{"id":96510,"date":"2017-01-25T12:30:36","date_gmt":"2017-01-25T14:30:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96510"},"modified":"2017-01-25T12:30:36","modified_gmt":"2017-01-25T14:30:36","slug":"leonor-mendonca-goncalves-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/leonor-mendonca-goncalves-dias","title":{"rendered":"Leonor Mendon\u00e7a &#8211; Gon\u00e7alves Dias"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"602\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong>I &#8211; Ato Primeiro<\/strong><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#2\">II &#8211; Ato Segundo<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#3\">III &#8211; Ato Terceiro<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Pr&oacute;logo<\/h2>\n<p> Contentar a todos ningu&eacute;m o alcan&ccedil;ou, muitos se contentaram<br \/>\n    com aprazer a muitos. O autor tomar&aacute; por grande honra satisfazer a<br \/>\n    poucos.<br \/>\n    Prol. da Com. de Bristo.<\/p>\n<p> 1 &#8211; Id&eacute;ias e fatos h&aacute; que diariamente nos passam por diante<br \/>\n    dos olhos sem que nunca atentemos neles; n&oacute;s os reputamos coisa corrente<br \/>\n    e sabida por todos, que por vulgar n&atilde;o nos pode parecer sublime. Mas<br \/>\n    sobre essa id&eacute;ia ou fato, que em a nossa mem&oacute;ria entesouramos<br \/>\n    como subst&acirc;ncia de flores em favo de abelhas, a reflex&atilde;o trabalha<br \/>\n    sem descanso, desbasta-o, e tanto se exercita sobre ele, que depois estranhamos<br \/>\n    de o ver brilhante, belo e muito outro do que a princ&iacute;pio se nos antolhara.<\/p>\n<p>2 &#8211; Parece-nos de ent&atilde;o que o devemos pesar e meditar com a nossa<br \/>\n    intelig&ecirc;ncia, e ver depois as cores que nele mais sobressaem, e as roupagens<br \/>\n    que melhor se ajeitam &agrave;s suas formas. A imagina&ccedil;&atilde;o se<br \/>\n    incumbe deste trabalho, e desde esse instante est&aacute; criada a obra art&iacute;stica<br \/>\n    ou liter&aacute;ria: &#8211; edif&iacute;cio ou sinfonia; est&aacute;tua ou pintura;<br \/>\n    romance, ode, drama ou poema; boa ou m&aacute;; perfeita ou imperfeita -,<br \/>\n    o fato &eacute; que ela existe. Seja embora feia e falta de propor&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ser&aacute; como uma criatura imperfeita, como um aborto monstruoso, como<br \/>\n    uma anomalia mas existir&aacute; sempre.<\/p>\n<p>3 &#8211; H&aacute;, por&eacute;m, entre a obra delineada e a obra j&aacute; feita,<br \/>\n    um vasto abismo que os cr&iacute;ticos n&atilde;o podem ver, e que os mesmos<br \/>\n    autores dificilmente podem sondar: h&aacute; entre elas a dist&acirc;ncia<br \/>\n    que vai do ar a um s&oacute;lido, do esp&iacute;rito &agrave; mat&eacute;ria.<br \/>\n    A imagina&ccedil;&atilde;o tem cores que se n&atilde;o desenham; a alma tem<br \/>\n    sentimentos que se n&atilde;o exprimem; o cora&ccedil;&atilde;o tem dores<br \/>\n    superiores a toda a express&atilde;o. &Eacute; por isto que aos homens de<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o s&atilde;o autores, pode facilmente<br \/>\n    parecer que eles comporiam melhor tal obra do que ta1 mestre, que desenvolveriam<br \/>\n    tal assunto ou que pintariam tal paix&atilde;o melhor do que os outros, ali&aacute;s<br \/>\n    grandes, o t&ecirc;m feito. E &eacute; a raz&atilde;o por que eles comparam<br \/>\n    o fogo do seu cora&ccedil;&atilde;o, a viveza da sua imagina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a profundeza do seu sentimento (ess&ecirc;ncias d&#8217;alma) com as express&otilde;es<br \/>\n    de um autor, com palavras que, por escolhidas e delicadas que sejam, t&ecirc;m<br \/>\n    sempre um &#8211; qu&ecirc; &#8211; de material.<\/p>\n<p>4 &#8211; &Eacute; ainda por isto que eu, inimigo de quanto &eacute; ou me parece<br \/>\n    pr&oacute;logo, nem s&oacute; os escrevo, como tamb&eacute;m os leio com prazer,<br \/>\n    quando eles s&atilde;o feitos, n&atilde;o com o fim in&uacute;til de encarecer<br \/>\n    o merecimento de uma obra que j&aacute; pertence &agrave; cr&iacute;tica e<br \/>\n    ao p&uacute;blico, mas para que o autor nos revele qual foi o seu pensamento,<br \/>\n    qual a sua inten&ccedil;&atilde;o, o que pertence exclusivamente ao autor<br \/>\n    e &agrave; arte: ao autor, para que o p&uacute;blico se n&atilde;o deixe dominar<br \/>\n    por juizes ou mal-entendidos ou mal-intencionados; &agrave; arte, para que<br \/>\n    os principiantes em tal carleira n&atilde;o desacoro&ccedil;oem com os seus<br \/>\n    ensaios, sem d&uacute;vida imperfeitos, e n&atilde;o d&ecirc;em de m&atilde;o<br \/>\n    &agrave;s belas-letras pela despropor&ccedil;&atilde;o que de necessidade<br \/>\n    achar&atilde;o entre o seu pensamento e a sua express&atilde;o.<\/p>\n<p>5 &#8211; Direi pois, n&atilde;o o que fiz, mas o que prometi fazer.<\/p>\n<p>6 &#8211; A a&ccedil;&atilde;o do drama &eacute; a morte de Leonor de Mendon&ccedil;a<br \/>\n    por seu marido: dizem os escritores do tempo que D. Jaime, induzido por falsas<br \/>\n    apar&ecirc;ncias, matou sua mulher; dizem-no, por&eacute;m, de tal maneira,<br \/>\n    que facilmente podemos conjecturar que n&atilde;o foram t&atilde;o falsas<br \/>\n    as apar&ecirc;ncias como eles no-las indicam. O autor podia ent&atilde;o escolher<br \/>\n    a verdade moral ou a verdade hist&oacute;rica &#8211; Leonor de Mendon&ccedil;a<br \/>\n    culpada e condenada, ou Leonor de Mendon&ccedil;a inocente e assassinada -.Certo<br \/>\n    que a primeira oferecia mais interesse para a cena e mais moral para o drama;<br \/>\n    a paix&atilde;o deveria ent&atilde;o ser forte, tempestuosa e fren&eacute;tica,<br \/>\n    porque fora do dever n&atilde;o h&aacute; limite nas a&ccedil;&otilde;es dos<br \/>\n    homens: haveria cansa&ccedil;o e abatimento no amor e rea&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    violentas para o crime, haveria uma luta tenaz e cont&iacute;nua entre os<br \/>\n    sentimentos da mulher e os da esposa entre a m&atilde;e e a amante, entre<br \/>\n    o dever e a paix&atilde;o: no fim estaria o remorso e o castigo, e neles a<br \/>\n    moral. H&aacute; nisto mat&eacute;ria para mais de um bom drama.<\/p>\n<p>7 &#8211; Leonor de Mendon&ccedil;a, inocente e castigada, ser&aacute; infeliz,<br \/>\n    desesperada ou resignada. Ora, o remorso &eacute; mais instrutivo do que o<br \/>\n    desespero e do que a resigna&ccedil;&atilde;o, como o crime &eacute; mais<br \/>\n    dram&aacute;tico do que a virtude: pena &eacute; que assim seja, mas assim<br \/>\n    &eacute;. Se em prova disto me fosse preciso trazer algum exemplo, eu citaria<br \/>\n    o Faliero de Byron e o Faliero de Delavigne.<\/p>\n<p>8 &#8211; Por que ent&atilde;o segui o pior? &Eacute; porque tenho para mim que<br \/>\n    toda a obra art&iacute;stica ou liter&aacute;ria deve conter um pensamento<br \/>\n    severo: debaixo das flores da poesia deve esconder-se uma verdade incisiva<br \/>\n    e &aacute;spera, como diz Victor Hugo &#8211; em cada mulher formosa h&aacute; sempre<br \/>\n    um esqueleto.<\/p>\n<p>9 &#8211; Foi este o pensamento &#8211; a fatalidade. N&atilde;o aquela fatalidade implac&aacute;vel<br \/>\n    que perseguiu a fam&iacute;lia dos Atridas, nem aquela outra cega e terr&iacute;vel<br \/>\n    que Werner descreve no seu drama &quot;Vinte e Quatro de Fevereiro&quot;.<br \/>\n    &Eacute; a fatalidade c&aacute; da terra a que eu quis descrever, aquela fatalidade<br \/>\n    que nada tem de Deus e tudo dos homens, que &eacute; filha das circunst&acirc;ncias<br \/>\n    e que dimana toda dos nossos h&aacute;bitos e da nossa civiliza&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    aquela fatalidade, enfim, que faz com que um homem pratique tal crime porque<br \/>\n    vive em tal tempo, nestas ou naquelas circunst&acirc;ncias.<\/p>\n<p>10 &#8211; Repito: n&atilde;o analiso o que fiz, digo apenas o que era meu desejo<br \/>\n    fazer.<\/p>\n<p>11 &#8211; Leonor de Mendon&ccedil;a n&atilde;o tem nem um s&oacute; crime, nem<br \/>\n    um s&oacute; v&iacute;cio; tem s&oacute; defeitos. D. Jaime n&atilde;o tem<br \/>\n    nem crimes nem v&iacute;cios; tem tamb&eacute;m, e somente, defeitos. Os defeitos<br \/>\n    da duquesa s&atilde;o filhos da virtude; os do duque s&atilde;o filhos da<br \/>\n    desgra&ccedil;a: a virtude que &eacute; santa, a desgra&ccedil;a que &eacute;<br \/>\n    veneranda. Ora, como o que liga os homens entre si n&atilde;o &eacute;, em<br \/>\n    geral, nem o exerc&iacute;cio nem o sentimento da virtude, mas sim a correla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos defeitos, a duquesa e o duque n&atilde;o se poderiam amar porque eram<br \/>\n    os seus defeitos de diferente natureza. Quando algum dia a luta se travasse<br \/>\n    entre ambos, o mais forte espeda&ccedil;aria o mais fraco; e assim foi.<\/p>\n<p>12 &#8211; H&aacute; a&iacute; tamb&eacute;m outro pensamento sobre que tanto se<br \/>\n    tem falado e nada feito, e vem a ser a eterna sujei&ccedil;&atilde;o das mulheres,<br \/>\n    o eterno dom&iacute;nio dos homens. Se n&atilde;o obrigassem D. Jaime a casar<br \/>\n    contra a sua vontade, n&atilde;o haveria o casamento, nem a luta, nem o crime.<br \/>\n    Aqui est&aacute; a fatalidade, que &eacute; filha dos nossos h&aacute;bitos.<br \/>\n    Se a mulher n&atilde;o fosse escrava, como &eacute; de fato, D. Jaime n&atilde;o<br \/>\n    mataria sua mulher. Houve nessa morte a fatalidade, filha da civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que foi e que ainda &eacute; hoje.<\/p>\n<p>13 &#8211; Isto quanto ao principal da a&ccedil;&atilde;o. Desenhei como pude uns<br \/>\n    caracteres, outros deixei quase acabados, outros apenas esbo&ccedil;ados.<\/p>\n<p>14 &#8211; H&aacute; tr&ecirc;s velhos, ou que pensam como tais: &eacute; o duque,<br \/>\n    o velho Alcoforado e Fern&atilde;o Velho.<\/p>\n<p>15 &#8211; O duque &eacute; nobre e desgra&ccedil;ado; da nobreza tem o orgulho,<br \/>\n    da desgra&ccedil;a a desconfian&ccedil;a, e do tempo a vida e a supersti&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O duque &eacute; cioso, e, not&aacute;vel coisa! &eacute; cioso n&atilde;o<br \/>\n    porque ama, mas porque &eacute; nobre. &Eacute; esta a diferen&ccedil;a que<br \/>\n    h&aacute; entre Otelo e D. Jaime. Otelo &eacute; cioso porque ama, D. Jaime<br \/>\n    porque tem orgulho. Ambos s&atilde;o cr&eacute;dulos e violentos, mas a credulidade<br \/>\n    de Otelo forma-se e caminha a passos lentos, porque o seu amor duvida; a sua<br \/>\n    viol&ecirc;ncia, relevem-me a express&atilde;o, &eacute; vagarosa e caminha<br \/>\n    com a terr&iacute;vel majestade das lavas de um vulc&atilde;o. O duque cr&ecirc;<br \/>\n    quanto basta ao bom senso de qualquer homem, e a sua viol&ecirc;ncia &eacute;<br \/>\n    precipitada, porque ele n&atilde;o interessa com a inoc&ecirc;ncia de sua<br \/>\n    esposa. Otelo mata a Desd&ecirc;mona, mas chora antes de a matar e depois<br \/>\n    de a ter morto; o duque mata a Leonor de Mendon&ccedil;a, mas sem l&aacute;grimas,<br \/>\n    porque o orgulho n&atilde;o as tem.<\/p>\n<p>16 &#8211; Se me &eacute; permitido continuar com o drama al&eacute;m dos seus<br \/>\n    termos naturais, vejamos o que fazem estes dois homens depois de assassinadas<br \/>\n    suas mulheres. Otelo mata-se; e D. Jaime, convencido da inoc&ecirc;ncia da<br \/>\n    sua por tantos e t&atilde;o grandes milagres que testemunharam o seu mart&iacute;rio,<br \/>\n    ir&aacute; batalhar contra infi&eacute;is em expia&ccedil;&atilde;o do seu<br \/>\n    crime, e voltar&aacute; purificado para de novo casar-se. Assim, pois, quando<br \/>\n    o primeiro acaba a vida, &eacute; que o segundo principia a viver.<\/p>\n<p>17 &#8211; O duque &eacute; severo porque &eacute; insens&iacute;vel; o velho Alcoforado<br \/>\n    &eacute; tamb&eacute;m severo, mas ama. O primeiro &eacute; severo como nobre<br \/>\n    e como senhor; quando ele fala, manda, quando ele pede, manda ainda; &eacute;-lhe<br \/>\n    precisa a obedi&ecirc;ncia, porque n&atilde;o sabe pedir; ele a exige, porque<br \/>\n    n&atilde;o sabe mandar. Como, por&eacute;m, &eacute; ao mesmo tempo urbano<br \/>\n    e cortes&atilde;o, a duquesa tem de se mostrar livre e senhora da sua vontade,<br \/>\n    o que torna incomport&aacute;vel a escravid&atilde;o. O velho Alcoforado &eacute;<br \/>\n    severo como pai e como homem; &eacute; condescendente, porque ama; &eacute;<br \/>\n    feliz, porque &eacute; condescendente. Embalado pela voz de seus filhos, ele<br \/>\n    caminha lentamente para o sepulcro, e a sua modesta habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    respira amor e suavidade. H&aacute; realmente contraste entre o duque poderoso<br \/>\n    e o modesto pai de fam&iacute;lia, entre o pal&aacute;cio suntuoso e a habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    singela: o que h&aacute; de mais naquele falta nesta, o que nesta &eacute;<br \/>\n    necess&aacute;rio, falta naquele. O velho n&atilde;o quer sen&atilde;o viver<br \/>\n    e morrer entre os seus filhos, e o duque foge com prazer do seu pal&aacute;cio<br \/>\n    para viver uma semana na sua ermida do Convento do Bosque, ou com os seus<br \/>\n    capel&atilde;es da Serra de Ossa. Assim &eacute; com raz&atilde;o, porque<br \/>\n    o velho tem para si que melhor que a sua vida s&oacute; a bem-aventuran&ccedil;a,<br \/>\n    enquanto que para o duque fora verdadeira bem-aventuran&ccedil;a viver a vida<br \/>\n    tranq&uuml;ila do velho.<\/p>\n<p>18 &#8211; Fern&atilde;o Velho &eacute; tamb&eacute;m severo e tamb&eacute;m insens&iacute;vel,<br \/>\n    por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; como o duque nem como o velho Alcoforado.<br \/>\n    &Eacute; um dom&eacute;stico que n&atilde;o sente nem vive sen&atilde;o por<br \/>\n    outro e para outro. Ele ama sobretudo a seu amo, desvela-se no seu servi&ccedil;o,<br \/>\n    compraz-se com tudo que lhe diz respeito, alegra-se quando o v&ecirc; alegre,<br \/>\n    e sofre quando ele sofre.<\/p>\n<p>19 &#8211; Ant&ocirc;nio Alcoforado &eacute; o que ele devia ser na sua idade,<br \/>\n    corajoso e dedicado; dedicado, por que a benevol&ecirc;ncia da duquesa em<br \/>\n    favor dele se convertesse em gratid&atilde;o; corajoso, para ter o direito<br \/>\n    de morrer sem defender-se, para que pudesse suplicar sem baixeza, mas antes<br \/>\n    nunca maior nem mais nobre do que quando curvado pedisse justi&ccedil;a para<br \/>\n    a mulher que n&atilde;o pudesse defender, e piedade para a que n&atilde;o<br \/>\n    pudesse salvar. Com aquela id&eacute;ia, com aquela a&ccedil;&atilde;o, com<br \/>\n    estes e outros caracteres quis eu construir assim o drama.<\/p>\n<p>20 &#8211; No primeiro plano, o duque, a duquesa e Alcoforado. Alcoforado dedicado<br \/>\n    e extremoso, a duquesa agradecida e imprudente, e entre ambos o duque sombrio<br \/>\n    e desconfiado. Entre a duquesa e Alcoforado correr uma cadeia de benevol&ecirc;ncia<br \/>\n    e de servi&ccedil;os, de extremos e de gratid&atilde;o, fazer cair o duque<br \/>\n    sobre ambos espeda&ccedil;ando a cadeia com a sua for&ccedil;a, arrojando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a do homem aos p&eacute;s dos seus lacaios, e empolgando a mulher<br \/>\n    como uma presa para nela cevar a sua vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p>21 &#8211; No segundo plano, Paula e Fern&atilde;o Velho, ambos dom&eacute;sticos,<br \/>\n    e como tais revelando cada um a &iacute;ndole do seu amo. Paula boa e d&oacute;cil,<br \/>\n    porque a duquesa &eacute; af&aacute;vel e ben&eacute;vola; Fern&atilde;o &aacute;spero<br \/>\n    e rude, porque o duque &eacute; orgulhoso e inflex&iacute;vel.<\/p>\n<p>22 &#8211; Ao longe, aquela boa fam&iacute;lia dos Alcoforados. O velho robusto<br \/>\n    e v&aacute;lido, a filha amorosa e c&acirc;ndida, e o filho dotado de boa<br \/>\n    &iacute;ndole, mas ainda sem car&aacute;ter, porque o tempo e as circunstancias<br \/>\n    &eacute; que o h&atilde;o-de formar.<\/p>\n<p>23 &#8211; Prender a todos uns aos outros com o amor ou com a obedi&ecirc;ncia,<br \/>\n    lig&aacute;-los estreitamente entre si, junt&aacute;-los, conglob&aacute;-los,<br \/>\n    impelir uns sobre outros, e fazer brotar a dor e a poesia do choque de todas<br \/>\n    essas almas, e do choque das paix&otilde;es o drama.<\/p>\n<p>24 &#8211; Cabe &agrave; cr&iacute;tica avaliar at&eacute; que ponto realizei a<br \/>\n    minha id&eacute;ia.<\/p>\n<p>25 &#8211; Por &uacute;ltimo, direi algumas palavras sobre a arte. No come&ccedil;o<br \/>\n    do teatro moderno havia apenas duas obras poss&iacute;veis: a trag&eacute;dia,<br \/>\n    que cobria as suas esp&aacute;duas com manto de p&uacute;rpura, e a com&eacute;dia<br \/>\n    que porque a trag&eacute;dia andava pelos grandes, enquanto que a com&eacute;dia<br \/>\n    pisava o palco c&ecirc;nico com os seus sapatos burgueses; era assim, se entretinha<br \/>\n    com os pequenos, e ainda assim com o que nestes havia de mais c&ocirc;mico<br \/>\n    e ris&iacute;vel. Hoje, a com&eacute;dia e a trag&eacute;dia fundiram-se numa<br \/>\n    s&oacute; cria&ccedil;&atilde;o. E de feito, se atentamente examinarmos as<br \/>\n    produ&ccedil;&otilde;es de hoje, que chamamos dramas, notaremos que ainda<br \/>\n    nas mais l&iacute;ricas e majestosas h&aacute; de vez em quando certa quebra<br \/>\n    de gravidade, sem a qual n&atilde;o h&aacute; trag&eacute;dia. Notaremos tamb&eacute;m<br \/>\n    que essa quebra prov&eacute;m de ordin&aacute;rio de uma cena da vida dom&eacute;stica,<br \/>\n    o que verdadeiramente pertence &agrave; com&eacute;dia. Aquela cena, por exemplo,<br \/>\n    do segundo ato de &quot;Lucr&eacute;cia B&oacute;rgia&quot;, entre Lucr&eacute;cia<br \/>\n    e o duque de Ferrara, &eacute; um bosquejo da vida &iacute;ntima, &eacute;<br \/>\n    um fato que, mais ou menos modificado, tem lugar em toda a parte no conchego<br \/>\n    familiar; &eacute; uma cena que pertence &agrave; com&eacute;dia, porque n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; da sua ess&ecirc;ncia fazer rir. Descreva ela fielmente os costumes,<br \/>\n    e a arte ficar&aacute; satisfeita.<\/p>\n<p>26 &#8211; Assim, pois, o drama resume a com&eacute;dia e a trag&eacute;dia. Ora,<br \/>\n    se a trag&eacute;dia se n&atilde;o pode conceber sem verso, assim tamb&eacute;m<br \/>\n    a com&eacute;dia sem prosa n&atilde;o pode existir perfeita. Para prova disto<br \/>\n    hasta que reflitamos que o melhor autor c&ocirc;mico do mundo, o c&eacute;lebre<br \/>\n    Moli&egrave;re, foi o primeiro que, n&atilde;o sem dificuldade, introduziu<br \/>\n    a prosa no teatro franc&ecirc;s. Antes dele, at&eacute; os bons burgueses<br \/>\n    se envergonhavam de falar a linguagem do povo e a dos s&aacute;bios. Patearam-no,<br \/>\n    creio eu, bem que Racine seguiu o seu exemplo. Por&eacute;m, primeiro que<br \/>\n    estes excelentes dramaturgos, outro que ainda n&atilde;o foi excedido em arrojo<br \/>\n    e sublimidade, o afamado Shakespeare, que inventou o drama descrevendo fielmente<br \/>\n    a vida, j&aacute; havia achado a verdadeira linguagem da com&eacute;dia usando<br \/>\n    nela da prosa. Nos seus dramas ou cr&ocirc;nicas foi Shakespeare conseq&uuml;ente<br \/>\n    consigo, usou simultaneamente da prosa e do verso, porque simultaneamente<br \/>\n    criava em ambos os g&ecirc;neros. N&oacute;s por que o n&atilde;o havemos<br \/>\n    de imitar? Quando ele quer exprimir uma coisa vulgar ou uma chocarrice, usa<br \/>\n    da prosa; quando quer exprimir um sentimento nobre ou uma exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do esp&iacute;rito, usa do verso, e n&atilde;o s&oacute; do verso her&oacute;ico<br \/>\n    como de todos os mais da l&iacute;ngua inglesa: foi o estilo espanhol, como<br \/>\n    tamb&eacute;m o que praticou Metastasio na It&aacute;lia, e Gil Vicente em<br \/>\n    Portugal. Por que n&atilde;o faremos n&oacute;s assim? Por que havemos de<br \/>\n    dizer em verso coisas vulgares, e em prosa coisas que s&oacute; em versos<br \/>\n    podem ser bem ditas? Bem &eacute; que haja harmonia entre a express&atilde;o<br \/>\n    e o pensamento, que a poesia do esp&iacute;rito seja interpretada pela poesia<br \/>\n    das palavras, e que o prosaico da vida seja dito em linguagem prosaica.<\/p>\n<p>27 &#8211; Suponhamos que Shakespeare apresentava em cena uma daquelas personagens<br \/>\n    que ele se comprazia em enfeitar com todas as flores do seu g&ecirc;nio, Hamlet,<br \/>\n    Lear, Otelo ou Macbeth. Se no meio de um daqueles seus mon&oacute;logos, em<br \/>\n    que a beleza do verso rivaliza com a sublimidade do pensamento, lhe fosse<br \/>\n    preciso apresentar tamb&eacute;m um importuno, um servo, por exemplo, que<br \/>\n    viesse chamar seu senhor para a mesa, com certeza que ele n&atilde;o poria<br \/>\n    versos na boca do vil&atilde;o, nem se cansaria em imaginar uma per&iacute;frase<br \/>\n    para dizer em versos: &quot;O jantar est&aacute; posto&quot;. Ele diria isto<br \/>\n    como vulgarmente se diz, como todos os dias o ouvimos, sem adorno mal cabido<br \/>\n    e sem majestade far&ccedil;ada. O prosaico da vida afugentaria a poesia do<br \/>\n    pensamento, e por conseq&uuml;&ecirc;ncia o verso. O seu protagonista responderia<br \/>\n    com despeito, mas em prosa corrente e ch&atilde; &quot;n&atilde;o quero&quot;<br \/>\n    ou coisa semelhante; e em tais circunst&acirc;ncias e depois de um trecho<br \/>\n    de poesia sublime, um vai-te seco e simples &eacute; mais natural e me parece<br \/>\n    melhor e mais belo do que o mais estudado endecass&iacute;labo bocagiano.<\/p>\n<p>28 &#8211; Fa&ccedil;amos esta inova&ccedil;&atilde;o enquanto n&atilde;o temos<br \/>\n    de lutar com preju&iacute;zos de uma escola, e enquanto n&atilde;o seguimos<br \/>\n    um sistema por h&aacute;bito.<\/p>\n<p>29 &#8211; N&atilde;o se diga que haveria disson&acirc;ncia no uso simult&acirc;neo<br \/>\n    da prosa e do verso; tal n&atilde;o &eacute;, porque a prosa do Sr. Herculano<br \/>\n    &eacute; verso, e o verso do Sr. Garret parece prosa. O primeiro mostra-nos<br \/>\n    a sua for&ccedil;a em toda a sua plenitude; no mesmo tempo em que admiramos<br \/>\n    a energia da frase, o som das palavras vai de per si reboando nos ouvidos<br \/>\n    como se fora o eco de uma tempestade. No segundo h&aacute; tanta gra&ccedil;a,<br \/>\n    tanta singeleza, t&atilde;o prodigiosa facilidade de movimentos que n&oacute;s<br \/>\n    conjeturamos maravilhados a for&ccedil;a incr&iacute;vel que ele parece adrede<br \/>\n    ocultar. Perdoem-me a compara&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o sei se &eacute;<br \/>\n    minha: &eacute; o cisne que pode ser &aacute;guia, e que mostra que o &eacute;,<br \/>\n    mas que, satisfeito de nos encantar com a sua gra&ccedil;a menospreza a for&ccedil;a<br \/>\n    com que ele poderia remontar-se &agrave;s nuvens para empolgar os raios do<br \/>\n    sol. A prosa de Bernardim Ribeiro casar-se-ia maravilhosamente como os versos<br \/>\n    do Sr. Garret, como os versos de Bocage com a prosa do Sr. Herculano.<\/p>\n<p>30 &#8211; A dificuldade n&atilde;o &eacute; invenc&iacute;vel, porque a dist&acirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; t&atilde;o grande como parece.<\/p>\n<p>31 &#8211; Eu o repito: inovemos neste ponto. Se eu o n&atilde;o tentei, &eacute;<br \/>\n    certo ao menos que era essa a minha inten&ccedil;&atilde;o quando imaginei<br \/>\n    este drama, tal qual &eacute;. Aquela desbotada imita&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Corneille, aquelas palavras que diz Alcoforado antes de receber a fita de<br \/>\n    que a duquesa lhe faz mimo, seria o estreamento da tentativa e continuaria<br \/>\n    com ela pelo decurso do drama. Quando, no quarto quadro, a duquesa come&ccedil;a<br \/>\n    a exaltar-se com o som das suas pr&oacute;prias palavras, fazendo subir de<br \/>\n    ponto a impaci&ecirc;ncia do duque, a c&oacute;lera deste, instigado pela<br \/>\n    demora, devia trovejar-lhe nos l&aacute;bios em versos robustos, e o espectador<br \/>\n    compreenderia otimamente a raz&atilde;o da s&uacute;bita mudan&ccedil;a. Daqui<br \/>\n    at&eacute; ao fim do quadro continuaria sempre a poesia. A voz de Alcoforado<br \/>\n    suplicando a vida da duquesa seria como uma harpa em uma orquestra, a voz<br \/>\n    da duquesa como um acorde mavioso, e a voz do duque e dos da sua comitiva<br \/>\n    como um acompanhamento f&uacute;nebre e pavoroso. N&atilde;o sei o que diga;<br \/>\n    mas est&aacute; me parecendo que, se quando a plat&eacute;ia esperasse ansiosa<br \/>\n    o desfecho de uma cena, de um ato ou do drama, mudassem os atores repentinamente<br \/>\n    de linguagem, e trovejasse ao mesmo tempo o verso nos l&aacute;bios dos atores<br \/>\n    e a m&uacute;sica em todos os instrumentos da orquestra, haveria na plat&eacute;ia<br \/>\n    tal fascina&ccedil;&atilde;o que devia esmorecer por fim num bater prolongado<br \/>\n    de bravos Mas n&atilde;o &eacute; da m&uacute;sica que tratamos agora.<\/p>\n<p>32 &#8211; Talvez queira algu&eacute;m saber o motivo por que n&atilde;o pratiquei<br \/>\n    aquilo mesmo que agora aconselho, e que digo ser conveniente fazer-se. Di-lo-ei<br \/>\n    francamente.<\/p>\n<p>33 &#8211; N&atilde;o o fiz, porque, quanto a mim, toda a inova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deve ser intentada por algu&eacute;m que j&aacute; tenha um nome e simpatias<br \/>\n    que com mais ou menos probabilidade lhe garantam o sucesso. Neste caso, a<br \/>\n    malogra&ccedil;&atilde;o &eacute; de p&eacute;ssimos resultados, n&atilde;o<br \/>\n    tanto para o autor, como para a arte; o p&uacute;blico toma para si uma opini&atilde;o<br \/>\n    bem ou mal fundada, os mais altos temem arrost&aacute;-la, e haver&aacute;<br \/>\n    no progresso da arte retardamento de um s&eacute;culo ou de mais, at&eacute;<br \/>\n    que de todo se apague a id&eacute;ia da malogra&ccedil;&atilde;o ou do rid&iacute;culo,<br \/>\n    e que outros homens estejam dispostos a receber id&eacute;ias j&aacute; rejeitadas<br \/>\n    por seus antepassados.<\/p>\n<p>34 &#8211; Foi esta a causa; por&eacute;m, outra h&aacute; que eu n&atilde;o sei<br \/>\n    se fa&ccedil;o mal em dizer.<\/p>\n<p>35 &#8211; O drama &eacute; feito para ser representado, e entre n&oacute;s s&oacute;<br \/>\n    podem ser representados os que forem aprovados pela censura competente; de<br \/>\n    maneira que o nosso Conservat&oacute;rio Dram&aacute;tico na Corte, e um delegado<br \/>\n    ou subdelegado de pol&iacute;cia nas prov&iacute;ncias, tem um veto onipotente<br \/>\n    contra o qual n&atilde;o h&aacute; recurso, ou eu n&atilde;o o conhe&ccedil;o.<br \/>\n    Quem nos dir&aacute; que na primeira folha do malfadado manuscrito n&atilde;o<br \/>\n    gravaria o Conservat&oacute;rio Dram&aacute;tico o seu veto? O veto &eacute;<br \/>\n    tanto mais f&aacute;cil de ser exarado, que a lei n&atilde;o exige o porqu&ecirc;,<br \/>\n    tanto mais f&aacute;cil que dele n&atilde;o h&aacute; recurso sen&atilde;o<br \/>\n    para ele, e ainda tanto mais f&aacute;cil que dele ou ele se aplica a produ&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    estrangeiras, e o autor n&atilde;o pode ou n&atilde;o quer advogar a sua causa,<br \/>\n    ou a nacionais, e estes temem quebrar a sua carreira; temor infundado, bem<br \/>\n    se v&ecirc;, pois que o Conservat&oacute;rio &eacute; superior a estas ninharias;<br \/>\n    mas enfim &eacute; temor, e contra ele n&atilde;o sei que haja medicina. A<br \/>\n    culpa quem a tem n&atilde;o &eacute; o Conservat&oacute;rio Dram&aacute;tico,<br \/>\n    folgo de o poder dizer com verdade; o Conservat&oacute;rio tem homens de conhecimentos,<br \/>\n    de consci&ecirc;ncia e de engenho, homens que s&atilde;o a flor da nossa literatura<br \/>\n    e os mestres do nosso teatro. Mal me estaria a mim, autor ef&ecirc;mero e<br \/>\n    desconhecido, querer levar m&atilde;o de um s&oacute; dos seus louros, que<br \/>\n    eu sei de quanto desinteresse carece, de quanta for&ccedil;a de vontade, de<br \/>\n    que impuls&atilde;o irresist&iacute;vel do g&ecirc;nio ou do fado, quem quer<br \/>\n    que entre n&oacute;s se abalan&ccedil;a a colh&ecirc;-los no meio do indiferentismo<br \/>\n    da nossa gente e do sorriso quase mofador, quase compassivo dos que os n&atilde;o<br \/>\n    deviam desconhecer. Mas digo que esses literatos e dramaturgos n&atilde;o<br \/>\n    podem ser &uacute;teis ali, porque executam fielmente a lei, que &eacute;<br \/>\n    um regulamento policial em vez de ser uma medida puramente liter&aacute;ria.<br \/>\n    Digo que at&eacute; os folhetins que se publicam no Jornal do Commercio, sob<br \/>\n    o t&iacute;tulo &#8211; Semana L&iacute;rica -, s&atilde;o em tudo de mais efeito<br \/>\n    e utilidade do que as censuras do Conservat&oacute;rio, mesmo quando a Minerva<br \/>\n    lhes dava tal ou qual publicidade. Quem tem a culpa &eacute; a lei; e tanto<br \/>\n    mais culpada &eacute; ela, que, se meia d&uacute;zia de mancebos, de seu moto<br \/>\n    pr&oacute;prio, se reunissem para o mesmo fim, a sua pequena associa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seria necessariamente mais vantajosa &agrave;s letras do que o instituto do<br \/>\n    Conservat&oacute;rio. Sem autoridade legal os decretos dessa reuni&atilde;o<br \/>\n    ou associa&ccedil;&atilde;o, para que fossem de alguma import&acirc;ncia,<br \/>\n    deveriam ser fundados na boa raz&atilde;o, na justi&ccedil;a e na imparcialidade.<br \/>\n    A sua cr&iacute;tica di&aacute;ria, hebdomad&aacute;ria ou mensal, publicada<br \/>\n    pela imprensa, chegaria ao conhecimento de todos, e, suscitando pol&ecirc;mica,<br \/>\n    serviria para iniciar o p&uacute;blico nos segredos da arte, para formar-lhe<br \/>\n    o gosto, quando o n&atilde;o tivesse formado, e avigorar-lhe a opini&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; criada, quando fosse a boa. Seria enfim uma institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    criadora em vez de n&atilde;o ser nem conservadora, frut&iacute;fera em vez<br \/>\n    de ser est&eacute;ril, e auxiliadora em vez de ser repressiva. O engenho n&atilde;o<br \/>\n    quer peias; &eacute; esta uma verdade j&aacute; hoje t&atilde;o vulgarizada,<br \/>\n    que n&atilde;o carece de demonstra&ccedil;&atilde;o. Bem &eacute; que de uma<br \/>\n    vez nos conven&ccedil;amos que deve de haver liberdade de pensamento, n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; para o jornalismo, mas principalmente para a literatura, que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; de raz&atilde;o nem de justi&ccedil;a poder o &iacute;nfimo dos mec&acirc;nicos<br \/>\n    encarnar o seu pensamento nas suas obras, e que s&oacute; ao poeta dram&aacute;tico<br \/>\n    n&atilde;o se permita deixar-se arrebatar livremente pela inspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas antes seja constrangido, al&eacute;m de lutar com os nossos preconceitos,<br \/>\n    a meditar e a pesar a sua frase para que algum Argos vigilante n&atilde;o<br \/>\n    descubra nela longes de fei&ccedil;&otilde;es que ele n&atilde;o conhece,<br \/>\n    ou ressaibo de opini&otilde;es que n&atilde;o s&atilde;o dele. A liberdade<br \/>\n    de pensamento no drama n&atilde;o &eacute; como n&oacute;s a entendemos, a<br \/>\n    s&oacute; faculdade de o criar, mas tamb&eacute;m a de o publicar; e a sua<br \/>\n    primeira publica&ccedil;&atilde;o &eacute; a r&eacute;cita. Se o drama n&atilde;o<br \/>\n    for representado, ser&aacute; bom como obra liter&aacute;ria, mas nunca como<br \/>\n    drama. Se o drama n&atilde;o pode ser representado, mas o promotor consente<br \/>\n    que ele corra livremente impresso, dizem alguns que fica salva a liberdade<br \/>\n    do pensamento, e eu entendo que ela &eacute; muito mal-entendida.<\/p>\n<p>36 &#8211; N&atilde;o digo que favore&ccedil;amos a literatura, digo somente que<br \/>\n    lhe n&atilde;o devemos p&ocirc;r mais trope&ccedil;os do que os que ela em<br \/>\n    si j&aacute; tem.<\/p>\n<p>37 &#8211; Encanar na sua nascen&ccedil;a um rio que, indigente de &aacute;guas,<br \/>\n    mal pode com elas lavar seu leito, &eacute; trabalho de nenhum merecimento;<br \/>\n    por&eacute;m se ele no fim da carreira engrossa e precipita a corrente, e<br \/>\n    sobrepujando as ribanceiras, alaga as margens e inunda largamente os campos,<br \/>\n    em t&atilde;o boa hora que o encanem, mas n&atilde;o lhe ponham diques, que<br \/>\n    fora in&uacute;til al&eacute;m de perigoso.<\/p>\n<p>38 &#8211; Quando pois a lei for revogada, como eu creio e espero, poder&aacute;<br \/>\n    qualquer autor compor um drama neste sentido, com a certeza de que a experi&ecirc;ncia<br \/>\n    ser&aacute; inteira e o resultado decisivo. Ser&aacute; outro, que n&atilde;o<br \/>\n    eu. Apare&ccedil;o um dia no mundo liter&aacute;rio, e brevemente lhe direi<br \/>\n    o meu &uacute;ltimo adeus. Vencedor ou vencido, n&atilde;o me tornar&atilde;o<br \/>\n    a ver sobre a arena combatendo em favor das artes, e sendo por amor delas<br \/>\n    o primeiro a aplaudir e a exaltar os meus competidores.<\/p>\n<p>GON&Ccedil;ALVES DIAS<\/p>\n<p>Setembro de 1846.<\/p>\n<p>\n    PERSONAGENS<\/p>\n<p>D. JAIME, Duque de Bragan&ccedil;a.<br \/>\n    LEONOR DE MENDON&Ccedil;A, Duquesa de Bragan&ccedil;a.<br \/>\n    AFONSO PIRES ALCOFORADO, o velho. <br \/>\n    MANOEL,<br \/>\n    ANT&Ocirc;NIO e <br \/>\n    LAURA, seus filhos.<br \/>\n    FERN&Atilde;O VELHO, vedor do Duque.<br \/>\n    PAULA, camarista da Duquesa.<br \/>\n    LOPO GARCIA, capel&atilde;o do Duque.<br \/>\n    UM SERVO.<br \/>\n    UM PRETO.<br \/>\n    HOMENS DE ARMAS, PAJENS E CRIADOS.<\/p>\n<p>A a&ccedil;&atilde;o passa-se em Vila Vi&ccedil;osa, a 2 de novembro de 1512.<\/p>\n<h2><a name=\"1\">ATO PRIMEIRO<\/a><\/h2>\n<p>QUADRO PRIMEIRO<\/p>\n<p>A cena representa uma sala com um toucador, portas laterais, porta no fundo,<br \/>\n    um banco e mesa com bancais de damasco, algumas cadeiras de espaldar, decora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da &eacute;poca.<\/p>\n<p>\n    CENA I<\/p>\n<p>1. PAULA (S&oacute;, acabando de compor a mesa) &#8211; O que se havia de meter<br \/>\n    em cabe&ccedil;a &agrave;quele pobre Alcoforado! E escolher-me a mim logo<br \/>\n    a mim para sua confidente! Mas enfim ele &eacute; t&atilde;o novo, que n&atilde;o<br \/>\n    era de raz&atilde;o que eu o deixasse morrer assim sem mais nem menos. Que<br \/>\n    doido aquele!&#8230; Foi logo oferecer oferendas e romanas &agrave;quela santa<br \/>\n    que por certo lhas n&atilde;o h&aacute;-de aceitar; por&eacute;m, que se me<br \/>\n    d&aacute; a mim que ele gaste cera com maus defuntos em vez de a mandar benzer<br \/>\n    para se guardar dos trov&otilde;es!<\/p>\n<p>\n    CENA II<\/p>\n<p>PAULA, a DUQUESA<\/p>\n<p>2. PAULA &#8211; Jesus! Sois v&oacute;s, Senhora Duquesa!<\/p>\n<p>3. A DUQUESA (Sorrindo-se) &#8211; De que te admiras?<\/p>\n<p>4. PAULA &#8211; T&atilde;o cedo! Apenas o sol acaba de nascer! Acaso estais doente?<\/p>\n<p>5. A DUQUESA &#8211; N&atilde;o pude dormir; assim me acontece sempre em terras<br \/>\n    pequenas. N&atilde;o tenho em que empregar os ser&otilde;es, deito-me cedo,<br \/>\n    e passo a noite a revolver-me no leito.<\/p>\n<p>6. PAULA &#8211; Como estais p&aacute;lida! Realmente &eacute;-nos preciso ir para<br \/>\n    a corte quanto antes; que se passais muitas noites como esta, n&atilde;o vos<br \/>\n    asseguro a vida por um ceitil.<\/p>\n<p>7. A DUQUESA &#8211; Dizes bem; por&eacute;m enquanto por c&aacute; andamos. n&atilde;o<br \/>\n    te esque&ccedil;as de me toucar.<\/p>\n<p>8. PAULA &#8211; Sim, toucar-vos agora para terdes ao meio-dia um toucado desfeito<br \/>\n    e sem gra&ccedil;a.<\/p>\n<p>9. A DUQUESA &#8211; Comp&ocirc;-lo-&aacute;s de novo. Custa muito? (Paula come&ccedil;a<br \/>\n    a touc&aacute;-la). J&aacute; hoje viste o Senhor Duque?<\/p>\n<p>10. PAULA &#8211; Ah! o Senhor Duque! Est&aacute; outro como v&oacute;s! Esta manh&atilde;,<br \/>\n    ainda o sol n&atilde;o era nascido, senti um tropel &agrave; porta do pal&aacute;cio;<br \/>\n    cheguei-me a janela, e vi dois cavalos arreados e prontos; pouco depois saiu<br \/>\n    o Senhor Duque, cavalgou de um salto o primeiro que encontrou, e quando Fern&atilde;o<br \/>\n    Velho, o vedor, acabava de cavalgar o segundo, j&aacute; ele se tinha sumido<br \/>\n    l&aacute;, bem longe, como quem vai caminho da tapada.<\/p>\n<p>11. A DUQUESA &#8211; Pobre homem!<\/p>\n<p>12. PAULA &#8211; Pobre! Bem terr&iacute;vel que &eacute; ele.<\/p>\n<p>13. A DUQUESA &#8211; Terr&iacute;vel por qu&ecirc;? N&atilde;o sabes tu que o<br \/>\n    Duque tem alma grande e cora&ccedil;&atilde;o generoso?<\/p>\n<p>14. PAULA &#8211; Generoso e grande quanto quiserdes; o que todavia n&atilde;o<br \/>\n    obsta a que eu em sentindo os seus passos me n&atilde;o deseje a cinq&uuml;enta<br \/>\n    bra&ccedil;as pela terra dentro, ou a cinq&uuml;enta l&eacute;guas distante<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p>15. A DUQUESA &#8211; Deveras antes compadecer-te do muito que ele h&aacute; sofrido!<br \/>\n    Cr&ecirc;s tu que a sua tristeza sombria e inexpugn&aacute;vel cifre-se toda<br \/>\n    nas rugas que lhe v&ecirc;s sulcar o rosto? N&atilde;o&#8230; mais funda &eacute;<br \/>\n    a sua raiz, tu a encontrar&aacute;s no seu pensamento e nas recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    doloros&iacute;ssimas que o esmagam.<\/p>\n<p>16. PAULA &#8211; V&atilde;o l&aacute; ter compaix&atilde;o de um homem que amedronta<br \/>\n    a gente!&#8230; Apesar de me repetir a mim mesma quanto me dizeis, Senhora Duquesa,<br \/>\n    n&atilde;o posso acabar comigo de&#8230; antipatizar com ele.<\/p>\n<p>17. A DUQUESA (Severa) &#8211; Falas de meu marido?<\/p>\n<p>18. PAULA &#8211; Jesus! Eu bem sei que ele &eacute; vosso marido; por&eacute;m,<br \/>\n    devo eu por isso faltar &agrave; verdade&#8230; Meu Deus, parece que nunca sentistes<br \/>\n    calar-vos pelos ossos uma sensa&ccedil;&atilde;o de frio quando ele firma<br \/>\n    sobre um rosto qualquer aqueles olhos negros e sombrios, que parecem querer<br \/>\n    virar a gente de dentro para fora.<\/p>\n<p>19. A DUQUESA &#8211; Cala-te (Mais baixo) Eu mesma, Paula, eu mesma, quando adivinho,<br \/>\n    n&atilde;o me e preciso ver, quando adivinho que meu marido me encara fixamente,<br \/>\n    sinto o sangue arder me nas faces e perturbo-me toda como se fosse criminosa;<br \/>\n    e todavia n&atilde;o tenho um pensamento, nem sequer um pensamento de que<br \/>\n    me deva acusar.<\/p>\n<p>20. PAULA &#8211; Vede! At&eacute; v&oacute;s mesma&#8230;<\/p>\n<p>21. A. DUQUESA &#8211; N&atilde;o posso escut&aacute;-lo sem estar em cont&iacute;nuo<br \/>\n    sobressalto; mesmo quando ele me fala eu temo a explos&atilde;o da sua c&oacute;lera.<br \/>\n    A sua c&oacute;lera terr&iacute;vel! Eu a temo!&#8230; E contudo, para que o amasse<br \/>\n    bem pouco lhe seria preciso&#8230; ele n&atilde;o o quer.<\/p>\n<p>22. PAULA &#8211; Ele, senhora!<\/p>\n<p>23. A DUQUESA &#8211; O rei seu tio, a rainha sua av&oacute;, a duquesa sua m&atilde;e,<br \/>\n    todos o constrangeram a celebrar este casamento bem contra a sua vontade.<br \/>\n    Ele o n&atilde;o queria, a ponto de tentar evadir-se disfar&ccedil;ado. Reputa-me<br \/>\n    a causa de haver ele mentido a sua voca&ccedil;&atilde;o, e ainda me n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de perdoar.<\/p>\n<p>24. PAULA &#8211; Mas que culpa tendes v&oacute;s?<\/p>\n<p>25. A DUQUESA &#8211; Nenhuma; e contudo ele tem raz&atilde;o. Quem se n&atilde;o<br \/>\n    irrita de encontrar continuadamente o mesmo obst&aacute;culo diante de si?<br \/>\n    Apesar disso ele trata-me com magnific&ecirc;ncia real, tem para comigo defer&ecirc;ncia<br \/>\n    e aten&ccedil;&otilde;es, que eu bem sei que mais s&atilde;o filhas da urbanidade<br \/>\n    que do cora&ccedil;&atilde;o; mas outro fosse ele que facilmente se esqueceria<br \/>\n    na sua vida &iacute;ntima das maneiras de cortes&atilde;o. Sempre &eacute;<br \/>\n    certo que ele &eacute; bem melhor do que o sup&otilde;es.<\/p>\n<p>26: PAULA &#8211; N&atilde;o vos contradirei, Senhora Duquesa. Prouvera ao c&eacute;u<br \/>\n    que ele fosse t&atilde;o bom como v&oacute;s sois.<\/p>\n<p>27. A DUQUESA &#8211; Qu&ecirc;! J&aacute; aprendeste a lisonjear?<\/p>\n<p>28. PAULA &#8211; Pois deveras, Senhora Duquesa, sou eu a primeira em dizer-vos<br \/>\n    coisas t&atilde;o simples como isto?<\/p>\n<p>29. A DUQUESA &#8211; Certo, &eacute;s a primeira.<\/p>\n<p>3,3. PAULA &#8211; Pasmo com o que me dizeis. Permitis-me que vos fale toda a minha<br \/>\n    verdade?<\/p>\n<p>31. A DUQUESA &#8211; Dize-a.<\/p>\n<p>32. PAULA &#8211; Olhai, senhora; se sou a primeira em dizer-vos que sois bela<br \/>\n    e que tendes bom cora&ccedil;&atilde;o, muitos outros que pensam como eu calam-se<br \/>\n    prudentemente para que n&atilde;o tomeis a verdade por ofensa, nem por lisonja<br \/>\n    o louvor merecido.<\/p>\n<p>33. A DUQUESA &#8211; Boa Paula! Julgas que todos me v&ecirc;em com os teus olhos,<br \/>\n    e que em mim pensam com a tua alma?<\/p>\n<p>34. PAULA &#8211; N&atilde;o, senhora; com melhores olhos que os meus, com alma<br \/>\n    mais ardente que a minha&#8230; Um sobre todos&#8230;<\/p>\n<p>35. A DUQUESA &#8211; Quem?<\/p>\n<p>36. PAULA &#8211; Aquele belo mancebo que todas as manh&atilde;s passa por defronte<br \/>\n    do vosso balc&atilde;o montado em um formoso ginete murzelo, que ele parece<br \/>\n    sofrear n&atilde;o com esfor&ccedil;o, mas s&oacute; por for&ccedil;a da sua<br \/>\n    gentileza.<\/p>\n<p>37. A DUQUESA &#8211; De quem falas tu?<\/p>\n<p>38. PAULA (Continuando) &#8211; Ainda n&atilde;o cinge espada de cavaleiro, mas&#8230;<\/p>\n<p>39. A DUQUESA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>40. PAULA &#8211; Mas quando ele a houver cingido&#8230; vereis&#8230; vereis que nome<br \/>\n    ter&aacute; o senhor Alcoforado! H&aacute;-de ser alguma coisa assim, como<br \/>\n    Hermigues, o Traga-Mouros, ou Leonardo, O Cavaleiro Namorado.<\/p>\n<p>41. A DUQUESA &#8211; &Eacute;s mais h&aacute;bil do que eu, que ainda lhe n&atilde;o<br \/>\n    pude descobrir partes de cavaleiro.<\/p>\n<p>42. PAULA &#8211; Oh! &Eacute; porque ainda lhas n&atilde;o quisestes descobrir,<br \/>\n    ou porque talvez ainda n&atilde;o atentastes bem nele.<\/p>\n<p>43. A DUQUESA &#8211; Muito te interessas por ele, minha boa Paula.<\/p>\n<p>44. PAULA &#8211; Muito: por que vos hei-de eu mentir? Gosto muito dele&#8230; Sabeis<br \/>\n    o que o outro dia me aconteceu?<\/p>\n<p>45. A DUQUESA &#8211; Que foi?<\/p>\n<p>46. PAULA &#8211; O outro dia tinha eu na m&atilde;o aquela vossa fita de cetim<br \/>\n    raso aleonado, e ele, que me viu com ela, veio direito a mim, e sem me dar<br \/>\n    tempo para dizer ai! cortou um peda&ccedil;o e&#8230; levou-o!<\/p>\n<p>47. A DUQUESA (Levantando-se) &#8211; Imprudente! n&atilde;o sabes que tenho por<br \/>\n    costume de a trazer, e que todos em pal&aacute;cio j&aacute; me viram com<br \/>\n    ela?<\/p>\n<p>48. PAULA &#8211; N&atilde;o vos estou dizendo que n&atilde;o tive tempo para dizer<br \/>\n    ai! E depois, que mal h&aacute; nisso? Uma fita j&aacute; toda amarrotada!&#8230;<\/p>\n<p>49. A DUQUESA (Severa) &#8211; Seja o que for, senhora, coisas que me perten&ccedil;am<br \/>\n    n&atilde;o as quero por m&atilde;os de estranhos. Quando para aqui viemos,<br \/>\n    eu pedi ao Senhor Duque que me livrasse da etiqueta cortes&atilde;, da numerosa<br \/>\n    companhia das damas do meu servi&ccedil;o, e que a v&oacute;s s&oacute; fosse<br \/>\n    l&iacute;cito acompanhar-me. N&atilde;o deveis, portanto, abusar da minha<br \/>\n    condescend&ecirc;ncia, nem comprometer-me com a vossa leviandade. N&atilde;o<br \/>\n    sabeis que g&ecirc;nio tem o duque.<\/p>\n<p>50. PAULA &#8211; Mas que quer&iacute;eis v&oacute;s que eu fizesse? Ele julgou<br \/>\n    que a fita fosse minha.<\/p>\n<p>51. A DUQUESA (Menos severa) &#8211; Estais certa disso?<\/p>\n<p>52. PAULA &#8211; Pois de quem a havia ele de julgar? Viu-me com uma fita nas m&atilde;os,<br \/>\n    e pensou, muito naturalmente, que era minha.<\/p>\n<p>53. A DUQUESA (&Aacute; parte) &#8211; Vaidosa! (Alto) &#8211; Bem: o Senhor Duque n&atilde;o<br \/>\n    pensar&aacute; t&atilde;o naturalmente como v&oacute;s; e assim &eacute; mister<br \/>\n    que a tomeis a haver.<\/p>\n<p>54. PAULA &#8211; Eu lha pedirei, Senhora Duquesa; e se ele a recusar&#8230; Oh! Ent&atilde;o<br \/>\n    n&oacute;s o faremos julgar contumaz e revel, e como tal degradar para alguma<br \/>\n    das sete partidas do mundo, com bara&ccedil;o ao pesco&ccedil;o e preg&atilde;o<br \/>\n    que diga: Cavaleiro descort&ecirc;s e descomedido degradado por amor.<\/p>\n<p>55. A DUQUESA &#8211; Se ele vos n&atilde;o quiser atender, recorreremos a outra<br \/>\n    justi&ccedil;a, menos pomposa, por&eacute;m mais segura. (Senta-se e com a<br \/>\n    m&atilde;o faz sinal para que se retire).<\/p>\n<p>56. PAULA (&Agrave; parte) &#8211; Jesus, Senhor! (Abre a porta do fundo e olha<br \/>\n    a furto para dentro) &#8211; Ainda n&atilde;o!<\/p>\n<p>57. A DUQUESA &#8211; Que dizes tu?<\/p>\n<p>58. PAULA &#8211; Nada, senhora; estava agora lembrando-me daquele pobre cavaleiro!<\/p>\n<p>59. A DUQUESA &#8211; Est&aacute; bem, est&aacute; bem. (Repete-lhe o sinal. Paula<br \/>\n    sai: momento de sil&ecirc;ncio). N&atilde;o gosto de ouvir falar nele, e n&atilde;o<br \/>\n    posso pensar em outra coisa. Por qu&ecirc;?.. . (Torna-se pensativa).<\/p>\n<p>\n    CENA III<\/p>\n<p>ALCOFORADO, a DUQUESA<\/p>\n<p>\n    60. ALCOFORADO &#8211; Senhora Duquesa!<\/p>\n<p>61. A DUQUESA (Levantando-se) &#8211; Paula! Paula!<\/p>\n<p>62. PAULA (Entrando) &#8211; Que me quereis, Senhora Duquesa?<\/p>\n<p>63. A DUQUESA (Em voz baixa) &#8211; N&atilde;o sabias tu que ele vinha? Por que<br \/>\n    me deixaste s&oacute;?<\/p>\n<p>64. PAULA &#8211; N&atilde;o o sabia, senhora.<\/p>\n<p>45. A DUQUESA &#8211; N&atilde;o importa; ficar&aacute;s comigo.<\/p>\n<p>66. PAULA &#8211; Quereis que ele presuma que dele vos arreceais?<\/p>\n<p>67. A DUQUESA &#8211; Ah! (Alto) &#8211; Que fazias tu?<\/p>\n<p>68. PAULA &#8211; Ia para junto dos vossos filhos.<\/p>\n<p>69. A DUQUESA &#8211; Est&aacute; bem; podes ir. (Paula sai).<\/p>\n<p>CENA IV<\/p>\n<p>ALCOFORADO, a DUQUESA<\/p>\n<p>70. ALCOFORADO &#8211; Senhora Duquesa&#8230;<\/p>\n<p>11. A DUQUESA (Sem olhar para ele) &#8211; A que vindes, senhor?<\/p>\n<p>72. ALCOFORADO &#8211; Saber se alguma coisa vos apraz mandar do meu servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>73. A DUQUESA &#8211; Nada, senhor; podeis retirar-vos. (Alcoforado encara-a tristemente<br \/>\n    por alguns segundos, e vai para sair. A Duquesa observando-o). Pobre mancebo!<br \/>\n    bastou uma s&oacute; palavra minha para o entristecer &agrave;quele ponto!&#8230;<br \/>\n    (Sentando-se). Senhor Alcoforado! (Voltando-se para ele). Como vai a vossa<br \/>\n    boa irm&atilde;, senhor?<\/p>\n<p>74. ALCOFORADO &#8211; V&oacute;s sois boa, Senhora Duquesa. Sois severa de vez<br \/>\n    em quando, por&eacute;m tamb&eacute;m tendes acentos que s&atilde;o como al&iacute;vio<br \/>\n    para quem os escuta.<\/p>\n<p>75. A DUQUESA (Admirada) &#8211; Mas quando eu vos falo de vossa irm&atilde;, a<br \/>\n    que prop&oacute;sito vem a minha bondade?<\/p>\n<p>76. ALCOFORADO &#8211; A que vem, senhora?&#8230; &Eacute; que v&oacute;s me vistes<br \/>\n    triste e pensativo, temendo ter incorrido no vosso desagrado, e n&atilde;o<br \/>\n    quiseste que eu me fosse da vossa presen&ccedil;a com aquele espinho no cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Sois boa e generosa: pois n&atilde;o &eacute; generosa a m&atilde;o que, podendo<br \/>\n    colher uma flor para a desfolhar no seu caminho, a deixa verde e orvalhada,<br \/>\n    balancear-se na sua haste? N&atilde;o &eacute; generoso o p&eacute; que, podendo<br \/>\n    calcar um inseto, resalva-o para lhe n&atilde;o fazer mal algum?<\/p>\n<p>77. A DUQUESA &#8211; Enlouqueceis, senhor?<\/p>\n<p>78. ALCOFORADO &#8211; Que sei eu, Senhora Duquesa? Eu mesmo n&atilde;o sei o que<br \/>\n    digo; mas j&aacute; que principiei a dizer-vos destas coisas que n&atilde;o<br \/>\n    compreendo, e que todavia n&atilde;o possa esconder-vos por mais tempo, deixai<br \/>\n    que as diga por uma vez, e podeis depois ordenar-me que n&atilde;o mais apare&ccedil;a<br \/>\n    diante de v&oacute;s&#8230; Oh! n&atilde;o; dai-me um castigo bem rigoroso, mas<br \/>\n    n&atilde;o me exileis da vossa presen&ccedil;a.<\/p>\n<p>79. A DUQUESA &#8211; Inquietais-me.<\/p>\n<p>80. ALCOFORADO &#8211; Escutai-me, Senhora Duquesa. As pessoas da vossa hierarquia<br \/>\n    t&ecirc;m &agrave;s vezes necessidade urgente de um homem resoluto e discreto<br \/>\n    que marche afoitamente por meio das trevas sem temer os golpes de um punhal<br \/>\n    trai&ccedil;oeiro, nem a morte obscura e sem gl&oacute;ria, que em meio delas<br \/>\n    o poder&aacute; alcan&ccedil;ar: t&ecirc;m &agrave;s vezes caprichos imperiosos,<br \/>\n    e para os satisfazer &eacute; preciso todo o aparelho da tortura e todo o<br \/>\n    horror do cadafalso. Assim mo disseram. Se alguma vez tiverdes um desses caprichos<br \/>\n    ou uma dessas necessidades, dizei-me: &#8211; vai! e eu andarei por meio das trevas;<br \/>\n    &#8211; sofre! e eu me sujeitarei &agrave; tortura; &#8211; morre! e eu subirei ao cadafalso.<\/p>\n<p>81. A DUQUESA &#8211; Senhor Alcoforado, n&atilde;o queira Deus dar-me tais pensamentos,<br \/>\n    nem tenha eu a criminosa vontade de manchar em seu come&ccedil;o a vossa vida<br \/>\n    que promete ser t&atilde;o bela. A vossa p&aacute;tria tem necessidade de<br \/>\n    almas puras, de bra&ccedil;os esfor&ccedil;ados e de homens que saibam morrer<br \/>\n    por ela; n&atilde;o de morte infamante como a quereis, mas da morte gloriosa<br \/>\n    do valente na arena do combate! Ser&aacute; doravante meu cuidado abrir diante<br \/>\n    de v&oacute;s uma senda nobre e grande por onde marcheis desassombrado e a<br \/>\n    passos de gigante.<\/p>\n<p>82. ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o vos pedi eu que me n&atilde;o exil&aacute;sseis<br \/>\n    da vossa presen&ccedil;a?<\/p>\n<p>83. A DUQUESA &#8211; Ah! chamais a isto ex&iacute;lio!&#8230; Bem sei que na vossa<br \/>\n    idade h&aacute; sempre motivos fortes que nos prendem &agrave; terra em que<br \/>\n    vivemos; por&eacute;m &eacute; bem melhor que vos vades afazendo &agrave;<br \/>\n    id&eacute;ia de que cedo ou tarde os haveis de romper, e por motivos talvez<br \/>\n    mais ponderosos. (Atentando no barrete). Tendes um lindo barrete, Senhor Alcoforado.<\/p>\n<p>84. ALCOFORADO &#8211; Um mimo de minha irm&atilde;, senhora.<\/p>\n<p>85. A DUQUESA &#8211; Deixai-mo ver?&#8230; &Eacute; lindo. E esta fita tamb&eacute;m<br \/>\n    foi vossa irm&atilde; quem v&ocirc;-la deu?<\/p>\n<p>86. ALCOFORADO (&Agrave; parte) &#8211; C&eacute;us!&#8230; (Alto) &#8211; N&atilde;o, senhora.<\/p>\n<p>87. A DUQUESA &#8211; Agora me lembra! A minha camareira queixou-se-me h&aacute;<br \/>\n    pouco de que impolidamente lhe haveis cortado uma fita que ela trazia na m&atilde;o.<br \/>\n    (Desprendendo a fita). E como essa fita era minha, n&atilde;o levareis a mal<br \/>\n    que eu dela me aposse de novo. (D&aacute;-lhe o barrete e p&otilde;e a fita<br \/>\n    sobre a mesa. Momento de sil&ecirc;ncio) &#8211; V&oacute;s partireis, Senhor Alcoforado.<\/p>\n<p>88. ALCOFORADO &#8211; Poderia eu desobedecer-vos, senhora!<\/p>\n<p>89. A DUQUESA &#8211; Partireis. O Senhor rei D. Manuel abriu aos seus campe&otilde;es<br \/>\n    as portas da &Aacute;sia e derribou as da &Aacute;frica: l&aacute; ireis ganhar<br \/>\n    as vossas esporas, e desde j&aacute; vos asseguro que eu me alegrarei a cada<br \/>\n    not&iacute;cia que me chegar de algum feito brioso que houverdes praticado,<br \/>\n    porque ent&atilde;o conhecerei que sois digno de toda a minha prote&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>90. ALCOFORADO &#8211; E as pequenas palmas que eu colher no campo da gl&oacute;ria,<br \/>\n    poderei, senhora, poderei depor aos p&eacute;s da minha protetora?<\/p>\n<p>91. A DUQUESA &#8211; Quem v&ocirc;-lo obstar&aacute;? As nossas donas ainda se<br \/>\n    n&atilde;o esqueceram de sentir emo&ccedil;&atilde;o ao aspecto de um rosto<br \/>\n    queimado pelo sol da &Aacute;frica, de uma fronte coroada de louros ou de<br \/>\n    um peito coberto de cicatrizes. D. Manuel &eacute; magn&iacute;fico; quando<br \/>\n    vemos uma comenda ao peito de um lidador, bem sabemos que ela esconde uma<br \/>\n    ferida gloriosa.<\/p>\n<p>92. ALCOFORADO &#8211; E para que eu n&atilde;o desfale&ccedil;a na senda perigosa<br \/>\n    que ora vou trilhar sozinho e sem conselhos&#8230;<\/p>\n<p>93. A DUQUESA &#8211; Quereis uma mem&oacute;ria, n&atilde;o &eacute; assim?<\/p>\n<p>94. ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o me atrevia a pedi-la.<\/p>\n<p>95. A DUQUESA (Brincando com a fita) &#8211; Dar-vos-emos uma mem&oacute;ria, Senhor<br \/>\n    Alcoforado; uma mem&oacute;ria que em nossa aus&ecirc;ncia vos aconselhe e<br \/>\n    que vos diga que. assim como estimaremos o vosso triunfo, uma a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    m&aacute; que praticardes nos ser&aacute; motivo de grande nojo e nos desconceituar&aacute;<br \/>\n    perante n&oacute;s mesma. (Momento de sil&ecirc;ncio. A duquesa levanta-se<br \/>\n    e estende-lhe a fita). &#8211; N&atilde;o &eacute; isto o que desejais possuir?<\/p>\n<p>96. ALCOFORADO (Com entusiasmo) &#8211; Mouros e africanos! Atravessarei os mares<br \/>\n    para vos ir atacar imp&aacute;vido nas vossas espeluncas, para vos acossar<br \/>\n    nos vossos p&aacute;ramos ardentes, para vos ir desafiar da porta das vossas<br \/>\n    fortalezas espeda&ccedil;ando o cajado dos vossos alarves. E quando dentre<br \/>\n    as vossas ru&iacute;nas, do cimo de algum pano de muralha, a minha espada<br \/>\n    ensang&uuml;entada e fumegante apontar para o Ocidente rutilando sobre v&oacute;s<br \/>\n    outros como um meteoro aziago, o eco do meu nome atravessar&aacute; de novo<br \/>\n    os mares e v&oacute;s direis por ventura, com orgulho, que era digno&#8230; (Caindo-lhe<br \/>\n    aos p&eacute;s e tomando-lhe a fita) &#8211; Da vossa prote&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\n    CENA V<\/p>\n<p>OS MESMOS, um PAJEM<\/p>\n<p>97. O PAJEM &#8211; Senhora Duquesa! (Alcoforado levanta-se confuso). &#8211; O duque,<br \/>\n    meu senhor, manda saber de v&oacute;s se lhe permitis visitar-vos.<\/p>\n<p>98. A DUQUESA &#8211; Dizei ao senhor duque que sou bem feliz quando ele se digna<br \/>\n    de me honrar com a sua presen&ccedil;a. (O pajem sai). Senhor Alcoforado,<br \/>\n    os fidalgos da comitiva do meu nobre esposo e senhor de ora em diante s&oacute;<br \/>\n    me poder&atilde;o falar no sal&atilde;o do pal&aacute;cio.<\/p>\n<p>99. ALCOFORADO &#8211; Merc&ecirc;, Senhora Duquesa!<\/p>\n<p>100. A DUQUESA &#8211; E isto come&ccedil;a desde j&aacute; a efetuar-se.<\/p>\n<p>101. ALCOFORADO &#8211; Mandais, senhora. (Curva-se e retira-se).<\/p>\n<p>102. A DUQUESA (Pensativa) &#8211; Fui imprudente.<\/p>\n<p>\n    CENA VI<\/p>\n<p>O DUQUE, a DUQUESA<\/p>\n<p>103. O DUQUE &#8211; Minha duquesa, venho hoje feliz e venturoso&#8230; (Olhando em<br \/>\n    redor de si com desconfian&ccedil;a). N&atilde;o fal&aacute;veis a algu&eacute;m?<\/p>\n<p>104. A DUQUESA &#8211; Ao senhor Alcoforado, que se retirou neste momento.<\/p>\n<p>105. O DUQUE &#8211; &Eacute; um gentil mancebo o senhor Alcoforado. N&oacute;s<br \/>\n    prometemos ao seu velho pai fazer dele um brioso cavaleiro, e por S&atilde;o<br \/>\n    Tiago, n&atilde;o nos falta vontade de cumprirmos com a nossa promessa. Que<br \/>\n    pretendia ele?<\/p>\n<p>106. A DUQUESA &#8211; Quase nada: que lhe permit&iacute;sseis entrar noutra carreira,<br \/>\n    deixando o vosso servi&ccedil;o, e que impetr&aacute;sseis del-rei vosso tio<br \/>\n    uma recomenda&ccedil;&atilde;o aos fronteiros de &Aacute;frica para&#8230;<\/p>\n<p>107. O DUQUE (Interrompendo-a) &#8211; Para que o tratem com mil aten&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    deixando-o vegetar na sua barraca de campanha, como uma flor numa estufa,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; isso?<\/p>\n<p>108. A DUQUESA &#8211; N&atilde;o, senhor; para que lhe assinem um posto perigoso,<br \/>\n    onde ele possa alcan&ccedil;ar morte honrosa ou nome glorioso. <\/p>\n<p>109. O DUQUE &#8211; Bem, multo bem. Apraz-me sab&ecirc;-lo desse acordo, que &eacute;<br \/>\n    de um &acirc;nimo generoso revelar tal ardimento em t&atilde;o verde juventude!<br \/>\n    N&oacute;s lhe abriremos essa estrada e talvez que um dia n&oacute;s mesmo,<br \/>\n    fronteiro das terras dentre Douro e Minho, fujamos da vossa muito amada companhia<br \/>\n    para irmos al&eacute;m-mar com os nossos vassalos, acometer os id&oacute;latras<br \/>\n    ao grito de: Bragan&ccedil;a e Portugal!&#8230; O senhor rei D. Manuel, que nos<br \/>\n    n&atilde;o quis ver professar na religi&atilde;o de Malta, permitir&aacute;<br \/>\n    sem d&uacute;vida &agrave; nossa espada dilatar-lhe o imp&eacute;rio por terras<br \/>\n    de infi&eacute;is. (Momento de sil&ecirc;ncio). N&atilde;o &eacute; para isto<br \/>\n    que vimos ter convosco. Sentai-vos. Dizei-me, Duquesa, n&atilde;o vos apraz<br \/>\n    esta vida um pouco r&uacute;stica que viemos aqui buscar neste desterro?<\/p>\n<p>110. A DUQUESA &#8211; N&atilde;o &eacute; do meu dever seguir-vos para onde vos<br \/>\n    aprouver levar-me?<\/p>\n<p>111. O DUQUE &#8211; N&atilde;o vos falo do vosso dever; trata-se de v&oacute;s,<br \/>\n    do vosso gosto; pergunto-vos se n&atilde;o amais esta vivenda.<\/p>\n<p>112. A DUQUESA &#8211; Duque, poderia eu estar melhor algures que na vossa companhia?<\/p>\n<p>113. O DUQUE &#8211; Sempre boa, af&aacute;vel e condescendente! Mas certo que<br \/>\n    deveis amar esta vida que aqui passamos em Vila Vi&ccedil;osa. Tendes a alma<br \/>\n    um pouco propensa &agrave; tristeza e &agrave; melancolia: &eacute; um cont&aacute;gio<br \/>\n    em todos os que me cercam e que vivem da minha vida. Para essas almas, Duquesa,<br \/>\n    a vida cortes&atilde; &eacute; pesada e odiosa&#8230; Eu mesmo&#8230; h&aacute; momentos<br \/>\n    na minha vida em que eu daria de boa mente honrarias, bras&otilde;es, t&iacute;tulos,<br \/>\n    nome e tudo para que, alde&atilde;o simples e humilde, me deixassem viver<br \/>\n    obscuro e feliz longe do clamor das turbas e do bul&iacute;cio do mundo. N&atilde;o<br \/>\n    imaginais com que profundo prazer parto sempre para viver uma semana na Serra<br \/>\n    de Ossa com os meus capel&atilde;es, alimentando-me com a doutrina daqueles<br \/>\n    santos padres, ou exercendo as pr&aacute;ticas mais severas da sua religi&atilde;o;<br \/>\n    ou ent&atilde;o, e bem melhor, para habitar o meu orat&oacute;rio no Convento<br \/>\n    do Bosque. O meu orat&oacute;rio, sabeis o que &eacute;? Uma ermidazinha humilde<br \/>\n    e vergonhosa ali escondida entre as ramas do arvoredo frondoso como um pensamento<br \/>\n    de virgem, aformoseado pelo sil&ecirc;ncio e pelo pudor. Os pensamentos que<br \/>\n    aqui me perseguem, dolorosos como a realidade, l&aacute; me aparecem doces<br \/>\n    e tristes como uma recorda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>114. A DUQUESA &#8211; Eu concebo, Senhor Duque, que v&oacute;s partais sempre<br \/>\n    com a felicidade no cora&ccedil;&atilde;o, e que sempre torneis&#8230;<\/p>\n<p>115. O DUQUE (Atalhando-a) &#8211; Mais feliz do que parti. Tenho a certeza de<br \/>\n    encontrar sempre a vossa inalter&aacute;vel do&ccedil;ura, a vossa alma compassiva<br \/>\n    e ang&eacute;lica e o vosso rosto sereno e tranq&uuml;ilo. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    convosco que as minhas recorda&ccedil;&otilde;es&#8230; (Apertando a cabe&ccedil;a)<br \/>\n    Sempre elas!&#8230;<\/p>\n<p>116. A DUQUESA &#8211; Sofreis, Senhor Duque?<\/p>\n<p>117. O DUQUE &#8211; Muito. Esta noite n&atilde;o sei que negros pensamentos me<br \/>\n    atormentaram. A morte lastimosa de meu pai, a minha inf&acirc;ncia desvalida,<br \/>\n    o meu envenenamento, o meu ex&iacute;lio por terras estranhas eram eventos<br \/>\n    doloros&iacute;ssimos que, sem cessar, me passavam por diante dos olhos roubando-me<br \/>\n    o sono&#8230; e a raz&atilde;o, creio eu&#8230; <\/p>\n<p>118. A DUQUESA &#8211; E n&atilde;o vos distra&iacute;stes com o passeio desta<br \/>\n    manh&atilde;?<\/p>\n<p>119. O DUQUE &#8211; Sim. A corrida afanada, o tresfolgar dos cavalos e a aragem<br \/>\n    fresca do romper da alva tiveram for&ccedil;as para me chamar &agrave; realidade<br \/>\n    em poucos instantes. Respirei profundamente o ar pur&iacute;ssimo dos campos,<br \/>\n    vi o sol bordar o horizonte com uma franja de p&uacute;rpura, derramar pelo<br \/>\n    c&eacute;u alvacentos list&otilde;es de fogo viv&iacute;ssimo e destacar dos<br \/>\n    montes, como uma coluna de incenso, a neblina pegajosa que ali se balan&ccedil;ava<br \/>\n    como um penacho de guerreiro em dia de batalha. Vi a natureza sorrir-se em<br \/>\n    redor de mim; e eu extasiei-me de a sentir t&atilde;o fundamente, e fui feliz!<br \/>\n    T&atilde;o feliz como no dia em que o senhor rei houve por bem mandar abrir<br \/>\n    as portas do meu pal&aacute;cio, fechadas com estrondo por um vento de morte.<br \/>\n    T&atilde;o feliz como no dia em que eu arranquei o crepe f&uacute;nebre que<br \/>\n    enlutava o meu escudo, pregado ali pela m&atilde;o do carrasco. (Levantando-se).<br \/>\n    Quando meu pai&#8230; Pajem! Pajem!<\/p>\n<p>120. A DUQUESA &#8211; Que tende v&oacute;s, senhor?<\/p>\n<p>121 &#8211; O DUQUE &#8211; N&atilde;o vedes que me &eacute; preciso sair ainda, que<br \/>\n    me &eacute; preciso matar este pensamento com algum exerc&iacute;cio? (O pajem<br \/>\n    entra).<\/p>\n<p>CENA VII<\/p>\n<p>OS MESMOS, um PAJEM<\/p>\n<p>122 &#8211; O DUQUE &#8211; Fern&atilde;o Velho que mande selar os ginetes, que fa&ccedil;a<br \/>\n    aprontar a matilha e os falc&otilde;es e que abra a sala de armas para que<br \/>\n    os meus pajens e os senhores do meu servi&ccedil;o que me quiserem acompanhar<br \/>\n    se aparelhem para a ca&ccedil;a. (O pajem vai-se).<\/p>\n<p>CENA VIII<\/p>\n<p>O DUQUE, a DUQUESA<\/p>\n<p>123 &#8211; O DUQUE &#8211; N&atilde;o vindes, Senhora Duquesa?<\/p>\n<p>124 &#8211; A DUQUESA &#8211; Se me permitis, D. Jaime.<\/p>\n<p>125 &#8211; O DUQUE &#8211; Vamos &agrave; devesa de Vilaboim que, como sabeis, abunda<br \/>\n    em ca&ccedil;a; tem alguns javalis, mas creio que deles n&atilde;o vos arreceais;<br \/>\n    e demais, &eacute; ocasi&atilde;o de experimentardes o vosso belo palafr&eacute;m<br \/>\n    andaluz que h&aacute; pouco vos chegou de Espanha. Quereis vir?<\/p>\n<p>126 &#8211; A DUQUESA &#8211; Mandais&#8230;<\/p>\n<p>127 &#8211; O DUQUE &#8211; N&atilde;o, pe&ccedil;o-vos.<\/p>\n<p>128 &#8211; A DUQUESA &#8211; Mas&#8230; desejais ao menos levar-me na vossa companhia?<\/p>\n<p>129 &#8211; O DUQUE &#8211; Ser-me-ia prazer se para v&oacute;s n&atilde;o fosse inc&ocirc;modo.<\/p>\n<p>130 &#8211; A DUQUESA &#8211; Irei, D. Jaime.<\/p>\n<p>131 &#8211; O DUQUE &#8211; Eu v&ocirc;-lo agrade&ccedil;o, minha boa guerreira, e de<br \/>\n    volta falaremos do vosso protegido!<\/p>\n<p>132 &#8211; A DUQUESA &#8211; Meu protegido!<\/p>\n<p>133 &#8211; O DUQUE &#8211; Sim, n&atilde;o vos interessais por ele?<\/p>\n<p>134 &#8211; A DUQUESA &#8211; Como coisa que, por assim dizer, vos pertence.<\/p>\n<p>135 &#8211; O DUQUE &#8211; &Eacute; ser cruel, Duquesa! Pois nem ao menos quereis que<br \/>\n    tenha a presun&ccedil;&atilde;o de haver retribu&iacute;do com outra a vossa<br \/>\n    cortesia? Como quiserdes, &eacute; certo, que me n&atilde;o pesa de vos ficar<br \/>\n    obrigado. Ele partir&aacute;. Vireis j&aacute;, n&atilde;o &eacute; assim?<\/p>\n<p>136 &#8211; A DUQUESA &#8211; Creio que vos n&atilde;o farei esperar.<\/p>\n<p>137 &#8211; O DUQUE &#8211; Ent&atilde;o serei breve. (O duque vai-se).<\/p>\n<p>CENA IX<\/p>\n<p>A DUQUESA<\/p>\n<p>138 &#8211; A DUQUESA (S&oacute;) &#8211; Ele ir&aacute; tamb&eacute;m conosco; eu o<br \/>\n    adivinho&#8230; V&ecirc;-lo-ei pela &uacute;ltima vez.<\/p>\n<p>FIM DO PRIMEIRO QUADRO<\/p>\n<p> ATO PRIMEIRO<\/p>\n<p>QUADRO SEGUNDO<\/p>\n<p>A cena representa o mesmo aposento do quadro primeiro<\/p>\n<p>CENA I<\/p>\n<p>A DUQUESA, PAULA<\/p>\n<p>139 &#8211; PAULA &#8211; Como estais, Senhora Duquesa?<\/p>\n<p>140 &#8211; A DUQUESA &#8211; Boa. N&atilde;o veio algu&eacute;m saber de mim?<\/p>\n<p>141 &#8211; PAULA &#8211; Um pajem do senhor duque da parte de seu amo.<\/p>\n<p>142 &#8211; A DUQUESA &#8211; Tu que lhe disseste?<\/p>\n<p>143 &#8211; PAULA &#8211; Que descans&aacute;veis; e ele tornou para dizer-me que o senhor<br \/>\n    duque seria convosco logo que acab&aacute;sseis de repousar.<\/p>\n<p>144 &#8211; A DUQUESA &#8211; Est&aacute; bem. (Momento de sil&ecirc;ncio).<\/p>\n<p>145 &#8211; PAULA &#8211; Senhora Duquesa, &eacute; certo o que se diz que vos ia acontecendo?<\/p>\n<p>146 &#8211; A DUQUESA &#8211; O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>147 &#8211; PAULA &#8211; Um desastre?<\/p>\n<p>148 &#8211; A DUQUESA &#8211; &Eacute; certo.<\/p>\n<p>149 &#8211; PAULA &#8211; Mas podia ele ser de morte?<\/p>\n<p>150 &#8211; A DUQUESA &#8211; Que sei eu? Talvez fosse: felizmente o meu bom anjo me<br \/>\n    n&atilde;o desamparou.<\/p>\n<p>151 &#8211; PAULA &#8211; O vosso bom anjo?<\/p>\n<p>152 &#8211; A DUQUESA &#8211; Sim. Foi um momento horr&iacute;vel, Paula. O duque se<br \/>\n    havia embrenhado pela floresta com a sua comitiva e alguns cavaleiros que<br \/>\n    me guardavam insensivelmente me foram abandonando seguindo o v&ocirc;o de<br \/>\n    um falc&atilde;o que tinham soltado: de repente o meu palafr&eacute;m arrancou<br \/>\n    comigo pulando troncos, pedras e valados.<\/p>\n<p>153 &#8211; PAULA &#8211; E n&atilde;o ca&iacute;stes?<\/p>\n<p>154 &#8211; A DUQUESA &#8211; Quis ver de que se tinha ele espantado: voltei a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e vi&#8230; foi horr&iacute;vel! Um javali que vinha sobre mim. <\/p>\n<p>155 &#8211; PAULA &#8211; Jesus, Senhor!<\/p>\n<p>156 &#8211; A DUQUESA &#8211; Perdi o tino; em vez de lhe soltar as r&eacute;deas, puxei-as<br \/>\n    com for&ccedil;a: ele trope&ccedil;ou, caiu, e eu ca&iacute; com ele.<\/p>\n<p>157 &#8211; PAULA &#8211; Virgem Sant&iacute;ssima&#8230; E como vos salvastes?<\/p>\n<p>158 &#8211; A DUQUESA &#8211; Houve-me por morta, por&eacute;m n&atilde;o tive tempo<br \/>\n    para ter medo. Escrava da minha sorte e sem tentar escapar-lhe, fechei os<br \/>\n    olhos, senti o zunido de uma coisa que cortava os ares e um bra&ccedil;o que<br \/>\n    me enla&ccedil;ava pela cintura quando eu ia a rair por terra.<\/p>\n<p>159 &#8211; PAULA &#8211; Foi o senhor duque!&#8230; Bom homem!&#8230; Que muito que lhe eu j&aacute;<br \/>\n    quero s&oacute; pelo bem que vos h&aacute; feito!<\/p>\n<p>160 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o foi ele. Abri os olhos para ver o protetor que<br \/>\n    o c&eacute;u t&atilde;o oportunamente me enviara. Era Alcoforado quem me tinha<br \/>\n    salvado a vida. Por esfor&ccedil;o de coragem sobrenatural, que ainda n&atilde;o<br \/>\n    sei como a achei em mim, quis-me interpor entre ele e o animal que pouco havia<br \/>\n    n&atilde;o tinha ousado afrontar; por&eacute;m ao tropel de alguns cavaleiros<br \/>\n    olhei naquela dire&ccedil;&atilde;o e vi meu marido que de n&oacute;s se aproximava:<br \/>\n    senti como uma nuvem diante dos olhos e ca&iacute; desmaiada.<\/p>\n<p>161 &#8211; PAULA &#8211; Nobre mancebo!<\/p>\n<p>162 &#8211; A DUQUESA &#8211; Quando tornei a mim j&aacute; ele tinha desaparecido: vi<br \/>\n    somente o javali com um ven&aacute;bulo que o atravessava de parte a parte.<br \/>\n    Foi preciso v&ecirc;-lo para me convencer de que o que eu supunha um sonho<br \/>\n    tinha sido uma realidade.<\/p>\n<p>163 &#8211; PAULA &#8211; Ent&atilde;o, Senhora Duquesa! N&atilde;o &eacute; com raz&atilde;o<br \/>\n    que vos digo que o mancebo, em quem ainda n&atilde;o pudestes descobrir partes<br \/>\n    de cavaleiro, ser&aacute; em algum tempo guerreiro de nomeada?<\/p>\n<p>164 &#8211; A DUQUESA &#8211; Tens raz&atilde;o, boa Paula. A estas horas que seria de<br \/>\n    mim se ele n&atilde;o fosse?<\/p>\n<p>165 &#8211; PAULA &#8211; Em bem que vos dele ele desmentido t&atilde;o cavalheiroso!<br \/>\n    Ainda quereis que lhe eu pe&ccedil;a a vossa fita?<\/p>\n<p>166 &#8211; A DUQUESA &#8211; Quando outra coisa n&atilde;o fosse, ser-me-ia bastante<br \/>\n    desairoso negar coisa t&atilde;o pouca a quem tanto fez por meu respeito;<br \/>\n    n&atilde;o lhe fales nela! (Sil&ecirc;ncio)<\/p>\n<p>CENA II<\/p>\n<p>OS MESMOS, o DUQUE<\/p>\n<p>167 &#8211; O DUQUE (Sombrio) &#8211; Como ides, senhora?<\/p>\n<p>168 &#8211; A DUQUESA &#8211; Foi um sobressalto, Senhor Duque; um del&iacute;quio passageiro<br \/>\n    que n&atilde;o merecia vossa solicitude.<\/p>\n<p>169 &#8211; O DUQUE &#8211; Folgamos de vos achar perfeitamente restabelecida. Pesar-nos-ia<br \/>\n    que por nossa causa sofr&ecirc;sseis graves inc&ocirc;modos. <\/p>\n<p>170 &#8211; A DUQUESA &#8211; Quando eu os sofresse, D. Jaime, n&atilde;o ter&iacute;eis<br \/>\n    raz&atilde;o para vos culpardes a v&oacute;s mesmo. &Eacute; verdade que fostes<br \/>\n    v&oacute;s que me pedistes de ir a esta ca&ccedil;ada; por&eacute;m o acontecimento<br \/>\n    que teve lugar estava tanto acima da prud&ecirc;ncia humana que n&atilde;o<br \/>\n    era de ser prevenido.<\/p>\n<p>171 &#8211; O DUQUE &#8211; Sim, Duquesa, estava muito acima da prud&ecirc;ncia humana,<br \/>\n    por&eacute;m, n&atilde;o dos meus pressentimentos. J&aacute; falastes ao vosso<br \/>\n    salvador?<\/p>\n<p>172 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o, Senhor Duque.<\/p>\n<p>173 &#8211; O DUQUE &#8211; Conv&eacute;m que lhe faleis. A pessoas da nossa hierarquia<br \/>\n    n&atilde;o est&aacute; bem dever favores a quem quer que seja; por&eacute;m,<br \/>\n    quando tal aconte&ccedil;a, deve-se-lhe uma remunera&ccedil;&atilde;o tal<br \/>\n    que ele se n&atilde;o lembre do favor prestado sen&atilde;o do galard&atilde;o<br \/>\n    recebido. Falai-lhe, prometei-lhe quanto vos aprouver, que n&oacute;s de antem&atilde;o<br \/>\n    subscrevemos a tudo quanto lhe prometerdes: antes mais que menos&#8230; Paula,<br \/>\n    na antec&acirc;mara da senhora duquesa deve estar algum dos nossos pajens;<br \/>\n    dizei-lhe que chame o Senhor Alcoforado e trazei-nos depois um copo de &aacute;gua.<br \/>\n    (Paula sai).<\/p>\n<p>\n    CENA III<\/p>\n<p>O DUQUE, a DUQUESA<\/p>\n<p>174 &#8211; O DUQUE (Rompendo o sil&ecirc;ncio) &#8211; Quereis ir para a corte, Senhora<br \/>\n    Duquesa?<\/p>\n<p>175 &#8211; A DUQUESA &#8211; E v&oacute;s tamb&eacute;m ides?<\/p>\n<p>176 &#8211; O DUQUE &#8211; Comigo ou sem mim, isso que importa?<\/p>\n<p>177 &#8211; A DUQUESA &#8211; Duque, morarei de bom grado onde quer que morardes: o lugar<br \/>\n    pouco me importa.<\/p>\n<p>178 &#8211; O DUQUE &#8211; Mas n&atilde;o se dir&aacute; que sou um esposo col&eacute;rico<br \/>\n    e desp&oacute;tico, que entorpe&ccedil;o a vossa vontade, que embargo as vossas<br \/>\n    a&ccedil;&otilde;es, que ponho obst&aacute;culos aos vossos mais inocentes,<br \/>\n    mais &iacute;ntimos desejos? Por Deus, senhora, tende sequer por um instante,<br \/>\n    sequer uma vez um desejo vosso, uma vontade vossa, livre e independente de<br \/>\n    outro desejo e de outra vontade N&atilde;o vos mostreis como v&iacute;tima<br \/>\n    adornada para o sacrif&iacute;cio e levada para ali mau grado seu; mostrai-vos<br \/>\n    senhora, que realmente o sois.<\/p>\n<p>179 &#8211; A DUQUESA &#8211; Irei, Senhor Duque.<\/p>\n<p>180 &#8211; O DUQUE &#8211; Falei assim, que vos entenderemos. A corte tem muitas festas,<br \/>\n    muita pompa, muitos divertimentos: precisais deles, bem o sabemos.<\/p>\n<p>\n    CENA IV<\/p>\n<p>OS MESMOS, PAULA (com um copo de &aacute;gua)<\/p>\n<p>181 &#8211; O DUQUE (Continuando) &#8211; Com o vosso g&ecirc;nio careceis de distra&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e fazeis bem em vos distrairdes, ou dia vir&aacute; em que, como eu, mau grado<br \/>\n    vosso, sereis v&iacute;tima da vossa imagina&ccedil;&atilde;o. (Tomando o<br \/>\n    copo maquinalmente). Sei que esta vida n&atilde;o deve quadrar com a vossa<br \/>\n    vida e assim aprovo inteiramente a vossa resolu&ccedil;&atilde;o. (Levando<br \/>\n    o copo aos l&aacute;bios e logo arrojando-o ao ch&atilde;o). Esta &aacute;gua&#8230;<br \/>\n    Esta &aacute;gua.<\/p>\n<p>182 &#8211; A DUQUESA (Levantando-se assustada) &#8211; Ah!<\/p>\n<p>183 &#8211; PAULA &#8211; &Aacute;gua rosada, senhor: n&atilde;o &eacute; o que costumais<br \/>\n    beber?<\/p>\n<p>184 &#8211; O DUQUE (Tomando vivamente as m&atilde;os da duquesa) &#8211; Oh! Perd&atilde;o,<br \/>\n    perd&atilde;o, duquesa! (&Agrave; Paula). &#8211; Ide-vos. (Paula sai).<\/p>\n<p>\n    CENA V<\/p>\n<p>O DUQUE, a DUQUESA<\/p>\n<p>185 &#8211; O DUQUE &#8211; Contra a minha vontade vos atemorizei; foi um movimento r&aacute;pido,<br \/>\n    impetuoso, violento&#8230; n&atilde;o tive tempo para o conter.<\/p>\n<p>186 &#8211; A DUQUESA &#8211; Fizestes-me bem mal, senhor!<\/p>\n<p>187 &#8211; O DUQUE &#8211; Bem o vejo. Desastrado que eu sou! Mas v&oacute;s que tanto<br \/>\n    tempo h&aacute; me conheceis, por que vos n&atilde;o rides dos meus arrebatamentos,<br \/>\n    das minhas desconfian&ccedil;as, dos meus acessos de c&oacute;lera? Por que<br \/>\n    vos n&atilde;o rides, senhora?<\/p>\n<p>188 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o posso.<\/p>\n<p>189 &#8211; O DUQUE (Sentando-se) &#8211; J&aacute; compreendeis a raz&atilde;o por que<br \/>\n    vos n&atilde;o desejo comigo? &Eacute; porque mais que nunca os meus ataques<br \/>\n    multiplicam-se, acabrunham-me, perseguem-me e contudo j&aacute; os n&atilde;o<br \/>\n    dev&iacute;eis temer; n&atilde;o vos dev&iacute;eis atemorizar quando vos<br \/>\n    n&atilde;o compadec&ecirc;sseis de mim.<\/p>\n<p>190 &#8211; A DUQUESA &#8211; Oh! Senhor!<\/p>\n<p>191 &#8211; O DUQUE &#8211; Sim, compadecer-vos, porque eu sou mais infeliz que mau.<br \/>\n    Apenas me levantei do ber&ccedil;o, que ao inv&eacute;s de meu pai vi um cadafalso<br \/>\n    por cima da minha cabe&ccedil;a; apenas no ex&iacute;lio, fomos envenenados,<br \/>\n    eu e meu irm&atilde;o: ele morreu e eu continuei a arrastar a minha vida sobre<br \/>\n    a terra. Despojado violentamente de quanto h&aacute; no mundo de mais precioso<br \/>\n    e caro, continuadamente contrariado nas minhas inclina&ccedil;&otilde;es as<br \/>\n    mais &iacute;ntimas, as mais santas; ainda hoje! hoje, que sou homem, duque,<br \/>\n    poderoso e respeitado, como dizem, sofro de ter nascido nobre em vez de ter<br \/>\n    nascido vil&atilde;o, de ser senhor em vez de ser vassalo, de ser livre em<br \/>\n    vez de ser escravo! <\/p>\n<p>192 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o digais tal, senhor.<\/p>\n<p>193 &#8211; O DUQUE (Pegando-lhe na m&atilde;o) &#8211; Digo-vos isto porque &eacute;<br \/>\n    este o meu sentimento; e porque, se assim n&atilde;o fora, eu n&atilde;o sentiria,<br \/>\n    mesmo agora, a vossa m&atilde;o tremer na minha, fria e gelada; como que j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o tendes vida.<\/p>\n<p>194 &#8211; A DUQUESA &#8211; Foi o terror moment&acirc;neo; j&aacute; o n&atilde;o sinto.<\/p>\n<p>195 &#8211; O DUQUE &#8211; Ouvi. Esta manh&atilde;, quando vos eu vi por terra, sozinha<br \/>\n    e sem defesa contra o javali que vos ia espeda&ccedil;ar, julguei que vos<br \/>\n    havia perdido, e por minha culpa; quando vi o Senhor Alcoforado arrojar seu<br \/>\n    ven&aacute;bulo, da dist&acirc;ncia em que eu estava, e como vos visse cair,<br \/>\n    pareceu-me que o ferro vos tinha ofendido, e que morr&iacute;eis dele. Felizmente<br \/>\n    que nada vos aconteceu, gra&ccedil;as &agrave; m&atilde;o carteira do mancebo<br \/>\n    que tomou a seu cargo desmentir os meus pressentimentos. Bem sabeis quanto<br \/>\n    sou supersticioso! A minha ins&ocirc;nia desta noite, as duas mortes de que<br \/>\n    escapastes, fazem-me crer que uma fatalidade sobrevir&aacute; hoje &agrave;<br \/>\n    minha fam&iacute;lia. N&atilde;o o duvideis!&#8230; Ser&aacute; o terceiro golpe<br \/>\n    o mais terr&iacute;vel! A v&iacute;tima n&atilde;o escapar&aacute;. Quando<br \/>\n    levei aos l&aacute;bios aquele copo de &aacute;gua rosada que a vossa camareira<br \/>\n    me oferecia, a morte de meu irm&atilde;o me passou por diante dos olhos como<br \/>\n    um rel&acirc;mpago, e eu me esqueci de mim, de v&oacute;s, de tudo, para s&oacute;<br \/>\n    me lembrar do que j&aacute; sofri com o veneno que me deram. Atemorizei-vos,<br \/>\n    bem contra a minha vontade.<\/p>\n<p>196 &#8211; A DUQUESA &#8211; Mas por que pensais em coisas t&atilde;o tristes? Por que<br \/>\n    vos n&atilde;o distra&iacute;s?<\/p>\n<p>197 &#8211; O DUQUE &#8211; Posso eu pensar noutra coisa que nisto n&atilde;o seja?..<br \/>\n    Posso eu achar prazer sen&atilde;o em afundar-me nos meus pensamentos e torturar-me<br \/>\n    a mim mesmo?&#8230; Partireis, duquesa; jovem, nobre e formosa, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    com um homem como eu que deveis passar a vida. Ireis para a companhia de minha<br \/>\n    m&atilde;e que tamb&eacute;m &eacute; vossa, por ela fostes educada&#8230; (Entra<br \/>\n    Alcoforado). Quem ousa interromper-nos?<\/p>\n<p>\n    CENA VI<\/p>\n<p>OS MESMOS, ALCOFORADO<\/p>\n<p>198 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Senhor Duque&#8230;<\/p>\n<p>199 &#8211; O DUQUE (Severo) &#8211; O que nos quereis?<\/p>\n<p>200 &#8211; ALCOFORADO (Concentrado) &#8211; Serei acaso algum mendigo?<\/p>\n<p>201 &#8211; O DUQUE (Mais severo) &#8211; O que nos quereis, senhor?<\/p>\n<p>202 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Inferno! Ser assim tratado na presen&ccedil;a dela!<\/p>\n<p>203 &#8211; O DUQUE (Levantando-se) &#8211; Mancebo, n&atilde;o costumamos a repetir<br \/>\n    as nossas ordens. Cabe&ccedil;as mais nobres, presun&ccedil;&otilde;es mais<br \/>\n    bem fundadas que as vossas, n&oacute;s as temos por mais de uma vez curvado<br \/>\n    at&eacute; se nivelarem com o solo. Rompei o sil&ecirc;ncio, senhor, ou por<br \/>\n    S. Tiago&#8230;<\/p>\n<p>204 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Eu me retiro, Senhor Duque&#8230;<\/p>\n<p>205 &#8211; A DUQUESA &#8211; Duque, n&atilde;o fostes v&oacute;s quem o mandastes chamar?<\/p>\n<p>206 &#8211; O DUQUE &#8211; Ah! sim, sim. Que miser&aacute;vel cabe&ccedil;a que eu tenho!<br \/>\n    Perdoai, meu jovem amigo; outros pensamentos agora nos ocupavam, por&eacute;m<br \/>\n    o salvador da nossa nobre esposa e senhora ser&aacute; sempre benvindo, qualquer<br \/>\n    que seja o lugar em que estivermos. Sentai-vos.<\/p>\n<p>207 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Senhor Duque, se mo permitirdes, eu escutarei de p&eacute;<br \/>\n    as vossas determina&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>208 &#8211; O DUQUE &#8211; Como vos aprouver. A duquesa nossa esposa vos quer agradecer<br \/>\n    a destreza e coragem com que hoje lhe salvastes a vida. N&oacute;s nos retiramos;<br \/>\n    vinde, por&eacute;m, ter conosco antes de vos partirdes para &Aacute;frica<br \/>\n    e, onde quer que estiverdes, lembrai-vos que tendes um amigo no duque de Bragan&ccedil;a<br \/>\n    e Guimar&atilde;es. (Estende-lhe a m&atilde;o, Alcoforado hesita). Tomai-a,<br \/>\n    Senhor Alcoforado; mais nobre que ela a de el-rei; mais leal nenhuma. (Alcoforado<br \/>\n    toma-lhe a m&atilde;o) Adeus. (Sai).<\/p>\n<p>CENA VII<\/p>\n<p>A DUQUESA, ALCOFORADO, PAULA<\/p>\n<p>209 &#8211; PAULA (Espreitando da porta) &#8211; J&aacute; se foi? (Andando para o meio<br \/>\n    da cena). &#8211; Viva Deus!&#8230; Est&aacute; hoje terr&iacute;vel o senhor duque.<\/p>\n<p>210 &#8211; A DUQUESA (Levantando-se e levando a Paula para um canto da cena) &#8211;<br \/>\n    Paula, n&atilde;o saias de junto de mim!<\/p>\n<p>211 &#8211; PAULA &#8211; Por que, senhora?<\/p>\n<p>212 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o saias. (Vindo sentar-se). &#8211; Senhor Alcoforado,<br \/>\n    quando esta manh&atilde; vos oferecemos a nossa prote&ccedil;&atilde;o, de<br \/>\n    mau grado a aceitastes, e cedo tivestes ocasi&atilde;o de nos provar que bem<br \/>\n    mais &uacute;til nos seria a n&oacute;s o vosso bra&ccedil;o do que a v&oacute;s<br \/>\n    a nossa prote&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>213 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Foi um acaso, Senhora Duquesa, n&atilde;o falemos mais<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p>214 &#8211; PAULA &#8211; Mas deveras, senhor, que vos portastes com toda a gentileza.<\/p>\n<p>215 &#8211; ALCOFORADO (Em voz baixa) &#8211; Paula, quero dever-te um grande favor.<\/p>\n<p>216 &#8211; A DUQUESA &#8211; Foi um acaso, &eacute; verdade, mas um acaso que nos podia<br \/>\n    ser funesto se ali felizmente n&atilde;o depar&aacute;ssemos convosco.<\/p>\n<p>217 &#8211; PAULA (A Alcoforado, em voz baixa) &#8211; O que quereis de mim?<\/p>\n<p>218 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Se n&atilde;o fosse eu seria outro; em vez daquele incidente<br \/>\n    haveria outro qualquer, porque &eacute; bem de ver que n&atilde;o pod&iacute;eis<br \/>\n    morrer assim. (Em voz baixa, a Paula). Deixa-nos a s&oacute;s.<\/p>\n<p>219 &#8211; PAULA &#8211; Oh! Sempre &eacute; certo que tendes o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    bem generoso e a m&atilde;o certeira e leal como v&oacute;s sois. (Em voz<br \/>\n    baixa). Ela pediu-me que a n&atilde;o deixasse; tentarei.<\/p>\n<p>220 &#8211; A DUQUESA &#8211; Mas&#8230; pesa-vos acaso que em o nosso reconhecimento vos<br \/>\n    devamos alguma coisa?<\/p>\n<p>221 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Oh! N&atilde;o, senhora. Se eu vos devesse a vida haveria<br \/>\n    por isso de estim&aacute;-la menos? O evento desta manh&atilde; foi realmente<br \/>\n    um acaso bem indiferente para v&oacute;s, bem venturoso para mim.<\/p>\n<p>222 &#8211; PAULA &#8211; Permitis, Senhora Duquesa, que eu me retire por um instante?<\/p>\n<p>223 &#8211; ALCOFORADO (Em voz baixa) &#8211; N&atilde;o voltes!<\/p>\n<p>224 &#8211; PAULA (Em voz baixa) &#8211; Deixai-me!<\/p>\n<p>225 A DUQUESA (Em voz baixa) &#8211; Louca! E o que te eu disse?<\/p>\n<p>226 &#8211; PAULA (Em voz baixa) &#8211; &Eacute; s&oacute; por um instante.<\/p>\n<p>227 &#8211; A DUQUESA &#8211; Vai, mas n&atilde;o te esque&ccedil;as. (Paula sai).<\/p>\n<p>\n    CENA VIII<\/p>\n<p>A DUQUESA, ALCOFORADO<\/p>\n<p>228 &#8211; A DUQUESA (Depois de um momento de sil&ecirc;ncio) &#8211; Quando hoje tornei<br \/>\n    a mim do meu desmaio, procurei-vos entre as pessoas que me cercavam, n&atilde;o<br \/>\n    tanto para vos agradecer, como para convencer-me por meus pr&oacute;prios<br \/>\n    olhos que nenhum mal hav&iacute;eis sofrido por meu respeito.<\/p>\n<p>229 &#8211; ALCOFORADO &#8211; &Eacute; certo que entre as pessoas que vos cercam nenhuma<br \/>\n    houve que vos pudesse dar not&iacute;cias minhas?<\/p>\n<p>230 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o me atrevi a pergunt&aacute;-lo.<\/p>\n<p>231 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Ah! N&atilde;o vos atrevestes! De certo, fora pasmos que<br \/>\n    donas como v&oacute;s inquirissem em p&uacute;blico de pessoas como eu.<\/p>\n<p>232 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o foi por esse motivo. (Hesitando). Queria saber<br \/>\n    de v&oacute;s mesmo se est&aacute;veis perfeitamente bem.<\/p>\n<p>233 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Eu v&ocirc;-lo agrade&ccedil;o, senhora. Infelizmente<br \/>\n    nada sofri.<\/p>\n<p>234 &#8211; A DUQUESA &#8211; Infelizmente!<\/p>\n<p>235 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Infelizmente. Se algum desastre me houvesse acontecido,<br \/>\n    talvez que por um instante vos esquec&ecirc;sseis da vossa nobreza para derramar<br \/>\n    um olhar de compaix&atilde;o sobre o m&iacute;sero que por v&oacute;s se houvesse<br \/>\n    sacrificado: talvez que por um instante vos esquec&ecirc;sseis da prud&ecirc;ncia,<br \/>\n    essa virtude divina que &eacute; o m&oacute;vel das vossas a&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    n&atilde;o para verter l&aacute;grimas sobre mim, mas ao menos para desatar<br \/>\n    uma palavra do cora&ccedil;&atilde;o, para soltar um grito que me convencesse<br \/>\n    de que tamb&eacute;m experimentais o que t&atilde;o profundamente fazeis sentir.\n  <\/p>\n<p>236 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o vos compreendo, senhor!<\/p>\n<p>237 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Mas acreditais o que ainda hoje vos disse; compreendeis<br \/>\n    ao menos que eu vos serviria de joelhos toda a minha vida, para que do alto<br \/>\n    da vossa grandeza deix&aacute;sseis cair sobre mim triste e mesquinho uma<br \/>\n    palavra de comisera&ccedil;&atilde;o; que eu daria a minha vida por um sorriso<br \/>\n    vosso, que eu daria a minha cabe&ccedil;a ao carrasco se me fiz&eacute;sseis<br \/>\n    um aceno e se me promet&ecirc;sseis chorar sobre a minha estrela, sobre mim,<br \/>\n    ainda quando s&oacute; fosse no sil&ecirc;ncio da noite, quando nenhuns olhos<br \/>\n    pudessem interrogar os vossos olhos, orvalhados com l&aacute;grimas, quando<br \/>\n    nem uma voz pudesse desafiar a vossa voz, embargada pelos solu&ccedil;os?<br \/>\n    Compreendeis ao menos isto, Senhora Duquesa? <\/p>\n<p>238 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o, senhor. Que sou eu para vos merecer t&atilde;o<br \/>\n    alta dedica&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>239 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Que sois v&oacute;s! Sei-o eu por ventura? Sois o objeto<br \/>\n    que me fere continuadamente os sentidos, a id&eacute;ia que tenazmente me<br \/>\n    ocupa a alma, a imagem que veio sentar-se imperiosamente &agrave; minha cabeceira<br \/>\n    e dizer-me: &quot;n&atilde;o ter&aacute;s olhos sen&atilde;o para mim&quot;,<br \/>\n    a voz que me brada a todo o instante: &quot;n&atilde;o ter&aacute;s ouvidos<br \/>\n    sen&atilde;o para mim&quot;, o fantasma que me prende, que me enla&ccedil;a,<br \/>\n    que me eleva nas asas da esperan&ccedil;a, que me abate no abismo da desespera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e que me repete sempre e sempre: &quot;morrer&aacute;s por mim!&quot;. Tentei<br \/>\n    resistir a esta id&eacute;ia, a esta imagem, a este fantasma; n&atilde;o o<br \/>\n    pude, que mais podia a fascina&ccedil;&atilde;o do que a minha vontade. Evoquei<br \/>\n    o amor de fam&iacute;lia, as afei&ccedil;&otilde;es que eu h&aacute; pouco<br \/>\n    sentia ardentemente por meu pai, nobre velho cuja m&atilde;o descansa sobre<br \/>\n    a minha cabe&ccedil;a como no bord&atilde;o da sua velhice; por meu irm&atilde;o,<br \/>\n    jovem esperan&ccedil;oso que vai no caminho da vida medindo os seus passos<br \/>\n    sobre os meus passos; por minha irm&atilde;, donzela extremosa que se apegou<br \/>\n    ao meu destino como hera ao muro mal constru&iacute;do que est&aacute; prestes<br \/>\n    a desabar; e as minhas afei&ccedil;&otilde;es foram mudas e os meus olhos<br \/>\n    cegos e os meu ouvidos surdos&#8230; S&oacute; essa imagem cintilava na minha<br \/>\n    vida como uma santa numa capela ardente, cercada de tur&iacute;bulos e envolta<br \/>\n    em ondas de incenso. Deixei-me arrastar por ela. Cedi; perdi-me.<\/p>\n<p>240 &#8211; A DUQUESA &#8211; Eu devia t&ecirc;-lo adivinhado! (Resolutamente). Estais<br \/>\n    salvo, senhor; partireis para &Aacute;frica.<\/p>\n<p>241 &#8211; ALCOFORADO (Amargamente) &#8211; N&atilde;o &eacute; essa a vossa vontade?<\/p>\n<p>242 &#8211; A DUQUESA &#8211; Partireis, senhor; n&atilde;o escuteis uma palavra, n&atilde;o<br \/>\n    volteis a cabe&ccedil;a para tr&aacute;s. Parti amanh&atilde;, esta noite,<br \/>\n    agora mesmo, parti!&#8230; Embrenhai-vos pelos esquadr&otilde;es dos inimigos<br \/>\n    sem temor da morte, que ela respeita os valentes; e, quando vos tornardes<br \/>\n    do vosso del&iacute;rio, a santa que h&aacute;-de cintilar no meio das vossas<br \/>\n    esperan&ccedil;as n&atilde;o ser&aacute; a imagem de uma mulher; ser&aacute;<br \/>\n    a gl&oacute;ria e estareis salvo.<\/p>\n<p>243 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Partirei, Senhora Duquesa; mas juro-vos que me n&atilde;o<br \/>\n    hei-de esquecer. Terei eu tempo para isso? A minha vida pende de um fio, n&atilde;o<br \/>\n    sei qual: sei que h&aacute;-de romper-se e que n&atilde;o tardar&aacute; muito!<\/p>\n<p>244 &#8211; A DUQUESA &#8211; Longe os maus agouros, Senhor Alcoforado; partireis cheio<br \/>\n    de vida e voltareis carregado de louros.<\/p>\n<p>245 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Que farei deles? A minha imagem, dizei v&oacute;s, se<br \/>\n    ter&aacute; apagado como um sonho ou como o fumo nos ares; meu pai ter&aacute;<br \/>\n    desaparecido da face da terra, que os seus dias j&aacute; n&atilde;o podem<br \/>\n    ser muitos; meus irm&atilde;os&#8230; Sei eu por ventura o que ser&aacute; deles<br \/>\n    durante a minha peregrina&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>246 &#8211; A DUQUESA &#8211; Pensareis ent&atilde;o diversamente, Senhor Alcoforado.<br \/>\n    Eu, por&eacute;m, vos n&atilde;o quero demorar; deveis partir precipitadamente<br \/>\n    se quereis partir.<\/p>\n<p>247 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Partirei amanh&atilde;, Senhora Duquesa.<\/p>\n<p>248 &#8211; A DUQUESA &#8211; Talvez seja tarde!<\/p>\n<p>249 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Com bem &acirc;nsia me quereis longe de v&oacute;s, senhora!<\/p>\n<p>250 &#8211; A DUQUESA &#8211; Ouvi. Disse-me o senhor duque que vos prometesse o que<br \/>\n    me aprouvesse, que ele guardaria a minha palavra. O que quereis v&oacute;s?<\/p>\n<p>251 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Nada, Senhora Duquesa.<\/p>\n<p>252 &#8211; A DUQUESA &#8211; Nada! Refleti bem. O vosso arrependimento seria tardio,<br \/>\n    ou a demora vos poderia prejudicar. Que posto quereis no ex&eacute;rcito?<\/p>\n<p>253 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Nada, nada quero, e contudo&#8230; Senhora Duquesa, poderia<br \/>\n    eu pedir-vos merc&ecirc; mais especial?<\/p>\n<p>254 &#8211; A DUQUESA &#8211; Falai.<\/p>\n<p>255 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Julgais na vossa consci&ecirc;ncia que me deveis um servi&ccedil;o,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; assim?<\/p>\n<p>256 &#8211; A DUQUESA &#8211; A vida, Senhor Alcoforado; e somos bem feliz em o poder<br \/>\n    confessar altamente.<\/p>\n<p>257 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Pois bem, um servi&ccedil;o feito a v&oacute;s. Sois v&oacute;s<br \/>\n    quem o deveis galardoar, n&atilde;o &eacute; verdade? E de feito, que tenho<br \/>\n    eu com o senhor duque?<\/p>\n<p>258 &#8211; A DUQUESA &#8211; Conclu&iacute;, senhor.<\/p>\n<p>259 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Dizei mais. O homem que arriscou a sua vida s&oacute;<br \/>\n    por amor de vos salvar, e que n&atilde;o esperou pelo vosso agradecimento<br \/>\n    nem sequer por uma palavra vossa, que todavia ele quisera escutar, mesmo a<br \/>\n    troco de seu sangue, julgais que seja capaz de vos faltar com o acatamento<br \/>\n    que vos &eacute; devido?<\/p>\n<p>260 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o o cremos; mas&#8230;<\/p>\n<p>261 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Ainda uma palavra. E se n&atilde;o julgais que ele vos<br \/>\n    possa faltar ao decoro podereis julgar que ele queira abusar da vossa gratid&atilde;o<br \/>\n    ou arriscar a vossa honra?<\/p>\n<p>262 &#8211; A DUQUESA &#8211; Em a vossa consci&ecirc;ncia, Senhor Alcoforado, que vos<br \/>\n    temos por um mancebo lhano e cort&ecirc;s, incapaz de faltar com o respeito<br \/>\n    &agrave;s donas, de as ofender por gestos ou a&ccedil;&otilde;es, ou de sacrificar<br \/>\n    a sua honra a um capricho irrefletido. Conclu&iacute;. Que vos podemos n&oacute;s<br \/>\n    fazer que seja recompensa de favor tamanho?<\/p>\n<p>263 &#8211; ALCOFORADO &#8211; &Eacute; uma entrevista que vos pe&ccedil;o.<\/p>\n<p>264 &#8211; A DUQUESA &#8211; Uma entrevista!<\/p>\n<p>265 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Sim: uma hora, um instante em que eu vos possa, sem testemunha<br \/>\n    e sem temor de ser escutado, dizer-vos tudo quanto sinto, tudo quanto sofro,<br \/>\n    e partirei, esperan&ccedil;oso sen&atilde;o feliz, resignado sen&atilde;o<br \/>\n    contente. Ser&aacute; a &uacute;ltima vez que nos veremos, Senhora Duquesa,<br \/>\n    a &uacute;ltima, e n&atilde;o mais ouvireis falar de mim!<\/p>\n<p>266 &#8211; A DUQUESA &#8211; E n&atilde;o estamos a s&oacute;s?<\/p>\n<p>267 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Mas posso ser interrompido de momento a momento; e que<br \/>\n    o n&atilde;o pudesse! Quando o homem sofre como eu. sofro, &eacute;-lhe preciso<br \/>\n    morder com for&ccedil;a os l&aacute;bios entre os dentes para. n&atilde;o<br \/>\n    emitir um som&#8230; e ai dele! se deixa escapar um gemido, porque depois dos<br \/>\n    gemidos vir&atilde;o os gritos, e depois dos gritos a desespera&ccedil;&atilde;o!&#8230;<br \/>\n    Concedei-me a entrevista, Senhora Duquesa; n&atilde;o ouvireis da minha boca<br \/>\n    uma s&oacute; palavra que vos fa&ccedil;a corar, nem um s&oacute; gesto que<br \/>\n    vos possa ofender; eu v&ocirc;-lo juro; &eacute; s&oacute; para que vejais<br \/>\n    as l&aacute;grimas, que eu tenho, as dores que eu pade&ccedil;o, para que<br \/>\n    vos compade&ccedil;ais de mim!&#8230; Oh! senhora, &eacute; de joelhos!&#8230;<\/p>\n<p>268 &#8211; A DUQUESA &#8211; Levantai-vos, levantai-vos&#8230; Esta manh&atilde; quase que<br \/>\n    vos surpreenderam a meus p&eacute;s. Meu Deus! Que terror que eu tenho!<\/p>\n<p>269 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Vede!&#8230; Dizeis que estamos a s&oacute;s, e toda vos atemorizais<br \/>\n    por eu cair a vossos p&eacute;s.<\/p>\n<p>270 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o seria isso imprud&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>271 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Muito prudente sois v&oacute;s, Senhora Duquesa! Quando<br \/>\n    o meu sangue corresse em ondas sobre o soalho da vossa habita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    fora prud&ecirc;ncia e at&eacute; delicadeza, mandar limp&aacute;-lo bem depressa<br \/>\n    para que os vossos p&eacute;s se n&atilde;o manchassem nele.<\/p>\n<p>272 &#8211; A DUQUESA &#8211; Sois injusto!<\/p>\n<p>273 &#8211; ALCOFORADO (Despeitoso) &#8211; Serei, senhora.<\/p>\n<p>274 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o percebeis v&oacute;s que a prud&ecirc;ncia &eacute;<br \/>\n    para mim um dever?<\/p>\n<p>275 &#8211; ALCOFORADO &#8211; E tamb&eacute;m para o homem; contudo, se eu s&oacute;<br \/>\n    houvesse consultado a prud&ecirc;ncia, n&atilde;o teria h&aacute; pouco arremessado<br \/>\n    o meu ven&aacute;bulo, porque em vez de vos salvar poderia errar o tiro e<br \/>\n    atravessar-vos com ele; se eu houvesse consultado a prud&ecirc;ncia, n&atilde;o<br \/>\n    me teria interposto entre v&oacute;s e o javali, porque o javali poderia espeda&ccedil;ar-me;<br \/>\n    se eu houvesse consultado a prud&ecirc;ncia&#8230; oh! n&atilde;o me teria em<br \/>\n    corpo e alma dedicado a uma pessoa de alta nobreza, que eu sei que n&atilde;o<br \/>\n    tem amor sen&atilde;o aos seus t&iacute;tulos, que n&atilde;o tem olhos sen&atilde;o<br \/>\n    para as suas lou&ccedil;anias.<\/p>\n<p>276 &#8211; A DUQUESA &#8211; Insensato, julgais que &eacute; o medo que me faz prudente<br \/>\n    e que &eacute; por aten&ccedil;&atilde;o a mesquinhezas que vos n&atilde;o<br \/>\n    estendo a m&atilde;o caro&aacute;vel e benfazeja quando vejo que sofreis e<br \/>\n    que careceis de mim!&#8230; J&aacute; pouco prudente tenho eu sido mostrando-vos<br \/>\n    por vezes que me n&atilde;o sois inteiramente indiferente&#8230; bem pouco prudente,<br \/>\n    Senhor Alcoforado! Porque um volver de olhos, um sinal mais expressivo, uma<br \/>\n    prote&ccedil;&atilde;o decidida da minha parte vos abriria a sepultura mais<br \/>\n    depressa do que o podeis imaginar. D. Jaime &eacute; cioso; o seu orgulho<br \/>\n    tem olhos de lince, a sua c&oacute;lera &eacute; terr&iacute;vel e a sua vingan&ccedil;a<br \/>\n    &eacute; estrepitosa como o trov&atilde;o e fulminante como o raio. Se a menor<br \/>\n    suspeita lhe atravessasse o esp&iacute;rito&#8230; far&iacute;eis bem em cair<br \/>\n    de joelhos e pedir a Deus perd&atilde;o das vossas culpas.<\/p>\n<p>277 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Tempo foi na minha inf&acirc;ncia em que, acordando pelo<br \/>\n    meio da noite, sentia verdadeiro terror quando escutava no sil&ecirc;ncio<br \/>\n    das trevas o estr&iacute;dulo de alguma ave noturna; hoje, por&eacute;m, os<br \/>\n    seus pios agoureiros rebentam-me por baixo dos p&eacute;s e eu vos confesso<br \/>\n    que os escuto sem sobressalto nem terror.<\/p>\n<p>278 &#8211; A DUQUESA &#8211; Dizem contudo que h&aacute; &agrave;s vezes nesse canto<br \/>\n    um an&uacute;ncio de morte.<\/p>\n<p>279 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Seja embora; por&eacute;m, a morte n&atilde;o aterra sen&atilde;o<br \/>\n    a quem n&atilde;o est&aacute; afeito a lidar com os seus terrores: eu desde<br \/>\n    a inf&acirc;ncia que os experimento.<\/p>\n<p>280 &#8211; A DUQUESA &#8211; Ent&atilde;o, senhor, apesar de tudo.<\/p>\n<p>281 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Eu v&ocirc;-lo suplico!<\/p>\n<p>282 &#8211; A DUQUESA &#8211; Vereis que n&atilde;o sou medrosa. Paula vos transmitir&aacute;<br \/>\n    o que eu houver determinado; por&eacute;m, lembrai-vos&#8230; lembrai-vos que<br \/>\n    &agrave; vossa honra me confio e que eu me escudarei com a vossa prote&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    (Vai-se).<\/p>\n<p>CENA IX<\/p>\n<p>283 &#8211; ALCOFORADO (S&oacute;) &#8211; Confia na tua inoc&ecirc;ncia e na palavra<br \/>\n    de um homem honrado que daria a sua vida para te poupar um desgosto.<\/p>\n<p>FIM DO SEGUNDO QUADRO E DO PRIMEIRO ATO<\/p>\n<h2> <a name=\"2\">ATO SEGUNDO<\/a><\/h2>\n<p>QUADRO TERCEIRO<\/p>\n<p>A cena representa uma sala modesta em casa do velho Alcoforado.<\/p>\n<p>CENA I<\/p>\n<p>MANUEL, ALCOFORADO<\/p>\n<p>284 &#8211; MANUEL (Sentado) &#8211; Eis a terceira vez que te fa&ccedil;o a mesma pergunta<br \/>\n    e ainda me n&atilde;o respondeste.<\/p>\n<p>285 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Ah! Falavas comigo?<\/p>\n<p>286 MANUEL &#8211; Pois com quem havia eu de falar? Pergunto-te o que tens.<\/p>\n<p>287 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Nada tenho, irm&atilde;o; estou um pouco preocupado.<\/p>\n<p>288 &#8211; MANUEL &#8211; Bela resposta! Isso vejo eu. Com o qu&ecirc;? E o que te eu<br \/>\n    pergunto.<\/p>\n<p>289 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Com a minha partida. N&atilde;o sei como terei for&ccedil;as<br \/>\n    para me separar de tantas afei&ccedil;&otilde;es que deixo atr&aacute;s de<br \/>\n    mim e que talvez n&atilde;o tomarei a encontrar.<\/p>\n<p>290 &#8211; MANUEL &#8211; N&atilde;o te d&ecirc; isso cuidado. N&oacute;s somos novos,<br \/>\n    tu, eu e nossa irm&atilde;; nosso pai &eacute; que &eacute; um pouco velho,<br \/>\n    por&eacute;m ainda robusto, e espero em Deus que nos enterrar&aacute; a todos<br \/>\n    um por um.<\/p>\n<p>291 &#8211; ALCOFORADO &#8211; E cr&ecirc;s que para o homem morrer care&ccedil;a de<br \/>\n    ser velho?<\/p>\n<p>292 &#8211; MANUEL &#8211; Se n&atilde;o &eacute;, parece. O que eu sei &eacute; que<br \/>\n    em teu lugar estaria bem contente por ir t&atilde;o novo ganhar as minhas<br \/>\n    esporas&#8230; Sabes tu um receio que eu tenho?<\/p>\n<p>293 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Qual?<\/p>\n<p>294 &#8211; MANUEL &#8211; O de n&atilde;o ter for&ccedil;as quando for homem para usar<br \/>\n    daquelas longas espadas de que usam os cavaleiros de el-rei. N&atilde;o o<br \/>\n    digas a ningu&eacute;m, menos ainda a Laura, que sen&atilde;o a travessa me<br \/>\n    n&atilde;o deixar&aacute; descansar.<\/p>\n<p>295 &#8211; ALCOFORADO (Distra&iacute;do) &#8211; Terr&iacute;vel pressentimento!&#8230;<\/p>\n<p>296 &#8211; MANUEL &#8211; A&iacute; o temos outra vez.<\/p>\n<p>297 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Quem poder&aacute; aventar o segredo desta entrevista?<br \/>\n    Ningu&eacute;m o ouviu, ningu&eacute;m o sabe; s&oacute; Rozeimo que me trouxe<br \/>\n    a missiva de Paula. Rozeimo &eacute; fiel: que posso eu temer?<\/p>\n<p>298 &#8211; MANUEL &#8211; J&aacute; me estou impacientando.<\/p>\n<p>299 &#8211; ALCOFORADO &#8211; A noite vai escura e feia!<\/p>\n<p>300 &#8211; MANUEL &#8211; Ainda mais feia te h&aacute;-de parecer.<\/p>\n<p>301 &#8211; ALCOFORADO (Vivamente) &#8211; Que dizes?<\/p>\n<p>302 &#8211; MANUEL &#8211; Quando os dobres come&ccedil;arem.<\/p>\n<p>303 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Que dobres? Que dizes tu?<\/p>\n<p>304 &#8211; MANUEL &#8211; De que te espantas?&#8230; N&atilde;o &eacute; amanh&atilde; o<br \/>\n    dia de finados?<\/p>\n<p>305 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Tens raz&atilde;o (Pensativo). Ainda outro mau agouro!<br \/>\n    (Momento de sil&ecirc;ncio). Irm&atilde;o, &eacute;s tu corajoso?<\/p>\n<p>306 &#8211; MANUEL &#8211; Homem, eu creio que sim; por&eacute;m, com certeza que tens<br \/>\n    muito mais coragem do que eu, que tamb&eacute;m para isso &eacute;s o mais<br \/>\n    velho.<\/p>\n<p>307 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Se pois me acontecesse algum desastre?<\/p>\n<p>308 &#8211; MANUEL &#8211; Onde? L&aacute; na &Aacute;frica?<\/p>\n<p>309 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Se aqui, se hoje, por exemplo, me acontecesse algum desastre,<br \/>\n    n&atilde;o terias tu a coragem de esconder as tuas l&aacute;grimas para n&atilde;o<br \/>\n    afligir com elas o nosso bom pai?<\/p>\n<p>310 &#8211; MANUEL &#8211; Est&aacute;s hoje sombrio, irm&atilde;o!<\/p>\n<p>311 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Pois n&atilde;o terias tu coragem para isto?&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    acompanharias o nosso velho pai at&eacute; a sepultura, n&atilde;o ampararias<br \/>\n    com desvelos e solicitudes a nossa boa irm&atilde; que tanto precisa da prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de n&oacute;s todos?&#8230; N&atilde;o serias bom filho e bom irm&atilde;o, a<br \/>\n    ponto de ambos se esquecessem de que eu tinha existido?<\/p>\n<p>312 &#8211; MANUEL &#8211; Posso-o eu porventura?&#8230; Nosso pai &eacute; robusto; por&eacute;m,<br \/>\n    quem sabe quanto o abateria a dor de te haver perdido, a ti sobre quem ele<br \/>\n    esteia a sua velhice?&#8230; Nossa irm&atilde; Laura, jovem e formosa, que te<br \/>\n    ama sobre tudo, porque &eacute;s o nosso irm&atilde;o mais velho, sentiria<br \/>\n    profundamente perder-te; quem sabe o que seria dela?&#8230; Eu mesmo, terei coragem<br \/>\n    porventura quando me faltares ou quando te houver perdido para sempre?<\/p>\n<p>313 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Assim, pois, um desastre que me sobreviesse os abalaria<br \/>\n    a todos, e talvez algum ca&iacute;sse sobre o meu sepulcro.<\/p>\n<p>314 &#8211; MANUEL &#8211; Meu Deus! Que pensamentos s&atilde;o esses?&#8230; Est&aacute;s<br \/>\n    bom, partir&aacute;s amanh&atilde;, e falas em morrer hoje?<\/p>\n<p>315 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Como estas horas se arrastam vagarosas!&#8230; (Chegando &agrave;<br \/>\n    janela). O c&eacute;u est&aacute; coberto de nuvens; a noite vai escura e<br \/>\n    medonha.<\/p>\n<p>316 &#8211; MANUEL &#8211; Felizmente que estamos em casa, porque talvez tenhamos alguma<br \/>\n    tempestade.<\/p>\n<p>317 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o no c&eacute;u; na terra, talvez.<\/p>\n<p>318 &#8211; MANUEL &#8211; Est&aacute;s-me causando medo.<\/p>\n<p>319 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Irm&atilde;o, se meu pai se demorar, partirei sem v&ecirc;-lo;<br \/>\n    tu lhe pedir&aacute;s a sua b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o por mim, que porventura<br \/>\n    carecerei dela.<\/p>\n<p>320 &#8211; MANUEL &#8211; Vais sair?<\/p>\n<p>321 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Sim, a uma devo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>322 &#8211; MANUEL &#8211; Ah! Vejamos!&#8230; Gib&atilde;o de fust&atilde;o prateado, colar<br \/>\n    e pontas de veludo roxo, cal&ccedil;as vermelhas, cinta de couro preto com<br \/>\n    guarni&ccedil;&otilde;es de prata, borzeguins&#8230; n&atilde;o, n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    esses os vestidos de quem vai &agrave; noite lan&ccedil;ar-se aos p&eacute;s<br \/>\n    do altar. Enganas-me, Ant&ocirc;nio; &eacute; outra a tua devo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>323 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Ser&aacute;: mas n&atilde;o me interrogues, que nada te<br \/>\n    poderei dizer.<\/p>\n<p>324 &#8211; MANUEL &#8211; Atende: a noite vai escura, bem o viste; alguma cilada te<br \/>\n    podem armar. Leva contigo o nosso velho criado.<\/p>\n<p>325 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o; ele pode demorar-se.<\/p>\n<p>326 &#8211; MANUEL &#8211; Se ele se demorar, sairei contigo.<\/p>\n<p>327 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o: &eacute; um segredo que n&atilde;o deves saber.<\/p>\n<p>328 &#8211; MANUEL &#8211; Leva ao menos a tua espada.<\/p>\n<p>329 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o a levarei.<\/p>\n<p>330 &#8211; MANUEL &#8211; A minha espada &eacute; fiel, o sangue ainda a n&atilde;o<br \/>\n    enferrujou; a sua folha ainda me n&atilde;o traiu. A tua espada ou a minha&#8230;<br \/>\n    escolhe.<\/p>\n<p>331 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o levarei a tua espada, n&atilde;o levarei a<br \/>\n    minha.<\/p>\n<p>332 &#8211; MANUEL &#8211; &Eacute; favor que te pe&ccedil;o: quero que a minha espada<br \/>\n    te acompanhe uma noite, a derradeira que passar&aacute;s conosco; ser&aacute;<br \/>\n    essa a lembran&ccedil;a que me deixar&aacute;s por despedida. Tu a levar&aacute;s.<\/p>\n<p>333 &#8211; ALCOFORADO &#8211; E ta restituirei t&atilde;o pura como sair das tuas m&atilde;os.<br \/>\n    Vai por ela.<\/p>\n<p>334 &#8211; MANUEL &#8211; Ent&atilde;o espera-me!<\/p>\n<p>335 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Esperarei. (Manuel sai)<\/p>\n<p>\n    CENA II<\/p>\n<p>336 &#8211; ALCOFORADO (S&oacute;, sentando-se) &#8211; Hoje enfim eu a verei sozinha!<br \/>\n    Talvez que ela por um instante se dispa dos seus preconceitos de orgulho e<br \/>\n    de nobreza para ouvir as palavras singelas do mancebo que a t&atilde;o alto<br \/>\n    ousou elevar o seu pensamento; talvez que ela enfim se compade&ccedil;a dos<br \/>\n    meus sofrimentos, sofrimentos terr&iacute;veis que eu tenho suportado sem<br \/>\n    murmura&ccedil;&otilde;es, sem l&aacute;grimas. As murmura&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    poderiam despertar algum eco e as l&aacute;grimas trair-me!&#8230; Dir-lhe-ei<br \/>\n    tudo e depois que me assassinem, que me assassinem aos p&eacute;s dela, se<br \/>\n    o quiserem, que eu bendirei morrendo. (Torna-se pensativo).<\/p>\n<p>\n    CENA III<\/p>\n<p>ALCOFORADO, o VELHO ALCOFORADO<\/p>\n<p>337 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Ant&ocirc;nio!<\/p>\n<p>338 &#8211; ALCOFORADO (Levantando-se) &#8211; Meu pai! (Beija-lhe a m&atilde;o).<\/p>\n<p>339 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Em que pens&aacute;veis, filho?<\/p>\n<p>340 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Em v&oacute;s, meu pai, em os meus irm&atilde;os, nas<br \/>\n    pessoas que me estimam, naqueles que eu amo, nesta casa em que nasci, enfim,<br \/>\n    em tudo que vou deixar, e que talvez n&atilde;o encontre, mesmo se a morte<br \/>\n    me n&atilde;o colher por l&aacute;.<\/p>\n<p>341 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Se por l&aacute; morrerdes, meu filho, eu sofrerei<br \/>\n    tanto como quando vossa m&atilde;e nos deixou sozinhos na vida para ir gozar<br \/>\n    a bem-aventuran&ccedil;a nos c&eacute;us. No entanto, eu v&ocirc;-lo digo,<br \/>\n    estimarei mais a morte do meu filho que morrer pela sua p&aacute;tria, do<br \/>\n    que a vida tranq&uuml;ila do homem que vive sem nome e que morrer&aacute;<br \/>\n    sem gl&oacute;ria. Grandes s&atilde;o os vossos deveres, Ant&ocirc;nio, que<br \/>\n    tamb&eacute;m para isso sois nobre.<\/p>\n<p>342 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Meu pai!<\/p>\n<p>343 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Sim, mancebo; sois nobre, nobre com a nobreza<br \/>\n    aqui da terra e nobre com a nobreza de alma que &eacute; a melhor de todas<br \/>\n    porque direitamente nos vem do Senhor. Comprazo-me em pensar que sereis sempre<br \/>\n    digno do vosso nome e que os vossos feitos ter&atilde;o sempre o cunho da<br \/>\n    a&ccedil;&atilde;o que hoje praticastes &#8211; ardimento e dedica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>344 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o falemos nisso, senhor.<\/p>\n<p>345 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Pois em que havemos n&oacute;s de falar? Quando<br \/>\n    errais, eu vos digo bem severamente que errais e que nisso fazeis mal; por&eacute;m,<br \/>\n    quando praticardes bem, tamb&eacute;m vos direi com a sinceridade de um amigo<br \/>\n    e com a complac&ecirc;ncia de um pai que vos portastes bem e que vos estimo<br \/>\n    pelo bem que praticastes; nem quero que com isto vos vanglorieis, que vos<br \/>\n    n&atilde;o gabo a v&oacute;s quando aprecio uma virtude. Ant&ocirc;nio, &eacute;<br \/>\n    bem doce ao velho, que lentamente caminha para a sepultura, parar de vez em<br \/>\n    quando para derramar os olhos obscurecidos sobre o caminho que ele decorreu<br \/>\n    na vida e ver seus filhos que prometem honrar o seu nome e consolar a sua<br \/>\n    velhice. Sim, meu filho, eu vos digo que quando hoje arriscastes impavidamente<br \/>\n    a vossa vida para salvar a esposa do vosso protetor fizestes como faria o<br \/>\n    vosso velho pai quando ele tinha a vossa idade e sentia o sangue que lhe girava<br \/>\n    nas veias. (Momentos de sil&ecirc;ncio). Que vos disse o senhor duque?<\/p>\n<p>346 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Escreveu algumas cartas para os fronteiros de &Aacute;frica<br \/>\n    e capit&atilde;es do ex&eacute;rcito do ultramar.<\/p>\n<p>347 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Agradecestes; n&atilde;o foi assim?<\/p>\n<p>348 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Sim, meu pai. Rendi-lhe a&ccedil;&otilde;es de gra&ccedil;as,<br \/>\n    tanto pelas que ele teve a bondade de escrever, como pela que eu me atrevi<br \/>\n    a aceitar.<\/p>\n<p>349 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Como! Pois recusastes alguma?<\/p>\n<p>350 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Todas, menos a que em meu nome pedia um posto arriscado<br \/>\n    e perigoso que s&oacute; pudesse ser confiado &agrave; lealdade de um homem<br \/>\n    valente e resoluto.<\/p>\n<p>351 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Fizestes bem e&#8230; talvez fizestes mal. Eu amo<br \/>\n    a juventude ardida e corajosa que s&oacute; p&otilde;e a sua confian&ccedil;a<br \/>\n    em Deus e na sua espada; mas a juventude &eacute; inexperiente; ela n&atilde;o<br \/>\n    sabe que neste mundo nada se faz sem prote&ccedil;&atilde;o; era este o ditado<br \/>\n    de nossos av&oacute;s, que tamb&eacute;m ser&aacute; o dos nossos netos. Que<br \/>\n    fareis v&oacute;s sem ela, encontrando a cada passo estorvo e dificuldades?<br \/>\n    Ela nos &eacute; precisa; n&atilde;o para que sobremaneira se exaltem os nossos<br \/>\n    servi&ccedil;os mas para que eles sejam devidamente avaliados. E para o que<br \/>\n    serve aquela prote&ccedil;&atilde;o que &eacute; impetrada sem baixeza e nobremente<br \/>\n    concedida. No entanto, n&atilde;o vos repreenderei: fizestes bem.<\/p>\n<p>\n    CENA IV<\/p>\n<p>OS MESMOS, LAURA<\/p>\n<p>352 &#8211; LAURA &#8211; Enfim, eis-me aqui!<\/p>\n<p>353 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Boa noite, Laura.<\/p>\n<p>354 &#8211; LAURA &#8211; A vossa b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, meu pai.<\/p>\n<p>355 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Deus te aben&ccedil;oe, filha. Pois sa&iacute;ste<br \/>\n    a desoras sozinha?<\/p>\n<p>356 &#8211; LAURA &#8211; Levei comigo a velha Marta e o nosso velho criado nos acompanhava.<\/p>\n<p>357 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; E onde foste?<\/p>\n<p>358 &#8211; LAURA &#8211; Primeiro &agrave; sepultura de minha m&atilde;e!<\/p>\n<p>359 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Boa filha! N&atilde;o te esqueceste que amanh&atilde;<br \/>\n    &eacute; o dia de finados! E depois?<\/p>\n<p>360 &#8211; LAURA &#8211; Fui visitar as minhas amigas para lhes dizer que o nosso Ant&ocirc;nio<br \/>\n    se partia amanh&atilde;. Talvez me demorasse mais tempo; mas como pensei que<br \/>\n    est&aacute;veis c&aacute; sem mim, voltei mais que depressa para a vossa companhia.<\/p>\n<p>361 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; E Deus sabe qu&atilde;o pesada me seria a velhice<br \/>\n    sem ti, minha Laura! Os meus ouvidos j&aacute; se afizeram a ouvir a tua voz<br \/>\n    afetuosa e os meus olhos descansam com prazer sobre o teu rosto. &Eacute;s<br \/>\n    boa filha, Laura.<\/p>\n<p>362 &#8211; LAURA &#8211; Sois v&oacute;s que sois bom pai!<\/p>\n<p>363 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; E por que n&atilde;o bom amigo?<\/p>\n<p>364 &#8211; LAURA &#8211; Oh! E um amigo bem indulgente&#8230; N&atilde;o dizes nada, Ant&ocirc;nio?<\/p>\n<p>365 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Que te direi eu, minha irm&atilde;?<\/p>\n<p>366 &#8211; LAURA &#8211; N&atilde;o ouvis que pergunta &eacute; aquela, meu pai? O que<br \/>\n    me dir&aacute;s tu? Que tens muita pena de nos deixar e que voltar&aacute;s<br \/>\n    bem depressa para a nossa companhia.<\/p>\n<p>367 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Boa irm&atilde;! Sentir&aacute;s muitas saudades minhas?<\/p>\n<p>368 &#8211; LAURA &#8211; Muitas. (Mais baixo) Ant&ocirc;nio, n&atilde;o sejas temer&aacute;rio;<br \/>\n    n&atilde;o morras por l&aacute;!<\/p>\n<p>369 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Terias muito pesar?<\/p>\n<p>370 &#8211; LAURA &#8211; Talvez te n&atilde;o sobrevivesse.<\/p>\n<p>371 &#8211; O VELHO ALCOFORADO (Severo) &#8211; Laura!<\/p>\n<p>372 &#8211; LAURA (Ajoelhando-se) &#8211; Perd&atilde;o!<\/p>\n<p>373 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; S&oacute; o pobre velho &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    precisa de nenhum dos seus bem amados que lhe cerre os olhos na sua hora derradeira!<\/p>\n<p>374 &#8211; LAURA &#8211; Perd&atilde;o, meu pai! V&oacute;s sois forte e prudente e<br \/>\n    n&atilde;o sofrereis com a morte de dois dos vossos filhos que se esqueceram<br \/>\n    de v&oacute;s para s&oacute; cuidar de si.<\/p>\n<p>375 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Ingrata! De que me servir&aacute; a minha prud&ecirc;ncia<br \/>\n    contra o esquecimento de meus filhos?&#8230; De que me servir&aacute; a minha<br \/>\n    for&ccedil;a quando n&atilde;o fordes todos em redor de mim, v&oacute;s que<br \/>\n    fortaleceis a minha velhice e que sois a minha s&oacute; consola&ccedil;&atilde;o?&#8230;<br \/>\n    Por&eacute;m, de que me queixo eu?&#8230; O bom filho &eacute;. aquele que trata<br \/>\n    a seu pai com respeito; que o n&atilde;o ame, pouco importa. <\/p>\n<p>376 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Sois injusto, meu pai!<\/p>\n<p>377 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Tendes raz&atilde;o, Ant&ocirc;nio; eu me esquecia<br \/>\n    de v&oacute;s. Seja Deus louvado, que ainda tenho um filho!<\/p>\n<p>378 &#8211; LAURA &#8211; Meu pai, olhai para as minhas l&aacute;grimas e vede se elas<br \/>\n    vos n&atilde;o merecem compaix&atilde;o.<\/p>\n<p>379 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Eis-me a chorar como uma crian&ccedil;a. Levanta-te,<br \/>\n    filha: o pobre velho tresvariou com as vossas palavras loucas e foi injusto<br \/>\n    para contigo. Tu &eacute;s uma boa filha e amas bem a teu pai!<\/p>\n<p>380 &#8211; LAURA &#8211; De todo o meu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>381 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; E em todo tempo te h&aacute;s-de lembrar que ele<br \/>\n    precisa da tua vida nos poucos dias que lhe restam para vegetar sobre a terra.<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; assim?<\/p>\n<p>382 &#8211; LAURA &#8211; Sim, bom pai.<\/p>\n<p>383 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Deus foi misericordioso para comigo! Ledo e tranq&uuml;ilo,<br \/>\n    s&atilde;o de corpo e de esp&iacute;rito, vou caminhando para a eternidade<br \/>\n    acalentado pela voz de meus filhos. O prazer que desfruto &eacute; precursor<br \/>\n    da vida celeste e a minha velhice &eacute; a aurora da bem-aventuran&ccedil;a.<br \/>\n    Louvado seja o Senhor!<\/p>\n<p>\n    CENA V<\/p>\n<p>OS MESMOS, MANUEL<\/p>\n<p>384 &#8211; MANUEL &#8211; Eis a espada, meu irm&atilde;o. Boas noites, Laura.<\/p>\n<p>385 &#8211; LAURA &#8211; Boas noites, irm&atilde;o.<\/p>\n<p>386 &#8211; MANUEL &#8211; A vossa b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, meu pai.<\/p>\n<p>387 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Deus vos aben&ccedil;oe. Trocastes a vossa espada?<\/p>\n<p>388 &#8211; MANUEL &#8211; N&atilde;o, meu pai, empresto-a<\/p>\n<p>389 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Como! Pois ides sair, Ant&ocirc;nio?<\/p>\n<p>390 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Sim, meu pai: estava s&oacute; &agrave; espera da vossa<br \/>\n    b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o e da vossa permiss&atilde;o.<\/p>\n<p>391 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Ides&#8230;<\/p>\n<p>392 &#8211; ALCOFORADO (Hesitando) &#8211; Vou&#8230;<\/p>\n<p>393 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Concebo a vossa hesita&ccedil;&atilde;o. Como<br \/>\n    &eacute; amanh&atilde; o dia de finados, ides orar pelos mortos, como &eacute;<br \/>\n    de um bom crist&atilde;o.<\/p>\n<p>394 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o, senhor!<\/p>\n<p>395 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o!&#8230; Ah! Sim!&#8230; Como sois bom filho<br \/>\n    ides talvez antes de vos partirdes orar sobre a sepultura de vossa m&atilde;e.<\/p>\n<p>396 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o, senhor!<\/p>\n<p>397 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o!&#8230; Ah! bem. Como sois bom amigo, ides<br \/>\n    talvez despedir-vos dos vossos amigos.<\/p>\n<p>398 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o, senhor.<\/p>\n<p>399 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o! Ent&atilde;o a que sa&iacute;s?<\/p>\n<p>400 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o me interrogueis, meu pai!<\/p>\n<p>401 &#8211; O VELHO ALCOFORADO (Com desconfian&ccedil;a) &#8211; Ides sozinho?<\/p>\n<p>402 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Sozinho.<\/p>\n<p>403 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; E n&atilde;o quereis levar o nosso criado na vossa<br \/>\n    companhia?<\/p>\n<p>404 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o o posso levar.<\/p>\n<p>405 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Pois eu vos digo que n&atilde;o saireis sem que<br \/>\n    me digais primeiro o que vos obriga a sair.<\/p>\n<p>406 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Pe&ccedil;o-vos que me n&atilde;o interrogueis, meu pai.<\/p>\n<p>407 &#8211; O VELHO ALCOFORADO (Levantando-se) &#8211; Que vos n&atilde;o interrogue!&#8230;<br \/>\n    Pretendeis sair a desoras e sem testemunhas, de espada e com os vestidos concertados,<br \/>\n    e n&atilde;o quereis que vos interrogue!&#8230; Onde ides v&oacute;s, senhor?<\/p>\n<p>408 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Eu v&ocirc;-lo suplico.<\/p>\n<p>409 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Oh! Isto merece uma explica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Retirai-vos.<\/p>\n<p>\n    CENA VI<\/p>\n<p>O VELHO ALCOFORADO, ALCOFORADO<\/p>\n<p>410 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Vede a que me obrigam os vossos mist&eacute;rios,<br \/>\n    que oxal&aacute; n&atilde;o sejam escandalosos!&#8230; Fazei que um pai expulse<br \/>\n    seus filhos da sua presen&ccedil;a porque ele ter&aacute; talvez de vos dizer<br \/>\n    algumas dessas r&iacute;gidas verdades que por eles n&atilde;o devem ser ouvidas.<br \/>\n    Onde ides, mancebo?<\/p>\n<p>411 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Senhor, n&atilde;o o posso dizer.<\/p>\n<p>411-A &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; V&oacute;s n&atilde;o ides cumprir com os deveres<br \/>\n    de amigo, nem de filho, nem de crist&atilde;o; ao que ides, pois? Passar talvez<br \/>\n    a noite em algum lupanar, ou sobre a banca do jogo, ou em orgias de homens<br \/>\n    intemperantes e envilecidos, ou escalar algum muro como ladr&atilde;o noturno<br \/>\n    para roubar a honra de alguma fam&iacute;lia honesta, ou bater sorrateiramente<br \/>\n    a alguma porta humilde para pagar a recep&ccedil;&atilde;o cordial que durante<br \/>\n    o dia vos fez algum homem honrado e franco com a trai&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    um libertino. &Eacute; infame!<\/p>\n<p>412 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Meu pai!<\/p>\n<p>413 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Dizei, senhor, dizei na vossa consci&ecirc;ncia<br \/>\n    que n&atilde;o ides praticar alguma a&ccedil;&atilde;o criminosa.<\/p>\n<p>414 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Em consci&ecirc;ncia n&atilde;o o sei.<\/p>\n<p>415 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Sei-o eu, senhor!&#8230; Sei que o homem que marcha<br \/>\n    treda e cautelosamente apalpando as trevas e que n&atilde;o ousa confessar<br \/>\n    altamente as suas a&ccedil;&otilde;es, muito se assemelha &agrave;quela ave<br \/>\n    de mau agouro, cujos olhos n&atilde;o podem suportar a luz do dia, cujo canto<br \/>\n    &eacute; um an&uacute;ncio de desventura; sei que t&atilde;o grande mist&eacute;rio<br \/>\n    pode encobrir uma virtude muito preclara, ou um v&iacute;cio muito vergonhoso.<br \/>\n    Dizei que ides praticar uma dessas virtudes cobertas com o precioso manto<br \/>\n    da mod&eacute;stia, di&aacute;fano para Deus, impenetr&aacute;vel para os<br \/>\n    homens.<\/p>\n<p>416 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Nunca vos menti, senhor.<\/p>\n<p>417 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; E, se o houv&eacute;sseis feito, a Provid&ecirc;ncia<br \/>\n    Divina que vos guiasse no caminho da vida porque ter&iacute;eis morrido para<br \/>\n    mim. Talvez me julgueis severo por me crerdes pouco sens&iacute;vel ou por<br \/>\n    supordes talvez que o tempo, que gelou o sangue nas minhas veias, j&aacute;<br \/>\n    me fez esquecer da quadra em que fui da vossa idade, em que tamb&eacute;m<br \/>\n    fui novo e cheio de esperan&ccedil;as na vida e em que tamb&eacute;m dizia<br \/>\n    comigo o que agora l&aacute; v&oacute;s estais dizendo convosco: &#8211; al&eacute;m,<br \/>\n    naquele marco deixarei este caminho e tomarei outra vereda. N&atilde;o; sou<br \/>\n    indulgente e pouco severo a ponto de vos confessar que tamb&eacute;m fui novo<br \/>\n    e que alguns erros cometi quando tinha a vossa idade. Pois quem &eacute; perfeito<br \/>\n    neste mundo? &#8211; Mas eu vos asseguro que a minha vida escrita, conquanto em<br \/>\n    parte me pesasse dela, n&atilde;o me traria um s&oacute; remorso, nem me desconceituaria<br \/>\n    a minha velhice: asseguro-vos ainda que, em v&eacute;speras de um dia duas<br \/>\n    vezes santificado pela religi&atilde;o e pelo sentimento, nunca abandonei<br \/>\n    eu o teto de meus pais, como homem sem cren&ccedil;a e filho pouco respeitoso,<br \/>\n    para me entregar &agrave;s car&iacute;cias de uma criatura sem pejo. H&aacute;<br \/>\n    limites em tudo, mancebo.<\/p>\n<p>418 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Senhor, por que me supondes capaz de t&atilde;o negro<br \/>\n    feito, ou por que vos mere&ccedil;o tal conceito? Acaso me tenho eu mostrado<br \/>\n    revel aos vossos conselhos, ou terei desaprendido as vossas li&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    N&atilde;o, senhor: se n&atilde;o vou praticar uma virtude, tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; o v&iacute;cio nem o crime quem l&aacute; fora me est&aacute;<br \/>\n    chamando. N&atilde;o &eacute; criminosa a a&ccedil;&atilde;o que vou praticar;<br \/>\n    juro-vos&#8230;<\/p>\n<p>419 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Jurai, senhor, jurai! No meu tempo o homem que<br \/>\n    ambicionava uma espada, ou que j&aacute; a podia trazer consigo, tinha o juramento<br \/>\n    por uma coisa veneranda e sagrada e usava dele apenas nas circunst&acirc;ncias<br \/>\n    de momento. Era o vassalo que jurava lealdade a seu rei; era o cidad&atilde;o<br \/>\n    que jurava amor &agrave; sua p&aacute;tria; era o guerreiro que jurava morrer<br \/>\n    com o seu companheiro de armas. Por isto o juramento era entre eles uma religi&atilde;o<br \/>\n    e os mais altos como os mais humildes n&atilde;o se atreviam a quebr&aacute;-lo.<br \/>\n    Hoje, por&eacute;m, fizeram dele uma f&oacute;rmula para os usos da vida e<br \/>\n    a crian&ccedil;a desde o ber&ccedil;o aprende a balbuciar essa palavra vazia<br \/>\n    de sentido que noutro tempo foi s&iacute;mbolo de f&eacute; e era cond&atilde;o<br \/>\n    de prod&iacute;gios.<\/p>\n<p>420 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Como vos poderei eu confiar um segredo que me n&atilde;o<br \/>\n    pertence? H&aacute; bem tempo que v&ocirc;-lo teria dito, se ele fosse todo<br \/>\n    meu, e se a minha confiss&atilde;o a ningu&eacute;m mais comprometesse. Eu<br \/>\n    vos respeito como meu pai, eu vos amo como amigo, eu vos estimo como homem<br \/>\n    probo e cheio de integridade; sei que &eacute; imposs&iacute;vel trairdes<br \/>\n    um segredo: mas devo eu tra&iacute;-lo primeiro? Aconselhai-me, v&oacute;s<br \/>\n    que tendes experi&ecirc;ncia da vida: dizei-mo, v&oacute;s que sois meu mestre;<br \/>\n    posso eu faz&ecirc;-lo?<\/p>\n<p>421 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; O segredo &eacute; inviol&aacute;vel; tendes raz&atilde;o.<\/p>\n<p>422 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Deixai-me ent&atilde;o sair, bom pai. Oh! Se soub&eacute;sseis<br \/>\n    quanto sofro por vos n&atilde;o poder confiar tudo!&#8230; sede indulgente mais<br \/>\n    uma vez, talvez a derradeira. Esta demora me tem martirizado; largos anos<br \/>\n    tenho vivido nestes curtos instantes! Deixai-me partir.<\/p>\n<p>423 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; E n&atilde;o h&aacute; perigo?<\/p>\n<p>424 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Nenhum, nenhum! Eu v&ocirc;-lo asseguro.<\/p>\n<p>425 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; E aquela espada?<\/p>\n<p>426 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Foi um capricho de meu irm&atilde;o que n&atilde;o sabe<br \/>\n    a que vou. Dir-lhe-ia um segredo que vos n&atilde;o digo a v&oacute;s? Bem<br \/>\n    vedes que nada arrisco: deixarei a espada e &eacute; at&eacute; melhor que<br \/>\n    eu v&aacute; desarmado.<\/p>\n<p>427 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Levar&aacute;s a espada!<\/p>\n<p>428 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Bom pai, quanto vos agrade&ccedil;o!<\/p>\n<p>429 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Vai, e Deus seja contigo.<\/p>\n<p>430 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Irei e voltarei bem depressa. (Cingindo a espada) &#8211; O<br \/>\n    mais depressa que eu puder. Vereis que nada me acontece. Meu Deus! Como partiria<br \/>\n    eu t&atilde;o alegre, se de alguma coisa me arreceasse!<\/p>\n<p>431 &#8211; O VELHO ALCOFORADO &#8211; Vai, meu filho.<\/p>\n<p>432 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Nada receeis. Adeus, bom pai. (Vai-se)<\/p>\n<p>433 &#8211; O VELHO ALCOFORADO (Ficando pensativo: alguns dobres ao longe) &#8211; Meu<br \/>\n    filho! meu filho!&#8230; (Vai-se).<\/p>\n<p>\n    CENA VII<\/p>\n<p>Uma c&acirc;mara no Pal&aacute;cio do Duque<\/p>\n<p>434 &#8211; O DUQUE (Entrando desalinhado e com os cabelos em desordem.) &#8211; O javali<br \/>\n    esteve a despeda&ccedil;&aacute;-la&#8230; o ven&aacute;bulo ro&ccedil;ou-lhe<br \/>\n    o rosto&#8230; e eu vejo ainda o cadafalso de meu pai!&#8230; Crime ou fatalidade,<br \/>\n    um deles me est&aacute; iminente; mas qual? Isto n&atilde;o &eacute; supersti&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &eacute; um press&aacute;gio, uma intui&ccedil;&atilde;o do futuro. Vejo o<br \/>\n    rel&acirc;mpago, o raio n&atilde;o tardar&aacute; a cair&#8230; mas sobre quem?&#8230;<br \/>\n    Por qu&ecirc;?&#8230; n&atilde;o o sei, mas &eacute; inevit&aacute;vel!&#8230; Oh!<br \/>\n    Venha embora o azar maldito, que n&atilde;o ser&aacute; pior que esta ansiedade!&#8230;<\/p>\n<p>\n    CENA VIII<\/p>\n<p>O DUQUE, FERN&Atilde;O<\/p>\n<p>435 &#8211; FERN&Atilde;O (Da porta, com uma carta) &#8211; Senhor Duque!<\/p>\n<p>436 &#8211; O DUQUE &#8211; Entrai, Fern&atilde;o, (Senta-se).<\/p>\n<p>437 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Senhor! Que tendes v&oacute;s? arrisca a vida por generosidade!&#8230;<br \/>\n    Chama esse pajem!&#8230; N&atilde;o. n&atilde;o&#8230; (Com voz rouca) Seria divulgar<br \/>\n    a minha vergonha!<\/p>\n<p>438 &#8211; O DUQUE &#8211; Nada: dai c&aacute;. (L&ecirc; a carta e atira-a sobre a<br \/>\n    mesa) El-rei nos concede os d&iacute;zimos do pescado em Lisboa e n&atilde;o<br \/>\n    sei em que outras terras: para que os quero eu?<\/p>\n<p>439 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; &Eacute; uma indeniza&ccedil;&atilde;o do que t&atilde;o<br \/>\n    desgra&ccedil;adamente sofreu o senhor vosso pai e do que v&oacute;s mesmo<br \/>\n    haveis sofrido na vossa fazenda.<\/p>\n<p>440 &#8211; O DUQUE &#8211; Velho, n&atilde;o assististes a meu pai no seu derradeiro<br \/>\n    instante?<\/p>\n<p>441 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Fui eu, senhor: n&atilde;o vos contei j&aacute; essa<br \/>\n    hist&oacute;ria?<\/p>\n<p>442 &#8211; O DUQUE &#8211; Sim; eu, por&eacute;m, gosto de recordar dessa desgra&ccedil;a<br \/>\n    para adormecer a minha dor com o excesso do sofrimento. Meu pai, mo&ccedil;o,<br \/>\n    nobre, leal e valente, foi decapitado e exposto no cadafalso como se fosse<br \/>\n    um miser&aacute;vel! Fern&atilde;o, conheceis algu&eacute;m mais desditoso?<\/p>\n<p>443 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; V&oacute;s, senhor.<\/p>\n<p>444 &#8211; O DUQUE &#8211; Eu! Que sabeis v&oacute;s?<\/p>\n<p>445 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Senhor, eu vos hei servido leal e firmemente. Quando<br \/>\n    vosso pai ouviu a sua senten&ccedil;a, tomou-me &agrave; parte e me fez jurar<br \/>\n    que eu vos salvaria a custo da minha pr&oacute;pria vida. Quando acabaram<br \/>\n    de cometer aquela sanguinolenta injusti&ccedil;a, fui buscar-vos, e com vosso<br \/>\n    irm&atilde;o fugimos, e caminhamos noite e dia. Foi somente quando pisamos<br \/>\n    a terra hospitaleira de Espanha que eu tive l&aacute;grimas para chorar e<br \/>\n    algumas palavras para vos dizer.<\/p>\n<p>446 &#8211; O DUQUE &#8211; Sois fiel, Fern&atilde;o.<\/p>\n<p>447 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Depois disso eu vos tenho sempre acompanhado no desterro<br \/>\n    como na opul&ecirc;ncia e nunca vos pedi pr&ecirc;mio nem sequer minguado,<br \/>\n    n&atilde;o de servi&ccedil;os relevantes, mas dos longos anos que vos hei<br \/>\n    servido.<\/p>\n<p>448 &#8211; O DUQUE &#8211; Sois fiel e desinteressado, Fern&atilde;o, mais amigo do<br \/>\n    que servo. Mas o que quereis com isso?<\/p>\n<p>449 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Assim, pois, senhor, se me escapar algumas palavras<br \/>\n    incompat&iacute;veis com o respeito que vos &eacute; devido, v&oacute;s desculpareis<br \/>\n    a franqueza do velho que vos respeita como a seus senhor e,&#8230; perdoai-lhe,<br \/>\n    que vos ama como a seu filho!<\/p>\n<p>450 &#8211; O DUQUE &#8211; Falai! Falai!<\/p>\n<p>451 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Eu v&ocirc;-lo direi de joelhos para que me perdoeis<br \/>\n    o arrojo do vosso servo. Senhor, n&atilde;o &eacute; bem desgra&ccedil;ado<br \/>\n    o nobre tra&iacute;do na sua honra?<\/p>\n<p>452 &#8211; O DUQUE &#8211; Vossas palavras s&atilde;o profundas e contadas, v&oacute;s<br \/>\n    sois prudente e cauteloso: eu vos escuto!<\/p>\n<p>453 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Senhor, n&atilde;o confiastes a algu&eacute;m a vossa<br \/>\n    honra?<\/p>\n<p>454 &#8211; O DUQUE &#8211; A ningu&eacute;m. Somos o primeiro a velar sobre ela e n&atilde;o<br \/>\n    a fiamos de ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>455 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Senhor, n&atilde;o a confiastes a algu&eacute;m?<\/p>\n<p>456 &#8211; O DUQUE &#8211; A ningu&eacute;m!&#8230; Ah! (Levanta-se batendo com a m&atilde;o<br \/>\n    na testa e agarrando no bra&ccedil;o de Fern&atilde;o) &#8211; Que sabes tu da duquesa?<\/p>\n<p>457 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Sede prudente, senhor, eu v&ocirc;-lo suplico.<\/p>\n<p>458 &#8211; O DUQUE &#8211; Fala!<\/p>\n<p>459 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; N&atilde;o vos arrebateis, senhor; ouvi-me primeiro.<\/p>\n<p>460 &#8211; O DUQUE &#8211; Fala!<\/p>\n<p>461 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Oh! Que bem me arreceava eu de vos confiar este segredo!<\/p>\n<p>462 &#8211; O DUQUE &#8211; Fala, carrasco!<\/p>\n<p>463 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Eu v&ocirc;-lo direi. O pajem que esta manh&atilde;<br \/>\n    foi anunciar a vossa visita &agrave; senhora duquesa encontrou Alcoforado<br \/>\n    a seus p&eacute;s.<\/p>\n<p>464 &#8211; O DUQUE &#8211; Outra prova!<\/p>\n<p>465 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; O vosso rosto me atemoriza!<\/p>\n<p>466 &#8211; O DUQUE &#8211; Continua!<\/p>\n<p>467 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; O senhor Alcoforado traz no barrete um la&ccedil;o<br \/>\n    da fita que a senhora duquesa costumava de trazer ao colo.<\/p>\n<p>468 &#8211; O DUQUE &#8211; Eu vi! Fui eu quem lha dei. (Ouve-se o dobre ao longe) Abre<br \/>\n    aquelas janelas.<\/p>\n<p>469 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Senhor, a noite vai fria.<\/p>\n<p>470 &#8211; O DUQUE &#8211; Abre-as; gosto daqueles sons. (Fern&atilde;o vai abrir as<br \/>\n    janelas) E eu o elogiei diante dela! Muitas vezes o chamei &agrave; sua presen&ccedil;a!<br \/>\n    E ainda hoje!&#8230; Que sabes mais?<\/p>\n<p>471 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Rozeimo, o pajem da senhora duquesa, levou-lhe hoje<br \/>\n    uma carta.<\/p>\n<p>472 &#8211; O DUQUE &#8211; Morte e sangue!<\/p>\n<p>473 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Senhor! Senhor, sede corajoso; n&atilde;o vos deixeis<br \/>\n    arrebatar pela vossa c&oacute;lera, pesai a vossa justi&ccedil;a. A carta<br \/>\n    era de Paula!<\/p>\n<p>474 &#8211; O DUQUE &#8211; Algoz, e que me importa Paula?<\/p>\n<p>475 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; O pajem assim o julgou e abriu-a indiscretamente. Dizia<br \/>\n    a carta que &agrave; meia-noite uma corda estaria pendente do balc&atilde;o<br \/>\n    da senhora duquesa.<\/p>\n<p>476 &#8211; O DUQUE &#8211; Est&uacute;pido! Est&uacute;pido! Est&uacute;pido!<\/p>\n<p>477 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Senhor! Senhor!<\/p>\n<p>478 &#8211; O DUQUE &#8211; Julguei-o leal porque era novo; julguei-o generoso porque<br \/>\n    o vi arriscar a vida e n&atilde;o conjecturei logo que se n&atilde;o arrisca<br \/>\n    a vida por generosidade!&#8230; Chama esse pajem!&#8230; N&atilde;o&#8230; n&atilde;o&#8230;<br \/>\n    (Com voz rouca) Seria divulgar a minha vergonha!<\/p>\n<p>479 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Senhor, as minhas palavras n&atilde;o s&atilde;o evangelho;<br \/>\n    pode ser que me iludissem: moderai-vos!<\/p>\n<p>480 &#8211; O DUQUE &#8211; Nasceste em minha casa, acompanhaste a meu pai na sua &uacute;ltima<br \/>\n    hora, acompanhaste-me no meu desterro e encaneceste no meu servi&ccedil;o;<br \/>\n    pois juro-te que, se esta noite o infame n&atilde;o for encontrado neste pal&aacute;cio,<br \/>\n    morrer&aacute;s como um c&atilde;o!<\/p>\n<p>481 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Ele vir&aacute;, senhor.<\/p>\n<p>482 &#8211; O DUQUE &#8211; Vir&aacute;!&#8230; Tu me insultas, velho!<\/p>\n<p>483 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Perd&atilde;o! Perd&atilde;o!<\/p>\n<p>484 &#8211; () DUQUE &#8211; O cobarde! O cobarde!<\/p>\n<p>485 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; V&oacute;s empalideceis, senhor; as vossas m&atilde;os<br \/>\n    est&atilde;o frias!&#8230;<\/p>\n<p>486 &#8211; O DUQUE &#8211; N&atilde;o te importes. Escuta. Eu posso morrer antes da<br \/>\n    meia-noite&#8230;<\/p>\n<p>487 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; N&atilde;o digais tal, senhor.<\/p>\n<p>488 &#8211; O DUQUE &#8211; Escuta. Encobre a minha morte, distribui gente armada pelo<br \/>\n    parque; deixem-no entrar: entrado ele, toma as sa&iacute;das; tomadas elas,<br \/>\n    vai ao quarto da duquesa, arromba as portas, assassina-os, assassina-os!<\/p>\n<p>489 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Senhor, eu v&ocirc;-lo pe&ccedil;o de joelhos: n&atilde;o<br \/>\n    me obrigueis a cometer um crime no fim da minha velhice.<\/p>\n<p>490 &#8211; O DUQUE &#8211; &Eacute; justi&ccedil;a; jura que o far&aacute;s.<\/p>\n<p>491 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Senhor, &eacute; justi&ccedil;a tomada por v&oacute;s,<br \/>\n    mas n&atilde;o tomada por mim!<\/p>\n<p>492 &#8211; O DUQUE &#8211; Jura, ou eu te apunhalo!<\/p>\n<p>493 &#8211; FERN&Atilde;O &#8211; Eu o juro!<\/p>\n<p>494 &#8211; O DUQUE &#8211; Vai. (Fern&atilde;o sai)<\/p>\n<p>CENA IX<\/p>\n<p>495 &#8211; O DUQUE (S&oacute;) &#8211; Eu estava sufocado! (Corre a um arm&aacute;rio,<br \/>\n    tira alguma armas que arrola sobre a mesa) Sangue!&#8230; Sangue!&#8230; Sangue (Cai).<\/p>\n<p>\n    FIM DO ATO SEGUNDO E DO<br \/>\n    TERCEIRO QUADRO<\/p>\n<h2><a name=\"3\">ATO TERCEIRO<\/a><\/h2>\n<p>QUADRO QUARTO<\/p>\n<p>A cena representa a c&acirc;mara da duquesa: um leito de cortinados, cadeira<br \/>\n    e mesa.<\/p>\n<p>\n    CENA I<\/p>\n<p>496 &#8211; PAULA (S&oacute;, entrando com uma luz) &#8211; Ainda n&atilde;o veio!&#8230;<br \/>\n    Com efeito, para um namorado &eacute; ser bem esquecido. Ah! Se fosse comigo,<br \/>\n    eu lhe cantaria uma ladainha bem comprida para o ensinar a ser descort&ecirc;s<br \/>\n    com senhoras. (Chegando-se &agrave; janela) Como est&aacute; escura a noite!&#8230;<br \/>\n    (Recuando) Jesus, Senhor!&#8230; Parece-me que vi lampejo de armas por entre as<br \/>\n    folhas do bosque. (Observando de novo) J&aacute; nada vejo!&#8230; Foi ilus&atilde;o.<br \/>\n    (Fecha a janela)<\/p>\n<p>\n    CENA II<\/p>\n<p>A DUQUESA, PAULA<\/p>\n<p>497 &#8211; A DUQUESA &#8211; Ainda n&atilde;o veio?<\/p>\n<p>498 &#8211; PAULA &#8211; N&atilde;o, senhora Duquesa; e todavia &eacute; quase meia-noite!<\/p>\n<p>499 &#8211; A DUQUESA &#8211; Est&aacute; bem. V&ecirc; todos descansam em pal&aacute;cio.<\/p>\n<p>500 &#8211; PAULA &#8211; Nada mais quereis de mim?<\/p>\n<p>501 &#8211; A DUQUESA &#8211; Nada mais. (Paula sai)<\/p>\n<p>\n    CENA III<\/p>\n<p>502 &#8211; A DUQUESA (S&oacute;, sentando-se) &#8211; Alcoforado tem alma de fogo; por&eacute;m,<br \/>\n    &eacute; respeitoso e comedido!&#8230; Pobre mo&ccedil;o! Quis dizer-me adeus<br \/>\n    sem que nos vissem e partir&aacute; feliz com a id&eacute;ia de que por ele<br \/>\n    me interesso. Podia eu fazer menos em favor de quem t&atilde;o generosamente<br \/>\n    me salvou a vida? N&atilde;o. .. Mas talvez fui imprudente.<\/p>\n<p>CENA IV<\/p>\n<p>A DUQUESA, ALCOFORADO (Saltando pela janela)<\/p>\n<p>5OlA &#8211; A DUQUESA (Assustada) &#8211; Ah!<\/p>\n<p>502B &#8211; ALCOFORADO (Fechando a janela) &#8211; Sou eu, senhora, n&atilde;o vos assusteis.<\/p>\n<p>503-A DUQUESA (Sentando-se) &#8211; Vindes armado!<\/p>\n<p>504 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Nada receeis da minha espada, Senhora Duquesa! Foi um<br \/>\n    capricho de meu irm&atilde;o e uma ordem de meu pai que me obrigaram a traz&ecirc;-la.<br \/>\n    (P&otilde;e a espada sobre a mesa) Permiti-me, senhora, que eu vos agrade&ccedil;a<br \/>\n    bem sincera, bem cordialmente, o sacrif&iacute;cio que hoje por mim fizestes.<br \/>\n    Favor t&atilde;o grande n&atilde;o vos posso eu pagar com palavras, nem o<br \/>\n    meu sangue, todo que fosse, bastaria para o resgatar.<\/p>\n<p>505 &#8211; A DUQUESA &#8211; Est&aacute; bem, senhor.<\/p>\n<p>506 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Deixai que vos diga tudo quanto me inspira o meu reconhecimento<br \/>\n    para que n&atilde;o fiqueis julgando que abrigastes a um ingrato. Depois que<br \/>\n    condescendestes com o meu pedido, e quando me partia da vossa presen&ccedil;a,<br \/>\n    aventei todo o perigo que nesta entrevista podia haver para v&oacute;s, que<br \/>\n    eu por mim nada receio; e eu v&ocirc;-lo confessarei, pasmei do meu desmarcado<br \/>\n    arrojo em v&ocirc;-la pedir e admirei-me da vossa muita bondade em ma concederdes,<br \/>\n    quando me poder&iacute;eis ter feito expulsar da vossa presen&ccedil;a como<br \/>\n    um louco, e de feito eu o era; por&eacute;m, certo que, se me neg&aacute;sseis<br \/>\n    esta gra&ccedil;a, eu me haveria por mui desgra&ccedil;ado, por mui digno<br \/>\n    de l&aacute;stima e de compaix&atilde;o.<\/p>\n<p>507 &#8211; A DUQUESA &#8211; Deixemos isso, senhor; partireis sempre amanh&atilde;?<\/p>\n<p>508 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Partirei amanh&atilde;: irei espalhar as minhas m&aacute;goas<br \/>\n    por terras long&iacute;nquas; irei por clima estranho em busca de um nome<br \/>\n    que algum dia possais pronunciar como o de um amigo, que n&atilde;o como o<br \/>\n    de um servo.<\/p>\n<p>509 &#8211; A DUQUESA &#8211; Senhor!<\/p>\n<p>510 &#8211; ALCOFORADO &#8211; De um servo, sim. Para v&oacute;s, filha do primeiro duque<br \/>\n    de Espanha, mulher do primeiro duque de Portugal, o que &eacute; um mo&ccedil;o<br \/>\n    fidalgo que est&aacute; ao servi&ccedil;o da vossa casa? Julgais, acaso que<br \/>\n    eu n&atilde;o tenha pensado nestas coisas durante muitas horas, durante noites<br \/>\n    bem compridas? Pois em verdade vos digo, senhora, que eu tenho muitas vezes<br \/>\n    amaldi&ccedil;oado a minha estrela que me fez nascer t&atilde;o baixo, quando<br \/>\n    a sorte vos colocou t&atilde;o sobranceira aos outros, que o meu nome, por<br \/>\n    muito famigerado que venha a ser, jamais n&atilde;o poder&aacute; ser equiparado<br \/>\n    ao vosso. E desdita; mas de que vale queixar-me?<\/p>\n<p>511 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o vos compreendo, senhor!<\/p>\n<p>512 &#8211; ALCOFORADO &#8211; E fora maravilha que me compreend&ecirc;sseis!&#8230; Falar-vos-ei<br \/>\n    pois claramente. Bem sabeis que eu parto amanh&atilde;; o que, por&eacute;m,<br \/>\n    v&oacute;s n&atilde;o sabeis &eacute; que desde crian&ccedil;a um pensamento<br \/>\n    fatal se enraizou profundamente na minha alma. N&atilde;o viverei muito! A<br \/>\n    outra por certo n&atilde;o diria eu isto, que se riria da minha credulidade;<br \/>\n    digo-vos, por&eacute;m, a v&oacute;s, porque vos falo sem rebu&ccedil;o e<br \/>\n    porque quero que leiais na minha alma como em um livro aberto que podeis folhear<br \/>\n    &agrave; vontade. Partirei e n&atilde;o voltarei mais.<\/p>\n<p>513 &#8211; A DUQUESA &#8211; Temos boas esperan&ccedil;as de que haveis de voltar, Senhor<br \/>\n    Alcoforado.<\/p>\n<p>514 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o voltarei! Assim pois, no &uacute;ltimo dia<br \/>\n    que me &eacute; dado passar convosco, permiti-me que vos revele um segredo;<br \/>\n    n&atilde;o v&ocirc;-lo confiaria, a n&atilde;o ser esta circunst&acirc;ncia:<br \/>\n    eu o guardaria comigo at&eacute; o &uacute;ltimo da vida, eu o encobriria<br \/>\n    a todos os olhos e a terra, que me h&aacute;-de tragar o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    inteiro e n&atilde;o sabido o tragaria tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>515 &#8211; A DUQUESA &#8211; Dizei.<\/p>\n<p>516 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Quando o houverdes escutado, Senhora Duquesa, podereis<br \/>\n    calcar-me aos p&eacute;s, que vos n&atilde;o oporei resist&ecirc;ncia; podereis<br \/>\n    enxovalhar-me o rosto sem que eu descerre um suspiro; podereis rasgar-me,<br \/>\n    espeda&ccedil;ar-me o cora&ccedil;&atilde;o!&#8230; (Caindo de joelhos) Eu vos<br \/>\n    amo!&#8230;<\/p>\n<p>517 &#8211; A DUQUESA (Levantando-se) &#8211; Senhor!<\/p>\n<p>518 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o fujais, senhora, n&atilde;o fujais. Eu sou<br \/>\n    uma criatura fraca e inofensiva, que eu n&atilde;o sei sen&atilde;o sofrer<br \/>\n    silenciosamente e verter l&aacute;grimas n&atilde;o vistas. Notai que se eu<br \/>\n    vos revelo este segredo &eacute; porque tenho certo que a minha presen&ccedil;a<br \/>\n    nunca mais ofender&aacute; os vossos olhos, nem h&aacute;-de atrair o sangue<br \/>\n    &agrave; flor de vosso rosto. Parto e morrerei; mas dizei, dizei ao menos<br \/>\n    que vos compadeceis da minha loucura e que n&atilde;o amaldi&ccedil;oareis<br \/>\n    ao m&iacute;sero que se deixou render por um amor insensato!<\/p>\n<p>519 &#8211; A DUQUESA &#8211; Levantai-vos: e depois de me ouvirdes conhecereis que &eacute;<br \/>\n    da vossa honra fugir de mim e que me conv&eacute;m n&atilde;o vos tornar a<br \/>\n    ver. Eu vos amo, senhor!<\/p>\n<p>520 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Potestades do c&eacute;u!<\/p>\n<p>521 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o vos iludais: vinde, vede o que est&aacute; neste<br \/>\n    leito.<\/p>\n<p>522 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Vossos filhos!<\/p>\n<p>523 &#8211; A DUQUESA &#8211; Sim, meus filhos. E &agrave; cabeceira de meus filhos que<br \/>\n    eu vos direi que vos amo; eu vos amo porque sois bom, porque sois nobre, porque<br \/>\n    sois generoso; eu vos amo porque tendes um bra&ccedil;o forte, um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    extremoso, uma alma inocente; eu vos amo porque vos devo a vida, porque n&atilde;o<br \/>\n    tendes m&atilde;e e eu vos quero servir de m&atilde;e porque sofreis e eu<br \/>\n    quero ser vossa irm&atilde;. &Eacute; um amor compassivo e desvelado, que<br \/>\n    poder&aacute; ser reprovado na terra, mas que eu n&atilde;o creio que o seja<br \/>\n    nos c&eacute;us. Entendeis-me agora?<\/p>\n<p>524 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Oh! Senhora Duquesa, v&oacute;s sois bela, pura como os<br \/>\n    anjos, sois boa e grande como Deus; Vossas palavras s&atilde;o como um b&aacute;lsamo<br \/>\n    de vida e tornam o homem superior a si mesmo! (Dobres).<\/p>\n<p>525 &#8211; A DUQUESA &#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>526 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Que tendes, senhora?<\/p>\n<p>527 &#8211; A DUQUESA &#8211; Aqueles sons&#8230; n&atilde;o ouvis?<\/p>\n<p>528 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Que importam! Quando o homem &eacute; feliz parece que<br \/>\n    toda a natureza se esmera em proclamar a sua ventura. Que vale a voz do trov&atilde;o<br \/>\n    quando o contentamento nos mora dentro da alma!<\/p>\n<p>529 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o os quisera escutar!<\/p>\n<p>530 &#8211; PAULA (De fora) &#8211; Andam homens armados pelos corredores. Acautelai-vos!<\/p>\n<p>531 &#8211; ALCOFORADO (Correndo &agrave; janela) &#8211; Cortaram a corda! E fui eu<br \/>\n    quem vos lancei neste abismo!<\/p>\n<p>532 &#8211; A DUQUESA &#8211; Trata-se de v&oacute;s, senhor; vejamos se vos podemos<br \/>\n    salvar!<\/p>\n<p>533 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Estais salva. Dizei somente que me perdoais, para que<br \/>\n    eu morra consolado.<\/p>\n<p>534 &#8211; A DUQUESA &#8211; Que ides v&oacute;s fazer?<\/p>\n<p>535 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Oh! Nada! Lan&ccedil;ar-me-ei do vosso balc&atilde;o abaixo<br \/>\n    e talvez que ainda me sobrem for&ccedil;as para ir morrer fora do vosso parque.<\/p>\n<p>535A &#8211; A DUQUESA &#8211; Tendes alma sublime, Alcoforado; eu contudo n&atilde;o<br \/>\n    posso aceitar o vosso sacrif&iacute;cio, que a vossa morte seria terr&iacute;vel<br \/>\n    testemunho contra a minha inoc&ecirc;ncia<\/p>\n<p>536 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Quem se atreveria a responsabilizar-vos pela morte de<br \/>\n    um miser&aacute;vel que aparecesse sem vida por baixo das vossas janelas?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; este o &uacute;ltimo recurso?<\/p>\n<p>537 &#8211; A DUQUESA &#8211; N&atilde;o, esperai. (Vai &agrave; janela e recua aterrada)<br \/>\n    Meu Deus! O parque est&aacute; todo iluminado&#8230; Que eu n&atilde;o cometesse<br \/>\n    culpa nem crime e que tenha de ver manchada a minha reputa&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>538 &#8211; VOZ (De fora) &#8211; Abri! Abri, Senhora Duquesa!<\/p>\n<p>539 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Maldito! Maldito!<\/p>\n<p>540 &#8211; A DUQUESA &#8211; Calai-vos! Quem bate?<\/p>\n<p>541 &#8211; Voz (De fora) &#8211; O Senhor Duque vos quer falar.<\/p>\n<p>542 &#8211; A DUQUESA &#8211; Deixai-me vestir. Alcoforado, aqui, escondei-vos aqui por<br \/>\n    detr&aacute;s desta alcatifa; n&atilde;o apare&ccedil;ais sen&atilde;o em<br \/>\n    &uacute;ltimas circunst&acirc;ncias&#8230; prometei-mo. A vossa espada, o vosso<br \/>\n    barrete. tomai tudo.<\/p>\n<p>543 &#8211; ALCOFORADO (De joelhos) &#8211; Oh! Senhora, ainda &eacute; tempo, deixai-me<br \/>\n    precipitar daquela janela e sereis salva.<\/p>\n<p>544 &#8211; O DUQUE (De fora) &#8211; Duquesa!<\/p>\n<p>544-A &#8211; A DUQUESA &#8211; C&eacute;us! Meu marido!<\/p>\n<p>545 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Perd&atilde;o! Perd&atilde;o! (Cai-lhe o barrete)<\/p>\n<p>546 &#8211; O DUQUE (De fora) &#8211; Arrombai essa porta!<\/p>\n<p>547 &#8211; A DUQUESA &#8211; Esperai. Alcoforado, n&atilde;o leveis m&atilde;o da vossa<br \/>\n    espada contra meu marido; eu v&ocirc;-lo suplico por mim, por meus filhos,<br \/>\n    por Deus, por tudo o que mais amais.<\/p>\n<p>548 &#8211; ALCOFORADO &#8211; N&atilde;o usarei dela.<\/p>\n<p>549 &#8211; O DUQUE (De fora) &#8211; Arrombai! (Pancadas na porta)<\/p>\n<p>550 &#8211; A DUQUESA &#8211; Escondei-vos!&#8230; Senhor, sede comigo! (Abre a porta).<\/p>\n<p>CENA V<\/p>\n<p>O DUQUE, a DUQUESA<\/p>\n<p>551 &#8211; O DUQUE (Atentando na agita&ccedil;&atilde;o da duquesa e olhando para<br \/>\n    todos os lados com desconfian&ccedil;a) &#8211; Est&aacute; aqui!<\/p>\n<p>552 &#8211; A DUQUESA (&Agrave; parte) &#8211; J&aacute; sabe tudo!<\/p>\n<p>553 &#8211; O DUQUE (Em voz baixa e rouca) &#8211; Onde est&aacute; ele?<\/p>\n<p>554 &#8211; A DUQUESA &#8211; Ele quem, senhor? V&oacute;s me apareceis pelo meio da<br \/>\n    noite amea&ccedil;ador e terr&iacute;vel: vindes tumultuosamente, acompanhado<br \/>\n    pelos vossos escravos para fazer arrombar a porta da minha c&acirc;mara Por<br \/>\n    que, senhor? Sou eu acaso alguma mulher sem considera&ccedil;&atilde;o, alguma<br \/>\n    criatura vil e desprez&iacute;vel para que nem sequer vos lembr&aacute;sseis<br \/>\n    que a vossa suspeita me desacreditaria no conceito dos vossos lacaios? Senhor<br \/>\n    Duque&#8230;<\/p>\n<p>555 &#8211; O DUQUE &#8211; Onde est&aacute; ele?<\/p>\n<p>556 &#8211; A DUQUESA &#8211; Fizestes iluminar o vosso parque, mandastes armar os vossos<br \/>\n    homens de armas, alvoro&ccedil;astes todo o pal&aacute;cio; para que, senhor?<br \/>\n    Eu sou mulher e v&oacute;s bem me podeis fazer morrer sem ser &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    de esc&acirc;ndalo e de vergonha, sem me acabrunhar com todo o peso do vosso<br \/>\n    poderio. Vindes cercado de uma turba vil e mercen&aacute;ria, a quem basta<br \/>\n    um s&oacute; aceno vosso para me cuspir no rosto, porque sou mulher e fraca,<br \/>\n    enquanto que v&oacute;s sois homem e temido. &Eacute; isto ser nobre?<\/p>\n<p>557 &#8211; O DUQUE &#8211; Onde est&aacute; ele?<\/p>\n<p>558 &#8211; A DUQUESA &#8211; Onde est&aacute; ele! Est&aacute; aqui, senhor; est&aacute;<br \/>\n    aqui no meu leito. (Conferido as cortinas) S&atilde;o vossos filhos: eles<br \/>\n    que vos atestem a minha inoc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>559 &#8211; O DUQUE (Apanhando o barrete) &#8211; A fita! A fita!<\/p>\n<p>560 &#8211; A DUQUESA &#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>561 &#8211; O DUQUE (Arrojando o barrete ao ch&atilde;o e calcando-o aos p&eacute;s)<br \/>\n    &#8211; Morrer&aacute;!<\/p>\n<p>562 &#8211; A DUQUESA &#8211; D. Jaime, escutai-me pacientemente: eu vos explicarei este<br \/>\n    azar funesto que me faz parecer culpada.<\/p>\n<p>563 &#8211; O DUQUE &#8211; Ambos! Ambos!<\/p>\n<p>564 &#8211; A DUQUESA &#8211; Escutai-me, Senhor Duque: v&oacute;s ides cometer uma injusti&ccedil;a.<\/p>\n<p>564 &#8211; O DUQUE &#8211; Injusti&ccedil;a! Sois bem disfar&ccedil;ada e atrevida arrostando<br \/>\n    o olhar de um homem ultrajado sem cair por terra, de joelhos, de m&atilde;os<br \/>\n    postas, clamando perd&atilde;o para o vosso delito e piedade para o que haveis<br \/>\n    de sofrer!&#8230; Injusti&ccedil;a! Um vil&atilde;o que acha no seu leito dois<br \/>\n    ad&uacute;lteros, duas v&iacute;boras, pode esmag&aacute;-los impunemente<br \/>\n    e eu n&atilde;o o poderei fazer? Por que o n&atilde;o poderei? Por que sou<br \/>\n    herdeiro jurado do trono, duque de Bragan&ccedil;a e Guimar&atilde;es, senhor<br \/>\n    de Our&eacute;m, Borba, Chaves, Barcelos e Vila Vi&ccedil;osa? Por que sou<br \/>\n    o primeiro duque da Europa e o mais poderoso entre os nobres depois da nobreza<br \/>\n    coroada? Por S&atilde;o Tiago que vos desenganaremos?<\/p>\n<p>565 &#8211; A DUQUESA &#8211; Por S&atilde;o Tiago que vos enganais: podeis, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    matar-me, senhor; mas v&oacute;s vos arrependereis e o vosso arrependimento<br \/>\n    ser&aacute; tardio; conhecereis a minha inoc&ecirc;ncia j&aacute; tarde e<br \/>\n    o remorso vos n&atilde;o deixar&aacute;.<\/p>\n<p>566 &#8211; O DUQUE &#8211; Justificai-vos perante todos os da minha casa; n&atilde;o<br \/>\n    quero que se diga que eu mato uma inocente. Ol&aacute;!<\/p>\n<p>567 &#8211; A DUQUESA &#8211; Senhor, eu leio a minha condena&ccedil;&atilde;o nos vossos<br \/>\n    olhos; vejo que me n&atilde;o haveis de perdoar, nem fazendo o c&eacute;u<br \/>\n    um milagre para me salvar e para vos mostrar a minha inoc&ecirc;ncia. A minha<br \/>\n    vida tem sido constantemente um estorvo para os vossos projetos e eu conhe&ccedil;o<br \/>\n    que ocultais a vossa convic&ccedil;&atilde;o para mais facilmente vos livrardes<br \/>\n    de mim, eu o sei e o vejo; por&eacute;m, se me quereis matar, Senhor Duque,<br \/>\n    se &eacute; esse o vosso prop&oacute;sito, como eu o creio, matai-me v&oacute;s<br \/>\n    mesmo, barbaramente se o quiserdes; manchai embora o meu nome com uma n&oacute;doa<br \/>\n    infamante, mas n&atilde;o me humilheis na presen&ccedil;a dos vossos servos.<br \/>\n    O meu nome &eacute; o vosso, Senhor Duque: n&atilde;o os podeis separar.<\/p>\n<p>568 &#8211; O DUQUE &#8211; Assim &eacute;, senhora; liguei o meu nome ao vosso, e v&oacute;s<br \/>\n    tomastes o trabalho de mo infamar: trabalho bem f&aacute;cil para v&oacute;s,<br \/>\n    imposs&iacute;vel para o mundo. Quando pois o vosso nome se tornar sin&ocirc;nimo<br \/>\n    da inf&acirc;mia, o meu se converter&aacute; em lud&iacute;brio da popula&ccedil;a,<br \/>\n    que folga, a vil, com o desar dos grandes. Assim fora se me n&atilde;o viesse<br \/>\n    &agrave; mente fazer secar a mofa e o esc&aacute;rnio nos l&aacute;bios do<br \/>\n    mais atrevido com o sentimento do terror. Bem dissestes v&oacute;s&#8230; eu posso<br \/>\n    matar-vos a ambos, martirizar-vos, espezinhar-vos&#8230; nada me seria mais f&aacute;cil.<br \/>\n    Mas esta vingan&ccedil;a, que bastaria talvez para satisfazer a um vil&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o me satisfaz a mim. Oh! Tivesse eu a certeza que esta fr&aacute;gua<br \/>\n    de &oacute;dio que me devora n&atilde;o me consumir&aacute; inteiro dentro<br \/>\n    de algumas horas; pudesse eu contar com a vida at&eacute; o raiar do sol&#8230;<br \/>\n    fora outra a minha vingan&ccedil;a!&#8230; Esta noite eu faria erguer em Vila<br \/>\n    Vi&ccedil;osa dois pat&iacute;bulos, um em frente do outro e daria amanh&atilde;<br \/>\n    um espet&aacute;culo de sangue aos meus bons e leais burgueses. Convidaria<br \/>\n    a todos para um festim de rei, far-vos-ia arrastar pelas ruas como dois miser&aacute;veis<br \/>\n    criminosos; e malgrado as justi&ccedil;as dei-rei, eu vos faria subir ao cadafalso,<br \/>\n    &agrave; luz do sol, &agrave; vista de todos e &agrave; face do mundo. Mas<br \/>\n    j&aacute; que n&atilde;o posso contar com a vida, tomarei outra vingan&ccedil;a,<br \/>\n    se menos espl&ecirc;ndida, igualmente aterradora. Entrai.<\/p>\n<p>569 &#8211; A DUQUESA &#8211; Senhor, &eacute; de joelhos que eu v&ocirc;-lo pe&ccedil;o;<br \/>\n    n&atilde;o me obrigueis a corar morrendo, nem a suportar a piedade hip&oacute;crita<br \/>\n    dos meus inferiores que em torno de mim se estar&atilde;o rindo interiormente<br \/>\n    com o meu supl&iacute;cio e com a minha desdita!<\/p>\n<p>570 &#8211; O DUQUE &#8211; Entrai.<\/p>\n<p>\n    CENA VI<\/p>\n<p>O DUQUE, a DUQUESA, FERN&Atilde;O, homens armados, pajens com luzes.<\/p>\n<p>571 &#8211; A DUQUESA (Cobrindo o rosto com as m&atilde;os) &#8211; Ah! S&atilde;o eles!<\/p>\n<p>572 &#8211; O DUQUE &#8211; Traidores n&atilde;o merecem contempla&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>573 &#8211; A DUQUESA (Erguendo-se) &#8211; Nem o sou, nem meus pais o foram nunca. Senhor,<br \/>\n    podeis empunhar o cutelo do algoz, podeis cobrir o rosto com a m&aacute;scara<br \/>\n    da justi&ccedil;a, podeis fazer-me assassinar trai&ccedil;oeiramente: s&oacute;<br \/>\n    n&atilde;o podereis descobrir lab&eacute;u na minha vida, nem crime nas minhas<br \/>\n    a&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>574 &#8211; O DUQUE (Aos da sua comitiva) &#8211; Procurai por toda a parte um vil que<br \/>\n    deve estar neste pal&aacute;cio.<\/p>\n<p>CENA VII<\/p>\n<p>OS MESMOS, ALCOFORADO (Saindo detr&aacute;s do leito)<\/p>\n<p>575 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Senhor Duque!<\/p>\n<p>576 &#8211; O DUQUE &#8211; Enfim! (A Fern&atilde;o) Fern&atilde;o, dize ao preto cozinheiro<br \/>\n    que traga o manchil da cozinha; dize a dois dos meus capel&atilde;es que venham<br \/>\n    confessar dois penitentes. (Fern&atilde;o sai)<\/p>\n<p>577 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Esqueceis que ainda tenho a minha espada?<\/p>\n<p>578 &#8211; O DUQUE &#8211; Usai dela: folgaremos com isso.<\/p>\n<p>579 &#8211; A DUQUESA (Baixo) &#8211; A vossa promessa&#8230; lembrai-vos!<\/p>\n<p>580 &#8211; ALCOFORADO (Ao duque) &#8211; Eu prometi que n&atilde;o levaria m&atilde;o<br \/>\n    da minha espada contra v&oacute;s, e que o n&atilde;o prometesse! Vale porventura<br \/>\n    a minha vida um combate? (Depondo a espada) A&iacute; tendes a minha espada,<br \/>\n    Senhor Duque.<\/p>\n<p>581 &#8211; O DUQUE (Dando com o p&eacute; na espada) &#8211; Cobardia!<\/p>\n<p>582 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Senhor!<\/p>\n<p>582 &#8211; O DUQUE &#8211; Calai-vos!&#8230; Digo-vos que sois cobarde porque sois traidor,<br \/>\n    e o traidor n&atilde;o pode deixar de ser cobarde.<\/p>\n<p>583 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Ainda hoje mostrei que o n&atilde;o era!<\/p>\n<p>584 &#8211; O DUQUE &#8211; Sil&ecirc;ncio! Que mostrastes v&oacute;s? Que j&aacute;<br \/>\n    na vossa idade tendes a ast&uacute;cia de uma serpente: e de feito tendes<br \/>\n    enganado a todos com falsas apar&ecirc;ncias de nobreza e de candura; mendigastes<br \/>\n    a minha prote&ccedil;&atilde;o, introduzistes-vos em minha casa, aliciastes<br \/>\n    meus servos, seduzistes minha&#8230; nem eu sei como a chame!&#8230; Morrer&atilde;o<br \/>\n    ambos!<\/p>\n<p>585 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Assim &eacute;, Senhor Duque; eu sou um cobarde, um falso,<br \/>\n    um infame, n&atilde;o pelo que dissestes, mas porque envolvi na minha ru&iacute;na<br \/>\n    uma criatura inocente como os anjos; porque, depois de a ter obrigado a descer<br \/>\n    ao fundo da minha ignom&iacute;nia, n&atilde;o a pude defender das vossas<br \/>\n    afrontas, nem dos doestos que lhe assacastes, coisas que n&atilde;o eram para<br \/>\n    dizer: por isso mere&ccedil;o a morte. Estou no vosso poder, Senhor Duque;<br \/>\n    fazei de mim o que vos aprouver, mas at&eacute; o meu derradeiro instante<br \/>\n    ouvireis a minha voz bradar cada vez mais alto: &#8211; A duquesa &eacute; inocente!<\/p>\n<p>586 &#8211; O DUQUE &#8211; Mentira! O cobarde deve mentir.<\/p>\n<p>587 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Ainda quando a mentira houvesse escolhido os meus l&aacute;bios<br \/>\n    para sua morada, n&atilde;o vos mentiria eu no meu derradeiro instante para<br \/>\n    que a maldi&ccedil;&atilde;o divina n&atilde;o pesasse eternamente sobre minha<br \/>\n    alma. N&atilde;o &eacute; por mim que vos suplico a vida, Senhor Duque; fora<br \/>\n    indigno de viver quem t&atilde;o baixamente a suplicasse. Estou no vosso poder,<br \/>\n    nem disso me queixo: depus a minha espada a vossos p&eacute;s antes que me<br \/>\n    viesse a tenta&ccedil;&atilde;o de a arrancar contra v&oacute;s; curvei a<br \/>\n    cabe&ccedil;a na vossa presen&ccedil;a e, de joelhos e &agrave; hora da morte,<br \/>\n    eu vos digo que ela &eacute; inocente, que por isso me tenho envilecido e<br \/>\n    que por isso me envile&ccedil;o ainda.<\/p>\n<p>588 &#8211; A DUQUESA (&Agrave; parte) &#8211; Nobre mancebo!<\/p>\n<p>589 &#8211; O DUQUE (Encarando-a fixamente) &#8211; Tredos! Fizesse eu correr o mar entre<br \/>\n    ambos que de um lado a outro voaria o pensamento do adult&eacute;rio!&#8230; Mar<br \/>\n    de sangue correr&aacute; entre ambos.<\/p>\n<p>590 &#8211; ALCOFORADO &#8211; Saciai a vossa vingan&ccedil;a no meu sangue que ser&aacute;<br \/>\n    bastante para apag&aacute;-la; puni o criminoso, mas n&atilde;o vos deixeis<br \/>\n    cegar pela vossa c&oacute;lera, n&atilde;o mistureis o sangue do inocente<br \/>\n    com o sangue do pecador. N&atilde;o sabeis quantas vitimas cair&atilde;o comigo<br \/>\n    na sepultura?&#8230; Minha irm&atilde; enlouquecer&aacute;!&#8230; Meu pai&#8230; oh!<br \/>\n    Eu vos juro que ser&aacute; um desengano terr&iacute;vel para o bom do velho<br \/>\n    o f&eacute;retro que amanh&atilde; lhe for enlutar a habita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quando ele trope&ccedil;ar em um cad&aacute;ver, em vez de abra&ccedil;ar<br \/>\n    seu filho, seu filho bem amado que ele ainda espera aben&ccedil;oar e mand&aacute;-lo<br \/>\n    &agrave;s terras de &Aacute;frica pugnar pela religi&atilde;o de seus pais,<br \/>\n    banhando a espada no sangue de infi&eacute;is!&#8230; Quando lhe chegar aos ouvidos<br \/>\n    not&iacute;cia de morte t&atilde;o desastrada, o desgosto lhe quebrar&aacute;<br \/>\n    violentamente a vida. O pobre velho morrer&aacute;!.,. Se quereis mais vitimas,<br \/>\n    v&iacute;timas, senhor, se inocentes vos s&atilde;o precisas para o vosso<br \/>\n    sacrif&iacute;cio, sereis amplamente satisfeito O velho e a donzela, ambos<br \/>\n    morrer&atilde;o; e todavia n&atilde;o &eacute; por mim, n&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    por eles que imploro a vossa compaix&atilde;o! Sede justo, senhor: salvai-a.<\/p>\n<p>591 &#8211; O DUQUE &#8211; Entra, escravo. (Entra o preto com um manchil) Evilecer-se-ia<br \/>\n    o bra&ccedil;o de homem livre que vos cortasse a cabe&ccedil;a, e a espada<br \/>\n    que no vosso sangue se tingisse se tornaria infame; n&atilde;o morrereis por<br \/>\n    m&atilde;o de um homem livre, nem aos golpes de uma espada. Vede&#8230; Vede tamb&eacute;m,<br \/>\n    senhora!<\/p>\n<p>592 &#8211; A DUQUESA &#8211; Oh! Senhor!<\/p>\n<p>593 &#8211; O DUQUE (&Aacute; duquesa) &#8211; Vede: ser&aacute; o seu carrasco um escravo,<br \/>\n    um preto&#8230; (Arroja-a de si e ela cai de joelhos)<\/p>\n<p>594 &#8211; A DUQUESA &#8211; Meu Deus! Compadecei-vos de mim!<\/p>\n<p>595 &#8211; O DUQUE (A Alcoforado) &#8211; E o instrumento da vossa morte ser&aacute;<br \/>\n    um manchil grosseiro t&atilde;o vil como v&oacute;s sois.<\/p>\n<p>\n    FIM DO QUARTO QUADRO<\/p>\n<p>\n    ATO TERCEIRO<\/p>\n<p>\n    QUADRO QUINTO<\/p>\n<p>\n    A cena representa um aposento no pal&aacute;cio do Duque, do lado direito<br \/>\n    um altar paramentado de tela branca e sobre ele um crucifixo, do outro lado<br \/>\n    mesa e cadeira, portas no fundo.<\/p>\n<p>CENA I<\/p>\n<p>596 &#8211; A DUQUESA (S&oacute;, nos degraus do altar) &#8211; N&atilde;o posso orar!&#8230;<br \/>\n    O meu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode despegar-se da vida, minha alma<br \/>\n    n&atilde;o pode elevar-se at&eacute; Deus e a religi&atilde;o me n&atilde;o<br \/>\n    pode consolar!&#8230; Quisera ter algu&eacute;m que me falasse, porque me parece<br \/>\n    que isto &eacute; um sonho! Um sonho horr&iacute;vel que me est&aacute; sufocando!&#8230;<br \/>\n    (Pausa) Tenho frio!&#8230; Mas por que aterrar-me assim? Se eu tenho sempre de<br \/>\n    morrer, que importa que me venha a morte agora ou logo, hoje ou passados anos?&#8230;<br \/>\n    A vida cansa, e Deus tem um sorriso mais carinhoso para aquele que mais sofre<br \/>\n    sobre a terra, e eu tenho sofrido muito!&#8230; Em v&atilde;o, em v&atilde;o!<br \/>\n    Apesar do sofrimento, eu quisera ser como as outras, viver a minha vida at&eacute;<br \/>\n    o fim, e morrer com a morte que Deus manda! (Pausa) O duque &eacute; bem cruel<br \/>\n    e todavia eu sou como ele, sou talvez mais do que ele, e morrerei!&#8230; Morrerei<br \/>\n    porque sou fraca, morrerei porque sou mulher!&#8230; Deus foi misericordioso para<br \/>\n    comigo em me n&atilde;o ter dado uma filha; que se eu a tivesse, por muito<br \/>\n    que a amasse, e ainda que ela fosse a &uacute;nica&#8230; meu Deus! cometeria<br \/>\n    hoje um crime&#8230; matava-a&#8230; seria talvez condenada por toda a eternidade,<br \/>\n    por&eacute;m, ela seria livre no c&eacute;u! Mas por que ser&aacute; irrevog&aacute;vel<br \/>\n    a minha condena&ccedil;&atilde;o? Eu sou esposa sua, a m&atilde;e de seus<br \/>\n    filhos. Por ventura quis ele punir a minha imprud&ecirc;ncia s&oacute; com<br \/>\n    o terror, e a estas horas j&aacute; ele ter&aacute; pensado que o meu mart&iacute;rio<br \/>\n    deve acabar. O duque &eacute; generoso; se ele tem sempre esmola para os mendigos,<br \/>\n    por que n&atilde;o ter&aacute; tamb&eacute;m piedade para os que sofrem? Eu<br \/>\n    sofro tanto!<\/p>\n<p>CENA II<\/p>\n<p>A DUQUESA, PAULA<\/p>\n<p>597 &#8211; PAULA &#8211; Senhora Duquesa!<\/p>\n<p>598 &#8211; A DUQUESA &#8211; Quem me chama?&#8230; Paula!<\/p>\n<p>599 &#8211; PAULA &#8211; Deixai-me chorar a vossos p&eacute;s!<\/p>\n<p>600 &#8211; A DUQUESA &#8211; J&aacute; me havia esquecido de ti, boa Paula; bem hajas<br \/>\n    tu que em tanta tristeza te vieste fazer lembrada, e que te n&atilde;o esqueceste<br \/>\n    da m&atilde;sera condenada que algumas horas apenas tem de vida. (Encostando-se<br \/>\n    ao ombro dela) Quando eu era feliz, e j&aacute; me parece que foi h&aacute;<br \/>\n    muito tempo, tinhas sempre um sorriso para desfazeres as minhas preocupa&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    e hoje achaste no teu cora&ccedil;&atilde;o algumas l&aacute;grimas que vens<br \/>\n    derramar sobre o meu infort&uacute;nio. Bem hajas tu.<\/p>\n<p>601 &#8211; PAULA (Chorando) &#8211; V&oacute;s, que sois inocente, Senhora, por que<br \/>\n    haveis de morrer?<\/p>\n<p>602 &#8211; A DUQUESA &#8211; Dize, dize que n&atilde;o &eacute; para me consolar que<br \/>\n    assim me falas; jura-me que acreditas na minha inoc&ecirc;ncia: preciso que<br \/>\n    algu&eacute;m creia nela para n&atilde;o morrer de desespero.<\/p>\n<p>603 &#8211; PAULA &#8211; N&atilde;o tenho eu vivido sempre na vossa companhia? N&atilde;o<br \/>\n    leio no vosso rosto como na minha alma? N&atilde;o sei eu que se pud&eacute;sseis<br \/>\n    cometer um crime, nenhuma haveria que n&atilde;o fosse criminosa?<\/p>\n<p>604 &#8211; A DUQUESA (Tristemente) &#8211; Os meus tamb&eacute;m h&atilde;o-de acreditar<br \/>\n    na minha inoc&ecirc;ncia, mas j&aacute; tarde; talvez romper&atilde;o lan&ccedil;as<br \/>\n    em favor dela, mas eu j&aacute; serei morta! Oh! Se as l&aacute;grimas do<br \/>\n    arrependimento e do remorso pudessem dar a vida a um cad&aacute;ver, n&atilde;o<br \/>\n    me pesara morrer, porque eu teria certa a minha ressurrei&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Oh! boa Paula, &eacute; bem mal permitido que o homem, que n&atilde;o pode<br \/>\n    dar vida, tenha o poder de matar; &eacute; bem injusto que uma miser&aacute;vel<br \/>\n    criatura possa apagar a luz preciosa da exist&ecirc;ncia que s&oacute; Deus<br \/>\n    pode acender!&#8230; &Eacute; bem injusto, meu Deus!<\/p>\n<p>605 &#8211; PAULA &#8211; &Eacute; destino, Senhora Duquesa; que lhe havemos n&oacute;s<br \/>\n    de fazer!<\/p>\n<p>606 &#8211; A DUQUESA &#8211; Tens raz&atilde;o; temos todos o nosso calv&aacute;rio,<br \/>\n    carregamos todos com a nossa cruz; e por que n&atilde;o haveria eu de sofrer<br \/>\n    tamb&eacute;m?&#8230; Mas, &oacute; Senhor! bem aviltador &eacute; o meu calv&aacute;rio,<br \/>\n    e a minha cruz &eacute; muito pesada para mim!&#8230; Morrerei, Paula. O &uacute;ltimo<br \/>\n    favor que te pedir, cumpri-lo-&aacute;s tu? <\/p>\n<p>607 &#8211; PAULA &#8211; Dizei, Senhora.<\/p>\n<p>608 &#8211; A DUQUESA &#8211; Quando me aparelharem para o meu infame supl&iacute;cio,<br \/>\n    h&atilde;o-de cortar-me os cabelos; creio que assim se faz. Tu os ajuntar&aacute;s,<br \/>\n    Paula: vai depois ao meu guarda-roupa, e l&aacute; encontrar&aacute;s os meus<br \/>\n    vestidos que eu trouxe da Espanha; era ent&atilde;o uma crian&ccedil;a!&#8230;<br \/>\n    Tira um deles e manda-o &agrave; minha irm&atilde; com uma tran&ccedil;a dos<br \/>\n    meus cabelos: far&aacute;s isto?<\/p>\n<p>609 &#8211; PAULA &#8211; Eu o farei.<\/p>\n<p>610 &#8211; A DUQUESA &#8211; Bem quisera eu deixar-te uma lembran&ccedil;a, boa Paula:<br \/>\n    mas que posso eu agora? Entrei para esta casa coberta de veludos, e hei-de<br \/>\n    sair vestida com a mortalha: entrei nova e cheia de inoc&ecirc;ncia, e hei-de<br \/>\n    sair ainda nova, mas infamada!&#8230; A vossa pobre duquesa, mais pobre do que<br \/>\n    v&oacute;s outras, nada tem para recompensar os bons servi&ccedil;os dos seus<br \/>\n    fi&eacute;is servidores. Escuta: quando eu for morta, tomar&aacute;s para<br \/>\n    ti o meu livro de ora&ccedil;&otilde;es e escrever&aacute;s na primeira p&aacute;gina<br \/>\n    o meu nome com o meu sangue; n&atilde;o creias que sele seja vil porque o<br \/>\n    h&atilde;o-de derramar vilmente!&#8230; N&atilde;o lhe ponhas t&iacute;tulo nenhum,<br \/>\n    s&oacute; o meu nome de batismo; e quando rezares lembra-te da infeliz Leonor,<br \/>\n    e d&aacute;-lhe uma das tuas ora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>611 &#8211; PAULA &#8211; Seja-me Deus boa testemunha em como, se morrerdes, eu me irei<br \/>\n    sepultar em algum convento para ali passar a minha vida em ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e penit&ecirc;ncias, n&atilde;o por v&oacute;s, mas por ele que vos assassina.<br \/>\n    (Como que se lembra, levantando-se) Ah!<\/p>\n<p>612 &#8211; A DUQUESA &#8211; Assim me deixas?<\/p>\n<p>613 &#8211; PAULA &#8211; Esperai, esperai! (Sai).<\/p>\n<p>\n    CENA III<\/p>\n<p>614 &#8211; A DUQUESA (S&oacute;) &#8211; Nunca me julguei com for&ccedil;as para sofrer<br \/>\n    tanto, nem que eu tivesse tantas l&aacute;grimas para chorar. No entanto,<br \/>\n    sofro como se nunca houvera sofrido; choro como se nunca houvera chorado.<br \/>\n    (Pausa). Sinto passos!&#8230; Quem sabe se n&atilde;o ser&aacute; o carrasco?&#8230;<br \/>\n    O carrasco!&#8230; (Sobe com terror pelos degraus at&eacute; encostar-se &agrave;s<br \/>\n    paredes do altar).<\/p>\n<p>\n    CENA IV<\/p>\n<p>A DUQUESA, PAULA, os dois meninos.<\/p>\n<p>615 &#8211; A DUQUESA (Correndo para eles) &#8211; Meus filhos! Meus pobres filhos!&#8230;<br \/>\n    (Beijando-os e abra&ccedil;ando-os) Vossa m&atilde;e ia morrer sem vos aben&ccedil;oar<br \/>\n    na hora da morte, sem beijar-vos, sem acariciar-vos mais esta vez, sem vos<br \/>\n    banhar o rosto com as suas l&aacute;grimas!&#8230; Meus pobres filhos! Que fareis<br \/>\n    v&oacute;s no mundo sem o amor de vossa m&atilde;e?&#8230; Talvez que uma estrangeira<br \/>\n    venha deitar-se no meu leito para dele vos expulsar!&#8230; Que sereis v&oacute;s<br \/>\n    sem mim!&#8230; Inocentes! Pobres inocentes!&#8230; Eles vos dir&atilde;o que eu fui<br \/>\n    uma grande criminosa e que me havia tornado indigna de viver: n&atilde;o os<br \/>\n    acrediteis, meus filhos!&#8230; Quando vos disserem mal da vossa pobre m&atilde;e,<br \/>\n    lembrai-vos de hoje e de minhas l&aacute;grimas, e adivinhareis ent&atilde;o<br \/>\n    que eu fui bem infeliz, ouvistes?&#8230; Oh! Eles n&atilde;o compreendem as minhas<br \/>\n    palavras, e at&eacute; do meu nome se h&atilde;o-de esquecer!&#8230; Paula! Paula!<br \/>\n    Por que me trouxeste meus filhos?&#8230; Eu me resignaria a morrer, e agora &eacute;<br \/>\n    imposs&iacute;vel!&#8230; Atende-me: vai ter com o senhor duque, dize-lhe que<br \/>\n    lhe quero falar uma hora, um instante antes de morrer. Deixa-me meus filhos&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o, leva-os; dir-lhe-&aacute;s que &eacute; em nome deles que eu lhe<br \/>\n    pe&ccedil;o um instante para lhe falar; e ele n&atilde;o me poder&aacute;<br \/>\n    negar merc&ecirc; t&atilde;o pequena. (Paula sai com os meninos)<\/p>\n<p>CENA V<\/p>\n<p>A DUQUESA, LOPO GARCIA<\/p>\n<p>616 &#8211; A DUQUESA (S&oacute;, no meio da cena) &#8211; Ele me perdoar&aacute;!<\/p>\n<p>617 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Senhora!<\/p>\n<p>618 &#8211; A DUQUESA &#8211; Lopo Garcia! Ah! Que me acordais bem cruelmente, meu padre!<\/p>\n<p>619 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Resignai-vos, minha filha.<\/p>\n<p>620 &#8211; A DUQUESA &#8211; Resignar-me a qu&ecirc;? N&atilde;o carecerei de vosso<br \/>\n    mister, meu padre; j&aacute; mandei chamar a D. Jaime, que me n&atilde;o poder&aacute;<br \/>\n    recusar uma entrevista.<\/p>\n<p>621 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Resignai-vos!<\/p>\n<p>622 &#8211; A DUQUESA &#8211; Mas n&atilde;o estais vendo que &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    que eu morra assim?&#8230; N&atilde;o sabeis que meu pai &eacute; o duque de Medina<br \/>\n    Sid&ocirc;nia?&#8230; O Senhor Duque n&atilde;o pensou nisso: ele me perdoar&aacute;.<\/p>\n<p>623 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; N&atilde;o o far&aacute;.<\/p>\n<p>624 &#8211; A DUQUESA &#8211; Como! V&oacute;s que sois um bom e santo padre pondes um<br \/>\n    freio injurioso &agrave; bondade daquele que folga em sua justi&ccedil;a de<br \/>\n    amolgar o cora&ccedil;&atilde;o mais endurecido e de reparar o mal por m&atilde;o<br \/>\n    daquele mesmo que o praticou?<\/p>\n<p>625 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; N&atilde;o o espereis! A esperan&ccedil;a engana sempre<br \/>\n    que n&atilde;o esperamos a morte. Preparai-vos no santo tribunal da penit&ecirc;ncia<br \/>\n    para subirdes &agrave; presen&ccedil;a do Senhor; confessai as vossas culpas<br \/>\n    e contristai-vos!<\/p>\n<p>626 A DUQUESA (Chorando) &#8211; Ah! Meu padre, sois bem cruel em me despojar assim<br \/>\n    das minhas &uacute;ltimas esperan&ccedil;as. Deus vos perdoe a dor que me<br \/>\n    causais.<\/p>\n<p>627 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Que merece a vida, minha filha? &Eacute; um sonho mais<br \/>\n    ou menos longo, alegre ou triste, que o acordar da morte s&oacute; vale dissipar.<br \/>\n    Consolai-vos! Deus &eacute; misericordioso e vos perdoar&aacute; em favor<br \/>\n    do vosso arrependimento.<\/p>\n<p>628 &#8211; A DUQUESA &#8211; A vida! A vida, meu padre!<\/p>\n<p>629 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; N&atilde;o vos rebeleis contra o Senhor, nem o irriteis<br \/>\n    com a vossa desobedi&ecirc;ncia! Curvai a cabe&ccedil;a perante a sua justi&ccedil;a<br \/>\n    e confessai-vos para que a morte vos n&atilde;o colha impenitente. <\/p>\n<p>630 &#8211; A DUQUESA &#8211; Que vos hei-de eu confessar?<\/p>\n<p>631 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; A vossa vida. Qual &eacute; o justo que vive sem pecado<br \/>\n    durante o per&iacute;odo de sua exist&ecirc;ncia? Recordai-vos de quanto haveis<br \/>\n    feito, dito ou pensado, e atentai que, se &eacute; o sacerdote quem escuta<br \/>\n    as vossas palavras, &eacute; Deus quem recebe a vossa confiss&atilde;o.<\/p>\n<p>632 &#8211; A DUQUESA &#8211; A minha vida&#8230; &eacute; um tecido de dores bem pequenas<br \/>\n    que talvez n&atilde;o compreendais e que todavia me t&ecirc;m martirizado.<\/p>\n<p>633 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Contai-a.<\/p>\n<p>634 &#8211; A DUQUESA (Depois de alguns instantes de sil&ecirc;ncio) &#8211; Crian&ccedil;a<br \/>\n    me trouxeram da casa de meus pais, prenderam-me numa c&acirc;mara forrada<br \/>\n    de veludo, envolveram-me em alcatifas de seda, em reposteiros de damasco e<br \/>\n    eu disse adeus ao meu prado florido, ao meu jardim encantado, &agrave;s flores<br \/>\n    que eu amava, a tudo, meu padre, a tudo!&#8230; Disseram-me ent&atilde;o que eu<br \/>\n    pertencia a um homem e que o devia amar porque ele era meu esposo. Afiz-me<br \/>\n    &agrave; id&eacute;ia de que lhe pertencia, fiz esfor&ccedil;os incr&iacute;veis<br \/>\n    para o amar, a ele, que eu s&oacute; via de quando em quando, rodeado de larga<br \/>\n    turba de cortes&atilde;os, polido e respeitoso para comigo, por&eacute;m,<br \/>\n    nunca extremoso. Nunca ele teve franqueza para comigo, nunca eu a pude ter<br \/>\n    para com ele; nunca o pude amar. E se ele o quisera! Bem pouco lhe seria preciso,<br \/>\n    por&eacute;m, jamais se deu ele a esse trabalho. Nunca, meu padre, nunca estive<br \/>\n    com ele sem recear um acesso de sua c&oacute;lera, sem tremer na sua presen&ccedil;a<br \/>\n    como uma escrava. Dizei, meu padre: sou eu culpada em o n&atilde;o ter podido<br \/>\n    amar?<\/p>\n<p>635 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Continuai.<\/p>\n<p>636 &#8211; A DUQUESA &#8211; Quisestes escutar a minha vida&#8230; j&aacute; v&ocirc;-la<br \/>\n    contei. N&atilde;o tive flores na minha inf&acirc;ncia, nem descanso na minha<br \/>\n    juventude. Outras culpas terei eu de que me n&atilde;o recordo&#8230; Deus mas<br \/>\n    perdoar&aacute;.<\/p>\n<p>637 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; N&atilde;o mintais &agrave; hora da morte!&#8230; E o mancebo<br \/>\n    que foi h&aacute; pouco encontrado no vosso aposento?<\/p>\n<p>638 &#8211; A DUQUESA &#8211; Ah! Sim, meu padre, a a&ccedil;&atilde;o pertence &agrave;<br \/>\n    criatura mas as circunst&acirc;ncias v&ecirc;m&#8230; talvez do c&eacute;u. Serei<br \/>\n    criminosa para Deus, por&eacute;m, sou inocente perante os homens. Ouvi. Na<br \/>\n    minha soledade houve um mancebo que se compadeceu de mim, talvez porque adivinhou<br \/>\n    os sofrimentos que eu curtia silenciosa; desvelou-se no meu servi&ccedil;o;<br \/>\n    cercou-me de solicitudes, velava incessantemente sobre mim. E eu conheci que<br \/>\n    ele era respeitoso e cheio de extremos e que o seu amor era nobre, inocente<br \/>\n    e puro, como sua alma. Dizei-me, fiz mal em o n&atilde;o expulsar da minha<br \/>\n    presen&ccedil;a?<\/p>\n<p>639 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Continuai!<\/p>\n<p>640 &#8211; A DUQUESA &#8211; Por algum tempo me deixei embalar por esse novo afeto que<br \/>\n    ent&atilde;o principiava a sentir: veio-me depois a id&eacute;ia que eu o<br \/>\n    n&atilde;o devia entorpecer na sua carreira e pedi ao senhor duque que o dispensasse<br \/>\n    do seu servi&ccedil;o e que o mandasse para &Aacute;frica ganhar nome no servi&ccedil;o<br \/>\n    del-rei e salva&ccedil;&atilde;o em guerras de infi&eacute;is. Dizei: fiz<br \/>\n    mal intercedendo por ele?<\/p>\n<p>641 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Continuai.<\/p>\n<p>642 &#8211; A DUQUESA &#8211; Ontem o senhor duque quis que o acompanhasse a uma ca&ccedil;ada:<br \/>\n    acompanhei-o. No meio dela um javali ia espeda&ccedil;ar-me; esse mancebo<br \/>\n    salvou-me a vida. Dizei: fiz mal dizendo-lhe que lhe devia a vida?<\/p>\n<p>643 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Prossegui.<\/p>\n<p>644 &#8211; A DUQUESA &#8211; Ele ia partir para &Aacute;frica, mais por for&ccedil;a<br \/>\n    das minhas inst&acirc;ncias do que por vontade sua. Cheio de funestos pressentimentos,<br \/>\n    que ainda mal se realizaram, ele se lan&ccedil;ou a meus p&eacute;s pedindo-me<br \/>\n    que o escutasse. O senhor duque nos podia surpreender, algum pajem nos podia<br \/>\n    escutar e ele estaria perdido; fui prudente. Pediu-me uma entrevista para<br \/>\n    esta noite, que ele devia partir ao amanhecer. Eu conhecia a sua nobreza e<br \/>\n    honradez; concedi-lha. Dizei: fiz mal em ser prudente para uno ser uma ingrata?\n  <\/p>\n<p>645 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Acabai.<\/p>\n<p>646 &#8211; A DUQUESA &#8211; &Agrave; noite eu o recebi na minha c&acirc;mara; meus<br \/>\n    filhos descansavam no meu leito. Ele disse que me amava; eu disse que o amava<br \/>\n    tamb&eacute;m como a um irm&atilde;o, como a um filho. Fui nisto criminosa?<\/p>\n<p>647 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Nada mais?<\/p>\n<p>648 &#8211; A DUQUESA &#8211; Nada mais! Foi ser boa, af&aacute;vel, generosa, agradecida<br \/>\n    e prudente, tudo isto que na terra se diz virtudes, e que porventura tamb&eacute;m<br \/>\n    se chama virtudes no c&eacute;u: foi tudo isto que me perdeu!<\/p>\n<p>649 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Deus vos receber&aacute; na sua gl&oacute;ria, minha<br \/>\n    filha.<\/p>\n<p>650 &#8211; A DUQUESA &#8211; Mas n&atilde;o compreendeis v&oacute;s que, se eu morrer,<br \/>\n    o mundo me julgar&aacute; criminosa? N&atilde;o vedes que eu n&atilde;o quero<br \/>\n    morrer porque amo a vida, que o n&atilde;o posso porque sou inocente?<\/p>\n<p>CENA VI<\/p>\n<p>LOPO GARCIA, o DUQUE, a DUQUESA<\/p>\n<p>651 &#8211; O DUQUE &#8211; Acabai com a vossa confiss&atilde;o!<\/p>\n<p>652 &#8211; A DUQUESA (Levantando-se) &#8211; Dai-me for&ccedil;as, meu Deus!<\/p>\n<p>653 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Escutai-me um instante, Senhor Duque!<\/p>\n<p>654 &#8211; O DUQUE &#8211; N&atilde;o vos podemos atender, meu padre!<\/p>\n<p>655 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Bem sei que o segredo da confiss&atilde;o &eacute; inviol&aacute;vel<br \/>\n    e sagrado; por&eacute;m, Deus me perdoar&aacute; se obro mal com isto, porque<br \/>\n    o fa&ccedil;o para vos poupar um crime. Senhor Duque, a vossa esposa &eacute;<br \/>\n    inocente!<\/p>\n<p>656 &#8211; O DUQUE &#8211; N&atilde;o cometais um sacril&eacute;gio, meu padre; perfizestes<br \/>\n    o vosso mister; podeis retirar-vos.<\/p>\n<p>657 &#8211; LOPO GARCIA &#8211; Eu v&ocirc;-lo repito, Senhor, ela &eacute; inocente!&#8230;<br \/>\n    A duquesa ter&aacute; ca&iacute;do em faltas que h&atilde;o-de achar gra&ccedil;a<br \/>\n    na presen&ccedil;a de Deus, e Deus &eacute; justo. V&oacute;s sois homem,<br \/>\n    Senhor Duque; n&atilde;o sejais mais rigoroso do que ele&#8230; perdoai-lhe.<\/p>\n<p>658 &#8211; O DUQUE &#8211; Meu padre, n&atilde;o aprouve ao Senhor dar-nos o cond&atilde;o<br \/>\n    da paci&ecirc;ncia&#8230; retirai-vos. (Lopo Garcia sai).<\/p>\n<p>CENA VII<\/p>\n<p>O DUQUE, a DUQUESA<\/p>\n<p>659 &#8211; O DUQUE &#8211; Findou-se o prazo, Senhora duquesa!<\/p>\n<p>660 &#8211; A DUQUESA &#8211; Senhor, mais um instante.<\/p>\n<p>661 &#8211; O DUQUE &#8211; Mais dez minutos.<\/p>\n<p>662 &#8211; A DUQUESA &#8211; &Eacute; pouco, Senhor: tenho tanto para vos dizer!<\/p>\n<p>663 &#8211; O DUQUE &#8211; Tendes um quarto de hora.<\/p>\n<p>664 &#8211; A DUQUESA (Depois de um instante de sil&ecirc;ncio) &#8211; Assim, pois,<br \/>\n    Senhor duque, n&atilde;o quisestes dar cr&eacute;dito &agrave;s palavras de<br \/>\n    um moribundo que sobre a condena&ccedil;&atilde;o eterna de sua alma vos asselava<br \/>\n    a minha inoc&ecirc;ncia com um p&eacute; sobre o sepulcro!<\/p>\n<p>665 &#8211; O DUQUE &#8211; Mentiu: eu vi a fita!<\/p>\n<p>666 &#8211; A DUQUESA &#8211; A fita! Mas se ela fosse um presente vergonhoso, n&atilde;o<br \/>\n    a recataria ele cuidadosamente ao inv&eacute;s de a trazer tanto &agrave;s<br \/>\n    claras? N&atilde;o vos parece que seria isso uma loucura, Senhor duque?<\/p>\n<p>667 &#8211; O DUQUE &#8211; Que sei eu? A alma do vil&atilde;o embriagou-se com a posse<br \/>\n    de uma duquesa; quis fazer alarde dos seus amores, quis escarnecer de mim&#8230;<br \/>\n    enganou-se!<\/p>\n<p>668 &#8211; A DUQUESA &#8211; Se n&atilde;o quereis acreditar nas palavras do moribundo,<br \/>\n    dai cr&eacute;dito ao menos ao santo sacerdote. N&atilde;o vos disse ele que<br \/>\n    eu era inocente?<\/p>\n<p>669 &#8211; O DUQUE &#8211; Mentistes v&oacute;s: ele l&aacute; estava convosco.<\/p>\n<p>670 &#8211; A DUQUESA &#8211; Meus filhos tamb&eacute;m l&aacute; estavam, senhor.<\/p>\n<p>671 &#8211; O DUQUE &#8211; Esc&acirc;ndalo maior, Senhora, esc&acirc;ndalo maior! Quando<br \/>\n    mentistes ao sacerdote na vossa &uacute;ltima confiss&atilde;o, condenastes.<br \/>\n    a v&oacute;s mesma; se t&atilde;o somente profan&aacute;sseis o vosso leito,<br \/>\n    o crime ficaria ainda convosco! Fora isso apenas impiedade numa crist&atilde;,<br \/>\n    inf&acirc;mia numa esposa! H&aacute; muito disso. Mas que a esposa se lembrasse<br \/>\n    dos filhos para encobrir o seu adult&eacute;rio, que o crime se lembrasse<br \/>\n    da inoc&ecirc;ncia para vestir a sua nudez, que a m&atilde;e se lembrasse<br \/>\n    dos filhos para os industriar no crime&#8230; eis o que &eacute; horroroso, Senhora,<br \/>\n    eis o que &eacute; estupendo e inaudito, eis o crime por que haveis de morrer!&#8230;<\/p>\n<p>672 &#8211; A DUQUESA &#8211; Imprudentemente me prodigalizais improp&eacute;rios e conv&iacute;vios,<br \/>\n    Senhor duque. Fui criada em vossa casa, foi vossa m&atilde;e quem me educou.<br \/>\n    Atentai que parte de quanto me dizeis recai sobre quem se encarregou da minha<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>673 &#8211; O DUQUE &#8211; Por qu&ecirc;? Conhe&ccedil;o almas f&aacute;ceis que se<br \/>\n    persuadem que ser virtuosa &eacute; ser fingida e que para ser impune basta<br \/>\n    ser habilmente criminosa. Outras h&aacute; que nascem propensas para o crime<br \/>\n    e com o instinto do v&iacute;cio no cora&ccedil;&atilde;o. H&aacute; criaturas<br \/>\n    assim!<\/p>\n<p>674 &#8211; A DUQUESA &#8211; Senhor duque, v&oacute;s sois poderoso e escusais de subterf&uacute;gios<br \/>\n    contra mim. Ningu&eacute;m vos pedir&aacute; contas da minha morte, Senhor,<br \/>\n    e escusais de torcer os vossos ju&iacute;zos para me caluniar. Podeis dizer,<br \/>\n    e dizei-o francamente, que ningu&eacute;m nos escuta: &quot;Morrer&aacute;s<br \/>\n    porque assim o quero!&quot; &Eacute; uma raz&atilde;o que todos compreendem,<br \/>\n    a raz&atilde;o do mais forte, se n&atilde;o &eacute; a do mais nobre. Contra<br \/>\n    a vossa vontade me oferecestes m&atilde;o de esposo e tendes sempre vivido<br \/>\n    constrangido considerando-me como um estorvo para a vossa voca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    porque premedit&aacute;veis ser frade ou coisa semelhante. Bem oportunamente<br \/>\n    vos sorri este ensejo para de mim vos desfazerdes. Aproveitai-vos dele, e<br \/>\n    agradecei ao azar sem ostentardes de justiceiro. N&atilde;o me faleis em justi&ccedil;a<br \/>\n    humana, Senhor, porque eu me poderei lembrar que vosso pai foi humanamente<br \/>\n    justi&ccedil;ado!<\/p>\n<p>675 &#8211; O DUQUE &#8211; Deus vos encontre t&atilde;o pura como ele, Senhora duquesa.<\/p>\n<p>676 &#8211; A DUQUESA (De joelhos) &#8211; Perd&atilde;o, Senhor, perd&atilde;o. N&atilde;o<br \/>\n    era isso o que eu vos quisera dizer; mas sei eu por ventura o que digo?&#8230;<br \/>\n    Estou quase louca, n&atilde;o penso, n&atilde;o me&ccedil;o as minhas palavras.<br \/>\n    Perdoai-me!&#8230; Eu amo a vida, Senhor duque; por que vos hei-de eu mentir?&#8230;<br \/>\n    Sou uma mulher fraca e sem for&ccedil;as; choro porque a amo e porque me d&oacute;i<br \/>\n    perd&ecirc;-la. Sou eu acaso algum homem para ter coragem?&#8230; Amo a vida,,<br \/>\n    amo tudo o que me cerca, amo tudo o que me era indiferente&#8230; sou nova e n&atilde;o<br \/>\n    posso resignar&#8230; sou inocente e n&atilde;o devo morrer. Perdoai-me! Que vos<br \/>\n    importam algumas palavras descuidadas que me escaparam? N&atilde;o pensei<br \/>\n    nelas, nem foi minha inten&ccedil;&atilde;o ofender-vos. V&oacute;s me aborreceis<br \/>\n    e com raz&atilde;o&#8230; O que era eu para merecer o nome de vossa esposa?&#8230;<br \/>\n    Que sou eu para vos merecer o vosso amor? A mim tamb&eacute;m casaram-me sem<br \/>\n    que eu soubesse o que era matrim&ocirc;nio. E que culpa tenho eu em n&atilde;o<br \/>\n    ter resistido &agrave; obedi&ecirc;ncia a que desde crian&ccedil;a me afizeram?&#8230;<br \/>\n    Como o poderia eu imaginar!&#8230; Ainda ent&atilde;o n&atilde;o sabia que o homem,<br \/>\n    que &eacute; forte, pode ser obrigado a casar-se contra o seu querer, a casar-se<br \/>\n    com uma mulher que ele n&atilde;o ama!<\/p>\n<p>677 &#8211; O DUQUE &#8211; Quem me poderia obrigar, Senhora?<\/p>\n<p>678 &#8211; A DUQUESA &#8211; Tendes raz&atilde;o: eu &eacute; que sou uma louca em vos<br \/>\n    dizer estas coisas; mas tenho eu consci&ecirc;ncia do que vos estou dizendo?&#8230;<br \/>\n    Digo-vos tudo quanto me vem &agrave; cabe&ccedil;a para que vejais quanto<br \/>\n    sofro e para que perdoeis, Senhor duque&#8230;<\/p>\n<p>679 &#8211; O DUQUE &#8211; Levantai-vos, Senhora Duquesa: o meu prop&oacute;sito &eacute;<br \/>\n    irrevog&aacute;vel.<\/p>\n<p>680 &#8211; A DUQUESA &#8211; Mud&aacute;-lo-eis, senhor; mud&aacute;-lo-eis quando aventardes<br \/>\n    que mofina que eu sou e que embara&ccedil;os a minha morte vos pode acarretar.<br \/>\n    O conde de Urenha, meu cunhado e o marqu&ecirc;s de Caza&ccedil;a, meu irm&atilde;o,<br \/>\n    vir&atilde;o reptar-vos para o duelo, apelando da vossa senten&ccedil;a para<br \/>\n    o ju&iacute;zo de Deus.<\/p>\n<p>681 &#8211; O DUQUE &#8211; Atrever-se-&atilde;o eles!.<\/p>\n<p>682 &#8211; A DUQUESA &#8211; Meu Deus! Como lhe hei-de eu falar!&#8230; Eu vos digo estas<br \/>\n    coisas sem consci&ecirc;ncia de vos ofender. Eu &eacute; que sou a medrosa,<br \/>\n    v&oacute;s sois forte e valente, de nada vos arreceais. Com efeito, de que<br \/>\n    v&oacute;s podeis temer? Que vos importam meus irm&atilde;os, ou que vos podem<br \/>\n    eles fazer? Bem podeis v&oacute;s calcar-me, bem podeis matar-me e fazer de<br \/>\n    mim quanto mais vos aprouver; mas que gl&oacute;ria vos vir&aacute; da&iacute;,<br \/>\n    Senhor duque?<\/p>\n<p>683 &#8211; O DUQUE &#8211; Confrontai estas vossas palavras com as que ainda h&aacute;<br \/>\n    pouco em a vossa c&acirc;mara me dissestes!&#8230; Com o gesto irritado, com o<br \/>\n    olhar sobranceiro pedistes-me contas do meu proceder tachando-me de pouca<br \/>\n    lisura e comedimento! Agora, por&eacute;m, confessais a minha prepot&ecirc;ncia,<br \/>\n    e tendes sem d&uacute;vida para v&oacute;s que, se como homem me injuriastes,<br \/>\n    eu como senhor me vingo!&#8230; Apesar de vos abaixardes tanto, Senhora&#8230;<\/p>\n<p>684 &#8211; A DUQUESA (Levantando-se) &#8211; Senhor duque!<\/p>\n<p>685 &#8211; O DUQUE &#8211; Apesar de quanto tendes feito para alcan&ccedil;ar a vida,<br \/>\n    apesar de tudo quanto me haveis dito ou me possais dizer n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    menos certa a vossa morte. Acreditai que me n&atilde;o deixarei amolgar pelas<br \/>\n    vossas preces e que nem as vossas l&aacute;grimas torcer&atilde;o a minha<br \/>\n    justi&ccedil;a. Morrereis!<\/p>\n<p>CENA VIII<\/p>\n<p>OS MESMOS, um PAJEM<\/p>\n<p>686 &#8211; O SERVO &#8211; Senhor duque!<\/p>\n<p>687 &#8211; A DUQUESA &#8211; &Eacute; ele!<\/p>\n<p>688 &#8211; O DUQUE &#8211; Viestes oportunamente. Findou-se o prazo.<\/p>\n<p>689 &#8211; A DUQUESA &#8211; Meu Deus!<\/p>\n<p>690 &#8211; O SERVO &#8211; Perdoai o meu arrojo, Senhor duque e n&atilde;o me tenhais<br \/>\n    m&aacute; vontade, porque uma s&oacute; vez vos desobedecerei.<\/p>\n<p>691 &#8211; O DUQUE &#8211; Falai.<\/p>\n<p>692 &#8211; O SERVO &#8211; N&atilde;o vos posso servir nesta ocasi&atilde;o, Senhor!<\/p>\n<p>693 &#8211; O DUQUE &#8211; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>694 &#8211; O SERVO &#8211; Aquele santo padre que h&aacute; pouco saiu desta c&acirc;mara,<br \/>\n    disse-nos que a Senhora duquesa era inocente, e que excomungado seria que<br \/>\n    em mal dela vos obedecesse!<\/p>\n<p>695 &#8211; A DUQUESA &#8211; &Eacute; poss&iacute;vel!<\/p>\n<p>696 &#8211; O DUQUE &#8211; Por nosso respeito n&atilde;o desobedecereis ao santo padre,<br \/>\n    nem ireis contra os ditames da vossa consci&ecirc;ncia! Entre os nossos vassalos<br \/>\n    mais do que um haver&aacute; que neste ensejo nos acuda em vossa falta. Chamai-os!<br \/>\n    (O servo abre a porta e faz sinal para dentro).<\/p>\n<p>\n    CENA &Uacute;LTIMA<\/p>\n<p>O DUQUE, a DUQUESA, servos, homens de armas<\/p>\n<p>697 &#8211; O DUQUE &#8211; Este homem que aqui vedes nos obriga em circunst&acirc;ncias<br \/>\n    bem melindrosas, a experimentar a vossa lealdade. Precisamos de um executor<br \/>\n    de alta justi&ccedil;a, e dar-lhe-emos com a nossa prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cem pe&ccedil;as de ouro.<\/p>\n<p>698 &#8211; A DUQUESA &#8211; Inspirai-os, meu Deus! Inspirai-os!<\/p>\n<p>699 &#8211; O DUQUE &#8211; Nenhum se move!&#8230; Pensais talvez que mais vale a cabe&ccedil;a<br \/>\n    de uma duquesa&#8230; n&oacute;s lhe daremos mil pe&ccedil;as de ouro e primeiro<br \/>\n    lugar entre os meus servidores.<\/p>\n<p>700 &#8211; A DUQUESA &#8211; H&atilde;o-de tentar-se!&#8230; Nenhum! Nenhum!<\/p>\n<p>701 &#8211; O DUQUE (Concentrado) &#8211; O Padre!&#8230; Por que o deixei sair quando precisava<br \/>\n    de um algoz?&#8230; (Baixo ao primeiro servo). O estrado e o cepo?<\/p>\n<p>702 &#8211; O SERVO &#8211; Est&atilde;o prontos.<\/p>\n<p>703 &#8211; O DUQUE &#8211; E o cutelo?<\/p>\n<p>704 &#8211; O SERVO &#8211; Est&aacute; afiado.<\/p>\n<p>705 &#8211; O DUQUE (Como que falando consigo) &#8211; Uma duquesa n&atilde;o deve morrer<br \/>\n    como uma mulher vulgar.<\/p>\n<p>706 &#8211; A DUQUESA &#8211; Estou salva!<\/p>\n<p>707 &#8211; O DUQUE (Em voz alta) &#8211; A filha de D. Jo&atilde;o de Gusm&atilde;o,<br \/>\n    duque de Medina Sid&ocirc;nia, conde de Niebla, marqu&ecirc;s de Caza&ccedil;a<br \/>\n    e senhor de Gibraltar, merece contempla&ccedil;&atilde;o pela sua hierarquia.<br \/>\n    (&Agrave; duquesa). N&atilde;o vos parece?<\/p>\n<p>708 &#8211; A DUQUESA (T&iacute;mida) &#8211; Foi talvez inspira&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    c&eacute;u a que tornou esses homens surdos &agrave; voz do interesse.<\/p>\n<p>709 &#8211; O DUQUE &#8211; E do c&eacute;u &eacute; que vem esta inspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Senhora duquesa. Alegrai-vos&#8230; tereis um duque por carrasco!<\/p>\n<p>710 &#8211; A DUQUESA &#8211; V&oacute;s! Senhor!<\/p>\n<p>711 &#8211; O DUQUE (Travando-lhe o bra&ccedil;o) &#8211; Vinde!<\/p>\n<p>712 &#8211; A DUQUESA &#8211; Oh! Ainda um instante!<\/p>\n<p>713 &#8211; O DUQUE &#8211; Nada mais!<\/p>\n<p>714 &#8211; A DUQUESA &#8211; Eu tenho ainda tanto para vos dizer&#8230; Escutai-me at&eacute;<br \/>\n    o fim, e certamente me haveis de perdoar.<\/p>\n<p>715 &#8211; O DUQUE &#8211; N&atilde;o vos perdoarei.<\/p>\n<p>716 A DUQUESA &#8211; O que &eacute; um instante para v&oacute;s que ficais desfrutando<br \/>\n    a vida?&#8230; Por Deus! Dai-me um s&oacute; instante!<\/p>\n<p>717 &#8211; O DUQUE &#8211; N&atilde;o vos escuto!<\/p>\n<p>718 -. A DUQUESA &#8211; Um instante, senhor!<\/p>\n<p>719 &#8211; O DUQUE (Saindo com ela pela porta do fundo) Morrereis!&#8230; Morrereis!&#8230;<\/p>\n<h2>FIM DO DRAMA<\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I &#8211; Ato Primeiro II &#8211; Ato Segundo III &#8211; Ato Terceiro Pr&oacute;logo Contentar a todos ningu&eacute;m o alcan&ccedil;ou, muitos se contentaram com aprazer a muitos. O autor tomar&aacute; por grande honra satisfazer a poucos. 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