{"id":96734,"date":"2017-01-26T12:03:42","date_gmt":"2017-01-26T14:03:42","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96734"},"modified":"2017-01-26T12:03:42","modified_gmt":"2017-01-26T14:03:42","slug":"a-safra-de-tatus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-safra-de-tatus","title":{"rendered":"A Safra de Tatus"},"content":{"rendered":"<h4>Graciliano Ramos<\/h4>\n<p>&#8211; Como foi aquele neg\u00f3cio dos tatus que a senhora principiou a semana passada, minha madrinha? Perguntou Das Dores.<\/p>\n<p>O rumor dos bilros esmoreceu e Ces\u00e1ria levantou os \u00f3culos para a afilhada:<\/p>\n<p>&#8211; Tatus? Que inven\u00e7\u00e3o \u00e9 essa, menina? Quem falou em tatu?<\/p>\n<p>&#8211; A senhora, minha madrinha, respondeu a benzedeira de quebranto. Uns tatus que apareceram l\u00e1 na fazenda no tempo da riqueza, da lordeza.<\/p>\n<p>Como foi?<\/p>\n<p>Ces\u00e1ria encostou a almofada de renda \u00e0 parede, guardou os \u00f3culos no carit\u00f3, acendeu o cachimbo de barro ao candeeiro, chupou o canudo de taquari:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Os tatus. Nem me lembrava. Conte a hist\u00f3ria dos tatus, Alexandre.<\/p>\n<p>&#8211; Eu? Exclamou o dono da casa, surpreendido, erguendo-se da rede. Quem deu seu n\u00f3 que o desate. Voc\u00ea tem cada uma!<\/p>\n<p>Dirigiu-se ao copiar e ficou algum tempo olhando a lua.<\/p>\n<p>&#8211; Se os senhores pedirem, ele conta, murmurou Ces\u00e1ria aos visitantes. Aperte com ele, seu Lib\u00f3rio.<\/p>\n<p>Ao cabo de cinco minutos Alexandre voltou desanuviado, pediu o cachimbo a mulher, regalou-se com duas tragadas:<\/p>\n<p>&#8211; Ora muito bem.<\/p>\n<p>Restituiu o cachimbo a Ces\u00e1ria e foi sentar-se na rede. Mestre Gaud\u00eancio curandeiro, seu Lib\u00f3rio cantador, o cego preto Firmino e Das Dores exigiram a hist\u00f3ria dos tatus, que saiu deste modo.<\/p>\n<p>&#8211; Saber\u00e3o vossemec\u00eas que este caso estava completamente esquecido. Ces\u00e1ria tem o mau costume de sapecar umas perguntas em cima da gente, de supet\u00e3o. \u00c0s vezes n\u00e3o sei onde ela quer chegar. Os senhores compreendem. Um sujeito como eu, passado pelos corrimboques do diabo, deve ter muitas coisas no quengo. Mas essas coisas atrapalham-se: n\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria que segure tudo quanto uma pessoa v\u00ea e ouve na vida. Estou errado?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 certo, respondeu mestre Gaud\u00eancio. Seu Alexandre fala direitinho um mission\u00e1rio.<br \/>\n&#8211; Muito agradecido, prosseguiu o narrador. Isso \u00e9 bondade. Pois a hist\u00f3ria de Ces\u00e1ria puxou tinha-se esva\u00eddo sem deixar mossa no meu ju\u00edzo. S\u00f3 depois de tomar um deforete pude recordar-me dela. Vou dizer o que se deu. Faz vinte e cinco anos.<\/p>\n<p>Hem, Ces\u00e1ria? Quase vinte e cinco anos. Como o tempo caminha depressa! Parece que foi ontem. Eu ainda n\u00e3o tinha entrado forte na cria\u00e7\u00e3o de boi, que me rendeu uma fortuna, j\u00e1 sabem. Ganhava bastante e vivia sem cuidado, na gra\u00e7a de Deus, mas as minhas transa\u00e7\u00f5es voavam baixo, as arcas n\u00e3o estavam cheias de patac\u00f5es de ouro e rolos de notas. Comparado ao que fiz depois, aquilo era pinto. Um dia Ces\u00e1ria me perguntou: &#8211; Xandu, porque \u00e9 que voc\u00ea n\u00e3o aproveita a vazante do a\u00e7ude com uma planta\u00e7\u00e3o de mandioca? Han? Disse eu distra\u00eddo, sem notar o prop\u00f3sito da mulher.<\/p>\n<p>Que planta\u00e7\u00e3o? E ela, interesseira e sabia, a criatura mais arranjada que Nosso Senhor Jesus Cristo botou no mundo: &#8211; Farinha est\u00e1 pela hora da morte, Xandu. Viaja cinq\u00fcenta l\u00e9guas para chegar aqui, a cuia por cinco mil-r\u00e9is. Se voc\u00ea fizesse uma planta\u00e7\u00e3o de mandioca na vazante do a\u00e7ude, t\u00ednhamos farinha de gra\u00e7a. \u00c9 exato, gritei. Parece que \u00e9 bom. Vou pensar nisso. E pensei. Ou antes, n\u00e3o pensei.<\/p>\n<p>O conselho era t\u00e3o razo\u00e1vel que, por mais que eu saltasse para um lado e para outro, acabava sempre naquilo: n\u00e3o havia nada melhor que uma planta\u00e7\u00e3o de mandioca, porque est\u00e1vamos em tempo de seca braba, a comida vinha de longe e custava os olhos da cara. \u00cdamos ter farinha a dar com o pau. Sem d\u00favida. E plantei mandioca. Endireitei as cercas, enchi a vazante de mandioca. Cinco mil p\u00e9s, n\u00e3o, catorze mil p\u00e9s ou mais. No fim havia trinta mil p\u00e9s. Nem um canto desocupado. Todos os peda\u00e7os de maniva que peguei foram metidos debaixo do ch\u00e3o. Estamos ricos, imaginei. Quantas cuias de farinha dar\u00e3o trinta mil p\u00e9s de mandioca? Era uma conta que eu n\u00e3o sabia fazer, e acho que ningu\u00e9m sabe, porque a terra \u00e9 v\u00e1ria, \u00e0s vezes rende muito, outras vezes rende pouco, e se o ver\u00e3o apertar, n\u00e3o rende nada.<\/p>\n<p>Esses trinta mil p\u00e9s n\u00e3o renderam, isto \u00e9, n\u00e3o renderam mandioca. Renderam coisa diferente, uma esquisitice, pois, se plantamos maniva, n\u00e3o podemos esperar de modo nenhum apanhar caba\u00e7as ou ab\u00f3boras, n\u00e3o \u00e9 verdade? S\u00f3 podemos esperar mandioca, que isto \u00e9 a lei de Deus. A gata d\u00e1 gato, a vaca d\u00e1 bezerro e a maniva d\u00e1 mandioca, sempre foi assim. Mas este mundo, meus amigos, est\u00e1 cheio de trapalhadas e complica\u00e7\u00f5es. Atiramos num bicho, matamos outro. E sina Terta, que mora aqui perto, na ribanceira, escura e casada com homem escuro, teve esta semana um filhinho de cabelo cor de fogo e olho azul. H\u00e1 quem diga que sinha Terta n\u00e3o seja s\u00e9ria? N\u00e3o h\u00e1. Sinha Terta \u00e9 um espelho. E por estas redondezas n\u00e3o existe vivente de olho azul e cabelo vermelho. Boto a m\u00e3o no fogo por sinha Terta e sou capaz de jurar que o menino \u00e9 do marido dela. Vossemec\u00eas est\u00e3o-se rindo? N\u00e3o se riam n\u00e3o, meus amigos. Na vida h\u00e1 muito surpresa, e Deus Nosso Senhor tem esses caprichos.<\/p>\n<p>Sinha Terta \u00e9 mulher direita. E as manivas que plantei n\u00e3o deram mandioca. Seu Firmino esta a\u00ed fala n\u00e3o fala, com a pergunta na boca, n\u00e3o \u00e9 seu Firmino? Tenha paci\u00eancia e escute o resto. Ningu\u00e9m ignora que planta\u00e7\u00e3o em vazante n\u00e3o precisa de inverno. Vieram umas chuvinhas e a ro\u00e7a ficou uma beleza, n\u00e3o havia coisa parecida por aquelas beiradas. Valha-me Deus, Ces\u00e1ria, desabafei. Onde vamos guardar tanta farinha? mas estava escrito que n\u00e3o \u00edamos arrumar nem uma prensa. Quando foi chegando o tempo da arranca, as plantas come\u00e7aram a murchar. Supus que a lagarta estivesse dando nelas. Engano. Procurei, procurei, e n\u00e3o descobri lagarta. Santa Maria! cismei. A terra \u00e9 boa, aparece chuva, a lavoura vai para diante e depois desanda. N\u00e3o entendo. Aqui h\u00e1 feiti\u00e7o. Passei uns dias acuado, remexendo os miolos e n\u00e3o achei explica\u00e7\u00e3o. Tomei aquilo como castigo de Deus, para desconto dos meus pecados. O que \u00e9 certo, \u00e9 que a praga continuou: no fim de S. Jo\u00e3o todas as folhas tinham ca\u00eddo, s\u00f3 restava uma garrancheira preta. Caiporismo, disse comigo. Estamos sem sorte. Vamos ver se conseguimos levar ao fogo uma fornada.<\/p>\n<p>Encangalhei um animal, pendurei os ca\u00e7u\u00e1s nos cabe\u00e7otes, marchei para a vazante. Arranquei um pau de mandioca, e o meu espanto n\u00e3o foi deste mundo. Esperava tamboeira choca, mas, acreditem vossemec\u00eas, encontrei uma raiz enorme, pesada, que se p\u00f4s a bulir. A bulir, sim senhor. Meti-lhe o fac\u00e3o. Estava oca, s\u00f3 tinha casca. E, por baixo da casca, um tatu-bola enrolado. Arranquei outra vara seca: peguei o segundo tatu. Para encurtar raz\u00f5es, digo aos amigos que passei quinze dias desenterrando tatus. Os ca\u00e7u\u00e1s enchiam-se, o cavalo emagreceu de tanto caminhar e Ces\u00e1ria chamou as vizinhas para salgar aquela carne toda. Apanhei uns quarenta milheiros de tatus, porque nos p\u00e9s de mandioca fornidos moravam \u00e0s vezes casais, e nos que tinham muitas ra\u00edzes acomodavam-se fam\u00edlias inteiras. Bem. O pre\u00e7o do charque na cidade baixou, mas ainda assim apurei alguns contos de r\u00e9is, muito mais que se tivesse vendido farinha. A princ\u00edpio n\u00e3o atinei com a causa daquele despotismo e pensei num milagre. \u00c9 o que sempre fa\u00e7o: quando ignoro a raz\u00e3o das coisas, fecho os olhos e aceito a vontade de Nosso Senhor, especialmente se h\u00e1 vantagem. Mas a curiosidade nunca desaparece do esp\u00edrito da gente. Passado um m\u00eas, comecei a matutar, a falar sozinho, e perdi o sono. Afinal agarrei um cavador, desci a vazante, esburaquei tudo aquilo. Achei a terra favada, como um formigueiro. E adivinhei por que motivo a bicharia tinha entupido a minha ro\u00e7a. Fora dali o ch\u00e3o era pedra, cascalho duro que s\u00f3 dava coroa-de-frade, quip\u00e1 e mandacaru.<\/p>\n<p>Comida nenhuma. Certamente um tatu daquelas bandas cavou passagem para a beira do a\u00e7ude, topou uma raiz de mandioca e resolveu estabelecer-se nela. Explorou os arredores, viu outras ra\u00edzes, voltou, avisou os amigos e parentes, que se mudaram. Julgo que n\u00e3o ficou um tatu na caatinga. Com a chegada deles as folhas da planta\u00e7\u00e3o murcharam, empreteceram e ca\u00edram. Estarei errado, seu Firmino? Pode ser que esteja, mas parece que foi o que se deu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Graciliano Ramos &#8211; Como foi aquele neg\u00f3cio dos tatus que a senhora principiou a semana passada, minha madrinha? Perguntou Das Dores. O rumor dos bilros esmoreceu e Ces\u00e1ria levantou os \u00f3culos para a afilhada: &#8211; Tatus? Que inven\u00e7\u00e3o \u00e9 essa, menina? Quem falou em tatu? &#8211; A senhora, minha madrinha, respondeu a benzedeira de quebranto. 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