{"id":96453,"date":"2017-01-25T11:29:33","date_gmt":"2017-01-25T13:29:33","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96453"},"modified":"2017-01-25T11:29:33","modified_gmt":"2017-01-25T13:29:33","slug":"auto-da-feira-gil-vicente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-feira-gil-vicente","title":{"rendered":"Auto da Feira &#8211; Gil Vicente"},"content":{"rendered":"<h4>Gil Vicente<\/h4>\n<p>A obra seguinte \u00e9 chamada Auto da Feira. Foi representada ao mui excelente Pr\u00edncipe El Rei Dom Jo\u00e3o, o terceiro em Portugal deste nome, na sua nobre e sempre leal cidade de Lisboa, \u00e0s matinas do Natal, na era do Senhor de 1527.<\/p>\n<p><strong>Figuras:<\/strong><\/p>\n<p>Merc\u00fario, Tempo, Serafim, Diabo, Roma, Am\u00e2ncio Vaz, Diniz Louren\u00e7o, Branca Anes, Marta Dias, Justina, Leonarda, Teodora, Moneca, Giralda, Juliana, Tesaura, Merenciana, Doroteia, Gilberto, Nabor, Dion\u00edsio, Vicente, Mateus.<\/p>\n<p>Entra primeiramente Merc\u00fario, e posto em seu assento, diz:<\/p>\n<p><strong>MERC\u00daRIO<\/strong><\/p>\n<p>Pera que me conhe\u00e7ais, e entendais meus partidos, todos quantos aqui estais afinai bem os sentidos, mais que nunca, muito mais. Eu sou estrela do c\u00e9u, e depois vos direi qual, e quem me c\u00e1 descendeu e a qu\u00ea, e todo o al que me a mi aconteceu.<\/p>\n<p>E porque a astronomia anda agora mui maneira, mal sabida e lisonjeira, eu, \u00e0 honra deste dia, vos direi a verdadeira. Muitos presumem saber as opera\u00e7\u00f5es dos c\u00e9us, e que morte h\u00e3o-de morrer, e o que h\u00e1-de acontecer aos anjos e a Deus,e ao mundo e ao diabo. E que o sabem t\u00eam por f\u00e9; e eles todos em cabo ter\u00e3o um c\u00e3o polo rabo, e n\u00e3o sabem cujo \u00e9. E cada um sabe o que monta nas estrelas que olhou; e ao mo\u00e7o que mandou, n\u00e3o lhe sabe tomar conta d&#8217; um vint\u00e9m que lh&#8217; entregou.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, quero-vos pregar, sem mentiras nem cautelas, o que per curso d&#8217; estrelas se poder\u00e1 adivinhar, pois no c\u00e9u nasci com elas. E se Francisco de Melo, que sabe ci\u00eancia avondo, diz que o c\u00e9u \u00e9 redondo, e o sol sobre amarelo; diz verdade, n\u00e3o lh&#8217; o escondo.<\/p>\n<p>Que se o c\u00e9u fora quadrado, n\u00e3o fora redondo, senhor. E se o sol fora azulado, d&#8217; azul fora a sua cor e n\u00e3o fora assi dourado. E porque est\u00e1 governado per seus cursos naturais, neste mundo onde morais nenhum homem aleijado, se for manco e corcovado, n\u00e3o corre por isso mais.<\/p>\n<p>E assi os corpos celestes vos trazem t\u00e3o compassados, que todos quantos nascestes, se nascestes e crescestes, primeiro fostes gerados. E que fazem os poderes dos sinos resplandecentes? Que fazem que todalas gentes ou s\u00e3o homens ou mulheres, ou crian\u00e7as inocentes.<\/p>\n<p>E porque Saturno a nenhum influi vida contina, a morte de cada um \u00e9 aquela de que se fina, e n\u00e3o d&#8217; outro mal nenhum. Outrossim o terremoto, que \u00e0s vezes causa perigo, faz fazer ao morto voto de n\u00e3o bulir mais consigo, cant\u00e1 de seu pr\u00f3prio moto.<\/p>\n<p>E a claridade encendida dos raios piramidais causa sempre nesta vida que quando a vista \u00e9 perdida, os olhos s\u00e3o por demais.<\/p>\n<p>E que mais quereis saber desses temporais e disso, sen\u00e3o que, se quer chover, est\u00e1 o c\u00e9u pera isso, e a terra pera a receber? a l\u00fca tem este jeito: v\u00ea que cl\u00e9rigos e frades j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam ao C\u00e9u respeito, mingua-lhes as santidades, e cresce-lhes o proveito.<\/p>\n<p>Et quantum ad stella Mars, speculum belli, et Venus, Regina musicae, secundum Joanes Monteregio:<\/p>\n<p>Mars, planeta dos soldados, faz nas guerras conte\u00fadas, em que os reis s\u00e3o ocupados, que morrem de homens barbados mais que mulheres barbudas. E quando V\u00e9nus declina, e retrogada em seu cargo, n\u00e3o se paga o desembargo no dia que s&#8217; ele assina mas antes por tempo largo.<\/p>\n<p>Et quantum ad Taurus et Aries, Cancer Capricornius positus in firmamento coeli:<\/p>\n<p>E quanto ao Touro e Carneiro, s\u00e3o t\u00e3o maus d&#8217; haver agora que quando os p\u00f5e no madeiro, chama o povo ao carniceiro Senhor, c&#8217; os barretes fora. Depois do povo agravado, que j\u00e1 mais fazer n\u00e3o pode, invoca o signo do Bode, Capric\u00f3rnio chamado, porque Libra n\u00e3o lhe acode.<\/p>\n<p>E se este n\u00e3o h\u00e1s tomado, nem Touro, Carneiro assi, vai-te ao sino do Pescado, chamado Piscis em latim, e ser\u00e1s remedeado: e se Piscis n\u00e3o tem ensejo, porque pode n\u00e3o no haver, vai-te ao signo do Cranguejo, Signum Cancer, Ribatejo, que est\u00e1 ali a quem no quer.<\/p>\n<p>Sequuntur mirabilia Jupiter Rex regum, Dominus dominantium.<\/p>\n<p>J\u00fapiter, rei das estrelas, deus das pedras preciosas, mui mais precioso qu&#8217; elas pintor de todalas rosas, rosa mais fermosa delas; \u00e9 t\u00e3o alto seu reinado , influ\u00eancia e senhoria, que faz percurso ordenado que tanto vale um cruzado de noite como de dia.<\/p>\n<p>E faz que \u00fca nau veleira mui forte, muito segura, que inda que o mar n\u00e3o queira, e seja de cedro a madeira, n\u00e3o preste sem pregadura.<\/p>\n<p>Et quantum ad duodecim domus Zodiacus, sequitur declaratio operationem suam.<\/p>\n<p>Ao Zod\u00edaco achar\u00e3o doze moradas palha\u00e7as, onde os sinos est\u00e3o no Inverno e no Ver\u00e3o, dando a Deus infindas gra\u00e7as. Escutai bem, n\u00e3o durmais, sabereis por conjeituras que os corpos celestiais n\u00e3o s\u00e3o menos nem s\u00e3o mais que suas mesmas granduras.<\/p>\n<p>E os que se desvelaram, se das estrelas souberam, foi que a estrela que olharam, est\u00e1 onde a puseram, e faz o que lhe mandaram. E cuidam que Ursa Maior, Ursa Menor e o Drag\u00e3o, e Lepus, que t\u00eam paix\u00e3o, porque um corregedor manda enforcar um ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o, porque as constela\u00e7\u00f5es n\u00e3o alcan\u00e7am mais poderes, que fazer que os ladr\u00f5es sejam filhos de mulheres, e os mesmos pais var\u00f5es. E aqui quero acabar. E pois vos disse at\u00e9qui o que se pode alcan\u00e7ar, quero-vos dizer de mi, e o que venho buscar.<\/p>\n<p>Eu s\u00e3o Merc\u00fario, senhor de muitas sabedorias, e das moedas reitor, e deus das mercadorias: nestas tenho meu vigor. Todos tratos e contratos, valias, pre\u00e7os, aven\u00e7as, carestias e baratos, ministro suas perten\u00e7as, at\u00e9 \u00e0s compras dos sapatos.<\/p>\n<p>E porquanto nunca vi na corte de Portugal feira em dia de Natal, ordeno \u00fca feira aqui pera todos em geral. Fa\u00e7o mercador-mor ao Tempo, que aqui vem; e assi o hei por bem. E n\u00e3o falte comprador. Porque o tempo tudo tem.<\/p>\n<p>Entra o Tempo, e arma \u00fca tenda com muitas cousas e diz:<\/p>\n<p><strong>TEMPO<\/strong><\/p>\n<p>Em nome daquele que rege nas pra\u00e7as d&#8217;Anvers e Medina as feiras que t\u00eam, come\u00e7a-se a feira chamada das Gra\u00e7as, \u00e0 honra da Virgem parida em Bel\u00e9m. Quem quiser feirar, venha trocar, qu&#8217; eu n\u00e3o hei-de vender; todas virtudes qu&#8217; houverem mister nesta minha tenda as podem achar, a troco de cousas que h\u00e3o-de trazer.<\/p>\n<p>Todos rem\u00e9dios, especialmente contra fortunas ou adversidades aqui se vendem na tenda presente; conselhos maduros de s\u00e3s qualidades aqui se achar\u00e3o. A mercadorias d&#8217; amor a rez\u00e3o justi\u00e7a e verdade, a paz desejada, porque a Cristandade \u00e9 toda gastada s\u00f3 em servi\u00e7o da opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui achareis o temor de Deus, que \u00e9 j\u00e1 perdido em todos Estados; aqui achareis as chaves dos C\u00e9us, muito bem guarnecidas em cord\u00f5es dourados. E mais achareis soma de contas, todas de contar qu\u00e3o poucos e poucos haveis de lograr as feiras mundanas; e mais contareis as contas sem conto qu&#8217; est\u00e3o por contar. E porque as virtudes, Senhor Deus, que digo, se foram perdendo de dias em dias, com a vontade que deste \u00f3 Messias memoria o teu Anjo que ande comigo, Senhor, porque temo ser esta feira de maus compradores, porque agora os mais sabedores fazem as compras na feira do Demo, e os mesmos Diabos s\u00e3o seus corretores.<\/p>\n<p>Entra um Serafim enviado por Deus a peti\u00e7\u00e3o do Tempo, e diz:<\/p>\n<p>SERAFIM \u00c0 feira, a feira igrejas, mosteiros, pastores das almas, Papas adormidos; comprai aqui panos, mudai os vestidos, buscai as samarras dos outros primeiros, os antecessores. Feirai o car\u00e3o que trazeis dourado; \u00f3 presidentes do crucificado, lembrai-vos da vida dos santos pastores do tempo passado.<\/p>\n<p>\u00d3 Pr\u00edncipes altos, imp\u00e9rio facundo, guardai-vos da ira do Senhor dos C\u00e9us; comprai grande soma do temor de Deus na feira da Virgem, Senhora do Mundo, exemplo da paz, pastora dos anjos, luz das estrelas. \u00c0 feira da Virgem, donas e donzelas, porque este mercador sabei que aqui traz as cousas mais belas.<\/p>\n<p>Entra um Diabo com \u00fca tendinha adiante de si, como bofalinheiro, e diz:<\/p>\n<p>DIABO Eu bem me posso gavar, e cada vez que quiser, que na feira onde eu entrar sempre tenho que vender, e acho quem me comprar. E mais, vendo muito bem, porque sei bem o que entendo; e de tudo quanto vendo n\u00e3o pago siza a ningu\u00e9m por tratos que ande fazendo.<\/p>\n<p>Quero-me fazer \u00e0 vela nesta santa feira nova. Verei os que v\u00eam a ela, e mais verei quem m&#8217; estorva de ser eu o maior dela. TEMPO \u00c9s tu tamb\u00e9m mercador, que a tal feira t&#8217; ofereces? DIABO Eu n\u00e3o sei se me conheces. TEMPO Falando com salvanor, tu Diabo me pareces.<\/p>\n<p>DIABO Falando com salvos rabos inda que me tens por vil, achar\u00e1s homens cem mil honrados, que s\u00e3o Diabos, (que eu n\u00e3o tenho nem ceitil) e bem honrados te digo, e homens de muita renda, que t\u00eam d\u00edvida comigo. Pois n\u00e3o me tolhas a venda, que n\u00e3o hei nada contigo.<\/p>\n<p>Tempo ao Serafim<\/p>\n<p>TEMPO Senhor, em toda maneira acudi a este ladr\u00e3o, que h\u00e1-de danar a feira.<\/p>\n<p>DIABO Ladr\u00e3o? Pois haj&#8217; eu perd\u00e3o se vos meter em canseira. Olhai c\u00e1, Anjo de bem, eu, como cousa perdida, nunca me tolhe ningu\u00e9m que n\u00e3o ganhe minha vida, como quem vida n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Vendo dessa marmelada, e \u00e0s vezes gr\u00e3os torrados, isto n\u00e3o releva nada; e em todolos mercados entra a minha quintalada. SERAFIM Muito bem sabemos n\u00f3s que vendes tu cousas vis. DIABO I h\u00e1 de homens ruins mais mil vezes que n\u00e3o b\u00f4s, como v\u00f3s mui bem sentis.<\/p>\n<p>E estes h\u00e3o-de comprar disto que trago a vender, que s\u00e3o artes de enganar, e cousas pera esquecer o que deviam lembrar. Que o sages mercador h\u00e1-de levar ao mercado o que lhe compram melhor; porque a ruim comprador levar-lhe ruim borcado.<\/p>\n<p>E mais as boas pessoas s\u00e3o todas pobres a eito; e eu por este respeito nunca trato em cousas boas, porque n\u00e3o trazem proveito. Toda a gl\u00f3ria de viver das gentes \u00e9 ter dinheiro, e quem muito quiser ter cumpre-lhe de ser primeiro o mais ruim que puder.<\/p>\n<p>E pois s\u00e3o desta maneira os contratos dos mortais, n\u00e3o me lanceis v\u00f3s da feira onde eu hei-de vender mais que todos \u00e0 derradeira. SERAFIM Vender\u00e1s muito perigo, que tens nas trevas escuras. DIABO Eu vendo perfumaduras, que, pondo-as no embigo, se salvam as criaturas.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes vendo virotes, e trago d&#8217; Andaluzia naipes com que os sacerdotes arreneguem cada dia, e joguem at\u00e9 os pelotes. SERAFIM N\u00e3o vender\u00e1s tu aqui isso, que esta feira \u00e9 dos c\u00e9us: vai l\u00e1 vender ao abisso, logo, da parte de Deus! DIABO Senhor, apelo eu disso.<\/p>\n<p>S&#8217; eu fosse t\u00e3o mau rapaz que fizesse for\u00e7a a algu\u00e9m, era isso muito bem; mas cada um veja o que faz, porque eu n\u00e3o for\u00e7o ningu\u00e9m. Se me vem comprar qualquer cl\u00e9rigo, ou leigo, ou frade falsas manhas de viver, muito por sua vontade; senhor, que lh&#8217; hei-de fazer?<\/p>\n<p>E se o que quer bispar h\u00e1 mister hipocrisia e com ela quer ca\u00e7ar, tendo eu tanta em perfia, porque lh&#8217; a hei-de negar? E se \u00fca doce freira vem \u00e0 feira por comprar um inguento, com que voe do convento, senhor, inda que eu n\u00e3o queira, lh&#8217; hei-de dar aviamento.<\/p>\n<p>MERC\u00daRIO Alto, Tempo, aparelhar, porque Roma vem \u00e0 feira. DIABO Quero-me eu concertar, porque lhe sei a maneira de seu vender e comprar.<\/p>\n<p>Entra Roma, cantando.<\/p>\n<p>ROMA \u00abSobre mi armavam guerra; \u00abver quero eu quem a mi leva.<\/p>\n<p>\u00abTr\u00eas amigos que eu havia, \u00absobre mi armam porfia; \u00abver quero eu quem a mi leva\u00bb.<\/p>\n<p>Fala:<\/p>\n<p>Vejamos se nesta feira, que Merc\u00fario aqui faz, acharei a vender paz, que me livre da canseira em que a fortuna me traz. Se os meus me desbaratam, o meu socorro onde est\u00e1 Se os Crist\u00e3os mesmos me matam, a vida quem m&#8217; a dar\u00e1, que todos me desacatam?<\/p>\n<p>Pois s&#8217; eu aqui n\u00e3o achar a paz firme e de verdade na santa feira a comprar, cant&#8217; a mi d\u00e1-me a vontade que mourisco hei-de falar. DIABO Senhora, se vos prouver, eu vos darei bom recado. ROMA N\u00e3o pareces tu azado pera trazer a vender o que eu trago no cuidado.<\/p>\n<p>N\u00e3o julgueis v\u00f3s pola cor, porque em al vai o engano; c\u00e1 dizem que sob mau pano est\u00e1 o bom bebedor; nem v\u00f3s digais mal do ano.<\/p>\n<p>Eu venho \u00e0 feira direita comprar paz, verdade e f\u00e9. DIABO A verdade pera qu\u00ea? Cousa que n\u00e3o aproveita, e aborrece, pera que \u00e9? N\u00e3o trazeis bons fundamentos pera o que haveis mister; e a segundo s\u00e3o os tempos, assim h\u00e3o-de ser os tentos, pera saberdes viver.<\/p>\n<p>E pois agora \u00e0 verdade chamam Maria Pe\u00e7onha, e parvo\u00edce \u00e0 vergonha, e aviso \u00e0 ruindade, peitai a quem vo-la ponha, a ruindade digo eu: e aconselho-vos mui bem, porque quem bondade tem nunca o mundo ser\u00e1 seu, e mil canseiras lhe vem.<\/p>\n<p>Vender-vos-ei nesta feira mentiras vinta tr\u00eas mil, todas de nova maneira, cada \u00fca t\u00e3o subtil, que n\u00e3o vivais em canseira: mentiras pera senhores, mentiras pera senhoras, mentiras pera os amores, mentiras, que a todas as horas vos nas\u00e7am delas favores.<\/p>\n<p>E como formos avindos nos pre\u00e7os disto que digo, vender-vos-ei como amigo muitos enganos infindos, que aqui trago comigo. ROMA Tudo isso tu vendias, e tudo isso feirei tanto, que inda venderei, e outras sujas mercancias, que por meu mal te comprei.<\/p>\n<p>Porque a troco do amor de Deus, te comprei mentira, e a troco do temor que tinha da sua ira, me deste o seu desamor; e a troco da fama minha e santas prosperidades, me deste mil torpidades; e quantas virtudes tinha te troquei polas maldades.<\/p>\n<p>E pois j\u00e1 sei o teu jeito, quero ir ver que vai c\u00e1. DIABO As cousas que vendem l\u00e1 s\u00e3o de bem pouco proveito a quem quer que as comprar\u00e1.<\/p>\n<p>Vai-se Roma ao Tempo e Merc\u00fario e diz Roma:<\/p>\n<p>ROMA T\u00e3o honrados mercadores n\u00e3o podem leixar de ter cousas de grandes primores; e quant&#8217; eu houver mister deveis v\u00f3s de ter, senhores. SERAFIM Sinal \u00e9 de boa feira virem a ela as donas tais, e pois v\u00f3s sois a primeira, queremos ver que feirais segundo vossa maneira.<\/p>\n<p>C\u00e1, se v\u00f3s a paz quereis senhora, sereis servida, e logo a levareis a troco de santa vida; mas n\u00e3o sei se a trazeis. Porque, senhora eu me fundo que quem tem guerra com Deus, n\u00e3o pode ter paz c &#8216; o mundo ; porque tudo vem dos c\u00e9us, daquele poder profundo.<\/p>\n<p>ROMA A troco das esta\u00e7\u00f5es n\u00e3o fareis algum partido, e a troco dos perd\u00f5es, que \u00e9 tesouro concedido pera quaisquer remiss\u00f5es? Oh, vendei-me a paz dos c\u00e9us, pois tenho o poder na terra. SERAFIM Senhora, a quem Deus d\u00e1 guerra, grande guerra faz a Deus, que \u00e9 certo que Deus n\u00e3o erra.<\/p>\n<p>Vede v\u00f3s que lhe fazeis, vede como o estimais, vede bem se o temeis ; atentai com quem lidais, que temo que caireis. ROMA Assi que a paz n\u00e3o se d\u00e1 a troco de jubileus? MERC\u00daRIO \u00d3 Roma, sempre vi l\u00e1 que matas pecados c\u00e1, e leixas viver os teus.<\/p>\n<p>Tu n\u00e3o te corras de mi; mas com teu poder facundo assolves a todo o mundo, e n\u00e3o te lembras de ti, nem v\u00eas que te v\u00e1s ao fundo. ROMA \u00d3 Merc\u00fario, valei-me ora, que vejo maus aparelhos. MERC\u00daRIO D\u00e1-lhe, Tempo, a essa senhora o cofre de meus conselhos: e podes-te ir muit&#8217; embora.<\/p>\n<p>Um espelho a\u00ed achar\u00e1s, que foi da Virgem Sagrada, co&#8217; ele te toucar\u00e1s porque vives mal toucada, e n\u00e3o sentes como est\u00e1s: e achar\u00e1s a maneira como emendes a vida: e n\u00e3o digas mal da feira; porque tu ser\u00e1s perdida, se n\u00e3o mudas a carreira.<\/p>\n<p>N\u00e3o culpes aos reis do mundo, que tudo te vem de cima, pelo que fazes c\u00e1 em fundo: que, ofendendo a causa prima, se resulta o mal segundo. E tamb\u00e9m o digo a v\u00f3s e a qualquer meu amigo, quem n\u00e3o quer guerra consigo: tenha sempre paz com Deus, e n\u00e3o temer\u00e1 perigo.<\/p>\n<p>DIABO Prep\u00f3sito Frei Sueiro, diz l\u00e1 o exemplo velho: d\u00e1-me tu a mi dinheiro, e d\u00e1 ao demo o conselho.<\/p>\n<p>Depois de ida Roma, entram dous lavradores, um per nome Am\u00e2ncio Vaz e outro Diniz Louren\u00e7o, e diz Am\u00e2ncio Vaz:<\/p>\n<p>AM\u00c2NCIO VAZ Compadre, v\u00e1s tu \u00e0 feira? DINIZ LOUREN\u00c7O \u00c0 feira, compadre. AM\u00c2NCIO VAZ Assi, ora vamos eu e ti \u00f3 longo desta ribeira. DINIZ LOUREN\u00c7O Bof\u00e1, vamos. AM\u00c2NCIO VAZ Folgo bem de te vir aqui achar. DINIZ LOUREN\u00c7O V\u00e1s tu l\u00e1 buscar algu\u00e9m, ou esperas de comprar?<\/p>\n<p>AM\u00c2NCIO VAZ Isso te quero contar, e iremos patorneando, e er tamb\u00e9m aguardando polas mo\u00e7as do lugar. Compadre, enha mulher \u00e9 muito destemperada, e agora, se Deus quiser, fa\u00e7o conta de a vender, e d\u00e1-la-ei por quase nada.<\/p>\n<p>Qu&#8217;eu quando casei com ela diziam-me, \u00abH\u00e9tega \u00e9\u00bb. E eu cuidei pola abof\u00e9 que mais cedo morresse ela, e ela anda inda em p\u00e9. E porque era h\u00e9tega assim foi o que m&#8217; a mim danou: avonda qu&#8217;ela engordou e fez-me h\u00e9tego a mim.<\/p>\n<p>DINIZ LOUREN\u00c7O Tens boa mulher de teu: n\u00e3o sei que tu h\u00e1s, amigo. AM\u00c2NCIO VAZ S&#8217;ela casara contigo renegaras tu com&#8217; eu e dixeras o que eu digo. DINIZ LOUREN\u00c7O Pois, compadre, cant&#8217;\u00e0 minha, \u00e9 t\u00e3o mole e desatada, que nunca d\u00e1 peneirada que n\u00e3o derrame a farinha.<\/p>\n<p>E n\u00e3o p\u00f5e cousa a guardar, que a tope quanda a cata; e por mais que homem se mata, de birra n\u00e3o quer falar. Tr\u00e1s d&#8217; \u00fca pulga andar\u00e1 tr\u00eas dias, e oito, e dez, sem lhe lembrar o que fez, nem t\u00e3o pouco o que far\u00e1.<\/p>\n<p>Pera que t&#8217;hei-de falar? Quando ontem cheguei do mato p\u00f4s \u00fca enguia a assar, e crua a leixou levar, por n\u00e3o dizer sape a um gato. Quant&#8217;a mansa, mansa \u00e9 ela; dei-m&#8217;\u00ea logo conta disso. AM\u00c2NCIO VAZ Juro-t&#8217;eu que mais vale isso cinquenta vezes qu&#8217;ela.<\/p>\n<p>A minha te digo eu que se a visses assanhada, parece demoninhada, ante S\u00e3o Bertolameu. DINIZ LOUREN\u00c7O J\u00e1 sequer ter\u00e1 esp&#8217;rito: mas renega da mulher que \u00f3 tempo do mister n\u00e3o \u00e9 cabra nem cabrito.<\/p>\n<p>AM\u00c2NCIO VAZ A minha tinh&#8217;eu em guarda pera bem da minha prol, cuidando que era ourinol, e tornou-se-me bombarda. Folga tu que ess&#8217;outra tenhas, porque a minha \u00e9 tal perigo, que por nada que lhe digo logo me salta nas grenhas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o tanto punho seco me chimpa nestes focinhos; eu chamo polos vizinhos, e ela nego dar-me em xeco. DINIZ LOUREN\u00c7O Isso \u00e9 de cora\u00e7uda; n\u00e3o cures de a vender, que s&#8217;algu\u00e9m te mal fizer, j\u00e1 sequer tens quem te acuda.<\/p>\n<p>Mas a minha \u00e9 t\u00e3o cort\u00eas, que se viesse ora \u00e0 m\u00e3o que m&#8217;espancasse um rasc\u00e3o, n\u00e3o diria, \u00abMal faz\u00eas\u00bb. Mas antes s&#8217; assentaria a olhar como eu bradava. Todavia a mulher brava \u00e9, compadre, a qu&#8217;eu queria.<\/p>\n<p>AM\u00c2NCIO VAZ Pardeus! Tanto me far\u00e1s que feire a minha contigo. DINIZ LOUREN\u00c7O Se queres feirar comigo, vejamos que me dar\u00e1s. AM\u00c2NCIO VAZ Mas antes m&#8217; h\u00e1s-de tornar pois te dou mulher t\u00e3o forte, que te castigue de sorte que n\u00e3o ouses de falar, nem no mato nem na corte.<\/p>\n<p>Outro bem ter\u00e1s com ela: quando vieres da arada, comer\u00e1s sardinha assada, porqu &#8216; ela jenta a panela. Ent\u00e3o geme, pardeus, si, diz que lhe d\u00f3i a moleira. DINIZ LOUREN\u00c7O Eu faria per maneira que esperasse ela por mi. AM\u00c2NCIO VAZ Que lh&#8217;havias de fazer?<\/p>\n<p>DINIZ LOUREN\u00c7O Am\u00e2ncio Vaz, eu o sei bem. AM\u00c2NCIO VAZ Diniz Louren\u00e7o, ei-las c\u00e1 v\u00eam! Vamo-nos n\u00f3s esconder, vejamos que v\u00eam catar, qu&#8217;elas ambas v\u00eam \u00e0 feira. Mete-te nessa silveira, qu&#8217;eu daqui hei-d&#8217; espreitar.<\/p>\n<p>V\u00eam Branca Anes a brava, e Marta Dias a mansa, e vem dizendo a brava:<\/p>\n<p>BRANCA ANES Pois casei m\u00e1 hora, e nela, e com tal marido, prima, comprarei c\u00e1 \u00fca gamela, para o ter debaixo dela, e um gr\u00e3o penedo em cima. Porque vai-se-me \u00e0s figueiras, e come verde e maduro ; e quantas uvas penduro jeita nas gorgomileiras: parece negro monturo.<\/p>\n<p>Vai-se-m&#8217;\u00e0s ameixieiras antes que sejam maduras, ele quebra as cerejeiras, ele vindima as parreiras, e n\u00e3o sei que faz das uvas. Ele n\u00e3o vai \u00e0 lavrada, ele todo o dia come, ele toda a noite dorme, ele n\u00e3o faz nunca nada, e sempre me diz que h\u00e1 fome.<\/p>\n<p>Jesu! Jesu! Posso-te dizer e jurar e tresjurar, e provar e reprovar, e andar e revolver, qu&#8217; \u00e9 melhor pera beber, que n\u00e3o pera maridar. O demo que o fez marido, que assim seco como \u00e9 beber\u00e1 a torre da S\u00e9! Ent\u00e3o arma um arru\u00eddo assi debaixo do p\u00e9.<\/p>\n<p>MARTA DIAS Pois bom homem parece ele. DINIZ LOUREN\u00c7O Aquela \u00e9 a minha frouxa. MARTA DIAS Deu-t&#8217;ele a fraldinha roxa? BRANCA ANES Melhor lh&#8217;esfole eu a pele. Que homem h\u00e1 i da puxa. \u00d3 diabo que o eu dou, que o leve em fatiota, e o ladr\u00e3o que m&#8217;o gabou; e o frade que me casou inda o veja na picota.<\/p>\n<p>E rogo \u00e0 Virgem da Estrela, e a santa Gerjalem, e \u00f3s choros de Madanela e \u00e0 asninha de Bel\u00e9m, que o veja ir \u00e0 vela pera donde nunca vem. DINIZ LOUREN\u00c7O Compadre, no mais sofrer: sai de l\u00e1 desse silvado. AM\u00c2NCIO VAZ Pera eu ser arrepelado. N\u00e3o havi&#8217;eu mais mister.<\/p>\n<p>DINIZ LOUREN\u00c7O E n\u00e3o n&#8217;h\u00e1s tu de vender? AM\u00c2NCIO VAZ Tu dizes que a qu\u00e9s feirar. DINIZ LOUREN\u00c7O N\u00e3o qu&#8217;ela se me tomar leixar-m&#8217;\u00e1 quando quiser. Mas demo-las \u00e0 m\u00e1 estreia; e voto que nos tornemos, e er depois tornaremos com as cachopas d&#8217;aldeia: entonces concertaremos.<\/p>\n<p>AM\u00c2NCIO VAZ Isso me parece a rni muito melhor que eu ir l\u00e1. Oh, que couces que me d\u00e1, quando me colhe sob si! DINIZ LOUREN\u00c7O Cant&#8217; \u00e0quela si dar\u00e1. DIABO Mulheres, v\u00f3s que quereis? Nesta feira que buscais? MARTA DIAS Queremo-la ver, no mais. Pera ver em que tratais, e as cousas que vendeis.<\/p>\n<p>Tendes v\u00f3s aqui an\u00e9is? DIABO Quejandos? De que fei\u00e7\u00e3o? MARTA DIAS D&#8217;uns que fazem de lat\u00e3o. DIABO Pera as m\u00e3os, ou pera os p\u00e9s? MARTA DIAS N\u00e3o &#8212; Jesu, nome de Jesu, Deus e homem verdadeiro!<\/p>\n<p>Foge o Diabo e Marta Dias diz:<\/p>\n<p>MARTA DIAS Nunca eu vi bofalinheiro t\u00e3o prestes tomar o mu. Branc&#8217;Anes mana, cr\u00ea tu que, como Jesu \u00e9 Jesu, era este o Diabo inteiro.<\/p>\n<p>BRANCA ANES N\u00e3o \u00e9 ele pau de boa lenha, nem lenha de bom madeiro. MARTA DIAS Bof\u00e1, nunc&#8217;ele c\u00e1 venha. BRANCA ANES Viagem de J\u00e3o Moleiro, que foi pola cal d&#8217;azenha. MARTA DIAS Pasmada estou eu de Deus fazer o Demo marchante! Mana, daqui por diante n\u00e3o caminhemos n\u00f3s s\u00f3s.<\/p>\n<p>BRANCA ANES S&#8217;eu soubera quem ele era, fizera-lhe bom partido: que me levara o marido, e quanto tenho lhe dera, e o toucado e o vestido. Inda que mais n\u00e3o levara desta feira, em extremo. Me alegrara e descansara, se o vira levar o Demo, e que nunca mais tornara.<\/p>\n<p>Porque, inda que era Diabo, fizera servi\u00e7o a Deus, e a mi merc\u00ea em cabo; e viera-me dos c\u00e9us, como vem a frol ao nabo.<\/p>\n<p>V\u00e3o-se ao Tempo e diz Marta Dias:<\/p>\n<p>MARTA DIAS Dizei, senhores de bem, nesta tenda, que vendeis? SERAFIM Esta tenda tudo tem; vede v\u00f3s o que quereis, que tudo se far\u00e1 bem. Consci\u00eancia quereis comprar, de que vistais vossa alma?<\/p>\n<p>MARTA DIAS Tendes sombreiros de palma muito bons pera segar, e tapados pera a calma? SERAFIM Consci\u00eancia digo eu, que vos leve ao Para\u00edso. BRANCA ANES N\u00e3o sabemos n\u00f3s qu&#8217;\u00e9 isso: dai-o \u00f3 decho por seu, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tempo disso.<\/p>\n<p>MARTA DIAS Tendes v\u00f3s aqui burel, do pardo de l\u00e3 meirinha? BRANCA ANES Eu queria \u00fca pucarinha pequenina pera mel. SERAFIM Esta feira \u00e9 chamada das virtudes em seus tratos. MARTA DIAS Das virtudes! E h\u00e1 aqui patos? BRANCA ANES Quereis feirar a cevada quatro pares de sapatos? SERAFIM Oh, piedoso Deus eterno! N\u00e3o comprareis pera os c\u00e9us um pouco d&#8217;amor de Deus que vos livre do Inferno? BRANCA ANES Isso \u00e9 falar per pinc\u00e9us.<\/p>\n<p>SERAFIM Esta feira n\u00e3o se fez para as cousas que quereis. BRANCA ANES Pois cant&#8217; a essas que vendeis, daqui afirmo outra vez que nunca as vendereis. Porque neste sigro em fundo todos somos negligentes: foi ar que deu polas gentes, foi ar que deu polo mundo, de que as almas s\u00e3o doentes.<\/p>\n<p>E se h\u00e3o-de correger quando for todo danado: muito cedo se h\u00e1-de ver; que j\u00e1 ele n\u00e3o pode ser mais torto nem aleijado. Vamo-nos, Marta, \u00e0 carreira, que as mo\u00e7as do lugar vir\u00e3o c\u00e1 fazer a feira, que estes n\u00e3o sabem ganhar, nem t\u00eam cousa que homem queira.<\/p>\n<p>MARTA DIAS Eu n\u00e3o vejo aqui cantar, nem gaita, nem tamboril, e outros folgares mil, que nas feiras soem d&#8217;estar: e mais feira de Natal, e mais de Nossa Senhora, e estar todo Portugal. BRANCA ALVES S&#8217;eu soubera que era tal, n\u00e3o estivera eu c\u00e1 agora.<\/p>\n<p>V\u00eam \u00e0 feira nove mo\u00e7as dos montes, e tr\u00eas mancebos, todas com cestos nas cabe\u00e7as, cobertos, cantando. E, como chegam, se assentam por ordem a vender; e diz-lhe o Serafim:<\/p>\n<p>SERAFIM Pois vindes vender \u00e0 feira, sabei que \u00e9 feira dos c\u00e9us; por tal, vendei de maneira que n\u00e3o ofendais a Deus, roubando a gente estrangeira. TESAURA Responde-lhe, Leonarda, tu Justina, ou Juliana. JULIANA Mas responda-lhe Giralda, Tesaura, ou Merenciana.<\/p>\n<p>MERENCIANA Responde-lhe, Teodora, porque creio que a ti creia. TESAURA Responda-lhe Doroteia. pois que mora, junto c&#8217;o Juiz d&#8217;aldeia. DOROTEIA Moneca responder\u00e1 que falou j\u00e1 com senhor. MONECA Responde-lhe tu, Nabor, contigo s&#8217;entender\u00e1.<\/p>\n<p>Ou Den\u00edsio, ou Gilberto, qualquer de v\u00f3s outros tr\u00eas e n\u00e3o vos embaraceis ou torveis, porque \u00e9 certo que bem vos entendereis. GILBERTO Estas cachopas n\u00e3o v\u00eam \u00e0 feira nego a folgar, e trazem de merendar nestes cestos que i t\u00eam.<\/p>\n<p>Mas pois quanto ao que entendo, sois, samica, anjo de Deus; quando partistes dos c\u00e9us, que ficava Ele fazendo? SERAFIM Ficava vendo o seu gado. GILBERTO Santa Maria! Gado h\u00e1 l\u00e1? Oh, Jesu! como o ter\u00e1 o Senhor gordo e guardado!<\/p>\n<p>E h\u00e1 l\u00e1 boas ladeiras, como na serra d&#8217;Estrela? SERAFIM Si. GILBERTO E a Virgem que faz ela? SERAFIM A Virgem olha as cordeiras, e as cordeiras a ela. GILBERTO E os Santos de sa\u00fade todos, a Deus louvores? SERAFIM Si. GILBERTO E que l\u00e9guas haver\u00e1 daqui \u00e0 porta do Para\u00edso, onde S\u00e3o Pedro est\u00e1?<\/p>\n<p>NABOR L\u00e1 v\u00eam \u00f3 redor das vinhas compradores a comprar samica ovos e galinhas. DOROTEIA N\u00e3o lhe hei-de vender as minhas, que as trago pera dar.<\/p>\n<p>V\u00eam dous compradores, um per nome Vicente e outro Mateus, e diz Mateus a Justina:<\/p>\n<p>MATEUS V\u00f3s rosa do amarelo, mana, tendes i queijadas. JUSTINA Tenho vosso av\u00f4 marmelo! Conhecei-lo? MATEUS Aqui est\u00e3o emborilhadas. JUSTINA Estade m\u00e1 ora quedo, pela vossa negra vida. MATEUS Menina, n\u00e3o hajais medo: v\u00f3s sois mais engrandecida que Branca de Figueiredo.<\/p>\n<p>Se trazeis ovos, meus olhos, n\u00e3o m&#8217;os vendais a ningu\u00e9m. JUSTINA Andar em burra e ter bem: ouvide ora o rasca-piolhos (azeite no micho!) em que vem! VICENTE Minha vida, Leonarda, traz ca\u00e7a pera vender? LEONARDA Vossa vida negra e parda n\u00e3o lhe abastar\u00e1 comer da vaca com da mostarda?<\/p>\n<p>VICENTE E a mesa de meu senhor ir\u00e1 sem ave de pena? LEONARDA Quem? E v\u00f3s sois comprador? Pois nem grande nem pequena n\u00e3o matou o ca\u00e7ador. VICENTE Matais-me v\u00f3s logo bem com dous olhinhos qu&#8217;eu digo. LEONARDA Mais vos mata a v\u00f3s o trigo, porque n\u00e3o vale a vint\u00e9m, e traz mau micho consigo.<\/p>\n<p>VICENTE V\u00f3s fazeis de mi rasc\u00e3o. LEONARDA Pa\u00e7\u00e3o vos fizestes v\u00f3s; por\u00e9m bem nos vimos n\u00f3s guardar bois no Alqueid\u00e3o. MATEUS Que vindes vender \u00e0 feira, Teodora, alma minha? minha alma, minha canseira? Trazei alg\u00fca galinha? TEODORA S\u00e3o vossa alma galinheira.<\/p>\n<p>Que m\u00e1 ora c\u00e1 viestes pera quem vos p\u00f4s no pa\u00e7o! MATEUS Senhora, eu vos fa\u00e7o, que vos agastais t\u00e3o prestes? Dizei-me v\u00f3s, Teodora, trazeis v\u00f3s tal cousa e tal deste jeito, muito embora? Mas l\u00e1 dessoutro metal n\u00e3o falam \u00e0 lavradora.<\/p>\n<p>VICENTE Senhora Moneca, trazeis algum cabrito recente? MONECA N\u00e3o bof\u00e9, Senhor Vicente: quisera ora trazer tr\u00eas, de que v\u00f3s foreis contente. VICENTE Juro \u00e0 Santa Cruz de palha qu&#8217; hei-de ver o que aqui est\u00e1. MONECA N\u00e3o revolvais aram\u00e1, que n\u00e3o trago nemigalha.<\/p>\n<p>VICENTE N\u00e3o me fa\u00e7ais descort\u00eas, nem queirais ser t\u00e3o garrida. MONECA Pola vossa negra vida! Olhade como \u00e9 cort\u00eas ! Oh, que lhe saia m\u00e1 sa\u00edda. MATEUS Giralda, eu achar-vos-ei dous pares de passarinhos? GIRALDA Irei por eles aos ninhos, entonces os venderei. Comereis v\u00f3s estorninhos? MATEUS Respondeis como mulher muito de sua vontade. GIRALDA Pois digo-vo-la verdade: p\u00e1ssaros hei-de vender? Olhai aquela piedade!<\/p>\n<p>VICENTE Senhora minha Juliana pe\u00e7o-vos que me faleis discreta palenciana, e dizei-me que vendeis. JULIANA Vendo favas de Viana. VICENTE Tendes alguns laparinhos? JULIANA Sim, de porca. VICENTE Nem coelhos? JULIANA Quereis comprar dous francelhos, pera ca\u00e7ardes ratinhos? JULIANA Quero, polos Evangelhos!<\/p>\n<p>MATEUS V\u00f3s, Tesaura, minha estrela, n\u00e3o vir\u00edeis c\u00e1 em v\u00e3o. TESAURA Pois si, vossa estrela vos er&#8217;ela: como aquilo \u00e9 de rasc\u00e3o! MATEUS Mas como isso \u00e9 de donzela! Por\u00e9m v\u00e1 j\u00e1 como vai, e casemo-nos, senhora. TESAURA Pois casai co&#8217;ele, casai, Casar, ma ora, meu ai, casar, m\u00e1 hora.<\/p>\n<p>MATEUS Por\u00e9m trazeis algum pato? TESAURA E quanto dareis por ele? Hui, e ele revolve o fato: olho mau se meta nele. MATEUS N\u00e3o trazeis v\u00f3s o qu&#8217;eu cato. VICENTE Merenciana deve ter neste cesto algum cabrito. N\u00e3o m&#8217;haveis de revolver MERENCIANA sen\u00e3o, pardeus, que d\u00ea grito tamanho, que haveis de ver.<\/p>\n<p>VICENTE Eu hei-de ver que trazeis. MERENCIANA se v\u00f3s no cesto bulis. . . VICENTE Senhora, que me fareis? MERENCIANA Um aqui-d&#8217;el-rei, ouvis? N\u00e3o sejais v\u00f3s descort\u00eas. VICENTE N\u00e3o quero sen\u00e3o amores, pois vosso, senhora, sou. MERENCIANA Amores de vosso av\u00f4, o da ilha dos A\u00e7ores. Andar aram\u00e1 v\u00f3s s\u00f3.<\/p>\n<p>MATEUS Vamo-nos daqui, Vicente. VICENTE Bof\u00e1 vamos. MATEUS Nunca vi tal feira. VICENTE Vamos comprar \u00e0 Ribeira, que anda l\u00e1 cousa mais quente.<\/p>\n<p>V\u00e3o-se os compradores, e diz o Serafim \u00e0s mo\u00e7as:<\/p>\n<p>SERAFIM V\u00f3s outras quereis comprar das virtudes? Senhor, n\u00e3o. SERAFIM Saibamos por que rez\u00e3o. DOROTEIA Porque no nosso lugar n\u00e3o d\u00e3o por virtudes p\u00e3o. Nem casar n\u00e3o vejo eu por virtudes a ningu\u00e9m. Quem tiver muito de seu, e t\u00e3o bons olhos com&#8217;eu sem isso casar\u00e1 bem.<\/p>\n<p>SERAFIM Pois porque viestes ora cansar \u00e0 feira de p\u00e9?<\/p>\n<p>TEODORA Porque nos dizem que \u00e9 feira de Nossa Senhora: e vedes aqui porqu\u00ea. E as gra\u00e7as que dizeis que tendes aqui na pra\u00e7a, se v\u00f3s outros as vendeis, a Virgem as d\u00e1 de gra\u00e7a aos bons, como sabeis.<\/p>\n<p>E porque a gra\u00e7a e alegria, a madre da consola\u00e7\u00e3o deu ao mundo neste dia, n\u00f3s vimos com deva\u00e7\u00e3o a cantar-lhe \u00faa folia. E pois que j\u00e1 descans\u00e1mos assi em boa maneira, mo\u00e7as, assi como estamos, demos fim a esta feira, primeiro que nos partamos.<\/p>\n<p>Alevantam-se todas, e ordenadas em folia cantaram a cantiga seguinte, com que se despediram.<\/p>\n<p>Cantiga.<\/p>\n<p>I CORO \u00abBlanca estais colorada, \u00abVirgem sagrada. \u00abEm Bel\u00e9m vila do amor \u00abda rosa nasceu a flor: \u00abVirgem sagrada.\u00bb<\/p>\n<p>II CORO \u00abEm Bel\u00e9m vila do amor \u00abnasceu a rosa do rosal: \u00abVirgem sagrada.\u00bb<\/p>\n<p>I CORO \u00abDa rosa nasceu a flor: \u00abpera nosso Salvador: \u00abVirgem sagrada.\u00bb<\/p>\n<p>II CORO \u00abNasceu a rosa do rosal, \u00abDeus e homem natural: \u00abVirgem sagrada.\u00bb<\/p>\n<p>Gratias agamus Domino Deo nostro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gil Vicente A obra seguinte \u00e9 chamada Auto da Feira. Foi representada ao mui excelente Pr\u00edncipe El Rei Dom Jo\u00e3o, o terceiro em Portugal deste nome, na sua nobre e sempre leal cidade de Lisboa, \u00e0s matinas do Natal, na era do Senhor de 1527. Figuras: Merc\u00fario, Tempo, Serafim, Diabo, Roma, Am\u00e2ncio Vaz, Diniz Louren\u00e7o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96453","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Auto da Feira - Gil Vicente, Obra Auto da Feira - Gil Vicente<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Auto da Feira - Gil Vicente, Obra, Portugal, Pr\u00edncipe El Rei Dom Jo\u00e3o, Com\u00e9rcio, Merc\u00fario, Serafim, Diabo, Literatura, Auto da Feira - Gil Vicente\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Auto da Feira - Gil Vicente, Obra Auto da Feira - Gil Vicente\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Auto da Feira - Gil Vicente, Obra, Portugal, Pr\u00edncipe El Rei Dom Jo\u00e3o, Com\u00e9rcio, Merc\u00fario, Serafim, Diabo, Literatura, Auto da Feira - Gil Vicente\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-feira-gil-vicente\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-25T13:29:33+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"28 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-feira-gil-vicente#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-feira-gil-vicente\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Auto da Feira &#8211; 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