{"id":96738,"date":"2017-01-26T12:26:57","date_gmt":"2017-01-26T14:26:57","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96738"},"modified":"2017-01-26T12:26:57","modified_gmt":"2017-01-26T14:26:57","slug":"memorias-do-carcere-volume-i-graciliano-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/memorias-do-carcere-volume-i-graciliano-ramos","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere (Volume I) &#8211; Graciliano Ramos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\"><a class=\"links\" href=\"#1\"><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Primeira<br \/>\nParte <\/strong><\/span><\/a><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: medium;\"> <a class=\"links\" href=\"#2\">Segunda<br \/>\nParte<\/a><\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h4>Graciliano Ramos<\/h4>\n<h2><a name=\"1\">PRIMEIRA PARTE<\/a><\/h2>\n<h2>VIAGENS<\/h2>\n<h2>1<\/h2>\n<p>RESOLVO-ME a contar, depois de muita hesita&ccedil;&atilde;o, casos passados<br \/>\n    h&aacute; dez anos e, antes de come&ccedil;ar, digo os motivos porque silenciei<br \/>\n    e porque me decido. N&atilde;o conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas,<br \/>\n    e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais dif&iacute;cil,<br \/>\n    quase imposs&iacute;vel, redigir esta narrativa. Al&eacute;m disso, julgando<br \/>\n    a mat&eacute;ria superior &agrave;s minhas for&ccedil;as, esperei que outros<br \/>\n    mais aptos se ocupassem dela. N&atilde;o vai aqui falsa mod&eacute;stia, como<br \/>\n    adiante se ver&aacute;. Tamb&eacute;m me afligiu a id&eacute;ia de jogar no<br \/>\n    papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que t&ecirc;m no registro<br \/>\n    civil. Repugnava-me deform&aacute;-las, dar-lhes pseud&ocirc;nimo, fazer do<br \/>\n    livro uma esp&eacute;cie de romance; mas teria eu o direito de utiliz&aacute;-las<br \/>\n    em hist&oacute;ria presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem<br \/>\n    impressas, realizando atos esquecidos, repetindo palavras contest&aacute;veis<br \/>\n    e obliteradas?<\/p>\n<p> Restar-me-ia alegar que o DIP, a pol&iacute;cia, enfim, os h&aacute;bitos<br \/>\n    de um dec&ecirc;nio de arrocho, me impediram o trabalho. Isto, por&eacute;m,<br \/>\n    seria injusti&ccedil;a. Nunca tivemos censura pr&eacute;via em obra de arte.<br \/>\n    Efetivamente se queimaram alguns livros, mas foram. rar&iacute;ssimos esses<br \/>\n    autos-de-f&eacute;. Em geral a rea&ccedil;&atilde;o se limitou a suprimir<br \/>\n    ataques diretos, palavras de ordem, tiradas demag&oacute;gicas, e disto escasso<br \/>\n    preju&iacute;zo veio &agrave; produ&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria.<\/p>\n<p> Certos escritores se desculpam de n&atilde;o haverem forjado coisas excelentes<br \/>\n    por falta de liberdade -talvez ing&ecirc;nuo recurso de justificar in&eacute;pcia<br \/>\n    ou pregui&ccedil;a. Liberdade completa ningu&eacute;m desfruta: come&ccedil;amos<br \/>\n    oprimidos pela sintaxe e acabamos &agrave;s voltas com a Delegacia de Ordem<br \/>\n    Pol&iacute;tica e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gram&aacute;tica<br \/>\n    e a lei, ainda nos podemos mexer. N&atilde;o ser&aacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    acharmos nas livrarias libelos terr&iacute;veis contra a rep&uacute;blica<br \/>\n    nov&iacute;ssima, &agrave;s vezes com louvores dos sustent&aacute;culos dela,<br \/>\n    indulgentes ou cegos,. N&atilde;o caluniemos o nosso pequenino fascismo tupinamb&aacute;:<br \/>\n    se o fizermos, perderemos qualquer vest&iacute;gio de autoridade e, quando<br \/>\n    formos verazes, ningu&eacute;m nos dar&aacute; cr&eacute;dito. De fato ele<br \/>\n    n&atilde;o nos impediu escrever. Apenas nos suprimiu o desejo de entregar-nos<br \/>\n    a esse exerc&iacute;cio.<\/p>\n<p> Os homens do primado espiritual viviam bem, tratavam do corpo, mas n&oacute;s,<br \/>\n    desgra&ccedil;ados materialistas, alojados em quarto de pens&atilde;o, como<br \/>\n    ratos em tocas, a p&atilde;o e laranja, como se diz na minha terra, quase<br \/>\n    nos reduzimos a simples esp&iacute;ritos. E como outros esp&iacute;ritos mi&uacute;dos<br \/>\n    dependiam de n&oacute;s, e era preciso cal&ccedil;&aacute;-los, vesti-los,<br \/>\n    aliment&aacute;-los, mand&aacute;-los ouvir cantigas e decorar feitos patri&oacute;ticos,<br \/>\n    abandonamos as tarefas de longo prazo, ca&iacute;mos na labuta di&aacute;ria,<br \/>\n    contando linhas, fabricamos artigos, sapecamos tradu&ccedil;&otilde;es, consertamos<br \/>\n    engulhando produtos alheios. De alguma forma nos acanalhamos. Porque foi que<br \/>\n    um dos meus livros saiu t&atilde;o ruim, pior que os outros? pergunta o cr&iacute;tico<br \/>\n    honesto. E alinha explica&ccedil;&otilde;es inaceit&aacute;veis. Nada disso:<br \/>\n    acho que &eacute; ruim porque est&aacute; mal escrito. E est&aacute; mal escrito<br \/>\n    porque n&atilde;o foi emendado, n&atilde;o se cortou pelo menos a ter&ccedil;a<br \/>\n    parte dele.<\/p>\n<p> Aqui findo o resumo dos empecilhos at&eacute; hoje apresentados &agrave;<br \/>\n    narra&ccedil;&atilde;o que inicio. Ter&atilde;o eles desaparecido? Alguns<br \/>\n    se atenuaram, outros se modificaram, determinam o que impediam, converteram-se<br \/>\n    em raz&otilde;es contr&aacute;rias. Estarei pr&oacute;ximo dos homens gordos<br \/>\n    do primado espiritual? Poderei refestelar-me? N&atilde;o, felizmente. Se me<br \/>\n    achasse assim, iria roncar, pensar na eternidade. Quem dormiu no ch&atilde;o<br \/>\n    deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever<br \/>\n    em t&aacute;buas estreitas. Escrever&aacute; talvez asperezas, mas &eacute;<br \/>\n    delas que a vida &eacute; feita: in&uacute;til neg&aacute;-las, contorn&aacute;-las,<br \/>\n    envolv&ecirc;-las em gaze. <\/p>\n<p>Contudo &eacute; indispens&aacute;vel um m&iacute;nimo de tranq&uuml;ilidade,<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio afastar as miseriazinhas que nos envenenam. Fisicamente<br \/>\n    estamos em repouso. Engano. O pensamento foge da folha meio rabiscada. Que<br \/>\n    desgra&ccedil;as inomin&aacute;veis e vergonhosas nos chegar&atilde;o amanh&atilde;?<br \/>\n    Terei desviado esses espectros? Ignoro. Sei &eacute; que, se obtenho sossego<br \/>\n    bastante para trabalhar um m&ecirc;s, provavelmente conseguirei meio de trabalhar<br \/>\n    outro m&ecirc;s. Estamos livres das colabora&ccedil;&otilde;es de jornais<br \/>\n    e das encomendas odiosas? Bem. Demais j&aacute; podemos enxergar luz a dist&acirc;ncia,<br \/>\n    emergimos lentamente daquele mundo horr&iacute;vel de treva e morte. Na verdade<br \/>\n    est&aacute;vamos mortos, vamos ressuscitando.<\/p>\n<p> O receio de cometer indiscri&ccedil;&atilde;o exibindo em p&uacute;blico<br \/>\n    pessoas que tiveram comigo conviv&ecirc;ncia for&ccedil;ada j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    me apoquenta. Muitos desses antigos companheiros distanciaram se, apagaram-se.<br \/>\n    Outros permaneceram junto a mim, ou v&atilde;o reaparecendo ao cabo de longa<br \/>\n    aus&ecirc;ncia, alteram-se, completam-se, avivam recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    meios confusas e n&atilde;o vejo inconveni&ecirc;ncia em mostr&aacute;-los.<br \/>\n    Alguns reclamam a tarefa, consideram-na dever, oferecem-me dados, relembram<br \/>\n    figuras desaparecidas, espica&ccedil;am-me por todos os meios. Acho que est&atilde;o<br \/>\n    certos: a exig&ecirc;ncia se fixa, domina-me. H&aacute; entre eles homens<br \/>\n    de v&aacute;rias classes, das profiss&otilde;es mais diversas, muito altas<br \/>\n    e muito baixas, apertados nelas como em estojos. Procurei observ&aacute;-los<br \/>\n    onde se acham, nessas bainhas em que a sociedade os prendeu. A limita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    impediu embara&ccedil;os e atritos, levou-me a compreend&ecirc;-los, senti-los,<br \/>\n    estim&aacute;-los, n&atilde;o arriscar julgamentos precipitados.<\/p>\n<p> E quando isto n&atilde;o foi poss&iacute;vel, &agrave;s vezes me acusei.<br \/>\n    Ser-me-ia desagrad&aacute;vel ofender algu&eacute;m com esta exuma&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o ofenderei, suponho. E, refletindo, digo a mim mesmo que, se isto<br \/>\n    acontecer, n&atilde;o experimentarei o desagrado. Estou a descer para a cova,<br \/>\n    este novelo de casos em muitos pontos vai emaranhar-se, escrevo com lentid&atilde;o<br \/>\n    e provavelmente isto ser&aacute; publica&ccedil;&atilde;o p&oacute;stuma,<br \/>\n    como conv&eacute;m a um livro de mem&oacute;rias. Realmente h&aacute; entre<br \/>\n    os meus companheiros sujeitos de m&eacute;rito, capazes de fazer sobre os<br \/>\n    sucessos a que vou referir-me obras valiosas. Mas s&atilde;o especialistas,<br \/>\n    eruditos, intelig&ecirc;ncias confinadas &agrave; escrupulosa an&aacute;lise<br \/>\n    do pormenor, olhos afeitos a investiga&ccedil;&otilde;es em profundidade.<br \/>\n    H&aacute; tamb&eacute;m narradores, e um j&aacute; nos deu h&aacute; tempo<br \/>\n    excelente reportagem, dessas em que &eacute; preciso dizer tudo com rapidez.<\/p>\n<p> Em rela&ccedil;&atilde;o a eles, acho-me por acaso em situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    vantajosa. Tenho exercido v&aacute;rios of&iacute;cios, esqueci todos, e assim<br \/>\n    posso mover-me sem nenhum constrangimento. N&atilde;o me agarram m&eacute;todos,<br \/>\n    nada me for&ccedil;a a exames vagarosos. Por outro lado, n&atilde;o me obrigo<br \/>\n    a reduzir um panorama, sujeit&aacute;-lo a dimens&otilde;es regulares, atender<br \/>\n    ao paginador e ao hor&aacute;rio do passageiro do bonde. Posso andar para<br \/>\n    a direita e para a esquerda como um vagabundo, deter-me em longas paradas,<br \/>\n    saltar passagens desprovidas de interesse, passear, correr, voltar a lugares<br \/>\n    conhecidos. Omitirei acontecimentos essenciais ou mencion&aacute;-los-ei de<br \/>\n    relance, como se os enxergasse pelos vidros pequenos de um bin&oacute;culo;<br \/>\n    ampliarei insignific&acirc;ncias, repeti-las-ei at&eacute; cansar, se isto<br \/>\n    me parecer conveniente.<\/p>\n<p> E aqui chego &agrave; &uacute;ltima obje&ccedil;&atilde;o que me impus.<br \/>\n    N&atilde;o resguardei os apontamentos obtidos em largos dias e meses de observa&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    num momento de aperto fui obrigado a atir&aacute;-los na &aacute;gua. Certamente<br \/>\n    me ir&atilde;o fazer falta, mas ter&aacute; sido uma perda irrepar&aacute;vel?<br \/>\n    Quase me inclino a supor que foi bom privar-me desse material. Se ele existisse,<br \/>\n    ver-me-ia propenso a consult&aacute;-lo a cada instante, mortificar-me-ia<br \/>\n    por dizer com rigor a hora exata de uma partida, quantas demoradas tristezas<br \/>\n    se aqueciam ao sol p&aacute;lido, em manh&atilde; de bruma, a cor das folhas<br \/>\n    que tombavam das &aacute;rvores, num p&aacute;tio branco, a forma dos montes<br \/>\n    verdes, tintos de luz, frases aut&ecirc;nticas, gestos, gritos, gemidos. Mas<br \/>\n    que significa isso? Essas coisas verdadeiras podem n&atilde;o ser veross&iacute;meis.<br \/>\n    E se esmoreceram, deix&aacute;-las no esquecimento: valiam pouco, pelo menos<br \/>\n    imagino que valiam pouco. Outras, por&eacute;m, conservaram-se, cresceram,<br \/>\n    associaram-se, e &eacute; inevit&aacute;vel mencion&aacute;-las. Afirmarei<br \/>\n    que sejam absolutamente exatas? Leviandade. <\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em conversa ouvida na rua, a aus&ecirc;ncia de algumas s&iacute;labas me<br \/>\n    levou a conclus&atilde;o falsa e involuntariamente criei um boato. Estarei<br \/>\n    mentindo? Julgo que n&atilde;o. Enquanto n&atilde;o se reconstitu&iacute;rem<br \/>\n    as s&iacute;labas perdidas, o meu boato, se n&atilde;o for absurdo, permanece<br \/>\n    e &eacute; poss&iacute;vel que esses sons tenham sido eliminados por brigarem<br \/>\n    com o resto do discurso. Quem sabe se eles a&iacute; n&atilde;o se encaixaram<br \/>\n    com intuito de logro? Nesse caso havia conveni&ecirc;ncia em suprimi-los,<br \/>\n    distinguir al&eacute;m deles uma verdade superior a outra verdade convencional<br \/>\n    e aparente, uma verdade expressa de relance nas fisionomias. Um sentido recusou<br \/>\n    a percep&ccedil;&atilde;o de outro, substituiu-a. <\/p>\n<p>Onde estar&aacute; o erro? Nesta reconstitui&ccedil;&atilde;o de fatos velhos,<br \/>\n    neste esmiu&ccedil;amento, exponho o que notei, o que julgo ter notado. Outros<br \/>\n    devem possuir lembran&ccedil;as diversas. N&atilde;o as contesto, mas espero<br \/>\n    que n&atilde;o recusem as minhas: conjugam-se, completam-se e me d&atilde;o<br \/>\n    hoje impress&atilde;o de realidade. Formamos um grupo muito complexo, que<br \/>\n    se desagregou. De repente nos surge a necessidade urgente de recomp&ocirc;-lo.<br \/>\n    Define-se o ambiente, as figuras se delineiam, vacilantes, ganham relevo,<br \/>\n    a a&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a. Com esfor&ccedil;o desesperado arrancamos<br \/>\n    de cenas confusas alguns fragmentos. D&uacute;vidas terr&iacute;veis nos assaltam.<br \/>\n    De que modo reagiram os caracteres em determinadas circunst&acirc;ncias? <\/p>\n<p>O ato que nos ocorre, n&iacute;tido, irrecus&aacute;vel, ter&aacute; sido<br \/>\n    realmente praticado? N&atilde;o ser&aacute; incongru&ecirc;ncia? Certo a vida<br \/>\n    &eacute; cheia de incongru&ecirc;ncias, mas estaremos seguros de n&atilde;o<br \/>\n    nos havermos enganado? Nessas vacila&ccedil;&otilde;es dolorosas, &agrave;s<br \/>\n    vezes necessitamos confirma&ccedil;&atilde;o, apelamos para reminisc&ecirc;ncias<br \/>\n    alheias, convencemo-nos de que a min&uacute;cia discrepante n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    ilus&atilde;o. <\/p>\n<p>Dif&iacute;cil &eacute; sabermos a causa dela, desenterrarmos pacientemente<br \/>\n    as condi&ccedil;&otilde;es que a determinaram. Como isso variava em excesso,<br \/>\n    era natural que vari&aacute;ssemos tamb&eacute;m, apresent&aacute;ssemos falhas.<br \/>\n    Fiz o poss&iacute;vel por entender aqueles homens, penetrar-lhes na alma,<br \/>\n    sentir as suas dores, admirar-lhes a relativa grandeza, enxergar nos seus<br \/>\n    defeitos a sombra dos meus defeitos. Foram apenas bons prop&oacute;sitos:<br \/>\n    devo ter-me revelado com freq&uuml;&ecirc;ncia ego&iacute;sta e mesquinho.<br \/>\n    E esse desabrochar de sentimentos maus era a pior tortura que nos podiam infligir<br \/>\n    naquele ano terr&iacute;vel. <\/p>\n<p>Desgosta-me usar a primeira pessoa. Se se tratasse de fic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    bem: fala um sujeito mais ou menos imagin&aacute;rio; fora da&iacute; &eacute;<br \/>\n    desagrad&aacute;vel adotar o pronomezinho irritante, embora se fa&ccedil;am<br \/>\n    malabarismos por evit&aacute;-lo. Desculpo-me alegando que ele me facilita<br \/>\n    a narra&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso n&atilde;o desejo ultrapassar<br \/>\n    o meu tamanho ordin&aacute;rio. Esgueirar-me-ei para os cantos obscuros, fugirei<br \/>\n    &agrave;s discuss&otilde;es, esconder-me-ei prudente por detr&aacute;s dos<br \/>\n    que merecem patentear-se.<\/p>\n<\/p>\n<h2> 2<\/h2>\n<p>NO COME&Ccedil;O de 1936, funcion&aacute;rio na Instru&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica<br \/>\n    de Alagoas, tive a not&iacute;cia de que misteriosos telefonemas, com veladas<br \/>\n    amea&ccedil;as, me procuravam o endere&ccedil;o. Desprezei as amea&ccedil;as:<br \/>\n    ordinariamente o indiv&iacute;duo que tenciona ofender outro n&atilde;o o<br \/>\n    avisa. Mas os telefonemas continuaram. <\/p>\n<p>Mandei responder que me achava na reparti&ccedil;&atilde;o diariamente, das<br \/>\n    nove horas ao meio-dia, das duas &agrave;s cinco da tarde. N&atilde;o era<br \/>\n    o que pretendiam. Nada de requerimentos: queriam visitar-me em casa. Pedi<br \/>\n    que n&atilde;o me transmitissem mais essas tolices, com certeza picuinhas<br \/>\n    de algum inimigo d&eacute;bil, e esqueci-as: nem um minuto supus que tivessem<br \/>\n    cunho oficial. Algum tempo depois um amigo me procurou com a delicada tarefa<br \/>\n    de anunciar-me, gastando elogios e panos mornos, que a minha perman&ecirc;ncia<br \/>\n    na administra&ccedil;&atilde;o se tornara imposs&iacute;vel. N&atilde;o me<br \/>\n    surpreendi. Pelo meu cargo haviam passado em dois anos oito sujeitos. <\/p>\n<p>Eu conseguira ag&uuml;entar-me ali mais de tr&ecirc;s anos, e isto era espantoso.<br \/>\n    Ocasionara descontentamentos, decerto cometera numerosos erros, n&atilde;o<br \/>\n    tivera a habilidade necess&aacute;ria de prestar servi&ccedil;os a figur&otilde;es,<br \/>\n    havia suprimido nas escolas o Hino de Alagoas, uma estupidez com solecismos,<br \/>\n    e isto se considerava impatri&oacute;tico. O aviso que me traziam era, pois,<br \/>\n    razo&aacute;vel, e at&eacute; devia confessar-me grato por me haverem conservado<br \/>\n    tanto tempo.<\/p>\n<p> Lembro-me perfeitamente da cena. O gabinete pequeno se transformara numa<br \/>\n    esp&eacute;cie de loja: montes de fazenda e cadernos, que oferec&iacute;amos<br \/>\n    &agrave;s crian&ccedil;as pobres. Findo o expediente, sucedia retardar-me<br \/>\n    ali, a escrever, esquecia-me do tempo, e &agrave;s vezes, meia-noite, o guarda<br \/>\n    vinha dizer-me que iam fechar o port&atilde;o do Pal&aacute;cio. Parte do<br \/>\n    meu &uacute;ltimo livro fora composto no bureau largo, diante de peti&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de n&uacute;meros do Literatura Internacional. <\/p>\n<p>Naquela noite, acanhado, olhando pelas janelas os canteiros do jardim, as<br \/>\n    &aacute;rvores da Pra&ccedil;a dos Mart&iacute;rios, Rubem me explicava que<br \/>\n    Osman Loureiro, o governador, se achava em dificuldade: n&atilde;o queria<br \/>\n    demitir-me sem motivo, era necess&aacute;rio o meu afastamento volunt&aacute;rio.\n  <\/p>\n<p>Ora, motivo h&aacute; sempre, motivo se arranja. Evidentemente era aquilo<br \/>\n    in&iacute;cio de uma persegui&ccedil;&atilde;o que Osman n&atilde;o podia<br \/>\n    evitar: constrangido por for&ccedil;as consider&aacute;veis, vergava; se quisesse<br \/>\n    resistir, naufragaria. N&atilde;o presumi que nele houvesse perf&iacute;dia.<br \/>\n    Sempre se revelara razo&aacute;vel, nunca entre n&oacute;s houvera choque.<br \/>\n    Provavelmente se perturbava como eu. Conversei com Rubem, sem melindres, revolvendo<br \/>\n    as gavetas, procurando pap&eacute;is meus. Os integralistas serravam de cima,<br \/>\n    era o diabo. Demiss&atilde;o ningu&eacute;m me for&ccedil;aria a pedir. Havia<br \/>\n    feito isso v&aacute;rias vezes, inutilmente; agora n&atilde;o iria acusar-me.<br \/>\n    Dessem-na de qualquer jeito, por conveni&ecirc;ncia de servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> Despedi-me de Rubem Loureiro e deixei sobre o bureau os volumes do Literatura<br \/>\n    Internacional. Essa mat&eacute;ria, na safadeza e na burrice dominantes naquela<br \/>\n    &eacute;poca, render-me-ia talvez um processo. Iriam dr. Sidr&ocirc;nio e<br \/>\n    Luccarini, meus companheiros de trabalho, passar vexames por minha causa?<br \/>\n    N&atilde;o. Dr. Sidr&ocirc;nio era cat&oacute;lico, n&atilde;o escrevia, como<br \/>\n    eu, livros perigosos nem se gastava em palestras inconvenientes nos caf&eacute;s.<br \/>\n    Provavelmente me substituiria. Luccarini tinha sido meu inimigo. Apanhado<br \/>\n    certa vez em falta e censurado, replicara-me:<\/p>\n<p> Eu tamb&eacute;m j&aacute; mandei. Mas quando queria dizer isso que o senhor<br \/>\n    est&aacute; dizendo, chamava o sujeito particularmente. Ora essa! O senhor<br \/>\n    chega tarde, larga a banca e vive passeando pelas se&ccedil;&otilde;es alheias<br \/>\n    em p&uacute;blico.<\/p>\n<p> Luccarini voltara ao seu lugar e durante tr&ecirc;s meses fora de uma pontualidade<br \/>\n    irritante. Era o primeiro a chegar, o &uacute;ltimo a sair, n&atilde;o se<br \/>\n    levantava nem para ir ao mict&oacute;rio. Tamb&eacute;m n&atilde;o fazia nada,<br \/>\n    in&eacute;rcia completa. Na rua, se me via, fechava a cara, enrugava-se com<br \/>\n    dignidade excessiva. Isso n&atilde;o tinha import&acirc;ncia, mas o procedimento<br \/>\n    na reparti&ccedil;&atilde;o irritava-me. <\/p>\n<\/p>\n<p>  Como vai Luccarini? perguntava Osman. Pessimamente. &Eacute; um pregui&ccedil;oso. <\/p>\n<p>Osman contradizia-me e gabava aquela inutilidade. N&atilde;o me conformava.<br \/>\n    E dera gra&ccedil;as a Deus quando Luccarini se ausentara, passara seis meses<br \/>\n    no Recife, curando uma sinusite, com todos os vencimentos. <\/p>\n<p>Ao voltar, agradecera-me um obs&eacute;quio n&atilde;o feito, apresentara-me<br \/>\n    um relat&oacute;rio n&atilde;o encomendado, insinuara-me a compra de um fich&aacute;rio<br \/>\n    e o abandono daqueles horr&iacute;veis calhama&ccedil;os onde o registro das<br \/>\n    professoras se fragmentava e confundia. Agora trabalhava demais, em poucos<br \/>\n    meses corrigira aquela balb&uacute;rdia. <\/p>\n<p>Sa&iacute; do Pal&aacute;cio, atordoado. Eximia-me de obriga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    cacetes, mas isso continuava a aperrear-me, juntava-se a amola&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dom&eacute;sticas e a planos vagos. Sentia desgosto e vergonha, desejava ausentar-me<br \/>\n    para muito longe, n&atilde;o pensar em despachos e informa&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Andei pelas ruas, tomei o bonde. Transeuntes e passageiros pareciam conhecer<br \/>\n    o desagrad&aacute;vel sucesso, ler-me no rosto a inquieta&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Evitava considerar-me v&iacute;tima de uma injusti&ccedil;a: deviam ter raz&atilde;o<br \/>\n    para repelir-me. Seria bom que ela se publicasse no jornal, isto desviaria<br \/>\n    coment&aacute;rios maliciosos. Esfor&ccedil;ava-me por julgar aquilo uma insignific&acirc;ncia.<br \/>\n    J&aacute; me havia achado em situa&ccedil;&atilde;o pior, sem emprego, numa<br \/>\n    cama de hospital, a barriga aberta, filhos pequenos, o futuro bem carregado.<br \/>\n    Tinha agora uns projetos liter&aacute;rios, indecisos. Certamente n&atilde;o<br \/>\n    se realizariam, mas anulavam desaven&ccedil;as conjugais intempestivas, que<br \/>\n    se vinham amiudando e intensificando sem causa. A lembran&ccedil;a dessas<br \/>\n    querelas, somada aos telefonemas e &agrave; demiss&atilde;o, azedou-me a viagem<br \/>\n    a Paju&ccedil;ara. Indispens&aacute;vel refugiar-me no romance conclu&iacute;do,<br \/>\n    imagin&aacute;-lo na livraria, despertando algum interesse, possibilitando<br \/>\n    ainda uma vez mudan&ccedil;a de profiss&atilde;o.<\/p>\n<p> A &uacute;ltima, encerrada meia hora antes, tinha sido um horror: o regulamento,<br \/>\n    o hor&aacute;rio, o despacho, o decreto, a portaria, a iniq&uuml;idade, o<br \/>\n    pistol&atilde;o, sobretudo a certeza de sermos uns desgra&ccedil;ados trambolhos,<br \/>\n    de quase nada podermos fazer na sensaboria da rotina. Se n&atilde;o me houvessem<br \/>\n    despedido assim de chofre, com um recado, humilhantemente, poderia at&eacute;<br \/>\n    julgar aquilo um benef&iacute;cio. <\/p>\n<p>O essencial era retirar-me de Alagoas e nunca mais voltar, esquecer tudo,<br \/>\n    coisas, fatos e pessoas. Alagoas n&atilde;o me fizera mal nenhum, mas, responsabilizando-a<br \/>\n    pelos meus desastres, devo ter-me involuntariamente considerado autor de qualquer<br \/>\n    obra de vulto, n&atilde;o reconhecida. <\/p>\n<p>Moderei a explos&atilde;o de vaidade besta: imposs&iacute;vel contrapor-me<br \/>\n    a homens e terra, a todos os homens e a toda a terra, vinte e oito mil quil&ocirc;metros<br \/>\n    quadrados e um milh&atilde;o de habitantes. Essa horr&iacute;vel presun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de selvagem tinha um m&eacute;rito: vedava-me identificar inimigos, dirigir<br \/>\n    &oacute;dio a algu&eacute;m. O &oacute;dio se dispersava, dilu&iacute;a-se,<br \/>\n    era uma indeterminada repugn&acirc;ncia morna, alcan&ccedil;ava os edif&iacute;cios,<br \/>\n    o morro do Farol, o Aterro, a praia, coqueiros e navios repisados no &uacute;ltimo<br \/>\n    romance, in&eacute;dito, feito aos arrancos, com largos intervalos. <\/p>\n<p>Certas passagens desse livro n&atilde;o me descontentavam, mas era preciso<br \/>\n    refaz&ecirc;-lo, suprimir repeti&ccedil;&otilde;es in&uacute;teis, eliminar<br \/>\n    pelo menos um ter&ccedil;o dele. Necess&aacute;rio meter-me no interior, passar<br \/>\n    meses trancado, riscando linhas, condensando observa&ccedil;&otilde;es espalhadas.<br \/>\n    N&atilde;o, por&eacute;m, no interior de Alagoas: indispens&aacute;vel fugir<br \/>\n    a indiv&iacute;duos que me conhecessem. Era pouco n&atilde;o tornar a p&ocirc;r<br \/>\n    os p&eacute;s no Pal&aacute;cio dos Mart&iacute;rios: queria evitar indiscretos<br \/>\n    que me houvessem visto manuseando os horr&iacute;veis pap&eacute;is sujos.\n  <\/p>\n<\/p>\n<p>N&atilde;o me lembrava das pessoas. Osman, dr. Sidr&ocirc;nio e Luccarini<br \/>\n    eram sujeitos decentes. Mas a engrenagem onde hav&iacute;amos entrado nos<br \/>\n    sujava. Tudo uma porcaria. Tolice reconhecer que a professora rural, doente<br \/>\n    e mulata, merecia ser trazida para a cidade e dirigir um grupo escolar: fazendo<br \/>\n    isso, d&aacute;vamos um salto perigoso, descontent&aacute;vamos incapacidades<br \/>\n    abundantes.<\/p>\n<p> Essas incapacidades deviam aproveitar-se de qualquer modo, cantando hinos<br \/>\n    idiotas, emburrando as crian&ccedil;as. O emburramento era necess&aacute;rio.<br \/>\n    Sem ele, como se poderiam ag&uuml;entar pol&iacute;ticos safados e generais<br \/>\n    analfabetos?<\/p>\n<p> Necess&aacute;rio reconhecer que a professora mulata n&atilde;o havia sido<br \/>\n    transferida e elevada por mim: fora transferida por uma id&eacute;ia, pela<br \/>\n    id&eacute;ia de aproveitar elementos dignos, mais ou menos capazes. Isso desaparecia.<br \/>\n    E os indiv&iacute;duos que haviam concorrido para isso desapareciam tamb&eacute;m.<br \/>\n    Excelente que Osman, em cima, e Luccarini, embaixo, continuassem. N&atilde;o<br \/>\n    continuariam muito tempo.<\/p>\n<p> Ficava a estupidez: Ouviram do Ipiranga as margens pl&aacute;cidas. Para<br \/>\n    que meter semelhante burrice na cabe&ccedil;a das crian&ccedil;as, Deus do<br \/>\n    c&eacute;u? Realmente eu havia sido ali uma excresc&ecirc;ncia, uma excresc&ecirc;ncia<br \/>\n    agora amputada, a rodar no bonde, a olhar navios e coqueiros. De certo modo<br \/>\n    as amea&ccedil;as dos telefonemas me agradavam: embora indeterminadas, indicavam<br \/>\n    mudan&ccedil;as, for&ccedil;ar-me-iam a azeitar as articula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    perras. Conservara-me regulamentar e besta mais de tr&ecirc;s anos, numa cadeira<br \/>\n    girat&oacute;ria, manejando carimbos, assinando empenhos, mec&acirc;nico,<br \/>\n    a deferir e indeferir de acordo com as informa&ccedil;&otilde;es de seu Benedito,<br \/>\n    realmente obedecendo a seu Benedito. Que diabo me fariam? Imaginei um desacato,<br \/>\n    tiros ou facadas, em hora de movimento, no rel&oacute;gio oficial. <\/p>\n<p>Osman me perguntara certa vez:<br \/>\n    Voc&ecirc; anda desarmado? Em que &eacute; que voc&ecirc; confia, criatura?<\/p>\n<p> Depois disso Jos&eacute; Auto me emprestara um rev&oacute;lver, mas o rev&oacute;lver<br \/>\n    tinha apenas tr&ecirc;s balas e de ordin&aacute;rio ficava nas gavetas, era<br \/>\n    dif&iacute;cil encontr&aacute;-lo. Fora um al&iacute;vio a restitui&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ia fazer-me falta quando me agredissem. Foi o que imaginei: uma agress&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica, muitos integralistas atacando-me, furando-me, partindo-me<br \/>\n    as costelas, os bra&ccedil;os e a cabe&ccedil;a. Recolhi-me. <\/p>\n<p>Na casinha de Paju&ccedil;ara fiquei at&eacute; a madrugada consertando as<br \/>\n    &uacute;ltimas p&aacute;ginas do romance. Os consertos n&atilde;o me satisfaziam:<br \/>\n    indispens&aacute;vel recopiar tudo, suprimir as repeti&ccedil;&otilde;es excessivas.<br \/>\n    Alguns cap&iacute;tulos n&atilde;o me pareciam muito ruins, e isto fazia que<br \/>\n    os defeitos medonhos avultassem. O meu Lu&iacute;s da Silva era uma falastr&atilde;o,<br \/>\n    vivia a badalar &agrave; toa reminisc&ecirc;ncias da inf&acirc;ncia, vendo<br \/>\n    cordas em toda a parte. Aquele assassinato, realizado em vinte e sete dias<br \/>\n    de esfor&ccedil;o, com razo&aacute;vel gasto de caf&eacute; e aguardente,<br \/>\n    dava-me impress&atilde;o de falsidade. Realmente eu era um assassino bem chinfrim.\n  <\/p>\n<p>O del&iacute;rio final se atamancara numa noite, e fervilhava de redund&acirc;ncias.<br \/>\n    Enfim n&atilde;o era imposs&iacute;vel canalizar esses derramamentos. O diabo<br \/>\n    era que no livro abundavam desconex&otilde;es, talvez irremedi&aacute;veis.<br \/>\n    Necess&aacute;rio ainda suar muito para minorar as falhas evidentes. Mas onde<br \/>\n    achar sossego? Minha mulher vivia a atenazar-me com uma ciumeira incr&iacute;vel,<br \/>\n    absolutamente desarrazoada. <\/p>\n<p>Eu devia engan&aacute;-la e vingar-me, se tivesse jeito para essas coisas.<br \/>\n    Agora, com a demiss&atilde;o, as contendas iriam acirrar-se, enfurecer-me,<br \/>\n    cegar-me, inutilizar-me dias inteiros, deixar-me ap&aacute;tico e vazio, aborrecendo<br \/>\n    o manuscrito. Largara-o duas vezes, estivera um ano sem v&ecirc;-lo, machucara<br \/>\n    folhas e rasgara folhas. As interrup&ccedil;&#038;otildeotilde;es e as disc&oacute;rdias<br \/>\n    sucessivas deviam ser causa daqueles altos e baixos, daquelas impropriedades.<br \/>\n    Conveniente isolar-me, a id&eacute;ia da viagem continuava a perseguir-me.<br \/>\n    De que modo realiz&aacute;-la? Havia uma penca de filhos, alguns bem mi&uacute;dos.<br \/>\n    E restava-me na carteira um conto e duzentos. Apenas.<\/p>\n<\/p>\n<h2>3<\/h2>\n<p>NO DIA seguinte, 3 de mar&ccedil;o, entreguei pela manh&atilde; os originais<br \/>\n    a d. Jeni, datil&oacute;grafa. Ao meio-dia uma parenta me visitou e este caso<br \/>\n    insignificante exerceu grande influ&ecirc;ncia na minha vida, talvez haja<br \/>\n    desviado o curso dela. Essa pessoa indiscreta deu-me conselhos e aludiu a<br \/>\n    crimes v&aacute;rios praticados por mim. Agradeci e pedi-lhe que me denunciasse,<br \/>\n    caso ainda n&atilde;o o tivesse feito. A criatura respondeu-me com quatro<br \/>\n    pedras na m&atilde;o e retirou-se. Minha mulher deu raz&atilde;o a ela e conseguiu<br \/>\n    arrastar-me a um dos acessos de desespero que ultimamente se amiudavam. Como<br \/>\n    era poss&iacute;vel trabalhar em semelhante inferno? Nesse ponto surgiu Luccarini.<br \/>\n    Entrou sem pedir licen&ccedil;a, atarantado, cochichou rapidamente que iam<br \/>\n    prender-me e era urgente afastar-me de casa, recebeu um abra&ccedil;o e saiu.\n  <\/p>\n<\/p>\n<p>&Oacute;timo. Num instante decidi-me. N&atilde;o me arredaria, esperaria<br \/>\n    tranq&uuml;ilo que me viessem buscar. Se quisesse andar alguns metros, chegaria<br \/>\n    &agrave; praia, esconder-me-ia por detr&aacute;s de uma duna, l&aacute; ficaria<br \/>\n    em seguran&ccedil;a. Se me resolvesse a tomar o bonde, iria at&eacute; o fim<br \/>\n    da linha, saltaria em Bebedouro, passaria o resto do dia a percorrer aqueles<br \/>\n    lugares que examinei para escrever o antepen&uacute;ltimo cap&iacute;tulo<br \/>\n    do romance. N&atilde;o valia a pena.<\/p>\n<p> Expliquei em voz alta que n&atilde;o valia a pena. Entrei na sala de jantar,<br \/>\n    abri uma garrafa de aguardente, sentei-me &agrave; mesa, bebi alguns c&aacute;lices,<br \/>\n    a monologar, a dar vaz&atilde;o &agrave; raiva que me assaltara. Propriamente<br \/>\n    n&atilde;o era mon&oacute;logo: minha mulher replicava com estrid&ecirc;ncia.<br \/>\n    Escapava-me a significa&ccedil;&atilde;o da r&eacute;plica, mas a voz aguda<br \/>\n    me endoidecia, furava-me os ouvidos. N&atilde;o conhe&ccedil;o pior tortura<br \/>\n    que ouvir gritos. Devia existir uma raz&atilde;o econ&ocirc;mica para esse<br \/>\n    desconchavo: as minhas finan&ccedil;as equilibravam-se com dificuldade, evit&aacute;vamos<br \/>\n    reuni&otilde;es, festas, passeios. De fato as priva&ccedil;&otilde;es n&atilde;o<br \/>\n    me inquietavam. Minha mulher, por&eacute;m, sentia-se lesada, o que me fazia<br \/>\n    perder os estribos. De repente um ci&uacute;me insensato. A incongru&ecirc;ncia<br \/>\n    me arrancava a palavra dura:<\/p>\n<p> Que estupidez!<\/p>\n<p> Naquele momento a id&eacute;ia da pris&atilde;o dava-me quase prazer: via<br \/>\n    ali um princ&iacute;pio de liberdade. Eximira-me do parecer, do of&iacute;cio,<br \/>\n    da estampilha, dos horr&iacute;veis cumprimentos ao deputado e ao senador;<br \/>\n    iria escapar a outras ma&ccedil;adas, gotas espessas, amargas, corrosivas.<br \/>\n    Na verdade suponho que me revelei covarde e ego&iacute;sta: v&aacute;rias<br \/>\n    crian&ccedil;as exigiam sustento, a minha obriga&ccedil;&atilde;o era permanecer<br \/>\n    junto a elas, arranjar-lhes por qualquer meio o indispens&aacute;vel. <\/p>\n<p>Desculpava-me afirmando que isto se havia tornado imposs&iacute;vel. Que<br \/>\n    diabo ia fazer, perseguido, a rolar de um canto para outro, em sustos, mudando<br \/>\n    o nome, a barba longa, a reduzir-me, a endividar-me? Se a vida comum era ruim,<br \/>\n    essa que Luccarini me oferecera num sussurro, a tremura e a humilha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    constante, dava engulhos. Al&eacute;m disso eu estava curioso de saber a arg&uuml;i&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que armariam contra mim. Bebendo aguardente, imaginava a cara de um juiz,<br \/>\n    entretinha-me em longo di&aacute;logo, e sa&iacute;a-me, perfeitamente, como<br \/>\n    sucede em todas as conversas interiores que arquiteto. Uma compensa&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    nas exteriores sempre me dou mal. Com franqueza, desejei que na acusa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    houvesse algum fundamento. E n&atilde;o vejam nisto baz&oacute;fia ou mentir&aacute;s:<br \/>\n    na situa&ccedil;&atilde;o em que me achava justifica-se a insensatez. A cadeia<br \/>\n    era o &uacute;nico lugar que me proporcionaria o m&iacute;nimo de tranq&uuml;ilidade<br \/>\n    necess&aacute;ria para corrigir o livro.<\/p>\n<p> O meu protagonista se enleara nesta obsess&atilde;o: escrever um romance<br \/>\n    al&eacute;m das grades &uacute;midas e pretas. Convenci-me de que isto seria<br \/>\n    f&aacute;cil: enquanto os homens de roupa zebrada compusessem bot&otilde;es<br \/>\n    de punho e caixinhas de tartaruga, eu ficaria largas horas em sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    a consultar dicion&aacute;rios, riscando linhas, metendo entrelinhas nos pap&eacute;is<br \/>\n    datilografados por d. Jeni. Deixar-me-iam ficar at&eacute; concluir a tarefa?<br \/>\n    Afinal a minha pretens&atilde;o n&atilde;o era t&atilde;o absurda como parece.<br \/>\n    Indiv&iacute;duos t&iacute;midos, pregui&ccedil;osos, inquietos, de vontade<br \/>\n    fraca habituam-se ao c&aacute;rcere. Eu, que n&atilde;o gosto d&ecirc; andar,<br \/>\n    nunca vejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas, embrenhando-me em<br \/>\n    caraminholas, porque n&atilde;o haveria de acostumar-me tamb&eacute;m? N&atilde;o<br \/>\n    seria mau que achassem nos meus, atos algum, involunt&aacute;rio, digno de<br \/>\n    pena. &Eacute; desagrad&aacute;vel representarmos o papel de v&iacute;tima.\n  <\/p>\n<\/p>\n<p>Coitado!<\/p>\n<p> &Eacute; degradante. Demais estaria eu certo de n&atilde;o haver cometido<br \/>\n    falta grave? Efetivamente n&atilde;o tinha lembran&ccedil;a, mas ambicionara<br \/>\n    com f&uacute;ria ver a desgra&ccedil;a do capitalismo, pregara-lhe alfinetes,<br \/>\n    &uacute;nicas armas dispon&iacute;veis, via com satisfa&ccedil;&atilde;o os<br \/>\n    muros pichados, aceitava as opini&otilde;es de Jacob. Isso constituiria um<br \/>\n    libelo mesquinho, que testemunhas falsas ampliariam. Tinha o direito de insurgir-me<br \/>\n    contra os depoimentos venenosos?<\/p>\n<p> De forma nenhuma. N&atilde;o h&aacute; nada mais prec&aacute;rio que a justi&ccedil;a.<br \/>\n    E se quisessem transformar em obras os meus pensamentos, descobririam com<br \/>\n    facilidade mat&eacute;ria para condena&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o me repugnava<br \/>\n    a id&eacute;ia de fuzilar um propriet&aacute;rio por ser propriet&aacute;rio.<br \/>\n    Era razo&aacute;vel que a propriedade me castigasse as inten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Fui ao banheiro, tomei um longo banho. Tolice vivermos a apurar responsabilidades.<br \/>\n    Muitas coisas nos acontecem por acaso, e &agrave;s vezes nos chegam vantagens<br \/>\n    por acaso. Julgava &eacute; que n&atilde;o me deteriam nem uma semana. Dois<br \/>\n    ou tr&ecirc;s dias depois me mandariam embora, dando-me explica&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Um engano. Findo o banho, preparei-me para sair. Em seguida meti alguma roupa<br \/>\n    branca na valise, mandei comprar muito cigarro e f&oacute;sforo. <\/p>\n<p>D. Irene, diretora de um. grupo escolar vizinho, apareceu &agrave; tarde.<br \/>\n    Envergonhei-me de tocar na demiss&atilde;o, e falamos sobre assuntos diversos.<br \/>\n    A&iacute;, me chegaram dois telegramas. Um encerrava . insultos; no outro,<br \/>\n    certo candidato prejudicado felicitava a instru&ccedil;&atilde;o alagoana<br \/>\n    pelo meu afastamento. Rasguei os pap&eacute;is, disposto a esquec&ecirc;-los.<br \/>\n    Sumiram-se na verdade os nomes dos signat&aacute;rios e as express&otilde;es<br \/>\n    injuriosas, ter-se-ia talvez a pequena inf&acirc;mia esva&iacute;do inteiramente<br \/>\n    se n&atilde;o contrastasse com a presen&ccedil;a de d. Irene ali na sala.<br \/>\n    O que me interessava no momento era o esfor&ccedil;o despendido por ela em<br \/>\n    tr&ecirc;s anos. Talvez isso houvesse concorrido para embranquecer-lhe os<br \/>\n    cabelos, dar-lhe aquela gravidade atenta. N&atilde;o sorria nunca. E sob o<br \/>\n    penteado grisalho o rosto mo&ccedil;o tinha uma beleza fria No estabelecimento<br \/>\n    dela espalhavam-se a princ&iacute;pio duzentos e poucos meninos, das fam&iacute;lias<br \/>\n    mais arrumadas de Paju&ccedil;ara. Numa campanha de quinze dias, por becos,<br \/>\n    ruelas, cabanas de pescadores, d. Irene enchera a escola. Aumentado o material,<br \/>\n    divididas as aulas em dois turnos, mais de oitocentas crian&ccedil;as haviam<br \/>\n    superlotado o pr&eacute;dio, exibindo farrapos, arrastando tamancos. <\/p>\n<p>Ao v&ecirc;-las, um interventor dissera indignado:<\/p>\n<p> Convidam-me para assistir a uma exposi&ccedil;&atilde;o de mis&eacute;rias.\n  <\/p>\n<\/p>\n<p>  E algu&eacute;m respondera. <\/p>\n<p>&Eacute; o que podemos expor<\/p>\n<p> Cal&ccedil;ados e vestidos pela caixa escolar, os garotos se haviam apresentado<br \/>\n    com dec&ecirc;ncia. Lembrava-me da lufa-lufa necess&aacute;ria para modific&aacute;-los,<br \/>\n    ria-me pensando em Flora Ferraz sentada no ch&atilde;o, &agrave;s oito horas<br \/>\n    da noite, a experimentar sapatos em negrinhos. Avizinhando-me dela, repelira-me<br \/>\n    com raiva:<\/p>\n<p> O senhor tem coragem de me dar a m&atilde;o? Estou suja. Desde a manh&atilde;<br \/>\n    aqui pegando os p&eacute;s destes moleques!<br \/>\n    Quatro dessas criaturinhas arrebanhadas nesse tempo, bei&ccedil;udas e retintas,<br \/>\n    haviam obtido as melhores notas nos &uacute;ltimos exames. <\/p>\n<\/p>\n<p>Que nos dir&atilde;o os racistas, d. Irene?<\/p>\n<p> Na fronte calma de d. Irene esbo&ccedil;ava-se uma ligeira ruga, e eu admirava-lhe<br \/>\n    a dignidade simples, a decis&atilde;o rigorosa de abelha-mestra. Apesar de<br \/>\n    sentir prazer em ouvi-la, desejava que ela se retirasse: inquietava-me saber<br \/>\n    que a qualquer momento viriam buscar-me, e isto a perturbaria. Depois a not&iacute;cia<br \/>\n    daquela visita com certeza lhe ocasionaria preju&iacute;zos. Levantava-me,<br \/>\n    procurava um meio de afast&aacute;-la, os ouvidos abertos aos rumores da rua.<br \/>\n    Afinal, cerca de sete horas, um autom&oacute;vel deslizou na areia, deteve-se<br \/>\n    &agrave; porta e um oficial do ex&eacute;rcito, espigado, escuro, cafuz ou<br \/>\n    mulato, entrou na sala. <\/p>\n<\/p>\n<p>  Que demora, tenente! Desde o meio-dia estou &agrave; sua espera. <\/p>\n<p>  N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, objetou o rapaz empertigando-se. <\/p>\n<p>Como n&atilde;o? Est&aacute; aqui a valise pronta, n&atilde;o falta nada.<br \/>\n    O sujeitinho deu um passo &agrave; retaguarda, fez meia-volta, aprumou-se,<br \/>\n    encarou-me. Tinha-lhe observado esse curioso sestro um m&ecirc;s antes, na<br \/>\n    reparti&ccedil;&atilde;o, onde me surgira pleiteando a aprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma sobrinha reprovada. Eu lhe mostrara um of&iacute;cio em que a diretora<br \/>\n    do Grupo Escolar de Penedo contava direito aquele neg&oacute;cio: a absurda<br \/>\n    pretens&atilde;o de se nomear para uma aluna banca especial fora de tempo.\n  <\/p>\n<p>Imposs&iacute;vel, tenente. Isso &eacute; anti-regulamentar. Demais, se a<br \/>\n    garota n&atilde;o conseguiu aprender num ano, certamente n&atilde;o foi recuperar<br \/>\n    em dias o tempo perdido. Sua sobrinha n&atilde;o &eacute; nenhum g&ecirc;nio,<br \/>\n    suponho. <\/p>\n<\/p>\n<p>O tenente recuara, rodara sobre os calcanhares, perfilara-se em atitude perfeitamente<br \/>\n    militar e replicara com absoluta impud&ecirc;ncia:<\/p>\n<p> &Eacute; o que ela &eacute;. Um g&ecirc;nio. Posso afirmar-lhe que &eacute;<br \/>\n    g&ecirc;nio. <\/p>\n<p>E voltara a repetir o mesmo pedido, usando as mesmas palavras. Depois de<br \/>\n    meia hora de marchas e contramarchas cansativas, fizera a sauda&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a &uacute;ltima reviravolta, abrira a portinhola e deixara o gabinete em passos<br \/>\n    r&iacute;tmicos. No dia seguinte regressara com uma carta de recomenda&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    repisara a exig&ecirc;ncia, lera impenetr&aacute;vel o regulamento e o of&iacute;cio,<br \/>\n    ouvira a recusa fatal e, no fim do resumo do caso enfadonho, o recuo, o movimento<br \/>\n    circular, o aprumo, a solicita&ccedil;&atilde;o invari&aacute;vel, o obtuso<br \/>\n    louvor da sobrinha:<\/p>\n<p> Um g&ecirc;nio, eu garanto. Admita que ela seja realmente um g&ecirc;nio.\n  <\/p>\n<\/p>\n<p>  Gastara-me a paci&ecirc;ncia e irritara-me. Agora, finda a pirueta, olhando<br \/>\n  a valise, prova de que n&atilde;o haviam sabido guardar segredo, encolheu os<br \/>\n  ombros, sorriu, excessivamente gentil:<br \/>\n  Vai apenas essa maleta? Aqui entre n&oacute;s posso dizer: acho bom levar mais<br \/>\n  roupa. &Eacute; um conselho. <\/p>\n<p>  Obrigado, tenente. <\/p>\n<p>Comecei a perceber que as minhas prerrogativas bestas de pequeno-burgu&ecirc;s<br \/>\n    iam cessar, ou tinham cessado. Retirei da mesa tr&ecirc;s livros chegados<br \/>\n    na v&eacute;spera, pelo correio. Despedi me. D. Irene se espantava, talvez<br \/>\n    sem compreender bem a significa&ccedil;&atilde;o exata daquilo. Meus filhos<br \/>\n    mais velhos, agitados e p&aacute;lidos, fingiam calma. Beijei as crian&ccedil;as,<br \/>\n    sossegadas. Procurei na cara de minha mulher sinal de medo. Em v&atilde;o:<br \/>\n    nem dessa vez nem de outras lhe percebi nenhum receio. Nos momentos mais dif&iacute;ceis<br \/>\n    sempre a vi corajosa, e isto a diferen&ccedil;ava dos parentes, em geral pusil&acirc;nimes.<br \/>\n    Depois do conflito da manh&atilde; serenara, assistira calada aos preparativos,<br \/>\n    sem acreditar talvez na realiza&ccedil;&atilde;o da, Diante da cabriola e<br \/>\n    do sorriso do mulato, pareceu despertar, mas n&atilde;o revelou susto. Uma<br \/>\n    pergunta me verrumava o esp&iacute;rito: porque vinha prender-me o sujeito<br \/>\n    que um m&ecirc;s antes me fora amolar com insist&ecirc;ncias desarrazoadas?<\/p>\n<p> Quando quiser, tenente. <\/p>\n<\/p>\n<p>  Sa&iacute;mos da sala e entramos no autom&oacute;vel, um grande carro oficial. <\/p>\n<h2>4<\/h2>\n<p>RODAMOS em sil&ecirc;ncio, atravessamos o bairro de Jaragu&aacute; e a cidade.<br \/>\n    N&atilde;o me lembro de haver dito uma palavra ao tenente. Ignorava o destino<br \/>\n    que me reservavam, mas isto n&atilde;o me despertava nenhuma curiosidade.<br \/>\n    Fastio, quase indiferen&ccedil;a, a vaga compreens&atilde;o de ter ca&iacute;do<br \/>\n    numa ratoeira suja, a suspeita de mesquinharia e rid&iacute;culo no incidente<br \/>\n    med&iacute;ocre. Porque estava ali junto de mim aquele sujeito? Balan&ccedil;ando<br \/>\n    nas molas doces, impossibilitado de bater os calcanhares, retesar a espinha,<br \/>\n    fazer a meia-volta e a contin&ecirc;ncia, anulava-se. A pergunta mental surgida<br \/>\n    em casa continuava a espica&ccedil;ar-me. Certo ele n&atilde;o havia determinado<br \/>\n    a minha pris&atilde;o, mas era curioso encarregar-se de efetu&aacute;-la.<br \/>\n    Sem me incomodar com essa pequena vingan&ccedil;a, pensei noutras, vi o pa&iacute;s<br \/>\n    influenciado pelos tenentes que executam piruetas, pelas sobrinhas dos tenentes<br \/>\n    que executam piruetas. Desejariam os poderes p&uacute;blicos que eu mandasse<br \/>\n    aprovar com dolo a sobrinha do tenente, em Penedo? N&atilde;o me exigiriam<br \/>\n    expressamente a safadeza, mas deviam existir numerosos tenentes e numerosas<br \/>\n    sobrinhas, e a conjuga&ccedil;&atilde;o dessas miu&ccedil;alhas mandava para<br \/>\n    as grades um pai de fam&iacute;lia, meio funcion&aacute;rio, meio literato.\n  <\/p>\n<p>Chegamos ao quartel do 20.&ordm; Batalh&atilde;o. Estivera ali em 1930, envolvera-me<br \/>\n    estupidamente numa conspira&ccedil;&atilde;o besta com um coronel, um major<br \/>\n    e um comandante de pol&iacute;cia, e vinte e quatro horas depois achava-me<br \/>\n    preso e s&oacute;. Dezesseis cretinos de um piquete de Agildo Barata haviam<br \/>\n    fingido querer fuzilar-me. Um dos soldadinhos que me acompanhavam chorava<br \/>\n    como um desgra&ccedil;ado. Parecera-me ent&atilde;o que a demagogia tenentista,<br \/>\n    aquele palavr&oacute;rio chocho, nos meteria no atoleiro. Ali estava o resultado:<br \/>\n    ladroagens, uma onda de burrice a inundar tudo, confus&atilde;o, mal-entendidos,<br \/>\n    charlatanismo, energ&uacute;menos microc&eacute;falos vestidos de verde a<br \/>\n    esgoelar-se em discursos imbecis, a semear dela&ccedil;&otilde;es. O levante<br \/>\n    do 3.&deg; Regimento e a revolu&ccedil;&atilde;o de Natal haviam desencadeado<br \/>\n    uma persegui&ccedil;&atilde;o feroz. Tudo se desarticulava, sombrio pessimismo<br \/>\n    anuviava as almas, t&iacute;nhamos a impress&atilde;o de viver numa b&aacute;rbara<br \/>\n    col&ocirc;nia alem&atilde;. Pior: numa col&ocirc;nia italiana. Mussolini era<br \/>\n    um grande homem, e escritores nacionais celebravam nas folhas as virtudes<br \/>\n    do &oacute;leo de r&iacute;cino. A literatura fugia da terra, andava num ambiente<br \/>\n    de sonho e loucura, convencional, copiava figurinos estranhos, exibia mamulengos<br \/>\n    que os leitores recebiam com bocejos e indiv&iacute;duos sagazes elogiavam<br \/>\n    demais. O romance abandonava o palavr&atilde;o, adquiria boas maneiras, tentava<br \/>\n    comover as datil&oacute;grafas e as mocinhas das casas de quatro mil e quatrocentos.<br \/>\n    Uma beatice exagerada queimava incenso defumando letras e artes corrompidas,<br \/>\n    e a cr&iacute;tica policial farejava quadros e poemas, entrava nas escolas,<br \/>\n    denunciava extremismos. Um professor era chamado &agrave; delegacia: Esse<br \/>\n    neg&oacute;cio de africanismo &eacute; conversa. O senhor quer inimizar os<br \/>\n    pretos com a autoridade constitu&iacute;da. O Congresso apavorava-se, largava<br \/>\n    bambo as leis de arrocho e viv&iacute;amos de fato numa ditadura sem freio.<br \/>\n    Esmorecida a resist&ecirc;ncia, dissolvidos os &uacute;ltimos com&iacute;cios,<br \/>\n    mortos ou torturados oper&aacute;rios e pequeno-burgueses comprometidos, escritores<br \/>\n    e jornalistas a desdizer-se, a gaguejar, todas as poltronices a inclinar-se<br \/>\n    para a direita, quase nada poder&iacute;amos fazer perdidos na multid&atilde;o<br \/>\n    de carneiros. <\/p>\n<\/p>\n<p>Pensando nessas coisas, desci do autom&oacute;vel, atravessei o p&aacute;tio,<br \/>\n    que, em 1930, vira cheio de entusiasmos enfeitados com bra&ccedil;adeiras<br \/>\n    vermelhas. Numa saleta, um rapaz me recebeu em sil&ecirc;ncio, conduziu-me<br \/>\n    a outra saleta onde havia uma cama e desapareceu. O mulato fez a &uacute;ltima<br \/>\n    viravolta e desapareceu tamb&eacute;m. A porta ficou um soldado com fuzil.<br \/>\n    Evidentemente as minhas reflex&otilde;es tendiam a justificar a in&eacute;rcia,<br \/>\n    a facilidade com que me deixara agarrar. Se todos os sujeitos perseguidos<br \/>\n    fizessem como eu, n&atilde;o teria havido uma s&oacute; revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no mundo. Revolucion&aacute;rio chinfrim. Desculpava-me a id&eacute;ia de<br \/>\n    n&atilde;o pertencer a nenhuma organiza&ccedil;&atilde;o, de ser inteiramente<br \/>\n    incapaz de realizar tarefas pr&aacute;ticas. Imposs&iacute;vel trabalhar em<br \/>\n    conjunto. As minhas armas, fracas e de papel, s&oacute; podiam ser manejadas<br \/>\n    no isolamento. No &iacute;ntimo havia talvez o incerto desejo de provocar<br \/>\n    a nova justi&ccedil;a inquisitorial, perturbar acusadores, exibir em tudo<br \/>\n    aquilo embustes e patifarias. Essa vaidade tola devia basear-se na suposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que enxergariam em mim um indiv&iacute;duo, com certo n&uacute;mero de<br \/>\n    direitos. Logo ao chegar, notei que me despersonalizavam. O oficial de dia<br \/>\n    recebera-me calado. E a sentinela estava ali encostada ao fuzil, em mec&acirc;nica<br \/>\n    chatea&ccedil;&atilde;o, como se n&atilde;o visse ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Sentado na cama, o chap&eacute;u em cima da valise, abri com o pente as p&aacute;ginas<br \/>\n    dos tr&ecirc;s volumes que trouxera: Territ&oacute;rio Humano de Jos&eacute;<br \/>\n    Geraldo Vieira, Gente Nova de Agrippino Grieco e Dois Poetas de Ot&aacute;vio<br \/>\n    de Faria. Li a primeira folha do primeiro umas tr&ecirc;s vezes, inutilmente.<br \/>\n    Conservei esses livros muitos meses, acompanharam-me por diversos lugares,<br \/>\n    foram remo&iacute;dos, esfacelaram-se, pulverizaram-se; hoje, com esfor&ccedil;o,<br \/>\n    consigo recordar algumas passagens de um deles. <\/p>\n<p>Nada afinal do que eu havia suposto: o interrogat&oacute;rio, o di&aacute;logo<br \/>\n    cheio de al&ccedil;ap&otilde;es, alguma carta apreendida, um romance com riscos<br \/>\n    e anota&ccedil;&otilde;es, testemunhas sumiram-se. N&atilde;o me acusavam,<br \/>\n    suprimiam-me. Bem. Provavelmente seria inquirido no dia seguinte, acareado,<br \/>\n    transformado em autos. Que horas seriam? Estirei-me no colch&atilde;o, vestido,<br \/>\n    o livro de Jos&eacute; Geraldo aberto sobre o est&ocirc;mago vazio. Em jejum<br \/>\n    desde manh&atilde;, mas isto apenas me causava uma vaga tontura e escurecia<br \/>\n    a vista. E concorria talvez para dificultar a compreens&atilde;o do texto.<br \/>\n    Virando a cabe&ccedil;a, percebia &agrave; esquerda o soldado im&oacute;vel.<br \/>\n    Essa precau&ccedil;&atilde;o me parecia t&atilde;o burlesca e t&atilde;o est&uacute;pida<br \/>\n    que interrompia a leitura v&atilde;, ria-me, apesar de tudo. Sentava-me, acendia<br \/>\n    um cigarro. Naturalmente n&atilde;o havia cinzeiro, esses luxos de civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinham desaparecido. Burlesco. Recebera a not&iacute;cia ao meio-dia, lavara-me,<br \/>\n    vestira-me, lera dois telegramas desaforados, conversara s&oacute;, com minha<br \/>\n    mulher e com d. Irene. Tinham-me feito esperar sete horas. E ali estava com<br \/>\n    sentinela &agrave; vista. Para qu&ecirc;? N&atilde;o era mais simples trancarem<br \/>\n    a porta? Aquele disp&ecirc;ndio in&uacute;til de energia corroborava o desfavor&aacute;vel<br \/>\n    ju&iacute;zo que eu formara da intelig&ecirc;ncia militar. De novo me deitava,<br \/>\n    pegava a brochura, soltava-a, cobria os olhos com o chap&eacute;u por causa<br \/>\n    da luz, tornava a levantar-me, acendia outros cigarros. J&aacute; no cimento<br \/>\n    se acumulavam pontas. Nenhum rel&oacute;gio na vizinhan&ccedil;a. Apenas os<br \/>\n    indeterminados rumores noturnos da caserna: um apito, vozes remotas, confusas.<br \/>\n    O sujeito firme, encostado ao fuzil. Iria passar ali a noite, dormir em p&eacute;?<br \/>\n    Eu n&atilde;o tinha sono, mas ele, coitado, com certeza engolia bocejos, amolava-se.<br \/>\n    Enfim que significa&ccedil;&atilde;o tinha aquilo? Pretenderiam manifestar-me<br \/>\n    defer&ecirc;ncia, considerar-me um sujeito pernicioso demais, que era preciso<br \/>\n    vigiar, ou queriam apenas desenferrujar as molas de um recruta desocupado?<br \/>\n    Compreenderia ele que era uma excresc&ecirc;ncia, ganhava c&atilde;ibras &agrave;<br \/>\n    toa, equilibrando-se ora numa perna, ora noutra? Se n&atilde;o fosse obrigado<br \/>\n    a desentorpecer-se e dar-me um tiro em caso de fuga, aquela extensa vig&iacute;lia<br \/>\n    s&oacute; tinha o fim de embrutec&ecirc;-lo na disciplina. <\/p>\n<p>rocurei um mict&oacute;rio, nas paredes lisas, cheguei-me &agrave; porta,<br \/>\n    desci &agrave; cal&ccedil;ada, passei em frente do manequim teso, sem me decidir<br \/>\n    a perguntar-lhe quantos metros o fio que me amarrava poderia estender-se:<br \/>\n    provavelmente, nas fun&ccedil;&otilde;es de espantalho, a criatura emudecia.<br \/>\n    Avizinhei-me do p&aacute;tio coberto de manchas de sombra e luz. Regressei<br \/>\n    ao cabo de um minuto, busquei o lavat&oacute;rio, achei uma pequena moringa<br \/>\n    e um copo. A higiene satisfazia-se com isso. Voltei a estender-me no colch&atilde;o,<br \/>\n    fatigado, cochilei algum tempo, confundi o real e o imagin&aacute;rio, os<br \/>\n    olhos protegidos pela aba do chap&eacute;u. Despertava, fumava, distinguia<br \/>\n    o estafermo e o fuzil, imaginava, olhando-os de perto, vendo a carranca e<br \/>\n    o brilho do metal, que haviam sido ali postos para amedrontar-me. Recurso<br \/>\n    infantil: conjeturei crian&ccedil;as barbadas, ing&ecirc;nuas e maliciosas.<br \/>\n    O pobre homem devia estar cansado. Seria o mesmo do come&ccedil;o ou teria<br \/>\n    vindo outro durante os cochilos? Havia-me escapado a substitui&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Tamb&eacute;m me escapavam pr&oacute;ximos rumores poss&iacute;veis: gemidos<br \/>\n    do vento nas &aacute;rvores do p&aacute;tio, a marcha lenta da ronda. Realmente<br \/>\n    n&atilde;o me lembro de &aacute;rvores nem da ronda: isto &eacute; suposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Esqueci pormenores, ou n&atilde;o os observei. <\/p>\n<\/p>\n<p>Ter-me-ia revelado inquieto? Pouco me importava o conceito que a sentinela<br \/>\n    pudesse ter dos meus movimentos excessivos, nem me ocorria que o infeliz,<br \/>\n    t&atilde;o parado, tivesse conceitos. Mas na verdade a inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era puramente f&iacute;sica: dif&iacute;cil permanecer num lugar; precis&atilde;o<br \/>\n    de levantar-me, sentar-me, deitar-me. fumar; a ligeira sonol&ecirc;ncia perturbada<br \/>\n    vezes sem conta e a leitura das mesmas p&aacute;ginas de Jos&eacute; Geraldo<br \/>\n    Vieira Parecia-me faltar a um dever. Habituara-me a ler todos os livros que<br \/>\n    me remetiam, ali estavam tr&ecirc;s a desafiar-me em longa ins&ocirc;nia,<br \/>\n    e era-me imposs&iacute;vel fixar a aten&ccedil;&atilde;o neles. As id&eacute;ias<br \/>\n    partiam-se a cada instante, desagregavam-se. Picadas no est&ocirc;mago. Fome.<br \/>\n    N&atilde;o, n&atilde;o era fome: nem conseguiria mastigar qualquer coisa.<br \/>\n    S&oacute; pensar em comida me dava enj&ocirc;o. Interiormente achava-me tranq&uuml;ilo.<br \/>\n    Ou antes, achava-me indiferente. Sumia-se at&eacute; a curiosidade inicial.<br \/>\n    Que pe&ccedil;a me iriam pregar no dia seguinte? Julgo que n&atilde;o perguntei<br \/>\n    isso. Realmente era desagrad&aacute;vel continuar naquela saleta nua, a procurar<br \/>\n    nas paredes um lavat&oacute;rio e um mict&oacute;rio inexistentes. Mas noutro<br \/>\n    canto arranjar-me-ia. Operava-se assim, em poucas horas, a transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que a cadeia nos imp&otilde;e: a quebra da vontade. E n&atilde;o me espantei<br \/>\n    quando, manh&atilde;zinha, me vieram tirar de uma leve modorra:<\/p>\n<p> Prepare-se para viajar. <\/p>\n<p> Saltei da cama; utilizando o copo e a moringa, escovei os dentes, lavei<br \/>\n    o rosto, molhei os cabelos; penteei-me, agarrei a valise e os tr&ecirc;s volumes:<br \/>\n    Est&aacute; bem.<\/p>\n<h3>5<\/h3>\n<p>A SA&Iacute;DA encontrei o Tavares, conhecido velho do tempo de rapaz, agora<br \/>\n    investigador da pol&iacute;cia. Disse-me que tinha ordem de levar-me ao Recife<br \/>\n    e perguntou-me se que ria um carro. A pergunta revelava estranha sovinice:<br \/>\n    pareceu-me que, preso, n&atilde;o me cabia pagar transporte; e, se f&ocirc;ssemos<br \/>\n    a p&eacute;, n&atilde;o alcan&ccedil;ar&iacute;amos o trem. Senti-me lesado,<br \/>\n    mas respondi afirmativamente e foi esta a &uacute;ltima rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que tive com os poderes p&uacute;blicos de Alagoas.<\/p>\n<p> Saltamos na esta&ccedil;&atilde;o da Great Western. Quereriam obrigar-me<br \/>\n    a comprar passagem? N&atilde;o falaram nisso e respirei, isento de responsabilidades.<br \/>\n    Na plataforma vi chegar um homenzinho moreno, cheio de tiques risonhos, que<br \/>\n    segurava uma grande mala e se apresentou: capit&atilde;o Mata, meu companheiro<br \/>\n    de viagem.<\/p>\n<p> Vai conduzir-me ao Recife?<\/p>\n<p> N&atilde;o, ia tamb&eacute;m conduzido. Entramos no vag&atilde;o de primeira<br \/>\n    classe. Na antev&eacute;spera Sebasti&atilde;o Hora, m&eacute;dico, presidente<br \/>\n    da Alian&ccedil;a Nacional, fora metido entre oper&aacute;rios, atravessara<br \/>\n    a cidade carregando a bagagem e viajara de segunda, com as portas trancadas.<br \/>\n    Ao sentar-me, descobri minha mulher na lufa-lufa dos passageiros. Vinha p&aacute;lida<br \/>\n    e chorava aquele choro f&aacute;cil, sereno, que n&atilde;o lhe contrai um<br \/>\n    m&uacute;sculo, choro superficial, t&atilde;o diferente dos meus: arrancos<br \/>\n    interiores, repuxos medonhos no diafragma, ordinariamente sem l&aacute;grimas.<br \/>\n    Diante do rosto molhado e calmo, as desaven&ccedil;as esmoreceram. Perturbado,<br \/>\n    gaguejei algumas recomenda&ccedil;&otilde;es sobre a mudan&ccedil;a dela para<br \/>\n    a casa do pai, falei nas crian&ccedil;as e, lembrando-me de que a deixara<br \/>\n    sem recursos, abri a carteira, exibi o conte&uacute;do e entreguei-lhe metade.<br \/>\n    Levava comigo seiscentos mil-r&eacute;is, pois n&atilde;o sabia em que apertos<br \/>\n    me iria achar. Aconselhei-a a vender os m&oacute;veis e uma pequena propriedade<br \/>\n    que t&iacute;nhamos. Pensei no romance in&eacute;dito e, receando buscas,<br \/>\n    pedi-lhe que, ao receb&ecirc;-lo de d. Jeni, guardasse o manuscrito numa casa<br \/>\n    e a c&oacute;pia noutra. Esgotados esses assuntos, pus-me a repis&aacute;-los,<br \/>\n    constrangido, desgostoso com o pranto sossegado, invari&aacute;vel, acusando-me<br \/>\n    interiormente de ter sido grosseiro na v&eacute;spera. Recebi um pacote de<br \/>\n    tro&ccedil;os mi&uacute;dos e meti-o na valise. Numa portinhola adiante, capit&atilde;o<br \/>\n    Mata despedia-se alegremente de umas senhoras despreocupadas, naturais, como<br \/>\n    se julgassem a pris&atilde;o dele um fato comum, acidente de quartel. Derradeiro<br \/>\n    apito, derradeiro abra&ccedil;o, derradeiras repeti&ccedil;&otilde;es, um<br \/>\n    solavanco e achei-me curvado para fora, a agitar o bra&ccedil;o, vendo uma<br \/>\n    figura branca e im&oacute;vel decrescer at&eacute; sumir-se.<\/p>\n<p> Nenhuma saudade, nenhuma dessas meiguices rom&acirc;nticas, enervadoras:<br \/>\n    sentia-me atordoado, como se me dessem um murro na cabe&ccedil;a. Julgava-me<br \/>\n    autor de v&aacute;rias culpas, mas n&atilde;o sabia determin&aacute;-las.<br \/>\n    Arrependia-me vagamente de asperezas e injusti&ccedil;as, ao mesmo tempo supunha-me<br \/>\n    fraco, a escorregar em condescend&ecirc;ncias in&uacute;teis, , e queria endurecer<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o, eliminar o passado, fazer com ele o que fa&ccedil;o<br \/>\n    quando emendo um per&iacute;odo riscar, engrossar os riscos e transform&aacute;-los<br \/>\n    em borr&otilde;es, suprimir todas as letras, n&atilde;o deixar vest&iacute;gio<br \/>\n    de id&eacute;ias obliteradas. Aquela viagem era uma d&aacute;diva imprevista.<br \/>\n    Estivera a desej&aacute;-la intensamente, considerando-a dif&iacute;cil, quase<br \/>\n    irrealiz&aacute;vel, e alcan&ccedil;ava-a de repente. Sucedera-me um desastre,<br \/>\n    haviam pretendido causar-me grande mal o mal e o desastre ofereciam-me um<br \/>\n    princ&iacute;pio de liberta&ccedil;&atilde;o. Os dois choques seguidos, desemprego<br \/>\n    e cadeia, e tamb&eacute;m os telegramas ofensivos eram &uacute;teis: perturbavam-me,<br \/>\n    embrulhavam casos enfadonhos, obrigavam-me a um salto arriscado, e nessa desloca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    datas e fisionomias se toldavam de espessa n&eacute;voa. Parecia-me que saldava<br \/>\n    uma d&iacute;vida, me livrava de pesos interiores. Qualquer favor acaso ali<br \/>\n    recebido findava.. Bom que me deixassem partir esquecido e em sil&ecirc;ncio:<br \/>\n    est&aacute;vamos quites. E nesse ajuste de contas figuravam governo e particulares.<br \/>\n    Sem guardar ressentimento, aliviava-me de obriga&ccedil;&otilde;es. Voltando-me,<br \/>\n    percebi ao meu lado o capit&atilde;o Mata, expansivo, am&aacute;vel, a dizer-me<br \/>\n    coisas que n&atilde;o entendi bem. Formei sobre elas um ju&iacute;zo confuso,<br \/>\n    alterei-o e corrigi-me depois, mas a princ&iacute;pio, desatento e mudo, com<br \/>\n    certeza dei ao rapaz uma impress&atilde;o lastimosa. Confessou-me que estava<br \/>\n    inocente e era v&iacute;tima de enredos e maroteiras dos colegas; necessitava<br \/>\n    repisar isto, como se eu fosse julg&aacute;-lo estava inocente. Oficial de<br \/>\n    pol&iacute;cia rebelde a entusiasmos, poeta por voca&ccedil;&atilde;o. Como<br \/>\n    profissional, ficara alguns meses no Rio, em est&aacute;gio lembrado com j&uacute;bilo,<br \/>\n    mas fora como diletante que a&iacute; se notabilizara: num jantar, entre camaradas,<br \/>\n    recitara versos da sua lavra, e isto lhe dera largo prest&iacute;gio. Essas<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es misturavam-se a trechos de paisagem, dilu&iacute;am-se,<br \/>\n    recompunham-se. . Algumas s&iacute;labas que eu entremeava no solil&oacute;quio<br \/>\n    poderiam dar-lhe apar&ecirc;ncia de conversa e assim abrandamos parte da viagem.<\/p>\n<p> Logo nas primeiras esta&ccedil;&otilde;es tr&ecirc;s conhecidos surgiram,<br \/>\n    patentearam-se, ofereceram-me as &uacute;ltimas imagens que levei daquela<br \/>\n    terra. Se o meu companheiro n&atilde;o falasse demais, sempre a explicar-se,<br \/>\n    a justificar-se, sem dificuldades nos tomariam como passageiros comuns: o<br \/>\n    investigador, discreto, de nenhum modo nos comprometia. Mas as explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e as justifica&ccedil;&otilde;es nos marcaram, chamaram a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Benon Maia Gomes, diretor do Servi&ccedil;o de Algod&atilde;o depois da<br \/>\n    bagun&ccedil;a de 1930; nesse tempo me aparecia &agrave;s vezes na Imprensa<br \/>\n    Oficial, onde eu bocejava a olhar, sob um telheiro pr&oacute;ximo, um homem<br \/>\n    que enchia dornas e uma mulher que lavava garrafas. Durante uns minutos de<br \/>\n    parada, Benon Maia Gomes censurou-me acrimonioso a desordem. Estava convencido<br \/>\n    de que o meu trabalho era uma desgra&ccedil;a. Murmurou e remurmurou, carrancudo,<br \/>\n    sombrio:<\/p>\n<p> -Desordem, desorganiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mordi os bei&ccedil;os, contive-me, preguei os olhos num ponto afastado,<br \/>\n    imobilizei-me at&eacute; que o trem se p&ocirc;s em marcha. Outro conhecido,<br \/>\n    tamb&eacute;m visto de relance numa esta&ccedil;&atilde;o, foi o deputado<br \/>\n    Jos&eacute; da Rocha. Ao ter conhecimento da infeliz not&iacute;cia, recuou,<br \/>\n    temendo manchar-se, exclamou arregalado: Comunista!<\/p>\n<p> Espanto, imenso desprezo, a convic&ccedil;&atilde;o de achar-se na presen&ccedil;a<br \/>\n    de um traidor. Absurdo: eu n&atilde;o podia considerar-me comunista, pois<br \/>\n    n&atilde;o pertencia ao Partido; nem era razo&aacute;vel agregar-me &agrave;<br \/>\n    classe em que o bacharel Jos&eacute; da Rocha, usineiro, prosperava. Habituara-me<br \/>\n    cedo a odiar essa classe, e n&atilde;o escondia o &oacute;dio Embora isto<br \/>\n    n&atilde;o lhe causasse nenhum preju&iacute;zo, era natural que, em hora de<br \/>\n    paix&otilde;es acirradas, ela quisesse eliminar-me. O assombro do usineiro<br \/>\n    me pasmava e &eacute;ramos duas surpresas. Nascido na propriedade e ag&uuml;entando-se<br \/>\n    l&aacute;, sempre a serrar de cima, conquistando posi&ccedil;&otilde;es, bacharel,<br \/>\n    deputado, etc., n&atilde;o via raz&atilde;o para descontentamentos. Com um<br \/>\n    sobressalto doloroso notava que eles existiam. Ent&atilde;o os c&eacute;rebros<br \/>\n    alheios funcionavam, e funcionavam contra os seus interesses, as moendas,<br \/>\n    os v&aacute;cuos, os d&iacute;namos e os canaviais. Uma palavra apenas, e<br \/>\n    nela indigna&ccedil;&atilde;o, asco, uma raiva fria manifesta em rugas ligeiras:<\/p>\n<p> Comunista!<\/p>\n<p> Este resumo aniquilava-me. Ingrato. E qualquer acr&eacute;scimo, gesto ou<br \/>\n    voc&aacute;bulo era redund&acirc;ncia. O terceiro encontro foi com Miguel<br \/>\n    Baptista, com quem me correspondera quando trabalhava na Prefeitura de Palmeira<br \/>\n    dos &iacute;ndios e ele, diretor da Instru&ccedil;&atilde;o P&uacute;blica,<br \/>\n    fazia o recenseamento da popula&ccedil;&atilde;o escolar. Agora, juiz de direito<br \/>\n    no interior, viajava para a sua comarca. Entrou no carro, abra&ccedil;ou-me<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio e foi sentar-se a pequena dist&acirc;ncia, de costas para<br \/>\n    mim. N&atilde;o me olhou uma vez. No ponto de desembarque, entregues os pacotes<br \/>\n    ao carregador, veio abra&ccedil;ar-me de novo:<\/p>\n<p> Adeus, Fulano. At&eacute; a volta. Confundi-me, gaguejei:<\/p>\n<p> N&atilde;o, Baptista, eu n&atilde;o volto.<\/p>\n<p> Volta, sim. Isso &eacute; um equ&iacute;voco, n&atilde;o tem import&acirc;ncia.<br \/>\n    Dentro de uma semana tudo se esclarece. Adeus, seja feliz. Foi pouco mais<br \/>\n    ou menos o que ele disse e isto dissipou negrumes, hoje me d&aacute; uma recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    am&aacute;vel daquele dia. Na aus&ecirc;ncia de Baptista, indaguei-me. Se<br \/>\n    os nossos pap&eacute;is estivessem trocados, haveria eu procedido como ele,<br \/>\n    acharia a maneira conveniente de expressar um voto generoso? Talvez n&atilde;o.<br \/>\n    Acanhar-me-ia, atirar-lhe-ia de longe uma sauda&ccedil;&atilde;o obl&iacute;qua,<br \/>\n    fingir-me-ia desatento. Essas descobertas de caracteres estranhos me levam<br \/>\n    a compara&ccedil;&otilde;es muito penosas: analiso-me e sofro.<\/p>\n<p> No calor e na poeira, o capit&atilde;o Mata parolava distraindo-se e distraindo-me.<br \/>\n    Recitou um soneto, de que n&atilde;o percebi logo o intuito sat&iacute;rico.<br \/>\n    Caprichava na sintaxe, metrificava ironias &agrave; seguran&ccedil;a p&uacute;blica:<br \/>\n    e em 1936 esse desrespeito podia considerar-se uma esp&eacute;cie de comunismo.<br \/>\n    No princ&iacute;pio da tarde o investigador Tavares acompanhou-me ao restaurante,<br \/>\n    mas o cheiro da comida me nauseava. Pedi cigarros e conhaque. Fumava sem descontinuar,<br \/>\n    a provis&atilde;o do tabaco sumia-se rapidamente na valise. E necessitava<br \/>\n    beber. Isto n&atilde;o me abria o apetite. As picadas no est&ocirc;mago haviam<br \/>\n    desaparecido, e um entorpecimento se alargava, dava-me a impress&atilde;o<br \/>\n    de que o &oacute;rg&atilde;o se extinguiria e eu viveria bem sem comer. A<br \/>\n    tontura da noite se sumira tamb&eacute;m: achava-me l&uacute;cido, a mem&oacute;ria<br \/>\n    funcionava regularmente, e se Tavares n&atilde;o fosse da pol&iacute;cia,<br \/>\n    agradar-me-ia conversar com ele, recordar as sobrinhas do padre Raul, Pontal-da-Barra,<br \/>\n    casos da mocidade. O que fiz foi confiar-lhe um bilhete para minha mulher.<br \/>\n    Na atrapalha&ccedil;&atilde;o da partida, esquecera-me de um aviso importante.<br \/>\n    De fato n&atilde;o havia import&acirc;ncia, mas ali, ausentando-me do mundo,<br \/>\n    come&ccedil;ava a dar &agrave;s coisas valores novos. Sucedia um desmoronamento.<br \/>\n    Indispens&aacute;vel retirar dele migalhas de vida, cultiv&aacute;-las e ampli&aacute;-las.<br \/>\n    De outro modo, seria o desastre completo, o mergulho definitivo. Assim, lembrei-me<br \/>\n    de uma carta recebida poucos dias antes da Argentina. Benjamin Garay andava<br \/>\n    a traduzir-me um livro, a dizer que o traduzia, e for&ccedil;ava-me a gastar<br \/>\n    papel e tempo numa correspond&ecirc;ncia longa. Ultimamente me exigira colabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para n&atilde;o sei que revista de Buenos Aires. Pensei num conto deixado<br \/>\n    na gaveta sapecado, cheio de abundantes min&uacute;cias exasperadoras, e,<br \/>\n    a l&aacute;pis, em pedacinhos de papel arrancados da carteira, sugeri a minha<br \/>\n    mulher que tirasse duas c&oacute;pias dele e mandasse uma a Garay. Bebendo<br \/>\n    conhaque, vendo em colinas e plan&iacute;cies desdobrarem-se canaviais, parecia-me<br \/>\n    haver escrito a algu&eacute;m que se tivesse desligado quase completamente<br \/>\n    de mim. Na verdade a separa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era completa. Os desgostos<br \/>\n    di&aacute;rios e a serenidade lacrimosa da manh&atilde; fundiam-se naquele<br \/>\n    torpor que principiava iro est&ocirc;mago, se alargava, mergulhava todo o<br \/>\n    corpo em sombria indiferen&ccedil;a. Mas havia os filhos: precisava cuidar<br \/>\n    deles. Como? Ali a rodar nos trilhos da Great Western, os versos de Bandeira<br \/>\n    ecoando no ganz&aacute; da locomotiva: Passa boi, passa boiada, usinas sucedendo-se<br \/>\n    no campo verde, a do dr. Jos&eacute; da Rocha e as de outros doutores, achava-me<br \/>\n    in&uacute;til, pregui&ccedil;oso e est&uacute;pido.<\/p>\n<p> O desejo de fazer um livro na cadeia arrefecia; contudo apegava-me a ele,<br \/>\n    por n&atilde;o me ocorrer outro. Talvez aquela confus&atilde;o s&eacute; dissipasse,<br \/>\n    uma confus&atilde;o esquisita: as id&eacute;ias me chegavam n&iacute;tidas,<br \/>\n    fugiam, voltavam, eram substitu&iacute;das, atropelavam-se; imposs&iacute;vel<br \/>\n    fix&aacute;-las; coisas muito claras que se partiam. Tudo por causa daquele<br \/>\n    deslocamento. Devia ser isto: horr&iacute;veis as mudan&ccedil;as. A usina<br \/>\n    do deputado Jos&eacute; da Rocha; a opini&atilde;o severa de Benon Maia Gomes;<br \/>\n    um tenente mulato a perfilar-se, depois a girar num corrupio: Um g&ecirc;nio,<br \/>\n    &eacute; o que ela &eacute;; Rubem Loureiro transmitindo-me um recado custoso<br \/>\n    de Osman, no gabinete cheio de pe&ccedil;as de fazenda, processos &eacute;<br \/>\n    volumes do Literatura Internacional; a nobreza de Miguel Baptista, exposta<br \/>\n    num r&aacute;pido cochicho; indispens&aacute;vel arranjar um livro, a l&aacute;pis,<br \/>\n    em peda&ccedil;os de papel, frustrar com ele a monotonia da pris&atilde;o.<br \/>\n    Este &uacute;ltimo pensamento vinha sempre, teimoso, n&atilde;o havia meio<br \/>\n    de suprimi-lo. Dar-me-iam a tranq&uuml;ilidade necess&aacute;ria para fazer<br \/>\n    o livro? Provavelmente n&atilde;o dariam. Agadanhavam-me &eacute;, depois<br \/>\n    de uma noite de ins&ocirc;nia, despachavam-me para o Recife. Que diabo queriam<br \/>\n    de mim no Recife? Capricho. Certamente me for&ccedil;ariam a interrogat&oacute;rios<br \/>\n    morosos, testemunhas diriam cobras e lagartos, afinal me chegaria uma condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de vulto. Sem d&uacute;vida. Quais seriam os meus crimes? N&atilde;o havia<br \/>\n    reparado nos enxertos em 1935 arrumados na constitui&ccedil;&atilde;o. Num<br \/>\n    deles iria embrulhar-me. A conjetura de que me largariam ao cabo de dois ou<br \/>\n    tr&ecirc;s dias, por falta de provas, sumiu-se. Aquela transfer&ecirc;ncia<br \/>\n    anunciava demora.<\/p>\n<p> Em frente a mim, os cotovelos na mesa, Tavares, sonolento, bocejava com<br \/>\n    dignidade bovina. Nenhuma apar&ecirc;ncia de c&atilde;o de guarda: um boi.<br \/>\n    De espa&ccedil;o a espa&ccedil;o mugia uma quest&atilde;o, a que eu respondia<br \/>\n    por monoss&iacute;labos, afirmando ou negando com a cabe&ccedil;a. Voltei<br \/>\n    ao carro de primeira classe, diligenciei entreter-me com as divaga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do meu companheiro. N&atilde;o conseguia, por&eacute;m, dispensar-lhe aten&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    mudo e chocho, isento de curiosidade, andava aos saltos no tempo, brocas agudas<br \/>\n    verrumando-me o interior.<\/p>\n<p> Burrice imaginar que me s&eacute;ria poss&iacute;vel atamancar um romance<br \/>\n    al&eacute;m das grades. Nem conseguia meio de consertar o que d. Jeni datilografava.<br \/>\n    Isto me afligia: defeitos por todos os cantos, prosa derramada e ins&iacute;pida.<br \/>\n    O conto que havia ficado na gaveta precisava tamb&eacute;m numerosas emendas,<br \/>\n    cortes, substitui&ccedil;&otilde;es. Entretanto eu o mandava copiar e remeter<br \/>\n    a um pa&iacute;s estrangeiro, coisa que, no meu ju&iacute;zo perfeito, n&atilde;o<br \/>\n    faria. E j&aacute; a&iacute; t&iacute;nhamos uma pequena amostra do que nos<br \/>\n    oferecia o absolutismo novo, sem disfarces, dentes arreganhados, brutal: o<br \/>\n    rebaixamento da produ&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria. E era-me necess&aacute;rio<br \/>\n    dedicar-me a ela de qualquer modo, export&aacute;-la em contrabando s&eacute;<br \/>\n    o mercado interno a recusasse. Recusaria, decerto.<\/p>\n<p> Passei o dia a mexer-me do vag&atilde;o para o restaurante, bebi alguns<br \/>\n    c&aacute;lices de conhaque, os &uacute;ltimos que me permitiriam durante longos<br \/>\n    meses. A noitinha percebi constru&ccedil;&otilde;es negras num terreno alagado.<br \/>\n    Que seria aquilo?<br \/>\n    Mocambos, informou Tavares.<\/p>\n<p> Bem, os c&eacute;lebres mocambos que Jos&eacute; Lins havia descrito em<br \/>\n    Moleque Ricardo. Conheceria Jos&eacute; Lins aquela vida? Provavelmente n&atilde;o<br \/>\n    conhecia. Acusavam-no de ser apenas um memorialista, de n&atilde;o possuir<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o, e o romance mostrava exatamente o contr&aacute;rio.<br \/>\n    Que entendia ele de meninos nascidos e criados na lama e na mis&eacute;ria,<br \/>\n    ele, filho de propriet&aacute;rios? Contudo a narra&ccedil;&atilde;o tinha<br \/>\n    verossimilhan&ccedil;a. Eu seria incapaz de semelhante proeza: s&oacute; me<br \/>\n    abalan&ccedil;o a expor a coisa observada e sentida. Tornaria esse amigo a<br \/>\n    compor outra hist&oacute;ria assim, desigual, desleixada, mas onde existem<br \/>\n    passagens admir&aacute;veis, duas pelo menos a atingir o ponto culminante<br \/>\n    da literatura brasileira? Quem sabia l&aacute;? Agora morava no Rio, talvez<br \/>\n    entrasse na ordem, esquecesse a bagaceira e a senzala, forjasse novelas convenientes<br \/>\n    para um p&uacute;blico besta, rico &eacute; vazio. Malucando assim, alcancei<br \/>\n    a esta&ccedil;&atilde;o de Cinco-Pontas peguei a valise e os tr&ecirc;s volumes,<br \/>\n    saltei na plataforma, acompanhado pelo investigador, junto ao capit&atilde;o<br \/>\n    Mata, que se derreava ao peso da mala.<\/p>\n<h3>6<\/h3>\n<p>CHEGOU-SE a n&oacute;s um rapaz alto, esticado na farda, que se ofereceu<br \/>\n    para conduzir-nos ao nosso destino. A fala era branda, os modos corteses,<br \/>\n    de uma cortesia sem afeta&ccedil;&atilde;o, ligada com rigor ao homem, parecendo<br \/>\n    haver nascido com ele. A maneira como se apresentou, nos abriu a portinhola<br \/>\n    de um grande autom&oacute;vel, dava-nos a impress&atilde;o de que &eacute;ramos<br \/>\n    h&oacute;spedes consider&aacute;veis levados ao hotel por um funcion&aacute;rio<br \/>\n    cerimonioso. E nenhuma palavra que de longe revelasse a nossa degrada&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O investigador Tavares logo se eclipsou. Estranho. Aquela contradan&ccedil;a<br \/>\n    me desorientava. Subordinara-me em vinte e quatro horas ao mulato rodopiante,<br \/>\n    ao oficial mudo, &agrave; sentinela, ao Tavares, ao rapaz atencioso. Surpreendia-me:<br \/>\n    imaginara que me trancassem a chave numa sala, me deixassem s&oacute; e n&atilde;o<br \/>\n    me vira s&oacute; um minuto. A vigil&acirc;ncia cont&iacute;nua, embora exercida<br \/>\n    por uma est&aacute;tua armada a fuzil ou por uma criatura am&aacute;vel em<br \/>\n    excesso, come&ccedil;ava a angustiar-me. Isso e a instabilidade. Mal fechara<br \/>\n    os olhos numa leve sonol&ecirc;ncia, algu&eacute;m me sacudira e soprara ao<br \/>\n    ouvido: Viajar. Para onde? Essa id&eacute;ia de nos poderem levar para um<br \/>\n    lado ou para outro, sem explica&ccedil;&otilde;es, &eacute; extremamente dolorosa,<br \/>\n    n&atilde;o conseguimos familiarizar-nos com ela. Deve haver uma raz&atilde;o<br \/>\n    para que assim procedam, mas ignorando-a, achamo-nos cercados de incongru&ecirc;ncias.<br \/>\n    Temos a impress&atilde;o de que apenas desejam esmagar-nos, pulverizar-nos,<br \/>\n    suprimir o direito de nos sentarmos ou dormir se estamos cansados. Ser&aacute;<br \/>\n    necess&aacute;ria essa despersonaliza&ccedil;&atilde;o? Depois de submeter-se<br \/>\n    a semelhante regime, um indiv&iacute;duo &eacute; absolvido e mandam-no embora.<br \/>\n    Pouco lhe serve a absolvi&ccedil;&atilde;o: habituado a mover-se como se o<br \/>\n    puxassem por cord&eacute;is, dificilmente se libertar&aacute;. Condenaram-no<br \/>\n    antes do julgamento, e nada compensa o horr&iacute;vel dano. Talvez as coisas<br \/>\n    devam ser feitas assim, n&atilde;o haja outro meio de realiz&aacute;-las.<br \/>\n    De qualquer modo isso &eacute; uma iniq&uuml;idade e a custo admitiremos que<br \/>\n    uma iniq&uuml;idade seja indispens&aacute;vel. Aonde me transportariam? Aquela<br \/>\n    hora muitos indiv&iacute;duos suspeitos estavam sendo paralisados, rolavam<br \/>\n    sobre pneum&aacute;ticos silenciosos, navegavam do norte para o sul e do sul<br \/>\n    para o norte, resvalavam como sombras em longos corredores &uacute;midos.<br \/>\n    E as autoridades resvalavam tamb&eacute;m, abafando os passos, obl&iacute;quas,<br \/>\n    tortuosas, com apar&ecirc;ncia de malfeitores.<\/p>\n<p> Embarcamos, ziguezagueamos longamente na ilumina&ccedil;&atilde;o fraca<br \/>\n    do Recife. Achara-me ali vinte e dois anos antes, recolhido, enfermo, e ignorava<br \/>\n    a topografia da cidade: as ruas es treitas e sem nome nada me diziam do itiner&aacute;rio.<br \/>\n    A um lado, o meu companheiro dava-me palpites desprovidos de significa&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    no outro lado, o nosso guia, atento, digno, o busto ereto, quase se invisibilizava<br \/>\n    na penumbra do ve&iacute;culo. Come&ccedil;ava a esbo&ccedil;ar-se a terr&iacute;vel<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o que ia perdurar: uma curiosidade louca a emaranhar-se<br \/>\n    em cordas, embrenhar-se em labirintos, marrar paredes, e ali perto o informe<br \/>\n    necess&aacute;rio, impercept&iacute;vel nas linhas de uma cara enigm&aacute;tica<br \/>\n    e fria. Chegamos afinal diante de um vasto edif&iacute;cio, saltamos. E, lembrando-me<br \/>\n    da exig&ecirc;ncia da manh&atilde;, aproximei-me do chauffeur, abri a carteira,<br \/>\n    disposto a reduzir os cobres escassos.<\/p>\n<p> Ah! n&atilde;o! interp&ocirc;s-se o nosso condutor. &Eacute; um carro oficial.<\/p>\n<p> Respirei aliviado. Atravessamos um port&atilde;o, percorremos lugares que<br \/>\n    n&atilde;o me deixaram nenhum vest&iacute;gio na mem&oacute;ria, desembocamos<br \/>\n    numa saleta onde um sujeito em mangas de camisa bebia ch&aacute; e mastigava<br \/>\n    torradas. N&atilde;o se alterou com a nossa presen&ccedil;a: continuou sentado<br \/>\n    &agrave; mesinha, diante da bandeja, e nem deu mostra de perceber a contin&ecirc;ncia<br \/>\n    e algumas palavras indistintas do rapaz cort&ecirc;s. Pouco a pouco, inteirando-se<br \/>\n    de qualquer coisa, entrou a manifestar sinais de inquieta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    jogando-nos de soslaio olhadelas descontentes. T&iacute;nhamos ido incomod&aacute;-lo,<br \/>\n    impacientava-se, murmurava uma recusa teimosa, falando para dentro, sem deixar<br \/>\n    de mastigar a torrada. O movimento dos queixos e o som abafado e mon&oacute;tono<br \/>\n    casavam-se de tal jeito que a recusa e a torrada pareciam confundir-se. E<br \/>\n    as migalhas economizadas voltavam &agrave; boca, juntavam-se &agrave;s s&iacute;labas<br \/>\n    indecisas, tudo se moia num ronrom asm&aacute;tico. N&atilde;o me chegava<br \/>\n    uma palavra, e o desagrado apenas se revelava no gesto arrepiado, no resmungo<br \/>\n    cavernoso. O mo&ccedil;o fez nova contin&ecirc;ncia, meia-volta, veio dizer-nos<br \/>\n    que n&atilde;o havia ali acomoda&ccedil;&otilde;es para n&oacute;s.<\/p>\n<p> Sa&iacute;mos, reembarcamos, outra vez nos largamos pelas ruas estreitas<br \/>\n    e sombrias. Segunda parada, e mergulhamos num casar&atilde;o, subimos e descemos<br \/>\n    numerosos degraus de cimento, dobramos esquinas, fomos acordar o sujeito que<br \/>\n    dormia num quarto pequeno situado no fim de um alpendre. Levantou-se bocejando,<br \/>\n    a cara enferrujada.. E travou-se um di&aacute;logo de que nada consegui entender.<br \/>\n    Express&otilde;es t&eacute;cnicas soavam inutilmente, pessoas agora esquecidas<br \/>\n    por inteiro entravam, sa&iacute;am, colaboravam na conversa, e, n&atilde;o<br \/>\n    me sendo poss&iacute;vel distinguir a posi&ccedil;&atilde;o social delas,<br \/>\n    ordens e evasivas se confundiam, para diferen&ccedil;&aacute;-las havia apenas<br \/>\n    o tom, o gesto, a postura humilde ou arrogante.<\/p>\n<p> Na verdade me achava num mundo bem estranho. Um quartel. N&atilde;o podia<br \/>\n    arrogar-me inteira ignor&acirc;ncia dos quart&eacute;is, mas at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    eles me haviam surgido nas rela&ccedil;&otilde;es com o exterior, esfor&ccedil;ando-se<br \/>\n    por adotar os modos e a linguagem que us&aacute;vamos l&aacute; fora. Aparecia-me<br \/>\n    de chofre interiormente, indefinido, com seu r&iacute;gido simbolismo, um<br \/>\n    quadro de valores que me era imposs&iacute;vel recusar, aceitar, compreender<br \/>\n    ao menos. Tinha-me livrado em poucos meses do servi&ccedil;o militar, numa<br \/>\n    linha de tiro, sem nenhum patriotismo, apenas interessado na gin&aacute;stica.<br \/>\n    Habituara-me cedo a considerar o ex&eacute;rcito uma inutilidade. Pior: uma<br \/>\n    organiza&ccedil;&atilde;o mal&eacute;fica. Lembrava-me dos conquistadores<br \/>\n    antigos, brutos, bandidos, associava-os aos generais modernos, bons homens,<br \/>\n    excelentes pais de fam&iacute;lia, em todo o caso brutos e bandidos te&oacute;ricos,<br \/>\n    mergulhados numa burocracia her&oacute;ica e dispendiosa. Mais tarde, numa<br \/>\n    prefeitura da ro&ccedil;a, percebera que os melhores trabalhadores, os mais<br \/>\n    capazes, tinham sido soldados e aquele ninho de parasitas se revelara incongruente.<br \/>\n    Uma id&eacute;ia preconcebida, rigorosa, esbarrava com a observa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Nada mais besta que as generaliza&ccedil;&otilde;es precipitadas. A antipatia<br \/>\n    que os militares me inspiravam com certeza provinha de nos separarmos. Eu<br \/>\n    achava as f&oacute;rmulas deles, os horr&iacute;veis lugares-comuns, paradas,<br \/>\n    bot&otilde;es, ordens do dia e toques de corneta uma chatice arrepiadora;<br \/>\n    se algum deles atentasse nas minhas ocupa&ccedil;&otilde;es, provavelmente<br \/>\n    as julgaria bem mesquinhas.<\/p>\n<p> Das frases r&aacute;pidas e obscuras, das idas e vindas, percebi vagamente<br \/>\n    que tamb&eacute;m ali n&atilde;o havia lugar para n&oacute;s. Isto me espantava.<br \/>\n    Como era poss&iacute;vel em t&atilde;o grande estabeleci mento n&atilde;o<br \/>\n    haver cela onde se alojassem dois indiv&iacute;duos? N&atilde;o se tratava<br \/>\n    disso, foi o que me pareceu: n&atilde;o se procurava uma cela, mas uma determinada<br \/>\n    esp&eacute;cie de cela. No papel que nos dava ingresso est&aacute;vamos classificados,<br \/>\n    etiquetados, e s&oacute; nos poder&iacute;amos recolher a local previamente<br \/>\n    estabelecido. Perplexo, perguntava a mim mesmo se esse rigorismo nos seria<br \/>\n    vantajoso ou desvantajoso. N&atilde;o me seria poss&iacute;vel recordar as<br \/>\n    fei&ccedil;&otilde;es do homem que se levantara, bocejando estremunhado. Certamente<br \/>\n    o vi nos dias seguintes, mas confundi-o com outros, n&atilde;o consegui identific&aacute;-lo.<br \/>\n    Recordo-me, por&eacute;m, de um pormenor desprez&iacute;vel, o sentimento<br \/>\n    desarrazoado que me assaltou ao v&ecirc;-lo chateado, indeciso a respeito<br \/>\n    do ponto onde nos devia guardar: acusei-me, n&atilde;o de tentar subverter<br \/>\n    a ordem, mas de perturbar o sono de um desconhecido. Evidentemente isso era<br \/>\n    est&uacute;pido e reconhecendo a estupidez, continuava a censurar-me, tinha<br \/>\n    desejo de me desculpar, livrar-me do enleio absurdo. Enfim, ao cabo de meia<br \/>\n    hora, venceu-se a dificuldade: o homem resolveu ceder-nos aquele aposento<br \/>\n    e mudar-se: mandou buscar outra cama e saiu depois de nos fazer algumas. advert&ecirc;ncias<br \/>\n    incompreens&iacute;veis. O mo&ccedil;o que nos acompanhara despediu-se tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Obrigado, tenente.<\/p>\n<p> N&atilde;o senhor, sou apenas sargento.<\/p>\n<p> Perd&atilde;o. Com essa luz t&atilde;o fraca, dif&iacute;cil notar.<\/p>\n<p> Aleguei a falta de luz como alegaria outra coisa qualquer, pois de fato,<br \/>\n    ignorante de uniformes, nem procurara distinguir o posto do rapaz. Imaginara-o<br \/>\n    tenente e surpreendia-me que houvesse inferiores t&atilde;o bem-educados.<br \/>\n    Julgava-os &aacute;speros, severos, carrancudos, possuidores de horr&iacute;veis<br \/>\n    pulm&otilde;es fortes demais, desenvolvidos em berros a recrutas, nos exerc&iacute;cios.<br \/>\n    E aquele, am&aacute;vel, discreto, de aprumo perfeito e roupa sem dobras,<br \/>\n    realmente me desorientava. Surpresa tola, por causa das generaliza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    apressadas.<\/p>\n<h3>7<\/h3>\n<p>QUANDO nos vimos s&oacute;s, abri a valise, retirei objetos necess&aacute;rios,<br \/>\n    despi-me lentamente, os bra&ccedil;os pesados, estendi a roupa no encosto<br \/>\n    de uma cadeira, vesti um pijama. O capit&atilde;o Mata vencera a loquacidade<br \/>\n    e acomodava-se &agrave; pressa, met&oacute;dico, cochichando-me reparos, porque<br \/>\n    tinha chegado a hora do sil&ecirc;ncio e as expans&otilde;es se tornavam imposs&iacute;veis.<br \/>\n    Ultimados os arranjos, estabelecidas as coisas nos lugares convenientes, despediu-se,<br \/>\n    apagou a luz, deitou-se na cama de feno posta a um canto da sala estreita,<br \/>\n    ao p&eacute; da entrada, e adormeceu logo. A minha cama, do outro lado, ao<br \/>\n    fundo, ficava junto a uma janela aberta sobre um p&aacute;tio cheio de sombras<br \/>\n    Na parede onde o meu companheiro se encostava, uma porta fechada; em frente,<br \/>\n    uma janela, tamb&eacute;m fechada. N&atilde;o sei onde lavei as m&atilde;os<br \/>\n    e o rosto, esqueci pormenores, ignoro se havia &aacute;gua encanada ou lavat&oacute;rio<br \/>\n    com jarro. Uma mesinha, duas cadeiras, s&oacute;.<\/p>\n<p> Deitei-me, fiquei a virar-me e a revirar-me no len&ccedil;ol dobrado, tentando<br \/>\n    em v&atilde;o chamar o sono. Realmente n&atilde;o posso dizer se dormia ou<br \/>\n    velava: feriam-me os sentidos uma faixa alvacenta que me banhava os travesseiros,<br \/>\n    o vulto indeciso do capit&atilde;o, a mesinha, as cadeiras, a sentinela encostada<br \/>\n    ao fuzil, no alpendre, nova sentinela a amofinar-se no servi&ccedil;o cacete;<br \/>\n    mas &agrave;s vezes tudo se embrulhava, entre as vis&otilde;es concretas esbo&ccedil;avam-se<br \/>\n    fantasmagorias e era-me imposs&iacute;vel saber onde me achava, porque me<br \/>\n    estirava no colch&atilde;o alheio, depois de solavancos infinitos em estrada<br \/>\n    de ferro. A minha vida anterior se dilu&iacute;a, perdia-se al&eacute;m daquele<br \/>\n    imenso espa&ccedil;o de vinte e quatro horas. Um muro a separar-me dela, a<br \/>\n    altear-se, a engrossar, e para c&aacute; do muro nuvens, incongru&ecirc;ncias<br \/>\n    Entre esses farrapos de realidade e sonho, era doloroso pensar numa inteira<br \/>\n    despersonaliza&ccedil;&atilde;o. Como iria reagir &agrave;s ocorr&ecirc;ncias<br \/>\n    imprecisas que me aguardavam? As imagens vagas misturadas aos m&oacute;veis<br \/>\n    sumiram-se, despertei completamente e foi imposs&iacute;vel conservar, no<br \/>\n    calor, a posi&ccedil;&atilde;o horizontal.<\/p>\n<p> Ergui-me, tateei a roupa no encosto da cadeira, tirei dos bolsos cigarros<br \/>\n    e f&oacute;sforo, debrucei-me &agrave; janela, fiquei longamente a olhar o<br \/>\n    p&aacute;tio escuro, fumando. Como iria comportar-me? Se me dessem tempo suficiente<br \/>\n    para refletir, ser-me-ia poss&iacute;vel juntar id&eacute;ias, dominar emo&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ter alguma l&oacute;gica nos atos e nas palavras, exibir a apar&ecirc;ncia<br \/>\n    de um sujeito mais ou menos civilizado. Mas na situa&ccedil;&atilde;o nova<br \/>\n    que me impunham, fervilhavam as surpresas, e diante delas ia decerto confundir-me,<br \/>\n    disparatar, meter os p&eacute;s pelas m&atilde;os. Ali embaixo, a alguns metros<br \/>\n    de dist&acirc;ncia, dois vultos, ladeando um port&atilde;o, semelhavam pessoas<br \/>\n    embu&ccedil;adas, gigantes embu&ccedil;ados. Que seriam? Pilares? Deviam ser<br \/>\n    pilares. Afastei-me, passeei cauteloso, abafando os passos, temendo esbarrar<br \/>\n    nas cadeiras.<\/p>\n<p> Experimentei dormir. A sentinela continuava sob o alpendre, na firmeza in&uacute;til,<br \/>\n    vendo-me ocupar e abandonar a cama in&uacute;til. Avizinhei-me da jaula, arredei-me,<br \/>\n    estive longas horas a mover-me &agrave; toa na janela sombria.<\/p>\n<p> O peso que a princ&iacute;pio sentira nos membros desaparecera: agitava-me<br \/>\n    agora desordenadamente, em v&atilde;o procurava atordoar-me e cansar. Agu&ccedil;avam-me<br \/>\n    a curiosidade os vultos que guardavam o port&atilde;o. Seriam guaritas? N&atilde;o:<br \/>\n    para guaritas eram muito altos e muito esguios. Que significavam pois? Essa<br \/>\n    pergunta me arreliava. Se n&atilde;o conseguia divisar aqueles objetes volumosos<br \/>\n    expostos aos meus olhos, como adivinhar as sutilezas provavelmente escondidas<br \/>\n    em toda a parte, como al&ccedil;ap&otilde;es? Naquela vida era preciso em<br \/>\n    certo momento um homem virar-se para a direita, virar-se para a esquerda,<br \/>\n    levantar-se, baixar-se, e a falta de um gesto implicava censura.<\/p>\n<p> Esquecera-me desses movimentos aprendidos em poucos meses de exerc&iacute;cio<br \/>\n    relaxado e capenga. Na presen&ccedil;a de um oficial superior, derrear-me-ia,<br \/>\n    uma perna bamba, a outra a ag&uuml;entar o corpo todo, pregaria o cotovelo<br \/>\n    num peitoril. Envergonhar-me-ia ao notar o desconchavo, encolher-me-ia, largaria<br \/>\n    sandices comprometedoras. Em horas de perturba&ccedil;&atilde;o era-me imposs&iacute;vel<br \/>\n    dominar a l&iacute;ngua: dizia coisas impensadas, &agrave;s vezes contr&aacute;rias<br \/>\n    ao que era preciso dizer. Receava prejudicar algu&eacute;m. Iria qualquer<br \/>\n    informa&ccedil;&atilde;o doida transformar-me em delator, levar &agrave; cadeia<br \/>\n    rapazes inofensivos que tencionavam eliminar a burguesia distribuindo &agrave;s<br \/>\n    escondidas nos caf&eacute;s pap&eacute;is mimeografados? Um deles, Jacob,<br \/>\n    figurava no meu &uacute;ltimo livro, com o nome de Mois&eacute;s. Encarregava-se<br \/>\n    de receber as presta&ccedil;&otilde;es na venda do tio, judeu verdadeiro.<br \/>\n    N&atilde;o recebia nada: dava aos fregueses opini&otilde;es incendi&aacute;rias,<br \/>\n    folhas volantes vermelh&iacute;ssimas, o que lhe rendia, segundo afirmavam,<br \/>\n    abundantes surras do patr&atilde;o. Talvez Jacob estivesse guardado a chave.<br \/>\n    E meus filhos mais velhos, da Juventude Comunista, pichadores de paredes,<br \/>\n    provavelmente andavam perseguidos, a esconder-se. Ultimamente, haviam arranjado<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de revista, enviado cem n&uacute;meros para Moscou e cinq&uuml;enta<br \/>\n    para Madrid. Um esc&acirc;ndalo. E como Pl&iacute;nio Salgado recebera uma<br \/>\n    vaia formid&aacute;vel no Teatro Deodoro e fugira pelos fundos do palco sem<br \/>\n    piar, enquanto a mil&iacute;cia verde se alvoro&ccedil;ava no sagu&atilde;o,<br \/>\n    saltava grades, deixava camisas em pontas de ferro, um ressentimento amargo<br \/>\n    se concentrava nessas alminhas, contra rapazes do liceu, oper&aacute;rios,<br \/>\n    soldados e cabos do ex&eacute;rcito. Eram todos agora denunciados, com certeza.<br \/>\n    Apavorava-me supor que uma indiscri&ccedil;&atilde;o minha poderia fornecer<br \/>\n    aos carcereiros uma pista. Realmente n&atilde;o me informara de quase nada,<br \/>\n    eles deviam saber muito mais que eu, mas talvez uma indica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lhes fosse &uacute;til. O pormenor insignificante refor&ccedil;aria provas,<br \/>\n    constituiria o elo necess&aacute;rio a uma cadeia interrompida. &Eacute; desses<br \/>\n    pequeninos gr&atilde;os que a pol&iacute;cia constr&oacute;i os seus monumentos<br \/>\n    de mis&eacute;rias. Qual seria a minguada contribui&ccedil;&atilde;o que exigiriam<br \/>\n    de mim? Esfor&ccedil;ava-me por adivinh&aacute;-la e guard&aacute;-la com<br \/>\n    avareza: no interrogat&oacute;rio, desviar-me-ia das ciladas, referir-me-ia<br \/>\n    com ar culposo, misteriosamente, a casos diversos e inofensivos. Dif&iacute;cil<br \/>\n    era descobrir aonde me queriam levar, que valor me atribu&iacute;am. Inadmiss&iacute;vel<br \/>\n    achar-me ali por vingan&ccedil;a de um energ&uacute;meno qualquer: isto seria<br \/>\n    antiecon&ocirc;mico, disparatado, e sem d&uacute;vida o pa&iacute;s ainda<br \/>\n    n&atilde;o chegara a tal grau de estupidez e malandragem.<\/p>\n<p> Aquela mancha indistinta, l&aacute; embaixo, entre as duas colunas, era<br \/>\n    provavelmente um port&atilde;o. Seriam colunas? Na verdade a ilumina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Recife, vacilante, deixava-me na ignor&acirc;ncia. Conservei-me longamente<br \/>\n    arrimado ao peitoril, interrogando as trevas, agu&ccedil;ando o ouvido &agrave;<br \/>\n    procura de seus informadores: peda&ccedil;os de conversas, pancadas de rel&oacute;gio.<br \/>\n    Nenhum sinal me orientava; a noite pregui&ccedil;osa a arrastar-se; imposs&iacute;vel<br \/>\n    saber se me achava no princ&iacute;pio ou no fim dela. Na verdade o tempo<br \/>\n    n&atilde;o era o que havia sido: tornara-se confuso e lento, cheio de solu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de continuidade, e nesses hiatos vertiginosos perdia-me, escorregava, os olhos<br \/>\n    turvos, numa sensa&ccedil;&atilde;o de queda ou v&ocirc;o. N&aacute;useas,<br \/>\n    aperto no diafragma. Evidentemente se tudo em redor me parecia vago e incompreens&iacute;vel,<br \/>\n    se at&eacute; a no&ccedil;&atilde;o de tempo se modificava, c&aacute; dentro<br \/>\n    deviam as coisas passar-se de maneira lastimosa, esta velha m&aacute;quina<br \/>\n    emperrava. Sem d&uacute;vida. Inquietava-me perceber que me havia tornado,<br \/>\n    naquela pausa singular, est&uacute;pido em demasia. A aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    embotada saltava freq&uuml;entemente de um assunto para outro, sem conseguir<br \/>\n    estabelecer a mais simples rela&ccedil;&atilde;o entre eles, e &agrave;s vezes<br \/>\n    ficava a doidejar, a rodear pormenores, como peru, tentando decifrar insignific&acirc;ncias.<\/p>\n<p> Que seriam os dois vultos que vigiavam l&aacute; embaixo o port&atilde;o?<br \/>\n    Esta pergunta, reproduzida, chateava-me; contudo n&atilde;o podia desembara&ccedil;ar-me<br \/>\n    dela, misturava-a sem prop&oacute;sito &agrave;s complexidades imponder&aacute;veis<br \/>\n    que me atenazavam. Naquela desordem, naquele cipoal de pensamentos emaranhados,<br \/>\n    avultava uma incongru&ecirc;ncia, mas isto s&oacute; mais tarde foi percebido:<br \/>\n    sentia-me v&iacute;tima de injusti&ccedil;a, queixava-me de inimigos indecisos,<br \/>\n    parecia-me descobrir nos len&ccedil;&oacute;is, no peitoril da janela, na<br \/>\n    &aacute;gua da moringa e no ar corrup&ccedil;&atilde;o e veneno; contraditoriamente,<br \/>\n    achava-me em seguran&ccedil;a, considerava a exist&ecirc;ncia anterior bem<br \/>\n    mesquinha, pior talvez que a pris&atilde;o. Quando me viesse calma, aventurar-me-ia<br \/>\n    a fazer um livro, lentamente, livre das aporrinha&ccedil;&otilde;es normais.<br \/>\n    Viria a calma? E quantos dias ou meses me deixariam naquela situa&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Era disparate desejar permanecer nela, mas assaltava-me uma grande covardia,<br \/>\n    o receio de voltar a assumir responsabilidades, a certeza de que o meu trabalho<br \/>\n    de indiv&iacute;duo solit&aacute;rio, na ditadura mal disfar&ccedil;ada por<br \/>\n    um congresso de sabujos, seria pouco mais ou menos in&uacute;til. Prefer&iacute;vel<br \/>\n    o cativeiro manifesto ao outro, simulado, que nos ofereciam l&aacute; fora.<br \/>\n    A id&eacute;ia de escrever o livro voltava com insist&ecirc;ncia. Cada vez<br \/>\n    mais, por&eacute;m, me convencia de que, persistindo aquela enorme burrice,<br \/>\n    n&atilde;o escreveria coisa nenhuma. Mas observaria fatos e pessoas que me<br \/>\n    despertavam curiosidade. Agora estava certo de que n&atilde;o me largariam<br \/>\n    dentro de uma semana, como havia suposto As vaidadezinhas malucas de pequeno-burgu&ecirc;s<br \/>\n    sumiam-se. Decerto me guardariam, possivelmente me poriam em contato com alguns<br \/>\n    criminosos, pessoas que, interessando-me demais, at&eacute; ent&atilde;o me<br \/>\n    haviam aparecido em tratados ou de longe. Conhecimento imperfeito, sum&aacute;rio.<br \/>\n    E mostrar-me-iam os revolucion&aacute;rios de Natal, do 3.&ordm; Regimento,<br \/>\n    da Escola de Avia&ccedil;&atilde;o. At&eacute; certo ponto podia considerar-me<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de revolucion&aacute;rio, te&oacute;rico e chinfrim. Sorria-me<br \/>\n    a perspectiva de olhar de perto revolucion&aacute;rios de verdade, que ultimamente<br \/>\n    eram presos em magotes.<\/p>\n<h3>8<\/h3>\n<p>CLAREOU o dia, l&aacute; embaixo as manchas esquisitas sobressa&iacute;ram,<br \/>\n    ganharam contornos, afinal surgiram dois canh&otilde;es apontando o c&eacute;u.<br \/>\n    Realmente n&atilde;o me seria poss&iacute;vel dizer se eram canh&otilde;es,<br \/>\n    obuses ou morteiros; duas pe&ccedil;as de artilharia, de nome incerto e descalibradas,<br \/>\n    limitavam o port&atilde;o e produziam bom efeito decorativo, sugeriam for&ccedil;a.<br \/>\n    Esta verifica&ccedil;&atilde;o me satisfez. Passara a noite intrigado, e agora,<br \/>\n    alheio ao despertar do quartel, apenas reparava no insignificante pormenor,<br \/>\n    como se o resto n&atilde;o tivesse import&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Nem vi capit&atilde;o Mata erguer-se. Quando me afastei da janela, o homem<br \/>\n    se escovava e lavava, retomando a alegria comunicativa e barulhenta da v&eacute;spera.<br \/>\n    &Eacute;ramos ant&iacute;podas Enquanto me ocupava numa &uacute;nica miudeza,<br \/>\n    ele apreendia muitas, relacionava-as e alcan&ccedil;ava r&aacute;pido o conjunto;<br \/>\n    falava em demasia, sem se incomodar com os meus sil&ecirc;ncios, de ordin&aacute;rio<br \/>\n    informando, quase nunca fazendo uma pergunta; e devia estranhar a minha valise<br \/>\n    de dois palmos, pois a sua mala grande e pesada era um armaz&eacute;m, tinha<br \/>\n    tudo: agulhas, bot&otilde;es, linha, canivetes, lixa. Nunca vi pessoa mais<br \/>\n    precavida. Nem mais econ&ocirc;mica. Tinha necessidades muito escassas, n&atilde;o<br \/>\n    fumava, e enquanto vivemos juntos creio que se absteve de qualquer despesa.<br \/>\n    De nenhum modo se julgava humilhado, suponho: naquela seguran&ccedil;a, naquele<br \/>\n    bom humor sempre a mexer-se parecia exercer uma fun&ccedil;&atilde;o militar<br \/>\n    e necess&aacute;ria. Acabando as lavagens e as penteadelas matinais, notei-lhe<br \/>\n    a observa&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    O comandante chegou<br \/>\n    Como &eacute; que o senhor sabe? estranhei.<\/p>\n<p> Ora! muito f&aacute;cil: tinha ouvido a corneta. Como o toque me passara<br \/>\n    despercebido, imaginei-o a divagar. Admitindo, por&eacute;m, que ele tivesse<br \/>\n    considerado um som, tirado conseq&uuml;&ecirc;ncia dele, n&atilde;o me interessava<br \/>\n    esclarecer-me a respeito da presen&ccedil;a do comandante &agrave;quela hora.<br \/>\n    Julguei isto e enganei-me: ao cabo de meia hora entrou na sala e apanhou-me<br \/>\n    de surpresa um velho calmo, polido, ar de fria dignidade, o rosto magro. As<br \/>\n    estrelas, o gesto, o apuro, identificaram-no e diante dele o meu companheiro<br \/>\n    entesou-se em posi&ccedil;&atilde;o de sentido. O homenzinho cumprimentou-nos,<br \/>\n    examinou o aposento, quis saber se nos faltava alguma coisa e permaneceu de<br \/>\n    p&eacute; junto &agrave; mesa uns tr&ecirc;s ou cinco minutos, os minutos<br \/>\n    aplic&aacute;veis &agrave; nossa situa&ccedil;&atilde;o, dizendo com lhaneza<br \/>\n    palavras da hospitalidade regulamentar. Referiu-se &agrave; m&aacute; qualidade<br \/>\n    da alimenta&ccedil;&atilde;o e desculpou-se.<\/p>\n<p> Oh! Comandante! N&atilde;o se preocupe. Tudo est&aacute; bem. N&atilde;o<br \/>\n    senhor. A comida &eacute; ruim, sem exagero. Vai ach&aacute;-la muito ruim.<br \/>\n    Tenha paci&ecirc;ncia: &eacute; a que usamos. N&atilde;o seria dif&iacute;cil<br \/>\n    mandar buscar outra no restaurante, mas isto &eacute; irregular.<\/p>\n<p> Mortificaram-me aquelas min&uacute;cias sobre mat&eacute;ria insignificante,<br \/>\n    desejei mudan&ccedil;a de assunto, em v&atilde;o; o neg&oacute;cio culin&aacute;rio<br \/>\n    encheu quase toda a pequena entrevista.<\/p>\n<p> Enfim, como os senhores est&atilde;o aqui de passagem, podem ag&uuml;entar<br \/>\n    uns dias de maus tratos.<\/p>\n<p> Aludiu outra vez, num vago oferecimento, &agrave;s coisas que nos faltavam,<br \/>\n    despediu-se e retirou-se. Bem. T&iacute;nhamos uma indica&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    est&aacute;vamos ali de passagem. Para onde? N&atilde;o nos atrever&iacute;amos<br \/>\n    a perguntar isso: a cortesia solene e burocr&aacute;tica revelava claramente<br \/>\n    que segu&iacute;amos os tr&acirc;mites normais e o despacho viria no momento<br \/>\n    preciso. Certo o comandante n&atilde;o era respons&aacute;vel pela nossa estada<br \/>\n    no quartel; julgava-a talvez perturbadora. Mas achava-se no dever de nos visitar<br \/>\n    pela manh&atilde; e dizer algumas frases de pessoa educada. Agradec&iacute;amos.<br \/>\n    Quem era o respons&aacute;vel ent&atilde;o? Provavelmente havia muitos, tantos<br \/>\n    que a responsabilidade se dilu&iacute;a e ali, trancados, n&atilde;o divis&aacute;vamos<br \/>\n    ningu&eacute;m. Trouxeram-nos uma bandeja. Tomei o leite e o caf&eacute;,<br \/>\n    mastiguei um peda&ccedil;o de p&atilde;o, constrangido, sem notar nessa primeira<br \/>\n    refei&ccedil;&atilde;o as defici&ecirc;ncias da cozinha, mencionadas em excesso.<br \/>\n    Levantava-me quando entrou um mo&ccedil;o grave, de olhos vivos ligeiramente<br \/>\n    estr&aacute;bicos, fumando por uma longa piteira.<\/p>\n<p> Capit&atilde;o Lobo.<\/p>\n<p> Passeando da mesa para a janela e da janela para a mesa, deu-nos esclarecimentos:<br \/>\n    Os senhores ficam alojados aqui. Na sala vizinha h&aacute; um oficial preso.<br \/>\n    Os senhores prometem n&atilde;o comunicar-se com ele.<\/p>\n<p> Olhei a porta cerrada, o tabique baixo. Facilmente estabelecer&iacute;amos<br \/>\n    comunica&ccedil;&atilde;o, mas que nos interessava isso, se nem sab&iacute;amos<br \/>\n    quem estava do outro lado? Far&iacute;amos sem custo a promessa, mas capit&atilde;o<br \/>\n    Lobo n&atilde;o se importou com ela: n&atilde;o nos perguntou se promet&iacute;amos,<br \/>\n    afirmou que promet&iacute;amos e encerrou a quest&atilde;o. Esteve meia hora<br \/>\n    a conversar com volubilidade, afirmativo, &agrave;s vezes sublinhando a frase<br \/>\n    com movimentos en&eacute;rgicos. N&atilde;o ria, n&atilde;o sorria: as id&eacute;ias<br \/>\n    deviam parecer-lhe coisas terrivelmente s&eacute;rias. Parava para escutar.<br \/>\n    atento, aprovando ou desaprovando com a cabe&ccedil;a, retomava depois o discurso<br \/>\n    e o passeio, ambos em linha reta. Curioso que apenas se movesse da mesa para<br \/>\n    a janela, onde fazia uma ligeira parada, e da janela para a mesa, onde novamente<br \/>\n    se detinha. Era como se a mesa constitu&iacute;sse uma barreira e o separasse<br \/>\n    da porta: os seus passos percorriam exatamente metade da sala. Tamb&eacute;m<br \/>\n    a fala tinha pequenas pausas, correspondentes &agrave;quelas esta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    embora o interlocutor se mantivesse calado. N&atilde;o me animaria a convid&aacute;-lo<br \/>\n    a sentar-se, pois ele figurava o dono da casa, mas puxei uma cadeira, desembaracei-a<br \/>\n    da roupa e da valise ali postas na v&eacute;spera, joguei &agrave; cama estes<br \/>\n    objetos. Ele fingiu n&atilde;o perceber o oferecimento mudo e continuou o<br \/>\n    exerc&iacute;cio invari&aacute;vel.<\/p>\n<p> O comandante se conservara de p&eacute; cinco minutos. Agora colaborando<br \/>\n    na palestra longa, convencia-me de que esses homens n&atilde;o se sentavam<br \/>\n    na minha presen&ccedil;a para eu n&atilde;o me resolver a sentar-me diante<br \/>\n    deles. Esta certeza me levava a usar cautela, medir as palavras e a conversa<br \/>\n    se reduzia quase a um solil&oacute;quio.<\/p>\n<p> Imposs&iacute;vel qualquer aproxima&ccedil;&atilde;o. Pouco inclinado a<br \/>\n    desabafos, certamente n&atilde;o ia expandir-me a um desconhecido, talvez<br \/>\n    disposto a analisar-me. De minha parte observava-o e a observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o me induzia a desconfian&ccedil;a. A linguagem clara, modos francos,<br \/>\n    &agrave;s vezes estabanados, a exceder os limites da polidez comum, diziam-me<br \/>\n    que ali se achava um homem digno. O gesto rijo martelava a id&eacute;ia, o<br \/>\n    olho brilhante, ligeiramente obl&iacute;quo, donde parecia desprender-se uma<br \/>\n    fa&iacute;sca de insensatez, fixava-se na gente, insens&iacute;vel e frio.<br \/>\n    Devia ser um tormento para criaturas dissimuladas suportar aquela dureza met&aacute;lica<br \/>\n    de verruma. N&atilde;o deixou de fumar um instante: deitava fora a ponta de<br \/>\n    cigarro, introduzia outro na piteira comprida em excesso. S&uacute;bito parou<br \/>\n    o mon&oacute;logo, ofereceu-nos toalhas e convidou-nos a acompanh&aacute;-lo.<br \/>\n    Atravessamos um corredor, descemos uma pequena escada, chegamos ao p&aacute;tio<br \/>\n    interno, paramos, abriu uma porta:<br \/>\n    Os senhores usam este banheiro. S&oacute; este.<\/p>\n<p> Chamou um tipo graduado, com duas ou tr&ecirc;s divisas, e concluiu:<br \/>\n    Podem vir aqui acompanhados por um sargento ou cabo. Adeus.<\/p>\n<p> Eu queria saber se havia inconveni&ecirc;ncia na compra de alguns tro&ccedil;os<br \/>\n    mi&uacute;dos que me faltavam. N&atilde;o havia nenhuma. D&ecirc; as suas<br \/>\n    encomendas ao faxina. At&eacute; amanh&atilde;. Entrei, e &agrave; porta ficaram<br \/>\n    capit&atilde;o Mata e o sujeito das fitas. L&aacute; dentro havia um aparelho<br \/>\n    sanit&aacute;rio, uma banheira, dois ou tr&ecirc;s chuveiros. Depois de me<br \/>\n    banhar, Mata substituiu-me e passeei algum tempo no p&aacute;tio, vigiado<br \/>\n    pelo guarda, vendo rapazes atirarem bolas a cestas presas ao muro. Em seguida<br \/>\n    regressamos &agrave; sala. Dei ao faxina uma pequena lista de coisas necess&aacute;rias:<br \/>\n    papel, l&aacute;pis, cuecas, len&ccedil;os, f&oacute;sforos. cigarros, muitos<br \/>\n    cigarros e f&oacute;sforos, pois isto se consumia com grande rapidez. Pedi<br \/>\n    tamb&eacute;m um rolo de esparadrapo e iodo: um abscesso debaixo da unha do<br \/>\n    indicador come&ccedil;ava a latejar e doer muito. E tentei acomodar-me &agrave;quela<br \/>\n    monotonia. Cheguei uma cadeira &agrave; janela, mergulhei no romance de Jos&eacute;<br \/>\n    Geraldo, consegui ler umas cinq&uuml;enta p&aacute;ginas e entend&ecirc;-las.<br \/>\n    Mas entendia pouco, a aten&ccedil;&atilde;o fraquejava, os olhos se desviavam<br \/>\n    da folha para os dois canh&otilde;es ornamentais. Al&eacute;m disso capit&atilde;o<br \/>\n    Mata me interrompia com freq&uuml;&ecirc;ncia oferecendo-me observa&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Tinha entrado rapidamente em contato com soldados e oficiais, falando a g&iacute;ria<br \/>\n    deles, usando truques do of&iacute;cio, informara-se de casos que lhe pareciam<br \/>\n    interessantes e se apressava a comunicar-me. Sabia que Sebasti&atilde;o Hora,<br \/>\n    o advogado Nunes Leite e diversos oper&aacute;rios se recolhiam numa pris&atilde;o<br \/>\n    de sargentos, situada numa esquina pr&oacute;xima. O indiv&iacute;duo preso<br \/>\n    na sala cont&iacute;gua &agrave; nossa era Xavier, tenente embrulhado em Macei&oacute;,<br \/>\n    com alguns inferiores do 20.&ordm; Batalh&atilde;o. Avizinhando-se do meu<br \/>\n    companheiro, estrelas e fitas, para mim s&iacute;mbolos mortos, num instante<br \/>\n    se humanizavam. Os rostos se abriam, sinais impercept&iacute;veis ao observador<br \/>\n    comum traziam revela&ccedil;&otilde;es. Por outro lado certas arrog&acirc;ncias<br \/>\n    passavam carrancudas no alpendre, atirando-nos de soslaio olhadelas rancorosas.<\/p>\n<p> Integralistas, afirmava seguro capit&atilde;o Mata. Admirava-me da conclus&atilde;o<br \/>\n    precipitada e acabava admitindo-a. Eram possivelmente integralistas aqueles<br \/>\n    viventes mi&uacute;dos, de rostos inexpressivos, quase microc&eacute;falos.<br \/>\n    Esse caso me insinuou, a respeito da disciplina militar, uma opini&atilde;o,<br \/>\n    talvez falsa, que ainda hoje conservo. Nela o rigor &eacute; superficial,<br \/>\n    imagino. Indispens&aacute;vel estarem os sapatos cuidadosamente engraxados,<br \/>\n    os fuzis brilhantes &agrave; custa de lixa e azeite, os colarinhos mais ou<br \/>\n    menos limpos, todos os bot&otilde;es metidos nas casas, os espinha&ccedil;os<br \/>\n    tesos. As pernas direitas devem mover-se simultaneamente, depois as pernas<br \/>\n    esquerdas, e nenhum dedo se afasta dos outros na contin&ecirc;ncia. &Eacute;<br \/>\n    preciso olhar vinte passos em frente, e os passos, em conformidade com a marcha,<br \/>\n    t&ecirc;m o mesmo n&uacute;mero de cent&iacute;metros. Certo, h&aacute; outros<br \/>\n    deveres, mas desse g&ecirc;nero, tendentes &agrave; mecaniza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do recruta. Decoradas certas f&oacute;rmulas, aprendidos os movimentos indispens&aacute;veis,<br \/>\n    pode o soldado esquecer obriga&ccedil;&otilde;es, at&eacute; princ&iacute;pios<br \/>\n    morais aprendidos na vida civil. O essencial &eacute; ter apar&ecirc;ncia<br \/>\n    impec&aacute;vel. Desapareceu-lhe o cintur&atilde;o? Falta grave, embora ele<br \/>\n    em v&atilde;o remexa os miolos para saber como a desgra&ccedil;ada correia<br \/>\n    se sumiu. &Eacute; obrigado a apresentar-se com ela na formatura. Com ela<br \/>\n    ou com outra qualquer. Nesse ponto conv&eacute;m desapertar, isto &eacute;,<br \/>\n    agarrar o cintur&atilde;o do vizinho, que, sendo in&aacute;bil, ser&aacute;<br \/>\n    punido, pois o maior defeito do soldado &eacute; ser besta. Desenvolvem-se<br \/>\n    a dissimula&ccedil;&atilde;o, a hipocrisia, um servilismo que &agrave;s vezes<br \/>\n    oculta desprezo ao superior, se este se revela incapaz de notar a fraude ou<br \/>\n    tacitamente lhe oferece coniv&ecirc;ncia. As minhas observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    foram completadas pelos informes do capit&atilde;o Mata, que, percebendo-me<br \/>\n    a ignor&acirc;ncia, desvendava paciente mist&eacute;rios simples. Divergimos<br \/>\n    &agrave; hora do almo&ccedil;o, mas logo chegamos a acordo. Diante da bandeja,<br \/>\n    recuei: diabo, a comida era pavorosa, o comandante tinha raz&atilde;o. Imposs&iacute;vel<br \/>\n    que na mesa dos oficiais pusessem aqueles pratos medonhos.<\/p>\n<p> Como n&atilde;o? replicou Mata com a boca cheia. A alimenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deles &eacute; esta, n&atilde;o tenha d&uacute;vida. E est&aacute; muito boa.<br \/>\n    Aconselhou-me depois seriamente a engolir aquilo, porque a abstin&ecirc;ncia<br \/>\n    poderia ser tomada como desfeita. Consentiu afinal em receber tr&ecirc;s quartos<br \/>\n    da minha ra&ccedil;&atilde;o, devorou tudo, enquanto me resignava a mastigar<br \/>\n    peda&ccedil;os de carne preta desenxabida, o feij&atilde;o-preto, duas bananas<br \/>\n    pretas. De fato ignoro se a b&oacute;ia era t&atilde;o ruim como parecia:<br \/>\n    dois dias de jejum quase completo me embotavam o paladar: a garganta seca<br \/>\n    se contra&iacute;a; dif&iacute;cil ingerir a massa desagrad&aacute;vel. Isto<br \/>\n    deve ser rancho de tropa. Os oficiais n&atilde;o comem semelhante horror.<\/p>\n<p> Novamente o meu companheiro dissentiu e afirmou que est&aacute;vamos sendo<br \/>\n    tratados com muita considera&ccedil;&atilde;o. Passou a tarde recitando versos,<br \/>\n    contando anedotas, rindo, mexendo-se, cantarolando, abreviando as horas com<br \/>\n    a excessiva alegria desarrazoada. Aproveitava-me dos momentos de pausa folheando<br \/>\n    as brochuras. Decidi ler as tr&ecirc;s simultaneamente. Marcava a p&aacute;gina<br \/>\n    lida com um f&oacute;sforo e pegava outro volume. Decerto n&atilde;o havia<br \/>\n    ali complica&ccedil;&otilde;es, mas achava-me cada vez mais obtuso, nem chegava<br \/>\n    a entender bem as pilh&eacute;rias do capit&atilde;o.<\/p>\n<p> A noitinha, olhando o jantar, de novo me assaltou a repugn&acirc;ncia. Nada<br \/>\n    me preocupava em excesso. Considerava o futuro, se n&atilde;o com serenidade,<br \/>\n    pelo menos com indiferen&ccedil;a. Contudo o enorme fastio n&atilde;o findava<br \/>\n    e o apetite do capit&atilde;o me produzia invenc&iacute;vel enj&ocirc;o. Vinha<br \/>\n    talvez da&iacute; a impossibilidade alarmante de fixar aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na leitura. E a perda de mem&oacute;ria tamb&eacute;m. As lembran&ccedil;as<br \/>\n    me apareciam juntas, confusas, sumiam-se de repente, deixando-me no interior<br \/>\n    dolorosos sulcos negros. Esses hiatos sucediam-se, afastavam-me da realidade,<br \/>\n    com certeza me davam ar esquisito e vago. Que estaria dizendo o capit&atilde;o?<br \/>\n    Porque se animava e se mexia tanto? Ria-me &agrave;s vezes como um idiota,<br \/>\n    alheio e distante, receando que ele percebesse a minha fraqueza mental. Al&eacute;m<br \/>\n    disso a vista escurecia, manchas dan&ccedil;avam-me diante dos olhos, dificultavam-me<br \/>\n    a leitura. Aquilo devia ser efeito da idade. Envelhecia, provavelmente envelhecia<br \/>\n    muito depressa. Quando me soltassem, ver-me-ia for&ccedil;ado a trabalhar<br \/>\n    com &oacute;culos. Trabalhar. Trabalhar em qu&ecirc;? Achava-me vazio, imprest&aacute;vel.<br \/>\n    Des&acirc;nimo, burrice. L&aacute; fora n&atilde;o conseguiria fazer nada.<\/p>\n<h3>9<\/h3>\n<p>ESSES acontecimentos de tr&ecirc;s dias foram relatados mais ou menos em<br \/>\n    ordem, apesar de apresentarem falhas, os lugares surgirem imprecisos, as figuras<br \/>\n    n&atilde;o se destacarem bem no ambiente novo. A 6 de mar&ccedil;o, por&eacute;m,<br \/>\n    &iacute;amos entrando na rotina e da&iacute; em diante n&atilde;o me seria<br \/>\n    poss&iacute;vel redigir uma narra&ccedil;&atilde;o continuada. Menciono a<br \/>\n    visita do comandante porque ela se tornou um h&aacute;bito: pela manh&atilde;,<br \/>\n    antes de qualquer outra pessoa, esteve de p&eacute; um instante na sala, grave,<br \/>\n    digno, informou-se a respeito das nossas necessidades e de novo se referiu<br \/>\n    &agrave; comida m&aacute;, no que foi contestado hipocritamente. Quando ele<br \/>\n    saiu, chegou capit&atilde;o Lobo, como sempre aconteceu enquanto ali permanecemos,<br \/>\n    e renovou o passeio da mesa para a janela da janela para a mesa, a discutir,<br \/>\n    a pegar-me uma palavra e alarg&aacute;-la, &agrave;s vezes a amea&ccedil;ar-me<br \/>\n    com a longa piteira. Foi nesse segundo encontro, suponho que me disse umas<br \/>\n    coisas duvidosas:<br \/>\n    Respeito as suas id&eacute;ias. N&atilde;o concordo com elas, mas respeito-as.<\/p>\n<p> Olhei-o desconfiado e logo serenei. Tinha-me comprometido em excesso durante<br \/>\n    largos anos e nada valia tentar desdizer-me, ainda que tivesse este desejo.<br \/>\n    Desagradava-me pensar que aquele homem vinha falar-me com o intuito de extorquir<br \/>\n    uma confiss&atilde;o, mas desviei o pensamento mal&eacute;volo. A sinceridade<br \/>\n    transparecia no rosto claro, no olhar um tanto vesgo, que se cravava na gente<br \/>\n    como prego, no gesto amplo. A piteira movia-se continuamente, parecia um martelo<br \/>\n    a fazer pontas em s&iacute;labas duras. Nenhuma raz&atilde;o para desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Quais s&atilde;o as minhas id&eacute;ias? sorri. Ainda n&atilde;o me expliquei.<br \/>\n    Estamos a comentar as suas.<\/p>\n<p> Ora! ora! ora! resmungou o capit&atilde;o num tom indefin&iacute;vel.<\/p>\n<p> E nada acrescentou. Escusavam-se explica&ccedil;&otilde;es. A minha estada<br \/>\n    ali marcava-me. Sem alegar motivos, emprestavam-na certo n&uacute;mero de<br \/>\n    qualidades e tend&ecirc;ncias. Poderiam, se quisessem, medi-las e pes&aacute;-las,<br \/>\n    mas contentavam-se com afirma&ccedil;&otilde;es, pelo menos at&eacute; aquele<br \/>\n    momento. Com certeza iriam especificar tudo e redigir um processo em regra.<br \/>\n    Por enquanto apenas a vaga censura, que propriamente nem tinha jeito de censura:<br \/>\n    uma interjei&ccedil;&atilde;o repetida. O meu companheiro Mata ia muito al&eacute;m:<br \/>\n    confessava-me a sua ignor&acirc;ncia em revolu&ccedil;&atilde;o (fora preso<br \/>\n    injustamente, n&atilde;o se cansava de afirmar isto), considerava-me um t&eacute;cnico<br \/>\n    neste assunto e pedia-me que o instru&iacute;sse com rapidez. Se me acontecia<br \/>\n    alegar incompet&ecirc;ncia, achava-me discreto e modesto. Um fato nesse dia<br \/>\n    6 abalou-me, o &uacute;nico de que tenho lembran&ccedil;a clara. A hora do<br \/>\n    caf&eacute; abri um jornal do Recife e li, em telegrama do Rio, a not&iacute;cia<br \/>\n    arrasadora: Prestes havia sido preso na v&eacute;spera.<\/p>\n<p> Com todos os diabos!<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o tinha opini&atilde;o firme a respeito desse homem. Acompanhara-o<br \/>\n    de longe em 1924, informara-me da viagem rom&acirc;ntica pelo interior, daquele<br \/>\n    grande sonho, aparentemente frustrado. Um sonho, decerto: nenhum excesso de<br \/>\n    otimismo nos faria ver na marcha her&oacute;ica finalidade imediata. Era como<br \/>\n    se perceb&ecirc;ssemos na sombra um deslizar de fantasma ou son&acirc;mbulo.<br \/>\n    Mas essa estranha figura de ap&oacute;stolo dispon&iacute;vel tinha os olhos<br \/>\n    muito abertos, examinava cuidadosamente a vida miser&aacute;vel das nossas<br \/>\n    popula&ccedil;&otilde;es rurais, ignorada pelos estadistas capengas que nos<br \/>\n    dominavam. Defendia-se com vigor, atacava de rijo; um magote de vagabundos<br \/>\n    em farrapos alvoro&ccedil;ava o ex&eacute;rcito, obrigado a recorrer aos batalh&otilde;es<br \/>\n    patri&oacute;ticos de Floro Bartolomeu, ao civismo de Lampi&atilde;o. Que<br \/>\n    significava aquilo? Um protesto, nada mais. Se por milagre a coluna alcan&ccedil;asse<br \/>\n    vit&oacute;ria, seria um desastre, pois nem ela pr&oacute;pria sabia o que<br \/>\n    desejava. Sabia &eacute; que estava tudo errado e era indispens&aacute;vel<br \/>\n    fazer qualquer coisa. J&aacute; n&atilde;o era pouco essa rebeldia sem objetivo,<br \/>\n    numa terra de conformismo e usura, onde o funcion&aacute;rio se agarrava ao<br \/>\n    cargo como ostra, o comerciante e o industrial ro&iacute;am sem pena o consumidor<br \/>\n    esbrugado, o oper&aacute;rio se esfalfava &agrave; toa, o campon&ecirc;s ag&uuml;entava<br \/>\n    todas as iniq&uuml;idades, fatalista, sereno. Com certeza essa gente arregalava<br \/>\n    os olhos espantada e nos de cima o espanto se mudava em &oacute;dio, nos de<br \/>\n    baixo come&ccedil;ava a surgir uma indecisa esperan&ccedil;a. As portas das<br \/>\n    farm&aacute;cias, nas vilas, discutia-se com entusiasmo o caso extraordin&aacute;rio.<br \/>\n    Meu tio Ab&iacute;lio, matuto rude, propriet&aacute;rio de caminh&otilde;es<br \/>\n    no alto sert&atilde;o de Pernambuco, estivera uns dias a servi&ccedil;o dos<br \/>\n    revoltosos, l&aacute; para as bandas de Mariana. Assistira a combates, ca&iacute;ra<br \/>\n    numa emboscada, fugira precipitadamente, levando alguns defuntos no carro.<br \/>\n    Ab&iacute;lio me havia falado com ardor na disciplina, na ordem, no esp&iacute;rito<br \/>\n    de justi&ccedil;a que observara no bando foragido. O depoimento desse sertanejo<br \/>\n    bronco valia mais, para mim, que as tiradas ordeiras da imprensa livre, naturalmente<br \/>\n    interessada em conservar privil&eacute;gios, fontes de chantagem, e pouco<br \/>\n    disposta a esclarecimentos perigosos. Bom que alguns rep&oacute;rteres tivessem<br \/>\n    rodado nos carros de meu tio. Como isto n&atilde;o sucedera, pouco valiam<br \/>\n    as mofinas das gazetas. Aceit&aacute;vamos, pois, as not&iacute;cias orais,<br \/>\n    e estas come&ccedil;avam a envolver o guerrilheiro teimoso em prest&iacute;gio<br \/>\n    e lenda.<\/p>\n<p> Depois de marchas e contramarchas fatigantes, o ex&iacute;lio, anos de trabalho<br \/>\n    &aacute;spero. E quando, num golpe feliz, v&aacute;rios antigos companheiros<br \/>\n    assaltaram o poder e quiseram suborn&aacute;-lo, o estranho homem recusava<br \/>\n    o poleiro, declarara-se abertamente pela revolu&ccedil;&atilde;o. Lembrava-me<br \/>\n    dos manifestos em que o lutador fugia &agrave;s divaga&ccedil;&otilde;es est&eacute;reis,<br \/>\n    largava os aproveitadores, se dizia comunista, pronto a seguir para a Uni&atilde;o<br \/>\n    Sovi&eacute;tica. Bem. Agora essa criatura singular, incapaz do retrocesso<br \/>\n    ou hesita&ccedil;&atilde;o, possu&iacute;a um roteiro e, sem olhar atalhos<br \/>\n    e desvios, andaria seguro para a frente, insens&iacute;vel a estorvos e fadigas,<br \/>\n    sacrificando-se por inteiro e em conseq&uuml;&ecirc;ncia nenhum escr&uacute;pulo<br \/>\n    tendo em sacrificar os outros. A experi&ecirc;ncia obtida na marcha quixotesca<br \/>\n    muito lhe iria servir Que desgosto causaria aos nossos governos ap&aacute;ticos<br \/>\n    e cegos quando se decidisse a entrar novamente em a&ccedil;&atilde;o, dirigido<br \/>\n    por uma certeza?<\/p>\n<p> De repente voltava; a Alian&ccedil;a Nacional Libertadora surgia, tinha<br \/>\n    uma vida ef&ecirc;mera em com&iacute;cios, vacilava e apagava-se. Estaria<br \/>\n    essa pol&iacute;tica direita? Assaltavam-me d&uacute;vidas. Muito pequeno-burgu&ecirc;s<br \/>\n    se inflamara, julgando a vit&oacute;ria assegurada, depois recuara. Provavelmente<br \/>\n    dedica&ccedil;&otilde;es en&eacute;rgicas iriam esfriar, amigos ardentes se<br \/>\n    transformariam depressa em rancorosos inimigos. Seria poss&iacute;vel uma<br \/>\n    associa&ccedil;&atilde;o, embora contingente e passageira, entre as duas classes?<br \/>\n    Isso me parecia jogo perigoso. Os interesses da propriedade, grande ou pequena,<br \/>\n    a lan&ccedil;ariam com certeza no campo do fascismo, quando esta mis&eacute;ria<br \/>\n    ganhava terreno em todo o mundo. Em geral a revolu&ccedil;&atilde;o era olhada<br \/>\n    com medo ou indiferen&ccedil;a. Os habitantes da cidade contentavam-se com<br \/>\n    discursos idiotas, promessas irrealiz&aacute;veis e artigos safados, animavam-se<br \/>\n    &agrave; toa e depressa desanimavam, seriam capazes de aplaudir demagogos<br \/>\n    como os que, no princ&iacute;pio do s&eacute;culo, defendiam a peste bub&ocirc;nica,<br \/>\n    a febre amarela e a var&iacute;ola; as popula&ccedil;&otilde;es da ro&ccedil;a<br \/>\n    distanciavam-se enormemente do litoral e animalizavam-se na obedi&ecirc;ncia<br \/>\n    ao coronel e a seu vig&aacute;rio, as duas autoridades incontrast&aacute;veis.<br \/>\n    Muitos anos seriam precisos para despertar essas massas enganadas, sonolentas<br \/>\n    e a propaganda feita em alguns meses naturalmente fora escassa. Organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    prec&aacute;ria. Agita&ccedil;&atilde;o apenas, coisa superficial. Reuni&otilde;es<br \/>\n    estorvadas pela pol&iacute;cia, folhas volantes, cartazes, inscri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em muros, pouco mais ou menos in&uacute;teis. Lembrava-me de um desses conselhos,<br \/>\n    negro, a piche: &iacute;ndios, uni-vos. Nunca vi maior disparate, pois naquele<br \/>\n    arrabalde de capital pequena n&atilde;o vivia nenhum &iacute;ndio. Dif&iacute;cil<br \/>\n    que essas criaturas analfabetas, espalhadas nos cafund&oacute;s de Mato Grosso<br \/>\n    e do Amazonas, tomassem conhecimento da legenda. E para que nos serviria a<br \/>\n    uni&atilde;o dos &iacute;ndios, santo Deus? Absurdos semelhantes pressupunham<br \/>\n    desorienta&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m me parecia que certas palavras<br \/>\n    de ordem da Alian&ccedil;a Nacional Libertadora haviam sido lan&ccedil;adas<br \/>\n    precipitadamente. A divis&atilde;o da terra, por exemplo, seria um desastre<br \/>\n    na zona de cria&ccedil;&atilde;o do nordeste. A&iacute; a terra vale pouco<br \/>\n    e praticamente n&atilde;o tem dono; a riqueza &eacute; constitu&iacute;da<br \/>\n    por a&ccedil;udes, casas, currais, gado. O espa&ccedil;o que um animal necessita<br \/>\n    para alimentar-se na vegeta&ccedil;&atilde;o rala de cardo e favela que veste<br \/>\n    a plan&iacute;cie queimada &eacute; enorme. F a madeira indispens&aacute;vel<br \/>\n    para estabelecer limites escasseia: as raras cercas s&atilde;o de ordin&aacute;rio<br \/>\n    feitas de ramos secos ou de pedras soltas. Quase nenhuma lavoura: apenas touceiras<br \/>\n    de milho peco, um triste feijoal e aboboreiras amarelando na vazante dos rios<br \/>\n    peri&oacute;dicos. Se se oferecesse ao vaqueiro a divis&atilde;o da terra,<br \/>\n    ele se alarmaria: o seu trabalho se tornaria imposs&iacute;vel. E n&atilde;o<br \/>\n    podemos admitir, como se tem feito, o regime feudal nesses lugares: o que<br \/>\n    por l&aacute; existe &eacute; ainda o patriarcado b&iacute;blico. Concebendo<br \/>\n    essas restri&ccedil;&otilde;es, tentava convencer-me de que estava em erro.<br \/>\n    Desejava que me demonstrassem isto: havia talvez falha num ou noutro pormenor,<br \/>\n    mas na generalidade isto se compensava e desaparecia. Esperava enfim um triunfo<br \/>\n    casual. Viera a derrota e agora queria persuadir-me de que findara um epis&oacute;dio<br \/>\n    e a luta ia continuar. Certamente haveria mais precau&ccedil;&atilde;o no<br \/>\n    desempenho do segundo ato. E aquele rev&eacute;s tinha sido conveniente, pois<br \/>\n    n&atilde;o existia probabilidade de se ag&uuml;entar no Brasil uma revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    verdadeira. Se ela vencesse internamente, os nossos patr&otilde;es do exterior<br \/>\n    fariam a interven&ccedil;&atilde;o. Uma escaramu&ccedil;a, portanto. Os ensinamentos<br \/>\n    adquiridos seriam &uacute;teis mais tarde. De qualquer modo era necess&aacute;rio<br \/>\n    que nos prepar&aacute;ssemos. Incluindo-me nesse plural, intimamente me obrigava,<br \/>\n    embora me reconhecesse um soldado bem chinfrim, jogado &agrave; peleja em<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es especiais. Realmente n&atilde;o me envolvera em nenhum<br \/>\n    barulho, limitara-me a conversas e escritas inofensivas, e imaginara ficar<br \/>\n    nisso. A convic&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria insufici&ecirc;ncia nos<br \/>\n    leva a essas absten&ccedil;&otilde;es; um m&iacute;nimo de honestidade nos<br \/>\n    afasta de empresas que n&atilde;o podemos realizar direito. Mas as circunst&acirc;ncias<br \/>\n    nos agarram, nos imp&otilde;em deveres terr&iacute;veis. Sem nenhuma prepara&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ali me achava a embrenhar-me em dificuldades, prometendo mentalmente seguir<br \/>\n    o caminho que me parecia razo&aacute;vel.<\/p>\n<p> Aquela not&iacute;cia de poucas linhas num jornal d&oacute; Recife me abalava.<br \/>\n    Ainda n&atilde;o dispunha de meios para avaliar com seguran&ccedil;a a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    de Prestes: dois ou tr&ecirc;s manifestos, repreens&otilde;es amargas aos<br \/>\n    antigos companheiros, eram insuficientes. Admirava-lhe, por&eacute;m, a firmeza,<br \/>\n    a coragem, a dignidade. E sentia que essa grande for&ccedil;a estivesse paralisada.<br \/>\n    Com os diabos!<\/p>\n<p> Certamente outros iriam cair, as pris&otilde;es se encheriam, a ditadura<br \/>\n    mal disfar&ccedil;ada que humilhava um congresso poltr&atilde;o grimparia.<br \/>\n    Anos perdidos. E se a agress&atilde;o fascista continuas se l&aacute; fora,<br \/>\n    ter&iacute;amos aqui medonhas injusti&ccedil;as e muita safadeza.<\/p>\n<h3>10<\/h3>\n<p>CAPIT&Atilde;O Mata relacionou-se com a sentinela, um rapazinho. quase garoto,<br \/>\n    que gesticulava como um macaco e fazia caretas engra&ccedil;adas. Chamava-se<br \/>\n    Leite. Resistiu uns dois dias, ouvindo, por&eacute;m, a g&iacute;ria da caserna,<br \/>\n    viu que n&atilde;o estava diante de um paisano, abrandou a desconfian&ccedil;a<br \/>\n    e entregou os pontos. A passagem de um oficial, entesava-se em demasia, com<br \/>\n    seriedade c&ocirc;mica. Em seguida examinava os arredores e, afastado o perigo,<br \/>\n    derreava-se, punha-se a conversar baixinho, como se monologasse. Atirava olhadelas<br \/>\n    maliciosas ao interlocutor e largava a informa&ccedil;&atilde;o, indiretamente,<br \/>\n    sem comprometer-se. Ao ser rendido, pilheriava com o substituto: J&aacute;<br \/>\n    sabe as ordens. pegar no sono e deixar que estes mo&ccedil;os v&atilde;o para<br \/>\n    casa; s&atilde;o inocentes, coitados. Num arrependimento burlesco, emendava-se:<br \/>\n    Estou brincando. Tolice. Daqui n&atilde;o sai nem rato. Afastava o m&eacute;dio<br \/>\n    e o indicador da m&atilde;o esquerda, juntava a eles, em sentido contr&aacute;rio,<br \/>\n    o m&eacute;dio e o indicador da m&atilde;o direita, formava uma grade, levava-a<br \/>\n    &agrave; altura dos olhos, para significar que est&aacute;vamos isolados e<br \/>\n    era indispens&aacute;vel muito rigor na vigil&acirc;ncia. Nem rato. Num instante<br \/>\n    se militarizava, emproado. No dia seguinte escorregava de novo nos sussurros,<br \/>\n    familiar, fazendo momices e engolindo o riso. Aparentemente as nossas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com o exterior findavam na soleira do porta. Daqui n&atilde;o sa&iacute; nem<br \/>\n    rato. As vezes, por&eacute;m, transp&uacute;nhamos essa linha divis&oacute;ria,<br \/>\n    e a sentinela n&atilde;o se mexia.<\/p>\n<p> Foi o que sucedeu quando Sebasti&atilde;o Hora surgiu numa esquina pr&oacute;xima,<br \/>\n    de toalha ao ombro, em companhia de um soldado, subiu alguns degraus de cimento,<br \/>\n    obliquou num p&aacute;tio mi&uacute;do, passou junto a n&oacute;s. Saltamos<br \/>\n    a fronteira, pisamos no alpendre, desejosos de comunicar, mas Hora negou-nos<br \/>\n    a palavra, afastou-se em sil&ecirc;ncio, grave, caminho do banheiro. Voltamos<br \/>\n    &agrave; gaiola, apreensivos. Que diabo seria aquilo? Discutimos, procuramos<br \/>\n    achar qualquer falta nossa que motivasse tal frieza, recusa a um cumprimento.<br \/>\n    Nada percebendo, entregamo-nos &agrave;s pequenas distra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que se iam tornando h&aacute;bitos e suavizavam a monotonia das horas longas.<br \/>\n    Embrenhei-me na leitura maquinal dos tr&ecirc;s volumes dif&iacute;ceis.<\/p>\n<p> O faxina trouxe-me as encomendas, entre elas cuecas ordin&aacute;rias, provavelmente<br \/>\n    iguais &agrave;s usadas na caserna, duras como pau. Como vestir aquele supl&iacute;cio?<br \/>\n    Resignei-me. E decidi compor uma narrativa dos casos di&aacute;rios, contar<br \/>\n    a viagem a trem, a luz escassa do Recife, as noites de ins&ocirc;nia, descrever<br \/>\n    a figura do capit&atilde;o Lobo, que ia crescendo em demasia. Al&eacute;m<br \/>\n    das cuecas, agora havia papel, havia l&aacute;pis. Mas a composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sa&iacute;a chocha, pingada, insignificante: as pontas dos l&aacute;pis se<br \/>\n    quebravam a cada instante e era preciso recorrer aos canivetes do meu companheiro<br \/>\n    providencial. Bem. Os l&aacute;pis diminu&iacute;am, pontudos e in&uacute;teis.<br \/>\n    daquelas notas arrumadas com esfor&ccedil;o grande n&atilde;o sairia uma hist&oacute;ria.<br \/>\n    Desinteresse: a intelig&ecirc;ncia baixava, era uma intelig&ecirc;ncia distra&iacute;da,<br \/>\n    vagabunda, indolente. Valeria a pena excit&aacute;-la? Como? Se me fosse poss&iacute;vel<br \/>\n    conseguir um pouco de &aacute;lcool, talvez desse verossimilhan&ccedil;a a<br \/>\n    Benon Maia Gomes, a Baptista, ao sujeito que mastigava torradas e comia os<br \/>\n    bei&ccedil;os.<\/p>\n<p> O cigarro era insuficiente. Vivia a encher-me de fuma&ccedil;a e arrancava<br \/>\n    a custo algumas linhas por dia, em letrinhas acavaladas, economizando papel,<br \/>\n    utilizando o espa&ccedil;o todo, para que o manuscrito fizesse um volume pequeno<br \/>\n    e pudesse esconder-se em momento de busca. A aten&ccedil;&atilde;o se desviava<br \/>\n    do trabalho moroso, buscava o abscesso que se desenvolvia debaixo da unha<br \/>\n    do indicador.<\/p>\n<p> Largando a literatura, ocupava-me horas num curativo desastrado com a tesourinha;<br \/>\n    o dedo, amarelo de nicotina, avermelhava-se de iodo, enrolava-se em esparadrapo.<br \/>\n    A se cura da boca e a dorm&ecirc;ncia do est&ocirc;mago desapareciam, o aspecto<br \/>\n    desagrad&aacute;vel da comida j&aacute; n&atilde;o me provocava n&aacute;useas.<br \/>\n    Tentei alimentar-me, venci a tontura, a mem&oacute;ria ressurgiu, o nevoeiro<br \/>\n    mental se adelga&ccedil;ou e as figuras em redor se destacaram. Mas a defici&ecirc;ncia<br \/>\n    interior persistia, des&acirc;nimo, indecis&atilde;o e a certeza de que os<br \/>\n    pap&eacute;is laboriosamente rabiscados n&atilde;o teriam pr&eacute;stimo.<br \/>\n    Al&eacute;m disso capit&atilde;o Mata parecia multiplicar-se, n&atilde;o tinha<br \/>\n    um minuto de sossego e em companhia dele era imposs&iacute;vel concentrar-me.<br \/>\n    Ria, cantava, resolveu fazer tamb&eacute;m exerc&iacute;cios de composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    liter&aacute;ria. Como eu lhe censurasse um per&iacute;odo cacof&ocirc;nico<br \/>\n    pelo excesso de qu&ecirc;s, resolveu suprimir esta palavra. Com habilidade<br \/>\n    escreveu &agrave; mulher uma carta onde n&atilde;o havia um qu&ecirc;. Contava<br \/>\n    anedotas, declamava sonetos. Dizia a significa&ccedil;&atilde;o dos toques<br \/>\n    de corneta, explicava-me que, para fix&aacute;-los, os recrutas decoravam<br \/>\n    versos grotescos. Estes correspondiam &agrave; meia-volta: <br \/>\n    Quantos dentes tem sag&uuml;i <\/p>\n<p> Na boca?<\/p>\n<p> E tamb&eacute;m estes:<\/p>\n<p> Nunca vi mulher parir<\/p>\n<p> Sem homem.<\/p>\n<p> Havia alguns obscenos. Interrompia &agrave;s vezes as fac&eacute;cias e<br \/>\n    ensombrava-se; afinal percebi que a corneta lhe produzia verdadeira inquieta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Estremecia ouvindo-a, traduzia-me a linguagem dela, depois serenava, escorregava<br \/>\n    na palestra, numa cantiga sem p&eacute; nem cabe&ccedil;a, repetida sempre.<br \/>\n    Justificava-se:<\/p>\n<p> A letra &eacute; idiota, mas gosto da m&uacute;sica. Bonitinha. Perturbava-se<br \/>\n    de novo, enrugava a cara, apreensivo:<\/p>\n<p> Chegou o major fiscal. Chegou o comandante da companhia.<\/p>\n<p> Dif&iacute;cil imaginar porque o agitava a chegada do major fiscal ou do<br \/>\n    comandante da companhia. N&atilde;o se tratava, por&eacute;m, disso. E arrancando<br \/>\n    palavra aqui, palavra ali, notei a causa da ansiedade: Mata receava o aparecimento<br \/>\n    de um general no quartel. Apenas. Estranhei ver homem t&atilde;o loquaz, t&atilde;o<br \/>\n    alegre, amofinar-se &agrave; toa. N&atilde;o havia raz&atilde;o, supus. Em<br \/>\n    seguida modifiquei o ju&iacute;zo. Para um capit&atilde;o de pol&iacute;cia<br \/>\n    a vista de um general, em carne e osso, deve ser caso importante demais. As<br \/>\n    esferas, o regulamento, a ordem do dia esmagam o pequeno oficial deformado<br \/>\n    pela disciplina, e se este indiv&iacute;duo se ataranta numa cela, tentando<br \/>\n    adivinhar os rumores externos e decifrai as gatim&ocirc;nias de uma sentinela<br \/>\n    condescendente, a imagem do superior enorme torna-se obsess&atilde;o dolorosa.<br \/>\n    Essa autoridade invis&iacute;vel, remota, com um r&aacute;pido mandado nos<br \/>\n    cortara a vida social, nos trancara, a n&oacute;s e a Sebasti&atilde;o Hora,<br \/>\n    que a alguns passos mofava numa pris&atilde;o de sargentos, com v&aacute;rios<br \/>\n    outros. Come&ccedil;&aacute;vamos a perceber que depend&iacute;amos exclusivamente<br \/>\n    da vontade desse cavalheiro. O interrogat&oacute;rio, as testemunhas, as formalidades<br \/>\n    comuns em processos n&atilde;o apareciam. Nem uma palavra de acusa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Permanecer&iacute;amos talvez assim. Com certeza havia motivo para nos segregarem,<br \/>\n    mas aquele sil&ecirc;ncio nos espantava. Porque n&atilde;o figuramos em autos,<br \/>\n    n&atilde;o arranjavam depoimentos, embora falsos, num simulacro de justi&ccedil;a?<br \/>\n    Farsas, evidentemente, mas nelas ainda nos deixariam a possibilidade vaga<br \/>\n    de mexer-nos, enlear o promotor. Um tribunal safado sempre vale qualquer coisa,<br \/>\n    um juiz canalha hesita ao lan&ccedil;ar uma senten&ccedil;a pulha: teme a<br \/>\n    opini&atilde;o p&uacute;blica, em &uacute;ltima an&aacute;lise o j&uacute;ri<br \/>\n    razo&aacute;vel. &Eacute; esse medo que &agrave;s vezes anula as persegui&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    N&atilde;o davam mostra de querer submeter-nos a julgamento. E era poss&iacute;vel<br \/>\n    que j&aacute; nos tivessem julgado e cumpr&iacute;ssemos pena, sem saber.<br \/>\n    Suprimiam-nos assim todos os direitos, os &uacute;ltimos vest&iacute;gios<br \/>\n    deles. Desconhec&iacute;amos at&eacute; o foro que nos sentenciava. Possivelmente<br \/>\n    operava nisso uma cabe&ccedil;a apenas: a do general. E capit&atilde;o Mata,<br \/>\n    ouvindo a corneta, se alvoro&ccedil;ava.<\/p>\n<p> Tentei convenc&ecirc;-lo e convencer-me de que n&atilde;o havia raz&atilde;o<br \/>\n    para sustos. A presen&ccedil;a desse homem n&atilde;o nos poderia causar dano:<br \/>\n    dar-nos-ia algum esclarecimento. Falar&iacute;amos a uma pessoa educada, sem<br \/>\n    d&uacute;vida. No desembarque f&ocirc;ramos recebidos por um subalterno e<br \/>\n    eu o tomara por oficial, t&atilde;o cort&ecirc;s se revelara. Todas as manh&atilde;s<br \/>\n    receb&iacute;amos a visita do comandante e escut&aacute;vamos, com ligeiras<br \/>\n    altera&ccedil;&otilde;es, as mesmas palavras de amabilidade fria. Capit&atilde;o<br \/>\n    Lobo continuava a divergia das minhas id&eacute;ias, que nunca cheguei a mencionar.<br \/>\n    Tamb&eacute;m n&atilde;o consegui, entender bem as dele. Agradava-me, por&eacute;m,<br \/>\n    v&ecirc;-lo, sentir-lhe a franqueza meio rude, a voz clara, o gesto r&aacute;pido<br \/>\n    e incisivo, no olhar agudo uma fa&iacute;sca a indicar tend&ecirc;ncia para<br \/>\n    descarrilamentos e doidices necess&aacute;rias. Sob o alpendre passavam figuras<br \/>\n    rijas e autom&aacute;ticas. Mas as que tinham estado em contato conosco eram<br \/>\n    compreensivas e humanas. At&eacute; a sentinela, a crian&ccedil;a galhofeira<br \/>\n    e estouvada que simulava uma grade com os dedos e resmungava: Daqui n&atilde;o<br \/>\n    sai nem rato. At&eacute; o faxina. Ao desembrulhar as encomendas, eu lhe pedira<br \/>\n    que aceitasse o troco. O rapaz recusara essa gorjeta sem se formalizar, sem<br \/>\n    me ofender. Se esses viventes se comportavam assim, porque recear&iacute;amos<br \/>\n    a presen&ccedil;a de um general? Certamente o meu companheiro devaneava. &Agrave;s<br \/>\n    vezes estava cantarolando:<\/p>\n<p> Onde vais tu, infante (falta um adjetivo), Com teu fuzil a pelejar?<\/p>\n<p> Uma estrid&ecirc;ncia de corneta perturbava-o. E durante minutos, apreensivo,<br \/>\n    de cara amarrada, abandonava a can&ccedil;&atilde;o, o almo&ccedil;o, o corte<br \/>\n    das unhas, os exerc&iacute;cios de estilo em que se esmerava em n&atilde;o<br \/>\n    usar part&iacute;culas motivadoras de cacofonias. Eu buscava distra&iacute;-lo:<\/p>\n<p> Quantos dentes tem sag&uuml;i na boca?<\/p>\n<p> A verdade &eacute; que tamb&eacute;m principiava a inquietar-me. Tenho em<br \/>\n    geral uma esp&eacute;cie de indiferen&ccedil;a auditiva, mas aquele desassossego<br \/>\n    me apanhava.<\/p>\n<p> Quem foi que chegou?<\/p>\n<p> N&atilde;o tinha sido ningu&eacute;m. Era o rancho, o sil&ecirc;ncio, a<br \/>\n    alvorada. Esses sons n&atilde;o tinham para mim nenhuma significa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E todos eles entravam a anunciar inimigos invis&iacute;veis.<\/p>\n<h3>11<\/h3>\n<p>UM dia capit&atilde;o Lobo entrou carrancudo e falou-me:<\/p>\n<p> O senhor ontem cometeu uma falta muito grave. Uma falta grave, capit&atilde;o,<br \/>\n    respondi aturdido. N&atilde;o entendo.<\/p>\n<p> Muito grave. Na sua chegada eu lhe disse que usasse o banheiro dos oficiais.<br \/>\n    O senhor ontem tomou banho no banheiro dos sargentos.<\/p>\n<p> Era verdade, mas achei gra&ccedil;a na repreens&atilde;o e sosseguei: Ora,<br \/>\n    capit&atilde;o! Foi essa a falta grave? Julguei que se tratasse de coisa s&eacute;ria,<br \/>\n    assustei-me.<\/p>\n<p> O oficial acolheu minha resposta com indigna&ccedil;&atilde;o muda, repetiu<br \/>\n    depois o que havia dito, en&eacute;rgico. Tentei justificar-me Encontrei um<br \/>\n    banheiro ocupado e entrei noutro.<\/p>\n<p> O senhor n&atilde;o podia fazer isso.<\/p>\n<p> Esforcei-me por manifestar que, no meu parecer, culpa seria utilizar um<br \/>\n    banheiro de categoria superior ao permitido a mim, um banheiro de generais,<br \/>\n    por exemplo; contentando me com um de sargentos, n&atilde;o praticava nenhum<br \/>\n    ato censur&aacute;vel. Mas o meu parecer nada valia: responsabilizavam-me<br \/>\n    por uma infra&ccedil;&atilde;o, desenvolviam-na, e era in&uacute;til querer<br \/>\n    defender-me. Quanto mais me desculpava mais o capit&atilde;o se arreliava<br \/>\n    evidentemente a minha resist&ecirc;ncia ofendia as normas Em certo ponto,<br \/>\n    finda a paci&ecirc;ncia, bradou:<\/p>\n<p> Se o senhor fosse militar, seria punido e compreenderia o que fez.<\/p>\n<p> &Eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> Dificuldade meter qualquer coisa na cabe&ccedil;a desses paisanos, rosnou.<\/p>\n<p> Em seguida prop&ocirc;s:<\/p>\n<p> Se n&atilde;o est&aacute; satisfeito aqui, posso arranjar-lhe transfer&ecirc;ncia<br \/>\n    para uma pris&atilde;o de sargentos.<\/p>\n<p> Obrigado, n&atilde;o se incomode.<\/p>\n<p> Surpreendente nesse di&aacute;logo foi que de modo nenhum me susceptibilizei.<br \/>\n    Em geral me envergonhava por obje&ccedil;&otilde;es vagas, qualquer dito que<br \/>\n    revelasse a mais leve censura me tocava melindres bestas. Talvez isso fosse<br \/>\n    conseq&uuml;&ecirc;ncia de brutalidades e castigos suportados na inf&acirc;ncia:<br \/>\n    encabulava sem motivo e andava a procurar inten&ccedil;&otilde;es ocultas<br \/>\n    em gestos e palavras. O certo &eacute; que em tempo de adulto n&atilde;o me<br \/>\n    lembrava de ter ouvido semelhante linguagem. Pois o que ela me produziu foi<br \/>\n    um desejo enorme de rir. Achava-me em situa&ccedil;&atilde;o realmente singular,<br \/>\n    advertido como uma crian&ccedil;a, e isto n&atilde;o me vexava, talvez por<br \/>\n    julgar aquilo estapaf&uacute;rdio, talvez por estimar a franqueza nua. Se<br \/>\n    me falassem l&aacute; fora de tal maneira, provavelmente me zangaria, mas<br \/>\n    n&atilde;o sentiria o acanhamento que avermelha o rosto e esmorece o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    De fato o que mais nos choca n&atilde;o &eacute; a sinceridade, &agrave;s<br \/>\n    vezes impertinente: &eacute; a arranhadela feita com m&atilde;o de gato, a<br \/>\n    perf&iacute;dia embrulhada num sorriso, a faca de dois gumes, alfinetes espalhados<br \/>\n    numa conversa. Agra n&atilde;o podia molestar-me.<\/p>\n<p> Finda a surpresa, contida a explos&atilde;o de riso motivada pela extravag&acirc;ncia<br \/>\n    aparente, aceitei a reprimenda, considerei que devia existir uma raz&atilde;o<br \/>\n    para ela. Haveria baz&oacute;fia nisso, vaidade por me alojarem perto da gente<br \/>\n    de cima? Creio que n&atilde;o: tinha ido misturar-me involuntariamente aos<br \/>\n    outros, arriscando-me a degradar-me. Essa degrada&ccedil;&atilde;o era convencional.<br \/>\n    De nenhum modo me supunha diminu&iacute;do na companhia de sargentos. Numa<br \/>\n    pris&atilde;o deles, a alguns passos de dist&acirc;ncia, agasalhavam-se um<br \/>\n    m&eacute;dico e um advogado e seria tolice imaginar-me com mais direitos que<br \/>\n    esses_ homens. Ofereciam-me na verdade uma cela confort&aacute;vel, mas isto<br \/>\n    era casual e, para ser franco, nunca desejei conforto: suponho at&eacute;<br \/>\n    que ele nos prejudica. Possivelmente eu devia essa vantagem, esse acidente,<br \/>\n    &agrave; influ&ecirc;ncia de algu&eacute;m desejoso de beneficiar-me: capit&atilde;o<br \/>\n    Lobo, neste caso: o desprop&oacute;sito dele era uma indica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E tamb&eacute;m era presum&iacute;vel que, deixando-me na superf&iacute;cie<br \/>\n    algum tempo, quisessem dar-me um s&uacute;bito mergulho nas profundidades,<br \/>\n    submeter-me a varia&ccedil;&otilde;es dolorosas. Mais tarde esta segunda hip&oacute;tese<br \/>\n    pareceu confirmar-se, embora eu hesite em afirmar que na modifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    operada tenha havido um des&iacute;gnio. Provavelmente n&atilde;o houve: a<br \/>\n    nossa presun&ccedil;&atilde;o &eacute; que nos leva a enxergar nos casos intuitos<br \/>\n    referentes a n&oacute;s. Numa persegui&ccedil;&atilde;o generalizada, &eacute;ramos<br \/>\n    insignific&acirc;ncias, miudezas supressas do organismo social, e pod&iacute;amos<br \/>\n    ser arrastados para cima e para baixo, sem que isto representasse inconveni&ecirc;ncia.<br \/>\n    Informa&ccedil;&otilde;es vagas e distantes, aleivosias, o rancor de um inimigo,<br \/>\n    deturpa&ccedil;&otilde;es de fatos de repente nos causariam choques e mudan&ccedil;as.<br \/>\n    Depend&iacute;amos disso. E tamb&eacute;m depend&iacute;amos do humor dos<br \/>\n    nossos carcereiros. Aquele que me falava, irritado, era um homem justo:<\/p>\n<p> O senhor n&atilde;o podia fazer isso. Dificuldade meter qualquer coisa na<br \/>\n    cabe&ccedil;a desses paisanos.<\/p>\n<p> Evidentemente eu me comportara mal: introduzira-me num lugar reservado a<br \/>\n    outros indiv&iacute;duos, comprometera a ordem. In&uacute;til argumentar que<br \/>\n    me reduzia por gosto: aquilo n&atilde;o me pertencia. E estava acabado era<br \/>\n    como se eu tivesse agarrado o quepe ou o cintur&atilde;o de um sargento. Com<br \/>\n    certeza foram essas considera&ccedil;&otilde;es que me induziram a suportar<br \/>\n    resignado a objurgat&oacute;ria. Realmente ela viria de qualquer modo: a minha<br \/>\n    resigna&ccedil;&atilde;o tinha pouco valor, mas evitou-me constrangimento,<br \/>\n    id&eacute;ias de revolta, ingratid&atilde;o. Um homem justo.<\/p>\n<p> Se o senhor fosse militar, seria punido e compreenderia o que fez.<\/p>\n<p> Esta frase, por&eacute;m, se referia &agrave; justi&ccedil;a da tarimba,<br \/>\n    que prende um sujeito para convenc&ecirc;-lo. Garantiria eu que, fora da&iacute;,<br \/>\n    capit&atilde;o Lobo era um homem justo? N&atilde;o garantiria. Tanto quanto<br \/>\n    posso julgar, a justi&ccedil;a dele se assemelhava &agrave; de Benon Maia<br \/>\n    Gomes, &agrave; do bacharel Jos&eacute; da Rocha, deputado e usineiro. Sem<br \/>\n    investiga&ccedil;&atilde;o, o primeiro desses cavalheiros me reprovara os<br \/>\n    intentos desordeiros; o segundo se afastara resmungando o fastio: Comunista!<br \/>\n    Desconhecendo-me o interior, capit&atilde;o Lobo dissera: N&atilde;o concordo<br \/>\n    com as suas id&eacute;ias, mas respeito-as. E mandara buscar em casa, para<br \/>\n    n&oacute;s, roupa de cama e toalhas. Porque se capacitava ele de que eu merecia<br \/>\n    tanta condescend&ecirc;ncia? Ju&iacute;zo precipitado, como o do agr&ocirc;nomo<br \/>\n    e o do bacharel, embora as atitudes se dessemelhassem. Se eu fosse um elemento<br \/>\n    pernicioso, haveria grande erro naquela generosidade Na semana anterior ali<br \/>\n    se ignorava completamente a minha exist&ecirc;ncia. Quem dizia que eu n&atilde;o<br \/>\n    me dedicava ent&atilde;o a perigosos exerc&iacute;cios conspirativos? Nem<br \/>\n    eu pr&oacute;prio dizia isso: guardava sil&ecirc;ncio, evitava defender-me<br \/>\n    de acusa&ccedil;&otilde;es imprecisas. Fora do regulamento, pois capit&atilde;o<br \/>\n    Lobo se desviava da justi&ccedil;a. E era isso talvez que me prendia a ele.<br \/>\n    me fazia baixar a cabe&ccedil;a, sem me considerar humilhado, ouvindo-lhe<br \/>\n    os prop&oacute;sitos rabugentos. Desejo de ir al&eacute;m das apar&ecirc;ncias,<br \/>\n    tentar descobrir nas pessoas qualquer coisa impercept&iacute;vel aos sentidos<br \/>\n    comuns. Compreens&atilde;o de que as diferen&ccedil;as n&atilde;o constituem<br \/>\n    raz&atilde;o para nos afastarmos, nos odiarmos. Certeza de que n&atilde;o<br \/>\n    estamos certos, aptid&atilde;o para enxergarmos peda&ccedil;os de verdades<br \/>\n    nos absurdos mais claros. Necessidade de compreender, e se isto &eacute; imposs&iacute;vel,<br \/>\n    a pura aceita&ccedil;&atilde;o do pensamento alheio.<\/p>\n<p> N&atilde;o concordo com as suas id&eacute;ias, mas respeito-as. Irreflex&atilde;o<br \/>\n    discordar do que n&atilde;o foi expresso? Em todo o caso toler&acirc;ncia,<br \/>\n    uma admir&aacute;vel toler&acirc;ncia imprudente que, sem exame, tudo chega<br \/>\n    a admitir. Era o que me levava a admirar capit&atilde;o Lobo. Isso e a suspeita<br \/>\n    de me achar diante de uma criatura singular. Observava-lhe a m&aacute;scara<br \/>\n    expressiva, esfor&ccedil;ava-me tamb&eacute;m por ultrapass&aacute;-la, divisar<br \/>\n    l&aacute; no &iacute;ntimo embri&otilde;es de atos generosos.<\/p>\n<p>12<\/p>\n<p>PELA manh&atilde;, de volta do banheiro, atravessando um corredor, avistamos<br \/>\n    o comandante em companhia de um homem alto, magro, s&eacute;rio. Enviamos-lhe<br \/>\n    um cumprimento, e ele nos deteve, nos apresentou:<br \/>\n    General, estes senhores&#8230;<\/p>\n<p> Finda a apresenta&ccedil;&atilde;o, o homem alto pregou-me um olho irritado:<br \/>\n    Comunista, hem? Atrapalhei-me e respondi: N&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o? Comunista confesso.<\/p>\n<p> De forma nenhuma. N&atilde;o confessei nada. Espiou-me um instante, carrancudo,<br \/>\n    manifestou-se:<\/p>\n<p> Eu queria que o governo me desse permiss&atilde;o para mandar fuzil&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Oh! General! murmurei. Pois n&atilde;o estou preso?<\/p>\n<p> E calei-me prudente: o diabo da frase podia ser interpretada como um desafio,<br \/>\n    que eu n&atilde;o estava em condi&ccedil;&otilde;es de lan&ccedil;ar. Felizmente<br \/>\n    o homem n&atilde;o ligou import&acirc;ncia a ela, deu-me as costas, voltou-se<br \/>\n    para o meu companheiro e interrogou-o com dureza. Capit&atilde;o Mata aprumou-se,<br \/>\n    declarou-se v&iacute;tima de cal&uacute;nias e persegui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    como tinha por h&aacute;bito fazer.<\/p>\n<p> De pijama e com a toalha ao ombro, a posi&ccedil;&atilde;o de sentido se<br \/>\n    tornava c&ocirc;mica.<\/p>\n<p> Ainda hei de provar a v. ex.&ordf; que sou um bom patriota.<\/p>\n<p> Estava ali um per&iacute;odo conveniente, dos que devemos emitir num quartel.<br \/>\n    N&atilde;o me aventuraria a semelhante declara&ccedil;&atilde;o. Poderia julgar-me<br \/>\n    um bom patriota? Realmente nem me considerava patriota, seria desonestidade<br \/>\n    falar daquela maneira. Mas determinadas palavras acalmam determinados esp&iacute;ritos,<br \/>\n    sem que seja necess&aacute;rio demonstrar a veracidade delas. Capit&atilde;o<br \/>\n    Mata nada referia como ind&iacute;cio da virtude que se imputava: oferecia<br \/>\n    exibir provas no futuro. E isso bastou. O general, sem desenrugar a sobrancelha,<br \/>\n    apreciou devidamente a fala e a postura do acusado. Gastou mais algumas energias<br \/>\n    e afastou-se, digno, seguido pelo comandante. Foi pouco mais ou menos o que<br \/>\n    se deu, suponho. Tiramo-nos dali, entramos na gaiola, vagarosos e encabulados.<br \/>\n    Eu, por mim, ia com as orelhas pegando fogo.<\/p>\n<p> Puxa!<\/p>\n<p> Capit&atilde;o Mata, abalado, afirmava que me havia comportado lastimosamente.<br \/>\n    Ora essa! E porqu&ecirc;? N&atilde;o era aquele o modo pr&oacute;prio de me<br \/>\n    dirigir a um general. De fato eu ignorava tudo nessa mat&eacute;ria, mas convencia-me<br \/>\n    de n&atilde;o haver praticado nenhuma inconsidera&ccedil;&atilde;o. Afirmara<br \/>\n    n&atilde;o ser comunista e dissera a verdade estava fora do Partido. Se estivesse<br \/>\n    dentro, n&atilde;o iria confessar atividades ilegais, claro, mas n&atilde;o<br \/>\n    estava Quanto ao mais, apenas aquela refer&ecirc;ncia a um fuzilamento improv&aacute;vel.<br \/>\n    Ningu&eacute;m tinha inten&ccedil;&atilde;o de fuzilar-me, pois isto n&atilde;o<br \/>\n    representava nenhuma vantagem. Eu era bem insignificante e a minha morte passaria<br \/>\n    despercebida, n&atilde;o serviria de exemplo. E se me quisessem elevar depois<br \/>\n    de finado, isto seria talvez prejudicial &agrave; rea&ccedil;&atilde;o: dar-me-iam<br \/>\n    papel de m&aacute;rtir, emprestar-me-iam qualidades que nunca tive, &uacute;teis<br \/>\n    &agrave; propaganda, embrulhar-me-iam em folhetos clandestinos, mudar-me-iam<br \/>\n    em figura not&aacute;vel. N&atilde;o, ningu&eacute;m tinha interesse em fuzilar-me.<br \/>\n    Al&eacute;m disso quando um vivente quer extinguir outro, n&atilde;o lhe vai<br \/>\n    revelar este desejo: extingue-o, se pode. Recurso ing&ecirc;nuo amea&ccedil;ar<br \/>\n    as pessoas &agrave; toa, sem saber se elas se apavoram. No Brasil n&atilde;o<br \/>\n    hav&iacute;amos atingido a sangueira p&uacute;blica. At&eacute; nos pa&iacute;ses<br \/>\n    inteiramente fascistas ela exigia apar&ecirc;ncia de legalidade, ainda se<br \/>\n    receava a opini&atilde;o p&uacute;blica. Entre n&oacute;s execu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de aparato eram inexeq&uuml;&iacute;veis: a covardia oficiai restringia-se<br \/>\n    a espancar, torturar prisioneiros, e de quando em quando se anunciavam suic&iacute;dios<br \/>\n    misteriosos. Isso se aplicava a sujeitos mais ou menos comprometidos no barulho<br \/>\n    de 1935. Mas que diabo tinha eu com ele? Certamente n&atilde;o me pregariam<br \/>\n    agulhas nas unhas nem me fariam saltar de uma janela de andar alto. Quanto<br \/>\n    a mim achava-me tranq&uuml;ilo. E n&atilde;o me recordava de haver piado uma<br \/>\n    s&iacute;laba que ofendesse a autoridade.<\/p>\n<p> O meu companheiro julgava a minha observa&ccedil;&atilde;o a respeito do<br \/>\n    fuzilamento uma leviandade. Imaginativo, adicionava-lhe voc&aacute;bulos n&atilde;o<br \/>\n    proferidos, dava-lhe inflex&otilde;es que lhe proporcionavam sentido temer&aacute;rio.<br \/>\n    Divagava: seguramente aquilo teria conseq&uuml;&ecirc;ncias desagrad&aacute;veis.<br \/>\n    Tolice. Decerto eu desconhecia a maneira de tratar com a farda: n&atilde;o<br \/>\n    deviam esperar que me apresentasse de m&atilde;o na testa, espinha&ccedil;o<br \/>\n    vertical, as pernas tesas. E se a minha &uacute;ltima resposta encerrava alguma<br \/>\n    impertin&ecirc;ncia, isto pouco significava: o cidad&atilde;o importante n&atilde;o<br \/>\n    lhe dera aten&ccedil;&atilde;o: desviara-se, voltara-me as costas, fora ocupar-se<br \/>\n    em neg&oacute;cio diferente. Naquele jogo infantil de se mostrar pap&atilde;o,<br \/>\n    enferrujando a cara, engrossando a voz, talvez me considerasse mais ou menos<br \/>\n    fuzilado. Provavelmente se contentaria com isso. Tinha casos de vulto para<br \/>\n    resolver, e naquele momento as nossas fisionomias lhe desbotavam na mem&oacute;ria.<br \/>\n    N&atilde;o corr&iacute;amos risco, era o que eu supunha. E n&atilde;o corremos,<br \/>\n    durante alguns dias tudo andou sem novidade.<\/p>\n<p> Voltamos &agrave; rotina, comemos a b&oacute;ia de tabuleiro, recebemos<br \/>\n    as visitas do comandante, ouvimos as longas falas do capit&atilde;o Lobo,<br \/>\n    tentamos encher as enfadonhas horas ocas amolando-nos reciprocamente. L&aacute;<br \/>\n    embaixo, junto aos dois canh&otilde;es, uma fila de soldados, de roupas leves,<br \/>\n    marchava; um tenente risonho, de apito, desenvolvia-se em gestos largos. No<br \/>\n    outro lado, no p&aacute;tio interno, rapazes se esfor&ccedil;avam por jogar<br \/>\n    uma bola no cesto preso ao muro. E defronte dos banheiros, longe, esfumadas,<br \/>\n    abriam-se as goelas escuras das baias. A corneta soava, queria saber quantos<br \/>\n    dentes tem sag&uuml;i na boca, e o amigo capit&atilde;o Mata j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    se alvoro&ccedil;ava com a pergunta. Findaram os sustos: agora n&atilde;o<br \/>\n    havia raz&atilde;o para temer que, entre coisas dessa esp&eacute;cie, ela<br \/>\n    anunciasse a presen&ccedil;a de um general. A sentinela nos observava de esguelha,<br \/>\n    soltava remoques engra&ccedil;ados e, na aus&ecirc;ncia de testemunhas, cavaqueava<br \/>\n    num sussurro. 0 faxina vinha pedir-nos a lista de encomendas A mala do capit&atilde;o<br \/>\n    se abria, a agulha e o carretel de linha vinham &agrave; luz, um minuto se<br \/>\n    consumia na tarefa de repregar o bot&atilde;o solto de uma cueca. O meu indicador<br \/>\n    esquerdo supurava, coberto de iodo, pouco a pouco a unha se desprendia. Os<br \/>\n    tr&ecirc;s volumes. lidos a custo, dilu&iacute;am-se no ramerr&atilde;o do<br \/>\n    servi&ccedil;o, nas vozes de comando, nas estrid&ecirc;ncias da meia-volta,<br \/>\n    do rancho, do sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> Escrevi a l&aacute;pis uma carta a minha mulher. renovando o pedido que<br \/>\n    lhe havia feito de enviar um conto a Buenos Aires. Permitiria o correio, obediente<br \/>\n    &agrave; censura. a exporta&ccedil;&atilde;o dessas letras? Era uma hist&oacute;ria<br \/>\n    repisada, com voltas infinitas em redor do mesmo ponto, literatura de peru.<br \/>\n    Como arte e como pol&iacute;tica valia bem pouco, mas talvez enxergassem nela<br \/>\n    dinamite. A cr&iacute;tica policial era t&atilde;o est&uacute;pida que julgava<br \/>\n    a produ&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica n&atilde;o pelo conte&uacute;do,<br \/>\n    mas pelo nome do autor. Eu vivera numa sombra razo&aacute;vel, quase an&ocirc;nimo:<br \/>\n    dois livros de f&ocirc;lego curto haviam despertado fraco interesse e alguma<br \/>\n    condescend&ecirc;ncia desdenhosa. Era um rabiscador provinciano detestado<br \/>\n    na prov&iacute;ncia, ignorado na metr&oacute;pole. Iriam analisar-me os romances,<br \/>\n    conden&aacute;-los, queim&aacute;-los, chamar para eles a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da massa? Ou lan&ccedil;ar-me-iam, tacitamente culpado, no meio de criminosos,<br \/>\n    indiv&iacute;duos que sempre desejei conhecer de perto? O mais prov&aacute;vel<br \/>\n    era jogarem-me entre rebeldes de Natal, do 3.&deg; Regimento, da Escola de<br \/>\n    Avia&ccedil;&atilde;o De qualquer jeito me apresentariam sociedade nova, me<br \/>\n    proporcionariam elementos para redigir qualquer coisa menos in&uacute;til<br \/>\n    que os dois volumes chochos encalhados nas prateleiras dos editores. Essa<br \/>\n    afirma&ccedil;&atilde;o presun&ccedil;osa esbarrava com as dificuldades imensas<br \/>\n    que me surgiam quando buscava utilizar o papel trazido pelo faxina. Sempre<br \/>\n    compusera lentamente: sucedia-me ficar diante da folha muitas horas, sem conseguir<br \/>\n    desvanecer a treva mental, buscando em v&atilde;o agarrar algumas id&eacute;ias,<br \/>\n    limp&aacute;-las, vesti-las; agora tudo piorava, findara at&eacute; esse desejo<br \/>\n    de torturar-me para arrancar do interior nebuloso meia d&uacute;zia de linhas.<br \/>\n    sentia-me indiferente e murcho, incapaz de vencer uma pregui&ccedil;a enorme<br \/>\n    subitamente aparecida, a considerar baldos todos os esfor&ccedil;os.<\/p>\n<p> A minha decis&atilde;o de tra&ccedil;ar um di&aacute;rio encolhia-se, bambeava,<br \/>\n    sem nenhum est&iacute;mulo fora ou dentro. Os fatos, repisados, banalizavam-se.<br \/>\n    Apenas quatro ou cinco sobressa&iacute;am, mas, ao dar-lhes forma, vi-os reduzidos,<br \/>\n    insignificantes. Dif&iacute;cil enxertar neles alguma circunst&acirc;ncia<br \/>\n    que lhes desse relevo e brilho: sa&iacute;am naturalmente apagados, chatos<br \/>\n    e irremedi&aacute;veis. Prosa de noticiarista vagabundo. Trope&ccedil;os horr&iacute;veis<br \/>\n    para alinhavar um simples coment&aacute;rio. Ora coment&aacute;rio! Se at&eacute;<br \/>\n    a narra&ccedil;&atilde;o e o di&aacute;logo emperravam, certo n&atilde;o me<br \/>\n    iria meter em funduras. Havia chumbo na minha cabe&ccedil;a. E eu imaginara<br \/>\n    fabricar uma novela na cadeia, devagar, com m&eacute;todo, p&aacute;gina hoje,<br \/>\n    p&aacute;gina amanh&atilde;. Lembrava-me da opini&atilde;o lida anos antes<br \/>\n    sobre a arte dos criminosos, arte ruim. E vinham-me d&uacute;vidas. Seriam<br \/>\n    essas criaturas naturalmente insens&iacute;veis, brutas, lerdas? Talvez o<br \/>\n    c&aacute;rcere lhes roubasse as energias, embotasse a intelig&ecirc;ncia e<br \/>\n    a sensibilidade.<\/p>\n<h3>13<\/h3>\n<p>DEBRU&Ccedil;ADO &agrave; janela interna, vi Sebasti&atilde;o Hora e o advogado<br \/>\n    Nunes Leite deixarem a sala, atravessarem o p&aacute;tio, entrarem numa esp&eacute;cie<br \/>\n    de secretaria, &agrave; esquerda. O primeiro ia bastante preocupado e n&atilde;o<br \/>\n    me avistou; o segundo chorava. Estranhei novamente a frieza de Hora, a indiferen&ccedil;a<br \/>\n    ao aceno que lhe fiz, mas logo desviei a aten&ccedil;&atilde;o para o homem<br \/>\n    que o acompanhava. Passou a um metro de dist&acirc;ncia e pude observ&aacute;-lo.<br \/>\n    Eu nunca havia notado coisa assim, nem imaginava que algu&eacute;m chorasse<br \/>\n    daquela maneira. Para bem dizer n&atilde;o havia l&aacute;grimas: era um borbot&atilde;o<br \/>\n    a rolar no rosto, a cair na roupa, como se torneiras &iacute;ntimas se houvessem<br \/>\n    relaxado, quisessem derramar todo o l&iacute;quido do corpo. A luz forte do<br \/>\n    sol, o jato brilhava. Nenhum pudor, nem o gesto maquinal de p&ocirc;r as m&atilde;os<br \/>\n    na cara, tentar esconder a imensa fraqueza. Um solu&ccedil;o, &uacute;nico<br \/>\n    solu&ccedil;o, uivo rouco; n&atilde;o subia nem descia; enquanto durou a passagem<br \/>\n    ressoou mon&oacute;tono, invari&aacute;vel: parecia que o homem n&atilde;o<br \/>\n    tomava f&ocirc;lego.<\/p>\n<p> Essa imagem de completo desespero me causou sombrio mal-estar. Desapareceu<br \/>\n    e algum tempo o desgra&ccedil;ado queixume ainda me feriu os ouvidos, e diante<br \/>\n    dos olhos me ficou a m&aacute;scara luminosa, que semelhava t&ecirc;nue camada<br \/>\n    de parafina. N&atilde;o evitei uma sensa&ccedil;&atilde;o de repugn&acirc;ncia<br \/>\n    e desprezo: dif&iacute;cil supor uma criatura humana a acovardar-se de semelhante<br \/>\n    jeito. Em seguida modifiquei e venci a rea&ccedil;&atilde;o molesta e acusei-me<br \/>\n    de precipita&ccedil;&atilde;o: Nunes Leite devia estar doente, devia ser doente.<br \/>\n    N&atilde;o era sen&atilde;o isso. O len&ccedil;ol de &aacute;gua a correr<br \/>\n    como fonte e o brado lamentoso indicavam desequil&iacute;brio, pois n&atilde;o<br \/>\n    havia raz&atilde;o para tais excessos. Obrigavam-nos ao repouso, impossibilitavam-nos<br \/>\n    qualquer a&ccedil;&atilde;o considerada prejudicial &agrave; ditadura. S&oacute;.<br \/>\n    Injusti&ccedil;a dizer que procediam duramente conosco. Tratavam-nos at&eacute;<br \/>\n    muito bem. Excetuando-se a amea&ccedil;a de fuzilamento, reduz&iacute;vel,<br \/>\n    com esfor&ccedil;o e boa vontade, a um conselho en&eacute;rgico, f&oacute;rmula<br \/>\n    viva para nos reeducar, tudo corria numa chatea&ccedil;&atilde;o razo&aacute;vel.<br \/>\n    As caretas da sentinela, o servi&ccedil;o do faxina, o alimento desenxabido<br \/>\n    na hora certa, idas e vindas de oficiais no alpendre, os toques da corneta,<br \/>\n    as vozes de comando. Tudo se mexia como impulsionado por um aparelho de rel&oacute;gio,<br \/>\n    de algum modo nos mecanizava, tornava inconceb&iacute;vel aquela manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de dor furiosa. Anulando a sensaboria da caserna, as visitas de capit&atilde;o<br \/>\n    Lobo nos mergulhavam numa onda de calor humano. Da janela do p&aacute;tio,<br \/>\n    muitas vezes o v&iacute;amos descer os degraus de cimento, entrar no c&aacute;rcere<br \/>\n    vizinho. Com certeza a&iacute; gastaria meia hora nas suas viagens de cinco<br \/>\n    passos, desdobraria mon&oacute;logos sisudos, agitaria a piteira, firme e<br \/>\n    condescendente.<\/p>\n<p> N&atilde;o concordo com as suas id&eacute;ias, mas respeito-as. Vinha-me<br \/>\n    ao esp&iacute;rito a figura inquieta de Sebasti&atilde;o Hora, a desenvolver,<br \/>\n    loquaz, as suas convic&ccedil;&otilde;es moderadas de presidente da Alian&ccedil;a<br \/>\n    Nacional Libertadora em Alagoas. A um canto, o advogado Nunes Leite se encolhia,<br \/>\n    isento de pensar, surdo &agrave; bondade &aacute;spera do capit&atilde;o.<br \/>\n    Nem percebera a roupa de cama e as toalhas que ele mandara trazer. Um pobre<br \/>\n    vivente cheio de pavor. Ouvira falar decerto em fuzilamento, sentira as balas<br \/>\n    penetrarem-lhe a carne tr&ecirc;mula, o desmaiado cora&ccedil;&atilde;o. Agora,<br \/>\n    envolto em fria mortalha de medo, perdera a consci&ecirc;ncia, era um fantasma<br \/>\n    choroso e autom&aacute;tico, sem dignidade.<\/p>\n<p> Tive pena. Porque martirizavam aquele homem, santo Deus? Realmente n&atilde;o<br \/>\n    martirizavam, mas se o olhassem de perto, conhecer-lhe-iam o pavor, a morte<br \/>\n    na alma. Duas ou tr&ecirc;s palavras r&aacute;pidas, a baldea&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o cheiro da caserna, a cor das paredes, ordens r&aacute;pidas, sinais impercept&iacute;veis,<br \/>\n    tinham ocasionado um desmoronamento. Isso pouco influ&iacute;a em tipos ordin&aacute;rios,<br \/>\n    mas desconchavava nervos demasiado sens&iacute;veis. Enfim deviam perceber<br \/>\n    que estavam praticando uma iniq&uuml;idade: o bacharel Nunes Leite n&atilde;o<br \/>\n    suportava a cadeia. Horr&iacute;vel sujeitar-se ao mesmo regime naturezas<br \/>\n    diversas. Capit&atilde;o Mata nada sofria. Findos os sobressaltos produzidos<br \/>\n    pela corneta, manifestava alegria, dedicava-se a exerc&iacute;cios de composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    liter&aacute;ria, referia-se, ligeiramente vaidoso, aos meses de est&aacute;gio<br \/>\n    no Rio, recitava-me sonetos e nenhuma preocupa&ccedil;&atilde;o lhe diminu&iacute;a<br \/>\n    o apetite voraz. Diante do tabuleiro, expandia-se &agrave; vontade, como se<br \/>\n    estivesse em casa, e o tique nervoso dava-lhe apar&ecirc;ncia estranha. O<br \/>\n    riso lhe aprofundava uma ruga, e vinha-me a impress&atilde;o de que ele se<br \/>\n    achava ao mesmo tempo zangado e satisfeito. Riso severo, en&eacute;rgico.<br \/>\n    Em contraste, ali perto, um pobre ser esmagado, avizinhando-se da loucura.<br \/>\n    Um longo terror, um longo pranto, um longo gemido. Arrepiava-me comparando<br \/>\n    os dois, notando a ligeira puni&ccedil;&atilde;o de um e o tremendo castigo<br \/>\n    do outro. A administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica n&atilde;o atenta nessas<br \/>\n    ninharias, tende a uniformizar as pessoas. Somos gr&atilde;os que um moinho<br \/>\n    tritura e ningu&eacute;m quer saber se resistimos &agrave; m&oacute; ou se<br \/>\n    nos pulverizamos logo.<\/p>\n<p> Finda a repuls&atilde;o causada por aquele desabamento, pus-me a refletir<br \/>\n    s&eacute;rio na origem dele. Covardia apenas, doen&ccedil;a? Talvez houvesse<br \/>\n    ali coisa mais grave: a repentina supress&atilde;o de uma certeza, mergulho<br \/>\n    na treva, impossibilidade de achar qualquer luz. O advogado Nunes Leite impetrara<br \/>\n    h&aacute;beas corpus a favor de alguns presos pol&iacute;ticos. Vistas as<br \/>\n    raz&otilde;es, etc., o juiz lan&ccedil;ara no requerimento uma penada benigna.<br \/>\n    Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, fugira, os suplicantes mofavam &agrave; sombra<br \/>\n    e Nunes Leite, embrulhado, necessitava habeas-corpus. Recurso in&uacute;til,<br \/>\n    evidentemente: agora a toga n&atilde;o se arriscaria, considerando isto ou<br \/>\n    aquilo, a assinar um mandado de soltura. Seria irris&oacute;rio pretender<br \/>\n    ela mandar qualquer coisa, mas essa reviravolta desorientava uma alma serena,<br \/>\n    habituada &agrave; peti&ccedil;&atilde;o, &agrave; audi&ecirc;ncia, ao despacho.<br \/>\n    Certo as ordens sempre tinham sido aparentes: a judicatura servia de espantalho,<br \/>\n    e na farda havia muque bastante para desobedi&ecirc;ncia. Apenas isto n&atilde;o<br \/>\n    convinha. E os atores representavam seus pap&eacute;is, &agrave;s vezes se<br \/>\n    identificavam com eles. A repeti&ccedil;&atilde;o de min&uacute;cias, a sisudez,<br \/>\n    a lentid&atilde;o, a redund&acirc;ncia, a l&iacute;ngua arcaica davam &agrave;quilo<br \/>\n    um ar de velhice e estabilidade. E Nunes Leite se sentia bem requerendo ao<br \/>\n    poder competente, ao colendo tribunal, ao merit&iacute;ssimo juiz. Se essas<br \/>\n    coisas se houvessem dissolvido aos poucos, ele se acomodaria a novas formalidades<br \/>\n    legais, dirigir-se-ia a for&ccedil;as diversas, merit&iacute;ssimas e colendas.<br \/>\n    Isto n&atilde;o se dera. Nunes Leite se movera entre firmes pedregulhos, julgara-os<br \/>\n    eternos; esses blocos n&atilde;o se haviam liquefeito: tinham-se evaporado<br \/>\n    e ele se achava num deserto. A estampilha, a f&oacute;rmula, as raz&otilde;es,<br \/>\n    necessidades venerandas, sumiam-se. Isto o desvairava. Uma prepot&ecirc;ncia<br \/>\n    desabusada surgira e alu&iacute;am muralhas de papel. Como seria poss&iacute;vel<br \/>\n    viver se se afastavam da vida o embargo, a dilig&ecirc;ncia, a precat&oacute;ria?<br \/>\n    Como admitir o desrespeito a uma senten&ccedil;a? Quebra dos valores mais<br \/>\n    altos, cataclismo. Todos os caminhos fechados. E o infeliz solu&ccedil;ava,<br \/>\n    no desabamento da sua profiss&atilde;o. Imposs&iacute;vel defender o direito<br \/>\n    de algu&eacute;m. Propriamente, j&aacute; n&atilde;o havia direito. A lei<br \/>\n    fora transgredida, a lei velha e sonolenta, im&oacute;vel carrancismo exposto<br \/>\n    em duros volumes redigidos em l&iacute;ngua morta. Em substitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a isso, impunha-se uma lei verbal e m&oacute;vel, indiferente aos textos,<br \/>\n    caprichosa, sujeita a erros, interesses e paix&otilde;es. E depois? Que viria<br \/>\n    depois? O caos, provavelmente. Se os defensores da ordem a violavam, que dev&iacute;amos<br \/>\n    esperar? Confus&atilde;o e ru&iacute;na. Desejando atacar a revolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    na verdade trabalhavam por ela. Era por isso talvez que o bacharel Nunes Leite<br \/>\n    chorava.<\/p>\n<h3>14<\/h3>\n<p>MANDARAM-ME comparecer na sala &agrave; esquerda, situada em frente ao c&aacute;rcere<br \/>\n    de Sebasti&atilde;o Hora e Nunes Leite. Vesti-me &agrave; pressa, num minuto<br \/>\n    me achei no p&aacute;tio, amarrando a gravata, dirigi-me ao lugar que, por<br \/>\n    falta de termo pr&oacute;prio, batizei como uma esp&eacute;cie de secretaria.<br \/>\n    Entrei atarantadamente e divisei, no topo de uma mesa coberta de pap&eacute;is,<br \/>\n    um mo&ccedil;o de farda. J&aacute; me ia habituando aos distintivos: apesar<br \/>\n    de confuso, examinei as estrelas e percebi um capit&atilde;o. Ofereceu-me<br \/>\n    uma cadeira, estendeu-me um envelope. Para que sentar-me, se apenas viera<br \/>\n    ali receber a correspond&ecirc;ncia? Desejei agradecer e conservar-me de p&eacute;,<br \/>\n    mas a semana de perman&ecirc;ncia naquele meio j&aacute; me havia feito compreender<br \/>\n    que tais recusas significavam indisciplina. Executei o movimento exigido,<br \/>\n    recebi a carta, ia met&ecirc;-la no bolso e levantar-me quando o rapaz me<br \/>\n    deteve com um gesto:<\/p>\n<p> Sou for&ccedil;ado a pedir-lhe que abra o envelope na minha presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Perd&atilde;o, perd&atilde;o, murmurei atrapalhado, recebendo a esp&aacute;tula<br \/>\n    que ele me entregou. Sem d&uacute;vida.<\/p>\n<p> Obedeci, apresentei-lhe a folha de papel Tomou-a, virou rapidamente para<br \/>\n    cima o lado branco, escondendo as letras. Volveu igualmente para o dorso algumas<br \/>\n    fotografias que se espalharam na mesa e desviou discretamente os olhos:<\/p>\n<p> Estou satisfeito. Desculpe. &Eacute; uma formalidade. Ergui-me, retirei-me<br \/>\n    com agradecido espanto, a duvidar um pouco dos olhos e dos ouvidos. Esquisito.<br \/>\n    Era realmente levar muito longe o ramerr&atilde;o obrigar um sujeito a fazer<br \/>\n    qualquer coisa e logo afirmar que aquilo n&atilde;o tinha valor, era uma exig&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave;-toa. Desperd&iacute;cio de tempo. Com semelhante proceder, chegar&iacute;amos<br \/>\n    a supor que ali n&atilde;o havia ocupa&ccedil;&atilde;o e se desmandavam inutilmente.<br \/>\n    Quereriam apenas dar-me a entender que me poderiam obrigar a comportar-me<br \/>\n    desta ou daquela maneira, sentar-me ou levantar-me. romper ou deixar intacto<br \/>\n    um sobrescrito? N&atilde;o, seria um jogo tolo de gato com rato. Um gesto<br \/>\n    blandicioso de pata macia me indicava uma cadeira; de repente uma garra cor-de-rosa<br \/>\n    surgia na flacidez am&aacute;vel: Sou for&ccedil;ado a pedir-lhe .. Desculpe<br \/>\n    &Eacute; uma formalidade. Aquilo n&atilde;o me entrava no entendimento. Poderiam<br \/>\n    julgar que no quadril&aacute;tero de vinte cent&iacute;metros, de espessura<br \/>\n    insignificante, houvesse armas, dinamite ou veneno, disfar&ccedil;ados numa<br \/>\n    escrita e em peda&ccedil;os de cart&atilde;o? Se o bilhete e os retratos n&atilde;o<br \/>\n    despertavam curiosidade, parecia-me desnecess&aacute;rio exibi-los. Com tais<br \/>\n    exig&ecirc;ncias burocr&aacute;ticas desarrazoadas, a censura degenerava.<br \/>\n    Depois de tudo, ficava-me a certeza de que o funcion&aacute;rio dela incumbido<br \/>\n    era pessoa muito am&aacute;vel. Isto e nada mais.<\/p>\n<p> Fa&ccedil;a o favor de sentar-se. Bem. Estou satisfeito. Desculpe. Formalidade.<\/p>\n<p> Boa educa&ccedil;&atilde;o, perfeitamente, mas seria mais compreens&iacute;vel<br \/>\n    que ela se aplicasse em cargo produtivo. Daquele jeito, podiam fazer-me supor<br \/>\n    que lhe davam fun&ccedil;&atilde;o parasit&aacute;ria. Embora o meu ju&iacute;zo<br \/>\n    n&atilde;o tivesse ali nenhum valor, o fato permanecia, e quem o observasse<br \/>\n    concordaria comigo. Quase me agastava por n&atilde;o ter o homem visto o recado<br \/>\n    de minha mulher, olhado as caras distantes que ela me enviava pelo correio.<br \/>\n    Nenhum dano me causaria tomarem conhecimento de algumas p&aacute;ginas destinadas<br \/>\n    a jornal ou revista de Buenos Aires. Talvez houvesse uma inconfess&aacute;vel<br \/>\n    e besta vaidade nisso, talvez o desejo pusil&acirc;nime de mostrar que ali<br \/>\n    nada havia de comprometedor. N&atilde;o tive, por&eacute;m, consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de semelhantes baixezas e menciono-as como possibilidades. Sei l&aacute; o<br \/>\n    que se passava no meu interior? Dif&iacute;cil sermos imparciais em casos<br \/>\n    desse g&ecirc;nero; naturalmente propendemos a justificar-nos, e &eacute;<br \/>\n    o exame do procedimento alheio que &agrave;s vezes revela as nossas mis&eacute;rias<br \/>\n    &iacute;ntimas, nos faz querer afastar-nos de n&oacute;s mesmos, desgostosos,<br \/>\n    nos incita &agrave; corre&ccedil;&atilde;o aparente. Na verdade, vigiando-me<br \/>\n    sem cessar, livrava-me de exibir sentimentos indignos. Afirmaria, por&eacute;m,<br \/>\n    que eles n&atilde;o existiam? Tudo l&aacute; dentro &eacute; confuso, amb&iacute;guo,<br \/>\n    contradit&oacute;rio, s&oacute; os atos nos evidenciam, e surpreendemo-nos,<br \/>\n    quando menos esperamos, fazendo coisas e dizendo palavras que nos horrorizam.<br \/>\n    De fato ainda n&atilde;o me assaltara o medo, faltava raz&atilde;o para isto;<br \/>\n    vinha-me, por&eacute;m, &agrave;s vezes o receio de experiment&aacute;-lo.<br \/>\n    Sensa&ccedil;&atilde;o angustiosa e absurda: medo de sentir medo. Aparentemente<br \/>\n    nada nos amea&ccedil;a, estamos calmos; s&uacute;bito nos chega uma inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que nos domina, cresce e nos d&aacute; suores frios: Se um perigo surgir,<br \/>\n    de que modo me comportarei? Reagirei como um sujeito decente ou sucumbirei,<br \/>\n    tr&ecirc;mulo e acanalhado? Resistimos a essa dolorosa incerteza fingindo<br \/>\n    seguran&ccedil;a, que realmente conseguimos obter, falamos &agrave; toa, largamos<br \/>\n    opini&otilde;es temer&aacute;rias. Baz&oacute;fias. Pouco importa que nos<br \/>\n    julguem nocivos e nos conservem no isolamento. As nossas cogita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    afastam-se da&iacute;, t&ecirc;m sentido muito diverso: Revelei acaso fraqueza,<br \/>\n    conformismo? Pensar&atilde;o que me quero vender? Essa prostitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nos aterroriza e o terror nos for&ccedil;a a proceder de maneira razo&aacute;vel.<br \/>\n    Capit&atilde;o Lobo &eacute; homem direito. Bem. Ficar&iacute;amos com ele<br \/>\n    se as nossas id&eacute;ias n&atilde;o brigassem com as dele. Mas quais s&atilde;o<br \/>\n    as id&eacute;ias de capit&atilde;o Lobo? Temos certo n&uacute;mero de id&eacute;ias,<br \/>\n    firmes, e recusamos f&oacute;rmulas desacreditadas. Boas h&aacute; um s&eacute;culo,<br \/>\n    hoje nada valem. Vendo-o, escutando-o, precisamos saber que ele est&aacute;<br \/>\n    do outro lado e &eacute; conseq&uuml;entemente um inimigo. Percebendo-lhe<br \/>\n    a retid&atilde;o, ficamos em guarda.<\/p>\n<p> Certo n&atilde;o refleti nisso ao voltar da secretaria, vendo nos cart&otilde;es<br \/>\n    as figuras de pessoas de minha fam&iacute;lia e inteirando-me de not&iacute;cias<br \/>\n    r&aacute;pidas. O conto, vagabundo e mal escrito, havia sido enviado a Benjamin<br \/>\n    Garay, que, francamente, eu nem sabia quem era. Um indiv&iacute;duo que se<br \/>\n    oferecera para lan&ccedil;ar na Argentina neg&oacute;cios do Brasil. Quem<br \/>\n    diabo seria Benjamin Garay? Amolava-me em cartas am&aacute;veis, mas agora,<br \/>\n    se me visse a olhar a sentinela, as duas pe&ccedil;as de artilharia que adornavam<br \/>\n    o port&atilde;o, deixaria de escrever-me. prudente e encolhido. Referia-se<br \/>\n    a tradutores qualificados, supondo-me talvez bicho razo&aacute;vel, propenso<br \/>\n    &agrave; gl&oacute;ria, &agrave; Academia. Certamente a pris&atilde;o suprimiria<br \/>\n    Garay, os tipos qualificados, etc. Isso passara despercebido ao capit&atilde;o<br \/>\n    que me afastara minutos antes com um gesto am&aacute;vel: Formalidade. Porque<br \/>\n    era que ele havia procedido assim? Julgar-me-ia uma natureza pl&aacute;stica,<br \/>\n    mold&aacute;vel por qualquer pol&iacute;tico, qualquer general? Devia ser<br \/>\n    isso. Provavelmente n&atilde;o houvera ali somente a repeti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    enfadonha de gestos convencionais e palavras burocr&aacute;ticas. Percebera<br \/>\n    em mim um sujeito da sua classe, desviado, facilmente convers&iacute;vel,<br \/>\n    e resolvera ser cort&ecirc;s. A promessa de fuzilamento n&atilde;o era aplic&aacute;vel<br \/>\n    &agrave; situa&ccedil;&atilde;o: nem podia simular autoridade para semelhante<br \/>\n    exagero. Assim, enquanto eu me confundia, manejando a esp&aacute;tula, ele<br \/>\n    me observava, considerava-me inofensivo, provavelmente complicado por engano,<br \/>\n    indigno de fiscaliza&ccedil;&atilde;o. Se houvesse notado um gesto suspeito,<br \/>\n    n&atilde;o afetaria condescend&ecirc;ncia: leria o papel, atento, rigoroso,<br \/>\n    buscando prop&oacute;sitos reservados nas mais simples not&iacute;cias. Nada.<br \/>\n    Afastara os olhos, num desinteresse quase humilhante. Eu n&atilde;o era capaz<br \/>\n    de jogar bombas, sublevar quart&eacute;is. Estava ali apenas para dar ao burgu&ecirc;s<br \/>\n    a impress&atilde;o de que havia muitos elementos perniciosos e o capital corria<br \/>\n    perigo.<\/p>\n<h3>15<\/h3>\n<p>CERTO dia capit&atilde;o Lobo me comunicou: O senhor viaja amanh&atilde;.<\/p>\n<p> Para onde?<\/p>\n<p> Hesitou um instante e respondeu: N&atilde;o sei.<\/p>\n<p> Depois corrigiu:<\/p>\n<p> N&atilde;o posso responder.<\/p>\n<p> Diga ao menos se &eacute; para o norte ou para o sul. Recusou-me a informa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e logo sugeriu:<\/p>\n<p> Veja a lista dos navios e o destino, homem. Abra um jornal.<\/p>\n<p> Muito obrigado. Enfim para qualquer parte vou bem. O que desejo &eacute;<br \/>\n    ir-me embora.<\/p>\n<p> O oficial encarou-me ressentido:<\/p>\n<p> N&atilde;o devia falar desse jeito. O senhor aqui.tem amigos. Desculpe,<br \/>\n    capit&atilde;o. Ofendi-o sem querer. Mas esse plural vem fora de prop&oacute;sito.<\/p>\n<p> Ao cabo de alguns minutos, a conversa findou com uma proposta que me assombrou,<br \/>\n    ainda me enche de espanto. N&atilde;o a mencionaria se, anos atr&aacute;s,<br \/>\n    num encontro inesperado, o homem estranho, j&aacute; coronel grisalho, n&atilde;o<br \/>\n    a confirmasse, vago e indiferente, enquanto me censurava por me haverem fugido<br \/>\n    da mem&oacute;ria as roupas de cama e as toalhas Sem esse depoimento, n&atilde;o<br \/>\n    me abalan&ccedil;aria a narrar o caso singular. Dif&iacute;cil acreditarem<br \/>\n    nele, e talvez eu pr&oacute;prio chegasse a convencer-me de que tinha sido<br \/>\n    v&iacute;tima de uma ilus&atilde;o. Tento reproduzi-lo, ainda receoso, perguntando<br \/>\n    a mim mesmo se se deu aquela inverossimilhan&ccedil;a. Cumpridas algumas formalidades,<br \/>\n    capit&atilde;o Lobo despediu-se. Ao sair, estacou junto &agrave; mesa:<\/p>\n<p> Ia-me esquecendo: quero fazer-lhe um pedido. Estranhei: n&atilde;o me achava<br \/>\n    em condi&ccedil;&otilde;es de ser-lhe &uacute;til em coisa nenhuma. Hesitou<br \/>\n    um instante e jogou-me de chofre este discurso:<\/p>\n<p> Bem. O tempo &eacute; curto para explica&ccedil;&otilde;es e cerim&ocirc;nias.<br \/>\n    Trata-se disto: eu pus a&iacute; num banco algumas economias que n&atilde;o<br \/>\n    me fazem falta por enquanto. Ignoro as suas posses, mas sei que foi demitido<br \/>\n    inesperadamente. Caso as suas condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o sejam boas,<br \/>\n    eu lhe mostro daqui a pouco uma caderneta, o senhor p&otilde;e num cheque<br \/>\n    a import&acirc;ncia que necessita, eu assino e &agrave; tarde venho trazer-lhe<br \/>\n    o dinheiro. Conv&eacute;m?<\/p>\n<p> Pedido realmente curioso: nunca me passara pela cabe&ccedil;a que algu&eacute;m<br \/>\n    pudesse faz&ecirc;-lo. Perturbei-me em excesso e no primeiro momento nem pude<br \/>\n    responder: tive a impress&atilde;o de que me estavam a mistificar, julguei-me<br \/>\n    objeto de uma pilh&eacute;ria cruel. Pouco a pouco me desengasguei, consegui<br \/>\n    enfim murmurar uma recusa chocha e um agradecimento r&aacute;pido e sumido:<\/p>\n<p> N&atilde;o preciso. Estou bem. Muito obrigado.<\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o me convencia de que o rapaz falara s&eacute;rio, a mesquinha<br \/>\n    id&eacute;ia do logro continuava a perseguir-me.<\/p>\n<p> N&atilde;o lhe estou oferecendo dinheiro, bradou capit&atilde;o Lobo, adivinhando-me<br \/>\n    talvez o sentimento infeliz. N&atilde;o se oferece dinheiro a homem. Estou<br \/>\n    facilitando-lhe um empr&eacute;stimo. E n&atilde;o &eacute; l&aacute; grande<br \/>\n    coisa, as minhas reservas s&atilde;o pequenas. Se aceita, o senhor mesmo determina,<br \/>\n    v&ecirc; quanto lhe posso emprestar. Naturalmente n&atilde;o h&aacute; prazo:<br \/>\n    paga-me l&aacute; fora quando se libertar. Sai logo, isso n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de ser nada. Tamb&eacute;m j&aacute; estive preso e vivi no ex&iacute;lio:<br \/>\n    viajei num por&atilde;o de S&atilde;o Paulo &agrave; Europa.<\/p>\n<p> Foi pouco mais ou menos o que ele me disse. Tornei a agradecer e a recusar,<br \/>\n    as orelhas em fogo, na tremenda confus&atilde;o que me causava a enorme surpresa.<br \/>\n    Teria realmente ouvido bem aquelas palavras? Apesar de se haverem prolongado<br \/>\n    longos instantes, entre pausas e gestos en&eacute;rgicos, n&atilde;o me decidia<br \/>\n    a admiti-las; de fato eram claras, irrecus&aacute;veis, mas nos &uacute;ltimos<br \/>\n    dias ia-me habituando a perceber coisas aparentemente destitu&iacute;das de<br \/>\n    senso Achava-me atordoado, como se tivesse recebido um murro na cabe&ccedil;a,<br \/>\n    e s&oacute; sabia repetir as mesmas frases curtas e insossas:<br \/>\n    Estou bem, n&atilde;o falta nada. Ora essa! Muito obrigado. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    necess&aacute;rio.<\/p>\n<p> Horr&iacute;vel mal-estar, o desejo in&uacute;til de arrancar do interior<br \/>\n    qualquer coisa, evitar ao homem a deplor&aacute;vel impress&atilde;o que naturalmente<br \/>\n    lhe causava. Pedia a Deus que ele se retirasse logo, pusesse termo &agrave;<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o embara&ccedil;osa. Deixar-lhe-ia recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    infeliz, sem d&uacute;vida. Grosseiro, descort&ecirc;s. Nem me ocorria um<br \/>\n    lugar-comum besta, recurso entorpecedor. Freq&uuml;entemente me surgiam na<br \/>\n    alma sulcos negros, hiatos, e as id&eacute;ias se embaralhavam, a fala esmorecia,<br \/>\n    tr&ocirc;pega; havia agora, por&eacute;m, espessa n&eacute;voa e, atrav&eacute;s<br \/>\n    dela, muito longe, uma figura confusa a apertar-me rijo a m&atilde;o, a desaparecer<br \/>\n    no alpendre, com certeza julgando-me est&uacute;pido e ingrato. E achei-me<br \/>\n    s&oacute;: a presen&ccedil;a do meu companheiro n&atilde;o diminuiu a solid&atilde;o;<br \/>\n    algum coment&aacute;rio dele acaso feito sobre aquela derradeira visita passou<br \/>\n    despercebido. Das afirma&ccedil;&otilde;es do oficial uma, exposta dias consecutivos,<br \/>\n    verrumava-me o esp&iacute;rito, fora do assunto principal:<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; de ser nada,<\/p>\n<p> Isto se repetira muitas vezes, tornara-se um refr&atilde;o, intercalava-se.<br \/>\n    entre dois per&iacute;odos afastados, e, habituando-me &agrave;s palestras,<br \/>\n    era-me poss&iacute;vel adivinhar, pelo movimento da pitei ra, interrup&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da marcha no soalho, simples mover de bei&ccedil;as, que um sil&ecirc;ncio<br \/>\n    iria quebrar-se deste jeito:<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; de ser nada.<\/p>\n<p> Pouco me importava realmente o futuro, mas a alegre confian&ccedil;a, a<br \/>\n    am&aacute;vel insinua&ccedil;&atilde;o de coragem, fazia-me sentir uma firmeza<br \/>\n    absurda. Mais absurda era aquela oferta largada ali de chofre, da mesa para<br \/>\n    a janela, da janela para a mesa, sem aviso, sem prepara&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Considerei-a devagar, tentando recompor-me. Bem. Surgira como fato ordin&aacute;rio,<br \/>\n    entre gestos vulgares, no mesmo tom de voz com que, ainda na v&eacute;spera,<br \/>\n    se emitiam conceitos mais ou menos agrestes sobre a quest&atilde;o social.<br \/>\n    Aparentemente n&atilde;o diferia dos sucessos normais: um ligeiro par&ecirc;ntese,<br \/>\n    logo encerrado, e regressamos &agrave; vida comum. Vinte e quatro horas depois<br \/>\n    me enviariam para lugar distante, e o meu interlocutor pensaria no regulamento,<br \/>\n    no of&iacute;cio, na ordem do dia. Esquecer-nos-&iacute;amos, era como se<br \/>\n    nunca nos houv&eacute;ssemos visto. Cada qual para o seu lado. tratando de<br \/>\n    neg&oacute;cios diferentes, alimentando esperan&ccedil;as diferentes. Uma<br \/>\n    proposi&ccedil;&atilde;o insensata encaixada em di&aacute;logo curto Apenas.<br \/>\n    Conseguiria, por&eacute;m, desembara&ccedil;ar-me dela, mistur&aacute;-la<br \/>\n    &agrave;s amofina&ccedil;&otilde;es da cadeia, aos toques de corneta e &agrave;<br \/>\n    vig&iacute;lia da sentinela, recuperar, depois de solto, os pequenos t&eacute;dios<br \/>\n    e as pequenas alegrias, completamente livre? N&atilde;o. Decerto n&atilde;o<br \/>\n    me libertaria de todo. J&aacute; ali come&ccedil;ava a sentir uma nova pris&atilde;o,<br \/>\n    mais s&eacute;ria que a outra, a confundir-me terrivelmente as id&eacute;ias.<br \/>\n    N&atilde;o imaginara poder testemunhar semelhante a&ccedil;&atilde;o. Pessimismo?<br \/>\n    De forma nenhuma. N&atilde;o supunha os homens bons nem maus: julgava-os sofr&iacute;veis,<br \/>\n    pouco mais ou menos razo&aacute;veis, naturalmente escravos dos seus interesses.<br \/>\n    Sem d&uacute;vida: uma raz&atilde;o mi&uacute;da, vari&aacute;vel com as circunst&acirc;ncias<br \/>\n    e o ego&iacute;smo natural: dormir, comer, amar, reproduzir-se; um pouco acima<br \/>\n    disto, avaliar quadros e livros, inspirar respeito, mandar.<\/p>\n<p> Ora, a minha observa&ccedil;&atilde;o daquela manh&atilde; era desarrazoada<br \/>\n    e prejudicial ao seu agente. Isto me causava dolorosa surpresa: chocava exames<br \/>\n    anteriores, contradizia opini&otilde;es firmes e experimentei uma sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    molesta, devo ter involuntariamente malsinado a criatura que me abalava. Era<br \/>\n    poss&iacute;vel ent&atilde;o algu&eacute;m proceder de tal maneira? Porqu&ecirc;?<br \/>\n    N&atilde;o conseguia orientar-me, agarrar um m&oacute;vel qualquer, justificar<br \/>\n    o disparate. Sem d&uacute;vida um homem que resolvia prejudicar-se em benef&iacute;cio<br \/>\n    de um estranho n&atilde;o estava no seu ju&iacute;zo perfeito. Razo&aacute;vel,<br \/>\n    normal, n&atilde;o me comportaria nunca de tal modo. N&atilde;o me comportaria?<br \/>\n    Nem sequer imaginava que algu&eacute;m pudesse ter aquele procedimento. E<br \/>\n    chocava-me em demasia ver a insensatez realizada por um cavalheiro grave afeito<br \/>\n    &agrave; regra, de aspereza firme e autorit&aacute;ria. Realmente nem me dera<br \/>\n    a impress&atilde;o de oferecer: parecera determinar, comandar: a proposta<br \/>\n    louca tinha fei&ccedil;&atilde;o de ordem. Resguardara-me, &eacute; claro.<br \/>\n    Estava certo de que me seria imposs&iacute;vel readaptar-me l&aacute; fora,<br \/>\n    achar trabalho, eximir-me da terr&iacute;vel d&iacute;vida. N&atilde;o me<br \/>\n    sobrecarregaria com tal peso, ainda que me privasse de cigarros. De forma<br \/>\n    nenhuma, por&eacute;m, me considerava livre: uma id&eacute;ia nova me verrumava,<br \/>\n    brigava com outras id&eacute;ias, e isto era intoler&aacute;vel. A quanto<br \/>\n    subiria o empr&eacute;stimo? Pouco importava saber. Pequeno ou grande, consumado<br \/>\n    ou n&atilde;o, abalava-me no&ccedil;&otilde;es que pareciam seguras. Porque<br \/>\n    se tinha dado aquilo? Se eu vestisse farda, pensasse em conformidade com o<br \/>\n    regulamento, andasse olhando vinte passos em frente, vertical, na cad&ecirc;ncia<br \/>\n    um, dois, um, dois, o caso teria explica&ccedil;&atilde;o, duvidosa, mas enfim<br \/>\n    poderia ter explica&ccedil;&atilde;o. As conveni&ecirc;ncias de um grupo social<br \/>\n    conduzem &agrave;s vezes um indiv&iacute;duo a sacrif&iacute;cios. Eu n&atilde;o.<br \/>\n    vestia farda, esquecera a ex&iacute;gua disciplina formal e desatenta adquirida<br \/>\n    em alguns meses, varrera da mem&oacute;ria alguns conceitos mal entrevistos,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o saberia desmontar as pe&ccedil;as de um fuzil, ensurdecera<br \/>\n    ao mais simples toque de corneta e, enquanto o oficial rigoroso, de vinco<br \/>\n    na testa e olho fixo, media com pernadas iguais metade da sala, arriava-me<br \/>\n    bambo junto &agrave; mesa, firmava-me ora numa perna, ora noutra, o espinha&ccedil;o<br \/>\n    curvo.<\/p>\n<p> Capit&atilde;o Lobo usava uma l&iacute;ngua diferente da minha e enquanto<br \/>\n    repisava o discurso, martelando a express&atilde;o, limitava-me a ati&ccedil;ar<br \/>\n    o mon&oacute;logo com alguma frase desfavor&aacute;vel, sorrir, contrari&aacute;-lo<br \/>\n    com movimentos de cabe&ccedil;a. N&atilde;o me ocorrera apoi&aacute;-lo. Aceitava-lhe<br \/>\n    um reparo e negava a conclus&atilde;o. Natural que ele me odiasse. Est&aacute;vamos<br \/>\n    em p&oacute;los opostos, era como se pertenc&ecirc;ssemos a esp&eacute;cies<br \/>\n    diversas. Esp&eacute;cies diversas? Isto n&atilde;o &eacute; uma raz&atilde;o.<br \/>\n    Gostamos de um gato, de um cachorro, de um papagaio, mas n&atilde;o suportar&iacute;amos<br \/>\n    esses bichos se eles pensassem de maneira diferente da nossa. Sei bem que<br \/>\n    sou il&oacute;gico, pois o pensamento &eacute; conseq&uuml;&ecirc;ncia; a<br \/>\n    conseq&uuml;&ecirc;ncia tornou-se causa, leva-me a proceder desta ou daquela<br \/>\n    maneira, desejar mortandades. Se o capitalista fosse um bruto, eu o toleraria.<br \/>\n    Aflige-me &eacute; perceber nele uma intelig&ecirc;ncia, uma intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    safada que aluga outras intelig&ecirc;ncias canalhas. Esfor&ccedil;o-me por<br \/>\n    alinhavar esta prosa lenta, sair&aacute; da&iacute; um lucro, embora escasso<br \/>\n    e este lucro fortalecer&aacute; pessoas que tentam oprimir-me. &Eacute; o<br \/>\n    que me atormenta. N&atilde;o &eacute; o fato de ser oprimido: &eacute; saber<br \/>\n    que a opress&atilde;o se erigiu em sistema. O general manifestara desgosto<br \/>\n    por n&atilde;o poder fuzilar-me: revelara fraqueza. Se ele embirrasse comigo<br \/>\n    e quisesse matar-me, comportar-se-ia animalmente, honestamente. N&atilde;o<br \/>\n    embirrara, deixara-se levar por informa&ccedil;&otilde;es, obedecera &agrave;s<br \/>\n    conveni&ecirc;ncias da classe detestada. Tinha uma consci&ecirc;ncia, e isto<br \/>\n    nos incompatibilizava. Era ineg&aacute;vel, por&eacute;m, que ele procedia<br \/>\n    conseq&uuml;entemente e n&atilde;o devia espantar-me. Numa explos&atilde;o<br \/>\n    de franqueza, expusera um intuito irrealiz&aacute;vel certamente escondido<br \/>\n    em numerosos esp&iacute;ritos.<\/p>\n<p> N&atilde;o achar&iacute;amos em capit&atilde;o Lobo semelhante candura.<br \/>\n    Pessoa educada, embora vivendo a aspereza da caserna, abafaria prop&oacute;sitos<br \/>\n    violentos: queria talvez ver-me fuzilado sem espalhafato. Improv&aacute;vel<br \/>\n    achar disposi&ccedil;&otilde;es diversas num militar, esteio da ordem. Generais<br \/>\n    e capit&atilde;es com certeza julgariam indispens&aacute;veis a r&aacute;pida<br \/>\n    senten&ccedil;a obscura, o pelot&atilde;o f&uacute;nebre, um corpo a cair<br \/>\n    junto a um muro. Iniq&uuml;idade? N&atilde;o se trata disso. O exemplo &eacute;<br \/>\n    necess&aacute;rio, a pris&atilde;o serve de prova, pelo menos &eacute; ind&iacute;cio<br \/>\n    forte, e a opini&atilde;o p&uacute;blica se contenta com as apar&ecirc;ncias.<br \/>\n    Infelizmente n&atilde;o havia a pena de morte e o general se lastimava por<br \/>\n    n&atilde;o conseguir us&aacute;-la a torto e a direito. Aquela derradeira<br \/>\n    entrevista me desconcertava. Contentar-me-ia se percebesse no capit&atilde;o<br \/>\n    Lobo indiferen&ccedil;a. As vezes ela nos chega como um favor. Se um indiv&iacute;duo<br \/>\n    est&aacute; em condi&ccedil;&otilde;es de nos causar dano e passa distra&iacute;do,<br \/>\n    finge n&atilde;o nos enxergar, revela boa &iacute;ndole e agradecemos a desaten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Esfor&ccedil;amo-nos por tornar-nos impercept&iacute;veis: s&oacute; assim<br \/>\n    temos probabilidade de evitar perigos. N&atilde;o me havia esquivado. Ouvira<br \/>\n    os solil&oacute;quios do capit&atilde;o e discordara; censuras imprecisas<br \/>\n    tinham ficado sem resposta. Como n&atilde;o se formulava acusa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    regular, era imposs&iacute;vel defender-me; pusilanimidade in&uacute;til viver<br \/>\n    a declarar-me v&iacute;tima; em conseq&uuml;&ecirc;ncia encorpavam suspeitas<br \/>\n    vagas, talvez me responsabilizassem pelos motins do ano anterior.<\/p>\n<p> Pois no momento de se despedir o homem seco me lan&ccedil;ava a proposta<br \/>\n    alarmante. N&atilde;o me cansava de examin&aacute;-la, revir&aacute;-la por<br \/>\n    todos os lados, sem alcan&ccedil;ar entrever nela vest&iacute;gio de senso<br \/>\n    comum. Um cidad&atilde;o aparentemente normal decidia ferir os seus interesses<br \/>\n    e, coisa mais grave, os interesses da sua classe, envoltos em mantos sagrados.<br \/>\n    Obrigara-se a defender isso, por meios pac&iacute;ficos ou com armas. Em tempo<br \/>\n    ordin&aacute;rio bastavam as paradas, tanques a rolar, discursos patri&oacute;ticos,<br \/>\n    exibi&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a; se, apesar de tudo, surgiam descontentamentos,<br \/>\n    alguns sacrif&iacute;cios se tornavam indispens&aacute;veis. O general estava<br \/>\n    certo. Para isso n&oacute;s lhe pag&aacute;vamos. Sem d&uacute;vida, arruinando<br \/>\n    os m&uacute;sculos ou espremendo o c&eacute;rebro, larg&aacute;vamos a contribui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    d&aacute;vamos sangue ao Estado, &agrave; tropa. E n&atilde;o dev&iacute;amos<br \/>\n    esperar procedimento diverso.<\/p>\n<p> Capit&atilde;o Lobo, portanto, fugia ao preceito. De certo modo havia no<br \/>\n    caso uma esp&eacute;cie de deser&ccedil;&atilde;o. Imposs&iacute;vel explic&aacute;-la.<br \/>\n    Se ele condenava as minhas id&eacute;ias, sem conhec&ecirc;-las direito, porque<br \/>\n    me trazia aquele apoio incoerente? Insol&ecirc;ncia e brutalidade com certeza<br \/>\n    me ati&ccedil;ariam &oacute;dio, mas seriam compreens&iacute;veis, e nada<br \/>\n    pior que nos encontrarmos diante de uma situa&ccedil;&atilde;o inexplic&aacute;vel.<br \/>\n    Admitimos certo n&uacute;mero de princ&iacute;pios, julgamo-los firmes, notamos<br \/>\n    de repente uma falha neles e as coisas n&atilde;o se passam como hav&iacute;amos<br \/>\n    previsto: passam-se de modo contr&aacute;rio. A exce&ccedil;&atilde;o nos<br \/>\n    atrapalha, temos de reformar julgamentos. Qual seria a raz&atilde;o daquilo?<br \/>\n    Afinal aceitamos as defec&ccedil;&otilde;es. Conflitos internos, zangas, ressentimentos<br \/>\n    levam muitas vezes um indiv&iacute;duo a combater os amigos da v&eacute;spera.<br \/>\n    Dif&iacute;cil era conceber que algu&eacute;m se despojasse voluntariamente,<br \/>\n    em benef&iacute;cio de um advers&aacute;rio. Essa ren&uacute;ncia da propriedade<br \/>\n    me entontecia. Metemo-nos em briga pol&iacute;tica, afrontamos a pol&iacute;cia,<br \/>\n    berramos nos meetings e, se uma bala nos alcan&ccedil;a, arriamos na padiola,<br \/>\n    entramos no hospital, aos solavancos, possivelmente no cemit&eacute;rio. Est&aacute;<br \/>\n    certo. A nossa vida n&atilde;o tem muito valor, &agrave;s vezes se encrenca<br \/>\n    e desejamos a morte; faltando-nos coragem para o suic&iacute;dio, exibimos<br \/>\n    outra forma de coragem; queremos desaparecer: &eacute; uma perda individual.<br \/>\n    Mas ningu&eacute;m, de senso perfeito, joga fora os seus bens, pois nisto<br \/>\n    repousa o organismo social e o sacrif&iacute;cio constitui preju&iacute;zo<br \/>\n    coletivo. Afinal capit&atilde;o Lobo devia ser muito mais revolucion&aacute;rio<br \/>\n    que eu. Tinha-me alargado em conversas no caf&eacute;, dissera cobras e lagartos<br \/>\n    do fascismo, escrevera algumas hist&oacute;rias. Apenas. Conservara-me na<br \/>\n    superf&iacute;cie, nunca fizera &agrave; ordem ataque s&eacute;rio, realmente<br \/>\n    era um diletante.<\/p>\n<p> O oferecimento do oficial tinha sentido mais profundo: revelava talvez que<br \/>\n    a classe dominante come&ccedil;ava a desagregar-se, queria findar. N&atilde;o<br \/>\n    me chegavam, por&eacute;m, tais considera&ccedil;&otilde;es. Achava-me diante<br \/>\n    de uma incr&iacute;vel apostasia, n&atilde;o me cansava de admir&aacute;-la,<br \/>\n    arrumava no interior palavras de agradecimento que n&atilde;o tinha sabido<br \/>\n    expressar. Realmente a desgra&ccedil;a nos ensina muito: sem ela, eu continuaria<br \/>\n    a julgar a humanidade incapaz de verdadeira nobreza. Eu passara a vida a considerar<br \/>\n    todos os bichos ego&iacute;stas e ali me surgia uma sensibilidade curiosa,<br \/>\n    diferente das outras, pelo menos uma nova aplica&ccedil;&atilde;o do ego&iacute;smo,<br \/>\n    vista na f&aacute;bula, mas nunca percebida na realidade. Para descobri-la<br \/>\n    n&atilde;o era muito ag&uuml;entar algumas semanas de cadeia. Seriam apenas<br \/>\n    algumas semanas?<\/p>\n<p> O tempo corria; a sentinela continuava firme, encostada ao fuzil; agora<br \/>\n    me comunicavam de supet&atilde;o uma viagem. De qualquer forma valia a pena<br \/>\n    a experi&ecirc;ncia. O diabo &eacute; que, se me decidisse a narrar por mi&uacute;do<br \/>\n    a conversa do capit&atilde;o, tachar-me-iam de fantasista. Ou dar-me-iam cr&eacute;dito<br \/>\n    indiv&iacute;duos que andassem no mundo da lua, idiotas Ou rom&acirc;nticos.<\/p>\n<h3>16<\/h3>\n<p>CAPIT&Atilde;O Mata consultou o jornal, estudou o movimento do porto e decidiu<br \/>\n    que viajar&iacute;amos para o sul. Insensatez. Tinham-nos jogado para o norte;<br \/>\n    de repente, sem raz&atilde;o conceb&iacute;vel, atiravam-nos em sentido contr&aacute;rio.<br \/>\n    Corridas de autom&oacute;vel, doze horas a rolar num trem, quinze dias de<br \/>\n    repouso for&ccedil;ado para ouvir as amea&ccedil;as de um general. E meia-volta:<br \/>\n    andar para o sul, depois de ter andado para o norte. Aus&ecirc;ncia de interrogat&oacute;rio,<br \/>\n    nenhum vest&iacute;gio de processos. Porque se comportavam daquele jeito?<br \/>\n    Pareciam querer apenas demonstrar-nos que podiam deixar-nos em repouso, em<br \/>\n    seguida enviar-nos para um lado ou para outro. Exatamente como se estac&aacute;ssemos<br \/>\n    no exerc&iacute;cio militar, depois volv&ecirc;ssemos &agrave; direita ou<br \/>\n    &agrave; esquerda, em obedi&ecirc;ncia &agrave; voz do instrutor. Porque a<br \/>\n    direita? Porque &agrave; esquerda? O sargento n&atilde;o sabe: indicou uma<br \/>\n    dire&ccedil;&atilde;o por ser preciso variar: fazia dois minutos que march&aacute;vamos<br \/>\n    em linha reta e n&atilde;o dev&iacute;amos continuar assim, indefinidamente.<br \/>\n    Haver&aacute; proceder mais est&uacute;pido? Est&uacute;pido, na verdade.<br \/>\n    Mas n&atilde;o tencionam apenas revelar-nos a pr&oacute;pria estupidez: querem<br \/>\n    possivelmente for&ccedil;ar-nos a entender que nos podem tornar est&uacute;pidos,<br \/>\n    executar a&ccedil;&otilde;es in&uacute;teis, divagar como loucos, ir andando<br \/>\n    certo e sem mais nem mais torcer caminho, mergulhar os p&eacute;s num atoleiro.<br \/>\n    Um, dois, um, dois. Se as nossas cabe&ccedil;as funcionavam, &eacute; bom<br \/>\n    que deixem de funcionar e nos transformemos em aut&ocirc;matos: um, dois,<br \/>\n    um, dois. Dentro em pouco o sargento exigir&aacute; meia-volta e tornaremos<br \/>\n    um, dois, um, dois a meter os sapatos na lama. Ou reclamar&aacute; marcha<br \/>\n    acelerada. N&atilde;o perceberemos o sentido dela, naturalmente, mas teremos<br \/>\n    de execut&aacute;-la, pois isto &eacute; a nossa obriga&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Claro. N&atilde;o estamos aqui para discutir. Temos superiores, eles pensar&atilde;o<br \/>\n    por n&oacute;s. Talvez n&atilde;o pensem, mas &eacute; como se pensassem:<br \/>\n    as estrelas, a voz grossa, de papo, bobagens ditas a rep&oacute;rteres em<br \/>\n    doidas entrevistas, emprestam-lhes autoridade.<\/p>\n<p> Afinal &iacute;amos ser transferidos para o sul. Que lugar nos destinavam?<br \/>\n    Rio de Janeiro, Bahia, S&atilde;o Paulo? Ou qualquer cidadezinha do interior?<br \/>\n    Quando lhes desse na veneta, mandar-nos-iam fazer meia-volta, desembarcar-nos-iam<br \/>\n    no Amazonas, obrigar-nos-iam &agrave; conviv&ecirc;ncia dos jacar&eacute;s.<br \/>\n    Nenhuma l&oacute;gica nessas reviravoltas, nenhum senso. Arranha-c&eacute;us<br \/>\n    ou seringueiras e tartarugas. Est&uacute;pido. Nada nos chamava ali ou acol&aacute;.<br \/>\n    Os nossos interesses se fixavam no nordeste, o sangue e as observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    os filhos, a terra plana, poeirenta e infecunda. Tudo pobre. N&atilde;o seria<br \/>\n    mais conveniente obrigarem-nos a cavar a&ccedil;udes ou ensinar b&ecirc;-a-b&aacute;<br \/>\n    aos meninos empalamados? Os nossos m&uacute;sculos renderiam pouco, os nossos<br \/>\n    c&eacute;rebros entorpecidos eram como lim&otilde;es secos; com esfor&ccedil;o<br \/>\n    espremer&iacute;amos da carne e dos nervos alguma coisa e enfim ter&iacute;amos<br \/>\n    a certeza de n&atilde;o sermos uns miser&aacute;veis parasitas im&oacute;veis.<br \/>\n    Onde estava a nossa utilidade? Para que serv&iacute;amos? Saltar da cama pela<br \/>\n    manh&atilde;, escovar os dentes, pentear os cabelos, ouvir dois minutos, em<br \/>\n    p&eacute;, o interrogat&oacute;rio do comandante, dar as respostas adequadas;<br \/>\n    em seguida papaguear meia hora com o excelente capit&atilde;o Lobo, contrari&aacute;-lo.<br \/>\n    Que proveito achavam nisso? L&aacute; fora t&iacute;nhamos fun&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    represent&aacute;vamos de qualquer modo certo valor. Pelo menos julg&aacute;vamos<br \/>\n    representar. Agora nos faltava o m&iacute;nimo pr&eacute;stimo, e o pior &eacute;<br \/>\n    que sab&iacute;amos isto. Arrast&aacute;vamos as pernas ociosas; uma vez por<br \/>\n    dia deix&aacute;vamos a gaiola, um, dois, um, dois alcan&ccedil;&aacute;vamos<br \/>\n    o banheiro, o limite do mundo; regress&aacute;vamos &agrave; sonol&ecirc;ncia<br \/>\n    e &agrave; imobilidade. Conversas repetidas, gra&ccedil;as e anedotas repetidas,<br \/>\n    o abandono de h&aacute;bitos sociais indispens&aacute;veis. Permaneceremos<br \/>\n    civilizados vestindo pijama, cal&ccedil;ando chinelos, deixando a barba crescer,<br \/>\n    palitando os dentes com f&oacute;sforo? Pouco a pouco vamos caindo no relaxamento.<br \/>\n    Erguemos a voz, embrutecemos, involuntariamente expomos a rudeza natural.<br \/>\n    Ignoramos que isto acontece, suprimem-nos meios de compara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e quando voltarmos estaremos transformados. Afinal a transfer&ecirc;ncia n&atilde;o<br \/>\n    era ruim: quebrava a monotonia.<\/p>\n<p> Uma viagem ao sul por conta do governo. Quando me soltassem, ag&uuml;entar-me-ia<br \/>\n    na cidade grande, readaptar-me-ia, mudaria de of&iacute;cio no fim da vida.<br \/>\n    Afirmava isto a mim mesmo sem muita convic&ccedil;&atilde;o, tentando inocular-me<br \/>\n    gotas de confian&ccedil;a. Um governador de Alagoas me dissera anos atr&aacute;s:<br \/>\n    Voc&ecirc;. escrevendo literatura de fic&ccedil;&atilde;o, morre de fome.<br \/>\n    Os romances lhe render&atilde;o duzentos mil-r&eacute;is por m&ecirc;s. Fa&ccedil;a<br \/>\n    artigos sobre economia e ganhar&aacute; contos. &Eacute; verdade que esse<br \/>\n    amigo se dedicara &agrave; mamona, ao algod&atilde;o, &agrave;s galinhas,<br \/>\n    enchera com estat&iacute;stica diversas resmas e isto lhe trouxera escassa<br \/>\n    vantagem. N&atilde;o me capacitava de que as letras dele fossem bem pagas,<br \/>\n    na livraria ou no jornal, mas as minhas deviam ser mais baratas. Duzentos<br \/>\n    mil-r&eacute;is por m&ecirc;s, bela perspectiva. Dois romances quase desconhecidos,<br \/>\n    o terceiro in&eacute;dito, um conto, v&aacute;rios produtos inferiores de<br \/>\n    fato isso me daria duzentos mil-r&eacute;is mensais. E n&atilde;o me sentia<br \/>\n    capaz de progresso; talvez nem chegasse a fazer coisa igual. Esfor&ccedil;ava-me<br \/>\n    por julgar que a mudan&ccedil;a me desentorpeceria, me sacudiria. Ao cabo<br \/>\n    de vinte e quatro horas achar-me-ia alojado na segunda classe. Haviam-nos<br \/>\n    tratado bem at&eacute; aquele momento: o vag&atilde;o-restaurante da Great<br \/>\n    Western, autom&oacute;veis, uma pris&atilde;o de oficiais, gestos e palavras<br \/>\n    corteses. Era como se f&ocirc;ssemos sujeitos importantes. Mas certamente<br \/>\n    havia equ&iacute;voco na classifica&ccedil;&atilde;o: perceberiam que n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute;vamos no lugar pr&oacute;prio e mandar-nos-iam descer um degrau.<br \/>\n    Pensava assim e resistia em convencer-me de qualquer rebaixamento: nenhum<br \/>\n    motivo para n&atilde;o nos darem um camarote de primeira classe.<\/p>\n<p> As minhas reflex&otilde;es sobre esse ponto foram interrompidas por uma<br \/>\n    bola de papel que, arremessada por cima do tabique, veio cair no meio do quarto.<br \/>\n    Apanhamo-la, abrimo-la, desamarrotamo-la: uma carta enviada pelo oficial preso<br \/>\n    na saleta vizinha. Poder&iacute;amos dar resposta? Vieram-me escr&uacute;pulos:<br \/>\n    t&iacute;nhamos combinado, logo ao amanhecer da vida nova, n&atilde;o falar<br \/>\n    ao homem detido al&eacute;m da parede baixa, certamente cumprindo pena disciplinar.<br \/>\n    Nenhuma rela&ccedil;&atilde;o haveria entre n&oacute;s, claro: a promessa<br \/>\n    nada me custava. Ignorava o nome dele, a figura, o sentimento e o pensamento.<br \/>\n    Porque infringiria o conv&ecirc;nio? T&iacute;nhamos ficado em sil&ecirc;ncio<br \/>\n    duas semanas, indiferentes ao que sucedia ali perto, a alguns passos. S&uacute;bito<br \/>\n    nos chegava um apelo: algu&eacute;m sentia o peso da solid&atilde;o e, pressentindo<br \/>\n    a nossa partida, esvaziava o esp&iacute;rito numa folha de papel, desordenadamente.<br \/>\n    Numerosos lugares-comuns a respeito da liberdade. A que liberdade aludia Xavier?<br \/>\n    Era tenente do ex&eacute;rcito e chamava-se Xavier. Referir-se-ia &agrave;<br \/>\n    liberdade, em geral, ou pensaria na dele pr&oacute;prio, encolhida em alguns<br \/>\n    metros de soalho, olhos vigiando portas e janelas? A comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era bastante vaga. Relendo-a, julguei perceber que est&aacute;vamos embrulhados<br \/>\n    pelas mesmas raz&otilde;es. Desumanidade e grosseria deixar de enviar algumas<br \/>\n    linhas ao rapaz. Refletindo, lembrei-me de que n&atilde;o nos t&iacute;nhamos<br \/>\n    obrigado. Capit&atilde;o Lobo apenas afirmara que nos compromet&iacute;amos.<br \/>\n    Uma ordem, somente. Se decid&iacute;ssemos transgredi-la? De qualquer modo<br \/>\n    havia acordo t&aacute;cito e a&iacute; notei pela primeira vez um dos horrores<br \/>\n    sutis em que &eacute; f&eacute;rtil a cadeia: pretendem for&ccedil;ar-nos,<br \/>\n    sob palavra, a ser covardes. A princ&iacute;pio n&atilde;o distinguimos a<br \/>\n    cilada. Est&aacute; ali um sujeito com quem o senhor n&atilde;o se pode entender.<br \/>\n    Perfeitamente.&#038;8222; Aceitamos a imposi&ccedil;&atilde;o sem divisar nenhuma<br \/>\n    inconveni&ecirc;ncia. Mais tarde um infeliz nos abre a alma e hesitamos em<br \/>\n    solidarizar-nos com ele. Haver&aacute; maior covardia? Obedeceremos &agrave;<br \/>\n    frase a que n&atilde;o demos a necess&aacute;ria aten&ccedil;&atilde;o ou<br \/>\n    escutaremos a voz interior? Naquele caso, para ser franco, n&atilde;o existiu<br \/>\n    em mim voz interior. E, al&eacute;m da primeira interdi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    duas outras me vieram impossibilitar a correspond&ecirc;ncia com Xavier. Que<br \/>\n    esp&eacute;cie de resposta lhe daria? A literatura dele, confusa, estendia-se<br \/>\n    em conceitos banais, polvilhados de patriotismo. Naturalmente essa verbiagem<br \/>\n    n&atilde;o achava resson&acirc;ncia c&aacute; dentro, pois tenho horror aos<br \/>\n    patriotas, aos hinos e aos toques de corneta. Sem d&uacute;vida essas coisas<br \/>\n    s&atilde;o indispens&aacute;veis, por enquanto, mas isto n&atilde;o me levava<br \/>\n    a gostar delas. Horr&iacute;veis. Enorme pregui&ccedil;a me endurecia a munheca;<br \/>\n    a burrice persistia; des&acirc;nimo, longos bocejos; a leitura emperrava,<br \/>\n    entre cochilos; as observa&ccedil;&otilde;es das notas chochas pingavam a<br \/>\n    custo, pareciam mijadinhas blenorr&aacute;gicas. Ora, nesse estado, n&atilde;o<br \/>\n    me seria f&aacute;cil garatujar chav&otilde;es em bilhetes. O derradeiro impedimento<br \/>\n    se ligava &agrave; prud&ecirc;ncia. Quem seria Xavier? Segundo o escrito,<br \/>\n    um indiv&iacute;duo atrapalhado por ideais semelhantes aos meus. Mas esses<br \/>\n    ideais n&atilde;o se especificavam e talvez nem existissem nele.<\/p>\n<p> Existiriam em mim? N&atilde;o sou de ideais, aborre&ccedil;o empolas. O<br \/>\n    que eu desejava era a morte do capitalismo, o fim da explora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ideal? De forma nenhuma. Coisa inevit&aacute;vel e presente: o caruncho roia<br \/>\n    esteios e vigas da propriedade, de pouco serviam os meus livros e as divaga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Xavier. De qualquer maneira rebentaria uma revolu&ccedil;&atilde;o de todos<br \/>\n    os dem&ocirc;nios, ser&iacute;amos engolidos por ela. Haveria, por&eacute;m,<br \/>\n    a certeza de que o vizinho pensava nisso, esperava o cataclismo? N&atilde;o<br \/>\n    havia: tratava-se de um patriota, e essa gente me inspira desconfian&ccedil;a.<br \/>\n    Se o tenente estivesse ali para fiscalizar-me, apanhar-me em falta? Se lhe<br \/>\n    houvessem ditado a carta e aguardassem o nosso comportamento, al&eacute;m<br \/>\n    do tabique? Por esses motivos ou por outros ignorados, achava-me indisposto<br \/>\n    a confabular.<\/p>\n<p> Em capit&atilde;o Mata n&atilde;o havia os mesmos receios, as mesmas inibi&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Pessoa de caserna, devia saber que a ordem se contenta com as apar&ecirc;ncias.<br \/>\n    Se ele fosse apanhado em flagrante, certo n&atilde;o conseguiria eximir-se<br \/>\n    da culpa; operando &agrave; socapa, com m&atilde;o de gato, era como se a<br \/>\n    culpa n&atilde;o existisse. As obriga&ccedil;&otilde;es n&atilde;o passavam<br \/>\n    de formalidades: tolice exager&aacute;-las, transform&aacute;-las em casos<br \/>\n    de consci&ecirc;ncia. Al&eacute;m disso capit&atilde;o Mata escrevia com rapidez<br \/>\n    not&aacute;vel, admitia sem avers&atilde;o a prosa de Xavier e, usando linguagem<br \/>\n    mais ou menos correta, disfar&ccedil;ava perfeitamente a vacuidade dos per&iacute;odos<br \/>\n    sonoros. Afinal conhecia o rapaz, se n&atilde;o me engano, e o temor de perf&iacute;dia<br \/>\n    se eliminava. O certo &eacute; que abriu a mala, apanhou o bloco de papel<br \/>\n    e forjou uma regular mensagem, com boa dose de entusiasmo e civismo. Direitinho<br \/>\n    um orador de com&iacute;cio.<\/p>\n<p> Introduziu a lengalenga por baixo da porta. Minutos depois recebemos uma<br \/>\n    r&eacute;plica sem p&eacute; nem cabe&ccedil;a. E assim decorreu o dia: bilhetes<br \/>\n    de um lado para o outro. A sentinela se distra&iacute;a observando a inofensiva<br \/>\n    brincadeira. Se um intruso surgisse no alpendre, ela daria aviso. Evidentemente<br \/>\n    a proibi&ccedil;&atilde;o s&oacute; se fizera para ser violada.<\/p>\n<h3>17<\/h3>\n<p>CHAMARAM-NOS, ingressamos na confus&atilde;o dos corredores, subimos, descemos,<br \/>\n    viramos esquinas, chegamos ao port&atilde;o do quartel, juntamo-nos aos nossos<br \/>\n    vizinhos da pris&atilde;o dos sargentos. Apenas reconheci dois: Sebasti&atilde;o<br \/>\n    Hora, bastante apreensivo, e Manuel Leal, empregado no balc&atilde;o de d.<br \/>\n    Maroca Prado no meu tempo de col&eacute;gio, depois caixeiro-viajante, um<br \/>\n    rapaz moreno, de olhos vivos, arrasado em poucos anos. Essa criatura tivera<br \/>\n    neg&oacute;cio comigo em &eacute;poca de prosperidade; sumira-se e, ao cabo<br \/>\n    de longa aus&ecirc;ncia, reaparecia, com rugas e cabelos brancos, em medonha<br \/>\n    decad&ecirc;ncia, transportando a bagagem pesada. Examinei o resto do grupo,<br \/>\n    notei a falta do advogado Nunes Leite. Bem, certamente haviam percebido que<br \/>\n    a dureza do regime carcer&aacute;ria n&atilde;o convinha a natureza t&atilde;o<br \/>\n    sens&iacute;vel. Chamou-me a aten&ccedil;&atilde;o um negro coberto de calombos,<br \/>\n    que se espalhavam nas m&atilde;os, no rosto luzidio, davam ao sujeito a apar&ecirc;ncia<br \/>\n    de um p&eacute; de jabuticaba As outras figuras passaram despercebidas: com<br \/>\n    certeza me achava preocupado, incapaz de observar direito.<\/p>\n<p> A sa&iacute;da fizeram-nos entrar num caminh&atilde;o, onde se arrumavam<br \/>\n    caixotes, as nossas maletas, numerosos tro&ccedil;os mi&uacute;dos. Os oficiais,<br \/>\n    os autom&oacute;veis de luxo, as conversas am&aacute;veis tinham-se evaporado<br \/>\n    D&aacute;vamos um salto para baixo, sem d&uacute;vida, mas por muito que sondasse<br \/>\n    o terreno, n&atilde;o me era poss&iacute;vel adivinhar onde ir&iacute;amos<br \/>\n    cair. A nossa escolta se compunha de tipos silenciosos, mal-encarados. N&atilde;o<br \/>\n    vi as divisas do comandante; devia ser cabo: naquela mistura de homens, trouxas<br \/>\n    e caix&otilde;es, aos solavancos, espremidos como galinhas em jac&aacute;s,<br \/>\n    n&atilde;o ser&iacute;amos confiados a sargento. Alguns presos bazofiavam,<br \/>\n    riam, procurando ambientar-se; os risos e as baz&oacute;fias esmoreciam, sem<br \/>\n    resson&acirc;ncia, dominados pelo barulho do motor. as pilh&eacute;rias tinham<br \/>\n    estrid&ecirc;ncias l&uacute;gubres.<\/p>\n<p> Partimos. Ignoro se chegamos logo ao destino, se nos demoramos a rolar nas<br \/>\n    ruas estreitas, que n&atilde;o nos despertavam curiosidade. Certamente ningu&eacute;m<br \/>\n    se lembrava de observar o trajeto e consultar rel&oacute;gio. T&iacute;nhamos<br \/>\n    vivido num quartel do ex&eacute;rcito, separados: talvez nos houvessem oferecido<br \/>\n    tratamento diverso para semear disc&oacute;rdia. Reuniam-nos agora, transferiam-nos<br \/>\n    &agrave; pol&iacute;cia e os ressentimentos iam explodir. Devia ser essa a<br \/>\n    raz&atilde;o do afastamento, embora s&oacute; a tenhamos percebido muito depois.<br \/>\n    Naquela hora, sacolejados no carro de molas duras, entre fuzis amea&ccedil;adores<br \/>\n    e carrancas, &eacute;ramos um pequeno rebanho ap&aacute;tico. A vontade e<br \/>\n    o entendimento murchavam; ditos espa&ccedil;ados, vest&iacute;gios da ruidosa<br \/>\n    despreocupa&ccedil;&atilde;o do come&ccedil;o. soavam falso como rachar de<br \/>\n    vidros.<\/p>\n<p> Alcan&ccedil;amos o porto, descemos, segurando maletas e pacotes, alinhamo-nos<br \/>\n    e, entre filas de guardas, invadimos um navio atracado, percorremos o conv&eacute;s,<br \/>\n    chegamos ao escotilh&atilde;o da popa, mergulhamos numa escadinha. Tinha-me<br \/>\n    atarantado e era o &uacute;ltimo da fila. Ao pisar o primeiro degrau, senti<br \/>\n    um objeto ro&ccedil;ar-me as costas: voltei-me, dei de cara com um negro fornido<br \/>\n    que me dirigia uma pistola para-bellum. Busquei evitar o contato, desviei-me;<br \/>\n    o tipo avan&ccedil;ou a arma, encostou-me ao peito o cano longo, o dedo no<br \/>\n    gatilho. Certamente n&atilde;o dispararia &agrave; toa: a exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    besta de for&ccedil;a tinha por fim causar medo, radicalmente n&atilde;o diferia<br \/>\n    das amea&ccedil;as do general. Rid&iacute;culo e vergonhoso. Um instante duvidei<br \/>\n    dos meus olhos, julguei-me v&iacute;tima de alucina&ccedil;&atilde;o. O ferro<br \/>\n    tocava-me as costelas, impelia-me, os bugalhos vermelhos do miser&aacute;vel<br \/>\n    endureciam-se, est&uacute;pidos. Em casos semelhantes a surpresa nem nos deixa<br \/>\n    conhecer o perigo: experimentamos raiva fria e impotente, desejamos fugir<br \/>\n    &agrave; humilha&ccedil;&atilde;o e nenhuma sa&iacute;da nos aparece. Temos<br \/>\n    de morder os bei&ccedil;os e baixar a cabe&ccedil;a, engolir a afronta. Nunca<br \/>\n    nos vimos assim entalados, ainda na v&eacute;spera est&aacute;vamos longe<br \/>\n    de supor que tal fato ocorresse. O absurdo se realiza e n&atilde;o vamos discuti-lo.<br \/>\n    Irris&oacute;rio, na verdade. No atordoamento, no assombro imenso, temos a<br \/>\n    impress&atilde;o de que n&atilde;o nos toca a roupa um tubo de a&ccedil;o,<br \/>\n    mas um pouco de lama. Exatamente: lama. Aquilo decorreu num &aacute;pice:<br \/>\n    o tempo necess&aacute;rio para voltar-me, enxergar o instrumento, a cara tisnada<br \/>\n    e obtusa, procurar afugentar a intimida&ccedil;&atilde;o, verificar a inutilidade<br \/>\n    do gesto, virar-me de novo. Alguns segundos.<\/p>\n<p> Avancei, um bolo na garganta, o cora&ccedil;&atilde;o a estalar, venci a<br \/>\n    pequena dist&acirc;ncia que me separava dos companheiros. Chegamos ao fim<br \/>\n    da escada, paramos &agrave; entrada de um por&atilde;o, mas durante minutos<br \/>\n    n&atilde;o compreendi onde me achava. Espa&ccedil;o vago, de limites imprecisos,<br \/>\n    envolto em sombra leitosa. L&aacute; fora anoitecera; ali duvidar&iacute;amos<br \/>\n    se era dia ou noite. Havia luzes toldadas por espesso nevoeiro: uma escurid&atilde;o<br \/>\n    branca. Detive-me, piscando os olhos, tentando habituar a vista. Erguendo<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, via-me no fundo de um po&ccedil;o, enxergava estrelas altas,<br \/>\n    rostos curiosos, um plano inclinado, pr&oacute;ximo, onde se aglomeravam pol&iacute;cias<br \/>\n    e um negro continuava a dirigir-me a pistola. Era como se f&ocirc;ssemos gado<br \/>\n    e nos empurrassem para dentro de um banheiro carrapaticida. Resval&aacute;ramos<br \/>\n    at&eacute; ali, n&atilde;o pod&iacute;amos recuar, obrigavam-nos ao mergulho.<br \/>\n    Simples rebanho, apenas, rebanho gafento, na opini&atilde;o dos nossos propriet&aacute;rios,<br \/>\n    necessitando creolina. Os vaqueiros, armados e fardados, se impacientavam.<\/p>\n<p> Desviando-me deles, tentei sondar a bruma cheia de trevas luminosas. Id&eacute;ia<br \/>\n    absurda, que ainda hoje persiste e me parece razo&aacute;vel: trevas luminosas.<br \/>\n    Havia muitas l&acirc;mpadas penduradas no teto baixo, ali ao alcance da m&atilde;o,<br \/>\n    aparentemente, mas eram como luas de inverno, boiando na grossa neblina.<\/p>\n<p> Arrisquei alguns passos, maquinalmente, parei meio sufocado por um cheiro<br \/>\n    acre, forte, desagrad&aacute;vel, come&ccedil;ando a perceber em redor um<br \/>\n    indeciso fervilhar. Antes que isto se precisasse, confuso burburinho anunciou<br \/>\n    a multid&atilde;o que ali se achava. Agora j&aacute; n&atilde;o &eacute;ramos<br \/>\n    pequeno rebanho a escorregar num declive: constitu&iacute;amos boiada numerosa;<br \/>\n    &agrave; id&eacute;ia do banheiro carrapaticida sucedeu a de um vasto curral.<br \/>\n    Certa-mente a perturba&ccedil;&atilde;o visual durou um instante, mas ali<br \/>\n    de p&eacute;, sobra&ccedil;ando a valise, a abanar-me com o chap&eacute;u<br \/>\n    de palha, tentando reduzir o calor, afastar o cheiro horr&iacute;vel, mistura<br \/>\n    de suor e amon&iacute;aco, um pensamento me assaltou, fez-me perder a no&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do tempo. Que homens eram aqueles que se arrumavam encaixados, t&aacute;buas<br \/>\n    em cima, embaixo, &agrave; frente, &agrave; retaguarda, &agrave; esquerda,<br \/>\n    &agrave; direita? Imaginei-os criminosos e vagabundos. Os contornos das pessoas<br \/>\n    e das coisas lentamente se precisavam. Aglomera&ccedil;&atilde;o incalcul&aacute;vel,<br \/>\n    aglomera&ccedil;&atilde;o desordeira Uma figura am&aacute;vel vista de relance<br \/>\n    n&atilde;o abalou esta certeza O homem louro, tranq&uuml;ilo, gordinho, se<br \/>\n    levantou da rede, acolhedor, fumando cachimbo, disse-nos palavras que n&atilde;o<br \/>\n    entendi. Imposs&iacute;vel fixar a aten&ccedil;&atilde;o em qualquer ponto,<br \/>\n    a mem&oacute;ria se embotava, observa&ccedil;&otilde;es imperfeitas se atabalhoavam<br \/>\n    desconexas, deixando largos espa&ccedil;os obscuros. Outras pessoas me falaram,<br \/>\n    inutilmente. O cachimbo do homem louro trouxe-me ao esp&iacute;rito uma rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e contentou-me verificar que n&atilde;o me havia tornado completamente imbecil.<br \/>\n    A fuma&ccedil;a dos cachimbos e dos cigarros enchia o ar, produzia a garoa<br \/>\n    em que os focos luminosos nadavam. De repente ouvi gritos. Um rapaz veio l&aacute;<br \/>\n    do fundo, acercou-se dos policiais, gesticulando, esgoelando-se:<\/p>\n<p> Companheiros, v&atilde;o separar-nos. Desembarco. Se n&atilde;o nos tornarmos<br \/>\n    a ver, ficam voc&ecirc;s sabendo o lugar da minha morte. Adeus.<\/p>\n<p> Adeus, Valadares, responderam algumas vozes.<\/p>\n<p> O rapaz subiu a escada e sumiu-se. No calor horr&iacute;vel, senti um arrepio.<br \/>\n    Apesar da firmeza espetacular daquela despedida f&uacute;nebre, continuei<br \/>\n    a julgar que me haviam reunido a criminosos e instintivamente me achegava<br \/>\n    ao grupo escasso de alagoanos. S&oacute; havia ali duas pessoas conhecidas,<br \/>\n    as outras se dilu&iacute;am no fumaceiro, mas o transporte no caminh&atilde;o<br \/>\n    e o arremesso &agrave; furna medonha ligavam-nos em destino comum. Viv&ecirc;ramos<br \/>\n    uma quinzena pr&oacute;ximos e impossibilitados de comunicar; at&eacute; a<br \/>\n    sauda&ccedil;&atilde;o &agrave; passagem deles no alpendre ficava sem resposta.<br \/>\n    Imposs&iacute;vel identific&aacute;-los. Talvez me houvessem deixado no esp&iacute;rito<br \/>\n    sinais fision&ocirc;micos. N&atilde;o me capacitava disto, e apenas as jabuticabas<br \/>\n    esquisitas, as excresc&ecirc;ncias vistas uma hora antes tornavam reconhec&iacute;vel<br \/>\n    a cara inexpressiva do negro. Avan&ccedil;amos &agrave; toa, evitando corpos<br \/>\n    &uacute;midos. No zunzum de feira nenhuma frase percept&iacute;vel; os meus<br \/>\n    p&eacute;s machucavam coisas moles, davam-me a impress&atilde;o de pisar em<br \/>\n    lesmas. O terr&iacute;vel fedor sufocava-me, a quentura de fornalha punha-me<br \/>\n    brasas na pele, e a certeza de encontrar-me cercado de imund&iacute;cies levava-me<br \/>\n    a proteger a valise, resguard&aacute;-la debaixo do bra&ccedil;o. Ag&uuml;entar-me-ia<br \/>\n    em semelhante lugar? Conseguiria resistir?<\/p>\n<p> J&aacute; se viu numa situa&ccedil;&atilde;o como esta? Nunca, respondeu<br \/>\n    Mata furioso.<\/p>\n<p> Sempre manifestara despreocupa&ccedil;&atilde;o, afirmara que est&aacute;vamos<br \/>\n    bem e era tolice esperar coisa melhor, referira-se com min&uacute;cias a pris&otilde;es<br \/>\n    anteriores: nenhuma lhe havia deixado mossa. Vira-se em dificuldades s&eacute;rias,<br \/>\n    nada ignorava; nos momentos de aperto sabia tirar vantagem de insignific&acirc;ncias,<br \/>\n    mudava os obst&aacute;culos em . utilidades. Consultando-o, desejava certificar-me<br \/>\n    de que n&atilde;o havia motivo para alarme e o por&atilde;o ign&oacute;bil<br \/>\n    estava previsto. A negativa indignada acabava de aniquilar-me. Evidentemente<br \/>\n    eu n&atilde;o suportaria a temperatura de caldeira; sentia-me num banho a<br \/>\n    vapor, o colarinho empapava-se, a camisa aderia ao peito e &agrave;s costelas,<br \/>\n    as meias afundavam num charco ardente, do rosto ca&iacute;am gotas sem descontinuar.<br \/>\n    Abanava-me com o chap&eacute;u e arfava. N&atilde;o era a degrada&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    moral que me oprimia. Tinha capit&atilde;o Mata alcan&ccedil;ado bem a minha<br \/>\n    pergunta? A c&oacute;lera dele desalentava-me a nova interroga&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Nem me sentia humilhado, no atordoamento; n&atilde;o buscava saber se me restariam<br \/>\n    for&ccedil;as na alma dentro da realidade inconceb&iacute;vel. A alma fugia-me,<br \/>\n    na verdade, e inquietava-me adivinhar que a resist&ecirc;ncia f&iacute;sica<br \/>\n    ia abandonar-me tamb&eacute;m, de um momento para outro: jogar-me-ia sobre<br \/>\n    as t&aacute;buas sujas, acabar-me-ia aos poucos, respirando amon&iacute;aco,<br \/>\n    envolto em pestil&ecirc;ncias. Algumas horas depois atirar-me-iam na &aacute;gua<br \/>\n    o cad&aacute;ver. Inquirindo o oficial, pretendia insinuar-me coragem, supor,<br \/>\n    baseando-me na experi&ecirc;ncia alheia, que a vida ali era poss&iacute;vel.<br \/>\n    Experimentei com a resposta verdadeira decep&ccedil;&atilde;o, realmente insensata.<br \/>\n    Pois n&atilde;o via muitos indiv&iacute;duos, talvez centenas de indiv&iacute;duos,<br \/>\n    no curral flutuante? Escapou-me a observa&ccedil;&atilde;o e l&aacute; fui<br \/>\n    ziguezagueando num labirinto de redes, altas, baixas, do solo ao teto, a emaranhar-se,<br \/>\n    a balan&ccedil;ar com o movimento do navio.<\/p>\n<p> Algu&eacute;m cochichou-me, atraiu-me a um canto; ouvi o nome de Miguel<br \/>\n    Bezerra, um mo&ccedil;o de casquete, moreno e magro, que se p&ocirc;s a falar<br \/>\n    com abund&acirc;ncia. No come&ccedil;o n&atilde;o entendi o que ele dizia,<br \/>\n    recordo somente uma declara&ccedil;&atilde;o repetida:<\/p>\n<p> N&atilde;o somos comunistas.<\/p>\n<p> Bem, eu os supunha vagabundos; surgiam-me d&uacute;vidas agora.<\/p>\n<p> Donde v&ecirc;m os senhores?<\/p>\n<p> Tinham embarcado no Rio Grande do Norte. Mas n&atilde;o somos comunistas.<\/p>\n<p> Perfeitamente.<\/p>\n<p> Porque a insist&ecirc;ncia? Entrei a conversar e logo duas surpresas me<br \/>\n    assaltaram Miguel parecia alegre, as minhas palavras soavam-me aos ouvidos<br \/>\n    como se fossem pronuncia das por outra pessoa. Doidice rir em semelhante inferno.<br \/>\n    Ou ent&atilde;o me sensibilizara em demasia, os horrores que estivera a desenvolver<br \/>\n    tinham exist&ecirc;ncia fict&iacute;cia. Possivelmente o meu enj&ocirc;o e<br \/>\n    a raiva do capit&atilde;o Mata provinham da mudan&ccedil;a repentina: se nos<br \/>\n    houvessem feito percorrer escalas, n&atilde;o nos abalar&iacute;amos tanto.<br \/>\n    Lembro-me de ter afirmado isto mentalmente. De qualquer modo nos arranjar&iacute;amos,<br \/>\n    chegar&iacute;amos a um porto. Assim falava no interior e dizia coisas diferentes,:<br \/>\n    pausadas, maquinais; pareciam gravadas num disco de vitrola. Deviam ter significa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pois o di&aacute;logo se prolongou, mas n&atilde;o me seria poss&iacute;vel<br \/>\n    reproduzi-lo. A declara&ccedil;&atilde;o inicial voltava com freq&uuml;&ecirc;ncia:<br \/>\n    N&atilde;o somos comunistas.<\/p>\n<p> Porque inocentar-se? A certeza de que estavam ali os revoltosos de Natal<br \/>\n    acirrou-me a curiosidade, embora n&atilde;o me arriscasse a pedir informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ao desconhecido cauteloso.<\/p>\n<p> Duas mulheres achegaram-se, uma branca, nova, bonita, uma pequena cafuza<br \/>\n    de olhos espertos. Fiquei sabendo que a primeira se chamava Leonila e era<br \/>\n    casada com Epif&acirc;nio Guilhermino.<\/p>\n<p> Esta &eacute; a nossa amiga Maria Joana. Se o senhor tiver neg&oacute;cio<br \/>\n    com ela, pode procur&aacute;-la no camarote l&aacute; do fim. Maria Joana<br \/>\n    desdenhou a pilh&eacute;ria, sem se escandalizar, mostrou os dentes alvos,<br \/>\n    contraiu num sorriso infantil as p&aacute;lpebras obl&iacute;quas E afastaram-se<br \/>\n    em silencio. Em frente a uns beliches toscos haviam estendido cobertas, e<br \/>\n    ali as infelizes criaturas se torravam, no morma&ccedil;o invari&aacute;vel.<br \/>\n    Coitadas. Envergonhei-me do des&acirc;nimo que me invadira Notaria algu&eacute;m<br \/>\n    vest&iacute;gios dele?<\/p>\n<p> Uma dualidade, talvez efeito da cadeia, principiava a assustar-me: a voz<br \/>\n    e os gestos a divergir de sentimentos e id&eacute;ias c&aacute; dentro, uma<br \/>\n    confus&atilde;o, borbulhar de &aacute;gua a ferver Por fora, um sossego involunt&aacute;rio,<br \/>\n    frieza, quase indiferen&ccedil;a. A fala estranha me sa&iacute;a da garganta<br \/>\n    seca.<\/p>\n<h3>18<\/h3>\n<p>N&Atilde;O me ocorreu descansar: entregue a mim mesmo, teria passado a noite<br \/>\n    a vagar entre as redes como um son&acirc;mbulo, arriaria em qualquer parte,<br \/>\n    dormiria sentado.<\/p>\n<p> Ignoro quem me conseguiu alojamento numa esp&eacute;cie de jirau onde havia<br \/>\n    prateleiras. A minha ficava em cima. Aus&ecirc;ncia de colch&atilde;o, naturalmente.<br \/>\n    Subi, alonguei-me na t&aacute;bua suja, vestido e cal&ccedil;ado, fiz da valise<br \/>\n    travesseiro, deixei ao alcance da m&atilde;o o chap&eacute;u de palha, que<br \/>\n    me servira de leque. E entrei a fumar, ou antes continuei a fumar, pois desde<br \/>\n    a chegada n&atilde;o tirara o cigarro da boca. Por isso os bei&ccedil;os estavam<br \/>\n    gretados e a l&iacute;ngua ardia. N&atilde;o, n&atilde;o era por isso: era<br \/>\n    por causa da sede, que provavelmente durava horas e passara despercebida.<\/p>\n<p> Conveniente descer, andar &agrave; toa no por&atilde;o at&eacute; descobrir<br \/>\n    &aacute;gua, beber muito, mas a iniciativa fugira, nenhum est&iacute;mulo<br \/>\n    seria capaz de vencer a prostra&ccedil;&atilde;o. Em caso de inc&ecirc;ndio<br \/>\n    a bordo, nem sei se me decidiria a levantar os ossos bambos. A camisa e a<br \/>\n    cueca molhadas grudavam-se ao corpo, e a cal&ccedil;a e o palet&oacute; molhados<br \/>\n    colavam-se &agrave; madeira, dissolviam espessa crosta de imund&iacute;cie;<br \/>\n    despegando-me, afastando-me um pouco, deixava ao lado uma grande mancha escura.<br \/>\n    As gotinhas perversas animavam-me, corriam, fervilhavam-me como bichos mi&uacute;dos<br \/>\n    nas virilhas e no pesco&ccedil;o. Liquefazia-me, evaporava-me, reduzia-me<br \/>\n    a baga&ccedil;o, lim&atilde;o espremido. Enquanto estivera a mexer-me, de<br \/>\n    algum modo me integrara na turba, opera&ccedil;&otilde;es confusas se realizavam<br \/>\n    no meu c&eacute;rebro; agora as reduzidas associa&ccedil;&otilde;es mentais<br \/>\n    deixavam de produzir-se. E em redor tudo se paralisava.<\/p>\n<p> Nos cantos figuras indecisas se abatiam, como trouxas, e do ponto em que<br \/>\n    me achava n&atilde;o me era poss&iacute;vel distinguir o movimento leve das<br \/>\n    redes. Centenas de pulm&otilde;es opressos, ressonar dif&iacute;cil, perturbado<br \/>\n    por constante rumor de tosse. Punha-me a tossir tamb&eacute;m, erguia-me sufocado,<br \/>\n    em busca de ar, levantava os bra&ccedil;os e quase alcan&ccedil;ava o teto<br \/>\n    baixo, a tampa da nossa catacumba. Provavelmente o fumo agravava a dispn&eacute;ia;<br \/>\n    n&atilde;o me resolvia a deix&aacute;-lo, e como os f&oacute;sforos escasseassem,<br \/>\n    adotei o recurso de fumar sem intervalo, acendendo um cigarro no outro que<br \/>\n    se acabava.<\/p>\n<p> O sono fugia. Estirava-me, &agrave;s vezes me alheava em modorra agoniada:<br \/>\n    as coisas em redor sumiam-se, e apenas restava, aborrecedora, uma torpe vis&atilde;o.<br \/>\n    Aquilo era repugnante e descarado. Fechava os olhos, tornava a abri-los, cheio<br \/>\n    de raiva e nojo. Nessas r&aacute;pidas fugas o cigarro se apagava. Mais um<br \/>\n    f&oacute;sforo perdido; inquietava-me vendo a caixa esvaziar-se. Imposs&iacute;vel<br \/>\n    dormir e n&atilde;o conseguia despertar de todo e economizar o fogo. As comich&otilde;es<br \/>\n    seriam picadas de pulgas? Ou seriam efeito de ar que entrava pelas vigias<br \/>\n    e me salgava a pele queimada?<\/p>\n<p> A imagem repulsiva me atormentava: num estrado vizinho, inteiramente nu,<br \/>\n    um negro mo&ccedil;o arranhava os escrotos em sossego. Indignava-me; pragas<br \/>\n    interiores vinham &agrave; tona e eram engolidas; lampejos de bom-senso impediam-me<br \/>\n    gritar, pedir ao tipo que tomasse vergonha. Efetivamente eu n&atilde;o tinha<br \/>\n    o direito de reclamar: se estivesse dormindo, o caso, para bem dizer, n&atilde;o<br \/>\n    existiria. Que me importava a coceira do homem? Talvez ele padecesse dartros.<br \/>\n    S&atilde;o medonhos: em horas de aperto desejamos triturar, rasgar a carne,<br \/>\n    suprimir de qualquer jeito a coisa insuport&aacute;vel, transform&aacute;-la<br \/>\n    num farrapo ensang&uuml;entado. N&atilde;o, n&atilde;o era isso. O negro se<br \/>\n    co&ccedil;ava tranq&uuml;ilamente, como se ali n&atilde;o estivesse ningu&eacute;m,<br \/>\n    e obrigava-me a espi&aacute;-lo. Quando me determinava a fechar os olhos,<br \/>\n    os restos de personalidade se atropelavam, fugiam, no fervedouro interno se<br \/>\n    agitavam confus&otilde;es, a brasa do cigarro esmorecia, findava. Um sobressalto:<br \/>\n    necess&aacute;rio riscar outro f&oacute;sforo. Alarmava-me o desaparecimento<br \/>\n    deles. Seis, cinco, quatro, um somente. Conseguiria poup&aacute;-lo at&eacute;<br \/>\n    o amanhecer? N&atilde;o conseguiria. Ligeiras pausas, cochilos, nenhum meio<br \/>\n    de avaliar em que ponto da noite me achava. Os rel&oacute;gios me desagradam:<br \/>\n    em geral a marcha dos ponteiros, o tique-taque, a indicar a urg&ecirc;ncia<br \/>\n    de concluir um cap&iacute;tulo, me desarranjam o trabalho; assando, por&eacute;m,<br \/>\n    no horr&iacute;vel forno, em v&atilde;o tentava adivinhar, explorando os arredores,<br \/>\n    abrindo os ouvidos, o pingar lento dos minutos. Queimou-se o &uacute;ltimo<br \/>\n    f&oacute;sforo.<\/p>\n<p> Rumores vagos na coberta, dilu&iacute;dos nos tormentos da tosse, dos roncos<br \/>\n    agoniados. O pesadelo obsceno continuava a perseguir-me. O saco escuro, repuxado<br \/>\n    a unha, alongava-se; os test&iacute;culos grossos davam &agrave; porcaria<br \/>\n    o jeito de uma caba&ccedil;a de gargalo fino. Cachorro. Indignava-me como<br \/>\n    quando ou&ccedil;o garotos a assobiar num bonde, mas naquele momento experimentava<br \/>\n    indigna&ccedil;&atilde;o multiplicada. As min&uacute;cias ign&oacute;beis<br \/>\n    a cor, a forma, a transuda&ccedil;&atilde;o enfureciam-me contra mim mesmo.<br \/>\n    Quem me obrigava a fixar a aten&ccedil;&atilde;o nelas? Se me decidisse a<br \/>\n    virar a cabe&ccedil;a para os p&eacute;s da miser&aacute;vel cama, a coisa<br \/>\n    indigna e afrontosa se dissiparia, o embalo vagaroso das redes me ofereceria<br \/>\n    talvez algum sossego. Provavelmente n&atilde;o pensei nisso. E a fadiga terr&iacute;vel<br \/>\n    me segurava. O patife jazia a dois passos de mim, quase me tocava, e procedia<br \/>\n    como se estivesse inteiramente s&oacute;: a cara im&oacute;vel, a tromba ca&iacute;da,<br \/>\n    as p&aacute;lpebras meio cerradas, as pernas abertas e curvas, na posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma parturiente. N&atilde;o se notava ali desprezo &agrave; opini&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica: notava-se indiferen&ccedil;a perfeita. O animal nem tinha<br \/>\n    consci&ecirc;ncia de que nos ofendia. E os dedos esticavam sem cessar a pelanca<br \/>\n    tisnada. No clima de inferno tudo se evaporava e sentia-me sujo: certamente<br \/>\n    part&iacute;culas da imund&iacute;cie me alcan&ccedil;avam. O meu desejo era<br \/>\n    gritar inj&uacute;rias pesadas, finalizar por qualquer meio a s&oacute;rdida<br \/>\n    exposi&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o me atrevia a desabafar: o h&aacute;bito<br \/>\n    de coibir-me, a fraqueza, o cansa&ccedil;o amarravam-me e sobre o monturo<br \/>\n    oscilante o que de mim restava era um morno fastio, desejo de acabar-me.<\/p>\n<p> O cigarro apagou-se, levei ao bolso a m&atilde;o, inutilmente, alarguei<br \/>\n    a vista pelos beliches pr&oacute;ximos. Haveria ali n&aacute;useas tamb&eacute;m,<br \/>\n    repugn&acirc;ncias invenc&iacute;veis embrulhando est&ocirc;magos?<\/p>\n<p> Distingui confusamente rostos esmorecidos, prostra&ccedil;&otilde;es dolorosas.<br \/>\n    A vis&atilde;o que me atenazava nenhuma influ&ecirc;ncia exercia nos arredores;<br \/>\n    possivelmente cada um se reservava o direito de exibir sem pejo as suas mais<br \/>\n    secretas particularidades. Natural. N&atilde;o me resignava a isso, um &oacute;dio<br \/>\n    surdo me crescia na alma. Ao resf&ocirc;lego penoso, ao ru&iacute;do cavo<br \/>\n    da tosse, uniam-se gemidos, falas desconexas, arquejar de v&ocirc;mitos. Outras<br \/>\n    cenas descaradas estariam revolvendo v&iacute;sceras, manchando o soalho.<br \/>\n    Busquei em redor uma cara desperta, curvei-me, dirigi-me ao andar inferior<br \/>\n    do jirau<\/p>\n<p> Faz o obs&eacute;quio, de me emprestar uma caixa de f&oacute;sforos?<\/p>\n<p> Respondeu-me um grunhido, instantes depois um bra&ccedil;o curto se levantou,<br \/>\n    escuro, peludo. misericordioso: a r&aacute;pida tr&eacute;gua no v&iacute;cio<br \/>\n    ia-me alucinando. Restitu&iacute; os f&oacute;sforos:<\/p>\n<p> Muito obrigado<\/p>\n<p> O pensamento se obliterou, supondo que delirei, uni a minha voz &agrave;s<br \/>\n    divaga&ccedil;&otilde;es estertorosas dos prisioneiros. As sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    amorteceram e na aspereza de t&aacute;bua ficou um feixe de fibras secas.<br \/>\n    A l&iacute;ngua dura, l&iacute;ngua de papagaio, n&atilde;o mais se agitou,<br \/>\n    procurando umidade, os dentes deixaram de catar pel&iacute;culas nos bei&ccedil;os<br \/>\n    ardentes. E as figuras em roda aumentavam, diminu&iacute;am, aproximavam-se,<br \/>\n    afastavam-se, fundiam-se, desagregavam-se, numa dan&ccedil;a de fogos-f&aacute;tuos,<br \/>\n    isentas de significa&ccedil;&atilde;o. Somente os quibas do negro permaneciam<br \/>\n    inalter&aacute;veis, mas por fim deixaram de impressionar-me: vi-os como se<br \/>\n    visse um pouco de mat&eacute;ria inorg&acirc;nica. Susceptibilidades, retalhos<br \/>\n    de moral, delicadezas, pudores, se dilu&iacute;am; esfrangalhava-se a educa&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    imposs&iacute;vel manter-se ali.<\/p>\n<p> Faz o obs&eacute;quio de me dar f&oacute;sforos?<\/p>\n<p> Novamente se levantava o bra&ccedil;o curto, robusto, cabe&ccedil;udo em<br \/>\n    excesso.<\/p>\n<p> Muito obrigado.<\/p>\n<p> Seria razo&aacute;vel pedir ao sujeito invis&iacute;vel que me deixasse<br \/>\n    conservar a caixa de f&oacute;sforos. N&atilde;o me lembrei disto: devolvia-a,<br \/>\n    certo de que, acendendo um cigarro no outro, poderia dispens&aacute;-la. Ao<br \/>\n    cabo de meia hora l&aacute; estava a incomodar o vizinho. N&atilde;o reparei<br \/>\n    no ego&iacute;smo, na incivilidade que o procedimento revelava. Acordar algu&eacute;m<br \/>\n    v&aacute;rias vezes por uma bagatela, que estupidez! Sem d&uacute;vida eu<br \/>\n    me comportava pior que o negro: este apenas exibia o pelame nojento, n&atilde;o<br \/>\n    amolava as pessoas com exig&ecirc;ncias. Enfim naquele infame lugar todos<br \/>\n    nos importun&aacute;vamos. Os roncos, a tosse, borborigmos, vozes indistintas,<br \/>\n    v&ocirc;mitos eram incessantes. Acavalavam-se no espa&ccedil;o ex&iacute;guo<br \/>\n    camas e redes. E como o ar escasseava, a nossa respira&ccedil;&atilde;o constitu&iacute;a<br \/>\n    dano rec&iacute;proco. Est&aacute; a&iacute; o m&aacute;ximo requinte de perversidade,<br \/>\n    enquanto os verdugos repousam, as v&iacute;timas s&atilde;o for&ccedil;adas<br \/>\n    a afligir-se mutuamente.<\/p>\n<p> Por volta da madrugada uma id&eacute;ia me surpreendeu: imaginei-me louco.<br \/>\n    Chegar-me-iam realmente aos ouvidos os sons estranhos? Seriam verdadeiros<br \/>\n    os rostos brancos, em desalento, vermelhos, nas convuls&otilde;es da tosse,<br \/>\n    os vultos esmorecidos pelos cantos, cabe&ccedil;as erguendo-se &agrave; toa,<br \/>\n    desgovernadas, bocas escancarando-se no horror da sufoca&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Talvez me achasse de novo no hospital, com o ventre rasgado, a queimar de<br \/>\n    febre. Talvez me visse num manic&ocirc;mio, a criar fantasmas. A incerteza<br \/>\n    pouco a pouco esmoreceu convenci-me de que estava doido. Um doido manso, arriado<br \/>\n    numa t&aacute;bua, a confundir imagens e ru&iacute;dos. Provavelmente n&atilde;o<br \/>\n    me vestiriam camisa-de-for&ccedil;a. Recordei-me dos meus velhos amigos Chico<br \/>\n    de Beca e Argentina. Argentina desenvolvia hist&oacute;rias sisudas e explicava-me<br \/>\n    no fim: Isto se deu quando eu tinha ju&iacute;zo. Chico de Beca, em horas<br \/>\n    de maluquice aguda, considerava-se ap&oacute;stolo e dava-me o t&iacute;tulo<br \/>\n    de Jesus Cristo. Libertava-se da religi&atilde;o e volt&aacute;vamos a ser<br \/>\n    viventes ordin&aacute;rios. Reminisc&ecirc;ncias da juventude alarmavam-me.<br \/>\n    As cordiais rela&ccedil;&otilde;es com dementes agora me pareciam significativas:<br \/>\n    era poss&iacute;vel que houvesse entre n&oacute;s alguma semelhan&ccedil;a.<br \/>\n    Um doido l&uacute;cido.<\/p>\n<p> A preocupa&ccedil;&atilde;o encheu a madrugada longa. Que horas seriam?<br \/>\n    Faziam-me falta as pancadas de um rel&oacute;gio, os cantos de galos que me<br \/>\n    abrandavam as ins&ocirc;nias na minha casa de arrabalde. Esquisita insensatez.<br \/>\n    Achava-me a bordo, a vacilar numa t&aacute;bua estreita, e n&atilde;o queria<br \/>\n    persuadir-me disto. Como iria comportar-me? Extravagaria sem perder a mem&oacute;ria,<br \/>\n    diria ao concluir um disparate: Quando eu tinha ju&iacute;zo&#8230; <\/p>\n<p> Recusa dos fatos evidentes, sombras, lacunas, o esp&iacute;rito a divagar<br \/>\n    &agrave; toa; e o exame disto, a an&aacute;lise do desarranjo, a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que nos vamos achegando, passo a passo, da treva completa. O enj&ocirc;o<br \/>\n    me livraria da ang&uacute;stia, desejei experiment&aacute;-lo, desamparar-me<br \/>\n    como um saco vazio, eximir-me da consci&ecirc;ncia e ignorar que a perdia.<br \/>\n    Nada disso. Os olhos arregalados, sempre a fumar, serenamente. Absurdo. Havia<br \/>\n    uma queda, vertigem, torvelinho, que nenhum gesto revelava. Parecia-me observar<br \/>\n    o interior de outra pessoa. Julgo na verdade que estive doido. Nessa loucura<br \/>\n    fria indiv&iacute;duos e objetos dilu&iacute;ram-se, inconsistentes. E afinal<br \/>\n    apenas distingui um bra&ccedil;o escuro, cabeludo, grosso, um negro bestial,<br \/>\n    de focinho dormente, a co&ccedil;ar os escrotos.<\/p>\n<h3>19<\/h3>\n<p>SOMOS animais bem esquisitos. Depois daquela noite, o primeiro contato com<br \/>\n    a vida me provocou uma gargalhada. N&atilde;o o riso l&uacute;gubre dos doidos,<br \/>\n    manifesta&ccedil;&atilde;o ru&iacute;do sa e divertida, que me causava espanto<br \/>\n    e era imposs&iacute;vel conter. Foi este o caso. Logo ao clarear o dia, saltei<br \/>\n    do estrado, busquei o vizinho do compartimento inferior, para agradecer-lhe<br \/>\n    os f&oacute;sforos, e percebi um caboclo baixo, membrudo, hirsuto, a camisa<br \/>\n    de algod&atilde;o aberta, deixando ver um ros&aacute;rio de contas brancas<br \/>\n    e azuis misturadas &agrave; grenha que ornava o peito largo. Esse instrumento<br \/>\n    devoto me produziu a hilaridade:<\/p>\n<p> O senhor usa isso, companheiro?<\/p>\n<p> O sujeito endureceu a cara, deitou-me o rabo do olho, formalizou-se e grunhiu:<\/p>\n<p> Quando a nossa revolu&ccedil;&atilde;o triunfar, ateus assim como o senhor<br \/>\n    ser&atilde;o fuzilados.<\/p>\n<p> Esqueci os agradecimentos e afastei-me a rir, dirigi-me ao ponto onde, na<br \/>\n    v&eacute;spera, tinha ouvido o rapaz de casquete: esperava tornar a v&ecirc;-lo,<br \/>\n    pedir informa&ccedil;&otilde;es a respeito do estranho revolucion&aacute;rio.<br \/>\n    Logo soube que se chamava Jos&eacute; In&aacute;cio e era beato. Homem de<br \/>\n    religi&atilde;o, homem de fanatismo, desejando eliminar ateus, preso como<br \/>\n    inimigo da ordem. Contra-senso. Como diabo tinha ido ele parar ali? Vingan&ccedil;a<br \/>\n    mesquinha de pol&iacute;tico da ro&ccedil;a, den&uacute;ncia absurda, provavelmente<br \/>\n    e ali estava embrulhado um eleitor recalcitrante, devoto bisonho do padre<br \/>\n    C&iacute;cero. Com certeza havia outros inocentes na multid&atilde;o, de algumas<br \/>\n    centenas de pessoas.<\/p>\n<p> A luz do dia, v&aacute;rias figuras come&ccedil;avam a delinear-se, nomes<br \/>\n    pr&oacute;prios chegavam-me aos ouvidos, mas tudo se confundia e era-me imposs&iacute;vel<br \/>\n    distinguir Jo&atilde;o Anast&aacute;cio de Miguel Bezerra, duas criaturas<br \/>\n    muito diferentes. Miguel Bezerra, o mo&ccedil;o de casquete, exibia inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    constante no rosto fino como um focinho de rato; Jo&atilde;o Anast&aacute;cio<br \/>\n    tinha a cara im&oacute;vel, de m&uacute;mia cabocla: s&eacute;rio, os olhos<br \/>\n    mi&uacute;dos, parecia muito novo ou muito velho, n&atilde;o tinha idade.<br \/>\n    O primeiro se mexia demais e falava com exuber&acirc;ncia, desdizendo-se:<br \/>\n    falava como se quisesse inutilizar o efeito de palavras largadas inconsideradamente;<br \/>\n    o segundo me examinava em sil&ecirc;ncio, desconfiado uma coruja. Essas coisas<br \/>\n    s&oacute; foram percebidas muito depois. Naquela manh&atilde; tudo se atrapalhava,<br \/>\n    a luz que vinha de cima e entrava pelas vigias era escassa. E perturbado,<br \/>\n    no meio novo, esfor&ccedil;ava-me por achar um canto onde pudesse respirar.<\/p>\n<p> Cheguei-me ao escotilh&atilde;o. O homem louro, de cachimbo, acolhedor e<br \/>\n    risonho, sentado numa rede, conversava com Sebasti&atilde;o Hora. Fiquei sabendo<br \/>\n    que a personagem se chamava Jos&eacute; Macedo e fora, durante dois dias,<br \/>\n    secret&aacute;rio da Fazenda, na rebeli&atilde;o de Natal. Tamb&eacute;m fui<br \/>\n    apresentado ao secret&aacute;rio do Interior, Lauro Lago, rapaz grave, simp&aacute;tico,<br \/>\n    um ligeiro estrabismo disfar&ccedil;ado por &oacute;culos escuros. De fato<br \/>\n    nem se haviam empossado e os cargos decorativos apenas lhes serviram para<br \/>\n    agravar as torturas na cadeia. Estive a ouvi-los meia hora. Tinham-se ag&uuml;entado<br \/>\n    quarenta e oito horas, esperando em v&atilde;o que o resto do pa&iacute;s<br \/>\n    se revoltasse. Depois viera o p&acirc;nico.<\/p>\n<p> Afastei-me, marchando nos calcanhares, tentando evitar as coisas moles pisadas<br \/>\n    na v&eacute;spera e percebendo claramente donde vinha o cheiro forte de amon&iacute;aco.<br \/>\n    Aquelas pessoas urinavam no ch&atilde;o, a um canto; o mijo corria, alagava<br \/>\n    tudo, arrastando cascas de frutas, v&ocirc;mitos, outras imund&iacute;cies.<br \/>\n    Com as oscila&ccedil;&otilde;es da infame arapuca, a onda suja n&atilde;o<br \/>\n    descansava, dificilmente se acharia um lugar enxuto. Necess&aacute;rio arrega&ccedil;ar<br \/>\n    as cal&ccedil;as e fazer malabarismos de toda a esp&eacute;cie para evitar<br \/>\n    a ressaca nojenta.<\/p>\n<p> Viaj&aacute;vamos no Mansas, um calhambeque muito vagabundo. Naquela manh&atilde;<br \/>\n    chegamos a Macei&oacute;. Examinei atentamente, por uma vigia, a praia de<br \/>\n    Paju&ccedil;ara, tentei localizar a casa onde morei. Que estariam fazendo<br \/>\n    as crian&ccedil;as? A mais nova ainda n&atilde;o falava direito. Arriado numa<br \/>\n    caverna, o rosto na abertura, n&atilde;o desviava os olhos daquele ponto.<br \/>\n    Estava ali a minha gente. O resto da cidade n&atilde;o me despertava o m&iacute;nimo<br \/>\n    interesse. Voluntariamente nunca mais poria os p&eacute;s naquela terra. O<br \/>\n    navio fundeou, mas n&atilde;o atentei nisto; n&atilde;o percebi a az&aacute;fama<br \/>\n    dos botes rente ao costado, o burburinho dos passageiros novos, carregadores<br \/>\n    e visitantes. Ter-me-ia conservado ali, im&oacute;vel. se n&atilde;o me chamassem<br \/>\n    l&aacute; de cima.<\/p>\n<p> Larguei a observa&ccedil;&atilde;o demorada, transpus o labirinto das redes,<br \/>\n    subi a escadinha, achei-me no conv&eacute;s, meio encandeado, revi os policiais,<br \/>\n    a cara facinorosa do negro que me havia apontado a pistola. Um conhecido,<br \/>\n    a quem d&aacute;vamos a alcunha de Passarinho, chegou-se &agrave; pressa,<br \/>\n    muito p&aacute;lido, entregou-me um pacote, sussurrou que minha mulher estava<br \/>\n    a bordo, mas n&atilde;o lhe tinham permitido ver-me. Despediu-se e afastaram-me,<br \/>\n    desci novamente &agrave; cova, atordoado, o embrulho na m&atilde;o. Desatei<br \/>\n    o barbante, achei no papel alguma roupa, meti-a na valise, que se empanzinou.<\/p>\n<p> Defendi os meus trastes contra a inunda&ccedil;&atilde;o de mijo e regressei<br \/>\n    &agrave; vigia, mas agora n&atilde;o olhava a praia distante; a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se fixava nas canoas e escaleres que se arredavam do navio. Capit&atilde;o<br \/>\n    Mata, mais feliz, conseguira descobrir algumas senhoras de sua fam&iacute;lia,<br \/>\n    trocara algumas palavras com elas. N&atilde;o me desesperan&ccedil;ava de<br \/>\n    avistar uma figura amiga, receber not&iacute;cias, um gesto ao menos. O excelente<br \/>\n    padre Jos&eacute; Leite, que s&oacute; aparece quando &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    e tem habilidade not&aacute;vel para comprometer-se, bordejava talvez por<br \/>\n    ali, buscando oportunidade. Anos atr&aacute;s acompanhara-me ao hospital,<br \/>\n    amolara-se quarenta noites horr&iacute;veis; fugia-me a vida terrena, e de<br \/>\n    nenhum jeito me dispunha a acomodar-me &agrave; vida eterna; corpo e alma<br \/>\n    se comprometiam lastimosamente. Em ocorr&ecirc;ncia t&atilde;o dif&iacute;cil<br \/>\n    a santa criatura abandonava os seus neg&oacute;cios e ficava tempo sem fim<br \/>\n    tentando, com hist&oacute;rias de papas, minorar-me as dores: quando me supunha<br \/>\n    tranq&uuml;ilo, visitava as enfermarias dos indigentes. Com certeza andava<br \/>\n    ali perto. N&atilde;o distingui nenhuma pessoa conhecida. Tilintaram correntes,<br \/>\n    anunciando o levantamento da escada; os rumores da coberta esmoreceram; as<br \/>\n    velas das pequenas embarca&ccedil;&otilde;es escassearam, dispersaram-se.<\/p>\n<p> O Manaus desancorou, sumiram-se pouco a pouco as dunas, os coqueiros, os<br \/>\n    tetos de armaz&eacute;ns aca&ccedil;apados. Longamente me conservei ali, trepado<br \/>\n    na costela do cavername, evitando o abafamento e o calor da furna l&ocirc;brega,<br \/>\n    vendo a &aacute;gua bater na madeira velha recebendo salpicos na cara. Experimentava<br \/>\n    uma vaga mistura de al&iacute;vio e decep&ccedil;&atilde;o. As pessoas l&aacute;<br \/>\n    de fora pareceram-me indiferentes e covardes. Medo de comprometer-se, julguei<br \/>\n    severo e injusto, esquecendo que muitos esfor&ccedil;os deviam ter sido feitos<br \/>\n    inutilmente e nenhuma visita chegara aos outros alagoanos. Um pacote de roupa<br \/>\n    branca, meia d&uacute;zia de palavras sumidas. Afinal que val&iacute;amos<br \/>\n    n&oacute;s? Est&aacute;vamos ali mortos, em decomposi&ccedil;&atilde;o, e<br \/>\n    era razo&aacute;vel evitarem o cont&aacute;gio. Bom que se conservassem longe.<br \/>\n    Ningu&eacute;m nos poderia oferecer uma dessas mesquinhas lisonjas indispens&aacute;veis<br \/>\n    na vida social; est&aacute;vamos diante de uma verdade muito nua e muito suja,<br \/>\n    e qualquer aproxima&ccedil;&atilde;o nos originaria vergonha e constrangimento.<br \/>\n    O resto da humanidade se afastava; no marasmo e no assombro, sent&iacute;amos<br \/>\n    que se afastava em excesso. Imposs&iacute;veis os entendimentos: muros intranspon&iacute;veis<br \/>\n    nos separavam. Se amigos conseguissem aproximar-se de n&oacute;s, ficariam<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio, de vista baixa, confusos e vazios, receando molestar-nos.<br \/>\n    Uma palavra &agrave;-toa, largada com bom prop&oacute;sito, avivaria suspeitas,<br \/>\n    provocaria situa&ccedil;&otilde;es intoler&aacute;veis: enxergar&iacute;amos<br \/>\n    nela remoque, alus&atilde;o velada. Certamente nos atribu&iacute;am culpas<br \/>\n    graves; na melhor das hip&oacute;teses, &eacute;ramos levianos e desastrados.<br \/>\n    E o pior &eacute; que nos sent&iacute;amos infratores, &eacute;ramos levados<br \/>\n    a admitir isto. Sinais intempestivos de compaix&atilde;o, simples refer&ecirc;ncia<br \/>\n    ao ambiente s&oacute;rdido, &agrave; horr&iacute;vel mis&eacute;ria, mais<br \/>\n    nos refor&ccedil;ariam a certeza. T&iacute;nhamos delinq&uuml;ido, sem d&uacute;vida.<br \/>\n    Muitas daquelas criaturas ignoravam que delito lhes imputavam. Na verdade<br \/>\n    n&atilde;o imputavam: mantinham-nas em segrega&ccedil;&atilde;o, e isto devia<br \/>\n    bastar para convenc&ecirc;-las. Com o andar do tempo, chegariam a dar raz&atilde;o<br \/>\n    &agrave; justi&ccedil;a nova. Ningu&eacute;m iria prend&ecirc;-las e maltrat&aacute;-las<br \/>\n    sem motivo. Algumas, como capit&atilde;o Mata, recalcitrariam exibindo-se<br \/>\n    v&iacute;timas de um equ&iacute;voco. Outras se deixariam arrastar, fugindo<br \/>\n    &agrave;s explica&ccedil;&otilde;es. E Jos&eacute; In&aacute;cio desfiaria<br \/>\n    as contas brancas e azuis do seu ros&aacute;rio, peloso e carrancudo, sonhando<br \/>\n    com uma revolu&ccedil;&atilde;o que liquidasse todos os ateus.<\/p>\n<h3>20<\/h3>\n<p>IGNORO onde me escondi para mudar a roupa. Na v&eacute;spera, dentro da escurid&atilde;o<br \/>\n    leitosa, ter-me-ia podido arranjar facilmente. Fugindo &agrave;s luzes do<br \/>\n    centro, buscando as margens obscuras onde fervilhavam sombras vivas, teria<br \/>\n    conseguido meio de arrancar do corpo os medonhos constrangimentos de l&atilde;,<br \/>\n    insuport&aacute;veis naquela temperatura. Com o dia, a vista habituando-se<br \/>\n    na indecisa claridade que vinha das aberturas superiores e laterais, todos<br \/>\n    os recantos se devassavam. Pouco a pouco me livrei das pe&ccedil;as inc&ocirc;modas,<br \/>\n    tirei a gravata, o colarinho, o palet&oacute;, enquanto prosseguia a conversa<br \/>\n    com Miguel Bezerra, iniciada &agrave; noite, interrompida muitas vezes. Certamente<br \/>\n    pude expressar-me direito, pois o mo&ccedil;o n&atilde;o pareceu descobrir<br \/>\n    nas minhas palavras nenhum desconchavo; de fato n&atilde;o me inteirava do<br \/>\n    assunto, as id&eacute;ias baralhavam-se de maneira lastimosa. O que retive<br \/>\n    bem naquela manh&atilde; foi a causa do desassossego do meu novo camarada<br \/>\n    ao avistar-me: supusera-me funcion&aacute;rio da pol&iacute;cia. Piquei-me.<br \/>\n    Ora essa! Nunca me passara pela cabe&ccedil;a que tal confus&atilde;o fosse<br \/>\n    poss&iacute;vel, a franqueza do rapaz me aborrecia. Sim senhor, um tira. Bem<br \/>\n    vestido, com valise, chap&eacute;u de palha, originara desconfian&ccedil;a,<br \/>\n    e da&iacute; a frase repetida sem prop&oacute;sito: N&atilde;o somos comunistas.<\/p>\n<p> Agora a suspeita se desfazia. Sebasti&atilde;o Hora parolava com Jos&eacute;<br \/>\n    Macedo e Lauro Lago a respeito da Alian&ccedil;a Nacional Libertadora, a princ&iacute;pio<br \/>\n    sufocada, afinal posta no xadrez; os meus companheiros de Alagoas, apenas<br \/>\n    entrevistos no quartel, mal examinados nos sacolejos do caminh&atilde;o, desconhecidos<br \/>\n    quase todos, come&ccedil;avam a entender-se com a gente do Rio Grande; e,<br \/>\n    sem chap&eacute;u, sem valise, exibindo-me em camisa, despojava-me da fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    policial. Naquele momento o meu desejo era evitar a presen&ccedil;a de Leonila<br \/>\n    e Maria Joana, livrar-me dos restos do vestu&aacute;rio pesado. Em tal situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o recurso melhor seria pedir aos passageiros machos que formassem diante de<br \/>\n    mim uma esp&eacute;cie de cerca humana e, protegido por ela, despir-me, arranjar-me<br \/>\n    convenientemente. Devo ter feito isso, n&atilde;o me lembro. Sei que me achei<br \/>\n    metido no pijama. Dobrei cuidadosamente a cal&ccedil;a e o palet&oacute;,<br \/>\n    arrumei-os sobre a maleta e conservei os meus tro&ccedil;os &agrave; vista,<br \/>\n    pois eram tudo quanto eu possu&iacute;a e ali dentro come&ccedil;avam a representar<br \/>\n    enorme valor.<\/p>\n<p> Algu&eacute;m me preveniu de que viajavam conosco vagabundos e ladr&otilde;es.<br \/>\n    Retirei da carteira as c&eacute;dulas, dobrei-as, ocultei-as num compartimento<br \/>\n    do porta-moedas, guardei a pequena fortuna no bolso do pijama, debaixo do<br \/>\n    len&ccedil;o. Ali estava em seguran&ccedil;a. Mas n&atilde;o queria desviar-me<br \/>\n    dos outros bens: de quando em quando precisava certificar-me de que existiam<br \/>\n    os blocos de papel, os l&aacute;pis, as cuecas, as meias, as camisas. Tentava-me<br \/>\n    o desejo de recome&ccedil;ar as notas interrompidas no quartel, jogar na folha<br \/>\n    as &uacute;ltimas impress&otilde;es, atabalhoadas, continuamente dissolvidas.<br \/>\n    Como era imposs&iacute;vel o trabalho, servia-me desses instantes para tirar<br \/>\n    o frasco e a tesourinha, curar o dedo ferido, p&ocirc;r no abscesso uma gota<br \/>\n    de iodo.<\/p>\n<p> Afastava-me, acercava-me dos grupos, imiscu&iacute;a-me neles: esfor&ccedil;ava-me<br \/>\n    por decifrar certas particularidades de linguagem e em v&atilde;o buscara<br \/>\n    reter as fisionomias, sempre renovadas. N&atilde;o havia jeito de casar &agrave;s<br \/>\n    figuras incompletas os nomes que me chegavam aos ouvidos. Jo&atilde;o Anast&aacute;cio.<br \/>\n    Bem. Esse conseguiu fixar-se. Anteriormente fundia-se com Miguel Bezerra,<br \/>\n    mas agora se distanciava, e n&atilde;o sei como baralhei pessoas t&atilde;o<br \/>\n    diversas. Julgo que me surgiram simultaneamente na atrapalha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da chegada, falaram as duas ao mesmo tempo, quando n&atilde;o. me era poss&iacute;vel<br \/>\n    estabelecer a distin&ccedil;&atilde;o: olhos vivos, modos inquietos, rosto<br \/>\n    fino como um focinho de rato; pele macerada, fei&ccedil;&otilde;es im&oacute;veis<br \/>\n    de m&uacute;mia cabocla. Tipos inconfund&iacute;veis, caracteres diferentes.<br \/>\n    Miguel Bezerra tinha um modo escorregadio de negar, de justificar-se; o outro<br \/>\n    afirmava, lento e seguro, como se batesse em pregos: nunca vi homem t&atilde;o<br \/>\n    afirmativo.<\/p>\n<p> Essas duas figuras me ficaram gravadas profundamente na lembran&ccedil;a,<br \/>\n    n&atilde;o por haverem exercido qualquer influ&ecirc;ncia na minha esquisita<br \/>\n    aventura, mas porque avultaram no rebanho indistinto, durante algumas horas.<br \/>\n    Depois se afastaram, se dilu&iacute;ram: os h&aacute;bitos de classe me aproximaram<br \/>\n    do sujeito gordo e louro que fumava cachimbo, sentado na rede, a sorrir, do<br \/>\n    rapaz estr&aacute;bico, de &oacute;culos. Importantes, um secret&aacute;rio<br \/>\n    da Fazenda, outro secret&aacute;rio do Interior, no governo revolucion&aacute;rio<br \/>\n    de Natal. Propriamente n&atilde;o fora governo, fora doidice: nisto, embrulhados,<br \/>\n    concordavam todos. Estavam ali dois figur&otilde;es, dois respons&aacute;veis,<br \/>\n    dois criminosos, porque tinham sido pegados com o rabo na ratoeira. N&atilde;o<br \/>\n    me arriscaria a dizer como se chamavam. Macedo e Lauro Lago. Isso, repetido<br \/>\n    com freq&uuml;&ecirc;ncia, me permanecia na mem&oacute;ria, mas, se me dirigisse<br \/>\n    a qualquer deles, trocaria as designa&ccedil;&otilde;es. Falavam-me tamb&eacute;m<br \/>\n    num terceiro chefe da sedi&ccedil;&atilde;o, o mais importante, conservado<br \/>\n    em Natal por n&atilde;o se poder ainda locomover: seviciado em demasia, ag&uuml;entara<br \/>\n    pancadas no rim e, meses depois da pris&atilde;o, mijava sangue. Arrepiava-me<br \/>\n    pensando nisso. Achava-me ali diante de criaturas supliciadas e, conseq&uuml;entemente,<br \/>\n    envilecidas. A minha educa&ccedil;&atilde;o est&uacute;pida n&atilde;o admitia<br \/>\n    que um ser humano fosse batido e pudesse conservar qualquer vest&iacute;gio<br \/>\n    de dignidade. Tiros, punhaladas, bem: se a v&iacute;tima conseguia restabelecer-se,<br \/>\n    era razo&aacute;vel andar de cabe&ccedil;a erguida e at&eacute; afetar certo<br \/>\n    orgulho: o perigo vencido, o m&eacute;dico, a farm&aacute;cia, as vig&iacute;lias<br \/>\n    de algum modo a nobilitavam. Mas surra santo Deus! era a degrada&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    irremedi&aacute;vel. Lembrava o eito, a senzala, o tronco, o feitor, o capit&atilde;o-de-mato.<br \/>\n    O relho, a palmat&oacute;ria, sibilando, estalando no sil&ecirc;ncio da meia-noite,<br \/>\n    chuma&ccedil;o de pano sujo na boca de um infeliz, cortando-lhe a respira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E nenhuma defesa: um infort&uacute;nio sucumbido, de m&uacute;sculos relaxados,<br \/>\n    a vontade suspensa, miser&aacute;vel trapo. Em seguida o aviltamento. &Eacute;<br \/>\n    assim na minha terra, especialmente no sert&atilde;o. Vivente espancado resiste:<br \/>\n    em falta de armas, utiliza unhas e dentes, abrevia o supl&iacute;cio e morre<br \/>\n    logo, pois, se sobreviver, estar&aacute; perdido. Nunca mais o tomar&atilde;o<br \/>\n    a s&eacute;rio. &Eacute; poss&iacute;vel que ele esque&ccedil;a o chicote,<br \/>\n    precisa esquecer: c&aacute; fora tenta reaver os seus insignificantes direitos<br \/>\n    de cidad&atilde;o comum. Os outros n&atilde;o esquecem. Aquilo &eacute; estigma<br \/>\n    indel&eacute;vel, tatuagem na alma. Quando estiver desprecatado, julgando-se<br \/>\n    normal e med&iacute;ocre, um riso, um gesto, um olhar venenoso o chamar&atilde;o<br \/>\n    &agrave; realidade, avivar&atilde;o a lembran&ccedil;a do pelourinho, do rosto<br \/>\n    cuspido, das costas retalhadas. Afinal aquele tratamento n&atilde;o foi infligido<br \/>\n    sen&atilde;o para isso. Indispens&aacute;vel aniquilar um inimigo da sociedade.<br \/>\n    Quem &eacute; ele? O assassino? Evidentemente n&atilde;o. Na minha terra uma<br \/>\n    vida representa escasso valor. A popula&ccedil;&atilde;o cresce demais, a<br \/>\n    agricultura definha na terra magra. Eliminar um crist&atilde;o significa afastar<br \/>\n    um concorrente aos produtos minguados, em duros casos serve para restabelecer<br \/>\n    o equil&iacute;brio necess&aacute;rio. Enfim, cedo ou tarde, a morte se daria;<br \/>\n    em &uacute;ltima an&aacute;lise o matador foi instrumento da Provid&ecirc;ncia.<br \/>\n    Por isso ela &eacute; tabu. Na cadeia da ro&ccedil;a n&atilde;o o maltratam,<br \/>\n    e o j&uacute;ri sem dificuldade o absolve. O que passou passou, a condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o ressuscita ningu&eacute;m. O delito m&aacute;ximo &eacute; o que<br \/>\n    lesa a propriedade. Nesse ponto o fatalismo caboclo desaparece: n&atilde;o<br \/>\n    foi certamente Deus que mandou furtar, o ladr&atilde;o &eacute; respons&aacute;vel.<br \/>\n    Est&aacute; visto que n&atilde;o se punem os grandes atentados, mais ou menos<br \/>\n    legais, origem das fortunas indispens&aacute;veis &agrave; ordem, mas os pequenos<br \/>\n    delinq&uuml;entes sangram nos interrogat&oacute;rios b&aacute;rbaros e nunca<br \/>\n    mais se reabilitam. N&atilde;o me ocorrera a id&eacute;ia de que prisioneiros<br \/>\n    pol&iacute;ticos fossem tratados da mesma forma: a palavra oficial dizia o<br \/>\n    contr&aacute;rio, referia-se a do&ccedil;ura, e n&atilde;o me achava longe<br \/>\n    de admitir pelo menos parte disso. Um jornalista famoso asseverava que os<br \/>\n    homens detidos no Pedro 1 bebiam champanhe. Com certeza na do&ccedil;ura e<br \/>\n    no champanhe havia exagero; n&atilde;o me viera, contudo, a suspeita de que<br \/>\n    a imprensa e o governo mentissem descaradamente quando isto n&atilde;o era<br \/>\n    preciso. Provavelmente existia nas pris&otilde;es certa humanidade, relativa<br \/>\n    humanidade. Capacitara-me disso, por n&atilde;o me parecer que os atos ferozes<br \/>\n    fossem &uacute;teis. Talvez n&atilde;o estivesse a&iacute; o motivo da minha<br \/>\n    credulidade. Habituara-me de fato, desde a inf&acirc;ncia, a presenciar viol&ecirc;ncias,<br \/>\n    mas invariavelmente elas reca&iacute;am em sujeitos da classe baixa. N&atilde;o<br \/>\n    se concebia que negociantes e funcion&aacute;rios recebessem os tratos dispensados<br \/>\n    antigamente aos escravos e agora aos patifes mi&uacute;dos. E est&aacute;vamos<br \/>\n    ali, encurralados naquela imund&iacute;cie, tipos da pequena burguesia, oper&aacute;rios,<br \/>\n    de mistura com vagabundos e escroques. E um dos chefes da sedi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apanhara tanto que l&aacute; ficara em Natal, desconjuntado, urinando sangue.<\/p>\n<p> N&atilde;o me abalancei a indiscri&ccedil;&otilde;es relativamente aos outros<br \/>\n    evitei melindr&aacute;-los. Teriam pudor, certamente, calar-se-iam se possu&iacute;ssem<br \/>\n    as terr&iacute;veis chagas incur&aacute;veis. Meias-palavras, refer&ecirc;ncias<br \/>\n    vagas, ambig&uuml;idades trouxeram-me a convic&ccedil;&atilde;o de que todos<br \/>\n    ali, ou quase todos, haviam sido torturados e n&atilde;o conservavam disso<br \/>\n    nenhuma vergonha. Espantei-me no come&ccedil;o, depois busquei uma explica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Provavelmente a autoridade considerava os meus novos companheiros pouco mais<br \/>\n    ou menos iguais aos ladr&otilde;es. Queriam eliminar os ricos, suprimir a<br \/>\n    explora&ccedil;&atilde;o do homem na lavoura e na f&aacute;brica. Certo n&atilde;o<br \/>\n    alcan&ccedil;ariam esse objetivo, por enquanto desejavam apenas a distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    razo&aacute;vel da terra, melhores condi&ccedil;&otilde;es de vida para o<br \/>\n    trabalhador. Um roubo. E, pegados com armas na m&atilde;o, nivelavam-se aos<br \/>\n    bandidos e recebiam supl&iacute;cios infamantes. N&atilde;o se julgavam, contudo,<br \/>\n    humilhados. Porqu&ecirc;? Talvez n&atilde;o supusessem completamente desarrazoada<br \/>\n    essa justi&ccedil;a bruta e sum&aacute;ria. Eles, como os escravos indolentes<br \/>\n    e os salteadores, minavam a fortuna, pelo menos pretendiam min&aacute;-la.<br \/>\n    Natural que os propriet&aacute;rios, senhores do Estado, os estigmatizassem,<br \/>\n    cobrissem de ignom&iacute;nia. N&atilde;o lhes feriam somente o corpo tentavam,<br \/>\n    encharcando-os na lama, no opr&oacute;brio, embotar-lhes os esp&iacute;ritos,<br \/>\n    paralisar-lhes a vontade. Conhecida, por&eacute;m, essa inten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    muito se reduzia o efeito dela. Realmente havia as dores f&iacute;sicas. E<br \/>\n    findas as torturas, os cora&ccedil;&otilde;es se desoprimiam.<\/p>\n<p> Os meus amigos do por&atilde;o falavam dessas coisas como de fatos normais,<br \/>\n    distantes, relativos a outras pessoas: de nenhum modo pareciam atingidos por<br \/>\n    elas. Na verdade, para que o rebaixamento moral se realizasse, deveriam aplicar<br \/>\n    os castigos a um n&uacute;mero pequeno de indiv&iacute;duos. Alcan&ccedil;ando<br \/>\n    a maioria ou a totalidade, o lab&eacute;u se atenuava, perdia enfim a consist&ecirc;ncia<br \/>\n    Reportavam-se &agrave;quilo como se narrassem um desastre de autom&oacute;vel,<br \/>\n    uma opera&ccedil;&atilde;o cir&uacute;rgica, sucessos que n&atilde;o poderiam<br \/>\n    desonr&aacute;-los<\/p>\n<h3>21<\/h3>\n<p>ARRIADO numa costela do cavername, o rosto colado &agrave; vigia, ausentava-me<br \/>\n    do por&atilde;o olhando o mar. Algumas pessoas, ali perto, conversavam comigo,<br \/>\n    arejavam-se um pouco, fugindo ao calor da fornalha, mas n&atilde;o me apercebia<br \/>\n    direito da conversa. As palavras me chegavam quase destitu&iacute;das de significa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &agrave;s vezes me surpreendia lan&ccedil;ando respostas a perguntas indefinidas.<br \/>\n    Sem querer, me insinuava aos poucos no ambiente novo, na sociedade esquisita.<br \/>\n    Fumava sem descontinuar. Ainda possu&iacute;a cigarros; os f&oacute;sforos<br \/>\n    tinham-se esgotado &agrave; noite, e n&atilde;o sei como pude obter uma caixa.<br \/>\n    Perceber-me-iam em redor a desaten&ccedil;&atilde;o? Talvez n&atilde;o me<br \/>\n    achasse desatento: ocupava-me de muitas coisas, misturava-as, confundia-as,<br \/>\n    desorientava-me em avan&ccedil;os e recuos no tempo e n&atilde;o me era poss&iacute;vel<br \/>\n    fixar nada no esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Dava mostra de examinar a &aacute;gua escura, as algas, filamentos estranhos;<br \/>\n    alongando a vista, percebia uma praia distante, verde e branca, povoada de<br \/>\n    coqueiros. Para distinguir essa faixa de terra, precisava curvar-me, esperar<br \/>\n    que o navio se inclinasse para o outro lado. Fatigava-me da posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    for&ccedil;ada, voltava a recostar-me e o horizonte se reduzia, alguns metros<br \/>\n    mais largo ou mais estreito, conforme as oscila&ccedil;&otilde;es do calhambeque.<br \/>\n    Nenhum objeto, asa ou vela, perturbava a monotonia. Filandras, apenas, a confus&atilde;o<br \/>\n    das tripas vivas, fosforesc&ecirc;ncias p&aacute;lidas, rev&eacute;rberos<br \/>\n    do sol no marulho, uma tira de espuma rente ao costado. Brisas &aacute;speras<br \/>\n    batiam-me na cara, ali a temperatura baixava, era suport&aacute;vel. O pesadelo<br \/>\n    noturno se distanciava, parecia-me acontecimento velho; o bra&ccedil;o peludo<br \/>\n    e a vis&atilde;o obscena esmoreciam-me no esp&iacute;rito. A l&iacute;ngua<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o estava seca; os bei&ccedil;os rachados ardiam, era-me<br \/>\n    preciso umedec&ecirc;-los a cada instante, livr&aacute;-los de pel&iacute;culas<br \/>\n    inc&ocirc;modas. Salgados, a ponta do cigarro tamb&eacute;m tinha sal, os<br \/>\n    dedos, presos &agrave; borda da abertura, cobriam-se de suor pegajoso.<\/p>\n<p> Cansava-me, aborrecia-me dos filamentos invari&aacute;veis, dos reflexos<br \/>\n    na onda, tirava-me dali, passeava aos tombos, as pernas entorpecidas, reacostumando<br \/>\n    os olhos piscos a magotes agachados na sombra. Voltava o calor medonho. N&atilde;o<br \/>\n    era, com precis&atilde;o, calor: era abafamento. Insufici&ecirc;ncia de ar<br \/>\n    para tantos pulm&otilde;es. Os grupos arquejavam, tossiam, engrossavam debaixo<br \/>\n    da escotilha. Metido na roupa leve, mexia-se devagar, cautelosamente. N&atilde;o<br \/>\n    me arriscaria a cal&ccedil;ar chinelos: conservava os sapatos, e, embora tivesse<br \/>\n    os p&eacute;s resguardados, repugnava-me em certos pontos encostar as solas<br \/>\n    na t&aacute;bua: andava sobre os calcanhares, banzeiro como um papagaio, receoso<br \/>\n    de pisar nas imund&iacute;cies, cada vez mais abundantes. As cascas de frutas,<br \/>\n    restos de comida, detritos de toda esp&eacute;cie, aumentavam. Aquela gente<br \/>\n    escarrava no ch&atilde;o, vomitava no ch&atilde;o; a um canto, perto da escada,<br \/>\n    havia sempre alguns indiv&iacute;duos de costas, molhando a parede; corria<br \/>\n    desse mict&oacute;rio improvisado um filete que desaguava no charco movedi&ccedil;o.<br \/>\n    A vaga se avolumava, prometia varrer o soalho inteiro, a evapora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nos afligia com o horr&iacute;vel fartum, sem descontinuar Nenhum escoadouro.<\/p>\n<p> Movendo-me a custo, examinando, ouvindo, perguntando, consegui diferen&ccedil;ar<br \/>\n    e nomear v&aacute;rias pe&ccedil;as da carga viva, contrabando humano. Com<br \/>\n    Sebasti&atilde;o Hora, vizinho ao porta l&oacute;, estabelecera-se o preto<br \/>\n    encaro&ccedil;ado, semelhante a um p&eacute; de jabuticaba. Fora cont&iacute;nuo<br \/>\n    da Alian&ccedil;a Nacional em Alagoas e davam-lhe a alcunha de Doutor. Em<br \/>\n    atitude canina, mastigando qualquer coisa, parecia continuar no exerc&iacute;cio<br \/>\n    do seu cargo, esperando ordens do Presidente, que discutia com Jos&eacute;<br \/>\n    Macedo e Lauro Lago, todos eles muito consider&aacute;veis. Havia mais, al&eacute;m<br \/>\n    do capit&atilde;o Mata e de Manuel Leal, tr&ecirc;s figuras alagoanas: Vicente<br \/>\n    Ribeiro, rapaz franzino, cabo do 20.&deg; Batalh&atilde;o de Ca&ccedil;adores;<br \/>\n    Benon, negro esgalgado, risonho, de voz estridente; Ezequiel Fonseca, louro,<br \/>\n    m&iacute;ope, de &oacute;culos. Parece que este &uacute;ltimo tivera a id&eacute;ia<br \/>\n    infeliz de se meter numa cooperativa e isto o marcara aos agentes da ordem<br \/>\n    como elemento pernicioso. Tamb&eacute;m conheci diversos rio-grandenses. O<br \/>\n    estivador Jo&atilde;o Francisco Greg&oacute;rio, robusto em demasia, constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de torre, deslocava-se devagar; pachorra imensa na voz, nos gestos, longa<br \/>\n    desconfian&ccedil;a nos olhos astutos. Concordava facilmente com as coisas<br \/>\n    mais absurdas: An! Bem! Na cidade o julgariam tolo. Quem tivesse observado<br \/>\n    as manhas dos mesti&ccedil;os nordestinos logo lhe perceberia a dissimula&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Paulo Pinto, ex-cabo de pol&iacute;cia, cafuzo sifil&iacute;tico, era especialista<br \/>\n    em sambas. Epif&acirc;nio Guilhermino, terrivelmente s&eacute;rio, falava<br \/>\n    baixo e r&aacute;pido, sublinhando com movimentos de cabe&ccedil;a afirma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    categ&oacute;ricas, sem pestanejar. Ferido em combate, ficara meses entre<br \/>\n    a vida e a morte; uma bala o atravessara, deixando-lhe duas cicatrizes medonhas,<br \/>\n    uma na barriga, outra nas costas. Livrara-se por isso do espancamento. E restabelecido,<br \/>\n    at&eacute; gordo, ali se achava, em companhia da mulher, apanhada a mexer<br \/>\n    num fuzil-metralhadora. Havia um cabra de Lampi&atilde;o entre n&oacute;s.<br \/>\n    Chamava-se Euclides e n&atilde;o tinha nada de cabra: um sertanejo vivo, alourado,<br \/>\n    not&aacute;vel desempeno em todo o corpo, olho de gavi&atilde;o. Depois do<br \/>\n    beato Jos&eacute; In&aacute;cio, apareceu-me um esp&iacute;rita, Sebasti&atilde;o<br \/>\n    F&eacute;lix, pessoa incolor. Guardo a vaga lembran&ccedil;a de que era baixo,<br \/>\n    moreno e usava &oacute;culos escuros, mas n&atilde;o estou bem certo disso:<br \/>\n    sei apenas que se exercitava nas preces e na invoca&ccedil;&atilde;o das almas<br \/>\n    do outro mundo. Nem ali, no infecto desv&atilde;o, essas criaturas de sonho<br \/>\n    o abandonavam. A queimadura de Gast&atilde;o, horr&iacute;vel, destru&iacute;ra<br \/>\n    a peie numa parte do rosto e no pesco&ccedil;o, talvez houvesse lesado m&uacute;sculos.<br \/>\n    Por isso a boca se repuxava num riso constante e inexpressivo. Havia um estudantezinho<br \/>\n    de preparat&oacute;rios, Jo&atilde;o Rocha, mulato, franzino, inconseq&uuml;ente,<br \/>\n    falador; um chauffeur doente, Dom&iacute;cio Fernandes, que n&atilde;o ag&uuml;entaria<br \/>\n    aquela vida; um pequeno dentista, Guerra, petulante, de bigodinho. Ramiro<br \/>\n    Magalh&atilde;es era uma crian&ccedil;a estouvada e ruidosa, a quem tinham<br \/>\n    conferido insensatamente o cargo de prefeito de Natal. Esse disparate indicava<br \/>\n    bem que a sedi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o representava de fato nenhum perigo.<br \/>\n    Vencida a for&ccedil;a p&uacute;blica facilmente, conquistado o poder prec&aacute;rio,<br \/>\n    os rebeldes se haviam julgado seguros: divertiam-se fazendo a tiros desenhos<br \/>\n    nas fachadas, queriam voar em aeroplanos, entregavam neg&oacute;cios p&uacute;blicos<br \/>\n    a meninos. Ao primeiro ataque rijo fuga precipitada, rendi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E o prefeito de Natal se embrulhara tamb&eacute;m. Com desembara&ccedil;o<br \/>\n    de colegial afoito, n&atilde;o se inteirava da situa&ccedil;&atilde;o, presumo,<br \/>\n    via nela uma esp&eacute;cie de brincadeira. Chamou-me a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    um sujeito silencioso, Carlindo Revoredo, que tinha apar&ecirc;ncia de est&aacute;tua.<br \/>\n    Alto, robusto, mexia-se devagar, os tra&ccedil;os fision&ocirc;micos inalter&aacute;veis.<br \/>\n    Naquele desarranjo, tudo se acavalando e agitando, n&atilde;o lhe percebi<br \/>\n    os movimentos: dava-me impress&atilde;o de imobilidade perfeita. E n&atilde;o<br \/>\n    me lembro de o ter ouvido falar. Os cabelos de M&aacute;rio Paiva come&ccedil;avam<br \/>\n    a escassear, o rosto cansado alegrava-se num sorriso am&aacute;vel, permanente.<br \/>\n    Dizia-se ator, mas nunca vi pessoa t&atilde;o sem jeito para representa&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Engajara-se talvez nessas companhias vagabundas que circulam raro pelas cidadezinhas<br \/>\n    do interior, a exibir dramalh&otilde;es ing&ecirc;nuos quase suprimidos pelo<br \/>\n    cinema. Passava meia hora a chatear-nos:<br \/>\n    Lobato tinha uma flauta. A flauta era de Lobato. Minha av&oacute; sempre dizia:<br \/>\n    Toca flauta, seu&#8230;<\/p>\n<p> Lobato tinha uma flauta. A flauta era de Lobato.<\/p>\n<p> Uma lengalenga infind&aacute;vel. Nunca nos revelou outra habilidade, e<br \/>\n    suponho que o talento c&ocirc;mico de M&aacute;rio Paiva n&atilde;o ia al&eacute;m<br \/>\n    disso. O indiv&iacute;duo que mais me impressionou ali foi Carlos Van der<br \/>\n    Linden, n&atilde;o porque manifestasse qualquer particularidade vultosa, mas<br \/>\n    por me haver come&ccedil;ado a expor uma das coisas mais dolorosas engendradas<br \/>\n    pela cadeia. Era um rapaz magro, de rosto fino e p&aacute;lido, a exprimir<br \/>\n    resigna&ccedil;&atilde;o, a irradiar simpatia. Uma dor profunda e serena.<br \/>\n    Estou a v&ecirc;-lo sentado na bagagem, os bra&ccedil;os cruzados, os l&aacute;bios<br \/>\n    entreabertos, a arfar. Cobria-lhe o peito d&eacute;bil uma blusa fina, azul-marinho,<br \/>\n    de mangas curtas, &agrave; altura dos cotovelos. Chegaram-me, em peda&ccedil;os<br \/>\n    de conversa, em frases incompletas, insinua&ccedil;&otilde;es malignas a respeito<br \/>\n    dessa personagem. N&atilde;o inspirava confian&ccedil;a. Porqu&ecirc;? Afirmaram-me<br \/>\n    vagamente que Van der Linden de certo modo se ligava &agrave; pol&iacute;cia,<br \/>\n    pelo menos se ligara. Acusa&ccedil;&atilde;o de tal monta, lan&ccedil;ada<br \/>\n    sem prova, alarmou-me. Considerei que eu pr&oacute;prio ainda na v&eacute;spera<br \/>\n    fora tomado como espi&atilde;o. E agora me faziam confid&ecirc;ncia de tanta<br \/>\n    gravidade. Qual o motivo da reviravolta? Desprop&oacute;sito na suspeita e<br \/>\n    na seguran&ccedil;a com que me falavam, especialmente na segunda. Afinal os<br \/>\n    receios se justificavam, defesa natural. A mudan&ccedil;a repentina me sobressaltou:<br \/>\n    nenhuma raz&atilde;o para me virem contar segredos. Busquei evit&aacute;-los,<br \/>\n    contrafeito. Como as informa&ccedil;&otilde;es se multiplicassem, tentei saber<br \/>\n    em que se baseavam. Nada de concreto: sugest&otilde;es mal&eacute;volas apenas.<br \/>\n    Ind&iacute;cios confusos encorpavam ali dentro, ganhavam relevo, mudavam-se<br \/>\n    em provas. Fora do mundo, aqueles esp&iacute;ritos ca&iacute;am em forte impressionabilidade,<br \/>\n    gastavam as horas longas criando fantasmas ou admitindo, ing&ecirc;nuos, inventos<br \/>\n    alheios, as informa&ccedil;&otilde;es mais disparatadas. S&oacute; mais tarde<br \/>\n    percebi como embustes grosseiros nos enleiam no c&aacute;rcere e esforcei-me<br \/>\n    com desespero por vencer o rebaixamento mental, a credulidade est&uacute;pida.<\/p>\n<p> Ouvindo pela primeira vez semelhantes acusa&ccedil;&otilde;es, procurei<br \/>\n    reagir, mas talvez j&aacute; houvesse em mim um esbo&ccedil;o de alma selvagem.<br \/>\n    Escorregava pouco a pouco, involuntariamente dava cr&eacute;dito aos boatos.<br \/>\n    Seria injusti&ccedil;a? Faltavam-me elementos para julgar; no meio novo, a<br \/>\n    repeti&ccedil;&atilde;o da crueldade verrumava-me na cabe&ccedil;a. Talvez<br \/>\n    houvesse alguma verdade nos rumores. Enfim que me importava que houvesse ou<br \/>\n    n&atilde;o? Era ali um estranho, e buscava refugiar-me nos meus pensamentos,<br \/>\n    olhar pela vigia o litoral branco, as pequenas ondas luminosas; os pensamentos<br \/>\n    embrulhavam-se, partiam-se, voltavam &agrave;s murmura&ccedil;&otilde;es insidiosas,<br \/>\n    levianas, e a vista se desviava da paisagem uniforme, ia fixar-se na criatura<br \/>\n    serena, melanc&oacute;lica, de bra&ccedil;os cruzados, a um canto, respirando<br \/>\n    mal. Preocupava-me notar o isolamento de uma pessoa na multid&atilde;o. De<br \/>\n    fato n&atilde;o era bem isso. Dirigiam-se a Van der Linden, aparentemente<br \/>\n    ele n&atilde;o se distinguia dos outros; mas observavam-no, alguns remoques<br \/>\n    deviam chegar-lhe aos ouvidos. Se se inteirava da vigil&acirc;ncia e das picuinhas,<br \/>\n    o nosso inferno era insignificante comparado ao dele. &Eacute; uma desgra&ccedil;a<br \/>\n    necessitarmos esses pontos de refer&ecirc;ncia para ag&uuml;entarmos uma situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dif&iacute;cil: vemos que algu&eacute;m sofre mais que n&oacute;s e deixamos<br \/>\n    de julgar-nos muito infelizes. E quem sabe se torturamos os outros simplesmente<br \/>\n    com o fim de experimentar-lhes a resist&ecirc;ncia? Em &uacute;ltima an&aacute;lise<br \/>\n    estamos experimentando a nossa Ainda n&atilde;o suportamos aquilo, mas vemos<br \/>\n    que &eacute; suport&aacute;vel.<\/p>\n<p> Bem: n&atilde;o chegamos a posi&ccedil;&atilde;o desesperadora. Id&eacute;ias<br \/>\n    assim, fragmentos de id&eacute;ias embrulhadas, machucadas, cortadas ferviam-me<br \/>\n    no interior. E vinha-me tamb&eacute;m a recorda&ccedil;&atilde;o de Hor&aacute;cio<br \/>\n    Valadares a despedir-se f&uacute;nebre, agoureiro:<\/p>\n<p> Se n&atilde;o nos tornarmos a ver, ficam voc&ecirc;s sabendo o lugar da<br \/>\n    minha morte.<\/p>\n<h3>22<\/h3>\n<p>POR volta de meio-dia trouxeram-nos caix&otilde;es com marmitas e o almo&ccedil;o<br \/>\n    foi distribu&iacute;do. Olhei de longe a comida feia, mas n&atilde;o foi o<br \/>\n    aspecto desagrad&aacute;vel que me fez evit&aacute;-la. Reaparecera-me a inapet&ecirc;ncia,<br \/>\n    e s&oacute; a vista do alimento me provocava n&aacute;useas. Voltei-me para<br \/>\n    o exterior, fui embeber-me na monotonia das ondas, at&eacute; que a refei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    terminasse. Espantava-me conseguir uma pessoa mastigar qualquer coisa diante<br \/>\n    das imund&iacute;cies que se agitavam e decompunham na vaga de mijo. O fedor<br \/>\n    horr&iacute;vel, confus&atilde;o de cheiros com predomin&acirc;ncia de amon&iacute;aco,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o me afligia: habituara-me a ele e envenenava-me sem perceber<br \/>\n    isto. Fumava sem descanso, e temia que me chegasse o momento de abandonar<br \/>\n    o v&iacute;cio.<\/p>\n<p> No escotilh&atilde;o estabelecera-se um pequeno com&eacute;rcio. Foi ali<br \/>\n    com certeza que achei meio de renovar a minha provis&atilde;o de f&oacute;sforos<br \/>\n    e cigarros. N&atilde;o me recordo. Tamb&eacute;m n&atilde;o sei como nos forneciam<br \/>\n    &aacute;gua. Lembro-me de que ela se achava &agrave; entrada, perto do camarote<br \/>\n    do padeiro, mas esqueci completamente se estava em balde ou ancoreta, se vinha<br \/>\n    de encanamento. Afasto a &uacute;ltima suposi&ccedil;&atilde;o, estou quase<br \/>\n    certo de que n&atilde;o existia nenhuma torneira. Esta lacuna me revela o<br \/>\n    desarranjo interno, pois a sede era grande., est&aacute;vamos sempre a beber.<br \/>\n    Findo o rumor das colheres nas vasilhas de lata, arrastados os caix&otilde;es,<br \/>\n    reingressei na vida escura da furna, um espinho na consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> In&uacute;til, ocioso, a vagar &agrave; toa, ouvindo a parolagem dos grupos,<br \/>\n    tentando familiarizar-me e o trabalho abandonado. Nunca me vira sem ocupa&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    enxergava na pregui&ccedil;a uma esp&eacute;cie de furto. Necess&aacute;rio<br \/>\n    escrever, narrar os acontecimentos em que me embara&ccedil;ava. Certo n&atilde;o<br \/>\n    os conseguiria desenvolver: faltava-me calma, tudo em redor me parecia insensato.<br \/>\n    Evidentemente a insensatez era minha: absurdo pretender relatar coisas indefinidas,<br \/>\n    o fumo e as sombras que me cercavam. N&atilde;o refleti nisso. Havia-me imposto<br \/>\n    uma tarefa e de qualquer modo era-me preciso realiz&aacute;-la. Ou n&atilde;o<br \/>\n    seria imposi&ccedil;&atilde;o minha esse dever: as circunst&acirc;ncias &eacute;<br \/>\n    que o determinavam. Indispens&aacute;vel fatigar-me, disciplinar o pensamento<br \/>\n    rebelde, descrever o balan&ccedil;o das redes, fardos humanos abatidos pelos<br \/>\n    cantos, a arquejar no enj&ocirc;o, a vomitar, as fei&ccedil;&otilde;es dos<br \/>\n    meus novos amigos a acentuar-se pouco a pouco. N&atilde;o nos encontramos<br \/>\n    todos os dias em tal situa&ccedil;&atilde;o; de alguma forma devia considerar-me<br \/>\n    favorecido. Ao chegar, sentira-me atordoado, mas nem uma vez me viera a id&eacute;ia<br \/>\n    de estar sendo v&iacute;tima de injusti&ccedil;a. L&aacute; fora comportava-me<br \/>\n    automaticamente. A reparti&ccedil;&atilde;o, o despacho, o bonde, o hor&aacute;rio,<br \/>\n    conversas bestas com indiv&iacute;duos que se mexiam como se fossem puxados<br \/>\n    a cord&otilde;es. Ali me exibiam aspectos in&eacute;ditos da sociedade. Avizinhei-me<br \/>\n    dos meus tro&ccedil;os, afastei a cal&ccedil;a e o palet&oacute;, dobrados<br \/>\n    cuidadosamente, abri a valise, retirei o bloco de papel e um l&aacute;pis,<br \/>\n    arrumei tudo de novo, sentei-me num caix&atilde;o, pus-me a escrever &agrave;<br \/>\n    luz que vinha da escotilha. Provavelmente fiquei horas a trabalhar, desordenadamente.<br \/>\n    Queria atordoar-me, sem d&uacute;vida. As letras se acavalavam, mi&uacute;das,<br \/>\n    para economizar espa&ccedil;o, e as entrelinhas eram t&atilde;o ex&iacute;guas<br \/>\n    que as emendas se tornavam dif&iacute;ceis. Realmente nem me lembrava de corrigir<br \/>\n    a prosa capenga. Faltava-me a certeza de poder um dia aproveit&aacute;-la.<br \/>\n    Os guardas viam-me entregue a ela; quando mal me precatasse, viriam examin&aacute;-la,<br \/>\n    destru&iacute;-la; ou talvez eu mesmo a inutilizasse. A hora do jantar n&atilde;o<br \/>\n    me foi preciso levantar-me, vencer a n&aacute;usea a olhar as ondas: continuei<br \/>\n    sentado, jogando na folha os desarranjos que me fervilhavam no esp&iacute;rito.<br \/>\n    Convidaram-me com insist&ecirc;ncia, quiseram levar-me para junto dos caix&otilde;es<br \/>\n    e das marmitas. Algumas pessoas estranharam a recusa. Um dia inteiro em jejum.<\/p>\n<p> Escrevi at&eacute; &agrave; noite. Se houvesse guardado aquelas p&aacute;ginas,<br \/>\n    com certeza acharia nelas incongru&ecirc;ncias, erros, hiatos, repeti&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    O meu desejo era retratar os circunstantes, mas, al&eacute;m dos nomes, escassamente<br \/>\n    haverei gravado fragmentos deles: os olhos azuis de Jos&eacute; Macedo, a<br \/>\n    contra&ccedil;&atilde;o facial de Lauro Lago, a queimadura horr&iacute;vel<br \/>\n    de Gast&atilde;o, as duas cicatrizes de Epif&acirc;nio Guilhermino, o peito<br \/>\n    cabeludo e o ros&aacute;rio do beato Jos&eacute; In&aacute;cio, a calva de<br \/>\n    M&aacute;rio Paiva, os bra&ccedil;os magros de Carlos Van der Linden, o rosto<br \/>\n    negro de Maria Joana iluminado por um sorriso muito branco.<\/p>\n<p> Escureceu, acenderam-se as l&acirc;mpadas. Afizera-me ao ambiente e j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o me impressionavam o cheiro de amon&iacute;aco e o burburinho de<br \/>\n    feira. Tamb&eacute;m a sombra leitosa em que boiavam luzes tinha desaparecido.<br \/>\n    Agora se destacavam os focos el&eacute;tricos pendentes do teto. No centro<br \/>\n    o lago de urina estava bem iluminado; as margens se envolviam em penumbra,<br \/>\n    e no ponto em que me achava as figuras desmaiaram, as letras pouco a pouco<br \/>\n    se sumiram. Levantei-me, os bei&ccedil;os rachados, a l&iacute;ngua ardente,<br \/>\n    com sede. Fumava o dia todo e assaltavam-me &agrave;s vezes ligeiras vertigens.<br \/>\n    Encaminhei-me ao lugar onde beb&iacute;amos e n&atilde;o achei &aacute;gua,<br \/>\n    fiz demoradas buscas inutilmente. A lembran&ccedil;a da noite, do pesadelo<br \/>\n    extenso, do calor, do negro a co&ccedil;ar as pelancas nojentas, afligiu-me.<br \/>\n    Naquele estado, o est&ocirc;mago vazio, a garganta seca, ia estirar-me novamente<br \/>\n    na t&aacute;bua suja, asfixiar-me, ouvir gemidos, roncos, pragas, borborigmos,<br \/>\n    delirar, avizinhar-me outra vez da loucura. &Agrave; medida que o tempo se<br \/>\n    passava os meus receios cresciam. Tentava iludir-me: ambientado, n&atilde;o<br \/>\n    experimentaria as &acirc;nsias da v&eacute;spera; na verdade as causas do<br \/>\n    tormento haviam sido o colarinho, a gravata, a roupa grossa de l&atilde;;<br \/>\n    metido no pijama leve, ser-me-ia poss&iacute;vel talvez dormir.<\/p>\n<p> Adiava a hora de recolher-me. Muitos prisioneiros j&aacute; se haviam entrouxado<br \/>\n    pelos cantos, e n&atilde;o me decidia a aproximar-me da valise posta em cima<br \/>\n    do estrado onde me deitara. De repente um mulato de cara enferrujada apareceu,<br \/>\n    querendo vender-me uma rede por quinze mil-r&eacute;is. Aceitei-a sem regatear,<br \/>\n    mas surgiu uma dificuldade: n&atilde;o havia lugar para arm&aacute;-la, e<br \/>\n    assim ela n&atilde;o representava nenhum valor. O negociante, engenhoso, cortou<br \/>\n    o embara&ccedil;o: milagrosamente se guindou com agilidade de macaco, e em<br \/>\n    dez minutos o objeto salvador se estendia, amarrado firme a duas colunas,<br \/>\n    a grande altura, na boca da escotilha. Admirei a per&iacute;cia do homem e<br \/>\n    entreguei-lhe uma c&eacute;dula de vinte mil-r&eacute;is. Foi buscar o troco.<br \/>\n    Num momento estaria de volta. Fiquei a esper&aacute;-lo, conversando com Jo&atilde;o<br \/>\n    Anast&aacute;cio e Miguel, os dois passageiros que se haviam relacionado comigo.<br \/>\n    Os outros ainda estavam nebulosos e distantes. Como se chamava aquele sujeito?<br \/>\n    N&atilde;o souberam informar-me, e, como o tipo n&atilde;o regressasse, desisti<br \/>\n    da espera, despedi-me aborrecido por me haver deixado lograr, tentei alcan&ccedil;ar<br \/>\n    o ninho que se agitava muito acima das nossas cabe&ccedil;as. Era uma dif&iacute;cil<br \/>\n    escalada. Sem tirar os sapatos, utilizando como degraus os punhos das outras<br \/>\n    redes, consegui chegar &agrave; minha, afastei as varandas, opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    complicada, e mergulhei no seio de pano com um suspiro de consolo. N&atilde;o<br \/>\n    havia travesseiro nem cobertas. Arranjar-me-ia sem eles. O calor diminu&iacute;ra<br \/>\n    bastante: findava o receio de congestionar-me, sufocar-me; o ar, por&eacute;m,<br \/>\n    ainda era espesso, e voluntariamente me privaria de cobertura. Conseguiria<br \/>\n    dormir, apesar da sede; esta id&eacute;ia afugentava as preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e dava-me paz. Ligeiras picadas no est&ocirc;mago faziam-me pensar nos caix&otilde;es<br \/>\n    e nas marmitas, enojado. Nenhuma fome: com certeza n&atilde;o me seria poss&iacute;vel<br \/>\n    engolir nada. As goelas queimavam, os bei&ccedil;os rachados ardiam, e achava-me<br \/>\n    tranq&uuml;ilo. Realmente n&atilde;o era tranq&uuml;ilidade perfeita. Inclinando-me<br \/>\n    um pouco, via l&aacute; embaixo, numa ponta do estrado, a valise, a cal&ccedil;a,<br \/>\n    o palet&oacute;, o chap&eacute;u; de quando em quando me voltava para vigiar<br \/>\n    estes bens. Algumas c&eacute;dulas, n&iacute;queis e pratas estavam em seguran&ccedil;a,<br \/>\n    no porta-moedas, escondido no bolso do pijama, por baixo do len&ccedil;o.<br \/>\n    Achava-me bem e adormeceria logo se uma insignific&acirc;ncia n&atilde;o me<br \/>\n    perturbasse: a recorda&ccedil;&atilde;o do mulato enfarruscado que me abafara<br \/>\n    cinco mil-r&eacute;is. Eu lhe teria dado cinq&uuml;enta sem hesitar. Aperreava-me<br \/>\n    a safadeza est&uacute;pida. Porque n&atilde;o me havia o idiota pedido mais,<br \/>\n    em neg&oacute;cio? Porque se contentava com um furto pequeno, descoberto em<br \/>\n    minutos? Ladr&atilde;o indecente. Enfim aquilo era ju&iacute;zo temer&aacute;rio:<br \/>\n    possivelmente o homem andava a procurar-me para restituir a diferen&ccedil;a<br \/>\n    No dia seguinte regularizar&iacute;amos a transa&ccedil;&atilde;o. Zangava-me<br \/>\n    por estar perdendo tempo com semelhante niquice, buscava livrar-me dela, considerar<br \/>\n    friamente os absurdos que me rodeavam. Imposs&iacute;vel: dilu&iacute;am-se,<br \/>\n    atrapalhavam-se, figuravam retalhos de sonhos. Nesse estado, meio inconsciente,<br \/>\n    de costas as m&atilde;os cruzadas no peito, distingui a pouca dist&acirc;ncia<br \/>\n    um pol&iacute;cia negro junto &agrave; amurada. Despertei num instante, pensei<br \/>\n    na criatura bestial que me fizera descer a escada fixando-me uma pistola &agrave;s<br \/>\n    costelas. A suspeita e o calafrio de repugn&acirc;ncia num momento cessaram.<br \/>\n    O indiv&iacute;duo ali pr&oacute;ximo n&atilde;o se assemelhava ao bruto corpulento:<br \/>\n    era um rapaz alto, magro, de fei&ccedil;&otilde;es humanas; debru&ccedil;ado,<br \/>\n    parecia examinar o interior do por&atilde;o. Encarei-o, pedi:<\/p>\n<p> Faz o obs&eacute;quio de me dar um copo de &aacute;gua? Balan&ccedil;ou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, hesitou:<br \/>\n    Dif&iacute;cil. Ser&aacute; que o senhor pode subir at&eacute; aqui?<\/p>\n<p> Sem esperar resposta, saiu, voltou com um copo de &aacute;gua, curvou-se<br \/>\n    para dentro; engatinhei, segurando-me ao punho da rede, &agrave; corda, ergui-me<br \/>\n    no suporte oscilante, cheguei aos var&otilde;es da amurada, agarrei-me, alcancei<br \/>\n    o bra&ccedil;o estendido, bebi s&ocirc;frego. Mas aquilo n&atilde;o bastava:<br \/>\n    repetimos a opera&ccedil;&atilde;o quatro ou cinco vezes. N&atilde;o sei como<br \/>\n    agradeci: murmurei com certeza algumas palavras convencionais e vazias. E<br \/>\n    escorreguei no fundo da cova movedi&ccedil;a, abriguei-me nela arquejante,<br \/>\n    de barriga para o ar, os olhos presos no soldado.<\/p>\n<p> Estranho, estranho demais. A fadiga alquebrava-me, impedia-me esbo&ccedil;ar<br \/>\n    um sorriso de reconhecimento. Precisamos viver no inferno, mergulhar nos subterr&acirc;neos<br \/>\n    sociais, para avaliar a&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o poder&iacute;amos<br \/>\n    entender aqui em cima. Dar de beber a quem tem sede. Bem. Mas como exercer<br \/>\n    na vida comum essa obra de miseric&oacute;rdia? H&aacute; car&ecirc;ncia de<br \/>\n    oportunidade, as boas inten&ccedil;&otilde;es embotam-se, perdem-se. Ali me<br \/>\n    havia surgido uma alma na verdade misericordiosa. Ato gratuito, nenhuma esperan&ccedil;a<br \/>\n    de paga; qualquer frase conveniente, resposta de gente educada, morreria isenta<br \/>\n    de significa&ccedil;&atilde;o. Na v&eacute;spera outro desconhecido, negro<br \/>\n    tamb&eacute;m, me havia encostado um cano de arma &agrave; espinha e &agrave;<br \/>\n    ilharga; e qualquer gesto de revolta ou defesa passaria despercebido. Esquisito.<br \/>\n    Os acontecimentos me apareciam desprovidos de raz&atilde;o, as coisas n&atilde;o<br \/>\n    se relacionavam. A viol&ecirc;ncia fora determinada apenas pela grosseria<br \/>\n    existente no primeiro negro; o ato caridoso pela bondade que havia no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do segundo. Aus&ecirc;ncia de motivo fora isso, eu n&atilde;o merecia nenhum<br \/>\n    dos dois tratamentos. Era razo&aacute;vel observ&aacute;-los com frieza, alheio<br \/>\n    e distante. Imposs&iacute;vel. Insensibilizava-me &agrave; brutalidade, encolhera<br \/>\n    os ombros indiferente, como se n&atilde;o fosse comigo; tinha-me habituado<br \/>\n    a ela na exist&ecirc;ncia anterior, dirigida a mim e a outros. N&atilde;o<br \/>\n    podia esquivar-me &agrave;quela piedade que ali espreitava o fundo do por&atilde;o,<br \/>\n    em busca de sofrimentos remedi&aacute;veis. Nunca percebera, em longos anos,<br \/>\n    casos semelhantes. As id&eacute;ias desmaiaram, fugiram, e, aos embalos doces<br \/>\n    da rede, ca&iacute; num sono de pedra.<\/p>\n<h3>23<\/h3>\n<p>NO DIA seguinte descobri em Sebasti&atilde;o Hora uma extravag&acirc;ncia:<br \/>\n    exp&ocirc;s, quando nos avizinh&aacute;vamos da Bahia, o projeto de comunicar-se<br \/>\n    com o governador, que certamente iria visit&aacute;-lo a bordo. A princ&iacute;pio<br \/>\n    julguei que se tratasse de brincadeira e resolvi colaborar nela. Perfeitamente:<br \/>\n    um chefe de governo entrando no por&atilde;o, com ajudante-de-ordem coberto<br \/>\n    de alamares e tro&ccedil;os dourados, para entender-se com um prisioneiro<br \/>\n    muito bem, nada mais natural. Em seguida alarmei-me. O homem falava s&eacute;rio.<br \/>\n    Conhecera anos atr&aacute;s Juraci Magalh&atilde;es, que certamente iria v&ecirc;-lo,<br \/>\n    prestar-lhe aux&iacute;lio. Lauro Lago sorriu e murmurou:<\/p>\n<p> Ilus&atilde;o pequeno-burguesa.<\/p>\n<p> Esse reparo foi insuficiente para chamar o nosso amigo &agrave; realidade:<br \/>\n    forjara uma convic&ccedil;&atilde;o oposta aos fatos, queria firmar-se nela,<br \/>\n    cegar voluntariamente, confessar aos outros a cegueira e receber confirma&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pelo menos apoio t&aacute;cito que lhe preservasse o engano. Tencionei divergir,<br \/>\n    indicar a degrada&ccedil;&atilde;o, a mis&eacute;ria em que nos ach&aacute;vamos.<br \/>\n    O desacordo seria in&uacute;til: ningu&eacute;m ali precisava que lhe avivassem<br \/>\n    os sentidos. Loucura imaginar um pol&iacute;tico influente descendo &agrave;quela<br \/>\n    profundeza; antes de cair a noite Sebasti&atilde;o Hora se decepcionaria.<br \/>\n    Claro, intuitivo. Mas n&atilde;o desejava convencer-se e tinha fome de considera&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Quando a miragem se dissipasse e o estado lastimoso novamente lhe surgisse,<br \/>\n    maquinaria outros fantasmas, embalar-se-ia noutros sonhos. Fora isso, revelava-se<br \/>\n    perfeitamente l&uacute;cido examinando, com Jos&eacute; Macedo e Lauro Lago,<br \/>\n    as causas do insucesso do movimento de Natal. Refugiava-se no passado ou entretinha-se<br \/>\n    a adornar um futuro improv&aacute;vel; n&atilde;o queria ver o presente. Acomodara-se<br \/>\n    junto &agrave; escada, a mala ao alcance da m&atilde;o, parecia aguardar um<br \/>\n    esclarecimento, o fim do equ&iacute;voco, mudan&ccedil;a para um camarote<br \/>\n    de primeira classe. Repugnando a triste b&oacute;ia das marmitas, entendera-se<br \/>\n    com a despensa e recebia numa bandeja alimento de passageiro decente. Desfazia-se<br \/>\n    em prodigalidades as gorjetas lhe minavam certamente os recursos. Convidou-me<br \/>\n    para tomar parte nessa ostenta&ccedil;&atilde;o e nesses banquetes. Sempre<br \/>\n    recusei: se me fosse poss&iacute;vel mastigar qualquer coisa, resignar-me-ia<br \/>\n    &agrave; comida ordin&aacute;ria. Qualquer modifica&ccedil;&atilde;o no tratamento<br \/>\n    de um de n&oacute;s significava, no meu entender, ofensa aos outros. O nosso<br \/>\n    pobre amigo isolava-se deles, conservava-se arredio, e isto devia ser-lhe<br \/>\n    particularmente doloroso; a impossibilidade clara de amoldar-se &agrave; vida<br \/>\n    suja, admitir a conviv&ecirc;ncia fortuita com pessoas humildes, infelizes,<br \/>\n    at&eacute; ladr&otilde;es, perturbava-o. Entendia-se com os dois chefes e<br \/>\n    acolhia a submiss&atilde;o do ex-cont&iacute;nuo Doutor, encalombado e retinto,<br \/>\n    que ali, de c&oacute;coras, recebia do presidente ordens e peda&ccedil;os<br \/>\n    de carne.<\/p>\n<p> Os outros alagoanos, capit&atilde;o Mata, Benon, Ezequiel Fonseca, Vicente<br \/>\n    Ribeiro, Manuel Leal, se haviam dissolvido na multid&atilde;o rio-grandense.<br \/>\n    Os lineamentos dos homens pouco a pouco se iam definindo; &agrave;s vezes<br \/>\n    se misturavam, e em roda surgiam figuras desconexas, uma balb&uacute;rdia.<br \/>\n    Fiz uma lista de nomes; para dirigir-me a algu&eacute;m, precisava consult&aacute;-la,<br \/>\n    e atrapalhavam-me, confundia os indiv&iacute;duos. Eram duzentos ou trezentos,<br \/>\n    v&aacute;rios abatidos pelo enj&ocirc;o. N&atilde;o haveria lugar para tantos<br \/>\n    se as redes n&atilde;o se superpusessem, umas quase tocando o ch&atilde;o,<br \/>\n    outras alcan&ccedil;ando o teto. Dia e noite encerravam corpos: enervadas,<br \/>\n    ociosas, muitas pessoas viviam deitadas, s&oacute; se levantando &agrave;<br \/>\n    hora da comida. T&iacute;nhamos de andar em ziguezagues e curvaturas, evitando<br \/>\n    os choques dos balan&ccedil;os, passando por baixo dos punhos. A porcaria<br \/>\n    aumentava consideravelmente. Se n&atilde;o viessem fazer baldea&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    dentro em pouco n&atilde;o ter&iacute;amos um peda&ccedil;o de t&aacute;bua<br \/>\n    limpa. Mexia-me cauteloso, as cal&ccedil;as arrega&ccedil;adas, examinando<br \/>\n    cuidadosamente o ch&atilde;o. O sujeito que me ficara a dever cinco mil-r&eacute;is<br \/>\n    desapareceu, n&atilde;o sei como achou meio de ocultar-se. As vezes eu o enxergava<br \/>\n    de longe. Aproximava-me, e o focinho escuro, carrancudo, se desviava, baixava,<br \/>\n    tinha jeito de farejar-me para dissimular-se nos grupos. N&atilde;o consegui<br \/>\n    perguntar como se chamava o desgra&ccedil;ado porque nunca me foi poss&iacute;vel<br \/>\n    indic&aacute;-lo. Miser&aacute;vel. Em semelhante apuro, ralar-se ainda mais<br \/>\n    escondendo-se por causa de um furto mi&uacute;do.<\/p>\n<p> Em dois dias aquela gente come&ccedil;ava a familiarizar-se comigo. No quartel,<br \/>\n    eu e capit&atilde;o Mata viv&ecirc;ramos quase duas semanas a tratar-nos cerimoniosamente;<br \/>\n    guard&aacute;vamos recorda&ccedil;&otilde;es que eram travancas e nos distanciavam.<br \/>\n    Agora criaturas an&ocirc;nimas falavam-me como se tiv&eacute;ssemos estado<br \/>\n    sempre juntos. Nenhum receio de molestar-nos suprimindo cortesias de fato<br \/>\n    rid&iacute;culas nas situa&ccedil;&otilde;es em que nos ach&aacute;vamos.<br \/>\n    L&aacute; fora t&iacute;nhamos ocupa&ccedil;&otilde;es diversas, us&aacute;vamos<br \/>\n    linguagens diferentes e nos distingu&iacute;amos pela roupa; ali, no calor,<br \/>\n    mal vestidos, meio nus, usando vocabul&aacute;rio escasso, fundindo as g&iacute;rias<br \/>\n    da caserna e da estiva, parol&aacute;vamos na in&eacute;rcia for&ccedil;ada<br \/>\n    e nos &iacute;amos depressa nivelando. E nenhum esfor&ccedil;o faz&iacute;amos<br \/>\n    para isso: era a autoridade que nos juntava, suprimia de golpe barreiras por<br \/>\n    ela pr&oacute;pria conservadas e refor&ccedil;adas. Oper&aacute;rios e militares<br \/>\n    sediciosos, pequeno-burgueses detidos por suspeita, socialmente val&iacute;amos<br \/>\n    tanto como o ladr&atilde;o que me vendera a rede. Entender-me-ia com ele,<br \/>\n    ser&iacute;amos talvez amigos, se o animal n&atilde;o preferisse lesar-me<br \/>\n    da maneira mais est&uacute;pida. Enfim, pela primeira vez, pessoas de outra<br \/>\n    classe manifestavam-se com franqueza diante de mim. Certas discrep&acirc;ncias<br \/>\n    faziam-me pensar em nossas vidas anteriores: um vosmic&ecirc; me chocava,<br \/>\n    me empurrava para lugar estreito, em demasia preenchido, onde n&atilde;o me<br \/>\n    era poss&iacute;vel caber. N&atilde;o havia &agrave; beira do lago nauseabundo<br \/>\n    espa&ccedil;o para nenhum senhor. Esquec&iacute;amos diferen&ccedil;as sem<br \/>\n    querer. Se quis&eacute;ssemos esquec&ecirc;-las, ser&iacute;amos falsos, posti&ccedil;os,<br \/>\n    intrusos, n&atilde;o conseguir&iacute;amos entendimento: estar&iacute;amos<br \/>\n    de sobreaviso, aguardando a qualquer momento manifesta&ccedil;&otilde;es desagrad&aacute;veis.<br \/>\n    Evit&aacute;vamos contrafazer-nos, exib&iacute;amos honestamente qualidades<br \/>\n    naturais e qualidades adquiridas, fug&iacute;amos a interpenetra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    imposs&iacute;vel. Evidentemente a minha sintaxe divergia da de Miguel e de<br \/>\n    Jo&atilde;o Anast&aacute;cio, mas isto n&atilde;o constitu&iacute;a nenhum<br \/>\n    &oacute;bice: compreendemo-nos e fomos amigos alguns dias. Isso diminuiu o<br \/>\n    horror daquela infame travessia, enchemos tarde e manh&atilde; com palestras<br \/>\n    hoje perdidas. Estar&atilde;o realmente perdidas? Guardaram-se no papel afanosamente<br \/>\n    rabiscado enquanto as colheres rangiam raspando as marmitas. As notas desapareceram.<br \/>\n    Os dois homens permanecem, vivos, um agitado, contradit&oacute;rio, modos<br \/>\n    inquietos de rato, outro sereno e fosco, sem idade, a pele curtida, m&uacute;mia.<br \/>\n    O beato Jos&eacute; In&aacute;cio entrou a desviar-se de mim. Nunca mais tive<br \/>\n    necessidade de lhe pedir nenhum favor. Lembrava-me dos f&oacute;sforos oferecidos<br \/>\n    na primeira noite, do bra&ccedil;o curto, peludo e escuro, do ros&aacute;rio<br \/>\n    de contas brancas e azuis a aparecer pela abertura da camisa grossa de algod&atilde;o.<br \/>\n    A amea&ccedil;a que me dirigia transparecia &agrave;s vezes no olhar torvo,<br \/>\n    rancoroso. A habilidade c&ecirc;nica de M&aacute;rio Paiva expunha-nos com<br \/>\n    freq&uuml;&ecirc;ncia a flauta do Lobato. A tagarelice desenxabida amolava-me.<br \/>\n    Contudo habituei-me a ela: estranhava os r&aacute;pidos sil&ecirc;ncios do<br \/>\n    homem e buscava importunar-me novamente:<\/p>\n<p> De quem era a flauta, M&aacute;rio Paiva? E a resposta vinha pronta, mal<br \/>\n    cantarolada. A flauta era de Lobato. Minha av&oacute; sempre dizia:<\/p>\n<p> Toca flauta, seu&#8230; Lobato tinha uma flauta. A flauta era de Lobato.<\/p>\n<p> Em certa ocasi&atilde;o a voz estridente de Benon chamou-me longe:<\/p>\n<p> Fulano.<\/p>\n<p> Avizinhando-me dele, percebi a indigna&ccedil;&atilde;o resmungada e furiosa<br \/>\n    de Manuel Leal:<\/p>\n<p> Ah! negro! Isso tem cabimento? E apostrofou-me severo:<\/p>\n<p> A culpa &eacute; sua. D&aacute; ousadia a esse moleque.<\/p>\n<p> Pobre Manuel Leal. Recordava-se de me haver conhecido menino, filho de propriet&aacute;rio<br \/>\n    da ro&ccedil;a, propriet&aacute;rio na verdade bem chinfrim, e espantava-se<br \/>\n    daquela mudan&ccedil;a. De algum modo se sentia alcan&ccedil;ado pelo rebaixamento<br \/>\n    que me atribu&iacute;a. Caixeiro-viajante, fizera muito neg&oacute;cio com<br \/>\n    meu pai, gabara-lhe provavelmente as virtudes: a exatid&atilde;o rigorosa<br \/>\n    em pagar contas, vint&eacute;m por vint&eacute;m, e a avareza excessiva, a<br \/>\n    ambi&ccedil;&atilde;o de arrancar exorbit&acirc;ncias do fregu&ecirc;s. Considerando-se<br \/>\n    pouco mais ou menos igual a mim, afligia-se por me ver aceitar a camaradagem<br \/>\n    de ra&ccedil;a impura e classe inferior, temia ser induzido a nivelamentos<br \/>\n    perigosos. Desejava talvez formar ali um pequeno grupo diverso da canalha<br \/>\n    suja e mal vestida, sem banho. De fato n&atilde;o nos lav&aacute;vamos nem<br \/>\n    mud&aacute;vamos a roupa, est&aacute;vamos imundos, sem d&uacute;vida; mas<br \/>\n    n&atilde;o t&iacute;nhamos vivido sempre assim. V&iacute;amos a porcaria nos<br \/>\n    corpos dos outros, ir&iacute;amos perceb&ecirc;-la nas almas dos outros, e<br \/>\n    seria horr&iacute;vel supor que tamb&eacute;m estiv&eacute;ssemos imundos.<br \/>\n    Essa impossibilidade de auto-observa&ccedil;&atilde;o levaria com certeza<br \/>\n    v&aacute;rios de n&oacute;s a buscar um isolamento imposs&iacute;vel, avivaria<br \/>\n    susceptibilidades, provocaria desaven&ccedil;as, choques, rixas, motivaria<br \/>\n    &oacute;dio ou desprezo, faria de companheiros inimigos ferozes. Logo no come&ccedil;o<br \/>\n    me surgiam aquelas incompatibilidades de mau agouro. Se pudesse abrir-me com<br \/>\n    Manuel Leal, dir-lhe-ia que as nossas pequeninas import&acirc;ncias antigas<br \/>\n    n&atilde;o valiam nada. Viagens, mostru&aacute;rios, l&aacute;bias de cometa,<br \/>\n    vendas, recibos, tudo se dilu&iacute;a nas sombras de um passado morto. N&atilde;o<br \/>\n    conseguiria explicar-me e isto me causava surpresa. Entendia-me com Jo&atilde;o<br \/>\n    Anast&aacute;cio, Miguel, Epif&acirc;nio Guilhermino, gente estranha, e deixava<br \/>\n    a um canto o meu velho conhecido de basta cabeleira negra e olhos vivos. Agora<br \/>\n    os olhos esmoreciam cansados e os cabelos estavam completamente brancos.<\/p>\n<h3>24<\/h3>\n<p>A TARDE chegamos &agrave; Bahia. Vi a cidade emergir pouco a pouco do nevoeiro,<br \/>\n    ganhar contornos, crescer, avizinhar-se. O calhambeque passou a barra, cortou<br \/>\n    as &aacute;guas calmas do porto e atracou. Agora n&atilde;o me achava como<br \/>\n    na manh&atilde; da v&eacute;spera, enxergando coqueiros, dunas, telhados de<br \/>\n    armaz&eacute;ns longe, procurando localizar na praia a minha casa de arrabalde:<br \/>\n    com o rosto encaixilhado na vigia, em aten&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada,<br \/>\n    cheia de fugas, observava o trabalho dos carregadores, o movimento dos carros<br \/>\n    a rodar nos trilhos, as fun&ccedil;&otilde;es de um guindaste, a lingada a<br \/>\n    balan&ccedil;ar, a descer, ondas pequenas lambendo o molhe verde. Faziam-me<br \/>\n    falta as veias da minha terra, botes e canoas a jogar desesperados, sumindo-se<br \/>\n    aqui, surgindo al&eacute;m, galgando a crista da vaga. Perto, a az&aacute;fama,<br \/>\n    o cruzar de passageiros e visitantes, risos, abra&ccedil;os, despedidas, l&aacute;grimas.<br \/>\n    Recordei-me de haver pisado aquelas pedras vinte anos atr&aacute;s, em viagem<br \/>\n    para o sul, buscando cavar a vida. A noite embrenhara-me em diversas ruas,<br \/>\n    sem conseguir chegar ao tel&eacute;grafo. Um desconhecido sol&iacute;cito<br \/>\n    se propusera a ensinar-me o caminho. Dobrava esquinas, avan&ccedil;ava, recuava,<br \/>\n    oferecia-me esta informa&ccedil;&atilde;o desconsoladora:<\/p>\n<p> Acho que devia ser por estes lados.<\/p>\n<p> De volta a bordo, achara-me no sal&atilde;o repleto. Uma estrangeira velha<br \/>\n    se acamaradara comigo: dizia-me casos do Rio, dava-me conselhos, e eu lhe<br \/>\n    respondia num franc&ecirc;s que ela se esfor&ccedil;ava terrivelmente por<br \/>\n    entender. Havia dan&ccedil;a e o piano desafinava. Um viajante besta queria<br \/>\n    recitar. Despertara-me a curiosidade uma fam&iacute;lia de mulatos, cinco<br \/>\n    irm&atilde;os de cores variadas: havia um sujeito mascavo, de carapinha, bei&ccedil;udo,<br \/>\n    e uma loura&ccedil;a bonita, perfeitamente branca. Essas coisas chegavam-me<br \/>\n    &agrave; lembran&ccedil;a enquanto me detinha observando a agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do cais. Mudan&ccedil;a completa em vinte anos.<\/p>\n<p> Ociosos, basbaques interrompiam o tr&acirc;nsito, e um moleque dava mostras<br \/>\n    de examinar cuidadoso o interior do por&atilde;o: mais de uma hora em p&eacute;,<br \/>\n    indo e vindo sem se afastar muito do mesmo lugar, esticando o pesco&ccedil;o<br \/>\n    magro, a vista fixa nas caras estranhas, nas cabe&ccedil;as que se metiam<br \/>\n    pelos buracos e pareciam guilhotinadas. O interesse manifestado pelo negrinho<br \/>\n    originou-me a id&eacute;ia de que ele desejava comunica&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    talvez um amigo de qualquer de n&oacute;s o enviasse ali para colher not&iacute;cia,<br \/>\n    dar-nos esperan&ccedil;as. Espigado na roupa nova, o sujeitinho inspirou-me<br \/>\n    confian&ccedil;a: fiz-lhe sinais, pedi-lhe que se aproximasse. Naquele apuro,<br \/>\n    esfor&ccedil;ando-nos embora por conservar o ju&iacute;zo, a reflex&atilde;o,<br \/>\n    tornamo-nos cr&eacute;dulos em demasia: tudo em redor de n&oacute;s se altera,<br \/>\n    os sentidos nos d&atilde;o impress&otilde;es esquisitas, o pensamento se embrulha,<br \/>\n    p&aacute;ra, ou se atira em cabriolas insensatas. Poucos objetos, fatos escassos,<br \/>\n    nos arrastam a conclus&otilde;es pasmosas. E &agrave;s vezes, na car&ecirc;ncia<br \/>\n    dos objetos e dos fatos, criam-se fantasmas. Sebasti&atilde;o Hora, pela manh&atilde;,<br \/>\n    n&atilde;o tivera nenhum ind&iacute;cio de que Juraci Magalh&atilde;es iria<br \/>\n    visit&aacute;-lo: admitira uma hip&oacute;tese gratuita e logo a mudara em<br \/>\n    certeza. O meu caso era menos grave: estava ali um negrinho bem vestido a<br \/>\n    espiar-nos, curioso, a bei&ccedil;orra contraindo-se num sorriso infantil.<br \/>\n    N&atilde;o nos trazia nenhum aviso, claro: afastei a possibilidade remota<br \/>\n    e vacilante. Certifiquei-me, por&eacute;m, de que ele poderia mostrar l&aacute;<br \/>\n    fora peda&ccedil;os da nossa exist&ecirc;ncia no sepulcro. Aferrei-me &agrave;<br \/>\n    convic&ccedil;&atilde;o e, n&atilde;o sei por que extravag&acirc;ncia, imaginei-o<br \/>\n    pr&oacute;ximo de Edison Carneiro, capaz de se avistar no mesmo dia com este<br \/>\n    amigo, com quem me correspondia. Depois de muitos acenos, gritei com toda<br \/>\n    a for&ccedil;a dos pulm&otilde;es d&eacute;beis:<\/p>\n<p> Conhece Edison Carneiro?<\/p>\n<p> A interroga&ccedil;&atilde;o abafada perdeu-se; repeti-a diversas vezes,<br \/>\n    at&eacute; julg&aacute;-la compreendida. O tipinho balan&ccedil;ou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    afirmativamente. Considerei absurdo jogar semelhante frase numa cidade populosa<br \/>\n    e sobrestive; passados minutos, inquiri novamente:<\/p>\n<p> Sabe onde fica a Rua dos Barris?<\/p>\n<p> Outra afirma&ccedil;&atilde;o, o risinho inexpressivo colado nos bei&ccedil;os<br \/>\n    grossos. Bem. Nenhum disparate: pis&aacute;vamos o terreno firme das probabilidades:<br \/>\n    andar nas vias p&uacute;blicas, olhar as placas, era exerc&iacute;cio de qualquer<br \/>\n    transeunte. Do navio para a terra estabeleceu-se um di&aacute;logo que supus<br \/>\n    bastante claro: berros de um lado, gestos, aprova&ccedil;&otilde;es silenciosas<br \/>\n    do outro. Perguntei ao sujeito se ele queria ser portador de uma carta. Consentiu.<br \/>\n    Sem d&uacute;vida: agitava o cr&acirc;nio mirim com do&ccedil;ura a tudo quanto<br \/>\n    ouvia, e nem me vinha a suspeita de n&atilde;o me fazer entender. Fui abrir<br \/>\n    a valise, retirei o bloco de papel, escrevi a l&aacute;pis um bilhete narrando<br \/>\n    o miser&aacute;vel estado em que nos ach&aacute;vamos. Evitava pensar que<br \/>\n    o escrito n&atilde;o chegaria ao destino; e caso chegasse, o meu distante<br \/>\n    camarada nenhum recurso tinha para auxiliar-nos; contudo afligia-me a necessidade<br \/>\n    urgente de enviar-lhe aquela exposi&ccedil;&atilde;o. Rabisquei &agrave; pressa,<br \/>\n    interrompendo-me a cada instante para examinar o negrinho, receando que ele<br \/>\n    se ausentasse. Falava-lhe nesses intervalos, embaralhava explica&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Descasquei em seguida uma laranja, cuidadosamente. Lancei na &aacute;gua o<br \/>\n    fruto, e a casca. uma longa fita em espiral, foi enrolada com jeito, afinal<br \/>\n    se tornou uma esfera oca. No interior pus a folha dobrada. Fiz algumas recomenda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ao negro, medi atento a dist&acirc;ncia que nos separava, meti o bra&ccedil;o<br \/>\n    pela vigia, arremessei a bola com vigor desesperado. Atingiu o cais, rolou,<br \/>\n    estacou a dois metros da borda. Apesar de haver tra&ccedil;ado o endere&ccedil;o<br \/>\n    bem n&iacute;tido, em caracteres gra&uacute;dos, comecei a esgoelar-me, repetindo<br \/>\n    com insist&ecirc;ncia:<\/p>\n<p> Edison Carneiro. Rua dos Barris 68<\/p>\n<p> O rapaz olhava-me perplexo e interrogava-me sacudindo a cara chata. S&oacute;<br \/>\n    ent&atilde;o me veio a certeza de que ele n&atilde;o havia percebido as minhas<br \/>\n    falas. Expliquei-lhe aos berros que ali havia um papel e continuei a dar-lhe<br \/>\n    as indica&ccedil;&otilde;es precisas: o nome e a resid&ecirc;ncia do escritor<br \/>\n    baiano. Mas j&aacute; n&atilde;o tinha nenhuma confian&ccedil;a no resultado:<br \/>\n    ou a minha voz fraca desfalecia no burburinho, nos rumores da carga e da descarga,<br \/>\n    ou me achava diante de uma estupidez maci&ccedil;a.<\/p>\n<p> Trabalho perdido. In&uacute;teis os brados e os acenos. Calei-me zangado<br \/>\n    comigo, por me haver iludido &agrave; toa, furioso com o animal, que n&atilde;o<br \/>\n    me entendera e, alheio ao guindaste, aos visitantes, aos passageiros, aos<br \/>\n    carregadores, continuava a farejar o por&atilde;o, como um rato, erguendo<br \/>\n    o focinho, dirigindo-nos os bugalhos claros. O risinho insignificante, a hesita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os modos obl&iacute;quos, tinham-se esva&iacute;do. Evidentemente n&atilde;o<br \/>\n    me ligava import&acirc;ncia: espalhava a aten&ccedil;&atilde;o pelos outros<br \/>\n    rostos, pelas aberturas desertas. Estivera im&oacute;vel uns minutos, fingindo<br \/>\n    escutar-me, a face obtusa contra&iacute;da numa careta. Recome&ccedil;ara<br \/>\n    o passeio. Alguns passos para um lado, alguns passos para outro, demora curta,<br \/>\n    e novamente se deslocava, sem despregar a vista do costado da embarca&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Nessas idas e vindas passava perto da laranja e persuadia-me quase de que<br \/>\n    ia baixar-se e apanh&aacute;-la. Tudo se sumiu. Numa das viagens encontrou<br \/>\n    no caminho o objeto dos meus cuidados. Parou, deu-lhe um pontap&eacute;, jogou-o<br \/>\n    na &aacute;gua. Durante algum tempo o bilhete e o inv&oacute;lucro meio desfeito<br \/>\n    boiaram na onda, sacudiram-se, bateram no muro esverdeado. E desapareceram.<\/p>\n<h3>25<\/h3>\n<p>RECOLHI-ME, fui entregar-me &agrave; reda&ccedil;&atilde;o das minhas notas,<br \/>\n    mas n&atilde;o consegui fixar-me nelas: a aten&ccedil;&atilde;o se desviava,<br \/>\n    fugia para uma figura negra que da coberta nos examinava com insist&ecirc;ncia.<br \/>\n    Era um eclesi&aacute;stico moreno e robusto, de express&atilde;o en&eacute;rgica.<br \/>\n    Ficava tempo esquecido a pesquisar o fundo do por&atilde;o, como se procurasse<br \/>\n    pessoas conhecidas; metia a m&atilde;o direita na manga esquerda da batina,<br \/>\n    parecia indicar ter ali qualquer coisa para enviar-nos. Nunca o tendo visto<br \/>\n    antes, conservei-me arredio, mas fiquei sabendo o nome do homem. Padre Falc&atilde;o<br \/>\n    embarcara na v&eacute;spera, em Macei&oacute;; provavelmente estava ali buscando<br \/>\n    meio de ser &uacute;til aos viajantes de Alagoas. A autoridade experimentaria<br \/>\n    dura surpresa se conhecesse aqueles manejos. Excelente padre Falc&atilde;o.<br \/>\n    Durante o resto da viagem notei-o mais de uma vez em ronda ao nosso curral.<br \/>\n    O olhar grave se ado&ccedil;ava, os l&aacute;bios firmes se entreabriam num<br \/>\n    sorriso bom, exibindo enormes dentes. Era pouco mais ou menos o que poder&iacute;amos<br \/>\n    desejar, ver algu&eacute;m interessar-se por n&oacute;s, demonstrar-nos uma<br \/>\n    solidariedade comprometedora. Isso l&aacute; fora passaria despercebido; ali<br \/>\n    tinha valor imenso: &eacute; de coisas semelhantes que fazemos as nossas constru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    subterr&acirc;neas.<\/p>\n<p> A verdade &eacute; que n&atilde;o consegui escrever. Deitei-me cedo, sem<br \/>\n    tirar os sapatos, como no dia anterior. Realmente n&atilde;o havia lugar onde<br \/>\n    coloc&aacute;-los: se os largasse no ch&atilde;o, amanheceriam com certeza<br \/>\n    molhados de mijo; ou talvez o gatuno de cara enferrujada os levasse. Necess&aacute;rio<br \/>\n    vigiar a maleta, a cal&ccedil;a e o palet&oacute; bem vis&iacute;veis na ponta<br \/>\n    do estrado. A chavezinha estava comigo, dentro do porta-moedas; nos bolsos<br \/>\n    da roupa n&atilde;o havia nada suscet&iacute;vel de furto. Apesar disso, a<br \/>\n    bagagem n&atilde;o me parecia segura. Se n&atilde;o fosse o receio de molestar<br \/>\n    os companheiros, t&ecirc;-la-ia levado para dentro da rede. Ser-me-ia ent&atilde;o<br \/>\n    poss&iacute;vel dormir livre de cuidados. A vigil&acirc;ncia pouco a pouco<br \/>\n    se tornava maquinal: embrenhandome em pensamentos confusos, &agrave;s vezes<br \/>\n    despertava erguendome sobre o cotovelo, curvando-me sobre a varanda para examinar<br \/>\n    os tro&ccedil;os, a esquina da t&aacute;bua suja. Esfor&ccedil;ava-me por<br \/>\n    distinguir nos rumores o som de um piano. As redes im&oacute;veis: o calhambeque<br \/>\n    permanecia atracado, provavelmente. Aquela hora visitantes e passageiros estariam<br \/>\n    dan&ccedil;ando no sal&atilde;o; um cretino desejava recitar; diversos irm&atilde;os<br \/>\n    mulatos exibiam colora&ccedil;&atilde;o muito variada; uma francesa velha,<br \/>\n    experiente, dava conselhos a um provinciano ing&ecirc;nuo, interrompia-se<br \/>\n    para resmungar a frase percebida vinte anos atr&aacute;s: Quel pays, mon Dieu!<br \/>\n    Haveria um piano a bordo? Talvez n&atilde;o. Viaj&aacute;vamos num traste<br \/>\n    horr&iacute;vel, caduco, &oacute;timo para naufr&aacute;gio. Contudo a recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da antiga viagem me perseguia. A qualquer momento me chegariam compassos de<br \/>\n    valsa aos ouvidos. Tr&ecirc;s ou quatro indiv&iacute;duos, no bar, se distra&iacute;am<br \/>\n    bebendo e jogando poker. Um casal novo se encostava &agrave; amurada, em ponto<br \/>\n    obscuro. Algumas mulheres alegres, em cadeiras de vime e espregui&ccedil;adeiras,<br \/>\n    se expandiam com sujeitos ruidosos, numa grulhada internacional. Bem. Essas<br \/>\n    observa&ccedil;&otilde;es de vinte anos n&atilde;o tinham significa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Tolice imaginar ali perto o imbecil do recitativo, a fam&iacute;lia mulata,<br \/>\n    a francesa idosa, os jogadores do poker, o enlevo de um par jovem; provavelmente<br \/>\n    argentinas e polacas airadas j&aacute; n&atilde;o vinham cavar a vida no Brasil.<\/p>\n<p> Fumei o &uacute;ltimo cigarro, lembrei-me de haver esgotado o sortimento<br \/>\n    da valise. Calculara mal as exig&ecirc;ncias do v&iacute;cio e achava-me em<br \/>\n    dificuldade. Passaria o resto da noite sem fu mar, n&atilde;o me chegaria<br \/>\n    o sono. Levava a m&atilde;o ao bolso, mecanicamente, irritava-me, quando vi,<br \/>\n    por cima da minha cabe&ccedil;a, o negro que me havia matado a sede. Sem refletir,<br \/>\n    fiz o pedido:<br \/>\n    O senhor me arranja, por obs&eacute;quio, tr&ecirc;s ma&ccedil;os de cigarros<br \/>\n    e f&oacute;sforos?<br \/>\n    Que marca? perguntou o soldado. Qualquer uma.<\/p>\n<p> Pareceu-me que indicar a marca era demasiada exig&ecirc;ncia. Quis designar<br \/>\n    a que habitualmente usava; talvez n&atilde;o fosse achada, e acanhar-me-ia<br \/>\n    ver o rapaz ir duas vezes ao bar por encargo t&atilde;o insignificante. Julgava-me<br \/>\n    sem direito de escolher, temia que o homem se impacientasse. Era um acaso<br \/>\n    feliz encontrar quem me valesse em tal dificuldade. Retirei uma c&eacute;dula<br \/>\n    da carteira, segurei-me &agrave; corda, alcancei os var&otilde;es de ferro,<br \/>\n    como na v&eacute;spera, entreguei o dinheiro ao pol&iacute;cia, jurando no<br \/>\n    &iacute;ntimo n&atilde;o tornar a incomod&aacute;-lo, voltei a estirar-me,<br \/>\n    cansado. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia da in&eacute;rcia obrigat&oacute;ria,<br \/>\n    ou por falta de alimenta&ccedil;&atilde;o, qualquer esfor&ccedil;o me abatia.<br \/>\n    Ao cabo dez minutos o misericordioso preto ressurgiu:<br \/>\n    Abra a rede.<\/p>\n<p> Afastei as varandas, recebi em cima do peito os objetos da encomenda, as<br \/>\n    pratas e os n&iacute;queis do troco.<\/p>\n<p> Muito obrigado.<\/p>\n<p> Pus-me a fumar, embalado por uma doce tontura. Com o navio atracado, as<br \/>\n    oscila&ccedil;&otilde;es que experiment&aacute;vamos eram quase insens&iacute;veis.<br \/>\n    Sentia-me realmente bem. As pessoas e as coisas em redor esmoreciam na fuma&ccedil;a<br \/>\n    do cigarro, as id&eacute;ias escassas decompunham-se, volatizavam-se, e afinal<br \/>\n    eu j&aacute; nem sabia se aquela t&ecirc;nue neblina estava dentro ou fora<br \/>\n    de mim. Adormecia, acordava, a brasa do cigarro cobria-se de cinza e avivava-se.<br \/>\n    As p&aacute;lpebras uniam-se, descerravam-se penosamente, nos vaiv&eacute;ns<br \/>\n    dos cochilos a figura do negro desaparecia, reaparecia, e isto me reconciliava<br \/>\n    com a humanidade. Uma grande paz me envolvia, aus&ecirc;ncia completa das<br \/>\n    complica&ccedil;&otilde;es que me aperreavam. A dorzinha aguda que o abscesso<br \/>\n    da unha me causava extinguia-se, era apenas um leve torpor Nem picadas no<br \/>\n    est&ocirc;mago nem contra&ccedil;&otilde;es nos intestinos: era como se estes<br \/>\n    &oacute;rg&atilde;os n&atilde;o existissem. Nada havia ingerido ultimamente,<br \/>\n    imposs&iacute;vel at&eacute; pensar em comer. Ia com certeza prolongar-se<br \/>\n    a medonha sitiofobia, mas a perspectiva de nenhum modo me assustava. Indiferen&ccedil;a.<br \/>\n    Tanto rendia estar ali como acol&aacute;, viver de uma forma como de outra,<br \/>\n    ou n&atilde;o viver. N&atilde;o me desgostava acabar suavemente, escorregar<br \/>\n    aos poucos na eternidade, envolto em sentimentos generosos. levar comigo a<br \/>\n    recorda&ccedil;&atilde;o do negro que velava a minha fraqueza. firme e s&eacute;rio,<br \/>\n    de bra&ccedil;os cruzados. A vis&atilde;o benigna desmaiou e sumiu-se, as<br \/>\n    trevas do sono cobriram-me, foram-se adensando.<\/p>\n<p> Ligeiras pancadas no corpo despertaram-me s&uacute;bito Estremeci, depois<br \/>\n    me revoltei: da coberta jogavam no por&atilde;o cascas de tangerina, que me<br \/>\n    vinham cair dentro da rede. Pro cediam exatamente como se as lan&ccedil;assem<br \/>\n    num chiqueiro. Protestei furioso, mas o protesto e a f&uacute;ria desanimaram,<br \/>\n    a voz fraca deve ter morrido a poucos metros. Resignei-me em seguida. In&uacute;til<br \/>\n    gritar. Um chiqueiro, evidentemente. Era como se f&ocirc;ssemos animais.<\/p>\n<p> Covardes.<\/p>\n<p> N&atilde;o xingava, n&atilde;o desabafava: reconhecia somente um fato. Ali&aacute;s<br \/>\n    dependia de n&oacute;s enxergar naquilo um vilip&ecirc;ndio N&atilde;o me<br \/>\n    supunha aviltado. Por instantes imaginei que ignoravam na tolda a nossa exist&ecirc;ncia<br \/>\n    de tatus. Imposs&iacute;vel. Os ru&iacute;dos, o falat&oacute;rio de algumas<br \/>\n    centenas de pessoas, o fedor que se exalava da infame cloaca facilmente nos<br \/>\n    revelavam. As cascas de tangerina ca&iacute;am-me sem cessar na rede Tencionei<br \/>\n    apanh&aacute;-las, atir&aacute;-las no charco de urina. Contive-me desprendiam<br \/>\n    cheiro agrad&aacute;vel, e isto obliterou os &uacute;ltimos res&iacute;duos<br \/>\n    da c&oacute;lera, fez-me esquecer o intuito ruim que as tinha enviado. Esmaguei-as<br \/>\n    entre os dedos, aspirei o odor acre e espesso; o sumo embebia-se nas m&atilde;os,<br \/>\n    impregnava-se na roupa. N&atilde;o queria julgar-me t&atilde;o desgra&ccedil;ado<br \/>\n    como as apar&ecirc;ncias indicavam. Um negro bo&ccedil;al me dirigira a pistola<br \/>\n    &agrave; espinha, &agrave; ilharga, ao peito. Um negro compassivo me exibira<br \/>\n    cantos secretos da alma, belezas nunca suspeitadas. Agora indiv&iacute;duos<br \/>\n    ocultos, inacess&iacute;veis, tentavam ofender-me, insultar-me. As ofensas<br \/>\n    e os insultos esfumavam-se no ar, convertiam-se em presente am&aacute;vel.<br \/>\n    Aqueles fatos n&atilde;o encerravam, possivelmente, a significa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que eu lhes atribu&iacute;a. O selvagem de bugalho vermelho me encostara sem<br \/>\n    raiva a arma ao corpo: a&ccedil;&atilde;o repetida, profissional, movimento<br \/>\n    de bruto impass&iacute;vel. Entregando-se ao comportamento bestial, conservava<br \/>\n    longe o esp&iacute;rito, numa cama de meretriz vagabunda, num botequim sujo<br \/>\n    de arrabalde. E a criatura sol&iacute;cita que me favorecera duas vezes comportara-se<br \/>\n    levada pelo h&aacute;bito, nem avaliava a grandeza do benef&iacute;cio. Proceder<br \/>\n    mec&acirc;nico de funcion&aacute;rio. Arreliava-me essa conjetura, confessava-me<br \/>\n    ingrato. Para justificar o primeiro soldado, reduzia a benevol&ecirc;ncia<br \/>\n    do segundo. O infeliz jogo mental nos despoja, nos rouba os impulsos mais<br \/>\n    s&atilde;os. Conting&ecirc;ncia miser&aacute;vel. Nessa tentativa de nivelamento,<br \/>\n    precisava esquivar-me &agrave;s inj&uacute;rias que vinham da coberta, me<br \/>\n    batiam nos bra&ccedil;os e no rosto, me coloriam de uma camada amarela verdoenga.<br \/>\n    Loucura ressentir-me. Aquilo era bom. A fadiga crescia, atava-me os membros.<br \/>\n    E resvalei na escurid&atilde;o, tranq&uuml;ilo, absorvendo as emana&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    das cascas de tangerina, que me vieram perfumar os sonhos<\/p>\n<h3>26<\/h3>\n<p>VENDO-ME a redigir as notas dif&iacute;ceis, sentado no caix&atilde;o. enxergando<br \/>\n    mal na sombra densa, o nariz junto &agrave; folha, a valise sobre os joelhos<br \/>\n    servindo-me de escrivaninha, o padeiro ofereceu-me o seu camarote, perto do<br \/>\n    escotilh&atilde;o e do mict&oacute;rio improvisado. N&atilde;o me lembro do<br \/>\n    oferecimento e isto revela a minha perturba&ccedil;&atilde;o. Nem consigo<br \/>\n    reconstituir a figura do padeiro. Sei que era um homem baixo, moreno, de mangas<br \/>\n    arrega&ccedil;adas. O resto perdeu-se. O indiv&iacute;duo que me livrou daquele<br \/>\n    inferno e me facultou algumas horas de sil&ecirc;ncio e repouso sumiu-se e<br \/>\n    poucos tra&ccedil;os me deixou no esp&iacute;rito. Esqueci as conversas que<br \/>\n    tive com ele. Provavelmente n&atilde;o houve conversa. Algumas palavras apenas.<\/p>\n<p> E achei-me num cub&iacute;culo onde havia um beliche, mesa estreita e cadeira.<br \/>\n    Havia-me em dois ou tr&ecirc;s dias esquecido completamente desses confortos.<br \/>\n    Agora podia utilizar m&oacute;veis, arriar no assento gasto, alongar o bra&ccedil;o<br \/>\n    em cima de uma t&aacute;bua, escrever dir@ito; a luz que entrava pela vigia,<br \/>\n    &agrave;s minhas costas, iluminava parte do papel. Fechava-me, aturdia-me<br \/>\n    na composi&ccedil;&atilde;o. O esp&iacute;rito estava l&uacute;cido, mas era<br \/>\n    lucidez esquisita: percebia tipos, ocorr&ecirc;ncias, em fragmentos; quando<br \/>\n    se tratava de estabelecer rela&ccedil;&atilde;o, surgiam cortes, hiatos, falhas<br \/>\n    alarmantes. Um inseto a zumbir-me nos ouvidos. Seria efeito do ar denso ou<br \/>\n    do longo jejum? Fatigava-me, sa&iacute;a, andava a escutar peda&ccedil;os<br \/>\n    de conversas. Notariam a minha confus&atilde;o? Pouco prov&aacute;vel. Exteriormente<br \/>\n    devia ser um sujeito de senso; n&atilde;o me capacitava disto e media cuidadoso<br \/>\n    palavras e gestos. Precau&ccedil;&atilde;o desnecess&aacute;ria: nenhum desejo<br \/>\n    de falar, pregui&ccedil;a de juntar as id&eacute;ias mais singelas, impossibilidade<br \/>\n    total de meter-me em qualquer discuss&atilde;o: largariam na minha presen&ccedil;a<br \/>\n    os maiores absurdos, e calar-me-ia, aprova-los-ia tacitamente. Aborrecia-me,<br \/>\n    contendo bocejos, at&eacute; ouvir o arrastar dos caix&otilde;es, o tinir<br \/>\n    das colheres nas marmitas; recolhia-me, cerrava a porta. Insuport&aacute;vel<br \/>\n    o cheiro da comida. Se me fosse poss&iacute;vel mastigar um bocado, a zoeira<br \/>\n    deixaria de perseguir-me. No calor, despojava-me do casaco, punha-me a arquejar,<br \/>\n    expondo-me ao vento morno e salgado que entrava pela vigia. Tinha licen&ccedil;a<br \/>\n    para estirar-me na cama e n&atilde;o hesitava em servir-me dela. Aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de susceptibilidades: n&atilde;o me importava encostar-me em len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    alheios, umedec&ecirc;-los de suor, manch&aacute;-los, manchar-me. Agora os<br \/>\n    meus trastes se arrumavam num canto: ali estavam resguardados, longe do sujeito<br \/>\n    que me furtara cinco mil-r&eacute;is. N&atilde;o me fora poss&iacute;vel reencontrar<br \/>\n    esse canalha: tinha um jeito de escapulir-se, agachar-se, mergulhar, por causa<br \/>\n    de uma insignific&acirc;ncia. Fizera-me enorme favor e esgueirava-se com medo.<br \/>\n    Eu pretendia dizer-lhe que estava muito agradecido; o miser&aacute;vel fugia<br \/>\n    e culpava-se. Tais desencontros amargam em demasia, enchem-nos de fel: queremos<br \/>\n    expressar agradecimento sincero e verificamos que o nosso salvador &eacute;<br \/>\n    um patife. Somos for&ccedil;ados a reconhecer que os valores estabelecidos<br \/>\n    se modificam. Precisamos viver, embora n&atilde;o seja certo que a nossa vida<br \/>\n    represente qualquer utilidade. Procuramos ag&uuml;entar-nos de uma ou de outra<br \/>\n    maneira, adquirimos h&aacute;bitos novos, ju&iacute;zo diverso do que nos<br \/>\n    orientava l&aacute; fora.<\/p>\n<p> Antes de me entocar naquele abrigo, desculpava-me da in&eacute;rcia alegando<br \/>\n    a mim mesmo ser dif&iacute;cil combinarmos frases com dec&ecirc;ncia entre<br \/>\n    duas ou tr&ecirc;s centenas de pessoas, ouvindo pragas, gemidos, roncos, v&ocirc;mitos.<br \/>\n    Falavam-me a cada instante, perturbavam-me. A fei&ccedil;&atilde;o misteriosa<br \/>\n    e inquieta de Miguel, a pachorra, a frieza, os olhos agudos de Anast&aacute;cio,<br \/>\n    a parolagem fr&iacute;vola do estudantezinho Jo&atilde;o Rocha afastavam-me<br \/>\n    do trabalho. Esses estavam perto de mim. Mas n&atilde;o me era poss&iacute;vel<br \/>\n    deixar de atentar noutros mais distantes. A cicatriz medonha de Gast&atilde;o<br \/>\n    repuxava-lhe os m&uacute;sculos do rosto, estampava-lhe um sorriso sarc&aacute;stico,<br \/>\n    invari&aacute;vel, e isto me dava a impress&atilde;o de que o rapaz zombava<br \/>\n    dos meus desesperados esfor&ccedil;os para agarrar-me a um assunto. Paulo<br \/>\n    Pinto, sifil&iacute;tico, exibia umas canelas pretas finas demais. Era ele<br \/>\n    que tinha uma bala na perna? V&aacute;rias vezes busquei examinar esse ponto;<br \/>\n    as informa&ccedil;&otilde;es perdiam-se. Bem. Se n&atilde;o era ele, seria<br \/>\n    talvez o chauffeur Dom&iacute;cio Fernandes. Um dos dois. A verdade &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o cheguei a distinguir Dom&iacute;cio Fernandes de Paulo Pinto.<br \/>\n    Confus&atilde;o desarrazoada: juntos, notava-se que diferiam bastante; vendo<br \/>\n    um deles, sempre me aconteceu trocar-lhe o nome. Os olhos vermelhos do cabra<br \/>\n    de Lampi&atilde;o indicavam malvadez. Bicho sarar&aacute;, arrepiado, os fogachos<br \/>\n    duros brilhando na alvura sardenta, Euclides era feroz, sem d&uacute;vida.<br \/>\n    Imposs&iacute;vel fixar a aten&ccedil;&atilde;o no per&iacute;odo riscado,<br \/>\n    emendado, incompleto. No camarote do padeiro a insufici&ecirc;ncia permanecia<br \/>\n    e j&aacute; n&atilde;o tinha recurso para justificar-me. Vergado no caix&atilde;o,<br \/>\n    quase de c&oacute;coras, o bra&ccedil;o encolhido, limitar-me-ia a reproduzir<br \/>\n    sem coment&aacute;rios cenas pr&oacute;ximas: seria uma esp&eacute;cie de<br \/>\n    fot&oacute;grafo ou rep&oacute;rter; agora, isolado, necessitava arrumar pensamentos,<br \/>\n    e eles recalcitravam. Defendia-me dizendo a mim mesmo n&atilde;o me achar<br \/>\n    inteiramente s&oacute;: aqueles berros, ali pr&oacute;ximo, rebentavam-me<br \/>\n    os t&iacute;mpanos. Quem estaria a vociferar com tanta viol&ecirc;ncia? Ramiro,<br \/>\n    com certeza. Ia-me acostumando aos seus furores. Tinham-lhe causado l&aacute;<br \/>\n    de cima algum inc&ocirc;modo, batera-lhe talvez no corpo uma casca de tangerina,<br \/>\n    e o garoto se danava em gritos roucos a inimigos invis&iacute;veis, parecia<br \/>\n    que o estavam estrangulando. A coragem doida do menino encantava-me. Com certeza<br \/>\n    n&atilde;o tinha consci&ecirc;ncia do nosso estado. Enquanto os outros se<br \/>\n    moviam cautelosos, falando baixo, ele pisava firme, dirigia-se aos soldados<br \/>\n    em destampat&oacute;rios, excedia-se em exig&ecirc;ncias &aacute;speras, verdadeiras<br \/>\n    ordens. Depois ria num estouvamento feliz, alheio &agrave; imund&iacute;cie,<br \/>\n    corria por todos os cantos, exibindo as bochechas coradas, e &agrave; noite<br \/>\n    repousava calmo, como se o protegesse o sorriso doce da mam&atilde;e. A bulha<br \/>\n    de Ramiro n&atilde;o me deixava escrever. Levantava-me, satisfeito por achar<br \/>\n    explica&ccedil;&atilde;o para o meu desarranjo interior, abria a porta. M&aacute;rio<br \/>\n    Paiva se avizinhava, remoia uma verbosidade ins&iacute;pida, cantavam pela<br \/>\n    cent&eacute;sima vez a flauta do Lobato. Nunca vi pessoa mais pau. Contudo<br \/>\n    eu gostava dele. Uma cacetea&ccedil;&atilde;o original, cacetea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    am&aacute;vel. V&iacute;amos daquele ponto o grupo que se estabelecera &agrave;<br \/>\n    entrada e quase nunca se afastava dali. Jos&eacute; Macedo fumava placidamente<br \/>\n    o cachimbo, vermelho e gordinho, entendia-se com os companheiros de Natal,<br \/>\n    dava-lhes conselhos, fazia contas, sentado na rede. Suponho que era o caixa,<br \/>\n    andava sempre cochichando neg&oacute;cios de dinheiro. Ex-diretor do tesouro,<br \/>\n    dois dias ministro da Fazenda revolucion&aacute;rio, habituara-se ao of&iacute;cio<br \/>\n    e prolongava-o. Sebasti&atilde;o F&eacute;lix, amigo dos esp&iacute;ritos,<br \/>\n    ia adquirindo uns modos f&uacute;nebres de esp&iacute;rito; desdenhava a exist&ecirc;ncia<br \/>\n    terrena e acolhia-se no outro ,mundo. Opera&ccedil;ccedil;&atilde;o lastimosa, com<br \/>\n    luz fraca, tentou ali realizar o pequeno dentista Guerra no queixo do estivador<br \/>\n    Jo&atilde;o Francisco Greg&oacute;rio, que estava feroz, de cara t&uacute;mida,<br \/>\n    aperreado com um molar. Guerra manejou o paciente conforme as regras e meteu-lhe<br \/>\n    o botic&atilde;o na boca; desprezou o dente cariado e, com destreza, segurou<br \/>\n    um perfeito; como a v&iacute;tima reclamasse, agitou o instrumento, fez fincap&eacute;,<br \/>\n    bradando en&eacute;rgico:<\/p>\n<p> Doente comigo n&atilde;o tem conversa.<\/p>\n<p> Houve um rugido. Uma garra prendeu-lhe a m&atilde;o, tomou-lhe o ferro.<br \/>\n    E o largo p&eacute; do estivador plantou-se no peito magro do dentista, que<br \/>\n    foi cair longe. Sebasti&atilde;o Hora continuava junto &agrave; escada, a<br \/>\n    mala ao alcance da m&atilde;o. Lugar inconveniente. A latrina ficava l&aacute;<br \/>\n    em cima e havia sempre gente a subir e a descer. As duas mulheres passavam,<br \/>\n    depois desapareciam al&eacute;m das cortinas estendidas ao fundo. Nenhuma<br \/>\n    comunica&ccedil;&atilde;o conosco. O riso acolhedor de Maria Joana banhava-lhe<br \/>\n    o rosto negro, mas Leonila tinha uma sisudez fria de metal. Sertaneja, provavelmente,<br \/>\n    educara-se e vivera no horror ao homem. Aus&ecirc;ncia de palestras, de familiaridade.<br \/>\n    Escondia-se, levava a outra para a fornalha, iam assar, frigir-se, derreter-se<br \/>\n    na temperatura medonha. Coitadas. Entre n&oacute;s distrair-se-iam, respirariam<br \/>\n    por baixo da escotilha, abreviariam as horas, esqueceriam as mis&eacute;rias<br \/>\n    e as priva&ccedil;&otilde;es; refrear&iacute;amos as nossas l&iacute;nguas,<br \/>\n    os oper&aacute;rios deixariam de contar anedotas obscenas e insulsas. Penalizavam-me<br \/>\n    em excesso as pobres mulheres, atormentava-me ver Maria Joana, t&atilde;o<br \/>\n    viva e t&atilde;o fresca, estiolar-se no retiro e no morma&ccedil;o. Comparado<br \/>\n    &agrave; furna delas, o camarote do padeiro significava luxo e ostenta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Afligia-me ocup&aacute;-lo, sentar-me em cadeira, firmar os cotovelos em mesa,<br \/>\n    quando a alguns passos homens acabrunhados vergavam sobre malotes e trouxas.<br \/>\n    Envergonhava-me. Talvez essa vergonha fosse um pretexto para esquivar-me,<br \/>\n    abandonar o l&aacute;pis e o papel.<\/p>\n<p> A verdade &eacute; que n&atilde;o me trancava muitas horas. Ordinariamente<br \/>\n    deixava a porta aberta, em minutos o cub&iacute;culo se enchia. Como prosseguir<br \/>\n    na tarefa diante daqueles indiscretos que me vinham examinar a escrita por<br \/>\n    cima do ombro? Al&eacute;m de tudo era-me indispens&aacute;vel observar as<br \/>\n    pessoas, exibi-las com relativa fidelidade. Outra raz&atilde;o para vadiagem.<br \/>\n    Os meus desesperados esfor&ccedil;os rendiam menos que nos primeiros dias.<br \/>\n    Tinham-me servido para alhear-me, esquecer as fisionomias decompostas no enj&ocirc;o<br \/>\n    e na febre, a imund&iacute;cie, o calor. Representavam de fato um ref&uacute;gio.<br \/>\n    Agora podia ocultar-me, dispensar aquele recurso. E n&atilde;o sossegava,<br \/>\n    tinha remorso por achar-me in&uacute;til. Erguia-me, chegava-me aos novos<br \/>\n    camaradas. Necess&aacute;rio conhec&ecirc;-los bem. A sinceridade patenteava-se<br \/>\n    no rosto de Lauro Lago, na voz breve, sacudida, incisiva. Capit&atilde;o Mata,<br \/>\n    furioso na chegada, ambientara-se rapidamente conservara o apetite, animava-se,<br \/>\n    ria satisfeito, como se tivesse vivido sempre num por&atilde;o; abandonara<br \/>\n    os toques da corneta, os dentes de sag&uuml;i, usava palavras subversivas<br \/>\n    e ia-se tornando um revolucion&aacute;rio perigoso. Van der Linden arfava<br \/>\n    penosamente, a resigna&ccedil;&atilde;o no rosto p&aacute;lido. Carlindo Revoredo,<br \/>\n    nome esquisito. Tudo nele era esquisito. Porque n&atilde;o falava, n&atilde;o<br \/>\n    se mexia? Intrigava-me aquele gigante im&oacute;vel e silencioso.<\/p>\n<h3>27<\/h3>\n<p>MANDARAM-NOS subir &agrave; coberta, apinhamo-nos em magote ao p&eacute;<br \/>\n    de um mastro. Que diabo estar&iacute;amos fazendo ali? Desejava informar-me,<br \/>\n    apesar de saber que a pergunta seria in&uacute;til. Nenhum dos companheiros<br \/>\n    estava em condi&ccedil;&atilde;o de satisfazer-me a curiosidade, e evidentemente<br \/>\n    os sujeitos que nos davam ordens n&atilde;o iriam explicar-se. Esse automatismo,<br \/>\n    renovado com freq&uuml;&ecirc;ncia nas cadeias, &eacute; uma tortura; as pessoas<br \/>\n    livres n&atilde;o imaginam a extens&atilde;o do tormento. Certo h&aacute;<br \/>\n    uma raz&atilde;o para nos mexermos desta ou daquela maneira, mas, desconhecendo<br \/>\n    o m&oacute;vel dos nossos atos, andamos &agrave; toa, desarvorados. Roubam-nos<br \/>\n    completamente a iniciativa, os nossos desejos, os intuitos mais reservados<br \/>\n    est&atilde;o sujeitos a verifica&ccedil;&atilde;o; e for&ccedil;am-nos a procedimento<br \/>\n    desarrazoado. Perdemo-nos em conjeturas. Ser&aacute; que, trazendo-nos para<br \/>\n    aqui, tiveram a inten&ccedil;&atilde;o de melhorar-nos a sa&uacute;de, fazer-nos<br \/>\n    respirar um pouco de ar puro, mostrar-nos o sol? Porque n&atilde;o pensaram<br \/>\n    nisso antes? N&atilde;o, com certeza estamos em erro: ningu&eacute;m vai inquietar-se<br \/>\n    com os nossos miser&aacute;veis pulm&otilde;es. Porque nos trouxeram, pois?<br \/>\n    Talvez tenham querido mostrar-nos aos passageiros virtuosos, expressar-lhes<br \/>\n    indiretamente que &eacute; poss&iacute;vel coagi-los, equipar&aacute;-los<br \/>\n    a r&eacute;probos como n&oacute;s, se n&atilde;o se comportarem bem. As suposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nos atordoam, falhas todas, enxergamos enfim uma causa imprevis&iacute;vel<br \/>\n    ou permanece,nos na ignor&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Naquela manh&atilde; ficamos duas horas entre fardos e caixas. meio encandeados<br \/>\n    &agrave; luz. Form&aacute;vamos juntos um acervo de trastes, val&iacute;amos<br \/>\n    tanto como as bagagens trazidas l&aacute; de baixo e as mercadorias a que<br \/>\n    nos mistur&aacute;vamos. Em redor de n&oacute;s uma cerca invis&iacute;vel<br \/>\n    se erguia: n&atilde;o nos aventur&aacute;vamos a afastar-nos dali, ignor&aacute;vamos<br \/>\n    se nos restava o direito de chegar &agrave; amurada O mar tinha-se tornado<br \/>\n    vermelho, um vermelho carregado tirante a negro. Longe surgia a colora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    natural, perturbada por manchas escuras, indecisas; perto uma dessas n&oacute;doas<br \/>\n    se alargava e definia, viaj&aacute;vamos nela, curiosa esteira de algas cor<br \/>\n    de ferrugem. Durante algum tempo aquilo nos interessou e prendeu; como nada<br \/>\n    se alterava, depressa nos cansamos, ali permanecemos indiferentes, ao desabrigo,<br \/>\n    buscando em v&atilde;o pelos arredores uma nesga de sombra Um sujeito acocorado<br \/>\n    a alguns metros, oferecia mangas. Achei-lhes boa apar&ecirc;ncia, comprei<br \/>\n    uma, descasquei-a com o instrumento que o vendedor tinha no cesto: canivete<br \/>\n    ou faca. Nenhum apetite, as entranhas sempre inertes; o que me tentou foi<br \/>\n    a beleza amarela. Cortei um peda&ccedil;o da polpa, tentei mastig&aacute;-la.<br \/>\n    S&uacute;bita contra&ccedil;&atilde;o paralisou-me o queixo, arrepiou-me teria<br \/>\n    cuspido se a boca n&atilde;o estivesse inteiramente seca. Azedume incr&iacute;vel.<br \/>\n    Repeli com &oacute;dio o amaldi&ccedil;oado fruto. O arremesso violento jogou-o<br \/>\n    na &aacute;gua, serviu-me para medir a dist&acirc;ncia que me separava da<br \/>\n    amurada. N&atilde;o me abalan&ccedil;ava a transp&ocirc;-la, andar cinco ou<br \/>\n    seis passos, ir debru&ccedil;ar-me, examinar a ferrugem viva que o navio sulcava.<br \/>\n    Nenhum sinal de terra, nada alterava a monotonia. Em v&atilde;o pesquis&aacute;vamos<br \/>\n    o horizonte, buscando jangada de pescador ou asa de gaivota. Enervado, sentei-me<br \/>\n    num caix&atilde;o, est&uacute;pido, em duro sil&ecirc;ncio, os olhos e os<br \/>\n    ouvidos in&uacute;teis. Suponho que ningu&eacute;m me dirigiu a palavra, e<br \/>\n    se isto sucedeu, mostrei-me surdo: o assunto mais interessante n&atilde;o<br \/>\n    dissiparia o longo marasmo Enojava-me ter as m&atilde;os sujas e n&atilde;o<br \/>\n    poder lav&aacute;-las: o suco da manga colava-me os dedos, a umidade pegajosa<br \/>\n    me desagradava em excesso. Imposs&iacute;vel obter um caneco de &aacute;gua.<br \/>\n    O meu desejo era descer livrar-me da viscosidade, entrar no camarote do padeiro<br \/>\n    ia-me habituando &agrave;quela exist&ecirc;ncia de bicho em furna, as desgra&ccedil;as,<br \/>\n    repetindo-se, deixam de impressionar-nos, mudam-se em fatos normais. Excetuando-se<br \/>\n    a figura do excelente padre Falc&atilde;o, um soldado a aparecer na escotilha,<br \/>\n    os portadores do almo&ccedil;o e do jantar, n&atilde;o v&iacute;amos l&aacute;<br \/>\n    dentro pessoa que nos recordasse a liberdade. Ganh&aacute;vamos calos na alma,<br \/>\n    atenuavam-se as mis&eacute;rias por falta de compara&ccedil;&atilde;o. Realmente<br \/>\n    infeliz era o pobre Manuel Leal, que resistia, se esfor&ccedil;ava por estabelecer<br \/>\n    entre n&oacute;s diferen&ccedil;as imposs&iacute;veis. Em geral nos acomod&aacute;vamos,<br \/>\n    de qualquer jeito.<\/p>\n<p> A mudan&ccedil;a daquele dia nos agravou o desassossego. A gente da primeira<br \/>\n    classe matava o tempo rondando no conv&eacute;s, agrupava-se, estacionava;<br \/>\n    enchia-me de vergonha, imaginava estarmos a servir de motivo a pasmaceira;<br \/>\n    com certeza olhares obl&iacute;quos, gestos de rancor e desprezo, se dirigiam<br \/>\n    a n&oacute;s. Achavam-me objeto de an&aacute;lise e cotejos humilhantes: viam-me<br \/>\n    nos olhos ba&ccedil;os, na cara p&aacute;lida, na magreza, no encolhimento,<br \/>\n    sinais de criminosos. O desespero de Manuel Leal por n&atilde;o se poder manifestar,<br \/>\n    declarar-se v&iacute;tima, dizer aos passageiros bem vestidos que gostava<br \/>\n    deles e abominava revolu&ccedil;&otilde;es devia ser tremendo. A luz crua<br \/>\n    feria-me a vista, engelhava-me as p&aacute;lpebras, molhadas como se por baixo<br \/>\n    delas corressem argueiros; ofuscava-me e n&atilde;o poderia afirmar se realmente<br \/>\n    excit&aacute;vamos curiosidade: suposi&ccedil;&atilde;o e nada mais. Sobre<br \/>\n    as costas fervilhavam brasas. Nenhuma cobertura. Se and&aacute;ssemos alguns<br \/>\n    metros, achar&iacute;amos teto. Imposs&iacute;vel retirar-nos: havia em torno<br \/>\n    de n&oacute;s um muro invis&iacute;vel. Necess&aacute;rio ficarmos ali em<br \/>\n    p&eacute;, sentados, deitados, im&oacute;veis, expostos &agrave;quele terr&iacute;vel<br \/>\n    sinapismo luminoso. E n&atilde;o avist&aacute;vamos faixa de praia, ave ou<br \/>\n    barco. A imensid&atilde;o vazia, o alto c&eacute;u azul, as plantas invari&aacute;veis,<br \/>\n    vermelhas, ferrugentas, espalhando na &aacute;gua o estranho len&ccedil;ol<br \/>\n    cheio de rasg&otilde;es.<\/p>\n<p> Duas horas de compridos bocejos. E obrigaram-nos a descer. Recebemos ent&atilde;o<br \/>\n    uma agrad&aacute;vel surpresa: durante a nossa aus&ecirc;ncia haviam feito<br \/>\n    baldea&ccedil;&atilde;o na cafua, as porca rias tinham desaparecido, esgotara-se<br \/>\n    o po&ccedil;o de mijo, nas t&aacute;buas &uacute;midas espalhava-se uma camada<br \/>\n    fina de areia. Bem. Alargava-se o espa&ccedil;o transit&aacute;vel, consegu&iacute;amos<br \/>\n    agora mexer-nos sem receio da onda p&uacute;trida. Acomodaram-se as bagagens,<br \/>\n    corpos fatigados estenderam-se com desafogo no ch&atilde;o limpo. E destravaram-se<br \/>\n    as l&iacute;nguas. J&aacute; n&atilde;o nos sufoc&aacute;vamos respirando<br \/>\n    amon&iacute;aco, est&aacute;vamos quase alegres. Um oper&aacute;rio de Rio<br \/>\n    Grande p&ocirc;s-se a cantar uma lengalenga chat&iacute;ssima que findava<br \/>\n    neste pavoroso estribilho:<br \/>\n    Chenhenhen, chenhenhen, chenhenhen, chenhenhen.<\/p>\n<p> Risos, anedotas. Naquele ambiente desmanchar-se-ia talvez o bolo que me<br \/>\n    subia &agrave; garganta, voltar-me-ia a saliva &agrave; boca ardente. Mas<br \/>\n    foi um breve intervalo. A hora do almo&ccedil;o novos res&iacute;duos se acumularam<br \/>\n    no ch&atilde;o. E como havia sempre alguns homens de costas junto ao camarote<br \/>\n    do padeiro, o l&iacute;quido marejou, filetes engrossaram na areia.<\/p>\n<h3>28<\/h3>\n<p>TINHA-ME recolhido ao anoitecer. E olhava l&aacute; de cima o balan&ccedil;o<br \/>\n    vagaroso das redes, ouvia o burburinho confuso da multid&atilde;o vaga. Pensava<br \/>\n    em muitas coisas indefinidas ou n&atilde;o pensava. Queria segurar-me a casos<br \/>\n    pessoais, remotos e inconsistentes: filandras, tolice pensar neles. Partiam-se<br \/>\n    a cada instante, deixavam-me diante dos olhos a realidade chinfrim: homens<br \/>\n    exaustos, uns tentando erguer-se, outros sonolentos e febris.<\/p>\n<p> Algumas d&uacute;zias de criaturas vivas agitavam-se, falavam, davam-me<br \/>\n    a impress&atilde;o de passear num cemit&eacute;rio. Eram as que me interessavam.<br \/>\n    As trouxas humanas abatidas pelos cantos, a arquejar, nada significavam Felizmente<br \/>\n    a vis&atilde;o obscena o preto sem-vergonha a co&ccedil;ar, a repuxar as pelancas<br \/>\n    nojentas dos quibas, desaparecera. A tromba safada e lorpa sumira-se; &agrave;s<br \/>\n    vezes me aborrecia voluntariamente a procur&aacute;-la em v&atilde;o Jos&eacute;<br \/>\n    In&aacute;cio, o caboclo do ros&aacute;rio, me evitava sempre, continuava<br \/>\n    a amea&ccedil;ar-me de longe com olhares maus, sintomas da revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    beata que lhe fervia no interior O mulato enfarruscado, ladr&atilde;o de cinco<br \/>\n    mil-r&eacute;is, agachava-se pelos cantos, exibia furtivo um peda&ccedil;o<br \/>\n    de focinho Desviava-me dessas chatea&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas, refugiava-me<br \/>\n    noutras distantes. O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro<br \/>\n    nos reserva riam? Provavelmente n&atilde;o havia lugar para n&oacute;s, &eacute;ramos<br \/>\n    fantasmas, rolar&iacute;amos de c&aacute;rcere em c&aacute;rcere, findar&iacute;amos<br \/>\n    num campo de concentra&ccedil;&atilde;o. Nenhuma utilidade represent&aacute;vamos<br \/>\n    na ordem nova. Se nos largassem, vagar&iacute;amos tristes, inofensivos e<br \/>\n    desocupados, farrapos vivos, velhos prematuros; desejar&iacute;amos enlouquecer,<br \/>\n    recolher-nos ao hosp&iacute;cio ou ter coragem de amarrar uma corda ao pesco&ccedil;o<br \/>\n    e dar o mergulho decisivo. Essas id&eacute;ias, repetidas, vexavam-me; tanto<br \/>\n    me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido. Afligia-me especialmente<br \/>\n    supor que n&atilde;o me seria poss&iacute;vel nunca mais trabalhar; arrastando-me<br \/>\n    em ociosidade obrigat&oacute;ria, dependeria dos outros, indigno e servil.<br \/>\n    Naquela noite devo ter remo&iacute;do essas coisas, a agitar-me levemente,<br \/>\n    as varandas servindo-me de cobertas.<\/p>\n<p> Do lugar em que me achava distinguia-se metade do alojamento; o sorriso<br \/>\n    e a barriguinha de Macedo, os &oacute;culos de Lauro Lago, as listas do pijama<br \/>\n    vistoso de Sebasti&atilde;o Hora e o aca&ccedil;apamento do negro Doutor,<br \/>\n    estavam invis&iacute;veis. N&atilde;o me seria poss&iacute;vel ouvir a flauta<br \/>\n    de seu Lobato. De repente me feriu um som lento e queixoso, semelhante a um<br \/>\n    longo gemido. Curvei-me, observei os arredores. Estaria algu&eacute;m a morrer?<br \/>\n    Aus&ecirc;ncia de anormalidade; figuras esquivas pelos cantos, bagagens, sombras,<br \/>\n    vultos ca&iacute;dos, o ramerr&atilde;o de todos os dias; apenas o lago do<br \/>\n    centro, esgotado e varrido pela manh&atilde;, ainda n&atilde;o se refizera.<br \/>\n    O lamento chegou-me de novo, mais pr&oacute;ximo, arrastado e nasal. Que seria?<br \/>\n    A voz dorida sa&iacute;a da treva e arrepiava-me a carne. Tentei discernir<br \/>\n    alguma palavra, inutilmente; s&oacute; aquilo, o extenso brado lastimoso a<br \/>\n    avizinhar-se. Esbo&ccedil;aram-se pouco a pouco as modula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de um canto, na verdade bem estranho. Quem se abalan&ccedil;aria a execut&aacute;-lo<br \/>\n    em semelhante lugar? Apurei os olhos e os ouvidos, percebi l&aacute; embaixo<br \/>\n    Paulo Pinto a iniciar um samba. Estava de p&eacute; e gesticulava, fingindo<br \/>\n    mover um ganz&aacute; inexistente; aproximava-se devagar, curvava-se, passava<br \/>\n    sob os punhos das redes. A princ&iacute;pio aquilo se engrolava num resmungo<br \/>\n    confuso; prud&ecirc;ncia e receio com certeza: n&atilde;o fossem passageiros<br \/>\n    e soldados achar que o por&atilde;o se desarranjava e descomedia. As precau&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    desapareceram, as notas elevaram-se, ainda vacilantes, ganharam nitidez, o<br \/>\n    queixume pareceu transformar-se em dura exig&ecirc;ncia. Por mais que tentasse,<br \/>\n    n&atilde;o me era poss&iacute;vel distinguir a letra da composi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e isto a valorizava. Sem d&uacute;vida versos insignificantes e errados. N&atilde;o<br \/>\n    os discriminando, apenas me interessava pelo clamor que subia da escurid&atilde;o.<br \/>\n    Algumas vozes se uniam &agrave; do sambista, formava-se um &aacute;spero conjunto,<br \/>\n    e a torrente sonora engrossava, transbordava, novos afluentes vinham juntar-se<br \/>\n    a ela, mudar-lhe o curso. Nada se combinara. Um murm&uacute;rio plangente,<br \/>\n    em seguida o rumor de c&oacute;lera surda, e logo as ades&otilde;es imprevistas,<br \/>\n    corpos a levantar-se nas redes, figuras aniquiladas a surgir da noite, espectros<br \/>\n    ganhando carne e sangue, pisando o solo com firmeza. Tinham estado em perfeita<br \/>\n    indiferen&ccedil;a, numa resigna&ccedil;&atilde;o covarde e ap&aacute;tica;<br \/>\n    a disciplina dos encarcerados, impl&iacute;cita e fria, ordenara as conversas<br \/>\n    zumbidas, o gesto vago, o passo discreto, respeito a autoridades invis&iacute;veis,<br \/>\n    general atrabili&aacute;rio ou soldado preto bo&ccedil;al. Em minutos isso<br \/>\n    desaparecera. As espinhas curvas aprumavam-se; as expectora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e a tosse haviam cessado: os pulm&otilde;es opressos lan&ccedil;avam gritos<br \/>\n    roucos, a animar a toada mon&oacute;tona do coro. J&aacute; n&atilde;o eram<br \/>\n    contribui&ccedil;&otilde;es esparsas: dezenas de trastes humanos se erguiam,<br \/>\n    marchavam, os bra&ccedil;os para cima, florestas de membros nus, magros e<br \/>\n    sujos, e o canto ressoava como profunda amea&ccedil;a.<\/p>\n<p> Ergui-me, sentei-me na rede. Um fr&ecirc;mito nos sacudia; agitavam-se todos<br \/>\n    em redor do grupo, cada vez mais numeroso; curvando-me um pouco, via-o perto,<br \/>\n    a alguns passos, e ainda se avizinhava, numa decis&atilde;o imprevista. Perguntava<br \/>\n    a mim mesmo as conseq&uuml;&ecirc;ncias da rebeldia. A pol&iacute;cia iria<br \/>\n    descer e restabelecer a ordem, sem d&uacute;vida; o preto volumoso encostaria<br \/>\n    a pistola ao d&eacute;bil arcabou&ccedil;o de Paulo Pinto; algum indiv&iacute;duo<br \/>\n    resistente ag&uuml;entaria safan&otilde;es e logo se acomodaria. Dormir&iacute;amos<br \/>\n    em paz, como bichos. Evidentemente aqueles homens n&atilde;o pensavam nisso:<br \/>\n    a m&uacute;sica os enfurecia e cegava; com certeza haviam esquecido o perigo<br \/>\n    e o lugar onde viv&iacute;amos.<\/p>\n<p> S&uacute;bito percebi movimento desusado no exterior. Desviei do bando ruidoso<br \/>\n    a aten&ccedil;&atilde;o e fixei-a na coberta. V&aacute;rias pessoas ali se<br \/>\n    achavam, curvadas sobre o parapeito que limitava a abertura; passageiros de<br \/>\n    primeira classe investigavam a nossa furna, curiosos; provavelmente iam reclamar<br \/>\n    contra o barulho, que chegara ao sal&atilde;o e os aborrecia. Agora Paulo<br \/>\n    Pinto e os companheiros estavam parados, exatamente por baixo da escotilha.<br \/>\n    Assist&iacute;amos a uma singular representa&ccedil;&atilde;o, arranjada sem<br \/>\n    ensaios, de improviso. A plat&eacute;ia comprimia-se num c&iacute;rculo, entusiasmava-se;<br \/>\n    l&aacute; no alto um p&uacute;blico superior aflu&iacute;a &agrave;quela esp&eacute;cie<br \/>\n    de camarote que semelhava a boca de um po&ccedil;o. Aguardei os protestos<br \/>\n    algum tempo, em v&atilde;o. Novas figuras surgiam na tolda, vivo interesse<br \/>\n    nas fisionomias: come&ccedil;avam certamente a contagiar-se. Os soldados da<br \/>\n    escolta vieram engrossar o n&uacute;mero de espectadores e nenhum se lembrou<br \/>\n    de conter a manifesta&ccedil;&atilde;o prejudicial: o negro da pistola n&atilde;o<br \/>\n    incomodaria Paulo Pinto. As vozes se espalhavam e cresciam, expunham raiva<br \/>\n    e desespero, as m&atilde;os se levantavam, os dedos se moviam, tinham jeito<br \/>\n    de garras, queriam despeda&ccedil;ar, rasgar, quebrar. Em resposta, difundiam-se<br \/>\n    l&aacute; em cima sorrisos de aprova&ccedil;&atilde;o. Aquilo era absurdo,<br \/>\n    incoerente. Como vinham pessoas medianas, razo&aacute;veis, tranq&uuml;ilas,<br \/>\n    animar semelhante desconchavo? Tinham admitido a segrega&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ningu&eacute;m a considerava injusta: havia qualquer motivo para estarmos<br \/>\n    ali como bichos em toca. Pela manh&atilde; form&aacute;ramos um rolo confuso,<br \/>\n    entre caixas, malotes, engradados; n&atilde;o nos pod&iacute;amos afastar;<br \/>\n    espreitavam-nos e n&atilde;o se avizinhavam, temiam inficionar-se com a lepra<br \/>\n    moral que nos consumia.<\/p>\n<p> De repente soaram palmas. Que se havia passado? Hesitava em persuadir-me,<br \/>\n    desconfiava dos ouvidos e dos olhos: os indiv&iacute;duos suspeitosos e hostis<br \/>\n    vinham aplaudir a viol&ecirc;ncia e o &oacute;dio que ferviam no por&atilde;o.<br \/>\n    E o tumulto se desenrolava, sob uma chuva quente de louvores. Um sussurro<br \/>\n    a princ&iacute;pio, lamento quase inaud&iacute;vel, mudara-se em vocifera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exaltada. No dia seguinte deslizar&iacute;amos, taciturnos e obl&iacute;quos,<br \/>\n    falar&iacute;amos baixo, alarmar-nos-&iacute;amos com o estouvamento infantil<br \/>\n    de Ramiro; naquela noite, por&eacute;m, larg&aacute;vamos as cautelas, desabaf&aacute;vamos,<br \/>\n    livres de receios. A arte de Paulo Pinto nos dava for&ccedil;a &agrave;s almas<br \/>\n    tristes, aos corpos fatigados. E comovia esp&iacute;ritos indiferentes, arrancava<br \/>\n    deles a aclama&ccedil;&atilde;o que estrugia por cima das nossas cabe&ccedil;as.<\/p>\n<h3>29<\/h3>\n<p>FUMANDO em excesso, resolvi, por economia, usar cigarros ordin&aacute;rios:<br \/>\n    tr&ecirc;s, quatro ma&ccedil;os por dia abalavam-me as finan&ccedil;as curtas.<br \/>\n    Quase todos ali nos inquiet&aacute;vamos com essas pequenas despesas: se esgot&aacute;ssemos<br \/>\n    a reserva mesquinha, estar&iacute;amos desarmados e a vida se tornaria insuport&aacute;vel.<br \/>\n    Nada produz&iacute;amos e gastos insignificantes nos causavam apreens&atilde;o;<br \/>\n    o dinheiro adquiria um valor que l&aacute; fora estranhariam. Assim pensando,<br \/>\n    chegar&iacute;amos a desculpar o mulato que se escondia nos lugares piores,<br \/>\n    longe da luz e do ar: os cinco mil-r&eacute;is lhe eram talvez indispens&aacute;veis.<\/p>\n<p> Apenas dois homens, suponho, se mostravam alheios ao assunto que nos preocupava:<br \/>\n    capit&atilde;o Mata e Sebasti&atilde;o Hora, o primeiro por ser criatura parcimoniosa<br \/>\n    em demasia, o segundo por desejar manter no por&atilde;o os seus h&aacute;bitos<br \/>\n    ordin&aacute;rios. As rela&ccedil;&otilde;es de Hora com a despensa deviam<br \/>\n    sair-lhe caras. N&atilde;o atentava nisso e abria-se em oferecimentos com<br \/>\n    liberalidade extrema. Depois de sucessivas recusas, aceitei dele um biscoito,<br \/>\n    que mastiguei e n&atilde;o pude engolir: tive de cuspi-lo pela vigia, nada<br \/>\n    me entrava na garganta. Fascinou-me, por&eacute;m, uma garrafa de aguardente<br \/>\n    que o despenseiro trouxe &agrave;s escondidas. O destinat&aacute;rio .recusou-a,<br \/>\n    abst&ecirc;mio. Examinei o papel colorido, a cor do l&iacute;quido: era exatamente<br \/>\n    aquilo que eu bebia enquanto laborava no romance dif&iacute;cil, interrompido<br \/>\n    v&aacute;rias vezes, entregue &agrave; datil&oacute;grafa ainda bastante sapecado<br \/>\n    Informei-me do pre&ccedil;o. Como o vendedor se negasse a indic&aacute;-lo,<br \/>\n    esperando com certeza paga generosa, dei-lhe o triplo da quantia exigida em<br \/>\n    minha terra. De nenhum modo o homem pareceu comover-se: o neg&oacute;cio de<br \/>\n    &aacute;lcool nas pris&otilde;es, clandestino e perigoso, requer lucro extenso,<br \/>\n    coisa que me passara despercebida. Desarrolhei o contrabando e em redor percebi<br \/>\n    numerosos canecos a amea&ccedil;&aacute;-lo. Fiz uma distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    avara, contando os pingos, o que n&atilde;o me livrou de uma perda avaliada<br \/>\n    em trinta por cento. Considerei o dever de solidariedade e o preju&iacute;zo,<br \/>\n    tomei um copo e fui trancar-me no camarote do padeiro. Mas n&atilde;o me achei<br \/>\n    s&oacute;: M&aacute;rio Paiva se sentiu de repente meu amigo &iacute;ntimo<br \/>\n    e, julgando imprud&ecirc;ncia abandonar-me em semelhante situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    acompanhou-me. Sem d&uacute;vida essa camaradagem me serviu muito: se me arriscasse,<br \/>\n    debilitado, com o est&ocirc;mago vazio, a ingerir tudo aquilo, provavelmente<br \/>\n    me arrasaria. O ator se dispunha a n&atilde;o me deixar a probabilidade mais<br \/>\n    ligeira de adoecer: pelos modos, queria afrontar sozinho todas as inconveni&ecirc;ncias;<br \/>\n    mas a&iacute; fiz valer o meu direito de propriedade, decidi efetuar um racionamento<br \/>\n    en&eacute;rgico. Media atento as duas por&ccedil;&otilde;es, enganando-me<br \/>\n    algumas vezes contra o h&oacute;spede. Na cama do padeiro, arriado, M&aacute;rio<br \/>\n    Paiva beijava o copo, bebericava chuchurreando, embrenhava-se numa parolagem<br \/>\n    vaga; pouco a pouco iam surgindo nela hiatos e repeti&ccedil;&otilde;es. Na<br \/>\n    cadeira, o cotovelo sobre a mesa, distra&iacute;a-me a ouvi-lo sem perceber<br \/>\n    nada; via-lhe no rosto as nuvens da embriaguez a acentuar-se; os olhos iam<br \/>\n    ficando v&iacute;treos, as p&aacute;lpebras cerravam-se, erguiam-se, tornavam<br \/>\n    a descer. Aparecia-me como um espelho: sentia-me tamb&eacute;m assim, os bugalhos<br \/>\n    duros e inexpressivos, gotas de suor a espalhar-se na testa, umedecendo a<br \/>\n    raiz dos cabelos. Mantinha-me em sil&ecirc;ncio; comportar-me-ia daquele jeito<br \/>\n    se falasse, embrulharia assuntos, divagaria &agrave; toa. N&atilde;o me inclinava<br \/>\n    a papaguear: a sombra interior obscurecia os fatos e os conhecidos pr&oacute;ximos:<br \/>\n    M&aacute;rio Paiva, inconsistente, perdia a significa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O r&oacute;tulo de tintas vivas, colado ao vidro, for&ccedil;ava-me a um<br \/>\n    lento recuo no tempo. A sala de jantar da minha casa em Paju&ccedil;ara reconstitu&iacute;a-se.<br \/>\n    Era noite Sentado &agrave; mesa, entranhava-me na composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de largo cap&iacute;tulo: vinte e sete dias de esfor&ccedil;o para matar uma<br \/>\n    personagem, amarrar-lhe o pesco&ccedil;o, elev&aacute;-la a uma &aacute;rvore,<br \/>\n    dar-lhe apar&ecirc;ncia de suicida.<\/p>\n<p> Esse crime extenso enjoava-me. Necess&aacute;rios os excitantes para conclu&iacute;-lo.<br \/>\n    O ma&ccedil;o de cigarros ao alcance da m&atilde;o, o caf&eacute; e a aguardente<br \/>\n    em cima do aparador. Estirava-me &agrave;s vezes pela madrugada, queria abandonar<br \/>\n    a tarefa e obstinava-me nela, as id&eacute;ias a pingar mesquinhas, as m&atilde;os<br \/>\n    tr&ecirc;mulas. Rumor das ondas, do vento. Pela janela aberta entravam folhas<br \/>\n    secas, um sopro salgado; a enorme folhagem de um sapotizeiro escurecia o quintal.<\/p>\n<p> Perto, a garrafa de aguardente. Duas por&ccedil;&otilde;es minguadas. Dentro<br \/>\n    em pouco iria mexer-me de novo, deitar outras nos copos, maquinal. M&aacute;rio<br \/>\n    Paiva discorria, com abund&acirc;ncia, naturalmente presumia estar sendo agrad&aacute;vel.<br \/>\n    Seria melhor que ele se calasse, mas na verdade a tagarelice n&atilde;o me<br \/>\n    perturbava a recorda&ccedil;&atilde;o; nem me decidia a fazer a m&iacute;nima<br \/>\n    tentativa para compreend&ecirc;-lo. Se ele me descobrisse a inadvert&ecirc;ncia,<br \/>\n    conservar-me-ia distante, indiferente; n&atilde;o me importava o ju&iacute;zo<br \/>\n    de um estranho loquaz. Conjetura absurda: M&aacute;rio Paiva n&atilde;o estava<br \/>\n    em condi&ccedil;&otilde;es de ter ju&iacute;zo e descobrir coisas. A voz dele,<br \/>\n    um burburinho, desmaiava no som das ondas, do vento; as ondas n&atilde;o quebravam<br \/>\n    no costado velho da embarca&ccedil;&atilde;o, o vento n&atilde;o entrava pela<br \/>\n    vigia: eram ru&iacute;dos long&iacute;nquos a embalar-me o trabalho, na minha<br \/>\n    sala de jantar.<\/p>\n<p> O bra&ccedil;o, estendido sobre a t&aacute;bua nua, movia-se em dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; garrafa, que j&aacute; n&atilde;o estava no aparador. A toalha e<br \/>\n    os pap&eacute;is tinham desaparecido. Bem. Era certo achar-me no camarote<br \/>\n    do padeiro; algumas horas depois iria estender-me na rede, por baixo da escotilha.<br \/>\n    Centenas de homens cochichavam al&eacute;m da porta, lembrando min&uacute;cias<br \/>\n    de uma revolu&ccedil;&atilde;o gora. Esquisito. Um m&ecirc;s antes isso n&atilde;o<br \/>\n    tinha realidade, ou tinha uma realidade confusa vista nos telegramas dos jornais.<br \/>\n    Agora me ligava a fatos pouco mais ou menos ignorados, esquecia casos a que<br \/>\n    dera muita import&acirc;ncia. N&atilde;o os esquecia, realmente: jogava-os<br \/>\n    num desv&atilde;o, onde se empoeiravam, cobriam de teias de aranha; ressurgiam,<br \/>\n    sobrepunham-se ou subpunham-se aos outros, afinal se nivelavam, misturavam<br \/>\n    todos, e j&aacute; n&atilde;o me era poss&iacute;vel saber o que estava dentro<br \/>\n    ou fora de mim. Paulo Pinto, na v&eacute;spera, entusiasmara a gente da primeira<br \/>\n    classe. Dificuldade enorme para assassinar o homem, passar-lhe a corda ao<br \/>\n    pesco&ccedil;o, deix&aacute;-lo pendurado a um galho, na escurid&atilde;o.<br \/>\n    Que iriam pensar daquilo? Abrira-me com o editor: afirmara-lhe, em carta,<br \/>\n    que ele n&atilde;o venderia cem exemplares da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> As ondas, o vento, os ramos do sapotizeiro, a garrafa de aguardente, o ma&ccedil;o<br \/>\n    de cigarros, o bule de caf&eacute;. Um enterro, sem d&uacute;vida, enterro<br \/>\n    liter&aacute;rio. Se me agradassem as confid&ecirc;ncias, trataria disso,<br \/>\n    interromperia M&aacute;rio Paiva, embora ele n&atilde;o me compreendesse.<br \/>\n    Tamb&eacute;m n&atilde;o conseguiria explicar-me. As minhas id&eacute;ias<br \/>\n    deviam ser t&atilde;o indecifr&aacute;veis como as que ele extra&iacute;a<br \/>\n    do esp&iacute;rito nublado, fragment&aacute;rias. Resignava-me com certeza,<br \/>\n    levado pelo h&aacute;bito, a simular interesse: sorria, balan&ccedil;ava a<br \/>\n    cabe&ccedil;a aprovando, balbuciava uma interjei&ccedil;&atilde;o animadora.<br \/>\n    Procedi evidentemente assim. Tomava-lhe o copo e aumentava-lhe, consciencioso,<br \/>\n    a desordem mental. Enfim, a garrafa de aguardente se esvaziou. Emergimos do<br \/>\n    sonho, erguemo-nos, fomos ver de perto as imund&iacute;cies do por&atilde;o,<br \/>\n    o lago de urina, que se havia reconstitu&iacute;do.<\/p>\n<h3>30<\/h3>\n<p>TIVE uma forte hemorragia intestinal, coisa r&aacute;pida, imprevista. Nenhuma<br \/>\n    dor, nenhum ind&iacute;cio de que um vaso fosse rebentar. O est&ocirc;mago<br \/>\n    e a barriga n&atilde;o funcionavam desde a minha chegada: provavelmente estavam<br \/>\n    secos, as gl&acirc;ndulas pregui&ccedil;osas recusando-se ao trabalho. Era<br \/>\n    como se esses &oacute;rg&atilde;os n&atilde;o existissem: admirava-me de ach&aacute;-los<br \/>\n    entorpecidos, de n&atilde;o sentir neles um movimento, uma ligeira contra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Insensibilidade completa. Ainda se mexiam no come&ccedil;o, uma picada me<br \/>\n    fazia pensar no alimento, ocasionava a repulsa invenc&iacute;vel; estavam<br \/>\n    agora em repouso de morte. Havia em mim, do t&oacute;rax ao abd&ocirc;men,<br \/>\n    uma sepultura. A boca estava queimada, as gengivas ardiam, o cigarro colava-se<br \/>\n    aos bei&ccedil;os, arrancava pel&iacute;culas, deixando marcas de sangue;<br \/>\n    necess&aacute;rio escovar os dentes com muito cuidado: o dentifr&iacute;cio,<br \/>\n    chegando-me &agrave;s feridas, semelhava caut&eacute;rio. A falta de saliva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    produzia-me a necessidade freq&uuml;ente de molhar a l&iacute;ngua e as mucosas:<br \/>\n    refrescava-as com bochechos de &aacute;gua, depois gargarejava.<\/p>\n<p> Inquieta&ccedil;&atilde;o vaga n&atilde;o me permitia ficar muito tempo<br \/>\n    num lugar. Entrava no camarote, sa&iacute;a, ouvia com fingido interesse as<br \/>\n    conversas de Sebasti&atilde;o Hora, Macedo e Lauro Lago. Tinha de cor diversas<br \/>\n    min&uacute;cias da rebeli&atilde;o de Natal; contudo, por mais que me esfor&ccedil;asse,<br \/>\n    n&atilde;o me era poss&iacute;vel entenda-las.<\/p>\n<p> De p&eacute;, encostado ao umbral, confundindo pessoas e acontecimentos<br \/>\n    do Rio Grande, as pernas abertas para evitar alguma cambalhota, distra&iacute;a-me<br \/>\n    olhando a escada. as viagens incessantes dos companheiros &agrave; latrina.<br \/>\n    Foi a curiosidade que me fez imit&aacute;-los Isso e tamb&eacute;m a lembran&ccedil;a<br \/>\n    de viver entre eles cinco ou seis dias, sem ter ido ali uma s&oacute; vez<br \/>\n    A imobilidade esquisita das v&iacute;sceras come&ccedil;ava a alarmar-me.<\/p>\n<p> Subi, entrei num quarto imundo. Paredes nojentas, pap&eacute;is sujos a<br \/>\n    amontoar-se, a espalhar-se no ch&atilde;o, aus&ecirc;ncia de &aacute;gua,<br \/>\n    o ambiente mais s&oacute;rdido que se possa imaginar. Dif&iacute;cil tratar<br \/>\n    desse ign&oacute;bil assunto, nunca em livro se descerram certas portas. Arrisquei-me<br \/>\n    a abrir aquela porta por me haver surgido o acidente: quando menos esperava,<br \/>\n    um jato de sangue. Num minuto estancou; mas o l&iacute;quido viscoso, os co&aacute;gulos,<br \/>\n    provocaram-me a necessidade urgente de banhar-me. Infelizmente era at&eacute;<br \/>\n    imposs&iacute;vel desejar isso O meu pijama aderia ao corpo, fazia-me c&oacute;cegas<br \/>\n    repugnantes; andavam-me pruridos na pele, davam-me a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ser agredido por multid&otilde;es de pulgas.<\/p>\n<p> Afastei-me perplexo, desci a escada perguntando a mim mesmo se o caso seria<br \/>\n    grave. Talvez se houvesse quebrado alguma pe&ccedil;a valiosa, sentia-me com<br \/>\n    o interior em cacos. A minha primeira id&eacute;ia foi consultar Sebasti&atilde;o<br \/>\n    Hora, mas, e isto &eacute; incr&iacute;vel, o acanhamento que hoje n&atilde;o<br \/>\n    tenho de narrar a porcaria tolheu-me a fala. Melindre est&uacute;pido. Justifiquei-me<br \/>\n    alegando intimamente que Hora n&atilde;o estava em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de prestar-me aux&iacute;lio: reduzir-se-ia a fazer o diagn&oacute;stico,<br \/>\n    usaria express&otilde;es complicadas, evitaria assustar-me: rompera-se uma<br \/>\n    veia e logo se fechara, nenhum perigo. Dar-me-ia conselhos in&uacute;teis.<br \/>\n    Se pedisse um rem&eacute;dio &agrave; farm&aacute;cia de bordo, era poss&iacute;vel<br \/>\n    n&atilde;o o atenderem. N&atilde;o atenderiam, firmava-me nesta convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e tranq&uuml;ilizava-me. Acabada a surpresa, ia-me invadindo uma agrad&aacute;vel<br \/>\n    apatia. Era realmente como se aquilo n&atilde;o fosse comigo. Nem uma vez<br \/>\n    tinha pensado no suic&iacute;dio; n&atilde;o me inquietava, por&eacute;m,<br \/>\n    a conjetura de adoecer, piorar, acabar-me ali ou ser transferido para uma<br \/>\n    enfermaria de indigentes. Embora n&atilde;o conseguisse alimentar-me, n&atilde;o<br \/>\n    me iria convencer de que o instinto de conserva&ccedil;&atilde;o desaparecera:<br \/>\n    tinha-me alvoro&ccedil;ado ao notar o jorro vermelho; refletira um pouco e<br \/>\n    o sobressalto esmorecera. Continuava a ocupar-me da unha escalavrada, fofa,<br \/>\n    a despregar-se: cortava-lhe peda&ccedil;os e aplicava uma gota de iodo na<br \/>\n    carne; omitia &agrave;s vezes o tratamento, insignificante, e escrevendo sentia<br \/>\n    dificuldade em segurar o l&aacute;pis. Vinha agora uma complica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    interna. Desejaria saber se ela iria agravar-se ou findar logo. Curiosidade<br \/>\n    apenas. N&atilde;o podendo informar-me, resvalava em morna indiferen&ccedil;a.<br \/>\n    N&atilde;o me afligia achar-me fisicamente arruinado; desgra&ccedil;a era<br \/>\n    a certeza de nada significar a prosa lenta, composta com enorme pregui&ccedil;a.<br \/>\n    Escasseava a mat&eacute;ria, fugia a express&atilde;o. Dois volumes publicados<br \/>\n    e um in&eacute;dito eram mesquinhos, o primeiro um horror, o &uacute;ltimo<br \/>\n    precisando emendas e cortes, o bom-senso me afirmava isto, mas a literatura<br \/>\n    atual, guardada na valise, era muito pior. Talvez a falta de alimento me enfraquecesse<br \/>\n    o esp&iacute;rito, queria persuadir-me de que a inapet&ecirc;ncia era transit&oacute;ria<br \/>\n    e logo me consertaria. Evasiva. Afastando-a, julgava todas as v&iacute;sceras<br \/>\n    definitivamente estragadas, inferiores e superiores. Nunca me restabeleceria.<br \/>\n    Que diabo iria fazer l&aacute; fora quando me soltassem, desgra&ccedil;ado<br \/>\n    organismo carunchoso? Imposs&iacute;vel fixar a aten&ccedil;&atilde;o em qualquer<br \/>\n    coisa, a horr&iacute;vel estupidez a enevoar-me, fragmentando os pensamentos.<br \/>\n    In&eacute;rcia, necessidade urgente de repouso. N&atilde;o me contentava o<br \/>\n    descanso na rede, o sono pesado, livre de sonhos: esperava um sossego completo<br \/>\n    e sem fim.<\/p>\n<p> N&atilde;o recorri, pois, &agrave;s luzes de Sebasti&atilde;o Hora: conservei-me<br \/>\n    na ignor&acirc;ncia e n&atilde;o tentei elucidar o caso. Mas obtive, por interm&eacute;dio<br \/>\n    dele, nova garrafa de aguardente com o despenseiro. Arrisquei-me a compr&aacute;-la.<br \/>\n    Tencionava experimentar-me, saber se a m&aacute;quina combalida suportaria<br \/>\n    segunda carga de &aacute;lcool A prova falhou. Distribu&iacute;, como da primeira<br \/>\n    vez, uma parte da aguardente com v&aacute;rias pessoas, tomei por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    razo&aacute;vel e escondi a garrafa debaixo do colch&atilde;o do padeiro.<br \/>\n    Uma hora depois achei-a vazia: M&aacute;rio Paiva, aquele ingrato, abusando<br \/>\n    torpemente da minha hospitalidade, tinha bebido o resto.<\/p>\n<h3>31<\/h3>\n<p>AO DESPERTAR, ouvi dizer que &iacute;amos entrando na ba&iacute;a de Guanabara.<br \/>\n    Desci da rede, tentei olhar as ilhas e os montes, quase esquecidos na dist&acirc;ncia<br \/>\n    longa de vinte anos; como todas as vigias estivessem ocupadas, limitei-me<br \/>\n    a relacionar as informa&ccedil;&otilde;es dos observadores, imaginar por elas<br \/>\n    os pontos que toc&aacute;vamos. Algumas pessoas curiosas pretendiam, com o<br \/>\n    exame, orientar-se a respeito do nosso destino, largavam palpites desarrazoados.<br \/>\n    Isso me enfadava. Capit&atilde;o Mata supunha que descer&iacute;amos na Col&ocirc;nia<br \/>\n    Correcional de Dois Rios, na ilha Grande. A ilha, segundo as minhas lembran&ccedil;as<br \/>\n    meio apagadas, ficava fora da ba&iacute;a, j&aacute; dev&iacute;amos ter passado<br \/>\n    por ela. Essa reflex&atilde;o nenhum efeito produziu no esp&iacute;rito do<br \/>\n    rapaz: mantinha-se no erro, alardeando contentamento absurdo. As not&iacute;cias<br \/>\n    da col&ocirc;nia eram indefinidas e agoureiras, talvez mais alarmantes por<br \/>\n    n&atilde;o se determinarem; a mais simples refer&ecirc;ncia ao desgra&ccedil;ado<br \/>\n    lugar gelava as conversas e escurecia os rostos. A opini&atilde;o de Mata<br \/>\n    cheirava a baz&oacute;fia: aparentemente ele se manifestava assim por saber<br \/>\n    que hav&iacute;amos atravessado a barra e o perigo desaparecera. Mas n&atilde;o<br \/>\n    devia ser isso, com certeza estava confuso. Apesar de se haver adaptado ao<br \/>\n    meio, rir, pilheriar, comer sem repugn&acirc;ncia a triste b&oacute;ia dos<br \/>\n    caix&otilde;es imaginava decerto que, vivendo como viv&iacute;amos, qualquer<br \/>\n    mudan&ccedil;a nos traria vantagem.<\/p>\n<p> Depois de longa espera, consegui apoderar-me de uma vigia. Na terra, pr&oacute;xima,<br \/>\n    elevavam-se enormes blocos de cimento armado. Algu&eacute;m, estirando um<br \/>\n    bra&ccedil;o por cima do meu ombro, falou em Copacabana. Havia-me inteirado<br \/>\n    longe das modifica&ccedil;&otilde;es ali existentes; contudo n&atilde;o reconheci<br \/>\n    a velha praia, onde agora crescia a dura vegeta&ccedil;&atilde;o dos arranha-c&eacute;us.<br \/>\n    Desviamo-nos, surgiram na costa pontos familiares; outros me haviam fugido<br \/>\n    completamente da mem&oacute;ria; al&eacute;m, novos edif&iacute;cios altos<br \/>\n    me ocasionavam d&uacute;vidas; perturbado, n&atilde;o me seria poss&iacute;vel<br \/>\n    orientar-me.<\/p>\n<p> Embrenhava-me na contempla&ccedil;&atilde;o vaga quando me puxaram a manga:<br \/>\n    voltei-me, ouvi um sussurro, distingui na sombra um sujeito desejoso de comprar-me<br \/>\n    a rede. Em torno havia um burburinho de maribondos assanhados. Preparavam-se<br \/>\n    todos para o desembarque, arrumavam caixas, entrouxavam roupa, afivelavam<br \/>\n    as correias dos malotes. O ru&iacute;do surdo, o movimento e a proposta feita<br \/>\n    num cochicho levaram-me &agrave; realidade: necess&aacute;rio arranjar-me,<br \/>\n    tamb&eacute;m, p&ocirc;r as coisas em ordem. S&oacute; ent&atilde;o me lembrei<br \/>\n    de que possu&iacute;a uma rede; estorvava-me, certamente n&atilde;o iria acompanhar-me.<br \/>\n    Sem inquirir se ela me seria &uacute;til no futuro, larguei-a descuidoso ao<br \/>\n    fregu&ecirc;s inesperado e, embora o dinheiro me preocupasse, recusei pagamento.<br \/>\n    N&atilde;o achei que esse preju&iacute;zo volunt&aacute;rio significasse um<br \/>\n    disparate.<\/p>\n<p> Fui recolher-me pela derradeira vez ao camarote, agradeci ao padeiro, vesti-me<br \/>\n    para sair. Dobrei as folhas do manuscrito, uni-as ao solado, tentei prend&ecirc;-las<br \/>\n    ao p&eacute; com tiras de esparadrapo. Aquilo formava grande chuma&ccedil;o<br \/>\n    que ia rebentando a meia. N&atilde;o podia cal&ccedil;ar-me. Se pudesse, amarraria<br \/>\n    com dificuldade o cord&atilde;o do sapato, caminharia mal, uma perna mais<br \/>\n    comprida que a outra. A andadura capenga iria denunciar-me. E repugnava-me<br \/>\n    esconder literatura daquele modo: o suor a estragaria, sujaria, tornaria ileg&iacute;vel.<br \/>\n    Descalcei-me pesaroso, desfiz-me do trambolho injurioso, alisei o papel amarfanhado,<br \/>\n    sepultei-o na valise, sob cuecas e len&ccedil;os. Se o descobrissem, livrar-me-ia<br \/>\n    daquela apar&ecirc;ncia de contrabando. Caso natural redigido sem mal&iacute;cia,<br \/>\n    por h&aacute;bito, com longa pregui&ccedil;a e infinitos bocejos. Logo reconsiderei:<br \/>\n    com certeza a maleta seria varejada, as miser&aacute;veis folhas corriam perigo.<br \/>\n    Retirei-as, tornei a dobr&aacute;-las, mergulhei-as no bolso interno do palet&oacute;:<br \/>\n    escapariam ali talvez da busca. Despedi-me do padeiro e, segurando a leve<br \/>\n    bagagem, fui reunir-me &agrave; gente que se comprimia junto ao mict&oacute;rio.<\/p>\n<p> Enquanto haviam durado os preparativos, as idas e vindas no camarote, a<br \/>\n    troca da roupa, a colagem, a descolagem dos esparadrapos, voara o tempo, o<br \/>\n    navio atracara. Aguard&aacute;vamos ordens, apreensivos. Iam sem d&uacute;vida<br \/>\n    separar-nos, e no por&atilde;o tinham come&ccedil;ado a esbo&ccedil;ar-se<br \/>\n    camaradagens, apoi&aacute;vamos nelas a nossa fraqueza.<\/p>\n<p> Chamaram-nos, subimos a escada, revi o negro bo&ccedil;al da pistola e o<br \/>\n    que me prestava favores na escotilha; andamos no conv&eacute;s em linha, entre<br \/>\n    duas filas de pol&iacute;cias, descemos ao cais. A&iacute; nos fizeram entrar<br \/>\n    em diversos &ocirc;nibus grandes, as aberturas laterais guarnecidas por longas<br \/>\n    hastes paralelas de metal branco. N&atilde;o observei os arredores, imposs&iacute;vel<br \/>\n    dizer em que parte da cidade me achava. Presumivelmente havia numerosos basbaques<br \/>\n    a espionar-nos; n&atilde;o os vi nem atentei nos companheiros que se instalaram<br \/>\n    comigo no carro.<\/p>\n<p> Sentado no banco, junto &agrave;s varas met&aacute;licas, apenas distingui,<br \/>\n    fora, a pequena dist&acirc;ncia, um rosto conhecido. Conhecimento vago, que<br \/>\n    um instante me aperreou. Onde me havia aparecido aquela mo&ccedil;a morena?<br \/>\n    Interroguei-me em v&atilde;o, percebendo nos gestos da mulher o desejo de<br \/>\n    falar-me. Aproximou-se, disse coisas impercept&iacute;veis, em seguida murmurou<br \/>\n    que o dr. Esdras ia bem. Dr. Esdras. Quem seria dr. Esdras? Vascolejei o c&eacute;rebro,<br \/>\n    enderecei &agrave; informante um sorriso chocho, constrangido. S&uacute;bito<br \/>\n    me lembrei de haver conversado com ela, meses atr&aacute;s, em Alagoas, no<br \/>\n    consult&oacute;rio de Esdras Gueiros. Bem. Experimentei certo al&iacute;vio,<br \/>\n    decifrava-se a not&iacute;cia; mas como podia algu&eacute;m supor que tal<br \/>\n    comunica&ccedil;&atilde;o, naquele momento, me interessava? Nenhuma palavra<br \/>\n    me ocorreu; acanhado, as orelhas a arder, evitei o olhar da criatura que,<br \/>\n    de p&eacute; no asfalto, me examinava a degrada&ccedil;&atilde;o. Era como<br \/>\n    se me vissem nu e sujo. Queria afastar-me depressa, fugir &agrave; curiosidade<br \/>\n    humilhante. Enfim o ve&iacute;culo se moveu. Atrapalhado, joguei um aceno<br \/>\n    &agrave; conterr&acirc;nea, perdi-a logo de vista. Serenando um pouco, julguei<br \/>\n    que a frase dela encerrava talvez uma significa&ccedil;&atilde;o at&eacute;<br \/>\n    ali oculta ao meu desarranjo mental.<\/p>\n<p> Dr. Esdras vai bem.<\/p>\n<p> Provavelmente Esdras Gueiros estava sendo perseguido e conseguira escapar.<br \/>\n    Devia ser isto. Rodamos longo tempo, n&atilde;o sei por onde. Inerte, deixava-me<br \/>\n    levar. Enorme fadiga cerrava-me as p&aacute;lpebras, dificilmente erguia o<br \/>\n    bra&ccedil;o para levar &agrave; boca o cigarro.<\/p>\n<p> Dobr&aacute;vamos esquinas, e nem me lembrava de ver as ruas, ler as placas.<br \/>\n    Em volta zumbiam conversas mutiladas, cochichos pessimistas. Iam conduzir-nos<br \/>\n    &agrave; Pol&iacute;cia Especial, &agrave; Pol&iacute;cia Central, capit&atilde;o<br \/>\n    Mata afirmava sempre, teimoso, que nos mandariam para a Col&ocirc;nia Correcional<br \/>\n    da ilha Grande. Essas opini&otilde;es a&eacute;reas me irritavam; em seguida<br \/>\n    vinha o sossego, o torpor, o sono Para que debater coisas imprevis&iacute;veis?<br \/>\n    Estacamos diante de uma pris&atilde;o, esperamos que nos mandassem descer<br \/>\n    ao cabo de meia hora partimos: n&atilde;o havia espa&ccedil;o ali para n&oacute;s.<br \/>\n    Passado algum tempo, nova esta&ccedil;&atilde;o, igual resultado; n&atilde;o<br \/>\n    nos podiam alojar. Novamente nos pusemos a caminho. Insens&iacute;vel, nem<br \/>\n    tentei informar-me a respeito daquelas paragens: em roda as conjeturas diminu&iacute;am.<br \/>\n    Apesar da indiferen&ccedil;a, espantava-me ignorarem completamente onde ficar&iacute;amos,<br \/>\n    andarem &agrave; toa em busca de c&aacute;rceres para n&oacute;s. Essa desordem<br \/>\n    me causou vago prazer. A tarde paramos em frente &agrave; Casa de Deten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ainda uma vez nos amolamos espiando grades e sentinela. Depois de extensa<br \/>\n    demora, afinal desembarcamos, transpusemos o port&atilde;o largo. Nessa altura<br \/>\n    um caso me despertou a curiosidade: o capit&atilde;o Mata, que marchava junto<br \/>\n    a mim, dirigiu-se ao comandante da guarda, apresentou-se, mencionou antiga<br \/>\n    camaradagem feita no est&aacute;gio referido no quartel do Recife.<\/p>\n<p> N&atilde;o tem receio de falar a um preso?<\/p>\n<p> O oficial arredondava os bugalhos, atordoado, e revolvia a mem&oacute;ria.<br \/>\n    Achou provavelmente uma recorda&ccedil;&atilde;o aceit&aacute;vel: finda a<br \/>\n    surpresa, chegou-se a Mata, segredou qualquer coisa, r&aacute;pido, e afastou-se.<br \/>\n    Aquilo foi breve, passaria despercebido a quem se distanciasse um pouco na<br \/>\n    fileira. Minutos depois est&aacute;vamos na secretaria. em p&eacute;, de c&oacute;coras,<br \/>\n    sentados em malotes, arriados em bancos; alguns se aproximaram de mesas sujas<br \/>\n    de poeira, ouviram as perguntas de tr&ecirc;s funcion&aacute;rios h&aacute;beis<br \/>\n    dispostos a caracterizar-nos, arrumar-nos convenientemente no papel. Bem.<br \/>\n    Agora nos personalizavam. T&iacute;nhamos sido aglomera&ccedil;&atilde;o confusa<br \/>\n    de bichos an&ocirc;nimos e pequenos, aparentemente iguais, como ratos. Decidiam,<br \/>\n    em meia d&uacute;zia de quesitos. diferenciar-nos. Trabalho sum&aacute;rio,<br \/>\n    poucas linhas para indiv&iacute;duo; como &eacute;ramos duas ou tr&ecirc;s<br \/>\n    centenas e &agrave;s vezes as indica&ccedil;&otilde;es se atrapalhavam, minguavam,<br \/>\n    permanecemos ali at&eacute; o anoitecer. O sujeito que me interrogou escuro<br \/>\n    e refor&ccedil;ado, certamente estrangeiro, exprimia-se a custo, numa pros&oacute;dia<br \/>\n    de turco ou &aacute;rabe. Nome. Profiss&atilde;o.<\/p>\n<p> Qual era o cargo que o senhor tinha l&aacute; fora? indagou o tipo.<\/p>\n<p> Sapecou a resposta e acrescentou, &agrave; margem, uma cruz a l&aacute;pis<br \/>\n    vermelho.<\/p>\n<p> Que significa isso?<\/p>\n<p> Quer dizer que o senhor vai para o Pavilh&atilde;o dos Prim&aacute;rios.<\/p>\n<p> Porqu&ecirc;? N&atilde;o entendo. &Eacute; uma pris&atilde;o diferente.<\/p>\n<p> Aludiu ao meu emprego, realmente bem ordin&aacute;rio, na administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica:<\/p>\n<p> Os outros v&atilde;o para as galerias.<\/p>\n<p> Dif&iacute;cil calcular se a mudan&ccedil;a me daria vantagem ou desvantagem.<br \/>\n    Religi&atilde;o.<\/p>\n<p> Pode inutilizar esse quesito.<\/p>\n<p> &Eacute; necess&aacute;rio responder, engrolou, na sua l&iacute;ngua avariada,<br \/>\n    o homem trigueiro.<\/p>\n<p> Bem. Ent&atilde;o escreva. Nenhuma.<\/p>\n<p> N&atilde;o posso fazer isso. Todos se explicam.<\/p>\n<p> De fato muitos companheiros se revelavam cat&oacute;licos, v&aacute;rios<br \/>\n    se diziam esp&iacute;ritas.<\/p>\n<p> Isso &eacute; l&aacute; com eles. Devem ser religiosos. Eu n&atilde;o sou.<br \/>\n    Ora! Uma palavra. Que mal faz? &Eacute; conveniente. Para n&atilde;o deixar<br \/>\n    a linha em branco.<\/p>\n<p> A insist&ecirc;ncia, a amea&ccedil;a velada, a malandragem, que utilizariam<br \/>\n    para conseguir estat&iacute;stica falsa, indignaram-me.<\/p>\n<p> O senhor n&atilde;o me vai convencer de que eu tenho uma religi&atilde;o<br \/>\n    qualquer. Fa&ccedil;a o favor de escrever. Nenhuma.<\/p>\n<p> A declara&ccedil;&atilde;o foi redigida com lenta repugn&acirc;ncia e concluiu-se<br \/>\n    o interrogat&oacute;rio. Ao levantar-me, divisei numa folha outro sinal vermelho,<br \/>\n    junto ao nome de Sebasti&atilde;o Hora. Cheguei-me &agrave; porta, onde se<br \/>\n    juntavam os que haviam cumprido aquela exig&ecirc;ncia, observei um p&aacute;tio,<br \/>\n    o esvoa&ccedil;ar de pardais estr&iacute;dulos em ramos de &aacute;rvores,<br \/>\n    muros altos a cercar numerosos edif&iacute;cios, j&aacute; mergulhados em<br \/>\n    sombras. Surgiram luzes. Findo o arrolamento, levaram-nos &agrave; casa fronteira.<\/p>\n<p> &Eacute; aqui o Pavilh&atilde;o dos Prim&aacute;rios? informei-me<\/p>\n<p> N&atilde;o, respondeu o sujeito de fala turca. O Pavilh&atilde;o dos Prim&aacute;rios<br \/>\n    a esta hora est&aacute; fechado. E amanh&atilde;, domingo, n&atilde;o se faz<br \/>\n    transfer&ecirc;ncia O senhor fica, at&eacute; segunda-feira, com os outros.<\/p>\n<p> Est&aacute; bem.<\/p>\n<p> Percebi que haviam pretendido conferir-me uma distin&ccedil;&atilde;o, balda<br \/>\n    possivelmente por teimar em considerar-me ateu. Lembrei-me da advert&ecirc;ncia<br \/>\n    injuriosa: &Eacute; conveniente. Se me acanalhasse afirmando possuir um Deus,<br \/>\n    mandar-me-iam para lugar razo&aacute;vel, uma esp&eacute;cie de purgat&oacute;rio.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o Hora, marcado tamb&eacute;m a l&aacute;pis vermelho, estava<br \/>\n    conosco: sem d&uacute;vida se prejudicara dando resposta semelhante &agrave;<br \/>\n    minha.<\/p>\n<p> Entramos. Enxerguei prateleiras carregadas de embrulhos, avizinhei-me de<br \/>\n    um balc&atilde;o estreito, depus nele a valise. Algu&eacute;m disse que nos<br \/>\n    ach&aacute;vamos na rouparia. Busquei em redor um m&oacute;vel para sentar-me:<br \/>\n    nada vendo, permaneci de p&eacute;, o cotovelo sobre a t&aacute;bua, ora a<br \/>\n    firmar-me numa perna, ora noutra. Fadiga, torpor nas coxas, dor aguda no ventre,<br \/>\n    a recordar-me o hospital, m&eacute;dicos, enfermeiros. Desfizeram-se os malotes,<br \/>\n    desdobraram-se as redes, retiraram-se as cordas, provavelmente receavam que<br \/>\n    um de n&oacute;s quisesse enforcar-se. Tudo se revistou cuidadosamente, salvo<br \/>\n    as roupas do corpo; certo ningu&eacute;m admitia que tiv&eacute;ssemos armas,<br \/>\n    objetos perigosos; as minhas folhas, guardadas no bolso interno do palet&oacute;,<br \/>\n    n&atilde;o seriam descobertas. Os m&uacute;sculos dormentes obrigaram-me a<br \/>\n    tentar ligeiro exerc&iacute;cio.<\/p>\n<p> Afastei-me, dei alguns passos na sala, encostei-me a uma parede, sentei-me<br \/>\n    na valise: como a posi&ccedil;&atilde;o fosse inc&ocirc;moda, ergui-me, procurei<br \/>\n    instalar-me noutro lugar Apesar do cansa &ccedil;o, n&atilde;o me era poss&iacute;vel<br \/>\n    ficar im&oacute;vel Uma coisa me chamava a aten&ccedil;&atilde;o, era talvez<br \/>\n    que ela me fazia andar para aqui, para ali, a vista fixa, armando suposi&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    O empregado respons&aacute;vel por aquele servi&ccedil;o tinha como ajudante<br \/>\n    um mo&ccedil;o franzino, risonho, am&aacute;vel, falador, metido em vestimenta.<br \/>\n    clara, de listas verticais, meio invis&iacute;veis, a farpela dos encarcerados<br \/>\n    Provavelmente a cor desmaiara &agrave; for&ccedil;a de lavagens, de &aacute;cidos<br \/>\n    e o fato ignominioso tinha apar&ecirc;ncia vulgar, escapar-me-ia se o antebra&ccedil;o<br \/>\n    do rapaz n&atilde;o viesse despertar-me o interesse. A&iacute; se percebia,<br \/>\n    tatuado, um esqueleto, ru&iacute;na de esqueleto: cr&acirc;nio, costelas bra&ccedil;os,<br \/>\n    espinha; medonha cicatriz, no pulso, havia comido a parte inferior da carca&ccedil;a.<br \/>\n    Desejando livrar-se do estigma, o pobre causticara inutilmente a pele; sofrera<br \/>\n    dores horr&iacute;veis e apenas eliminara peda&ccedil;os da l&uacute;gubre<br \/>\n    figura. N&atilde;o conseguiria iludir-se, voltar a ser pessoa comum. Os restos<br \/>\n    da infame tatuagem, a marca da ferida, iriam persegui-lo sempre; a fatiota<br \/>\n    desbotada conservava o sinal da tinta. Era-me imposs&iacute;vel desviar os<br \/>\n    olhos da representa&ccedil;&atilde;o f&uacute;nebre. Em v&atilde;o queria<br \/>\n    distrair-me. Tinha pena do infeliz e zangava-me. Para que fizera aquilo? A<br \/>\n    vistoria na minha bagagem durou pouco. Abri a valise, despejei-a sobre o balc&atilde;o.<br \/>\n    O varejador sacudiu rapidamente os panos, n&atilde;o ligou import&acirc;ncia<br \/>\n    aos l&aacute;pis, ao papel, aos tro&ccedil;os mi&uacute;dos, retirou o frasquinho.<\/p>\n<p> Que &eacute;? Iodo.<\/p>\n<p> N&atilde;o entra com isto. Porqu&ecirc;?<\/p>\n<p> Proibido, foi a lac&ocirc;nica explica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O senhor julga que pretendo suicidar-me? N&atilde;o est&aacute; vendo que<br \/>\n    isso n&atilde;o d&aacute; para matar um homem?<\/p>\n<p> Proibido, volveu a criatura impass&iacute;vel. Mostrei o dedo avariado:<\/p>\n<p> O senhor n&atilde;o vai obrigar-me a recorrer &agrave; farm&aacute;cia da<br \/>\n    pris&atilde;o para curar esta insignific&acirc;ncia. O frasco de iodo foi<br \/>\n    comprado num quartel onde estive, no Recife. L&aacute; isso n&atilde;o infringia<br \/>\n    o regulamento. Acho que o senhor n&atilde;o quer tomar-me tamb&eacute;m o<br \/>\n    esparadrapo.<\/p>\n<p> Bem, murmurou o sujeito.<\/p>\n<p> Largou as miudezas, recebeu-me o chap&eacute;u, voltou-me as costas. Enchi<br \/>\n    a valise e coloquei-a no ch&atilde;o. Respirei. aliviado, esfor&ccedil;ando-me<br \/>\n    por adivinhar a raz&atilde;o da insist&ecirc;ncia em reter o vidro quase vazio:<br \/>\n    interessavam-me somente os l&aacute;pis e o papel. Bocejei meia hora, a passear,<br \/>\n    zonzo. Findou a investiga&ccedil;&atilde;o, vimo-nos diante de uma porta.<br \/>\n    As reminisc&ecirc;ncias da opera&ccedil;&atilde;o picavam-me a barriga. As<br \/>\n    n&eacute;voas do meu esp&iacute;rito se dilu&iacute;am num ponto, deixavam<br \/>\n    na claridade uma blusa de riscas indecisas, vest&iacute;gios da queimadura<br \/>\n    grave, peda&ccedil;os de esqueleto.<\/p>\n<h3>32<\/h3>\n<p>SUBIMOS uma escada, penetramos extensa galeria onde c&aacute;rceres desembocavam.<br \/>\n    De quando em quando uma grade silenciosa se abria, algumas dezenas de companheiros<br \/>\n    mergulhavam na sombra, continu&aacute;vamos a viagem. Na terceira ou quarta<br \/>\n    parada chegou a minha vez. A chave correu leve na fechadura, a porta de ferro<br \/>\n    se descerrou, achei-me num quadr&acirc;ngulo nu. Completa aus&ecirc;ncia de<br \/>\n    m&oacute;veis. Tentei desembara&ccedil;ar-me do chap&eacute;u e da valise,<br \/>\n    mas o ch&atilde;o vermelho estava molhado. Fiquei de p&eacute;, conversando<br \/>\n    com os vizinhos, experimentando pouco mais ou menos uma sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de embriaguez. Apesar da confus&atilde;o, devia aparentar calma, pois o carcereiro<br \/>\n    me indicou, largou uma frase que me feriu como chicotada:<\/p>\n<p> Este parece um candeeiro velho. Estremeci:<\/p>\n<p> Hem?<\/p>\n<p> Entra como se estivesse em sua casa.<\/p>\n<p> Cheio de vergonha, nada respondi, pois me faltavam elementos para refutar<br \/>\n    a opini&atilde;o do homem. Se ele, observador profissional dos delinq&uuml;entes,<br \/>\n    me via assim, teria l&aacute; as suas raz&otilde;es. Ponderei, extingui melindres.<br \/>\n    Tinha motivo para escandalizar-me? N&atilde;o. Em duros casos, a observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    podia ser considerada elogiosa. Consigo realmente ambientar-me de pressa,<br \/>\n    acomodar-me &agrave;s circunst&acirc;ncias. Percorrendo o sert&atilde;o, muitas<br \/>\n    vezes, quando a noite descia, amarrei o cavalo a uma &aacute;rvore, envolvi-me<br \/>\n    na capa, estirei-me na terra e dormi, tranq&uuml;ilo e s&oacute;. N&atilde;o<br \/>\n    seriam piores que as cobras e outros bichos do mato os habitantes da pris&atilde;o.<br \/>\n    Mas que teria eu feito para o indiv&iacute;duo confundir-me com eles? Muitos<br \/>\n    ali aparentavam serenidade, riam, falavam naturalmente, e a prefer&ecirc;ncia<br \/>\n    me tocara. Esquisito. &Eacute;ramos quarenta pessoas, a maioria aquela gente<br \/>\n    amorfa que, durante a viagem, se arrumava pelos cantos do por&atilde;o, no<br \/>\n    anonimato e no enj&ocirc;o. Lembro-me apenas de Sebasti&atilde;o Hora, capit&atilde;o<br \/>\n    Mata, Lauro Lago e Macedo. Num instante abriram-se os malotes, desdobraram-se<br \/>\n    e estenderam-se as redes no pavimento &uacute;mido. Se n&atilde;o houvessem<br \/>\n    tomado as cordas, seria poss&iacute;vel armar algumas nos var&otilde;es de<br \/>\n    grades opostas. Agora serviam de camas. Sobre a de Macedo, muito larga, foi<br \/>\n    aberto espesso cobertor de l&atilde;; em seguida apareceram len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    e um travesseiro de penas.<\/p>\n<p> Sentado na valise, encostado ao muro, distra&iacute;a-me seguindo os movimentos<br \/>\n    vagarosos e o capricho do homenzinho gordo, envolto na fuma&ccedil;a do cachimbo;<br \/>\n    as mais insignificantes pregas se desfaziam, alisava-se cada pe&ccedil;a com<br \/>\n    rigor. Despojara-me voluntariamente, pela manh&atilde;, de um objeto necess&aacute;rio:<br \/>\n    passaria a noite mal. Onde estaria o sem-vergonha carrancudo que me furtara<br \/>\n    cinco mil-r&eacute;is e estivera uma semana a esconder-se? Talvez n&atilde;o<br \/>\n    nos torn&aacute;ssemos a ver. &Eacute;ramos ali quarenta desordeiros, quase<br \/>\n    todos esp&iacute;ritas e cat&oacute;licos, segundo os pap&eacute;is oficiais<br \/>\n    escritos &agrave; tarde sobra do refugo humano acumulado no por&atilde;o.<br \/>\n    Dispersavam-nos, rompiam-se camaradagens alinhavadas &agrave; pressa; a inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Miguel e a energia im&oacute;vel de Jo&atilde;o Anast&aacute;cio iriam<br \/>\n    morrer-me no esp&iacute;rito. Novas caras surgiriam, novos h&aacute;bitos<br \/>\n    e n&atilde;o ter&iacute;amos tempo de fixar-nos. Se Miguel e Jo&atilde;o Anast&aacute;cio<br \/>\n    reaparecessem, seriam criaturas diferentes, procurar&iacute;amos em v&atilde;o<br \/>\n    qualquer coisa nas suas fisionomias apagadas. Instintivamente busc&aacute;vamos<br \/>\n    associar-nos; a associa&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria num momento se desmancharia.<br \/>\n    E viv&iacute;amos a receber choques na alma. Rela&ccedil;&otilde;es impostas,<br \/>\n    desfeitas, mentes diversas agrupando-se, repelindo-se; ajustamentos dif&iacute;ceis,<br \/>\n    s&uacute;bitas explos&otilde;es de incompatibilidades. Nessa altura o excelente<br \/>\n    Macedo me fez um gesto, cochichou oferta generosa, imprevista: havia espa&ccedil;o<br \/>\n    ali para dois corpos.<\/p>\n<p> Obrigado.<\/p>\n<p> Arriei perto, senti a maciez fofa de panos: aquilo parecia colch&atilde;o.<br \/>\n    Ignoro se veio comida, suponho que todos ficaram sem alimento. De c&oacute;coras,<br \/>\n    deitados, zumbiam &agrave; luz fraca da l&acirc;mpada muito alta. Exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humilhante era a s&oacute;rdida latrina, completamente vis&iacute;vel. Sobre<br \/>\n    o vaso imundo havia uma torneira; recorrer&iacute;amos a ela para lavar as<br \/>\n    m&atilde;os e o rosto, escovar os dentes. As deje&ccedil;&otilde;es seriam<br \/>\n    feitas em p&uacute;blico. A aus&ecirc;ncia de porta, de simples cortina, s&oacute;<br \/>\n    se explicava por um intuito claro da ordem: vilipendiar os h&oacute;spedes.<br \/>\n    Nem cadeiras, nem bancos, inteiro desconforto, o aviltamento por fim, a indignidade.<br \/>\n    Algu&eacute;m teve id&eacute;ia feliz: conseguiu prender uma coberta em frente<br \/>\n    &agrave; coisa suja, poupou-nos a vis&atilde;o torpe. Isso nos deu al&iacute;vio:<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o precis&aacute;vamos fingir o impudor e o sossego de animais.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o Hora resignou-se a pernoitar ao desamparo. Obteve um jornal,<br \/>\n    desdobrou-o no solo frio, despiu-se e, de cuecas, p&ocirc;s a roupa cuidadosamente<br \/>\n    em cima da mala. Depois de longo estudo e experi&ecirc;ncias infrut&iacute;feras,<br \/>\n    deixou a camisa a secar nos ferros da grade. Um sorriso malicioso vincava<br \/>\n    o rosto do capit&atilde;o Mata, aprofundava-lhe a cicatriz.<\/p>\n<p> Dr. Hora, avisou ele, essa camisa a&iacute; corre perigo. V&atilde;o lev&aacute;-la,<br \/>\n    n&atilde;o tenha d&uacute;vida.<\/p>\n<p> Hora, teimoso, desdenhou o conselho e deitou-se no papel. Est&aacute; bem,<br \/>\n    murmurou capit&atilde;o Mata. Eu preveni. Amanh&atilde; o senhor arranja outra.<\/p>\n<p> E apontava o corredor sombrio, onde transitavam guardas, a fiscalizar, faxinas<br \/>\n    entregues a qualquer servi&ccedil;o. Quando viu o m&eacute;dico a dormir,<br \/>\n    levantou-se, retirou a camisa e guardou-a: Realmente ela n&atilde;o estava<br \/>\n    em seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p> Fez os seus meticulosos arranjos noturnos e foi repousar; as ast&uacute;cias<br \/>\n    da caserna lhe tinham conseguido lugar c&ocirc;modo. Sem mudar a roupa, sentado<br \/>\n    &agrave; beira dos panos de Macedo, acompanhei o decrescer das vozes e dos<br \/>\n    gestos em redor; ao cabo de meia hora havia na sala um estranho cal&ccedil;amento<br \/>\n    de figuras abatidas. Pareciam numerosas em excesso: dif&iacute;cil mexer-nos<br \/>\n    entre elas. Era como se me achasse numa vala, &uacute;nico sobrevivente no<br \/>\n    meio de cad&aacute;veres, e nas grades do cemit&eacute;rio surgia de quando<br \/>\n    em quando um rosto de dem&ocirc;nio, a vigiar-nos, talvez o mesmo tipo que<br \/>\n    me associara aos habitantes da cadeia. A turba im&oacute;vel crescia, vultos<br \/>\n    remotos e confusos vinham juntar-se a ela, povoar-me a ins&ocirc;nia.<\/p>\n<p> Havia na parede uma larga barra azul de quase dois metros, e acima curiosa<br \/>\n    legenda em letras n&iacute;tidas, muito bem desenhadas: Fulano, Beltrano,<br \/>\n    Sicrano estiveram aqui presos, em tal data, como comunistas. Eram oito, dez<br \/>\n    ou doze nomes, guardei somente os de Medina e Bag&eacute;. Quem seriam? Impenetr&aacute;veis,<br \/>\n    desconhecidos, talvez menos desconhecidos e impenetr&aacute;veis que a maior<br \/>\n    parte dos homens ali juntos. A inscri&ccedil;&atilde;o me insinuou duas id&eacute;ias.<br \/>\n    Em primeiro lugar julguei-a fanfarronada, quixotice. Realmente, se o Partido<br \/>\n    Comunista era ilegal, tais linhas s&oacute; renderiam desgosto: n&atilde;o<br \/>\n    encerravam confiss&atilde;o; tamb&eacute;m n&atilde;o protestavam; davam mostra,<br \/>\n    sem esbo&ccedil;ar defesa, de aceitar o ju&iacute;zo da pol&iacute;cia. Imaginei<br \/>\n    que, entre os indiv&iacute;duos arrolados, alguns, de fato respons&aacute;veis,<br \/>\n    tentavam, por aquele meio, nivelar-se a outros, alheios &agrave; pol&iacute;tica.<br \/>\n    Estes consentiam em figurar na lista, receosos de mostrar-se covardes. Pensei<br \/>\n    no capit&atilde;o Mata, em Manuel Leal, em Jos&eacute; In&aacute;cio. A segunda<br \/>\n    id&eacute;ia que me veio foi uma pergunta: como haviam conseguido escrever<br \/>\n    a t&atilde;o grande altura, onde o bra&ccedil;o n&atilde;o chegava? No compartimento<br \/>\n    nem vest&iacute;gio de mob&iacute;lia. A falta de escada, o pintor subira<br \/>\n    com certeza aos ombros dos amigos e caprichara no desenho da informa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E tinta? Bem. A cor das letras era igual &agrave; da faixa. Levantei-me, raspei<br \/>\n    com a unha a parede, num instante os dedos se cobriram de p&oacute; azul.<br \/>\n    Vinda a explica&ccedil;&atilde;o, pus-me a indagar como tinham obtido pincel.<\/p>\n<p> Voltei, esgueirando-me em ziguezagues para n&atilde;o despertar os companheiros,<br \/>\n    sentei-me de novo. N&atilde;o desviava do muro os olhos, chamava o sono em<br \/>\n    v&atilde;o, lembrava-me de trabalhos de paci&ecirc;ncia feitos por ing&ecirc;nuos<br \/>\n    artistas da ro&ccedil;a: um crucifixo dentro de uma garrafa; &agrave; primeira<br \/>\n    vista achamos imposs&iacute;vel o instrumento de supl&iacute;cio e Jesus na<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o ruim atravessarem o gargalo. As juntas do&iacute;am-me;<br \/>\n    a barriga, no lugar da opera&ccedil;&atilde;o, devia ter qualquer coisa a<br \/>\n    rasgar-se; certificava-me da insensibilidade das coxas beliscando-as. Deitei-me,<br \/>\n    a valise servindo-me de travesseiro. Mas n&atilde;o dormi logo. A noite se<br \/>\n    prolongava. Venciam-me cochilos perturbados: falas de gente adormecida, passos<br \/>\n    na galeria, caras juntas &agrave; grade, o tilintar de chave em fechaduras.<\/p>\n<p>33<\/p>\n<p>DE MANH&Atilde; pessoas animosas descerraram a cortina improvisada, molharam-se<br \/>\n    no esguicho da torneira. Desviei-me cauteloso receando salpicos imundos; resignei-me<br \/>\n    a n&atilde;o lavar o rosto e suportar sede: imposs&iacute;vel utilizar aquela<br \/>\n    &aacute;gua. Distra&iacute;-me vendo Sebasti&atilde;o Hora procurar a camisa,<br \/>\n    largar as esperan&ccedil;as, amuar percebendo em volta olhares e sorrisos<br \/>\n    maliciosos. Recebeu-a, desanuviou-se. Ao cabo de minutos conversava junto<br \/>\n    &agrave; grade com algu&eacute;m invis&iacute;vel e divertia-se em excesso.<br \/>\n    Chamou-me de l&aacute;:<br \/>\n    Venha ouvir isto, uma confiss&atilde;o que pode servir para as suas notas.<\/p>\n<p> Acerquei-me, vi no corredor um mulato claro vestido no uniforme de riscas,<br \/>\n    a zebra dos penitenci&aacute;rios. Tinha um dente de ouro, ar de sufici&ecirc;ncia<br \/>\n    e pimponice. Ao ver-me, declarou, a fala branda, mole, viscosa:<br \/>\n    Estava aqui dizendo. A princ&iacute;pio dediquei-me ao conto de vig&aacute;rio,<br \/>\n    mas deixei logo: &eacute; arriscado. Ultimamente explorava mulheres.<\/p>\n<p> Nunca me viera a id&eacute;ia de que um indiv&iacute;duo se acanalhasse<br \/>\n    tanto, expondo aquela vaidade besta. Diversas pessoas me revelaram com franqueza<br \/>\n    v&iacute;cios e crimes; n&atilde;o se orgulhavam disso, era como se narrassem<br \/>\n    fatos determinados por uma for&ccedil;a qualquer, interior ou exterior. A<br \/>\n    gabolice descarada me enojava: permaneci frio, aguardando a continua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da torpeza; era s&oacute; aquilo: evidentemente o malandro n&atilde;o iria<br \/>\n    fazer-nos a descri&ccedil;&atilde;o das suas aventuras. Convenci-me de que<br \/>\n    ele desejava apenas iludir-nos e iludir-se. As mulheres fugiriam &agrave;<br \/>\n    triste carne do pulha, ao canino amarelo, &agrave; voz cantada e bamba. Talvez<br \/>\n    me equivocasse. Alguma velha doente, no fim de todas as quedas, apodrecera<br \/>\n    um pouco ali, antes de resvalar para a &uacute;ltima cova, e isto ocasionara<br \/>\n    a exibi&ccedil;&atilde;o parva. Refleti, moderei-me. O caso n&atilde;o merecia<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o, o que o real&ccedil;ava era o prazer do tipo ao narr&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Desviei-me, fui encomendar cigarros a um faxina. Recebi o pacote, larguei<br \/>\n    a pequena gorjeta, virei-me para dentro da jaula. Agora, &agrave; luz do sol,<br \/>\n    o d&iacute;stico azul avultava na parede.<\/p>\n<p> Efetivamente era bem feito, devia ter custado longo esfor&ccedil;o, muita<br \/>\n    paci&ecirc;ncia. Onde estariam as criaturas mencionadas nele? De repente ouvi<br \/>\n    gritos, logo notei que se dirigiam a n&oacute;s. Longe, noutro c&aacute;rcere,<br \/>\n    tinham recolhido informa&ccedil;&otilde;es, pediam not&iacute;cias da viagem<br \/>\n    no por&atilde;o, queriam saber se precis&aacute;vamos qualquer coisa. Estudamos<br \/>\n    as respostas, escolhemos um locutor e estabeleceu-se breve di&aacute;logo.<br \/>\n    Recusamos os obs&eacute;quios e agradecemos. Bem. Est&aacute;vamos diante<br \/>\n    de uma organiza&ccedil;&atilde;o. Nada sabendo a respeito dela, fomos cautelosos<br \/>\n    nas respostas. Obrigados. Viaj&aacute;ramos regularmente no Manaus, e n&atilde;o<br \/>\n    sent&iacute;amos necessidade. O certo &eacute; que muitos se imaginavam numa<br \/>\n    tocaia, longa reserva encolhia os nordestinos suspeitosos. N&atilde;o nos<br \/>\n    fiar&iacute;amos em gente desconhecida. Veio-me &agrave; lembran&ccedil;a<br \/>\n    a opini&atilde;o de Miguel Bezerra quando apareci a bordo: vendo a roupa de<br \/>\n    casimira e o chap&eacute;u de palha, julgara-me instrumento da pol&iacute;cia.<br \/>\n    As esfrega&ccedil;&otilde;es ao p&eacute; da torneira haviam findado; a cortina<br \/>\n    improvisada baixara, ocultando o vaso imundo; as redes estavam dobradas e<br \/>\n    as figuras encostavam-se &agrave;s paredes, sentavam-se em trouxas; zumbiam<br \/>\n    conversas. Nesse ponto chamaram-me do corredor. Aproximei-me, vi junto &agrave;s<br \/>\n    vergas de ferro o tipo que me supusera habituado &agrave; pris&atilde;o. Sair.<\/p>\n<p> Para onde? perguntei confuso.<\/p>\n<p> O homem ficou em sil&ecirc;ncio, notei que a interroga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era idiota. N&atilde;o me concediam, certo, o direito de informar-me. Esperei<br \/>\n    um instante: outros nomes, pensei, viriam juntar-se ao meu. Prolongando-se<br \/>\n    a mudez do sujeito, fui buscar a valise, despedi-me dos companheiros, voltei.<br \/>\n    A chave gemeu na fechadura, a porta se abriu, tornou a fechar-se, mergulhamos<br \/>\n    na galeria. A nossa passagem, vultos surgiam &agrave; direita, &agrave; esquerda,<br \/>\n    al&eacute;m das grades, falavam-me. Percebi-os vagamente e n&atilde;o lhes<br \/>\n    entendi as palavras. Descemos a escada, chegamos &agrave; rouparia, sentei-me<br \/>\n    num banco, exausto: o mais ligeiro exerc&iacute;cio me consumia o resto das<br \/>\n    for&ccedil;as. L&aacute; estava o rapaz am&aacute;vel, decente, limpo, as<br \/>\n    linhas verticais da blusa infamante quase invis&iacute;veis.<\/p>\n<p> O senhor estava muito nervoso ontem.<\/p>\n<p> A afirma&ccedil;&atilde;o e a data me surpreenderam. Ontem? Parecia-me reconhecer<br \/>\n    o mo&ccedil;o risonho, mas achava absurdo hav&ecirc;-lo encontrado no dia<br \/>\n    anterior. Arrepiei-me vendo-lhe a cicatriz do pulso, a horr&iacute;vel tatuagem<br \/>\n    meio decomposta. Bem. Estavam ali os peda&ccedil;os do esqueleto, o homem<br \/>\n    delicado que surgira na v&eacute;spera, sem d&uacute;vida.<\/p>\n<p> Porque diz isso? estranhei. Fiz algum disparate?<br \/>\n    N&atilde;o. O senhor fingia calma, falava, ria, pilheriava com os seus amigos.<br \/>\n    Notei a agita&ccedil;&atilde;o porque mexeu na valise mais de vinte vezes.<br \/>\n    N&atilde;o achava lugar para ela.<\/p>\n<p> Admirado, felicitei o astuto observador. Nenhuma consci&ecirc;ncia daqueles<br \/>\n    movimentos houvera em mim. Julgava-me tranq&uuml;ilo explicando-me ao funcion&aacute;rio<br \/>\n    a respeito do frasco de iodo. E o guarda me supusera &agrave; vontade, em<br \/>\n    casa, afeito &agrave; cadeia. Todos se enganavam, s&oacute; a criatura estigmatizada<br \/>\n    me via por dentro; o h&aacute;bito de examinar min&uacute;cias, em perman&ecirc;ncia<br \/>\n    longa na pris&atilde;o, certamente lhe desenvolvera a sagacidade. Vencida<br \/>\n    a surpresa, perguntava a mim mesmo porque me demorava tanto ali na sala, quando<br \/>\n    Lauro Lago desceu a escada, vestindo a cal&ccedil;a por cima do pijama, o<br \/>\n    palet&oacute; no bra&ccedil;o. Acabou de arrumar-se c&aacute; embaixo. Em<br \/>\n    seguida vieram Sebasti&atilde;o Hora, Macedo, capit&atilde;o Mata, v&aacute;rios<br \/>\n    outros. Avizinhei-me de um guarda velho, que se dispunha a conduzir-n&oacute;s:<\/p>\n<p> Faz favor de me dizer para onde vamos? Pavilh&atilde;o dos Prim&aacute;rios,<br \/>\n    informou o sujeito. Melhor ou pior que isto aqui?<\/p>\n<p> Melhor, melhor. Vivem l&aacute; cantando e berrando como uns doidos.<\/p>\n<h2><a name=\"2\">SEGUNDA PARTE<\/a><\/h2>\n<h3>PAVILH&Atilde;O DOS PRIM&Aacute;RIOS<\/h3>\n<h3>1<\/h3>\n<p>SA&Iacute;MOS andamos um peda&ccedil;o do p&aacute;tio, alcan&ccedil;a. mos<br \/>\n    o nosso destino, alto edif&iacute;cio de fachada nova. Entramos. Salas &agrave;<br \/>\n    esquerda e &agrave; direita do vest&iacute;bulo espa&ccedil;oso. Uma grade<br \/>\n    ocupava toda a largura do pr&eacute;dio. No meio dela escancarou-se enorme<br \/>\n    porta. Introduzimo-nos por a&iacute;, desembocamos num vasto recinto para<br \/>\n    onde se abriam c&eacute;lulas, aparentemente desertas: era prov&aacute;vel<br \/>\n    terem todos os inquilinos vindo receber-nos. Avan&ccedil;amos entre duas filas<br \/>\n    de homens que, de punhos erguidos, se puseram a cantar, na m&uacute;sica do<br \/>\n    Hino Nacional:<\/p>\n<p> Do norte, das florestas amaz&ocirc;nicas, Ao sul, onde a coxilha a vista<br \/>\n    encanta, A terra brasileira, d luz dos tr&oacute;picos&#8230;<\/p>\n<p> Ri-me interiormente, pensando no que me havia dito o guarda pouco antes:<br \/>\n    Vivem cantando e berrando como uns doidos. Fora da manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ruidosa, alguns indiv&iacute;duos nos observavam, entre eles um mo&ccedil;o<br \/>\n    p&aacute;lido, ligeiramente curvo, e um gigante s&eacute;rio, trigueiro, de<br \/>\n    cal&ccedil;a escura, sapatos lustrosos, camisa de seda, colarinho, gravata<br \/>\n    e suspens&oacute;rio. Esse esmero contrastava com a simplicidade excessiva<br \/>\n    dos vestu&aacute;rios em redor: quase todos ali vestiam pijamas ou apenas<br \/>\n    traziam cuecas; usavam tamancos. Eram trinta ou quarenta pessoas. Notei um<br \/>\n    rapaz franzino, quase nu, muito simp&aacute;tico; um vigoroso, de blusa russa,<br \/>\n    cachimbo, dentes maus; um negro refor&ccedil;ado e lento, de grande barriga.<br \/>\n    Um sujeito moreno, de cabeleira anelada, perguntou:<\/p>\n<p> Qual &eacute; deles?<\/p>\n<p> Outro, peludo, baixo, indicou-me erguendo o bra&ccedil;o. Findo o canto,<br \/>\n    dispersamo-nos e informa&ccedil;&otilde;es incompletas zumbiram nos grupos.<br \/>\n    Enquanto faxinas de roupa zebrada nos arranjavam c&ocirc;modos, procurei o<br \/>\n    banheiro. Fui ach&aacute;-lo ao fundo, &agrave; esquerda, junto &agrave; escada<br \/>\n    que levava ao andar superior. N&atilde;o consegui abri-lo: pelos ferros da<br \/>\n    grade, vi com des&acirc;nimo os chuveiros in&uacute;teis. Mais um dia de sujeira<br \/>\n    e comich&otilde;es. Notei uma singularidade: a casa tinha dois pavimentos,<br \/>\n    mas entre eles n&atilde;o havia soalho; rente ao segundo corna uma plataforma<br \/>\n    acanhada, passadi&ccedil;o com um metro de largura; l&aacute; em cima outros<br \/>\n    c&aacute;rceres, perfeitamente vis&iacute;veis, nos pareciam muito elevados.<br \/>\n    Cheguei-me a um atleta vestido em cal&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p> Faz favor de me dizer onde posso arranjar um banho? Dif&iacute;cil, respondeu.<br \/>\n    S&oacute; amanh&atilde;. A esta hora o banheiro n&atilde;o se abre.<\/p>\n<p> Convidou-me a entrar no seu cub&iacute;culo, apresentou-se, Renato do Rego<br \/>\n    Barros, e apresentou o companheiro, Adolfo Barbosa, de ar doentio, feio, am&aacute;vel<br \/>\n    em excesso, o rosto de formado por terr&iacute;vel prognatismo. Pus a valise<br \/>\n    no ch&atilde;o, sentei-me &agrave; beira de uma cama:<\/p>\n<p> Ser&aacute; realmente imposs&iacute;vel achar &aacute;gua? Estou imundo.<br \/>\n    Faz uma semana que n&atilde;o me lavo.<\/p>\n<p> Renato cortou a dificuldade. A um canto, disfar&ccedil;ando a latrina, havia<br \/>\n    um guarda-vento. Colocou-o diante da pia, agarrou um caneco:<br \/>\n    Dispa-se.<\/p>\n<p> Nem me deu tempo de recusar. Minutos depois achava-me coberto de espuma<br \/>\n    a receber a&ccedil;oites l&iacute;quidos em todo o corpo. Enxuguei-me com<br \/>\n    a toalhinha de rosto, encabulado por incomodar o sol&iacute;cito homem, que<br \/>\n    passava a borracha no ch&atilde;o molhado. Restava-me um pijama limpo. Vesti-o,<br \/>\n    sentei-me de novo, procurando ambientar-me. Dispunha-me a observar e escutar<br \/>\n    as duas pessoas quando o mo&ccedil;o p&aacute;lido e curvo, de relance percebido,<br \/>\n    entrou no quarto. Deram-lhe o nome de S&eacute;rgio, anunciaram a li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de matem&aacute;tica. Encolhido e jovem, o visitante devia ser o aluno. Enganei-me:<br \/>\n    era o professor. Acomodou-se em frente de Adolfo Barbosa, p&ocirc;s-se a falar<br \/>\n    vagaroso e, abundante, a voz &aacute;spera, baixa, pron&uacute;ncia ex&oacute;tica<br \/>\n    cheia de fortes aspira&ccedil;&otilde;es. Usando l&iacute;ngua estranha, n&atilde;o<br \/>\n    se detinha: deturpava as palavras mas achava-as com singular facilidade. Aquilo<br \/>\n    n&atilde;o tinha jeito de li&ccedil;&atilde;o: assist&iacute;amos a uma confer&ecirc;ncia<br \/>\n    inacess&iacute;vel a mim. Enquanto ela durou, Adolfo permaneceu mudo. Anulei-me,<br \/>\n    experimentando pouco mais ou menos o vexame dos analfabetos diante de papel<br \/>\n    escrito. Quem seria o monstro familiar &agrave; teoria da relatividade, aos<br \/>\n    horrores onde a minha escassa intelig&ecirc;ncia naufraga?<\/p>\n<p> Despedi-me, carregando a bagagem crescida: a maleta, a cal&ccedil;a e o<br \/>\n    palet&oacute;, os livros; busquei ref&uacute;gio noutro cub&iacute;culo, onde<br \/>\n    um sujeito de pijama vermelho se ocupava em devorar uma penca de bananas,<br \/>\n    respirei com al&iacute;vio nessa companhia. Jo&atilde;o Romariz. Bem. Conversando<br \/>\n    com ele, sentia-me &agrave; vontade. Era um nacional de fala dormente, alheio<br \/>\n    &agrave;s id&eacute;ias abstratas. E decidir afastar-me cuidadoso de S&eacute;rgio,<br \/>\n    bruxo amigo de Einstein e do infinito: a presen&ccedil;a dele seria um alfinete<br \/>\n    para minha ignor&acirc;ncia. Firmava-me nesse prop&oacute;sito, divagava singelamente<br \/>\n    com Romariz, e ao cabo de minutos surgiu o perigo, inevit&aacute;vel. O matem&aacute;tico<br \/>\n    deslizou para n&oacute;s como sombra, sentou-se junto a mim, envolveu-me na<br \/>\n    sua delicadeza fria. E entorpeceu-me a preven&ccedil;&atilde;o. Agora adotava<br \/>\n    linguagem natural e crist&atilde;, a aspereza gutural da pros&oacute;dia ia-se<br \/>\n    pouco a pouco ado&ccedil;ando. Veio-me a id&eacute;ia de pedir-lhe esclarecimentos<br \/>\n    a respeito dos habitantes daquela pris&atilde;o. Desmanchei uma carteira de<br \/>\n    cigarros, tirei de um dos lados o cart&atilde;o que tenho aqui sobre a mesa,<br \/>\n    tomei o l&aacute;pis e escrevi alguns nomes: Romariz, Adolfo, Renato, S&eacute;rgio.<\/p>\n<p> S&eacute;rgio de qu&ecirc;? perguntei. Qual &eacute; o seu sobrenome? Isto<br \/>\n    &eacute; pseud&ocirc;nimo. Eu me chamo Rafael Kamprad. Alem&atilde;o? Pelo<br \/>\n    jeito de falar, parece alem&atilde;o.<\/p>\n<p> Russo, do C&aacute;ucaso.<\/p>\n<p> Ainda crian&ccedil;a, perdera a fam&iacute;lia na Guerra Civil, conseguira<br \/>\n    chegar &agrave; Alemanha, onde estranhara o sil&ecirc;ncio, a falta dos tiros<br \/>\n    de canh&atilde;o. Estudante de filosofia e matem&aacute;tica numa universidade,<br \/>\n    fugira perseguido pelo nazismo, fora terminar o curso na Est&ocirc;nia. Da&iacute;<br \/>\n    o expulsaram. Tinha parentes na China e no Brasil: uma av&oacute; no Rio de<br \/>\n    Janeiro, um tio em Cant&atilde;o, rico em neg&oacute;cios de petr&oacute;leo<br \/>\n    com os americanos.<\/p>\n<p> Optara pelo Brasil. E vivia de ensinar quando rebentara a bagun&ccedil;a<br \/>\n    de 1935. Previdente, desviara de casa objetos nocivos, confiara a um aluno<br \/>\n    cartas de Trotski, mas com tanta infelicidade que num instante haviam ca&iacute;do<br \/>\n    os pap&eacute;is nas m&atilde;os da pol&iacute;cia. No interrogat&oacute;rio<br \/>\n    quisera defender-se:<\/p>\n<p> Por essa correspond&ecirc;ncia, os senhores v&ecirc;em a minha posi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    nada tenho com o barulho daqui.<\/p>\n<p> Pois sim. N&oacute;s gostamos tanto de uma coisa como da outra.<\/p>\n<p> E haviam-lhe deformado os p&eacute;s na tortura. Rafael Kamprad, ou S&eacute;rgio,<br \/>\n    contava-me isso com um sorriso pl&aacute;cido. N&atilde;o se alterava, n&atilde;o<br \/>\n    gesticulava, percebi nele uma natureza glacial. Na brancura doentia de nata,<br \/>\n    no olho azul cinzento, serenidade completa. Indiquei figuras que divis&aacute;vamos<br \/>\n    dali; algumas j&aacute; me haviam provocado a aten&ccedil;&atilde;o. O sujeito<br \/>\n    de blusa russa e cachimbo era Jos&eacute; Mediria, com certeza o mencionado<br \/>\n    na inscri&ccedil;&atilde;o vista na parede, em cima da barra. O rapaz simp&aacute;tico<br \/>\n    e franzino, de cueca e tamancos, era Rodolfo Ghioldi.<\/p>\n<p> Italiano?<\/p>\n<p> Argentino Secret&aacute;rio do Partido Comunista Argentino. Sim senhor,<br \/>\n    achava-me entre indiv&iacute;duos importantes, que me espica&ccedil;avam a<br \/>\n    curiosidade. Percebi um mo&ccedil;o alto, magro, de cabe&ccedil;a pequena,<br \/>\n    vago feitio de pernalta, escrevi o nome dele: Benjamin Schneider. S&eacute;rgio<br \/>\n    corrigiu a grafia: Snaider Achei esquisita a emenda:<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; alem&atilde;o?<\/p>\n<p> &Eacute; um judeu romeno.<\/p>\n<p> Capit&atilde;o Mata veio interromper-nos: escolhera para n&oacute;s aposento<br \/>\n    no andar de cima. Agarrei os tro&ccedil;os, despedi-me, sa&iacute;mos, percorremos<br \/>\n    a sala, galgamos os dois lan&ccedil;os da escada negra de ferro, viramos &agrave;<br \/>\n    esquerda, ganhamos o passadi&ccedil;o, entramos no cub&iacute;culo 35. Exatamente<br \/>\n    como os outros. o guarda-vento escondendo a latrina, a pia, duas camas junto<br \/>\n    &agrave; porta. Pos uma alta janela gradeada, no muro ao fundo, vinha luz<br \/>\n    do exterior. Homem pr&aacute;tico, o meu excelente companheiro reatava a conviv&ecirc;ncia<br \/>\n    do Recife: t&iacute;nhamo-nos dado bem l&aacute;, decerto continuar&iacute;amos<br \/>\n    assim Examinou a pe&ccedil;a e considerou-se bem alojado. Achou um peda&ccedil;o<br \/>\n    de sab&atilde;o, e o seu primeiro ato foi abrir a mala, encher a pia e mergulhar<br \/>\n    na &aacute;gua a roupa suja.<\/p>\n<p> O senhor vai lavar isto?<\/p>\n<p> E ent&atilde;o? Eu sou da caserna. O senhor vai ver que fica muito bem lavado<br \/>\n    e engomado.<\/p>\n<p> Engomado? N&atilde;o pode ser. Eu lhe mostro.<\/p>\n<p> Nunca deixamos de tratar-nos cerimoniosamente. S&eacute;rgio, apesar da<br \/>\n    circunspec&ccedil;&atilde;o, da algidez, quase se familiarizara comigo em<br \/>\n    vinte minutos de conversa, e Mata, alegre e buli&ccedil;oso, ainda era a mesma,<br \/>\n    criatura distante que declamava poesia num carro da Great Western. Dedicava-se<br \/>\n    &agrave; barrela quando entraram dois tipos: o baixo, piloso, e o trigueiro,<br \/>\n    de cabelos encaracolados, que pareciam interessar-se por mim, ao chegarmos.<br \/>\n    Logo resvalamos na intimidade. O primeiro se chamava Enzmann Cavalcante; o<br \/>\n    segundo, Newton Freitas.<\/p>\n<p> Em que &eacute; que voc&ecirc;s se ocupavam l&aacute; fora? indaguei. Eu<br \/>\n    trabalhava com ele, respondeu Newton designando o outro.<\/p>\n<p> E ele?<\/p>\n<p> Ele trabalhava comigo.<\/p>\n<p> Sim. Mas que &eacute; que faziam? Ah! N&atilde;o faz&iacute;amos nada.<\/p>\n<p> E soltou uma gargalhada imensa. Ria sem descontinuar, o vivente mais alegre<br \/>\n    do mundo.<\/p>\n<p> Quem diria? exclamou. Que diferen&ccedil;a! Eu pensava que voc&ecirc; fosse<br \/>\n    novo e preto.<\/p>\n<p> Novo e preto? inquiri. Porque julgou isso? Sei l&aacute;! Era o que eu imaginava.<\/p>\n<p> E a risada estalou.<\/p>\n<p> Onde foi que nos vimos? perguntei a Cavalcante. N&atilde;o me lembro. Acho<br \/>\n    que me conhece.<\/p>\n<p> J&aacute; nos encontramos em Alagoas. Eu sou de Penedo. Ah! Sim.<\/p>\n<p> E ficamos nisso. Ouvimos o som de numerosos tamancos no pavimento inferior,<br \/>\n    tropel na escada.<\/p>\n<p> A b&oacute;ia.<\/p>\n<p> Descemos, tomamos lugar na fila organizada para o almo&ccedil;o. Junto &agrave;<br \/>\n    grade, mexendo em caix&otilde;es e sacos, faxinas se atarefavam na distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da comida. Examinei-a de longe, considerei-a suport&aacute;vel. O apetite<br \/>\n    n&atilde;o me vinha, contudo achei-me capaz de engolir qualquer coisa. Afastadas<br \/>\n    as marmitas de folha e a horr&iacute;vel imund&iacute;cie do por&atilde;o,<br \/>\n    o torpor do est&ocirc;mago iria desaparecer. Avizinhei-me, recebi um prato,<br \/>\n    uma laranja e uma banana, voltei ao cub&iacute;culo. Ofereceram tamb&eacute;m<br \/>\n    aos rec&eacute;m-chegados canecos de alum&iacute;nio. A falta de mesa me atrapalhava,<br \/>\n    servi-me com dificuldade, na cama. N&atilde;o havia faca nem garfo, uma colher<br \/>\n    apenas. Mas o ju&iacute;zo de capit&atilde;o Mata, que achava, como sempre,<br \/>\n    o alimento muito bom, animou-me. Consegui tragar uns bocados. Arroz ins&iacute;pido,<br \/>\n    carne misturada com peixe. Deixamos a lou&ccedil;a na soleira. Na aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de m&oacute;veis, arrumei sobre o guarda-vento os livros, a valise, a roupa<br \/>\n    dobrada. E estendi-me para repousar. Deitava-me afinal como gente, na apar&ecirc;ncia.<br \/>\n    O colch&atilde;o era t&atilde;o delgado que n&atilde;o me deixava em sossego,<br \/>\n    um var&atilde;o do lastro magoava-me o espinha&ccedil;o. Virei-me para um<br \/>\n    lado e para outro, avancei, recuei, e sempre a infeliz haste de metal a chocar-me<br \/>\n    os ossos. Alojei-a por fim entre as &uacute;ltimas costelas e o il&iacute;aco,<br \/>\n    adormeci ouvindo a esfrega nas camisas do capit&atilde;o, o esguicho da torneira.<\/p>\n<h3>2<\/h3>\n<p>DESPERTARAM-ME pancadas de tamancos. Ergui-me, fui ao passadi&ccedil;o, vi<br \/>\n    aglomera&ccedil;&atilde;o l&aacute; embaixo, desci, agreguei-me ao semic&iacute;rculo<br \/>\n    que se formava junto &agrave; escada. Rodolfo Ghioldi subiu alguns degraus.<br \/>\n    Tinha de pano em cima do corpo uma cueca e um len&ccedil;o. Come&ccedil;ou<br \/>\n    a falar em espanhol, de quando em quando lan&ccedil;ando os olhos a um cart&atilde;o<br \/>\n    de cinco cent&iacute;metros, onde fizera o esquema da palestra. Referiu-se<br \/>\n    &agrave; pol&iacute;tica sul-americana, e logo no princ&iacute;pio tomei-me<br \/>\n    de verdadeiro espanto: nunca ouvira ningu&eacute;m expressar-se com tanta<br \/>\n    facilidade. En&eacute;rgico e sereno, dominava perfeitamente o assunto, as<br \/>\n    palavras flu&iacute;am sem descontinuar, singelas e precisas. Admiravam-me<br \/>\n    a rapidez do pensamento e a eleg&acirc;ncia da frase. Curvado sobre o papel,<br \/>\n    a suar na composi&ccedil;&atilde;o, emendando, ampliando, eliminando, n&atilde;o<br \/>\n    me seria poss&iacute;vel construir aquilo.<\/p>\n<p> Excelente orador, segredei ao vizinho.<\/p>\n<p> Esquisito um homem quase nu causar tal impress&atilde;o. Afizera-se &agrave;<br \/>\n    tribuna, achava-se &agrave; vontade, a governar os nervos d&oacute;ceis, consultando<br \/>\n    o papel da sinopse, dobrando-o para ocultar as linhas percorridas, movendo<br \/>\n    o len&ccedil;o como se tirasse recursos dele. O gesto de prestidigitador firme<br \/>\n    no seu of&iacute;cio. Conservou-nos atentos meia hora, o prazo marcado para<br \/>\n    a confer&ecirc;ncia. T&ecirc;-la-ia, como depois notei, desenvolvido em sessenta<br \/>\n    minutos ou resumido em quinze, expondo a mat&eacute;ria toda, sem esquecer<br \/>\n    um ponto. Capaz de, com destreza, analisar ou sintetizar.<\/p>\n<p> Algumas pessoas se afastavam de n&oacute;s: S&eacute;rgio, Adolfo Barbosa,<br \/>\n    o gigante s&eacute;rio e trigueiro, de colarinho e gravata no desmazelo geral.<br \/>\n    Quem era esse tipo que se desviava dos outros, dava mostra de esperar sair<br \/>\n    logo? Informei-me quando terminou o discurso. Valdemar Birinyi, h&uacute;ngaro,<br \/>\n    dizia-se ex-oficial de Bela Kun. Tinha propriedades na Inglaterra e na Argentina.<br \/>\n    Viajava da Europa a Buenos Aires, em companhia de uma bonita mulher, e tivera<br \/>\n    a infeliz id&eacute;ia de saltar no Rio de Janeiro. Aqui se hospedara em hotel<br \/>\n    de luxo, comprara um autom&oacute;vel e resolvera prosseguir a viagem por<br \/>\n    terra. Preso no Rio Grande do Sul, fora recambiado &agrave; pressa, em avi&atilde;o,<br \/>\n    e no interrogat&oacute;rio da pol&iacute;cia, mal se explicando numa g&iacute;ria<br \/>\n    internacional, deixara sem clareza as raz&otilde;es secretas que o haviam<br \/>\n    trazido ao Brasil. De nada lhe serviram o passaporte e fotografias de im&oacute;veis<br \/>\n    no Prata. Oito malas e vinte e cinco mil francos su&iacute;&ccedil;os tinham<br \/>\n    desaparecido. O que mais o agoniava era o extravio de uma cole&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de selos, a terceira do mundo, orgulhava-se disto. Em momento de desespero<br \/>\n    tentara cortar os pulsos com uma gilete, ainda conservava peda&ccedil;os de<br \/>\n    esparadrapo colados &agrave; pele. Enfurecera-o talvez o sumi&ccedil;o daquela<br \/>\n    preciosidade, ou o isolamento em que vivia. Exprimia-se a custo, embaralhando<br \/>\n    l&iacute;nguas; entendia-se em alem&atilde;o com S&eacute;rgio, fazia dele<br \/>\n    int&eacute;rprete. Chegando ao Pavilh&atilde;o dos Prim&aacute;rios, fora<br \/>\n    recebido com o Hino do Brasileiro Pobre:<\/p>\n<p> Do norte, das florestas amaz&ocirc;nicas, Ao sul, onde a coxilha a vista<br \/>\n    encanta&#8230; E resmungara chateado:<\/p>\n<p> Fui oficial de Bela Kun. Iam fazer aqui revolu&ccedil;&atilde;o com estas<br \/>\n    bestas?<\/p>\n<p> Ca&iacute;ra, pois, em desagrado, embora possivelmente n&atilde;o tivesse<br \/>\n    querido ofender ningu&eacute;m: mastigava um portugu&ecirc;s horr&iacute;vel,<br \/>\n    nunca dizia o que desejava. Pascoal Leme, um professor mo&ccedil;o, de fisionomia<br \/>\n    aberta, contou-me peda&ccedil;os desse desastre; colhi diversas min&uacute;cias<br \/>\n    aqui e ali, passeando no vasto recinto, chamado Pra&ccedil;a Vermelha. Na<br \/>\n    cadeia sobra-nos tempo, acumulamos as not&iacute;cias mais insignificantes;<br \/>\n    &agrave;s vezes as imagina&ccedil;&otilde;es trabalham fora da realidade,<br \/>\n    surgem constru&ccedil;&otilde;es absurdas, e nem sabemos quando nos relacionam<br \/>\n    fatos verdadeiros ou quando sonham. Visitei Adolfo Barbosa e Renato, busquei<br \/>\n    aproximar-me de alguns outros. Os meus novos amigos chegados pela manh&atilde;<br \/>\n    rapidamente se ambientavam; a cad&ecirc;ncia lenta dos nordestinos casava-se<br \/>\n    a r&iacute;spidas vozes estrangeiras. Havia ali pequeno-burgueses e oper&aacute;rios,<br \/>\n    homens cultos e gente simples. De um lado Rodolfo Ghioldi e S&eacute;rgio,<br \/>\n    engenheiros, m&eacute;dicos, bachar&eacute;is; do outro lado Bag&eacute;,<br \/>\n    companheiro de Medina, e o negro forte, barrigudo, visto ao chegarmos, o estivador<br \/>\n    Santana. Na c&eacute;lula de Romariz conheci um tipo curioso, Agr&iacute;cola<br \/>\n    Baptista. Furara um len&ccedil;ol cor de sangue e andava metido nesse poncho<br \/>\n    medonho, que nos feria a vista. Servira na Coluna Prestes, recebera uma bala<br \/>\n    na perna e por isso claudicava. Davam-lhe a alcunha de Tamandu&aacute;, realmente<br \/>\n    bem aplicada: tinha os olhos pequenos, barba espessa, o rosto se alongava,<br \/>\n    inquieto, num sorriso frio e doloroso. Outra figura me chamou a aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Amadeu Amaral J&uacute;nior, arcabou&ccedil;o de torre, olhos profundamente<br \/>\n    azuis, cabeleira anelada cobrindo-lhe as orelhas, prometendo chegar aos ombros.<br \/>\n    Vestia uma cueca preta e cal&ccedil;ava enormes tamancos ruidosos que pezunhavam<br \/>\n    como cascos. Jornalista, desenfastiava-se na pris&atilde;o redigindo novelas.<br \/>\n    Exibiu-me um conto bem chocho, amostra das suas possibilidades liter&aacute;rias.<br \/>\n    Devolvi-o constrangido, esfor&ccedil;ando-me em v&atilde;o por indicar nele<br \/>\n    id&eacute;ia ou forma razo&aacute;vel, mas o autor eximiu-me da cortesia falsa:<br \/>\n    indiferente a elogios, asseverava, na palavra e no gesto, o grande valor do<br \/>\n    seu trabalho. Isso me afligia, embara&ccedil;ava; o desejo de ser am&aacute;vel<br \/>\n    findou; descobria uma vaidade espessa e vinha-me a tenta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    en&eacute;rgica e irrealiz&aacute;vel, de grosseiramente afirmar que a hist&oacute;ria<br \/>\n    n&atilde;o prestava. Necess&aacute;rio afastar-me, livrar-me da situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    penosa. Amadeu Amaral J&uacute;nior deve ter-me adivinhado recantos do interior:<br \/>\n    excedeu-se no ju&iacute;zo f&aacute;tuo, com estrid&ecirc;ncia e aspereza.<br \/>\n    Vexava-me sobretudo achar-me livre de simpatia, inclinando talvez a ser injusto,<br \/>\n    n&atilde;o poder de nenhuma forma solidarizar-me com o rapaz, negar fugitivos<br \/>\n    ind&iacute;cios de beleza acaso existentes na sua literatura. Ao deix&aacute;-lo,<br \/>\n    perguntava a mim mesmo se o havia magoado ou se ele me ofendera. Com certeza<br \/>\n    eram exatas as duas suposi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Percebi entre os meus companheiros uma esquisita amabilidade antes de pedir,<br \/>\n    ofereciam. Algu&eacute;m me veio perguntar se necessitava qualquer coisa,<br \/>\n    dinheiro, cigarros. Nada me faltava, agradeci. A resposta era infal&iacute;vel:<br \/>\n    os meus escr&uacute;pulos me levariam a recusar assist&ecirc;ncia, ainda que<br \/>\n    me achasse em pen&uacute;ria. Bem. Tratava-se ent&atilde;o de saber se me<br \/>\n    era poss&iacute;vel contribuir para o Coletivo. Sem d&uacute;vida, mas que<br \/>\n    vinha a ser aquilo? Um organismo a funcionar, com excelentes resultados, em<br \/>\n    pris&atilde;o pol&iacute;tica. A oferta e o pedido me revelavam de pronto<br \/>\n    um dos seus fins: estabelecer o equil&iacute;brio. A testa dele, uma comiss&atilde;o<br \/>\n    de cinco membros, eleitos por alguns meses, zelava a ordem, a higiene, entendia-se<br \/>\n    com o mundo l&aacute; de fora utilizando as visitas, levava &agrave; administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do estabelecimento exig&ecirc;ncias e protestos. Como o diretor n&atilde;o<br \/>\n    aparecia, a autoridade pr&oacute;xima era o Coletivo. Fundara cursos de l&iacute;nguas<br \/>\n    e ambicionava instituir uma Universidade Popular. Benjamin Snaider ensinava<br \/>\n    russo.<\/p>\n<p> Contribui&ccedil;&atilde;o mensal? N&atilde;o, semanal.<\/p>\n<p> Com minguados recursos, imposs&iacute;vel dar mais de dez mil r&eacute;is.<br \/>\n    Larguei-os. Dentro em pouco, certamente, nem disso iria dispor. Estremeci<br \/>\n    ouvindo perto um canto de galo Quem teria metido ali o animal? Procurei-o,<br \/>\n    guiando-me por outros cocoroc&oacute;s muito agudos e tr&ecirc;mulos. Percebi<br \/>\n    o engano. L&aacute; em cima, um sujeito de bugalhos im&oacute;veis e express&atilde;o<br \/>\n    lorpa estirava o pesco&ccedil;o e esgoelava-se daquele modo<br \/>\n    Idiota! bradaram furiosamente na vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p> O tipo, insens&iacute;vel &agrave; ofensa, continuou a descomedir-se exibindo<br \/>\n    o seu talento galin&aacute;ceo. Era portugu&ecirc;s e anarquista, disseram-me;<br \/>\n    desde a chegada vinha-se entregando ao exerc&iacute;cio irritante: quando<br \/>\n    menos se esperava, erguia-se nas pontas dos p&eacute;s, lan&ccedil;ava o duro<br \/>\n    grito rolado. Fora isso, declamava com insist&ecirc;ncia um per&iacute;odo<br \/>\n    que principiava assim: Por causa de uma aventura galante&#8230;<\/p>\n<p> A tardinha surgiram novamente os caix&otilde;es e organizou-se a fila para<br \/>\n    o jantar. Devolvidos os pratos, percebi um tilintar de chaves; fui ao passadi&ccedil;o,<br \/>\n    vi no pavimento inferior um guarda trancando portas; iam-se pouco a pouco<br \/>\n    dissolvendo os grupos. Os tinidos aproximaram-se, recolhi-me, um instante<br \/>\n    depois achava-me enclausurado, um livro nas garras, tentando ler &agrave;<br \/>\n    luz escassa da l&acirc;mpada. Canit&atilde;o Mata se acomodava, divagando<br \/>\n    por assuntos v&aacute;rios. No cub&iacute;culo &agrave; direita haviam-se<br \/>\n    alojado Macedo e Lauro Lago; &agrave; esquerda estavam Benjamin Snaider e<br \/>\n    Valdemar Bessa, m&eacute;dico, cearense, bicudo. Julguei distinguir a voz<br \/>\n    de Renato:<\/p>\n<p> Al&ocirc;! al&ocirc;! Fala a R&aacute;dio Libertadora.<\/p>\n<p> N&atilde;o era apenas um divertimento arranjado com o fim de matar tempo<br \/>\n    e elevar o &acirc;nimo dos presos: vieram not&iacute;cias de jornais, coment&aacute;rios,<br \/>\n    acerbas cr&iacute;ticas ao governo, trechos de livros, o Hino do Brasileiro<br \/>\n    Pobre, algumas can&ccedil;&otilde;es bastante patri&oacute;ticas, sambas.<\/p>\n<p> A Beatriz n&atilde;o vai querer cantar? disse algu&eacute;m.<\/p>\n<p> Ir querer, fala estranha, feriu-me o ouvido nordestino. Palmas, aclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    gritos exigindo o canto de Beatriz Bandeira. Um sussurro doce flutuou longe:<\/p>\n<p> As granadas v&ecirc;m caindo, Incendiando o meu quartel<\/p>\n<p> Diabo! Havia mulheres ali. Onde se escondiam elas? Finda a queda suave das<br \/>\n    granadas, morto o agrad&aacute;vel inc&ecirc;ndio no quartel, vibraram aplausos<br \/>\n    v&aacute;rios minutos. As vozes se espa&ccedil;aram, arrefeceu o entusiasmo,<br \/>\n    afinal a R&aacute;dio Libertadora encerrou o seu programa daquele dia.<\/p>\n<p> Agora t&iacute;nhamos &aacute;gua abundante, recuper&aacute;vamos as necessidades<br \/>\n    corriqueiras de limpeza. A roupa de capit&atilde;o Mata secava, estendida<br \/>\n    no guarda-vento nos p&eacute;s e na cabeceira da cama. Sem achar repouso no<br \/>\n    colch&atilde;o delgado, estive muitas horas a cochilar um sono cheio de perturba&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    A trave de ferro deslocava-se, magoava-me a ilharga, de quando em quando era<br \/>\n    preciso fix&aacute;-la entre as costelas e o osso do quadril; bichos mi&uacute;dos<br \/>\n    picavam-me; os passos regulares do guarda soavam na plataforma; um surdo rumor<br \/>\n    de m&aacute;quina zumbia mon&oacute;tono. Pelo meio da noite, distingui um<br \/>\n    chamado pr&oacute;ximo, insistente. Ergui-me, cheguei &agrave; porta, vi em<br \/>\n    frente um rapaz que tentava comunicar-se com as outras c&eacute;lulas num<br \/>\n    aviso misterioso:<\/p>\n<p> A metralhadora est&aacute; comendo, macacada. Surpreendi-me e interroguei-o<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Revolu&ccedil;&atilde;o, tornou. N&atilde;o est&aacute; ouvindo a metralhadora?<br \/>\n    Voltei &agrave; cama, at&ocirc;nito. . Era o ru&iacute;do enfadonho que o<br \/>\n    tinha levado a semelhante conclus&atilde;o. O trabalho de um cata-vento, devia<br \/>\n    ser isto. E o homem se desvairava, facilmente mudava em realidade o seu desejo,<br \/>\n    resolvia-se a acordar as pessoas para transmitir-lhes a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a dem&ecirc;ncia.<\/p>\n<h3>3<\/h3>\n<p>LEVANTEI-ME cedo. E acabava de lavar-me e escovar-me na pia quando ouvi rumor<br \/>\n    no passadi&ccedil;o e o alimento da manh&atilde; chegou &agrave; porta. O<br \/>\n    longo bico de um bule enorme passou entre os ferros da grade. Fomos buscar<br \/>\n    os canecos de alum&iacute;nio recebidos na v&eacute;spera, um homem de roupa<br \/>\n    zebrada encheu-os, a cada um de n&oacute;s ofereceu um p&atilde;o, afastou-se.<br \/>\n    Sentado na cama, que servia de mesa, de cadeira, substitu&iacute;a outros<br \/>\n    m&oacute;veis, mastiguei peda&ccedil;os de crosta dura, sentido a manteiga<br \/>\n    ran&ccedil;osa, bebi o caf&eacute; adocicado, enjoativo. Movimento na Pra&ccedil;a<br \/>\n    Vermelha anunciou que estavam abrindo os cub&iacute;culos. Pisadas, tinir<br \/>\n    de chaves, a nossa porta se escancarou. Peguei o sab&atilde;o e a toalhinha,<br \/>\n    fiquei ainda um instante a negociar com o faxina, comprando-lhe um par de<br \/>\n    tamancos. Livrei-me dos sapatos, acomodei os p&eacute;s na madeira tosca,<br \/>\n    sa&iacute; devagar e cauteloso. O peitoril que cercava a plataforma estreita<br \/>\n    n&atilde;o nos defendia. Aus&ecirc;ncia de bala&uacute;stres. Um escorrego<br \/>\n    infeliz no mosaico nos faria passar por baixo da trave e nos lan&ccedil;aria<br \/>\n    ao r&eacute;s-do-ch&atilde;o. Desci.<\/p>\n<p> No patamar, em voz baixa, capit&atilde;o Mata conferenciava com um guarda,<br \/>\n    recebia not&iacute;cias do oficial a quem se dirigira ao chegar. H&aacute;bil<br \/>\n    criatura: sem perder tempo, alcan&ccedil;ava liga&ccedil;&atilde;o proveitosa;<br \/>\n    certamente o largariam depressa. Pude enfim lavar-me direito, receber no corpo<br \/>\n    o jato forte de chuveiro. Em seguida visitei cub&iacute;culos, refor&ccedil;ando<br \/>\n    alguns conhecimentos esbo&ccedil;ados. Benjamin Snaider conseguira subir a<br \/>\n    uma das janelas altas que abriam para o exterior e. seguro &agrave;s grades,<br \/>\n    mantinha uma discuss&atilde;o pol&iacute;tica, dando a algu&eacute;m invis&iacute;vel<br \/>\n    o nome de Valentina. Percebi a voz da mulher, mas n&atilde;o lhe distingui<br \/>\n    as palavras. O di&aacute;logo, reduzido &agrave; metade, interrompeu-se anunciaram<br \/>\n    perto o banho de sol e Benjamin Snaider despencou-se l&aacute; de cima, num<br \/>\n    salto perigoso.<\/p>\n<p> Ganhamos a Pra&ccedil;a Vermelha. A um canto muitos indiv&iacute;duos se<br \/>\n    comprimiam, alguns inteiramente nus, enxugando-se, vestindo-se &agrave; pressa.<br \/>\n    Findos esses arranjos, subimos batendo os cascos nos degraus de ferro, em<br \/>\n    seguida encaracolamos por uma escadinha espiral, desembocamos l&aacute; em<br \/>\n    cima num grande terra&ccedil;o. Deixando a sombra, recebemos de chofre uma<br \/>\n    inunda&ccedil;&atilde;o de luz. Montes, arranha-c&eacute;us, a agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rumorosa da Central, trechos do Mangue, o enorme gas&ocirc;metro da Light,<br \/>\n    a massa dura da Favela, muros altos a rodear-nos, a Casa de Corre&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    vizinha. Est&aacute;vamos ali umas sessenta pessoas, v&aacute;rias conhecidas<br \/>\n    no por&atilde;o do Manaus: depois de n&oacute;s, outros haviam chegado, em<br \/>\n    pequenos grupos bisonhos, e os faxinas andavam numa az&aacute;fama, transportando<br \/>\n    camas e colch&otilde;es, arrumando c&eacute;lulas. Afeito &agrave; solid&atilde;o<br \/>\n    no quartel, &agrave; promiscuidade animal na viagem, habituara-me com surpresa<br \/>\n    &agrave; vida nova. Homem rural, desconfiado e silencioso, propenso a estender-me<br \/>\n    em compridos mon&oacute;logos, admirava-me do Coletivo, das li&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    especialmente da per&iacute;cia daqueles citadinos na exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de id&eacute;ias em conversas simples e claras. N&atilde;o conseguiria manifestar-me<br \/>\n    assim De ordin&aacute;rio a express&atilde;o me fugia, decompunha-se o pensamento,<br \/>\n    e era uma tortura vencer a estupidez, procurar dizer qualquer coisa gaguejando<br \/>\n    um vocabul&aacute;rio escasso, miser&aacute;vel. Na manh&atilde; luminosa,<br \/>\n    olhando postes e fios, pr&eacute;dios cinzentos, arvoredo e morro, ainda uma<br \/>\n    vez me aniquilei no pasmo que a palavra falada sempre me causa.<\/p>\n<p> Rodolfo Ghioldi fez uma confer&ecirc;ncia. Meio despido, como no dia anterior,<br \/>\n    discorreu exuberante, a manejar o len&ccedil;o, ora consultando o papelzinho<br \/>\n    do esquema, ora deitando os olhos ao rel&oacute;gio de pulso. Desenvolveu<br \/>\n    com precis&atilde;o a mat&eacute;ria, ajustou-a seguro ao tempo, sem se alargar,<br \/>\n    sem se restringir em nenhuma das partes. N&atilde;o raro metia no assunto<br \/>\n    grave min&uacute;cias picarescas, at&eacute; palavr&otilde;es a evitava o<br \/>\n    cansa&ccedil;o do audit&oacute;rio. Oper&aacute;rios atentos esfor&ccedil;avam-se<br \/>\n    por entend&ecirc;-lo, pedindo &agrave;s vezes a significa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um termo.<\/p>\n<p> Que quer dizer terrateniente?<\/p>\n<p> Em geral discursos de quinze minutos me d&atilde;o sono e bocejos Tenho<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de indiferen&ccedil;a auditiva, s&oacute; compreendo bem<br \/>\n    o que vejo escrito. Ali, por&eacute;m, estive uma hora a escutar o argentino,<br \/>\n    remoendo a excelente li&ccedil;&atilde;o. Em seguida Mediria rezingou um protesto<br \/>\n    descabido: referiu-se &agrave; dureza do reg&iacute;men carcer&aacute;rio<br \/>\n    e julgou conveniente fazermos a greve da fome. Houve sussurro e o desagrado<br \/>\n    estampou-se nos rostos.<\/p>\n<p> Provoca&ccedil;&atilde;o, murmurou Renato. Acha? perguntei.<\/p>\n<p> Sem d&uacute;vida. Que &eacute; que vamos reclamar? Estamos bem E aqui h&aacute;<br \/>\n    diversos estrangeiros. Se concordarmos nisso, eles ser&atilde;o mandados para<br \/>\n    lugar pior.<\/p>\n<p> Muitos opinavam certamente assim; contudo nenhuma obje&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica se articulou. Na surpresa, ficamos a olhar-nos uns aos outros,<br \/>\n    esperando que algu&eacute;m se manifestasse: rece&aacute;vamos talvez ser<br \/>\n    considerados conformistas ou d&eacute;beis. Quem se expressou foi Bag&eacute;,<br \/>\n    mascando uma interven&ccedil;&atilde;o de apoio dif&iacute;cil &agrave; proposta<br \/>\n    de Mediria. Sem debate, levou-se o caso imediatamente a vota&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a maioria levantou o bra&ccedil;o concordando, numa anu&ecirc;ncia desanimada<br \/>\n    e chocha. Os nordestinos, confusos, n&atilde;o alcan&ccedil;avam direito o<br \/>\n    motivo da exig&ecirc;ncia, vinham do por&atilde;o infame, da galeria molhada,<br \/>\n    nenhum supusera dormir em len&ccedil;ol, comer em prato, e quase todos se<br \/>\n    deixavam arrastar, carneiros d&oacute;ceis, temendo ferir o desejo comum.<br \/>\n    Provavelmente se justificavam alegando no &iacute;ntimo que uma simples discord&acirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o influiria na decis&atilde;o. E evitavam comprometer-se Aquilo foi<br \/>\n    r&aacute;pido; se algu&eacute;m quis opor-se, n&atilde;o teve tempo de revelar-se.<\/p>\n<p> Bem, disse Rodolfo Ghioldi.<\/p>\n<p> Aceitava a resolu&ccedil;&atilde;o, naturalmente, faria a greve como os<br \/>\n    outros: nenhuma vantagem, por&eacute;m, ela nos traria. Esses movimentos nada<br \/>\n    significavam se n&atilde;o repercutiam l&aacute; fora, e n&oacute;s est&aacute;vamos<br \/>\n    isolados. Nenhum meio de cheear a massa a interessar-se por n&oacute;s, e<br \/>\n    assim busc&aacute;vamos somente iludir-nos. A observa&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Rodolfo causou-me vivo mal-estar. Resolvera-se, para n&atilde;o mostrar covardia.<br \/>\n    Praticar uma tolice. Pensei na afirma&ccedil;&atilde;o de Renato, vaga desconfian&ccedil;a<br \/>\n    mordeu-me. Assistir&iacute;amos apenas a uma fanfarronada inconseq&uuml;ente<br \/>\n    ou haveria ali inimigos disfar&ccedil;ados? A suspeita iria prolongar-se,<br \/>\n    confirmar-se &agrave;s vezes, outras vezes fazer-nos aceitar sem exame duras<br \/>\n    injusti&ccedil;as. Enleava-se, perplexo, quando Bag&eacute; voltou a gaguejar,<br \/>\n    a explicar-se entre avan&ccedil;os e recuos, mastigando o risinho mole e insignificante:<br \/>\n    a princ&iacute;pio a id&eacute;ia lhe parecera boa, mas agora compreendia<br \/>\n    o erro e atacava-a. Ningu&eacute;m a defendeu, outra decis&atilde;o rejeitou-a<br \/>\n    por unanimidade. Essa reviravolta alarmou-me, de repente considerei o sufr&aacute;gio<br \/>\n    coisa d&eacute;bil: afirmativas en&eacute;rgicas, lan&ccedil;adas por duas<br \/>\n    ou tr&ecirc;s pessoas, bastavam para fingir um julgamento coletivo.<\/p>\n<p> Regressamos. Na descida apresentaram-me um rapaz gordo. Campos da Paz J&uacute;nior.<\/p>\n<p> M&eacute;dico, especialista em blenorragia. Se precisa dos meus servi&ccedil;os,<br \/>\n    estou &agrave;s ordens.<\/p>\n<p> Obrigado.<\/p>\n<p> Recolhi-me, entretive-me admirando a pachorra de capit&atilde;o Mata no<br \/>\n    of&iacute;cio de engomador. A roupa estava seca, exposta no guarda-vento,<br \/>\n    e o homenzinho recolhia as pe&ccedil;as, dobrava-as cuidadoso, Arrumava-as<br \/>\n    no colch&atilde;o, desfazendo com per&iacute;cia todas as pregas. Quando as<br \/>\n    julgou bastante lisas, p&ocirc;s a mala em cima delas.<\/p>\n<p> Acha que isso d&aacute; certo? inquiri. O senhor vai ver.<\/p>\n<p> Chamaram-me da porta: uma das mulheres recolhidas &agrave; sala 4 desejava<br \/>\n    falar comigo. Estranhei. Quem seria? E onde ficava a sala 4? Um sujeito conduziu-me<br \/>\n    ao fim da plataforma, subiu o corrim&atilde;o e da&iacute;, com agilidade<br \/>\n    forte, galgou uma janela. Esteve alguns minutos conversando, .gesticulando,<br \/>\n    pulou no ch&atilde;o e convidou-me a substitu&iacute;-lo. Qu&ecirc;? Trepar-me<br \/>\n    &agrave;quelas alturas, com tamancos? Examinei a dist&acirc;ncia, receoso,<br \/>\n    descalcei-me, resolvi tentar a dif&iacute;cil acrobacia. A desconhecida amiga<br \/>\n    exigia de mim um sacrif&iacute;cio; a perna, estragada na opera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    movia-se lenta e pena; se me desequilibrasse, iria esborrachar-me no pavimento<br \/>\n    inferior. N&atilde;o houve desastre. Numa passada larga, atingi o v&atilde;o<br \/>\n    da janela; agarrei-me aos var&otilde;es de ferro, olhei o exterior, zonzo,<br \/>\n    sem perceber direito porque me achava ali. Uma voz chegou-me, fraca, mas no<br \/>\n    primeiro instante n&atilde;o atinei com a pessoa que falava. Enxerguei o p&aacute;tio,<br \/>\n    o vest&iacute;bulo, a escada j&aacute; vista no dia anterior. No patamar,<br \/>\n    abaixo de meu observat&oacute;rio, uma cortina de lona ocultava a Pra&ccedil;a<br \/>\n    Vermelha. Junto, &agrave; direita, al&eacute;m de uma grade larga, distingui<br \/>\n    afinal uma senhora p&aacute;lida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto<br \/>\n    mo&ccedil;o revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios<br \/>\n    grisalhos. Referiu-se a Macei&oacute;, apresentou-se:<br \/>\n    Nise da Silveira.<\/p>\n<p> Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei<br \/>\n    ver a minha conterr&acirc;nea fora do mundo, longe da profiss&atilde;o, do<br \/>\n    hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queir&oacute;s<br \/>\n    me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha t&iacute;mida, sempre a esquivar-se,<br \/>\n    a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espa&ccedil;o. Nunca me havia aparecido<br \/>\n    criatura mais simp&aacute;tica. O marido, tamb&eacute;m m&eacute;dico, era<br \/>\n    o meu velho conhecido M&aacute;rio Magalh&atilde;es. Pedi not&iacute;cias<br \/>\n    dele: estava em liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento.<\/p>\n<p> De pijama, sem sapatos, seguro &agrave; verga preta, achei-me rid&iacute;culo<br \/>\n    e vazio; certamente causava impress&atilde;o muito infeliz. Nise, acanhada,<br \/>\n    tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes, e isto me agravava a<br \/>\n    perturba&ccedil;&atilde;o, magnetizava-me. Balbuciou imprecis&otilde;es, guardou<br \/>\n    sil&ecirc;ncio, provavelmente se arrependeu de me haver convidado para deixar-me<br \/>\n    assim confuso. Uma rapariga loura surgiu perto dela e se ausentou logo. Tentei<br \/>\n    avaliar o tamanho da sala 4, observar o espa&ccedil;o restrito vis&iacute;vel<br \/>\n    obliquamente. Vigorosa conversa pol&iacute;tica ali se desenvolvia, a pouca<br \/>\n    dist&acirc;ncia, dominada por um vozeir&atilde;o de instrutor. Quem seria<br \/>\n    aquela mulher de fala dura e en&eacute;rgica? Um rapaz subiu &agrave; janela,<br \/>\n    arrumou-se junto de mim, chamou Hayd&eacute;e Nicolussi, e a lourinha tornou<br \/>\n    a aparecer. Travaram conversa loquaz; for&ccedil;ado a compara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desagrad&aacute;vel, confessei-me obtuso e chinfrim. Vi no passadi&ccedil;o<br \/>\n    alguns tipos a aguardar vaga no miradouro improvisado; com certeza ado&ccedil;avam<br \/>\n    ali as horas a parolar com as vizinhas.<\/p>\n<p> Despedi-me de Nise e desci, uma pergunta a verrumar-me, insistente, os miolos:<br \/>\n    quem seria a criatura feminina de pulm&otilde;es t&atilde;o rijos e garganta<br \/>\n    macha? Nenhum interesse me animava a descobrir isso; refugiei-me na quest&atilde;o<br \/>\n    para fugir &agrave; lembran&ccedil;a de me haver conservado inerte e frio<br \/>\n    diante da psiquiatra. Foi Valdemar Bessa quem me satisfez a curiosidade: a<br \/>\n    mulher de voz forte era Eneida. E apertava-se uma d&uacute;zia delas na sala<br \/>\n    4. Olga Prestes, Elisa Berger, C&aacute;rmen Ghioldi, Maria Werneck, Rosa<br \/>\n    Meireles, outras.<\/p>\n<p> O dia correu sem novidade apreci&aacute;vel. Capit&atilde;o Mata desfez<br \/>\n    a prensa arranjada sobre a cama e exibiu-me a roupa sem dobras, servi&ccedil;o<br \/>\n    decente que lhe proporcionava economia de dez tost&otilde;es. N&atilde;o me<br \/>\n    ocorreu imit&aacute;-lo, as minhas m&atilde;os ineptas falhariam naquele trabalho.<br \/>\n    Recorri ao faxina para a lavagem dos panos imundos empacotados na valise,<br \/>\n    fui matar o tempo a andar no r&eacute;s-do-ch&atilde;o. Com um estremecimento<br \/>\n    de repugn&acirc;ncia, vi S&eacute;rgio embrenhado na leitura do meu primeiro<br \/>\n    romance.<\/p>\n<p> Pelo amor de Deus n&atilde;o leia isso. &Eacute; uma porcaria. Ing&ecirc;nuo,<br \/>\n    tentei explicar-me, em grande embara&ccedil;o. A publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquilo fora conseq&uuml;&ecirc;ncia de uma leviandade. Escrita dez anos antes,<br \/>\n    a miser&aacute;vel hist&oacute;ria passara &agrave;s m&atilde;os do editor<br \/>\n    Schmidt e emperrara. J&aacute; revistas as provas, tinham surgido obst&aacute;culos,<br \/>\n    demora, cartas, desaven&ccedil;as e a entrega dos originais a amigos meus<br \/>\n    do Rio. Em 1935 Jorge Amado me visitara em Alagoas, dissera que Schmidt queria<br \/>\n    editar o livro; mas n&atilde;o me convinha o neg&oacute;cio: julgava-me ent&atilde;o<br \/>\n    capaz de fazer obra menos ruim, meses atr&aacute;s conclu&iacute;ra uma novela<br \/>\n    talvez aceit&aacute;vel. Jorge se conformara com a recusa. Deixando-me, apossara-se<br \/>\n    dos malditos pap&eacute;is e dera-os ao livreiro. Essa justifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nada valia e era imposs&iacute;vel oferec&ecirc;-la a todos os leitores. S&eacute;rgio<br \/>\n    teve o bom-senso de n&atilde;o me atribuir falsa mod&eacute;stia. Com um sorriso<br \/>\n    frio, voltou &agrave; leitura; ia chegando ao fim do volume e acolhia tacitamente<br \/>\n    a minha opini&atilde;o desalentada. O Coletivo organizara uma pequena biblioteca<br \/>\n    desordenada, brochuras circulavam nos cub&iacute;culos, entre elas a narrativa<br \/>\n    medonha que eu n&atilde;o gostava de mencionar. Almocei, jantei. Sem fome,<br \/>\n    pude ingerir a desagrad&aacute;vel b&oacute;ia da pris&atilde;o: o fastio<br \/>\n    desaparecera. A noite, fechadas as c&eacute;lulas, capit&atilde;o Mata alcan&ccedil;ou<br \/>\n    ruidoso triunfo. A R&aacute;dio Libertadora anunciou o programa, iniciado<br \/>\n    com o Hino do Brasileiro Pobre, que j&aacute; se ia tornando ma&ccedil;ador.<br \/>\n    As florestas amaz&ocirc;nicas, a coxilha, o sul, o norte, a luz dos tr&oacute;picos<br \/>\n    come&ccedil;avam a bulir-me com os nervos. Findaram as not&iacute;cias, os<br \/>\n    coment&aacute;rios, e a hora de arte chegou, como na v&eacute;spera. Ouvimos<br \/>\n    os sambas, as can&ccedil;&otilde;es, as granadas ca&iacute;ram novamente,<br \/>\n    incendiaram com vigor o quartel, impelidas pela voz poderosa de Eneida. Capit&atilde;o<br \/>\n    Mata, num lampejo, muniu-se de l&aacute;pis e papel, rabiscou algumas linhas<br \/>\n    sobre a mala, avizinhou-se da grade e lan&ccedil;ou, com ligeiras modifica&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    o princ&iacute;pio do canto guerreiro diversas vezes murmurado no quartel<br \/>\n    do Recife:<\/p>\n<p> Onde vais tu, infante ousado, Com teu fuzil a pelejar?<\/p>\n<p> Era assim em Pernambuco. Agora, por causa da Alian&ccedil;a Nacional Libertadora,<br \/>\n    a belicosidade resultava nisto:<\/p>\n<p> Onde vais tu, libertador, Com teu fuzil a pelejar? Vou para&#8230;<\/p>\n<p> Esqueci o resto, j&aacute; n&atilde;o sei aonde se dirigia o sujeito armado,<br \/>\n    mas os des&iacute;gnios funestos dele excitaram vivamente os cub&iacute;culos.<br \/>\n    Palmas, gritos:<br \/>\n    Continua.<\/p>\n<p> Ouvindo a exig&ecirc;ncia da massa, o poeta resolveu terminar a composi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    redigindo com extrema velocidade.<\/p>\n<p> Continua, berrava o audit&oacute;rio.<\/p>\n<p> Um minuto, pedia o mo&ccedil;o interrompendo-se, chegando &agrave; porta.<br \/>\n    Est&aacute; em prepara&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Conclu&iacute;do o trabalho, passou-me a folha: Veja se est&aacute; bom.<\/p>\n<p> Apontei um dos versos:<\/p>\n<p> A burguesia, a burguesia&#8230;<\/p>\n<p> Esse ataque n&atilde;o fica direito. Os burgueses progressistas s&atilde;o<br \/>\n    nossos amigos.<\/p>\n<p> O imperialismo ent&atilde;o?<\/p>\n<p> Exatamente, concordei rindo. O imperialismo serve. E n&atilde;o ofende a<br \/>\n    m&eacute;trica.<\/p>\n<p> N&atilde;o, d&aacute; oito s&iacute;labas. Trauteou:<\/p>\n<p> O imperialismo, o imperialismo&#8230;<\/p>\n<p> Voltou-se para a invis&iacute;vel plat&eacute;ia, jogou a produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e recebeu uma chuva de aplausos. Em seguida fomos dormir. A vara de ferro<br \/>\n    tocou-me de novo os ossos, acomodou-se entre as costelas e o quadril. E outra<br \/>\n    vez bichos mi&uacute;dos vieram picar-me. Ergui-me, olhei os panos, descobri<br \/>\n    uma quantidade razo&aacute;vel de percevejos.<\/p>\n<h3>4<\/h3>\n<p>CAPIT&Atilde;O Mata alcan&ccedil;ou parab&eacute;ns ardentes, e v&aacute;rias<br \/>\n    pessoas vieram pedir-lhe c&oacute;pia da cantiga. Andou em voga uma semana,<br \/>\n    depois foi abafado pela numerosa produ&ccedil;&atilde;o de sambas e n&atilde;o<br \/>\n    tornou a evidenciar os seus talentos. Correspondia-se com o oficial visto<br \/>\n    &agrave; nossa chegada, certamente achou amparo nessa camaradagem, pois, findas<br \/>\n    algumas lavagens de cuecas e matan&ccedil;as de percevejos, fomos privados<br \/>\n    da sua am&aacute;vel companhia discreta. Julgo que teve uma cidadezinha do<br \/>\n    sul por menagem. Senti a aus&ecirc;ncia do capit&atilde;o, lembrava-me dele<br \/>\n    vendo o caneco de alum&iacute;nio deixado em cima do guarda-vento. Essa vasilha<br \/>\n    me foi &uacute;til. Os doentes recebiam pela manh&atilde;, &agrave; hora do<br \/>\n    caf&eacute;, uma garrafinha de leite. Fui inclu&iacute;do entre eles: sem<br \/>\n    exame, perceberam-me a ru&iacute;na interior: com certeza a viagem no por&atilde;o<br \/>\n    me havia deixado marcas vis&iacute;veis em demasia. O caneco me serviu para<br \/>\n    transformar o leite em coalhada.<\/p>\n<p> Novos magotes chegavam, em pouco tempo havia tr&ecirc;s, quatro camas em<br \/>\n    cada c&eacute;lula. Dias antes de sair o capit&atilde;o, S&eacute;rgio me<br \/>\n    procurou. envolveu-me na sua polidez glacial. Que ria saber se me convinha<br \/>\n    que ele viesse habitar o cub&iacute;culo 35, mas a consulta simples tinha<br \/>\n    quase a fei&ccedil;&atilde;o de uma cerim&ocirc;nia diplom&aacute;tica. Na<br \/>\n    verdade o assunto exigia cautela: a pris&atilde;o modificava as &iacute;ndoles,<br \/>\n    em certos indiv&iacute;duos apareciam fundas altera&ccedil;&otilde;es, g&ecirc;nios<br \/>\n    incompat&iacute;veis se chocavam sem motivo aparente Indispens&aacute;vel<br \/>\n    selecionar os companheiros com aten&ccedil;&atilde;o. Acho que nos daremos<br \/>\n    bem, opinou o rapaz.<\/p>\n<p> Sem d&uacute;vida.<\/p>\n<p> Essa anu&ecirc;ncia divergia do meu pensamento: inclinava-me a supor que<br \/>\n    n&atilde;o nos entender&iacute;amos. A delicadeza fria do russo dificilmente<br \/>\n    se harmonizaria com os meus h&aacute;bitos vulgares de sertanejo; a minha<br \/>\n    ignor&acirc;ncia compacta iria experimentar dura humilha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    junto ao saber forte daquele homem doutorado em Leipzig, &iacute;ntimo de<br \/>\n    Einstein e de Hegel. Enganei-me. As diferen&ccedil;as evidentes n&atilde;o<br \/>\n    nos afastaram. vivemos alguns meses em concord&acirc;ncia perfeita, nunca<br \/>\n    um palavr&atilde;o esot&eacute;rico, dos ouvidos no encontro inicial, nos<br \/>\n    separou. S&eacute;rgio notou-me r&aacute;pido a insufici&ecirc;ncia e acomodou-se<br \/>\n    a ela. Nenhuma id&eacute;ia transcendental: conversas f&aacute;ceis, corriqueiras,<br \/>\n    acess&iacute;veis ao nordestino iletrado. Sempre nos conservamos na superf&iacute;cie<br \/>\n    e por isso admirei e estimei aquele esp&iacute;rito sagaz. Reduzia-se, confessava-se<br \/>\n    leigo em hist&oacute;ria e literatura, embrenhava-se em longas disserta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre arte grega e arte eg&iacute;pcia. Desprezando a Europa, detinha-se em<br \/>\n    louvores minuciosos &agrave; sabedoria asi&aacute;tica. N&atilde;o se julgava<br \/>\n    europeu. Nascido no C&aacute;ucaso, mesti&ccedil;o de eslavo e t&aacute;rtaro,<br \/>\n    s&oacute; achava firmeza e vida no Oriente. Quando me falou pela primeira<br \/>\n    vez nos canados. n&atilde;o o entendi: a pron&uacute;ncia gutural deformava<br \/>\n    inteiramente a palavra. Atentando na alvura transparente de lou&ccedil;a,<br \/>\n    no azul cinzento dos olhos, nos cabelos fulvos, divertia-me a p&ocirc;r em<br \/>\n    d&uacute;vida a origem dele:<\/p>\n<p> Voc&ecirc;, com esse tipo, seria recusado nas hostes de Tamerl&atilde;o.<br \/>\n    &Eacute; branco demais para t&aacute;rtaro.<\/p>\n<p> Outras vezes atacava-lhe a dureza da l&iacute;ngua:<\/p>\n<p> Vamos deixar de egzagero, n&atilde;o existe egzagero, o que h&aacute; &eacute;<br \/>\n    exagero, e-za-ge-ro.<\/p>\n<p> S&eacute;rgio franzia um sorriso, endireitava a pros&oacute;dia lentamente,<br \/>\n    para resvalar depois noutro desconchavo. Fora isso, aprendia o portugu&ecirc;s<br \/>\n    com facilidade incr&iacute;vel. Desdenhando gram&aacute;ticas e dicion&aacute;rios,<br \/>\n    entrava na sintaxe e enriquecia o vocabul&aacute;rio por meio de leituras<br \/>\n    e consultas. O que entrava ali ficava, n&atilde;o repetia perguntas. Fez uma<br \/>\n    s&iacute;ntese da filosofia de Hegel, num caderno, a l&aacute;pis, o come&ccedil;o<br \/>\n    em alem&atilde;o, o fim em portugu&ecirc;s. Leu-me esse trabalho, emperrando<br \/>\n    &agrave;s vezes, buscando a express&atilde;o, convencendo-se de que o pensamento<br \/>\n    era intraduz&iacute;vel e usando circunl&oacute;quios. Esfor&ccedil;ava-se<br \/>\n    por trasladar-me versos de Puchkine, desistia:<\/p>\n<p> &Eacute; in&uacute;til. S&oacute; podemos sentir e compreender esta balada<br \/>\n    em russo.<\/p>\n<p> N&atilde;o simulava nenhuma esp&eacute;cie de considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave;s nossas letras, pouco mais ou menos inexistentes. Falava-me com franqueza<br \/>\n    e isto n&atilde;o me susceptibilizava, &eacute; claro: o meu novo amigo vinha<br \/>\n    de grandes culturas, n&atilde;o iria fingir apre&ccedil;o &agrave;s miudezas<br \/>\n    nacionais. Um dia, como ele desacatasse rijo os sonetos, nada mais enxergando<br \/>\n    na poesia brasileira, interrompi-o: Vou recitar-lhe um soneto, S&eacute;rgio.<\/p>\n<p> E atirei-lhe O Sorriso de Manuel Bandeira. S&eacute;rgio ouviu-me atento,<br \/>\n    murmurou com espanto:<\/p>\n<p> Oh! Voc&ecirc;s aqui t&ecirc;m disso? E, noutro tom:<\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o conhe&ccedil;o o Brasil. Leviandade manifestar-me sobre<br \/>\n    ele.<\/p>\n<p> A percep&ccedil;&atilde;o, a compreens&atilde;o e a mem&oacute;ria do rapaz<br \/>\n    me assombravam. Uma vez encontrei-o agarrado ao meu segundo romance. Virou<br \/>\n    a folha, avizinhei-me, entrei a rever peda&ccedil;os da minha terra. Ia chegando<br \/>\n    ao fim da p&aacute;gina esquerda, e o mo&ccedil;o voltou a folha de novo.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel que voc&ecirc; tenha lido essas duas<br \/>\n    p&aacute;ginas, afirmei.<\/p>\n<p> Porqu&ecirc;?<\/p>\n<p> O autor dessas drogas sou eu, e apenas li uma. &Eacute; absurdo que voc&ecirc;,<br \/>\n    estrangeiro, chegado h&aacute; pouco, mal conhecendo a nossa fala e as nossas<br \/>\n    coisas, tenha conseguido pegar as duas.<\/p>\n<p> S&eacute;rgio entregou-me, sorrindo, a brochura:<\/p>\n<p> Vamos ver se me lembro. N&atilde;o digo as palavras, mas acho que posso<br \/>\n    mencionar as id&eacute;ias, como est&atilde;o colocadas. E reproduziu as duas<br \/>\n    p&aacute;ginas, com ligeiras altera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Incr&iacute;vel, exclamei atordoado, largando o volume. Sou na verdade uma<br \/>\n    criatura bem est&uacute;pida. Ou ent&atilde;o voc&ecirc; &eacute; um monstro.<\/p>\n<p> Sem despregar dos bei&ccedil;os p&aacute;lidos o sorriso d&eacute;bil, S&eacute;rgio<br \/>\n    me condenava frouxamente os egzageos. O meu espanto crescia, a delicadeza<br \/>\n    glacial do russo me exaltava:<\/p>\n<p> Sem d&uacute;vida, somos bichos de esp&eacute;cies diferentes. Fa&ccedil;o<br \/>\n    um livro, gasto meses a espremer os miolos, compondo, eliminando, consertando,<br \/>\n    fico a remoer cada frase com paci&ecirc;ncia de boi, e consumo para entender<br \/>\n    isso o duplo do tempo necess&aacute;rio a voc&ecirc;. &Eacute; inacredit&aacute;vel.<\/p>\n<p> Afirmava-me n&atilde;o ser dif&iacute;cil percorrermos um texto, apreendendo<br \/>\n    a ess&ecirc;ncia e largando o pormenor. Isso me desagradava. S&atilde;o as<br \/>\n    min&uacute;cias que me prendem, fixo-me nelas, utilizo insignific&acirc;ncias<br \/>\n    na demorada constru&ccedil;&atilde;o das minhas hist&oacute;rias. Aquele entendimento<br \/>\n    r&aacute;pido, afeito a saltos vertiginosos e complicadas viagens, contrastava<br \/>\n    com as minhas pequeninas habilidades que pezunhavam longas horas na reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um per&iacute;odo. Julguei S&eacute;rgio isento de emo&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e isto me aterrou. Comovo-me em excesso, por natureza, e por of&iacute;cio,<br \/>\n    acho medonho algu&eacute;m viver sem paix&otilde;es. Imaginei-me diante de<br \/>\n    um c&eacute;rebro, c&eacute;rebro enorme. O resto do corpo minguava, tinha<br \/>\n    fracas exig&ecirc;ncias, funcionava para levar um pouco de sangue &agrave;<br \/>\n    poderosa m&aacute;quina. A voz calma narrava-me cenas de arrepiar e n&atilde;o<br \/>\n    se elevava, escorria dos bei&ccedil;os finos, banhava o sorriso permanente<br \/>\n    como um fio de &aacute;gua gelada. Ao deixar a sala de tortura, S&eacute;rgio<br \/>\n    mexia-se a custo: andava nas pontas dos p&eacute;s feridos, arrastando os<br \/>\n    sapatos, os calcanhares fora dos tac&otilde;es: a rigidez do couro magoava-lhe<br \/>\n    a carne viva, sangrenta. Num corredor enxergava de longe a cabe&ccedil;a da<br \/>\n    mulher. E enviara-lhe um aceno, tentara apagar no rosto qualquer vest&iacute;gio<br \/>\n    de padecimento. Ouvindo isso, falei no &oacute;dio que ele devia experimentar.<br \/>\n    Olhou-me at&ocirc;nito:<\/p>\n<p> &Oacute;dio? A quem?<\/p>\n<p> Aos indiv&iacute;duos que o supliciaram, j&aacute; se v&ecirc;.<\/p>\n<p> Mas s&atilde;o instrumentos, sussurrou a criatura singular. Aos que os dirigem.<br \/>\n    Aos respons&aacute;veis por isso. N&atilde;o h&aacute; respons&aacute;veis,<br \/>\n    todos s&atilde;o instrumentos.<\/p>\n<p> Na verdade ele tinha raz&atilde;o. Contudo, se me houvessem atormentado,<br \/>\n    n&atilde;o me livraria da c&oacute;lera, pediria todas as desgra&ccedil;as<br \/>\n    para os meus carrascos.<\/p>\n<p> Se lhe aparecesse meio de vingar-se, n&atilde;o se vingaria? Que lembran&ccedil;a!<br \/>\n    Guardei sil&ecirc;ncio um instante, depois tornei:<\/p>\n<p> Sou um b&aacute;rbaro, S&eacute;rgio, vim das brenhas. Voc&ecirc; &eacute;<br \/>\n    civilizado, civilizado at&eacute; demais. Diga-me c&aacute;. Admitamos que<br \/>\n    o fascismo fosse pelos ares, rebentasse a&iacute; uma revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos diabos e nos convidassem para julgar sujeitos que nos tivessem flagelado<br \/>\n    ou mandado flagelar. Voc&ecirc; estaria nesse j&uacute;ri? Teria serenidade<br \/>\n    para decidir?<\/p>\n<p> Porque n&atilde;o? Que tem a justi&ccedil;a com os meus casos particulares?<\/p>\n<p> Eu me daria por suspeito. N&atilde;o esqueceria os a&ccedil;oites e a deforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos p&eacute;s. Se de nenhum modo pudesse esquivar-me, nem estudaria o processo:<br \/>\n    votaria talvez pela absolvi&ccedil;&atilde;o, com receio de n&atilde;o ser<br \/>\n    imparcial.<\/p>\n<p> O russo n&atilde;o agasalhava tais escr&uacute;pulos: absolveria ou condenaria,<br \/>\n    insens&iacute;vel, examinando os autos.<\/p>\n<p> Se voc&ecirc; acaso chegasse ao poder, conservaria os seus inimigos nos<br \/>\n    cargos, S&eacute;rgio?<\/p>\n<p> N&atilde;o tenho inimigos. Conservaria os que se revelassem &uacute;teis.<\/p>\n<p> Bem. Essa impassibilidade me assusta. Apesar de sermos ant&iacute;podas,<br \/>\n    fizemos boa camaradagem. Mas suponho que voc&ecirc; n&atilde;o hesitaria em<br \/>\n    mandar-me para a forca se considerasse isto indispens&aacute;vel.<\/p>\n<p> Efectivamente, respondeu S&eacute;rgio carregando com for&ccedil;a no c.<br \/>\n    Boa noite. Vou dormir.<\/p>\n<p> Estendeu-se na cama agreste, enfileirada com a minha junto ao muro, cruzou<br \/>\n    as m&atilde;os no peito. Ao cabo de um minuto ressonava leve, a boca descerrada<br \/>\n    a exibir os longos dentes irregulares. Nunca vi ningu&eacute;m adormecer daquele<br \/>\n    jeito. Conversava abundante, sem cochilos nem bocejos; decidia repousar e<br \/>\n    entrava no sono imediatamente. O dom&iacute;nio sobre o corpo, a vontade rija,<br \/>\n    a aus&ecirc;ncia de sentimentos quase me apavoravam. Deixando a Alemanha,<br \/>\n    S&eacute;rgio casara e enviuvara, na Est&ocirc;nia. N&atilde;o lhe notei saudade,<br \/>\n    era como se casamento e viuvez se referissem a outra pessoa. Agora a segunda<br \/>\n    mulher o visitava com regularidade, trazia-lhe pijamas e abacates. O marido<br \/>\n    falava nela com simpatia, achava Emilie companheira excelente. A mo&ccedil;a<br \/>\n    da Est&ocirc;nia fora colega de universidade, e Emilie, suponho, dera-lhe<br \/>\n    as primeira li&ccedil;&otilde;es de portugu&ecirc;s. No come&ccedil;o presumi<br \/>\n    S&eacute;rgio indiferente &agrave; beleza f&iacute;sica, s&oacute; interessado<br \/>\n    nas rela&ccedil;&otilde;es intelectuais, a carecer de sexo. Depois modifiquei<br \/>\n    o ju&iacute;zo. Tamb&eacute;m comigo se passava qualquer anormalidade. Surgiu-me<br \/>\n    de repente anafrodisia completa. S&uacute;bita desapari&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    desejos er&oacute;ticos e um resfriamento geral, esp&eacute;cie de anestesia;<br \/>\n    &oacute;rg&atilde;os se embotavam, paralisavam; a esquisita impress&atilde;o<br \/>\n    de haver em mim peda&ccedil;os mortos. Porque diabo me vinha aquilo de chofre?<br \/>\n    Deram-me um princ&iacute;pio de esclarecimento, e n&atilde;o liguei import&acirc;ncia<br \/>\n    a ele Eu abusava do caf&eacute;. Certa manh&atilde;, fornecendo-me o segundo<br \/>\n    caneco, o faxina me proporcionou este aviso:<\/p>\n<p> Se o senhor soubesse o que h&aacute; nisto, n&atilde;o bebia tanto. Indaguei,<br \/>\n    o tipo encolheu os ombros e ficou por a&iacute;. Desatento ao conselho, n&atilde;o<br \/>\n    me abstive do l&iacute;quido enjoativo, adocicado. E nem de longe suspeitei<br \/>\n    que o gostinho de formiga tivesse liga&ccedil;&atilde;o com o prolongado esmorecimento.<\/p>\n<h3>5<\/h3>\n<p>VOTOS de boa viagem, manifesta&ccedil;&otilde;es de alegria, o Hino do Brasileiro<br \/>\n    Pobre seguiram capit&atilde;o Mata, na Pra&ccedil;a Vermelha. E, depois de<br \/>\n    curto abandono, a cama fronteira &agrave; minha, junto &agrave; porta, foi<br \/>\n    ocupada por Sebasti&atilde;o Hora. No cub&iacute;culo &agrave; esquerda, al&eacute;m<br \/>\n    de Benjamin Snaider e Valdemar Bessa, vivia agora Pedro Lu&iacute;s Teixeira,<br \/>\n    um rep&oacute;rter magro que raro nos falava, n&atilde;o nos cedia lugar ao<br \/>\n    atravessarmos o passadi&ccedil;o estreito. M&iacute;ope em excesso, piscava<br \/>\n    os olhos, encarquilhava as p&aacute;lpebras e n&atilde;o nos distinguia a<br \/>\n    tr&ecirc;s passos. A direita os nossos vizinhos eram Macedo, Lauro Lago, um<br \/>\n    terceiro, provavelmente do Rio Grande tamb&eacute;m, pois aquela gente vivia<br \/>\n    sempre junta. Perdidas as cordas na rouparia, Macedo arranjara outras, muito<br \/>\n    longas, e conseguiria armar a rede em var&otilde;es das grades. Ficava sentado<br \/>\n    nela horas extensas, calmo, risonho, fumando cachimbo. De p&eacute;, gordinho,<br \/>\n    barrigudinho, am&aacute;vel e resoluto, parecia-me deslocado.<\/p>\n<p> Alguns passageiros do Manaus iam ressurgindo. A careta medonha de Gast&atilde;o,<br \/>\n    fixa na carne em rugas, na costura vermelha a estender-se da boca ao pesco&ccedil;o,<br \/>\n    voltou a zombar in voluntariamente de n&oacute;s. O pequeno dentista Guerra<br \/>\n    alojou-se no segundo andar, perto da escada. M&aacute;rio Paiva chegou silencioso,<br \/>\n    triste, com ar doentio; nunca mais tornamos a ouvir a flauta de seu Lobato.<br \/>\n    Revi Carlindo Revoredo, im&oacute;vel como no por&atilde;o, o estudantezinho<br \/>\n    Jo&atilde;o Rocha, Van der Linden. Remiro Magalh&atilde;es, estabanado, sempre<br \/>\n    em correrias e gritos, achou ali companheiros, dois garotos presos quando<br \/>\n    pintavam muros. Essas crian&ccedil;as nem tinham nomes: para n&oacute;s eram<br \/>\n    simplesmente os pichadores. Sebasti&atilde;o F&eacute;lix encontrou sect&aacute;rios<br \/>\n    e decidiu realizar &agrave; noite sess&otilde;es de espiritismo, bastante<br \/>\n    animadas. Esquecia os viventes, estimava a companhia dos mortos. Em semelhante<br \/>\n    conviv&ecirc;ncia, n&atilde;o sei como se interessou pela rebeli&atilde;o<br \/>\n    de Natal. &Eacute; poss&iacute;vel que n&atilde;o tivesse entrado nela. Capit&atilde;o<br \/>\n    Mata e Manuel Leal estavam alheios &agrave; bagun&ccedil;a de 35. E o beato<br \/>\n    Jos&eacute; In&aacute;cio desejava uma revolu&ccedil;&atilde;o que fuzilasse<br \/>\n    todos os ateus.<\/p>\n<p> Leonila e Maria Joana foram recolhidas &agrave; sala 4. Do terra&ccedil;o,<br \/>\n    no banho de sol, vi-as l&aacute; embaixo, num p&aacute;tio, em companhia das<br \/>\n    outras mulheres. Eram dez ou doze, formavam c&iacute;rculo e faziam exerc&iacute;cio<br \/>\n    atirando uma &agrave; outra, a desenferrujar os bra&ccedil;os, uma bola de<br \/>\n    borracha. Todas as manh&atilde;s passavam ali uma hora. Na ida e na volta,<br \/>\n    demoravam-se &agrave;s vezes no patamar, afastavam a lona que disfar&ccedil;ava<br \/>\n    a Pra&ccedil;a Vermelha, detinham-se alguns minutos a conversar com os homens.<br \/>\n    Sinais de relance percebidos serviram-me para distinguir v&aacute;rias delas:<br \/>\n    os l&aacute;bios vermelhos de Valentina, os cabelos grisalhos de Elisa Berger,<br \/>\n    os olhos verdes de Eneida. Olga Prestes era branca e serena. Rosa Meireles,<br \/>\n    forte e en&eacute;rgica, tinha voz rija, decidida. No rosto ardente de Maria<br \/>\n    Werneck, no corpo magro, onduloso, adivinhava-se de longe intensa vibra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A figura de Nise entrara-me fundo no esp&iacute;rito. Apesar de havermos ficado<br \/>\n    momentos dif&iacute;ceis um diante do outro, confusos, aturdidos, em v&atilde;o<br \/>\n    buscando uma palavra, aquela fisionomia doce e triste, a revelar intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e bondade, impressionava-me. N&atilde;o me arriscaria a dirigir-me a ela.<br \/>\n    Se isto acontecesse, emudecer&iacute;amos outra vez, permanecer&iacute;amos<br \/>\n    no constrangimento horr&iacute;vel, a catar id&eacute;ias incompletas e espalhadas.<br \/>\n    Contentava-me perceber-lhe &agrave; dist&acirc;ncia a palidez, o sossego fatigado,<br \/>\n    a viveza dos enormes bugalhos. Numa dessas passagens matinais deu-se coisa<br \/>\n    burlesca. Diversas pessoas no Pavilh&atilde;o, sem querer, entregavam-se ao<br \/>\n    nudismo. Sa&iacute;am do banheiro, iam secar pregui&ccedil;ando nos cub&iacute;culos,<br \/>\n    andando na Pra&ccedil;a Vermelha, e esqueciam-se de vestir-se. Estava assim<br \/>\n    Newton Freitas, oferecendo a um magote ocioso conversa loquaz e gargalhadas<br \/>\n    imensas, quando se entreabriu a cortina de lona e a figura de Eneida apareceu.<br \/>\n    Com impud&ecirc;ncia tranq&uuml;ila, o homem deu um passo e cumprimentou.<\/p>\n<p> -. Voc&ecirc; est&aacute; decente para falar com senhoras, murmurei tocando-lhe<br \/>\n    no ombro.<\/p>\n<p> Puxa! Com os diabos!<\/p>\n<p> Recuou, quis envolver-se na toalhinha de rosto, mud&aacute;-la em tanga,<br \/>\n    acocorou-se rapidamente por detr&aacute;s dos companheiros, morta a alegria<br \/>\n    num instante, encabulado em excesso.<\/p>\n<p> Depois desse dia os habitantes do Pavilh&atilde;o foram cautelosos, e Eneida<br \/>\n    nos trouxe uma exig&ecirc;ncia: dever&iacute;amos pelo menos usar cuecas.<br \/>\n    Dispensavam-se os pijamas, nem todos os possu&iacute;am. Rodolfo Ghioldi,<br \/>\n    por exemplo, estava desprevenido: ainda n&atilde;o lhe chegara a roupa tomada<br \/>\n    na pol&iacute;cia, e de manh&atilde;, no degrau da escada, fazia a confer&ecirc;ncia<br \/>\n    quase em p&ecirc;lo, tirando efeitos do len&ccedil;o, como um pelotiqueiro,<br \/>\n    do rel&oacute;gio de pulso, do cart&atilde;o pequeno onde arrumara o esquema<br \/>\n    da palestra. Mais ou menos cobertos havia dois homens: Valdemar Birinyi e<br \/>\n    um sujeito cabeludo, baixinho, que me apareceu na fila da comida, lendo um<br \/>\n    romance ingl&ecirc;s. Despojara-se do palet&oacute;, mas a cal&ccedil;a de<br \/>\n    casimira bem vincada, sapatos, meias, camisa fina, colarinho, gravata, suspens&oacute;rio<br \/>\n    discordavam muito dos nossos h&aacute;bitos. Cumprimentei-o, busquei puxar<br \/>\n    conversa. Evidentemente os meus tamancos e o pijama sovado lhe inspiravam<br \/>\n    desconfian&ccedil;a. Em poucas palavras, confessou-me que se chamava Anast&aacute;cio<br \/>\n    Pessoa, era rec&eacute;m-chegado e estava ali por equ&iacute;voco. Talvez<br \/>\n    julgasse comprometer-se falando comigo: encerrou o assunto e mergulhou na<br \/>\n    leitura do seu ingl&ecirc;s. Mais tarde informei-me. Era alto funcion&aacute;rio<br \/>\n    de um Banco. Chamado &agrave; pol&iacute;cia, tomara o autom&oacute;vel, fora<br \/>\n    prestar declara&ccedil;&otilde;es, meio intrigado. Que diabo queriam com ele?<br \/>\n    Ao chegar, recomendara ao chauffeur que esperasse. As horas se tinham passado,<br \/>\n    os dias e nenhuma pergunta. Quando supunha esclarecer o neg&oacute;cio e voltar<br \/>\n    &agrave; sua carteira, transfer&ecirc;ncia para a Casa de Deten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Anast&aacute;cio Pessoa, atordoado, ainda esperava desfazer o engano, ouvir<br \/>\n    explica&ccedil;&otilde;es e gentilezas. A qualquer momento o chamariam. Por<br \/>\n    isso estava ali metido na cal&ccedil;a azul, de meias e gravata, os olhos<br \/>\n    na p&aacute;gina, a afrontar a nudez escura de Newton Freitas. N&atilde;o<br \/>\n    se resignava a largar a roupa e acomodar-se. Muito diferente era Isnar Teixeira,<br \/>\n    m&eacute;dico cearense, franzino e mi&uacute;do, que apareceu descal&ccedil;o,<br \/>\n    com bagagem reduzida: um pijama e uma escova de dentes. Vinha com ele Ot&aacute;vio<br \/>\n    Malta, jornalista pernambucano, risonho e pequeno, a quem deram logo a alcunha<br \/>\n    de Cabe&ccedil;a-de-Porco. Imitaram-lhe a pron&uacute;ncia nordestina e inventaram<br \/>\n    sobre ele uma anedota absurda. Na Ordem Pol&iacute;tica e Social o delegado<br \/>\n    lhe dissera:<br \/>\n    Pode entrar, seu Matoso. E Malta respondera:<br \/>\n    Perd&atilde;o, dout&ocirc;. Esse &eacute; o meu nome ileg&aacute;. O verdadeiro<br \/>\n    &eacute; Ot&aacute;vio Marta.<\/p>\n<p> A pilh&eacute;ria, repetida, nunca enfadou o rapaz. Divertia-se com ela,<br \/>\n    depois se fechava, escrevia artigos que &agrave; noite eram divulgados na<br \/>\n    R&aacute;dio Libertadora. Outros indiv&iacute;duos iam surgindo. Um me impressionou,<br \/>\n    alto, magro, ligeiramente curvo, grave demais, severidade imensa a estampar-se<br \/>\n    no rosto. Vi-o de longe, &agrave; noite, no extremo do passadi&ccedil;o fronteiro,<br \/>\n    ao p&eacute; da cortina. Ofereceram-lhe uma salva de palmas; agradeceu com<br \/>\n    um gesto, apresentou-se:<br \/>\n    Louren&ccedil;o Moreira Lima.<\/p>\n<p> Devia ser o coronel que, anos atr&aacute;s, governara o Cear&aacute;, julguei.<br \/>\n    No dia seguinte, ao cumpriment&aacute;-lo, dei-lhe a patente. Recusou-a:<br \/>\n    O senhor est&aacute; me confundindo com meu irm&atilde;o Filipe. Eu sou Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m militar? N&atilde;o, advogado.<\/p>\n<p> Nascera decerto para usar farda. Rijo, anguloso, afirmativo, grande energia<br \/>\n    exposta na cara onde se cavavam rugas duras, infundia respeito. Recebeu por<br \/>\n    isso a alcunha de Bacharel Feroz. Injusti&ccedil;a: conheci-lhe depois o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ouro. Foi um dos sujeitos mais dignos que j&aacute; vi. Com duas h&eacute;rnias<br \/>\n    contidas numa funda complicada, viajara longas dist&acirc;ncias pelo interior,<br \/>\n    a p&eacute;, a cavalo, subira e descera rios, como secret&aacute;rio da Coluna<br \/>\n    Prestes.<\/p>\n<p> A chegada mais rumorosa foi a de Apporelly. Est&aacute;vamos recolhidos,<br \/>\n    e a R&aacute;dio Libertadora, em meio do programa, comunicou o sucesso<br \/>\n    Fala o Bar&atilde;o, exigiram de v&aacute;rios cub&iacute;culos.<\/p>\n<p> Sem demora, uma voz pastosa, hesitante, anunciou a teoria das duas hip&oacute;teses.<br \/>\n    Risos contagiosos interromperam com freq&uuml;&ecirc;ncia a exposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Consegui entend&ecirc;-la por alto. Otimis ta panglossiano. Apporelly sustentava<br \/>\n    que tudo ia muito bem. Fundava-se a demonstra&ccedil;&atilde;o no exame de<br \/>\n    um fato de que surgiam duas alternativas; exclu&iacute;a-se uma, desdobrava-se<br \/>\n    a segunda em outras duas; uma se eliminava, a outra se bipartia, e assim por<br \/>\n    diante, numa cadeia comprida. Ali onde viv&iacute;amos, Apporelly afirmava,<br \/>\n    utilizando o seu m&eacute;todo, que n&atilde;o havia motivo para receio. Que<br \/>\n    nos poderia acontecer? Ser&iacute;amos postos em liberdade ou continuar&iacute;amos<br \/>\n    presos. Se nos soltassem, bem: era o que desej&aacute;vamos. Se fic&aacute;ssemos<br \/>\n    na pris&atilde;o, deixar-nos-iam sem processo ou com processo. Se n&atilde;o<br \/>\n    nos processassem, bem: &agrave; falta de provas, cedo ou tarde nos mandariam<br \/>\n    embora. Se, nos processassem, ser&iacute;amos julgados, absolvidos ou condenados.<br \/>\n    Se nos absolvessem, bem: nada melhor, esper&aacute;vamos. Se nos condenassem,<br \/>\n    dar-nos-iam pena leve ou pena grande. Se se contentassem com a pena leve,<br \/>\n    muito bem: descansar&iacute;amos algum tempo sustentados pelo governo, depois<br \/>\n    ir&iacute;amos para a rua. Se nos arrumassem pena dura, ser&iacute;amos anistiados,<br \/>\n    ou n&atilde;o ser&iacute;amos. Se f&ocirc;ssemos anistiados, excelente: era<br \/>\n    como se n&atilde;o houvesse condena&ccedil;&atilde;o. Se n&atilde;o nos anistiassem,<br \/>\n    cumprir&iacute;amos a senten&ccedil;a ou morrer&iacute;amos. Se cumpr&iacute;ssemos<br \/>\n    a senten&ccedil;a, magn&iacute;fico: voltar&iacute;amos para casa. Se morr&ecirc;ssemos,<br \/>\n    ir&iacute;amos para o c&eacute;u ou para o inferno. Se f&ocirc;ssemos para<br \/>\n    o c&eacute;u, &oacute;timo: era a suprema aspira&ccedil;&atilde;o de cada<br \/>\n    um. E se f&ocirc;ssemos para o inferno? A cadeia findava a&iacute;. Realmente<br \/>\n    ignor&aacute;vamos o que nos sucederia se f&ocirc;ssemos para o inferno. Mas<br \/>\n    ainda assim n&atilde;o convinha alarmar-nos, pois essa desgra&ccedil;a poderia<br \/>\n    chegar a qualquer pessoa, na Casa de Deten&ccedil;&atilde;o ou fora dela.<br \/>\n    De manh&atilde;, ao lavar-me, notei, que algu&eacute;m se esgoelava no chuveiro<br \/>\n    pr&oacute;ximo, recitando Os Lus&iacute;adas:<br \/>\n    As armas e os bar&otilde;es assinalados&#8230;<\/p>\n<p> A &aacute;gua jorrava com forte rumor, alagava o ch&atilde;o; diversas torneiras<br \/>\n    abertas, resf&ocirc;legos, gente a esfregar-se, magotes conversando &agrave;<br \/>\n    porta, aguardando vaga. O vozeir&atilde;o dominava o barulho: E tamb&eacute;m<br \/>\n    as mem&oacute;rias gloriosas Daqueles reis que foram dilatando A f&eacute;,<br \/>\n    o imp&eacute;rio, a uretra&#8230;<\/p>\n<p> Dei uma gargalhada, ouvi este coment&aacute;rio:<br \/>\n    Hoje n&atilde;o se dilata imp&eacute;rio nem f&eacute;. Essas dilata&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    v&atilde;o desaparecendo. Agora o que se dilata &eacute; a uretra.<\/p>\n<p> Sa&iacute;. E enquanto me enxugava, conheci Apporelly, nu, um sujeito baixo,<br \/>\n    de longa barba grisalha, o nariz arrebitado, que uma autocaricatura vulgarizou.<br \/>\n    Vestimo-nos, subimos para o banho de sol. Algumas dezenas de homens faziam<br \/>\n    gin&aacute;stica. Fomos sentar-nos longe do exerc&iacute;cio, prudentes e<br \/>\n    capengas, ele hemipl&eacute;gico, eu com a perna entorpecida, mal me equilibrando,<br \/>\n    pontadas constantes no lugar da opera&ccedil;&atilde;o. A viagem a bordo me<br \/>\n    arrasara. Talvez essa coincid&ecirc;ncia no desarranjo f&iacute;sico nos tenha<br \/>\n    aproximado. Familiarizamo-nos depressa. Confiou-me Apporelly o plano de um<br \/>\n    trabalho concebido ultimamente, ia dedicar a ele os &oacute;cios da pris&atilde;o.<br \/>\n    Tencionava compor a biografia do Bar&atilde;o de Itarar&eacute;.<\/p>\n<p> Volume grosso, um calhau no formato dos de Emil Ludwig. No frontisp&iacute;cio,<br \/>\n    a divisa, o escudo, as armas do ilustre fidalgo: uma garrafa, um copo, um<br \/>\n    talher cruzado, um frango em dec&uacute;bito dorsal. &Eacute; a hist&oacute;ria<br \/>\n    completa do homem, a amplia&ccedil;&atilde;o dos rid&iacute;culos que publiquei<br \/>\n    na Manha. Veremos os princ&iacute;pios do bar&atilde;o, a vida pol&iacute;tica,<br \/>\n    os neg&oacute;cios, a maneira como adquiriu o t&iacute;tulo. Agraciou-se naturalmente<br \/>\n    e fez esta confid&ecirc;ncia aos amigos: Se eu fosse esperar que me reconhecessem<br \/>\n    o m&eacute;rito, n&atilde;o arranjava nada. Concedi a mim mesmo carta de nobreza.<\/p>\n<p> Boa id&eacute;ia, concordei. Vai arranjar uma cr&iacute;tica social oportuna.<\/p>\n<p> Claro, anuiu o motejador feroz. Voc&ecirc; conhece Itarar&eacute; jornalista.<br \/>\n    Depois que ele se tornou popular, esmoreceram aqui na imprensa as manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de sabujice ao nosso querido diretor. Um dia Itarar&eacute; descobriu uma<br \/>\n    volumosa ladroeira oficial e denunciou os respons&aacute;veis numa longa campanha<br \/>\n    moralizadora. Aos &iacute;ntimos explicou-se: Patifes! Canalhas! Para uma<br \/>\n    transa&ccedil;&atilde;o como essa n&atilde;o me convidam. Enfim quinhentas<br \/>\n    p&aacute;ginas grandes. Acho que terei o volume pronto num ano, com certeza<br \/>\n    n&atilde;o nos largar&atilde;o antes.<\/p>\n<p> Correram semanas. Repetidamente ouvi Apporelly desenvolver o seu projeto,<br \/>\n    modific&aacute;-lo, narrando min&uacute;cias. N&atilde;o se resolvia, por&eacute;m,<br \/>\n    a iniciar a obra, coordenar as ironias abundantes que fervilhavam no interior.<br \/>\n    Absorvia-se na improvisa&ccedil;&atilde;o, exibia fragmentos j&aacute; lan&ccedil;ados<br \/>\n    no hebdomad&aacute;rio. Imposs&iacute;vel dedicar-se a tarefa longa, julguei.<br \/>\n    Depois imaginei-o v&iacute;tima de incapacidade transit&oacute;ria. Na extensa<br \/>\n    in&eacute;rcia, o pensamento esmorecia, os des&iacute;gnios murchavam. Raros<br \/>\n    ali conservavam a lucidez e a firmeza de S&eacute;rgio, de Rodolfo Ghioldi.<br \/>\n    Trabalhos descont&iacute;nuos, aulas vagas falhando, recome&ccedil;ando sem<br \/>\n    programa, tudo me fazia supor que desej&aacute;vamos atordoar-nos. Tentei<br \/>\n    aprender russo com Benjamin Snaider: peguei o alfabeto e meia d&uacute;zia<br \/>\n    de palavras. <\/p>\n<p>Exigiram de mim uma confer&ecirc;ncia a respeito do nordeste. Alarmei-me:<\/p>\n<p> Est&atilde;o doidos?<\/p>\n<p> Tinha gra&ccedil;a aventurar-me a falar na presen&ccedil;a de Rodolfo. Com<br \/>\n    certeza viram in&eacute;pcia ou m&aacute; vontade na recusa. As folhas e os<br \/>\n    l&aacute;pis dormiam na valise. O abscesso da m&atilde;o secou e cicatrizou,<br \/>\n    a unha caiu, veio outra: findava o pretexto com que me iludia para ficar inativo.<br \/>\n    Decidia-me a custo. Necess&aacute;rio retomar o papel e escrever algumas linhas.<\/p>\n<h3>6<\/h3>\n<p>VALDEMAR BIRINYI introduziu o jogo de xadrez no Pavilh&atilde;o dos Prim&aacute;rios.<br \/>\n    Vivia num isolamento profundo, necessitava comunicar-se. Por desgra&ccedil;a<br \/>\n    menoscabara os hinos e largara a frase inconveniente &agrave; chegada: Querem<br \/>\n    fazer revolu&ccedil;&atilde;o com essas bestas? Em conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    o antigo oficial de Bela Kun fora posto de banda. Tentava conversar e ningu&eacute;m<br \/>\n    o compreendia direito. Quis dizer-me qualquer coisa um dia. Ouvindo algumas<br \/>\n    palavras italianas, fixei a aten&ccedil;&atilde;o, mas a pron&uacute;ncia<br \/>\n    horr&iacute;vel, idiomas diversos a misturar-se, em balb&uacute;rdia, atrapalhavam<br \/>\n    desesperadamente o discurso. Mais tarde perguntei ao russo:<\/p>\n<p> Que diabo de l&iacute;ngua fala Birinyi, &oacute; S&eacute;rgio? O italiano<br \/>\n    dele &eacute; medonho.<\/p>\n<p> E o alem&atilde;o tamb&eacute;m, respondeu o matem&aacute;tico. N&atilde;o<br \/>\n    entendo o que ele diz.<\/p>\n<p> Na falta de int&eacute;rprete, Valdemar Birinyi necessitou recorrer a um<br \/>\n    portugu&ecirc;s miser&aacute;vel. Com ele, express&otilde;es da sua algaravia<br \/>\n    internacional e gestos significativos, chegou a manifestar-se. Nessa linguagem,<br \/>\n    referiu-me que na pol&iacute;cia lhe haviam tomado oito malas, vinte e cinco<br \/>\n    mil francos su&iacute;&ccedil;os e, perda irremedi&aacute;vel, uma preciosa<br \/>\n    cole&ccedil;&atilde;o de selos, a terceira do mundo. Fora anos atr&aacute;s<br \/>\n    &agrave; Inglaterra exibir essa maravilha ao rei, tamb&eacute;m filatelista.<br \/>\n    Narrou-me a viagem com seguran&ccedil;a, a visita, bastante vaidoso. Certo<br \/>\n    dia tra&ccedil;ou numa folha de alma&ccedil;o um tabuleiro de xadrez, fabricou<br \/>\n    pe&otilde;es, torres, cavalos, bispos, reis e rainhas com miolo de p&atilde;o,<br \/>\n    coloriu de azul as pe&ccedil;as e as casas pretas. Desde ent&atilde;o aquele<br \/>\n    divertimento nos encheu as horas, venceu as li&ccedil;&otilde;es, as cantigas<br \/>\n    da R&aacute;dio Libertadora. Ao cabo de algum tempo houve um desastre. Entrando<br \/>\n    no cub&iacute;culo de Birinyi, fomos encontr&aacute;-lo a mexer-se, agitado:<\/p>\n<p> Bicho<\/p>\n<p> Levou a m&atilde;o &agrave; boca muito aberta: Bicho.<\/p>\n<p> Mostrou-nos as pe&ccedil;as ro&iacute;das, v&aacute;rias inutilizadas, arreganhou<br \/>\n    de novo os queixos, moveu os bei&ccedil;os. Percebemos a inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dele:<br \/>\n    Comeu?<\/p>\n<p> &Eacute;, comeu. Bicho comeu xadrez. Que bicho, Birinyi?<\/p>\n<p> O homenzarr&atilde;o ficou um instante indeciso, revolvendo a mem&oacute;ria.<br \/>\n    Nada achando, estirou-se no ch&atilde;o de barriga para baixo, sacudiu &agrave;<br \/>\n    toa os bra&ccedil;os e as pernas, enfim descreveu como p&ocirc;de os movimentos<br \/>\n    de uma barata. Conclu&iacute;mos facilmente que as baratas haviam estragado<br \/>\n    as figuras. Esse contratempo n&atilde;o causou preju&iacute;zo s&eacute;rio.<br \/>\n    Valdemar Birinyi utilizou segunda vez o miolo de p&atilde;o e o tinteiro.<br \/>\n    E na manh&atilde; seguinte, ao descer do banho de sol, vi junto &agrave; escada<br \/>\n    um rapaz moreno, barrigudo, com feitio de pote, demolindo a canivete um cabo<br \/>\n    de vassoura. Concentrado e paciente escavacava a madeira rija. Admirei-lhe<br \/>\n    a pachorra, informei-me: Que &eacute; que o senhor est&aacute; esculpindo?<\/p>\n<p> Uma torre, explicou o mo&ccedil;o em voz gemida, suspendendo o trabalho<br \/>\n    e fitando-me os olhos mansos.<\/p>\n<p> Qu&ecirc;? Tenciona arrancar da&iacute; as pe&ccedil;as todas?<\/p>\n<p> Claro. J&aacute; dividi o cabo da vassoura em trinta e duas partes. Olhe<br \/>\n    os riscos.<\/p>\n<p> Esse pau &eacute; duro como o diabo. Ser&aacute; dif&iacute;cil arranjar<br \/>\n    os cavalos.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; pressa, volveu o sujeito. Vou faz&ecirc;-los inteiri&ccedil;os.<br \/>\n    &Eacute; mais f&aacute;cil, sem tarugo.<\/p>\n<p> Foi assim que travei conhecimento com Vanderlino Nunes, homem &uacute;til,<br \/>\n    de numerosas habilidades, inalter&aacute;vel nas situa&ccedil;&otilde;es mais<br \/>\n    infelizes. O trabalho dele recebeu elogios, andou em diversos lugares e chegou,<br \/>\n    suponho, &agrave; Rep&uacute;blica Argentina, mas naquele momento quase passou<br \/>\n    despercebido. Havia por semana uma hora de visitas. As giletes sa&iacute;am<br \/>\n    das malas, o barbeiro estabelecido numa saleta, al&eacute;m da grade, tinha<br \/>\n    servi&ccedil;o, desenrolavam-se as roupas envoltas em jornais, as pessoas<br \/>\n    surgiam de rosto liso, penteadas, cobertas de pano, em dec&ecirc;ncia escandalosa,<br \/>\n    transpunham a larga porta, sumiam-se no p&aacute;tio, como se reconquistassem<br \/>\n    a liberdade. Pouco depois voltavam, despojavam-se do luxo r&aacute;pido, entravam<br \/>\n    na condi&ccedil;&atilde;o anterior. Os faxinas iam e vinham, conduzindo embrulhos;<br \/>\n    sobre as camas expunham-se objetos numerosos, com predomin&acirc;ncia de peras<br \/>\n    e ma&ccedil;&atilde;s. Entre essas coisas veio o primeiro tabuleiro de xadrez,<br \/>\n    aparecido no cub&iacute;culo de Benjamin Snaider. Em seguida vieram muitos,<br \/>\n    grandes, pequenos, de papel&atilde;o, de t&aacute;bua, afinal uma assustadora<br \/>\n    mesa rica, o tampo de quadrados vermelhos e negros, duas gavetas onde se arrumavam<br \/>\n    pe&ccedil;as enormes.<\/p>\n<p> Depressa nos acamaradamos no jogo, esmoreceram bastante algumas diverg&ecirc;ncias<br \/>\n    pol&iacute;ticas. Entre um roque e um xeque fiz amizade com Rodolfo Ghioldi.<br \/>\n    Longamente lhe escutei a exposi&ccedil;&atilde;o clara, sem tentar aproximar-me<br \/>\n    dele. Mandaram-lhe a roupa tomada na pol&iacute;cia. No degrau de ferro, agora<br \/>\n    metido num pijama, discorria sobre a Am&eacute;rica do Sul, explicava os motivos<br \/>\n    da rebeli&atilde;o de 1935: muitos indiv&iacute;duos que tinham figurado nela<br \/>\n    precisavam esclarecimentos. Os guardas passavam, detinham-se. E a voz calma<br \/>\n    n&atilde;o se alterava, as id&eacute;ias aflu&iacute;am r&aacute;pidas, o<br \/>\n    contexto me dava a impress&atilde;o viva de prosa armada laboriosamente, no<br \/>\n    papel. Outras pessoas se manifestavam: Medina, Pascoal Leme, Val&eacute;rio<br \/>\n    Konder, m&eacute;dico alto, louro, de olhos en&eacute;rgicos, Benigno Fernandes,<br \/>\n    advogado tuberculoso. Lauro Lago narrou o barulho de Natal, Sebasti&atilde;o<br \/>\n    Hora mostrou peda&ccedil;os de Alagoas. Quem mais se arriscava, por&eacute;m,<br \/>\n    era Rodolfo. Secret&aacute;rio do Partido Comunista Argentino, homem de responsabilidade,<br \/>\n    certamente o vigiavam de perto. Rece&aacute;vamos que o mandassem para lugar<br \/>\n    pior: Prestes e Berger estavam no isolamento, e o segundo perdia a raz&atilde;o<br \/>\n    sob torturas multiplicadas. Rodolfo se dirigiu a mim pela primeira vez, meio<br \/>\n    descontente. Soubera que eu o considerava bom orador e aborrecia-se:<\/p>\n<p> N&atilde;o fa&ccedil;o discursos. Apenas converso.<\/p>\n<p> &Eacute; o diabo. Certas palavras se acanalham imerecidamente, respondi.<br \/>\n    Gosto de dar a elas o sentido exato. N&atilde;o julgo oradores os que declamam<br \/>\n    solecismos e lugares-comuns. Aqui no Brasil h&aacute; uma birra como a sua:<br \/>\n    ningu&eacute;m quer ser literato, n&atilde;o sei porqu&ecirc;. Eu me confesso<br \/>\n    literato, literato ordin&aacute;rio.<\/p>\n<p> Findo o equ&iacute;voco, tornamo-nos amigos jogando xadrez. Pexotes, mov&iacute;amos<br \/>\n    as pedras desazadamente, alheios, palestrando.<\/p>\n<p> Voc&ecirc; acha que Birinyi foi realmente oficial de Bela Kun, Rodolfo?<br \/>\n    Talvez. Quem sabe? Os oficiais de Bela Kun n&atilde;o deviam ser muito diferentes<br \/>\n    daquilo.<\/p>\n<p> Nas confer&ecirc;ncias Rodolfo continuava a exprimir-se em espanhol, mas<br \/>\n    intimamente, no cub&iacute;culo, debulhava um portugu&ecirc;s razo&aacute;vel.<br \/>\n    Pobre de Birinyi, criatura gigantesca. Uma vez chegou-se a mim, pediu-me o<br \/>\n    tabuleiro com que me entretinha. Um instante, Birinyi. Estou acabando a partida.<\/p>\n<p> Eu queria logo. Bem.<\/p>\n<p> Despedi-me do parceiro e contentei o h&uacute;ngaro. No dia seguinte, &agrave;<br \/>\n    hora do almo&ccedil;o, procurou-me na fila, apreensivo: Senhor, est&aacute;<br \/>\n    zangado comigo?<br \/>\n    Zangado? N&atilde;o. Porqu&ecirc;?<\/p>\n<p> Est&aacute; sim. Por causa do xadrez.<\/p>\n<p> Que id&eacute;ia, Birinyi! Quem lhe falou nisso? Snaider.<\/p>\n<p> &Eacute; brincadeira dele.<\/p>\n<p> O colosso ficou um momento indeciso, estendeu-me o bra&ccedil;o peludo:<br \/>\n    A m&atilde;o.<\/p>\n<p> Apertei-lhe os dedos, rindo.<\/p>\n<p> Agora, exclamou desanuviado. Agora sim. Amigo. Tempo depois convidou-me<br \/>\n    a visitar-lhe o c&aacute;rcere, mostrou malas abertas e fotografias das suas<br \/>\n    propriedades em Buenos Aires e em Londres. Abriu &aacute;lbuns fornidos onde<br \/>\n    se pregava a famosa cole&ccedil;&atilde;o de selos. Faltavam diversos, os<br \/>\n    maiores, os mais bonitos, mas isso n&atilde;o representava preju&iacute;zo<br \/>\n    s&eacute;rio. Ainda &eacute; a terceira cole&ccedil;&atilde;o do mundo, murmurou<br \/>\n    com al&iacute;vio.<\/p>\n<p> A terceira, levada &agrave; Inglaterra preciosamente, para o rei ver<\/p>\n<p> Senhor pensava que era mentira.<\/p>\n<p> Que lembran&ccedil;a, Birinyi! Eu n&atilde;o disse tal coisa. N&atilde;o<br \/>\n    disse, mas pensou. Verdade, senhor, verdade Apresentou-me, risonho, uma revista<br \/>\n    inglesa. Vi uma ilustra&ccedil;&atilde;o: ele e o pr&iacute;ncipe de Gales<br \/>\n    contemplavam absortos um daqueles grossos volumes que enfeitavam a cama estreita,<br \/>\n    cheios de papelinhos coloridos. L&aacute; estava a not&iacute;cia: a chegada<br \/>\n    a Londres, a audi&ecirc;ncia custosa, o valor dos s&iacute;mbolos examinados<br \/>\n    com aten&ccedil;&atilde;o pelos dois homens.<\/p>\n<p> A terceira do mundo. Verdade, verdade. Naquele tempo ele n&atilde;o era<br \/>\n    rei.<\/p>\n<p> Mas hoje &eacute;, respondeu Birinyi orgulhoso, tomando-me a revista.<\/p>\n<p>7<\/p>\n<p>OS PERCEVEJOS da Deten&ccedil;&atilde;o eram na verdade uma praga, e em v&atilde;o<br \/>\n    tent&aacute;vamos saber onde se escondiam. No pr&eacute;dio novo, de muros<br \/>\n    lisos, ch&atilde;o encerado, parecia n&atilde;o haver ambiente para a medonha<br \/>\n    prolifera&ccedil;&atilde;o. Deviam alojar-se nos ferros das grades, nas juntas<br \/>\n    das camas, nas gretas dos guarda-ventos. Examin&aacute;vamos pacientemente<br \/>\n    os lugares suspeitos, esmiu&ccedil;&aacute;vamos a roupa, as cobertas, os<br \/>\n    colch&otilde;es, os travesseiros. Nenhum sinal dos miser&aacute;veis; durante<br \/>\n    o dia era poss&iacute;vel esquec&ecirc;-los, jogar xadrez, ler, escrever,<br \/>\n    ouvir discursos, li&ccedil;&otilde;es, hinos, sambas. A noite deixavam-nos<br \/>\n    repousar alguns minutos: era como se calculassem o tempo, soubessem a hora<br \/>\n    de atormentar-nos. Quando &iacute;amos adormecendo, uma ferroada nos despertava,<br \/>\n    sent&iacute;amos carreirinhas na pele, c&oacute;cegas. comich&otilde;es. A<br \/>\n    trave de ferro j&aacute; n&atilde;o me incomodava: habituara-me depressa a<br \/>\n    arrumar os ossos no colch&atilde;o. Agora o tormento era aquele, picadas,<br \/>\n    o teimoso fervilhar. Virava-me, co&ccedil;ava-me, erguia-me afinal desesperado,<br \/>\n    sacudia os panos, em busca dos terr&iacute;veis inimigos. Invis&iacute;veis,<br \/>\n    pertenciam com certeza ao organismo policiai, realizavam fi&eacute;is a tarefa<br \/>\n    de importunar-nos da melhor maneira.<\/p>\n<p> Imposs&iacute;vel conservar-me deitado. Recorria a um dos tr&ecirc;s volumes,<br \/>\n    remo&iacute;dos inutilmente na viagem, sentava-me, procurava entender um cap&iacute;tulo.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o Hora agitava-se, adormecia e despertava agoniado. S&eacute;rgio<br \/>\n    permanecia im&oacute;vel, a boca entreaberta exibindo os largos dentes escuros,<br \/>\n    as m&atilde;os cruzadas no peito magro, a respira&ccedil;&atilde;o leve, quase<br \/>\n    impercept&iacute;vel; indiferen&ccedil;a espantosa, calma de morto. Dif&iacute;cil<br \/>\n    entregar-me ao livro. O pensamento fugia, partia-se, emaranhava-se em lembran&ccedil;as<br \/>\n    da sociedade nova que me impunham, confusa, heterog&ecirc;nea, sempre a alterar-se,<br \/>\n    a recompor-se. E a luz era escassa, a l&acirc;mpada muito alta iluminava fracamente<br \/>\n    a p&aacute;gina. Sem d&uacute;vida a leitura me arruinaria a vista. Assim<br \/>\n    me conservava, bocejando, fumando, at&eacute; n&atilde;o resistir ao sono.<br \/>\n    Acolhia-me na fadiga pesada, insens&iacute;vel &agrave;s sangraduras, despertava<br \/>\n    coberto de salpicos vermelhos.<\/p>\n<p> Os m&eacute;dicos do Pavilh&atilde;o, atentos &agrave; higiene muito se<br \/>\n    preocuparam com o flagelo: Valdemar Bessa, Isnar Teixeira, Sebasti&atilde;o<br \/>\n    Hora, Campos da Paz novo e Campos da Paz velho, magro e taciturno, que se<br \/>\n    assinava Campos da Paz M. V. Essas iniciais significavam Manuel Ven&acirc;ncio,<br \/>\n    e ignoro porque o doutor as colocava no fim. A sabedoria deles, conjugada,<br \/>\n    nenhuma vantagem nos trouxe. E nesse ponto Val&eacute;rio Konder resolveu,<br \/>\n    com energia, mover guerra constante e ordenada aos infames insetos. Alcan&ccedil;ou,<br \/>\n    por interm&eacute;dio do Coletivo, as armas necess&aacute;rias, forneceu os<br \/>\n    cub&iacute;culos de creolina e grandes nacos de sab&atilde;o. Contrabandearam-se<br \/>\n    jornais, guardaram-se inv&oacute;lucros. E todos n&oacute;s, v&aacute;lidos<br \/>\n    e doentes, fomos convocados para o servi&ccedil;o. Um dia por semana, engolido<br \/>\n    o caf&eacute;, abertas as grades, inici&aacute;vamos a campanha: faz&iacute;amos<br \/>\n    tochas de papel, desocup&aacute;vamos a reduzida mob&iacute;lia e fic&aacute;vamos<br \/>\n    algum tempo a sapec&aacute;-la. A chama lambia o metal, a madeira, parava<br \/>\n    nas juntas, buscava as reentr&acirc;ncias, asilos poss&iacute;veis de bichos,<br \/>\n    ovos e larvas. A tinta azul dos guarda-ventos, o verniz branco das camas velhas,<br \/>\n    meio descascadas, apresentavam manchas negras; o solo se cobria de carv&atilde;o,<br \/>\n    a cinza nos sujava os corpos nus, a fuma&ccedil;a nos sufocava. Depois examin&aacute;vamos<br \/>\n    a roupa o direito, o avesso, os mais ocultos esconderijos de pregas e costuras;<br \/>\n    esvazi&aacute;vamos caixas e malas; sobre os m&oacute;veis chamuscados empilhavam-se<br \/>\n    livros, panos, travesseiros. colch&otilde;es, minuciosamente revistos. De<br \/>\n    cal&ccedil;&atilde;o de banho, Val&eacute;rio Konder se encarni&ccedil;ava,<br \/>\n    feroz e ub&iacute;quo, subia e descia a escada, estava na Pra&ccedil;a Vermelha<br \/>\n    e no passadi&ccedil;o, comandando a refrega. Nenhum repouso, os tamancos batiam<br \/>\n    com o surdo rumor de cascos de bois acossados. Varr&iacute;amos os detritos.<br \/>\n    E principiava uma extensa barrela. Abr&iacute;amos as torneiras, a &aacute;gua<br \/>\n    se derramava nas pias, transbordava, alagava o ch&atilde;o; utilizando os<br \/>\n    canecos, atir&aacute;vamos nas paredes jatos en&eacute;rgicos. Ensabo&aacute;vamos<br \/>\n    tudo com rigor, as vassouras chiavam desesperadamente, agitando espuma escura.<br \/>\n    Os chuveiros n&atilde;o tinham f&eacute;rias: sem diminuir o trabalho, ca&iacute;amos<br \/>\n    num banho ruidoso, violentas esfrega&ccedil;&otilde;es nos livravam do suor<br \/>\n    e da tisna. O declive do terreno impedia escoamento: ainda o l&iacute;quido<br \/>\n    n&atilde;o chegava &agrave; porta e a poucos metros, ao fundo, t&iacute;nhamos<br \/>\n    os p&eacute;s mergulhados. Chapinhar confuso, dezenas de canos abertos, vasilhas<br \/>\n    fren&eacute;ticas lan&ccedil;ando jorros sem descontinuar. Os quartos se enchiam,<br \/>\n    principi&aacute;vamos o combate &agrave; inunda&ccedil;&atilde;o. As torneiras<br \/>\n    se fechavam, moviam-se furiosamente as vassouras, a arrojar no exterior espadanas<br \/>\n    largas. Do passadi&ccedil;o uma cachoeira se derramava no r&eacute;s-do-ch&atilde;o,<br \/>\n    espalhava-se, recebia afluentes, dirigia-se ao esgoto descoberto para receber<br \/>\n    o aguaceiro. Finda a lavagem demorada, esfreg&aacute;vamos com estopa o solo<br \/>\n    vermelho, jog&aacute;vamos nele borrifos de creolina, que se alargavam na<br \/>\n    umidade, formavam n&oacute;doas leitosas. Em seguida obtur&aacute;vamos com<br \/>\n    sab&atilde;o as gretas dos guarda-ventos, as bases dos pregos metidos nos<br \/>\n    muros, as articula&ccedil;&otilde;es das grades e das camas; todos os buracos<br \/>\n    e &acirc;ngulos suspeitos eram calafetados.<\/p>\n<p> A arruma&ccedil;&atilde;o dos tro&ccedil;os conclu&iacute;a a dura labuta.<br \/>\n    E os corpos, afeitos &agrave; in&eacute;rcia, estiravam-se cansados, perdiam-se<br \/>\n    em leve modorra, logo interrompida. Ainda n&atilde;o estavam secos os tamancos<br \/>\n    deixados a aquecer numa faixa de sol, e uma lancetada rija nos despertava.<br \/>\n    A indigna&ccedil;&atilde;o nos enchia de raiva. Trabalho perdido. Como se<br \/>\n    defendiam aqueles miser&aacute;veis resistentes ao inc&ecirc;ndio, ao dil&uacute;vio?<br \/>\n    Patifes. Zombavam dos nossos desgra&ccedil;ados esfor&ccedil;os e vingavam-se.<br \/>\n    Iriam assanhar-se, n&atilde;o nos deixariam tranq&uuml;ilos. Canseiras in&uacute;teis,<br \/>\n    aniquilados os des&iacute;gnios mort&iacute;feros de Val&eacute;rio Konder.<\/p>\n<p>8<\/p>\n<p>ISOLADOS ou em pequenos grupos, novos indiv&iacute;duos surgiam no Pavilh&atilde;o<br \/>\n    dos Prim&aacute;rios, havia ali um fervedouro de corti&ccedil;o. Em geral<br \/>\n    demoravam pouco: sem raz&atilde;o aceit&aacute;vel, desapareciam, os novatos<br \/>\n    se embebiam na esperan&ccedil;a de reconquistar a liberdade. Era como se se<br \/>\n    evaporassem, n&atilde;o receb&iacute;amos a mais leve not&iacute;cia deles.<br \/>\n    De repente alguns tornavam e, antes de acomodar-se, retiravam-se de novo,<br \/>\n    na contradan&ccedil;a infind&aacute;vel, incompreens&iacute;vel. Essa mobilidade<br \/>\n    nos causava receio constante N&atilde;o nos permitiam conhecer-nos bem; rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    imprecisas, camaradagens mal esbo&ccedil;adas, estavam sempre a desfazer-se.<br \/>\n    As figuras nos apareciam vagas, incompletas; s&oacute; os caracteres mais<br \/>\n    fortes conseguiam definir-se. Comunica&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil, quase<br \/>\n    imposs&iacute;vel: oper&aacute;rios e pequeno-burgueses falavam l&iacute;nguas<br \/>\n    diferentes. N&atilde;o nos entend&iacute;amos, n&atilde;o nos pod&iacute;amos<br \/>\n    entender. Al&eacute;m disso corriam boatos com insist&ecirc;ncia, desagrad&aacute;veis,<br \/>\n    e isto nos minava o relativo sossego; cessaram os cochichos do capit&atilde;o<br \/>\n    de nariz comprido e germinaram suspeitas numerosas.<\/p>\n<p> Foi quando come&ccedil;aram a chegar os homens de Pedro I. Hercolino Cascardo<br \/>\n    apresentou-se, lac&ocirc;nico, piscando os olhos furiosamente, metido num<br \/>\n    roup&atilde;o escuro. A voz met&aacute;lica de Agildo Barata nos arrepiou<br \/>\n    Era um sujeito moreno, mi&uacute;do, insignificante, e parecia-me dif&iacute;cil<br \/>\n    que houvesse conseguido, preso, sublevar um regimento. A for&ccedil;a dele<br \/>\n    se manifestava no olhar vivo e duro, na fala breve, sacudida, fria, cortante<br \/>\n    como l&acirc;mina. Tavares Bastos, nervoso, inquieto, com jeito de p&aacute;ssaro,<br \/>\n    veio encarregar-se da classe de franc&ecirc;s. Ensinava gram&aacute;tica,<br \/>\n    e pensava em mulher. No banho de sol, desprezava a gin&aacute;stica, debru&ccedil;ava<br \/>\n    ao parapeito, olhando o p&aacute;tio onde as vizinhas mexiam a bola de borracha.<\/p>\n<p> Quem me dera ter asas, suspirou num dos seus madrigais.<\/p>\n<p> Des&ccedil;a pendurado nos cabelos do seu companheiro, respondeu Eneida<br \/>\n    mostrando a cabeleira enorme de Alc&acirc;ntara Tocci.<\/p>\n<p> O professor de ingl&ecirc;s, substituto de S&eacute;rgio, foi Lacerda, Lacerd&atilde;o,<br \/>\n    que vivera na Inglaterra e se orgulhava da sua pron&uacute;ncia de Cambridge.<br \/>\n    Vi-o pela primeira vez &agrave; noite, seguro aos ferros da grade, a soltar<br \/>\n    gritos, excedendo-se na execu&ccedil;&atilde;o furiosa de uma cantiga. No<br \/>\n    dia seguinte, num cub&iacute;culo do r&eacute;s-do-ch&atilde;o, novamente<br \/>\n    lhe admirei os bra&ccedil;os musculosos, os dentes de selvagem, a bocarra<br \/>\n    medonha, o vigor com que martelava s&iacute;labas ex&oacute;ticas:<br \/>\n    The tree grows.<\/p>\n<p> Na larga barra escura da parede escrevia a giz as palavras. Baixava-se,<br \/>\n    ia pouco a pouco subindo enquanto falava, tentando figurar o crescimento da<br \/>\n    &aacute;rvore; as m&atilde;os se agitavam simulando galhos; os sons, repetidos,<br \/>\n    gravar-se-iam no esp&iacute;rito dos alunos. Lembrei-me de Valdemar Birinyi<br \/>\n    deitado no ch&atilde;o de barriga para baixo, imitando barata. Vi de novo<br \/>\n    Lacerda no exerc&iacute;cio de uma rija li&ccedil;&atilde;o vociferada a Adolfo<br \/>\n    Barbosa. Abri os ouvidos, atento, e, percebendo-me o interesse, a verbosa<br \/>\n    criatura disp&ocirc;s-se logo a prodigalizar-me os seus conhecimentos. Agradeci<br \/>\n    comovido e segurei a ocasi&atilde;o. Bem. O meu desejo era ler, apenas; a<br \/>\n    l&iacute;ngua pena e a orelha dura me impossibilitavam rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    verbal com estrangeiros. Desviando-se da letra, o meu ju&iacute;zo murchava;<br \/>\n    in&uacute;til procurar saber como as &aacute;rvores se desenvolviam, com os<br \/>\n    sons perfeitos e os ru&iacute;dos exatos de Cambridge. Lacerda pegou um livro,<br \/>\n    indicou a p&aacute;gina, pediu leitura e tradu&ccedil;&atilde;o. Mastiguei<br \/>\n    numerosas barbaridades e ouvi no fim este coment&aacute;rio:<br \/>\n    &Eacute;. Parece que o senhor j&aacute; viu uma gram&aacute;tica, um dicion&aacute;rio<br \/>\n    ingl&ecirc;s. Mas essa articula&ccedil;&atilde;o, francamente, &eacute; horrorosa.<br \/>\n    Ningu&eacute;m adivinha o que o senhor l&ecirc;, n&atilde;o sabemos se isso<br \/>\n    &eacute; ingl&ecirc;s ou tupi.<\/p>\n<p> Algumas pessoas chegaram juntas, depois de uma aventura infeliz, entre elas<br \/>\n    Roberto Sisson, desenvolto, brilhante, amigo de pol&ecirc;micas; Ivan Ribeiro,<br \/>\n    alegre, espada&uacute;do, loquaz; um mulato r&iacute;spido, estr&aacute;bico,<br \/>\n    bilioso, o estivador Desid&eacute;rio. Haviam tentado fugir do Pedro I. C&uacute;mplices<br \/>\n    no exterior, a luz vermelha de uma barca a indicar asilo. Submetendo o plano<br \/>\n    a exame rigoroso, eliminando com paci&ecirc;ncia os obst&aacute;culos, julgavam<br \/>\n    quase certo o &ecirc;xito. E uma noite, nus, as roupas em rolo preso &agrave;s<br \/>\n    costas a silenciosa opera&ccedil;&atilde;o: vultos esquivos rastejando na<br \/>\n    coberta inferior, salto na &aacute;gua, mergulho, o deslizar de sombras, lenta<br \/>\n    busca do aux&iacute;lio prometido. Nem barco, nem sinal vermelho. Desperd&iacute;cio<br \/>\n    de tempo, cansa&ccedil;o. O ajuste era ningu&eacute;m deter-se, cada um se<br \/>\n    ag&uuml;entaria como pudesse. O embara&ccedil;o imprevisto desarranjava a<br \/>\n    combina&ccedil;&atilde;o. Idas e vindas na ba&iacute;a, longe da terra, procura<br \/>\n    desesperada, o crescente receio de perseguidores invis&iacute;veis, o frio<br \/>\n    intenso a paralisar membros, afinal um desastre em perspectiva: Sisson, justamente<br \/>\n    Sisson, oficial de marinha, n&atilde;o resistira &agrave;s c&atilde;ibras<br \/>\n    e ia morrendo afogado. Os outros, dispersos, tinham conseguido abrigar-se<br \/>\n    numa ilha. Desid&eacute;rio se atrasara, sustentando o companheiro desfalecido;<br \/>\n    esquecera o ajuste, regressara ao navio, deixara a carga pendurada a um cabo<br \/>\n    e dirigira-se ao continente. A liberdade prec&aacute;ria se extinguira em<br \/>\n    poucas horas: agarrados na praia, achavam-se no Pavilh&atilde;o, alguns rapazes<br \/>\n    do ex&eacute;rcito, o marinheiro in&aacute;bil, p&eacute;ssimo padador, o<br \/>\n    mulato zarolho. Todos exibiam nos ombros riscos sangrentos, vest&iacute;gio<br \/>\n    das cordas que tinham segurado as trouxas de roupa. Al&eacute;m dessas marcas,<br \/>\n    outras, numerosas, grassavam no corpo do estivador, causadas pelo chicote<br \/>\n    da pol&iacute;cia.<\/p>\n<p> A presen&ccedil;a dos novos h&oacute;spedes aumentou consideravelmente a<br \/>\n    orat&oacute;ria da pris&atilde;o. Sisson estendia-se em afirma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    en&eacute;rgicas, &agrave;s vezes sustentava paradoxos, detinha-se em min&uacute;cias<br \/>\n    insignificantes, resistindo com unhas e dentes se algu&eacute;m o contrariava.<br \/>\n    A linguagem fluente, vigorosa, coloria-se de express&otilde;es cabeludas.<br \/>\n    Ivan Ribeiro me causou forte surpresa. Iniciou o primeiro discurso com um<br \/>\n    per&iacute;odo de l&eacute;gua e meia, que me fez pensar:<br \/>\n    Quero ver como o soldadinho se desembrulha. Durante o meu solil&oacute;quio<br \/>\n    o rapaz se emaranhava, metia ora&ccedil;&otilde;es na lengalenga e cada vez<br \/>\n    mais se complicava.<\/p>\n<p> Coitado. N&atilde;o sai do atoleiro.<\/p>\n<p> Enganei-me. Chegou naturalmente ao fim: arrumou caprichoso o mont&atilde;o<br \/>\n    de frases e p&ocirc;s o verbo indispens&aacute;vel no momento preciso. O resto<br \/>\n    da arenga foi dito com absoluta corre&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Muito bem. Temos aqui um militar esquisito. Admirei Ivan. E, enquanto n&atilde;o<br \/>\n    lhe soube o nome, ele foi, para mim, apenas o tenente que sabia sintaxe. O<br \/>\n    estivador exibiu sem disfarce &oacute;dio seguro aos burgueses, gra&uacute;dos<br \/>\n    e mi&uacute;dos. Todos n&oacute;s que us&aacute;vamos gravata, f&ocirc;ssemos<br \/>\n    embora uns pobres-diabos, &eacute;ramos para ele inimigos. Houve elei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no Coletivo, e l&aacute; nos introduziram, a ele e a mim. Na primeira reuni&atilde;o<br \/>\n    levei cinco propostas. Lida a primeira, Desid&eacute;rio levantou o dedo e<br \/>\n    manifestou-se:<br \/>\n    Besteira. Como?<\/p>\n<p> Estremeci, apertei as m&atilde;os com raiva. Anos atr&aacute;s encolerizava-me<br \/>\n    facilmente, cegava, fazia imenso esfor&ccedil;o para n&atilde;o me perceberem<br \/>\n    a zanga, a viol&ecirc;ncia interior, movimentos dos punhos contra&iacute;dos<br \/>\n    no desespero. Freq&uuml;entemente explodia a f&uacute;ria bestial e desmandava-me<br \/>\n    em desatinos que me enchiam de vergonha. Sentia-me fraco, bicho inferior,<br \/>\n    invejava as pessoas calmas, n&atilde;o conseguia iludir-me com a manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    parva de coragem falsa. &Agrave;s vezes me dominava, recompunha-me, a tremura<br \/>\n    desaparecia, os dedos se estiravam. Sinais de unhas nas palmas suadas, as<br \/>\n    juntas a doer; a respira&ccedil;&atilde;o era um sopro cansado. Naquele dia<br \/>\n    a ira velha, recalcada nos subterr&acirc;neos do esp&iacute;rito, veio &agrave;<br \/>\n    luz e sacudiu-me: desejei torcer o pesco&ccedil;o do insolente. Na surpresa,<br \/>\n    recusei o testemunho dos olhos e dos ouvidos. Ter-me-iam dito a palavra rude?<br \/>\n    Estaria a censurar-me o bugalho torto e im&oacute;vel, a desviar-se de mim,<br \/>\n    zombeteiro, superiormente fixo na parede, num ponto acima de minha cabe&ccedil;a?<br \/>\n    O rombo sujeito, carregador de sacos, n&atilde;o seria t&atilde;o grosseiro<br \/>\n    com uma pessoa habituada a manejar livros. Devo ter pensado nas conveni&ecirc;ncias<br \/>\n    am&aacute;veis e tolas, nas perf&iacute;dias gentis comuns na livraria e no<br \/>\n    jornal.<\/p>\n<p> Como?<\/p>\n<p> Besteira, confirmou Desid&eacute;rio. Para que serve isso? Para atrapalhar.<br \/>\n    S&oacute; para atrapalhar. O companheiro &eacute; um burocrata e est&aacute;<br \/>\n    querendo meter dificuldades no trabalho.<\/p>\n<p> Essa firmeza brutal esfriou-me a irrita&ccedil;&atilde;o, os escr&uacute;pulos<br \/>\n    vaidosos esmoreceram. Tentei defender-me, escorar-me em raz&otilde;es fracas,<br \/>\n    inutilizadas facilmente pelo estivador. Examinei as outras figuras do Coletivo:<br \/>\n    uma resist&ecirc;ncia muda indicou-me a vantagem de renunciar &agrave; discuss&atilde;o.<br \/>\n    O segundo projeto foi tamb&eacute;m fulminado. O terceiro agradou.<\/p>\n<p> Esse &eacute; bom, disse o vesgo. E impediu-me expor motivos:<br \/>\n    Conversa. A gente est&aacute; vendo que isso &eacute; bom. N&atilde;o vale<br \/>\n    a pena estragar tempo. Vamos adiante.<\/p>\n<p> As duas proposi&ccedil;&otilde;es finais obtiveram recusa un&acirc;nime..<br \/>\n    Essa deplor&aacute;vel estr&eacute;ia varreu-me certas nuvens importunas:<br \/>\n    sempre me excedera em afirma&ccedil;&otilde;es categ&oacute;ricas, mais ou<br \/>\n    me nos v&atilde;s; achava agora uma base para elas. Evidentemente as pessoas<br \/>\n    n&atilde;o diferiam por se arrumarem numa ou noutra classe;. a posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que lhes dava apar&ecirc;ncia de inferioridade ou superioridade.<br \/>\n    Evidentemente. Mas evidentemente porqu&ecirc;? A observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    me dizia o contr&aacute;rio. Homem das brenhas, afeito a ver caboclos sujos,<br \/>\n    famintos, humildes, quase bichos, era arrastado involuntariamente a supor<br \/>\n    uma diversidade essencial entre eles e os patr&otilde;es. O fato material<br \/>\n    se opunha &agrave; id&eacute;ia e isto me descontentava. Uma exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rara, aqui, ali, quebrava a monotonia desgra&ccedil;ada: o enxadeiro largava<br \/>\n    o eito, arranjava empr&eacute;stimo, economizava indecente, curtia fome, embrenhava-se<br \/>\n    em furtos legais, chegava a propriet&aacute;rio e adquiria o pensamento e<br \/>\n    os modos do explorador; a miser&aacute;vel trouxa humana, batida a fac&atilde;o<br \/>\n    e a vergalho de boi, resistente ao governo, &agrave; seca, ao vilip&ecirc;ndio,<br \/>\n    resolvia tomar vergonha, amarrar a cartucheira &agrave; cinta, sair roubando,<br \/>\n    incendiando, matando como besta-fera. Essas discrep&acirc;ncias facilmente<br \/>\n    se dilu&iacute;am no marasmo: era como se os dois ladr&otilde;es, o aceito<br \/>\n    e o r&eacute;probo, houvessem trazido ao mundo a condi&ccedil;&atilde;o inelut&aacute;vel:<br \/>\n    pequenas sali&ecirc;ncias no povo im&oacute;vel, taciturno, resignado. Naquele<br \/>\n    instante a aspereza do estivador me confirmava o ju&iacute;zo. L&aacute; fora<br \/>\n    sem dificuldade me reconheceria num degrau acima dele; sentado na cama estreita,<br \/>\n    rabiscando a l&aacute;pis um peda&ccedil;o de papel, cochichando normas, reduzia-me,<br \/>\n    despojava-me das vantagens acidentais e externas. De nada me serviam molambos<br \/>\n    de conhecimentos apanhados nos livros, talvez at&eacute; isso me impossibilitasse<br \/>\n    reparar na coisa pr&oacute;xima, vis&iacute;vel e palp&aacute;vel. A voz acre<br \/>\n    me ofendera os ouvidos, arrancara-me exclama&ccedil;&otilde;es de espanto,<br \/>\n    abafadas nas preocupa&ccedil;&otilde;es do Coletivo: ningu&eacute;m ali estava<br \/>\n    disposto a lisonjear-me. Aceitei o rev&eacute;s como quem bebe um rem&eacute;dio<br \/>\n    amargo. Afinal a minha opini&atilde;o se confirmava.<\/p>\n<h3>9<\/h3>\n<p>O CAPIT&Atilde;O de nariz comprido esteve conosco dois ou tr&ecirc;s dias.<br \/>\n    Nunca lhe ouvi uma palavra, mas vi-o falar em excesso a grupos pequenos, afirmativo,<br \/>\n    a&ccedil;odado, a examinar os arredores com jeito de conspirador. Sem revelar<br \/>\n    em p&uacute;blico nenhuma opini&atilde;o, estava sempre a sussurrar um cacarejo<br \/>\n    indistinto, passeava na assist&ecirc;ncia minguada os inexpressivos olhos<br \/>\n    de ave, erguia o bico longo, baixava-o, reproduzia movimentos sacudidos de<br \/>\n    galinha a colher gr&atilde;os. Os cochichos permanentes aborreciam-me, os<br \/>\n    gestos amb&iacute;guos, o proceder furtivo, o conluio vis&iacute;vel de meia<br \/>\n    d&uacute;zia de pessoas. Afinal o tipo se sumiu. Na verdade estivera a sumir-se<br \/>\n    constantemente, a esgueirar-se de um cub&iacute;culo para outro. Findos esses<br \/>\n    manejos, bateu as asas na fuga definitiva, nem nos deu tempo de gravar-lhe<br \/>\n    o nome: para mim ficou sendo o capit&atilde;o de nariz comprido<\/p>\n<p> N&atilde;o deixou rastro, mas a sombra dele permaneceu entre n&oacute;s.<br \/>\n    Murm&uacute;rios, inquieta&ccedil;&atilde;o, olhadelas obl&iacute;quas, retalhos<br \/>\n    de frases sibilinas, inexplic&aacute;vel desconfian&ccedil;a a contaminar<br \/>\n    as almas. Foi Lauro Fontoura, um tenentezinho falador e estabanado, quem me<br \/>\n    deu a chave do enigma. Sem conhecer-me direito, prodigalizou-me um dia vasta<br \/>\n    parolagem confusa, misturando assuntos como se o tempo lhe escasseasse para<br \/>\n    orden&aacute;-los e quisesse esgot&aacute;-los depressa. Interrompeu-se no<br \/>\n    meio da arenga e inquiriu de chofre:<\/p>\n<p> Voc&ecirc; n&atilde;o tem receio de conversar comigo? Eu sou da pol&iacute;cia.<\/p>\n<p> Que hist&oacute;ria &eacute; essa? indaguei frio.<\/p>\n<p> Imaginava uma pilh&eacute;ria &agrave;-toa e escapava-me o alcance dela;<br \/>\n    contudo n&atilde;o me achava de nenhum modo curioso. Se o rapaz se tivesse<br \/>\n    calado, esquecer-me-ia facilmente da revela&ccedil;&atilde;o absurda. N&atilde;o<br \/>\n    se calou e s&uacute;bito compreendi que me ia enlear numa s&eacute;rie de<br \/>\n    embrulhos dolorosos. Recebi um choque imprevisto, coisa semelhante a dura<br \/>\n    paulada no cocuruto, passo temer&aacute;rio e queda em vala profunda, jorro<br \/>\n    de luz na treva a encandear-me.<\/p>\n<p> Sou um espi&atilde;o, tornou Lauro Fontoura. &Eacute; o que esses mo&ccedil;os<br \/>\n    espalham por a&iacute;. N&atilde;o lhe disseram? Pois fique sabendo. Um sujeito<br \/>\n    andou cochichando nos cub&iacute;culos e encheu as cabe&ccedil;as desses idiotas.<br \/>\n    Reparou no oficial da venta grande?<\/p>\n<p> Fiz um gesto afirmativo e desviei-me do caso desagrad&aacute;vel. Muito<br \/>\n    desagrad&aacute;vel. Imposs&iacute;vel adivinhar se Lauro Fontoura pertencia<br \/>\n    realmente &agrave; pol&iacute;cia ou se servia de ante paro a maquina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    safadas. Mal-estar, sorrisos murchos endere&ccedil;ados a um tipo nervoso,<br \/>\n    estabanado.<\/p>\n<p> N&atilde;o entendo. N&atilde;o sei aonde o senhor quer chegar. Esse capit&atilde;o<br \/>\n    narigudo&#8230;<\/p>\n<p> &Eacute; claro, respondeu Lauro Fontoura. Voc&ecirc; o conhece? Nem eu.<br \/>\n    Ningu&eacute;m o conhece. N&atilde;o entrou em nenhum barulho. Donde veio?<br \/>\n    Apareceu de repente, semeou brigas e escapuliu-se. Nem sabemos se o exclu&iacute;ram<br \/>\n    do ex&eacute;rcito. Excluir, tinha gra&ccedil;a. Veio aqui desempenhar uma<br \/>\n    tarefa e ser&aacute; promovido.<\/p>\n<p> O mo&ccedil;o vociferou pouco mais ou menos isso, andando agitado, a transbordar<br \/>\n    indigna&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o achando terreno prop&iacute;cio a desabafos,<br \/>\n    retirou-se de humor brusco, deixando-me enojado e perplexo, foi expandir al&eacute;m<br \/>\n    a sua zanga. Lembrei-me da viagem, das suspeitas que a bordo zumbiam sobre<br \/>\n    Van der Linden. Forjavam-se ali perigos inveross&iacute;meis, injusti&ccedil;as<br \/>\n    alargavam-se e a v&iacute;tima afinal vivia num ambiente hostil, percebia<br \/>\n    navalhas nos esp&iacute;ritos, gelo nas fisionomias, isolava-se na multid&atilde;o.<br \/>\n    Agora se acusava sem disfarce, um indiv&iacute;duo sentia os ataques e vinha<br \/>\n    explicar-me a origem deles. Imposs&iacute;vel conjeturar se a explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era verdadeira ou falsa; de qualquer modo o homem se mostrava leviano fazendo<br \/>\n    coment&aacute;rios imprudentes a um desconhecido. Surpreendera-me, logo ao<br \/>\n    chegar, ver S&eacute;rgio, Adolfo Barbosa, alguns outros, fecharem-se: fugiam<br \/>\n    &agrave;s discuss&otilde;es rumorosas e atrapalhadas que nos desgastavam a<br \/>\n    paci&ecirc;ncia, subiam raro ao banho de sol, desertavam a Pra&ccedil;a Vermelha<br \/>\n    &agrave; hora dos discursos. Consideravam-nos trotskistas, ofensa m&aacute;xima<br \/>\n    imput&aacute;vel a qualquer de n&oacute;s. Sem se examinar id&eacute;ia ou<br \/>\n    procedimento conferia-se o lab&eacute;u a torto e a direito, apoiado em motivos<br \/>\n    fr&iacute;volos ou sem nenhum apoio. Difamavam-se os caracteres arredios,<br \/>\n    infensos ao barulho, &agrave;s cantigas, &agrave;s aulas interrompidas, recome&ccedil;adas,<br \/>\n    ao jogo de xadrez; as &iacute;ndoles solit&aacute;rias, propensas &agrave;<br \/>\n    leitura, &agrave; divaga&ccedil;&atilde;o, inspiravam desconfian&ccedil;a.<br \/>\n    As palavras tomavam sentidos novos; vagas, imprecisas, tinham enorme extens&atilde;o;<br \/>\n    aplicadas sem discernimento, produziam equ&iacute;vocos.<\/p>\n<p> Certa vez entretinha-me com S&eacute;rgio a falar sobre o casamento. Pensava<br \/>\n    na minha vida, alinhava os pequenos desgostos infal&iacute;veis na monotonia<br \/>\n    conjugal: atritos inesperados e reconcilia&ccedil;&otilde;es in&uacute;teis;<br \/>\n    corpos deformando-se no resvalar para a velhice; o desleixo, aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de v&eacute;us, todas as precau&ccedil;&otilde;es abandonadas; dois ego&iacute;smos<br \/>\n    a conjugar-se, a ferir-se. Entretanto n&atilde;o nos era poss&iacute;vel suprimir<br \/>\n    a monogamia. Onde achar rem&eacute;dio contra as mesquinharias pingadas na<br \/>\n    rotina como gotas de azeite? Numa sucess&atilde;o de estados monog&acirc;micos,<br \/>\n    talvez. Os norte-americanos estavam certos. Um basbaque nos ouvia atento,<br \/>\n    no fim da conversa intrometeu-se nela:<br \/>\n    Mas isso n&atilde;o &eacute; dial&eacute;tico.<\/p>\n<p> Que diabo vem aqui fazer a dial&eacute;tica? resmungou S&eacute;rgio espantado.<\/p>\n<p> Sei l&aacute;.<\/p>\n<p> Outro dia uma das nossas cavaqueiras foi interrompida quando me embrenhava<br \/>\n    no internacionalismo.<\/p>\n<p> Voc&ecirc; &eacute; trotskista? inquiriu algu&eacute;m.<\/p>\n<p> Eu? Que lembran&ccedil;a! Afirmei que sou internacionalista. Por isso me<br \/>\n    embrulharam. Quem falou em trotskismo? Internacionalismo foi o que eu disse.<\/p>\n<p> &Eacute; a mesma coisa. Est&aacute; bem.<\/p>\n<p> Esses desacordos me deixavam perplexo. Imputavam-me convic&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    diferentes das minhas, e nem me restava meio de explicar-me na algaravia papagueada<br \/>\n    ali: quanto mais tentasse desembara&ccedil;ar-me, dar &agrave;s coisas nomes<br \/>\n    exatos, mas me complicaria. Quase todos se julgavam revolucion&aacute;rios,<br \/>\n    embora cantassem o Hino Nacional e alguns descambassem num patriotismo feroz.<br \/>\n    Ouvindo-os, lembrava-me de Jos&eacute; In&aacute;cio, o beato desejava fuzilar<br \/>\n    ateus.<\/p>\n<p> Onde estaria Jos&eacute; In&aacute;cio? Esconder-se-ia, mais ou menos selvagem,<br \/>\n    num subterr&acirc;neo social, enquanto exp&uacute;nhamos sabedorias convencionais,<br \/>\n    desinteressantes. Necess&aacute;rio ouvir a opini&atilde;o de Jos&eacute;<br \/>\n    In&aacute;cio: provavelmente ele tinha raz&otilde;es para querer suprimir-nos:<br \/>\n    em momentos de aperto fic&aacute;vamos contra ele, materialistas de meia-tigela,<br \/>\n    camada flutuante, sem nenhuma consist&ecirc;ncia: as nossas id&eacute;ias<br \/>\n    n&atilde;o lhe melhoravam a situa&ccedil;&atilde;o desgra&ccedil;ada. Sebasti&atilde;o<br \/>\n    F&eacute;lix realizava sess&otilde;es esp&iacute;ritas. Na verdade essa gente<br \/>\n    me parecia estranha: insatisfeita, desejava imposs&iacute;veis reconstru&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    mergulhando no sonho, restaurando velharias. Devia recolher-me, evitar choques<br \/>\n    in&uacute;teis. Ouvidas as excelentes confer&ecirc;ncias de Rodolfo, limitar-me-ia<br \/>\n    a parolar com duas ou tr&ecirc;s pessoas, encaracolar-me-ia depois. N&atilde;o<br \/>\n    alcan&ccedil;ava desvencilhar-me dos pequenos aborrecimentos. Embora usando<br \/>\n    pijamas e cuecas, viv&iacute;amos em p&uacute;blico, &eacute;ramos obrigados<br \/>\n    a familiarizar-nos com indiv&iacute;duos muito diferentes de n&oacute;s. O<br \/>\n    desleixo na indument&aacute;ria de algum modo nos nivelava. Quinta-feira,<br \/>\n    &agrave; hora das visitas, uma apressada civiliza&ccedil;&atilde;o, de sapato<br \/>\n    e meia, colarinho e gravata, usava modos urbanos, do p&aacute;tio &agrave;<br \/>\n    secretaria. No regresso anulavam-se as distin&ccedil;&otilde;es, a meia nudez<br \/>\n    suprimia as conveni&ecirc;ncias, amortecia o respeito e os homens se tratavam<br \/>\n    com sem-cerim&ocirc;nia pasmosa.<\/p>\n<p> As vezes me dirigia a Rodolfo, a S&eacute;rgio; achava-me &agrave; vontade<br \/>\n    falando a eles, sentava-me numa cama de ferro, expunha d&uacute;vidas, permutava<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es. De repente me via fiscaliza do: um bisbilhoteiro<br \/>\n    empurrara devagar a porta, escorregara manso para junto de n&oacute;s e ali<br \/>\n    estava a espiar, a ouvir. Quando mal me precatava, uma obje&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    irrespond&iacute;vel, estranha ao assunto, alarmava-me. A princ&iacute;pio<br \/>\n    n&atilde;o conjeturei mal&iacute;cia: certamente aquilo significava apenas<br \/>\n    falta de educa&ccedil;&atilde;o e embara&ccedil;o em compreender-nos. Agora<br \/>\n    me entrava na alma o espinho de uma suspeita. Os q&uuml;iproqu&oacute;s repetidos<br \/>\n    n&atilde;o eram talvez casuais: obstinavam-se em modificar-me as id&eacute;ias<br \/>\n    mais claras. Porqu&ecirc;? O rompante de Lauro Fontoura abalou-me: julguei<br \/>\n    evidente haver inimigos entre n&oacute;s.<\/p>\n<p> Enquanto os diss&iacute;dios giravam em tomo da interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma frase, era f&aacute;cil enganar-me, n&atilde;o enxergar neles aleivosia,<br \/>\n    achar nos outros entendimento escasso. A den&uacute;ncia grave, subitamente<br \/>\n    revelada, abriu-me os olhos, for&ccedil;ou-me a considerar atento o meio.<br \/>\n    Os modos arredios do capit&atilde;o de nariz comprido, os intermin&aacute;veis<br \/>\n    concili&aacute;bulos, na aus&ecirc;ncia dele os fuxicos a germinar, depois<br \/>\n    um ataque rijo e o destampat&oacute;rio do acusado jogavam alguma luz sobre<br \/>\n    fatos anteriores, inexplic&aacute;veis, refor&ccedil;avam d&uacute;vidas,<br \/>\n    mostravam a conveni&ecirc;ncia de precaver-me. Pensei na lista de nomes exposta<br \/>\n    na galeria, em tinta azul, na instiga&ccedil;&atilde;o &agrave; greve da fome,<br \/>\n    in&uacute;til e perigosa, na figura aniquilada e sombria de Van der Linden,<br \/>\n    no por&atilde;o do Manaus. Isso me vinha aos peda&ccedil;os e n&atilde;o se<br \/>\n    entrosava bem. Mas quando Pais Barreto chegou, achei-me diante de uma realidade,<br \/>\n    caso concreto, insofism&aacute;vel. Era um rapaz alto, desempenado, falador,<br \/>\n    transbordante. Veio ocupar a c&eacute;lula fronteira &agrave; minha. Vi-o<br \/>\n    dias inteiros curvado sobre pap&eacute;is, escrevendo. Escrevendo informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    &agrave; pol&iacute;cia, cochicharam-me e n&atilde;o disseram em que se baseavam,<br \/>\n    nenhum fato mencionaram. As vezes nem se manifestavam claramente: jogavam<br \/>\n    a mal&iacute;cia de passagem, ofereciam-nos avisos sibilinos:<\/p>\n<p> Cuidado, cuidado. N&atilde;o se abra com certas pessoas. Um olhar de esguelha<br \/>\n    conclu&iacute;a o aviso, indicava o perigo. As insinua&ccedil;&otilde;es venenosas<br \/>\n    produziam efeito: us&aacute;vamos cautela, pouco a pouco nos desvi&aacute;vamos<br \/>\n    da criatura visada. As alus&otilde;es a Pais Barreto n&atilde;o me fizeram<br \/>\n    mossa a princ&iacute;pio. Casos semelhantes tinham-me chegado aos ouvidos,<br \/>\n    era-me imposs&iacute;vel examin&aacute;-los, s&oacute; me restava guardar<br \/>\n    sil&ecirc;ncio e suspender qualquer ju&iacute;zo. As pessoas acirradas no<br \/>\n    ataque procediam de boa-f&eacute;, pareceu-me: o cont&aacute;gio, excessiva<br \/>\n    credulidade e rebaixamento do n&iacute;vel mental as levavam a admitir sem<br \/>\n    exame qualquer observa&ccedil;&atilde;o. Receava deixar-me arrastar, afirmar<br \/>\n    leviandades, alucinar-me a ponto de confundir o barulho de um motor com descarga<br \/>\n    de metralhadora. Esse temor me roia constantemente, e o pior de tudo era n&atilde;o<br \/>\n    saber se j&aacute; me havia contaminado, se iria tamb&eacute;m criar fantasmas,<br \/>\n    ver perigos inexistentes e revoltas absurdas, comportar-me ing&ecirc;nuo como<br \/>\n    crian&ccedil;a. Possivelmente essa incerteza me aconselhou resist&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave;s insinua&ccedil;&otilde;es mal&eacute;volas. Sentia-me enervado,<br \/>\n    propenso a aceitar qualquer boato. Pregui&ccedil;a de refletir. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia,<br \/>\n    afirmei a mim mesmo o contr&aacute;rio do que me diziam: Pais Barreto n&atilde;o<br \/>\n    era traidor. Mas em nada me baseava para assim pensar. De fato n&atilde;o<br \/>\n    pensava, faltavam-me recursos indispens&aacute;veis a uma conclus&atilde;o,<br \/>\n    desconhecia os antecedentes daqueles homens e era for&ccedil;ado a orientar-me<br \/>\n    pelas apar&ecirc;ncias Revoltavam-me as picuinhas, as frases incompletas e<br \/>\n    tendenciosas, o lab&eacute;u jogado a ausentes indefesos. Pis&aacute;vamos<br \/>\n    terreno movedi&ccedil;o e cheio de emboscadas. E n&atilde;o consegu&iacute;amos<br \/>\n    discernir se as acusa&ccedil;&otilde;es tinham fundamento ou n&atilde;o, quais<br \/>\n    os divulgadores sinceramente convencidos e quais os provocadores de suspeita<br \/>\n    e balb&uacute;rdia. Em tal situa&ccedil;&atilde;o invade-nos um mal-estar<br \/>\n    desconhecido c&aacute; fora, vivemos &agrave; espera de amea&ccedil;as indeterminadas<br \/>\n    e, reconhecendo ser imposs&iacute;vel conjur&aacute;-las, n&atilde;o nos resignamos<br \/>\n    a capacitar-nos disto: buscamos isolar-nos na multid&atilde;o, permanecemos<br \/>\n    de sobreaviso, reduzimos o vocabul&aacute;rio e estudamos as caras e os gestos.<br \/>\n    Por assim dizer adquirimos uma segunda natureza Essa contens&atilde;o do esp&iacute;rito<br \/>\n    afinal se mecaniza: jogando xadrez, remoendo as conseq&uuml;&ecirc;ncias de<br \/>\n    um lance arriscado, estamos sem querer a observar os movimentos do parceiro.<br \/>\n    Com certeza ele notar&aacute; isso e nos julgar&aacute; indiscretos, far&aacute;<br \/>\n    conosco o jogo que fazemos com ele Todos se espionam, divulga-se o constrangimento<br \/>\n    o ar se envenena. A recorda&ccedil;&atilde;o de um nariz bicudo persegue-nos,<br \/>\n    a toda hora esperamos v&ecirc;-lo ressurgir, farejando<\/p>\n<h3>10<\/h3>\n<p>RODOLFO CHIOLDI foi chamado &agrave; pol&iacute;cia. Essas ordens peri&oacute;dicas<br \/>\n    me causavam sobressalto e estranheza. A pol&iacute;cia est&aacute;vamos entregues,<br \/>\n    exibia-se a presen&ccedil;a dela em tudo: na zebra dos faxinas, no uniforme<br \/>\n    dos guardas, nas manobras do capit&atilde;o narilongo. O pleonasmo era de<br \/>\n    mau agouro. significava mudan&ccedil;a para lugar pior, e viv&iacute;amos<br \/>\n    inquietos, &agrave; espera dele. Rangia a chave na fechadura, abria-se a grade<br \/>\n    larga do vest&iacute;bulo e fic&aacute;vamos de orelha em p&eacute;, aguardando<br \/>\n    o aviso. As vezes era apenas visita, ida &agrave; secretaria, correspond&ecirc;ncia,<br \/>\n    um presente. Mas o grito medonho nos abalava:<br \/>\n    Pol&iacute;cia.<\/p>\n<p> Olh&aacute;vamos pesarosos a v&iacute;tima, imagin&aacute;vamos compridos<br \/>\n    interrogat&oacute;rios, ind&iacute;cios, provas, testemunhas, acarea&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    um pobre vivente a defender-se &agrave;s cegas, buscando evitar ciladas imprevis&iacute;veis.<br \/>\n    Depoimentos longos partidos, recome&ccedil;ados, peda&ccedil;os de confiss&atilde;o<br \/>\n    arrancados sob tortura. Abracei Rodolfo, apreensivo, em sil&ecirc;ncio, vi-o<br \/>\n    descer a escada, atravessar a Pra&ccedil;a Vermelha, segurando a bagagem,<br \/>\n    vestido numa roupa leve cor de creme. N&atilde;o voltaria, supus: aquilo era<br \/>\n    conseq&uuml;&ecirc;ncia das exposi&ccedil;&otilde;es di&aacute;rias feitas<br \/>\n    no degrau; tinham reconhecido nele com certeza uma responsabilidade nociva<br \/>\n    e afastavam-no dentro em pouco estaria incomunic&aacute;vel, sujeito a vigil&acirc;ncia<br \/>\n    rigorosa. Enganei-me. Voltou no terceiro dia &agrave; noite, conversou comigo<br \/>\n    um instante &agrave; porta do meu cub&iacute;culo. Vinha da Pol&iacute;cia<br \/>\n    Central, bastante apreensivo. Numa inquiri&ccedil;&atilde;o minuciosa, afirmara,<br \/>\n    negara, envolvera-se em fundas incoer&ecirc;ncias, afinal j&aacute; nem sabia<br \/>\n    o que dissera.<\/p>\n<p> Papeles, mais papeles.<\/p>\n<p> Bilhetes ap&oacute;crifos, recados a l&aacute;pis, documentos verdadeiros<br \/>\n    ou falhos em mistura, refer&ecirc;ncias a fatos incompletos refutados aqui,<br \/>\n    aceitos ali, em trapalhada infernal. Ignorando at&eacute; que ponto os carrascos<br \/>\n    est&atilde;o seguros, os padecentes se desnorteiam nessa brincadeira de gato<br \/>\n    com rato, deixam escapar um gesto, uma imprud&ecirc;ncia necess&aacute;ria<br \/>\n    &agrave; clareza do processo. E o embuste avan&ccedil;a, pouco a pouco se<br \/>\n    fabricam as malhas de uma vasta rede, outras pessoas v&ecirc;m complicar-se<br \/>\n    nela, trazer novos subs&iacute;dios ao inqu&eacute;rito.<\/p>\n<p> Depois de lan&ccedil;ada a informa&ccedil;&atilde;o leviana, imposs&iacute;vel<br \/>\n    recuar, e o pior &eacute; serem imprevis&iacute;veis as conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    dela. Aquilo se junta a casos ignorados, estabelece uma rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; percept&iacute;vel a uma das partes em luta. Na verdade n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; luta: &eacute; ca&ccedil;ada cheia de tocaias e mund&eacute;us trai&ccedil;oeiros.<br \/>\n    Agarrado, o infeliz volta-se para um lado e para outro, inutilmente: a declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    estampou-se na folha, sem o emprego de viol&ecirc;ncia f&iacute;sica. Contudo<br \/>\n    as viol&ecirc;ncias est&atilde;o pr&oacute;ximas, e talvez a frase inconveniente<br \/>\n    seja o reflexo de gritos e uivos causados por agulhas a penetrar unhas, ma&ccedil;aricos<br \/>\n    abrasando m&uacute;sculos. N&atilde;o pensamos nisso. A palavra solta entre<br \/>\n    o supl&iacute;cio material e o supl&iacute;cio moral tem semelhan&ccedil;a<br \/>\n    de volunt&aacute;ria, e se prejudicou algu&eacute;m, podemos julg&aacute;-la<br \/>\n    dela&ccedil;&atilde;o. Emergiu de nervos exaustos e carne mo&iacute;da; ao<br \/>\n    sair do pesadelo, o miser&aacute;vel feixe de ru&iacute;nas conjuga uns restos<br \/>\n    de consci&ecirc;ncia e horroriza-se de si mesmo. Teria dito realmente aquilo?<br \/>\n    Jura que n&atilde;o. Mas a frase foi composta, redigida com bastante veneno,<br \/>\n    alguns acusados a ouviram, patenteiam-se logo os penosos efeitos dela. &Eacute;<br \/>\n    um passo definitivo na escarpa lisa onde o sujeito n&atilde;o se det&eacute;m,<br \/>\n    nada encontra a que se agarre. Pisa ali, enrija os tend&otilde;es, busca firmar<br \/>\n    os calcanhares no solo, mas &eacute; obrigado a marchar, a correr, at&eacute;<br \/>\n    chegar ao loda&ccedil;al, l&aacute; embaixo. J&aacute; n&atilde;o inspira<br \/>\n    nenhuma confian&ccedil;a. Se, com desesperado esfor&ccedil;o, em arrecuas<br \/>\n    violentas, d&aacute; alguns passos, consegue chegar-se ao ponto de partida,<br \/>\n    os antigos camaradas o empurram. Est&aacute; de costas voltadas para eles,<br \/>\n    n&atilde;o se equilibra, for&ccedil;am-no a descer, em pouco tempo se acha<br \/>\n    longe. Ningu&eacute;m procura saber se ele tem culpa ou n&atilde;o, se o seu<br \/>\n    organismo era capaz da resist&ecirc;ncia precisa. Tinha obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de resistir. Antes de se arvorar em dirigente, devia balancear as suas for&ccedil;as,<br \/>\n    avaliar se elas eram suficientes para guardar um segredo em qualquer circunst&acirc;ncia.<br \/>\n    Teve a desgra&ccedil;a de ser fraco e isto o inutiliza. &Eacute; um desertor,<br \/>\n    tem de asilar-se no campo inimigo; a&iacute; lhe dar&atilde;o as tarefas mais<br \/>\n    repugnantes.<\/p>\n<p> Isto explica as vagarosas desconfian&ccedil;as e as injusti&ccedil;as profundas<br \/>\n    existentes na cadeia. Imposs&iacute;vel reconhecer todos os que se deixam<br \/>\n    subornar e os que est&atilde;o a caminho disto. Em qualquer parte enxergamos<br \/>\n    tr&acirc;nsfugas. Desviamo-nos precipitadamente das pessoas interessadas em<br \/>\n    fazer-nos comunica&ccedil;&otilde;es misteriosas, ligeiras indiscri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nos causam sobressalto. Porque v&ecirc;m parolar conosco assuntos reservados?<br \/>\n    Em casa, na rua, no bonde, lendo o jornal, uma not&iacute;cia nos enche de<br \/>\n    curiosidade, tentamos imaginar a vida estranha das organiza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ilegais: pequenos grupos deslizando em caminhos desertos; casos discutidos,<br \/>\n    ruminados &agrave; luz da candeia morti&ccedil;a, numa casa de sub&uacute;rbio;<br \/>\n    vigias atentos sufocando receios, sondando a escurid&atilde;o, no frio cortante<br \/>\n    da madrugada, o sono a custo vencido; trabalhos arriscados, terr&iacute;veis<br \/>\n    coragens, a&ccedil;&otilde;es her&oacute;icas e an&ocirc;nimas; justi&ccedil;a<br \/>\n    implac&aacute;vel, a necessidade a impor-se, recalcando sentimentos. Como<br \/>\n    ser&aacute; a linguagem dessas criaturas? Se assist&iacute;ssemos &agrave;s<br \/>\n    suas discuss&otilde;es, provavelmente entender&iacute;amos pouco: escapar-nos-iam<br \/>\n    intuitos embrulhados em palavra t&eacute;cnica. Almas diferentes das vulgares,<br \/>\n    com certeza: amor ao perigo, desprezo ao conforto, nenhuma confian&ccedil;a<br \/>\n    nas verdades oficiais, desd&eacute;m a venturas p&oacute;stumas, fal&ecirc;ncia<br \/>\n    de valores antigos, cria&ccedil;&atilde;o de novos. Medonhas legendas negras<br \/>\n    em paredes nos causam admira&ccedil;&atilde;o a remotas e confusas vidas rom&acirc;nticas;<br \/>\n    fragmentos de conversa murmurados em caf&eacute;s nos acirram a fantasia:<br \/>\n    as cenas devagar supostas ganham verossimilhan&ccedil;a e nitidez. As pessoas<br \/>\n    que se demoraram junto de n&oacute;s cochichando express&otilde;es cabal&iacute;sticas<br \/>\n    aparecem-nos grandes em excesso. De repente nos afastamos do mundo: esquecemos<br \/>\n    o servi&ccedil;o, o estudo, os neg&oacute;cios, e penetramos os bastidores<br \/>\n    da revolu&ccedil;&atilde;o. Vamos informar-nos, ser&aacute; satisfeita a nossa<br \/>\n    longa curiosidade. Percebemos ent&atilde;o, com assombro, que ela j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o existe. N&atilde;o &eacute; indiferen&ccedil;a, &eacute; exatamente<br \/>\n    o contr&aacute;rio: a necessidade imperiosa de n&atilde;o saber; estamos de<br \/>\n    olhos e ouvidos muito bem abertos para fech&aacute;-los &agrave;s mais simples<br \/>\n    inconveni&ecirc;ncias. Se uma delas nos chega, estremecemos e mudamos de assunto;<br \/>\n    se persevera, receamos o interlocutor e arredamo-nos Porque nos veio comunicar<br \/>\n    tais coisas? Foi inepto ou queria sondar-nos, ver at&eacute; onde nos compromet&iacute;amos,<br \/>\n    alinhavar um relat&oacute;rio &agrave; noite, confi&aacute;-lo ao chefe dos<br \/>\n    guardas na manh&atilde; seguinte? De qualquer forma, &eacute; indispens&aacute;vel<br \/>\n    guardarmos reserva. O que antigamente nos seduzia agora &eacute; motivo de<br \/>\n    calafrios. Desconhecemos o nosso valor e evitamos sobrecarregar-nos com pesos<br \/>\n    demasiados. Se passarmos tr&ecirc;s dias sentados, sem comer, sem dormir,<br \/>\n    sujeitos a um interrogat&oacute;rio cheio de circunl&oacute;quios, suspenso,<br \/>\n    recome&ccedil;ado, n&atilde;o nos calaremos, sem d&uacute;vida. E nem e preciso<br \/>\n    usarem conosco rigores de t&eacute;cnica: n&atilde;o ficaremos tr&ecirc;s<br \/>\n    dias pisando em cima de al&ccedil;ap&otilde;es: em menos de uma hora largaremos<br \/>\n    diversas incongru&ecirc;ncias, esvaziar-nos-emos por inteiro, soltaremos a<br \/>\n    frase de relance ouvida, que n&atilde;o compreendemos bem e talvez v&aacute;<br \/>\n    causar a ru&iacute;na de outras pessoas.<\/p>\n<p> Sem pensar nisso, devo ter percebido a consterna&ccedil;&atilde;o de Rodolfo<br \/>\n    ao abra&ccedil;&aacute;-lo &agrave; porta do cub&iacute;culo 35. Uma palavra<br \/>\n    expunha-lhe o tormento, a serenidade habitual desaparecera.<\/p>\n<p> S&atilde;o tremendas essas incertezas. Vemo-nos irrespons&aacute;veis, trope&ccedil;amos,<br \/>\n    ca&iacute;mos, e n&atilde;o nos poderemos levantar; mas o pior &eacute; n&atilde;o<br \/>\n    sabermos se isso aconteceu, ignorarmos as nossas a&ccedil;&otilde;es, sermos<br \/>\n    um joguete das circunst&acirc;ncias. Fizemos acaso a revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    funesta? Desejar&iacute;amos saber isso, esquadrinhamos o interior, debalde;<br \/>\n    olhamos em redor, nenhum ind&iacute;cio no ramerr&atilde;o quotidiano: estamos<br \/>\n    incomunic&aacute;veis e ningu&eacute;m nos diz se mostramos covardia ou bravura.<\/p>\n<p> O meu bom amigo demorou-se alguns dias perplexo, recobrou dificilmente a<br \/>\n    calma. Depois, &agrave;s novas inquiri&ccedil;&otilde;es, notou que se havia<br \/>\n    conservado perfeitamente digno: as suas palavras n&atilde;o causariam dano<br \/>\n    a outros indiv&iacute;duos. Guardei, por&eacute;m, a lembran&ccedil;a daquela<br \/>\n    incerteza agoniada:<\/p>\n<p> Menti demais e j&aacute; nem sei o que disse.<\/p>\n<p> Resist&ecirc;ncia inconsciente, defesa instintiva, imensa teimosia a escorar<br \/>\n    a vontade un&acirc;nime depois a supress&atilde;o da mem&oacute;ria, nenhuma<br \/>\n    resposta &agrave; pergunta ansiosa: Terei pra ticado uma inf&acirc;mia? Admiramos<br \/>\n    a coragem alheia, e nem pensamos que em dif&iacute;cil conjuntura ela pr&oacute;pria<br \/>\n    se ignorou: viu-se numa encruzilhada, marchou, sem saber se andava para a<br \/>\n    direita ou para a esquerda. Ligeiras incongru&ecirc;ncias, um sobressalto,<br \/>\n    algumas s&iacute;labas teriam determinado caminho diverso. E as inevit&aacute;veis<br \/>\n    conseq&uuml;&ecirc;ncias. Imaginei naquela situa&ccedil;&atilde;o e naquela<br \/>\n    ang&uacute;stia algu&eacute;m que houvesse fraquejado no torniquete: Nem sei<br \/>\n    o que disse. Terei cometido inf&acirc;mia? Sim ou n&atilde;o. Como no jogo<br \/>\n    do cara-ou-cunho, a moeda oculta debaixo da palma. S&uacute;bito a descoberta<br \/>\n    medonha sim, e est&aacute; um homem perdido, coberto de opr&oacute;brio, inteiramente<br \/>\n    imposs&iacute;vel a reabilita&ccedil;&atilde;o. Num caso ou noutro, aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de culpa, aus&ecirc;ncia de m&eacute;rito. Pensamos assim. E n&atilde;o evitamos<br \/>\n    o desprezo ou o entusiasmo. Rodolfo cresceu muito aos meus olhos. A energia<br \/>\n    involunt&aacute;ria deu-lhe maior prest&iacute;gio que a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    revelada nos discursos longos.<\/p>\n<h3>11<\/h3>\n<p>QUASE simultaneamente me vieram algumas surpresas. Na manh&atilde; seguinte<br \/>\n    Rodolfo Ghioldi me deu not&iacute;cia de Jorge Amado, com quem se avistara<br \/>\n    na sala de detidos da Pol&iacute;cia Central. Rodolfo me trazia um recado:<br \/>\n    por interm&eacute;dio de Jorge, o editor Jos&eacute; Ol&iacute;mpio me oferecia<br \/>\n    a publica&ccedil;&atilde;o do romance in&eacute;dito e propunha um adiantamento:<br \/>\n    informava-se da import&acirc;ncia necess&aacute;ria e perguntava como deveria<br \/>\n    entreg&aacute;-la.<\/p>\n<p> Em vez de me alegrar, experimentei com essa proposta vivo embara&ccedil;o.<br \/>\n    Apesar de minguarem os recursos, n&atilde;o me achava disposto a contrair<br \/>\n    d&iacute;vidas. N&atilde;o conseguiria desembara&ccedil;ar-me delas, inerte,<br \/>\n    bambo, a invenc&iacute;vel pregui&ccedil;a mental a dominar-me. Um entusiasmo<br \/>\n    de fogo de palha &agrave;s vezes me levava a retirar os pap&eacute;is da valise,<br \/>\n    insinuava-me a esperan&ccedil;a de arrumar observa&ccedil;&otilde;es razo&aacute;veis<br \/>\n    sobre a vida na cadeia, mas o trabalho avan&ccedil;ava lento demais, o jogo<br \/>\n    de xadrez e a vagabundagem nos cub&iacute;culos me absorviam. Era o livro<br \/>\n    dif&iacute;cil, mais de um m&ecirc;s a capengar do quartel do Recife ao chiqueiro<br \/>\n    do Manaus, da&iacute; &agrave; Casa de Deten&ccedil;&atilde;o, que deveria<br \/>\n    negociar, caso me fosse poss&iacute;vel dedicar-me a ele. <\/p>\n<p>A publica&ccedil;&atilde;o do romance me parecia leviandade. Havia nele muito<br \/>\n    defeito, eram precisos cortes e emendas sem conta. Sem falar em mutila&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e enganos infal&iacute;veis, cometidos pela datil&oacute;grafa. Indispens&aacute;vel<br \/>\n    examinar, rever tudo, comparar o original &agrave; c&oacute;pia: Eu nem sabia<br \/>\n    onde paravam essas coisas enterradas em algum buraco de Alagoas; talvez j&aacute;<br \/>\n    nem existissem: uma den&uacute;ncia an&ocirc;nima as teria revelado, jogado<br \/>\n    ao fogo. N&atilde;o me preocupava em demasia a perda, realmente pequena. Se<br \/>\n    o livro se salvasse, ocupar-me-ia mais tarde em corrigi-lo, sobretudo amputar-lhe<br \/>\n    numerosas excresc&ecirc;ncias. Antes disso, consideravam-no objeto de com&eacute;rcio,<br \/>\n    desejavam transform&aacute;-lo em dinheiro. Recruta liter&aacute;rio da prov&iacute;ncia,<br \/>\n    acostumara-me a buscar nele algum valor art&iacute;stico, embora fraco; economicamente<br \/>\n    seria um desastre, como os anteriores, dois naufr&aacute;gios. S&uacute;bito<br \/>\n    me fortaleci um pouco, senti-me dono de uma poss&iacute;vel mercadoria, descoberta<br \/>\n    pelo comprador. Meses atr&aacute;s Jos&eacute; Ol&iacute;mpio me falara da<br \/>\n    edi&ccedil;&atilde;o, em cartas, e eu lhe respondera que ele n&atilde;o venderia<br \/>\n    cem exemplares.<\/p>\n<p> Admirava-me a insist&ecirc;ncia, em momento de persegui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quando o aparecimento da hist&oacute;ria poderia causar preju&iacute;zos e<br \/>\n    aborrecimentos ao livreiro. No &iacute;ntimo agradeci essas boas inten&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    embora as julgasse irrealiz&aacute;veis, pelo menos por enquanto, na dura<br \/>\n    incomunicabilidade. Entrei, por&eacute;m, a verrumar o esp&iacute;rito curioso.<br \/>\n    Se os pap&eacute;is escapassem &agrave; tormenta, quanto valeriam? Qual seria<br \/>\n    a tiragem? Uma ligeira brecha clara abria-se no horizonte nebuloso, as desgra&ccedil;as<br \/>\n    futuras, consideradas certas, dilu&iacute;am-se um pouco. Embalava-me em fr&aacute;geis<br \/>\n    e duvidosas esperan&ccedil;as, quando o chefe dos guardas me berrou o nome,<br \/>\n    ao p&eacute; da escada:<\/p>\n<p> Seu Fulano, um presente.<\/p>\n<p> Cheguei-me ao parapeito do passadi&ccedil;o, vi l&aacute; embaixo o sujeito<br \/>\n    olhando para cima, um pacote na m&atilde;o. Estranhei a comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    repetida:<br \/>\n    Um presente.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; para mim. H&aacute; engano.<\/p>\n<p> O velho examinou o endere&ccedil;o, leu devagar. &Eacute; imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> Desci, intrigado. Um equ&iacute;voco, evidentemente. Nenhuma camaradagem<br \/>\n    no Rio de Janeiro; antigos companheiros de trabalho, conhecimentos superficiais<br \/>\n    no caf&eacute;, na pens&atilde;o escura do Largo da Lapa, tinham-se esva&iacute;do<br \/>\n    na aus&ecirc;ncia de vinte anos. Assim parafusando, tomei o volume, desconfiado;<br \/>\n    l&aacute; estavam no papel de cor as letras bem vis&iacute;veis, gra&uacute;das,<br \/>\n    formando uma linha sinuosa. Aquilo era meu, sem d&uacute;vida.<\/p>\n<p> Bem, muito obrigado.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia pretexto para recusar. Subi, desatei os cord&otilde;es<br \/>\n    do embrulho, um sortimento de peras, ma&ccedil;&atilde;s e uvas espalhou-se<br \/>\n    no colch&atilde;o<\/p>\n<p> Quem diabo se lembrou de mandar-me isto?<\/p>\n<p> Nem um bilhete, nem uma palavra indicativa. Ainda relutava em convencer-me,<br \/>\n    analisava debalde o papel r&oacute;seo, esfor&ccedil;ando-me por identificar<br \/>\n    o remetente, de qualquer modo pessoa que se arriscava. Porqu&ecirc;? Na estupidez<br \/>\n    nacional, fazer aquilo, interessar-se por uma criatura sumariamente condenada,<br \/>\n    revelava imprud&ecirc;ncia. Quem era o imprudente? Nada expl&iacute;cito,<br \/>\n    caracteres irregulares indo para cima, para baixo, curva esquisita, a adelga&ccedil;ar,<br \/>\n    a engrossar, com certeza lan&ccedil;ada por m&atilde;o diversa das ordin&aacute;rias,<br \/>\n    m&atilde;o discrepante. Recordei-me de v&aacute;rias, masculinas, femininas,<br \/>\n    em v&atilde;o. Grafia incaracter&iacute;stica, assexual, de pessoa educada,<br \/>\n    mas de educa&ccedil;&atilde;o estranha. Algu&eacute;m que estivera perto de<br \/>\n    mim, que estava perto e n&atilde;o conseguia manifestar-se, falar, abra&ccedil;ar-me.<br \/>\n    Quem? Amigo indeterminado, enigm&aacute;tica dedica&ccedil;&atilde;o gratuita.<br \/>\n    Sim, gratuita. Observando-me por dentro, virando-me pelo avesso, tentei ver<br \/>\n    se em qualquer circunst&acirc;ncia me tornara merecedor daquilo; e perguntei<br \/>\n    a mim mesmo se me achava capaz de tal delicadeza com outro indiv&iacute;duo.<br \/>\n    Respondi pela negativa. Nada fizera, provavelmente nada faria, n&atilde;o<br \/>\n    me achava inclinado ao altru&iacute;smo, e a exposi&ccedil;&atilde;o colorida<br \/>\n    ma&ccedil;&atilde;s vermelhas, peras douradas, enormes uvas brancas quase<br \/>\n    me ofendia.<\/p>\n<p> &Eacute; necess&aacute;rio viver ali para compreender certas a&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Na exist&ecirc;ncia comum nem atentamos nelas: s&atilde;o pequenos favores<br \/>\n    recebidos, anotados, pagos e logo postos no esquecimento; na pris&atilde;o<br \/>\n    falta-nos meio de compens&aacute;-los, perd&ecirc;-los da mem&oacute;ria,<br \/>\n    sabemos isto, e as pessoas que nos obsequiam nem esperam compensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    vindoura. Quando nos abrirem as portas, chegaremos &agrave; rua machucados,<br \/>\n    bambos, secos, acharemos a vida amarga, cansar-nos-emos facilmente, qualquer<br \/>\n    esfor&ccedil;o nos parecer&aacute; v&atilde;o. Se alguma coisa nos prender,<br \/>\n    ser&atilde;o resqu&iacute;cios dessa estranha solidariedade. Certamente eles<br \/>\n    nos acompanhar&atilde;o sempre.<\/p>\n<p> Quem seria aquele homem, ou aquela mulher? Ter-me-ia visto, falado, ou me<br \/>\n    distinguira ao acaso, folheando as listas da secretaria? Dois espantos sucessivos.<br \/>\n    O livreiro devia reputar-me um desconhecido, pouco mais ou menos. Algumas<br \/>\n    cartas, uma proposi&ccedil;&atilde;o, agora renovada inesperadamente. Mau<br \/>\n    emprego de capital. Romance desagrad&aacute;vel, abafado, ambiente sujo, povoado<br \/>\n    de ratos, cheio de podrid&otilde;es, de lixo. Nenhuma concess&atilde;o ao<br \/>\n    gosto do p&uacute;blico. Solil&oacute;quio doido, enervante. E mal escrito.<br \/>\n    A edi&ccedil;&atilde;o encalharia no dep&oacute;sito, a amarelar, ro&iacute;da<br \/>\n    pelos bichos. N&atilde;o se venderiam cem exemplares; repisei esta convic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quis transmiti-Ia de novo ao editor, antes que ele se arriscasse.<\/p>\n<p> A terceira e &uacute;ltima surpresa me abalou em demasia, arrancou interjei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de raiva, incompreens&iacute;veis e desarrazoadas na opini&atilde;o de Sebasti&atilde;o<br \/>\n    Hora. Tinham-se fechado os cub&iacute;culos, anoitecia, os hinos e as can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    j&aacute; principiavam a mexer-me os nervos, interrompidos pelo cocoroc&oacute;<br \/>\n    do portugu&ecirc;s. Um guarda surgiu &agrave; porta, deu-me uma carta. N&atilde;o<br \/>\n    a recebi, esperei que um dos companheiros a tomasse. Ningu&eacute;m se moveu,<br \/>\n    o funcion&aacute;rio continuou de bra&ccedil;o estirado. Perplexo, tomei o<br \/>\n    envelope. Era realmente para mim, rasguei-o, vi um cart&atilde;o, a fotografia<br \/>\n    dos meus tr&ecirc;s filhos mais novos. Num assombro, olhei as figurinhas distanciadas<br \/>\n    por tantos sucessos imprevistos; devo ter ficado minutos sem nada entender,<br \/>\n    suspenso. Esqueci a presen&ccedil;a de Hora e S&eacute;rgio, num instante<br \/>\n    as crian&ccedil;as me apareceram vivas e fortes: tinham deixado a praia, a<br \/>\n    areia branca de Paju&ccedil;ara, feito longa viagem, transposto diversas grades<br \/>\n    e estavam no cub&iacute;culo 35. Uma delas usava boina, um la&ccedil;o de<br \/>\n    fita ornava os cabelos da segunda; as camisinhas leves deixavam &agrave; mostra<br \/>\n    as pernas afeitas &agrave;s correrias ao sol; ao centro, o garoto carrancudo,<br \/>\n    com jeito de homem. Pouco mais ou menos me achei como um vidente de fantasmas.<br \/>\n    De que jeito me haviam chegado aquelas almas do outro mundo? Se fiz a pergunta,<br \/>\n    n&atilde;o percebi durante algum tempo que a explica&ccedil;&atilde;o se amarfanhava<br \/>\n    entre os meus dedos tr&ecirc;mulos. Recompus-me devagar, procurei debalde<br \/>\n    a carta. Nada. Examinei o sobrescrito. Nem selo nem carimbos do correio: algu&eacute;m<br \/>\n    da minha fam&iacute;lia arriscara-se a meter a m&atilde;o na engrenagem policial<br \/>\n    e deixara na secretaria aqueles retratos, sem nenhuma indica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Quem teria sido o intermedi&aacute;rio? N&atilde;o atinei com amigo ou parente<br \/>\n    capaz de aceitar a incumb&ecirc;ncia. Um viajante animoso viera do nordeste,<br \/>\n    aproximara-se da ratoeira onde fervilh&aacute;vamos, ouv&iacute;amos discuss&otilde;es.<br \/>\n    farrapos de l&iacute;nguas estrangeiras, sambas, hinos e o canto galin&aacute;ceo<br \/>\n    do portugu&ecirc;s. Surdo a esses rumores, alheio &agrave; presen&ccedil;a<br \/>\n    dos companheiros de c&eacute;lula, perdia-me em reflex&otilde;es in&uacute;teis,<br \/>\n    mirando o cart&atilde;o de quinze cent&iacute;metros. N&atilde;o me ocorreu<br \/>\n    observar-lhe o dorso: foi por acaso que o virei.<\/p>\n<p> Distingui dez ou doze linhas a l&aacute;pis, uma data, uma assinatura e<br \/>\n    explodiu a c&oacute;lera bestial:<\/p>\n<p> Que diabo vem fazer no Rio essa criatura?<\/p>\n<p> Era uma quinta-feira, princ&iacute;pio de maio: algumas letras e algarismos<br \/>\n    me trouxeram de relance a no&ccedil;&atilde;o do tempo esquecido. Minha mulher<br \/>\n    chegara e prometia visitar-me na segunda-feira, entre dez e onze horas.<\/p>\n<p> Que estupidez!<\/p>\n<p> Percebi no aviso a amea&ccedil;a de aborrecimentos e complica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inevit&aacute;veis. Imaginei-a pobre, desarmada e fraca, a mexer-se &agrave;<br \/>\n    toa na cidade grande, a complicar-se no aparelho burocr&aacute;tico, enervando-se<br \/>\n    nas antec&acirc;maras das reparti&ccedil;&otilde;es, mal se orientando nas<br \/>\n    ruas estranhas, fiscalizada por investigadores. Nada me seria poss&iacute;vel<br \/>\n    dar-lhe. E dela me chegariam decerto preocupa&ccedil;&otilde;es insol&uacute;veis,<br \/>\n    novas cargas de embara&ccedil;os. Alarmava-me sobretudo o esgotamento dos<br \/>\n    recursos guardados no porta-n&iacute;queis. As vezes retirava as notas escondidas<br \/>\n    no compartimento mais secreto, desamassava-as, contava-as, recontava-as e<br \/>\n    nessas opera&ccedil;&otilde;es assustava-me com freq&uuml;&ecirc;ncia a falta<br \/>\n    de alguns mil-r&eacute;is. Dois meses de cadeia. Sem a &uacute;ltima linha<br \/>\n    escrita no verso da fotografia, esse tempo, decorrido em ambientes diversos,<br \/>\n    numerosos imprevistos a cort&aacute;-lo, parecer-me-ia talvez mais longo.<br \/>\n    Realmente n&atilde;o me fixava nele, a adapta&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida<br \/>\n    a qualquer meio fazia suport&aacute;vel a vida na Pra&ccedil;a Vermelha e<br \/>\n    nos cub&iacute;culos. Na rotina, as coisas desagrad&aacute;veis can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    repisadas, mordeduras de percevejos, o grito do portugu&ecirc;s diminu&iacute;am,<br \/>\n    talvez acabasse por insensibilizar-me a elas. Quando me afastassem dali, afligir-me-ia<br \/>\n    a aus&ecirc;ncia de alguns companheiros. De fato receava ser afastado; qualquer<br \/>\n    movimento anormal, chegada ou sa&iacute;da, me fazia pensar em viagens imprevistas<br \/>\n    para c&aacute;, para l&aacute;, envoltas em mist&eacute;rio, imposs&iacute;vel<br \/>\n    adivinhar quantos dias, meses, anos, me separavam da liberdade; e realmente<br \/>\n    a id&eacute;ia de ser posto na rua, sem armas, sem defesa, me causava arrepios.<br \/>\n    Medonho confessar isto: chegamos a temer a responsabilidade e o movimento,<br \/>\n    enervamo-nos a arrastar no espa&ccedil;o ex&iacute;guo os membros pesados.<br \/>\n    Bambos, fracos, n&atilde;o nos ag&uuml;entar&iacute;amos l&aacute; fora; a<br \/>\n    menor desgra&ccedil;a &eacute; continuarmos presos, inertes, descomedindo-nos<br \/>\n    em longos bocejos. Arrisco-me a falar no plural, mas na verdade ignoro se<br \/>\n    os outros se achavam tamb&eacute;m ociosos, designando-se &agrave; imobilidade<br \/>\n    e &agrave; sombra dos cub&iacute;culos. Provavelmente n&atilde;o. Pesavam<br \/>\n    sobre mim condi&ccedil;&otilde;es particulares. O horror ao trabalho ins&iacute;pido,<br \/>\n    mec&acirc;nico, &agrave;s miudezas burocr&aacute;ticas. Dorm&ecirc;ncia na<br \/>\n    perna, efeito do bisturi no hospital, a coxa e o p&eacute; da barriga insens&iacute;veis<br \/>\n    a belisc&otilde;es e alfinetadas. E havia tamb&eacute;m aquele desalento,<br \/>\n    a enerva&ccedil;&atilde;o na carne e na alma, depois que, surdo ao aviso do<br \/>\n    faxina, me acostumara a beber diariamente dois canecos do caf&eacute; adocicado<br \/>\n    e enjoativo, com saibo de formiga. Ru&iacute;na f&iacute;sica e moral, aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de energia e de membros. Em semelhante situa&ccedil;&atilde;o, a chegada imprevista<br \/>\n    de minha mulher me concentrava as &uacute;ltimas for&ccedil;as do organismo<br \/>\n    d&eacute;bil e a viol&ecirc;ncia transbordava:<\/p>\n<p> Que estupidez!<\/p>\n<p> Achava-me in&uacute;til: n&atilde;o serviria para nada &agrave; criatura.<br \/>\n    Para nada, para nada. Movia-me talvez menos a certeza de n&atilde;o poder<br \/>\n    auxili&aacute;-la nas dificuldades e trope&ccedil;os que o desaparecimento<br \/>\n    inexplic&aacute;vel dos desejos sexuais. Para nada, para nada. Repetia esta<br \/>\n    convic&ccedil;&atilde;o obtusa. Nenhuma recorda&ccedil;&atilde;o am&aacute;vel.<br \/>\n    Lembran&ccedil;a de contas, ign&oacute;bil sujei&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    ladroeira legal, covardia.<\/p>\n<p> Estupidez.<\/p>\n<p> E a mesa de opera&ccedil;&otilde;es, o escalpelo, um m&eacute;dico indiferente<br \/>\n    a dizer: N&atilde;o adianta. Vamos fechar isto. Um p&aacute;reo entre Clemente<br \/>\n    Magalh&atilde;es e dr. Jos&eacute; Carneiro. Morrer&aacute;, viver&aacute;?<br \/>\n    Clemente afirmava, dr. Jos&eacute; Carneiro negava, queria, chateado, coser<br \/>\n    aquilo e mandar-me logo para o necrot&eacute;rio. Afr&acirc;nio Jorge me segurava<br \/>\n    a cabe&ccedil;a e n&atilde;o consentia o homic&iacute;dio.<\/p>\n<p> Porque n&atilde;o cortam logo isto, dr. Afr&acirc;nio? Porque me rasgam<br \/>\n    &agrave; unha?<\/p>\n<p> &Eacute; que a art&eacute;ria femural est&aacute; descoberta, meu filho.<br \/>\n    Se metessem o canivete, voc&ecirc; era um homem perdido. Horr&iacute;vel saber<br \/>\n    anatomia. Se Afr&acirc;nio n&atilde;o me tivesse dito aquilo, deixar-me-ia<br \/>\n    tranq&uuml;ilamente operar, morreria ou viveria, confiado na ci&ecirc;ncia.<br \/>\n    N&atilde;o morrera. Dr. Jos&eacute; Carneiro fora pago, indevidamente, na<br \/>\n    minha opini&atilde;o. Quarenta dias numa cama, um tubo de borracha atravessando-me<br \/>\n    o ventre, o cora&ccedil;&atilde;o fatigado a subir, a descer, padre Jos&eacute;<br \/>\n    Leite velando, oferecendo-me livros, contando, para entreter-me, hist&oacute;rias<br \/>\n    de Rodrigo B&oacute;rgia. Colapso de uma hora. O cora&ccedil;&atilde;o velho<br \/>\n    ia aquietar-se, dias longos de n&eacute;voa, M&aacute;rio Marroquim a discutir<br \/>\n    pol&iacute;tica, s&oacute;. Minhas primas Alena e Lica sussurravam. Alena<br \/>\n    me estendia o bra&ccedil;o:<br \/>\n    Tome.<\/p>\n<p> Agradecido.<\/p>\n<p> Tome Doente n&atilde;o tem vontade. Bem.<\/p>\n<p> Recebia a x&iacute;cara e bebia, sens&iacute;vel &agrave; brutalidade generosa.<br \/>\n    Um livro em cima do colch&atilde;o, um homem loquaz a fatigar-me, alheio aos<br \/>\n    meus desesperados esfor&ccedil;os para entend&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Sombras, nuvens, escurid&atilde;o, um rel&oacute;gio fanhoso a bater, cochichos,<br \/>\n    o deslizar de vultos amarelos, bichos moles e fosforescentes enroscando-se.<br \/>\n    Era o que me vinha ao pensamento. Desagrega&ccedil;&atilde;o, um tubo de borracha<br \/>\n    furando-me as entranhas. A dorzinha no lugar da opera&ccedil;&atilde;o, o<br \/>\n    torpor na coxa faziam-me ouvir de novo as pancadas do rel&oacute;gio, gritos<br \/>\n    e gemidos na enfermaria dos indigentes, tinir de ferros na autoclave. Depois<br \/>\n    a convalescen&ccedil;a, a vida estreita, a composi&ccedil;&atilde;o de um<br \/>\n    romance na sacristia de uma igreja do interior. A garota que ali estava no<br \/>\n    cart&atilde;o, de pernas &agrave; mostra e fita no cabelo, nascera quando<br \/>\n    se findava essa hist&oacute;ria rude e agreste. Dois filhos g&ecirc;meos uma<br \/>\n    crian&ccedil;a viva, de olhos claros, e um fazendeiro rijo, assassino e ladr&atilde;o.<br \/>\n    Rememorar isso n&atilde;o me dava prazer. Exist&ecirc;ncia v&atilde;, fastidiosa,<br \/>\n    canseiras, eternas desaven&ccedil;as conjugais, absurdas e inevit&aacute;veis.<br \/>\n    Regressar &agrave;quilo, afundar outra vez na &aacute;gua espessa, amarga.<\/p>\n<p> Que estupidez!<\/p>\n<p> A frase repetida me agravava o desalento. Os hinos e can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    esmoreceram, morreram, o sil&ecirc;ncio caiu, perturbado pela marcha regular<br \/>\n    do guarda na plataforma. S&eacute;rgio desviou-se de mim. discreto, alongou-se<br \/>\n    na cama e adormeceu logo. Sebasti&atilde;o Hora observava-me curioso a agita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Exibi a fotografia, indiquei o aviso a l&aacute;pis:<\/p>\n<p> Que diabo vem fazer aqui essa mulher?<\/p>\n<p> Hora arregalou os olhos, num assombro: eu devia estar satisfeito, sem d&uacute;vida.<br \/>\n    Resmunguei uma tentativa de explica&ccedil;&atilde;o, desisti: n&atilde;o<br \/>\n    me compreenderia, naquele momento com certeza pensava horrores de mim. Ego&iacute;sta,<br \/>\n    ingrato, id&eacute;ias deste g&ecirc;nero, pouco mais ou menos. Percebi-lhe<br \/>\n    no rosto uma longa censura e n&atilde;o tentei desculpar-me. Em v&atilde;o<br \/>\n    me irritaria, sem conseguir expressar o desarranjo imenso. Nem eu pr&oacute;prio<br \/>\n    me entendia. E desgostava-me expor aos outros as minhas desgra&ccedil;as interiores.<br \/>\n    ver nas fisionomias tra&ccedil;os de piedade superficial. Encolhi-me, sentado<br \/>\n    na cama, a acender cigarros, verrumando o futuro, revolvendo o passado, numa<br \/>\n    confus&atilde;o. Imposs&iacute;vel dormir.<\/p>\n<h3>12<\/h3>\n<p>SEGUNDA-FEIRA pela manh&atilde; vieram chamar-me &agrave; secretaria. Arranjei-me<br \/>\n    &agrave; pressa e desci, escorreguei entre os magotes que fervilhavam ao r&eacute;s-do-ch&atilde;o,<br \/>\n    transpus o vest&iacute;bulo, achei-me no p&aacute;tio arborizado. Aquela hora<br \/>\n    os pardais se escondiam nas ramagens curtas e mofinas, educadas a tesoura.<br \/>\n    Passei diante da rouparia, vi &agrave; direita a casa onde, no meio de redes<br \/>\n    e malotes, o sujeito de fala turca havia querido for&ccedil;ar-me a adotar<br \/>\n    uma religi&atilde;o. Para ali me encaminharam De longe, num dos bancos largos,<br \/>\n    conhecidos no dia da inquiri&ccedil;&atilde;o enfadonha, bocejada, avistei<br \/>\n    minha mulher a renovar o choro manso, tranq&uuml;ilo, da silenciosa despedida,<br \/>\n    na esta&ccedil;&atilde;o da Great Western. Resolvera-me a censurar a viagem<br \/>\n    precipitada, mencionar embara&ccedil;os e trope&ccedil;os, insinuar a conveni&ecirc;ncia<br \/>\n    de regresso imediato &agrave; prov&iacute;ncia. A raiva e o desatino causados<br \/>\n    pelo s&uacute;bito aviso em alguns dias se haviam decomposto, substitu&iacute;dos<br \/>\n    por uma expectativa ansiosa. Agora temia ofender a criatura: n&atilde;o lhe<br \/>\n    jogaria. a exclama&ccedil;&atilde;o e a pergunta do solil&oacute;quio brutal.<br \/>\n    Um conselho, apenas: era necess&aacute;rio voltar, voltar logo. A presen&ccedil;a<br \/>\n    dela n&atilde;o serviria para nada, esfor&ccedil;ara-me por arranjar meio<br \/>\n    de explicar-lhe isto sem molest&aacute;-la. O pranto silencioso me baralhava<br \/>\n    as id&eacute;ias, consumia a resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Enxerguei ali perto um vulto de homem, esbo&ccedil;aram-se nele vagamente<br \/>\n    as fei&ccedil;&otilde;es de Luccarini. Aproximei-me, numa confus&atilde;o<br \/>\n    vagarosa, a duvidar dos meus olhos, perguntando se era de fato Luccarini que<br \/>\n    se levantava para receber-me, junto a minha mulher, e n&atilde;o achei palavras,<br \/>\n    com certeza fiquei algum tempo a jogar monoss&iacute;labos a um e a outro.<br \/>\n    Sentamo-nos; o princ&iacute;pio da conversa mec&acirc;nica atabalhoou-se.<\/p>\n<p> Por aqui, seu Luccarini?<\/p>\n<p> Esta frase imp&otilde;e-se, mas n&atilde;o me lembro dela, e a resposta<br \/>\n    se obliterou. As l&aacute;grimas f&aacute;ceis desciam leves na brancura sem<br \/>\n    rugas; nenhuma contra&ccedil;&atilde;o indicava esfor&ccedil;o interior; evidentemente<br \/>\n    o diafragma baixava, subia, normal; as gl&acirc;ndulas funcionavam como torneiras<br \/>\n    frouxas.<\/p>\n<p> Que tolice! murmurei aflito com aquele choro bem comportado, isento de solu&ccedil;os.<\/p>\n<p> Os conselhos forjados com vagar atropelaram-se, fugiram, achei-me vazio,<br \/>\n    incapaz de resist&ecirc;ncia, deixando-me colher nas malhas de um embuste<br \/>\n    sentimental, reconciliando-me de chofre, a inutilizar num minuto as apar&ecirc;ncias<br \/>\n    de firmeza compostas em dois meses. &iacute;amos resvalar na familiaridade,<br \/>\n    tentar uma conjuga&ccedil;&atilde;o improv&aacute;vel: estar&iacute;amos em<br \/>\n    breve a semear desgostos na vida chata, a ofender-nos &agrave; toa. Nenhuma<br \/>\n    censura velada, consenso impl&iacute;cito, apenas a observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    chocha:<\/p>\n<p> Que tolice!<\/p>\n<p> As goteiras pouco a pouco estancaram, na umidade brilhou um raio de sol<br \/>\n    p&aacute;lido. Informava-me precipitadamente e recebia peda&ccedil;os de not&iacute;cias,<br \/>\n    de um e de outro lado; n&atilde;o conseguia fixar a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e voltava a indagar. Interessava-me saber como a pobre arranjara meio de viajar<br \/>\n    e surpreendia-me ver Luccarini em companhia dela. Veio a calma, estabeleceu-se<br \/>\n    a palestra regular. A absurda visita de Luccarini me sensibilizava. Coitado.<br \/>\n    Tivera-me forte birra. Impontual no servi&ccedil;o, despropositara comigo<br \/>\n    uma vez, na presen&ccedil;a dos funcion&aacute;rios:<\/p>\n<p> Eu tamb&eacute;m j&aacute; mandei. Mas quando precisava dizer a algu&eacute;m<br \/>\n    isso que o senhor me est&aacute; dizendo, chamava o sujeito de parte e repreendia-o<br \/>\n    em voz baixa.<\/p>\n<p> Desde ent&atilde;o era o primeiro a chegar, o &uacute;ltimo a sair. Sentava-se<br \/>\n    &agrave; banca e n&atilde;o fazia nada. Irritava-me a Pontualidade malandra.<br \/>\n    Se me via na rua, fechava a cara, voltava a cabe&ccedil;a. V&aacute;rios meses<br \/>\n    de aus&ecirc;ncia com os vencimentos integrais haviam-me parecido vantajosos:<br \/>\n    livrava-me por algum tempo daquele trambolho. Finda a licen&ccedil;a, renovara,<br \/>\n    entrara-me no gabinete:<\/p>\n<p> Venho agradecer e ver se pago o favor que lhe devo Leia isto.<\/p>\n<p> Era um relat&oacute;rio em meia folha de papel. De acordo com as observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dele, feitas no Recife, t&iacute;nhamos reorganizado o registro das escolas<br \/>\n    e a estat&iacute;stica. Agora fic&aacute;vamos &agrave;s vezes na reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    at&eacute; meia-noite, eu a pezunhar no meu romance encrencado, Luccarini<br \/>\n    a escriturar fichas, a compor em nanquim, numa letrinha mi&uacute;da, a hist&oacute;ria<br \/>\n    p&uacute;blica das professoras. Sa&iacute;amos quando o guarda nos vinha dizer<br \/>\n    que iam fechar o port&atilde;o do Pal&aacute;cio. Imprevista camaradagem.<br \/>\n    Meses atr&aacute;s eu o julgava um pregui&ccedil;oso, ele me supunha uma besta<br \/>\n    cheia de fuma&ccedil;as, de vaidadezinhas cretinas. Virava-me o rosto, e fazia<br \/>\n    bem. T&iacute;nhamos errado. A intelig&ecirc;ncia e a capacidade de trabalho<br \/>\n    de Luccarini espantavam-me. Para que servia isso? Est&aacute;vamos ali, sentados<br \/>\n    num banco, na Casa de Deten&ccedil;&atilde;o, na capital grande, sem achar<br \/>\n    palavras, ele arrasado, filhos pequenos a amea&ccedil;&aacute;-lo de longe,<br \/>\n    cheios de necessidade, eu a resmungar s&iacute;labas idiotas:<\/p>\n<p> Obrigado, seu Luccarini. Muito obrigado. Para que veio? Ora essa!<\/p>\n<p> Realmente, para que tinha vindo? N&atilde;o poder&iacute;amos reconstituir<br \/>\n    o registro e a estat&iacute;stica. Luccarini se abatia. Os meses de licen&ccedil;a<br \/>\n    n&atilde;o lhe tinham servido, estava arriado e bambo, doente, sempre doente,<br \/>\n    desejando fazer coisas imposs&iacute;veis. A sinusite persistia, necess&aacute;ria<br \/>\n    nova opera&ccedil;&atilde;o. Perdida a confian&ccedil;a nos m&eacute;dicos<br \/>\n    pernambucanos, desesperado apelo aos cirurgi&otilde;es do Rio. No meio de<br \/>\n    atropelos sem conta, as economias e as esperan&ccedil;as a minguar, lembrara-se<br \/>\n    de ver-me, dirigira-se &agrave; pol&iacute;cia. Arriscara-se debalde, mas<br \/>\n    soubera a entrevista de minha mulher naquela segunda-feira pela manh&atilde;,<br \/>\n    fora esper&aacute;-la &agrave; porta da cadeia e conseguira entrar fingindo-se<br \/>\n    meu parente.<\/p>\n<p> Obrigado.<\/p>\n<p> E algumas frases sumidas, a atrapalhar-se, em balb&uacute;rdia. N&atilde;o<br \/>\n    havia jeito de expressar o meu reconhecimento. Preocupava-me ver que ele se<br \/>\n    expusera cometendo uma fraude para chegar ali; isto poderia causar-lhe desgostos.<br \/>\n    Imprud&ecirc;ncia ter vindo.<\/p>\n<p> As palavras de minha mulher abalaram-me. Consumira-me a julg&aacute;-la<br \/>\n    enfrentando obst&aacute;culos invenc&iacute;veis. Mocinha ex&iacute;gua, criada<br \/>\n    em rua modesta de capital vagabunda, com certeza se atarantava na cidade grande,<br \/>\n    encolhia-se muda. Enganei-me. Estancado o pranto leve, enxutos os olhos, fez<br \/>\n    um resumo dos seus atos, na apar&ecirc;ncia convicta de uma aprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que n&atilde;o existia em mim. Ofereci-lhe concord&acirc;ncia t&aacute;cita.<br \/>\n    Que havia de fazer? Tudo aquilo era disparate, mas estava realizado e tornei-me<br \/>\n    c&uacute;mplice dele.<\/p>\n<p> A criatura tinha vendido os m&oacute;veis e o resto, cedera tudo &agrave;s<br \/>\n    cegas e naturalmente se embrulhara. As suas contas andavam sempre numa complica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O dinheiro tinha para ela uma significa&ccedil;&atilde;o muito relativa. Ouvindo-a,<br \/>\n    inteirava-me daquele neg&oacute;cio. Compreendia que est&aacute;vamos pelados,<br \/>\n    reduzidos &agrave; pen&uacute;ria. Bem. N&atilde;o valia a pena discutir.<br \/>\n    As nossas desaven&ccedil;as n&atilde;o tinham base econ&ocirc;mica: a causa<br \/>\n    ordin&aacute;ria delas era um ci&uacute;me desarrazoado que a levava ao furor.<\/p>\n<p> Naquele momento os diss&iacute;dios malucos distanciavam-se, esbatiam-se,<br \/>\n    e as nossas rela&ccedil;&otilde;es se ado&ccedil;avam. Inclinava-me a concordar,<br \/>\n    perceber na mulher energia e resolu&ccedil;&atilde;o, qualidades imprevistas<br \/>\n    a revelar-se na hora dif&iacute;cil. Parecia-me estimar o perigo e o desconforto,<br \/>\n    dava-se bem com as mudan&ccedil;as, o movimento, possu&iacute;a o instinto<br \/>\n    da dire&ccedil;&atilde;o, come&ccedil;ava a gravar na cabe&ccedil;a o mapa<br \/>\n    do Rio, e isto era indel&eacute;vel. Tinha sangue de cigano, provavelmente.<br \/>\n    Essa capacidade estranha de orientar-se, como observei depois, de algum modo<br \/>\n    a aproximava tamb&eacute;m dos ladr&otilde;es. Desconhecida e insignificante,<br \/>\n    iniciara em seu favor um trabalho de aranha, estendendo fios em v&aacute;rias<br \/>\n    dire&ccedil;&otilde;es, e ainda hoje n&atilde;o sei se a impelia o desejo<br \/>\n    de me ser &uacute;til ou o prazer de mexer-se, avan&ccedil;ar, recuar, preparando<br \/>\n    a sua teia. Hospedara-se em casa de uns tios, no M&eacute;ier. Estivera no<br \/>\n    Minist&eacute;rio da Guerra, no Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a, no Pal&aacute;cio<br \/>\n    do Catete, na Chefatura de Pol&iacute;cia, falara a deputados e a generais,<br \/>\n    largava r&aacute;pido a l&iacute;ngua do nordeste e come&ccedil;ava a adotar<br \/>\n    uma g&iacute;ria burocr&aacute;tica singular, enganando-se &agrave;s vezes<br \/>\n    no sentido de algumas express&otilde;es. Estabelecera rapidamente comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com a fam&iacute;lia de Jos&eacute; Lins. Entendera-se com Jos&eacute; Ol&iacute;mpio<br \/>\n    e combinara com ele mandar buscar por via a&eacute;rea uma das c&oacute;pias<br \/>\n    do romance. Aquela hora a papelada estava decerto voando para o Rio.<\/p>\n<p> Essa confirma&ccedil;&atilde;o da proposta que Rodolfo me trouxera da Pol&iacute;cia<br \/>\n    Central, na semana anterior, sobressaltou-me. Era-me indispens&aacute;vel<br \/>\n    rever aquilo, emendar os erros cometidos pela datil&oacute;grafa. E erros<br \/>\n    meus tamb&eacute;m. Temeridade a publica&ccedil;&atilde;o Tencionei contrabandear<br \/>\n    os pap&eacute;is, corrigi-los antes de serem remetidos &agrave; tipografia,<br \/>\n    mas afastei logo a id&eacute;ia. Com a fiscaliza&ccedil;&atilde;o rigorosa,<br \/>\n    n&atilde;o conseguiria receb&ecirc;-los. E se entrassem, n&atilde;o sairiam.<br \/>\n    Agildo Barata e outros andavam sempre a redigir misteriosos resumos das longas<br \/>\n    discuss&otilde;es murmuradas nos fundos do cub&iacute;culos; folhas de alma&ccedil;o<br \/>\n    acumulavam-se. De repente um boato surgia, tomava corpo: iam dar busca ao<br \/>\n    Pavilh&atilde;o. Ignor&aacute;vamos donde vinha a not&iacute;cia, badalada<br \/>\n    com certeza. Afinal a amea&ccedil;a n&atilde;o se realizava: esmorecia, dissipava-se,<br \/>\n    deixando no solo montes de cinza. Trabalho perdido. Quem teria semeado as<br \/>\n    not&iacute;cias alarmantes? Agildo Barata e Sisson n&atilde;o desanimavam,<br \/>\n    escreviam sem cessar. A correspond&ecirc;ncia com pessoas insuspeitas l&aacute;<br \/>\n    fora engordava debaixo dos colch&otilde;es; emagrecia &agrave; hora das visitas:<br \/>\n    cartas e relat&oacute;rios, escondidos em bolsas de mulheres, passavam as<br \/>\n    grades, espalhavam-se em &ocirc;nibus e bondes, chegavam &agrave; C&acirc;mara<br \/>\n    dos Deputados. Nova balela, novo escarc&eacute;u, baldava a mat&eacute;ria<br \/>\n    semanal dessa fadiga sub-rept&iacute;cia: pap&eacute;is queimados, carv&otilde;es<br \/>\n    leves pulverizando-se no ch&atilde;o vermelho. As minhas notas dif&iacute;ceis<br \/>\n    acumulavam-se na valise. N&atilde;o me resolvera a inutiliz&aacute;-las. Pouco<br \/>\n    me importava que as vissem. Indiferen&ccedil;a. Resistira, esperara que as<br \/>\n    viessem descobrir e inutilizar; persistiam, mal escritas, a l&aacute;pis,<br \/>\n    em cima do guarda-vento, narrando a figura burlesca do general, as conversas<br \/>\n    longas de capit&atilde;o Lobo, a asfixia no por&atilde;o do Manaus. Pregui&ccedil;a.<br \/>\n    N&atilde;o me arriscaria a trazer para o cub&iacute;culo, por interm&eacute;dio<br \/>\n    de minha mulher, o romance falho. Embora ele valesse pouco, era-me desagrad&aacute;vel<br \/>\n    perd&ecirc;-lo. O original e a outra c&oacute;pia recomendada existiriam?<br \/>\n    Afinal o romance valia pouco. Ser-me-ia talvez poss&iacute;vel, com dificuldade,<br \/>\n    fazer outro menos ruim. Ali a personagem central estava parada, revolvendo<br \/>\n    casos bestas, in&uacute;teis: um sujeito a aporrinhar-se porque uma f&ecirc;mea<br \/>\n    safada lhe fugia das garras, outro a encher dornas, uma criatura cansada a<br \/>\n    lavar garrafas. Onde me haviam aparecido aquelas duas figuras, um homem triste<br \/>\n    a encher dornas, uma mulher a sacolejar-se em ritmo de ganz&aacute;? Bem.<br \/>\n    Anos antes, quando eu metia preposi&ccedil;&otilde;es em telegramas, consertava<br \/>\n    sintaxe na Imprensa Oficial, via l&aacute; embaixo, sob um telheiro, o indiv&iacute;duo<br \/>\n    magro a mover-se entre pipas, a encher domas, a mulher sacudindo-se, lavando<br \/>\n    garrafas. Perto, montes de lixo e cacos de vidro. Essas coisas se repetiam<br \/>\n    no livro com insist&ecirc;ncia irritante. Inconveni&ecirc;ncia imprimi-las,<br \/>\n    faz&ecirc;-las circular sem as emendas necess&aacute;rias.<\/p>\n<p> Falei do bilhete confiado ao investigador, no carro da Great Western, do<br \/>\n    conto deixado na gaveta no dia da pris&atilde;o. Conforme eu pedira, essa<br \/>\n    hist&oacute;ria capenga fora remetida a Benjamin Garay, que a lan&ccedil;aria<br \/>\n    em jornal de Buenos Aires. H&aacute; uma c&oacute;pia disso?<br \/>\n    Havia.<\/p>\n<p> Bem. D&aacute; essa droga a Jos&eacute; Lins, depois que ela aparecer em<br \/>\n    espanhol. Vamos ver se ele arranja publica&ccedil;&atilde;o numa revista daqui.<br \/>\n    Sempre s&atilde;o alguns cobres.<\/p>\n<p> Arriscava-me. Mais tarde, l&aacute; fora, endireitaria aquela mis&eacute;ria<br \/>\n    e exibi-la-ia de novo. Remo&iacute; a proposta de Jos&eacute; Ol&iacute;mpio.<br \/>\n    O conserto do romance, no futuro, estava exclu&iacute;do, pois ele nunca se<br \/>\n    reeditaria: a convic&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o se venderiam cem exemplares<br \/>\n    cada vez mais se firmava. Preju&iacute;zo certo para o editor. Eu o tinha<br \/>\n    prevenido. Enfim me resignava a aceitar a proposta, os recursos minguavam<br \/>\n    no porta-n&iacute;queis, impeliam-me &agrave; temeridade. Que se havia de<br \/>\n    fazer? Esse acordo se estabeleceu por gestos e monoss&iacute;labos, entre<br \/>\n    assuntos baralhados.<\/p>\n<p> Afastei com enj&ocirc;o as not&iacute;cias de Alagoas. Os meninos gozavam<br \/>\n    sa&uacute;de, o resto n&atilde;o me interessava. Esse encontro me deixou impress&atilde;o<br \/>\n    de balb&uacute;rdia. O choro perturbou-me em excesso, muitas informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    se atrapalharam, dif&iacute;ceis de entender; indispens&aacute;veis as repeti&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Findou a meia hora de visita, o guarda se aproximou. Furtamos ainda alguns<br \/>\n    minutos na despedida. Recomendei a minha mulher que procurasse os editores<br \/>\n    Schmidt e Gast&atilde;o Cruls, recebesse o dinheiro relativo aos direitos<br \/>\n    autorais dos meus dois primeiros romances.<\/p>\n<p> Abra&ccedil;os, novos agradecimentos a Luccarini, coitado. N&atilde;o nos<br \/>\n    tornar&iacute;amos a ver. Pouco depois o infeliz amigo iria acabar-se em pen&uacute;ria,<br \/>\n    como se esperava.<\/p>\n<h3>13<\/h3>\n<p>NAQUELE dia a comida veio muito ruim, de aspecto mais desagrad&aacute;vel<br \/>\n    que o ordin&aacute;rio. No caix&atilde;o, ao p&eacute; da grade, empilhavam-se<br \/>\n    os pratos e o alimento se comprimia formando uma pasta onde se misturavam<br \/>\n    carne, peixe, arroz e batatas esmagadas. Entramos na fila, passo a passo nos<br \/>\n    avizinhamos dos faxinas ocupados na distribui&ccedil;&atilde;o, recebemos<br \/>\n    a b&oacute;ia enjoativa e a sobremesa: uma laranja murcha, uma banana preta,<br \/>\n    meio podre.<\/p>\n<p> Afastei-me, pegando a lou&ccedil;a imunda, a sentir nos dedos gr&atilde;os<br \/>\n    machucados e gordura, subi os degraus de ferro. L&aacute; em cima iria repetir-se<br \/>\n    a dificuldade comum nas refei&ccedil;&otilde;es. A falta de mesa ou cadeira,<br \/>\n    forr&aacute;vamos a cama com jornais guardados para as tochas com que se queimavam<br \/>\n    os percevejos. Evit&aacute;vamos assim o contato da coisa repugnante com as<br \/>\n    cobertas. Mas a imprensa ali era clandestina, s&oacute; tinha livre curso<br \/>\n    &agrave; noite, nos resumos badalados pela R&aacute;dio Libertadora. Minguava<br \/>\n    o papel e, depois da queima dos insetos, proced&iacute;amos como bichos, segurando<br \/>\n    a comida, num embara&ccedil;o horr&iacute;vel.<\/p>\n<p> Naquela tarde, no cub&iacute;culo, antes de lavar as m&atilde;os besuntadas,<br \/>\n    ouvi perto uns gritos finos. Cheguei-me &agrave; porta, vi a pequena dist&acirc;ncia<br \/>\n    Agildo Barata no passadi&ccedil;o, junto aos var&otilde;es do parapeito, formulando<br \/>\n    uma arenga bastante arrepiada. A voz &aacute;lgida n&atilde;o se detinha,<br \/>\n    derramava-se num fio invari&aacute;vel. Escutando-o, &agrave;s vezes me assaltava<br \/>\n    a doida impress&atilde;o de que o regato sonoro deixava de correr, era gelo<br \/>\n    cheio de arestas cortantes, onde se assanhavam aranhas caranguejeiras e outros<br \/>\n    viventes da umidade. Tamb&eacute;m me vinha &agrave; id&eacute;ia um miar<br \/>\n    de gato comedido, vagaroso, a esconder mal as garras. Esses disparates &aacute;gua<br \/>\n    tranq&uuml;ila, gelo, caranguejeiras, gatos associavam-se, emprestando a Agildo<br \/>\n    uma personalidade estranha, complexa em demasia. Agora estava a a alguns metros,<br \/>\n    na plataforma, escorrendo um protesto de maciez aguda. Calou-se o ato surgiu.<br \/>\n    A corrente fluida estancou, exibiram-se os cristais do gelo, os olhos maus<br \/>\n    da caranguejeira e as unhas do gato.<\/p>\n<p> O caso era simples. T&iacute;nhamos em v&atilde;o, por interm&eacute;dio<br \/>\n    do Coletivo, reclamado talheres; surda &agrave; exig&ecirc;ncia, a diretoria<br \/>\n    supunha que nos bastava uma colher. N&atilde;o nos dever&iacute;amos conformar,<br \/>\n    achava Agildo alinhando frases suaves e resolutas. Como as nossas raz&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o tinham produzido efeito, convinha, no parecer dele, adotarmos a<br \/>\n    &uacute;ltima. Finda a exposi&ccedil;&atilde;o curta, jogou o prato cheio<br \/>\n    no pavimento inferior.<\/p>\n<p> Nem tive tempo de pensar. Entrei na c&eacute;lula, apanhei o jantar nojento,<br \/>\n    arremessei-o por cima do parapeito. Mais tarde uma pergunta me verrumou: como<br \/>\n    sucedeu que, tendo sido t&atilde;o r&aacute;pida a minha a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entrar no cub&iacute;culo, apanhar a b&oacute;ia, num instante jogada no andar<br \/>\n    t&eacute;rreo diversas criaturas houvessem feito o mesmo anteriormente? Acompanhei<br \/>\n    durante um minuto a ruidosa manifesta&ccedil;&atilde;o. Figuras ativas apareciam<br \/>\n    nas soleiras; de toda a parte, em cima, embaixo, proj&eacute;teis sa&iacute;am,<br \/>\n    rebentavam com fragor no cimento. Avolumaram-se depressa as ru&iacute;nas;<br \/>\n    houve sil&ecirc;ncio e fiquei longo tempo debru&ccedil;ado &agrave; viga negra<br \/>\n    do parapeito a indagar como o excessivo estrago se tinha realizado e quais<br \/>\n    seriam as conseq&uuml;&ecirc;ncias dele. Estranho cont&aacute;gio: a inesperada<br \/>\n    proposta se erguera, breve, firme, crespa, aceita sem exame, por unanimidade.<\/p>\n<p> Esquisita pessoa, Agildo. Minguado, mirrado. A voz fraca e a escassez de<br \/>\n    m&uacute;sculos tornavam-no impr&oacute;prio ao comando. A sua for&ccedil;a<br \/>\n    era interior. Dizia a palavra necess&aacute;ria, fazia o gesto preciso, na<br \/>\n    hora exata. Economizava id&eacute;ias e movimentos Para utiliz&aacute;-los<br \/>\n    com seguran&ccedil;a; moreno, rosto impass&iacute;vel, tinha uns bon&eacute;s<br \/>\n    de esportista japon&ecirc;s: ligeiro desvio, avan&ccedil;o ou recuo oportuno<br \/>\n    assegurava-lhe a vit&oacute;ria. Preso, dirigira a subleva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do 3 &deg; Regimento, e t&atilde;o bem se comportara que, ap&oacute;s breve<br \/>\n    luta, estava no cassino, vigiando os oficiais legalistas vencidos. Faltava<br \/>\n    um major, e ningu&eacute;m dera pela aus&ecirc;ncia dele: provavelmente sucumbira<br \/>\n    na peleja. S&uacute;bito o desaparecido invadira a sala, gigantesco, chegara-se<br \/>\n    ao carcereiro, uma pistola em cada m&atilde;o. &Agrave;s desvantagens naturais<br \/>\n    Agildo somava ent&atilde;o inconvenientes acess&oacute;rios: apanhavam-no<br \/>\n    de surpresa, sentado, via um sujeito enorme, em p&eacute; diante dele, manejando<br \/>\n    armas. Estou frito, dissera por dentro. E levantara-se para morrer. O colossal<br \/>\n    major, rubro e afobado, largara as duas pistolas em cima de uma banca e expressara-se<br \/>\n    veemente:<\/p>\n<p> Rendo-me. Contra a for&ccedil;a n&atilde;o h&aacute; argumento.<\/p>\n<p> Bem. O convite nos achava predispostos &agrave; bagun&ccedil;a, &agrave;<br \/>\n    desordem. Ningu&eacute;m se lembraria de fazer tal coisa, mas a incita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nos impelia ao ato correspondente aos nossos des&iacute;gnios &iacute;ntimos<br \/>\n    e apresentado como necess&aacute;rio e justo. Na verdade n&atilde;o receb&iacute;amos<br \/>\n    insinua&ccedil;&atilde;o: havia ali uma equival&ecirc;ncia de mando. Espantei-me<br \/>\n    depois, tranq&uuml;ilo e em pleno ju&iacute;zo, da facilidade com que hav&iacute;amos<br \/>\n    obedecido ao homem fraco, isento de apar&ecirc;ncias convenientes. Andava<br \/>\n    entre n&oacute;s, impercept&iacute;vel, mesquinho, e revelava-se de chofre,<br \/>\n    dominador. Porqu&ecirc;? Revolvi os miolos indagando a causa do poder t&atilde;o<br \/>\n    inesperadamente revelado, julguei enxergar uma clareira no fato obscuro. Segundo<br \/>\n    imaginei, Agildo conseguia discernir a alma alheia. Individualmente isso n&atilde;o<br \/>\n    constitui nenhum dom especial. Em conviv&ecirc;ncia prolongada, as caras das<br \/>\n    pessoas, uma ruga, piscadelas, sobressaltos, l&aacute;bios contra&iacute;dos,<br \/>\n    sorrisos, palidez, rubor, ligeiros sinais quase indistintos, conjugam-se,<br \/>\n    combinam-se com situa&ccedil;&otilde;es anteriores, oferecem-nos a instant&acirc;nea<br \/>\n    percep&ccedil;&atilde;o de sentimentos e pensamentos. N&atilde;o se tratava<br \/>\n    disso. Pareceu-me que o sujeitinho moreno e ex&iacute;guo possu&iacute;a a<br \/>\n    qualidade rara de apreender num instante as disposi&ccedil;&otilde;es coletivas;<br \/>\n    rancores indeterminados, esperan&ccedil;as, receios, desejos, comprimidos<br \/>\n    nos subterr&acirc;neos das consci&ecirc;ncias, chegavam-lhe &agrave;s antenas.<br \/>\n    Esse radiotelegrafista recebia estranhas comunica&ccedil;&otilde;es, relacionava-as,<br \/>\n    conclu&iacute;a, marchava direito a um fim desconcertante: ignor&aacute;vamos<br \/>\n    tudo e, surpresos, execut&aacute;vamos ordens, mas isto era t&atilde;o normal.<br \/>\n    t&atilde;o razo&aacute;vel, como se nos dirig&iacute;ssemos pelas nossas cabe&ccedil;as.<br \/>\n    Tudo estava em regra, n&atilde;o nos poder&iacute;amos comportar de outro<br \/>\n    modo. Apenas ningu&eacute;m havia pensado nisso, era preciso algu&eacute;m<br \/>\n    articular vontades bambas e aspira&ccedil;&otilde;es vagas, usar esses elementos<br \/>\n    esparsos e inst&aacute;veis com seguran&ccedil;a. Do material gasto pela ferrugem<br \/>\n    da cadeia sa&iacute;a obra coerente.<\/p>\n<p> Em seguida &agrave;quela explos&atilde;o, ningu&eacute;m mostrou arrepender-se:<br \/>\n    era como se houv&eacute;ssemos realizado um projeto. N&atilde;o ir&iacute;amos,<br \/>\n    por fraqueza, responsabilizar o capit&atilde;o moreno de voz fr&aacute;gil:<br \/>\n    ele apenas descobrira as nossas tend&ecirc;ncias, empregara o meio conveniente<br \/>\n    para transform&aacute;-las em a&ccedil;&atilde;o. Reside nisso talvez o dom&iacute;nio<br \/>\n    que certos indiv&iacute;duos exercem sobre a turba; o seu prest&iacute;gio<br \/>\n    vem da faculdade quase divinat&oacute;ria de conhecer aspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e interesses escondidos, juntar gr&atilde;os de p&oacute;lvora derramados<br \/>\n    nos esp&iacute;ritos, chegar-lhes um f&oacute;sforo em cima. Certo n&atilde;o<br \/>\n    nos mexermos &agrave; toa: o mais longo discurso incendi&aacute;rio, profuso<br \/>\n    de raz&otilde;es, n&atilde;o ressoa c&aacute; dentro e permaneceremos calmos,<br \/>\n    frios; meia d&uacute;zia de palavras curtas nos arrastam.<\/p>\n<p> Debru&ccedil;ado ao parapeito, descuidava-me a observar os faxinas que recolhiam<br \/>\n    destro&ccedil;os no r&eacute;s-do-ch&atilde;o. As vassouras chiavam no cimento,<br \/>\n    os cacos tiniam. Dan&ccedil;avam-me na mente as conseq&uuml;&ecirc;ncias da<br \/>\n    nossa brutalidade. Com certeza nos iriam dar comida em horr&iacute;veis marmitas<br \/>\n    de folha, como as do por&atilde;o do Manaus. Privar-nos-iam das visitas, da<br \/>\n    correspond&ecirc;ncia, do banho de sol. E os estrangeiros seriam os mais lesados;<br \/>\n    transfer&ecirc;ncia de Rodolfo Ghioldi, S&eacute;rgio, Birinyi, Benjamin Snaider<br \/>\n    para as galerias.<\/p>\n<p> Anoiteceu. Fui dormir imaginando castigos e aviltamentos. Nada veio. No<br \/>\n    dia seguinte, &agrave; hora do almo&ccedil;o, a grade se descerrou como se<br \/>\n    o acontecimento da v&eacute;spera n&atilde;o tivesse nenhuma import&acirc;ncia;<br \/>\n    a refei&ccedil;&atilde;o, menos ruim que as habituais, surgiu em lou&ccedil;a<br \/>\n    nova. As colheres velhas e ordin&aacute;rias haviam desaparecido. Junto aos<br \/>\n    sacos de laranjas e bananas percebi uma grande caixa. Abriram-na. E na distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da comida ofereceram-nos talheres decentes.<\/p>\n<h3>14<\/h3>\n<p>POUCO depois de nos haverem chegado os fugitivos do Pedro I, Sisson, Desid&eacute;rio,<br \/>\n    Ivan, presos ao cabo de horas de liberdade prec&aacute;ria, uma estranha personagem<br \/>\n    surgiu no Pavilh&atilde;o. Antecedera-a a grande fama. Organizador de m&eacute;rito<br \/>\n    singular, altamente colocado no Partido Comunista, homem de saber e tato,<br \/>\n    viera do campo; notabilizara-se pela experi&ecirc;ncia conseguida no interior.<br \/>\n    Aliando a teoria &agrave; pratica, subira r&aacute;pido. Um dos mais not&aacute;veis<br \/>\n    influentes na subleva&ccedil;&atilde;o de 1935.<\/p>\n<p> Achava-me desejoso de conhec&ecirc;-lo. Ouvia quase diariamente as palestras<br \/>\n    de Rodolfo, espalhadas em geral sobre toda a Am&eacute;rica do Sul, e interessava-me<br \/>\n    escutar o dirigente nacional: com certeza nos apresentaria o Brasil, bem conhecido<br \/>\n    em lentas observa&ccedil;&otilde;es, nas viagens e fugas arriscadas. Em seguida<br \/>\n    ao panorama, vinham dar-nos o pormenor. Esse indiv&iacute;duo me acirrava<br \/>\n    a curiosidade. Chamava-se Miranda. O verdadeiro nome era Ant&ocirc;nio Maciel<br \/>\n    Bonfim, mas na vida ilegal adotara o pseud&ocirc;nimo, vulgarizado na pris&atilde;o,<br \/>\n    e por ele o conheciam. Veio doente, conseq&uuml;&ecirc;ncia de maus tratos<br \/>\n    recebidos na Pol&iacute;cia Central, e ficou algum tempo na enfermaria, a<br \/>\n    sala &agrave; esquerda, al&eacute;m da grade. Isso desenvolveu a simpatia<br \/>\n    curiosa das c&eacute;lulas e indignou-as: nunca os m&eacute;todos brutais<br \/>\n    da rea&ccedil;&atilde;o, pareceram, invis&iacute;veis e ampliados, t&atilde;o<br \/>\n    b&aacute;rbaros. Ferimentos v&aacute;rios cicatrizavam &agrave; nossa vista<br \/>\n    e n&atilde;o nos sensibilizavam, as pr&oacute;prias v&iacute;timas pareciam<br \/>\n    esquec&ecirc;-los. As torturas infligidas a Miranda, arriado numa cama ali<br \/>\n    perto, conjugavam-se a aventuras e perigos, romantizavam-no, quase o glorificavam.<br \/>\n    T&iacute;nhamos enfim mat&eacute;ria suficiente para um esbo&ccedil;o de her&oacute;i.<\/p>\n<p> Pouco durou a expectativa, correram dois ou tr&ecirc;s dias, e o mist&eacute;rio<br \/>\n    desfez-se: a anunciada figura abandonou o choco e surgiu de repente na Pra&ccedil;a<br \/>\n    Vermelha. Era um rapaz forte, de bonita cabeleira e olhos vivos, alegre, risonho,<br \/>\n    falador. Sem palet&oacute; e sem camisa, exibia no peito e nas costas ind&iacute;cios<br \/>\n    vagos dos tormentos referidos: ligeiras equimoses, tra&ccedil;os azulados<br \/>\n    a custo percept&iacute;veis. Essa exposi&ccedil;&atilde;o me intrigou. S&eacute;rgio<br \/>\n    me dissera que lhe haviam magoado e ensang&uuml;entado os p&eacute;s, mas<br \/>\n    falara meio indiferente, como se aquilo fosse um caso alheio. As unhas de<br \/>\n    Benjamin Snaider tinham ca&iacute;do, nasciam outras: sab&iacute;amos a causa<br \/>\n    e guard&aacute;vamos sil&ecirc;ncio. Assunto realmente desagrad&aacute;vel.<br \/>\n    Ningu&eacute;m se inferiorizava lembrando as viol&ecirc;ncias animais; seria<br \/>\n    absurdo, por&eacute;m, imaginar uma pessoa vangloriar-se com elas. V&iacute;amos<br \/>\n    agora um sujeito alardear os sinais do vilip&ecirc;ndio, t&atilde;o satisfeito<br \/>\n    que supus achar-se entre n&oacute;s um profissional da baz&oacute;fia. Aquela<br \/>\n    impud&ecirc;ncia me revoltou, especialmente por n&atilde;o enxergarmos no<br \/>\n    corpo do homem coisa merecedora de ostenta&ccedil;&atilde;o. Enjoei num instante<br \/>\n    a nossa piedade, f&aacute;cil e imaginosa: estiv&eacute;ramos a conceber supl&iacute;cios<br \/>\n    longos, requintes de malvadez, agulhas penetrando carnes, n&aacute;degas queimadas<br \/>\n    a ma&ccedil;arico, e aparecia-nos uma criatura jovial, buli&ccedil;osa, a<br \/>\n    envaidecer-se de pequenas manchas azuis, tra&ccedil;os insignificantes na<br \/>\n    pele clara.<\/p>\n<p> Aquela ninharia acanalhava os supl&iacute;cios. Desid&eacute;rio tamb&eacute;m<br \/>\n    apresentara no busto nu lanhos vermelhos, vest&iacute;gios do chicote, mas<br \/>\n    n&atilde;o afetava prazer nisto: descobria-se por n&atilde;o ag&uuml;entar<br \/>\n    pano em cima dos ferimentos. O novo companheiro nos insinuava a id&eacute;ia<br \/>\n    de singular exibicionismo. Convenci-me por fim de que isso n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    raro: &agrave; m&iacute;ngua de t&iacute;tulos, revolucion&aacute;rios bisonhos<br \/>\n    chegam a converter as marcas afrontosas em honrarias, equiparam-se provavelmente<br \/>\n    a guerreiros feridos. A princ&iacute;pio essa confus&atilde;o de valores nos<br \/>\n    atordoa, afinal nos habituamos. &Eacute; poss&iacute;vel, afirmaram-me, conseguir-se<br \/>\n    o estigma artificialmente. Comprime-se a pele, em continuados belisc&otilde;es,<br \/>\n    e provoca-se a hemorragia superficial necess&aacute;ria &agrave;s equimoses<br \/>\n    prolongando-se o exerc&iacute;cio, despontam linhas r&oacute;seas, avivam-se,<br \/>\n    estendem-se. cruzam-se numa viva carta geogr&aacute;fica onde se estampam<br \/>\n    os vest&iacute;gios de golpes inexistentes.<\/p>\n<p>A impress&atilde;o que Miranda me deixou persistiu e acentuou-se no correr<br \/>\n    de dias: inconsist&ecirc;ncia, fatuidade, pimpanice. Vivia a mexer-se, a falar<br \/>\n    demais, numa satisfa&ccedil;&atilde;o rui dosa, injustific&aacute;vel. Incr&iacute;vel<br \/>\n    haver ganho fama, inspirado confian&ccedil;a e admira&ccedil;&atilde;o. Com<br \/>\n    o tempo deixei de espantar-me, julguei entrever o mecanismo que impulsiona<br \/>\n    esquisitas celebridades vazias. O louvor de v&aacute;rias formas, em v&aacute;rios<br \/>\n    tons, cargas sucessivas de elogios, impressionam a massa, levam-na a enxergar<br \/>\n    numa personagem a grandeza conveniente. Virtudes escassas aumentam, desenvolvem-se<br \/>\n    at&eacute; o absurdo, os defeitos esmorecem, obliteram-se. Prepara-se desse<br \/>\n    modo uma personagem destinada a figurar como s&iacute;ntese de qualidades<br \/>\n    alheias, voluntariamente ocultas. &Eacute; um cabide onde se penduram os trabalhos<br \/>\n    de um organismo completo; nele se refletem a coragem, a firmeza, o talento,<br \/>\n    a paci&ecirc;ncia dos outros. As a&ccedil;&otilde;es dispersas do conjunto<br \/>\n    agregam-se, tomam corpo, individualizam-se e isto lhes empresta autoridade.<br \/>\n    Supondo enaltecer uma pessoa, estamos na verdade a exaltar o grupo. Em p&uacute;blico,<br \/>\n    medido, pesado, a expor falhas no com&iacute;cio e no jornal, facilmente um<br \/>\n    sujeito desce do pedestal onde o colocaram. Na ilegalidade, envolto em mist&eacute;rio,<br \/>\n    &eacute; poss&iacute;vel ag&uuml;entar-se, esconder insufici&ecirc;ncias,<br \/>\n    cultivar algum m&eacute;rito. O essencial &eacute; desconfiar das lisonjas,<br \/>\n    representar de olhos abertos e com sangue frio o seu papel de s&iacute;mbolo;<br \/>\n    se se atribui valores duvidosos, se se enche de soberba, pode rebentar como<br \/>\n    um pneum&aacute;tico.<\/p>\n<p> Iria provavelmente acontecer isso a Miranda. O seu primeiro discurso, fluxo<br \/>\n    desconexo, me surpreendeu e irritou. Depois das palestras s&eacute;rias de<br \/>\n    Rodolfo, aquilo fazia vergonha, uma palavrice infind&aacute;vel, peca, de<br \/>\n    quando em quando interrompida com uma frase boba, transformada em bord&atilde;o:<br \/>\n    Isto &eacute; muito importante Em v&atilde;o busc&aacute;vamos a import&acirc;ncia,<br \/>\n    e o aviso tinha efeito burlesco. Aus&ecirc;ncia de pensamentos e fatos, erros<br \/>\n    numerosos de sintaxe e de pros&oacute;dia. Essas incorre&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o se deviam apenas &agrave; ignor&acirc;ncia do orador, realmente<br \/>\n    grande. O singular dirigente achava que, para ser um bom revolucion&aacute;rio,<br \/>\n    lhe bastava conhecer o ABC de Bukharin. Solecismos e silabadas tamb&eacute;m<br \/>\n    se originavam de um preconceito infantil em voga naquele tempo: deformando<br \/>\n    per&iacute;odos e sapecando verbos, alguns tipos imaginavam adular o oper&aacute;rio,<br \/>\n    avizinhar-se dele. Sentiam-se &agrave; vontade usando a est&uacute;pida algaravia:<br \/>\n    isto lhes facilitava a arenga e encobria escorregos involunt&aacute;rios,<br \/>\n    impingidos por conta da linguagem convencional. Esnobismo de algum modo semelhante<br \/>\n    ao dos nossos modernistas, v&aacute;rios anos no galarim, a receber enc&ocirc;mios<br \/>\n    deste g&ecirc;nero: Como eles sabem escrever mal!<\/p>\n<p> Miranda sabia dizer tolices com terr&iacute;vel exuber&acirc;ncia. Se lhe<br \/>\n    faltava a express&atilde;o, afirmava a torto e a direito, desprezando o contexto,<br \/>\n    vago e empavonado. Isto &eacute; muito importante. Isso me incomodava e aborrecia<br \/>\n    Pois aquele animal do interior, sertanejo baiano, estava assim vazio, n&atilde;o<br \/>\n    tinha nada para comunicar-nos al&eacute;m da import&acirc;ncia cretina? Larguei<br \/>\n    o discurso antes do fim, outros o abandonaram. Mas a loquacidade rumorosa<br \/>\n    continuou dias e meses, aflitiva.<\/p>\n<p> Adolfo Barbosa tinha deixado o r&eacute;s-do-ch&atilde;o e residia agora<br \/>\n    em cima, no cub&iacute;culo 50, o &uacute;ltimo &agrave; direita, pegado &agrave;<br \/>\n    sala 4 Essa vizinhan&ccedil;a das mulheres o decidira a transferir-se. Instalando-se,<br \/>\n    pusera a cama atr&aacute;s do guarda-vento e, defendido por ele, escavacara<br \/>\n    a parede a faca ou tesoura, persistente, conseguira abrir um buraco no tijolo<br \/>\n    delgado e avistar-se com Valentina. Era uma abertura circular de poucos cent&iacute;metros,<br \/>\n    que pe&ccedil;as de roupa disfar&ccedil;avam, pendentes num prego. No outro<br \/>\n    lado, igual disfarce. Evitava-se a indiscri&ccedil;&atilde;o dos faxinas e<br \/>\n    guardas; enquanto ali vivi, nenhum suspeitou do tr&aacute;fego irregular.<br \/>\n    Algumas pancadas no muro, e afastavam-se as m&aacute;scaras de pano, estabelecia-se<br \/>\n    a cavaqueira. Fui apresentado assim a Valentina, ou antes a peda&ccedil;os<br \/>\n    dela, numa cerim&ocirc;nia bastante rid&iacute;cula o marido, junto a mim,<br \/>\n    indicou-me gastando amabilidades, e atrav&eacute;s do pequeno t&uacute;nel<br \/>\n    enxerguei um olho, brancura de pele, uns bei&ccedil;os muito vermelhos. Esse<br \/>\n    com&eacute;rcio clandestino encheu as horas de Adolfo. P&aacute;lido, feio,<br \/>\n    prognato, isolava-se numa delicadeza excessiva e entregava-se &agrave; leitura.<br \/>\n    Dissidente, considerado trotskista, fugia &agrave;s discuss&otilde;es, aos<br \/>\n    banhos de sol, ao jogo de xadrez, simulava n&atilde;o perceber remoques e<br \/>\n    grosserias. Anteriormente subia com freq&uuml;&ecirc;ncia o parapeito sem<br \/>\n    descal&ccedil;ar os tamancos passava &agrave; janela num pulo &aacute;gil,<br \/>\n    segurava-se aos ferros da grade chamava a companheira e embrenhava-se em disserta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pol&iacute;ticas. J&aacute; n&atilde;o precisava adotar esses dif&iacute;ceis<br \/>\n    exerc&iacute;cios de macaco intelectual. Arredava a cama, dava algumas palmadas<br \/>\n    na cali&ccedil;a, retirava do prego a toalha, agachava-se nos travesseiros<br \/>\n    e ca&iacute;a na prosa. Isso o indenizava de guardar compridos sil&ecirc;ncios,<br \/>\n    ouvir picuinhas de garotos, ver na fila da comida fisionomias hostis. A inimizade<br \/>\n    coletiva n&atilde;o impediu aproveitarem-lhe a inven&ccedil;&atilde;o. Rodolfo<br \/>\n    Ghioldi &agrave;s vezes me atra&iacute;a ao fim do passadi&ccedil;o:<\/p>\n<p> Amigo, pe&ccedil;a ao Adolfo que se retire. Eu preciso falar &agrave; C&aacute;rmen.<\/p>\n<p> Inteirado, o inquilino sumia-se discreto; Rodolfo entrava na c&eacute;lula,<br \/>\n    escondia-se atr&aacute;s do guarda-vento, dava o sinal, instantes depois entretinha-se<br \/>\n    com a mulher num cochicho espanhol. Depressa Miranda invadiu o segredo e o<br \/>\n    cub&iacute;culo. Insinuava-se familiar, chegava ao locut&oacute;rio mi&uacute;do,<br \/>\n    chamava Elisa Berger, desdobrava-se em conceitos num franc&ecirc;s vagabundo.<br \/>\n    Coisas imprecisas, indig&ecirc;ncia interior, o cacoete repisado a substituir<br \/>\n    express&otilde;es inacabadas na l&iacute;ngua estranha: C&#8217;est tr&ecirc;s important.<\/p>\n<p> Conversava tamb&eacute;m com Eneida. Realmente n&atilde;o era conversa,<br \/>\n    era ensino: com autoridade, aprumo e abund&acirc;ncia, desenvolvia teorias<br \/>\n    colhidas no ABC de Bukharin; deixando essas alturas, explicava o meio de se<br \/>\n    aproveitarem na luta as mulheres e as crian&ccedil;as. A&iacute; n&atilde;o<br \/>\n    deixava de afirmar convicto:<\/p>\n<p> Isto &eacute; muito importante.<\/p>\n<p> A imensa frivolidade e a pavonice alegre sumiram-se um dia e julguei de<br \/>\n    relance distinguir o avesso daquela natureza. Era noite, haviam trancado os<br \/>\n    cub&iacute;culos, a R&aacute;dio Libertadora funcionava. De repente, modifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no programa: uma rapariga entrava na sala 4. Dada a not&iacute;cia, o locutor,<br \/>\n    segundo o costume, se animou e exigiu:<\/p>\n<p> Uma salva de palmas &agrave; companheira Fulana.<\/p>\n<p> O entusiasmo vibrou, em conformidade com a exig&ecirc;ncia, acalmou-se,<br \/>\n    resolveu ag&uuml;entar os percevejos e dormir. De repente a voz de Miranda<br \/>\n    se elevou, oferecendo-nos a seguinte informa&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p> Essa novata &eacute; uma que na vida ilegal se chamava&#8230; E atirou-nos a<br \/>\n    alcunha da rec&eacute;m-chegada. Uma interjei&ccedil;&atilde;o de pasmo ecoou.<br \/>\n    Com todos os diabos! Uma criatura cheia de responsabilidade largava tal den&uacute;ncia<br \/>\n    a estranhos, aos faxinas e aos guardas. Sim senhor! Leviano apenas? Afastei<br \/>\n    essa fraca atenuante. As maneiras desagrad&aacute;veis do homem, a desfa&ccedil;atez,<br \/>\n    a exibi&ccedil;&atilde;o dos golpes infamantes, as arengas vazias e palavrosas,<br \/>\n    ligavam-se &agrave; coisa recente, convenciam-me de que n&atilde;o nos ach&aacute;vamos<br \/>\n    diante de um simples charlat&atilde;o. Em quem dever&iacute;amos confiar?<br \/>\n    Felizmente aquele se revelava depressa.<\/p>\n<h3>15<\/h3>\n<p>AS VISITAS de minha mulher durante algum tempo quebraram a monotonia da pris&atilde;o<br \/>\n    e ligaram-me com inesperados la&ccedil;os ao exterior. Uma vez por semana<br \/>\n    trinta minutos nos aproximavam na secretaria. Separados, nos bancos, tentando<br \/>\n    esconder-se em v&atilde;o, casais segredavam. Imposs&iacute;veis as efus&otilde;es<br \/>\n    conjugais. No espa&ccedil;o ex&iacute;guo e no tempo minguado, falavam graves,<br \/>\n    numa aten&ccedil;&atilde;o concentrada, remoendo assuntos para que n&atilde;o<br \/>\n    se perdesse nenhuma palavra. As mulheres funcionavam como agentes de liga&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    traziam not&iacute;cias minuciosas, levavam relat&oacute;rios, cartas, recados.<br \/>\n    Naquela meia hora realizava-se uma presta&ccedil;&atilde;o de contas, liquidavam-se<br \/>\n    tarefas, surgiam outras, das ninharias individuais &agrave;s arrojadas combina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pol&iacute;ticas.<\/p>\n<p> Na cidade estirava-se uma cadeia invis&iacute;vel, da oficina ao quartel<br \/>\n    e ao Congresso. Engenheiros, m&eacute;dicos, advogados, oficiais do ex&eacute;rcito,<br \/>\n    conspiradores antigos de alguma forma comprometidos, relacionavam-se com o<br \/>\n    nosso organismo secreto, recebiam incumb&ecirc;ncias, avan&ccedil;avam no<br \/>\n    desempenho delas, sem arriscar-se muito. De tempos a tempos uma dela&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mensagem duvidosa, bilhete em cifra e um desses era agarrado, vinha mofar<br \/>\n    conosco, &agrave; sombra. Novos elementos se articulavam, na sala cheia de<br \/>\n    m&oacute;veis uma desconhecida aparecia, familiarizava-se; crescia o n&uacute;mero<br \/>\n    das portadoras de informa&ccedil;&otilde;es e pedidos.<\/p>\n<p> As bolsas das mulheres se pejavam. O trabalho invari&aacute;vel das c&eacute;lulas,<br \/>\n    o fruto das longas discuss&otilde;es subterr&acirc;neas, redigidas com vagar,<br \/>\n    cada palavra ruminada ali desaguava, ia l&aacute; fora distribuir-se. Revistas<br \/>\n    improvisadas interceptavam fra&ccedil;&otilde;es da arriscada e numerosa correspond&ecirc;ncia;<br \/>\n    grande parte dissimulava-se nos vestidos, submergia-se na roupa &iacute;ntima<br \/>\n    e escapava. Na rua as incans&aacute;veis intermedi&aacute;rias, fugindo &agrave;<br \/>\n    persegui&ccedil;&atilde;o dos investigadores que farejavam pistas, desdobravam-se<br \/>\n    ativas: iam para aqui, para ali, viravam esquinas, subiam e desciam elevadores,<br \/>\n    entravam em &ocirc;nibus, saltavam, metiam-se em bondes, novamente mudavam,<br \/>\n    ingeriam-se nos cinemas, achavam sempre meio de entrar por uma porta e sair<br \/>\n    por outra. Che ando a casa, podiam examin&aacute;-las com rigor as f&ecirc;meas<br \/>\n    da pol&iacute;cia infiltradas no servi&ccedil;o secreto: os pap&eacute;is<br \/>\n    tinham levado sumi&ccedil;o em v&atilde;os de portas, escadas, apartamentos,<br \/>\n    consult&oacute;rios.<\/p>\n<p> Imposs&iacute;vel avaliar o trabalho dessas lan&ccedil;adeiras de estranha<br \/>\n    m&aacute;quina de costura, bem azeitada, a funcionar sem rumor. Entre elas<br \/>\n    avultava Maria Barata, decidida e r&aacute;pida, olho vivo, palavra f&aacute;cil,<br \/>\n    engenhosa, f&eacute;rtil em expedientes. Percebendo-lhe a agilidade f&iacute;sica<br \/>\n    e mental, pod&iacute;amos esquecer o corpo gordo e moreno, o rosto vermelho,<br \/>\n    brilhante de suor, imagin&aacute;-la delgada e pr&oacute;pria aos movimentos<br \/>\n    excessivos. Tinha feito um casamento razo&aacute;vel, casamento adequado.<br \/>\n    Pessoas resolutas e corajosas, mas eram coragens diferentes: Agildo frio,<br \/>\n    calculista, jogando os seus trunfos seguro, com oportunidade; Maria exuberante<br \/>\n    e explosiva, aceitando provoca&ccedil;&otilde;es e dando a resposta necess&aacute;ria,<br \/>\n    alheia ao perigo, desprezando conseq&uuml;&ecirc;ncias. O marido sutil, a<br \/>\n    enroscar-se na sombra, largando o bote na hora conveniente, el&aacute;stico<br \/>\n    e venenoso; a mulher sempre vis&iacute;vel, a andar firme e direto, a voz<br \/>\n    forte, impelida &agrave;s resolu&ccedil;&otilde;es violentas, numa alegria<br \/>\n    s&atilde;. Entendiam-se &agrave; maravilha.<\/p>\n<p> Todos precisavam entender-se bem. Na meia hora resumida os casais segredavam<br \/>\n    not&iacute;cias e resolu&ccedil;&otilde;es, graves, atentos ao pormenor. A<br \/>\n    entrega dos envelopes exigia prestidigita&ccedil;&atilde;o: ligeiros, diante<br \/>\n    de funcion&aacute;rios, deixavam as mangas dos presos, mergulhavam entre p&aacute;ginas<br \/>\n    de revistas, escondiam-se por baixo de len&ccedil;os pequenos ca&iacute;dos<br \/>\n    no cimento. &Egrave; poss&iacute;vel que os guardas percebessem esses manejos<br \/>\n    e encolhessem os ombros com indiferen&ccedil;a, n&atilde;o sendo obrigados<br \/>\n    a intervir; em alguns achei mais tarde cegueira volunt&aacute;ria e conselhos<br \/>\n    oportunos.<\/p>\n<p> Minha mulher ambientava-se depressa, naqueles encontros semanais estabelecia<br \/>\n    com as outras uma camaradagem barulhenta. Expunha-me not&iacute;cias de ordem<br \/>\n    geral e entrava logo nas informa&ccedil;&otilde;es particulares. Modificava-se<br \/>\n    no meio estranho a filha do reacion&aacute;rio pobre e inconseq&uuml;ente,<br \/>\n    ap&ecirc;ndice da justi&ccedil;a, temente a Deus e ao tribunal. Ignorando<br \/>\n    pol&iacute;tica, alheia &agrave; quest&atilde;o das classes, a devotinha das<br \/>\n    prociss&otilde;es, amiga de escapul&aacute;rios, torcia caminho, solidarizava-se<br \/>\n    com as companheiras e entrava resoluta a colaborar no servi&ccedil;o postal<br \/>\n    clandestino. Sapecava-me observa&ccedil;&otilde;es desanimadoras. O homem<br \/>\n    da rua nos julgava com severidade imensa, aceitava sem exame balelas forjicadas<br \/>\n    sobre os rapazes do 3.&deg; Regimento, ampliava-as, estendia-as; enfim, nos<br \/>\n    considerava a todos uns monstros. A pequena burguesia ainda se arrepiava,<br \/>\n    imaginando os perigos de que se livrara em noite de bombardeio e sangueira,<br \/>\n    e os vencedores lhe surgiam como her&oacute;is, a monopolizar a gratid&atilde;o<br \/>\n    nacional. Um governo corrupto disfar&ccedil;ava as mazelas e restaurava-se,<br \/>\n    coloria-se de novo, expunha-se a luz favor&aacute;vel. Todos os meios de publicidade<br \/>\n    a articular-se contra n&oacute;s, nenhuma defesa. Inteirava-me disso e pensava<br \/>\n    no desvario de sujeitos emperrados no otimismo, a sonhar conspira&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    enormes for&ccedil;as mobilizando-se a nosso favor; lembrava-me do mo&ccedil;o<br \/>\n    que ouvia, no sil&ecirc;ncio da meia-noite, rajadas imposs&iacute;veis de<br \/>\n    metralhadoras. As nossas esperan&ccedil;as cada vez mais se encolhiam; aniquilavam-se<br \/>\n    os interesses acesos pelos acordos sub-rept&iacute;cios.<\/p>\n<p> A minha situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o melhorava nem piorava. Aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de processo, nenhuma testemunha; adiava-se, provavelmente n&atilde;o se realizaria<br \/>\n    o interrogat&oacute;rio longamente esperado. Minha mulher andava pelas reparti&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a inquirir debalde; em falta de esclarecimentos, enviavam-na de um lugar para<br \/>\n    outro. N&atilde;o se descobriam sinais de crimes, mas pelo jeito eles deviam<br \/>\n    existir em qualquer parte; conservar-me-ia longe do mundo at&eacute; que aparecessem.<br \/>\n    Essa reles inoc&ecirc;ncia provis&oacute;ria de nenhum modo me satisfazia.<br \/>\n    No Pavilh&atilde;o achava-me in&uacute;til, olhado com indiferen&ccedil;a,<br \/>\n    talvez com algum desprezo. Recusara-me a fazer uma confer&ecirc;ncia, lan&ccedil;ara<br \/>\n    no Coletivo propostas chochas facilmente arruinadas por Desid&eacute;rio;<br \/>\n    e ausente da massa, declarando-me artes&atilde;o, incapaz de entusiasmos e<br \/>\n    amigo do internacionalismo, sentia fervilharem suspeitas em redor. J&aacute;<br \/>\n    um fan&aacute;tico me havia chamado trotskista. A ordem p&uacute;blica julgava-me<br \/>\n    inofensivo, tanto que nem me afligia com perguntas, mas n&atilde;o re velava<br \/>\n    o intuito de mandar-me embora. N&atilde;o a censurei por isso. Comparando-me<br \/>\n    a outros, a Manuel Leal, ao beato Jos&eacute; In&aacute;cio, admiti que para<br \/>\n    mim havia at&eacute; certa benignidade. N&atilde;o iria lamentar-me, por ser<br \/>\n    de &iacute;ndole avesso a queixas e por enxergar no caso uma relativa justi&ccedil;a.<br \/>\n    Inimigos em chusma atacavam a sociedade, &eacute;ramos cupim no edif&iacute;cio<br \/>\n    burgu&ecirc;s e aplicavam-nos inseticida. A nossa pris&atilde;o constitu&iacute;a<br \/>\n    evid&ecirc;ncia de numerosas amea&ccedil;as &agrave; ordem; atribu&iacute;am-nos<br \/>\n    for&ccedil;a e simulavam combater-nos; na verdade esmagavam-nos. Se nos soltassem,<br \/>\n    ponto final no embuste; o propriet&aacute;rio se indignaria vendo que o tinham<br \/>\n    alarmado sem motivo. Despojava-me de ilus&otilde;es, resignava-me a encolher-me<br \/>\n    nos bastidores, comparsa an&ocirc;nimo e feroz, na opini&atilde;o da plat&eacute;ia<br \/>\n    excitada.<\/p>\n<p> Alheava-me disso e recolhia-me nas insignific&acirc;ncias individuais. Um<br \/>\n    m&ecirc;s antes, de passagem pelo Rio, padre Jos&eacute; Leite perdera alguns<br \/>\n    dias procurando avistar-se comigo; tentara vencer a resist&ecirc;ncia da autoridade<br \/>\n    jurando que eu n&atilde;o era comunista. Essa imprud&ecirc;ncia me comoveu<br \/>\n    e assustou. Se o meu excelente amigo tentasse de novo aproximar-se da ratoeira,<br \/>\n    arriscar-se-ia a ficar nela. O extempor&acirc;neo juramento me surpreendeu.<br \/>\n    Porque se havia comportado assim? Busquei a raz&atilde;o, supus encontr&aacute;-la.<br \/>\n    Padre Jos&eacute; Leite era um m&iacute;stico, uma esp&eacute;cie de santo,<br \/>\n    ligado por inteiro &agrave;s coisas espirituais e eternas. Na pureza completa,<br \/>\n    na bondade anormal, enxergava talvez nos outros as suas qualidades. O mal<br \/>\n    existia, sem d&uacute;vida, mas era abstrato. O comunismo, um fato mau, id&eacute;ia<br \/>\n    m&aacute;, desligava-se dos homens, criaturas de Deus, pelo menos das pessoas<br \/>\n    conhecidas, em que padre Jos&eacute; Leite se espelhava. Achava-me entre esses<br \/>\n    viventes, real e f&iacute;sico, &agrave; espera de um raio de gra&ccedil;a;<br \/>\n    imposs&iacute;vel distinguir em mim um comunista; o meu admir&aacute;vel ref&uacute;gio<br \/>\n    de mis&eacute;rias do hospital firmava-se nesta certeza sem repugn&acirc;ncia.<br \/>\n    Explicava-se o presente misterioso recebido um m&ecirc;s atr&aacute;s. Lembrei-me<br \/>\n    das peras, ma&ccedil;&atilde;s e uvas espalhadas em cima da cama, do endere&ccedil;o<br \/>\n    no papel r&oacute;seo, formando uma curva larga e esquisita: recordei a letra<br \/>\n    incaracter&iacute;stica do meu velho camarada.<\/p>\n<p> Bem. Se ele tornar a aparecer, conv&eacute;m pedir-lhe que n&atilde;o se<br \/>\n    exponha, n&atilde;o se arrisque. N&atilde;o v&ecirc; onde pisa, vive no mundo<br \/>\n    da lua.<\/p>\n<p> Estendia-me em semelhantes recomenda&ccedil;&otilde;es e receava causar<br \/>\n    involuntariamente preju&iacute;zo a algu&eacute;m. Nada me concederiam al&eacute;m<br \/>\n    da licen&ccedil;a contida no passaporte de minha mulher. Um cart&atilde;o<br \/>\n    de vinte cent&iacute;metros, com as iniciais D.E.S.P.S. no alto e em seguida<br \/>\n    estes dizeres: Sr. diretor: o portador do presente, cujo retrato se v&ecirc;<br \/>\n    ao lado, sra. Fulana de Tal, tem autoriza&ccedil;&atilde;o desta Delegacia<br \/>\n    Especial para visitar o sr. Sicrano Uns garranchos ileg&iacute;veis serviam<br \/>\n    de assinatura; &agrave; esquerda, a fotografia de minha mulher, revelando<br \/>\n    que a permiss&atilde;o era intransfer&iacute;vel. Aquilo se utilizava &agrave;s<br \/>\n    sextas-feiras, ao meio-dia; a dire&ccedil;&atilde;o do estabelecimento, ranzinza<br \/>\n    e mesquinha, s&oacute; nos permitia uma conversa de trinta minutos. Escolh&iacute;amos<br \/>\n    os assuntos principais com anteced&ecirc;ncia, busc&aacute;vamos n&atilde;o<br \/>\n    perd&ecirc;-los, mas isso era dif&iacute;cil: esquecia-me de pontos necess&aacute;rios,<br \/>\n    baralhava tudo, punha-me a divagar e a repetir. Uma defici&ecirc;ncia curiosa<br \/>\n    perturbava: fugia-me a significa&ccedil;&atilde;o das not&iacute;cias; esfor&ccedil;ava-me<br \/>\n    por entend&ecirc;-las, algumas pareciam-me inacredit&aacute;veis.<\/p>\n<p> Diversos escritores come&ccedil;avam a interessar-se por mim; exagerando<br \/>\n    padecimentos, declarando-me v&iacute;tima de iniq&uuml;idade, ca&iacute;am<br \/>\n    num sentimentalismo prop&iacute;cio a deforma&ccedil;&otilde;es. Tal vez nunca<br \/>\n    me houvessem lido; isto impedia ju&iacute;zo seguro, favorecia o logro involunt&aacute;rio,<br \/>\n    proporcionava-me um &ecirc;xito f&aacute;cil, imposs&iacute;vel na prov&iacute;ncia<br \/>\n    e na liberdade. Nesse lugar e nessa condi&ccedil;&atilde;o, penso n&atilde;o<br \/>\n    me haver de nenhum modo imposto aos homens da capital; agora tencionavam enxergar-me<br \/>\n    e avolumar-se, acabariam admitindo as pr&oacute;prias fal&aacute;cias e emprestando-me<br \/>\n    valor. Al&eacute;m de ignorar-me a literatura, esses intelectuais n&atilde;o<br \/>\n    me conheciam pessoalmente. O meu &uacute;nico amigo entre eles era Jos&eacute;<br \/>\n    Lins que, em Macei&oacute;, me desenvolvia planos de romance, produzia a jato<br \/>\n    cont&iacute;nuo e passara um m&ecirc;s a ler-me um, dois cap&iacute;tulos<br \/>\n    por dia. Com certeza era Jos&eacute; Lins o m&oacute;vel da propaganda subterr&acirc;nea.<br \/>\n    Sem d&uacute;vida. Enviava-me recados, aludia ao trabalho de pessoas solid&aacute;rias<br \/>\n    comigo, tinha uma singular delicadeza em esquivar-se, responsabilizar os outros.<br \/>\n    Bem. Se n&atilde;o me achasse na cadeia, faltar-me-ia recurso para distinguir-lhe<br \/>\n    essas qualidades. Provavelmente influ&iacute;ra em Jos&eacute; Ol&iacute;mpio.<br \/>\n    Com aqueles gestos imensos, explos&otilde;es cheias de adjetivos excessivos,<br \/>\n    constru&iacute;ra-me uma pequena reputa&ccedil;&atilde;o; antes da minha aventura<br \/>\n    chocha, j&aacute; ele me havia escrito exigindo a remessa de originais e falando-me<br \/>\n    no entusiasmo do editor. Isso n&atilde;o existia, claro. As insinua&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    discretas, as ligeiras esperan&ccedil;as incutidas na sombra indicavam-me<br \/>\n    o autor da maquina&ccedil;&atilde;o. Impossibilitados de usar a imprensa,<br \/>\n    discutiam baixo, escreviam cartas a pol&iacute;ticos, ao Presidente da Rep&uacute;blica.<br \/>\n    Mas o Presidente da Rep&uacute;blica era um prisioneiro como n&oacute;s; puxavam-lhe<br \/>\n    os cord&otilde;es e ele se mexia, t&iacute;tere, paisano movido por generais.<br \/>\n    Forte. L&aacute; fora o viam forte e risonho, achando tudo bom; ali dentro<br \/>\n    o sab&iacute;amos um pobre diabo manejado pela embaixada alem&atilde;, pela<br \/>\n    embaixada italiana, por interm&eacute;dio da chefatura de pol&iacute;cia.<br \/>\n    A mulher do embaixador italiano fazia e desfazia, mandava e desmandava, isto<br \/>\n    era, na verdade, uma col&ocirc;nia bastante dif&iacute;cil. Essa boa vontade<br \/>\n    que principiava a mexer-se na sombra n&atilde;o me afastaria dali, pelo menos<br \/>\n    por enquanto. Sensibilizava-me, contudo, esquecia ressentimentos, evaporavam-se<br \/>\n    &agrave;s vezes os meus furores de misantropia. A convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da pr&oacute;pria insufici&ecirc;ncia em meio hostil pouco a pouco ia minguando.<\/p>\n<p> Continuava ap&aacute;tico e vazio; momentos de otimismo fugaz davam-me,<br \/>\n    entretanto, a esperan&ccedil;a de concluir um dia a lenta reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das folhas pesadas. A c&oacute;pia da hist&oacute;ria nebulosa e medonha chegara<br \/>\n    do nordeste, fora enviada &agrave; tipografia. Os cr&iacute;ticos iriam arrasar-me.<br \/>\n    Ou n&atilde;o arrasariam; o mais certo era n&atilde;o dizerem nada. Os direitos<br \/>\n    relativos a duas edi&ccedil;&otilde;es pequenas dos livros anteriores haviam<br \/>\n    sido pagos. Dinheiro curto, o indispens&aacute;vel aos gastos de minha mulher.<br \/>\n    Respirei. Era-me poss&iacute;vel recusar o adiantamento oferecido pelo editor.<\/p>\n<h3> 16<\/h3>\n<p>DE REPENTE foram suspensas as visitas, findaram as not&iacute;cias e at&eacute;<br \/>\n    as comunica&ccedil;&otilde;es entre n&oacute;s se dificultaram. Isso originou-se<br \/>\n    de um grande barulho em que nos metemos sem nenhuma prepara&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    aquilo veio de surpresa, em condi&ccedil;&otilde;es normais n&atilde;o nos<br \/>\n    ter&iacute;amos comportado assim; contudo, recebemos as conseq&uuml;&ecirc;ncias,<br \/>\n    e nenhum, suponho, deu sinal de arrependimento.<\/p>\n<p> Est&aacute;vamos recolhidos, eram pouco mais ou menos oito horas da noite,<br \/>\n    ouv&iacute;amos a prosa de jornais contrabandeados pelos guardas. Uma das<br \/>\n    tarefas de Malta era debulhar essa literatura inimiga, resumi-Ia, coment&aacute;-la,<br \/>\n    preg&aacute;-la a sab&atilde;o em folha de papel. Antes de irmos para a cama<br \/>\n    escut&aacute;vamos numerosas cal&uacute;nias em linguagem de hidrofobia; a<br \/>\n    liberdade de imprensa funcionava atacando-nos com viol&ecirc;ncia e desespero.<\/p>\n<p> Naquela noite suspendeu-se a leitura e espalhou-se um burburinho nos cub&iacute;culos;<br \/>\n    expectativa, informa&ccedil;&otilde;es desencontradas, afinal soubemos que<br \/>\n    Benigno Fernandes se esva&iacute;a numa hemoptise. Ansiosos, aguardamos provid&ecirc;ncias,<br \/>\n    e ante a hesita&ccedil;&atilde;o dos carcereiros, os primeiros gritos se elevaram<br \/>\n    reclamando. O m&eacute;dico! O m&eacute;dico! Ningu&eacute;m veio. Onde estava<br \/>\n    aquele bandido? A nossa c&oacute;lera subia, agu&ccedil;&aacute;vamos os olhos<br \/>\n    e os ouvidos &agrave; cata de ind&iacute;cios do socorro; perguntas se cruzavam,<br \/>\n    perdiam-se numa grande balb&uacute;rdia; os minutos se passavam, longos, aumentando<br \/>\n    os protestos. L&aacute; embaixo, &agrave; entrada, um rumor de chaves suspendeu<br \/>\n    a ruidosa manifesta&ccedil;&atilde;o; algum tempo ficamos esperando o sujeito.<br \/>\n    Nada. Apenas falas no vest&iacute;bulo, indecisas, portas abrindo-se, fechando-se,<br \/>\n    viagens in&uacute;teis de guardas a atarantar-se. As delongas nos enfureceram,<br \/>\n    a impaci&ecirc;ncia recalcada um instante rebentou de novo. Onde se escondia<br \/>\n    aquele miser&aacute;vel? Depois de meia hora circulou o aviso de que o doutor<br \/>\n    ia chegar. Calamo-nos, permanecemos voltados para o exterior, numa observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apreensiva.<\/p>\n<p> Enfim um tipo surgiu, f&uacute;nebre, de roupa escura, atravessou o r&eacute;s-do-ch&atilde;o,<br \/>\n    galgou a escada e foi examinar a causa do enorme desconchavo. Pouco se demorou:<br \/>\n    reapareceu de cara fechada, a resmungar coisas inintelig&iacute;veis: aborrecia-se<br \/>\n    com certeza de o terem ido incomodar sem raz&atilde;o. Houve um instante de<br \/>\n    perplexidade. Distingui a voz de Agildo. O homem parou; voltando-me para a<br \/>\n    direita, vi-o a pequena dist&acirc;ncia, no passadi&ccedil;o, respondendo<br \/>\n    a um interlocutor invis&iacute;vel. N&atilde;o lhe distingui as palavras,<br \/>\n    o di&aacute;logo breve reduzia-se &agrave; metade, mas esta nos revelou a<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o: o funcion&aacute;rio se retirava deixando o nosso<br \/>\n    companheiro sem nenhuma assist&ecirc;ncia. N&atilde;o havia perigo, tudo em<br \/>\n    ordem a visita r&aacute;pida e bocejada terminava. &Eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que o caso n&atilde;o fosse grave; Benigno precisava repouso; os nossos gritos<br \/>\n    para nada lhe serviam. Mas era horr&iacute;vel permanecermos trancados, imaginando<br \/>\n    uma criatura a sufocar-se ali perto, hemorragia abundante a extingui-la pouco<br \/>\n    a pouco. Se pud&eacute;ssemos ir v&ecirc;-Ia, a expectativa ansiosa diminuiria;<br \/>\n    mexendo-nos, julgar&iacute;amos prestar algum servi&ccedil;o, n&atilde;o ter&iacute;amos<br \/>\n    consci&ecirc;ncia da nossa inutilidade. E diante de uma figura real, p&aacute;lida,<br \/>\n    em sossego, livrar-nos-&iacute;amos das id&eacute;ias l&uacute;gubres que<br \/>\n    nos assaltavam. Necess&aacute;rio agitar-nos, buscar um rem&eacute;dio qualquer;<br \/>\n    a insensibilidade, a tranq&uuml;ila indiferen&ccedil;a, a rotina profissional<br \/>\n    enchiam-nos de horror indignado. A reclama&ccedil;&atilde;o de Agildo chegava-me<br \/>\n    bem clara; as respostas do m&eacute;dico eram apenas um morno zumbido; n&atilde;o<br \/>\n    enxergando o primeiro, distinguindo o outro em p&eacute; junto &agrave; barra<br \/>\n    do passadi&ccedil;o, valia-me da audi&ccedil;&atilde;o e da vista, conjugava<br \/>\n    sons e gestos para traduzir a &aacute;cida conversa.<\/p>\n<p> Isso &eacute; crime! vociferava o militar. N&atilde;o faz nada? O senhor<br \/>\n    &eacute; um monstro. Deixa uma pessoa a perder sangue, &agrave; m&iacute;ngua.<\/p>\n<p> Julguei perceber a r&eacute;plica: os nossos receios eram exagerados e.<br \/>\n    al&eacute;m disso, n&atilde;o estava na hora de fazer exig&ecirc;ncias. Isso<br \/>\n    me arrepiou: o burocrata se mecanizava, cumpria fun&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas,<br \/>\n    entrincheirado no regulamento.<\/p>\n<p> Vai sair? esgani&ccedil;ava-se Agildo. Abandona a criatura esvaindo-se?<br \/>\n    Nem uma inje&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p> A farm&aacute;cia estava fechada, foi a &uacute;ltima desculpa. O senhor<br \/>\n    &eacute; um assassino, bradou o oficial.<\/p>\n<p> Diversas invectivas se seguiram, en&eacute;rgicas, in&uacute;teis. O indiv&iacute;duo,<br \/>\n    impass&iacute;vel, deu as costas, alcan&ccedil;ou o fim da plataforma, desceu<br \/>\n    a escada, sumiu-se. Ranger de chave na porta da frente foi o sinal para um<br \/>\n    charivari louco.<\/p>\n<p> Principiamos a sacudir as grades com desespero. Ajustavam-se mal aos batentes,<br \/>\n    as ling&uuml;etas folgavam nos encaixes; segurando os var&otilde;es de ferro,<br \/>\n    agitando-os, produz&iacute;amos bulha infernal. Poucos se eximiram do cont&aacute;gio,<br \/>\n    suponho, da f&uacute;ria de bichos excitados e impotentes. S&eacute;rgio,<br \/>\n    imune e sem nervos, acompanhou o desenvolvimento da bagun&ccedil;a, esperando<br \/>\n    ensejo para repousar; como isto n&atilde;o viesse, murmurou as boas noites,<br \/>\n    alongou-se na cama, engarfou os dedos no peito magro e dormiu logo. Era exce&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    os outros, pilhas doidas, queriam esgotar-se, acabar-se. Em frente a mim,<br \/>\n    Lacerd&atilde;o exibia viol&ecirc;ncia prof&eacute;tica: ligava-se &agrave;s<br \/>\n    varas, formava corpo com elas; o ingl&ecirc;s erudito de Cambridge desaparecia;<br \/>\n    t&iacute;nhamos ali um feixe de m&uacute;sculos encrespando-se, tentando rebentar<br \/>\n    a pris&atilde;o a carne engrossava, mat&eacute;ria bruta igual ao ferro; a<br \/>\n    barba espessa voava, a boca enorme se escancarava largando insultos indeterminados.<br \/>\n    Isso me atra&iacute;a. As vezes n&atilde;o queremos saber se nos comportamos<br \/>\n    bem ou mal; procedemos assim por n&atilde;o nos ser poss&iacute;vel proceder<br \/>\n    de outra maneira; a viol&ecirc;ncia animal nos impele e domina. Naquele instante,<br \/>\n    m&aacute;quina, pe&ccedil;a de m&aacute;quina, desprezei a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    de S&eacute;rgio; vi-o mi&uacute;do e chinfrim; se ele me alegasse raz&otilde;es,<br \/>\n    apresentar-lhe-ia argumentos vigorosos: m&uacute;sculos rijos, fortaleza alheia,<br \/>\n    conclusivos. Lacerd&atilde;o, seguro &agrave;s traves, alargando a bocarra<br \/>\n    sinistra. Nalgumas c&eacute;lulas os ocupantes se revezavam na balb&uacute;rdia,<br \/>\n    poupando forcas mas n&atilde;o havia descanso: usavam alternadamente os bra&ccedil;os<br \/>\n    ou os pulm&otilde;es; noutras conjugavam-se as viol&ecirc;ncias, todos se<br \/>\n    esfalfavam agitando as grades. aos berros. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia duas<br \/>\n    ou tr&ecirc;s fechaduras rebentaram, e surgiram rebeldes no passadi&ccedil;o<br \/>\n    e no r&eacute;s-do-ch&atilde;o, a animar a desordem As portas avariadas, desengon&ccedil;adas,,<br \/>\n    come&ccedil;aram a bater rijo nos umbrais, faziam depois de abertas um estrondo.<br \/>\n    horr&iacute;vel.<\/p>\n<p> Ignoro o tempo que nos entregamos a esse del&iacute;rio. Enfim talvez j&aacute;<br \/>\n    nem soub&eacute;ssemos a causa dele; tamb&eacute;m n&atilde;o pens&aacute;vamos<br \/>\n    nos efeitos poss&iacute;veis. Instintos livres queriam partir metal. Nos pr&eacute;dios<br \/>\n    vizinhos ningu&eacute;m conseguiria dormir naquela noite. Isto deve ter inspirado<br \/>\n    sentimentos humanos ao diretor; isso e os preju&iacute;zos materiais e morais:<br \/>\n    pe&ccedil;as arruinadas, cub&iacute;culos vazios, a indisciplina a generalizar-se,<br \/>\n    a invadir talvez as galerias pr&oacute;ximas.<\/p>\n<p> S&uacute;bito o motim dos diabos esmoreceu e extinguiu-se no pavimento inferior.<br \/>\n    De cima choveram perguntas, vozes exigiram a suspens&atilde;o do tumulto.<br \/>\n    Informa&ccedil;&otilde;es incompreens&iacute;veis, berros Houve sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    perturbado por um leve rumor que se estendia. Vinham buscar Benigno, a inesperada<br \/>\n    vit&oacute;ria correu depressa no Pavilh&atilde;o.<\/p>\n<p> Naquele momento n&atilde;o me compenetrei dessa vit&oacute;ria: surgiu-me<br \/>\n    como fato casual, sem nenhuma rela&ccedil;&atilde;o com os nossos desprop&oacute;sitos;<br \/>\n    absurdos, manifesta&ccedil;&otilde;es de um pesadelo demorado. Imposs&iacute;vel<br \/>\n    refletir. A transfer&ecirc;ncia de Benigno chamava-me &agrave; realidade.<br \/>\n    Estiv&eacute;ramos a desatinar por causa dele. Bem. Agora o transportavam<br \/>\n    cuidadosamente, numa padiola. Os indiv&iacute;duos que tinham vergado ling&uuml;etas,<br \/>\n    quebrado fechaduras, formavam grupos, encostavam-se ao corrim&atilde;o, debru&ccedil;avam-se<br \/>\n    ao parapeito baixo do passadi&ccedil;o, descreviam todas as fases da mudan&ccedil;a.<br \/>\n    Benigno sa&iacute;a, fl&aacute;cido, exangue, na maca vagarosa, caminho do<br \/>\n    hospital; a grade larga do vest&iacute;bulo se descerrava para a passagem<br \/>\n    dele; depois se trancava; e n&atilde;o nos tornar&iacute;amos a ver. Achava-me<br \/>\n    contente. Na fadiga enorme, os ossos meio desconjuntados, a carne mo&iacute;da,<br \/>\n    felicitava-me e queria dormir. Mas tudo era confuso Dif&iacute;cil admitir<br \/>\n    que, t&atilde;o poucos, isolados, separados por var&otilde;es de ferro, houv&eacute;ssemos<br \/>\n    batido, ao menos por enquanto, um m&eacute;dico infame, um diretor safado<br \/>\n    e invis&iacute;vel.<\/p>\n<h3>17<\/h3>\n<p>PELA manh&atilde; bebi o caf&eacute; enjoativo, comi um peda&ccedil;o de<br \/>\n    p&atilde;o sem manteiga. O caneco de coalhada tinha sido suspenso. Num cub&iacute;culo<br \/>\n    do andar superior viera alojar-se um padeiro tuberculoso chamado Fran&ccedil;a,<br \/>\n    encolhido, enfezadinho, sempre a morder um sorriso insignificante; pod&iacute;amos<br \/>\n    contar-lhes as costelas. O ofego e a tosse levaram-me a oferecer-lhe a garrafinha<br \/>\n    de leite que me traziam diariamente. Agora me resignava ao p&atilde;o seco,<br \/>\n    ao l&iacute;quido repugnante adocicado. Engoli isso, peguei a toalha, disposto<br \/>\n    a marchar para o banheiro. Decorreu meia hora, e ningu&eacute;m veio destrancar<br \/>\n    a porta; agucei o ouvido: nenhum sinal de chave no Pavilh&atilde;o.<\/p>\n<p> O senhor n&atilde;o vai abrir isso? perguntei a um guarda. Balan&ccedil;ou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a negativamente:<\/p>\n<p> V&atilde;o ficar trancados uma semana por causa da bagun&ccedil;a de ontem.<\/p>\n<p> Era justo, confessei no interior. Uma semana acaba logo. E t&iacute;nhamos<br \/>\n    na v&eacute;spera cometido excessos, um sarapatel horr&iacute;vel.<\/p>\n<p> Em todo o caso precisamos tomar banho. Como &eacute;? O funcion&aacute;rio<br \/>\n    n&atilde;o deu explica&ccedil;&otilde;es e afastou-se. Pouco depois descerraram<br \/>\n    l&aacute; embaixo um renque de c&eacute;lulas, v&aacute;rias pessoas foram<br \/>\n    lavar-se; de regresso, novamente se trancafiaram, e chegou a vez dos habitantes<br \/>\n    do outro lado; em seguida as mesmas opera&ccedil;&otilde;es no andar de cima;<br \/>\n    a quarta parte dos homens sa&iacute;a, voltava, enclausurava-se. Tolheram-nos<br \/>\n    os banhos de sol; durante o castigo usaram minuciosa cautela para reduzir<br \/>\n    os perigos da subleva&ccedil;&atilde;o. Era razo&aacute;vel, disse comigo.<br \/>\n    Se nos deixassem soltos, pegar&iacute;amos uma reivindica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    qualquer, outra em seguida, e nunca estar&iacute;amos satisfeitos. A comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se tornava dif&iacute;cil.<\/p>\n<p> Por esse tempo caiu-me entre as unhas um jornaleco ordin&aacute;rio, e surpreendeu-me<br \/>\n    ver nele o meu retrato, miudinho, numa coluna, encimando esta legenda fera,<br \/>\n    em grifo: o bagunceiro de Alagoas. Embaixo, uma diatribe em quinze cent&iacute;metros<br \/>\n    me arrasava. N&atilde;o me dizia os feitos, mas expunha-me &agrave; execra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica num ataque medonho. Um desordeiro, a pris&atilde;o era justa.<br \/>\n    Burrice, pensei vendo no caso apenas um desconchavo. Onde me havia descompassado?<br \/>\n    E como diabo tinham descoberto aquela fotografia? Escarafunchei a mem&oacute;ria,<br \/>\n    lembrei-me de que, meses atr&aacute;s, a indignada folha me estampara a carranca<br \/>\n    noticiando o aparecimento de um livro, com abund&acirc;ncia de elogios chinfrins.<br \/>\n    O mesmo clich&ecirc; servira &agrave; prosa liter&aacute;ria e ao desadoro<br \/>\n    pol&iacute;tico, de igual valia Que estupidez! Esse ligeiro caso n&atilde;o<br \/>\n    me perturbou os cochilos e os bocejos do recolhimento for&ccedil;ado. Adotaram-se<br \/>\n    recursos para vencer a monotonia. Imaginou-se uma esp&eacute;cie de tel&eacute;grafo,<br \/>\n    e os pichadores ficavam tempo sem fim batendo nas paredes; a entender-se com<br \/>\n    outras c&eacute;lulas, em barulho infernal. Jog&aacute;vamos xadrez a dist&acirc;ncia,<br \/>\n    eu e S&eacute;rgio contra Benjamin Snaider. Arrum&aacute;vamos as pe&ccedil;as<br \/>\n    no tabuleiro, inici&aacute;vamos a partida.<\/p>\n<p> Pe&atilde;o do rei quatro, anunci&aacute;vamos.<\/p>\n<p> Cavalo da dama tr&ecirc;s do bispo, gritava-nos o parceiro do cub&iacute;culo<br \/>\n    vizinho.<\/p>\n<p> Fora isso, longas conversas, alguma leitura, o almo&ccedil;o e o jantar<br \/>\n    recebidos &agrave; porta; as filas da comida foram suspensas: estabelecer-se-iam<br \/>\n    nelas contatos prop&iacute;cios &agrave; indisciplina Sexta-feira perdemos<br \/>\n    a visita: as mulheres deixaram pacotes na secretaria, e n&atilde;o conseguimos<br \/>\n    v&ecirc;-las.<\/p>\n<p> Uma noite chegaram numerosos indiv&iacute;duos, quase todos militares Vinham<br \/>\n    do Pedro I, o navio donde Ivan, Sisson e Desid&eacute;rio haviam tentado fugir<br \/>\n    um m&ecirc;s atr&aacute;s Agora essa pris&atilde;o flutuante desaparecia,<br \/>\n    a carga humana era distribu&iacute;da: novas figuras nos chegavam, caracteres<br \/>\n    diversos a atrair-se, repelir-se, na contradan&ccedil;a que n&atilde;o nos<br \/>\n    deixava em sossego no mesmo lugar. Pouco antes haviam feito numerosas transfer&ecirc;ncias<br \/>\n    em pequenos grupos, desafogara-se o Pavilh&atilde;o. Mas o espa&ccedil;o minguava;<br \/>\n    os rec&eacute;m-chegados, muito numerosos, iriam alojar-se mal, tr&ecirc;s<br \/>\n    ou quatro na mesma c&eacute;lula. Surgiam de relance no pavimento inferior,<br \/>\n    mergulhavam nos covis estreitos, que se povoaram logo. Outros vieram, subiram<br \/>\n    a escada, formaram dois renques, invadiram as plataformas. Junto &agrave;<br \/>\n    grade, vi esse leque humano avan&ccedil;ar. Defronte do meu cub&iacute;culo,<br \/>\n    um sujeito de barba espessa, cabelos crespos, farda e ins&iacute;gnias de<br \/>\n    capit&atilde;o, parou um momento, sorriu, apresentou-se com voz &aacute;spera:<br \/>\n    Rollemberg.<\/p>\n<p> Tive apenas o tempo de manifestar-lhe prazer em conhec&ecirc;-lo. Mas gravei<br \/>\n    o nome e a fisionomia. Um homem baixo, membrudo, tamb&eacute;m capit&atilde;o,<br \/>\n    ergueu o bra&ccedil;o ao passar, arrogante, o punho cerrado. O locutor da<br \/>\n    R&aacute;dio Libertadora indicava os novos prisioneiros, advogados, m&eacute;dicos,<br \/>\n    oficiais do ex&eacute;rcito, e salvas de palmas acolhiam essa gente; &agrave;<br \/>\n    medida que a lista se prolongava a manifesta&ccedil;&atilde;o ruidosa decrescia;<br \/>\n    afinal foram apenas algumas pancadas surdas e convencionais. O rumor apagou-se,<br \/>\n    as &uacute;ltimas fechaduras se calaram, fomos dormir ouvindo os passos leves<br \/>\n    das sentinelas.<\/p>\n<p> No dia seguinte duas camaradagens me surpreenderam, r&aacute;pidas, quase<br \/>\n    fulminantes; nem tive tempo de observar as estranhas personagens, ou talvez<br \/>\n    a observa&ccedil;&atilde;o tenha sido instintiva; n&atilde;o usamos cerim&ocirc;nias:<br \/>\n    num instante empolgou-nos a intimidade. Na reclus&atilde;o dura, imposta pela<br \/>\n    celeuma, conseq&uuml;&ecirc;ncia da hemoptise de Benigno, alguns minutos o<br \/>\n    rigor abrandava: &agrave; hora do banho, indo aos chuveiros ou voltando, indiv&iacute;duos<br \/>\n    estacionavam diante dos cub&iacute;culos fechados, entretinham conversas.<br \/>\n    Os guardas agitavam as chaves, impacientes. Fing&iacute;amos n&atilde;o perceber<br \/>\n    a exig&ecirc;ncia e arrast&aacute;vamos a parolagem, a afrontar a administra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Naquela manh&atilde;, depois do caf&eacute;, ouvi algu&eacute;m chamar-me,<br \/>\n    no passadi&ccedil;o. Avizinhei-me da grade, vi diante de mim um belo rapaz<br \/>\n    de ar tranq&uuml;ilo, voz lenta, risonho:<\/p>\n<p> Quem de voc&ecirc;s &eacute; Fulano? Eu. Que &eacute; que h&aacute;?<\/p>\n<p> Estendeu a m&atilde;o atrav&eacute;s dos var&otilde;es:<\/p>\n<p> Vim conhec&ecirc;-lo. Sou Hermes Lima.<\/p>\n<p> Oh! Diabo! exclamei sacudindo-lhe o bra&ccedil;o, num espanto verdadeiro.<br \/>\n    Um professor de universidade, t&atilde;o novo! Eu o supunha velho.<\/p>\n<p> Contenho-me ao falar a desconhecidos, acho-os inacess&iacute;veis, distantes;<br \/>\n    qualquer opini&atilde;o diversa das minhas choca-me em excesso; vejo nisso<br \/>\n    barreiras intranspon&iacute;veis e revelo-me suspeitoso e hostil Devo ser<br \/>\n    desagrad&aacute;vel, afasto as rela&ccedil;&otilde;es. Aquela, iniciada entre<br \/>\n    barras de ferro, colhia-me de surpresa. N&atilde;o usamos a cortesia necess&aacute;ria<br \/>\n    em tais ocasi&otilde;es; o tratamento familiar veio s&uacute;bito; nenhum<br \/>\n    constrangimento. Referi-me a alguns artigos de Hermes, lidos numa revista,<br \/>\n    meses atr&aacute;s. E admirei-me de v&ecirc;-lo:<\/p>\n<p> N&atilde;o esperava encontr&aacute;-lo aqui. Ignorava a sua pris&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o estou preso, respondeu Hermes, arranjando uma farsa que se<br \/>\n    prolongou enquanto vivemos afastados do mundo. Vim fazer-lhe uma visita.<\/p>\n<p> Mais tarde, narraria a hist&oacute;ria burlesca deste modo:<\/p>\n<p> Sou uma v&iacute;tima da literatura. Li um romance, desejei conhecer o autor,<br \/>\n    descobri-o no Pavilh&atilde;o dos Prim&aacute;rios. Consentiram-me entrar,<br \/>\n    mas impediram a sa&iacute;da. Como os senhores se d&atilde;o bem, disse o<br \/>\n    diretor, podem ficar juntos<\/p>\n<p> Colaborei na burla atacando Hermes, responsabilizando-o pela minha reclus&atilde;o:<\/p>\n<p> Foram aqueles malditos artigos que me desgra&ccedil;aram. Respeitei um professor<br \/>\n    de universidade, n&atilde;o enxerguei nele um inimigo da ordem. Enchi-me de<br \/>\n    letras nocivas sem querer. Por isso me prenderam.<\/p>\n<p> Hermes Lima foi a pessoa mais civilizada que j&aacute; vi. Naquele ambiente<br \/>\n    onde nos mov&iacute;amos em cuecas, meio nus, admitindo linguagem suja e desleixo,<br \/>\n    vestia pijama e parecia usar traje rigoroso. Am&aacute;vel, polido, correto,<br \/>\n    de amabilidade, polidez e corre&ccedil;&atilde;o permanentes.<\/p>\n<p> O segundo vivente com quem naquele dia me relacionei foi o capit&atilde;o<br \/>\n    fornido que atravessara a plataforma pisando rijo, erguendo o punho forte.<br \/>\n    Declarou chamar-se Walter Pompeu e dirigiu a S&eacute;rgio algumas frases<br \/>\n    num pretenso alem&atilde;o absurdo. N&atilde;o se fez entender e confessou<br \/>\n    que n&atilde;o sabia alem&atilde;o.<\/p>\n<p> Est&aacute; claro, resmungou S&eacute;rgio espantado. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    preciso dizer.<\/p>\n<p> Esse intr&oacute;ito nos revelava o curioso indiv&iacute;duo, meio destrambelhado,<br \/>\n    inconseq&uuml;ente, palrador. Apesar disso, quebrando lou&ccedil;a, metendo<br \/>\n    os p&eacute;s pelas m&atilde;os, era simp&aacute;tico.<\/p>\n<p> Logo se p&ocirc;s a discursar a respeito do marxismo, evidenciando completa<br \/>\n    ignor&acirc;ncia da mat&eacute;ria. Sem se confundir, pulou noutro assunto,<br \/>\n    em seguida noutro, deixando-os mais ou menos sapecados. Os minutos que esteve<br \/>\n    ali no passadi&ccedil;o, indiferente ao carcereiro, ao tilintar das chaves,<br \/>\n    foram bastantes para uma exibi&ccedil;&atilde;o de leviandade. A indiferen&ccedil;a<br \/>\n    diante do guarda, segundo notei depois, originava-se de uma tend&ecirc;ncia<br \/>\n    irresist&iacute;vel &agrave; provoca&ccedil;&atilde;o. Ia direto &agrave;s<br \/>\n    vias de fato, alardeava prazer nelas; a coragem f&iacute;sica desenvolvida<br \/>\n    na caserna servia-lhe para tomar o pi&atilde;o na unha sob qualquer pretexto,<br \/>\n    n&atilde;o tolerar a mais insignificante ofensa, volunt&aacute;ria ou involunt&aacute;ria.<br \/>\n    Tinha o cora&ccedil;&atilde;o perto da goela: segredo que ali chegasse num<br \/>\n    instante se espalhava. Eram engra&ccedil;adas as suas indiscri&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Revelou-me que se havia metido a conspirar estupidamente com dois figur&otilde;es<br \/>\n    do ex&eacute;rcito. No dia da revolta se dirigira ao ponto combinado para<br \/>\n    receber ordens dos chefes. Um estava inteiramente b&ecirc;bedo, o outro chorava<br \/>\n    como um desgra&ccedil;ado.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o era choro metaf&oacute;rico n&atilde;o, explicou. Era choro<br \/>\n    de menino, as l&aacute;grimas correndo na cara, choro de medo.<\/p>\n<p> Com a maior naturalidade, soltou-me os nomes dessas altas patentes. N&atilde;o<br \/>\n    sei porque, de in&iacute;cio, a franqueza estapaf&uacute;rdia de Walter Pompeu<br \/>\n    me agradou. Talvez por se haver manifestado pouco depois de Hermes Lima e<br \/>\n    contrastar com ele. Dificilmente imaginar&iacute;amos duas criaturas mais<br \/>\n    diversas. A intelig&ecirc;ncia educada, fria; o instinto explosivo, solto.<br \/>\n    Discrepavam e n&atilde;o tinham semelhan&ccedil;a comigo. Prendiam-me, contudo.<br \/>\n    E imaginei que poderia tornar-me amigo desses dois tipos.<\/p>\n<h3>18<\/h3>\n<p>DECORREU uma semana, e os cub&iacute;culos permaneceram trancados, suspensas<br \/>\n    as visitas. Reclamei, e obtive do guarda esta explica&ccedil;&atilde;o: o<br \/>\n    diretor achava inconveniente soltar na Pra&ccedil;a Vermelha os homens do<br \/>\n    Pedro I, gente reimosa, propensa &agrave; desordem. Ficar&iacute;amos sob<br \/>\n    chave por tempo indeterminado.<\/p>\n<p> Mas isso &eacute; uma safadeza. N&oacute;s n&atilde;o temos culpa da transfer&ecirc;ncia<br \/>\n    deles. A raz&atilde;o que os senhores nos deram foi a bagun&ccedil;a daquela<br \/>\n    noite.<\/p>\n<p> Protestos desse g&ecirc;nero perderam-se, e continuamos a ver-nos de longe,<br \/>\n    jogando xadrez em tabuleiros afastados, ouvindo a telegrafia ruidosa dos garotos,<br \/>\n    prolongando a hora do banho para as conversas diante das c&eacute;lulas. Assim<br \/>\n    nos indignamos inutilmente cerca de um m&ecirc;s. T&iacute;nhamos achado o<br \/>\n    castigo razo&aacute;vel: era conseq&uuml;&ecirc;ncia de ato nosso, dev&iacute;amos<br \/>\n    responsabilizar-nos por ele. Agora esse abuso de poder nos ofendia o sentimento<br \/>\n    de eq&uuml;idade. Os patifes exorbitavam e por isso tornavam-se odiosos. Viv&ecirc;ramos<br \/>\n    a admitir a id&eacute;ia burguesa de pagar as nossas d&iacute;vidas honestamente.<br \/>\n    Haviam-se imposto uma de sete dias e estiravam-na, quadruplicavam-na. Esse<br \/>\n    roubo me enfurecia. N&atilde;o me sentia lesado no por&atilde;o do Manaus.<br \/>\n    Apesar daquela mis&eacute;ria, o jejum completo, a asfixia, o calor do inferno,<br \/>\n    a imund&iacute;cie, n&atilde;o percebera ali nenhum dolo: a desgra&ccedil;a<br \/>\n    atingia todos como praga ou inunda&ccedil;&atilde;o. Ningu&eacute;m se revolta<br \/>\n    contra essas for&ccedil;as brutas. A dispn&eacute;ia, a escurid&atilde;o leitosa,<br \/>\n    o horr&iacute;vel cheiro de amon&iacute;aco, o soldado negro empurrando-me<br \/>\n    com a pistola, ao descer a escada, eram coisas fatais, no medonho pesadelo.<br \/>\n    Na verdade &eacute;ramos bichos. Regress&aacute;vamos &agrave; condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humana, impunham-nos um castigo e perceb&iacute;amos que ele era embuste.<br \/>\n    Esse procedimento insidioso me atormentava mais que as humilha&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e o desconforto. Ouvindo-me falar no esbulho de um direito Walter Pompeu tro&ccedil;ou<br \/>\n    comigo:<br \/>\n    Donde diabo vem voc&ecirc;, homem? Ainda acredita nessas bobagens? Vai sair<br \/>\n    daqui marcado. E l&aacute; fora, quando houver uma greve de barbeiros, agarram-no.<\/p>\n<p> Pois sim. Eu embrulhar-me no sindicato dos barbeiros. Tem gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Porque n&atilde;o? Antes que voc&ecirc; prove que n&atilde;o &eacute; barbeiro,<br \/>\n    corre o tempo.<\/p>\n<p> Um fato, pouco depois, convenceu-me de que ali domina o capricho desp&oacute;tico,<br \/>\n    e as senten&ccedil;as dos tribunais s&atilde;o formalidades inconseq&uuml;entes:<br \/>\n    cumprem-se, e os r&eacute;us n&atilde;o se desembara&ccedil;am da culpa. Certos<br \/>\n    crimes n&atilde;o desaparecem nunca; um infeliz ajusta contas com o juiz e<br \/>\n    fica sujeito ao arb&iacute;trio policial. Inteiramente imposs&iacute;vel a<br \/>\n    reabilita&ccedil;&atilde;o, pois n&atilde;o o deixam em paz. E d&aacute;-se<br \/>\n    o caso de um indiv&iacute;duo n&atilde;o querer ser solto, porque essa liberdade<br \/>\n    prec&aacute;ria finda logo: tiram-no de uma pris&atilde;o e mandam-no para<br \/>\n    outra pior. Foi o que me disse o faxina ao narrar um homic&iacute;dio praticado<br \/>\n    naquele dia. Um ladr&atilde;o conclu&iacute;ra pena leve. Na v&eacute;spera<br \/>\n    da sa&iacute;da amanhecera abatido e sombrio. Pegara uma colher de sopa e<br \/>\n    entrara a agu&ccedil;ar-lhe o cabo no cimento, improvisando um estilete, a<br \/>\n    resmungar:<\/p>\n<p> Hoje n&atilde;o me arrancam daqui.<\/p>\n<p> Alguns companheiros tinham tentado acalm&aacute;-lo, obtendo esta amea&ccedil;a:<br \/>\n    &Eacute; bom n&atilde;o chegarem perto de mim.<\/p>\n<p> E o metal arranhava o ch&atilde;o, convertera-se em l&acirc;mina fina. Os<br \/>\n    veteranos desviavam-se prudentes; um novato buscara puxar conversa, desprezando<br \/>\n    o aviso. O homem se levantara raivoso e pregara-lhe o estoque na barriga:<\/p>\n<p> Tinha de ser qualquer um Vai voc&ecirc; mesmo.<\/p>\n<p> Ao cabo de horas a v&iacute;tima se finava Sendo-me imposs&iacute;vel enxergar<br \/>\n    as causas da a&ccedil;&atilde;o, acomodei-me na pregui&ccedil;a mental e perguntei<br \/>\n    se o preso estava doido. Um acesso de loucura, devia ser isso. A resposta<br \/>\n    do faxina, curta, revelou-me de s&uacute;bito um mundo singular, nunca imaginado.<br \/>\n    N&atilde;o me forneceu explica&ccedil;&otilde;es: falou como se mencionasse.<br \/>\n    fatos normais, e nem de longe pareceu notar o meu assombro. Aquela simplicidade<br \/>\n    me contagiou: n&atilde;o precisei refletir para compreender a situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    achar que o desgra&ccedil;ado tinha tido procedimento razo&aacute;vel. Uma<br \/>\n    palavra de g&iacute;ria me confundiu, a princ&iacute;pio n&atilde;o lhe abarquei<br \/>\n    o sentido:<\/p>\n<p> &Eacute; um tipo escrachado.<\/p>\n<p> Depois de ligeira d&uacute;vida, o nome estranho se definiu: o ladr&atilde;o<br \/>\n    estava nas fichas da pol&iacute;cia, tinha deixado l&aacute; o retrato e as<br \/>\n    marcas digitais, de nenhum modo chegaria a livrar-se disso. Escrachado. Bem.<br \/>\n    Era ladr&atilde;o, escrunchante ou ventanista. Estas designa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    novas me perturbavam. O escrunchante &eacute; um t&eacute;cnico, arromba cofres<br \/>\n    e tem recursos para n&atilde;o deixar l&aacute; os sinais dos dedos; o ventanista<br \/>\n    nem sequer sabe meter a gazua numa fechadura: se encontra janelas abertas,<br \/>\n    salta-as, abre ligeiro as gavetas, leva o que lhe aparece; abaixo dele, no<br \/>\n    degrau inferior da escada, h&aacute; o descuidista, um pobre-diabo: fica tempo<br \/>\n    sem fim diante de uma exposi&ccedil;&atilde;o, olhando os arredores de esguelha,<br \/>\n    a ver se o observam, empalma um objeto de pequeno valor, e agarram-no facilmente.<br \/>\n    Essa corja &eacute; registrada na pol&iacute;cia. Conhecem-lhe os h&aacute;bitos,<br \/>\n    distinguem-na de longe por ind&iacute;cios impercept&iacute;veis ao olho comum,<br \/>\n    obrigam-na a mobilidade constante, vigiam-na e simulam esquec&ecirc;-la numa<br \/>\n    brincadeira de gato com rato; na hora pr&oacute;pria deitam-lhe a m&atilde;o<br \/>\n    Tem uma exist&ecirc;ncia dupla, ora a esconder-se, ora na cadeia. A&iacute;<br \/>\n    vive em relativo sossego D&atilde;o-lhe a comida em hora certa, obrigam-na<br \/>\n    a trabalho regular, pouco a pouco se embota a vigil&acirc;ncia inquieta necess&aacute;ria<br \/>\n    &agrave; profiss&atilde;o. Ao voltar &agrave; rua, mais dif&iacute;ceis se<br \/>\n    tornar&atilde;o as fugas, a vida obl&iacute;qua, permanente resvalar de um<br \/>\n    lado para outro. Acha-se um infeliz em estado paradoxal: deseja sair dali,<br \/>\n    imagina planos de evas&atilde;o imposs&iacute;vel, e receia afrontar de novo<br \/>\n    os perigos antigos, agora muito ampliados: mecanizaram-no, quase o imobilizaram,<br \/>\n    incutiram-lhe d&uacute;vidas sobre as suas aptid&otilde;es Conseguir&aacute;<br \/>\n    mexer-se, andar furtivo, pisar leve, entrar numa casa e percorr&ecirc;-la<br \/>\n    direito, sem acordaras pessoas? A certeza da pr&oacute;pria insufici&ecirc;ncia<br \/>\n    &eacute; horr&iacute;vel Exclui-se a id&eacute;ia de arranjar outro of&iacute;cio<br \/>\n    Em primeiro lugar nada sabe fazer al&eacute;m de abrir portas ou embromar<br \/>\n    ot&aacute;rios repisando velhas, estafadas parolagens; valoriza enormemente<br \/>\n    as suas pequenas habilidades, gosta delas, aos &iacute;ntimos agrada-lhe referi-Ias<br \/>\n    com vaidade e exagero. E depois, ainda que desejasse trabalhar, n&atilde;o<br \/>\n    o conseguiria: negam-lhe a m&iacute;nima confian&ccedil;a, ningu&eacute;m<br \/>\n    lhe aceita os prop&oacute;sitos de regenera&ccedil;&atilde;o, em qualquer<br \/>\n    parte julga perceber olhares suspeitosos. Cumprida a senten&ccedil;a, verrumam-lhe<br \/>\n    o esp&iacute;rito esses desajustamentos, a liberdade chega a apavor&aacute;-lo.<br \/>\n    De fato n&atilde;o &eacute; liberdade. Liquida as suas contas com a justi&ccedil;a,<br \/>\n    e mandam-no embora. Mas n&atilde;o est&aacute; quite com a pol&iacute;cia:<br \/>\n    esta n&atilde;o o largar&aacute; nunca. Arruma os picu&aacute;s e sai; ao<br \/>\n    chegar &agrave; primeira esquina um sujeito lhe surge e prende-o, naturalmente,<br \/>\n    &agrave; ordem do chefe.<\/p>\n<p> &Agrave; ordem do chefe? inquiri espantado.<\/p>\n<p> Que diabo significaria aquela express&atilde;o? &Agrave; ordem do chefe,<br \/>\n    sim senhor, repetiu o faxina, como se aquilo fosse coisa simples, estabelecida,<br \/>\n    clara a todas as intelig&ecirc;ncias. &Agrave; ordem do chefe. &Eacute; a<br \/>\n    f&oacute;rmula m&aacute;gica, o jeito de aniquilar os miser&aacute;veis nascidos<br \/>\n    no subsolo social. Cometeram falta e pagaram-na duramente, n&atilde;o lhes<br \/>\n    exigiram mais porque isto n&atilde;o seria poss&iacute;vel, exigiram tudo.<br \/>\n    Satisfeita a exig&ecirc;ncia, a v&iacute;tima quer libertar-se e isto &eacute;<br \/>\n    imposs&iacute;vel. &Agrave; ordem do chefe. Qualquer policial tem o direito<br \/>\n    de usar isso, uma esp&eacute;cie de chave; o nome do chefe de pol&iacute;cia<br \/>\n    tem efeito m&aacute;gico: os direitos alcan&ccedil;ados na obedi&ecirc;ncia,<br \/>\n    na dureza do regime carcer&aacute;rio, de repente findam. Essa autoridade<br \/>\n    imensa e incontrast&aacute;vel paralisa sonhos e desejos, suprime as iniciativas:<br \/>\n    esperando ouvir as palavras funestas, um homem se muda em trapo. E o pior<br \/>\n    &eacute; saber que, novamente agarrado, n&atilde;o se reabrir&aacute; para<br \/>\n    ele o port&atilde;o de ferro transposto meia hora antes; n&atilde;o lhe dar&atilde;o<br \/>\n    a c&eacute;lula escura, onde a exist&ecirc;ncia, apesar de tudo, &eacute;<br \/>\n    suport&aacute;vel. Com certeza o mandar&atilde;o para a Col&ocirc;nia Correcional.<br \/>\n    A&iacute; s&atilde;o medonhas torturas f&iacute;sicas e morais: a porcaria,<br \/>\n    a mistura ign&oacute;bil, a fome, o gasto das energias escassas no transporte<br \/>\n    de vigas pesadas. Essa perspectiva o desorienta, invade-o singular ang&uacute;stia:<br \/>\n    por muito que se esforce, n&atilde;o enxerga lugar onde possa viver mais ou<br \/>\n    menos tranq&uuml;ilo; o m&iacute;nimo de tranq&uuml;ilidade poss&iacute;vel<br \/>\n    existe na cadeia, no ramerr&atilde;o da faxina, estigmatizado na roupa de<br \/>\n    listras. Consumiu-se no desejo de sair e a realiza&ccedil;&atilde;o desse<br \/>\n    desejo o apavora. Ainda o cultiva, pois nada mais lhe resta, mas agarra-se<br \/>\n    &agrave; esperan&ccedil;a de adiar o momento dessa liberta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    temerosa Afinal vislumbra nela uma possibilidade remota. O essencial &eacute;<br \/>\n    permanecer ali mais algum tempo, fugir aos perigos exteriores, ao transporte<br \/>\n    de vigas pesadas na Col&ocirc;nia Correcional. N&atilde;o suporta a id&eacute;ia<br \/>\n    de se saber perseguido, farejado, estremecer ao virar uma esquina, ouvir a<br \/>\n    intima&ccedil;&atilde;o fatal: &Agrave; ordem do chefe Necess&aacute;rio por<br \/>\n    qualquer meio afastar esse pesadelo. E insinua-se o pensamento absurdo. Um<br \/>\n    pequeno delito originar&aacute; uma nova senten&ccedil;a. Ferida leve num<br \/>\n    companheiro significa outra senten&ccedil;a. Daremos o golpe e ficaremos.<br \/>\n    Mais alguns dias de tapea&ccedil;&atilde;o. Sairemos, por n&atilde;o nos poderem<br \/>\n    reter e isto ser&aacute; nova desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Porque foi que voc&ecirc; fez isso?<\/p>\n<p> Sei l&aacute; porque fiz? Precisava ficar. Ficar porque n&atilde;o tinha<br \/>\n    para onde ir.<\/p>\n<p> Outro julgamento. Ju&iacute;zes amolados e distantes lan&ccedil;ando a decis&atilde;o<br \/>\n    formal. Mais alguns anos, alguns meses, na faxina, as riscas do uniforme aviltante<br \/>\n    a clarear, esfregadas com &aacute;cido c&iacute;trico; depois de muitas lavagens,<br \/>\n    as n&oacute;doas ignominiosas estariam quase impercept&iacute;veis e isto<br \/>\n    o avizinharia da humanidade. Al&eacute;m disso h&aacute; raz&otilde;es profundas<br \/>\n    que nos amarram fortemente aos h&aacute;bitos adquiridos, e &agrave;s vezes<br \/>\n    nem sabemos porque nos apegamos a situa&ccedil;&otilde;es indesej&aacute;veis.<br \/>\n    No estado normal, afeitos a ocupa&ccedil;&otilde;es ordin&aacute;rias, ouvindo<br \/>\n    farrapos de conversas na multid&atilde;o, viajando no estribo do bonde, no<br \/>\n    aperto dos pingentes, assimilamos opini&otilde;es comuns, nem adivinhamos<br \/>\n    que, em circunst&acirc;ncias imprevistas, cheguemos a praticar desatinos.<br \/>\n    Na verdade n&atilde;o s&atilde;o desatinos, mas &agrave;s vezes sofremos buscando<br \/>\n    em v&atilde;o no interior a causa deles Perceberia aquele homem as origens<br \/>\n    do seu crime? Perguntei isto a mim mesmo, tentando relacionar peda&ccedil;os<br \/>\n    da informa&ccedil;&atilde;o. Mais tarde o caso me pareceu explic&aacute;vel:<br \/>\n    acima dos motivos expostos, surgiu outro, mera possibilidade, mas que, admitida,<br \/>\n    nos fazia julgar a conclus&atilde;o razo&aacute;vel. Certo o infeliz n&atilde;o<br \/>\n    desejara cometer um assass&iacute;nio. Ferimento ligeiro, um arranh&atilde;o,<br \/>\n    o suficiente para justificar nova pena, moderada. Ladr&otilde;es t&ecirc;m<br \/>\n    horror ao sangue, desviam-se das criaturas impulsivas, formam grupos sossegados.<br \/>\n    Aquele, no momento da agress&atilde;o, recuara talvez o bra&ccedil;o, numa<br \/>\n    piedade extempor&acirc;nea. O estilete perfurara intestinos, um sujeito aguardava<br \/>\n    aut&oacute;psia. Muitos anos de cadeia, trinta anos de cadeia. Esfumavam-se<br \/>\n    o terror, a agonia, progn&oacute;sticos medonhos: um policial na esquina,<br \/>\n    a ordem do chefe, sujeira, fome, o transporte de vigas pesadas na Col&ocirc;nia<br \/>\n    Correcional.<\/p>\n<h3>19<\/h3>\n<p>UMA noite ouviram gritos desesperados. Que eram? donde vinham? N&atilde;o<br \/>\n    t&iacute;nhamos o menor ind&iacute;cio. Confinados, fechados, cambiando impress&otilde;es<br \/>\n    r&aacute;pidas &agrave; hora do banho, tentamos realizar um inqu&eacute;rito<br \/>\n    sondando faxinas e guardas. Estes se encerraram num mutismo desconfiado; os<br \/>\n    outros deixaram escapar informa&ccedil;&otilde;es vagas, cochichos, na verdade<br \/>\n    trai&ccedil;&otilde;es a compromissos e da&iacute; conseguimos entrar naquele<br \/>\n    subterr&acirc;neo. &Eacute; sujo e infame. De supet&atilde;o divisamos h&aacute;bitos<br \/>\n    inimagin&aacute;veis, rela&ccedil;&otilde;es estranhas, uma esquisita moral,<br \/>\n    sensibilidade muito diversa da que revelam as pessoas comuns. Al&eacute;m<br \/>\n    disso paix&otilde;es violentas, neg&oacute;cios escusos, inadmiss&iacute;veis.<\/p>\n<p> Essas coisas nos surgiam pouco a pouco, insinuavam-se, venciam resist&ecirc;ncia,<br \/>\n    mas, embora tent&aacute;ssemos explic&aacute;-las, aceit&aacute;-las, a d&uacute;vida<br \/>\n    permanecia. A for&ccedil;a de repeti&ccedil;&otilde;es, cheg&aacute;vamos<br \/>\n    a admiti-Ias, pelo menos como poss&iacute;veis &agrave; natureza humana, contingente<br \/>\n    e v&aacute;ria, capaz de tudo, at&eacute; que viessem neg&aacute;-las, enviar-nos<br \/>\n    &agrave; sociedade razo&aacute;vel, acomodada, s&oacute;bria, ignorante daqueles<br \/>\n    horr&iacute;veis desvios. C&aacute; fora passamos involuntariamente a raspadeira<br \/>\n    neles. Houve um momento em que nos vieram narr&aacute;-los, coment&aacute;-los,<br \/>\n    ou s&atilde;o produtos de fantasia desvairada, vest&iacute;gios de sonho?<br \/>\n    Vacilamos em transmiti-los: n&atilde;o nos dar&atilde;o cr&eacute;dito, e<br \/>\n    isto nos deixar&aacute; perplexos.<\/p>\n<p>Estaremos a forjar mentiras, resvalaremos na credulidade antiga, a engrossar<br \/>\n    boatos, adorn&aacute;-los, emprestar-lhes movimento e vida? Procuramos velhos<br \/>\n    companheiros, ati&ccedil;amos as reminisc&ecirc;ncias deles, obtemos confirma&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Foi o que me aconteceu. Informei-me de novo, procurei afastar as possibilidades<br \/>\n    de erro ou exagero, mas ainda me ficou uma vaga incerteza. O essencial &eacute;<br \/>\n    verdadeiro, causou espanto no come&ccedil;o, depois foi observado e nos pareceu<br \/>\n    natural. N&atilde;o examinamos, por&eacute;m, as circunst&acirc;ncias: temos<br \/>\n    conhecimento delas por indiv&iacute;duos confusos, propensos &agrave; divaga&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Verdades? N&atilde;o sei. Narro com reservas o que me narraram, admito restri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e corre&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Os gritos daquela noite eram de um garoto violado. Essa declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    me estarreceu. Como podia suceder tal coisa sem que atendessem aos terr&iacute;veis<br \/>\n    pedidos de socorro? Muitos guardas eram c&uacute;mplices, ouvi dizer, e alguns<br \/>\n    vendiam pequenos delinq&uuml;entes a velhos presos corrompidos vinte, trinta,<br \/>\n    cinq&uuml;enta mil-r&eacute;is, conforme a pe&ccedil;a. Esse com&eacute;rcio<br \/>\n    &eacute; tolerado, desemboca nele parte dos lucros obtidos na ind&uacute;stria<br \/>\n    mirim da cadeia fabrica&ccedil;&atilde;o de pentes, caixas, numerosas bagatelas<br \/>\n    de chifre e osso. E h&aacute; tamb&eacute;m o jogo, rigorosamente proibido<br \/>\n    e nunca suspenso, o contrabando de &aacute;lcool, as gorjetas, a venda de<br \/>\n    cigarros, presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os mi&uacute;dos aos pol&iacute;ticos.<br \/>\n    O dinheiro circula, &agrave;s vezes serve para amaciar funcion&aacute;rios.<br \/>\n    Na aus&ecirc;ncia de mulheres, consente-se o homossexualismo tacitamente.<\/p>\n<p> A administra&ccedil;&atilde;o finge castrar aqueles homens, insinua hip&oacute;crita<br \/>\n    que o trabalho e o cansa&ccedil;o tendem a suprir necessidades profundas,<br \/>\n    e ali se movem aut&ocirc;matos puxados para um lado e para outro. Percebemos<br \/>\n    o dolo e pouco a pouco nos habituamos a ver entrar a anormalidade na exist&ecirc;ncia<br \/>\n    comum. Achamo-nos longe daqueles indiv&iacute;duos, conhecemos apenas os que<br \/>\n    v&ecirc;m trazer a comida, fazer a limpeza, mudar a roupa das camas, e a princ&iacute;pio<br \/>\n    relutamos em conceber veracidade nas informa&ccedil;&otilde;es. Perguntamos<br \/>\n    em seguida como poderia ser de outra forma num meio onde s&oacute; vivem machos<br \/>\n    Os assassinos, criminosos fortuitos, em geral os sujeitos chegados maduros,<br \/>\n    conseguem livrar-se do cont&aacute;gio: t&ecirc;m a preserv&aacute;-los costumes<br \/>\n    diversos, princ&iacute;pios, a repugn&acirc;ncia que nos leva a desviar os<br \/>\n    olhos se vemos uma dessas criaturas, lavar as m&atilde;os se a tocamos. Esse<br \/>\n    nojo e esses escr&uacute;pulos esmorecem com o tempo: refletindo, alinhando<br \/>\n    motivos, inclinamo-nos a uma indecisa piedade, afinal at&eacute; isto m&iacute;ngua<br \/>\n    e desaparece: achamos aqueles invertidos pessoas vulgares submetidas a condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    especiais: semelhantes aos que perderam em acidente olhos ou bra&ccedil;os.<br \/>\n    Certo s&atilde;o desagrad&aacute;veis quando neles predomina a linha curva,<br \/>\n    afetam ademanes femininos, t&ecirc;m voz dul&ccedil;urosa, gestos l&acirc;nguidos<br \/>\n    e caminham rebolando os quadris. Nem todos s&atilde;o assim, de ordin&aacute;rio<br \/>\n    n&atilde;o se distinguem por nenhum sinal particular. Nada que mere&ccedil;a<br \/>\n    desprezo. Como se iniciaram? Os angustiosos e in&uacute;teis apelos noturnos<br \/>\n    davam a resposta.<\/p>\n<p> Depois nos vieram no&ccedil;&otilde;es complementares. Meninos abandonados,<br \/>\n    vagabundos, pivetes, cedo se estragam, n&atilde;o experimentam surpresa ao<br \/>\n    ser metidos nas c&eacute;lulas de pederastas calejados. Mas h&aacute; rea&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    incompatibilidades e se os meios suas&oacute;rios falham, o casamento se realiza<br \/>\n    com viol&ecirc;ncia. &Eacute; o recurso extremo. Antes de us&aacute;-lo, o<br \/>\n    agente emprega bland&iacute;cias, numerosos processos de sedu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e se n&atilde;o tem &ecirc;xito, recorre &agrave;s amea&ccedil;as. Toma a<br \/>\n    comida do outro, joga-a na latrina, arrebata-lhe das m&atilde;os o caneco<br \/>\n    de &aacute;gua, pro&iacute;be-lhe o cigarro, vigia-o sem descanso, requinta-se<br \/>\n    em afligi-lo. Dois ou tr&ecirc;s dias de fome, sede e maus tratos anulam a<br \/>\n    funda avers&atilde;o; a relut&acirc;ncia esmorece, finda e o id&iacute;lio<br \/>\n    principia &agrave;s escondidas: nem gritos nem oposi&ccedil;&atilde;o obstinada,<br \/>\n    uns restos de vergonha impedem a exibi&ccedil;&atilde;o tumultuosa. Sobrev&eacute;m<br \/>\n    largo per&iacute;odo de ternura, &aacute;spera, cega, exclusiva, de um calor<br \/>\n    desconhecido nas rela&ccedil;&otilde;es heterossexuais. De fato n&atilde;o<br \/>\n    P ternura: &eacute; desejo absorvente, furioso, quase a encher a vida com<br \/>\n    uma &uacute;nica necessidade. O macho oferece ao amigo uma dedica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exaltada, respeita-lhe os caprichos, defende-o, trabalha com vigor e economiza<br \/>\n    para satisfazer-lhe as inst&acirc;ncias. Mas exige correspond&ecirc;ncia,<br \/>\n    espreita-o sem descontinuar e, dominado por ci&uacute;me feroz, n&atilde;o<br \/>\n    lhe consente expans&otilde;es duvidosas; os excessivos cuidados, o amparo<br \/>\n    e as desconfian&ccedil;as permanentes tornam-se verdadeira tirania. Qualquer<br \/>\n    suspeita origina rixas, e nascem da&iacute; muitos dos crimes realizados nas<br \/>\n    pris&otilde;es.<\/p>\n<p> Ao ter conhecimento disso, refleti na cena de sangue dias antes anunciada<br \/>\n    pelo faxina, revi os motivos adquiridos em fragmentos e enxerguei mais um,<br \/>\n    talvez o essencial. As causas expostas enfraqueceram de repente, julguei-as<br \/>\n    laterais e secund&aacute;rias: imaginei que o sujeito recusara a liberdade<br \/>\n    por n&atilde;o lhe ser poss&iacute;vel afastar-se de um companheiro. Devia<br \/>\n    ser isso. Pelo menos &eacute; f&aacute;cil admitirmos que um sentimento obsessor,<br \/>\n    vizinho da monomania, leve algu&eacute;m a lesar os seus pr&oacute;prios interesses.<\/p>\n<p> As minhas conclus&otilde;es eram na verdade incompletas e movedi&ccedil;as.<br \/>\n    Faltava-me examinar aqueles homens, buscar transpor as barreiras que me separavam<br \/>\n    deles, vencer este nojo exagerado, sondar-lhes o &iacute;ntimo, achar l&aacute;<br \/>\n    dentro coisa superior &agrave;s combina&ccedil;&otilde;es frias da intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    Provisoriamente, segurava-me a estas. Porque desprez&aacute;-los ou conden&aacute;-los?<br \/>\n    Existem e &eacute; o suficiente para serem aceitos. Aquela explos&atilde;o<br \/>\n    tumultu&aacute;ria &eacute; um fato. Estupidez pretender eliminar os fatos.<br \/>\n    A nossa obriga&ccedil;&atilde;o &eacute; analis&aacute;-los, ver se s&atilde;o<br \/>\n    intr&iacute;nsecos &agrave; natureza humana ou superfeta&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Preliminarmente lan&ccedil;amos opr&oacute;brio &agrave;queles indiv&iacute;duos.<br \/>\n    Porqu&ecirc;? Porque somos diferentes deles. Seremos diferentes, ou tornamo-nos<br \/>\n    diferentes? Al&eacute;m de tudo ignoramos o que eles t&ecirc;m no interior.<br \/>\n    Divergimos nos h&aacute;bitos, nas maneiras, e propendemos a valorizar isto<br \/>\n    em demasia. N&atilde;o lhes percebemos as qualidades, ningu&eacute;m nos diz<br \/>\n    at&eacute; que ponto se distanciam ou se aproximam de n&oacute;s. Quando muito,<br \/>\n    chegamos a divis&aacute;-los atrav&eacute;s de obras de arte. &Eacute; pouco:<br \/>\n    seria bom v&ecirc;-los de perto sem m&aacute;scaras.<\/p>\n<p> Penso assim, tento compreend&ecirc;-los e n&atilde;o consigo reprimir o<br \/>\n    nojo que me inspiram, forte demais. Isto me deixa apreensivo. Ser&aacute;<br \/>\n    um nojo natural ou imposto? Quem sabe se ele n&atilde;o foi criado artificialmente,<br \/>\n    com o fim de preservar o homem social, obrig&aacute;-lo a fugir de si mesmo?<\/p>\n<h3>20<\/h3>\n<p>AO CABO de um m&ecirc;s abriram-se os cub&iacute;culos, as visitas ressurgiram<br \/>\n    e pudemos circular na Pra&ccedil;a Vermelha, entender-nos com os homens chegados<br \/>\n    do Pedro l, a maior parte desconhecida, apenas entrevista durante a reclus&atilde;o.<br \/>\n    Eram muitos, e quase todos haviam perdido bons lugares sem respeito &agrave;s<br \/>\n    conveni&ecirc;ncias jur&iacute;dicas. Sumariamente despedidos, julgavam com<br \/>\n    rancor silencioso, cochichado, &agrave;s vezes explosivo, o governo arbitr&aacute;rio<br \/>\n    e a revolu&ccedil;&atilde;o frustrada, que os havia exposto. Dif&iacute;cil<br \/>\n    perdoar a esta ter-se deixado vencer num instante Se se tivesse alargado e<br \/>\n    subido, numerosas convic&ccedil;&otilde;es se arraigariam, tend&ecirc;ncias<br \/>\n    vacilantes ganhariam consist&ecirc;ncia. Isto n&atilde;o se dera. E aqueles<br \/>\n    intelectuais burgueses, funcion&aacute;rios, m&eacute;dicos, advogados, engenheiros,<br \/>\n    tinham raz&atilde;o para indignar-se. Aus&ecirc;ncia de estabilidade, posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    neutra, rejeitados pelos extremos, de alguma forma achando-se v&iacute;timas<br \/>\n    de perf&iacute;dias e trai&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o se haviam ingerido<br \/>\n    em mazorca. Um artigo em jornal, uma confer&ecirc;ncia, uma assinatura em<br \/>\n    manifesto e desabavam.<\/p>\n<p> Com essa gente de gabinete e sossego contrastavam diversos militares, implicados<br \/>\n    na subleva&ccedil;&atilde;o do 3.&deg; Regimento e da Escola de Avia&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    alguns estranhos a ela, em geral considerados suspeitos. Tinham sido eliminados<br \/>\n    do ex&eacute;rcito, mas ainda vestiam fardas, guardavam h&aacute;bitos da<br \/>\n    caserna; eram ass&iacute;duos na gin&aacute;stica, n&atilde;o se tinham eximido<br \/>\n    &agrave; hierarquia e &agrave; disciplina: deram-me a impress&atilde;o de<br \/>\n    olhar os paisanos com desd&eacute;m, julg&aacute;-los fracos e im&oacute;veis:<br \/>\n    o esp&iacute;rito de casta permanecia. Cr&eacute;dulos, admitiam sem esfor&ccedil;o<br \/>\n    que estavam cercados de espi&otilde;es. O major Alcedo Cavalcante, professor<br \/>\n    no Estado-Maior, homenzinho de voz calma e sentimentos fortes, aferrado a<br \/>\n    certo n&uacute;mero de id&eacute;ias, sempre a sustent&aacute;-las com argumentos<br \/>\n    rijos e invari&aacute;veis, revelou-se aparteando um discurso de Ivan. O tenente<br \/>\n    falou de estrat&eacute;gia. O major interveio: n&atilde;o era caso de estrat&eacute;gia,<br \/>\n    mas de t&aacute;tica; embrenhou-se em defini&ccedil;&otilde;es, numa linguagem<br \/>\n    braba, com avan&ccedil;os e recuos. misturou tudo e acabamos sem entender<br \/>\n    nada. Walter Pompeu ligava-se a dois sujeitos, cearenses, capit&atilde;es,<br \/>\n    explosivos, como ele: Jos&eacute; Brasil e Mo&eacute;sia Rolim. Formava a<br \/>\n    trinca do Cear&aacute;, meio destrambelhada, o cora&ccedil;&atilde;o perto<br \/>\n    da goela, ora pelos p&eacute;s, ora pela cabe&ccedil;a. Atleta, vestido num<br \/>\n    cal&ccedil;&atilde;o de banho, moreno, de olhos espertos, a voz. &aacute;spera,<br \/>\n    Jos&eacute; Brasil come&ccedil;ou a dirigir os exerc&iacute;cios f&iacute;sicos,<br \/>\n    que desceram do terra&ccedil;o, vieram substituir as confer&ecirc;ncias no<br \/>\n    r&eacute;s-do-ch&atilde;o, espantando guardas e faxinas. Falava com exuber&acirc;ncia<br \/>\n    entremeando na conversa pilh&eacute;rias engra&ccedil;adas. Envaidecia-se<br \/>\n    um pouco de ser parente de Jesu&iacute;no Brilhante, o cangaceiro romantizado<br \/>\n    em livro, autor de consider&aacute;veis proezas. N&atilde;o me parecia que<br \/>\n    algu&eacute;m tivesse raz&atilde;o para contentar-se com isso. Nem contentar-se,<br \/>\n    nem descontentar-se. Era um acidente. E agradava-me pensar que o bandido representasse<br \/>\n    um desvio na fam&iacute;lia dele. Aborrecia-me nessas criaturas desgarradas<br \/>\n    o procedimento desleal: nunca se expunham, usavam a tocaia, a trai&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas est&aacute; certo, disse-me Walter Pompeu, grave, sentado na cama de<br \/>\n    S&eacute;rgio. &Eacute; assim que se deve fazer.<\/p>\n<p> A solidariedade na trinca era perfeita.<\/p>\n<p> Todos n&oacute;s procuramos evitar esfor&ccedil;os in&uacute;teis e riscos.<br \/>\n    Se desejamos liquidar um inimigo, n&atilde;o vamos oferecer-lhe ocasi&atilde;o<br \/>\n    de suprimir-nos. O importante &eacute; mat&aacute;-lo de qualquer jeito. A<br \/>\n    emboscada, sim senhor, a surpresa. Na guerra achamos isso virtude: n&atilde;o<br \/>\n    sei porque fora dela vamos abandonar vantagens. O homem sensato e prudente<br \/>\n    n&atilde;o se arrisca &agrave; toa.<\/p>\n<p> Mo&eacute;sia Rolim nunca estava em repouso Escrevia, estudava, sobretudo<br \/>\n    falava, erguendo a voz abafada cheia de hiatos e gargalhadas roucas. Passava<br \/>\n    depressa da zanga superficial &agrave; alegria estouvada percept&iacute;vel<br \/>\n    em todo o Pavilh&atilde;o.<\/p>\n<p> Bacharel feroz! gritava a assanhar-se.<\/p>\n<p> Pequeno, sacudindo os bra&ccedil;os curtos, lembrava um periquito a maquinar<br \/>\n    bicoradas em Moreira Lima, que o ouvia tranq&uuml;ilo, com dignidade mansa<br \/>\n    de boi. Mo&eacute;sia Rolim, Walter<\/p>\n<p> Pompeu e Lauro Fontoura, expulsos da Escola Militar em 1922 ou 1924, tinham-se<br \/>\n    metido em leis e eram advogados. Com o movimento de 1930 haviam regressado<br \/>\n    ao ex&eacute;rcito. Insatisfeitos, embrulhados em nova conspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    outra vez eram demitidos.<\/p>\n<p> Nessas idas e vindas, ora triunfantes ora derrotados, havia um n&uacute;mero<br \/>\n    regular de indiv&iacute;duos a oscilar de uma profiss&atilde;o para outra.<br \/>\n    Picol&eacute;s, milicos. N&atilde;o se ofendiam com esses ep&iacute;tetos.<br \/>\n    Milico no extremo sul &eacute; qualquer soldado. Aplicando-lhes a designa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de picol&eacute;s, talvez quisessem dizer que eles tinham na caserna a resist&ecirc;ncia<br \/>\n    do sorvete, iam derreter-se depressa. Alguns, como Agildo, eram considerados<br \/>\n    mortos para a vida militar; Maria Barata recebia no tesouro o dinheiro das<br \/>\n    vi&uacute;vas, e visitava o defunto uma vez por semana.<\/p>\n<p> Jos&eacute; Gay da Cunha, segundo-tenente de avia&ccedil;&atilde;o, era<br \/>\n    uma enorme crian&ccedil;a muito branca e muito forte, alegre, viva, sempre<br \/>\n    a mexer-se e a rir. Figura internacional. Nemo Canabarro Lucas fora tenente<br \/>\n    no ex&eacute;rcito brasileiro e capit&atilde;o no Paraguai: combatera no Chaco.<br \/>\n    Por causa da sua pron&uacute;ncia castelhana, chamavam-lhe mi capitan. Mais<br \/>\n    tarde seria major na Espanha e correspondente de jornais em Londres. Afastava<br \/>\n    as intimidades com uma delicadeza fria, a voz baixa, os olhos impass&iacute;veis;<br \/>\n    raramente um d&eacute;bil sorriso lhe perturbava o arranjo sereno; vivia recolhido,<br \/>\n    estudando matem&aacute;tica. Apporelly meteu-lhe o nome numa daquelas combina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    esdr&uacute;xulas que provocavam risadas imensas no Pavilh&atilde;o. Come&ccedil;ou<br \/>\n    um discurso perfeitamente sensato, chegou a vencer a expectativa de pilh&eacute;ria,<br \/>\n    intrigando o audit&oacute;rio. Com firmeza e gravidade, lan&ccedil;ou um come&ccedil;o<br \/>\n    de frase latina:<\/p>\n<p> -Quod natura dat&#8230;<\/p>\n<p> Pausa. O homem torcia caminho: abandonava os gracejos e enveredava na circunspe&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Temperou a goela, olhou firme a assist&ecirc;ncia, repetiu:<br \/>\n    Quod natura dat&#8230; Nemo Canabarro Lucas.<\/p>\n<p> Jos&eacute; Gutman, baixinho, lourinho, cantava sambas. Joaquim Santos,<br \/>\n    o Quincas, tinha perdido um olho no combate do 3.&deg; Regimento. Era radical<br \/>\n    e assinava-se: Joaquim Santos, Segundo-Tenente do Ex&eacute;rcito Popular<br \/>\n    Nacional Revolucion&aacute;rio. Esse radicalismo nacional comportava os hinos<br \/>\n    e as can&ccedil;&otilde;es patri&oacute;ticas. Outros oficiais, Agliberto<br \/>\n    Vieira, Benedito de Carvalho, Durval de Barros, Apol&otilde;nio de Carvalho,<br \/>\n    Dinarte Silveira, &agrave; primeira vista n&atilde;o me impressionaram. O<br \/>\n    capit&atilde;o &Aacute;lvaro de Souza era um cat&aacute;logo de sangues: mistura<br \/>\n    de branco, chin&ecirc;s, preto. Uma cicatriz de navalhada a estirar-se do<br \/>\n    rosto ao pesco&ccedil;o, marcas de bala e faca na barriga e nas pernas indicavam-lhe<br \/>\n    as disposi&ccedil;&otilde;es, originavam boatos: diziam que tinha sido picotado<br \/>\n    a metralhadora. O bulhento homem negava essa balela e esquivava-se.<\/p>\n<p> Entre os civis, notei, al&eacute;m de Hermes Lima, dois professores universit&aacute;rios.<br \/>\n    Castro Rebelo, meia-idade, nariz sem&iacute;tico, falava martelando o pormenor<br \/>\n    e detestava as conclus&otilde;es apressadas. A erudi&ccedil;&atilde;o acompanhava-o<br \/>\n    nos casos mais simples. Precedera-o forte publicidade. Encontrei-o na fila<br \/>\n    do almo&ccedil;o, metido num largo pijama de listras, e, em meia d&uacute;zia<br \/>\n    de palavras, conheci-lhe a independ&ecirc;ncia violenta. O outro era Le&ocirc;nidas<br \/>\n    Resende. Vivia retra&iacute;do, murcho, deitado, a engordar, logros e des&acirc;nimos<br \/>\n    ocultos debaixo da coberta; distinguiam-se apenas um. olhar cansado e um sorriso<br \/>\n    fraco.<\/p>\n<p> Dois m&eacute;dicos judeus. Raul Karacik nascera no Brasil. Divergia das<br \/>\n    opini&otilde;es dominantes no Pavilh&atilde;o e defendia-se com gestos amb&iacute;guos,<br \/>\n    num sil&ecirc;ncio teimoso. Inquieto, mi&uacute;do, indiferente a um rasg&atilde;o<br \/>\n    no palet&oacute;, parecia querer fugir dali a caminhar sem descanso no r&eacute;s-do-ch&atilde;o,<br \/>\n    da entrada ao banheiro, movido por tend&ecirc;ncias ambulat&oacute;rias da<br \/>\n    ra&ccedil;a. Febus Gikovate era polon&ecirc;s. O faxina se embara&ccedil;ava<br \/>\n    e traduzia-lhe o nome, ao levar-lhe pacotes, nas sextas-feiras. Seu Chico<br \/>\n    Vargas Hermes Lima corroborava a tradu&ccedil;&atilde;o, com &ecirc;nfase<br \/>\n    brincalhona. Chico Vargas Assim, estive dias sem saber como se chamava aquele<br \/>\n    indiv&iacute;duo simp&aacute;tico e arredio, m&iacute;ope, de voz calma, ciciada,<br \/>\n    cheia de rr guturais. Um dia toquei-lhe em pol&iacute;tica; respondeu vago<br \/>\n    e desconfiado, com circunl&oacute;quios evasivos: provavelmente era considerado<br \/>\n    trotskista. Pessoa de teoria, permaneceu nas generalidades, aniquilando as<br \/>\n    minhas preocupa&ccedil;&otilde;es objetivas, mesquinhas, imediatas.<\/p>\n<p> A respeito de Gast&atilde;o Prati, rapag&atilde;o de cabelos grisalhos,<br \/>\n    quase brancos, de fala doce e lenta, corria uma anedota. Preso e interrogado,<br \/>\n    Miranda falara em excesso e elucidara o conte&uacute;do obscuro de numerosos<br \/>\n    pap&eacute;is. Um deles se referia a uma entrevista na casa Pratt. Isso n&atilde;o<br \/>\n    causara suspeita: encontro sem import&acirc;ncia num estabelecimento comercial<br \/>\n    onde se vendem m&aacute;quinas de escrever. Findas as perguntas a autoridade<br \/>\n    se erguera. Insatisfeito, Miranda achava n&atilde;o haver prestado as declara&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    todas:<\/p>\n<p> Um instante, doutor. Essa casa Pratt que est&aacute; no bilhete &eacute;<br \/>\n    a resid&ecirc;ncia do engenheiro Gast&atilde;o Prati Aguiar. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia,<br \/>\n    Prati se entalara. Um sujeito baixo e barbado, o advogado e jornalista Moura<br \/>\n    Carneiro, vivia a discutir investiga&ccedil;&otilde;es de petr&oacute;leo.<br \/>\n    Muitas figuras, entrevistas na confus&atilde;o, s&oacute; mais tarde iriam<br \/>\n    caracterizar-se: Lu&iacute;s Lins de Barros, Orlando Melo, Maur&iacute;cio<br \/>\n    Lacerda, Fl&aacute;vio Poppe, Francisco Mangabeira, Pl&iacute;nio Melo, Barreto<br \/>\n    Leite, S&uuml;ssekind de Mendon&ccedil;a.<\/p>\n<p> Uma se notabilizou depressa, o engenheiro Pompeu Accioly, um grande rapaz<br \/>\n    am&aacute;vel, campe&atilde;o de xadrez. Jogava tr&ecirc;s partidas simult&acirc;neas,<br \/>\n    sem ver os tabuleiros. Num cub&iacute;culo do andar superior, sentado na cama,<br \/>\n    sob vigil&acirc;ncia, de olhos fechados, ditava as marca&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que um sujeito, no passadi&ccedil;o, transmitia ao r&eacute;s-do-ch&atilde;o,<br \/>\n    onde se juntavam mirones em torno dos jogadores. Vinham as respostas, ordenadas<br \/>\n    com apuro e vagar; Pompeu lan&ccedil;ava r&aacute;pido, im&oacute;vel, a m&atilde;o<br \/>\n    em pala na testa, os lances vistos na imagina&ccedil;&atilde;o: Tabuleiro<br \/>\n    n&uacute;mero 1, n&uacute;mero 2, n&uacute;mero 3. Vi-o entregue a esse exerc&iacute;cio.<br \/>\n    Ganhou facilmente duas partidas, empatou uma.<\/p>\n<p> Certa manh&atilde;, &agrave; porta de uma c&eacute;lula vizinha ao banheiro,<br \/>\n    um mo&ccedil;o lento, a revelar perfeita arruma&ccedil;&atilde;o interna,<br \/>\n    me convidou a ensinar-lhe portugu&ecirc;s. Assim conheci Arist&oacute;teles<br \/>\n    Moura, banc&aacute;rio, embrulhado em reivindica&ccedil;&otilde;es de sindicato.<br \/>\n    Vacilei: as minhas li&ccedil;&otilde;es n&atilde;o lhe deveriam servir para<br \/>\n    grande coisa. Mas evitei descontent&aacute;-lo. Pois n&atilde;o, algumas informa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    em conversa; nada de encrencas pedag&oacute;gicas. Falamos dez minutos e desisti:<br \/>\n    Moura sabia gram&aacute;tica melhor que eu.<\/p>\n<p> Naquela barafunda os caracteres se dilu&iacute;am As confer&ecirc;ncias<br \/>\n    matinais, o orador quase nu segurando o esquema, num degrau da escada, esmoreceram.<br \/>\n    Um dia interpelei Ghioldi:<\/p>\n<p> &Oacute; Rodolfo, porque &eacute; que voc&ecirc; deixou de falar? Que &eacute;<br \/>\n    que h&aacute;?<\/p>\n<p> Eu sou estrangeiro, amigo, respondeu frio o argentino. Que linguagem, Rodolfo!<br \/>\n    H&aacute; isso entre n&oacute;s?<\/p>\n<p> Para voc&ecirc; n&atilde;o h&aacute;. Para outros h&aacute;.<\/p>\n<p> Guardei sil&ecirc;ncio e compreendi. Estava ali a conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    do patriotismo idiota badalado &agrave; noite na Voz da Liberdade O Hino do<br \/>\n    Brasileiro Pobre era melhor que esse que berram nas escolas e noutros lugares,<br \/>\n    levanta as pessoas, descobre as cabe&ccedil;as. Palavras diferentes, m&uacute;sica<br \/>\n    igual. Essas ondas humanas, a crescer, a desfazer-se, resvalavam num estreito<br \/>\n    nacionalismo A presen&ccedil;a ruidosa dos militares perturbava o sossego<br \/>\n    dos homens de pensamento, e n&atilde;o quadrava aos oper&aacute;rios. Joaquim<br \/>\n    Santos, Segundo-Tenente do Ex&eacute;rcito Popular Nacional Revolucion&aacute;rio.<br \/>\n    Tudo vago, nebuloso id&eacute;ias, sentimentos, aspira&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    As criaturas perdiam-se na multid&atilde;o, como desenhos incompletos. Umas<br \/>\n    come&ccedil;avam a esbo&ccedil;ar-se, outras viviam um instante e desmaiavam.<br \/>\n    Sa&iacute;am, voltavam, tornavam a sair. E v&aacute;rias, ali perto, ausentavam-se,<br \/>\n    dividiam-se em grupos; as diferen&ccedil;as sociais, cultura e ignor&acirc;ncia,<br \/>\n    profiss&otilde;es diversas, originavam atritos, ofensas involunt&aacute;rias.<\/p>\n<p> Os nordestinos formavam, silenciosos, uma sociedade arredia. As aulas de<br \/>\n    ingl&ecirc;s, franc&ecirc;s e russo espa&ccedil;aram-se, afinal foram suspensas:<br \/>\n    Lacerd&atilde;o, Tavares Bastos e Benjamin Snai der tiveram descanso. Jo&atilde;o<br \/>\n    Romariz n&atilde;o nos repelia nem nos atra&iacute;a, am&aacute;vel e neutro.<br \/>\n    As gargalhadas de Newton Freitas buscavam motivos, perdiam a significa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A barriga negra do estivador Santana, sempre descoberta, crescia, na engorda.<br \/>\n    Jos&eacute; Medina mordia o cachimbo com os dentes estragados. Bag&eacute;<br \/>\n    mastigava, sorna, o sorriso impudente. Trinos doidos de pardais fora, ao amanhecer;<br \/>\n    a algazarra dos pichadores e de Ramiro Magalh&atilde;es dentro, o dia inteiro<br \/>\n    A voz suave de Beatriz Bandeira, &agrave; noite, o acompanhamento rijo de<br \/>\n    Eneida, cantos aspirados, de Olga Prestes ou de Elisa Berger. Valdemar Birinyi<br \/>\n    continuava a amolar S&eacute;rgio na sua g&iacute;ria inconceb&iacute;vel,<br \/>\n    produto de v&aacute;rias l&iacute;nguas Por n&atilde;o lhe reconhecerem a<br \/>\n    literatura, composi&ccedil;&atilde;o de notici&aacute;rio, psicologia de nota<br \/>\n    policial, Amadeu Amaral J&uacute;nior, ressentido e quase nu, a barba loura<br \/>\n    mais longa, a cueca mais escura, tinha rompantes &aacute;speros, estrid&ecirc;ncias<br \/>\n    de pav&atilde;o, um grande pav&atilde;o solit&aacute;rio. Insistente, o cocoroc&oacute;<br \/>\n    do portugu&ecirc;s rolava no Pavilh&atilde;o, arrancando pragas.<\/p>\n<h3>21<\/h3>\n<p>VI NA Pra&ccedil;a Vermelha um rapaz de cabelos negros, nariz adunco, olhos<br \/>\n    vivos. Rec&eacute;m-chegado, ainda n&atilde;o se despojara da roupa nova bem<br \/>\n    feita. Vestia com apuro, e foi o indiv&iacute;duo mais elegante que me apareceu<br \/>\n    naquelas viagens subterr&acirc;neas, eleg&acirc;ncia condenada a sumir-se<br \/>\n    em pouco tempo. Chamava-se Francisco Chermont e era filho do senador Abel<br \/>\n    Chermont, dias antes arrancado violentamente de casa, entrado em luta f&iacute;sica<br \/>\n    desigual, levado a bra&ccedil;os como um fardo resistente, metido no c&aacute;rcere<br \/>\n    e ag&uuml;entado sev&iacute;cias, por se haver oposto, no Senado, aos desmandos<br \/>\n    selvagens da ditadura policial reinante. Francisco Chermont assistira &agrave;<br \/>\n    cena vergonhosa, e, antes de recobrar-se do susto, fora preso e encafuado<br \/>\n    entre n&oacute;s, por causa dos discursos do pai; iria interromper o seu curso<br \/>\n    de direito, no &uacute;ltimo ano. N&atilde;o chegou a largar o fato de. casimira<br \/>\n    bem talhado, cal&ccedil;ar tamancos, desamarrar a gravata, aclimar-se aos<br \/>\n    nossos h&aacute;bitos simples em demasia. Ficou ali talvez uma semana.<\/p>\n<p> De repente veio a degringolada met&oacute;dica, primeira de uma s&eacute;rie<br \/>\n    que nos iria causar graves inquieta&ccedil;&otilde;es. As mudan&ccedil;as<br \/>\n    at&eacute; ent&atilde;o se faziam sem alarde, quase sub-rept&iacute;cias:<br \/>\n    pareciam atos ilegais, determinados e executados na sombra por malfeitores.<br \/>\n    Os cub&iacute;culos enchiam-se, esvaziavam-se moderadamente, e &agrave;s vezes<br \/>\n    nem perceb&iacute;amos a aus&ecirc;ncia de algum h&oacute;spede incolor; em<br \/>\n    conversas, lembr&aacute;vamos o sumi&ccedil;o de indeterminadas fei&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    e com freq&uuml;&ecirc;ncia nos causava espanto o regresso desses fantasmas.<br \/>\n    A retirada em massa nos surpreendeu, nos mergulhou em press&aacute;gios escuros.<br \/>\n    Era noitinha, and&aacute;vamos &agrave; toa depois do jantar, esperando a<br \/>\n    hora de recolher. A porta da frente se escancarou e um funcion&aacute;rio<br \/>\n    surgiu com um papel na m&atilde;o.<\/p>\n<p> A lista, a lista.<\/p>\n<p> Por toda a parte essa palavra foi cochichada num momento, sem percebermos<br \/>\n    direito a significa&ccedil;&atilde;o dela. N&atilde;o sab&iacute;amos donde<br \/>\n    tinha partido, v&iacute;amos rostos apreensivos e fic&aacute;vamos suspensos,<br \/>\n    sem buscar informar-nos Encostado &agrave; barra negra da plataforma, observei<br \/>\n    um fervilhar inquieto l&aacute; embaixo, vi o sujeito desdobrar o papel e<br \/>\n    come&ccedil;ar a leitura, num rol de nomes apenas:<\/p>\n<p> Agr&iacute;cola Baptista, Newton Freitas, Anast&aacute;cio Pessoa, Jos&eacute;<br \/>\n    Medina.<\/p>\n<p> A princ&iacute;pio n&atilde;o atinei com o motivo daquela chamada improvisa;<br \/>\n    notei depois movimento nas c&eacute;lulas, homens atarantados a preparar bagagens.<br \/>\n    A leitura prosseguia, lenta, mon&oacute;tona. Sem d&uacute;vida transfer&ecirc;ncia,<br \/>\n    para desafogar a pris&atilde;o superlotada com a gente do Pedro l. T&iacute;nhamos<br \/>\n    rebentado pratos e ca&iacute;do em grande fuzu&ecirc; por causa da hemoptise<br \/>\n    de Benigno. Desarticulando-nos, quereriam evitar que tais cenas se reproduzissem.<\/p>\n<p> V&atilde;o mand&aacute;-los para a Col&ocirc;nia Correcional, segredou-me<br \/>\n    algu&eacute;m.<\/p>\n<p> Recusei admitir isso, mas era uma recusa ing&ecirc;nua, sem base. Apenas<br \/>\n    desejava afastar a previs&atilde;o funesta: sem termos id&eacute;ia segura<br \/>\n    da Col&ocirc;nia Correcional, enxerg&aacute;vamos nela a mis&eacute;ria, a<br \/>\n    degrada&ccedil;&atilde;o completa.<\/p>\n<p> Francisco Chermont, leu claramente o sujeito da lista. Bem. A conjetura<br \/>\n    desgra&ccedil;ada esmoreceu e desvaneceu-se: n&atilde;o iriam meter entre<br \/>\n    vagabundos e malandros aquele mo&ccedil;o inofensivo, alheio &agrave; pol&iacute;tica,<br \/>\n    membro da classe dominante. Se fizessem isso, estariam a destruir-se. Achei<br \/>\n    tamb&eacute;m que Anast&aacute;cio Pessoa, alto funcion&aacute;rio de banco,<br \/>\n    aparentado com indiv&iacute;duos fortes, mand&otilde;es na pol&iacute;tica,<br \/>\n    se isentava do mergulho infamante. Um m&ecirc;s atr&aacute;s, de colarinho,<br \/>\n    gravata e suspens&oacute;rio, lia o seu ingl&ecirc;s, atento, e se lhe fal&aacute;vamos,<br \/>\n    respondia com monoss&iacute;labos, para n&atilde;o comprometer-se. Estava<br \/>\n    ali por equivoco; chamado &agrave; pol&iacute;cia, deixara c autom&oacute;vel<br \/>\n    &agrave; porta; a qualquer momento receberia explica&ccedil;&otilde;es, voltaria<br \/>\n    ao trabalho. Despojara-se a custo dessas considera&ccedil;&otilde;es falsas,<br \/>\n    largara o romance ingl&ecirc;s, o colarinho, a gravata e o suspens&oacute;rio,<br \/>\n    vestira pijama e cal&ccedil;ara tamancos. Mas continuava a julgar-se v&iacute;tima<br \/>\n    de um engano.<\/p>\n<p> Provavelmente ser&atilde;o soltos, opinaram junto de mim. Provavelmente,<br \/>\n    concordei perplexo e incr&eacute;dulo, tentando apagar o escuro palpite anterior.<\/p>\n<p> Era um parecer chocho, lan&ccedil;ado &agrave; toa, apenas para dizer algumas<br \/>\n    s&iacute;labas; esfor&ccedil;ava-me por admiti-las.<\/p>\n<p> No r&eacute;s-do-ch&atilde;o havia um burburinho. Os homens chamados se<br \/>\n    arranjavam &agrave; pressa, vestiam-se lan&ccedil;ando ao acaso peda&ccedil;os<br \/>\n    de recomenda&ccedil;&otilde;es, entravam e sa&iacute;am dos cub&iacute;culos,<br \/>\n    a despedir-se. Foram em seguida, carregando maletas e embrulhos, postar-se<br \/>\n    em linha diante da grade larga do vest&iacute;bulo. O funcion&aacute;rio consultava<br \/>\n    a lista, conferia os nomes, verificava a identidade.<\/p>\n<p> A fila se estirava, numa composi&ccedil;&atilde;o heterog&ecirc;nea: oper&aacute;rios,<br \/>\n    elementos do jornal e do banco, tipos de emprego incerto. O poncho vermelho<br \/>\n    de Tamandu&aacute; se agitava, uma grande n&oacute;doa inquieta, cor de sangue.<br \/>\n    Fran&ccedil;a, o padeirinho tuberculoso a quem ofereci durante um m&ecirc;s<br \/>\n    a garrafa de leite dos doentes, juntou-se ao grupo, t&iacute;mido, insignificante,<br \/>\n    impercept&iacute;vel no movimento e no rumor. Vieram muitos, foram convocados<br \/>\n    retardat&aacute;rios, e a leva se disp&ocirc;s a sair: Mediria, Tamandu&aacute;,<br \/>\n    Anast&aacute;cio Pessoa, Newton Freitas, Desid&eacute;rio, Chermont, o padeiro,<br \/>\n    outros esquecidos, trinta ou quarenta indiv&iacute;duos, entre eles Mamede,<br \/>\n    cafuzo de olhar ardente e cabeleira revolta, marcado &agrave;quela hora por<br \/>\n    uma opini&atilde;o que logo recebeu contradita en&eacute;rgica.<\/p>\n<p> Eram necess&aacute;rias algumas palavras de solidariedade aos companheiros<br \/>\n    que se retiravam naquele ambiente de perspectivas m&aacute;s. Rodolfo Ghioldi<br \/>\n    fez um ligeiro discurso. N&atilde;o lhes insinuou a esperan&ccedil;a de serem<br \/>\n    transferidos para lugar melhor. Encoivarou r&aacute;pido as tristezas da separa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e entrou, como fazia sempre, em mat&eacute;ria pol&iacute;tica. Aludiu &agrave;<br \/>\n    conveni&ecirc;ncia de estarmos unidos, em quaisquer circunst&acirc;ncias,<br \/>\n    ao rigoroso cumprimento das tarefas, assim por diante. Em seguida falou Sisson.<br \/>\n    Verboso, desejou boa viagem &agrave; turma e expressou a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que ela seria posta em liberdade. Parecia n&atilde;o ter nenhuma d&uacute;vida<br \/>\n    sobre isto: iriam todos ali direitinho para a rua.<\/p>\n<p> Essa arenga produziu efeitos discordantes naquela gente: uns se reanimaram,<br \/>\n    com certeza, outros devem ter ca&iacute;do em des&acirc;nimo ou irrita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E as duas respostas divergentes, inesperadas, vieram sacudir-nos. Mamede jogou<br \/>\n    a primeira, exaltado, uma luz viva a aquecer-lhe o rosto moreno, a grenha<br \/>\n    a derramar-se na testa e a refluir para a nuca, na agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    afirmativa da cabe&ccedil;a. Tinha-se enganado, vivera a imaginar desacordos<br \/>\n    essenciais entre as classes, e agora notava que elas se podiam combinar. Todos<br \/>\n    os atritos esmoreciam, necessidades urgentes de concilia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    vibravam na fala untuosa. Era id&iacute;lico e prof&eacute;tico. Os cabelos,<br \/>\n    agitados por excessivos &iacute;mpetos, rijas ventanias interiores, vinham<br \/>\n    adiante, iam atr&aacute;s, naquela terr&iacute;vel mansid&atilde;o quase furiosa.<br \/>\n    O trabalhador rude convertia-se em mission&aacute;rio. A paz reinaria sobre<br \/>\n    a terra, um novo reino de Deus nos envolveria, e os lobos, perdido o instinto,<br \/>\n    abra&ccedil;ariam, as ovelhas. Terminou e Desid&eacute;rio ergueu o bra&ccedil;o.<br \/>\n    Foi breve e incisivo, t&atilde;o incisivo e breve que me aventuro a copiar-lhe<br \/>\n    as palavras sem receio de engano!<br \/>\n    Ah! an!<br \/>\n    Um risinho sarc&aacute;stico e azedo, um brilho mau no bugalho torto.<\/p>\n<p> Esse neg&oacute;cio de liberdade &eacute; conversa. Vamos deixar de tapea&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Lembrei-me da aspereza dele, no Coletivo: Isso n&atilde;o vale nada. Besteira.<br \/>\n    A mesma raiva fria e demolidora, o mesmo horror aos intrusos no seu mundo.<\/p>\n<p> Eu sei para onde vou, sim senhores. Vou para a Col&ocirc;nia, que &eacute;<br \/>\n    o meu lugar. Estive aqui por descuido, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    viver muito tempo com os senhores.<\/p>\n<p> E rematou, cheio de fel e veneno, um fulgor de &oacute;dio no olho que se<br \/>\n    ausentava de n&oacute;s:<\/p>\n<p> Estes bra&ccedil;os est&atilde;o cansados, est&atilde;o magros de carregar<br \/>\n    farinha para burgu&ecirc;s comer.<\/p>\n<p> A r&eacute;plica brutal &agrave; harmonia fervorosa de Mamede produziu um<br \/>\n    sil&ecirc;ncio de constrangimento. Depois de tal clareza, as tentativas de<br \/>\n    acomoda&ccedil;&atilde;o eram in&uacute;teis. Desid&eacute;rio nos julgava<br \/>\n    parasitas, os nossos trabalhos demorados e complexos n&atilde;o tinham para<br \/>\n    ele nenhuma significa&ccedil;&atilde;o. Arrepiei-me ante aquela antipatia,<br \/>\n    agressiva, a desviar poss&iacute;veis entendimentos, a excluir habilidades<br \/>\n    proveitosas Jogava-nos a todos o lab&eacute;u. Exploradores e inimigos Na<br \/>\n    verdade a maioria n&atilde;o era burguesa Pertenc&iacute;amos a essa camada<br \/>\n    fronteiri&ccedil;a. incongruente e vacilante, a inclinar-se para um lado,<br \/>\n    para outro, sem ra&iacute;zes. Isso determinava opini&otilde;es inconsistentes<br \/>\n    e movedi&ccedil;as, fervores s&uacute;bitos, entusiasmos exagerados, e logo<br \/>\n    afrouxamentos, d&uacute;vidas, bocejos. Naquele momento a revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    monopolizava os esp&iacute;ritos, e alguns a desejavam com fervor religioso.<br \/>\n    Mais tarde iriam surgir numerosas apostasias, e &eacute; poss&iacute;vel que<br \/>\n    homens &aacute;speros como Desid&eacute;rio tenham influ&iacute;do nelas.<\/p>\n<p> Debru&ccedil;ado ao passadi&ccedil;o, achei-o grosseiro e injusto. Aos votos<br \/>\n    am&aacute;veis de Sisson respondera com quatro pedras na m&atilde;o, como<br \/>\n    se nos responsabilizasse por sua desdita. Pensei depois com freq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    naquele rompante, esforcei-me por explic&aacute;-lo. Quem sabe se o estivador<br \/>\n    n&atilde;o tinha alguma raz&atilde;o? Opusera um dique ao otimismo torrencial<br \/>\n    de Mamede. Contivera as explosivas manifesta&ccedil;&otilde;es da coqueluche<br \/>\n    vermelha. Tarimbeiro antigo, desdenhava os recrutas. E talvez percebesse ali<br \/>\n    as falhas em consci&ecirc;ncias, perf&iacute;dias, embustes e ciladas. Viviam<br \/>\n    a cochichar que est&aacute;vamos cercados de espi&otilde;es. Desid&eacute;rio<br \/>\n    se defendia, encaramujava-se no seu grupo social, retra&iacute;a-se na desconfian&ccedil;a<br \/>\n    como numa carapu&ccedil;a. Farejava den&uacute;ncias. E os denunciantes eram<br \/>\n    burgueses, provavelmente. Em sil&ecirc;ncio, constrangidos, vimos o sujeito<br \/>\n    conferir de novo a lista Em seguida a leva p&ocirc;s-se em marcha e a grade<br \/>\n    se fechou.<\/p>\n<h3>22<\/h3>\n<p>DECORREU uma semana Certa manh&atilde;, &agrave; porta do banheiro, aguardando<br \/>\n    vaga, notei ali perto um desconhecido muito diferente dos moradores do Pavilh&atilde;o.<br \/>\n    Chegou-se, falou me. Retribu&iacute; a sauda&ccedil;&atilde;o, confuso, perguntando<br \/>\n    a mim mesmo onde e quando me avistara com semelhante indiv&iacute;duo. A presen&ccedil;a<br \/>\n    dele me trazia agouros maus: certamente iam degradar-nos. T&iacute;nhamos<br \/>\n    vivido meses entre pessoas de apar&ecirc;ncia mais ou menos decente, e mandavam-nos<br \/>\n    agora um vagabundo s&oacute;rdido. Evidentemente procedia do morro, esfomeara-se,<br \/>\n    estragara-se a malandrar nas favelas. A roupa imunda e sem cor amarfanhava-se,<br \/>\n    coberta de placas de lama seca: sem d&uacute;vida o homem se deitara no ch&atilde;o<br \/>\n    molhado e n&atilde;o pensara em recompor-se. N&atilde;o lhe precisar&iacute;amos<br \/>\n    a idade vinte ou cinq&uuml;enta anos. Um ar de fadiga inquieta, a pele ba&ccedil;a,<br \/>\n    o olhar esgazeado, e completo desleixo, indiferen&ccedil;a de quem desceu<br \/>\n    muito e j&aacute; nem tenta causar boa impress&atilde;o. A barba atestava<br \/>\n    aus&ecirc;ncia regular de navalha e sab&atilde;o; no cr&acirc;nio rapado a<br \/>\n    m&aacute;quina, de lividez cadaverosa, protuber&acirc;ncias avultavam. A fala<br \/>\n    abafada entrecortava-se de hiatos. Lembrei-me vagamente de j&aacute; ter ouvido<br \/>\n    aquela voz, mas, por muito que esquadrinhasse a mem&oacute;ria, n&atilde;o<br \/>\n    me seria poss&iacute;vel<\/p>\n<p> reconhecer a figura lastimosa. Percebendo-me na cara o pasmo e a interroga&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o homem apresentou-se:<br \/>\n    Francisco Chermont.<\/p>\n<p> N&atilde;o entendi, fiquei um minuto a examin&aacute;-lo, sem atinar com<br \/>\n    o motivo daquela refer&ecirc;ncia ao estudante de cabelos negros e olhos vivos,<br \/>\n    o fato de casimira a envolv&ecirc;-lo naturalmente, como se tivesse nascido<br \/>\n    com ele. At&ocirc;nito, aguardei esclarecimentos, e quando ele veio, aos peda&ccedil;os,<br \/>\n    recusei admiti-lo:<\/p>\n<p> O senhor?<\/p>\n<p> Imposs&iacute;vel distinguir na desgra&ccedil;ada ru&iacute;na vest&iacute;gios<br \/>\n    do mo&ccedil;o elegante.<\/p>\n<p> O senhor?<\/p>\n<p> E atentava na palidez suja, nas &oacute;rbitas cavadas, nas crostas imundas<br \/>\n    presas ao tecido ign&oacute;bil, semelhante a estopa. Como as pessoas se alteram<br \/>\n    depressa! Os modos eram outros, diversa a fisionomia. Busquei um tra&ccedil;o<br \/>\n    revelador. Bem. L&aacute; estava o nariz curvo, de papagaio. Novos ind&iacute;cios<br \/>\n    lentamente surgiram, romperam a custo a m&aacute;scara vergonhosa; a linguagem<br \/>\n    polida afastou Chermont dos mocambos.<\/p>\n<p> Em vivo constrangimento, remo&iacute; palavras dif&iacute;ceis, baixando<br \/>\n    a vista, procurando abafar a terr&iacute;vel impress&atilde;o, morto por desviar-me<br \/>\n    dali. Fal&aacute;vamos com muitas pausas. Vali-me de uma e interrompi a conversa,<br \/>\n    fui lavar-me. Em seguida me recolhi, em desassossego, buscando na leitura<br \/>\n    e na escrita apagar Q caso desagrad&aacute;vel, receando min&uacute;cias,<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es penosas. Vieram &agrave; noite.<\/p>\n<p> Arriado no colch&atilde;o magro, os ferros da cama a raspar-me o espinha&ccedil;o<br \/>\n    e as costelas, ouvi sucumbido o relat&oacute;rio de Chermont. Era extenso<br \/>\n    e medonho. Hora comprida uma voz mon&oacute;tona rolou contando sem rodeios,<br \/>\n    &agrave;s vezes descendo a pormenores ign&oacute;beis, fatos v&aacute;rios<br \/>\n    daquela negra semana de aus&ecirc;ncia. Havia coisas inconceb&iacute;veis<br \/>\n    nos sucessos largados de supet&atilde;o dentro das nossas cabe&ccedil;as,<br \/>\n    nas cenas de realismo nojento, nos di&aacute;logos torpes, em g&iacute;ria.<br \/>\n    Fumando, as p&aacute;lpebras ca&iacute;das, penetrei no mundo confuso da narra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lenta e pesada; vi mentalmente a fila transpor o vest&iacute;bulo, marchar<br \/>\n    no p&aacute;tio, demorar-se na rouparia, dar respostas a perguntas secas e<br \/>\n    receber pacotes numerados, arrumados nas prateleiras. Saiu, ziguezagueou algum<br \/>\n    tempo no recinto de muros altos, sem saber para onde o levavam, juntou-se<br \/>\n    a novos grupos, dissolveu-se neles. Encaixaram-se todos em carros fechados,<br \/>\n    os tintureiros da pol&iacute;cia, e rodaram longamente na escurid&atilde;o<br \/>\n    que manchas de luz perturbavam, pequenas r&eacute;stias causadas por furos<br \/>\n    abertos nas paredes de ferro. Desembarcaram entre fuzis e pistolas, foram<br \/>\n    metidos no por&atilde;o de um navio.<\/p>\n<p> N&atilde;o tive dificuldade em imaginar a transfer&ecirc;ncia. Enxerguei-os<br \/>\n    a descer das tocas ambulantes, pisar no asfalto, indecisos, como ratos encandeados,<br \/>\n    atravessar alguns metros de cais, um conv&eacute;s, mergulhar numa escadinha<br \/>\n    estreita, desembocar no espa&ccedil;o vago cheio de trevas leitosas. Era-me<br \/>\n    in&uacute;til a descri&ccedil;&atilde;o, nem atentei nela: provavelmente calor<br \/>\n    horr&iacute;vel, bei&ccedil;os gretados, sinais de asfixia, o insuport&aacute;vel<br \/>\n    cheiro de amon&iacute;aco, suor abundante, coisas moles a esmagar-se debaixo<br \/>\n    dos sapatos, imund&iacute;cies ocultas na fuma&ccedil;a dos cigarros. A lembran&ccedil;a<br \/>\n    viva do Manaus assaltou-me; a sede, imagens desconexas, receio de enlouquecer,<br \/>\n    dispn&eacute;ia, sitiofobia e um jato de sangue a anunciar morte esperada<br \/>\n    como liberta&ccedil;&atilde;o chegaram de repente: na cama dura, a escoriar-me<br \/>\n    no metal, de costas para n&atilde;o esconder uma das orelhas no travesseiro<br \/>\n    ex&iacute;guo, n&atilde;o perder s&iacute;laba do relat&oacute;rio, achei-me<br \/>\n    de novo deitado numa costela do cavername, o rosto colado a uma vigia, respirando<br \/>\n    em haustos curtos ar salino. Essas recorda&ccedil;&otilde;es esmoreceram diante<br \/>\n    de casos novos, imprevistos e imprevis&iacute;veis.<\/p>\n<p> No por&atilde;o do Manaus, tinha-me visto na companhia de pessoas aviltadas,<br \/>\n    e o ambiente f&iacute;sico me atormentara a princ&iacute;pio. No entanto conseguira<br \/>\n    habituar-me. Era poss&iacute;vel escapar dali refugiando-me no camarote do<br \/>\n    padeiro, na rede a balan&ccedil;ar embaixo da escotilha. E a conviv&ecirc;ncia<br \/>\n    de Lauro Lago, Macedo, M&aacute;rio Paiva, Benon, Jo&atilde;o Anast&aacute;cio,<br \/>\n    Manuel Leal de nenhum modo me desagradava. Ligeiras incompreens&otilde;es<br \/>\n    anulavam-se. Of&iacute;cios v&aacute;rios, o sert&atilde;o e o litoral reunidos,<br \/>\n    ocasionavam certas diverg&ecirc;ncias de pros&oacute;dia e sem&acirc;ntica,<br \/>\n    mas essas bagatelas n&atilde;o conseguiam separar-nos. O por&atilde;o do Campos<br \/>\n    era muito diverso. Justapuseram-se ali duas sociedades inconcili&aacute;veis:<br \/>\n    uma afeita &agrave;s id&eacute;ias e aos costumes regulares, mais ou menos<br \/>\n    confess&aacute;veis e permitidos; outra incursa em velhas censuras, em desprezos<br \/>\n    e temores p&uacute;blicos, dirigindo-se por normas ignoradas c&aacute; fora,<br \/>\n    regras absurdas. A primeira, centena e meia de pol&iacute;ticos, aglomerava-se<br \/>\n    &agrave; entrada, em silencioso assombro, a atividade morta; a segunda, quatrocentos<br \/>\n    ou quinhentos malandros, vagabundos, ladr&otilde;es, refugo tumultuoso, fervilhava<br \/>\n    e zumbia naquele esgoto social como um formigueiro assanhado. O n&uacute;mero<br \/>\n    superior e adapta&ccedil;&atilde;o completa ao meio tinham suprimido nos &uacute;ltimos<br \/>\n    qualquer vest&iacute;gio de constrangimento ou pejo: mexiam-se &agrave; vontade,<br \/>\n    expondo os seus costumes, horr&iacute;veis mazelas, n&atilde;o parecendo sentir<br \/>\n    a abje&ccedil;&atilde;o Coisas duvidosas, vagamente suspeitadas, surgiram<br \/>\n    nuas &agrave; luz das l&acirc;mpadas, patenteavam-se em voz alta, com a mais<br \/>\n    perfeita naturalidade. Haviam organizado uma esp&eacute;cie de governo. A<br \/>\n    pol&iacute;cia, l&aacute; de cima, incumbira disso Moleque Quatro, indiv&iacute;duo<br \/>\n    reimoso, forte na capoeira e no samba, presum&iacute;vel autor de m&aacute;goas<br \/>\n    em verso dedicadas a um ingrato: Implorar s&oacute; a Deus&#8230; Esse poder se<br \/>\n    exercia discricion&aacute;rio, simultaneamente justi&ccedil;a e execu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    regido por leis pr&oacute;prias, reconhecidas e inapel&aacute;veis No movimento<br \/>\n    e na balb&uacute;rdia realizou-se um processo. Moleque Quatro nomeara alguns<br \/>\n    assessores: mantinham, com amea&ccedil;as e rasteiras, a ordem singular das<br \/>\n    cloacas humanas e, em caso de necessidade, incorporavam-se em tribunal. Essa<br \/>\n    guarda temerosa reconheceu um alcag&uuml;ete a dissimular-se na multid&atilde;o,<br \/>\n    pegou-o, levou-o r&aacute;pida ao chefe e logo se transformou em j&uacute;ri.<br \/>\n    O alcag&uuml;ete &eacute; um delator e para ele os criminosos s&atilde;o inexor&aacute;veis.<br \/>\n    O descoberto naquela noite veio tr&ecirc;mulo e mudo, com duras contas a agravar-se<br \/>\n    em depoimentos medonhos de testemunhas furiosas, num instante convertidos<br \/>\n    num libelo coletivo. Nenhuma defesa. Ouvidas ias culpas, Moleque Quatro refletiu,<br \/>\n    co&ccedil;ou a carapinha e decidiu: Vai morrer.<\/p>\n<p> No estranho julgamento o carro andava diante dos bois: proferia-se a senten&ccedil;a<br \/>\n    e depois os jurados se manifestariam; confirmavam-na ou recusavam-na, mas<br \/>\n    n&atilde;o seria f&aacute;cil absolverem um sujeito sumariamente condenado,<br \/>\n    esmagado por acusa&ccedil;&otilde;es tremendas. Aceitaram a decis&atilde;o,<br \/>\n    un&acirc;nimes.<\/p>\n<p> Vai morrer<\/p>\n<p> Nesse ponto o infeliz, aturdido, pareceu despertar. Caiu de joelhos, balbuciando<br \/>\n    s&uacute;plicas abjetas:<\/p>\n<p> Seu Quatro, pelo amor de Deus Eu sou casado, sustento fam&iacute;lia. Tenha<br \/>\n    pena de meus filhos, seu Quatro<\/p>\n<p> O negro ouvia impass&iacute;vel:<\/p>\n<p> N&atilde;o tem jeito n&atilde;o. Vai morrer.<\/p>\n<p> Causava assombro a id&eacute;ia de que fosse poss&iacute;vel realizar-se<br \/>\n    ali, perto de homens fardados e armados, uma execu&ccedil;&atilde;o. Provavelmente<br \/>\n    queriam apenas intimidar o desgra&ccedil;ado. A firmeza dos ju&iacute;zes,<br \/>\n    a curiosidade ansiosa da assist&ecirc;ncia, as covardes lam&uacute;rias do<br \/>\n    r&eacute;u desviavam essa conjetura. A gente da superf&iacute;cie via a m&aacute;quina<br \/>\n    subterr&acirc;nea a funcionar e arrepiava-se. Imaginara a exist&ecirc;ncia<br \/>\n    dela, uma exist&ecirc;ncia vaga, apanhada em jornais e em livros. A realidade<br \/>\n    n&atilde;o tinha verossimilhan&ccedil;a. Estava, por&eacute;m, a entrar pelos<br \/>\n    olhos e pelos ouvidos. M&atilde;os a torcer-se no desespero e o rogo choroso:<br \/>\n    Tenha pena de meus filhos, seu Quatro.<\/p>\n<p> Esbo&ccedil;ou-se uma horr&iacute;vel piedade na cara do negro. E veio comuta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da pena:<\/p>\n<p> Est&aacute; bem. N&atilde;o vai morrer. Vai sofrer trinta enraba&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &Eacute; medonho escrever isso, ofender pudic&iacute;cias visuais, mas realmente<br \/>\n    n&atilde;o acho meio de transmitir com dec&ecirc;ncia a terr&iacute;vel passagem<br \/>\n    do relat&oacute;rio de Chermont. A nova senten&ccedil;a foi aprovada com alvoro&ccedil;o.<br \/>\n    Desfez-se a assembl&eacute;ia. E a um canto, cercado por exig&ecirc;ncias<br \/>\n    numerosas, trinta vezes o paciente serviu de mulher. N&atilde;o era o &uacute;nico:<br \/>\n    outros j&aacute; se estavam dedicando a esse exerc&iacute;cio. Um pol&iacute;tico<br \/>\n    esbarrou num casal, n&atilde;o conteve exclama&ccedil;&otilde;es de surpresa.<\/p>\n<p> &Eacute; besta? exclamou o passivo entortando o pesco&ccedil;o, erguendo<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, indignado Nunca viu um homem tomar&#8230; As incurs&otilde;es<br \/>\n    naqueles dom&iacute;nios tinham perigo, sujeitavam pessoas incautas a ofensas<br \/>\n    graves e equ&iacute;vocos vergonhosos. Notando isso, alguns imprudentes recuaram<br \/>\n    num sobressalto, foram agrupar-se junto &agrave; escada, na luz que vinha<br \/>\n    da escotilha. Mas n&atilde;o se acharam em seguran&ccedil;a; rondas agoureiras<br \/>\n    mostravam claro o intuito de subordin&aacute;-los &agrave; regra ordin&aacute;ria;<br \/>\n    com certeza seriam for&ccedil;ados a defender-se em luta f&iacute;sica. N&atilde;o<br \/>\n    chegaram &agrave;s vias de fato. Percebendo a situa&ccedil;&atilde;o, Moleque<br \/>\n    Quatro exibiu prest&iacute;gio e for&ccedil;a, amorteceu os intentos agressivos<br \/>\n    com diversos rabos-de-arraia:<br \/>\n    Em comuna aqui ningu&eacute;m toca.<\/p>\n<p> Alongou o bra&ccedil;o, indicou uma linha indecisa, a limitar os dois campos:<\/p>\n<p> Este peda&ccedil;o &eacute; dos comunas, o resto &eacute; nosso. Aqui ningu&eacute;m<br \/>\n    bole com eles. Agora se algum passar para l&aacute;, n&atilde;o garanto nada.<\/p>\n<p> A imagin&aacute;ria fronteira impediu atritos; o esbo&ccedil;o de rixa extinguiu-se,<br \/>\n    e durante a viagem as duas fac&ccedil;&otilde;es detiveram-se ali, a alguns<br \/>\n    cent&iacute;metros uma da outra, como se um muro as separasse. As mais altas<br \/>\n    autoridades l&aacute; de cima n&atilde;o teriam meio de fazer-se respeitar<br \/>\n    assim. Capoeiragem s&aacute;bia, um gesto e a resolu&ccedil;&atilde;o clara.<br \/>\n    N&atilde;o se falava mais nisso. Castigos horr&iacute;veis e obedi&ecirc;ncia.<br \/>\n    Provavelmente se achavam longe da costa quando um sujeito daqueles foi morto.<br \/>\n    Agora, apinhados em alguns metros de soalho, oper&aacute;rios e burgueses<br \/>\n    viam de longe a efervesc&ecirc;ncia de corti&ccedil;o e n&atilde;o souberam<br \/>\n    se se tratava de um novo julgamento. Rebuli&ccedil;o, desordem, correria,<br \/>\n    gritos, e um peda&ccedil;o de t&aacute;bua feriu uma cabe&ccedil;a, esmigalhando<br \/>\n    ossos, descobrindo miolos. Movimento de recuo, e na clareira aberta no rolo<br \/>\n    a v&iacute;tima apareceu a estrebuchar nas &uacute;ltimas convuls&otilde;es<br \/>\n    Em minutos ficou em sossego. Uma corda baixou da coberta; amarrado, o cad&aacute;ver<br \/>\n    se levantou, subiu, sumiu-se na boca da escotilha. Nenhum inqu&eacute;rito.<br \/>\n    Indiferen&ccedil;a, esquecimento. Na verdade Moleque Quatro n&atilde;o bazofiara<br \/>\n    ao condenar friamente o delator: se o tivesse liquidado, n&atilde;o lhe viriam<br \/>\n    pedir contas, pois a elimina&ccedil;&atilde;o de uma vida pouco influiria<br \/>\n    no cadastro policial: uma ficha a menos. E as sindic&acirc;ncias n&atilde;o<br \/>\n    teriam resultado: o cr&acirc;nio partido e o c&eacute;rebro exposto serviam<br \/>\n    de exemplo, atavam as l&iacute;nguas, a indicar as repres&aacute;lias em caso<br \/>\n    de trai&ccedil;&atilde;o. Ningu&eacute;m se arriscaria a depor. Insignific&acirc;ncia.<br \/>\n    Iriam remeter o corpo ao necrot&eacute;rio ou jog&aacute;-lo na &aacute;gua?<\/p>\n<p> Na comprida noite, alcan&ccedil;aram afinal o destino. Manobras, falas e<br \/>\n    gestos equ&iacute;vocos; perceberam a custo que haviam chegado, iam sair da<br \/>\n    gaiola movedi&ccedil;a e recolher-se noutra, fixa. Ordens r&iacute;spidas<br \/>\n    a conjugar-se, anular-se, barulho; n&atilde;o sabiam onde se achavam. Iam<br \/>\n    e vinham, maquinais. Pegaram as bagagens, subiram, como son&acirc;mbulos,<br \/>\n    a escada e mergulharam na treva, rodeados de pol&iacute;cias. Demora, formalidades<br \/>\n    incompreens&iacute;veis, depois a marcha vagarosa em caminhos &aacute;speros,<br \/>\n    a galgar e a descer morros. Criaturas invis&iacute;veis, col&eacute;ricas,<br \/>\n    desferiam golpes e insultos, e era absurdo que a sombra e o sil&ecirc;ncio<br \/>\n    provocassem tais brutalidades. A aus&ecirc;ncia de rea&ccedil;&atilde;o, embotamento,<br \/>\n    pancadas em falso aumentavam a sanha dos agressores.<\/p>\n<p> Nessa altura a narra&ccedil;&atilde;o embrulhou-se, perdi a seq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    dos acontecimentos Dois ou tr&ecirc;s se haviam alargado, crescido muito e<br \/>\n    inclinava-me a julg&aacute;-los produto de imagina&ccedil;&atilde;o doente.<br \/>\n    A apar&ecirc;ncia estranha de Chermont fazia-me supor que ele estava a devanear.<br \/>\n    Contudo esse desarranjo poss&iacute;vel no ju&iacute;zo, a metamorfose realizada<br \/>\n    t&atilde;o depressa, a coisa interna e a externa a conjugar-se deviam ser<br \/>\n    conseq&uuml;&ecirc;ncia da vida anormal descrita. As marcas horr&iacute;veis<br \/>\n    n&atilde;o eram fantasia. Tinham-se originado no por&atilde;o, ganho relevo<br \/>\n    nos padecimentos f&iacute;sicos e morais consecutivos. As causas deles chegavam-me<br \/>\n    aos ouvidos, fora do tempo, desconexas. Riachos a gemer no escuro. Os guardas<br \/>\n    ocupavam as pontes estreitas e for&ccedil;avam a multid&atilde;o cansada a<br \/>\n    meter-se na corrente fria. Enorme galp&atilde;o coberto de zinco, um milheiro<br \/>\n    de criaturas famintas a dormir em esteiras podres, monturo de chagas e v&iacute;cios,<br \/>\n    a mucurama a roer carnes, os ladr&otilde;es a apossar-se de objetos mi&uacute;dos.<br \/>\n    Essa piolheira esvaziava-se pela manh&atilde;. Seguiam turmas para trabalhos<br \/>\n    diversos, e num cercado pr&oacute;ximo os inv&aacute;lidos arriavam, no des&acirc;nimo<br \/>\n    e no sil&ecirc;ncio, entre panos imundos a secar ao sol. Duas vezes por dia<br \/>\n    extensa fila transpunha o port&atilde;o, movia-se devagar num p&aacute;tio<br \/>\n    branco, dirigia-se ao refeit&oacute;rio, que tinha um cheiro de carni&ccedil;a.<br \/>\n    Os bra&ccedil;os cruzavam-se na obedi&ecirc;ncia humilhante, as cabe&ccedil;as<br \/>\n    rapadas curvavam-se diante de um pol&iacute;cia b&ecirc;bedo. Fome. A horr&iacute;vel<br \/>\n    comida insuficiente arruinava est&ocirc;magos e intestinos. Nenhuma rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com o exterior, aus&ecirc;ncia do mundo, abandono completo. Al&eacute;m das<br \/>\n    grades, o destacamento policial, a dire&ccedil;&atilde;o percebida na figura<br \/>\n    nanica de um anspe&ccedil;ada irasc&iacute;vel e mau; no alojamento ign&oacute;bil,<br \/>\n    a predomin&acirc;ncia dos vagabundos e malandros, os sequazes de Moleque Quatro<br \/>\n    a vigiar. Era terr&iacute;vel e burlesco. Homens aniquilados, na depend&ecirc;ncia<br \/>\n    arbitr&aacute;ria de um an&atilde;o irrespons&aacute;vel, de um criminoso<br \/>\n    bo&ccedil;al. Essas duas pot&ecirc;ncias harmonizavam-se. Na imensa porcaria,<br \/>\n    duzentos indiv&iacute;duos postos fora da sociedade achatavam-se numa prensa,<br \/>\n    &oacute;dio em cima e embaixo.<\/p>\n<p> A voz lenta e grave calou-se. E o Pavilh&atilde;o caiu num sossego l&uacute;gubre.<br \/>\n    O resto da noite os farrapos sujos de not&iacute;cias loucas me perseguiram,<br \/>\n    picaram e moeram, associando-se aos percevejos e &agrave;s traves duras da<br \/>\n    cama.<\/p>\n<h3>23<\/h3>\n<p> A APAR&Ecirc;NCIA de Enzmann Cavalcante me surpreendeu. Os olhos ba&ccedil;os,<br \/>\n    frios, a boca entreaberta, o rosto longo, inerte, como se os m&uacute;sculos<br \/>\n    se houvessem distendido, bambos e sem for&ccedil;a. Caminhava devagar, arrastando<br \/>\n    as pernas com dificuldade. Tentei puxar conversa, examinar as causas da murchid&atilde;o;<br \/>\n    resmungou monoss&iacute;labos dif&iacute;ceis, contrafeito: era evidente que<br \/>\n    n&atilde;o se achava de nenhum modo propenso a falar. Respeitei-lhe a depress&atilde;o<br \/>\n    e a reserva, julgando in&uacute;til qualquer interesse: os dois Campos da<br \/>\n    Paz, Val&eacute;rio Konder e outros m&eacute;dicos iriam com certeza dar-lhe<br \/>\n    rem&eacute;dio.<\/p>\n<p> Passeando na Pra&ccedil;a Vermelha, entre rela&ccedil;&otilde;es de graus<br \/>\n    diversos, dos companheiros nordestinos &agrave; gente do Pedro I, meio desconhecida,<br \/>\n    parei diante de um cub&iacute;culo, vi l&aacute; dentro uma pessoa encolhida<br \/>\n    na cama, a tiritar debaixo da coberta. Avizinhei-me, distingui Gikovate, o<br \/>\n    doutor judeu rec&eacute;m-chegado:<\/p>\n<p> O senhor est&aacute; doente?<\/p>\n<p> A minha curiosidade sol&iacute;cita e indiscreta foi recebida com um gesto<br \/>\n    de agradecimento pesado, um sorriso d&uacute;bio, um lento volver das p&aacute;lpebras<br \/>\n    ca&iacute;das. A mesma frouxid&atilde;o observada pouco antes, o des&acirc;nimo<br \/>\n    esquisito e imposs&iacute;veis as explica&ccedil;&otilde;es. Fugia ao polon&ecirc;s<br \/>\n    a maneira razo&aacute;vel de acolher me e despedir-me logo; embara&ccedil;ava-me<br \/>\n    nas conveni&ecirc;ncias que me diziam ser est&uacute;pido ir perturb&aacute;-lo<br \/>\n    e est&aacute;vamos como dois brutos. N&atilde;o devia ter-me insinuado ali.<br \/>\n    Queria reduzir a impertin&ecirc;ncia, oferecer os meus pr&eacute;stimos e<br \/>\n    sair, mas o esfor&ccedil;o do Gikovate em deter-me, fingir compreens&atilde;o,<br \/>\n    aumentava-me o desassossego. Necess&aacute;rio retirar-me, e n&atilde;o me<br \/>\n    ocorria a despedida trivial.<\/p>\n<p> Fiquei minutos compridos a observar a devasta&ccedil;&atilde;o na fisionomia<br \/>\n    do homem, a procurar em v&atilde;o id&eacute;ia ou f&oacute;rmula, sentindo<br \/>\n    vagamente que principiava a contagiar-me. Pensava na m&aacute;scara de Cavalcante,<br \/>\n    vi-a pregada no rosto de Gikovate, e a coincid&ecirc;ncia me agravava a disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    m&oacute;rbida. O receio de tornar-me assim jogou-me fora da c&eacute;lula.<\/p>\n<p> O pavimento inferior estava quase deserto. Outras figuras p&aacute;lidas<br \/>\n    encolhiam-se, esgueiravam-se, deram-me a impress&atilde;o de moscas envenenadas<br \/>\n    a debater-se a custo, a esmorecer num sussurro. Faltavam-me a palavra e o<br \/>\n    desejo de comunicar; provavelmente aquelas pessoas tamb&eacute;m se desviavam<br \/>\n    de mim, precisavam isolar-se.<\/p>\n<p> Recolhi-me atenazado pelas recorda&ccedil;&otilde;es que me haviam feito<br \/>\n    deixar a cama cedo, procurar distrair-me aderindo aos grupos, aperuando o<br \/>\n    jogo de xadrez. Mas a gente se dissociava, os tabuleiros dormiam. Um logro.<br \/>\n    Fora desanuviar-me e regressava pior. As caras de palmo e os vultos piongos<br \/>\n    levaram-me a supor-me tamb&eacute;m desfigurado. Talvez j&aacute; me houvesse<br \/>\n    levantado a exibir os mesmos sinais. Apenas n&atilde;o tinha consci&ecirc;ncia<br \/>\n    disto. Agora me revia nos outros, como em ver&iacute;dicos espelhos, e assaltava-me<br \/>\n    o des&acirc;nimo, a quebreira. Era poss&iacute;vel que o meu desarranjo se<br \/>\n    refletisse neles e reciprocamente nos desconchav&aacute;vamos.<\/p>\n<p> Cansa&ccedil;o, gastura, a carne e os nervos a embotar-se. Conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    da noite horr&iacute;vel, sem d&uacute;vida, a trave a ro&ccedil;ar-me as<br \/>\n    costelas, os dentes dos percevejos, as cenas do por&atilde;o e da Col&ocirc;nia<br \/>\n    Correcional. O relat&oacute;rio de Chermont nos demolia. No sono inquieto<br \/>\n    ou na vig&iacute;lia da noite extensa n&atilde;o calcul&aacute;vamos o estrago,<br \/>\n    buscar&iacute;amos em n&oacute;s mesmos for&ccedil;a bastante para restaurar-nos.<br \/>\n    O dia, abertas as grades, nos revelava de chofre o desmantelo e nos desarmava.<br \/>\n    Est&aacute;vamos fracos e incapazes.<\/p>\n<p> O abafamento. Esta palavra circulou, batizando a morrinha coletiva e pensei<br \/>\n    no banzo dos negros, no mal-triste do gado. Era um nome apenas, mas com ele<br \/>\n    nos vinha um come&ccedil;o de explica&ccedil;&atilde;o. A hist&oacute;ria<br \/>\n    desgra&ccedil;ada nos contaminava. Abafamento. N&atilde;o me haviam falado<br \/>\n    nisso, a mol&eacute;stia me pegava de surpresa. Conhecia-lhe os primeiros<br \/>\n    efeitos, via de longe viventes combalidos tentando livrar-se do singular enj&ocirc;o.<br \/>\n    Lembrei-me do por&atilde;o do Manaus, das trouxas vivas a arfar, a vomitar,<br \/>\n    na porcaria extrema. N&atilde;o me abatera: uma semana de jejum me deixara<br \/>\n    l&uacute;cido, a mover-me aos solavancos entre as redes oscilantes, a redigir<br \/>\n    notas a l&aacute;pis no camarote do padeiro. Agora n&atilde;o me seria poss&iacute;vel<br \/>\n    andar ou escrever. Reminisc&ecirc;ncias da est&uacute;pida viagem me perseguiam:<br \/>\n    o cachimbo e a placidez de Macedo, o estrabismo de Lauro Lago, as mangas curtas<br \/>\n    de Van der Linden, a cicatriz de Epif&acirc;nio Guilhermino, a careta medonha<br \/>\n    de Gast&atilde;o, Leonila e Maria Joana a torrar num beliche improvisado.<br \/>\n    Evidentemente isso eram correla&ccedil;&otilde;es a que pretendia segurar-me.<br \/>\n    Um novo por&atilde;o anexava-se ao primeiro, sobrepunha-se a ele, enchia-se<br \/>\n    de min&uacute;cias temerosas, horr&iacute;veis por n&atilde;o terem sido vistas<br \/>\n    por mim: Se aquelas mis&eacute;rias me passassem diante dos olhos, decerto<br \/>\n    n&atilde;o me impressionariam tanto; observadas por outro, lan&ccedil;adas<br \/>\n    no papel, n&atilde;o queriam fixar-se, prestavam-se a exageros e interpola&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    O abafamento progredia, r&aacute;pido; agora o conhec&iacute;amos e nos torn&aacute;vamos<br \/>\n    por isso mais vulner&aacute;veis. A id&eacute;ia de moscas tontas a desfalecer<br \/>\n    no inseticida, batendo as asas l&acirc;nguidas, vinha-me com insist&ecirc;ncia.<br \/>\n    Algumas procuravam resistir &agrave; sonol&ecirc;ncia mortal. Em cima, no<br \/>\n    terra&ccedil;o, os militares excediam-se na gin&aacute;stica.<\/p>\n<p> Pelo amor de Deus, seu Quatro. Tenha pena de meus filhos.<\/p>\n<p> Nem todos se impressionariam com a s&uacute;plica nojenta babada por um<br \/>\n    infeliz cheio de pavor: o quartel amortece demasias de sensibilidade.<\/p>\n<p> Vai morrer. N&atilde;o tem jeito n&atilde;o. Vai morrer.<\/p>\n<h3>28<\/h3>\n<p>Embaixo, no &uacute;ltimo cub&iacute;culo &agrave; esquerda, ao p&eacute;<br \/>\n    da grade, surgiu um tipo gordo, tranq&uuml;ilo, silencioso, de cal&ccedil;a<br \/>\n    c&aacute;qui e suspens&oacute;rio. Ganhou a alcunha de Farroupilha, por ter<br \/>\n    sido preso no anivers&aacute;rio da revolu&ccedil;&atilde;o ga&uacute;cha<br \/>\n    de 1835. Dois ou tr&ecirc;s dias depois da sua chegada, boatos fervilharam,<br \/>\n    cresceram e se transformaram em verdades: Farroupilha era ladr&atilde;o, pederasta<br \/>\n    e delator. Al&eacute;m de tudo, covarde. Citavam-se fatos horr&iacute;veis,<br \/>\n    apareciam testemunhas e ningu&eacute;m tinha d&uacute;vida. Farroupilha era<br \/>\n    o maior patife do mundo. Jos&eacute; Gay, &oacute;timo rapaz, queria enforc&aacute;-lo<br \/>\n    na viga do passadi&ccedil;o e quando expunha esta id&eacute;ia horr&iacute;vel,<br \/>\n    os outros faziam enorme berreiro, exigindo a cabe&ccedil;a de Farroupilha.<br \/>\n    E o infeliz, em p&eacute;, junto &agrave; grade do cub&iacute;culo, os bra&ccedil;os<br \/>\n    cruzados, olhava as coisas e as pessoas, impudente e alheio, como se aquilo<br \/>\n    n&atilde;o fosse com ele. N&atilde;o parecia covarde. Talvez tivesse defeitos<br \/>\n    medonhos, mas &eacute; certo que os aceitaram sem exame. Esfor&ccedil;ava-me<br \/>\n    por vencer a credulidade infantil.<\/p>\n<p> Tinham dali sa&iacute;do quatro levas de presos. Iam para a Col&ocirc;nia<br \/>\n    Correcional, sab&iacute;amos isto perfeitamente, mas quando uma lista surgia<br \/>\n    fal&aacute;vamos em liberdade. Busc&aacute;vamos raz&otilde;es bem fr&aacute;geis<br \/>\n    para justificar esperan&ccedil;as, ca&iacute;amos num otimismo exagerado.<br \/>\n    A frente popular francesa, Largo Caballero e Assava foram o nosso grande recurso.<br \/>\n    E quando chegava o des&acirc;nimo, procur&aacute;vamos Rodolfo Ghioldi, que<br \/>\n    tinha obriga&ccedil;&atilde;o de ser forte, n&atilde;o podia fraquejar nunca.<br \/>\n    Certas situa&ccedil;&otilde;es, invej&aacute;veis na apar&ecirc;ncia, s&atilde;o<br \/>\n    de fato coisas duras e pesadas. Meses antes, com sa&uacute;de, risonho e de<br \/>\n    cuecas, aquele mo&ccedil;o baixinho empoleirava-se num degrau da escada, o<br \/>\n    tronco nu, as canelas nuas, um len&ccedil;o no c&oacute;s da tanga que lhe<br \/>\n    cobria alguns cent&iacute;metros da barriga. Um discurso em tais condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    facilmente se podia tornar rid&iacute;culo. Quarenta pessoas em redor sobressaltavam-se,<br \/>\n    um olho no orador, outro na porta, e quando a grade larga se abria, esperavam<br \/>\n    novidades funestas. Com certeza Rodolfo se inquietava tamb&eacute;m, mas n&atilde;o<br \/>\n    queria deter-se, continuava a falar seguro e frio. A frieza e a seguran&ccedil;a<br \/>\n    davam-lhe enorme prest&iacute;gio. Nas conversas embrulhava uma algaravia<br \/>\n    meio espanhola, meio portuguesa, ia usando pouco a pouco o nosso vocabul&aacute;rio.<br \/>\n    Ultimamente andava mal, silencioso, magro, sem apetite. Ca&iacute;am-lhe os<br \/>\n    dentes. Era Rodolfo que nos amparava no des&acirc;nimo. Os telegramas dos<br \/>\n    jornais transformavam-se, lidos por ele. Traduzia as not&iacute;cias, ligava-se<br \/>\n    a casos anteriores, num instante fazia uma s&iacute;ntese e era como se na<br \/>\n    barra escura da parede surgisse de repente um mapa. Enquanto ele discorria,<br \/>\n    eu lhe examinava as gengivas p&aacute;lidas, banguelas, os dentes escassos.<br \/>\n    E zangava-me. Estupidez invalidar uma criatura assim, matar uma intelig&ecirc;ncia.<br \/>\n    Fraco e doente, Rodolfo nos animava. O abafamento decrescia, chegava o otimismo.<br \/>\n    Tudo l&aacute; fora estava bem. E relacion&aacute;vamos com essas coisas,<br \/>\n    que estavam bem l&aacute; fora, as nossas pessoas insignificantes.<\/p>\n<h3>29<\/h3>\n<p>DEPOIS do caf&eacute;, entretinha-me a ler uma brochura, desatento, ouvindo<br \/>\n    o burburinho distante de conversas na Pra&ccedil;a Vermelha, vozes mais pr&oacute;ximas,<br \/>\n    som de tamancos no passadi&ccedil;o. Gente a entrar no banheiro, a sair, ru&iacute;do<br \/>\n    seco de grade a chocar nos batentes, a doida exig&ecirc;ncia do capit&atilde;o<br \/>\n    Dinarte:<\/p>\n<p> Queremos ir para a Col&ocirc;nia. Queremos ir para a Col&ocirc;nia de Dois<br \/>\n    Rios. Queremos.<\/p>\n<p> Evidentemente ele zombava dos oper&aacute;rios e dos outros que nos tinham<br \/>\n    deixado, zombava do portugu&ecirc;s, inclu&iacute;do numa das levas. Emudecera<br \/>\n    o desagrad&aacute;vel canto de galo, e &agrave;s vezes me vinha o desejo de<br \/>\n    que a estrid&ecirc;ncia viesse irritar-nos de novo, abafar o desafio insensato<br \/>\n    do oficial. Quinze minutos naquela horr&iacute;vel brincadeira. Se ao menos<br \/>\n    Dinarte variasse um pouco, usasse palavras diferentes, n&atilde;o me abalaria<br \/>\n    tanto. O modo como ele gritava queremos pela terceira vez era desacato e ordem.<br \/>\n    Eu tapava os ouvidos, a provoca&ccedil;&atilde;o chegava-me abafada; a cad&ecirc;ncia<br \/>\n    arrasava-me os nervos. Vinha o sil&ecirc;ncio, e n&atilde;o nos tranq&uuml;iliz&aacute;vamos,<br \/>\n    &agrave; espera do brado agoureiro. Prefer&iacute;vel o canto de galo. Pobre<br \/>\n    do portugu&ecirc;s, enviado para a Col&ocirc;nia, sem amigos, aborrecido por<br \/>\n    toda a gente. Surpreendia-me a lamentar a aus&ecirc;ncia daquela estupidez<br \/>\n    enorme. Por causa de uma aventura garantida . N&atilde;o se cansava de repetir<br \/>\n    isso. Tentara aprender franc&ecirc;s com Tavares Bastos, mas enganchara-se<br \/>\n    nas regras, n&atilde;o houvera meio de entrar na conjuga&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E desabafara comigo Non. Gram&aacute;tica non. Ne pas. Je deseje faler. Faler<br \/>\n    fran&ccedil;ais. N&atilde;o &eacute; assim que se diz? Pouco antes de o transferirem,<br \/>\n    vivera algum tempo em companhia de um espanhol careca, de olho vivo, uma daquelas<br \/>\n    aves de arriba&ccedil;&atilde;o que nos apareciam e desapareciam constantemente.<br \/>\n    Por assemelhar-se ao &uacute;ltimo rei de Espanha, demos a esse tipo o nome<br \/>\n    de Afonso XIII. E o apelido pegou. A noite, na Voz da Liberdade, o locutor<br \/>\n    enxertava pilh&eacute;rias no programa, achava que os dois vizinhos peninsulares<br \/>\n    ficavam bem no mesmo cub&iacute;culo. E Afonso XIII indignava-se, aos berros,<br \/>\n    por o haverem posto junto &agrave;quele animal.<\/p>\n<p> Dessas figuras sumidas restavam lembran&ccedil;as vagas, gestos, frases,<br \/>\n    a esmorecer, a confundir-se com gestos e frases de outras pessoas. Os caracteres<br \/>\n    dilu&iacute;am-se. Naquela manh&atilde;, depois do caf&eacute;, sentado na<br \/>\n    cama, um volume entre os dedos buscava distrair-me e espalhava a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por v&aacute;rias coisas: a prosa lida, os rumores externos, recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inst&aacute;veis. Pr&oacute;ximo, al&eacute;m do guarda-vento, agachado nos<br \/>\n    travesseiros, Adolfo segredava com Valentina pelo buraco aberto na parede.<br \/>\n    L&aacute; embaixo a porta do banheiro se fechou. Em seguida houve um tropel<br \/>\n    surdo, choque de madeira nos degraus de ferro: a gente v&aacute;lida ia fazer<br \/>\n    exerc&iacute;cio no terra&ccedil;o. Nas celas ficavam apenas homens enfermi&ccedil;os,<br \/>\n    ca&iacute;dos em &oacute;cio obrigat&oacute;rio, e alguns que se isolavam,<br \/>\n    prudentes, envolvendo-se no sil&ecirc;ncio como numa carapa&ccedil;a. As diverg&ecirc;ncias<br \/>\n    pol&iacute;ticas iam-se acirrando, &oacute;dios cresciam, estalavam. Com certeza<br \/>\n    Rodolfo estava dispondo, meticuloso, o esbo&ccedil;o de uma confer&ecirc;ncia;<br \/>\n    S&eacute;rgio lan&ccedil;ava no caderno um estudo que, principiando em alem&atilde;o,<br \/>\n    se alargava num portugu&ecirc;s bastante razo&aacute;vel; Apporelly, hemipl&eacute;gico,<br \/>\n    arrastava na sombra a perna tr&ocirc;pega. Do&iacute;a-me o p&eacute; da barriga,<br \/>\n    a dorm&ecirc;ncia na coxa direita anulava o desejo de mexer-me, ag&uuml;entar-me<br \/>\n    ao s&oacute;lida ver l&aacute; de cima o formigar dos ve&iacute;culos, &aacute;rvores<br \/>\n    e pr&eacute;dios, a massa rija da Favela, o gas&ocirc;metro enorme. Tilintar<br \/>\n    de chave na sala 4. O sussurro das mulheres passou a pequena dist&acirc;ncia,<br \/>\n    elevou-se no patamar, desceu a escada e sumiu-se.<\/p>\n<p> O cochicho de Adolfo e Valentina prosseguia. N&atilde;o era discuss&atilde;o.<br \/>\n    Em geral os dois se embrenhavam na pol&iacute;tica, divergiam, falavam alto,<br \/>\n    e as discrep&acirc;ncias perdiam-se no barulho do Pavilh&atilde;o. Alarmava-me<br \/>\n    a esquisitice do rapaz. Como diabo se desperdi&ccedil;avam momentos preciosos<br \/>\n    debatendo a quest&atilde;o social com uma pessoa t&atilde;o bonita? Se ele<br \/>\n    tivesse bom senso, limitar-se-ia a admirar peda&ccedil;os da mo&ccedil;a:<br \/>\n    um olho brilhante, uma nesga de bochecha corada, os bei&ccedil;os muito vermelhos.<br \/>\n    Agora a conversa tornava-se indistinta, era um murm&uacute;rio.<\/p>\n<p> Levantei-me para n&atilde;o ser indiscreto, sa&iacute;, encostei-me &agrave;<br \/>\n    barra do passadi&ccedil;o, vi no r&eacute;s-do-ch&atilde;o, junto &agrave;<br \/>\n    grade aberta, o chefe dos guardas, um faxina a varrer o cimento. Na apar&ecirc;ncia<br \/>\n    os quartos se haviam despovoado. Criaturas doentes invis&iacute;veis. Valdemar<br \/>\n    Birinyi cada vez mais se isolava; punham-no de parte, n&atilde;o esqueciam<br \/>\n    a sinceridade infeliz que manifestara ao chegar ali: Querem fazer revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com essas bestas? Aquela hora o antigo oficial de Bela Kun, alheio &agrave;<br \/>\n    vers&atilde;o, folheava o seu tesouro, os grossos volumes da cole&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de selos. Faltavam diversos esp&eacute;cimes abafados na pol&iacute;cia, mas<br \/>\n    isto n&atilde;o tinha import&acirc;ncia. Ainda &eacute; a terceira cole&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do mundo. A terceira, pois n&atilde;o, elogiada pelo rei da Inglaterra. E<br \/>\n    Valdemar Birinyi devia sentir-se feliz. J&aacute; n&atilde;o havia motivo<br \/>\n    para tentar suicidar-se. Os cortes dos pulsos, na tentativa falha de abrir<br \/>\n    as art&eacute;rias, quase se apagavam, e provavelmente n&atilde;o tinham deixado<br \/>\n    cicatrizes no interior.<\/p>\n<p> Fiquei debru&ccedil;ado na viga da plataforma, pensando em coisas assim,<br \/>\n    vendo o guarda fiscalizar o servi&ccedil;o do faxina, ouvindo o chiar da vassoura<br \/>\n    no cimento. Afinal o homem zebrado terminou as varredelas e sumiu-se. Agora<br \/>\n    s&oacute; se percebia um zumbido, qualquer ajuste do casal. Procurei fixar<br \/>\n    a aten&ccedil;&atilde;o noutro rumor. Nenhum me veio distrair, no Pavilh&atilde;o<br \/>\n    deserto aquele avultava em demasia. S&uacute;bito Adolfo calou-se, abandonou<br \/>\n    o ref&uacute;gio, saiu, ficou um instante perto de mim, observando o pavimento<br \/>\n    inferior. Em grande alvoro&ccedil;o, estranhava sem d&uacute;vida que as circunst&acirc;ncias<br \/>\n    lhe favorecessem a realiza&ccedil;&atilde;o de um projeto absurdo. E agarrando<br \/>\n    a ocasi&atilde;o, provavelmente sem refletir, pediu-me aux&iacute;lio, o olho<br \/>\n    brilhante, a voz tr&ecirc;mula. Queria que eu lhe facilitasse meio de sair<br \/>\n    dali, visitar a mulher. Necess&aacute;rio ir falar ao carcereiro l&aacute;<br \/>\n    embaixo, entret&ecirc;-lo, impedir-lhe o exame das coisas em redor.<\/p>\n<p> Voc&ecirc; est&aacute; maluco. Eu sou l&aacute; capaz disso?<\/p>\n<p> A gaiola vizinha estava aberta, e as companheiras de Valentina esvoa&ccedil;avam<br \/>\n    todas no p&aacute;tio, desenferrujando os m&uacute;sculos no jogo da bola.<br \/>\n    A combina&ccedil;&atilde;o feliz de acasos induzia o mo&ccedil;o a executar<br \/>\n    o plano temer&aacute;rio. Indispens&aacute;vel e urgente a minha interfer&ecirc;ncia.<br \/>\n    Recusei-me, tonto, receando que um som de ling&uuml;eta viesse frustrar a<br \/>\n    comunica&ccedil;&atilde;o. Na verdade lamentava n&atilde;o me ocorrer um expediente,<br \/>\n    ver aquele enorme desejo baldar-se.<\/p>\n<p> &Eacute; uma loucura.<\/p>\n<p> E resistia, fazendo ten&ccedil;&atilde;o de recolher-me, pegar o livro abandonado.<br \/>\n    Mas, em vez de proceder assim, afastava-me da cela, pouco a pouco me acercava<br \/>\n    da escada. Nenhum des&iacute;gnio; evidentemente n&atilde;o me abalan&ccedil;aria<br \/>\n    a colaborar na aventura doida. Contudo os movimentos se opunham &agrave; decis&atilde;o<br \/>\n    e &agrave;s palavras. Alguma id&eacute;ia imprecisa devia andar-me no interior;<br \/>\n    mexia-me talvez guiado por ela.<\/p>\n<p> Nesse automatismo desci os degraus, alcancei a Pra&ccedil;a Vermelha. A&iacute;<br \/>\n    me veio a certeza de que ia tratar com o sujeito de farda, armar uma conversa<br \/>\n    longa, embora n&atilde;o houvesse nenhum assunto para ela. N&atilde;o me espantava<br \/>\n    desse comportamento, julgava-o razo&aacute;vel, apesar de tudo; na hora precisa<br \/>\n    um di&aacute;logo se arrumaria, natural, r&eacute;plicas e tr&eacute;plicas<br \/>\n    a alargar-se com muitos circunl&oacute;quios, enchendo tempo, acirrando o<br \/>\n    homem, impedindo-lhe observar os arredores. Em condi&ccedil;&otilde;es normais<br \/>\n    balanceamos as nossas possibilidades, e n&atilde;o vemos al&eacute;m delas;<br \/>\n    a sociedade nos determina com rigor os atos poss&iacute;veis, e &agrave;s<br \/>\n    vezes, para nos movermos, necessitamos um papel selado, assinado, carimbado;<br \/>\n    sem isso, encrencamos, certamente. Ali dentro essas limita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    desaparecem, anulam-se as fronteiras, vemos que nos podemos mover para um<br \/>\n    lado e para outro, indiferentes &agrave;s restri&ccedil;&otilde;es, alheios<br \/>\n    &agrave;s conveni&ecirc;ncias. Movemo-nos at&eacute; bater com o nariz numa<br \/>\n    porta de ferro. Mas esse obst&aacute;culo &eacute; transit&oacute;rio. Descerra-se<br \/>\n    a porta, queremos transp&ocirc;-la, sem perguntar se havia para isso uma proibi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Os deveres incutidos l&aacute; fora n&atilde;o existem: vamos at&eacute; onde<br \/>\n    podemos ir. H&aacute; uma porta aberta e Adolfo precisa atravess&aacute;-la,<br \/>\n    passar o vest&iacute;bulo, trepar alguns degraus, meter-se na sala 4 e abra&ccedil;ar<br \/>\n    Valentina, roxa. Os l&aacute;bios rubros, as ma&ccedil;&atilde;s do rosto,<br \/>\n    cor-de-rosa, m&atilde;os, bra&ccedil;os, pernas, estariam roxos. Mo&eacute;sia<br \/>\n    Rolim, alto e rouco, afirmava que ali t&iacute;nhamos liberdade; era o &uacute;nico<br \/>\n    lugar no Brasil onde havia liberdade. Perfeitamente. Agarrava-me a esse paradoxo.<br \/>\n    Grit&aacute;vamos, cobr&iacute;amos de bald&otilde;es a pol&iacute;cia assassina<br \/>\n    de Filinto M&uuml;ller. T&iacute;nhamos essa liberdade. E havia outra. Andar<br \/>\n    nus, n&atilde;o escovar os dentes, falar &agrave; toa, admitindo ou recusando<br \/>\n    farrapos de no&ccedil;&otilde;es obrigat&oacute;rias noutra parte. &iacute;amos<br \/>\n    e v&iacute;nhamos, perfeitos animais. Abaixo a pol&iacute;cia assassina. Esquisito<br \/>\n    n&atilde;o nos havermos apavorado, n&atilde;o estarmos ali como bichos passivos<br \/>\n    e medrosos.<\/p>\n<p> Cheguei-me ao guarda como se tivesse uma reclama&ccedil;&atilde;o na ponta<br \/>\n    da l&iacute;ngua. Ainda n&atilde;o tinha, mas isto de nenhum modo me embara&ccedil;ava:<br \/>\n    com certeza ia surgir e desenrolar-se no momento oportuno. Foi o que sucedeu.<br \/>\n    Essa confian&ccedil;a no imprevisto &eacute; talvez a base dos pequenos talentos<br \/>\n    ali desenvolvidos. Quando entrei a falar, notei que nos faltavam diversas<br \/>\n    coisas. Peguei-me a uma, exagerando a import&acirc;ncia dela, os olhos na<br \/>\n    cara do tipo, com gestos e loquacidade contr&aacute;rios ao meu temperamento.<br \/>\n    Enquanto me expandia, Adolfo saltou os degraus com passos de gato, colou-se<br \/>\n    &agrave; parede, escorregou at&eacute; a grade, meteu-se no vest&iacute;bulo,<br \/>\n    subiu a escada. No decurso dessa manobra, executada num momento, ia-me virando,<br \/>\n    for&ccedil;ando meu interlocutor a dar as costas ao fugitivo. Bem. O meu companheiro<br \/>\n    tinha realizado uma fa&ccedil;anha. Estava na sala 4, beijando Valentina,<br \/>\n    e provavelmente ia demorar pouco. Sem d&uacute;vida. Um r&aacute;pido encontro<br \/>\n    de galo. Isso mesmo. Reclus&atilde;o demorada, sonhos, necessidades permanentes,<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o criando cenas vivas. Regressaria logo, certamente.<br \/>\n    O pior &eacute; que o diabo do guarda me atendera sem discutir: achara justo<br \/>\n    o pedido, e isto me desconcertava. Sumia-se o pretexto, e um instante fiquei<br \/>\n    a vasculhar o &iacute;ntimo, repisando a solicita&ccedil;&atilde;o, pouco<br \/>\n    a pouco transformada em exig&ecirc;ncia, com pormenores redundantes, avan&ccedil;os<br \/>\n    e recuos, forcejando por torn&aacute;-la inaceit&aacute;vel. O funcion&aacute;rio<br \/>\n    n&atilde;o me havia compreendido bem, mortificava-me para explicar isto, e,<br \/>\n    durante a lengalenga, estirava os olhos por cima de um ombro dele, via um<br \/>\n    lan&ccedil;o da escada. Afligia-me a aus&ecirc;ncia longa de Adolfo. Porque<br \/>\n    se demorava tanto? Na verdade n&atilde;o se demorava. Dois minutos ou tr&ecirc;s.<br \/>\n    Na minha horr&iacute;vel situa&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, isso parecia<br \/>\n    tempo excessivo. Certamente a empresa ia falhar. Estupidez meter-me nela.<br \/>\n    Tudo se descobriria de repente e haveria um esc&acirc;ndalo medonho. Perguntei<br \/>\n    a mim mesmo se o guarda j&aacute; n&atilde;o tinha percebido a maranha, n&atilde;o<br \/>\n    estava ali a enganar-me, pronto a divulgar a falta na hora conveniente. Fez<br \/>\n    um gesto, e alarmei-me, supondo que ia trancar a porta, deixar l&aacute; fora<br \/>\n    o rapaz em situa&ccedil;&atilde;o injustific&aacute;vel. Precipitei a parolagem,<br \/>\n    lan&ccedil;ando-me a novas inst&acirc;ncias, em desordem, perfeitamente embrulhado.<br \/>\n    Representava muito mal o papel dif&iacute;cil. Uma crian&ccedil;a me enxergaria<br \/>\n    o transtorno, a desesperada busca de motivos. Pensando assim, admirava-me<br \/>\n    de n&atilde;o distinguir no indiv&iacute;duo qualquer ind&iacute;cio de suspeita.<br \/>\n    Bem. Possivelmente meu desempenho n&atilde;o era t&atilde;o mau como eu julgava;<br \/>\n    a conversa mastigada, os rodeios fatigantes, n&atilde;o revelavam desarranjo;<br \/>\n    achava-me ali a reclamar sem ast&uacute;cia creolina e sab&atilde;o para liquidar<br \/>\n    os percevejos. Ou ent&atilde;o o homem se fingia cego, pactuava conosco: farejara<br \/>\n    uma necessidade urgente e levaria a condescend&ecirc;ncia at&eacute; o fim.<br \/>\n    E se uma das mulheres regressasse do p&aacute;tio, fosse testemunhar o caso<br \/>\n    estranho? Aborrecia-me conjeturar isso. Porque me entretinha a imaginar dificuldades,<br \/>\n    interessar-me em neg&oacute;cios alheios?<\/p>\n<p> Afinal o desertor ressurgiu, desviando-se do corrim&atilde;o, agachando-se,<br \/>\n    colando-se ao muro. Desceu, executou uma curva larga, alcan&ccedil;ou a grade,<br \/>\n    insinuou-se como um rato na Pra&ccedil;a Vermelha. Findei a exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    capenga, lancei um agradecimento chocho e recolhi-me, surpreso do &ecirc;xito.<br \/>\n    Nunca me supusera t&atilde;o h&aacute;bil. No cub&iacute;culo achei Adolfo<br \/>\n    a restabelecer-se, p&aacute;lido em excesso, grandes manchas de suor no pijama.<br \/>\n    Felicitei-o:<\/p>\n<p> Muito bem.<\/p>\n<p> Resvalou na confid&ecirc;ncia:<\/p>\n<p> Foi um sacrif&iacute;cio para ela, coitada. Assim de chofre! Estava fria<br \/>\n    como uma defunta.<\/p>\n<p> Veio-me o capricho malicioso de chamar Valentina. Pusme a conversar com<br \/>\n    ela, observando, atrav&eacute;s da parede, migalhas de beleza: dentes magn&iacute;ficos,<br \/>\n    um olho vivo, alguns cent&iacute;metros de bochecha, os l&aacute;bios sangrentos,<br \/>\n    uma sobrancelha. Admirava-lhe a vivacidade. Nenhum vest&iacute;gio do susto<br \/>\n    horr&iacute;vel que tivera pouco antes. O marido, perto, mordia as cobertas,<br \/>\n    numa crise de riso.<\/p>\n<h3>30<\/h3>\n<p>DE VOLTA do banho, fui &agrave; barbearia, confiar-me &agrave; per&iacute;cia<br \/>\n    do homem de zebra que nos cortava os cabelos e pelava o rosto com tesouras<br \/>\n    e navalhas bastante cegas. Melhorado o frontisp&iacute;cio, recolhi-me, despendurei<br \/>\n    do guarda-vento a roupa envolta em jornais, por causa da poeira, abri a valise,<br \/>\n    entrei a arrumar-me devagar.<\/p>\n<p> Faltavam ainda algumas horas para a visita. Findos os arranjos, desci. Os<br \/>\n    p&eacute;s haviam crescido e os sapatos magoavam-me os dedos.<\/p>\n<p> No pavimento de baixo, Val&eacute;rio Konder, s&eacute;rio, pilheriou comigo,<br \/>\n    deu-me um t&iacute;tulo cerimonioso, referiu-se aos trabalhos na reparti&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Livres dos tamancos e dos pijamas, apertados em colarinhos e gravatas, &eacute;ramos<br \/>\n    pouco mais ou menos irreconhec&iacute;veis.<\/p>\n<p> Achei aberta a grade, passei ao vest&iacute;bulo, entrei na enfermaria,<br \/>\n    &agrave; esquerda. A mesa de Sisson, ostentando enorme tabuleiro de casas<br \/>\n    vermelhas e negras, convidou-me. Para encher tempo, sentei-me a ela, dispus<br \/>\n    as pe&ccedil;as, busquei parceiro, embrenhei-me numa partida, insens&iacute;vel<br \/>\n    aos xeques, esperando que me viessem chamar &agrave; secretaria.<\/p>\n<p> Demorei-me longamente, as id&eacute;ias a afastar-se dali, em busca de poss&iacute;veis<br \/>\n    casos de interesses ocorridos na semana. Como andariam l&aacute; fora os meus<br \/>\n    neg&oacute;cios? A imagina&ccedil;&atilde;o capengava, tentando vencer obst&aacute;culos.<br \/>\n    Em redor, sentados nas camas, outros indiv&iacute;duos se entretinham a jogar,<br \/>\n    e os coment&aacute;rios dos lances chegavam-me remotos e confusos. Os vestu&aacute;rios<br \/>\n    civilizados, a discrepar do ambiente, com certeza me desviavam para o exterior,<br \/>\n    levavam-me a forjar not&iacute;cias prov&aacute;veis. Agildo Barata avizinhou-se,<br \/>\n    entregou-me um envelope, recomendando-me que o fizesse chegar ao destino.<br \/>\n    Li o endere&ccedil;o de um pol&iacute;tico e meti o papel no bolso, regressei<br \/>\n    aos cavalos e aos pe&otilde;es.<\/p>\n<p> A voz de um guarda, abandonei as combina&ccedil;&otilde;es desatentas, ergui-me,<br \/>\n    passei ao vest&iacute;bulo, fui agregar-me no p&aacute;tio a uma d&uacute;zia<br \/>\n    de companheiros bem vestidos. Pusemo-nos em marcha. Em vez de nos dirigirem<br \/>\n    &agrave; secretaria, encaminharam-nos ao pavilh&atilde;o fronteiro a ela.<br \/>\n    A&iacute; surgiram fardas e algu&eacute;m anunciou:<br \/>\n    Revista.<\/p>\n<p> Achava-me &agrave; frente do bando. Com todos os diabos. Iam examinar-me<br \/>\n    em primeiro lugar, descobrir a infeliz correspond&ecirc;ncia, prejudicar Agildo,<br \/>\n    talvez embrulhar o destinat&aacute;rio. Nenhum meio consciente de fugir ao<br \/>\n    embara&ccedil;o. Estava fora dos meus recursos conceber uma defesa, tentar<br \/>\n    embair a pol&iacute;cia, que, a dois passos, ali na cal&ccedil;ada, pretendia<br \/>\n    vasculhar-nos as algibeiras. A minha rea&ccedil;&atilde;o foi maquinal. Desviei-me,<br \/>\n    recuei, distingui Euclides de Oliveira e empurrei-o, escondi-me por detr&aacute;s<br \/>\n    dele. Retirei o contrabando e mergulhei-o debaixo da camisa. Seria descoberto,<br \/>\n    sem d&uacute;vida: escorregou-me na pele, fez um chuma&ccedil;o volumoso na<br \/>\n    barriga, preso no cinto.<\/p>\n<p> Azaranzado, abotoando-me, vi Euclides pr&oacute;ximo, submetido &agrave;<br \/>\n    busca; notei-lhe as rugas da testa quando ligeiramente o despojaram de uma<br \/>\n    fraude como aquela. Afastou-se indignado, chegou a minha vez. N&atilde;o me<br \/>\n    ocorria a suposi&ccedil;&atilde;o de que o miser&aacute;vel trambolho ficasse<br \/>\n    em meu poder. Eximiram-me de cautelas; ingenuidade querer burlar os sentidos<br \/>\n    espertos da fiscaliza&ccedil;&atilde;o. Avancei. Num minuto iam desmascarar-me,<br \/>\n    devolver-me ao grupo, as orelhas em brasa. Mas n&atilde;o me indignaria como<br \/>\n    Euclides, n&atilde;o teria no rosto as pregas duras, col&eacute;ricas. Tudo<br \/>\n    previsto. Subi um degrau, afastei as abas do palet&oacute;. Dedos &aacute;geis<br \/>\n    correram no pano, investigaram esconderijos e dobras, fizeram-me c&oacute;cegas,<br \/>\n    deram-me a impress&atilde;o de que pernas de baratas me andavam sobre o peito,<br \/>\n    num fervilhar muito desagrad&aacute;vel Estancaram, recolheram-se.<\/p>\n<p> Desorientado, imobilizei-me: com certeza os gadanhos h&aacute;beis iam de<br \/>\n    novo esquadrinhar-me os sovacos, arrepiar-me, tateando culpas. Lentamente<br \/>\n    percebi que a opera&ccedil;&atilde;o estava finda, o assombro me tolheu a<br \/>\n    fala e o gesto; recompus-me e desci, grato ao acaso e desdenhando um pouco<br \/>\n    os farejadores ineptos. Malucos. Essa opini&atilde;o fortalecia-se enquanto<br \/>\n    me desanuviava, procurando orientar-me. Enxerguei &agrave; direita a sala<br \/>\n    aberta e dirigi-me para l&aacute;. Esbo&ccedil;aram-se as fisionomias de pessoas<br \/>\n    vagamente conhecidas, distingui o rumor das conversas e o r&aacute;pido exame<br \/>\n    dos pacotes familiares nas sextas-feiras. Num banco, junto &agrave; porta,<br \/>\n    minha mulher sorria, segredou quando me sentei:<\/p>\n<p> Que &eacute; da carta?<\/p>\n<p> Em sil&ecirc;ncio mudo, interroguei-a com os olhos; referiu-se ao objeto<br \/>\n    pouco antes escondido, no momento de aperto Com os diabos! E modifiquei o<br \/>\n    ju&iacute;zo desfavor&aacute;vel aos pesquisadores. Certamente n&atilde;o<br \/>\n    eram cegos nem idiotas. Simplicidade julgar-me capaz de engan&aacute;-los,<br \/>\n    visto de perto, se &agrave; dist&acirc;ncia de dez metros algu&eacute;m me<br \/>\n    observara os movimentos e tirara a conclus&atilde;o razo&aacute;vel. Poss&iacute;vel<br \/>\n    n&atilde;o haverem tencionado ir al&eacute;m de certos atos formais, necess&aacute;rios<br \/>\n    &agrave; rotina. Cumpridas as exig&ecirc;ncias m&iacute;nimas, &agrave; pressa,<br \/>\n    como se executassem um ritual enfadonho, evitavam complica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    estranhas ao servi&ccedil;o. Aus&ecirc;ncia de curiosidade, nenhum prop&oacute;sito<br \/>\n    de exceder os limites de uma fun&ccedil;&atilde;o maquinal e burocr&aacute;tica.<br \/>\n    Devia ser isso. E voltou-me a suposi&ccedil;&atilde;o de que o guarda, a escutar<br \/>\n    com pachorra a minha conversa fatidiosa, percebera a fuga de Adolfo e aguardara,<br \/>\n    paciente e humano, o regresso dele. Essas d&uacute;vidas nos suavizam a pris&atilde;o,<br \/>\n    levam-nos &agrave; certeza de n&atilde;o haver no aparelho policial o rigor<br \/>\n    suposto l&aacute; fora. Notamos quebra de uniformidade, e isto nos satisfaz.<br \/>\n    Em qualquer parte achamos indiv&iacute;duos propensos a simular inadvert&ecirc;ncia,<br \/>\n    cochilar no momento preciso, se tais escorregos n&atilde;o lesam o texto do<br \/>\n    regulamento. A princ&iacute;pio nos admiramos da nossa per&iacute;cia. Hesitamos<br \/>\n    depois em admiti-Ia, mas fingimo-nos sagazes para n&atilde;o causar preju&iacute;zo<br \/>\n    &agrave; vigil&acirc;ncia que relaxou, desviar a suspeita de coniv&ecirc;ncia.<br \/>\n    Bem. Examinei os arredores. S&oacute; divisei casais mergulhados em seus neg&oacute;cios<br \/>\n    particulares. Sem respeito aos circunstantes, mal-educado, entrei a co&ccedil;ar-me.<br \/>\n    Abri a camisa, estive a mexer l&aacute; por dentro; afinal consegui introduzir<br \/>\n    o envelope na manga.<\/p>\n<p> Deixa cair o len&ccedil;o.<\/p>\n<p> Novo reparo na vizinhan&ccedil;a e o peda&ccedil;o do pano chegou-me aos<br \/>\n    p&eacute;s. Baixei-me, fiquei um instante procurando levant&aacute;-lo. Na<br \/>\n    verdade sou um infeliz prestidigitador. Opera&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil<br \/>\n    retirar os pap&eacute;is da manga, escond&ecirc;-los no len&ccedil;o, met&ecirc;-los<br \/>\n    na bolsa da visitante. Mas ningu&eacute;m testemunhou essa burla, e aproveitamos<br \/>\n    a meia hora dispon&iacute;vel.<\/p>\n<p> Recebi as &uacute;ltimas not&iacute;cias, enxerguei a liberdade muito longe,<br \/>\n    cada vez mais a distanciar-se de mim. Conservar-me-iam fora do mundo, sem<br \/>\n    processo; n&atilde;o me vexariam com interrogat&oacute;rios nem ouviriam testemunhas.<br \/>\n    Segrega&ccedil;&atilde;o isenta de formalidades. T&iacute;nhamos chegado a<br \/>\n    isso, eliminavam-se as praxes, o simulacro de justi&ccedil;a, como se f&ocirc;ssemos<br \/>\n    selvagens. Facilmente me ajustariam, considerando ind&iacute;cios e raz&otilde;es,<br \/>\n    em artigos e par&aacute;grafos. Se quisessem, legalizariam a situa&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    n&atilde;o tentavam esconder viol&ecirc;ncias e arb&iacute;trio e algumas<br \/>\n    pessoas inquietas por minha causa batiam em portas fechadas. Como de outras<br \/>\n    vezes, devo ter pedido a minha mulher que n&atilde;o importunasse esses homens<br \/>\n    de bons prop&oacute;sitos. Afinal o meu caso era semelhante a dezenas de outros;<br \/>\n    parecia-me estulto desviar para ele a aten&ccedil;&atilde;o de viventes ocupados<br \/>\n    nos seus neg&oacute;cios. Capit&atilde;o Mata e Manuel Leal tinham-me aborrecido<br \/>\n    em demasia a alegar inoc&ecirc;ncia, a falar em persegui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    iniq&uuml;idades. Essas lam&uacute;rias ego&iacute;stas enraiveciam-me.<\/p>\n<p> Agarrava-me impaciente a assuntos v&aacute;rios, temia perder os &uacute;ltimos<br \/>\n    vest&iacute;gios de solidariedade &agrave;quelas v&iacute;timas indiscretas.<br \/>\n    Esquivara-me sempre a mencionar particularidades: n&atilde;o desejavam conhec&ecirc;-las,<br \/>\n    iriam bocejar ouvindo-me. Agora Jos&eacute; Lins procurava militares e pol&iacute;ticos,<br \/>\n    mandava cartas a figur&otilde;es, empenhava-se em favorecer-me com simpatias<br \/>\n    v&aacute;rias indeterminadas. Essa interfer&ecirc;ncia podia causar desgosto,<br \/>\n    originar suspeitas e afligia-me a id&eacute;ia de prejudicar algu&eacute;m.<br \/>\n    Bom que os amigos inesperados se aquietassem: era-me suficiente saber os intuitos<br \/>\n    deles. Jos&eacute; Ol&iacute;mpio mandara o romance para a composi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Temeridade igual &agrave; de Jos&eacute; Lins. Afinal o editor nunca me vira,<br \/>\n    nada o aconselhava a expor um livro de autor excomungado pelas normas vigentes.<br \/>\n    Perigo, imposs&iacute;vel adivinhar as conseq&uuml;&ecirc;ncias. Iam talvez<br \/>\n    cham&aacute;-lo &agrave; delegacia para esclarecimentos, depois envi&aacute;-lo<br \/>\n    &agrave; Casa de Deten&ccedil;&atilde;o. Em segredo, com certeza: os jornais<br \/>\n    guardariam sil&ecirc;ncio. Os originais estavam salvos, na oficina. Dif&iacute;cil<br \/>\n    escaparem os volumes: seriam apreendidos, julgados nocivos, queimados. Perdiam-se<br \/>\n    os gastos de impress&atilde;o, o negociante de escritos metia o rabo na ratoeira.<br \/>\n    Asilava-me uma esperan&ccedil;a d&eacute;bil: a narrativa era med&iacute;ocre,<br \/>\n    t&atilde;o vagabunda que passaria facilmente despercebida. Os sujeitos da<br \/>\n    ordem n&atilde;o esbanjariam tempo com ela. Desgra&ccedil;ado al&iacute;vio.<br \/>\n    E apoquentava-me outra vez n&atilde;o poder corrigir a hist&oacute;ria, suprimir<br \/>\n    as repeti&ccedil;&otilde;es e os desconchavos. Alguns peda&ccedil;os n&atilde;o<br \/>\n    eram ruins de todo. Se me deixassem trabalhar uns meses, livrar-metia dos<br \/>\n    receios, das tremuras que a publica&ccedil;&atilde;o me dava.<\/p>\n<h2>31<\/h2>\n<p>NAQUELA noite, depois de fecharem os cub&iacute;culos, Nise bateu na parede<br \/>\n    e ofereceu-nos, atrav&eacute;s do buraco, uma not&iacute;cia: iam ser postas<br \/>\n    em liberdade cerca de vinte pessoas.<\/p>\n<p> Isso n&atilde;o me interessou: havia-me habituado &agrave;s listas, e a<br \/>\n    id&eacute;ia da Col&ocirc;nia deixara de apavorar-me. Mas quando o guarda<br \/>\n    surgiu &agrave; porta e gritou o meu nome, estremeci, quis ver o papel datilografado<br \/>\n    que ele trazia na m&atilde;o. Satisfeita a exig&ecirc;ncia, vesti-me &agrave;<br \/>\n    pressa, atarantado, arrumei os tro&ccedil;os da bagagem leve.<\/p>\n<p> Os preparativos consumiram tempo enorme porque os objetos desapareciam,<br \/>\n    a cada instante era preciso abrir e fechar a maleta. Imposs&iacute;vel achar<br \/>\n    a escova de dentes, jaguar dada, entre cuecas e len&ccedil;os. Herculano preparava-se<br \/>\n    tamb&eacute;m para sa&iacute;. Am&eacute;rico e Adolfo auxiliavam-me na arruma&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Eu perguntava a mim mesmo:<\/p>\n<p> Estarei muito confuso? Terei as m&atilde;os frias e &uacute;midas? Pouco<br \/>\n    tempo antes Adolfo tinha sido mandado a um hospital, ficara l&aacute; v&aacute;rios<br \/>\n    dias. Ao receber o chamado, ignorava para onde iam lev&aacute;-lo. Aparentava<br \/>\n    grande calma e ria cochichando com Valentina, que falava tremendo, numa agonia,<br \/>\n    al&eacute;m da parede. O sossego dele espantava-me. Ao despedir-se, tinha<br \/>\n    as m&atilde;os &uacute;midas e frias. Com certeza as minhas deviam estai assim<br \/>\n    agora.<\/p>\n<p> Nise chamou-me da sala 4. Encostei o ouvido ao buraco, percebi um recado<br \/>\n    para algu&eacute;m l&aacute; de fora. impacientei-me: n&atilde;o se tratava<br \/>\n    de liberdade; mas Nise insistiu, disse coisas inintelig&iacute;veis, deu-me<br \/>\n    um endere&ccedil;o. Confessei n&atilde;o entender nada e busquei um l&aacute;pis<br \/>\n    para escrever o que ela dizia. Dif&iacute;cil encontrar o l&aacute;pis. Aborrecia-me<br \/>\n    o trabalho in&uacute;til. O homem da lista j&aacute; me chamara duas vezes.<br \/>\n    Receei que ele viesse de novo apressar-me, visse a cama afastada, o guarda-vento<br \/>\n    fora do lugar, e me surpreendesse a conversar com uma vizinha, infringindo<br \/>\n    o regulamento. Encontrei o l&aacute;pis, mas a linguagem de Nise era confusa<br \/>\n    e extensa: imposs&iacute;vel agarrar o sentido, resumir aquilo em duas ou<br \/>\n    tr&ecirc;s linhas. Depois de numerosas repeti&ccedil;&otilde;es., garatujei<br \/>\n    zonzo letras e algarismos na carteira de cigarros, pois o bloco de papel se<br \/>\n    ausentara. Esfor&ccedil;o enorme escrever; irritava-me, na desgra&ccedil;ada<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o, o desperd&iacute;cio de energias necess&aacute;rias<br \/>\n    na viagem &agrave; Col&ocirc;nia. Nise estava sendo ing&ecirc;nua: habituada<br \/>\n    por of&iacute;cio aos desarranjos mentais, ignorava-me o alheamento, a fuga<br \/>\n    das id&eacute;ias: com certeza n&atilde;o me diferen&ccedil;ava muito dos<br \/>\n    clientes dela, imbecis ou idiotas. Seria t&atilde;o dif&iacute;cil verificar<br \/>\n    isto? A insist&ecirc;ncia da mo&ccedil;a fez-me supor que n&atilde;o me descomedia,<br \/>\n    n&atilde;o revelava nenhum dist&uacute;rbio. Se ela continuava a falar sem<br \/>\n    dar mostra de conhecer a minha estupidez excessiva, os outros se enganariam<br \/>\n    tamb&eacute;m, evidentemente. Enfadava-me o longo zumbido misterioso, procurei<br \/>\n    interromp&ecirc;-lo: mudan&ccedil;a de pris&atilde;o, somente. Nise n&atilde;o<br \/>\n    se convencia: ouvira refer&ecirc;ncia a liberdade e acreditava nisto, apesar<br \/>\n    de terem as liberdades anteriores acabado na ilha Grande.<\/p>\n<p> Am&eacute;rico e Adolfo estendiam-me esperan&ccedil;as d&eacute;beis cordas<br \/>\n    ao n&aacute;ufrago. Fingiam-se cr&eacute;dulos, julguei, e irritava-me a piedosa<br \/>\n    hipocrisia. Notavam-me no rosto e nas ma neiras atrapalha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e medo, sem d&uacute;vida. Estaria realmente com medo? Transtorno, perplexidade,<br \/>\n    lentos arrepios, e os bei&ccedil;os a contrair-se num riso convulso. Na verdade<br \/>\n    aquilo tinha gra&ccedil;a. Ir para a Col&ocirc;nia! Absurdo mandarem-me para<br \/>\n    semelhante lugar Vinham-me &agrave; cabe&ccedil;a o relat&oacute;rio de Chermont<br \/>\n    e peda&ccedil;os da minha vida anterior. Mas porque diabo me mandavam para<br \/>\n    aquele inferno? Pergunta n&eacute;scia. Dispensavam-se raz&otilde;es: ia,<br \/>\n    como numerosas insignific&acirc;ncias da minha laia, f&aacute;tuas e vazias,<br \/>\n    tinham ido. Assim pensava, e tinha vergonha de falar, desejava que me enganassem,<br \/>\n    mentissem. Uma pequena adula&ccedil;&atilde;o me agradaria Burrice misturar<br \/>\n    com vagabundos e malandros um sujeito razo&aacute;vel, mais ou menos digno,<br \/>\n    absolutamente alheio a essas criaturas. Tencionariam corrigir-me na Col&ocirc;nia?<br \/>\n    Havia l&aacute; uma escola. Iriam meter-me nessa escola, coagir-me a freq&uuml;entar<br \/>\n    as aulas dos vagabundos e malandros? O pensamento burlesco afastou-me para<br \/>\n    longe: imaginei-me vestido em zebra, folheando um caderno sujo, decorando<br \/>\n    a li&ccedil;&atilde;o, cantando rezas e neg&oacute;cios patri&oacute;ticos.<br \/>\n    As minhas m&atilde;os deviam estar frias como as de Adolfo naquela noite,<br \/>\n    ao despedir-se de mim. N&atilde;o estavam, prendia-me com desespero &agrave;<br \/>\n    nega&ccedil;&atilde;o. Tinha escrito seguro o recado de Nise. As letras com<br \/>\n    efeito eram rabiscos ileg&iacute;veis, a ponta do l&aacute;pis rasgara o cart&atilde;o<br \/>\n    fino. Mas tinha escrito. N&atilde;o me lembrava do que tinha escrito. Desejava<br \/>\n    ser animado e queria livrar-me das esperan&ccedil;as rid&iacute;culas. Era<br \/>\n    alguma crian&ccedil;a?<\/p>\n<p> Afastara-me da parede e estava em p&eacute; no meio do cub&iacute;culo,<br \/>\n    a valise fechada, pronto, ouvindo frases am&aacute;veis. Herculano, junto<br \/>\n    a mim, sobra&ccedil;ava a bagagem; o corpo mirra do engrossara um pouco, envolto<br \/>\n    no largo sobretudo espesso. Para onde nos iam levar? Em voz alta referia-me<br \/>\n    &agrave; Col&ocirc;nia, mas interiormente esfor&ccedil;ava-me por desvi&aacute;-la<br \/>\n    e a interroga&ccedil;&atilde;o me atenazava. Se nos deixassem quietos, percevejos<br \/>\n    a sugar-nos, camas de ferro a escoriar-nos, tudo ficaria bem. Mas sempre nos<br \/>\n    removem, sem explica&ccedil;&otilde;es, mostrando que n&atilde;o temos direito<br \/>\n    ao sossego e tanto podemos ir para a Sala da Capela, reclus&atilde;o de burgueses<br \/>\n    e professores da universidade, como para a Col&ocirc;nia Correcional, onde<br \/>\n    guardam a canalha, o enxurro, vidas s&oacute;rdidas.<\/p>\n<p> O molho de chaves tilintou, o guarda apareceu pela terceira vez, a porta<br \/>\n    se abriu. Ainda me retardei um instante, examinando os objetos em redor. Teria<br \/>\n    guardado na maleta a escova de dentes, os len&ccedil;os todos? Abracei os<br \/>\n    companheiros e sa&iacute;. Atravessei o passadi&ccedil;o, demorando-me em<br \/>\n    frente aos cub&iacute;culos, apertando m&atilde;os que se estendiam; fui em<br \/>\n    seguida fazer novas esta&ccedil;&otilde;es apressadas na ala fronteira. Os<br \/>\n    mesmos gestos e as mesmas frases mecanizaram-me no pavimento inferior. A entrada,<br \/>\n    cerca de vinte pessoas em fila carregavam-se de malas e embrulhos. Na friagem<br \/>\n    da noite, longos capotes indicaram-me a gente do Paran&aacute;. E redes a<br \/>\n    tiracolo, dobradas em rolos, como enormes serpentes gr&aacute;vidas, chamaram-me<br \/>\n    a aten&ccedil;&atilde;o para algumas figuras do Rio Grande do Norte. Enfileirando-me<br \/>\n    &agrave; pressa, distingui Macedo, Jo&atilde;o Rocha, Van der Linden, Jos&eacute;<br \/>\n    Gomes, o pequeno dentista Guerra.<\/p>\n<p> Pusemo-nos em marcha, alcan&ccedil;amos o vest&iacute;bulo. Deixei a fila,<br \/>\n    dei um r&aacute;pido adeus ao pessoal da enfermaria. Depois virei &agrave;<br \/>\n    direita, galguei a escada, achei uma exposi&ccedil;&atilde;o de mulheres a<br \/>\n    enfeitar a grade da sala 4, umas embaixo, outras empoleiradas nas travessas.<br \/>\n    Com os p&eacute;s metidos em tamancos, podiam equilibrar-se nas barras estreitas,<br \/>\n    seguras aos var&otilde;es, as saias entaladas entre as coxas. Um minuto papaguearam.<br \/>\n    Naquela arruma&ccedil;&atilde;o de corpos, notei apenas os bei&ccedil;os vermelhos<br \/>\n    de Valentina, a brancura de Olga Prestes, os olhos arregalados de Nise. Voltei.<\/p>\n<p> Deixamos o Pavilh&atilde;o, dirigimo-nos &agrave; rouparia, onde recebi<br \/>\n    o meu chap&eacute;u. Tornei a ver a horr&iacute;vel tatuagem no antebra&ccedil;o<br \/>\n    do rapaz que l&aacute; trabalhava: um esqueleto sem pernas.<\/p>\n<p> O senhor aqui? murmurou descobrindo-me. Ainda n&atilde;o saiu?<\/p>\n<p> O espanto dele certamente n&atilde;o foi igual ao meu. Estranha mem&oacute;ria.<br \/>\n    Achara-me ali uma noite. E no dia seguinte pela manh&atilde; t&iacute;nhamos<br \/>\n    conversado meia hora. Decorridos quatro meses, de novo nos encontr&aacute;vamos,<br \/>\n    e s&uacute;bito o mo&ccedil;o me identificava num grupo numeroso. Essa possibilidade<br \/>\n    esquisita de gravar fisionomias talvez houvesse influ&iacute;do na escolha<br \/>\n    do perigoso of&iacute;cio que o levara &agrave; cadeia. Era simp&aacute;tico:<br \/>\n    a vergonhosa profiss&atilde;o de nenhum modo nos afastava dele. Avivaram-se<br \/>\n    lembran&ccedil;as daquele domingo j&aacute; velho. Tinham-me chamado, retirara-me<br \/>\n    da galeria sem saber o destino, sentara-me num banco, &agrave; espera dos<br \/>\n    acontecimentos. O rapaz se chegara, am&aacute;vel, e fizera uma observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    risonha: Ontem o senhor estava inquieto. Aludira &agrave; minha calma aparente<br \/>\n    e aos cuidados excessivos com a valise: mexera nela mais de vinte vezes, n&atilde;o<br \/>\n    achava lugar para coloc&aacute;-la. Surpreendera-me ver algu&eacute;m reparar<br \/>\n    em tais min&uacute;cias e tirar conseq&uuml;&ecirc;ncias justas. A tatuagem<br \/>\n    meio desfeita era medonha. Esfor&ccedil;ara-me em v&atilde;o por desviar dela<br \/>\n    a vista, o homem delicado aventurara uma confid&ecirc;ncia assombrosa: acabava<br \/>\n    de cumprir senten&ccedil;a e temia ser solto. Para onde havia de ir? Acostumara-se<br \/>\n    ao servi&ccedil;o leve na rouparia. Dentro de dois anos mand&aacute;-lo-iam<br \/>\n    embora. E perguntava aflito: Para onde? Essas palavras tinham-me impressionado<br \/>\n    e n&atilde;o me cansava de repeti-Ias. Ao deixar a sala, fazia a mim mesmo<br \/>\n    a pergunta do rapaz do esqueleto:<\/p>\n<p> Para onde?<\/p>\n<p> Para onde me enviavam com aquela gente desconhecida? Pensei no gracejo de<br \/>\n    Walter Pompeu: Liberdade? Nunca mais. Quando houver uma greve de barbeiros,<br \/>\n    agarram voc&ecirc;.A Col&ocirc;nia Correcional, uma desgra&ccedil;a. Mas se<br \/>\n    por acaso me lan&ccedil;assem na rua, seria desgra&ccedil;a tamb&eacute;m.<br \/>\n    Em que me iria ocupar? Sentia-me incapaz de trabalho, a vida se estragara.<br \/>\n    Camaradas antigos voltariam a cara, dobrariam esquinas ao ver-me, receosos<br \/>\n    de comprometer-se. Havia em mim peda&ccedil;os mortos, ia-me, aos poucos,<br \/>\n    habituando &agrave; sepultura; dif&iacute;cil ressurgir, vagar na multid&atilde;o,<br \/>\n    &agrave; toa, como alma penada.<\/p>\n<p> Algum tempo ziguezagueando entre as &aacute;rvores, viramos becos, subimos<br \/>\n    e descemos cal&ccedil;adas, mas n&atilde;o transpusemos os muros da pris&atilde;o.<br \/>\n    Diante de um c&aacute;rcere fumarento e sujo retardei o passo, vi mulheres<br \/>\n    de c&oacute;coras. Uma preta velha encarou-me, fingiu desapontar-se, exclamou<br \/>\n    com simpatia burlesca:<\/p>\n<p> Meu filho, que foi que voc&ecirc; fez?<\/p>\n<p> O bom humor da negra, caricatura de afei&ccedil;&atilde;o, desviou tristezas,<br \/>\n    sacudiu-me numa ruidosa gargalhada. Pouco adiante estacamos, abriu-se uma<br \/>\n    porta. Dormir&iacute;amos ali, disse um guarda, sair&iacute;amos no dia seguinte.<\/p>\n<p>Para onde?<\/p>\n<p> Respondeu que n&atilde;o sabia.<\/p>\n<h2> FIM DO VOLUME I<\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Primeira Parte Segunda Parte Graciliano Ramos PRIMEIRA PARTE VIAGENS 1 RESOLVO-ME a contar, depois de muita hesita&ccedil;&atilde;o, casos passados h&aacute; dez anos e, antes de come&ccedil;ar, digo os motivos porque silenciei e porque me decido. 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