{"id":96514,"date":"2017-01-25T12:37:34","date_gmt":"2017-01-25T14:37:34","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96514"},"modified":"2017-01-25T12:37:34","modified_gmt":"2017-01-25T14:37:34","slug":"patkull-goncalves-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias","title":{"rendered":"Patkull &#8211; Gon\u00e7alves Dias"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table style=\"height: 215px;\" width=\"490\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"269\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#1\">I &#8211; Ato Primeiro<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#2\">II &#8211; Ato Segundo<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#3\">III &#8211; Ato Terceiro<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"100\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"337\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#4\">IV &#8211; Ato Quarto<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#5\">V &#8211; Ato Quinto<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Personagens<\/h2>\n<blockquote>\n<p> <strong>Patkull<\/strong>, gentil homem da Liv&ocirc;nia<br \/>\n      <strong>Paikel<\/strong>, alquimista<br \/>\n      <strong>Namry Romhor<\/strong>, noiva de Patkull<br \/>\n      <strong>Bertha<\/strong>, namorada de Paikel<br \/>\n      <strong>Wolf<\/strong>, pajem<br \/>\n      <strong>Um criado<\/strong><br \/>\n      <strong>Um mensageiro<\/strong><br \/>\n      <strong>Uma criada<\/strong><br \/>\n      <strong>Fleming<\/strong><br \/>\n      <strong>O rei Augusto<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<h2><a name=\"1\">ATO PRIMEIRO<\/a><\/h2>\n<p>Uma sala em casa de Namry Romhor &#8211; uma porta no fundo &#8211; portas<br \/>\n    laterais &#8211; mob&iacute;lia da &eacute;poca.<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p> <b>NAMRY ROMHOR senta a ao p&eacute; de uma mesa e BERTHA<\/b><\/p>\n<p>NAMRY &#8211; Que horas s&atilde;o, Bertha? BERTHA &#8211; Ainda h&aacute;<br \/>\n    pouco anoiteceu, minha senhora.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Ainda h&aacute; pouco! Pesado e triste corre agora o tempo,<br \/>\n    como um velho enfermo e lento! (Pausa) Chove? BERTHA &#8211; N&atilde;o, minha<br \/>\n    senhora, n&atilde;o; neva somente. (Chegando-se &agrave; janela e correndo<br \/>\n    pouco a cortina) Se quis&eacute;sseis chegar a esta janela, ver&iacute;eis<br \/>\n    que majestoso espet&aacute;culo &eacute; prolongar os olhos por esta plan&iacute;cie,<br \/>\n    que se estende a perder de vista, toda prateada, e luzindo um pouco com a<br \/>\n    luz p&aacute;lida e vacilante da lua&#8230; t&atilde;o belo&#8230; que prazer n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; ver estes flocos de neve que v&ecirc;m descendo sobre a terra e lento<br \/>\n    e lento ! quereis vir, senhora? NAMRY (Como falando consigo) &#8211; Houve<br \/>\n    tempo em que a vida tamb&eacute;m para mim corria fagueira e leve. Minhas<br \/>\n    noites eram cheias de sonhos de inoc&ecirc;ncia e de ventura&#8230; Meus dias<br \/>\n    tranq&uuml;ilos e felizes. &#8211; Nada mais desejava &#8211; ou brisa ou<br \/>\n    tempestade sempre acharam meu cora&ccedil;&atilde;o venturoso e o prazer que<br \/>\n    se me ria nos l&aacute;bios! E hoje?!&#8230;<\/p>\n<p> Quem me dera ver-me longe deste c&eacute;u tristonho &#8211; destas nuvens<br \/>\n    carregadas &#8211; desta atmosfera de mau agouro.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Perdoai, Senhora &#8211; mas eu pensava que em parte nenhuma<br \/>\n    seria melhor a vida que na terra, em que a provamos. Tem encantos a terra,<br \/>\n    onde na inf&acirc;ncia gravamos passos mal seguros &#8211; t&ecirc;m encantos<br \/>\n    os s&iacute;tios, que nos recordam dias mais felizes, que todos n&oacute;s<br \/>\n    gozamos &#8211; rico ou pobre &#8211; : o c&eacute;u que nossos olhos primeiro<br \/>\n    encontraram; o sol que nos afagou no ber&ccedil;o, como olho vigilante de<br \/>\n    m&atilde;e; e a l&iacute;ngua que n&oacute;s falamos e que outra l&iacute;ngua<br \/>\n    nunca pode suprir! NAMRY &#8211; Assim pensei, Bertha, assim pensei, e quem<br \/>\n    ent&atilde;o me dissesse que este seria o meu desejo de hoje, certo que em<br \/>\n    mim n&atilde;o acharia cr&eacute;dito. Mas eu j&aacute; tenho sobejos motivos<br \/>\n    para ser triste, para mais os desejar. Queria alguma coisa que me distra&iacute;sse!<br \/>\n    Queria ver essa terra t&atilde;o antiga, e que mais que as outras, dizem bela,<br \/>\n    onde reina cont&iacute;nua primavera, onde o c&eacute;u rutila sempre grande,<br \/>\n    onde a noite equivale aos nossos dias! Queria ver essa terra! N&aacute;poles,<br \/>\n    a cidade afortunada, com seu vulc&atilde;o fumegando noite e dia; com seu<br \/>\n    golfo t&atilde;o risonho e pitoresco; Veneza, a cidade de encantos e prod&iacute;gios,<br \/>\n    onde de cont&iacute;nuo se escuta ao longe o triste cantar dos gondoleiros,<br \/>\n    e a barca que passa silenciosamente com o seu fanal na proa, e o mascara de<br \/>\n    traje oriental, que se perde na arcadaria de um pal&aacute;cio inabitado;<br \/>\n    talvez que ent&atilde;o pensasse menos sobre mim, Bertha; e seria ainda uma<br \/>\n    fortuna.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Sois infeliz?! NAMRY &#8211; Infeliz?! V&ecirc;s tu que daria<br \/>\n    meus t&iacute;tulos de n&atilde;o sei quantos av&oacute;s &#8211; meu ducado<br \/>\n    que vale um reino &#8211; minhas terras, minhas j&oacute;ias &#8211; meu bras&atilde;o<br \/>\n    &#8211; tudo o que me cerca de adula&ccedil;&otilde;es, de lisonjas, de galanteios<br \/>\n    &#8211; tudo &#8211; tudo &#8211; e at&eacute; o meu nome, para que me chamasse<br \/>\n    simplesmente &#8211; Bertha. Foi meu nome quem me trouxe a desventura! Na<br \/>\n    tua classe n&atilde;o h&aacute; preconceitos de nomes, de bras&otilde;es;<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; lei dura e inflex&iacute;vel da vontade de um pai severo<br \/>\n    e orgulhoso. N&atilde;o h&aacute; nada &#8211;, nada, absolutamente nada:<br \/>\n    porque s&atilde;o menos os preconceitos quanto mais se aproximam da terra,<br \/>\n    e alguns palmos abaixo nem uns! BERTHA &#8211; Mal pecado que j&aacute; fiz<br \/>\n    t&atilde;o negra experi&ecirc;ncia e n&atilde;o desci de t&atilde;o a1to.<\/p>\n<p> Crede-me, Senhora &#8211; amargo &eacute; o p&atilde;o do infort&uacute;nio<br \/>\n    e da sujei&ccedil;&atilde;o. &Eacute; viver para os outros e n&atilde;o para<br \/>\n    si. N&atilde;o &eacute; de mim que eu falo &#8211; am&aacute;vel para com<br \/>\n    todos muito mais o foste para comigo &#8211; e tanto que mais l&aacute;grimas<br \/>\n    me fez derramar a vossa bondade, que meu infort&uacute;nio. Mas sofrer insulto<br \/>\n    e repreens&otilde;es, sempre curvada e humilhada aos p&eacute;s do mais rico.<br \/>\n    &#8211; Sempre de um para outro senhor &#8211; sem esperan&ccedil;as de melhor<br \/>\n    sorte, nem minguadas &#8211; nem ao longe &#8211; muito ao longe &#8211; no<br \/>\n    extremo de uma vida de espinhos e de sofrer &#8211; oh! que &eacute; uma vida<br \/>\n    bem triste esta assim vivida! NAMRY &#8211; Tamb&eacute;m tu, Bertha? (Refletindo<br \/>\n    um pouco) Vem c&aacute; &#8211; senta-te bem perto de mim&#8230; Estimo saber<br \/>\n    que &eacute;s infiel, Bertha; por ego&iacute;smo? Que importa? Todo este bul&iacute;cio<br \/>\n    de prazer e de alegria me pesa no cora&ccedil;&atilde;o &#8211; todo este<br \/>\n    arru&iacute;do de passos, de vozes, todos estes cantos de amor e de esperan&ccedil;as,<br \/>\n    me desesperam porque j&aacute; n&atilde;o tenho amor nem esperan&ccedil;as!<br \/>\n    N&atilde;o me interrompas&#8230; aflige-me tudo isto que me cerca, que me parece<br \/>\n    respirar ledice e contentamento; e eu s&oacute; no meio de tudo isto?! Estimo<br \/>\n    saber que &eacute;s infeliz. &#8211; Eu precisava de algu&eacute;m que me<br \/>\n    pudesse compreender: preciso desabafar o que trago no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e que me tortura todos os momentos da vida. &#8211; Felizmente que te encontrei!<br \/>\n    Contar-me-&aacute;s tuas penas e eu te confiarei as minhas. &#8211; Ao menos<br \/>\n    no infort&uacute;nio seremos irm&atilde;s.<\/p>\n<p> BERTHA (Com a m&atilde;o sobre o cora&ccedil;&atilde;o) &#8211; &Eacute;<br \/>\n    meu segredo; n&atilde;o me pode livrar dos desgostos por que tenho passado,<br \/>\n    mas pode poupar os novos.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; N&atilde;o tens ainda em mim bastante confian&ccedil;a?! &Eacute;<br \/>\n    que tu n&atilde;o sabes o que &eacute; guardar um segredo no mais fundo da<br \/>\n    alma. Um segredo que &eacute; o pensamento de todos os dias, de todos os instantes,<br \/>\n    que nos prende alma e cora&ccedil;&atilde;o &#8211; que nos mina e consome<br \/>\n    a exist&ecirc;ncia, que nos esmaga e a martiriza. Falarei eu, Bertha; falarei;<br \/>\n    &#8211; porque tenho necessidade de dizer o que encerra o meu pobre cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; falarei, porque preciso de um peito sobre que possa derramar as l&aacute;grimas,<br \/>\n    que j&aacute; n&atilde;o posso sorver. Escuta-me.<\/p>\n<p> Outra que n&atilde;o fosse eu daria gra&ccedil;as &agrave; sua boa estrela<br \/>\n    por lhe ter deparado com o amor de Patkull. &#8211; &Eacute; um homem patriota<br \/>\n    e nobre. Os reis se calaram na sua presen&ccedil;a porque a sua voz era de<br \/>\n    verdade e consci&ecirc;ncia. Seus inimigos o temeram na guerra, porque o seu<br \/>\n    bra&ccedil;o era de ferro e sua vontade inflex&iacute;vel. &#8211; Os seus<br \/>\n    compatriotas o adoram porque sacrificou por eles seus bens que um rei invejaria<br \/>\n    e o seu futuro, que prometia ser t&atilde;o brilhante. E no ex&iacute;lio,<br \/>\n    na pobreza imerecida, no meio de quanto aviltamento lhe podia arremessar a<br \/>\n    Su&eacute;cia, sempre se ouviu a sua voz que chamava os seus patr&iacute;cios<br \/>\n    &agrave; liberdade, mais forte que a destrui&ccedil;&atilde;o de reinos e<br \/>\n    monarquias &#8211; do que o barulho das armas de Carlos XII &#8211; Pedro<br \/>\n    I e do rei Augusto. E este homem trocou tudo por mim.<\/p>\n<p> Meu pai, a quem ele mais que uma vez salvou a vida no meio dos combates<br \/>\n    me pediu no seu leito de morte que lhe pagasse esta d&iacute;vida de reconhecimento<br \/>\n    e de amizade E eu prometi, Bertha; prometi porque j&aacute; tinha dado bastantes<br \/>\n    desgostos a meu pobre pai, para lhe negar este &uacute;ltimo pedido ao despedir-se<br \/>\n    da vida &#8211; porque n&atilde;o queria que o pobre velho sa&iacute;sse do<br \/>\n    mundo desesperado, com a maldi&ccedil;&atilde;o a esvoa&ccedil;ar nos l&aacute;bios<br \/>\n    quando ele julgava granjear-me um nome e um apoio&#8230;<\/p>\n<p> E no entanto eu nunca amei este homem, que tanto me ama. Seus extremos me<br \/>\n    enfastiam; e na minha consci&ecirc;ncia sinto de lhe n&atilde;o poder dar<br \/>\n    amor em troca de amor tamanho. (Baixo) &#8211; Eu amo a outrem Bertha: a outrem<br \/>\n    com quem vivi os primeiros anos da minha vida, a outrem com quem troquei amor<br \/>\n    e juramentos, a outrem com quem talvez me n&atilde;o casasse ainda n&atilde;o<br \/>\n    havendo estes impedimentos, porque meu pai lhe negou a minha m&atilde;o, e<br \/>\n    o chamou de cara um cavaleiro que deslustrava a sua nobreza com essa arte<br \/>\n    diab&oacute;lica de Alquimia. E ele calou-se &#8211; Paikel&#8230;<\/p>\n<p> BERTHA (Indo para se levantar) &#8211; Paikel?! NAMRY (Como admirada) &#8211;<br \/>\n    Paikel, sim, conheces-lo?&#8230; (Encarando-a) BERTHA (Sentando-se) &#8211; Nada;<br \/>\n    n&atilde;o, minha senhora; parecia-me que j&aacute; tinha ouvido pronunciar<br \/>\n    esse nome; n&atilde;o sei por que me vem ele agora &agrave; mem&oacute;ria!<br \/>\n    NAMRY (Observando-a) &#8211; Paikel calou-se. Nesse instante agradeci sinceramente<br \/>\n    essa delicadeza da parte dele: julguei ent&atilde;o generosidade o que agora<br \/>\n    me vem em d&uacute;vida de cobardia.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Dizem-no valente! NAMRY &#8211; Ele desamparou-me, fugiu<br \/>\n    vergonhosamente sem mais se dar de mim! BERTHA &#8211; Presumiu talvez que<br \/>\n    as palavras do pai n&atilde;o eram sem o consentimento da filha! NAMRY &#8211;<br \/>\n    Talvez! Por&eacute;m, quem t&atilde;o breve se esquece de que ama &#8211;<br \/>\n    que assim a traiu, tamb&eacute;m se esquecer&aacute; e trair&aacute; o seu<br \/>\n    amigo.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Ele &eacute; nobre.<\/p>\n<p> NAMRY (Mais forte) &#8211; Ele jogaria o ducado de seu pai; venderia sua<br \/>\n    irm&atilde; se a tivesse; seu bras&atilde;o, se alguma coisa lhe rendesse<br \/>\n    para as consumir nas suas diab&oacute;licas experi&ecirc;ncias &#8211; &eacute;<br \/>\n    um infame! BERTHA &#8211; &Eacute; um homem honrado.<\/p>\n<p> NAMRY (Rindo-se) &#8211; Melhor o conheces que dizias &#8211; Bertha! E<br \/>\n    bastante interessas por ele &#8211; vai &#8211; outro dia me contar&aacute;s<br \/>\n    a tua hist&oacute;ria. (Bertha sai. Olhando-a sair) Tamb&eacute;m o ama &#8211;<br \/>\n    minha ciada, minha riva1!&#8230; (Assenta-se e fica pensativa) (Entra Patkull<br \/>\n    &#8211; manso &#8211; encosta-se &agrave; cadeira em que Namry est&aacute;<br \/>\n    sentada. Fica contemplando-a um pouco tristemente.)<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>PATKULL &#8211; Sempre triste.<\/p>\n<p> NAMRY ( Sobressaltada e levantando-se) &#8211; Senhor Patkull PATKULL &#8211;<br \/>\n    Por que me tratas tu por senhor? Entre amantes que breve ser&atilde;o esposos<br \/>\n    &#8211; tu &#8211; &eacute; um delicioso tratamento, que alimenta o amor e<br \/>\n    a confian&ccedil;a &#8211; Senta-te, Namry (Ele tamb&eacute;m se assenta)<br \/>\n    Vinha eu com o peito cheio de prazer e de contentamento, vinha ansioso por<br \/>\n    te ver, vinha feliz e venturoso &#8211; ao passar da tua porta &#8211; quando<br \/>\n    te vi t&atilde;o triste e pensativa, tamb&eacute;m eu me entristeci contigo,<br \/>\n    e pensei que o amor de teu esposo mal supriria o deserto que teu pai te deixou<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o! NAMRY &#8211; Meu pai era bom! PATKULL &#8211; Nem<br \/>\n    eu te crimino o sofrimento: ele era meu amigo! senti a sua morte como se fora<br \/>\n    a de um irm&atilde;o, como se fora a morte de um pai &#8211; bem que ele me<br \/>\n    deixasse um legado a que mal se exaltariam as minhas esperan&ccedil;as nas<br \/>\n    minhas noites de amor e de ins&ocirc;nia. Deixou-me a tua m&atilde;o, que<br \/>\n    eu n&atilde;o aceitaria por certo se julgasse que a devia somente &agrave;<br \/>\n    obedi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; &Eacute;s generoso, Patkull! PATKULL &#8211; Por que me falas<br \/>\n    tu em generosidade? Quem te pede agradecimentos? Nada fa&ccedil;o por ti que<br \/>\n    o n&atilde;o deva fazer. &#8211; Olha, por vezes uma id&eacute;ia de amor<br \/>\n    e de ego&iacute;smo me atravessa o pensamento. Eu quisera conhecer-te alde&atilde;<br \/>\n    humilde e simples &#8211; s&oacute; &#8211; com a tua pureza e formosura &#8211;<br \/>\n    e eu quisera ser o homem rico e poderoso por que tudo se curvasse &agrave;s<br \/>\n    tuas ordens, para que te pudesse transportar para um pal&aacute;cio de maravilha<br \/>\n    e de encantos, para que eu fizesse da tua vida um para&iacute;so, e da minha<br \/>\n    alma um templo para a tua alma.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Tens mais do que te posso merecer. Teu amor &eacute; o amor<br \/>\n    com que se adora a Deus e aos anjos; demais para uma mulher que &eacute; uma<br \/>\n    fr&aacute;gil criatura.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; N&atilde;o &eacute; demais para ti. &#8211; E contudo eu<br \/>\n    te amo como neste mundo se pode amar, como se ama a uma coisa pura e bela,<br \/>\n    como se ama uma flor encantadora, como se ama o azul de um c&eacute;u e de<br \/>\n    um lago, como se ama o sol e as estrelas &#8211; como se ama um instrumento<br \/>\n    que se escuta no sil&ecirc;ncio da noite &#8211; como se ama o perfume e a<br \/>\n    harmonia. Assim &eacute; que eu te amo &#8211; mais do que te posso dizer,<br \/>\n    mais do que te posso explicar &#8211; mais do que pode exprimir um pensamento,<br \/>\n    que &eacute; teu; uma pulsa&ccedil;&atilde;o do peito, que &eacute; tua. Oh!<br \/>\n    Que n&atilde;o possa exprimir a linguagem do cora&ccedil;&atilde;o o falar<br \/>\n    rude e franco de um soldado que s&oacute; tem vivido no meio do estr&eacute;pito<br \/>\n    e da carnagem, vida de movimento e de guerra. Oh! Que n&atilde;o possa minha<br \/>\n    alma estalar este inv&oacute;lucro de lodo, e trazer-me l&aacute; dos c&eacute;us<br \/>\n    a express&atilde;o do que eu sinto por ti? Namry, tu verias; ent&atilde;o<br \/>\n    o que &eacute; o amor deste homem j&aacute; maduro e s&eacute;rio, e que at&eacute;<br \/>\n    hoje tem conservado sua alma virgem de todo amor; e debalde teu pensamento<br \/>\n    se abismaria em sondar a profundidade desse seu sentir t&atilde;o ardente,<br \/>\n    de que nem ele mesmo conhece a intensidade.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Tu amas muito, Patkull! Esse teu amor me amedronta mais por<br \/>\n    ti que por mim.<\/p>\n<p> Dizem que o pensamento do homem gravita sempre em torno de fantasmas e de<br \/>\n    ilus&otilde;es.<\/p>\n<p> Pensa bem, Patkull. Talvez que num dia, mesmo antes do matrim&ocirc;nio,<br \/>\n    se perca o colorido dessas tuas quimeras de amor; &#8211; depois dele poder&aacute;s<br \/>\n    achar que a vida dom&eacute;stica e prosaica &eacute; muito fria e insuficiente<br \/>\n    para uma alma sedenta de emo&ccedil;&otilde;es, como a tua &#8211; seria de<br \/>\n    perder a raz&atilde;o o acordar repentinamente desse sonho; e a culpa seria<br \/>\n    tua porque foste tu quem o forjaste.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Como s&atilde;o feiticeiras essas tuas d&uacute;vidas do<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o! &Eacute;s o amor que o comprime, e tu julgas prud&ecirc;ncia<br \/>\n    minguar-lhe a for&ccedil;a e a intensidade. N&atilde;o &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; quimera ver-te assim t&atilde;o nobre e t&atilde;o bela respirando<br \/>\n    melancolia e suavidade em todos os teus movimentos. N&atilde;o; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; ilus&atilde;o o fogo t&atilde;o puro e t&atilde;o expressivo que<br \/>\n    dimana dos teu olhos. N&atilde;o; n&atilde;o &eacute; frieza que eu receio<br \/>\n    de ti. Quando te vi t&atilde;o sentida e penalizada com a perda de teu pai;<br \/>\n    quando vi com quanto apego tinhas ligado tua vida &agrave; vida dele; ent&atilde;o<br \/>\n    senti quamanha era a fonte de sensibilidade que encerravas, qu&atilde;o forte<br \/>\n    e en&eacute;rgico devia ser o teu amor, quando o tivesses &#8211; que cedo<br \/>\n    ou tarde despontaria; foi tamb&eacute;m ent&atilde;o que compreendi como a<br \/>\n    vida leve e graciosa escoaria nas asas do tempo, vivida a s&oacute;s contigo<br \/>\n    e com o teu amor! Ent&atilde;o amei: ent&atilde;o compreendi que havia outra<br \/>\n    felicidade que n&atilde;o o arru&iacute;do de um campo de batalha: outra magia<br \/>\n    numa voz de ternura, que eu ansiava, que no estrondo ou no estertor de moribundos,<br \/>\n    outra embriaguez, que n&atilde;o a da vit&oacute;ria: ent&atilde;o compreendi<br \/>\n    a vida que at&eacute; ali mal pudera decifrar: amei; e o tempo que dantes<br \/>\n    se arrastava vagaroso e lento &#8211; hoje passa sobre mim mal apercebido<br \/>\n    e todo concentrado no amor; e a vida me parece mais radiante e mais afortunada<br \/>\n    &#8211; assim &#8211; do que vista atrav&eacute;s duma atmosfera de p&oacute;<br \/>\n    e de sangue; radiante e mais bela passada a s&oacute;s contigo.<\/p>\n<p> NAMRY (Abra&ccedil;ando-o) &#8211; Meu bom Patkull.<\/p>\n<p> PATKULL (Retendo-a nos bra&ccedil;os &#8211; encara-a um pouco, como extasiado)<br \/>\n    &#8211; Ainda h&aacute; pouco que eu teria nos l&aacute;bios um sorriso de<br \/>\n    compaix&atilde;o e incredulidade parar aquele que me dissesse a embriaguez<br \/>\n    com que enleia os sentidos do homem um som argentino de voz, que dos ouvidos<br \/>\n    resvala ao cora&ccedil;&atilde;o, uns olhos que entornam em nossos olhos m&aacute;gico<br \/>\n    fluido de amor; uns bra&ccedil;os que nos cingem, que nos alteiam al&eacute;m<br \/>\n    da terra, uns peitos que fogosos contra n&oacute;s palpitam. N&atilde;o &#8211;<br \/>\n    tal n&atilde;o crera; e hoje &#8230; sinto por ti o que se n&atilde;o diz no falar<br \/>\n    dos homens, no cantar dos bardos; uma coisa que na terra n&atilde;o tem nome,<br \/>\n    e que os anjos nos c&eacute;us, entre o coro dos astros talvez modulem nas<br \/>\n    suas liras douro, quando &agrave; Virgem-M&atilde;e levantam incensos de louvores.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Assim! Chama-me sempre por meu nome: nunca o julguei t&atilde;o<br \/>\n    lindo antes que a tua voz o pronunciasse. O teu&#8230; mesmo o teu &#8211; me<br \/>\n    parece despido de encantos em compara&ccedil;&atilde;o desse nome, que me<br \/>\n    enamora, quando tu o pronuncias &#8211; Patkull?! N&atilde;o &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    era assim que tu dizias &#8211; Patkull!! N&atilde;o &#8211; n&atilde;o era<br \/>\n    assim. Donde roubas tu essa harmonia, que s&oacute; encontro em ti? &#8211;<br \/>\n    Donde o roubas?! (Pensando) Namry, &agrave;s vezes me pergunto na minha consci&ecirc;ncia<br \/>\n    se n&atilde;o &eacute; poss&iacute;ve1 que um anjo se transformasse em ser<br \/>\n    humano, conservando ainda resqu&iacute;cios da sua divindade, porque tu &eacute;s<br \/>\n    meu bom anjo &#8211; Namry ; paz do cora&ccedil;&atilde;o encontrei a teu<br \/>\n    lado como no sil&ecirc;ncio de uma noite puramente bela. &#8211; Ent&atilde;o<br \/>\n    pesa-me do tempo j&aacute; passado, n&atilde;o por feitos maus; o que fiz<br \/>\n    foi bom, foi justo; mas por te n&atilde;o haver conhecido, Namry &#8211; porque<br \/>\n    a flor da minha mocidade desfolhei-a eu em trope&ccedil;os e barrancos, &#8211;<br \/>\n    nas intrigas de gabinete e em lutas com reis, porque pouco tempo me resta<br \/>\n    para viver, porque em um dia meus cabelos apareceram brancos como a neve,<br \/>\n    que embranquece o p&iacute;ncaro de um rochedo num dia &#8211; ao principiar<br \/>\n    do inverno ; porque eu me tornarei velho e curvado com o peso dos anos e dos<br \/>\n    trabalhos, quando tu brilhar&aacute;s com todo o esplendor da tua beleza,<br \/>\n    com todo o fogo dos anos e da mocidade.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Est&aacute;s triste, Patkull? Triste te afundaste em recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do passado?! Meu amigo, quem de n&oacute;s que elevantar o sud&aacute;rio<br \/>\n    desse morto n&atilde;o encontrar&aacute; debaixo dele um pesar e um desacor&ccedil;oamento?!<br \/>\n    Quem de n&oacute;s?! Temos todos nossos pesares; bem felizes quando nossos<br \/>\n    amigos o compreendem e nos podem consolar! Eu sofri muito; derramei l&aacute;grimas<br \/>\n    tristes em sil&ecirc;ncio e no retiro; meu pesar tinha &#8211; e no peito;<br \/>\n    cansei-me de sofrer sozinha, disse-o a algu&eacute;m; n&atilde;o achei piedade<br \/>\n    nem simpatia; mas fui sobejamente recompensada; achei uma trai&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; inocente porque fui eu quem a provoquei.<\/p>\n<p> &#8211; Breve seremos unidos, Patkull; talvez que a mulher saiba cumprir<br \/>\n    melhor os deveres de esposa, do que a amante os de namorada. Ent&atilde;o<br \/>\n    esque&ccedil;amo-nos do que foi, o que em breve n&atilde;o tornar&aacute;<br \/>\n    a voltar.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Em bem que n&atilde;o, voltar&aacute;! Assim tamb&eacute;m<br \/>\n    se pudessem abismar no esquecimento recorda&ccedil;&otilde;es do que amargou<br \/>\n    nossa vida, a mem&oacute;ria sempre viva do que foi, e um brado cont&iacute;nuo<br \/>\n    de vingan&ccedil;a, que nos ferve na alma e n&atilde;o passa do pensamento.<br \/>\n    Minha vida tem sido uma luta contra o sofrimento, um contraste de mis&eacute;ria<br \/>\n    e de grandeza. Namry, n&atilde;o me recordo nem de jogos, nem de passatempos<br \/>\n    da inf&acirc;ncia, nem de parceiros de folguedos, nem de passeios &agrave;<br \/>\n    margem dum regato, ou a corrida afanosa e inocente por um prado florido entre<br \/>\n    flores e verdura atr&aacute;s de uma borboleta, ou de outro inseto brilhante<br \/>\n    &#8211; de nada disto me recordo, porque nada disto desfrutei. Um dia quando<br \/>\n    me entendi, estava num lugar escuro e frio; era uma pris&atilde;o de Estado;<br \/>\n    era funda a pris&atilde;o, a terra lodosa e encharcada, e alguns molhos de<br \/>\n    palha. Bem alto estava uma fresta, por onde enfiava um raio ba&ccedil;o de<br \/>\n    sol de inverno. Ao meu lado uma mulher que seria bela em outros tempos, por&eacute;m<br \/>\n    que eu via descorada e miser&aacute;vel com as faces fundas, e o cabelo enxovalhado<br \/>\n    e solto. Al&eacute;m, um homem alto &#8211; magro &#8211; p&aacute;lido &#8211;<br \/>\n    com os olhos vacilantes e luzentes, o cabelo em desordem e bra&ccedil;os cruzados.<br \/>\n    Seu rosto metia medo; &agrave;s vezes uma contra&ccedil;&atilde;o nervosa<br \/>\n    lhe abalava o corpo inteiro, e t&atilde;o seus cabelos se eri&ccedil;avam,<br \/>\n    e ca&iacute;am pouco depois como &aacute;rvores que o vento curva a seu bom<br \/>\n    grado; e os dentes rangiam e batiam com for&ccedil;a como num acesso de febre.<br \/>\n    Era horr&iacute;vel v&ecirc;-lo assim, e contudo, tirante disso, o dirias<br \/>\n    um espectro. Esse homem doido era meu pai, essa mulher morta, minha m&atilde;e<br \/>\n    e nada mais sei deles. E eles ambos me bradam vingan&ccedil;a porque morreram<br \/>\n    ambos de fome; e eu ainda os n&atilde;o vinguei! &Agrave; noite, em alguma<br \/>\n    marcha for&ccedil;ada e silenciosa eu tenho visto essa vis&atilde;o, que caminha<br \/>\n    sempre diante de mim &#8211; Quando deitado na tenda &#8211; &agrave; espera<br \/>\n    da batalha, um pouco repousava &#8211; ainda via essa vis&atilde;o. Quando<br \/>\n    contigo, ainda me aparece a sombra de meu pai, que me pede contas do que fiz<br \/>\n    e do que poderia ter feito. Pois bem, Namry, eu direi como tu: esque&ccedil;amo-nos<br \/>\n    do que foi esque&ccedil;amo-nos de tudo, seja nossa vida o amor &#8211; sejam<br \/>\n    nossos dias instantes de ventura &#8211; vivamos s&oacute;s, s&oacute; n&oacute;s<br \/>\n    &#8211; E quando &agrave; noite me sentires ansioso e delirante com a fronte<br \/>\n    banhada em suor, e com o peito oprimido de um horr&iacute;vel pesadelo &#8211;<br \/>\n    tu me chamar&aacute;s, n&atilde;o &eacute; assim? E eu acordarei num para&iacute;so,<br \/>\n    acordarei feliz quando vir teus olhos sobre meus olhos; e um sorriso nos teus<br \/>\n    l&aacute;bios, e tua m&atilde;o, que me enxuga as bagas de suor.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Patkull, meu amigo, por que te deixas levar destas id&eacute;ias,<br \/>\n    que me aterrorizam? Por que esses pensamentos de vingan&ccedil;a? N&atilde;o<br \/>\n    est&aacute;s cansado de sofrer? &#8211; Cr&ecirc;-me; &eacute; curta a vida<br \/>\n    para ser desperdi&ccedil;ada em &oacute;dios e tormentos. Patkull, teu pai<br \/>\n    mesmo que agora ressurgisse do sepulcro certo se doeria de ti &#8211; e te<br \/>\n    pedira o perd&atilde;o daqueles que o maltrataram, porque se os m&aacute;rtires<br \/>\n    se recordam nos c&eacute;us do que na terra padeceram, tamb&eacute;m se esquecem<br \/>\n    dos que fizeram padecer; Patkull &#8211; esquece-te disso.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Eu j&aacute; te disse, minha alma &eacute; tua; s&atilde;o<br \/>\n    teus meus pensamentos, minha vida &eacute; tua. (Abra&ccedil;ados)<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p> <b>Os mesmos e WOLF<\/b><\/p>\n<p>WOLF &#8211; Senhor Patkull? PATKULL &#8211; Entra, Wolf &#8211; entra &#8211;<br \/>\n    que novas trazes? WOLF &#8211; &Eacute; chegado o estrangeiro que me dissestes<br \/>\n    conduzisse aqui &#8211; Aqui est&aacute; e vos aguarda.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Dize-lhe que entre. (O pajem sai) Namry tinha-me esquecido<br \/>\n    de te prevenir disto e contudo era essa minha inten&ccedil;&atilde;o quando<br \/>\n    te vim falar. &Eacute; um meu amigo.<\/p>\n<p> Diz que me traz not&iacute;cias importantes, e que mas quisera comunicar<br \/>\n    em lugar seguro. &#8211; Escolhi a tua casa: porque a minha, afora este pajem,<br \/>\n    est&aacute; cheia de espi&otilde;es do rei Carlos.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Escusas pedir, quando podes mandar. &#8211; Faz o que te aprouver<br \/>\n    &#8211; Patkull<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p> <b>Os mesmos e PAIKEL, vestido de jornada. Patkull vai receb&ecirc;-lo,<br \/>\n    Paikel e Namry p&aacute;ram, encarando-se.<\/b><\/p>\n<p>PATKULL &#8211; Entra, meu amigo &#8211; entra sem receios &#8211; certo<br \/>\n    que n&atilde;o me esperavas achar de companhia. &#8211; Entra! &#8211; Qu&ecirc;?<br \/>\n    Dar-se-&aacute; acaso que vos conhe&ccedil;ais.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Sim &#8211; conhe&ccedil;o-a, por&eacute;m &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que outro tanto n&atilde;o aconte&ccedil;a &agrave; senhora Duquesa. As pessoas<br \/>\n    indiferentes usam deixar pouca impress&atilde;o.<\/p>\n<p>NAMRY &#8211; Bem vindo sejais, Senhor Paikel.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Melhor &#8211; estimo bem que a conhe&ccedil;as, Paikel<br \/>\n    &#8211; estimo-o muito.<\/p>\n<p> Escusado ser&aacute; elogi&aacute;-la; porque quem uma vez tratou com a<br \/>\n    Duquesa de Mecklenburg conhece qu&atilde;o insuficientes s&atilde;o as palavras<br \/>\n    para a retratar. &#8211; &Eacute; minha mulher, Palkel.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Tua mulher?! PATKULL &#8211; Brevemente o ser&aacute;, e<br \/>\n    t&atilde;o boa estr&eacute;ia foi a tua que assistir&aacute;s aos despos&oacute;rios<br \/>\n    do teu amigo &#8211; dar-me-&aacute;s este prazer? PAIKEL &#8211; Sim, sim,<br \/>\n    mas primeiro deixa-me congratular contigo pela tua boa fortuna; mais feliz<br \/>\n    do que eu; s&oacute; a ti poderia eu dar parab&eacute;ns duma dita que n&atilde;o<br \/>\n    pude gozar. (Com inten&ccedil;&atilde;o) Aceitareis meus parab&eacute;ns,<br \/>\n    senhora Duquesa? NAMRY &#8211; Por que n&atilde;o, Senhor Paikel? De t&atilde;o<br \/>\n    bom grado os destes ao vosso amigo &#8211; t&atilde;o francamente lhe cedestes<br \/>\n    uma fortuna que poderia ser a vossa &#8211; dissestes que seria faltar ao<br \/>\n    reconhecimento n&atilde;o v&ocirc;-los aceitar &#8211; mil vezes obrigada,<br \/>\n    Senhor Paikel.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Basta de civilidades. Paikel, ser&aacute;s t&atilde;o amigo<br \/>\n    da esposa como o &eacute;s do esposo: e certo que algumas vezes te acontecer&aacute;<br \/>\n    esquecer-te das tuas locubra&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas e do ouro<br \/>\n    que procuras, quando topares com um verdadeiro diamante.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Mas j&aacute; te esqueceste que tinha de te falar? PATKULL<br \/>\n    &#8211; Pelo contr&aacute;rio, lembro-me tanto que j&aacute; pedi esta casa<br \/>\n    a Namry; estaremos aqui mais &agrave; nossa vontade, e como querias, longe<br \/>\n    de suspeitas.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Bom ser&aacute;, porque &eacute; de segredo o que tenho de<br \/>\n    te comunicar; e contudo a senhora Duquesa poder&aacute; assistir &agrave;<br \/>\n    nossa pr&aacute;tica.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Ainda quando eu vos pudesse ouvir, sem d&uacute;vida que tereis<br \/>\n    muito que vos dizer, depois de tantos anos de separa&ccedil;&atilde;o; assim<br \/>\n    estareis com mais franqueza. Se de alguma coisa careceres &#8211; chamar&aacute;s,<br \/>\n    Patkull.<\/p>\n<h2>CENAV<\/h2>\n<p>PATKULL (V&ecirc;-a sair) &#8211; &Eacute; um anjo, Paikel &#8211; esta mulher<br \/>\n    &eacute; um anjo de bondade e candura.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Dize antes que &eacute; uma Armida. &#8211; Aqui est&aacute;s<br \/>\n    tu novo Reinaldo, no teu jardim de encantos &#8211; a descansar das fadigas<br \/>\n    da guerra no seio da moleza e da voluptuosidade. E mal pecado, que eu n&atilde;o<br \/>\n    tenho o espelho onde possas ver quanto ca&iacute;ste de t&atilde;o alto que<br \/>\n    estavas.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Tenho eu, Paikel; tenho no cora&ccedil;&atilde;o alegria<br \/>\n    e contentamento &#8211; tenho na alma tranq&uuml;ilidade e descanso &#8211;<br \/>\n    tenho amor que me embeleza todos os momentos da vida; sou feliz, e quem fosse<br \/>\n    meu amigo n&atilde;o me quisera ver desgra&ccedil;ado.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; &Eacute; certo quanto me tinham dito!&#8230; E na minha consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    eu que te conhecia de bem perto, apelidei cal&uacute;nia quanto de ti me diziam.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Fizeste mal. O que h&aacute; no mundo t&atilde;o seguro<br \/>\n    e inabal&aacute;vel por que nos possamos constituir seus garantes? N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; prudente que diga: deste p&atilde;o n&atilde;o comerei: &eacute;<br \/>\n    uma palavra de verdade, entre todas as verdades que prega o Evangelho. H&aacute;<br \/>\n    pouco tempo um rei desceu do trono ao cadafalso; e era um bom rei Carlos I.<br \/>\n    &Agrave; &aacute;rvore gigante que do cimo de um rochedo derrama a sombra<br \/>\n    at&eacute; a profundez do vale, em alguns momentos baqueia em terra mais humilde<br \/>\n    que os bustos que a cercavam.<\/p>\n<p> Que muito? PAIKEL &#8211; H&aacute; contudo, um povo que te adora, e que<br \/>\n    pensa que o seu nome te faria estremecer na sepultura. Dize, Patkull, neste<br \/>\n    retiro &#8211; n&atilde;o chegaram ainda aos teus ouvidos seus sofrimentos,<br \/>\n    n&atilde;o retumbou um grito desesperado &#8211; n&atilde;o ouviste teus irm&atilde;os,<br \/>\n    que te chamavam em aux&iacute;lio?<\/p>\n<p>PATKULL &#8211; Que mais querem de mim? Dei por eles quarenta anos da minha<br \/>\n    vida &#8211; sacrifiquei por eles meus bens e o meu repouso. Sofri por eles<br \/>\n    o degredo e traguei o negro p&atilde;o de um mendigo: derramei por eles meu<br \/>\n    sangue no campo da batalha &#8211; que mais querem de mim? PAIKEL &#8211;<br \/>\n    Fizeste muito, Patkull, mas n&atilde;o tudo. Quererias tu perder quanto tens<br \/>\n    feito? Que importa se por um instante livraste o escravo da c&oacute;lera<br \/>\n    de um senhor impiedoso, se o deixas na mesma escravid&atilde;o, mais dura<br \/>\n    porque incitaste as iras do senhor.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Que fa&ccedil;am como eu fiz.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Por&eacute;m tu eras s&oacute;; sem fam&iacute;lia, qualquer<br \/>\n    lugar te oferecia uma p&aacute;tria; qualquer distra&ccedil;&atilde;o um prazer.<\/p>\n<p> Quererias tu que todos abandon&aacute;ssemos nossos lares, nossas terras;<br \/>\n    e s&oacute; com nossas fam&iacute;lias e mis&eacute;ria, f&ocirc;ssemos pelo<br \/>\n    mundo como uma tribo errante de judeus, esmolando um asilo? PATKULL &#8211;<br \/>\n    Quem quer ser livre peleja: Paikel, esque&ccedil;amo-nos deles.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; E eles se n&atilde;o esquecem de ti, Patkull. Eu vi por mais<br \/>\n    de uma vez uma liv&ocirc;nia que mal balbuciava o nome de sua m&atilde;e,<br \/>\n    pronunciar o teu, como se fora um nome de fam&iacute;lia. Eu vi por mais de<br \/>\n    uma vez o mancebo que sofria a tortura sem lamenta&ccedil;&otilde;es, nem<br \/>\n    l&aacute;grimas, invocar o teu nome, como se fora o nome de Deus. Mais de<br \/>\n    uma vez o velho calvo de c&atilde;s venerandas e de rosto engelhado, de quem<br \/>\n    tinham recrutado a filha para o leito de um Boiardo, e o filho para vir morrer<br \/>\n    nas guerras da Pol&ocirc;nia, pronunciar teu nome como se por si s&oacute;<br \/>\n    for uma vingan&ccedil;a. &#8211; Patkull, um homem que um povo venera tanto,<br \/>\n    &eacute; um homem grande. Mas o que despreza tantas preces, n&atilde;o merece<br \/>\n    tanto amor.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Por mais de uma vez eu chamei por eles. Chamei-os para a<br \/>\n    vit&oacute;ria e liberdade; disse-lhes: tereis armas e muni&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    forragens e mantimentos para uma &#8211; para mil campanhas; e eles ficaram<br \/>\n    frios e gelados, como se eu falasse a um cad&aacute;ver. &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    me fales neles, Paikel, esse povo &eacute; um povo de cobardes.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Tu mesmo o disseste: n&atilde;o h&aacute; prudente que diga:<br \/>\n    deste p&atilde;o n&atilde;o comerei. Tu, que eras um lidador valente, cansaste<br \/>\n    &#8211; tu que eras um bom patriota, renegaste a tua p&aacute;tria, e a n&atilde;o<br \/>\n    teres dado tantas provas de ambas, os nossos vindouros poderiam p&ocirc;r<br \/>\n    em d&uacute;vida a tua coragem e o teu patriotismo. N&atilde;o fales pois<br \/>\n    de coragem e patriotismo, que mal viste experimentada.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; E que resultaria de me empenhar de novo em coisas de mau<br \/>\n    agouro? PAIKEL &#8211; A gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Foi a ilus&atilde;o dos meus primeiros amores; e por ela<br \/>\n    sacrifiquei minha vingan&ccedil;a, que me devera ser sagrada. Sabes tu, Paikel,<br \/>\n    o que lucrei dos meus quarenta anos, com que a julgava sobejamente recompensada<br \/>\n    &#8211; o nome do ego&iacute;sta. &#8211; Assim me chamaram uma caterva de<br \/>\n    escrivinhadores que formigam em todos os tempos e por toda a parte. Disseram<br \/>\n    que se eu sofria era por amor de mim! Almas pequenas, que n&atilde;o compreendiam<br \/>\n    o sacrif&iacute;cio de um ao bem-viver de muitos: Sat&iacute;ricos incoerentes<br \/>\n    e absurdos que me viam p&ocirc;r em desleixo meus haveres e me chamaram &#8211;<br \/>\n    ego&iacute;sta! Quisesse eu permanecer tranq&uuml;ilo espectador da escravid&atilde;o<br \/>\n    dos meus! Pudesse cruzar os bra&ccedil;os em vez de manejar a espada ou pena,<br \/>\n    dignidade e honras, e favores cairiam sobre mim como uma chuva de inverno.<br \/>\n    Oh! Qu&atilde;o diversamente me julgava meu gracioso soberano Carlos XI! PAIKEL<br \/>\n    &#8211; E &eacute; de Carlos XI que data o teu favor no entusiasmo dos teus<br \/>\n    irm&atilde;os.<\/p>\n<p> Certo que toda a Liv&ocirc;nia estremeceu, como se ainda fosse hora do seu<br \/>\n    livramento, quando te escutou conciso e forte expondo as regalias dos teus<br \/>\n    compatriotas que a Su&eacute;cia abocanhava como um povo de Ilotas. O opressor<br \/>\n    mesmo n&atilde;o p&ocirc;de negar um bravo de entusiasmo e admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos 19 anos de t&atilde;o leal representante.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; E ainda se n&atilde;o tinha apagado o murm&uacute;rio que<br \/>\n    a minha voz fizera alevantar, quando um pregoeiro pelas ruas de Estocolmo<br \/>\n    declarava Patkull &#8211; r&eacute;u de lesamajestade condenado a ter as m&atilde;os<br \/>\n    cortadas; e o carrasco quebrava publicamente sobre um cepo meu bra&ccedil;o<br \/>\n    t&atilde;o nobre &#8211; e queimava os artigos do meu mandato t&atilde;o aplaudido!<br \/>\n    E tudo isto para qu&ecirc;? Hoje os liv&ocirc;nios dormem tranq&uuml;ilos<br \/>\n    na sua ignom&iacute;nia e o fel da cal&uacute;nia se derramou sobre o meu<br \/>\n    nome. Paikel, o homem pode resistir a perigos e a embara&ccedil;os, por&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o resiste &agrave; cal&uacute;nia.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; O homem virtuoso geme da cegueira dos outros homens. Se a<br \/>\n    cal&uacute;nia lhe enegrece uma virtude &#8211; outra virtude que responda<br \/>\n    aos gritos da sua sat&acirc;nica vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; uma coisa grande &#8211; Patkull &#8211; virtude &#8211;<br \/>\n    h&aacute; uma coisa santa &#8211; o dever: &#8211; De ambas elas, nasce a<br \/>\n    gl&oacute;ria que dura mais que a inveja. &#8211; E ao homem que pesa suas<br \/>\n    a&ccedil;&otilde;es no foro da consci&ecirc;ncia &#8211; pouco se lhe deve<br \/>\n    dar do maldizer dos perversos.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Deixemo-nos disso, Paikel! PAIKEL &#8211; Pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    falemos nisto! PATKULL &#8211; Mas que queres tu que eu fa&ccedil;a? PAIKEL<br \/>\n    &#8211; Salva-os.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Salva-os?! Lindas Palavras, Paikel, lindas palavras de trag&eacute;dia,<br \/>\n    que parecem dizer alguma coisa e n&atilde;o dizem nada &#8211; salva-os?!<br \/>\n    (Com impaci&ecirc;ncia) Julgasme tu algum Deus, para que ao meu aceno se fa&ccedil;a<br \/>\n    um mundo ou rebente &aacute;gua de um rochedo. &#8211; Tua idade indica mais<br \/>\n    experi&ecirc;ncia, Paikel! PAIKEL &#8211; Salva-os; porque os podes salvar.<\/p>\n<p> PATKULL (Pensativo) &#8211; Como? PAIKEL &#8211; E quererias tu faz&ecirc;-lo?!<br \/>\n    PATKULL &#8211; N&atilde;o &eacute; verdade que isto &eacute; uma simples<br \/>\n    conversa&ccedil;&atilde;o entre amigos? PAIKEL &#8211; Um dia ser&aacute;<br \/>\n    pesado na balan&ccedil;a da justi&ccedil;a eterna, n&atilde;o o bem que fizemos,<br \/>\n    mas o bem que poder&iacute;amos ter feito &#8211; Queres tu salvar teus irm&atilde;os?<br \/>\n    PATKULL &#8211; Se a minha vida a mim s&oacute; pertencesse de bom grado a<br \/>\n    dera ao primeiro que ma pedisse. De sangue e bens fui sempre largo &#8211;<br \/>\n    Mas v&ecirc;s tu? Eu prometi a um homem no ato mais solene da vida &#8211;<br \/>\n    o da morte &#8211; defender sua filha, que eu amo, que sem ele ficou &oacute;rf&atilde;,<br \/>\n    e ficaria vi&uacute;va sem mim. Dei-lhe a minha palavra de cavalheiro a ele<br \/>\n    e a ela, e deix&aacute;-la penhorada, seria justificar a senten&ccedil;a de<br \/>\n    Carlos XII quando mandou ao carrasco espeda&ccedil;ar as minhas armas em pra&ccedil;a<br \/>\n    p&uacute;blica.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Dou-te minha palavra que n&atilde;o h&aacute; risco nem perigo<br \/>\n    &#8211; ter&aacute;s o poder de um rei: queres tu salvar teus irm&atilde;os?<br \/>\n    PATKULL &#8211; Fala.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; A Dieta de Vars&oacute;via declarou vago o trono da Pol&ocirc;nia:<br \/>\n    e por vontade de Carlos XII elegeu rei a Jaques Sobieski a quem devia pertencer<br \/>\n    o trono, se o trono da Pol&ocirc;nia fosse heredit&aacute;rio. Jaques Sobieski<br \/>\n    e o pr&iacute;ncipe Constantino aguardavam com impaci&ecirc;ncia o mensageiro,<br \/>\n    que lhe trouxesse novas da sua elei&ccedil;&atilde;o. Um dia, quando ca&ccedil;ava<br \/>\n    nas vizinhan&ccedil;as de Breslau &#8211; sa&iacute;ram de emboscada 50 cavaleiro<br \/>\n    sax&ocirc;nicos que os prenderam. O chefe dos cavaleiros fui eu &#8211; t&iacute;nhamos<br \/>\n    cavalos folgados e de muda; e assim os conduzi a Leipzig antes que em Breslau<br \/>\n    corresse a not&iacute;cia de sua pris&atilde;o. A Dieta n&atilde;o o pode<br \/>\n    declarar incapaz de reinar porque ainda ontem o elegeu &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    o podem destituir, porque nem lhe podem forjar culpas. Outra Dieta poderia<br \/>\n    revogar aquela &#8211; por&eacute;m a pertin&aacute;cia e inflexibilidade<br \/>\n    do rei Carlos n&atilde;o o deixar&atilde;o mudar de prop&oacute;sito. E o<br \/>\n    reino ficar&aacute; sempre nas m&atilde;os do rei Augusto. Talvez que Augusto<br \/>\n    pretenda fazer as pazes, porque a sua Sax&ocirc;nia tamb&eacute;m p&aacute;ra<br \/>\n    nas m&atilde;os o vencedor. Fleming assim mo deu a entender; e eu o creio.<br \/>\n    O rei da Su&eacute;cia tem j&aacute; parte do seu acampamento dentro do Imp&eacute;rio;<br \/>\n    presume-se que pretende destronar tamb&eacute;m a casa d&#8217;&Aacute;ustria.<br \/>\n    Neste caso uma paz com a R&uacute;ssia torna-se necess&aacute;ria; no turbilh&atilde;o<br \/>\n    de tantos e tamanhos interesses a Liv&ocirc;nia pouco avulta. Talvez por estes<br \/>\n    tratados se firme a sua liberdade, se houver um pol&iacute;tico esperto e<br \/>\n    diligente que a defenda; ser&aacute;s tu. &#8211; Se falhar a pol&iacute;tica<br \/>\n    &#8211; 80.000 homens cobrem as fronteiras da Liv&ocirc;nia &#8211; poder&aacute;s<br \/>\n    p&ocirc;r uma contradi&ccedil;&atilde;o a Carlos XII; e ser&aacute; desfeito<br \/>\n    o tratado com a R&uacute;ssia. E ent&atilde;o ver-te-&aacute;s general&iacute;ssimo<br \/>\n    de Gr&atilde;o Czar. &#8211; 80.000 guerreiros cobrem a Pol&ocirc;nia palmo<br \/>\n    a palmo, e se vivos n&atilde;o a pudermos defender, nossos cad&aacute;veres<br \/>\n    formar&atilde;o uma muralha mais impenetr&aacute;vel que as da China.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Muito bem, Paikel, e agora tenho de me ir apresentar a Carlos<br \/>\n    XI como ministro da Liv&ocirc;nia? PAIKEL &#8211; N&atilde;o; ir&aacute;s<br \/>\n    a Dresde ter com Augusto &#8211; como plenipotenci&aacute;rio do Tzar Pedro<br \/>\n    &#8211; Imperador de todas as R&uacute;ssias.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; E as provas?! PAIKEL &#8211; Ei-las &#8211; &Eacute; o diploma<br \/>\n    selado com as armas do Imp&eacute;rio, e do pr&oacute;prio punho do Imperador.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Vamos: ser&aacute; o derradeiro esfor&ccedil;o! Far-me-&aacute;s<br \/>\n    tu um favor? PAIKEL &#8211; Fala.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Ficar&aacute;s aqui com Romhor.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Patkull.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; &Eacute; um favor, meu amigo, por&eacute;m que eu s&oacute;<br \/>\n    de ti aceitaria.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; &Eacute;s generoso.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Generoso?! Tu brincas? Se o que ora vou fazer fosse por<br \/>\n    ti &#8211; seria falta de generosidade pedir como um sal&aacute;rio do servi&ccedil;o<br \/>\n    n&atilde;o prestado, mas ainda assim eu te pediria o mesmo favor, que em iguais<br \/>\n    circunst&acirc;ncias tamb&eacute;m to faria.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Talvez que n&atilde;o! PATKULL &#8211; N&atilde;o mo queres<br \/>\n    fazer? PAIKEL &#8211; N&atilde;o te posso dizer que n&atilde;o; mas se houvesse<br \/>\n    outro meio&#8230;<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; J&aacute; te disse que s&oacute; de ti a fiava.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Fico.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Obrigado, meu amigo (Tocando uma campainha. Entra um pajem)<br \/>\n    Que &eacute; do meu pajem? O PAJEM &#8211; Aqui est&aacute;! PATKULL &#8211;<br \/>\n    Dize-lhe que o chamo (Continuando. &#8211; O pajem sai.) N&atilde;o me posso<br \/>\n    despedir dela, Paikel, que certo n&atilde;o partira &#8211; levo rasgado o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o por ter de a deixar, dize-lhe o porque parti &#8211;<br \/>\n    que n&atilde;o h&aacute; perigos, que n&atilde;o h&aacute; riscos, que breve<br \/>\n    serei dela. (Entra WoIf) Wolf, eu parto, n&atilde;o sei quando serei de volta,<br \/>\n    tu aqui ficar&aacute;s.<\/p>\n<p> WOLF &#8211; Por que me n&atilde;o levais, Senhor? PATKULL &#8211; Fica,<br \/>\n    Wolf; para n&oacute;s ambos &eacute; melhor que fiques. &#8211; Ficar&aacute;s<br \/>\n    com a Senhora Duquesa, e se alguma novidade ocorrer &#8211; que me seja importante<br \/>\n    saber &#8211; algum infort&uacute;nio &#8211; alguma fatalidade &#8211; vir&aacute;s<br \/>\n    ter comigo a Dresde. &#8211; Traze o meu manto.<\/p>\n<p> WOLF &#8211; Neva muito, Senhor; algum temporal estar&aacute; pr&oacute;ximo<br \/>\n    a rebentar porque relampeja para o norte e a noite tornou-se escura e feia.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; N&atilde;o importa, bom pajem (O pajem sai. Ele a Paikel)<br \/>\n    Pressinto alguma desgra&ccedil;a, Paikel.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; N&atilde;o ser&aacute; nada: s&atilde;o saudades que levas,<br \/>\n    e que minguar&atilde;o a dist&acirc;ncia e o nojo da jornada. (Entra o pajem,<br \/>\n    p&otilde;e o manto) PATKULL &#8211; Adeus Wolf &#8211; abra&ccedil;a teu amo.<br \/>\n    (Wolf chega-se e ele o abra&ccedil;a) Adeus Paikel. (Estende-lhe a m&atilde;o)<br \/>\n    PAIKEL (V&ecirc;-o sair &#8211; fica um pouco a olhar para a porta que se<br \/>\n    tem fechado, olha para a c&acirc;mara de Romhor &#8211; d&aacute; dois passos<br \/>\n    para ela apertando as m&atilde;os contra os peitos) E eu fico.<\/p>\n<h2><a name=\"2\">Ato Segundo<\/a><\/h2>\n<p>NAMRY ROMHOR BERTHA PAIKEL WOLF Um pajem<\/p>\n<p><b>A cena se passa no Ducado de Mecklenburg<\/b><\/p>\n<p>A mesma sala que a do ato primeiro<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>PAIKEL (Entra) &#8211; Ainda a n&atilde;o pude ver um s&oacute; instante<br \/>\n    &#8211; ontem passei o dia silencioso e tristonho &agrave; espera de mensagem<br \/>\n    dela&#8230; e esperei debalde: hoje me recusou ela uma entrevista pretextando<br \/>\n    inc&ocirc;modo&#8230; Hei-de falar-lhe. (Toca a campainha) Abusar assim da confian&ccedil;a<br \/>\n    de um amigo, da sua cordialidade e franqueza, &eacute; uma inf&acirc;mia.<br \/>\n    &#8211; Mas por que me roubou ele o cora&ccedil;&atilde;o de Namry &#8211;<br \/>\n    por que se veio interp&ocirc;r no meu caminho? (Entra o pajem) Que me queres?<br \/>\n    O PAJEM &#8211; Pensei que &eacute;reis v&oacute;s quem cham&aacute;veis!<br \/>\n    (Indo para sair) Perdoai! PAIKEL &#8211; Sim, fui eu: dize-me &#8211; poderei<br \/>\n    falar &agrave; senhora duquesa? O PAJEM &#8211; Dizem que amanheceu doente.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Quanto o ama! (&Aacute; parte) E tu, pajem, podes-lhe falar?<br \/>\n    O PAJEM &#8211; Nada. Senhor, n&atilde;o.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Quem ent&atilde;o? O PAJEM &#8211; A sua dama, Senhor.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; E ela?&#8230;! O PAJEM &#8211; Est&aacute; tamb&eacute;m doente.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Por Deus que &eacute; muita mol&eacute;stia num dia. Pajem,<br \/>\n    faze o que quiseres, av&eacute;m-te l&aacute; como puderes &#8211; h&aacute;s-de<br \/>\n    fazer chegar aos ouvidos da senhora duquesa que eu tenho que lhe dizer da<br \/>\n    parte do senhor Patkull, e que talvez daqui a uma hora j&aacute; tenha partido.<br \/>\n    (Faz-lhe sinal com a m&atilde;o que saia) Vai bem diverso o tempo de quando<br \/>\n    a todos os instantes me esperavam, apesar de estranha vigil&acirc;ncia, Namry?!<br \/>\n    ( Entra Wolf ) WOLF &#8211; Senhor Paikel! Senhor Paikel! PAIKEL &#8211; Que<br \/>\n    tens tu, pajem? WOLF &#8211; Not&iacute;cias de meu amo, mandou-as ainda de<br \/>\n    caminho, e que a esta hora estaria em Desdre! PAIKEL &#8211; Tu amas muito<br \/>\n    meu amo, Wolf! WOLF &#8211; Ele tamb&eacute;m me ama muito!! Ainda pequeno<br \/>\n    fiquei sem pai, nem m&atilde;e; passou ele acaso por Casimir onde era meu<br \/>\n    tio carcereiro da pris&atilde;o do rei. Ele viu-me e como meu tio de pouco<br \/>\n    me poderia servir, cedeu-me ao senhor Patkull que disse me havia de fazer<br \/>\n    feliz. Meu bom tio se despediu de mim chorando, porque me amava muito o bom<br \/>\n    Sally! Depois desse tempo tenho sempre vivido com ele: se soub&eacute;sseis<br \/>\n    quanto &eacute; meu amigo!! Quanto o amo&#8230;<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Tens raz&atilde;o, Wolf, ama-o muito e n&atilde;o ter&aacute;s<br \/>\n    de que te arrepender. Ele &eacute; um amigo que n&atilde;o atrai&ccedil;oa<br \/>\n    o seu amigo, sua palavra &eacute; santa e pura. Tu &eacute;s novo, Wolf, na<br \/>\n    tua idade ainda h&aacute; reconhecimento para um sorriso, e amor para o mimo<br \/>\n    que nos mostram. (Entra a duquesa um pouco p&aacute;lida e vagarosa ) Vai,<br \/>\n    bom pajem, logo mais falaremos.<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p> <b>NAMRY ROMHOR e PAIKEL<\/b><\/p>\n<p>NAMRY &#8211; Mandastes-me dizer, Senhor, que t&iacute;nheis recados para<br \/>\n    mim da parte do vosso amigo! PAIKEL &#8211; E a n&atilde;o ser isso, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade que nem sequer uma vez, vos dignar&iacute;eis de mostrar-vos<br \/>\n    ao vosso h&oacute;spede? NAMRY &#8211; Ningu&eacute;m vos mandou aceitar a<br \/>\n    sua hospedagem, Senhor.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Foi a &uacute;nica desculpa que me n&atilde;o veio &agrave;<br \/>\n    mente. Patkull rir-se-ia se eu lha desse; e eu talvez que outro tanto fizesse<br \/>\n    ao sensato que a sonhasse! NAMRY &#8211; Nem era mister que lhe d&eacute;sseis<br \/>\n    precisamente esta: bastava recusar.<\/p>\n<p> Um pretexto de neg&oacute;cio ou de interesse nunca falta ao homem; &eacute;<br \/>\n    um motivo que todos compreendem! PAIKEL &#8211; Todos! Senhora!! &Eacute;<br \/>\n    certo que n&atilde;o dar&iacute;eis cr&eacute;dito ao homem que vos dissesse:<br \/>\n    interesse e gl&oacute;ria tenho eu sacrificado para seguir a ilus&atilde;o<br \/>\n    de um tempo que j&aacute; passou, mem&oacute;rias de amor correspondido, sonhos<br \/>\n    ditosos da inf&acirc;ncia que o acordar dos anos dissiparam na mulher que<br \/>\n    ent&atilde;o me amava.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Senhor Paikel! PAIKEL &#8211; Quando ele vos dissesse; soube<br \/>\n    que estavas presa em novo enleio, e esta certeza n&atilde;o deu quebranto<br \/>\n    ao meu amor, n&atilde;o o acreditareis por que n&atilde;o &eacute; do interesse<br \/>\n    do homem o aviltar-se? NAMRY &#8211; Sim.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; N&atilde;o o acreditar&iacute;eis quando ele vos dissesse,<br \/>\n    sacrifiquei o meu repouso; vaguei noite e dia ao vento e &agrave; chuva &#8211;<br \/>\n    aos raios do sol e ao frio de inverno para demorar ao menos por um dia um<br \/>\n    casamento, que se ia concluir, e roubar-me para todo sempre esperan&ccedil;as<br \/>\n    de ventura t&atilde;o mimosa que a exist&ecirc;ncia me douravam! NAMRY &#8211;<br \/>\n    Paikel! PAIKEL &#8211; Se ele vos dissesse eu tenho um amigo; amava-o como<br \/>\n    se ele fora meu irm&atilde;o, como a mim pr&oacute;prio: Estivesse eu a rezar<br \/>\n    sobre o t&uacute;mulo de meu pai &#8211; iria para ele quando a sua voz me<br \/>\n    chamasse. Estivesse eu a morrer de fome e de sede &#8211; darlhe- ia o &uacute;nico<br \/>\n    peda&ccedil;o de p&atilde;o que me pudesse aliviar a fome &#8211; dar-lhe-ia<br \/>\n    a sede de &aacute;gua que me pudesse umedecer as fauces! Eu amava-o; e para<br \/>\n    ver a mulher que amava manchei a minha honra, e trai a amizade! Tamb&eacute;m<br \/>\n    o n&atilde;o acreditar&iacute;eis, porque a honra e amizade valem mais que<br \/>\n    o ouro, mais que o sangue! NAMRY &#8211; Se Patkull vos ouvisse!! PAIKEL &#8211;<br \/>\n    Foi por isso que o mandei para longe. Mas em troco de um momento, que seria<br \/>\n    de del&iacute;cias para ele e nada mais para mim que absinto e fel, dei-lhe<br \/>\n    honras e considera&ccedil;&atilde;o. Eu bem sabia que ele tinha no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    uma corda inteira, que vibraria a todo o momento como uma harpa vaporosa;<br \/>\n    bem sabia eu que o nome da Liv&ocirc;nia ainda era para ele mais que um nome.<br \/>\n    Vali-me dessa virtude &#8211; e em recompensa do amor lhe dei a gl&oacute;ria!<br \/>\n    H&aacute; homens bem afortunados neste mundo; quando a desgra&ccedil;a como<br \/>\n    um c&eacute;u gr&aacute;vido de tempestade paira sobre eles; ent&atilde;o<br \/>\n    lhes sorri a fortuna mais brilhante, como o raiar de um sol de primavera.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Por que falais assim, Senhor? PAIKEL &#8211; Por qu&ecirc;?&#8230;<br \/>\n    Porque eu n&atilde;o sou desses homens, e no entanto pouco me bastava para<br \/>\n    o ser. Por&eacute;m minhas palavras s&atilde;o um enigma que pareceis n&atilde;o<br \/>\n    compreender!&#8230; Quem o dissera!&#8230; Se algum vener&aacute;vel astr&oacute;logo<br \/>\n    lesse nos astros t&atilde;o incr&iacute;vel hor&oacute;scopo, certo que eu<br \/>\n    me rira da sua ci&ecirc;ncia, e deixaria o velho ausentar-se impune, condo&iacute;do<br \/>\n    de tanta loucura! Hoje n&atilde;o me entendeis, Namry &#8211; minhas palavras<br \/>\n    ferem os vossos ouvidos como se foram um monumento de pedra, que mas repercutisse<br \/>\n    em eco; minha presen&ccedil;a vos escandaliza; e para mim at&eacute; deslembrastes<br \/>\n    a polidez com que tratais a todos.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Quereis perder-me, Senhor? PAIKEL &#8211; Senhor! Sempre Senhor!<br \/>\n    A pouco resumes a tua civilidade, Namry&#8230;<\/p>\n<p> Quero-te contar uma hist&oacute;ria. Havia um duque&#8230; n&atilde;o sei onde!<br \/>\n    Poderoso e nobre era o duque &#8211; cheio de altivez e de orgulho &#8211;<br \/>\n    por&eacute;m severo guardador da sua palavra &#8211; um pobre cavaleiro amava<br \/>\n    a filha do duque, julgando haver na filha tanta religi&atilde;o de palavra,<br \/>\n    como no pai: tal n&atilde;o era. Amavam-se ambos! Por&eacute;m de que vale<br \/>\n    o amor quando reina o interesse! Por interesse o duque negou sua filha ao<br \/>\n    cavaleiro e a filha chorou porque nesse tempo tamb&eacute;m o amava. Depois&#8230;<br \/>\n    familiarizou-se com a sua sorte; pouco a pouco abra&ccedil;ou as opini&otilde;es<br \/>\n    do pai &#8211; e renegou o amante, como o pai tinha rejeitado o amigo. &Eacute;<br \/>\n    bem verdade o que dizeis, Senhora: o interesse &eacute; um motivo que todos<br \/>\n    compreendem! NAMRY &#8211; N&atilde;o mais &#8211; Senhor. &#8211; Promessas<br \/>\n    da inf&acirc;ncia, dita-as a imprud&ecirc;ncia &#8211; hoje o dever se op&otilde;e<br \/>\n    a elas. &#8211; Eu n&atilde;o vos iria pedir contas do que houv&eacute;sseis<br \/>\n    feito; n&atilde;o mas vinde tamb&eacute;m pedir &#8211; a mim.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; N&atilde;o vos pe&ccedil;o contas &#8211; somente como talvez<br \/>\n    seja a &uacute;ltima vez que nos veremos &#8211; conto-vos uma hist&oacute;ria<br \/>\n    &#8211; coisas de que me pareceis esperta &#8211; eu vos dizia, Namry, que<br \/>\n    a filha do duque e o cavaleiro se amavam. N&atilde;o se tratavam como n&oacute;s<br \/>\n    por Senhor: esse v&eacute;u grosseiro de civilidade que n&atilde;o diz amor,<br \/>\n    nem gratid&atilde;o porque indistintamente se confere a todos; tratavam-se<br \/>\n    por tu. A filha do duque&#8230; n&atilde;o me acorda o seu nome &#8211; cham&aacute;-la-emos<br \/>\n    Namry &#8211; Namry, essa mo&ccedil;a inocente e pura, que a n&atilde;o achar&iacute;eis<br \/>\n    mais. O cavaleiro pensava que dificultosamente a possuiria: e em um dia pensando<br \/>\n    nisto, chamava-lhe a senhora duquesa &#8211; ent&atilde;o a pobre mo&ccedil;a<br \/>\n    chorava e solu&ccedil;ava, que n&atilde;o havia acabar com tais solu&ccedil;os<br \/>\n    porque se julgava menos amada.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Por piedade! PAIKEL &#8211; Como ela se enganava a si pr&oacute;pria!<br \/>\n    Criatura inocente? Como a f&eacute; do seu cora&ccedil;&atilde;o se debateria<br \/>\n    em um caos de sombras e de trevas, se lhe dissessem ent&atilde;o que ela um<br \/>\n    dia n&atilde;o compreenderia as palavras daquele de quem at&eacute; adivinhava<br \/>\n    os pensamentos! Um caso mal apercebido &#8211; um volver de olhos insignificante<br \/>\n    &#8211; uma flor colhida h&aacute; pouco &#8211; e lan&ccedil;ada no meio<br \/>\n    duma leiva de flores &#8211; uma pegada simples no meio de uma alameda &#8211;<br \/>\n    tudo tinha um nome &#8211; uma significa&ccedil;&atilde;o &#8211; uma lembran&ccedil;a.<\/p>\n<p> Acreditareis isto, Namry! NAMRY &#8211; Quereis perder-me? PAIKEL &#8211;<br \/>\n    Perder-vos, Senhora! Brincais comigo! Perder-vos &#8211; a mulher sisuda e<br \/>\n    grave que lan&ccedil;ou o esquecimento sobre o passado, como se lan&ccedil;a<br \/>\n    uma mortalha sobre as fei&ccedil;&otilde;es decompostas de um cad&aacute;ver<br \/>\n    &#8211; a mulher que tem t&atilde;o gravados na sua consci&ecirc;ncia seus<br \/>\n    deveres de hoje &#8211; que nem se lembra dos de ontem!&#8230; Perder-vos! Se<br \/>\n    outra pessoa me dissesse estas palavras no meio do rumor e do giro de regozijo<br \/>\n    e festa, sem d&uacute;vida que eu as aceitaria como uma delicada galanteria.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; E no entanto tu bem v&ecirc;s que eu luto comigo mesma para<br \/>\n    n&atilde;o ceder N&atilde;o sabes que horr&iacute;vel seria atrai&ccedil;oar<br \/>\n    assim: eu, o esposo t&atilde;o amante &#8211; tu, o amigo t&atilde;o sincero.<\/p>\n<p> Tem piedade de mim! PAIKEL &#8211; E o que pediria a v&iacute;tima, a quem<br \/>\n    o carrasco martirizasse a golpes de mal afiada segure? Em breve te cingir&atilde;o<br \/>\n    os bra&ccedil;os do teu esposo, e te esquecer&aacute;s do malfadado que se<br \/>\n    ir&aacute; por terras de estranhos com a dor no cora&ccedil;&atilde;o &#8211;<br \/>\n    e as l&aacute;grimas nos olhos. E o que pediria eu, Namry? Ainda h&aacute;<br \/>\n    pouco apareceste diante de mim com as sobrancelhas carregadas de increpa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e me endere&ccedil;aste palavras de amargor e de c&oacute;lera que eu duvidei<br \/>\n    por um instante, se eu era verdadeiramente Paikel &#8211; e tu verdadeiramente<br \/>\n    Namry Romhor &#8211; e se ambos n&oacute;s nos t&iacute;nhamos amado em outros<br \/>\n    tempos.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Por Deus, Paikel &#8211; que queres tu que eu fa&ccedil;a?<br \/>\n    PAIKEL &#8211; Nada, Namry; n&atilde;o quero nada. E se tu soubesses?&#8230; Quando<br \/>\n    soube que j&aacute; me n&atilde;o amavas &#8211; quando mais n&atilde;o pude<br \/>\n    duvidar &#8211; fiquei est&uacute;pido e frio como uma rocha batida pelas<br \/>\n    vagas &#8211; Depois mil pensamentos remoinharam em minha alma; eu me julguei<br \/>\n    doido, e a cabe&ccedil;a se me estalava com dores. Quis te ver ainda uma vez,<br \/>\n    porque visse se eras t&atilde;o bela como dantes, do que eu duvidava. Trazia<br \/>\n    mil coisas para te dizer &#8211; mil palavras de furor e desespero &#8211;<br \/>\n    de inj&uacute;ria e de insultos &#8211; e tudo se acabou quando te avistei.<br \/>\n    Se estiv&eacute;ssemos s&oacute;s, eu me lan&ccedil;aria a teus p&eacute;s<br \/>\n    para te pedir perd&atilde;o de ter desconfiado de ti e hoje mesmo, ainda o<br \/>\n    faria se me n&atilde;o viesse gelar a voz nos l&aacute;bios com tua voz fria<br \/>\n    e grave.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Meu Deus, meu Deus! PAIKEL &#8211; Uma palavra s&oacute;,<br \/>\n    e eu me retiro para sempre: Namry, por nosso amor t&atilde;o formoso de outras<br \/>\n    eras &#8211; pelo amor que hoje tens se te n&atilde;o acordas do pobre homem<br \/>\n    que te adorava com todas as veras do seu cora&ccedil;&atilde;o, Namry, j&aacute;<br \/>\n    me n&atilde;o amas? NAMRY &#8211; Por que mo perguntas, Paikel? PAIKEL &#8211;<br \/>\n    Por Deus &#8211; eu to suplico &#8211; Dize-me uma palavra s&oacute; &#8211;<br \/>\n    e eu me irei, Namry; e nem mais ouvir&aacute;s falar de mim se not&iacute;cias<br \/>\n    minhas te importunam &#8211; n&atilde;o me amas? NAMRY &#8211; Mas seria fazer-te<br \/>\n    uma confiss&atilde;o! PAIKEL &#8211; E &eacute; o que te pe&ccedil;o &#8211;<br \/>\n    livra-me desta d&uacute;vida que me esmaga o cora&ccedil;&atilde;o: Dize-me<br \/>\n    que sim ou que n&atilde;o &#8211; pouco ser&aacute; para ti dizeres uma palavra<br \/>\n    &#8211; s&oacute; &#8211; nada mais que uma palavra. &#8211; porque n&atilde;o<br \/>\n    me posso persuadir que em t&atilde;o pouco tempo te esquecesses de tudo. Livra-me<br \/>\n    desta incerteza que me endoidece &#8211; por quem &eacute;s &#8211; e eu te<br \/>\n    beijarei as m&atilde;os e os p&eacute;s &#8211; e o s&iacute;tio em que pisas<br \/>\n    &#8211; dar-te-ei minha vida se ma pedires, e bendirei o teu nome.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Basta! Basta! Meu amigo. (Abra&ccedil;ando-o) PAIKEL (Apertando-a<br \/>\n    nos bra&ccedil;os) &#8211; Meu amigo! NAMRY &#8211; Deixa-me chorar &#8211;<br \/>\n    deixa-me chorar de prazer nos teus bra&ccedil;os, meu Paikel, custava-me tanto<br \/>\n    ver-te sofrer! (Abra&ccedil;ados) PAIKEL &#8211; Eu bem sabia que tu eras<br \/>\n    sempre a minha Namry &#8211; e que o meu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    me enganava. (Ela tem a cabe&ccedil;a nos ombros dele) NAMRY &#8211; Vem gente!<br \/>\n    PAIKEL &#8211; N&atilde;o &eacute; ningu&eacute;m &#8211; deixa-te estar sobre<br \/>\n    o meu cora&ccedil;&atilde;o &#8211; deixa-me ver o teu rosto &#8211; h&aacute;<br \/>\n    tanto tempo que n&atilde;o via &#8211; precisava tanto de ti! Precisava tanto<br \/>\n    do teu amor! (Abre-se a porta e aparece Bertha)<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>Paikel tem as costas para a porta da esquerda do espectador, por onde entrou<br \/>\n    Bertha &#8211; Bertha traz um v&eacute;u e p&aacute;ra um pouco &agrave; porta.<br \/>\n    Paikel, que ficou a olhar para o s&iacute;tio por onde desapareceu Namry,<br \/>\n    olha repentinamente para tr&aacute;s &#8211; e d&aacute; com Bertha.<\/p>\n<p><b>PAIKEL e BERTHA<\/b><\/p>\n<p>BERTHA &#8211; Muito sinto de vos ter surpreendido, Senhor! PAIKEL &#8211;<br \/>\n    Como deveis saber, a casa n&atilde;o &eacute; minha &#8211; tendes direito<br \/>\n    de entrar nela e disto nada estranho. &#8211; Mas como agora me parece que<br \/>\n    tendes de me falar &#8211; dar-me-ia por mui feliz se em alguma coisa vos<br \/>\n    pudesse ser agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> BERTHA &#038;#8#8211; Obrigad&iacute;ssimo, Senhor &#8211; por&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    vim para vos pedir favores.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; N&atilde;o tendes que me agradecer, a n&atilde;o ser a minha<br \/>\n    boa vontade; e apesar de tudo ser-me-&aacute; permitido pedir-vos um favor<br \/>\n    com tanta franqueza com quanta recusaste o meu pr&eacute;stimo.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Podeis pedir, Senhor &#8211; por&eacute;m desde j&aacute;<br \/>\n    tende a certeza de que n&atilde;o v&ocirc;-lo fa&ccedil;o.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; E por qu&ecirc;, Senhora? BERTHA &#8211; Porque nada me poderia<br \/>\n    pedir Paikel que eu lho pudesse fazer.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Oh! Mas parece que j&aacute; nos conhecemos.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Tendes tido o cuidado de escrever o vosso nome por tanto<br \/>\n    lugar imundo e s&oacute;rdido, que n&atilde;o &eacute; muito que eu vos conhe&ccedil;a.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Perdoai, Senhora &#8211; por&eacute;m para ter tido o meu<br \/>\n    nome em tais lugares &#8211; seria preciso ter-vos abaixado at&eacute; eles.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; V&oacute;s o dizeis, Senhor! (Descobre-se) PAIKEL &#8211;<br \/>\n    Bertha!!! BERTHA &#8211; J&aacute; me conheceis, Senhor? Julguei que j&aacute;<br \/>\n    vos ter&iacute;eis esquecido das minhas fei&ccedil;&otilde;es como j&aacute;<br \/>\n    vos esquecestes da minha voz. Ora pois, agora que me conheceis &#8211; dizei-me:<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; verdade que j&aacute; desci bem baixo, aos mais &iacute;nfimos<br \/>\n    degraus da sociedade &#8211; aos lugares mais torpes e obscenos? Dizei-me!<br \/>\n    PAIKEL &#8211; Que vieste aqui fazer, Bertha? BERTHA &#8211; Essa pergunta<br \/>\n    deveria ser a minha; mas&#8230; responder-vos-ei; inquiri a vossa consci&ecirc;ncia<br \/>\n    se ainda a tendes, e ela vos dir&aacute; o que aqui vim fazer. &#8211; Pesai<br \/>\n    as vossas inten&ccedil;&otilde;es, Senhor, e concluireis depois que por amor<br \/>\n    de v&oacute;s e por amor de mim &#8211; livrei-vos de ser um infame sedutor<br \/>\n    por mais uma vez &#8211; e um amigo ingrato e refalsado, se j&aacute; o n&atilde;o<br \/>\n    fostes.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Quem te disse que eu a queria seduzir, Bertha? BERTHA &#8211;<br \/>\n    Digo-to eu, Paikel &#8211; porque conhe&ccedil;o-te mais a ti do que a mim<br \/>\n    pr&oacute;pria. Digo-to eu, porque sei que o farias de bom grado sem te dares<br \/>\n    da mulher que desonravas &#8211; sem te dares, nem da sua honra, nem da tua,<br \/>\n    porque essa pobre mulher tamb&eacute;m te ama. E finalmente, Paikel, digo-to<br \/>\n    eu porque conhe&ccedil;o os teus projetos.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Bertha, sempre &eacute; bem feliz uma mulher com ser fraca,<br \/>\n    porque pode impunemente com o que lhe vem &agrave; fantasia atirar &agrave;<br \/>\n    cara de um homem, e insult&aacute;-lo como lhe apraz.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; &Eacute; o que eu disse, Paikel &#8211; &eacute; bem feliz<br \/>\n    a mulher; dize, n&atilde;o te parece que &eacute; bem feliz quando compra,<br \/>\n    como eu comprei, a liberdade de um homem; e quando o insulta, como ora fa&ccedil;o?<br \/>\n    Dir-te-ei mais, Paikel, mente &#8211; quem emprega manhas e artif&iacute;cios<br \/>\n    para enganar a uma mulher &#8211; &eacute; um embusteiro: &#8211; e quem depois<br \/>\n    de a ter humilhado a abandona, sem se lhe dar do seu futuro &eacute; um cobarde<br \/>\n    &#8211; um infame.<\/p>\n<p> Oh! Como eu sou bem feliz em te poder lan&ccedil;ar em rosto todas estas<br \/>\n    baixezas, que fariam corar o mais vil lacaio, e que te n&atilde;o podem fazer<br \/>\n    subir a cor &agrave;s faces! PAIKEL &#8211; J&aacute; vejo que de prop&oacute;sito<br \/>\n    vieste para me insultar.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; J&aacute; vos disse para o que vim &#8211; livrar-vos de<br \/>\n    uma inf&acirc;mia e facilitar vos a repara&ccedil;&atilde;o de outra.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Dizei &#8211; bem vedes que estou ben&eacute;volo e tranq&uuml;ilo,<br \/>\n    e que ouvirei paciente de uma senhora t&atilde;o polida a negra rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos meus delitos &#8211; sentai-vos! PAIKEL &#8211; Ent&atilde;o falai breve<br \/>\n    &#8211; porque me arreceio de que a minha impaci&ecirc;ncia afugente a minha<br \/>\n    civilidade &#8211; e neste caso &#8211; sentiria n&atilde;o vos poder escutar<br \/>\n    at&eacute; o fim.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Como quiserdes! PAIKEL (Gesto de impaci&ecirc;ncia) &#8211;<br \/>\n    Tratarei de vos interrogar, Bertha, a ver se mais depressa nos aviamos. Tereis<br \/>\n    a bondade de me informar dos meus projetos? BERTHA &#8211; Seria in&uacute;til<br \/>\n    &#8211; por&eacute;m eu v&ocirc;-los direi &#8211; para vos diminuir a vaidade<br \/>\n    de pensardes que ningu&eacute;m aventa as vossas inten&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o foi por amor da Liv&ocirc;nia ou pela gl&oacute;ria do<br \/>\n    vosso amigo &#8211; que o fizestes sair daqui: precis&aacute;veis de estar<br \/>\n    s&oacute; para melhor levar ao cabo a vossa empresa e vistes com a m&aacute;scara<br \/>\n    na cara &#8211; e o fingimento nos l&aacute;bios atrai&ccedil;oar o vosso<br \/>\n    amigo, se me n&atilde;o interpusesse entre v&oacute;s ambos, mais forte do<br \/>\n    que a inoc&ecirc;ncia de Romhor, mais vigilante do que a credulidade de Patkull.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; E sem d&uacute;vida terei tramado contra ele alguma horr&iacute;vel<br \/>\n    emboscada! BERTHA &#8211; Que d&uacute;vida? PAIKEL &#8211; Oh! Meu Deus!<br \/>\n    BERTHA &#8211; Tremo por algu&eacute;m. Paikel, quando te sorris para ele<br \/>\n    &#8211; quando lhe endere&ccedil;as palavras sedutoras, quando espontaneamente<br \/>\n    obsequeias. &#8211; Armastes ao teu amigo alguma horr&iacute;vel emboscada<br \/>\n    &#8211; tu o disseste.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Bertha, Deus te livre de amigos que assim pensem de ti.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Deus me perdoe, se me engano; porque j&aacute; me tens dado<br \/>\n    raz&otilde;es sobejas para duvidar do bem que pareces fazer.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; E n&atilde;o receias que pensem mal de ti, quando pensas<br \/>\n    mal de todos? BERTHA &#8211; N&atilde;o. Porque ainda conhe&ccedil;o cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inocentes e virtuosos. Somente agora n&atilde;o sou t&atilde;o f&aacute;cil<br \/>\n    de enganar, como j&aacute; o fui em outros tempos: tu bem o sabes, Paikel.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Bertha, por que havemos de estar assim a estomagar-nos cruelmente<br \/>\n    um ao outro? &#8211; Eu bem sei que tu tens raz&atilde;o &#8211; muita raz&atilde;o<br \/>\n    &#8211; para me tratares com tanta dureza: eu mesmo me condeno porque baixamente<br \/>\n    me portei contigo &#8211; portei-me como um pe&atilde;o, como um servo. &#8211;<br \/>\n    Eu bem o sei, Bertha. Ainda que eu me lan&ccedil;asse de joelhos a teus p&eacute;s,<br \/>\n    n&atilde;o me quererias perdoar, e contudo nunca te deixei de amar, Bertha:<br \/>\n    ainda hoje te amo; ainda te amo como sempre; como no dia em que abandonaste<br \/>\n    teus pais, teus lares, para seguires o simples cavaleiro Paikel &#8211; que<br \/>\n    nada mais tinha para te oferecer que o seu amor.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; J&aacute; uma vez me enganaste! PAIKEL &#8211; N&atilde;o!<br \/>\n    Nunca te enganei porque o teu amor ficou sempre comigo. &#8211; Cr&ecirc;s<br \/>\n    tu que um homem possa esquecer momentos t&atilde;o deleitosos, como os que<br \/>\n    eu passei ao teu lado? Esquece-los-&aacute;s tu, Bertha? N&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    os esquecer&aacute;s porque tamb&eacute;m eu me n&atilde;o esqueci deles.<\/p>\n<p> Quando o amor &eacute; t&atilde;o ardente e t&atilde;o profundo como o nosso,<br \/>\n    Bertha, dura por toda a vida e o cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode amar<br \/>\n    duas vezes por igual modo.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Mas tu amas a esta mulher, Paikel.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; N&atilde;o o creias. &Eacute; uma distra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; uma ilus&atilde;o &#8211; um passatempo, por&eacute;m nunca ser&aacute;<br \/>\n    o amor. Se tu me amasses ainda? Tu verias se o meu cora&ccedil;&atilde;o se<br \/>\n    tem envilecido &#8211; Bertha, ainda poder&iacute;amos ser felizes como no<br \/>\n    tempo em que eu te dizia: eu te amo. &#8211; E tu me abra&ccedil;avas e com<br \/>\n    teus l&aacute;bios, que se sorriam, derramavas sobre os meus um prazer indiz&iacute;vel,<br \/>\n    inef&aacute;vel, que &#8211; que nunca igual experimentei.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Falas tu verdade, Paikel? PAIKEL &#8211; Meu Deus, meu Deus<br \/>\n    &#8211; como te poderei eu persuadir? Dize o que queres tu que eu diga ou<br \/>\n    fa&ccedil;a, para que me possas acreditar. &#8211; Eu o farei, Bertha eu o<br \/>\n    direi &#8211; oh! Se eu pudesse dizer tudo quanto sinto por ti! &#8211; tudo<br \/>\n    quanto me enche o cora&ccedil;&atilde;o, e que eu mal posso traduzir &#8211;<br \/>\n    tu me perdoarias &#8211; Bertha, tu me amarias.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; E esta mulher? PAIKEL &#8211; J&aacute; te disse que a n&atilde;o<br \/>\n    amo &#8211; n&atilde;o amo sen&atilde;o a ti, minha Bertha. &#8211; Queres<br \/>\n    tu? Deixemos esta casa &#8211; esta terra &#8211; iremos n&oacute;s ambos,<br \/>\n    n&oacute;s sozinhos para longe &#8211; para muito longe &#8211; para a nossa<br \/>\n    casinha de Olitta, Bertha; e ali acharemos o prazer que ali deixamos, que<br \/>\n    ali nos sorria e o nosso amor t&atilde;o puro e t&atilde;o terno.<\/p>\n<p> Tu bem sabes o amor que eu tenho &agrave; ci&ecirc;ncia &#8211; o amor da<br \/>\n    gl&oacute;ria, que me n&atilde;o podia fazer esquecer. &#8211; Pois bem &#8211;<br \/>\n    Bertha &#8211; deixar-me-ei das minhas experi&ecirc;ncias que tanto te assustavam,<br \/>\n    e nem me ouvir&aacute;s falar de alquimia ou de pedra filosofal &#8211; Queres<br \/>\n    tu? Oh meu Deus, n&atilde;o ter&aacute;s tu unicamente direito ao cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; J&aacute; me n&atilde;o amas, Bertha? BERTHA &#8211; Paikel.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Fujamos daqui, meu anjo, meu amor; Bertha. (Pegando-!he nas<br \/>\n    m&atilde;os) Iremos para onde te aprouver &#8211; sempre amantes &#8211; sempre<br \/>\n    unidos, na vida como na morte &#8211; Bertha?! BERTHA &#8211; Seria verdadeiramente<br \/>\n    horr&iacute;vel que me enganasses segunda vez &#8211; Paikel! &#8211; Eu conhe&ccedil;o<br \/>\n    que &eacute; poss&iacute;vel &#8211; que um dia o far&aacute;s talvez. &#8211;<br \/>\n    N&atilde;o importa, Paikel; &#8211; eu tamb&eacute;m te amo. (Vai para o abra&ccedil;ar<br \/>\n    &#8211; ele pega-lhe nas m&atilde;os e recua, para que ela o n&atilde;o abrace<br \/>\n    e ela cai de joelhos) PAIKEL (A rir-se) &#8211; Sois bem dif&iacute;cil de<br \/>\n    enganar, Bertha! BERTHA (Com a cara escondida no seio) &#8211; Desgra&ccedil;ada<br \/>\n    que eu sou! PAIKEL &#8211; Desgra&ccedil;ada que tu &eacute;s, Bertha. &#8211;<br \/>\n    V&ecirc;s tu que eu poderia fazer de ti tudo quanto me aprouvesse. &#8211;<br \/>\n    V&ecirc;s tu que est&aacute;s a meus p&eacute;s como se foras a criminosa.<br \/>\n    &#8211; V&ecirc;s tu que eu sei que ainda me amas, e que rejeitei o teu abra&ccedil;o,<br \/>\n    como rejeitei o teu amor.<\/p>\n<p> BERTHA (Tapando os olhos) &#8211; Paikel! PAIKEL &#8211; Desgra&ccedil;ada<br \/>\n    mulher, chamaste-me vil &#8211; infame &#8211; cobarde &#8211; chamasteme<br \/>\n    que sei &#8211; eu&#8230; E conclues dizendo &#8211; eu te amo: por Deus que &eacute;<br \/>\n    incr&iacute;vel o teu amor! Amares qualidades t&atilde;o infames! BERTHA &#8211;<br \/>\n    Tem piedade de mim! PAIKEL &#8211; N&atilde;o mereces nem amor, nem piedade;<br \/>\n    mas terei compaix&atilde;o de ti, se vir que as tuas faces ainda se n&atilde;o<br \/>\n    esqueceram de corar.<\/p>\n<p> BERTHA (Levantando-se resoluta) &#8211; S&oacute; esta vez, Senhor. &#8211;<br \/>\n    N&atilde;o vos falarei agora porque n&atilde;o terei palavras para vos dizer<br \/>\n    quanto foi baixo e vergonhoso o modo por que me haveis tratado: &#8211; Paikel<br \/>\n    &#8211; eu era rica e nova &#8211; tinha pais que me amavam, teria mil amantes<br \/>\n    se os quisesse, e tudo abandonei por amor de ti. &#8211; &Eacute; da tua honra<br \/>\n    salvar a mulher que deixaste em tal abandono &#8211; queres salvar-me? PAIKEL<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Paikel, medita bem &#8211; tu me desonraste, humilhaste-me<br \/>\n    aos olhos de minha pr&oacute;pria m&atilde;e &#8211; tu me seduziste no tempo<br \/>\n    em que me chamavas bela. &#8211; Esse tempo passou, bem o sei, mas foi o teu<br \/>\n    amor fatal quem me p&ocirc;s a palidez nas faces, e o desespero no cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Fatigado com o meu amor me lan&ccedil;aste no mundo com a fronte cingida<br \/>\n    de vergonha e de opr&oacute;brio &#8211; Paikel! &#8211; queres tu salvar-me<br \/>\n    desta vergonha e deste opr&oacute;brio? PAIKEL &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Se n&atilde;o por amor de mim ao menos por amor de ti. J&aacute;<br \/>\n    sabes como eu amo &#8211; v&ecirc; se me saberei vingar. &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    te iludas. &#8211; N&atilde;o creias mais em amor de minha parte porque o<br \/>\n    acabaste de assassinar. &#8211; Mas, terr&iacute;vel &eacute; a vingan&ccedil;a<br \/>\n    da mulher que nada respeita, e tu nada me deixaste de sagrado. &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    queres? <\/p>\n<p>PAIKEL &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Paikel, ainda uma vez.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; N&atilde;o, mil vezes n&atilde;o.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Nada mais tenho que vos dizer, Senhor! (Paikel encara-a um<br \/>\n    pouco com ar de triunfo e sai) Como pude eu amar a este homem, meu Deus. Paikel?!<br \/>\n    Paikel?! Oh! Que em breve te arrepender&aacute;s. (Ela pensa um pouco. &#8211;<br \/>\n    Aparece Wolf) Estou vingada! Wolf.<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p> <b>WOLF e BERTHA<\/b><\/p>\n<p>WOLF &#8211; Que tens tu? BERTHA &#8211; N&atilde;o me disseste que o Senhor<br \/>\n    Patkull te ordenara de o ir avisar se por aqui acontecesse alguma fatalidade?<br \/>\n    WOLF &#8211; Disse sim, mas que tens tu? BERTHA &#8211; Nada, Wolf &#8211;<br \/>\n    tens de ir ter com teu amo.<\/p>\n<p> WOLF &#8211; Eu! BERTHA &#8211; Tu, Wolf &#8211; porque lhe aconteceu uma<br \/>\n    desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> WOLF &#8211; Uma desgra&ccedil;a &#8211; Bertha? BERTHA &#8211; Sim &#8211;<br \/>\n    Wolf &#8211; partir&aacute;s agora mesmo, sem dizer nada a ningu&eacute;m,<br \/>\n    e dir&aacute;s ao Senhor Patkull que Romhor o n&atilde;o ama.<\/p>\n<p> WOLF &#8211; Qu&ecirc;? BERTHA &#8211; Que ama outrem.<\/p>\n<p> WOLF &#8211; Ela? BERTHA &#8211; E que Paikel &eacute; o seu rival.<\/p>\n<p>(Cai o pano)<\/p>\n<h2><a name=\"3\">Ato Terceiro<\/a><\/h2>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>NAMRY ROMHOR PAIKEL BERTHA UM MENSAGEIRO UMA CRIADA<\/p>\n<h2>QUADRO I<\/h2>\n<p><b>A mesma sala que a do ato segundo.<\/b><\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>NAMRY ROMHOR (Vestida de preto) &#8211; Patkull?! Meu Deus, por que o prenderiam?<br \/>\n    &Eacute; uma coisa inaudita, absurda, imposs&iacute;vel &#8211; um embaixador<br \/>\n    de um aliado &#8211; um amigo de Augusto!! CRIADA (Entrando) &#8211; Senhora,<br \/>\n    acaba de chegar um mensageiro que vos pretende falar.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Que entre j&aacute; &#8211; n&atilde;o te demores. (A criada<br \/>\n    sai) Ao menos agora saberei alguma coisa com mais certeza. (Entra o mensageiro)<br \/>\n    O MENSAGEIRO (Ajoelha-se e beija-lhe a m&atilde;o) &#8211; Sa&uacute;de e<br \/>\n    contentamento &agrave; Senhora Duquesa.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Deus te d&ecirc; sa&uacute;de e contentamento e eu te darei<br \/>\n    o que me pedires e o que eu te puder dar, se me trouxeres not&iacute;cias<br \/>\n    de paz e contentamento.<\/p>\n<p> O MENSAGEIRO &#8211; Nem de paz, nem de contentamento. &#8211; S&atilde;o<br \/>\n    novas de mau agouro, Senhora. &#8211; &Eacute; pesado ouvi-las e triste o<br \/>\n    ter de as dizer.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Fala sem receio. &Eacute; verdade que Patkull foi preso? O<br \/>\n    MENSAGEIRO &#8211; Sim, Senhora Duquesa.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Est&aacute; j&aacute; morto? O MENSAGEIRO &#8211; Condenado<br \/>\n    &agrave; morte.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Condenado &agrave; morte! Sabes tu o que dizes, homem? Condenado<br \/>\n    &agrave; morte!! E por qu&ecirc;? Sabes tu por qu&ecirc;? O MENSAGEIRO &#8211;<br \/>\n    N&atilde;o o sei e ningu&eacute;m o sabe com certeza. &#8211; Ele mesmo &eacute;<br \/>\n    quem o disse &#8211; quando o prenderam. O rei Augusto n&atilde;o lhe quis<br \/>\n    falar, e ele est&aacute; na pris&atilde;o de Roenigstads.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; E o rei Augusto? O MENSAGEIRO &#8211; Est&aacute; por ora<br \/>\n    em Dresde.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Sabes um caminho seguro e breve.<\/p>\n<p> O MENSAGEIRO &#8211; Poderei l&aacute; estar em duas jornadas.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Descansa que partiremos ambos.<\/p>\n<p> O MENSAGEIRO &#8211; V&oacute;s, Senhora? NAMRY &#8211; Descansa, e n&atilde;o<br \/>\n    haja demora na partida &#8211; vai. (Ele sai)<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p>NAMRY &#8211; Dizem que o rei Augusto &eacute; um bom rei &#8211; eu lhe<br \/>\n    irei falar. &#8211; Dizem que &eacute; desgra&ccedil;ado? Tanto melhor, que<br \/>\n    mais depressa se condoer&aacute; de mim &#8211; e mandar&aacute; soltar o<br \/>\n    pobre Patkull &#8211; que o serviu tantas vezes &#8211; de conselhos &#8211;<br \/>\n    e com o seu bra&ccedil;o &#8211; Patkull? Por muito tempo me tenho esquecido<br \/>\n    dele! Pobre homem &#8211; que tanto me amava. (Entra Bertha)<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p> <b>BERTA ajoelha-se aos p&eacute;s de ROMHOR<\/b><\/p>\n<p>NAMRY &#8211; Que fazes tu, Bertha? BERTHA &#8211; Vosso perd&atilde;o, Senhora.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Sou eu que te falo, Bertha; n&atilde;o me conheces? BERTHA<br \/>\n    &#8211; Vosso perd&atilde;o, Senhora.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Ora vamos! Que me poder&aacute;s ter tu feito, para que me<br \/>\n    venhas assim pedir perd&atilde;o? Levanta-te e eu tamb&eacute;m te pedirei<br \/>\n    perd&atilde;o porque te chamei minha amiga e por muito tempo me tenho esquecido<br \/>\n    de ti&#8230; e n&atilde;o s&oacute; de ti, minha amiga! &#8211; Vamos.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; N&atilde;o vos mere&ccedil;o tanta bondade.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Est&aacute;s-me a inquietar seriamente &#8211; que tens tu,<br \/>\n    Bertha? BERTHA &#8211; Remorsos do que fiz, Senhora.<\/p>\n<p>NAMRY &#8211; E &eacute; coisa que eu te possa perdoar? Como me poderias<br \/>\n    fazer mal? BERTHA &#8211; Eu o fiz, Senhora.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Olha &#8211; Bertha &#8211; talvez que fosse melhor que deixasses<br \/>\n    para outra vez o que agora tens para me dizer porque tenho deveres a cumprir<br \/>\n    que me chamam longe daqui. &#8211; Mas n&atilde;o te posso deixar assim, Bertha<br \/>\n    &#8211; fala, se o teu perd&atilde;o depende de mim, est&aacute;s perdoada<br \/>\n    &#8211; n&atilde;o tenhas vergonha nem receios, porque bem sabes que eu sou<br \/>\n    tua amiga.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Eu amava, Senhora.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Bem o sei.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Oh! Como haveis de me odiar! NAMRY &#8211; S&ecirc; breve.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Ao vosso amigo.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Bem o sei.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Como! Sab&iacute;eis! (Encarando-a e levantando-se) NAMRY<br \/>\n    &#8211; Sim &#8211; era s&oacute; o que me querias dizer? Estavas com tanto<br \/>\n    mist&eacute;rio para nada.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; N&atilde;o era s&oacute; isto.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Ent&atilde;o acaba.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; A minha hist&oacute;ria &eacute; longa.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Queres matar-me de impaci&ecirc;ncia! BERTHA &#8211; Sabeis<br \/>\n    quem sou eu? NAMRY &#8211; Filha n&atilde;o sei donde &#8211; educada por<br \/>\n    caridade de n&atilde;o sei quem: &#8211; e depois.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; N&atilde;o, Senhora. &#8211; Nasci feliz e rica. &#8211;<br \/>\n    Meus pais me amavam &#8211; e faziam o que lhes eu pedisse. &#8211; Nunca<br \/>\n    contei com piedade &#8211; porque nunca supus carecer dela. &#8211; Ent&atilde;o<br \/>\n    me apareceu Paikel &#8211; e disse que me amava &#8211; eu o acreditei enquanto<br \/>\n    n&atilde;o fui tra&iacute;da. Finalmente deixou-me s&oacute; e abandonada.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Que te importa! Cr&ecirc;-me, Bertha, por mais forte que seja<br \/>\n    o amor nunca dura por toda a vida. &#8211; Esquece-te dele.<\/p>\n<p> BERTHA &#8211; Fugi com ele &#8211; e por ele abandonei tudo quanto neste<br \/>\n    mundo me era mais caro. Abandonei meus pais e minha fortuna &#8211; e depois<br \/>\n    ele pretextou uma viagem e partiu &#8211; nem mais ouvi falar dele.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Falas de Paikel &#8211; Bertha? BERTHA &#8211; Sozinha e fraca<br \/>\n    n&atilde;o tinha meios para ganhar a vida. Lembrei-me de meus pais mas eu<br \/>\n    n&atilde;o queria entrar em casa com a vergonha no rosto &#8211; e manchar<br \/>\n    os &uacute;ltimos instantes de quem me tinha cercado a meninice de tanto amor<br \/>\n    e carinhos. N&atilde;o &#8211; eu queria antes morrer do que encontrar meus<br \/>\n    olhos com os olhos de meu pai &#8211; que morreu de vergonha. Seria longo<br \/>\n    dizer-vos os transes que passei &#8211; o que eu sofri de baixeza &#8211;<br \/>\n    de insultos e de orgulho &#8211; de homens e mulheres &#8211; chorei l&aacute;grimas<br \/>\n    de desespero quando nem uma esperan&ccedil;a me restava sobre a terra &#8211;<br \/>\n    por acaso encontrei vosso pai, e desde esse momento vos tenho servido.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Falaste a Paikel? BERTHA &#8211; Foi generoso em demasia &#8211;<br \/>\n    ajuntou o insulto ao abandono. &#8211; Tentei tudo para o comover, mas nada<br \/>\n    achei do que eu buscava. Foi ent&atilde;o que para me vingar dele revelei<br \/>\n    tudo a Wolf &#8211; que j&aacute; partiu para ir ter com seu amo &#8211; e<br \/>\n    para lhe contar o vosso amor.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Eu o mereci&#8230;! Porque me abaixei a amar esse homem. &#8211;<br \/>\n    Os homens! Os homens! &#8211; N&atilde;o chores, Bertha &#8211; o teu n&uacute;ncio<br \/>\n    de mau agouro n&atilde;o dar&aacute; essas novas porque certamente n&atilde;o<br \/>\n    poder&aacute; falar com Patkull &#8211; que queres tu fazer? BERTHA &#8211;<br \/>\n    Vingar-me.<\/p>\n<p>NAMRY &#8211; Vingar-te! E que ganhar&aacute;s tu com isso? BERTHA &#8211;<br \/>\n    A vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; E podes tu goz&aacute;-la? BERTHA &#8211; Talvez.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Eu verei se podemos arranjar uma repara&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    vai &#8211; faz saber a Paikel que lhe pretendo falar. (Bertha sai) Quem nos<br \/>\n    dir&aacute; a n&oacute;s outras pobres mulheres o que se passa no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um homem. &#8211; S&oacute; palavras t&ecirc;m nos l&aacute;bios &#8211;<br \/>\n    palavras que mentem &#8211; olhos que mentem, que dizem virtude quando a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    diz crime. Os homens! Onde haver&aacute; mais falsidade? Eles que s&atilde;o<br \/>\n    mais fortes! Empregarem assim mentira! Perpetrarem assim vilezas! (Entra o<br \/>\n    mensageiro)<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p>O MENSAGEIRO &#8211; Aqui estou, Senhora Duquesa.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Est&aacute;s pronto? O MENSAGEIRO &#8211; &Agrave;s ordens<br \/>\n    da Senhora Duquesa.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; E a carruagem? O MENSAGEIRO &#8211; Tamb&eacute;m pronta.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Vai &#8211; brevemente serei contigo. (Ele sai) Vejamos se<br \/>\n    posso tirar uma boa a&ccedil;&atilde;o do que a consci&ecirc;ncia me exprobrava<br \/>\n    como um crime &#8211; certo que o farei. &#8211; Paikel ama-me, ainda h&aacute;<br \/>\n    pouco mo disse. &#8211; O amor nada pode recusar, dizem. &#8211; Oh! Eu o<br \/>\n    farei!! (Entra Paikel)<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p>PAIKEL &#8211; E o que n&atilde;o farias tu &#8211; Namry. &#8211; Tudo quanto<br \/>\n    cabe nas for&ccedil;as de um homem ele o faria se a tua voz o dissesse &#8211;<br \/>\n    se teus olhos lho pedissem, se teus l&aacute;bios lhe sorrissem! NAMRY &#8211;<br \/>\n    Eu te esperava, Paikel.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; E eu, Namry! Eu aqui vinha a teus p&eacute;s verificar tamanha<br \/>\n    dita, porque acabo de conhecer que realmente me amas &#8211; que n&atilde;o<br \/>\n    podes estar sem mim, como eu n&atilde;o posso estar sem ti. &#8211; E como<br \/>\n    no outro tempo &#8211; em que te ouvia dizer-me de cont&iacute;nuo: vem &#8211;<br \/>\n    como agora, Namry &#8211; eu vinha cheio de prazer e de contentamento &#8211;<br \/>\n    para te ver, como agora &#8211; para como agora te dizer: eu te amo, Namry.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Paikel, n&atilde;o &eacute; verdade que a mentira deslustra<br \/>\n    a honra de cavaleiro? PAIKEL &#8211; Namry &#8211; o homem que mente &eacute;<br \/>\n    um mau crist&atilde;o &#8211; o cavaleiro que mente &eacute; indigno de cal&ccedil;ar<br \/>\n    esporas de ouro &#8211; e de lidar em justas e torneios com o seu nome de<br \/>\n    guerra. &#8211; Pela f&eacute; de um crist&atilde;o e pela honra de um cavaleiro<br \/>\n    &#8211; Namry &#8211; eu te amo.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; N&atilde;o te recordas, Paikel, de ter dado a tua palavra<br \/>\n    a outra &#8211; de lhe teres empenhado a tua honra &#8211; como ora acabas<br \/>\n    de fazer por meu respeito? PAIKEL &#8211; Negar-to fora mentir: &#8211; Namry<br \/>\n    &#8211; n&atilde;o h&aacute; um homem da minha idade que derramando um olhar<br \/>\n    sobre o passado n&atilde;o encontre nele um remorso para a sua consci&ecirc;ncia.<br \/>\n    &#8211; Isso que dizes &#8211; Namry &#8211; eu o fiz &#8211; e talvez mais<br \/>\n    do que uma vez. &#8211; Mas &#8211; um cavaleiro que mal fez concede repara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    leal e franca, a quem quer que lha pe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Eu sou cavaleiro, e que o n&atilde;o fosse, Namry &#8211; ser-me-ia penoso<br \/>\n    ter a consci&ecirc;ncia de n&atilde;o merecer o teu amor. &#8211; Alto soa<br \/>\n    o meu nome. &#8211; Quem se der por ofendido que venha ter comigo &#8211;<br \/>\n    e certo que voltar&aacute; contente e satisfeito. &#8211; Tenho mais honra<br \/>\n    que dinheiro &#8211; mas o sangue e fazendas de Paikel, ser&atilde;o de sobra<br \/>\n    para o mais sedento e ambicioso.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; E quando forem d&iacute;vidas que se n&atilde;o pagam nem<br \/>\n    com dinheiro, nem com o sangue? PAIKEL &#8211; Que Deus se condoa de mim &#8211;<br \/>\n    porque tudo lhe poderia dar &#8211; e lhe daria tudo, menos o meu amor que<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; meu.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Eu cria que o amor era sujeito ao dever.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Cr&ecirc;s tu &#8211; Namry! NAMRY &#8211; Creio que o cavaleiro<br \/>\n    que &eacute; o mais forte deve dar exemplo &agrave; mulher que &eacute; mais<br \/>\n    fraca.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; E porque nos v&ecirc;s envergar coura&ccedil;a e saia de<br \/>\n    guerra ou &#8211; porque nos v&ecirc;s cobertos de a&ccedil;o e ferro &#8211;<br \/>\n    de a&ccedil;o e ferro, julgas tu que temos os cora&ccedil;&otilde;es? NAMRY<br \/>\n    &#8211; Julgo-os demasiadamente sens&iacute;veis, a serem como o teu. &#8211;<br \/>\n    Mas dize? Quando uma mulher pode fazer calar o seu amor por que n&atilde;o<br \/>\n    poder&aacute; um cavaleiro acabar com ele? PAIKEL &#8211; Porque ele se esquece<br \/>\n    de tudo para pensar nela e ela se lembra de tudo para o esquecer a ele.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Paikel, como se apelida entre v&oacute;s outros uns cavaleiro<br \/>\n    que falta &agrave; sua palavra? PAIKEL &#8211; Um fel&atilde;o.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; E tu queres ser um cavaleiro fel&atilde;o? PAIKEL &#8211;<br \/>\n    Serei. (Gesto de desprezo de Namry) Serei, Namry, s&oacute; por teu respeito.<br \/>\n    &#8211; Ainda quando o arauto me negasse a entrada na li&ccedil;a dos combates<br \/>\n    por esta a&ccedil;&atilde;o &#8211; quando todos me repreendessem, n&atilde;o<br \/>\n    o deverias tu fazer, Namry &#8211; porque &eacute; por ti que eu o fa&ccedil;o.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o ser&aacute; eterna a exprobra&ccedil;&atilde;o &#8211; quando<br \/>\n    eu mostrar um dia o que era o meu amor de hoje &#8211; o meu amor de sempre:<br \/>\n    &#8211; meus pares dir&atilde;o cheios de assombro &#8211; s&oacute; o amor<br \/>\n    de Paikel podia vencer a sua honra.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; J&aacute; que te esqueces de tudo para s&oacute; te lembrares<br \/>\n    de mim &#8211; quero corresponder-te por igual modo.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m me esquecerei de mim para s&oacute; pensar em ti. &#8211;<br \/>\n    Tratemos da tua honra, Paikel.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; E desde quando te importas com ela? NAMRY &#8211; Desde que<br \/>\n    dela te esqueceste. &#8211; H&aacute; uma mulher a quem chamo minha amiga<br \/>\n    &#8211; Paikel &#8211; bem sabes quanto perdeu por teu respeito &#8211; bem<br \/>\n    sabes &#8211; porque a conheces h&aacute; mais tempo do que eu; &#8211; e<br \/>\n    porque ela mesma to disse antes que mo dissesse a mim.<\/p>\n<p> &Eacute; a primeira coisa que te pe&ccedil;o &#8211; Paikel &#8211; repara<br \/>\n    o mal que fizeste, e eu serei contente de mim mesma por ver que amava um homem<br \/>\n    que merecia ser amado.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; N&atilde;o posso.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; E porqu&ecirc;? PAIKEL &#8211; Porque a sua fam&iacute;lia<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; nobre.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Devias ver isso quando a desonraste.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Mas estas alian&ccedil;as sabes, bem o sabes, t&ecirc;m pouco<br \/>\n    uso entre n&oacute;s.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Tamb&eacute;m entre v&oacute;s outros &eacute; de pouco uso<br \/>\n    deixar penhorada a sua palavra.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Bem o sei. &#8211; Mas eu n&atilde;o amo a essa mulher. Inda<br \/>\n    h&aacute; pouco me veio ela injuriar face a face &#8211; chamou-me nomes de<br \/>\n    desprezo e de inj&uacute;ria, que eu me envergonharia de os repetir. Tivesse<br \/>\n    ela um parente que cingisse uma espada &#8211; e a esta hora ela n&atilde;o<br \/>\n    teria este parente. N&atilde;o fosse vilania assassin&aacute;-la &#8211; a<br \/>\n    esta hora n&atilde;o terias mais amiga.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Ela te defendeu em minha presen&ccedil;a como eu talvez o<br \/>\n    n&atilde;o fizesse agora &#8211; eram palavras de ci&uacute;me que n&atilde;o<br \/>\n    mancham porque s&atilde;o filhas do amor.<\/p>\n<p>PAIKEL &#8211; A vingan&ccedil;a de que um para o outro &eacute;ramos capazes,<br \/>\n    n&oacute;s a temos praticado. &#8211; Insulto por insulto: somos pagos.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Est&aacute;s pago &#8211; e ela punida &#8211; muito bem,<br \/>\n    Paikel. &#8211; J&aacute; n&atilde;o restam lembran&ccedil;as de rec&iacute;procos<br \/>\n    insultos &#8211; nada mais ter&aacute;s que objetar.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Nem ela que me pedir.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Deixemo-nos de raz&otilde;es, Paikel &#8211; por esse modo<br \/>\n    n&atilde;o posso lutar contigo. Por que me n&atilde;o fazes tu o que eu te<br \/>\n    pe&ccedil;o? PAIKEL &#8211; Porque eu te amo! Namry &#8211; porque te amo<br \/>\n    de todo o meu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Oh! &#8211; Mas seria eu verdadeiramente pobre &#8211; roubar<br \/>\n    &agrave; fortuna da minha criada &#8211; pensas em tal, Paikel.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Da tua criada? NAMRY &#8211; Da minha amiga &#8211; como<br \/>\n    tamb&eacute;m tu ao teu amigo. J&aacute; bastante erramos &#8211; &eacute;<br \/>\n    preciso que ao menos uma vez na vida andemos por caminho seguro e plano. Temos<br \/>\n    hoje mais que fazer do que o papel de amantes. &#8211; Tu &eacute;s o cavaleiro<br \/>\n    Paikel &#8211; que tens um bras&atilde;o ilustre, um drag&atilde;o lavrado<br \/>\n    em sinople que despeda&ccedil;a uma serpente. &#8211; Tens por divisa o valor<br \/>\n    pela virtude. Eu sou a Duquesa de Mecklembourg. &#8211; Lembremo-nos do que<br \/>\n    somos, e fa&ccedil;amos o que devemos.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Pede-me tudo quanto quiseres &#8211; Namry &#8211; tudo,<br \/>\n    e eu farei tudo &#8211; mas n&atilde;o me pe&ccedil;as que te deixe de amar<br \/>\n    porque de certo o n&atilde;o pudera fazer. Eu daria quanto tenho de mais precioso<br \/>\n    a quem me reduzisse o meu amor &agrave; t&ecirc;mpera do teu &#8211; &eacute;<br \/>\n    um amor brando e f&aacute;cil que se turva como a mais pequena nuvem, que<br \/>\n    mostra mil aspectos, como as asas da borboleta adejando ao sol.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; N&atilde;o mo queres fazer? PAIKEL &#8211; N&atilde;o posso.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Paikel &#8211; meu pai dizia que um nobre que se debru&ccedil;a<br \/>\n    sobre uma mesa para ter um livro ou pergaminho &#8211; era da na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    efeminada dos franceses, que hoje n&atilde;o conta um cavaleiro: que um cavaleiro<br \/>\n    que se compraz em rabiscar papel, em vez de manejar a espara, desca&iacute;a<br \/>\n    da sua nobreza &#8211; que um cavaleiro que consome dias e noites em busca<br \/>\n    de ouro, tinha o g&ecirc;nio de um vil&atilde;o.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Teu pai nasceu 200 anos depois de que deveria ter vivido.<\/p>\n<p> N&Aacute;MRY &#8211; Meu pai era um Duque honrado e nobre &#8211; se ele<br \/>\n    te dissesse &#8211; farei isto; podias dormir descansado como debaixo da folha<br \/>\n    da sua espada, porque ele cumpriria a sua promessa sem que fosse mister lembrar-lha.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Tu me enganaste, Namry &#8211; quando me disseste que me<br \/>\n    amavas.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Era eu que me enganava a mim pr&oacute;pria. Deves confessar<br \/>\n    que n&atilde;o posso satisfazer a tudo quanto por mim tens feito.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Talvez.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Talvez!! Bem &#8211; ser&aacute; mais uma d&iacute;vida, Paikel<br \/>\n    &#8211; que eu te n&atilde;o poderei pagar. Salva a honra de Bertha &#8211;<br \/>\n    eu me esquecerei de tudo.<\/p>\n<p> PAIKEL (A rir-se) &#8211; Esquecer-te-&aacute;s de tudo? Como &eacute;s<br \/>\n    generosa&#8230;<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; E mais do que mereceis, Senhor, sois um infame.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Namry! NAMRY &#8211; Agrade&ccedil;o-vos amor t&atilde;o<br \/>\n    alto. Por&eacute;m tenho orgulho sobejo para me contentar com os restos de<br \/>\n    outra, e n&atilde;o deixei de ser nobre para me casar com um assassino. Destes<br \/>\n    a vossa palavra a vossa amante, de que ela seria a vossa esposa &#8211; e<br \/>\n    ela, porque fiou de v&oacute;s, serve hoje para ganhar a vida. Destes vossa<br \/>\n    palavra ao vosso amigo &#8211; e porque ele acreditou na vossa palavra, vai<br \/>\n    ser assassinado.<\/p>\n<p> PAIKEL &#8211; Patkull? Falas de Patkull? NAMRY &#8211; Ide a Romgstads<br \/>\n    e l&aacute; o vereis subir ao cadafalso que para ele mandastes aparelhar.<\/p>\n<p>PAIKEL &#8211; Eu o salvarei, Namry, eu parto j&aacute;, sem demora.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Fazeis bem, Senhor &#8211; porque se ele entrar uma vez nesta<br \/>\n    casa, n&atilde;o lhe seria gostoso o encontrar-vos nela; e quando ele n&atilde;o<br \/>\n    viesse &#8211; n&atilde;o me seria vossa presen&ccedil;a muito para desejar.<\/p>\n<p> PAIKEL (Saindo) &#8211; Fleming!! Fleming!! Tu mo pagar&aacute;s, Fleming!<br \/>\n    NAMRY &#8211; Hip&oacute;crita.<\/p>\n<h2><a name=\"4\">Ato Quarto<\/a><\/h2>\n<h2>QUADRO II<\/h2>\n<p> <b>Uma sala de pal&aacute;cio em Dresde, uma mesa e cadeiras<\/b><\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p> <b>O REI AUGUSTO e FLEMING<\/b><\/p>\n<p>AUGUSTO &#8211; O que h&aacute; de novo, Fleming? FLEMING &#8211; Saber&aacute;<br \/>\n    Vossa Majestade&#8230;<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; J&aacute; n&atilde;o sou Majestade.<\/p>\n<p> FLEM1NG &#8211; Saber&aacute; Vossa Alteza que &eacute; chegado o correio<br \/>\n    que foi de vossa parte dar a Estanislau os parab&eacute;ns da sua eleva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao vosso trono da Pol&ocirc;nia.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Maldito seja ele&#8230; Que mais.<\/p>\n<p> FLEMING &#8211; O correio de Carlos XII espera a vossa decis&atilde;o quanto<br \/>\n    aos artigos que deveis assinar para o tratado de paz.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; L&ecirc;-os &#8211; Fleming &#8211; l&ecirc;-os de novo<br \/>\n    que me quero fartar de minha vergonha &#8211; l&ecirc;-os.<\/p>\n<p> FLEMING (Lendo) &#8211; Darei paz a Augusto &#8211; rei que foi da Pol&ocirc;nia<br \/>\n    &#8211; debaixo das condi&ccedil;&otilde;es seguintes, que ser&atilde;o cumpridas<br \/>\n    &agrave; risca sem altera&ccedil;&atilde;o alguma: 1&ordm; O Rei Augusto renunciar&aacute;<br \/>\n    ao trono da Pol&ocirc;nia &#8211; reconhecer&aacute; Estanislau por seu leg&iacute;timo<br \/>\n    rei &#8211; e prometer&aacute; jamais pretender elevar-se ao trono, mesmo<br \/>\n    depois da morte de Estanislau.<\/p>\n<p> 2&ordm; Renunciar&aacute; a toda alian&ccedil;a com na&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    estrangeiras &#8211; principalmente com a R&uacute;ssia.<\/p>\n<p> 3&ordm; Mandar&aacute; para o meu campo os pr&iacute;ncipes Sobieski &#8211;<br \/>\n    com uma guarda de honra e todos os prisioneiros que me houver feito.<\/p>\n<p> 4&ordm; o &uacute;ltimo. Entregar-me-&aacute; todos os desertores que passaram<br \/>\n    do meu servi&ccedil;o &#8211; e expressamente Jo&atilde;o Reginoh, Patkull<br \/>\n    &#8211; e dar&aacute; anistia a todos que passaram do seu para o meu servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; S&oacute;? FLEMING &#8211; Nada mais se cont&eacute;m neste<br \/>\n    rascunho que nos mandou o conde Piper.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Aceito. &#8211; O Rei Carlos &eacute; um rei magn&acirc;nimo<br \/>\n    e generoso&#8230; Porque me n&atilde;o mandou ir ele &agrave; sua presen&ccedil;a<br \/>\n    descal&ccedil;o com as ins&iacute;gnias reais, com uma corda nos rins, e o<br \/>\n    knout nas m&atilde;os. Por Deus que eu lhe iria beijar os p&eacute;s para<br \/>\n    envilecer e abaixar esta maldita Pol&ocirc;nia, j&aacute; t&atilde;o vil e<br \/>\n    t&atilde;o baixa &#8211; Pol&ocirc;nia! &#8211; Povo de escravos orgulhosos<br \/>\n    &#8211; povo de cobardes &#8211; povo lan&ccedil;ado no meio da Europa para<br \/>\n    ser vendido ao que mais d&aacute; e que mais promete &#8211; Pol&ocirc;nia!<br \/>\n    &#8211; Folga e ri satisfeita na tua prostitui&ccedil;&atilde;o &#8211; enche<br \/>\n    o c&eacute;u com fogos de vista e gritos de alegria &#8211; ilumina teus pal&aacute;cios<br \/>\n    e habita&ccedil;&otilde;es de escravos &#8211; alegra-te, que em breve gemer&aacute;s<br \/>\n    aflita sob o azorrague da inf&acirc;mia.<\/p>\n<p> FLEMING &#8211; Rei Augusto! AUGUSTO &#8211; N&atilde;o me fales, Fleming<br \/>\n    &#8211; n&atilde;o &#8211; n&atilde;o me fales &#8211; ou d&aacute; que eu<br \/>\n    veja esta Pol&ocirc;nia ardendo em fogo, como Sodoma ou Gomorra &#8211; Carlos<br \/>\n    XII! Quem me dera ter vida para te ver um dia miser&aacute;vel e mendigo,<br \/>\n    ro&iacute;do de ambi&ccedil;&otilde;es e de remorsos! &#8211; N&atilde;o &#8211;<br \/>\n    n&atilde;o ser&aacute;s o &uacute;nico conquistador que avistar&aacute;s o<br \/>\n    destino dos teus. &#8211; Por que n&atilde;o lutei at&eacute; esse tempo?<br \/>\n    FLEMING &#8211; Perder&iacute;eis vosso ducado como perdestes a Pol&ocirc;nia.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; E que me importa a mim um ducado, ou a Pol&ocirc;nia? (Entra<br \/>\n    um soldado).<\/p>\n<p> O SOLDADO &#8211; O Pr&iacute;ncipe de Mensicoff deseja falar a Vossa Majestade.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; N&atilde;o lhe posso falar.<\/p>\n<p> O SOLDADO &#8211; Vem para vos falar a respeito de Patkull.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; N&atilde;o ouviste? (Pausa por aIgum tempo) Fleming, que<br \/>\n    &eacute; feito de Patkull? FLEMING &#8211; Foi conduzido de Keenigstadt para<br \/>\n    Casimir, e deve ser entregue aos soldados de Carlos XII, segundo a conven&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; O C&eacute;sar quis saber o que eu fiz do seu plenipotenci&aacute;rio<br \/>\n    &#8211; e tem raz&atilde;o &#8211; que lhe hei-de eu dizer? Ele era o meu<br \/>\n    &uacute;nico aliado, o &uacute;nico verdadeiro amigo.<\/p>\n<p> FLEMING &#8211; Mas ganhastes a vossa Sax&ocirc;nia.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Mas perdi a honra, Fleming. &#8211; Se eu tivesse ainda<br \/>\n    em meu poder esse homem, a quem agrade&ccedil;o t&atilde;o mal &#8211; oh!<br \/>\n    N&atilde;o sei de certo se o entregaria ainda quando me rendesse o c&ecirc;ntuplo,<br \/>\n    do que ora me rende.<\/p>\n<p> FLEMING &#8211; E fareis mal.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; &Eacute;s um bom pol&iacute;tico, F1eming &#8211; por&eacute;m<br \/>\n    tens uma alma bem pequena. &#8211; Tens ocasi&atilde;o de te vingar de um<br \/>\n    inimigo e pouco te importa que ele seja desgra&ccedil;ado. &#8211; Eu estimaria<br \/>\n    mais que o defendesses.<\/p>\n<p> FLEMING &#8211; Nem que ele fosse meu irm&atilde;o &#8211; pediria eu por<br \/>\n    ele quando se trata dos interesses de Vossa Majestade.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Escusas lisonjas &#8211; v&ecirc;s que sou um rei sem trono<br \/>\n    ou Majestade; um poder sem al&ccedil;ada.<\/p>\n<p> FLEMING &#8211; N&atilde;o &eacute; lisonja, Senhor &#8211; quando vos digo<br \/>\n    que a rebeli&atilde;o &eacute; um crime &#8211; e que um rei nunca deve proteger<br \/>\n    um rebelde. &#8211; Um duque espanhol jurou ao seu rei que faria queimar seu<br \/>\n    pal&aacute;cio se o Duque de Bombonde se demorasse nele por espa&ccedil;o<br \/>\n    de uma hora, porque o Duque se tinha rebelado contra o seu rei &#8211; Francisco<br \/>\n    I. &#8211; E o rei louvou a nobreza do vassa1o. &#8211; Ora, Patkull &eacute;<br \/>\n    um rebelde &#8211; era um dever real puni-lo &#8211; v&oacute;s o fizestes,<br \/>\n    senhor. E nem vos fica menos airoso que a sua morte vos renda um ducado &#8211;<br \/>\n    que j&aacute; era vosso, e para mim, o chamais uma vingan&ccedil;a, que nunca<br \/>\n    tencionei tomar.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Seja como dizes. (Faz-lhe sinal com a m&atilde;o que saia.<br \/>\n    Ouvem-se passos) J&aacute; devem ser seis horas; para que me pediu uma audi&ecirc;ncia<br \/>\n    a Duquesa de Meklembourg? &#8211; Que me pretender&aacute;!! &#8211; Veremos.<br \/>\n    &#8211; Algum capricho de Senhora?! Que importa?! &#8211; N&atilde;o negarei<br \/>\n    um favor ao descer do trono &agrave; filha de quem era meu amigo, antes que<br \/>\n    algu&eacute;m sonhasse que Augusto seria rei um dia.<\/p>\n<p> Um dia!&#8230; O que &eacute; um dia? &#8211; &Agrave;s vezes se passam eles<br \/>\n    serenos e mansos sem que nem ao menos a sombra de um acontecimento escure&ccedil;a<br \/>\n    alguma parte dele. &#8211; Outras vezes a vida pende do resultado de um dia,<br \/>\n    e a alma tem a vista pregada no que vai acontecer que lhe trar&aacute; ventura<br \/>\n    ou desventura. &#8211; &Eacute; um lago tranq&uuml;ilo e manso, representando<br \/>\n    o azul do c&eacute;u e das nuvens. S&atilde;o ondas negras e revoltas que<br \/>\n    se embatem, que se cruzam, que se repelem mal ditas da esperan&ccedil;a. &#8211;<br \/>\n    E a vida a&iacute; est&aacute; como no aspecto fagueiro ou terr&iacute;vel<br \/>\n    da superf&iacute;cie do lago. &#8211; Somente a alma guarda mais constantemente<br \/>\n    para todo o resto da sua exist&ecirc;ncia neste mundo o que por ela passou<br \/>\n    uma vez. &#8211; O pesar dura eterno como o seixo lan&ccedil;ado na corrente.<br \/>\n    &#8211; E o prazer tamb&eacute;m l&aacute; permanece, e por vezes se nos acorda<br \/>\n    feiticeiro e saudoso &#8211; como a imagem da donzela que uma vez topamos<br \/>\n    para mais n&atilde;o voltar.<\/p>\n<h2>CENA II<\/h2>\n<p> <b>Batem. &#8211; Ele p&aacute;ra como despertado de seus pensamentos &#8211;<br \/>\n    e de repente vai &agrave; porta &#8211; abre e entra Namry Romhor<\/b><\/p>\n<p>NAMRY &#8211; Senhor! AUGUSTO &#8211; Que pretendeis, Senhora? NAMRY &#8211;<br \/>\n    Falar ao rei Augusto.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Sou eu.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; V&oacute;s? (Como consigo) Parecia-me que a presen&ccedil;a<br \/>\n    de um rei deveria de ser terr&iacute;vel e majestosa.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Nada disso &#8211; nem majestosa nem terr&iacute;vel &#8211;<br \/>\n    por&eacute;m benevolente quando a vida de um rei se fita num profil gracioso<br \/>\n    e belo de formosura como a vossa.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; N&atilde;o mere&ccedil;o que sejais homem para vos abaixar<br \/>\n    at&eacute; mim.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Tamb&eacute;m n&oacute;s somos homens: &#8211; tamb&eacute;m!<br \/>\n    Com diferen&ccedil;a de que o cora&ccedil;&atilde;o de um rei parece ter mais<br \/>\n    for&ccedil;a para a dor e maior espa&ccedil;o para conter l&aacute;grimas<br \/>\n    que se n&atilde;o podem deslizar impunes pelas faces do monarca &#8211; mas<br \/>\n    eu j&aacute; n&atilde;o sou monarca &#8211; n&atilde;o, j&aacute; o n&atilde;o<br \/>\n    sou! Podeis falar sem receios. &#8211; O Rei Augusto morreu &#8211; mas ainda<br \/>\n    vive o amigo de vosso pai, Senhora Duquesa.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; N&atilde;o contava com mais esse t&iacute;tulo para me apresentar<br \/>\n    diante de v&oacute;s, Rei Augusto. &#8211; &Eacute; um bom agouro da minha<br \/>\n    boa fortuna. &#8211; Recordei-me de que meu pai vos chamava justo e bom &#8211;<br \/>\n    e eu vim ter convosco fiada na justi&ccedil;a e na bondade que meu pai tanto<br \/>\n    exaltava.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; N&atilde;o praza a Deus que eu desminta conceito para mim<br \/>\n    t&atilde;o lisonjeiro &#8211; podeis falar, Senhora Duquesa.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Meu Deus! N&atilde;o sei por que me acanho tanto para vos<br \/>\n    pedir o que tenho de vos pedir.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Quereis muito. (A sorrir-se) NAMRY &#8211; Muito! Muito!<br \/>\n    AUGUSTO &#8211; Oh! Tanto melhor &#8211; certo que eu n&atilde;o quisera t&atilde;o<br \/>\n    somente conceder &agrave; filha do meu velho amigo o que outro qualquer tamb&eacute;m<br \/>\n    pudesse. &#8211; J&aacute; n&atilde;o sou rei, Senhora Duquesa, mas ainda<br \/>\n    me n&atilde;o esqueci de o ser.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Confio nisso, &#8211; e &eacute; por isso que vos venho pedir<br \/>\n    a liberdade de Patkull.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Patkull? Patkull! Que vos importa esse homem? NAMRY &#8211;<br \/>\n    Pe&ccedil;o-vos uma gra&ccedil;a, Senhor.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Patkull! Vejamos, Senhora Duquesa. &#8211;&#8211; Eu vos<br \/>\n    quisera servir pedi-me qualquer coisa poss&iacute;vel, e eu v&ocirc;-la farei.<br \/>\n    &#8211; A minha Sax&ocirc;nia &eacute; bastante vasta &#8211; escolhei uma<br \/>\n    cidade &#8211; uma vila &#8211; um castelo e eu v&ocirc;-lo darei. &#8211;<br \/>\n    Vede de Leipzig de Blauzou &#8211; de Zillan a Plauen &#8211; escolhei o que<br \/>\n    quiserdes, &#8211; Vistes v&oacute;s Altenbourg molemente deitada &agrave;<br \/>\n    margem do seu rio como uma otomana voluptuosa? Gera &#8211; a cidade do com&eacute;rcio<br \/>\n    e da riqueza. &#8211; Leipzig &#8211; a cidade das artes e das ci&ecirc;ncias<br \/>\n    &#8211; e Plauen &#8211; campeando no cimo de uma rocha como um guerreiro<br \/>\n    noturno que vigia firmado na sua espada. &#8211; Plauen austera e forte como<br \/>\n    um castelo esquecido do perpassar dos anos, vigiando a &Aacute;ustria, sombrio<br \/>\n    e grave &#8211; tudo &#8211; tudo o que vos aprouver n&atilde;o vos ireis<br \/>\n    queixosa do rei Augusto que foi amigo de vosso pai.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; N&atilde;o, Senhor &#8211; pela melhor das vossas cidades<br \/>\n    n&atilde;o vos viera eu importunar &#8211; venho pedir-vos a vida de um homem<br \/>\n    que n&atilde;o mereceu perd&ecirc;-la.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Quem vos disse que ele o n&atilde;o tinha merecido? NAMRY<br \/>\n    &#8211; Era vosso, todo vosso &#8211; de alma e cora&ccedil;&atilde;o &#8211;<br \/>\n    ele vos aconselhou como amigo &#8211; e vos serviu como escravo.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Era um rebelde! NAMRY &#8211; N&atilde;o a v&oacute;s que<br \/>\n    s&oacute; podeis puni-lo por vos haver bem servido. &#8211; Perdoai se vos<br \/>\n    falo assim. &#8211; Durante o caminho t&atilde;o breve da minha vida n&atilde;o<br \/>\n    pude ainda aprender como se fala aos reis &#8211; pe&ccedil;o-vos a vida desse<br \/>\n    homem &#8211; que meu pai me deu por esposo &#8211; meu pai era amigo de v&oacute;s<br \/>\n    ambos. Certo que se o pobre velho ainda existisse, ele se curvaria diante<br \/>\n    de v&oacute;s, Senhor &#8211; para que lhe d&eacute;sseis a vida do esposo<br \/>\n    de sua filha &#8211; e o rei Augusto n&atilde;o seria surdo &agrave;s vozes<br \/>\n    do infort&uacute;nio. &#8211; Senhor, &eacute; a vida do meu esposo que vos<br \/>\n    pe&ccedil;o, que vos pe&ccedil;o de joelhos &#8211; que vos pe&ccedil;o pelo<br \/>\n    que h&aacute; de mais santo, pelo que tendes mais precioso e mais caro.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; Levantai-vos, Senhora &#8211; bem me custa ver-vos assim<br \/>\n    a chorar sem poder enxugar vossas l&aacute;grimas! NAMRY &#8211; Por que o<br \/>\n    n&atilde;o podeis, Senhor &#8211; &eacute; vossa a pris&atilde;o &#8211; &eacute;<br \/>\n    vosso o carcereiro &#8211; os soldados que o guardam s&atilde;o vossos; os<br \/>\n    ferros que o prendem s&atilde;o vossos.<\/p>\n<p> &#8211; Uma palavra s&oacute;, e ele ser&aacute; livre e feliz &#8211; e<br \/>\n    eu agradecida e contente, e v&oacute;s satisfeito com a ventura que fazeis<br \/>\n    nascer. &#8211; Como &eacute; belo ser rei para fazer o bem, livre e grandemente<br \/>\n    &#8211; para ter palavras que d&atilde;o vida e alegria. Meu Deus, como poderia<br \/>\n    eu resistir a quem me pedisse a vida de uma criatura? AUGUSTO &#8211; Pedi<br \/>\n    outra coisa, Senhora Duquesa.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Nada mais, Senhor, nada mais que a vida do meu esposo e sereis<br \/>\n    para mim como um Deus. &#8211; Que mal vos pode ele fazer? Ele que vos amava<br \/>\n    tanto. &#8211; Que mal vos pode fazer &#8211; ver-nos alegres e felizes &#8211;<br \/>\n    quando vos devermos alegria e felicidade? AUGUSTO &#8211; N&atilde;o alcan&ccedil;areis<br \/>\n    nada, Senhora Duquesa: &#8211; quanto vos podia dar, eu v&ocirc;-lo ofereci<br \/>\n    &#8211; nada mais tenho que vos sirva.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Senhor, como vos hei-de eu falar para vos mostrar que me podeis<br \/>\n    fazer o que vos pe&ccedil;o, que mo deveis fazer &#8211; Senhor. &#8211; Senhor,<br \/>\n    n&atilde;o vos incomoda acaso ver em roda de vosso trono um rio de sangue?<br \/>\n    &#8211; V&oacute;s me pareceis t&atilde;o bom, rei Augusto.<\/p>\n<p> Podereis acaso pensar tranq&uuml;ilamente de que &agrave;s tantas um homem<br \/>\n    ser&aacute; de menos &#8211; e isto porque v&oacute;s o quisestes &#8211;<br \/>\n    porque v&oacute;s mandastes &#8211; Senhor? &#8211; Tende piedade de mim!<br \/>\n    AUGUSTO &#8211; Ele tem de ser entregue a Carlos XII.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Por Deus, Senhor &#8211; por Deus &#8211; n&atilde;o fa&ccedil;ais<br \/>\n    tal &#8211; sabeis v&oacute;s que &eacute; um verdadeiro assassinato &#8211;<br \/>\n    que ele o mataria sem compaix&atilde;o nem piedade &#8211; esse homem de sangue<br \/>\n    e de carnagem &#8211; v&oacute;s o n&atilde;o fareis, rei Augusto &#8211;<br \/>\n    Carlos XII tamb&eacute;m &eacute; vosso inimigo cruel, que vos tem perseguido<br \/>\n    e ultrajado vergonhosamente. &#8211; Quereis condescender com ele, rei Augusto<br \/>\n    &#8211; quereis dar-lhe o vosso amigo em recompensa de vos haver roubado a<br \/>\n    vossa Pol&ocirc;nia. &#8211; V&oacute;s o n&atilde;o fareis. &#8211; E depois<br \/>\n    n&atilde;o podeis sem desonra tocar na cabe&ccedil;a de um embaixador. Tencionais<br \/>\n    faz&ecirc;-lo, Rei Augusto.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; J&aacute; vos disse que ele era um rebelde.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Rei Augusto, o que ides fazer era demais para desonrar um<br \/>\n    homem.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; uma coisa verdadeiramente baixa &#8211; um rei ser constrangido<br \/>\n    por outro rei como um escravo &#8211; dois reis que se ligam para perder um<br \/>\n    homem. &#8211; N&atilde;o &eacute; isto uma coisa vil e infame?! AUGUSTO &#8211;<br \/>\n    Duquesa, n&atilde;o faleis de raz&otilde;es que mal podeis compreender.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Nada mais vos direi. (Indo para sair.) AUGUSTO &#8211; Vejamos,<br \/>\n    Duquesa, ainda uma vez, pedi-me uma coisa qualquer que seja e eu v&ocirc;-la<br \/>\n    farei &#8211; n&atilde;o, eu n&atilde;o quisera vos f&ocirc;sseis descontente<br \/>\n    comigo.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Deus guarde a Vossa Majestade. (Sai)<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>AUGUSTO (Depois de um momento de sil&ecirc;ncio) &#8211; Acaso um dia se<br \/>\n    levantar&aacute; a voz da posteridade para dizer que o rei Augusto foi um<br \/>\n    traidor e um cobarde &#8211; traidor! e cobarde! Fleming? FLEMING &#8211;<br \/>\n    Senhor! AUGUSTO &#8211; Quero que Patkull viva.<\/p>\n<p> FLEMING &#8211; Mandai pedir a sua gra&ccedil;a a Carlos XII.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; S&atilde;o 6 horas. &#8211; &Agrave;s 9 um correio pode<br \/>\n    estar em Keenigstadt &#8211; e Patkull ser&aacute; livre.<\/p>\n<p> FLEMING &#8211; &Agrave;s 8 horas j&aacute; dever&aacute; estar em poder<br \/>\n    de Carlos XII.<\/p>\n<p> AUGUSTO &#8211; &Eacute; j&aacute; tarde. (Caindo numa cadeira)<\/p>\n<h2><a name=\"5\">ATO QUINTO<\/a><\/h2>\n<h2> PERSONAGENS<\/h2>\n<p>PATKULL NAMRY UM PADRE SOLDADOS<\/p>\n<h2><b>ATO QUINTO<\/b><\/h2>\n<p> <b>O mesmo c&aacute;rcere &#8211; e mesmo arranjo de cena.<\/b><\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p>PATKULL &#8211; Meu pobre cora&ccedil;&atilde;o?! Eu, mesmo eu, te desconhe&ccedil;o<br \/>\n    &#8211; o que viste t&atilde;o coitado n&atilde;o s&atilde;o l&aacute;grimas<br \/>\n    &#8211; &eacute; fel &eacute; sangue! &#8211; Meus amores t&atilde;o lindos,<br \/>\n    que s&atilde;o deles?! Que &eacute; da amizade t&atilde;o grande que encerravas?!<br \/>\n    De t&atilde;o nobre sentir o que te resta, meu pobre cora&ccedil;&atilde;o?!<br \/>\n    Eu amava!! Amava o meu amigo, a minha amante &#8211; e ele vendeu-me &#8211;<br \/>\n    e ela, meu Deus &#8211; e ela?! Era dela meu sangue, meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; minha alma &#8211; era dela o pensamento &#8211; o prazer &#8211;<br \/>\n    a tristeza &#8211; tudo &#8211; s&oacute; por ela vivia &#8211; s&oacute;<br \/>\n    por ela e para ela. &#8211; Que lhes fiz eu?! Paikel?! Qu&ecirc; de vezes<br \/>\n    me chamaste teu amigo &#8211; mentias tu ent&atilde;o?! Por que me tra&iacute;ste,<br \/>\n    meu Paikel &#8211; por qu&ecirc;? Que se me dessem um reino &#8211; e agora<br \/>\n    mesmo, se me dessem a liberdade &#8211; se algu&eacute;m no mundo me pudesse<br \/>\n    dar o engano de outros tempos &#8211; a ilus&atilde;o e brilhantismo do primeiro<br \/>\n    amor&#8230; para que te eu tra&iacute;sse &#8211; talvez &#8211; talvez que o<br \/>\n    n&atilde;o fizera &#8211; e tu?! Mas eu me calarei sobre ti &#8211; pobre<br \/>\n    amigo que te perdeste e me perdeste contigo. N&atilde;o inquietarei tua sombra,<br \/>\n    Paikel. Os homens te mandaram para Deus &#8211; morreste. &#8211; N&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o serei eu que porei na balan&ccedil;a da justi&ccedil;a eterna trai&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o feia e m&aacute;.<\/p>\n<p> N&atilde;o serei eu &#8211; bem que tudo me roubaste &#8211; o amor e a<br \/>\n    vida &#8211; o amor que era o meu para&iacute;so &#8211; que era meu tesouro<br \/>\n    &#8211; tesouro de avarento &#8211; tesouro inesgot&aacute;vel de venturas<br \/>\n    que ela enfeitava. &#8211; E a vida s&oacute; para a gastar com ela &#8211;<br \/>\n    s&oacute; com ela &#8211; aos p&eacute;s dela &#8211; para a ver sempre com<br \/>\n    um sorriso nos l&aacute;bios, ou com l&aacute;grimas nos olhos &#8211; Namry<br \/>\n    &#8211; bela estrela &#8211; farol t&atilde;o meigo de esperan&ccedil;as &#8211;<br \/>\n    belo anjo de luz &#8211; tamb&eacute;m tu me pudeste trair &#8211; Namry!<br \/>\n    A mim que te amava tanto. Oh! Que s&oacute; por ti me pesa deixar a vida &#8211;<br \/>\n    que ser&aacute;s tu sem mim? Agora que eu j&aacute; sinto a morte esvoa&ccedil;ando<br \/>\n    sobre a minha cabe&ccedil;a &#8211; n&atilde;o me pesa deixar a vida &#8211;<br \/>\n    mas pesa-me deixar-te a ti que eras meus amores.<\/p>\n<p> &#8211; Mas por que choro assim? N&atilde;o &#8211; n&atilde;o saber&aacute;<br \/>\n    ela que a chorei no agonizar da vida &#8211; n&atilde;o saber&aacute; que<br \/>\n    talvez de mim se rira orgulhosa! Ela a escarnecer-me &#8211; a rir-se sobre<br \/>\n    o meu sepulcro &#8211; a insultar-me no cadafalso &#8211; no cavalete, quando<br \/>\n    me ralo com dores! Que mais me poder&aacute;s tu fazer!! Dir-me-&aacute;s<br \/>\n    talvez que me n&atilde;o amavas. &#8211; Demais o sei! Meu Deus! Meu Deus!<br \/>\n    (Cai sobre a cadeira) Por que me esqueci eu de meus pais? Certo que a morte<br \/>\n    seria ent&atilde;o bela, chorada por todo um povo. &#8211; E que me importa<br \/>\n    um povo!! Loucuras que eu afaguei no entrar da vida &#8211; quimeras que se<br \/>\n    me esvaem no entrar da morte.<\/p>\n<p> Louco o homem neste mundo que diz na sua consci&ecirc;ncia: eu salvarei<br \/>\n    tal povo.<\/p>\n<p> Louco o homem que diz: eu tenho um amigo &#8211; que &eacute; meu sangue<br \/>\n    &#8211; meu corpo.<\/p>\n<p> Louco o homem que diz: eu tenho uma amante pura e bela como um anjo &#8211;<br \/>\n    uma mulher que &eacute; minha alma &#8211; louco porque o povo est&aacute;<br \/>\n    embriagado na sua vilania &#8211; porque o amigo &eacute; falso &#8211; porque<br \/>\n    a mulher &eacute; v&iacute;bora. &#8211; Oh! N&atilde;o ter alguns dias mais<br \/>\n    para assistir tranq&uuml;ilo ao espet&aacute;culo de tanta baixeza &#8211;<br \/>\n    queria me rir do que se julga um libertador &#8211; do que conta com a f&eacute;<br \/>\n    do amigo &#8211; e com o amor da amante. &#8211; E que mais merecemos n&oacute;s<br \/>\n    do que desprezo ou riso &#8211; cr&eacute;dulos como somos? N&atilde;o &#8211;<br \/>\n    mais vale morrer. Depois de tantas esperan&ccedil;as s&oacute; nos resta a<br \/>\n    morte em &uacute;ltima recompensa. &#8211; Quem me dera morrer &#8211; morrer<br \/>\n    com dores que me fa&ccedil;am esquecer o muito do que eu sofro! Morrer, que<br \/>\n    talvez debaixo da lousa fria de um sepulcro n&atilde;o pulse o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2>CENAII<\/h2>\n<p><b>Abre-se a porta. Aparece um padre.<\/b><\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Senhor.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Benvindo sejas, meu padre.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Como ides?! PATKULL &#8211; Mal &#8211; muito mal &#8211;<br \/>\n    por&eacute;m sinto que serei melhor quando me houverdes falado &#8211; porque<br \/>\n    se para outro podiam ser fatais palavras &#8211; ser&atilde;o para mim de<br \/>\n    contentamento.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Presun&ccedil;&otilde;es do que vive sempre falham, meu<br \/>\n    filho, as esperan&ccedil;as mentem, quando se n&atilde;o espera a morte.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Eu a espero, meu padre.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Que esperais? PATKULL &#8211; Sim, meu Padre &#8211; espero<br \/>\n    a morte &#8211; espero-a breve &#8211; desejo-a como se poderia desejar a<br \/>\n    vida. &#8211; E que Deus me perdoe esta esperan&ccedil;a se resume um pecado.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Muito me apraz encontrar-vos neste estado &#8211; o que<br \/>\n    sofre encontra a gra&ccedil;a do Senhor que s&oacute; consola &agrave;queles<br \/>\n    que o mundo n&atilde;o pode consolar. &#8211; Por&eacute;m se n&atilde;o tendes<br \/>\n    apego &agrave; vida, tamb&eacute;m a n&atilde;o aborreceis, que o aborrecimento<br \/>\n    &eacute; mau conselheiro &#8211; como v&oacute;s, tamb&eacute;m sofri, tamb&eacute;m<br \/>\n    vaguei no mundo &agrave;s tontas, e em bem que o conheci &#8211; s&atilde;o<br \/>\n    mil caminhos enganosos, orlados de flores &#8211; banhados de perfumes &#8211;<br \/>\n    onde contudo crescem cardos e os espinhos brotam; e a ovelha mansa que se<br \/>\n    desgarra do rebanho do Senhor &#8211; deixa nos cardos e nos espinhos a maior<br \/>\n    por&ccedil;&atilde;o de l&atilde; t&atilde;o alva e fina, e n&atilde;o encontra<br \/>\n    o pasto que deseja. &#8211; Somos todos n&oacute;s como a ovelha imprudente<br \/>\n    &#8211; e porque n&atilde;o trilhamos a senda da verdade &#8211; aborrecemos<br \/>\n    tudo, bem que de tudo n&atilde;o tenhamos ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Que merece a vida &#8211; sonho mais ou menos longo &#8211; alegre ou triste<br \/>\n    &#8211; &eacute; como o fumo que um leve sopro do vento espalha nos ares.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Como falais bem, meu Padre.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Talvez vos pese deixar a vida pelo que deixais com ela!<br \/>\n    Quem n&atilde;o sente o amor da vida? Quem n&atilde;o sente a amizade? &#8211;<br \/>\n    E o amor e a amizade s&atilde;o ourop&eacute;is quando n&atilde;o manam do<br \/>\n    Senhor. Bem felizes aqueles que morrem enganados! &#8211; Talvez amastes &#8211;<br \/>\n    mas o que n&atilde;o sabeis &eacute; que a humanidade &eacute; fr&aacute;gil,<br \/>\n    e os afetos, movedi&ccedil;os como a grimpa do campan&aacute;rio.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Tendes raz&atilde;o.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; De tudo vos deveis esquecer, para que o Senhor seja convosco.<br \/>\n    &#8211; Em breve tereis de aparecer na presen&ccedil;a de Deus &#8211; segundo<br \/>\n    o crer dos homens. &#8211; Trabalhai pois para que a morte vos n&atilde;o<br \/>\n    encontre desprevenido &#8211; porque lhe n&atilde;o podeis dizer p&aacute;ra.<br \/>\n    &#8211; Preparai-vos.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Preparado me achais.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Talvez n&atilde;o tanto como ser&aacute; mister; dir-vos-ei,<br \/>\n    por que n&atilde;o fraquieis quando carecerdes de toda a vossa coragem &#8211;<br \/>\n    vossa morte tem de ser horr&iacute;vel.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Como quiserem.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Cheia de ignom&iacute;nia PATKULL &#8211; Seja.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; E de tormentos.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Seja tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Ser&atilde;o vossos escritos queimados.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; J&aacute; o foram.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Vosso bras&atilde;o espeda&ccedil;ado pelo carrasco.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; O mais nobre talvez que ele ter&aacute; espeda&ccedil;ado.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Sereis depois rodado.<\/p>\n<p>PATKULL &#8211; Que seja breve.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; N&atilde;o! Querem-vos paciente por muito tempo &#8211;<br \/>\n    ainda em vida tereis a cabe&ccedil;a despeda&ccedil;ada.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Em bem! Que eu j&aacute; desesperava de morrer.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Sereis depois esquartejado e vossos membros pendurados nos<br \/>\n    quatro pontos da cidade. &#8211; Tal &eacute; a senten&ccedil;a de Carlos<br \/>\n    XII.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Calos XII &#8211; Carlos XII. &#8211; Oh! Por que me falais<br \/>\n    nesse homem? J&aacute; que tanto me tenho esquecido ao menos me podereis deixar<br \/>\n    morrer sem ouvir pronunciar o seu nome.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Tal &oacute;dio &agrave;s bordas do sepulcro!! PATKULL &#8211;<br \/>\n    Meu padre, dizei-me: n&atilde;o &eacute; verdade que o filho tem dever de<br \/>\n    defender a vida do pai? O PADRE &#8211; &Eacute; um dever rec&iacute;proco<br \/>\n    de um para com outro, e do homem para o homem.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; N&atilde;o ter&aacute; ele direito de vingar sua morte?<br \/>\n    O PADRE &#8211; N&atilde;o &#8211; que a vingan&ccedil;a &eacute; do que nega<br \/>\n    a Provid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Crede-o v&oacute;s? Oh! &Eacute; porque n&atilde;o sabeis<br \/>\n    como acreditais que ele me perdoar&aacute; nos c&eacute;us de o ter esquecido<br \/>\n    por tanto tempo? O PADRE &#8211; Por que n&atilde;o? PATKULL &#8211; Oh! Sim,<br \/>\n    por que n&atilde;o? Um pai n&atilde;o se esquece de seu filho &#8211; e de<br \/>\n    mais tenho sofrido para impetrar o seu perd&atilde;o &#8211; sofri muito talvez,<br \/>\n    porque de tudo me esqueci para me lembrar s&oacute; da gl&oacute;ria e do<br \/>\n    amor. &#8211; Oh! Meu padre, que se a vida &eacute; fonte de venturas, n&atilde;o<br \/>\n    o foi para mim &#8211; que s&oacute; achei trope&ccedil;os e calamidades.<br \/>\n    &#8211; E hoje, quando me lan&ccedil;o na hist&oacute;ria do passado &#8211;<br \/>\n    n&atilde;o encontro um quadro feliz em toda a exist&ecirc;ncia &#8211; que<br \/>\n    n&atilde;o tenha o acre do desengano. &#8211; Busquei o amor e a gl&oacute;ria.<br \/>\n    &#8211; E o amor traiu-me e enegreceu os &uacute;ltimos instantes da vida<br \/>\n    que a gl&oacute;ria me faz perder no cadafalso e na vergonha.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Consolai-vos que o sofrer &eacute; dos homens &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    se vos d&ecirc; do passado &#8211; melhor para v&oacute;s se ele foi &aacute;spero<br \/>\n    e terr&iacute;vel, porque o n&atilde;o chorareis no passar da inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vida para o sossego do t&uacute;mulo.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; N&atilde;o serei eu quem a chore! O PADRE &#8211; Estais<br \/>\n    preparado? PATKULL &#8211; J&aacute; v&ocirc;-lo disse.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Ent&atilde;o &#8211; adeus, meu filho.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Adeus, meu Padre.<\/p>\n<p> O PADRE (Pega-lhe nas m&atilde;os) &#8211; Bem me custa separar-me de v&oacute;s<br \/>\n    &#8211; muito &#8211; mas n&atilde;o quis Deus que o homem visse a dor do<br \/>\n    seu semelhante sem que despontasse em seus olhos uma l&aacute;grima de simpatia.<\/p>\n<p> PATKULL (Abra&ccedil;ando-o) &#8211; Bom padre.<\/p>\n<p> O PADRE &#8211; Adeus, meu filho. (Vai-se)<\/p>\n<h2>CENA III<\/h2>\n<p>PATKULL &#8211; Bom padre &#8211; como se compadeceu de mim? E se ele soubesse<br \/>\n    o que encerra este meu peito, se ele o soubesse? Oh! N&atilde;o derramaria<br \/>\n    l&aacute;grimas &#8211; n&atilde;o &#8211; porque l&aacute;grimas n&atilde;o<br \/>\n    bastam para o que sofro!! E eu morro sozinho e abandonado na morte, como na<br \/>\n    vida &#8211; Namry!! Sempre este nome; ao menos praza a Deus que dela n&atilde;o<br \/>\n    me recorde noutra vida. &#8211; Oh! Se ainda a pudesse ver uma vez?! Bem sei<br \/>\n    que foi falsa, que me enganou: n&atilde;o vir&aacute;, n&atilde;o. &#8211;<br \/>\n    Que lhe importa Patkull que morre, e se algu&eacute;m chora, certo que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; por mim.<\/p>\n<h2>CENA IV<\/h2>\n<p> <b>PATKULL E NAMRY<\/b><\/p>\n<p>(PATKULL sentado com as m&atilde;os na cabe&ccedil;a. NAMRY entra e vai correndo<br \/>\n    para ele. PATKULL desperta, encara-a &#8211; fica assentado &#8211; e ela<br \/>\n    p&aacute;ra.) NAMRY &#8211; Sou eu &#8211; n&atilde;o me conheces, Patkull<br \/>\n    &#8211; eles me concederam este momento, para que te eu visse antes da tua<br \/>\n    morte!! N&atilde;o me conheces?! PATKULL &#8211; Namry (Abra&ccedil;a-a, beija-a<br \/>\n    muitas vezes), tardaste tanto! NAMRY &#8211; Quis ver se te salvava.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; E eles disseram que tu n&atilde;o me amavas &#8211; Namry<br \/>\n    &#8211; e eu acreditei-os &#8211; sim &#8211; tu mo perdoar&aacute;s &#8211;<br \/>\n    t&atilde;o boa que tu &eacute;s &#8211; tu te lembraste do pobre homem que<br \/>\n    morria, Namry &#8211; Oh! Bendita sejas tu &#8211; e possas ter na hora da<br \/>\n    tua morte a felicidade que me fazes experimentar &#8211; meu anjo.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Por que te n&atilde;o pude eu apreciar de mais tempo? PATKULL<br \/>\n    &#8211; Tu me amas.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; N&atilde;o mere&ccedil;o o teu amor.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Oh! Dizes bem &#8211; n&atilde;o respondas &#8211; Namry<br \/>\n    &#8211; n&atilde;o me respondas, que me seria cruel tua resposta: Deixa-me<br \/>\n    acreditar que vieste aqui por amor e n&atilde;o por piedade. &#8211; Deixa-me<br \/>\n    acreditar que foi mentira o que me disseram de ti &#8211; deixa-me acreditar<br \/>\n    &#8211; para que morra consolado.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Por que te matam t&atilde;o cedo! PATKULL &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; cedo, &eacute; tarde. &#8211; Eu quisera morrer aqui nos teus bra&ccedil;os<br \/>\n    deixando no teu peito meu &uacute;ltimo suspiro, e gravando na mem&oacute;ria<br \/>\n    o teu nome intercortado, que acabar n&atilde;o poderia.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Por que morres agora &#8211; ah! Se pudesses viver &#8211;<br \/>\n    se pudesses viver &#8211; Patkull, se o pudesses &#8211; ent&atilde;o talvez<br \/>\n    que eu fizesse esquecer a minha ingratid&atilde;o doutros tempos e o faria;<br \/>\n    d&aacute;r-te-ia amor &#8211; n&atilde;o como o teu que n&atilde;o pudera<br \/>\n    &#8211; mas alma e cora&ccedil;&atilde;o &#8211; eu tos daria e o que fosse<br \/>\n    em meu poder fazer-te &#8211; para te alegrar a vida e o pensamento &#8211;<br \/>\n    eu o faria por gratid&atilde;o, por amor e por mim mesma, Patkull! PATKULL<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o v&ecirc;s que eu choro?! NAMRY &#8211; Choras a vida que<br \/>\n    &eacute; tanto para ser chorada &#8211; quando como a tua se empregou em obras<br \/>\n    de merecimento e de virtude.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; N&atilde;o &#8211; n&atilde;o choro a vida. &#8211; Muitas<br \/>\n    vezes me vi no campo da batalha &#8211; vi a morte pairar sobre mim em nuvens<br \/>\n    de fumo e de p&oacute;, calquei meus companheiros ainda quentes &#8211; e<br \/>\n    n&atilde;o chorei &#8211; n&atilde;o choraria a vida &#8211; n&atilde;o &#8211;<br \/>\n    mas choro por te deixar &#8211; e conhe&ccedil;o todavia que o devo fazer<br \/>\n    porque a minha Namry de hoje talvez que amanh&atilde; a n&atilde;o encontre.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Sempre eu &#8211; sempre a tua Namry &#8211; Patkull. &#8211;<br \/>\n    Tua Namry &#8211; desgra&ccedil;ada &#8211; que eternamente ser&aacute; vi&uacute;va<br \/>\n    sem nunca ter sido esposa. Tamb&eacute;m me n&atilde;o pesa de ficar s&oacute;<br \/>\n    &#8211; que te n&atilde;o merecera &#8211; mas pesa-me deixar-te, Patkull.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Namry.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Meu Patkull! PATKULL &#8211; Namry &#8211; vive feliz e venturosa<br \/>\n    &#8211; que eu morro &#8211; morro com saudades tuas &#8211; e serei feliz<br \/>\n    se depois da morte acudirem lembran&ccedil;as do passado por saber que me<br \/>\n    choravas depois de morto &#8211; por ter visto que choravas a minha morte.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Meu bom Patkull.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Namry &#8211; olha, eu tenho um pajem &#8211; tu o conheces,<br \/>\n    talvez que h&aacute; pouco com palavras mal pensadas ofendesse o meu pobre<br \/>\n    pajem. &#8211; Toma-o para te servir &#8211; Namry &#8211; que &eacute; fiel<br \/>\n    e honrado &#8211; muito me amava e &eacute; uma d&iacute;vida que pagar&aacute;s<br \/>\n    por mim. (NAMRY nos bra&ccedil;os dele chora)<\/p>\n<h2>CENA V<\/h2>\n<p> <b>SOLDADOS e os mesmos<\/b><\/p>\n<p>SOLDADO &#8211; Temos ordem de vos levar daqui.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; J&aacute;! J&aacute;! Meu Patkull.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Coragem, Namry! NAMRY &#8211; Oh! Eu teria coragem &#8211;<br \/>\n    mas que ao menos por um momento mais me deixassem contigo.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Tem de ser j&aacute;.<\/p>\n<p> NAMRY &#8211; Oh! Como sois cruel &#8211; Patkull! &#8211; meu Patkull &#8211;<br \/>\n    meu amigo, tu n&atilde;o me deixar&aacute;s, n&atilde;o &#8211; eu morreria<br \/>\n    sem ti.<\/p>\n<p> PATKULL &#8211; Namry &#8211; meu amor! &#8211; meu anjo &#8211; deixa-me<br \/>\n    partir. (Abra&ccedil;ando-a e beijando-a) O SOLDADO &#8211; Diziam-nos que<br \/>\n    &eacute;reis valente! PATKULL &#8211; N&atilde;o vos mentiram.<\/p>\n<p> O SOLDADO &#8211; E chorais! PATKULL &#8211; S&atilde;o l&aacute;grimas<br \/>\n    nascidas de um cora&ccedil;&atilde;o que ama &#8211; nunca as derramei no<br \/>\n    travado das pelejas, nem ora me oprime &#8211; e acabrunha o aspecto da morte!&#8230;<\/p>\n<p> O SOLDADO &#8211; Apressai-vos. O tempo urge! PATKULL (Abra&ccedil;ando<br \/>\n    Namry) &#8211; Adeus! Narnry! (Arrancando-se dos bra&ccedil;os dela) NAMRY&#8211;<br \/>\n    Meu Patkull! Ah! (Cai, Patkull retira-se entre os soldados)<\/p>\n<p><b>(Cai o pano)<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I &#8211; Ato Primeiro II &#8211; Ato Segundo III &#8211; Ato Terceiro IV &#8211; Ato Quarto V &#8211; Ato Quinto Personagens Patkull, gentil homem da Liv&ocirc;nia Paikel, alquimista Namry Romhor, noiva de Patkull Bertha, namorada de Paikel Wolf, pajem Um criado Um mensageiro Uma criada Fleming [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96514","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro Patkull - Gon\u00e7alves Dias<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro, Ato, Cena, Personagens, Bertha, Wolf, Fleming, Trama, Pe\u00e7a, Patkull - Gon\u00e7alves Dias\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro Patkull - Gon\u00e7alves Dias\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro, Ato, Cena, Personagens, Bertha, Wolf, Fleming, Trama, Pe\u00e7a, Patkull - Gon\u00e7alves Dias\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-25T14:37:34+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"101 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/patkull-goncalves-dias#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/patkull-goncalves-dias\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Patkull &#8211; Gon\u00e7alves Dias\",\"datePublished\":\"2017-01-25T14:37:34+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/patkull-goncalves-dias\"},\"wordCount\":20117,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/patkull-goncalves-dias#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/patkull-goncalves-dias\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/patkull-goncalves-dias\",\"name\":\"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro Patkull - Gon\u00e7alves Dias\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-01-25T14:37:34+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"description\":\"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro, Ato, Cena, Personagens, Bertha, Wolf, Fleming, Trama, Pe\u00e7a, Patkull - Gon\u00e7alves Dias\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/patkull-goncalves-dias#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/patkull-goncalves-dias\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/patkull-goncalves-dias#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Patkull &#8211; Gon\u00e7alves Dias\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\",\"name\":\"Augusto Abreu\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro Patkull - Gon\u00e7alves Dias","description":"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro, Ato, Cena, Personagens, Bertha, Wolf, Fleming, Trama, Pe\u00e7a, Patkull - Gon\u00e7alves Dias","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro Patkull - Gon\u00e7alves Dias","og_description":"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro, Ato, Cena, Personagens, Bertha, Wolf, Fleming, Trama, Pe\u00e7a, Patkull - Gon\u00e7alves Dias","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-01-25T14:37:34+00:00","author":"Augusto Abreu","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Augusto Abreu","Est. tempo de leitura":"101 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias"},"author":{"name":"Augusto Abreu","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578"},"headline":"Patkull &#8211; Gon\u00e7alves Dias","datePublished":"2017-01-25T14:37:34+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias"},"wordCount":20117,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias","name":"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro Patkull - Gon\u00e7alves Dias","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-01-25T14:37:34+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578"},"description":"Patkull - Gon\u00e7alves Dias, Obra, Teatro, Ato, Cena, Personagens, Bertha, Wolf, Fleming, Trama, Pe\u00e7a, Patkull - Gon\u00e7alves Dias","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/patkull-goncalves-dias#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Patkull &#8211; Gon\u00e7alves Dias"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578","name":"Augusto Abreu"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96514","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96514"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96514\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96514"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96514"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96514"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}