{"id":96195,"date":"2017-01-24T13:08:55","date_gmt":"2017-01-24T15:08:55","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96195"},"modified":"2017-01-24T13:09:20","modified_gmt":"2017-01-24T15:09:20","slug":"do-socialismo-utopico-ao-socialismo-cientifico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/do-socialismo-utopico-ao-socialismo-cientifico","title":{"rendered":"Do Socialismo Ut\u00f3pico ao Socialismo Cient\u00edfico"},"content":{"rendered":"<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I &#8211; O Socialismo<br \/>\nUt\u00f3pico<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo<br \/>\nII &#8211; Dial\u00e9tica<\/a><\/strong><\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: small;\"> <strong><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo<br \/>\nIII &#8211; O Materialismo Hist\u00f3rico<\/a><\/strong><\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I &#8211; O Socialismo Ut&oacute;pico<\/a><\/h2>\n<p> O socialismo moderno &eacute;, em primeiro lugar, por seu conte&uacute;do,<br \/>\n    fruto do reflexo na intelig&ecirc;ncia, de um lado dos antagonismos de classe<br \/>\n    que imperam na moderna sociedade entre possuidores e despossuidos, capitalistas<br \/>\n    e oper&aacute;rios assalariados, e, de outro lado, da anarquia que reina na<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o. Por sua forma te&oacute;rica, por&eacute;m, o socialismo<br \/>\n    come&ccedil;a apresentando-se como uma continua&ccedil;&atilde;o, mais desenvolvida<br \/>\n    e mais conseq&uuml;ente, dos princ&iacute;pios proclamados pelos grandes pensadores<br \/>\n    franceses do s&eacute;culo XVIII. Como toda nova teoria, o socialismo, embora<br \/>\n    tivesse suas ra&iacute;zes nos fatos materiais econ&ocirc;micos, teve de ligar-se,<br \/>\n    ao nascer, &agrave;s Id&eacute;ias existentes.<\/p>\n<p> Os grandes homens que, na Fran&ccedil;a, iluminaram os c&eacute;rebros para<br \/>\n    a revolu&ccedil;&atilde;o que se havia de desencadear, adotaram uma atitude<br \/>\n    resolutamente revolucion&aacute;ria. N&atilde;o reconheciam autoridade exterior<br \/>\n    de nenhuma esp&eacute;cie. A religi&atilde;o, a concep&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    natureza, a sociedade, a ordem estatal: tudo eles submetiam &agrave; cr&iacute;tica<br \/>\n    mais impiedosa; tudo quanto existia devia justificar os t&iacute;tulos de<br \/>\n    sua exist&ecirc;ncia ante o foro da raz&atilde;o, ou renunciar a continuar<br \/>\n    existindo. A tudo se aplicava como rasoura &uacute;nica a raz&atilde;o pensante.<br \/>\n    Era a &eacute;poca em que, segundo Hegel, &quot;o mundo girava sobre a cabe&ccedil;a&quot;<br \/>\n    (1), primeiro no sentido de que a cabe&ccedil;a humana e os princ&iacute;pios<br \/>\n    estabelecidos por sua especula&ccedil;&atilde;o reclamavam o direito de ser<br \/>\n    acatados como base de todos os atos humanos e toda rela&ccedil;&atilde;o social,<br \/>\n    e logo tamb&eacute;m, no sentido mais amplo de que a realidade que n&atilde;o<br \/>\n    se ajustava a essas conclus&otilde;es se via subvertida, de fato, desde os<br \/>\n    alicerces at&eacute; &agrave; cumieira. Todas as formas anteriores de sociedade<br \/>\n    e de Estado, todas as leis tradicionais, foram atiradas no monturo como irracionais;<br \/>\n    at&eacute; ent&atilde;o o mundo se deixara governar por puros preconceitos;<br \/>\n    todo o passado n&atilde;o merecia sen&atilde;o comisera&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    desprezo, S&oacute; agora despontava a aurora, o reino da raz&atilde;o; daqui<br \/>\n    por diante a supersti&ccedil;&atilde;o, a injusti&ccedil;a, o privil&eacute;gio<br \/>\n    e a opress&atilde;o seriam substitu&iacute;dos pela verdade eterna, pela eterna<br \/>\n    justi&ccedil;a, pela igualdade baseada na natureza e pelos direitos Inalien&aacute;veis<br \/>\n    do homem.<\/p>\n<p> J&aacute; sabemos, hoje, que esse imp&eacute;rio da raz&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    era mais que o imp&eacute;rio idealizado pela burguesia; que a justi&ccedil;a<br \/>\n    eterna tomou corpo na justi&ccedil;a burguesa; que a igualdade se reduziu<br \/>\n    &agrave; igualdade burguesa em face da lei; que como um dos direitos mais<br \/>\n    essenciais do homem foi proclamada a propriedade burguesa; e que o Estado<br \/>\n    da raz&atilde;o, o &quot;contrato social&quot; de Rousseau, pisou e somente<br \/>\n    podia pisar o terreno da realidade, convertido na rep&uacute;blica democr&aacute;tica<br \/>\n    burguesa. Os grandes pensadores do s&eacute;culo XVIII, como todos os seus<br \/>\n    Predecessores, n&atilde;o podiam romper as fronteiras que sua pr&oacute;pria<br \/>\n    &eacute;poca lhes impunha.<\/p>\n<p> Mas, ao lado do antagonismo entre a nobreza feudal e a burguesia, que se<br \/>\n    erigia em representante de todo o resto da sociedade, mantinha-se de p&eacute;<br \/>\n    o antagonismo geral entre exploradores e explorados, entre ricos gozadores<br \/>\n    e pobres que trabalhavam. E esse fato exatamente &eacute; que permitia aos<br \/>\n    representantes da burguesia arrogar-se a representa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    de uma classe determinada, mas de toda a humanidade sofredora. Mais ainda:<br \/>\n    desde o momento mesmo em que nasceu, a burguesia conduzia em suas entranhas<br \/>\n    sua pr&oacute;pria ant&iacute;tese, pois os capitalistas n&atilde;o podem<br \/>\n    existir sem os oper&aacute;rios assalariados, e na mesma propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que os mestres de of&iacute;cios das corpora&ccedil;&otilde;es medievais<br \/>\n    se convertiam em burgueses modernos, os oficiais e os jornaleiros n&atilde;o<br \/>\n    agremiados transformavam-se em prolet&aacute;rios. E se, em termos gerais,<br \/>\n    a burguesia podia arrogar-se o direito de representar, em suas lutas com a<br \/>\n    nobreza, al&eacute;m dos seus Interesses, os das diferentes classes trabalhadoras<br \/>\n    da &eacute;poca, ao lado de todo grande movimento burgu&ecirc;s que se desatava,<br \/>\n    eclodiam movimentos independentes daquela classe que era o precedente mais<br \/>\n    ou menos desenvolvido do proletariado moderno. Tal foi na &eacute;poca da<br \/>\n    Reforma e das guerras camponesas na Alemanha. a tend&ecirc;ncia dos anabatistas<br \/>\n    e de Thomas M&uuml;nzer; na grande Revolu&ccedil;&atilde;o Inglesa, os &quot;levellers&quot;<br \/>\n    (2), e na Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, Babeuf. Essas subleva&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    revolucion&aacute;rias de uma classe incipiente s&atilde;o acompanhadas, por<br \/>\n    sua vez, pelas correspondentes manifesta&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas:<br \/>\n    nos s&eacute;culos XVI e XVII (3) aparecem as descri&ccedil;&otilde;es ut&oacute;picas<br \/>\n    de um regime ideal da sociedade; no s&eacute;culo XVIII, teorias j&aacute;<br \/>\n    abertamente comunistas, como as de Morelly e Mably. A reivindica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da igualdade n&atilde;o se limitava aos direitos pol&iacute;ticos, mas se<br \/>\n    estendia &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es sociais de vida de cada indiv&iacute;duo;<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o se tratava de abolir os privil&eacute;gios de classe,<br \/>\n    mas de destruir as pr&oacute;prias diferen&ccedil;as de classe. Um comunismo<br \/>\n    asc&eacute;tico, ao modo espartano, que renunciava a todos os gozos da vida:<br \/>\n    tal foi a primeira forma de manifesta&ccedil;&atilde;o da nova teoria. Mais<br \/>\n    tarde vieram os tr&ecirc;s grandes utopistas: Saint-Simon, em que a tend&ecirc;ncia<br \/>\n    continua ainda a se afirmar, at&eacute; certo ponto, junto &agrave; tend&ecirc;ncia<br \/>\n    prolet&aacute;ria; Fourier e Owen, este &uacute;ltimo, num pais onde a produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    capitalista estava mais desenvolvida e sob a impress&atilde;o engendrada por<br \/>\n    ela, expondo em forma sistem&aacute;tica uma s&eacute;rie de medidas orientadas<br \/>\n    rio sentido de abolir as diferen&ccedil;as de classe, em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    direta com o materialismo franc&ecirc;s.<\/p>\n<p> Tra&ccedil;o comum aos tr&ecirc;s &eacute; que n&atilde;o atuavam como representantes<br \/>\n    dos interesses do proletariado, que entretanto surgira como um produto hist&oacute;rico.<br \/>\n    Da mesma maneira que os enciclopedistas, n&atilde;o se prop&otilde;em emancipar<br \/>\n    primeiramente uma classe determinada, mas, de chofre, toda a humanidade. E<br \/>\n    assim como eles, pretendem instaurar o imp&eacute;rio da raz&atilde;o e da<br \/>\n    justi&ccedil;a eterna. Mas entre o seu imp&eacute;rio e o dos enciclopedistas<br \/>\n    medeia um abismo. Tamb&eacute;m o mundo burgu&ecirc;s, instaurado segundo<br \/>\n    os princ&iacute;pios dos enciclopedistas, &eacute; Injusto e irracional e<br \/>\n    merece, portanto, ser jogado entre os trastes inserv&iacute;veis, tanto quanto<br \/>\n    o feudalismo e as formas sociais que o antecederam. Se at&eacute; agora a<br \/>\n    verdadeira raz&atilde;o e a verdadeira justi&ccedil;a n&atilde;o governaram<br \/>\n    o mundo &eacute; simplesmente porque ningu&eacute;m soube penetrar devidamente<br \/>\n    nelas.<\/p>\n<p> Faltava o homem genial, que agora se ergue ante a humanidade com a verdade,<br \/>\n    por fim descoberta. O fato de que esse homem tenha aparecido agora, e n&atilde;o<br \/>\n    antes, o fato de que a verdade tenha sido por fim descoberta agora, e n&atilde;o<br \/>\n    antes, n&atilde;o &eacute;, segundo eles, um acontecimento inevit&aacute;vel,<br \/>\n    imposto pela concatena&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento hist&oacute;rico,<br \/>\n    e sim porque o simples acaso assim o quis. Poderia ter aparecido quinhentos<br \/>\n    anos antes, poupando assim &agrave; humanidade quinhentos anos de erros, de<br \/>\n    lutas e de sofrimentos.<\/p>\n<p> Vimos como os fil&oacute;sofos franceses do s&eacute;culo XVIII, que abriram<br \/>\n    o caminho &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o, apelavam para a raz&atilde;o como<br \/>\n    o juiz &uacute;nico de tudo o que existe. Pretendia-se instaurar um Estado<br \/>\n    racional, uma sociedade ajustada &agrave; raz&atilde;o, e tudo quanto contradissesse<br \/>\n    a raz&atilde;o eterna deveria ser recha&ccedil;ado sem nenhuma piedade.<\/p>\n<p> Vimos tamb&eacute;m que, em realidade, essa raz&atilde;o n&atilde;o era<br \/>\n    mais que o senso comum do homem idealizado da classe m&eacute;dia que, precisamente<br \/>\n    ent&atilde;o, se convertia em burgu&ecirc;s. Por isso, quando a Revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Francesa empreendeu a constru&ccedil;&atilde;o dessa sociedade e desse Estado<br \/>\n    da raz&atilde;o, redundou que as novas institui&ccedil;&otilde;es, por mais<br \/>\n    racionais que fossem em compara&ccedil;&atilde;o com as antigas, distavam<br \/>\n    bastante da raz&atilde;o absoluta. O Estado da raz&atilde;o falira completamente.<br \/>\n    O contrato social de Rousseau tomara corpo na &eacute;poca do terror, e a<br \/>\n    burguesia, perdida a f&eacute; em sua pr&oacute;pria habilidade pol&iacute;tica,<br \/>\n    refugiou-se, primeiro na corrup&ccedil;&atilde;o do Diret&oacute;rio e, por<br \/>\n    &uacute;ltimo, sob a &eacute;gide do despotismo napole&ocirc;nico. A prometida<br \/>\n    paz eterna convertera-se numa intermin&aacute;vel intermin&aacute;vel guerra<br \/>\n    de conquistas. Tampouco teve melhor sorte a sociedade da raz&atilde;o. O antagonismo<br \/>\n    entre pobres e ricos, longe de dissolver-se no bem-estar geral, agu&ccedil;ara-se<br \/>\n    com o desaparecimento dos privil&eacute;gios das corpora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e outros, que estendiam uma ponte sobre ele, e os estabelecimentos eclesi&aacute;sticos<br \/>\n    de benefic&ecirc;ncia, que o atenuavam. A &laquo;libera&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    propriedade&quot; dos entraves feudais, que agora se convertia em realidade,<br \/>\n    vinha a ser para o pequeno burgu&ecirc;s e o pequeno campon&ecirc;s a liberdade<br \/>\n    de vender a esses mesmos poderosos senhores sua pequena propriedade, esgotada<br \/>\n    pela esmagadora concorr&ecirc;ncia do grande capital e da grande propriedade<br \/>\n    latifundi&aacute;ria; com o que se transformava na &quot;libera&ccedil;&atilde;o&quot;<br \/>\n    do pequeno burgu&ecirc;s e do pequeno campon&ecirc;s de toda propriedade.<br \/>\n    O ascenso da ind&uacute;stria sobre bases capitalistas converteu a pobreza<br \/>\n    e a mis&eacute;ria das massas trabalhadoras em condi&ccedil;&atilde;o de vida<br \/>\n    da sociedade. O pagamento &agrave; vista transformava-se, cada vez mais, segundo<br \/>\n    a express&atilde;o de Carlyle, no &uacute;nico elo que unia a sociedade. A<br \/>\n    estat&iacute;stica criminal crescia de ano para ano. Os v&iacute;cios feudais,<br \/>\n    que at&eacute; ent&atilde;o eram exibidos impudicamente, &agrave; luz do dia,<br \/>\n    n&atilde;o desapareceram, mas se recolheram, por um momento, um pouco ao fundo<br \/>\n    do cen&aacute;rio; em troca, floresciam exuberantemente os v&iacute;cios burgueses,<br \/>\n    at&eacute; ent&atilde;o superficialmente ocultos. O com&eacute;rcio foi degenerando,<br \/>\n    cada vez mais, em trapa&ccedil;a. A &laquo;fraternidade&quot; do lema revolucion&aacute;rio<br \/>\n    tomou corpo nas deslealdades e na inveja da luta de concorr&ecirc;ncia. A<br \/>\n    opress&atilde;o violenta cedeu lugar &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o, e a<br \/>\n    espada, como principal alavanca do poder social, foi substitu&iacute;da pelo<br \/>\n    dinheiro. O direito de pernada (4) passou do senhor feudal ao fabricante burgu&ecirc;s.<br \/>\n    A prostitui&ccedil;&atilde;o desenvolveu-se em propor&ccedil;&otilde;es at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o desconhecidas. O pr&oacute;prio casamento continuou sendo o que<br \/>\n    j&aacute; era: a forma reconhecida pela lei, o manto com que se cobria a prostitui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    completado ademais com uma abund&acirc;ncia de adult&eacute;rios. Numa palavra,<br \/>\n    comparadas com as brilhantes promessas dos pensadores, as Institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sociais e pol&iacute;ticas instauradas pelo &laquo;triunfo da raz&atilde;o&quot;<br \/>\n    redundaram em tristes e decepcionantes caricaturas. Faltavam apenas os homens<br \/>\n    que pusessem em relevo o desengano, e esses homens surgiram nos primeiros<br \/>\n    anos do s&eacute;culo XIX. Em 1802, vieram &agrave; luz as Cartas de Genebra<br \/>\n    de Saint-Simon; em 1808, Fourier publicou a sua primeira obra, embora as bases<br \/>\n    de sua teoria datassem j&aacute; de 1799; a 1.0 de janeiro de 1800, Robert<br \/>\n    Owen assumiu a dire&ccedil;&atilde;o da empresa de New Lanark.<\/p>\n<p> No entanto, naquela &eacute;poca, o modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e com ele o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, achava-se ainda<br \/>\n    muito pouco desenvolvido. A grande ind&uacute;stria, que acabava de nascer<br \/>\n    na Inglaterra, era ainda desconhecida na Fran&ccedil;a. E s&oacute; a grande<br \/>\n    ind&uacute;stria desenvolve, de uma parte, os conflitos que transformam numa<br \/>\n    necessidade Imperiosa a subvers&atilde;o do modo de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a elimina&ccedil;&atilde;o de seu car&aacute;ter capitalista &#8211; conflitos<br \/>\n    que eclodem n&atilde;o s&oacute; entre as classes engendradas por essa grande<br \/>\n    ind&uacute;stria, mas tamb&eacute;m entre as for&ccedil;as produtivas e as<br \/>\n    formas de distribui&ccedil;&atilde;o por ela criadas &#8211; e, de outra parte,<br \/>\n    desenvolve tamb&eacute;m nessas gigantescas for&ccedil;as produtivas os meios<br \/>\n    para solucionar esses conflitos.<\/p>\n<p> &Agrave;s v&eacute;speras do s&eacute;culo XIX, os conflitos que brotavam<br \/>\n    da nova ordem social mal come&ccedil;avam a desenvolver-se, e menos ainda,<br \/>\n    naturalmente, os meios que levam &agrave; sua solu&ccedil;&atilde;o. Se as<br \/>\n    massas despossu&iacute;das de Paris conseguiram dominar por um momento o poder<br \/>\n    durante o regime de terror, e assim levar ao triunfo a revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    burguesa, Inclusive contra a burguesia, foi s&oacute; para demonstrar at&eacute;<br \/>\n    que ponto era imposs&iacute;vel manter por muito tempo esse poder nas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da &eacute;poca. O proletariado, que apenas come&ccedil;ava a destacar-se<br \/>\n    no seio das massas que nada possuem, como tronco de uma nova classe, totalmente<br \/>\n    incapaz ainda para desenvolver uma a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica pr&oacute;pria,<br \/>\n    n&atilde;o representava mais que um estrato social oprimido, castigado, incapaz<br \/>\n    de valer-se por si mesmo. A ajuda, no melhor dos casos, tinha que vir de fora,<br \/>\n    do alto.<\/p>\n<p> Essa situa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica Informa tamb&eacute;m as doutrinas<br \/>\n    dos fundadores do socialismo. Suas teorias incipientes n&atilde;o fazem mais<br \/>\n    do que refletir o estado Incipiente da produ&ccedil;&atilde;o capitalista,<br \/>\n    a incipiente condi&ccedil;&atilde;o de classe. Pretendia-se tirar da cabe&ccedil;a<br \/>\n    a solu&ccedil;&atilde;o dos problemas sociais, latentes ainda nas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    econ&ocirc;micas pouco desenvolvidas da &eacute;poca. A sociedade n&atilde;o<br \/>\n    encerrava sen&atilde;o males, que a raz&atilde;o pensante era chamada a remediar.<\/p>\n<p> Tratava-se, por isso, de descobrir um sistema novo e mais perfeito de ordem<br \/>\n    social, para implant&aacute;-lo na sociedade vindo de fora, por meio da propaganda<br \/>\n    e, sendo poss&iacute;vel, com o exemplo, mediante experi&ecirc;ncias que servissem<br \/>\n    de modelo. Esses novos sistemas sociais nasciam condenados a mover-se no reino<br \/>\n    da utopia; quanto mais detalhados e minuciosos fossem, mais tinham que degenerar<br \/>\n    em puras fantasias.<\/p>\n<p> Assentado isso, n&atilde;o h&aacute; por que nos determos nem um momento<br \/>\n    mais nesse aspecto, j&aacute; definitivamente incorporado ao passado. Deixemos<br \/>\n    que os trapeiros liter&aacute;rios revolvam solenemente nessas fantasias,<br \/>\n    que parecem hoje provocar o riso, para ressaltar sobre o fundo desse &laquo;c&uacute;mulo<br \/>\n    de disparates&quot; a superioridade de seu racioc&iacute;nio sereno. Quanto<br \/>\n    a n&oacute;s, admiramos os germes geniais de id&eacute;ias e as id&eacute;ias<br \/>\n    geniais que brotam por toda parte sob essa envoltura de fantasia que os filisteus<br \/>\n    s&atilde;o incapazes de ver.<\/p>\n<p> Saint-Simon era filho da grande Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, que estalou<br \/>\n    quando ele n&atilde;o contava ainda trinta anos. A. Revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi o triunfo do terceiro estado, isto &eacute;, da grande massa ativa da<br \/>\n    na&ccedil;&atilde;o, a cujo cargo corriam a produ&ccedil;&atilde;o e o com&eacute;rcio,<br \/>\n    sobre os estados at&eacute; ent&atilde;o ociosos e privilegiados da sociedade:<br \/>\n    a nobreza e o clero. Mas logo se viu que o triunfo do terceiro estado n&atilde;o<br \/>\n    era mais que o triunfo de uma parte multo pequena dele, a conquista do poder<br \/>\n    pol&iacute;tico pelo setor socialmente privilegiado dessa classe: a burguesia<br \/>\n    possuidora. Essa burguesia desenvolvia-se rapidamente j&aacute; no processo<br \/>\n    da revolu&ccedil;&atilde;o, especulando com as terras confiscadas e logo vendidas<br \/>\n    da aristocracia e da Igreja, e lesando a na&ccedil;&atilde;o por meio das<br \/>\n    verbas destinadas ao ex&eacute;rcito. Foi precisamente o governo desses negocistas<br \/>\n    que, sob o Diret&oacute;rio, levou &agrave; Fran&ccedil;a e a Revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; beira da ru&iacute;na, dando com isso a Napole&atilde;o o pretexto<br \/>\n    para o golpe de Estado. Por isso, na id&eacute;ia de Saint-Simon, o antagonismo<br \/>\n    entre o terceiro estado e os estados privilegiados da sociedade tomou a forma<br \/>\n    de um antagonismo entre &quot;trabalhadores&quot; e &quot;ociosos&quot;. Os<br \/>\n    &laquo;ociosos&quot; eram n&atilde;o s&oacute; os antigos privilegiados, mas<br \/>\n    todos aqueles que viviam de suas rendas, cem intervir na produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nem no com&eacute;rcio. No conceito de &quot;trabalhadores&quot; n&atilde;o<br \/>\n    entravam somente os oper&aacute;rios assalariados, mas tamb&eacute;m os fabricantes,<br \/>\n    os comerciantes e os banqueiros. Que os ociosos haviam perdido a capacidade<br \/>\n    para dirigir espiritualmente e governar politicamente era um fato Indisfar&ccedil;&aacute;vel,<br \/>\n    selado em definitivo pela Revolu&ccedil;&atilde;o. E, para Saint-Simon, as<br \/>\n    experi&ecirc;ncias da &eacute;poca do terror haviam demonstrado, por sua vez,<br \/>\n    que os descamisados n&atilde;o possu&iacute;am tampouco essa capacidade. Ent&atilde;o,<br \/>\n    quem haveria de dirigir e governar? Segundo Saint-Simon, a ci&ecirc;ncia e<br \/>\n    a ind&uacute;stria, unidas por um novo la&ccedil;o religioso, um &quot;novo<br \/>\n    cristianismo&quot;, for&ccedil;osamente m&iacute;stico e rigorosamente hier&aacute;rquico,<br \/>\n    chamado a restaurar a unidade das id&eacute;ias religiosas, destru&iacute;da<br \/>\n    desde a Reforma. Mas a ci&ecirc;ncia eram os s&aacute;bios acad&ecirc;micos;<br \/>\n    e a ind&uacute;stria eram, em primeiro lugar, os burgueses ativos, os fabricantes,<br \/>\n    os comerciantes, os banqueiros. E embora esses burgueses tivessem de transformar-se<br \/>\n    numa esp&eacute;cie de funcion&aacute;rios p&uacute;blicos, de homens da confian&ccedil;a<br \/>\n    de toda a sociedade, sempre conservariam frente aos oper&aacute;rios uma posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    autorit&aacute;ria e economicamente privilegiada. Os banqueiros seriam os<br \/>\n    chamados em primeiro lugar para regular toda a produ&ccedil;&atilde;o social<br \/>\n    por meio de uma regulamenta&ccedil;&atilde;o do cr&eacute;dito. Esse modo<br \/>\n    de conceber correspondia perfeitamente a uma &eacute;poca em que a grande<br \/>\n    ind&uacute;stria, e com ela o antagonismo entre a burguesia e o proletariado,<br \/>\n    mal come&ccedil;ava a despontar na Fran&ccedil;a. Mas Saint-Simon insiste<br \/>\n    muito especialmente neste ponto: o que o preocupa, sempre e em primeiro lugar,<br \/>\n    &eacute; a sorte da &quot;classe mais numerosa e mais pobre&quot; ela sociedade<br \/>\n    (&quot;la classe la plus nombreuse et la plus paurre&quot;).<\/p>\n<p> Em suas Cartas de Genebra, Saint-Simon formula a tese de que &quot;todos<br \/>\n    os homens devem trabalhar&quot;. Na mesma obra j&aacute; se expressa a Id&eacute;ia<br \/>\n    de que o reinado do terror era o governo das massas despossu&iacute;das.<\/p>\n<p> &quot;Vede &#8211; grita-lhes &#8211; o que se passou na Fran&ccedil;a quando vossos<br \/>\n    camaradas subiram ao poder: provocaram a fome&quot;. Mas conceber a Revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Francesa como urna luta de classes, e n&atilde;o s&oacute; entre a nobreza<br \/>\n    e a burguesia, mas entre a nobreza, a burguesia e os despossu&iacute;dos,<br \/>\n    era, em 1802, uma descoberta verdadeiramente genial.<\/p>\n<p> Em 1816, Saint-Simon declara que a pol&iacute;tica &eacute; a ci&ecirc;ncia<br \/>\n    da produ&ccedil;&atilde;o e prediz j&aacute; a total absor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da pol&iacute;tica pela economia. E se aqui n&atilde;o faz sen&atilde;o aparecer<br \/>\n    em germe a id&eacute;ia de que a situa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica &eacute;<br \/>\n    a base das institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, proclama j&aacute;<br \/>\n    claramente a transforma&ccedil;&atilde;o do governo pol&iacute;tico sobre<br \/>\n    os homens numa administra&ccedil;&atilde;o das coisas e na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos processos da produ&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o<br \/>\n    a id&eacute;ia da &quot;aboli&ccedil;&atilde;o do Estado&quot;, que tanto<br \/>\n    alarde levanta ultimamente. E, elevando-se ao mesmo plano de superioridade<br \/>\n    sobre os seus contempor&acirc;neos, declara, em 1814, imediatamente, depois<br \/>\n    da entrada das tropas coligadas em Paris, e reitera em 1815, durante a Guerra<br \/>\n    dos Cem Dias, que a alian&ccedil;a da Fran&ccedil;a com a Inglaterra e, em<br \/>\n    segundo lugar, a destes pa&iacute;ses com a Alemanha &eacute; a &uacute;nica<br \/>\n    garantia do desenvolvimento pr&oacute;spero e da paz na Europa. A fim de aconselhar<br \/>\n    aos franceses de 1815 uma alian&ccedil;a com os vencedores de Waterloo era<br \/>\n    necess&aacute;rio possuir tanto valentia quanto capacidade para ver longe<br \/>\n    na hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> O que em Saint-Simon &eacute; amplitude genial de vis&atilde;o, que lhe<br \/>\n    permite conter j&aacute;, em germe, quase todas as Id&eacute;ias n&atilde;o<br \/>\n    estritamente econ&ocirc;micas dos socialistas posteriores, em Fourier &eacute;<br \/>\n    a critica engenhosa autenticamente francesa, mas nem por isso menos profunda,<br \/>\n    das condi&ccedil;&otilde;es sociais existentes. Fourier pega a burguesia pela<br \/>\n    palavra, por seus inflamados profetas de antes e seus Interesseiros aduladores<br \/>\n    de depois da revolu&ccedil;&atilde;o. P&otilde;e a nu, impiedosamente, a mis&eacute;ria<br \/>\n    material e moral do mundo burgu&ecirc;s, e a compara com as fascinantes promessas<br \/>\n    dos velhos enciclopedistas, com a imagem que eles faziam da sociedade em que<br \/>\n    a raz&atilde;o reinaria sozinha, de urna civiliza&ccedil;&atilde;o que faria<br \/>\n    felizes todos os homens e de uma ilimitada capacidade humana de perfei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Desmascara as brilhantes frases dos ide&oacute;logos burgueses da &eacute;poca,<br \/>\n    demonstra como a essas frases grandiloq&uuml;entes corresponde, por toda parte,<br \/>\n    a mais cruel das realidades e derrama sua s&aacute;tira mordaz sobre esse<br \/>\n    ruidoso fracasso da fraseologia. Fourier n&atilde;o &eacute; apenas um cr&iacute;tico;<br \/>\n    seu esp&iacute;rito sempre jovial faz dele um sat&iacute;rico, um dos maiores<br \/>\n    sat&iacute;ricos de todos os tempos. A especula&ccedil;&atilde;o criminosa<br \/>\n    desencadeada com o refluxo da onda revolucion&aacute;ria e o esp&iacute;rito<br \/>\n    mesquinho do com&eacute;rcio franc&ecirc;s naqueles anos aparecem pintados<br \/>\n    em suas obras com tra&ccedil;os magistrais e encantadores.<\/p>\n<p> Mas &eacute; ainda mais magistral nele a cr&iacute;tica das rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    entre os sexos e da posi&ccedil;&atilde;o da mulher na sociedade burguesa.<br \/>\n    &Eacute; ele o primeiro a proclamar que o grau de emancipa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da mulher numa sociedade &eacute; o bar&ocirc;metro natural pelo qual se mede<br \/>\n    a emancipa&ccedil;&atilde;o geral. Contudo, onde mais sobressai Fourier &eacute;<br \/>\n    na maneira como concebe a hist&oacute;ria da sociedade. Fourier divide toda<br \/>\n    a hist&oacute;ria anterior em quatro fases ou etapas de desenvolvimento:o<br \/>\n    selvagismo, a barb&aacute;rie, o patriarcado e a civiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    esta &uacute;ltima fase coincidindo com o que chamamos hoje sociedade burguesa,<br \/>\n    isto &eacute;, com o regime social implantado desde o s&eacute;culo XVI, e<br \/>\n    demonstra que a &quot;ordem civilizada eleva a uma forma complexa, amb&iacute;gua,<br \/>\n    equ&iacute;voca e hip&oacute;crita todos aqueles v&iacute;cios que a barb&aacute;rie<br \/>\n    praticava em meio &agrave; maior simplicidade&quot;. Para ele a civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    move-se num &quot;c&iacute;rculo vicioso&quot;, num ciclo de contradi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que reproduz constantemente sem poder super&aacute;-las, conseguindo sempre<br \/>\n    precisamente o contr&aacute;rio do que deseja ou alega querer conseguir.<\/p>\n<p> E assim nos encontramos, por exemplo, com o fato de que &quot;na civiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a pobreza brota da pr&oacute;pria abund&acirc;ncia&quot;. Como se v&ecirc;,<br \/>\n    Fourier maneja a dial&eacute;tica com a mesma mestria de seu contempor&acirc;neo<br \/>\n    Hegel.<\/p>\n<p> Diante dos que enchem a boca falando da ilimitada capacidade humana de perfei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    p&otilde;e em relevo, com Igual dial&eacute;tica, que toda fase hist&oacute;rica<br \/>\n    tem sua vertente ascensional, mas tamb&eacute;m sua ladeira descendente, e<br \/>\n    projeta essa concep&ccedil;&atilde;o sobre o futuro de toda a humanidade.<br \/>\n    E assim como Kant Introduziu na ci&ecirc;ncia da natureza o desaparecimento<br \/>\n    futuro da Terra, Fourier introduz em seu estudo da hist&oacute;ria a id&eacute;ia<br \/>\n    do futuro desaparecimento da humanidade.<\/p>\n<p> Enquanto o vendaval da revolu&ccedil;&atilde;o varria o solo da Fran&ccedil;a,<br \/>\n    desenvolvia-se na Inglaterra um processo revolucion&aacute;rio, mas tranq&uuml;ilo,<br \/>\n    por&eacute;m nem por isso menos poderoso. O vapor e as m&aacute;quinas-ferramenta<br \/>\n    converteram a manufatura na grande ind&uacute;stria moderna, revolucionando<br \/>\n    com Isso todos os fundamentos da sociedade burguesa. O ritmo vagaroso do desenvolvimento<br \/>\n    do per&iacute;odo da manufatura converteu-se num verdadeiro per&iacute;odo<br \/>\n    de luta e embate da produ&ccedil;&atilde;o. Com uma velocidade cada vez mais<br \/>\n    acelerada, iase dando a divis&atilde;o da sociedade em grandes capitalistas<br \/>\n    e prolet&aacute;rios que nada possuem e, entre eles, em lugar da antiga classe<br \/>\n    m&eacute;dia tranq&uuml;ila e est&aacute;vel, uma massa Inst&aacute;vel de<br \/>\n    artes&atilde;os e pequenos comerciantes, a parte mais flutuante da popula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    levava unia exist&ecirc;ncia sem nenhuma seguran&ccedil;a. O novo modo de<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o apenas come&ccedil;ava a galgar a vertente ascensional;<br \/>\n    era ainda o modo de produ&ccedil;&atilde;o normal, regular, o &uacute;nico<br \/>\n    poss&iacute;vel, naquelas circunst&acirc;ncias. E no entanto deu origem a<br \/>\n    toda uma s&eacute;rie de graves calamidades sociais: amontoamento, nos bairros<br \/>\n    mais s&oacute;rdidos das grandes cidades, de uma popula&ccedil;&atilde;o arrancada<br \/>\n    do seu solo; dissolu&ccedil;&atilde;o de todos os la&ccedil;os tradicionais<br \/>\n    dos costumes, da submiss&atilde;o patriarcal e da fam&iacute;lia; prolonga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    abusiva do trabalho, que sobretudo entre as mulheres e as crian&ccedil;as<br \/>\n    assumia propor&ccedil;&otilde;es aterradoras; desmoraliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em massa da classe trabalhadora, lan&ccedil;ada de s&uacute;bito a condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de vida totalmente novas &#8211; do campo para a cidade, da agricultura para a ind&uacute;stria,<br \/>\n    de uma situa&ccedil;&atilde;o est&aacute;vel para outra contentemente vari&aacute;vel<br \/>\n    e insegura. Em tais circunst&acirc;ncias, ergue-se como reformador um fabricante<br \/>\n    de 29 anos, um homem cuja pureza quase infantil tocava &agrave;s raias do<br \/>\n    sublime e que era, ao lado disso, um condutor de homens como poucos. Roberto<br \/>\n    Owen assimilara os ensinamentos dos fil&oacute;sofos materialistas do s&eacute;culo<br \/>\n    XVIII, segundo os quais o car&aacute;ter do homem &eacute;, de um lado, produto<br \/>\n    de sua organiza&ccedil;&atilde;o Inata e, de outro, fruto das circunst&acirc;ncias<br \/>\n    que envolvem o homem durante. sua vida, sobretudo durante o per&iacute;odo<br \/>\n    de seu desenvolvimento. A maioria dos homens de sua classe n&atilde;o via<br \/>\n    na revolu&ccedil;&atilde;o industrial sen&atilde;o caos e confus&atilde;o,<br \/>\n    uma ocasi&atilde;o prop&iacute;cia para pescar no rio revolto e enriquecer<br \/>\n    depressa. Owen, por&eacute;m, viu nela o terreno adequado para p&ocirc;r em<br \/>\n    pr&aacute;tica a sua tese favorita, Introduzindo ordem no caos. J&aacute;<br \/>\n    em Manchester, dirigindo uma f&aacute;brica de mais de 500 oper&aacute;rios,<br \/>\n    tentara, n&atilde;o sem &ecirc;xito, aplicar praticamente a sua teoria. De<br \/>\n    1800 a 1829 orientou no mesmo sentido, embora com maior liberdade de iniciativa<br \/>\n    e com um &ecirc;xito que lhe valeu fama na Europa, a grande f&aacute;brica<br \/>\n    de fios de algod&atilde;o de New Lanark, na Esc&oacute;cia, da qual era s&oacute;cio<br \/>\n    e gerente. Uma popula&ccedil;&atilde;o oper&aacute;ria que foi crescendo paulatinamente<br \/>\n    at&eacute; 2 500 almas, recrutada a principio entre os elementos mais heterog&ecirc;neos,<br \/>\n    a maioria dos quais muito desmoralizados, converteu-se em suas m&atilde;os<br \/>\n    numa col&ocirc;nia-modelo, na qual n&atilde;o se conheciam a embriaguez, a<br \/>\n    policia, os juizes de paz, os processos, os asilos para pobres nem a benefic&ecirc;ncia<br \/>\n    p&uacute;blica Para Isso bastou, t&atilde;o somente, colocar seus oper&aacute;rios<br \/>\n    em condi&ccedil;&otilde;es mais humanas de vida, consagrando um cuidado especial<br \/>\n    &agrave; educa&ccedil;&atilde;o da prole. Owen foi o criador dos jardins-de-inf&acirc;ncia,<br \/>\n    que funcionaram pela primeira vez em New Lanark. As crian&ccedil;as eram enviadas<br \/>\n    &agrave;s escolas desde os dois anos, e nelas se sentiam t&atilde;o bem que<br \/>\n    s&oacute; com dificuldade eram levadas para casa. Enquanto nas f&aacute;bricas<br \/>\n    de seus concorrentes os oper&aacute;rios trabalhavam treze e quatorze horas<br \/>\n    di&aacute;rias, em New Lanark a jornada de trabalho era de dez horas e meia.<br \/>\n    Quando uma crise algodoeira obrigou o fechamento da f&aacute;brica por quatro<br \/>\n    meses, os oper&aacute;rios de New Lanark, que ficaram sem trabalho, continuaram<br \/>\n    recebendo suas di&aacute;rias Integrais. E contudo a empresa incrementara<br \/>\n    ao dobro o seu valor e rendeu a seus propriet&aacute;rios, at&eacute; o &uacute;ltimo<br \/>\n    dia, enormes lucros.<\/p>\n<p> Owen, entretanto, n&atilde;o estava satisfeito com o que conseguira. A exist&ecirc;ncia<br \/>\n    que se propusera dar a seus oper&aacute;rios distava muito ainda de ser, a<br \/>\n    seus olhos, uma exist&ecirc;ncia digna de um ser humano. &quot;Aqueles homens<br \/>\n    eram meus escravos&quot;. As circunst&acirc;ncias relativamente favor&aacute;veis<br \/>\n    em que os colocara estavam ainda muito longe de permitir-lhes desenvolver<br \/>\n    racionalmente e em todos os aspectos o car&aacute;ter e a intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    e muito menos desenvolver livremente suas energias. &quot;E, contudo, a parte<br \/>\n    produtora daquela popula&ccedil;&atilde;o de 2500 almas dava &agrave; sociedade<br \/>\n    uma soma de riqueza real que, apenas meio s&eacute;culo antes, teria exigido<br \/>\n    o trabalho de 600 000 homens juntos. Eu me perguntava: onde vai parar a diferen&ccedil;a<br \/>\n    entre a riqueza consumida por essas 2 500 pessoas e a que precisaria ser consumida<br \/>\n    pelas 600 000?&quot; A resposta era clara: essa diferen&ccedil;a era invertida<br \/>\n    em abonar os propriet&aacute;rios da empresa com 5 por cento de juros sobre<br \/>\n    o capital de instala&ccedil;&atilde;o, ao qual vinham somar-se mais de 300<br \/>\n    000 libras esterlinas de lucros. E o caso de New Lanark era, s&oacute; que<br \/>\n    em propor&ccedil;&otilde;es maiores, o de todas as f&aacute;bricas da Inglaterra.<br \/>\n    &quot;Sem essa nova fonte de riqueza criada pelas m&aacute;quinas, teria sido<br \/>\n    imposs&iacute;vel levar adiante as guerras travadas para derrubar Napole&atilde;o<br \/>\n    e manter de p&eacute; os princ&iacute;pios da sociedade aristocr&aacute;tica.<br \/>\n    E, no entanto, esse novo poder era obra da classe oper&aacute;ria.&quot; (5)<br \/>\n    A ela deviam pertencer tamb&eacute;m, portanto, os seus frutos. As novas e<br \/>\n    gigantescas for&ccedil;as produtivas, que at&eacute; ali s&oacute; haviam<br \/>\n    servido para que alguns enriquecessem e as massas fossem escravizadas, lan&ccedil;avam,<br \/>\n    segundo Owen, as bases para uma reconstru&ccedil;&atilde;o social e estavam<br \/>\n    fadadas a trabalhar somente para o bem-estar coletivo, como propriedade coletiva<br \/>\n    de todos os membros da sociedade.<\/p>\n<p> Foi assim, por esse caminho puramente pr&aacute;tico &#8211; resultado, por diz&ecirc;-lo,<br \/>\n    dos c&aacute;lculos de um homem de neg&oacute;cios que surgiu o comunismo<br \/>\n    oweniano, conservando sempre esse car&aacute;ter pr&aacute;tico Assim, em<br \/>\n    1823, Owen prop&otilde;e um sistema de col&ocirc;nias comunistas para combater<br \/>\n    a mis&eacute;ria reinante na Irlanda e apresenta, em apoio de sua proposta,<br \/>\n    um or&ccedil;amento completo de despesas de instala&ccedil;&atilde;o, desembolsos<br \/>\n    anuais e rendas prov&aacute;veis. E assim tamb&eacute;m em seus planos definitivos<br \/>\n    da sociedade do futuro, os detalhes t&eacute;cnicos s&atilde;o calculados<br \/>\n    com um dom&iacute;nio tal da mat&eacute;ria, Incluindo at&eacute; projetos,<br \/>\n    desenhos de frente, de perfil e do alto que, uma vez aceito o m&eacute;todo<br \/>\n    oweniano de reforma da sociedade, pouco se poderia objetar, mesmo um t&eacute;cnico<br \/>\n    experimentado, contra os pormenores de sua organiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O avan&ccedil;o para o comunismo constitui um momento crucial na vida de<br \/>\n    Owen. Enquanto se limitara a atuar s&oacute; como filantropo, n&atilde;o colhera<br \/>\n    sen&atilde;o riquezas, aplausos, honra e fama. Era o homem mais popular da<br \/>\n    Europa N&atilde;o s&oacute; os homens de sua classe e posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social, mas tamb&eacute;m os governantes e os pr&iacute;ncipes o escutavam<br \/>\n    e o aprovavam. No momento, por&eacute;m, em que formulou suas teorias comunistas,<br \/>\n    virou-se a p&aacute;gina. Eram precisamente tr&ecirc;s grandes obst&aacute;culos<br \/>\n    os que, segundo ele, se erguiam em seu caminho da reforma social: a propriedade<br \/>\n    privada, a religi&atilde;o e a forma atual do casamento. E n&atilde;o ignorava<br \/>\n    ao que se expunha atacando-os: &agrave; execra&ccedil;&atilde;o de toda a<br \/>\n    sociedade oficial e &agrave; perda de sua posi&ccedil;&atilde;o social. Mas<br \/>\n    isso n&atilde;o o deteve em seus ataques implac&aacute;veis contra aquelas<br \/>\n    institui&ccedil;&otilde;es, e ocorreu o que ele previa.<\/p>\n<p> Desterrado pela sociedade oficial, ignorado completamente pela imprensa,<br \/>\n    arruinado por suas fracassadas experi&ecirc;ncias comunistas na Am&eacute;rica,<br \/>\n    &agrave;s quais sacrificou toda a sua fortuna, dirigiu-se &agrave; classe<br \/>\n    oper&aacute;ria, no seio da qual atuou ainda durante trinta anos. Todos os<br \/>\n    movimentos sociais, todos os progressos reais registrados na Inglaterra em<br \/>\n    interesse da classe trabalhadora, est&atilde;o ligados ao nome de Owen. Assim,<br \/>\n    em 1819, depois de cinco anos de grandes esfor&ccedil;os, conseguiu que fosse<br \/>\n    votada a primeira lei limitando o trabalho da mulher e da crian&ccedil;a nas<br \/>\n    f&aacute;bricas. Foi ele quem presidiu o primeiro congresso em que as tradeunions<br \/>\n    de toda a Inglaterra fundiram-se numa grande organiza&ccedil;&atilde;o sindical<br \/>\n    &uacute;nica. E foi tamb&eacute;m ele quem criou, como medidas de transi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    para que a sociedade pudesse organizar-se de maneira integralmente comunista,<br \/>\n    de um lado, as cooperativas de consumo e de produ&ccedil;&atilde;o &#8211; que serviram,<br \/>\n    pelo menos, para demonstrar na pr&aacute;tica que o comerciante e o fabricante<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o Indispens&aacute;veis -, e de outro lado, os mercados<br \/>\n    oper&aacute;rios, estabelecimentos de troca dos produtos do trabalho por meio<br \/>\n    de bonus de trabalho e cuja unidade &eacute; a hora de trabalho produzido;<br \/>\n    esses estabelecimentos tinham necessariamente que fracassar, mas se antecipam<br \/>\n    multo aos bancos proudhonianos de troca, diferenciando-se deles somente em<br \/>\n    que n&atilde;o pretendem ser a panac&eacute;ia universal para todos os males<br \/>\n    sociais, mas pura e simplesmente um primeiro passo para uma transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    multo mais radical da sociedade.<\/p>\n<p> As concep&ccedil;&otilde;es dos utopistas dominaram durante muito tempo<br \/>\n    as id&eacute;ias socialistas do s&eacute;culo XIX, e em parte ainda hoje as<br \/>\n    dominam. Rendiam-lhes homenagens, at&eacute; h&aacute; muito pouco tempo,<br \/>\n    todos os socialistas franceses e Ingleses e a eles se deve tamb&eacute;m o<br \/>\n    incipiente comunismo alem&atilde;o, incluindo Weitling. Para todos eles, o<br \/>\n    socialismo &eacute; a express&atilde;o da verdade absoluta, da raz&atilde;o<br \/>\n    e da justi&ccedil;a, e &eacute; bastante revel&aacute;-lo para, gra&ccedil;as<br \/>\n    &agrave; sua virtude, conquistar o mundo. E, como a verdade absoluta n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; sujeita a condi&ccedil;&otilde;es de espa&ccedil;o e de tempo<br \/>\n    nem ao desenvolvimento hist&oacute;rico da humanidade, s&oacute; o acaso pode<br \/>\n    decidir quando e onde essa descoberta se revelar&aacute;. Acrescente-se a<br \/>\n    isso que a verdade absoluta, a raz&atilde;o e a justi&ccedil;a variam com<br \/>\n    os fundadores de cada escola; e como o car&aacute;ter espec&iacute;fico da<br \/>\n    verdade absoluta, da raz&atilde;o e da justi&ccedil;a est&aacute; condicionado,<br \/>\n    por sua vez, em cada um deles, pela Intelig&ecirc;ncia pessoal, condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de vida, estado de cultura e disciplina mental, resulta que nesse conflito<br \/>\n    de verdades absolutas a &uacute;nica solu&ccedil;&atilde;o &eacute; que elas<br \/>\n    v&atilde;o acomodando-se umas &agrave;s outras. E, assim, era inevit&aacute;vel<br \/>\n    que surgisse uma esp&eacute;cie de socialismo ecl&eacute;tico e med&iacute;ocre,<br \/>\n    como o que, com efeito, continua imperando ainda nas cabe&ccedil;as da maior<br \/>\n    parte dos oper&aacute;rios socialistas da Fran&ccedil;a e da Inglaterra: uma<br \/>\n    mistura extraordinariamente variegada e cheia de matizes, compostas de desabafes<br \/>\n    cr&iacute;ticos, princ&iacute;pios econ&ocirc;micos e as imagens sociais do<br \/>\n    futuro menos discut&iacute;veis dos diversos fundadores de seitas, mistura<br \/>\n    tanto mais f&aacute;cil de compor quanto mais os ingredientes individuais<br \/>\n    iam perdendo, na torrente da discuss&atilde;o, os seus contornos sutis e agudos,<br \/>\n    como as pedras limadas pela corrente de um rio. Para converter o socialismo<br \/>\n    em ci&ecirc;ncia era necess&aacute;rio, antes de tudo, situ&aacute;-lo no<br \/>\n    terreno da realidade.<\/p>\n<p> <b>Notas: Cap&iacute;tulo I <\/b><\/p>\n<p>(1) &Eacute; a seguinte a passagem de Hegel referente &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Francesa: &quot;A Id&eacute;ia, o conceito de direito, fezse valer de chofre,<br \/>\n    sem que lhe pudesse opor qualquer resist&ecirc;ncia a velha arma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Injusti&ccedil;a. Sobre a id&eacute;ia do direito baseou-se agora, portanto,<br \/>\n    uma Constitui&ccedil;&atilde;o, e sobre esse fundamento deve basear-se tudo<br \/>\n    mais no futuro. Desde que o Sol ilumina o firmamento e os planetas giram em<br \/>\n    torno daquele ningu&eacute;m havia percebido que o homem se ergue sobre a<br \/>\n    cabe&ccedil;a, isto &eacute;, sobre a id&eacute;ia, construindo de acordo<br \/>\n    com ela a realidade. Anax&aacute;goras foi o primeiro a dizer que o nus, a<br \/>\n    raz&atilde;o, governa o mundo: mas s&oacute; agora o homem acabou de compreender<br \/>\n    que o pensamento deve governar a realidade espiritual. Era, pois, uma espl&ecirc;ndida<br \/>\n    aurora Todos os seres pensantes celebraram a nova &eacute;poca. Uma sublime<br \/>\n    emo&ccedil;&atilde;o reinava naquela &eacute;poca a um entusiasmo do espirito)<br \/>\n    abalava o mundo, como se pela primeira vez se conseguisse a reconcilia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do mundo com a divindade&quot;. Hegel Philosophie der Geschichte. 1840, p&aacute;g.<br \/>\n    535) [Hegel, Filosofia da Hist&oacute;ria, 1840 p&aacute;g. 535]. N&atilde;o<br \/>\n    ter&aacute; chegado o momento de aplicar a essas doutrinas subversivas e atentat&oacute;rias<br \/>\n    &agrave; sociedade, do finado professor Hegel, a lei contra os socialistas?<br \/>\n    (Nota de Engels) (retornar ao texto) (2) Leveller (niveladores): nome que<br \/>\n    se dava aos elementos plebeus da cidade e do campo que durante a revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de 1648 apresentavam na Inglaterra as reivindica&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas<br \/>\n    mais radicais. (N. da E.) (retornar ao texto) (3) Engels refere-se aqui &agrave;s<br \/>\n    obras dos representantes do comunismo ut&oacute;pico Tomas Morus (s&eacute;culo<br \/>\n    XVI) e Campanella (S&eacute;culo XVII). (N. da R.) (retornar ao texto) (4)<br \/>\n    &laquo;Direito de pernadas: direito que tinha o senhor feudal &agrave; primeira<br \/>\n    noite com as nubentes do seu feudo.<\/p>\n<p> (N. da Ed. Bras.) (retornar ao texto) 5. De The Revolution In Mind and Practice<br \/>\n    [A Revolu&ccedil;&atilde;o no Esp&iacute;rito e na Pr&aacute;tica, um memorial<br \/>\n    dirigido a todos os republicanos vermelhos. comunistas e socialistas da Europa&raquo;,<br \/>\n    e enviado ao governo provis&oacute;rio franc&ecirc;s de 1848. mas tamb&eacute;m<br \/>\n    &laquo;&agrave; rainha Vit&oacute;ria e seus conselheiros respons&aacute;veis&raquo;.<br \/>\n    (Nota de Engels) (retornar ao texto)<\/p>\n<h2><a name=\"2\">Cap&iacute;tulo II &#8211; Dial&eacute;tica<\/a><\/h2>\n<p>Entretanto, junto &agrave; filosofia francesa do s&eacute;culo XVIII, e por<br \/>\n    tr&aacute;s dela, surgira a moderna filosofia alem&atilde;, cujo ponto culminante<br \/>\n    foi Hegel. O principal m&eacute;rito dessa filosofia &eacute; a restaura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da dial&eacute;tica, como forma suprema do pensamento. Os antigos fil&oacute;sofos<br \/>\n    gregos eram todos dial&eacute;ticos inatos, espont&acirc;neos, e a cabe&ccedil;a<br \/>\n    mais universal de todos eles &#8211; Arist&oacute;teles &#8211; chegara j&aacute; a estudar<br \/>\n    as formas mais substanciais do pensamento dial&eacute;tico. Em troca, a nova<br \/>\n    filosofia, embora tendo um ou outro brilhante defensor da dial&eacute;tica<br \/>\n    (como por exemplo, Descartes e Spinoza) ca&iacute;a cada vez mais, sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    principalmente dos ingleses, na chamada maneira metaf&iacute;sica de pensar,<br \/>\n    que tamb&eacute;m dominou quase totalmente entre os franceses do s&eacute;culo<br \/>\n    XVIII, ao menos em suas obras especificamente filos&oacute;ficas. Fora do<br \/>\n    campo estritamente filos&oacute;fico, eles criaram tamb&eacute;m obras-primas<br \/>\n    de dial&eacute;tica; como prova, basta citar O Sobrinho de Rameau, de Diderot,<br \/>\n    e o estudo de Rousseau s&ocirc;bre a origem da desigualdade entre os homens.<br \/>\n    Resumiremos aqui, sucintamente, os tra&ccedil;os mais essenciais de ambos<br \/>\n    os m&eacute;todos discursivos.<\/p>\n<p> Quando nos detemos a pensar sobre a natureza, ou sobre a hist&oacute;ria<br \/>\n    humana, ou sobre nossa pr&oacute;pria atividade espiritual,. deparamo-nos,<br \/>\n    em primeiro plano, com a imagem de uma trama infinita de concatena&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e Influ&ecirc;ncias rec&iacute;procas, em que nada permanece o que era, nem<br \/>\n    como e onde era, mas tudo se move e se transforma, nasce e morre. Vemos, pois,<br \/>\n    antes de tudo, a imagem de conjunto, na qual os detalhes passam ainda mais<br \/>\n    ou menos para o segundo plano; fixamo-nos mais no movimento, nas transi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    na concatena&ccedil;&atilde;o, do que no que se move, se transforma e se concatena<br \/>\n    Essa concep&ccedil;&atilde;o do mundo, primitiva, ing&ecirc;nua, mas essencialmente<br \/>\n    exata, &eacute; a dos fil&oacute;sofos gregos antigos, e aparece claramente<br \/>\n    expressa pela primeira vez em Her&aacute;clito: tudo &eacute; e n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;, pois tudo flui, tudo se acha sujeito a um processo constante de<br \/>\n    transforma&ccedil;&atilde;o, de Incessante nascimento e caducidade. Mas essa<br \/>\n    concep&ccedil;&atilde;o, por mais exatamente que reflita o car&aacute;ter<br \/>\n    geral do quadro que nos &eacute; oferecido pelos fen&ocirc;menos, n&atilde;o<br \/>\n    basta para explicar os elementos isolados que formam esse quadro total; sem<br \/>\n    conhec&ecirc;-los a Imagem geral n&atilde;o adquirir&aacute; tampouco um sentido<br \/>\n    claro. Para penetrar nesses detalhes temos de despreg&aacute;-los do seu tronco<br \/>\n    hist&oacute;rico ou natural e Investig&aacute;-los separadamente, cada qual<br \/>\n    por si, em seu car&aacute;ter, causas e efeitos especiais, etc. Tal &eacute;<br \/>\n    a miss&atilde;o primordial das ci&ecirc;ncias naturais e da hist&oacute;ria,<br \/>\n    ramos de investiga&ccedil;&atilde;o que os gregos cl&aacute;ssicos situavam,<br \/>\n    por motivos muito justificados, num plano puramente secund&aacute;rio, pois<br \/>\n    primariamente deviam dedicar-se a acumular os materiais cient&iacute;ficos<br \/>\n    necess&aacute;rios. Enquanto n&atilde;o se re&uacute;ne uma certa quantidade<br \/>\n    de materiais naturais e hist&oacute;ricos n&atilde;o se pode proceder ao exame<br \/>\n    cr&iacute;tico, &agrave; compara&ccedil;&atilde;o e, consequentemente, a divis&atilde;o<br \/>\n    em classes, ordens e esp&eacute;cies. Por isso, os rudimentos das ci&ecirc;ncias<br \/>\n    naturais exatas n&atilde;o foram desenvolvidos sen&atilde;o a partir dos gregos<br \/>\n    do per&iacute;odo alexandrino (6) e, mais tarde, na Idade M&eacute;dia, pelos<br \/>\n    &aacute;rabes; a ci&ecirc;ncia aut&ecirc;ntica da natureza data semente da<br \/>\n    segunda metade do s&eacute;culo XV e, desde ent&atilde;o, n&atilde;o fez sen&atilde;o<br \/>\n    progredir a ritmo acelerado. A an&aacute;lise da natureza em suas diversas<br \/>\n    partes, a classifica&ccedil;&atilde;o dos diversos processos e objetos naturais<br \/>\n    em determinadas categorias, a pesquisa interna dos corpos org&acirc;nicos<br \/>\n    segundo sua diversa estrutura anat&ocirc;mica, foram outras tantas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    fundamentais a que obedeceram os gigantescos progressos realizados, durante<br \/>\n    os &uacute;ltimos quatrocentos anos, no conhecimento cient&iacute;fico da<br \/>\n    natureza. Esses m&eacute;todos de Investiga&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m,<br \/>\n    nos transmitiu, ao lado disso, o h&aacute;bito de enfocar as coisas e os processos<br \/>\n    da natureza isoladamente, subtra&iacute;dos &agrave; concatena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do grande todo; portanto, n&atilde;o em sua din&acirc;mica, mas estaticamente;<br \/>\n    n&atilde;o como substancialmente vari&aacute;veis, mas como consist&ecirc;ncias<br \/>\n    fixas; n&atilde;o em sua vida, mas em sua morte. Por Isso, esse m&eacute;todo<br \/>\n    de observa&ccedil;&atilde;o, ao transplantar-se, com Bacon e Locke, das ci&ecirc;ncias<br \/>\n    naturais para a filosofia, determinou a estreiteza espec&iacute;fica caracter&iacute;stica<br \/>\n    dos &uacute;ltimos s&eacute;culos: o m&eacute;todo metaf&iacute;sico de especula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Para o metaf&iacute;sico, as coisas e suas Imagens no pensamento, os conceitos,<br \/>\n    s&atilde;o objetos de Investiga&ccedil;&atilde;o Isolados, fixos, r&iacute;gidos,<br \/>\n    focalizados um ap&oacute;s o outro, de per si, como algo dado e perene. Pensa<br \/>\n    s&oacute; em ant&iacute;teses, sem meio-termo poss&iacute;vel; para ele, das<br \/>\n    duas uma: sim, sim; n&atilde;o, n&atilde;o; o que for al&eacute;m disso, sobra.<br \/>\n    Para ele, uma coisa existe ou n&atilde;o existe; um objeto n&atilde;o pode<br \/>\n    ser ao mesmo tempo o que &eacute; e outro diferente. O positivo e o negativo<br \/>\n    se excluem em absoluto. A causa e o efeito revestem tamb&eacute;m, a seus<br \/>\n    olhos, a forma de uma r&iacute;gida ant&iacute;tese. &Agrave; primeira vista,<br \/>\n    esse m&eacute;todo discursivo parece-nos extremamente razo&aacute;vel, porque<br \/>\n    &eacute; o do chamado sen&atilde;o comum. Mas o pr&oacute;prio senso comum<br \/>\n    &#8211; personagem multo respeit&aacute;vel dentro de casa, entre quatro paredes<br \/>\n    &#8211; vive perip&eacute;cias verdadeiramente maravilhosas quando se aventura pelos<br \/>\n    caminhos amplos da investiga&ccedil;&atilde;o; e o m&eacute;todo metaf&iacute;sico<br \/>\n    de pensar, pois muito justificado e at&eacute; necess&aacute;rio que seja<br \/>\n    em muitas zonas do pensamento, mais ou menos extensas segundo a natureza do<br \/>\n    objeto de que se trate, trope&ccedil;a sempre, cedo ou tarde, com uma barreira,<br \/>\n    ultrapassada a qual converte-se num m&eacute;todo unilateral, limitado, abstrato,<br \/>\n    e se perde em Insol&uacute;veis contradi&ccedil;&otilde;es, pois, absorvido<br \/>\n    pelos objetos concretos, n&atilde;o consegue perceber sua concatena&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    preocupado com sua exist&ecirc;ncia, n&atilde;o atenta em sua origem nem em<br \/>\n    sua caducidade; obcecado pelas &aacute;rvores, n&atilde;o consegue ver o bosque.<br \/>\n    Na realidade de cada dia, sabemos, por exemplo, e podemos dizer com toda certeza<br \/>\n    se um animal existe ou n&atilde;o; por&eacute;m, pesquisando mais detidamente,<br \/>\n    verificamos que &agrave;s vezes o problema se complica consideravelmente,<br \/>\n    como sabem muito bem os juristas, que tanto e t&atilde;o inutilmente t&ecirc;m-se<br \/>\n    atormentado por descobrir um limite racional a partir do qual deva a morte<br \/>\n    do filho no ventre materno ser considerada um assassinato; nem &eacute; f&aacute;cil<br \/>\n    tampouco determinar rigidamente o momento da morte, uma vez que a fisiologia<br \/>\n    demonstrou que a morte n&atilde;o &eacute; um fen&ocirc;meno repentino, instant&acirc;neo,<br \/>\n    mas um processo muito longo. Do mesmo modo, todo ser org&acirc;nico &eacute;,<br \/>\n    a qualquer instante, ele mesmo e outro; a todo Instante, assimila mat&eacute;rias<br \/>\n    absorvidas do exterior e elimina outras do seu interior; a todo instante,<br \/>\n    morrem certas c&eacute;lulas e nascem outras em seu organismo; e no transcurso<br \/>\n    de um per&iacute;odo mais ou menos demorado a mat&eacute;ria de que &eacute;<br \/>\n    formado renovase totalmente, e novos &aacute;tomos de mat&eacute;rias v&ecirc;m<br \/>\n    ocupar o lugar dos antigos, por onde todo o seu ser org&acirc;nico &eacute;,<br \/>\n    ao mesmo tempo, o que &eacute; e outro diferente. Da mesma maneira, observando<br \/>\n    as coisas detidamente, verificamos que os dois polos de uma ant&iacute;tese,<br \/>\n    o positivo e o negativo, s&atilde;o t&atilde;o insepar&aacute;veis quanto<br \/>\n    antit&eacute;ticos um do outro e que, apesar de todo o seu antagonismo, se<br \/>\n    penetram reciprocamente; e vemos que a causa e o efeito s&atilde;o representa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que somente regem, como tais, em sua aplica&ccedil;&atilde;o ao caso concreto,<br \/>\n    mas que, examinando o caso concreto em sua concatena&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    a imagem total do universo, se juntam e se diluem na id&eacute;ia de uma trama<br \/>\n    universal de a&ccedil;&otilde;es e rea&ccedil;&otilde;es, em que as causas<br \/>\n    e os efeitos mudam constantemente de lugar e em que o que agora ou aqui &eacute;<br \/>\n    efeito adquire em seguida ou ali o car&aacute;ter de causa, e vice-versa.<\/p>\n<p> Nenhum desses fen&ocirc;menos e m&eacute;todos discursivos se encaixa no<br \/>\n    quadro das especula&ccedil;&otilde;es metaf&iacute;sicas. Ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    para a dial&eacute;tica, que focaliza as coisas e suas Imagens conceituais<br \/>\n    substancialmente em suas conex&otilde;es, em sua concatena&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    em sua din&acirc;mica, em seu processo de nascimento e caducidade, fen&ocirc;menos<br \/>\n    como os expostos n&atilde;o s&atilde;o mais que outras tantas confirma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de seu modo genu&iacute;no de proceder. A natureza &eacute; a pedra de toque<br \/>\n    da dial&eacute;tica, e as modernas ci&ecirc;ncias naturais nos oferecem para<br \/>\n    essa prova um acervo de dados extraordinariamente copiosos e enriquecido cada<br \/>\n    dia que passa, demonstrando com Isso que a natureza se move, em &uacute;ltima<br \/>\n    inst&acirc;ncia, pelos caminhos dial&eacute;ticos e n&atilde;o pelas veredas<br \/>\n    metaf&iacute;sicas, que n&atilde;o se move na eterna monotonia de um ciclo<br \/>\n    constantemente repetido, mas percorre uma verdadeira hist&oacute;ria. Aqui<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio citar Darwin, em primeiro lugar, quem, com sua<br \/>\n    prova de que toda a natureza org&acirc;nica existente, plantas e animais,<br \/>\n    e entre eles, como &eacute; l&oacute;gico, o homem, &eacute; o produto de<br \/>\n    um processo de desenvolvimento de milh&otilde;es de anos, assestou na concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    metaf&iacute;sica da natureza o mais rude golpe. At&eacute; hoje, por&eacute;m,<br \/>\n    os naturalistas que souberam pensar dialeticamente podem ser contados com<br \/>\n    os dedos, e esse conflito entre os resultados descobertos e o m&eacute;todo<br \/>\n    discursivo tradicional p&otilde;e a nu a Ilimitada confus&atilde;o que reina<br \/>\n    presentemente na teoria das ci&ecirc;ncias naturais e que constitui o desespero<br \/>\n    de mestres e disc&iacute;pulos, de autores e leitores.<\/p>\n<p> Somente seguindo o caminho da dial&eacute;tica, n&atilde;o perdendo jamais<br \/>\n    de vista as inumer&aacute;veis a&ccedil;&otilde;es e rea&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    gerais do devenir e do perecer, das mudan&ccedil;as de avan&ccedil;o e retrocesso,<br \/>\n    chegamos a uma concep&ccedil;&atilde;o exata do universo, do seu desenvolvimento<br \/>\n    e do desenvolvimento da humanidade, assim como da imagem projetada por esse<br \/>\n    desenvolvimento nas cabe&ccedil;as dos homens. E foi esse, com efeito, o sentido<br \/>\n    em que come&ccedil;ou a trabalhar, desde o primeiro momento, a moderna filosofia<br \/>\n    alem&atilde;. Kant iniciou sua carreira de fil&oacute;sofo dissolvendo o sistema<br \/>\n    solar est&aacute;vel de Newton e sua dura&ccedil;&atilde;o eterna &#8211; depois<br \/>\n    de recebido o primeiro impulso &#8211; num processo hist&oacute;rico: no nascimento<br \/>\n    do Sol e de todos os planetas a partir de uma massa nebulosa em rota&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Dai, deduziu que essa origem implicava tamb&eacute;m, necessariamente, a morte<br \/>\n    futura do sistema solar. Meio s&eacute;culo depois sua teoria foi confirmada<br \/>\n    matematicamente por Laplace e, ao fim de outro meio s&eacute;culo, o espectrosc&oacute;pio<br \/>\n    veio demonstrar a exist&ecirc;ncia no espa&ccedil;o daquelas massas igneas<br \/>\n    de g&aacute;s, em diferente grau de condensa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A filosofia alem&atilde; moderna encontrou sua culmin&acirc;ncia no sistema<br \/>\n    de Hegel, em que pela primeira vez &#8211; e a&iacute; est&aacute; seu grande m&eacute;rito<br \/>\n    &#8211; se concebe todo o mundo da natureza, da hist&oacute;ria e do esp&iacute;rito<br \/>\n    como um processo, isto &eacute;, em constante movimento, mudan&ccedil;a, transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e desenvolvimento, tentando al&eacute;m disso ressaltar a intima conex&atilde;o<br \/>\n    que preside esse processo de movimento e desenvolvimento.<\/p>\n<p> Contemplada desse ponto de vista, a hist&oacute;ria da humanidade j&aacute;.<br \/>\n    n&atilde;o aparecia como um caos in&oacute;spito de viol&ecirc;ncias absurdas,<br \/>\n    todas igualmente conden&aacute;veis diante do foro da raz&atilde;o filos&oacute;fica<br \/>\n    hoje j&aacute; madura, e boas para serem esquecidas quanto antes, mas como<br \/>\n    o processo de desenvolvimento da pr&oacute;pria humanidade, que cabia agora<br \/>\n    ao pensamento acompanhar em suas etapas graduais e atrav&eacute;s de todos<br \/>\n    os desvios, e demonstrar a exist&ecirc;ncia de leis internas que orientam<br \/>\n    tudo aquilo que &agrave; primeira vista poderia parecer obra do acaso cego.<\/p>\n<p> N&atilde;o importava que o sistema de Hegel n&atilde;o resolvesse o problema<br \/>\n    que se propunha. Seu m&eacute;rito, que marca &eacute;poca. consistiu em t&ecirc;-lo<br \/>\n    proposto. N&atilde;o em v&atilde;o, trata-se de um problema que nenhum homem<br \/>\n    sozinho p&ocirc;de resolver. E embora fosse Hegel, como Saint-Simon, a cabe&ccedil;a<br \/>\n    mais universal. de seu tempo, seu horizonte achava-se circunscrito, em primeiro<br \/>\n    lugar, pela limita&ccedil;&atilde;o inevit&aacute;vel de seus pr&oacute;prios<br \/>\n    conhecimentos e, em segundo lugar, pelos conhecimentos e concep&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de sua &eacute;poca, limitados tamb&eacute;m em extens&atilde;o e profundidade.<br \/>\n    Deve-se acrescentar a isso uma terceira circunst&acirc;ncia. Hegel era idealista;<br \/>\n    isto &eacute;, para ele as Id&eacute;ias de sua cabe&ccedil;a n&atilde;o eram<br \/>\n    imagens mais ou menos abstratas dos objetos ou fen&ocirc;menos da realidade,<br \/>\n    mas essas coisas e seu desenvolvimento se lhe afiguravam, ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    como proje&ccedil;&otilde;es realizadas da &quot;Id&eacute;ia&quot;, que j&aacute;<br \/>\n    existia, n&atilde;o se sabe como, antes de existir o mundo. Assim, foi tudo<br \/>\n    posto de cabe&ccedil;a para baixo, e a concatena&ccedil;&atilde;o real do<br \/>\n    universal apresentava-se completamente &agrave;s avessas. E por mais exatas<br \/>\n    e mesmo geniais que fossem v&aacute;rias das conex&otilde;es concretas concebidas<br \/>\n    por Hegel, era inevit&aacute;vel, pelos motivos que acabamos de apontar, que<br \/>\n    muitos dos seus detalhes tivessem um car&aacute;ter amaneirado, artificial,<br \/>\n    constru&iacute;do; em uma palavra, falso. O sistema de Hegel foi um aborto<br \/>\n    gigantesco, mas o &uacute;ltimo de seu g&ecirc;nero. De fato, continuava sofrendo<br \/>\n    de uma contradi&ccedil;&atilde;o interna incur&aacute;vel; pois, enquanto<br \/>\n    de um lado partia como pressuposto inicial da concep&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica,<br \/>\n    segundo a qual a hist&oacute;ria humana &eacute; um processo de desenvolvimento<br \/>\n    que n&atilde;o pode, por sua natureza, encontrar o arremate intelectual na<br \/>\n    descoberta disso que chamam verdade absoluta, de outro lado nos &eacute; apresentado<br \/>\n    exatamente como a soma e a s&iacute;ntese dessa verdade absoluta. Um sistema<br \/>\n    universal e definitivamente plasmado do conhecimento da natureza e da hist&oacute;ria<br \/>\n    &eacute; incompat&iacute;vel com as leis fundamentais do pensamento dial&eacute;tico<br \/>\n    &#8211; que n&atilde;o exclui, mas longe disso implica que o conhecimento sistem&aacute;tico<br \/>\n    do mundo exterior em sua totalidade possa progredir gigantescamente de gera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em gera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A consci&ecirc;ncia da total invers&atilde;o em que incorria o Idealismo<br \/>\n    alem&atilde;o levou necessariamente ao materialismo; mas n&atilde;o, veja-se<br \/>\n    bem, &agrave;quele materialismo puramente metaf&iacute;sico e exclusivamente<br \/>\n    mec&acirc;nico do s&eacute;culo XVIII. Em oposi&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    simples repulsa, ingenuamente revolucion&aacute;ria, de toda a hist&oacute;ria<br \/>\n    anterior, o materialismo moderno v&ecirc; na hist&oacute;ria o processo de<br \/>\n    desenvolvimento da humanidade, cujas leis din&acirc;micas &eacute; miss&atilde;o<br \/>\n    sua descobrir. Contrariamente &agrave; id&eacute;ia da natureza que imperava<br \/>\n    entre os franceses do s&eacute;culo XVIII, assim como em Hegel, em que esta<br \/>\n    era concebida como um todo permanente e invari&aacute;vel, que se movia dentro<br \/>\n    de ciclos estreitos, com corpos celestes eternos, tal como Newton os representava,<br \/>\n    e com esp&eacute;cies invari&aacute;veis de seres org&acirc;nicos, como ensinara<br \/>\n    Linneu, o materialismo moderno resume e compendia os novos progressos das<br \/>\n    ci&ecirc;ncias naturais, segundo os quais a natureza tem tamb&eacute;m sua<br \/>\n    hist&oacute;ria no tempo, e os mundos, assim como as esp&eacute;cies org&acirc;nicas<br \/>\n    que em condi&ccedil;&otilde;es prop&iacute;cias os habitam, nascem e morrem,<br \/>\n    e os ciclos, no grau em que s&atilde;o admiss&iacute;veis, revestem dimens&otilde;es<br \/>\n    infinitamente mais grandiosas. Tanto em um como em outro caso, o materialismo<br \/>\n    moderno &eacute; substancialmente dial&eacute;tico e j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    precisa de uma filosofia superior &agrave;s demais ci&ecirc;ncias. Desde o<br \/>\n    momento em que cada ci&ecirc;ncia tem que prestar contas da posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que ocupa no quadro universal das coisas e do conhecimento dessas coisas,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o h&aacute; margem para uma ci&ecirc;ncia especialmente<br \/>\n    consagrada ao estudo das concatena&ccedil;&otilde;es universais. Da filosofia<br \/>\n    anterior, com exist&ecirc;ncia pr&oacute;pria, s&oacute; permanece de p&eacute;<br \/>\n    a teoria do pensar e de suas leis: a l&oacute;gica formal e a dial&eacute;tica.<br \/>\n    O demais se dissolve na ci&ecirc;ncia positiva da natureza e da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> No entanto, enquanto que essa revolu&ccedil;&atilde;o na concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da natureza s&oacute; se p&ocirc;de impor na medida em que a pesquisa fornecia<br \/>\n    &agrave; ci&ecirc;ncia os materiais positivos correspondentes, j&aacute; h&aacute;<br \/>\n    muito tempo se haviam revelado certos fatos hist&oacute;ricos que imprimiram<br \/>\n    uma reviravolta decisiva no modo de focalizar a hist&oacute;ria. Em 1831,<br \/>\n    estala em Lyon a primeira insurrei&ccedil;&atilde;o oper&aacute;ria, e de<br \/>\n    1838 a 1842 atinge o auge o primeiro movimento oper&aacute;rio nacional: o<br \/>\n    dos cartistas ingleses. A luta de classes entre o proletariado e a burguesia<br \/>\n    passou a ocupar o primeiro plano da hist&oacute;ria dos pa&iacute;ses europeus<br \/>\n    mais avan&ccedil;ados, ao mesmo ritmo em que se desenvolvia neles, de uni<br \/>\n    lado, a grande ind&uacute;stria, e de outro lado, a domina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica rec&eacute;mconquistada da burguesia. Os fatos refutavam cada<br \/>\n    vez mais rotundamente as doutrinas burguesas da identidade de interesses entre<br \/>\n    o capital e o trabalho e da harmonia universal e o bem-estar geral das na&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    como fruto da livre concorr&ecirc;ncia. N&atilde;o havia como passar por alto<br \/>\n    esses fatos, nem era tampouco poss&iacute;vel ignorar o socialismo franc&ecirc;s<br \/>\n    e ingl&ecirc;s, express&atilde;o te&oacute;rica sua, por mais imperfeita que<br \/>\n    fosse. Mas a velha concep&ccedil;&atilde;o idealista da hist&oacute;ria, que<br \/>\n    ainda n&atilde;o havia sido removida, n&atilde;o conhecia lutas de classes<br \/>\n    baseadas em interesses materiais, nem conhecia interesses materiais de qualquer<br \/>\n    esp&eacute;cie; para ela a produ&ccedil;&atilde;o, bem como todas as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    econ&ocirc;micas, s&oacute; existiam acessoriamente, como um elemento produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    bem como todas as rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas, s&oacute; existiam<br \/>\n    acessoriamente, como um elemento secund&aacute;rio dentro da &quot;hist&oacute;ria<br \/>\n    cultural&quot;. Os novos fatos obrigaram &agrave; revis&atilde;o de toda a<br \/>\n    hist&oacute;ria anterior, e ent&atilde;o se viu que, com exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Estado primitivo, toda a hist&oacute;ria anterior era a hist&oacute;ria<br \/>\n    das lutas de classes, e que essas classes sociais em luta entre si eram em<br \/>\n    todas as &eacute;pocas fruto das rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de troca, isto &eacute;, das rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas de<br \/>\n    sua &eacute;poca; que a estrutura econ&ocirc;mica da sociedade em cada &eacute;poca<br \/>\n    da hist&oacute;ria constitui, portanto, a base real cujas propriedades explicam,<br \/>\n    em &uacute;ltima an&aacute;lise, toda a superestrutura Integrada pelas institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    jur&iacute;dicas e pol&iacute;ticas, assim como pela ideologia religiosa,<br \/>\n    filos&oacute;fica, etc., de cada per&iacute;odo hist&oacute;rico. Hegel libertara<br \/>\n    da metaf&iacute;sica a concep&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria, tornandoa<br \/>\n    dial&eacute;tica; mas sua interpreta&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria era<br \/>\n    essencialmente idealista. Agora, o idealismo fora despejado do seu &uacute;ltimo<br \/>\n    reduto: a concep&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria -, substitu&iacute;da<br \/>\n    por uma concep&ccedil;&atilde;o materialista da hist&oacute;ria, com o que<br \/>\n    se abria o caminho para explicar a consci&ecirc;ncia do homem por sua exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    e n&atilde;o esta por sua consci&ecirc;ncia, que era at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    o tradicional.<\/p>\n<p> Desse modo o socialismo j&aacute; n&atilde;o aparecia como a descoberta<br \/>\n    casual de tal ou qual intelecto genial, mas como o produto necess&aacute;rio<br \/>\n    da luta entre as duas classes formadas historicamente: o proletariado e a<br \/>\n    burguesia. Sua miss&atilde;o j&aacute; n&atilde;o era elaborar um sistema<br \/>\n    o mais perfeito poss&iacute;vel da sociedade, mas investigar o processo hist&oacute;rico<br \/>\n    econ&ocirc;mico de que, for&ccedil;osamente, tinham que brotar essas classes<br \/>\n    e seu conflito, descobrindo os meios para a solu&ccedil;&atilde;o desse conflito<br \/>\n    na situa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica assim criada. Mas o socialismo tradicional<br \/>\n    era incompat&iacute;vel com essa nova concep&ccedil;&atilde;o materialista<br \/>\n    da hist&oacute;ria, tanto quanto a concep&ccedil;&atilde;o da natureza do<br \/>\n    materialismo franc&ecirc;s n&atilde;o podia ajustar-se &agrave; dial&eacute;tica<br \/>\n    e &agrave;s novas ci&ecirc;ncias naturais. Com efeito, o socialismo anterior<br \/>\n    criticava o modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista existente e suas conseq&uuml;&ecirc;ncias,<br \/>\n    mas n&atilde;o conseguia explic&aacute;-lo nem podia, portanto, destrui-lo<br \/>\n    ideologicamente; nada mais lhe restava sen&atilde;o repudi&aacute;-lo, pura<br \/>\n    o simplesmente, como mau. Quanto mais violentamente clamava contra a explora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da classe oper&aacute;ria, insepar&aacute;vel desse modo de produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    menos estava em condi&ccedil;&otilde;es de indicar claramente em que consistia<br \/>\n    e como nascia essa explora&ccedil;&atilde;o. Mas do que se tratava era, por<br \/>\n    um lado, de expor esse modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o em suas<br \/>\n    conex&otilde;es hist&oacute;ricas e como necess&aacute;rio para uma determinada<br \/>\n    &eacute;poca da hist&oacute;ria, demonstrando com isso tamb&eacute;m a necessidade<br \/>\n    de sua queda e, por outro lado, p&ocirc;r a nu o seu car&aacute;ter interno,<br \/>\n    ainda oculto. Isso se tornou evidente com a descoberta da maisvalia.<\/p>\n<p> Descoberta que veio revelar que o regime capitalista de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a explora&ccedil;&atilde;o do oper&aacute;rio, que dele se deriva, tinham<br \/>\n    por forma fundamental a apropria&ccedil;&atilde;o de trabalho n&atilde;o pago;<br \/>\n    que o capitalista, mesmo quando compra a for&ccedil;a de trabalho de seu oper&aacute;rio<br \/>\n    por todo o seu valor, por todo o valor que representa como mercadoria no mercado,<br \/>\n    dela retira sempre mais valor do que lhe custa e que essa maisvalia &eacute;,<br \/>\n    em &uacute;ltima an&aacute;lise, a soma de valor de onde prov&eacute;m a massa<br \/>\n    cada vez maior do capital acumulado em m&atilde;os das classes possuidoras.<br \/>\n    O processo da produ&ccedil;&atilde;o capitalista e o da produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de capital estavam assim explicados.<\/p>\n<p> Essas duas grandes descobertas &#8211; a concep&ccedil;&atilde;o materialista<br \/>\n    da hist&oacute;ria e a revela&ccedil;&atilde;o do segredo da produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    capitalista atrav&eacute;s da mais-valia &#8211; n&oacute;s as devemos a Karl Marx.<br \/>\n    Gra&ccedil;as a elas o materialismo converte-se em uma ci&ecirc;ncia, que<br \/>\n    s&oacute; nos resta desenvolver em todos os seus detalhes e concatena&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> <b>Notas: Cap&iacute;tulo II<\/b><\/p>\n<p> (6) O per&iacute;odo alexandrino de desenvolvimento da ci&ecirc;ncia abrange<br \/>\n    desde o s&eacute;culo III antes de nossa era at&eacute; o s&eacute;culo VII<br \/>\n    de nossa era, recebendo o seu nome da cidade de Alexandria, no Egito, um dos<br \/>\n    mais importantes centros das rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;m1ca internacionais<br \/>\n    daquela &eacute;poca. No per&iacute;odo alexandrino adquiriram grande desenvolvimento<br \/>\n    v&aacute;rias ci&ecirc;ncias: as matem&aacute;ticas (com Euclides e Arquimedes),<br \/>\n    a geografia, a astronomia, a anatomia, a fisiologia, etc. (N. da R.) (retornar<br \/>\n    ao texto) <\/p>\n<h2><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo III &#8211; O Materialismo Hist&oacute;rico<\/a><\/h2>\n<p>O socialismo moderno &eacute;, em primeiro lugar, por seu conte&uacute;do,<br \/>\n    fruto do reflexo na intelig&ecirc;ncia, de um lado dos antagonismos de classe<br \/>\n    que imperam na moderna sociedade entre possuidores e despossuidos, capitalistas<br \/>\n    e oper&aacute;rios assalariados, e, de outro lado, da anarquia que reina na<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o. Por sua forma te&oacute;rica, por&eacute;m, o socialismo<br \/>\n    come&ccedil;a apresentando-se como uma continua&ccedil;&atilde;o, mais desenvolvida<br \/>\n    e mais conseq&uuml;ente, dos princ&iacute;pios proclamados pelos grandes pensadores<br \/>\n    franceses do s&eacute;culo XVIII. Como toda nova teoria, o socialismo, embora<br \/>\n    tivesse suas ra&iacute;zes nos fatos materiais econ&ocirc;micos, teve de ligar-se,<br \/>\n    ao nascer, &agrave;s Id&eacute;ias existentes. <\/p>\n<p> A concep&ccedil;&atilde;o materialista da hist&oacute;ria parte da tese<br \/>\n    de que a produ&ccedil;&atilde;o, e com ela a troca dos produtos, &eacute;<br \/>\n    a base de toda a ordem social; de que em todas as sociedades que desfilam<br \/>\n    pela hist&oacute;ria, a distribui&ccedil;&atilde;o dos produtos, e juntamente<br \/>\n    com ela a divis&atilde;o social dos homens em classes ou camadas, &eacute;<br \/>\n    determinada pelo que a sociedade produz e como produz o pelo modo de trocar<br \/>\n    os seus produtos. De conformidade com isso, as causas profundas de todas as<br \/>\n    transforma&ccedil;&otilde;es sociais e de todas as revolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pol&iacute;ticas n&atilde;o devem ser procuradas nas cabe&ccedil;as dos homens<br \/>\n    nem na id&eacute;ia que eles fa&ccedil;am da verdade eterna ou da eterna justi&ccedil;a,<br \/>\n    mas nas transforma&ccedil;&otilde;es operadas no modo de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de troca; devem ser procuradas n&atilde;o na filosofia, mas na economia<br \/>\n    da &eacute;poca de que se trata. Quando nasce nos homens a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de que as institui&ccedil;&otilde;es sociais vigentes s&atilde;o irracionais<br \/>\n    e injustas, de que a raz&atilde;o se converteu em insensatez e a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em praga (7), isso n&atilde;o &eacute; mais que um ind&iacute;cio de que nos<br \/>\n    m&eacute;todos de produ&ccedil;&atilde;o e nas formas de distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    produziram-se silenciosamente transforma&ccedil;&otilde;es com as quais j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o concorda a ordem social, talhada segundo o padr&atilde;o de condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    econ&ocirc;micas anteriores. E assim j&aacute; est&aacute; dito que nas novas<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m for&ccedil;osamente<br \/>\n    que conter-se &#8211; mais ou menos desenvolvidos &#8211; os meios necess&aacute;rios<br \/>\n    para p&ocirc;r termo aos males descobertos. E esses meios n&atilde;o devem<br \/>\n    ser tirados da cabe&ccedil;a de ningu&eacute;m, mas a cabe&ccedil;a &eacute;<br \/>\n    que tem de descobr&iacute;-los nos fatos materiais da produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tal e qual a realidade os oferece.<\/p>\n<p> Qual &eacute;, nesse aspecto, a posi&ccedil;&atilde;o do socialismo moderno?<br \/>\n    A ordem social vigente &#8211; verdade reconhecida hoje por quase todo o mundo &#8211;<br \/>\n    &eacute; obra das classes dominantes dos tempos modernos, da burguesia. O<br \/>\n    modo de produ&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stico da burguesia, ao qual<br \/>\n    desde Marx se d&aacute; o nome de modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    era incompat&iacute;vel com os privil&eacute;gios locais e dos estados, como<br \/>\n    o era com os v&iacute;nculos interpessoais da ordem feudal. A burguesia lan&ccedil;ou<br \/>\n    por terra a ordem feudal e levantou sobre suas ru&iacute;nas o regime da sociedade<br \/>\n    burguesa, o imp&eacute;rio da livre concorr&ecirc;ncia, da liberdade de domic&iacute;lio,<br \/>\n    da igualdade de direitos dos possuidores de mercadorias, e tantas outras maravilhas<br \/>\n    burguesas. Agora j&aacute; podia desenvolver-se livremente o modo capitalista<br \/>\n    de produ&ccedil;&atilde;o. E ao chegarem o vapor e a nova maquinaria ferramental,<br \/>\n    transformando a antiga manufatura na grande ind&uacute;stria, as for&ccedil;as<br \/>\n    produtivas criadas e postas em movimento sob o comando da burguesia desenvolveram-se<br \/>\n    com uma velocidade Inaudita e em propor&ccedil;&otilde;es at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    desconhecidas. Mas, do mesmo modo que em seu tempo a manufatura e o artesanato,<br \/>\n    que continuava desenvolvendo-se sob sua influ&ecirc;ncia, se chocavam com<br \/>\n    os entraves feudais das corpora&ccedil;&otilde;es, a grande ind&uacute;stria,<br \/>\n    ao chegar a um uivei de desenvolvimento mais alto, j&aacute; n&atilde;o cabe<br \/>\n    no estreito marco em que &eacute; contida pelo modo de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    capitalista. As novas for&ccedil;as produtivas transbordam j&aacute; da forma<br \/>\n    burguesa em que s&atilde;o exploradas, e esse conflito entre as for&ccedil;as<br \/>\n    produtivas e o modo de produ&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; precisamente<br \/>\n    nascido na cabe&ccedil;a do homem &#8211; algo assim como o conflito entre o pecado<br \/>\n    original do homem e a Justi&ccedil;a divina &#8211; mas tem suas ra&iacute;zes nos<br \/>\n    fatos, na realidade objetiva, fora de n&oacute;s, independentemente da vontade<br \/>\n    ou da atividade dos pr&oacute;prios homens que o provocaram. O socialismo<br \/>\n    moderno n&atilde;o &eacute; mais que o reflexo desse conflito material na<br \/>\n    consci&ecirc;ncia, sua proje&ccedil;&atilde;o Ideal nas cabe&ccedil;as, a<br \/>\n    come&ccedil;ar pelas da classe que sofre diretamente suas conseq&uuml;&ecirc;ncias:<br \/>\n    a classe oper&aacute;ria.<\/p>\n<p> Em que consiste esse conflito? Antes de sobrevir a produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    capitalista, isto &eacute;, na Idade M&eacute;dia, dominava, com car&aacute;ter<br \/>\n    geral, a pequena Ind&uacute;stria, baseada na propriedade privada do trabalhador<br \/>\n    sobre seus meios de produ&ccedil;&atilde;o: no campo, a agricultura corria<br \/>\n    a cargo de pequenos lavradores, livres ou vassalos; nas cidades, a ind&uacute;stria<br \/>\n    achava-se em m&atilde;os dos artes&atilde;os. Os meios de trabalho &#8211; a terra,<br \/>\n    os instrumentos agr&iacute;colas, a oficina, as ferramentas &#8211; eram meios de<br \/>\n    trabalho individual, destinados unicamente ao uso individual e, portanto,<br \/>\n    for&ccedil;osamente, mesquinhos, diminutos, limitados. &#8211; Mas isso mesmo levava<br \/>\n    a que pertencessem, em geral, ao pr&oacute;prio produtor. O papel hist&oacute;rico<br \/>\n    do modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o e seu portador &#8211; a burguesia<br \/>\n    &#8211; consistiu precisamente em concentrar e desenvolver esses dispersos e mesquinhos<br \/>\n    meios de produ&ccedil;&atilde;o, transformando-os nas poderosas alavancas<br \/>\n    produtoras dos tempos atuais. Esse processo, que a burguesia vem desenvolvendo<br \/>\n    desde o s&eacute;culo XV e que passa historicamente pelas tr&ecirc;s etapas<br \/>\n    da coopera&ccedil;&atilde;o simples, a manufatura e a grande ind&uacute;stria,<br \/>\n    &eacute; minuciosamente exposto por Marx na se&ccedil;&atilde;o quarta de<br \/>\n    O Capital. Mas a burguesia, como fica tamb&eacute;m demonstrado nessa obra,<br \/>\n    n&atilde;o podia converter aqueles primitivos meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em poderosas for&ccedil;as produtivas sem transform&aacute;-los de meios individuais<br \/>\n    de produ&ccedil;&atilde;o em meios sociais, -s&oacute; manej&aacute;veis por<br \/>\n    uma coletividade de homens. A roca, O tear manual e o martelo do ferreiro<br \/>\n    foram substitu&iacute;dos pela m&aacute;quina de fiar, pelo tear mec&acirc;nico,<br \/>\n    pelo martelo movido a vapor; a oficina individual deu o lugar &agrave; f&aacute;brica,<br \/>\n    que imp&otilde;e a coopera&ccedil;&atilde;o de centenas e milhares de oper&aacute;rios.<br \/>\n    E, com os meios de produ&ccedil;&atilde;o, transformou-se a pr&oacute;pria<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o, deixando de ser uma cadeia de atos Individuais para<br \/>\n    converter-se numa cadeia de atos sociais, e os produtos transformaram-se de<br \/>\n    produtos individuais em produtos sociais.<\/p>\n<p> O fio, as telas, os artigos de metal que agora safam da f&aacute;brica eram<br \/>\n    produto do trabalho coletivo de um grande n&uacute;mero de oper&aacute;rios,<br \/>\n    por cujas m&atilde;os tinha que passar sucessivamente para sua elabora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    J&aacute; ningu&eacute;m podia dizer: isso foi feito por mim, esse produto<br \/>\n    &eacute; meu.<\/p>\n<p> Mas onde a produ&ccedil;&atilde;o tem por forma principal um regime de-<br \/>\n    divis&atilde;o social do trabalho criado paulatinamente, por impulso elementar,<br \/>\n    sem sujei&ccedil;&atilde;o a plano algum, a produ&ccedil;&atilde;o imprime<br \/>\n    aos produtos a forma de mercadoria, cuja troca, compra e venda permitem aos<br \/>\n    diferentes produtores Individuais satisfazer suas diversas necessidades. E<br \/>\n    Isso era o que acontecia na Idade M&eacute;dia. O campon&ecirc;s, por exemplo,<br \/>\n    vendia ao artes&atilde;o os produtos da terra, comprando-lhe em troca os artigos<br \/>\n    elaborados em sua oficina. Nessa sociedade de produtores Isolados, de produtores<br \/>\n    de mercadorias, veio a Introduzir-se mais tarde o novo modo de produ&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Em meio &agrave;quela divis&atilde;o elementar do trabalho, sem plano nem<br \/>\n    sistema, que imperava no seio de toda a sociedade, o novo modo de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    implantou a divis&atilde;o planificada do trabalho dentro de cada f&aacute;brica;<br \/>\n    ao lado da produ&ccedil;&atilde;o individual surgiu a produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social Os produtos de ambas eram vendidos no mesmo mercado e, portanto, a<br \/>\n    pre&ccedil;os aproximadamente iguais. Mas a organiza&ccedil;&atilde;o planificada<br \/>\n    podia mais que a divis&atilde;o elementar do trabalho; as f&aacute;bricas<br \/>\n    em que o trabalho estava organizado socialmente elaboravam seus produtos mais<br \/>\n    baratos que os pequenos produtores Isolados. A produ&ccedil;&atilde;o Individual<br \/>\n    foi pouco a pouco sucumbindo em todos os campos e a produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social revolucionou todo o antigo modo de produ&ccedil;&atilde;o. Contudo,<br \/>\n    esse car&aacute;ter revolucion&aacute;rio passava despercebido; t&atilde;o<br \/>\n    despercebido que, pelo contr&aacute;rio, se Implantava com a &uacute;nica<br \/>\n    e exclusiva finalidade de aumentar e fomentar a produ&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    mercadorias. Nasceu diretamente ligada a certos setores de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e troca de mercadorias que j&aacute; vinham funcionando: o capital comercial,<br \/>\n    a ind&uacute;stria artesanal e o trabalho assalariado. E j&aacute; que surgia<br \/>\n    como uma nova forma de produ&ccedil;&atilde;o de mercadorias, mantiveram-se<br \/>\n    em pleno vigor sob ela as formas de apropria&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mercadorias.<\/p>\n<p> Na produ&ccedil;&atilde;o de mercadorias, tal como se havia desenvolvido<br \/>\n    na Idade M&eacute;dia, n&atilde;o podia surgir o problema de a quem pertencer<br \/>\n    os produtos do trabalho. O produtor individual criava-os, geralmente, com<br \/>\n    mat&eacute;rias-primas de sua propriedade, produzidas n&atilde;o poucas vezes<br \/>\n    por ele mesmo, com seus pr&oacute;prios meios de trabalho e elaborados com<br \/>\n    seu pr&oacute;prio trabalho manual ou de sua fam&iacute;lia. N&atilde;o necessitava,<br \/>\n    portanto, apropriar-se deles, pois j&aacute; eram seus pelo simples fato de<br \/>\n    produzi-los. A propriedade dos produtos baseava-se, pois, no trabalho pessoal.<br \/>\n    E mesmo naqueles casos em que se empregava a ajuda alheia, esta era, em regra,<br \/>\n    acess&oacute;ria, e recebia freq&uuml;entemente, al&eacute;m do sal&aacute;rio,<br \/>\n    outra compensa&ccedil;&atilde;o: o aprendiz e o oficial das corpora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o trabalhavam menos pelo sal&aacute;rio e pela comida do que para<br \/>\n    aprender a chegar a ser mestres algum dia. Sobrev&ecirc;m a concentra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos meios de produ&ccedil;&atilde;o em grandes oficinas e manufaturas, sua<br \/>\n    transforma&ccedil;&atilde;o em meios de produ&ccedil;&atilde;o realmente sociais.<br \/>\n    Entretanto, esses meios de produ&ccedil;&atilde;o e seus produtos sociais<br \/>\n    foram considerados como se continuassem a ser o que eram antes: meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e produtos individuais. E se at&eacute; aqui o propriet&aacute;rio dos meios<br \/>\n    de trabalho se apropriara dos produtos, porque eram, geralmente, produtos<br \/>\n    seus e a ajuda constitu&iacute;a uma exce&ccedil;&atilde;o, agora o propriet&aacute;rio<br \/>\n    dos meios de trabalho continuava apoderando-se do produto, embora j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o fosse um produto seu, mas fruto exclusivo do trabalho alheio. Desse<br \/>\n    modo, os produtos, criados agora socialmente, n&atilde;o passavam a ser propriedade<br \/>\n    daqueles que haviam posto realmente em marcha os meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e eram realmente seus criadores, mas do capitalista. Os meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a produ&ccedil;&atilde;o foram convertidos essencialmente em fatores sociais.<br \/>\n    E, no entanto, viam-se submetidos a uma forma do apropria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que pressup&otilde;e a produ&ccedil;&atilde;o privada Individual, Isto &eacute;,<br \/>\n    aquela em que cada qual &eacute; dono de seu pr&oacute;prio produto e, como<br \/>\n    tal, comparece com ele ao mercado. O modo de produ&ccedil;&atilde;o se v&ecirc;<br \/>\n    sujeito a essa forma de apropria&ccedil;&atilde;o apesar de destruir o pressuposto<br \/>\n    sobre o qual repousa (8) Nessa contradi&ccedil;&atilde;o, que imprime ao novo<br \/>\n    modo de produ&ccedil;&atilde;o o seu car&aacute;ter capitalista, encerra-se<br \/>\n    em germe, todo o conflito dos tempos atuais. E quanto mais o novo modo de<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o se imp&otilde;e e impera em todos os campos fundamentais<br \/>\n    da produ&ccedil;&atilde;o e em todos os pa&iacute;ses economicamente importantes,<br \/>\n    afastando a produ&ccedil;&atilde;o individual, salvo vest&iacute;gios insignificantes,<br \/>\n    maior &eacute; a evid&ecirc;ncia com que se revela a incompatibilidade entre<br \/>\n    a produ&ccedil;&atilde;o social e a apropria&ccedil;&atilde;o capitalista.<\/p>\n<p> Os primeiros capitalistas j&aacute; se encontraram, como ficou dito, com<br \/>\n    a forma do trabalho assalariado. Mas como exce&ccedil;&atilde;o, como ocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    secund&aacute;ria, como simples ajuda, como ponto de transi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O lavrador que sa&iacute;a de quando em vez para ganhar uma di&aacute;ria,<br \/>\n    tinha seus dois palmos de terra pr&oacute;pria, gra&ccedil;as &agrave;s quais,<br \/>\n    em caso extremo, podia viver. Os regulamentos das corpora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    velavam para que os oficiais de hoje se convertessem amanh&atilde; em mestres.<br \/>\n    Mas, logo que os meios de produ&ccedil;&atilde;o adquiriram um car&aacute;ter<br \/>\n    social e se concentraram em m&atilde;os dos capitalistas, as coisas mudaram.<br \/>\n    Os meios de produ&ccedil;&atilde;o e os produtos do pequeno produtor individual<br \/>\n    foram sendo cada vez mais depreciados, at&eacute; que a esse pequeno produtor<br \/>\n    n&atilde;o ficou outro recurso sen&atilde;o ganhar um sal&aacute;rio pago<br \/>\n    pelo capitalista. O trabalho assalariado, que era antes exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e mera ajuda, passou a ser regra e forma fundamental de toda a produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e o que era antes ocupa&ccedil;&atilde;o acess&oacute;ria se converte em ocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exclusiva do oper&aacute;rio. O oper&aacute;rio assalariado tempor&aacute;rio<br \/>\n    transformou-se em oper&aacute;rio assalariado para toda a vida. Ademais, a<br \/>\n    multid&atilde;o desses para sempre assalariados v&ecirc;-se engrossada em<br \/>\n    propor&ccedil;&otilde;es gigantescas pela derrocada simult&acirc;nea da ordem<br \/>\n    feudal, pela dissolu&ccedil;&atilde;o das mesnadas (9) dos senhores feudais,<br \/>\n    a expuls&atilde;o dos camponeses de suas terras, etc.<\/p>\n<p> Realizara-se o completo div&oacute;rcio entre os meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    concentrados nas m&atilde;os dos capitalistas, de um lado, e, de outro lado,<br \/>\n    os produtores que nada possu&iacute;am al&eacute;m de sua pr&oacute;pria for&ccedil;a<br \/>\n    de trabalho. A contradi&ccedil;&atilde;o entre a produ&ccedil;&atilde;o social<br \/>\n    e a apropria&ccedil;&atilde;o capitalista reveste a forma de antagonismo entre<br \/>\n    o proletariado e a burguesia.<\/p>\n<p> Vimos que o modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista Introduziu-se numa<br \/>\n    sociedade de produtores de mercadorias, de produtores Individuais, cujo vinculo<br \/>\n    social era o interc&acirc;mbio de seus produtos. Mas toda sociedade baseada<br \/>\n    na produ&ccedil;&atilde;o de mercadorias apresenta a particularidade de que<br \/>\n    nela os produtores perdem o comando sobre suas pr&oacute;prias rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sociais. Cada qual produz para si, com os meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que consegue dispor, e para as necessidades de seu interc&acirc;mbio privado.<br \/>\n    Ningu&eacute;m sabe qual a quantidade de artigos do mesmo tipo que os demais<br \/>\n    lan&ccedil;am no mercado, nem da quantidade que o mercado necessita; ningu&eacute;m<br \/>\n    sabe se seu produto Individual corresponde a uma demanda efetiva, nem se poder&aacute;<br \/>\n    cobrir os gastos, nem sequer, em geral, se poder&aacute; vend&ecirc;-lo. A<br \/>\n    anarquia Impera na produ&ccedil;&atilde;o social. Mas a produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mercadorias tem, como toda forma de produ&ccedil;&atilde;o, suas leis caracter&iacute;sticas,<br \/>\n    pr&oacute;prias e Insepar&aacute;veis dela; e essas leis abrem caminho apesar<br \/>\n    da anarquia, na pr&oacute;pria anarquia e atrav&eacute;s dela. Tomam corpo<br \/>\n    na &uacute;nica forma de enlace social que subsiste: na troca, e se Imp&otilde;em<br \/>\n    aos produtores Individuais sob a forma das leis Imperativas da concorr&ecirc;ncia.<br \/>\n    A principio, esses produtores as Ignoram, e &eacute; preciso que uma larga<br \/>\n    experi&ecirc;ncia v&aacute; revelando-as, pouco a pouco. Imp&otilde;em-se,<br \/>\n    pois, sem os produtores, e mesmo contra eles, como leis naturais cegas que<br \/>\n    presidem essa forma de produ&ccedil;&atilde;o. O produto Impera sobre o produtor.<\/p>\n<p> Na sociedade medieval, e sobretudo em seus primeiros s&eacute;culos, a produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    destinava-se principalmente ao consumo pr&oacute;prio, a satisfazer apenas<br \/>\n    &agrave;s necessidades do produtor e sua fam&iacute;lia. E onde, como acontecia<br \/>\n    no campo, subsistiam rela&ccedil;&otilde;es pessoais de vassalagem, contribu&iacute;a<br \/>\n    tamb&eacute;m para satisfazer &agrave;s necessidades do senhor feudal. N&atilde;o<br \/>\n    se produzia, pois, nenhuma troca, nem os produtos revestiam, portanto, o car&aacute;ter<br \/>\n    de mercadorias. A fam&iacute;lia do lavrador produzia quase todos os objetos<br \/>\n    de que necessitava: utens&iacute;lios, roupas e viveres. S&oacute; come&ccedil;ou<br \/>\n    a produzir mercadorias quando come&ccedil;ou a criar um excedente de produtos,<br \/>\n    depois de cobrir suas pr&oacute;prias necessidades e os tributos em esp&eacute;cie<br \/>\n    que devia pagar ao senhor feudal; esse excedente, lan&ccedil;ado no interc&acirc;mbio<br \/>\n    social, no mercado, para sua venda, converteu-se em mercadoria. Os artes&atilde;os<br \/>\n    das cidades, por certo, tiveram que produzir para o mercado desde o primeiro<br \/>\n    momento. Mas tamb&eacute;m elaboravam eles pr&oacute;prios a maior parte dos<br \/>\n    produtos de que necessitavam para seu consumo; tinham suas hortas e seus pequenos<br \/>\n    campos, apascentavam seu gado nos campos comunais, que lhes forneciam tamb&eacute;m<br \/>\n    madeira e lenha; suas mulheres fiavam o linho e a l&atilde;, etc.<\/p>\n<p> A produ&ccedil;&atilde;o para a troca, a produ&ccedil;&atilde;o de mercadorias,<br \/>\n    achava-se em seu inicio. Por Isso o interc&acirc;mbio era limitado, o mercado<br \/>\n    era reduzido, o modo de produ&ccedil;&atilde;o era est&aacute;vel. Em face<br \/>\n    do exterior imperava o exclusivismo local; no interior, a associa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    local: a Marca no campo, as corpora&ccedil;&otilde;es nas cidades.<\/p>\n<p> Mas ao estender-se a produ&ccedil;&atilde;o de mercadorias e, sobretudo,<br \/>\n    ao aparecer o modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o, as leis da produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mercadorias, que at&eacute; aqui haviam apenas dado sinais de vida, passam<br \/>\n    a funcionar de maneira aberta e p0-d&ecirc;rosa. As antigas associa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    come&ccedil;am a perder for&ccedil;a, as antigas fronteiras v&atilde;o caindo<br \/>\n    por terra, os produtores v&atilde;o convertendo-se mais e mais em produtores<br \/>\n    de mercadorias independentes e isolados. A anarquia da produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social sai &agrave; luz e se agu&ccedil;a cada vez mais. Mas o instrumento<br \/>\n    principal com que o modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista fomenta essa<br \/>\n    anarquia na produ&ccedil;&atilde;o social &eacute; precisamente o Inverso<br \/>\n    da anarquia: a crescente organiza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com car&aacute;ter social, dentro de cada estabelecimento de produ&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Por esse meio, p&otilde;e fim &agrave; velha estabilidade pacifica. Onde se<br \/>\n    implanta num ramo industrial, n&atilde;o tolera a seu lado nenhum dos velhos<br \/>\n    m&eacute;todos. Onde se apodera da ind&uacute;stria artesanal, ela a destr&oacute;i<br \/>\n    e aniquila. O terreno de trabalho transforma-se num campo de batalha. As grandes<br \/>\n    descobertas geogr&aacute;ficas e as empresas de coloniza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que as acompanham multiplicam os mercados e aceleram o processo de transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de oficina do artes&atilde;o em manufatura. E a luta n&atilde;o eclode somente<br \/>\n    entre os produtores locais isolados; as contendas locais n&atilde;o adquirem<br \/>\n    envergadura nacional, e surgem as guerras comerciais dos s&eacute;culos XVII<br \/>\n    e XVIII (10). At&eacute; que, por fim, a grande ind&uacute;stria e a implanta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do mercado mundial d&atilde;o car&aacute;ter universal &agrave; luta, ao mesmo<br \/>\n    tempo que lhe imprimem uma inaudita viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Tanto entre os capitalistas individuais como entre industriais e pa&iacute;ses<br \/>\n    inteiros, a primazia das condi&ccedil;&otilde;es &#8211; natural ou artificialmente<br \/>\n    criadas &#8211; da produ&ccedil;&atilde;o decide a luta pela exist&ecirc;ncia. O<br \/>\n    que sucumbe &eacute; esmagado sem piedade. &Eacute; a luta darwinista da exist&ecirc;ncia<br \/>\n    individual transplantada, com redobrada f&uacute;ria, da natureza para a sociedade.<br \/>\n    As condi&ccedil;&otilde;es naturais de vida da besta convertem-se no ponto<br \/>\n    culminante do desenvolvimento humano. A contradi&ccedil;&atilde;o entre a<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o social e a apropria&ccedil;&atilde;o capitalista manifesta-se<br \/>\n    agora como antagonismo entre a organiza&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dentro de cada f&aacute;brica e a anarquia da produ&ccedil;&atilde;o no seio<br \/>\n    de toda a sociedade.<\/p>\n<p> O modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o move-se nessas duas formas<br \/>\n    da contradi&ccedil;&atilde;o a ele inerente por suas pr&oacute;prias origens,<br \/>\n    descrevendo sem apela&ccedil;&atilde;o aquele &quot;c&iacute;rculo vicioso&quot;<br \/>\n    j&aacute; revelado por Fourier. Mas o que Fourier n&atilde;o podia ver ainda<br \/>\n    em sua &eacute;poca &eacute; que esse c&iacute;rculo se vai reduzindo gradualmente,<br \/>\n    que o movimento se desenvolve em espiral e tem de chegar necessariamente ao<br \/>\n    seu fira, como o movimento dos planetas. chocando-se com o centro. &Eacute;<br \/>\n    a for&ccedil;a propulsora da anarquia social da produ&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    converte a Imensa maioria dos homens, cada vez mais marcadamente, em prolet&aacute;rios,<br \/>\n    e essas massas prolet&aacute;rias ser&atilde;o, por sua vez, as que, afinal,<br \/>\n    por&atilde;o fim &agrave; anarquia da produ&ccedil;&atilde;o &Eacute; a for&ccedil;a<br \/>\n    propulsora da anarquia social da produ&ccedil;&atilde;o que converte a capacidade<br \/>\n    infinita de aperfei&ccedil;oamento das m&aacute;quinas num preceito imperativo,<br \/>\n    que obriga todo capitalista industrial a melhorar continuamente a sua maquinaria,<br \/>\n    sob pena de perecer. Mas melhorar a maquinaria equivale a tornar sup&eacute;rflua<br \/>\n    uma massa de trabalho humano. E assim como a implanta&ccedil;&atilde;o e o<br \/>\n    aumento quantitativo da maquinaria trouxeram consigo a substitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de milh&otilde;es de oper&aacute;rios manuais por um n&uacute;mero reduzido<br \/>\n    de oper&aacute;rios mec&acirc;nicos, seu aperfei&ccedil;oamento determina<br \/>\n    a elimina&ccedil;&atilde;o de um n&uacute;mero cada vez maior de oper&aacute;rios<br \/>\n    das m&aacute;quinas e, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, a cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma massa de oper&aacute;rios dispon&iacute;veis que ultrapassa a necessidade<br \/>\n    m&eacute;dia de ocupa&ccedil;&atilde;o do capital, de um verdadeiro ex&eacute;rcito<br \/>\n    industrial de reserva, como eu j&aacute; o chamara em 1845 (11), de um ex&eacute;rcito<br \/>\n    de trabalhadores dispon&iacute;veis para as &eacute;pocas em que a ind&uacute;stria<br \/>\n    trabalha a pleno vapor e que logo nas crises que sobrev&ecirc;m necessariamente<br \/>\n    depois desses per&iacute;odos, &eacute; lan&ccedil;ado &agrave;s ruas, constituindo<br \/>\n    a todo momento uma grilheta amarrada aos p&eacute;s da classe trabalhadora<br \/>\n    em sua luta pela exist&ecirc;ncia contra o capital e um regulador para manter<br \/>\n    os sal&aacute;rios no n&iacute;vel baixo correspondente &agrave;s necessidades<br \/>\n    do capitalista. Assim, para diz&ecirc;-lo com Marx, a maquinaria converteu-se<br \/>\n    na mais poderosa arma do capital contra a classe oper&aacute;ria, um meio<br \/>\n    de trabalho que arranca constantemente os meios de vida das m&atilde;os do<br \/>\n    oper&aacute;rio, acontecendo que o produto do pr&oacute;prio oper&aacute;rio<br \/>\n    passa a ser o instrumento de sua escraviza&ccedil;&atilde;o. Desse modo, a<br \/>\n    economia nos meios de trabalho leva consigo, desde o primeiro momento, o mais<br \/>\n    impiedoso desperd&iacute;cio da for&ccedil;a de trabalho e a espolia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das condi&ccedil;&otilde;es normais da fun&ccedil;&atilde;o mesma do trabalho.<br \/>\n    E a maquinaria, o recurso mais poderoso que se p&ocirc;de criar para reduzir<br \/>\n    a jornada de trabalho, converte-se no mais infal&iacute;vel recurso para converter<br \/>\n    a vida inteira do oper&aacute;rio e de sua fam&iacute;lia numa grande jornada<br \/>\n    dispon&iacute;vel para a valoriza&ccedil;&atilde;o do capital; ocorre, assim,<br \/>\n    que o excesso de trabalho de uns &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o determinante<br \/>\n    da car&ecirc;ncia de trabalho de outros, e que a grande ind&uacute;stria,<br \/>\n    lan&ccedil;ando-se pelo mundo inteiro, em desabalada carreira, &agrave; conquista<br \/>\n    de novos consumidores, reduz em sua pr&oacute;pria casa o consumo das massas<br \/>\n    a um m&iacute;nimo de fome e mina com isso o seu pr&oacute;prio mercado interno.<br \/>\n    &quot;A lei que mant&eacute;m constantemente o excesso relativo de popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou ex&eacute;rcito industrial de reserva em equil&iacute;brio com o volume<br \/>\n    e a intensidade da acumula&ccedil;&atilde;o do capital amarra o oper&aacute;rio<br \/>\n    ao capital com ataduras mais fortes do que as cunhas com que Vulcano cravou<br \/>\n    Prometeu no rochedo. Isso d&aacute; origem a que a acumula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do capital corresponda a uma acumula&ccedil;&atilde;o igual de mis&eacute;ria.<br \/>\n    A acumula&ccedil;&atilde;o de riqueza em um dos polos determina no polo oposto,<br \/>\n    no polo da classe que produz o seu pr&oacute;prio produto como capital, uma<br \/>\n    acumula&ccedil;&atilde;o igual de mis&eacute;ria, de tormentos de trabalho,<br \/>\n    de escravid&atilde;o, de ignor&acirc;ncia, de embrutecimento e de degrada&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    moral.&quot; (Marx, O Capital, t. 1, cap. XXIII) E esperar do modo capitalista<br \/>\n    de produ&ccedil;&atilde;o uma distribui&ccedil;&atilde;o diferente dos produtos<br \/>\n    seria o mesmo que esperar que os dois eletrodos de uma bateria, enquanto conectados<br \/>\n    com ela, n&atilde;o decomponham a &aacute;gua nem engendrem oxig&ecirc;nio<br \/>\n    no polo positivo e hidrog&ecirc;nio no polo negativo.<\/p>\n<p> Vimos que a capacidade de aperfei&ccedil;oamento da maquinaria moderna,<br \/>\n    levada a seu limite m&aacute;ximo, converte-se, em virtude da anarquia da<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o dentro da sociedade num preceito imperativo que obriga<br \/>\n    os capitalistas industriais, cada qual por si, a melhorar incessantemente<br \/>\n    a sua maquinaria, a tornar sempre mais poderosa a sua for&ccedil;a de produ&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o menos imperativo &eacute; o preceito em que se converte para ele<br \/>\n    a mera possibilidade efetiva de dilatar sua &oacute;rbita de produ&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A enorme for&ccedil;a de expans&atilde;o da grande ind&uacute;stria, a cujo<br \/>\n    lado a expans&atilde;o dos gases &eacute; uma brincadeira de crian&ccedil;as,<br \/>\n    revela-se hoje diante de nossos olhos como uma necessidade qualitativa e quantitativa<br \/>\n    de expans&atilde;o, que zomba de todos os obst&aacute;culos que se lhe deparam.<br \/>\n    Esses obst&aacute;culos s&atilde;o os que lhe op&otilde;em o consumo, a sa&iacute;da,<br \/>\n    os mercados de que os produtos da grande ind&uacute;stria necessitam. Mas<br \/>\n    a capacidade extensiva e intensiva de expans&atilde;o dos mercados obedece,<br \/>\n    por sua vez, a leis muito diferentes e que atuam de uma maneira muito menos<br \/>\n    en&eacute;rgica. A expans&atilde;o dos mercados n&atilde;o podo desenvolver-se<br \/>\n    ao mesmo ritmo que a da produ&ccedil;&atilde;o. A colis&atilde;o torna-se<br \/>\n    inevit&aacute;vel, e como &eacute; imposs&iacute;vel qualquer solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sen&atilde;o fazendo-se saltar o pr&oacute;prio modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    essa colis&atilde;o torna-se peri&oacute;dica. A produ&ccedil;&atilde;o capitalista<br \/>\n    engendra um novo &quot;c&iacute;rculo vicioso&quot;.<\/p>\n<p> Com efeito, desde 1825, ano em que estalou a primeira crise geral, n&atilde;o<br \/>\n    se passam dez anos seguidos sem que todo o mundo industrial e comercial, a<br \/>\n    distribui&ccedil;&atilde;o e a troca de todos os povos civilizados e de seu<br \/>\n    s&eacute;quito de pa&iacute;ses mais ou menos b&aacute;rbaros, saia dos eixos.<br \/>\n    O com&eacute;rcio &eacute; paralisado, os mercados s&atilde;o saturados de<br \/>\n    mercadorias, os produtos apodrecem nos armaz&eacute;ns abarrotados, sem encontrar<br \/>\n    sa&iacute;da; o dinheiro torna-se invis&iacute;vel; o cr&eacute;dito desaparece;<br \/>\n    as f&aacute;bricas param; as massas oper&aacute;rias carecem de meios de subsist&ecirc;ncia<br \/>\n    precisamente por t&ecirc;-los produzido em excesso, as bancarrotas e fal&ecirc;ncias<br \/>\n    se sucedem. O paradeiro dura anos inteiros, as for&ccedil;as produtivas e<br \/>\n    os produtos s&atilde;o malbaratados e destruidos em massa at&eacute; que,<br \/>\n    por fim, os estoques de mercadorias acumuladas, mais ou menos depreciadas,<br \/>\n    encontram saida, e a produ&ccedil;&atilde;o e a troca se v&atilde;o reanimando<br \/>\n    pouco a pouco. Paulatinamente, a marcha se acelera, a andadura converte-se<br \/>\n    em trote, o trote industrial em galope e, finalmente, em carreira desenfreada,<br \/>\n    num steeplechase (12) da ind&uacute;stria, do com&eacute;rcio, do cr&eacute;dito,<br \/>\n    da especula&ccedil;&atilde;o, para terminar, por fim, depois dos saltos mais<br \/>\n    arriscados, na fossa de um crack. E assim, sucessivamente. Cinco vezes repete-se<br \/>\n    a mesma hist&oacute;ria desde 1825, e presentemente (1877) estamos vivendo-a<br \/>\n    pela sexta vez. E o car&aacute;ter dessas crises &eacute; t&atilde;o n&iacute;tido<br \/>\n    e t&atilde;o marcante que Fourier as abrangia todas ao descrever a primeira,<br \/>\n    dizendo que era uma crise pl&eacute;torique, uma crise nascida da superabund&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Nas crises estala em explos&otilde;es violentas a contradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre a produ&ccedil;&atilde;o social e a apropria&ccedil;&atilde;o capitalista.<\/p>\n<p> A circula&ccedil;&atilde;o de mercadoria fica, por um momento, paralisada.<br \/>\n    O meio de circula&ccedil;&atilde;o, o dinheiro, convertese num obst&aacute;culo<br \/>\n    para a circula&ccedil;&atilde;o; todas as leis da produ&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    da circula&ccedil;&atilde;o das mercadorias viram pelo avesso. O conflito<br \/>\n    econ&ocirc;mico atinge seu ponto culminante: o modo de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rebela-se contra o modo de distribui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O fato de que a organiza&ccedil;&atilde;o social da produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dentro das f&aacute;bricas se tenha desenvolvido at&eacute; chegar a um ponto<br \/>\n    em que passou a ser inconcili&aacute;vel com a anarquia &#8211; coexistente com<br \/>\n    ela e acima dela &#8211; da produ&ccedil;&atilde;o na sociedade &eacute; um rato<br \/>\n    que se revela palpavelmente aos pr&oacute;prios capitalistas pela concentra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    violenta dos capitais, produzida durante as crises &agrave; custa da ru&iacute;na<br \/>\n    de numerosos grandes e, sobretudo, pequenos capitalistas. Todo o mecanismo<br \/>\n    do modo de produ&ccedil;&atilde;o falha, esgotado pelas for&ccedil;as produtivas<br \/>\n    que ele mesmo engendrou. J&aacute; n&atilde;o consegue transformar em capital<br \/>\n    essa massa de meios de produ&ccedil;&atilde;o, que permanecem inativos, e<br \/>\n    por isso precisamente deve permanecer tamb&eacute;m inativo o ex&eacute;rcito<br \/>\n    industrial de reserva. Meios de produ&ccedil;&atilde;o, meios de vida, oper&aacute;rios<br \/>\n    em disponibilidade: todos os elementos da produ&ccedil;&atilde;o e da riqueza<br \/>\n    geral existem em excesso. Mas a &quot;superabund&acirc;ncia converte-se em<br \/>\n    fonte de mis&eacute;ria e de pen&uacute;ria&quot; (Fourier), j&aacute; que<br \/>\n    &eacute; ela, exatamente, que impede a transforma&ccedil;&atilde;o dos meios<br \/>\n    de produ&ccedil;&atilde;o e de vida em capital, pois na sociedade capitalista<br \/>\n    os meios de produ&ccedil;&atilde;o n&atilde;o podem p&ocirc;r-se em movimento<br \/>\n    sen&atilde;o transformando-se previamente em capital, em meio de explora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da for&ccedil;a humana de trabalho. Esse imprescind&iacute;vel car&aacute;ter<br \/>\n    de capital dos meios de produ&ccedil;&atilde;o ergue-se como um espectro entre<br \/>\n    eles e a classe oper&aacute;ria. &Eacute; isso o que impede que se engrenem<br \/>\n    a alavanca material e a alavanca pessoal da produ&ccedil;&atilde;o; &eacute;<br \/>\n    o que n&atilde;o permite aos meios de produ&ccedil;&atilde;o funcionar nem<br \/>\n    aos oper&aacute;rios trabalhar e viver. De um lado, o modo capitalista de<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o revela, pois, sua pr&oacute;pria incapacidade para<br \/>\n    continuar dirigindo suas for&ccedil;as produtivas. De outro lado, essas for&ccedil;as<br \/>\n    produtivas compelem com uma intensidade cada vez maior no sentido de que resolva<br \/>\n    a contradi&ccedil;&atilde;o, de que sejam redimidas de sua condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de capital, de que seja efetivamente reconhecido o seu car&aacute;ter de for&ccedil;as<br \/>\n    produtivas sociais.<\/p>\n<p> &Eacute; essa rebeli&atilde;o das for&ccedil;as de produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    cada vez mais imponentes, contra a sua qualidade de capital, essa necessidade<br \/>\n    cada vez mais imperiosa de que se reconhe&ccedil;a o seu car&aacute;ter social,<br \/>\n    que obriga a pr&oacute;pria classe capitalista a consider&aacute;-las cada<br \/>\n    vez mais abertamente como for&ccedil;as produtivas sociais, na medida em que<br \/>\n    &eacute; poss&iacute;vel dentro das rela&ccedil;&otilde;es capitalistas. Tanto<br \/>\n    os per&iacute;odos de elevada press&atilde;o industrial, com sua desmedida<br \/>\n    expans&atilde;o do cr&eacute;dito, como o pr&oacute;prio crack, com o desmoronamento<br \/>\n    de grandes empresas capitalistas, estimulam essa forma de socializa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de grandes massas de meios de produ&ccedil;&atilde;o que encontramos nas diferentes<br \/>\n    categorias de sociedades an&ocirc;nimas. Alguns desses meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de comunica&ccedil;&atilde;o j&aacute; s&atilde;o por si t&atilde;o gigantescos<br \/>\n    que excluem, como ocorre com as ferrovias, qualquer outra forma de explora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    capitalista. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o basta tampouco essa forma; os grandes produtores nacionais de um<br \/>\n    ramo Industrial unem-se para formar um truste, um cons&oacute;rcio destinado<br \/>\n    a regular a produ&ccedil;&atilde;o; determinam a quantidade total que deve<br \/>\n    ser produzida, dividem-na entre eles e imp&otilde;em, desse modo, um pre&ccedil;o<br \/>\n    de venda de antem&atilde;o fixado. Como, por&eacute;m, esses trustes se desmoronam<br \/>\n    ao sobrevirem os primeiros ventos maus nos neg&oacute;cios, conduzem com isso<br \/>\n    a uma socializa&ccedil;&atilde;o ainda mais concentrada; todo o ramo industrial<br \/>\n    converte-se numa &uacute;nica grande sociedade an&ocirc;nima, e a concorr&ecirc;ncia<br \/>\n    interna d&aacute; lugar ao monop&oacute;lio interno dessa sociedade &uacute;nica;<br \/>\n    assim aconteceu j&aacute; em 1890 com a produ&ccedil;&atilde;o inglesa de<br \/>\n    &aacute;lcalis, que na atualidade, depois da fus&atilde;o de todas as quarenta<br \/>\n    e oito grandes f&aacute;bricas do pa&iacute;s, &eacute; explorada por uma<br \/>\n    s&oacute; sociedade com dire&ccedil;&atilde;o &uacute;nica e um capital de<br \/>\n    120 milh&otilde;es de marcos.<\/p>\n<p> Nos trustes, a livre concorr&ecirc;ncia transforma-se em monop&oacute;lio<br \/>\n    e a produ&ccedil;&atilde;o sem plano da sociedade capitalista capitula ante<br \/>\n    a produ&ccedil;&atilde;o planificada e organizada da nascente sociedade socialista.<br \/>\n    &Eacute; claro que, no momento, em proveito e benef&iacute;cio dos capitalistas.<br \/>\n    Mas aqui a explora&ccedil;&atilde;o torna-se t&atilde;o patente, que tem for&ccedil;osamente<br \/>\n    de ser derrubada. Nenhum povo toleraria uma produ&ccedil;&atilde;o dirigida<br \/>\n    pelos trustes, uma explora&ccedil;&atilde;o t&atilde;o descarada da coletividade<br \/>\n    por uma pequena quadrilha de cortadores de cup&otilde;es.<\/p>\n<p> De um modo ou de outro, com ou sem trustes, o representante oficial da sociedade<br \/>\n    capitalista, o Estado, tem que acabar tomando a seu cargo o comando da produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    (13) A necessidade a que corresponde essa transforma&ccedil;&atilde;o de certas<br \/>\n    empresas em propriedade do Estado come&ccedil;a a manifestar-se nas. grandes<br \/>\n    empresas de transportes e comunica&ccedil;&otilde;es, tais como o correio,<br \/>\n    o tel&eacute;grafo e as ferrovias.<\/p>\n<p> Al&eacute;m da incapacidade da burguesia para continuar dirigindo as for&ccedil;as<br \/>\n    produtivas modernas que as crises revelam, a transforma&ccedil;&atilde;o das<br \/>\n    grandes empresas de produ&ccedil;&atilde;o e transporte em sociedades an&ocirc;nimas,<br \/>\n    trustes e em propriedade do&#8217; Estado demonstra que a burguesia j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; indispens&aacute;vel para o desempenho dessas fun&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Hoje, as fun&ccedil;&otilde;es sociais do capitalista est&atilde;o todas a<br \/>\n    cargo de empregados assalariados, e toda a atividade social do capitalista<br \/>\n    se reduz a cobrar suas rendas, cortar seus cup&otilde;es e jogar na bolsa,<br \/>\n    onde os capitalistas de toda esp&eacute;cie arrebatam, uns aos outro, os seus<br \/>\n    capitais. E se antes o modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o deslocava<br \/>\n    os oper&aacute;rios, agora desloca tamb&eacute;m os capitalistas, lan&ccedil;ando-os,<br \/>\n    do mesmo modo que aos oper&aacute;rios, entre a popula&ccedil;&atilde;o excedente;<br \/>\n    embora, por enquanto ainda n&atilde;o no ex&eacute;rcito industrial de reserva.<\/p>\n<p> Mas as for&ccedil;as produtivas n&atilde;o perdem sua condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de capital ao converter-se em propriedade das sociedades an&ocirc;nimas e<br \/>\n    dos trustes ou em propriedade do Estado. No que se refere aos trustes e sociedades<br \/>\n    an&ocirc;nimas, &eacute; palp&agrave;velmente claro. Por sua parte, o Estado<br \/>\n    moderno n&atilde;o &eacute; tampouco mais que uma organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    criada pela sociedade burguesa para defender as condi&ccedil;&otilde;es exteriores<br \/>\n    gerais do modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o contra os atentados,<br \/>\n    tanto dos oper&aacute;rios como dos capitalistas isolados. O Estado moderno,<br \/>\n    qualquer que seja a sua forma, &eacute; uma m&aacute;quina essencialmente<br \/>\n    capitalista, &eacute; o Estado dos capitalistas, o capitalista coletivo Ideal.<br \/>\n    E quanto mais for&ccedil;as produtivas passe &agrave; sua propriedade tanto<br \/>\n    mais se converter&aacute; em capitalista coletivo e tanto maior quantidade<br \/>\n    de cidad&atilde;os explorar&aacute;. Os oper&aacute;rios continuam sendo oper&aacute;rios<br \/>\n    assalariados, prolet&aacute;rios. A rela&ccedil;&atilde;o capitalista, longe<br \/>\n    de ser abolida com essas medidas, se agu&ccedil;a. Mas, ao chegar ao cume,<br \/>\n    esboroa-se. A propriedade do Estado sobre as for&ccedil;as produtivas n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; solu&ccedil;&atilde;o do conflito, mas abriga j&aacute; em seu seio<br \/>\n    o meio formal, o instrumento para chegar &agrave; solu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Essa solu&ccedil;&atilde;o s&oacute; pode residir em ser reconhecido de<br \/>\n    um modo efetivo o car&aacute;ter social das for&ccedil;as produtivas modernas<br \/>\n    e, portanto, em harmonizar o modo de produ&ccedil;&atilde;o, de apropria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de troca com o car&aacute;ter social dos meios de produ&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Para isso, n&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o um caminho: que a sociedade,<br \/>\n    abertamente e sem rodeios, tome posse dessas for&ccedil;as produtivas, que<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o admitem outra dire&ccedil;&atilde;o a n&atilde;o ser<br \/>\n    a sua.<\/p>\n<p> Assim procedendo, o car&aacute;ter social dos meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e dos produtos, que hoje se volta contra os pr&oacute;prios pr&oacute;prios<br \/>\n    produtores, rompendo periodicamente as fronteiras do modo de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de troca, e s&oacute; pode impor-se com uma for&ccedil;a e efic&aacute;cia<br \/>\n    t&atilde;o destruidoras como o impulso cego das leis naturais, ser&aacute;<br \/>\n    posto em vigor com plena consci&ecirc;ncia pelos produtores e se converter&aacute;,<br \/>\n    de causa constante de perturba&ccedil;&otilde;es e cataclismas peri&oacute;dicos,<br \/>\n    na alavanca mais poderosa da pr&oacute;pria produ&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> As for&ccedil;as ativas da sociedade atuam, enquanto n&atilde;o as conhecemos<br \/>\n    e contamos com elas, exatamente como as for&ccedil;as da natureza: de modo<br \/>\n    cego violento e destruidor. Mas, uma vez conhecidas, logo que se saiba compreender<br \/>\n    sua a&ccedil;&atilde;o, suas tend&ecirc;ncias e seus efeitos, est&aacute;<br \/>\n    em nossas m&atilde;os o sujeit&aacute;-las cada vez mais &agrave; nossa vontade<br \/>\n    e, por meio delas, alcan&ccedil;ar os fins propostos. Tal &eacute; o que ocorre,<br \/>\n    muito especialmente, com as gigantescas for&ccedil;as modernas da produ&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Enquanto resistirmos obstinadamente a compreender sua natureza e seu car&aacute;ter<br \/>\n    &#8211; e a essa compreens&atilde;o se op&otilde;em o modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e seus defensores -, essas for&ccedil;as atuar&atilde;o apesar de n&oacute;s,<br \/>\n    e nos dominar&atilde;o, como bem ressaltamos. Em troca, assim que penetramos<br \/>\n    em sua natureza, essas for&ccedil;as, postas em m&atilde;os dos produtores<br \/>\n    associados, se converter&atilde;o de tiranos demon&iacute;acos em servas submissas.<br \/>\n    &Eacute; a mesma diferen&ccedil;a que h&aacute; entre o poder mal&eacute;fico<br \/>\n    da eletricidade nos raios da tempestade e o poder ben&eacute;fico da for&ccedil;a<br \/>\n    el&eacute;trica dominada no tel&eacute;grafo e no arco voltaico; a diferen&ccedil;a<br \/>\n    que h&aacute; entre o fogo destruidor e o fogo posto a servi&ccedil;o do homem.<br \/>\n    O dia em que as for&ccedil;as produtivas da sociedade moderna se submeterem<br \/>\n    ao regime congruente com a sua natureza por fim conhecida, a anarquia social<br \/>\n    da produ&ccedil;&atilde;o deixar&aacute; o seu posto &agrave; regulamenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    coletiva e organizada da produ&ccedil;&atilde;o, de acordo com as necessidades<br \/>\n    da sociedade e do indiv&iacute;duo. E o regime capitalista de apropria&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    em que o produto escraviza primeiro quem o cria e, em seguida, a quem dele<br \/>\n    se apropria, ser&aacute; substitu&iacute;do pelo regime de apropria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do produto que o car&aacute;ter dos modernos meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; reclamando: de um lado, apropria&ccedil;&atilde;o diretamente<br \/>\n    social, como meio para manter e ampliar a produ&ccedil;&atilde;o; de outro<br \/>\n    lado, apropria&ccedil;&atilde;o diretamente individual, como meio de vida<br \/>\n    e de proveito.<\/p>\n<p> O modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o, ao converter mais e mais em<br \/>\n    prolet&aacute;rios a imensa maioria dos indiv&iacute;duos de cada pais, cria<br \/>\n    a for&ccedil;a que, se n&atilde;o quiser perecer, est&aacute; obrigada a fazer<br \/>\n    essa revolu&ccedil;&atilde;o. E, ao for&ccedil;ar cada vez mais a convers&atilde;o<br \/>\n    dos grandes meios socializados de produ&ccedil;&atilde;o em propriedade do<br \/>\n    Estado, j&aacute; indica por si mesmo o caminho pelo qual deve produzir-se<br \/>\n    essa revolu&ccedil;&atilde;o. O proletariado toma em suas m&atilde;os o Poder<br \/>\n    do Estado e principia por converter os meios de produ&ccedil;&atilde;o em<br \/>\n    propriedade do Estado. Mas, nesse mesmo ato, destr&oacute;i-se a si pr&oacute;prio<br \/>\n    como proletariado, destruindo toda diferen&ccedil;a e todo antagonismo de<br \/>\n    classes, e com isso o Estado como tal. A sociedade, que se movera at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o entre antagonismos de classe, precisou do Estado, ou seja, de<br \/>\n    uma organiza&ccedil;&atilde;o da classe exploradora correspondente para manter<br \/>\n    as condi&ccedil;&otilde;es externas de produ&ccedil;&atilde;o e, portanto,<br \/>\n    particularmente, para manter pela for&ccedil;a a classe explorada nas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de opress&atilde;o (a escravid&atilde;o, a servid&atilde;o ou a vassalagem<br \/>\n    e o trabalho assalariado), determinadas pelo modo de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    existente. O Estado era o representante oficial de toda a sociedade, sua s&iacute;ntese<br \/>\n    num corpo social vis&iacute;vel; mas o era s&oacute; como Estado que, em sua<br \/>\n    &eacute;poca, representava toda a sociedade: na antiguidade era o Estado dos<br \/>\n    cidad&atilde;os escravistas, na Idade M&eacute;dia o da nobreza feudal; em<br \/>\n    nossos tempos, da burguesia. Quando o Estado se converter, finalmente, em<br \/>\n    representante efetivo de toda a sociedade, tornar-se-&aacute; por si mesmo<br \/>\n    sup&eacute;rfluo. Quando j&aacute; n&atilde;o existir nenhuma classe social<br \/>\n    que precise ser submetida; quando desaparecerem, juntamente com a domina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de classe, juntamente com a luta pela exist&ecirc;ncia individual, engendrada<br \/>\n    pela atual anarquia da produ&ccedil;&atilde;o, os choques e os excessos resultantes<br \/>\n    dessa luta, nada mais haver&aacute; para reprimir, nem haver&aacute; necessidade,<br \/>\n    portanto, dessa for&ccedil;a especial de repress&atilde;o que &eacute; o Estado.<\/p>\n<p> O primeiro ato em que o Estado se manifesta efetivamente como representante<br \/>\n    de toda a sociedade &#8211; a posse dos meios de produ&ccedil;&atilde;o em nome<br \/>\n    da sociedade &#8211; &eacute; ao mesmo tempo o seu &uacute;ltimo ato independente<br \/>\n    corno Estado. A interven&ccedil;&atilde;o da autoridade do Estado nas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sociais tornar-se-&aacute; sup&eacute;rflua num campo ap&oacute;s outro da<br \/>\n    vida social e cessar&aacute; por si mesma. O governo sobre as pessoas &eacute;<br \/>\n    substitu&iacute;do pela administra&ccedil;&atilde;o das coisas e pela dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos processos de produ&ccedil;&acirc;o. O Estado n&atilde;o ser&aacute; &quot;abolido&quot;,<br \/>\n    extingue-se. &Eacute; partindo da&iacute; que se pode julgar o valor do falado<br \/>\n    &quot;Estado popular livre&quot; no que diz respeito &agrave; sua justifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    provis&oacute;ria como palavra de ordem de agita&ccedil;&atilde;o e no que<br \/>\n    se refere &agrave; sua falta de fundamento cient&iacute;fico. &Eacute; tamb&eacute;m<br \/>\n    partindo da&iacute; que deve ser considerada a exig&ecirc;ncia dos chamados<br \/>\n    anarquistas de que o Estado seja abolido da noite para o dia.<\/p>\n<p> Desde que existe historicamente o modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    houve indiv&iacute;duos e seitas inteiras diante dos quais se projetou mais<br \/>\n    ou menos vagamente, como ideal futuro, a apropria&ccedil;&atilde;o de todos<br \/>\n    os meios de produ&ccedil;&atilde;o pela sociedade. Mas, para que isso fosse<br \/>\n    realiz&aacute;vel, para que se convertesse numa necessidade hist&oacute;rica,<br \/>\n    fazia-se preciso que se dessem antes as condi&ccedil;&otilde;es efetivas para<br \/>\n    a sua realiza&ccedil;&atilde;o. A fim de que esse progresso, como todos os<br \/>\n    progressos sociais, seja vi&aacute;vel, n&atilde;o basta ser compreendido<br \/>\n    pela raz&atilde;o que a exist&ecirc;ncia de classes &eacute; incompat&iacute;vel<br \/>\n    com os ditames da justi&ccedil;a, da Igualdade, etc.; n&atilde;o basta a simples<br \/>\n    vontade de abolir essas classes &#8211; mas s&atilde;o necess&aacute;rias determinadas<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas novas. A divis&atilde;o da sociedade<br \/>\n    em uma classe exploradora e outra explorada, em uma classe dominante e outra<br \/>\n    oprimida, era uma conseq&uuml;&ecirc;ncia necess&aacute;ria do anterior desenvolvimento<br \/>\n    incipiente da produ&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Enquanto o trabalho global da sociedade der apenas o estritamente necess&aacute;rio<br \/>\n    para cobrir as necessidades mais elementares de todos, e talvez um pouco mais;<br \/>\n    enquanto, por isso, o trabalho absorver todo&#8217; o tempo, ou quase todo o tempo,<br \/>\n    da imensa maioria dos membros da sociedade, esta se divide, necessariamente,<br \/>\n    em classes. Junto &agrave; grande maioria constrangida a n&atilde;o fazer<br \/>\n    outra coisa sen&atilde;o suportar a carga do trabalho, forma-se uma classe<br \/>\n    que se exime do trabalho diretamente produtivo e a cujo cargo&#8217; correm os assuntos<br \/>\n    gerais da sociedade: a dire&ccedil;&atilde;o dos trabalhos, os neg&oacute;cios<br \/>\n    p&uacute;blicos, a justi&ccedil;a, as ci&ecirc;ncias, as artes, etc., &Eacute;,<br \/>\n    pois, a lei da divis&atilde;o do trabalho que serve de base &agrave; divis&atilde;o<br \/>\n    da sociedade em classes. O que n&atilde;o impede que essa divis&atilde;o da<br \/>\n    sociedade em classes se realize por meio da viol&ecirc;ncia e a espolia&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a ast&uacute;cia e o logro; nem quer dizer que a classe dominante, uma vez<br \/>\n    entronizada, se abstenha de consolidar o seu poderio &agrave; custa da classe<br \/>\n    trabalhadora, transformando seu papel social de dire&ccedil;&atilde;o numa<br \/>\n    maior explora&ccedil;&atilde;o das massas.<\/p>\n<p> Vemos, pois, que a divis&atilde;o da sociedade em classes tem sua raz&atilde;o<br \/>\n    hist&oacute;rica de ser, mas s&oacute; dentro de determinados limites de tempo,<br \/>\n    sob determinadas condi&ccedil;&otilde;es sociais. Era condicionada pela insufici&ecirc;ncia<br \/>\n    da produ&ccedil;&atilde;o, e ser&aacute; varrida quando se desenvolverem plenamente<br \/>\n    as modernas for&ccedil;as produtivas. Com efeito, a aboli&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das classes sociais pressup&otilde;e um grau hist&oacute;rico de desenvolvimento<br \/>\n    tal que a exist&ecirc;ncia, j&aacute; n&atilde;o dessa ou daquela classe dominante<br \/>\n    concreta, mas de uma classe dominante qualquer que seja ela, e, portanto,<br \/>\n    das pr&oacute;prias diferen&ccedil;as de classe representa um anacronismo.<br \/>\n    Pressup&otilde;e, por conseguinte, um grau culminante no desen~o1vi-mento<br \/>\n    da produ&ccedil;&atilde;o em que a apropria&ccedil;&atilde;o dos meios de<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o e dos produtos e, portanto, do poder pol&iacute;tico,<br \/>\n    do monop&oacute;lio da cultura e da dire&ccedil;&atilde;o espiritual por uma<br \/>\n    determinada classe da sociedade, n&atilde;o s&oacute; se tornou de fato sup&eacute;rfluo,<br \/>\n    mas constitui econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica e intelectualmente uma barreira<br \/>\n    levantada ante o progresso. Pois bem, j&aacute; se chegou a esse ponto. Hoje,<br \/>\n    a bancarrota pol&iacute;tica e intelectual da burguesia n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mais um segredo nem para ela mesma e sua bancarrota econ&ocirc;mica &eacute;<br \/>\n    um fen&ocirc;meno que se repete periodicamente de dez em dez anos. Em cada<br \/>\n    uma dessas crises a sociedade se asfixia, afogada pela massa de suas pr&oacute;prias<br \/>\n    for&ccedil;as produtivas e de seus produtos, aos quais n&atilde;o pode aproveitar<br \/>\n    e, impotente, v&ecirc;-se diante da absurda contradi&ccedil;&atilde;o de que<br \/>\n    os seus produtores n&atilde;o tenham o que consumir, por falta precisamente<br \/>\n    de consumidores. A for&ccedil;a expansiva dos meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rompe as ataduras com que s&atilde;o submetidos pelo modo capitalista de produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    S&oacute; essa liberta&ccedil;&atilde;o dos meios de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que pode permitir o desenvolvimento ininterrupto e cada vez mais<br \/>\n    r&aacute;pido das for&ccedil;as produtivas e, com isso, o crescimento praticamente<br \/>\n    ilimitado da produ&ccedil;&atilde;o. Mas n&atilde;o- &eacute; apenas isso.<br \/>\n    A apropria&ccedil;&atilde;o social dos meios de produ&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; elimina os obst&aacute;culos artificiais hoje antepostos &agrave;<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o, mas p&otilde;e termo tamb&eacute;m ao desperd&iacute;cio<br \/>\n    e &agrave; devasta&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as produtivas e dos produtos,<br \/>\n    uma das conseq&uuml;&ecirc;ncias inevit&aacute;veis da produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    atual e que alcan&ccedil;a seu ponto culminante durante as crises. Ademais,<br \/>\n    acabando-se com o parvo desperd&iacute;cio do luxo das classes dominantes<br \/>\n    e seus representantes pol&iacute;ticos, ser&aacute; posta em circula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para a coletividade toda uma massa de meios de produ&ccedil;&atilde;o e de<br \/>\n    produtos. Pela primeira vez, surge agora, e surge de um modo efetivo, a possibilidade<br \/>\n    de assegurar a todos os membros da sociedade, atrav&eacute;s de um sistema<br \/>\n    de produ&ccedil;&atilde;o social, uma exist&ecirc;ncia que, al&eacute;m de<br \/>\n    satisfazer plenamente e ceda dia mais abundantemente suas necessidades materiais,<br \/>\n    lhes assegura o livre e completo desenvolvimento e exerc&iacute;cio de suas<br \/>\n    capacidades f&iacute;sicas e intelectuais (14).<\/p>\n<p> Ao apossar-se a sociedade dos meios de produ&ccedil;&atilde;o cessa a produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mercadorias e, com ela, o dom&iacute;nio do produto sobre os produtores.<br \/>\n    A anarquia reinante no seio da produ&ccedil;&atilde;o social cede o lugar<br \/>\n    a uma organiza&ccedil;&atilde;o planejada e consciente. Cessa a luta pela<br \/>\n    exist&ecirc;ncia individual e, assim, em certo sentido, o homem sal definitivamente<br \/>\n    do reino animal e se sobrep&otilde;e &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es animais<br \/>\n    de exist&ecirc;ncia, para submeter-se a condi&ccedil;&otilde;es de vida verdadeiramente<br \/>\n    humanas. As condi&ccedil;&otilde;es que cerca o homem e at&eacute; agora o<br \/>\n    dominam, colocam-se, a partir desse instante, sob seu dom&iacute;nio e seu<br \/>\n    comando e o homem, ao tomar-se dono e senhor de suas pr&oacute;prias rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sociais, converte-se pela primeira vez em senhor consciente e efetivo da natureza.<br \/>\n    As leis de sua pr&oacute;pria atividade social, que at&eacute; agora se erguiam<br \/>\n    frente ao homem como leis naturais, como poderes estranhos que o submetiam<br \/>\n    a seu imp&eacute;rio, s&atilde;o agora aplicadas por ele com pleno conhecimento<br \/>\n    de causa e, portanto, submetidas a seu poderio. A pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia<br \/>\n    social do homem, que at&eacute; aqui era enfrentada como algo imposto pela<br \/>\n    natureza e a hist&oacute;ria, &eacute; de agora em diante obra livre sua.<br \/>\n    Os poderes objetivos e estranhos que at&eacute; aqui vinham imperando na hist&oacute;ria<br \/>\n    colocam-se sob o controle do pr&oacute;prio homem. S&oacute; a partir de ent&atilde;o,<br \/>\n    ele come&ccedil;a a tra&ccedil;ar a sua hist&oacute;ria com plena consci&ecirc;ncia<br \/>\n    do que faz. E s&oacute; da&iacute; em diante as causas sociais postas em a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por ele come&ccedil;am a produzir predominantemente, e cada vez em maior medida,<br \/>\n    os efeitos desejados. &Eacute; o salto da humanidade do reino da necessidade<br \/>\n    para o reino da liberdade. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I &#8211; O Socialismo Ut\u00f3pico Cap\u00edtulo II &#8211; Dial\u00e9tica Cap\u00edtulo III &#8211; O Materialismo Hist\u00f3rico Cap&iacute;tulo I &#8211; O Socialismo Ut&oacute;pico O socialismo moderno &eacute;, em primeiro lugar, por seu conte&uacute;do, fruto do reflexo na intelig&ecirc;ncia, de um lado dos antagonismos de classe que imperam na 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