{"id":96449,"date":"2017-01-25T11:25:27","date_gmt":"2017-01-25T13:25:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96449"},"modified":"2017-01-25T11:25:27","modified_gmt":"2017-01-25T13:25:27","slug":"auto-da-alma-gil-vicente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/auto-da-alma-gil-vicente","title":{"rendered":"Auto da Alma &#8211; Gil Vicente"},"content":{"rendered":"<h4>Gil Vicente<\/h4>\n<p><strong>ARGUMENTO<\/strong><\/p>\n<p>Assi como foi cousa muito necess\u00e1ria haver nos caminhos estalagens, pera repouso e refei\u00e7\u00e3o dos cansados caminhantes, assi foi cousa conveniente que nesta caminhante vida houvesse uma estalajadeira, pera refei\u00e7\u00e3o e descanso das almas que v\u00e3o caminhantes pera a eternal morada de Deus. Esta estalajadeira das almas \u00e9 a Madre Santa Igreja, a mesa \u00e9 o altar, os manjares as ins\u00edgnias da Paix\u00e3o. E desta perfigura\u00e7\u00e3o trata a obra seguinte.<\/p>\n<p>Figuras: Alma, Anjo Cust\u00f3dio, Igreja, Santo Agostinho, Santo Ambr\u00f3sio, S. Jer\u00f3nimo, S. Tom\u00e1s, Dous Diabos.<\/p>\n<p>Este Auto presente foi feito \u00e0 muito devota Rainha D. Leonor e representado ao mui poderoso e nobre Rei Dom Emanuel, seu irm\u00e3o, por seu mandado, na cidade de Lisboa, nos Pa\u00e7os da Ribeira, em a noite de Endoen\u00e7as. Era do Senhor de 1518.<\/p>\n<p>Est\u00e1 posta uma mesa com uma cadeira. Vem a Madre Santa Igreja com seus quatro doutores: S. Tom\u00e1s, S. Jer\u00f3nimo, Santo Ambr\u00f3sio e Santo Agostinho. E diz Agostinho:<\/p>\n<p><strong>AGOSTINHO<\/strong><\/p>\n<p>Necess\u00e1rio foi, amigos, que nesta triste carreira desta vida, pera os mui p&#8217;rigosos p&#8217;rigos dos imigos, houvesse alguma maneira de guarida. Porque a humana transit\u00f3ria natureza vai cansada em v\u00e1rias calmas; nesta carreira da gl\u00f3ria merit\u00f3ria, foi necess\u00e1rio pousada pera as almas.<\/p>\n<p>Pousada com mantimentos, mesa posta em clara luz, sempre esperando com dobrados mantimentos dos tormentos que o Filho de Deus, na Cruz, comprou, penando. Sua morte foi aven\u00e7a, dando, por dar-nos para\u00edso, a sua vida apre\u00e7ada, sem deten\u00e7a, por senten\u00e7a, julgada a paga em proviso, e recebida.<\/p>\n<p>A Sua mortal empresa foi santa estalajadeira Igreja Madre: consolar \u00e0 sua despesa, nesta mesa, qualquer alma caminheira, com o Padre e o Anjo Cust\u00f3dio aio. Alma que lhe \u00e9 encomendada, se enfraquece e lhe vai tomando raio de desmaio, se chegando a esta pousada, se guarece.<\/p>\n<p>Vem o Anjo Cust\u00f3dio, com a Alma, e diz:<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><\/p>\n<p>Alma humana, formada de nenh\u00fca cousa feita, mui preciosa, de corrup\u00e7\u00e3o separada, e esmaltada naquela fr\u00e1goa perfeita, gloriosa! Planta neste vale posta pera dar celestes flores olorosas, e pera serdes tresposta em a alta costa, onde se criam primores mais que rosas!<\/p>\n<p>Planta sois e caminheira, que ainda que estais, vos is donde viestes. Vossa p\u00e1tria verdadeira \u00e9 ser herdei da gl\u00f3ria que conseguis: andai prestes. Alma bem-aventurada, dos anjos tanto querida, n\u00e3o durmais! Um ponto n\u00e3o esteis parada, que a jornada muito em breve \u00e9 fenecida, se atentais.<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>Anjo que sois minha guarda, olhai por minha fraqueza terreal! de toda a parte haja resguarda, que n\u00e3o arda a minha preciosa riqueza principal. Cercai-me sempre \u00f2 redor porque vou mui temerosa de contenda. \u00d3 precioso defensor meu favor! Vossa espada lumiosa me defenda!<\/p>\n<p>Tende sempre m\u00e3o em mim, porque hei medo de empe\u00e7ar, e de cair<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><\/p>\n<p>Pera isso sam e a isso vim; mas enfim, cumpre-vos de me ajudar a resistir N\u00e3o vos ocupem vaidades, riquezas, nem seus debates. Olhai por v\u00f3s; que pompas, honras, herdades e vaidades, s\u00e3o embates e combates pera v\u00f3s.<\/p>\n<p>Vosso livre alvedrio, isento, forro, poderoso vos \u00e9 dado polo divinal poderio e senhorio, que possais fazer glorioso vosso estado. Deu-vos livre entendimento, e vontade libertada e a mem\u00f3ria, que tenhais em vosso tento fundamento, que sois por Ele criada pera a gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>E vendo Deus que o metal em que vos p\u00f4s a estilar, pera merecer, que era muito fraco e mortal, e, por tal, me manda a vos ajudar e defender. Andemos a estrada nossa; olhai: n\u00e3o torneis atr\u00e1s, que o imigo \u00e0 vossa vida gloriosa por\u00e1 grosa, N\u00e3o creiais a Satan\u00e1s, vosso perigo!<\/p>\n<p>Continuai ter o cuidado no fim de vossa jornada, e a mem\u00f3ria, que o esp\u00edrito atalaiado do pecado caminha sem temer nada pera a Gl\u00f3ria. E nos la\u00e7os infernais, e nas redes de tristura tenebrosas da carreira, que passais, n\u00e3o caiais: siga vossa fermosura as gloriosas.<\/p>\n<p>Adianta-se o Anjo, e vem o Diabo a ela e diz:<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><\/p>\n<p>T\u00e3o depressa, \u00f3 delicada, alva pomba, pera onde isso? Quem vos engana, e vos leva t\u00e3o cansada por estrada, que somente n\u00e3o sentis se sois humana? N\u00e3o cureis de vos matar que ainda estais em idade de crecer Tempo h\u00e1 i pera folgar e caminhar Vivei \u00e0 vossa vontade e havei prazer.<\/p>\n<p>Gozai, gozai dos bens da terra, Procurai por senhorios e haveres. Quem da vida vos desterra \u00e0 triste serra? Quem vos fala em desvarios por prazeres? Esta vida \u00e9 descanso, doce e manso, n\u00e3o cureis doutro para\u00edso. Quem vos p\u00f5e em vosso siso outro remanso?<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o me detenhais aqui, leixai-me ir que em al me fundo.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><\/p>\n<p>Oh! Descansai neste mundo que todos fazem assi: N\u00e3o s\u00e3o em balde os haveres. n\u00e3o s\u00e3o em balde os deleites, e fortunas; n\u00e3o s\u00e3o debalde os prazeres e comeres: tudo s\u00e3o puros afeites das criaturas:<\/p>\n<p>Pera os homens se criaram. Dai folga \u00e0 vossa passagem d&#8217;hoje a mais: descansai, pois descansaram os que passaram por esta mesma romagem que levais. O que a vontade quiser quanto o corpo desejar, tudo se fa\u00e7a. Zombai de quem vos quiser reprender querendo-vos marteirar t\u00e3o de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Tornara-me, se a v\u00f3s fora. Is t\u00e3o triste, atribulada, que \u00e9 tormenta. Senhora, v\u00f3s sois senhora emperadora, n\u00e3o deveis a ningu\u00e9m nada. Sede isenta.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><\/p>\n<p>Oh! andai; quem vos det\u00e9m? Como vindes pera a Gl\u00f3ria devagar! \u00d3 meu Deus! \u00d3 sumo bem! J\u00e1 ningu\u00e9m n\u00e3o se preza da vit\u00f3ria em se salvar!<\/p>\n<p>J\u00e1 cansais, alma preciosa? T\u00e3o asinha desmaiais? Sede esfor\u00e7ada! Oh! Como vir\u00edeis trigosa e desejosa, se v\u00edsseis quanto ganhais nesta jornada! Caminhemos, caminhemos. Esfor\u00e7ai ora, Alma santa, esclarecida!<\/p>\n<p>Adianta-se o Anjo, e torna Satan\u00e1s:<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><\/p>\n<p>Que vaidades e que extremos t\u00e3o supremos! Pera que \u00e9 essa pressa tanta? tende vida.<\/p>\n<p>Is muito desautorizada, descal\u00e7a, pobre, perdida, de remate: n\u00e3o levais de vosso nada. Amargurada, assi passais esta vida em disparate. Vesti ora este brial; metei o bra\u00e7o por aqui. Ora esperai. Oh! Como vem t\u00e3o real! Isto tal me parece bem a mi: ora andai.<\/p>\n<p>Uns chapins haveis mister de Valen\u00e7a: ei-los aqui. Agora estais v\u00f3s mulher de parecer Ponde os bra\u00e7os presumptuosos: isso si! Passeai-vos mui pomposa, daqui pera ali, e de l\u00e1 pera c\u00e1, e fantasiai. Agora estais v\u00f3s fermosa como a rosa; tudo vos mui bem est\u00e1. Descansai.<\/p>\n<p>Torna o Anjo \u00e0 Alma, dizendo:<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><\/p>\n<p>Que andais aqui fazendo?<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>Fa\u00e7o o que vejo fazer polo mundo.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><\/p>\n<p>\u00d3 Alma, is-vos perdendo! Correndo vos is meter no profundo! Quanto caminhais avante, tanto vos tornais atr\u00e1s e atrav\u00e9s. Tomastes, ante com ante por mercante, o cossairo Satan\u00e1s, porque quereis.<\/p>\n<p>Oh! caminhai com cuidado, que a Virgem gloriosa vos espera. Deixais vosso principado deserdado! Enjeitais a gl\u00f3ria vossa e p\u00e1tria vera! Deixai esses chapins ora, e esses rabos t\u00e3o sobejos, que is carregada; n\u00e3o vos tome a morte agora t\u00e3o senhora, nem sejais, com tais desejos, sepultada.<\/p>\n<p>Andai! dai-me c\u00e1 essa m\u00e3o!<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>Andai v\u00f3s, que eu irei, quanto puder.<\/p>\n<p>Adianta-se o Anjo, e torna o Diabo:<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><\/p>\n<p>Todas as cousas com raz\u00e3o t\u00eam saz\u00e3o Senhora, eu vos direi meu parecer: H\u00e1 i tempo de folgar e idade de crecer; e outra idade de mandar e triunfar e apanhar e adquirir prosperidade a que puder.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 cedo pera a morte; tempo h\u00e1-de arrepender e ir ao C\u00e9u. Ponde-vos \u00e0 for da corte; desta sorte viva vosso parecer que tal naceu. O ouro pera que \u00e9, e as pedras preciosas, e brocados? E as sedas pera qu\u00ea? Tende por f\u00e9, que pera as almas mais ditosas foram dados.<\/p>\n<p>Vedes aqui um colar d&#8217;ouro, mui bem esmaltado, e dez an\u00e9is. Agora estais v\u00f3s pera casar e namorar Neste espelho vos tereis, e sabereis que n\u00e3o vos hei-de enganar. E poreis estes pendentes, em cada orelha seu. Isso si! Que as pessoas diligentes s\u00e3o prudentes. Agora vos digo eu que vou contente daqui.<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>Oh! Como estou preciosa, t\u00e3o dina pera servir E santa pera adorar!<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><br \/>\n\u00d3 Alma despiedosa perfiosa! Quem vos devesse fugir mais que guardar! Pondes terra sobre terra, que esses ouros terra s\u00e3o. \u00d3 Senhor porque permites tal guerra, que desterra ao reino da confus\u00e3o o teu lavor?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00edeis mais despejada, e mais livre da primeira pera andar? Agora estais carregada e embara\u00e7ada com cousas que, \u00e0 derradeira, h\u00e3o-de ficar. Tudo isso se descarrega ao porto da sepultura. Alma santa, quem vos cega, vos carrega dessa v\u00e3 desaventura?<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>Isto n\u00e3o me pesa nada, mas a fraca natureza me embara\u00e7a. J\u00e1 n\u00e3o posso dar passada de cansada: tanta \u00e9 minha fraqueza, e t\u00e3o sem gra\u00e7a! Senhor, ide-vos embora, que rem\u00e9dio em mim n\u00e3o sento, j\u00e1 estou tal&#8230;<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><\/p>\n<p>Sequer dai dous passos ora, at\u00e9 onde mora a que tem o mantimento celestial.<\/p>\n<p>Ireis ali repousar comereis alguns bocados confortosos; porque a h\u00f3speda \u00e9 sem par em agasalhar os que v\u00eam atribulados e chorosos.<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 longe?<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><\/p>\n<p>Aqui mui perto, Esfor\u00e7ai, n\u00e3o desmaieis! E andemos, qu&#8217;ali h\u00e1 todo concerto mui certo: quantas cousas querereis tudo tendes.<\/p>\n<p>A h\u00f3speda tem gra\u00e7a tanta. far-vos-\u00e1 tantos favores!<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>Quem \u00e9 ela?<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 a Madre Igreja Santa, e os seus santos Doutores. I com ela. Ireis d&#8217;i mui despejada, cheia do Sp\u00edrito Santo, e mui fermosa. \u00d3 Alma, sede esfor\u00e7ada! Outra passada, que n\u00e3o tendes de andar tanto a ser esposa.<\/p>\n<p><strong>DIABO<\/strong><\/p>\n<p>Esperai, onde vos isso? Essa pressa t\u00e3o sobeja \u00e9 j\u00e1 pequice. Como! V\u00f3s, que presumis, consentis continuardes a igreja, sem velhice? Dai-vos, dai-vos a prazer que muitas horas h\u00e1 nos anos que l\u00e1 v\u00eam. Na hora que a morte vier como se quer se perdoam quantos danos a alma tem.<\/p>\n<p>Olhai por vossa fazenda tendes umas escrituras de uns casais, de que perdeis grande renda. \u00c9 contenda, que leixaram \u00e0s escuras vossos pais; \u00e9 demanda mui ligeira, lit\u00edgios que s\u00e3o vencidos em um riso. Citai as partes ter\u00e7a-feira, de maneira como n\u00e3o fiquem perdidos, e havei siso.<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>Cal&#8217;-te por amor de Deus! leixa-me, n\u00e3o me persigas! Bem abasta estorvares os her\u00e9us dos altos c\u00e9us, que a vida em tuas brigas se me gasta. Leixa-me remediar o que tu, cruel, danaste sem vergonha, que n\u00e3o me posso abalar, nem chegar<\/p>\n<p>ao lugar onde gaste esta pe\u00e7onha. Chega a Alma diante da Igreja.<\/p>\n<p><strong>ANJO<\/strong><\/p>\n<p>Vedes aqui a pousada verdadeira e mui segura a quem quer vida.<\/p>\n<p><strong>IGREJA<\/strong><\/p>\n<p>Oh! Como vindes cansada e carregada!<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>Venho por minha ventura, amortecida,<\/p>\n<p><strong>IGREJA<\/strong><\/p>\n<p>Quem sois? Pera onde andais?<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei pera onde vou; sou selvagem, sou uma alma que pecou culpas mortais contra o Deus que me criou \u00e0 Sua imagem.<\/p>\n<p>Sou a triste, sem ventura, criada resplandecente e preciosa, ang\u00e9lica em fermosura, e per natura, como raio reluzente luminosa. E por minha triste sorte e diab\u00f3licas maldades violentas, estou mais morta que a morte sem deporte, carregada de vaidades pe\u00e7onhentas. Sou a triste, sem mezinha, pecadora obstinada, perfiosa; pola triste culpa minha, mui mesquinha, a todo o mal inclinada e deleitosa. Desterrei da minha mente os meus perfeitos arreios naturais; n\u00e3o me prezei de prudente, mas contente me gozei com os trajos feios mundanais. Cada passo me perdi; em lugar de merecer, eu sou culpada. Havei piedade de mi, que n\u00e3o me vi; perdi meu inocente ser, e sou danada. E, por mais graveza, sento n\u00e3o poder me arrepender quanto queria; que meu triste pensamento, sendo isento, n\u00e3o me quer obedecer, como so\u00eda.<\/p>\n<p>Socorrei, h\u00f3speda senhora, que a m\u00e3o de Satan\u00e1s me tocou, e sou j\u00e1 de mim t\u00e3o fora, que agora n\u00e3o sei se avante, se atr\u00e1s, nem como vou. Consolai minha fraqueza com sagrada iguaria, que pere\u00e7o, por vossa santa nobreza, que \u00e9 franqueza; porque o que eu merecia bem conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o-me por culpada, e digo diante v\u00f3s minha culpa. Senhora, quero pousada, dai passada, pois que padeceu por n\u00f3s quem nos desculpa. Mandai-me ora agasalhar capa dos desamparados, Igreja Madre.<\/p>\n<p><strong>IGREJA<\/strong><\/p>\n<p>Vinde-vos aqui assentar mui devagar que os manjares s\u00e3o guisados por Deus Padre.<\/p>\n<p>Santo Agostinho doutor, Jer\u00f3nimo, Ambr\u00f3sio, S\u00e3o Tom\u00e1s, meus pilares, servi aqui por meu amor o qual milhor E tu, Alma, gostar\u00e1s meus manjares. Ide \u00e0 santa cozinha, tornemos esta alma em si, por que mere\u00e7a de chegar onde caminha, e se detinha. Pois que Deus a trouxe aqui, n\u00e3o pere\u00e7a.<\/p>\n<p>Enquanto estas cousas passam, Satan\u00e1s passeia, fazendo muitas vascas, e vem outro (Diabo) e diz:<\/p>\n<p><strong>2\u00ba DIABO<\/strong><\/p>\n<p>Como andas dasassossegado!<\/p>\n<p><strong>1\u00ba DIABO<\/strong><\/p>\n<p>Ar\u00e7o em fogo de pesar<\/p>\n<p><strong>2\u00ba DIABO<\/strong><\/p>\n<p>Que houveste?<\/p>\n<p><strong>2\u00ba DIABO<\/strong><\/p>\n<p>Ando t\u00e3o desatinado, de enganado, que n\u00e3o posso repousar que me preste. Tinha uma alma enganada, j\u00e1 quase pera infernal, mui acesa.<\/p>\n<p><strong>2\u00ba DIABO<\/strong><\/p>\n<p>E quem t&#8217;a levou for\u00e7ada?<\/p>\n<p><strong>1\u00ba DIABO<\/strong><\/p>\n<p>O da espada.<\/p>\n<p><strong>2\u00ba DIABO<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 m&#8217;ele fez outra tal burla como essa.<\/p>\n<p>Tinha outra alma j\u00e1 vencida, em ponto de se enforcar de desesperada, a n\u00f3s toda oferecida, e eu prestes pera a levar arrastada; e ele f\u00ea-la chorar tanto, que as l\u00e1grimas corriam pola terra. Blasfemei entonces tanto, que meus gritos retiniam pola serra.<\/p>\n<p>Mas fa\u00e7o conta que perdi, outro dia ganharei, e ganharemos<\/p>\n<p><strong>1\u00ba DIABO<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o digo eu, irm\u00e3o, assi: mas a esta tornarei, e veremos. Torn\u00e1-la-ei a afagar despois que ela sair fora da Igreja e come\u00e7ar de caminhar; hei-de apalpar se vencer\u00e3o ainda agora esta peleja. Entra a Alma, com o Anjo.<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>V\u00f3s n\u00e3o me desempareis, Senhor meu Anjo Cust\u00f3dio! \u00d3 incr\u00e9us imigos, que me quereis, que j\u00e1 sou fora do \u00f3dio de meu Deus? Leixai-me j\u00e1, tentadores, neste convite prezado do Senhor guisado aos pecadores com as dores de Cristo crucificado, redentor.<\/p>\n<p>Estas cousas, estando a Alma assentada \u00e0 mesa, e o Anjo junto com ela, em p\u00e9, v\u00eam os Doutores com quatro bacios de cozinha cobertos, cantando: \u00abVexilla regis prodeunt\u00bb. E, postos na mesa, diz Santo Agostinho:<\/p>\n<p><strong>AGOSTINHO<\/strong><\/p>\n<p>V\u00f3s, senhora convidada, nesta ceia soberana celestial, haveis mister ser apartada e transportada de toda a cousa mundana, terreal. Cerrai os olhos corporais, deitai ferros aos danados apetitos, caminheiros infernais; pois buscais os caminhos bem guiados dos contritos.<\/p>\n<p><strong>IGREJA<\/strong><\/p>\n<p>Benzei a mesa v\u00f3s, senhor e, pera consola\u00e7\u00e3o da convidada, seja a ora\u00e7\u00e3o de dor sobre o tenor da gloriosa Paix\u00e3o consagrada. E v\u00f3s, Alma, rezareis, contemplando as vivas dores da Senhora; V\u00f3s outros respondereis, pois que fostes rogadores at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Ora\u00e7\u00e3o pera Santo Agostinho.<\/p>\n<p>Alto Deus Maravilhoso, que o mundo visitaste em carne humana, neste vale temeroso e lacrimoso. Tua gl\u00f3ria nos mostraste soberana. E Teu Filho delicado, mimoso da Divindade e Natureza, per todas partes chagado, e mui sangrado, pela nossa infirmidade e vil fraqueza!<\/p>\n<p>\u00d3 Emperador celeste, Deus alto, mui poderoso, essencial, que polo homem que fizeste, ofereceste o teu estado glorioso a ser mortal! E Tua Filha, Madre, Esposa, horta nobre, frol dos c\u00e9us, Virgem Maria, mansa pomba gloriosa; oh qu\u00e3o chorosa quando o seu Deus padecia!<\/p>\n<p>\u00d3 l\u00e1grimas preciosas, do Virginal Cora\u00e7\u00e3o estiladas, correntes das dores vossas, com os olhos da perfei\u00e7\u00e3o derramadas! Quem uma s\u00f3 pudera ver vira claramente nela aquela dor, aquela pena e padecer com que chor\u00e1veis, donzela, vosso amor! E quando v\u00f3s, amortecida, se l\u00e1grimas vos faltavam, n\u00e3o faltava a vosso filho e vossa vida chorar as que lhe ficaram de quando orava. Porque muito mais sentia polos seus padecimentos ver-vos tal; mais que quanto padecia, lhe do\u00eda, e dobrava seus tormentos, vosso mal. Se se pudesse dizer se se pudesse rezar tanta dor; Se se pudesse fazer podermos ver qual est\u00e1veis ao cravar do Redentor! \u00d3 fermosa face bela, \u00f3 resplandor divinal, que sentistes, quando a cruz se p\u00f4s \u00e0 vela, e posto nela o filho celestial que paristes? Vendo por cima da gente assornar vosso conforto t\u00e3o chagado, cravado t\u00e3o cruelmente, e v\u00f3s presente, vendo-vos ser m\u00e3e do morto, e justi\u00e7ado! \u00d3 Rainha delicada, santidade escurecida, quem n\u00e3o chora em ver morta e debru\u00e7ada a avogada, a for\u00e7a da nossa vida?<\/p>\n<p><strong>AMBR\u00d3SIO<\/strong><\/p>\n<p>Isto chorou Hieremias sobre o monte de Si\u00e3o, h\u00e1 j\u00e1 dias; porque sentiu que o Messias era nossa reden\u00e7\u00e3o. E chorava a sem-ventura, triste de Jerusal\u00e9m homecida, matando, contra natura, seu Deus nascido em Bel\u00e9m nesta vida.<\/p>\n<p><strong>JER\u00d3NIMO<\/strong><\/p>\n<p>Quem vira o Santo Cordeiro antre os lobos humildoso, escarnecido, julgado pera o marteiro do madeiro, seu rosto alvo e fermoso mui cuspido!<\/p>\n<p>(Agostinho benze a mesa.)<\/p>\n<p><strong>AGOSTINHO<\/strong><\/p>\n<p>A b\u00ean\u00e7\u00e3o do Padre Eternal, e do Filho, que por n\u00f3s sofreu tal dor, e do Sp\u00edrito Santo, igual Deus imortal, convidada, benza a v\u00f3s por seu amor<\/p>\n<p><strong>IGREJA<\/strong><\/p>\n<p>Ora sus! Venha \u00e1gua \u00e0s m\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>AGOSTINHO<\/strong><\/p>\n<p>V\u00f3s haveis-vos de lavar em l\u00e1grimas da culpa vossa, e bem lavada. E haveis-vos de chegar a alimpar a uma toalha fermosa, bem lavrada co sirgo das veias puras da Virgem sem m\u00e1goa, nacido e apurado, torcido com amarguras \u00e0s escuras, com grande dor guarnecido e acabado.<\/p>\n<p>N\u00e3o que os olhos alimpeis, que o n\u00e3o consentir\u00e3o os tristes la\u00e7os; que tais pontos achareis da face e env\u00e9s, que se rompe o cora\u00e7\u00e3o em peda\u00e7os. Vereis seu triste lavrado natural, com tormentos pespontado, e figurado Deus Criador em figura de mortal.<\/p>\n<p>Esta toalha, em que aqui se fala, \u00e9 o Ver\u00f3nica, a qual Santo Agostinho tira d&#8217;antre os bacios, e amostra \u00e0 Alma; e a Madre Igreja, com os Doutores, lhe fazem adora\u00e7\u00e3o de joelhos, cantando: \u00abSalve, Sancta Facies\u00bb. E, acabando, diz a Madre Igreja:<\/p>\n<p><strong>IGREJA<\/strong><\/p>\n<p>Venha a primeira iguaria.<\/p>\n<p><strong>JER\u00d3NIMO<\/strong><\/p>\n<p>Esta iguaria primeira foi, Senhora, guisada sem alegria em triste dia, a crueldade cozinheira e matadora. Gost\u00e1-la-eis com salsa e sal de choros de muita dor; porque os costados do Messias divinal, santo sem mal, foram, polo vosso amor a\u00e7outados.<\/p>\n<p>Esta iguaria em que aqui se fala s\u00e3o os A\u00e7outes; e em este passo os tiram dos bacios, e os presentam \u00e0 Alma, e todos de joelhos adoram, cantando: \u00abAve, flagellum\u00bb; e despois diz:<\/p>\n<p><strong>JER\u00d3NIMO<\/strong><\/p>\n<p>Estoutro manjar segundo \u00e9 iguaria, que haveis de mastigar em contemplar a dor que o Senhor do mundo padecia, pera vos remediar Foi um tormento improviso, que aos miolos lhe chegou: e consentiu, por remediar o siso, que a vosso siso faltou; e pera ganhardes para\u00edso, a sofriu.<\/p>\n<p>Esta iguaria segunda, de que aqui se fala, \u00e9 a Coroa de Espinhos; e em este passo a tiram dos bacios e, de joelhos, os Santos Doutores cantam: \u00abAve, corona spinarum\u00bb. E, acabando, diz a Madre Igreja:<\/p>\n<p><strong>IGREJA<\/strong><\/p>\n<p>Venha outra do teor<\/p>\n<p><strong>JER\u00d3NIMO<\/strong><\/p>\n<p>Est&#8217;outro manjar terceiro foi guisado em tr\u00eas lugares de dor a qual maior com a lenha do madeiro mais prezado. Come-se com gram tristura, porque a Virgem gloriosa o viu guisar: viu cravar com gram crueza a sua riqueza, e sua perla preciosa viu furar.<\/p>\n<p>E a este passo tira Santo Agostinho os Cravos, e todos de joelhos os adoram cantando: \u00abDulce lignum, dulcis clavus\u00bb. E acabada a adora\u00e7\u00e3o diz o Anjo \u00e0 Alma:<\/p>\n<p>Anjo Leixai ora esses arreios, que est&#8217;outra n\u00e3o se come assi como cuidais. Pera as almas s\u00e3o mui feios, e s\u00e3o meios com que n\u00e3o andam em si os mortais.<\/p>\n<p>Despe a Alma o vestido e j\u00f3ias que lh&#8217;o imigo deu, e diz Agostinho:<\/p>\n<p><strong>AGOSTINHO<\/strong><\/p>\n<p>\u00d3 Alma bem aconselhada, que dais o seu a cujo \u00e9: o da terra \u00e0 terra! Agora ireis despejada pola estrada, porque vencestes com f\u00e9 forte guerra.<\/p>\n<p><strong>IGREJA<\/strong><\/p>\n<p>Venha ess&#8217;outra iguaria.<\/p>\n<p><strong>JER\u00d3NIMO<\/strong><\/p>\n<p>A quarta iguaria \u00e9 tal, t\u00e3o esmerada, de t\u00e3o infinda valia e contia, que na mente divinal foi guisada, por mist\u00e9rio preparada no sacr\u00e1rio virginal. mui coberta, da divindade cercada e consagrada, despois ao Padre Eternal dada em oferta.<\/p>\n<p>Apresenta S. Jer\u00f3nimo \u00e0 Alma um Crucifixo, que tira d&#8217;antre os pratos; e os Doutores o adoram, cantando \u00abDomine Jesu Christe\u00bb. E, acabando, diz:<\/p>\n<p><strong>ALMA<\/strong><\/p>\n<p>Com que for\u00e7as, com que sp\u00edrito, te darei, triste, louvores, que sou nada, vendo-Te, Deus Infinito, t\u00e3o aflito, padecendo Tu as dores, e eu culpada? Como est\u00e1s t\u00e3o quebrantado, Filho de Deos imortal! Quem Te matou? Senhor, per cujo mandado \u00e9s justi\u00e7ado, sendo Deus universal, que nos criou?<\/p>\n<p><strong>AGOSTINHO<\/strong><\/p>\n<p>A fruita deste jantar que neste altar vos foi dado com amor iremos todos buscar ao pomar adonde est\u00e1 sepultado o Redentor.<\/p>\n<p>E todos com a Alma, cantando \u00abTe Deum laudamus\u00bb; foram adorar o moimento.<\/p>\n<p>LAUS DEO<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gil Vicente ARGUMENTO Assi como foi cousa muito necess\u00e1ria haver nos caminhos estalagens, pera repouso e refei\u00e7\u00e3o dos cansados caminhantes, assi foi cousa conveniente que nesta caminhante vida houvesse uma estalajadeira, pera refei\u00e7\u00e3o e descanso das almas que v\u00e3o caminhantes pera a eternal morada de Deus. 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