessa os lineamentos perdiam-se; a amabilidade excessiva provocava-me<br \/>\numa sensa\u00e7\u00e3o molesta, a n\u00e1usea crescia; ignorando a significa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquilo, desejava afastar-me e esquecer a brandura pegajosa. Ao mesmo tempo<br \/>\nachava-me ingrato.<\/p>\n<p>Na claridade nevoenta da manh\u00e3, divisei os tra\u00e7os do homem,<br \/>\ne a lividez, o pranto f\u00e1cil, o tremor, a desculpa embrulhada revelaram-me<br \/>\na natureza dele. Era gordo, imberbe, os olhos mansos, um sorriso doloroso<br \/>\nnos bei\u00e7os fl\u00e1cidos. Embora visse ali um vivente a sofrer por<br \/>\nminha causa, era-me imposs\u00edvel evitar a repulsa que sentira \u00e0<br \/>\nnoite da chegada, mas o nojo misturava-se \u00e0 gratid\u00e3o e ao pesar<br \/>\nde haver estorvado o infeliz. Um infeliz, sem d\u00favida, firmava-me nesta<br \/>\nconvic\u00e7\u00e3o: tipo de sexo duvidoso, comum no ajuntamento da cadeia.<br \/>\nA apar\u00eancia equ\u00edvoca e o procedimento invulgar causavam-me transtorno<br \/>\ne a necessidade urgente de afastar-me e esquecer, embora dissesse a mim mesmo<br \/>\nque a lembran\u00e7a do caso iria perseguir-me. Nunca me vira na presen\u00e7a<br \/>\nde um desses indiv\u00edduos assim cara a cara, sabendo-lhe as tend\u00eancias.<br \/>\nPela primeira vez surgia-me um deles e facultava-me o exame imprevisto do<br \/>\ncorpo e da alma. Apesar de n\u00e3o me ser poss\u00edvel nenhuma compara\u00e7\u00e3o,<br \/>\nestava certo de n\u00e3o enganar-me. Era aquilo, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>A carranca feroz, a poucos metros, junto ao bule enorme e \u00e0s forquilhas,<br \/>\nenviava-me olhares assassinos. E o coitado permanecia de cabe\u00e7a baixa,<br \/>\nnum constrangimento, enxugando o rosto \u00e0 manga da blusa. Imaginei ali<br \/>\num epis\u00f3dio sentimental: havia entre os dois possivelmente um drama,<br \/>\ne o portador das forquilhas e do bule se enchia de ci\u00fame e despeito<br \/>\nvendo na fr\u00e1gil condescend\u00eancia do amigo sinais de trai\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDevia ser isso. A recusa brutal e o gesto provocador falavam claro. Essa id\u00e9ia<br \/>\nme trouxe horr\u00edvel mal-estar, vergonha, como se me cumpliciasse a ignom\u00ednias;<br \/>\ncresceu o desejo de levantar-me, regressar ao alojamento, cair na esteira,<br \/>\nescrever as minhas notas, ouvir as greves narradas por Aleixo, os roubos de<br \/>\nGa\u00facho. Invadia-me, entretanto, uma indecisa mistura de sentimentos:<br \/>\nchocavam-se a piedade, a tristeza, a admira\u00e7\u00e3o, o prazer de<br \/>\nrealizar uma descoberta. N\u00e3o me ocorrera a exist\u00eancia de cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nnessas anomalias; de longe, exclusivista e r\u00edgido, habituara-me a julg\u00e1-las<br \/>\nsordidez apenas. As mulheres sempre exerceram sobre mim tirania excessiva,<br \/>\ndavam-me preocupa\u00e7\u00f5es vizinhas da monomania, \u00e0s vezes<br \/>\nas imagens interiores mudavam-se quase em vis\u00f5es, e isto era doloroso.<br \/>\nFantasias doidas impediam-me o trabalho. Pois, dedicando-me a elas inteiramente,<br \/>\nnunca divisara em nenhuma a bondade manifesta ali pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Na verdade era imposs\u00edvel transformar-me, vencer \u00f3 nojo que<br \/>\nesses desvios me causavam. Era um nojo profundo, e em v\u00e3o buscaria<br \/>\nlivrar-me dele. Mas uma evid\u00eancia entrava a impressionar-me: na torpeza<br \/>\nnauseante havia alguma coisa muito pura.<\/p>\n<p>21<\/p>\n<p>N\u00c3O VOLTEI ao refeit\u00f3rio. A presen\u00e7a do homem t\u00edmido<br \/>\ne blandicioso era insuport\u00e1vel. Queria explic\u00e1-lo, justific\u00e1-lo;<br \/>\nsentia-me cheio de agradecimento e asco. Nessa incompatibilidade, esfor\u00e7ava-me<br \/>\npor esquec\u00ea-lo, mas a gordura fofa e a benevol\u00eancia pegajosa estavam-me<br \/>\npresas na lembran\u00e7a, como esparadrapo. Contentava-me haver percebido<br \/>\num fato novo; ao mesmo tempo me aborrecia por ver que isso me perturbava id\u00e9ias<br \/>\nantigas, abalando valores assentes.<\/p>\n<p>Busquei distrair-me compondo as notas infind\u00e1veis, confusas, em peda\u00e7os<br \/>\nde papel arranjados nem sei como; provavelmente ningu\u00e9m as leria: em<br \/>\nmomento de apuro seriam deixadas em qualquer canto, jogadas na \u00e1gua.<br \/>\nA hora da comida esquivava-me para tr\u00e1s das filas, escondia-me ao p\u00e9<br \/>\ndo lavat\u00f3rio. O rebanho movia-se, transpunha a porta, conjugava-se<br \/>\nnuma extensa linha, atravessava o curral de arame, o p\u00e1tio branco.<br \/>\nE achava-me s\u00f3, um livro na m\u00e3o, espremendo os miolos inutilmente<br \/>\npara entend\u00ea-lo. Pezunhava numa p\u00e1gina, lia cinco, seis vezes,<br \/>\nlargava a brochura, desanimado. A leitura se havia tornado imposs\u00edvel;<br \/>\ncontudo aventurava-me a escrever. Se aquelas folhas me aparecessem hoje, desconexas,<br \/>\nmedonhas, revelariam a minha perturba\u00e7\u00e3o, a fraqueza do esp\u00edrito.<br \/>\nAs horas longas arrastavam-se, e era preciso ench\u00ea-las.<\/p>\n<p>A escrita fatigava-me depressa, e arrojava-me teimoso a uma hist\u00f3ria<br \/>\nsimples apanhada na biblioteca do Coletivo Era uma pequena cole\u00e7\u00e3o<br \/>\namarfanhada, triturada, suja, inteiramente de acordo com o lugar onde funcionava.<br \/>\nEncontrei nela, inexplicavelmente, os tr\u00eas volumes que me acompanharam<br \/>\nno dia da pris\u00e3o e tentei decifrar no quartel do Recife e a bordo:<br \/>\nl\u00e1 estavam as dedicat\u00f3rias de Jos\u00e9 Geraldo Vieira, Agrippino<br \/>\nGrieco e Ot\u00e1vio de Faria. Essas artes tinham-me deixado o cub\u00edculo<br \/>\nno Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios; agora, rasgados e sem capas serviam<br \/>\nde pasto a ladr\u00f5es, vagabundos e pol\u00edticos. A forma de obt\u00ea-las<br \/>\nharmonizava-se com o nosso meio.<\/p>\n<p>Descobri alguns romances de Jos\u00e9 Lins, de Jorge Amado, meus. E, tanto<br \/>\nquanto posso julgar, o mais lido era Jorge: apareciam-me com freq\u00fc\u00eancia,<br \/>\nnas t\u00e1buas e nas esteiras, malandros, tipos das favelas, atentos no<br \/>\nSuor e no Jubiab\u00e1. Porque estaria Jorge, s\u00f3 ele, a provocar<br \/>\no interesse dessa gente? Remexi a cabe\u00e7a procurando uma resposta. Bem.<br \/>\nJos\u00e9 Lins \u00e9 memorialista, o grande m\u00e9rito dele \u00e9<br \/>\nhaver exposto, nua e b\u00e1rbara, a vida nos engenhos de a\u00e7\u00facar;<br \/>\n\u00e9 uma enorme for\u00e7a que se esvai fora do seu ambiente. D\u00e1-nos<br \/>\na impress\u00e3o de ouvir o rumor do vento nos canaviais, sentir o cheiro<br \/>\ndo mel nas tachas; percebemos at\u00e9, nos seus di\u00e1logos, o timbre<br \/>\nda voz das personagens. Uma realidade flagrante. Essas coisas eram vistas<br \/>\ncom aten\u00e7\u00e3o por uma pequena minoria de sujeitos mais ou menos<br \/>\ninstru\u00eddos que buscavam nas obras de arte apenas o documento. O nosso<br \/>\np\u00fablico em geral afastava-se disso, queria sonho e fuga. Aqueles homens<br \/>\nde tatuagens, anf\u00edbios, ora no morro, ora na cadeia, entregam-se, por<br \/>\nserem primitivos ou para esquecer asperezas, a divaga\u00e7\u00f5es complicadas,<br \/>\ne n\u00e3o sabemos quando nos exp\u00f5em casos ver\u00eddicos nem quando<br \/>\nmentem. A imagina\u00e7\u00e3o de Jorge os encantava, imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nviva, t\u00e3o forte que ele sup\u00f5e falar a verdade ao narrar-nos<br \/>\nexist\u00eancias rom\u00e2nticas nos saveiros, nos cais, nas fazendas de<br \/>\ncacau. A respeito dos meus livros nada sei, pois nunca vi ningu\u00e9m pegar<br \/>\num; l\u00e1 ficaram intatos, suponho. Notando-me o jejum, Cubano quis levar-me<br \/>\nao refeit\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha paci\u00eancia, Cubano, protestei. Voc\u00ea me dispensou das<br \/>\nformaturas.<\/p>\n<p>&#8211; A hora da comida, n\u00e3o. \u00c9 diferente. O senhor n\u00e3o<br \/>\npode passar sem comer.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado. N\u00e3o tenho fome.<\/p>\n<p>O \u00f3timo negro rosnou uns conselhos e deixou-me em paz. Ele tinha<br \/>\nraz\u00e3o, era preciso enganar o est\u00f4mago. Assim, mandei comprar<br \/>\num queijo pelo soldadinho que, \u00e0 noite da chegada, se oferecera, por<br \/>\ninflu\u00eancia do sargento, para os neg\u00f3cios clandestinos. O rapaz<br \/>\ntrouxe-me a encomenda e recusou gorjeta. Se o queijo ficasse em meu poder,<br \/>\nos ladr\u00f5es o abafariam; por isso Vanderlino apossou-se dele, trancou-o<br \/>\nna mala e durante algum tempo me submeteu a duas, tr\u00eas ra\u00e7\u00f5es<br \/>\ndi\u00e1rias, fatias quase transparentes, insignific\u00e2ncias cortadas<br \/>\na gilete. Perceb\u00edamos em redor olhos famintos, pedidos silenciosos,<br \/>\nnovamente os dedos \u00e1geis da pachorrenta criatura manejavam a l\u00e2mina,<br \/>\nreduziam a escassa reserva, que logo se dissipou. Outra vez a abstin\u00eancia.<br \/>\nE respirei com al\u00edvio. Mastigar, remoer aqueles fragmentos, era na<br \/>\nverdade uma obriga\u00e7\u00e3o imposta por Vanderlino A pasta gordurosa<br \/>\ncausava-me forte enj\u00f4o. Realmente me achava, como no por\u00e3o do<br \/>\nManaus, atacado pela sitiofobia; pensar em alimento me dava nojo.<\/p>\n<p>Fumava sem interrup\u00e7\u00e3o; o m\u00e9dio, o polegar e o indicador<br \/>\nda m\u00e3o esquerda amarelaram e enegreceram; os bei\u00e7os queimaram-se<br \/>\ne n\u00e3o era poss\u00edvel umedec\u00ea-los. Essa terr\u00edvel necessidade<br \/>\nocasionava-me arrelias constantes. Havia sempre em torno de mim v\u00e1rios<br \/>\nsujeitos a rondar, a matilha impudica dos ca\u00e7adores de baganas. Quando<br \/>\nvi pela primeira vez esses indiv\u00edduos baixarem-se para colher no ch\u00e3o<br \/>\numa ponta de cigarro, vexei-me em excesso, virei a cabe\u00e7a, fingi n\u00e3o<br \/>\nreparar no procedimento vil. Depois me indignei e enojei Era uma canalha privada<br \/>\ninteiramente de vergonha, n\u00e3o me deixava em sossego. Queria afastar-me<br \/>\ndela, mas em qualquer parte do alojamento surgiam-me vagabundos ligeiros,<br \/>\nde olhos compridos, a medir-me os gestos. Impacientavam-se, avizinhavam-se,<br \/>\nnum descaro revoltante. Uma praga. Risinhos safados, enorme sabujice nas caras<br \/>\nlorpas. Examinavam-me atentos os bolsos da roupa vestida pelo avesso. Na cupidez<br \/>\ne na rivalidade, avan\u00e7avam mal se riscava o f\u00f3sforo, pediam<br \/>\nsem pejo o resto do cigarro apenas come\u00e7ado. A princ\u00edpio, em<br \/>\nhorr\u00edvel constrangimento, resignei-me a estender-lhes o ma\u00e7o.<br \/>\nDistanciavam-se, ao cabo de minutos estavam na ronda, insaci\u00e1veis.<br \/>\nInquietei-me: era imposs\u00edvel sustentar tantos malandros. Na valise<br \/>\na provis\u00e3o -de fumo se reduzia. Tentei reagir, p\u00f4r termo \u00e0<br \/>\ninfame investida: &#8211; Assim tamb\u00e9m \u00e9 demais V\u00e3o para o<br \/>\ndiabo.<\/p>\n<p>Voltava as costas, cheio de raiva. Um patife me seguia, chegava-se de manso,<br \/>\narrancava-me da m\u00e3o o cigarro e sa\u00eda correndo. Enfim o sortimento<br \/>\nse esvaiu e necessitei recorrer de novo ao soldadinho prestativo. Recebi um<br \/>\nmilheiro de cigarros. Cubano tomou esse contrabando, meteu-o numa s\u00f3rdida<br \/>\nmochila, que amarrou nos ferros da cama.<\/p>\n<p>&#8211; Em meu poder est\u00e3o em seguran\u00e7a. Fique descansado. Eles<br \/>\nn\u00e3o mexem comigo.<\/p>\n<p>No dia seguinte havia um buraco na mochila e a aus\u00eancia de oito ma\u00e7os.<\/p>\n<p>22<\/p>\n<p>GRITARAM-ME o nome. Soltei o livro, sa\u00ed da esteira, cheguei-me \u00e0<br \/>\nporta, vi al\u00e9m da grade Alfeu, o cafuzo de olhar sangrento que, \u00e0<br \/>\nnoite da chegada, espancara e rolara a pontap\u00e9s um homem, perto de<br \/>\nmim. Agora n\u00e3o mostrava f\u00faria. Esteve um minuto gargarejando<br \/>\nsons incompreens\u00edveis, a fazer pausas, em grande embara\u00e7o. Procurava<br \/>\nas palavras, co\u00e7ava a cabe\u00e7a, num desesperado esfor\u00e7o<br \/>\npara explanar o assunto dif\u00edcil; espantava-me, examinando-lhe a cara<br \/>\ntorva, buscando perceber a causa de tantos circunl\u00f3quios e hesita\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPouco a pouco as id\u00e9ias dele se combinaram, afinal lhe conheci o intuito,<br \/>\nmas o caso era estranho, e com um tremor violento recuei cheio de pavor. O<br \/>\nsoldado esperava de mim um obs\u00e9quio. O diretor da pris\u00e3o aniversariava<br \/>\nno dia seguinte, o pessoal andava a preparar-lhe uma festa, e Alfeu tinha<br \/>\ndesejo de fazer um discurso, representando a pol\u00edcia. Como n\u00e3o<br \/>\nsabia trabalhar nessa mat\u00e9ria, pedia-me que redigisse uma sauda\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncurta, meia folha de papel somente. Um favor pequeno.<\/p>\n<p>Atravessou-me o esp\u00edrito, com medonha nitidez, a conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\nde uma recusa: lembrei a cena horr\u00edvel e imaginei-me na situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo infeliz, a espojar-me na areia, contuso, amarfanhado, biqueiras de sapatos<br \/>\ndesarranjando-me as costelas. O aviso do zarolho misturou-se \u00e0 desgra\u00e7ada<br \/>\nlembran\u00e7a: &#8211; &#8220;Aqui n\u00e3o h\u00e1 direito, nenhum direito.<br \/>\nQuem foi grande l\u00e1 fora esque\u00e7a-se disto.&#8221; Iria suceder-me<br \/>\naquilo, sem d\u00favida, se me negasse a contentar o enorme bruto. Sem d\u00favida.<br \/>\nMas n\u00e3o me ocorria uma negativa, nem sequer a possibilidade vaga de<br \/>\neximir-me. Escreveria o discurso; no primeiro instante supus que iria escrev\u00ea-lo;<br \/>\nnenhum meio de evitar esta inf\u00e2mia. Atento nas estrias vermelhas dos<br \/>\nbugalhos duros, perguntava a mim mesmo onde iria esconder-me para fabricar<br \/>\nelogios ao diretor da pris\u00e3o. Vinte e quatro horas depois o cafuzo<br \/>\ngaguejaria essa mis\u00e9ria, e eu me conservaria agachado na esteira, um<br \/>\nmolambo, sem \u00e2nimo de encarar Nascimento, Aleixo e Claudino. Achava-me<br \/>\nindigno, interiormente sujo, e n\u00e3o conseguia evitar isto. As biqueiras<br \/>\ndos sapatos n\u00e3o me sa\u00edam do pensamento, e era como se estivessem<br \/>\nmoendo-me a carne, desarticulando-me os ossos.<\/p>\n<p>Um medo horr\u00edvel, presumo que ningu\u00e9m sentiu medo assim. J\u00e1<br \/>\nme havia sucedido coisa semelhante, anos atr\u00e1s. Em geral me atord\u00f4o,<br \/>\nperco a no\u00e7\u00e3o do perigo, n\u00e3o ou\u00e7o tiros num conflito;<br \/>\nvem-me custosa, em peda\u00e7os, a conveni\u00eancia de resguardar-me atr\u00e1s<br \/>\nde uma \u00e1rvore, num v\u00e3o de uma porta. Em 1930 um piquete das<br \/>\nfor\u00e7as revolucion\u00e1rias de Agildo Barata agarrou-me no interior<br \/>\nde Alagoas e fingiu querer fuzilar-me. No Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios<br \/>\nAgildo ria escutando a narra\u00e7\u00e3o dessa proeza besta. Eram dezesseis<br \/>\nmalucos. Esvaziaram-me os pneum\u00e1ticos do carro, encheram-me de perguntas<br \/>\ne amea\u00e7as. Atrapalhado em excesso, n\u00e3o respondi; tirei do bolso<br \/>\num papel e mastiguei-o. Preso, estirado na cama, o chap\u00e9u cobrindo-me<br \/>\no rosto, ouvi pancadas; sentei-me, vi perto um indiv\u00edduo a bater com<br \/>\na soleira do. fuzil no ch\u00e3o, querendo assustar-me. &#8211; &#8220;Voc\u00ea<br \/>\ndispara esse diabo e mata um companheiro. Com licen\u00e7a.&#8221; Estirei<br \/>\no bra\u00e7o e virei a asa do registro de seguran\u00e7a. Achava-me bastante<br \/>\napreensivo, mas era receio comum. Alguns dias de reclus\u00e3o, v\u00e1rios<br \/>\naborrecimentos. Mal s\u00e9rio n\u00e3o me fariam aqueles militares vagabundos,<br \/>\nincapazes de pegar direito numa arma. N\u00e3o, n\u00e3o era medo. Medo<br \/>\nsentia agora, diante do cafuzo, pensando nos sapatos ferrados, na c\u00f3lera<br \/>\ndoida. Medo igual ao que experimentara anos antes, uma noite de lua. Achava-me<br \/>\nno quintal de uma criaturinha sem-vergonha, meio escondido junto a uma cerca<br \/>\nde bambu. Eram duas horas da madrugada. A mulher n\u00e3o vinha, fazia-me<br \/>\nperder tempo, e a demora me impacientava. Abriu-se de repente uma janela na<br \/>\nvizinhan\u00e7a, um cachorro ladrou; julguei-me descoberto peio marido pulha<br \/>\nda sujeitinha, larguei a espera, atravessei o port\u00e3o, e sa\u00ed<br \/>\ncorrendo \u00e0 toa na rua deserta. Era uma carreira tr\u00eamula e bamba,<br \/>\nos joelhos chocavam-se, pernas de velho; um solu\u00e7o esmorecia-me na<br \/>\ngarganta e em mim tudo se resumia numa necessidade horr\u00edvel de chorar<br \/>\nQueria deter-me, condenava severo a fuga rid\u00edcula, mas algu\u00e9m<br \/>\nme perseguia, esta id\u00e9ia absurda atirava-me para a frente. Negava a<br \/>\nexist\u00eancia da persegui\u00e7\u00e3o, considerava-me est\u00fapido,<br \/>\nmas era imposs\u00edvel refrear os movimentos desengon\u00e7ados. Em completo<br \/>\nabandono, vivente infeliz, sem nenhuma defesa. A brancura do luar desesperava-me.<br \/>\nHabitava uma cidadezinha sertaneja, todos a\u00ed me conheciam. Negociante,<br \/>\nfigura mais ou menos razo\u00e1vel. Se um dos meus fregueses surgisse na<br \/>\nrua, me apanhasse naquele estado? No meu \u00faltimo livro, em poder de<br \/>\nJos\u00e9 Ol\u00edmpio, aventurara-me a fixar esse terror, essa covardia<br \/>\nimensa. Ali ao p\u00e9 da grade, via-me assim pela segunda vez.<\/p>\n<p>Um trapo, os m\u00fasculos frios, desmaio no cora\u00e7\u00e3o, a<br \/>\nvontade suspensa. Talvez, se abrissem a porta, me pusesse a correr desvairado,<br \/>\ncomo naquela noite. Mas a precis\u00e3o de fugir, alucinada e urgente, n\u00e3o<br \/>\npodia realizar-se: quando muito, iria manquejando ao extremo do galp\u00e3o,<br \/>\nonde o cafuzo batera e espezinhara um desgra\u00e7ado. Um rato a pretender<br \/>\nesquivar-se, inutilmente; os olhos ruins do gato imobilizavam-me. Tortura<br \/>\ndupla: a vis\u00e3o clara de patadas rijas num corpo inerme, a ignominiosa<br \/>\ncomposi\u00e7\u00e3o de louvores ao diretor. N\u00e3o havia alternativa,<br \/>\nn\u00e3o me deixavam direito de escolha. &#8211; &#8220;Aqui n\u00e3o h\u00e1<br \/>\ndireito, nenhum direito.&#8221; Horrorizava-me ser atirado ao ch\u00e3o,<br \/>\npisarem-me, desarticularem-me, e a repulsiva tarefa vinha com jeito de ordem.<br \/>\nN\u00e3o estava nas minhas possibilidades furtar-me a ela, nem um momento<br \/>\npensei nisto; preocupava-me somente achar um canto para cumpri-Ia, ausente<br \/>\nde Aleixo. Depois me tornaria inimigo do excelente negro; n\u00e3o suportaria<br \/>\no brilho dos \u00f3culos redondos, a fala mansa, as hist\u00f3rias de<br \/>\ngreves. Acharia raz\u00f5es para simular desprez\u00e1-lo, desprezando-me;<br \/>\nservem para isto as pequenas intelig\u00eancias malandras. N\u00e3o as<br \/>\ncensuro, pois estive a ponto de acanalhar-me e nenhuma resist\u00eancia opus.<br \/>\nN\u00e3o refleti, n\u00e3o busquei vencer a dificuldade: um miser\u00e1vel<br \/>\ntraste. O desfecho desse caso foi imprevisto e ainda hoje me espanta: ignoro<br \/>\ncomo veio.<\/p>\n<p>&#8211; E quem lhe disse que eu sei fazer discursos? perguntei numa calma exterior<br \/>\nde causar surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe, afirmou o soldado. Pois eu n\u00e3o vejo o senhor mexendo em papel<br \/>\no dia inteiro? Demais o senhor foi importante na sua terra.<\/p>\n<p>&#8211; Nada disso. \u00c9 engano.<\/p>\n<p>Fechavam-me aquela sa\u00edda. Imprud\u00eancia dedicar-me ao relat\u00f3rio<br \/>\ne \u00e0s notas perto da grade. Nova obje\u00e7\u00e3o caiu, lenta e<br \/>\nincisiva: &#8211; Bem. Suponhamos que eu saiba fazer isso. Imagina que posso fazer?<br \/>\nN\u00e3o adivinho os seus sentimentos. Se eu escrevesse o discurso, toda<br \/>\na gente compreenderia logo que ele n\u00e3o era seu.<\/p>\n<p>Devo ter falado assim, com pouca altera\u00e7\u00e3o. Pelo menos estou<br \/>\ncerto de n\u00e3o exibir nestas linhas coragem falsa. O medo me envolvera<br \/>\num infind\u00e1vel minuto, medo horroroso de ag\u00fcentar coices na barriga<br \/>\ne no peito, de me esconder para arrumar as letras miser\u00e1veis. N\u00e3o<br \/>\nhesitara um segundo: necess\u00e1rio compor o discurso. A resposta ao cafuzo<br \/>\nrevelou que eu havia preferido os golpes e a humilha\u00e7\u00e3o: ignoro<br \/>\ncomo se deu a mudan\u00e7a interna, falta-me a consci\u00eancia disto.<br \/>\nProvavelmente foi a certeza de me ser imposs\u00edvel a infame reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Use a sua linguagem, tornei. N\u00e3o adianta dizer frases bonitas,<br \/>\nalheias. Mostre com simplicidade o que tem dentro. \u00c9 melhor, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9? A tromba de Alfeu exprimia descontentamento, os bugalhos cru\u00e9is<br \/>\ninjetaram-se mais, o cr\u00e2nio mi\u00fado balan\u00e7ava, afirmando,<br \/>\nnegando: o homem rude buscava entender. Ao declarar-me, ao ter conhecimento<br \/>\nda resolu\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria, livrara-me do terror. As biqueiras<br \/>\ndos sapatos deixaram de atormentar-me, eram desgra\u00e7as inevit\u00e1veis.<br \/>\nPaci\u00eancia, estavam previstas. Bom deixar tudo claro: &#8211; E depois n\u00e3o<br \/>\ntenho motivo para ser am\u00e1vel com o diretor. Voc\u00ea tem, \u00e9<br \/>\nnatural. Mas eu, acha que posso ser amigo dele? O cafuzo, perplexo, continuava<br \/>\na agitar a cabe\u00e7a e arregalava os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Diga. Acha que posso ser amigo dele? &#8211; N\u00e3o, rosnou com mau modo.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o? Ponha-se no meu lugar. Se voc\u00ea estivesse aqui preso<br \/>\ne soubesse escrever, fazia esse discurso? &#8211; N\u00e3o fazia, murmurou o soldado.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 a\u00ed. Voc\u00ea mesmo reconhece. \u00c9 imposs\u00edvel.<br \/>\nAgora o rosto de Alfeu manifestava confus\u00e3o e desassossego. Tive pena<br \/>\ndo pobre selvagem que me inspirara tanto horror, precisei dizer ainda uma<br \/>\npalavra, dissipar nuvens: &#8211; Fica zangado comigo, Alfeu? Ergueu os olhos, quase<br \/>\ndoces: &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o fico, o senhor tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pe\u00e7a uma coisa que n\u00e3o me prejudique. Pe\u00e7a outra<br \/>\ncoisa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Obrigado.<\/p>\n<p>Afastou-se abrupto. No dia seguinte pela manh\u00e3, penetrando no curral<br \/>\nde arame. vi Alfeu encostado \u00e0 ombreira do port\u00e3o. A minha passagem,<br \/>\nagarrou-me o bra\u00e7o e cochichou: &#8211; Se o senhor tiver neg\u00f3cios<br \/>\nl\u00e1 fora, conte comigo. estou \u00e0s suas ordens.<\/p>\n<p>&#8211; Muito agradecido, Alfeu.<\/p>\n<p>23<\/p>\n<p>O POBRE Neves, de mal a pior, tossindo e sem f\u00f4lego foi acabar-se na<br \/>\nenfermaria; nunca mais ouvimos falar nele. E Ga\u00facho se apossou da cama<br \/>\nvizinha \u00e0 porta lateral.<\/p>\n<p>Levou para ali os seus picu\u00e1s, estabeleceu-se e no dia seguinte me<br \/>\nfez uma proposta curiosa: &#8211; Vossa merc\u00ea quer comprar a minha cama? A<br \/>\nprinc\u00edpio n\u00e3o entendi; notei depois que se tratava de neg\u00f3cio<br \/>\nregular naquele meio. O sujeito apodera-se de um objeto, declara-se dono e<br \/>\nlogo o transforma em dinheiro. Essas opera\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nconstitu\u00edam novidade para mim; surgiam-me com freq\u00fc\u00eancia<br \/>\nindiv\u00edduos agachados pelos cantos, embromando-se em longos cochichos,<br \/>\najustes infind\u00e1veis As coisas mi\u00fadas circulavam, passavam de<br \/>\nbolso a bolso, e as v\u00edtimas dos furtos, cheias de vergonha, sentiam<br \/>\ndesprezo nos olhos dos profissionais e guardavam sil\u00eancio. Nenhum espanto,<br \/>\nconsideravam-se leg\u00edtimas essas transa\u00e7\u00f5es. Ga\u00facho<br \/>\nn\u00e3o me propunha essa mercadoria, uma das bagatelas que facilmente se<br \/>\nocultava em sacos, em dobras de roupa: oferecia um m\u00f3vel. Estabelecera<br \/>\na posse e transferia-me o direito de me deitar na cama. Hesitei, receoso de<br \/>\ntrapa\u00e7a, afinal me decidi: &#8211; Est\u00e1 bem. Quanto custa isso? &#8211;<br \/>\nUma g\u00e2mbia. &#8211; Quanto? &#8211; Cinco mangos.<\/p>\n<p>&#8211; Fale direito, Ga\u00facho. &#8211; Cinco mil-r\u00e9is. J\u00e1 disse.<br \/>\nNa seguran\u00e7a mesquinha os pre\u00e7os reduziam-se muito. &#8211; Est\u00e1<br \/>\ncerto.<\/p>\n<p>Passei a nota, o ladr\u00e3o foi retirar os cacarecos e arranjou lugar<br \/>\nnuma t\u00e1bua, no fim do alojamento. Pouco depois encontrei-o ocupado<br \/>\nem despregar a esteira que forrava o lastro da cama. Protestei, indignado:<br \/>\n&#8211; Que \u00e9 isso, Ga\u00facho? &#8211; Estou descosendo a esteira. &#8211; Vai lev\u00e1-la?<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o? &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o me vendeu esses tro\u00e7os, homem?<br \/>\n&#8211; Vendi a cama. A esteira \u00e9 outra coisa, resmungou o sujeito com descarada<br \/>\nfirmeza.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe disso, criatura. Eu vou dormir em cima do ferro? &#8211; N\u00e3o sei.<br \/>\nA esteira \u00e9 minha. Se vossa merc\u00ea precisa dela, eu vendo custa<br \/>\ndois mangos.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem, est\u00e1 bem. Mas voc\u00ea vai preg\u00e1-la de<br \/>\nnovo. Se ficar solta, desaparece.<\/p>\n<p>O escrunchante recebeu a moeda, afastou-se, voltou com uma agulha comprida<br \/>\ne esmerou-se em corrigir o estrago. Findo o trabalho, seguiu-me; vendo-me<br \/>\npegar a valise, tomou-a, perfilou-se, numa atitude burlesca e de respeito<br \/>\nque me arrancou uma gargalhada.<\/p>\n<p>&#8211; Solte essa valise, Ga\u00facho. &#8211; N\u00e3o senhor, fa\u00e7o quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Fui tomar posse da cama; Ga\u00facho atr\u00e1s, segurando a pequena<br \/>\nbagagem, muito s\u00e9rio, representava o papel de criado. Pus-me a rir,<br \/>\npela primeira vez me surgia ali motivo para riso. Sobre a esteira, dobrado,<br \/>\nachei um cobertor Admirei-me de ver Ga\u00facho ir-se embora, n\u00e3o<br \/>\nse lembrar de extorquir-me dois ou tr\u00eas mil-r\u00e9is por ele. Mas<br \/>\no espanto durou pouco: n\u00e3o se tratava de generosidade nem de esquecimento.<br \/>\nAquele traste fora abandonado porque estava aberto ao meio e tinha grandes<br \/>\nmanchas de sangue, as hemoptises do pobre Neves, certamente. Com viva repugn\u00e2ncia,<br \/>\nlarguei os dois peda\u00e7os de pano; em seguida resolvi embrulhar-me neles:<br \/>\ndeitei-me, prendi-os entre as coxas, envolvi-me, encolhido. A valise continuava<br \/>\na servir-me de travesseiro. Enquanto vivi na Col\u00f4nia, usei desse jeito<br \/>\nas duas bandas de cobertor, e nem uma vez foram \u00e0 lavanderia.<\/p>\n<p>Surgiu-me de repente uma contrariedade. Fran\u00e7a, o padeiro tuberculoso,<br \/>\nmeu vizinho no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios, veio censurar-me, e com<br \/>\ntanta arrog\u00e2ncia que o supus logo dirigente de qualquer coisa. Falava<br \/>\ncomo se eu fosse crian\u00e7a, queria saber quem me havia dado licen\u00e7a<br \/>\npara deitar-me na cama. Tinham prefer\u00eancia os companheiros doentes.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente, Fran\u00e7a. Mande um, eu saio. Lembrei-me dos risinhos<br \/>\nt\u00edmidos de Fran\u00e7a meses antes, quando, pela manh\u00e3, vinha<br \/>\npedir-me a garrafa de leite \u00e0 porta do cub\u00edculo 35. Essa garrafa<br \/>\nde leite n\u00e3o me fazia grande falta. Findara a inapet\u00eancia da<br \/>\nsemana horr\u00edvel passada no por\u00e3o do Manaus, era-me poss\u00edvel<br \/>\nentrar nas filas, receber o prato, duas vezes por dia, beber o caneco de caf\u00e9<br \/>\nque tinha gosto de formiga. N\u00e3o me custava privar-me do leite, vendo<br \/>\num sujeito precisar dele. Nenhum favor. As tremuras e os sorrisos do padeiro<br \/>\nconfundiam-me. Tipo demasiado sens\u00edvel, julguei. Para n\u00e3o ouvir<br \/>\nos agradecimentos bambos, desfazia-me da garrafa, sa\u00eda do cub\u00edculo,<br \/>\natravessava a plataforma, descia a escada. Vinha-me agora o pensamento infeliz<br \/>\nde que o rapaz se humilhara ao receber aquela insignific\u00e2ncia. Humilhara-se<br \/>\npagando com sorriso e tremura. Que mis\u00e9ria! E vingava-se chamando-me<br \/>\n\u00e0 ordem, severo em demasia. Apesar de me ver disposto a ceder o lugar<br \/>\na outro mais necessitado, prosseguia na arenga, violento como o diabo, repisando:<br \/>\n&#8211; H\u00e1 companheiros doentes.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei, Fran\u00e7a. A cama est\u00e1 \u00e0s ordens. Para<br \/>\nque repetir isso? &#8211; Voc\u00ea fala como se fosse dono dela. Quem lhe deu<br \/>\nordem? Impacientei-me: &#8211; Olhe, Fran\u00e7a, vamos deixar de conversa. N\u00e3o<br \/>\ntenho prazer nenhum em deitar-me nesta porcaria. Tome conta dela. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 raz\u00e3o para barulho.<\/p>\n<p>O sujeito n\u00e3o se convencia, impertinente, a remoer aquela ninharia,<br \/>\nexibindo autoridade. Completa aus\u00eancia de tino. Perdi os estribos: &#8211;<br \/>\nV\u00e1 para o inferno. Aqui feito um menino, a ag\u00fcentar repreens\u00f5es<br \/>\nidiotas. N\u00e3o quero ouvir mais nada, percebe? Nada. Para o inferno.<br \/>\nA cama \u00e9 propriedade minha, dei sete mil-r\u00e9is a Ga\u00facho<br \/>\npor ela. Daqui n\u00e3o saio, entende? Sou um propriet\u00e1rio.<\/p>\n<p>Diante dessa raz\u00e3o miser\u00e1vel, a arrog\u00e2ncia do padeiro<br \/>\nmurchou e desapareceu. Fui acomodar-me, envolver uns restos de zanga nos trapos<br \/>\nimundos. Certamente havia ali pessoas mais doentes que eu; Van der Linden<br \/>\ne M\u00e1rio Paiva mereciam sem d\u00favida aquele desgra\u00e7ado conforto.<br \/>\nDom\u00edcio Fernandes estava moribundo, n\u00e3o voltaria ao Rio Grande<br \/>\ndo Norte. Se n\u00e3o fosse a baz\u00f3fia de Fran\u00e7a, n\u00e3o<br \/>\nme custaria despojar-me em benef\u00edcio de qualquer deles. Na verdade<br \/>\nme achava bem mal, embora n\u00e3o vivesse a queixar-me nem avaliasse os<br \/>\nestragos, mas cada vez me arrasava mais. S\u00f3 pensar no refeit\u00f3rio<br \/>\nme causava n\u00e1usea, as mucuranas e os mosquitos perseguiam-me, e agora,<br \/>\nna esteira suja, enrolado em trapos vermelhos de v\u00f4mitos sangrentos,<br \/>\npensava na invas\u00e3o dos bacilos, no r\u00e1pido exterm\u00ednio<br \/>\ndo organismo indefeso.<\/p>\n<p>24<\/p>\n<p>TINHAM conseguido armar na cama vizinha um dif\u00edcil mosquiteiro. Na<br \/>\nmanh\u00e3 seguinte vi sentado nela um sujeito maduro, atraente, \u00f3culos<br \/>\ngrossos de m\u00edope, a roupa de casimira pelo avesso.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia, atirou-me risonho e lento.<\/p>\n<p>Estava com desejo de conversar e logo se apresentou: Mota. Escorregamos<br \/>\ndepressa numa camaradagem f\u00e1cil, tive realmente muito prazer em conhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor tomou parte na Alian\u00e7a Nacional Libertadora, seu Mota?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o senhor, respondeu a criatura am\u00e1vel. Tinha as minhas simpatias.<br \/>\nSou admirador de Prestes.<\/p>\n<p>Vejam s\u00f3. Porque simpatizava com a Alian\u00e7a Nacional Libertadora<br \/>\n&#8211; cadeia, bra\u00e7os cruzados, a roupa vestida pelo avesso, a cabe\u00e7a<br \/>\nbaixa e sem cabelos. Pobre seu Mota. A situa\u00e7\u00e3o dele era com<br \/>\ncerteza a de Manuel Leal, meu amigo velho arrancado \u00e0s Alagoas, metido<br \/>\nno c\u00e1rcere dos sargentos no quartel do Recife, depois no por\u00e3o<br \/>\ndo Manaus e agora ali a carregar tijolos. Mas Leal n\u00e3o tinha o sossego,<br \/>\na conversa am\u00e1vel de seu Mota. Andava irritado, sombrio, num desespero<br \/>\nmudo cont\u00ednuo. Um dia essa mudez se quebrou e o infeliz, de volta do<br \/>\ntrabalho, suado, coberto de p\u00f3 vermelho, dirigiu-se a mim, r\u00edspido:<br \/>\n&#8211; Porque \u00e9 que estou preso? Hem? Diga.<\/p>\n<p>Estranhei, tive pena do homem a desabar em velhice r\u00e1pida. Coitado.<br \/>\nN\u00e3o me parecia longe o tempo em que os tristes olhos hoje apagados<br \/>\nno rosto murcho brilhavam muito vivos; os fartos an\u00e9is da cabeleira<br \/>\nnegra seduziam mulheres. Pobre de Leal. Provavelmente a decad\u00eancia n\u00e3o<br \/>\nera apenas f\u00edsica; o esp\u00edrito devia estar em decl\u00ednio<br \/>\ntamb\u00e9m para ele me vir fazer tal pergunta.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que voc\u00ea quer que lhe diga? Sei l\u00e1! Nem sei<br \/>\nporque estou preso.<\/p>\n<p>O meu antigo camarada engasgou-se, esteve um minuto a examinar-me com espanto<br \/>\ne censura. Tomou f\u00f4lego, e, de supet\u00e3o: &#8211; Voc\u00ea? Ora essa!<br \/>\nEst\u00e1 preso porque \u00e9 comunista. Sempre foi.<\/p>\n<p>Declarou isso aos berros, sem ligar import\u00e2ncia aos guardas e \u00e0<br \/>\npol\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8211; Desde menino. Sempre foi. Ainda usava cal\u00e7as curtas e j\u00e1<br \/>\nlia essas coisas no balc\u00e3o de seu pai. Mas eu? Que foi que eu fiz para<br \/>\nestar aqui? Hem? Explique.<\/p>\n<p>Cheio de piedade, n\u00e3o conseguia eximir-me ao desejo de rir ouvindo<br \/>\nesse desprop\u00f3sito. Leal gritava a den\u00fancia, provavelmente ignorando<br \/>\nque ela me poderia ser funesta. N\u00e3o repliquei, temendo encoleriz\u00e1-lo<br \/>\nmais. Coitado. N\u00e3o perceberia a ex\u00edgua significa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas brochuras que li na inf\u00e2ncia; continham veneno, supunha, estava<br \/>\nnelas a causa da minha desgra\u00e7a. Tinham sido justos comigo. Pois n\u00e3o<br \/>\npassara a vida a procurar sarna para me co\u00e7ar? Com ele havia injusti\u00e7a.<br \/>\nPorqu\u00ea? Responsabilizava-me: &#8211; Diga. Porque me mandaram para aqui? Diga<br \/>\nao menos que \u00e9 comunismo. N\u00e3o sei. Nunca me meti com voc\u00eas,<br \/>\nnunca li nada disso. Explique.<\/p>\n<p>A afli\u00e7\u00e3o tornava ego\u00edsta uma pessoa amor\u00e1vel.<br \/>\nDesequil\u00edbrio, certamente. Vinham-me \u00e0 lembran\u00e7a o riso<br \/>\naberto de Leal, as anedotas de caixeiro-viajante, sem gra\u00e7a, narradas<br \/>\nmuitos anos atr\u00e1s, quando ele se hospedava em nossa casa do interior.<br \/>\nQue horr\u00edvel decad\u00eancia! Via-me obrigado a fazer a compara\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne isto me dava imenso desgosto. N\u00e3o me ocorreu uma palavra generosa,<br \/>\ncapaz de minorar aquela ang\u00fastia. Afastei-me em sil\u00eancio. Esquisito<br \/>\nafligir-se um prisioneiro de tal modo, n\u00e3o achar sossego, alhear-se<br \/>\ndo meio, o pensamento fixo no exterior, em casos remotos. Esses viventes arredios<br \/>\nficam desagrad\u00e1veis. Sentimos n\u00e3o poder auxili\u00e1-los,<br \/>\ndistra\u00ed-los; receamos contagiar-nos, findar naqueles tormentos. Buscamos<br \/>\na companhia de sujeitos expansivos, esbo\u00e7am-se camaradagens num instante<br \/>\ndesfeitas. As hist\u00f3rias de Ga\u00facho afugentavam-me o sono, ser-me-ia<br \/>\nagrad\u00e1vel escut\u00e1-lo muitas horas. Infelizmente quebravam-se:<br \/>\nvinha o momento de recolher, \u00e9ramos for\u00e7ados \u00e1 calar-nos<br \/>\ne o resto da narrativa se adiava para a noite seguinte.<\/p>\n<p>&#8211; Imagine vossa merc\u00ea. Peguei um dia uma roupa nova bacana, azul-marinho.<br \/>\nAssentava no meu corpo e n\u00e3o foi para a muamba. Vesti-me nela e ca\u00ed<br \/>\nna rua. Pois veja que azar. Na Lapa um sujeito do meu tope come\u00e7ou<br \/>\na espiar demais para mim e n\u00e3o me deu tempo de pirar. Chegou-se e atacou:<br \/>\n&#8211; &#8220;Mo\u00e7o, me desculpe. Onde foi que o senhor arranjou esse terno?&#8221;<br \/>\n&#8211; &#8220;Pergunta muito bem, respondi eu. Comprei hoje por cem mil-r\u00e9is<br \/>\na um adelo da Rua da Constitui\u00e7\u00e3o, n\u00famero tal.&#8221;<br \/>\n&#8211; &#8220;Pois, mo\u00e7o, juro que esse terno \u00e9 meu. Foi roubado ontem.&#8221;<br \/>\nA\u00ed eu me ofendi e propus: &#8211; &#8220;O senhor quer ir comigo falar com<br \/>\no adelo, agora mesmo? \u00c9 um negociante conhecido.&#8221; O tipo afrouxou:<br \/>\n&#8211; &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o, posso estar enganado. Mas ia garantir que<br \/>\nn\u00e3o estou. \u00c9 o feitio, \u00e9 a cor, \u00e9 o tamanho.&#8221;<br \/>\nFoi-se embora. E eu voei para casa. Um susto medonho, n\u00e3o sei como<br \/>\ntive tanta calma. Tirei a roupa e disse \u00e0 mulher: &#8211; &#8220;Leva este<br \/>\ndiabo ao intruj\u00e3o, d\u00e1 sumi\u00e7o a isto.&#8221; A gente n\u00e3o<br \/>\ndeve usar as coisas que rouba.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o vinha quase em forma de conselho: o \u00f3timo ladr\u00e3o<br \/>\nparecia querer livrar-me de tais vexames. Tamb\u00e9m me agradava a figura<br \/>\ntranq\u00fcila de seu Mota. Apesar de ser v\u00edtima de uma iniq\u00fcidade,<br \/>\npois n\u00e3o se envolvera em pol\u00edtica, mantinha na pris\u00e3o<br \/>\nexcelente humor. &#8211; &#8220;Bom dia.&#8221; Estava ali junto, emoldurado pelo<br \/>\nmosquiteiro entreaberto, os \u00f3culos a faiscar. A voz nunca se alterava,<br \/>\ne a af\u00e1vel sauda\u00e7\u00e3o nos transmitia serenidade. Realmente<br \/>\ns\u00f3 vi seu Mota zangar-se uma vez. Fazia uma semana que nos conhec\u00edamos,<br \/>\ne ele me narrava os seus come\u00e7os. Fora secret\u00e1rio da prefeitura<br \/>\nem Corumb\u00e1, ou Cuiab\u00e1, n\u00e3o me lembro. De fato quem se<br \/>\nresponsabilizava pela administra\u00e7\u00e3o era ele, que o prefeito,<br \/>\ncoronel e analfabeto, n\u00e3o entendia de verbas.<\/p>\n<p>&#8211; Esse matuto viajou para o Rio e l\u00e1 ficou tr\u00eas meses. Dirigi<br \/>\no pessoal na aus\u00eancia do homem e fiz boa arrecada\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuando ele chegou, havia em caixa trinta contos, naquele tempo uma fortuna<br \/>\nArrumei o balancete e dei ao prefeito a chave do cofre. N\u00e3o faltou<br \/>\num tost\u00e3o.<\/p>\n<p>O meu vizinho interrompeu-se, um minuto se conservou absorto, o olhar distante,<br \/>\nmergulhado nas suas recorda\u00e7\u00f5es. S\u00fabito inquiriu: &#8211; O<br \/>\nsenhor acredita? Acha que eu entreguei esse dinheiro? &#8211; Sem d\u00favida,<br \/>\nseu Mota. Ora essa! O ex-secret\u00e1rio da prefeitura de Corumb\u00e1<br \/>\nteve um longo suspiro: &#8211; Entreguei. Foi uma doidice. Com trinta contos nas<br \/>\nm\u00e3os, e passei a outro esse dinheiro todo. \u00c9 o remorso que me<br \/>\npersegue na vida.<\/p>\n<p>Seu Mota concluiu, exaltando-se: &#8211; Eu era muito novo. E muito burro.<\/p>\n<p>25<\/p>\n<p>CUBANO chegou-se a mim com uma proposta: &#8211; Vou apresentar o senhor a Para\u00edba.<br \/>\nEle sabe muito. &#8211; Conhe\u00e7o de vista. Vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>Percorremos o galp\u00e3o, encontramos ao fundo um mulato claro, de olho<br \/>\nvivo, a conversar baixo com um sujeito arriado.<\/p>\n<p>&#8211; Para\u00edba, disse o negro, aqui seu Fulano vai escrever uma hist\u00f3ria<br \/>\ne vem pedir a voc\u00ea algumas informa\u00e7\u00f5es. Diabo. A not\u00edcia<br \/>\ndo livro chegara a Cubano, talvez \u00e0 pol\u00edcia; n\u00e3o me deixariam<br \/>\nsalvar as notas guardadas na valise.<\/p>\n<p>&#8211; Informa\u00e7\u00f5es? estranhou Para\u00edba interrompendo os cochichos.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, coisas de vigarismo. Diga como \u00e9 que voc\u00ea trabalha.<\/p>\n<p>O tipo formalizou-se: &#8211; N\u00f3s n\u00e3o devemos confessar a leigos<br \/>\nos mist\u00e9rios da nossa profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa frase pulha enjoou-me. Pensei na linguagem simples de Ga\u00facho<br \/>\ne fiquei ali de p\u00e9, sem nenhum interesse. Cubano insistiu, e enfim<br \/>\no mulato acedeu, com um gesto de profissional que manda um consulente para<br \/>\na sala de espera.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Demore um pouco. Estou ocupado em neg\u00f3cios. E voltou \u00e0<br \/>\nconversa. Tinha na m\u00e3o um cinto de malhas brancas e pretas, a imitar<br \/>\nescamas. A outra personagem mostrava-lhe um porta-n\u00edqueis, &#8211; Como voc\u00ea<br \/>\nest\u00e1 vendo, o cinto \u00e9 meu. Pele de lagarto. Compare. \u00c9<br \/>\nmeu.<\/p>\n<p>Cubano afastou-se, e ali fiquei reparando na transa\u00e7\u00e3o. Para\u00edba<br \/>\nteve um risinho zombeteiro: &#8212; Seu? &#8211; Sim. Lagarto, como a bolsinha. N\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 vendo? &#8211; Era seu, concordo. Mas agora foi comprado por mim. Dei<br \/>\npor ele cinco mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; Quem vendeu? O vigarista melindrou-se e atentou no parceiro com ar de<br \/>\nimenso desprezo: &#8211; Voc\u00ea me acha capaz de fazer uma den\u00fancia?<br \/>\nOra! Comprei a um dos nossos companheiros.<\/p>\n<p>O outro se desmoralizava inteiramente, sucumbia, representando o infeliz<br \/>\npapel de ot\u00e1rio. Para\u00edba iria zombar dele, exigindo o cinto,<br \/>\ne desmanchava-se uma reputa\u00e7\u00e3o. Ot\u00e1rio. O desgra\u00e7ado<br \/>\nvergava o cacha\u00e7o, a gaguejar; a minha presen\u00e7a aumentava-lhe<br \/>\no embara\u00e7o. Depois de gozar longo tempo aquele constrangimento, o vigarista<br \/>\nfez um gesto macio de gato, ofereceu esta escapula ao podre rato: &#8211; N\u00e3o<br \/>\nse incomode. Eu lhe cedo, sem lucro, o cinto. Custou cinco mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>Esse descaramento incr\u00edvel e a humilde postura da v\u00edtima agu\u00e7avam-me<br \/>\na curiosidade.<\/p>\n<p>&#8211; Muito caro, gemeu uma voz sumida.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, nada feito. Voc\u00ea n\u00e3o vai exigir que eu tenha<br \/>\npreju\u00edzo Afinal concedeu: &#8211; Como se trata de um camarada, eu perco<br \/>\ndois mil r\u00e9is. Leve o cinto por tr\u00eas, e o caso morre aqui entre<br \/>\nn\u00f3s. Al\u00e9m do furto, chantagem. Afrouxou mais cinco tost\u00f5es.<br \/>\nCom um suspiro, a criatura arrasada largou-lhe dois mil e quinhentos, retirou-se<br \/>\nafivelando o cinto.<\/p>\n<p>E Para\u00edba atendeu-me: &#8211; As suas ordens.<\/p>\n<p>Referi-me \u00e0 frase dele: n\u00e3o desejar confessar os mist\u00e9rios<br \/>\nda profiss\u00e3o. E resolvi met\u00ea-lo em brios dizendo n\u00e3o acreditar<br \/>\nnos mist\u00e9rios: &#8211; Tudo isso \u00e9 velho e j\u00e1 foi contado milhares<br \/>\nde vezes pelos jornais. Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam originalidade.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor se engana, protestou o velhaco. N\u00f3s jogamos com armas<br \/>\npsicol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>O vigarista falava bonito e pretendia, julguei, n\u00e3o revelar as suas<br \/>\ndestrezas, mas fazer uma confer\u00eancia liter\u00e1ria. Continuei a duvidar:<br \/>\n&#8211; Pouco prov\u00e1vel. As armas psicol\u00f3gicas de voc\u00eas s\u00e3o<br \/>\ncomo as dos caixeiros-viajantes: sempre as mesmas l\u00e1bias. Aus\u00eancia<br \/>\nde imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 que o senhor sabe? &#8211; Pela repeti\u00e7\u00e3o dos truques.<br \/>\nE pela natureza das v\u00edtimas, pobres matutos que andam pelas ruas de<br \/>\nboca aberta. A psicologia de voc\u00eas d\u00e1 para conhecer essa gente.<br \/>\n\u00c9 f\u00e1cil. N\u00e3o se aplica a outros indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Para\u00edba me olhava com um sorriso de mofa. Insisti, querendo arrancar-lhe<br \/>\nas ast\u00facias apenas mencionadas: &#8211; Certamente encontrei l\u00e1 fora<br \/>\ncentenas de colegas seus. Nunca nenhum se chegou a mim. Porqu\u00ea? Teriam<br \/>\nnotado pelo meu jeito que eu n\u00e3o tinha dinheiro? Seja franco. Voc\u00ea<br \/>\nme ofereceria o paco? Voc\u00ea me acha com cara de lhe comprar um bilhete<br \/>\npremiado? &#8211; N\u00e3o, concedeu Para\u00edba. Com o senhor eu uso o golpe<br \/>\nda velha.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 l\u00e1 isso? Para\u00edba se decidiu: &#8211; Eu me aproximo<br \/>\ndo senhor, com uma carta na m\u00e3o: &#8212; &#8220;Cavalheiro, por obs\u00e9quio,<br \/>\nsabe onde fica esta rua?&#8221; O senhor me d\u00e1 a informa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne eu respondo aflito: &#8211; &#8220;Ah! N\u00e3o acerto. Cheguei ontem do interior,<br \/>\nn\u00e3o consigo orientar-me.&#8221; Puxo conversa, falo numa tia doente,<br \/>\nprovoco a sua piedade. &#8211; &#8220;Se o senhor quisesse ir comigo a este endere\u00e7o<br \/>\n. &#8221; Dou a entender que um favor t\u00e3o pequeno salve talvez uma vida.<br \/>\nO senhor vai.<\/p>\n<p>&#8211; Sup\u00f5e que essa lengalenga me desvia das minhas ocupa\u00e7\u00f5es?<br \/>\n&#8211; Sem d\u00favida. N\u00f3s somos atores. O senhor vai. Quando chegamos<br \/>\nao destino, sai da casa um sujeito com uma pasta debaixo do bra\u00e7o.<br \/>\n\u00c9 o esparro. Eu me dirijo a ele: &#8211; &#8220;Seu doutor, um momento.&#8221;<br \/>\nE passo-lhe a carta. O esparro finge ler e me responde: &#8211; &#8220;Meu caro,<br \/>\nessa letra se vence o m\u00eas vindouro.&#8221; &#8211; &#8220;Mas s\u00f3 faltam<br \/>\nquinze dias, seu doutor.&#8221; Tiro do bolso um papel selado e represento<br \/>\numa cena triste. O senhor vai compreendendo a hist\u00f3ria aos peda\u00e7os.<br \/>\nO sujeito deve dez contos a minha tia, e ela est\u00e1 de cama, para morrer;<br \/>\ngastou as reservas com a farm\u00e1cia e o m\u00e9dico. Tento por todos<br \/>\nos meios tocar o seu cora\u00e7\u00e3o, e pelos modos nem dou pela sua<br \/>\npresen\u00e7a ali. Procuro entender-me com o outro: &#8211; &#8220;Veja, seu doutor,<br \/>\na pobre da velha est\u00e1 nas \u00faltimas. Tinha aquele s\u00edtio<br \/>\nque lhe vendeu. Vim tratar disso, cheguei ontem. Se n\u00e3o houvesse muita<br \/>\nprecis\u00e3o, eu n\u00e3o tinha arriscado esta viagem antes do vencimento.<br \/>\nN\u00e3o est\u00e1 legal?&#8221; &#8211; Mostro o papel: &#8211; &#8220;S\u00f3 faltam<br \/>\nquinze dias &#8221; O homem confessa a d\u00edvida, mas n\u00e3o quer pagar<br \/>\nadiantadamente. A\u00ed eu proponho dez por cento de redu\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8211; &#8220;Liquide isto hoje por nove contos, seu doutor. Ganhe um conto de r\u00e9is<br \/>\ne fa\u00e7a uma obra de caridade.&#8221; O devedor recusa, e eu ofere\u00e7o<br \/>\nvinte por cento: &#8211; &#8220;Oito contos, recebo oito contos, que o aperto \u00e9<br \/>\ngrande.&#8221; Imposs\u00edvel. O esparro mostra impaci\u00eancia, olha<br \/>\no rel\u00f3gio e vai embora. Caio num des\u00e2nimo enorme: &#8211; &#8220;Que<br \/>\n\u00e9 que eu fa\u00e7o?&#8221; Como v\u00ea, desperto no senhor dois<br \/>\nsentimentos: a piedade e a cobi\u00e7a. N\u00e3o vou assust\u00e1-lo<br \/>\ncom ofertas vantajosas, lidas em not\u00edcias de jornais. A minha habilidade<br \/>\nconsiste em lev\u00e1-lo pouco a pouco a admitir que a proposta feita ao<br \/>\nesparro lhe foi apresentada. O senhor n\u00e3o desconfia de um matuto infeliz<br \/>\ne ignorante: emprego o vocabul\u00e1rio e a pron\u00fancia da ro\u00e7a.<br \/>\nOs dois sentimentos vencem a prud\u00eancia; observo o seu rosto, mostro-lhe<br \/>\no papel. O senhor examina a data, a assinatura, os selos. Tudo em ordem. Arranjo<br \/>\num pretexto para acabar-lhe a resist\u00eancia. Entramos na casa, subimos<br \/>\no elevador, vemos l\u00e1 em cima um escrit\u00f3rio com esta placa na<br \/>\nporta: Fulano de Tal. advogado. \u00c9 o nome que est\u00e1 no documento.<br \/>\nO senhor n\u00e3o vai perguntar se o homem da pasta \u00e9 o dono do consult\u00f3rio.<br \/>\nV\u00ea os m\u00f3veis, a instala\u00e7\u00e3o; o propriet\u00e1rio<br \/>\n\u00e9 rico. Descemos. Entro em cheio no assunto. N\u00e3o lhe pe\u00e7o<br \/>\nos oito contos de que falei ao esparro: desejo apenas um conto ou dois, e<br \/>\nofere\u00e7o a letra como garantia. Afian\u00e7o voltar no vencimento,<br \/>\nprocur\u00e1-lo, receber o dinheiro e dar-lhe o duplo da quantia que recebi.<br \/>\nUm lucro excessivo, mas a velha est\u00e1 moribunda e isto ainda pode ser<br \/>\nconsiderado favor. Sou um roceiro ing\u00eanuo: trago-lhe ocasi\u00e3o<br \/>\nde liquidar a letra na minha aus\u00eancia e guardar tudo. O senhor afasta<br \/>\nessa id\u00e9ia ruim, ela aparece de novo. Percebo na sua cara a luta dos<br \/>\ndois sentimentos. A sua intelig\u00eancia baixou, as suspeitas adormeceram:<br \/>\ntenho probabilidade forte de arrancar-lhe o cobre. Estive um minuto em sil\u00eancio,<br \/>\nolhando o vigarista com algum respeito. Na verdade o of\u00edcio dele n\u00e3o<br \/>\nera t\u00e3o simples como eu supunha. Um t\u00e9cnico, evidentemente;<br \/>\nlinguagem de pessoa educada. Manifestei-me: &#8211; Paraiba, h\u00e1 um erro fundamental<br \/>\nna sua exposi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea \u00e9 um artista, reconhe\u00e7o,<br \/>\nmas a sua psicologia agora falhou. N\u00e3o me seria poss\u00edvel acompanh\u00e1-lo<br \/>\nao escrit\u00f3rio do bacharel. Vivo sempre ocupado, e as ocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos outros n\u00e3o me interessam. Nada me desviaria do meu caminho para<br \/>\nresolver as dificuldades de um transeunte. Se algu\u00e9m me pedir uma informa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nrespondo, e n\u00e3o saio do lugar onde estou. Al\u00e9m disso os dois<br \/>\nsentimentos a que voc\u00ea se referiu s\u00e3o fracos em mim, n\u00e3o<br \/>\nchegam a perturbar o ju\u00edzo. Cobi\u00e7a, para bem dizer, n\u00e3o<br \/>\ntenho: a sua letra de dez contos me deixaria em completa indiferen\u00e7a.<br \/>\nE as velhas doentes n\u00e3o me inspiram compaix\u00e3o muito grande.<br \/>\nO fim das velhas doentes \u00e9 a morte; n\u00e3o tenho meio de evitar<br \/>\nisso. H\u00e1 desgra\u00e7as em toda a parte. \u00c9 absurdo condoer-me<br \/>\nde uma criatura invis\u00edvel que um desconhecido menciona.<\/p>\n<p>26<\/p>\n<p>DOM\u00cdCIO FERNANDES, o chauffeur que viajara comigo no por\u00e3o<br \/>\ndo Manaus, morreu \u00e0 noite. De manh\u00e3, quando se varria o alojamento<br \/>\ne os presos arejavam no curral de arame, o cad\u00e1ver foi retirado, em<br \/>\ncima de uma t\u00e1bua. Vi de longe o embrulho f\u00fanebre; n\u00e3o<br \/>\nse percebia nenhuma parte do corpo; fora envolto provavelmente no cobertor<br \/>\nou na rede. Iam enterr\u00e1-lo assim.<\/p>\n<p>Virei-me. afastei-me daquilo. Apesar de viver numa esp\u00e9cie de anestesia,<br \/>\nabalei-me, senti a morte avizinhar-se de mim. As dores no p\u00e9 da barriga<br \/>\ncresceram, a tosse me deu a certeza de que os pulm\u00f5es se decompunham.<br \/>\nIriam levar-me qualquer dia enrolado no len\u00e7ol tinto, vermelho de hemoptises.<br \/>\nEra coisa prevista, imaginada sempre, mas o jeito de fazer o enterro, a mudan\u00e7a<br \/>\nde uma criatura humana em pacote jogado fora sem quebra da rotina, exp\u00f4s-me<br \/>\ncom horr\u00edvel clareza a insignific\u00e2ncia das nossas vidas. N\u00e3o<br \/>\nse indagava a causa da s\u00fabita desvaloriza\u00e7\u00e3o: bastava<br \/>\na nossa presen\u00e7a ali para justificar o lento assass\u00ednio. Lembrei-me<br \/>\nde Leal, desesperado, em busca de raz\u00f5es desnecess\u00e1rias; talvez<br \/>\nestivesse pr\u00f3ximo o fim dos tormentos dele. Uma apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesviou-me um instante as id\u00e9ias negras; em seguida concorreu para<br \/>\nfortalec\u00ea-las. Um companheiro, a caminho das filas do trabalho, parou<br \/>\njunto de mim, acompanhado por um sujeito moreno.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea achou imposs\u00edvel o caso de Tiago, n\u00e3o acreditou.<br \/>\nPois Tiago \u00e9 este, ele pode confirmar.<\/p>\n<p>E contou de novo a hist\u00f3ria, que me deixara incr\u00e9dulo meses<br \/>\nantes, no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios. Tiago servia na marinha inglesa,<br \/>\nmuitos anos viajara em linhas do Pac\u00edfico. Um dia tivera o pensamento<br \/>\ninfeliz de se dirigir \u00e0 Am\u00e9rica e saltara no Brasil, depois<br \/>\nde longa aus\u00eancia. Levado pelo amor, encaminhara-se ao Mangue. De volta,<br \/>\nchamara um t\u00e1xi. E ao saltar no cais do porto, ouvira a escorchante<br \/>\nexig\u00eancia da patifaria nacional: cem mil-r\u00e9is pela corrida, um<br \/>\nfurto. &#8211; &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 maluco, protestava Tiago. Pensa que<br \/>\nsou gringo? Nasci no Rio, tenho isto de cor. Tome vinte mil r\u00e9is, que<br \/>\n\u00e9 muito, e guarde o troco.&#8221; Berros do chauffeur: &#8211; &#8220;Ladr\u00e3o,<br \/>\ncomunista&#8221; Apitos, rolo, gritos, homens de farda, Tiago no embrulho.<br \/>\nO ch\u00e3o molhado, a esteira, pulgas, percevejos, afinal o interrogat\u00f3rio.<br \/>\n&#8211; &#8220;Que anda fazendo aqui? perguntara um delegado. Qual \u00e9 a sua<br \/>\nmiss\u00e3o?&#8221; Tiago n\u00e3o tinha miss\u00e3o nenhuma: era marinheiro<br \/>\nna Inglaterra e conhecia Java e Singapura. Brasileiro, tivera saudade, revira<br \/>\na p\u00e1tria e fora ao Mangue. Apenas. Queria regressar a\u00f3 navio,<br \/>\nfalar ingl\u00eas, viajar novamente no Pac\u00edfico. &#8211; &#8220;Est\u00e1<br \/>\nbem, est\u00e1 bem, resolvera o delegado. Voc\u00ea fica. N\u00e3o \u00e9<br \/>\nbom que esse neg\u00f3cio seja contado l\u00e1 fora. Voc\u00ea fica.&#8221;<br \/>\n&#8211; &#8220;Doutor, afirmara Tiago, prometo n\u00e3o dizer uma palavra, esquecer-me<br \/>\ndo Brasil. Se me aparecer numa rua a nossa bandeira ou estiverem tocando ali<br \/>\no Hino Nacional, tor\u00e7o caminho, volto, passo longe. E deixo de falar<br \/>\nportugu\u00eas.&#8221; Essa promessa de nada servira. Tiago virara comunista,<br \/>\nperdera o lugar no paquete &#8211; e, de cabe\u00e7a rapada, vestindo zebra, carregava<br \/>\ntijolos na Col\u00f4nia Correcional.<\/p>\n<p>Grave, a testa enrugada, escutava a narra\u00e7\u00e3o e movia a cabe\u00e7a<br \/>\naprovando em sil\u00eancio. Era aquilo. Se a b\u00f3ia nojenta, os piolhos,<br \/>\nos mosquitos, decidissem mat\u00e1-lo, Tiago sairia do galp\u00e3o como<br \/>\nDom\u00edcio Fernandes, em cima de uma t\u00e1bua, envolto num len\u00e7ol.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria incr\u00edvel me importunou o dia inteiro. De regresso<br \/>\nao alojamento, pus-me a remo\u00ea-la contra vontade; meses atr\u00e1s<br \/>\nparecera-me invencionice, e este ju\u00edzo ainda persistia, apesar da confirma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo protagonista: recusava-me a admitir que ele n\u00e3o houvesse omitido<br \/>\nqualquer coisa. \u00c9 horr\u00edvel estarmos a remexer um fato incompreens\u00edvel.<br \/>\nA minha pris\u00e3o era justa, na opini\u00e3o de Leal. Pois n\u00e3o<br \/>\npassara a vida inteira a encher-me de letras radicais, a procurar sarna para<br \/>\nme co\u00e7ar? Refletindo, achei a situa\u00e7\u00e3o dele explic\u00e1vel<br \/>\ntamb\u00e9m. A dele e a do beata Jos\u00e9 In\u00e1cio, que a bordo<br \/>\nse zangara comigo, rosnara exibindo o ros\u00e1rio de contas brancas e azuis<br \/>\nno peito veloso: &#8211; &#8220;Quando n\u00f3s fizermos a nossa revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nateus como o senhor ser\u00e3o fuzilados.&#8221; Certamente era rid\u00edculo<br \/>\nperseguir essas criaturas. Mas pod\u00edamos conjeturar vingan\u00e7as,<br \/>\nden\u00fancias de inimigos ocultos, a canalhice de um chefe empenhado em<br \/>\nsuprimir eleitores da oposi\u00e7\u00e3o. Tiago n\u00e3o tinha inimigos<br \/>\nno Brasil, n\u00e3o votava, ningu\u00e9m lhe ambicionava o emprego ordin\u00e1rio<br \/>\nna frota mercante inglesa. A absurda acusa\u00e7\u00e3o de um patife burlado<br \/>\nfora suficiente para inutiliz\u00e1-lo. Era inacredit\u00e1vel. N\u00e3o<br \/>\nme fazia mossa o ato injusto; afligia-me ser imposs\u00edvel imaginar uma<br \/>\nraz\u00e3o para ele. Disparate. Convencia-me disto &#8211; e continuava a esfor\u00e7ar-me<br \/>\npara achar qualquer vantagem na imensa estupidez. Uma apenas me ocorreu, j\u00e1<br \/>\nmuito repetida. O governo se corrompera em demasia; para ag\u00fcentar-se<br \/>\nprecisava simular conjuras, grandes perigos, salvar o pa\u00eds enchendo<br \/>\nas cadeias. Mas as criaturas suspeitas, e os homens comprometidos na Escola<br \/>\nde Avia\u00e7\u00e3o, no 3.\u00b0 Regimento, na revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Natal eram escassos, n\u00e3o davam para justificar medidas de exce\u00e7\u00e3o<br \/>\ne arrocho, o temor p\u00fablico necess\u00e1rio \u00e0 ditadura. Assim,<br \/>\nprendia-se um viajante alheio aos sucessos do Brasil. Os jornais aplaudiam.<br \/>\nNa publicidade rumorosa, Tiago reunia-se aos outros, vago conspirador an\u00f4nimo.<\/p>\n<p>Os tipos juntos ali com esse intuito safado n\u00e3o tinham sossego, viviam<br \/>\nnuma indigna\u00e7\u00e3o permanente, e alguns ainda esperavam reabilitar-se<br \/>\nna pol\u00edcia; declaravam-se v\u00edtimas de engano. O espanto do velho<br \/>\nEus\u00e9bio, os sustos, as tremuras, permaneciam; na cara arrepiada estampavam-se<br \/>\no sorriso inquieto e mofino; a voz esmorecia a gemer desculpas: &#8211; &#8220;An!&#8221;<br \/>\nRespeito imenso \u00e0 propriedade e aos evangelhos. Pessoa de considera\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8211; &#8220;An!&#8221; Esse encolhimento e essas evasivas contrastavam com a energia<br \/>\nde Claudino, de Aleixo, de Francisco Chaves, os tr\u00eas negros ocupados<br \/>\nsempre em concili\u00e1bulos no fim do galp\u00e3o. Admirava-me a serenidade,<br \/>\na frieza de Arist\u00f3teles Moura, conhecido meses antes no Pavilh\u00e3o<br \/>\ndos Prim\u00e1rios. Nunca lhe notei uma queixa, um gesto \u00e1spero.<br \/>\nNenhuma ferida nos melindres de pequeno-burgu\u00eas aviltado na piolheira<br \/>\nsocial. N\u00e3o se aproximava nem se afastava dos vagabundos; mantinha-se<br \/>\nmais ou menos distante, nada o contagiava. Subia pelos p\u00e9s de uma das<br \/>\ncamas unidas que formavam longo estrado junto \u00e0 parede, recolhia-se,<br \/>\ntomava um livro. Se algu\u00e9m lhe falava, interrompia a leitura, respondia<br \/>\ncalmo, paciente, em poucas palavras, a voz mon\u00f3tona, e findava: &#8211; &#8220;\u00c9<br \/>\ns\u00f3.&#8221; Depois abria o livro. Tamb\u00e9m me surpreendia o comportamento<br \/>\nde \u00c1lvaro Ventura, meu parceiro de poker no cub\u00edculo 35 do Pavilh\u00e3o.<br \/>\nNaquele tempo n\u00e3o revelava de nenhum modo se perdia ou se ganhava;<br \/>\nnunca vi tanta serenidade no jogo. Enquanto Sebasti\u00e3o Hora, um m\u00e9dico,<br \/>\nse excedia, golpeava a mala que nos servia de mesa, Ventura, simples estivador,<br \/>\nlargava as fichas tranq\u00fcilo, indiferente. Agora, de volta do trabalho,<br \/>\nsuado, coberto de p\u00f3 vermelho, parecia ainda estar sentado na cama,<br \/>\nem frente a mim, exibindo as cartas, despojando-se das fichas de papel\u00e3o.<br \/>\nViera na primeira leva, demorava-se muito, e era como se n\u00e3o se ressentisse<br \/>\ndo tratamento. Vinha-me a impress\u00e3o de que ele se julgava metido numa<br \/>\nesp\u00e9cie de jogo e aceitava os riscos sem se alterar: as perdas estavam<br \/>\nprevistas. Alguns indiv\u00edduos tinham maneiras insensatas, davam mostra<br \/>\nde querer prejudicar-se. Uma noite, na revista, dois rapazes da marinha entraram<br \/>\na discutir, azedos, acabaram atracando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Desgra\u00e7ados! exclamou Cubano intervindo e aplicando aos contendores<br \/>\nmeia d\u00fazia de safan\u00f5es. Voc\u00eas est\u00e3o doidos? &#8211; Que<br \/>\nfoi? gritou da porta o guarda.<\/p>\n<p>&#8211; Nada n\u00e3o, respondeu Cubano.<\/p>\n<p>Ficou um minuto a resmungar conselhos en\u00e9rgicos, afastou-se. Os marinheiros<br \/>\nvoltaram \u00e0 discuss\u00e3o e pegaram-se de novo. A\u00ed o guarda<br \/>\naproximou-se e levou-os. A chave tilintou na fechadura, a grade se abriu,<br \/>\ndesapareceram.<\/p>\n<p>&#8211; Veja o senhor, disse-me Cubano mais tarde. Fiz o que pude para salvar<br \/>\naqueles infelizes. N\u00e3o me ouviram, est\u00e3o na cela.<\/p>\n<p>Iam dormir no ch\u00e3o, descobertos, e o alimento seria reduzido. Perdia-se<br \/>\na estranha benevol\u00eancia de Cubano, expressa em murros. Pior talvez que<br \/>\na cela foi o castigo humilhante aplicado a Baptista, o portugu\u00eas h\u00e1bil<br \/>\nno canto de galo, conhecedor de algumas frases mil vezes berradas para chatear-nos:<br \/>\n&#8211; &#8220;Por causa de uma aventura galante&#8230;&#8221; J\u00e1 n\u00e3o podia<br \/>\nexpandir-se desse jeito: o per\u00edodo irritante e o cocoroc\u00f3 tinham<br \/>\ndesaparecido. Um dia o obrigaram a ficar muitas horas de p\u00e9 num canto,<br \/>\nos bra\u00e7os cruzados, o rosto junto ao muro. Na sujei\u00e7\u00e3o<br \/>\nrid\u00edcula, a natureza do homem se revelava em patadas leves, o protesto<br \/>\nde menino teimoso.<\/p>\n<p>Um curioso mon\u00f3logo afastou-me dali certa manh\u00e3, levou-me<br \/>\nde chofre ao sert\u00e3o do nordeste. Achava-me deitado numa esteira. S\u00fabito<br \/>\numa voz sobressaiu no zumbido confuso da multid\u00e3o, e espantei-me de<br \/>\nreconhecer a personagem que falava, poucas vezes percebida na semana de pesadelo<br \/>\ngramada no por\u00e3o do Manaus. Lembrei-me do nome e do tipo: era Jo\u00e3o<br \/>\nFrancisco Greg\u00f3rio, caboclo robusto, desconfiado, o sujeito mais inocente<br \/>\ndo mundo, na apar\u00eancia. A fala cantada e lenta sussurrava perto; n\u00e3o<br \/>\nme era poss\u00edvel distinguir a figura, mas vinha-me desejo de rir ao<br \/>\nencontrar de novo, na pachorra e no tom, a ingenuidade manhosa da minha gente.<\/p>\n<p>&#8211; Mo\u00e7o, dizia Jo\u00e3o Francisco, eu n\u00e3o entendo isso que<br \/>\no senhor est\u00e1 dizendo n\u00e3o. Sou da fam\u00edlia e da igreja,<br \/>\ndevoto de S\u00e3o Francisco, n\u00e3o quero saber de barulho. Nem penso<br \/>\nem revolu\u00e7\u00e3o, Deus me livre. Quando me soltarem, caio no trabalho<br \/>\ne nas ora\u00e7\u00f5es; foi nisto que me criei.<\/p>\n<p>Calou-se. O intruso se havia afastado. Ergui-me, vi a criatura mordendo<br \/>\num sorriso astuto.<\/p>\n<p>&#8211; Nas ora\u00e7\u00f5es, hem, seu Jo\u00e3o Francisco? murmurei. O<br \/>\nvigoroso caboclo examinou os arredores: &#8211; Tinha gra\u00e7a, na minha idade,<br \/>\neu me abrir com esse provocador. \u00c9 a terceira vez que me vem com hist\u00f3rias,<br \/>\nsem me conhecer. Sei l\u00e1 donde ele saiu? E n\u00e3o gosto de conversas.<\/p>\n<p>Guardou sil\u00eancio um minuto, olhou-me de soslaio, continuou: &#8211; Preciso<br \/>\nag\u00fcentar-me aqui. T\u00e3o cedo n\u00e3o me largam, fico de molho,<br \/>\nsem d\u00favida. Um dia volto para a minha terra e entro num bando, vou<br \/>\nmatar soldado na guerrilha. \u00c9 o que interessa, as discuss\u00f5es<br \/>\nn\u00e3o servem para nada. Estamos no meio de espi\u00f5es; fecho a boca<br \/>\ne me livro deles. O senhor n\u00e3o resiste um m\u00eas: com certeza morre<br \/>\nde fome. Eu posso viver aqui alguns anos, estou acostumado a passar mis\u00e9ria.<br \/>\nDepois eles me botam na rua. Aqui eu n\u00e3o dou armas \u00e0 pol\u00edcia.<br \/>\nL\u00e1 fora, quando chegar o momento de pegar no pau furado, entro na dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Agradeci interiormente esse desabafo, estranho em pessoa que pouco antes<br \/>\nse mostrara simulada e cautelosa. A paci\u00eancia enorme, a sa\u00fade<br \/>\nfirme de mandacaru em tempo de seca e o plano realiz\u00e1vel em futuro<br \/>\nremoto fizeram-me esquecer um instante as chagas medonhas envoltas em algod\u00e3o<br \/>\nnegro, a tosse dos tuberculosos, o ferr\u00e3o dos piolhos e dos mosquitos,<br \/>\no embrulho f\u00fanebre sa\u00eddo para o cemit\u00e9rio, numa t\u00e1bua.<br \/>\nJo\u00e3o Francisco n\u00e3o teria o fim do pobre Dom\u00edcio Fernandes.<br \/>\nQueria viver e matar soldados.<\/p>\n<p>27<\/p>\n<p>O PADRE de Mangaratiba, numa longa visita, procurou salvar as nossas almas.<\/p>\n<p>&#8211; Formatura geral.<\/p>\n<p>Era de manh\u00e3, o frio cortante nos arrepiava as cabe\u00e7as peladas,<br \/>\nest\u00e1vamos no curral de arame. Organizaram-se as filas, o reverendo<br \/>\nsurgiu com o tenente Bicicleta, o oficial de bei\u00e7o rachado, passeou<br \/>\nalgum tempo a examinar-nos, depois de colocar-se junto \u00e0 grade, risonho,<br \/>\nesfregando as m\u00e3os, um brilho de contentamento nos olhos. Sem d\u00favida<br \/>\nnos julgava animais perigosos enjaulados. Entrava na jaula, mas sentia-se<br \/>\ndefendido, livre das nossas garras, e esfregava as m\u00e3os, satisfeito.<br \/>\nIndisfar\u00e7\u00e1vel aquele ar de triunfo e seguran\u00e7a. Ficou<br \/>\nalguns minutos em sil\u00eancio, o sorriso a espalhar-se em todo o rosto,<br \/>\nem seguida iniciou a catequese num discurso mastigado, cheio de erros pavorosos.<br \/>\nNunca ouvi tanta besteira. Logo no princ\u00edpio engasgou-se e recorreu<br \/>\natarantado a uma poesia do Conde Afonso Celso. &#8220;Seria enorme crime n\u00e3o<br \/>\namar aqui a Deus.&#8221; Atrapalhou-se muitas vezes, e sempre que isto acontecia<br \/>\nlargava a cita\u00e7\u00e3o maluca; se havia no mundo lugar onde o amor<br \/>\na Deus estava naturalmente exclu\u00eddo, era aquele. Felizmente o orador<br \/>\nn\u00e3o me via a cara. Achava-me no segundo lugar da fila, atr\u00e1s<br \/>\nde um rep\u00f3rter volumoso bastante para esconder-me, e fazia em voz baixa<br \/>\ncoment\u00e1rios ao serm\u00e3o e \u00e0 literatura do conde. Naquele<br \/>\ndia tivemos uma surpresa. Est\u00e1vamos de bra\u00e7os cruzados, como<br \/>\nde ordin\u00e1rio; mas no decorrer da evangeliza\u00e7\u00e3o os guardas<br \/>\nse azafamaram de um lado para outro, a mandar-nos que os descruz\u00e1ssemos.<br \/>\nDe fato n\u00e3o mandavam: pediam em cochichos, tinham-se de chofre amaciado.<br \/>\nObedec\u00edamos. Ao cabo de um minuto volt\u00e1vamos \u00e0 posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumilhante: imposs\u00edvel ficar de outro jeito. Havia nas linhas um cont\u00ednuo<br \/>\nmovimento de bra\u00e7os a estirar-se ao longo dos corpos, a retomar a postura<br \/>\nmaquinal. Em alguns presos esse comportamento era ostensivo, percebia-se neles<br \/>\nprazer em desgostar os nossos verdugos. A covardia dos funcion\u00e1rios<br \/>\ncausava-me espanto. Confessavam daquele modo as viol\u00eancias e os abusos,<br \/>\nesfor\u00e7avam-se por ocult\u00e1-los e supunham estupidamente que os<br \/>\nauxiliar\u00edamos. Isso me fez pensar em coisa vista pouco depois da minha<br \/>\nchegada. N\u00e3o me isentara do imundo refeit\u00f3rio e via-me na obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sentar-me nos bancos negros, fumando para atenuar o fedor horr\u00edvel.<br \/>\nCerto dia correu um boato: alguns jornalistas iam visitar-nos. A hora do almo\u00e7o<br \/>\nnotei modifica\u00e7\u00e3o na sala estreita e longa: nas t\u00e1buas<br \/>\ndos cavaletes a pavorosa b\u00f3ia se disfar\u00e7ava debaixo de folhas<br \/>\nde alface. O medo \u00e0 reportagem nos explicava o uso das m\u00e1scaras<br \/>\nverdes, in\u00fateis, pois a visita n\u00e3o se realizou. Agora, na presen\u00e7a<br \/>\nda religi\u00e3o, os nossos carcereiros fingiam brandura, e esta falsidade<br \/>\nnos revoltaria se a lengalenga do padre n\u00e3o nos divertisse.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia meio de achar a perora\u00e7\u00e3o. Avan\u00e7ava,<br \/>\nrecuava, dava por paus e por pedras, como se tivesse o des\u00edgnio de<br \/>\nnos afastar do c\u00e9u, a meter sempre no aranzel a cunha po\u00e9tica:<br \/>\n&#8211; &#8220;Seria enorme crime n\u00e3o amar aqui a Deus.&#8221; Encolhia-me<br \/>\npara n\u00e3o ser visto e alargava-me em elogios graves sussurrados na orelha<br \/>\ndo vizinho da frente. Larguei um disparate cabeludo, o mo\u00e7o perdeu<br \/>\nos estribos e p\u00f4s-se a rir. O pregador interrompeu-se, o oficial de<br \/>\nbei\u00e7o rachado fez um gesto, o rapaz saiu da fileira, avizinhou-se da<br \/>\ngrade e foi submetido a um ligeiro interrogat\u00f3rio. Voltou e segredou-me:<br \/>\n&#8211; Veja s\u00f3. Quando este idiota for embora, tenho de me apresentar a<br \/>\nBicicleta. \u00c9 o diabo Com certeza vai mandar-me para a cela.<\/p>\n<p>Estremeci. Por minha causa o pobre ia ficar \u00e0s escuras, receber um<br \/>\npires de feij\u00e3o por dia, sem conseguir estirar-se no cub\u00edculo<br \/>\nmolhado e ex\u00edguo, de um metro e pouco. Acharia-me na obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde responsabilizar-me, dizer ao homem de bei\u00e7o rachado que a culpa<br \/>\nera minha: sem as pilh\u00e9rias bestas, n\u00e3o teria havido o riso.<br \/>\nAo mesmo tempo uma id\u00e9ia cautelosa insinuava-se, malandra: a honradez<br \/>\nexcessiva n\u00e3o serviria para nada; o mais certo era meterem os dois<br \/>\nna cela; querendo salvar o companheiro, ia prejudic\u00e1-lo, tomar-lhe<br \/>\no espa\u00e7o reduzido. &#8211; &#8220;Seria enorme crime n\u00e3o amar aqui<br \/>\na Deus.&#8221; O estribilho deixava-me indiferente, imposs\u00edvel achar<br \/>\ngra\u00e7a nele. Desejei ouvi-lo estirar-se, adiar o encontro do rapaz com<br \/>\no tenente. N\u00e3o havia jeito de me resolver. Iria denunciar-me? Ou deixaria<br \/>\noutro ser punido em meu lugar? Na verdade a minha falta n\u00e3o era grande:<br \/>\napenas me distra\u00edra a lan\u00e7ar observa\u00e7\u00f5es a respeito<br \/>\nda eloq\u00fc\u00eancia do padre e da literatura da cita\u00e7\u00e3o,<br \/>\nusada sem prop\u00f3sito. O infeliz tivera o desplante de zombar disso claramente,<br \/>\n\u00e0s barbas da autoridade. Pior para ele. Assim falava no \u00edntimo,<br \/>\ne ainda me conservava indeciso, a condenar-me, a inocentar-me. O rapaz fora<br \/>\nleviano por me haver escutado. Evidente. A culpa era minha. Teria coragem<br \/>\nde revelar-me, tentar eximi-lo? Uma id\u00e9ia f\u00fanebre me ocorreu:<br \/>\nna desgra\u00e7ada situa\u00e7\u00e3o em que me achava encerrar-me por<br \/>\ngosto na ratoeira medonha era um suic\u00eddio. O meu companheiro, homem<br \/>\nrobusto, poderia ag\u00fcentar-se ali uma semana; depois recobraria as for\u00e7as.<br \/>\nN\u00e3o me seria poss\u00edvel resistir. A perna entanguida, as dores<br \/>\nno p\u00e9 da barriga, o torpor no est\u00f4mago vazio, a tosse, arrepios<br \/>\nde febre tornavam irrealiz\u00e1vel a honestidade. \u00c9 estranho um<br \/>\nindiv\u00edduo perceber que n\u00e3o tem meio de ser digno. Mas relutava<br \/>\nem convencer-me disto, n\u00e3o via a exig\u00eancia de comportamentos<br \/>\ndiversos em condi\u00e7\u00f5es diversas. Com efeito, l\u00e1 dentro<br \/>\nos melindres de consci\u00eancia embotam-se, alteram-se os valores morais<br \/>\n&#8211; e o nosso dever principal \u00e9 existir. Por isso os atos de solidariedade<br \/>\navultam em demasia, n\u00e3o os esquecemos. &#8211; &#8220;Seria enorme crime n\u00e3o<br \/>\namar aqui a Deus.&#8221; Imbecil. Na \u00e2nsia de fixar-me numa decis\u00e3o,<br \/>\ne o pensamento a desviar-se para a frase idiota. Enfim talvez o rapaz n\u00e3o<br \/>\nestivesse amea\u00e7ado como julgava, e era doidice arriscar-me antes de<br \/>\nsaber a resolu\u00e7\u00e3o do tenente. O caso findaria numa leve censura<br \/>\ne n\u00e3o valia a pena expor-me. Deixaria para manifestar-me se houvesse<br \/>\nperigo. A solu\u00e7\u00e3o me pareceu razo\u00e1vel e de algum modo<br \/>\nme tranq\u00fcilizou. Contudo ainda me restavam d\u00favidas. Iria realmente<br \/>\ncondenar-me, se fosse preciso? A pergunta me afligiu um instante, inclinei-me<br \/>\nem seguida a afirmar que sim.<\/p>\n<p>O padre tornou a referir-se ao enorme crime e p\u00f4s fim \u00e0 declama\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfatigado e vermelho na manh\u00e3 fria. A arruma\u00e7\u00e3o das palavras<br \/>\ndera-lhe trabalho e suor. Esteve algum tempo a observar-nos, o largo contentamento<br \/>\nexpresso na cara. Atravessou a cancela e desapareceu. Deixamos as filas. O<br \/>\nmeu vizinho chegou-se ao tenente do bei\u00e7o rachado e teve uma conversa<br \/>\nr\u00e1pida com ele. Estava calmo, risonho; evidentemente n\u00e3o provocava<br \/>\nnem uma ligeira admoesta\u00e7\u00e3o. Despediu-se como se nada houvesse<br \/>\nacontecido. Fui procur\u00e1-lo: &#8211; Ent\u00e3o, n\u00e3o vai para a cela?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Expliquei ao tenente que tinha rido porque a poesia do conde<br \/>\nme dava prazer. Bicicleta aceitou a explica\u00e7\u00e3o e deixou-me em<br \/>\npaz. Com certeza admira o conde.<\/p>\n<p>28<\/p>\n<p>AS TURMAS haviam sa\u00eddo para o trabalho e no galp\u00e3o restavam<br \/>\napenas os doentes. Sentado na cama, esfor\u00e7ava-me por entender um livro,<br \/>\nrelendo p\u00e1ginas; rumor de tosses, gemidos, casavam-se \u00e0 leitura,<br \/>\nespecialmente os uivos de um malandro cafuzo, que pedia uma inje\u00e7\u00e3o<br \/>\nde morfina. Um grito levantou-me a cabe\u00e7a: &#8211; Ga\u00facho! Perto da<br \/>\ngrade, Alfeu chamava o arrombador, que sa\u00eda do banheiro, despido, enxugando-se<br \/>\nnuma toalha de rosto, e, sem se voltar, respondeu \u00e1spero: &#8211; J\u00e1<br \/>\nvou.<\/p>\n<p>Outro berro, e o ladr\u00e3o se afastou com vagar irritante, a esfregar-se.<br \/>\nTinha na coxa um monstruoso falo tatuado; a glande ficava abaixo do joelho.<\/p>\n<p>&#8211; Ga\u00facho! &#8211; Estou nu. Vou-me vestir.<\/p>\n<p>E dirigiu-se \u00e0s t\u00e1buas do fundo. Alfeu marchou atr\u00e1s<br \/>\ndele, furioso, alcan\u00e7ou-o no fim do alojamento, deu-lhe uma bofetada,<br \/>\nlan\u00e7ou-o por terra. O escrunchante ergueu-se, tirou com a toalha a<br \/>\nareia pegada no corpo \u00famido, aproximou-se da roupa, vestiu a cueca,<br \/>\nrecebeu novo golpe caiu, levantou-se r\u00e1pido, abotoando-se. Terceira<br \/>\nqueda, e vestiu uma das mangas da camisa, a outra ficou para depois da quarta.<br \/>\nAssim conseguiu enfiar as cal\u00e7as. As vezes resistia \u00e0s pancadas;<br \/>\ncambaleava, endireitava-se, prosseguia na custosa opera\u00e7\u00e3o,<br \/>\natento. N\u00e3o esbo\u00e7ou um gesto de defesa, nem sequer tentou cobrir<br \/>\no rosto. O soldado batia sem pressa, dando-lhe o tempo necess\u00e1rio para<br \/>\narrumar-se nos intervalos da surra. Isso durou uns cinco minutos. Afinal o<br \/>\ndesgra\u00e7ado afivelou o cinto, meteu nas casas todos os bot\u00f5es<br \/>\ne disse tranq\u00fcilo: &#8211; Bem. Agora podemos ir.<\/p>\n<p>E acompanhou o soldado. A noite, quando me apareceu na visita ordin\u00e1ria,<br \/>\nrevelei o meu espanto: &#8211; \u00d3 Ga\u00facho, voc\u00ea podia ter evitado<br \/>\naquela desgra\u00e7a. Porque n\u00e3o atendeu logo ao chamado? &#8211; Vossa<br \/>\nmerc\u00ea n\u00e3o entende, respondeu o escrunchante. Ele fez o que eu<br \/>\ndesejava, n\u00e3o houve desgra\u00e7a nenhuma. Aquilo \u00e9 treinamento<br \/>\ndo sistema nervoso, \u00e9 gin\u00e1stica. Sem exerc\u00edcio, eu enferrujo<br \/>\naqui dentro; quando sair, n\u00e3o posso arrombar direito uma casa, volto<br \/>\nao servi\u00e7o com as juntas perras.<\/p>\n<p>Guardou sil\u00eancio um instante, depois resvalou numa confiss\u00e3o<br \/>\ntemer\u00e1ria: &#8211; Eu tenho um plano: vou fugir. Foi por isso que lhe vendi<br \/>\na cama, n\u00e3o precisava dela. Antes de um m\u00eas estou no Rio.<\/p>\n<p>&#8211; Dif\u00edcil &#8211; N\u00e3o senhor. J\u00e1 fugi de Fernando de Noronha.<br \/>\nIsto sim, foi dif\u00edcil. Pirar daqui \u00e9 brincadeira de menino.<br \/>\nBasta arranjar um saco, um peda\u00e7o de pau, um cord\u00e3o e uma caixa<br \/>\nde f\u00f3sforos.<\/p>\n<p>Estranhei. Para que diabo serviam coisas t\u00e3o diferentes? &#8211; Eu lhe<br \/>\ndigo. Sabe qual vai ser a conseq\u00fc\u00eancia da minha brutalidade com<br \/>\nAlfeu? A sova foi apenas o come\u00e7o; qualquer dia mandam-me para as vigas.<\/p>\n<p>Estremeci &#8211; Que horror, Ga\u00facho! N\u00e3o pense nisso.<\/p>\n<p>Era um castigo medonho, pior que a cela, e apenas se infligia a homens robustos<br \/>\ne perigosos. Estavam separados de n\u00f3s. As vezes, pela manh\u00e3,<br \/>\ndurante o curto banho de sol, v\u00edamos essas criaturas em fila, conduzindo<br \/>\ntroncos pesados. Vagarosos, passavam a pequena dist\u00e2ncia, a vacilar,<br \/>\ntr\u00f4pegos, vergando ao peso da carga. As pontas dos madeiros apoiavam-se<br \/>\nnas cabe\u00e7as, nos ombros, e os infelizes arrastavam-se, dois a dois,<br \/>\njungidos pela horr\u00edvel canga. Se um traquejava, tombava, o companheiro<br \/>\nvia-se coagido a servi\u00e7o duplo, no cocuruto uma rodilha, a trave em<br \/>\ncima, equilibrando-se mal, as extremidades a subir, a descer. Aquilo formava<br \/>\numa gari, gorra sinistra, o espig\u00e3o em marcha ronceira, titubeante.<br \/>\nAvan\u00e7os, recuos, tombos, quase imposs\u00edvel a geringon\u00e7a<br \/>\nmanter-se em posi\u00e7\u00e3o horizontal. Se se desconchavava, o sujeito<br \/>\nera obrigado a arrast\u00e1-la. Pol\u00edcias, com sabres desembainhados<br \/>\ne a\u00e7oites, n\u00e3o concediam tr\u00e9gua no duro esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 terr\u00edvel, Ga\u00facho &#8211; N\u00e3o senhor. A gente nas<br \/>\nvigas tem algumas vantagens. H\u00e1 comida. Ruim, mas h\u00e1. Aqui n\u00f3s<br \/>\nmorremos de fome. \u00c9 de l\u00e1 que eu vou fugir.<\/p>\n<p>Olhou em roda, baixou a voz, desenvolveu o projeto: &#8211; Arranjo o saco, o<br \/>\npau, o cord\u00e3o, meto isso debaixo da camisa e, na hora do trabalho,<br \/>\nguardo tudo no mato, longe das vistas. Escondo nos bolsos o que pegar na cozinha,<br \/>\nrestos de p\u00e3o, carne, qualquer b\u00f3ia, e, no corte de madeira,<br \/>\narrumo no saco esses mantimentos. \u00c9 preciso ter paci\u00eancia, n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 pressa.<\/p>\n<p>&#8211; E o cord\u00e3o, Ga\u00facho? E o cacete? &#8211; Bem. O cord\u00e3o serve<br \/>\npara amarrar a boca do saco, por causa das formigas. O cacete o senhor vai<br \/>\nver depois. Um dia, no transporte das vigas, corto o p\u00e9 com um caco<br \/>\nde vidro e vou-me atrasando, manquejando. Sapecam-me o lombo, querem obrigar-me<br \/>\na andar como os outros, mas est\u00e3o vendo muito sangue, sabem que me<br \/>\nestrepei e largam-me. N\u00e3o posso acompanhar a turma, d\u00e3o-me um<br \/>\ncarrego leve; continuo remanchando e depois de algumas horas estou na ponta<br \/>\nda fila. Numa volta do caminho, quando n\u00e3o me avistam, jogo fora a<br \/>\nmadeira, corro \u00e0 moita onde escondi os tro\u00e7os, agarro tudo e<br \/>\ncaio na mata. A\u00ed n\u00e3o me acham. Descobrem a fuga tarde: estou<br \/>\nlonge, ningu\u00e9m adivinha que rumo tomei. A ilha \u00e9 grande. Est\u00e1<br \/>\nno bolso a caixa de f\u00f3sforos, porque \u00e0 noite preciso uma fogueira<br \/>\npara me defender das cobras. Tenho de viver nas brenhas muitos dias, at\u00e9<br \/>\nque a vigil\u00e2ncia afrouxe. Na primeira semana h\u00e1 um corre-corre<br \/>\ndos diabos, e n\u00e3o fa\u00e7o a doidice de me aproximar da costa. Fico<br \/>\nna serra, entocado, como bicho Se a b\u00f3ia acabar, assalto a casa de<br \/>\num desses caipiras. \u00c9 a\u00ed que entra o cacete. Chego-me devagar,<br \/>\nespio, descubro uma velha junto do fogo, preparando a gororoba. Estudo a ocasi\u00e3o,<br \/>\nvou-me abeirando por detr\u00e1s da mulher, dou-lhe uma cacetada na cabe\u00e7a<br \/>\ne levo a panela. Isto \u00e9 ruim e s\u00f3 se usa em caso de aperto,<br \/>\nporque a not\u00edcia se espalha e a guarda percebe que ainda n\u00e3o<br \/>\nme escapuli. O meu interesse \u00e9 que ela esteja na d\u00favida. Ag\u00fcento-me<br \/>\nquinze dias, um m\u00eas, afinal se esquecem de mim, volta o sossego. Vou-me<br \/>\naproximando e observo isso com muito cuidado. Aproveito uma noite de escuro<br \/>\nou de chuva, des\u00e7o ao porto, desatraco uma canoa, meto-me nela e toco<br \/>\npara Mangaratiba. Mas desembarco fora do povoado, fujo das casas e n\u00e3o<br \/>\nviajo em trem, \u00e9 claro. Entro no Rio a p\u00e9, acompanhando a estrada<br \/>\nde ferro.<\/p>\n<p>Calou-se, e apresentei-lhe esta obje\u00e7\u00e3o: &#8211; Voc\u00ea fala<br \/>\ncom uma certeza esquisita. Pode ser que as coisas n\u00e3o se passem como<br \/>\nvoc\u00ea imagina.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! Falo porque tenho pr\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9 a primeira<br \/>\nvez que me desenrasco. \u00c9 assim que se faz.<\/p>\n<p>Em seguida referiu-me a evas\u00e3o de Fernando de Noronha, mas havia<br \/>\nnela s\u00e9rias dificuldades, e n\u00e3o me seria poss\u00edvel hoje<br \/>\nreproduzi-Ia. Esqueci quase tudo. Essa hist\u00f3ria n\u00e3o me despertou<br \/>\nmuita curiosidade, talvez por encerrar um lance romanesco, fa\u00e7anha<br \/>\nincompat\u00edvel, parece-me, com a natureza do meu amigo. Supus que a fantasia<br \/>\ndele houvesse forjado o caso, pelo menos grande parte do caso estranho. Em<br \/>\ngeral aqueles homens devaneavam, enxertavam peda\u00e7os de sonho na realidade.<br \/>\nAfasto o ju\u00edzo temer\u00e1rio, concebo alguma verdade na proeza de<br \/>\nGa\u00facho. Enfim as narra\u00e7\u00f5es dele articulavam-se com rigor.<br \/>\nDessa, na verdade singular, perdeu-se o come\u00e7o. O arrombador escapara<br \/>\nda pris\u00e3o, arranjara um bote e fizera-se ao largo. N\u00e3o tinha<br \/>\nvelejado muito e recebia uma descarga: alguns perseguidores navegavam para<br \/>\nele. Deitara-se, livrara-se das balas. Depois, manejando vela e remo, conseguira<br \/>\ndistanciar-se um pouco. Ainda longe do continente, naufragara a embarca\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos ca\u00e7adores. O fugitivo recuara, avizinhara-se deles e, com esfor\u00e7o,<br \/>\nrecolhera todos, meio mortos. Prosseguira e ao cabo de horas alcan\u00e7ava<br \/>\numa praia deserta. Pusera em terra quatro soldados exaustos, sem armas, e<br \/>\nembrenhara-se no Rio Grande do Norte, sempre caminhando para o sul.<\/p>\n<p>&#8211; E como foi que voc\u00ea viveu nesse tempo? informei-me. &#8211; Roubando,<br \/>\nfazendo mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo! exclamei at\u00f4nito. Voc\u00ea perdeu uma boa oportunidade.<br \/>\nEra f\u00e1cil reabilitar-se.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor. Nunca pensei nisso. N\u00e3o aprendi nada. S\u00f3<br \/>\ndou para roubar, \u00e9 o que sei.<\/p>\n<p>Essa franqueza levou-me naquele momento a aceitar sem exame o hero\u00edsmo<br \/>\ndo sujeito absurdo. Incongruente. Mas quem n\u00e3o \u00e9 incongruente?<br \/>\nN\u00e3o havia em Ga\u00facho sinal de mentira; as palavras sa\u00edam-lhe<br \/>\nnaturais, vivas, um pequeno silvo a terminar os per\u00edodos; o olho de<br \/>\ngavi\u00e3o fixava-se em mim com energia, nunca se desviava. Enfim o indiv\u00edduo<br \/>\nsingular n\u00e3o dava mostra de haver praticado a\u00e7\u00e3o not\u00e1vel.<br \/>\nSentado \u00e0 beira da cama, em cueca, nu da cintura para cima, exibia<br \/>\nos m\u00fasculos rijos, os b\u00edceps enormes. Bem. Aquela for\u00e7a<br \/>\nvis\u00edvel podia ter realmente salvo os quatro soldados. Observando o<br \/>\ncorpo vigoroso, baixei o olhar \u00e0s pernas, ri-me: l\u00e1 estava numa<br \/>\ndelas o remate da figura obscena.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Ga\u00facho, inquiri, voc\u00ea n\u00e3o acha um horror<br \/>\nessa tatuagem? Porque n\u00e3o mandou pintar coisa menos indecente? &#8211; Isto<br \/>\n\u00e9 o meu cart\u00e3o de visita, respondeu o escrunchante. Quando entro<br \/>\nna cadeia, os veteranos v\u00e3o-se chegando, e sei perfeitamente as inten\u00e7\u00f5es<br \/>\ndeles. Se n\u00e3o tivesse a marca do of\u00edcio, estava perdido, era<br \/>\numa pessoa enrabada. Os tipos se assanham e eu tiro a roupa devagar. Eles<br \/>\nv\u00eaem a tatuagem e baixam o fogo: compreendem que sou lunfa e mere\u00e7o<br \/>\nrespeito.<\/p>\n<p>29<\/p>\n<p>CUBANO bateu palmas \u00e0 hora do almo\u00e7o e os homens se alinharam.<br \/>\nDesviei-me, como sempre fazia, esgueirei-me para as camas vizinhas ao lavat\u00f3rio;<br \/>\nouvi gritarem-me o nome: &#8211; Seu Fulano, entre em forma. Voltei-me: &#8211; Obrigado,<br \/>\nn\u00e3o quero almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>O negro estava diante de mim, decidido, sem nenhum vest\u00edgio das amabilidades<br \/>\nordin\u00e1rias: &#8211; N\u00e3o estou perguntando se o senhor quer, estou<br \/>\nmandando. Entre na fila.<\/p>\n<p>&#8211; Tolice, Cubano, respondi com mau modo. Voc\u00ea n\u00e3o me dispensou<br \/>\ndas formaturas? Essa r\u00e9plica foi in\u00fatil: o moleque aproximou-se,<br \/>\ncochichou-me ao ouvido, a voz tr\u00eamula: &#8211; Perdoe-me. Eu n\u00e3o posso<br \/>\ndeixar o senhor morrer de fome. Vai \u00e0 for\u00e7a.<\/p>\n<p>E agarrou-se comigo, em luta desigual, absurda. Achava-me num espanto imenso,<br \/>\ncheio de f\u00faria e vergonha. E parecia-me sobretudo rid\u00edculo envolver-me<br \/>\nem briga daquele g\u00eanero com um vagabundo, na presen\u00e7a de novecentos<br \/>\nhomens em linhas pasmas, os bra\u00e7os cruzados. Minutos antes, folheando<br \/>\npap\u00e9is, sentado na cama, tal ocorr\u00eancia n\u00e3o me atravessaria<br \/>\no esp\u00edrito. Dem\u00eancia. Apesar de ter vivido muitos anos no sert\u00e3o,<br \/>\nconvivendo com gente meio b\u00e1rbara, nunca me viera precis\u00e3o de<br \/>\nrecorrer ao m\u00fasculo. De fato os pobres m\u00fasculos se haviam atrofiado;<br \/>\nimposs\u00edvel extrair deles o vigor necess\u00e1rio. Dias gastos numa<br \/>\nreparti\u00e7\u00e3o, no exame de processos, noites consumidas no lento<br \/>\narranjo de frases, o espinha\u00e7o curvo, estragam definitivamente um organismo.<br \/>\nAo chegar ali, firmava-me com dificuldade, a arrastar a perna tr\u00f4pega.<br \/>\nE agora, ausente da mesa onde me davam, em prato de folha, um caldo ins\u00edpido<br \/>\ne ralo, com tr\u00eas rodelas de cenoura, sentia-me arrasado. Uma semana<br \/>\nde jejum completo, mais de uma semana, conjeturo. Nessa infeliz situa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nbambo, atracar-me a um bicho forte, habituado aos rolos das favelas, era est\u00fapido.<\/p>\n<p>Movia-me em desespero, atacava, defendia-me \u00e0 toa; com certeza os<br \/>\nmeus golpes n\u00e3o tinham nenhum efeito. O moleque, rijo, nem se ocupava<br \/>\nem revid\u00e1-los: todo o esfor\u00e7o dele consistia em procurar segurar-me<br \/>\nos bra\u00e7os. Um murro me lan\u00e7aria ao ch\u00e3o. Tive consci\u00eancia<br \/>\ndisso, percebi que o estranho advers\u00e1rio me poupava e limitei-me a<br \/>\nfugir \u00e0s m\u00e3os \u00e1speras, aos dedos de ferro. A enorme c\u00f3lera<br \/>\njuntou-se uma gratid\u00e3o insensata. Perseguia-me a escusa estapaf\u00fardia,<br \/>\nno meio daquele desconchavo: &#8211; &#8220;N\u00e3o posso deixar o senhor morrer<br \/>\nde fome. Perdoe.&#8221; Excelente prop\u00f3sito, sem d\u00favida, mas<br \/>\no jeito de realiz\u00e1-lo indignava-me. Muitas vezes o rapaz me oferecera<br \/>\nconselho: &#8211; &#8220;O senhor fuma demais. E n\u00e3o come. Isso \u00e9 ruim.<br \/>\nVeja se pode engolir qualquer coisa.&#8221; &#8211; &#8220;N\u00e3o. Obrigado. \u00c9<br \/>\nimposs\u00edvel.&#8221; Nunca me passara a id\u00e9ia de que ele fosse<br \/>\ncapaz de levar-me a semelhante apuro. Am\u00e1vel, servi\u00e7al, procurava<br \/>\ntornar-nos a vida menos dura no lugar infame. De repente, a inopinada agress\u00e3o.<br \/>\nGente singular, meio esquisito: at\u00e9 para revelar sentimentos generosos,<br \/>\nera indispens\u00e1vel a brutalidade. Na desordem, mexendo-me ao acaso,<br \/>\nvia-me for\u00e7ado a achar razo\u00e1vel o disparate: o homem recorria<br \/>\n\u00e0 viol\u00eancia com o intuito de prestar-me favor, e admiti que n\u00e3o<br \/>\npodia comportar-se de outro modo. Tinha um cora\u00e7\u00e3o humano, sem<br \/>\nd\u00favida, mas adquirira h\u00e1bitos de animal. Enfim todos nos animaliz\u00e1vamos<br \/>\ndepressa. O rumor dos ventres \u00e0 noite, a horr\u00edvel imund\u00edcie,<br \/>\nas cenas ign\u00f3beis na latrina j\u00e1 n\u00e3o nos faziam mossa<br \/>\nRixas de quando em quando, sem motivo aparente; soldados \u00e9brios a desmandar-se<br \/>\nem coa\u00e7\u00f5es e inj\u00farias. Essas coisas a princ\u00edpio<br \/>\nme abalavam; tornaram-se depois quase naturais. E via-me agora embrulhado<br \/>\nnum pugilato.<\/p>\n<p>A zanga e o reconhecimento ferviam-me no interior. S\u00fabito uma confusa<br \/>\npiedade engrossou-me o cora\u00e7\u00e3o. Tive pena do infeliz amigo,<br \/>\nque se aventurava a medidas extremas, julgando salvar-me a vida. A irrita\u00e7\u00e3o<br \/>\nesmoreceu: provavelmente ele devia sofrer. Continuava a defender-me; na confus\u00e3o,<br \/>\nt\u00ednhamos andado v\u00e1rios metros, pouco a pouco nos cheg\u00e1vamos<br \/>\n\u00e0 porta, onde a guarda assistia ao fuzu\u00ea. A indisciplina me ocasionaria<br \/>\nprovavelmente a cela, estreita e escura. N\u00e3o pensei nisso. o perigo<br \/>\nimediato, sucumbir, entrar na fila, marchar de cabe\u00e7a baixa, sentar-me<br \/>\nno refeit\u00f3rio nauseabundo, eliminava riscos afastados. Empenhava-me<br \/>\nna resist\u00eancia, que se ia tornando bem dif\u00edcil: a minha estulta<br \/>\ncompaix\u00e3o associava-se aos movimentos de Cubano; sem d\u00favida<br \/>\nele iria subjugar-me.<\/p>\n<p>Um berro medonho nos interrompeu. Virei-me, enxerguei por cima do ombro<br \/>\no malandro cafuzo que, dias e dias, uivava junto \u00e0 grade pedindo uma<br \/>\ninje\u00e7\u00e3o de morfina. Rolara de uma t\u00e1bua e espojava-se<br \/>\nna areia do alojamento, em gritos, a barriga nua exposta a uma nuvem de moscas.<br \/>\nDe relance notei uma ferida aberta, um jorro de sangue preto derramando-se<br \/>\nnas virilhas, nos p\u00ealos do ventre, nas pernas, formando uma po\u00e7a<br \/>\nno ch\u00e3o. Sacudi-me, livrei-me das garras fortes do vagabundo: &#8211; V\u00e1<br \/>\npara o inferno, Cubano. Eu posso comer vendo uma desgra\u00e7a desta? A<br \/>\ncriatura desviou-se, e ao cabo de um minuto as linhas moveram-se, entraram<br \/>\nno curral de arame, articularam-se no p\u00e1tio branco. Ficamos s\u00f3s<br \/>\nno galp\u00e3o, o doente ca\u00eddo na terra vermelha, eu de p\u00e9,<br \/>\natordoado, in\u00fatil. Aproximei-me dele, perguntando a mim mesmo se era<br \/>\nposs\u00edvel fazer qualquer coisa. Evidentemente n\u00e3o, mas resistia<br \/>\nem conformar-me com isso.<\/p>\n<p>Fui \u00e0 porta, olhei pelas barras de ferro, procurei um soldado, um<br \/>\nfuncion\u00e1rio, chamei. Ningu\u00e9m. Nenhuma assist\u00eancia ao infeliz.<br \/>\nVoltei para junto dele, fiquei algum tempo a ver o l\u00edquido escuro esguichar<br \/>\ndo buraco, sob o v\u00f4o das moscas. Faltavam desinfetantes. Aquilo arruinara,<br \/>\napodrecera ao abandono, e o sujeito, com os intestinos avariados, manifestava<br \/>\na dor e o medo em queixas estertorosas. Lembrei-me das palavras do m\u00e9dico<br \/>\nao examinar-me a eventra\u00e7\u00e3o: &#8211; &#8220;Apendicite?&#8221; &#8211; &#8220;Pso\u00edte.&#8221;<br \/>\n&#8211; &#8220;Vamos operar isso. \u00c9 f\u00e1cil.&#8221; Estremeci com horror<br \/>\ndesconhecido naquele tempo. Se me houvesse entregue \u00e0s facas dos magarefes,<br \/>\nacabar-me-ia assim, decompondo-me sem tratamento, devorado pelas mucuranas.<br \/>\nA horr\u00edvel chaga era pouco mais ou menos \u00e0 altura da minha cicatriz,<br \/>\nabaixo das \u00faltimas costelas direitas. O homem provavelmente ouvira<br \/>\noferta igual \u00e0quela, baixara a um hospital miser\u00e1vel, fora cortado<br \/>\n\u00e0 pressa numa sala isenta de assepsia. A voz era um&#8217; grunhido rouco:<br \/>\n&#8211; Uma inje\u00e7\u00e3o de morfina, pelo amor de Deus.<\/p>\n<p>O pedido insistente no deserto arrasava-me os nervos. Arredei-me, fui sentar-me<br \/>\n\u00e0 cama, abri o livro, repisei coisas da \u00edndia. N\u00e3o sei<br \/>\ncomo obtive esse volume encadernado, com ilustra\u00e7\u00f5es. Enquanto<br \/>\nali vivi, tornou-se em mim um h\u00e1bito folhe\u00e1-lo, mas nunca entendi<br \/>\num per\u00edodo: sabia apenas que se tratava de coisas da \u00edndia.<br \/>\nIrritava-me a demora dos companheiros, o almo\u00e7o intermin\u00e1vel.<br \/>\nSe estivessem ali, talvez algum achasse meio de socorrer o pobre. Dizia isso<br \/>\na mim mesmo, embalando-me numa esperan\u00e7a indecisa e hip\u00f3crita.<br \/>\nNenhum aux\u00edlio, evidentemente. O -meu desejo era que o galp\u00e3o<br \/>\nse enchesse e o rumor das tosses, o zunzum das conversas, palavras \u00e1speras,<br \/>\ncontendas amalgamadas num burburinho constante, abafassem o ronco lastimoso.<br \/>\nPensava em distanciar-me, dirigir-me \u00e0s t\u00e1buas do fundo, e continuei<br \/>\nali, contando os longos minutos. Com freq\u00fc\u00eancia levantava a cabe\u00e7a,<br \/>\nvia, a seis ou oito passos, a barriga preta, onde o sangue estancara. Os gemidos<br \/>\nca\u00edam mon\u00f3tonos, e parecia-me que a ele se juntava o surdo zumbir<br \/>\ndas moscas. Ilu s\u00e3o: \u00e0quela dist\u00e2ncia n\u00e3o se ouvia<br \/>\no d\u00e9bil som, mas distinguia-se bem o esvoa\u00e7ar dos bichos em<br \/>\ncima da carne rasgada. Naquele momento a perna direita me incomodava em excesso.<br \/>\nDif\u00edcil arrastar-me: talvez por isso n\u00e3o me haja decidido a<br \/>\nrefugiar-me nas t\u00e1buas do fundo, longe do queixume ininterrupto. A<br \/>\nbriga f\u00edsica havia-me exaurido. Burrice. Enrolara-me em coisa semelhante<br \/>\nno curso prim\u00e1rio, e desde ent\u00e3o as encrencas se aplainavam<br \/>\nsem muita grosseria. Julgava-me um tipo mais ou menos civilizado. Agora isso<br \/>\ndesaparecia.<\/p>\n<p>Um bruto, evidentemente. Um bruto cansado, a vista a espalhar-se, turva,<br \/>\nnas paredes sujas, detendo-se num ventre aberto, num orif\u00edcio glutinoso,<br \/>\nno v\u00f4o de insetos vorazes. O cafuzo ia morrer, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>&#8211; Uma inje\u00e7\u00e3o de morfina.<\/p>\n<p>A s\u00faplica desmaiava, era um rumor abafado, arquejante. Se a n\u00e3o<br \/>\ntivesse ouvido muitas vezes, n\u00e3o me seria poss\u00edvel entend\u00ea-la.<br \/>\nAs palavras sumiam-se, desarticulavam-se, como a enregelar-se num torpor de<br \/>\nmorte. Descerrou-se a grade, as filas entraram no alojamento, desfizeram-se;<br \/>\nas vozes espalharam-se, fundiram-se no rumor coletivo. Erguendo a cabe\u00e7a,<br \/>\nn\u00e3o percebi o corpo exangue na areia vermelha. Bem. Agora estava sobre<br \/>\na t\u00e1bua donde resvalara, junto \u00e0 porta. Findo o almo\u00e7o,<br \/>\ndecidiram acomod\u00e1-lo. Ia enfim aquietar-se; pelo menos a agita\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos escaparia. E \u00e0 tarde, com o regresso das turmas do trabalho, poder\u00edamos<br \/>\ndistrair-nos passeando entre as esteiras, ouvindo, aqui, ali, uma hist\u00f3ria,<br \/>\numa anedota.<\/p>\n<p>Cubano falou-me, sol\u00edcito, camarada: a luta da manh\u00e3 n\u00e3o<br \/>\nlhe deixara vest\u00edgio no esp\u00edrito. Busquei lembrar-me dela. O<br \/>\npensamento desviava-se, os olhos prendiam-se com insist\u00eancia na figura<br \/>\nim\u00f3vel junto aos var\u00f5es de ferro.<\/p>\n<p>A noite, a visita de Ga\u00facho n\u00e3o me deu prazer: achava-me desatento,<br \/>\nmurcho. E depois do sil\u00eancio, estirado, a maleta servindo-me de travesseiro,<br \/>\npresas entre as coxas as duas bandas do len\u00e7ol tinto de hemoptises,<br \/>\nn\u00e3o consegui dormir direito. O sono vinha, fugia. Modorras desagrad\u00e1veis<br \/>\npartiam-se, e nesses intervalos abalavam-me os sentidos meio dormentes os<br \/>\nru\u00eddos noturnos: papaguear desconexo e delirante, revolu\u00e7\u00f5es<br \/>\nde tripas, gemidos, tosses. Avultavam nisso os arquejos do malandro. Eram<br \/>\nna verdade quase impercept\u00edveis, mas feriam-me como pregos. Fazia muitas<br \/>\nhoras que tinham cessado; capacitara-me disto. Ressurgiam, prolongavam-se,<br \/>\nestertor de moribundo teimoso. Porque n\u00e3o morria logo aquela criatura?<br \/>\n&#8211; Uma inje\u00e7\u00e3o de morfina, pelo amor de Deus.<\/p>\n<p>Era apenas um sussurro, quase indistinto. O pedido esmorecia, in\u00fatil.<br \/>\nPela madrugada enxerguei vultos em redor da t\u00e1bua, curvados, em cochichos.<br \/>\nTeriam vindo enfermeiros? Estariam abreviando e entorpecendo a agonia do homem?<br \/>\nRetiraram-se. Os lamentos enfraqueceram ainda, espa\u00e7ados, sumiram-se.<\/p>\n<p>Ao levantar-me, vi o cafuzo im\u00f3vel e sereno. Afastei-me, com este<br \/>\nhorror aos mortos, de que n\u00e3o me livro. Fomos aquecer-nos ao sol, no<br \/>\ncurral; as turmas sa\u00edram para o trabalho. Quando voltei ao alojamento,<br \/>\no cad\u00e1ver tinha desaparecido. Sa\u00edra provavelmente enrolado num<br \/>\ncobertor, como Dom\u00edcio Fernandes.<\/p>\n<p>30<\/p>\n<p>CERTA manh\u00e3 os paranaenses foram chamados \u00e0 secretaria e voltaram<br \/>\nnum ruidoso contentamento: no dia seguinte, com dois rapazes do nordeste e<br \/>\nalguns ladr\u00f5es e vagabundos, deixariam a Col\u00f4nia. Essa not\u00edcia<br \/>\nme causou viva inquieta\u00e7\u00e3o. O nosso grupo se desconjuntava,<br \/>\nsegundo o h\u00e1bito que me parecia regra na cadeia. Uma parte ficava ali;<br \/>\noutra se juntava a pessoas desconhecidas, ia formar em lugares diferentes<br \/>\nnovos aglomerados inst\u00e1veis. No Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios<br \/>\nqualquer boato a respeito de mudan\u00e7a nos tirava o apetite. Agora aqueles<br \/>\nhomens estavam alegres em excesso: provavelmente n\u00e3o seriam soltos,<br \/>\nmas a transfer\u00eancia devia ter para eles quase o valor de uma liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Felicitei-os, procurando sentir prazer com o afastamento incompreens\u00edvel.<br \/>\nAchava-me na verdade cheio de inveja e despeito. Resolu\u00e7\u00e3o est\u00fapida.<br \/>\nVan der Linden e M\u00e1rio Paiva, meus companheiros no por\u00e3o do<br \/>\nManaus, cuspiam sangue, coitados, precisavam realmente sair. Mas Zoppo, Cabezon,<br \/>\nPetrosky, homens fortes, podiam resistir mais alguns dias. Petrosky era um<br \/>\ngigante. Ao v\u00e9-lo arrumar a bagagem, vagaroso, pesado, com jeito de<br \/>\nboi, achava-me em completo des\u00e2nimo. Imposs\u00edvel ag\u00fcentar-me.<br \/>\nA agonia do malandro cafuzo importunava-me. A chegada, arrastava-me a custo;<br \/>\nolhando-me a cara, o tenente Bicicleta me dispensara do trabalho O meu fim<br \/>\nestava pr\u00f3ximo, com certeza. E abandonavam-me naquele inferno.<\/p>\n<p>Passei o dia remoendo id\u00e9ias l\u00fagubres. Iam enterrar-me ali.<br \/>\nUm pacote leve, alguns ossos envoltos nas duas bandas de len\u00e7ol tintas<br \/>\nde v\u00f4mitos sangrentos. Embrulho imundo, an\u00f4nimo, em cima de uma<br \/>\nt\u00e1bua. Enfim n\u00e3o pretendiam corrigir-nos: queriam apenas matar-nos,<br \/>\ndissera o guarda vesgo na primeira noite, procurando esconder o bra\u00e7o<br \/>\npequeno, atrofiado. &#8211; &#8220;Quem tem protetor fica l\u00e1 fora. Os que<br \/>\nchegam aqui v\u00eam morrer. Todos iguais.&#8221; Sem d\u00favida. O malandro<br \/>\ncafuzo, Dom\u00edcio Fernandes, revolucion\u00e1rio de Natal, assassinados,<br \/>\niguais, sem d\u00favida. Todos iguais. Ia acabar-me assim. Natural. Se pudesse<br \/>\nentrar na fila, sentar-me no refeit\u00f3rio ign\u00f3bil, ingerir peda\u00e7os<br \/>\nda b\u00f3ia infame, talvez couse guisse estender um pouco a vida hesitante.<br \/>\nImposs\u00edvel. Cubano voltaria a agarrar-se comigo, em luta f\u00edsica,<br \/>\npara obrigar-me a comer. Os bons prop\u00f3sitos dele se perderiam.<\/p>\n<p>Esses pensamentos desagrad\u00e1veis foram interrompidos \u00e0 tarde.<br \/>\nChamaram-me \u00e0 grade, mandaram que me apresentasse ao diretor. Que diabo<br \/>\nseria? Essa gente nunca me falara. Vesti a roupa de casimira por cima do pijama<br \/>\ne, sem gravata, julguei-me decente para falar \u00e0 autoridade. Abriu-se<br \/>\na porta, sa\u00ed em companhia da for\u00e7a, atravessei o p\u00e1tio,<br \/>\nfui levado \u00e0 casa onde me haviam espoliado antes de me rasparem a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Entrei numa saleta, vi sentado a uma banca um homem de rosto fino, duro,<br \/>\nsilhueta recortada em l\u00e2mina de faca. Logo reconheci o m\u00e9dico,<br \/>\no diretor suplente que viajara conosco na lancha, entre senhoras acomodadas<br \/>\nem cadeiras de vime. Avancei, detive-me a pequena dist\u00e2ncia da mesa.<br \/>\nO sujeito de fisionomia cortante, em sil\u00eancio, estendeu-me um papel.<br \/>\nLi. Era um telegrama chamando-me com urg\u00eancia ao Rio.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem. Quando viajo? &#8211; Amanh\u00e3, com os outros. &#8211; Est\u00e1<br \/>\nbem.<\/p>\n<p>Ia retirar-me, atordoado: n\u00e3o esperava tal coisa. Porque n\u00e3o<br \/>\nme haviam juntado aos outros? Decis\u00e3o de \u00faltima hora, certamente.<br \/>\nDirigi-me \u00e0 porta, uma lembran\u00e7a deteve-me: recuei, murmurei<br \/>\n\u00e0 toa, sem escolher palavras: &#8211; \u00d3 doutor, quer fazer-me o obs\u00e9quio<br \/>\nde mandar procurar uma carteira que me furtaram a\u00ed na secretaria? O<br \/>\nsujeito olhou-me severo e respondeu firme: &#8211; Aqui n\u00e3o se furta.<\/p>\n<p>&#8211; Santo Deus! tornei. Aqui n\u00e3o se faz outra coisa. Todos n\u00f3s<br \/>\nsomos ladr\u00f5es. Porque \u00e9 que estamos na Col\u00f4nia Correcional?<br \/>\nPorque somos ladr\u00f5es, naturalmente. Pelo menos \u00e9 esta a opini\u00e3o<br \/>\ndo governo. O senhor ignora que l\u00e1 dentro usamos os casacos pelo avesso,<br \/>\npara os nossos amigos n\u00e3o nos meterem as m\u00e3os nos bolsos? Larguei<br \/>\nisso com um sorrisinho mau, impertinente, repisando frases. O objeto perdido<br \/>\nn\u00e3o me faria grande falta, nem uma vez pensara em reav\u00ea-lo. Mas,<br \/>\nfeita a reclama\u00e7\u00e3o, pegava-me a ela, por ver que estava causando<br \/>\naborrecimento ao funcion\u00e1rio antip\u00e1tico. Insisti, ele mandou<br \/>\nchamar o rapaz da secretaria.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isto, expliquei. Uma carteira que os senhores me furtaram no<br \/>\ndia da chegada. Est\u00e3o aqui o porta-n\u00edqueis e o cinto, com monogramas.<br \/>\nH\u00e1 na carteira um monograma igual. &#8211; O senhor tem recibo? perguntou<br \/>\no sem-vergonha.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, homem. Voc\u00ea j\u00e1 viu ladr\u00e3o dar recibo do<br \/>\nque furta? &#8211; Ah! N\u00e3o fui eu.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o foi um colega seu. Voc\u00eas todos se entendem. O sujeito<br \/>\nnegava a p\u00e9s juntos. Insisti na reclama\u00e7\u00e3o por teimosia,<br \/>\ns\u00f3 para chatear o m\u00e9dico. Certamente n\u00e3o me iriam atender:<br \/>\nlimitava-me a acusar sem provas, e era imposs\u00edvel identificar o culpado<br \/>\nna multid\u00e3o confusa. No caso dele, meter-me-ia nas encolhas, evidentemente;<br \/>\nqualquer indiv\u00edduo sensato faria o mesmo. N\u00e3o me passava a id\u00e9ia<br \/>\nde que ele fosse denunciar-me. E continuava a segurar-me a um direito vago,<br \/>\nindemonstr\u00e1vel, enquanto a frase do guarda zarolho me feria a lembran\u00e7a:<br \/>\n&#8211; &#8220;Aqui n\u00e3o h\u00e1 direito.&#8221; O homem de cara met\u00e1lica<br \/>\nesgotava a paci\u00eancia, com certeza; necess\u00e1rio decidir-me a largar<br \/>\no caso enfadonho, que nenhuma vantagem me podia trazer. Depois de viver naquela<br \/>\nmis\u00e9ria, sem alimentos, sem banho, encurralado como bicho, sugado por<br \/>\nmosquitos e piolhos, resguardando-me com trapos sujos de hemoptises, ocupar-me<br \/>\nassim de um preju\u00edzo insignificante era absurdo. Ao entrar na Casa<br \/>\nde Deten\u00e7\u00e3o, agarrara-me a um frasco de iodo quase vazio que<br \/>\nme queriam tomar, defendera-o com vigor, mostrando uma unha j\u00e1 cicatrizada;<br \/>\nconseguira salv\u00e1-lo e jogara-o no lixo, pois n\u00e3o me servia para<br \/>\nnada. Qual seria o motivo dessa obstina\u00e7\u00e3o, agora repetida?<br \/>\nJulgo que o meu intuito, embora indeciso, era reaver uma personalidade que<br \/>\nse dilu\u00edra em meio abeto. Exigindo o frasco in\u00fatil, esfor\u00e7ava-me<br \/>\npor eliminar do esp\u00edrito vest\u00edgios do horr\u00edvel por\u00e3o,<br \/>\nonde supus enlouquecer. As esteiras imundas, o refeit\u00f3rio ign\u00f3bil,<br \/>\npessoas transformadas em animais selvagens, morrendo \u00e0 toa, justificavam<br \/>\nsegunda impertin\u00eancia. N\u00e3o se tratava s\u00f3 de molestar uma<br \/>\nfigura desagrad\u00e1vel. Junto \u00e0 mesa, olhando o telegrama, aparecia-me<br \/>\na avidez de reentrar enfim na humanidade. Lembro-me de, naquele instante,<br \/>\nme haver considerado trapaceiro e mesquinho. Prevalecia-me da situa\u00e7\u00e3o<br \/>\npara dizer palavras insensatas na v\u00e9spera, e isto de algum modo significava<br \/>\num procedimento covarde. Senti que aquela gente &#8211; soldados e guardas \u00e9brios,<br \/>\ninsens\u00edveis, obtusos &#8211; j\u00e1 n\u00e3o me causaria mal: o telegrama<br \/>\ntinha pouco mais ou menos o valor de uma carta de alforria. Havia nessa reflex\u00e3o<br \/>\nfor\u00e7a bastante para fechar-me a boca. N\u00e3o me calei. E o mo\u00e7o<br \/>\nda secretaria, negando sempre, come\u00e7ou a perturbar-se. De repente saiu.<br \/>\nDispunha-me a sair tamb\u00e9m, avizinhava-me da porta, quando ele entrou<br \/>\nde novo ,e me estendeu a carteira: &#8211; \u00c9 esta? Recebi-a, tirei do bolso<br \/>\no porta-n\u00edqueis, desafivelei o cinto, fui colocar tudo sobre a mesa,<br \/>\nconferi os monogramas: &#8211; Est\u00e1 a\u00ed, doutor. O ladr\u00e3o veio<br \/>\ntraz\u00ea-la. E o doutor a dizer que aqui n\u00e3o se furta. Engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Recolhi os tr\u00eas objetos, rindo alto. Mordia os bei\u00e7os para<br \/>\nreprimir a manifesta\u00e7\u00e3o ruidosa, e n\u00e3o me continha: &#8211;<br \/>\nAqui n\u00e3o se furta. Adeus, doutor. Muito obrigado. O m\u00e9dico levantou-se,<br \/>\nacompanhou-me at\u00e9 a cancela do curral. Pela primeira vez achava-me<br \/>\nvigiado por um sujeito de import\u00e2ncia, mas isto de nenhum modo atenuou<br \/>\nas humilha\u00e7\u00f5es anteriores. Naquele momento, com a viagem fixa<br \/>\npara o dia seguinte, inclinava-me a dispensar a cortesia inopinada. O homem<br \/>\ntencionava provavelmente, julguei, abrandar-me o conceito motivado pela cena<br \/>\ndesairosa \u00e0 administra\u00e7\u00e3o. Ao sair, espantava-me de ele<br \/>\nn\u00e3o haver dito uma palavra de censura. E mais me surpreendia o desazado<br \/>\ncomportamento do velhaco: repelira a acusa\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil,<br \/>\ndepois se embrulhara, perdera os estribos e condenara-se estupidamente. Isso<br \/>\ncorroborava o meu ju\u00edzo a respeito dos ladr\u00f5es: gente vaidosa<br \/>\ne potoqueira. Mas aquele na verdade era inferior aos outros. Descuidista,<br \/>\nimaginei.<\/p>\n<p>No p\u00e1tio branco, as \u00e1rvores enfileiradas, marciais, despojavam-se<br \/>\ndas folhas amarelas, que voavam lentas na aragem branda. Havia no c\u00e9u<br \/>\num desperd\u00edcio de tintas. O negrume ferruginoso dos montes pr\u00f3ximos<br \/>\nganhava tons dourados. E a dist\u00e2ncia, verdes e finas, as piteiras imergiam<br \/>\nnum banho luminoso. Seriam talvez seis horas.<\/p>\n<p>&#8211; Que beleza, doutor! Que maravilha! Cheg\u00e1vamos \u00e0 cancela.<br \/>\nE experimentei de chofre a necessidade imperiosa de expandir-me numa clara<br \/>\namea\u00e7a. A desarrazoada tenta\u00e7\u00e3o era t\u00e3o forte<br \/>\nque naquele instante n\u00e3o me ocorreu nenhuma id\u00e9ia de perigo.<\/p>\n<p>&#8211; Levo recorda\u00e7\u00f5es excelentes, doutor. E hei de pagar um dia<br \/>\na hospitalidade que os senhores me deram.<\/p>\n<p>&#8211; Pagar como? exclamou a personagem.<\/p>\n<p>&#8211; Contando l\u00e1 fora o que existe na ilha Grande. &#8211; Contando? &#8211; Sim,<br \/>\ndoutor, escrevendo. Ponho tudo isso no papel. O diretor suplente recuou, esbugalhou<br \/>\nos olhos e inquiriu carrancudo: &#8211; O senhor \u00e9 jornalista? &#8211; N\u00e3o<br \/>\nsenhor. Fa\u00e7o livros. Vou fazer um sobre a Col\u00f4nia Correcional.<br \/>\nDuzentas p\u00e1ginas ou mais. Os senhores me deram assunto magn\u00edfico.<br \/>\nUma hist\u00f3ria curiosa, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico enterrou-me os olhos duros, o rosto cortante cheio de sombras.<br \/>\nDeu-me as costas e saiu resmungando: &#8211; A culpa \u00e9 desses cavalos que<br \/>\nmandam para aqui gente que sabe escrever.<\/p>\n<p>31<\/p>\n<p>QUASE n\u00e3o precisava arranjar-me para a viagem. Despi-me, abri a valise,<br \/>\nprocurei. algum pano limpo, sabendo perfeitamente que n\u00e3o iria encontr\u00e1-lo.<br \/>\nCamisas, cuecas, meias, len\u00e7os, os dois pijamas, talvez n\u00e3o<br \/>\nestivessem muito sujos, mas com certeza haviam sido lavados sem sab\u00e3o:<br \/>\ntinham cor suspeita de mofo e cardina, a ign\u00f3bil apar\u00eancia dos<br \/>\nmolambos comuns na pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Vesti-me. esfreguei com o len\u00e7ol coberto de hemoptises os sapatos<br \/>\nsecos e empoeirados, calcei-me, amarrei a gravata, que se enrolava como corda.<br \/>\nImposs\u00edvel disfar\u00e7ar as manchas e vincos da roupa externa. Arranhava-me<br \/>\nos dedos a aspereza da barba, nunca raspada naquele infame lugar.<\/p>\n<p>Cubano ordenou a formatura, e pela \u00faltima vez fui alinhar-me, observando<br \/>\natento a bagagem deixada sobre a cama, junto ao chap\u00e9u de palha. Desnecess\u00e1ria<br \/>\ncautela: os indiv\u00edduos capazes de furt\u00e1-la achavam-se nas filas,<br \/>\nde bra\u00e7os cruzados. Tinha-me, por\u00e9m, habituado \u00e0 vigia<br \/>\ne maquinalmente procurava esses objetos. Os guardas fizeram a contagem, dispersamos,<br \/>\nas esteiras se desenrolaram chiando na areia. Circulei entre elas, avizinhando-me<br \/>\ndas pessoas conhecidas, a despedir-me. Entretive-me nisso, apesar de faltarem<br \/>\nmuitas horas para a sa\u00edda. Ao retirar-me, estariam dormindo. O excelente<br \/>\nMacedo abriu generoso uma lata de goiabada; aceitei um grande peda\u00e7o,<br \/>\ncomi-o, reprimi com esfor\u00e7o o desejo de pedir mais. Voltava de repente<br \/>\na fome, fome de a\u00e7\u00facar. Vi um dos garotos estigmatizados por<br \/>\nNazir, um monstro recolhido ao manic\u00f4mio, \u00e0 Casa de Corre\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o me lembro. J\u00e1 me aparecera um desses infelizes. O demente<br \/>\nviolara-os e deixara-lhes no corpo o ferrete indel\u00e9vel: nunca mais<br \/>\nas v\u00edtimas se livrariam do horr\u00edvel dom\u00ednio, seriam durante<br \/>\na vida como reses marcadas a fogo por um vaqueiro.<\/p>\n<p>&#8211; Levanta a manga.<\/p>\n<p>A criatura miser\u00e1vel obedeceu, languenta e passiva: com certeza era<br \/>\nincapaz da m\u00ednima resist\u00eancia. L\u00e1 estava no antebra\u00e7o<br \/>\ndescarnado a ignominiosa tatuagem: o nome de Nazir debaixo de um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nflamante. Fiquei um momento a espiar as letras azuis mal desenhadas na pele<br \/>\nmorena. &#8211; Que significa isso? &#8211; Amor de m\u00e3e, sussurrou uma vozinha<br \/>\nd\u00e9bil, inexpressiva, cantilena sem d\u00favida repetida.<\/p>\n<p>Era a segunda vez que me diziam aquilo. Examinei a carinha murcha, os olhos<br \/>\nba\u00e7os, o peito fr\u00e1gil. P\u00e1lido e sem m\u00fasculos.<br \/>\nUma crian\u00e7a, parecia n\u00e3o ter mais de quinze anos.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 que voc\u00ea imagina que Nazir seja sua m\u00e3e? O<br \/>\naborto n\u00e3o respondeu. Baixou a manga e afastou-se. Conclu\u00ed as<br \/>\ndespedidas, voltei \u00e0 cama.<\/p>\n<p>Um rapaz alto e magro chegou-se a mim, segredou-me um recado para Ivan Ribeiro.<br \/>\nN\u00e3o o compreendi e quis eximir-me dizendo ser improv\u00e1vel avistar-me<br \/>\ncom o tenente, no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios. O outro insistiu,<br \/>\ne, embora tentasse decorar-lhe as palavras, n\u00e3o consegui entend\u00ea-lo.<br \/>\nPara vencer a dificuldade, abri a valise, rasguei uma folha de papel, escrevi<br \/>\na l\u00e1pis duas ou tr\u00eas linhas numa tira de cinco cent\u00edmetros,<br \/>\nenrolei-a, meti-a no bolso, misturada aos cigarros. Estava em seguran\u00e7a,<br \/>\nconfundia-se com eles.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o retirou-se. O que n\u00e3o estava em seguran\u00e7a eram<br \/>\nas notas guardadas entre meias e len\u00e7os, doidice pretender lev\u00e1-las.<br \/>\nNovo trabalho perdido. Peguei-as, contei-as: umas quarenta p\u00e1ginas<br \/>\nin\u00fateis. Rebentei o cord\u00e3o que prendia a esteira ao forro da<br \/>\ncama, abri um esconderijo, meti-as ali. Quando as achassem, haveria um fuzu\u00ea<br \/>\ndos diabos. Ga\u00facho e Cubano fizeram-me a derradeira visita, conversaram<br \/>\nalguns minutos. Abracei-os ao separar-nos, afirmei que sentiria muito prazer<br \/>\nse nos encontr\u00e1ssemos na rua. Parecia-me entretanto dif\u00edcil<br \/>\nrever-nos, e isto me afligia. Nascimento, am\u00e1vel e fanhoso, veio trazer-me<br \/>\na penosa oferta j\u00e1 exposta no dia do nosso encontro inicial: &#8211; O companheiro<br \/>\nnecessita alguma coisa? N\u00e3o, decerto. Em geral n\u00e3o me agradava<br \/>\n&#8216;receber, e no imundo barrac\u00e3o um f\u00f3sforo podia adquirir valor<br \/>\ninconceb\u00edvel. Ainda me pesava na consci\u00eancia a fatia de goiabada<br \/>\nque me tentara pouco antes. Devia ter-me abstido.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, obrigado. Fora daqui, em qualquer parte me ag\u00fcento.<\/p>\n<p>O avesso da generosidade estapaf\u00fardia logo se manifestou num doce<br \/>\nronrom: &#8211; \u00c9 poss\u00edvel deixar alguma contribui\u00e7\u00e3o?<br \/>\nExibi a escassa pec\u00fania: c\u00e9dulas mi\u00fadas, n\u00edqueis<br \/>\n&#8211; vinte ou trinta mil-r\u00e9is. O meu dinheiro, guardado no c\u00f3s<br \/>\ndo pijama, se queimara, virara fuma\u00e7a, convertido em cigarros.<\/p>\n<p>Vagabundos e malandros, em continua ronda, n\u00e3o me deixavam fumar<br \/>\nem paz, e a despesa crescia.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3? perguntou Nascimento.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que tenho. Est\u00e1 \u00e0s ordens.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, recusou o homem. Voc\u00ea n\u00e3o sabe para onde vai.<br \/>\nGuardei aqueles restos chinfrins. Realmente n\u00e3o tinha nenhuma id\u00e9ia<br \/>\na respeito do meu destino. Desejaria regressar ao Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios,<br \/>\nassistir \u00e0s confer\u00eancias de Rodolfo Ghioldi, rir com as brincadeiras<br \/>\nde Apporelly, acompanhar o jogo dif\u00edcil de Pompeu Accioly, campe\u00e3o<br \/>\nde xadrez. Essas figuras, desbotadas, ressurgiam, ganhavam nitidez. Ao mesmo<br \/>\ntempo ia-se apagando a gente an\u00f4nima e esquiva que me povoara o extenso<br \/>\npesadelo e vinha, com pisadas leves, muda e invis\u00edvel, arrancar-me<br \/>\nda m\u00e3o o cigarro. N\u00e3o me seria poss\u00edvel reconstituir<br \/>\nno futuro a massa informe, imponder\u00e1vel. Os pap\u00e9is abandonados<br \/>\nentre os ferros da cama e a esteira iam fazer-me falta. Essa perda me inquietava,<br \/>\ndesviava-me das opini\u00f5es roufenhas de Nascimento, as \u00faltimas<br \/>\nque ouvi na piolheira da Col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Achei-me enfim s\u00f3, diante da valise aberta. Fechei-a, meti a chave<br \/>\nno porta-n\u00edqueis, pesquisei o galp\u00e3o, tentando fixar no esp\u00edrito<br \/>\naquele momento: cochichos, palestras, neg\u00f3cios, rumor de intestinos,<br \/>\nbrigas, a diluir-se no zunzum de feira; criaturas erguendo-se, escorregando<br \/>\nfurtivas nos corredores abertos entre corpos estirados; exig\u00eancias ansiosas<br \/>\n\u00e0 porta da latrina, idas e vindas, cont\u00ednuo zumbir de asas no<br \/>\nburaco de um corti\u00e7o. Na friagem da noite, aqui e ali, divisavam-se<br \/>\nos capotes dos paranaenses agachados na arruma\u00e7\u00e3o de pacotes<br \/>\ne trouxas. Os \u00f3culos medrosos do velho Eus\u00e9bio faiscavam perto.<br \/>\n&#8211; &#8220;An! Pessoa de considera\u00e7\u00e3o&#8221;, resmungaria lento<br \/>\ne asm\u00e1tico embrulhando os picu\u00e1s. O amor \u00e0 propriedade<br \/>\ne vers\u00edculos da B\u00edblia ganhavam consist\u00eancia na alma dele,<br \/>\ncom certeza. Vivia sempre a falar nisso, evitava encrencas e esperava salvar-se.<br \/>\nIam livr\u00e1-lo do refeit\u00f3rio, do carrego dos tijolos, do ch\u00e3o<br \/>\nmolhado. &#8211; &#8220;An! Pessoa de considera\u00e7\u00e3o.&#8221; As redes<br \/>\nnordestinas alargavam-se, enchiam-se de miudezas, dobravam-se, convertiam-se<br \/>\nem malas. Distanciando-se dali, Van der Linden e M\u00e1rio Paiva recuperariam<br \/>\ntalvez a sa\u00fade.<\/p>\n<p>Entre os vagabundos que nos acompanhavam, distingui o vulto sinistro de<br \/>\nRaimundo Campobelo. (Ou Campos Belo; nunca lhe pude saber direito o nome.)<br \/>\nEsse negro imenso devia ter tido prodigiosa robustez. Agora o tremendo arcabou\u00e7o<br \/>\npendia, os ombros curvos, as costelas salientes; e no car\u00e3o chupado<br \/>\nos bugalhos eram duas postas de sangue. Com os pulm\u00f5es a decompor-se,<br \/>\narquejando na dispn\u00e9ia, vivia em zanga permanente, rosnando solil\u00f3quios<br \/>\nroucos nos intervalos da tosse, a alma b\u00e1rbara, solit\u00e1ria, longe<br \/>\nda turba. Afei\u00e7oara-se meses atr\u00e1s a um padeirinho sambista.<br \/>\nUm dia esse mo\u00e7o lhe contava uma hist\u00f3ria: &#8211; Eu vinha do trabalho&#8230;<\/p>\n<p>O enorme bruto fixara nele os olhos duros, sanguinolentos. Supunha-o malandro<br \/>\ne admirava-se: &#8211; Tu trabaia? &#8211; Sim, trabalho. Sou padeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Fala mais comigo n\u00e3o, grunhira Raimundo Campobelo dando-lhe as<br \/>\ncostas.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante ignorara a exist\u00eancia do outro. Hora de sil\u00eancio.<br \/>\nDeitei-me, suspendi a gola, defendendo o pesco\u00e7o, pus as m\u00e3os<br \/>\nentre as coxas. Na cama exposta, vizinha \u00e0 grade, o vento me alfinetava<br \/>\nas orelhas. Mas um nojo desconhecido me impedia usar os molambos sujos de<br \/>\nhemoptises. Adormeci descoberto.<\/p>\n<p>32<\/p>\n<p>ESTIVE algumas horas a embalar-me em leves modorras, perturbadas muitas vezes:<br \/>\no frio intenso e a preocupa\u00e7\u00e3o da viagem davam-me sobressaltos<br \/>\ncont\u00ednuos. Perseguia-me a id\u00e9ia de que os outros iam retirar-se<br \/>\ne esquecer-me ali. Qualquer movimento me acordava.<\/p>\n<p>Afinal a chave rangeu na fechadura da porta, vultos deslizaram sem rumor,<br \/>\nos capotes grossos dos paranaenses juntaram-se \u00e0 entrada. Ergui-me,<br \/>\npeguei a valise e o chap\u00e9u, acerquei-me do grupo. Um guarda veio com<br \/>\numa lista, cantou os nossos nomes. Feita a confer\u00eancia, descerrou-se<br \/>\na grade, sa\u00edmos. At\u00e9 que enfim. Parei um instante, a examinar<br \/>\no cub\u00edculo estreito onde um barbeiro canhestro se desculpara ao raspar-me<br \/>\na cabe\u00e7a, arrancando p\u00ealos. Cheguei ao p\u00e1tio; dois pol\u00edcias<br \/>\nme ladearam, segundo o costume; esgueirei-me na sombra vagamente quebrada<br \/>\npor luzes capiongas. As \u00e1rvores tinham perdido a forma, a cor, o alinhamento:<br \/>\nescondiam-se, manchas quase invis\u00edveis. Andei alguns metros. At\u00e9<br \/>\nque enfim. Deviam ser tr\u00eas horas; chuviscos finos batiam-me na cara.<\/p>\n<p>&#8211; Alto.<\/p>\n<p>Parei. N\u00e3o havia raz\u00e3o para considerar-me livre daquilo: desabafara<br \/>\nantes do tempo, ao deixar a grade, a pequena barbearia. Numa eleva\u00e7\u00e3o<br \/>\nde meio metro, a pessoa que me detivera surgia indistinta, \u00e0 luz fraca<br \/>\nde uma sala mi\u00fada. &#8211; Alto.<\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o era desnecess\u00e1ria, pois me achava im\u00f3vel,<br \/>\nentre dois soldados, \u00e0 espera de ordens.<\/p>\n<p>&#8211; Entre.<\/p>\n<p>Subi a cal\u00e7ada, encaminhei-me \u00e0 saleta e reconheci na figura<br \/>\nindecisa o tenente Bicicleta &#8211; O papel que o senhor leva a\u00ed? &#8211; Qual<br \/>\n\u00e9 o papel? inquiri sem perturbar-me.<\/p>\n<p>Num instante abarquei a situa\u00e7\u00e3o. Era a tarefa exigida por<br \/>\nNascimento, as folhas de alma\u00e7o que me esfor\u00e7ara por emendar<br \/>\na l\u00e1pis retardando-me em explica\u00e7\u00f5es, mal-entendidos.<br \/>\nUm sujeito se chegara de manso e, estirando o pesco\u00e7o, tentara lamber<br \/>\na escrita com os olhos gulosos. Lembrei-me da pergunta azeda: &#8211; &#8220;Que<br \/>\n\u00e9 que voc\u00ea quer?&#8221; O sem-vergonha, mordendo um sorrisinho<br \/>\nmalandro, se oferecera para lavar roupa. Trabalhava barato. Espi\u00e3o,<br \/>\ncomo eu havia suposto. Ali\u00e1s a den\u00fancia era in\u00fatil. Sem<br \/>\nnenhuma cautela, ocupara-me em redigir as notas agora abandonadas entre os<br \/>\nferros da cama e a esteira. Soldados e funcion\u00e1rios podiam t\u00ea-las<br \/>\napreendido se quisessem. Desabotoei o casaco. Meteram-me as m\u00e3os nos<br \/>\nbolsos, apenas descobriram a carteira, o porta-n\u00edqueis, um len\u00e7o,<br \/>\num pente desnecess\u00e1rio, pois me achava pelado, cigarros, f\u00f3sforos.<br \/>\nAbri a valise, Bicicleta remexeu cuecas e pijamas.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o h\u00e1 papel. Os pap\u00e9is que eu trouxe os senhores<br \/>\nme tomaram quando cheguei.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se fa\u00e7a de ing\u00eanuo, respondeu o tenente. O senhor<br \/>\nentende. Com certeza n\u00e3o ia ser portador do que escreveu, hem? Nada<br \/>\nafirmei. Tamb\u00e9m era tolice negar coisa sabida.<\/p>\n<p>&#8211; Sei l\u00e1! O que tenho \u00e9 isso. Veja.<\/p>\n<p>Recordei-me da imprud\u00eancia largada na v\u00e9spera ao diretor: &#8211;<br \/>\n&#8220;Vou fazer um livro de duzentas p\u00e1ginas contando o que existe<br \/>\naqui. Digo tudo, sem d\u00favida.&#8221; &#8211; Veja, convidei tranq\u00fcilo,<br \/>\nrevolvendo os panos sujos, encardidos, cheirando a mofo. \u00c9 o que tenho.<\/p>\n<p>Bicicleta n\u00e3o revelava interesse naquela formalidade: at\u00e9<br \/>\nparecia indiferente. Examinou tudo, machucou algibeiras e dobras, monologou:<br \/>\n&#8211; S\u00e3o ativos, j\u00e1 mandaram.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei, respondi. Posso ir? Ent\u00e3o adeus.<\/p>\n<p>Tranquei a valise, agarrei-a, sa\u00ed, desci a cal\u00e7ada, mergulhei<br \/>\nna treva, flanqueado pelos dois homens que tinham ficado \u00e0 porta enquanto<br \/>\nse realizava a busca. Os chuviscos engrossavam, tornaram-se pingos fortes.<br \/>\nTr\u00eas horas, pouco mais ou menos. Os meus guardas afastavam-se, aproximavam-se,<br \/>\n\u00e0s vezes me deixavam s\u00f3 algum tempo. A vigil\u00e2ncia afrouxava,<br \/>\nin\u00fatil. O desejo de abandonar a ilha fazia-me esquecer por instantes<br \/>\na dorm\u00eancia da coxa, as picadas no p\u00e9 da barriga, lan\u00e7ava-me<br \/>\npara frente. Com certeza os companheiros deviam estar longe. Esta id\u00e9ia<br \/>\nme alarmava; perseguia-me um receio absurdo: iam chegar ao Abr\u00e3o logo,<br \/>\nembarcar sem mim. Rumor de passos, alguns vultos na escurid\u00e3o, traziam-me<br \/>\nsossego. Pouco a pouco a marcha penosa esmoreceu, arrastei-me com dificuldade<br \/>\nimensa. As gotas amiudaram-se, uma chuva furiosa caiu de chofre, enregelando-me<br \/>\nos desgra\u00e7ados m\u00fasculos, fustigando-me a cara, amolecendo as<br \/>\nabas do chap\u00e9u de palha. O enxurro desceu dos montes, engrossou no<br \/>\ncaminho, cobriu-me os sapatos, chegou-me \u00e0s pernas. Baixei-me, arregacei<br \/>\nas cal\u00e7as. As pancadas de \u00e1gua cegavam-me. Para onde me dirigia?<br \/>\nA tiritar e a tossir, procurei algu\u00e9m que me orientasse. A escolta<br \/>\nse dispersara, julguei. Nisso percebi uma voz fraca, abafada pela zanga da<br \/>\nventania: &#8211; O senhor n\u00e3o pode andar. Est\u00e1 doente? Passei as<br \/>\nm\u00e3os no rosto, esfreguei os olhos e, por um rasg\u00e3o do v\u00e9u<br \/>\nl\u00edquido, enxerguei um cavaleiro perto.<\/p>\n<p>&#8211; Estou. E com este aguaceiro medonho piorei.<\/p>\n<p>&#8211; Faz tempo que ficou a\u00ed parado, acrescentou a figura indistinta<br \/>\napeando. Monte.<\/p>\n<p>Recusei: &#8211; Obrigado. N\u00e3o vou priv\u00e1-lo da condu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMuito agradecido.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n\u00e3o anda, insistiu o homem generoso. Monte.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 in\u00fatil. N\u00e3o quero.<\/p>\n<p>A criatura retomou a sela e, depois de um momento: &#8211; Bem. O cavalo vai servir<br \/>\npara n\u00f3s dois. Segure-se aqui na ma\u00e7aneta.<\/p>\n<p>Inclinou-se de lado, firmando-se num estribo, deixou-me espa\u00e7o, mas,<br \/>\nembora me esfor\u00e7asse, as tentativas para agarrar-me foram baldas: sentia-me<br \/>\nexausto, os dedos hirtos e insens\u00edveis resvalavam no couro molhado.<br \/>\nO sujeito amparou-me com um bra\u00e7o; em posi\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda<br \/>\ne torcida, levou-me a reboque, ag\u00fcentando parte do meu peso. Mexi-me<br \/>\nvagaroso no rego lamacento, diligenciei aprumar-me, reduzir o aux\u00edlio<br \/>\ndo \u00f3timo desconhecido. Afligia-me importun\u00e1-lo, e isto deve<br \/>\nter concorrido para vigorar-me um pouco. A chuva amansou, desapareceu; alcan\u00e7amos<br \/>\nterreno plano e a enxurrada escoou-se; findo o barulho tempestuoso, chegou-me<br \/>\naos ouvidos o som de passos confusos, intermitentes, chiando na areia mole,<br \/>\nempapada. A luz da manh\u00e3 tingiu de leve as \u00e1rvores, cresceu,<br \/>\nrevelou-me tra\u00e7os do indiv\u00edduo que me arrastava em sil\u00eancio.<br \/>\nMoreno, grave, n\u00e3o manifestava pressa, e era como se executasse um<br \/>\nexerc\u00edcio da rotina. Examinei-o a furto, interrompi a observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nnotando em mim horr\u00edveis estragos. Apesar de ter erguido as cal\u00e7as<br \/>\nat\u00e9 os joelhos, n\u00e3o me preservara: toda a roupa se cobria de<br \/>\nlama vermelha. Os sapatos deformavam-se, chatos, enormes, sob camadas grossas<br \/>\nde barro, e uma vasa pegajosa entrara neles; senti os p\u00e9s imundos,<br \/>\nsupus distinguir na caminhada um gluglu desagrad\u00e1vel. As meias pretas,<br \/>\nligadas \u00e0s canelas, sumiam-se, vermelhas. Tudo se avermelhava, era<br \/>\ncomo se eu tivesse lavado as pernas em gelatina sangrenta. Avancei alguns<br \/>\nmetros com vergonha e nojo; um frio intenso picou-me, frio interior, provavelmente.<br \/>\nDif\u00edcil continuar. Parei, busquei no meu condutor uma divisa, sinal<br \/>\nde comando. Nenhuma. Soldado raso apenas.<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, esta viagem me arrasa. N\u00e3o posso caminhar. Vamos bater<br \/>\n\u00e0 porta de uma bodega, beber um copo de aguardente.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 proibido, o senhor sabe, respondeu o homem tranq\u00fcilo. S\u00f3<br \/>\nse o cabo der licen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, filho de Deus, retorqui, eu sei l\u00e1 onde est\u00e1 esse cabo?<br \/>\nAo fim de meia hora alcan\u00e7amos os outros viajantes, que haviam estacionado,<br \/>\n\u00e0 espera dos retardat\u00e1rios. Dev\u00edamos ser os \u00faltimos,<br \/>\npois \u00e0 nossa chegada a marcha continuou. Renovei o pedido, e um rapaz<br \/>\nde fita no bra\u00e7o afirmou que o sargento era quem resolvia. Dirigi-me<br \/>\na essa autoridade, expus a exig\u00eancia importuna, certo de n\u00e3o<br \/>\nser atendido.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, concordou o homem. Quando chegarmos ao Abr\u00e3o, o senhor<br \/>\nbebe.<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 exatamente para chegarmos l\u00e1 que preciso beber. Estou<br \/>\nmorto de frio.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha paci\u00eancia. Daqui a pouco, j\u00e1 prometi. Dif\u00edcil<br \/>\nconvenc\u00ea-lo: tinha conseguido mover-me debaixo do temporal; com o sol<br \/>\na avan\u00e7ar, dia claro, um princ\u00edpio de calor a enxugar-me a veste<br \/>\nimunda, n\u00e3o me esfalfaria. Escorando-me ainda \u00e0 ma\u00e7aneta,<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o causava estorvo ao soldado: capenga e tr\u00eamulo,<br \/>\nas ferroadas na barriga a atormentar-me, l\u00e1 me ia deslocando, vagaroso.<br \/>\nUm casebre fechado. Seria venda? Porque n\u00e3o bat\u00edamos? A necessidade<br \/>\nurgente de \u00e1lcool aperreava-me.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha paci\u00eancia, dizia o comandante. Espere. Outras casas; caipiras<br \/>\nfeios, de pernas tortas; mulheres obesas, amarelas; crian\u00e7as opiladas.<br \/>\nEnfim, cerca de nove horas, desembocamos na povoa\u00e7\u00e3o. Atravessamos<br \/>\na rua s\u00f3rdida, entramos num botequim pr\u00f3ximo ao embarcadouro.<br \/>\nArriei no tamborete, arfando, a vista escura, um suor frio a correr-me no<br \/>\npeito. A mesa pequena, sentaram-se comigo dois paranaenses e o soldado que<br \/>\nme transportara. Serviram-nos. Recusei o p\u00e3o e o caf\u00e9: &#8211; N\u00e3o<br \/>\nquero isso. Traga um copo de aguardente. Com um sopro de mofa, o botequineiro<br \/>\ndeu-me as costas, erguendo os ombros. Tinha gra\u00e7a. O sargento chamou-o,<br \/>\nfalou baixo, e o tipo foi \u00e0 prateleira, pegou uma garrafa. Cheguei-me<br \/>\nao balc\u00e3o: &#8211; Ou\u00e7a. Para n\u00e3o quebrar a disciplina ponha<br \/>\na aguardente numa x\u00edcara. \u00c9 como se fosse caf\u00e9.<\/p>\n<p>Voltei \u00e0 mesa, recebi uma x\u00edcara enorme, cheia, bebi s\u00f4frego.<br \/>\nPedi a segunda, a terceira, a quarta. Apesar de ter o est\u00f4mago vazio,<br \/>\nsenti apenas uma ligeira turva\u00e7\u00e3o. Alegre, distanciei-me da<br \/>\nCol\u00f4nia, desejei conversar e de novo me surpreendeu a esquisita sintaxe<br \/>\ndos paranaenses: &#8211; &#8220;N\u00f3s disseram.&#8221; Essa estranha maneira<br \/>\nde falar tinha-se esva\u00eddo no burburinho do galp\u00e3o. Van der Linden<br \/>\ne M\u00e1rio Paiva tossiam. A carranca medonha de Raimundo Campobelo estava<br \/>\ncavada; nas \u00f3rbitas fundas os olhos eram manchas cor de sangue; a respira\u00e7\u00e3o<br \/>\npenosa descerrava os bei\u00e7os grossos, exibindo os dentes fortes de selvagem.<br \/>\nIam mais dois malandros: o idiota do Nunes, a palrar da fam\u00edlia, cheio<br \/>\nde fuma\u00e7as, e um mulato de cara impudente e risonha. Terminada a refei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nengoli o resto da aguardente, fiz um sinal ao dono do botequim, abri a carteira;<br \/>\no soldado moreno adiantou-se, estendeu uma c\u00e9dula.<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o, protestei. A despesa \u00e9 minha.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor nos julga bem miser\u00e1veis, disse o rapaz melindrado.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 sendo injusto, meu amigo, atalhei. Eu \u00e9 que seria miser\u00e1vel<br \/>\nse esquecesse um favor t\u00e3o depressa. Tenho boa mem\u00f3ria e n\u00e3o<br \/>\nsou ingrato. Mas o caso \u00e9 este: eu sozinho gastei mais que os senhores<br \/>\ntr\u00eas juntos, bebi quase uma garrafa de aguardente. \u00c9 razo\u00e1vel<br \/>\neu pagar.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o concordou: a nuvem desfez-se e privei-me de alguns mil-r\u00e9is.<br \/>\nSa\u00edmos, passados minutos chegamos ao porto, vimos uma lancha atracada.<br \/>\nSubimos ao tablado flutuante e embarcamos.<\/p>\n<p>33<\/p>\n<p>IGNORO se nos retardamos no botequim \u00e0 espera da barca ou se ela chegou<br \/>\nantes de n\u00f3s. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei se conduzia presos para<br \/>\na Col\u00f4nia e se a nossa escolta foi substitu\u00edda. As quatro x\u00edcaras<br \/>\nde aguardente me impediam talvez observar direito. Lembro-me de haver caminhado<br \/>\nnas pranchas do embarcadouro, saltado na lancha, descido ao por\u00e3o.<br \/>\nAcomodei-me entre as figuras que se animavam na sombra, riam, entregues a<br \/>\numa parolagem otimista, cambiando not\u00edcias absurdas a respeito do nosso<br \/>\ndestino. Os paranaenses regressariam logo a Curitiba. Van der Linden e M\u00e1rio<br \/>\nPaiva seriam enviados ao nordeste. S\u00f3 Raimundo Campobelo se isolava<br \/>\na um canto, arfando, a sacudir-se, na dispn\u00e9ia e na tosse. O arcabou\u00e7o<br \/>\nenorme dobrava-se; na sufoca\u00e7\u00e3o, os dedos magros desabotoavam<br \/>\na camisa, exibiam as costelas, o esterno. Chegando-nos a ele, poder\u00edamos<br \/>\ncontar-lhe os ossos, mas a repulsiva criatura evitava aproxima\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA fala de Nunes se esgani\u00e7ava numa pergunta imbecil: iria achar os<br \/>\nparentes na esta\u00e7\u00e3o quando cheg\u00e1ssemos ao Rio? Com certeza,<br \/>\nse lhes dessem aviso na pol\u00edcia. Gente gra\u00fada, poderosa, contratara<br \/>\nsem d\u00favida os melhores advogados para tir\u00e1-lo da pris\u00e3o.<br \/>\nIam solt\u00e1-lo, em poucos dias se desmanchava o engano. 0 mulato de cara<br \/>\nimpudente e risonha puxou conversa comigo, narrou coisas da sua vida. N\u00e3o<br \/>\nlhe dei ouvidos nesse encontro inicial, apenas lhe guardei o nome: Jos\u00e9.<br \/>\nSentado no ch\u00e3o, ocupava-me em reduzir os estragos causados pela chuva:<br \/>\nesfregava as manchas da roupa, as meias, as pernas sujas de lama a secar;<br \/>\num p\u00f3 vermelho me tingia as m\u00e3os, espalhava-se nas t\u00e1buas.<br \/>\nNo atropelo da. viagem nem me ocorrera fumar. Vasculhei os bolsos, joguei<br \/>\nfora uma pasta negra, \u00famida, nojenta, os cigarros decompostos no aguaceiro.<br \/>\nEncontrei na valise dois ou tr\u00eas ma\u00e7os e algumas caixas de f\u00f3sforos,<br \/>\nguardei tudo nos bolsos.<\/p>\n<p>Fingia interessar-me pela hist\u00f3ria de Jos\u00e9, mas, embora me<br \/>\nesfor\u00e7asse, n\u00e3o a compreendia: a aten\u00e7\u00e3o se fixava<br \/>\nno chap\u00e9u de palha deformado e lasso, as abas a cobrir-me os olhos<br \/>\ne as orelhas. Examinei aborrecido o traste rid\u00edculo; n\u00e3o tornaria<br \/>\na p\u00f4-lo na cabe\u00e7a. Quis desfazer-me dele. ergui-me, segurei a<br \/>\nvalise, aproximei-me da escada, subi v\u00e1rios degraus. O calor principiava<br \/>\na incomodar-me. Avancei, atingi o fim da escada, enxerguei l\u00e1 embaixo<br \/>\npessoas envoltas em neblina. Evapora\u00e7\u00e3o, julguei. Conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\nprov\u00e1vel do \u00e1lcool. Foi tamb\u00e9m efeito dele, suponho,<br \/>\na inconveni\u00eancia dos meus atos depois daquele momento. Pisei na coberta,<br \/>\navizinhei-me da borda, atirei na \u00e1gua o chap\u00e9u acanalhado.<\/p>\n<p>Voltei, permaneci junto ao buraco sombrio do por\u00e3o, sem me decidir<br \/>\na mergulhar nele. Arriscava-me a ser repreendido, coagido a enfurnar-me ali,<br \/>\nmas n\u00e3o pensei nisto. Uma seguran\u00e7a inexplic\u00e1vel surgia,<br \/>\ndetinha-me. N\u00e3o me for\u00e7ariam a descer. As dores na barriga e<br \/>\no torpor na coxa tinham desaparecido. Na posi\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel,<br \/>\nem p\u00e9, olhando grupos de soldados, ondas revoltas, a praia distante,<br \/>\ndevo terme arrimado a qualquer coisa para resistir aos balan\u00e7os fortes<br \/>\nda lancha: encosto de cadeira, uma balaustrada, coluna, amparo assim. Realmente<br \/>\nme sentia firme na oscila\u00e7\u00e3o. Hoje presumo que a aguardente<br \/>\nsuprimiu a Col\u00f4nia, Alfeu e Aguiar, fomes, disenterias, quatro ou seis<br \/>\nchuveiros para novecentos homens. Quantos chuveiros? Nem sei. Suponho que<br \/>\nme lavei uma vez. Sentia-me cheio de porcarias, a desejar uma torneira aberta.<br \/>\nIa banhar-me, enfim banhar-me, e isto me dava consist\u00eancia. Depois do<br \/>\nbanho, considerar-me-ia um sujeito normal. Escorado no futuro, conservei-me<br \/>\nali, estendendo-me por terra e mar, a bagagem leve debaixo do bra\u00e7o.<\/p>\n<p>As fisionomias dos soldados estavam ba\u00e7as, confusas. Inclinava-me<br \/>\na falar com essa gente, sondar o interior dela.<\/p>\n<p>Procurei o rapaz moreno que me havia conduzido, o cabo, o sargento, figuras<br \/>\nreconhec\u00edveis. N\u00e3o os distingui: haviam tornado \u00e0 Col\u00f4nia,<br \/>\nprovavelmente. A pequena dist\u00e2ncia, divisei um homem atarracado, sardento<br \/>\ne ruivo. O resto se perdia numa grande n\u00e9voa. Seria embriaguez? N\u00e3o<br \/>\nera, suponho. Desordem visual depois de semanas de jejum. As id\u00e9ias<br \/>\nestavam l\u00facidas, as pernas se ag\u00fcentavam bem nas t\u00e1buas<br \/>\nque se inclinavam para um lado, para outro. A anormalidade se revelava na<br \/>\naus\u00eancia de receio, no desejo de conversar com o sujeito ruivo, que<br \/>\nme inspirava estranha confian\u00e7a. Dirigi-me a ele e, sem escolher palavras,<br \/>\nencetei uma arenga bastante venenosa contra o governo e o capital. Sou incapaz<br \/>\nde revelar-me em p\u00fablico; n\u00e3o chego a expor meia d\u00fazia<br \/>\nde per\u00edodos a meia d\u00fazia de ouvintes; em tais apertos foge-me<br \/>\na express\u00e3o e deixo de pensar. N\u00e3o tencionei, pois, fazer discurso:<br \/>\no meu intuito foi explicar-me a um sujeito inclinado na apar\u00eancia a<br \/>\nouvir as minhas opini\u00f5es relativas \u00e0 ordem. N\u00e3o era dif\u00edcil.<br \/>\nAtaquei diversas institui\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis aos ricos: o<br \/>\ncongresso, a justi\u00e7a, a imprensa, o ex\u00e9rcito, a Col\u00f4nia<br \/>\nCorrecional. Passados minutos, por\u00e9m, notei que as figuras a princ\u00edpio<br \/>\nnevoentas estavam pr\u00f3ximas, n\u00edtidas, tinham ganho fisionomias<br \/>\ne escutavam a diatribe. Achava-me assim, a declamar horrores num com\u00edcio<br \/>\nimprovisado. Embora corresse perigo e afirmasse isto no interior, n\u00e3o<br \/>\nmoderei a linguagem. Iria circular a not\u00edcia daquilo e uma semana depois<br \/>\nme devolveriam \u00e0 bondade \u00e1spera de Cubano e \u00e0s aventuras<br \/>\nesquisitas de Ga\u00facho. Abarquei a situa\u00e7\u00e3o com perfeita<br \/>\nlucidez. N\u00e3o me embriagara, disse a mim mesmo. Nenhum vest\u00edgio<br \/>\nda leve tontura; o ju\u00edzo e os sentidos funcionavam bem. As frases sa\u00edam<br \/>\narrumadas em sintaxe razo\u00e1vel e o exame do audit\u00f3rio se realizava,<br \/>\nclaro. Admirei-me de n\u00e3o perceber em redor sinal de hostilidade; aqueles<br \/>\nindiv\u00edduos se mostravam curiosos, enchiam-se com certeza de espanto,<br \/>\ne ningu\u00e9m se lembrou de reduzir-me ao sil\u00eancio, como esperei,<br \/>\nfazer-me regressar ao por\u00e3o. Em geral n\u00e3o aplaudiam nem desaprovavam:<br \/>\ntinham jeito esquivo, desentendido. Alguns manifestavam franco apoio. Surgiam<br \/>\napartes em voz baixa. O homem ruivo e sardento, com um sorriso, muitas vezes<br \/>\nme interrompeu o aranzel: &#8211; Exatamente o que eu digo. Isso mesmo. Est\u00e3o<br \/>\nouvindo? Terminei o desconchavo na vizinhan\u00e7a de Mangaratiba. O povoado<br \/>\nsurgiu e cresceu. Fui reunir-me aos companheiros, que sa\u00edam do por\u00e3o<br \/>\ncomo ratos em tocas e logo se mudaram em carneiros. Os acontecimentos da manh\u00e3<br \/>\navivaram-me o conselho do sargento gordo ao saltarmos no Abr\u00e3o: &#8211; &#8220;Tem<br \/>\ndinheiro? Esconda. Mostre cinco mil-r\u00e9is e guarde o resto. Vai precisar.&#8221;<br \/>\nTemer\u00e1rio, arriscara-me a confessar onde se ocultavam as notas. &#8211; &#8220;Ir\u00e3o<br \/>\ndescobri-Ias?&#8221; &#8211; &#8220;N\u00e3o. A busca \u00e9 formalidade.&#8221;<br \/>\nDescobrira-me \u00e0 toa a um desconhecido, e agora se renovava a imprud\u00eancia.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no porto. Em linha, marchamos para terra. Vi-me pouco depois<br \/>\nnum carro de segunda classe, entre dois tipos mal-encarados. Uma pergunta<br \/>\nme enleava: que me induzira a confiar no sargento gordo e no soldado ruivo,<br \/>\npresum\u00edveis inimigos? Talvez possu\u00edssemos a faculdade misteriosa<br \/>\nde penetrar de golpe o \u00edntimo das pessoas, encontrar l\u00e1 sentimentos<br \/>\nindefinidos na superf\u00edcie. Ou n\u00e3o seriam indefinidos. O h\u00e1bito<br \/>\nde pesquisar, necess\u00e1rio nalgumas profiss\u00f5es, tornava-se instintivo<br \/>\ne dele se originavam as simpatias e antipatias r\u00e1pidas. Mas ali n\u00e3o<br \/>\nhavia pesquisa, no tempo minguado, era como se as almas saltassem para fora<br \/>\ndos corpos. Um salto, provavelmente. Qualquer coisa as fizera saltar. Observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nrepentina e involunt\u00e1ria, supus. N\u00e3o me abalan\u00e7aria a<br \/>\ninterrogar os dois vizinhos acomodados no banco estreito, os fuzis entre as<br \/>\npernas. Enxergara-os de relance e desviava-me deles, voltado para a janela,<br \/>\nag\u00fcentando os solavancos do trem. N\u00e3o me dariam nenhuma indica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nconvencia-me sem precisar v\u00ea-los. Nessa altura reconheci-me incongruente.<br \/>\nArrojara-me a lan\u00e7ar conceitos rigorosos, denegrir a autoridade na<br \/>\npresen\u00e7a de funcion\u00e1rios dela e decerto era imposs\u00edvel<br \/>\ndecifrar de supet\u00e3o aquelas figuras nebulosas. Reconsiderei. N\u00e3o<br \/>\ntentara adivinh\u00e1-las. Nem me importava convenc\u00ea-las. O meu intuito,<br \/>\nno come\u00e7o pelo menos, fora entender-me com o ruivo sardento, e a cavaqueira<br \/>\nagreste apenas continuara o mon\u00f3logo endere\u00e7ado a ele. Percebendo<br \/>\noutros ouvintes, n\u00e3o me calara, e isto significava baz\u00f3fia,<br \/>\nmedo, julguei, de recuar, parecer covarde. O temor \u00e0s vezes nos leva<br \/>\na temeridades, empresta \u00e0s nossas a\u00e7\u00f5es apar\u00eancia<br \/>\nfalsa de coragem. De qualquer modo, refleti, a cadeia nos exibia a fraqueza<br \/>\nda rea\u00e7\u00e3o. L\u00e1 fora, roncavam forte, como se pisassem<br \/>\nterreno firme. Paradas, amea\u00e7as, afirma\u00e7\u00f5es categ\u00f3ricas,<br \/>\ncensura, deputados e senadores feitos bonecos, os jornais prostitu\u00eddos<br \/>\na semear cal\u00fanias. Firmeza, um edif\u00edcio inabal\u00e1vel desafiando<br \/>\ns\u00e9culos. Propaganda somente: havia nele caruncho e ferrugem, \u00e1gua<br \/>\na infiltrar-se nos alicerces. Viv\u00edamos de fato, nos cub\u00edculos<br \/>\npequenos ou no grande alojamento, cercados de gente duvidosa, e as suspeitas<br \/>\nnos induziam a cometer injusti\u00e7as. Um desconhecido cheio de reservas<br \/>\nsoprava-nos a advert\u00eancia gasta: &#8211; &#8220;Cuidado com Fulano: \u00e9<br \/>\nespi\u00e3o da pol\u00edcia.&#8221; Embora quis\u00e9ssemos afastar a<br \/>\nden\u00fancia infundada, ela permanecia, ocasionando esta pergunta desagrad\u00e1vel:<br \/>\n&#8211; &#8220;Qual dos dois ser\u00e1 o espi\u00e3o? Ambos. Ou nenhum.&#8221;<br \/>\nSe n\u00e3o fossem aqueles, seriam outros. O capit\u00e3o de nariz comprido<br \/>\nsemeara desaven\u00e7as no Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios e sumira-se.<br \/>\nO busto de Miranda surgia-me na lembran\u00e7a, exposto com vaidade e pimponice,<br \/>\na exibir insignificantes escalavraduras. Pensei na tatuagem obscena vista<br \/>\nna coxa de Ga\u00facho &#8211; &#8220;\u00c9 o meu cart\u00e3o de visita. Quando<br \/>\nme v\u00eaem nu, sabem que sou lunfa e deixam-me em paz.&#8221; No peito de<br \/>\nMiranda havia tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de cart\u00e3o de visita.<br \/>\nPercebiam marcas de sev\u00edcias nas escoria\u00e7\u00f5es chinfrins<br \/>\ne tomavam-no como revolucion\u00e1rio. Obtida essa vantagem f\u00e1cil,<br \/>\na criatura leviana expandia-se, resvalava na mentira, dizia tolices, inconveni\u00eancias,<br \/>\ndiante dos guardas, e nos interrogat\u00f3rios falava em demasia, largando<br \/>\ninforma\u00e7\u00f5es a respeito de pessoas n\u00e3o mencionadas no<br \/>\ninqu\u00e9rito. Sena apenas desatino? A car\u00eancia de provas nos impedia<br \/>\nescorregar em ju\u00edzos temer\u00e1rios quando nos refer\u00edamos<br \/>\na semelhantes indiv\u00edduos. Fic\u00e1vamos nas retic\u00eancias, e<br \/>\nisto nos aborrecia como nuvem de insetos importunos. Alguns desses tipos amb\u00edguos<br \/>\ntinham grande influ\u00eancia l\u00e1 dentro. Porqu\u00ea? De passagem,<br \/>\nalgu\u00e9m nos cochichava uma desgra\u00e7ada explica\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; &#8220;J\u00e1 fizeram muitas den\u00fancias e \u00e9 bom trat\u00e1-los<br \/>\nbem: podem denunciar o resto.&#8221; Repel\u00edamos a frase venenosa; sem<br \/>\nquerer, \u00edamos desenterr\u00e1-la mais tarde, associ\u00e1-la a<br \/>\num gesto, um sorriso, uma pergunta largada com modos inofensivos. N\u00e3o<br \/>\nconsegu\u00edamos identificar os traidores. Sab\u00edamos, por\u00e9m,<br \/>\nque eles estavam conosco, aperuando o jogo de xadrez, ouvindo as conversas,<br \/>\ninimigos ferozes do burgu\u00eas, intransigentes, radicais, sempre dispostos<br \/>\na oferecer-nos avisos cautelosos: -&#8220;Abra o olho com Fulano: \u00e9<br \/>\num espi\u00e3o.&#8221; O conselho se desprestigiara enfim, mas continuava<br \/>\na -circular, papagueado por fan\u00e1ticos de c\u00e9rebro escasso, ing\u00eanuos<br \/>\ndemais. Os autores dessas desaven\u00e7as metiam-se nas encolhas, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel distingui-los. Em compensa\u00e7\u00e3o havia na pol\u00edcia<br \/>\nagentes infi\u00e9is, e ela n\u00e3o tinha meio de conhec\u00ea-los.<br \/>\nDesempenhavam-se, mec\u00e2nicos, pontuais, d\u00f3ceis ao regulamento.<br \/>\nQuando menos esper\u00e1vamos, em hora de aperto, sugeriam-nos conduta irregular<br \/>\nOu, se est\u00e1vamos em mar\u00e9 de conversa, recebiam sem reserva os<br \/>\nnossos prop\u00f3sitos subversivos. Naquele dia arriscara-me a algumas infra\u00e7\u00f5es<br \/>\napoiando-me na coniv\u00eancia imprevista dos soldados O trem rolava no meio<br \/>\nde laranjais; por instantes as \u00e1rvores enfezadas me prendiam a aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPorque seriam t\u00e3o mi\u00fadas? Conseq\u00fc\u00eancia do enxerto,<br \/>\nimaginei. Surgiam pela primeira vez; na outra viagem, apesar de numerosas,<br \/>\ntinham-se conservado inteiramente invis\u00edveis. &#8211; &#8220;Trabalho de cupim.&#8221;<br \/>\nEstas palavras andavam-me no pensamento, desviavam as laranjeiras, que fugiam<br \/>\nnuma corrida louca. Trabalho de cupim, com certeza. Na mis\u00e9ria do galp\u00e3o<br \/>\nenorme, tencionavam matar-nos, diziam isto com sinceridade crua. Mas os instrumentos<br \/>\nnecess\u00e1rios \u00e0 infeliz tarefa bandeavam-se, queriam deixar-nos<br \/>\nviver. Um cochicho os revelava. Bem. Imposs\u00edvel transformar em assassinos<br \/>\npessoas normais, que n\u00e3o tinham raz\u00e3o para odiar-nos. Decerto<br \/>\nhavia criaturas insens\u00edveis e regimentais, surdas a s\u00faplicas,<br \/>\ngemidos, estertores. Os dois sujeitos pr\u00f3ximos, armados e silenciosos,<br \/>\ntinham focinhos duros, agressivos; uma vista de olhos indicava n\u00e3o<br \/>\nserem capazes de prestar-me nenhum favor. Isso n\u00e3o me admirava. Espantoso<br \/>\nera achar naquela gente escolhida para torturar-nos homens dispostos, em noite<br \/>\nde temporal, a descer de um cavalo, oferecer-nos a sela c\u00f4moda, viajar<br \/>\nnum rego lamacento. Em carro igual \u00e0quele, outro soldado ben\u00e9volo<br \/>\nme dera not\u00edcias da Col\u00f4nia e informara-se a respeito da minha<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o Era-me imposs\u00edvel entend\u00ea-lo, o mo\u00e7o<br \/>\nrenovara uma pergunta: &#8211; &#8220;Preso pol\u00edtico?&#8221; E acrescentara:<br \/>\n&#8211; &#8220;Porque ladr\u00e3o n\u00e3o \u00e9.&#8221; Pasmava-me aquela<br \/>\ncerteza em quem me via pela primeira vez, rapidamente, \u00e0 luz escassa<br \/>\nda madrugada. No escuro da noite chuvosa, o cavaleiro n\u00e3o me distinguiria<br \/>\nde Raimundo Campobelo, que tamb\u00e9m se arrastava por aqueles ermos, a<br \/>\nofegar e a tossir. Nenhum meio de saber se eu era ladr\u00e3o. O comportamento<br \/>\ngeneroso alcan\u00e7ava todos n\u00f3s. Esses pensamentos encurtavam a<br \/>\nviagem.<\/p>\n<p>Chegamos \u00e0 esta\u00e7\u00e3o final. Desenrosquei-me vagaroso,<br \/>\naos \u00faltimos sacolejos do trem, ergui-me, deixei o vag\u00e3o, pisei<br \/>\nna plataforma, l\u00e1 fui coxeando entre os dois fuzis. As dores eram fortes,<br \/>\nat\u00e9 ali n\u00e3o me supusera t\u00e3o combalido; mexia-me zonzo,<br \/>\nsem ver as coisas, as pessoas, o lugar. Os companheiros se distanciavam. Achei-me<br \/>\nna rua, levaram-me a uma cal\u00e7ada, parei: dif\u00edcil subir ao meio-fio.<br \/>\nUm dos soldados mostrava impaci\u00eancia: &#8211; Caminhe.<\/p>\n<p>&#8211; Um instante.<\/p>\n<p>Procurei for\u00e7as, dei um passo custoso, sacudi-me com esfor\u00e7o<br \/>\ndesesperado, atravessei um port\u00e3o de ferro. Atarantado e bambo, a arfar<br \/>\ne a suar, reconheci as cotias do Campo de Santana. Escapou-me a vegeta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas as grades e os bichinhos saltitantes revelaram-me a pra\u00e7a enorme.<br \/>\nLembrei-me de haver entrado ali vinte anos antes, em companhia de uma sirigaita.<\/p>\n<p>&#8211; Mas porque e que o senhor n\u00e3o anda? tornou o soldado impaciente.<\/p>\n<p>Diligenciei content\u00e1-lo, avan\u00e7ar um pouco a marcha capenga:<br \/>\n&#8211; \u00c9 in\u00fatil. N\u00e3o v\u00ea que n\u00e3o posso andar mais<br \/>\ndepressa? Afastei a exig\u00eancia refugiando-me no passado. Vinte anos.<br \/>\nCorrigi: vinte e um, vinte e um e meses. Havia umas furnas. A mocinha me conduzira<br \/>\na elas e estivera algum tempo a cantar. Desassossegavam-me o dinheiro minguado,<br \/>\no trabalho de foca na revis\u00e3o de um jornal, e o canto n\u00e3o me<br \/>\nimpressionara. Onde estariam as furnas? N\u00e3o as enxerguei, talvez as<br \/>\ntivessem desmanchado. Pensei no romance entregue meses antes ao editor. A<br \/>\nmenina sapeca figurava nesse livro como neta de uma dona de pens\u00e3o.<br \/>\nDeixamos a pra\u00e7a, descemos \u00e1 rua. O condutor se aperreava, queria<br \/>\nlan\u00e7ar-me para a frente, fazia o gesto de ferir com aguilh\u00e3o<br \/>\numa r\u00eas cansada.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda estamos longe? informei-me.<\/p>\n<p>N\u00e3o me deram resposta, e avancei no des\u00e2nimo, parando a cada<br \/>\ninstante. Os companheiros tinham-se sumido. Aonde me levariam? Nenhum esclarecimento,<br \/>\ne n\u00e3o me ocorreu orientar-me olhando as placas nas esquinas. Afinal<br \/>\nestacamos. Retesei a desgra\u00e7ada carne, galguei tr\u00eas pequenos<br \/>\ndegraus.<\/p>\n<p>34<\/p>\n<p>OS OUTROS refugos da Col\u00f4nia estavam reunidos e submetiam-se a qualquer<br \/>\nvaga exig\u00eancia burocr\u00e1tica. Cheguei-me a eles e, perturbado ainda,<br \/>\nn\u00e3o reparei no lugar onde nos ach\u00e1vamos. Ignoro se me fizeram<br \/>\nperguntas. As minhas primeiras recorda\u00e7\u00f5es posteriores \u00e0<br \/>\nchegada referem-se a um longo corredor sombrio. Meteram-nos nele, abriram<br \/>\nno fim uma grade, mergulhamos numa pe\u00e7a de muros invis\u00edveis,<br \/>\ntamanho incerto. Ouvi ranger a chave na fechadura e arrisquei alguns passos,<br \/>\nmeio cego. Devia ser quase noite, embora na rua a confus\u00e3o e as dores<br \/>\nn\u00e3o me houvessem permitido calcular, as horas. Derreei-me a um canto,<br \/>\nestendi com al\u00edvio a perna do\u00edda, encostei-me \u00e0 parede.<br \/>\nAbafava e sentia calor.<\/p>\n<p>&#8211; Onde estamos? &#8211; Na Pol\u00edcia Central, responderam-me.<\/p>\n<p>A sombra se atenuava, era-me poss\u00edvel distinguir as figuras abatidas<br \/>\nsobre capotes e redes. Tentei descobrir a pessoa que me dera a informa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nreconheci perto o vagabundo Jos\u00e9, o mulato de cara viciosa. Mostrava<br \/>\nsimpatizar comigo, avizinhava-se, e a resposta lhe servia para reatar a conversa<br \/>\ninterrompida na lancha. Era vadio e ladr\u00e3o; no come\u00e7o da vida<br \/>\na repulsa da m\u00e3e e as sovas do padrasto haviam-lhe fechado os caminhos<br \/>\ndireitos. Fugia de casa, voltava morto de fome, ag\u00fcentava surras, tornava<br \/>\na fugir. Nem escola nem trabalho. Com o intuito de prolongar as aus\u00eancias,<br \/>\nobtivera ganhos mi\u00fados pondo em pr\u00e1tica as habilidades f\u00e1ceis<br \/>\nde pivete e descuidista. N\u00e3o sei como Jos\u00e9 iniciou a hist\u00f3ria,<br \/>\ne causa-me espanto haver-me escolhido para confidente. As palavras ditas no<br \/>\npor\u00e3o da lancha tinham-se esva\u00eddo por inteiro; reproduziam-se<br \/>\nagora, e esfor\u00e7ava-me por entend\u00ea-las, exigindo repeti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Continue.<\/p>\n<p>\u00c9ramos cerca de vinte pessoas, algumas ruidosas e alegres, funcionando<br \/>\nbem, as id\u00e9ias ligadas a parentes razo\u00e1veis. O idiota do Nunes<br \/>\nesgani\u00e7ava-se: &#8211; Ser\u00e1 que eles sabem a minha chegada? Hem? Ser\u00e1<br \/>\nque sabem? Buscava em roda interesse para o caso importante: &#8211; Se souberem,<br \/>\nv\u00e3o trazer-me hoje dinheiro e comida. N\u00e3o se esquecem, os senhores<br \/>\nh\u00e3o de ver.<\/p>\n<p>Fechavam-lhe ouvidos, o imbecil continuava a monologar: &#8211; Trazem, com certeza.<\/p>\n<p>Porque Jos\u00e9, malandro tamb\u00e9m, n\u00e3o se entendia com ele?<br \/>\nOs paranaenses, graves, met\u00f3dicos, arrumavam-se para descansar da melhor<br \/>\nmaneira, examinavam lentos a sala acanhada, permutando cochichos. Lembrei-me<br \/>\nde um caboclo da minha terra, impelido ao sul finda a ilus\u00e3o da borracha.<br \/>\nDe regresso, com chap\u00e9u de abas largas, roupa de casimira e rel\u00f3gio,<br \/>\nesse tipo me dissera: &#8211; &#8220;Vossa merc\u00ea n\u00e3o imagina. Em S\u00e3o<br \/>\nPaulo h\u00e1 um bando de l\u00ednguas. L\u00edngua Bahia, l\u00edngua<br \/>\nMato Grosso, l\u00edngua Paran\u00e1. S\u00e3o diferentes da nossa,<br \/>\nmas o senhor entende. O que ningu\u00e9m entende \u00e9 a l\u00edngua<br \/>\nJap\u00e3o: essa \u00e9 uma l\u00edngua filha da puta.&#8221; Na verdade<br \/>\na do Paran\u00e1, como afirmava o tabar\u00e9u, compreendia-se bem; contudo<br \/>\no diabo do pronome, arrastado pelo velho Eus\u00e9bio, chocava-me. A narrativa<br \/>\nde Jos\u00e9 n\u00e3o apresentava essas cachoeiras: flu\u00eda simples<br \/>\ne horizontal.<\/p>\n<p>Veio luz, os homens avultaram, a cela se reduziu e nos apertou, no ch\u00e3o<br \/>\nmolhado. A frente, \u00e0 esquerda, a latrina suja e exposta. O vagabundo<br \/>\nfalava manso e baixo, como num confession\u00e1rio, e a precis\u00e3o<br \/>\nde responsabilizar a fam\u00edlia, justificar-se a um desconhecido, trazia-me<br \/>\nao esp\u00edrito uma d\u00favida. Haveria alguma semelhan\u00e7a entre<br \/>\nn\u00f3s? Na verdade a minha inf\u00e2ncia n\u00e3o devia ter sido muito<br \/>\nmelhor que a dele. Meu pai fora um violento padrasto, minha m\u00e3e parecia<br \/>\nodiar-me, e a lembran\u00e7a deles me instigava a fazer um livro a respeito<br \/>\nda b\u00e1rbara educa\u00e7\u00e3o nordestina. Conservar\u00edamos<br \/>\nno exterior sinais de penas excessivas ou injustas, asperezas, dores in\u00fateis,<br \/>\nind\u00edcios revel\u00e1veis a uma criatura que se houvesse visto em<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o igual? Essa id\u00e9ia esquisita, nociva \u00e0<br \/>\nminha gente, induzia-me a desculpar o miser\u00e1vel. N\u00e3o era isso.<br \/>\nFaltava-me o direito de absolver algu\u00e9m. Restringia-me \u00e0 compara\u00e7\u00e3o.<br \/>\nD\u00e9bil, submisso \u00e0 regra, \u00e0 censura e ao castigo, acomodara-me<br \/>\na profiss\u00f5es consideradas honestas. Sem essas fracas virtudes, livre<br \/>\nde alfabeto, nascido noutra classe, talvez me houvesse rebelado como Jos\u00e9.<br \/>\nN\u00e3o me conformava com tal esp\u00e9cie de rebeldia. Contudo, apesar<br \/>\nde nos dedicarmos a of\u00edcios inconcili\u00e1veis, a autoridade n\u00e3o<br \/>\nnos diferen\u00e7ava.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem. Continue.<\/p>\n<p>O homem rude flagelava o garoto e criava p\u00e1ssaros. Um dia, certa<br \/>\nde conseguir realizar furtos de pouca monta, a v\u00edtima lhe suprimira<br \/>\nesses dois passatempos: abrira todas as gaiolas e ausentara-se de vez. Ao<br \/>\ncabo de v\u00e1rios anos, narrando a proeza, o mulato sorria enlevado. O<br \/>\nverdugo achara com certeza outros can\u00e1rios, mas j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ntinha uma crian\u00e7a para a\u00e7oitar.<\/p>\n<p>Mulheres se esgani\u00e7avam no c\u00e1rcere vizinho. Uma se enfurecia;<br \/>\ndepois, alegre, divagava em parolagem confusa, largava fragmentos de obscenidades;<br \/>\ncom certeza estava b\u00eabeda. Vozes masculinas, no corredor, tentavam sosseg\u00e1-la<br \/>\ncom pilh\u00e9rias am\u00e1veis. Suponho que nos trouxeram comida; n\u00e3o<br \/>\nconservo disto nenhuma lembran\u00e7a. A conversa de Jos\u00e9 me entretinha,<br \/>\nembora com freq\u00fc\u00eancia me desviasse dela. Escaparam as min\u00facias<br \/>\nde uma viagem dif\u00edcil de S\u00e3o Paulo ao Rio, a p\u00e9: fadigas,<br \/>\nlargos rodeios nas cercanias dos lugares povoados, o roubo de um porco.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m me chamou de fora. Levantei-me; al\u00e9m dos var\u00f5es<br \/>\nde ferro um guarda me repetiu o nome, espalhando os olhos indecisos, pelo<br \/>\ns\u00f3rdido magote: &#8211; Fulano, toma.<\/p>\n<p>Abriu a porta, arrastou para o meio da cela um estrado baixo, saiu trancando-nos<br \/>\nde novo.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, murmurei com assombro, cheio de vergonha.<\/p>\n<p>Era a segunda vez que me tuteavam. Na Col\u00f4nia, o anspe\u00e7ada<br \/>\nAguiar me ordenara r\u00edspido: &#8211; &#8220;Cruza os bra\u00e7os, chefe.&#8221;<br \/>\nMordendo os bei\u00e7os, com surpresa e raiva impotente, resignara-me a<br \/>\nobedecer: cruzara os bra\u00e7os diante da torpe insignific\u00e2ncia.<br \/>\nAgora se renovava o tratamento injurioso. Apenas, em vez de repreender-me,<br \/>\nqueriam prestar-me obs\u00e9quio; no vexame e no desespero, via-me coagido<br \/>\na agradecer.<\/p>\n<p>Voltei a sentar-me, com a impress\u00e3o de ter levado um murro forte<br \/>\nna cabe\u00e7a. Porque diabo, entre quinze pessoas, fora o sujeito escolher-me<br \/>\npara a indigna benevol\u00eancia? A horr\u00edvel distin\u00e7\u00e3o<br \/>\nmagoava-me em excesso, era talvez mais dolorosa que a familiaridade revoltante.<br \/>\nNada me faria aceitar o miser\u00e1vel presente; o m\u00f3vel ficaria<br \/>\nali no abandono, a pejar a saleta. Olhei-o, rancoroso. Um traste ign\u00f3bil,<br \/>\nsujo; tinha um palmo de altura, pouco mais ou menos. Procurei sinais de mal\u00edcia<br \/>\nnos rostos; algu\u00e9m me considerava possivelmente um bicho quieto em<br \/>\ndemasia, submisso \u00e0 ordem, pronto a receber favores daquela esp\u00e9cie.<br \/>\nExaminava-me por dentro, ansioso, via pr\u00f3ximo a figura arriada e mofina<br \/>\ndo velho Eus\u00e9bio, estabelecia uma infeliz compara\u00e7\u00e3o<br \/>\ne achava-me v\u00edtima de grande injusti\u00e7a. Era razo\u00e1vel<br \/>\nterem premiado as tend\u00eancias pac\u00edficas do velho Eus\u00e9bio,<br \/>\namigo da religi\u00e3o e da propriedade. Escolhiam-me, e isto me deixava<br \/>\nperplexo. In\u00fatil buscar motivos.<\/p>\n<p>Um grunhido rouco aliviou-me a apoquenta\u00e7\u00e3o: Raimundo Campobelo<br \/>\nresmungava a pequena dist\u00e2ncia. Parecia zangado e pregava em mim os<br \/>\nbugalhos sangrentos. Esforcei-me por distinguir-lhe as palavras, mas o negro<br \/>\npara bem dizer n\u00e3o tinha voz articulada. Grunhiu alguns minutos, em<br \/>\nseguida entrou a bodejar um, protesto, sem se dirigir a ningu\u00e9m. A<br \/>\nfirmeza dos olhos maus revelou-me que ele estava furioso comigo. Tentei decifrar<br \/>\na linguagem dura e revolta, conseguir adivinhar peda\u00e7os dela: &#8211; Peste!<br \/>\nA gente aqui vomitando os pulm\u00f5es! Peste! Outros sons perdiam-se no<br \/>\nembrulho espumoso. Contudo as poucas s\u00edlabas intelig\u00edveis foram<br \/>\nbastantes para esclarecer a zanga despropositada: &#8211; A gente aqui vomitando<br \/>\nos pulm\u00f5es! Peste! E d\u00e3o cama a uma peste que n\u00e3o est\u00e1<br \/>\ndoente.<\/p>\n<p>Esperei v\u00ea-lo acalmar-s\u00e9. Enfim o miser\u00e1vel tro\u00e7o<br \/>\nia ser \u00fatil e j\u00e1 n\u00e3o havia raz\u00e3o para acabrunhar-me.<br \/>\nSurgia uma escapat\u00f3ria, respirei tranq\u00fcilo. N\u00e3o achando<br \/>\nresist\u00eancia, a c\u00f3lera do vagabundo subiu. Espantava-me ver algu\u00e9m<br \/>\nexcitar-se daquele modo. Um longo bra\u00e7o estirou-se para mim, da algaravia<br \/>\natrapalhada veio a amea\u00e7a clara: &#8211; Peste! Fingi desconhecer a ofensa;<br \/>\nprovavelmente o infeliz bruto ia sossegar. Deu-se o contr\u00e1rio. Mexeu-se<br \/>\nrastejando, chegou-se a mim, disposto a briga: &#8211; Peste! Ergui-me impaciente:<br \/>\n&#8211; Meu amigo, vamos deixar de valentia. Voc\u00ea hoje \u00e9 incapaz de<br \/>\nfazer medo a uma crian\u00e7a. Est\u00e1 arrasado, n\u00e3o ag\u00fcenta<br \/>\num empurr\u00e3o. Para que barulho? Pensa que vou dormir nessa porcaria?<br \/>\nTome conta dela. H\u00e1 mais dois companheiros com os pulm\u00f5es estragados<br \/>\nArrumem-se voc\u00eas tr\u00eas, que necessitam.<\/p>\n<p>Van der Linden e M\u00e1rio Paiva ensaiaram recusa, depois abriram as<br \/>\nredes, tiraram len\u00e7\u00f3is, foram acomodar-se nas t\u00e1buas.<br \/>\nRaimundo Campobelo deitou-se \u00e0 beira, de costas viradas para os vizinhos.<br \/>\nA arfar e a tossir, n\u00e3o mudou de posi\u00e7\u00e3o. Nenhum gesto<br \/>\nao receber-me a proposta. Calara-se, a tromba feroz de repente murcha: de<br \/>\nfato seria loucura, no estado lastimoso, arrojar-se \u00e0 luta. Mas n\u00e3o<br \/>\ndava mostra de haver recebido qualquer coisa. Era como se estivesse inteiramente<br \/>\ns\u00f3. Nem os dois malandros, Nunes e Jos\u00e9, lhe mereciam aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\nHerculano, o estudante p\u00e1lido, estirou no ch\u00e3o o capote largo<br \/>\ne ofereceu-me lugar. Sempre me faziam esses convites nas horas dif\u00edceis.<br \/>\nEstendi-me no colch\u00e3o improvisado, junto ao muro. Por cima da cabe\u00e7a<br \/>\nde Herculano, eram vis\u00edveis alguns vultos ca\u00eddos tamb\u00e9m<br \/>\nna terra \u00famida, e, vinte cent\u00edmetros acima deles, Van der Linden,<br \/>\nM\u00e1rio Paiva, os ombros curvos de Raimundo Campobelo.<\/p>\n<p>35<\/p>\n<p>NO DIA seguinte, depois do caf\u00e9, vieram buscar-nos e ainda uma vez<br \/>\nnos catalogaram. Novas fotografias, novas impress\u00f5es digitais em fichas.<br \/>\nEstupidez. Imaginariam que as nossas caras eram outras. que os nossos dedos<br \/>\nse transformavam, deixavam no papel marcas diferentes das primeiras? Voltamos<br \/>\n\u00e0 cela. E a\u00ed Nunes entrou a cochichar aos guardas, fingindo<br \/>\nimport\u00e2ncia, esgani\u00e7ando-se em risinhos. Chegando-me \u00e0<br \/>\ngrade para encomendar um ma\u00e7o de cigarros, vi-o mexer em dinheiro:<br \/>\ncom certeza pedia qualquer coisa. A hora do almo\u00e7o, trouxeram-lhe comida<br \/>\nsuperior \u00e0 que nos deram em marmitas de folha. O idiota agarrou o prato,<br \/>\ncome\u00e7ou a exibi-lo a toda a gente com excessiva alegria, a voz estridente<br \/>\noferecendo explica\u00e7\u00f5es: &#8211; Eu n\u00e3o disse? Eles souberam<br \/>\nque eu tinha vindo. Afastei-me do tipo desagrad\u00e1vel: a parolagem aguda<br \/>\ne o alimento causavam-me desgosto e enj\u00f4o. Mas Nunes queria for\u00e7ar-me<br \/>\na admirar um peda\u00e7o de carne e rodelas de batata: &#8211; Como foi que eles<br \/>\nsouberam t\u00e3o depressa? Naturalmente os amigos deram aviso. Temos amigos<br \/>\nna pol\u00edcia. Est\u00e1 vendo? B\u00f3ia fina, de hotel. S\u00f3<br \/>\nestou pensando no advogado. Ser\u00e1 que ele chega hoje? Nem me ocupava<br \/>\nem simular aten\u00e7\u00e3o: virava o rosto, ia sentar-me longe do tagarela<br \/>\nest\u00fapido; sem se ofender, ele me seguia, o prato na m\u00e3o Fui<br \/>\nencostar-me aos var\u00f5es de ferro, voltado para o exterior. O cheiro<br \/>\nde gordura e o tinir das colheres repugnavam-me.<\/p>\n<p>Terminou a refei\u00e7\u00e3o. No come\u00e7o da tarde procur\u00e1vamos<br \/>\nembalar-nos em conjeturas quando a porta se abriu e nos anunciaram transfer\u00eancia.<br \/>\nFicavam no c\u00e1rcere os tr\u00eas vagabundos. Num instante arrumaram-se<br \/>\nos tro\u00e7os. Olhei pela derradeira vez a figura sinistra de Raimundo<br \/>\nCampobelo, despedi-me de Jos\u00e9, sa\u00ed com os outros.<\/p>\n<p>Deixamos o corredor sombrio, volvemos \u00e0 direita, pisamos a rua, subimos<br \/>\na um carro, fomos trancados e rodamos. Ve\u00edculo semelhante ao que nos<br \/>\nlevara \u00e0 esta\u00e7\u00e3o, na mudan\u00e7a para a Col\u00f4nia<br \/>\nCorrecional: as paredes estavam cheias de furos pequenos; corriam por eles<br \/>\nr\u00e9stias escassas, e nessa luz intermitente olh\u00e1vamos pelo crivo<br \/>\ne era imposs\u00edvel orientar-nos. Sacolejos, corpos invis\u00edveis<br \/>\ncaindo-nos em cima das pernas. O dia l\u00e1 fora iluminava e informava<br \/>\nos passageiros dos \u00f4nibus, dos bondes; ali dentro uma noite r\u00e1pida<br \/>\nnos envolvera.<\/p>\n<p>Chegamos, a pris\u00e3o m\u00f3vel se destapou, descemos e achamo-nos<br \/>\nem frente \u00e0s grades altas da Casa de Deten\u00e7\u00e3o. Alegrou-me<br \/>\na esperan\u00e7a de voltar ao Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios, rever<br \/>\npessoas am\u00e1veis, distrair-me jogando xadrez, escutar as confer\u00eancias<br \/>\nde Rodolfo Ghioldi. Entramos. Novamente percorri as al\u00e9ias de \u00e1rvores<br \/>\nchinfrins, ainda silenciosas; dentro em pouco todos os ramos se animariam<br \/>\nna algazarra dos pardais. Ao virar uma esquina, avistei a cara r\u00edspida<br \/>\ne os cabelos grisalhos do chefe dos guardas. Reprimi o desejo de cumpriment\u00e1-lo,<br \/>\ninquirir sobre o nosso regresso aos cub\u00edculos familiares. Seguimos<br \/>\nnoutra dire\u00e7\u00e3o, fomos conduzidos a uma sala vasta, como a que<br \/>\nt\u00ednhamos ocupado uma semana, antes de nos enviarem \u00e0 Col\u00f4nia.<br \/>\nOs muros estavam pintados de fresco, e as tintas me produziram n\u00e1usea<br \/>\ne dor de cabe\u00e7a Ao chegarmos, alguns sujeitos abandonaram as esteiras<br \/>\ne fizeram-nos a recep\u00e7\u00e3o convencional, ruidosa, cheia de lugares-comuns<br \/>\ne patriotismo. Embora repetida em excesso, a cordialidade vazia me impressionava.<br \/>\nUm mo\u00e7o p\u00e1lido e franzino, gingando, trauteou uma can\u00e7\u00e3o<br \/>\nins\u00edpida e maluca.<\/p>\n<p>Passo a passo, camarada Fracasso n\u00e3o \u00e9 derrota.<\/p>\n<p>Aludia ao malogro da insurrei\u00e7\u00e3o, evidente; n\u00e3o queria<br \/>\nadmiti-lo e afirmava um disparate: fracasso n\u00e3o \u00e9 derrota. Ainda<br \/>\nas cantigas sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a, enervantes; iam reproduzir-se<br \/>\nas mesmas tolices ouvidas meses atr\u00e1s. Herculano empoleirou-se no v\u00e3o<br \/>\nde uma janela, berrou com desespero, tentando comunica\u00e7\u00e3o. Gritos<br \/>\nresponderam, longe. E o Hino do Brasileiro Pobre nos chegou, desmaiado e incompleto:<br \/>\nDo norte, das florestas amaz\u00f4nicas, Ao sul, onde a coxilha a vista encanta.<\/p>\n<p>Bem. Os nossos amigos do Pavilh\u00e3o. Era como se, no rumor confuso,<br \/>\nme chegassem distintas as vozes deles. Benjamin Snaider largava o tabuleiro<br \/>\nde xadrez, sa\u00eda \u00e0 plataforma, enviava-nos en\u00e9rgico as<br \/>\nboas-vindas, ritmadas, sonoras. A bocarra de Lacerd\u00e3o se escancarava,<br \/>\no peito se alargava como um fole, imenso gorgolejo sobressa\u00eda no canto.<br \/>\nRodolfo Ghioldi n\u00e3o tinha parte na ruidosa manifesta\u00e7\u00e3o:<br \/>\narredio e silencioso, preparava o esquema de uma palestra dif\u00edcil.<br \/>\nValdemar Birinyi estudava a cole\u00e7\u00e3o de selos ou buscava entender-se<br \/>\ncom S\u00e9rgio num alem\u00e3o desordenado.<\/p>\n<p>Entre os indiv\u00edduos existentes no sal\u00e3o, um n\u00e3o se<br \/>\nmexera ao entrarmos: permanecia a dist\u00e2ncia, a cara inerte, a vista<br \/>\nfixa num livro. Examinei-o, curioso. Em meia hora n\u00e3o virou a folha.<br \/>\nQuem era? Um lituano, informaram-me. Vivia assim mudo, o volume nas garras,<br \/>\ne ningu\u00e9m sabia como se chamava. Um conspirador, imaginei propenso<br \/>\na justificar-lhe a prud\u00eancia: isolava-se por necess\u00e1rio orgulho,<br \/>\nreceio de comprometer-se no meio estranho e m\u00edngua de assunto: os homens<br \/>\nocupados em cantigas n\u00e3o o entenderiam. Muitos anos atr\u00e1s, um<br \/>\nvendedor ambulante, da Ucr\u00e2nia, me explicara a revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde 1905 e deixara-me a id\u00e9ia esquisita de que todos os eslavos eram<br \/>\ninteligentes. A literatura russa e as conversas de S\u00e9rgio fortaleciam<br \/>\na generaliza\u00e7\u00e3o. Cheguei-me \u00e0 criatura impass\u00edvel,<br \/>\nensaiei camaradagem, impertinente. Ergueu os olhos ba\u00e7os, rosnou alguns<br \/>\nmonoss\u00edlabos indistintos e mergulhou de novo na leitura, arrepiado.<br \/>\nGrosseiro, pensei com azedume espiando, familiar e indiscreto, a cartonagem<br \/>\nmi\u00fada. Era um m\u00e9todo ingl\u00eas, resumo bem vagabundo. A cara<br \/>\ndo gringo se imobilizava sobre um vocabul\u00e1rio de cinco ou seis palavras.<br \/>\nArredei-me, fui sentar-me a uma esteira. 0 mo\u00e7o p\u00e1lido continuava<br \/>\na bambolear-se, percorrendo a quadra de um muro a outro, e sorria incitando-nos<br \/>\na acompanh\u00e1-lo: Passo a passo, camarada Fracasso n\u00e3o \u00e9<br \/>\nderrota.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o? O desconchavo repetido bulia-me os nervos. Claro que fracasso<br \/>\nera derrota. Reprimi o desejo de afirmar isso ao rapaz, indagar se ele compusera<br \/>\no verso e exigir modifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nordestinos e paranaenses, livres do abafamento no galp\u00e3o infame,<br \/>\nressurgiam. Os bofes avariados de Van der Linden e M\u00e1rio Paiva iriam<br \/>\ncicatrizar. Anedotas obscenas espalharam-se, as mesmas ouvidas anteriormente,<br \/>\nmas agora n\u00e3o provocavam hilaridade fria, convencional. Quem estaria<br \/>\na cont\u00e1-las? Cabezon, provavelmente. Observei os arredores, agucei<br \/>\no ouvido: &#8211; &#8220;Numa sacristia, o padre novo&#8221;&#8230; Gargalhadas enormes<br \/>\nno fim da hist\u00f3ria, a mesma j\u00e1 escutada. O remate era previsto<br \/>\n&#8211; e r\u00edamos apesar de tudo. Um Cabezon novo, isento de carrego de tijolos<br \/>\n&#8211; homem. Homem a voltar \u00e0 superf\u00edcie. A fala engrolada de Zoppo<br \/>\ntornou a embalar-me; os \u00f3culos do velho Eus\u00e9bio j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nrevelavam a fraqueza angustiante; vagaroso, Petrosky andava procurando lugar;<br \/>\ntrepado na janela, aos gritos, Herculano era como um papagaio na gaiola. Abri<br \/>\na valise, inventariei panos sujos, n\u00e3o me decidi a us\u00e1-los:<br \/>\nficaria vestido na roupa de casimira, onde placas secas de lama se desfaziam,<br \/>\ndesbotavam. Animal s\u00f3rdido. Tirei a gravata, afrouxei o colarinho;<br \/>\nlevantei as cal\u00e7as: os sapatos e as meias repugnavam-me. S\u00f3rdido.<br \/>\nAgarrei um pijama, levantei-me, dirigi-me ao lavat\u00f3rio. S\u00f3rdido.<br \/>\nN\u00e3o pensara nisso, mas agora sentia perfeitamente, sabia perfeitamente<br \/>\nque estava s\u00f3rdido. Alguns metros \u00e0 retaguarda, o rapaz d\u00e9bil<br \/>\ngania, passo a passo: Abaixo o integralismo, O v\u00f4mito do fascismo&#8230;<\/p>\n<p>Bem. V\u00f4mito do fascismo &#8211; \u00f3timo. Ruim era o homem dizer intregalismo.<br \/>\nAchei um peda\u00e7o de sab\u00e3o, enchi a pia, esfreguei a roupa com<br \/>\nfor\u00e7a, procurando tirar dela o mofo e a cardina. Distra\u00ed-me<br \/>\nnesse trabalho cerca de uma hora. Esfrega in\u00fatil; dedos se inteiri\u00e7avam<br \/>\nna barrela e a imund\u00edcie permanecia nas dobras do pano. Achava-me felizmente<br \/>\nde costas para os outros e n\u00e3o assisti ao jantar.<\/p>\n<p>O chilro dos pardais anunciava l\u00e1 fora a noite. Vieram luzes. Deixei<br \/>\na tarefa, regressei \u00e0s anedotas de Cabezon, ao ronrom do velho Eus\u00e9bio,<br \/>\n\u00e0 conversa lenta de Zoppo.<\/p>\n<p>Nova curiosidade levou-me para junto do lituano, observei o livro aberto.<br \/>\nA criatura n\u00e3o volvera a p\u00e1gina, continuava na mesma li\u00e7\u00e3o,<br \/>\nemperrado no vocabul\u00e1rio ex\u00edguo. Os faxinas entraram, conduzindo<br \/>\numa grande caixa. L\u00e1 estava a lembran\u00e7a dos nossos vizinhos<br \/>\ndos Prim\u00e1rios, as reservas guardadas semanas e semanas para os famintos<br \/>\nda Col\u00f4nia Correcional.<\/p>\n<p>Experimentei a exig\u00eancia forte de a\u00e7\u00facar, como na antev\u00e9spera.<br \/>\nInsuport\u00e1vel a comida regular, mas o a\u00e7\u00facar dava-me gana<br \/>\nesquisita: fome canina de a\u00e7\u00facar. De mistura com laranjas murchas<br \/>\ne abacates, havia uma lata de goiabada. Imaginei o Pavilh\u00e3o. Durante<br \/>\nmeses, quando nos comunicavam a exist\u00eancia de uma leva exausta, corr\u00edamos<br \/>\n\u00e0 plataforma, jog\u00e1vamos para baixo as nossas economias. S\u00e9rgio<br \/>\ndevorava uma parte dos abacates levados por Emile nas visitas das sextas-feiras;<br \/>\nguardava o resto para os homens doentes, meio mortos. Solidariedade realmente<br \/>\nsuicida. Os frutos verdes expostos no caix\u00e3o deviam ser oferta dele.<br \/>\nO frasco de gel\u00e9ia fora enviado por Adolfo Barbosa, homem rico, neto<br \/>\nde senador e quase dono de um cub\u00edculo cheio de tro\u00e7os luxuosos.<br \/>\nAt\u00e9 mesa e cadeiras.<\/p>\n<p>Abri a lata de goiabada, comi um peda\u00e7o vorazmente. Quem a teria<br \/>\nmandado? S\u00fabita bul\u00edmia, coisa semelhante ao que, anos atr\u00e1s,<br \/>\ndepois de longa inapet\u00eancia, me agredira no hospital, mas agora apenas<br \/>\no a\u00e7\u00facar me apagava as brasas da boca. Necess\u00e1rio escrever,<br \/>\nnarrar a mesa de opera\u00e7\u00e3o; a cama dura, horr\u00edveis del\u00edrios,<br \/>\num tubo de borracha furando-me as entranhas como punhal. As cenas pr\u00f3ximas<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o me interessavam. Bobagem renovar as anedotas de Cabezon,<br \/>\nas hist\u00f3rias de Zoppo, o andar vagaroso de Petrosky, a fraqueza do<br \/>\nvelho Eus\u00e9bio. Se me decidisse a reproduzir essas coisas, mais tarde<br \/>\nseria for\u00e7ado a jog\u00e1-las na \u00e1gua, met\u00ea-las num<br \/>\nburaco. E j\u00e1 me aborreciam, vistas em excesso. As dores no p\u00e9<br \/>\nda barriga e a dorm\u00eancia -da coxa traziam-me ao esp\u00edrito enfermeiros<br \/>\ne serventes, cheiro de petr\u00f3leo, a figura evang\u00e9lica de padre<br \/>\nJos\u00e9 Leite, rumor de ferros na autoclave, as m\u00e3os \u00e1geis<br \/>\nde Clemente Silveira, sonhos, vis\u00f5es. Necess\u00e1rio fixar isso,<br \/>\nachava-me na verdade perto disso.<\/p>\n<p>Tomei a escova de dentes, encaminhei-me ao lavat\u00f3rio. Finda a higiene<br \/>\nr\u00e1pida, fui estender o pijama nos var\u00f5es da grade. Tirei os<br \/>\nsapatos, ca\u00ed na esteira, adormeci.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>QUARTA PARTE<\/h2>\n<h2>CASA DE CORRE\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>FIQUEI ali apenas vinte e quatro horas. &#8211; Seu Fulano, transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>A roupa lavada na v\u00e9spera ainda n\u00e3o estava seca. Embrulhei-a<br \/>\nnum jornal, meti-a na valise, abracei os companheiros, exceto o lituano, embrenhado<br \/>\nno exerc\u00edcio penoso e um rapaz que na Col\u00f4nia me ofendera querendo<br \/>\ncomprar-me um cigarro. Essa mesquinhez, apesar de velha, ressentia-me: a lembran\u00e7a<br \/>\ndo homem sonso e risonho, de bra\u00e7o estirado, um n\u00edquel entre<br \/>\nos dedos, n\u00e3o se apagava. Em minutos achei-me pronto: &#8211; Vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>Para onde? Calei a pergunta, como de outras vezes; se a lan\u00e7asse,<br \/>\nn\u00e3o me dariam resposta. Imaginei regressar ao Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios.<br \/>\nEngano, conduziram-me noutro sentido. Os renques de \u00e1rvores pequenas,<br \/>\nmansas a tesoura, n\u00e3o me forneciam orienta\u00e7\u00e3o. Dobramos<br \/>\nesquinas, sa\u00edmos do edif\u00edcio. Procurei em redor um daqueles<br \/>\ntemerosos carros, os tintureiros, marcados com um d\u00edstico, eufemismo<br \/>\nextravagante: assist\u00eancia policial. Jogam-nos ali, esmagam-nos, indiferentes<br \/>\n\u00e0 capacidade, e batem a porta; viajamos na treva e no calor, como bichos,<br \/>\natormentados pela desagrad\u00e1vel assist\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, convidou um dos soldados.<\/p>\n<p>Nenhum ve\u00edculo. Diabo. Mexia-me a custo, e iam obrigar-me a nova<br \/>\nmarcha. De fato lamentei a aus\u00eancia do autom\u00f3vel fechado e escuro.<br \/>\nPartimos, l\u00e1 fui claudicando at\u00e9 a Casa de Corre\u00e7\u00e3o,<br \/>\na pequena dist\u00e2ncia, entramos. Surpreso e inquieto, perguntei a mim<br \/>\nmesmo porque me enviavam \u00e0quela pris\u00e3o. Deviam estar ali, supus,<br \/>\nas criaturas for\u00e7adas a cumprir senten\u00e7a, e ainda n\u00e3o<br \/>\nme haviam dito uma palavra a respeito dos meus poss\u00edveis crimes. Tinham-me<br \/>\nobrigado longos meses a rolar para cima e para baixo; aplicavam-me agora uma<br \/>\ncondena\u00e7\u00e3o enigm\u00e1tica. Desapareceriam talvez as mudan\u00e7as,<br \/>\nas rela\u00e7\u00f5es inst\u00e1veis com vagabundos e malandros; estabelecer-me-iam<br \/>\nnum dos c\u00e1rceres habitados por assassinos e ladr\u00f5es perigosos.<br \/>\nChegamos \u00e0 secretaria; um tipo de farda recebeu o of\u00edcio que<br \/>\nordenava a minha perman\u00eancia ali e os condutores se retiraram.<\/p>\n<p>&#8211; O diretor est\u00e1 \u00e0 sua espera, declarou a nova personagem<br \/>\nlevando-me a um gabinete \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>Espantei-me. Antes do m\u00e9dico, na Col\u00f4nia, o homem \u00e1spero<br \/>\nque me exibira o telegrama e defendera os gatunos, nenhum diretor me havia<br \/>\nposto os olhos em cima. Um que ria ver-me. Ia interrogar-me, sem d\u00favida,<br \/>\narranjar outra ficha complicada. Ingressamos na saleta. Debru\u00e7ado a<br \/>\numa banca, um velhinho escrevia. Ergueu-se, tomou do funcion\u00e1rio o<br \/>\nenvelope, correu a vista r\u00e1pido na folha de papel, estendeu-me risonho<br \/>\na m\u00e3o: &#8211; Est\u00e1 bem. Muito bem. Chegou ontem, n\u00e3o? &#8211; Sim,<br \/>\nontem. Ou anteontem, nem me lembro, respondi atarantado.<\/p>\n<p>O tempo deixara de existir.<\/p>\n<p>&#8211; Sua mulher esteve aqui hoje. Vai bem. Eu o esperava desde ontem. Houve<br \/>\natraso. Vou telefonar a ela marcando uma visita para amanh\u00e3. Vai bem.<br \/>\nToda a fam\u00edlia vai bem. Jos\u00e9 Leite . e Am\u00e1lia v\u00e3o<br \/>\nbem. Sabe que padre Jos\u00e9 Leite esteve aqui, procurando visit\u00e1-lo<br \/>\nnos Prim\u00e1rios? N\u00e3o conseguiu a visita. Vai bem.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. Percebi a letra dele num pacote de frutas. Mas como \u00e9<br \/>\nque o senhor conhece essa gente? &#8211; Ah! Sou de Alagoas, nasci em Pilar. Vamos.<br \/>\nPegou-me o bra\u00e7o, levou-me \u00e0 porta. Essa incr\u00edvel familiaridade<br \/>\nperturbava-me. Dif\u00edcil admitir que um instrumento da pol\u00edcia,<br \/>\ns\u00f3 por ter nascido na minha terra e conhecer parentes de minha mulher,<br \/>\nprocedesse de tal jeito. Inclinava-me a descobrir na linguagem simples do<br \/>\nhomenzinho id\u00e9ias de corrup\u00e7\u00e3o. Mas corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nporque, Deus do c\u00e9u? Que diabo esperavam de mim? Est\u00fapido imaginar<br \/>\nterem posto ali uma pessoa do nordeste para engabelar-me. Receava comprometer-me<br \/>\ne receava ser bruto com um vivente amor\u00e1vel. Ao passarmos a secretaria,<br \/>\no velho ordenou: &#8211; Deixe a maleta a\u00ed, com a chave. H\u00e1 uma formalidade.<br \/>\nPus a valise em cima de uma banca, retirei-me em companhia do homem. No p\u00e1tio,<br \/>\nonde se erguiam edif\u00edcios altos, atravessamos v\u00e1rios port\u00f5es<br \/>\nde ferro; chegamos a um pr\u00e9dio velho de dois pavimentos. Grades abertas,<br \/>\nsem vigias, surpreenderam-me. Al\u00e9m de um pequeno v\u00e3o escuso,<br \/>\nonde vi, direita, uma sala, provavelmente a casa da ordem, chegamos a um canto<br \/>\nde terreiro, subimos uma escada. L\u00e1 em cima um guarda, que nos acompanhava,<br \/>\nentregou-me a valise. Desembocamos numa esp\u00e9cie de antec\u00e2mara;<br \/>\nvi na parede um espelho, avizinhei-me dele. N\u00e3o contive uma exclama\u00e7\u00e3o<br \/>\nde espanto: &#8211; Que vagabundo monstruoso! Estava medonho. Magro, barbado, covas<br \/>\nno rosto cheio de pregas, os olhos duros encovados. Demorei-me um pouco diante<br \/>\ndo espelho. N\u00e3o podia ver-me na Col\u00f4nia, de nenhum modo avaliava<br \/>\nos estragos, a medonha devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Que vagabundo monstruoso! Horr\u00edvel. Entramos num sal\u00e3o muito<br \/>\ncomprido, onde se alinhavam camas e janelas numerosas rasgavam as duas paredes<br \/>\nexternas. Havia ali umas cem pessoas. Ao pisar no soalho gasto, oscilante,<br \/>\nreconheci alguns dos meus companheiros do Pavilh\u00e3o. V\u00e1rios se<br \/>\naproximaram, uma voz met\u00e1lica soou perto: &#8211; Voc\u00ea est\u00e1<br \/>\nmorto, rapaz. Quantos dias faz que n\u00e3o come? Voltei-me. Era Jos\u00e9<br \/>\nBrasil. &#8211; Nem sei, muitos dias.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Brasil saiu precipitado; ouvi-o descer degraus com forte rumor<br \/>\nde tamancos. O professor Castro Rebelo trouxe-me biscoitos, Maur\u00edcio<br \/>\nLacerda ofereceu-me duas ma\u00e7\u00e3s.<\/p>\n<p>&#8211; Tem pijama? inquiriu um homem atarracado e moreno, que logo me apresentaram:<br \/>\nRosendo, juiz de direito em Niter\u00f3i.<\/p>\n<p>Com certeza se arriscava a respeitar o habeas-corpus &#8211; e estava conosco<br \/>\n&#8211; Tenho. Imundo, uma porcaria.<\/p>\n<p>O juiz afastou-se, minutos depois entregou-me um largo pijama Nenhum desejo<br \/>\nme aparecia de comer as ma\u00e7\u00e3s e os biscoitos, esquecidos numa<br \/>\ngrande mesa \u00e0 entrada, t\u00e1buas nuas, soltas, em cima de cavaletes.<br \/>\nDirigi-me a um canto do sal\u00e3o, e s\u00f3 a\u00ed notei que havia<br \/>\nluzes Provavelmente a noite baixara antes da chegada, mas, na confus\u00e3o<br \/>\nda mudan\u00e7a, escapavam-me as horas. Apaguei uma l\u00e2mpada vizinha,<br \/>\ndespi-me, vesti-me. Em seguida, encaminhei-me \u00e0 porta, segurando a<br \/>\nvalise: n\u00e3o havia perdido o h\u00e1bito de fiscaliz\u00e1-la. Voltei,<br \/>\njoguei-a sobre o palet\u00f3 e a cal\u00e7a amarrotados no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Fui sentar-me num banco, junto \u00e0 mesa. O diretor conversava animado,<br \/>\nrisonho e familiar. Tratavam-no por major e pareciam gostar dele. Nesse ponto<br \/>\nJos\u00e9 Brasil entrou com dois faxinas, que puseram diante de mim bules<br \/>\nde caf\u00e9, leite e ch\u00e1, um tabuleiro cheio de fatias de p\u00e3o.<br \/>\nSurgiu-me de repente a fome: bebi s\u00f4frego um caneco de leite e comecei<br \/>\na devorar. Espantava-me o horr\u00edvel apetite, depois da longa inapet\u00eancia,<br \/>\ne desgostava-me n\u00e3o conseguir moder\u00e1-lo. Portava-me como selvagem,<br \/>\nmastigava sem descontinuar e envergonhava-me de estar causando impress\u00e3o<br \/>\ndeplor\u00e1vel. Minutos antes as ma\u00e7\u00e3s e os biscoitos provocavam-me<br \/>\nrepugn\u00e2ncia. A esquisita avidez viera de golpe. Esfor\u00e7ava-me<br \/>\npor adivinhar a causa dela, e isto era o \u00fanico sinal de intelig\u00eancia<br \/>\nque ainda havia em mim. Bicho faminto, surdo, mudo. N\u00e3o me achava inteiramente<br \/>\ncego: via em redor m\u00e9dicos, engenheiros, advogados, jornalistas, oficiais<br \/>\ndo ex\u00e9rcito, gente que, meses atr\u00e1s, lia e jogava xadrez no<br \/>\nPavilh\u00e3o. A aus\u00eancia de oper\u00e1rios deu-me uma indica\u00e7\u00e3o:<br \/>\nprovavelmente est\u00e1vamos na Sala da Capela, destinada a burgueses e<br \/>\nintelectuais. Mas porque n&amp;atilatilde;o estavam ali Rodolfo Ghioldi, S\u00e9rgio,<br \/>\nVal\u00e9rio Konder, os Campos da Paz? Consumi todo o p\u00e3o e esvaziei<br \/>\no bule de caf\u00e9. A\u00ed choveram perguntas, mas, cansado, zonzo,<br \/>\nsenti pregui\u00e7a de falar, catar lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>A Col\u00f4nia ia-se distanciando; a cama, a esteira, o len\u00e7ol ensang\u00fcentado,<br \/>\na tatuagem de Ga\u00facho e os olhos ferozes de Alfeu confundiam-se. Teriam<br \/>\nexistido? Afligiu-me reconhecer lacunas em t\u00e3o pouco tempo, vacila\u00e7\u00f5es<br \/>\nna mem\u00f3ria. N\u00e3o me seria poss\u00edvel reconstituir o galp\u00e3o,<br \/>\no refeit\u00f3rio, a generosidade estranha de Cubano, o estertor do vagabundo<br \/>\nna imensa noite. A perda irremedi\u00e1vel das folhas de papel mexia-me<br \/>\nos nervos. Afugentei essas coisas, firmei-me na realidade pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos na Sala da Capela? Disseram-me que sim e obstinaram-se<br \/>\nem pedir not\u00edcias da ilha Grande. Mencionei as pedras escuras, os morros,<br \/>\nas piteiras brilhantes no crep\u00fasculo. O diretor, baixo, gordinho, atirando<br \/>\npassos curtos nas pranchas desconchavadas, ofereceu-nos um trocadilho de caserna,<br \/>\npilh\u00e9ria de sal grosso. Um sujeito se referira \u00e0 ilha e \u00e0s<br \/>\nplantas: &#8211; &#8220;\u00c9 a terra onde a pita abunda.&#8221; Percebendo a cacofonia,<br \/>\nemendara: &#8211; &#8220;\u00c9 a terra onde abunda a pita.&#8221; Uma hilaridade<br \/>\ncort\u00eas e chocha acolheu a anedota.<\/p>\n<p>Alheio \u00e0s conversas, detinha-me na observa\u00e7\u00e3o do ambiente<br \/>\ne passava os dedos nos p\u00ealos \u00e1speros do rosto. Al\u00e9m de<br \/>\nCastro Rebelo, divisei os outros dois professores da universidade: Hermes<br \/>\nLima e Le\u00f4nidas de Resende. Tamb\u00e9m avistei Gikovate e Karacik,<br \/>\nos m\u00e9dicos judeus, Francisco Mangabeira, Agildo, Moreira Lima, Sisson,<br \/>\nApporelly, Cascardo. V\u00e1rias personagens, vistas anteriormente, formavam<br \/>\ngrupos na sala vasta e s\u00f3 mais tarde as reconheci.<\/p>\n<p>&#8211; Preciso que me arranjem navalha, pincel, sab\u00e3o, um pano para enxugar-me<br \/>\nEstou horroroso, n\u00e3o posso dormir assim.<\/p>\n<p>Trouxeram-me os objetos pedidos. Fui \u00e0 saleta, descobri um lavat\u00f3rio,<br \/>\nabri a torneira, lavei-me e esfreguei-me vagaroso. Chegando-me ao espelho<br \/>\npara barbear-me, repeti com des\u00e2nimo: &#8211; Que vagabundo s\u00f3rdido!<br \/>\nComo se transformava uma pessoa t\u00e3o depressa? Escanhoei-me e alterou-se<br \/>\num pouco a figura semelhante aos ladr\u00f5es, meus companheiros na Col\u00f4nia<br \/>\nCorrecional. Mas a magreza, as \u00f3rbitas fundas, as rugas, ainda me espantavam;<br \/>\nn\u00e3o havia jeito de habituar-me \u00e0quele horror.<\/p>\n<p>Voltei ao sal\u00e3o, procurei o indiv\u00edduo que me havia emprestado<br \/>\nas miudezas e dei de cara com Walter Pompeu. Entraram faxinas, uma cama se<br \/>\narmou. Fui recostar-me nela, morto de fadiga, a custo desamarrei os sapatos.<br \/>\nOs olhos fechavam-se. Morto de cansa\u00e7o. N\u00e3o entendia nada. As<br \/>\nperguntas que me fizeram ficaram sem resposta. O homem gordo e baixo deu mais<br \/>\nalguns passos curtos no pavimento bambo e retirou-se Apagaram-se as l\u00e2mpadas.<br \/>\nSobre a mesa, \u00e0 entrada, uma ficou acesa; algu\u00e9m p\u00f4s sobre<br \/>\nela uma pantalha de jornal; criaturas vagas se acercaram, abriram volumes<br \/>\nem roda. Sono, fadiga. Apesar disso, n\u00e3o me foi poss\u00edvel repousar<br \/>\ndireito. Adormecia, acordava. Sonhos atrapalhados, vis\u00f5es da Col\u00f4nia,<br \/>\nmisturavam-se a figuras im\u00f3veis, sombras, guaritas altas, em cima de<br \/>\nmuros, apitos de sentinelas. O colch\u00e3o e o travesseiro incomodavam-me,<br \/>\no len\u00e7ol e a manta pareciam-me sujos de hemoptises.<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>LEVANTEI-ME de madrugada e fui sentar-me no banco, junto \u00e0 mesa; esperei<br \/>\nque as figuras em redor se mexessem. Na saleta, \u00e0 porta, um guarda<br \/>\ncochilava. Sombras l\u00e1 fora, massas indistintas, pr\u00e9dios, \u00e1rvores,<br \/>\nrumores vagos, apitos. Fiquei debru\u00e7ado na t\u00e1bua cerca de uma<br \/>\nhora, at\u00e9 que a luz da l\u00e2mpada esmoreceu e l\u00e1 embaixo<br \/>\nse espalhou a gritaria dos pardais. Estirando os olhos pelas janelas, distingui<br \/>\no terra\u00e7o da Casa de Deten\u00e7\u00e3o e, longe, \u00e0 esquerda,<br \/>\no vulto pedregoso da Favela, com uma igreja no cocuruto, fina e simp\u00e1tica.<\/p>\n<p>O dia entrava no dormit\u00f3rio, as camas rangiam, alguns homens se levantavam<br \/>\ne passos duros no pavimento desconchavado impediam o sono dos dorminhocos.<br \/>\nUma voz \u00e1spera indicou-me a presen\u00e7a de Mo\u00e9sia Rolim.<br \/>\nAbandonei as ladeiras da Favela, examinei o interior, vi a dist\u00e2ncia,<br \/>\nno fim da sala, as barbas de Apporelly, o roup\u00e3o vermelho de Cascardo,<br \/>\nMoreira Lima a ajeitar a funda, vagaroso. Um faxina apareceu na saleta; dirigi-me<br \/>\na ele e encomendei um par de tamancos.<\/p>\n<p>&#8211; Agora, se for poss\u00edvel. N\u00famero quarenta, pouco mais ou menos.<\/p>\n<p>O sujeito saiu, tornou pouco depois, entregou-me os peda\u00e7os de pau<br \/>\ncobertos de lona, duas tiras grossas. Descalcei-me, experimentei-os: &#8211; Bem.<\/p>\n<p>Fui juntar \u00e0 bagagem os sapatos enlameados. Ao abrir o porta-n\u00edqueis<br \/>\npara fazer a paga, demorei-me a contar as \u00faltimas c\u00e9dulas, e<br \/>\numa sensa\u00e7\u00e3o de inferioridade me empolgou. Senti-me fraco e<br \/>\ndesarmado. E necessitava banho. Vendo alguns indiv\u00edduos afastaram-se<br \/>\ncom toalhas, acompanhei-os, desci a escada. L\u00e1 embaixo, como na v\u00e9spera,<br \/>\nachei as grades abertas e sem vigil\u00e2ncia. Entramos no p\u00e1tio,<br \/>\ndobramos esquinas. Os banheiros eram longe, ao p\u00e9 do muro interno que<br \/>\nnos separava da Deten\u00e7\u00e3o. Lavei-me com demora e fui secar-me<br \/>\nao sol: n\u00e3o me atrevera a usar a toalha pequena guardada na valise.<\/p>\n<p>De volta, dirigimo-nos ao refeit\u00f3rio, no pavimento inferior. A primeira<br \/>\nvista aquilo n\u00e3o diferia da Col\u00f4nia. T\u00e1buas nuas em cima<br \/>\nde cavaletes, ladeadas por bancos estreitos e escuros. Mas o aspecto agrad\u00e1vel<br \/>\nda comida nos tabuleiros cheios, bules de metal areado, pratos e x\u00edcaras<br \/>\nlimpos desfizeram logo a abjeta compara\u00e7\u00e3o. Embora a manteiga<br \/>\nestivesse ran\u00e7osa, mastiguei o p\u00e3o e bebi o caf\u00e9 com<br \/>\nprazer. Certamente influ\u00edram nisso as criaturas civilizadas que se<br \/>\nsentavam pr\u00f3ximo e devagar iam ressurgindo no meu esp\u00edrito.<br \/>\nAs mesas se despovoaram e, finda a refei\u00e7\u00e3o, demorei-me um pouco<br \/>\nali, a fumar. O rapaz que me servira, gordo, baixo, inquieto, aproximou-se,<br \/>\ndisse-me que se chamava Aleixo e n\u00e3o era homossexual.<\/p>\n<p>&#8211; Quem lhe perguntou isso? exclamei erguendo-me. A sua vida n\u00e3o me<br \/>\ninteressa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que o senhor vai ouvir dizer que sou pederasta. E n\u00e3o<br \/>\nsou. Juro que n\u00e3o sou, nunca fui.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem. Adeus.<\/p>\n<p>Sa\u00ed, galguei a escada. L\u00e1 em cima encontrei Walter Pompeu,<br \/>\nque se sentara junto a mim no banco escuro.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Walter, quem \u00e9 o tipo que nos serviu, o Aleixo? \u00c9<br \/>\ndoido, n\u00e3o? Walter Pompeu narrou-me o caso de Aleixo. N\u00e3o era<br \/>\ndoido. Marinheiro, longe da terra, vivera muitos anos amigado com um oficial.<br \/>\nNo mar essas coisas s\u00e3o naturais &#8211; falta de mulher. Por acaso, resolvera<br \/>\nmudar de vida e casar. Achara f\u00eamea num porto, quisera fixar-se nela,<br \/>\nabandonar o navio, ser tipo decente, macho. &#8211; &#8220;N\u00e3o quero saber<br \/>\nmais disso.&#8221; O oficial tinha direito sobre ele, tentara for\u00e7\u00e1-lo.<br \/>\n&#8211; &#8220;Seu tenente, larguei isso e vou casar. Deixe-me em paz.&#8221; O outro<br \/>\ninsistira, exigente. Aleixo matara-o. E condenado no j\u00fari, com larga<br \/>\npena, longe da noiva, tornara \u00e0 vida anterior. O sentimento de culpa<br \/>\nexteriorizava-se a cada instante &#8211; e esfor\u00e7ava-se por evit\u00e1-lo<br \/>\nafirmando a toda a gente que n\u00e3o era invertido.<\/p>\n<p>Um guarda mo\u00e7o, de olho vivo, apareceu, largou sobre a mesa um grande<br \/>\nma\u00e7o de jornais. Tirou do bolso uma caderneta e come\u00e7ou a arrolar<br \/>\nencomendas. Cheguei-me a ele, pedi l\u00e1pis e um bloco de papel. Na saleta<br \/>\nalguns presos tinham arranjado uma pequena marcenaria. Aquela hora j\u00e1<br \/>\nserravam, aplainavam, manejavam com barulho, desajeitados, o escopro e o martelo.<br \/>\nEspecializavam-se na fabrica\u00e7\u00e3o de cadeiras, talvez por termos<br \/>\nvivido meses a sentir a falta delas. Havia ali diversas, outras se conclu\u00edam,<br \/>\nm\u00f3veis originais` discrepantes na forma e no tamanho. Uma id\u00e9ia<br \/>\nme levou a esquisita oficina. Obtive um peda\u00e7o de madeira. E com ele<br \/>\ne barbante compus uma esp\u00e9cie de cabide, onde estirei a cal\u00e7a<br \/>\ne o palet\u00f3 amarrotado. Algu\u00e9m me emprestou uma escova. Esfreguei<br \/>\nos panos devagar, pendurei-os a um prego. Mandei lavar a roupa branca. E dediquei-me<br \/>\na limpar os sapatos, dar-lhes apar\u00eancia razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em redor, nas camas, os presos liam, conversavam, discutiam a guerra civil<br \/>\nda Espanha. Ao fundo, Apporeliy arrumava cartas sobre uma pequena mesa redonda,<br \/>\nentranhado numa infind\u00e1vel paci\u00eancia. Avizinhei-me dele, pedi<br \/>\nnot\u00edcias do livro que me anunciara meses antes: a biografia do Bar\u00e3o<br \/>\nde Itarar\u00e9 Como ia esse ilustre fidalgo? A narrativa ainda n\u00e3o<br \/>\ncome\u00e7ara, as gl\u00f3rias do senhor bar\u00e3o conservavam-se espalhadas<br \/>\nno jornal. Ficariam assim, com certeza: o panegirista n\u00e3o se decidia<br \/>\na p\u00f4r em ordem os feitos da not\u00e1vel personagem. Lamentei aquele<br \/>\ndesperd\u00edcio de tempo, embora tamb\u00e9m me achasse in\u00fatil,<br \/>\nocioso: quase um ano a jogar poker e xadrez, matar percevejos, ouvir hinos<br \/>\ne discursos. Agora, depois do jejum prolongado, n\u00e3o me sentia disposto<br \/>\na recome\u00e7ar o trabalho. Enfim todos n\u00f3s procur\u00e1vamos<br \/>\natordoar-nos. Renovavam-se hist\u00f3rias narradas no Pavilh\u00e3o e<br \/>\ntinha-se como certa a vit\u00f3ria dos republicanos em Madrid e na Catalunha.<br \/>\n\u00c9ramos cr\u00e9dulos em excesso e repel\u00edamos zangados os telegramas<br \/>\nfavor\u00e1veis a Franco. Aliava-se a essa ingenuidade uma irrita\u00e7\u00e3o<br \/>\nnova. Certos indiv\u00edduos, anteriormente calmos, propendiam a bulha;<br \/>\nsossegavam, mas uma palavra largada \u00e0 toa os enraivecia. A demorada<br \/>\nreclus\u00e3o mudava os caracteres. A princ\u00edpio um homem apenas me<br \/>\nsurgiu tranq\u00fcilo, usando os modos e a linguagem usuais l\u00e1 fora,<br \/>\nna c\u00e1tedra: Hermes Lima. Embrenhava-se no estudo do alem\u00e3o,<br \/>\ncompondo exerc\u00edcios num caderno que se avolumava. Nenhum livro. E,<br \/>\nna falta disso, Gikovate era gram\u00e1tica e era dicion\u00e1rio. Se<br \/>\nGikovate n\u00e3o estava \u00e0 m\u00e3o, Hermes recorria a um dos irm\u00e3os<br \/>\nCunha, os Cunh\u00f5es, dois g\u00eameos perfeitamente iguais. Tenentes<br \/>\ndo ex\u00e9rcito, sul-rio-grandenses, falavam bem as duas l\u00ednguas,<br \/>\npodiam ser \u00fateis a Hermes em caso de necessidade.<\/p>\n<p>&#8211; Almo\u00e7o, gritaram da porta.<\/p>\n<p>Erguemo-nos, houve no tabuado um barulho de tamancos, descemos a escada<br \/>\ngasta, carunchosa. L\u00e1 embaixo, no refeit\u00f3rio comprido, sentei-me<br \/>\nno lugar ocupado pela manh\u00e3, \u00e0 hora do caf\u00e9. Walter Pompeu<br \/>\nestava junto de mim, e Aleixo, o desgra\u00e7ado, nos servia. A comida era<br \/>\nboa.<\/p>\n<p>&#8211; As pontas da vanguarda&#8230; anunciou Rollemberg impingindo-nos uma s\u00e9rie<br \/>\nde triunfos imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Esse otimismo provocava riso. Estava ali parte da vanguarda, esparsa nos<br \/>\nbancos estreitos e escuros, ro\u00edda pelas dissid\u00eancias, e outras<br \/>\npartes se desfaziam nos cub\u00edculos da De ten\u00e7\u00e3o, na piolheira<br \/>\nda Col\u00f4nia. Chegou-me de novo a fome experimentada na v\u00e9spera,<br \/>\ndurante algum tempo n\u00e3o escutei as reflex\u00f5es de Walter a respeito<br \/>\nde Aleixo, bambo e l\u00e2nguido.<\/p>\n<p>Voltamos, apareceram-me dores vagas nas pernas, deitei-me, fixei a vista<br \/>\nna escarpa vermelha de um monte pr\u00f3ximo. Barracos miser\u00e1veis,<br \/>\ntranseuntes raros a subir e a descer, um burro e uma cabra im\u00f3veis.<br \/>\nMeia hora de observa\u00e7\u00e3o fatigou-me. Baixei os olhos, uma guarita<br \/>\nsurgiu-me a poucos metros, cavalgando o muro alto. A tarde chamaram-me: &#8211;<br \/>\nVisita.<\/p>\n<p>Bem. A promessa do diretor se realizava. Ergui-me, calcei os sapatos, enverguei<br \/>\na roupa \u00fanica sobre o pijama de Rosendo, sa\u00ed acompanhado por<br \/>\num guarda. Port\u00f5es abriram se e fecharam-se no caminho percorrido no<br \/>\ndia anterior, chegamos \u00e0 secretaria. Minha mulher, \u00e0 porta,<br \/>\nrecebeu-me com espanto: &#8211; Como est\u00e1 magro! Porque raspou a cabe\u00e7a?<br \/>\n&#8211; Pois sim! resmunguei. Isso dependia de mim. Devia estar gordo e cabeludo.<br \/>\nQuanta inoc\u00eancia! Afastei as explica\u00e7\u00f5es e fomos sentar-nos.<br \/>\nA\u00ed a criatura me forneceu novidades, esfor\u00e7ando-se por desviar<br \/>\ncoisas desagrad\u00e1veis. O intuito era vis\u00edvel. Inteirando-se da<br \/>\nminha viagem para a Col\u00f4nia, ficara satisfeita: ao menos l\u00e1,<br \/>\nsupunha, n\u00e3o me seria dif\u00edcil encontrar mulheres.<\/p>\n<p>&#8211; Encontrar mulheres? exclamei assombrado.<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Julguei. Uma dessas matutinhas da lavoura. No campo \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p>&#8211; Que estupidez! Ciumenta em excesso, minha companheira achava natural que,<br \/>\ndepois de longa abstin\u00eancia, me encostasse a f\u00eameas ordin\u00e1rias.<br \/>\nEssas n\u00e3o lhe faziam mossa. Tinha horror \u00e0s senhoras educadas<br \/>\ne inteligentes. O ci\u00fame dela n\u00e3o era, por assim dizer, f\u00edsico:<br \/>\nera mental. Abandonou o assunto maluco e entregou-me cem mil-r\u00e9is que<br \/>\nrecebera de uma revista argentina. A publica\u00e7\u00e3o do conto enviado<br \/>\na Benjamin Garay rendera vinte e cinco pesos.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo! A minha cota\u00e7\u00e3o l\u00e1 \u00e9 baixa. Em todo<br \/>\no caso isso veio em boa hora: estou sem dinheiro. Basta metade. Guardei cinq\u00fcenta<br \/>\nmil-r\u00e9is, devolvi o resto.<\/p>\n<p>&#8211; Como vai o livro? Estava na composi\u00e7\u00e3o, em provas. &#8211; Que<br \/>\ndemora! J\u00e1 devia ter sa\u00eddo.<\/p>\n<p>O diretor apareceu, esteve algum tempo a recordar a sua mocidade, em Alagoas.<br \/>\nQuando sa\u00edra de l\u00e1, a m\u00e3e da visitante era crian\u00e7a.<br \/>\nA\u00ed fiquei sabendo que o homem, oficial reformado, se chamava Nunes.<br \/>\nA interrup\u00e7\u00e3o delicada, presumi, indicava o momento de retirar-me.<br \/>\nAquilo era encontro de exce\u00e7\u00e3o, explicou major Nunes, marcando<br \/>\na visita regular para sexta-feira, ao meio-dia. O velho me tratara por voc\u00ea,<br \/>\ncomo se houvesse conhecido a minha fam\u00edlia, inexistente, esfarelada<br \/>\nno interior. Essa intimidade n\u00e3o me humilhava. Notei depois que ele<br \/>\nse dirigia assim a toda gente: era como se os presos fossem seus filhos. Agradeci,<br \/>\ndespedi-me, regressei \u00e0 Sala da Capela. E n\u00e3o consegui jantar.<br \/>\nNo fim da tarde o burro e a cabra desapareceram no morro, os transeuntes sumiram-se.<br \/>\nVozes furavam-me os ouvidos. Quanta gente! Hora do ch\u00e1. N\u00e3o<br \/>\nme foi poss\u00edvel descer. Luzes. A guarita, em cima do muro, estava quase<br \/>\nimpercept\u00edvel. As dores cresciam. N\u00e3o dormi direito. Gemi toda<br \/>\na noite.<\/p>\n<p>3<\/p>\n<p>MOREMA, o guarda mo\u00e7o de olho vivo, trouxe-me de manh\u00e3 os l\u00e1pis<br \/>\ne o papel encomendados. Para que servia aquilo? As dores nas pernas anunciavam<br \/>\ndoen\u00e7a grave.<\/p>\n<p>Iam do tornozelo ao joelho, era como se os ossos se estivessem desfazendo.<br \/>\nCom o dia tinha diminu\u00eddo um pouco, talvez por haver agora algum calor,<br \/>\nmas a horr\u00edvel impress\u00e3o me chegava de que a parte inferior<br \/>\ndo esqueleto n\u00e3o ag\u00fcentava o peso do corpo. Ossos a esfarelar-se.<br \/>\nPolinevrite, berib\u00e9ri &#8211; misturei esses nomes e desejei consultar Fl\u00e1vio<br \/>\nPoppe, visto de relance, Gikovate, Karacik, um dos m\u00e9dicos presos.<br \/>\nFalta de comida. Lembrava-me de ter passado pelo menos uma quinzena em jejum.<br \/>\nDevia ser isso. Dificuldade em mexer-me at\u00e9 o banheiro, lavar-me, voltar,<br \/>\nbeber o caf\u00e9, subir a escada. As pernas n\u00e3o tinham consist\u00eancia.<br \/>\nMovia-me com medo. A qualquer momento as canelas iam desmanchar-se, mudar-se<br \/>\nem algod\u00e3o. T\u00edbias de algod\u00e3o. Estranho aparecer-me aquilo<br \/>\nexatamente ao chegar \u00e0 Sala da Capela, onde n\u00e3o havia pen\u00faria.<br \/>\nAlimentara-me &#8211; e as pernas negavam a sustentar-me. J\u00e1 viera, com certeza,<br \/>\nmeio morto. A visagem medonha, percebida no espelho, atenazou-me de novo.<br \/>\n&#8211; &#8220;Que vagabundo monstruoso!&#8221; N\u00e3o. Por fora j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nestava assim. Raspado e ensaboado, metido em panos limpos, melhorara um pouco<br \/>\no exterior. Mas era uma desgra\u00e7a por dentro. Convencia-me disso e receava<br \/>\nmover-me: a carca\u00e7a miser\u00e1vel n\u00e3o me suportaria. Vagaroso,<br \/>\nfui guardar na valise a encomenda in\u00fatil. E arriei na cama.<\/p>\n<p>O vizinho da direita, Castro Rebelo, cerimonioso, tratava-me por senhor,<br \/>\npara marcar dist\u00e2ncia. E eu, naturalmente, provinciano mesquinho, dava-lhe<br \/>\no t\u00edtulo de professor e falava pouco. Nessa manh\u00e3 Castro me<br \/>\nfez uma consulta estapaf\u00fardia: queria saber quando tinha sido publicado<br \/>\nn\u00e3o sei que livro. Refleti, consultei a minha profunda ignor\u00e2ncia,<br \/>\naventurei que, salvo erro, a obra tinha sa\u00eddo ali por volta do s\u00e9culo<br \/>\nXVI.<\/p>\n<p>&#8211; Ora no s\u00e9culo XVI! Eu queria saber o ano.<\/p>\n<p>Isso me esfriou a espinha, reduziu mais a consist\u00eancia do arcabou\u00e7o<br \/>\nfr\u00e1gil. Necess\u00e1rio mudar de lugar. Que seria de mim se o erudito,<br \/>\nminucioso, me perguntasse o m\u00eas, o dia, a hora, o minuto? Naquela manh\u00e3<br \/>\nCastro se achava de mau humor. Referindo-se \u00e0 pol\u00edtica nacional,<br \/>\natirou uma observa\u00e7\u00e3o absurda.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o compreendo, atalhei. Como se explica isso? &#8211; N\u00e3o se<br \/>\nexplica, volveu o professor.<\/p>\n<p>E largou um palavr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Quando, na hist\u00f3ria do Brasil, lhe aparecer um fato inexplic\u00e1vel,<br \/>\nprocure a raz\u00e3o dele entre as coxas de mulher. N\u00e3o se engana.<\/p>\n<p>Aludiu \u00e0 experi\u00eancia de 1935, furioso e estridente.<\/p>\n<p>&#8211; Parece que h\u00e1 algum exagero, aparteei. N\u00e3o \u00e9 tanto<br \/>\nassim.<\/p>\n<p>&#8211; Exagero? Ent\u00e3o o senhor n\u00e3o sabe onde vive? O senhor est\u00e1<br \/>\nno meio dos maiores canalhas deste pa\u00eds.<\/p>\n<p>O desaforo saiu com arrepio e gritos. Gikovate avizinhou-se: &#8211; Professor,<br \/>\nacalme-se.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 para a puta que o pariu. Voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 um<br \/>\nfilho da puta, como os outros.<\/p>\n<p>&#8211; Puxa! Que ferocidade! segredei ao m\u00e9dico. E afastei-me com ele.<\/p>\n<p>&#8211; A culpa foi minha, que o contrariei.<\/p>\n<p>&#8211; Fiz mal em meter-me na vida alheia, murmurou o judeu p\u00e1lido e encabulado.<br \/>\nN\u00e3o esperava aquela zanga. Est\u00e1 doente do ov\u00e1rio, sem<br \/>\nd\u00favida.<\/p>\n<p>Castro Rebelo excitava-se com rapidez incr\u00edvel e n\u00e3o tinha<br \/>\npapas na l\u00edngua: expandia-se em fortes desconchavos, indiferente ao<br \/>\nlugar, sem receio de atrair inimigos. N\u00e3o atra\u00eda: os companheiros<br \/>\nsuportavam as c\u00f3leras maci\u00e7as, que findavam logo.<\/p>\n<p>Andei \u00e0 toa de um lado para outro, folheei jornais. Ao cabo de meia<br \/>\nhora encontrei-o razo\u00e1vel e normal, em palestra com Lu\u00eds Lins<br \/>\nde Barros, como se nada houvesse acontecido. Admirei a palavra sossegada,<br \/>\nlenta. E ainda mais a mudan\u00e7a que percebi no interlocutor. Meses atr\u00e1s<br \/>\nesse mo\u00e7o me causara impress\u00e3o lastimosa. Modos sornas, o olhar<br \/>\nbaixo, mordia um sorriso insignificante e expressava-se em voz bamba e vazia.<br \/>\nQualquer pergunta o deixava perplexo. Arrastava-se nos cub\u00edculos do<br \/>\nPavilh\u00e3o como sombra, mosca-morta isenta de querer e pensar. Agora<br \/>\napresentava id\u00e9ias, questionava. A fala era mofina e branda, mas num<br \/>\ninstante o homem suprimia um ju\u00edzo firmado em observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nlonga. Retirou-se &#8211; e confessei o meu espanto: &#8211; \u00c9 estranho. Julguei<br \/>\nat\u00e9 hoje esse rapaz um imbecil. Castro deu uma gargalhada, chamou:<br \/>\n&#8211; Lu\u00eds, chegue c\u00e1, ou\u00e7a isto. E quando o outro voltou:<br \/>\n&#8211; Aqui o nosso amigo supunha que voc\u00ea era imbecil. &#8211; Mas ele est\u00e1<br \/>\ncerto, respondeu Lu\u00eds de Barros, mole e vago. Sou realmente um imbecil.<\/p>\n<p>&#8211; Para que finge? perguntei quase com raiva. Essa constante simula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeve fatigar.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 simula\u00e7\u00e3o, tornou baixinho o original<br \/>\npersonagem. Acredite, sou um imbecil.<\/p>\n<p>&#8211; Para o diabo.<\/p>\n<p>Afastei-me. Que precis\u00e3o tinha o homem de induzir a gente em erro?<br \/>\nSe tinha receio de comprometer-se, evitaria sem esfor\u00e7o os cochichos<br \/>\nrevolucion\u00e1rios isolando-se, como S\u00e9rgio, comunista a princ\u00edpio,<br \/>\ndepois trotskista, indeciso afinal, propenso a confusos estudos sobre feiti\u00e7os<br \/>\ndo Egito. Aquele engenho de ator, faculdade horr\u00edvel de mascarar-se,<br \/>\ndespersonalizar-se, aterrava-me. Procurei desanuviar-me na companhia de indiv\u00edduos<br \/>\nregulares. Ao centro, uma longa mesa, havia sempre alguns tabuleiros de xadrez.<br \/>\nPompeu Accioly apoderava-se de um, resolvia problemas dif\u00edceis, explicava<br \/>\na embasbacados pexotes os lances de partidas c\u00e9lebres. Perto, uma vitrola<br \/>\nmo\u00eda discos. Verg\u00edlio Benvenuto, o pijama aberto a exibir o<br \/>\npeito cabeludo, saracoteava, balan\u00e7ava a enorme gordura, amolecido<br \/>\ncom os sambas de Carmen Miranda.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 deliciosa, murmurava de olho aceso, como se visse a cantora.<\/p>\n<p>No Pavilh\u00e3o retra\u00eda-se, fugia \u00e0s conversas, e durante<br \/>\nsemanas foi apenas o advogado de Agildo. Ambientava-se na Sala da Capela.<br \/>\nManifestava rara per\u00edcia no jogo de crapaude referia-se a um penoso<br \/>\nex\u00edlio na Europa, efeito da bagun\u00e7a de S\u00e3o Paulo em 1932.<br \/>\nImitava a pron\u00fancia lisboeta com perfei\u00e7\u00e3o. Vivia atenazado<br \/>\npor imagens femininas. Sabendo-me de Alagoas, perguntou-me se conhecia uma<br \/>\nsigiraita rica, amiga de aventuras f\u00e1ceis.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, de vista. \u00c9 medonha, um estrepe.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 deliciosa, protestou Verg\u00edlio mordendo os bei\u00e7os.<br \/>\nDistra\u00ed-me ouvindo coisas desse g\u00eanero. Mas precisava sentar-me:<br \/>\nas pernas moviam-se com dificuldade nas t\u00e1buas movedi\u00e7as. Refugiei-me<br \/>\nno extremo da sala, onde alguns metros de mosaico me davam sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde firmeza. Apporelly, embrenhado na paci\u00eancia, arrumava cartas na mesinha<br \/>\nredonda; Moreira Lima, \u00e0 esquerda, tossia, pigarreava, dizia a algu\u00e9m<br \/>\npeda\u00e7os de sua extensa viagem pelo interior, na Coluna Prestes; \u00e0<br \/>\ndireita, Maur\u00edcio Lacerda riscava uma p\u00e1gina de livro, riscava<br \/>\nem demasia. Para que riscar tanto? Mais tarde acharia quase todas as linhas<br \/>\ncom riscos, e n\u00e3o descobriria nelas nenhum interesse.<\/p>\n<p>A narrativa de Moreira Lima chegava-me incompleta e rouca. Depois de falar<br \/>\na um chefe de tribo nu e emplumado, o int\u00e9rprete velho, meio selvagem,<br \/>\ndissera a Prestes: &#8211; &#8220;Gener\u00e1, tuxaua quer que voc\u00ea d\u00ea<br \/>\na ele fumo, cacha\u00e7a e dinheiro. Cacha\u00e7a e fumo pode dar, mas<br \/>\ndinheiro d\u00e1 para mim: caboclo brabo n\u00e3o tem que fazer com dinheiro.&#8221;<br \/>\nBororo estragado pela civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na cama de Maur\u00edcio Lacerda havia uma colcha de seda r\u00f3sea,<br \/>\nescandalizando os nossos len\u00e7\u00f3is \u00e1speros, as mantas de<br \/>\nl\u00e3 grosseira. Um tabique ao fundo. Cheguei-me a ele, descerrei uma<br \/>\nportinhola, vi um altar, velas queimadas, santos a esconder-se na igreja mudada<br \/>\nem pris\u00e3o. Fechei a porta, voltei a aperuar o xadrez, a entreter-me<br \/>\ncom as m\u00fasicas da vitrola. Embora a fome canina tivesse desaparecido,<br \/>\nalmocei e jantei. Mas \u00e0 hora do ch\u00e1 as pernas se negaram a descer<br \/>\na escada. Arriei na cama, a gemer, n\u00e3o consegui dormir.<\/p>\n<p>Apagaram-se as luzes. Os gemidos subiram, e assaltou-me a recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\nviva do hospital. Era assim que me comportava naqueles dias pavorosos, a barriga<br \/>\naberta, um peda\u00e7o de borracha a furar-me as entranhas. Imposs\u00edvel<br \/>\ncalar-me. Os gritos renovavam as torturas do hospital. N\u00e3o havia meio<br \/>\nde cont\u00ea-los. Castro Rebelo, Cascardo, Moura Carneiro e Orlando Melo,<br \/>\ndeitados nas camas pr\u00f3ximas, ficariam a noite acordados por minha causa.<br \/>\nA certeza disso me destru\u00eda. For\u00e7avam-me a perturbar o sono<br \/>\ndos outros. Suponho que essa miser\u00e1vel id\u00e9ia aumentava as dores.<br \/>\nErgui-me, capenguei at\u00e9 a saleta, ca\u00ed numa espregui\u00e7adeira.<br \/>\nUm guarda amparou-me: &#8211; Que \u00e9? Conhecendo-me os sofrimentos, andou<br \/>\nalgum tempo a sair e a entrar. Envolveu-me as pernas, colocou-as em cima de<br \/>\num tamborete, puxou uma cadeira, sentou-se junto a mim.<\/p>\n<p>Estava de vigil\u00e2ncia, \u00e0 porta, mas afastou-se dali dois metros<br \/>\npara fazer-me companhia. E entrou a conversar, lento, grave e enrugado. Pouco<br \/>\na pouco serenei, pude atentar nas palavras do homem. Resvalamos no di\u00e1logo.<br \/>\nEra portugu\u00eas, chamava-se Marques, tinha trinta anos de servi\u00e7o.<br \/>\nLevantava-se de quando em quando, trazia-me uma x\u00edcara de caf\u00e9.<br \/>\n&#8211; Obrigado, seu Marques. N\u00e3o se incomode.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! Beba. N\u00e3o me custa. Os senhores n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\npresos, s\u00e3o h\u00f3spedes. Janelas sem grades. Ent\u00e3o? As grades<br \/>\ns\u00e3o l\u00e1 embaixo. C\u00e1 em cima n\u00e3o h\u00e1 grades.<br \/>\nH\u00f3spedes. E n\u00f3s estamos aqui para servi-los.<\/p>\n<p>Esse disparate fez-me rir e afugentou a lembran\u00e7a do hospital: &#8211;<br \/>\nH\u00f3spedes \u00e0 for\u00e7a. Bonito.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Isso \u00e9 outra coisa. N\u00e3o sei da vida dos senhores l\u00e1<br \/>\nfora. Nem quero saber. Aqui s\u00e3o h\u00f3spedes.<\/p>\n<p>Major Nunes apareceu, estranhou ver-me desperto \u00e0 meia-noite, as<br \/>\npernas entrapadas: &#8211; Doente? &#8211; \u00c9. Deve ser falta de nutri\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUns quinze dias sem comer.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o h\u00e1 motivo para uma pessoa morrer de fome; disse<br \/>\no velho. A comida chega para todos. Eu ainda n\u00e3o recebi verba para<br \/>\nalimentar voc\u00eas. Os presos pol\u00edticos est\u00e3o sendo sustentados<br \/>\ncom a b\u00f3ia dos presos comuns. E o que temos d\u00e1 de sobra.<\/p>\n<p>&#8211; Onze mil-r\u00e9is por dia para a manuten\u00e7\u00e3o de um homem.<br \/>\nOuvi dizer. Na Col\u00f4nia Correcional n\u00e3o gastamos a d\u00e9cima<br \/>\nparte disso. E \u00e9ramos novecentos. Bom neg\u00f3cio a nossa morte.<\/p>\n<p>O diretor saiu, demorou-se um pouco no exame do longo dormit\u00f3rio.<br \/>\nAchou as coisas em ordem. Voltou, correu a vista pelos instrumentos da marcenaria<br \/>\nimprovisada e retirou-se. Nunca vi funcion\u00e1rio compenetrar-se tanto<br \/>\ndos seus deveres, sempre disposto a infringi-los. Parece que o regulamento<br \/>\nlhe servia para fazer tudo pelo avesso. Como um pai de fam\u00edlia bonach\u00e3o<br \/>\ne confiante, deixava ao alcance dos nossos instintos form\u00f5es, goivas,<br \/>\nescopros e martelos. N\u00e3o se conservaria no cargo, disse comigo. Na<br \/>\nDeten\u00e7\u00e3o haviam-nos tomado at\u00e9 cordas.<\/p>\n<p>Fugia-me o sono, mas provavelmente n\u00e3o me achava t\u00e3o mal como<br \/>\nsupunha no isolamento e no escuro, a rolar no colch\u00e3o e a gritar. Podia<br \/>\nficar im\u00f3vel, ouvir as hist\u00f3rias do guarda, a vida de criminosos<br \/>\nexaltados muitos anos antes na cr\u00f4nica policial. Curvado nas pranchas<br \/>\ndos cavaletes, Nemo Canabarro Lucas se embebia num grosso volume, \u00e0<br \/>\nluz curta da l\u00e2mpada envolta na pantalha de jornal. Com certeza se enchia<br \/>\nde matem\u00e1tica. Barulho de passos: Amadeu Amaral J\u00fanior andava<br \/>\ninquieto, surgia \u00e0 porta como um grande fantasma, desaparecia na sombra.<br \/>\nDormira o dia inteiro, nem tinha descido para as refei\u00e7\u00f5es;<br \/>\nhomem de imprensa, habituara-se a viver \u00e0 noite. Algu\u00e9m exigia<br \/>\nsil\u00eancio. Amadeu Amaral J\u00fanior n\u00e3o fazia caso disso. Sentava-se<br \/>\nafinal perto de Nemo, escrevia r\u00e1pido, como se estivesse numa reda\u00e7\u00e3o.<br \/>\nLevantava-se, ia procurar assunto no ruidoso passeio, novamente abancava,<br \/>\no grosso punho movia-se no papel. Marques narrava-me a exist\u00eancia dos<br \/>\npresidi\u00e1rios e conclu\u00eda: &#8211; Antigamente eles n\u00e3o tinham<br \/>\nessa liberdade que t\u00eam hoje. Fumam na presen\u00e7a de um guarda,<br \/>\nparecem donos disto.<\/p>\n<p>Ia buscar uma x\u00edcara de caf\u00e9, ajeitava-me nas pernas a manta,<br \/>\nvolvia \u00e0 id\u00e9ia suspensa.<\/p>\n<p>&#8211; Existia disciplina. Acabou-se a disciplina. Fumam na presen\u00e7a de<br \/>\num guarda. Est\u00e1 errado.<\/p>\n<p>Pretendi convenc\u00ea-lo de que estava certo; Marques n\u00e3o admitia<br \/>\nraz\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Quantos crimes se davam aqui por m\u00eas naquele tempo? &#8211; Alguns &#8211; E<br \/>\natualmente? &#8211; Ora! N\u00e3o se trata disso. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1<br \/>\ncrimes, \u00e9 verdade, mas precisamos disciplina.<\/p>\n<p>O \u00f3timo sujeito ganhara cabelos brancos e rugas no of\u00edcio<br \/>\ndesagrad\u00e1vel, e para ag\u00fcentar-se nele julgava necess\u00e1rio<br \/>\nexibir aspereza. Estendendo-me a x\u00edcara de caf\u00e9, perguntava<br \/>\ncom voz dura: &#8211; Est\u00e1 melhor? Essa incongru\u00eancia manteve-me acordado<br \/>\nv\u00e1rias horas. Amorteciam-se as dores; as lembran\u00e7as do hospital<br \/>\natenuavam-se. Adormeci pela madrugada.<\/p>\n<p>4<\/p>\n<p>A LEMBRAN\u00c7A, do hospital se agravava quando me abatia pregui\u00e7oso<br \/>\nno colch\u00e3o, de barriga para cima, a olhar os casebres do monte, os<br \/>\nindiv\u00edduos que subiam e desciam a ladeira vermelha. E o desejo me chegou<br \/>\nde narrar sonhos, doidice, rumor de ferros na autoclave, os gritos horr\u00edveis<br \/>\nde uma crian\u00e7a, um rosto sem olhos percebido na enfermaria dos indigentes<br \/>\ne as ronceiras pancadas de um rel\u00f3gio invis\u00edvel. J\u00e1 me<br \/>\nsurgira a id\u00e9ia de escrever isto. Voltava agora com insist\u00eancia.<br \/>\nNaquele tempo, no del\u00edrio, julgava-me dois. A parte direita n\u00e3o<br \/>\ntinha nada comigo e se chamava Paulo. Estava podre. Clemente Silveira poderia<br \/>\nfacilmente separ\u00e1-la de mim, serrar-me pelo meio, deixar o lado ruim<br \/>\nno m\u00e1rmore do necrot\u00e9rio, deixar o outro viver. Essa estupidez,<br \/>\nque me assaltara na Col\u00f4nia, regressava com for\u00e7a grande, impunha-se.<br \/>\nHomem sem olhos, pavorosa m\u00e1scara de esparadrapo, horas a pingar fanhosas<br \/>\nnum rel\u00f3gio invis\u00edvel; o pensamento louco de conseguir desdobrar-me,<br \/>\nenviar ao cemit\u00e9rio a banda estragada. Porcaria. Enfim a necessidade<br \/>\nurgente de escrever dois contos: pegar de qualquer jeito o rel\u00f3gio<br \/>\ndo hospital e Paulo. Seriam contos? N\u00e3o sei fazer contos: precisava<br \/>\nlivrar-me daquilo, afastar o hospital g dormir. Dormir, n\u00e3o ver o morro<br \/>\nque me perseguia, barracos ocultos em folhagem, o burro e a cabra im\u00f3veis,<br \/>\ntranseuntes a descer, a subir Desenrosquei-me, desci da cama, tirei da valise<br \/>\nos petrechos fornecidos por Moreira, o guarda mo\u00e7o de olho vivo, fui<br \/>\nsentar-me bambo a mesa do centro, junto a baralhos sujos e tabuleiros de xadrez.<\/p>\n<p>&#8211; Uma partida de crapaud, Jorge, convidavam na vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Jorge El-Jaick, um \u00e1rabe esgrouviado, concordava sempre &#8211; Sim, podemos.<\/p>\n<p>Nunca lhe ouvi outras palavras depois do convite. Nascido no Brasil, perfeitamente<br \/>\nnacional, j\u00e1 nem sabia que era filho de mouros. Perto dele, de Pompeu<br \/>\nAccioly, entrei a mexer no rel\u00f3gio do hospital, vagaroso. Vagarosos,<br \/>\neu e o rel\u00f3gio. O tique-taque se arrastava com pregui\u00e7a, e a<br \/>\ncomposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m rolava assim. Duas, tr\u00eas linhas,<br \/>\nsuspens\u00e3o e bocejos. Desviava-me da folha, distra\u00eda-me ouvindo<br \/>\nos coment\u00e1rios de Pompeu Accioly ao jogo famoso de Capablanca. Imergia<br \/>\ndepois no trabalho, jogava com esfor\u00e7o no papel o homem sem olhos,<br \/>\nm\u00e1scara de esparadrapo vista na enfermaria dos indigentes, a agonia<br \/>\nda crian\u00e7a, os ferros na autoclave, del\u00edrios, a impertin\u00eancia<br \/>\ndo mecanismo roufenho e desconchavado. Francisco Mangab\u00e9ira, Chiquinho<br \/>\n\u00c9galit\u00e9, como dizia Gikovate, mudava os discos da vitrola. Os<br \/>\nirm\u00e3os Cunha respondiam a consultas de Hermes Lima. O professor Le\u00f4nidas<br \/>\nResende, inerte e silencioso, escondia-se debaixo do len\u00e7ol e do sorriso<br \/>\ncort\u00eas e frio. Amadeu Amaral J\u00fanior, descoberto e quase nu, ressonava.<br \/>\nA composi\u00e7\u00e3o me trazia enorme cansa\u00e7o, deve ter rolado<br \/>\nbem uma semana. De quando em quando emperrava. Certa manh\u00e3, depois<br \/>\ndo caf\u00e9, esbaforia-me nela enquanto em roda se espalhava uma desordenada<br \/>\nmistura de conversas. Com a m\u00e3o a pesar-me no ombro, Agildo Barata<br \/>\nseguia a escrita.<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 contra mim? disse algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Suspendi a tarefa, divisei a figurinha do major Nunes junto \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o vale a pena. De repente chegam as transfer\u00eancias<br \/>\ne perco a minha literatura sobre cadeias. J\u00e1 me aconteceu isso duas<br \/>\nvezes. Estou arrumando coisas inocentes.<\/p>\n<p>&#8211; Esteve aqui um sujeito. Fulano. Conhece? Filho da puta. Em poucos meses<br \/>\nconseguiu liberdade e atacou-me num livro. Esses jornalistas s\u00e3o uns<br \/>\nfilhos das putas.<\/p>\n<p>&#8211; O homem andou com acerto, respondi. \u00c9 o que vou fazer quando estiver<br \/>\nsolto. N\u00e3o h\u00e1 l\u00e1 fora o risco de nos tomarem os originais.<\/p>\n<p>O velho riu grosso. E, falando s\u00e9rio: &#8211; Como \u00e9 que voc\u00ea<br \/>\npode escrever no meio deste barulho, o Agildo pendurado num ombro? Saiu, voltou,<br \/>\nchamou-me \u00e0 saleta, abriu uma porta vizinha a escada, introduziu-me<br \/>\nnuma oficina de encaderna\u00e7\u00e3o. Todas as mesas estavam ocupadas,<br \/>\nm\u00e1quinas e oper\u00e1rios moviam-se ruidosos.<\/p>\n<p>&#8211; O servi\u00e7o acaba \u00e0s tr\u00eas horas, explicou major Nunes.<br \/>\nTraga para c\u00e1 os seus tro\u00e7os \u00e0 tarde. Chame um faxina,<br \/>\nmande fazer caf\u00e9 no ma\u00e7arico, tranque-se. Ningu\u00e9m o incomoda.<br \/>\nFica em sossego at\u00e9 a noite.<\/p>\n<p>Agradeci. Boa id\u00e9ia. Mas despedi-me inquieto. E a inquieta\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuitas vezes reapareceu no futuro. Ser-me-ia poss\u00edvel, recebendo o<br \/>\nfavor e os sorrisos, ver com imparcialidade aquela personagem? Se tentasse<br \/>\ndescrev\u00ea-la, talvez propendesse a exagerar-lhe a benevol\u00eancia.<br \/>\nParecia-me injust\u00e0 a acusa\u00e7\u00e3o do jornalista, embora n\u00e3o<br \/>\na tivesse lido. Isso me perturbava, levava-me a buscar ref\u00fagio em pensamento<br \/>\noposto, dizer a mim mesmo que um funcion\u00e1rio da pol\u00edcia nenhum<br \/>\nobs\u00e9quio nos fazia em ser lhano e com certeza se mos trava generoso<br \/>\npara amolecer-nos, comprar-nos. Inclinava-me ent\u00e3o a escusar a dureza<br \/>\ndo jornalista. Se exib\u00edssemos ao p\u00fablico as amabilidades imprevistas,<br \/>\nacabar\u00edamos por tornar a cadeia um lugar desej\u00e1vel, mostrar\u00edamos<br \/>\nconiv\u00eancia infeliz com os nossos opressores. Da vaga narrativa que me<br \/>\nflutuava no esp\u00edrito resolvia-me a afastar uma bondade suspeita. Reconsiderei-<br \/>\na falta de sinceridade estragaria sem d\u00favida a hist\u00f3ria. Afinal<br \/>\no bom trato que me concediam ressaltava os dias intermin\u00e1veis de jejum,<br \/>\no sono curto no ch\u00e3o molhado, a ficha amarela, as grosserias de selvagens<br \/>\nb\u00eabedos. Imposs\u00edvel esquecer o por\u00e3o do Manaus e a Col\u00f4nia<br \/>\nCorrecional. Achava-me doente, arrasado, vivia com uma teimosa resist\u00eancia.<br \/>\nO guarda zarolho confessara abertamente o desejo de matar-nos. A oferta do<br \/>\nmajor, as x\u00edcaras de caf\u00e9 e a paci\u00eancia do velho Marques<br \/>\nn\u00e3o eliminavam esse des\u00edgnio sinistro. Nem atenuavam s\u00e9rias<br \/>\namola\u00e7\u00f5es que ali existiam, apesar de estarmos agora em ambiente<br \/>\ncivilizado. Era penosa a conviv\u00eancia inevit\u00e1vel com pessoas diferentes<br \/>\nde mim; certas opini\u00f5es afligiam-me; a voz \u00e1spera de Amadeu<br \/>\nAmaral J\u00fanior intensificava-me as dores. E atenazava-me o receio de<br \/>\nvoltar \u00e0 Col\u00f4nia, viajar outra vez no por\u00e3o do Manaus.<\/p>\n<p>Duas semanas, ausentes os encadernadores, ia isolar-me na sala atravancada,<br \/>\napossava-me de uma banca pulverosa e embrenhava-me a custo em sofrimentos<br \/>\nvelhos. Findei o &#8220;Rel\u00f3gio do Hospital&#8221; e o desvario que me<br \/>\ndesdobrara. Iniciei o terceiro conto. Mas esse era lastimoso e pingava com<br \/>\nextrema dificuldade. Realmente a composi\u00e7\u00e3o marchava sem dar-me<br \/>\ninteresse; absorvia-me nela para livrar-me das conversas tumultuosas, de confid\u00eancias<br \/>\ne planos insensatos Des\u00e2nimo. Pouco prov\u00e1vel quererem os jornais<br \/>\nbrasileiros aceitar-me a colabora\u00e7\u00e3o. Restava-me passar os contos<br \/>\na minha mulher, pedir-lhe que os datilografasse e enviasse a uma revista argentina.<br \/>\nPagar-me-iam setenta e cinco pesos por eles.<\/p>\n<p>5<\/p>\n<p>AS VISITAS se realizavam \u00e0s sextas-feiras, no Cassino, pavimento superior<br \/>\nde uma casa vizinha \u00e0 nossa pris\u00e3o. Embaixo, uma sapataria,<br \/>\nde rendimento escasso. Perto, a alfaiataria, dirigida pelo Sousa, um tipo<br \/>\ndigno em excesso. Metido na roupa ignominiosa, onde as listras, muito lavadas<br \/>\ncom \u00e1cido c\u00edtrico, desmaiavam, tinha a grave compostura de um<br \/>\nnegociante pr\u00f3spero; e exibia um desinteresse na verdade estranho naquele<br \/>\nmeio. Os faxinas me pareciam gananciosos, estavam sempre a receber pequenas<br \/>\ngorjetas. Com vergonha de apresentar no Cassino a roupa machucada, suja, um<br \/>\nrasg\u00e3o consider\u00e1vel no forro do palet\u00f3, pedi ao alfaiate<br \/>\nque a endireitasse. O homem fez o trabalho e recusou o pagamento.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! teimei surpreso e um pouco humilhado. Fa\u00e7a o favor de<br \/>\ndizer quanto devo.<\/p>\n<p>E estendi-lhe uma nota. Sousa nem a olhou: deu-me as costas, a apresentar<br \/>\nzanga. Sexta-feira, logo depois do caf\u00e9, inici\u00e1vamos os arranjos.<br \/>\nLargavam-se os trapos ordin\u00e1rios, amarravam-se gravatas, o barulho<br \/>\ndos tamancos se reduzia, na saleta indiv\u00edduos se barbeavam com exagerada<br \/>\npressa. Melhor\u00e1vamos o exterior e \u00edamos debru\u00e7ar-nos<br \/>\n\u00e0s janelas, examinar o p\u00e1tio, esperando que algum parente ou<br \/>\namigo conseguisse avistar-nos antes da hora. Os casais separados viviam a<br \/>\nimaginar encontros de exce\u00e7\u00e3o, forjavam-se pretextos engenhosos<br \/>\npara obt\u00ea-los. O diretor se deixava engabelar \u00e0s vezes: &#8212; Qual<br \/>\n\u00e9 a mentira de hoje? Festa de anivers\u00e1rio, viagem, profiss\u00e3o?<br \/>\nA companheira de um oficial ia ao extremo nesses embustes.<\/p>\n<p>&#8211; Eu alcan\u00e7o tudo, confessou em voz baixa na secretaria. O major<br \/>\n\u00e9 uma banana.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m escutou a frase, e o cochicho infeliz chegou aos ouvidos do<br \/>\nmajor, que desabafou mais tarde: &#8211; Que \u00e9 que vem pedir? Qual \u00e9<br \/>\na mentira? Voc\u00ea me chamou banana.<\/p>\n<p>A criatura empalideceu e tremeu.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu lhe vou provar&#8230; tornou o velho furioso. Preste aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVou provar&#8230; que sou uma banana mesmo. Que \u00e9 que voc\u00ea quer?<br \/>\nAo meio-dia escancaravam-se os port\u00f5es, e de longe perceb\u00edamos<br \/>\nsaias em quantidade e uma algazarra alegre. Poucos homens. Desc\u00edamos<br \/>\nr\u00e1pidos, em alvoro\u00e7o, pass\u00e1vamos grades de ferro, sub\u00edamos<br \/>\numa escada, entr\u00e1vamos no Cassino. E os pare! se formavam nas filas<br \/>\nde cadeiras juntas aos muros longos. Esquec\u00edamos o ambiente e resval\u00e1vamos<br \/>\nnos casos pessoais; era como se n\u00e3o estiv\u00e9ssemos em p\u00fablico.<br \/>\nExpans\u00f5es \u00edntimas, beijos, segredos a rolar num burburinho.<br \/>\nEra enervante o ruidoso prazer minguado. Uma linda rapariga se altru\u00e7ava<br \/>\na um tenente. Pobrezinha. Casara no m\u00eas anterior \u00e0 desordem,<br \/>\ne s\u00f3 podia ver o marido naquela situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria.<br \/>\nSuspiros, solu\u00e7os estrangulados, espasmos lentos.<\/p>\n<p>A pequena dist\u00e2ncia dos amores incompletos zumbiam conversas ponderadas,<br \/>\narrastavam-se neg\u00f3cios, projetos realiz\u00e1veis num futuro cheio<br \/>\nde incertezas. Numa dessas reuni\u00f5es, a primeira ou segunda em que figurei,<br \/>\nminha mulher apresentou-me alguns livros e uma revista liter\u00e1ria. Abri<br \/>\num volume, Usina, de Jos\u00e9 Lins, vi uma imprud\u00eancia: dedicat\u00f3ria<br \/>\na mim. Al\u00e9m disso o escritor me remetia um desconchavo a l\u00e1pis<br \/>\nna capa da revista. Bobagem. Rasguei a p\u00e1gina, meti-a no bolso, joguei<br \/>\num conselho: &#8211; Diga a Jos\u00e9 Lins que deixe de ser burro. Dedicar-me<br \/>\no romance quando eu estava na Col\u00f4nia foi temeridade, n\u00e3o valia<br \/>\na pena arriscar-se. E enviar bilhetes \u00e9 doidice. Se ele quiser falar<br \/>\ncomigo, mande um recado por seu interm\u00e9dio. Coisa verbal, nada de escrita.<br \/>\nPedacinhos de papel como este, caindo em certas m\u00e3os, trazem uma pessoa<br \/>\npara c\u00e1. E n\u00e3o nos interessa a companhia de Jos\u00e9 Lins.<\/p>\n<p>Estive a folhear os outros volumes: novelas estrangeiras oferecidas por<br \/>\nJos\u00e9 Ol\u00edmpio, Mar Morto, de Jorge Amado, a Luz no Subsolo, de<br \/>\nL\u00facio Cardoso. Pensei nos meus originais encalhados na tipografia,<br \/>\npedi not\u00edcias: &#8211; E essa droga n\u00e3o vai para diante? Ainda em<br \/>\nprovas. Diabo. As amostras de fic\u00e7\u00e3o nacional pesavam-me nos<br \/>\njoelhos e me traziam desassossego. Estaria o editor com receio de comprometer-se,<br \/>\nperder a tiragem? A infeliz id\u00e9ia me frustrava o desejo de emendar<br \/>\nos contos: n\u00e3o seriam publicados. E a pregui\u00e7a tinha desculpa.<br \/>\nRetirei-me num des\u00e2nimo est\u00fapido. Aquela hora Verg\u00edlio<br \/>\nBenvenuto arrimava-se a uma janela, estendia os olhos \u00e0s visitantes<br \/>\nque regressavam, desapareciam no lusco-fusco al\u00e9m dos port\u00f5es.<br \/>\nFicara ali de pijama, a chatear-se, p\u00f4r discos na vitrola, remoer lembran\u00e7as.<br \/>\nVia saias distantes e expandia a irrita\u00e7\u00e3o numa aspereza segredada:<br \/>\n&#8211; Malucos. Excitam-se, excitam as mulheres \u00e0 toa e v\u00eam deitar-se.<br \/>\nElas saem para a rua num fogo dos diabos. Precisam corne\u00e1-los, est\u00e1<br \/>\nvisto. De quem \u00e9 a culpa? Deles.<\/p>\n<p>Abandonei o conto chinfrim, meti-me alguns dias na leitura dos romances.<br \/>\nEstranhei ver Jos\u00e9 Lins afastar-se da bagaceira e do canavial, tratados<br \/>\ncom seguran\u00e7a e vigor em obras anteriores, discorrer agora sobre Fernando<br \/>\nde Noronha, onde nunca esteve. Um cr\u00edtico absurdo o julgara simples<br \/>\nmemorialista, e o homem se decidia a expor imagina\u00e7\u00e3o envolvendo-se<br \/>\nem mat\u00e9ria desconhecida. Pessoa de tanta experi\u00eancia, de tanto<br \/>\nexame, largar fatos observados, aventurar-se a narrar coisas de uma pris\u00e3o<br \/>\ndistante. O indiv\u00edduo livre n\u00e3o entende a nossa vida al\u00e9m<br \/>\ndas grades, as oscila\u00e7\u00f5es do car\u00e1ter e da intelig\u00eancia,<br \/>\ndesespero sem causa aparente, a covardia substitu\u00edda por atos de coragem<br \/>\ndoida. Somos animais desequilibrados, fizeram-nos assim, deram-nos almas incompat\u00edveis.<br \/>\nSentimos em demasia, e o pensamento j\u00e1 n\u00e3o existe: funciona<br \/>\ne p\u00e1ra. Querem reduzir-nos a m\u00e1quinas. M\u00e1quinas perras<br \/>\ne sem azeite. Avan\u00e7amos, recuamos &#8211; nem sabemos para onde nos levam.<br \/>\nZanguei-me com Jos\u00e9 Lins. Porque se havia lan\u00e7ado \u00e0quilo?<br \/>\nO admir\u00e1vel romancista precisava dormir no ch\u00e3o, passar fome,<br \/>\nperder as unhas nas sindic\u00e2ncias. A cadeia n\u00e3o \u00e9 um brinquedo<br \/>\nliter\u00e1rio. Obtemos informa\u00e7\u00f5es l\u00e1 fora, lemos<br \/>\nem excesso, mas os autores que nos guiam n\u00e3o-jejua ram, n\u00e3o<br \/>\nsufocaram numa t\u00e1bua suja, meio doidos. Raciocinam bem, tudo certo.<br \/>\nQue adianta? Imposs\u00edvel conceber o sofrimento alheio se n\u00e3o<br \/>\nsofremos. O come\u00e7o do livro de Jos\u00e9 Lins torturava-me. Quase<br \/>\ndesejei ver o meu amigo preso. Recusei a afirma\u00e7\u00e3o de que a<br \/>\npresen\u00e7a dele n\u00e3o nos interessava. Se ele estivesse conosco,<br \/>\njogaria no papel com firmeza as nossas almas aflitas, a morte a pingar, dias,<br \/>\nmeses, em por\u00f5es, em c\u00e1rceres \u00famidos. Lembrei-me das<br \/>\npalavras de Medina, alguns dias antes da minha viagem \u00e0 Col\u00f4nia.<br \/>\nSeria bom eu viver l\u00e1, observar aquilo. Engano. Arrasara-me, o espelho<br \/>\nme exibira um vagabundo monstruoso &#8211; e as notas arrumadas com lentid\u00e3o<br \/>\nestavam debaixo da esteira, na cama suja de hemoptises. Esfor\u00e7o perdido.<br \/>\nN\u00e3o me seria poss\u00edvel reconstituir Ga\u00facho, Para\u00edba,<br \/>\nseu Mota, guardas \u00e9brios, o diretor magro, Alfeu a dar pontap\u00e9s<br \/>\nnum molambo de gente. Isso era trabalho para Jos\u00e9 Lins, retratista<br \/>\nde almas, capaz de movimentar uma sociedade. Senhores de engenho, trabalhadores<br \/>\ndo eito, sinh\u00e1s-mo\u00e7as, negras velhas mais ou menos escravas,<br \/>\nmexiam-se \u00e0 vontade na obra s\u00e9ria do romancista excelente. Bueiros,<br \/>\ncaminhos, \u00e1rvores e rios, canaviais. E pessoas vivas. Tudo vivo. A<br \/>\ntia medonha, as primas, estavam vivas. E os lugares tamb\u00e9m viviam.<br \/>\nAgora, comprometido e c\u00e9lebre, dava-nos coisas mortas. Para que, Deus<br \/>\ndo c\u00e9u? A exig\u00eancia do leitor ou do cr\u00edtico n\u00e3o<br \/>\ndeveria lev\u00e1-lo a desonestidade. Afastei a palavra dura. N\u00e3o<br \/>\nera bem isso. Ingenuidade, sim, ingenuidade. Esper\u00e1vamos dele a experi\u00eancia.<br \/>\nSurpreendi-me a dizer coisas tolas: &#8211; Somos sapateiros. Devemos fazer sapatos,<br \/>\nbons sapatos. Para que fabricar pulseiras e brincos? Sapateiros, bons sapatos.<\/p>\n<p>Os meus sapatos ainda apresentavam n\u00f3doas de lama vermelha. Necess\u00e1rio<br \/>\nengrax\u00e1-los. Essa mistura me desagradava. Finda a leitura, mandei encadernar<br \/>\no volume, com a id\u00e9ia de recolher aut\u00f3grafos nele. Perdidas<br \/>\nas notas, essas letras me avivariam recorda\u00e7\u00f5es mais tarde.<br \/>\nSem d\u00favida muitos caracteres se diluiriam no tempo, casos mi\u00fados<br \/>\nse esfumariam sem deixar vest\u00edgio, mas talvez resistissem as personalidades<br \/>\nfortes, a\u00e7\u00f5es firmes, um di\u00e1logo, um gesto inesperado.<br \/>\nE iniciei a colheita por Walter Pompeu. Walter agarrou a pena, encheu uma<br \/>\np\u00e1gina de frases am\u00e1veis. Folheio agora o livro, e reaparecem-me,<br \/>\nlogo no come\u00e7o, Agildo Barata, Castro Rebelo, Gikovate, Cascardo, Moura<br \/>\nCarneiro, Maur\u00edcio Lacerda, Karacik. As assinaturas v\u00e3o at\u00e9<br \/>\na folha 257 Algumas s\u00e3o curiosas. A de Moreira Lima hesita e ondula,<br \/>\nquase ileg\u00edvel; a de Apporelly encerra-se numa oval; a de Francisco<br \/>\nMangabeira est\u00e1 feita em duas linhas. Consegui mandar o romance ao<br \/>\nPavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios, e recebi os nomes dos companheiros de<br \/>\nl\u00e1, Benjamin Snaider, Rodolfo Ghioldi, S\u00e9rgio, Val\u00e9rio<br \/>\nKonder, os dois Campos da Paz, Lacerd\u00e3o. Realmente numerosas criaturas<br \/>\ndesbotam hoje no papel e dentro de mim. Outras surgem com relevo. A folha<br \/>\n249, Agr\u00edcola Baptista, o Tamandu\u00e1, aparece-me de volta da Col\u00f4nia,<br \/>\nmeio nu, sujo, magro, barbudo, o cr\u00e2nio liso. Um sujeito causoume surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe aqui o seu jameg\u00e3o, Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Barros pegou o livro, esteve alguns minutos a percorr\u00ea-lo,<br \/>\nminucioso, e perguntou com voz dormente: &#8211; Para qu\u00ea? &#8211; Ora essa! Quero<br \/>\nguardar uma lembran\u00e7a de voc\u00eas. O homem recusou-se: &#8211; N\u00e3o<br \/>\ntopo. N\u00e3o caio em provoca\u00e7\u00e3o. Ressenti-me: &#8211; Qual \u00e9<br \/>\na provoca\u00e7\u00e3o? Maluqueira.<\/p>\n<p>&#8211; Sou prudente, n\u00e3o sei para que \u00e9 que isso vai servir. &#8211;<br \/>\nEst\u00e1 bem. N\u00e3o insisto.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Barros continuou a eximir-se, afetando excessivo receio O<br \/>\nfingimento, dias antes percebido, me enjoava.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o devemos confiar em ningu\u00e9m. \u00c9 preciso termos<br \/>\nprud\u00eancia.<\/p>\n<p>Ficou dez minutos a explicar-se, mordendo um sorriso, mastigando as palavras.<br \/>\nEm seguida escreveu o nome com muita clareza na folha 25.<\/p>\n<p>6<\/p>\n<p>AMADEU AMARAL J\u00fanior anunciou-me ruidoso uma novela. Era nisso que<br \/>\ntrabalhava \u00e0 noite. Durante o dia roncava, branco e nu, mordido pelos<br \/>\npercevejos. Erguia-se, arreliava-se \u00e0 toa, dizia algumas inconveni\u00eancias,<br \/>\ntornava a deitar-se. Depois das onze mexia-se para um lado e para outro, os<br \/>\np\u00e9s enormes batendo os tamancos sujos com grande barulho. N\u00e3o<br \/>\ndormia nem deixava os vizinhos dormirem. Nunca vi pessoa t\u00e3o ego\u00edsta.<br \/>\nAbeirava-se da mesa, sentava-se num banco, mastigava fatias de salame, escrevia<br \/>\njunto a Nemo Canabarro Lucas, uma est\u00e1tua curvada sobre o comp\u00eandio.<\/p>\n<p>Novela. Resignei-me a escutar a novela; realmente com m\u00e1 vontade,<br \/>\nlembrando-me do conto lido meses atr\u00e1s no Pavilh\u00e3o. Naquele<br \/>\ntempo grassava na cadeia uma epidemia liter\u00e1ria. Os militares abandonavam<br \/>\na t\u00e1tica e a estrat\u00e9gia, pendiam para a fic\u00e7\u00e3o;<br \/>\nAgildo Barata e \u00c1lvaro de Sousa tinham feito romances, na verdade relat\u00f3rios<br \/>\nsobre a luta no 3.\u00b0 Regimento. O de Agildo n\u00e3o era muito ruim,<br \/>\ntinha pelo menos um cap\u00edtulo razo\u00e1vel. A hist\u00f3ria de<br \/>\nAmadeu Amaral J\u00fanior deixou-me enervado e besta. N\u00e3o estava<br \/>\nmal escrita &#8211; nem bem escrita. N\u00e3o havia nela um chav\u00e3o &#8211; nem<br \/>\numa id\u00e9ia. Pronomes no lugar direito, o pequeno vocabul\u00e1rio<br \/>\nem ordem, nada mais. Uma dessas coisas que nos d\u00e3o azia e contra\u00e7\u00f5es<br \/>\nno diafragma. Que diabo queria Amadeu Amaral J\u00fanior dizer com aquilo?<br \/>\nFinda a leitura, fiquei em sil\u00eancio, de cabe\u00e7a baixa, procurando<br \/>\num elogio em v\u00e3o, est\u00fapido. Nunca me comporto assim. No desagrad\u00e1vel<br \/>\npapel de juiz em casos de literatura incipiente, reduzo os defeitos e exagero<br \/>\nas coisas boas que porventura existam. Arrisco alguns conselhos, depois me<br \/>\ndesdigo posso estar enganado Os principiantes n\u00e3o devem confiar nas<br \/>\nminhas fracas luzes obtidas com vagar no interior e na solid\u00e3o. Posso<br \/>\nestar em erro. Enfim n\u00e3o sou franco. E \u00e9 bom n\u00e3o sermos<br \/>\nfrancos, suponho. Ignoramos as possibilidades da criatura que nos exibe um<br \/>\ntrabalho ordin\u00e1rio. Hoje \u00e9 tr\u00f4pega e amanh\u00e3 d\u00e1<br \/>\num salto. Desenvolvemo-nos em saltos imprevis\u00edveis. Ali\u00e1s os<br \/>\nautores novos querem apenas enganar-se quando nos exigem sinceridade: valorizam<br \/>\na aprova\u00e7\u00e3o infal\u00edvel, n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a<br \/>\npara andar e buscam arrimar-se numa autoridade imagin\u00e1ria. Se f\u00f4ssemos<br \/>\nhonestos, zangar-se-iam. Fizeram obra excelente e desejam que afirmemos isto.<br \/>\nA novela de Amadeu Amaral J\u00fanior deixou-me em horr\u00edvel constrangimento<br \/>\nVazia e de vacuidade contagiosa. A minha frieza levou o rapaz \u00e0 c\u00f3lera.<br \/>\nJ\u00e1 se havia comportado assim no Pavilh\u00e3o, ao mostrar-me o conto<br \/>\nEra um escritor, e as opini\u00f5es dos outros n\u00e3o tinham para ele<br \/>\nnenhuma import\u00e2ncia. Era um escritor. Causava-me desgosto a repeti\u00e7\u00e3o<br \/>\nburlesca e estridente; n\u00e3o me aparecia o m\u00ednimo desejo de oferecer<br \/>\nao mo\u00e7o uma generosa mentira. A vaidade inconceb\u00edvel mantinha-me<br \/>\nem reserva hostil. Uma d\u00favida me chegou: seria a composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque me desagradava ou o homem? A voz \u00e1spera me arranhava os ouvidos<br \/>\ncomo lixa, era-me imposs\u00edvel ouvi-Ia sem irritar-me, e isto me prejudicava<br \/>\no julgamento. Considerava-me injusto. A novela n\u00e3o prestava, mas talvez<br \/>\nn\u00e3o fosse t\u00e3o m\u00e1 como eu supunha. Apesar disso, a impress\u00e3o<br \/>\nruim permaneceu e afastou-me da criatura que se gabava. Um escritor. A pimponice<br \/>\nrid\u00edcula me aborrecia. Perfeito exemplar da ra\u00e7a n\u00f3rdica,<br \/>\nsuperior. Olhos azuis, m\u00fasculos rijos, p\u00e9s enormes nos tamancos<br \/>\nsujos, barulhentos. E era aquilo: nem me dava a oportunidade comum de largar,<br \/>\ncondescendente, alguns adjetivos malucos.<\/p>\n<p>Fui refugiar-me no fim da sala, na firmeza do mosaico, perto do altar. O<br \/>\nsoalho inst\u00e1vel fazia-me pensar no por\u00e3o do Manaus. E as palavras<br \/>\nde Amadeu Amaral J\u00fanior agravavam-me as dores, feriam-me, entravam-me<br \/>\nnos ossos como pregos. Os meus ossos decompunham-se; esta miser\u00e1vel<br \/>\nimpress\u00e3o continuava a perseguir-me; ia mudar-me numa trouxa bamba,<br \/>\nsem esqueleto. Agora j\u00e1 n\u00e3o era preciso mexer-me em pranchas<br \/>\nmovedi\u00e7as; pisando terreno firme, consolidava-me um pouco. Maur\u00edcio<br \/>\nLacerda riscava sem descanso as p\u00e1ginas da brochura. Sentado \u00e0<br \/>\nmesinha redonda, Apporelly arrumava cartas. Homem capaz, n\u00e3o se resolvia<br \/>\na parir o excelente livro que tinha na cabe\u00e7a, desperdi\u00e7ava<br \/>\nas longas horas consultando o baralho. Ainda uma vez considerei-me injusto,<br \/>\ndesarrazoado. Como julgar boa a obra de Apporelly, ainda n\u00e3o escrita?<br \/>\nDevia ser boa. Possibilidade, probabilidade. A de Amaral era horr\u00edvel,<br \/>\nn\u00e3o porque estivesse mal escrita, mas porque n\u00e3o tinha nada<br \/>\nno interior. Havia-me sujeitado a ouvi-Ia sem aten\u00e7\u00e3o, predisposto<br \/>\na julg\u00e1-la ruim E inclinava-me a supor que a obra de Apporelly fosse<br \/>\nmagn\u00edfica, obra ainda vagamente planeada. Pensamentos anteriores, dois,<br \/>\ntr\u00eas anos anteriores \u00e0s t\u00e1buas carunchosas, davam-me a<br \/>\ncerteza de que ele faria, se quisesse, coisa s\u00e9ria. Surpreendi-me a<br \/>\ncomparar essa coisa s\u00e9ria, nebulosa, com outra realizada, a hist\u00f3ria<br \/>\nchinfrim de Amadeu Amaral J\u00fanior, ouvida com desgosto. Achava-me a<br \/>\ncomparar trabalhos inexistentes, alargava-me em opini\u00f5es sobre eles.<br \/>\nComo estabelecer a compara\u00e7\u00e3o? E enraivecia-me ver Apporelly<br \/>\ngastar precioso tempo no exame de cart\u00f5es pintados e Amadeu consumir<br \/>\nnoites em cima dos cavaletes, enchendo papel com tolices, mordendo fatias<br \/>\nde salame e aperreando Nemo Canabarro Lucas, embrenhado na matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>7<\/p>\n<p>WALTER POMPEU cortou-me o almo\u00e7o e o jantar. Sentava-se \u00e0 minha<br \/>\ndireita, na primeira mesa. E, percebendo o horror que me inspira o homossexualismo,<br \/>\niniciou um jogo desonesto no refeit\u00f3rio. O horror se atenuava naquele<br \/>\nmeio; a relatividade moral se impunha, era absurdo pretender que indiv\u00edduos<br \/>\nsujeitos anos e anos ao regime carcer\u00e1rio procedessem como pessoas<br \/>\nlivres. Necess\u00e1rio justific\u00e1-los. Mas isso ficava em explica\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne afastava-me dos corpos imundos com excessivo nojo. Esfor\u00e7ava-me por<br \/>\nvencer a repugn\u00e2ncia. Poderia dizer onde estava o normal, o anormal?<br \/>\nCerto dia, barbeando-me na saleta, vi no espelho o mulato Pernambuco, faxina,<br \/>\nem namoro com um rapazola penteado e l\u00e2nguido. Pernambuco acendia os<br \/>\nolhos, cofiava os bigodes, um sorriso largo a espalhar-se em toda a cara;<br \/>\no outro, encostado a uma janela, cruzava as m\u00e3os no peito, inclinava<br \/>\na cabe\u00e7a, afetando maneiras pudicas e virginais. O safadinho percebeu<br \/>\nque estava sendo observado e entrou a fazer sinais ao amigo, apontando-me.<br \/>\nNessa altura Moreira entrou, viu a manobra e desatinou: &#8211; Cachorro, sem-vergonha.<\/p>\n<p>0 casal escapuliu-se, desceu a escada.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! intervim. Para que esses excessos? N\u00e3o h\u00e1 motivo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um sem-vergonha, insistiu o guarda. Tentei defender o rapaz.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 ele s\u00f3. Qual \u00e9 a propor\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos pederastas aqui? &#8211; Nem sei. Uns noventa por cento, mais ou menos. &#8211; Ent\u00e3o?<br \/>\nQuase tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas esse \u00e9 um porco. &#8211; Tudo \u00e9 porcaria.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor. A porcaria desse \u00e9 pior que as outras. A severidade<br \/>\nme surpreendeu. Moreira admitia o principal e recusava a min\u00facia. Afinal<br \/>\no procedimento daqueles indiv\u00edduos explicava-se pela necessidade, mas<br \/>\nseria preciso imaginar que tamb\u00e9m os atos do garoto, julgados porcos<br \/>\nsem nenhuma explica\u00e7\u00e3o, deviam constituir uma necessidade para<br \/>\nele. Comentei isso com v\u00e1rios companheiros, esfor\u00e7ando-me por<br \/>\ndesculpar os infelizes e sem poder ocultar uma profunda avers\u00e3o. Gikovate<br \/>\nadmirava-se. N\u00e3o estava provado que Pernambuco e os outros fossem infelizes.<br \/>\nE o nojo violento era absurdo: eu dava a impress\u00e3o de inocent\u00e1-los<br \/>\ne conden\u00e1-los. Distanciando-me deles, o normal seria conservar-me indiferente.<br \/>\nWalter Pompeu tirou vantagem das minhas disposi\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias.<br \/>\nAbancava a meu lado e, antes de iniciarmos a refei\u00e7\u00e3o, indicava<br \/>\no mo\u00e7o que nos servia: &#8211; Olhe a cara do Aleixo. Coitado, \u00e9 um<br \/>\ninfeliz. Voc\u00ea tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Ficava um instante a comiserar-se, hip\u00f3crita. E, em seguida: &#8211; Voc\u00ea<br \/>\ntem coragem de comer isso? Vou jurar que os talheres est\u00e3o sujos de<br \/>\nesperma.<\/p>\n<p>Rosnando improp\u00e9rios, desviava-me do. prato, nauseado: &#8211; Canalha.<br \/>\nFilho de uma puta.<\/p>\n<p>Walter ria como um doido. Consumia voraz a ra\u00e7\u00e3o, depois se<br \/>\napoderava da minha. Tentei localizar-me noutra mesa, Walter amea\u00e7ou<br \/>\nacompanhar-me. E a mudan\u00e7a n\u00e3o valia nada, explicou: todos os<br \/>\ncopeiros eram como Aleixo. Essa brincadeira se fazia uma, duas vezes por semana.<br \/>\nErguia-me zangado, voltava \u00e0 sala; a zanga desaparecia logo: ao cabo<br \/>\nde meia hora a pirra\u00e7a de caserna me causava riso. Atra\u00eda-me<br \/>\nna verdade aquele esp\u00edrito alegre, de uma alegria ruidosa e inconveniente,<br \/>\namigo de provoca\u00e7\u00f5es ing\u00eanuas e engra\u00e7adas. De<br \/>\nordin\u00e1rio s\u00f3 se aproximava de mim para dizer qualquer coisa<br \/>\ndesagrad\u00e1vel. Expandia-se, azuretado e sonso &#8211; Aqui voc\u00ea est\u00e1<br \/>\nbem. Amigos, gente da sua classe, muitos literatos: Le\u00f4nidas, Castro<br \/>\nRebelo, Hermes, Gikovate, Apporelly, est\u00e1 bem. Mas n\u00e3o demora.<br \/>\nCom certeza v\u00e3o mand\u00e1-lo de novo para a Col\u00f4nia. Isto<br \/>\n\u00e9 uma suspens\u00e3o. Vai ganhar for\u00e7a para morrer devagar.<br \/>\nA comida \u00e9 boa. Indignava-me: &#8211; Tenha vergonha. Como fala em comida,<br \/>\nse me toma o prato e me deixa de est\u00f4mago vazio? Preciso alimentar-me,<br \/>\nWalter, estou arrasado.<\/p>\n<p>Walter fingia condoer-se: &#8211; \u00c9 o diabo. Afinal voc\u00ea engordou.<br \/>\nN\u00e3o come porque tem nojo do Aleixo. Mas est\u00e1 bem. As conversas<br \/>\ndo Castro, seu vizinho, s\u00e3o magn\u00edficas, aprendemos com elas.<br \/>\nSabe o que ele me disse? Aqui todos t\u00eam derrapagens sexuais. A sua.<br \/>\n..<\/p>\n<p>&#8211; Qual \u00e9 a minha, Walter, na opini\u00e3o de Castro Rebelo? Sou<br \/>\nhomossexual? &#8211; N\u00e3o. Ele acha que voc\u00ea \u00e9 um depravado com<br \/>\nmulheres. Admite excessos horr\u00edveis.<\/p>\n<p>Atirava palavr\u00f5es cabeludos: &#8211; Foi o que ele me disse &#8211; Espere, Walter,<br \/>\ninterrompi quando o oficial me falou assim pela primeira vez. Vou tirar isso<br \/>\na limpo.<\/p>\n<p>E avizinhei-me de Castro Rebelo. Nas pausas das minhas dores, entretivera-me<br \/>\na falar com ele a respeito das anomalias existentes na cadeia. Os atos me<br \/>\npareciam an\u00f4malos por exercer-se entre indiv\u00edduos do mesmo sexo,<br \/>\nmas se se realizassem entre pessoas de sexo diferente, n\u00e3o seriam an\u00f4malos.<br \/>\nCastro concordara. E n\u00e3o buscamos raz\u00f5es para isso. Dias depois,<br \/>\nnum grupo, hav\u00edamos tocado o mesmo assunto. Eu sustentara a id\u00e9ia,<br \/>\ncontra a opini\u00e3o geral. Castro me apoiara: &#8211; &#8220;Sem d\u00favida.<br \/>\nNum dos casos existe desvio de sentimento; no outro surge um sentimento novo.&#8221;<br \/>\nN\u00e3o era o que eu pensava: esquecia-me dos sentimentos. Apenas o contato<br \/>\nde homem me produzia enj\u00f4o. O h\u00e1bito nacional de nos abra\u00e7armos<br \/>\nde leve \u00e9 o simples aperto de m\u00e3o me davam desgosto. Ao sentir<br \/>\nnos dedos um ombro suado, retra\u00eda-me cheio de asco: precisava lav\u00e1-los.<br \/>\nContudo o suor da mulher me excitava e envolvia Recordava-me da nossa palestra,<br \/>\nchegando-me a Castro Rebelo.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado. O Walter me transmitiu agora a sua classifica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDisse onde o professor me colocou. Podia ser pior.<\/p>\n<p>Castro Rebelo fechou a cara: &#8211; Isso \u00e9 mentira de Walter. N\u00e3o<br \/>\nfalei no seu nome. Walter \u00e9 um potoqueiro.<\/p>\n<p>E, noutro tom: &#8211; Ali\u00e1s o senhor n\u00e3o nega. Afastei-me rindo.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e3o mand\u00e1-lo para a Col\u00f4nia, insistia Walter Pompeu.<br \/>\nEsteja certo. Quando melhorar, embarca para a ilha Grande. Ou para Fernando<br \/>\nde Noronha, num por\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Bobagem. N\u00e3o tenho processo.<\/p>\n<p>&#8211; Com processo, havia a esperan\u00e7a de ser absolvido. Como est\u00e1,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 jeito: vai para a ilha Grande. Punha-me a refletir: &#8211;<br \/>\n\u00c9. Talvez seja o nosso fim.<\/p>\n<p>&#8211; Nosso uma ova. O seu, o dos outros paisanos. Eu sou oficial do ex\u00e9rcito.<br \/>\nComigo n\u00e3o mexem.<\/p>\n<p>&#8211; Nessa pilh\u00e9ria h\u00e1 realmente uma convic\u00e7\u00e3o,<br \/>\num engano. Voc\u00eas, milicos, s\u00e3o incorrig\u00edveis. Guardam<br \/>\na pros\u00e1pia que tinham na caserna.<\/p>\n<p>Essas fuma\u00e7as iam dissipar-se em breve, mas por enquanto os militares<br \/>\nainda n\u00e3o se julgavam demitidos. Vestiam fardas, e nas assinaturas<br \/>\ndeixadas no romance, dias atr\u00e1s, muitos haviam conservado os postos:<br \/>\ncapit\u00e3o Mo\u00e9sia Rolim; Jos\u00e9 Gay da Cunha, segundo-tenente<br \/>\nde avia\u00e7\u00e3o; \u00c1lvaro Francisco de Sousa, capit\u00e3o<br \/>\ndo Terceiro Regimento, na Praia Vermelha; capit\u00e3o Jos\u00e9 Leite<br \/>\nBrasil; Joaquim Santos, segundo-tenente do Ex\u00e9rcito Popular Nacional<br \/>\nRevolucion\u00e1rio. Certamente alguns esperavam tornar ao servi\u00e7o.<br \/>\nA chegada de S\u00f3crates Gon\u00e7alves esfriou-os um pouco. S\u00f3crates<br \/>\nnos apareceu magro e sujo, com os punhos feridos: viajara muitos dias em caminh\u00e3o,<br \/>\nos bra\u00e7os amarrados. Contou-me a sua pequena aventura chinfrim. Conseguira<br \/>\npassar a fronteira e fora agarrado no Paraguai. Recebendo ordem para varrer<br \/>\na pris\u00e3o, recusara-se, digno. Tinha gra\u00e7a um oficial do ex\u00e9rcito<br \/>\nbrasileiro servir de faxina \u00e0 pol\u00edcia de um pa\u00eds vagabundo.<br \/>\nSuportara uma chuva de pancadas e resolvera abandonar a resist\u00eancia,<br \/>\npegar a vassoura.<\/p>\n<p>&#8211; Eu andava cheio de preconceitos idiotas, explicou-me s\u00e9rio. Julgava-me<br \/>\ncapit\u00e3o. Deixei essa fantasia e varri.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos na cal\u00e7ada estreita do refeit\u00f3rio, \u00e0<br \/>\nsombra de uma \u00e1rvore, olhando o p\u00e1tio ex\u00edguo, onde uns<br \/>\nvinte rapazes faziam gin\u00e1stica. A direita, o muro alto; \u00e0 esquerda,<br \/>\nnas celas, um fervilhar de corti\u00e7o. As grades n\u00e3o se fechavam<br \/>\ndurante o dia, e gente se movimentava sem cessar, dos cub\u00edculos para<br \/>\na Sala da Capela. A escada velha se abalava com forte rumor, s\u00f3 \u00e0<br \/>\nnoite repousava. Conclu\u00edda a narrativa, S\u00f3crates examinou o<br \/>\nmuro, atento, como se o quisesse medir; deteve-se um instante nos cub\u00edculos,<br \/>\nna porta que nos separava da Casa da Ordem; voltou a correr o muro com a vista;<br \/>\nmergulhou os dedos na barba ruiva, muito crescida: &#8211; Precisamos arranjar meio<br \/>\nde sair daqui.<\/p>\n<p>A barba o disfar\u00e7ara algum tempo, era uma esp\u00e9cie de m\u00e1scara.<br \/>\nMas n\u00e3o servira: S\u00f3crates estava preso e varrera uma pris\u00e3o<br \/>\nno Paraguai.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Preciso fugir. N\u00e3o fico, n\u00e3o me submeto. Preciso fugir<br \/>\nde qualquer modo. J\u00e1 pensou nisso? &#8211; Fugir? N\u00e3o. Como? N\u00e3o<br \/>\npensei. Fugir como? Pretende escalar este muro? &#8211; N\u00e3o pretendo coisa<br \/>\nnenhuma. N\u00e3o. Mas de qualquer modo tenho de sair. Voc\u00ea tem processo?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Sou um pobre-diabo.<\/p>\n<p>&#8211; Por isso fala assim. Mas eu vou ag\u00fcentar pena dura. Preciso fugir.<br \/>\nQual \u00e9 o meio? &#8211; Sei l\u00e1. Nunca pensei na fuga. E l\u00e1 fora<br \/>\nas coisas est\u00e3o piores que aqui. Na opini\u00e3o dos nossos companheiros,<br \/>\no \u00fanico lugar onde existe um pouco de liberdade \u00e9 a cadeia.<\/p>\n<p>Viver uma pessoa a esconder-se, com medo, sem achar trabalho, \u00e9 horr\u00edvel.<\/p>\n<p>S\u00f3crates n\u00e3o se convenceu.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho de sair de qualquer jeito.<\/p>\n<p>Era uma id\u00e9ia fixa: durante semanas voltou a ela v\u00e1rias vezes.<br \/>\nUma sexta-feira entrou no Cassino, mudado, quase irreconhec\u00edvel: trajava<br \/>\n\u00e0 paisana e tinha raspado a cara.<\/p>\n<p>Esteve a conversar com a mulher. A hora de se despedirem, deu-lhe o bra\u00e7o<br \/>\ne retirou-se como um dos outros visitantes. Passou diversos port\u00f5es.<br \/>\nA marosca se evidenciou na secretaria, e S\u00f3crates foi encafuar-se no<br \/>\ncub\u00edculo. Mas esse desastre n\u00e3o lhe matou os planos de evas\u00e3o.<\/p>\n<p>8<\/p>\n<p>DURANTE o dia achava-me quase bem, chegava a esquecer as dores, mas a friagem<br \/>\nda noite me alu\u00eda, renovava o pensamento infeliz de que os ossos se<br \/>\ndecompunham. O receio de incomodar os vizinhos arrastava-me \u00e0 saleta,<br \/>\njogava-me \u00e0 espregui\u00e7adeira. O velho Marques, \u00e1spero<br \/>\ne enrugado, n\u00e3o perdia a paci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Vai ficar bom, afirmava enrolando-me as pernas, oferecendo-me a x\u00edcara<br \/>\nde caf\u00e9.<\/p>\n<p>Aproximava a cadeira, repetia a vida de criminosos importantes e a disciplina<br \/>\nantiga.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o v\u00e1 julgar, disse-me, que estou aqui ajeitando as suas<br \/>\npernas porque tenho bom cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 engano. Fa\u00e7o<br \/>\nisto por interesse.<\/p>\n<p>&#8211; Que interesse tem o senhor? perguntei surpreso. N\u00e3o tenho nada<br \/>\npara lhe dar.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje n\u00e3o tem. Mas eu sei l\u00e1 se o m\u00eas vindouro o senhor<br \/>\nvai ser ministro? Esse disparate fazia-me rir e esquecer o sofrimento: &#8211; Que<br \/>\nid\u00e9ia foi essa? &#8211; Tenho trinta anos de servi\u00e7o e vi muita coisa.<br \/>\nDr. Fulano e dr. Sicrano, figur\u00f5es no governo, foram nossos h\u00f3spedes.<br \/>\nAmanh\u00e3 rebenta uma revolu\u00e7\u00e3o e o Minist\u00e9rio sai<br \/>\ndaqui. Se o senhor for ministro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 um absurdo, seu Marques. Sou pequeno domais e nenhuma revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nme eleva.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei. O Minist\u00e9rio pode sair daqui.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu estarei longe dele, homem de Deus. Olhe que dormi nas esteiras<br \/>\nda Col\u00f4nia Correcional, entre vagabundos e malandros. Jogaram-me na<br \/>\nSala da Capela por acaso.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei. Ignoro a sua vida, e \u00e9 bom n\u00e3o me falar<br \/>\nnela, que n\u00e3o lhe fa\u00e7o perguntas. Se chegar a ministro&#8230; A<br \/>\nteimosia causava-me hilaridade.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente, insistia o funcion\u00e1rio grave. Se chegar, hei de<br \/>\nter precis\u00e3o de um favor seu. E o senhor se lembra desta conversa e<br \/>\ndiz: &#8211; &#8220;O velho Marques, quando eu estava doente na Sala da Capela, me<br \/>\ndava algumas x\u00edcaras de caf\u00e9. N\u00e3o \u00e9 mau sujeito.&#8221;<br \/>\nJ\u00e1 v\u00ea que tenho interesse. Uma reflex\u00e3o desalentou-me<br \/>\no riso. O guarda realmente desconhecia as minhas possibilidades, mas enxergava<br \/>\nali uma loteria e era am\u00e1vel com todos n\u00f3s, esperando acertar<br \/>\nnum bilhete premiado. Tinha raz\u00e3o. Numa reviravolta pol\u00edtica<br \/>\nHermes Lima, Castro Rebelo e Cascardo recuperariam talvez a import\u00e2ncia,<br \/>\npoderiam ser \u00fateis a Marques. A excelente criatura ignorava isso e<br \/>\nera am\u00e1vel com todos: &#8211; &#8220;Se o senhor chegar a ministro&#8230;&#8221;<br \/>\nExpandia-se: &#8211; N\u00e3o sei nem quero saber da sua vida. E n\u00e3o lhe<br \/>\nvou fazer perguntas, que n\u00e3o mere\u00e7o confian\u00e7a, \u00e9<br \/>\nclaro: sou da pol\u00edcia. N\u00e3o me diga nada. Se eu souber qualquer<br \/>\ncoisa, sou obrigado a falar. Aceite o conselho de um homem da pol\u00edcia.<br \/>\nFeche-se, esconda-se. Se tem alguma culpa, n\u00e3o deixe escapar uma palavra.<br \/>\nDesconfie de todos. De mim, dos outros guardas, dos.faxinas. O senhor est\u00e1<br \/>\ncercado de espi\u00f5es. Mas desconfie principalmente dos seus companheiros.<br \/>\nTodos os dias sai daqui um relat\u00f3rio dizendo o que os senhores fazem.<br \/>\nUm relat\u00f3rio, compreende? Eu sou o portador. Hoje pela manh\u00e3,<br \/>\nali na mesa dos jornais (indicou as t\u00e1buas onde Nemo Canabarro Lucas<br \/>\nestudava matem\u00e1tica e Amadeu Amaral J\u00fanior comia salame e redigia<br \/>\na novela chinfrim), o senhor levantou o bra\u00e7o e fechou o punho aos<br \/>\nhomens do banho de sol, na Casa de Deten\u00e7\u00e3o. Lembra-se? Lembrava-me.<br \/>\nDepois do caf\u00e9, interrompendo a leitura dos jornais, entretivera-me<br \/>\na olhar o terra\u00e7o familiar, a gin\u00e1stica, esfor\u00e7ando-me<br \/>\npor distinguir rostos conhecidos: Surgira a batina de um padre. Diabo. Tinham<br \/>\nlevado para ali at\u00e9 padres. Que estupidez! A rea\u00e7\u00e3o estava-se<br \/>\nprejudicando. Vozes confusas. Cem metros, duzentos metros. Imposs\u00edvel<br \/>\ndeterminar a dist\u00e2ncia. Percebiam-se as figuras, peda\u00e7os de figuras<br \/>\nque se misturavam. Campos da Paz Filho evidenciava-se por causa da gordura<br \/>\ndo vulto enorme; o resto era massa indistinta. Um sujeito, por detr\u00e1s<br \/>\ndo eclesi\u00e1stico, entregava-se a uma pantomima, fazendo cruzes no ar<br \/>\ne batendo nos peitos. Homens gritavam erguendo os punhos. Da mesa dos jornais<br \/>\nalguns responderam com o mesmo gesto.<\/p>\n<p>&#8211; Lembra-se? &#8211; Mais ou menos. Devo ter levantado o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois isso foi contado no relat\u00f3rio de hoje, disse Marques. Eu n\u00e3o<br \/>\nestava de servi\u00e7o \u00e0quela hora e n\u00e3o podia adivinhar que<br \/>\no senhor tinha feito sinais \u00e0 gente do Pavilh\u00e3o.<\/p>\n<p>Soube \u00e0 tarde, quando li os pap\u00e9is. N\u00e3o lhe disse que<br \/>\nsou o portador? J\u00e1 v\u00ea que tenho motivo para lhe dar conselho.<br \/>\nEsteve um minuto em sil\u00eancio, depois acrescentou: &#8211; E se eu lhe dissesse<br \/>\nquem manda esses relat\u00f3rios, o senhor nem acreditava. Nenhuma suspeita.<br \/>\n\u00c9 isto. O senhor se abre com um amigo, e o que diz vai direitinho \u00e0<br \/>\npol\u00edcia.<\/p>\n<p>Realmente n\u00e3o me abria: era-me imposs\u00edvel qualquer revela\u00e7\u00e3o,<br \/>\npois me faltavam segredos. E em geral as conversas me chateavam. Sucedia darem<br \/>\n\u00e0s minhas palavras sentido estranho, responsabilizavam-me com freq\u00fc\u00eancia<br \/>\npor id\u00e9ias absurdas. Se tentava explicar-me, envolvia-me num cipoal<br \/>\nde equ\u00edvocos. Al\u00e9m disso n\u00e3o havia jeito de habituar-me<br \/>\n\u00e0 g\u00edria dos rapazes que ainda viviam com um p\u00e9 na caserna<br \/>\ne juntavam pe\u00e7as de roupas civis e fardamentos. Referindo-se a c\u00e9rebro,<br \/>\nfalavam em cr\u00e2nio. E tiravam da\u00ed um verbo estapaf\u00fardio,<br \/>\ncraniar, equivalente a estudar. Apareciam-me em grupos, atentos, rabiscando<br \/>\npeda\u00e7os de papel, craniando assuntos obscuros em debates cochichados.<br \/>\nAs vezes se elevava do burburinho uma aprova\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica:<br \/>\n&#8211; &#8220;Batatal. Craniou batatalmente&#8221;. Essa linguagem feria-me os ouvidos<br \/>\ne afastava-me dos militares. A erudi\u00e7\u00e3o de Castro Rebelo me<br \/>\ncausava medo, e talvez se haja associado \u00e0s minhas dores para retirar-me<br \/>\nda cama, jogar-me \u00e0 saleta.<\/p>\n<p>No meio heterog\u00eaneo, cheio de express\u00f5es t\u00e9cnicas e<br \/>\nfrases obscenas, raros indiv\u00edduos me prendiam a aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAgradava-me escutar os gracejos de Apporelly, fragmentos das viagens longas<br \/>\ndo bacharel feroz, projetos liter\u00e1rios de Hermes Lima. Tamb\u00e9m<br \/>\nme dava prazer a fala engrolada, r\u00e1pida, baixa, de Gikovate. O judeu<br \/>\npassava os dias a ler, os \u00f3culos de m\u00edope juntos \u00e0 p\u00e1gina.<br \/>\nPreso \u00e0s id\u00e9ias gerais, esfor\u00e7ava-se por n\u00e3o deformar<br \/>\num pensamento. A exatid\u00e3o rigorosa era motivo para ele de longos rodeios:<br \/>\nn\u00e3o queria enganar-se. A minha ignor\u00e2ncia revoltava-o. Abria<br \/>\num livro, rolava um portugu\u00eas \u00e1spero, gutural, abundante em rr.<\/p>\n<p>&#8211; Leia em franc\u00eas, Gikovate. Para que esse esfor\u00e7o? Leia como<br \/>\nest\u00e1 no papel.<\/p>\n<p>Gikovate n\u00e3o ligava import\u00e2ncia ao conselho e traduzia. Se<br \/>\nlhe faltava a express\u00e3o, largava peda\u00e7os na l\u00edngua estranha,<br \/>\nsem se deter, e prosseguia num portugu\u00eas avariado, misturando polaco,<br \/>\nalem\u00e3o, franc\u00eas, ingl\u00eas, o diabo. A fala pegajosa ligava-se<br \/>\n\u00e0s minhas orelhas, fazia-me c\u00f3cegas. Finda a exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nmultiling\u00fce, o homem se estendia em coment\u00e1rios minuciosos. A<br \/>\npalestra do judeu proporcionou-me censuras; notei em redor frieza e hostilidade,<br \/>\nenfim percebi que me consideravam trotskista. Esse ju\u00edzo era idiota<br \/>\ne n\u00e3o lhe prestei nenhuma aten\u00e7\u00e3o. A vaidade imensa de<br \/>\nTrotski me enjoava; o terceiro volume da autobiografia dele me deixara impress\u00e3o<br \/>\nlastimosa. Pimponice, egocentrismo, desonestidade. Mas isso n\u00e3o era<br \/>\nraz\u00e3o para inimizar-me com pessoas que enxergavam qualidades boas no<br \/>\npol\u00edtico malandro. A opini\u00e3o delas, nesse ponto, n\u00e3o<br \/>\nme interessava. Nunca tentei coagir-me, transigir. Desviava-me da personagem<br \/>\ndesagrad\u00e1vel, impertinente, buscava mat\u00e9ria que n\u00e3o me<br \/>\nirritasse.<\/p>\n<p>Expressava-me em voz alta, n\u00e3o era preciso ocultar-me; os bons desejos<br \/>\ndo velho Marques perdiam-se. O autor do relat\u00f3rio me examinaria sem<br \/>\nproveito. A curiosidade me verrumava. Quem seria o autor do relat\u00f3rio?<br \/>\nN\u00e3o sou curioso. E durante meses certos ind\u00edcios me traziam<br \/>\nquase a certeza de achar-me entre espi\u00f5es. Agora n\u00e3o havia ind\u00edcio:<br \/>\nofereciam-me coisa concreta, e um sujeito me dizia: &#8211; &#8220;Olhe que eu sou<br \/>\no portador.&#8221; Sem d\u00favida. Quem teria escrito o relat\u00f3rio?<br \/>\nEra bom n\u00e3o saber, mas a pergunta me espica\u00e7ava. Quem se teria<br \/>\nsujado naquela inf\u00e2mia? Com certeza um dos tipos que escorregavam como<br \/>\nsombras, paravam junto \u00e0s camas, sornas e bestas na apar\u00eancia,<br \/>\no ouvido \u00e0 escuta. As hist\u00f3rias simples de Moreira Lima, as<br \/>\nbrincadeiras de Apporelly, os planos liter\u00e1rios de Hermes, as divaga\u00e7\u00f5es<br \/>\nde Gikovate n\u00e3o lhe haviam fornecido nenhuma indica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas o movimento feito pela manh\u00e3 junto \u00e0 mesa dos jornais mencionava-se<br \/>\n\u00e0 tarde. Castro Rebelo me dissera: &#8211; &#8220;O senhor est\u00e1 entre<br \/>\nos maiores filhos das putas deste pa\u00eds.&#8221; A generaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nera absurda. Entretanto havia alguns. Havia pelo menos um. Quem seria? A pergunta<br \/>\nvoltava, embora me esfor\u00e7asse por arred\u00e1-la. De fato seria um<br \/>\ndesgosto conhecer aquele miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>9<\/p>\n<p>VOU ARRANJAR-LHE um bom lugar para escrever em sossego, disse-me o diretor<br \/>\numa noite. Aqui voc\u00ea n\u00e3o melhora. \u00c9 necess\u00e1rio<br \/>\ntratar-se.<\/p>\n<p>No dia seguinte, depois do caf\u00e9, levaram-me \u00e0 enfermaria,<br \/>\nrecinto acanhado, onde cub\u00edculos formavam c\u00edrculo em torno do<br \/>\nbanheiro, ordinariamente sem \u00e1gua, como notei de pois. Demorei-me numa<br \/>\nsaleta, chamaram-me ao consult\u00f3rio m\u00e9dico e um rapaz taciturno<br \/>\nexaminou-me, prescreveu inje\u00e7\u00f5es de vitamina e estricnina. Mas<br \/>\nn\u00e3o havia essas drogas na farm\u00e1cia: era preciso que eu mandasse<br \/>\ncompr\u00e1-las. Essa exig\u00eancia indignou-me. A encrenca nas pernas<br \/>\ntinha-me aparecido em conseq\u00fc\u00eancia do jejum na Col\u00f4nia; n\u00e3o<br \/>\nme achava preso por gosto e julgava descaramento for\u00e7arem-me a gastar<br \/>\ndinheiro com rem\u00e9dio. Aperreei-me, aludi a isso por meias palavras.<br \/>\nO mo\u00e7o n\u00e3o quis entender: a farm\u00e1cia estava desprovida.<br \/>\nResignei-me, furioso: encomendaria sexta-feira \u00e0 tarde as malditas<br \/>\nampolas a minha mulher.<\/p>\n<p>Sa\u00ed, desemboquei na pra\u00e7a redonda, fui observar uma segunda<br \/>\nentrada, oposta \u00e0 saleta, duas grades a limitai um pequeno v\u00e3o.<br \/>\nNo futuro aquele exagero de seguran\u00e7a espantou-me. Descerrava-se a<br \/>\ngrade externa, fechava-se, abria-se a interna, de novo se trancava, e o guarda<br \/>\nsurgia tilintando chaves. Precau\u00e7\u00e3o idiota num asilo de enfermos<br \/>\nincapazes de fuga. Na Sala da Capela homens v\u00e1lidos, desejosos de escapar-se,<br \/>\niam e vinham \u00e0 vontade. Encaminharam-me ao cub\u00edculo, o s\u00e9timo,<br \/>\nse n\u00e3o me engano. Uma cama de ferro, uma banca, um tamborete; ao fundo<br \/>\no lavat\u00f3rio e a latrina. Enfim, depois de tantos meses atribulados,<br \/>\nsenti o prazer de achar-me s\u00f3; j\u00e1 n\u00e3o me pulverizava,<br \/>\nmisturado a outras pessoas. As celas vizinhas estavam fechadas e silenciosas.<br \/>\nA dist\u00e2ncia, al\u00e9m do banheiro, no semic\u00edrculo feito entre<br \/>\nas duas passagens fronteiras, soavam gemidos, palavr\u00f5es, tosse rouca.<br \/>\nEstive horas a reler, a emendar os contos. Os primeiros, observa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo hospital, n\u00e3o eram muito ruins. O terceiro, a minha c\u00f3lera<br \/>\nimpotente de testemunha num processo, ao ser interrogado por um bacharel malandro,<br \/>\nainda n\u00e3o estava conclu\u00eddo. Hist\u00f3ria p\u00e9ssima.<br \/>\nEm dez linhas terminei-a.<\/p>\n<p>&#8211; Almo\u00e7o, gritaram perto.<\/p>\n<p>Onde? No refeit\u00f3rio comum, a sala estreita e longa, bancos sujos<br \/>\nladeando cavaletes. Para l\u00e1 me dirigi claudicando, fui sentar-me ao<br \/>\np\u00e9 de Walter, risonho e provocador: &#8211; N\u00e3o tem nojo de pegar<br \/>\nnesse talher sujo de esperma? Sumiu-se o apetite. Miser\u00e1vel. Arrastara-me,<br \/>\ntranspusera diversos port\u00f5es &#8211; e, ao sentar-me diante das pranchas<br \/>\nnuas, l\u00e1 vinha a lembran\u00e7a torpe: lou\u00e7a imunda. Aleixo<br \/>\nn\u00e3o lavava as m\u00e3os. Sempre aquilo. Mas antes o meu esfor\u00e7o<br \/>\nera pequeno: descer, subir uma escada. Agora andava duzentos metros, capenga,<br \/>\nsentava-me, repelia a comida cheio de n\u00e1usea. O est\u00f4mago vazio<br \/>\nrevoltava-se. Com os ossos a desfazer-se, precisava alimentar-me &#8211; e o vizinho<br \/>\nme desviava do prato, devorava faminto a minha ra\u00e7\u00e3o. Nunca<br \/>\na luta pela vida me pareceu t\u00e3o feia e t\u00e3o dura. Risonho, a<br \/>\npilheriar, Walter matava-me. E era imposs\u00edvel zangar-me com ele, estabanado,<br \/>\nalegre, de uma alegria insensata porque andava a anunciar-nos desgra\u00e7as.<br \/>\nReferia-se vaidoso a um livro que fizera: Cear\u00e1 Moleque.<\/p>\n<p>&#8211; As pontas da vanguarda&#8230; gritava Rollemberg na mesa pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Cochichos de trotskistas pouco adiante, repulsa ao otimismo do capit\u00e3o.<br \/>\nCear\u00e1 Moleque, t\u00edtulo esquisito. Repugn\u00e2ncia e fastio.<br \/>\nVida porca. Movera-me uns duzentos metros. Para que andar tanto? Recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos caminhos enlameados nos montes negros da ilha Grande.<\/p>\n<p>As pernas arrastavam-se a custo. Novamente no cub\u00edculo da enfermaria.<br \/>\nA porta era uma chapa de ferro e tinha uma abertura a metro e meio do solo,<br \/>\nvigia de vinte cent\u00edmetros, pouco mais ou menos. Por a\u00ed me podiam<br \/>\nfiscalizar de fora. A despesa exigida pelo m\u00e9dico ia desequilibrar-me<br \/>\no or\u00e7amento. Sangria razo\u00e1vel, na infeliz situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que me achava. Necess\u00e1rio publicar os contos. Afirmava isto num<br \/>\ndes\u00e2nimo completo, estirado na cama, as pernas frias envoltas na manta<br \/>\nde l\u00e3 grossa, olhando com desgosto os pap\u00e9is abandonados em<br \/>\ncima da mesa. N\u00e3o me decidia a retom\u00e1-los, continuar as emendas<br \/>\niniciadas pela manh\u00e3. Numa transfer\u00eancia, ver-me-ia coagido a<br \/>\natir\u00e1-los na \u00e1gua, escond\u00ea-los debaixo de uma esteira.<br \/>\nJulgava-me imprevidente, mas os bra\u00e7os estavam pesados e a cabe\u00e7a<br \/>\ndeserta. A m\u00edngua de recursos atenazava-me e n\u00e3o me dava nenhum<br \/>\nest\u00edmulo. Via-me reduzido a oferecer ao Coletivo dez tost\u00f5es<br \/>\npor semana, a d\u00e9cima parte da contribui\u00e7\u00e3o dos primeiros<br \/>\nmeses. O receio de que se pu\u00edsse o fundilho da cal\u00e7a torturava-me.<br \/>\nE deixara de comprar cigarros: resolvera-me a adquirir mortalhas e pacotes<br \/>\nde fumo barato na vendinha estabelecida por um preso comum junto \u00e0<br \/>\nCasa da Ordem.<\/p>\n<p>Tentei dissipar a morrinha, ergui-me com dificuldade, peguei o tamborete,<br \/>\nfui acomodar-me \u00e0 porta. A dois ou tr\u00eas passos, um sujeito moreno,<br \/>\np\u00e1lido e magro se abatia, sentado no ch\u00e3o, as costas arrimadas<br \/>\n\u00e0 parede. Puxei conversa, para matar tempo. O homem limitou-se a dar<br \/>\nresposta \u00e0s minhas perguntas, a voz baixa, vagarosa, entrecortada por<br \/>\nacessos roucos de tosse. Respirava mal e parecia economizar for\u00e7a;<br \/>\nespalhava em torno olhares vagos, indiferentes; sem d\u00favida tinha pregui\u00e7a<br \/>\nde falar. Chamava-se Vitorino. Levantou-se, foi a um cub\u00edculo afastado,<br \/>\nao cabo de minutos exibiu-me v\u00e1rios objetos de chifre: pulseiras, bot\u00f5es,<br \/>\ncaixas, enfeites mi\u00fados.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quer comprar? &#8211; Sim, vou ficar com uma lembran\u00e7a de<br \/>\nvoc\u00eas. \u00c9 trabalho seu? Vitorino fez um gesto de afirma\u00e7\u00e3o<br \/>\ntriste Escolhi uma esp\u00e1tula grosseira e romba.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto custa? &#8211; Dois mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>Fui deitar a l\u00e2mina entre as p\u00e1ginas de um volume, abri o porta-n\u00edqueis.<br \/>\nVitorino recebeu a moeda, rosnou um agradecimento e retirou-se com as bugigangas.<br \/>\nA tarde um velho robusto, de farda a esgar\u00e7ar, com remendos, a cabeleira<br \/>\nmagn\u00edfica, uma bela pasta de algod\u00e3o, anunciou-me o jantar.<br \/>\nE vendo-me em desalento, a encolher-me, insistiu am\u00e1vel e risonho.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado. N\u00e3o tenho fome.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel andar duzentos metros. O guarda velho afastou-se, as horas<br \/>\ncorreram. Um rapaz vermelho passou a pequena dist\u00e2ncia, assobiando forte,<br \/>\nseguro aos varais de um carrinho de m\u00e3o. Ignoro por onde entrou, por<br \/>\nonde saiu. O frio aumentou, as minhas desgra\u00e7adas canelas se entorpeceram,<br \/>\na sombra caiu dissolvendo-me os ossos. Consegui mexer-me, sair dali, estender-me<br \/>\nno colch\u00e3o, bambo, invertebrado. Enrolei-me na manta escura de l\u00e3;<br \/>\nos dentes chocavam-se, batendo castanholas. Hora do ch\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Muito agradecido.<\/p>\n<p>Rumor l\u00e1 fora, vozes femininas. O guarda velho veio trancar-me, disse<br \/>\nque duas mulheres tinham chegado. Nem procurei saber os nomes delas. A chapa<br \/>\nde ferro obstruiu-me a sepultura e a escurid\u00e3o me envolveu, quebrada<br \/>\napenas pela estreita faixa de luz procedente da vigia. Exaust\u00e3o. Um<br \/>\nsono doloroso agarrava-me, partia-se e nos intervalos freq\u00fcentes dele<br \/>\nchegavam-me gemidos, queixas, um coro forte de tosses.<\/p>\n<p>10<\/p>\n<p>DESPERTARAM-ME os chilros dos pardais, assobios e o rumor forte de rodas<br \/>\nem solo pedregoso. Esses ru\u00eddos vinham do exterior; no pequeno recinto<br \/>\ncircular havia sil\u00eancio. Com certeza o rapaz que na v\u00e9spera assobiava<br \/>\ne impelia o carrinho de m\u00e3o j\u00e1 come\u00e7ara o trabalho. Os<br \/>\np\u00e1ssaros se esgoelavam num barulho dos diabos.<\/p>\n<p>Ergui-me, avizinhei-me da pia. A fraqueza e o des\u00e2nimo tinham diminu\u00eddo<br \/>\num pouco. Ao findar a escova\u00e7\u00e3o e a lavagem, ouvi passos, tinir<br \/>\nde chaves, ling\u00fcetas a ranger nos encaixes. A chapa de ferro se descerrou,<br \/>\ne achei-me fora, arriado no tamborete, as canelas nuas expostas ao sol minguado,<br \/>\numa folha de papel sobre a mesinha onde a tinta branca rachava e descascava.<br \/>\nEscrevi algumas palavras.<\/p>\n<p>Um homem de zebra chegou-se com um tabuleiro, esperou que eu bebesse um<br \/>\ncaneco de leite, o caf\u00e9 enjoativo e adocicado, retirou a lou\u00e7a<br \/>\ne foi servir outros doentes. Aparecera-me um esbo\u00e7o de conto, mas n\u00e3o<br \/>\nhavia jeito de se fixarem as id\u00e9ias, a aten\u00e7\u00e3o desviava-se<br \/>\nda tarefa no ambiente novo, os dedos emperravam na segunda linha. A certeza<br \/>\nde haver feito uma hist\u00f3ria chinfrim me perseguia e desencorajava;<br \/>\nnenhum desejo de realizar outra. Apesar disso, obstinava-me em desenferrujar<br \/>\nos miolos resistentes. Necess\u00e1rio mandar qualquer coisa aos jornais.<br \/>\nQuereriam aceitar-me a literatura chocha? O \u00faltimo cub\u00edculo,<br \/>\njunto \u00e0 porta do fundo, se abriu; Nise da Silveira e Eneida, minhas<br \/>\nconhecidas da sala quatro, sa\u00edram. Um minuto depois, abancados \u00e0<br \/>\nmesa, resval\u00e1vamos em camaradagem a narrar os nossos achaques. Eneida<br \/>\nestava com os intestinos em cacos, o alimento ruim na Casa de Deten\u00e7\u00e3o<br \/>\narrasara-a. Nise tinha um desarranjo nervoso, conseq\u00fc\u00eancia prov\u00e1vel<br \/>\ndos interrogat\u00f3rios longos. A timidez agravava-se, fugia-lhe \u00e0s<br \/>\nvezes a palavra e um desassossego verdadeiro transparecia no rosto p\u00e1lido,<br \/>\nos grandes olhos moviam-se tristes. Recordei-me do nosso encontro meses antes.<br \/>\nAo chegar ao Pavilh\u00e3o, vira-me em atitude burlesca diante de Nise,<br \/>\ntrepado a uma janela, agarrando-me a var\u00f5es de ferro. Dois metros abaixo,<br \/>\nal\u00e9m de uma grade, ela me pedia not\u00edcias de Alagoas. O assunto<br \/>\nse esgotara logo e um constrangimento horr\u00edvel nos prendera. Est\u00e1vamos<br \/>\nagora \u00e0 vontade. A barba crescida, os tamancos e o pijama curto j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o me vexavam; habituara-me ao desleixo, s\u00f3 me lembrava de<br \/>\nraspar a cara uma vez por semana, \u00e0s sextas-feiras. Vendo o l\u00e1pis<br \/>\ne o papel, as mo\u00e7as quiseram retirar-se. Declarei-me est\u00fapido<br \/>\nem excesso e pedi-lhes que ficassem, contente por achar motivo para esquivar-me<br \/>\nao dever ma\u00e7ador. O guarda naquele dia era um portugu\u00eas moreno,<br \/>\nde fei\u00e7\u00e3o obtusa; passava com freq\u00fc\u00eancia perto de<br \/>\nn\u00f3s, vagaroso, e parecia muito ocupado em fiscalizar-nos. Exigimos<br \/>\nbanho. O sujeito deu uma ordem, os faxinas vieram carregados de latas.<\/p>\n<p>As minhas visitantes foram buscar toalhas e dirigiram-se ao banheiro. S\u00f3,<br \/>\nainda tentei arrumar vagos pensamentos rebeldes. Nada conseguindo, fui jogar<br \/>\nsobre a cama o l\u00e1pis e a folha in\u00fateis; achava-me na verdade<br \/>\numa besta, invejava Hermes Lima e Gikovate, capazes de estudar, escrever horas<br \/>\ne horas na pris\u00e3o, surdos ao rumor das controv\u00e9rsias numerosas.<br \/>\nO diretor apareceu, escanchou-se num tamborete e disse: &#8211; Cometi uma irregularidade<br \/>\nontem. &#8211; O senhor comete muitas, gracejei.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 rigorosamente proibido juntar homens com mulheres. E eu pus essas<br \/>\nduas mo\u00e7as aqui. Tive confian\u00e7a em voc\u00ea. &#8211; Muito obrigado.<\/p>\n<p>&#8211; Vai-me fazer uma promessa.<\/p>\n<p>E largou dois palavr\u00f5es obscenos. Dei uma gargalhada. Em linguagem<br \/>\ncorreta, ele desejava que as minhas companheiras n\u00e3o inspirassem nenhum<br \/>\ndesejo.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 um disparate, major. Prometo n\u00e3o realizar o ato.<br \/>\nMas n\u00e3o sentir desejo? O senhor \u00e9 bem exigente.<\/p>\n<p>O velho sacudia-se num largo riso, os olhinhos vivos brilhavam com ing\u00eanua<br \/>\nmal\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem, est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Esperou a volta das mulheres, esteve alguns minutos a conversar com elas<br \/>\ne despediu-se: &#8211; Cuidado com a promessa. &#8211; N\u00e3o se preocupe.<\/p>\n<p>Fui lavar-me. Aus\u00eancia de chuveiro. Apenas uma bacia de \u00e1gua<br \/>\nmorna e um caneco. Ao sair, encontrei Nise sentada \u00e0 mesa com dois<br \/>\nbaralhos.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea sabe jogar crapaud? Eu n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o vai aprender.<\/p>\n<p>E deu-me as primeiras li\u00e7\u00f5es do jogo que me iria desviai das<br \/>\nletras nacionais. Arranjando as cartas, fornecia-me as regras com paci\u00eancia,<br \/>\n\u00e0s vezes falava a um preso comum atento \u00e0 partida, negro pequeno,<br \/>\nde focinho impudente, inclinado a familiarizar-se. Embirrei com esse tipo,<br \/>\nabomino liberdades, mas Nise estava sempre a desenvolver-lhe a partida e a<br \/>\nfazer-lhe perguntas. Pai Jo\u00e3o apresentou-se e referiu-se, vaidoso,<br \/>\n\u00e0s suas habilidades: fora salteador e operara nas matas de Pira\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211; Trabalhava s\u00f3, Pai Jo\u00e3o? &#8211; S\u00f3, com Deus. Precisava<br \/>\num rev\u00f3lver, mais nada. A alguns metros de n\u00f3s, Vitorino se<br \/>\narrimava \u00e0 parede como no dia anterior. O guarda apareceu e foi repreend\u00ea-lo,<br \/>\na exagerar uma acusa\u00e7\u00e3o, insistente e \u00e1spero. Vitorino<br \/>\ndefendeu-se: n\u00e3o incorrera em nenhuma falta. De cabe\u00e7a baixa,<br \/>\nexprimia-se em voz dormente, como num solil\u00f3quio; fingia respeito,<br \/>\nmas n\u00e3o se calava. O outro, em zanga rija, invocou o regulamento.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o diabo, zumbiu Vitorino. Esse regulamento foi feito para mim.<br \/>\nPara mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A r\u00e9plica enfureceu o portugu\u00eas. Vitorino calmo, a vista no<br \/>\nch\u00e3o, continuava a repelir as censuras de manso. Nunca vi uma pessoa<br \/>\njustificar-se daquele modo. Acabou fatigando o advers\u00e1rio. Quando este<br \/>\nsaiu, Pai Jo\u00e3o, que se havia afastado, veio de novo aperuar o jogo,<br \/>\nabelhudo e risonho. N\u00e3o busquei dissimular a antipatia; as amabilidades<br \/>\nde Nise ao negro chateavam-me. A minha avers\u00e3o estaria hoje provavelmente<br \/>\nesquecida se tempo depois n\u00e3o me causasse um ligeiro transtorno, bom<br \/>\npara esclarecer v\u00e1rias coisas ali.<\/p>\n<p>O almo\u00e7o p\u00f4s fim \u00e0 primeira li\u00e7\u00e3o. Vieram<br \/>\nbandejas, a professora recolheu-se e marchei para o refeit\u00f3rio, capenga<br \/>\ne faminto. Consegui resistir \u00e0s pilh\u00e9rias de Walter, agora o<br \/>\napetite fechava-me os ouvidos.<\/p>\n<p>Regressei, passamos a tarde em cavaqueira animada: o crapaud nos desatara<br \/>\nas l\u00ednguas. Eneida n\u00e3o se expandia, um sofrimento vivo no rosto<br \/>\ndescorado. Sentava-se, dizia meia d\u00fazia de palavras, erguia-se inquieta,<br \/>\nfechava-se no cub\u00edculo; reaparecia, tornava a sentar-se, rugas na testa,<br \/>\nos bei\u00e7os contra\u00eddos num sorriso dif\u00edcil. Animava-se<br \/>\nde leve, n\u00e3o queria exibir-nos a dor e o desassossego. Nise palrava<br \/>\ncomo se nos conhec\u00eassemos de velha data; nenhum sinal do acanhamento<br \/>\nque nos tolhera \u00e0 minha entrada no Pavilh\u00e3o. Tinham-me dito<br \/>\ndela, anos atr\u00e1s: mulher de grande intelig\u00eancia e grande car\u00e1ter.<br \/>\nRenovei a frase, mencionando o autor.<\/p>\n<p>&#8211; Lamento isso, murmurou Nise com ar arrepiado. &#8211; Porqu\u00ea? &#8211; Porque<br \/>\ntenho dessa criatura uma opini\u00e3o muito diferente. N\u00e3o acho nenhum<br \/>\ncar\u00e1ter nela.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a e a mod\u00e9stia esgar\u00e7aram-se, num instante a<br \/>\nsevera disposi\u00e7\u00e3o alterou a fisionomia suave.<\/p>\n<p>&#8211; Puxa! N\u00e3o a imaginava capaz de tanta aspereza.<\/p>\n<p>&#8211; Que hei de fazer? Era prefer\u00edvel eu desconhecer o elogio. Enfim<br \/>\nesses ju\u00edzos f\u00e1ceis n\u00e3o podem transformar-me. Onde fui<br \/>\nachar intelig\u00eancia? Mas realmente a fraqueza de car\u00e1ter \u00e9<br \/>\nhorr\u00edvel.<\/p>\n<p>Examinei a figurinha combalida, magra; o desejo de afastar o louvor importuno<br \/>\nsufocava-a; os dedos finos tremiam.<\/p>\n<p>11<\/p>\n<p>A CONFIAN\u00c7A do major Nunes, exposta com obscenidades naquele dia,<br \/>\nn\u00e3o se depositou em mim apenas: novos doentes surgiram e em pouco tempo<br \/>\na enfermaria se avivou. Certamente ouviram tamb\u00e9m palavr\u00f5es<br \/>\ncabeludos e afirmaram proceder bem com as mulheres. Sisson, meu vizinho \u00e0<br \/>\nesquerda, transformou a sala em biblioteca: p\u00f4s na vigia um peda\u00e7o<br \/>\nde cart\u00e3o, para fugir aos olhos indiscretos do guarda, e entrou a ler,<br \/>\na tra\u00e7ar planos irrealiz\u00e1veis num conforto escandaloso. Mais<br \/>\nlonge foram viver Alcedo Cavalcante e Sussekind de Mendon\u00e7a, professores<br \/>\ngordos, risonhos, serenos, o primeiro militar, o segundo paisano. Sussekind<br \/>\ntinha uma \u00falcera duvidosa no est\u00f4mago, e cultivava essa probabilidade<br \/>\ncom alegria e requintes, esfor\u00e7ando-se por acreditarmos nela. Os faxinas<br \/>\nde l\u00ednguas penas, n\u00e3o sabendo pronunciar-lhe o nome, deram-lhe<br \/>\numa alcunha: Dr. \u00dalcera. No arco \u00e0 direita do meu cub\u00edculo<br \/>\nvieram alojar-se o tenente Pais Barreto e Henrique Dantas, alto funcion\u00e1rio<br \/>\nde um banco, homem triste, silencioso e resignado. Dantas nunca se queixava,<br \/>\napesar de ter os pulm\u00f5es decompostos. Arfando na dispn\u00e9ia, friorento,<br \/>\npassava horas ao sol, a consumir-se devagar, sem nenhuma esperan\u00e7a.<br \/>\nAnimava-se um pouco e, em voz lenta e baixa, gastava os restos de vida em<br \/>\ndisserta\u00e7\u00f5es lacunosas sobre economia pol\u00edtica. Gikovate<br \/>\ne Amadeu Amaral J\u00fanior estiveram conosco alguns dias. Os h\u00f3spedes<br \/>\ndo lado oposto se isolavam de n\u00f3s pelo banheiro e pela condi\u00e7\u00e3o:<br \/>\neram homens de zebra, arredios e tristes. Raro transpunham a linha divis\u00f3ria<br \/>\nestabelecida entre as duas portas. Tamb\u00e9m n\u00e3o and\u00e1vamos<br \/>\npor l\u00e1. Discut\u00edamos pol\u00edtica, jog\u00e1vamos crapaud,<br \/>\ntent\u00e1vamos perceber nos jornais alguma not\u00edcia animadora. A<br \/>\nguerra da Espanha nos excitava, e no mais simples avan\u00e7o dos republicanos<br \/>\nquer\u00edamos ver a pr\u00f3xima derrota do fascismo. Certo dia, lendo<br \/>\numa folha argentina, tive a id\u00e9ia de recorrer \u00e0s luzes de Alcedo<br \/>\nCavalcante: &#8211; Venha trocar isto em mi\u00fados, Alcedo. N\u00e3o entendemos<br \/>\nde marchas nem de cercos. Voc\u00ea, major e professor, pode traduzir-nos<br \/>\neste neg\u00f3cio de estrat\u00e9gia em l\u00edngua de crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Formamos roda em torno da mesinha do jogo, afastamos os baralhos, Sisson<br \/>\nfoi buscar um mapa e iniciamos a leitura, interrompida pelas demoradas explica\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo major. Uma cr\u00edtica otimista em demasia. O triunfo era certo; mouros,<br \/>\nitalianos e alem\u00e3es estavam sendo varridos da pen\u00ednsula; dentro<br \/>\nem pouco os traidores seriam fuzilados. De repente o homem recusou um telegrama<br \/>\nde Burgos.<\/p>\n<p>&#8211; Adiante, adiante. Isso n\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! estranhou Eneida. N\u00f3s desejamos um coment\u00e1rio<br \/>\nimparcial. Se voc\u00ea s\u00f3 se ocupa de uma das partes, estamos a perder<br \/>\ntempo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, teimou Alcedo, ranzinza. Nem as mentiras de Burgos nem as<br \/>\nbobagens desse pau-d\u2019\u00e1gua de Sevilha. Tudo isso \u00e9 balela.<br \/>\nS\u00f3 examino o que vem da Catalunha e de Madrid.<\/p>\n<p>O nosso interesse esfriou. Esper\u00e1vamos, ouvir o homem reduzir as<br \/>\nvit\u00f3rias de Franco, aumentar as da rep\u00fablica, e a observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nunilateral nos causava surpresa e des\u00e2nimo. Provavelmente ele receava<br \/>\nprivar-se de uma certeza, ou antes de uma cren\u00e7a. Desenvolviam-se e<br \/>\nfixavam-se ali convic\u00e7\u00f5es na verdade singulares. Ociosos e ausentes<br \/>\ndo mundo, precis\u00e1vamos fazer esfor\u00e7os para n\u00e3o nos deixarmos<br \/>\nvencer por doidos pensamentos. Causavam-me espanto os devaneios dos outros,<br \/>\n\u00e0s vezes me sentia resvalar numa credulidade quase infantil, e era<br \/>\ndoloroso notar os escorregos do esp\u00edrito. Nise ficava uma hora a matutar<br \/>\nnos programas de cinema, exigia a minha opini\u00e3o, grave. Entr\u00e1vamos<br \/>\na escolher fitas, enfim nos decid\u00edamos: &#8211; Vamos ao Metro.<\/p>\n<p>Esse exerc\u00edcio estava sempre a repetir-se, e nem sei se era apenas<br \/>\nbrincadeira, se n\u00e3o cheg\u00e1vamos a admitir a possibilidade maluca<br \/>\nde atravessar paredes e grades, sair \u00e0 rua, tomar o \u00f4nibus, entrar<br \/>\nnas lojas, nos caf\u00e9s, nas livrarias e nos cinemas. Sisson me comunicou<br \/>\num projeto de admir\u00e1vel insensatez. Era manh\u00e3, achava-me \u00e0<br \/>\nporta do cub\u00edculo, bebendo caf\u00e9. O vizinho descerrou a chapa<br \/>\nde ferro e veio sentar-se junto de mim. N\u00e3o dormira, passara a noite<br \/>\na imaginar uma organiza\u00e7\u00e3o que se dedicaria a estudos sociol\u00f3gicos<br \/>\ne se estenderia por todas as bibocas do Brasil, a esmerilhar cart\u00f3rios<br \/>\ne igrejas. Comiss\u00f5es distritais esmiu\u00e7ariam a papelada antiga<br \/>\nque lhes ca\u00edsse nas unhas e enviariam o material selecionado a comiss\u00f5es<br \/>\nmunicipais; estas se subordinariam a outras mais complexas, estaduais; e afinal,<br \/>\na dirigir tudo, 0 organismo central, com sede no Rio, ali na Casa de Corre\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAlarmei-me: &#8211; Aqui? Voc\u00ea est\u00e1 falando s\u00e9rio? &#8211; \u00c9.<br \/>\nN\u00f3s \u00e9 que vamos fazer o trabalho definitivo. &#8211; Mas quem nos<br \/>\ntraz esses documentos, Sisson? &#8211; As nossas mulheres, nos dias de visitas.<\/p>\n<p>&#8211; Coitadinhas. V\u00e3o suportar uma carga enorme, toneladas de velharias.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 tanto assim. Haver\u00e1 l\u00e1 fora um expurgo<br \/>\nsevero. N\u00f3s s\u00f3 receberemos coisas definitivas.<\/p>\n<p>&#8211; E voc\u00ea acha que nos cafund\u00f3s do Amazonas e de Mato Grosso<br \/>\nh\u00e1 gente capaz dessa tarefa? &#8211; Para as comiss\u00f5es de primeiro<br \/>\ngrau bastam pessoas dispostas a copiar o que forem descobrindo. A depura\u00e7\u00e3o<br \/>\ncome\u00e7a nas cidades e acaba nas capitais.<\/p>\n<p>Vencidas as minhas r\u00e9plicas, o estranho homem recolheu-se e, num<br \/>\nentusiasmo vivo, entrou a redigir o seu plano, desenvolveu-o num calhama\u00e7o<br \/>\ncheio de min\u00facias, que foi exposto ao Coletivo. Ningu\u00e9m quis<br \/>\nreparar no imenso absurdo; tomaram-no em considera\u00e7\u00e3o; eu e<br \/>\nGikovate recebemos a incumb\u00eancia de estud\u00e1-lo. Esquivei-me, negligente,<br \/>\nmas o judeu meticuloso embrenhou-se na leitura, rabiscando notas, arrazoando,<br \/>\ncomo se se tratasse de caso muito importante. Logo embirrou com o t\u00edtulo<br \/>\nda sociedade, prop\u00f4s a elimina\u00e7\u00e3o de um adjetivo: popular.<\/p>\n<p>&#8211; No entender da pol\u00edcia, comunista e popular t\u00eam a mesma significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sisson emperrou, obstinou-se na defesa da palavra e, encontrando resist\u00eancia<br \/>\nno m\u00e9dico, tentou convencer-me. Indolente e vago, suponho que findei<br \/>\npor dar raz\u00e3o mais ou menos aos dois. Reunimo-nos \u00e0 tarde, oito<br \/>\nou dez sujeitos, numa das celas pr\u00f3ximas ao refeit\u00f3rio. A vasta<br \/>\ncomposi\u00e7\u00e3o foi desenvolvida com segura energia pelo autor. Em<br \/>\nseguida Gikovate engrolou o relat\u00f3rio na sua l\u00edngua morna, carregada<br \/>\nde rr duros. Pontos essenciais foram sapecados, minud\u00eancias se estiraram<br \/>\ne o nome da associa\u00e7\u00e3o provocou intenso debate. O criador dela<br \/>\nagarrou-se com vigor ao seu r\u00f3tulo, como se o corte do infeliz ap\u00eandice<br \/>\nlhe inutilizasse todos os pensamentos. V\u00e1rios indiv\u00edduos se<br \/>\nmanifestaram, a contenda generalizou-se, e a vantagem ou desvantagem de tr\u00eas<br \/>\nmiser\u00e1veis s\u00edlabas deixou na sombra a an\u00e1lise do projeto.<br \/>\nNingu\u00e9m se lembrou de perguntar se era exeq\u00fc\u00edvel. Submeteram<br \/>\na julgamento o pobre adjetivo, e n\u00f3s o condenamos por unanimidade.<br \/>\nO meu voto arrancou de Sisson um berro furioso.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tamb\u00e9m? exclamou erguendo-se, um brilho de indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos olhos.<\/p>\n<p>Balancei a cabe\u00e7a: &#8211; Tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O homem largou uma express\u00e3o torpe e concluiu: &#8211; De duas uma: ou<br \/>\neu sou muito burro ou voc\u00ea \u00e9 doido. Hoje de manh\u00e3 concordava<br \/>\ncomigo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 engano. Eu estava com pregui\u00e7a de argumentar. Sa\u00edmos.<br \/>\nE n\u00e3o tornamos a falar no assunto. A Sociedade Popular nasceu morta.<\/p>\n<p>12<\/p>\n<p>A porta do cub\u00edculo, tomei o caneco de leite e mastiguei peda\u00e7os<br \/>\nde p\u00e3o com manteiga ran\u00e7osa. Depois bebi o caf\u00e9 nauseante,<br \/>\nadocicado. Nise abriu a porta, chegou-se vagarosa e p\u00e1lida, sentou-se<br \/>\n\u00e0 mesinha. O faxina trouxe-lhe a refei\u00e7\u00e3o da manh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Que p\u00f5em neste caf\u00e9, Nise? \u00c9 ruim.<\/p>\n<p>&#8211; Deve ser brometo, respondeu a mo\u00e7a. Anafrodis\u00edaco. &#8211; Diabo!<br \/>\nexclamei afastando o caneco. Isto \u00e9 permanente, Nise? &#8211; N\u00e3o,<br \/>\n\u00e9 transit\u00f3rio. Suspenda o caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Claro. N\u00e3o torno a olhar esta porcaria.<\/p>\n<p>O copeiro voltou para recolher as bandejas, e pedi-lhe que nunca mais me<br \/>\ntrouxesse aquela inf\u00e2mia.<\/p>\n<p>&#8211; Que brincadeira besta! Lembrei-me do conselho de outro faxina, \u00e0<br \/>\nminha chegada ao Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios: &#8211; &#8220;Se o senhor<br \/>\nsoubesse o que h\u00e1 nisso, n\u00e3o bebia tanto.&#8221; Um abrandamento<br \/>\ngeral me envolvera, mas n\u00e3o me viera a id\u00e9ia de relacionar isso<br \/>\ncom a bebida. A observa\u00e7\u00e3o do homem de zebra me escorregara<br \/>\nno esp\u00edrito desatento. E n\u00e3o me abstivera. Um grande torpor<br \/>\namarrara-me durante meses, desaparecera na Col\u00f4nia Correcional, mas<br \/>\nisto passara quase despercebido, pois as mulheres estavam longe, e nem havia<br \/>\ntempo de pensar nelas Agora n\u00e3o me achava entanguido E davam-me de<br \/>\nnovo a beberagem adocicada.<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a o favor de n\u00e3o me trazer isto. Vamos jogar crapaud,<br \/>\nNise? Pouco a pouco sosseguei O frio na carne e a imobilidade tinham-se esva\u00eddo<br \/>\nImagens lascivas surgiam-me \u00e0s vezes; com a supress\u00e3o do caf\u00e9,<br \/>\niriam crescer. Esfor\u00e7ava-me por desvi\u00e1-las, pensando nos rapazes<br \/>\nque, mergulhados num erotismo doloroso, viam figuras de atrizes nuas em revistas.<br \/>\nOs m\u00e9dicos da Sala da Capela tentavam livr\u00e1-los da obsess\u00e3o.<br \/>\nPodiam livrar-se: o ato julgado v\u00edcio considerava-se higiene em determinadas<br \/>\ncircunst\u00e2ncias. O mal n\u00e3o estava na coisa f\u00edsica, mas<br \/>\nnos dist\u00farbios que os desejos insatisfeitos causavam. A maior parte<br \/>\ndos militares ria desse conselho, aplicava nomes indecentes nos doutores bem<br \/>\nintencionados. E continuava a admirar no papel seios, n\u00e1degas, pernas<br \/>\nnuas. O exame disso me desgostava. Agora, vindo a explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Nise, quase me convencia de que a beberagem anafrodis\u00edaca tinha<br \/>\nefeito misericordioso.<\/p>\n<p>As visitas na enfermaria davam-nos torturas verdadeiras. Os casais se juntavam<br \/>\nna saleta pr\u00f3xima ao consult\u00f3rio m\u00e9dico, passavam horas<br \/>\nnum constrangimento horr\u00edvel, cochichando, medindo gestos, procurando<br \/>\nmigalhas de expans\u00f5es dif\u00edceis, os olhos nas portas. Se o portugu\u00eas<br \/>\nmoreno estava de servi\u00e7o, esses encontros eram muito desagrad\u00e1veis:<br \/>\no canalha, perturbador, ia e vinha, multiplicava-se na fiscaliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nchamava os presos comuns para auxili\u00e1-lo. Duas criaturas necessitadas<br \/>\namolavam-se, de nenhum modo conseguiam ficar \u00e0 vontade. Havia espionagem<br \/>\nconstante. Aquelas horas, desejadas, sonhadas uma semana, perdiam-se, neutras<br \/>\ne ins\u00edpidas, em conversas moles. O portugu\u00eas moreno fiscalizava<br \/>\ncom os olhos numerosos.<\/p>\n<p>A primeira visita de minha mulher foi um desastre. Avizinh\u00e1vamos<br \/>\nas cadeiras, t\u00ednhamos depois precis\u00e3o de afast\u00e1-las,<br \/>\nbusc\u00e1vamos assuntos que desviassem a forte necessidade: a linguagem<br \/>\nviolenta da imprensa reacion\u00e1ria, a credulidade e a indiferen\u00e7a<br \/>\ndo p\u00fablico. \u00c9ramos uns monstros e o governo, isolando-nos, salvava<br \/>\no pa\u00eds. Abandon\u00e1vamos essa mat\u00e9ria, entr\u00e1vamos<br \/>\nem neg\u00f3cios particulares. O dinheiro sumia-se. Fal\u00e1vamos nele<br \/>\nindiretamente, receando com certeza a desapari\u00e7\u00e3o completa.<br \/>\n0 romance enganchado na composi\u00e7\u00e3o roubava-nos alguns minutos.<br \/>\nN\u00e3o acabariam de rever as malditas provas? Impacientava-me a demora,<br \/>\ne logo me chegava um contentamento provis\u00f3rio por n\u00e3o se exibir<br \/>\naquela porcaria. Contudo isso era necess\u00e1rio, porque os restos da pec\u00fania<br \/>\nse evaporavam. O naufr\u00e1gio liter\u00e1rio me daria alguma tranq\u00fcilidade:<br \/>\nser-me-ia poss\u00edvel obter cuecas, um pijama e len\u00e7os; estavam-me<br \/>\nfaltando esses tro\u00e7os; muitas coisas perdiam-se nas mudan\u00e7as,<br \/>\na valise se esvaziava. E havia a caixa de inje\u00e7\u00f5es exigida pelo<br \/>\nm\u00e9dico. Desaforo. Isso me tornava incapaz de comprar cigarros, obrigava-me<br \/>\na usar pacotes de fumo ordin\u00e1rio. E o diabo do livro n\u00e3o sa\u00eda,<br \/>\nemperrava desgra\u00e7adamente. De fato n\u00e3o haveria naufr\u00e1gio:<br \/>\nningu\u00e9m ligara import\u00e2ncia \u00e0 minha literatura, achava-me<br \/>\nali mais ou menos in\u00e9dito. Novo malogro n\u00e3o me pesaria muito.<br \/>\nUm pobre-diabo sem dinheiro, nulo, for\u00e7ado a comprar inje\u00e7\u00f5es,<br \/>\na fazer cigarros de fumo ruim com mortalhas que se rasgavam. Os tamancos endureciam-me<br \/>\nos p\u00e9s crescidos. Ali na sala pequena, os sapatos cal\u00e7ados uma<br \/>\nvez por semana reduziam-se, magoavam-me, faziam-me calos. A publica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda hist\u00f3ria chinfrim atenazava-me. Prendia-me a esse \u00faltimo<br \/>\nrecurso com desespero. Durante alguns minutos o guarda interrompia a fiscaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; e as preocupa\u00e7\u00f5es de ordem econ\u00f4mica debandavam. Esquec\u00edamos<br \/>\no livro, junt\u00e1vamos as cadeiras. Mas era uma tr\u00e9gua insignificante.<br \/>\nNa cal\u00e7ada, a dois ou tr\u00eas metros, um homem de roupa zebrada<br \/>\npasseava lento, as m\u00e3os atr\u00e1s das costas. Ia e vinha. Passava<br \/>\ndiante de n\u00f3s com regularidade exasperadora, retardava a caminhada<br \/>\ne pregava-nos os olhos suspeitosos. \u00c9ramos observados pela frente e<br \/>\npela retaguarda.<\/p>\n<p>Assim decorreram algumas visitas. Um dia, por\u00e9m, achava-me fraco<br \/>\nem excesso, n\u00e3o pude ir \u00e0 saleta, e minha mulher teve licen\u00e7a<br \/>\npara avistar-se comigo \u00e0 porta do cub\u00edculo.<\/p>\n<p>O portugu\u00eas moreno estava ausente, o guarda do servi\u00e7o era<br \/>\no velho Bragan\u00e7a, o amor\u00e1vel sujeito de cabelos de algod\u00e3o,<br \/>\nrisonho e paciente, o grande amigo de Nise. Afei\u00e7oara-se a ela de supet\u00e3o<br \/>\ne uma vez lhe dissera triste: &#8211; Doutora, senti muita alegria ontem. Vi na<br \/>\nrua uma senhora que era o seu tipo, disse comigo: &#8220;A doutora saiu.&#8221;<br \/>\nMas o engano durou pouco.<\/p>\n<p>Naquela tarde quente eu e minha mulher convers\u00e1vamos numa nesga de<br \/>\nsombra, encostados ao muro. Os outros doentes recolheram-se discretos. O velho<br \/>\napareceu, dirigiu-se a mim, puxou conversa: &#8211; Preciso aposentar-me. N\u00e3o<br \/>\nag\u00fcento mais o trabalho. &#8211; Cansado, seu Bragan\u00e7a? &#8211; Setenta anos.<br \/>\nE quase cego. O senhor est\u00e1 a\u00ed falando, e eu n\u00e3o enxergo<br \/>\nnada, s\u00f3 vejo uma nuvem. Nem sei se a porta est\u00e1 aberta.<\/p>\n<p>Deu uma risadinha e afastou-se. &#8211; Obrigado, seu Bragan\u00e7a.<\/p>\n<p>Um instante depois eu e minha mulher pela primeira vez nos sent\u00edamos<br \/>\ns\u00f3s. Entramos no cub\u00edculo, cerramos a chapa de ferro.<\/p>\n<p>13<\/p>\n<p>ESTEVE conosco na enfermaria um belo s\u00edrio mo\u00e7o, desempenado,<br \/>\nalto, simp\u00e1tico, olhos vivos e francos. Substitu\u00edra o nome estranho<br \/>\npor um de pron\u00fancia mais f\u00e1cil: Paulo Ant\u00f4nio. Mas na<br \/>\ncadeia haviam modificado a tradu\u00e7\u00e3o: era simplesmente Paulo<br \/>\nTurco. Ignoro o crime dele, coisa grave, sem d\u00favida, pois estava condenado<br \/>\na mais de vinte anos. Na vestimenta branca, muito limpa, onde as riscas ignominiosas<br \/>\nesmoreciam, quase invis\u00edveis, tinha a apar\u00eancia grave de um funcion\u00e1rio.<br \/>\nAs sextas-feiras iam visit\u00e1-lo duas mulatinhas novas, escuras, p\u00e1lidas<br \/>\ne feias. Assisti a um desses encontros. As meninas usavam roupinhas de tecido<br \/>\nordin\u00e1rio e cal\u00e7avam sapatos de t\u00eanis. O rapaz examinou-as<br \/>\ndescontente, fechou a cara, repreendeu-as en\u00e9rgico: &#8211; Voc\u00eas n\u00e3o<br \/>\nt\u00eam sapatos? N\u00e3o me apare\u00e7am com isso outra vez. Indec\u00eancia.<\/p>\n<p>Entregou-lhes dinheiro, esteve algum tempo a desenvolver recomenda\u00e7\u00f5es<br \/>\nminuciosas a uma pessoa ausente. As meninas olhavam de cabe\u00e7a baixa<br \/>\nos sapatos de pano, as meias grosseiras, e ouviam atentas, e envergonhadas,<br \/>\nas ordens rijas do pai severo. Comportavam-se exatamente como filhas, mas<br \/>\ncom certeza n\u00e3o havia ali parentesco. Cinzentas, desbotadas e nacionais,<br \/>\nmuito diferiam do oriental, semita puro. Porque raz\u00e3o o grande nariz<br \/>\nadunco se aproximava das ventinhas chatas? Mais tarde explicaram-me a rela\u00e7\u00e3o<br \/>\ncuriosa. Paulo Turco tinha uma pequena ind\u00fastria, como outros, e o<br \/>\nbom procedimento fazia que o empregassem \u00e0s vezes em servi\u00e7os<br \/>\nexternos. As autoridades economizam com esses trabalhos, e os presos v\u00eaem<br \/>\nneles um pr\u00eamio, sentem-se quase livres durante algum tempo. Num dos<br \/>\nperi\u00f3dicos regressos \u00e0 vida, o s\u00edrio pintava portas ou<br \/>\ncaiava muros quando uma preta velha se chegara a ele e pedira esmola. O homem<br \/>\ndera-lhe cinco mil-r\u00e9is: era o que tinha. No dia seguinte a mendiga<br \/>\nvoltara acompanhada por duas netas, uma de tr\u00eas, outra de quatro anos.<br \/>\nFizera nova colheita, habituara-se. E, finda a caia\u00e7\u00e3o ou pintura,<br \/>\nas pobrezinhas tinham ido avistar-se com o protetor na Casa de Corre\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDepois disso Paulo Turco possu\u00eda uma fam\u00edlia, fam\u00edlia<br \/>\ndistante que o via uma vez por semana, \u00e0s sextas-feiras, mas esse ligeiro<br \/>\ncontato lhe bastava para dedicar-se inteiramente a ela. Fazia v\u00e1rios<br \/>\nanos que aquilo rolava, oito ou dez: as garotas haviam terminado o curso prim\u00e1rio.<br \/>\nIam estudar coisa mais s\u00e9ria a expensas e sob a fiscaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nrigorosa de uma criatura ausente do mundo.<\/p>\n<p>Esse caso me preocupou em demasia. Sempre me parecera que os criminosos<br \/>\nn\u00e3o se diferen\u00e7avam muito da gente comum, mas ali me surgia<br \/>\num deles superior aos outros homens. Paulo Turco era, se n\u00e3o me engano,<br \/>\nassassino e ladr\u00e3o. Contudo inspirava respeito. E aquele procedimento<br \/>\nlevava-me a admir\u00e1-lo. A extraordin\u00e1ria antinomia me assombrou:<br \/>\num vivente nocivo, capaz de matar, roubar, sacrificava-se para manter e educar<br \/>\npessoas encontradas por acaso, muito diferentes dele. E perguntei a mim mesmo<br \/>\nse a virtude singular n\u00e3o compensava as faltas anteriores. Uma d\u00favida<br \/>\nme torturava: se Paulo Turco se libertasse, praticaria novos crimes ou buscaria<br \/>\nof\u00edcio honesto para sustentar as pobres? Na reclus\u00e3o, as despesas<br \/>\ndeviam pesar-lhe em demasia, nem sei como se ag\u00fcentava. Fazia gaiolas,<br \/>\ncomo depois notei, mas certamente n\u00e3o amparava tr\u00eas vidas com<br \/>\no produto dessa ex\u00edgua ind\u00fastria. Possu\u00eda outras habilidades,<br \/>\nsem d\u00favida. Aqueles homens adquirem talento para explorar neg\u00f3cios<br \/>\nque n\u00e3o imaginamos c\u00e1 fora. Jogam e como isto \u00e9 proibido,<br \/>\nrealizam transa\u00e7\u00f5es absurdas, perfeitos disparates. Um guarda<br \/>\nvai atravessar um port\u00e3o. Dois sujeitos apostam: um acha que ele passa<br \/>\ncom a perna esquerda, outro escolhe a direita. Valores mi\u00fados circulam<br \/>\nsem descontinuar. Pai Jo\u00e3o era contrabandista de \u00e1lcool. Tinha<br \/>\nocupa\u00e7\u00e3o no exterior, sa\u00eda com regularidade, voltava<br \/>\ncom frascos de aguardente nos bolsos; necessitava algumas viagens para encher<br \/>\numa garrafa, que vendia com lucro de cento por cento. Assim, os habitantes<br \/>\nda Sala da Capela tinham meio de infringir o regulamento. Como as exig\u00eancias<br \/>\nali s\u00e3o reduzidas, essas miudezas se acumulam, e os presos econ\u00f4micos<br \/>\nchegam a constituir modestos pec\u00falios. O que mais me surpreendia no<br \/>\ncaso de Paulo Turco era ele obter recursos para realizar gastos, anos a fio,<br \/>\nnum ambiente diverso, onde as nossas migalhas de pec\u00fania se desvalorizavam.<br \/>\nO esquisito devotamento e as possibilidades imprevistas alarmavam-me. Ignoramos<br \/>\no que somos, at\u00e9 onde podemos ir. Cercados, confinados, precisamos<br \/>\nver qualquer coisa al\u00e9m das grades. A imagina\u00e7\u00e3o vai<br \/>\nlonge; coisas externas crescem, desenvolvem-se; um barraco erguido na favela<br \/>\ntoma cores vivas, e duas mulatinhas pestanejam em cima de livros, na v\u00e9spera<br \/>\nde exame, \u00e0 luz do querosene; na cozinha de t\u00e1bua e lata uma<br \/>\nnegra velha cochila. Vive para resguardar essas tr\u00eas insignific\u00e2ncias,<br \/>\nentrega-se a elas inteiramente, fabricando gaiolas, um homem duro, m\u00e3os<br \/>\ntintas de sangue, dedos h\u00e1beis no manejo de instrumentos ilegais.<\/p>\n<p>Afinal a virtude me escapava. Quem me provava que os indiv\u00edduos supressos<br \/>\npelo s\u00edrio faziam falta num mundo cheio de excresc\u00eancias? Talvez<br \/>\nn\u00e3o fizessem. E era-me indiferente estar a propriedade aqui ou ali.<br \/>\nN\u00e3o aprovei as aventuras de Ga\u00facho, meu amigo na Col\u00f4nia<br \/>\nCorrecional; n\u00e3o as aprovei por serem perigosas. Ga\u00facho n\u00e3o<br \/>\nproduzia riqueza. Muitos n\u00e3o a produzem, e contudo acham maneira de<br \/>\napropriar-se dela sem arriscar-se. Ga\u00facho e Paulo Turco haviam pelo<br \/>\nmenos revelado coragem. E em situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil achavam<br \/>\nmaneira de praticar a\u00e7\u00f5es generosas, incompreens\u00edveis.<\/p>\n<p>14<\/p>\n<p>ENFIM o romance encrencado veio a lume, brochura feia de capa azul. A tiragem,<br \/>\nde dois milheiros, rendia-me um conto e quatrocentos e esta ninharia ainda<br \/>\nsignificava para mim grande vantagem. Minha mulher apareceu com alguns volumes.<br \/>\nGuardei um e distribu\u00ed o resto na enfermaria e na Sala da Capela, mas<br \/>\nlogo me arrependi desses oferecimentos. A leitura me revelou coisas medonhas<br \/>\npontua\u00e7\u00e3o errada, lacunas, trocas horr\u00edveis de palavras.<br \/>\nA datil\u00f3grafa, o linotipista e o revisor tinham feito no livro s\u00e9rios<br \/>\nestragos. Onde eu escrevera opini\u00e3o p\u00fablica havia pol\u00edcia;<br \/>\nremorsos em vez de rumores. Um desastre. E nem me restava a esperan\u00e7a<br \/>\nde corrigir a mis\u00e9ria noutra edi\u00e7\u00e3o, pois aquilo n\u00e3o<br \/>\nse reeditaria. Eu pr\u00f3prio dissera ao editor que ele n\u00e3o venderia<br \/>\ncem exemplares. Contudo alguns leitores fizeram vista grossa aos defeitos<br \/>\ne me condenaram firmes o pessimismo. Nise interrompia o crapaud, esfor\u00e7ava-se<br \/>\npor mostrar na minha narra\u00e7\u00e3o capenga belezas que eu nem de<br \/>\nlonge percebia. Certa manh\u00e3 Eneida saiu do cub\u00edculo e avizinhou-se<br \/>\nde mim, p\u00e1lida, os olhos fundos: &#8211; Li o teu romance de cabo a rabo,<br \/>\ne n\u00e3o dormi um instante, apanhei uma ins\u00f4nia dos diabos. Pavoroso!<br \/>\nEssas manifesta\u00e7\u00f5es me surpreenderam, mas a princ\u00edpio<br \/>\njulguei-as amabilidades. Pouco a pouco moderei o ju\u00edzo severo e cheguei<br \/>\na supor que a obra, apesar de tudo, causava interesse e roubava o sono \u00e0s<br \/>\npessoas. As palavras de Nise, repetidas, levavam-me a considerar bons alguns<br \/>\ncap\u00edtulos. Um deles me custara vinte e oito dias de trabalho rijo,<br \/>\nfora depois recomposto e emendado. Tratava-se de um crime dif\u00edcil,<br \/>\nmeio inconceb\u00edvel, e, se n\u00e3o me precatasse, ter-me-ia afundado<br \/>\nna literatura de folhetim. Essa longa passagem n\u00e3o estava muito mal<br \/>\narranjada. Assaltavam-me depois c\u00f3leras fortes \u00e0 lembran\u00e7a<br \/>\ndos disparates mais gra\u00fados expostos nas folhas escuras de papel ordin\u00e1rio.<br \/>\nAs falhas eventuais refor\u00e7avam outras, essenciais, e achava-me em des\u00e2nimo<br \/>\ncompleto.<\/p>\n<p>Por alguns dias afastei-me da Sala da Capela, receando coment\u00e1rios,<br \/>\ncertamente agrad\u00e1veis e falsos. N\u00e3o vamos dizer cara a cara<br \/>\na um sujeito o que achamos de uma produ\u00e7\u00e3o dele. Atenuamos as<br \/>\nfraquezas, pomos em evid\u00eancia as paginas menos ruins; se os autores<br \/>\nn\u00e3o forem burros, compreender\u00e3o bem a nossa hipocrisia. Atenazava-me<br \/>\na id\u00e9ia de ver Castro Rebelo, catedr\u00e1tico exigente, folhear<br \/>\na brochura, erguer os ombros, fungar um risinho de esc\u00e1rnio. Quando<br \/>\nas nossas camas eram pr\u00f3ximas, no velho sal\u00e3o de t\u00e1buas<br \/>\nvacilantes, eu lhe fizera um pedido: &#8211; &#8220;Professor, tem por acaso a\u00ed<br \/>\no seu Mau\u00e1? Ainda n\u00e3o o li.&#8221; Castro Rebelo abrira a mala,<br \/>\ndera busca entre panos e me estendera o volume. Tomara-o em seguida, percorrera-o<br \/>\ne, com uma gilete, raspara meticuloso uma v\u00edrgula. Que diria o homem<br \/>\nrigoroso das minhas v\u00edrgulas, deslocadas na tipografia e na revis\u00e3o,<br \/>\na separar sujeito de verbos, estupidamente? Vi nos jornais cinco ou seis colunas<br \/>\na respeito do caso triste, em geral favor\u00e1veis. N\u00e3o diziam grande<br \/>\ncoisa. Limitavam-se a jogar louvores f\u00e1ceis, pareciam temer ferir-me<br \/>\napontando os erros, como se fosse um estreante, e desviavam-se da mat\u00e9ria.<br \/>\nArriscara-me a fixar a decad\u00eancia da fam\u00edlia rural, a ru\u00edna<br \/>\nda burguesia, a imprensa corrupta, a malandragem pol\u00edtica, e atrevera-me<br \/>\na estudar a loucura e o crime. Ningu\u00e9m tratava disso, referiam-se a<br \/>\num drama sentimental e besta em cidade pequena. Admirou-me depois o excessivo<br \/>\nn\u00famero de cr\u00edticas \u00e0 minha hist\u00f3ria sombria, e<br \/>\nespantei-me de v\u00ea-Ia bem aceita e reproduzida, mas ali na cadeia apenas<br \/>\nme surgiu a meia d\u00fazia de artigos. Um era insensato. Dedicava-me alguns<br \/>\nelogios sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a, punha-me de lado e atacava furioso<br \/>\num escritor que nenhuma rela\u00e7\u00e3o tinha comigo. Outro me declarava<br \/>\nautor de um formoso romance. Ao ler isso, escondi a folha debaixo do colch\u00e3o<br \/>\ne deitei-me, a estalar de raiva.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que voc\u00ea tem? perguntou-me da porta a \u00f3tima<br \/>\nNise. Piorou? &#8211; N\u00e3o. Estou bem.<\/p>\n<p>Nise ficou um instante a olhar-me s\u00e9ria, de repente deu uma risada:<br \/>\n&#8211; J\u00e1 sei. Foi o artigo de Fulano. Ergui-me: &#8211; Ele tem raz\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 o que \u00e9 realmente aquela porcaria. Um formoso romance.<\/p>\n<p>A excelente amiga saiu, trouxe os baralhos, arrastou-me para a mesinha e<br \/>\ndesviou-me do esp\u00edrito o desagrad\u00e1vel sucesso. Estava sempre<br \/>\na comentar com exagero, mencionando autoridades, a minha personagem criminosa<br \/>\ne meio doida. Eu lhe esfriava o entusiasmo, brincava com ela citando a frase<br \/>\nde um advogado que lhe pedira o exame de um cliente: &#8211; &#8220;A senhora, grande<br \/>\npsicopata&#8230;&#8221; &#8211; Ele est\u00e1 certo, Nise. Voc\u00ea se julga psiquiatra.<br \/>\nMas \u00e9 engano. Voc\u00ea \u00e9 maluca.<\/p>\n<p>Nise ria. Considerava-me um dos seus doentes mais preciosos.<\/p>\n<p>15<\/p>\n<p>TOMEI o copo de leite, fui ao consult\u00f3rio, onde o m\u00e9dico me<br \/>\naplicou a inje\u00e7\u00e3o de vitamina. Ao regressar, notei que haviam<br \/>\nrecolhido a mesinha do crapaud deixada \u00e0 porta.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 tomar banho e mudar a roupa, disse-me Eneida. Voc\u00ea n\u00e3o<br \/>\nvai receber sua mulher assim vestido em pijama. O diretor me anunciara na<br \/>\nv\u00e9spera uma visita para aquela manh\u00e3. Achava-me com bastante<br \/>\npregui\u00e7a: &#8211; Minha mulher n\u00e3o \u00e9 de cerim\u00f4nia. J\u00e1<br \/>\nme viu deste jeito muitas vezes.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor. Mude a roupa &#8211; Que impertin\u00eancia! V\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p>Agora conseguia mexer-me, j\u00e1 n\u00e3o precisava amolar os faxinas<br \/>\npedindo as latas de \u00e1gua morna. Com duas ou tr\u00eas semanas de tratamento,<br \/>\nas pernas pareciam consolidar-se, mas as picadas renitentes no p\u00e9 da<br \/>\nbarriga ainda continuavam a importunar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Peguei a toalha, sa\u00ed da enfermaria, encaminhei-me aos banheiros distantes,<br \/>\narrimado ao muro que nos separava da Casa de Deten\u00e7\u00e3o. Viagem<br \/>\nlonga e desagrad\u00e1vel: havia no caminho v\u00e1rios port\u00f5es,<br \/>\nalguns fechados, e era-me necess\u00e1rio esperar que os guardas os viessem<br \/>\nabrir. Lavei-me, fiquei minutos a conversar em gritos com os homens do Pavilh\u00e3o<br \/>\ndos Prim\u00e1rios, debru\u00e7ados l\u00e1 em cima, no terra\u00e7o.<br \/>\nChegando \u00e0 enfermaria, encontrei a minha cela transformada. A cama,<br \/>\npouco antes em desordem, estava refeita; desaparecera a confus\u00e3o de<br \/>\njornais velhos, pap\u00e9is e livros deixados pelos cantos; e a mesinha<br \/>\nse enfeitava com vasos de flores.<\/p>\n<p>&#8211; Que presepada \u00e9 esta? Compreendi porque Eneida teimara em afastar-me.<br \/>\nA minha surpresa aumentou quando me deram esclarecimento: ia haver uma esp\u00e9cie<br \/>\nde festa em honra do livro infeliz. Tinha sido uma lembran\u00e7a do major,<br \/>\nafirmou Nise.<\/p>\n<p>&#8211; Hist\u00f3ria, resmunguei contendo o mau humor. \u00c9 uma pilh\u00e9ria<br \/>\nde voc\u00eas duas. N\u00e3o dou para essas coisas.<\/p>\n<p>Os preparativos deixaram-me sombrio.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Nise, ser\u00e1 que t\u00eam a inten\u00e7\u00e3o de fazer<br \/>\ndiscursos? Se fizerem, vou ficar numa atrapalha\u00e7\u00e3o medonha:<br \/>\nsou incapaz de juntar meia d\u00fazia de palavras em p\u00fablico.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a tentou desvanecer o perigo, mas realmente s\u00f3 consegui<br \/>\ndestoldar-me um pouco ouvindo a promessa clara de Sussekind e Sisson: ningu\u00e9m<br \/>\nfalaria. N\u00e3o se dissiparam todas as nuvens. Sisson, criatura verbosa,<br \/>\niria pregar-me talvez uma pe\u00e7a. Vesti-me apreensivo, condenando a manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndoida: com certeza a maior parte das pessoas associadas a ela me desconhecia<br \/>\na literatura. No trajo civilizado, limpo, cosido pelo Sousa na alfaiataria,<br \/>\nachei-me em condi\u00e7\u00e3o de receber visita. Ao sair da cela, encontrei<br \/>\nminha mulher, que me ofereceu um pacote cil\u00edndrico e pesado. Tirei<br \/>\nos barbantes, o inv\u00f3lucro de papel escuro, uma delgada pasta de algod\u00e3o,<br \/>\ne descobri uma garrafa de aguardente.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 que voc\u00ea p\u00f4de meter isto aqui, filha de Deus?<br \/>\nNatural. Na secretaria, um empregado se informara, e ela estendera o embrulho<br \/>\ncom ing\u00eanua impud\u00eancia: &#8211; &#8220;Algod\u00e3o.&#8221; O homem<br \/>\nse contentara com a resposta. Lembrei-me de uma cena, meses antes, no Pavilh\u00e3o<br \/>\ndos Prim\u00e1rios. A not\u00edcia infeliz me surgira de chofre, numa<br \/>\nesquina: &#8211; &#8220;Revista.&#8221; Escondera-me por detr\u00e1s de Euclides<br \/>\nde Oliveira e, sem nenhuma precau\u00e7\u00e3o, metera debaixo da camisa<br \/>\num envelope que Agildo Barata me confiara. A dez passos, minha mulher tinha<br \/>\npercebido o movimento, e um minuto depois me perguntava: &#8211; &#8220;Que \u00e9<br \/>\nda carta?&#8221; Mas a pol\u00edcia n\u00e3o se preocupava com tais min\u00facias.<br \/>\nTocava-nos de leve os bolsos, buscava r\u00e1pida armas imposs\u00edveis.<br \/>\nSe eu n\u00e3o fosse um maluco, teria salvo as folhas escritas na Col\u00f4nia,<br \/>\ndeixadas estupidamente debaixo da esteira, na cama suja de hemoptises. Bastava<br \/>\nuni-Ias \u00e0 barriga, sob a cueca, prend\u00ea-las com o cinto; a\u00ed<br \/>\nn\u00e3o me viriam fazer investiga\u00e7\u00f5es. Viv\u00edamos a<br \/>\ncriar fantasmas. Por isso as notas se haviam perdido.<\/p>\n<p>Traziam-me agora o l\u00edquido valioso e proibido. Arranjei meio de espatifar<br \/>\na rolha, enchi um caneco, fui pr&amp;ooacute;digo. Doentes e abst\u00eamios, os<br \/>\ncompanheiros se recusaram. Pais Barreto, por\u00e9m, avizinhou-se de mim<br \/>\nnuma calorosa amizade, n\u00e3o expressa antes nem depois disso. Num instante<br \/>\nbebemos quase meia garrafa, e tive de ocultar o resto, fechar a porta. O tenente<br \/>\nn\u00e3o se deu por achado: entrou a rondar o cub\u00edculo, esperando<br \/>\no momento de insinuar-se nele, indiferente \u00e0s conversas liter\u00e1rias<br \/>\nque fervilhavam em redor. Tamb\u00e9m me distra\u00eda. Fossem para o<br \/>\ndiabo as letras nacionais: o meu intuito era defender a garrafa. Essa propriedade<br \/>\nfugia-me: \u00e0s vezes a exig\u00eancia do mo\u00e7o explodia, e era-me<br \/>\npreciso descerrar a chapa de ferro, deitar nos canecos duas doses escassas,<br \/>\nmedidas: &#8211; \u00c9 necess\u00e1rio fazer economia.<\/p>\n<p>Tolice. A sede forte de Pais Barreto obrigava-me a encharcar-me, para que<br \/>\nele n\u00e3o bebesse tudo; assim, \u00e0 hora do almo\u00e7o, sentia-me<br \/>\nvago e toldado, superior aos aconteci mentos, sem saber direito porque haviam<br \/>\njuntado as mesas, numa refei\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria. Melhorara-se<br \/>\na b\u00f3ia. Tinham encomendado vinho a Pai Jo\u00e3o. Enfim um banquete,<br \/>\no banquete poss\u00edvel. N\u00e3o houve discursos, mas a aus\u00eancia<br \/>\ndeles nem foi notada: n\u00e3o me lembrava de que os oradores me causavam<br \/>\nreceio pela manh\u00e3. O \u00e1lcool me dispunha a soltar a l\u00edngua,<br \/>\natacar alguma coisa, a literatura reacion\u00e1ria, por exemplo. Na meia<br \/>\nliberdade provis\u00f3ria que nos concediam, terminamos o almo\u00e7o<br \/>\ne, quase alegres, ficamos a papaguear nos tamboretes brancos, em algumas espregui\u00e7adeiras,<br \/>\nfeitas certamente na pequena oficina estabelecida na saleta do caf\u00e9.<br \/>\nOs meus olhos fechavam-se, abriam-se; as id\u00e9ias avivavam-se, morriam.<br \/>\nA conversa animada escorregava-me no esp\u00edrito obtuso. Que dizia aquela<br \/>\ngente? Chegavam-me peda\u00e7os dela, envoltos em bruma, vozes confusas.<br \/>\nInteressava apenas os manejos de Pais Barreto: andava a rondar o cub\u00edculo,<br \/>\no pensamento numa garrafa escondida sob o colch\u00e3o. Erguia-me com pena<br \/>\ndele e pena de mim mesmo. Nessas viagens a garrafa se esvaziou.<\/p>\n<p>As horas passavam r\u00e1pidas, a sombra se alargava na cal\u00e7ada<br \/>\nestreita. Recolhi-me tonto, minha mulher acompanhou-me, esteve uns dez minutos<br \/>\ndeitada. Era um sacrif\u00edcio, pois abominava o \u00e1lcool; em tempo<br \/>\nnormal vivia a despropositar comigo por causa disso. Voltamos ao grupo. Ela<br \/>\npintou os bei\u00e7os e retirou-se.<\/p>\n<p>Chegaram as luzes. Passou o momento de se fecharem os cub\u00edculos,<br \/>\ne surpreendeu-me ver o guarda im\u00f3vel, a espiar-nos de longe. Algu\u00e9m<br \/>\ntrouxe um r\u00e1dio. Envolto nas grossas mantas, a defender-nos da friagem,<br \/>\nali nos conservamos longamente, ouvindo uma \u00f3pera que se representava<br \/>\nno Municipal e a s\u00e1bia cr\u00edtica de Sussekind \u00e0 m\u00fasica<br \/>\nde Wagner. Cerca de meia-noite as chaves tilintaram e a pequena sociedade<br \/>\npouco a pouco se dissolveu.<\/p>\n<p>16<\/p>\n<p>ANDAVAM na enfermaria alguns tipos curiosos. Nestor, faxina, era um mulato<br \/>\ncor de cinza, magro, banguelo, um sorriso impudente fixo nos bei\u00e7os<br \/>\ngrossos. Comportava-se bem e esperava conseguir livramento condicional utilizando<br \/>\no saber de Le\u00f4nidas Resende. Sumiu-se um anel caro na Sala da Capela,<br \/>\nsuspeitaram dele, mas os outros faxinas o julgaram incapaz de tocar em objeto<br \/>\nalheio. Contudo estava a cumprir senten\u00e7a por arrombamento.<\/p>\n<p>&#8211; Veja o senhor, disse-me um dia. Trabalhei quinze anos s\u00f3, aqui<br \/>\ne em Niter\u00f3i; nunca ningu\u00e9m desconfiou de mim. Quando tomei<br \/>\num ajudante, o miser\u00e1vel me denunciou.<\/p>\n<p>As vezes o sorriso permanente franzia-lhe o rosto, uma sombra de amargura<br \/>\no envolvia.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 ali quem sabe tirar cadeia, murmurava apontando a gata Malandrinha,<br \/>\nmascote da pris\u00e3o, achada na rua, vinda num carro de lixo.<\/p>\n<p>O animal vagabundo acostumara-se logo \u00e0 vida sedent\u00e1ria e<br \/>\nnenhum desejo tinha de recuperar a liberdade. Ronronava ao sol, obeso, desenroscava-se<br \/>\nem bocejos enormes, pregui\u00e7a enorme. Reconhecia-se importante, sem<br \/>\nd\u00favida, e esta convic\u00e7\u00e3o lhe dava o ar de saciedade,<br \/>\nos movimentos vagarosos. Nestor largava um suspiro, invejando o sossego do<br \/>\nbicho: &#8211; \u00c9 como a gente devia ser.<\/p>\n<p>J\u00falio, figura sinistra, vinha trazer-me a bandeja pela manh\u00e3.<br \/>\nBebendo o leite, mastigando o p\u00e3o, tentei falar com ele. Respondia<br \/>\nbreve, iludindo as perguntas, os olhos baixos, constrangido. Nunca se referia<br \/>\nao crime que o inutilizara, desejava provavelmente esquec\u00ea-lo. \u00c1<br \/>\nreserva excessiva trazia-me ao esp\u00edrito Ga\u00facho, Paraiba, Pai<br \/>\nJo\u00e3o, alguns ladr\u00f5es menores, dispostos a revelar-se com franqueza<br \/>\ne gabolice. Um deles, de boca imensa, a cara est\u00fapida, vangloriava-se<br \/>\ncontando a Eneida mentiras palmares. Enganando-nos e enganando-se com aventuras<br \/>\ne riscos, esses homens chegavam a descobrir m\u00e9rito no seu of\u00edcio.<br \/>\nJ\u00falio n\u00e3o era um profissional. Matara a mulher em ci\u00fame<br \/>\nfurioso, e n\u00e3o podia livrar-se da horr\u00edvel d\u00favida: fora<br \/>\njusto? Fora injusto? De p\u00e9, junto \u00e0 bandeja, tinha no ch\u00e3o<br \/>\nos olhos enevoados. Fora justo? Fora injusto? Baixo, atarracado, l\u00edvido.<br \/>\nImposs\u00edvel avizinhar-se dos companheiros. Homem solit\u00e1rio, preso<br \/>\nao passado, a inocentar-se, a arrepender-se. Nunca me surgira oportunidade,<br \/>\nali ou fora dali, de perceber vest\u00edgio de remorso em ningu\u00e9m.<br \/>\nRemorso era apenas um assunto liter\u00e1rio. Os indiv\u00edduos capazes<br \/>\nde matar, roubar, incendiar, violar, achavam raz\u00e3o para isso. J\u00falio<br \/>\nn\u00e3o conseguia justificar-se &#8211; e vivia abatido e mec\u00e2nico, a transportar<br \/>\na bandeja para aqui, para ali, surdo e cego.<\/p>\n<p>Muito diferia dele Barbadinho, o rapaz que andava a rodar a carro\u00e7a<br \/>\nnas pedras com assobios estridentes. Era o meu despertador. As cinco horas<br \/>\no assobio forte e o barulho de rodas nas pedras, casados ates chilros dos<br \/>\npardais, levantavam-me. As aves e n rapaz abreviavam-me o sono. Escovar os<br \/>\ndentes, lavar o rosto. Descerrava-se a chapa de ferro. Na frescura da manh\u00e3,<br \/>\narriado no tamborete, os cotovelos sobre a mesinha, em v\u00e3o me esfor\u00e7ava<br \/>\npor arrancar de uma figura sombria qualquer coisa. H\u00e1bito velho de<br \/>\nobserva\u00e7\u00e3o, in\u00fatil agora. J\u00falio era uma est\u00e1tua<br \/>\ndolorosa; s\u00f3 recobrava o movimento quando se esvaziava o caneco de<br \/>\nleite. Perto, um rapaz, quase crian\u00e7a, passava agarrado aos varais<br \/>\nde uma carrocinha. O assobio n\u00e3o desanimava. Porque tinham levado para<br \/>\nali aquele garoto? No ambiente sujo, o menino queria viver, a alegria se espalhava<br \/>\nna cara aberta, peluda, escura. A abund\u00e2ncia de cabelos motivara a alcunha.<br \/>\nOs olhos fuzilavam, o corpo agitava-se, r\u00e1pido, como se estivesse a<br \/>\nnadar. Barbadinho ausentava-se do meio, estava numa aurora permanente. O assobio<br \/>\nagudo feria-me os ouvidos. A criatura viva, mo\u00e7a, forte, mergulhava<br \/>\nno trabalho como peixe na \u00e1gua. Infelizmente o trabalho era aquilo:<br \/>\nrodar uma carro\u00e7a o dia inteiro. Pobre menino. Quando se libertasse,<br \/>\nn\u00e3o acharia l\u00e1 fora nem o miser\u00e1vel exerc\u00edcio<br \/>\nque lhe facultava o rumor excessivo, o riso franco, o estouvamento. Regressaria,<br \/>\nacabar-se-ia em des\u00e2nimo, obeso e nulo, como a gata Malandrinha, amando<br \/>\numa r\u00e9stia de sol e a imobilidade.<\/p>\n<p>Tipo esquisito era o sujeito que nos lavava a roupa. Fornido, branco, de<br \/>\ngestos ondulantes, olhares equ\u00edvocos, desagrad\u00e1veis, sujos.<br \/>\nTinham-lhe dado a alcunha de Maria Gorda. Certo dia o acharam metido em veste<br \/>\nfeminina, a saracotear-se, a requebrar-se. Lavador, amava a profiss\u00e3o,<br \/>\ngostava de mexer em panos. Ao trazer-nos cuecas, len\u00e7os, pijamas, estendia-os<br \/>\nna cama, retardava-se a acarici\u00e1-los com os dedos grossos, nojentos.<br \/>\nUm companheiro brigara com ele, e vendo-o chorar, covarde e bambo, invectivara-o:<br \/>\n&#8211; &#8220;Que \u00e9 isso? Homem n\u00e3o chora.&#8221; E o desgra\u00e7ado<br \/>\nrespondera, no longo pranto: &#8211; &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o sabe que eu n\u00e3o<br \/>\nsou homem?&#8221; 17<\/p>\n<p>UM DIA, \u00e0 hora de nos destrancarem, Sisson me apareceu encabulado<br \/>\ne sombrio: &#8211; Sou um idiota. N\u00e3o devia ter feito aquilo. Perdi os estribos,<br \/>\ne nem sei o que disse.<\/p>\n<p>Atentei no homem com espanto: &#8211; Que foi? &#8211; N\u00e3o ouviu? &#8211; Qu\u00ea?<br \/>\nN\u00e3o ouvi nada.<\/p>\n<p>Sisson recusou durante algum tempo a minha declara\u00e7\u00e3o: &#8211; Um<br \/>\nbarulho t\u00e3o grande! &#8211; N\u00e3o percebi nenhum barulho, Sisson. Estava<br \/>\ndormindo. Ignoro o que voc\u00ea quer dizer.<\/p>\n<p>Enfim, depois de muita fala in\u00fatil, o arestoso amigo se explicou.<br \/>\nTivera na v\u00e9spera, fechado o cub\u00edculo, arenga feia com um preso<br \/>\ncomum que servia na farm\u00e1cia. Era estranho haver rixa entre indiv\u00edduos<br \/>\nt\u00e3o diversos, um oficial de marinha, homem culto, burgu\u00eas, e<br \/>\num ladr\u00e3o vagabundo. Atrav\u00e9s da chapa de ferro, pelo buraco<br \/>\nde vinte cent\u00edmetros, em geral oculto por um peda\u00e7o de papel\u00e3o,<br \/>\ntinham cambiado grossos desaforos: &#8211; &#8220;Cachorro, sem-vergonha.&#8221; &#8211;<br \/>\n&#8220;Marinheiro safado.&#8221; &#8211; Oh, Sisson! murmurei. Voc\u00ea cair nisso!<br \/>\nDiscutir com um tipo assim! &#8211; N\u00e3o refleti. Foi burrice.<\/p>\n<p>No mesmo dia Sisson voltava \u00e0 Sala da Capela. Como de ordin\u00e1rio,<br \/>\nn\u00e3o lhe expuseram motivos. Somente ordem para arrumar a bagagem. Os<br \/>\nmapas e os abundantes pap\u00e9is sumiram-se; o meu vizinho da esquerda,<br \/>\nantes de curar-se, afastou de n\u00f3s as suas id\u00e9ias complicadas<br \/>\ne numerosas. A queixa de um malandro ocasionara a transfer\u00eancia. Outros<br \/>\ncompanheiros haviam sa\u00eddo.<\/p>\n<p>As minhas pernas se arrastavam no \u00f3cio, do consult\u00f3rio m\u00e9dico<br \/>\npara a cela. Agora estavam menos tr\u00f4pegas e insens\u00edveis; j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o era preciso estir\u00e1-las ao sol de manh\u00e3, envolv\u00ea-las<br \/>\n\u00e0 tarde na manta pesada e escura. N\u00e3o se lavava aquela manta,<br \/>\nacho que n\u00e3o se lavou enquanto vivi na Casa de Corre\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor ser quase negra, ocultava a sujeira, e permanecia na cama estreita semanas<br \/>\nlongas, como os dois trapos que, meses atr\u00e1s, me enrolavam numa esteira.<br \/>\nApenas a imund\u00edcie da Col\u00f4nia Correcional era vis\u00edvel,<br \/>\nmuito vermelha. As conversas boas de Nise afugentavam-me a lembran\u00e7a<br \/>\nruim. A pobre mo\u00e7a esquecia os pr\u00f3prios males e ocupava-se dos<br \/>\nmeus.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos ao cinema hoje? &#8211; Vamos, Nise. Por enquanto vamos ao crapaud. Quer?<br \/>\n\u00cdamos ao crapaud. As partidas lentas davam-me remorso. O terceiro conto,<br \/>\nmau e incompleto, escondia-se na valise, sob cuecas e meias. Seria preciso<br \/>\nconclu\u00ed-lo e endireitar os outros, mas a literatura desgra\u00e7ada<br \/>\nme causava engulhos. Assaltava-me com freq\u00fc\u00eancia um des\u00e2nimo<br \/>\nprofundo.<\/p>\n<p>&#8211; Porque \u00e9 que indiv\u00edduos como eu escrevem? Para qu\u00ea?<br \/>\nperguntava a mim mesmo.<\/p>\n<p>Quando esmoreciam as dores, procurava defender-me estabelecendo compara\u00e7\u00f5es<br \/>\nfr\u00e1geis: &#8211; Afinal o Brasil \u00e9 uma tristeza. Estas mis\u00e9rias<br \/>\ns\u00e3o iguais a v\u00e1rias que por a\u00ed circulam. Escrevemos \u00e0<br \/>\ntoa, e ainda achamos quem nos elogie.<\/p>\n<p>Decidia-me com esfor\u00e7o a desenterrar as miser\u00e1veis folhas,<br \/>\nrabiscava algumas linhas chochas. Para qu\u00ea? L\u00e1 fora gente como<br \/>\neu estaria fazendo coisa semelhante. E refugiava-me nas cartas. Infelizmente<br \/>\nNise come\u00e7ou a dizer que eu furtava no jogo. Professora incapaz, utilizava<br \/>\nesse recurso desonesto se perdia, e alargava-se em coment\u00e1rios injustos<br \/>\ncom Pai Jo\u00e3o. Atenazavam-me as brincadeiras dela, expostas ao negrinho<br \/>\ndescarado, horrivelmente feio. Uma esp\u00e9cie de macaco, e \u00e0s vezes<br \/>\nme espantava de que o mostrengo pudesse falar. A cabe\u00e7a era uma insignific\u00e2ncia,<br \/>\nos dedos curtos e nodosos mexiam-se como se estivessem a manejar o rev\u00f3lver<br \/>\nnas matas de Pira\u00ed. Um bicho. E, dos ladr\u00f5es observados naquele<br \/>\ntempo, o mais antip\u00e1tico. Fora-me poss\u00edvel admitir Ga\u00facho,<br \/>\nPara\u00edba, Cubano, e via-me for\u00e7ado a admirar Paulo Turco. A figura<br \/>\nsimiesca irritava-me. Nise dirigia-se a ela, apontando no baralho, a rir,<br \/>\nos meus furtos inexistentes. Zangava-me, cochichava: &#8211; Como diabo se interessa<br \/>\nvoc\u00ea por um tipo como esse? Nise continuava a rir, a atacar-me. E Pai<br \/>\nJo\u00e3o andava em roda, aos pulinhos, rombo e torpe, a grunhir, repetindo<br \/>\nas palavras dela: &#8211; Furtou, furtou.<\/p>\n<p>Uma vez n\u00e3o me contive: &#8211; Sabe que n\u00e3o gosto dessas intimidades?<br \/>\n&#8211; Hem? fungou o animal desfranzindo o riso parvo. &#8211; N\u00e3o gosto disso.<br \/>\n\u00c9 bom vivermos separados.<\/p>\n<p>O focinho de Pai Jo\u00e3o tomou pouco a pouco uma dureza fria, a boca<br \/>\napertou-se com \u00f3dio, os olhos mi\u00fados fuzilaram. O negro deu-me<br \/>\nas costas em sil\u00eancio, e nunca mais o vi. A tarde me vieram anunciar<br \/>\nmudan\u00e7a. Peguei os tro\u00e7os, despedi-me da gente que andava no<br \/>\np\u00e1tio circular, e um guarda acompanhou-me \u00e0 Sala da Capela.<br \/>\nNa viagem recordei a zanga do velho Marques ao ver-me estender o ma\u00e7o<br \/>\nde cigarros a um faxina. Aqueles homens eram nossos criados. Ri-me atravessando<br \/>\nos port\u00f5es de ferro. Criados bem singulares. Executavam servi\u00e7os<br \/>\nrudes e recebiam gorjetas, mas eram em grande n\u00famero, ambientavam-se<br \/>\nem anos de pena, e n\u00f3s, cem ou duzentas pessoas, est\u00e1vamos ali<br \/>\nde passagem, e infring\u00edamos sem querer as regras. Pela den\u00fancia<br \/>\nde um deles, vinham-nos dificuldades: cautelosa, a administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nreceava desgostar os moradores velhos da casa.<\/p>\n<p>18<\/p>\n<p>NA SALA da Capela havia agora tr\u00eas fileiras de camas separadas por<br \/>\nestreitas passagens de meio metro. Deram-me a \u00faltima do centro, metade,<br \/>\nmais ou menos, das laterais. Lugar inc\u00f4modo. O espa\u00e7o minguava;<br \/>\ns\u00f3 no fim do sal\u00e3o, junto \u00e0s mesas de leitura e jogo,<br \/>\npod\u00edamos andar livremente. Depois do jantar, arriei os ossos no colch\u00e3o,<br \/>\ntentei repousar, debalde: o rumor dos tamancos e o zumbir das conversas agitavam-me,<br \/>\ne abriam-me os olhos e os ouvidos. Inclinando-me para a direita, via as criaturas<br \/>\nque pisavam rijo, abalando o soalho. A pequena dist\u00e2ncia, indiv\u00edduos<br \/>\natentos, curvados sobre tabuleiros, moviam s\u00edmbolos de madeira: &#8211; &#8220;Xeque.&#8221;<br \/>\nOs cotovelos fixos na arma\u00e7\u00e3o bamba dos cavaletes, figuras indistintas<br \/>\nmexiam pap\u00e9is. A vitrola remoia discos. Virava-me para o outro lado,<br \/>\ne percebia ao fundo, perto do altar, alguns doentes, Apporelly dispondo as<br \/>\ncartas na paci\u00eancia intermin\u00e1vel, Moreira Lima a ajustar a funda<br \/>\ncomplicada. Enfim as luzes se apagaram e consegui dormir. Levantei-me cedo<br \/>\ne vi na cama vizinha um rapaz de rosto para cima, um frasco na m\u00e3o,<br \/>\nesfor\u00e7ando-se por umedecer os olhos inflamados e vermelhos. Desistiu<br \/>\nda opera\u00e7\u00e3o custosa: o l\u00edquido se derramava nas p\u00e1lpebras<br \/>\nroxas e opadas.<\/p>\n<p>&#8211; Quer fazer-me o favor de me deitar aqui um pouco de col\u00edrio? pediu-me<br \/>\nEnchi o conta-gotas. Mas, diante dos bugalhos sangrentos, uma n\u00e9voa<br \/>\nde l\u00e1grimas toldou-me a vista, os dedos tremeram-me: &#8211; N\u00e3o posso.<br \/>\nUm instante.<\/p>\n<p>Fui chamar Gikovate, que fez o curativo e afastou-se. O desconhecido, loquaz,<br \/>\nantes de poder enxergar-me, entrou a papaguear e resvalou em assunto perigoso.<br \/>\nQuis saber a causa da minha pris\u00e3o. Desgostoso com a resposta vaga<br \/>\natirou-me de chofre: &#8211; O nosso chefe \u00e9 um g\u00eanio. O senhor n\u00e3o<br \/>\nacha? &#8211; Como? &#8211; Prestes \u00e9 um g\u00eanio.<\/p>\n<p>Mais tarde compreendi que o sujeito n\u00e3o era espi\u00e3o: era apenas<br \/>\nmeio doido. Naquele momento, por\u00e9m, julguei-o instrumento da pol\u00edcia,<br \/>\nembora se mostrasse de inabilidade incr\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o? &#8211; Nenhuma. Li dele dois ou tr\u00eas<br \/>\nmanifestos, ali por 1931. Somente.<\/p>\n<p>O homem passou o len\u00e7o na cara molhada, dirigiu-me as postas rubras:<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, se o senhor n\u00e3o considera Prestes um g\u00eanio, que<br \/>\nfaz aqui? O senhor n\u00e3o \u00e9 do Partido Comunista? N\u00e3o esteve<br \/>\nna Alian\u00e7a Nacional? &#8211; N\u00e3o estive em nada.<\/p>\n<p>O tipo come\u00e7ou a borboletear. E, de repente: &#8211; Apporelly \u00e9<br \/>\num g\u00eanio, o senhor n\u00e3o acha? Na manh\u00e3 fria o ru\u00eddo<br \/>\ncome\u00e7ava: sons duros de tamancos abafando as vozes dos pardais. O caf\u00e9,<br \/>\no banho. Apporelly, no fim do alojamento, mudava a roupa devagar.<\/p>\n<p>&#8211; Apporelly \u00e9 um g\u00eanio. Que \u00e9 que o senhor acha? Cautela<br \/>\nexagerada levava-me a precaver-me contra o indiv\u00edduo inofensivo: &#8211;<br \/>\nO senhor gosta de g\u00eanios. Talvez sejamos todos g\u00eanios. G\u00eanios<br \/>\nem cueca, jogando o xadrez e a paci\u00eancia. Pus-me a rir; o tipo se desviou,<br \/>\nmacamb\u00fazio. E nunca mais se entendeu comigo. Na manh\u00e3 seguinte<br \/>\npegou o rem\u00e9dio e dirigiu-se, meio cego, a algu\u00e9m que lhe deitasse<br \/>\npingos nos olhos arruinados.<\/p>\n<p>Passaram-se dias, semanas. As minhas pernas andavam quase sem dor no soalho,<br \/>\nna escada estreita, no p\u00e1tio onde os militares faziam gin\u00e1stica.<br \/>\nPercebi que v\u00e1rias pessoas come\u00e7avam a esquivar-se de mim. Com<br \/>\ncerteza, imaginei, se ressentiam por eximir-me de realizar tarefas desagrad\u00e1veis.<br \/>\nPediam-me confer\u00eancias, artigos sobre romances novos, e n\u00e3o justificavam<br \/>\na minha incapacidade. Feria-me a incompreens\u00e3o. Era-me realmente imposs\u00edvel<br \/>\nfazer qualquer trabalho. E admiravam-me a pertin\u00e1cia e a firmeza de<br \/>\nalguns homens que pareciam n\u00e3o descansar. Agildo Barata me dava a impress\u00e3o<br \/>\nde uma aranha diligente, a fabricar dia e noite, meses e meses, a teia dif\u00edcil.<br \/>\nAs visitas, \u00e0s sextas-feiras, levavam para o exterior os fios de uma<br \/>\nvasta composi\u00e7\u00e3o que se alargava pela cidade, pelo pa\u00eds.<br \/>\nCriaturas dessa natureza n\u00e3o me desculpariam facilmente a in\u00e9rcia.<br \/>\nDevia estar a\u00ed a causa do afastamento. Enganei-me. Um companheiro veio<br \/>\ncontar-me que algu\u00e9m afirmara ter-me ouvido, em zanga indiscreta, dizer<br \/>\nde Prestes cobras e lagartos. O informante queria saber se aquilo era verdade.<br \/>\nRejeitei o miser\u00e1vel assunto: &#8211; N\u00e3o dou explica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIsso \u00e9 uma estupidez, n\u00e3o perco tempo com mexericos idiotas.<\/p>\n<p>As minhas palavras foram tomadas como evasivas, presumo, pois continuaram<br \/>\narredios, a exibir carrancas. Estava claro: o sem-vergonha da oftalmia semeara<br \/>\nintriga, e meia d\u00fazia de malucos admitia que eu fosse bastante leviano<br \/>\npara confiar nele. A credulidade me irritava. Para o diabo. N\u00e3o me<br \/>\nfazia falta a conviv\u00eancia daqueles ing\u00eanuos. Uma tarde quente<br \/>\npeguei a toalha e encaminhei-me aos banheiros. Fechados. De regresso, avistei<br \/>\numa torneira e resolvi utiliz\u00e1-la. Acabava de lavar-me, enxugar-me,<br \/>\nquando alguns militares passaram e fingiram n\u00e3o ver-me. Euclides de<br \/>\nOliveira deixou o grupo, chegou-se a mim: &#8211; Ent\u00e3o esses mo\u00e7os<br \/>\nn\u00e3o falam com voc\u00ea? &#8211; Que se h\u00e1 de fazer, meu caro? &#8211;<br \/>\nQual \u00e9 a raz\u00e3o disso? &#8211; N\u00e3o sei, nem procuro saber. Acreditaram,<br \/>\nsuponho, em burrices, em safadezas. Deix\u00e1-los.<\/p>\n<p>Vesti-me, sa\u00edmos juntos.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 uma peste! exclamou o oficial.<\/p>\n<p>A indigna\u00e7\u00e3o dele compensou todos os desentendimentos. Pensei<br \/>\nna minha briga com Euclides no primeiro dia em que o vi. Reconhecendo-se injusto,<br \/>\nlogo confessara o erro, desculpara-se firme, sem nenhum constrangimento, num<br \/>\ninstante me aniquilara a f\u00faria besta. De novo se patenteava a alma<br \/>\nnobre. Euclides n\u00e3o aceitaria sem exame as balelas de um desconhecido.<\/p>\n<p>19<\/p>\n<p>VAGOU uma cama perto do altar, e, receando vizinhan\u00e7a desagrad\u00e1vel,<br \/>\nApporelly me pediu que me transferisse para l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Venha logo, antes que chegue um intruso.<\/p>\n<p>Os bugalhos do provocador j\u00e1 n\u00e3o eram vermelhos; recobrada<br \/>\na vista, o sujeito mexia-se com p\u00e9s de gato, cochichando pelos cantos,<br \/>\na semear disc\u00f3rdia, sem d\u00favida. Bom livrar-me dele. Aceitei<br \/>\no convite, fui alojar-me a um passo de Apporelly, nos cinco metros de mosaico.<br \/>\nS\u00f3 ali t\u00ednhamos sensa\u00e7\u00e3o de estabilidade; o soalho,<br \/>\nbatido pelos tamancos, balan\u00e7ava como um navio. Aos p\u00e9s da cama,<br \/>\nno aperto, o humorista colocara uma pequena mesa redonda e passava os dias<br \/>\ndebru\u00e7ado nela, arrumando as cartas na paci\u00eancia longa. A esquerda,<br \/>\nmagro, a cor terrosa, a cabe\u00e7a ainda raspada, acomodava-se Arist\u00f3teles<br \/>\nMoura, de quem me despedira, meses atr\u00e1s, na Col\u00f4nia Correcional.<br \/>\nUm pouco distantes, Mo\u00e9sia Rolim, Maur\u00edcio Lacerda e Moreira<br \/>\nLima. Ia-se renovar o Coletivo, e as opini\u00f5es se dividiram, empenhadas<br \/>\nem forte cabala. Uma intensa propaganda exaltava os esp\u00edritos como<br \/>\nse se tratasse de escolher o governo da rep\u00fablica. No dia da elei\u00e7\u00e3o<br \/>\nprocurei Agildo, perguntei os nomes dos candidatos, e ele me respondeu que<br \/>\nos dois grupos tinham chegado a um acordo. A hora ao ch\u00e1, Ivan me falou<br \/>\n\u00e0 porta do refeit\u00f3rio: &#8211; Voc\u00ea com certeza vota conosco.<\/p>\n<p>&#8211; Espere, homem, n\u00e3o estou compreendendo. Agildo me disse que j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 dissid\u00eancia.<\/p>\n<p>Ivan ignorava o ajuste e insistiu no pedido. &#8211; Pois sim. Que \u00e9 da<br \/>\nchapa? O mo\u00e7o n\u00e3o tinha chapas naquele momento. L\u00e1 em<br \/>\ncima informei-me. Existia unanimidade, repetiram-me. Nem me lembrei de comparar<br \/>\nas c\u00e9dulas; estava certo de que eram iguais. Recebi uma, guardei-a<br \/>\nsem examin\u00e1-la; a escolha n\u00e3o tinha para mim nenhum interesse.<br \/>\nReunimo-nos em torno da mesa onde se jogava crapaud, recolheram-se os peda\u00e7os<br \/>\nde papel, em meio de forte vozeria. A apura\u00e7\u00e3o revelou discrep\u00e2ncia:<br \/>\ntr\u00eas nomes alcan\u00e7aram todos os sufr\u00e1gios, mas para os<br \/>\ndois cargos restantes eles se dispersaram entre quatro pessoas.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, diabo! exclamei. H\u00e1 diverg\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia? chasqueou um sujeito \u00e0 cabe\u00e7a da mesa.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. Garantiram-me que tinham feito combina\u00e7\u00e3o. &#8211; Quanta<br \/>\ningenuidade! murmurou o tipo fechando a cara.<\/p>\n<p>Irritei-me: &#8211; Eu n\u00e3o sou for\u00e7ado a entusiasmar-me com insignific\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Mais um inimigo, supus. E n\u00e3o me enganei. No dia seguinte Ivan chegou-se<br \/>\na mim no p\u00e1tio: &#8211; Voc\u00ea ontem me prometeu votar conosco. E votou<br \/>\ncontra.<\/p>\n<p>&#8211; Eu mesmo n\u00e3o tenho a certeza disso: nem li a chapa. Tomei uma ao<br \/>\nacaso, pode ter sido a sua. Findas as desaven\u00e7as, n\u00e3o se justificavam<br \/>\ncompromissos. Eu as julgava findas, como lhe disse.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, replicou o tenente. Voc\u00ea prometeu.<\/p>\n<p>&#8211; E eu fui testemunha, asseverou um companheiro ao lado.<\/p>\n<p>O aparte me assombrou: a nossa conversa fora r\u00e1pida, em voz baixa,<br \/>\ne aquele homem n\u00e3o estava presente. A zanga de Ivan compreendia-se,<br \/>\nde nenhum modo o julguei desleal.<\/p>\n<p>Imaginei um equ\u00edvoco, n\u00e3o nos t\u00ednhamos explicado bem.<br \/>\nMas a declara\u00e7\u00e3o da testemunha impediu-me a fala, deixou-me<br \/>\ntonto.<\/p>\n<p>&#8211; Estarei doido? perguntei a mim mesmo. Terei perdido a mem\u00f3ria?<br \/>\nRestabeleci-me a custo, respirei. A mem\u00f3ria funcionava direito: a afirma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo indiv\u00edduo era falsa.<\/p>\n<p>&#8211; As nossas rela\u00e7\u00f5es est\u00e3o cortadas, bradou o oficial.<br \/>\nAprovei com um movimento de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; E tamb\u00e9m as nossas, ajuntou o comparsa.<\/p>\n<p>&#8211; Elas nunca existiram, resmunguei afastando-me. Recolhi-me aperreado. Bate-bocas<br \/>\nidiotas por uma elei\u00e7\u00e3o do Coletivo, sem import\u00e2ncia.<br \/>\nN\u00e3o era isso, refleti. Havia ali pretexto para luta: uma chapa vermelha,<br \/>\noutra r\u00f3sea, com duas figuras an\u00f3dinas. Porque n\u00e3o tinham<br \/>\nsido francos? Eu votaria na chapa do Partido, \u00e9 claro. E deixavam-me<br \/>\nna ignor\u00e2ncia quando buscava orientar-me. Em conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\nvinham inimizades. Ivan tentou reaproximar-se de mim ao cabo de alguns dias:<br \/>\ncom certeza havia reconsiderado, visto que um caso t\u00e3o simples n\u00e3o<br \/>\nmerecia rancor. Isso me pareceu honesto. Achava-me, por desgra\u00e7a, cheio<br \/>\nde ressentimento e desviei-me com meia d\u00fazia de palavras chochas. Aborrecia-me<br \/>\na folhear um livro ruim e desejava matar o autor daquilo. Ivan chegou, sentou-se<br \/>\nna cama \u00e0 direita, entrou a conversar com Apporelly. Receando ser indiscreto,<br \/>\nlarguei a brochura, ergui-me. O tenente pediu-me que ficasse. Tornei a sentar-me,<br \/>\nreabri o volume, um romance pavoroso, continuei a ler por h\u00e1bito, indiferente<br \/>\n\u00e0 prosa escrita e \u00e0 falada. A indiferen\u00e7a n\u00e3o<br \/>\nera completa: chegavam-me os per\u00edodos longos do rapaz e voltava-me<br \/>\na impress\u00e3o recebida meses antes: &#8211; &#8220;\u00c9 o militar que sabe<br \/>\nsintaxe.&#8221; Depois de consultar Apporelly, o mo\u00e7o quis ouvir a minha<br \/>\nopini\u00e3o. Escusei-me frio, alegando n\u00e3o conhecer bem o assunto.<br \/>\nE n\u00e3o nos tornamos a falar enquanto ali vivi.<\/p>\n<p>Excessivo melindre me levava quase ao isolamento, apesar de saber que Ivan<br \/>\nRamos Ribeiro procedera com dec\u00eancia. Afinai era absurdo zangar-me por<br \/>\nalguns rapazes me evitarem, desconfiados. Realmente n\u00e3o conheciam o<br \/>\nsujeito dos olhos purulentos; tamb\u00e9m n\u00e3o me conheciam. Naquele<br \/>\nmeio fecundo em ratoeiras uma palavra bastava para nos fecharmos arrepiados.<br \/>\nA pergunta do oft\u00e1lmico dera-me a certeza de me achar d?ante de um<br \/>\nespi\u00e3o; a den\u00fancia dele atirara sobre mim v\u00e1rias suspeitas.<br \/>\nS\u00f3 entre os comunistas havia confian\u00e7a, mas ainda a\u00ed<br \/>\nsurgiam \u00e0s vezes surpresas. O dirigente de import\u00e2ncia se chegava<br \/>\na pol\u00edcia. Miranda me parecera, n\u00e3o sei porque, um tipo duvidoso.<br \/>\nObserva\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria. A pimponice, a mentira, a exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nvaidosa de ferimentos leves deixavam-me com a pulga atr\u00e1s da orelha.<br \/>\nUma ligeira conversa &#8211; e separa\u00e7\u00e3o definitiva. Tempo depois<br \/>\no miser\u00e1vel andava a elogiar Hitler, a dizer que o verdadeiro comunismo<br \/>\nse realizava em Berlim. Certas pessoas ali esperavam de mim comportamento<br \/>\nigual, e isto me aborrecia, n\u00e3o por me considerar uma perfeita dignidade,<br \/>\nmas por me faltar voca\u00e7\u00e3o para traidor. E se pudesse resolver-me<br \/>\na trair, que diabo iria contar? Encolhido, ignorava tudo. Toquei vagamente<br \/>\nnisso a Arist\u00f3teles Moura:<br \/>\n&#8211; Uma peste!<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o tem serenidade para julgar, respondeu Moura. N\u00e3o<br \/>\ntemos serenidade.<\/p>\n<p>A segunda afirma\u00e7\u00e3o do homem tranq\u00fcilo, de ju\u00edzo<br \/>\nclaro, quase me fazia rir.<\/p>\n<p>&#8211; O Partido n\u00e3o est\u00e1 aqui. L\u00e1 fora voc\u00ea acha<br \/>\ncoisa muito diversa. H\u00e1 entre n\u00f3s verdadeiros comunistas, e<br \/>\n\u00e9 preciso n\u00e3o confundi-los com simpatizantes cheios de intransig\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa opini\u00e3o otimista de um homem que tinha, recentes, no corpo magro<br \/>\nvest\u00edgios da Col\u00f4nia me restitu\u00eda o sossego. O horror<br \/>\ndaquele inferno, daquela ignom\u00ednia, n\u00e3o o desviara da linha<br \/>\nreta; imposs\u00edveis discrep\u00e2ncias funestas.<\/p>\n<p>&#8211; Vivemos numa desgra\u00e7ada fase de confus\u00e3o, e \u00e9 natural<br \/>\nque todos se previnam.<\/p>\n<p>Concordei: havia asseverado isso com freq\u00fc\u00eancia, e fortalecia-me<br \/>\na corrobora\u00e7\u00e3o do meu pensamento. Indispens\u00e1vel um apoio<br \/>\nexterior. A esquerda, essa firmeza resistente \u00e0s mis\u00e9rias da<br \/>\nCol\u00f4nia. A direita, o meu pobre amigo Apporelly, a sofrer, am\u00e1vel<br \/>\ne risonho, lan\u00e7ando trocadilhos em atitude profissional. Do\u00eda-me<br \/>\na paci\u00eancia triste dele, aparentemente alegre. N\u00e3o passava mal<br \/>\no dia, mas \u00e1 noite, apagadas as luzes, entrava a aperrear-se, em forte<br \/>\nagita\u00e7\u00e3o. De repente erguia-se num tremor convulso, batendo<br \/>\nos dentes, a arquejar. Isso me dava um sono incompleto. Abandonava o travesseiro,<br \/>\nagarrava o doente at\u00e9 que ele se acalmasse. Atormentava-me. Iria Apporelly<br \/>\nmorrer-me nos bra\u00e7os? Por fim o meu ato era mec\u00e2nico: ao despertar,<br \/>\nj\u00e1 me achava seguro a ele, tentando um socorro imposs\u00edvel. (amos<br \/>\nao consult\u00f3rio m\u00e9dico pela manh\u00e3, tomar inje\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAs minhas pernas ainda estavam ruins. Desc\u00edamos a escada, lentos, amparando-nos;<br \/>\ncheg\u00e1vamos ao p\u00e1tio, enfrentando numerosos obst\u00e1culos.<br \/>\nApporelly trauteava uma can\u00e7\u00e3o briosa, en\u00e9rgica, atirada<br \/>\ncom fogo desde o Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios. Era engra\u00e7ado<br \/>\nv\u00ea-lo, arrimando-se, capengando, insistir na marcha dif\u00edcil.<br \/>\nAo chegar a um port\u00e3o, lan\u00e7ava o estribilho:<br \/>\n&#8211; Aqui n\u00e3o h\u00e1 quem nos detenha,<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 quem ven\u00e7a a nossa galhardia.<\/p>\n<p>Ficava assim minutos a esgoelar-se, at\u00e9 que o guarda nos abrisse<br \/>\npassagem.<\/p>\n<p>20<\/p>\n<p>UMA NOITE chegaram-nos gritos medonhos do Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios,<br \/>\ninforma\u00e7\u00f5es confusas de vozes numerosas.<\/p>\n<p>Aplicando o ouvido, percebemos que Olga Prestes e Elisa Berger iam ser entregues<br \/>\n\u00e0 Gestapo: \u00e0quela hora tentavam arranc\u00e1-las da sala 4.<br \/>\nAs mulheres resistiam, e perto os homens se desmandavam em terr\u00edvel<br \/>\nbarulho. Tinham recebido aviso, e da\u00ed o furioso protesto, embora a<br \/>\npol\u00edcia jurasse que haveria apenas mudan\u00e7a de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mudan\u00e7a de pris\u00e3o para a Alemanha, bandidos. Frases incompletas<br \/>\nerguiam-se no tumulto, suspenso \u00e0s vezes com a transmiss\u00e3o de<br \/>\npormenores. Isso durou muito. Pancadas secas nos mostravam de longe homens<br \/>\nfortes balan\u00e7ando var\u00f5es de grades, tentando quebrar fechaduras.<br \/>\nNo dia seguinte v\u00e1rios cub\u00edculos estariam arrombados, imprest\u00e1veis<br \/>\nalgum tempo. Na Sala da Capela um rumor de corti\u00e7o zangado cresceu<br \/>\nr\u00e1pido, aumentou a algazarra. Apesar da manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nruidosa, inclinava-me a recusar a not\u00edcia: inadmiss\u00edvel. Sentado<br \/>\nna cama, pensei com horror em campos de concentra\u00e7\u00e3o, fornos<br \/>\ncremat\u00f3rios, c\u00e2maras de gases. Iriam a semelhante mis\u00e9ria?<br \/>\nA exalta\u00e7\u00e3o dominava os esp\u00edritos em redor de mim. Brados<br \/>\nlamentosos, gestos desvairados, raiva impotente, desespero, rostos convulsos<br \/>\nna indigna\u00e7\u00e3o. Um pequeno tenente solu\u00e7ava, em tremura<br \/>\nespasm\u00f3dica:<br \/>\n&#8211; V\u00e3o levar Olga Prestes.<\/p>\n<p>A queixa l\u00fagubre deixava-me em situa\u00e7\u00e3o penosa; esfor\u00e7ava-me<br \/>\npor extingui-Ia. Nenhuma verossimilhan\u00e7a: com certeza aquilo era boato,<br \/>\nconseq\u00fc\u00eancia de imagina\u00e7\u00f5es des regradas. Viv\u00edamos<br \/>\nnum ambiente de fantasmagorias. Asser\u00e7\u00f5es imprevistas me deixavam<br \/>\nzonzo, entre a realidade e o sonho, a perguntar a mim mesmo, considerando<br \/>\num homem que se transformava em duende: &#8211; &#8220;Estar\u00e1 doido? Ou serei<br \/>\ndoido eu?&#8221;<br \/>\nDias antes, ao apagarem-se as luzes, deixara-me ficar num banco, debru\u00e7ado<br \/>\nnas t\u00e1buas dos cavaletes, lendo sob o quebra-luz de papel. De repente,<br \/>\nbarulho no fundo escuro da sala. Jos\u00e9 Brasil se erguera excitado, acendera<br \/>\ntodas as l\u00e2mpadas: &#8211; &#8220;Acordem, abram os ouvidos. H\u00e1 metralhadoras<br \/>\nl\u00e1 embaixo, assestadas contra n\u00f3s. \u00c9 est\u00fapido<br \/>\nmorrer como carneiros. N\u00e3o ouviram? Acordem, vamos preparar a defesa.&#8221;<br \/>\nV\u00e1rias pessoas roncavam; outras se moviam chateadas, esfregando os<br \/>\nolhos; algumas se deixavam contagiar, admitiam perigos indeterminados. E Jos\u00e9<br \/>\nBrasil comandava, indicava posi\u00e7\u00f5es: &#8211; &#8220;Fiquem aqui, resguardem-se.<br \/>\nN\u00e3o passem diante das janelas.&#8221; Feitas indaga\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndescobrira-se enfim a origem das metralhadoras: os ratos, no altar, haviam<br \/>\nro\u00eddo uma estante, derrubado um missal, causado o enorme espalhafato.<br \/>\nDevia agora existir uma ilus\u00e3o dessa esp\u00e9cie: algu\u00e9m<br \/>\nse embrenhara em fantasia maluca, achara adeptos, e ao cabo de uma hora as<br \/>\nduas casas estavam contaminadas pela estranha loucura.<\/p>\n<p>Em roda entraram a sacudir as persianas velhas, jogaram no p\u00e1tio<br \/>\nas moringas: privaram-nos de \u00e1gua. Os tamancos batiam firmes no ch\u00e3o<br \/>\nmovedi\u00e7o. Do\u00eda-me saber que essas rijas manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nn\u00e3o teriam nenhum efeito no exterior. As duas mulheres sairiam do Brasil<br \/>\nse a covardia nacional as quisesse entregar ao assassino estrangeiro. A id\u00e9ia<br \/>\nrepelida voltava; enfraquecia o desejo de amortec\u00ea-la. Para que buscar<br \/>\na gente enganar-se? Eram capazes de tudo. O rumor crescia, as vozes aumentavam.<br \/>\nEm ligeiras pausas nessa borrasca in\u00fatil, engarrafada, chegavam-nos<br \/>\ninformes que, para ser compreens\u00edveis a tal dist\u00e2ncia, vinham,<br \/>\njulguei, dos pulm\u00f5es, poderosos como foles, do tremendo Lacerd\u00e3o.<br \/>\nNesses hiatos visitava-me a esperan\u00e7a de que os bichos antip\u00e1ticos<br \/>\nse houvessem retirado Meia d\u00fazia de palavras aniquilava-me o otimismo.<\/p>\n<p>Em duro sil\u00eancio, fumando sem descontinuar, sentia na alma um frio<br \/>\ndesalento. Mas porque, na horr\u00edvel ignom\u00ednia, haviam dado prefer\u00eancia<br \/>\na duas criaturas d\u00e9beis? Elisa Berger, presa, era t\u00e3o inofensiva<br \/>\nquanto o marido, preso tamb\u00e9m. Contudo iam oferec\u00ea-la aos carrascos<br \/>\nalem\u00e3es, e Harry Berger permanecia aqui, ensandecido na tortura. O<br \/>\nnazismo n\u00e3o exigia restos humanos, deixava que eles se acabassem devagar<br \/>\nno c\u00e1rcere \u00famido e estreito. A noite, na sala 4, Elisa despertava<br \/>\nbanhada num suor de agonia, os olhos espavoridos. A lembran\u00e7a dos tormentos<br \/>\nn\u00e3o a deixava; um rel\u00f3gio interior indicava o instante exato<br \/>\nem que, meses atr\u00e1s, a seviciavam na presen\u00e7a de Harry, im\u00f3vel,<br \/>\nimpotente. Olga Prestes, casada com brasileiro, estava gr\u00e1vida. Teria<br \/>\nfilho entre inimigos, numa cadeia. Ou talvez morresse antes do parto. A subservi\u00eancia<br \/>\ndas autoridades reles a um despotismo long\u00ednquo enchia-me de tristeza<br \/>\ne vergonha. Almas de escravos, infames; adula\u00e7\u00e3o torpe \u00e0<br \/>\nditadura ign\u00f3bil. Nasceria longe uma crian\u00e7a, envolta nas brumas<br \/>\ndo norte; ventos gelados lhe magoariam a carne tr\u00eamula e roxa. Mis\u00e9ria<br \/>\n&#8211; e nessa mis\u00e9ria abatimento profundo.<\/p>\n<p>A cabe\u00e7a entre as m\u00e3os, os olhos fixos no mosaico, tentava<br \/>\ndesviar-me dali, fugir ao pesadelo. Acendia um cigarro, jogava-o fora, acendia<br \/>\noutro. Esse exerc\u00edcio, \u00fanico, enervava-me. N\u00e3o seria<br \/>\nposs\u00edvel fazer outra coisa? A brasa do cigarro a queimar-me os dedos<br \/>\nconvencia-me de que n\u00e3o me achava adormecido. Era uma vig\u00edlia,<br \/>\nsem d\u00favida, infelizmente diversa de outras aparecidas meses antes,<br \/>\nquando a polinevrite me lan\u00e7ava \u00e0 espregui\u00e7adeira, na<br \/>\nsaleta do caf\u00e9. Id\u00e9ias f\u00fanebres iam, vinham, engrossavam-me<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o. Miser\u00e1veis. O campo s\u00f3rdido, o opr\u00f3brio,<br \/>\na dor. E depois os fornos cremat\u00f3rios, as c\u00e2maras de gases. Outras<br \/>\nfiguras em roda permaneciam inertes como eu, cabisbaixas, olhos no ch\u00e3o<br \/>\nCarlos Prestes, isolado, estaria assim, mas ignorava as amea\u00e7as \u00e0<br \/>\ncompanheira. Chegar-lhe-ia aos ouvidos um som confuso do imenso clamor. De<br \/>\nque se tratava? Pegaria um livro, mergulharia no estudo vagaroso e tenaz.<br \/>\nA vozearia abafada n\u00e3o tinha para ele significa\u00e7\u00e3o. E<br \/>\npassaria meses sem poder inteirar-se da enorme desgra\u00e7a. O tenente<br \/>\ngemia, e as palavras invari\u00e1veis pareciam ter apagado as outras, escorregavam<br \/>\nnum solu\u00e7o:<br \/>\n&#8211; V\u00e3o levar Olga Prestes.<\/p>\n<p>Era afinal um desafogo manifestar-se algu\u00e9m, insurgir-se de qualquer<br \/>\nforma. Os utens\u00edlios da marcenaria malhavam as portas, abafavam \u00e0s<br \/>\nvezes o ,lamento do rapaz. Havia uma suspens\u00e3o, e as s\u00edlabas<br \/>\nchorosas reapareciam. Os indiv\u00edduos expansivos imaginavam talvez estar<br \/>\nsendo razo\u00e1veis: pancadas e gestos de indigna\u00e7\u00e3o serviriam<br \/>\npara alguma coisa. Horr\u00edvel era o des\u00e2nimo de muitos, a certeza<br \/>\nde que a cidade se afastava de n\u00f3s, indiferente.<\/p>\n<p>&#8211; Para que isso? perguntava a mim mesmo impacientando-me. Ignoram tudo,<br \/>\ne a imprensa, vendida, nos enegrece.<\/p>\n<p>A lam\u00faria do rapaz mexia-me os nervos. Lembrei-me da viagem \u00e0<br \/>\nCol\u00f4nia Correcional. Demorara-me diante dos cub\u00edculos, a despedir-me<br \/>\ndos companheiros. No pavimento de baixo, ao transpor a larga porta, lembrara-me<br \/>\nde ver as mulheres da sala 4: encaminhara-me \u00e0 direita, subira a escada.<br \/>\nNo atordoamento, n\u00e3o me era poss\u00edvel examin\u00e1-las direito.<br \/>\nEstavam \u00e0 grade, em filas, umas no solo, outras suspensas, os tamancos<br \/>\npisando as traves, as saias entaladas, as pernas entre os var\u00f5es de<br \/>\nferro, seguras a eles. &#8211; &#8220;Adeus.&#8221; &#8211; &#8220;Boa viagem.&#8221; Peda\u00e7os<br \/>\nde rostos, m\u00e3os, coxas, tamancos, frases am\u00e1veis, sorrisos,<br \/>\nmisturavam-se, vagos, inconsistentes. Na ala inferior, branca e serena, Olga<br \/>\nme atirara alguns sons guturais, provavelmente a express\u00e3o de bom desejo,<br \/>\ndif\u00edcil de perceber aquela situa\u00e7\u00e3o. A pequena dist\u00e2ncia,<br \/>\nos bugalhos de Nise e os l\u00e1bios sangrentos de Valentina. Desviara-me<br \/>\nzonzo, descera, levando fragmentos vivos, a grulhada impercept\u00edvel<br \/>\ne, dominando tudo, a fisionomia tranq\u00fcila, a alvura de nata, algumas<br \/>\npalavras lan\u00e7adas com pron\u00fancia ex\u00f3tica. Certa manh\u00e3,<br \/>\nna enfermaria, Elisa Berger surgira de repente na entrada ao fundo. Havia<br \/>\nali duas grades, a limitar um v\u00e3o diminuto, e pelo menos uma estava<br \/>\nsempre fechada. Naquele dia as duas se achavam destrancadas, exatamente quando<br \/>\nElisa passava por elas, dirigindo-se ao gabinete do dentista. R\u00e1pida,<br \/>\n-a mulher entrara e, examinando cautelosa os arredores, estendera um envelope<br \/>\na Eneida, cochichara um instante e sumira-se, dando-me apenas o tempo necess\u00e1rio<br \/>\npara notar que estava mais abatida e mais grisalha. Pouco depois as chaves<br \/>\ntilintavam nas fechaduras. E sexta-feira \u00e0 tarde os pap\u00e9is fraudulentos<br \/>\nhaviam deixado a pris\u00e3o, na bolsa de uma espanhola sonsa, que dizia<br \/>\nao velho, Nunes quando obtinha visita extraordin\u00e1ria. &#8211; &#8220;Nossa<br \/>\nSenhora \u00e9 quem lhe h\u00e1 de pagar, seu major.&#8221;<br \/>\nAgora, sentado na cama, esfor\u00e7ava-me por escapar ao charivari embalando-me<br \/>\nnum pensamento que v\u00e1rias vezes me havia ocorrido. Era estranho as<br \/>\nduas grades, em geral trancadas, fiscalizadas, se abrirem \u00e0 passagem<br \/>\nde Elisa Berger, em seguida se fecharem como se nada irregular existisse.<br \/>\nA coincid\u00eancia trazia-me d\u00favida e espanto. Seria coincid\u00eancia?<br \/>\nUm minuto de abandono, suficiente para o contrabando; nenhum vigia no recinto<br \/>\ncircular. Finda a manobra, um guarda viera de supet\u00e3o, rigoroso e desconfiado,<br \/>\nmetera as ling\u00fcetas nos encaixes. Mas porque se ausentara quando a aus\u00eancia<br \/>\ndele favorecia uma infra\u00e7\u00e3o? Conveni\u00eancia. Esta id\u00e9ia<br \/>\nme assaltara e fixava-se, embora me apoiasse em meros ind\u00edcios. Uma<br \/>\nd\u00e9bil esperan\u00e7a animou-me: outros c\u00famplices tentariam<br \/>\nsalvar as infelizes. Abafei com des\u00e2nimo a ilus\u00e3o: se algum doido<br \/>\nquisesse arriscar-se por elas, inutilizar-se-ia sem nada conseguir. Enfim<br \/>\nn\u00e3o se tratava de obs\u00e9quio mi\u00fado: retirar-se uma pessoa,<br \/>\nvoltar ao cabo de um instante, com firmeza e energia, receosa de comprometer-se.<\/p>\n<p>As horas arrastavam-se, vagarosas, a balb\u00fardia aumentava um pouco,<br \/>\ndiminu\u00eda. Em frente \u00e0 sala 4, a pol\u00edcia jurava que as<br \/>\nduas v\u00edtimas n\u00e3o sairiam do Brasil. A promessa nos era transmitida<br \/>\ncom hiatos, abafada e rouca. Espa\u00e7avam-se os gritos, as for\u00e7as<br \/>\nminguavam, n\u00e3o se prolongaria a resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tarde, a matilha sugeriu um acordo: Olga e Elisa seriam acompanhadas por<br \/>\namigos, nenhum mal lhes fariam. Aceita a proposta, arrumaram a bagagem, partiram<br \/>\njuntas a Campos da Paz Filho e Maria Wemeck. Ardil grosseiro. Apartaram-nos<br \/>\nl\u00e1 fora. Campos da Paz e Maria Werneck regressaram logo ao Pavilh\u00e3o<br \/>\ndos Prim\u00e1rios. Olga Prestes e Elisa Berger nunca mais foram vistas.<br \/>\nSoubemos depois que tinham sido assassinadas num campo de concentra\u00e7\u00e3o<br \/>\nna Alemanha.<\/p>\n<p>21<\/p>\n<p>UM JUIZ do Tribunal Especial veio interrogar os presos que tinham processo.<br \/>\nMandou cham\u00e1-los \u00e0 secretaria. Ningu\u00e9m foi l\u00e1<br \/>\nEra paisano e bacharel, e os militares se encarregaram de ridiculariz\u00e1-lo<br \/>\nmuito depressa.<\/p>\n<p>Acomodat\u00edcio, o homem se instalou a alguns passos dos cub\u00edculos<br \/>\nonde se arrastavam discuss\u00f5es trabalhosas e se compunham relat\u00f3rios,<br \/>\nmanifestos, correspond\u00eancia todas as se manas entregues aos correios<br \/>\nde saias que nos visitavam no Cassino. Numerosos convites foram feitos, repisados<br \/>\ncom paci\u00eancia. Nenhum transtorno aos rapazes. Atravessariam de relance<br \/>\no p\u00e1tio mi\u00fado e, descerrando um port\u00e3o, entrariam numa<br \/>\nsala, diriam meia d\u00fazia de palavras necess\u00e1rias. S\u00f3.<br \/>\nNem precisavam mudar a roupa. Concess\u00e3o temer\u00e1ria: insinuavam-lhes<br \/>\nfalar quase nus \u00e0 autoridade, o que realmente se deu pouco depois.<br \/>\nNaquele momento rejeitaram a condescend\u00eancia, intrat\u00e1veis, duros,<br \/>\ne insubordinaram-se. O local das reuni\u00f5es secretas, vizinho ao refeit\u00f3rio,<br \/>\nsemelhava um corti\u00e7o de abelhas assanhadas. N\u00e3o se reconhecia<br \/>\no Tribunal Especial, c\u00f3pia do fascismo. Aquela gente anf\u00edbia,<br \/>\nque ainda misturava pe\u00e7as de farda ao vestu\u00e1rio civil, calejava<br \/>\nnos exerc\u00edcios e tinha o cora\u00e7\u00e3o perto da goela. Ia e<br \/>\nvinha, subia e descia a escada, empurrava com for\u00e7a os dois port\u00f5es<br \/>\nfronteiri\u00e7os, simulava n\u00e3o enxergar o magistrado paciente e<br \/>\nchinfrim da justi\u00e7a reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Tr\u00eas ou quatro dias as mesmas cenas se renovaram: intima\u00e7\u00f5es,<br \/>\nrecusas, o sujeito da lei nova abancado horas a fio, surdo a remoques, seguro<br \/>\nao osso miser\u00e1vel do emprego. Surgiu-nos, com certeza por isso, um<br \/>\nfuncion\u00e1rio de modos policiais. Chegou-se com p\u00e9s de gato \u00e0s<br \/>\nt\u00e1buas dos cavaletes, abriu uma pasta, desdobrou pap\u00e9is, rosnou<br \/>\nsons indistintos. Aproximando-me, conheci o intuito dele: convidava algumas<br \/>\npessoas a prestar declara\u00e7\u00f5es. Pegou uma lista e iniciou a chamada:<br \/>\n&#8211; Louren\u00e7o Moreira Lima.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o produziu nenhum efeito. Em redor, indiferentes, jogavam<br \/>\nxadrez, percorriam jornais, como se nada tivessem ouvido. Na frieza e na falta<br \/>\nde respeito \u00e0 ordem, o tipo gaguejou o apelo com voz mais forte. De<br \/>\ncamisa e cueca, sentado na cama junto ao altar, Moreira Lima tossiu, levou<br \/>\na m\u00e3o \u00e0 orelha, informou-se:<br \/>\n&#8211; An! Comigo! N\u00e3o temos neg\u00f3cios n\u00e3o. Passe adiante.<br \/>\nO funcion\u00e1rio fez ouvidos moucos \u00e0 negativa e prosseguiu a leitura,<br \/>\nfria, mec\u00e2nica, profissional; os indiv\u00edduos mencionados pareciam<br \/>\ndistantes dali. Aquilo iria ter conseq\u00fc\u00eancias desagrad\u00e1veis,<br \/>\nsem d\u00favida; se pudessem, alguns procurariam evit\u00e1-las, mas receavam<br \/>\nmostrar-se covardes. A rebeldia inicial originava repulsa un\u00e2nime, dava-nos<br \/>\nfugitiva impress\u00e3o de fortaleza. O instrumento da pol\u00edcia arrumou<br \/>\nas folhas e retirou-se. Que diabo nos aconteceria?<br \/>\nO juiz flex\u00edvel cansou na espera in\u00fatil, desapareceu, foi substitu\u00eddo<br \/>\npor outro, severo, intransigente, de maus bofes, oficial do ex\u00e9rcito.<br \/>\nEsse usou m\u00e9todo r\u00e1pido e eficaz. Inteirou-se da oposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nentendeu-se com o diretor e ordenou conciso o arrastamento dos cabe\u00e7udos<br \/>\nao interrogat\u00f3rio. Como os guardas eram incapazes da tarefa, requisitou<br \/>\na pol\u00edcia especial, que veio numerosa e bruta, invadiu as celas, distribuiu<br \/>\npancadas, malogrou a resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Da saleta do caf\u00e9, ouvi um barulho feio. Entrei na oficina de encaderna\u00e7\u00e3o,<br \/>\nabri uma veneziana, vi S\u00f3crates passar, de cueca e tamancos, agarrado<br \/>\npor dois ferrabrases patibulares. Um tipo surgiu, bem vestido, solto, na disciplina<br \/>\nda caserna, a publicar a dissid\u00eancia amarga que fermentava na pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Afastei-me, fui debru\u00e7ar-me a uma das janelas pr\u00f3ximas aos<br \/>\ncavaletes. L\u00e1 embaixo havia metralhadoras dirigidas a n\u00f3s, e<br \/>\nhomens fortes de b\u00edceps enormes, cabe\u00e7as vermelhas de galo-de-campina,<br \/>\nandavam firmes, a expor energia. Pensei na extravag\u00e2ncia de Jos\u00e9<br \/>\nBrasil, motivada pelos ratos, quando as luzes se apagavam. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nera preciso buscarmos perigos insensatos no escuro da noite. A alguns metros,<br \/>\ndia claro, l\u00e1 estavam armas reais, indubit\u00e1veis, as bocas erguidas,<br \/>\ne rijos latag\u00f5es de c\u00f3coras, acertando a pontaria.<\/p>\n<p>Essa fanfarronada impressionou menos que a fantasia louca de Jos\u00e9<br \/>\nBrasil. Diante das m\u00e1quinas de a\u00e7o a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a curiosidade esmoreceram. A princ\u00edpio ainda cheg\u00e1 vamos ao<br \/>\nparapeito, fic\u00e1vamos algum tempo a observar a rumorosa exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde for\u00e7a, na verdade inofensiva. Queriam apenas amedrontar-nos. Convencia-me<br \/>\ndisso vendo os gestos \u00e1speros, as carrancas e os longos manejos invari\u00e1veis<br \/>\ndas robustas crian\u00e7as perversas. Logo nos habituamos: no dia seguinte<br \/>\nera como se o aparato marcial sempre nos tivesse feito a amea\u00e7a in\u00fatil.<br \/>\nConservaram-se ali talvez uma semana; praticadas as viol\u00eancias profissionais,<br \/>\nretiraram-se, e a pol\u00edcia da casa p\u00f4de levar os mo\u00e7os<br \/>\nexaltados ao juiz escabroso.<\/p>\n<p>Certa manh\u00e3, depois do caf\u00e9, anunciaram-me visita. Arranjei-me<br \/>\n\u00e0 pressa, desci, fui ver minha mulher na alfaiataria, onde se realizavam<br \/>\nesses encontros irregulares, frutos de engenhosos pretextos, renovados, modificados<br \/>\ncom \u00eaxito. Sentamo-nos em cadeiras de vime, o Sousa alfaiate arredou-se<br \/>\ndiscreto. Algumas perguntas e respostas chochas revelavam-me, nesses momentos<br \/>\nde exce\u00e7\u00e3o, que a mulher gastara energia sem proveito. Como<br \/>\nestava a sa\u00fade? Havia not\u00edcia das crian\u00e7as? Que diziam<br \/>\nde n\u00f3s l\u00e1 fora? \u00c9ramos uns patifes, segundo os jornais.<br \/>\nInformando-me, queria saber se o ju\u00edzo severo continuava firme na opini\u00e3o<br \/>\np\u00fablica ou se se notava qualquer mudan\u00e7a. Os meninos, sem novidade.<br \/>\nE pass\u00e1vamos bem. Minha mulher n\u00e3o tinha doen\u00e7a. As dores<br \/>\ndas pernas j\u00e1 n\u00e3o me atormentavam, os cabelos cresciam: era-me<br \/>\nposs\u00edvel usar pente. O vagabundo repulsivo, de cor terrosa e bochechas<br \/>\ncavadas., visto no espelho meses atr\u00e1s, desaparecera. Sentia-me lerdo<br \/>\ne come\u00e7ava a engordar; apraziam-se a in\u00e9rcia, a cama, os cochilos;<br \/>\no menor esfor\u00e7o fatigava-me.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, narrados os \u00faltimos sucessos, internos e externos,<br \/>\nrepisamos assuntos, ca\u00edmos em sil\u00eancio. De repente ouvimos altos<br \/>\nbrados. Erguemo-nos, chegamos \u00e1 porta, enxergamos \u00e0 direita<br \/>\num grupo confuso. J\u00e1 me habituara a cenas iguais: iam levando um acusado<br \/>\nao interrogat\u00f3rio. Trouxemos cadeiras para a cal\u00e7ada, a\u00ed<br \/>\nnos instalamos curiosos. Um novelo de corpos agitados passava diante de n\u00f3s,<br \/>\na pequena dist\u00e2ncia. Arregalando os olhos, distingui \u00c1lvaro de<br \/>\nSousa, suspenso, a debater-se com desespero, nas m\u00e3os de quatro homens<br \/>\nque lhe seguravam rijo os bra\u00e7os e as pernas. A cabe\u00e7a, desgovernada,<br \/>\nsubia, descia, em duros solavancos, tentava equil\u00edbrio; o rosto se<br \/>\navermelhava furioso; a boca torcia-se, vomitava inj\u00farias ao governo,<br \/>\n\u00e0 justi\u00e7a nova, ao ex\u00e9rcito. Alongando o pesco\u00e7o,<br \/>\nmostrava a cicatriz da navalha que lhe cortara m\u00fasculos importantes,<br \/>\nmodificara a fisionomia. Batida pelo sol, aparentava insana mistura de raiva<br \/>\ne esc\u00e1rnio. Os insultos n\u00e3o diminu\u00edam. E transportaram<br \/>\nassim o capit\u00e3o \u00c1lvaro de Sousa, meio despido, a exibir marcas<br \/>\nde tiros na barriga e no t\u00f3rax, fardo inc\u00f4modo.<\/p>\n<p>Afastara-se, o barulho declinou, sumiu-se. Diante do vulto escuro, turbulento,<br \/>\nrecobramos id\u00e9ias e \u00e2nimo; reapareceram as palavras fugitivas.<br \/>\nParecia-nos que Alvaro se abalava \u00e0 toa, desperdi\u00e7ava for\u00e7as<br \/>\ndele e de outros. A coragem louca perdia-se. Berros, esgares, movimentos de<br \/>\nbicho feroz dominado a custo, seriam indistinto rumor al\u00e9m dos muros<br \/>\nda pris\u00e3o. E nada valiam serem percebidos: o ju\u00edzo venenoso<br \/>\ndos jornais insinuava-se nos esp\u00edritos.<\/p>\n<p>Novo magote nos perturbou a conversa, mas esse mexia-se tardo, em des\u00e2nimo<br \/>\nvis\u00edvel. Ainda uma pessoa, chamada a prestar declara\u00e7\u00f5es,<br \/>\nresolvera deitar-se, e n\u00e3o houvera meio de coloc\u00e1-la em posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nvertical. Necess\u00e1rio transport\u00e1-la daquele jeito, provisoriamente<br \/>\naleijada. Espantou-me nela a aus\u00eancia de contor\u00e7\u00f5es, uma<br \/>\nserenidade a contrastar com os destemperos de \u00c1lvaro, pouco antes.<br \/>\nOs carregadores moviam-se vagarosos, sem esfor\u00e7o, e outros indiv\u00edduos<br \/>\nvinham atr\u00e1s, como gatos-pingados a realizar um enterro pobre. T\u00ednhamos<br \/>\nna verdade a impress\u00e3o de nos acharmos num cemit\u00e9rio. No primeiro<br \/>\nmomento n\u00e3o reconheci a figura inerte, franzina, leve, metida num pijama<br \/>\nde riscas. A alguns metros do port\u00e3o a carga ex\u00edgua deu sinal<br \/>\nde vida e chegou-me a voz met\u00e1lica de Agildo, cortante como l\u00e2mina:<br \/>\n&#8211; Bem. J\u00e1 fiz o meu protesto. Larguem-me, vou levantar-me.<\/p>\n<p>N\u00e3o pedia: apesar de falar baixo, dava uma ordem, concisa e dura.<br \/>\nTr\u00eas homens o soltaram; o quarto, um negro alto e magro, continuou a<br \/>\nsegurar-lhe a perna direita.<\/p>\n<p>&#8211; Larguem-me, repetiu o,mo\u00e7o, as costas no ch\u00e3o, uma banda<br \/>\nmeio levantada.<\/p>\n<p>N\u00e3o alcan\u00e7ando, na situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel,<br \/>\na obedi\u00eancia a que se habituara, encolheu-se, retesou os m\u00fasculos<br \/>\ne jogou um vigoroso pontap\u00e9 na cara do negro. A ponta do tamanco<br \/>\nferiu carne, cartilagens, e o infeliz recuou limpando as ventas ensang\u00fcentadas.<br \/>\nFinda essa proeza, r\u00e1pido bote de cobra, Agildo retomou o sossego.<br \/>\nUm instante depois marchava seguido pelos guardas, lento, economizando energia<br \/>\npara ofensas acres ao juiz atrabili\u00e1rio.<\/p>\n<p>22<\/p>\n<p>UMA NOITE, depois do ch\u00e1, os militares trouxeram para o sal\u00e3o<br \/>\ntodos os bancos do refeit\u00f3rio. Alinharam perto dos cavaletes esses<br \/>\nm\u00f3veis toscos e em poucos minutos se formou um tablado, que mantas<br \/>\ne len\u00e7\u00f3is ocultaram, seguros a cordas presas \u00e0s paredes<br \/>\ne \u00e0s janelas. Num quarto de hora a pris\u00e3o se mudou em teatro;<br \/>\n\u00edamos assistir a uma com\u00e9dia. A pe\u00e7a n\u00e3o fora<br \/>\nescrita: examinara-se o assunto nos cub\u00edculos, \u00e0 tarde, e os<br \/>\natores, de improviso, desenvolveriam em liberdade os seus talentos no decurso<br \/>\nda representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto se arranjava a cena, um grupo cochichava os \u00faltimos retoques<br \/>\n\u00e0 obra de arte composta de afogadilho. A plat\u00e9ia se organizou;<br \/>\nos artistas muniram-se de cadeiras, de instrumentos necess\u00e1rios, subiram<br \/>\nao palco, afastando as cortinas grosseiras. N\u00e3o havia ponto nem contra-regra:<br \/>\nsubordinando-se ao plano, cada qual teria o direito de entrar, sair, dizer<br \/>\nqualquer coisa ou n\u00e3o dizer nada. Os pap\u00e9is cresceriam, diminuiriam,<br \/>\nconforme as circunst\u00e2ncias. Que iria sair dali? Provavelmente n\u00e3o<br \/>\nsairia nada, mas est\u00e1vamos de p\u00e9, olhos e ouvidos atentos, longe<br \/>\ndo crapaud, do xadrez, da paci\u00eancia. O ensaio geral se realizava l\u00e1<br \/>\ndentro, num burburinho.<\/p>\n<p>S\u00fabito o pano de boca se descerrou e distinguimos uma caricatura<br \/>\ndo tribunal que nos chateara uma semana. Em torno de uma pequena mesa, alguns<br \/>\nsujeitos exibiam influ\u00eancia e carranca: Fl\u00e1vio Poppe, Rollemberg,<br \/>\noutros, fardados, \u00e0 paisana. Faziam sinais, folheavam pap\u00e9is,<br \/>\ns\u00e9rios, atentos, em discuss\u00e3o muda. Ao centro, enrolado num<br \/>\npalet\u00f3 negro, uma pasta de algod\u00e3o na gola, fingindo arminho,<br \/>\nApporelly co\u00e7ava a barba e presidia, com bocejos. Diante dele, os bra\u00e7os<br \/>\namarrados \u00e0s costas, um len\u00e7o a tapar-lhe a boca, erguia-se<br \/>\num tenentezinho d\u00e9bil, insignific\u00e2ncia, t\u00e3o magro e baixo<br \/>\nque o tratavam por filhinho do Agildo. Pegara a alcunha: mi\u00fado, franzino,<br \/>\nAgildo se avantajava ao rapaz em m\u00fasculo e estatura. Ao fundo, um tipo<br \/>\nse agachava, as abas do chap\u00e9u a cobrir-lhe o rosto; fumava e cuspia<br \/>\nno ch\u00e3o e nas paredes de pano.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o tira, disse Fl\u00e1vio Poppe a um vizinho, indicando esse<br \/>\nespantalho sombrio, de cara invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Durante algum tempo os ju\u00edzes mexeram nos autos, a murmurar segredos.<br \/>\nAquietaram-se, e Apporelly entrou a resmungar uma extensa arenga, de que n\u00e3o<br \/>\nse distinguia uma palavra. Zangava-se, batia na mesa, dirigia-se interrogativamente<br \/>\n\u00e0 figurinha amorda\u00e7ada e im\u00f3vel. Depois de muito rosnar<br \/>\nsons indistintos, balbuciou uma ordem pastosa:<br \/>\n&#8211; Defenda-se.<\/p>\n<p>A criatura deu um passo, diligenciou levantar as m\u00e3os presas, estirou<br \/>\no pesco\u00e7o, um gorgorejo rouco esmoreceu-lhe na garganta.<\/p>\n<p>&#8211; Defenda-se, covarde, gritou Apporelly, esmurrando o ar, bravio.<\/p>\n<p>Conteve-se, esperou, esfregando o pelame revolto da cara; dirigiu-se aos<br \/>\ncolegas:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o quer defender-se. Precisamos nomear-lhe um advogado.<\/p>\n<p>Os outros concordaram, mas a escolha de patrono razo\u00e1vel originou<br \/>\num di\u00e1logo cheio de q\u00fciproqu\u00f3s. Avan\u00e7avam, recuavam;<br \/>\no presidente, amolado, assentia, dissentia, embrulhava-se, ajeitava na gola<br \/>\na pasta de algod\u00e3o rebelde, pregava os olhos no acusado, aproximava<br \/>\ndele as cerdas longas e \u00e1speras de javali:<br \/>\n&#8211; Defenda-se, canalha.<\/p>\n<p>O tenente permaneceu quieto na morda\u00e7a e na corda.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser julgado sem defesa, tartamudeou<br \/>\nApporelly.<\/p>\n<p>Agarrou uma folha e, vagaroso, tremelicou a redigir, riscar, de espa\u00e7o<br \/>\na espa\u00e7o virando-se para os lados, em consultas breves e moles aos<br \/>\nfigurantes do tribunal. Chamou o tira, ofegou um mandado bambo. O funcion\u00e1rio<br \/>\nmoveu-se, capengou, recebeu o papel, retirou-se pela porta \u00fanica, ao<br \/>\nfundo, a cuspir, a derrear-se, embicando o chap\u00e9u. O presidente esgani\u00e7ou<br \/>\num risinho de aprova\u00e7\u00e3o babosa \u00e0 for\u00e7a material<br \/>\ne esfregou as m\u00e3os alegre, como se os muques da seguran\u00e7a p\u00fablica<br \/>\nfossem dele. Um minuto os ju\u00edzes se entretiveram em conversa animada<br \/>\ne silenciosa. O pol\u00edcia, rebocando um homem, veio interromp\u00ea-los:<br \/>\n&#8211; Entra, chefe. O doutor chamou.<\/p>\n<p>S\u00f3 a\u00ed, pela voz rouca, distingui o indiv\u00edduo oculto<br \/>\nsob as abas imensas do chap\u00e9u: era Morais Rego, um oficial de intend\u00eancia,<br \/>\nteimoso em excesso. Meses atr\u00e1s, na enfermaria, nunca deixava de contrariar-nos<br \/>\nlan\u00e7ando id\u00e9ias extravagantes; se acaso pens\u00e1vamos como<br \/>\nele, mudava de opini\u00e3o. Encolheu-se, foi representar, ex\u00edmio,<br \/>\no seu papel de c\u00e3o de fila.<\/p>\n<p>E Ivan Ribeiro surgiu, chegou-se ao r\u00e9u, entabulou um discurso em<br \/>\nlinguagem profundamente revolucion\u00e1ria, sem nenhuma defer\u00eancia<br \/>\naos magistrados. Jogou em cima deles<br \/>\npeda\u00e7os do programa da Alian\u00e7a Nacional Libertadora e frases<br \/>\nque diariamente se renovavam para animar os esp\u00edritos vacilantes. P\u00e3o,<br \/>\nterra e liberdade &#8211; exigiu firme. Arrojou-se a atacar o governo e apresentou<br \/>\ncomo her\u00f3i o vivente mesquinho, deslocado nas ataduras. Foi pouco al\u00e9m<br \/>\ndo intr\u00f3ito. Logo aos primeiros arremessos, os julgadores alarmaram-se,<br \/>\narrepiaram-se como se os mordessem pulgas; entenderam-se \u00e0 pressa,<br \/>\ncom vis\u00edvel receio de que tais desconchavos fossem ouvidos l\u00e1<br \/>\nfora. A um gesto de Apporelly, Morais Rego chegou-se a Ivan, segurou-lhe um<br \/>\nbra\u00e7o, indicando a porta: &#8211; Anda, chefe. O doutor mandou.<\/p>\n<p>O inconveniente defensor prosseguiu nas horr\u00edveis diatribes; levado<br \/>\naos empurr\u00f5es, saiu a vociferar desacatos furiosos \u00e0 justi\u00e7a.<br \/>\nPancadas, berros, luta a esmorecer, a distanciar-se; veio o sil\u00eancio,<br \/>\nquebrado agora por um forte pigarro nos bastidores. Esse rumor conhecido revelou<br \/>\na nova personagem. O pol\u00edcia voltou; falou baixo ao presidente, foi<br \/>\nagachar-se \u00e0 entrada, apontou a mesa com o polegar, dirigindo-se a<br \/>\numa pessoa invis\u00edvel. E Moreira Lima apresentou-se, curvo, temperando<br \/>\na garganta, a apalpar as virilhas, a ajeitar a funda. Avan\u00e7ou, cumprimentou,<br \/>\ndigno.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 outro advogado que vem patrocinar a causa deste miser\u00e1vel,<br \/>\nbocejou Apporelly, sonolento, aos parceiros.<\/p>\n<p>E, voltando-se para o rec\u00e9m-chegado: &#8211; Tem a palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Senhores membros do colendo Tribunal Especial, come\u00e7ou o bacharel<br \/>\nferoz aproximando-se da mesa.<\/p>\n<p>Pegou um caderno, abriu-o enfastiado, largou-o:<br \/>\n&#8211; Eu nem preciso examinar o processo, pois este caso \u00e9 not\u00f3rio.<br \/>\nO r\u00e9u presente n\u00e3o esconde os seus crimes. Atentou contra as<br \/>\nnossas institui\u00e7\u00f5es, conspirou, usou bombas e combateu as for\u00e7as<br \/>\nlegais &#8211; todo o mundo sabe. Tomou parte na insurrei\u00e7\u00e3o de Natal<br \/>\ne sublevou-se em Pernambuco &#8211; todo o mundo sabe. Envolveu-se no barulho do<br \/>\n3.\u00b0 Regimento, n\u00e3o pode negar &#8211; todo o mundo sabe. No mesmo dia<br \/>\ninsurgiu-se na Escola de Avia\u00e7\u00e3o todo o mundo sabe. Redigiu<br \/>\nmanifestos sediciosos, organizou com\u00edcios, pichou muros e escreveu<br \/>\nartigos violentos em jornais clandestinos &#8211; todo o mundo sabe.<\/p>\n<p>A cavernosa tosse costumeira algumas vezes interrompia as afirma\u00e7\u00f5es<br \/>\ndecisivas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, senhores ju\u00edzes, arquejou o extraordin\u00e1rio r\u00e1bula,<br \/>\no acusado mostra pelo menos uma virtude: n\u00e3o procura inocentar-se Obrigado<br \/>\na interrogat\u00f3rio, permaneceu quieto, e a den\u00fancia est\u00e1<br \/>\ns\u00f3lida. As faltas dele s\u00e3o graves &#8211; todo o mundo sabe. E no<br \/>\nestado em que se acha n\u00e3o lhe seria poss\u00edvel neg\u00e1-las.<br \/>\nAl\u00e9m disso, devemos reconhecer, temos diante de n\u00f3s um irrespons\u00e1vel.<br \/>\n\u00c9 um infeliz, um pobre-diabo, ru\u00edna f\u00edsica. Pela cara<br \/>\nvemos perfeitamente: um imbecil, um idiota. Sem d\u00favida obedeceu \u00e0s<br \/>\ninstru\u00e7\u00f5es dos agentes de Moscou. Assim, venerandos ju\u00edzes,<br \/>\nn\u00e3o venho pedir justi\u00e7a, que este indiv\u00edduo \u00e9<br \/>\num canalha &#8211; todo o mundo sabe. Espero clem\u00eancia, e baseio-me nas tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nmisericordiosas da nossa cultura ocidental. Uma pena suave, merit\u00edssimos<br \/>\nju\u00edzes, a\u00ed uns trinta anos, porque enfim este bandido serviu<br \/>\nde instrumento.<\/p>\n<p>A defesa calou-se. A presid\u00eancia esfregou o queixo barbudo, sorriu,<br \/>\nalvitrou:<br \/>\n&#8211; Acho bom atendermos ao pedido, sermos generosos. Trinta anos. Que dizem?<br \/>\nH\u00e1 na verdade atenuantes. Apenas trinta anos, na ilha Grande. Uma senten\u00e7a<br \/>\nm\u00f3dica.<\/p>\n<p>&#8211; Excelente, concordaram todos os comparsas levantando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Morais Rego moveu-se, caxingou, deu uns safan\u00f5es no condenado,<br \/>\narrastou-o:<br \/>\n&#8211; Anda, chefe.<\/p>\n<p>As cortinas cerraram-se. A plat\u00e9ia ria. Na saleta do caf\u00e9,<br \/>\nos guardas riam.<\/p>\n<p>23<\/p>\n<p>HOUVE efervesc\u00eancia nos cub\u00edculos, um rumor espalhou-se, encheu<br \/>\no p\u00e1tio, o refeit\u00f3rio, a escada, os banheiros, a saleta do caf\u00e9<br \/>\n&#8211; e a novidade precisou-se afinal: iam fazer a greve da fome.<\/p>\n<p>&#8211; Doidice, afirmaram sujeitos graves, inimigos de abalos, ostentando experi\u00eancia.<\/p>\n<p>A medida extrema exigia prepara\u00e7\u00e3o, alimento poupado em dias<br \/>\ne meses, gasto pouco a pouco nas horas dif\u00edceis, para dar l\u00e1<br \/>\nfora a impress\u00e3o de que algumas dezenas de pessoas queriam na verdade<br \/>\nmorrer em suic\u00eddio lento. Nunca me haviam ocorrido essas cautelas.<br \/>\nOs jornais me haviam imposto a incr\u00edvel resist\u00eancia de certos<br \/>\norganismos, e isto me ajudava a suportar \u00e0s vezes semanas de fastio.<br \/>\nComparado \u00e0 rigorosa abstin\u00eancia em duras pris\u00f5es da Europa<br \/>\ne da \u00c1sia, o meu sacrif\u00edcio no por\u00e3o do Manaus e na Col\u00f4nia<br \/>\nCorrecional fora pequeno. Davam-me not\u00edcia agora de uma t\u00e9cnica<br \/>\nnas priva\u00e7\u00f5es, dosadas convenientemente, se era poss\u00edvel<br \/>\ncomunic\u00e1-las ao exterior, mand\u00e1-las a outros pa\u00edses em<br \/>\ntelegramas.<\/p>\n<p>Estar\u00edamos em condi\u00e7\u00f5es de utilizar essa arma? Pensei<br \/>\nna defesa dela, exposta por Medina, sustentada por Bag\u00e9, no terra\u00e7o<br \/>\ndo Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios. Bag\u00e9 rosnara motivos sem p\u00e9<br \/>\nnem cabe\u00e7a, a gaguejar, e um vizinho me tocara o bra\u00e7o, indignado:<br \/>\n&#8211; &#8220;Provoca\u00e7\u00e3o.&#8221; Mas faltara-lhe \u00e2nimo para manifestar-se<br \/>\nem voz alta. As caras em redor se anuviavam, quase todos se opunham, e quase<br \/>\ntodos, confusos, tinham aprovado maquinalmente o jejum. Finda a vota\u00e7\u00e3o,<br \/>\nRodolfo Ghioldi se revelara, confessando-se vencido. Que vantagem pod\u00edamos<br \/>\nesperar? Obter\u00edamos publicidade? Como? A imprensa nos atacava: n\u00e3o<br \/>\n\u00e9ramos v\u00edtimas na opini\u00e3o dela, f\u00f4ramos agressores.<br \/>\nOs deputados capazes de arriscar uma palavra a nosso favor estavam presos.<br \/>\nQuem se interessaria por n\u00f3s? O protesto ficaria em sil\u00eancio.<br \/>\nO ju\u00edzo divergente ocasionara modifica\u00e7\u00e3o radical na<br \/>\nassembl\u00e9ia, e o primeiro a desdizer-se fora Bag\u00e9, com um risinho<br \/>\nbesta, inofensivo. N\u00e3o reparara naquilo, enganara-se. Leviandade. Segunda<br \/>\nvota\u00e7\u00e3o condenara unanimemente a coisa resolvida. Que diabo!<br \/>\nDepend\u00edamos de criaturas levianas. Depois, no colch\u00e3o duro,<br \/>\nna pregui\u00e7a regulamentar, com freq\u00fc\u00eancia uma id\u00e9ia<br \/>\nme assaltara, desagrad\u00e1vel, misturada a conversas chatas e a percevejos.<br \/>\nHomens vaidosos e ing\u00eanuos. Seriam realmente ing\u00eanuos? A quem<br \/>\naproveitava a ingenuidade? &#8211; &#8220;Enganei-me.&#8221; Engano suspeito. Se o<br \/>\nconselho rebelde se efetuasse, alguns de n\u00f3s iriam resfriar-se no ch\u00e3o<br \/>\nmolhado, em celas escuras. Um sopro me &#8216;deixara no ouvido o aviso severo:<br \/>\n&#8211; &#8220;Provoca\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nEsse caso infeliz ressurgia enquanto os rapazes se agitavam semeando raz\u00f5es<br \/>\npara greve. Achei-as bem fracas, mas afastei a id\u00e9ia de existirem provocadores<br \/>\nentre os homens que as defendiam. V\u00e1rios deles eram meus inimigos,<br \/>\ne isto deve ter-me levado a esfor\u00e7ar-me por ser imparcial. N\u00e3o<br \/>\nme sentia propenso a cultivar \u00f3dios. Certos indiv\u00edduos tinham<br \/>\nsido injustos e grosseiros comigo. Teriam sido? Grosserias e injusti\u00e7as<br \/>\nesfumavam-se, vapor, sumiam-se r\u00e1pido no ambiente a que nos submetiam-<br \/>\nGanhavam ra\u00edzes os fuxicos de um energ\u00fameno meio cego que via<br \/>\ng\u00eanios em toda a parte. Mole, deixando a enfermaria antes da cura, desanimava-me<br \/>\na ler desgra\u00e7as na Espanha. Enxergava ali uma derrota provis\u00f3ria:<br \/>\nainda amargar\u00edamos tempos duros. &#8211; &#8220;Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o<br \/>\nacredita na vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o?&#8221; perguntara-me<br \/>\num oficialzinho cheio de susto. &#8211; &#8220;N\u00e3o acredito em nada, meu caro.<br \/>\nN\u00e3o sou crente. Julgo infal\u00edvel a vit\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nhoje, amanh\u00e3, n\u00e3o sei quando. Isto n\u00e3o \u00e9 cren\u00e7a.<br \/>\n\u00c9 certeza. Se eu pudesse acreditar, acreditaria nos anjos, em Deus,<br \/>\nque t\u00eam pelo menos a vantagem de ser velhos.&#8221; Dizendo tais horrores,<br \/>\nfurtava-me a explica\u00e7\u00f5es &#8211; e era razo\u00e1vel evitarem-me.<br \/>\nAl\u00e9m disso recusara-me a fazer confer\u00eancias, a escrever um artigo<br \/>\ne n\u00e3o atentara na elei\u00e7\u00e3o do Coletivo. Em suma: reacion\u00e1rio<br \/>\npessimista. Walter Pompeu buscava exasperar-me narrando coment\u00e1rios<br \/>\narrasadores. Paci\u00eancia. Muitos vinham da caserna, tinham h\u00e1bitos<br \/>\ndiversos dos meus, eram rigorosos com as pessoas indiferentes \u00e0s can\u00e7\u00f5es<br \/>\npatri\u00f3ticas. Isso nos afastava, mas de nenhum modo me levava a supor<br \/>\nque eles quisessem mandar-me pata a Col\u00f4nia Correcional. Pensando bem,<br \/>\nsentia-me perplexo, custava-me a ver em Mediria um provocador. Tamb\u00e9m<br \/>\nele fora enviado \u00e0 Col\u00f4nia. De volta, achara bom trancarem-me<br \/>\nl\u00e1, darem-me assunto para um livro. Debaixo de ramos que nos importunavam,<br \/>\na bater asas, a trilar, desejara que me deixassem uns dias faminto, no barrac\u00e3o<br \/>\ns\u00f3rdido. Sairia dali uma hist\u00f3ria magn\u00edfica. Esse progn\u00f3stico<br \/>\nam\u00e1vel n\u00e3o me seduzia. Prefer\u00edvel deixarem-me em paz,<br \/>\nlonge de trabalhos in\u00fateis e responsabilidades. Bag\u00e9 sumira-se,<br \/>\nmas este propriamente n\u00e3o vivia, era simples ap\u00eandice. Finda<br \/>\na inexperi\u00eancia, inclinava-me a agradecer a Mediria os bons prop\u00f3sitos.<br \/>\nIrrealiz\u00e1veis, sem d\u00favida. Cubano e Ga\u00facho ficariam desconhecidos,<br \/>\nou apareceriam deformados e im\u00f3veis, esbo\u00e7os feitos a custo,<br \/>\nna ignor\u00e2ncia. N\u00e3o me seria desagrad\u00e1vel tornar a v\u00ea-los,<br \/>\ncompletar observa\u00e7\u00f5es, aprender alguma coisa. Voltar \u00e0<br \/>\nCol\u00f4nia, deitar-me na esteira podre, na cama suja de hemoptises, falar<br \/>\na Cubano, embalar-me nas aventuras de Ga\u00facho, saber como ele fugira<br \/>\nde Fernando de Noronha. Esva\u00edra-se o princ\u00edpio dessa fuga arriscada<br \/>\n&#8211; e era-me preciso reconstitu\u00ed-la. Embora o pormenor n\u00e3o tivesse<br \/>\nimport\u00e2ncia, agarrava-me a ele, queria debalde lembrar-me de uma frase<br \/>\nduvidosa, em g\u00edria. Provavelmente as narra\u00e7\u00f5es de Ga\u00facho<br \/>\neram mentiras, e isto me prendia &#8211; e nos aproximava. Que havia nos meus livros?<br \/>\nMentiras. A necessidade horr\u00edvel de entrar no galp\u00e3o imundo,<br \/>\nconversar com os meus amigos, perseguia-me. Os pol\u00edticos me condenavam<br \/>\nessa fraqueza &#8211; porque enfim Ga\u00facho, Cubano, Paraiba e seu Mota eram<br \/>\nrebotalhos sociais, criaturas perdidas. Eu pr\u00f3prio havia dito isso<br \/>\nquando Fran\u00e7a diligenciava meter id\u00e9ias revolucion\u00e1rias<br \/>\nno esp\u00edrito rombo de um infeliz como Paulista. Achava-me incoerente,<br \/>\na acusar e a inocentar Medina e Bag\u00e9. A greve falhara. Esbo\u00e7ava-se<br \/>\noutra<br \/>\nIdas e vindas para cima e para baixo, murm\u00farios, constante barulho<br \/>\nde tamancos na escada, argumentos sagazes &#8211; e o plano se desenvolveu pouco<br \/>\na pouco. Uns doidos, opinava firme Verg\u00edlio Benvenuto, largando a vitrola,<br \/>\nos jornais, os retratos de mulheres nuas. Resolviam-se de improviso, sem m\u00e9todo.<br \/>\nA prud\u00eancia de Rodolfo Ghioldi fazia-me observar com desgosto os preparativos.<br \/>\nHavia ensejo de publicidade? Logo notei que os rapazes dos cub\u00edculos<br \/>\nn\u00e3o causariam transtorno a outros indiv\u00edduos: seriam eles os<br \/>\nprejudicados. A gente da Sala da Capela refugou o convite, fria. Vantagens<br \/>\nindecisas, remotas, exibidas com \u00e2nimo, foram v\u00e3s. Eram recentes<br \/>\nas desordens praticadas nas barbas do tribunal, as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndelas estavam bem vivas. Ter\u00edamos de novo no p\u00e1tio os bichos<br \/>\nfortes de cabe\u00e7as vermelhas, a apontar-nos metralhadoras; safan\u00f5es,<br \/>\nresist\u00eancia, gritos, baques, protestos ineficazes, homens em desespero,<br \/>\nquase nus, levados \u00e0 for\u00e7a. Imagin\u00e1vamos as cenas desagrad\u00e1veis,<br \/>\ninvari\u00e1veis; j\u00e1 nem sequer nos atra\u00eda a novidade. A coragem<br \/>\ncega de \u00c1lvaro de Sousa e a dureza met\u00e1lica de Agildo perderiam<br \/>\ncom a repeti\u00e7\u00e3o. Esbanjaram-se alguns dias em extensas arengas<br \/>\n&#8211; e as duas sociedades pr\u00f3ximas n\u00e3o chegaram a entender-se.<br \/>\nV\u00e1rios dos meus vizinhos resignar-se-iam sem dificuldade ao projeto<br \/>\ninsano, mas eram pouco numerosos e nem conseguiram manifestar-se. A maioria,<br \/>\ncomposta de engenheiros, m\u00e9dicos, jornalistas, advogados, intelectuais<br \/>\nmais ou menos desiludidos em contatos r\u00e1pidos com oper\u00e1rios<br \/>\nanalfabetos e suspeitosos, reunia as suas ci\u00eancias, entrincheirava-se<br \/>\nnelas, desprezando naturalmente os indiv\u00edduos alheios aos of\u00edcios<br \/>\ncomplexos. No meio fecundo em autoridade e orgulho, barbas severas, gestos<br \/>\naltivos, per\u00edodos longos, sil\u00eancios eruditos, quebravam-se as<br \/>\ndecis\u00f5es dos mo\u00e7os do andar inferior, amigos da gin\u00e1stica,<br \/>\nruidosos, espalhafatosos, sempre dispostos a levar as quest\u00f5es mais<br \/>\nsimples \u00e0s vias de fato. Esses n\u00e3o se detinham em racioc\u00ednios<br \/>\nlentos, na regra: \u00e0s vezes mandavam \u00e0 fava as premissas, iam<br \/>\ndireito a conclus\u00f5es apressadas, inconseq\u00fcentes. As recusas expostas<br \/>\nem voz alta encobriam as diferen\u00e7as de temperamento e educa\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne mais fortes, mais decisivas, havia as disc\u00f3rdias, meses antes apenas<br \/>\nentrevistas, depois claras, indisfar\u00e7\u00e1veis. O malogro inicial<br \/>\nfez-me presumir uma desist\u00eancia: n\u00e3o quereriam exibir a falta<br \/>\nde solidariedade. Enganei-me. Findas as consultas, o refeit\u00f3rio se<br \/>\ndespovoou.<\/p>\n<p>Ao descer para o caf\u00e9, notei nos bancos muitos claros, pod\u00edamos<br \/>\nmexer-nos \u00e0 vontade, p\u00f4r os cotovelos em cima das t\u00e1buas.<br \/>\nPerto um rumor ia crescendo at\u00e9 mudar-se em gritos, baixava, tornava<br \/>\na subir, e percebia-se na algazarra um estribilho concebido para amolar a<br \/>\nadministra\u00e7\u00e3o. Aquilo, repisado no mesmo tom, era irritante.<br \/>\nO velho Nunes, coitado, ia ver-se em talas. N\u00e3o nos queix\u00e1vamos<br \/>\ndele, e era dif\u00edcil arranjar-se um pretexto razo\u00e1vel para a<br \/>\nrebeldia. L\u00e1 em cima as conversas, o pezunhar dos tamancos, os discos<br \/>\nda vitrola sufocavam a balb\u00fardia, mas da saleta do caf\u00e9 ouvia-se<br \/>\ndistintamente o refr\u00e3o insensato. Ignoro que exig\u00eancia formulavam.<br \/>\nSe n\u00e3o me equivoco, alguns receavam debilitar-se, enxergar no major<br \/>\num tipo amor\u00e1vel, propenso a condescender. Lembrei-me do Pavilh\u00e3o<br \/>\ndos Militares, besuntado, lavado, esfregado, muito diferente da Sala da Capela.<br \/>\nDorm\u00edamos no ch\u00e3o; \u00e0 noite, o frio intenso nos mordia<br \/>\na carne. Debaixo, dos len\u00e7\u00f3is curtos, precis\u00e1vamos encolher-nos,<br \/>\nbat\u00edamos os dentes como caititus. Agulhas picavam-me as orelhas; as<br \/>\nminhas m\u00e3os geladas procuravam aquecer-se entre as coxas insens\u00edveis.<br \/>\nNa perna direita a insensibilidade aumentava, descia ao joelho, passava da\u00ed.<br \/>\nPela manh\u00e3 os pardais nos levantavam. Conversas bambas, anedotas ing\u00eanuas,<br \/>\nesperan\u00e7as d\u00e9beis, os \u00f3culos, o ronrom asm\u00e1tico<br \/>\ne a fraqueza de seu Eus\u00e9bio. A comida excessiva e gordurosa causava<br \/>\nn\u00e1useas. Um dia os homens fortes, Cabezon, Petrosky, Zoppo, im\u00f3veis<br \/>\nna digest\u00e3o do almo\u00e7o, n\u00e3o tinham conseguido jantar.<br \/>\nE um guarda correra a perguntar se a devolu\u00e7\u00e3o das marmitas<br \/>\nsignificava indisciplina. Que id\u00e9ia! Significava que os presos estavam<br \/>\npesados, fartos como jib\u00f3ias. Um diretor invis\u00edvel nos amea\u00e7ava.<br \/>\nOutro agora, apreensivo, esfor\u00e7ava-se por trazer ao bom caminho algumas<br \/>\ndezenas de viventes extraviados.<\/p>\n<p>Passaram-se dias. E a resist\u00eancia continuava. Apenas as vozes enrouqueciam,<br \/>\nos gritos se espa\u00e7avam, o longo estribilho exigente perdia o vigor.<br \/>\nOs coment\u00e1rios \u00e0 desordem, severos e mon\u00f3tonos, aborreciam-me.<br \/>\nPara evit\u00e1-los, ia esconder-me na oficina de encaderna\u00e7\u00e3o<br \/>\nquando os oper\u00e1rios sa\u00edam, tentava refugiar-me na leitura. Uma<br \/>\ntarde, frases col\u00e9ricas, arrogantes, soaram perto, afastaram-me do<br \/>\nlivro. Ergui-me, cheguei a uma janela, vi l\u00e1 embaixo a mulher do major<br \/>\nNunes, uma virago terrivelmente fornida. Tinha um prato na m\u00e3o, queria<br \/>\npass\u00e1-lo entre os var\u00f5es de uma cela pr\u00f3xima: &#8211; Gay,<br \/>\ntu vais comer isto.<\/p>\n<p>N\u00e3o se ouvia a resposta de Jos\u00e9 Gay da Cunha. Certamente se<br \/>\ncalava, no horr\u00edvel constrangimento, e a oposi\u00e7\u00e3o muda<br \/>\nexacerbava a pobre senhora:<br \/>\n&#8211; Tu \u00e9s meu filho, Gay. Tua m\u00e3e foi minha amiga, era como se<br \/>\nfosse irm\u00e3. E tu \u00e9s meu filho, aqui tu \u00e9s meu filho.<br \/>\nToma, obedece.<\/p>\n<p>A teimosia do rapaz magoava a excelente criatura como ofensa pessoal, causava-lhe<br \/>\nexaspero. Tive a impress\u00e3o de que ela ia meter os bra\u00e7os fortes<br \/>\nentre os ferros da grade e puxar as orelhas do menino ingrato. Homem de revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nJos\u00e9 Gay da Cunha, t\u00edmido, risonho, muito branco, tinha na verdade<br \/>\na apar\u00eancia de uma enorme crian\u00e7a. Fazia um ano que nos conhec\u00edamos.<br \/>\nE durante esse tempo, am\u00e1vel e arredio, Gay me tratava com cerim\u00f4nia,<br \/>\ncomo se me visse pela primeira vez. Imaginei-o confuso e p\u00e1lido, a<br \/>\nsussurrar agradecimentos dif\u00edceis e tr\u00eamulos, tentando esquivar-se<br \/>\n\u00e0 bondade violenta. A zanga rija caiu, a fala imperiosa abrandou, esmoreceu<br \/>\nnum pedido afetuoso:<br \/>\n&#8211; Aceita, filho. Tu n\u00e3o podes continuar assim. Toma. Fui eu que te<br \/>\npreparei a comida.<\/p>\n<p>In\u00fateis os conselhos e a dureza, a mulher deu o prato a um faxina,<br \/>\nretirou-se em desespero, enxugando os olhos. Essa lastimosa cena deve ter<br \/>\ncontribu\u00eddo para vencer a resist\u00eancia dos grevistas. Fazia mais<br \/>\nde uma semana que se obstinavam; j\u00e1 nem podiam gritar. Veio a ren\u00fancia<br \/>\numa noite. As grades se descerraram. Os homens dirigiram-se ao refeit\u00f3rio,<br \/>\nmagros, cadav\u00e9ricos, silenciosos. Alguns, arrimando-se aos ombros dos,<br \/>\nguardas, a arrastar as pernas, foram levados \u00e0 enfermaria.<\/p>\n<p>24<\/p>\n<p>MINHA mulher entregou-me um papel, pediu-me que o assinasse. Formalidade:<br \/>\na assinatura na linha onde havia uma cruz a l\u00e1pis.<\/p>\n<p>&#8211; Espera. \u00c9 necess\u00e1rio ver de que se trata, murmurei aborrecido<br \/>\ncom a tentativa de me despersonalizarem. Preciso ver. Que diabo \u00e9 isso?<br \/>\nLi a folha: uma procura\u00e7\u00e3o a constituir o doutor Sobral Pinto<br \/>\nmeu advogado. Estupidez. Sobral Pinto defendia Prestes e Berger, tinha para<br \/>\nn\u00f3s grande import\u00e2ncia; era idiota supor que fosse tratar de<br \/>\ncasos mesquinhos, insignificantes. Liberal, cat\u00f3lico, homem de pensamento<br \/>\ne homem de a\u00e7\u00e3o, afastava-me.<\/p>\n<p>&#8211; Quem se lembrou disso? perguntei quase irritado. Fora Jos\u00e9 Lins,<br \/>\no amigo insensato que me escrevia bilhetes em beiras de jornais, arriscando-se<br \/>\na entrar na cadeia sem motivo. Jos\u00e9 Lins e certos camaradas nunca vistos<br \/>\nanteriormente. Alguns escritores, muito poucos, haviam confiado no meu \u00faltimo<br \/>\nlivro, esperavam coisa menos besta no futuro e desejavam soltar-me. Da\u00ed<br \/>\na resolu\u00e7\u00e3o de me entregarem \u00e0s luzes de Sobral Pinto.<br \/>\nA princ\u00edpio esse cavalheiro n\u00e3o inspirava confian\u00e7a.<br \/>\nBerger o tratara secamente, num ingl\u00eas misturado com alem\u00e3o:<br \/>\nsuspeitava de uma defesa imposta pelas autoridades. E Sobral, sem se ofender,<br \/>\ngastara meses num trabalho \u00e1spero, provara enfim n\u00e3o ser um<br \/>\nfuncion\u00e1rio nomeado para afligir as criaturas. Prestes se havia tornado<br \/>\namigo dele. Surgira, ap\u00f3s diversas entrevistas, um terreno escasso,<br \/>\nestreita faixa neutra, onde o materialista e o espiritualista conseguiam mexer-se.<br \/>\nLarguei a folha, aperreado:<br \/>\n&#8211; Jos\u00e9 Lins \u00e9 um maluco. N\u00e3o escrevo isto. Para que me<br \/>\nmetem nessa encrenca? O doutor Sobral Pinto deve ser rico, e eu nem tenho<br \/>\ndinheiro para pagar os selos da procura\u00e7\u00e3o. Deixem-me em paz.<br \/>\nN\u00e3o posso entender-me com essa gente. Diga a Jos\u00e9 Lins que v\u00e1<br \/>\npara o inferno. Estou bem; n\u00e3o se importem comigo.<\/p>\n<p>Sentia-me fraco, em des\u00e2nimo excessivo. O espelho da saleta mostrava-me<br \/>\n\u00e0s sextas-feiras uma cara gorda e mole. Arrastava-me lento, as pernas<br \/>\nbambas. A perspectiva de liberdade assustava-me. Em que iria ocupar-me?<\/p>\n<p>Era absurdo confessar o desejo de permanecer ali, ocioso, in\u00fatil,<br \/>\ncom receio de andar nas ruas, tentar viver, responsabilizar-me por qualquer<br \/>\nservi\u00e7o. Longo tempo me esfor\u00e7ara por justificar a pregui\u00e7a:<br \/>\ntodos os caminhos estavam fechados para mim, nenhum jornal me aceitaria a<br \/>\ncolabora\u00e7\u00e3o, inimigos ocultos iam prejudicar-me. Escasseavam<br \/>\nagora as evasivas covardes. A coragem de um editor, elogios f\u00e1ceis<br \/>\nna imprensa, vagas esperan\u00e7as na minha literatura de carrega\u00e7\u00e3o<br \/>\ne afinal os bons prop\u00f3sitos de indiv\u00edduos estranhos revelavam-me<br \/>\nsolidariedade. As loucuras de Jos\u00e9 Lins n\u00e3o me surpreendiam:<br \/>\nt\u00ednhamos sido companheiros na reda\u00e7\u00e3o e no caf\u00e9.<\/p>\n<p>Mas novas camaradagens acenavam-me de longe, t\u00e3o inesperadas como<br \/>\nos obs\u00e9quios de malandros e vagabundos na Col\u00f4nia Correcional.<br \/>\nN\u00e3o podia encerrar-me no pessimismo; indispens\u00e1vel regressar<br \/>\n\u00e0 humanidade, fiar-me nela; imposs\u00edvel satisfazer-me com part\u00edculas<br \/>\nde humanidade, poeira. Muito embaixo, na lama e na chuva, o frio a partir-me<br \/>\nos ossos, um sujeito an\u00f4nimo e sem rosto amparara-me, desviara-me da<br \/>\ntreva e da morte. Revolucion\u00e1rios infiltravam-se na pol\u00edcia<br \/>\ne procediam dessa maneira, discretos e silenciosos. Outros indiv\u00edduos<br \/>\nchamavam-me de cima. Outros indiv\u00edduos. Como seriam eles? Imaginei-os<br \/>\nCubanos civilizados e brancos, desgostosos por saber-me inerte, a bocejar.<br \/>\nAs informa\u00e7\u00f5es minguavam. Sobral Pinto n\u00e3o se distinguia<br \/>\nbem do soldado paciente que me arrastara quil\u00f4metros no aguaceiro. Essa<br \/>\ncompara\u00e7\u00e3o atenazava-me. Achava-me propenso a misturar homens<br \/>\ndiscrepantes, inconcili\u00e1veis, superiores, inferiores.<\/p>\n<p>V\u00e1rias vezes afirmei que n\u00e3o assinaria o papel, mas a afirma\u00e7\u00e3o<br \/>\nera mec\u00e2nica. Enquanto expunha motivos para n\u00e3o assinar, deixava-me<br \/>\nlevar por motivos opostos, n\u00e3o expressos. Reli a procura\u00e7\u00e3o<br \/>\ne, numa incongru\u00eancia aparente, lancei o meu nome na linha indicada.<br \/>\nMinha mulher ia sem d\u00favida considerar-me estulto. Nunca me explicava,<br \/>\ne os atos divergiam com freq\u00fc\u00eancia das palavras. Certamente era<br \/>\npusilanimidade resignar-me \u00e0 pris\u00e3o, engordar, enfraquecer,<br \/>\njogar crapaud. Uma id\u00e9ia me afligiu naqueles instantes de indecis\u00e3o:<br \/>\ntemi, recusando a oferta, ser grosseiro com os am\u00e1veis desconhecidos.<\/p>\n<p>Respirei, mudei de assunto, livre de pensamentos contradit\u00f3rios.<br \/>\nDias depois chamaram-me \u00e0 secretaria. A\u00ed se apresentou um cidad\u00e3o<br \/>\nmagro, de meia altura, rosto en\u00e9rgico, boca forte, olhos terrivelmente<br \/>\nagudos. Sobral Pinto. Inquietou-me v\u00ea-lo perder tempo em visita a um<br \/>\npreso vagabundo, refugo da Col\u00f4nia Correcional: imaginara que apenas<br \/>\nredigisse ou mandasse redigir uma peti\u00e7\u00e3o de habeas-corpus.<br \/>\nEstragava a manh\u00e3 vindo falar-me. O advogado sentou-se, afastou essas<br \/>\nlam\u00farias com um gesto seco, abriu a pasta e come\u00e7ou a interrogar-me.<br \/>\nEra o primeiro interrogat\u00f3rio a que me submetiam. Ouvi perguntas e<br \/>\ndei respostas embrulhadas; maquinalmente peguei uma folha de papel e um l\u00e1pis;<br \/>\nmas achava-me t\u00e3o confuso que, referindo-me \u00e0 Casa de Deten\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfiquei sem saber se devia escrever deten\u00e7\u00e3o com s ou \u00e7.<br \/>\nRisquei, tornei a riscar &#8211; a incerteza permaneceu. No cipoal de quest\u00f5es<br \/>\nenrasquei-me: &#8211; Ora, doutor, para que tantas min\u00facias? Como \u00e9<br \/>\nque o senhor vai preparar a defesa se n\u00e3o existe acusa\u00e7\u00e3o?<br \/>\nO advogado estranhou a minha impertin\u00eancia. Em que pa\u00eds viv\u00edamos?<br \/>\nEra preciso n\u00e3o sermos crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 processo.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00ea gra\u00e7as a Deus, replicou o homem sagaz espetando-me com<br \/>\no olhar duro de gavi\u00e3o. Porque \u00e9 que o senhor est\u00e1 preso?<br \/>\n&#8211; Sei l\u00e1! Nunca me disseram nada.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o uns idiotas D\u00ea gra\u00e7as a Deus. Se eu fosse chefe<br \/>\nde pol\u00edcia, o senhor estaria aqui regularmente, com processo. &#8211; Muito<br \/>\nbem. Onde \u00e9 que o senhor ia achar mat\u00e9ria para isso, doutor?<br \/>\n&#8211; Nos seus romances, homem. Com as leis que fizeram por a\u00ed, os seus<br \/>\nromances dariam para conden\u00e1-lo.<\/p>\n<p>N\u00e3o me ocorrera tal coisa. Os meus romances eram observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nfr\u00e1geis e honestas, valiam pouco. Absurdo julgar que hist\u00f3rias<br \/>\nsimples, produto de m\u00e3os d\u00e9beis e intelig\u00eancia d\u00e9bil,<br \/>\nconstitu\u00edssem arma. N\u00e3o me sentia culpado. Que diabo! O estudo<br \/>\nrazo\u00e1vel dos meus sertanejos mudava-se em dinamite. O duro ju\u00edzo<br \/>\ndo legista esfriou-me: &#8211; Est\u00e1 bem. N\u00e3o tinha pensado nisso.<\/p>\n<p>Realmente pensava no preju\u00edzo que me for\u00e7avam a causar ao<br \/>\nparadoxo vivo ali sentado em frente de mim. N\u00e3o havia dinheiro nem<br \/>\npara os selos. Porque tirar da cadeia um pobre como eu? Sobral Pinto me fez<br \/>\noutras visitas. Palavra aqui, palavra ali &#8211; notei que ele era pobre tamb\u00e9m.<br \/>\nE por isso queria libertar-me. As nossas id\u00e9ias discrepavam. Coisa<br \/>\nsem import\u00e2ncia. Sobral Pinto, homem de caridade perfeita, queria tirar<br \/>\nda cadeia um bicho in\u00fatil, na minha opini\u00e3o, um filho de Deus,<br \/>\nna opini\u00e3o dele.<\/p>\n<p>25<\/p>\n<p>U MA NOITE de calor, suando no colch\u00e3o duro, chateava-me a folhear<br \/>\num romance idiota. Algu\u00e9m, na cama vizinha, interrompia-me afirmando<br \/>\ncom enorme certeza que aquilo era uma b\u00edblia. Desenvolvia motivos,<br \/>\nindicava passagens onde se arrumavam belezas impercept\u00edveis. Aborrecia-me:<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 bem. Isso mesmo.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel descobrir alguma vantagem no livro espesso, bem constru\u00eddo,<br \/>\ncient\u00edfico em demasia. As personagens, terrivelmente s\u00e1bias,<br \/>\nexpunham temas dif\u00edceis, causavam-me dor de cabe\u00e7a. Os insensatos<br \/>\nelogios irritavam-me: &#8211; Isso mesmo. Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Calor horr\u00edvel. Morriam-me nos ouvidos sons abafados, as luzes das<br \/>\nl\u00e2mpadas tremiam. Percevejos l\u00edquidos e ardentes fervilhavam-me<br \/>\npor baixo do pijama; a respira\u00e7\u00e3o encurtava-se. As figuras em<br \/>\nredor perdiam a consist\u00eancia; o discurso pedante do otimista pouco a<br \/>\npouco se desalentou e afinal as id\u00e9ias sumiram-se dele. Falta de ar.<br \/>\nDe repente as letras come\u00e7aram a mexer-se, a dan\u00e7ar, as linhas<br \/>\ntorceram-se doidas, deixando largos espa\u00e7os vagos no papel amarelo.<br \/>\nEsfreguei as p\u00e1lpebras. As janelas estavam longe, as l\u00e2mpadas<br \/>\nsubiam. Na mesinha redonda, ao centro, jogavam bridge. Distingui os parceiros<br \/>\npela conversa abalizada: &#8211; Dizem os tratadistas&#8230;<\/p>\n<p>Cascardo, Barreto Leite e Hermes Lima estavam ali, mexendo cartas, discutindo,<br \/>\ninvis\u00edveis; o quarto jogador apagava-se no sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Xeque.<\/p>\n<p>O tabuleiro de xadrez, a alguns passos, desaparecia em sombra compacta.<br \/>\nUma nuvem cortada por faixas vermelhas cobria os objetos. Cheguei a p\u00e1gina<br \/>\naos olhos, afastei-a, buscando ansioso juntar os caracteres rebeldes. V\u00e1rios<br \/>\nderam-me a impress\u00e3o de reunir-se, formando um contra-senso: dettera.<br \/>\nQue diabo significava dettera? Parecia italiano, mas, por muito que me esfor\u00e7asse,<br \/>\nn\u00e3o me lembrava de ter visto semelhante palavra. Demais o livro ali<br \/>\naberto era escrito em portugu\u00eas. Que vinham fazer nele as estranhas<br \/>\ns\u00edlabas? Procurei-as, e n\u00e3o houve meio de ach\u00e1-las. Certamente<br \/>\nn\u00e3o existiam, embora um minuto antes se houvessem mostrado claras,<br \/>\nos dois tt negros e fixos. Ilus\u00e3o, mas ilus\u00e3o bem esquisita,<br \/>\ncom apar\u00eancia de verdade. O negror e a fixidez tinham-se esva\u00eddo,<br \/>\nagora as manchas cresciam na folha, os tra\u00e7os vermelhos angustiavam-me<br \/>\nespalhando os sinais caprichosos.<\/p>\n<p>Soltei a brochura, ergui-me, um peso enorme no cora\u00e7\u00e3o: julgava-me<br \/>\nin\u00fatil, condenado para o resto da vida a guiar-me pelos outros. Esqueci<br \/>\no otimista facundo, avancei alguns metros no soalho, orientando-me por indecisas<br \/>\nclaridades, atingi a mesa do crapaud, sentei-me num banco, tentei enganar-me<br \/>\nfingindo seguir os lances de uma partida. Uma voz engrolada, cheia de rr,<br \/>\nconvidou-me para o jogo, senti os baralhos debaixo dos dedos.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado. N\u00e3o posso.<\/p>\n<p>Levantei-me, peguei um bra\u00e7o, desviei-me tateando na penumbra e na<br \/>\nafli\u00e7\u00e3o: &#8211; Venha c\u00e1, Gikovate. Parece que estou cego,<br \/>\nn\u00e3o consigo ler. Que diabo ser\u00e1 isto? N\u00e3o era nada, respondeu<br \/>\ncalmo o rapaz tentando sossegar-me. A evasiva, a maneira r\u00e1pida e f\u00e1cil<br \/>\nde eliminar um fato negando-o, agravou-me a inquieta\u00e7\u00e3o. Como<br \/>\nn\u00e3o era nada? Pouco antes achava-me tranq\u00fcilo, a bocejar diante<br \/>\nde um livro. S\u00fabito as linhas se haviam deslocado, e em largos espa\u00e7os<br \/>\ndesertos mexiam-se letras vagabundas. Algumas se juntavam, formando uma palavra<br \/>\nsem p\u00e9 nem cabe\u00e7a, e manchas rubras corriam na p\u00e1gina.<br \/>\nTinha-me sem d\u00favida aparecido qualquer desgra\u00e7a. N\u00e3o<br \/>\nseria bom consultar outros m\u00e9dicos? Fazendo a pergunta, convencia-me<br \/>\nda inutilidade evidente dela. Com certeza alguns dos vultos indecisos, atentos<br \/>\nno xadrez e nos jornais, podiam examinar-me, tra\u00e7ar um diagn\u00f3stico,<br \/>\nmas n\u00e3o tinham recurso para suprimir a horr\u00edvel n\u00e9voa<br \/>\nespessa.<\/p>\n<p>O judeu excelente achou desnecess\u00e1ria a consulta: dentro de meia<br \/>\nhora aquilo ia passar. Usou express\u00f5es t\u00e9cnicas, aconselhou-me<br \/>\nrepouso, e a voz calma, segura, incutiu-me esperan\u00e7a. Lembrei-me de<br \/>\nhaver experimentado coisa semelhante anos atr\u00e1s. Ocupava-me em redigir<br \/>\num vago esbo\u00e7o liter\u00e1rio, destinado ao fogo, naturalmente: quando<br \/>\nas gavetas se abarrotassem, seria preciso, como de ordin\u00e1rio, esvazi\u00e1-las,<br \/>\ndestruir as composi\u00e7\u00f5es med\u00edocres. O exerc\u00edcio<br \/>\nlongo, paciente, fixara-se, convertera-se em h\u00e1bito, e em v\u00e3o<br \/>\nqueria livrar-me dele. Desde a inf\u00e2ncia entregava-me ao dever est\u00e9ril.<\/p>\n<p>Naquele dia o caso novo me alarmara: a folha esmorecera, fundira-se \u00e0s<br \/>\nt\u00e1buas da mesa, e nessa pasta nebulosa a minha fic\u00e7\u00e3o<br \/>\ncapenga se dispersara, coberta de n\u00f3doas vermelhas. Esfor\u00e7ara-me<br \/>\npor domin\u00e1-la, escancarando os olhos, aproximando, afastando o papel.<br \/>\nA escurid\u00e3o se prolongara cerca de meia hora. O progn\u00f3stico<br \/>\nde Gikovate avivava-me a cegueira provis\u00f3ria e reduzia-me o susto.<br \/>\nMeia hora. Talvez o rapaz desejasse apenas enganar-me, estabelecesse o prazo<br \/>\n\u00e0 toa, mas a coincid\u00eancia levava-me a confiar nele. Dentro de<br \/>\nmeia hora a neblina se adelga\u00e7aria, novamente me seria poss\u00edvel<br \/>\nagarrar peda\u00e7os de verdade nos telegramas divergentes da Espanha.<\/p>\n<p>&#8211; Vou deitar-me. Venha comigo, n\u00e3o enxergo o caminho.<\/p>\n<p>O companheiro guiou-me entre os m\u00f3veis confusos. Estirei-me na cama,<br \/>\nenrolei a cabe\u00e7a no len\u00e7ol.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado. Fa\u00e7a o favor de apagar a l\u00e2mpada.<\/p>\n<p>S\u00f3, busquei distrair-me apanhando migalhas de conversas no burburinho.<br \/>\nA gargalhada rouca de Mo\u00e9sia cortava a narrativa de Moreira Lima, v\u00e1rias<br \/>\nvezes repetida; Apporelly arrumava a paci\u00eancia vagarosa, ouvia-se distintamente<br \/>\no chiar das cartas na mesinha; e Arist\u00f3teles Moura, sol\u00edcito,<br \/>\ncochichava-me oferecimentos indefinidos. Os receios desbotaram, fugiram lentos,<br \/>\nchegou a inconsci\u00eancia, resvalei no sono.<\/p>\n<p>Levantei-me dia claro, respirei com al\u00edvio pensando na afli\u00e7\u00e3o<br \/>\nda v\u00e9spera, e a manh\u00e3 luminosa a entrar pelas janelas banhou-me<br \/>\ncomo um favor. Pestanejei: as manchas tinham-se esva\u00eddo sem deixar<br \/>\nvest\u00edgio. Faixas de sol forte avan\u00e7avam no soalho. Os homens<br \/>\niam e vinham, perfeitamente vis\u00edveis, entregues \u00e0s insignific\u00e2ncias<br \/>\nda rotina. Longe, avultava a massa pedregosa da Favela, com a casaria indecisa<br \/>\nespalhada em cinzentas ladeiras, transeuntes a subir, a descer, mulheres avizinhando-se<br \/>\nda igreja fina e am\u00e1vel pregada no cume. Tinham vivido ali possivelmente,<br \/>\npregui\u00e7ando em botequins s\u00f3rdidos, bebendo cacha\u00e7a, tocando<br \/>\nviol\u00e3o, alguns dos vagabundos agora comprimidos na piolheira da Col\u00f4nia<br \/>\nCorrecional. Pensei nessas esquisitas personagens, incapazes de trabalho,<br \/>\nexpostas a uma cont\u00ednua persegui\u00e7\u00e3o, comparei-as aos<br \/>\ndoutores que folheavam jornais nas t\u00e1buas dos cavaletes. Hermes Lima<br \/>\nembebia-se nos seus cadernos de alem\u00e3o. Pompeu Accioly resolvia problemas<br \/>\nde xadrez. De volta do caf\u00e9, Maur\u00edcio Lacerda encostava-se a<br \/>\num parapeito \u00e0 esquerda e atirava aos pardais miolo de p\u00e3o.<br \/>\nEsse h\u00e1bito di\u00e1rio constitu\u00eda quase um dever, e na execu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndele ratazanas enormes emboscavam-se entre blocos de cantaria, aguardando<br \/>\nensejo de assaltar as aves. Os bichos repulsivos, gordos, vorazes, reduziam<br \/>\nbastante os intuitos ben\u00e9volos do homem. Necess\u00e1rio fugir, era<br \/>\na opini\u00e3o de S\u00f3crates Gon\u00e7alves, repetida muitas vezes.<br \/>\nMarteladas, uma serra a chiar na pequena marcenaria da saleta.<\/p>\n<p>Abri o volume abandonado com desespero \u00e0 noite, reli a p\u00e1gina<br \/>\nduvidosa e opaca onde tr\u00eas s\u00edlabas se tinham agrupado, a zombar<br \/>\nde mim. Nenhum sinal delas. Apenas uma w)rosa insulsa e pedante.<\/p>\n<p>26<\/p>\n<p>ENTRANDO no sal\u00e3o, vi na cama de Lu\u00eds de Barros, fronteira<br \/>\n\u00e0 porta, um fardo tr\u00eamulo: ag\u00fcentando o rijo calor de meio-dia,<br \/>\nalgu\u00e9m se enrolava num cobertor de l\u00e3. &#8211; Que \u00e9 isso,<br \/>\nLu\u00eds? Suadouro? O mo\u00e7o descobriu o rosto p\u00e1lido, murmurou<br \/>\nd\u00e9bil: &#8211; N\u00e3o. Medo.<\/p>\n<p>Abafei numa gargalhada a confiss\u00e3o intempestiva, n\u00e3o porque<br \/>\nse tratasse de coisa rara, mas pela simplicidade com que se expunha. Evitamos<br \/>\nreferir-nos a tais fraquezas, embora n\u00e3o haja motivo para nos envergonharem.<br \/>\nLembrei-me do abafamento, aparecido \u00e0s vezes como epidemia: fic\u00e1vamos<br \/>\nin\u00fateis, sem apetite, os m\u00fasculos bambos, a vontade suspensa.<br \/>\nNa Col\u00f4nia Correcional apavorava-me diante de um selvagem b\u00eabedo.<br \/>\nE a opera\u00e7\u00e3o dos ratos levara uma noite Jos\u00e9 Brasil a<br \/>\nperceber metralhadoras na sombra, assestadas contra n\u00f3s. No estado<br \/>\nnormal, talvez nos espant\u00e1ssemos se algu\u00e9m nos viesse falar<br \/>\nnesses desconchavos, mais ou menos apagados; n\u00e3o ser\u00edamos capazes<br \/>\nde amofinar-nos assim. Continuava a rir-me examinando a figura empacotada.<br \/>\nOs olhos escancaravam-se, os bei\u00e7os contra\u00edam-se, os dedos apertavam<br \/>\ncom for\u00e7a a orla do pano abaixo do queixo.<\/p>\n<p>&#8211; Largue esse cobertor, homem. Voc\u00ea se derrete nesta quentura dos<br \/>\ndiabos.<\/p>\n<p>O rapaz mexeu a cabe\u00e7a, espalhou a vista pelos arredores com jeito<br \/>\nc\u00f4mico: &#8211; N\u00e3o brinque. Estou morto de medo. Covardia.<\/p>\n<p>Era como se estivesse a indicar amea\u00e7as em roda, mas isto se mudava<br \/>\nem truanice. N\u00e3o havia ali sinal da esquisita fraqueza que de longe<br \/>\nem longe nos contaminava; os jogos, os trabalhos desenrolavam-se mon\u00f3tonos,<br \/>\nas conversas zumbiam. Nenhum soldado bruto viria trazer-nos exig\u00eancias<br \/>\nalarmantes. E rumores indefinidos n\u00e3o alvoro\u00e7avam as criaturas<br \/>\nsugestion\u00e1veis; no sossego das tocas os ratos dormiam; imposs\u00edvel<br \/>\nimaginar canos de armas, inimigos ocultos, na claridade intensa que inundava<br \/>\no p\u00e1tio.<\/p>\n<p>&#8211; Recebeu alguma not\u00edcia desagrad\u00e1vel? inquiri afugentando<br \/>\nraz\u00f5es imediatas.<\/p>\n<p>Devia ser isto: desgosto de fam\u00edlia, embara\u00e7os econ\u00f4micos,<br \/>\nobst\u00e1culos imprevistos surgidos no processo, encrencas sutis, esmorecimento<br \/>\ndo advogado. No \u00f3cio obrigat\u00f3rio e no ramerr\u00e3o, esses<br \/>\ncontratempos se exageravam, roubavam-nos o sono.<\/p>\n<p>&#8211; Seus parentes lhe disseram alguma coisa? N\u00e3o. Tudo em ordem. Mas<br \/>\nestou com medo. Nem sei de qu\u00ea.<\/p>\n<p>As p\u00e1lpebras ca\u00eddas ergueram-se leves, um olhar r\u00e1pido<br \/>\nfuzilou, nos l\u00e1bios frouxos correu moment\u00e2neo o sorrisinho malandro.<br \/>\nUm instante depois l\u00e1 estava no rosto bambo a m\u00e1scara deplor\u00e1vel:<br \/>\nrugas, o nariz longo, dois sulcos fundos a prolongar a boca. A tremura sacudia<br \/>\nos m\u00fasculos, e no pesco\u00e7o os dedos crispavam-se agarrando o<br \/>\npano.<\/p>\n<p>&#8211; Estou com frio.<\/p>\n<p>Para o diabo. Ainda uma vez a criatura desassisada se entretinha a zombar<br \/>\nde mim. Durante meses se apagara, an\u00f4nima e sem cor, os modos lorpas,<br \/>\ngaguejando ninharias. E afetara excessiva cautela sem nenhuma raz\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o iria comprometer-se deixando a assinatura numa folha de romance?<br \/>\nAgora simulava covardia. Ao sentir-me novamente logrado, achava-me cr\u00e9dulo,<br \/>\nsimples objeto de brincadeiras nas m\u00e3os de um sujeito ordin\u00e1rio.<br \/>\nRepetia a mim mesmo essa inj\u00faria, e zangava-me por afirmai uma injusti\u00e7a.<br \/>\nO homem possu\u00eda grande talento, mas era est\u00fapido viver \u00e3<br \/>\nesbanj\u00e1-lo representando pap\u00e9is rid\u00edculos. Notando a<br \/>\nfraude, julgava-me denso e lerdo; com certeza outros indiv\u00edduos me<br \/>\nenganavam tamb\u00e9m, e era-me imposs\u00edvel ajustar-me ao ambiente<br \/>\ndesgra\u00e7ado. Tocaias. Pessoas a deslizar na sombra.<\/p>\n<p>Afastei-me desgostoso, pensando que de fato proced\u00edamos ali como<br \/>\nse nos escond\u00eassemos, em permanentes emboscadas. Veio-me ao esp\u00edrito<br \/>\no ju\u00edzo c\u00ednico de Walter Pompeu, desenvolvido meses atr\u00e1s<br \/>\nno cub\u00edculo 35 do Pavilh\u00e3o dos Prim\u00e1rios. Nordestino,<br \/>\nb\u00e1rbaro, acomodado \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, Walter admitia<br \/>\na nega\u00e7a e a fraude, meios de suprimir um inimigo com pouco esfor\u00e7o.<br \/>\nA lei dos cangaceiros. &#8211; &#8220;\u00c9 assim que se faz na guerra. Qual \u00e9<br \/>\no objetivo? Matar. Bem. Matamos reduzindo as probabilidades de risco. O homem<br \/>\nsensato n\u00e3o se afoita em campo descoberto: resguarda-se junto a uma<br \/>\n\u00e1rvore, o olho na pontaria, o dedo no gatilho, o rifle apoiado a uma<br \/>\nforquilha, e espera momento favor\u00e1vel. Um tiro, e acabou-se. O duelo<br \/>\n\u00e9 uma estupidez. Bobagem morrer \u00e0 toa. Cavalheirismo, fanfarronada,<br \/>\nisto \u00e9 literatura besta.&#8221; Recordando a opini\u00e3o crua, vassourada<br \/>\nrazo\u00e1vel em muitas coisas vistas na aula prim\u00e1ria, guardadas<br \/>\nsem exame, surpreendia-me a arg\u00fcir o oficial e a dar-lhe raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Literatura besta. A frase reaparecia, insistente. Ensinavam-nos a exibir<br \/>\nos nossos intuitos, a proceder com dignidade e honra &#8211; e com isto se resumia<br \/>\no trabalho da pol\u00edcia. Evidentemente. Se comet\u00eassemos um crime,<br \/>\no remorso nos obrigaria a confess\u00e1-lo. Mas na guerra n\u00e3o existia<br \/>\nremorso, os deveres ordin\u00e1rios findavam &#8211; e Walter Pompeu queria meter<br \/>\nnas rela\u00e7\u00f5es civis a moral e os h\u00e1bitos da guerra.<\/p>\n<p>Havia saltos nas minhas id\u00e9ias, lacunas e discrep\u00e2ncias. Farrapos<br \/>\nde id\u00e9ias. Afinal est\u00e1vamos em guerra. Num banco estreito, em<br \/>\ncarro de segunda classe, inteirara-me disso lendo um jornal, entre dois fuzis.<br \/>\nO Congresso Nacional prorrogara o estado de guerra. O disparate me indignara,<br \/>\narrancara-me pragas interiores. Agora, sentado na cama, olhando o monte vizinho,<br \/>\naplicava-me em reconsiderar. Havia na verdade um conflito a generalizar-se,<br \/>\nbriga invis\u00edvel, e, em conseq\u00fc\u00eancia, era natural que, por<br \/>\nqualquer suspeita, nos tirassem do mundo. A esquerda, mulheres a descer a<br \/>\nladeira vermelha e pegajosa, na manh\u00e3 clara, um burro e uma cabra quase<br \/>\nim\u00f3veis, casas de t\u00e1bua e lata, a envergonhar-se, a encobrir-se<br \/>\nnas ramagens, panos estendidos, crian\u00e7as nuas. Paz. Em frente, a massa<br \/>\nescura da Favela, a igrejinha alta e magra no topo, figuras vagas a achatar-se<br \/>\nnos declives \u00e1speros da pedra, tetos ariscos. Paz. E em redor, na sala<br \/>\nextensa, o zumbido mon\u00f3tono das conversas, a leitura paciente de Maur\u00edcio<br \/>\nLacerda, o riso de Jorge El-Jaick, o pigarro de Moreira Lima, chiar de serra<br \/>\ne marteladas na pequena oficina de amadores. Paz. A guarita pr\u00f3xima,<br \/>\nerguida no muro alto, parecia deserta; a sentinela devia cochilar pacificamente,<br \/>\nesquecida a vigil\u00e2ncia. Contudo, no sossego aparente viv\u00edamos<br \/>\ninquietos. Olhos atentos nos sondavam por detr\u00e1s de \u00f3culos escuros,<br \/>\na gente se mexia entre ciladas, uma frase leviana figurava nos relat\u00f3rios<br \/>\nque indiv\u00edduos insuspeitos mandavam \u00e1 pol\u00edcia. O velho<br \/>\nMarques me avisara: &#8211; &#8220;O senhor hoje pela manh\u00e3, ali na mesa dos<br \/>\njornais, cumprimentou com a m\u00e3o fechada os rapazes do banho de sol.<br \/>\nUm dos seus companheiros escreveu isso e eu fui portador da informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDesconfie de toda a gente, de mim e dos outros, mas desconfie mais dos seus<br \/>\namigos.&#8221; Isso nos envenenava. Afinal j\u00e1 nem sab\u00edamos quem<br \/>\nera amigo, quem era inimigo. Um sorriso nos envolvia, nos anestesiava, ocultando<br \/>\num punhal de assassino. Dias depois, feridos na sombra, ser\u00edamos postos<br \/>\nnum alojamento sujo de moribundos. Centenas de organismos a desconchavar-se<br \/>\nlentos, envoltos em farrapos; pernas convulsas a estirar-se, finas como cambitos;<br \/>\nbugalhos a rolar em desvario. Gemidos, roncos de agonia &#8211; um infeliz a acabar-se,<br \/>\na barriga aberta, jorros de sangue escuro e podrid\u00e3o cheia de bichos,<br \/>\nsob o v\u00f4o das moscas. Poder\u00edamos findar assim. E poder\u00edamos<br \/>\nresistir, livrar-nos, acomodar-nos outra vez, mais fracos e sem alma, junto<br \/>\nao altar, no quadrado firme de mosaico, lendo romances tolos, vendo a igreja<br \/>\nfina e distante, animais e -crian\u00e7as nuas em cima da ladeira vermelha<br \/>\ne, perto, longe do mundo, homens atentos no jornal e no jogo. Alguns suportariam<br \/>\nmis\u00e9ria e fome, dentro de meses voltariam, como Arist\u00f3teles<br \/>\nMoura, o cr\u00e2nio pelado, mais p\u00e1lidos e magros, mover-se-iam tranq\u00fcilos,<br \/>\nem paz. Paz no vasto sal\u00e3o de t\u00e1buas vacilantes, no morro vermelho,<br \/>\nnas casas escondidas entre ramagens, nas pedras da Favela, nas guaritas pequenas<br \/>\ntrepadas no muro largo. Outros ficariam na ilha f\u00fanebre, desmanchar-se-iam<br \/>\nan\u00f4nimos em covas abertas nas escarpas duras e negras, debaixo das piteiras<br \/>\nluminosas nos crep\u00fasculos cor de sangue. Emboscadas. O ranger das portas<br \/>\nanunciava estalos de gatilhos; nas dobras das roupas escassas havia navalhas<br \/>\ne facas. Jos\u00e9 Brasil se alucinara uma noite, percebera armas na treva.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Barros n\u00e3o se afligia com esses perigos complicados,<br \/>\nmas enxergava possivelmente outros perigos. Retra\u00eda-se, envolvia-se<br \/>\nem d\u00favidas: todos n\u00f3s \u00e9ramos capazes de prejudic\u00e1-lo.<br \/>\nEnrolava-se no cobertor pesado, a queixar-se de frio e medo. Cercavam-no delatores.<br \/>\nSemanas depois as grades se descerraram para ele. Vestiu-se cuidadoso, arrumou<br \/>\na bagagem, despediu-se mastigando o sorriso parvo, que me atenazava. Naquele<br \/>\nmomento era dispens\u00e1vel a constante falsidade. Acompanharam-no ruidosos,<br \/>\ncom demonstra\u00e7\u00f5es vivas de alegria revolucion\u00e1ria. Lu\u00eds<br \/>\nde Barros andava de cabe\u00e7a baixa, em sil\u00eancio. Parou \u00e0<br \/>\nsa\u00edda, virou-se, endireitou a visagem burlesca. Certamente ia fazer<br \/>\num discurso &#8211; Obrigado, murmurou. A como\u00e7\u00e3o e a prud\u00eancia<br \/>\nembargam-me a voz.<\/p>\n<p>27<\/p>\n<p>HOUVE luta f\u00edsica na Sala da Capela, e isto me alarmou, pois nunca<br \/>\nme viera a suposi\u00e7\u00e3o de que desaven\u00e7as mi\u00fadas<br \/>\ntomassem vulto, chegassem ao pugilato. Quais eram afinal os motivos dos rijos<br \/>\ndiss\u00eddios? Palavras. As disc\u00f3rdias come\u00e7avam por elas,<br \/>\nembrulhavam-se na significa\u00e7\u00e3o delas, aprofundavam-se, alargavam-se.<br \/>\nPorqu\u00ea? Exatamente porque faltava raz\u00e3o para se alargarem, aprofundarem.<br \/>\nSe houvesse raz\u00e3o, os advers\u00e1rios conseguiriam provavelmente<br \/>\nsuper\u00e1-la, julguei. Repeti a mim mesmo que a dificuldade estava em<br \/>\ndarem \u00e0 mesma coisa nomes diversos, darem a v\u00e1rias coisas um<br \/>\nnome s\u00f3. Imposs\u00edvel entenderem-se.<\/p>\n<p>Haviam pedido a Le\u00f4nidas Resende um curso de economia pol\u00edtica.<br \/>\nLe\u00f4nidas enfermara, vivia estirado na cama, friorento, apesar do calor.<br \/>\nNas horas das refei\u00e7\u00f5es, erguia-se mole, descia tr\u00f4pego<br \/>\nao refeit\u00f3rio, em des\u00e2nimo. Se lhe fal\u00e1vamos, respondia<br \/>\ncom um sorriso murcho e balofo. Professor, homem de saber e m\u00e9todo,<br \/>\napagava-se; n\u00e3o lhe reconheceriam valor se n\u00e3o aparecesse na<br \/>\nencaderna\u00e7\u00e3o um volume fornido com o nome dele. Da\u00ed o<br \/>\nconvite. Am\u00e1vel e paciente, Le\u00f4nidas resignara-se \u00e0s li\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA noite, no rumor das conversas e da vitrola, fazia-me pena v\u00ea-lo recostar-se<br \/>\nao travesseiro, ampliar a voz fraca, desenvolvendo a mat\u00e9ria, como<br \/>\nse ainda se achasse na c\u00e1tedra. Desatento \u00e0 for\u00e7a do<br \/>\ntrabalho, ao mercado, \u00e0 super-valia, o audit\u00f3rio bocejava. E,<br \/>\nao cabo de alguns dias, os alunos pouco a pouco se dispersavam, iam estudar<br \/>\ncoisa menos chata, ensinando uns aos outros, com l\u00e1pis e folhas de<br \/>\npapel, em grupos animados, pelos cantos. N\u00e3o haviam entendido bem o<br \/>\nprofessor claro e minucioso; acabariam n\u00e3o se entendendo.<\/p>\n<p>Apareciam-me de longe diverg\u00eancias em esbo\u00e7o, e \u00e9ramos<br \/>\nfor\u00e7ados a reconhecer que ningu\u00e9m tinha culpa. Est\u00e1vamos<br \/>\nfeitos daquele jeito, cada um de n\u00f3s estava feito de certo modo &#8211; e<br \/>\nem v\u00e3o tent\u00e1vamos explicar uns aos outros que a leitura de um<br \/>\nartigo n\u00e3o nos transformava. Numerosos degraus. Homens \u00e1speros,<br \/>\nintolerantes; homens simples, cheios de \u00f3dio. Lembrava-me do beato<br \/>\nJos\u00e9 In\u00e1cio, baixo e grosso, um ros\u00e1rio de ave-marias<br \/>\nbrancas e padre-nossos azuis no peito cabeludo, a m\u00e3o curta a mover-se<br \/>\ncom raiva: &#8211; &#8220;Quando fizermos a nossa revolu\u00e7\u00e3o, ateus<br \/>\ncomo o senhor ser\u00e3o fuzilados.&#8221; Havia na Sala da Capela indiv\u00edduos<br \/>\nassim, n\u00e3o t\u00e3o rudes, mas f\u00e9rteis em absurdos e inconcili\u00e1veis.<br \/>\nTornaram-se comuns as falas estridentes, e como and\u00e1vamos quase despidos,<br \/>\nas almas enfim surgiram tamb\u00e9m meio nuas. Porque diabo me indispusera<br \/>\ncom algumas pessoas? Afligia-me n\u00e3o achar resposta, e talvez esses<br \/>\ninimigos imprevistos fizessem debalde a mesma pergunta. J\u00e1 na elei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Coletivo aparecera no fim da sala, perto do altar, um princ\u00edpio<br \/>\nde bagun\u00e7a, enquanto se apuravam as c\u00e9dulas. Berros, palavr\u00f5es,<br \/>\nxingamentos, eleitores assanhados agarrando-se. E por esses votos insignificantes<br \/>\ndiversos militares me haviam torcido o focinho. Estupidez.<\/p>\n<p>Agora as coisas pioravam. Certo dia dois sujeitos se engalfinharam. Um deles<br \/>\nse desprendeu, foi \u00e0 saleta, voltou armado com um form\u00e3o, envolveu-se<br \/>\noutra vez na desordem. Ao cabo de instantes desviou-se do grupo uma figura<br \/>\nensang\u00fcentada: na a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida os pacificadores n\u00e3o<br \/>\ntinham conseguido meio de evitar o golpe. Gritos, barulho de tamancos, chaves<br \/>\na abrir maletas, passos na escada. O faxina trouxe uma bacia de \u00e1gua;<br \/>\nFl\u00e1vio Poppe, Gikovate e outros m\u00e9dicos estriparam rolos de<br \/>\nalgod\u00e3o, e ocupavam-se na lavagem do ferimento quando o major chegou,<br \/>\nacompanhado por guardas. Em sil\u00eancio, o velho estendeu o olhar severo<br \/>\nem redor, ficou algum tempo a examinar a criatura esmorecida e cabisbaixa<br \/>\nque se deixava manusear, um filete rubro a correr de uma brecha pequena aberta<br \/>\nna fronte. Nenhuma censura, apenas a carranca desgostosa. Mas isso nos causava<br \/>\naborrecimento e confus\u00e3o, agravados pelo ar escarninho dos funcion\u00e1rios.<br \/>\nUm deles guinchava olhando a testa p\u00e1lida, onde logo se estirou um<br \/>\npeda\u00e7o de esparadrapo. Guinchos, express\u00e3o velhaca e est\u00fapida.<br \/>\nUma cara obtusa, bei\u00e7os grossos e escuros arrega\u00e7ando-se. Animal.<br \/>\nDevia ser o tipo de que Agildo, levado a bra\u00e7os ao tribunal, se desembara\u00e7ara<br \/>\ncom um pontap\u00e9. Zombava de n\u00f3s. Que vergonha! O diretor afastou-se<br \/>\nr\u00edspido, sem se despedir, rosnou uma ordem, e sumiram-se pouco depois<br \/>\nos utens\u00edlios da marcenaria. Dali em diante o chiar das serras e as<br \/>\nmarteladas n\u00e3o nos embalariam, a dissipar os desejos vagos e o t\u00e9dio.<br \/>\nHavia no alojamento um forte des\u00e2nimo, e busc\u00e1vamos reduzir a<br \/>\ntristeza e o vexame fugindo a coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Correram semanas. Os debates azedavam-se, entusiasmos ardentes esfriavam.<br \/>\nUma tarde nova desordem rebentou. Originou-se na saleta do caf\u00e9, cresceu<br \/>\nr\u00e1pida. Envolvendo muitas pessoas, tornou-se uma onda raivosa, transbordou.<br \/>\nSentado num banco, \u00e0 mesa dos jornais, com um livro e um cigarro, vi,<br \/>\nsapecando per\u00edodos, o fuzu\u00ea desenrolar-se, atravessar a porta,<br \/>\nreceber contingentes, espraiar-se. Jos\u00e9 Brasil se esgoelava, comandando,<br \/>\nquerendo estabelecer disciplina e m\u00e9todo na bagun\u00e7a. Para come\u00e7ar<br \/>\nentalou o pesco\u00e7o de um vizinho debaixo do bra\u00e7o, num truque<br \/>\njapon\u00eas, redemoinhou com o advers\u00e1rio, feito um boneco, sufocado<br \/>\nnessa gravata. Os b\u00edceps contra\u00edam-se, inchavam, molas duras,<br \/>\ne a voz \u00e1spera exigia sossego lan\u00e7ando inj\u00farias e palavr\u00f5es.<\/p>\n<p>Ergui-me, sentei-me um pouco distante, reabri o volume, o desconchavo alcan\u00e7ou-me,<br \/>\nbateu-me nas pernas; levantei-me de novo, afastei-me alguns metros, esforcei-me<br \/>\npor adivinhar a p\u00e1gina. Desviando-me da leitura, percebi que grande<br \/>\nn\u00famero de militares aderia \u00e0 briga. Aquilo para eles era esporte,<br \/>\njogo necess\u00e1rio \u00e0 sa\u00fade. Baques, desaforos; o combate<br \/>\nse generalizava, deslocava os m\u00f3veis, alargara-se at\u00e9 o meio<br \/>\nda sala. N\u00e3o me achando em seguran\u00e7a, fui acomodar-me ao fundo,<br \/>\nperto do altar. As camas restavam desfeitas; formavam-se partidos, a animar,<br \/>\na desanimar os lutadores; e pessoas cautelosas se resguardavam junto \u00e0s<br \/>\njanelas. A f\u00faria coletiva decresceu, morreu, e os contendores desgrudaram-se.<br \/>\nRestabeleceu-se a ordem, arrumaram-se as pe\u00e7as nos tabuleiros de xadrez,<br \/>\nas cartas espalharam-se no crapaud e na paci\u00eancia, os discos da vitrola<br \/>\nbuscaram desfazer-nos a m\u00e1 impress\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem sangue de barata, homem, veio dizer-me Jos\u00e9 Brasil.<\/p>\n<p>&#8211; Porqu\u00ea? &#8211; Ora porqu\u00ea! Num barulho como este, fica sentado,<br \/>\nlendo, nem levanta a cabe\u00e7a. Que diabo! Voc\u00ea n\u00e3o tem nervos.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim! Vou l\u00e1 meter-me em quest\u00e3o de soldados? Voc\u00eas<br \/>\nse entendem. Arranham-se, trocam murros, quinze minutos depois est\u00e3o<br \/>\namigos. E voltam-se contra os paisanos. Sou neutro. Arranjem-se.<\/p>\n<p>O capit\u00e3o arregalou o olho vivo, com espanto. Em seguida soltou uma<br \/>\ngargalhada: &#8211; \u00d3timo. \u00c9 isso mesmo. Foi a opini\u00e3o mais<br \/>\nsensata que j\u00e1 ouvi a nosso respeito.<\/p>\n<p>EXPLICA\u00c7\u00c3O FINAL<\/p>\n<p>RICARDO RAMOS<\/p>\n<p>Faltava apenas um cap\u00edtulo destas mem\u00f3rias, quando morreu Graciliano<br \/>\nRamos. Escrevera todos os volumes em trabalho cont\u00ednuo, lento \u00e9<br \/>\nverdade, mas sem interrup\u00e7\u00f5es. Uma viagem ao estrangeiro, no<br \/>\nentanto, ofereceu-lhe o suficiente para um novo livro, um livro que o interessou<br \/>\ne o fez abandonar &#8211; por algum tempo, supunha &#8211; a obra quase terminada. J\u00e1<br \/>\ndoente, registrando com dificuldade as impress\u00f5es que os pa\u00edses<br \/>\nvisitados lhe haviam deixado, n\u00e3o tentou concluir suas &#8220;Mem\u00f3rias<br \/>\ndo C\u00e1rcere&#8221;. E se \u00e0s vezes procur\u00e1vamos lembrar-lhe<br \/>\nesse fato, respondia: &#8211; N\u00e3o h\u00e1 problema. \u00c9 tarefa de<br \/>\numa semana.<\/p>\n<p>A aten\u00e7\u00e3o era desviada, fal\u00e1vamos de coisas diversas,<br \/>\nque na apar\u00eancia o faziam esquecer os sofrimentos prolongados. Certa<br \/>\nmanh\u00e3, encontrou-nos mexendo em seus pap\u00e9is, lendo cr\u00f4nicas<br \/>\nantigas, publicadas em 1921, num jornal de Palmeira dos \u00edndios.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa isso! Resistimos, \u00e9 claro. Continuamos a ler, ignorando a<br \/>\nraiva mansa. Demorou-se calado, finalmente inquiriu-nos sobre o tema. Referia-se<br \/>\n\u00e0 semana santa no interior de Alagoas, apanhando os rituais, o jejum,<br \/>\nflagrantes inesperados.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o l\u00ea alto.<\/p>\n<p>Obedecemos. Ouviu atento, meio desajeitado, sorrindo \u00e0s passagens<br \/>\nque o agradavam. Finda a leitura, sugeriu uma segunda, outra, e assim ficamos<br \/>\nalgum tempo, lembrando aspectos da cidade sertaneja.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 muito ruim, hem? N\u00e3o estava.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea publicaria isso agora? Evidente. Apenas n\u00e3o tinha uma<br \/>\njustificativa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas depois&#8230; Voc\u00eas podem fazer o que entendam. Mudamos de conversa.<br \/>\nVieram as suas edi\u00e7\u00f5es, artigos recentes que mereciam exame.<br \/>\nDepois o livro da viagem, refer\u00eancias a Paris, \u00e0 Ge\u00f3rgia.<br \/>\nE finalmente chegamos \u00e0s mem\u00f3rias na cadeia.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que pretende com o \u00faltimo cap\u00edtulo? Sensa\u00e7\u00f5es<br \/>\nda liberdade. A sa\u00edda, uns restos de pris\u00e3o a acompanh\u00e1-lo<br \/>\nem ruas quase estranhas.<\/p>\n<p>&#8211; Eu conhecia o Rio de 1915&#8230;<\/p>\n<p>E procurava orientar-se atrav\u00e9s de reminisc\u00eancias, sem examinar<br \/>\nas placas. A claridade forte, o movimento grande o atordoavam. Entrou num<br \/>\ncaf\u00e9, e ao levantar-se arrastou os p\u00e9s, como se ainda usasse<br \/>\ntamancos. Havia perguntas que se repetiam e esperava as respostas com impaci\u00eancia,<br \/>\nolhando a valise. A mulher traria dinheiro bastante para o t\u00e1xi? Aonde<br \/>\niriam? Como poderia viver? &#8211; Um fim liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Sim. No come\u00e7o do livro e tamb\u00e9m nos outros volumes j\u00e1<br \/>\nfizera considera\u00e7\u00f5es numerosas, seria in\u00fatil concluir<br \/>\ndessa maneira. Talvez surgissem pontos acidentais, desdobrasse a mat\u00e9ria<br \/>\nem dois cap\u00edtulos. Mas nada que pretendesse valorizar, tivesse influ\u00eancia<br \/>\nno conjunto. Somente as primeiras sensa\u00e7\u00f5es da liberdade.<\/p>\n<p>Antes que ped\u00edssemos novo esclarecimento, menciona a revis\u00e3o<br \/>\nnecess\u00e1ria. V\u00e1rios anos a escrever e nesse per\u00edodo fatos<br \/>\nque se modificaram, figuras apagadas vindo ao primeiro plano, outras a se<br \/>\nafastarem, transformando-se. Possivelmente essa leitura mostraria solu\u00e7\u00f5es<br \/>\ne caminhos diversos dos encontrados. Ainda quest\u00f5es de unidade, estrutura<br \/>\nda obra. Entretanto, se n\u00e3o pudesse fazer a vers\u00e3o definitiva,<br \/>\nficariam as observa\u00e7\u00f5es iniciais, talvez repetidas e n\u00e3o<br \/>\ninteiramente justas, mas que em princ\u00edpio o satisfaziam.<\/p>\n<p>&#8211; E o t\u00edtulo? N\u00e3o importava. &#8220;Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere&#8221;<br \/>\nou simplesmente &#8220;Cadeia&#8221;. Inclinava-se por um, mais tarde iria preferir<br \/>\no outro. N\u00e3o valia a pena for\u00e7ar a escolha.<\/p>\n<p>Estas as refer\u00eancias que ouvimos de Graciliano Ramos \u00e0s suas<br \/>\nmem\u00f3rias, agora publicadas. Julgou-se precisa uma explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nacerca do cap\u00edtulo n\u00e3o escrito. Alinhamos as nossas recorda\u00e7\u00f5es,<br \/>\nem seguida as comparamos \u00e0s de outras pessoas da fam\u00edlia. E<br \/>\nfoi tudo o que pudemos trazer sobre o assunto.<\/p>\n<p>Rio de Janeiro, 1953.<\/p>\n<h2>FIM DO VOL. II<\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Terceira Parte Quarta Parte Graciliano Ramos TERCEIRA PARTE COL\u00d4NIA CORRECIONAL 1 ENTRAMOS num sal\u00e3o bastante limpo, de pintura nova, ainda com cheiro de tinta fresca, mas desprovido inteiramente de m\u00f3veis. Era o Pavilh\u00e3o dos Militares. 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