{"id":96181,"date":"2017-01-24T12:45:17","date_gmt":"2017-01-24T14:45:17","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96181"},"modified":"2017-01-24T12:45:17","modified_gmt":"2017-01-24T14:45:17","slug":"carta-a-augusto-bebel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/carta-a-augusto-bebel","title":{"rendered":"Carta a Augusto Bebel"},"content":{"rendered":"<h2>Friedrich Engels<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Londres, 18-28 de Mar\u00e7o de 1875 Meu caro Bebel:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recebi a sua carta de 23 de Fevereiro, e alegra-me que o seu estado de sa\u00fade seja t\u00e3o satisfat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea pergunta-me o que \u00e9 que n\u00f3s pensamos sobre essa hist\u00f3ria da unifica\u00e7\u00e3o. Infelizmente, passou-se connosco o mesmo que consigo. Nem Liebknecht nem ningu\u00e9m nos deu qualquer not\u00edcia, pelo que n\u00f3s apenas sabemos aquilo que dizem os jornais, que n\u00e3o trouxeram nada, at\u00e9 que, h\u00e1 uns oito dias, publicaram o projecto do programa. Imagine o espanto que esse projecto nos causou! O nosso Partido estendeu com tanta frequ\u00eancia a m\u00e3o aos partid\u00e1rios de Lassalle, para a concilia\u00e7\u00e3o, ou para, pelo menos, chegar a algum acordo, e os Hasenclever, Hassselmann e T\u00f6lcke sempre a recha\u00e7aram, dum modo t\u00e3o sistem\u00e1tico e desdenhoso, que at\u00e9 a uma crian\u00e7a podia ocorrer que se agora esses senhores v\u00eam, por si pr\u00f3prios, at\u00e9 n\u00f3s e nos oferecem a reconcilia\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque se encontram numa situa\u00e7\u00e3o de muito apuro. Dado o car\u00e1cter, sobejamente conhecido, dessa gente, o nosso dever era tirar o maior partido dessa situa\u00e7\u00e3o para exigir toda a esp\u00e9cie de garantias e n\u00e3o permitir que eles recuperassem a sua desacreditada posi\u00e7\u00e3o diante da opini\u00e3o oper\u00e1ria \u00e0 custa do nosso Partido. Havia que t\u00ea-los acolhido com extraordin\u00e1ria frieza e desconfian\u00e7a, fazer depender a unifica\u00e7\u00e3o do grau em que estivessem dispostos a renunciar aos seus chav\u00f5es sect\u00e1rios e \u00e0 sua ajuda pedida ao Estado, e, no essencial, de adoptar o programa de Eisenach de 1869, ou uma vers\u00e3o corrigida e adaptada aos tempos actuais. No aspecto te\u00f3rico, quer dizer, no que \u00e9 decisivo para o programa, o nosso Partido n\u00e3o tem absolutamente nada a aprender com os lassallianos; eles, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 que teriam que aprender. A primeira condi\u00e7\u00e3o para a unidade devia ter sido que deixassem de ser sect\u00e1rios, que deixassem de ser lassallianos e, portanto e antes demais, que renunciassem \u00e0 panaceia da ajuda do Estado, ou pelo menos, que a reconhecessem como uma entre tantas medidas transit\u00f3rias e secund\u00e1rias. O projecto de programa demonstra que a nossa gente, situada, teoricamente, muito acima dos dirigentes lassallianos, est\u00e1 muito aqu\u00e9m deles no que toca \u00e0 habilidade pol\u00edtica: os \u00abhonestos\u00bb viram-se, uma vez mais, burlados cruelmente pelos desonestos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, aceita-se a frase ribombante mas historicamente falsa de Lassalle: \u00abem rela\u00e7\u00e3o \u00e0 classe trabalhadora todas as outras mais n\u00e3o s\u00e3o do que uma massa reaccion\u00e1ria\u00bb. Esta frase s\u00f3 em alguns casos excepcionais \u00e9 verdadeira; por exemplo, numa revolu\u00e7\u00e3o do proletariado como a Comuna, ou num pa\u00eds onde n\u00e3o foi s\u00f3 a burguesia que criou o Estado e a sociedade \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, mas sim em que, depois dela, veio a pequena burguesia democr\u00e1tica e levou a transforma\u00e7\u00e3o operada at\u00e9 \u00e0s suas \u00faltimas consequ\u00eancias. Se, por exemplo, na Alemanha, a pequena burguesia democr\u00e1tica pertencesse a essa massa reaccion\u00e1ria, como poderia o Partido oper\u00e1rio social-democrata ter caminhado com ela ombro a ombro, com o Partido Popular, durante v\u00e1rios anos? Como poderia o \u00abVolsksstaatt\u00bb tirar a totalidade do conte\u00fado do seu programa pol\u00edtico do \u00abFrankfurter Zeitung\u00bb (1), peri\u00f3dico democr\u00e1tico pequeno-burgu\u00eas? E como podem, neste mesmo programa, incluir-se, pelo menos, sete reivindica\u00e7\u00f5es que, directa e literalmente, coincidem com o programa do Partido Popular e com o da democracia pequeno-burguesa? Refiro-me \u00e0s sete reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas numeradas de 1 a 5 e de 1 a 2 entre as quais n\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 que n\u00e3o seja democr\u00e1tico-burguesa(2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, renega-se, praticamente por completo, para o presente, o princ\u00edpio do internacionalismo do movimento oper\u00e1rio, e isto fazem-no homens que, durante cinco anos e nas mais duras circunst\u00e2ncias, defenderam, dum modo glorioso, este princ\u00edpio! A posi\u00e7\u00e3o que os trabalhadores alem\u00e3es ocupam hoje \u00e0 cabe\u00e7a do movimento europeu deve-se, essencialmente, \u00e0 atitude autenticamente internacionalista mantida durante a guerra (3); nenhum outro proletariado se teria comportado t\u00e3o bem. E v\u00e3o agora renegar este princ\u00edpio, no momento em que, em todos os pa\u00edses do estrangeiro, os oper\u00e1rios o reafirmam com o mesmo vigor com que os governos tratam de reprimir todo e qualquer intento de imp\u00f4lo numa organiza\u00e7\u00e3o? O que fica em p\u00e9 do internacionalismo do movimento oper\u00e1rio? A p\u00e1lida perspectiva, n\u00e3o j\u00e1 duma futura ac\u00e7\u00e3o conjunta dos trabalhadores europeus para a sua emancipa\u00e7\u00e3o, mas de uma futura \u00abfraternidade internacional dos povos\u00bb, dos \u00abEstados Unidos da Europa\u00bb dos burgueses da Liga para a Paz! N\u00e3o havia, naturalmente, raz\u00e3o para falar da Internacional como tal. Mas, pelo menos, era preciso n\u00e3o dar nenhum passo atr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o ao programa de 1869; e podia dizer-se, por exemplo, que, ainda que o Partido Oper\u00e1rio Alem\u00e3o seja obrigado a actuar, antes de mais, dentro das fronteiras do Estado de que faz parte (n\u00e3o tem o direito de falar em nome do proletariado europeu, nem, muito menos, o de dizer coisas falsas), tem consci\u00eancia da sua solidariedade para com os trabalhadores de todos os pa\u00edses e estar\u00e1 sempre disposto a continuar, como at\u00e9 agora, cumprindo os deveres que tal solidariedade imp\u00f5em. Estes deveres existem embora se n\u00e3o considerem nem proclamem como parte da Internacional. S\u00e3o, por exemplo: os aux\u00edlios, em caso de necessidade; a oposi\u00e7\u00e3o ao envio de oper\u00e1rios estrangeiros que substituam os grevistas em caso de greve; as medidas tomadas para que os \u00f3rg\u00e3os do Partido informem os trabalhadores alem\u00e3es sobre o movimento oper\u00e1rio no estrangeiro; a agita\u00e7\u00e3o contra as guerras ou amea\u00e7as de guerra, provocadas pelas chancelarias; a atitude a observar, durante essas guerras, como assumida e exemplarmente pelo proletariado alem\u00e3o em 1870-1871, etc..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em terceiro lugar, a nossa gente deixou que lhe impusessem a \u00ablei de bronze do sal\u00e1rio\u00bb lassalliana, baseada numa concep\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica inteiramente caduca, a saber: que o trabalhador n\u00e3o recebe, em m\u00e9dia, mais do que um sal\u00e1rio m\u00ednimo e isto porque, segundo a teoria malthusiana da popula\u00e7\u00e3o, h\u00e1 sempre trabalhadores de sobra (era esta a argumenta\u00e7\u00e3o de Lassalle). Ora bem: Marx demonstrou, minuciosamente, em O CAPITAL, que as leis que regulam os sal\u00e1rios s\u00e3o muito complexas, que t\u00e3o depressa predomina um factor como outro, segundo as circunst\u00e2ncias; que, portanto, esta lei n\u00e3o \u00e9, de modo algum, de bronze, mas, pelo contr\u00e1rio, muito el\u00e1stica, e que o problema n\u00e3o pode ser resolvido assim, em duas palavras, como pensava Lassalle. A fundamenta\u00e7\u00e3o que Maltus d\u00e1 da lei de Ricardo (falseando este \u00faltimo), tal como pode ver-se, por exemplo, citada noutro folheto de Lassalle, no \u00abManual do trabalhador\u00bb, p\u00e1gina 5, foi refutada, com todo o pormenor, por Marx, no cap\u00edtulo sobre \u00aba acumula\u00e7\u00e3o do Capital\u00bb. Assim, pois, ao adoptar a \u00ablei de bronze\u00bb de Lassalle, pronunciaram-se a favor dum princ\u00edpio falso e duma demonstra\u00e7\u00e3o falaciosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em quarto lugar, o programa, prop\u00f5em como \u00fanica reivindica\u00e7\u00e3o social, a ajuda estatal lassalliana, na sua forma mais descarada, tal como Lassalle a plagiou de Buchez. E isto depois de Bracke ter demonstrado sobejamente a inocuidade dessa reivindica\u00e7\u00e3o (4), depois de quase todos, se n\u00e3o todos, os oradores do nosso partido se terem visto obrigados, na sua luta contra os lassallianos, a combat\u00ea-la. N\u00e3o poderia o nosso partido chegar a maior humilha\u00e7\u00e3o. O internacionalismo rebaixado ao n\u00edvel dum Armand Goegg, o socialismo \u00e0 altura dum republicano burgu\u00eas, Buchez, que apresentava esta reivindica\u00e7\u00e3o diante dos socialistas para os combater.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na melhor das hip\u00f3teses, a \u00abajuda do Estado \u00bb, no sentido lassalliano, n\u00e3o deveria ser mais do que uma entre tantas medidas para conseguir o objectivo que aqui se define com as defeituosas palavras: \u00abpreparar o caminho \u00e0 solu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o social\u00bb, como se, para n\u00f3s, existisse, porventura, uma quest\u00e3o social que estivesse teoricamente por resolver! Se, portanto, se tivesse dito: o Partido oper\u00e1rio alem\u00e3o pretende abolir o trabalho assalariado, e, com ele, as diferen\u00e7as de classe, implantando a produ\u00e7\u00e3o cooperativa na ind\u00fastria e n agricultura a uma escala nacional, e advoga, por todas e cada uma das medidas adequadas, a consecuss\u00e3o deste objectivo, nenhum lassalliano teria fosse o que fosse a objectar sobre isto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em quinto lugar, n\u00e3o se diz absolutamente nada sobre a organiza\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria, como tal, nos sindicatos. E \u00e9 este um ponto essencial\u00edssimo, pois trata-se da verdadeira organiza\u00e7\u00e3o de classe do proletariado, na qual este trava as suas lutas di\u00e1rias com o capital, se educa e disciplina a si mesmo, organiza\u00e7\u00e3o que hoje, contra a mais negra reac\u00e7\u00e3o (como agora em Paris), n\u00e3o pode ser destru\u00edda. Dada a import\u00e2ncia tomada por esta organiza\u00e7\u00e3o, na Alemanha tamb\u00e9m, teria sido, em nossa opini\u00e3o, absolutamente necess\u00e1rio t\u00ea-la mencionado no programa e ter-lhe reservado, se poss\u00edvel, um lugar na organiza\u00e7\u00e3o do Partido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas estas concess\u00f5es fez a nossa gente para agradar aos lassallianos. E que lhes foi cedido em troca? O figurar no programa um mont\u00e3o de reivindica\u00e7\u00f5es puramente democr\u00e1ticas e bastante embrulhadas, algumas das quais mais n\u00e3o s\u00e3o do que quest\u00e3o de moda, como por exemplo, \u00aba legisla\u00e7\u00e3o popular directa\u00bb, que existe na Sui\u00e7a, onde causa mais preju\u00edzos do que benef\u00edcios, se \u00e9 que pode dizer-se que causa alguma coisa. Ainda se se tratasse de administra\u00e7\u00e3o pelo povo! Falta, igualmente, a condi\u00e7\u00e3o primeira de toda a liberdade: que todos os funcion\u00e1rios sejam respons\u00e1veis, quanto aos seus actos de servi\u00e7o, em rela\u00e7\u00e3o a todo o cidad\u00e3o, perante os tribunais comuns e segundo as leis gerais. E n\u00e3o quero falar de reivindica\u00e7\u00f5es como a de liberdade de consci\u00eancia, que figuram em qualquer programa liberal burgu\u00eas e que soam aqui a alguma coisa de falso, sem cabimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Estado popular livre converteu-se num Estado livre. Gramaticamente falando, um Estado livre \u00e9 um Estado que \u00e9 livre em rela\u00e7\u00e3o aos seus cidad\u00e3o, quer dizer, um Estado com um Governo desp\u00f3tico. teria que abandonar-se toda essa charlatanice acerca do Estado, sobretudo depois da Comuna, que j\u00e1 n\u00e3o era um Estado no verdadeiro sentido da palavra. Os anarquistas atiraram-nos \u00e0 cara, para al\u00e9m das marcas, essa coisa do \u00abEstado Popular\u00bb, mal grado a obra de Marx contra Proudhon (5) e depois, o Manifesto Comunista claramente dizerem que, com a implanta\u00e7\u00e3o do regime social socialista, o Estado se dissolver\u00e1 por si mesmo e desaparecer\u00e1. Sendo o Estado uma institui\u00e7\u00e3o meramente transit\u00f3ria, que, na luta, na revolu\u00e7\u00e3o, se utiliza para, pela viol\u00eancia, submeter os advers\u00e1rios, \u00e9 um perfeito absurdo falar em Estado popular livre: enquanto o proletariado necessitar do Estado, n\u00e3o precisar\u00e1 dele para a liberdade, mas para submeter os seus advers\u00e1rios, e, t\u00e3o prontamente como seja poss\u00edvel falar de liberdade, assim o Estado, como tal, deixar\u00e1 de existir. Por isso propor\u00edamos dizer sempre, em vez da palavra Estado, a palavra Comunidade (Gemeinwesen), uma boa antiga palavra alem\u00e3 que equivale \u00e0 palavra francesa Comuna (Commune).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00abSupress\u00e3o de toda a desigualdade social e pol\u00edtica\u00bb, em vez de \u00ababoli\u00e7\u00e3o de todas as diferen\u00e7as de classes\u00bb, \u00e9 tamb\u00e9m uma frase muito discut\u00edvel. De um pa\u00eds para outro, de uma regi\u00e3o para outra, de um lugar para outro inclusiv\u00e9 existir\u00e1 sempre uma certa desigualdade quanto \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida, que poder\u00e1 reduzir-se ao m\u00ednimo, mas nunca suprimir-se por completo. Os habitantes do Alpes viver\u00e3o sempre em condi\u00e7\u00f5es diferentes das dos habitantes da plan\u00edcie. Representar-se a sociedade Socialista com o reino da igualdade \u00e9 uma m\u00edope concep\u00e7\u00e3o francesa, apoiada no velho tema Liberdade, igualdade, fraternidade; uma concep\u00e7\u00e3o que teve a sua raz\u00e3o de ser, porque correspondia a uma fase de evolu\u00e7\u00e3o, no seu tempo e no seu lugar, mas que devia hoje estar superada, do mesmo modo que tudo o que h\u00e1 de demasiado estreito nas escolas socialistas anteriores, uma vez que s\u00f3 origina confus\u00f5es, e porque, demais a mais, j\u00e1 foi substitu\u00edda por concep\u00e7\u00f5es mais precisas, que respondem melhor \u00e0s realidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E termino aqui, conquanto houvesse que criticar quase cada palavra deste programa, redigido, de resto, sem nervo nem brio. A tal ponto que, no caso de ser aprovado, o Marx e eu nunca poder\u00edamos militar no novo Partido erguido sobre esta base e, muito seriamente, ter\u00edamos que meditar sobre que atitude adoptar em rela\u00e7\u00e3o a ele, at\u00e9 publicamente. Imagine voc\u00ea que, no estrangeiro, nos consideram respons\u00e1veis a n\u00f3s por todas e cada uma das ac\u00e7\u00f5es e das declara\u00e7\u00f5es do Partido oper\u00e1rio social-democrata Alem\u00e3o. \u00c9 o que faz, por exemplo, Bakunine, na sua obra \u00abPol\u00edtica e Anarquia\u00bb, em que nos apresenta como respons\u00e1veis por cada palavra irreflectida, proferida ou escrita por Liebknecht, desde a funda\u00e7\u00e3o do Demokratisches Wochenblatt (6). As pessoas imaginam, com efeito, que n\u00f3s dirigimos daqui toda esta hist\u00f3ria, quando voc\u00eas, t\u00e3o bem como eu, sabe que quase nunca nos imiscu\u00edmos, no m\u00ednimo que fosse, nos assuntos internos do Partido, e que, se por acaso o fizemos, apenas foi para, no poss\u00edvel, corrigir os erros que, em nosso parecer, se haviam cometido, e, ali\u00e1s, s\u00f3 quando se tratava de erros te\u00f3ricos. Mas voc\u00ea mesmo compreender\u00e1 que este programa representa uma viragem, que poderia muito bem obrigar-nos a recusar toda e qualquer esp\u00e9cie de solidariedade com o Partido que o adoptasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em geral, importam menos os programas oficiais dos Partidos do que os seus actos. Mas um novo programa \u00e9 sempre como que uma bandeira que publicamente se hasteia e pela qual se julga o Partido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o deveria, portanto, de modo algum, representar um retrocesso, como o que este representa, relativamente ao programa de Eisenach. E seria tamb\u00e9m de ter-se em conta o que os trabalhadores dos outros pa\u00edses dir\u00e3o deste programa e a impress\u00e3o que, no estrangeiro, esta genuflex\u00e3o de todo o proletariado social-democrata alem\u00e3o diante do lassallianismo h\u00e1-de causar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De resto, estou convencido de que a uni\u00e3o feita nesta base nem um ano durar\u00e1. As melhores cabe\u00e7as do nosso Partido v\u00e3o prestar-se, a partir de agora, a aprender de mem\u00f3ria e a recitar de cor as teses lassallianas sobre a lei de bronze do sal\u00e1rio e a ajuda do estado? Queria eu v\u00ea-lo a voc\u00ea, por exemplo, metido nisso! E se fossem capazes de faz\u00ea-lo, os ouvintes assobi\u00e1-los-iam. Ora, estou certo de que os lassallianos se aferram precisamente a essas partes do programa, como o usur\u00e1rio Shylock \u00e0 sua libra de carne humana (7). Vir\u00e1 a cis\u00e3o; teremos, por\u00e9m, \u00abdevolvido a honestidade\u00bb aos Hasselmann, aos Hasenclever, aos T\u00f6lcke e seus consortes; n\u00f3s sairemos enfraquecidos do diss\u00eddio e os lassallianos fortalecidos; o nosso Partido ter\u00e1 perdido a sua imunidade pol\u00edtica e jamais poder\u00e1 voltar a combater com firmeza a oca fraseologia de Lassalle, que ele pr\u00f3prio levou inscrita nas suas bandeiras durante algum tempo; e se, ent\u00e3o, os lassallianos voltarem a dizer s\u00e3o eles o verdadeiro e \u00fanico partido oper\u00e1rio e que os nossos s\u00e3o burgueses, l\u00e1 estar\u00e1 o programa para o demonstrar. Quantas medidas socialistas nele figuram \u00e9 deles que procedem, e a \u00fanica coisa que o nosso Partido fez vingar foram as reivindica\u00e7\u00f5es da democracia pequeno-burguesa, a qual tamb\u00e9m ele considera, no mesmo programa, como parte da \u00abmassa reaccion\u00e1ria\u00bb! Demorei em fazer-lhe chegar esta carta, porque sabia que, em honra do anivers\u00e1rio de Bismark, voc\u00ea s\u00f3 seria posto em liberdade no primeiro de Abril, e n\u00e3o queria exp\u00f4-lo ao risco de que a interceptassem se procurasse mand\u00e1-la por contrabando. Entretanto, acabo de receber uma carta de Bracke, o qual faz tamb\u00e9m graves reparos ao programa e quer conhecer a nossa opini\u00e3o. Por isso, e para ganhar tempo, envio-lha por seu interm\u00e9dio, para que ele tamb\u00e9m a leia, e eu n\u00e3o tenha, assim, necessidade de repetirlhe toda a hist\u00f3ria. Demais a mais, tamb\u00e9m falei claro a Ramm(8), e a Liebknecht escrevi concisamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ele n\u00e3o perdoo que n\u00e3o nos tenha dito uma s\u00f3 palavra sobre o assunto (enquanto Ramm e outros acreditavam que nos havia informado pormenorizadamente), antes que j\u00e1 fosse, digamos assim, demasiado tarde. Ali\u00e1s, sempre fez o mesmo &#8211; e da\u00ed o mont\u00e3o de cartas desagrad\u00e1veis que o Marx e eu troc\u00e1mos com ele &#8211; mas, desta feita, a coisa \u00e9 demasiado grave e, decididamente, j\u00e1 n\u00e3o podemos caminhar juntos. Trate de arranjar as coisas para vir at\u00e9 c\u00e1 no ver\u00e3o. Alojar-se-\u00e1, naturalmente, em minha casa e, se estiver bom tempo, iremos passar alguns dias \u00e0 beira-mar, coisa que muito lhe convir\u00e1, depois de ter ouvido todas estas recrimina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cordialmente seu, F.E.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marx acaba de mudar de casa; ele tem, agora, o seguinte endere\u00e7o: 41, Maitland Park Grescent, N.W. &#8211; LONDON.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(1) Frankfurter Zeitung und Handelsblatt (A Gazeta de Froncforte e Jornal do Com\u00e9rcio) &#8211; o Di\u00e1rio de tend\u00eancia democr\u00e1tica pequeno-burguesa, que se publicou de 1856 a 1943 (o t\u00edtulo supra foi-lhe dado em 1866). (retornar ao texto) (2) Estas reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do programa de Gotha diziam: \u00abO Partido oper\u00e1rio alem\u00e3o exige assegurar a base livre do Estado: 1\u00ba &#8211; Sufr\u00e1gio Universal, igual directo, e por meio de escrut\u00ednio secreto para todos os homens desde os 21 anos, em todas as elei\u00e7\u00f5es nacionais e municipais; 2\u00ba &#8211; Legisla\u00e7\u00e3o directa pelo povo com direito a iniciativa e de veto; 3\u00ba &#8211; Instru\u00e7\u00e3o militar para todos. Mil\u00edcias do povo em vez de ex\u00e9rcito permanente. As decis\u00f5es acerca da guerra e da Paz dever\u00e3o tomar-se por meio da representa\u00e7\u00e3o do povo; 4\u00ba &#8211; Derroga\u00e7\u00e3o de todas as leis de car\u00e1cter excepcional e sobretudo, as da imprensa, reuni\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o; 5\u00ba Tribunal do povo. Gratuitidade da justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Partido oper\u00e1rio alem\u00e3o exige para assegurar o fundamento espiritual e moral do Estado: 1\u00ba- Educa\u00e7\u00e3o popular geral e igual, a cargo do Estado. Assist\u00eancia escolar obrigat\u00f3ria para todos. Instru\u00e7\u00e3o gratuita. 2\u00ba &#8211; Liberdade de consci\u00eancia\u00bb . (retornar ao texto) (3) Trata-se da guerra franco-prussiana de 1870-1871. (retornar ao texto) (4) Engels refere-se ao folheto de W. Bracke: \u00abAs propostas de Lassalle\u00bb, aparecido em 1873. (retornar ao texto) (5) Engels refere-se Mis\u00e9ria da Filosofia. Vide Karl Marx &#8211; Mis\u00e9ria da Filosofia. Resposta \u00e0 \u00abFilosofia da Mis\u00e9ria\u00bb de Proudhon. (retornar ao texto) (6) Demokratisches Wochenblatt (hebdomad\u00e1rio democr\u00e1tico) &#8211; jornal alem\u00e3o. Publicou-se, com este t\u00edtulo, em Leipzig, de janeiro de 1868 a Setembro de 1869, sob a direc\u00e7\u00e3o de W. Liebknecht. Este jornal desempenho um importante papel na funda\u00e7\u00e3o do partido oper\u00e1rio social-democrata da Alemanha. No Congresso de Eisenach, em 1869, o jornal foi proclamado \u00f3rg\u00e3o central do partido e recebeu, ent\u00e3o, o t\u00edtulo &#8211; Volkstaat. Marx e Engels colaboraram no jornal. (retornar ao texto) (7) Ver Shakespear, O Mercador de Veneza. (retornar ao texto) 8. Hermann Ramm: um dos redactores do \u00abVolkstaat\u00bb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Friedrich Engels Londres, 18-28 de Mar\u00e7o de 1875 Meu caro Bebel: Recebi a sua carta de 23 de Fevereiro, e alegra-me que o seu estado de sa\u00fade seja t\u00e3o satisfat\u00f3rio. Voc\u00ea pergunta-me o que \u00e9 que n\u00f3s pensamos sobre essa hist\u00f3ria da unifica\u00e7\u00e3o. Infelizmente, passou-se connosco o mesmo que consigo. 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