{"id":96736,"date":"2017-01-26T12:07:49","date_gmt":"2017-01-26T14:07:49","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96736"},"modified":"2017-01-26T12:07:49","modified_gmt":"2017-01-26T14:07:49","slug":"angustia-graciliano-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/angustia-graciliano-ramos","title":{"rendered":"Ang\u00fastia &#8211; Graciliano Ramos"},"content":{"rendered":"<h4>Graciliano Ramos<\/h4>\n<p>Julgo que ainda n\u00e3o me restabeleci completamente.<\/p>\n<p>Das vis\u00f5es que me perseguiam naquelas noites compri- das umas sombras permanecem, sombras que se mis- turam \u00e0 realidade e me produzem calafrios.<\/p>\n<p>H\u00e1 criaturas que n\u00e3o suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, apro- ximando-se de mim, n\u00e3o v\u00e3o gemer pedit\u00f3rios: v\u00e3o gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa.<\/p>\n<p>Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com des gosto as vitrinas, tenho a impress\u00e3o de que se acham ali pessoas. exibindo tftulos e pre\u00e7os nos rostos, ven- dendo-se. E uma esp\u00e9cie de prostitui\u00e7\u00e3o. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o bei\u00e7o, naqueles desconhecidos que se amontoam por detr\u00e1s do vidro. Outro larga uma opini\u00e3o \u00e0-toa. Bas- baques escutam, saem. E os autores, resignados, mos- tram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da Rua da La.ma.<\/p>\n<p>Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas m\u00e3os, que emagreceram. As m\u00e3os j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o minhas: s\u00e3o m\u00e3os de velho, fracas e in\u00fateis. As escoria\u00e7\u00f5es das palmas cicatrizaram.<\/p>\n<p>Impossivel trabalhar. D\u00e3o-me um oficio, um re- lat\u00f3rio, para datilografar, na reparti\u00e7\u00e3o. At\u00e9 dez linhas vou bem. Daf em diante a cara balofa de Juli\u00e3o Tava- res aparece em cima do original, e os meus dedos en- Contram no teclado uma resist\u00eancia mole de carne gorda. E l\u00e1 vem o erro. Tento vencer a obsess\u00e3o, ca pricho em n\u00e3o usar a borracha. Concluo o trabalho, mas a resma de papel fica muito reduzida.<\/p>\n<p>A noite fecho as portas, sento-me \u00e0 mesa da sala de jantar, a munheca emperrada, o pensamento vadio longe do artigo que me pediram para o jornal.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria resmunga na cozinha, ratos famintos reme- xem latas e embrulhos no guarda-comidas, autom\u00f3veis roncam na rua.<\/p>\n<p>Em duas horas escrevo uma palavra: Marina Depois, aproveitando letras deste nome, arranjo coisa, absurdas: ar, mar, rima, arma, ira, amar. Uns vinte nomes. Quando n\u00e2o consigo formar combina\u00e7\u00f4es novas tra\u00e7o rabiscos que representam uma espada, uma lira uma cabe\u00e7a de mulher e outros disparates. Penso err indiv\u00edduos e em objetos que n\u00e2o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com o: desenhos: processos, or\u00e7amentos, o diretor, o secret\u00e1 rio, pol\u00edticos, sujeitos remediados que me desprezan porque sou um pobre-diabo.<\/p>\n<p>Tipos bestas. Ficam dias inteiros fuxicando no caf\u00e9s e pregui\u00e7ando, indecentes. Quando avisto essa cambada, encolho-me, colo-me \u00e0s paredes como un rato assustado. Como um rato, exatamente. Fzjo do negociantes que soltam gargalhadas enormes, discuten pol\u00edtica e putaria.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso pagar o aluguel da casa. Dr. Gouvei aperta-me com bilhetes de cobran\u00e7a. Bilhetes in\u00fatei: mas dr. Gouveia n\u00e3o compreende is.to. H\u00e1 tamb\u00e9r o homem da luz, o Mois\u00e9s das presta\u00e7\u00f5es, uma promi.<\/p>\n<p>s\u00f3ria de quinhentos mil-r\u00e9is, j\u00e1 reformulada. E coisa piores, muito piores.<\/p>\n<p>O artigo que me pediram afasta-se do papel. ve: dade que tenho o cigarro e tenho o \u00e1lcool, mas quand bebo demais ou fumo demais, a minha tristeza cresc Tristeza e raiva. Ar, mar, ria, arma, ira. Passatemp est\u00fapido.<\/p>\n<p>Dr. Gouveia \u00e9 um monstro. Comp\u00f4s, no quint ano, duas colunas que publicou por dinheiro na sec\u00e7\u00e3 livre de um jornal ordin\u00e1rio. Meteu esse trabalhinh num caixilho dourado e pregou-o na parede, por cim do bureau. Est\u00e1 cheio de erros e past\u00e9is. Mas dr. Go veia n\u00e3o os sente. O esp\u00edrito dele n\u00e3o tem ambi\u00e7\u00f4e Dr. Gouveia s\u00f3 se ocupa com o temporal: a renda da propriedades e o cobre que o tesouro lhe pinga.<\/p>\n<p>8 N\u00e3o consigo escrever. Dinhefro e propriedades, que me d\u00e3o sempre desejos violentos de mortandade e ou- tras destrui\u00e7\u00f5es, as duas colunas mal impressas, caixi- lho, dr. Gouveia, Mois\u00e9s, homem da luz, negociantes, polfticos, diretor e secret\u00e1rio, tudo se move na minha cabe\u00e7a, como um bando de vermes, em cima de uma coisa amarela, gorda e mole que \u00e9, reparando-se bem, a cara balofa de Juli\u00e3o Tavares mufto aumentada.<\/p>\n<p>Essas sombras se arrastam com lentid\u00e3o viscosa, mis- turando-se, formando um novelo confuso.<\/p>\n<p>Afinal tudo desaparece. E, inteiramente vazio, fico tempo sem fim ocupado em riscar as palavras e os desenhos. Engrosso as linhas, suprimo as curvas, at\u00e9 que deixo no papel alguns borr\u00f5es compridos, umas tarjas muito pretas.<\/p>\n<p>* * * Se pudesse, abandonaria tudo e recome\u00e7aria as minhas viagens. Esta vida mon\u00f3tona, agarrada \u00e0 banca das nove horas ao meio-dia e das duas \u00e0s cinco, \u00e9 est\u00fa pida. Vida de sururu. Est\u00fapida. Quando a reparti\u00e7\u00e3o se fecha, arrasto-me at\u00e9 o rel\u00f3gio oficial, meto-me no primeiro bonde de Ponta-da Terra.<\/p>\n<p>Que estar\u00e1 fazendo Marina? Procuro afastar de mim essa criatura. Uma viagem, embria.guez, suic\u00eddio. . .<\/p>\n<p>Peno no meu cad\u00e1ver, magrfssimo, com os dentes arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem cas- ca, os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo Os conhecidos dir\u00e3o que eu era um bom tipo e con- duzir\u00e3o para o cemit\u00ebrio, num caix\u00e3o barato, a minha Carca\u00e7a meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem as al\u00e7as, revezando-se no mister piedoso e cacete de Carregar defunto pobre, procurar\u00e3o saber quem ser\u00e1 o meu substituto na Diretoria da Fazenda.<\/p>\n<p>Enxoto as imagens l\u00fagubres. V\u00e3o e voltam, sem vergonha, e com elas a lembran\u00e7a de Juli\u00e3o Tavares.<\/p>\n<p>Intoler\u00e1vel. Esfor\u00e7o-me por desviar o pensamento des- sas coisas. N\u00e3o sou um rato, n\u00e3o quero ser um rato.<\/p>\n<p>Tento distrair-me olhando a rua.<\/p>\n<p>A medida que o carro se afasta do centro sinto que me vou desanuviando. Tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que 9 viajo para muito longe e n\u00e3o voltarei nunca. Do lad esquerdo s\u00e3o as casas da gente rica, dos homens qu me amedrontam, das mulheres que usam peles de cor tos de r\u00e9is, Diante delas, Marina \u00e9 uma ratufna. D lado direito, navios. As vezes h\u00e2 diversos ancorado; Rolam bondes para a cidade, que est\u00e1 invis\u00edvel, l\u00e1 er cima, distante. Vida de sururu.<\/p>\n<p>H\u00e2 quinze anos era diferente. O barulho dos bonde n\u00e3,o deixava a gente ouvir o sino da igreja. O me quarto, no primeiro andar, era um inferno de calo Por isso, \u00e0 hora em que os outros h\u00f3spedes iam par a escola, estudar medicina, eu dava um salto ao Pa: seio P\u00fablico e lia, debaixo das \u00e1rvores, o notici\u00e1rio d polfcia. Naturalmente a pens\u00e3o se fechou e d. Aurorf que naquele tempo era velha, morreu.<\/p>\n<p>O calor aqui tamb\u00e9m \u00e9 grande demais. E faltar plantas. Apenas, um pouco afastados, coqueiros m camb\u00fazios, perfilados, como se esperassem ordens.<\/p>\n<p>Cidade grande, falta de trabalho. O meu quart ficava junto \u00e0 escada, e \u00e0 noite o cheiro do g\u00e1s er insuport\u00e1vel. Quando escurecia, Dagoberto, estudant e rep\u00f3rter, vinha despejar sobre a minha cama uI comp\u00eandio de anatomia e uma cesta de ossos.<\/p>\n<p>O bonde chega ao fim da linha, volta. Bairro misE r\u00e1vel, casas de paIha, crian\u00e7as doentes. Barcos de pe; cadores, as chamin\u00e9s dos navios, longe.<\/p>\n<p>D. Aurora, que tinha sobrenome ingl\u00eas, \u00e0s sei horas encostava-se ao guarda-roupa e rosnava, agitav os carac\u00f3is brancos, pregava os \u00f3culos nos h\u00f3spedE que comiam demais e nos que estavam em atras Havia um rapaz de Minas, disp\u00eaptico, que ela adorav e queria casar com a neta. Enquanto os outros mast gavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre c discursos da C\u00e2mara.<\/p>\n<p>Retorno \u00e0 cidade. Os globos opalinos do Ater iluminam o gramado murcho e a praia branca. C coqueiros empert\u00edgados ficam para tr\u00e1s. Penso nuxr ditadura militar, em paradas, em disciplina. Os navu tamb\u00e9m ficam para tr\u00e1s. A pens\u00e3o, o meu quarto ab fado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos Dagoberto somem-se.<\/p>\n<p>O carro passa pelos lundos do tesouro. E ali que trabalho. Ocupa\u00e7\u00e3o est\u00fapida e quinhentos mil-r\u00e9is de ordenado.<\/p>\n<p>Rua do Com\u00e9rcio. L\u00e1 est\u00e2o os grupos que me des- gostam. Conto as pessoas conhecidas: quase sempre at\u00e9 os Mart\u00edrios encontro umas vinte. Distraio-me, esque\u00e7o Marina, que algumas ruas apenas separam de mim. Afasto-me outra vez da realidade, mas agora n\u00e3o vejo os navios, a recorda\u00e7\u00e3o da cidade grande desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, dir\u00edge-se ao interior. Tenho a impress\u00e3o de que ele me vai levar ao meu municipio sertanejo. E nem percebo os casebres miser\u00e1veis que trepam o morro, \u00e0 direi- ta, os palacetes que t\u00eam os p\u00e9s na lama, junto ao mangue, \u00e0 esquerda. Quanto mais me aproximo de Be- bedouro mais remo\u00e7o. Marina, Juli\u00e3o Tavares, as apo- quenta\u00e7\u00f5es que tenho experimentado estes \u00faltimos tempos, nunca existiram.<\/p>\n<p>Volto a ser crian\u00e7a, revejo a figura de meu av\u00f3, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que alcancei velh\u00edssimo. Os neg\u00f3cios na fazenda andavam mal. E meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, fIcava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho para cigarros, lendo o Cczrtos Magno, sonhando com a vit\u00f3- ria do partido que padre In\u00e1cio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no carrapato e na varejeira, enver- gavam o espinha\u00e7o e comiam o mandacaru que Amar ro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os mour\u00f5es do curral e as l\u00ednhas da casa. No chiqueiro alguns bichos bodejavam. Um carro de bois apodrecia deba,ixo das catingueiras sem folhas. Tinham amar- rado no pesco\u00e7o da cachorra Maqueca um ros\u00e1rio de sabugos de milho queimados. Quit\u00e9ria, na cozinha, mexia em cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no carit\u00f3.<\/p>\n<p>Eu andava no p\u00e1tio, arrastando um chocalho, brincando de boi. M\u00ednha av\u00f3, sinha Germana, passava os dias falando s\u00f3, xingando as escravas, que n\u00e3o exis- tiam. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. As vezes subia \u00e0 vila, des- composto, um camis\u00e3o vermelho por cima da ceroula II de algod\u00e3o encaro\u00e7ado, chap\u00e9u de ouricuri, alpercata e varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, mestr Domingos, que hav\u00eda s\u00eddo escravo dele e agora possuf venda sortida, encontrava o antigo senhor escoraido m balc\u00e3o de Teotoninho Sabi\u00e1, bebendo cacha\u00e7a e jo gando tr\u00eas-setes com os soldados. O preto era un suje\u00edto perfe\u00edtamente respeft\u00e1vel. Em horas de solen: dade usava sobrecasaca de chita, corrent\u00e3o de our atravessado de um bolso a outro do colete, chinelo de tran\u00e7a, por causa dos calos, que n\u00e3o ag\u00fcentavan sapatos. Por baixo do chap\u00e9u duro, a testa retinta \u00fam\u00edda de suor, brilhava como um espelho. Pois, ape sar de tantas vantagens, mestre Domingos, quand vfa meu av\u00f4 naquela desordem, dava-lhe o bra\u00e7o, leva va-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amonfacc Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomi tava na sobrecasaca de mestre Domingos e gr\u00edtava: &#8211; Negro, tu n\u00e3o respeitas teu senhor n\u00e3o, negro Quando o carro p\u00e1ra, essas sombras antigas desa parecem de supet\u00e3o &#8211; e vejo coisas que n\u00e3o me exci tam nenhum interesse: os focos da ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fabl: ca, espa\u00e7ados, cochilando, p\u00edongos, t\u00e3o p\u00edongos com luzes de cemit\u00e9rio; um pal\u00e1cio transformado em al bergue de vagabundos; escurid\u00f5es, capoeiras, barrefra cortadas a pique no monte; a frontaria de uma f\u00e1bric, de tecidos; e, de Ionge em longe, atrav\u00e9s de ramagen: peda\u00e7os de mangue, cinzentos. A medida que no aproximamos do fim da linha as paradas s\u00e3o meno freq\u00fcentes. Os postes cintados de branco passam cor rendo, o carro est\u00e1 quase vazio, as recorda\u00e7\u00f5es da mi nha inf\u00e2nc\u00eda precipitam-se. E a decad\u00eancia de Trajan Pereira de Aquino Cavalcante e Silva precipita-s tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Estava pegando um s\u00e9culo quando entrou a c: ducar. Encolhido na cama de couro cru, mijava-, todo, contava os dedos dos p\u00e9s e ca\u00eda na madorn; De repente acordava sobressaltado: &#8211; Sinha Germana! Meu pai largava o Carlos Magno, abria o tabaquE ro, deixava a rede, impaciente: Que \u00e9 que h\u00e1? &#8211; Homem, voc\u00ea n\u00e3o me dir\u00e1 onde est\u00e1 sua m\u00e3e? Aqui mais de uma hora chamando essa mulher! &#8211; Morreu.<\/p>\n<p>&#8211; Que est\u00e1 me dizendo? estranhava o velho arr galando os olhos quase cegos. Quando foi isso? Camilo Pereira da Silva amolava-se: &#8211; Deixe de arrelia. Morreu o ano passado.<\/p>\n<p>&#8211; Tanto tempo! dizia Trajano. E voc\u00eas calados. . .<\/p>\n<p>&#8211; Punha-se a folgar com os dedos e pegava no sono. Quinze minutos depois estava berrando: &#8211; Sinha Germana! Acabou-se numa agonia leve que n\u00e3o queria ter fim. E enterrou-se na catacumba desmantelada que nossa fam\u00edlia tinha no cemit\u00e9rio da vila. Mestre Do- mingos pegou na al\u00e7a do caix\u00e3o e declarou a meu pai que a morte \u00e9 um mund\u00e9u. Fomos morar na vila. Me- teram-me na escola de seu Ant\u00f4nio Justino, para desas- nar, pois, como disse Camilo quando me apresentou ao mestre, eu era um cavalo de dez anos e n\u00e3o conhe- cia a m\u00e3o direita. Aprendi leitura, o catecismo, a con- juga\u00e7\u00e3o dos verbos. O professor dormia durante as li\u00e7\u00f5es. E a gente bocejava olhando as paredes, espe- rando que uma r\u00e9stia chegasse ao risco de l\u00e1pis que marcava duas horas. Sa\u00edamos em algazarra. Eu ia jogar pi\u00e3o, sozinho, ou empinar papagaio. Sempre br\u00efnquei s\u00f3.<\/p>\n<p>* * * Uma chuvinha renitente a\u00e7oita as folhas da man- guefra que ensombra o fundo do meu quintal, a \u00e1gua empapa o ch\u00e3o, mole como terra de cemit\u00e9rio, qual- quer coisa desagrad\u00e1vel persegue-me sem se fixar cla- ramente no meu esp\u00edrito. Sinto-me aborrecido, aper- reado Debaixo da chuva azucrinante, esp\u00e9cie de neblina pegajosa, a mangueira do quintal e as roseiras da casa vizinha est\u00e3o quase invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Emendo um artigo que Pimentel me pediu, artigo feito contra vontade, s\u00f3 para n\u00e3o descontentar Pi- mentel. Felizmente a id\u00e9ia do livro que me persegue \u00e0s vezes dias e dias desapareceu.<\/p>\n<p>Penso em mestre Domingos, no velho Trajano, em meu pai. N\u00e3o sei porque mexi com eles, t\u00e3o remotos, dilufdos em tantos anos de separa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o t\u00eam ne- nhuma rela\u00e7\u00e3o com as pessoas e as coisas que me cercam.<\/p>\n<p>Releio com desgosto o artigo que vou dar a Pi- mentel.<\/p>\n<p>Os defuntos antigos me importunam. Deve ser por causa da chuva. Nos meses compridos daqueles in- vernos de serra mu\u00edtas vezes fiquei tardes inteiras sen- tado \u00e0 porta da nossa casa na vila, olhando a rua que desaparecia aebaixo de um len\u00e7ol branco de \u00e1gua em p\u00f3. Os chuviscos entravam pela sala, os m\u00f3veis e a roupa da gente pareciam cobrir-se de pontinhas de alfinetes. De tempos a tempos um vulto embu\u00e7ado passava na cal\u00e7ada. O velho Acr\u00edsio, de cachimbo na boca, chegava \u00e0 janela para conversar com meu pai.<\/p>\n<p>N\u00e2o entrava: dava umas notfcias, esfregando as m\u00e3os, ag\u00fcentando aqueles pinguinhos que n\u00e3o molhavam, apenas lhe umedeciam o capote e o cachen\u00ea de l\u00e3 ver- melha.<\/p>\n<p>Agora a chuva \u00e9 um pouco diferente, o nevoeira menos denso. De longe em longe a \u00e1gua bate no te lhado com for\u00e7a, depois continua a peneira que oculta o jardim da casa vizinna.<\/p>\n<p>Se Marina tivesse a id\u00e9ia de se banhar ali \u00e0quela hora da tarde, eu n\u00e3o lhe veria o corno. Talvez visse apenas uma sombra, como acontece n\u00f5 cinema quandc se apresentam mulheres nuas. Este pensamento esqui sito &#8211; Marina despida, arrepiada, coberta de caroci nhos &#8211; bole comigo durante alguns minutos.<\/p>\n<p>Gostava de me lavar assim quando era menino A trovoada ainda roncava no c\u00e9u, e i\u00e1 me preparava As vezes a prepara\u00e7\u00e3o durava tr\u00eas dias. O trov\u00e3o rolavs por este mundo, os rel\u00e2mpagos sucediam-se com f\u00faria Quit\u00e9ria encafuava-se, oferecia peles de fumo a Santf Clara, escondia a cabe\u00e7a debaixo das cobertas e gri tava: &#8211; &#8220;Miseric\u00f3rdial &#8220;; meu pai largava o romance nervoso; Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e SilvF chamava sinha Germana, que t\u00ednha morrido. Quandc o aguaceiro chegava, o couro cru da cama do velhc Trajano virava mingau, tanta goteira havia; a redi suja de Camilo fedia a bode; os bichos da fazenda vinham abrigar-se no copiar; o ch\u00e3o de terra batida ficava todo coberto de excremento.<\/p>\n<p>Eu tirava as alpercatas, arrancava do corpo a ca- misinha de algod\u00e3o encardida, agarrava um cabo de vassoura, fazia dele um cavalo e sa\u00eda pinoteando, pe- rer\u00ea, perer\u00ea, perer\u00ea, at\u00e9 o fim do p\u00e1tio, onde havia tr\u00eas p\u00e9s de ju\u00e1. Repetia o exercicio, cheio de alegria doida, e gritava para os animais do curral, que se lava- ram como eu. Fatigado, saltava no lombo do cavalo &#8216; de f\u00e1brica, velho e lazarento, galopava at\u00e9 o Ipanema e cafa no po\u00e7o da Pedra. As cobras tomavam banho com a gente, mas dentro da \u00e1gua n\u00e3o mordiam.<\/p>\n<p>O po\u00e7o da Pedra era uma piscina enorme. Antes de entrar nela, o Ipanema tinha dois metros de lar- gura e arrastava-se debaixo dos garranchos de algu- mas quixabeiras sem folhas.<\/p>\n<p>Quando eu ainda n\u00e3.o sabfa nadar, meu paf me levava para ali, segurava-me um bra\u00e7o e atirava-me num lugar fundo. Puxava-me para cima e deixava-me respirar um instante. Em seguida repetia a tortura.<\/p>\n<p>Com o correr do tempo aprendi nata\u00e7\u00e3o com os biehos e livrei-me disso. Mais tarde, na escola de mestre An- t8nfo Justino, lf a hist\u00f3ria de um pintor e de um cachorro que morria afogado. Pois para mim era no po\u00e7o da Pedra que se dava o desastre. Sempre imagi nei o pintor com a cara de Camilo Pereira da Silva, e o cachorro parecia-se comigo.<\/p>\n<p>Se eu pudesse fazer o mesmo com Marina, afog\u00e1-la devagar, trazendo-a para a superffcie quando ela estf- resse perdendo o f\u00f4lego, prolongar o suplicfo um dia inteiro . . .<\/p>\n<p>Debaixo da chuva, a manguefra do quintal est\u00e1 toda branca. O papagaio na cozinha bate as asas, sa- cudindo os salpicos que v\u00eam da biqueira. Afago o p\u00ealo macio do meu gato mourisco, que dorme enroscado numa cadeira. As id\u00e9ias ruins desaparecem. Marina desaparece.<\/p>\n<p>Ponho-me a vagabundear em pensamento pela vila distante, entro na igreja, escuto os serm\u00f5es e os desa- foros que padre In\u00e1cio pregava aos matutos: &#8211; Ar reda, povo, ra\u00e7a de cachorro com porco.&#8221; Sento-me no pared\u00e3o do a\u00e7ude, ou\u00e7o a cantilena dos sapos. Vejo a figura sinistra de seu Evaristo enforcado e os ho- mens que iam para a cadeia amarrados de cordas.<\/p>\n<p>Lembro-me de um fato, de outro fato anterior ou posterior ao primeiro, mas os do\u00eds v\u00eam juntos. E os tipos que evoco n\u00e3o t\u00eam relevo. Tudo empastado, con fuso. Em seguida os dois acontecimentos se distanciam e entre eles nascem outros acontecimentos que v\u00e3o crescendo at\u00e9 me darem sofrfvel noc\u00e3o de realidade, As fei\u00e7\u00f5es das pessoas ganham nitidez. De toda aquela vida havia no meu esp\u00edrito vagos ind\u00efcios. Sa\u00edram da entorpecimento recorda\u00e7\u00f5es que a imagina\u00e7\u00e3o com pletou.<\/p>\n<p>A escola era triste. Mas, durante as li\u00e7\u00f5es, em p\u00e9; de bra\u00e7os cruzados, escutando as emboan\u00e7as de mestre Ant\u00f4nio Justino, eu via, no outro lado da rua, uma casa que tinha sempre a porta escancarada mostrandc a sala, o corredor e o quintal cheio de roseiras. Mora vam ali tr\u00eas mulheres velhas que pareciam formigas.<\/p>\n<p>Havia rosas em todo o canto. Os trastes cobriam-se de grandes manchas vermelhas. Enquanto uma das for migas, de mangas arrega\u00e7adas, remexia a terra do jar d\u00edm, podava, regava, as outras andavam atarefadas carregando bra\u00e7adas de rosas.<\/p>\n<p>Daqui tamb\u00e9m se v\u00e9em algumas roseiras maltrata das no quintal da casa vizinha. Foi entre essas planta; que, no come\u00e7o do ano passado, avistei Marina pelE primeira vez, suada, os cabelos pegando fogo.<\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e3o novamente gritando os meus desejos. Ca lam-se acovardados, tornam-se inofensivos, transfor mam-se, correm para a vila recomposta. Um arrepu atravessa-me a espinha, inteiri\u00e7a-me os dedos sobre i papel. Naturalmente s\u00e3o os desejos que fazem isto, ma atribuo a coisa \u00e0 chuva que bate no telhado e \u00e0 recor da\u00e7\u00e3o daquela peneira ranzinza que descia do c\u00e9u dia e dias.<\/p>\n<p>Meu pai cochilava, encostado ao balc\u00e3o. Na salet da nossa casa, por detr\u00e1s da bodega, eu recordava a li\u00e7\u00f5es, entorpecido. Enfiando os olhos pela janela, vi na rua o meu vizinho Joaquim Sabi\u00e1, de c\u00f3coras, fazen do constru\u00e7\u00f5es com areia molhada. Havia um grand sil\u00eancio, um sil\u00eancio inc\u00f4modo. As vezes punha-me is tossir, para me convencer de que n\u00e3o tinha ficado surdo.<\/p>\n<p>Era como se a gente houvesse deixado a Terra. De re- pente surgiam vozes estranhas. Que eram? Ainda hoje n\u00e3o sef. Vozes que iam crescendo, mon\u00f3tonas, e me cau- sa.vam medo. Um alarido, um queixume, clamor enor- me, sempre no mesmo tom. As ruas enchiam-se, s sa- leta enchia-se &#8211; e eu tinha a impress\u00e3o de que o brado lastimoso sa\u00eda das paredes, safa dos m\u00f3veis. Fechava os ouvidos para n\u00e3o perceber aquilo: as vozes continua vam, cada vez mais fortes. Que seriam? Tentava desco- brir a causa do extraordin\u00e1rio lamento. Supunha que eram patos gritando, embora nunca tivesse ouvido a voz dos patos. Tamb\u00e9m me inclinava a admitir que fossem sapos. Mas os sapos do a\u00e7ude da Penha cantavam de outra forma. N\u00e3o podiam ser sapos. A verdade \u00e9 que muitas vezes perguntef a mim mesmo se realmente ouvia aquele barulho grande, diferente dos outros barulhos.<\/p>\n<p>Perguntei naquele tempo ou perguntei depois? N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Tenho-me esfor\u00e7ado por tornar-me crian\u00e7a &#8211; e em con- seq\u00fc\u00eancia misturo cofsas atuais a cofsas antigas.<\/p>\n<p>* * * Penso na morte de meu pai. Quando voltef da es- cola, ele estava estirado num marques\u00e3o, coberto com um len\u00e7ol branco que Ihe escondfa o corpo todo at\u00e9 a cabe\u00e7a. S\u00f3 ficavam expostos os p\u00e9s, que iam al\u00e9m de uma das pontas do marques\u00e3o, pequeno para o defunto enorme. Muitas pessoas se tinham tornado donas da casa: Rosenda lavadeira, padre In\u00e1cio, cabo Jos\u00e9 da Luz, o velho Acrisio.<\/p>\n<p>Fuf sentar-me numa prensa de farinha que havla no fundo do nosso quintal. Tentei chorar, mas n\u00e3o tinha vontade de chorar. Estava espantado, imaginando a vida que ia suportar, sozinho neste mundo. Sentia irfo e pena de mim mesmo. A casa era dos outros, o defunto era dos outros. Eu estava ali como um bichi- nho abandonado, encolhido na prensa que apodrecfa.<\/p>\n<p>Ouvia o barulho de um descaro\u00e7ador de algod\u00e3o, pr\u00f3- atmo, no Cavalo-Morto. E via o corredor da nossa casa por onde passavam a batina de padre In\u00e1cio, a fard\u00e1 1 de cabo Jos\u00e9 da Luz, o vestido vermelho de R.osenda e o capote do velho Acrfsio.<\/p>\n<p>Que ia ser de mim, solto no mundo? Pensava nos p\u00e9s de Camilo Pereira da Silva, sujos, com tend\u00f5es da grossura de um dedo, cheios de n\u00f3s, as unhas roxas, Eram magros, ossudos, enormes. O resto do corpo es tava debaixo do len\u00e7ol branco, que fazia um vincc entre as pernas compridas. Eu n\u00e3o podfa ter saudade daqueles p\u00e9s horr\u00edveis, cheios de calos e joanetes. Pra curava chorar &#8211; lembrava-me dos mergulhos no po\u00e7c da Pedra, das primeiras li\u00e7\u00f5es do alfabeto, que me ren diam cocorotes e bolos. Desejava em v\u00e3o sentir a morte de meu pai. Tudo aquilo era desagrad\u00e1vel. &#8211; &#8220;Istc \u00e9 um cavalo ae dez anos e n\u00e3,o conhece a m\u00e3o di reita.&#8221; Agora eu tinha catorze, conhecfa a m\u00e3o direit2 e os verbos Voltei \u00e0 sala9 nas pontas dos p\u00e9s. Ningu\u00e9m mi viu. Camilo Pereira da Silva continuava escondido de baixo do pano branco, que apresentava no lugar da cara uma n\u00f3doa vermelha coberta de moscas. Rosendf queimava alfazema num caco de telha. Seu Acrfsio n\u00e3 servia para nada. Era impossfvel saber onde se fixavf 0 olho de padre In\u00e1cio, duro, de vidro, im\u00f3vel na \u00f3rbi ta escura. Ningu\u00e9m me vfu. Fiquei num canto, roendi as unhas, olhando os p\u00e9s do finado, compridos, chatos amarelos.<\/p>\n<p>Sempre abafando os passos, dirigf-me novament ao fundo do quintal, com medo daquela gente que nen me havfa mandado buscar \u00e0 escola para assistir morte de meu paf. At\u00e9 a preta Quit\u00e9ria se esquecer de mim. Ao passar pela cozinha, encontrei-a mexend nas panelas e lastimando-se. Sentei-me na prensa, can sado, o est\u00f4mago doendo. Que iria fazer por af \u00e0 toa mi\u00fado, t\u00e3o mi\u00fado que ningu\u00e9m me via? Encostei-m ao muro, escorreguei por cima da madeira bichad a.dormecf pensando nos mergulhos do po\u00e7o da Pedrs nos bolos e nos p\u00e9s de Camilo Pereira da Silva. E, en quanto dormia, ouvfa a cantiga dos sapos no a\u00e7ud da Penha, o burburinho dos intrusos que se acavala vam no corredor, o barulho do descaro\u00e7ador de algc d\u00e3o no Cavalo-Morto. Vozes chegavam-me, confusas, eu n\u00e3o conseguia apreender o sentido delas. Vis\u00f5es tam- b\u00e9m. Via a casa da fazenda, arruinada, os bichos defi- nhando na morrinha, o chiqueiro bodejando, rel\u00e2m- pagos cortando o c\u00e9u. A chuva ca\u00eda, eu andava pelo p\u00e1tio, nu, montado num cabo de vassoura. Quem me acordou foi Rosenda, que me trazia uma x\u00edcara de caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado, Rosenda.<\/p>\n<p>E comecei a solu\u00e7ar como um desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Desde esse dia tenho recebido muito coice. Tam- b\u00e9m me apareceram alguns sujeitos que me fizeram favores. Mas at\u00e9 hoje, que me lembre, nada me sensi- bilizou tanto como aquele bra\u00e7o estirado, aquela fala mansa que me despertava.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, Rosenda.<\/p>\n<p>Iam levando o cad\u00e1ver de Camilo Pereira da Silva.<\/p>\n<p>Corri para a sala, chorando. Na verdade chorava por causa da x\u00edcara de caf\u00e9 de Rosenda, mas consegui en- ganar-me e evitei remorsos.<\/p>\n<p>Na casa escura, cheia das lamenta\u00e7\u00f5es de Quit\u00e9ria, n\u00e3o encontrei sossego. Adormeci pela madrugada.<\/p>\n<p>No dia seguinte os credores passaram os gada- nhos no que acharam. Tipos desconhecidos entravam na loja, mediam pe\u00e7as de pano. Chegavam de chap\u00e9u na cabe\u00e7a, cigarro no bico, invadiam os quartos, pra- guejavam. Enterrar os mortos, obra de miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>0 morto estava enterrado. Padre In\u00e1cio e os outros sumiram-se. E os homens batiam os p\u00e9s com for\u00e7a, levavam ,as mercadorias, levavam os m\u00f3veis, nem me olhavam, nem olhavam Quit\u00e9ria, que se encolhia ge- mendo &#8220;Miseric\u00f3rdia! &#8220;, como quando o trov\u00e3o rolava no c\u00e9u e os bichos iam abrigar-se no copiar da fazenda.<\/p>\n<p>Passei a noite a um canto da sala de jantar, numa ede encardida, a cabe\u00e7a debaixo do cobertor, com medo da alma de Camilo Pereira da Silva. Pensava na rede armada no copiar, no po\u00e7o da Pedra, no p\u00e1tio branco onde se arrastavam cascav\u00e9is e jararacas. Aqui- lo agora tinha outro dono. O cupim continuava a roer os mour\u00f5es do curral e os caibros da casa, o carro de bois apodrecia sob as catingueiras, os bichos bodeja- vam no chiqueiro. Mas a sombra do velho Trajano n\u00e3o brincava com os dedos dos p\u00e9s, Amaro vaqueiro n\u00e3o cortava mandacaru para o gado, a cachorra Moquec tinha morrido, Camilo Pereira da 8ilva n\u00e3o foiheav o romance.<\/p>\n<p>Que estaria fazendo a alma de Camilo Pere\u00efra d Silva? Provavelmente rondava a casa, entrava pela portas fechadas, olhava as prateleiras vazias. As outra almas mais antigas, Trajano, seu Evaristo, sinh Cle mana, n\u00e3,o me atemorizavam; mas aquela, t\u00e3o pr\u00f3x ma, ainda agarrada ao corpo, dava-me tremuras. iJ suo corria-me pelo rosto. Como estariam os p\u00e9s de (amil Pereira da Silva? Certamente estavam inchados, ve des, com peda\u00e7os ficando pretos.<\/p>\n<p>* * * Seu Ivo, silencioso e faminto, vem visitar-rrde. Fs agrados ao gato e ao papagaio, entende-se com Vit\u00f3r; e arranja um osso na cozinha. N\u00e3o quero v\u00ea-lo, baiz os olhos para n\u00e3o v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Fico de p\u00e9, encostado \u00e0 mesa da sala de y anta olhando a janela, a porta aberta, os degraus de cime to que d\u00e3o para o quintal. tgua estagnada, lixo, o ca teiro de alfaces amarelas, a sombra da manguei.;a. Pi cima do muro baixo ao fundo v\u00eaem-se pipas, nont de cisco e cacos de vidro, um homem triste que encl dornas sob um telheiro, uma mulher magra que la garrafas.<\/p>\n<p>Seu Ivo est\u00e1 invisivel. Ou\u00e7o a voz \u00e1spera de Vit\u00f3r e isto me desagrada. Entro no quarto, procuro u ref\u00fagio no passado. Mas n\u00e3o me posso esconder intt ramente nele. N\u00e3o sou o que era naquele temp Falta-me tranq\u00fcilidade, falta-me inoc\u00eancia, estou fei um molambo que a cidade puiu demais e sujou.<\/p>\n<p>Fumo. Assisto a uma discuss\u00e3o do barbeira And Laerte com o negociante Filipe Benigno. As palavr me chegam quase apagadas, destituidas de senso. E pr v\u00e1vel que n\u00e3o digam nada. Filipe Benigno \u00e9 u n pom nebuloso : s\u00f3 percebo dele claramente as barbas bra cas e os olhos mi\u00fados. Mas a figura de Andr\u00e9 Laer tem bastante nitidez. Parece um gato: anda er i red do outro como se estivesse preparando um salo pa agarr\u00e1-lo. Tem um avental manchado de sang;ze, u bigodinho ralo e faz &#8220;Pfu!&#8221; Seu Batista, vest\u00eddo em robe-de-chambre, passeia na cal\u00e7ada, com as m\u00e3os atr\u00e1s das costas. D. Concei\u00e7\u00e3o, mulher de Teotoninho Sabi\u00e1, prepara milho para o xer\u00e9m. Carcar\u00e1 solta gargalha- das que se ouvem na outra extremidade da rua. O dou- tor juiz de direito conta ao vig\u00e1rio hist\u00f3rias de on\u00e7as e jacar\u00e9s do Amazonas. Cabo Jos\u00e9 da Luz, \u00e0 porta do quartel, espalha tristezas: Assentei pra\u00e7a Na pol\u00edcia eu vivo Por ser amigo da distinta farda&#8230;<\/p>\n<p>O sino da igrejinha bate a primeira pancada das ave-marias.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o sino da igreja, \u00e9 o rel\u00f3gio da sala de jantar. Oito e meia. Preciso vestir-me depressaw chegar \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o \u00e0s nove horas. Apronto-me, cal\u00e7o as meias pelo avesso e saio correndo. Paro sobressaltado, tenho a impress\u00e3o de que me faltam pe\u00e7as do vestu\u00e1rio.<\/p>\n<p>Assaltam-me d\u00favidas id\u00edotas. Estarei \u00e0 porta de casa ou j\u00e1 terei chegado \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o? Em que ponto do trajeto me acho? N\u00e3o tenho consc\u00ed\u00eanc\u00eda dos mov\u00edmen- tos, sinto-me leve. Ignoro quanto tempo f\u00edco assim.<\/p>\n<p>Provavelmente um segundo, mas um segundo que pa- rece eternidade. Est\u00e1 claro que todo o desarranjo \u00e9 interior. Por fora devo ser um cidad\u00e3o como os outros, um diminuto cidad\u00e3o que vai para o trabalho ma\u00e7ador, um Lu\u00eds da Silva qualquer. Mexo-me, atravesso a rua a grandes pernadas.<\/p>\n<p>Tenho contudo a impress\u00e3o de que os transeuntes me olham espantados por eu estar \u00edm\u00f3vel.<\/p>\n<p>Tm\u00f3vel. Camilo Pereira da Silva tamb\u00e9m estava im\u00f3vel, debaixo da terra. D. Concei\u00e7\u00e3o vinha ofere- cer-me comida. As meninas dela, d. Maria e Teresa, tentavam consolar-me. Retra\u00eda-me como um animal acuado, fechava os ouvidos \u00e0s consola\u00e7\u00f5es, cerrava os olhos, apalpava a cabe\u00e7a e sentia a dureza de ossos, dava estalos com os dedos e ouvia o som de ossos.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, muito obrigado.<\/p>\n<p>N\u00e2o precisava de nada. Os ossos de Camilo Pereira da Silva desconjuntavam-se na podr\u00efd\u00e3o da cova, e a alma j\u00e1 n\u00e3,o me fazia medo. Era uma alma que envelhecia e estava fora da terra, provavelmente no purga t\u00f3rio. Quit\u00e9ria rezava alto na cozinha: &#8211; Ofere\u00e7o este padre-nosso e esta ave-maria \u00e0s almas do purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Era l\u00e1 que devia estacionar uma parte de meu pai, curando uns restos de pecados. Leves pecados. Apenas muita pregui\u00e7a. Por isso eu ag\u00fcentava fome e ouvia &amp;Q lamenta\u00e7\u00f5es de Quit\u00e9ria.<\/p>\n<p>Para que banda ficaria o purgat\u00f3rio? Seu Ant\u00f4nio Justino n\u00e3o sabia. Nem eu. Sabia onde ficavam o Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Minas, lugares que me atrafam, que atraem a minha ra\u00e7a vagabunda e queimada pela seca. Resolvi desertar para uma dessas terras distantes.<\/p>\n<p>Abandonei a vila, com uma trouxa debaixo do bra\u00e7o e os livros da escola. &#8211; &#8220;Adeus, d. Concei\u00e7\u00e3o. Muito obrigado pela comida com que me matou a fome.<\/p>\n<p>Adeus, Joaquim Sabi\u00e1, d. Maria, Teresa. Adeus, Quit\u00e9- ria, Rosenda, cabo Jos\u00e9 da Luz.&#8221; E comecei a andar lenta.mente pelo caminho estreito, afastando-me da vila adormecida.<\/p>\n<p>Come\u00e7o a andar depressa, receando encontrar o ponto encerrado. Tolice. Provavelmente tudo aquilo se passou num segundo. Tenho a impress\u00e3o de que uma objetiva me pegou, num instant\u00e2neo. Ficarei assim , com a perna erguida, a pasta debaixo do bra\u00e7o, o cha- p\u00e9u embicado.<\/p>\n<p>Lufs da Silva, a caminho da reparti\u00e7\u00e3o, lesando.<\/p>\n<p>pensando em defuntos.<\/p>\n<p>i ; Este m\u00eas ffz um sacriffcio: def uns dinheiros ao Mois\u00e9s das presta\u00e7\u00f5es para amortizar a minha conta.<\/p>\n<p>Dr. Gouveia h\u00e1 de ter paci\u00eancia: espera mais uns dias.<\/p>\n<p>Deixarei de andar pela Rua do Sol para n\u00e3o encon- tr\u00e1-lo. O que n\u00e3o posso \u00e9 continuar a esconder-me de Mois\u00e9s. Escondo-me, estive algumas semanas sem ir ao caf\u00e9, com receio de ver o judeu. E gosto do caf\u00e9, passo l\u00e1 uma hora por dia, olhando as caras.<\/p>\n<p>H\u00e1 o grupo dos m\u00e9dicos, o dos advogados, o dos comerciantes, o dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos, o dos litera- tos. Certos indivfduos pertencem a mais de um grupo, outros circulam, procurando familfaridades provefto sas. Naquele espa\u00e7o de dez metros formam-se v\u00e1ria; sociedades com caracteres perfeitamente definidos, mui to distanciadas. A mesa a que me sento fica ao p\u00e9 da vitrina dos cigarros. \u00c9 um lugar inc\u00f4modo: as pessoa; que entram e as que saem empurram-me as pernas Contudo n\u00e3o poderia sentar-me dois passos adiante porque \u00e0s seis horas da tarde est\u00e3o l\u00e1 os desembar gadores. E agrad\u00e1vel observar aquela gente. Com uma despesa de do\u00eds tost\u00f5es, passo al\u00ed uma hora, encolh\u00eddc junto \u00e0 porta, distraind\u00f2-me.<\/p>\n<p>Pois-ultimamente precisef renuncfar ao caf\u00e9, po causa de Mois\u00e9s. Ele tamb\u00e9m se esquivava. Ii\u00e1 dia; deu de cara comigo ao dobrar uma esquina e empalf deceu, balbuciou na sua lingua avariada: &#8211; Ol\u00e1! Como vai? Estou com muita pressa.<\/p>\n<p>\u00c9 um p\u00e9ssimo cobrador. Dei-lhe este m\u00eas cem mil r\u00e9is para p\u00f4r termo a esses vexames, Mas ainda devc muito, nem sei quanto. A culpa \u00e9 minha. Quando m vendeu as fazendas, Mois\u00e9s foi franco: &#8211; Isto \u00e9 caro como o diabo. Voc\u00ea faz melhor ne g\u00f3cio comprando a dinheiro noutra loja.<\/p>\n<p>Mas eu estava na pinda\u00efba e precisava adquirir o; trapos para Marina. Desde ent\u00e2o venho suando parf reduzir o d\u00e9bito. Quando me atraso, Mois\u00e9s foge d mim. Agora, depois de receber o cobre, declarou-mi que as mercadorias j\u00e1 tinham sido pagas. Infelizment n\u00e3o me podia dar quita\u00e7\u00e3o, porque os tro\u00e7os que vendi s\u00e3o do tio, judeu verdadeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 muito bem.<\/p>\n<p>E o constrangimento desapareceu. As sefs hora estamos de novo sentados junto \u00e0 vitrina dos cigarro Mois\u00e9s fala com abund\u00e2ncia, desforrando-se do sil\u00ean cio em que estivemos ultimamente. Procura a expre, s\u00e3o, co\u00e7a a testa, franze os bei\u00e7os numa careta qu lhe mostra os dentes largos e diz: &#8211; Est\u00e1 percebendo? Sim, percebo, embora ele tenha sintaxe medonh e pron\u00fancia incrfvel. Faz rodeios fatigantes, deturpa sentido das palavras e usa esdr\u00faxulas de maneira ir sensata. Escuto-o. Os ouv\u00eddos s\u00e3o para ele, os olhc para as figuras habituais do caf\u00e9. Os olhos est\u00e3o qua invisfveis por baixo da aba do chap\u00e9u, e uma folha da porta oculta-me o corpo. Uma criaturinha insigni- ficante, um percevejo social, acanhado, encolhido para n\u00e3o ser empurrado pelos que entram e pelos que saem.<\/p>\n<p>Perto um capitalista fala muito alto, e os cotov los sobre o m\u00e1rmore d\u00e3o-lhe na sala estreita espa\u00e7o excessivo. No grupo da justi\u00e7a as palavras tombam medidas, pesadas, e os gestos s\u00e3o lentos. Al\u00e9m, dois pol\u00edticos cochicham e olham para os lados.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s comenta o jornal. Nunca vi ningu\u00e9m ler com tanta rapidez. Percorre as colunas com o dedo e p\u00e1ra no ponto que lhe interessa. Engrola, saltando linhas, a.quela prosa em lfngua estranha, relaciona o conte\u00fado com leituras anteriores e passa adiante. E um dedo inteligente o do Mois\u00e9s. O resto do corpo tem pouca import\u00e2ncia; os ombros estreitos, a corcunda, os dertes que se mostram num sorriso parado. O que a gente nota \u00e9 o dedo. O dedo e a voz sibilada, des- contente, sempre a anunciar desgra\u00e7as. Mois\u00e9s \u00e9 uma coruja. Acha que tudo vai acabar, tudo, a come\u00e7ar pelo tio, que esfola os fregueses. E eu acredito em Mois\u00e9s, que n\u00e3o escora as suas opini\u00f5es com a palavra do Senhor, como os antigos: cita livros, argumenta.<\/p>\n<p>Prega a revolu\u00e7\u00e3o, baixinho, e tem os bolsos cheios de folhetos incendi\u00e1rios.<\/p>\n<p>De repente cala-se: foi o doutor chefe de policia que apareceu e come\u00e7ou a cochichar com os polfticos.<\/p>\n<p>0 dedo de Mois\u00e9s some-se entre as folhas do jornal, o revolucion\u00e1rio esconde-se por detr\u00e1s do sorriso inex- pressivo. Covardia. Mas afasto este pensamento severo.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s n\u00e3o tem jeito de her\u00f3i: \u00e9 apenas um sujeito bom e inteligente. Por isso fiz o sacrificio de lhe dar oem mil-r\u00e9is, que me v\u00e3o transtornar o or\u00e7amento.<\/p>\n<p>Estava t\u00e3o abandonado neste deserto. . . S\u00f3 se diri- giam a mim para dar ordens: &#8211; Seu Lu\u00eds, \u00e9 bom modificar esta informa\u00e7\u00e3,o.<\/p>\n<p>Corrija isto, seu Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Fora da\u00ed, o sil\u00eancio, a indiferen\u00e7a. Agradavam-me os passageiros que mP pisavam os p\u00e9s, nos bondes, e se voltavam, atenciosos: &#8211; Perd\u00e3o, perd\u00e3o. Faz favor de desculpar.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida. Ora essa.<\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o: &#8211; Tem a bondade de me dizer onde fica a Rua do Apolo? &#8211; Perfeftamente, minha senhora. Vamos para l\u00e1 \u00c9 o meu caminho.<\/p>\n<p>Agora estou defronte de um amigo, amigo que mf liga pouca import\u00e2,ncia, \u00e9 verdade, amigo todo entre gue aos telegramas estrangefros, mas que me custou cem mil-r\u00e9is. Parece-me que at\u00e9 certo ponto Mois\u00e9: \u00e9 propriedade minha. Os cem mil-r\u00e9fs me v\u00e3o faze muita falta.<\/p>\n<p>Estreme\u00e7o : dr. Cfouvefa entra na sala, marchs para a vitrina dos cigarros.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos dar o fora, Mois\u00e9s? Dois minutos depois estamos sentados num bancc da Pra\u00e7a Montepio. Aqui h\u00e1 sossego, n\u00e3o v\u00eam c\u00e1 cer tos indivfduos impertinentes. O que me desgosta \u00e9 ve de relance, nos bancos do centro, que a folhagem dis far\u00e7a mal, pessoas atracadas. Sinto furores de mora tista. C\u00e3es! Amando-se em p\u00fablico, descaradamentel C\u00e3es! Tremo de indigna\u00e7\u00e3o. Depois esmore\u00e7o: julguei distinguir entre as folhas dos cr\u00f3tons o vulto de Ma rina. Foi ilus\u00e3o, mas a imagem permanece. Cachor rada! Mois\u00e9s fala em polfticos reacion\u00e1rfos. Encho-me de ferocidade: &#8211; Malandros! Ladr\u00f5es! Agora Mois\u00e9s est\u00e1 contando as persegui\u00e7\u00f5es ao: judeus, na Europa. Lembro-me do t\u00edo dele e digo co- migo que provavelmente a narra\u00e7\u00e3o \u00e9 exagerada. SE Mois\u00e9s n\u00e3o fosse inteligente, com certeza muitos da queles fatos n\u00e3o existlriam. Sofrlmentos. Iniq\u00fcidades &#8211; Aqui h\u00e1 tanto d\u00edsso! Mas somos fatalistas, es tamos habituados e n\u00e3o temos imagina\u00e7\u00e3o como voc\u00eas Entro a falar sobre a minha vida de cigano, d fazenda em fazenda, transformado em mestre de me ninos. Quando ensinava tudo que seu Ant\u00f4nio Justim me ensinara, passava a outra escola. Tinha o sustentc Depois era a caserna. Todas as manh\u00e3s nos exercl cios. &#8211; &#8220;Meia-volta! Ordin\u00e1rio!&#8221; As pe\u00e7as do fuzil marchas na lama, a bandeira nacional, o hino, a tarimbas sujas, os desaforos do sargento Em seguid vinha a banca de revis\u00e3o: seis hora,s de trabalho por noite, os olhos queimando junto a um foco de cem velas, cinco mil-r\u00e9is de sal\u00e1rio, multas, suspens\u00f5es.<\/p>\n<p>E coisas piores, que me envergonham e n\u00e3o conto a Mois\u00e9s. Empregos vasqueiros, a bainha das cal\u00e7as rofda, o est\u00f4mago ro\u00eddo, noites passadas num banco, importunado pelo guarda. Farejava o provinciano de longe, conhecia o nordestino pela roupa, pela cor des ; botada, pela pron\u00fancia. E assaltava-o: &#8211; Um filho do nordeste, perseguido pela adversi dade, apela para a generosidade de v. exa.<\/p>\n<p>! Valorizava a esmola: &#8211; Trago um romance entre os meus pap\u00e9is. Com- pus um livro de versos, um livro de contos. Sou obri- gado a recorrer aos meus conterr\u00e2neos. At\u00e9 que me srranje, at\u00e9 que possa editar as minhas obras.<\/p>\n<p>lecebia, com um sorriso, o n\u00edquel e o gesto de desprezo. O frege-moscas fedia a vinho podre, e o ga- lego, de tamancos, coberto de n\u00f3doas, era asqueroso.<\/p>\n<p>Mais tarde, j\u00e1 aqui em Macei\u00f3, gastando sola pelas reparti\u00e7\u00f5es, indignidades, curvaturas, mentiras, na ca\u00e7a I ao pistolo.<\/p>\n<p>&#8211; Escrevi muito atacando a rep\u00fablica velha, dou tor; sacrifiquei-me, endividei-me, estive preso por causa da ideologia, doutor.<\/p>\n<p>Afinal, para se livrarem de mim, atiraram-me este ! osso que vou roendo com \u00f3dio.<\/p>\n<p>&#8211; Chegue mais cedo amanh\u00e3, seu Luis.<\/p>\n<p>E eu chego.<\/p>\n<p>&#8211; Informe l\u00e1, seu Lu\u00eds.<\/p>\n<p>E eu informo. Como sou diferente de meu av8! Um dia um cabra de Cabo Preto apareceu na fa- zenda com uma carta do chefe. Deixou o clavinote encostado a um dos juazeiros do fim do p\u00e1tio, e de longe ia varrendo o chd,o com a aba do chap\u00e9u de couro. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva 8oletrou o papel que o homem lhe deu e mandou Ama- ro la\u00e7ar uma novilha. O cabra jantou, recebeu uma nota de vinte mil-r\u00e9is, que naquele tempo era muito dinheiro, e atravessou o Ipanema, tangendo o bicho.<\/p>\n<p>Dia de Natal meu av\u00f3 foi \u00e0 vila, com a mulher, e en- controu no caminho o grupo de Cabo Preto, que se meteu na capueira para n\u00e3o assustar a dona, .inr Germana, de saias arrega\u00e7adas, escanchada na sel um mosquet\u00e3o na ma\u00e7aneta, n\u00e3o viu nada, mas me av\u00f4 fez um gesto de agradecimento aos angicos e ac mandacarus que marginavam a estrada. Quando a p Iftica de padre In\u00e2cio caiu, o delegado prendeu u cangaceiro de Cabo Preto. O velho Trajano suiu vila e pediu ao doutor juiz de direito a soltu:~a c criminoso. Imposs\u00edvel. Andou, virou, mexeu, yastc dinheiro com habeas-corpus &#8211; e o doutor duro com chifre.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 direito, exclamou Trajano plantando o s pato de couro cru na palha da cadeira do juz. E vou soltar o rapaz.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado reuniu o povo da feira, nomens :: mi lheres, mo\u00e7os e velhos, mandou desmanchar o eFrca do vig\u00e1rio, armou todos com estacas e foi derrt:bar cadeia.<\/p>\n<p>Est\u00e1 af uma hist\u00f3rfa que narro com satisfa\u00e7\u00e3o Mois\u00e9s. Ouve-me desatento. O que Ihe intere: sa r minha terra \u00e9 o sofrimento da multid\u00e3o, a trag\u00e9d: peri\u00f3d\u00edca das secas. Procuro recordar-me dos ver\u00f5 sertanejos, que duram anos. A lembran\u00e7a chega mi turada com epis\u00f3dios agarrados aqui e alf, em roma ces. D&#8217;ficilmente poderia distinguir a realidade \u00e0 fic\u00e7\u00e3o. De resto a dor dos flagelados naquele tem n\u00e3.o me fazia mossa. Penso em coisas percebias v gamente: o gado, escuro de carrapatos, roendo a ma deira do curral; o cavalo de f\u00e1brica, lazarerto e co esparav\u00f5es; bodes def\u00ednhando na morrinha; o carro c bois apodrecendo; na catinga parda, mancha: bra cas de ossadas e v\u00f4o negro dos urubus. Tento len brar-me de uma dor humana. As leituras auxiliar-m ati\u00e7am-me o sentimento. Mas a verdade \u00e9 que o pe soal da nossa casa sofria pouco. Trajano Per:ira i Aquino Cavalcante e Silva ca\u00e1ucava; meu ps.i viv preocupado com os doze pares de Fran\u00e7a; sinha th mana tinha morr\u00eddo; Quit\u00e9ria, coitada, era bruta c mais e por isso insensfvel. Os outros moradores fazenda, as criaturas que viviam em ranchos d pal constru\u00eddos nas ribanceiras do Ipanema, n\u00e3o :e qu xavam. Jos\u00e9 Bafa falava baixo e ria sempre Sin: Terta rezava novenas e fazia partos pela vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Amaro vaqueiro alimentava-se, nas secas, com sementes de mucun\u00e3 lavadas em sete \u00e1guas, raiz de imbu, miolo de xique-xique, e de tempos a tempos furtava uma cabra no chiqueiro e atirava a culpa \u00e0 su\u00e7uarana.<\/p>\n<p>Dores s\u00f3 as minhas, mas estas vieram depois.<\/p>\n<p>* * * A minha criada Vit\u00f3ria anda em cinq\u00fcenta anos, \u00e9 meio surda e possui um papagaio inteframente mudo, que pretende educar assim : Currupaco, lcagaco, A mulher do rnacczco Ela fia, ela cose, Ela toma tabaco Torrado no ca,oo.<\/p>\n<p>O papagaio prega na velha o olho redondo. Em seguida cerra as p\u00e1lpebras e baixa a cabe\u00e7a. As vezes se aborrece da gaiola e bate as asas. A dona corre para o quintal e espia a folhagem da mangueira: &#8211; Meu louro, meu louro! Currupaco, papaco. Meu Meu louro! Onde andar\u00e1 o sem-vergonha desse pa pagaio? S\u00f3 se acomoda depois de percorrer a vizinhan\u00e7a e encontrar o fugitivo. Pega ent\u00e3o a parolar com ele, que n\u00e3o diz nada. Quando se cansa, agarra o jornal e l\u00ea com aten\u00e7\u00e3o os nomes dos navios que chegam e dos que saem. Nunca embarcou, sempre viveu em Ma- cei\u00f3, mas tem o espfrito cheio de barcos. D\u00e1-me fre- q\u00fcentemente not\u00edcias deste g\u00eanero: &#8211; O Pedro II chega amanh\u00e3. O Aratimb\u00f3 vem m atraso. Ter\u00e1 havido desastre? N\u00e3o sei como se pode capacitar de que a comu- nica\u00e7\u00e3o me interessa. H\u00e1 tr\u00eas anos, quando a conheci, a mania dela me espantava. Agora estou habituado.<\/p>\n<p>heio o jornal e deixo-o em cima da mesa, dobrado na p\u00e1gina em que se publica o movimento do porto. Vit\u00f3- rIa toma a folha e vai para a cozinha ler ao papagaio a lista dos viajantes.<\/p>\n<p>No princ\u00edpio do m\u00eas, quando se aproxima o rece bimento do ordenado, excita-se e n\u00e3o larga o Di\u00e2ric Ofic\u00edal.<\/p>\n<p>&#8211; Faltam dois dias, falta um dia, \u00e9 hoje.<\/p>\n<p>E faz c\u00e1lculos que n\u00e3o acabam, c\u00e1lculos in\u00fateis porque n\u00e3o gasta nada: usa os meus sapatos velho: e traz um xale preto amarelento que deve ter dez anos Recolhe a mensa.lidade e mete-se no fundo do quintal p\u00f5e-se a esgaravatar a terra como se plantasse quat quer coisa. Esquece os navios e as li\u00e7\u00f5es ao papagaio Volta a tratar das ocupa\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas, mas dE quando em quando l\u00e1 vai rondar a mangueira e aco corar-se junto ao canteiro das alfaces. D\u00e1 um saltc \u00e0 cozinha, fala com o louro, tempera a b\u00f3ia. Minuto: depois est\u00e1 novamente remexendo a terra.<\/p>\n<p>Observo esses manejos. Sentindo-se observada, le vanta-se, deita \u00e1gua no caco das galinhas, vai ao ba nheiro, sai com uma bra\u00e7ada de roupa, que estendE no arame esticado entre a cerca e um dos ramos d mangueira. Entra em casa, abre o jornal e anuncia; &#8211; O delegado fiscal viajou ontem.<\/p>\n<p>Nota, pela minha eara, que o delegado fiseai n\u00e3c me fnteressa e d\u00e1 uma not\u00edcia importante: &#8211; O arcebispo chegou do Rio.<\/p>\n<p>Escapole-se, vai consertar a cerca, tapar os bura cos por onde passam bichos que estragam a horta. D2 minha cadeira vejo-lhe o coc\u00f3 grisalho, a cabe\u00e7a curva atenta sobre a terra que escava, fingindo tratar do: canteiros ou fincar as estacas da cerca. No outro dia tirar\u00e1 as estacas, que, de tanto removidas, fizeram al uma esp\u00e9cie de porteira.<\/p>\n<p>Nem \u00e0 noite a pobre descansa: levanta-se pela madrugada e abre a porta do fundo, cautelosamente Cautela in\u00fatil. Como \u00e9 meio surda, pensa que n\u00e3o fa barulho, mas arrasta os sapat\u00f5es com for\u00e7a, e as per nas reum\u00e1ticas atiram-na contra os m\u00f3veis, \u00e0s es\u00e7ura: trope\u00e7am nos degraus de c\u00edmento quebrado. Ausenta-s uma hora. Depois a porta range de novo e as pisada reaparecem. Da\u00ed a pouco est\u00e2 a criatura resmungand fazendo contas intermin\u00e1veis. Erra os n\u00fameros e recome\u00e7a. Esta agita\u00e7\u00e3o dura quatro, cinco dias por m\u00eas.<\/p>\n<p>Sossega, volta \u00e0s listas dos passageiros, \u00e0 tagarelice com o papagaio : Currupaco, papczco, A muLher do macaco&#8230;<\/p>\n<p>A voz \u00e9 \u00e1spera e desdentada. E, acompanhando a cad\u00eancia, tremem as pelancas do pesco\u00e7o engelhado como um pesco\u00e7o de peru, tremem os p\u00ealos do bu\u00e7o e as duas verrugas escuras. \u00c9 terrivelmente feia.<\/p>\n<p>Logo que me entrou em casa, descobri nela uma particularidade alarmante. Sou um desleixado. Quando mudo a roupa, esque\u00e7o pap\u00e9is nos bolsos. Deixo freq\u00fcen- temente n\u00edqueis e pratas sobre os m\u00f3veis. Essas fra- \u00e7\u00f5es de pec\u00fania somem-se, e certa vez desapareceu-me da carteira uma c\u00e9dula de cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is. As fal- tas coincidem com uma grande excita\u00e7\u00e3o da velha.<\/p>\n<p>Recome\u00e7am as fugas para o quintal. Vendo-lhe o coc\u00f3 bambeante entre as folhas de alface, sei perfeitamente que ela est\u00e1 enterrando o dinheiro. Descubro ao p\u00e9 da cerca, junto \u00e0 raiz da mangueira, covas frescas.<\/p>\n<p>Assustei-me a princ\u00edpio, depois me tranq\u00fcilizei.<\/p>\n<p>A nota de cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is foi achada entre as p\u00e1- ginas de um livro. E as moedas voltam para os luga- res donde sa\u00edram. Finjo n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o a elas, para a mulher n\u00e3o se ofender, meto algumas no bolso, com indiferen\u00e7a. S\u00f3 quando estou necessitado, digo por alto, escolhendo as palavras: &#8211; Vit\u00f3ria, hoje pela manh\u00e3 deixei cair umas pra- tas no ch\u00e3o. Apanhei duas ou tr\u00ebs, mas parece que as outras rolaram para tr\u00e1s da cama. Voc\u00ea, varrendo o quarto, n\u00e3o ter\u00e1 encontrado algumas? Vit\u00f3ria estica-se, o pesco\u00e7o encarquilhado incha, os olhos mi\u00fados fuzilam, as verrugas tremem indig- nadas: &#8211; O senhor tem cada uma! Se n\u00e3o est\u00e1 satis- feito comigo, \u00e9 dizer. J\u00e1 vivi em muita casa de gente rica, seu Lu\u00eds. Criei-me vendo dinheiro, seu Lufs. Se to est\u00e1 achando bom, \u00e9 arriar a trouxa. Descon- fian\u00e7a comigo, n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe disso, criatura. Quem falou em descon- fian\u00e7a? E que derrubei as moedas. Que voc\u00e9 n\u00e3o viu est\u00e9, claro, n\u00e1o se discute. D\u00e9 uma busca.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! exlama Vit\u00f3ria. Eu n\u00e3o tinha compreen- dido bem.<\/p>\n<p>Torna-se am\u00e1vel, co\u00e7a o queixo cabeludo, puxa conversa fora de prop\u00f3sito, a voz sumida, uns risinhos encabulados. Julgando-me distraido, afasta-se nas pon- tas dos p\u00e9s, olhando-me com o rabo do olho, e vai apanhar alfaces. Da\u00ed a pouco volta, entra no quarto, arrasta a cama, examina os cantos da parede: &#8211; S\u00f3 vejo teia de aranha.<\/p>\n<p>De repente aparece chocalhando as moedas: &#8211; Est\u00e3o aqui. N\u00e3o sei quando o senhor quer to- mar jeito. A vida inteira perdendo dinheiro! Cluardo algumas pratas e deixo o resto em cima da mesa. Npo h\u00e1 perigo. Receio \u00e9 que Vit\u00f3ria se en- gane nas contas e me traga mais que o que tirou.<\/p>\n<p>* Em janeiro do ano passado estava eu uma tardE no qu;ntal, deitado numa espregui\u00e7adeira, fuma.ndo lendo um romance. O romance n\u00e3.o prestava, mas o; meus neg\u00f3cios iam equilibrados, os chefes me tolera vam, as d\u00edvidas eram pequenas &#8211; e eu rosnava con um bocejo tranq\u00fcilo: &#8211; Tem coisas boas este livro.<\/p>\n<p>Lia desatento, e as letras esmoreciam na sombr que a mangueira estirava sobre o quintal.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s e Pimentel apareciam-me \u00e0s vezes, e algun rapazes acanhados vinham pedir-me em segredo arti gos e composi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas, que eu vendia a dez, a quin ze mil-r\u00e9is. Isto chegava para o aluguel da casa &#8211; e dr. Glouveia n\u00e3o me importunava. Distraia-me con leituras in\u00fateis. Quando me caia nas m\u00e3os uma obr ordin\u00e1ria, ficava content\u00edssimo: &#8211; Ora, muito bem. Isto \u00e9 t\u00e3o ruim que eu, cor trabalho, poderia fazer coisa igual.<\/p>\n<p>Os livros idiotas animam a gente. Se n\u00e3o fosser eles, nem sei quem se atreveria a come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Esse que eu lia debaixo da mangueira, saltando p\u00e1ginas, era bem safado. Por isso interrompia a leitu- ra, acendia o cigarro.<\/p>\n<p>Foi numa dessas suspens\u00f5es que percebi um vulto mexendo-se no quintal da casa vizinha. Como j\u00e1 disse, existe apenas uma cerca separando os dois quintais.<\/p>\n<p>Do lado esquerdo h\u00e1 um muro, e ignoro completamen- te o que se passa al\u00e9m dele. Mas daquela banda o que temos \u00e9 a cerca baixa, que Vit\u00f3ria conserta sempre por causa das galinhas e para guardar dinheiro nos p\u00e9s das estacas podres. Para l\u00e1 dessa linha de demar- ca\u00e7\u00e3o tudo me era familiar: o banheiro, paredes meias com o meu, algumas roseiras, um monte de lixo que a inquilina, senhora idosa, \u00e0s vezes queimava.<\/p>\n<p>O vulto que se mexia n\u00e3o era a senhora idosa: era uma sujeitinha vermelha\u00e7a, de olhos azuis e ca- belos t\u00e3o amarelos que pareciam oxigenados. Foi s\u00f3 o que vi, de supet\u00e3o, porque n\u00e3.o sou indiscreto, era inconveniente olhar aquela desconhecida como um bas- baque. Demais n\u00e3o havia nada interessante nela.<\/p>\n<p>Onde andaria a senhora idosa, que todas as ma- nh\u00e3s ia regar as plantas, com um pano branco amar- rado \u00e0 cabe\u00e7a? Mudara-se, provavelmente, e aquela que ali estava devia ser moradora nova.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor, disse comigo, muito po\u00e9tica, ai entre as roseiras, com os cabelos pegando fogo e a cara pintada.<\/p>\n<p>Sentia a aus\u00eancia da senhora idosa, cheia de rugas, tranq\u00fcila, um pano amarrado \u00e0 cabe\u00e7a e o rega,dor na m\u00e3o, movendo-se t\u00e3o devagar que era como se esti- vesse parada. Essa outra estava em todos os lugares ao mesmo tempo, ocupava o quintal inteiro. Um azougue.<\/p>\n<p>&#8211; Quem diabo tem ela? E mergulhei na leitura, desatento, est\u00e1 claro, por- qve o livro n\u00e3o valia nada. Virava a p\u00e1gina muitas oezes, e quando isto acontecia, olhava, fingindo desin- teresse, a mulher dos cabelos de fogo. Tinha as unhas pintadas.<\/p>\n<p>&#8211; Lambisg\u00f3iat Fiquei lendo o romance, p\u00e9ssimo romance, enquan- tO a tipinha se mexeu entre as roseiras. Notei, notei positivamente que ela me observava. Encabulei. Sou .<\/p>\n<p>t\u00edmido: quando me vejo diante de senhoras, emburro digo besteiras. Trinta e cinco anos, funcion\u00e1rio p\u00fabli- co, homem de ocupa\u00e7\u00f5es marcadas pelo regulamento.<\/p>\n<p>O Estado n\u00e3o me paga para eu olhar as pernas das garotas. E aquilo era uma garota. Al\u00e9m de tudo sei que sou feio. Perfeitamente, tenho espelho em casa.<\/p>\n<p>Os olhos ba\u00e7os, a boca muito grande, o nariz grosso.<\/p>\n<p>Como se chamava a senhora idosa que vinha regar as plantas? A verdade \u00e9 que nunca me empatou a leitura.<\/p>\n<p>Fiquei ali at\u00e9 que escureceu e a mulherinha deu o fora.<\/p>\n<p>Mais tarde informei-me: &#8211; \u00d3 Vit\u00f3ria, a vizinha aqui da direita mudou-se? &#8211; Morreu, disse Vit\u00f3ria depois de me fazer repe tir a pergunta quatro vezes, porque era lua nova e ela estava inteiramente surda. O senhor n\u00e3o viu o enterro7 Pois \u00e9. Agora h\u00e1 outros moradores.<\/p>\n<p>Pobre da velha. Morta e enterrada, e eu nem havia percebido altera\u00e7\u00e2o na casa.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s e Pimentel apareceram \u00e0 noite e conver saram muito, mas ouvi-os distrafdo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das plantas mencionadas, havia tamb\u00e9m un mamoeiro no quintal vizinho. Era engra\u00e7ada o diabc da pequena. Para o inferno. Um homem lido e corrido pegando trinta e cinco anos, amolecendo, preocupan do-se com aquela guenza! &#8211; Vamos deixar de tolice.<\/p>\n<p>E contrariei Pimentel e Mois\u00e9s, arranjei umas opi ni\u00f4es descabidas, porque realmente n\u00e3o sabia o qm eles estavam dizendo.<\/p>\n<p>No dia seguinte (era s\u00e1bado e n\u00e3o havia expe diente \u00e0 tarde) sentei-me de novo \u00e0 sombra da man gueira, com o romance. A coisinha loura tornou a apa , recer, em companhia de uma mulherona sardenta come\u00e7aram ambas a cortar os ramos secos das rc seiras. A pequena estouvada n\u00e2o me prestava aten\u00e7\u00e3o descontentara-a provavelmente o exame da v\u00e9spera. Un sujeito feio: os olhos ba\u00e7os, o nariz grosso, um sorris besta e a atrapalha\u00e7\u00e3o, o encolhimento que \u00e9 mesm uma desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Apesar destas desvantagens, os neg\u00f3cios n\u00e3o iar mal. E foi exatamente por me correr a vida quase berque a mulherinha me inspirou interesse &#8211; novidade, pofs sempre fuf alhefo aos casos de sentimento. Traba lhos, compreendem? Trabalhos e pobreza. As vezes o cora\u00e7\u00e3o se apertava como corda de rel\u00f3gio bem enro- \u00a1 lada. Um rato rofa-me as entranhas.<\/p>\n<p>Nestes \u00faltimos tempos nem por isso. Antigamente &#8216; era uma exist\u00eancia de cachorro. As mulheres tinham chefros excessivos, e eu me sentia impelido vfolenta- mente para elas. Mas a voz do chefe da revis\u00e3o estava colada aos meus ouvidos: &#8211; Suspenso por cinco dfas, seu Silva.<\/p>\n<p>A unha suja de tinta rfscava na prova o corpo de delito. Vida de cachorro. Como irfa pagar a pens\u00e3o? &#8211; D. Aurora, tenha pu,ci\u00eancfa. Veja se me arranja um quarto mafs barato. Os tempos andam safados, d. Aurora.<\/p>\n<p>&#8216; As ruas estavam chefas de mulheres. E o rato &#8216; rofa-me por dentro.<\/p>\n<p>Ora, um dia, sem motivo, convidef d. Aurora para o cinema. Tenho desses rompantes idiotas. Fa\u00e7o uma \u00cf tohce sabendo perfeitamente que estou fazendo tolice.<\/p>\n<p>Quando tento corrigir o disparate, caio noutro e cada vez mais me complico. Foi o que se deu. Convidef d. Au- rora e a neta para o cinema. Arrependi-me e ofere- d-Ihes refrescos. Aceitaram tudo &#8211; e come\u00e7ou a minha tortura. L\u00e1 fui com elas, capiongo, pagar bonde, sor- vetes e tr\u00eas cadeiras. Tipo besta.<\/p>\n<p>&#8211; Ag\u00fcenta, maluco, trouxa, filho de uma puta.<\/p>\n<p>E contava mentalmente o dinheiro suado e mes- quinho. Na sala de proje\u00e7\u00e2o a neta de d. Aurora abriu um leque enorme em cima das coxas e meteu a minha perna entre as dela. Subitamente o rato deixou de roer-me. O que eu estava era indignado. E calculava.<\/p>\n<p>Tr\u00eas passagens de bonde &#8211; mil e duzentos. Tr\u00eas sor- vetes &#8211; tr\u00eas vezes cinco, quinze. E entradas no cf- riema. As coxas da mo\u00e7a eram frias. Com certeza fazia squilo por h\u00e1bito. Naquele tempo eu andava como um bode. Mas esfriei tamb\u00e9m. Cinco mil-r\u00e9is por seis horas de trabalho, \u00e0 noite, suspens\u00f5es, multas, o jor- nal indo para cima e para baixo. Era um sofrimento a id\u00e9ia de que no fim da quinzena ficar\u00edamos sem o cobre que estava enganchado.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje ningu\u00e9m recebe.<\/p>\n<p>L\u00e1 ia, de cabe\u00e7a baixa, beber um copo de catdc de cana e comer um pastel. Os niqueis amarrado; como dfnheiro de matuto. Pofs, numa quebra,deir assim, bande, sorvete, cfnema. E ainda faltavam a passagens de volta. A fita era t\u00e3o compridal A mo\u00e7f tinha as pernas frias.<\/p>\n<p>Aquela que estava ali a meia d\u00fazfa de passos, cor tando os ramos secos das roseiras, vermelha como pi menta, os bra\u00e7os levantados mostrando os sovacos dev\u00eda ser quente demais.<\/p>\n<p>&#8211; Carga de risco! A mulher sardenta e sarar\u00e1 tinha tra\u00e7os dela.<\/p>\n<p>Com o livro esquecido nos f oelhos, o cigarro apa, gado, o olho meio cerrado, lembrei-me com pregui\u00e7: de co\u00edsas vagas, sem import\u00e2ncia. Havta no Cavalo Morto uma rapariga desbragadfssima. N\u00e3o tinha de com, amava aos gritos, como os gatos e os ciganos Em horas de recolhimento natural berrava danada mente : &#8211; Rasga, diabo! Vai fazer isso com tua m\u00e3e peste! Eu era mu;to mo\u00e7o, e aquela f\u00faria me espantava Amores selvagens.<\/p>\n<p>Da janela de seu Ant\u00f4nio Justino via-se um jar dim bem tratado, onde tr\u00eas mulheres velhas que pare ciam formigas cavavam, podavam, regavam.<\/p>\n<p>Berta, uma alem\u00e3zinha bonita que antigament conheci, tamb\u00e9m tinha as unhas pintadas e pontia tzdas. Aquilo arranhava docemente. A orimefra mu lher de jeito com quem me atraquei. Eu levava nc bolso uns dinheiros curtos anhos no jogo e a catt de recomenda\u00e7\u00e3o aue um deputado, depois de muito salamaIeques e mu\u00edtas viagens, me havfa dado na C5 mara para o diretor de um jornal. Cada solecismo hoi rfvel. Metia a m\u00e3o no bolso e certificava-me de qu as pelegas machucadas e os solecismos exfstiam. Ia d cabe\u00e7a baixa, ruminando projeto.s. De repente uma vc estrangeirada, cheia de rr, gargarejou perto de mirr &#8211; Senhor n\u00e3o quer entrar? E duas m\u00e3os mi\u00fadas agarrara.m-me um bra\u00e7o, a rastaram-me por uma porta at\u00e9 a escada. Escorei-me ao corrim\u00e3,o, acuado, pigarreef com um n\u00f3 na gar ganta: &#8211; Madame, eu sou um bfcho do mato, nunca me encostei a uma pessoa como a senhora. Seja franca, madame. Quanto \u00e9 que lhe devo dar? Berta era engra\u00e7ada : lourinha, gordinha, uma voz suave, apesar dos rr.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa disso. N\u00e3o faz feio.<\/p>\n<p>E eu, a m\u00e3o no bolso, apertando os cobres: &#8211; N\u00e3o brinque, madame. Sou um sertanejo, um bruto, um selvagerr. Quanto \u00e9 que a senhora costuma receber? Bonitinha, Berta. E mais decente que a neta de d. Aurora. Bonde, cinema, refrescos. Menina viciada.<\/p>\n<p>Dagoberto fugia dela. Uma piranha. Ser rofdo por aquilo! Ah! n\u00e3o. Lembrava-me dos bancos do passefo, das botinas de el\u00e1stico bambo.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, um nordestino perseguido pela adversi- dade apela para v. exa.<\/p>\n<p>E o frege-moscas fedorento, as toalhas cobertas de n\u00f3doas de vinho, b\u00f3ia nauseabunda, o galego, de tamancos, sujo, cantando. Com semelhantes recorda- \u00e7\u00f5es, quem pensa em mulheres? A mocinha, no lado de l\u00e1 da cerca, n\u00e3o me dava aten\u00e7\u00e3o. Perua. Cabelos de milho, unhas pintadas, bei- \u00e7os vermelhos e o pern\u00e3o aparecendo.<\/p>\n<p>&#8211; As vezes aquilo \u00e9 s\u00f3 \u00e3 casca. Por baixo &#8211; mar- cas de feridas e molambos. Sirigaita. Sou um homem pr\u00e1tico, passado pelos corrimboques do diabo, lido e eorrido. Para o inferno.<\/p>\n<p>Levantei-me, aprumei-me e recolhi-me, com o livro : debaixo do bra\u00e7o, a cara enferrujada, importante. Na ,r v\u00e9spera o diretor me tinha dito: &#8211; Necessitamos um governo forte, seu Lufs, um governo que estique a corda. Esse povo anda de r\u00e9dea solta. Um governo duro.<\/p>\n<p>E eu havia concordado, naturalmente: &#8211; E o que eu digo, doutor. Um governo duro.<\/p>\n<p>E que reconhe\u00e7a os valores.<\/p>\n<p>Considerava-me um valor, valor mi\u00fado, uma esp\u00e9- `. eie de niquel .social, mas enfim valor. O aluguel da ; eesa estava pago. Andava em todas as ruas sem precisar dobrar esquinas. Por uma diferen\u00e7a de doiz votos, tinha deixado de ser eleito Secret\u00e1rio da .Assocfa\u00e7\u00e3o Alagoana de Imprensa. Quinhentos mil-r\u00e9is de orde- nado. Com alguns ganchos, embirava uns setecentos.<\/p>\n<p>Podia at\u00e9 casar. Casar ou amigar-me com uma cria,tura sensata, amante da ordem. Nada de mel\u00edndrosas pin- tadas. Mulher direita, sisuda. Passar a vida naquela insipidez, ag\u00fcentando uma cria,da surda, reum\u00e1tica, cheia de manias! &#8211; \u00f5 Vit\u00f3ria, gritei ao ouvido da velha, quem \u00e9 essa gente que chegou si ao lado? Vit\u00f3ria n\u00e3o sabia. Tentei ler um srtigo pol\u00edtico de Pimentel, mas estava distraido, pensava em Berta, na neta de d. Aurora e na rapariga do Cavalo-Morto. Dei- tei-me cedo. N\u00e3o pude dormir: os cabelos de fogo, os olhos e especialmente as pernas da vizinha come\u00e7aram a bulir comigo. Aquilo devia ser uma pimenta. Passei a noite imaginando cenas terr\u00edveis com ela. No outro dia levantei-me aperreado. Quando me aparecem esses aces- sos, fico a\u00e7sim uma semana, calado, murcho, pensando em safadezas.<\/p>\n<p>r r r Ainda n\u00e3o disse que moro na Rua do Macena, perto da usina el\u00e9trica. Ocupado em v\u00e1rias coisas, freq\u00fcent mente esque\u00e7o o essencial. Que, para mim, a casa ande moramos n\u00e3o tem import\u00e2ncia grande demais. Tenho vivido em numerosos chiqueiras. Provavelmente esses im\u00f3veis influiram no meu car\u00e1ter, mas sou incapaz de recordar-me das divis\u00f5es de qualquer deles. N\u00e3o espe- rem a descri\u00e7\u00e3o destas paredes velhas que dr. Clouveia me aluga, sem remorso, por cento e vinte mil-r\u00e9is men- sais, fora a pena de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Afinal, para a minha hist\u00f3ria, o quintal vale mais que a casa. Era ali, debaixo da mangueira, que, de volta da repaxti\u00e7\u00e3o, me sentava todas as tardes, com um livro. Fo\u00ed I\u00e1 que vi Marina pela primeira vez, em janeiro do ano passado. E l\u00e1 nos tornamos am\u00edgos.<\/p>\n<p>Se ela morasse no pr\u00e9dio \u00e0 esquerda, talvez n\u00e3o nos conhec\u00eassemos. Quando saio para o servi\u00e7o, passo em irente da casa \u00e0 direita e cumprimento as pessoas que est\u00e3o \u00e0 janela. Transito raramente pelo outro lado.<\/p>\n<p>Reside ali uma d. Ros\u00e1lia, que tem o marido sempre ausente. Mulher antip\u00e1tica, amarela, muito faladora.<\/p>\n<p>Quase nunca a encontro. Felizmente h\u00e1 o muro que nos afasta. Vejo \u00e0s vezes por cima dele cabecinhas de crian\u00e7as que esperam momento favor\u00e1vel para furtar as mangas dos galhos que lhes chegam ao alcance das garras. Fujo para n\u00e3o importun\u00e1-las, mas s\u00e3o assusta- di\u00e7as e escondem-se.<\/p>\n<p>O meu horizonte ali era o quintal da casa \u00e0 di- reita: as roseiras, o monte de lixo, o mamoeiro. Tudo feio, pobre, sujo. At\u00e9 as roseiras eram mesquinhas: algumas rosas apenas, mi\u00fadas. Monturos pr\u00f3ximos, \u00e1guas estagnadas, mandavam para c\u00e1 emana\u00e7\u00f5es desa- grad\u00e1veis. Mas havia sil\u00eancio, havia sombra. O vozei- r\u00e3o de Vit\u00f3ria era um murm\u00fario abafado. Talvez o ma- moeiro, as roseiras, o monte de lixo me passassem des- percebidos, e se os menciono, \u00e9 que, escrevendo estas notas, revejo-os daqui.<\/p>\n<p>Tornei-me, pois, amigo de Marina. Com certeza come\u00e7amos por olhares, movimentos de cabe\u00e7a, sorri- sos, como sempre acontece. Depois, palavra aqui, pala- vra ali, em pouco tempo est\u00e1vamos camaradas, tratan- do-nos por voc\u00ea. Procurando reproduzir os nossos di\u00e1- lagos, compreendo que n\u00e3o diz\u00edamos nada. Frfvola, in- capaz de agarrar uma id\u00e9ia, a mocinha pulava como uma cabra em redor dos canteiros e pulava de um assunto para outro. O que me aborrecia nela eram Certas inclina\u00e7\u00f5es imbecis ou safadas.<\/p>\n<p>&#8211; Porque \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o manda fazer urr, synoking, Lufs? Um rapaz que ganha dinheiro andar com essas roupas mal-amanhadas! Eu, se fosse voc\u00ea, brilhava, vivia no trinque.<\/p>\n<p>Eu pilheriava com ela: &#8211; Maria, nem s\u00f3 de smoking vive o homem.<\/p>\n<p>Outras vezes: &#8211; D. Mercedes estava hoje chamando a aten\u00e7\u00e3o de todo o mundo na Igreja do Ros\u00e1rio. Vestido cor de Cinza com vivos encarnados, luvas cor de cinza, bolsa encarnada, chap\u00e9u encarnado e sapatos encarnados.<\/p>\n<p>Voc\u00ea gosta do encarnado? D. Mercedes \u00e9 uma espanhola madura da vizi- nhan\u00e7a, axnigada em segredo com uma personagem oficial que lhe entra em casa alta noite. Possui mobi- lia complicadfssima, passa os dias olhando-se ao espe- lho e polindo as unhas, metida num peigno&#8217;ir de seda, e quando mergulha na banheira, sente-se de longe o cheiro da \u00e1gua-de-col\u00f4nia. Marina admirava-a com exa- gero, arregalando os olhos: &#8211; D. Mercedes \u00e9 linda. Parece uma artista de ci nema.<\/p>\n<p>Eu me aperreava: &#8211; Que tolice! Voc\u00e9 elogiando uma tipa ordin\u00e1ria uma galega de arriba\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m sabe donde saiul N\u00e3o est\u00e1 direito. Uma bicha feia e velha, um couro, mr canh\u00e3o! Marina excitava-se: &#8211; Que couro, que nada! D. Mercedes \u00e9 uma se nhora vistosa, bem conservada, muito distinta. E rica Tem filha no col\u00e9gio e manda dinheiro ao marido.<\/p>\n<p>Vejam que miolo. E que tend\u00eancias. Eu, se n\u00e3 fosse um idiota com fuma\u00e7as de homem pr\u00e1tico, lidi e corrido, teria cortado rela\u00e7\u00f5es com aquela criaturE Admirar uma estrangeira que vive s\u00f3, tem filha no cc l\u00e9gio e sustenta marido ausente! Estirava-me na espregui\u00e7adeira, abria o livro; cat rancudo. A leitura n\u00e3o me atra\u00eda, mas atirava-me a ela Marina ficava por ali, rondando, machucando p\u00e9tala de rosas, acanhada, o nariz comprido, procurando con versa. Dava um giro entre os canteiros, temperava goela e, de repente : &#8211; Que livro \u00e9 esse que voc\u00ea est\u00e1 lendo? Fingia-me distra\u00eddo, encostava a cara ao volumi &#8211; Deve ser uma obra interessante.<\/p>\n<p>&#8211; Nem por isso.<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb\u00e9m estou lendo um livro interessant da biblioteca das mo\u00e7as. Muito penoso.<\/p>\n<p>Olhava-a com \u00f3dio: &#8211; Passe bem, Marina.<\/p>\n<p>Aproximando-me da cozinha, percebia a voz de V t\u00f3ria, que resmungava junto \u00e0 gaiola do Currupaco: &#8211; Franguinha assanhada. Cochichando com u homem no escurol Cabrita enxerida.<\/p>\n<p>Realmente estava escuro. As vezes a gente se es- quecia do tempo e entrava pela noite na prosa. Um foco da ilumina\u00e7\u00e3o da rua embranquecia um peda\u00e7o do muro.<\/p>\n<p>Currupaco pregava-me o olho redondo, encolhia a perna e escondia a cabe\u00e7a com&#8217; t\u00e9dio.<\/p>\n<p>&#8211; Safadinha, enxerida, insistia Vit\u00f3ria quando me via as co.stas.<\/p>\n<p>Punha-me a passear pela casa. Chegava \u00e0 porta da rua, voltava, marchava at\u00e9 a sala de jantar, fazia meia-volta, e assim por diante, pisando com for\u00e7a.<\/p>\n<p>Um smoking, imaginem. Para que diabo queria eu um . srrcokiag? Teria gra\u00e7a estar ali contando os passos ou ir ao caf\u00e9, vestido num synaking. Est\u00fapida.<\/p>\n<p>&#8211; Um romance comovente. Esqu\u00e9cf o nome do autor. Enredo bonito.<\/p>\n<p>Est\u00fapida. Lia as notas sociais, casamentos, batiza,- dos, anivers\u00e1rios, coisas deste g\u00eanero. Est\u00fapida.<\/p>\n<p>Fatigado, sentava-me um instante na sala de jan- tar. A parada justificava outra, instantes depois, \u00e0 ja nela da rua. Debru\u00e7ava-me, olhava os paralelepfpedos, a sarjeta, o poste de ferro, os arames, a cal\u00e7ada da casa \u00e0 esquerda. Virava-me para a esquerda. O outro lado n\u00e3o me interessava. Uma pancada no postigo, e recome\u00e7ava o passeio. Nova demora na sala de jantar.<\/p>\n<p>Co\u00e7ava a barriga do gato, que se espregui\u00e7ava, esti- rava as pernas. Sem-vergonha, parecia mulher. O quin- tal estava escuro. Por cima das \u00e1rvores havia claridade, at\u00e9 se enxergava, a dist\u00e2ncia, um an\u00fancio que se podia ler; mas perto do ch\u00e3o era aquele pretume. Fastidiosa m\u00fasica de grilos, certamente no canteiro das horta li\u00e7as.<\/p>\n<p>A quanto subiria a fortuna que Vit\u00f3ria tinha ali enterrada? A minha situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era das piores. Uns tr\u00eas contos de economias depositados no banco. H\u00e1t gente que se casa com menos e vive.<\/p>\n<p>Pela porta da cozinha via-se na parede a sombra da cabe\u00e7a de Vit\u00f3ria, enorme, por cima da sombra do jornal.<\/p>\n<p>&#8211; b Vit\u00f3ria, prepare o caf\u00e9.<\/p>\n<p>Precisava ir sacudi-la: &#8211; O caf\u00e9, Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8211; An! Afastava-me. A chaleira chiava no fog\u00e3o. A som- bra desaparecia. Arrastar de p\u00e9s e sons resmungados: &#8211; Peruinha, cabritinha descarada.<\/p>\n<p>Punha-me tamb\u00e9m a arrastar os p\u00e9s na sala de jantar, fumava, bebia um trago de agu\u00e3rdente.<\/p>\n<p>&#8211; Mulheres h\u00e1 muitas.<\/p>\n<p>E o diabo da m\u00fasica dos grilos. As letras do an\u00fan- cio eram enormes.<\/p>\n<p>Daf a pouco l\u00e1 ia de novo para o corredor, che- gava \u00e0 janela da frente, abria o postigo, olhava a rua.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o me voltava para a direita. Os paralelep\u00edpedos, os arames, a sarjeta. A bichinha sem-vergonha devia andar ali perto, saracoteando na cal\u00e7ada, indo espiar a s.ala de d. Mercedes e os m\u00f3veis de d. Mercedes.<\/p>\n<p>N\u00e3o me voltava.<\/p>\n<p>&#8211; Para o diabo. Aqui me preocupando com aque- la burra! Unhas pintadas, bei\u00e7os pintados, blblioteca das mo\u00e7as, pregui\u00e7a, admira\u00e7\u00e2o a d. Mercedes &#8211; total: Rua da Lama. Acaba na Rua da Lama, sangrando na pedra-lipes. Vamos deixar de besteira, seu Lu\u00eds. Um homem \u00e9 um homem.<\/p>\n<p>* * * Foi por aquele tempo que Juli\u00e3o Tavares deu para aparecer aqui em casa. Lembram-se dele. Os jornais andaram a elogi\u00e1-lo, mas disseram mentira. Juli\u00e3o Ta- vares n\u00e3o tinha nenhuma das qualidades que lhe atri- bu\u00edram. Era um sujeito gordo, vermelho, risonho, pa- triota, falador e escrevedor. No rel\u00f3gio oficial, nos caf\u00e9s e noutros lugares freq\u00fcentadcs cumprimentava-me da longe, fingindo suberioridade: &#8211; Como vai, Silva? A noite chegava-me a casa, empurrava a porta e, quando eu menos esperava, desembocava na sala de jantar, que, n\u00e3o sei se j\u00e1 disse, \u00e9 o meu gabinete de trabalho. E l\u00e1 vinham intimidades que me aborre- ciam. Linguagem arrevesada, muitos adjetivos, pensa- mento nenhum.<\/p>\n<p>Conheci esse monstro numa festa de arte no Insti- tuto Hist\u00f3rico. De quando em quando um cidad\u00e3o se levantava e lia uma composi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Em seguid uma senhora abancava ao piano e tocava. Depois outr declamava. A\u00ed chegava de novo a vez do homem, assim por diante. Pelo meio da fun\u00e7\u00e3o um sujeito got do assaltou a tribuna e gritou um discurso furios e patri\u00f3tico. Citou os coqueiros, as praias, o c\u00e9u azu; os canais e outras preciosidades alagoanas, desceu come\u00e7ou a bater palmas terrfveis aos oradores, ao poetas e \u00e0s cantoras que vieram depois dele. A safd deu-me um encontr\u00e3o, segurou-me um bra\u00e7o e impe diu que me despencasse pela escada abaixo. D\u00b0s culpou-se por me haver empurrado, agradeci ter-m agarrado o bra\u00e7o e sa\u00edmos juntos pela Rua do Sol Repetiu pouco mais ou menos o que tinha dito no dis curso e afirmou que adorava o Brasil.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Eu vi perfeitamente que o senhor \u00e9 pa triota.<\/p>\n<p>Foi a conta.<\/p>\n<p>&#8211; Quem o n\u00e3o \u00e9, meu amigo? Nesta hora tr\u00e1gic; em que a sorte da nacionalidade est\u00e1 em jogo. ..<\/p>\n<p>&#8211; Efetivamente, murmurei, as coisas andam preta Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo po alto a vida, o nom\u00b0 e as inten\u00e7\u00f5es do homem. Fam\u00edli; rica. Tavares &amp; Cia., negociantes de secos e molhado; donos de pr\u00e9dios, membros influentes da Associa\u00e7\u00e3 Comercial, eram uns ratos. Quando eu passava pel; Rua do Com\u00e9rcio, via-os por detr\u00e1s do balc\u00e3o, doi sujeitos papudos, carrancudos, vestidos de linho pard e absolutamente iguais. Esse Juli\u00e3o, literato e bacha rel, filho de um deles, tinha os dentes mi\u00fados, afiado, e devia ser um rato, como o pai. Reacion\u00e1rio e ca t\u00f3lico.<\/p>\n<p>&#8211; Por disciplina, entende? Considero a religi\u00e3o un sustent\u00e1culo da ordem, uma necessidade social.<\/p>\n<p>&#8211; Se o senhor permite&#8230;<\/p>\n<p>E divergi dele, porque o achei horrivelmente anti p\u00e1tico. Ouviu-me atento e mostrou desejo de saber o qm eu era. Encolhi os ombros, olhei os quatro cantos, fi; um gesto vago, procurando no ar fragmentos da mi nha exist\u00eancia espalhada.<\/p>\n<p>&#8211; Lu\u00eds da 8ilva, Rua do Macena, n\u00famero tanto Prazer em conhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>E meti-me no primeiro bonde que passou. Mas n\u00e3o consegui desembara\u00e7ar-me do homem. Dias depois fez-me uma visita. Em seguida familiarizou-se. E era Luis para aqui, Lu\u00eds para ali, elogios na t\u00e1bua da venta, s\u00f3 com o fim de receber outros. N\u00e3o tenho jeito para isso. Duas, tr\u00eas horas de chatea\u00e7\u00e3o, que me dei- xavam enervado, besta, roendo as unhas.<\/p>\n<p>Habituei-me a escrever, como j\u00e1 disse. Nunca es- tudei, sou um ignorante, e julgo que os meus escritos n\u00e3o prestam. Mas adquiri cedo o v\u00edcio de ler romances e posso, com facilidade, arranjar um artigo, talvez um conto. Compus, no tempo da m\u00e9trica e da rima, um livro de versos. Eram duzentos sonetos, aproximada- mente. N\u00e3o me foi poss\u00edvel public\u00e1-los, e com a idade compreendi que n\u00e3o valiam nada. Em todo o caso acompanharam-me por onde andei. Um dia, na pens\u00e3o de d. Aurora; o meu vizinho Macedo come\u00e7ou a elo- giar um desses sonetos, que por sinal era dos piores, e acabou oferecendo-me por ele cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is. Nem foi preciso copiar: arranquei a folha do livro e recebi o dinheiro, depois de jurar que a coisa estava in\u00e9dita.<\/p>\n<p>Macedo transigiu comigo umas vinte vezes. Infeliz- mente voltou para S. Paulo sem concluir o curso. Des- de ent\u00e3o procuro avistar-me com mo\u00e7os ing\u00eanuos que me compram esses produtos. Antigamente eram estam- pados em revistas, mas agora figuram em seman\u00e1rios da ro\u00e7a, e vendo-os a dez mil-r\u00e9is. O volume est\u00e1 re- duzido a um caderno de cinq\u00fcenta folhas amarelas e ro\u00eddas pelos ratos.<\/p>\n<p>Trabalho num jornal. A noite dou um salto por l\u00e1 escrevo umas linhas. Os chefes politicos do interior brigam demais. Procuram-me, explicam os aconteci- mentos locais, e fa\u00e7o diatribes medonhas que, assina- dae por eles, v\u00e3o para a mat\u00e9ria paga. Ganho pela reda\u00e7\u00e3o e ganho uns tantos por cento pela publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Arrumo desaforos em quantidade, e para redigi-los ne- cessito longas explica\u00e7\u00f5es, porque os matutos s\u00e3o con- fusos, e acontece-me defender sujeitos que deviam ser atacados. Al\u00e9m disso recebo de casas editoras de se- gunda ordem tradu\u00e7\u00f5es feitas \u00e0 pressa, livros idiotas desses que Marina aprecia. Passo uma vista nisso, alinhavo notas ligeiras e vendo os volumes no sebo. Al guns rapazes v\u00eam consultar-me : &#8211; Fulano \u00e9 bom escritor, Luis? Quando n\u00e3o conhe\u00e7o Fulano, respondo sempre: &#8211; E uma besta.<\/p>\n<p>E os rapazes acreditam.<\/p>\n<p>Ora, foi uma vida assim cheia de ocupa\u00e7\u00f5es cace tes que Juli\u00e3o Tavares veio perturbar. Atravancou-m; o caminho, obrigou-me a paradas constantes, buiiu-mE com os nervos.<\/p>\n<p>As vezes eu estava espremendo o miolo para obte uma coluna de amabilidades ou descomposturas. \u00c9 c que sei fazer, alinhar adjetivos, doces ou amargos, err conformidade com a encomenda. Mois\u00e9s entrava, pu xava uma cadeira, sentava-se, abria o jornal. Vinh Pimentel, amarelo, triste, silencioso. Seu Ivo, b\u00ebbedo acocorava-se a um canto e punha-se a babar, cochi lando. Nenhuma dessas pessoas me incomodava. Tra balhava diante delas como se estivesse s\u00f3, e ningu\u00e9rr me interrompia.<\/p>\n<p>&#8211; Revolu\u00e7\u00e3o na China, dizia Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>Pimentel estirava o pesco\u00e7o e enrugava a testa farejando assunto. E l\u00e1 vinham confusamente os chi neses do telegrama. Seu Ivo queixava-se da carestia do: g\u00eaneros. Apertava o cintur\u00e3o, bocejava, pedia comida Eu dava respostas sem perceber direito as pergunta: e sem interromper o trabalho. As frases iam pingandc no papel, umas traziam as outras, e no fim l\u00e1 estav aquela prosa medida, certinha, que me enjoava. Quan do a express\u00e3o fugia ou as id\u00e9ias se misturavam, acen dia um cigarro. E, enquanto desanuviava a cabe\u00e7a punha os olhos distra\u00eddos na figura aniquilada de seL Ivo, que ali estava no canto da parede, babando-se, a: p\u00e1lpebras cerradas. As m\u00e3os eram dois calos escuros os p\u00e9s descal\u00e7os eram patas achatadas.<\/p>\n<p>Seu Ivo n\u00e3o mora em parte nenhuma. Conhecf o Estado inteiro, julgo que viaja por todo o nordeste Entra nas casas sem se anunciar, como um cachorro dirige-se \u00e0s pessoas familiarmente, sempre a pedir co mida. Passa alguns meses numa cidade, some-se de repente; aboleta-se nas povoa\u00e7\u00f5es, nas fazendas, na capital. Freq\u00fcenta as salas de jantar e as cozinhas.<\/p>\n<p>I Quase n\u00e3o fala: balbucia lrases ambfguas, aperreado, sempre na carraspana. Faz o que lhe mandam, recebe &#8216; o que lhe d\u00e3o, mas n\u00e3o agradece e n\u00e3o faz nada com jeito.<\/p>\n<p>&#8211; Seu Luisinho, sinha Vit\u00f4ria, cad\u00ea a b\u00f3ia? E se n\u00e3o lhe damos aten\u00e7\u00e3o, conversa com o gato, conversa com o papagaio, acaba mexendo nas panelas, furtando objetos mi\u00fados que n\u00e3o utiliza.<\/p>\n<p>Depois de um ano de aus\u00eancia, pergunto-lhe: &#8211; Como vai, seu Ivo? Mas estou pensando noutra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Ruim, tudo safado, seu Luisinho. A barriga tinindo.<\/p>\n<p>E p\u00f5e-se a chorar como um desgra\u00e7ado. Continuo a construir mentalmente o per\u00edodo interrompido.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 comer, seu Ivo. Vit\u00f3ria, um prato para seu Ivo.<\/p>\n<p>O homem do Instituto atrapalhou-me a vida e se- parou-me dos meus amigos.<\/p>\n<p>* * * &#8211; Que diabo vem fazer este sujeito? murmurei com raiva no dia em que Juli\u00e3o Tavares atravessou o corredor sem pedir licen\u00e7a e entrou na sala de jan- tar, vermelho e com modos de camarada, Soltei a pena, Mois\u00e9s dobrou o jornal, Pimentel roeu as unhas. E assim ficamos seis meses, roendo as unhas, o jornal dobrado, a pena suspensa, ouvindo opini\u00f5es muito diferentes das nossas. As de Mois\u00e9s s\u00e3o francamente revolucion\u00e1rias; as minhas s\u00e3o fragmen- tadas, inst\u00e1veis e numerosas; Pimentel \u00e0s vezes est\u00e1 Comigo, outras vezes inclina-se para Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>Raramente discutfamos. O judeu cansava-se em disserta\u00e7\u00f5es longas, que eu aprovava ou desaprovava com a cabe\u00e7a. Acontecia aprovar agora e reprovar de- pois. Quando bebia, tornava-me loquaz e discordava de tudo s\u00f3 por esp\u00edrito de contradi\u00e7\u00e3o: &#8211; Hist\u00f3riat Esta porcaria n\u00e3o endireita. Revolu- \u00e7\u00e2,o no Brasil! Conversa! Quem vai fazer revolu\u00e7\u00e3o? Os oper\u00e1rios? Espere por isso. Est\u00e3o encolhidos, homem.<\/p>\n<p>4? E os camponeses votam com o governo, gostam do vig\u00e1rio.<\/p>\n<p>O que eu queria era convencer-me de que n\u00e3o tf- nha raz\u00e3o. Desejava que Mois\u00e9s estirasse argumentos e seu Ivo se revoltasse.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00fameros. Nada de tapea\u00e7\u00e2o. Estatistica.<\/p>\n<p>O judeu falava em milh\u00f5es de desempregados, em consci\u00eancia de classe, voltava-se para seu Ivo, que n\u00e3o compreendia a Ifngua dele: &#8211; N\u00e3o entendo. Vossemec\u00eas s\u00e3o brancos, l\u00e1 se arrumem .<\/p>\n<p>Eu aritava ao ouvido da criada: &#8211; Ele diz que a gente n\u00e3o precisa de Deus. Nem de Deus nem de padres. Vai acabar tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Credo em cruz! opinava a mulher.<\/p>\n<p>E ia para a cozinha. Julgo que nunca se ocupou com assuntos referentes \u00e0 alma. Rezava em voz alta.<\/p>\n<p>A noite sapecava o padre-nosso e a ave-maria, antes das somas. Agora dizia &#8220;Credo em cruz!&#8221; e ia prepasar o caf\u00e9, ler os embarques e os desembarques, junto \u00e0 gaiola do Currupaco. Seu Ivo metia os olhos gulosos pelos vidros do guarda-comidas: &#8211; Seu Luisinho vai bem. Tanto p\u00e3o! Tanta carne! Escancarava a boca, mostrava os dentes brancos, estirava os bra\u00e7os musculosos.<\/p>\n<p>&#8211; Uma fora perdida, dizia Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>Talvez houvesse tamb\u00e9m algurria intelig\u00eancia per- dida por detr\u00e1s daqueles olhos mortos pela cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>Um sujeito in\u00fatil, sujo, descontente, remendado, fa- minto.<\/p>\n<p>O outro sujeito in\u00fatil que nos apareceu era muito diferente. Gordo, bem vestido, perfumado e falador, t\u00e3o falador que fic\u00e1vamos enjoados com as lorotas dele. N\u00e3o pod\u00edamos ser amigos. Em primeiro lugar o homem era bacharel, o que nos distanciava. Pimentel, forte na palavra escrita, anulava-se diante de Juli\u00e3o Tavares. Mois\u00e9s, apesar de falar cinco l\u00ednguas, emu- decia. Eu, que viajei muito e sei que h\u00e1 doutores quar- taus, metia tamb\u00e9m a viola no saco.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso Juli\u00e3o Tavares tinha educa\u00e7\u00e3o diferen- te da nossa. Vestia casaca, freq\u00fcentava os bailes da Associa\u00e7\u00e3o Comercial e era am\u00e1vel em demasia. Amabilidade toda na casca. Ouvi-o, na festa de anivers\u00e1rio de um figur\u00e3o, conversar com uma sirigaita. Eu estava bebendo cerveja no jardim, e eles num caramanch\u00e3o diziam besteiras horrfveis. Como falavam alto, percebi claramente as palavras de Juli\u00e3o Tavares. N\u00e3o tinham sentido. Como o discurso do Instituto Hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Pois foram tolices assim que aquele tipo nos veio impingir. Horrivel. Diante dele eu me sentia est\u00fapido.<\/p>\n<p>Sorria, esfregava as m\u00e3os com esta covardia que a vida \u00e1spera me deu e n\u00e3o encontrava uma palavra para dizer. A minha linguagem \u00e9 baixa, a,canalhada. As ve- zes sapeco palavr\u00f5es obscenos. N\u00e3o os adoto escre- vendo por falta de h\u00e1bito e porque os jornais n\u00e2o os publicariam, mas \u00e9 a minha maneira ordin\u00e1ria de falar quando n\u00e3o estou na presen\u00e7a dos chefes. Com Mois\u00e9s d\u00e1-se coisa semelhante. Apenas, se lhe acontece engasgar-se, recorre a locu\u00e7\u00f5es estrangeiras. As nossas conversas s\u00e3o naturais, n\u00e3o temos papas na l\u00edngua.<\/p>\n<p>Abro um livro, fico alguns minutos fazendo cacoetes, de repente dou um grito: &#8212; Que sujeito burro! Puta que o pariu! Isto \u00e9 um cavalo.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s toma o volume, l\u00e9 uma p\u00e1gina com aten- \u00e7\u00e3o, funga.ndo: &#8211; Tem coisas boas, tem id\u00e9ias.<\/p>\n<p>&#8211; Que id\u00e9ia! Isto \u00e9 um sendeiro, n\u00e3o sabe es- Crever.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares veio tornar imposs\u00edveis expans\u00f5e3 assim. Dizia, referindo-se a um poeta morto: &#8211; Era um grande esp\u00edrito, um nobre esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Quanta emo\u00e7\u00e3o! Al\u00e9m disso conhecimento perfeito da l\u00edngua. Artista privilegiado.<\/p>\n<p>Filho de uma puta. Esse artista privilegiado aper- reou-me durante semanas, tirou-me o apetite. Na re- parti\u00e7\u00e3o, no cinema, no jornaa, no caf\u00e9, perseguia-me a lemrran\u00e7a da voz antip\u00e1tica: &#8211; Um grande espirito, um nobre espirito. Emo\u00e7\u00e3o e conhecimento perfeito da l\u00edngua.<\/p>\n<p>&#8216; Filho de uma puta. N\u00e3o podia ser nosso amigo.<\/p>\n<p>Encontrava-me na rua: &#8211; Como vai, Silva? E ali, no outro lado da mesa, as pernas cruzadas, com a inten\u00e7\u00e3o de se demorar &#8211; sorrisos, patriotis- mo, a grandeza do poeta morto.<\/p>\n<p>Comecei a odiar Juli\u00e3o Tavares. Farejava-o, perce- bia-o de longe, s\u00f3 pelo modo de empurrar a porta e atravessar o corredor.<\/p>\n<p>&#8211; Canalha! E rangia os dentes, arrumava os pap\u00e9is tremendo de raiva. Tudo nele era posti\u00e7o, tudo dos outros Se aquele patife tivesse chegado aqui natural- mente, eu n\u00e3o me zangaria. Se me tivesse encomen dado e pago um artigo de elogio \u00e0 firma Tavares &amp; Cia., eu teria escrito o artigo. E isto. Pratiquei neste mundo muita safadeza. Para que dizer que n\u00e3e pratiquei safa- dezas? Se eu as pratiquei! E melhor botar a trouxa abaixo e contar a hist\u00f3ria direito. Teria escrito o ar- tigo e recebido o dinheiro. O que n\u00e3o achava certo era ouvir Juli\u00e3o Tavares todos os dias afirmar, em linguar gem pulha, que o Brasil \u00e9 um mundo, os poetas alagoanos uns poetas enormes e Tavares pai, chefe da firma Tavares &amp; Cia., um talento not\u00e1vel, porque jun- tou dinheiro. Essas coisas a gente diz no jornal, e ne- nhuma pessoa medianamente sensata liga import\u00e2ncia a elas. Mas na sala de jantar, fumando, de perna tran\u00e7ada, \u00e9 falta de vergonha. Francamente, \u00e9 falta de vergonha.<\/p>\n<p>* * * &#8211; Boa tarde, d. Ad\u00e9lia. Como vai a senhora? &#8211; Assim, assim, respondeu a m\u00e3e de Marina en- costando-se \u00e0 janela para esconder a saia encardida.<\/p>\n<p>Hoje em dia quem \u00e9 que vai bem? Agora eu conhecia mais ou menos d. Ad\u00e9lia, fa- lava com ela, parava na cal\u00e7ada \u00e0s vezes: &#8211; &#8220;Bom dia, boa tarde, sim senhora, como tem passado?&#8221; Conhecia tamb\u00e9m o marido, seu Ra,malho, sujeito ca- lado, s\u00e9rio, asxr\u00e1tico, eletricista da Nordeste. N\u00e3o gos- tava de mim, provavelmente por causa das minhas palestras com a filha. Perturbava-nos: &#8211; Marina, venha lavar os pratos. Marina, venha cuidar das panela,s. Lugar de mo\u00e7a \u00e9 a cozinha.<\/p>\n<p>T Ora, se Marina lfdava com pratos e panelas! &#8211; Velho pau! E continuava na prosa.<\/p>\n<p>&#8211; Cuidado com o sereno, Marfna.<\/p>\n<p>&#8211; Se isto \u00e9 coisa que se suporte! Entrava dando muxoxos, arrelfada.<\/p>\n<p>Seu Ramalho era uma criatura seca por natureza e humilde por offcio. Tinha um sorriso franzido, um ombro alto e outro baixo. D. Ad\u00e9lia, bamba, a voz su- mida, os olhos assustados, parecia viver escondendo-se.<\/p>\n<p>Agora estava resolvida a conversar. Serfa a respeito do meu namoro com Marina? Suspirou, mexeu os bei\u00e7os, tornou a suspirar: &#8211; Tudo pela hora da morte, seu Luis.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, tudo pela hora da morte, d. Ad\u00e9lfa.<\/p>\n<p>A senhora j\u00e1 reparou nos pre\u00e7os dos rem\u00e9dios? A far- m\u00e1cia tem uma goela! D. Ad\u00e9lia fez um gesto de desalento: &#8211; Nem me fale. A gente n\u00e3o pode adoecer mais n\u00e3o, seu Luis.<\/p>\n<p>Ficamos um instante calados, olhando a rua, cons- trangfdos.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhora, murmurei esfregando as m\u00e3as e 8orri;ndo para o mulher\u00e3o sardento.<\/p>\n<p>&#8211; E isso mesmo, respondeu d. Ad\u00e9lia.<\/p>\n<p>E, depofs de um sil\u00eancio comprfdo, enrolando as m\u00e3os no babado da roupa: &#8211; Para sustentar uma casa a gente torce a orelha.<\/p>\n<p>Concordef com alvoro\u00e7o: &#8211; Torce, d. Ad\u00e9lfa. Que d\u00favfda! Depois do dia vinte \u00e9 preciso que uma pessoa se tranque para en- curtar a despesa. Porque na rua \u00e9 o caf\u00e9, o bilhete de teatro, a subscrf\u00e7\u00e3o. Um horror.<\/p>\n<p>&#8211; E o mercado, seu Lu\u00eds! Quer chova, quer fa\u00e7a sol, \u00e9 alf no duro. Nfngu\u00e9m pode passar sem comer.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente, d. Ad\u00e9lfa. Ningu\u00e9m pode passar eem comer. O pior \u00e9 o aluguel da casa. O aluguel da casa, d. Ad\u00e9lfa! Quanto paga a senhora pelo aluguel da casa? &#8211; Cento e trinta mfl-r\u00e9is. Um roubo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu pago cento e vinte. Um roubo mafor, que aquilo n\u00e3o \u00e9 casa. Uns quartfnhos escuros, sujos. E tan to buraco de rato como nunca se viu. Uns ratinhos mi\u00fados, deste tamanho, n\u00e3o sef se a senhora conhece danados para roer pano. N\u00e3o tenho um len\u00e7o inteiro, tudo furado.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui \u00e9 o mesmo, declarou d. Ad\u00e9lia.<\/p>\n<p>Deu um suspiro que elevou o peito volumoso, curvou-se mais para fora : &#8211; \u00f5 seu Lufs, eu queria pedir-lhe um favor. Faz uma semana que estou matutando e sem coragem. Ioje botei a vergonha de banda.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que h\u00e1, d. Ad\u00e9lia? D. Ad\u00e9lia reeditou o suspiro : . &#8211; Estive pensando . . . Se o senhor puder, ouviu? Pedir n\u00e2o \u00e9 desonra. A gente faz das tripas cora\u00e7\u00e2o.<\/p>\n<p>Necessidade tem cara de herege.<\/p>\n<p>&#8211; Diga, d. Ad\u00e9lia.<\/p>\n<p>A vizinha baixou mais a voz, que tremia, e o car\u00e3o sardento ficou encarnado como o vestido de chita: &#8211; \u00c9 por causa da Marina. Assim desocupada com as m\u00e3os abanando . . . Ela n\u00e3o \u00e9 pregui\u00e7osa. Cose, borda mas trabalho de mulher em casa n\u00e3.o adfanta. Gasta-se tempo sem fim num bordado e recebe-se uma ninharia.<\/p>\n<p>Se fosse possivel arranjar um emprego para Marina. .<\/p>\n<p>Acendi um cigarro, pus-me a cont\u00e3r os paralelepi- pedos sem me animar a desiludir a vizinha.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00ea uma penada por ela.<\/p>\n<p>Coitado de mim.<\/p>\n<p>&#8211; Diffcil. E preciso pistol\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei, disse d. Ad\u00e9lia. Foi por isso que me lem- brei do senhor, que \u00e9 bem relacionado. S\u00f3 conhecemos o senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Mas d. Ad\u00e9lia, respondi aflito, a senhora est\u00e1 enganada. Eu sou um infeliz, n\u00e3o tenho onde cair morto. Uma recomenda\u00e7\u00e3o minha n\u00e3o serve. Mas voa tentar, ouvfu? Seu Ramalho dobrou o beco da usina el\u00e9trica e veio vindo, lento, negro de azeite e carv\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Boa tarde.<\/p>\n<p>&#8211; Boa tarde, seu Ramalho. Como vai essa gordura? Est\u00e1vamos falando sobre a ca,restia.<\/p>\n<p>Seu Ramalho estirou o bei\u00e7o : &#8211; Cada dia vai ficando pior. 7 de fazer um crist\u00e3o endoidecer. Ora, eu lhe conto.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3,o contou nada. Costuma defxar as frases em meio.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 como lhe disse, murmurei. Vamos ver.<\/p>\n<p>Que, para ser franco, nem sei se a Marina se ajeita.<\/p>\n<p>Ela. sabe datilografia? &#8211; N\u00e3o sabe nada, atalhou seu Ramalho. Voc\u00ea foi amolar o rapaz com pedit\u00f3rios, mulher? Eu n\u00e3o lhe tinha dito que n\u00e3o tocasse nisso? &#8211; Que \u00e9 que tem, seu Ramalho? Ela quer que a mo\u00e7a trabalhe. L na,tural.<\/p>\n<p>&#8211; Trabalhar .em qu\u00e9, meu amigo? S\u00f3 se for em pintar a cara, que \u00e9 o que ela sabe fazer.<\/p>\n<p>D. Ad\u00e9lia, vexada, continuava a enrolar os dedos tr\u00e9mulos no vestido.<\/p>\n<p>&#8211; Eu falei por falar. 8e fosse possfvel. Um orde- nadozinho gue desse para a roupa. N\u00e3o h\u00e1 tantas mo\u00e7as empregadas? Nos telefones, nos correios . . .<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o pessoas que sabem onde t\u00eam as ventas, cria- tura, interrompeu seu Ramalho. Ou que arranjaram prote\u00e7\u00e1o. E sua filha entrou na escola e saiu como entrou. Ou as escolas n\u00e3o prestam ou ela \u00e9 bruta de- mais. Emprego para roupa. Tem gra\u00e7a. Cinq\u00fcenta mil- r\u00e9is de sapatos todos os meses. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro que chegue.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 duro, seu Ramalho, arrisquei.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, respondeu o homem arqueja,ndo por causa da asma. E que vivo no toco, roendo um chifre.<\/p>\n<p>Falava de cabe\u00e7a baixa, os olhos no ch\u00e3o, os m\u00ed.s- culos da cara im\u00f3veis, a boca entreaberta, a voz bran- da, provavelmente pelo h\u00e1bito de obedecer.<\/p>\n<p>&#8211; Eu falei por falar, gaguejou d. Ad\u00e9lia caindo para uma banda, as banhas derramadas no parapeito da janela, onde fincava o cotovelo. Foi, a menina com as m\u00e2os abanando . . .<\/p>\n<p>8eu Ramalho acendeu o cachimbo e p8s-se a esga- ravatar as unhas com o f\u00f3sforo queimado : &#8211; E isso. Eu aqui n\u00e3o sei nada. Todo o mundo de r\u00e9dea no pesco\u00e7o. Casa de Con\u00e7alo. As mulheres mandam, e o corno velho \u00e9 o \u00faltimo que tem conheci- mento das coisas.<\/p>\n<p>58 Ant8nia, a criada de d. Ros\u00e1tia, passou bambo- leando-se, foi at\u00e9 a esquina da Rua Augusta e esteve algum tempo conversando com um soldado de policia.<\/p>\n<p>Voltou, sempre se rebolando e com as pernas abertas.<\/p>\n<p>\u00c9 uma criatura ing\u00eanua, meio selvagem. Acredita em tudo quanto lhe dizem e tem grande necessidade de machos. Quando pega um, entrega-se inteiramente.<\/p>\n<p>N\u00e3o escolhe, \u00e9 uma rede.<\/p>\n<p>Todas as tardes, findo o servi\u00e7o, arruma a lou\u00e7a, veste os trapos melhores, cal\u00e7a os sapatos de verniz e sai. Se arranja algum dinheiro, deixa o emprego e amiga-se. Erra sempre. Ciasta as economias, volta ao trabalho, vai acumular novo pec\u00falio para sustentar novos amantes, novas decep\u00e7\u00f5es. E doida pelas crian- \u00e7as: passa o dia gritando, brincando com elas. Mas \u00e0 noite esquece tudo e corre para a cr\u00e1pula. D. Ros\u00e1lia atura-a por causa dos filhos. Quando lhe faz as contas, diz numa voz \u00e1spera que ou\u00e7o perfeitamente na sala de j antar: &#8211; Pegue o seu ordenado, Ant8nla, e suma-se, n\u00e3o torne a aparecer aqui.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia recebe o sal\u00e1rio, entrouxa os cacarecos, beij a as crian\u00e7as e sai cantando, certa de que encon trou um homem. Volta faminta, com marcas novas de Ant8nia.<\/p>\n<p>berreiro feio &#8211; e An vagabunda e galicada A cabocla respondeu descerrando os bei\u00e7os gros- sos e mostrando os dentes largos num sorriso infantil.<\/p>\n<p>Seu Ramalho n\u00e3o a viu: estaa de cabe\u00e7a baixa, mono- logando, remexendo a cinza do cachimbo com o i\u00f3s- foro. D. Ad\u00e9lia continuava encalistrada, bicuda, ma- chucando o vestido. Senti-me leve, quase alegre, e es- pantei-me de ver aquelas caras f\u00fanebres.<\/p>\n<p>&#8211; Isso no tem import\u00e3ncia. Procurando bem&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas por ai cavando a vida. Vamos ver se arran- jamos alguma coisa, d. Ad\u00e9lia. Vamos ver. Depois lhe digo.<\/p>\n<p>feridas.<\/p>\n<p>&#8211; acabas no hospital, Mas as crian\u00e7as fazem um t8nia fica.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a dessa criatura traz-me sentimentos bons.<\/p>\n<p>&#8211; Como vai, Ant8nia? &#8211; Hist\u00f3ria, murmurou seu Ramalho com des\u00e3ni mo. Aquela n\u00e3o d\u00e1 para nada. O homem que casar com ela faz neg\u00f3cio ruim.<\/p>\n<p>* * * Como era grande o calor, abri a janela do quintal.<\/p>\n<p>Uma baforada de ar quente bateu-me no rosto. Debru- cei-me e distrai-me acompanhando com a vista os mo- vimentos da mulher que lava garrafas. O gato pulou de um galho da mangueira, saltou o muro, trepou num monte de lixo e cacos de vidro. O homem triste andava entre as pipas, debaixo do telheiro, a encher dornas.<\/p>\n<p>Que estaria fazendo Marina? Pensei em d. Merce- des. Vida bem sossegada a dessa galega. Um sem-ver gonha o figur\u00e3o que a sustentava, um caloteiro: devia os cabelos da cabe\u00e7a e dava festas, punha autom\u00f3veis \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da am\u00e1sia. Como diab\u00f5 podia um macho gostar daquela tipa de carnes bambas? &#8211; Ladr\u00f5es, velhacos, porcos! Bati a janela com for\u00e7a. Depois voltei a abri-la.<\/p>\n<p>A mulher magra, de c\u00f3coras, a saia entalada entre as pernas, continuava a lavar garrafas. O homem triste passeava entre as pipas.<\/p>\n<p>Com certeza a minha vizinha \u00e0quela hora pintava as unhas. Indignei-me: &#8211; \u00f5 Vit\u00f3ria, porque n\u00e3o varre esta casa direito? Cisco por toda a parte, montes de cisco. Tudo cheio de poeira.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria ri\u00e3o percebeu a repreens\u00e3o. Agarrei uma toalha e esfreguei com ela o guarda-lou\u00e7a: &#8211; Porcaria! Peguei urn livro, abri a porta e desci os degraus do quintal, furioso com o amante de d. Mercedes. Ve- lhaco. Devia nas lojas, devia nas mercearias, devia ao alfaiate. Atracado aos usineiros, aos banqueiros, os ho- mens da Associa\u00e7\u00e3o Comercial, numa adula\u00e7\u00e3o torpe.<\/p>\n<p>Os credores mi\u00fados deixavam-se esfolar com medo; os grandes sangravam por conveni\u00eancia: tinham interes- ses, arranjavam o que queriam. E um safado como aquele era tro\u00e7o no Estado. Que desgra\u00e7a! Deitei-me na espregui\u00e7adeira, acendi um cigarro, abri o livro e comecei a ler maquinalmente. De quan- do em quando bocejava, suspendia a leitura incom- i. preensfvel.<\/p>\n<p>O jardim, que a antiga inquilina vinha regar todas as manh\u00e3s, estava sujo, maltratado, coberto de gar- ranchos e folhas secas.<\/p>\n<p>Soltei o livro e fechei os olhos, aborrecido. Mas os olhos n\u00e3o ficaram bem fechados: atrav\u00e9s das p\u00e1lpebras meio cerradas distinguiam-se as coisas que estavam perto do ch\u00e3o, dez ou quinze metros em redor &#8211; o tronco do mamoeiro, o monte de lixo, as florinhas desbotadas. D. Ad\u00e9lia, no banheiro, lavava roupa, e a \u00e1gua espumosa corria de l\u00e1, vinha estagnar-se numa po\u00e7a junto \u00e0 cerca.<\/p>\n<p>Se aquela tonta prestasse, estaria ajudando a m\u00e3e, ensaboando panos. Pregui\u00e7a. Estava era lendo bestei- ras, arrancando cabelos das sobrancelhas com a pin\u00e7a ou raspando os sovacos. A princfpio ainda tratara dos canteiros. Habituara-se depois a levar para ali um ro- mance, que n\u00e3o abria. Conversava. E eu me zangava com as conversas dela, que, como j\u00e1 disse, eram ma- lucas. Zangava-me de verdade. Mas estava ali com os olhos meio fechados, espiando os canteiros e esperando que a mulherinha chegasse.<\/p>\n<p>Fazia uma semana que eu andava cavando uma coloca\u00e7\u00e3o para ela. Arranjar emprego, como n\u00e3o igno- ram, \u00e9 dificuldade. As pessoas a que a gente se dirige sorriem. Tudo f\u00e1cil, \u00e0s ordens, perfeitamente. Escutam as choradeiras com paci\u00eancia e escrevem cart\u00f5es a ou- tras pessoas. Estas escrevem outros cart\u00f5es, e assim por diante. Cada um se desaperta. Eu falara ao diretor da minha reparti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Doutor, tenho uma vizinha que faz pena, mo\u00e7a prendada. Mata-se para ajudar a familia, mas, como sabe, trabalho de mulher em casa n\u00e3o rende. Se o se- nhor pudesse, com a sua influ\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>O diretor respondera distrafdo: &#8211; Est\u00e1 bem. Vamos ver.<\/p>\n<p>Noutras reparti\u00e7\u00f5es, a mesma hist\u00f3ria com peque- nas variantes: &#8211; Mo\u00e7a decente, instruida, matando-se para au- xiliar a familia. Um modelo. A m\u00e3e doente . .<\/p>\n<p>Enfim uma cambada de mentiras in\u00fateis. Nos t bancos: &#8211; Mo\u00e7a digna, alguns conhecimentos de escritu- ra\u00e7\u00e3o mercantil e de aritm\u00e9tica.<\/p>\n<p>. Nos armaz\u00e9ns: &#8211; Muito preparo, muita leitura, excelente cal- culista. Podia encarregar-se da correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>Nas reda\u00e7\u00f5es: &#8211; \u00f3 Fulano, voc\u00ea n\u00e3o me arranja ai na expedi- \u00e7\u00e3o qualquer coisa para uma mo\u00e7a que eu conhe\u00e7o? Um osso, uma sinecura que justifique dofs ou tr\u00eas vales ; por m\u00eas.<\/p>\n<p>I Afinal fora encontrar para Marina um emprego de cem mil-r\u00e9is numa loja de fazendas. E ali estava espiando o quinta,l com o rabo do olho.<\/p>\n<p>Chap, chap, chap. Era o vascolejar da \u00e1gua naz I , garrafas. Lfquido se derramava: o homem triste en- chia dornas. D. Ad\u00e9lia tossia no banheiro, espremendo ( . roupa. E Vit\u00f3ria, na cozinha, cantava: &#8211; &#8220;Currupa- ! co, papaco. A mulher do macaco . . . &#8221; Um galo no gali- nheiro p\u00f4s-se a arrastar a asa a uma franga. Eu estar J , va fazendo ali a mesma coisa, apena,s com mais habi- lidade e mais demora. A franga n\u00e3o aparecia. Quem I,;F. se ligasse a ela faria neg\u00f3cio mau, seu Ramalho tinha ,.,, . raz\u00e3o. Se ele, que era pai, sustentava opini\u00e3o assim, \u00b0 imaginem. Sovaco raspado, unhas cor de sangue e so- &#8216; brancelhas que eram dofs tra\u00e7os. Mulher pelada. Para : que diabo uma pessoa arrancar as sobrancelhas.<\/p>\n<p>De repente a frangufnha surgiu dentro do meu re- r; duzido campo de observa\u00e7\u00e3o. Com.o disse, eu apenas ., enxergava uns dez ou quinze metros do jardim. Pri- meframente distingui as biqueiras vermelhas de uns sa.patos, aqueles sapatos que, segundo a declara\u00e7\u00e3o de seu Ramalho, custavam cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is e duravam um m\u00eas. Para ir ao quintal, sapato de sair e meia de seda esticada no pern\u00e3o bem feito. \u00d5timas pernas. As coxas e as n\u00e1degas, apertadas na saia estreita, esta- vam com vontade de rebentar as costuras.<\/p>\n<p>Talvez a franguinha tivesse percebido que eu fin- gia dormir: p\u00f4s-ss a ciscar por ali, rindo baiadnho, : T avan\u00e7ando, recuando, mostrando-se pela frente e pela retaguarda. Eu respirava com dificuldade e pensava nas li\u00e7\u00f5es de geografia de seu Ant\u00f4nio Justino: &#8211; &#8220;Primeiro desaparece o casco, depois os mastros.&#8221; Era o contr\u00e1rio que se dava agora: quando Marina se afas- tava, desaparecia em primeiro lugar a parte superior do corpo, isto \u00e9, a cintura, pois a cabe\u00e7a e o tronco estavam fora do meu campo de observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltava-me as costas: &#8211; Chi, chi, chi.<\/p>\n<p>Um riso semelhante a um cochicho. Curvava-se para a frente: a cintura fina sumia-se, os quadris au- mentavam. O pano marcava-lhe a s.epara\u00e7\u00e3o das n\u00e1degas. Um passo, outro passo. As ancas morriam, agora eram as coxas gross\u00e3s. flutro passo: uma ruga na meia cor de creme mostrava a articula\u00e7\u00e2o da coxa com a perna. E a perna cheia ia adelga\u00e7ando at\u00e9 fin- dar num jarrete fino encastoado no tac\u00e3o vermelho do sapato.<\/p>\n<p>&#8211; Chi, chi, chi.<\/p>\n<p>O cochicho risonho afastava-se, chegava-me aos ouvidos como o chiar de um rato. Chiar de rato, exata- mente. Chiar de rato ou carne assada na grelha. Pa- recia-me que aquilo estava chiando dentro de mim, Gue a minha carne se assava e chiava. Os tac\u00f5es verme- lhos viravam-se para o outro lado. As biqueiras sur- giam e avan\u00e7avam. L\u00e1 vinham peda\u00e7os de canelas. As m\u00e3os puxavam a saia para tr\u00e1s, distinguiam-se os joe- lhos e as coxas. Como vinha curvada para a frente, a barriga desaparecia.<\/p>\n<p>&#8211; Chi, chi, chi.<\/p>\n<p>O rato ro\u00eda-me por dentro. Senti cheiro de carne assada. N\u00e3o, cheiro de f\u00eamea, o mesmo cheiro que antigamente me perseguia, em rreses de quebradeira.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;D. Aurora, veja se me arranja um quarto mais barato. Os tempos andam safados, d. Aurora.&#8221; As pernas de Berta eram assim bem torneadas.<\/p>\n<p>Apenas as de Berta eram nuas, tudo em Berta era nu.<\/p>\n<p>&#8211; Chi, chi, chi.<\/p>\n<p>L\u00e1 estavam novamente os quadris expostos. Para que aqueles panos? gritei interiormente. N\u00e3o era melhor que se descobrisse tudo? Coxas descobertas, rabo descoberto.<\/p>\n<p>Foi assim que vi Marina entre as pestanas meio cerradas, como Berta me aparecia. As n\u00e1degas cres- ciam monstruosamente &#8211; e eu mal podia respirar.<\/p>\n<p>Se d. Ad\u00e9lia e Vit\u00f3ria viessem ali, veriam aquela ar- mada: Marina despida, curvada para a frente, mos- trando um traseiro enorme.<\/p>\n<p>Tolice. D. Ad\u00e9lia, fria, com o pensamento distante de coisas assim, espremia camisas molhadas no ba- nheiro. E Vit\u00f3ria conversava com o Currupaco, o vi- vente que ela estima e n\u00e3o lhe provoca imagens in- decentes.<\/p>\n<p>Chap, chap, chap. A mulher magra n\u00e3o acabava de lavar garrafas. \u00c3 torneira derramava l\u00edquido na dorna. Ouvia-se perfeitamente. A princ\u00edpio chega- va-me um som confuso. Agora, por\u00e9m, os sentidos irri- tados percebiam tudo. O chap-chap da mulher, o ru- mor do l\u00edquido, preg\u00f5es de vendedores ambulantes, rolar de autom\u00f3veis, a correria dos filhos de d. Ros\u00e1- lia no quintal pr\u00f3ximo, o cheiro das flores, dos mon- turos, da \u00e1gua estagnada, da carne de Marina, entra- vam-me no corpo violentamente. Apertei as p\u00e1lpebras.<\/p>\n<p>A po\u00e7a de \u00e1gua, os canteiros mofinos, o monte de lixo sumiram-se. O que eu via bem eram os quartos brancos de Marina curvada, as coxas brancas.<\/p>\n<p>&#8211; Chi, chi, chi.<\/p>\n<p>Devia estar um pouco afastada, mostrando apenas os tac\u00f5es ou as biqueiras dos sapatos. Mais perto, mais perto, o cheiro mais vivo, o chichichi mais perceptfvel &#8211; e eu sentia uma esp\u00e9cie de desmaio com aquela apro- ima\u00e7\u00e3o. O livro caiu, cruzei as pernas, sentei-me, vi Marina em p\u00e9 junto da cerca, rindo como uma doida: &#8211; Puxa! Que olhos abotoados! Parece que vai ter uma congest\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu devia estar rid\u00edculo. Baixei a cara, com ver- gonha, e pus-me a esfregar as p\u00e1lpebras, a agitar a cabe\u00e7a para espalhar as ruindades que havia dentro dela. Quando terminei a esfrega\u00e7\u00e3o, Marina continua- va no mesmo lugar, exibindo os dentinhos, com tanta mal\u00edcia no rosto que fiquei besta, acuado. Felizmente podia v\u00ea-la da barriga para cima.<\/p>\n<p>..<\/p>\n<p>&#8211; Cara de mal-assombrado, pilheriou Marina. S nhou com alma do outro mundo? A vis\u00e3o obscena e os desejos l\u00fabricos esmoreceran &#8211; Sonhei nada! Estava num entorpecimento est\u00fapido. Tive a in press\u00e3o extravagante de que o ar havia tomado c repente a consist\u00eancia mole e pegajosa de goma-ar! bica. Nesse ambiente gelatinoso Marina se movia, n dava, desesperadamente bonita, o peitinho redondo si bindo e descendo, a querer saltar pelo decote baix pimenta nos olhos azuis, os cabelos de fogo desmax chando-se ao vento morno e empestado que soprav dos quintais. Veio-me o pensamento maluco de que t nham dividido Marina. Serrada viva, como se fazi antigamente. Esta id\u00e9ia absurda e sang\u00fcin\u00e1ria deu-rr: grande satisfa\u00e7\u00e3o. N\u00e1degas e pernas para um lado, cf be\u00e7a e tronco para outro. A parte inferior mexia-; como um rabo de lagartixa cortado. Mas eu n\u00e2o repa rava na parte inferior, que tanto me perturbara: reci bia as fa\u00edscas dos olhos azuis e deejava enxugar cor beijos a saliva que umedecia os bei\u00e7os um pouco gro sos da minha amiga. Estava linda. Tinha corrido pc ali alguns minutos como um rato, chiando. Eu era m gato ordn\u00e1rio. Podia saltar em cima dela e abocf nh\u00e1-la: ao p\u00e9 das estacas podres que Vit\u00f3ria remov todos os meses, desafiava-me com os olhos e com c dentes mi\u00fados. N\u00e3o saltei. O que fiz foi arranjar um carranca s\u00e9rfa, que devia ser burlesca, porque Marin soltou uma gargalhada.<\/p>\n<p>&#8211; Marina, grunhi, sua m\u00e2e n\u00e3o lhe falou? &#8211; Sobre o qu\u00ea? &#8211; Sobre uma coloca\u00e7\u00e3o. Uma coloca\u00e7\u00e3o para voci Sim, \u00e9 bom uma pessoa pensar no futuro. Voc\u00eas n\u00e3 conversaram? &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Pensei que tivessem conversado. Pois Sua m\u00e2e me falou e eu andei por a\u00ed rrartelando. Fi o que pude.<\/p>\n<p>Marina tinha agora o rosto comprido e uma rug entre as sobrancelhas: &#8211; Parece que minha m\u00e3e est\u00e1 com pena do bc cado que me d\u00e1.<\/p>\n<p>so &#8211; N\u00e3o diga isso, crfatura. E para o seu bem.<\/p>\n<p>D. Ad\u00e9lia saiu do banheiro com uma bacfa de roupa molhada, que fa enxugar l\u00e1 dentro, a ferro.<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, gritou de longe.<\/p>\n<p>E entrou logo. Ia escurecendo, e aquele boa naite era uma esp\u00e9cie de censura, que ela n\u00e3o fazia clara- mente porque tinha medo da filha.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 af, Marina. A pobre a esta hora lavando roupa! Marina, em sil\u00eancio, quebrava torr\u00f5es com o salto do sapato.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea me desculpa a franqueza. Eu n\u00e3o devfa estar dando opini\u00e3o sobre sua casa. E porque Ihe te- nho muita amizade. Por isso andei pedindo por af.<\/p>\n<p>&#8211; Encontrou alguma coisa? perguntou Marina sem entusiasmo.<\/p>\n<p>&#8211; Encontrei. Para bem dizer, n\u00e3o encontref coisa boa n\u00e3o. Emprego p\u00fablico n\u00e3.o h\u00e1. Tudo fechado, tudo escuro. Enfim sempre achei um gancho.<\/p>\n<p>&#8211; Onde? &#8211; Numa loja. Cem mil-r\u00e9is por m\u00eas. Um prin- cipio. Depois a gente cava servi\u00e7o mais f\u00e1cil e mais rendoso. O que \u00e9 preciso \u00e9 come\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8211; Numa loja? disse Marina com um risinho mau.<\/p>\n<p>Obriga\u00e7\u00e3o de aturar pilh\u00e9rias e at\u00e9 descomposturas dos fregueses. E belisc\u00f5es dos empregados. Muito bem.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Marina! &#8211; Julgo que minha m\u00e3e est\u00e1 com inten\u00e7\u00e3o de me ver na rua. E voc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Marina! Que horror! Se voc\u00ea n\u00e3o quer, acabou-se. Meti-me nisso porque sua m\u00e3e me pediu, compreende? E porque lhe quero muito bem.<\/p>\n<p>Marina sensibilizou-se. Os olhos aguaram-se, o bef- cinho tremeu : &#8211; Obrigada, Lufs.<\/p>\n<p>E estirou a m\u00e3o. Levantei-me, tomef-lhe os dedos, 0 contacto da pele quente deu-me tremuras, acendeu os desejos brutais que tinham esmorecido. Olhando-a de cima para baixo, via-lhe os seios, que subiam e des- ciam, as coxas, a curva dos quadris. Veio-me a tenta- \u00e7\u00e3o de rasgar-lhe a saia. E repetia como um demente: &#8211; \u00c9 porque Ihe quero muito bem, Marina.<\/p>\n<p>Apertei-lhe a m\u00e3o, mordi-a, mordf o pulso e o bra\u00e7o. Marina, p\u00e1lida, s\u00f3 fazia perguntar: ; &#8211; Que \u00e9 isso, Lufs? Que doidice \u00e9 essa.? Mas n\u00e3o se afastava. Desloquei as estacas podres, puxei Marina para junto de mim, abracei-a, beijei-lhe a boca, o colo. Enquanto fazia isto, as minhas m\u00e3os percorriam-lhe o corpo. Quando nos separamos, fica- mos comendo-nos c\u00f5m os olhos, tremendo. Tudo em redor girava. E Marina estava t\u00e3o perturbada que se esqueceu de recolher um peito que havia escapado da roupa. Eu queria mord\u00ea-lo e receava ao mesmo tempo que d. Ad\u00e9lia nos surpreendesse, encontrasse a filha descomposta.<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! exclamou Marina sobressaltada.<\/p>\n<p>E virou-se rapidamente. Quando tornou a mostrai o rosto, o peito havia desaparecido.<\/p>\n<p>&#8211; Que foi que n\u00f3s fizemos, Lu\u00eds? E come\u00e7ou a choramigar. A como\u00e7\u00e3o dela me trou xe alguma vaidade, um pouco de arrependimento e quase a certeza de que nunca ningu\u00e9m lhe havia to cado nos peitos. Apesar da admira\u00e7\u00e3o idiota que Ma rina tinha a d. Mercedes, tomei aqueles solu\u00e7os comc prova de inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Que foi que n\u00f3s fizemos, Lu\u00eds? A cantilena chorosa arrasava-me os nervos. Cocei a testa, agoniado: &#8211; \u00c9 o diabo, Marina. Ningu\u00e9m tem culpa. Fo; uma topada. E agora \u00e9 continuar. Qualquer dia a gen te casa. E verdade, precisamos tratar disso. Voc\u00ea quf acha? Concordou pa.ssivamente, numa s\u00edlaba: &#8211; \u00c9.<\/p>\n<p>Esta anu\u00eancfa chocha me desorientou. V\u00e1rias ve zes tinha pensado em amarrar-me a ela, e nunca mE passara pela cabe\u00e7a a id\u00e9ia de que a minha amigz hesitasse. Mordi os bei\u00e7os, despeitado: &#8211; Falei nisto porque pensei . . . Compreende. Sim perfeitamente. Enfim voc\u00ea \u00e9 quem sabe.<\/p>\n<p>&#8211; Marina! gritou l\u00e1 de dentro seu Iamalho. Cuf dado com o sereno.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 certo, disse Marina rapidamente. Velhc pau. Se voc\u00ea acha que deve ser . . . Adeus.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, Marina. Outra coisa. Vamos deixar de besteira. Porque \u00e9 que a gente n\u00e3o se encontra aqui no escuro, meia-noite, quando estiverem dormindo? Valeu? D\u00e1 c\u00e1 um beijo.<\/p>\n<p>&#8211; Venha lavar os pratos, Marina.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vou.<\/p>\n<p>E escapuliu-se correndo. Sentei-me na espregui\u00e7a- deira, apanhei o livro: &#8211; \u00c9 uma dos diabos. Eu queria dar a ela alguma independ\u00e9ncia. Acabou-se. Gfosto da pequena, amarro uma pedra no pesco\u00e7o e mergulho.<\/p>\n<p>* * * Defronte da minha casa veio morar uma fam\u00edlia esquisita, que n\u00e3o se relacionou com a vizinhan\u00e7a: um velho barbudo, encolhido, e tr\u00e9s mo\u00e7as amarelas, sujas, mal vestidas, ruivas e arrepiadas. O homem, de nome ignorado, andava olhando os p\u00e9s, carrancudo, e n\u00e3o cumprimentava ningu\u00e9m. As vezes surgia a figura de uma das mo\u00e7as \u00e0 janela; mas se algu\u00e9m aparecia na rua, o postigo se fechava silenciosamente.<\/p>\n<p>&#8211; Eu queria saber que esn\u00e9cie de gente \u00e9 aquela, resmungava d. Ad\u00e9lia. S\u00f3 bicho.<\/p>\n<p>&#8211; E mesmo, d. Ad\u00e9lia, concordava AntBnia Tudo entocado. S\u00f3 b;cho.<\/p>\n<p>Seu Ivo procurou entrar na toca, bateu, pediu com:- da: n\u00e3o teve resposta. Um dia d. Mercedes atracou-me na passagem: &#8211; O senhor n\u00e3o me dir\u00e1 que mist\u00e9rio \u00e9 esse? &#8211; E eu sei? minha senhora.<\/p>\n<p>&#8211; De que viver\u00e3o eles? perguntava d. Ad\u00e9lia.<\/p>\n<p>Seu Ramalho explicava.<\/p>\n<p>&#8211; Cada qual tem seus ganchos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 exato, confirmava d. Ad\u00e9lia.<\/p>\n<p>Enquanto a criada andava em busca de machos, d. Ros\u00e1lia esquecia os meninos e ficava horas ganhan- do calos nos cotovelos, o olho pregado na casa da fa- milia esquisita: &#8211; Que vidal Uma pessoa assim cria mofo. rTem v\u00e3o \u00e0 igreja.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez sejam protestantes, comentava seu Ra f malho.<\/p>\n<p>&#8211; Com certeza. Devem ser bodes.<\/p>\n<p>At\u00e9 Marina fervia de curiosidade: &#8211; Lu\u00eds, descubra isso, meu filho.<\/p>\n<p>&#8216; De repente come\u00e7aram a circular boatos fefos: a mo\u00e7as eram filhas e amantes do velho.<\/p>\n<p>&#8211; Que horror! Logo tr\u00eas! &#8211; E por isso que ele anda capiongo. S\u00e3o remorsos &#8216; &#8211; Provavelmente.<\/p>\n<p>&#8211; Eu queria que me dissessem como se soube.<\/p>\n<p>&#8211; Ora como se soube! Sabe-se tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem viu? O carvoeiro tinha visto o homem abotoado a um das sujeitas, no quarto. Porcaria. Nem fechavam porta. D. Mercedes resumiu o caso: &#8211; E verdade.<\/p>\n<p>&#8211; O carvoeiro lhe contou, d. Mercedes? &#8211; N\u00e3o, foi outra pessoa. Na cidade onde eles mc ravam todo o mundo falava. Foi o que me disseraxr Sei de fonte limpa.<\/p>\n<p>Quem teria dito? Com certeza a personagem grat da que vivia com ela.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e2o ouvindo? d. Mercedes garantiu.<\/p>\n<p>, &#8211; At\u00e9 d\u00e1 engulhos, exclamou Ant\u00f4nio cuspindc Comer tr\u00eas filhas! Que lobisomem! Da\u00ed em diante o velho se chamou Lobisomem.<\/p>\n<p>&#8211; Parece que Lobisomem amanheceu doente. N\u00e3 saiu hoje.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o pecados.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as de d. Ros\u00e1lia contavam hist\u00f3rias d lobisomens, e o her\u00f3i delas era o vizinho. A notfcia chE gou a,os ouvidos de Juli\u00e3o Tavares: &#8211; Diz que um velho por aqui destambocou a filhas? Como \u00e9? &#8211; Cal\u00fanias, respondeu Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; Em todo o caso \u00e9 bom verificar isso. TalvE a gente pudesse agarrar uma.<\/p>\n<p>Cachorro! Lobisomem continuava como tinha ch gado, indiferente, a cara enferrujada, t\u00e3o distrafdo qu esbarrava com as pessoas, e os choferes paravam c autos violentamente para n\u00e3o atropel\u00e1-lo. E as filha coitadas, amarelas, feias, nem se penteavam. Saberiam alguma coisa? Talvez n\u00e3o soubessem. Ao mudar-se para ali, certamente j\u00e1 traziam uma carga de infeli- cidades. E era possfvel que houvessem percebido frag- mentos de horrores, gestos de desprezo, pilh\u00e9rias ladra- das na rua. Pobre do Lobisomem! N\u00e3o tinha hora para sair, hora para cheg\u00e1r. Sempre s\u00f3. Nem um guarda- chuva, nem uma bengala, tr\u00e3stes necess\u00e1rios a homem t\u00e3o curvado. Ora para um lado, ora para outro, sem destino. Que vida! Nem um h\u00e1bito. Esta id\u00e9ia de uma pessoa viver sem h\u00e1bitos era para mim extremamente dolorosa. Apesar de haver atravessado uma exist\u00eancia horr\u00edvel, sempre encontrara nela, mesmo nos tempos mais duros, ocupa\u00e7\u00f5es que me entretinham. Compara- va-me a Lobisomem. Eu era quase feliz, e a compara- \u00e7\u00e3o me atenazava.<\/p>\n<p>Marina tinha deixado de ver-me \u00e0 tarde, mas todas as noites a gente se reunia no fundo do quintal. Ela passava pelo buraco da cerca, encostava-se ao tronco da mangueira, e eram beijos, amolega\u00e7\u00f5es que nos enervavam.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos entrar, descansar um bocado, Marina.<\/p>\n<p>J\u00e1 que chegou aqui, d\u00ea mais uns passos.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea est\u00e1 maluco? Eu vou dar o fora. Qual- quer dia a gente mete o rabo na ratoeira. Os velhos descobrem tudo, estrilam, e \u00e9 um fuzu\u00ea da desgra\u00e7a &#8211; Deixa disso, Marina, vamos l\u00e1 para dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Good-bye.<\/p>\n<p>&#8211; Vem c\u00e1, Marina.<\/p>\n<p>&#8211; Vai-te embora, Lobisomem.<\/p>\n<p>At\u00e9 ali, \u00e0quela hora, surgia o nome do vizinho.<\/p>\n<p>O que mais me aborrecia era n\u00e3o saber se as pessoas que falavam dele acreditavam na hist\u00f3ria suja. En- chia-me de raiva por n\u00e3o conseguir livrar-me dos fuxicos. Desprezava involuntariamente o desgra\u00e7ado Lobisomem. Se aquilo fosse verdade? N\u00e3o tinha verossi- milhan\u00e7a, era aleive, disparate. Mas tanta gente repe- tindo as mesmas palavras&#8230; E casos iguais j\u00e1 se ti- nham visto.<\/p>\n<p>&#8211; Besteira. Perdendo tempo com bobagens. Para o inferno.<\/p>\n<p>Realmente a cara de Lobisom.em n\u00e3o inspirava simpatia. E as f\u00edlhas, de boca aberta, brancas, enros- cadas, moles&#8230; Gente suspeita. Estas d\u00favidas eram terrfveis. Agarrava-me ao judeu para libertar-me delas: &#8216;` &#8211; Isto \u00e9 o diabo. Uma criatura inofens\u00edva, uma criatura parada! 4&#8217; &#8211; Safadeza, dizia Mo\u00eds\u00e9s tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>&#8211; Inf\u00e2mia. Esta canalha precisa chicote.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o fale nisso, homem. Para que mexer em porcaria? &#8211; N\u00e3o \u00e9 tanto assim, intervinha Juli\u00e3.o Tavares.<\/p>\n<p>;,.<\/p>\n<p>O incesto \u00e9 natural, explica-se.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vem pedantismo.<\/p>\n<p>E n\u00e2o prestava aten\u00e7\u00e3o \u00e0 conversa de Juli\u00e3o Tava- res. Lembrava-me de outro indiv\u00edduo infeliz, um serta- nejo que vi h\u00e1 muitos anos, quando ele saia da pris\u00e3o depois de cumprir senten\u00e7a. Era um cearense esfomeado que tinha aparecido na vila em tempo de seca. Esmo- lambado, cheio de feridas, trazia escanchada no pesco\u00e7o uma filhinha de quatro anos. Tinham ido morar na rua das putas e viviam de esmolas. Um dia as vizinhas ouviram gritos na casinha de palha e taipa que eles ocupavam. Juntaram-se curiosos, olharam por um bu- ; raco da parede e viram o homem na esteira, nu, abrin- do \u00e0 for\u00e7a as pernas da filha nua, ensang\u00fcentada. Ar- rombaram a porta, passaram o homem na embira, deram-lhe pancada de criar bicho &#8211; e ele confessou, debaixo do zinco, meio morto, que tinha estuprado a menina. Processo, condena\u00e7\u00e3o no j\u00fari. Anos depois os m\u00e9dicos examinaram a pequena: estava inte\u00edrinha.<\/p>\n<p>O que havia era sujidade e um corrimento. Tratando a doen\u00e7a da filha com rem\u00e9dios brutos da medicina ser- taneja, o homem tinha sido preso, espancado, julgado e condenado.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 ouvindo, seu Mois\u00e9s? Cip\u00f3 de boi, fac\u00e3o e p\u00e9 no tronco.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s indignava-se. Juli\u00e3o Tavares bocejava: &#8211; Natural. A justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel.<\/p>\n<p>* * * &#8211; Marina, a gente deve acabar com isto, minha filha. Vamos para dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Vou nada! Torcia o corpo, defendia a virgindade com unhas e dentes.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 direito. Ent\u00e3o \u00e9 melhor apressar o cas\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8211; Com que roupa? disse Marina.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que falta? &#8211; Tudo. Eu sou uma noiva pelada, meu filho.<\/p>\n<p>Impacientei-me : &#8211; Ora! ora! ora! Entre n\u00f3s n\u00e3o h\u00e1 cerim8nia. Ar- ranja-se. Eu tenho umas economias, pouco, mas tenho.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m voc\u00ea n\u00e3o precisa de muita coisa. Urrtas fronhas, umas camisas.<\/p>\n<p>Como v\u00eaem, eu tinha boa vontade. O que receava era transformar as nossas rela\u00e7\u00f5es, mi\u00fadas, num acon- tecimento social importante.<\/p>\n<p>Aquilo viera pouco a pouco, sem a gente sentir.<\/p>\n<p>Naturalmente gastei meses construindo esta Marina que vive dentro de mim, que \u00e9 diferente da outra, mas se confunde com ela. Antes de eu conhecer a moci- nha dos cabelos de fogo, ela me aparecia dividida numa grande quantidade de peda\u00e7os de mulher, e \u00e0s vezes os peda\u00e7os n\u00e3o se combinavam bem, davam-me a im- press\u00e3o de que a vizinha estava desconjuntada. Agora mesmo temo deixar aqui uma sucess\u00e3o de pe\u00e7as e de qualidades: n\u00e1degas, coxas, olhos, bra\u00e7os, inquieta\u00e7\u00e3o, vivacidade, arror ao luxo, quentura, admira\u00e7\u00e3o a d. Mercedes. Foi dif\u00edcil reunir essas coisas e muitas outras, formar com elas a m\u00e1quina que ia encon- trar-me \u00e0 noite, ao p\u00e9 da mangueira. Pregui\u00e7osa, in- grata, leviana. Os defeitos, por\u00e9m, s\u00f3 me pareceram censur\u00e1veis no come\u00e7o das nossas rela.\u00e7\u00f5es. Logo que se juntaram para formar com o resto uma criatura completa, achei-os naturais, e n\u00e1o poderia imaginar Marina sem eles, como n\u00e3o a poderia imaginar sem corpo. Al\u00e9m disso ela era meiga, muito limpa. Asseio, cuidado excessivo com as m\u00e2os. Passava uma hora no banheiro, e a roupa branca que vestia cheirava. Nos nossos momentos de intimidade eu sentia \u00e0s vezes uma tenta\u00e7\u00e3o maluca; baixava-me, agarrava-lhe a orla da camisa, beijava-a, mordia-s. Isto me dava um praze muito vivo.<\/p>\n<p>&#8211; O pior \u00e9 que voc\u00ea ainda n\u00e3o me pediu, gemet Marina.<\/p>\n<p>E fingiu-se amuada. Liguei pouca import\u00e2ncia a amuo, mas fiquei remoendo aquela id\u00e9ia desagrad\u00e2ve de explicar-me aos outros sobre coisas que s\u00f3 eram in ;.<\/p>\n<p>teressantes para n\u00f3s. Explica\u00e7\u00f5es horr\u00edveis. Necess\u00e1ri entender-me com seu Ramalho, pedir o consentimentt dele, dizer besteiras. Ia escrever-lhe uma carta con la\u00e7os sagrados, felicidade conjugal, himeneu. Inf\u00e2mia S\u00f3 a id\u00e9ia de escrever isto me dava n\u00e1useas. Inten\u00e7\u00f5e; puras. E era preciso comprar m\u00f3veis, trastes de cozi nha, cortinas para janelas, almofadas. Inten\u00e7\u00f5es puras Domingo, na missa, o padre leria: &#8211; &#8220;Querem casar-s Lu\u00eds Pereira da Silva, com trinta e cinco anos, etc.<\/p>\n<p>etc., e Marina Ramalho, etc., etc.&#8221;. Lu\u00eds Pereira da Sil va, com trinta e cinco anos, estava longe da igrej e dos banhos. Que necessidade tinha Luis Pereira d Silva daquela verbiagem? Depois os cart\u00f5es de comu nica\u00e7\u00e3o, grandes, com letras douradas, aos colegas d reparti\u00e7\u00e3o, aos conhecidos, \u00e0s amigas de Marina, aa padrinho, oficial do ex\u00e9rcito. Indispens\u00e1vel um cart\u00e3 &#8216; ao padrinho, que era oficial do ex\u00e9rcito e servia en \u00b0 Mato Qrosso. Algu\u00e9m me mandaria um telegrama Inten\u00e7\u00f5es puras. Marina d\u00e1 grande valor aos tele gramas.<\/p>\n<p>&#8211; Pe\u00e7o amanh\u00e3, murmurei compondo mental mente as frases bestas da carta. Falo amanh\u00e3. Ou es crevo.<\/p>\n<p>M\u00e3o de esposo, uni\u00e3o conjugal, inten\u00e7\u00f5es puras &#8211; Marina gosta disto. Provavelmente iria recortar e guar dar com cuidado a not\u00edcia que o jornal publicari na s\u00e9tima p\u00e1gina, junto aos versos. Em p\u00e9, diante di livro aberto, o juiz me perguntaria: &#8211; &#8220;O senhor Lui da Suva quer casar com d. Marina Ramalho?&#8221; Eu, en cabulado, mastigaria uma sflaba, esirega,ndo as m\u00e3oa Marina, de roupa branca e flores de laranjeira, a\u00fcr ma,ria com a cabe\u00e7a, p\u00e1lida e comovida. O diretor m diria: &#8211; &#8220;Entrou no rol dos homens s\u00e9rios, seu Luis.&#8217; D. Ad\u00e9lia choraria abra\u00e7ada \u00e0 filha, como \u00e9 de cos tume. Os sapatos me apertariam os calos, e o telegra i ma seria pouco mais ou menos assim: &#8220;Felicita\u00e7\u00f3es ao prezado amigo.&#8221; Autom\u00f3veis da casa para a igreja e da igreja para a casa. Haveria na minha sala alguns tro- \u00e7os novos e in\u00fateis. A noite, quando eu fosse procurar em minha mulher as \u00faltimas novidades, ela me falaria com entusiasmo naquela gl\u00f3ria toda. No dia segninte d. Ros\u00e1lia, se penduraria \u00e0 janela para gritar: &#8211; &#8220;Es- tava muito bonita a sua grinalda, minha negra.&#8221; Quan- to iriam custar tantas ma\u00e7adas? Talvez os tr\u00eas contos de r\u00e9is voassem.<\/p>\n<p>&#8211; d o diabo, Marina. Vamos ver se arranjamos isto com simplicidade.<\/p>\n<p>* * * No outro dia retirei quinhentos mil-r\u00e9is do banco e fui \u00e0 casa vizinha: &#8211; \u00d5 d. Ad\u00e9lia, fa\u00e7a o favor de chamar a Marina.<\/p>\n<p>E, enquanto esperava: &#8211; Ela contou \u00e0 senhora, n\u00e3,o contou? Pois \u00e9. Pa- rece que o m\u00eas vindouro a gente se engancha. Tenha a bondade de explicar isto a seu Rsmalho. Ele j\u00e1 sabe, n\u00e3o? D. Ad\u00e9lfa embrenhou-se em circunl\u00f3quios para dizer que o marido sabia e n\u00e3o sabia. 8abia que eu gostava da menina. Isto se via perfeitamente. Agora ir para a igreja assim t\u00e3o depressa era surpresa.<\/p>\n<p>Marina se vestia num quarto pr\u00f3ximo, topando nos m\u00f3veis, derrubando as coisas.<\/p>\n<p>&#8211; E isto, d. Ad\u00e9lia. Quem tem de se empenha,r que se venda logo. A senhora n\u00e3o acha? Esplique a seu Ramalho. Esse neg\u00f3cio de pedido de casamento \u00e9 mui- to pau, n\u00e3o tenho jeito. Apare\u00e7a, \u00e0\u00e3arina.<\/p>\n<p>&#8211; Um minuto, respondeu a minha amiga mos- trando um peda\u00e7o da cara pela porta entresberta.<\/p>\n<p>Estou acabando de me cal\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 nada! Est\u00e1 pintando os bei\u00e7os. Essa sua filha \u00e9 uma pintura, d. Ad\u00e9lia.<\/p>\n<p>Sem saber se aquilo era eloglo ou censura, d. Ad lia sorriu veuada e just\u00fcicou \u00e3arinav: &#8211; E a mocidade.<\/p>\n<p>Metf a m\u00e3o no bolso para tirar os quinhentos mil-r\u00e9is, acanhei-me. Tirei um cigarro, que machuquef olhando as figuras das paredes: &#8211; A senhora tem um Cora\u00e7\u00e3o de Jesus mu\u00edto bo- nito.<\/p>\n<p>Marina apareceu, enroscando-se como uma cobra de cip\u00f3 e t\u00e3o bem vestida como se fosse para uma festa. Ao pegar-me a m\u00e3o, ficou agarrada, os dedos contrafdos, o bra\u00e7o estirado, mostrando-se, na faixa de luz que entrava pela janela. Isto me dava a im- press\u00e3o de que o meu bra\u00e7o havia crescido enorme- mente. Na extremidade dele um formigueiro em rebu- li\u00e7o tinha tomado subitamente a conforma\u00e7\u00e3o de um corpo de mulher. As formigas fam e vinham, entra- vam-me pelos dedos, pela palma e pelas costas da m\u00e3o, corriam-me por baixo da pele, e eram ferroadas medo- nhas, eu estava cheio de calombos envenenados. N\u00e3o distinguia os m,ovimentos desses bichinhos insignifi- cantes que formavam o peito, a cara, as coxas e as n\u00e1degas de Marina, mas sentia as p\u00edcadas &#8211; e tinha provavelmente os olhos acesos e esbugalhados. Com uma sacudidela, desembaracei-me da garra que me prendia e tornei-me um sujeito razo\u00e1vel: &#8211; Est\u00e1vamos combinando, Marina. Quanto mais depressa melhor, foi o que eu disse a d. Ad\u00e9lia. Gente pobre n\u00e3o tem luxo.<\/p>\n<p>&#8211; E preciso fazer as coisas com dec\u00eancia, opinou Marina.<\/p>\n<p>&#8211; Claro. Mas com mod\u00e9stia. N\u00e3o \u00e9, d. Ad\u00e9lia? Dispensa-se o v\u00e9u. Para que v\u00e9u? Eu por mim casava hoj e.<\/p>\n<p>Marina escandalizou-se, trombuda. E d. Ad\u00e9lia, me- xendo-se aflita na cadeira, que rangia sob as banhas excessivas, baixava os olhos, escondia as m\u00e3os papu- das debaixo do avental, dava raz\u00e3o a mim, dava raz\u00e3o \u00e0 filha, num desconchavo: &#8211; \u00c9 mesmo, seu Lu\u00eds, gente pobre n\u00e3o tem luxo.<\/p>\n<p>Com dec\u00eancia, e ent\u00e3o? Antigamente um noivado era servi\u00e7o. Preparar a roupa branca, bordar a colcha, que trabalh\u00e3o! Tarefa para meses. Hoje em dia, na m\u00e1qu\u00ed na, vuco, vuco, vuco, num instante se borda uma colcha.<\/p>\n<p>&#8211; A gente podia passar sem a colcha bordada.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 casamento de cambembe, disse Marina.<\/p>\n<p>D. Ad\u00e9lia, com os olhos suplicantes, pedia sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; A prop\u00f3sito de roupa branca, d. Ad\u00e9lia. .<\/p>\n<p>Calei-me, com vergonha de oferecer os quinhentos mil-r\u00e9is. O mulher\u00e3o suspirou : &#8211; No meu tempo de mo\u00e7a um pedido de casa- mento era coisa muito s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Agora eu estava ali conversando sobre len\u00e7\u00f3is.<\/p>\n<p>&#8211; A prop\u00f3sito de roupa branca, d. Ad\u00e9lia, estive pensando . . . At\u00e9 falei com a Marina, provavelmente ela disse \u00e0 senhora. Para abreviar, compreende? Compreendia.<\/p>\n<p>&#8211; Cedo ou tarde eu havia de comprar esse panos.<\/p>\n<p>Para que etiqueta? Por isso me lembrei de propor a Marina . . . A senhora n\u00e3o leva a mal, suponho.<\/p>\n<p>N\u00e3o levava: &#8211; Quando duas pessoas se entendem . .<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9. Uma esp\u00e9cie de adiantamento. \u00c9 tirar de uma m\u00e3o e botar n\u00e1 outra. Fica tudo em casa.<\/p>\n<p>Entreguei a Marina a pelega de quinhentos: &#8211; Est\u00e1 aqui, minha filha. Comece os arranjos.<\/p>\n<p>E adeus, que n\u00e3o quero perder o ponto.<\/p>\n<p>Marina recebeu o dinheiro sem constrangimento, e eu me sensibilizei julgando que ela procedia assim por estar identificada comigo. Fiz-lhe algumas reco- menda\u00e7\u00f5es mi\u00fadas e retirei-me.<\/p>\n<p>A primeira pessoa conhecida que encontrei na rua foi Juli\u00e3o Tavares. Senti um estremecimento desagra- d\u00e1vel, a repugn\u00e2ncia que sempre me vinha quando dava de cara com aquele sujeito, e fingi n\u00e3o v\u00ea-lo, entrei numa loja para n\u00e3o falar com ele. Na reparti- \u00e7\u00e3o as horas correram doces e r\u00e1pidas. O caf\u00e9 estava cheio de caras am\u00e1veis. Guardei na mem\u00f3ria peda\u00e7Us de sonversas. O cego dos bilhetes de loteria passou enre as cadeiras, batendo com o cajado no ch\u00e3o, can- tando o n\u00famero.<\/p>\n<p>Se eu pegasse a sorte grande, Marina teria colchas bordadas a m\u00e3o. Pobre de Marina! Precisava fazenda macia, pulseiras de ouro, penduricalhos.<\/p>\n<p>As cadeiras da minha casa eram bem ordin\u00e1rias.<\/p>\n<p>No tijolo safado n\u00e3o havia tapete. Nem um quadro na ?1 parede. E o colch\u00e3o, duro como pedra, faria escorfa\u00e7\u00f5es no corpo de Marina. Contento-me com muito pouco, habituei-me cedo a dormir nas estradas, nos bancos dos jardins.<\/p>\n<p>&#8211; 16.384, gemfa o cego batendo com a bengala no cimento.<\/p>\n<p>Ou seria outro n\u00famero. Cem contos de r\u00e9ls, di- nheiro bastante para a felicldade de Marina. Se eu pos- sufsse aquilo, construiria um bangal\u00f4 no alto do Farol, um bangal\u00f4 com vista para a lagoa. Sentar-me-ia ali, de volta da reparti\u00e7\u00e3o, \u00e0 tarde, como Tavares &amp; Cia., dr. Clouveia e os outros, contaria hist\u00f3rias \u00e0 minha mulher, olhando os coqueiros, as canoas dos pesca- dores.<\/p>\n<p>&#8211; 16.384.<\/p>\n<p>Vestido de pijama, fumando, olharia l\u00e1 de cima os telhados da cidade, os bondes pequeninos a rodar quase parados e sem rumor, os focos da ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, os coqueiros negros \u00e0 noite. Uns quadros a \u00f3leo enfei- tariam a minha sala. Marina dormiria num colch\u00e3o de paina. E quando saltasse da cama, pisaria num ta- pete felpudo que lhe acariciaria os p\u00e9s descal\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; 16.384.<\/p>\n<p>; Um tapete fofo, sem d\u00favida. E a cama teria uma colcha bordada cobrindo o colch\u00e3o de paina, uma col- cha bordada em seis meses.<\/p>\n<p>* * * Alguns dias depois Marina me chamou para mos trar os objetos que tinha comprado. N\u00e3o era quase nada: cal\u00e7as de seda, camisas de seda e outras ni- nharias.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 do resto? &#8211; Que resto? perguntou espantada. E s\u00f3 isto. Veja se as camisas est\u00e3o bem feitas, diga se as cores lhe agradam.<\/p>\n<p>&#8211; Mufto boas, murmurei.<\/p>\n<p>&#8211; Mas voc\u00ea nem est\u00e1 olhando.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea? N\u00e3o entendo. O que vejo \u00e9 que falta quase tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Que se h\u00e1 de fazer? E a carestia. Em todo 0 caso julgo que voc\u00e9 aprova..<\/p>\n<p>Que rem\u00e9dio! Havia de brigar com ela, dizer-lhe que tivesse ju\u00edzo, explicar que sou pobre, n\u00e3o posso comprar camisas de seda, pde-arroz caro, seis pares de meias de uma vez? Seis pares de meias, que des- perd\u00edcio! Se ela suasse no veio da m\u00e1quina ou ag\u00fcen- tasse as enxaquecas do chefe na reparti\u00e7\u00e3o, n\u00e3o faria semelhante loucura. Mas n\u00e3o despropositei, como 0 cora\u00e7\u00e3o me pedia.<\/p>\n<p>; &#8211; Est\u00e1 bem. Vamos comprar o resto. Fa\u00e7o eco- nomia, ouviu? Os cobres est\u00e2,o escassos.<\/p>\n<p>Sangrei mais quinhentos mil-r\u00e9is. Depois sangrei duzentos, adquiriu m\u00f3veis em leil\u00e3o e vesti-me de novo, porque as minhas camisas estavam esfiapadas e o palet\u00f3 se cobria de n\u00f3doas. Ma.rina aplaudia a transforma\u00e7\u00e3o que se ia operando no meu exterior: . &#8211; Precisa \u00e9 mandar consertar essa gola. O corpo est\u00e1 bom. Os p\u00e9s n\u00e3o prestam, com esses sapatos inde- centes. D\u00ea por visto um pav\u00e3:o.<\/p>\n<p>Ofereci a seu Ivo os meus sapatos cambaios e re- formei os p\u00e9s. O dinheiro sumia-se, essas altera\u00e7\u00f5es chu- pavam-me as reservas acumuladas com paci\u00eancia. Eu vivia preocupado, fazendo c\u00e1lculos na rua. E ainda n\u00e3,o ; havia comprado uma lembran\u00e7a para Marina.<\/p>\n<p>Liquidei a minha conta no banco, estudei cuidado- samente uma vitrina de j\u00f3ias, escolhi um rel\u00f3gio-pul- seira e um anel. Saf da joalheria com vinte mil-r\u00e9is na carteira, algumas pratas e nfqueis. Mais nada.<\/p>\n<p>Apenas confian\u00e7a no futuro, apesar dos encontr\u00f5es que tenho suportado. Os matutos acreditaram na mi- nha literatura. Vinte mil-r\u00e9is para caf\u00e9 e cigarros.<\/p>\n<p>Ia cheio de satis;fa\u00e7\u00e3o maluca. N\u00e3o tirava a m\u00e3o do bolso, apalpava as ca,ixinhas, sentia atrav\u00e9s do papel de seda a macieza do veludo. Na alvura do bra\u00e7o ro- li\u00e7o a fita do rel\u00f3gio faria uma cinta negra; a pedri- nha branca faiscaria no dedo mi\u00fado.<\/p>\n<p>&#8211; Mois\u00e9s me emprestar\u00e1 cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is at\u00e9 o m\u00eas vindouro.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 Rua do Macena recebi um choque tremendo. Foi a decep\u00e7\u00e2o maior que j\u00e1 experimentei.<\/p>\n<p>A janela da minha casa, ca\u00eddo para fora, vermelho, papudo, Juli\u00e3o Tavares pregava os olhos em Marina, que, da casa vizinha, se derretia para ele, t\u00e3o embe- bida que n\u00e3o percebeu a minha chegada. Empurrei a porta brutalmente, o cora\u00e7\u00e3o estalando de raiva, e fi- quei em p\u00e9 diante de Juli\u00e3o Tavares, sentindo um de- sejo enorme de apertar-lhe as goelas. O homem per- turbou-se, sorriu amarelo, esgueirou-se para o sof\u00e1, onde se abateu.<\/p>\n<p>&#8211; Tem neg\u00f3cio comigo? A c\u00f3lera engasgava-me. Juli\u00e3o Tavares come\u00e7ou a falar e pouco a pouco serenou, mas n\u00e3o compreendi o que ele disse. Canalha. Meses atr\u00e1s se entalara num processo de defloramento, de que se tinha livrado gra- \u00e7as ao dinheiro do pai. Com o olho guloso em cima das mulheres bonitas, estava mesmo precisando uma surra. E um cachorro daquele fazia versos, era poeta.<\/p>\n<p>Aprumava-se, as palavras corriam-lhe facilmente, mas continuei a ignorar o que significavam.<\/p>\n<p>&#8211; Tem neg\u00f3cio comigo? repeti sem pensar que o tipo j\u00e1 havia provavelmente dado resposta.<\/p>\n<p>A loquacidade de Juli\u00e3o Tavares aborrecia-me. Uma voz l\u00edquida e oleosa que escorria sem parar. A minha c\u00f3lera esfriava, o suor colava-me a camisa ao corpo.<\/p>\n<p>A roupa do intruso era bem feita, os sapatos bri- lhavam. Baixpi a cabe\u00e7a. Os meus sapatos novos esta- vam mal engraxados, cobertos de poeira. P\u00e9s de pav\u00e3o.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares falou sobre a pol\u00edtica do pafs.<\/p>\n<p>A enxurrada cobria-se de n\u00f3doas de gordura, que se alastravam.<\/p>\n<p>Ia l\u00e1 discutir com aquele bandido? O meu desejo era insult\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca estou em casa a esta hora. Estou no servi\u00e7o, percebe? Sou um homem ocupado.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente, respondeu Juli\u00e3o Tavares. Uma vida cheia, uma vida nobre, dedicada ao trabalho.<\/p>\n<p>S\u00f3 a pontap\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bonito, seu doutor.<\/p>\n<p>Ultimamente, embora repugnado, eu o tratava por voc\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Uma coisa \u00e9 jogar frases em cima do trabalho alheio, outra \u00e9 pegar no pesado.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares fechou a cara: &#8211; Todos n\u00f3s temos as nossas obriga\u00e7\u00f5es, homem.<\/p>\n<p>Cada qual sabe onde o sapato lhe aperta.<\/p>\n<p>Olhei os p\u00e9s dele, e o meu \u00f3dio aumentou: &#8211; Os seus n\u00e3o devem apertar muito.<\/p>\n<p>&#8211; Acha? Baixei a cabe\u00e7a, mordi os bei\u00e7os para n\u00e3o grital os desaforos que me subiam \u00e0 garganta e que eu en golia, pus-me a marchar na sala estreita, batendo os calcanhares com for\u00e7a. De uma parede a outra qua- tro passos. A porta, que tinha ficado aberta, mostra- va-me os paralelepfpedos, as sarjetas, as pernas dos transeuntes, s\u00f3 as pernas, porque, como j\u00e1 disse, eu tinha a cabe\u00e7a baixa. A minha curiosidade se concen- trava nos sapatos dos transeuntes. Passaram os taman- cos de um carregador, os chinelos de Ant\u00f3nia, umas bot\u00ednas velhas que julguei serem de Lobisomem. A cr\u00edan\u00e7as de d. Ros\u00e1ll\u00eda corriam e gritavam, mas esta- vam descal\u00e7as.<\/p>\n<p>Lembrei-me da fazenda de meu av\u00f4. As cobras se arrastavam no p\u00e1tio. Eu juntava punha,dos de seixos mi\u00fados que atirava nelas at\u00e9 mat\u00e1-las. As vezes a brin- cadeira se prolongava, mas afina,l as cobras morriam, e perto dos cad\u00e1veres ficavam montes de pedras. Certo dia uma cascavel se tinha enrolado no pesco\u00e7o do velho Trajano, que dormia no banco do copiar. Eu olhava \u00fce longe aquele enfeite esquisito. A cascavel chocalha- va, Trajano dan\u00e7ava no ch\u00e3o de terra batida e gri tava: &#8211; &#8220;Tira, tira, tira.&#8221; As alpercatas de Amaro va queiro iam do curral dos bois \u00e3o chiqueiro de cabras, Em dias de pega Camilo Pereira da Silva desenrosca va-se, vestia o gib\u00e3o, cal\u00e7ava as perneiras. O barbica cho do chap\u00e9u de couro terminava debaixo do queixc numa borla que lhe fazia uma barbinha rid\u00efcula. Assin paramentado, Camflo Pereira da Silva andava emproa do como um galo, e as rosetas das esporas de ferrc tilintavam.<\/p>\n<p>Levantei a cabe\u00e7a. Juli\u00e3o Tava,res sorria e conti nuava a derramar a voz azeitada. Perto, pancadas di ferro tinindo. Eram as picaretas dos calceteiros qm deslocavam as pedras da rua, consertavam o cal\u00e7a mento. No fim de uma daquelas viagens de quatro pas sos eu via, a alguns metros de dist\u00e2ncia, um mont\u00e2 ?6 de paralelepipedos que a poeira cobria. E, nessa nu- vem de poeira, figuras curvadas, movendo-se. Desejei atirar todos aqueles paralelepfpedos em cima de Juli\u00e3o Tavares.<\/p>\n<p>Tornei a bafxar a cabe\u00e7a, desanimado, continuei a olhar os p\u00e9s dos raros transeuntes que passavam na rua. Ia e vinha. Um, dois, um, dois &#8211; meia-volta. Este exercicio era irritante. A porta escancarada convidar va-me a abandonar tudo, a sair sem destino &#8211; um, dois, um, dois &#8211; e n\u00e3o parar t\u00e3o cedo. Nenhum sar- gento me mandaria fazer meia-volta. Os meus passos me levariam para oeste, e \u00e0 medida que me embre- nhasse no interior, perderia as peias que me impuse- ram, como a um cavalo que aprende a trotar. Tor- nar-me-ia de novo meio cigano, meio selvagem, anda- ria numa corrida vagabunda pelas fazendas sertane- jas, ouviria as cantigas dos cantadores e as conversas das velhas nas fontes, veria \u00e0 beira dos caminhos es- treitos pequenas cruzes de madeira, as mesmas que vi h\u00e1 muitos anos, enfeitadas de flores secas e fitas des- botadas. Indicaria uma delas, estirando o bei\u00e7o. Quem teria morrido ali? E algu\u00e9m me informaria, repetindo as hist\u00f3rias dos cantadores e as conversas das velhas nas fontes: &#8211; &#8220;Um sujeito que namorou a noiva de outro.&#8221; Estremeci. Os meus dedos contrafram-se, move- ram-se para Juli\u00e3o Tavares. Com um salto eu poderfa agarr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Pensei em seu Evaristo e na cobra enrolada no pesco\u00e7o do velho Trajano. Parei no meio da sala, ater- rado com a imagem medonha que me apareceu. O pes- co\u00e7o do homem estirava-se, os ossos afastavam-se, os bei\u00e7os entreabriram-se, roxos, intumescidos, mostran- do a l\u00edngua escura e os dentinhos de rato.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 doente? perguntou-me Juli\u00e3o Tavares.<\/p>\n<p>Suponho que a minha resposta foi despropositada.<\/p>\n<p>0 rapaz levantou-se, aproximou-se, e eu me desviei dele com um palavr\u00e3o. N\u00e3o me lembro do que disse, mas sei perfeitamente que terminei com um palavr\u00e3o obsce- no. Juli\u00e1o Tavares aprumou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Puta que o pariu, resmunguef.<\/p>\n<p>?7 Parece que ele ouviu. Mas fingiu que n\u00e3o tinha ouvido. Agarrou o chap\u00e9u e saiu.<\/p>\n<p>&#8211; Bonitol E pus-me a esfregar as m\u00e3os: &#8211; Por causa de uma guenza de maus costumes estar um homem a aperrear-se. Enrolem-se, durmam, danem-se, v\u00e3o para a casa do diabo.<\/p>\n<p>Fui \u00e0 cozinha e conversei um minuto com o Curru- paco.<\/p>\n<p>&#8211; O jantar est\u00e1 na mesa, disse Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Entrei na sala de jantar, bebi um pouco de aguar- dente, fiquei um instante olhando, por cima do muro, a mulher que lava garrafas e o homem que enche dornas.<\/p>\n<p>A sombra da mangueira ia cobrindo o quintal.<\/p>\n<p>&#8211; As moscas est\u00e3o comendo o jantar, gritou Vi- t\u00f3ria.<\/p>\n<p>Cheguei-me \u00e0 mesa, bebi mais um trago de aguar- dente e tomei o caminho da rua. Marina estava \u00e0 ja- nela : &#8211; Que \u00e9 isso? Vai com tanta pressa! Fale com os pobres.<\/p>\n<p>Pareceu-me contrafeita. Sem-vergonha.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o matei seu boi n\u00e3o, mo\u00e7o. Me largue.<\/p>\n<p>` Passeei \u00e0 toa pelas ruas, parando em frente \u00e0s vitrinas, com a tenta\u00e7\u00e3o de destruir os objetos expos- tos. As mulheres que ali estavarr em pasmaceira, ad- mirando aquelas porcarias, mereciam chicote. Fui ao jornal, li os telegramas. Eram not\u00edcias sem import\u00e2n- cia, mas julguei perceber nelas graves sintomas de de- composi\u00e7\u00e2o social. Estive olhando sem ler os cartazes do cinema, entrei maquinalmente. O porteiro sabe que trabalho na imprensa e n\u00e3o pediu bilhete de ingresso.<\/p>\n<p>Na sala de proje\u00e7\u00e3o fiquei de p\u00e9, ao fundo, por baixo da cabina, sem ver a tela. Nunca presto aten\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas, n\u00e3o sei para que diabo quero olhos. Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como s&#8217;ou vaidoso e como sou besta! Caminhei tanto, e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota.<\/p>\n<p>Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois, finda a proje\u00e7\u00e3o, instruir-me vendo as caras. Sou uma besta.<\/p>\n<p>Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pe- ?8 queno mundo desaba. A safda encontref Mois\u00e9s enco tado a um poste de ilumina\u00e7\u00e3o, lendo um jornal.<\/p>\n<p>&#8211; Acabe com essa literatura, Mois\u00e9s, exclamef im- paciente. N\u00e2o serve.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s dobrou a folha, sorrindo: &#8211; Que hist\u00f3ria \u00e9 essa? &#8211; E o que lhe digo. N\u00e3o serve. A linguagem es- crita \u00e9 uma safadeza que voc\u00eas inventaram para engar nar a hurranidade, em neg\u00f3cios ou com mentiras.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo tem voc\u00ea? perguntou Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 nada n\u00e3o. E que nso vale a pena, acre- dite que n\u00e3o vale a pena. Uma pessoa passa a vida remoendo essas bobagens. Tempo perdido. Uma crfan\u00e7a mete a gente num chinelo, Mois\u00e9s; qualquer imbecil mete a gente num chinelo, Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>As onze horas achava-me encostado a uma banca do Helv\u00e9tica, bebendo aguardente e n\u00e2o distinguindo bem as pessoas que se serviam nas outras mesas, fun- cion\u00e1rios, pol\u00edticos, negociantes, choferes, prostitutas.<\/p>\n<p>Uma criaturinha magra empurrou uma das portinho- las que d\u00e3o para a Igreja do Livramento, avan\u00e7ou de manso. Ningu\u00e9m lhe prestou aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pst. Senta af.<\/p>\n<p>Chegou-se acanhada e esperou a repeti\u00e7\u00e3o do con- vite.<\/p>\n<p>&#8211; Senta af.<\/p>\n<p>Sentou-se. O peito era uma t\u00e1bua, os bra\u00e7os finos, as pernas uns cambitos, que nem sei como ag\u00fcenta- vam o corpo. A carinha n\u00e3o era feia, talvez tivesse sido bonita.<\/p>\n<p>&#8211; Beba alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, muito obrigada.<\/p>\n<p>E espalhou a vista pelas mesas.<\/p>\n<p>&#8211; Procurando algn\u00e9m? &#8211; Era. Parece que ele hoje n\u00e2o vem. J\u00e1 \u00e9 t\u00e3o tarde! &#8211; Onde mora? &#8211; Aqui na Rua da Lama. \u00c9 perto.<\/p>\n<p>E mostrou a chave que trazia na m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Beba alguma coisa, insisti.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, eu n\u00e3o bebo.<\/p>\n<p>Tossia e olhava a porta da cozinha.<\/p>\n<p>?9 &#8211; Um petisco.<\/p>\n<p>Pimentel entrou na sala e perguntou-me ao ouvido: &#8211; Onde arranjou esse canh\u00e3o? Coitadinha. N\u00e3o era feia, o que estava era estra- gada.<\/p>\n<p>&#8211; Aceite.<\/p>\n<p>A criatura hesitava, afogueada. Afinal se resolveu: &#8211; Muito obrigada. Eu aceito. O senhor vai comi- go, n\u00e3o? E aqui pertinho.<\/p>\n<p>Comeu de cabe\u00e7a baixa, em sil\u00eancio, e repetiu o prato. S\u00f3 falou ao terminar o caf\u00e9: &#8211; Vamos? Meti a m\u00e3o no bolso e lembrei-me de que me res- tava uma c\u00e9dula de vinte mil-r\u00e9is. Recebi o troco e levantei-me.<\/p>\n<p>&#8211; Vai com.igo? tornou a perguntar a mulher.<\/p>\n<p>Bebi o resto da aguardente: ; &#8211; Vamos l\u00e1.<\/p>\n<p>No quartinho sujo a rapariga despiu-se e veio abra- \u00e7ar-me desajeitada. O cabelo tinha um \u00f3leo de cheiro enjoativo.<\/p>\n<p>&#8211; Esteja quieta.<\/p>\n<p>E afastei-me, sentei-me na cama, sem tirar o chap\u00e9u. Ela acomodou-se, as pernas cruzadas, os bra- \u00e7os cruzados escondendo os peitos bambos. Curvada, mostrava apenas um peda\u00e7o da barriga engelhada e escura.<\/p>\n<p>&#8211; Anda na vida h\u00e1 muito tempo? &#8211; Nem por isso. Quatro anos.<\/p>\n<p>&#8211; An.<\/p>\n<p>Quatro anos. E ali estava aquela carca\u00e7a comida pelo treponema. Panos ca\u00eddos no ch\u00e3o, o irrigador com permanganato. Na mesinha da cabeceira ess\u00eancias or- din\u00e1rias disfar\u00e7avam um cheiro forte de esperma. Tive necessidade de fumar. Encontrei cigarros, mas procurei f\u00f3sforos em todos os bolsos, e o que achei foi o pacote com as caixinhas de veludo &#8211; o rel\u00f3gio-pulseira e o anel.<\/p>\n<p>&#8211; Faz o obs\u00e9quio de me arranjar uma caixa de f\u00f3sforos?<\/p>\n<p>A mulher levantou-se. Escanzelada, coxas finas &#8216; com marcas de varizes, n\u00e1degas murchas. Chi! que pe- ! leiro! &#8211; Muito obrigado.<\/p>\n<p>Acendi o cigarro. A mulher sentou-se junto de \u00cd mim e come\u00e7ou o seu trabalho de abra\u00e7os, beijos, etc &#8211; Esteja quieta.<\/p>\n<p>Meti a m\u00e3o no bolso, senti atrav\u00e9s do papel da ; seda a macieza do veludo. A fita do rel\u00f3gio faria uma cinta negra no bra\u00e7o roli\u00e7o, um bra\u00e7o macio como ve- ludo. Os beijos come\u00e7avam no pulso, onde a fita se enrolaria. O tique-taque seria do rel\u00f3gio ou do sangue correndo na art\u00e9ria? Na escurid\u00e3o do quintal os meus bei\u00e7os avan\u00e7avam na pele, que se cobria de borbulhas pequenas como pontas de alfinetes.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre foi assim magra? &#8211; Ah! n\u00e3ol respondeu as mulher ocultando as pe- Iancas dos peitos com os cotovelos ossudos. Era cheia, gordinha.<\/p>\n<p>Acariciei com as pontas dos dedos o papel de seda.<\/p>\n<p>A mulher bocejava, caceteada. Que horas seriam? Tal- vez uma hora. A folhagem da mangueira estendia um pretume no quintal. Os mais insignificantes rumores cresciam: o salto dos grilos nos canteiros, a queda das folhas, o trabalho das formigas. A luz vermelha do farol espalhava-se pelo telhado. Um minuto depois n\u00e3o era vermelha, era branca- Us\u00e1vamos precau\u00e7\u00f5es exces- sivas, rece\u00e1vamos que os nossos suspiros fossem ouvi- dos nas casas fechadas.<\/p>\n<p>&#8211; Parece que isso rende pouco, hem? perguntei abarcando com a vista a mesinha, o espelho rachado, o irrigador, as camisas sujas, toda a mis\u00e9ria do quarto.<\/p>\n<p>A mulher teve um gesto de esmorecimento: &#8211; E ent\u00e3o! N\u00e3o est\u00e1 vendo? &#8211; E. N\u00e3o se da. Por que n\u00e3o arranja outra vida? Levantou os ombros, quase agastada: &#8211; Ora outra vida! Que vida? Sempre os mesmos conselhos. Daqui s\u00f3 para a cova.<\/p>\n<p>Realmente, coitada, dali era para a cova, com es- cala pelo hospital. Infelicidade. Eu \u00e9 que me podia 81 conslderar um sujeito feliz. Repetia isto maquinal- mente, enquanto apalpava as caixinhas de veludo. Sol- tei-as com raiva, ergui-me, esfreguei as m\u00e3,os. O senti- do das palavras que me dan\u00e7avam no esp\u00edrito tornou-se claro. Perfeitamente, um sujeito feliz. Que \u00e9 que me faltava? Livre. Se me viesse aquela desgra,\u00e7a depois do casamento? A sem-vergonha, admiradora de d. Merce- des, tinha feitio para cornear marido mais vigilante que eu. &#8211; &#8220;D. Mercedes \u00e9 linda, parece uma artista de &#8216;cinema.&#8221; Sem-vergonha. Recuperava a minha liber- dade. Muito bem. Fazia tempo que n\u00e3o freq\u00fcextava as mulheres. Pois estava em casa de uma. O pior \u00e9 que so me restavam catorze mil-r\u00e9is e uns niqueis. J di- nheiro tinha voado, tinha-se esbaga\u00e7ado, virara cami- sas de seda, po-de-arroz. Dos males o menor.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e3o-se os an\u00e9is, fiquem os dedos.<\/p>\n<p>Magn\u00edfica solu\u00e7\u00e3o. Liberdade, liberdade completa.<\/p>\n<p>Pus-me a cantar estupidamente, batendo com os edos na t\u00e1bua da mesinha: Liberdade, liberdacle Abre as asas sobre n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 indisposto? perguntou a mulher. E bom deitar-se, descansar. Vamos dormir.<\/p>\n<p>Dormir, que lembran\u00e7a! &#8211; N\u00e3o, adeus. Est\u00e1 aqui. N\u00e3o lhe dou mai.a por que n\u00e3o tenho, ouviu? Desculpe.<\/p>\n<p>A criatura recusou os dez mil-r\u00e9is que Ihe apre sentei: ; &#8211; Pode guardar. N\u00f3s n\u00e3o fizemos nada. Al\u00e9m dissc pagou a ceia. Eu estava com fome.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhora. Receba. E o que tenho.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigada. J\u00e1 n\u00e3o lhe disse que n\u00e3o aceito \u00ef Eu estava com fome.<\/p>\n<p>Encolerizei-me de verdade e despropositei: &#8211; N\u00e3o me fa\u00e7a cometer um desatino. A senYzora E ; rel\u00f3gio para trabalhar de gra\u00e7a? A senhora tem obri ga\u00e7\u00e3o de andar nua diante de mim? Duas horas d chatea\u00e7\u00e3o, de conversa mole! A senhora \u00e9 rel\u00f3gio? A se nhora n\u00e3o \u00e9 rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>82 A mulher recebeu o dinheiro, espantada. Julgou-me doido, suponho. Realmente as \u00faltimas palavras me ha- viam tornado furioso.<\/p>\n<p>* * * Marina me explicou muito direitinho que eu n\u00e3o tinha raz\u00e3o. O que tinha era falta de confian\u00e7a nela.<\/p>\n<p>Chorou, e fiquei meio l\u00e1, meio c\u00e1, propenso a acreditar que me havia enganado.<\/p>\n<p>&#8211; Posso obrigar uma pessoa a n\u00e3o olhar para mim? Posso furar os olhos do povo? N\u00e3o senhora. A coisa era diferente. Eles tinham sido pegados com a boca na botija, grelando, esquecidos do mundo. Tinham ou n\u00e3o tinham? Sim senhor, mas sem mal\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8211; Posso furar os olhos do povo? Esta frase besta foi repetida muitas vezes, e, em falta de coisa melhor, aceitei-a. Sem d\u00favida. As mulhe- res hoje n\u00e3o vivem como antigamente, escondidas, evi- tando os homens. Tudo \u00e9 descoberto, cara a cara. Uma pessoa topa outra. Se gostou, gostou : se n\u00e3o gostou, at\u00e9 logo. E eu de fato n\u00e3o tinha visto nada. As apar\u00eancias mentem. A terra n\u00e3o \u00e9 redonda? Esta prova da ino- c\u00eancia de Marina me pareceu consider\u00e1vel. Tantos indi- vfduos condenados injustamente neste mundo ruim! O retirante que fora encontrado violando a filha de quatro anos &#8211; estava a\u00ed um exemplo. As vizinhas ti- nham visto o homem afastando as pernas da menina, todo o mundo pensava que ele era um monstro. Engano.<\/p>\n<p>Quem pode l\u00e1 jurar que isto \u00e9 assim ou assado? Pro- curei mesmo capacitar-me de que Juli\u00e3o Tavares n\u00e3o existia. Juli\u00e3o Tavares era uma sensa\u00e7\u00e3o. Uma sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel, que eu pretendia afastar de minha casa quando me juntasse \u00e0quela sensa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel que ali estava a choramigar.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, minha filha, n\u00e3o vale a pena falar mais nisso. Enxugue os olhos. Se voc\u00ea diz que n\u00e3o foi, n\u00e3o foi. Acabou-se, n\u00e3o se discute. Est\u00e1 aqui uma lem- brancinha que eu lhe trouxe. Vamos ver se fica bonito.<\/p>\n<p>Marina .desembara\u00e7ou-se das lam\u00farias, passou a uma alegria ruidosa. Muitos agradecimentos, uns beijos 83 ainda com a cara molhada. Estranhei aquela, mudan\u00e7a repentina.<\/p>\n<p>&#8211; Nervoso. Quando casar, endireita.<\/p>\n<p>Marina examinava o rel\u00f3gio e o anel: levantava a m\u00e3o, afa,stava-a, aproximava-a.<\/p>\n<p>&#8211; Uma beleza. Voc\u00ea tomando inc\u00f4modo! Inc\u00f4modo! Eu estava com o bolso pegando fogo E devendo cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is ao Pimentel.<\/p>\n<p>&#8221; &#8211; N\u00e3o se preocupe. O que precisamos \u00e9 acertar essa hist\u00f3ria do casamento. Quando \u00e9 isso? Respondeu vagamente. Andava bordando uma: guarni\u00e7\u00f5es, preparando umas almofadas. E faltavarr certas coisas. Impacientei-me: &#8211; Se voc\u00ea s\u00f3 decidir quando tiver tudo . . . Assirr ningu\u00e9m acaba. Vamos marcar o dia. Valeu? D\u00ea um nota dos tro\u00e7os que faltam.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez fosse melhor eu fazer a compra.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. Talvez fosse, gaguejei aflito. Eu vou se franco. Estou na pinda\u00edba, ouviu? E necess\u00e1rio a gentE escolher mercadoria barata.<\/p>\n<p>Esperei que minha noiva se conformasse com a si tua\u00e7\u00e3o. Baixou a eabe\u00e7a, e as partes do rosto que n\u00e3c estavam pintadas empalideceram: &#8211; B\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00ea c\u00e1 a nota.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea? Assim com essa pobreza. . .<\/p>\n<p>&#8211; Deixa disso, murmurei ressentido. Donde verr i tanto luxo? Riqueza n\u00e3o tenho, mas para vivermo; com dec\u00eancia o que h\u00e1 chega. D\u00e1 c\u00e1 a nota.<\/p>\n<p>Marina entregou-me l\u00e1pis e papel, ditou coisa: absurdas, com um risinho ruim, e eu percebi nela a in ten\u00e7\u00e3o perversa de me humilhar. Quando falou err tapetes e tape\u00e7arias, n\u00e3o me contive: &#8211; Oh! Isso tamb\u00e9m \u00e9 demais. Eu estava fazendc das fraquezas for\u00e7as, compreenda. Diga os objetos in dispens\u00e1veis. Meu av\u00f4 n\u00e3o possu\u00eda tapetes e foi uxr homem feliz.<\/p>\n<p>&#8211; Naquele tempo era diferente, respondeu Ma rina.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>84 N\u00e1o escrevi as tape\u00e7arias, terminei a nota e de pedi-me bastante aperreado. Tudo aquilo estava fora dos eicos. Mais tarde encontrei Mois\u00e9s: &#8211; Olhe c\u00e1. 8eu tio me querer\u00e1 vender estas por- carias a cr\u00e9dito? &#8211; Esse neg\u00f3cio de presta\u00e7\u00f5es \u00e9 por pre\u00e7o horri- rel, disse Mois\u00e9s. Era melhor voc comprar a dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Mas se n\u00e3o tenho! Fstou na quebradeira, Moi- a\u00e9s. Mande as iasendas.<\/p>\n<p>Assim, acabei de encalacrar-me. Marina recebeu os panos iriamente, insensivel ao sacrificio que eu iazia, aquela ingrata. Se eu n\u00e3o tivesse cataratas no enten- dimento, teria percebido logo que ela estava com a ca- be\u00e7a virada. Virada para um sujeito que podia pagar-lhe camisas de seda, meiaa de seda. Que valiam os tecidos grosseiros comprados ao velho Abra\u00e3o, ou Salom\u00e3o, o tio de Mois\u00e9s? Nem olhou os pobres trapos, que \u00fcca- ram em cima de uma cadeira, esquecidos.<\/p>\n<p>Lembro-me perieitamente da cena muda que hou- ve naquela tarde. 8entada, a cabe\u00e7a ca\u00edda para o en- costo da cadeira, aa pernas cruzadas, os dedos cruzados num joelho, n\u00e3o me via, era como se estivesse s\u00f3. A cara parada mostrava cansa\u00e7o, enjbo. De longe em longe batia com o calcanhar no ch\u00e3o. A saia esticada exibia a coxa, mas a minha aten\u00e7\u00e3o se concentrava nos bra- \u00e7os e nos dedos. N\u00e3o trazia o rel\u00f3gio nem o anel que eu lhe tinha oferecido na v\u00e9spera. Isto me desapon- tava, arrancava-me pragas e insultos, que eu engolia com medo de praticar uma viol\u00f3ncia &#8211; &#8220;Ordin\u00e1ria! Arrasa-se a gente para ser agrad\u00e1vel a uma peste as- sim, e o resultado \u00e9 este : coice. Ordin\u00e1ria. Safada.&#8221; Desejei falar novamente em Juli\u00e3o Tavares, mas temi n\u00e3o convencer-me de que me havia enganado. O rost\u00f3 im\u00f3vel, como se eu ni\u00efo estivesse ali. As m\u00e3os \u00fcnas cruzadas sobre o joelho. Ia escurecendo. Aquela hora ssu Ramalho, coberto de azeite, abreriaa os dias no calor da usina el\u00e9trica, limando bmn8es. D. Ad\u00e9lia, na cozinha, enchio- se de fuma\u00e7a, envenenava-se. Marina permanecia im\u00f3vel. Que \u00e9 que eu estava iazendo, na- quele constrangimento, olhando o pacote aberto, estri- pado, em cima de uma cadeira? As entreristas no quin- tal eram coisas muito antigas. O rel\u00f3gio e o anel ti- 85 nham sido oferecidos na v\u00e9spera, mas eram antigos tamb\u00e9m. E parecia-me que tinham sido dados a outra pessoa. Em que estaria pensando Marina? Agora eu n\u00e3o lhe via o rosto: as fei\u00e7\u00f5es dilufam-se na escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Sentia-me atordoado, com um n\u00f3 na garganta. Se fa- lasse, diria inj\u00farias. Uma ingratid\u00e3o assim! N\u00e2o espe- rava aquilo. Fatos e indiv\u00edduos desencontrados, velhos e novos, fervilhavam-me na cabe\u00e7a, misturavam-se. No cop:ar da fazenda Jos\u00e9 Ba\u00eda explicava-me as virtudes da ora\u00e7\u00e3o da cabra preta. Sen Evaristo balan\u00e7ava, pendurado num galho de carrapateira. Berta me havia segurado um bra\u00e7o e arrastado at\u00e9 a escada. E eu, agarrando-me ao corrim\u00e3o: &#8211; &#8220;Madame, a senhora n\u00e3o est\u00e1 vendo que n\u00e3o posso encostar-me a uma cria- tura da sua marca?&#8221; Tavares &amp; Cia., negociantes de secos e molhados na Rua do Com\u00e9rcio, vestidos de brim de linho, viviam escondidos por detr\u00e1s dos fardos e eram uns ratos. &#8211; &#8220;Escrevi muito atacando a primei- ra rep\u00fablica, doutor. As minhas opini\u00f5es s\u00e3o conhe- cidas.&#8221; Pobre da mulher da Rua da Lama. Rondando as mesas, com fome, \u00e0s onze horas da noite.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Parece que me vou embora, Marina. Boa noite.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vai? perguntou Marina sem se mexer.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1.<\/p>\n<p>Saf resmungando: &#8211; Escolher marido por dinheiro. Que mis\u00e9ria! N\u00e3o h\u00e1 pior esp\u00e9cie de prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>* * * Porque foi que aquela criatura n\u00e3o procedeu com franqueza? Devia ter-me chamado e dito: &#8211; &#8220;Lu\u00eds, va- mos acabar com isto. Pensei que gostava de voc\u00ea, en- ganei-me, estou embei\u00e7ada por outro. Fica zangado comigo?&#8221; E eu teria respondido: &#8211; &#8220;N\u00e3o fico n\u00e3o, Ma- rina. Voc\u00ea havia de casar contra a vontade? Seria um desastre. Adeus. Seja feliz.&#8221; Era o que eu teria dito.<\/p>\n<p>Sentiria despeito, mas nenhuma desgra\u00e7a teria acon- tecido. Lembrar-me-ia de Marina com vaidade, at\u00e9 com orgulho: &#8211; &#8220;Sim senhor, gostei de uma mulher de 86 i, car\u00e1ter, mulher de cabelo na venta.&#8221; N\u00e3,o seria esta mis\u00e9ria, esta recorda\u00e7\u00e3o de coisas mesquinhas.<\/p>\n<p>De todo aquele romance as particularida,des que melhor guardei na mem\u00f3ria foram os montes de cisco, a \u00e1gua empapando a terra, o cheiro dos monturos, urubus nos galhos da mangueira farejando ratos em decomposi\u00e7\u00e3o no lixo. T\u00e3o morno, t\u00e3o chato! Nesse ambiente empestado Marina continuava a oferecer-se negaceando. Conservava-me preso, fazendo gatimanhos, esticando a saia estreita que lhe mostrava bem as coxas e as n\u00e1degas.<\/p>\n<p>&#8211; Marina, esse procedimento \u00e9 incorreto. Porque n\u00e3o me larga? D\u00ea o fora, desocupe o beco.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 roendo courana. Coitadinho dele.<\/p>\n<p>N\u00e3o tornamos a falar em casamento. Creio que ela procedeu assim por h\u00e1bito. Ou talvez quisesse pa- gar os objetos que tinham esgotado a minha fortuna.<\/p>\n<p>Mas ia-se distanciando, e eu n\u00e3o podia agarr\u00e1-la. As vezes ficava trombuda, aparentando gravidade. As dis- tra\u00e7\u00f5es eram constantes, aquele modo de se descango- tar, abrir a boca e olhar por cima da cabe\u00e7a da gente.<\/p>\n<p>Isto me amarrava e atenazava. Presumo que a inten\u00e7\u00e3o dela era desembara\u00e7ar-se de mim lentamente, ou desem- bara\u00e7ar-se ela pr\u00f3pria do costume que havia adquirido.<\/p>\n<p>A tarde eram aqueles maneios, mas pela manh\u00e3, quando eu sa\u00eda para a reparti\u00e7\u00e3o, plantava os coto- velos na janela e enxeria-s\u00e9 com Juli\u00e3o Tavares. Uma vez por semana eu largava o servi\u00e7o antes do meio-dia, s6 para peg\u00e1-los. Ao dobrar a Rua Augusta, avistava Juli\u00e3.o Tavares na prosa com ela, vermelho, soprando, derretendo-se, a roupa de brim com manchas de suor nos sovacos. Vendo-me, o cana,lha voltava as costas, porque estava intrigado comigo. Abri-me com d. Ad\u00e9- lia, comentei aquele esc\u00e2ndalo: &#8211; A senhora aprova o comportamento de sua filha? D. Ad\u00e9lia torceu as m\u00e3os, engoliu em seco e res pondeu numa atrapalha\u00e7\u00e3o: &#8211; a mocidade.<\/p>\n<p>Perdi os estribos: &#8211; Que mocidade! E sem-vergonheza. N\u00e3o lhe in- vejo a sorte, d. Ad\u00e9lia. Sua filha acaba mal.<\/p>\n<p>8? &#8211; Quem tem fam\u00edlia est\u00e1 sujefto a tudo, seu Lufs.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m deve dizer &#8220;Deste p\u00e3o n\u00e3o comere\u00ed nem desta \u00e1gua beberei.&#8221; &#8211; N\u00e3o deve n\u00e3o, d. Ad\u00e9lia. E uma tristeza. A se- nhora lavando, engomando, cozinhando, e seu Rama- lho na quentura da usina el\u00e9trica, matando-se para sustentar os luxos daquela tonta. Sua filha n\u00e3o tem , cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Muito nova, dizia a m\u00e3e. Depois endirefta. Quan- do casar, endire\u00edta.<\/p>\n<p>&#8211; E a senhora pensa que h\u00e1 no mundo um trouxa que se engane com ela? N\u00e3o casa n\u00e3o, d. Ad\u00e9lia. Aque- la d\u00e1 com os burros na \u00e1gua.<\/p>\n<p>D. Ad\u00e9lia tinha l\u00e1grimas na voz e gaguejava fra- ses truncadas: &#8216; &#8211; Ent\u00e2o.. . Eu n\u00e3o sabia. Uma coisa apalavra- da&#8230; N\u00e3o h\u00e1 rnotivo, seu Lu\u00eds, acredite que n\u00e3o h\u00e1 motivo. Porque foi? Eu sentia prazer em atormentar a pobre da velha: &#8211; D. Ad\u00e9lia, olhe para a minha cara. A senhora me acha com jeito de corno? &#8211; Deus me livre, seu Lufs, exclamava a mulher recuando e arregalando os olhos. Eu havia de achar semelhante barbaridade? &#8211; Ent\u00e3o, se n\u00e2o me acha com jeito de corno, n\u00e2o me fa\u00e7a perguntas dessa natureza.<\/p>\n<p>O meu desejo era desligar-me daquela gente, pas- sar calado, carrancudo, as m\u00e3os nos bolsos, o chap\u00e9u embicado. Esfor\u00e7ava-me por me dedicar \u00e0s minhas ocupa\u00e7\u00f5es cacetes: escrever elogios ao governo, ler ro- ;.&#8217; mances e arranjar uma opni\u00e3o sobre eles. N\u00e3o h\u00e1 ma- \u00e7ada pior. A princ\u00edpio a gente l\u00ea por gosto. Mas quan- do aquilo se torna obriga\u00e7\u00e3o e \u00e9 prec\u00edso o sujeito dizer se a coisa \u00e9 boa ou n\u00e2o \u00e9 e porque, n\u00e3o h\u00e1 livro que n\u00e3o seja um estrupfcio.<\/p>\n<p>,.<\/p>\n<p>O que eu devia fazer era mudar de casa,. Esta \u00e9 inconveniente, cheia de barulhos, parece mal-assom- brada. Os ratos n\u00e3o me deixavam fixar a aten\u00e7\u00e3o no trabalho. Eu pegava o papel, e eles corne\u00e7avam a dar uns gritinhos que me aperreavam. Tinham aberto um buraco no guarda-comidas, viviam l\u00e1 dentro, numa chiadeira infernal. As vezes havia um cheiro de po- 88 drid\u00e3o. Vit\u00f3ria se enfrenesiava, andava para cima e para baixo, manejando um regador com \u00e1gua e creo- lina, molhando tudo. Mas o fedor resistia. Afinal \u00edamos encontrar o arm\u00e1rio dos livros transformado em cemi- t\u00e9rio de ratos. Os miser\u00e1veis escolhiam para sepultura as obras que mais me agradavam. Antes, por\u00e9m, fa- ziam um sarapatel feio na papelada. Mijavam-me r literatura toda, comiam-me os sonetos in\u00e9ditos. Eu n\u00e3o podia escrever.<\/p>\n<p>Os grilos n\u00e3o me incomodavam, escrevo perfeita- mente ouvindo os grilos. Havia uma orquestra deles, mas eu nem os notava. Saltavam-me em cima do pa- pel, eu dava-lhes piparotes, e eles desapareciam.<\/p>\n<p>Os ratos \u00e9 que me ro\u00edam a paci\u00eancia. Corrote, corrote &#8211; era como se roessem qualquer coisa dentro de mim. Lembrava-me do tempo em que andava pelas ruas sentindo o cheiro das mulheres. Miudinhos, de- viam ser catitas. Corriam pela sala de jantar, vinham mexer nos meus chinelos, sem medo, sem vergonha.<\/p>\n<p>Levantava-me, abria as portas do guarda-comidas, sal- tavam tr\u00eas, quatro, que se escapuliam para os buracos das paredes. Voltavam, assustados, ganhavam confian- \u00e7a, aproximavam-se, bonitinhos, os olhos vivos e as orelhas arrebitadas. O meio de obrig\u00e1-los ao sil\u00eancio durante uns minutos era espalhar na sala peda\u00e7os de miolo de p\u00e3o, que eles dev\u00f5ravam depress\u00e1. Casa in- fame. E dr. Gouveia cobrava-me cento e vinte mil-r\u00e9is de aluguel! De quando em quando o madeiramento bichado estalava.<\/p>\n<p>&#8211; Qualquer dia esta cumeeira vem abaixo, gemia Vit\u00f3ria. Porque \u00e9 que o senhor n\u00e3o se muda? As noites eram medonhas. Os galos marcavam o tempo, importunavam mais que os rel\u00f3gios. E os ratos n\u00e3o descansavam. Enquanto alguns ro\u00edam a madeira do guarda-comidas, outros deviam estar l\u00e1 dentro no arm\u00e1rio, devastando os manuscritos, morrendo na lite- ratura. Fogo nos livros imundos. Mas a casa enchia-se de pulgas. O gato amava nos telhados, gato ordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Uns miados estridentes, indiscretos: &#8211; &#8220;Rasga, diabo!&#8221; Marina, quando se excitava, enrolava-se como uma gata e miava. Miava baixinho, para n\u00e3o acordar a vizi- nhan\u00e7a.<\/p>\n<p>89 Irritava-me um som de armadores de rede. Em \u00e1 noites de calor Marina dormia em rede, balan\u00e7ava-se.<\/p>\n<p>Os armadores rangiam. O que eu precisava era ler um romance fant\u00e1stico, um romance besta, em que os homens e as mulheres fossem cria\u00e7\u00f5es absurdas, n\u00e3,o andassem magoando-se, traindo-se. Hist\u00f3rias f\u00e1ceis, sem almas complicadas. Infelizmente essas leituras j\u00e1 n\u00e3o me comovem.<\/p>\n<p>Os armadores continuavam a ranger. Provavel- mente estava deitada de costas, as pernas cafdas, os p\u00e9s no ch\u00e3o dando o impulso para o balan\u00e7o. Talvez estivesse nua por causa do calor.<\/p>\n<p>Seu Ramalho tossia. D. Ad\u00e9lia descansava na cama dura a arma\u00e7\u00e3o fatigada.<\/p>\n<p>Ou n\u00e3o descansava. Era possfvel que fizesse contas, aperreada &#8211; tanto para o aluguel da casa, tanto para o mercado, tanto para a luz, tanto para a roupa. Vit\u00f3- ria tamb\u00e9m calculava, resmungando. Os n\u00fameros mis- turavam-se ao canto dos galos e ao chiar dos ratos. No princ\u00edpio do m\u00eas iria revolver as pratas enterradas no ,.i .<\/p>\n<p>canteiro das alfaces, na raiz da mangueira, ao h\u00e9 da cerca. N\u00e3o havia agora ningu\u00e9m l\u00e1. Bichos mi\u00fados i apenas, grilos, formigas.<\/p>\n<p>Em que estaria pensando Marina? Provavelmente no outro. Um sujeito gordo, vermelho, suado, bexn fa- lante, de olhos abotoados. Seria poss\u00edvel que ela gos- tasse daquilo? Seu Ramalho tossia. Assaltava-me o desejo de ver Juli\u00e2o Tavares sujo de azeite e carv\u00e3o, recebendo na cara as fa\u00edscas da fornalha. Porque n\u00e3o? Derret,endo as banhas. In\u00fatil pregui\u00e7oso, discursador. Canalha.<\/p>\n<p>* * * Pouco a pouco nos fomos distanciando, um m\u00eas , depois \u00e9ramos inimigos. A princ\u00edpio houve brigas, re- concilia\u00e7\u00f5es desajeitadas, conversas azedas com d. Ad\u00e9- lia. Tempo perdido. Marina estava realmente com a cabe\u00e7a virada para Juli\u00e3o Tavares. Comecei a passar trombudo pela cal\u00e7ada, remoendo a decep\u00e7\u00e2o, que pro- curei recalcar.<\/p>\n<p>&#8211; Mulheres n\u00e3o faltam.<\/p>\n<p>90 Entrei a procur\u00e1-las, a observ\u00e1-las. Porque s\u00f3 ha- ! veria de servir aquela safadinha? Uma datil\u00f3grafa que me aparecia em toda a parte era bem engra\u00e7ada. Boni- j tinha, com olhos verdes e rosto de santa. Eu ia dobrar uma esquina &#8211; dava de cara com ela; tomava o bonde &#8211; ela era minha companheira de viagem. Depois de , ta.ntos acasos, a gente se cumprimentava, embora sem saber que rumo cada um ia tomar. As vezes eu estava distrafdo, pensando em coisas \u00e0-toa. Quando menos \u00a1 esperava, surgiam os olhos de gato da datil\u00f3grafa.<\/p>\n<p>I Outras vezes chegava-me de supet\u00e3o a id\u00e9ia de que ! ia v\u00ea-la. E acontecia acertar. Sumiu-se umas semanas.<\/p>\n<p>I Se n\u00e3o se tivesse sumido, \u00e9 poss\u00edvel que a minha vida fosse hoje diferente. E talvez n\u00e3o fosse. Duas criatu- i ras juntam-se um minuto, mas entre elas h\u00e1 um I obst\u00e1culo. Provavelmente a datil\u00f3grafa dos olhos ver- des, enquanto sorria para mim no bonde ou na es- quina, pensava numa esp\u00e9cie de Juli\u00e3o Tavares que iria visit\u00e1-la horas depois. Morava numa casa de quin- tal sujo, lia romances tolos, admirava uma quenga semelhante a d. Mercedes. O pai era um pobre homem carregado de achaques e consumido pelo trabalho, a m\u00e3e lavava roupa e queixava-se da carestia.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria \u00e9 que tinha raz\u00e3o: &#8211; Cabritinha enxerida. Esfregando-se nos homens.<\/p>\n<p>O sem-vergonha metera-se na casa, ficava l\u00e1 horas, intimo da fam\u00edlia, unha com carne. Empurrava a por ; ta, entrava como se aquilo fosse dele. Seu Ramalho I. nem se voltava: debru\u00e7ado \u00e0 janela, aperreado, fuman- do cachimbo, mordia os bei\u00e7os, encolhia os ombros.<\/p>\n<p>Vinha conversar comigo, desabafava: &#8211; N\u00e3o se case, seu Lufs. \u00c9 o conselho que Ihe dou.<\/p>\n<p>Quando o intruso sa\u00eda, come\u00e7ava a arenga: &#8211; Isto tem cabimento? Entra quenl quer.<\/p>\n<p>Marina defendia-se, malcriada: &#8211; Entrou porque deixaram. Eu tenho culpa? N\u00e3o mandei. Posso amarrar as pernas dos outros? &#8211; Falem baixo, pedia d. Ad\u00e9lia. Os vizinhos est\u00e3o y\u00b0 ouvindo.<\/p>\n<p>&#8211; Que vizinhos! grita.va seu Ramalho. Fa\u00e7o um . &#8216; esc\u00e2ndalo. Isto \u00e9 pens\u00e3o? 91 N\u00e3o fez o esc\u00e1ndalo. E Juli\u00e3o Tavares continuou freq\u00fcentar a casa, levando presentes \u00e0s mulheres. f vezes jantava l\u00e1. Nesses dias um carregador trazia i armaz\u00e9m de Tavares &amp; Cia. um caix\u00e3o de embrulho latas e garrafas. Da minha sala de jantar, eu ouv as conversas, as risadas, o barulho dos vidros e di talheres. No fim a coisa descambava em discurso.<\/p>\n<p>Seu Ramalho n\u00e3o tomava parte nessas orgia embicava o chap\u00e9u, acendia o cachimbo e sa\u00eda. D. R s\u00e1lia balan\u00e7ava a cabe\u00e7a com um sorrisinho safado: &#8211; Feias coisas. N\u00e3o dou um ano que isto chei a alfazema.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia ia comentar a hist\u00f3ria com o guarda-civ da esquina Punha-me a passear pelo corredor, olhando as t queiras dos sapatos, os tijolos gastos, o rodap\u00e9 verm lho da parede \u00famida. Por ali passava um cano. Alg mas porcas das juntas estavam mal apertadas e pc elas a \u00e1gua esguichava, formando po\u00e7as no tijolo gast O cano estirava-se como uma corda grossa bem est ca,da, uma corda muito comprida. Eu andava pa cima e para baixo, o ouvido atento aos mais insignil cantes rumores da casa vizinha. Preocupava-me sobr tudo o sil\u00eancio. Enquanto estavam batendo nos copo tagarelando, nem por isso. Mas quando se calavar vinham-me suposi\u00e7\u00f5es que me davam tremuras. Prov, velmente d. Ad\u00e9lia tinha ido \u00e0 cozinha preparar o caf E os dois aproveitavam o tempo. Sem d\u00favida. Imag nava o que eles faziam. Era aquilo, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que o senhor tem? perguntava-me Vit\u00f3ri Sem d\u00favida. Imaginava perfeitamente. E n\u00e3o t ra.va os olhos da parede manchada, do rodap\u00e9 verm lho, do cano.<\/p>\n<p>&#8211; Um peda\u00e7o daquilo \u00e9 arma terrivel. Arma ten vel, sim senhor, rebenta a cabe\u00e7a de um homem. J\u00e1 : tem visto.<\/p>\n<p>Mas aquele, comprido demais, pregado ao ch\u00e2 n\u00e3o tinha jeito de arma: parecia uma corda estirad Quando vinha o sil\u00eancio, detinha-me na sala de jaa tar, cont\u00edgua \u00e0 outra sala onde a s\u00facia se regalav punha a m\u00e3o atr\u00e1s da orelha, continha a respira\u00e7\u00e3 Furava com os olhos a cal que se descascava e dav 92% .<\/p>\n<p>J ao muro a apar\u00eancia de uma cara sardenta, furava ` o reboco, furava os tijolos. No outro lado a mesa num desarranjo, restos de comida, pontas de cigarros, n\u00f3- doas na toalha, garrafas abertas, os dois juntos, perna com perna. D. Ad\u00e9lia, encostada ao fog\u00e3o, respirava fuma\u00e7a, engelhava as p\u00e1lpebras, gemia uma desculpa: &#8211; &#8220;E a mocidade.&#8221; Estava invis\u00edvel e escaldava os dedos torcendo o pano de caf\u00e9. Os dois, grudados, cochicha- vam, esfregavam-se. Alguns bot\u00f5es tinham sa\u00eddo dos lugares. Afinal tudo era suposi\u00e7\u00e3o. Talvez d. Ad\u00e9lia estivesse ali, um pouco afastada, os olhos atentos, observando o que se passava por baixo da mesa. His- t\u00f3ria! Escondia-se e justificava aquela sem-vergonha: &#8211; &#8220;\u00c9 a mocidade.&#8221; Indec\u00eancia. Atracados, os olhos ver- melhos, baba no canto da boca, uns bichos. Aproxi- mava-me da parede. Ali a poucos passos, tontos pela bebida, beijando-se. Conservavam-se em sil\u00eancio um instante, mas isto me parecia tempo excessivo, sufi- ciente para todas as patifarias. Risos, a continua\u00e7\u00e3o de uma conversa interrompida. A voz precipitada de Marina era inintelig\u00edvel; a de Juli\u00e3o Tavares perce- bia-se distintamente e causava-me arrepios: fazia-me pensar em gordura, em brancura, em moleza, em qual- quer coisa semelhante a toicinho cru. Pesco\u00e7o enor- me, sem ossos, tudo banha. Quando o homem andava na rua, olhando para cima, risonho, aprumado, com \u00b0 passinhos curtos, a papada tremia. Aquilo era bambo fl\u00e1c?do, devia ter a consist\u00eancia de filh\u00f3. De repente d. Ad\u00e9lia come\u00e7ava a falar. As mesmas queixas de sem- pre, lamenta\u00e7\u00f5es tranq\u00fcilas. Nunca ouvi ningu\u00e9m se :: lamentar assim. Palavras arrastadas, mon\u00f3tonas, um pequeno assobio no fim de cada pausa. Aquele sossego me irritava quase tanto como os derramamentos de Juli\u00e3o Tavares. Afastava-me, sacudia a cabe\u00e7a para n\u00e3o i .. escutar a conversa, passeava pelo corredor, tossindo, batendo os p\u00e9s, encaminhando o pensamento para coi- sas diversas, que se embaralhavam. Muitos crimes de- pois da revolu\u00e7\u00e3o de 30. Valeria a pena escrever isto? Imposs\u00edvel, porque eu trabalhava em jornal do go- verno. Mois\u00e9s se tinha ausentado: a pol\u00edcia incomo- 1 dava os rapazes que liam livros suspeitos e falavam baixo. Seu Ivo furtara-me uns pratos. A menina dos i&#8221; , 94 olhos agateados desaparecera. A mulher da Rua da Lama, a que eu encontrara uma noite no Helv\u00e9tica, andava caipora, no hospital, com doen\u00e7a do mundo.<\/p>\n<p>A voz oleosa de Juli\u00e3o Tavares continuava a perso- guir-me. Era como se eu estivesse diante de um apa- relho de r\u00e1dio, ouvindo l\u00edngua estranha. Distancia- va-me. As palavras gordas iam comigo. Umas chega- vam completas, outras alteravam-se &#8211; ru\u00eddos confu- sos e vogais indistintas. Necess\u00e1rio dar cabo daquela voz. Se o homem se calasse, as minhas apoquenta\u00e7\u00f5es diminuiriam. A criatura faminta da Rua da I.ama, seu Ivo, Mois\u00e9s, a menina dos olhos agateados, tudo isto me passava pelo espirito sem se fixar. Um tropel, de- pois nada. O que ficava era aquela gordura que se derramava pelas paredes. As vezes eu estava certo de que Juli\u00e3o Tavares se tinha calado, mas a voz n\u00e3o deixava de perseguir-me. Mexia-me, tossia. E olhava com insist\u00e9ncia o cano que se estirava ao p\u00e9 da pa- rede, como uma corda.<\/p>\n<p>* * * Aos domingos iam ao cinema, juntos, de bra\u00e7o dado, bancando marido e mulher &#8211; ele com ar bicudo e saciado, ela bem vestida como uma boneca e toda dengosa. Seda, veludo, peles caras, tanto ouro nas m\u00e3os e no pesco\u00e7o que era uma vergonha. O pessoal da vizinhan\u00e7a povoava as janelas. D. Mercedes indigna- va-se, as filhas do Lobisomem mastravam as caras es- pantadas entre as r\u00f3tulas. Ant\u00f3nia andava como lan- \u00e7adeira, ouvindo os coment\u00e1rios. As exclama\u00e7\u00f5es ia.m de um lado para outro. S6 queriam saber se ainda estava inteira. As opini\u00f5es variavam. Discutiam as mo- difica\u00e7\u00f4es do tipo: a grossura da barriga, o modo de andar. Eu, com os ouvidos abertos, simulando indife- ren\u00e7a, escutava palavra aqui, palavra ali.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 que temos, Ant\u00f3nia? Ant\u00f4nia, bamboleando-se, cosia peda\u00e7os daqueles fuxicos.<\/p>\n<p>E os dois l\u00e1 iam at\u00e9 o fim da rua, grudados, ela desconjuntando-se, enrolando-se, torcendo-se como uma cobra de cip\u00f3. Dobravam a esquina, a rua ficava de- serta. Reaparecfam. Com certeza tinham desistido dc cinema. Quando se aproximavam, \u00e9 que eu notava o engano: era outro casal. Juli\u00e3o Tavares e Marina transformavam-se por momentos nas pessoas que vt nham da Pra\u00e7a Deodoro, mas eu continuava a v\u00ea-lo: longe, em diferentes lugares.<\/p>\n<p>As tr\u00eas filhas de Lobisomem apareciam juntas num feixe, confus\u00e3o de cabelos arrepiados e olhos es pantados. Ant\u00f4nia, colorida de vermelho e branco, safa \u00e0 procura de machos. O vento gemia nos arames da Nordeste, e os arames balan\u00e7avam como cordas.<\/p>\n<p>Julf\u00e2o Tavares e Marina tinham entrado no Livra mento e l\u00e1 iam juntinhos, esfregando-se. Cadeiras na cal\u00e7ada. Era necess\u00e1rio saltar no paralelep\u00edpedo. Urr passo em falso, topada n\u00e1 sarjeta, e os dois corpos sE chocavam. Diante da igreja, nos bancos da pra\u00e7a mi\u00fa da, gente esquisita: homens sujos, mulheres sem com panhia. E crian\u00e7as abandonadas pelos cantos. Cochi chos, palavr\u00f5es, descontentamento, frases incendi\u00e1rias Na cal\u00e7ada estreita da igreja as crian\u00e7as abandonada; aplnhavam-se. Autom\u00f3veis parados, choferes adormeci dos, vagabundos, exposi\u00e7\u00e3o de prostitutas \u00e1 entrada d Rua da Lama.<\/p>\n<p>D. Ros\u00e1lia conversava com d. Ad\u00e9lia. Picuinhas perffdias: &#8211; &#8220;N\u00e3o se queixe n\u00e3o, minha negra. A se nhora at\u00e9 n\u00e3o \u00e9 das mafs caiporas. Tem quem lhe d\u00c9 tudo.&#8221; D. Ad\u00e9lia sorria vexada, mexia os bef\u00e7os e n\u00e3.c encontrava resposta.<\/p>\n<p>Mass algumas pernadas, e os dois estavam defrontE do caf\u00e9. Juli\u00e3o Tavares passava como um pav\u00e3o. E c pessoal se calava, arregalava os olhos para Marina que n\u00e3o ligava import\u00e2ncia a ningu\u00e9m, ia fofa, cor &#8216;` &#8216; o vestido colado \u00e0s n\u00e1degas, as unhas vermelhas, o; bef\u00e7os vermelhos, as sobrancelhas arrancadas a pin\u00e7a Entravam no cinema, Juli\u00e3o Tavares comprava ur jornal. Na sala de espera toda a gente se voltava, corr uma pergunta nos olhos. Juli\u00e3o Tavares sentava-se fingia ler os telegramas, vafdoso. &#8211; &#8220;Quem \u00e9?&#8221; Infor ma\u00e7\u00f5es em voz baixa, muita inveja. Sim senhor. QuE bicho de sorte! Marina fazia \u00e1gua na boca dos homens Agora estava escuro. Debru\u00e7ado \u00e0 janela, eu fuma va sem ver a rua. Via seu Ivo, Pimentel, a datil\u00f3grafa desaparecida. Onde estaria a datil\u00f3grafa? Bonitinha, com uns olhos de gato que acariciavam a gente.<\/p>\n<p>E am\u00e1vel, sem fuma\u00e7as. Quando eu tirava o chap\u00e9u, respondia com um sorrisinho modesto. O meu desejo era sair de casa, ir procur\u00e1-la. Talvez estlvesse num cI- nema de arrabalde, com o namorado. Coitadinha. Pro- vavelmente nem pensava nisso. O dia inteiro batendo no teclado com os dedos entorpecidos, e duzentos mil- r\u00e9is por m\u00eas. Talvez tivesse irm\u00e3os pequenos. Inva- dia-me uma ternura, querla ligar-me \u00e0quela mo\u00e7a que vestia roupas ordin\u00e1rias e andava \u00e0 pressa, com uma pasta debaixo do bra\u00e7o. Seriamos felizes. Ela trabalha- ria menos. Ao chegar a casa, fatigada, distrair-sis papagueando com o Currupaco, meteria as m\u00e2os do\u00eddas no p\u00ealo do gato. Eu escreveria um livro de contos, que ela datilografaria nas horas vagas, interessando-se.<\/p>\n<p>Convidarfamos Pimentel e Mois\u00e9s. Quando a corja esti- vesse na sala vizinha, bebendo, n\u00f3s conversarfamos sobre literatura. Mois\u00e9s atacaria os llvros feitos com frases bem arrumadas. A arte deveria estar ao alcance de todos, a servi\u00e7o da polftica. &#8211; &#8220;Que diz, seu Pi- mentel?&#8221; Pimentel resp\u00f5nderia estirando o bel\u00e7o. Es- crevendo, \u00e9 capaz de demonstrar qualquer coisa. Dian- te da folha de papel, em mangas de camisa, trabalha como um carroceiro, os dedos grossos pegando a ca- neta com for\u00e7a. Depois fecha o c\u00e9rebro e desenruga a testa. &#8211; &#8220;Que diz, seu Pimentel r&#8221; N\u00e3o diria nada.<\/p>\n<p>Para que um homem discutir, se n\u00e3o \u00e9 obrigado a isto? Do outro lado da parede, risos, tinir de copos. N\u00f3s continuarfamos a conversa tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>Onde andaria a datil\u00f3grafa dos olhas agateados? 0 que \u00e9 certo \u00e9 que eu precisava mulher. Devia acabar aquela maluquelra e meter-me na farra. Se achasse uma criatura como Berta&#8230; O diabo da alem\u00e2 vol- tava-me sempre \u00e0 lembran\u00e7a, provavelmente por ter sido a primeira mulher bonita e limpa a que me en- costei &#8211; &#8220;Senhor n\u00e3o quer entrar?&#8221; Tipo admir\u00e1vel , ariano puro. &#8211; &#8220;Madame, um sujeito como eu pode agarrar-se a uma pessoa da sua marca?&#8221; A ariana pura tinha respondido numa lingua embrulhada.<\/p>\n<p>As vezes seu Ramalho puxava uma cadeira, sen- tava-se \u00e0 porta. Eu olhava distraido os arames, que balan\u00e7avam como cordas bambas. Esta compara\u00e7\u00e3.o dos arames a cordas vinham-me ao esp\u00edrito com \u00ednsist\u00eancia.<\/p>\n<p>Se pudesse trabalhar, escrever, l\u00edvrar-me daqueles ara- mes&#8230; N\u00e3o podia: a literatura cambembe para os po- l\u00edticos da ro\u00e7a tinha parado. Al\u00e9m disso eu necessitava beber muito, sentia pregui\u00e7a, passava horas no caf\u00e9, esbaga\u00e7ando dinheiro. O ordenado voava, as dividas cresciam.<\/p>\n<p>Naquele momento, por\u00e9m, n\u00e3o pensava em nada disso. Pensava na mis\u00e9ria antiga e tinha a impress\u00e3o de que estava amarrado de cordas, sem poder mexer-me.<\/p>\n<p>No banco do jardim, com os sapatos gastos, as meias reduzidas a canos, esperava ans\u00edosamente um aux\u00edllo qualquer. Estudava as caras, numa agonia. A fome tri- turava-me a barriga, uma fome de muitos dias, enga- nada com peda\u00e7os de p\u00e3o e c\u00e1lices de aguardente. &#8211; &#8220;Cidad\u00e3o, um nortista perseguido pela adversidade . . &#8221; N\u00e3o distinguia bem a cara do cidad\u00e3o: a cabe\u00e7a incli- nava-se, a vista escurecia e pregava-se nos dedos dos p\u00e9s, que sa\u00edam pelos buracos dos sapatos. Se pudesse, se n\u00e3o estivesse policiado e exausto, mataria o cidad\u00e3o para roubar-lhe um n\u00edquel. Andava sujo, as cal\u00e7as com os fundilhos rotos e as bainhas esfiapadas, a gravata feita uma corda. Apanhava os jornais esquecidos nos bancos e procurava os an\u00fancios mi\u00fados para ver se descobria trabalho, mas as letras dan\u00e7avam, fugiam.<\/p>\n<p>Imaginava fortunas absurdas: dinheiro achado na rua, um roubo que nunca tive coragem de praticar, o apare- cimento de um fazendeiro rico e at\u00edlado que me diria: &#8211; &#8220;Ningu\u00e9m percebe o seu valor, rapaz. O que lhe falta \u00e9 roupa. Roupa e trato. Vamos comer no restau- rante. E toca para S. Paulo, meter a cara na lavoura do caf\u00e9: &#8216; Qualquer servi\u00e7o que me dessem seria bom.<\/p>\n<p>Oferecia-me para gar\u00e7om de botequim, para revisor de jornal. Tinha uma inclina\u00e7\u00e3o maluca para os jornais.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Queria que o senhor experimentasse, que me dei- xasse trabalhar uns dias de gra\u00e7a.&#8221; Humilha\u00e7\u00f5es. De- , pois era a pens\u00e3o de d. Aurora. A fome desaparecera mas a falta de mulher atormentava me. As que pas- savam na rua tinham cheiros violentos, e eu andava com as narinas mu\u00edto abertas, farejando-as, como um bode. No colch\u00e3o duro da minha cama de ferro os percevejos passeavam sobre os ossos amarelos que Da- goberto jogava l\u00e1.<\/p>\n<p>Tarde. Os meninos de d. Ros\u00e1lia corriam no cal- \u00e7amento e faziam algazarra doida. As r\u00f3tulas da casa de Loblsomem estavam cerradas. Encostado \u00e0 janela, fumando, eu olhava a rua comprida e estreita. De quando em quando vultos distantes assustavam-me.<\/p>\n<p>E os arames balan\u00e7avam como cordas.<\/p>\n<p>O meu pensamento fugia dali, entrava no quarto escuro que ficava ao p\u00e9 da escada. Dagoberto pegava uma v\u00e9rtebra, eu escancarava o comp\u00eandio. A caveira desdentada era horr\u00edvcl, toda queimada de cigarros, o frontal cheio de buracos que serviam de cinzeiros.<\/p>\n<p>De que teria morrido o dono daquela caveira? Mas Dagoberto e os ossos desapareciam. L\u00e1 vinham d. Au- &#8216;ora e a neta marchando para o cinema. As minhas m\u00e3os \u00famidas apertavam no bolso as notas, eu sorria encolhido e silencioso, fazendo c\u00e1lculos. D. Aurora, mole, tomava no bonde o lugar de dois passageiros, sacolejava-se com o movim.ento do carro, os carac\u00f3is brancos agitavam-se. Parecia-me que, se ela n\u00e3o esti- vesse entrouxada, as banhas se despegariam do corpo.<\/p>\n<p>A neta emproava-se, a vaidade pingava do leque, do torgnon, dos olhos. Na sala de proje\u00e7\u00e3o a gente n\u00e3o via a tela. Iioras horrivelmente cacetes, em que peda- \u00e7os de duas pessoas se encontravam. S\u00f3 uns peda\u00e7os, os outros estavam longe. As pernas da mo\u00e7a eram frias. Onde andariam o pensamento dela? Eu pensava nos bancos do passeio, nos sapatos sem sola, no galego do frege, no chefe da revis\u00e3o. Com os dedos esmore- cidos no joelho da pequena, lembrava-me tamb\u00e9m da cesta de ossos de Dagoberto e dizia mentalmente ex press\u00f5es t\u00e9c.nicas. D. Aurora dormia.<\/p>\n<p>Com r.erteza \u00e0quela hora o Capit\u00f3lio se esvaziava, uma expsi\u00e7\u00e3o de roupas desfilav\u00e3 nos corredores que limitam a sala de espera. Os ventiladores parados, grande calor. Marina, bamba, apertava os olhos, en- colhia-se no vestido machucado, bocejava; Juli\u00e1o Ta vares abanava-se com o jornal.<\/p>\n<p>Que diabo fazia eu ali, debru\u00e7ado \u00e0 janela? Entrar va, ia para a sala de jantar, abria um livro, punha-me a ler marcando os per\u00edodos com o dedo. Quando ter.<\/p>\n<p>minava um perfodo, baixa o dedo a um lugar onde era prov\u00e1vel haver ponto final. Pa,recia-me que este exercf- cio me fixava a aten\u00e7\u00e2o na leitura: \u00e0s vezes conse- gnla compreender uma p\u00e1gina inteira. Mas o dedo fati- gava-se, entorpecia, e os olhos desviavam-se das letras, pregavam-se na toalha, nas moscas adormecidas sobre as n\u00f3doas. Um rel\u00f3gio batia. Juli\u00e3o Tavares e Marina ausentes. Vit\u00f3ria falava alto na cozinha. Ant\u00f4nia em- balava o filho mais novo de d. Ros\u00e9,lia, e a crian\u00e7a manhosa berrava com de.sespero. Felizmente ainda era cedo para os ratos roerem a madeira do guarda-co- midas. A vitrola de d. Mercedes come\u00e7ava a tocar, o galo de d. Ad\u00e9lia batia as asas. Alguma cantiga dis- tante, de b\u00eabedo. Que fim teria levado seu Ivo, coi- tado? Apito de trem, provavelmente dez horas. O re- l\u00f3gio da sala de jantar quase sempre parado. Passos na cal\u00e7ada. Quem seria? Muito tarde. O rolar dos vef- culos esmorecia. O gato j\u00e1 andava miando nos telha- aos. Os pap\u00e9is, livros com as folhas intactas, esquec- dos nas cadeiras, causavam-me enj\u00f4o. Rumor de ferro- lho na casa vizinha, pisadas no corredor. Com certeza tinham voltado. Engano. Era seu Ramalho que entrava, aperreado, ia arengar com a mulher por causa do pro- cedimento da filha. As vezes a discuss\u00e3,o se arrastava durante horas, mastiga,da e rancorosa. E Marina au- sente.<\/p>\n<p>&#8211; Isso tem jeito? D. Ad\u00e9lia chorava, assoava-se, gemfa desculpas sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>* * * D. Ros\u00e1lia era casada, mas eu n\u00e3o conhecia o ma rido dela, caixeiro-viajante que andava sempre no in terior. Conhecia a voz. Quando ele chegava, depois de uma aus\u00eancia de meses, a casa ficava em rebulf\u00e7o. Um sujeito moreno e calvo rosnava um cumprimento e to cava o chap\u00e9u ao passar na minha cal\u00e7ada. Presumc que era o marfdo de d. Ros\u00e1lia, mas n\u00e3o tenho a certeza. Fala mansa e abafada, muito diferente da quE eu ouvia da minha sala de jantar. Nunca vi o homexr calvo e moreno entrar na casa \u00e0 esquerda, mas comc o aparecimento dele coincidia, com a presen\u00e7a do maI rido de d. Ros\u00e1lia, suponho que os dois eram uma pessoa s\u00f3.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia chegava \u00e0 minha janela e, piscando os olhos, segredava: &#8211; &#8220;O homem est\u00e1 af.&#8221; Mordia o bei\u00e7o e safa bamboleando-se, com um risinho canalha, as pernas grossas muito abertas exibindo marcas de fe- ridas. Para n\u00e3o descontentar a rapariga, eu sorria agra- decendo a comunica\u00e7\u00e3o, aperreado em excesso, porque nesses dias n\u00e3o me era poss\u00edvel dormir sossegado.<\/p>\n<p>D. Ros\u00e1lia, honesta, vivia excitada, e o marido vinha feito um bode. Aquilo durava uma semana, mais de uma semana, at\u00e9 que o casal se acalmava e surgia nova viagem.<\/p>\n<p>Nessa lua-de-mel, sempre renovada, as crian\u00e7as marchavam cedo para a cama. Ant\u00f4nia aprontava o caf\u00e9, ia correr a z\u00f5na. E o trabalho do amor come\u00e7ava, ruidoso, indiscreto. Antes da minha cabe\u00e7ada com Ma- rina, eu n\u00e3o ag\u00fcentava aquilo. Escrevia, lia, dormia, acordava, levantava-me, tornava a deitar-me. N\u00e3o me continha: vestia-me, ia para a rua, meia-noite, de ma- drugada. Por fim nem esperava tanto: quando Ant\u00e2- nia servia o caf\u00e9, aos muxoxos, derrubando lou\u00e7a, e a porta da frente se fechava com um baque, eu agar- rava o chap\u00e9u e sa\u00eda. Agora n\u00e3o podia arredar-me dali.<\/p>\n<p>Parecia-me que, na minha aus\u00eancia, Juli\u00e3o Tavares penetraria na casa e levaria o que me restava: livros, pap\u00e9i.s, a garrafa de aguardente. Sentia-me preso como um cachorro acorrentado, como um urubu atra\u00eddo pela carni\u00e7a. Se pudesse dormir . . .<\/p>\n<p>Durante o dia passava muitas vezes pela porta de Marina, desejando reconciliar-me com el\u00e3. Faltava-me coragem, a vergonha baixava-me o rosto, esquentava-me as orelhas.<\/p>\n<p>Que me importava que Marina fosse de outro? As mulheres n\u00e3o s\u00e3o de ningu\u00e9m, n\u00e3o t\u00eam dono. Sinha Germana fora de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, s\u00f3 dele, mas h\u00e1 que tempo! Trajano possu\u00edra escravos, prendera cabras no tronco. E os cangaceiros, vendo-o, varriam o ch\u00e3o com a aba do chap\u00e9u de couro.<\/p>\n<p>Tudo agora diferente. Sinha Germana nunca havia tras- tejado: ali no duro, as costas calejando a esfregar-se no couro cru do leito de Trajano. &#8211; &#8220;Sinha Germana!&#8221; E sinha Germana, doente ou com sa\u00fade, quisesse ou n\u00e3o quisesse, l\u00e1 estava pronta, livre de desejos, tran- q\u00fcila, para o r\u00e1pido amor dos brutos. Malfcia nenhuma.<\/p>\n<p>Como a cidade me afastara de meus av\u00f3s! O amor para mim sempre fora uma co\u00edsa dolorosa, complicada e in- completa.<\/p>\n<p>Se Marina voltasse . . . Porque n\u00e3o? Se voltasse es- quecida inteiramente de Juli\u00e3o Tavares, serfamos felizes.<\/p>\n<p>Absurdo pretender que uma pessoa passe a vida com os olhos fechados e v\u00e1 abri-los exatamente na hora em que aparecemos diante dela.<\/p>\n<p>Nu, deitado de costas na cama de ferro, esfrega- va-me no colch\u00e3o estreito e co\u00e7ava-me, mordido pelas pulgas. No quarto, escuro para a conta da Nordeste n\u00e3o crescer, a luz que havia era a do cigarro, que me fazia desviar os olhos de um lado para outro. N\u00e3o podia d\u00e8i- xar de olh\u00e1,-la. As vezes me entorpecia, e a luz ia diml- nuindo, cobria-se de cinza. De repente despertava sobres- saltado: parecia-me que, se o cigarro se apagasse, algu- ma desgra\u00e7a me sucederia. E entrava a fumar desespe- radamente, e soprava a cinza. Impossivel dormir. O quar- to de d. Ros\u00e1lia ficava paredes-meias com o meu. An- t\u00f4nla tinha-me dito, em confid\u00eancia: &#8211; &#8220;O homem chegou.&#8221; Devia ser o sujeito calvo e moreno que tocava o chapu e rosnava um cumprimento. Agora se dis- tinguiam palavras claras: &#8211; &#8220;Bichinha, gordinha&#8230;&#8221; N\u00e3o sef como aquelas criaturas se podiam amar assim em voz alta, sem ligar import\u00e2ncia \u00e0 curiosidade dos vizinhos. D. Ros\u00e1lia resfolegava e tinha uns espasmos longos terminados num ui! medonho que devfa ouvir-se na rua. Antes desse uivo prolongado o homem soltava paavr\u00f5es obscenos. Parecia-me que o meu quarto se enchia de \u00f3rg\u00e3os sexuais soltos, voando. A brasa do clgarro iluminava corpos atracados, gemendo: &#8211; &#8220;Bi- chinha, gordinha . . . &#8221; &#8211; &#8220;Ui! &#8221; Na escurid\u00e3o a parede estreita desaparecia. Est\u00e1vamos os tr\u00eas na mesma pe\u00e7a, eu rebolando-me no colch\u00e3o estrelto, picado de pulgas, respirando o cheiro de pano sujo e esp\u00e9rma, eles agar- rados, torcendo-se, espumando, mordendo-se. Aquilo iria prolongar-se por muitas horas. Depois o sil\u00eancio, o cansa\u00e7o, a luz da madrugada, o sono, a parede, nos afastar\u00edam. Se nos encontr\u00e1ssemos, farfamos um ligei- Este livro foi digitalizado por Paulo S\u00e9rgio Resende de Almeida, com a inten\u00e7\u00e3o de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifesta\u00e7\u00e3o do pensamento humano..<\/p>\n<p>ro movimento de cabe\u00e7a, resmungarfamos uma sau- da\u00e7\u00e3o apressada. D. Ros\u00e1lia, pendurando-se \u00e0 janela, comentaria os modos suspeitos de Lobisomem e o pro cedimento de Marina; o homem calvo e moreno pros- seguiria nas suas viagens pelo interior; eu redigiria informa\u00e7\u00f5es. &#8220;Em conformidade com o artigo tal do regulamento . . . &#8221; N\u00e3o havia regulamento, nem janela, nem mostru\u00e1- rios. O que havia eram duas camas pr\u00f3ximas. Uma delas rangia escandalosamente. &#8211; &#8220;Bichinha, taludi- nha&#8230;&#8221; Esses diminutivos contrastavam com a voz do homem, grossa, arrastada. Al\u00e9m disso d. Ros\u00e1lia tinha bem quarenta anos e n\u00e3o \u00e9ra taluda: era magra, cheia de \u00e2ngulos, o car\u00e3o chupado com duas olheiras fundas que no dia seguinte estariam medonhas. Sil\u00eancio de alguns minutos. Iam deixar-me dormir. Nada. Acendia outro cigarro e continuava com a vista presa na brasa, que se aproximava e afastava, em movimentos bruscos, como uma coisa viva mordida pelas pulgas. Aquela es- p\u00e9cie de fogo-corredor me fascinav\u00e3. Se Marina vol- tasse . . . Porque n\u00e2o? A \u00e1gua lava tudo, as feridas ci- catrizam. N\u00e3o valia a pena pensar no outro. Juli\u00e3o Tavares era um caminho err\u00e3do. Tantos caminhos er rados na vida! Quem sabe l\u00e1 escolher com seguran\u00e7a os atalhos menos perigosos? A gente vai, vem, faz curvas e ziguezagues, e d\u00e1 topadas de arrancar as unhas. A \u00e1gua lava tudo, as feridas mais graves cica- trizam. Lembrava-me de uma queda antiga que me tinha jogado \u00e0 cama quinze dias. O cavalo se havia empinado, eu ca\u00edra nas pedras do Ipanema, rachara a cabe\u00e7a, esfolara a coxa. Porque era que uma ferida devia ser vergonhosa e outra n\u00e2o? Depois desse tom- bo, andara uns tempos bambo, tossindo, e nunca me havia consolidado, nem com os exercfcios da caserna.<\/p>\n<p>&#8211; Ora af est\u00e3o ferimentos que me deviam enver- gonhar, porque .me tornaram fraco. E n\u00e2o me enver- gonham.<\/p>\n<p>A brasa do cigarro chegava-me perto dos bei\u00e7os, brilhava, faiscava, parecia mangar de mim na escuri- d\u00e3o. Sinha Germana s\u00f3 tinha aberto os olhos diante do velho Trajano. Sem d\u00favida. Mas eu queria ver 8inha Germana agora, no cinema, ou correndo as ruas, com uma pasta debaixo do bra\u00e7o, e mais tarde n escrit\u00f3rio, batendo no teclado da m\u00e1quina, ouvindo a cantigas dos marmanjos. H\u00e1bitos diferentes, necessida des novas.<\/p>\n<p>Afinal porque seria que d. Ros\u00e1lia afirmava qu Marina dera com os burros na \u00e1gua? N\u00e3o havia cei teza. E para que certeza? &#8211; Que me importa o que se passa nas casa alheias? O que se passava na cama de d. Ros\u00e1lia era quas p\u00fablico, pelo menos estava no conhecimento dos viz nhos. Fazia minutos que os doi.s se conservavam en sil\u00eancio. Enjoados, provavelmente, separados, cada un com o seu len\u00e7ol. Engano. O barulho recome\u00e7ava: cc chichos que iam crescendo e se transformavam en gritos, beijos compridos, chup\u00f5es gorgolejados.<\/p>\n<p>Quando se debru\u00e7ava \u00e0 janela, fiscalizando a rua d. Ros\u00e1lia usava linguagem decente para censurar a filhas de Lobisomem, engulhava, cheia de pudores.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a urinava na cama e chorava. Distin guia-se perfeitamente o som das gotas que batiam m ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Cala a boca! ordenava d. Ros\u00e1lia.<\/p>\n<p>O choro findava, mas as gotas continuavam a ca.n e a respira\u00e7\u00e3o do homem se arrastava, entrecortada encatarroada, fungada, interrompida por um pigarrc uma respira\u00e7\u00e3o de quem se est\u00e1 estrangulando. Aquil me irritava tanto que eu apertava as m\u00e3os nos ouvido e mordia as cobertas para n\u00e3o gritar. O resfolegar d cachorro cansado atravessava-me as palmas das m\u00e3os rasgava-me os ouvidos, e os pingos de urina, penetran do a palha podre do colch\u00e3o, ca\u00edam-me dentro da ca be\u00e7a como martela.das. A crian\u00e7a recome\u00e7ava a chorar &#8211; Cala a boca.<\/p>\n<p>Solu\u00e7os engolidos da crian\u00e7a e a respira\u00e7\u00e2o arque jante do homem. In\u00fatil apertar os ouvidos que si pegavam \u00e0s palmas como ventosas. Estirava-me, espre gui\u00e7ava-me. De costas, as m\u00e3os sobre o peito, experi mentava relaxar os m\u00fasculos e n\u00e3o pensar. Atrav\u00e9s da; p\u00e1lpebras meio cerradas via apenas a brasa do cigarro que se cobria de cinza. Tranq\u00fcilo, tranq\u00fcilo, nenhun pensamento. Sentia vontade de chorar, tinha um bolo na garganta.<\/p>\n<p>&#8211; Tranq\u00fcilo, tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>Esta repeti\u00e7\u00e2o me exasperava e endoidecia. O cor- po em completo sossego, o cfgarro apagado. N\u00e3o sabia em que posi\u00e7\u00e3o estavam as pernas. As m\u00e3os pesa- vam em cima do peito. Mas as pernas, onde estariam elas? Flutuava como um bal\u00e3o. O corpo quase adorme- cido e sem pernas. As id\u00e9ias, por\u00e9m, n\u00e3o me deixavam, id\u00e9ias truncadas. Uma guerra na Europa. D. Mercedes comprara discos novos para a vitrola. Mois\u00e9s se oculta- va, com medo da pol\u00edcia. Um esp\u00faito puro, um esp\u00ed- rito boiando, livre da mat\u00e9ria. As botinas de Lobiso- mem estavam cada vez mais cambadas. Onde andaria seu Ivo? Um esp\u00edrito boiando. Como seria? O esp\u00edrito de Deus era levado sobre as \u00e1guas.<\/p>\n<p>As pulgas mordiam-me. Sem mudar de posi\u00e7\u00e3o, esfor\u00e7ava-me por n\u00e3o fixar o pensamento em coisa n nhuma. Quando vinha uma id\u00e9ia, afastava-a, agarra- va-me a outra, que sa\u00eda logo. Algumas voltavam com insist\u00eancia. As botinas de Lobisomem estavam cam- badas. O esp\u00edrito de Deus boiava sobre as \u00e1guas.<\/p>\n<p>Suava irio, mas prolongava a tortura que produ- ziam as picadas das pulgas e a imobllidade. Afinal as picadas das pulgas e a imobilidade me distrairiam da- queles beijos e daqueles uivos. Outra vez o choro da crian\u00e7a, novamente a voz de d. Ros\u00e1aia, arreliada: &#8211; Cala a boca, diabo! O pranto continuava. Pisadas de p\u00e9s descal\u00e7os, palmadas, muxic\u00f5es. A crian\u00e7a choramigava baixiriho e aquietava-se. Novos passos abafados e um baque na cama, que rangia. O esp\u00edrito de Deus boiava sobre as \u00e1guas. Como estariam as minhas pernas? Cruzadas ou afastadas? Seria mais f\u00e1cil saber como estavam as per- nas de d. Ros\u00e1lia. O resfolegar prosseguia, resfolegar de porco fossando. Quantas horas aquilo duraria ainda? Seu Ivo, os dfscos da vitrola, Mois\u00e9s, as botinas de Lobisomem, tudo in\u00fatiL In\u00fateis as picadas das pulgas.<\/p>\n<p>O homem calvo e moreno, com os olhos abotoados, tungava e arquejava, a baba escorrendo no bei\u00e7o e umedecendo a pele seca de d. Ros\u00e1lla. Estava mesmo assim: os olhos arregalados, as ventas muito abertas, a boca pingando gosma, a cara barbuda arranhando e escovando o couro de d. Ros\u00e1lia. E aquela respira\u00e7\u00e3o estertorosa de bicho sufocado! Sentava-me e acendia um cigarro. Perdido o sacri- ffcio de permanecer im\u00f3vel, suportando as pulgas. Fe- chava as m\u00e3os com for\u00e7a. Estertor de bicho sufocado.<\/p>\n<p>O que eu desejava era apertar o pesco\u00e7o do homem calvo e moreno, apert\u00e1-lo at\u00e9 que ele enrijasse e esfriasse. Lutaria e estrobucharia a princ\u00edpio, depois seriam apenas convuls\u00f5es, estremecimentos. Os meus dedos continuariam crispados, penetrando a carne que se imobilizaria, em sil\u00eancio. Este pensamento afugen- tava os outros. O esp\u00edrito de Deus deixava de boiar sobre as \u00e1guas. Uma criatura morrendo e esfriando, os meus dedos entrando na carne silenciosa. N\u00e3o me lembrava de Juli\u00e3o Tavares. O que me aparecia na mente era o sujeito calvo e moreno que eu presumia ser o marido de d. Ros\u00e1lia e talvez nem fosse. Enfim desejava matar um homem que me roubava o sono.<\/p>\n<p>* * * H\u00e1 nas minhas recorda\u00e7\u00f5es estranhos hiatos. Fixa- ram-se coisas insignificantes. Depois um esquecimento quase completo. As minhas a\u00e7\u00f5\u00e9s surgem baralhadas e esmorecidas, como se fossem de outra pessoa. Penso nelas com indiferen\u00e7a. Certos atos aparecem inexpli- c\u00e1veis. At\u00e9 as fei\u00e7\u00f5es das pessoas e os lugares por onde transitei perdem a nitidez. Tudo aquilo era uma con- fus\u00e3o, em que avultava a id\u00e9ia de reaver Marina. Mais de um m\u00eas, quase dois meses em intimidade com o outro. Procurei por todos os meios uma nova aproxi- mac\u00e3o. O despeito, a raiva que senti naqueles dias com- pridos, uns restos de amor pr\u00f3prio, tudo se sumiu.<\/p>\n<p>A tarde voltava a sentar-me na espregui\u00e7adeira, abria um livro. Marina ausente. Deitava-me, fingia dormir, ficava uma hora espiando o quintal vizinho atrav\u00e9s das pestanas meio cerradas. As galinhas ciscavam, d. Ad\u00e9lia cantava no banheiro, a sombra da mangueira crescia, al\u00e9m do muro a mulher que lava garrafas tra- balhava sacolejando-se num ritmo de batuque e o ho- mem triste enchia dornas. As vezes passos apressados revelavam-me a presen\u00e7a de Marina. Eu tinha vergonha de abrir os olhos, e quando me decidia a acordar, j\u00e1 ela estava longe. Erguia-me irritado. Perdendo ali, como um rapazinho, momentos preciosos! Esfor\u00e7ava-me por acreditar que os meus momentos eram preciosos.<\/p>\n<p>* * * A noite sentava-me \u00e0 cal\u00e7ada e olhava a rua. Seu Ramalho fazia o mesmo. Palavra de c\u00e1, palavra de l\u00e1 &#8211; como fal\u00e1vamos baixo, era necess\u00e1rio aproximarmos as cadeiras. Depois do namoro da filha com Juli\u00e3o Tavares, d. Ad\u00e9lia mostrava-me antipatia. A princ\u00edpio era aquela subservi\u00eancia, tremura, cumplicidade; mas agora nem me via; enrugava a testa e grunhia &#8220;Huml hum!&#8221; com um modo insuport\u00e1vel. Seu Ramalho, que meses atr\u00e1s me olhava desconfiado, tornara-se um ex- celente amigo e dava-me conselhos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se case, seu Lu\u00eds. Casamento \u00e9 buraco.<\/p>\n<p>O mundo est\u00e1 perdido.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 por causa do cinema, seu Ramalho. O se- nhor nunca vai l\u00e1. E feliz. Nem calcula as sem-vergo- nhezas que h\u00e1 na tela.<\/p>\n<p>Seu Ramalho baixava a cabe\u00e7a, pensativo: &#8211; Deve ser tamb\u00e9m por falta de religi\u00e3.o.<\/p>\n<p>&#8211; E. Deve ser tamb\u00e9m por isso.<\/p>\n<p>Realmente a minha vizinha desconhecia as igrejas, e isto n\u00e3o me preocupava.<\/p>\n<p>&#8211; O cinema \u00e9 o diabo, seu Ramalho. O senhor n\u00e3o imagina. S\u00e3o uns beijos safados, lingua com l\u00edn- gua, nem lhe conto. Provavelmente as mo\u00e7as saem de l\u00e1 esquentadas.<\/p>\n<p>&#8211; Devem sair, concordava seu Ramalho. Por isso h\u00e1 tanta gente de r\u00e9dea no pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Que r\u00e9dea! Hoje n\u00e3o h\u00e1 r\u00e9dea. Um sujeito corre atr\u00e1s de uma saia, pega a mulher, larga, pega outra, e \u00e9 aquela garapa.<\/p>\n<p>&#8211; Safadeza.<\/p>\n<p>&#8211; E. Tudo \u00e9 safadeza. Antigamente essa hist\u00f3ria de honra era coisa s\u00e9ria. Mulher falada n\u00e3o tinha valia.<\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma, exclamava seu Ramalho, cansado, tossindo. E eram vingan\u00e7as medonhas.<\/p>\n<p>.- Vingan\u00e7as horrorosas, bradava eu excitado.<\/p>\n<p>Nesse ponto da conversa cont\u00e1vamos sempre ama s\u00e9rie de casos que ilustravam as nossas afirmacw\u00f5es.<\/p>\n<p>Animado, o cachimbo apertado entre os dentes, seu Ramalho assobiava as mesmas anedotas, empregando o mesmo vocabul\u00e1rio. As vezes eu o interrompia: &#8211; O senhor j\u00e1 contou essa.<\/p>\n<p>Mas seu Ramalho continuava sem se perturbar: falava para dar prazer a si mesmo, n\u00e3o me escutava.<\/p>\n<p>Talvez quisesse enganar-se e convencer-se de que seria tamb\u00e9m capaz de praticar fa\u00e7anhas. As palavras sa\u00edam-lhe sem varia\u00e7\u00f5es. Era amigo da verdade e tinha imagina\u00e7\u00e3.o fraca. As minhas narrativas n\u00e3o se com- paravam \u00e0s dele: sendo muito numerosas, eu esquecia freq\u00fcentemente certas passagens, ficavam brechas, so- lu\u00e7\u00f5es de continuidade. Al\u00e9m di.sso eram transmitidas em linguagem artificial, que o vizinho achava falsa e retocava.<\/p>\n<p>O conto sensacional de seu Ramalho era o seguinte.<\/p>\n<p>Um moleque de bagaceira tinha arrancado os tarnpos da filha do senhor de engenho. Sabendo a patifaria, o senhor de engenho mandara amarrar o cabra e \u00e0 boca da noite come\u00e7ara a fur\u00e1-lo devagar, com ponta de faca. De madrugada o paciente ainda bulia, :mas todo picado. A\u00ed cortaram-lhe os test\u00edculos e meteram- lhos pela garganta, a punhal. Em seguida tiraram-lhe os bei\u00e7os. E afinal abriram-lhe a veia do pesco\u00e7o, por- que vinha amanhecendo e era imposs\u00edvel continuar a, tortura.<\/p>\n<p>&#8211; Medonho! Seu Ramalho. Que coisa extraordi- n\u00e1ria! Pedia-lhe explica\u00e7\u00f5es: &#8211; Porque foi que arrancaram os quibas antes dos bei\u00e7os? &#8211; Quem sabe? No dia seguinte reproduziria o mesmo caso : o mo- leque morreria lentamente, sem bei\u00e7os, a boca enchu- ma\u00e7ada, por causa dos gritos. Eu desejava que seu Ramalho acrescentasse alguma coisa \u00e0 hist\u00f3ria. Mas seu Ramalho s\u00f3 sabia aquilo e era incapaz de inventar.<\/p>\n<p>Por isso fazia pausas para recordar os fatos com segu- ran\u00e7a, batia na testa, interrogava-se a cada ins.tan\u00b0e e acusava-se quando avan\u00e7ava uma informa\u00e7\u00e3o inveri- dica: &#8211; 1910. Minto, 1911. 1911, Manoel? As duas datas produziam-lhe verdadeira afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nunca p\u00f4de fixar-se em nenhuma. Detinha-se em c\u00e1l- culos, sempre se reportando a acontecimentos not\u00e1veis na sua pequena vida: o dia do casamento, a mudan\u00e7a para a capital, o sarampo da filha. D. Ad\u00e9lia, com flo- res de laranjeira, sem aquele corpo mole e pesado, era bem bonita; na viagem, em estrada de ferro, o trem da Great Western descarnlara; Marina ficara coberta de calombos e verg\u00f5es encarnados.<\/p>\n<p>Naquela noite seu Ramalho voltou a referir-se a esses tr\u00eas casos importantes. Nunca tinha viajado em estrada de ferro. Um descarrilamento para come\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 esquisito? Todos os dias rodam trens, que chegam no hor\u00e1rio. Pois justamente quando eu embar- co vem o desastre. N\u00e2o parece que estava ali um diabo esperando por mim para botar as rodas fora dos trilhos? E descreveu a cena. Abandonados no campo, os passageiros metiam os olhos pela.s vidra\u00e7as, e s\u00f3 enxer- gavam uma luzinha distante. Fazia frio. Ele tirava o palet\u00f3 e enrolava a menina, que esperneava no banco do carro de segunda classe. Alguns trabalhadores, de malotes, dormiam. Uma velha gemia de quando em quando: &#8211; &#8220;Fechem essa janela.&#8221; Uma rapariga chei- rosa encostava-se so.s homens. Ele acalentava a meni- na, que se arreliava no banco imundo. E olhava des- confiado a rapariga, receando que ela se aproximasse de d. Ad\u00e9lia. Mulher da vida, cheirosa, ro\u00e7ando-se nos homens, ali no carro pequeno, cheio de gente e quase sem luz. Apenas um lampi\u00e3o fumacento, de vidros tis- nados.<\/p>\n<p>D. Ad\u00e9lia, corada, risonha, de carnes enxutas, era um mulher\u00e2o. O casamento foram quatro anos antes da viagem. Bonita de verdade. Com o v\u00e9u, a grinalda de flores de laranjeira, dan\u00e7ara uma noite sem descansar.<\/p>\n<p>Olhava os mo\u00e7os cara a cara, e eles baixavam a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Os marmanjos desanimavam.<\/p>\n<p>O sarampo de Marina tinha sido dez anos depois da viagem. Estivera vai n\u00e3o vai, batendo a ca\u00e7oleta.<\/p>\n<p>&#8211; Antes tivesse batido, que era inocente e n\u00e3o dava desgosto a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>A febre durara muitos dias. Mal respirava, magrf- nha como um palito, e por cima dos olhos vidrados as moscas passeavam. D. Ad\u00e9lia, bamba, arrastava os chinelos de tran\u00e7a que pareciam dois sapos. Estava mole, encolhida, machucada, e habituara-se a falar cochichando e a baixar a cabe\u00e7a diante de toda a gente.<\/p>\n<p>Seu Ramalho deu um suspiro e empurrou a his- t\u00f3ria do moleque da bagaceira, o que havia arrancado os tampos da filha do patr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; 1910 ou 1911? Nunca pude saber com precis\u00e3o a data da morte do moleque. Isto n\u00e3o tinha import\u00e2ncia: n\u00e3o guardo n\u00fameros, e a angustiada confus\u00e3o de seu Ramalho irri- tava-me. Enquanto ele batia na testa, avan\u00e7ava e recuava, eu ia pouco a pouco distinguindo uma fzgura nua e preta estirada nas pedras da rua. O ventre era uma pasta escura de carne retalhada; os membros, tor- cidos na agonia, estavam cobertos de buracos que es- guichavam sangue; a boca, sem bei\u00e7os, mostrava den- tes acavalados e vermelhos, numa careta medonha; os olhos esbugalhados tornavam-se vermelhos. O negro ar- quejava. Corria sangue entre as frestas dos parallepf- pedos e empo\u00e7ava na sarjeta. A po\u00e7a crescia, em pouco tempo transformava-se num regato espumoso e ver- melho.<\/p>\n<p>&#8211; Af, ai! suspirou seu Ramalho. Vou chegando ao servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Ergueu-se como se levantasse da cadefra um peso enorme. E, descontente, arfando, um ombro alto, outro baixo, o cachimbo entre os dentes, l\u00e1 se foi para a usf- na el\u00e9trica. Seguf-o com a vista at\u00e9 a esquina. Quando ele de.sceu da cal\u00e7ada, estremeci: pareceu-me que tinha sujado os sapatos no sangue.<\/p>\n<p>A vitrola de d. Mercedes rodava marchas de car- naval; d. Ad\u00e9lia abriu os postigos: &#8211; &#8220;Hum, hum!&#8221;; a cabe\u00e7a de d. Ros\u00e1lia tinha os cabelos vermelhos. An- t\u00f4nia, pintada de vermelho, as pernas abertas, passou bamboleando-se. Das saias dela desprendeu-se um chei- ro forte de sangue. Provavelmente estava menstruada e n\u00e3o se lavava. Os arames da Nordeste balan\u00e7avam como cordas. Eu receava que os transuntes trope\u00e7as- sem no moleque estendido no cal\u00e7amento. Rangia os dentes e dizia baixinho: &#8211; Que estupidez! Que estupidez! Mas a figura continuava a escabujar no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora n\u00e3o era preta nem estava nua. Pouco a pouco ia embranquecendo e engordando, o sangue estancava, as feridas saravam.<\/p>\n<p>Aquela hora Marina devia descansar, escanchada na rede, deitada de costas. Uma perna dava o impulso para o balan\u00e7o, e os armadores rangiam: ran, ran.<\/p>\n<p>Provavelmente se estragava pensando num romance besta. O ar refrescava-lhe as coxas suadas. E os arma- dores faziam: ran, ran.<\/p>\n<p>&#8211; Que estupidez! Que estupidez! A figura deitada no cal\u00e7amento estava branca e vestida de linho pardo, com manchas de suor nos sova- cos. Felizmente o sangue tinha desaparecido, j\u00e1 n\u00e3o havia a umidade pgajosa na sarjeta, nos cabelos de d. Ros\u00e1lia, nas saias de Ant\u00f4nia. Em redor tudo calmo.<\/p>\n<p>Gente indo e vindo, crian\u00e7as brincando, roncos de au- tom\u00f3veis. O hmem tinha os olhos esbugalhados e estrebucha -~ rrn, neda\u00e7o de corda amarrado n &#8211; e duas m\u00e3o parecia que&#8217; o seguravam : gordura bal &#8216; &#8221; \u00f3 ; &#8216; c o A vitrol \u00f3 o o o \u00f5 cor- entava os armador ente. Os tado balan ren\u00e7a. Eu o&#8217; &#8216; . Sentar 0 osene, encos- palmas, trc \u00f3 t O . ~ va-me a ca o ~ r a cacha\u00e7a. Mas n\u00e3o tinham para os olhos a a l\u00edngua &#8216; o ,\u00b0, o, 0 4ualquer coisa, dar abundo, que tinha an- sa, \u00f3 nos bancos dos passeios, \u00b0 riam a s\u00e9rio. Viam um su- , p\u00e1lido, tossindo por causa da Quar \u00b0 olhado a roupa. A luz do can- pletamen oscilava no balc\u00e3.o gorduroso. Iio- .&#8217; 113 casa e os bilhetes errados e grosseiros de dr. Gouveia.<\/p>\n<p>Aporrinha\u00e7\u00f5es. Por causa de uma porcaria, alguns meses de aluguel deste chiqueiro, coices. Pagar tudo, perfeitamente. Bastava reduzir um pouco as despesas e voltar ao jornal. Marina que fosse para o diabo.<\/p>\n<p>Agarrava a papelada com entusiasmo de fogo de palha. Tempo perdido. Marina n\u00e3o ia para o diabo, E eu m\u00b0 metia por estas ruas, passava horas no caf\u00e9, lesando, bebendo. Seria f\u00e1cil regularizar a minha vida, liquidar as contas, botar tudo de novo nos trilhos. Un: pouco de boa vontade, m\u00e9todo.<\/p>\n<p>&#8211; Outro conhaque.<\/p>\n<p>M\u00e9todo, perfeitamente, tudo se arranjaria. Sai dali, ia olhar as vitrinas e os cartazes. Bacharel idiota aperreando um bom inquilino. Porcaria.<\/p>\n<p>&#8211; Quem andou por este mundo roendo chifre n\u00e3c se engancha em bobagens. Porcaria. Tenho comidc toicinho com mais cabelo.<\/p>\n<p>Foi nesta disposi\u00e7\u00e3o que li os cartazes da compa nhia l\u00edrica. N\u00e3o dei import\u00e2ncia a ela. Companhu vagabunda, com pessoal rouco, as cantoras canh\u00f5es provavelmente. Encolhi os ombro.s: n\u00e3o sei m\u00fasic: e tenho p\u00e9ssimo ouvido. As paredes dos caf\u00e9s co briam-se de retratos de artistas. Visa no papel, havi uma soprano bem regular.<\/p>\n<p>No dia da estr\u00e9ia notei rebuli\u00e7o em casa de sei Ramalho. Pela manh\u00e3 chegaram caixas e pacotes; mai tarde bateu palmas uma criatura de preto, certament a modista; o menino da sapataria apareceu muita vezes; depois seu Chico, o carteiro, que sabe corta cabelos de senhoras. Marina largava os sapatos e corri pelo corredor, aos gritos com a m\u00e2e, que se mexia con dificuldade. A noit2 um carro buzinou \u00e0 porta, e M rina saiu de casa, bem vestida como as senhoras d Ate.~ro quando v\u00e3o \u00e0s festas da Associa\u00e7\u00e3o Comercia: Atravessou a cal\u00e7ada, sem se virar, e entrou na Limoa sine, onde brilhava a cam.sa de Juli\u00e3o Tavares, so o foco el\u00e9trico. Os pneum\u00e1ticos rodaram s\u00fcenciosos er dire\u00e7\u00e2o \u00e0 Pra\u00e7a Deodoro, e na rua ficou um cheir esquisito de gasolina, po-de-arroz e perfumes.<\/p>\n<p>Cinco dias seguidos a mesma cena se reproduziu Marina atravessou a cal\u00e7ada com o andar seguro da senhoras do Aterro, o peitilho engomado brilhou, o ar se encheu de uma estranha mistura de gasolina e per- fumes.<\/p>\n<p>N\u00e3o me continha: sa\u00eda de casa e andava \u00e0 toa por estas ruas, fatigando-me em caminhadas longas.<\/p>\n<p>O inverno tinha come\u00e7ado, quase sempre ca\u00eda uma chuvinha renitente. Ia sentar-me num ba,nco da Pra\u00e7a dos Mart\u00edrios, e os pingos que tombavam da folhagem das \u00e1rvores molhavam-me a cabe\u00e7a descoberta e escal- dada. A sentinela cochilava no port\u00e2o do pal\u00e1cio. Ao p\u00e9 do morro, peda\u00e7os da igreja fechada apareciam en- tre os ramos. Um barulho horr\u00edvel de motores e rodas.<\/p>\n<p>Autom\u00f3veis a roncar. Todos queimavam gasolina mis- turada com perfume. Depois um r\u00e1dio come\u00e7ava a tro- vejar \u00f3peras. O cheiro e o som tornavam-se insuport\u00e1 veis. Esfor\u00e7ava-me por esquecer o nariz e o ouvido, abria os olhos. A sentinela cochilava encostada ao fuzil. Servi\u00e7o pau. Um pobre homem dormindo em p\u00e9.<\/p>\n<p>Acordava, escancarava a boca, via com t\u00e9dio as grades do jardim, o hall deserto, a escada ao fundo, vermelha.<\/p>\n<p>O tapete vermelho da escada me dava impress\u00e3o desa- grad\u00e1vel. Podia ser de outra cor. As luzes do farol mn- davam de minuto a minuto, branca, vermelha, branca, vermelha. Porque n\u00e2o aparecia uma terceira cor? Aquilo era irritante, mas a farol me atraia. Pelo menos va- riava mais que a sentinela, tinha mais vida que a sen- tinela.<\/p>\n<p>Levantava-me, subia a Ladeira Santa Cruz, percor- ria ruas cheias de lama, entrava numa bodega, tentava conversas com os vagabundos, bebia aguardente. Os vagabundos n\u00e3o tinham confian\u00e7a em mim. Senta- vam-se, como eu, em caix\u00f5es de querosene, encos- tavam-se ao balc\u00e3o \u00famido e sujo, bebiam cacha\u00e7a. Mas estavam longe. As minhas palavras n\u00e3o tinham para eles significa\u00e7\u00e3o. Eu queria dizer qualquer coisa, dar a entender que tamb\u00e9m era vagabundo, que tinha an- dado sem descanso, dormido nos bancos dos passeios, curtido fome. N\u00e3o me tomariam a s\u00e9rio. Viam um su- jeito de modos corretos, p\u00e1lido, tossindo por causa da chuva que lhe havia molhado a roupa. A luz do can- deeiro de petr\u00f3leo oscilava no balc\u00e3o gorduroso. Homens de camisa de meia exibiam m\u00fasculos enormes, que me envergonhavam.<\/p>\n<p>Encolhia-me timidamente. N\u00e3o simpatizavam co- migo. Eu estava ali como um rep\u00f3rter, colhendo im- press\u00f5es. Nenhuma simpatia.<\/p>\n<p>A literatura nos afastou: o que sei deles foi visto nos livros. Comovo-me lendo os sofrimentos alh2ios, penso nas minhas mis\u00e9rias passadas, nas viagens pelas fazendas, no sono curto \u00e0 beira das estradas ou nos bancos dos jardins. Mas a fome desapareceu, os to.~- mentos s\u00e3o apenas recorda\u00e7\u00f5es. Onde andariam os ou- tros vagabundos daquele tempo? Naturalmente a fome antiga me enfraqueceu a mem\u00f3ria. Lembro-me de vul- tos bisonhos que se arrastavam como bichos, remoendo pragas. Que fim teriam levado? Mortos nos hospitais, nas cadeias, debaixo dos bondes, nos rolos sangrentos das favelas. Alguns, raros, teriam conseguido, como eu, um emprego p\u00fablico, seriam parafusos insignificantes na m\u00e1quina do Estado e estariam visitando outras fa- velas, desajeitados, ignorando tudo, olhando com assom- bro as pessoas e as coisas. Teriam as suas pequeninas almas de parafusos fazendo voltas num lugar s\u00f3.<\/p>\n<p>Ia sentar-me no canto mais escuro, longe do can- deeiro de petr\u00f3leo, longe dos homens de camisas sem mangas e das mulheres que arrastavam tamancos.<\/p>\n<p>Vagabundos? Nada. Estavam ali indivfduos de v\u00e1rias profiss\u00f5es. O moleque tisnado era engraxate. A mulher de chinelos, que trazia uma garrafa de querosene pen- durada no dedo por um cordel, tinha modos de p: ssoa s\u00e9ria, casada ou amigada. A rapariga pintada de branco e vermelho, com marcas de feridas nos bra\u00e7os, devia ser uma ratufna como Ant\u00f4nia. O homem gordo era pedreiro, via-se pelas manchas de cal na roupa. Pe- dreiro com aquele corpo, que perigo! Um cochilo no andaime, pisada em falso na ponta da t\u00e1bua, e no dia seguinte a famflia estaria de luto. O rapaz de cabelos compridos que tocava viol\u00e2o provavelmente n\u00e3o se ocupava. No carnaval devia ser uma das figuras mais importantes do cord\u00e3o, e pela festa de Natal, na barca de terra e varas que ali estava armada em frente \u00e0 bodega, seria um bicho na chegan\u00e7a, contramestre pelo menos, talvez almirante. Os meninos que brincavarn na rua quando estiava, \u00e0s carreiras e aos gritos, horas de- pois estariam no grupo escolar, os cotovelos na car teira, escutando, ou n\u00e3o escutando, a voz da profes- sora. Vinte anos depois seriam balizas no clube carna- valesco, contramestres de chegan\u00e7a, donas-de-casa sos- segadas que levariam, pendurada no fura-bolo, uma garrafa de querosene amarrada pelo gargalo, mendigos como aquele que ali estava com a perna estirada co- berta de trapos. Felizmente as moscas dormiam, e o homem dos trapos n\u00e3o precisava mandar as almas cari- dosas para o reino do c\u00e9u em voz alta, para a casa do diabo em voz baixa. Agora n\u00e3o havia esmolas e o homem da perna entrapada conversava com os outros quae naturalmente. O d\u00f3no da bodega era triste. Cer- tamente pensava no aluguel, na figura odiosa de um dr. Gouveia, no imposto e nas faturas dos g\u00eaneros.<\/p>\n<p>Talvez dentro de seis meses a bodega estivesse fechada, e ele, com os cacarecos, a mulher, de garrafa pendu- rada no dedo, e os filhos, que agora dan\u00e7avam na rua molhada, tivesse descido o morro pela banda do norte e vivesse \u00e0 beira do Reginaldo, onde h\u00e1 febres, inun- da\u00e7\u00f5es e lixo. As crian\u00e7as dan\u00e7avam e cantavam na rua molhada. Dentro de vinte anos as que gostassem de torcer-se no mesmo canto seriam parafusos. Ignora- riam o que existisse longe delas, mas conheceriam per- feitamente as coisas por onde passassem as suas roscas.<\/p>\n<p>Haveria dentro de vinte anos criaturas assim encaraco- ladas que, tendo corrido mundo, se resignam a viver num fundo de quintal, olhando canteiros murchos, res- pirando podrid\u00f5es, desejando um peda\u00e7o de carne vi- ciada? Tudo ali era t\u00e3o simples! Os bord\u00f5es do viol\u00e3o gemiam, as gargalhadas sonoras da mulher pintada enchiam a pra\u00e7a. A hist\u00f3ria que o homem acaboclado, de peito cabeludo e cicatrizes no rosto, contava ao engraxate devia ser interessante. Gestos expressivos, provavelmente fa\u00e7anhas de capueiras. Eu n\u00e3o compreen- dia a linguagem do narrador, as particularidades que provocavam admira\u00e7\u00e3o perdiam-se. As gargalhadas da mulher transformavam-se naquela viagem curta aos meus ouvidos, chegavam-me frias, geladas. E a marcha do carnaval entristecia nos bord\u00f5es do pinho. Todas aquelas pessoas entendiam-se perfeitamente. Diferiam , muito umas das outras, mas havia qualquer coisa que as aproximava, com certeza os remendos, a roupa suja, a imprevid\u00eancia, a alegria, qualquer coisa. Eu \u00e9 que ` n\u00e3o podia entend\u00ea-las. &#8211; &#8220;Sim senhor. N\u00e3o senhor.&#8221; &#8216; Entre elas n\u00e3o havia esse senhor que nos separava. Eu era um sujeito de fala arrevesada e modos de parafuso.<\/p>\n<p>Aquele tipo acaboclado, que dizia hist\u00f3rias de capueira e se balan\u00e7ava num p\u00e9 s\u00f3, tinha b\u00edceps enormes, pro- vavelmente estrangularia um homem sem grande es- for\u00e7o. A rapariga pintada cheirava a p\u00f3-de-arroz. A p\u00f3- de-arroz e a gasolina. O rapaz de cabelos compridos &#8216; largava os sambas carnavalescos e punha-se a arrancar do pinho coisas absurdas que pareciam trechos de \u00f3pe- ras. Insuport\u00e1vel. Afinal que estava eu fazendo ali, sentado num caix\u00e3o, diante de um copo vazio? Pro- curava fixar a aten\u00e7\u00e3o nas crian\u00e7as que dan\u00e7avam e corriam, como dan\u00e7avam Q corriam, na areia do Ca- valo-Morto, os meus companheiros, alunos de mestre Ant\u00f4nio Justino. L\u00e1 estava novamente entrando no pas- sado, torcendo-me como parafuso. &#8211; &#8220;Rei meu senhor mandou dizer que fossem ao cemit\u00e9rio e trouxessem um osso de defunto.&#8221; Quem tinha coragem? Os mais atrevidos chegavam at\u00e9 o muro de seu Hon\u00f3rio, no \u00fcm da rua. Adiante o lugar era mal-assombrado e nin- gu\u00e9m se aventurava por l\u00e1. Eu queria gritar e espo- jar-me na areia como os outros. Mas meu pal estava &#8216; na esquina, conversando com Teotoninho Sabi\u00e1, e n\u00e3o consentia que me aproximasse das crian\u00e7as, certamente receando que me corrompesse. Sempre brinquei s\u00f3. Por isso cresci assim besta e mofino.<\/p>\n<p>Lembrava-me da minha chegada \u00e0 vila. As ruas me causavam grande espanto: nunca havia imaginado que as ruas fossem t\u00e3o compridas e t\u00e3o largas. Sai de casa e comecei a passear na cal\u00e7ada, olhando a janela de um sobra.dinho onde se debru\u00e7ava um homem far- dado. Quis recolher-me e entrei pela primeira porta que encontrei. Na sala de jantar descobri uma mulher amamentando o filho, sentada numa esteira, com um gato de banda. Fiquei encabulado e perguntei: &#8211; &#8220;De quem \u00e9 csse gato?&#8221; A mulher respondeu: &#8211; &#8220;E meu.&#8221; Sa\u00ed e continuei a passear na cal\u00e7ada, mas sem prestar aten\u00e7\u00e3,o ao homem de farda que se debru\u00e7ava \u00e0 janela ! do sobradinho. Arrisquei-me a entrar por outra porta.<\/p>\n<p>Na sala de jantar a mulher amamentava o filho. E o gato de banda. Tornei a perguntar: &#8211; &#8220;De quem \u00e9 esse gato?&#8221; A mulher respondeu : &#8211; &#8220;\u00c9 meu.&#8221; Mais tarde cabo Jos\u00e9 da Luz me encontrou perdido e levou-me para casa. Um menino grande e besta, muito diferente dos que brincavam junto \u00e0 barca de terra e varas. Na escola de mestre Ant\u00f4nio Justino sentava-me afastado dos ou- tros, naturalmente para n\u00e3o me corromper.<\/p>\n<p>E ali estava encostado ao balc\u00e3o, sem perceber o que diziam, meio b\u00eabedo, susceptivel e vaidoso, des- conffado como um bicho. Tudo aquilo me envergo- nhava: as conversas simples, a alegria, especfalmente oa m\u00fasculos do homem que falava ao engraxate. M\u00fas- culos e m\u00e3os enormes, que esganarfam facilmente um inimigo. Levantava-me.<\/p>\n<p>&#8211; Insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>A mulher cheirava a gasolina. O viol\u00e3o tocava \u00f3peras.<\/p>\n<p>&#8211; Insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os bfceps e as m\u00e3os do homem acaboclado eram realmente enormes.<\/p>\n<p>* * * O \u00faltimo dia foi medonho. Quando a limozcsine rolou no paralelepfpedo e o peftilho de Juli\u00e3o Tavares se sumfu, n\u00e3o me afastei da janela,. Fiquef mastigando o cigarro e respirando aquela mistura desagrad\u00e1vel que enchia a rua. Nenhum desejo de ir aos Martirios, subir o morro do Farol e escutar os tipos que se encostavam ao bak\u00e3o sujo e gorduroso da bodega. Apalpei a car- tefra vazia, meti os dedos noa bolsos mi\u00fados, vazios.<\/p>\n<p>Sentia-me incompleto e sem \u00e3nimo de me aventurar sozimho por aquelas ruas esquisitas. sentia,-me iraco e desarmado.<\/p>\n<p>Porque serfa que o peftilho de Juli\u00e3o Tavares bri- lhava tanto e n\u00e3o se amarrotava? Juli\u00e3o Tavares licava duro como um osso fraturado envolvido em gesso, tinha o espinha\u00e7o aprumado em demasia., olhava em lrente, oom seguran\u00e7a, a vinte passos. O peitilho da camisa absolutamente chato.<\/p>\n<p>A minha camisa estufa no peito, \u00e9 um desastre.<\/p>\n<p>Quando caminho, a cabe\u00e7a baixa, como a procurar df- nheiro perdido no ch\u00e2o, h\u00e1 sempre muito pano subin- do-me na barriga, machucando-se, e \u00e9 necess\u00e1rio pux\u00e1-lo, ajeit\u00e1-lo, sujeit\u00e1-lo com o cinto, que se afrouxa. Estes movimentos cont\u00ednuos d\u00e3o-me a apar\u00eancia de um bo- neco desengon\u00e7ado, uma criatura mordida pelas pulgas.<\/p>\n<p>A camisa sobe constantemente, n\u00e3o h\u00e1 meio de conser- v\u00e1-la estirada. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 possivel manter a es- pinha direita. O diabo tomba para a frente, e l\u00e1 vou marchando como se fosse encostar as m\u00e3os no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Levanto-me. Sou um bfpede, \u00e9 preciso ter a dignidade dos b\u00edpedes. Um cachorro como Juli\u00e3o Tavares andar empertigado, e eu curvar-me para a terra, como um bicho! Desentorto o espinha\u00e7o. Que \u00e9 que me pode acontecer? Se dr. Gouveia passar por mim, finjo n\u00e3o v\u00ea-lo. E impossfvel pagar o aluguel da casa. N\u00e3o pago.<\/p>\n<p>Hei de furtar? Dr. Gouveia que se lixe. Se o governador e o secret\u00e1rio me encontrarem, \u00e9 como se n\u00e3o encon- trassem. N\u00e3o os enxergo, na rua sou um homem. Pen- sam que vou encolher-me, sorrir, o chap\u00e9u na m\u00e3o, os ombros derreados? Pensam? Est\u00e3o enganados. Sou um bfpede. E isto, um b\u00edpede. Mas n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que dr. Gouveia, o governador e o secret\u00e1rio apare\u00e7am na rua. Ali\u00e1s \u00e9 bom que eu n\u00e3o veja essas criaturas exi- gentes. Se elas desejarem qualquer coisa de mim, fala- r\u00e3o de longe: escrever\u00e3o um bilhete ou dar\u00e3o uma ordem para o jornal, ao Pimentel, pelo telefone. Man- darei um m\u00eas do aluguel da casa, se puder, ou escre- veref mais uma coluna que j\u00e1 escrevi centenas de veze\u00e7 e reproduzo sempre, substituindo palavras. Esses homens dominam-me sem mostrar o focinho: manifes- tam-se pelo arame, num peda\u00e7o de papel.<\/p>\n<p>Pensam que vou ficar assim curvado, nesta posi- \u00e7\u00e3o que adquiri na carteira suja de mestre Ant\u00f4nio Justino, no banco do jardim, no tamborete da revis\u00e2o, na mesa da reda\u00e7\u00e3o? Pensam? Procuro ajeitar as v\u00e9r- tebras, mas as v\u00e9rtebras parecem soltas, presas apenas por um fio, como as que Dagoberto vinha jogar em cima da minha cama. Resvalam pouco a pouco, e ao cabo de vinte minutos de exerc\u00edcio penoso o meu cor- no toma a configura\u00e7\u00e3o de um arco. A cabe\u00e7a pende, como se procurasse dinheiro na cal\u00e7ada, e a camisa taz pafos no peito. In\u00fatil tentar abaix\u00e1-la e prend\u00ea-la na cintura Sobe sempre e me arrelia. Enquanto me aperreio com ela, n\u00e3o vejo as pessoas. Que ser\u00e1 de mim para o futuro? Est\u00e1 claro que n\u00e3o inspiro confi- an\u00e7a aos trabalhadores. Na sess\u00e3o mais agitada seu Ramalho gemer\u00e1, cansado e asm\u00e1tico, um ombro alto, outro baixo: &#8211; &#8220;Camarada Lufs da Silva, voc\u00ea escre- veu um artigo defendendo o imperialismo &#8221; &#8211; &#8220;N\u00e3o escrevi n\u00e3o. Sou l\u00e1 homem para defender o imperia- lismo?&#8221; &#8211; &#8220;Est\u00e1 aqui o original, \u00e9 a sua letra&#8221;, dir\u00e1 o rapaz de cabelos compridos, que toca viol\u00e3o. Mois\u00e9s n\u00e3o ter\u00e1 coragem de interceder por mim. Pimentel estar\u00e1 fuzilado. Lobisomem tomar\u00e1 uma nota lenta nos pap\u00e9is. Fico pensando em coisas assim, cabisbai- xo, a testa enrugada. Se dr. Gouveia, o governador, o secret\u00e1rio, passarem por mim, n\u00e3o os verei: seguirei o meu caminho com dignidade curva, o espirito distan- te. Os conhecidos que me virem pensar\u00e3o: &#8211; &#8220;Lu\u00eds da Silva \u00e9 um sujeito que n\u00e3o tem subservi\u00e9ncia nenhu- ma.&#8221; E os que me cumprimentarem e n\u00e3o obtiverem resposta dir\u00e3o: &#8211; &#8220;Lufs da Silva \u00e9 uma besta, um imbecil, um cretino.&#8221; E bom n\u00e3o levantar a espinha.<\/p>\n<p>&amp; a levantasse, teria de baix\u00e1-la de novo a cada pas.<\/p>\n<p>so, aflito e apressado, o chap\u00e9u na m\u00e3o. Assim, n\u00e3o vejo ningu\u00e9m, caminho batendo nos transeuntes, enmlando palavras de desculpa, entrando no fqturo como um parafuso. &#8211; &#8220;Camarada Luis da Silva, antes da revolu\u00e7\u00e3o voc\u00e9 elogiava os polfticoa safados do inte- rior, os prefeitoz ladr\u00f5es. Onde est\u00e1 o dinheiro que esza gente lhe deu?&#8221; Sabia l\u00e1! Agora n\u00e1o tinha dinheiro. De quando em quando metia a m\u00e3o no bolzo. Desarmado e s\u00f3, inteiramente d\u00f3, encoatado \u00e0 janela, ouvindo o barulho dos autom veis. Nenhum desejo de lugir daa pessoaa que Iam ao teatro. &amp;ntia era vontade de ir tamb\u00e9m, sentar-me auma cadeira junto do palco, bater palmas, olhar os camarotes. Faltavam-me cinco ou seis dias para rece- ber o ordenado. Agora n\u00e3o havia dinheiro, s\u00f3 resta- vam niqueis. Um empr\u00e9stimo, sem d\u00favida, um empr\u00e9s- timo. Mas quem me iria emprestar vinte mil-r\u00e9is \u00e0qus- la hora? D. Mercedes entrou no carro. A personagem off- cfal n\u00e3o a acompanhava. Tipo de responsabilidades, pai de famflia, ia ao teatro em companhia da mulher e das filhas. D. Mercedes sentava-se num camarote fronteiro, n\u00e3o bem fronteiro, um pouco de esguelha, e n\u00e3o se exibia demais.<\/p>\n<p>Se Pimentel aparecesse, talvez me arranjasse o ingresso do jornal. Ou um empr\u00e9stimo. Dentro de cin- co dias, seis quando muito, o Tesouro pingaria o orde- nado da gente.<\/p>\n<p>&#8211; Daqui a dez anos terei esse ordenado? E Juli\u00e3o Tavares? Juli\u00e3o Tavares estaria expatria- do, fuzilado ou enforcado. Enforcado, Juli\u00e3o Tavares enforcado. Marina deixaria de pintar as unhas e iria trabalhar no asilo das \u00f3rf\u00e3s.<\/p>\n<p>Vinte mil-r\u00e9is, vinte mil-r\u00e9is. Lembrava-me dos leil\u00f5es em que se cavava dinheiro para um santo, dian- te da igreja da vila. &#8211; &#8220;Vinte mil-r\u00e9is me d\u00e3o por esta prenda&#8230;&#8221; O olho de vidro de padre In\u00e1cio, im\u00f3vel na \u00f3rbita escura, tinha uma dureza sinistra.<\/p>\n<p>Vinte mil-r\u00e9is, vinte mil-r\u00e9is. N\u00e3o haveria leil\u00f5es, n\u00e3o haveria santos, Marina trabalhando no asilo das \u00f3rf\u00e3s, Juli\u00e3o Tavares enforcado, padre In\u00e1cio morto muitos anos antes.<\/p>\n<p>Aquela hora a plat\u00e9ia, come\u00e7ava a encher-se, um garoto dizia pilh\u00e9rias, as cantoras pintadas e empaca- viradas em mantos compridos entr\u00e3vam pela portinho- la da caixa. Mantos pretos. Pareceu-me que os man- tos deveriam ser pretos, mas n\u00e3o pude saber porque me vinha esta id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Vinte mil-r\u00e9is, vinte mil-r\u00e9is. Padre In\u00e1cio cravava nos ofertantes o olho duro e im\u00f3vel, andava em torno da mesa com as m\u00e3os atr\u00e1s das costas, todo preto.<\/p>\n<p>Um empr\u00e9stimo, era o que me valia. Pensei nas minhas entrevistas com Marina, ,lta noite, no quin tal. Certamente ela havia esquecido aquilo, mas eu me lembrava de tudo muito berr. As formigas rendilha- vam as folhas. Um grilo saltava no canteiro. A ilumi- na\u00e7\u00e3o da cidade chegava ali muito reduzida. Quase n\u00e3o tfnhamos necessidade de roupa. &#8211; &#8220;Vamos entrar meu cora\u00e7\u00e3o.&#8221; As luzes se tinham apagado e eu con- seguira que Marina se despisse. Beijara-a da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, sentira nos bei\u00e7os os carocinhos que se forma- vam na pele macia. Ela curvava-se e cobria os peitos com as m\u00e3os. Olhava-a e apenas distinguia uma som- bra que se torcia junto ao tronco da mangueira. Pare- cia-me que Marina estava vestida de preto.<\/p>\n<p>Ali, perto da raiz, ao p\u00e9 da cerca, no canteiro das alfaces, escondia-se a fortuna de Vit\u00f3ria. Aqueles pon- tos me eram familiares, seria capaz de encontr\u00e1-los com os olhos fechados.<\/p>\n<p>Tempo sem fim \u00e0 janela, olhando os autom\u00f3veis que passavam para o teatro. Ainda passavam alguns.<\/p>\n<p>Bem. A representa\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o tinha come\u00e7ado.<\/p>\n<p>Vinte mil-r\u00e9is. Cinco ou seis dias depois pagaria, com juro de cento por cento. Daria cento por cento ao velho Abra\u00e3o. Uma semana de prazo. Pimentel n\u00e3o aparecia, Mois\u00e9s n\u00e3o aparscia.<\/p>\n<p>Com certeza a plat\u00e9ia estava quase cheia, serfa diffcil encontrar cadeiras perto da orquestra. &#8211; &#8220;Letra D, letra F&#8221; &#8211; &#8220;Acabaram-se. S\u00f3 h\u00e1 de S para tr\u00e1s.&#8221; Marina passeava o Lorgnon pelos camarotes, indiferen- te, e os rapazes abotoavam para ela os olhos gulosos.<\/p>\n<p>D. Mercedes mordia os bei\u00e7os com despeito. Juli\u00e3o Tavares, apertado no smokzng, parecia menos gordo.<\/p>\n<p>Dentro de alguns anos estaria enforcado, mas agora estava bem vivo. E na camisa branca, sem uma dobra, as pedras dos bot\u00f5es faiscavam, no dedo grosso o rubi faiscava, a gola do srcoking faiscava.<\/p>\n<p>Entrei desanimado, fui debru\u00e7ar-me \u00e0 janela da sala de jantar. Vit\u00f3ria p\u00f4s a xfcara, o a\u00e7ucareiro e a garrafa t\u00e9rmica sobre a mesa, foi deitar-se. Ouvi o rumor da chave na fechadura, depois o resmungar de ora\u00e7\u00f5es e o chocalhar das contas do ros\u00e1rio. Em segui- da houve sil\u00eancio. Os olhos de um gato passaram por cima do muro de d. Ros\u00e1lia. Currupaco mexeu-se na gaiola e bateu as asas.<\/p>\n<p>Uma a\u00e7\u00e3.o indigna. Perfeitamente, a\u00e7\u00e3o indigna, mas n\u00e3o ousei confessar a mim mesmo qual era a a\u00e7\u00e3o, qual era a indignidade. Horrivel fixar aquilo no pensamento. N\u00e3o queria pensar.<\/p>\n<p>A casa devia estar cheia, o homem da bilheteria cochilava. Um olho, no palco, observava a plat\u00e9ia por um buraco do pano de boca. Marina bocejava por detr\u00e1s do leque, Juli\u00e3o Tavares amolava-se.<\/p>\n<p>Afinal Vit\u00f3ria encontrava sempre moedas minhas no ch\u00e3o quando varria a casa. Depois elas apareciam em cima da mesa de jantar, nas cadeiras, debaixo dos travesseiros, mas antes tinham estado ocultas naqueles lugares que eu conhecia bem. Muito prov\u00e1vel que a velha se enganasse nas contas e deixasse algumas l\u00e1 enterradas. Natural estarem ali vinte mil-r\u00e9is meus.<\/p>\n<p>Indignei-me com a pobre e entrei a descomp\u00f4-la men- talmente: &#8211; Ladra! Estar um homem em dificuldade por causa de vinte mil-r\u00e9is, uma porcaria, e saber que essa miser\u00e1vel esconde as economias dele, economias suadas, em buracos no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Decidi-me a ir pisar mais uma vez a terra que Marina havia pisado, encostar-me ao tronco da man- gueira, onde ela estivera nua, enrolada na escurid\u00e1o, torcendo-se e mordendo os bra\u00e7os para n\u00e3o gritar por causa dos beijos que eu Ihe dava na barriga e nas coxas. Deci os degraus. Na porta do banheiro meti o p\u00e9 numa po\u00e7a.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares serfa enforcado. Marina trabalhai. ria no asilo das \u00f3rf\u00e3s.<\/p>\n<p>Perfeitamente, era ali que ela havia tirado a cami- sa uma noite. Agora estava embrulhada em roupa com- prida, o largnon insultando as mulheres dos outros camarotes. O pano j\u00e1 se tinha levantado, Ffgaro e Almaviva se escondiam perto da janela de Rosina, o dr. Bartholo fechava a porta. Marina olhava a cena com fastio.<\/p>\n<p>Meses atr\u00e1s estava ali no escuro, nua, o corpo todo coberto de carocinhos mi\u00fados como pontas de alfine- tes. Inteiri\u00e7ava-me, rangia os dentes, pisava com raiva o ch\u00e3o que escondia o tesouro de Vit\u00f3ria. Debaixo das solas dos meus sapatos, a alguns centfmetros de pro- fundidade, estavam as moedas que eu precisava. Ras- par um pouco a terra, mergulhar a m\u00e2o, agarrar um punhado delas.<\/p>\n<p>Os olhos do gato brilharam outra vez em cima do muro de d. Ros\u00e1lia e ficaram parados, redondos e fos- forescentes. Pensef na datil\u00f3grafa que tinha desaparecido. Talvez estivesse doente. Ou morta. Franzina, com aquele peitinho estreito, batendo na m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Mexia-me, e n\u00e3o podia desviar os olhos das duas tochas que me espiavam por cima do muro. Sentia os torr\u00f5es se esfareL3rem sob as solas dos sapatos, quase que ouvia o tilintar das moedas. Soaram pisadas perto.<\/p>\n<p>Encolhi-me e acocorei-me, receando que algu\u00e9m tre- passe o muro e viesse refor\u00e7ar a espionagem do gato.<\/p>\n<p>Estava cheio de atrapalha\u00e7\u00e3o e vergonha. Uma a\u00e7\u00e3o ind\u00edgna. Procurava afastar esta id\u00e9ia pensando em Mar\u00edna, imaginando-a vestida de preto. Um manto impalp\u00e1vel que eu atravessava com as m\u00e3os e com os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>D. Bas\u00edlio comparava a cal\u00fania a um inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Que fazia Marina, chateada, bocejando por detr\u00e1s do leque? S\u00f3 para se mostrar, s\u00f3 para mostrar a roupa e o orgnon. Amolada, sonolenta. Juli\u00e3o Tavares tam- bem estava amolado e sonolento. D. Bas\u00edlio descrevia o inc\u00eandio, acompanhando com as m\u00e3os o movimento das labaredas. A princfpio eram chamas fracas, e d.<\/p>\n<p>Bas\u00edlio, para segui-las, baixava-se, estava quase encos- tando as m\u00e3os no soalho.<\/p>\n<p>As minhas m\u00e3os encontraram-se esgaravatando a raiz da mangueira.<\/p>\n<p>&#8211; Que mis\u00e9ria! Que mis\u00e9ria! Repetia as palavras como um idiota, olhando as duas brasas im\u00f3veis em cima do muro. Mas os dedos continuavam a remexer os torr\u00f5es. Cavando a terra com as unhas, como um gato! &#8211; Que mis\u00e9r\u00eda! Que mis\u00e9ria! Umidade pegajosa corr\u00eda-me pelos bra\u00e7os, molha- va a camisa. Cinco dias, seis dias depois, receberia o dinheiro no Tesouro. Receber\u00eda o dinhe\u00edro, trocaria uma c\u00e9dula por pratas e deitaria ali as moedas, com acr\u00e9scimo de c\u00b0nto por cento. Se Mois\u00e9s tivesse apa- recido. . . Mois\u00e9s e Pimentel s\u00f3 apareciam quando n\u00e3o eram necess\u00e1rios. Restituiria as moedas com aumento.<\/p>\n<p>Considerei que Vit\u00f3ria n\u00e3o se assemelhava ao tio de Mois\u00e9s. Vit\u00f3ria n\u00e3o tinha a paix\u00e3o do lucro: apenas guardava enterrado o dinheiro ganho. E queria que, muito ou pouco, ele estivesse al\u00ed em seguran\u00e7a. A id\u00e9ia de que ela ia surgir, resmungando, arrastando os p\u00e9s I reum\u00e1ticos, paralisou-me os dedos. Survreendi-me a dizer e a repetir em voz baixa: &#8211; O dinheiro foi feito para circular.<\/p>\n<p>Com certeza Vit\u00f3ria estava dormindo, sonhando com os navios e com o Currupaco. Os olhos do gato \u00a1 cresciam, cresciam extraordinariamente, iluminavam o I quintal todo.<\/p>\n<p>&#8211; Sim ou n\u00e3o. Sim ou n\u00e3.o. \u00c9 est\u00fapido, absoluta- mente est\u00fapido. Afinal o dinheiro foi feito para cir- cular.<\/p>\n<p>Lembrei-me do jogo das crian\u00e7as. Cara ou cunho? Se desse cara, sim; se desse cunho, n\u00e3o. Mergulharia a m\u00e3o na terra \u00famida, tiraria uma moeda, acenderia um f\u00f3sforo. Se sa\u00edsse cunho, iria deitar-me, n\u00e3o torna- ria a ver Marina. Tantos tormentos por causa de uma f\u00eamea! Dorrrir, dormir. Senti as p\u00e1lpebras pesadas; I julgo que, fascinado pelos olhos do gato, deixei a cabe- \u00e7a inclinar-se num cochilo. Se saisse cara, acabaria depressa com aquilo e iria ao teatro. Tinha quase a certeza de que, indo ao teatro, tudo se arranjaria: Marina voltaria para mim, Juli\u00e3o Tavares se achata- ria, se desagregaria, como um pouco de azeite em \u00e1gua corrente. Meter a m\u00e2o na terra, agarrar um dobr\u00e3o do imp\u00e9rio, riscar um f\u00f3sforo. Afastei a id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Que lembran\u00e7a! Bastavam as luzes medonhas dos olhos do gato. Acabar depressa, acabar depressa. N\u00e3o era nenhum selvagerr para adotar recursos infantis. Sim ou n\u00e3o. Um homem livre. Perfeitamente, um homem livre de supersti\u00e7\u00f5es. Comecei a cavar a terra com desespero, ralando os dedos. Estava decidido. Pronto! Seis dias depois colocaria no buraco o duplo da quan- tia retirada.<\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma a\u00e7\u00e3o indigna. Nenhuma a\u00e7\u00e2o indigna.<\/p>\n<p>Continuei a aprofundar a cova com as unhas, &#8216; como um gato. Restituiria o dnheiro com acr\u00e9scimo &#8216; de cento por cento. Um roubo. Roubaria de mim mes- mo para aumentar o tesouro da ladra. Sobressaltei-me.<\/p>\n<p>Se as moedas n\u00e2o estivessem ali? Se a velha as tivesse transportado para outro lugar? Revolvi apressado a terra mole. Chegaria a tempo de alcancar o segundo ato? Agora n\u00e3o sentia vergonha: indignava-me por \u00a1 causa da hesita\u00e7\u00e3o que tinha consumido uma eternidade. Um homem livre, sem d\u00favida. O que me incomo- dava era o gato. Se n\u00e3o fosse o receio de fazer baru- lho, atiraria um punhado de torr\u00f5es no animal. As tochas desapareceriam, eu me tranq\u00fcillzaria.<\/p>\n<p>At\u00e9 que enfim! L\u00e1 estavam elas debaixo dos dedos: dobr\u00f5es enormes da col\u00f4nia, pe\u00e7as menores e mais fornidas, da monarquia, rodelas atuais, de dez tost\u00f5es e de dois mil-r\u00e9is. Apanhei vinte destas \u00falti- mas. Vinte mil-r\u00e9is, ou mais, que Vit\u00f3ria n\u00e3o ia enter- rar n\u00edqueis. Fechei a cova, fui ao banheiro lavar as m\u00e3os e as moedas. Esfreguei-as, enxuguei-as com o len\u00e7o. E fugi, atravessei a casa, abri a porta da rua.<\/p>\n<p>Alcan\u00e7aria o fim do segundo ato ou o princ\u00edpio do ter- ceiro. Lembrei-me de contar o dinheiro. Desdobrei o len\u00e7o, examinei as moedas ainda \u00famidas. Vinte e seis mil-r\u00e9is em prata e duas libras esterlinas. Tomei o chap\u00e9u, desci a cal\u00e7ada. Como diabo teria Vit\u00f3ria con- seguido agadanhar aquele ouro? Pus-me a andar lentamente, a pressa havia desa- parecido. At\u00f4nito, o len\u00e7o com as pratas na m\u00e3o esquerda, as duas libras na direita, avizinhei-me da pra\u00e7a. Tfnha repugn\u00e2ncia de meter as moedas no bol- so. Olhei os dedos com aten\u00e7\u00e3o, cheirei-os. Fedor de azinhavre, terra nas unhas. Porcaria. Esfreguei as m\u00e2os no len\u00e7o molhado.<\/p>\n<p>Era necess\u00e1rio livrar-me do dinheiro. Pensei em voltar, afrontar de novo os olhos do gato. Um engra- xate ambulante olhou-me os p\u00f3s e bateu na caixa.<\/p>\n<p>Onde guardaria aquilo? J\u00e1 perto do teatro parei, meio aliviado. Baixei-me e escondi num sapato as duas libras esterlinas. As pratas ficaram envolvidas no len\u00e7o.<\/p>\n<p>* * * Introduzi perturba\u00e7\u00f4es muito s\u00e9rias numa vida Quando recebi o ordenado, obtive no caf\u00e9 cinq\u00fcen ta e dois mil-r\u00e9is em prata. Vit\u00f3ria fazia inconsci entemente \u00f3timo neg\u00f3cio. Juro de cento por cento. f noite juntei a isso as duas libras esterlinas e tarde, quando houve sil\u00eancio, pus tudo sob a raiz dF mangueira. Infelizmente coloquei as moedas empilha das, como num cartucho, posi\u00e7\u00e3o diferente da que tinham as que l\u00e1 estavam. Suponho que isso provocou a desconfian\u00e7a de Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>No dia segulnte paguel o sal\u00e1rio dela. E via-a, como todos os meses, andar numa aglta\u00e7\u00e3o, trocando as c\u00e9dulas, sumlndo-se \u00e0 noite em viagens ao quintal.<\/p>\n<p>Mas a confus\u00e3o, que ordinariamente dura tr\u00eas, quatro dias, desapareceu logo e foi substitu\u00edda por um abati- mento que me causou grande mal-estar. Ouvia-a uma noite intelrinha contar dinheiro. Como j\u00e1 disse, ela pensa em voz alta. O metal tilintava em cima da cama da velha, e os n\u00fameros se acumulavam numa soma infind\u00e1vel, sempre emendada. As vezes a chave ran- gia na fechadura, a porta abria-se, tornava a fechar- se, abrla-se a da sala de jantar, os passos pesados des- ciam os degraus. Meia hora depoiz a mulher voltava, as moedas tiniam novamente em clma da cama. Outro sumi\u00e7o. Eu adormecia, mas o ferrolho da sala de jan- tar e a fechadura do quarto pr\u00f3xlmo acordavam-me.<\/p>\n<p>O solil\u00f3quio e os tinidos tiravam-me o sono.<\/p>\n<p>Levantei-me cedo e encontrei Vlt\u00f3ria muito velha e muito bamba. Delxava-se cair a um canto da cozinha, e era dif\u00edcil arrancar-se dali. Interrompeu as idas ao quintal e abandonou as li\u00f5es ao Currupaco. Notei que as covas estavam revolvidas e mal cobertas.<\/p>\n<p>&#8211; Vit\u00f3ria! Tinha vergonha de cham\u00e1-la, temia que ela me pregasse os olhos brancos e cansados, cheios de afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Vit\u00f3ria! Estava sentada, encolhlda, movendo em sil\u00e9ncio os bel\u00e7os moles. E quando levantava a cabe\u00e7a, mostra- va no rosto uma suspeita agoniada. Se ela andava com as suas contas em ordem, certamente se espantava de haver achado em um dos buracos vinte e seis mil-r\u00e9is a mais; se as contas n\u00e3o estavam em regra, talvez se julgasse roubada. E Vit\u00f3ria engolia em seco, olhava o Currupaco ansiosa, numa interroga\u00e7\u00e3o desalentada que fazia pena.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e3 descansar, Vit\u00f3ria. Voc\u00e3 est\u00e1 doente.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia descansar, e a minha piedade era ind- til. Level o desespero a uma alma que vivia sossegada.<\/p>\n<p>Toda a seguran\u00e7a daquela vlda perdeu-se. A linha tra.<\/p>\n<p>\u00e7ada do quarto \u00e0 ralz da mangueira, uma linha curta que os passos tr\u00f4pegos e vagarosos percorriam na escurid\u00e3o, fora de repente cortada.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 descansar, Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Conselho in\u00fatil. O c\u00e9u de Vit\u00f3ria, miudinho, onde grilos e formigas moravam, tinha sido violado.<\/p>\n<p>* * * As visitas de Juli\u00e3o Tavares foram escasseando e a alegria ruidosa de Marina pouco a pouco desapare- ceu. Havia grande sil\u00ebncio na casa vizinha. Seu Rama- lho estava contente.<\/p>\n<p>&#8211; Parece que a tonta criou ju\u00edzo.<\/p>\n<p>&#8211; Acha? perguntei incr\u00e9dulo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 c\u00e1 uma id\u00e9ia. Essa gente mo\u00e7a desembesta e faz tolice. \u00c9 o sangue. Mas um dia acerta a pisada.<\/p>\n<p>D. Ad\u00e9lia andava com a cara comprida e o nariz vermelho, assoando-se e soltando longos suspiros. Uma tarde encontrei Marina engulhando junto ao mamoei- ro. Eram arrancos que a sacudiam toda, a faziam tor- cer-se agarrada ao tronco, o rosto contra\u00eddo, muito descorado. N\u00e3o me viu e entrou em casa cuspindo.<\/p>\n<p>&#8211; Que ter\u00e1 ela? diss comigo sem atinar com o motivo dos engulhos, da palidez e das cusparadas.<\/p>\n<p>&#8211; An! Estava feia. Bem. Estava feia demais, amarela, torcendo-se, enxugando na manga a cara molhada de suor, tentando vomitar, cuspindo \u00e0 toa na roupa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00f3timo! Onde andavam os vestdos caros, as tintas, os tre- meliques e os modos insolentes que escandalizavam d. Ros\u00e1lia? Estava ali com os m\u00fasculos da cara repuxa- dos, fechando os olhos, agitando a cabe\u00e7a como uma lagartixa.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo tem ela? Desgovernada, cuspindo-se.<\/p>\n<p>&#8211; \u00f3timo! Est\u00e1 muito bem assim. Que se lixe.<\/p>\n<p>* * r Uma criatura dissipou as fuma\u00e7as mesquinhas de vingan\u00e7a, uma figura que apareceu numa esquina e logo se sumiu, mas que me ficou profundamente gra- vada na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Como certos acontecimentos insignificantes to- mam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo \u00e9 empastado e nevoento. S\u00fabito uma coisa entre mil nos desperta a aten\u00e7\u00e3o e nos acompanha. N\u00e3o sei se com os outros se d\u00e1 o nlesmo.<\/p>\n<p>Comigo \u00e9 assim. Caminho como um cego, n\u00e3o pode ria dizer porque me desvio para aqui e para ali. F`re- q\u00fcentemente n\u00e3o me desvio &#8211; e s\u00e3o choques que me deixam atordoado: o pau do andaime derruba-me o chap\u00e9u, faz-me um calombo na testa; a cal\u00e7ada foge- me dos p\u00e9s como se se tivesse encolhido de chofre; o autom\u00f3vel p\u00e1ra bruscamente a alguns centimetros de mim, com um barulho de ferragem, um raspar violen- to de borracha na p_ edra e um berro do chofer. Entro na realidade cheio de vergonha, prometo corrigir-me.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Perd\u00e3o! Perd\u00e3o!&#8221; digo \u00e0s nessoas que me abal roam porque n\u00e3o me afastei d\u00f5 caminho. As pessoas v\u00e3o para os seus neg\u00f3cios, nem se voltam, e eu me con- sidero um sujeito mal-educado. Tenho a imbress\u00e3o de que estou cercado de inimigos, e como caminho deva- gar, noto que os outros t\u00eam demasiada pressa em pisar-me os p\u00e9s e bater-me nos calcanhar\u00e8s. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entriste\u00e7o. Que- ro recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que n\u00e3o compreendo, ouvir o Currupa\u00e7o, ler, escrever. A mul- tid\u00e3o \u00e9 hostil e terrivel. Raramente percebo qualquer coisa que se relacione comigo: um rosto bilioso e faminto de trabalhador sem emprego, um cochicho de gente nova que deseja ir para a cama, um choro de crian\u00e7a perdida. As vezes isso me perturba, tira-me o sono. Se o marido de d. Ros\u00e1lia est\u00e1 presente, \u00e9 o que j\u00e1 se s\u00e1be; se n\u00e3o est\u00e1, penso nos namorados que se atracam junto a uma vitrina, em posi\u00e7\u00e3o inc8moda, no oper\u00e1rio que tem fome e amea\u00e7a o patr\u00e3o, na crl- anca pue chora perdida, chamando a mam\u00e3ezinha.<\/p>\n<p>Tudo foi visto ou ouvido de relance, talvez n\u00e3o tenha sido visto nem ouvido bem, mas avulta quando estou s\u00f3 &#8211; e distingo perfeitamente a crian\u00e7a, o oper\u00e1rio faminto, os namorados que desejam deitar-se. Eles me lnvadiram por assim dizer violentamente. N\u00e3o fiz nenhum esfor\u00e7o para observar o que se passava na mul- tid\u00e3o, ia de cabe\u00e7a baixa, dando encontr\u00f5es a torto e a direito nos transeuntes. De repente um grito, uma palavra amarga, um suspiro &#8211; e algumas figuras se criaram, foram bulir comigo na cama.<\/p>\n<p>A pessoa a que me referi surgiu de supet\u00e3o entre a Rua lo de Mar\u00e7o e a Rua do Com\u00e9rcio. Eu ia dobrar a esquina, ela vinha em sentido contr\u00e1rio &#8211; e foi uma colis\u00e3o feia. A aba do meu chap\u00e9u de palha bateu-lhe na testa, provavelmente feriu-a.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o! Perd\u00e3o! Dei um passo para tr\u00e1s e distingui uma criatura enorme que tamb\u00e9m havia recuado com o choque e estava diante de mim, a m\u00e3,o cobrindo um dos olhos, onde tinha batido a aba do chap\u00e9u. O olho descober- to, os bei\u00e7os contra\u00eddos, as rug\u00e3s da cara exprimiam espanto, raiva e dor. Encostei-me \u00e3 parede, deixei-a passar. Foi um tempo insignificante, mas deu para v\u00e9-la da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. Um minuto depois tinha desa- parecido, a banda do rosto crispada, o olho disponi- vel voltado para mim com um brilho de \u00f3dio. O espa- \u00e7o que ocupara na cal\u00e7ada era atravessado por outros corpos que iam e vinham, sem me despertar intersse.<\/p>\n<p>Mas a imagem do primeiro corpo vivia em mim. Era uma mulher gorda, amarela, mal vestida, com uma barriga monstruosa. N\u00e3o sei como podia andar na rua conduzindo aquela gravidez que estava por dias. A saia, esticada na irente, levantava-se exibindo pernas sujas e inchadas. Os p\u00e9s, sujos e inchados, cresciam demais nos sapatos cheios de buracos. Com uma das m\u00e3os segurava o bra\u00e7o de uma crian\u00e7a magra e p\u00e1li- da, com a outra escondia o olho e um peda\u00e7o de cara.<\/p>\n<p>Eu encostava-me \u00e0 parede, resmungando atrapalhado: &#8211; Perd\u00e3o! Perd\u00e3o! Findo o primeiro momento, aquela figura me pro- vocara c\u00f3cegas na garganta e um desejo idiota de rir.<\/p>\n<p>A barriga disforme resistia ao pano desbotado que tentava cont\u00ea-la e empinava-se, tinha uma forma agressiva. Estava ali um cidad\u00e3o que, antes de nascer, amea\u00e7ava a gente. A m\u00e3e, que s\u00f3 tinha uma banda de rosto, torcia-se por causa da pancada recebida e cravava-me um olhar duro, a metade de um olhar irrita- do e cheio de sofrimento.<\/p>\n<p>\u00a1 &#8211; Perd\u00e3o! Perd\u00e3o! Subitamente as c\u00f3cegas desapareceram, a vontade de rir morreu, atentei vexado naquela barriga enorme que me provocava. A roupa esgar\u00e7ava-se, desbotada, fuxicada e remendada; os p\u00e9s, metidos \u00e0 for\u00e7a nos sapatos furados, pareciam bolos. Dera, recuando, um pux\u00e3o na crian\u00e7a, que se pusera a chorar. Nenhuma palavra, apenas uma interjei\u00e7\u00e3o de dor e raiva, grito rouco, perfeitamente selvagem. Com certeza j\u00e1 vinha ; recebendo encontr\u00f5es, e aquele, demasiado rude, Ihe esgotara a paci\u00eancia. Andar no meio da multid\u00e3o, aos embol\u00e9us, com semelhante barriga! S\u00f3 muita neces- sidade.<\/p>\n<p>Era o tipo da mulher de sub\u00farbio mesquinho, que varre a casa lava as panelas e prega os bot\u00f5es com as dores do parto. pare sozinha e se levanta tr\u00eas dias depois, vai tratar da vida. Vida infeliz, vida porca. O I homem para um lado, ela para outro, arrastando a ! filha pequena, a barriga deformada, estazando-se, i ag\u00fcentando pancadas nos olhos. Ta,lvez estivesse na v\u00e9spera de ter menino, talvez estivesse no dia, talvez j\u00e1 sentisse as entranhas se contra\u00edrem. Rebolar-se-Ia dentro de algumas horas na cama dura, a carne can- sada se rasgaria, os dentes morderiam as cobertas remendadaz. E o macho ausente, ningu\u00e9m para ir cha- mar a parteira dos pobres. Uma vizinha tomaria con- &#8216; ta da casa, faria o fogo, prepararia tisanas, aos repe- &#8216; l\u00f5es, rosnando: &#8211; Porcaria. Que gentel &#8216; Depois ofereceria consola\u00e7\u00f3es: &#8211; Tenha paci\u00eancia. Isso vai logo. Fa\u00e7a for\u00e7a.<\/p>\n<p>A mulher tinha desaparecido, a banda do rosto ; passara cravando-me o olho carregado de \u00f3dio. Eu n\u00e3o sentia desejo de rir. Na cal\u00e7ada um ventre extraordi- n\u00e1rio ia inchando, ventre que tomava propor\u00e7\u00f5es ian- t\u00e1sticas. Os transeuntes atravessavam aquela barri- ! ga transparente, \u00e0s vezes paravam dentro dela, e isto era absurdo, dava-me a id\u00e9ia de gesta\u00e7\u00f5es extrava- , gantes.<\/p>\n<p>Agora havfa duas imagens distintas: uma barriga que se alargava pela cidade e a mulher que mostrava apenas um peda\u00e7o de cara. Nessa parte vfsfvel, endu- recida pelo sofrimento, pouco a pouco se esbo\u00e7avam as fei\u00e7\u00f5es de Marfna. Os cabelos, que a mulher tinha grisalhos, tornavam-se louros. A bochecha era pfnta- da, a metade da boca excessivamente vermelha, o olho \u00fanico muito azul.<\/p>\n<p>Eu fervfa de raiva. Se tivesse encontrado Juli\u00e3o Tavares naquele dia, um de n\u00f3s terfa ficado estirado na rua.<\/p>\n<p>* * * Alguns dias depois achava-me no banheiro, nu, fumando, fantasiando maluqueira, o que sempre me acontece. Fico assim duas horas, sentado no cimento.<\/p>\n<p>Tomo uma xfcara de caf\u00e9 \u00e0s seis horas e entro no banheiro. Sajo \u00e0s oito, depofs das oito. Visto-me \u00e0 pressa e corro para a reparti\u00e7\u00e3o. Enquanto estou fumando, nu, as pernas estiradas, d\u00e3o-se grandes revo- lu\u00e7\u00f5es na minha vida. Fa\u00e7o um livro, livro not\u00e1vel, um romance. Os jornais gritam, uns me atacam, outros me defendem. O diretor olha-me com raiva, mas sei perfeitamente que aquilo \u00e9 ci\u00fame e n\u00e3o me incomodo. Vou crescer muito. Quando o homem me repreender por causa da informa\u00e7\u00e3o errada, compre- enderei que se zanga porque o meu livro \u00e9 comentado nas cidades grandes. E ouvirei as censuras resignado.<\/p>\n<p>Um sujeito me dir\u00e1: &#8211; Meus parab\u00e9ns, seu Silva. O senhor escreveu uma obra excelente. Est\u00e1 aqui a opini\u00e3o dos crfticos.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado, doutor.<\/p>\n<p>Abro a torneira, molho os p\u00e9s. As vezes passo uma semana compondo esse livro que vai ter grande \u00eaxfto e acaba traduzfdo em lfnguas distantes. Mas isto me enerva. Ando no mundo da lua. Quando saio de casa.<\/p>\n<p>n\u00e3o vejo os conhecidos. Chego atrasado \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Escrevo omitindo palavras, e se algu\u00e9m me fala, acon- tece-me responder verdadeiros contra-sensos. Para limi- tar-me \u00e0s pr\u00e1ticas ordin\u00e1rias, necessito esfor\u00e7o enor- me, e is.to \u00e9 doloroso. N\u00e2o consfgo voltar a ser o Lufs da 8\u00fcva de todos os dias. Olham-me surpreendidos: naturalinente digo tolices, sinto que tenho um ar apa- lermado. Tento reprimir essas crises de megalomania, luto desesperadamente para afast\u00e1-las. N\u00e3,o me d\u00e3o prazer: excitam-me e abatem-me. Felizmente passam meses sem que isto me apare\u00e7a.<\/p>\n<p>De ordin\u00e1rio fico no banheiro, sentado, sem pen- sar, ou pensando em muftas coisas diversas uma das outras, com os p\u00e9s na \u00e1gua, fumando, perfeftamente Lufs da Silva. Uma formiga que surge traz-me quanti- dade enorme de recorda\u00e7\u00f5es, tudo quanto li em alma- naques sobre os insetos. Agora n\u00e3o h\u00e1 nenhum livro traduzido, nenhuma vafdade. Olho a formiga. Quando ela vai entrar no formiguefro, trago-a para perto de mim, fa\u00e7o no ch\u00e3o um circulo com o dedo molhado, deixo-a numa ilha, sem poder escapulir-se. Observo-a e penso nos costumes dela, que vi nos alinanaques.<\/p>\n<p>O banhefro da casa de seu Ramalho \u00e9 junto, sepa.<\/p>\n<p>rado do meu por uma parede estreita. Sentado no cimento, brincando com a formfga ou pensando no livro, distingo as pessoas que se banham l\u00e1. Seu Ramalho chega tossindo, escarra e bate a porta c;om for\u00e7a. Molha-se com tr\u00eas baldes de \u00e1gua e nunca se esfrega. Bate a porta de novo, pronto. Aquilo dura um minuto. D. Ad\u00e9lia. vem docerente, lava-se docemente e canta baixinho: &#8211; &#8220;Bendito, louvado seja&#8230;&#8221; Ma- rina entra com um estouvamento ruidoso. Entrava.<\/p>\n<p>Agora est\u00e1 reservada e silenciosa, mas o ano passado surgia como um p\u00e9-de-vento e despia-se \u00e0s arranca- das, falando alto. Se os bot\u00f5es n\u00e3o safam logo das casas, dava um repel\u00e3o na roupa e largava uma prar ga: &#8211; &#8220;Com os diabosl&#8221; L\u00e1 se iam os bot\u00f5es, l\u00e1 se rasgava o pano. Notavam-se todas as minud\u00eancfas do banho comprido. (astava dez minutcs escovando os dentes. Pancadas de \u00e1gua no citnento e o chiar da escova, interrompido por palavras soltas, que n\u00e3o tinham sentido. Em seguida mijava. Eu continha a respira\u00e7\u00e3o e agu\u00e7ava o ouvido para aquela mijada lon- ga que me tornava Marina precfosa. Mesmo depois que ela brigou comigo, nunca deixei de esperar aquele momento e dedicar a ele uma aten\u00e7\u00e3o concentrada.<\/p>\n<p>Quando Marina se desnudou junto de mim, n\u00e3o experimentei prazer muito grande. Aquilo vefo de supet\u00e3o, atordoou-me. E a minha amiga op\u00f4s uma resist\u00eancfa desarrazoada: cerrava as coxas, curvava-se, cobria os peitos com as m\u00e3os, e n\u00e3o havia meio de estar quieta.<\/p>\n<p>Agora arrancava os bot\u00f5es, praguejava, escovava os dentes, mijava. Abria-se a torneira: rumor de \u00e1gua, uns gritinhos, resfolegar de animal novo. A torneira se fechava &#8211; e era uma esfrega\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Para casa, Marina, bradava d. Ad\u00e9lia. Acabe com isso. Voc\u00ea gasta o sab\u00e3o todo.<\/p>\n<p>Marina dava um muxoxo, e o movfmento das m\u00e3os frfccionando a pele macia continuava.<\/p>\n<p>&#8211; Baixe o fogo, Marina. Venha para casa.<\/p>\n<p>A espuma entrando nos sovacos e nas virilhas fazia um gluglu que me excitava extraordinariamente. Pare- cia que Marina queria esfolar-se. Imaginava-a em car- ne viva, toda vermelha. Imaginava-a branquinha, co- berta de uma pasta de sab\u00e3o que se rachava, os cabe- los alvos, como uma velha Essas duas imagens me davam muito prazer. Queria que aparecesse a Juli\u00e3o Tavares assim encarnada e pingando sangue, ou encarquilhada e decr\u00e9pita, os p\u00ealos do ventre como um capulho de algod\u00e3o. A torneira se abria. L\u00e1 esta- va Marina outra vez nova e fresca, enchendo a boca e atirando bochechos nas paredes, resfolegando, sape- cando frases desconexas.<\/p>\n<p>Nunca tive o desejo de v\u00ea-la nesse estado. No alto da parede h\u00e1 um tijolo deslocado que se pode retirar facilmente. Pondo um caix\u00e3o na beira do tanque, ser- me-ia poss\u00edvel afastar o tfjolo e distinguir o corpo de Marina. A experi\u00eancia n\u00e3o me tentou. O esfor\u00e7o neces- s\u00e1rio para manter-me em equil\u00edbrio reduzir-me-ia a aten\u00e7\u00e3o. E eu n\u00e3o queria v\u00ea-la despida sem o consen- timento dela. Contentava-me com aqueles rumores, e percebia-a como se a visse Poderfa daqui palestrar com ela no tempo em que \u00e9ramos amigos. Terfamos a impress\u00e3o de que nos banh\u00e1vamos juntos. Mas a minha amiga ficaria limitada pelas conveni\u00eancias, armando frases, procurando ser am\u00e1vel. O que me encantava eam aqueles modos de garota estabanada, as palavras soltas \u00e0 toa, peda\u00e7os de cantigas, o gluglu da espuma e a mijada sonora.<\/p>\n<p>Pois tudo isso desapareceu. Fazia algum tempo que os rumores familiares se vinham atenuando, mas \u00a1 naquele dia tudo se tornou claro, a suspeita que tive j na rua se confirmou. Marina entrou no banheiro e esteve uns minutos em sil\u00eancio, despindo-se com lenti- d\u00e3o. Os movimentos dela eram t\u00e3o vagarosos que eu os percebia a custo. Era preciso adivinh\u00e1-los. Assoou- se e lavou as m\u00e3os na torneira.<\/p>\n<p>&#8211; Virgem Nossa Senhora! E punha-se a cusp:r. Aquela queixa, mostrava um desengano enorme. Pareceu-me que o mundo se tinha despovoado e Marina estava completamente s\u00f3. Senti o desejo de bater na parede e cham\u00e1-la: &#8211; Marina, que foi que aconteceu? Queria que ela me iludisse, jurasse que n\u00e3o havia acontecido nada. Mordi as m\u00e3os para n\u00e2o gritar.<\/p>\n<p>Afastei-me, como um b\u00eabedo. Mas o ventre disfor- me continuava a perseguir-me. Era-me necess\u00e1.rio falar, ir ao caf\u00e9, libertar-me da obsess\u00e3o, do \u00f3dio que me enchia.<\/p>\n<p>Com certeza n\u00e3o precisava de mim. Precisava de Juli\u00e3o Tavares, que tinha levado sumi\u00e7o. As cuspara- das sucediam-se. Marina assoava-se e lavava os ddos.<\/p>\n<p>Os solu\u00e7os subiam e desciam. Aquele muco que a \u00e1gua levava, as l\u00e1grimas, a saliva abundante, aquela mis\u00e9- ria, aquele abandono, tudo me atra\u00eda.<\/p>\n<p>&#8211; Valha-me Nossa Senhora.<\/p>\n<p>Isto me cortava o cora\u00e7\u00e3o e aumentava o meu \u00f3dio a Juli\u00e3o Tavares. Vi-o claramente como o vi na tarde em que o surpreendi \u00e0 minha janela, derreten- do-se para Marina. Atrapalhado, procurara tapear-me com adula\u00e7\u00f5es. Eu resmungava pragas obscenas e anda- va de uma parede a outra, sentia desejo imenso de \u00a1 fugir, pensava na fazenda, em Camilo Pereira da Sil- va, em Amaro vaqueiro e nas cobras, especialmente i numa que se enrolara no pesco\u00e7o do welho Trajano.<\/p>\n<p>j &#8211; Que vai ser de mim, santo Deus? O escorrego de Marina era evidente. Lembrei-me do meu despeito, de palavras duras jogadas a d. Ad\u00e9- lia meses antes: &#8211; &#8220;A senhora pensa que ela endirei- ta? Perca as esperan\u00e7as. Aquela d\u00e1 com os burros na \u00cd \u00e1gua.&#8221; Estava agora ali, enojada, cuspindo, apalpando a barriga e os peitos intumescidos. E o pranto subia e descia, era \u00e0s vezes um lamento de crian\u00e7a fatigada, outras vezes os solu\u00e7os rebentavam, numa rajada de gritos hist\u00e9ricos e bestiais. Olharia realmen- te a barriga e os peitos que se avolumavam? Impos- sfvel imaginar qualquer coisa sobre os movimentos dela. Ciemidos e choro. Nenhum outro som. Desespero est\u00fapido, revolta de bicho logrado. Nem palavras sol- tas, nem cantigas, nem passos no cimento molhado, nem \u00e1gua correndo da torneira. Dias antes esses rumo- res combinados me davam uma imagem quase perfei- ta de Marina. Sabia quando ela se baixava, quando se levantava, quando enxugava os cabelos, quando aca- riciava com espuma o umbigo, os bicos dos peitos, as virilhas. Ciritinhos, respira\u00e7\u00e3o diferente da respira\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria. Agora estava provavelmente im\u00f3vel. Esses gestos n\u00e3o lhe dariam nenhum pra,zer. As cantigas truncadas n\u00e3o lhe dariam nenhum prazer. Talvez nem olhasse a barriga e os peitos, que dofam e se deforma- vam. Todo o corpo era um instrumento de desgosto.<\/p>\n<p>O p\u00e9 da barriga endurecido, uma coisa apertando-lhe a cabe\u00e7a como esses aparelhos de supl\u00edcio que usam no sert\u00e3o, feitos de pau e corda. Os pauzinhos tor- ciam-se, a corda penetrava na carne, os ossos estala- vam, os miolos queimavam. Eu sentia raiva, aborreci- mento, piedade e nojo. E cuspia, como Marina. Aque- la imobilidade e aquele choro me afligiam. Porque n\u00e3o se molhava, n\u00e3o passava uma hora debaixo da tornei- ra, esfregando-se, ensaboando-se? F&#8217;ungava; provavel- mente as l\u00e1grimas se misturavam com restos de po-de- arroz e poeira; o suor lustrava-lhe a pele e produzia coceiras nos sovacos; a moleza do sono amorrinhava- Ihe o corpo. Estava suja e feia, precisando banho.<\/p>\n<p>Houve umas pancadas na porta, o choro desapa- receu. O meu banheiro tornou-se vazio. Agucei o ouvi- do, arregacei as narinas: apenas o cheiro desagrad\u00e1- vel da \u00e1gua que escapava da sarjeta e se estagnava numa po\u00e7a, a parolagem do Currupaco, que arengava com outros Currupacos invis\u00edveis. Novas pancadas na porta e a voz de d. Ad\u00e9lia: &#8211; Marina! Marina abriu a torneira e entrou a lavar-se, can- tando uma cantiga rouca, estrangulada, medonha.<\/p>\n<p>Mas as pancadas e a voz cresciam.<\/p>\n<p>&#8211; Marina, abra a porta. Abra a porta, minha filha.<\/p>\n<p>Uma s\u00faplica zangada e arquejante que sxigia gran- de esfor\u00e7o. Marina devia estar quase limpa. O suor, O catarro, a poeira, as l\u00e1grimas e as tintas rolavam no enxurro, e Marina era outra, vermelha, o espinha\u00e7o levantado, como um ano antes, quando havia surgido entre os canteiros, empinando-se, os cabelos pegando fogo. As vis\u00f5es do sono tinham-se dissipado.<\/p>\n<p>&#8211; Marina! Marina continuava a cantar, a gritar, em gra,nde espalhafato. Para que serviam as queixas e as expro- bra\u00e7\u00f5es de d. Ad\u00e9lia? A \u00e1gua corria e se desperdi\u00e7ava, abafando a voz aguda e tr\u00eamula. E Marina enxugava- se cantando com raiva.<\/p>\n<p>&#8211; Abra, meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ferrolho correu, a porta se abriu de chofre e tornou a fechar-se. Estavam as duas cara a cara, num sil\u00eancio de atrapalha\u00e7\u00e3o. Sentei-me \u00e0 beira do tanque, olhei o tijolo deslocado.<\/p>\n<p>&#8211; Que latomia \u00e9 essa? perguntou d. Ad\u00e9lia com autnridade mole. Creio em Deus Padre. Parece que morreu gente.<\/p>\n<p>Provavelmente d. Ad\u00e9lia conhecia mais ou menos o que tinha sucedido. Mas queria acreditar que n\u00e3o houvera infelicidade sem rem\u00e9dio, ou ent\u00e3o, caso isto n\u00e3o fosse poss\u00edvel, botar os quartos de banda, lamen- tar-se e atirar a responsabilidade para o destino.<\/p>\n<p>&#8211; Estou desconhecendo voc\u00ea. Que foi que houve? Af o pranto de Marina rebentou novamente, enro- lado com palavras \u00e1speras que n\u00e3o entendi. D. Ad\u00e9lia baixou a pancada: &#8211; Que horror, filns, da minha alma! Santo Deusl valha-me Nossa Senhora do Amparo.<\/p>\n<p>&#8211; Que Deus, que Nossa Senhora, que nada! gri- tou Marina reduzindo a cacos as lam\u00farias e a religi\u00e3o da m\u00e3e. De quem \u00e9 a culpa? A senhora n\u00e3o sabia? Para que fingir que n\u00e3o sabia? A senhora sabia.<\/p>\n<p>Calaram-se, fungando.<\/p>\n<p>13? &#8211; Criar uma filha tantos anos, gemeu d. Ad\u00e9lia, passar a vida sonhando com a felicidade dela, e ue repente uma desgra\u00e7a desta! &#8211; Pois sim, disse Marina com um risinho. Boni- ta cria\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 vendo? Tlnha-se acalmado um pouco e podia falar, j\u00e1 n\u00e3o estava sozinha no mundo, urrando lamenta\u00e7\u00f5es. Arro metia contra a m\u00e3e, arfando, grunhindo, como um bicho mal domesticado que quer morder: &#8211; Coitadinha! N\u00e3o via, n\u00e3o sabia. T\u00e3o inoceate! Agora j\u00e1 sabe. Pois \u00e9. Escangalhada, com um filho na barriga. N\u00e3o fa\u00e7a essa carinha de santa n\u00e3o. \u00c9 o que lhe digo. Estou mentindo? Arrombada, com um mole que no bucho. N\u00e3o quer ouvir n\u00e3o? Tape os ouvidos.<\/p>\n<p>&#8211; Cale a boca, Marina, gaguejou d. Ad\u00e9lia tre mendo. Me respeite, Marina.<\/p>\n<p>Esta ordem bamba pareceu-me ridicula e despro- positada, mas produziu um efeito que me espantou: Marina deitou \u00e1gua na fervura. Virei d. Ad\u00e9lia po todos os lados e n\u00e3o achei que ela fosse digna de res peito. Nem de respeito nem de \u00f3dio. Lembrei-me da: refer\u00eancias do marido: &#8211; &#8220;Com as flores de laran jeira na cabe\u00e7a, dan\u00e7ava como carrapeta, olhava o; homens sem baixar as pestanas. An! E eles se atra palhavam.&#8221; Agora, aquela moleza, aquela confus\u00e3c angustiada, o desejo de minguar, achatarse, a pisadt macia do chinelo de corda, os modos lentos e sutis dE quem pega nas coisa,s \u00e0s escondidas e tem medo dE quebr\u00e1-las, de levar car\u00e3o. Nada disso podia inspira: respeito. Toda ela era uma desgra\u00e7a arrastada e obli qua, destinada a suportar grosserias e rejel\u00f5es. Quan do o homem da casa vinha receber o aluguel atrasa do, gritava: &#8211; &#8220;Boto-lhe os tro\u00e7os na rua.&#8221; Seu Rama lho brigava por causa das cuecas sem bot\u00f5es. Coita da! Ela era uma s\u00f3 para tanto trabalho! D. Ros\u00e1lif escarnecia dela: &#8211; &#8220;A senhora n\u00e3o se anerta. Ten quem lhe d\u00ea tudo.&#8221; D. Ad\u00e9lia torcia as m\u00e3os, engolit em seco. Juli\u00e3o Tavares dirigia-Ihe gra\u00e7olas pesada,s aquele cachorro. D. Ad\u00e9lia baixava a cabe\u00e7a. Apena um gmnhido de reprova\u00e7\u00e3o, quase imperceptivel: &#8211; &#8220;Hum! hum!&#8221; &#8211; Me respeite, Marina.<\/p>\n<p>Aquela ordem gaguejada nem era ordem: era um pedido assustado em voz de choro. Marina calou-se e entrou a solu\u00e7ar. Tive o desejo de gritar atrav\u00e9s da j parede estreita: &#8211; A senhora n\u00e3o tem culpa de viver nesse esta- do, d. Ad\u00e9lia. A senhora n\u00e3o nasceu assim. Era cora- da, risonha, dan\u00e7ava como carrapeta, olhava os ho- mens cara a cara, e os homens se desaprumavam. Seu marido impava de orgulho e fazia: &#8211; &#8220;An!&#8221; Depois transformaram a senhora nisso, d. Ad\u00e9lia. Um trapo, uma velha sem-vergonha. Qualquer caixeiro de bodega chega-lhe \u00e0 porta e berra para dentro: &#8211; &#8220;Mande pagar a conta, madama. O patr\u00e3o est\u00e1 \u00e0s cascas.&#8221; E a senhorn sofre com isso, porque tem uns restos de dignidade e quer que a respeitem. Nunca se acaba a dignidade da gente, d. Ad\u00e9lia. A gente \u00e9 molambo sujo de pus e rola nos monturos com outras porca- rias, mas recorda-se do tempo em que estava na pe\u00e7a, antes de servir. D. Ad\u00e9lia se lembra das flores de laranjeira que lhe enfeitavam a cabe\u00e7a bonita. Tantas esperan\u00e7as! Hoje \u00e9 essa mis\u00e9ria que se v\u00e9. Fizeram da senhora uma bola de bilhar, uma coisa que vai para onde a empurram. Entretanto a senhora dan\u00e7ava como carrapeta, e seu Ramalho estava contente.<\/p>\n<p>Marina continuava a chorar. D. Ad\u00e9lia queixava- se baixinho. Eu tinha vontade de chorar tamb\u00e9m, con- doia-me da sorte das duas mulheres e da minha pr\u00f3 j pria sorte.<\/p>\n<p>* * * E estranho que elas n\u00e3o houvessem aludido uma \u00fanica vez a Juli\u00e3o Tavares. Nenhuma refer\u00e9ncia \u00e0que- le patife. Era o que me espantava quando sai do bar nheiro, j\u00e1 muito tarde. Nesse dia faltei ao ponto.<\/p>\n<p>Marina acabara numa resigna\u00e7\u00e3o est\u00fapida, entre- gara-se a Deus; d. Ad\u00e9lia n\u00e3o responsabilizara ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares era como viga que tomba do andaime e racha a cabe\u00e7a do transeunte. Ou um castigo, um decreto da Provid\u00e9ncia, qualquer coisa deste g\u00e9nero.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m falava nele. Tinha aparecido cheio de lam- ban\u00e7as, usando falsidade em tudo. Entrara-me em casa sem ser chamado e deixara-se ficar, interrompen- l39 do o meu trabalho, afugentando os amigos. Aprovei- tando a minha aus\u00eancia, seduzira Marina. E azulara.<\/p>\n<p>Mostrava-se rarament\u00b0, em visitas r\u00e1pidas, com certeza receando que a mo\u00e7a cometesse um desatino c lhe atrapalhasse a vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o haveria desatino: as duas mulheres eram fa- talistas e queixavam-se da sort\u00b0. Malucas. Revoltava- me o recurso infantil de se xingarem, arrancare:n os cabelos. Era evidente que Juli\u00e3o Tavares devia mor- rer. N\u00e3o procurei investigar as raz\u00f5es d\u00b0sta necessida- de. Ela se impunha, entrava-me na cabe\u00e7a comu um prego. Um prego me atravessava os miolos. \u00c9 est\u00fapido, mas eu tinha realmente a impress\u00e3o de que um objeto agudo me penetrava a cabe\u00e7a. Dor terr\u00edvel, uma id\u00e9ia que inutilizava as outras id\u00e9ias. Juli\u00e3o Tavares devia morrer.<\/p>\n<p>D. Ad\u00e9lia estava justificada: &#8211; &#8220;A senhora n\u00e3o nasceu assim. Era forte e bonita. Passou de carrapeta a bola de bilhar. A senhora \u00e9 um peda\u00e7o de pano sujo.&#8221; Marina tinha sido julgada e absolvida. Prova- velmente me deixei influenciar por leituras rom\u00e2nti- cas. Esqueci que ela um ano antes invejava as mQia de seda e os vestidos de d. Mercedes. Agora tinha tudo: meias, vestidos, um filho no bucho, um filhc que sairia gordo, bochechudo e safado, como o pal como o av\u00f4, o Tavares dos Tavares &amp; Cia., uns ratos Marina era instrumento e merecia compaix\u00e3o D. Ad\u00e9lia era instrumento e merecia compaix\u00e3o. Ju li\u00e3o Tavares era tamb\u00e9m instrumento, mas n\u00e3o tivE pena dele. Senti foi o \u00f3dio que sempre me inspirou a\u00f3ora aumentado.<\/p>\n<p>Necess\u00e1rio que ele morresse. Juli\u00e3o Tavares cor tado em peda\u00e7os, como o moleque da hlst\u00f3ria que set Ramalho contava. Logo me aborrecia da tortura com prida. Nojo, medo, horror ao sangue. Juli\u00e3o Tavare: morreria violentamente e sem derramar sangue. En sonhos ou acordado, vi-o roxo, os olhos esbugalhados a l\u00edngua fora da boca. Pensei muitas vezes nos b\u00edcep do homem acaboclado que ensinava capueira ao ra paz, no alto do Farol. Por uma aberra\u00e7\u00e3o, ima;inav que aqueles m\u00fasculos eram meus<\/p>\n<p>Os m\u00fasculos de mestre Domingos eram do velho Trajano. Os m\u00fasculos e o ventre de Quit\u00e9ria tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Sinha Germana concebia e paria no couro de boi, a que o atrito e a velhice tinham levado o cabelo. Qui- t\u00e9ria engendrava filhos no ch\u00e3o, debaixo das catin- gueiras, atr\u00e1s do curral, e despejava-os na esteira da Isidora, em partos dif\u00edceis. Crias de cores e idades di- ferentes espalhavam-se por aquela ribeira, v\u00e1rias de Trajano, cabras alatoados que apareciarn de longe em longe e pediam a b\u00ean\u00e7\u00e3o do velho \u00e0s escondidas. Os partos de sinha Germana perderam-se: escapou ape- nas Camilo Pereira da Silva, que parafusou no roman- ce e me transmitiu esta inclina\u00e7\u00e3o para os impressos.<\/p>\n<p>Quit\u00e9ria e outras semelhantes povoaram a catinga de mulatos fortes e brabos que pertenciam a Trajano Pe- reira de Aquino Cavalcante e Silva.<\/p>\n<p>S\u00e3o do meu tempo os dois \u00faltimos partos de Quit\u00e9ria. Sinha Terta, parteira da fazenda, batia a taramela do quarto pegado \u00e0 cozinha. Trajano ronda- va a porta, preocupado com a cria, que n\u00e3o era d\u00e9le.<\/p>\n<p>Depois da aboli\u00e7\u00e3o, j\u00e1 sem for\u00e7as, ainda conservava os modos de patriarca. Estava arrasado, aos s\u00e1bados subia \u00e0 vila, entrava na carrasparZa, encostava-se ao ombro de mestre Domingos, babando-se: &#8211; &#8220;Negro! Tu n\u00e3o respeitas teu senhor n\u00e3o, negro?&#8221; N\u00e3o o al- cancei gerando filhos nas pretas, mas alcancei os ca- bras que lhe pediam a b\u00ean\u00e7\u00e3o cochichando e vi-o nas pontas dos p\u00e9s rondando o quarto de Quit\u00e9ria, interes- sando-se pelos moleques, como se fossem dele.<\/p>\n<p>Quit\u00e9ria esperneava, espojava-se e soprava na es- teira, as varas da isidora estalavam. Havia sil\u00eancio, ru- mores esquisitos, roncos, voz de sinha Terta, que a de Quit\u00e9ria acompanh2va, arrastada e nasal: Minha santa Margarid.a, N\u00e3o estou prenha nem paa ida.<\/p>\n<p>Tircv-me ese corpo morto Que ec tenho na barriga.<\/p>\n<p>Depois uma coisa se derramava e sinha Terta dizia: &#8211; Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Meu av\u00f4 serenava.<\/p>\n<p>As outras pretas da fazenda tinham deixado a co zinha depois de 88, e Trajano era senhor de uma es crava s\u00f3, que se deitara com ele sob as catingueiras n\u00e3o queria ser livre. Conheci Trajano decadente, exce dendo-se na pinga e j\u00e1 sem prest\u00edgio para armar ca broeira e amea\u00e7ar a cadeia da vila. Mas os cangacei ros ainda se descobriam quando o avistavam, tipo sarar\u00e1s de olho vermelho, cabolos de m\u00fasculos de fec ro. Se o velho quisesse extinguir um propriet\u00e1rio vizi nho, chamaria Jos\u00e9 Ba\u00eda, o camarada risonho que m vinha contar hist\u00f3rias de on\u00e7as no copiar, ajustari a empreitada por meias-palavras, dar-lhe-ia uma c\u00e9du la. E ficaria tranq\u00fcilo, de alpercatas, camisa e cerou las de algod\u00e2o cru, tomando tabaco, escanchado n rede de varandas coloridas que arrastavam.<\/p>\n<p>Lembrava-me disso e apalpava com desgosto 0 meus muques reduzidos. Que mis\u00e9ria! Escrevendo con: tantemente, o espinha\u00e7o do\u00eddo, as ventas em cima d papel, l\u00e1 se foram toda a for\u00e7a e todo o \u00e2nimo. D que me servi;a aquela verbiagem? &#8211; &#8220;Escreva assin seu Lu\u00eds.&#8221; Seu Lu\u00eds obedecia. &#8211; &#8220;Escreva assado, se Lu\u00eds.&#8221; Seu Lu\u00eds arrumava no papel as id\u00e9ias e os ir teresses dos outros. Que mis\u00e9ria! Pensava no homem acaboclado que encontrei n alto do Farol, membrudo como os sujeitos que, n presen\u00e7a de Trajano, varriam o p\u00e1tio da fazenda cor chap\u00e9us de couro.<\/p>\n<p>As cascav\u00e9is torciam-se por ali. Uma delas enro; cou-se no pesco\u00e7o de Trajano, que dormia no banc do alpendre. Trajano acordou, mas n\u00e3o acordou u teiramente, porque estava caduco. Levantou-se, tropi \u00e7ando, gritando, e sapateou desengon\u00e7ado como m doente de cor\u00e9ia. Uma alpercata saltou-lhe do p\u00e9.<\/p>\n<p>ele, arrepiado, metia os dedos entre os an\u00e9is do coh vivo : &#8211; Tira, tira, tira.<\/p>\n<p>Quem ia tirar a cascavel que chocalhava no pe co\u00e7o do velho? Eu era mi\u00fado e olhava aquilo com e panto. Parecia-me que a cobra era um enfeite, um coisa que Trajano enrolara no pesco\u00e7o para ficar dif rente dos outros velhos. Quem ia tocar nela? &#8211; Tira, tira, tira.<\/p>\n<p>Quit\u00e9ria puxava o ros\u00e1rio de contas brancas e azuis: &#8211; &#8220;Miseric\u00f3rdia!&#8221; Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva dan\u00e7ava no ch\u00e3o de terra batida.<\/p>\n<p>Afinal a cobra se soltou, Camilo Pereira da Silva ma- tou-a com o macete de capar boi e Quit\u00e9ria levou-a pendurada num pau, a cabe\u00e7a encostada ao rabo, ba- lan\u00e7ando como uma corda, e foi jog\u00e1-la para l\u00e1 dos juazeiros.<\/p>\n<p>Agora Quit\u00e9ria estava morta. E os filhos dela e os das outras pretas que, depois de 88, foram viver em ranchos de palha, nas ribanceiras do Ipanema, come\u00e7avam a desacatar os descendentes dos antigos senhores. Muitos andavam nos grupos de salteadores que assolam o nordeste, queimando propriedades, vio- lando mo\u00e7as brancas, enforcando os homens ricos nos ramos das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>* * * Seu Ivo apareceu aqui em casa faminto, meio nu e meio&#8217; b\u00eabedo, como sempre. Enquanto Vit\u00f3ria lhe preparava a comida, fez-m\u00e9 um presente: &#8211; Est\u00e1 aqui, seu Luisinho, que eu lhe trouxe.<\/p>\n<p>E p\u00f4s em cima da mesa uma pe\u00e7a de corda.<\/p>\n<p>&#8211; Para que me serve isso, seu Ivo? Onde fol que voc\u00ea furtou isso? &#8211; N\u00e3o furtei n\u00e3o, seu Luisinho, achei na rua.<\/p>\n<p>Guarde para o senhor. \u00c9 bonitinha.<\/p>\n<p>E entregou-se ao prato que Vit\u00f3ria lhe ofereceu.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigad\u00f3, seu Ivo.<\/p>\n<p>Aproximei-me da mesa, desenrolei a pe\u00e7a de corda.<\/p>\n<p>Mas, com um estremecimento, larguei-a e meti as m\u00e3os nos bolsos, indignado com o caboclo: &#8211; Retire isso da\u00ed, seu Ivo. Que diabo de lem- bran\u00e7a idiota foi essa? O homem espantou-se: &#8211; Porqu\u00ea? Guarde, seu Luisinho. E dada de bom cora\u00e7\u00e3o. Serve para armar rede.<\/p>\n<p>Pensei na rede onde Marina descansava \u00e0 noite e que me roubava o sono, ringindo nos armadores.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero. Tire isso depressa,.<\/p>\n<p>Ev\u00edtava dizer o nome da coisa que ali estava em cima da mesa, junto ao prato de seu Ivo. Parecia-me que, se pronunciasse o nome, uma parte das minhas preocupa\u00e7\u00f5es se revelaria. Enquanto estivera dobrada, n\u00e3o tinha semelhan\u00e7a com o objeto que me perseguia, Era um rolo pequeno, inofensivo. Logo que se desen roscara, dera-me um choque violento, fizera-me re cuar tremendo. Antes de refletir, tive a impress\u00e3o df que aquilo me ia amarrar ou morder.<\/p>\n<p>Lembrei-me de Chico Cobra, um curandeiro quf na vila andava, sempre com um caba\u00e7o cheio de jara racas. Quando Chico Cobra matou um homem na fei ra, entrou na mata, fez um rancho de palha e cercou se de surucucus e outros viventes semelhantes. Toda; as dilig\u00eancias da pol\u00edcia para prend\u00ea-lo falharam Nunca ningu\u00e9m chegou ao rancho do criminoso: dist\u00e2ncia de quinhentas bra\u00e7as o que se via eram bar rocas com enormes rodilhas de serpentes.<\/p>\n<p>Desejei insultar seu Ivo. Pareceu-me que ele tinhs vindo aqui mangar de mim. N\u00e3o era justo. Empurrav a porta, entrava sem vergonha, nunca lhe faltou a b\u00f3ia Zombar de mim! N\u00e3.o me contive: &#8211; Caboclo safado, mal-agradecido.<\/p>\n<p>Seu Ivo olhou-me com assombro: &#8211; Oh! xente! Acanhei-me. Dizendo tolices.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem. N\u00e3o discutamos.<\/p>\n<p>Entrei a caminhar de uma parede a outra, ma: como numa das viagens batia com a biqueira do sapa to no cano de \u00e1gua, desisti do exercfcio e pus-me F andar em torno da mesa, descrevendo c\u00edrculos qm pouco a pouco se reduziam. Afinal ia quase tocandc as cadeiras, e isto me dava a impress\u00e3o de que set Ivo e a mesa estavam sendo amarrados. Sentei-me. C horror que a corda me inspirava foi diminuindo, ma o desconchavo nos meus modos e nas minhas id\u00e9ia continuou. Pareceu-me que uma das id\u00e9ias estava al em cima da mesa, simulando la\u00e7adas e espirais. Istc era t\u00e3o burlesco, t\u00e3o extravagante, que me veio di repente um acesso besta de hilaridade que espantoi seu Ivo. O conjunto daquelas voltas emaranhada; formava um molho no centro da mesa, e tinha fei\u00e7\u00e3o vagamente arredondada. Com um pouco de esfor\u00e7o pa dia admitir-se que fosse redondo, mafs ou menos redon do, compar\u00e1vel a uma cabe\u00e7a chata feita de curva, caprichosas que se torciam como tripas. Pensei em cir cunvolu\u00e7\u00f5es cerebra.is, levantei-me e fui beber un gole de aguardente. Voltei a sentar-me. Continuava a rir, mas sem vontade de rir. Seu Ivo arregalou o: olhos, e isto me paralisou o riso idiota. Sentindo-mE fiscalizado, reprimi aquela manifesta\u00e7\u00e3o ruidosa. Acal mei-me, aparentemente. Nem riso nervoso nem raiva despropositada. Toda a minha aten\u00e7\u00e3o se concentrava no molho confuso de an\u00e9is que ali estava em cims da mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Coma descansado.<\/p>\n<p>Seu Ivo comeu tudo, Vit\u00f3rfa retirou o prato. Beb: mais um pouco de aguardente e fiquei arriado na ca. deira, as m\u00e2os esquecidas na toalha coberta de man chas, olhando a corda.<\/p>\n<p>Recordei-me da morte de Fabricio, amigo e com padre de meu paf. Nunca tinha vfsto um homem as sassinado. Assoando-se e gemendo, sentada na prens de farinha que apodrecfa no quintal, Quit\u00e9ria falavz de Fabr\u00edcio como de uma criatura extraordin\u00e1ria, nar rava fa\u00e7anhas maravilhosas dele. Rosenda escutava-F corn interjei\u00e7\u00f5es, eu pensava em Jos\u00e9 Ba\u00eda. Mais tardE fugi de casa e cheguei-me \u00e0 cadeia p\u00fablica, onde o cor po de Fabr\u00edcio estava exposto, o tronco nu, os olho; vidrados. Esse cangaceiro tornou-se para mim excessf vamente grande, e nenhum dos defuntos que encontre: depois, na vida e em livros, foi como ele. Comparei s Fabrfcio mortos ilustres, e Fabrfcio resistfu \u00e0 compa ra\u00e7\u00e3o, porque foi o primeiro homem assassinado quE vi, tev\u00e9 os elogios de Quit\u00e9ria e era compadre de meu pai. No jornal, consertando a sintaxe na revis\u00e3o ou escrevendo notas de polfcia, quantos cad\u00e1veres passa ram diante de mim! Nenhum deixou mossa. Fabr\u00edcic estava nu da cintura para cima, cosido de facadas, ers horrfvel. Passei v\u00e1rfas noites sem dorm\u00efr direito, acor dando agoniado e aos gritos. O segundo homem assas sinado que vf impressionou-me, mas n\u00e3o me tirou c sono. Depois me habituei.<\/p>\n<p>i.<\/p>\n<p>Seu Ivo pediu uma pnga. Enchi um c\u00e1lice para ele, outro para mim &#8211; A sua sa\u00fade, seu Luisinho.<\/p>\n<p>Foi acocorar-se e cochilar encostado \u00e0 parede, junto ao cano de \u00e1gua. Sentei-me outra vez \u00e0 mesa, o bra\u00e7o sobre a toalha, a m\u00e3o perto da corda. Estava meio entorpecido, as p\u00e1lpebras pesadas. Os armadores na casa vizinha rangiam. Seu Ivo tinha dito: &#8211; &#8220;Giuar- de, seu Luisinho. D\u00e1 para armar rede.&#8221; Avancei os de- dos em dire\u00e7\u00e3o aos an\u00e9is, mas quando ia toc\u00e1-los, um se desfez e bateu-me na m\u00e3o como coisa viva.<\/p>\n<p>Marina, enjoada e abatida, embalava-se para es- quecer a desgra\u00e7a. O barulho dos armadores lembrou- me o tempo em que ela me endoidecfa com risadas e cantigas. A compaix\u00e3o que eu havia sentido alguns dias antes esmoreceu. Encolerizei-me e disse-lhe men- talmente toda a sorte de nomes feios. Levantei-me, bati na mesa, e as voltas da corda tremeram. Olhei com desgosto os olhos sem brilho de seu Ivo.<\/p>\n<p>Defuntos n\u00e3o me comovem. Na vila apareciam muitas pessoas acabadas a tiro e a faca. Habituei-me a v\u00ea-las de perto. Por fim n\u00e3o me produziam nenhum abalo. Quando a rede apontava na extremidade da rua, os punhos amarrados num pau que dois caboclos ag\u00fcentavam nos ombros, eu saltava para a cal\u00e7ada, curioso de ver a cor do pano que vinha em cima. Se era branco, o cortejo passava perto de mim, entrava no beco, dobrava o Cavalo-Morto e seguia para o cemi- t\u00e9rio. Isto n\u00e3o me despertava interesse. As redes que transportavam individuos mortos em desgra\u00e7a eram cobertas de vermelho e iam pelo outro lado da pra\u00e7a, dirigiam-se \u00e0 cadeia. Escapulia-me. Nenhum constran- gimento. Tornei-me insensfvel. Cinq\u00fcenta estocadas no peito e na barriga! Muito bem.<\/p>\n<p>Agora estava ali com medo de pegar numa corda.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea j\u00e1 matou gente, seu Ivo? O caboclo abriu os olhos, espantado: &#8211; Eu? Deus me livre. Dou pra isso n\u00e3o, seu Lui- s;nho. Nunca matei um pinto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas tem tido vontade, n\u00e3,o? &#8211; Deixe de hist\u00f3rias, seu Luisinho. Isso \u00e9 con- versa? 14? Pus-me a rir de novo, esfregando as m\u00e3os. De re- pente o riso se imobilizou, e fiquei em p\u00e9 diante de seu Ivo, com as m\u00e3os postas, engasgado.<\/p>\n<p>As vezes, horas depois de entrar na vila a rede co- berta de vermelho, uma tropa de cachimbos invadia a pra\u00e7a, conduzindo o criminoso amarrado. Os cachim- bos falavam alto e mostravam, cheios de sufici\u00eancia, fac\u00f5es e lazarinas; o matador tinha os bra\u00e7os presos, da barriga para cima estava todo embirado de cordas A gente se alvoro\u00e7ava. Os tabuleiros de gam\u00e3o ficavam abandonados nos tamboretes. Seu Acrisio, quase cego batia com o cajado no ch\u00e3o e pedia explica\u00e7\u00f5es \u00e0.<\/p>\n<p>paredes. O doutor juiz de direito, que mentia demais contava casos do Amazonas. Como o Amazonas ers longe e ningu\u00e9m ia apurar a veracidade das narra\u00e7\u00f5es o doutor juiz de direito mentia \u00e0 vontade. Seu Batista safa de casa vestido em robde-chambre, Andr\u00e9 Laerte com os bigodes tesos como um gato, andava \u00e0 pressa sem rumor, como um gato. Padre In\u00e1cio sacudia c guarda-chuva e gritava: &#8211; &#8220;Canalhat Ra\u00e7a de cachor ro com porco!&#8221; Cabo Jos\u00e9 da Luz, banzeiro, arrastavf a import\u00e2ncia, marchava para a cadeia, bambo, os pas sos lerdos, o cintur\u00e3o frouxo, cantando baixinho: &#8211; &#8220;Assentei pra\u00e7a. Na policia eu vivo . . . &#8221; E o criminoso pisando com for\u00e7a, atravessava o quadro, a cabe\u00e7a er guida, a testa cortada de rugas, o olhar feroz, trom budo, impando de orgulho. Algumas horas depois esta ria acocorado a um canto da pris\u00e3o, sem vontade como seu Ivo. Mas ali, diante dos curiosos que se em purravam, representava o papel de bicho: franzia a ventas, mordia os bei\u00e7os, dava pux\u00f5es na corda e gru nhia. Olhavam para ele com admira\u00e7\u00e3o, e os cachim bos se envaideciam por hav\u00ea-lo pegado vivo. Rosenda pasmava.<\/p>\n<p>&#8211; Estamos costumados a amansar brabo, minh negra.<\/p>\n<p>O carcereiro balan\u00e7ava as chaves, e o delegad dava encontr\u00f5es no povo, carrancudo, quase t\u00e3o impor tante como o preso. As tr\u00eas mulheres velhas que pa reciam formigas chegavam \u00e0 janela, em seguida e: condiam-se precipitadamente. Seu Filipe Benigno al; sava a barba e gastava palavras diffceis e comprida: O povar\u00e9u se apertava na cal\u00e7ada da cadeia. Os ca- chimbos iam matar o bicho no balc\u00e3o de Teotoninho Sabi\u00e1. E o criminoso, entregue \u00e0 polfcfa, furava a mul- tid\u00e3o, entrava no corpo da guarda, preto de poeira e azeitado de suor. Na escur:d\u00e3o do c\u00e1rcere, depois que a chave tilintava na fechadura da grade, o juiz da ca- deia recebia os duzentos r\u00e9is do torno e desfazia os la\u00e7os que deslocavam os ossos, entravam na carne do homem. Um ladr\u00e3o de cavalos seria maltratado, ag\u00fcen- taria fac\u00e2o, de joelhos, nu da barriga para cima, um soldado segurando-lhe o bra\u00e7o direito e batendo-lhe no peito, outro segurando o bra\u00e7o esquerdo e batendo nas costas. Depois os presos se aproximariam, camaradas, de repente lhe afastariam as pernas. O corpo cairia na pedra negra, suja de escarros, sangue, pus e lama. O cip\u00f3 de boi chiaria no ar, cortaria o lombo descoberto.<\/p>\n<p>Mas isto era com os ladr\u00f5es, os vagabundos, os auto- res de delitos mi\u00fados. Um criminoso de morte era dife- rente, merecia considera\u00e7\u00e3o. Quando ele chegava \u00e0 cal- \u00e7ada, toda a gente se espremia, abrindo caminho, e os olhos se arregalavam num pasmo quase religioso, mis- tura de aprova\u00e7\u00e3o e medo. Na presen\u00e7a da personagem havia sil\u00eancio. Depois vinham as conversas cochicha- das em que se exagerava o feito. As a\u00e7\u00f5es de outros criminosos empalideciam. Aquele, sixn, era turuna. Con- tavam-se as facadas ou os tiros. Nas tarimbas sujas os soldados bocejavam, fartos de sangue. O sujeito repre- sentava o seu papel de brabo, a cara enferrujada, es- curo de poeira e molhado de suor. Eu procurava des- cobrir nele semelhan\u00e7a com meu amigo Jos\u00e9 Bafa.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria retirou o prato e limpou a toalha. Com uma sacudidela que deu, a corda se espalhou e ficou ocupando quase metade da mesa. Vit\u00f3ria foi sentar-se \u00e0 porta da cozinha, desdobrou o jornal. Uma das vol- tas da corda parecia um desses la\u00e7os que as crian\u00e7as fazem com um cord\u00e3o nas cal\u00e7adas. A gente p\u00f5e o dedo no meio e aposta, o parceiro puxa as extremida- des do cord\u00e2o. Quando o dedo fica preso, a gente ga- nha. Se eu pusesse o dedo naquele cfrculo que ali esta- va junto a uma n\u00f3doa de caf\u00e9, o dedo ficaria preso? Caso ficasse, que iria acontecer? Pensei em Amaro vaqueiro e em seu Evaristc Trepado no mour\u00e3o do curral, Amaro passava um hora abolando.<\/p>\n<p>&#8211; Vou la\u00e7ar a novilha careta.<\/p>\n<p>E a corda de couro girava. Na extremidade o la\u00e7 ia acima e vinha abaixo. Na escola de seu Ant\u00f4ni Justino, decorando a geografia, eu comparava Amar vaqueiro ao sol. Amaro vaqueiro era uma esp\u00e9cie d sol trepado num mour\u00e3o. O la\u00e7o que girava em redo dele era a terra. De repente essa terra esquisita ca\u00ed sobre a novilha careta e prendia-lhe os chifres. Quan do havia poucas reses, o exerc\u00edcio era brincadeira. Ma em tempo de pega o curral se enchia, os cornos s chocavam, e mal se distinguia a cabe\u00e7a do animal vi sado. O la\u00e7o rodava no ar uma eternidade, descia, pas sava perto do alvo, tornava a subir. Amaro aboiava, os animais agitavam-se, batendo as pontas. Sentad no \u00faltimo pau da porteira, eu tinha o cora\u00e7\u00e3o ao baques e torcia desesperadamente. As minhas m\u00e3o umedeciam-se de suor. Porque era que Amaro n\u00e3o aca bava logo aquilo? Subitamente o aboio estacava, o la\u00e7 ca\u00eda, o zunido da corda continuava um instante m ouvido da gente. O animal estava preso.<\/p>\n<p>Seu Evaristo sofria necessidades. Tinha vivido en boas condi\u00e7\u00f5es, fora eleitor, jurado, dera dinheiro par, festas de igreja. E as pessoas que o encontravam na ruas da vila tocavam no chap\u00e9u.<\/p>\n<p>Homem de poucas palavras, trabalhador, o sujeit mais s\u00e9rio do mundo. Dedicava-se a v\u00e1rios of\u00edcios, en agricultor, redigia procura\u00e7\u00f5es e peti\u00e7\u00f4es. Beirando 0 setenta, come\u00e7ou a vender macacos. Os olhos cansa ram, a mem\u00f3ria emperrou, os bra\u00e7os descarnados n\u00e2 tiveram for\u00e7a para ma.nejar a enxada, a garlopa, i martelo de ferreiro e a tesoura de cortar metais. Sei Evaristo fabricava muitas coisas, mas n\u00e3o se ajeitav em nenhuma profiss\u00e3o. E quando a velhice chegou sentiu-se fraco, uma tremura nos dedos, que segura vam mal o cajado. Andando, formava dois arcos: un por detr\u00e1s, nas pernas, outro adiante, no peito; sen tado, firmava as m\u00e3os na extremidade do cacete, sobre as m\u00e3os, duras e peludas, de veias enormes, as sentava o queixo, donde pendiam pelancas escuras qm balan\u00e7avam como teias de pucum\u00e3. Foi baixando, bai- xando, e na casinha que se escondia no \u00fcm da Rua C da Cruz o fogo se apagou. Nos meses compridos daque- les invernos de serra seu Evaristo e a mulher tremiam e come\u00e7avam a tresvariar, porque a fome era grande.<\/p>\n<p>A noite andavam trope\u00e7ando nos cacarecos, pois na casa n\u00e3o havia candeia, olhavam a rua triste sob a F : chuvinha impertinente que emba\u00e7ava os vidros dos ` lampi\u00f5es esmorecidos. Apertavam-se para enganar o frio, e os moleques que passavam na cal\u00e7ada metiam os olhos pelos buracos das janelas e gritavam: &#8211; Velhos imoraisl Abra\u00e7ados, fazendo safadeza.<\/p>\n<p>A caridade chegou: seu Filipe Benigno, Andr\u00e9 Laerte, o velho Acrfsio, as tr\u00eas mulheres que pareciam formigas, fizeram uma subscri\u00e7\u00e3o &#8211; e seu Evaristo co- me\u00e7ou a receber dez mil-r\u00e9is por semana. Passou-se o inverno. Plantou uma ro\u00e7a no quintal. E quando o feij\u00e3o verde apareceu e o milho deu bonecas, masti- gou uns agradecimentos e dispensou a caridade.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre orgulhoso, disse uma das mulheres que pareciam formigas.<\/p>\n<p>Rosenda e cabo Jos\u00e9 da Luz concordaram.<\/p>\n<p>A safra \u00e1cabou, o velho sentiu fome, olhou os qua- tro cantos e n\u00e3o encontrou amparo. Procurou traba- lho, mas tinha setenta anos, e ningu\u00e9m confiava nele.<\/p>\n<p>Um dia, com a m\u00e3o na barriga, entrou na padaria de seu Jos\u00e9 In\u00e1cio.<\/p>\n<p>&#8211; Uma esmola pelo amor de Deus, cochichou.<\/p>\n<p>8eu Jos\u00e9 In\u00e1cio estava aporrinhado.<\/p>\n<p>&#8211; Uma esmola pelo amor de D2us, gemeu seu Evaristo quase sem voz.<\/p>\n<p>&#8211; Ora&#8230;<\/p>\n<p>Seu Jos\u00e9 In\u00e1cio gritou uma praga que ofendeu os ouvidos de seu Evaristo.<\/p>\n<p>&#8211; Estou pedindo uma esmola pelo amor de Deus, rosnou o velho espantado, sem sa.ber que aquele des- prop\u00f3sito era com el.e.<\/p>\n<p>Tlnha auxiliado muito mendigo, nunca fora gros- reiro. Chegava num momento em que o dono da pada- ria estava zangado.<\/p>\n<p>&#8211; Estou pedindo uma esmola pelo amor de Deus, repetiu baixinho.<\/p>\n<p>Seu Jos\u00e9 In\u00e1cio apontou um cesto de p\u00e3es dormi- dos e gritou brutalmente: &#8211; Tira ali.<\/p>\n<p>Mais tarde arrependeu-se, como disse a Teotoni- nho Sabi\u00e1, lembrou-se de que o velho nunca havia im- portunado ningu\u00e9m. Ainda chegou \u00e0 porta para cha- m\u00e1-lo e pedir desculpa, mas a rua estava deserta.<\/p>\n<p>Nesse dia seu Evaristo entrou em casa arrastan- do-se como um aleijado e deu um p\u00e3o seco \u00e3, compa- nheira. Ficou uns minutos vendo-a meter as gengivas na crosta dura, em seguida avizinhou-se da parede, onde havia uma corda pendurada a um torno.<\/p>\n<p>&#8211; Hum! hum! exclamou a mulher. Pior que mas- tigar chifre.<\/p>\n<p>&#8211; Com certeza, murmurou seu Evaristo.<\/p>\n<p>A mulher comeu o p\u00e3o e foi deitar-se na esteira.<\/p>\n<p>Viu o marido passar a m\u00e3o pela parede, mas como estava com a vista curta, n\u00e3o percebeu o que ele fazia.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 vi que passava a m\u00e3o pela parede, confessou no dia seguinte a Andr\u00e9 Laerte. Virei-me na esteira e peguei no sono.<\/p>\n<p>Horas depois encontraram seu Evaristo enforcado num galho de carrapateira. Fui v\u00ea-lo, mas n\u00e3o tive cora- gem de me aproximar: fiquei de longe, olhando o corpo que balan\u00e7ava, os p\u00e9s tocando o ch\u00e3o, como se estives- sem preparando um salto. Eu estranhava que uma pes- soa pudesse ag\u00fcentar-se numa coisa t\u00e3o fr\u00e1gil como um galho de carrapateira. Rosenda me diss que no momento em que um crist\u00e3o bota o la\u00e7o no pesco\u00e7o o diabo monta nos ombros dele. Seu Evaristo balan\u00e7ava.<\/p>\n<p>As vezes apareciam as costas curvadas. Outras vezes surgiam a barba branca, a l\u00edngua fora da boca, os olhos abotoados, a careca, e era como se ele fosse dar um salto. Esta id\u00e9ia absurda de um homem saltar de- pois de morto bulia comigo. Aquele defunto levantado, com os p\u00e9s no ch\u00e2o, amea\u00e7ando-me com um salto que poderia traz\u00e9-lo para junto de mim, apavorava-me.<\/p>\n<p>A corda que o sustinha, apenas visivel de lvnge, fininha como aquela que ali estava em cima da mesa, torcia-se e destorcia-se. A mulher de seu Evaristo, caduca, olha- va-o. sem l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria, na cozinha, lia o jornal. Os armadores se tinham calado. Seu Ivo dormia encostado \u00e0 parede, com a boca aberta. Agarrei a corda, fiz dela um bolo, meti-a no bolso. O cora\u00e7a&#8217;.o batia-me desesperadamente.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 para o diabo, seu Ivo, berrei.<\/p>\n<p>Seu Ivo roncava. Sacudi-o. Levantou-se e ficou in- clinado, como se estivesse armando um salto.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 para o diabo. Aqui amolando! Eu tenho nada com voc\u00ea? Suma-se.<\/p>\n<p>Seu Ivo baixou a cabe\u00e7a: &#8211; Est\u00e1 direito. At\u00e9 logo, seu Luisinho. Deus lhe acrescente.<\/p>\n<p>* * * Juli\u00e3o Tavares entrava no caf\u00e9. Ia sentar-me longe dele, voltava-lhe as costas, mas examinava o espelho coberto de letras brancas. Afetava desprezo, aparente- mente ignorava a exist\u00eancia do homem. Via, por\u00e9m, a roupa molhada nos sovacos, os olhos que saltavam das \u00f3rbitas, o cabelo escorrido, a papada balofa, as bochechas enormes, tudo riscado de tra\u00e7os brancos que anunciavam bebidas. Se me falavam, eu respondia com uma interjei\u00e7\u00e3o qualquer, voz selvagem, gutural, ouvida antigamente aos almocreves e aos tangerinos e que n\u00e3o perdi, apesar dos anos de cidade. Enquanto lan\u00e7ava dis- traido esses gritos estranhos e \u00e1speros, lia os an\u00fancios que havia no espelho. Juntava letras das palavras mais compridas e formava nomes novos.<\/p>\n<p>Esse exercicio tornou-se em mim um h\u00e1bito de que n\u00e3o me posso libertar. Conto pelos dedos as combina- \u00e7\u00f5es que v\u00e3o surgindo, em s\u00e9ries de vinte, correspon- dentes \u00e0s duas m\u00e3os fechadas e abertas. Quando h\u00e1 muitas vogais, consigo arranjar sessenta, oitenta, \u00e0s vezes cem palavras ou mais. Fa\u00e7o assim com os letrei- ros das casas de com\u00e9rcio, com os cartazes de cinema, com os t\u00edtulos dos jornais e dos livros. Esse passatempo idiota d\u00e1-me uma esp\u00e9cie de anestesia: esque\u00e7o as hu- milha\u00e7\u00f5es e as d\u00edvidas, deixo de pensar. Pelo menos n\u00e3o penso numa coisa s\u00f3. Mas vejo perfeitamente o que se passa em roda. Pouco a pouco chegam sinais de impa ci\u00eancia: os dedos apertam-se, as unhas ferem a palma e zango-me por estar perdendo tempo com semelhant estupidez, mas ordinariamente n\u00e3o interrompo a con tagem.<\/p>\n<p>Ali sentado a um canto, voltado para a parede, sen tia-me distante do mundo. S\u00f3 via as letras brancas qm se estampavam na cara vermelha de Juli\u00e3o Tavares Lembrava-me dos desenhos medonhos que os selvagen, fazem no rosto e do costume que os cangaceiros t\u00ean de marcar os inimigos com ferro quente. Dos letreiro; brancos safam \u00e0s vezes nomes que se aplicavam ben a Juli\u00e3o Tavares. Se eu fosse um cangaceiro sertanejo i encontrasse Juli\u00e3o Tavares numa estrada, meter-me-u com ele na capueira e imprimir-lhe-ia no focinho, con ferro, algumas das letras brancas que lhe apareciam n: pele e na roupa. Segurava a x\u00edcara desatento, derrama va a\u00e7\u00facar no pires e no m\u00e1rmore, bebia o caf\u00e9 maqui nalmente. Os tra\u00e7os de alvaiade zebravam as pessoa que transitavam na rua. Certamente Marina ia surgi; entre elas.<\/p>\n<p>Depois que Juli\u00e3o Tavares tinha deixado de freq\u00fc\u00b0n tar a casa vizinha, qualquer aus\u00eancia de Marina me tra zia a suspeita de que os dois iam encontrar-se. Tomav o chap\u00e9u e acompanhava-a, escondendo-me, encostan do-me \u00e0s paredes, receando que a espionagem fosse des coberta. Evidentemente as rela\u00e7\u00f5es dos dois estavan reatadas. O homem gordo ia virar uma esquina e da o bra\u00e7o \u00e0 amante, lev\u00e1-la a uma ca,sa de recurso. A evi d\u00eancia esmorecia. Marina andava como as outras mu lheres, olhava as vitrinas, entrava nas lojas. Ia esper\u00e1-l; no primeiro poste cintado de branco. Minutos depoi; a persegui\u00e7\u00e3o recorpe\u00e7ava, at\u00e9 que ela se recolhia. Sen tia-me a um tempo aliviado e logrado. Era claro qm eles iam juntar-se em qualquer parte. Acusava-me d n\u00e3o ter prestado bastante aten\u00e7\u00e3o \u00e0 rua. Com certeza tinha-me escapado uma porta meio aberta, uma escada sombria onde aquele sem-vergonha atocaiava. O mei desejo era voltar, examinar os arredores, as esquinas as \u00e1rvores da Rua Augusta. Estava certo de que, en quanto eu vigiava Marina, Juli\u00e3o Tavares me vigiav de longe, parando, escondendo-se.<\/p>\n<p>Ali no caf\u00e9, com o jornal enrolado sobre o m\u00e1r more, a m\u00e3o gorda e curta distribuindo acenos, o sor riso nos bei\u00e7os grossos, derretia-se para as mo\u00e7as que passavam na cal\u00e7ada. Por detr\u00e1s das linhas brancas do espelho, a cara redonda se afogueava, as bochechas moles inchavam, o olho azulado queria escapulir-se da \u00f3rbita. e meter-se no seio das mulheres.<\/p>\n<p>Eu procurava um cigarro, sentia a aspereza da corda. Ficara no bolso desde aquela tarde, misturan- do-se aos cigarros soltos e machucados.<\/p>\n<p>As letras dos an\u00fancios desapareciam, e toda a mf- nha aten\u00e7\u00e3o se concentrava em Juli\u00e3o Tavares. Lem- brava-me do primeiro encontro que tivemos, no Insti- tuto. Ele catalogava frases monstruosas a respeito da bandeira nacional. A safda dava-me um empurr\u00e3o, segu- rava-me um bra\u00e7o e escorregava na intimidade. Meia hora depois expunha-me projetos de reforma.<\/p>\n<p>&#8211; O pafs precisa isto, precisa aquilo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Eu conheci logo que o senhor era patriota.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava amolando outro, com o cotovelo no m\u00e1r- more, a voz oleosa, o olho derramado sobre as mulheres.<\/p>\n<p>Agitava-me, rangia os dentes, grunhia uma obscenidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o ligava import\u00e2ncia \u00e0quelas bestas, fossem para a casa do diabo. Tinha dormido juntos, ela estava pejada.<\/p>\n<p>Muito bem. Era encher-se, parir, enjeitar o filho, mar- char para a Rua da Lama, acabar-se no esquentamento.<\/p>\n<p>Um filho na barriga, um filho daquele sem-vergonha.<\/p>\n<p>T\u00e3o bom era um como 0 outro.<\/p>\n<p>E apertava a corda com for\u00e7a. Quando retirava a m\u00e3o do bolso, via nos dedos os sinais que ela dei- xava, marcas roxas na pele suada. O meu desejo era dar um salto, passar uma daquelas voltas no pesco\u00e7o do homem.<\/p>\n<p>O doutor chefe de policia estava ali tomando caf\u00e9, de cabe\u00e7a baixa, preocupado com alguma encrenca.<\/p>\n<p>Que \u00e9 que me podia acontecer? Ir para a cadeia, ser processado e condenado, perder o emprego, cumprir senten\u00e7a. A vida na pris\u00e3o n\u00e3o seria pior que a que eu tinha. Realmente as portas ali s\u00e3o pretas e sujas, as grades de ferro s\u00e3o pretas e sujas, os m\u00f3veis s\u00e2o pretos e sujos. \u00c9 o que me amedronta. Aquele bolor, aquele cheiro e aquela cor horrfveis, aquela sombra que transforma as pessoas em sombras, os movimentos vagaro- sos de almas do outro mundo, apavoravam-me. N\u00e3o posso encostar-me \u00e0s grades pretas e nojentas. Lavo as m\u00e3os uma infinidade de vezes por dia, lavo as cane- tas antes de escrever, tenho horror \u00e0s apresenta\u00e7\u00f5es, aos cumprimentos, em que \u00e9 necess\u00e1rio apertar a m\u00e3o que n\u00e3o sei por onde andou, a m\u00e3o que meteu os dedos no nariz ou mexeu nas coxas de qualquer Marina. Pre- ciso muita \u00e1gua e muito sab\u00e3o. Viver por detr\u00e1s da- quelas grades, pisar no ch\u00e3o \u00famido, coberto de escarros, sangue, pus e lama, \u00e9 terr\u00edvel. Mas a vida que levo talvez seja pior. N\u00e3o tinha medo da cadeia. Se me dessem \u00e1gua para lavar as m\u00e3os, acomodar-me-ia l\u00e1.<\/p>\n<p>Podia o resto do corpo ficar sujo, podiam os piolhos tomar conta da cabe\u00e7a e as roupas esfrangalhadas cobrir mal a carne friorenta. Se me dessem \u00e1gua para lavar as m\u00e3os, estaria tudo muito bem. Dar-me-iam \u00e1gua para lavar as m\u00e3os? A cara do doutor chefe de pol\u00edcia era triste. Provavelmente ele vivia cheio de abor- recimentos, tinha uma necessidade qualquer e compreen- deria a minha necessidade de lavar as m\u00e3os. Decidida- mente a pol\u00edcia n\u00e3o me inspirava receio.<\/p>\n<p>Medo de Juli\u00e3o Tavares? N\u00e3o havia motivo. Juli\u00e3o Tavares procuraria levantar-se do tamborete, faria um barulho in\u00fatil, bateria com os bra\u00e7os na mesa e que- braria a xfcara. As bochechas vermelhas se tornariam roxas, os olhos se rodeariam de olheiras roxas, os bel- \u00e7os roxos e intumescidos se descerrariam mostrando os dentes de rato e a lingua escura e grossa, os movimen- tos das m\u00e3os se espa\u00e7ariam, afinal seriam apenas sacudidelas, contra\u00e7\u00f5es. A imobilidade dos dedos sobre o m\u00e1rmore, os p\u00e9s das unhas roxos. Um rebuli\u00e7o, me- sas cafdas, o guarda-civil do rel\u00f3gio oficial apitar.do, gente correndo, aos gritos.<\/p>\n<p>Medo da opini\u00e3o p\u00fablica? N\u00e3o existe opini\u00e3o p\u00fa- blica. O leitor de jornais admite uma chusma de opi- n\u00f5es desencontradas, assevera isto, assevera aquilo atrapalha-se e n\u00e2o sabe para que banda vai. Ouvindo-o, penso no tempo em que os homens n\u00e3o liam jornais.<\/p>\n<p>Penso em Filipe Benigno, que tinha um certo n\u00famero de id\u00e9ias bastante seguras, no velho Trajano, que tinha id\u00e9ias muito reduzidas, em mestre Domingos, que era privado de id\u00e9ias e vivia feliz. E lamento esta balb\u00far- dia, esta torre de Babel em que se atarantam os freq\u00fcen- tadores do caf\u00e9. Quero bradar: &#8211; Eles escrevem assim porque receberam ordem para escrever assim. Depois escrever\u00e3o de outra forma.<\/p>\n<p>\u00c9 tapea\u00e7\u00e3o, \u00e9 5afadeza.<\/p>\n<p>Aborre\u00e7o a lida enfadonha, que sd serve para gerar confus\u00e3o no espfrito de seu Ramalho. Pimentel \u00e9 um malandro. Porque ser\u00e1 que Pimentel n\u00e3o escreve sem- pre as mesmas coisas? Repetindo-as, ele pr\u00f3prio, que n\u00e3o acredita em nada, acabaria acreditando nos seus artigos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 opini\u00e3o p\u00fablica: h\u00e1 peda\u00e7os de opini\u00e3o, contradit\u00f3rios. Uns deles estariam do meu lado se eu matasse Juli\u00e3o Tavares, outros estariam contra mim.<\/p>\n<p>No j\u00fari metade dos ju\u00edzes de fato lan\u00e7aria na urna a bola branca, metade lan\u00e7aria a bola preta. Qualquer ato que eu praticasse agitaria esses retalhos de opi- ni\u00e3o. In\u00fatil esperar unanimidade. Um crime, uma a\u00e7\u00e3o boa, d\u00e1 tudo no mesmo. Afinal j\u00e1 nem sabemos o que \u00e9 bom e o que \u00e9 ruim, t\u00e3o embotados vivemos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o podia temer a opini\u00e3o p\u00fablica. E talvez temesse. Com certeza temia tudo isso. Era um medo antigo, medo que estava no sangue e me esfriava os dedos tr\u00eamulos e suados. A corda \u00e1spera ia-se amacian- do por causa do suor das minhas m\u00e3os. E as m\u00e3os tremiam. O chicote do feitor num av\u00f4 negro, h\u00e1 du- zentos anos, a emboscada dos brancos a outro av8, caboclo, em tempo mais remoto . . . Estudava-me ao es- pelho, via, por entre as linhas dos an\u00fancios, os bei\u00e7os franzidos, os dentes acavalados, os olhos sem brilho, a testa enrugada. Procurava os vest\u00edgios das duas ra\u00e7as infelizes. Foram elas que me tornaram a vida amarga e me fizeram rolar por este mundo, faminto, esmolam- bado e cheio de sonhos. N\u00e3,o preciso de autom\u00f3veis nem de r\u00e1dios, viveria bem numa casa de palha, dormiria bem numa cama de varas, num couro de boi ou numa rede de cordas, como Quit\u00e9ria, como o velho Trajano e Camilo Pereira da Silva. Para que me habituei a ler papel impresso, a ouvir o rumor de linotipos? Deseja- ria cal\u00e7ar alpercatas, descansar numa rede armada no copiar, n\u00e3o ler nada ou ler inocentemente a hist\u00f3ria dos doze pares de Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Onde estariam os descendentes de Amaro vatlueiro? Talvez o guarda-civil do rel\u00f3gio oficial fosse um deles.<\/p>\n<p>Se eu mata-sse Juli\u00e3o Tavares, o guarda-civil n\u00e3o levan- taria o cassetete: apitaria. Chegariam outros, que me amea\u00e7ariam de longe. O guarda-civil n\u00e3o tem coragem.<\/p>\n<p>Se tivesse, n\u00e3o olharia os autom\u00f3veis horas e horas, junto ao rel\u00f3gio oficial: ocupar-se-ia devastando fazen- das, incendiando casas, deflorando mo\u00e7as brancas, en- torcando propriet\u00e1rios nos galhos dos juazeiros. Os ser tanejos fortes revoltaram-se e andam matando, rouban- do, violando, quase selvagens, sujos, os cabelos compri- dos, enfeitados de penduricalhos, os chap\u00e9us de couro cobertos de medalhas, as cartucheiras pesadas, enormes.<\/p>\n<p>Nenhum respeito \u00e0 autoridade. Se um oficial de pol\u00edcia viajar pela estrada, morre na tocaia. E se n\u00e3o morrer logo, \u00e9 pior: levam-no para a capueira e torturam-no.<\/p>\n<p>Os campos est\u00e3o desertos, o gado enegreceu com o carrapato, os homens valentes pegaram o rifle, amar- raram a cartucheira na cintura. O guarda-civil do re- l\u00f3gio oficial veio para a cidade e arranjou emprego.<\/p>\n<p>E um sujeito magro como eu, civilizado como eu. Se houver barulho na rua, ele apita. Se houver greve nas f\u00e1bricas e lhe mandarem atirar contra os grevistas, atira tremendo. As greves acabam. E ele voltar\u00e1 para a chatea\u00e7\u00e3o do ponto, magro, triste. E pouco mais ou menos como eu.<\/p>\n<p>&#8211; Escreva um artigo a respeito de sal\u00e1rios, seu Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Bocejo e sapeco uma literatura ordin\u00e1ria, cons- trangido. Sei que estou praticando safadeza. Penso no que acontecer\u00e1 depois. Quando houver uma reviravol- ta, utilizar\u00e3o as minhas habilidades de escrevedor? E o guarda-civil? Continuar\u00e1 junto ao rel\u00f3gio, olhando os autom\u00f3veis, apitando em caso de necessidade? E Ju- li\u00e3o Tavares, patriota e versejador? Para que serviria Juli\u00e3o Tavares? Agora era uma figura importante de- mais. Tavares &amp; Cia., negociantes de secos e molhados na Rua do Com\u00e9rcio, eram uns ratos. A personagem oficial que visitava d. Mercedes, alta noite, devia muito a Tavares &amp; Cia. E Juli\u00e3o Tavares era importante. Fazfa receio matar um sujeito importante como Juli\u00e3o Ta- vares.<\/p>\n<p>* * * Nas horas de servi\u00e7o conseguia distrair-me. Os livros enormes de lombos de couro e folhas rotas, os offcios, a ca,mpainha do telefone e o tique-taque das m\u00e1quinas de escrever me arrastam para longe da terra.<\/p>\n<p>O que l\u00e1 fora \u00e9 bom, \u00fatil, verdadeiro ou belo n\u00e2o tem aqui nenhuma significa\u00e7\u00e3o Tudo \u00e9 diferente. Respira- mos um ar onde voam particulas de papel e de tinta e trabalhamos quase \u00e0s escuras. A voz do diretor \u00e9 doce, ranzinza e regulamentar. Se um funcion\u00e1rio co- mete falta, o diretor mostra o par\u00e1grafo e o artigo ade- quados ao caso. Sucede que o funcion\u00e1rfo se defendE apontando outro artigo. A\u00ed o diretor perturba-se e des- contenta-se: compreende que o servi\u00e7o n\u00e3o vai bem, mas encolhe-se diante do regulamento e admira e re- ceia o empregado que soube encapar-se nele. Move mo-nos como pe\u00e7as de um rel\u00f3gio cansa,do. As nossas rodas velhas, de dentes gastos, entrosam-se mal a outras rodas velhas, de dentes gastos. O que tem valor c\u00e1 den- tro s\u00e3o as coisas vagarosas, sonolentas. Se o maqui- nismo parasse, n\u00e3o darfamos por isto: continuarf\u00e1mos com o bico da pena sobre a folha machucada e rota, o cigarro apagado entre os dedos amarelos. Deixarfa- mos de pestanejar, mas ignorarfamos a extin\u00e7\u00e2o dos movimentos escassos. Os rumores externos chegam-nos amortecidos. Que barulho, que revolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 capaz de perturbar esta serenidade? Era, pois, na reparti\u00e7\u00e3o que eu obtinha algum sos- sego. As imagens que me atormentavam na rua sur- giam desbotadas, espa\u00e7adas e incompletas. O ambiente era impr\u00f3prio \u00e0 vida intensa que elas tinham l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Quando se iam fixando, um tique-taque de m\u00e1quina de escrever, o chiar de uma folha que ro\u00e7ava sobre outra como lixa, um toque distante de campainha, uma voz descontente e adocicada, todas as complica\u00e7\u00f5es mi\u00fadas que me sustentam, cortavam as figuras esbo\u00e7adas. Ju- li\u00e3o Tavares era uma sombra que se arredondava, toma- va a forma de um bal\u00e3ozinho de borracha. Este objeto colorido flutuava, seguro por um cordel. O vento arras- tava-o para um lado e para outro, mas o cord\u00e3o curto n\u00e3o o deixava arredar-se muito do caf\u00e9. Marina era outra sombra que se balan\u00e7ava devagar na rede. O ru- mor dos armadores era interrompido pelo tilintar do telefone. A rede ia e vinha, Marina se deslocava um metro para a direita, um metro para a esquerda, e n\u00e3o podia ir mais longe. Desaparecia o risco de se aproxi- marem os dois, era como se estivessem amarrados.<\/p>\n<p>Logo que me afastava da reparti\u00e7\u00e3o, tudo mudava.<\/p>\n<p>Trope\u00e7ando no paralelep\u00edpedo, via, meio sncandeado pelo sol, os transeuntes juntarem-se e apartarem-se, e isto me parecia cheio de mal\u00edcia. Havia inten\u00e7\u00f5es reser- vadas nos homens que se acercavam das mulheres, havia promessas nos olhos das mulheres que se desviavam doa homens. Autom\u00f3veis abertos exibiam casais, autom\u00f3veis fechados passavam r\u00e1pidos, e eu adivinhava neles saias machucadas, gemidos, cheiros excitantes. Todos os vef- culos transportavam pecados. A cidade estava em cio, era como o chiqueiro do velho Trajano. Que perigo! Tr\u00eas horas escondido &#8211; e c\u00e1 fora esta gente desen- freada, bodejando, com estilo, com demoras e requintes, mas bodejando como os bodes do velho Trajano.<\/p>\n<p>Os rel\u00f3gios batiam. Com certeza os machos olhavam os mostradores, pensando em entrevistas. Apressava-me.<\/p>\n<p>Tr\u00eas horas metido entre as paredes de uma catacumba oficial. Imaginava o que teria podido acontecer nessas tr\u00eas horas e aterrorizava-me. Corria para casa desem- bestado A sala de jantar, a barra vermelha com man- chas de umidade, o cano de ferro. Vit\u00f3ria punha os pratos na mesa. Esfor\u00e7ava-me por conversar, lembra- va-me das moedas e sentia remorso, falava nos vapores.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria dizia a lista dos passageiros. Tentara fazer Currupaco decorar uma das listas, mas Currupaco n\u00e3o dera conta do recado e ficara nos versos da mulher do macaco, que fia e cose e toma tabaco h\u00e1 muitos anos.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor est\u00e1 magro como um cassaco. N\u00e3,o come! Arreliava-se e dava-me conselhos. Como eu n\u00e3o lhe prestava aten\u00e7\u00e3o, afastava-se e ia explicar-se junto \u00e0 gaiola do Currupaco: &#8211; Papagaio n\u00e3o comeu, morreu.<\/p>\n<p>Eu mastigava uns bocados, enganava o est8mago, olhava o quintal, enfadado com a tagarelice da velha.<\/p>\n<p>Zangava-me e tinha vontade de lhe pedir sil\u00eancio. Con- tinuando a falar t\u00e3o alto, n\u00e2o me deixaria ouvir mais nada.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 comprar um ma\u00e7o de cigarros, Vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quando ela voltava, dava-lhe outra incumb\u00eancia e conseguia ficar s\u00f3 algum tempo. Aproximava-me da pa.<\/p>\n<p>rede manchada, aumentava a orelha com a m\u00e3o e espe- rava, esperava, at\u00e9 que percebia aquela voz sacudida que ia ficando quebrada. Afastava-me, atravessava o corredor, chegava \u00e0 porta da rua.<\/p>\n<p>Dez minutos depois entrava no caf\u00e9. L\u00e1 estava Juli\u00e3o Tavares na prosa. Ia sentar-me no meu lugar.<\/p>\n<p>Se Mois\u00e9s e Pimentel apareciam, convers\u00e1vamos, dis- cut\u00edamos os fuxicos do jornal, met\u00edamos o pau nos literatos da terra. Sentia-me em seguran\u00e7a. Na anima- \u00e7\u00e3o da palestra procurava cigarros, mas retirava a m\u00e3o do bolso como se tivesse sido mordido. Aquela coisa punha termo aos momentos de tranq\u00fcilidade.<\/p>\n<p>&#8211; Um ma\u00e7o de cigarros.<\/p>\n<p>Abria o ma\u00e7o de cigarros e deixava-o sobre a mesa.<\/p>\n<p>No dia seguinte jogaria a corda por cima do muro de d. Ros\u00e1lia.<\/p>\n<p>&#8211; Fume um cigarro, Pimentel.<\/p>\n<p>N\u00e3o. As crian\u00e7as pegariam aquilo, brincariam com aquilo, e aquilo era sujo e perigoso. Atiraria a corda por cima do muro do fundo, no monte de lixo e cacos de vidro, onde lan\u00e7avam ratos mortos. Seu Ivo, aquele cachorro, achava poucas as minhas aporrinha\u00e7\u00f5es e ainda me trazia encrencas. Seu Ivo que fosse para o diabo.<\/p>\n<p>&#8211; A arte deve ser assim e assado, explicava Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>A tecla de sempre, arte como instrumento de pro- paganda pol\u00edtica. Eu queria contrariar o judeu, mas esmorecia, sem coragem para a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Estou em seguran\u00e7a, em perfeita seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Cada vez mais me convencia, por\u00e9m, de que n\u00e3o estava numa seguran\u00e7a assim t\u00e3o perfeita. Parecia-me que na cal\u00e7ada inimigos embiocados me espiavam.<\/p>\n<p>isi &#8211; Um homem de reparti\u00e7\u00e3,o habitua-se a n\u00e3o ver nada fora dos processos. Vive lesando, como um cego, n\u00e3o \u00e9 verdade, Pimentel? &#8211; Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Pimentel concordava distrafdo. N\u00e3o desgosta nin- ga\u00e9m. Escrevendo, agarra uma opini\u00e3o e, sinta quem sentir, sapeca tudo no papel. Saem artigos furiosos, agressivos como uma peste. Mas em conversa aprova o que a gente diz.<\/p>\n<p>&#8211; Continue, Mois\u00e9s. Como \u00e9 l\u00e1 isso? Tranq\u00fcilo, perfeitamente tranq\u00fcilo. Seu Ivo era um grande patife. Onde andaria seu Ivo? Vagabundeando pelos municfpios. Uma tristeza pensar em seu Ivo, que s\u00f3 servia para incomodar os outros.<\/p>\n<p>&#8211; Vai tudo muito mal, minha gente. Vai tudo escangalhado. N\u00e3o h\u00e1 seguran\u00e7a nenhuma.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia. A tranq\u00fcilidade era pouco a pouco substitufda por uma inquieta\u00e7\u00e2o que me tornava bru- tal com os companheiros. Instabilidade, ruina, o mun- do perdido. N\u00e2o argumentava, n\u00e3o me explicava: que- ria descontentar Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio n\u00e3,o. 8ist\u00f3ria. Tudo perdido.<\/p>\n<p>Repisava no mesmo terreno, desajeitado. Uma tei- mosia est\u00fapida. Procurava andar para diante, sentia- me burro, e isto me irritava mais. Ridiculo, absoluta- mente ridfculo. E zangava-me com Mois\u00e9s, que falava sem se alterar. De quando em quando tudo escurecla &#8211; ficavam-me diante dos olhos listras coloridas.<\/p>\n<p>Receava-me de ofender gravemente Mois\u00e9s. As minhas m\u00e3os dirigiam-se para ele, apertavam-se, como se o fossem estrangular. Eu procurava qualquer coisa, apal pava o bolso que tinha a corda e fazia um chuma\u00e7o no palet\u00f3 velho. Baixava a cabe\u00e7a, prendia as m\u00e3os entre as pernas, envergonhado, perguntava a mim mesmo se Mois\u00e9s teria percebido a tenta\u00e7\u00e3o e os movi- mentos. Parecia-me ter cometido uma falta. Selvagem.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, sim senhor. Em conversinhas como esta \u00e9 que se armam fuzu\u00eas medonhos.<\/p>\n<p>Dizia isto em voz baixa, mas os dois amigo, ouviam algumas palavras e espantavam-se. Fuzu\u00ea.<\/p>\n<p>medonhos, brigas, sopapos, tiros L\u00e1 vinha o titulc enorme da notfcia, em quatro colunas: &#8220;Comunists 162 \u00cd \u00cd \u00cd I assassinado num caf\u00e9.&#8221; Ruim tftulo. Pimentel arran- jaria outro melhor. E escreveria durante uma semana coisas interessantes. Enquanto matutava nestes absur dos, olhava-me ao espelho: uma cara besta. Evidente mente o pessoal mangava de mim; Juli\u00e3o Tavares, no outro lado da sala, m,angava de mim, via-se muito bem entre as linhas brancas do espelho. Esfor\u00e7ava-me por endireitar o rosto descomposto, procurava entender o discurso de Mois\u00e9s. Com os olhos arregalados e os queixos contrafdos, o que me dava \u00e0 boca uma apa- r\u00eancia de focinho, era como um rato, um rato bem- educado, as patas remexendo o ma\u00e7o de cigarros.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente, perfeitamente.<\/p>\n<p>Agora concordava com tudo. Eu tinha l\u00e1 convic- \u00e7\u00e2o! Baixava a m\u00e3o lentamente, tocava no bolso volu moso. Pensava em Chico Cobra e no caba\u00e7o cheio de jararacas. Faltava-me qualquer coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente.<\/p>\n<p>Levantava-me: &#8211; Est\u00e1 bem. J\u00e1 volto.<\/p>\n<p>Corria \u00e0 Rua do Macena, entrava em casa, ia \u00e0 sala de jantar, ao quintal, ao banhefro, demorava-me at\u00e9 perceber sinais da presen\u00e7a de Marina. Ent\u00e3o vol- tava \u00e0 conversa interrompida com os amigos.<\/p>\n<p>&#8211; Tranq\u00fcilo, tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o encontrava Juli\u00e3o Tavares, detinha- me um instante \u00e0 porta, depois safa pelas ruas, a pro- cur\u00e1-lo.<\/p>\n<p>i i Marina caminhava depressa, virava esquina,s, vol tava-se, como se tivesse medo de ser perseguida.<\/p>\n<p>Entrou em v\u00e1rfas lojas, escondeu-se num cinema. Dis tanciei-me dela e estive quase a perd\u00ea-la de vista. Apra ximei-me de novo. Marina andava de um lado para outro, como formiga desnorteada. Parecia ter o diabo no couro. Meteu-se por uma rua onde os sapatos mer- gulhavam na areia. Segufa com dificuldade, curva, passando o len\u00e7o na cara. Escondi-me numa esquina, porque de quando em quando ela se aprumava e exa- minava &#8220;\u00e1 rua. Duas vezes parou, descal\u00e7ou-se e esvar 163 ziou os sapatos cheios de areia. Em seguida come\u00e7ot a observar os n\u00faxneros das casas. Como se afastassi muito de mim, sa\u00ed, atravessei rapidamente um quar teir\u00e3.o e fui ocultar-me noutra esquina. Arrisquei-mi depois a nova escapada e avizinhei-me bastante dela O bairro era uma desgra\u00e7a: mato nas cal\u00e7adas, lixo c\u00e3es soltos, um ou outro maloqueiro vadiando \u00e0 port de quitandas miser\u00e1veis. As casas suj as, muito risca das com letras a carv\u00e2o profundamente revolucion\u00e1 rias. Pensei em Tavares &amp; Cia. e no dr. Gouveia.<\/p>\n<p>&#8211; Com certeza Mois\u00e9s anda por aqui, distribuin do boletins a esta gente.<\/p>\n<p>Mas n\u00e2o se via a gente. Apenas maloqueiros cochi lando, alguns mendigos, crian\u00e7as barrigudas e amare las. O resto devia estar no trabalho: os homens na oficinas, nos estribos dos bondes da Nordeste, nos quai t\u00e9is, em todos os infernos que h\u00e1 por a\u00ed; as mulhere la,vando roupa, amando por dinheiro, preparando comida ruim e insuficiente. Os filhos, ro\u00eddos pelos ver mes, seriam vagabundos mais tarde, dormiriam a meio-dia nas portas das bodegas. Dormiriam? Quand eles crescessem, haveria pessoas dormindo ao meio-di nas portas das bodegas? Muitos agora tiritavam, baten do os dentes como porcos caititus, na maleita que lama da lagoa oferece aos pobres.<\/p>\n<p>&#8220;Prolet\u00e1rios, uni-vos.&#8221; Isto era escrito sem vfrgL la e sem tra\u00e7o, a piche. Que importavam a v\u00edrgula o tra\u00e7o? O conselho estava dado sem eles, claro, num letra que aumentava e diminufa. Talvez a datil\u00f3graf dos olhos agateados morasse por ali, num dos beco que iam ter \u00e0 rua suja. Escondida num quarto escurc a datil\u00f3grafa dos olhos agateados ocupava-se em bate na m\u00e1quina um boletim subversivo. Um irm\u00e3o decc raria dele a frase mais incendi\u00e1ria, que seria copiad a carv\u00e3o no muro de uma igreja de arrabalde.<\/p>\n<p>Aquela maneira de escrever comendo os sinai indignou-me. N\u00e3o dispenso as vfrgulas e os tra\u00e7os. Qm reriam fazer uma revolu\u00e7\u00e3o sem vfrgulas e sem tra\u00e7os Numa revolu\u00e7\u00e3o de tal ordem n\u00e3o haveria lugar par mim. Mas ent\u00e3o? &#8211; Um homem sapeca as pestanas, conhece liter tura, colabora nos jornais, e isto n\u00e3o vale na,da? Po: 164 sim. E s\u00f3 pegar um carv\u00e3o, sujar a parede. Pois sim.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s que se arranje.<\/p>\n<p>Senti despeito. Afastar-me-iam da reparti\u00e7\u00e3o e do jornal, outros me substituiriam. Eu seria um anacro- nismo, uma inutilidade, e me queixaria dos tempos novos, bradaria contra os b\u00e1rbaros que escrevem sem vfrgulas e sem tra\u00e7os.<\/p>\n<p>Marina parou diante de uma casinha baixa, hesf- tou, bateu \u00e0 porta. Toda a minha aten\u00e7\u00e3.o se concen- trou num olho, porque na esquina em que me achava apenas apresentava \u00e0 rua uma banda da cara. Quan- do ela entrou, desentoquei-me, aproximei-me da casi- nha e vi uma placa azul com letras brancas: &#8220;Alber- tina de tal, parteira diplomada.&#8221; Fui at\u00e9 o fim da rua.<\/p>\n<p>Aparentemente observava os letreiros das bodegas e as legendas revolucion\u00e1rias. As bodegas tinham nomes dif\u00edceis. Julguei que os vagabundos me achavam dife- rente dos habitantes do bairro. E isto me fez apressar o passo e virar o rosto. Desejei retirar-me dali, ingres- sa.~ de novo na sociedade dos funcion\u00e1rios e dos lite- ratos.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as de azul e branco, naturalmente de volta da escola,. tinham a pele enxofrada, o rosto magro cheio de fome. Sentia-me intruso. A minha roupa era velha, a gravata enrolada como uma corda. Com cer- teza os rapazes do bairro tinham melhor apar\u00eancia.<\/p>\n<p>Em dias de descanso usavam roupa nova, len\u00e7o de seda, sapatos lustrosos. Mas havia em mim qualquer coisa que denuncfava um estranho. As crian\u00e7as olha- vam-me como olham os homens que aparecem nas escolas pelos exames. Eu era uma das criaturas que elas estavam acostumadas a aborrecer, uma das cria- turas que dizem palavras compridas em discursos. Vol- tei, parei novamente diante da casa de d. Albertina de tal, parteira diplomada. Atravessei a rua, entref numa bodega.<\/p>\n<p>&#8211; Faz o obs\u00e9quio de me dar um pouco de aguar- dente? , O homem da venda trouxe a garrafa, p\u00f4s-se a des- pej,\u00e1-la num copo sujo. Como eu n\u00e3o o interrompes- se, derramou a bebida com sovinice.<\/p>\n<p>&#8211; Quer que encha? 165 &#8211; V\u00e1 botando.<\/p>\n<p>&#8211; An! bom. \u00c9 o que se leva deste mundo, opi nou entregando-me o copo cheio.<\/p>\n<p>Sentei-me e comecei a beber, olhando a casa fron teira, o pensamento espalhado.<\/p>\n<p>&#8211; Seu Ivo deve andar por aqui, n\u00e3o? O homem n\u00e3o respondeu logo: franziu a testa E agitou vagamente o bra\u00e7o peludo. N\u00e3o conhecia set; Ivo. Naturalmente. Mas senti uma esp\u00e9cie de decep \u00e7\u00e2o, as casas em redor pareceram mais fechadas, c dono da bodega mais cabeludo e mais silencioso.<\/p>\n<p>&#8211; D. Albertina estar\u00e1 em casa? O bodegueiro interrogou-me com a cabe\u00e7a. Apon tei a casa: &#8211; D. Albertina. ..<\/p>\n<p>&#8211; Talvez esteja, respondeu o sujeito depois di algum tempo. Sua mulher precisa dela? &#8211; N\u00e2o E outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Esta aprova\u00e7\u00e3o desgostou-me, tive o desejo de con trari\u00e1-lo, mas limitei-me a beber metade da aguarden te e bater com o copo no balc\u00e3o. N\u00e3o havia nada qu estivesse bem.<\/p>\n<p>Vista dali, a placa azul de d. Albertina era ilegl vel. Mesmo de perto, dificilmente se decifrava. En v\u00e1rios pontos, especialmente nos cantos, o esmaltt desaparecia e era substitu\u00eddo por manchas de ferru gem. Com certeza aquele traste havia sido mudadi muitas vezes, pregado e despregado, amassado, desa massado a martelo. De alto a baixo uma linha escur: indicava que o tinham dobrado e novamente estendi do. Ali faltavam as letras.<\/p>\n<p>As r\u00f3tulas verdes de d. Albertina estavam cerra das, a porta fechada. E Marina l\u00e1 dentro. Lembrei-m de an\u00fancios revistos h\u00e1 muitos anos: &#8220;Fulana de tal parteira diplomada, com longa pr\u00e1tica, etc., faz volta rem as regras, etc.&#8221; Trancada num quarto, deitada m cama, Marina se deixava apalpar demorada,mente. \u00e1gua fervia na caixinha de lata, a chama do \u00e1lcoo empalidecia as figuras.<\/p>\n<p>&#8211; Quantos meses? perguntava d. Albertina.<\/p>\n<p>166 Na casa vizinha um dfstico horr\u00edvel tomava a parede toda. Letras grandes, letras pequenas, mai\u00fas culas no meio das palavras. E linhas verticais, verdes, produzidas pela \u00e1gua da chuva, cortando a amea\u00e7a aos ricos.<\/p>\n<p>&#8211; Andam muit os agitadores por aqui, n\u00e3o? &#8211; An? &#8211; Pessoas descontentes que pretendem arrasar isto, construir de novo. Que acha? Apontei a inscri\u00e7\u00e3o violenta. O sujeito cabeludo espiou-me com o rabo do olho e amoitou-se: &#8211; Aquela sempre esteve ali.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre? Meninos abandonados batiam nas portas, pediam esmolas.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre? Como \u00e9 l\u00e1 isso? &#8211; \u00c9 um modo de dizer, respondeu o tipo. Af uns tr\u00eas anos. Quando abri o estabelecimento, ela j\u00e1 esta- va acol\u00e1, assim mesmo, com uns peda\u00e7os verdes. A gente se acostuma.<\/p>\n<p>&#8211; Acha? perguntei enjoado. Ora essa! Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o? Bebi um gole de aguardente, acen\u00e0i um cigarro, pus-me a bater com os dedos na t\u00e1bua preta e gor- durosa.<\/p>\n<p>&#8211; Essa d. Albertina faz neg\u00f3cio? Qual \u00e9 a sua opini\u00e3o? &#8211; Sobre qu\u00ea? Abarquei com um gesto as garrafas das pratelei- ras, as casas arruinadas, a rua coberta de capim e as crian\u00e7as que pediam esmolas: &#8211; Tudo. Quando a encrenca vier, o senhor perde pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Sef l\u00e1! N\u00e3o leio, n\u00e3o vou aos meetings. S\u00f3 cui- do da minh\u00e1 vida.<\/p>\n<p>Puxei a cadeira, afastei-me daquele homem indi- ferente. Estupidez. Imaginar que as letras sempre tinham estado na parede. In\u00fatil conversar com ele.<\/p>\n<p>Tenho lido muitos livros em lfnguas estrangeiras.<\/p>\n<p>Habituei-me a entender algumas. Nunca me serviram para falar, mas sei o que h\u00e1 nos livros. Certas perso nagens de romances familiarizaram-se comigo. Apesar 16? de serem de outras ra\u00e7as, viverem noutros continen- tes, est\u00e3o perto de mim, mais perto que aquele homem da minha ra\u00e7a, talvez meu parente, inquilino de um dr. Gouveia, policiado pelos mesmos indiv\u00edduos que me policiam. Bebi o resto da aguardente, pensando em coisas sagradas, Deus, p\u00e1tria, fam\u00edlia, coisas distantes.<\/p>\n<p>Por cima da arma\u00e7\u00e3o da bodega havia a litografia de uma santinha bonita. Lembrei-me do Deus antigo que incendiava cidades : &#8211; A humanidade est\u00e1 ficando pulha.<\/p>\n<p>&#8211; Hum? &#8211; c\u00e1 uma hist\u00f3ria. Faz o favor de trazer mais aguardente? O homem cabeludo trouxe a garrafa: &#8211; o que se aproveita neste mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Mais ou menos.<\/p>\n<p>Uma p\u00e1tria dominada por dr. Gouveia, Juli\u00e3o Tavares, o diretor da minha reparti\u00e7\u00e3o, o amante de d. Mercedes, outros desta marca, era chinfrim. Tudo odioso e est\u00fapido, mais odioso e est\u00fapido que o sujei- to cabeludo que despejava aguardente no copo sujo.<\/p>\n<p>Que demora de Marina! D. Ad\u00e9lia chegava \u00e0 jane a. Seu Ramalho, cansado, um ombro alto e outro bai xo, entrava sucumbido, assobiando por causa da asma.<\/p>\n<p>ia sentar-se \u00e0 mesa de toalha rasgada, onde a comida esfriava. D. Ad\u00e9lia inventava desculpas: Marina tinha ido ali, tinha ido acol\u00e1, n\u00e3o tardava. Seu Ramalho fun gava, enjoado: tudo mentira. Alguns dias depois Mari- na apareceria com vestidos caros, peles caras que n\u00e3c seriam compradas por ele. Abandonava o prato, detes tava a mulher, detestava a filha, descia ao quintal passeava entre os montes de lixo. Que fam\u00edlia! Que mis\u00e9ria! D. Ros\u00e1lia largava os meninos a Ant\u00f4nia, dei xava a panela esturrar, ia para a janela ganhar calo; nos cotovelos, esponar os vizinhos. D. Merc\u00b0des man dava dinheiro ao marido e tinha filha no col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Que demora! D. Albertina n\u00e3o acabaria aquela opera\u00e7\u00e3o para restabelecer as regras? D. Albertina ers terrivelmente criminosa. Rumor de tambores, longe toques de corneta. O filho de Juli\u00e3o Tavares era neces s\u00e1rio ao patriotismo. A \u00e1gua fervendo na caixinha df lata, um frasco cheio de l\u00edquido vermelho, a chama dc 168 \u00e1lcool tremendo, Marina com o rosto escondido entre as m\u00e3os, deixando-se apalpar pelos dedos h\u00e1beis de d.<\/p>\n<p>Albertina. Se n\u00e3o fosse isso, dentro de vinte anos a criatura mofina estaria volvendo \u00e0 direita, volvendo \u00e0 esquerda, decorando os nomes das pe\u00e7as de um fuzil e passagens gloriosas do Paraguai. Filho de casal direi- to, com pai rico, faria discursos no Instituto e decla- maria versos; mas assim, coitado, nasceria \u00e0s escondi- das e n\u00e3o passaria daquilo &#8211; direita, esquerda, ordi- n\u00e1rio. D. Albertina era criminosa, mas n\u00e3o senti \u00f3dio a ela. Sinha Terta n\u00e3o faria semelhante coisa. Sinha Terta n\u00e3o tinha diploma, nem placa, nem an\u00fancio nas folhas, acreditava em pecado e vivia num tempo em que os filhos traziam vantagens aos pais. As mu- lheres pariam na esteira, e quando surgia dificuldade, sinha Terta empurrava a reza: &#8211; &#8220;Minha Santa Mar- garida, n\u00e3o estou prenha nem parida&#8230;&#8221; Os filhos de Quit\u00e9ria e os das outras negras da fazenda pertenciam \u00e0 famflia do velho Trajano. Onde andaria essa fam\u00ed- lia? Morta, espalhada, esfarelada.<\/p>\n<p>Os toques de corneta e os rufos de tambor cres- ciam. A minha p\u00e1tria era a vila perdida no alto da serra, onde a chuva ca\u00eda numa neblina que escondia tudo. Se eu tivesse ficado ali, ignoraria o resto do mundo. Seu Evaristo, que se enforcou, mestre AntBnio Justino, padre In\u00e1cio, cabo Jos\u00e9 da Luz, seriam pessoa.a not\u00e1veis. T\u00e3o longe! Pensei no jornal franc\u00eas lido na v\u00e9spera e aqui chegado vinte e quatro horas depois de publicado. As notfcias dos munic\u00edpios sertanejos do meu Estado chegam mais atrasadas que um n\u00famero de jornal europeu.<\/p>\n<p>Como seria a cara de d. Albertina? Imagfnei-a magra, p\u00e1lida, s\u00e9ria, correta. N\u00e3o havia otivo para Marina esconder os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a o favor de descobrir o rosto. N\u00e3o se aca- nhe. T\u00e3o natural! Depois voltariam as regras.<\/p>\n<p>&#8211; Dois meses? Perfeitamente. Agora a senhora toma precau\u00e7\u00f5es, usa fsto, usa aquilo.<\/p>\n<p>Exatamente como se Marina estfvesse no consul- t\u00f3rio de um m\u00e9dico, sarjando um tumor. Nenhum sinal de crfme ou de a\u00e7\u00e3o proibida. A seringa na \u00e1gu8 169 que borbulhava, um frasco sobre a mesa da cabeceira , quadros de anatomia nas paredes, a chama do \u00e1lcool tremendo, a voz calma de d. Albertina a prescrever medidas de seguran\u00e7a. Uma senhora p\u00e1lida e franzi- na, de rosto sereno e boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se acanhe. Fique \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Nenhuma alus\u00e3o a qualquer esp\u00e9cie de falta. Direi ta, fria, falando baixinho, empregando termos esco- lhidos.<\/p>\n<p>Mas porque era que d. Albertina, parteira dipla mada, com longa pr\u00e1tica, deveria ser assim e n\u00e3o de outra forma? Talvez fosse diferente. Os an\u00fancios n\u00e3o valem nada, papel ag\u00fcenta tudo, como dizem os ma- tutos. D. Albertina era uma velha gorda e mole, sem diploma nem pr\u00e1tica, de \u00f3culos ordin\u00e1rios e h\u00e1lito desagrad\u00e1vel, mal-educada, resmungona. Marina esta- va deitada numa cama nojenta; nas paredes nojentas n\u00e3o havia gravuras de anatomia: h\u00e3via quadros de santos, retratos coloridos, p\u00e1ginas de revistas. Sem la- var as m\u00e3os duras, de unhas compridas e negras, d.<\/p>\n<p>Albertina examinava brutalmente o corpo de Marina, arranhando-a, machucando-a, rosnando: &#8211; Era melhor deixar-se de vergonhas e descobrir a cara. Quando andam na p\u00e2ndega, n\u00e3o t\u00eam esses luxos. E depois parem bem na bananeira. Feias coisas.<\/p>\n<p>Mostrava os dentes amarelos de selvagem. Seria assim d. Albertina? A cliente mordia as cobertas sujas, continha a respira\u00e7\u00e3o, fechava os olhos, apertava as coxas e engolia o choro.<\/p>\n<p>&#8211; Abra as pernas, criatura. Donde v\u00eam esses den- gues? Assim ningu\u00e9m pode trabalhar.<\/p>\n<p>O dinheiro do trabalho fora recebido adiantada- mente. Marina dera nome falso e endere\u00e7o errado, temendo a explora\u00e7\u00e3o de d. Albertina.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e2o vale a pena a senhora se incomodar. Eu apare\u00e7o, compreende? Se houver necessidade, eu apa- re\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto devo? O homem cabeludo deu a conta. doguei uns n\u00edqueis no balc\u00e3o, disse frases sem sentido, olhando a legenda medonha no muro cortado de listras verdes.<\/p>\n<p>Que vida teria d. Albertina? D. Albertina sa.bia umas I70 coisas, como eu, e como eu usava linguagem dfferente da linguagem das outras pessoas. Ordinariamente n\u00e3o \u00e9 preciso que me digam: &#8211; &#8220;Fa\u00e7a isto. Escreva assim:&#8217; Basta que me mostrem ser conveniente fazer isto e escrever assim. Depois os amigos me felicitam, juram que um artigo que ningu\u00e9m leu foi muito apre- cia,do. Marina provavelmente n\u00e3o dissera o que dese- java: falara por meias-palavras, aludira a dificuldades de ordem econ\u00f4mica, desaven\u00e7as de famflia, etc. D.<\/p>\n<p>Albertina riscara um f\u00f3sforo para desinfetar a seringa na caixinha de lata. A segunda d. Albertina, desleixa- da, suja, de unhas compridas e pretas que arranha- vam o corpo das clientes, sumiu-se. Voltou a outra, delicada e limpa: &#8211; Como n\u00e3o? Perfeitamente. Pode confiar. Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>As m\u00e3os finas de unhas polidas, a voz baixa e grave.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente.<\/p>\n<p>O filho de Juli\u00e3o Tavares rebentaria como um tumor. D. Albertina lavaria as m\u00e3os, sorrindo: &#8211; A senhora tem uns lindos cabelos.<\/p>\n<p>E ajeitaria os cabelos desconsertados de Marina.<\/p>\n<p>Receberia o envelope indiferente, como se aquilo n\u00e3o tivesse import\u00e2ncia: &#8211; Ora essa! A mulher suja e balofa desaparecera, o quarto sujo desaparecera. Uma senhora decente, parteira diplomada, com longa pr\u00e1tica, as m\u00e3os brancas e macias, linguagem correta, sorrisos: &#8211; Quando quiser. Perfeitamente.<\/p>\n<p>O filho de Juli\u00e3o Tavares n\u00e3o viria ao mundo penar, cantar na escola o hino do Ipiranga, mover-se no exercfcio militar, curtir fome nos bancos dos jar- dins, amolar-se nas reparti\u00e7\u00f5es, adular nos jornais o governo. E a fam\u00edlia de seu Ramalho nada sofreria.<\/p>\n<p>Pensando bem, d. Albertina atentara apenas con- tra Deus e contra a p\u00e1tria. Se aquilo fosse julgado pelo j\u00fari, o promotor gritaria um discurso pat\u00e9tico, e os jurados se arrepiariam com indigna\u00e7\u00e3o. Se o cura da s\u00e9 ouvisse um pecado t\u00e2o grande no confession\u00e1rio, daria \u00e0s duas mulheres penit\u00eancia dura. Mas n\u00e3o 171 haveria discurso, n\u00e3o haveria penit\u00eancia, que elaa n\u00e3c se julgavam culpadas e despediam-se de cora\u00e7\u00e3o leve Marina ainda confusa, d. Albertina fingindo acreditai que ela era casada: &#8211; Para que ter filhos, minha senhora? A gente sofre, mas se eles vivessem, podia ser pior, n\u00e3o \u00e9 ver dade? Criar infelizes.. Uma responsabilidade, minha senhora, responsabilidade enorme.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a e a religi\u00e3o n\u00e3o tomariam conhecimentc do caso. E a famflia de seu Ramalho continuaria comc estava, sem um esc\u00e2ndalo para alimentar d. Ros\u00e1lia sem peso novo no or\u00e7amento, uma criatura que seriF necess\u00e1rio vestir, cal\u00e7ar, nutrir e mandar \u00e0 escola. D Ad\u00e9lia censuraria aquele passo arriscado e teria ux suspiro de al\u00edvfo: &#8211; Que loucura! Pisou na beira da cova.<\/p>\n<p>Seu Ramalho, hostil e distante, perceberia vaga mente que a maluca estava criando ju\u00edzo. Tudo certo Marina de cabe\u00e7a erguida, criticando a vida suspeit de Lobisomem; d. Ros\u00e1lia e d. Mercedes falando con ela naturalinente; Juli\u00e3o Tavares, no caf\u00e9, exigind um governo forte; d. Ad\u00e9lia apertando as m\u00e3os, gemen do conselhos: &#8211; Tenha cuidado, minha filha N\u00e3o se exponh n\u00e3o sacrifique a sua vida por causa desses safado; Conserve-se, pode ser que arranje casamento.<\/p>\n<p>Levantei-me: &#8211; Adeus.<\/p>\n<p>DIas n\u00e3o sai: fiquei junto ao balc\u00e3o, atrapalhadc olhando, \u00e0 porta da casa fronteira, o rosto de Marinf Por detr\u00e1s dela os cabelos brancos de d. Albertina ag tavam-se. S\u00f3 se percebiam os cabelos. Vistas de long as duas figuras confundiam-se, e tive a impress\u00e3o d que Marina envelhecera e se purificara depois do tra balho da outra. Inutilizara nas entranhas uma cois ruim que se atormentaria se vivesse, ag\u00fcentaria co ces por onde andasse: em casa, no quarto de pens\u00e2 na rua, no jornal, no quartel, na reparti\u00e7\u00e3o. Tudo co tinuaria como anteriormente.<\/p>\n<p>A neta de d. Aurora iria ao cinema com os h\u00f3 pedes que a convidassem. D. Aurora balan\u00e7aria c 172 carac\u00f3is e as banhas excessivas. Dagoberto se agarrer ria ao comp\u00eandio e ao esqueleto.<\/p>\n<p>Impacientei-me e falei ao bodegueiro, tentando explicar-lhe as letras pretas manchadas de verde. A neta de d. Aurora n\u00e3o era Marina e devia estar madu- ra, talvez senhora honesta, dona de pens\u00e3o, ca,sada, gorda. E Dagoberto j\u00e1 n\u00e3o era estudante: era m\u00e9dico no Par\u00e1, ou no Amazonas, um destes lugares. Aquela hora estaria examinando a Marina de uma ruela do Par\u00e1.: &#8211; (ual foi a parteira que lhe fez isso? Onde andava a senhora com a cabe\u00e7a? Gritos, indigna\u00e7\u00e3o. E a Marina do Par\u00e1, compr endendo que havia feito doidice, temeria as doen\u00e7as de nomes complicados. Mas n\u00e2o denunciaria nenhu- ma d. Albertina. Dagoberto que lhe desse um rem\u00e9dio, se quisesse. Como estaria Dagoberto, depois de dez anos de separa\u00e7\u00e3o? Devia estar gordo, encanecido, rico, cheio de filhos, com \u00f3culos.<\/p>\n<p>Marina ia sair. Viu que se abria uma janela na vizinha e retraiu-se. Os cabelos brancos continuavam a agitar-se. N\u00e3o pude saber a qual dos dois tipos ima- ginados d. Albertina se assemelhava. Seria talvez uma d. Albertina diferente das minhas.<\/p>\n<p>Fazia minutos que me havia despedido do bode- gueiro, mas prosseguia na conversa, decifrando a legenda revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Subitamente os cabelos brancos desapareceram e Marina saiu. Findei a exposi\u00e7\u00e3o capenga: &#8211; At\u00e9 logo.<\/p>\n<p>Atravessei a rua e cheguei-me a Marina, que se afastava com dificuldade, mergulhando na areia os sapatos vermelhos. Sentia-me perturbado e intimamen- te armava di\u00e1logos que ela, n\u00e3o entenderia. Os sapa- tos velhos, rachados e cambados. A roupa desfiando- se nas costuras. T\u00e3o mi\u00fada, t\u00e3o reles! Estava quase a pisar-lhe os calcanhares. Tossi: &#8211; Faz favor? Continuou a marcha penosa, mais lenta e mais cansada depois que dobrou uma esquina. O suor cor- ria-lhe pela nuca, entre os cabelinhos arrepiados. De quando em quando a m\u00e3o que enxugava a cara sur 173 gia por cima de um ombro e esfregava com o len\u00e7c a penugem amarela.<\/p>\n<p>&#8211; Faz favor? Af ela parou. Em seguida apressou o passo, meteL com vontade os p\u00e9s na areia frouxa, e a penugem ama rela empastou-se, grudou-se \u00e0 pele e escureceu.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa disso. N\u00e2o h\u00e1 motivo para esse orgulhc todo. Baixa a pancada. Donde vem uma soberbia t\u00e3c grande? Os m\u00fasculos do pesco\u00e7o tremeram, os sapatos ver melhos plantaram-se na areia, mexeram-se como si quisesserr arrancar-se, ficaram im\u00f3veis. Avancei doi; metros, fiz meia-volta e achei-me em frente de Marina &#8211; Boa-tarde. Como vai a sa\u00fade? H\u00e1 que tempol Vista de costas, o que nela, avultava era a nuc: molhada. Agora percebia-se a testa, molhada tamb\u00e9n e coberta de rugas. Parecia que o resto do corpo se ocul tava sob as p\u00e1lpebras ca.\u00eddas e roxas. O peito cavava se. a barriga sumia-se. Examinei-Ihe brutalmente barriga, barriga comum, nem grande nem pequena Uma pessoa modesta andando na rua, encolhendo-s para n\u00e3o dar nas vistas.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhora, muito digna. Levanta a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Marina estremeceu e olhou de esguelha para o lados, como se procurasse aux\u00edlio.<\/p>\n<p>&#8211; Levanta a cabe\u00e7a. Deixa de inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>Aqueles modos pudicos, aqueles movimentos qua se imperceptfveis das p\u00e1lpebras roxas que velavan olhos in\u00fateis, irritaram-me. Lembrei-me dos armadc res que rangiam, das cantigas, dos banhos ruidoso.<\/p>\n<p>E atirei-lhe \u00e0 cara, com raiva: &#8211; Puta! Marina ouviu isto sem se revoltar. Apenas ffcoi mais branca, estirou o bei\u00e7o quase chorando.<\/p>\n<p>&#8211; Me largue, balbuciou.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem. Ningu\u00e9m tem nada com isso, n\u00e3o \u00e9 Vamos andando. Puta! Dizia-lhe o insulto, mas estava cheio de piedadE N\u00e3o sentia c\u00f3lera, o que sentia era desgosto.<\/p>\n<p>Marina estava como uma defunta em p\u00e9. PensE em Cirilo de Engr\u00e1cia, visto dias antes em fotografi &#8211; um ca,ngaceiro morto, amarrado a uma \u00e1rvore. Parecia vivo e era medonho. O que tinha de morta eram os p\u00e9s, suspensos, com os dedos quase tocandc o ch\u00e3o. Os p\u00e9s de Camilo Pereira da Silva, ossudos, magros, eram assim desgovernados. Os de Marina esta vam metidos na areia. E Marina parecia morta.<\/p>\n<p>&#8211; Puta! Teria dito e repetido outra palavra que insistissE em vir-me \u00e0 boca, dessas coisas que a gente diz \u00e0 toa e conserva porque vieram espontaneamente e s\u00e3c insubstitu\u00edveis e absurdas. Quanto mais olhava Mari na menos me inclinava a admitir que ela fosse uma puta. As p\u00e1lpebras roxas ocultando olhos aguados, c bei\u00e7o tr\u00eamulo, a barriga encolhida, a cara mal pinta da, a testa amarela coberta de rugas.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos caminhando: Marina p\u00f4s-se a andar como um ma.mulengo.<\/p>\n<p>O homem cabeludo s\u00f3 cuidava da sua vida; datil\u00f3grafa dos olhos de gato copiava um boletim m m\u00e1quina estragada; d. Albertina guardava os cem mil r\u00e9is na gaveta; as crian\u00e7as que voltavam do grupc escolar soletravam as legendas estiradas nas paredes O filho de Marina morria, talvez j\u00e1 tivesse morrido Pensei nos ratos, em d. Mercedes, no quintal cheio di lixo, na mulher que lava garrafas e no homem qu enche dornas. Estas lembran\u00e7as me produziram uu aperto no cora\u00e7\u00e2o. Quase todas me pareceram regula res, mas a id\u00e9ia dos ratos era extravagante, e isto mi enfureceu. Que vinham fazer os ratos ali, \u00e0quela hora&#8217; &#8211; Puta! exclamei metendo com raiva os p\u00e9s n areia.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o me referisse a Marina: referia-me ao; ratos, a coisas vagas. A palavra infamante tinha extens\u00e3o enorme, Nada se fixava no meu esp\u00edrito. Aber ra\u00e7\u00f5es, monstruosidades, os uivos compridos de d los\u00e1lia, a respira\u00e7\u00e3o ofegante do marido de d. Ros\u00e1lia Ant\u00f4nia, Berta, a mulher da Rua da Lama, a neta d d. Aurora, a banca da reda\u00e7\u00e3o, o cinema, o teatro. 1 aparecia-me na rua uma criatura p\u00e1lida, silenciosa Mais forte que aquelas id\u00e9ias indecisas e misturadas, lembran\u00e7a dos ratos continuava a atormentar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Puta! I76 Os bei\u00e7os de Marina estavam como os de uma defunta, os olhos procuravam socorro, e eu cravava as unhas nas palmas das m\u00e3os, mordia a l\u00edngua por haver deixado escapar mais uma vez a inj\u00faria que nada significava. Deu-me uma tontura, cambaleei.<\/p>\n<p>Meses antes Marina ficara nua, a carne arrepiada se cobrira de carocinhos. Quando o marido voltava do interior, d. Ros\u00e1lia soltava uns gritos que n\u00e3o me dei- xavam dormir. A mulher da Rua da Lama ia para o hospital, vinha do hospital, continuava o trabalho enfadonho no quarto sujo, nua e triste. Os dedos cru- zavam-se nos joelhos agudos como dedos mortos. &#8211; &#8220;A \u00e1gua lava tudo, as feridas cicatrizam.&#8221; Repeti men- talmente esta frase, mas n\u00e3o pude saber de quem era ela.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim tudo se acabou, n\u00e3o \u00e9? perguntei, O filho morreu, boa solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marina estremeceu violentamente e parou, olhan- do-me pe)a primeira vez. O rosto contra\u00eddo esmoreceu num desmaio, o corpo diminuiu. Pareceu-me que ia enterrar-se todo na areia. A voz morria-lhe na gargan- ta, sons roucos e incompreens\u00edveis, mas os olhos apa- vorados negavam, a cabe\u00e7a agitava-se desordenada- mente, negando.<\/p>\n<p>&#8211; Merecia estar na cadeia, resmunguei sentindo uma necessidade urgente de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Palavras antigas, esquecidas, voltavam-me. &#8211; &#8220;Os que t\u00eam fome de justi\u00e7a&#8221;, cantavam os alunos de mes- tre Ant\u00f4nio Justino. Sede ou fome de justi\u00e7a? N\u00e3o me lembrava. Tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o sabia as vantagens que o catecismo reserva aos que t\u00eam fome ou sede de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Na cadeia, percebe? Comendo bacalhau e dor- mindo na esteira. Sem-vergonha.<\/p>\n<p>A frase antiga me perseguia, mas, por mais que tentasse reconstru\u00ed-la, n\u00e3o havia meio de t\u00ea-la com- pleta. &#8211; &#8220;Bem-aventurados os que t\u00eam sede de justi- \u00e7a&#8230;&#8221; E o resto? Que aconteceria a esses bem-aven- turados? O esfor\u00e7o para recordar-me exasperava-me.<\/p>\n<p>Insultava Marina. Puta. A justi\u00e7a havia de agarr\u00e1,- la, jog\u00e1-la para l\u00e1 das grades pretas que a gente n\u00e3o pode tocar. Vinham-me tiradas incoerentes, que embranqueciam e enegreciam Marina.<\/p>\n<p>177 &#8211; Fez muito bem Preju\u00edzo pequeno, insignific\u00e2n cia. E o que lhe digo. Sem falar nas responsabilidadea nas encrencas.<\/p>\n<p>E logo : &#8211; D. Albertina guarda segredo? Se n\u00e3.o guarda a reputa\u00e7\u00e3o de Marina d\u00e1 em ossos de minhoca.<\/p>\n<p>&#8211; D. Albertina? perguntou Marina, p\u00e1lida com flor de algod\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, d. Albertina, minha sem-vergonha. Vamc para diante. Marcha! Continuamos a caminhada, segurei o bra\u00e7o mol de Marina.<\/p>\n<p>&#8211; Eu vi a placa na porta. Estava defronte, co: versando com o homem da venda.<\/p>\n<p>&#8211; Me deixe, pelo amor de Deus, gritou Marin desesperada. N\u00e3o lhe fiz mal, vou quieta pelo me caminho. Me deixe. Que \u00e9 que voc\u00ea quer comigo? Olhou os quatro cantos. Um soldado de pol\u00edcia um soldado do ex\u00e9rcito passaram, os quepes de band &#8211; Atraca-te com um deles. Tu s\u00f3 d\u00e1.s para isso.<\/p>\n<p>Atirei-lhe assim o pior ultraje. Como os pequenc militares s\u00e3o desprezados, julguei demolir Marin apontando-lhe os dois rapazes. Bem-aventurados c que t\u00eam sede de justi\u00e7a. Esta coisa, repetida, dava-n f\u00farias de cachorro doido. Para que agarrar-me a son bras? Um juiz de direito bocejando, fatigado; o pri motor dec\u00cdamando a acusa\u00e7\u00e3o e afastando-se dc autos, que n\u00e3o tinha lido; o advogado, que poderia si Juli\u00e3o Tavares, solu\u00e7ando a defesa e apelando para sent&#8217;mentos religiosos dos jurados; oito sujeitos cocr lando, chateados e comprometidos a absolver ou co denar a r\u00e9. Marina escondia a cara e inspirava con paix\u00e3o. Todos os jurados tinham a,s fei\u00e7\u00f5es-de dr. Gov veia. Sacudi os ombros: &#8211; Ande. Que diabo tem voc\u00ea nas pernas que nF caminha? A marcha na areia solta era penosa em extrem &#8211; V\u00e1-se embora. Me largue, pelo amor de Deu arquejou Marina. N\u00e3o lhe fiz mal. Porque n\u00e3o me df xa em paz? Em paz. Cfrunhi de novo o desaforo imundo. E paz. Nenhum caso importante. N\u00e3o havia, juiz amol 178 do tocando o timpano, nem advogado pern\u00f3stico, nem promotor botando sabedoria em cima de dr. Gfouveia multiplicado nas cadeiras. Marina dormiria tranq\u00fcila, os armadores guardariam sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida. Os tempos est\u00e3o duros. Em fren te, ordin\u00e1rio, marche! Tudo isto \u00e9 uma peste.<\/p>\n<p>Entramos na cidade e separamo-nos. Mas logo me veio a id\u00e9ia de que ela se ia juntar com o amante.<\/p>\n<p>* * * Descobri por acaso que Juli\u00e2o Tavares tinha feito nova conquista. Foram duas ou tr\u00eas palavras soltas na rua que me deram a revela\u00e7\u00e3o. Pensei numa das filhas de Lobisomem e na datil\u00f3grafa dos olhos verdes.<\/p>\n<p>Tudo isto \u00e9 infantil, mas a verdade \u00e9 que duran- te dias me atormentou a id\u00e9ia de que Juli\u00e3o Tavares havia seduzido a menina dos olhos verdes. Para que lado morava ela? Nunca havia percebido a voz dessa criatura, n\u00e3o conhecia nenhum dos seus gostos, mas tinha certezas esquisitas e andava como um pa-ente cheio de ci\u00fames ou como um cachorro que perdeu o faro, e n\u00e3o sossega.<\/p>\n<p>Porque se tinha escondido a datil\u00f3grafa dos olhos verdes? Fugiria da policia? Ou estaria de cama com a hemorragia produzida pela interven\u00e7\u00e3o de uma d.<\/p>\n<p>Albertina? Agora Juli\u00e3o Tavares tomava um caminho, depois tomava outro &#8211; e eu imaginava que ela resi- dia em Bebedouro, na Levada, em Jaragu\u00e1, no Farol, enfim admitia que nos quatro pontos cardeais exis- tiam datil\u00f3grafas doentes. Todas elas estavam gr\u00e1vi- das e procuravam os servi\u00e7os de d. Albertina.<\/p>\n<p>O bodegueiro cabeludo, com os cotovelos pregados no balc\u00e2o, n\u00e3o via nada, s\u00f3 cuidava da sua vida. E Juli\u00e3o Tavares farejava as datil\u00f3grafas como um bode.<\/p>\n<p>Porque andava com tanta pressa quando deixava o caf\u00e9? Entrava num bonde, espalhava-se no banco, feliz, o olho aceso, o charuto aceso. Ia encolher-me num dos \u00faltimos lugares, firmava as m\u00e3os no encosto do banco fronteiro, apoiava o queixo nas m\u00e3os e obser- vava as costas de Juli\u00e3o Tavares. O cacha\u00e7o gordo e mole como toicinho balan\u00e7ava com o movimento do 179 carro. A m\u00e3o curta de unhas cor-de-rosa fazia acen para baixo. Transeuntes sorriam ao dono da m\u00e3o cL ta de unhas brunidas. Eu notava com raiva aquel sorrisos. Porque tanta subservi\u00eancia nas caras aberta Juli\u00e2o Tavares, patriota e orador, n\u00e3o prestava pa: nada. Nenhum favor esperavam dele. Mas sorriam p h\u00e1bito. Eu tamb\u00e9m havia sorrido, amolado. Os cab los de Juli\u00e3o Tavares come\u00e7avam a escassear no al da cabe\u00e7a. Parecia que ele ia adquirindo uma esp\u00e9c de tonsura. Falava alto, atirava cumprimentos a conhecidos e era am\u00e1vel em excesso, mas a amabi: dade traduzia-se em palavras v\u00e3s. O que me aborrec era saber que essa.s palavras eram aceitas: tinham tic significa\u00e7\u00e3o antigamente e continuavam a circular. F engulhava, metia a m\u00e2o no bolso e apertava a corda.<\/p>\n<p>Que fim teria levado seu Ivo? A toa, procuranc nas fazendas e nas povoa\u00e7\u00f5es muitas vezes percon das alguma coisa ignorada. B\u00eabedo sempre, cochila: do, babando, seu Ivo n\u00e3o encontra sossego. Uns fora para o Amazonas e acabaram-se no berib\u00e9ri; outr andam pelo sul, em concorr\u00eancia com o estrangeir Seu Ivo, incapaz de fixar-se, \u00edndio e cigano, cor fazendas e povoa\u00e7\u00f5es, pedindo, furtando. N\u00e3o sal tomar os objetos que necessita: pede, furta, \u00e9 um inc vfduo inferior. Por isso digo a Vit\u00f3ria quando ele n entra em casa: &#8211; Vit\u00f3ria, preste aten\u00e7\u00e3o a seu Ivo. Cuidado pa que ele n\u00e3o me abafe um livro.<\/p>\n<p>In\u00fatil. O livro \u00e9 abafado e oferecido adiante, corr a corda que ele me deu.<\/p>\n<p>Apalpava a corda. Mexia-me lentamente, pensav nos cabras que meu av8 livrava peitando os jurados c ameaando a cadeia da vila. Apareciam no p\u00e1ti desarmados, varrendo o ch\u00e3o com chag\u00e9us de cour mas quando tinham empreitada, dormiam na pont ria, passavam semanas por detr\u00e1s de um pau, o clav note escorado numa forquilha, algumas rapaduras farinha de mandioca no bisaco.<\/p>\n<p>Pouco a pouco tudo se transformava, a catini da minha terra rodava aos solavancos nos trilhos c Nordeste. Escondia-me entre aquela vegeta\u00e7\u00e3o de pa sageiros, sobre o encosto do banco apoiava-se um rif 180 imagin\u00e1rio dirigido \u00e0s costas de Juli\u00e3o Tavares. Tudo nele me aparecia aumentado e deformado. Lembrava- me das conversas que me estragavam as noites, de palavras ouvidas atrav\u00e9s da parede da sala de jantar, de frases truncadas percebidas no caf\u00e9. O homem sal- tava, eu ia saltar um poste adiante e continuava \u00e0 espreita. Notava as casas onde ele entrava, as caras das pessoas a que se dirigia.<\/p>\n<p>Como conseq\u00fc\u00eancia da investiga\u00e7\u00e3o, descobri afi- nal a nova amante de Juli\u00e3o Tavares. Era uma criatu- rinha sardenta e engra\u00e7ada que trabalhava numa loja de miudezas. Dentro de alguns meses estaria de barri ga, visita,ndo clandestinamente d. Albertina. Venderia as j\u00f3ias baratas, furtarfa dinheiro na caixa para d.<\/p>\n<p>Albertina. Ou ent\u00e3o haveria um espalhafato. Juli\u00e3o Tavares daria \u00e0 mocinha sardenta quinhentos mil-r\u00e9is para ela calar-se e passaria uns tempos aborrecido, ouvindo os serm\u00f5es de Tavares pai.<\/p>\n<p>* * * A casa era em Bebedouro, pequena, isolada. Juli\u00e3o Tavares chegava alta noite, entrava, demorava-se duas horas. Afastava-me, para n\u00e3o despertar suspeitas, mas &#8216;\u00e0 safda andava por ali e distinguia um vulto que tinha a gola do palet\u00f3 erguida e evitava os pontos ilu- minados. Havia raros transeuntes, e a liga\u00e7\u00e2o durou pouco, n\u00e3o chegou a dar nas vistas.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares seguia pela rodagem, rente aos jar- dins dos palacetes adormecidos. Ou acompanhava a es- trada de ferro, que atravessa a rua, ganha os fundos das casas. Ali era o silncio, uma sombra que algumas l\u00e2mpadas muito distanciadas e os becog por onde es- pirra um pouco de luz interrompiam. A \u00e1gua do man- gue apresentava manchas brancas entre as \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Aproximando-me, ouvia perfeitamente os passos do ho- mem nas folhas secas. Porque era que aquele sem-ver- gonha caminhava como se estivesse em casa, pisando no ch\u00e3o pago? Em toda a parte era assim. Derramava-se no bon- de. e se algu\u00e9m lhe tocava as pernas, desenroscava-se com lentid\u00e3o e lan\u00e7ava ao importuno um olhar duro.<\/p>\n<p>181 Eu encolhia-me, reduzia-me e, em caso de necessidade sentava-me com uma das n\u00e1degas. As viagens se torna vam horrivelmente inc8modas, mas havia-me habituadc a elas, e ainda que o carro estivesse deserto, n\u00e3o pode ria espalhar-me como Juli\u00e3o Tavares: receava que m viessem empurrar e tomar, sem pedir licen\u00e7a, algumaa polegadas da t\u00e1bua estreita.<\/p>\n<p>Aqueles modos davam-me a impress\u00e3o de que tudc em roda era dele. Os passeios p\u00fablicos eram dele. Certa mente ningu\u00e9m me proibia andar nos jardins, sen tar-me, ver as mulheres. Mas as mulheres n\u00e3o repara vam em mim, pessoas conhecidas olhavam-me distraida mente. Demais, enquanto me achava ali, perseguia-mE a recorda\u00e7\u00e3o da vida ordin\u00e1ria, e isto me estragava a hora mesquinha de folga. Os canteiros, o coreto, os glo- bos opalinos, n\u00e3o me serviam para nada. Estimaria que os fios da Nordeste encrencassem e a cidade ficasse \u00e0 escuras. Mover-me-ia como um cego, esqueceria as mu lheres pintadas que imitam d. Mercedes, esqueceria Juli\u00e3o Tavares, que estava em todos os bancos. A treva apagaria aquela exposi\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel. Mas dar-me-ia a recorda\u00e7\u00e3o de coisas mais desagrad\u00e1veis ainda.<\/p>\n<p>A gravata enrolava-se como uma corda sobre a ca m;sa raseada e suja, das bainhas das cal\u00e7as e dos coto- velos pu\u00eddos sa\u00edam fiapos, manchas de poeira alastra vam-se na roupa, a sola dos sapatos estava gasta, os meus olhos se enevoavam por causa da fome e desco- briam entre as \u00e1rvores cenas irreais.<\/p>\n<p>Agora Juli\u00e3o Tavares marchava no escuro, depois de ter abra\u00e7ado a mocinha sardenta. Ia deitar-se, arru- mar talvez uns versos indecentes a respeito de segredos de alcova. Aquela hora n\u00e3o tinha com quem desabafar.<\/p>\n<p>O caf\u00e9 estava fechado, na pra\u00e7a deserta as luzes cochi- lavam. Derramaria a vaidade no papel, imprimi-la-ia no dia seguinte, os amigos lhe dariam parab\u00e9ns e ele andar ria como um pav\u00e3o. Juli\u00e3o Tavares julgava-se superior aos outros homens porque tinha deflorado v\u00e1rias meni- nas pobres. Pelos modos, imaginava-se dono delas. Con- tra-senso. Ent\u00e3o Marina era dele? Tolice. Era a mesma que eu tinha conhecido um ano antes, vermelha, com os cabelos pegando fogo, entre as roseiras maltratadas.<\/p>\n<p>Evidentemente.<\/p>\n<p>I82 Lembrava-me de sinha Germana, de Quit\u00e9ria, das negras da fazenda. Sinha Germana s\u00f3 tinha conhecido um homem. As pretas n\u00e3o se envergonhavam de conhe cer muitos homens. Que diferen\u00e7a! Descendo de sinha Germana, que dormiu meio s\u00e9culo numa cama dura e nunca teve desejos. Adquiro id\u00e9ias novas, mas estas id\u00e9ias brigam com sentimentos que n\u00e3o me deixam.<\/p>\n<p>Sinha Germana dormia no couro de boi com o velho Trajano, e se dormisse de outra forma, n\u00e3o dava certo.<\/p>\n<p>Os costumes de sinha Germana eram superiores aos de Quit\u00e9ria. Porqu\u00ea? N\u00e3o havia porqu\u00ea, e isto me enrai- vecia. Um sujeito capaz de escrever sobre muitos assun tos entendendo-os mal, ou sem entend\u00ea-los, aceitar as opini\u00f5es de Camilo Pereira da Silva, de padre In\u00e1cio, de d. Ros\u00e1lia! Essas opini\u00f5es n\u00e3o tinham p\u00e9 nem ca- be\u00e7a. Marina valia o que tinha valido antes de engros- sar a barriga e procurar d. Albertina. As mesmas per nas bem feitas, os mesmos bra\u00e7os que mexiam as ro- seiras do quintal pobre, os mesmos cabelos que pare- ciam oxigenados, os mesmos olhos traquinas. Mas as pernas n\u00e3o se curvavam para mostrar as n\u00e1degas aper- tadas na saia estreita, os bra\u00e7os moviam-se vagarosa- mente, pesados, os cabelos amarelos ca\u00edam sobre a tes- ta enrugada, os olhos baixavam-se, cheios de culpa, des- viando-se dos outros olhos. Esta consci\u00eancia de inferio- ridade era contagiosa. Marina tinha descido. Logo me revoltava. Absurdo.<\/p>\n<p>&#8211; Como as outras, como as outras. Mais bonita que a maioria das outras.<\/p>\n<p>Repeti\u00e7\u00f5es in\u00fateis. N\u00e3o podia evitar a id\u00e9ia de uma queda. De qualquer forma ela havia diminufdo e habi- tuava-se a esgueirar-se, a pedir desculpa a toda a gente.<\/p>\n<p>Seria para o futuro um trapo como d. Ad\u00e9lia: &#8211; A senhora tem raz\u00e3o, d. Ros\u00e1lia. isso mesmo.<\/p>\n<p>d. Ros\u00e1lia.<\/p>\n<p>Os sapatos vermelhos com o verniz rachado e os saltos gastos, roupas ordin\u00e1rias, as unhas estragadas, a voz esmorecendo numa cantilena de aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Como as outras. Est\u00fapido, absolutamente est\u00fa- pido.<\/p>\n<p>183 Furores perdidos. Marina permaneceria de vists baixa, esconder-se-ia como um rato e falaria gemendo concordando com d. Ros\u00e1lia.<\/p>\n<p>* * * Fu\u00ed at\u00e9 o fim da linha de bonde e parei, como se me tivesse faltado a corda de repente. Aquelas dua, extremidades de trilhos roubaram-me os movimentos e deram-me impress\u00e3o desagrad\u00e1vel. Esfreguei os olhos senti-me eansado. At\u00e9 ali n\u00e3o havia experimentadc nenhum cansa\u00e7o. Teria andado l\u00e9guas se os trilho; avan\u00e7assem para o interior, mover-me-ia regularmente como um bonde. Apenas n\u00e3o rre deteria diante do; postes cintados de branco. Nessas marchas comprida; a que me habituei &#8211; um, dois, um, dois &#8211; a fadiga adormece e quase n\u00e3o penso. Exatamente como se uma vontade estranha me dirigisse, um sargento invis\u00edve: que se descuidasse do exerc\u00edcio e fosse pelo campo, em brutecido pela cad\u00eancia &#8211; um, dois, um, dois &#8211; esque cido da voz de comando, pensando nos versos de ur Juli\u00e3o Tavares ou nos bilhetes de outra Marina. Andc meio adormecido. Se algu\u00e9m me gritasse: &#8211; &#8220;A direita \u00e0 esquerda&#8221;, volveria \u00e0 direita, volveria \u00e0 esquerda, sen procurar saber donde partia a ordem. Porque \u00e0 direita&#8217; Porque \u00e0 esquerda? Poderia ser meia-volta. Mas nin gu\u00e9m fala, e vou para a frente, sem perceber que possc voltar, libertar-me da autoridade de um sargento invi s\u00edvel e caminhar naturalmente, parando, observandc as casas e as pessoas. De repente os trilhos desapare cem e relaxa-se a corda do boneco. Est\u00e1 bem. Em quE ia pensando? A verdade \u00e9 que estava com as pernas bambas Caminhada t\u00e3o extensa! Mais de uma hora. O mesmc tempo para voltar &#8211; um, dois, um, dois &#8211; exatamentE o mesmo n\u00famero de minutos gastos na vinda.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Deviam ser duas horas da madrugada.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares n\u00e3o tardaria em deixar a casinh que se trepa no morro, junto a uma barreira vermelha 184 Seguiria pela rodagem? Pela estrada de ferro? S\u00f3 vendo.<\/p>\n<p>Esta necessidade de ver encolerizou-me: &#8211; Bestal Farejando imund\u00edcies como um cachorro.<\/p>\n<p>Procurei um cigarro para acalmar-me. N\u00e3o encon- trei ciga,rras. O .que achei foi a corda que seu Ivo me havia oferecid\u00f3. Desleixado. Conservar no bolso aquele traste e esquecer os cigarros! Olhei os quatro cantos.<\/p>\n<p>Nenhuma bodega. Esperei a passagem de algu\u00e9m que me desse um cigarro. Ningu\u00e9m. Idiota! Que estava fa- zendo ali, pisando a ponta do trilho? Farejando imun- d\u00edcies como um cachorro, como um urubu. Que horas seriam? Duas, aproximadamente. Aguardei as pancadas de um rel\u00f3gfo. Com certeza Julia`.o Tavares tinha dei- xado a cama da mocinha sa,rdenta e recolhia-se, leve como um bal\u00e3o, saciado, fumando, a brasa do cigarro esmorecendo e avivando-se. O certo era que eu n\u00e3o podia ficar ali subordinado a um rel\u00f3gio duvidoso ou a um transeunte que talvez n\u00e3,o tivesse cigarros. Juli\u00e3o Ta- vares deixara a mocinha sardenta. Seria a mocinha sar denta a amante dele? Na casa havia outras mulheres.<\/p>\n<p>Porque imaginei que havia de ser a mocinha sardenta? Uma garoa que se adensava ia toldando as luzes ca- piongas. Um, dois &#8211; impossfvel contar os postes de ilumina\u00e7\u00e3\u00f3, que a neblina ocultava. Senti frio. Enquan- to marchava, n\u00e3o tinha frio, nem cansa\u00e7o, nem desejo de fumar. Agora a falta de cigarros me afligia. Levantei a gola, apertou-me a necessidade urgente de voltar.<\/p>\n<p>Tinha certeza de que na, volta me apareceriam ciga.rros.<\/p>\n<p>Virei-me, pus-me a caminhar desordenadamente. De quando em quando parava, as pernas bamba,s. N\u00e3o ha- veria uma bodega, um transeunte? A marcha regular era imposs\u00edvel. Estava irritado como um bicho e levava a m\u00e3o ao bolso, num gesto maquinal. Encontrava os an\u00e9is da corda. Provavelmente Juli\u00e3o Tavares ia de vol- ta, fumando. Que me importava Juli\u00e3o Tavares? A f?gu- ra de Cirilo de Engr\u00e1cia passou-me diante dos olhos, mas desapareceu logo. Porque me achava \u00e0quela hora da noite em Bebedouro, andando \u00e0 toa como uma bara- ta, parando, correndo? Soprava, enxugava o rosto com a manga. Cansado.<\/p>\n<p>Quando me aproximava da casinha encostada ao monte, u vulto pulou na estra,da a alguns passos de 185 mim e ganhou os trilhos da reat Western. Adiantei-me para n\u00e3o perd\u00ea-lo de vista. A escurid\u00e3o esbranqui\u00e7ada feita pela neblina aumentava, escurid\u00e3.o pegajosa em que os postes espa\u00e7ados abriam clareiras de luz escassa.<\/p>\n<p>Passei o len\u00e7o no rosto molhado. Um suor frio, as ore lhas frias e insens\u00edveis. Nem sabia se aquilo era suor ou orvalho ca\u00eddo dos ramos das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Uma hora antes caminhava com anima\u00e7\u00e3o, mo- via-me executando ordens, tinha os membros amarra- dos a cord\u00f5es. Agora podia desviar-me para um lado e para outro, avan\u00e7ar, recuar. Alargaria os passos, en- contraria Juli\u00e3o Tavares, pa,ssaria por ele, o chap\u00e9u em- bicado. N\u00e3o me reconheceria na poeira de \u00e1gua. Um su- jeito que vinha de uma aventura noturna e tinha pres- sa de recolher-se. A mocinha ficara num fundo de quin- tal, em camisa, ao p\u00e9 do morro. Juli\u00e3o Tavares estre- meceria. Um concorrente. N\u00e3o presumiria que o con- corrente era um inimigo aperreado e cheio de veneno.<\/p>\n<p>A necessida.de de fumar atrapalhava-me os movimentos.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares flutuava para a cidade, no ar denso e leitoso. Estaria longe ou perto? Aparecia vagamente nos pontos iluminados, em seguida o nevoeiro engolia-o, e eu tinha a impress\u00e3o de que ele ia voar, sumir-se.<\/p>\n<p>Um bal\u00e3o colorido em noite de S\u00e2o Jo\u00e3o, boiando n c\u00e9u escuro.<\/p>\n<p>As meninas de Teotoninho Sabi\u00e1 cantavam, \u00e0 porta da nossa casa estalava uma grande fogueira que meu pai alimentava com t\u00e1buas de ca.ix\u00f5es e aduelas, Ro- senda fazia adivinha\u00e7\u00f5es consultando uma bacia de \u00e1gua, na sala de seu Batista as mo\u00e7as brincavam de sortes, busca-p\u00e9s estouravam na Rua da Cruz e no Ca valo-Morto. Debaixo de um mamoeiro de folhas tor- radas, Carcar\u00e1 assava milho verde na fogueira e largava risa.das enormes. Meu pai dizia: &#8211; &#8220;Hi! parece um papa-lagartas.&#8221; Eu n\u00e3o sabia que esp\u00e9cie de bicho era o papa-lagartas nem porque meu pai se lembrava dele ouvindo as gargalhadas de Carcar\u00e1. Tudo t\u00e3o simplest As mo\u00e7as desdobrando os papelinhos das sortes, Rosen- da estudando a bacia de \u00e1gua, Teresa e d. Maria can- tando para o bal\u00e3o cair. Apenas o estouro dos busca- p\u00e9s e as risadas de Carcar\u00e1 me incomodavam. Teresa 186 era boa, chupava o dedo mindinho e chorava quando chegavam as redes e os homens amarrados de cordas.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares ia afastar-se, dissipar-se, wirar ne- blina. Apress\u00e9i-me, pus-me quase a correr. Bem. Conti- nuava invis\u00edvel, mas as pisadas ouviam-se distinta- mente.<\/p>\n<p>&#8211; Bem.<\/p>\n<p>Dizia isto, e sentia que tudo ia mal, aporrinhava-me por estar perdendo tempo a acompa,nhar Juli\u00e3o Ta- vares. Afligia-me pensar que dentro em pouco ele en- traria na cidade e dormiria tranq\u00fcilo. Cirilo de Engr\u00e1- cia, morto, em p\u00e9, amarrado a uma \u00e1rvore, coberto de cartucheiras e punhais, tinha os cabelos compridos e era medonho. Eu n\u00e3o poderia dormir. O caminho en- curtava-se. Mas ent\u00e3o? Para que seguir o homem odio so que tinha tudo, mulheres, cigarros? Agora est\u00e1va- mos perto um do outro, mas a cidade se aproximava, e em breve estar\u00edamos afastados, ele chupando um ci- garro, eu ag\u00fcentando os roncos do marido de d. Ro- s\u00e1lia, que tinha chegado na v\u00e9spera. Pelo resto da noite ouviria os gemidos e os roncos dos vizinhos. O cansa\u00e7o deaaparecera. Desejaria caminhar l\u00e9guas, at\u00e9 fatigar-me novamente e adormecer. Quantos metros faltariam para desembocarmos na Levada? Quantas horas faltariam para se abrirem os caf\u00e9s e as bodegas? A id\u00e9ia de que nos \u00edamos separar me desesperava. Ali era como se ele dependesse de mim. Distinguiam-se perfeitamente os pasos; nas luzes que espirravam das travessas a figura surgia, escura e bojuda, com o chap\u00e9u desabado e a gola do palet\u00f3 erguida. De repente senti uma piedade inexplic\u00e1vel, e qualquer coisa me esfriou mais as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares era fraco e andava desprevenido, como uma crian\u00e7a, naquele ermo, sob ramos de \u00e1rvores dos quintais mudos. Uma hora, meia hora depois, passaria pelo guarda adormecido junto a um poste, seria forte, mas ali, debaixo das \u00e1rvores, era um ser mesquinho e abandonado. Contra\u00ed as m\u00e3os frias e molhadas de suor, meti-as nos bolsos para aquec\u00ea-las. Para aquec\u00ea-las ou levado pelo h\u00e1bito. A aspereza da corda aumen- tou-me a frieza das m\u00e3os e fez-me parar na estrada, mas a necessidade de fumar deu-me raiva e atirou-me para a frente. Entrei a caminhar depressa, receando 18? que Juli\u00e3o Tavares escapasse. Novamente os passos leves no ch\u00e3o coberto de folhas secas. Distinguia-se agora muito bem a sombra escura na garoa peganhenta.<\/p>\n<p>A garoa me entrava no bolso e gelava os dedos, que esfregavam a corda. Porque andava com seguran\u00e7a o homem gordo? Olhos atentos procuravam enxerg\u00e1-lo, dedos crispados moviam-se em dire\u00e7\u00e3o a ele. &#8211; &#8220;Matos t\u00eam olhos, paredes t\u00eam ouvidos&#8221;, dizia Quit\u00e9ria sentada na prensa do quintal. Pareceu-me que as \u00e1rvores em redor estavam vivas e espiavam Juli\u00e3o Tavares, que os galhos iam enla\u00e7ar-lhe o pesco\u00e7o. E ele andava sosse- gado como se ali houvesse guardas-civis.<\/p>\n<p>Muitos anos antes os cabras de Cabo Preto ha- viam-se escondido na capueira para n\u00e3o assustar sinha Germana. Sinha Germana passara escanchada na sela de campo, e os cabras se amoitavam por detr\u00e1s dos mandacarus e dos alastrados que vestiam mal a cam- pina. Os cangaceiros eram amigos de Trajano, sinha Germana esquipava no caminho iluminado pelo sol cru.<\/p>\n<p>Nenhum \u00f3dio. Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tinha umas reses que definhavam e entendia-se perfeitamente com os emiss\u00e1rios de Cabo Preto.<\/p>\n<p>O desejo de fumar levava-me ao desespero. O acesso de piedade sumiu-se, o \u00f3dio voltou. Se me acha,sse diante de Juli\u00e3o Tavares, \u00e0 luz do dia, talvez o \u00f3diu n\u00e2o fosse t\u00e3o grande. Sentir-me-ia mi\u00fado e perturbado, os m\u00fasculos se relaxariam, a coluna, vertebral se incli- naria para a frente, ocupar-me-ia em meter nas cal\u00e7as a camisa entufada na barriga. Afastar-me-ia precipita- damente, como um bicho inferior. Agora tudo mudava.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares era uma sombra, sem olhos, sem boca, sem roupa, sombra que se dissipava na poeira de \u00e1gua.<\/p>\n<p>A minha raiva crescia, raiva de cangaceiro emboscado.<\/p>\n<p>Porque esta compara\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 que os cangaceiros expe- rimentam a c\u00f3lera que eu experimentava? Jos\u00e9 Bafa vinha contar-me hist\u00f3rias no copiar, can- tava mostrando os dentes tortos muito brancos. Era bom e ria sempre. Dava-me explica\u00e7\u00f5es a respeito de visagens, mencionava as ora\u00e7\u00f5es mais fortes. N\u00e3o me ensinou as ora\u00e7\u00f5es, para n\u00e3o quebrar a virtude delas, mas ofereceu-me conselhos, que esqueci. T\u00e3o bom Jos\u00e9 Bafa! O clavinote dele tinha v\u00e1rios riscos na coronha.<\/p>\n<p>188 Ningu\u00e9m ialava alto a Jos\u00e9 Ba\u00eda, ningu\u00e9m lhe mos- trava cara feia. E ele ria, exibindo os dentes acavalar dos, e quando avistava o vfg\u00e1rio ou outro h\u00f3spede im- portante, a aba do chap\u00e9u de couro varria o p\u00e1tio da fazenda. N\u00e3o me seria possivel imaginar Jos\u00e9 Ba\u00eda ata- cado de uma crise de \u00f3dio como a que me fazia pregar as unhas nas &#8216;palinas. Provavelmente ele ficava sosse- gado na capueira, tirando um trago do cigarro de palha, que apagava logo com saliva e guardava atr\u00e1s da orelha, para a fuma\u00e7a n\u00e3o denunciar a emboscada. O ouvido atento a qualquer rumor que viesse do caminho estreito, o joelho no ch.o, em cima do chap\u00e9u de couro, o olho na mira, a arma escorada a uma forquilha, com cer- teza n\u00e3o pensava, n\u00e3o sentia. Estava ali for\u00e7ado pela necessidade. No dia seguinte faria com a faca de ponta novo risco na coronha do clavfnote e contaria no al- pendre hist\u00f3rias de on\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Que fim levou, Jos\u00e9 Ba\u00eda? &#8211; Por a\u00ed, caminhando.<\/p>\n<p>Nenhum remorso. Fora a necessidade. Nenhum pen- samento. O patr\u00e2o, que dera a ordem, devia ter l\u00e1 as suas raz\u00f5es. As hist\u00f3rias do alpendre eram simples: as on\u00e7as que armavam ciladas aos bodes n\u00e3o tinham ferocidade. Jos\u00e9 Ba\u00eda, bom tipo. Quando passasse pela cruzinha de pau que ia apodrecer numa volta do cami- nho, rezaria um padre-nosso e uma ave-maria pelo de- funto. A fraqueza estirou-me os dedos e retardou-me a caminhada. Tive saudade de Jos\u00e9 Baia e das conver- sas infantis do copiar.<\/p>\n<p>&#8211; Jos\u00e9 Bafa, meu irm\u00e3o, onde estar\u00e1s a esta hora? Ter\u00e1s morrido em tocaia ou mofar\u00e1s numa cadeia no- jenta de grades pretas e gordurosas? Entraste um dia na vila, amarrado de cordas, negro de suor e poeira, cercado por uma tropa de cachimbos. Os teus olhos claros se arregalavam num espanto verdadeiro. Enve- lheceste e \u00e9s outro, uma inutilidade feita pela justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Os teus ouvidos e a tua vista se estragaram, as tuas m\u00e3os tremem, est\u00e1s s\u00e9rio e esqueceste a crian\u00e7a a quem dizias as virtudes da ora\u00e7\u00e3o da cabra preta.<\/p>\n<p>Quanto tempo duraram as recorda\u00e7\u00f5es e o enfra- quecunento? Um minuto, ou menos. Novamente as m\u00e3os se contrafram e as pernas se estiraram no caminho 189 extenso. Desejei que Juli\u00e3o Tavares fugisse e me livras- se daquele tormento. Se ele corresse pela estrada de- serta, estaria tudo acabado. Eu tentaria alcan\u00e7\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Inutilmente. Pensei em gritar, avis\u00e1-lo de que havia perigo, mas o grito morreu-me na garganta. N\u00e3o grito: habituei-me a falar baixinho na presen\u00e7a dos chefes.<\/p>\n<p>Era preciso que alguma coisa prevenisse Juli\u00e3o Tavares e o afastasse dali. Ao mesmo tempo encolerizei-me por ele estar pejando o caminho, a desafiar-me. Ent\u00e3o eu n\u00e3o era nada? N\u00e3o bastavam as humilha\u00e7\u00f5es recebidas em p\u00fablico? No rel\u00f3gio oficial, nas ruas, nos caf\u00e9s, vira- va-me as costas. Eu era um cachorro, um ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;E-me conveniente escrever um artigo, seu Lu\u00eds.&#8221; Eu escrevia. E pronto, nem muito obrigado. Um Juli\u00e3o Tavares me voltava as costas e me ignorava. Nas reda- \u00e7\u00f5es, na reparti\u00e7\u00e3o, no bonde, eu era um trouxa, um infehz, amarrado. Mas ali, na estrada deserta, voltar-me as costas como a um cachorro sem dentes! N\u00e3o. Donde vinha aquela grandeza? Porque aquela seguran\u00e7a? Eu era um homem. Ali era um homem.<\/p>\n<p>&#8211; Um homem, percebe? Um homem.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares n\u00e3o ouviu e continuou a andar tzan- q\u00fcilamente.<\/p>\n<p>&#8211; Corre, peste.<\/p>\n<p>Porque era que o miser\u00e1vel n\u00e3o corria, n\u00e3o se livrava dos meus instintos ruins? Estaria recordando as car\u00edcias da mocinha sardenta? &#8211; Isso n\u00e3o vale nada, Julf\u00e3o Tavares. Marina, a mocinha sardenta, a datil\u00f3grafa dos olhos de gato, n\u00e3o valem nada. O que vale \u00e9 a tua vida. Foge.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Tavares parou e acendeu um cigarro. Porque parou naquele momento? Eu queria que ele se afastasse de mim. Pelo menos que seguisse o seu caminho sem ofender-me. Mas assim . . . Faltavam-me os cigarros, e aquela parada repentina, a luz do f\u00f3sforo, a brasa esmo- recendo e avivando-se na escurid\u00e3o, endoidecia-me. Fiz um esfor\u00e7o desesperado para readquirir sentimentos hu- manos : &#8211; Jos\u00e9 Bafa, meu irm\u00e3o . . .<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Bafa n\u00e3o era meu irm\u00e3.o: era um estranho de cabelos brancos que apodrecia numa cadeia imunda, cumprindo senten\u00e7a por homicfdio. &#8211; &#8220;Recebeu c\u00f3pfa 190 do libelo?&#8221; Jos\u00e9 Bafa n\u00e2o soubera responder. Tinha re- cebido e n\u00e3o tinha. Que resposta devfa dar \u00e0quela per- gunta incompreens\u00edvel? O presidente se contentaria se ele dissesse que sim? Ou seria melhor dizer que n\u00e3o? E Jos\u00e9 Ba\u00eda balan\u00e7ava a cabe\u00e7a, indeciso: tinha rece- bido e n\u00e3o tinha. Afinal que me importava Jos\u00e9 Bafa, estirado numa esteira por detr\u00e1s das grades negras e pegajosas? Que me importavam as grades negras e pe- gajosas? Retirei a corda do bolso e em alguns saltos, silen- ciosos como os das on\u00e7as de Jos\u00e9 Bafa, estava ao p\u00e9 de Juli\u00e3o Tavares. Tudo isto b absurdo, \u00e9 incrfvel, mas realizou-se nat\u00faralmente. A corda enla\u00e7ou o pesco\u00e7o do homem, e as minhas m\u00e3os apertadas afastaram-se. Hou- ve uma luta r\u00e1pida, um gorgolejo, bra\u00e7os a debater-se.<\/p>\n<p>Exatamente o que eu havia imaginado. O corpo de Juli\u00e3o Tavares ora tombava para a frente e amea\u00e7ava arrastar-me, ora se inclinava para tr\u00e1s e queria cair em cima de mim. A obsess\u00e3o ia desaparecer. Tive um deslumbramento. O homenzinho da reparti\u00e7\u00e3o e do jornal n\u00e3o era eu. Esta convic\u00e7\u00e3o afastou qualquer receio de perigo. Uma alegria enorme encheu-me. Pes- soas que aparecessem ali seriam figurinhas insignificar- tes, todos os moradores da cidade eram figurinhas in- significantes. Tinham-me enganado. Em trinta e cinco anos haviam-me convencido de que s\u00f3 me podia mexer pela vontade dos outros. Os mergulhos que meu pai me dava no po\u00e7o d\u00e1 Pedra, a palmat\u00f3ria de mestre Ant\u00f4nio Justino, os berros do sargento, a grosseria do chefe da revis\u00e3o, a impertin\u00eancia macia do diretor, tudo virou fuma\u00e7a. Juli\u00e3o Tavares estrebuchava. Tanta em- p\u00e1fia, tanta lorota, tanto adjetivo besta em discurso &#8211; e estava ali, amunhecando, vencido pelo pr\u00f3prio peso, esmorecendo, escorregando para o ch\u00e3o coberto de fo- Ihas secas, amortalhado na neblina. Ao ser alcan\u00e7ado pela corda, tivera um arranco de bicho brabo. Aquieta va-se, inclinava-se para a frente, os joelhos dobra vam-se, o corpo amolecia. Eu tinha os bra\u00e7os do\u00eddos e as m\u00e3os cortadas. Enquanto Juli\u00e3o Tavares estivesse com a cabe\u00e7a erguida, a minha responsabilidade n\u00e3o seria t\u00e3o grande como depois da queda. Quando bebia demais, seu Ivo tinha aquele jeito de arriar, n\u00e3o havfa 191 conversa que o levantasse. A lembran\u00e7a de seu Ivo en- fureceu-me.<\/p>\n<p>&#8212; Com os diabos! E larguei o corpo, que foi bater numa cerca, por baixo de uns galhos de \u00e1rvore que aumentavam a escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Com os diabos! Sentei-me ao p\u00e9 da cerca, enxuguei o suor que me corria pela testa. Cansado. A m\u00e3o direita do\u00eda-me horri- velmente, mas continuei a apertar com ela a corda que a circulava. A m\u00e3o esquerda estava livre. Levei-a ao bolso \u00e0 procura de cigarros, mas retirei-a logo. A figura de seu Ivo, b\u00eabedo, encostado \u00e0 parede, voltou. Que horas seriam? As estacas da cerca magoavam-me as costas. P\u00e1receu-me inconveniente permanecer ali, mas n\u00e3o me veio a id\u00e9ia de que houvesse perigo. Necess\u00e1rio continuar a marcha. Continuar a marcha, evidente- mente: Fiquei sentado e mudei de posi\u00e7\u00e3o, porque as estacas da cerca me feriam os ombros. Como conduzir Juli\u00e3o Tavares, t\u00e3o pesado? N\u00e3o compreendi que devia deix\u00e1-lo apodrecendo nas folhas, debaixo da \u00e1rvore. Pre- cisava transport\u00e1-lo, isto n\u00e3o me sa\u00eda da cabe\u00e7a. Trans- port\u00e1-lo, sem d\u00favida. Apesar de n\u00e3o. sentir medo, perce- bia que era urgente retirar-me. Agucei o ouvido. Apenas o zunzum dos mosquitos. A lagoa pr\u00f3xima fervilhava de carapan\u00e3s. Como estaria Juli\u00e3o Tavares? Procurei dis- tingui-lo, avancei a cabe\u00e7a para o lugar onde sup\u00fcnha ter ele ficado. Um vulto quase impercept\u00edvel na escuri- d\u00e1o leitosa. O rosto encostado \u00e0 terra, naturalmente.<\/p>\n<p>Como estariam os olhos dele? Os de seu Evaristo, que vi de longe, esbugalhavam-se. E a boca se escancarava, mostrando a lingua escura e grossa. Provavelmente Ju- li\u00e3o Tavares tinha tamb\u00e9m os olhos muito abertos e o queixo desgovernado.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que diabo estou fazendo aqui? Necessitava levantar-me, afastar-me depressa, entrar em casa, dormir. Aquela hora o marido de d. Ros\u00e1lia resfolegava, arranhava com a barba o couro a.marelo de d. Ros\u00e1lia. O marido de d. Ros\u00e1lia resfolegava como um bicho. E Juli\u00e3o Tavares parado. Minutos antes an- dava na maciota, o cigarro aceso, o pensamento na cama da mocinha sardenta. Agora ali junto da cerca, 192 estirado. Inconveniente ficar ao lado dele. Inconve- niente. As carapan\u00e3s zumbiam, voavam perto da minha cara, picavam-me as orelhas e as m\u00e3os escalavradas.<\/p>\n<p>Inconveniente.<\/p>\n<p>Matos t\u00eam olhos, paredes t\u00eam ouvidos.<\/p>\n<p>Quit\u00e9ria, Rosenda e a prensa velha vieram-me \u00e0 mem\u00f3ria. Olhei os arredores, tentei varar a escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo invis\u00edvel. A lagoa, povoada de carapan\u00e3s, inW &#8211; s\u00edvel. Uma grande fraqueza abateu-me, suor abundante ensopou-me a camisa. Passei a m\u00e3o na cara molhada, senti na pele a dureza da corda. Se viesse algu\u00e9m? &#8211; Recebeu c\u00f3pia do libelo? Os amigos de Juli\u00e3o Tavares iriam julgar-me. Pi- mentel e Mois\u00e9s n\u00e3o eram jurados. Que diriam os jor- nais? De seu Evaristo n\u00e3o tinham dito nada, dos ho- mens que apareciam mortos nos caminhos n\u00e3o diziam nada. Mas agora falariam muito. Quem foi? Porque foi? Pimentel escreveria artigos horrfveis. Pus-me a discutir com Pimentel, gesticulei, uma das m\u00e3os bateu no corpo de Juli\u00e3o Tavares. Encolhi-me, o suor aumentou na fria- gem da noite.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ba\u00eda, velho e manso, dormia na esteira de pipiri, por baixo das cortinas de pucum\u00e3. Seu Evaristo balan\u00e7ava, pendurado num galho de carrapateira. Seu Evaristo era t\u00e3o magro, t\u00e3o cheio de fome, que um galho de carrapateira podia sustent\u00e1-lo. Cirilo de En- gr\u00e1cia, morto, em p\u00e9, amarrado a uma \u00e1rvore, parecla vivo. Os cabelos compridos, ca\u00eddos para a frente, es- cureciam-lhe o rosto feroz. S\u00f3 os n\u00e9s estavam bem mortos, suspensos, os dedos para baixo. O frio aumen- tava, comecei a bater os queixos como um caititu. Se al\u00f3u\u00e9m surgisse na estrada, eu n\u00e3o teria coragem de fugir. Haveria pessoas ali perto? Julguei perceber mn ru\u00eddo esquisito, mas provavelmente era apenas o eco das pancadas dos meus dentes, que n\u00e3o descansavam. Tive a impress\u00e3o de que os meus dentes estavam longe, fa- zendo um barulho que se misturava ao zumbido irri- tante das carapan\u00e3s. Apertei os queixos, mas as casta- nholas permaneceram, e veio-me a certeza de que ms havia tornado velho e impotente.<\/p>\n<p>&#8211; In\u00fatil, tudo in\u00fatil.<\/p>\n<p>193 Mordi a manga do paletb. Os dentes continuavam a entrechocar-se, mas produziam um som abafado. Mas- tiguei o pano, desejei recolher-me. Beberia um copo de cacha\u00e7a, os dentes se calariam. Os rel\u00f3gfos da vizinhan- \u00e7a n\u00e3o me deixariam dormir. Certamente Juli\u00e3o Tava- res devia ficar ali deitado. Pensei em ocult\u00e1-lo, en- terr\u00e1-lo debaixo de uma camada de folhas. A id\u00e9ia absurda de lev\u00e1-lo comigo para a cidade tinha desapa- recido. Bem. Pus-me a afastar as folhas e a cavar a terra com as unhas. A tentativa de fazer com os dedos uma cova para enterrar um homem era t\u00e3o dispara- tada que me levantei, receoso de tornar-me idiota. Como estaria a cara de Juli\u00e3o Tavares? A figura que me veio ao esp\u00edrito foi a de Cirilo de Engr\u00e1cia, terr\u00edvel, amar- rado a um tronco, os cabelos compridos ensombrando o rosto, os p\u00e9s suspensos, mortos. Pensei tamb\u00e9m em seu Evaristo, curvado sob a carrapateira, como se pre- parasse um salto. Recuei precipitadamente e bati com os ombros na cerca. Juli\u00e3o Tavares podia ficar assim, pendurado a um galho, como um suicida. Acreditariam que ele fosse um suicida? Acreditariam. N\u00e3o acredita- riam. Os jornais fariam esc\u00e2ndalo, publicariam o retra- to da mocinha sardenta. Um rapaz desvairado, perfeita- mente, rapaz desvairado. Desembaracef a m\u00e3o direita e numa das extremidads da corda fiz um la\u00e7o. Vi- nha-me afinal uma resolu\u00e7\u00e3o. Entrei a mexer-me, com medo de perd\u00ea-la. Se os pensamentos se sumissem? Se voltasse aquele marasmo? &#8211; Tudo in\u00fatil.<\/p>\n<p>Os dentes j\u00e1 n\u00e3o batiam. Curvei-me, procurando a cabe\u00e7a de Juli\u00e3o Tavares. Encontrei o chap\u00e9u ca\u00eddo, um bra\u00e7o, que soltei arrepiado porque nunca havfa tocado em cad\u00e1veres. A id\u00e9ia de que Juli\u00e3o Tavares era um cad\u00e1ver estarreceu-me. N\u00e3o tinha pensado nisto.<\/p>\n<p>Horrfvel o corpo im\u00f3vel, esfriando. L\u00e1 estava a cabe\u00e7a anda morna. Enjoado, cuspindo muitas vezes, erguia-a, passei o la\u00e7o no pesco\u00e7o. Prendi nos dentes a outra ponta da corda, subi \u00e0 cerca, trepei-me num galho da \u00e1rvore. E comecei o trabalho de guindar o morto. A m\u00e3o direita puxava a corda, que se movia lenta por cima do ramo; do outro lado a m\u00e3o esquerda ag\u00fcentava o peso do corpo. Mo\u00e7o desvairado. Duas tarjas grossas, 194 uma no princfpio, outra no fim da p\u00e1gina. Qualidades, Juli\u00e3o Tavares tinha muitas qualidades. A literatura delA reproduzida nas folhas, em tipo gra\u00fado. Comen- t\u00e1rios. Porque foi? Como foi? Enterro complicado, au- tom\u00f3veis, todos os autom\u00f3veis da pra\u00e7a, bondes espe- ciais. O discurso no cemit\u00e9rio, discurso empolado. E o t\u00famulo com uma coluna partida. Muitos t\u00famulos com colunas partidas. Colunas de m\u00e1rmore, colunas de cimento. Mo\u00e7o desvairado. Todos os mortos importa,n- tes eram colunas partidas. Juli\u00e3o Tavares era uma co- luna de m\u00e1rmore, partida. O capitel no ch\u00e3o, esverdi- nhando-se.<\/p>\n<p>O corpo subia. No princ\u00edpio o esfor\u00e7o n\u00e3o era gran- de demais. A cada movimento passavam no galho algu- mas polegadas da corda. Mas quando a massa obesa se elevou, as dificuldades foram enormes para correrem uns cent\u00edmetros.<\/p>\n<p>&#8211; Mais um pouco, mais um pouco.<\/p>\n<p>Estas palavras n\u00e3o me deixavam. O corpo devia estar todo erguido, e os meus ossos estalavam. O galho curvava-se. Ia quebrar-se, atirar-nos ao ch\u00e3o. Tudo per dido. A pol\u00edcia, a cadeia. Denunciar-me-ia no primeiro interrogat\u00f3rio. Segurei-me \u00e0 corda, com o intuito de amarr\u00e1-la. Desceria. Livre do meu peso, o galho se ele- varia, os p\u00e9s de Juli\u00e3o ficariam suspensos como os de Cirilo de Engr\u00e1cia.<\/p>\n<p>&#8211; Bem.<\/p>\n<p>Apareceram vozes na estrada. Vozes? Ou seria que eu estava tresvariando? Alucina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o queria acredi- tar que pessoas normais se avizinhassem de mim sosse- gadamente. Agarrava-me com desesnero \u00e0 corda.<\/p>\n<p>&#8211; Trinta anos de pris\u00e3o, trinta anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>As grades que a gente n\u00e3o pode tocar, t\u00e3o nojentas s\u00e3o elas, as esteiras, as cortinas de pucum\u00e3, os muros grossos, fome, sede, caldo de bacalhau, e nesta mis\u00e9ria Jos\u00e9 Ba\u00eda fabricando piteiras, pentes de tartaruga, objetos mi\u00fados de casca de coco.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e3o-se embora. V\u00e2o-se embora. N\u00e3o venham, que se desgra\u00e7am. Um homem perdido n\u00e3o respeita nada.<\/p>\n<p>O homem perdido ofegava apavorado. As vozes cada vez mais distintas, grossas, finas. Machos e f\u00eameas. Cer- tamente iam para a farra. Mentira. tudo mentira. Eu 195 n\u00e3o tinha trinta e cinco anos: tinha dez e estudava a li\u00e7\u00e3o dificil na sala de nossa. casa na vila. A sala enchia se de ruxnores estranhos que vinham de fora e sa\u00edam das paredes. Provavelmente eram os sapos do a\u00e7ude da Penha. N\u00e3o eram sapos: eram homens e mu- lheres que se aproximavam. As palavras tornaram-se claras. Algu\u00e9m dizia: &#8211; Deixa de luxo, minha filha. Ser\u00e1 o que Deus quiser.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro de outra frase. Risos, falas trun- cadas. O grupo foi-se chegando, passou por baixo da \u00e1rvore. Uma pessoa bateu em Juli\u00e3o Tavares e res- mungou : &#8211; &#8220;Desculpe.&#8221; A corda resvalou, recuou uns dez cent\u00edmetros, com certeza Juli\u00e3o Tavares curvou-se um pouco na escurid\u00e3o. E\u00fa repetia baixinho: &#8211; Ser\u00e1 o que Deus quiser.<\/p>\n<p>Os meus dedos se imobilizavam, feridos, a corda molhada de suor amea\u00e7ava correr sobre o galho, em- borcar no ch\u00e3o \u00famido o corpo de Juli\u00e3o Tavares. N\u00e3o o poderia levantar outra vez, a policia encontr\u00e1-lo-ia deitado nas folhas e iria farejar-me.<\/p>\n<p>&#8211; Trinta anos de pris\u00e3o. Trinta anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>O riso de uma das mulheres que tinham passado sob a \u00e1rvore estalou a alguns metros de dist\u00e2ncia. Es- taria mangando de mim? ll\u00e3angando dos esfor\u00e7os que eu fazia para recuperar os dez centimetros de corda? Sentia que ia fraquejar, que a corda continuaria a es- corregar na madeira. Juli\u00e3o Tavares, inclinado para a irente, balan\u00e7ava. Seu Ivo andava assim, zambeta, ba- lan\u00e7ando, os olhos vidrados, sem ver ningu\u00e9m. Outras gargalhadas, longe. Seria a mulher que tinha rido? Ou viriam outras pessoas falar debaixo da \u00e1rvore, bater no ombro de Juli\u00e3o Tavares, pedir-lhe desculpa? N\u00e3o havia perigo, n\u00e3o havia perigo, entrei a repetir baixinho que n\u00e3o havia perigo. Estava em seguran\u00e7a, escondido na folhagem, enrolado no nevoeiro. Podiam passar, parar, tocar em Juli\u00e3o Tavares, que se afastaria duro como uma marionete pesada demais.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 perigo, nenhum perlgo.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia outra coisa. E pareceu-me falta de senso comum algu\u00e9m rir naquele lugar amaldi\u00e7oado. Porque amaldi\u00e7oado? Tanta import9ncia! Eu e Juli\u00e3o Tavares 196 \u00cd \u00e9ramos umas excresc\u00eancias miser\u00e1veis. As risadas zom- beteiras extinguiam-se, distantes.<\/p>\n<p>; &#8211; Lufs da Silva, Juli\u00e3o Tavares, isso n\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p>8ujeitos \u00fateis morrem de morte violenta ou acabam-se nas pris\u00f5es. N\u00e3o faz mal que voc\u00eas desapare\u00e7am. Pro- priamente, voc\u00eas nunca viveram.<\/p>\n<p>Ia adormecer entre as folhas, com os bra\u00e7os esti- rados, afastando-me da \u00e1rvore para fazer contrapeso ao ; corpo de Juli\u00e3o Tavares. Apoia,va-me \u00e0 curva da perna direita, presa ao galho. De quando em quando soltava a corda e ia peg\u00e1-la mais abaixo. A m\u00e3o esquerda ag\u00fcentava o peso, os dedos estavam a ponto de que- brar-se. Juli\u00e3o Tavares teria subido, ou a corda mergu- lhara no pesco\u00e7o balofo? Qualquer movimento \u00e0-toa me faria perder o equilibrio. Abria os olhos desmedidar mente, mas tinha medo de virar a cabe\u00e7a para ver o &#8216; o corpo que se alongava e emagrecia.<\/p>\n<p>&#8211; Sobe, Julf\u00e3o Tavares. Para que serve essa resis- t\u00eancia atrasada? Uma lentid\u00e3o de lesma. Subitamente notei que o corpo subia e balan\u00e7ava. Passei r\u00e1pido a corda pelo galho. Outra volta, outras voltas, um n\u00f3 que me levou o resto da energia, e fiquei ali arquejando, desmanchan- do-me em suor. Desejaria achatar-me, confundir-me com as coisas moles e \u00famidas que os meus dedos tinham esmagado sobre a casca da \u00e1rvore. Agora os dedos se- guravam mal aquele suporte inc\u00f4modo e oscilante. Enor me pregui\u00e7a e enorme sono prendiam-me ao galho. Creio que dormi uns munutos. Seria bom cair: talvez a queda sa,cudisse o torpor e me restitu\u00edsse a vontade necess\u00e1- ria para entrar em casa e embriagar-me. Embriagar-me, naturalmente. Teria dormido? Meus parentes sertanejos dormiam montados, viajavam assim. Equilibrava-me n\u00e3o sei como. &#8211; &#8220;Currupaco, papaco. A mulher do ma- caco . . . &#8221; Vit\u00f3ria sonhava com as moedas escondidas em qualquer parte, depois que os canteiros tinham sido descobertos. Como me seria possfvel alcan\u00e7ar outm ramo? Pa,ssando a outro ramo, estaria em seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>8e pudesse retirar-me dali . . . Tive a id\u00e9ia extravagan- te de chegar \u00e0 cidade andando sobre as \u00e1rvores.<\/p>\n<p>&#8211; Em seguran\u00e7a, em seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>197 Evidentemente era preciso descer, mas isto me apa- vorava. I\u00e1 embaixo numerosos inimigos iam perse- guir-me. Necess\u00e1rio descer. Soltar-me-ia, tombaria como um macaco ferido. Os dedos inteiri\u00e7avam-se. Escanca- rei os olhos. O que vi foi o corpo de Juli\u00e3o Tavares deformado pela escurid\u00e3o. Balancei a cabe\u00e7a, enco- lhi-me com um arrepio, o receio de na queda tocar o corpo de Juli\u00e3o Tavares. N\u00e3o ca\u00ed. Escorreguei na ma- deira molhada, abracei-me a ela. Uma pancada no joe- lho, as pernas estrepando-se na cerc\u00e3 de pau-a-pique, um rasg\u00e3o nas cal\u00e7as. Dei um salto para tr\u00e1s e ca\u00ed sentado nas folhas secas. A id\u00e9ia do perigo assaltou-me com tanta intensidade que me pus a solu\u00e7ar. Tentei levantar-me, as pernas vergaram. Arrastei-me chorando, apalpando o ch\u00e3o, a procurar qualquer coisa. Procura- va o chap\u00e9u, caido na luta, mas n\u00e3o sabia o que pro curava. As carapan\u00e3s esvoa\u00e7avam-me em torno da ca- be\u00e7a e picavam-me a carne moida. Encontrei um cha- p\u00e9u, que n\u00e3o dava para mim, era pequeno demais. Atirei para longe, cheio de repugn\u00e3.ncia, o chap\u00e9u de Juli\u00e3o Tavares. Continuei a engatinhar, j\u00e1 agora sabendo per- feitamente que procurava o meu chap\u00e9u. Achei-o, ma,s ftcou-me a d\u00favida de que fosse o mesmo experimentado minutos antes. N\u00e3o se acomodava bem na minha ca- be\u00e7a. Rastejei ao longo da cerca. Alguns metros que me afastasse representavam uma conquista. Estava aborrecido com Mois\u00e9s. Que me havia feito Mois\u00e9s? N\u00e3o me lembrava de nada, mas era certo que o judeu me pregara uma pe\u00e7a. Pareceu-me que ele rondava por ali, mangando de mim. Rastejando como as cobras! Nova tentativa e consegui levantar-me, l\u00e1 fui caminhan- do lentamente, amparado \u00e0 cerca. Faltou-me de repen- te o amparo, andei como uma crian\u00e7a que ensaia os primeiros passos. Se pudesse correr&#8230; Evidentemente o perigo crescia. Quantos metros teria percorrido? Es- tava certo de que homens e mulheres me acompanha- vam. Tinham passado por baixo da \u00e1rvore, visto o ho- mem enforcado, iam encontrar-me e denunciar-me.<\/p>\n<p>A gargalhada e a frase da mulher ufnazavam-me.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 o que Deus quiser, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Um, dois, um, dois. In\u00fatil. N\u00e3o podia marchar. Um aleijado, um velho. Mais cem metros, e talvez fosse ir at\u00e9 a salva\u00e7\u00e3o. Horrivel atravessar os espa\u00e7os iluminados.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m desembocasse de uma travessa e me reco- nhecesse? Desejava olhar para tr\u00e1s. Impossfvel. Conse- gui reunir uns restos de for\u00e7a e correr. Uma carreira bamba e tr\u00f4pega, a boca aberta, contra\u00e7\u00f5es na carne enregelada. Corria e chorava, certo de que o esfor\u00e7o era perdido, porque o meu chap\u00e9u tinha ficado \u00e0 beira do caminho, sobre as moitas. No dia seguinte passa- ria de m\u00e3o em m\u00e2o e chegaria \u00e0 minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Trinta anos de cadeia.<\/p>\n<p>Que utilidade tinha aquela carreira desengon\u00e7ada e tr\u00eamula? Se me vissem correndo e chorando ali nos fundos dos quintais? Precisava pa,rar, mas as pernas, levadas pelo medo, n\u00e3o quiserarrt obedecer. Insuport\u00e1- veis os zumbidos e as ferroadas das carapan\u00e3s. Um chap\u00e9u muito pequeno. Dei um trope\u00e7\u00e3o e estaquei.<\/p>\n<p>Para que lado me dirigia? Ia para a cidade ou voltava para Beredouro? Inteiramente desorientado. Teria de passar outra vez pela \u00e1rvore onde Juli\u00e3o Tavares se balan\u00e7ava? Vagar a noite inteira, como um judeu er- rante! Continuei a andar. Bem. Se me encaminhasse a Bebedouro, voltaria pela rodagem, entraria em casa antes do amanhecer. Apareceram luzes, as carolinas que enfeitam o canal, os eucaliptos da Levada. Avancei len- tamente at\u00e9 o bueiro, sentei-me. Estava ali um vagabun- do, que acordou com a minha chegada. Eu ia perse- guido por criaturas inexistentes, mas a presen\u00e7a da- quele vagabundo n\u00e3o me produziu medo.<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite.<\/p>\n<p>A voz saiu-me abafada e incerta. Juli\u00e3o Tavares estava longe. Sacudi a cabe\u00e7a para esquec\u00ea-lo e para afugentar as carapan\u00e3s. Exausto. Descansaria, entraria em casa dentro de alguns minutos, beberia aguardente, dormiria. A garrafa tinha ficado quase cheia. Embria- gar-me, dormir. Tentei cruzar as m\u00e3os sobre os joelhos mas os dedos feridos endureciam e qualquer contato era extremamente doloroso. Sem nenhum receio, dava as costas ao maloqueiro, escondia a cara instintiva- mente. As m\u00e3os grossas esquecidas nos joelhos pesavam em demasia. Levei-as aos bolsos, senti a aus\u00eancia dos cigarros e a aus\u00eancia da corda.<\/p>\n<p>&#8211; Faz favor de me dar um cigarro? 200 O homem remexeu-se : &#8211; Hum! &#8211; H\u00e1 muitas horas que n\u00e3o fumo. Para quem tem vicio . . . Desculpe. E a peste do cigarro que me faz falta. O senhor ter\u00e1 um por acaso? Olhei-o com um olho por cima do ombro, vi-o levantar a cabe\u00e7a e bulir nos molambos.<\/p>\n<p>&#8211; Realmente. .. E isso mesmo. Eu estava dor- mindo.<\/p>\n<p>Depois de uma busca. derrorada, grunhiu: &#8211; Ah! Tome l\u00e1.<\/p>\n<p>Estirei a m\u00e3o ensang\u00fcentada e recebi o cigarro de fumo picado que se desmanchaoa: &#8211; Muito obrigado.<\/p>\n<p>Encontrei a caixa dA f\u00f3sforos, comecei a fumar.<\/p>\n<p>A cabe\u00e7a pesada parecia ter creseido. Tlrei o chap\u00e9u, examinei-o. Tive um susptro de alfvio: era o meu, todo machucado e sujo de lama. Pus-me a esfreg\u00e1-lo com a aba do palet\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado. Sinto muito dar-lhe inc\u00f4modo.<\/p>\n<p>&#8211; Hem? Esta exclama\u00e7\u00e3o mostrou-me que o homem havia percebido em mim um animal diferente dele. As luzes da Nordeste cochilavam. Olhei a minha mupa. Estava imunda, com um rasg\u00e3o no joelho, desarranjado. Mas usava palavras de gente bem vestida. &#8211; &#8220;8into muito dar-lhe inc\u00f4modo.&#8221; Para que tapea\u00e7\u00e3o? Queria fuma,r.<\/p>\n<p>Bem. Voltariam as for\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Dorme aqui sempre? O homem virou-se e enrolou-se mais nos molambos.<\/p>\n<p>Arrependi-me de ter feito a pergunta. Horriveis aqueles modos. Devia muito ao vagabundo. Chegaria a casa fa- cilmente, beberia, dormiria,, esqueceria, Juli\u00e3o Tavares.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tive inten\u00e7\u00e3o de ofend\u00ea-lo. Foi uma pala- vra \u00e0-toa. O senhor me desculpa. Fazia horas que n\u00e3o iumava. Um grande favor, entende? Muito obrigado.<\/p>\n<p>As minhas frases eram convencionais e n\u00e3o valiam o cigarro que se apagava a cada instante.<\/p>\n<p>&#8211; estava dormindo, respondeu o maloqueiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem de qu\u00ea. Foi inc\u00f4modo n\u00e3o. Boa noite.<\/p>\n<p>801 Remoeu umas coisas guturais e come\u00e7ou a roncar.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel qualquer aproxim.a\u00e7\u00e3o. O isolamento em companhia de uma pessoa era mais opressivo que a so- lid\u00e3o completa. Parecia-me que aquele homem estava morto. Esta id\u00e9ia afligiu-me tanto que desejei sacudi-lo, conversar com ele, explicar-me, convenc\u00ea-lo de que es- tava agradecido.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo! murmurei. Eu tamb\u00e9m fui vagabundo, dormi nos bancos dos jardins e curti fome, mas nunca fui assim grosseiro.<\/p>\n<p>Esqueci o benef\u00edcio recebido, e novamente me sur- giu a id\u00e9ia de que o homem estava morto. Levantei-me, entr ei na Rua do Apolo. O rasg\u00e3o mostrava-me a ca- be\u00e7a do joelho, o colarinho tinha-se desprendido da camisa, a roupa estava preta de limo e terra, as m\u00e3os estavam pretas de limo, terra e sangue. Se algu\u00e9m me visse em semelhante desordem&#8230; O cigarro de fumo picado findava, a ponta colava-se aos bei\u00e7os e quef- mava-os. Precisava entrar em casa. Aproximava-me, e n\u00e3o tinha certeza disto. As dist\u00e2ncias desapareciam.<\/p>\n<p>O galho que sustentava Juli\u00e3o Tavares balan\u00e7ava por cima do bueiro, e Juli\u00e3o Tavares confundfa-se com o homem qu me havia oferecido o cfgarro. Um, dois, um, dois. Agora podia marchar. Com algumas pernadas es- taria em casa, mas a casa se afastava sempre. Veio-me um des\u00e2nimo extraordin\u00e1rio. Quase a chegar, depois de esfor\u00e7os imensos, ia ser descoberto e agarrado. Um transeunte notaria o desarranjo da roupa, a gravata fora do lugar, o rasg\u00e3o no joelho.<\/p>\n<p>&#8211; Onde passou a noite de tal dia? &#8211; Em casa, na reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Perceberfam logo a mentira. Em seguida viriam perguntas insignificantes em tom mfsterioso, e eu me cansaria fnutilmente para desviar-me delas. Quando estivesse distrafdo, jogariam de novo a cofsa perversa: &#8211; Mas onde foi que o senhor passou a noite de tal dia? A testemunha, que me havfa encontrado com um tasg\u00e3o no joelho e o colarinho desabotoado, arruma- ria o seu depoimento de cabe\u00e7a bafxa, em poucas pala- vras para n\u00e3o cafr em contradi\u00e7\u00e3o. Quem seria o advo- 202 gado? o dr. Fulano, o dr. Sicrano&#8230; Esses falavam de papo e tinham recursos para inutilizar o depoimento: &#8211; Que horas eram quando o senhor viu o acusado?<\/p>\n<p>&#8211; Tr\u00eas horas.<\/p>\n<p>Quinze minutos depois a mesma pergunta.<\/p>\n<p>&#8211; Quatro horas.<\/p>\n<p>O escriv\u00e3o registraria as duas respostas, a teste- munha atordoada n\u00e3o se lembraria de dizer que era impossfvel saber a hora exata em que via passar uma pessoa na rua, o dr. Ftxlano ou o dr. Sicrano exploraria a atrapalha\u00e7\u00e3o do homem &#8211; e a defesa levantaria a cabe\u00e7a. Apenas eu n\u00e3o podia contratar os servi\u00e7os de um dos advogados h\u00e1beis, contentar-me-ia com um ba- charel novo, gratuito e desastrado. A acusa\u00e7\u00e3o ficaria de p\u00e9, o interrogat\u00f3rio rolaria uma eternidade na m\u00e1- quina de escrever. Coisas simples, malfcia nenhuma.<\/p>\n<p>Quando eu menos esperasse, surgiria a inten\u00e7\u00e3o ruim &#8211; e dai em diante todas as perguntas s\u00b0riam como cobras enrodilhadas que se preparavam para armar o bote. Um, dois, um, dois. N\u00e3o apareceria aquela casa amaldi\u00e7oada? As luzes da Nordeste subfam e desciam.<\/p>\n<p>Olhei os quatro cantos numa ansiedade, certo de que a testemunha ia de repente dobrar a esquina e avari- \u00e7ar na rua. Viria com passo firme, de cabe\u00e7a baixa.<\/p>\n<p>Quando passasse por mim, levantaria os olhos &#8211; e estaria tudo perdido. Para que ent\u00e2.o aquele desespero, aquela agonia? &#8211; Ser\u00e1 o que Deus quiser. O que tem de ser tem muita for\u00e7a.<\/p>\n<p>Era melhor voltar. Tive a id\u00e9ia absurda de voltar, sentar-me outra vez no bueiro, conversar com o va- gabundo, pedir-lhe outro cigarro. E depois seguir em frente, sempre em frente, parar debaixo da \u00e1rvore que sustentava Juli\u00e3o Tavares. Quando a pol\u00edcia chegasse, eu contaria tudo: &#8211; N\u00e3o me matem de fome nem me d\u00eaem \u00e1gua de bacalhau. Eu me explico. Foi assim.<\/p>\n<p>Ninu\u00e9m teria interesse em descobrir incongru\u00ean- cias nas minhas palavras. Voltar, esperar tranq\u00fcila- mente as grades \u00famidas e pegajosas. Embrutecer-me-ia por detr\u00e1s delas, tornar-me-ia crian\u00e7a, ouviria as his- t\u00f3rias ing\u00eanuas de algum Jos\u00e9 Bafa, que me diria as 203 virtudes da ora\u00e7\u00e3o da cabra preta. Teriam encontrado Juli\u00e1o Tavares esticado no caminho escuro? Estariam metendo uma colher na boca de Juli\u00e3o Tavares? No sert\u00e3o introduzem uma colher de prata na. boca do homem assassinado &#8211; e o criminoso que n\u00e3o sabe ora- \u00e7\u00f5es fica preso: desorienta-se e acaba voltando para junto da vftima. Outros homens e outras mulheres ti- nham passado por baixo do galho, cortado a corda, levado Juh\u00e3o Tavares para uma casa da travessa mais pr\u00f3xima. Estava l\u00e1 o cad\u00e1ver emborcado, com uma co- iher de prata na boca. E eu regressaria, com medo da testemunha, que ia aparecer na esquina. Tudo se sumiu de chofre. A chave rangendo na fechadura, como todos os dias, devagar para n\u00e3o acordar Vit\u00f3ria, o ferrolho corrido por dentro, passos abafados no corredor. Che- guei \u00e0 sala de jantar \u00e0s apalpadelas, abri o comutador e fiquei ao p\u00e9 da mesa, piscando os olhos \u00e0 luz. Tive um arrepio, os cabelos se levantaram, sentf uma dor ag\u00fcda no couro cabeludo. Tirei o chap\u00e9u e pus-me a escov\u00e1-lo com a manga. Era o meu, sem d\u00favida. Voltei \u00e0 sala e fui pendur\u00e1-lo ao cabide. Puxei a corrente da l\u00e2mpada, olhei-me ao espelho. Diferente, magro, velho, as p\u00e1lpebras empapu\u00e7adas, rugas, terra seca na barba crescida.<\/p>\n<p>&#8211; Peste! Andef rolando pelo ch\u00e3o como um porco.<\/p>\n<p>Os olhos, ordinariamente embaciados, tinham um pequeno brilho duro. Apaguei a luz e dirigi-me nora mente \u00e0 sala de jantar. Lembrei-me da garrafa de aguardente, mas quando fa peg\u00e1-la, senti a necessidads de lavar as m\u00e3os. Estava imundo e receava contaminar os objetos. Tomei um peda\u00e7o de papel, segurei com ele o ferrolho e abri a porta do quintal. Fui ao ba- nheiro, meti as m\u00e3os no balde de \u00e1gua e lavei-as, muito lentamente porque as feridas come\u00e7avam a doer em demasia. Deitei fora a \u00e1gua, mergulhei o balde no tanque e recomecei a lavagem. Enxuguei as m\u00e3os nos cabelos, voltei para a sala de jantar, bebi um pouco de aguardente. A garrafa estava quase cheia. Bebi outro gole, mas o meu desejo era tornar ao banheiro. Os cabelos estavam sujos e tinham sujado as m\u00e3os. Lem- brei-me de ter posto na cabe\u00e7a o chap\u00e9u de Juli\u00e3o Tavares. Lembran\u00e7a intoler\u00e1vel. Fui ao quarto, descal- 204 Este livro foi digitalizado por Paulo S\u00e9rgio Resende de Almeida, com a inten\u00e7\u00e3o de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma manifesta\u00e7\u00e3o do pensamento humano..<\/p>\n<p>cei-me, despi-me \u00e0s escuras, deixei a roupa e os sapa- tos numa trouxa a um canto, aga.rrei a toalha e voltei, nu, meio atordoado pelo \u00e1lcool. Achei na borda do tan- que um peda\u00e7o de sab\u00e3o ordin\u00e1rio e esfreguei cuida- dosamente as m\u00e3os e os cabelos. O corpo todo estava sujo, mas o que mais me preocupava eram os cabelos e as m\u00e3os. O banho durou uma eternidade. Que hora,s seriam? N\u00e3o me viera a id\u00e9ia de olhar a parede da sala de jantar. A cabe\u00e7a come\u00e7ou a pesar-me. Bem.<\/p>\n<p>Ia dormir como um porco. Certamente . . . Dormir como um porco. Banhava-me devagar, para n\u00e3o fazer ba- rulho. Se os vizinhos ouvissem as pa.ncadas de \u00e1gua no cimento? Uma culpa grave. Se fosse descoberto, infelicidades me cheg\u00e3riam. Todos os gestos eram culpas graves. Pisava como um gato. Talvez no ba- nheiro pr\u00f3ximo estivessem pessoas esconddas. Que hora3 seriam? A cabe\u00e7a pesava. Certamente&#8230; Sim, certamen- te era preciso dormir, ajudar a noite que n\u00e3o queria acabar. Tinha topado num buraco enorme, ia caindo nele, mas conseguira escapar agarrando-me \u00e0s estaca.i de uma cerca e metendo as m\u00e3os na terra fofa. Esfre- gava os dedos. Para l\u00e1 daquele buraco escuro havia um nevoeiro. Marina, d. Ad\u00e9lia, seu Ramalho, Juli\u00e3o Tavares, tudo era nevoeiro. Enrolei-m\u00b0 na toalha e vol- tei \u00e0 sala de jantar. Em cima do guarda-comidas en- contrei cigarros e f\u00f3sforos. Bem. Agora estava limpo.<\/p>\n<p>Acendi um cigarro e bebi mais aguardente. Queria em- bebedar-me e dormir, mas tive a id\u00e9ia de que s\u00f3 pode- ria dormir sentado, encostado \u00e0 parede. A cama estava suja, tinham-se espojado nela criaturas que se agatar nhavam com raiva, babando, uivando. Tr\u00eas pancadas.<\/p>\n<p>Olhei a parede, mas n\u00e3o consegui distinguir as letraa e os ponteiros. Aproximei-me, estirei o pesco\u00e7o para o mostrador, fiquei nas pontas dos p\u00e9s. Pensei em Cirilo de Engr\u00e1cia e recuei at\u00e9 a mesa sem ver as horas. Com os diabos! Tinha ouvido distintamente tr\u00eas pancadas.<\/p>\n<p>Enchi o copo e continuei a beber. Aproximei-me nova- mente da parede: uma neblina diante do mostrador.<\/p>\n<p>Felizmente agora estava fumando, quase tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>Teria ouvido as tr\u00eas pancadas? Ent\u00e3o aquilo tinha acontecido de meia-noite a tr\u00eas horasl A marcha ao longo da linha de bonde, a volta, a necessidade de 205 tumar, a escur\u00edd\u00e3o cheia de zunzum das carapan\u00e3s, aquela coisa terr\u00edvel &#8211; tudo de meia-no\u00edte a tr\u00eas horas.<\/p>\n<p>Sentei-me, deitei fora o cigarro apagado, acendi outro e pus-me a esgaravatar as unhas com o f\u00f3sforo. As unhas dofdas iam-se entorpecendo. Olhei-as, mas entre os olhos e as m\u00e3os havia um nevoeiro que engrossava.<\/p>\n<p>As paredes tornaram-se inconsistentes. Fechei os olhos, encostei a cabe\u00e7a \u00e0 mesa, remexi os dedos com o f\u00f3s- foro queimado. Um rumor enchia-me os ouvidos, burbu- rinho que ia crescendo e me dava a impress\u00e3o de que a casa, a cidade, tudo, ca\u00eda lentamente. As paredes se desmoronavam como pastas de algod\u00e3o. E no ru\u00eddo con- fuso surgiam sons que me arrastavam \u00e0 realidade: o tique-taque do rel\u00f3gio, o apito do guarda-civil, o can- to de um galo, um miar de gato no telhado. Essas notas familiares me exasperavam. Queria deixar-me em- balar pelo rumor abafado e dormir. Imposs\u00edvel. Os dedos agitavam-se despeda\u00e7ando o f\u00f3sforo. Levantei a cabe\u00e7a, arregalei os olhos e novamente cheguei a eles os dedos, que desapareciam no nevoeiro. Ergui-me, dei uns passos cambaleantes. O burburinho morreu: o que se o\u00fcvia era a respira\u00e7\u00e3o de Vit\u00f3ria. Fechei os olhos com for\u00e7a, tornei a abr\u00ed-los. O nevoeiro adelga\u00e7ou-se: as m\u00e2os esfoladas e grossas, terra nas unhas. Tomei outro f\u00f3sforo e recomeci a limp\u00e1-las. Em seguida fui ao banheiro lav\u00e1-las, livr\u00e1-las daquela porcaria. Voltei desanmado, enxuguei as pontas dos dedos tempo sem fim. Provavelmente n\u00e3o conseguiria dormir. Um, dois, um, dois. Eram as pancadas do n\u00eandulo, mas eu pen- sava em marchas. Olhei a porta aberta. Vi apenas um buraco escuro, mas era como se visse a luz do farol espalhando-se sobre a folhagem da mangueira. Estre- meci. Os galhos iluminados de vermelho, de branco. Que loucura ter deixado aquela porta aberta! Se algu\u00e9m, oculto entre as folhas, me espiasse? Fechei a porta. Es tava em seguran\u00e7a. Tentei encaminhar o pensamento para coisas simples e ordin\u00e1rias, mas estas coisas fu- giam, truncavam-se. Em seguran\u00e7a. Quantos dias falta- vam para receber o ordenado? Precisava dar uns dI- nheiros a Mois\u00e9s. Pimentel tinha-me pedido um artigo sobre . . . Sobre qu\u00ea? Lobisomem agora trazia sapatos novos. D. Ros\u00e1lia e o marido estariam dormindo? T\u00e3o 206 tarde&#8230; O marido de d. Ros\u00e1lia chegara do interior.<\/p>\n<p>Dar uns cobres a Mois\u00e9s sem d\u00favida, quando recebesse 0 ordenado. Um artigo para Pimentel. Os sapatos de Lobisomem. O marido de d. Ros\u00e1lia com certeza estava cansado e dormia. Eu tamb\u00e9m estava cansado, mas n\u00e3o podia dormir. Enxugava as m\u00e3os entorpecidas, lenta- mente, e quase n\u00e3o sentia as escoria\u00e7\u00f5es. Dei uns passos, estaquei. Que ia fazer? Avancei at\u00e9 o corredor. Uma fe- licidade n\u00e3o pensar, andar assim tr\u00f4pego como um papagaio. Fui fechar a porta da cozinha, devagar para n\u00e3o acordar Currupaco, que dormia com a cabe\u00e7a de- baixo da asa. De repente estranhei achar-me ali em p\u00e9, nu, com a toalha no ombro, enxugando os dedos.<\/p>\n<p>Dormir, acabar aquela noite imensa. Bebi o resto da aguardente. O est\u00f4mago contraiu-se, embrulhado, o pes- co\u00e7o entortou-se, a boca encheu-se de saliva. Senti que ia vomitar, encostei-me \u00e0 mesa para n\u00e3o cair. Fechei os olhos &#8211; e o burburinho recome\u00e7ou. Pancadas na porta da frente. Abri os olhos numa agonia. O suor corria-me pela cara, ensopava a toalha, n\u00e3o havia jeito de es- tanc\u00e1-lo. Teriam realmente batido na porta? Ia arras- tar-me, bambeando, p\u00e9 aqui, p\u00e9 acol\u00e1, at\u00e9 o quarto, vestiria o pijama aos tombos, engulhando, arrotando.<\/p>\n<p>Quem seria? &#8211; Estava lendo, fumando, bebendo. Falta de sono.<\/p>\n<p>\u00c9 costume velho, entende? N\u00e3o sei nada. Estou aqui h\u00e1 muitas horas assim.<\/p>\n<p>Poderia falar? Quem teria batido? S\u00f3 se ouviam os roncos de Vit\u00f3ria, o tique-taque do rel\u00f3gio e o chiar dos ratos. O est\u00f4mago embrulhava-se, o suor corria, a boca era pequena para conter a saliva. Quem estaria l\u00e1 fora, na cal\u00e7ada? O rel\u00f3gio bateu meia hora e depois quatro. N\u00e3o me lembro de ter feito nenhum movimento na derradeira meia hora, mas quando veio a primeira pancada eu estava de p\u00e9, quando soaram as quatro estava sentado, o queixo encosta.do \u00e0 mesa. Levantei-me, dirigi-me ao quarto, firmando-me \u00e0s paredes, tombei na cama, pesado, como um morto.<\/p>\n<p>* * * 207 &#8211; \u00d3 Vit\u00f3ria, fa\u00e7a o favor de ir aZf \u00e0 esquina, ouviu? Telefone \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o, diga que n\u00e3o vou ao servi\u00e7o hoje.<\/p>\n<p>Estou doente.<\/p>\n<p>Quando ela saiu, deitef no saco a roupa branca que tinha vestido na v\u00e9spera. Em seguida escondi o palet\u00f3 e a cal\u00e7a rasgada debaixo do colch\u00e3o.<\/p>\n<p>Se dessem busca na casa? Fi remexer o saco, ver se na roupa branca havia sinais que me pudessem comprometer. O palet\u00f3 e a cal\u00e7a n\u00e3o estavam bem escondidos. Pensei em queim\u00e1-los, enterr\u00e1-los. Levan tef o colch\u00e3o, tirei-os. Sujos de lama. N\u00e3o podiam ficar ali. Se fossem descobertos? Atirei-os para tr\u00e1s da mala, apanhei do ch\u00e3o a gravata e iui para a sala de jantar.<\/p>\n<p>&#8211; Telefonou, Vit\u00f3ria,? &#8211; Telefonei.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado. E que estou com febre, morrf nhento. Que h\u00e1 de novo? &#8211; Um senador que chegou do Rio.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Bebi uma xicara de caf\u00e9, procurei uma tesouri- nha e pus-me a cortar as unhas, que ainda tinham terra. Estava com febre e aturdido pela cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Vit\u00f3ria, se n\u00e3o estiver muito ocupada, leve a roupa \u00e0 lavadeira, ouviu? Preciso camisas.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria afastou-se e daf a pouco saiu com uma trouxa de roupa suja. A porta da frente abriu-se e fechou-se. Acabei de cortar as unhas arroxeadas. As m\u00e3os engrossavam e deformavam-se, a direita com uma esfoladura na palma, a esquerda cheia de fibras de madefra, que extra\u00ed com a ponta da tesoura. A gravata estava enrolada, como uma corda, exatamen- te igual a todas as gravatas que tenho tido, mas sen- tf a necessidade de destruf-la. Cortei-a em pedacf- nhos, que desfiei, juntando os fios em cima da coxa.<\/p>\n<p>Vit\u00f3ria, arrastando os p\u00e9s, ficaria muito tempo na rua. Dediquei-me nervosamente a desfiar os peda\u00e7os da gravata. Tossia e limpava os olhos, que lacrime javam. Uma felicidade estar com febre. Os rumores externos eram os mesmos de todos os dias. D. Ros\u00e1 lia despropositava com Ant\u00f4nia, d. Ad\u00e9lia cantava no banheiro, o trem passava apitando, autom\u00f3veis e 208 bondes rolavam longe. Desejei ver seu Ivo, pensei em oferecer qualquer coisa a seu Ivo. Isto me aliviaria.<\/p>\n<p>As alfaces no canteiro amarelavam. O homem triste enchia dornas. A mulher magra agitava garrafas e sacolejava-se como se tocasse ganz\u00e1. Nenhuma nov.&#8217;- dade. Mois\u00e9s e Pimentel me seriam desagrad\u00e1veis na- quele momento, mas a companhia de seu Ivo me daria prazer. Subitamente imaginei que o homem tris- te e a mulher magra me espionavam. Afastei a cadei- ra para n\u00e3o ver o homem que enche dornas e a mu- lher que lava garrafas, continuei a tarefa. Quando a terminasse, ficaria tranq\u00fcilo. Cortaria depois a cal\u00e7a e o palet\u00f3 em pedacinhos que seriam desfiados. Fica- ria inteiramente tranq\u00fcilo. Nenhuma novidade. Ape- nas a viagem de um senador desconhecido. Tranq\u00fci- lo. Deitar-me-ia, descansasia. De minuto a minuto suspendia o trabalho para enxugar os olhos, e a umi dade que havia no len\u00e7o era quente demais. Respira- va com dificuldade, o corpo se derreava na cadeira, bocejos enormes. Compreendia que o exerc\u00edcio a que me entregava era in\u00fatil, perigoso talvez. Se algu\u00e9m entrasse de repente e me visse desfiando peda\u00e7os de pano? Mas continuava a desfi\u00e1-los \u00e0 pressa, e escon- dia o molho de fios entre as pernas. Vit\u00f3ria n\u00e3o che- gava. Com certeza a comida ia esturrar. Que estur- rase. Podre de rica, Vit\u00f3ria: prata, libras esterlinas.<\/p>\n<p>Tentei pensar nas moedas. Imposs\u00edvel. N\u00e3o acabaria a destrui\u00e7\u00e3o da gravata? Sentia um medo horr\u00edvel e ao mesm\u00f5 tempo desejava que um grito me anuncias- se qualquer acontecimento extraordin\u00e1rio. Aquele si- l\u00eancio, aqueles rumores comuns, espantavam-me. Se- ria tudo ilus\u00e3o? Findei a tarefa, ergui-me, desci os degraus e fui espalhar no quintal os fios da gravata.<\/p>\n<p>Seria tudo ilus\u00e3o? Voltei, atravessei o corredor, cha- guei \u00e0 sala, olhei a rua pelas tabuinhas da r\u00f3tula. Urr.a das filhas de Lobisomem mostrou a cabe\u00e7a arrepiada.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia passou com o filho mais novo de d. Ros\u00e1lia pela m\u00e3o, uma bicicleta rodou no paralelep\u00edpedo. Enxu- guei os olhos. A cabe\u00e7a do\u00eda-me. Encostei os cotovelos \u00e0 janela. Entre duas tabuinhas afastadas distinguia a cara amarela, os olhos abotoados e os cabelos ruivos da filha de Lobisomem. Pelas outras tabuinhas s\u00f3 per- 209 cebia os p\u00e9s dos transeuntes. Iam e vinham, ocupados.<\/p>\n<p>Todos os dias acontecem desgra\u00e7as. Estava doente, ia piorar, e isto me alegrava. Deitar-me, dormir, o pensa- mento embaralhar-se longe daquelas porcarias. Senti uma sede horrivel. Os bei\u00e7os secos, queimados, ra- chavam-se. Evidentemente a sede tinha horas, mas s\u00f3 ent\u00e3o me apareceu clara a necessidade de beber \u00e1gua.<\/p>\n<p>Quis ver-me ao espelho. Tive pregui\u00e7a, fiquei pregado \u00e0 janela, olhando as pernas dos transeuntes. Esfregaei s cara com a m\u00e3o estragada. Os p\u00ealos duros feriram-me a palma em carne viva.<\/p>\n<p>&#8211; Todos os dias nasce gente, morre gente. Isso n\u00e3o tem import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Repetia frases assim e soprava a palma ferida, mas n\u00e3o prestava aten\u00e7\u00e3o ao que dizia, pensava em coisas diferentes, em muitas coisas que se misturavam. \u00efa haver uma escurid\u00e3o, uma desordem. Parecia-me que os acontecimentos subiam e desciam numa panela, fer- vendo.<\/p>\n<p>&#8211; Em seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Com os cotovelos presos \u00e0 janela, olhava a rua e tremia. Morto de sede, n\u00e3o me aventurava a tirar-me dali. As pernas fraquejavam, bambas. As que andavam na rua atravessavam o minguado espa\u00e7o que a minha vista alcan\u00e7ava, eram bem vestidas, rotas, nuas &#8211; e isto me bastava para adivinhar as caras. Iam lentas ou apressadas, ignoravam a exist\u00eancia de outras que gira- vam, encostando as pontas dos p\u00e9s no ch\u00e3o coberto de folhas secas. Duas pernas pararam no meio da rua, voltaram as biqueiras dos sapatos para o meu lado.<\/p>\n<p>Olhos atentos, sob a m\u00e3o em pala na testa, deviam estar observando o n\u00famero da casa. Isso durou um minuto. As biqueiras avan\u00e7aram em dire\u00e7\u00e3o a mim.<\/p>\n<p>Descobriram-se os joelhos das cal\u00e7as ord.n\u00e1rias e sur- radas. Provavelmente era um investigador, um desses homens que freq\u00fcentam os caf\u00e9s, escutam conversas e fogem como sombras, olhando por baixo da aba do chap\u00e9u embicado. Ia aproximar-se macio, bater pal- mas discretamente para n\u00e3o atrair a aten\u00e7\u00e3o dos vi- zinhos : &#8211; \u00f3 de casa! 210 Eu me afastaria da janela, arrastando as pernas que pesavam arrobas, iria abrir a porta. Perguntas sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a, uma busca na casa; a roupa machu- cada e rasgada atr\u00e1s da mala, as minhas m\u00e3os feridas, as unhas roxas, provocando suspeitas que s acumula- vam e viravam certeza. Eu me atrapalharia logo e diria o que o sujeito quisesse. N\u00e3o seria preciso me darem \u00e1gua de bacalhau. A garganta ardia-me, passei a l\u00edngua seca nos bei\u00e7os gretados. Agua de bacalhau, dias de fome, noites em claro, um tipo martelando horas a fio: &#8211; bom o senhor contar. Para que esconder? Tudo se descobre. Confesse.<\/p>\n<p>Eu arriaria a trouxa com facilidade. Tudo se des- cobre, sem d\u00favida. Que pap\u00e9is haveria nos bolsos da roupa que estava atr\u00e1s da mala? Bilhetes de dr. Gou- veia, correspond\u00eancia do interior, a carteira vazia, artf- gos manuscritos, recortes de jornais. Se algum desses papis tivesse ca\u00eddo na estrada? Perdido, trinta anos de cadeia, a imund\u00edcie, os trabalhos dos encarcerados: fabrica\u00e3o de pentes, esteiras, objetos mi\u00fados de tarta- ruga. Faria um livro na pri\u00e3o. Amarelo, papudo, faria um grande livro, qu? seria traduzido e circularia em mnitos pa\u00edses. Escrev\u00ea-lo-ia a l\u00e1pis, em papel de embru- Iho, nas margens de jornais velhos. O carcereiro me pe- diria umas explica\u00e7\u00f5es. Eu responderia: &#8211; &#8220;Isto \u00e9 assim e assado.&#8221; Teria considera\u00e7\u00e3o, deixar-me-iam escrever o livro. Dormiria numa rede e viveria afastado dos outros presos. A garganta do\u00eda-me, os bei\u00e7os colavam-se. Pre- cisava beber \u00e1gua e pensava no caldo de bacalhau. Con- fessaria tudo, mostraria \u00e1 roupa rasgada, os bilhetes.<\/p>\n<p>as ca.rtas, os artigos. Os olhos pestanejavam, e chora- vam l\u00e1grimas quentes que eu enxugava na manga. N\u00e3o podia ver bem a rua. As pernas teriam marchado para mim ou estacionariam no paralelen\u00edpedo, indecisas? Tanto tempo a amea\u00e7ar-me com as biqueiras dos sapa- tos cambados e as joelheiras das cal\u00e7as ordin\u00e1,rias! As biqueiras volveram \u00e0 esquerda e sumiramjse. N\u00e3o era gente da polfcia: seria talvez um servente de casa co- mercial, carregado de embrulhos, distribuindo xnercado- rias Provavelmente conduzia tro\u00e7os para d. Mercedes e estava em p\u00e9 na cal\u00e7ada, batendo palmas. D. Mercedes 211 vinha devagar, cheirosa, o peignoir exibindo o peito ma- duro. Recebia os pacotes, dava uns niqueis ao carrega- dor, entrava, ia desatar os cord\u00f5es e examinar as com- pras. Entre as duas tabuinhas mais afastadas da r\u00f3tula vi de novo o rosto espantado da filha de Lobisomem.<\/p>\n<p>Porque se espantava? N\u00e3o havia motivo. Zizdo em ordem na rua. A barriga e as pernas de um homem passaram na cal\u00e7ada e pararam \u00e0 porta de d. Ros\u00e1lia. Alguns rapazes dirigiam-se ao Col\u00e9gio Diocesano. Um moleque de tabuleiro deu um grito estridente que me assustou.<\/p>\n<p>Evidentemente&#8230; A rua sossegada, como nos outro5 dias. O grito do moleque continuava a furar-me os ou- vidos. Evidentemente . . . Que \u00e9 que ia dizer? O pensa- mento partia-se. Ia cair de cama, delirar, morrer. A car- ne estremecia, os p\u00e9s dos cabelos do\u00edam-me. De quando em quando levava.-a m\u00e3o ao rosto, e o contato da palma com a barba crscida arrancava-me palavr\u00f5es obscenos grunhidos em voz baixa. Um porco, pareca um porco.<\/p>\n<p>Esta compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o me entristecia. Desejava sr comn as bichos e afastar-me dos outros homens.<\/p>\n<p>As m\u00e3os dofam-me, as pernas do\u00edam-me, os p\u00e9s dos cabelos do\u00edam-me. N\u00e3o queria imaginar o que aconte- ceria l\u00e1 fora, o que tinha acontecido. Fatos poss\u00edveis misturavam-se a coisas absurdas. Evidentemente. . . Esta palavra solta, repetida, enfurecia-me. Pouco a pouco serenava. Seu Ramalho, no meio das conversas, dizia: &#8211; &#8220;Eu lhe conto.&#8221; E n\u00e3o contava nada. D. Ad\u00e9lia cen- surava a filha com um gemido: &#8211; &#8220;Hum! hum!&#8221; AntB- nia dava uma ri.sadinha ruim e piscava um olho: &#8211; &#8220;Safada moda.&#8221; Agora a rua estava em sil\u00eancio. Noutra rua havia l\u00e1grimas, desespero e cablos arrancados. Um m\u00e9dico vestia o avental, chegava-se ao m\u00e1rmore do ne- crot\u00e9rio. O homem dos caix\u00f5es d defuntos preparava coroas de flores roxas, muitas coroas de flores roxas com fitas roxas. Onde andaria Vit\u00f3ria? Surda, a cabe\u00e7a cheia de moedas e navios, arrastando-se petas bodegas.<\/p>\n<p>UIna senhora gorda e mole, com os sovacos molhados, chorava noutra rua. Fuf ao quarto, levantef a roupa ca\u00edda atr\u00e1s da mala, estendi-a em cima da cama, exa- minei o joelho rasgado, as bainhas pu\u00eddas, a gola em- branquecida. Machucada, suja de poeira, lama seca e teias de aranha. Cort\u00e1-la ia em pedacinhos, que seriam 212 i desfiados e atirados ao monturo. Procurei uma escova ! e pus-me a limpar os trapos. De momento a momento supendia o trabalho e soprava a m\u00e3o ferida. Estu- pidez deixar aquilo no ch\u00e3o, entre a mala e a parede.<\/p>\n<p>I Bem. Agora os panos estavam quase decentes. Algu- mas pancadas na porta gelaram-me o sangue. Cai sen- tado na cama. Tudo perdido. L\u00e1 estava o sujeito da policia com o chap\u00e9u embicado. Olhei o rasg\u00e3o do joelho, as m\u00e3os grossas. Dificil dobrar os dedos. E nas costas da m\u00e3o direita, a mais estragada, corria um tra\u00e7o largo que escurecia. Ao amanhecer estava ver- melho, mas agora ia ficando azulado. Enfim tudo per- dido. Era sair, entregar-me, contar a hist\u00f3ria botando i os pontos nos \u00fc. Faria um livro na pri.\u00e3o, estudaria, arranjaria camaradagem com dois ou tr\u00eas presos man- sos. Habituar-me-ia. A gente se habitua em toda a ! parte. Dorme \u00e0 beira das estradas, nos bancos dos jardins. Depois de meia-noite as. letras mi\u00fadas dan- \u00e7avam na prova molhada, a saleta da revis\u00e3o enchia- se de fantasmas, a gente lia cochilando, emendava cochilando. Um galego dava ordens aos berros. Nas xnesinhas estreitas, forradas com papel de impress\u00e3o, as vozes esmoreciam, as canetas sujas, nojentas, ca- lavam-se. Vida porca, safada. Agora estava menos por- ca e ma\u00ed,s safada. Adula\u00e7\u00f5es, medo de perder o empre- go, de voltar \u00e0s estradas, \u00e0 caserna, aos bancos dos jardins, \u00e0 mesa da revis\u00e3o. O suor molhava-me o pes- co\u00e7o, a vista escurecia, a mem\u00f3ria dava saltos, a res- pira\u00e7\u00e3o encurtava-se. Uma lembran\u00e7a vaga de cavalos perseuia-me. Onde teria eu visto aqueles cavalos? Nun- ca fui cavaleiro, nunca montei direito. Uma queda na pedras do Ipanema ia-me desmantelando. Era estranho que aqueles anima\u00eds viessem perturbar-me. Fazia um minuto que o homem da pol\u00edcia tinha batido. Sentado na cama, suando, tossindo, as m\u00e3os esfoladas, nco lhia-me. Os animais aperreavam-me. A princfpio n\u00e3o conseguira distingui-los. Era um tropel distante, rumor que se confundia com a cantiga dos sapos do a\u00e7ude da Penha e o zumbido das carapan\u00e3s. \u00c3gora percebia que eram cavalos correndo. Novas pancadas. Levan- tei-me, cheguei \u00e0 porta do quarto, estirei a cabe\u00e7a. Um 213 maloqueiro, um vagabundo que pedia esmola. Enfure- ci-me e gritei: &#8211; Puta que o pariu.<\/p>\n<p>Estar um homem em casa, sossegado, escovando a roupa, e de repente pancadas, amola\u00e7\u00f5es, pedit\u00f3rios.<\/p>\n<p>&#8211; Isso tem cabimento? D\u00e1 o fora, vai para o diabo.<\/p>\n<p>Pus o palet\u00f3 no encosto de uma cadeira, dobrei a cal\u00e7a, ocultando a parte rasgada, e coloquei-a em cima da mala.<\/p>\n<p>&#8211; Onde vamos parar com tantos mendigos? Isso tem jeito? O quarto estava como nos outros dias. O meu desejo era deitar-me, mas fui \u00e0 sala de jantar, ainda bastante zangado: &#8211; Canalhas, pregui\u00e7osos.<\/p>\n<p>Derreei-me na cadeira, um peso enorme nos bra\u00e7os: &#8211; Safados.<\/p>\n<p>N\u00e3o me referia apena.s aas maloqueiros. De quando em quando passava a manga do pijama nos olhos mo- lhados. E soprava a palma ferida, mas o ar sa\u00eda quente e a dor n\u00e3o diminuia. Esse movimento de soprar a m\u00e3o quase encostando-a \u00e0 boca fez-me pensar nos gatos.<\/p>\n<p>Ia adormecer, perder a consci\u00eancia. As coisas afasta- vam-se ou aproximavam-se d\u00b0 maneira absurda, as pa- redes moviam-se. N\u00e3o ter consci\u00eancia. Soprava a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser como um gato que lambe os p\u00e9s.<\/p>\n<p>Que direito tinha aquele bandido de me vir inco- modar quando eu estava ocupado, escovando a roupa? Ent\u00e3o n\u00e3o pode um homem p\u00f4r em ordem os seus tro\u00e7os sem ser perturbado.<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 casa de puta para qualquer um bater e entrar? Porque era que o vagabundo me havia enganado fazendo-se passar por gente da polfcia? Dentro em pou- co outras pancadas me esfriariam o sangue, num se- gundo rolariam multid\u00f5es de pavores. Ttxdo se repetiria &#8211; as mesmas caras, as mesmas perguntas, as mesmas amea\u00e7as, o julgamento, discursos, a escurid\u00e3o entre qua- tro paredes, portas de ferro, fechaduras enormes, ferro- lhos enormes. Levantar-me-ia, atravessaria o corredor como se me arrastassem. Outro vagabundo, um vende- 214 dor ambulante, qualquer pessoa levada por endere\u00e7o errado: &#8211; N\u00e3o \u00e9 aqui n\u00e3o. Desculpe.<\/p>\n<p>Voltarfa para junto da mesa, aguardaria novas pancadas, novas torturas. Porque n\u00e3o se acabava logo aquilo? Bati com a m\u00e3o na mesa e isto me arrancou um grito que abafei e se transformou em praga imunda.<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o me vinham buscar os miser\u00e1veis da pol\u00edcia? Porque faziam comigo aquela brincadeira de gato com rato? Eu os acompanharia, mostraria a roupa rasgada, os fios da gravata no monturo, falaria no cigarro ofere- cido pelo vagabundo. Porque n\u00e3o vinham logo? Muitos anos nas redes sujas, nas esteiras de pipiri. Escreveria um livro. A id\u00e9ia do livro aparecia com regularidade.<\/p>\n<p>Tentei afast\u00e1-la, porque realmente era absurdo escrever um livro numa rede, numa esteira, nas pedras cobertas de lama, pus, escarro e sangue. Olhava as telhas, move- di\u00e7as, a garrafa de aguardente, movedi\u00e7a. O livro s\u00f3 poderia ser escrsto na pris\u00e3o, em cima das pedras, na esteira, na rede, sob as cortinas de pucum\u00e3. Um livro escrito a l\u00e1pis, nas margens de jornais velhos. Os obje- tos deformavam-s. A janela e a porta do quintal, a porta da cozinha e a do corredor estavam cheias de gente. Estirei o pesco\u00e7o, observei o homem que enche dornas e a mulher que lava garrafas. Retra\u00ed-me. Em vez de se entregarem ao trabalho, eles me espionavam.<\/p>\n<p>O movimento de estirar o pesco\u00e7o para v\u00ea-los era hor- r\u00edvel. O que mais me do\u00eda eram os bra\u00e7os, principal- mente as m\u00e3os. Encolhi o pesco\u00e7o, tentei met\u00ea-lo no corpo. Um, dois, um, dois. Eram as pancadas do p\u00ean- dulo. N\u00e3o prestava aten\u00e7\u00e3o a elas durante o dia. A noite percebiam-se bem, mas de dia, com o barulho que vinha de fora, n\u00e3o havia rel\u00f3gio. Como Vit\u00f3ria se demoraval O galope dos cavalos n\u00e3o me sa\u00eda dos ouvidos, crescia , como se avan\u00e7asse no paralelep\u00edpedo. Donde vinham aqueles cavalos? A cabe\u00e7a tombou num cochilo. Apru- mei-me, bocejei, estirei os bra\u00e7os doloridos. Recostei-me na cadeira e cerrei os olhos. Passei a l\u00edngua seca como lfngua de papagaio pelos bei\u00e7os gretados e cobertos de pel\u00edculas. Arrastei-me at\u00e9 a moringa, bebi alguns copos de \u00e1gua. Tantas horas com a garganta pegando fogo, suportando aquilo inutilmente. Com certeza a febre ia 215 crescer. O corpo morrinhento pedia cama. O rumor das carapan\u00e3s misturava-se ao tropel dos cavalos. Achei-me sentado, murmurando pala,vras desconexas. O suor cor- ria entre os p\u00ealos da barba. Passei o len\u00e7o na cara e no pesco\u00e7o, mas retirei logo a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sou uma pessoa muito h\u00e1bil.<\/p>\n<p>Os cavalos tinham agora um trote macio que n\u00e3o se distinguia da m\u00fasica das carapan\u00e3s. Aborrecia-me saber que os cavalos n\u00e2o existiam, as carapan\u00e3s n\u00e3o existiam, os indivfduos que atravancavam as portas n\u00e3o existiam.<\/p>\n<p>&#8211; Uma pessoa muito h\u00e1bil.<\/p>\n<p>A roupa molhada colava-se ao corpo. A sede voltou, bebi outro copo de \u00e1gua. Pensei em fumar e isto me produziu um estremecimento. Mas ent\u00e3o? Um sujeito h\u00e1bil, sem d\u00favida. Tudo muito direito. Na casa de d. Ros\u00e1lia as crian\u00e7as gritavam e Ant\u00f4nia lavava a lou\u00e7a. Na casa de seu Ramalho d. Ad\u00e9lia varria a sala de jantar. Ouvia-se o chiar da vassoura. Pancadas de pratos, gritos de crian\u00e7as, risos, pragas.<\/p>\n<p>&#8211; Um sujeito h\u00e1bil.<\/p>\n<p>Que burrice repetir isso! Estirei a cabe\u00e7a cautelosa- mente. A mulher magra e o homem triste dedicavam-se \u00e0s suas ocupa\u00e7\u00f5es e n\u00e3o me viam. Uma criatura ordi- n\u00e1ria, um funcion\u00e1rio que faltava \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o. Vit\u00f3ria voltou, mas isto n\u00e3o teve import\u00e2ncia. As carapan\u00e3s e os cavalos preocupavam-me demais para prestar aten- \u00e7\u00e2o a Vit\u00f3ria. Um funcion\u00e1rio. Pus-me a rir como um idiota. Continuaria a escrever informa\u00e7\u00f5es, a bater no teclado da m\u00e1quina, a redigir artigos bestas. &#8211; &#8220;Per- feitamente.&#8221; O sorriso sem-vergonha concordando com tudo. &#8211; &#8220;Perfeitanente.&#8221; N\u00e3o tinha praticado nenhu- ma fa\u00e7anha, n\u00e3o tinha conversado com o vagabundo, na v\u00e9spera. Eu? No quarto pequeno junto \u00e0 escada, o cheiro do g\u00e1s era insuport\u00e1vel. Andavam percevejos no papel da parede, manchado e descolado. Aborre- cia-me o estudo cacete de Dagoberto. Mas quando ele empurrava a porta, jogava na cama a cesta e o com- p\u00eandio, acovardava-me, sorria, abria o livro ou pegava 0 osso e come\u00e7ava a amola\u00e7\u00e3o. &#8211; &#8220;Perfeitamente, Da goberto.&#8221; Para que diabo me servia conhecer as v\u00e9rte- bras e o frontal? N\u00e3o fa ser m\u00e9dico. Mas lia, para n\u00e3o 216 desgostar o rapaz. Olhei a garrafa de aguardente, vazia, pensei em seu Ivo, em seu Earisto e em Cirilo de Engr\u00e1cia. Com os bra\u00e7os esmorecidos sobre a mesa, via as paredes afastarem-se, as telhas subirem e des- cerem. Ia dormir, descansar, tresvariar. Levantei-me de chofre. Um rebuli\u00e7o na casa de seu Ramalho. Fui encos- tar-me \u00e0 parede. Critos, o cabo da vassoura batendo no ch\u00e3.o, risos nervosos e a fala morna de d. Ad\u00e9lia: &#8211; Quem faz neste mundo paga \u00e9 aqui mesmo.<\/p>\n<p>Quando Deus tarda, vem em carninho.<\/p>\n<p>Olhei os quatro cantos. N\u00e3o tinha nada com aquilo. Ia trancar-me, enrola.r-me nos len\u00e7\u00f3is, tremer, ranger os dentes como um caititu. N\u00e3o tinha nada com aquilo. A garrafa de aguardente estava vazia. As cara- pan\u00e3s zumbiam. O vagabundo me dera um cigarro.<\/p>\n<p>A mulher tinha dito : &#8211; &#8220;Deixa de luxo, minha filha.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 o que Deus quiser.&#8221; Eu ficava afastado de tudo.<\/p>\n<p>Afastei-me da parede e arregalei os olhos para a mu- lher que lava garrafas e o homem que enche dornas.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha nada com aquilo. &#8211; &#8220;Um artigo, seu Lu\u00eds.&#8221; Seu Lu\u00eds escrevia. &#8211; &#8220;Perfeitamente, Dagoberto.&#8221; Eu? As telhas dan\u00e7avam, era extraordin\u00e1rio que se pudes- sem equilibrar, n\u00e3o viessem espatifar-se no ch\u00e3o, ba- ter-me na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fui eu, gritei recuando e trope\u00e7ando na ca- deira.<\/p>\n<p>Os cabelos arrepiavaxr-.se, um frio agudo entrou-me na carne, os dentes tocaram castanholas. Nada havia acontecido comigo. Senti-me v\u00edtima de uma grande in- justi\u00e7a e tive desejo de chorar. Vieram-me l\u00e1grimas, que esmaguei. Eu estava de parte, ouvindo o zunzum das carapan\u00e3s.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e2o fui eu. Escrevo, invento mentiras sem difi- culdade. Mas as minhas m\u00e3os s\u00e3o fracas, e nunca rea- lizo o que imagino.<\/p>\n<p>Olhei as m\u00e3os. Pareceram mais curtas e mais largas que as m\u00e3os ordin\u00e1rias que escreviam artigos elogiando o governo. Os dedos inchados eram mais curtos e mais grossos. Necess\u00e1rio fechar as tortas. Outro agabundo riria bater e confundire c\u00f5m o homem da policia.<\/p>\n<p>21? Os bra\u00e7os dofam-me, as m\u00e3os penduradas dofam-me.<\/p>\n<p>Cruzei os bra\u00e7os, fui \u00e3 cozinha. Vit\u00f3ria cortava carne em cima da mesa preta.<\/p>\n<p>&#8211; Vit\u00f3ria, estou sem fome, ouviu? A mesa preta do necrot\u00e9rio. O m\u00e9dico, de avental.<\/p>\n<p>Numa rua afastada, uma mulher chorando. As minhas m\u00e3os em carne viva.<\/p>\n<p>&#8211; Estou muito doente, Vit\u00f3ria. N\u00e3o quero almo- \u00e7ar. D\u00ea a b\u00f3ia a algum maloqueiro que aparecer por a\u00ed.<\/p>\n<p>E feche as portas depois. Vou deitar-me, n\u00e3o me ag\u00fcen- to nas pernas.<\/p>\n<p>i A r\u00e9stia descia a parede, viajava em cima da cama, saltava no tijolo &#8211; e era por ai que se via que o tempo passava. Mas no tempo n\u00e3o havia horas. O rel\u00f3gio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colch\u00e3o duro, longe de tudo. Nos rumores que vinham de fora as pancadas dos rel\u00f3gios da vizinhan\u00e7a morriam durante o dia. E o da estava dividido em quatro partes desiguais: uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolo, outra parede.<\/p>\n<p>Depois, a escurid\u00e2o cheia de p_ ancadas, que \u00e0s vezes n\u00e3o se podiam contar porque batiam v\u00e1rios rel\u00f3gios simultaneamente, gritos de crian\u00e7as, a voz arreliada de d. Ros\u00e1lia, o barulho dos ratos no arm\u00e1rio dos livros, ranger de armadores, sil\u00eancios compridos. Eu escorre- gava nesses sil\u00eancios, boiava nesses sil\u00eancios como numa \u00e1gua pesada. Mergulhava neles, subia, descia ao fundo, voltava \u00e0 superf\u00edcie, tentava segurar-me a um galho.<\/p>\n<p>Estava um galho por cima de mim, e era-me impossivel alcan\u00e7\u00e1-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para empre, fugir das bocas da treva que me queriam mor- der, dos bra\u00e7os da treva que me queriam agarrar.<\/p>\n<p>O som de uma vitrola coava-se nos meus ouvidos, aca- riciava-me, e eu diminu\u00eda, embalado nos len\u00e7\u00f3is, que se transformavam numa rede. Minha m\u00e3e me embalava cantando aquela cantiga sem palavras. A cantiga mor- ria e se avivava. Uma criancinha dorm?ndo um sono curto, cheio de estremecimentos. Em alguns minutos a criancinha crescia, ganhava cabelos brancos e rugas.<\/p>\n<p>N\u00e2o era minha m\u00e2e a cantar: era uma vitrola distante, 218 t\u00e3o distante que eu tinha a ilus\u00e3o de que sobre o disco passeavam pernas de aranha. Um disco a rodar sem interrup\u00e7\u00e3o a noite inteira. N\u00e3o. Est\u00e1vamos na segun- da parede, e eu subia a parede, acompanhava a r\u00e9stia como uma lagartixa. Marasmo de muitas horas, solu- \u00e7\u00e3o de continuidade que se ia repetir. Cairia da pa- rede, como uma lagartixa desprecatada, ficaria no ch\u00e3o, mofdo da queda. Quem teria entrado no quarto durante.<\/p>\n<p>a inconsci\u00eancia prolongada? Mois\u00e9s e Pimentel teriam vindo? Seu Ivo teria vindo? Lembrava-me de figuras curvadas sobre a cama. N\u00e3o eram os meus amigos.<\/p>\n<p>Eram tipos de caras esquisitas, todos iguais, de bocas negras, l\u00ednguas enormes, grossas e escuras. Quantos dias ali no colch\u00e3o \u00e1spero, como um defunto? Um ho- mem sem rosto, sentado na cadeira onde tinha ficado o palet\u00f3, falava muito. Que dizia ele? Esfor\u00e7ava-me por entend\u00ea-lo, mas tinha a impress\u00e3o que o visitante usava l\u00edngua estrangeira. Era como se me achasse num ci- nema. Apenas compreendia de longe em longe algumas palavras. Cansava-me e desejava que o homem se fosse embora. N\u00e3o percebia que me importunava, que me obrigava a esfor\u00e7os enormes para entender uma lfngua estranha? O desconhecido continuava a falar. Eu subia a parede novamente e corria atr\u00e1s da r\u00e9stia. Cairia no tijolo outra vez, achatar-me-ia ouvindo o mon\u00f3logo in- compreens\u00edvel. Receava que o homem sem rosto me jul- gasse est\u00fapido. Queria dormir, arregalava os olhos e abria os ouvidos. Certamente dizia coisas sem nexo, e o desconhecido me chamava imbecil, com palavras in- gl.esas. Um buraco ao p\u00e9 de uma cerca. Eu tombava no buraco, ia descendo lentamente. E, enquanto descia, encontrava no caminho muitas flores que desciam tam- b\u00e9m, sem peso, como flocos de algod\u00e3o. Subia, era como se o meu corpo se transformasse em nevoeiro.<\/p>\n<p>Tornava a descer, tornava a subir, as flores ca\u00edam sem- pre numa chuva silenciasa. As flores n\u00e3o me davam nenhum prazer. Desejava livrar-me delas, interromper aquelas viagens para cima e para baixo, andar na terra.<\/p>\n<p>Escancarava os olhos. O homem sem rosto havia desa- parecido, e eu tinha agora um livro aberto sobre o col- ch\u00e3o. N\u00e3o sabia quem me trouxera o livro, se ele sur gira antes ou depois da visita. As letras sa\u00edam dos luga.<\/p>\n<p>219 res, deixavam espa\u00e7os em branco, espalhavam-se numa chuva silenciosa. Apertando as p\u00e1lpebras, esfregando-as, aproximando e afastando o papel, conseguia conter a dispers\u00e3o. Imposs\u00edvel adivinhar o sentido de uma pala- vra. L\u00edngua estrangeira, t\u00e3o estrangeira como o soli- l\u00f3quio mon\u00f3tono. Sem mem\u00f3ria, um idiota. Chorava.<\/p>\n<p>batia com a cabe\u00e7a no ferro da cama, puxava os ca- belos. Olhava as m\u00e3os. As unhas crescidas e sujas, a escoria\u00e7\u00e3o da palma secando e cicatrizando, os dedos &#8216; compridos, escuros, com uns n\u00f3s muito grossos. Sem \u00b0 mem\u00f3ria. Que teria acontecido antes? A confus\u00e3o se dissipava, a r\u00e9stia avan\u00e7ava no tfjolo, trepava na ca- deira onde o homem se tinha sentado, ganhava o pa- let\u00f3 estendido no encosto. O palet\u00f3 me espiava com um olho amarelo que mudava de lugar. A cal\u00e7a continuava dobrada sobre a mala coberta de poeira. A sentinela cochilava no port\u00e3o do pal\u00e1cio, encostada ao fuzi\u00cf; An- dr\u00e9 Laerte andava como um gato; Amaro vaqueiro, aboiando, la\u00e7ava a novilha careta; cabo Jos\u00e9 da Luz &#8216; caminhava para a cadeia p\u00fablica, todo pachola; Da- goberto punha na minha cama a cesta de ossos e o comp\u00eandio de anatomia. Eu negava o livro que estava aberto em cima do colch\u00e3o. Tinham deixado ali aquele volume in\u00fatil. Lia-o pensando em ossos. Provavelmente fora Mois\u00e9s que o trouxera para me distrair. As pala- vras iam-se tornando claras, mas n\u00e3o se reuniam. Bom camarada, Mois\u00e9s. Dera-me um livro para me distrair.<\/p>\n<p>A r\u00e9stia descia a cadeira, atravessava os tijolos e ga- nhava w parede. O cego dos bilhetes de loteria apregoava o n\u00famero, batendo com o cajado no ch\u00e3o do caf\u00e9; a mulher da Rua da Lama cruzava os dedos magros nos joelhos; Lobisomem parecia um velho decr\u00e9pito. Essas figuras vinham sem nitidez, confundiam-se. Ant\u00f4nia arrastava os chinelos, mostrava as pernas cobertas de marcas de feridas e cantava uma cantiga vagabunda.<\/p>\n<p>Mas a cantiga se transformava: &#8220;Assentei pra\u00e7a. Na polfcia eu vivo&#8230;&#8221; E Ant\u00f4nia era o cabo Jos\u00e9 da Luz.<\/p>\n<p>Em p\u00e9, defronte da prensa de farinha, oferecia-me uma xfcara de caf\u00e9. Ant\u00f4nia, cabo Jos\u00e9 da Luz, Rosenda &#8211; uma pessoa s\u00f3. As vezes apareciam tr\u00eas corpos juntos com rostos iguais, outras vezes era um corpo com tr\u00eas cabe\u00e7as. Afinal surgia um vfvente que tinha tr\u00eas nomes.<\/p>\n<p>Agarrava-me ao livro, compreendia vagamente o que , estava escrito, mas ficava-me a certeza de que havia ali v\u00e1rios trabalhos, feitos por muitos indiv\u00edduos. Chineses.<\/p>\n<p>Uns chineses brig\u00f5es, revoltados. Lembrava-me dos chi- neses que lavam roupa, fabricam ventarolas, vendem &#8216; bagatelas, juntam-se \u00e0s caboclas. Muitos livros arruma- dos, formando um livro incompreensivel. Fernando In- guitaf andava pela Rua do Com\u00e9rcio, o bra\u00e7o carregado de voltas de contas, o cigarro babado no bei\u00e7o que se arrega\u00e7ava, descobrindo os dentes enormes num sorriso parado. O som da vitrola ia quase desaparecendo, a la- gartixa subia a parede. Amaro vaqueiro, agitando o la\u00e7o, mastigava o cigarro de palha e mostrava os dentes pretos num sorriso parado. A cadeira suja de poeira, a mala suja de poeira. A roupa havia desaparecido.<\/p>\n<p>Seria bom levantar-me, procurar qualquer coisa para \u00a1 me vestir. Pouco tempo antes a roupa estava ali, no ! encosto da cadeira e em cima da mala. De repente um sumi\u00e7o. Quem me tinha dito aquele nome estranho? ; Fernando Inguitai, a lagartixa, a r\u00e9stia, Amaro va- queiro. A vitrola cantava baixinho: &#8211; &#8220;Fernando In- guitai.&#8221; Tentava sentar-me. Se isto me fosse poss.\u00edvel, procuraria roupa. Virava-me com dificuldade. Porque n\u00e2o entrava logo a pessoa que estava na sala? &#8211; &#8220;Obri- gado, Vit\u00f3ria. N\u00e3o quero comer. Traga um copo de \u00e1gua.&#8221; Vit\u00f3ria afastava-se arrastando os p\u00e9s, levando a bandeja com a comida que me dava engulhos. Minutos depois, l\u00e1 vinha, chap, chap, resmungando, a cara fe- chada, e entreava-me o copo. Eu bebia, molhando as cobertas. &#8211; &#8220;Obrigado, Rosenda.&#8221; Ficava suando e ar- quejando, a vista escurecia, estirava-me na prensa de farinha, junto ao muro. O barulho do descaro\u00e7ador de algod\u00e2o n\u00e2o me deixava dormir, os passos de Vit\u00f3ria morriam no corredor. Meu pai estava deitado, muito comprido, envolto num pano que se dobrava entre as pernas e tinha no lugar da cara uma n\u00f3doa vermelha cheia de moscas. As moscas n\u00e3o se mexiam, mas faziam um zumbido horrivel de carapan\u00e3.s. O olho de vidro de padre In\u00e1.cio estava parado, suspenso no ar, fora do corpo. A batina de padre In\u00e1cio, o capote do velho &#8216; Acrfsio, a farda de cabo Jos\u00e9 da Luz e o vestido ver- f \u00a1 melho de Rosenda estavam parados, suspensos no ar, 221 sem corpos. As carapan\u00e2s zumbiam. Os p\u00e9s de Camilo Pereira da Silva, escuros, ossudos, safam por uma das pontas do marques\u00e3o, medonhos Eu atravessava o cor- redor, ia \u00e0 sala, voltava a deitar-me na prensa, abria o livro que tinha chineses revolta,rlns. Mas as p\u00e1lpebras a cerravam-se, as carapan\u00e3s e o descaro\u00e7ador enchiam-me a cabe\u00e7a. Que motivo tinha Fernando Inguitai para rir-se? Empurrava os travesseiros e tentava abrir os olhos. Se pudesse levantar-me, tudo aquilo desapare- ceria. Iria conversar com o homem que me esperava na sala. &#8211; &#8220;N\u00e3o h\u00e1 chin\u00eas chamado Fernando.&#8221; Onde &#8216; tinha ouvido aquele nome de Inguftaf? Se Vit\u00f3ria me trouxesse um copo de \u00e1gua. .. Ali com sede, morrendo, sem um diabo que me desse uma xicara de caf\u00e9, um copo de \u00e1gua! Embalava-me com isto: &#8211; &#8220;Sozinho, sozinho, morrendo \u00e0 mingua, com sede.&#8221; Era bom que todos estivessem longe. O continuo da reparti\u00e7\u00e3o, t\u00e3o magro, t\u00e3o velho, t\u00e3o triste, movia-se tr\u00f4pego. D. Ad- lia dan\u00e7ara como carrapeta, e agora era aquilo que se vfa, mole, acabada, uma l\u00e1stima. Albertina de tal, par- teira diplomada. Quando eu entrava na reparti\u00e7\u00e3o, apressado e fora da hora, o cont\u00ednuo velho tinha um sorriso doce e alguma informa\u00e7\u00e3o \u00fatil. Os meus olhos abriam-se, fechavam-se, tornavam a abrir-se. Os caibros engrossavam, torciam-se, alvacentos e repugnantes como cobras descascadas. &#8220;Greve no caso de rea\u00e7\u00e3o.&#8221; Alguns letreiros estavam raspados, outros desapareciam sob as manchas que as \u00e1guas da chuva tinham produzido. Mas havia letreiros novos. As crian\u00e7as das escolas olhavam ara eles. O homem cabeludo que vendia aguardente p\u00f3 cuidava da sua vida. Albertina de tal, parteira diplo- mada. Onde estava a minha roupa? Queria vestir-me, sair pela rua, ler os jornais. Que diziam os jornais? Subir o morro do Farol, entrar nas bodegas, beber ca- cha\u00e7a. Seu Ivo me visitara, acocorara-se junto \u00e0 parede.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Leve a roupa, seu Ivo.&#8221; Seu Ivo tinha vestido a cal\u00e7a rasgada e o palet\u00f3 sujo. Talvez n\u00e2o tivesse ves- tido aquela imundfcie, talvez fosse tudo um sonho. Um homem na sala esperava com paci\u00eancia que me restabe- lecesse. Sair, entrar no caf\u00e9, viajar nos bondes. Onde estava a minha roupa? A cadeira perto da cama, o livro fechado sobre a palha. &#8211; &#8220;Leve isso daf, seu Ivo.<\/p>\n<p>222 i I A cal\u00e7a est\u00e1 rasgada. Cosa o rasg\u00e3o com uma corda.&#8221; Albertina de tal, parteira diplomada. Escurid\u00e3o. Um estremecimento, uma queda. Ia cair da cama, o ch\u00e3o se abriria, eu rolaria pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos fora disto. O espfrito de Deus boiava sobre as \u00e1guas. Livra- va-me do susto, pouco a pouco ia resvalando no entor- pecimento. Os caibros faziam voltas, as telhas se equf- libravam por milagre. Algumas dobras daquelas coisas brancas e moles desciam, aproximavam-se da minha boca, davarrx-me n\u00e1useas. A vitrola dizia: &#8211; &#8220;Fernando Inguitai.&#8221; Os reisados cantavam defronte da casa de seu Batista. Os mateus gritavam: &#8211; &#8220;Abra a porta, ioi\u00f4.&#8221; E as figuras todas: &#8220;Aqui estou na vossa porta como um feixinho de lenha.&#8221; Seu Batista n\u00e3o abria: espe- rava a cantiga que fazia as janelas se escancararem.<\/p>\n<p>E as figuras, o embaixador, o rei, a burrinha, os ma- teus, ficavam na cal\u00e7ada como um feixinho de lenha, fedendo a suor, gemendo os versos, at\u00e9 que seu Batista, importante, abria a sala, surgia vistoso, baixinho, ves- tido em rcbe-de-chambre. O feixinho de lenha entrava e cantava, seu Batista recolhia os capacetes dos ma- teus, a coroa do rei, a espada do errbaixador, os len\u00e7os das figuras, punha uns n\u00edqueis em tudo isso. O zumbido das carapan\u00e3s era insuport\u00e1vel. &#8211; &#8220;Um copo de \u00e2gua, Vit\u00f3ria.&#8221; Vit\u00f3ria n\u00e3o ouvia, e a leseira recome\u00e7ava. N\u00e3o havia escurid\u00e3o, a r\u00e9stia subia a parede. &#8211; &#8220;Leve a roupa, seu Ivo.&#8221; Seu Ivo se acocorara a um canto, silencioso, babando-se. Pimentel n\u00e3o aparecia. Devia ter aparecido, mas n\u00e2o me lembrava dele. Com certeza vie- ra num momento em que a febre era muito forte. Que doidices teria eu dito na presen\u00e7a de Pimentel? Um, dois, um, dois. Marchava &#8211; e n\u00e3o podia levantar-me da cama. Quatro paredes. As quatro paredes da re- parti\u00e7\u00e2o esmagavam-me. Algumas horas depois da fun- \u00e7\u00e3o, o feixinho de lenha, composto de mateus, figuras, burrinha, rei, embaixador, suaria arrastando a enxada no eito. &#8211; &#8220;Parem essa vitrola.&#8221; Fernando Inguitai, o bra\u00e7o carregado de voltas de contas, andava pela Rua do Com\u00e9rcio, fumando, sorrindo. Haveria algu\u00e9m neste mundo que se chamasse Inguitai? As cascav\u00e9is e as jararacas tomavam banho com a gente no po\u00e7o da Pedra. Uma delas se enroscara no pesco\u00e7o de meu av\u00f4.<\/p>\n<p>223 Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva sapar teava no ch\u00e3o de terra batida, uma alpercata salta- va-lhe do p\u00e9. Instituto Iist\u00f3rico e C+eogr\u00e1fico do Esp\u00ed- rito Santo, Instituto I4ist\u00f3rico e Cleogr\u00e1fico do Rio Gfrande do Sul. Ria-me como um idiota. Provavelmente havia institutos hist\u00f3ricos e geogr\u00e1ficos por esses lu- gares. Certas pessoas empurravam outras nas escadas e diziam: &#8211; &#8220;Desculpe:&#8217; O cego dos bilhetes de loteria cantava o n\u00famero, batendo cam o cajado no cimento do caf\u00e9. Virava-me para o espelho. Por detr\u00e1s das letras brancas, rostos medonhos arreganhavam os dentes e piscavam os olhos. As letra,s torciam-se, os caibros tor- ciam-se, baixavam, brancos, moles, como cobras descas- cadas, 1e.384. O cajado batendo no cimento, avan\u00e7ando , para mim, amea\u00e7ando-me com uma tira de papel, que ? engrossava e queria morder-me. Mois\u00e9s aproximava-se, &#8216; comprava a tira de papel, que se enrolava nos dedoa dele, e lia em voz alta uma infinidade de vezes: &#8211; &#8220;16.384.&#8221; Eu ia fugir, mas Fernando Inguitai estava na cal\u00e7ada, esperando-me para vender uma volta de contas.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Vai-te embora, Mois\u00e9s.&#8221; N\u00e3o queria voltas de con- tas nem queria ouvir a leitura daquele n\u00famero. N\u00e3o era n\u00famero: eram palavras incompreensiveis, hist\u00f3rias da China. Mois\u00e9s virava a p\u00e1gina, que ficava mexen- do-se. A cadeira mexia-se. Afastava-me, com medo da cadeira. No dia seguinte, quando viesse varrer o quarto, , Vit\u00f3ria a poria no lugar do costume, junto \u00e0 mala, mas durante uma noite inteira o m\u00f3vel caprichoso n\u00e3o me deixaria descansar. Eu tremia e receava que Mois\u00e9s se losse embora. Voltaria o sil\u00eancio, a cadeira se chegara mais \u00e0 cama. &#8211; &#8220;Continue, Mois\u00e9s. E isso mesmo.&#8221; N\u00e3o o entendia, mas aprovava-o com a cabe\u00e7a e com pala- vras assim. A voz rolava, lenta e mon\u00f3tona, o dedo comprido virava a p\u00e1gina e gesticulava diante da mi nha cara. Passavam chineses armados. E o dedo enro, la,va-se, dava um n\u00f3. A leitura era um zumbido, un enxae de carapan\u00e3s lia o livro dificil. Estava a ba lan\u00e7ar-se numa rede, ia acima e vinha abaixo. E quan- do subia, abria os olhos, via o dedo perto das minhas ventas; quando descia, ouvia o arranhar da vitrola. Os ratos do arm\u00e1rio dos livros roiam o disco da vitrola, e a vitrola dizia baixinho: &#8211; &#8220;Fernando Inguitai.&#8221; 224 i A r\u00e9stia sumia-se, Mois\u00e9s levantava-se, puxa.va a cor rentinha da l\u00e2mpada, tornava a sentar-se. &#8211; &#8220;Obrigar do, Mois\u00e9s.&#8221; Ali perdendo tempo, lendo para me distrair.<\/p>\n<p>Excelente camarada. &#8211; &#8216;E preciso que dr. Ciouveia man de limpar estas paredes.&#8221; Cafa em mim, arrepen- dia-me de ter falado. Certamente as paredes necessita vam limpeza, zangar-me-fa se algu\u00e9m me dissesse que n\u00e3o, mas a necessidade exigia explica\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o me poderia fazer compreender. Ao mesmo tempo temia que o judeu mangasse de mim por eu haver interrompido a leitura com uma frase besta tamos discutir. fteceava encolerizar-me e ser grosseiro com um visitante. Se ele concordasse comigo, seria por eu estar doente. N\u00e3o me conformava com isto. Preciso da condescend\u00eancia dos outros? Sou alguma crian\u00e7a? Porque tinha ele suspen- dido a leitura e esbugalhava para mim aqueles olhos de mal-assombrado? Seria melhor destampar logo e de clarar francamente que as paredes n\u00e3o necessitavam limpeza. De qualquer modo seria f\u00e1cil um rompimento entre n\u00f3s. Cada qual para o seu lado, cada qual com as suas id\u00e9ias. Mois\u00e9s levantava-se, despedia-se. Eu es- condia as m\u00e3os nas cobertas, enrolava o pano debaixo do queixo e tremia, pedia-lhe com os olhos que n\u00e3o me deixasse s\u00f3 entre aquelas paredes horrfveis. Agora Mois\u00e9s me havia abandonado, e eu batia os dentes como um caititu. As paredes cobriam-se de letreiros incendi\u00e1- rios, de l\u00e1grimas pretas de piche. As letras moviam-se deixavam espa\u00e7os que eram preenchidos. Estava ali um tip\u00f3grafo emendando composi\u00e7\u00e3o. E o piche corria, der- ramava-se no tijolo. Amea\u00e7as de greves, peda\u00e7os da Internacional. Um, dois&#8230; Impossivel contar a,s legen- das subversivas. Havia umas enormes, que iam de um ao outro lado do quarto; uma,z pequeninas, que se tor- ciam como cobras, arregadavam os olhinhos de cobras mostravam a lingua e chocalhavam a cauda. As letras tinham cara de gente e arrega\u00e7avam os bei\u00e7os com fero- cidade. A mulher que lava garrafas e o homem que enche dornas agitavam-se na parede como borboletas espetadas e formavam letreiros com outras pessoas que lavavam garrafas, enchiam dornas e faziam coisas dife- rentes. A datil\u00f3grafa dos olhos agateados tossia, as filhas de Lobisomem encolhiam-se por detr\u00e1s das ou- 225 tras letras, AntBnia arrastava as pernas grossas cober tas de marcas de feridas, a mulher da Rua da Lama &#8221;&#8217; cruzava as m\u00e3os sobre o joelho magro e curvava-se para esconder as pelancas da barriga escura. Um choro longo subia e descia: &#8211; &#8220;Que ser\u00e1 de mim? Valha-me Nossa Senhora.&#8221; Um moleque morria devagar, mutila.<\/p>\n<p>do, porque havia arrancado os tampos da filha do patr\u00e3o. Fazia um gorgolejo medonho e vertia piche das chagas. 16.384. O cego dos bilhetes batia com o cajado , na parede. &#8211; &#8220;Afastem esta cadeira.&#8221; Seu Ivo estava de c\u00f3coras, misturado \u00e0s outras letras. A cal\u00e7a rasgada &#8216; e o palet\u00f3 sujo eram cor de piche. Cirilo de Engr\u00e1cia, carregado de cartucheiras e punhais, encostava-se a uma \u00e1rvore, amarrado, os cabelos cobrindo o rosto, os p\u00e9s com os dedos para baixo. A sentinela cochilava no por- t\u00e3o do pal\u00e1cio. Um ventre enorme crescia na parede , uma criatura mal vestida passava arrastando a filha ,; pequena, um brilho de \u00f3dio no olho \u00fanico. Sinha Terta gemia: &#8211; &#8220;Minha santa Margarida.. &#8221; O dono da bo- dega, triste, fincava os cotovelos no. balc\u00e3o engordu- rado. As crian\u00e7as faziam voltas em redor da barca de terra e varas. A rapariga pintada de vermelho espalhava um cheiro esquisito. O engraxate escutava hist\u00f3rias de capueiras. O homem acaboclado cruzava os bra\u00e7os, moa- trando bfceps enormes. O mendigo estirava a perna entrapada e ensang\u00fcentada. As mosc:.s dormiam, e o mendigo, com a muleta esquecida, bebia cacha\u00e7a e ria.<\/p>\n<p>Passos na cal\u00e7ada. Quem ia entrar? Quem tinha neg\u00f3- cio comigo \u00e0quela hora? Necess\u00e1rio Vit\u00f3ria fechar as portas e despedir o h\u00f3spede inc\u00f4modo que n\u00e3o se arre- dava da sala. Mas Vit\u00f3ria contava moedas, na parede, resmungava a entrada e a sa\u00edda dos navios. A placa azul de d. Albertina escondia-se a um canto, suja de piche.<\/p>\n<p>Todo aquele pessoal entendia-se perfeitamente. O ho- mem cabeludo que s\u00f3 cuidava da sua vida, a mulher que trazia uma garrafa pendurada ao dedo por um cord\u00e3o, Rosenda, cabo Jos\u00e9 da Luz, Amaro vaqueiro, as figuras do reisado, um vagabundo que dormia nos bancos dos jardins, outro vagabundo que dormia de- baixo das \u00e1rvores, tudo estava na parede, fazendo um zumbido de carapan\u00e3s, um burburinho que ia crescendo e se transformava em grande clamor. Jos\u00e9 Ba\u00eda acenar 226 varme de longe, sorrindo, mostrando as gengivas ba guelas e agitando os cabelos brancos. &#8211; &#8220;Jos\u00e9 Bafa, meu irm\u00e3o, est\u00e1s tamb\u00e9m a\u00ed?&#8221; Jos\u00e9 Ba\u00eda, tr8pego, rom pia a archa. Um, dois, um, dois. . A multid\u00e3o que fervilhava na parede acompanhava Jos\u00e9 Ba\u00eda e vinha deitar se na minha cama. Quit\u00e9ria, sfnha Terta, o cego dos bilhetes, o cont\u00ednuo da reparti\u00e7\u00e3o, os cangaceiros e os vagabundos, vinham deitar-se na minha c,ama.<\/p>\n<p>Cfrilo de Engr\u00e1cia, esticado, amarrado, marchando nas pontas dos p\u00e9s mortos que n\u00e3o tocavam o ch\u00e2o, vinha deitar-se na minha cama. Fernando Inguitai, com o bra\u00e7o carregado de voltas de contas, vinha deitar se na minha cama. As riscas de piche cruzavam-se, forma- vam grades. &#8211; &#8220;Jos\u00e9 Baia, meu irm\u00e3o, h\u00e1 que tempo!&#8221; As crian\u00e7as corriam em torno da barca. &#8211; &#8220;Jos\u00e9 Ba\u00eda,, meu irm\u00e3o, estamos t\u00e3o velhos! &#8221; Acomodavam-se todos.<\/p>\n<p>16.384. Um colch\u00e2o de paina. Milhares de figurinhas insignificantes. Eu era uma figurinha insignificante e mexia-me com cuidado gara n\u00e3o molestar as outras.<\/p>\n<p>16.384. famos descansar. Um colch\u00e3o de pain&amp; . s 22? T Vis\u00e3o de Graciliano Ramos oTTo cBux A mestrio singular do romancista Graciliano Ramo,t reside no seu estilo. Para salvar esta frase da aprecia\u00e7\u00e3o como &#8220;lugar-comum&#8221; \u00ed preciso definir o que \u00e9 estilo: escolha de palavras, escolha de constru\u00e7\u00f5es sint\u00e1ticas, escolha de rit- mos dos fatos, escolha dos pr\u00f3prios fatos, para conseguir uma composi\u00e7\u00e3o perfeitamente pessoal: pessoal, no caso, &#8220;d ma neira de Graciliano Ramos&#8221;. Estilo \u00ed escolha entre o que deve f icar na p\u00e1gina escrita e o que deve ser omitido; entre o que deve perecer e o que deve sobrevlver. Vamos ver o que Graciliano Ramos escolhe.<\/p>\n<p>B muito meticuloso. Quer eliminar tudo o que n\u00e3o \u00e1 essencial, as descri\u00e7\u00f5es pitorescas, o lugar-comum das frases- feitas, a eloq\u00fc\u00eancia tendenciosa. Seria capaz de eliminar ain- da p\u00e1ginas lnteiras, capttulos inteiros, eliminar os seus roman- ce inteiros, eliminar o pr\u00f3prio mundo: para guardar apenaJ aquilo que \u00e9 essencial, isto \u00ed, conforme o conceito de Bene- detto Croce, o elemento &#8220;lfrico&#8221;. O lirismo de Graciliano Ramos, por\u00e9m, \u00ed bem estranho. N\u00e3o tem nada de musical, nada do desejo de dissolver em canto o mundo das coisas; acredito-o incapaz de escrever o \u00faltima p\u00e1gina de Moleque Ricardo, de los\u00ed Lins do R\u00f3go, talvez a mais comovente p\u00e1gina de prosa da literatura brasileira. O lirismo de Graci liano Ramos \u00e9 amusical, adin\u00e2mico; \u00ed est\u00e1tico, s\u00f3brio, clbssi- co, classicista, traindo d,i vezes, num oculto passado parna- siano do escritor. N\u00e3o quer dissolver o mundo agitado, quer fix\u00e1-lo, estabiliz\u00e1-lo. Elimina implacavelmente tudo o qus n\u00e3o se presta a tal obra de escultor, dissolve.o em ridicula- rias, para dar lugar aos seus monumentos de baixeur.<\/p>\n<p>Com efeito, o material desse classicista \u00e1 bem estranho: \u00e9 o mundo in f erior; \u00e0s maiJ das vezes, o mundo inf ernal. L\u00e1, 231 as almas s\u00e3o ca\u00e7adas por um turbilh\u00e3o demon\u00edaco de ang\u00fcs- tias, como as almas no \u00e1trio do Inferno de Dante: &#8220;Quivi sospiri, pianti ed altl guai Risonavan per !&#8217;aer senza stelle&#8230;<\/p>\n<p>Diverse lingue, orribili \/avelle Parole di dolore, accenli d&#8217;iro&#8230;<\/p>\n<p>uma fortuna sem fim; o pr\u00f3prio Dante apiedou-se dos que . nor hanno speranzn di morte, E ta lor creca vita \u00e9 tanto bo.ssa, Che invidiosi son d&#8217;agni altra sorle.&#8221; S\u00e3o aqueles dos quais o romancista Graciliano RamoJ tamb\u00e9m se apieda: pois esse homem aparentemente t\u00e3o duro est\u00e1 cheio de miseric\u00f3rdia. Procura-Ihes a &#8220;altra sorte&#8221;, esta- bilizando, classicamente, o turbilh\u00e3o, eliminarulo tudo o que n\u00e3o \u00e9 essencial; erigindo-os em monumentos dt baixeza, como criaturas petrijicodas dum maligno Demiurgo, restos f\u00f3sJeiJ duma cria\u00e7\u00e3o malograda, redimidos, enfim, pela cria\u00e7\u00e3o mor- t\u00edfera da arte. Graciliano Ramos \u00e9 o cl\u00e1ssico deste mundo da mortc.<\/p>\n<p>E&#8217; um cl\u00e1ssico. Mas &#8211; contradi\u00e7\u00e3o enigm\u00e1tica &#8211; \u00e9 urn clbssico experimentedor. A estr\u00e9ia excepcionalmente tardia, com mais de quarenta anos de idade, deve ter sido precedida de vagarosos preparativos dum experimentador; e mesmo depois continuou sempre experimentado. O nosso amigo co- mum Aur\u00e9lio Buarque de Holanda chamou-me a aten\u00e7\u00e3o para a circunst\u00e2ncia de representar cada uma das obras de Graciliano Ramos um tipo dijerente de romance. Com ejeito: Caet\u00e9s \u00e9 dum E\u00e7a brasileiro; S\u00e3o Bernardo tem algo de um Balzac rural; Ang\u00fastia antecipa o &#8220;nouveau roman&#8221; e Vidas Secas lembra certos contistas russos, Babel por exemplo. Gra- ciliano Ramos faz experimentos com a sua arte; mas como esse mestre singular n\u00e3o precisa disso, temos af um ind\u00edcio certo de que est\u00e1 buscando a solu\u00e7\u00e3o dum problema vital.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o disse nada para comparar. Compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o f\u00e1ceis e in\u00fateis, produzem apenas aprecia\u00e7\u00f5es de clich\u00e3. N\u00e3o chegam a penetrar no cora\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o pessoal; e justamen- te isto \u00e9 a minha mui modesta ambi\u00e7\u00e3o. Para tent\u00e1-lo, vou 232 escolher um processo estranho, estranho como o meu assun- to. Vou construir uma teoria para apanhar a minha v\u00ed\u00fcma, vou constru\u00ed-la de peda\u00e7os de outras cria\u00e7\u00f5es, alheias, com as quai:: Graciliano Ramos n\u00e3o tem nada que ver, vou colher esses peda\u00e7os, entregando-me ao jogo livre das associa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Gastei meses construindo esta Marina que vive dentro de mim, que \u00e9 di f erente da outra, mas que se con f unde com ela.&#8221; Vou construir o meu Graciliano Ramos.<\/p>\n<p>&#8220;Meu pai, reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palhas de milho para cigarros, lendo o Car- los Magno, sonhando&#8230; &#8216; Logo me lembro do pintor incom- par\u00e1vel da vida est\u00e1tica, im\u00f3vel, inconsciente, nos &#8220;engenhos&#8221; escravocratas da R\u00fassia tzarista, daquele Gontcharov de quem me Iembrei quando j\u00e1 Ii compara\u00e7\u00f5es do Brasil escravocrata com a R\u00fassia servil. Os romances de Gontcharov pintam classicamente um mundo primitivo, amoral, &#8220;a-trabalhador&#8221;, pregui\u00e7oso demais para trabalhar, amar, viver. Parecem id\u00ed- lios de pura &#8220;art pour 1&#8217;art&#8221;; s\u00e3o acusa\u00e7\u00f5es terr\u00edveis contra o regime, contra o Estado russo, que quis rnovimentar esse mundo im\u00f3vel por pretensas reformas econ6micas e sociais.<\/p>\n<p>O primeiro romance de Gontcharov chama-se: Uma Hist\u00f3ria Simples; o \u00faltimo: A Queda.<\/p>\n<p>O sat\u00edrico malicioso dagueles movimentos \u00e9 outro russo que me ocorre, Saltykov-Chtchedrin, tamb\u00e9m partid\u00e1rio da imo\u00f3ifidade conservadora, contra os experimentos liberais dos tzares de ent\u00e3o, e gue a todos pareceu um revolucion\u00e1rio, menos \u00e0 censura, d qual e1e sabia enganar pela sua mestria singular de estilista. Saltykov escreveu uma maravilhosa His- t\u00f3ria da R\u00fassia, romanceada, come\u00e7ando com a chamada, pelo povo russo, dos tr\u00eas irm\u00e3os Ruriks, fundadores da dincts- tia, para &#8220;sistematizar e codificar a desordem e a viol\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c0 boa maneira das epop\u00e9ias, os irm\u00e3os sonham, na noite ante- rior d coroa\u00e7\u00e3o, a futura hist\u00f3ria russa, e o sonho \u00e9 t\u00e3o ter- rfvel que dois dos irm\u00e3os logo se suicidam. Ao terceiro, po- r\u00e9m, diz o povo: &#8220;Que te Importam as mentiras que os nossos descendentes v\u00e3o aprender na escola?&#8221; E ele funda o imp\u00e9rio russo, &#8220;o maior imp\u00e9rio da hist\u00f3ria, maior do que Roma; pois em Roma brilhava o paganismo, e entre n\u00f3s brilha do mesmo mvdo o cristianismo; em Roma raivava a plebe, e entre ru5s raiavam do mesmo modo as autoridades&#8221;. Assim, tudo ficava bem. At\u00e9 que, um dia, um tzar teve a id\u00e9ia desgra\u00e7adca de 233 reformar o Bstado e a civiliza\u00e7\u00e3o. Fundou uma Academia de Letras e promulgou uma legisla\u00e7\u00e3o social, em virtude da qual &#8220;foi proibido cozer p\u00e3o de cimento ou argamassa&#8221;. O povo, agradecido, povoou a cidade de monumentos dos seus prfncipes, na esperan\u00e7a de fazer petrificar, parar, assim, as atividades deles. Mas, pelos beneffcios do governo, os homens transformaram-se em lobos famintos, como numa f\u00e1bula de Saltykov, O Pobre Lobo, o monstro que n\u00e3o \u00e9 maligno, mas que n\u00e3o pode viver sem carne e que, por isso, deve matar, e invoca a morte salvadora para as vftimas e para si mesmo.<\/p>\n<p>O monstro lembrcme, por sua vez, o terrfvel Leviat\u00e3, de lulien Green, que vive no cora\u00e7\u00e3o de inofensivos mestres- escolas, filhas de famflia, rendeiros abastados, para revol- tar-se de s\u00fabito, um dia, arremessar-se insaciavelmente, o monstro, por quartos de assass\u00ednios, escadas funestas, becos escuros, at\u00e9 descansar, esgotado, \u00e0 margem do rio noturno, que corre lento, sujo, pela cidade, \u00fanico resto da paisagem primitiva que existia antes desse mundo artificial e miser\u00e1vel de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, jornais p\u00fablicos, mulheres p\u00fablicas, e que ainda existir\u00e1 quando tudo isto houver acabado. E o monstro desgra\u00e7ado curva-se nostalgicamente sobre a \u00e1gua escura, suja, que Ihe oferece a \u00faltima possibilidade de salva- \u00e7\u00e3o: o pr\u00f3prio rosto, refletido l\u00e1 no fundo, \u00e9 o da moste.<\/p>\n<p>Todos os personagens de Graciliano Ramos s\u00e3o tais monstros, revoltedos, ca\u00e7ados, nost\u00e1lgicos da morte, com os quais o Demiurgo. o &#8220;presidente dos imorta.&#8217;s&#8221;, brinca. A ex- press\u00e3o &#8220;the president of the immortats&#8221; \u00e9 de Thomas Har- dy, intelectual pequeno-burgu\u00eas, perdido no &#8220;sert\u00e3o&#8221; ingl\u00eas de Wessex, a paisagem mais agr\u00e1ria, mais atrasada, mais pri- mitiva da Inglaterra, onde se passam todos os seus romances, t para onde o velho Hardy enfim se retirou, a viver a vida arcaica e im\u00f3vel dos rochedos e pdntanos, abandonando, enfim, o romance para fazer s\u00f3 os seus pequenos poemas endurecidos como monumentos pr\u00e9-hist\u00f3ricos, e cujas rimas jielmente tradicionais anunciam a reconcilia\u00e7\u00e3o resignada do poeta com o mundo morto: &#8216;Btaek lJ ntght&#8217;s eope; But death xrill not appat One who, past dgubtingJ all.<\/p>\n<p>Waita !n tmhopr.&#8217; O crftico espanhol los\u00e9 Bergamin gostaria dessas assv- cia\u00e7\u00f5es. Confirmam a sua teoria do romance: o leitor perde- se no romance para esquecer o seu mundo, mas reeneontra-se I\u00e1, reconhecendo que o seu pr\u00f3prio mundo est\u00e1 chamado a desaparecer: &#8220;Perderse para encontrarse, para perderse.&#8221; O romance seria um processo de economia mental para apressar o fim do mundo: &#8220;Cada novela es la manifestaci\u00f3n de um mundo llamado a desaparecer, y que antes de desaparecer quiere aparecer, comparecer: y aparece, comparece em efecto, solicitando, esperando ser juzgado.&#8221; B a teoria dum espanhol, dum crist\u00e3o, dum pessimista.<\/p>\n<p>A teoria dum espanhol, isto \u00e9, dum homem que toma radi- calmente a s\u00e9rio o cristianismo. A teoria dum crist\u00e3o, isto \u00e9, dum homem que sabe que esta vida n\u00e3o presta. ,\u00c9 uma teoria de est\u00e9tica pessimista.<\/p>\n<p>Toda literaturcr pessimista eneontra uma resist\u00eancia fan\u00e1- tica; Ieitores e cr\u00edticos n\u00e3o gostam disso. Sentem vagamente que arte e pessimismo se contradizem. Mas em vez de estu- darem esteticamente a poss\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o, entrincheiram-s em regires fora da arte, nn filosofia, na \u00e9tica, para bombar- dear o romancista com as censuras de &#8220;pouca generosidade&#8221; ou de n\u00fclismo \u00efnsaud\u00e1vel. N\u00e3o admito preconceitos. O pes- simismo n\u00e3o \u00e9 uma moral nem uma filosofia. um estado de crlma. B preciso esbo\u00e7ar uma psicologia do pessimismo.<\/p>\n<p>Penso em Schopenhauer. N\u00e3o \u00e9 um sistema filos\u00f3fico.<\/p>\n<p>L um caso psicol\u00f3gico. Pretendeu ser fil\u00f3sofo, ensinar uma filosofia da salva\u00e3o do mundo do sofrimento universal. Mas a sua personalidade o desmentiu. Ao desprezo filos\u00f3fico do mundo uniu um instinto ardente de propriedade e de prazer.<\/p>\n<p>Dinheiro e mulheres signi ficavam-!he al,quma coisa. Quis uti- lizar os homens profundamente desdenhados como meros ins- trumentos dos seus desejos, e quanto mais eles se recusaram, tanto mais os desdenhou. Sofria de hipocondria, de graves ata- ques de pavor noturno, de ang\u00fastia. Teve uma miseric\u00f3rdia ilimitada para consi,go mesmo. Como psic\u00f3logo, reconheceu que toda miseric\u00f3rdia para com outros \u00e9 secreta miscric\u00f3rdia para consigo mesmo: e salvou-se moralmente pela ide.ntifica- \u00e3o pantefsta do seu eu angustiado com o mundo sof redor, pela f\u00f3rmula budista: &#8220;Tat twam asi&#8221;, &#8220;Isto, \u00e9s tu&#8221;. O seu supremo egocentrismo chegou at\u00e9 a negar a realidade do mun- do exterior; considerou a vida um sonho, sonho horrfvel do qual existe apencu uma possibilidade de acordar: em outro 235 conho, na arte. Na arte, o tur\u00f3ilh\u00e3o angustiado encontra a calma; a estabilidade do estado primitivo antes da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 restabelecida. (Como as palavras rimarn, enjim.) A arte \u00e9 uma ast\u00facia do esp\u00edrito humano, para f raudar o mau Demiur- go das suas v\u00edtimas, para ironizar a cria\u00e7\u00e3o malograda.<\/p>\n<p>A ironia \u00e9 uma arma suprema. &#8220;C&#8217;est 1&#8217;ironie&#8221; &#8211; diz Max lacob &#8211; &#8220;qui 1ui fournit chaque jour une c1\u00e9 pour sor- tir de sa prison&#8221;. \u00c9 um m\u00e9todo para anular a obra do De- miurgo. &#8216;&#8221;Revogam-se as disposi\u00e7\u00f5es em contr\u00e1rio&#8221;. E tor- nam-se in\u00fateiJ todas as revolu\u00e7\u00f5es. Em compara\u00e7\u00e3o corn aguela ironia supra-realista, todas as revolu\u00e7\u00f5es, intimamente ligadas a este mundo de maldi\u00e7\u00e3o por meio dum otimismo cr\u00e9dulo nas transforma\u00e7\u00f5es exteriores, parecem ridiculamente ineptas, impotentes contra &#8220;the ingenious machinery contrived by the Gods for reducing human possibilities of amelioralion to a minimum&#8221;. Acredito que Graciliann Ramos pode con- formar-se com esta frase de Thomas Hardy. Suas convic\u00e7\u00f5es s\u00e3o as de um revolucion\u00e1rio. Graciliano tem o direito e o dever de manter suas convic\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. Mas es.ar n\u00e3o seriam transform\u00e1veis em arte, o n\u00e3o ser passando pela fase transicional da eloq\u00fc\u00eancia, que Graciliano detesta. Real- mente, para Graciliano n\u00e3o s\u00e3o transform\u00e1veis em arte; e isto \u00e9 significativo. Lu\u00eds Padilha e o judeu Mois\u00e9s n\u00e3o s\u00e3o her\u00f3is revolucion\u00e1rioJ. Cada vez que o romancista cede d tenta\u00e7\u00e3o de formular programas de reformas sociais &#8211; c profe.ssora Madalena fala assim &#8211; cai logo na armadilha do seu inimigo mais detestado: 0 lugc,.r-comum; no caso o lugar-comum hu- manit\u00e1rio, da &#8220;generosidade&#8221;, que o seu cr\u00edtico mais incom- preensivo lhe aconselhou. Certamente, a alma deste roman- cista seco n\u00e3o \u00e9 seca; \u00e9 cheia de miseric\u00f3rdia e de simpatia para com todas as criaturas, \u00e9 muito mais vasta do que um mestre-eseola filantr\u00f3pico pode imaginar: abrange at\u00e9 o mudo assassino Casimiro Lopes, at\u00e9 a cachorrinha Baleia, cuja mor te me comoveu intensamente: &#8220;Tat twan asi&#8221;. A miseric\u00f3rdia do pessimista para consigo mesrno \u00e9 t\u00e3o compreensiva que medita todos oJ meios de salva\u00e7\u00e3o, para deter-se apena.s na \u00faltima: a destrui\u00e7\u00e3o deste rnundo, para libertar todas as crio- turas. &#8220;Un mundo, llamado a desaparecer.&#8221; R preciso destruir o mundo exterior para salvar a alma.<\/p>\n<p>A realidade, nos romances de Graciliano Ramos, n\u00e3o \u00e9 deJte mundo. \u00c9 uma realidade diferente. Ap\u00f3,r ter lido Ang\u00fastia at\u00e9 o fim, \u00e9 preciso reler as primeiras p\u00e1ginas, para Z36 compreend\u00e3&#8221;las. B um mundo jechado em si mesmo. Que mundo \u00e9T &#8220;N\u00e1 ncu minhas recorda\u00e7\u00f5es estranhos hiatos. Fixaram- se coisas insigni f icantes. Depois um esquecimento quase com- pleto&#8221; &#8211; confessa Lu\u00fa da Silva em Ang\u00fastia. E depois: &#8220;Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente. Vamos andando sem nada ver. O mundo \u00e9 empastado e nevoento.&#8221; E confessa: &#8220;N\u00e3o sei se com os outros se d\u00e1 o mesmo. Comigo \u00ed assim.&#8221; \u00c9 assim com todos n\u00f3s outros, quando entramos no mundo empastado e nevoen- to, noturno, onde os romances de Graciliano Ramos se pas- sam: no sonho. Os hiatos rias recorda\u00e7\u00f5es, a carga de .acon- tecimentos insignificantes com fortes aJetos inexplic\u00e1veis, eis a pr\u00f3pria &#8220;t\u00edcnica do sonho&#8221;, no dizer de Freud. Ilvaro Lins, no melhor artigo que se escreveu sobre Graciliano Ramos, observa agudamente a abstra\u00e7\u00e3o do tempo &#8211; &#8220;Mas no tempo, n\u00e3o havia horas&#8221;, cita o cr\u00edtico &#8211; e acrescenta: &#8220;As outr,r personagens s\u00e3o proje\u00f5es da personagern principal. 7uli\u00e3o Tavares e Marina s\u00f3 existem para que Lu\u00eds da Silva se ator mente e rometa o seu crime. Tudo vem ao encontro da per sonagem principal &#8211; inclusive o instrumento do crime.&#8221; Esta,t palavras do cr\u00edtico constituem a chave da obra do roman- cista: descrevem perfeitamente a nossa situa\u00e7\u00e3o no sonho, em qut tudo \u00e9 cria\u00e7\u00e3o do nosso pr\u00f3prio tspFrito. Explica-se aJ- sim o extremo egofsmo dos her\u00f3is de Graciliano Ramos: \u00e9 o egotsmo daquele que sonha e para o qual, prisioneiro durn mundo irreal, s\u00f3 ele mesmo existe realmente. A mentalidade inteiramente amoral do sonho exclui, decerto, toda &#8220;generosi- dade&#8221;; mas a substitui por um sentimento mais vasto de iden- tifica\u00e7\u00e3o quase mfstica com as criaturas da pr\u00f3pria imagina- \u00c7\u00e3o, at\u00e9 a cachorrinha Baleia: &#8220;Tat twan asl.&#8221; O extremo egotsmo do sonho engendra o motivo prln- cipal do romancista: cobi\u00e7a de propriedade. Propriedade de ttrra, de mulher, em S\u00e3o &amp;rnardo; oqui e em Ang\u00fastia, a forma extrema de.rta cobi\u00e7a, o ci\u00fame. Por isso, nos romances de Graciliano Ramos, esses aftto,r ultrapassam toda rrfedida; sugerem, ao lado doJ afetos an\u00e1logos na vida real, a impres- s\u00e3o de sentimentos patol\u00f3gicos. E quando o autor coruidera os monstros da sua ang\u00fastia de sonho, lan\u00e7a o seu grito mais elementar: &#8220;Dinheiro e propriedade d\u00e3o,me Jempre de- sejos violentos de mortandade e outraJ destrul\u00e7\u00f5e.t.&#8221; S\u00e3o palo.<\/p>\n<p>vras que exprimern, de maneira perfeita, o duplo stntido do 837 pensamento de Graciliano Ramos: de um lado, seu socialis- mo revolucion\u00e1rio, Iigeiramente tingido de veleidades de anar- quista, das suas convic\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-polfticas; por outro lado, esse mesmo anarquismo, sublimado at\u00e9 a capacidade de cons- truir, em cima da terra arrasada, um mundo novo, o da cria- \u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n<p>Todos os romances de Graciliano Ramos &#8211; e este \u00e9 o sentido do seu experimentar &#8211; s\u00e3o tentativas de destrui- \u00e7\u00e3o: tentativas de &#8220;acabar com a minha mem\u00f3ria&#8221;, tentativas de dissolver as recorda\u00e7\u00f5es pelos &#8220;estranhos hiatos&#8221; dum sonho angustiado Trata-se de saber que mundo de recorda\u00e7\u00f5es se dissolve assim. A resposta \u00e9 bastante dif fcil. Surge o clich\u00ea de que Graciliano teria sido, na mocidade, um f rustrado sertanejo culto&#8221;: e sugere aos cr\u00edticos a id\u00e9ia de que o romancista est\u00e1 furioso contra o ambiente selvagem do seu passado. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. N\u00e2o \u00e9 o sert\u00e3o o culpado; Vidas Secas \u00e9 o seu ro- mance relativamente mais sereno, relativamente mais otimista.<\/p>\n<p>O culpado \u00ed &#8211; superficialmente visto numa primeira aproxi ma\u00e7\u00e2o &#8211; a cidade. O her\u00f3i de Graciliano Ramos \u00e9 o serta nejo desarraigado, levado do mundo primitivo, im\u00f3vel, parc o mundo do movimento. E o vagabundo (&#8220;um pobre nordesti no. . . &#8220;); e explica-se o seu \u00f3dio balzaquiano ao mundo bur gu\u00eas, que conseguiu a estabilidade relativa do com\u00e9rcio d secos e molhartos. Esta vagabundagem \u00e9 o aspecto sociol\u00f3gi co do egofsmo do sonho quando se choca com a realidade. i o desejo violento do vagabundo de resta\u00f3elecer-se na terra &#8220;Como a cidade me afastara de meus av\u00f3s.&#8221; Mas \u00e9 apena uma explica\u00e7\u00e3o em primeira aproxima\u00e7\u00e3o: pois Paulo Hon\u00f3ri consegue o seu fim, e, contudo, \u00e9 uma vida malograda. Po qu\u00ea? Porque o seu criador quer mais do que terra, casa, di nheiro, mulher. Quer realmente voltar aos av\u00f3s. Voltar imobilidade, \u00e0 estabilidade do mundo primitivo. E para ctin gir este jim, deve antes destruir o mundo da agita\u00e7\u00e3o angu .tiada, na qual est\u00e1 pres.<\/p>\n<p>Os romances de Graciliano Ramos s\u00e3o experimentos par acabar com o sonho de ang\u00fastia que \u00e9 esta vida. Uma lend budista conta dum homem que correu, ao sol do meio-du para fugir \u00e0 sua sombra, que o angustiava; correu, corre sempre perseguido pelo companheiro sinistro, at\u00e9 que encor trou o grande S\u00e1bio, que Ihe disse: &#8220;N\u00e3o continues a f ugi Assenta-te sob esta \u00e1rvore.&#8221; E como ele parou, a somb 238 desapareceu. A sombra sobre o mundo de Graciliano Ra- mos n\u00e3o \u00e9 a sombra da \u00e1rvore da salva\u00e7\u00e3o, mas do ediffcio da nossa civiliza\u00e7\u00e3o artificial &#8211; cultura e analfabetismo le- trados, sociedade, cidade, Estado, todas as autoridades tem- porais e espirituais, que ele convida ironicamente &#8211; no come- \u00e7o de S\u00e3o Bernardo &#8211; a colaborar na sua obra de destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas eles mostram-se incapazes de cometer o suic\u00eddio propos- to. Entrincheiram-se na &#8220;dura realidade&#8221;, imposta a todas as criaturas do Demiurgo, e que se arroga todos os atributos da eternidade. O romancista, por\u00e9m, n\u00e3o se conforma. Trans- forma esta vida real em sonho &#8211; pois ao sonho, enfim se acorda. Ent\u00e3o, as disposi\u00e7\u00f5es junestas do Demiurgo seriam revogadas, e o destruidor poderia dizer, com o Gide das Nouvelles Nourritures: &#8220;Table rase. I&#8217;ai tout balay\u00e9. C&#8217;en est jait. le me dresse nu sur la terre vi\u00e8rge, derri\u00e8re le ciel d repeupler.&#8221; O fim \u00e9 o estado primitivo do mundo &#8211; o c\u00e9u repovoa- do. Ent\u00e3o, a ang\u00fastia j\u00e1 n\u00e3o assusta.<\/p>\n<p>&#8220;Black is night&#8217;s cope; But death will not appal One who. past doubtings atl, WaitJ in unhape.&#8221; Foi a \u00faltima sabedoria po\u00e9tica do romancista Thomas tlardy, versos duros populares e cl\u00e1ssicos ao mesmo tempo, rimados em sinal da concord\u00e2ncia resi,qnada com o mundo &#8211; teria sido poss\u00edvel gue o romc..ncista Graciliano R\u00e0mos escrevesse tamb\u00e9m, um dia, tais versos. duros, populares e cl\u00e1ssicos ao mesmo tempo, versos tradicionais, como os do velho Hardy. Mas n\u00e3o seriam rimados, seriam versos bran- cos. Pois a primeira rima de Graciliano Ramos j\u00e1 anuncica- ria o Fim do Mundo e &#8211; quem sabe &#8211; a salva\u00e7\u00e3o deste mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graciliano Ramos Julgo que ainda n\u00e3o me restabeleci completamente. 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