{"id":96459,"date":"2017-01-25T11:35:46","date_gmt":"2017-01-25T13:35:46","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96459"},"modified":"2017-01-25T11:35:46","modified_gmt":"2017-01-25T13:35:46","slug":"o-velho-da-horta-gil-vicente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-velho-da-horta-gil-vicente","title":{"rendered":"O Velho da Horta &#8211; Gil Vicente"},"content":{"rendered":"<h4>Gil Vicente<\/h4>\n<p>Esta seguinte farsa \u00e9 o seu argumento que um homem honrado e muito rico, j\u00e1 velho, tinha uma horta: e andando uma manh\u00e3 por ela espairecendo, sendo o seu hortel\u00e3o fora, veio uma mo\u00e7a de muito bom parecer buscar hortali\u00e7a, e o velho em tanta maneira se enamorou dela que, por via de uma alcoviteira, gastou toda a sua fazenda. A alcoviteira foi a\u00e7oitada, e a mo\u00e7a casou honradamente. Entra logo o velho rezando pela horta. Foi representada ao mui seren\u00edssimo rei D. Manuel, o primeiro desse nome. Era do Senhor de M.D.XII.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Pater noster criador, Qui es in coelis, poderoso, Santificetur, Senhor,nomen tuum vencedor, nos c\u00e9u e terra piedoso. Adveniat a tua gra\u00e7a, regnum tuum sem mais guerra; voluntas tua se fa\u00e7a sicut in coelo et in terra. Panem nostrum, que comemos, cotidianum teu \u00e9; escus\u00e1-lo n\u00e3o podemos; inda que o n\u00e3o mereceremos tu da nobis. Senhor, debita nossos errores, sicut et nos, por teu amor, dimittius qualquer error, aos nosso devedores. Et ne nos, Deus, te pedimos, inducas, por nenhum modo, in tentationem ca\u00edmos porque fracos nos sentimos formados de triste lodo. Sed libera nossa fraqueza, nos a malo nesta vida; Amen, por tua grandeza, e nos livre tua alteza da tristeza sem medida.<\/p>\n<p>Entra a <strong>MO\u00c7A<\/strong> na horta e diz o <strong>VELHO<\/strong><\/p>\n<p>Senhora, benza-vos Deus,<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Deus vos mantenha, senhor.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Onde se criou tal flor? Eu diria que nos c\u00e9us.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Mas no ch\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Pois damas se achar\u00e3o que n\u00e3o s\u00e3o vosso sapato!<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Ai! Como isso \u00e9 t\u00e3o v\u00e3o, e como as lisonjas s\u00e3o de barato!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Que buscais v\u00f3s c\u00e1, donzela, senhora, meu cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Vinha ao vosso hortel\u00e3o, por cheiros para a panela.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> E a isso vinde v\u00f3s, meu para\u00edso. Minha senhora, e n\u00e3o a a\u00ed?<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Vistes v\u00f3s! Segundo isso, nenhum velho n\u00e3o tem siso natural.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> \u00d3 meus olhinhos garridos, mina rosa, meu arminho!<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Onde \u00e9 vosso ratinho? N\u00e3o tem os cheiros colhidos?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> T\u00e3o depressa vinde v\u00f3s, minha condensa, meu amor, meu cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Jesus! Jesus! Que coisa \u00e9 essa? E que pr\u00e1tica t\u00e3o avessa da raz\u00e3o!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Falai, falai doutra maneira! Mandai-me dar a hortali\u00e7a. Gr\u00e3o fogo de amor me ati\u00e7a, \u00f3 minha alma verdadeira!<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: E essa tosse? Amores de sobreposse ser\u00e3o os da vossa idade; o tempo vos tirou a posse.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Mas amo que se mo\u00e7o fosse com a metade.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: E qual ser\u00e1 a desastrada que atende vosso amor?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Oh minha alma e minha dor, quem vos tivesse furtada!<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Que prazer! Quem vos isso ouvir dizer cuidar\u00e1 que estais vivo, ou que estai para viver!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Vivo n\u00e3o no quero ser, mas cativo!<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Vossa alma n\u00e3o \u00e9 lembrada que vos despede esta vida?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> V\u00f3s sois minha despedida, minha morte antecipada.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong> Que galante! Que rosa! Que diamante! Que preciosa perla fina!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Oh fortuna triunfante! Quem meteu um velho amante com menina! O maior risco da vida e mais perigoso \u00e9 amar, que morrer \u00e9 acabar e amor n\u00e3o tem sa\u00edda, e pois penado, ainda que amado, vive qualquer amador; que far\u00e1 o desamado, e sendo desesperado de favor?<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Ora, d\u00e1-lhe l\u00e1 favores! Velhice, como te enganas!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Essas palavras ufanas acendem mais os amores.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Bom homem, estais \u00e0s escuras! N\u00e3o vos vedes como estais?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> V\u00f3s me cegais com tristuras, mas vejo as desaventuras que me dais.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: N\u00e3o vedes que sois j\u00e1 morto e andais contra a natura?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Oh flor da mor formosura! Quem vos trouxe a este meu horto? Ai de mim! Porque, logo que vos vi, cegou minha alma, e a vida est\u00e1 t\u00e3o fora de si que, partindo-vos daqui, \u00e9 partida.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: J\u00e1 perto sois de morrer. Donde nasce esta sandice que, quanto mais na velhice, amais os velhos viver? E mais querida, quando estais mais de partida, \u00e9 a vida que deixais?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Tanto sois mais homicida, que, quando amo mais a vida, ma tirais. Porque meu tempo d\u2019agora vai vinte anos dos passados; pois os mo\u00e7os namorados a mocidade os escora. Mas um velho, em idade de conselho, de menina namorado&#8230; Oh minha alma e meu espelho!<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Oh miolo de coelho mal assado!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Quanto for mais avisado quem de amor vive penando, ter\u00e1 menos siso amando, porque \u00e9 mais namorado. Em conclus\u00e3o: que amor n\u00e3o quer raz\u00e3o, nem contrato, nem cautela, nem preito, nem condi\u00e7\u00e3o, mas penar de cora\u00e7\u00e3o sem querela.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Onde h\u00e1 desses namorados? A terra est\u00e1 livre deles! Olho mau se meteu neles! Namorados de cruzados, isso si!&#8230;<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Senhora, eis-me eu aqui, que n\u00e3o sei sen\u00e3o amar. Oh meu rosto de alfeni! Que em hora m\u00e1 eu vos vi.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Que velho t\u00e3o sem sossego!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Que garridice me viste?<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Mas dizei, que me sentiste, remelado, meio cego?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Mas de todo, por mui namorado modo, me tendes, minha senhora, j\u00e1 cego de todo em todo.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Bem est\u00e1, quando tal lodo se namora.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Quanto mais estais avessa, mais certo vos quero bem.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: O vosso hortel\u00e3o n\u00e3o vem? Quero-me ir, que estou com pressa.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Que fermosa! Toda a minha horta \u00e9 vossa.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: N\u00e3o quero tanta franqueza.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> N\u00e3o pra me serdes piedosa, porque, quanto mais graciosa, sois crueza. Cortai tudo, \u00e9 permitido, senhora, se sois servida. Seja a horta destru\u00edda, pois seu dono \u00e9 destru\u00eddo.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Mana minha! Julgais que sou a daninha? Porque n\u00e3o posso esperar, colherei alguma coisinha, somente por ir asinha e n\u00e3o tardar.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Colhei, rosa, dessas rosas! Minhas flores, colhei flores! Quisera que esses amores foram perlas preciosas e de rubis o caminho por onde is, e a horta de ouro tal, com lavores mui sutis, pois que Deus fazer-vos quis angelical. Ditoso \u00e9 o jardim que est\u00e1 em vosso poder. Podeis, senhora, fazer dele o que fazeis de mim.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Que folgura! Que pomar e que verdura! Que fonte t\u00e3o esmerada!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> N\u2019\u00e1gua olhai vossa figura: vereis minha sepultura ser chegada.<\/p>\n<p>Canta a <strong>MO\u00c7A<\/strong>:<\/p>\n<p>&#8220;Cual es la ni\u00f1a que coge las flores sino tiene amores?<br \/>\nCogia la ni\u00f1a la rosa florida:<br \/>\nEl hortelanico prendas le pedia sino tienes amores.&#8221;<\/p>\n<p>Assim cantando, colheu a <strong>MO\u00c7A<\/strong> da horta o que vinha buscar e, acabado, diz:<\/p>\n<p>Eis aqui o que colhi; vede o que vos hei de dar.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Que me haveis v\u00f3s de pagar, pois que me levais a mi? Oh coitado! Que amor me tem entregado e em vosso poder me fino, como p\u00e1ssaro em m\u00e3o dado de um menino!<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Senhor, com vossa merc\u00ea.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Por eu n\u00e3o ficar sem a vossa, queria de v\u00f3s uma rosa.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Uma rosa? Para que?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Porque s\u00e3o colhidas de vossa m\u00e3o, deixar-me-eis alguma vida, n\u00e3o isente de paix\u00e3o mas ser\u00e1 consola\u00e7\u00e3o na partida.<\/p>\n<p><strong>MO\u00c7A<\/strong>: Isso \u00e9 por me deter, Ora tomai, e acabar!<\/p>\n<p>Tomou o <strong>VELHO<\/strong> a m\u00e3o:<\/p>\n<p>Jesus! E quereis brincar? Que galante e que prazer!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> J\u00e1 me deixais? Eu n\u00e3o vos esque\u00e7o mais e nem fico s\u00f3 comigo. Oh mart\u00edrios infernais! N\u00e3o sei por que me matais, nem o que digo.<\/p>\n<p>Vem um <strong>PARVO <\/strong>, criado do <strong>VELHO<\/strong>, e diz:<\/p>\n<p>Dono, dizia minha dona que fazeis v\u00f3s c\u00e1 t\u00e9 \u00e0 noite?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Vai-te! Queres que t\u2019a\u00e7oite? Oh! Dou ao demo a intrujona sem saber!<\/p>\n<p><strong>PARVO <\/strong>: Diz que fosseis v\u00f3s comer e n\u00e3o demoreis aqui.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> N\u00e3o quero comer, nem beber.<\/p>\n<p><strong>PARVO <\/strong>: Pois que haver c\u00e1 de fazer?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Vai-te da\u00ed!<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong>: Dono, veio l\u00e1 meu tio, estava minha dona, ent\u00e3o ela, metendo lume \u00e0 panela o fogo logo subiu.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Oh Senhora! Como sei que estais agora sem saber minha saudade. Oh! Senhora matadora, meu cora\u00e7\u00e3o vos adora de vontade!<\/p>\n<p><strong>PARVO <\/strong>: Raivou tanto! Resmungou! Oh pesar ora da vida! Est\u00e1 a panela cozida, minha dona n\u00e3o jantou. N\u00e3o quereis?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> N\u00e3o hei de comer desta vez, nem quero comer bocado.<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong>: E se v\u00f3s, dono, morreis? Ent\u00e3o depois n\u00e3o falareis sen\u00e3o finado. Ent\u00e3o na terra nego jazer, ent\u00e3o, finar dono, estendido.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Antes n\u00e3o fora eu nascido, ou acabasse de viver!<\/p>\n<p><strong>PARVO <\/strong>: Assim, por Deus! Ent\u00e3o tanta pulga em v\u00f3s, tanta bichoca nos olhos, ali, cos finado, s\u00f3s, e comer-vos-\u00e3o a v\u00f3s os piolhos. Comer-vos-\u00e3o as cigarras e os sapos! Morrei! Morrei!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Deus me faz j\u00e1 merc\u00ea de me soltar as amaras. Vai saltando! Aqui te fico esperando; traze a viola, e veremos.<\/p>\n<p><strong>PARVO <\/strong>: Ah! Corpo de S\u00e3o Fernando! Est\u00e3o os outros jantando, e cantaremos?!&#8230;<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Fora eu do teu teor, por n\u00e3o se sentir esta praga de fogo, que n\u00e3o se apaga, nem abranda tanta dor&#8230; Hei de morrer.<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong>: Minha dona quer comer; Vinde, infeliz, que ela brada! Olhai! Eu fui lhe dizer dessa rosa e do tanger, e est\u00e1 raivada!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Vai tu, filho Joane, e dize que logo vou, que n\u00e3o h\u00e1 tempo que c\u00e1 estou.<\/p>\n<p><strong>PARVO <\/strong>: Ireis v\u00f3s para o Sanhoane! Pelo c\u00e9u sagrado, que meu dono est\u00e1 danado! Viu ele o demo no ramo. Se ele fosse namorado, logo eu vou buscar outro amo.<\/p>\n<p>Vem a <strong>MULHER <\/strong>do <strong>VELHO<\/strong> e diz:<\/p>\n<p>Hui! Que sina desastrada! Fernandeanes, que \u00e9 isto?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Oh pesar do anticristo. Oh velha destemperada! Vistes ora?<\/p>\n<p><strong>MULHER <\/strong>: E esta dama onde mora? Hui! Infeliz dos meus dias! Vinde jantar em m\u00e1 hora: por que vos meter agora em musiquias?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Pelo corpo de S\u00e3o Roque, vai para o demo a gulosa!<\/p>\n<p><strong>MULHER <\/strong>: Quem vos p\u00f4s a\u00ed essa rosa? M\u00e1 forca que vos enforque!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> N\u00e3o ma\u00e7ar! Fareis bem de vos tornar porque estou t\u00e3o sem sentido; n\u00e3o cureis de me falar, que n\u00e3o se pode evitar ser perdido!<\/p>\n<p><strong>MULHER <\/strong>: Agora com ervas novas vos tornastes garanh\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> N\u00e3o sei que \u00e9, nem que n\u00e3o, que hei de vir a fazer trovas.<\/p>\n<p><strong>MULHER <\/strong>: Que pe\u00e7onha! Havei, infeliz, vergonha ao cabo de sessenta anos, que sondes v\u00f3s carantonha.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Amores de quem me sonha tantos danos!<\/p>\n<p><strong>MULHER <\/strong>: J\u00e1 v\u00f3s estais em idade de mudardes os costumes.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Pois que me pedis ci\u00fames, eu vo-los farei de verdade.<\/p>\n<p><strong>MULHER <\/strong>: Olhai a pe\u00e7a!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Que o demo em nada me empe\u00e7a, sen\u00e3o morrer de namorado.<\/p>\n<p><strong>MULHER <\/strong>: Est\u00e1 a cair da tripe\u00e7a e tem rosa na cabe\u00e7a e embei\u00e7ado!&#8230;<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Deixar-me ser namorado, porque o sou muito em extremo!<\/p>\n<p><strong>MULHER <\/strong>: Mas vos tome inda o demo, se vos j\u00e1 n\u00e3o tem tomado!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Dona torta, acertar por esta porta, Velha mal-aventurada! Saia, infeliz , desta horta!<\/p>\n<p><strong>MULHER <\/strong>: Hui, meu Deus, que serei morta, ou espancada!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Estas velhas s\u00e3o pecados, Santa Maria vai com a praga! Quanto mais homem as afaga, tanto mais s\u00e3o endiabradas!<\/p>\n<p>(Canta)<\/p>\n<p>&#8220;Volvido nos han volvido,<br \/>\nvolvido nos han:<\/p>\n<p>por uma vecina mala<br \/>\nmeu amor tolheu-lhe a fala<br \/>\nvolvido nos han.&#8221;<\/p>\n<p>Entra Branca Gil, <strong>ALCOVITEIRA <\/strong>, e diz:<\/p>\n<p>Mantenha Deus vossa Merc\u00ea.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Ol\u00e1! Venhais em boa hora! Ah! Santa Maria! Senhora. Como logo Deus prov\u00ea!<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Certo, oh fadas! Mas venho por misturadas, e muito depressa ainda.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Misturadas preparadas, que h\u00e3o de fazer bem guisadas vossa vinda! Justamente nestes dias, em tempo contra a raz\u00e3o, veio amor, sem inten\u00e7\u00e3o, e fez de mim outro Macias t\u00e3o penado, que de muito namorado creio que culpareis porque tomei tal cuidado; e do velho destampado zombareis.<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Mas, antes, senhor agora na velhice anda o amor; o de idade de amador por acaso se namora; e na corte nenhum mancebo de sorte n\u00e3o ama como so\u00eda. Tudo vai em zombaria! Nunca morrem desta morte nenhum dia. E folgo ora de ver vossa merc\u00ea namorado, que o homem bem criado at\u00e9 \u00e0 morte o h\u00e1 de ser, por direito. N\u00e3o por modo contrafeito, mas firme, sem ir atr\u00e1s, que a todo homem perfeito mandou Deus no seu preceito: amar\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Isso \u00e9 o que sempre brado, Branca Gil, e n\u00e3o me vai, que eu n\u00e3o daria um real por homem desnamorado. Por\u00e9m, amiga, se nesta minha fadiga v\u00f3s n\u00e3o sois medianeira, n\u00e3o sei que maneira siga, nem que fa\u00e7a, nem que diga, nem que queira.<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Ando agora t\u00e3o ditosa (louvores a Virgem Maria!), que logro mais do que queria pela minha vida e vossa. De antem\u00e3o, fa\u00e7o uma esconjura\u00e7\u00e3o c\u2019um dente de negra morta antes que entre pela porta qualquer duro cora\u00e7\u00e3o que a exorta.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Dizede-me: quem \u00e9 ela?<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Vive junto com a S\u00e9. J\u00e1! J\u00e1! J\u00e1! Bem sei quem \u00e9! \u00c9 bonita como estrela, uma rosinha de abril, uma frescura de maio, t\u00e3o manhosa, t\u00e3o sutil!&#8230;<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Acudi-me Branca Gil, que desmaio.<\/p>\n<p>Esmorece o VELHO e a <strong>ALCOVITEIRA <\/strong>come\u00e7a a ladainha:<\/p>\n<p>\u00d3 precioso Santo Areliano, m\u00e1rtir bem-aventurado,<\/p>\n<p>Tu que foste marteirado neste mundo cento e um ano;<br \/>\n\u00d3 S\u00e3o Garcia Moniz, tu que hoje em dia<br \/>\nFazes milagres dobrados, d\u00e1-lhe esfor\u00e7o e alegria,<br \/>\nPois que \u00e9s da companhia dos penados!<br \/>\n\u00d3 Ap\u00f3stolo S\u00e3o Jo\u00e3o Foga\u00e7a, tu que sabes a verdade,<br \/>\nPela tua piedade, que tanto mal n\u00e3o se fa\u00e7a!<br \/>\n\u00d3 Senhor Trist\u00e3o da Cunha, confessor,<br \/>\n\u00d3 m\u00e1rtir Sim\u00e3o de Sousa, pelo vosso santo amor.<br \/>\nLivrai o velho pecador de tal cousa!<br \/>\n\u00d3 Santo Martim Afonso de Melo, t\u00e3o namorado.<br \/>\nD\u00e1 rem\u00e9dio a este coitado, e eu te direi um responso com devo\u00e7\u00e3o!<br \/>\nEu prometo uma ora\u00e7\u00e3o, todo dia, em quatro meses,<br \/>\nPor que lhe deis for\u00e7a, ent\u00e3o, meu senhor S\u00e3o Dom Jo\u00e3o de Meneses!<br \/>\n\u00d3 m\u00e1rtir Santo Amador Gon\u00e7alo da Silva, v\u00f3s, que sois o melhor de n\u00f3s,<br \/>\nPorfioso em amador t\u00e3o despachado, chamai o martirizado<br \/>\nDom Jorge de E\u00e7a a conselho!<br \/>\nDois casados num cuidado, socorrei a este coitado deste velho!<br \/>\nArcanjo S\u00e3o Comendador Mor de Avis, mui inflamado,<br \/>\nQue antes que fosseis nado, fostes santo no amor!<br \/>\nE n\u00e3o fique o precioso Dom Anrique, outro Mor de Santiago;<br \/>\nSocorrei-lhe muito a pique, antes que demo repique com tal pago.<br \/>\nGlorioso S\u00e3o Dom Martinho, ap\u00f3stolo e Evangelista, passai o fato em revista,<br \/>\nPorque leva mau caminho, e da\u00ed-lhe esp\u00edrito!<br \/>\n\u00d3 Santo Bar\u00e3o de Alvito, Serafim do deus Cupido, consolai o velho aflito,<br \/>\nPorque, inda que contrito, vai perdido!<br \/>\nTodos santos marteirados, socorrei ao marteirado, que morre de namorado,<br \/>\nPois morreis de namorados.<br \/>\nPara o livrar, as virgens quero chamar,<br \/>\nQue lhe queiram socorrer, ajudar e consolar,<br \/>\nQue est\u00e1 j\u00e1 para acabar de morrer.<br \/>\n\u00d3 Santa Dona Maria Anriques t\u00e3o preciosa,<br \/>\nQueirais-lhe ser piedosa, por vossa santa alegria!<br \/>\nE vossa vista, que todo o mundo conquista,<br \/>\nEsforce seu cora\u00e7\u00e3o, porque \u00e0 sua dor resista,<br \/>\nPor vossa gra\u00e7a e benquista condi\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00d3 Santa Dona Joana de Mendon\u00e7a, t\u00e3o fermosa,<br \/>\nPreciosa e mui lustrosa mui querida e mui ufana!<br \/>\nDa\u00ed-lhe vida com outra santa escolhida que tenho in voluntas mea;<br \/>\nSeja de v\u00f3s socorrida como de Deus foi ouvida a Cananea.<br \/>\n\u00d3 Santa Dona Joana Manuel, pois que podeis, e sabeis, e mereceis<br \/>\nSer ang\u00e9lica e humana, socorrei!<br \/>\nE v\u00f3s, senhora, por merc\u00ea, \u00f3 Santa Dona Maria de Calata\u00fad,<br \/>\nPor que vossa perfei\u00e7\u00e3o lhe d\u00ea alegria.<br \/>\nSanta Dona Catarina de Figueir\u00f3, a Real,<br \/>\nPor vossa gra\u00e7a especial que os mais altos inclina!<br \/>\nE ajudar\u00e1 Santa Dona Beatriz de S\u00e1:<br \/>\nDa\u00ed-lhe, senhora, conforto, porque est\u00e1 seu corpo j\u00e1 quase morto.<br \/>\nSanta Dona Beatriz da Silva, que sois aquela mais estrela que donzela,<br \/>\nComo todo o mundo diz!<br \/>\nE v\u00f3s, sentida Santa Dona Margarida de Sousa, lhe socorrei,<br \/>\nSe lhe puderdes dar vida, porque est\u00e1 j\u00e1 de partida sem porqu\u00ea!<br \/>\nSanta Dona Violante de Lima, de grande estima,<br \/>\nMui subida, muito acima de estimar nenhum galante!<br \/>\nPe\u00e7o-vos eu, e a Dona Isabel de Abreu, co siso que Deus vos deu,<br \/>\nQue n\u00e3o morra de sandeu em tal idade!&#8230;<br \/>\n\u00d3 Santa Dona Maria de Ata\u00edde, fresca rosa, nascida em hora ditosa,<br \/>\nQuando J\u00fapiter se ria!<br \/>\nE, se ajudar Santa Dona Ana, sem par de, E\u00e7a, bem aventurada,<br \/>\nPodei-lo ressuscitar, que sua vida vejo estar desesperada.<br \/>\nSantas virgens, conservadas em mui santo e limpo estado,<br \/>\nSocorrei ao namorado, que vos vejais namoradas!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> \u00d3h! Coitado!<br \/>\nAi triste desatinado!<br \/>\nAinda torno a viver?<br \/>\nCuidei que j\u00e1 era livrado.<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Que esfor\u00e7o de namorado e que prazer! Que hora foi aquela!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Que rem\u00e9dio me dais v\u00f3s?<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Vivereis, prazendo a Deus, e casar-vos-ei com ela.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> \u00c9 vento isso!<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Assim seja o para\u00edso. Que isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o extremo! N\u00e3o curedes v\u00f3s de riso, que eu farei t\u00e3o de improviso como o demo. E tamb\u00e9m doutra maneira se eu me quiser trabalhar.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Ide-lhe, logo, falar e fazei com que me queira, pois pere\u00e7o; e dizei-lhe que lhe pe\u00e7o se lembre que tal fiquei estimado em pouco pre\u00e7o, e, se tanto mal mere\u00e7o, n\u00e3o no sei! E, se tenho esta vontade, n\u00e3o deve ela s\u2019agastar; antes deve de folgar ver-nos morto nesta idade. E, se reclama que sendo t\u00e3o linda dama por ser velho me aborrece, dizei-lhe: \u00e9 um mal quem desama porque minh\u2019alma que a ama n\u00e3o envelhece.<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Sus! Nome de Jesus Cristo! Olhai-me pela cestinha.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Tornai logo, fada minha, que eu pagarei bem isto.<\/p>\n<p>Vai-se a <strong>ALCOVITEIRA <\/strong>, e fica o<strong> VELHO<\/strong> tangendo e cantando a cantiga seguinte:<\/p>\n<p>Pues tengo raz\u00f3n, se\u00f1ora,<br \/>\nRaz\u00f3n es que me laa oiga!<\/p>\n<p>Vem a <strong>ALCOVITEIRA <\/strong>e diz o <strong>VELHO:<\/strong><\/p>\n<p>Venhais em boa hora, amiga!<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: J\u00e1 ela fica de bom jeito; mas, para isto andar direito, \u00e9 raz\u00e3o que vo-lo diga: eu j\u00e1, senhor meu, n\u00e3o posso, sem gastardes bem do vosso, vencer uma mo\u00e7a tal.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Eu lhe pagarei em grosso.<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: A\u00ed est\u00e1 o feito nosso, e n\u00e3o em al. Perca-se toda a fazenda, por salvardes vossa vida!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Seja ela disso servida, que escusada \u00e9 mais contenda.<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Deus vos ajude, e vos d\u00ea mais sa\u00fade, que assim o haveis de fazer, que viola nem ala\u00fade nem quantos amores pude n\u00e3o quer ver. Falou-me l\u00e1 num brial de seda e uns trocados&#8230;<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Eis aqui trinta cruzados, Que lhe fa\u00e7am mui real!<\/p>\n<p>Enquanto a<strong> ALCOVITEIRA<\/strong> vai,<strong> VELHO<\/strong> torna a prosseguir o seu cantar e tanger e, acabado, torna ela e diz:<\/p>\n<p>Est\u00e1 t\u00e3o saudosa de v\u00f3s que se perde a coitadinha! H\u00e1 mister uma saiazinha e tr\u00eas on\u00e7as de retroz.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Tomai.<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: A ben\u00e7\u00e3o de vosso pai. (Bom namorado \u00e9 o tal!) pois gastais, descansai. Namorados de al! Ai! N\u00e3o valem real!<\/p>\n<p>Ui! Tal fora, se me fora! Sabeis v\u00f3s que me esquecia? Uma amiga me vendia um broche de uma senhora. Com um rubi para o colo, de marfi, lavrado de mil lavores, por cem cruzados. Ei-los a\u00ed! Isto, m\u00e1 hora, isto si s\u00e3o amores!<\/p>\n<p>Vai-se o <strong>VELHO<\/strong> torna a prosseguir a sua m\u00fasica e, acabada, torna a<strong> ALCOVITEIRA <\/strong>e diz:<\/p>\n<p>Dei, m\u00e1-hora, uma topada. Trago as sapatas rompidas destas vindas, destas idas, e enfim n\u00e3o ganho nada.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Eis aqui dez cruzados para ti.<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Come\u00e7o com boa estr\u00e9ia!<\/p>\n<p>Vem um <strong>ALCAIDE<\/strong> com quatro <strong>BELEGUINS<\/strong> , e diz:<\/p>\n<p>Dona, levantai-vos da\u00ed!<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Que quereis v\u00f3s assim?<\/p>\n<p><strong>ALCAIDE <\/strong>: \u00c0 cadeia!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Senhores, homens de bem, escutem vossas senhorias.<\/p>\n<p><strong>ALCAIDE <\/strong>: Deixai essas cortesias!<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: N\u00e3o hei medo de ningu\u00e9m, viste ora!<\/p>\n<p><strong>ALCAIDE <\/strong>: Levantai-vos da\u00ed, senhora, da\u00ed ao demo esse rezar! Quem vos dez t\u00e3o rezadora?<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Deixar-me ora, na m\u00e1-hora, aqui acabar.<\/p>\n<p><strong>ALCAIDE <\/strong>: Vinde da parte de el-Rei!<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Muita vida seja a sua. N\u00e3o me leveis pela rua; deixar-me v\u00f3s, que eu me irei.<\/p>\n<p><strong>BELEGUINS <\/strong>: Sus! Andar!<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Onde me quereis levar, ou quem me manda prender? Nunca havedes de acabar de me prender e soltar? N\u00e3o h\u00e1 poder!<\/p>\n<p><strong>ALCAIDE <\/strong>: Nada se pode fazer.<\/p>\n<p><strong>ALCOVITEIRA <\/strong>: Est\u00e1 j\u00e1 a carocha aviada?!&#8230; Tr\u00eas vezes fui j\u00e1 a\u00e7oitada, e, enfim, hei de viver.<\/p>\n<p>Levam-na presa e fica o <strong>VELHO<\/strong> dizendo:<\/p>\n<p>Oh! Que m\u00e1-hora! Ah! Santa Maria! Senhora! J\u00e1 n\u00e3o posso livrar bem. Cada passo se empiora! Oh! Triste quem se namora de algu\u00e9m!<\/p>\n<p>Vem uma <strong>MOCINHA <\/strong>\u00e0 horta e diz:<\/p>\n<p>Vedes aqui o dinheiro? Manda-me c\u00e1 minha tia, que, assim como no outro dia, lhe mandeis a couve e o cheiro. Est\u00e1 pasmado?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Mas estou desatinado.<\/p>\n<p><strong>MOCINHA <\/strong>: Estais doente, ou que haveis?<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Ai! N\u00e3o sei! Desconsolado, que nasci desventurado!<\/p>\n<p><strong>MOCINHA <\/strong>: N\u00e3o choreis! Mais mal fadada vai aquela!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Quem<\/p>\n<p><strong>MOCINHA <\/strong>: Branca Gil.<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Como?<\/p>\n<p><strong>MOCINHA <\/strong>: Com cem a\u00e7oites no lombo, uma carocha por capela, e aten\u00e7\u00e3o! Leva t\u00e3o bom cora\u00e7\u00e3o, como se fosse em folia. Que pancadas que lhe d\u00e3o! E o triste do preg\u00e3o \u2013 porque dizia:<\/p>\n<p>&#8220;Por mui grande alcoviteira e para sempre degredada&#8221;, vai t\u00e3o desavergonhada, como ia a feiticeira. E, quando estava, uma mo\u00e7a que passava na rua, para ir casar, e a coitada que chegava a folia come\u00e7ava de cantar: &#8220;ua mo\u00e7a t\u00e3o fermosa que vivia ali \u00e0 S\u00e9&#8230;&#8221;<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> Oh coitado! A minha \u00e9!<\/p>\n<p><strong>MOCINHA <\/strong>: Agora, m\u00e1 hora e vossa! Vossa \u00e9 a treva. Mas ela o noivo leva. Vai t\u00e3o leda, t\u00e3o contente, uns cabelos como Eva; por certo que n\u00e3o se atreva toda a gente! O Noivo, mo\u00e7o polido, n\u00e3o tirava os olhos dela, e ela dele. Oh que estrela! \u00c9 ele um par bem escolhido!<\/p>\n<p><strong>VELHO:<\/strong> \u00d3 roubado, da vaidade enganado, da vida e da fazenda! \u00d3 velho, siso enleado! Quem te meteu desastrado em tal contenda? Se os jovens amores, os mais t\u00eam fins desastrados, que far\u00e3o as c\u00e3s lan\u00e7adas no conto dos amadores? Que sentias, triste velho, em fim dos dias? Se a ti mesmo contemplaras, souberas que n\u00e3o vias, e acertaras.<\/p>\n<p>Quero-me ir buscar a morte, pois que tanto mal busquei. Quatro filhas que criei eu as pus em pobre sorte. Vou morrer. Elas h\u00e3o de padecer, porque n\u00e3o lhe deixo nada; da quantia riqueza e haver fui sem raz\u00e3o despender, mal gastada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gil Vicente Esta seguinte farsa \u00e9 o seu argumento que um homem honrado e muito rico, j\u00e1 velho, tinha uma horta: e andando uma manh\u00e3 por ela espairecendo, sendo o seu hortel\u00e3o fora, veio uma mo\u00e7a de muito bom parecer buscar hortali\u00e7a, e o velho em tanta maneira se enamorou dela que, por via de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96459","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Velho da Horta - Gil Vicente, Obra O Velho da Horta - Gil Vicente<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Velho da Horta - Gil Vicente, Obra, Teatro, Cen\u00e1rio, Personagens, Mo\u00e7a, Parvo, Mulher, Alcoviteira, Literatura, O Velho da Horta - Gil Vicente\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Velho da Horta - Gil Vicente, Obra O Velho da Horta - Gil Vicente\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Velho da Horta - Gil Vicente, Obra, Teatro, Cen\u00e1rio, Personagens, Mo\u00e7a, Parvo, Mulher, Alcoviteira, Literatura, O Velho da Horta - Gil Vicente\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-velho-da-horta-gil-vicente\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-25T13:35:46+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"19 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-velho-da-horta-gil-vicente#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-velho-da-horta-gil-vicente\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"O Velho da Horta &#8211; 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