{"id":96451,"date":"2017-01-25T11:27:18","date_gmt":"2017-01-25T13:27:18","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96451"},"modified":"2017-01-25T11:27:18","modified_gmt":"2017-01-25T13:27:18","slug":"auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente","title":{"rendered":"Auto da Barca do Inferno &#8211; Gil Vicente"},"content":{"rendered":"<h4>Gil Vicente<\/h4>\n<p>Auto de moralidade composto por Gil Vicente por contempla\u00e7\u00e3o da seren\u00edssima e muito cat\u00f3lica rainha Lianor, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso pr\u00edncipe e mui alto rei Manuel, primeiro de Portugal deste nome.<\/p>\n<p>Come\u00e7a a declara\u00e7\u00e3o e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per for\u00e7a havemos de passar em um de dous bat\u00e9is que naquele porto est\u00e3o, scilicet, um deles passa pera o para\u00edso e o outro pera o inferno: os quais bat\u00e9is tem cada um seu arrais na proa: o do para\u00edso um anjo, e o do inferno um arrais infernal e um companheiro.<\/p>\n<p>O primeiro intrelocutor \u00e9 um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um rabo mui comprido e \u00fca cadeira de espaldas. E come\u00e7a o Arrais do Inferno ante que o Fidalgo venha.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\n\u00c0 barca, \u00e0 barca, houl\u00e1! que temos gentil mar\u00e9! &#8211; Ora venha o carro a r\u00e9!<\/p>\n<p><strong>COMPANHEIRO<\/strong><br \/>\nFeito, feito! Bem est\u00e1! Vai tu muitieram\u00e1, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco, pera a gente que vir\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c0 barca, \u00e0 barca, hu-u! Asinha, que se quer ir! Oh, que tempo de partir, louvores a Berzebu! &#8211; Ora, sus! que fazes tu? Despeja todo esse leito!<\/p>\n<p><strong>COMPANHEIRO<\/strong><br \/>\nEm boa hora! Feito, feito!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nAbaixa aram\u00e1 esse cu!<\/p>\n<p>Faze aquela poja lesta e alija aquela dri\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>COMPANHEIRO<\/strong><br \/>\nOh-oh, ca\u00e7a! Oh-oh, i\u00e7a, i\u00e7a!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOh, que caravela esta! P\u00f5e bandeiras, que \u00e9 festa. Verga alta! \u00c2ncora a pique! &#8211; \u00d3 poderoso dom Anrique, c\u00e1 vindes v\u00f3s?&#8230; Que cousa \u00e9 esta?&#8230;<\/p>\n<p>Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nEsta barca onde vai ora, que assi est\u00e1 apercebida?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nVai pera a ilha perdida, e h\u00e1-de partir logo ess&#8217;ora.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nPera l\u00e1 vai a senhora?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nSenhor, a vosso servi\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nParece-me isso corti\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPorque a vedes l\u00e1 de fora.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nPor\u00e9m, a que terra passais?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPera o inferno, senhor.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nTerra \u00e9 bem sem-sabor.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQu\u00ea?&#8230; E tamb\u00e9m c\u00e1 zombais?<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nE passageiros achais pera tal habita\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nVejo-vos eu em fei\u00e7\u00e3o pera ir ao nosso cais&#8230;<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nParece-te a ti assi!&#8230;<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEm que esperas ter guarida?<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nQue leixo na outra vida quem reze sempre por mi.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQuem reze sempre por ti?!.. Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!&#8230; E tu viveste a teu prazer, cuidando c\u00e1 guarecer por que rezam l\u00e1 por ti?!&#8230;<\/p>\n<p>Embarca &#8211; ou embarcai&#8230; que haveis de ir \u00e0 derradeira! Mandai meter a cadeira, que assi passou vosso pai.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nQu\u00ea? Qu\u00ea? Qu\u00ea? Assi lhe vai?!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nVai ou vem! Embarcai prestes! Segundo l\u00e1 escolhestes, assi c\u00e1 vos contentai.<\/p>\n<p>Pois que j\u00e1 a morte passastes, haveis de passar o rio.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 aqui outro navio?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, senhor, que este fretastes, e primeiro que expirastes me destes logo sinal.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nQue sinal foi esse tal?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nDo que v\u00f3s vos contentastes.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nA estoutra barca me vou. Hou da barca! Para onde is? Ah, barqueiros! N\u00e3o me ouvis? Respondei-me! Houl\u00e1! Hou!&#8230; (Pardeus, aviado estou! Cant&#8217;a isto \u00e9 j\u00e1 pior&#8230;) Oue jericocins, salvanor! Cuidam c\u00e1 que s\u00e3o eu grou?<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nQue quereis?<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nQue me digais, pois parti t\u00e3o sem aviso, se a barca do Para\u00edso \u00e9 esta em que navegais.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nEsta \u00e9; que demandais?<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nQue me leixeis embarcar. Sou fidalgo de solar, \u00e9 bem que me recolhais.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o se embarca tirania neste batel divinal.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei porque haveis por mal que entre a minha senhoria&#8230;<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nPera vossa fantesia mui estreita \u00e9 esta barca.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nPera senhor de tal marca nom h\u00e1 aqui mais cortesia?<\/p>\n<p>Venha a prancha e atavio! Levai-me desta ribeira!<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o vindes v\u00f3s de maneira pera entrar neste navio. Essoutro vai mais vazio: a cadeira entrar\u00e1 e o rabo caber\u00e1 e todo vosso senhorio.<\/p>\n<p>Ireis l\u00e1 mais espa\u00e7oso, v\u00f3s e vossa senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso. E porque, de generoso, desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos quanto mais fostes fumoso.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\n\u00c0 barca, \u00e0 barca, senhores! Oh! que mar\u00e9 t\u00e3o de prata! Um ventozinho que mata e valentes remadores!<\/p>\n<p>Diz, cantando:<\/p>\n<p>V\u00f3s me veniredes a la mano, a la mano me veniredes.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nAo Inferno, todavia! Inferno h\u00e1 i pera mi? Oh triste! Enquanto vivi n\u00e3o cuidei que o i havia: Tive que era fantesia! Folgava ser adorado, confiei em meu estado e n\u00e3o vi que me perdia.<\/p>\n<p>Venha essa prancha! Veremos esta barca de tristura.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEmbarque vossa do\u00e7ura, que c\u00e1 nos entenderemos&#8230; Tomar\u00eas um par de remos, veremos como remais, e, chegando ao nosso cais, todos bem vos serviremos.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nEsperar-me-\u00eas v\u00f3s aqui, tornarei \u00e0 outra vida ver minha dama querida que se quer matar por mi. Dia, Que se quer matar por ti?!&#8230;<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nIsto bem certo o sei eu.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\n\u00d3 namorado sandeu, o maior que nunca vi!&#8230;<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nComo pod&#8217;r\u00e1 isso ser, que m&#8217;escrevia mil dias?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQuantas mentiras que lias, e tu&#8230; morto de prazer!&#8230;<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nPera que \u00e9 escarnecer, quem nom havia mais no bem?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nAssi vivas tu, am\u00e9m, como te tinha querer!<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nIsto quanto ao que eu conhe\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPois estando tu expirando, se estava ela requebrando com outro de menos pre\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nD\u00e1-me licen\u00e7a, te pe\u00e7o, que v\u00e1 ver minha mulher.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nE ela, por n\u00e3o te ver, despenhar-se-\u00e1 dum cabe\u00e7o!<\/p>\n<p>Quanto ela hoje rezou, antre seus gritos e gritas, foi dar gra\u00e7as infinitas a quem a desassombrou.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nCant&#8217;a ela, bem chorou!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nNom h\u00e1 i choro de alegria?..<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nE as l\u00e1stimas que dezia?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nSua m\u00e3e lhas ensinou&#8230;<\/p>\n<p>Entrai, meu senhor, entrai: Ei la prancha! Ponde o p\u00e9&#8230;<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nEntremos, pois que assi \u00e9.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOra, senhor, descansai, passeai e suspirai. Em tanto vir\u00e1 mais gente.<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\n\u00d3 barca, como \u00e9s ardente! Maldito quem em ti vai!<\/p>\n<p>Diz o Diabo ao Mo\u00e7o da cadeira:<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nNom entras c\u00e1! Vai-te d&#8217;i! A cadeira \u00e9 c\u00e1 sobeja; cousa que esteve na igreja nom se h\u00e1-de embarcar aqui. C\u00e1 lha dar\u00e3o de marfi, marchetada de dolores, com tais modos de lavores, que estar\u00e1 fora de si&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0 barca, \u00e0 barca, boa gente, que queremos dar \u00e0 vela! Chegar ela! Chegar ela! Muitos e de boamente! Oh! que barca t\u00e3o valente!<\/p>\n<p>Vem um Onzeneiro, e pergunta ao Arrais do Inferno, dizendo:<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nPera onde caminhais?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOh! que m\u00e1-hora venhais, onzeneiro, meu parente!<\/p>\n<p>Como tardastes v\u00f3s tanto?<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nMais quisera eu l\u00e1 tardar&#8230; Na safra do apanhar me deu Saturno quebranto.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOra mui muito m&#8217;espanto nom vos livrar o dinheiro!&#8230;<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nSolamente para o barqueiro nom me leixaram nem tanto&#8230;<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOra entrai, entrai aqui!<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o hei eu i d&#8217;embarcar!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOh! que gentil recear, e que cousas pera mi!&#8230;<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nAinda agora faleci, leixa-me buscar batel!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPesar de Jam Pimentel! Porque n\u00e3o ir\u00e1s aqui?&#8230;<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nE pera onde \u00e9 a viagem?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPera onde tu h\u00e1s-de ir.<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nHavemos logo de partir?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o cures de mais linguagem.<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nMas pera onde \u00e9 a passagem?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPera a infernal comarca.<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nDix! Nom vou eu tal barca. Estoutra tem avantagem.<\/p>\n<p>Vai-se \u00e0 barca do Anjo, e diz:<\/p>\n<p>Hou da barca! Houl\u00e1! Hou! Haveis logo de partir?<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nE onde queres tu ir?<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nEu pera o Para\u00edso vou.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nPois cant&#8217;eu mui fora estou de te levar para l\u00e1. Essoutra te levar\u00e1; vai pera quem te enganou!<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nPorqu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nPorque esse bols\u00e3o tomar\u00e1 todo o navio.<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nJuro a Deus que vai vazio!<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o j\u00e1 no teu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nL\u00e1 me fica, de rond\u00e3o, minha fazenda e alhea.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\n\u00d3 onzena, como \u00e9s fea e filha de maldi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Torna o Onzeneiro \u00e0 barca do Inferno e diz:<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nHoul\u00e1! Hou! Demo barqueiro! Sab\u00eas v\u00f3s no que me fundo? Quero l\u00e1 tornar ao mundo e trazer o meu dinheiro. que aqueloutro marinheiro, porque me v\u00ea vir sem nada, d\u00e1-me tanta borregada como arrais l\u00e1 do Barreiro.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEntra, entra, e remar\u00e1s! Nom percamos mais mar\u00e9!<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nTodavia&#8230;<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPer for\u00e7a \u00e9! Que te p\u00eas, c\u00e1 entrar\u00e1s! Ir\u00e1s servir Satan\u00e1s, pois que sempre te ajudou.<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nOh! Triste, quem me cegou?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nCal&#8217;te, que c\u00e1 chorar\u00e1s.<\/p>\n<p>Entrando o Onzeneiro no batel, onde achou o Fidalgo embarcado, diz tirando o barrete:<\/p>\n<p><strong>ONZENEIRO<\/strong><br \/>\nSanta Joana de Vald\u00eas! C\u00e1 \u00e9 vossa senhoria?<\/p>\n<p><strong>FIDALGO<\/strong><br \/>\nD\u00e1 \u00f2 demo a cortesia!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOuvis? Falai v\u00f3s cort\u00eas! V\u00f3s, fidalgo, cuidareis que estais na vossa pousada? Dar-vos-ei tanta pancada com um remo que renegueis!<\/p>\n<p>Vem Joane, o Parvo, e diz ao Arrais do Inferno:<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nHou daquesta!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQuem \u00e9?<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nEu soo. \u00c9 esta a naviarra nossa?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nDe quem?<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nDos tolos.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nVossa. Entra!<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nDe pulo ou de voo? Hou! Pesar de meu av\u00f4! Soma, vim adoecer e fui m\u00e1-hora morrer, e nela, pera mi s\u00f3.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nDe que morreste?<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nDe qu\u00ea? Samicas de caganeira.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nDe qu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nDe caga merdeira! M\u00e1 rabugem que te d\u00ea!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEntra! P\u00f5e aqui o p\u00e9!<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nHoul\u00e1! Nom tombe o zambuco!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEntra, tola\u00e7o eunuco, que se nos vai a mar\u00e9!<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nAguardai, aguardai, houl\u00e1! E onde havemos n\u00f3s d&#8217;ir ter?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nAo porto de Lucifer.<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nHa-\u00e1-a&#8230;<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\n\u00d3 Inferno! Entra c\u00e1!<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\n\u00d2 Inferno?&#8230; Eram\u00e1&#8230; Hiu! Hiu! Barca do cornudo. P\u00earo Vinagre, bei\u00e7udo, rachador d&#8217;Alverca, huh\u00e1! Sapateiro da Candosa! Antrecosto de carrapato! Hiu! Hiu! Caga no sapato, filho da grande aleivosa! Tua mulher \u00e9 tinhosa e h\u00e1-de parir um sapo chantado no guardanapo! Neto de cagarrinhosa!<\/p>\n<p>Furta cebolas! Hiu! Hiu! Excomungado nas erguejas! Burrela, cornudo sejas! Toma o p\u00e3o que te caiu! A mulher que te fugiu per&#8217;a Ilha da Madeira! Cornudo at\u00e1 mangueira, toma o p\u00e3o que te caiu!<\/p>\n<p>Hiu! Hiu! Lan\u00e7o-te \u00fca pulha! D\u00ea-d\u00ea! Pica n\u00e0quela! Hump! Hump! Caga na vela! Hio, cabe\u00e7a de grulha! Perna de cigarra velha, caganita de coelha, pelourinho da Pampulha! Mija n&#8217;agulha, mija n&#8217;agulha!<\/p>\n<p>Chega o Parvo ao batel do Anjo e dlz:<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nHou da barca!<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nQue me queres?<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nQueres-me passar al\u00e9m?<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nQuem \u00e9s tu?<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nSamica algu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nTu passar\u00e1s, se quiseres; porque em todos teus fazeres per mal\u00edcia nom erraste. Tua simpreza t&#8217;abaste pera gozar dos prazeres.<\/p>\n<p>Espera entanto per i: veremos se vem algu\u00e9m, merecedor de tal bem, que deva de entrar aqui.<\/p>\n<p>Vem um Sapateiro com seu avental e carregado de formas, e chega ao batel infernal, e diz:<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nHou da barca!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQuem vem i? Santo sapateiro honrado, como vens t\u00e3o carregado?&#8230;<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nMandaram-me vir assi&#8230;<\/p>\n<p>E pera onde \u00e9 a viagem?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPera o lago dos danados.<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nOs que morrem confessados onde t\u00eam sua passagem?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nNom cures de mais linguagem! Esta \u00e9 a tua barca, esta!<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nRenegaria eu da festa e da puta da barcagem!<\/p>\n<p>Como poder\u00e1 isso ser, confessado e comungado?!&#8230;<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nTu morreste excomungado: Nom o quiseste dizer. Esperavas de viver, calaste dous mil enganos&#8230; Tu roubaste bem trint&#8217;anos o povo com teu mester.<\/p>\n<p>Embarca, eram\u00e1 pera ti, que h\u00e1 j\u00e1 muito que t&#8217;espero!<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nPois digo-te que nom quero!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQue te p\u00eas, h\u00e1s-de ir, si, si!<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nQuantas missas eu ouvi, nom me h\u00e3o elas de prestar?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOuvir missa, ent\u00e3o roubar, \u00e9 caminho per&#8217;aqui.<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nE as ofertas que dar\u00e3o? E as horas dos finados?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nE os dinheiros mal levados, que foi da satisfa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nAh! Nom praza \u00f2 cordov\u00e3o, nem \u00e0 puta da badana, se \u00e9 esta boa traquitana em que se v\u00ea Jan Ant\u00e3o!<\/p>\n<p>Ora juro a Deus que \u00e9 gra\u00e7a!<\/p>\n<p>Vai-se \u00e0 barca do Anjo, e diz:<\/p>\n<p>Hou da santa caravela, poder\u00eas levar-me nela?<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nA c\u00e1rrega t&#8217;embara\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nNom h\u00e1 merc\u00ea que me Deus fa\u00e7a? Isto uxiquer ir\u00e1.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nEssa barca que l\u00e1 est\u00e1 Leva quem rouba de pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Oh! almas embara\u00e7adas!<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nOra eu me maravilho haverdes por gr\u00e3o peguilho quatro forminhas cagadas que podem bem ir i chantadas num cantinho desse leito!<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nSe tu viveras dereito, Elas foram c\u00e1 escusadas.<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nAssi que determinais que v\u00e1 cozer \u00f2 Inferno?<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nEscrito est\u00e1s no caderno das ementas infernais.<\/p>\n<p>Torna-se \u00e0 barca dos danados, e diz:<\/p>\n<p><strong>SAPATEIRO<\/strong><br \/>\nHou barqueiros! Que aguardais? Vamos, venha a prancha logo e levai-me \u00e0quele fogo! N\u00e3o nos detenhamos mais!<\/p>\n<p>Vem um Frade com \u00fca Mo\u00e7a pela m\u00e3o, e um broquel e \u00fca espada na outra, e um casco debaixo do capelo; e, ele mesmo fazendo a baixa, come\u00e7ou de dan\u00e7ar, dizendo:<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nTai-rai-rai-ra-r\u00e3; ta-ri-ri-r\u00e3; ta-rai-rai-rai-r\u00e3; tai-ri-ri-r\u00e3: t\u00e3-t\u00e3; ta-ri-rim-rim-r\u00e3. Huh\u00e1!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQue \u00e9 isso, padre?! Que vai l\u00e1?<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nDeo gratias! Som cortes\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nSab\u00eas tamb\u00e9m o tordi\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nPorque n\u00e3o? Como ora sei!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPois entrai! Eu tangerei e faremos um ser\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa dama \u00e9 ela vossa?<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nPor minha la tenho eu, e sempre a tive de meu,<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nFezestes bem, que \u00e9 fermosa! E n\u00e3o vos punham l\u00e1 grosa no vosso convento santo?<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nE eles fazem outro tanto!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQue cousa t\u00e3o preciosa&#8230;<\/p>\n<p>Entrai, padre reverendo!<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nPara onde levais gente?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPera aquele fogo ardente que nom temestes vivendo.<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nJuro a Deus que nom t&#8217;entendo! E este h\u00e1bito no me val?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nGentil padre mundanal, a Berzebu vos encomendo!<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nCorpo de Deus consagrado! Pela f\u00e9 de Jesu Cristo, que eu nom posso entender isto! Eu hei-de ser condenado?!&#8230; Um padre t\u00e3o namorado e tanto dado \u00e0 virtude? Assi Deus me d\u00ea sa\u00fade, que eu estou maravilhado!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o cur\u00eas de mais deten\u00e7a. Embarcai e partiremos: tomareis um par de ramos.<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nNom ficou isso n&#8217;aven\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPois dada est\u00e1 j\u00e1 a senten\u00e7a!<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nPardeus! Essa seria ela! N\u00e3o vai em tal caravela minha senhora Floren\u00e7a.<\/p>\n<p>Como? Por ser namorado e folgar com \u00fca mulher se h\u00e1 um frade de perder, com tanto salmo rezado?!&#8230;<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOra est\u00e1s bem aviado!<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nMais est\u00e1s bem corregido!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nDovoto padre marido, haveis de ser c\u00e1 pingado&#8230;<\/p>\n<p>Descobriu o Frade a cabe\u00e7a, tirando o capelo; e apareceu o casco, e diz o Frade:<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nMantenha Deus esta c&#8217;oroa!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\n\u00f3 padre Frei Capacete! Cuidei que t\u00ednheis barrete&#8230;<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nSab\u00ea que fui da pessoa! Esta espada \u00e9 roloa e este broquel, rol\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nD\u00ea Vossa Reveren\u00e7a li\u00e7\u00e3o d&#8217;esgrima, que \u00e9 cousa boa!<\/p>\n<p>Come\u00e7ou o frade a dar li\u00e7\u00e3o d&#8217;esgrima com a espada e broquel, que eram d&#8217;esgrimir, e diz desta maneira:<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nDeo gratias! Demos ca\u00e7ada! Pera sempre contra sus! Um fendente! Ora sus! Esta \u00e9 a primeira levada. Alto! Levantai a espada! Talho largo, e um rev\u00e9s! E logo colher os p\u00e9s, que todo o al no \u00e9 nada!<\/p>\n<p>Quando o recolher se tarda o ferir nom \u00e9 prudente. Ora, sus! Mui largamente, cortai na segunda guarda! &#8211; Guarde-me Deus d&#8217;espingarda mais de homem denodado. Aqui estou t\u00e3o bem guardado como a palh\u00e1 n&#8217;albarda.<\/p>\n<p>Saio com meia espada&#8230; Hou l\u00e1! Guardai as queixadas!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOh que valentes levadas!<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nAinda isto nom \u00e9 nada&#8230; Demos outra vez ca\u00e7ada! Contra sus e um fendente, e, cortando largamente, eis aqui sexta feitada.<\/p>\n<p>Daqui saio com \u00fca guia e um rev\u00e9s da primeira: esta \u00e9 a quinta verdadeira. &#8211; Oh! quantos daqui feria!&#8230; Padre que tal aprendia no Inferno h\u00e1-de haver pingos?!&#8230; Ah! Nom praza a S\u00e3o Domingos com tanta descortesia!<\/p>\n<p>Tornou a tomar a Mo\u00e7a pela m\u00e3o, dizendo:<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nVamos \u00e0 barca da Gl\u00f3ria!<\/p>\n<p>Come\u00e7ou o Frade a fazer o tordi\u00e3o e foram dan\u00e7ando at\u00e9 o batel do Anjo desta maneira:<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nTa-ra-ra-rai-r\u00e3; ta-ri-ri-ri-r\u00e3; rai-rai-r\u00e3; ta-ri-ri-r\u00e3; ta-ri-ri-r\u00e3. Huh\u00e1!<\/p>\n<p>Deo gratias! H\u00e1 lugar c\u00e1 pera minha reveren\u00e7a? E a senhora Floren\u00e7a polo meu entrar\u00e1 l\u00e1!<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nAndar, muitieram\u00e1! Furtaste esse trinch\u00e3o, frade?<\/p>\n<p><strong>FRADE<\/strong><br \/>\nSenhora, d\u00e1-me \u00e0 vontade que este feito mal est\u00e1.<\/p>\n<p>Vamos onde havemos d&#8217;ir! N\u00e3o praza a Deus coa a ribeira! Eu n\u00e3o vejo aqui maneira sen\u00e3o, enfim, concrudir.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nHaveis, padre, de viir.<\/p>\n<p><strong><strong>FRADE<\/strong><\/strong><br \/>\nAgasalhai-me l\u00e1 Floren\u00e7a, e compra-se esta senten\u00e7a: ordenemos de partir.<\/p>\n<p>Tanto que o Frade foi embarcado, veio \u00fca Alcoviteira, per nome Br\u00edzida Vaz, a qual chegando \u00e0 barca infernal, diz desta maneira:<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nHou l\u00e1 da barca, hou l\u00e1!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQuem chama?<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nBr\u00edzida Vaz.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nE aguarda-me, rapaz? Como nom vem ela j\u00e1?<\/p>\n<p><strong>COMPANHEIRO<\/strong><br \/>\nDiz que nom h\u00e1-de vir c\u00e1 sem Joana de Vald\u00eas.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEntrai v\u00f3s, e remar\u00eas.<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nNom quero eu entrar l\u00e1.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQue sabroso arrecear!<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nNo \u00e9 essa barca que eu cato.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nE traz\u00eas v\u00f3s muito fato?<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nO que me conv\u00e9m levar. D\u00eda. Que \u00e9 o que hav\u00eas d&#8217;embarcar?<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nSeiscentos virgos posti\u00e7os e tr\u00eas arcas de feiti\u00e7os que nom podem mais levar.<\/p>\n<p>Tr\u00eas alm\u00e1rios de mentir, e cinco cofres de enlheos, e alguns furtos alheos, assi em j\u00f3ias de vestir, guarda-roupa d&#8217;encobrir, enfim &#8211; casa movedi\u00e7a; um estrado de corti\u00e7a com dous coxins d&#8217;encobrir.<\/p>\n<p>A mor c\u00e1rrega que \u00e9: essas mo\u00e7as que vendia. Daquestra mercadoria trago eu muita, \u00e0 bof\u00e9!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOra ponde aqui o p\u00e9&#8230;<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nHui! E eu vou pera o Para\u00edso!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nE quem te dixe a ti isso?<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nL\u00e1 hei-de ir desta mar\u00e9.<\/p>\n<p>Eu s\u00f4 \u00fca m\u00e1rtela tal!&#8230; A\u00e7outes tenho levados e tormentos suportados que ningu\u00e9m me foi igual. Se fosse \u00f2 fogo infernal, l\u00e1 iria todo o mundo! A estoutra barca, c\u00e1 fundo, me vou, que \u00e9 mais real.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 Barca da Gl\u00f3ria diz ao Anjo:<\/p>\n<p>Barqueiro mano, meus olhos, prancha a Br\u00edsida Vaz.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong>:<br \/>\nEu n\u00e3o sei quem te c\u00e1 traz&#8230;<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nPe\u00e7o-vo-lo de giolhos! Cuidais que trago piolhos, anjo de Deos, minha rosa? Eu s\u00f4 aquela preciosa que dava as mo\u00e7as a molhos,<\/p>\n<p>a que criava as meninas pera os c\u00f3negos da S\u00e9&#8230; Passai-me, por vossa f\u00e9, meu amor, minhas boninas, olho de perlinhas finas! E eu som apostolada, angelada e martelada, e fiz cousas mui divinas.<\/p>\n<p>Santa \u00darsula nom converteu tantas cachopas como eu: todas salvas polo meu que nenh\u00fca se perdeu. E prouve \u00c0quele do C\u00e9u que todas acharam dono. Cuidais que dormia eu sono? Nem ponto se me perdeu!<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nOra vai l\u00e1 embarcar, n\u00e3o est\u00eas importunando.<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nPois estou-vos eu contando o porque me haveis de levar.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o cures de importunar, que n\u00e3o podes vir aqui.<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nE que m\u00e1-hora eu servi, pois n\u00e3o me h\u00e1-de aproveitar!&#8230;<\/p>\n<p>Torna-se Br\u00edzida Vaz \u00e0 Barca do Inferno, dizendo:<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nHou barqueiros da m\u00e1-hora, que \u00e9 da prancha, que eis me vou? E j\u00e1 h\u00e1 muito que aqui estou, e pare\u00e7o mal c\u00e1 de fora.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOra entrai, minha senhora, e sereis bem recebida; se vivestes santa vida, v\u00f3s o sentir\u00eas agora&#8230;<\/p>\n<p>Tanto que Br\u00edzida Vaz se embarcou, veo um Judeu, com um bode \u00e0s costas; e, chegando ao batel dos danados, diz:<\/p>\n<p><strong>JUDEU<\/strong><br \/>\nQue vai c\u00e1? Hou marinheiro!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOh! que m\u00e1-hora vieste!&#8230;<\/p>\n<p><strong>JUDEU<\/strong><br \/>\nCuj&#8217;\u00e9 esta barca que preste?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEsta barca \u00e9 do barqueiro.<\/p>\n<p><strong>JUDEU<\/strong>.<br \/>\nPassai-me por meu dinheiro.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nE o bode h\u00e1 c\u00e1 de vir?<\/p>\n<p><strong>JUDEU<\/strong><br \/>\nPois tamb\u00e9m o bode h\u00e1-de vir.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQue escusado passageiro!<\/p>\n<p><strong>JUDEU<\/strong><br \/>\nSem bode, como irei l\u00e1?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nNem eu nom passo cabr\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>JUDEU<\/strong><br \/>\nEis aqui quatro tost\u00f5es e mais se vos pagar\u00e1. Por vida do Semifar\u00e1 que me passeis o cabr\u00e3o! Quer\u00eas mais outro tost\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nNem tu nom h\u00e1s-de vir c\u00e1.<\/p>\n<p><strong>JUDEU<\/strong><br \/>\nPorque nom ir\u00e1 o judeu onde vai Br\u00edsida Vaz? Ao senhor meirinho apraz? Senhor meirinho, irei eu?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nE o fidalgo, quem lhe deu&#8230;<\/p>\n<p><strong>JUDEU<\/strong><br \/>\nO mando, diz\u00eas, do batel? Corregedor, coronel, castigai este sandeu!<\/p>\n<p>Azar\u00e1, pedra mi\u00fada, lodo, chanto, fogo, lenha, caganeira que te venha! M\u00e1 corren\u00e7a que te acuda! Par el Deu, que te sacuda coa beca nos focinhos! Fazes burla dos meirinhos? Dize, filho da cornuda!<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nFurtaste a chiba cabr\u00e3o? Parec\u00eas-me v\u00f3s a mim gafanhoto d&#8217;Almeirim chacinado em um seir\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nJudeu, l\u00e1 te passar\u00e3o, porque v\u00e3o mais despejados.<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nE ele mijou nos finados n&#8217;ergueja de S\u00e3o Gi\u00e3o!<\/p>\n<p>E comia a carne da panela no dia de Nosso Senhor! E aperta o salvador, e mija na caravela!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nSus, sus! Demos \u00e0 vela! V\u00f3s, Judeu, ir\u00eas \u00e0 toa, que sois mui ruim pessoa. Levai o cabr\u00e3o na trela!<\/p>\n<p>Vem um Corregedor, carregado de feitos, e, chegando \u00e0 barca do Inferno, com sua vara na m\u00e3o, diz:<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nHou da barca!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQue quereis?<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nEst\u00e1 aqui o senhor juiz?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOh amador de perdiz. gentil c\u00e1rrega trazeis!<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nNo meu ar conhecereis que nom \u00e9 ela do meu jeito.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nComo vai l\u00e1 o direito?<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nNestes feitos o vereis.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOra, pois, entrai. Veremos que diz i nesse papel&#8230;<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nE onde vai o batel?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nNo Inferno vos poeremos.<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nComo? \u00c0 terra dos demos h\u00e1-de ir um corregedor?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nSanto descorregedor, embarcai, e remaremos!<\/p>\n<p>Ora, entrai, pois que viestes!<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nNon est de regulae juris, n\u00e3o!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nIta, Ita! Dai c\u00e1 a m\u00e3o! Remaremos um remo destes. Fazei conta que nacestes pera nosso companheiro. &#8211; Que fazes tu, barzoneiro? Faze-lhe essa prancha prestes!<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nOh! Renego da viagem e de quem me h\u00e1-de levar! H\u00e1 &#8216;qui meirinho do mar?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 tal costumagem.<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nNom entendo esta barcagem, nem hoc nom potest esse.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nSe ora vos parecesse que nom sei mais que linguagem&#8230;<\/p>\n<p>Entrai, entrai, corregedor!<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nHou! Videtis qui petatis &#8211; Super jure magestatis tem vosso mando vigor?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQuando \u00e9reis ouvidor nonne accepistis rapina? Pois ireis pela bolina onde nossa merc\u00ea for&#8230;<\/p>\n<p>Oh! que isca esse papel pera um fogo que eu sei!<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nDomine, memento mei!<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nNon es tempus, bacharel! Imbarquemini in batel quia Judicastis malitia.<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nSempre ego justitia fecit, e bem por nivel.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nE as peitas dos judeus que a vossa mulher levava?<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nIsso eu n\u00e3o o tomava eram l\u00e1 percal\u00e7os seus. Nom som pecatus meus, peccavit uxore mea.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEt vobis quoque cum ea, n\u00e3o temuistis Deus.<\/p>\n<p>A largo modo adquiristis sanguinis laboratorum ignorantis peccatorum. Ut quid eos non audistis?<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nV\u00f3s, arrais, nonne legistis que o dar quebra os pinedos? Os direitos est\u00e3o quedos, sed aliquid tradidistis&#8230;<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOra entrai, nos negros fados! Ireis ao lago dos c\u00e3es e vereis os escriv\u00e3es como est\u00e3o t\u00e3o prosperados.<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nE na terra dos danados est\u00e3o os Evangelistas?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOs mestres das burlas vistas l\u00e1 est\u00e3o bem fraguados.<\/p>\n<p>Estando o Corregedor nesta pr\u00e1tica com o Arrais infernal chegou um Procurador, carregado de livros, e diz o Corregedor ao Procurador:<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\n\u00d3 senhor Procurador!<\/p>\n<p><strong>PROCURADOR<\/strong><br \/>\nBejo-vo-las m\u00e3os, Juiz! Que diz esse arrais? Que diz?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQue ser\u00eas bom remador. Entrai, bacharel doutor, e ireis dando na bomba.<\/p>\n<p><strong>PROCURADOR<\/strong><br \/>\nE este barqueiro zomba&#8230; Jogatais de zombador?<\/p>\n<p>Essa gente que a\u00ed est\u00e1 pera onde a levais?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPera as penas infernais.<\/p>\n<p><strong>PROCURADOR<\/strong><br \/>\nDix! Nom vou eu pera l\u00e1! Outro navio est\u00e1 c\u00e1, muito milhor assombrado.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nOra est\u00e1s bem aviado! Entra, muitieram\u00e1!<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nConfessaste-vos, doutor?<\/p>\n<p><strong>PROCURADOR<\/strong><br \/>\nBacharel som. Dou-me \u00e0 Demo! N\u00e3o cuidei que era extremo, nem de morte minha dor. E v\u00f3s, senhor Corregedor?<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nEu mui bem me confessei, mas tudo quanto roubei encobri ao confessor&#8230;<\/p>\n<p>Porque, se o nom tornais, n\u00e3o vos querem absolver, e \u00e9 mui mau de volver depois que o apanhais.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nPois porque nom embarcais?<\/p>\n<p><strong>PROCURADOR<\/strong><br \/>\nQuia speramus in Deo.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nImbarquemini in barco meo&#8230; Pera que esperatis mais?<\/p>\n<p>V\u00e3o-se ambos ao batel da Gl\u00f3ria, e, chegando, diz o Corregedor ao Anjo:<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\n\u00d3 arrais dos gloriosos, passai-nos neste batel!<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nOh! pragas pera papel, pera as almas odiosos! Como vindes preciosos, sendo filhos da ci\u00eancia!<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nOh! habeatis clem\u00eancia e passai-nos como vossos!<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nHou, homens dos breviairos, rapinastis coelhorum et pernis perdigotorum e mijais nos campanairos!<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nOh! n\u00e3o nos sejais contrairos, pois nom temos outra ponte!<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nBelequinis ubi sunt? Ego latinus macairos.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\nA justi\u00e7a divinal vos manda vir carregados porque vades embarcados nesse batel infernal.<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nOh! nom praza a S\u00e3o Mar\u00e7al! coa ribeira, nem co rio! Cuidam l\u00e1 que \u00e9 desvario haver c\u00e1 tamanho mal!<\/p>\n<p><strong>PROCURADOR<\/strong><br \/>\nQue ribeira \u00e9 esta tal!<\/p>\n<p><strong>PARVO<\/strong><br \/>\nParec\u00eas-me v\u00f3s a mi como cagado nebri, mandado no Sardoal. Embarquetis in zambuquis!<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nVenha a negra prancha c\u00e1! Vamos ver este segredo.<\/p>\n<p><strong>PROCURADOR<\/strong><br \/>\nDiz um texto do Degredo&#8230;<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEntrai, que c\u00e1 se dir\u00e1!<\/p>\n<p>E Tanto que foram dentro no batel dos condenados, disse o Corregedor a Br\u00edzida Vaz, porque a conhecia:<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nOh! esteis muitieram\u00e1, senhora Br\u00edzida Vaz!<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 siquer estou em paz, que n\u00e3o me leix\u00e1veis l\u00e1.<\/p>\n<p>Cada hora sentenciada: \u00abJusti\u00e7a que manda fazer&#8230;.\u00bb<\/p>\n<p><strong>CORREGEDOR<\/strong><br \/>\nE v\u00f3s&#8230; tornar a tecer e urdir outra meada.<\/p>\n<p><strong>BR\u00cdZIDA<\/strong><br \/>\nDizede, juiz d&#8217;al\u00e7ada: vem l\u00e1 P\u00earo de Lixboa? Lev\u00e1-lo-emos \u00e0 toa e ir\u00e1 nesta barcada.<\/p>\n<p>Vem um homem que morreu Enforcado, e, chegando ao batel dos mal-aventurados, disse o Arrais, tanto que chegou:<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nVenhais embora, enforcado! Que diz l\u00e1 Garcia Moniz?<\/p>\n<p><strong>ENFORCADO<\/strong><br \/>\nEu te direi que ele diz: que fui bem-aventurado em morrer dependurado como o tordo na buiz, e diz que os feitos que eu fiz me fazem canonizado.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEntra c\u00e1, governar\u00e1s at\u00e1 as portas do Inferno.<\/p>\n<p><strong>ENFORCADO<\/strong><br \/>\nNom \u00e9 essa a nau que eu governo.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nMando-te eu que aqui ir\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>ENFORCADO<\/strong><br \/>\nOh! nom praza a Barrab\u00e1s! Se Garcia Moniz diz que os que morrem como eu fiz s\u00e3o livres de Satan\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>E disse que a Deus prouvera que fora ele o enforcado; e que fosse Deus louvado que em bo&#8217;hora eu c\u00e1 nacera; e que o Senhor m&#8217;escolhera; e por bem vi beleguins. E com isto mil latins, mui lindos, feitos de cera.<\/p>\n<p>E, no passo derradeiro, me disse nos meus ouvidos que o lugar dos escolhidos era a forca e o Limoeiro; nem guardi\u00e3o do moesteiro nom tinha t\u00e3o santa gente como Afonso Valente que \u00e9 agora carcereiro.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nDava-te consola\u00e7\u00e3o isso, ou algum esfor\u00e7o?<\/p>\n<p><strong>ENFORCADO<\/strong><br \/>\nCom o bara\u00e7o no pesco\u00e7o, mui mal presta a prega\u00e7\u00e3o&#8230; E ele leva a deva\u00e7\u00e3o que h\u00e1-de tornar a jentar&#8230; Mas quem h\u00e1-de estar no ar avorrece-lhe o serm\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEntra, entra no batel, que ao Inferno h\u00e1s-de ir!<\/p>\n<p><strong>ENFORCADO<\/strong><br \/>\nO Moniz h\u00e1-de mentir? Disse-me que com S\u00e3o Miguel jentaria p\u00e3o e mel tanto que fosse enforcado. Ora, j\u00e1 passei meu fado, e j\u00e1 feito \u00e9 o burel.<\/p>\n<p>Agora n\u00e3o sei que \u00e9 isso: n\u00e3o me falou em ribeira, nem barqueiro, nem barqueira, sen\u00e3o &#8211; logo \u00f2 Para\u00edso. Isto muito em seu siso. e era santo o meu bara\u00e7o&#8230; Eu n\u00e3o sei que aqui fa\u00e7o: que \u00e9 desta gl\u00f3ria emproviso?<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nFalou-te no Purgat\u00f3rio?<\/p>\n<p><strong>ENFORCADO<\/strong><br \/>\nDisse que era o Limoeiro, e ora por ele o salteiro e o preg\u00e3o vitat\u00f3rio; e que era mui not\u00f3rio que \u00e0queles deciprinados eram horas dos finados e missas de S\u00e3o Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nQuero-te desenganar: se o que disse tomaras, certo \u00e9 que te salvaras. N\u00e3o o quiseste tomar&#8230; &#8211; Alto! Todos a tirar, que est\u00e1 em seco o batel! &#8211; Sa\u00ed v\u00f3s, Frei Babriel! Ajudai ali a botar!<\/p>\n<p>V\u00eam Quatro Cavaleiros cantando, os quais trazem cada um a Cruz de Cristo, pelo qual Senhor e acrecentamento de Sua santa f\u00e9 cat\u00f3lica morreram em poder dos mouros. Absoltos a culpa e pena per privil\u00e9gio que os que assi morrem t\u00eam dos mist\u00e9rios da Paix\u00e3o d&#8217;Aquele por Quem padecem, outorgados por todos os Presi- dentes Sumos Pont\u00edfices da Madre Santa Igreja. E a cantiga que assi cantavam, quanto a palavra dela, \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p><strong>CAVALEIROS<\/strong><br \/>\n\u00c0 barca, \u00e0 barca segura, barca bem guarnecida, \u00e0 barca, \u00e0 barca da vida!<\/p>\n<p>Senhores que trabalhais pola vida transit\u00f3ria, mem\u00f3ria , por Deus, mem\u00f3ria deste temeroso cais! \u00c0 barca, \u00e0 barca, mortais, Barca bem guarnecida, \u00e0 barca, \u00e0 barca da vida!<\/p>\n<p>Vigiai-vos, pecadores, que, depois da sepultura, neste rio est\u00e1 a ventura de prazeres ou dolores! \u00c0 barca, \u00e0 barca, senhores, barca mui nobrecida, \u00e0 barca, \u00e0 barca da vida!<\/p>\n<p>E passando per diante da proa do batel dos danados assi cantando, com suas espadas e escudos, disse o Arrais da perdi\u00e7\u00e3o desta maneira:<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nCavaleiros, v\u00f3s passais e nom perguntais onde is?<\/p>\n<p><strong>1\u00ba CAVALEIRO<\/strong><br \/>\nV\u00f3s, Satan\u00e1s, presumis?<\/p>\n<p>Atentai com quem falais!<\/p>\n<p><strong>2\u00ba CAVALEIRO<\/strong><br \/>\nV\u00f3s que nos demandais? Siquer conhec\u00ea-nos bem: morremos nas Partes d&#8217;Al\u00e9m, e n\u00e3o queirais saber mais.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><br \/>\nEntrai c\u00e1! Que cousa \u00e9 essa? Eu nom posso entender isto!<\/p>\n<p><strong>CAVALEIROS<\/strong><br \/>\nQuem morre por Jesu Cristo n\u00e3o vai em tal barca como essa!<\/p>\n<p>Tornaram a prosseguir, cantando, seu caminho direito \u00e0 barca da Gl\u00f3ria, e, tanto que chegam, diz o Anjo:<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\n\u00d3 cavaleiros de Deus, a v\u00f3s estou esperando, que morrestes pelejando por Cristo, Senhor dos C\u00e9us! Sois livres de todo mal, m\u00e1rtires da Santa Igreja, que quem morre em tal peleja merece paz eternal.<\/p>\n<p>E assim embarcam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gil Vicente Auto de moralidade composto por Gil Vicente por contempla\u00e7\u00e3o da seren\u00edssima e muito cat\u00f3lica rainha Lianor, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso pr\u00edncipe e mui alto rei Manuel, primeiro de Portugal deste nome. Come\u00e7a a declara\u00e7\u00e3o e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96451","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra, Teatro, Idade M\u00e9dia, Enredo, Diabo, Fidalgo, Anjo, Frade, Personagens, Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra, Teatro, Idade M\u00e9dia, Enredo, Diabo, Fidalgo, Anjo, Frade, Personagens, Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-25T13:27:18+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"25 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Auto da Barca do Inferno &#8211; Gil Vicente\",\"datePublished\":\"2017-01-25T13:27:18+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente\"},\"wordCount\":5014,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente\",\"name\":\"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-01-25T13:27:18+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"description\":\"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra, Teatro, Idade M\u00e9dia, Enredo, Diabo, Fidalgo, Anjo, Frade, Personagens, Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Auto da Barca do Inferno &#8211; Gil Vicente\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\",\"name\":\"Augusto Abreu\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente","description":"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra, Teatro, Idade M\u00e9dia, Enredo, Diabo, Fidalgo, Anjo, Frade, Personagens, Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente","og_description":"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra, Teatro, Idade M\u00e9dia, Enredo, Diabo, Fidalgo, Anjo, Frade, Personagens, Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-01-25T13:27:18+00:00","author":"Augusto Abreu","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Augusto Abreu","Est. tempo de leitura":"25 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente"},"author":{"name":"Augusto Abreu","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578"},"headline":"Auto da Barca do Inferno &#8211; Gil Vicente","datePublished":"2017-01-25T13:27:18+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente"},"wordCount":5014,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente","name":"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-01-25T13:27:18+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578"},"description":"Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente, Obra, Teatro, Idade M\u00e9dia, Enredo, Diabo, Fidalgo, Anjo, Frade, Personagens, Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-barca-do-inferno-gil-vicente#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Auto da Barca do Inferno &#8211; Gil Vicente"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578","name":"Augusto Abreu"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96451","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96451"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96451\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}