{"id":96134,"date":"2017-01-24T11:11:16","date_gmt":"2017-01-24T13:11:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96134"},"modified":"2017-01-24T11:11:16","modified_gmt":"2017-01-24T13:11:16","slug":"o-sacrificio-franklin-tavora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-sacrificio-franklin-tavora","title":{"rendered":"O Sacrif\u00edcio &#8211; Franklin T\u00e1vora"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#15\">Cap\u00edtulo XV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#16\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#17\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#18\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#19\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Franklin T\u00e1vora<\/h2>\n<h2><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I<\/a><\/h2>\n<p>Todas as vezes que passo pela estrada de Jo&atilde;o de Barros, no Recife,<br \/>\n    acode-me &agrave; mem&oacute;ria o vale de Santar&eacute;m, onde Garret deu<br \/>\n    vida e movimento &agrave; &quot;Menina dos Rouxin&oacute;is&quot;, que &quot;refletiam<br \/>\n    o vi&ccedil;o do prado, a frescura e anima&ccedil;&atilde;o do bosque, a flutua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a transpar&ecirc;ncia do mar.&quot;\n  <\/p>\n<p>  Em lugar do &aacute;lamo, do freixo e da faia, que &quot;entrela&ccedil;avam<br \/>\n  os ramos amigos&quot;; em lugar da &quot;congossa e dos brotos que vestem e<br \/>\n  alcatifam o ch&atilde;o&quot;, no vale descrito pelo poeta, as mangueiras formam<br \/>\n  na estrada com suas ab&oacute;badas de folhagens sombras amenas e deleitosas;<br \/>\n  as cajazeiras, cujos troncos se cobrem de naturais relevos, erguem aos c&eacute;us<br \/>\n  galhos finos, guarnecidos de folhas mi&uacute;das, que se assemelham &agrave;s<br \/>\n  verdes franjas dos templos; o jatob&aacute; solit&aacute;rio abre os galhos,<br \/>\n  como abriria os bra&ccedil;os um gigante para lutar. H&aacute; na estrada, como<br \/>\n  no vale, a madressilva, malva-rosa do valado. H&aacute; moitas de cinamomos,<br \/>\n  tou&ccedil;as de manjeric&otilde;es e alecrins, que matizam o vasto ch&atilde;o.<br \/>\n  H&aacute; os formos&iacute;ssimos risos do prado, que penduram dos port&otilde;es<br \/>\n  ou dos muros dos s&iacute;tios ao longo das ramadas com flores, escarlates pela<br \/>\n  manh&atilde;, arroxeadas de tarde, aveludadas sempre e a modo de resplandecente,<br \/>\n  como se a m&atilde;o de artista insigne as houvesse polido e esmaltado com os<br \/>\n  reflexos da aurora e as cores do sol poente. <\/p>\n<p> N&atilde;o deitam por ali rouxin&oacute;is desgarradas toadas em regular<br \/>\n    desafio; os xex&eacute;us e os sabi&aacute;s, por&eacute;m, com seus cantos<br \/>\n    trazem a solid&atilde;o em permanente festa; o cajueiral tem harmonias, o<br \/>\n    laranjal intermitentes rumores saudosos; a paisagem, horizontes verdes e ondulantes.<\/p>\n<p> Para mais real&ccedil;ar a suavidade do quadro, em vez da casa antiga, onde<br \/>\n    cantavam os tais p&aacute;ssaros, v&ecirc;-se no fim da estrada a graciosa<br \/>\n    capela de Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o, que &eacute; o principal<br \/>\n    ornamento daquele primoroso &Eacute;den. Atrav&eacute;s das janelas da sagrada<br \/>\n    habita&ccedil;&atilde;o, vozes inspiradas de elegantes e inocentes virgens<br \/>\n    v&atilde;o ressoar no vasto arvoredo por ocasi&atilde;o das novenas, que os<br \/>\n    devotos e vizinhos da Santa celebram em dezembro, &eacute;poca em que a estrada<br \/>\n    aumenta de del&iacute;cias, porque os cajueiros e as jaqueiras embalsamam<br \/>\n    com seus aromas o ambiente, e &eacute; tudo ali alegria, florido, e tudo fala<br \/>\n    de paix&otilde;es moderadas, sem desejos desonestos.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o &eacute; somente nos mimos da Natureza que a estrada pitoresca<br \/>\n    rivaliza com o ameno vale. Tamb&eacute;m ali se gerou um drama tern&iacute;ssimo,<br \/>\n    tamb&eacute;m nela se passou uma hist&oacute;ria de gentil suavidade e triste<br \/>\n    harmonia, que conv&eacute;m se ponha por escritura nas letras do nosso idioma.<\/p>\n<p> Num dos mais apraz&iacute;veis s&iacute;tios, que a espa&ccedil;os ornam<br \/>\n    de um e de outro lado a estrada, morava, h&aacute; coisa de seis anos, uma<br \/>\n    senhora, vi&uacute;va, idosa, sem filhos mas com alguns meios que lhe davam<br \/>\n    para viver, tendo em sua companhia uma irm&atilde; solteirona e duas ou tr&ecirc;s<br \/>\n    crias da casa. No tempo em que se passa esta ver&iacute;dica hist&oacute;ria,<br \/>\n    ao n&uacute;mero dos que em casa de D. Rosalina viviam &agrave; conta de filhos<br \/>\n    era preciso ajuntar um mo&ccedil;o de vinte e dois anos de idade, seu sobrinho,<br \/>\n    por nome de &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> Depois de graduado em Direito, deixando todo o curso escolar, transportara-se<br \/>\n    para uma povoa&ccedil;&atilde;o da beira-mar , ao sul da prov&iacute;ncia.<br \/>\n    Morava a&iacute; o seu pai pobre e cansado de fazer sacrif&iacute;cios para<br \/>\n    ajudar na aquisi&ccedil;&atilde;o do pergaminho, seu encantado sonho. &Acirc;ngelo<br \/>\n    tinha talento e na Faculdade pudera ganhar nomeada de estudioso e morigerado.<br \/>\n    Ainda me lembram as circunst&acirc;ncias em que o vi pela primeira vez. Foi<br \/>\n    por ocasi&atilde;o de prestarmos os nossos primeiros exames. &Acirc;ngelo<br \/>\n    acertou de se sentar junto de mim. Era louro. Tinha os olhos t&atilde;o verdes<br \/>\n    como a muiraquit&atilde; das amazonas. A jaqueta de pano azul, j&aacute; um<br \/>\n    tanto usada, as cal&ccedil;as de brim pardo com algumas escoria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    na altura dos joelhos, os sapat&otilde;es, e, por cima do trajo humilde, o<br \/>\n    gesto triste, posto que resignado, ao lado do porte grave, mas parecendo preso,<br \/>\n    estavam indicando que no jovem estudante havia menos um filho, do que um enteado<br \/>\n    da fortuna.<\/p>\n<p> O pai de &Acirc;ngelo chamara-o para junto de si, animado das mais risonhas<br \/>\n    esperan&ccedil;as, que n&atilde;o deixavam de ter leg&iacute;timo fundamento.<br \/>\n    Sendo a povoa&ccedil;&atilde;o, que ficava perto da sede da comarca, cercada<br \/>\n    de engenhos e tendo os propriet&aacute;rios rurais quase particular paix&atilde;o<br \/>\n    pelos lit&iacute;gios sobre terras, os quais, para assim escrevermos, constituem<br \/>\n    o principal foro matuto, n&atilde;o andar&aacute; longe de acertar com o caminho<br \/>\n    da fortuna o pai do jovem bacharel, conjeturando que muito faria este a&iacute;<br \/>\n    pela advocacia. Mas todos os brilhantes c&aacute;lculos falharam. Quando estamos<br \/>\n    em luta com o infort&uacute;nio, os semblantes risonhos s&atilde;o m&aacute;scaras<br \/>\n    trai&ccedil;oeiras, que encobrem h&oacute;rridos car&otilde;es; a sorte, algumas<br \/>\n    vezes, parece sorrir para n&oacute;s; mas o que se nos afigura sorriso lisonjeiro,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o o riso escarninho.<\/p>\n<p> Inteiramente desiludido, o bacharel voltara ao Recife, resoluto a tentar<br \/>\n    o que na povoa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o surtira efeito &#8211; a advocacia, j&aacute;<br \/>\n    sumamente explorada.<\/p>\n<p> A casa da tia tinha para ele as portas abertas como tinha ela o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e &agrave; mesa estava ainda vazio o lugar que ocupara o estudante.<\/p>\n<p> Com o p&eacute; direito, entrou &Acirc;ngelo novamente no Recife, porque<br \/>\n    dentro de pouco tempo teve clientes, e entreviu no futuro castelos espl&ecirc;ndidos.<br \/>\n    Nos primeiros meses, depois de sua chegada, ganhou uma causa importante, de<br \/>\n    cuja defesa o incumbira a generosidade de um colega. &Acirc;ngelo, mostrando<br \/>\n    as notas do Banco, que recebera em pagamento, dizia &agrave; D. Rosalina estas<br \/>\n    palavras:<br \/>\n    &#8211; Matei o drag&atilde;o, minha tia! Vou agora tomar conta do pomar das Hesp&eacute;rides.<\/p>\n<p> Tal era &Acirc;ngelo no come&ccedil;o desta hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> Morava tamb&eacute;m na estrada, para l&aacute; da Concei&ccedil;&atilde;ozinha<br \/>\n    (nome com que designam a capela os habitantes dos arredores), um mo&ccedil;o<br \/>\n    que fora colega de &Acirc;ngelo nos preparat&oacute;rios. Circunst&acirc;ncias<br \/>\n    particulares tinham apartado Martins da carreira das letras. Casara-se, indo<br \/>\n    morar naquele canto, onde uma pequena ind&uacute;stria, que exercia, lhe dera<br \/>\n    meios para viver com sua mulher e filhos. Mas, como os h&aacute;bitos que<br \/>\n    se casam com as voca&ccedil;&otilde;es naturais dificilmente se perdem, Martins,<br \/>\n    com ser agora pai de fam&iacute;lia e homem de neg&oacute;cios, n&atilde;o<br \/>\n    esquecia as musas, que quando estudante cultivara com freq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    e fervor. N&atilde;o podendo tratar de letras e versos todos os dias, institu&iacute;ra,<br \/>\n    para trazer sempre alentado o fogo do antigo culto, uma esp&eacute;cie de<br \/>\n    retiro liter&aacute;rio aos domingos em sua casa. Os suaves momentos que se<br \/>\n    passavam na apraz&iacute;vel estrada; as distintas prendas que, com o engenho<br \/>\n    po&eacute;tico, Martins tivera em dote de natureza e a educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aumentara e polira; as gra&ccedil;as, as virtudes, o g&ecirc;nio essencialmente<br \/>\n    servi&ccedil;al e hospitaleiro de D. Eug&ecirc;nia, sua mulher; a conviv&ecirc;ncia<br \/>\n    &iacute;ntima, nas condi&ccedil;&otilde;es de respeitosa, mas franca e fraternal<br \/>\n    cordialidade, que constitu&iacute;am a base principal do retiro liter&aacute;rio<br \/>\n    dava a esta divers&atilde;o semanal t&atilde;o particulares atrativos que<br \/>\n    dos escolhidos para tomarem parte nele, raros eram os que se poderiam acusar<br \/>\n    de inobservantes do primeiro precito da comunh&atilde;o &#8211; a pontualidade.<\/p>\n<p> Sem as donzelas das vizinhan&ccedil;as, elegantes criaturas que s&atilde;o<br \/>\n    os g&ecirc;nios protetores daquele encantado ermo, que sorte teria o retiro<br \/>\n    liter&aacute;rio, com ser atrativo por outras muitas circunst&acirc;ncias?<br \/>\n    A mesma que entre n&oacute;s tem dado sepultura a inumer&aacute;veis associa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    depois e alguns meses de fundadas. Aquela inspira&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m,<br \/>\n    preveniu a ru&iacute;na da companhia. N&atilde;o era esta numerosa, mas distinta.<br \/>\n    Durante a reuni&atilde;o, serviam-se frutas da esta&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    abundavam no s&iacute;tio; raras vezes se davam a beber bebidas espirituosas.<br \/>\n    Depois das discuss&otilde;es, sempre em fam&iacute;lia, ou das leituras, ou<br \/>\n    das frutas, tocava-se piano; algumas vezes, cantava-se. Quase sempre o ajuntamento<br \/>\n    acabava em passeios que se prolongavam at&eacute; as estradas de Jo&atilde;o<br \/>\n    Fernandes, Vieira e de Bel&eacute;m, as quais em seus mimos naturais se aproximavam<br \/>\n    da de Jo&atilde;o de Barros.<\/p>\n<h2><a name=\"2\">Cap&iacute;tulo II<\/a><\/h2>\n<p>Um domingo em que a estrada como se adivinhasse a import&acirc;ncia especial<br \/>\n    do dia amanhecera arreada com suas mais belas e frescas lou&ccedil;anias,<br \/>\n    recebeu &Acirc;ngelo, ainda na cama, um bilhete de Martins:<br \/>\n    Eis o que escrevera este:\n  <\/p>\n<p>  &quot;N&atilde;o h&aacute; hoje retiro, mas pe&ccedil;o-te que n&atilde;o faltes<br \/>\n  por cosa nenhuma. Temos mangabas excelentes, mangas insignes, e para o jantar<br \/>\n  feijoada sem rival. <\/p>\n<p> Melhor ser&aacute; que venhas passar o dia conosco, principiando pelo almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o quero ocultar-te uma circunst&acirc;ncia que talvez ignores.<br \/>\n    Eug&ecirc;nia faz anos.&quot;<br \/>\n    A casa de Martins nunca oferecera aos que costumavam freq&uuml;ent&aacute;-la<br \/>\n    t&atilde;o grata hospitalidade.<\/p>\n<p> Nesse dia, a casa oferecia ainda melhores aconchegos e comodidades do que<br \/>\n    nos outros, sem contudo ostentar custosas galas. Havia profus&atilde;o de<br \/>\n    flores e frutos pelas mesas. O piano surgia dentre moitas de alecrim, habilmente<br \/>\n    formadas e entrela&ccedil;adas com ramos de pitangueira e resed&aacute;. Grinaldas<br \/>\n    de madressilva, em que se entremeavam rosas, pendiam das janelas e das portas.<br \/>\n    Um salgueiro que ficava na entrada da casa, e junto do qual era costume reunir-se<br \/>\n    ao anoitecer, nos dias de reuni&atilde;o, a alegre companhia, este mostrava-se<br \/>\n    enastrado, em todo o di&acirc;metro da copa, de saudades, malmequeres e malva-rosa.<br \/>\n    Tudo isto era obra das m&atilde;os de Martins, para ser agrad&aacute;vel &agrave;<br \/>\n    sua mulher, provid&ecirc;ncia daquele remediado e feliz lar.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o era nos arranjos quase gratuitos da mesa que primava, no<br \/>\n    feliz anivers&aacute;rio de D. Eug&ecirc;nia, a encantadora vivenda da estrada;<br \/>\n    a sua primazia estava na sociedade que, sem ser numerosa, brilhava a&iacute;,<br \/>\n    mais do que nunca, pelo talento, pelas gra&ccedil;as e pela suave eleg&acirc;ncia,<br \/>\n    compat&iacute;vel com o campo.<\/p>\n<p> Entre as gentis senhoras que eram presentes, quando &Acirc;ngelo entrou<br \/>\n    na sala, apontavam-se D. Maur&iacute;cia e sua filha D. Virg&iacute;nia, as<br \/>\n    quais tinham chegado de Caxang&aacute;. D. Maur&iacute;cia era irm&atilde;<br \/>\n    mais mo&ccedil;a de D. Eug&ecirc;nia, e t&atilde;o querida desta que, divertimento<br \/>\n    em que a ca&ccedil;ula n&atilde;o entrasse, n&atilde;o tinha sabor para a<br \/>\n    primog&ecirc;nita, por mais alto que estivesse ele na ordem de tais manjares.<br \/>\n    Procedendo deste modo, D. Eug&ecirc;nia n&atilde;o era sen&atilde;o justa,<br \/>\n    porque na irm&atilde; se encontraram reunidos superiores dotes cuja descri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pelo menor, demandaria largas p&aacute;ginas.<\/p>\n<p> De h&aacute; muito desejava &Acirc;ngelo conhecer de perto este portento,<br \/>\n    que ele de longe admirava. Todavia nunca o seu desejo pudera ser satisfeito,<br \/>\n    pelas circunst&acirc;ncias da vida de D. Maur&iacute;cia, das quais informaremos<br \/>\n    o leitor, pelo maior, oportunamente.<\/p>\n<p> Martins apressou-se a apresentar o amigo &agrave; cunhada.<\/p>\n<p> &#8211; Ningu&eacute;m me disse quem era V. Exa., mas eu quase dispensava que<br \/>\n    mo dissessem; porque, por uma como intui&ccedil;&atilde;o, V. Exa. se me revelou<br \/>\n    ao esp&iacute;rito logo que entrei.<\/p>\n<p> Esta amabilidade de &Acirc;ngelo foi recebida com r&aacute;pido sorriso<br \/>\n    por Maur&iacute;cia, e n&atilde;o despertou nas outras senhoras ressentimento,<br \/>\n    porque fora dito a meia voz.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia retorquiu:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o h&aacute; que admirar. Posto seja esta a primeira vez que nos<br \/>\n    vemos, h&aacute; muito que o senhor &eacute; meu conhecido. Martins e Eug&ecirc;nia<br \/>\n    concorreram para que, antes de lhe falar, j&aacute; eu lhe rendesse a estima<br \/>\n    que se deve ao m&eacute;rito distinto. Deram-me a ler trabalhos seus, que<br \/>\n    eu n&atilde;o conhecia ainda, e falaram-me sobre suas qualidades com tamanho<br \/>\n    alvoro&ccedil;o, que chegou para que eu compartisse dele sem os dois sentirem<br \/>\n    diminui&ccedil;&atilde;o na sua parte. Eu n&atilde;o tenho compet&ecirc;ncia<br \/>\n    para ajuizar de produ&ccedil;&otilde;es t&atilde;o elevadas como o poema mar&iacute;timo,<br \/>\n    que o senhor comp&ocirc;s, tendo diante dos olhos o Atl&acirc;ntico revolto<br \/>\n    e o c&eacute;u em fogo; mas, a julgar pela impress&atilde;o que a leitura<br \/>\n    me deixou, h&aacute; no senhor um engenho po&eacute;tico de primeira grandeza.<\/p>\n<p> Esta linguagem n&atilde;o se podia estranhar em Maur&iacute;cia, cujo esp&iacute;rito<br \/>\n    fora enriquecido pelas j&oacute;ias do estudo e da melhor educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    liter&aacute;ria. Seus pais, de costumes severos e de irrepreens&iacute;vel<br \/>\n    moralidade. Tais costumes e moralidade n&atilde;o haviam desaparecido com<br \/>\n    eles da fam&iacute;lia, antes se viam reproduzido nas duas irm&atilde;s; e<br \/>\n    se a Eug&ecirc;nia parecia ter cabido, em partilha, o maior quinh&atilde;o<br \/>\n    desta honrada e preciosa heran&ccedil;a. era porque, casando-se muito mo&ccedil;a,<br \/>\n    sua vida tomara dire&ccedil;&atilde;o diferente da de Maur&iacute;cia, segundo<br \/>\n    havemos de ver. Esta era mais h&aacute;bil, incomparavelmente mais ilustrada,<br \/>\n    sem ser menos digna do que a irm&atilde;. O centro social, por&eacute;m, onde<br \/>\n    se haviam polido os dotes do seu esp&iacute;rito, comunicara-lhe parte de<br \/>\n    suas propriedades como o vaso novo transmite o perfume de que &eacute; formado<br \/>\n    &agrave; &aacute;gua l&iacute;mpida que cont&eacute;m por algumas horas. Maur&iacute;cia<br \/>\n    era, por isso, sonhadora, &agrave;s vezes, arrebatada e irrefletida. Aceitava<br \/>\n    mais do cora&ccedil;&atilde;o do que do esp&iacute;rito a dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para as suas a&ccedil;&otilde;es. Uma vezes, perdia; outras, ganhava por sua<br \/>\n    franqueza. Mas a honestidade, que deve ser a base do car&aacute;ter da mulher,<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; a cortes&atilde; sedutora, ou a barreg&atilde; desprez&iacute;vel,<br \/>\n    Maur&iacute;cia guardava-a intacta, inatac&aacute;vel no fundo de sua alma,<br \/>\n    como o primeiro dos seus afetos.<\/p>\n<p> As palavras de Maur&iacute;cia, por inesperadas e quase violentas, deixaram<br \/>\n    o bacharel um momento silencioso e, para assim dizer, est&aacute;tico. Mas<br \/>\n    esta impress&atilde;o cedeu logo o lugar ao esp&iacute;rito, que resgataria<br \/>\n    a perdida energia.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo acudiu, ent&atilde;o, em resposta:<br \/>\n    &#8211; Minha senhora, este ju&iacute;zo, sobremodo ben&eacute;volo, fornece-me<br \/>\n    antes a medida do seu cora&ccedil;&atilde;o do que a do meu engenho po&eacute;tico.<\/p>\n<p> Nessa ocasi&atilde;o, Virg&iacute;nia aproximou-se dos dois.<\/p>\n<p> &#8211; Apresento-lhe minha filha &#8211; disse Maur&iacute;cia ao bacharel. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; feia e j&aacute; &eacute; uma mo&ccedil;a casaidora. N&atilde;o cores,<br \/>\n    Virg&iacute;nia! O Sr. Dr. &Acirc;ngelo n&atilde;o te quer para noiva. Demais<br \/>\n    j&aacute; est&aacute;s comprometida com Paulo.<\/p>\n<p> &#8211; Como! &#8211; disse &Acirc;ngelo. Repete-se agora aqui o inocente id&iacute;lio<br \/>\n    da ilha da Fran&ccedil;a?<br \/>\n    Maur&iacute;cia voltou-se para &Acirc;ngelo:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; singular o que lhe vou referir &#8211; disse.<\/p>\n<p> &#8211; Mam&atilde;e! &#8211; advertiu Virg&iacute;nia, mostrando as cores do pejo nas<br \/>\n    faces.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sabia que o noivo de Virg&iacute;nia se chamava Paulo? O acaso<br \/>\n    tem caprichos como se pertencesse ao sexo feminino. Mas a verdade &eacute;<br \/>\n    que estes novos namorados n&atilde;o desdizem os outros. O senhor n&atilde;o<br \/>\n    imagina quanto eles se amam, nem em que consistem as demonstra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos seus afetos.<\/p>\n<p> &#8211; Mam&atilde;e, se a senhora continuar a falar, eu vou-me embora.<\/p>\n<p> E Virg&iacute;nia voltou ao seu lugar.<\/p>\n<p> &#8211; D&atilde;o para um poema &#8211; prosseguiu Maur&iacute;cia &#8211; os inocentes amores<br \/>\n    destas crian&ccedil;as. S&atilde;o duas crian&ccedil;as como nunca vi outras<br \/>\n    t&atilde;o ing&ecirc;nuas e tolinhas. Havemos de conversar sobre este assunto,<br \/>\n    porque preciso aconselhar-me com um advogado. O senhor est&aacute; definitivamente<br \/>\n    morando em Recife?<br \/>\n    &#8211; Sim, minha senhora; trato at&eacute; de ir buscar minha fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> &#8211; Desejo que me d&ecirc; parte de sua chegada.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai tem muito bom cora&ccedil;&atilde;o e minha m&atilde;e &eacute;<br \/>\n    uma excelente amiga. Terei o maior prazer em aproxim&aacute;-los de V. Exa.<\/p>\n<p> &#8211; Havemos de estreitar as nossas rela&ccedil;&otilde;es, Dr. &Acirc;ngelo.<br \/>\n    Os nossos sentimentos parecem irm&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; simpatias irresist&iacute;veis, quase fatais.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; certo; h&aacute;. Eu posso dar testemunho disto.<\/p>\n<p> &#8211; Quando Martins e D. Eug&ecirc;nia, prosseguiu o advogado, desafogando<br \/>\n    em meu peito a sua m&aacute;goa, me contaram pela rama os padecimentos de<br \/>\n    V. Exa., senti, n&atilde;o piedade, minha senhora, porque est&aacute; muito<br \/>\n    acima deste sentimento, mas uma como ternura, uma como suavidade afetiva,<br \/>\n    que me deixou no cora&ccedil;&atilde;o menos a como&ccedil;&atilde;o do pesar,<br \/>\n    que a da partilha na mesma dor.<\/p>\n<p> &#8211; Agradecida. E todavia eles n&atilde;o lhe contaram um quarto dos meus<br \/>\n    padecimentos &#8211; redarg&uuml;iu Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> E ficou por um instante pensativa.<\/p>\n<p> O contentamento, por&eacute;m, reinava em todos t&atilde;o largamente em<br \/>\n    casa de Martins que, se a garra adunca de uma recorda&ccedil;&atilde;o penosa<br \/>\n    imprudentemente arranhara o cora&ccedil;&atilde;o de Maur&iacute;cia, depressa<br \/>\n    a aura saud&aacute;vel que enchia aquele risonho mundo reparou o estrago com<br \/>\n    o b&aacute;lsamo que trazia do ar ambiente.<\/p>\n<p> Chegara a hora do almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo deu o bra&ccedil;o a Maur&iacute;cia e encaminhou-se com ela<br \/>\n    para a sala interior. A&iacute; j&aacute; estavam D. Sofia com sua filha Sinh&aacute;zinha,<br \/>\n    e D. Rosa com sua sobrinha Iai&aacute;, que moravam nos primeiros s&iacute;tios,<br \/>\n    &agrave; direita do de Martins.<\/p>\n<p> Chegaram depois Artur e Meireles, estudantes da Faculdade e tomaram assento<br \/>\n    entre Salustiano, empregado p&uacute;blico, e Azevedo, rapaz rico, que chegara<br \/>\n    de Lisboa seis meses atr&aacute;s, e devia seguir para a Bahia, a fim de matricular-se<br \/>\n    na Faculdade de Medicina.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo sentou-se defronte de Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> Seus olhares trocavam-se magneticamente, e sem intelig&ecirc;ncia, se entendiam.<\/p>\n<p> Mas por que se entendiam eles? &Acirc;ngelo e Maur&iacute;cia n&atilde;o<br \/>\n    eram amigos.<\/p>\n<p> Viam-se pela primeira vez. Maur&iacute;cia n&atilde;o tinha o direito de<br \/>\n    amar a nenhum homem, porque era escrava de um dobrado dever de esposa e m&atilde;e.<\/p>\n<p> Entremos no exame do dever.<\/p>\n<h2><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo III<\/a><\/h2>\n<p>Maur&iacute;cia fora educada em Paris, onde os talentos com que a natureza<br \/>\n    a brindara se revelaram logo nos primeiros exerc&iacute;cios escolares com<br \/>\n    tanto brilho e pujan&ccedil;a que dentro de pouco tempo ela foi objeto de<br \/>\n    espanto para os mestres, e de inveja para as condisc&iacute;pulas. A diretora<br \/>\n    do col&eacute;gio, por dar talvez &agrave;s pessoas que a visitavam id&eacute;ia<br \/>\n    aproximada do merecimento da menina, designava-a com este apelido &#8211; Petit<br \/>\n    Br&eacute;sil .<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Voulex &#8211; vous voir mon petit Br&eacute;sil? &#8211; perguntava ela aos<br \/>\n    visitantes. Elle est l&ecirc; premier talent de mon college. Elle fait mon<br \/>\n    orgueil. C&#8217;est un prodige. Elle est en soi m&eacute;me toute la fulguration<br \/>\n    et toute le vie de la nature intertropicale&quot;<br \/>\n    N&atilde;o estava ainda mo&ccedil;a, quando j&aacute; lhe sa&iacute;am casamentos<br \/>\n    vantajosos; um chegara a ser brilhante. Maur&iacute;cia recusou todos a p&eacute;<br \/>\n    juntos. Quando a consultavam em assuntos de casamento costumava dizer em resposta:<br \/>\n    &#8211; Quero levar para o Brasil o meu cora&ccedil;&atilde;o inteiro ainda. Meus<br \/>\n    pais t&ecirc;m o direito de o possuir exclusivamente por algum tempo, depois<br \/>\n    da minha volta a seus bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> Se insistiam em resolve-la a aceitar o partido que se lhe apresentava, dizia<br \/>\n    Maur&iacute;cia graciosamente:<br \/>\n    &#8211; Esta &eacute; boa. Dizem que os brasileiros s&atilde;o selvagens, e querem<br \/>\n    ter uma brasileira n&atilde;o para mandarem para o Jardim das Flores, mas<br \/>\n    para ficarem com ela no seio de uma fam&iacute;lia. Pois est&atilde;o livres<br \/>\n    disso. A selvagem h&aacute; de tornar &agrave;s suas florestas, a fim de viver<br \/>\n    como dantes, com as cobras e as maracaj&aacute;s&#8230;<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia dizia isto por pirra&ccedil;a, n&atilde;o por &oacute;dio<br \/>\n    ou rancor aos franceses, aos quais votava grande afeto. Em seu conceito, o<br \/>\n    povo franc&ecirc;s era o primeiro da Europa, e seria o primeiro do mundo,<br \/>\n    se n&atilde;o houvera o americano, para o qual ela possu&iacute;a a mais estranh&aacute;vel<br \/>\n    admira&ccedil;&atilde;o. Seu esp&iacute;rito era livre, quase republicano.<br \/>\n    Quando alguma vez a conversa&ccedil;&atilde;o ca&iacute;a sobre pol&iacute;tica,<br \/>\n    objeto que parecia merecer-lhe a mais viva simpatia, n&atilde;o deixava sem<br \/>\n    algumas rajadas Napole&atilde;o III, ent&atilde;o no z&ecirc;nite do seu poder.<br \/>\n    Maur&iacute;cia conclu&iacute;a sempre com estas palavras:<br \/>\n    &#8211; Este tirano, este inimigo das liberdades francesas, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de acabar no trono da Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p> Palavras prof&eacute;ticas, que eram ent&atilde;o as de quase todo mundo<br \/>\n    e tiveram a mais estrondosa confirma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Quando chegou ao Brasil, poder-se-ia comparar com o diamante por nome de<br \/>\n    Regente, que brilha na coroa da Fran&ccedil;a ou a Estrela do Sul, de que<br \/>\n    &eacute; dono o joalheiro Halphen; n&atilde;o tinha pre&ccedil;o; seus dotes<br \/>\n    constitu&iacute;ram um tesouro inestim&aacute;vel.<\/p>\n<p> Suas formas eram corretas e espl&ecirc;ndidas. Os cabelos pretos faziam<br \/>\n    real&ccedil;ar a alvura da pele fresca e radiante. O olhar e o sorriso, que<br \/>\n    traziam todos os feiti&ccedil;os da gra&ccedil;a, tinham suavidade e paix&atilde;o,<br \/>\n    meiguice e fogo.<\/p>\n<p> Mas o encanto m&aacute;gico dessa f&uacute;lgida criatura estava na voz<br \/>\n    branda, harmoniosa, incompar&aacute;vel. Tinha havido capricho na educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desta prenda natural da menina. Quem a ouvia uma vez, desejava passar o restante<br \/>\n    da vida junto dela para a ouvir sempre.<\/p>\n<p> Um dia, a sorte virou, e tornou-se madrasta daquela para quem tivera todos<br \/>\n    os afetos e liberalidades matinais.<\/p>\n<p> Os pais de Maur&iacute;cia empobreceram da noite para o dia, e faleceram<br \/>\n    dentro de breve tempo. Com esses dois desastres irrepar&aacute;veis, um dos<br \/>\n    quais sucedeu pouco depois do outro, chegaram para Maur&iacute;cia os dias<br \/>\n    nefastos. Leis fatais decidiram do seu destino cruamente. O jardim da sua<br \/>\n    exist&ecirc;ncia mudou-se em regi&atilde;o desolada. Enfim &#8211; encurtemos esta<br \/>\n    hist&oacute;ria &#8211; o brilhante inapreci&aacute;vel foi parar no poder de um<br \/>\n    senhor grosseiro e mau; e porque o esp&iacute;rito que teve a sua liberdade<br \/>\n    raras vezes se deixa tiranizar, a n&atilde;o ser por um processo lento e artificioso<br \/>\n    que estava acima da capacidade do marido de Maur&iacute;cia, fugiu esta do<br \/>\n    Par&aacute;, onde morava, para o Recife, trazendo consigo a pequena Virg&iacute;nia.<br \/>\n    Depois de muitos incidentes inteiramente estranhos ao nosso caso, aceitou<br \/>\n    ela o partido, que lhe fizera um senhor de engenho de Caxang&aacute;, para<br \/>\n    que ensinasse franc&ecirc;s e m&uacute;sica &agrave;s suas filhas.<\/p>\n<p> Tornemos a casa de Martins.<\/p>\n<p> O almo&ccedil;o passou sem coisa de maior. Recitativos, ent&atilde;o muito<br \/>\n    em uso, um pouco de canto, um pouco de piano, alguns trocadilhos de Azevedo,<br \/>\n    insigne neste g&ecirc;nero, e at&eacute; charadas em que ningu&eacute;m levava<br \/>\n    a melhor a Martins, encheram as horas que medearam entre a primeira e a segunda<br \/>\n    refei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> As quatro da tarde, Martins convidou os h&oacute;spedes a uma digress&atilde;o<br \/>\n    pelo s&iacute;tio.<\/p>\n<p> Pouco adiante da casa, come&ccedil;ava um galeria de mangueiras seculares,<br \/>\n    cujas folhagens, por densas de si mesmas, e por emaranhadas de cip&oacute;s,<br \/>\n    n&atilde;o deixavam passar um raio de sol. Era debaixo da ab&oacute;bada formada<br \/>\n    por essa vasta coberta de verdura, que estava a mesa. Na extremidade anterior<br \/>\n    da galeria, ajeitando os galhos, as folhas, os cip&oacute;s, tinha feito Martins<br \/>\n    uma como gruta natural de apraz&iacute;vel aspecto. Estavam ali o cozido,<br \/>\n    os assados e as demais comidas. Na extremidade posterior, via-se outra gruta<br \/>\n    mais perfeita e de maior &acirc;mbito. A&iacute; a Natureza procedera a fantasia.<br \/>\n    A &uacute;ltima mangueira, porventura a primeira em idade e propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    gigantescas, tinha no tronco uma abertura, que vinha do ch&atilde;o at&eacute;<br \/>\n    a altura de um homem. Tr&ecirc;s pessoas emparelhadas caberiam no bojo, que<br \/>\n    do lado da mesa era inteiramente aberto. Ali dentro, sobre pedras que imitavam<br \/>\n    as sali&ecirc;ncias de uma rocha subterr&acirc;nea, viam-se vinhos, frutas<br \/>\n    e doces graciosamente dispostos.<\/p>\n<p> &#8211; &Agrave; proverbial hospedagem e ao fino gosto de Martins devemos este<br \/>\n    jantar buc&oacute;lico, digno de ser decantado pela musa de Mantuano &#8211; disse<br \/>\n    Artur, tanto que seus olhos deram com aquela risonha maravilha.<\/p>\n<p> &#8211; Isto est&aacute; soberbo &#8211; espl&ecirc;ndido! &#8211; acrescentou Salustiano.<\/p>\n<p> &#8211; Espl&ecirc;ndido, n&atilde;o &#8211; observou Azevedo. Nem um raiozinho de sol<br \/>\n    penetra aqui.<\/p>\n<p> &#8211; Digo espl&ecirc;ndido no sentido moral &#8211; retorquiu Salustiano.<\/p>\n<p> &#8211; No sentido moral! &#8211; exclamou Azevedo. Tudo isto &eacute; muito belo, mas<br \/>\n    pertence &agrave; mat&eacute;ria.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o te aborre&ccedil;a, senhor. O que eu quero dizer &#8211; e todos<br \/>\n    os homens de talento por certo me entender&atilde;o &#8211; &eacute; que o Martins<br \/>\n    confirmou com esta obra&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que obra? &#8211; inquiriu Artur.<\/p>\n<p> &#8211; Cobra! Pois aqui h&aacute; cobra? &#8211; perguntou Azevedo.<\/p>\n<p> &#8211; Deixem que eu acabe &#8211; tornou Salustiano. Quero dizer que Martins &eacute;<br \/>\n    o primeiro poeta desta estrada.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda as senhoras n&atilde;o viram a melhor &#8211; ajuntou Eug&ecirc;nia, a<br \/>\n    quem muito aprazia o caminho que levava a festa dos seus anos.<\/p>\n<p> &#8211; Mostre-nos o melhor, o melhor, D. Eug&ecirc;nia &#8211; disse o futuro estudante<br \/>\n    de Medicina.<\/p>\n<p> &#8211; O melhor est&aacute; nas duas grutas &#8211; disse ingenuamente D. Rosa.<\/p>\n<p> &#8211; Nas duas grutas! &#8211; repetiu Azevedo. Sim, nas grutas &eacute; que costuma<br \/>\n    haver o melhor.<\/p>\n<p> &#8211; Aproximem-se &#8211; prosseguiu D. Rosa &#8211; venha ver, D. Maur&iacute;cia chegue<br \/>\n    para c&aacute;, Sr. Dr. &Acirc;ngelo. Que linda coisa, n&atilde;o &eacute;?<br \/>\n    E a anci&atilde; indicava o trabalho de Martins.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade. Tem m&atilde;os este Martins &#8211; disse Salustiano.<\/p>\n<p> &#8211; E p&eacute;s, tamb&eacute;m &#8211; acrescentou Azevedo.<\/p>\n<p> &#8211; Uma destas grutas &#8211; disse Martins &#8211; &eacute; mitol&oacute;gica, a outra,<br \/>\n    pode-se dizer, crist&atilde; ou antes cat&oacute;lica.<\/p>\n<p> &#8211; A gruta de Calipso est&aacute; insigne &#8211; observou &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> &#8211; E a dos vinhos, n&atilde;o? &#8211; perguntou Sinhazinha.<\/p>\n<p> &#8211; Pudera, n&atilde;o! &#8211; respondeu Azevedo.<\/p>\n<p> &#8211; A gruta de Calipso! &#8211; exclamou Artur, aproximando-se. Grande Martins!<br \/>\n    Eu logo vi que, andando pela Ilha de Chipre, n&atilde;o havias de perder o<br \/>\n    modelo das morada da deusa. Em que tempo andaste por l&aacute;?<br \/>\n    &#8211; Mas, qual &eacute; a outra? &#8211; indagou Maur&iacute;cia com ares de curiosa.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; a do padre Aubry &#8211; respondeu Martins. &Eacute; a gruta que vem<br \/>\n    apontada em &Aacute;tala.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem, muito bem &#8211; tornou Maur&iacute;cia. Dou-te os parab&eacute;ns,<br \/>\n    Eug&ecirc;nia, pela festa original que o teu natal&iacute;cio inspirou a teu<br \/>\n    marido.<\/p>\n<p> &#8211; E dizem que os poetas n&atilde;o servem para maridos &#8211; observou Artur.<\/p>\n<p> &#8211; Qual ser&aacute; dentre as senhoras presentes que dever&aacute; ocupar<br \/>\n    esta cabeceira de mesa? &#8211; perguntou Azevedo.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; a Maur&iacute;cia &#8211; disse Eug&ecirc;nia.<\/p>\n<p> &#8211; Eu?<br \/>\n    &#8211; &Oacute;tima escolha.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem. N&atilde;o podia ser melhor.<\/p>\n<p> &#8211; Mas quem h&aacute; de ser o Tel&ecirc;maco? &#8211; observou Salustiano.<\/p>\n<p> &#8211; Olham como se inculca o fregu&ecirc;s &#8211; disse Azevedo a meai voz, que<br \/>\n    todos ouviram.<\/p>\n<p> &#8211; O Tel&ecirc;maco h&aacute; de ser&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pois isto ainda &eacute; objeto de d&uacute;vida? O Tel&ecirc;maco &eacute;<br \/>\n    &Acirc;ngelo &#8211; disse Artur, revelando curto despeito.<\/p>\n<p> &#8211; E quem ser&aacute; &Aacute;tala?<br \/>\n    Eug&ecirc;nia acudiu logo:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; Sinhazinha.<\/p>\n<p> &#8211; Eu, n&atilde;o &#8211; disse esta. &Aacute;tala deve ser Virg&iacute;nia.<\/p>\n<p> &#8211; Eu j&aacute; sou Virg&iacute;nia &#8211; retorquiu esta com toda a gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Bravo! &#8211; clamou Salustiano.<\/p>\n<p> &#8211; Pois a Senhora n&atilde;o quer ser &Aacute;tala? &#8211; perguntou Azevedo a<br \/>\n    Sinhazinha. Teve t&atilde;o boa vida!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E at&eacute; uma boa morte.<\/p>\n<p> &#8211; E voc&ecirc; mesma h&aacute; de ser, Sinhazinha &#8211; disse Eug&ecirc;nia.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o quero.<\/p>\n<p> &#8211; Perd&atilde;o, minha senhoras. &Aacute;tala n&atilde;o era feia, nem velha<br \/>\n    para que alguma de V.Exas. se julgue desdouro em represent&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; Mas morreu sem casar &#8211; observou Azevedo.<\/p>\n<p> &#8211; E acabemos logo com isto que a sopa est&aacute; esfriando.<\/p>\n<p> &#8211; Se me concedem autoridade para cortar a contenda, isto acaba j&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Tem toda a autoridade para isso D. Maur&iacute;cia &#8211; disseram os homens.<\/p>\n<p> &#8211; V&aacute; sentar-se defronte de mim, Sinhazinha.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem,<br \/>\n    Quando Sinhazinha se encaminhou para a outra cabeceira da mesa, ouviu-se a<br \/>\n    voz de Salustiano:<br \/>\n    &#8211; Mas o Chactas, o Chactas &eacute; que quero saber quem ser&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; O Chactas n&atilde;o aparece. Est&aacute; no mato &#8211; disse Azevedo. Sentemo-nos,<br \/>\n    e vamos &agrave; sopa antes que ela chegue, que era capaz de engolir mangueiras<br \/>\n    e tudo.<\/p>\n<p> &#8211; E n&oacute;s o que ficamos sendo? &#8211; perguntou ingenuamente D. Rosa, que<br \/>\n    a todo transe queria o seu papel na representa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; As senhoras ficam sendo as ninfas da gruta &#8211; disse Azevedo rindo-se.<\/p>\n<p> E nesse riso foi acompanhado por quase todos os que estavam presentes. D.<br \/>\n    Rosa suspeitando de segunda inten&ccedil;&atilde;o no que dissera Azevedo,<br \/>\n    contrariou o gracejo como se tratasse de ir para o inferno.<\/p>\n<p> &#8211; Credo! Antes uma boa morte.<\/p>\n<p> &#8211; E n&oacute;s, n&oacute;s homens? &#8211; perguntou Salustiano.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc;s s&atilde;o os selvagens, os Moscogulgas &#8211; acudiu incontinente<br \/>\n    Azevedo.<\/p>\n<p> A hilaridade foi geral.<\/p>\n<h2><a name=\"4\">Cap&iacute;tulo IV<\/a><\/h2>\n<p>As grutas, as ninfas, os selvagens, a deusa fabulosa, a jovem crist&atilde;,<br \/>\n    foram temas durante todo o jantar a mil gracejos, que n&atilde;o concorreram<br \/>\n    pouco para aumentar a anima&ccedil;&atilde;o da festa natal&iacute;cia, bel&iacute;ssima<br \/>\n    pintura a que a Natureza, ajudada de um pouco de fantasia, servia de quadro<br \/>\n    encantador.<\/p>\n<p> Quando finalizou o jantar, Martins prop&ocirc;s o passeios de costume pelo<br \/>\n    s&iacute;tio, mas pediu que o dispensassem dele, por ter de ir &agrave; Encruzilhada<br \/>\n    a falar com dois m&uacute;sicos. A festa n&atilde;o podia acabar sen&atilde;o<br \/>\n    em dan&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; quase sol posto, mas antes de anoitecer, estarei de volta.<\/p>\n<p> A companhia dividiu-se, sendo &Acirc;ngelo, Maur&iacute;cia, Eug&ecirc;nia,<br \/>\n    D. Rosa e D. Sofia os que menos apressados se mostravam em deixar a entrada<br \/>\n    da galeria, onde haviam ficado, enquanto as outras senhoras e rapazes se dirigiam<br \/>\n    para a estrada.<\/p>\n<p> &#8211; Onde &eacute; que fica a cajazeira &#8211; perguntou &Acirc;ngelo &#8211; em que o<br \/>\n    ano passado Martins entalhou a canivete, em honra de seu anivers&aacute;rio,<br \/>\n    um verso de Virg&iacute;lio, D. Eug&ecirc;nia?<br \/>\n    &#8211; Daquele lado, j&aacute; ao chegar ao Beco das Almas. &Eacute; a &uacute;ltima<br \/>\n    &aacute;rvore do s&iacute;tio, e est&aacute; encostada &agrave; cerca, Virg&iacute;nia<br \/>\n    sabe onde &eacute;.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia chamou, ent&atilde;o, pela filha, que ia com Sinhazinha<br \/>\n    nas pisadas dos outros em direitura para a estrada.<\/p>\n<p> &#8211; Ora, mam&atilde;e &#8211; disse Virg&iacute;nia &#8211; Sinhazinha est&aacute; ali<br \/>\n    esperando por mim para irmos &agrave; Concei&ccedil;&atilde;ozinha, onde h&aacute;,<br \/>\n    aqui a pouco, um casamento.<\/p>\n<p> &#8211; Pois v&aacute;, minha filha. Iremos com Eug&ecirc;nia.<\/p>\n<p> &#8211; V&aacute; nesta dire&ccedil;&atilde;o e tome depois para a direita, que<br \/>\n    h&aacute; de dar com a cajazeira &#8211; disse a menina. &#8211; Olhe: de l&aacute; se<br \/>\n    v&ecirc; a capelinha. N&oacute;s podemos ver-nos dos nossos lugares; e se<br \/>\n    mam&atilde;e n&atilde;o me vir &eacute; que fomos &agrave; casa de D. Teodora<br \/>\n    saber se Terezinha j&aacute; chegou de Boa Viagem.<\/p>\n<p> A menina foi juntar-se &agrave; amiga, enquanto Maur&iacute;cia voltava-se<br \/>\n    para convidar Eug&ecirc;nia a servir-lhe de companhia. Mas j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    a encontrou; tinha desaparecido pelo outro lado da galeria com as duas senhoras<br \/>\n    a quem fora mostrar uma leira onde o coentro pululava cheio de vi&ccedil;o,<br \/>\n    n&atilde;o obstante ser seca a esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Deixaram-nos a s&oacute;s &#8211; disse Maur&iacute;cia &#8211; mas n&atilde;o importa.<br \/>\n    Podemos ir, que havemos de acertar com a &aacute;rvore.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o deve ser muito distante &#8211; disse &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas o s&iacute;tio &eacute; t&atilde;o largo que daqui n&atilde;o vemos<br \/>\n    a cerca.<\/p>\n<p> &#8211; Pelas pontas das &aacute;rvores, podemos orientar-nos.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo assim falando e andando, p&ocirc;s-se a procurar com a vista<br \/>\n    os ramos superiores da cajazeira, mas foi-lhe imposs&iacute;vel o que um momento<br \/>\n    antes lhe parecera f&aacute;cil. Cajueiros ramalhudos, mangueiras copadas<br \/>\n    interpunham-se entre eles e a &aacute;rvore desejada.<\/p>\n<p> Seguiram, entretanto, na dire&ccedil;&atilde;o que a menina indicara.<\/p>\n<p> &#8211; Como eu invejo a felicidade de Martins, D. Maur&iacute;cia &#8211; disse &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> &#8211; E eu a de Eug&ecirc;nia &#8211; acrescentou Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade. Vivem exclusivamente um para o outro. Parece que nos<br \/>\n    la&ccedil;os que os estreitam nunca se deu o menor estremecimento.<\/p>\n<p> &#8211; Para ser agrad&aacute;vel &agrave; mulher, Martins anda sempre inventando<br \/>\n    festas em que sua fantasia tem grande e feliz interven&ccedil;&atilde;o, como<br \/>\n    acaba de ver.<\/p>\n<p> &#8211; Quando o casamento traz este resultado, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida<br \/>\n    de que &eacute; uma del&iacute;cia. Se eu encontrasse uma mulher, que por<br \/>\n    suas grandes qualidades t&atilde;o valiosa prova oferecesse em favor do casamento,<br \/>\n    decididamente casava-me por que j&aacute; me vai parecendo triste demais a<br \/>\n    solid&atilde;o que reina em minha alma desde os primeiros anos da juventude.<\/p>\n<p> &#8211; Na sua idade, &eacute; realmente para admitir que o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ainda esteja sem o &iacute;dolo de que precisa para ser o verdadeiro templo<br \/>\n    da vida.<\/p>\n<p> &#8211; Pois &eacute; verdade. Tenho ainda inteiro e virgem o meu amor; e conjeturo<br \/>\n    que ser&aacute; f&aacute;cil &agrave;quela que se tornar digna dele exercer<br \/>\n    sobre mim a maior das tiranias; porque o meu amor tem em si todos os meus<br \/>\n    afetos, toda a minha alma.<\/p>\n<p> Compreendendo os perigos desta conversa&ccedil;&atilde;o, Maur&iacute;cia,<br \/>\n    que ia sentindo pelo bacharel afei&ccedil;&atilde;o que a assustava, disse-lhe<br \/>\n    como para dissuadi-lo de prosseguir o caminho que haviam encetado.<\/p>\n<p> &#8211; Parece que j&aacute; n&atilde;o chegaremos com luz do dia &agrave; cajazeira.<br \/>\n    Est&aacute; escurecendo rapidamente.<\/p>\n<p> &#8211; Pois ent&atilde;o voltemos, D. Maur&iacute;cia &#8211; respondeu &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> &#8211; A estrada est&aacute; perto, n&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; aqui, a nossa direita, obra de cem passos. Parece-nos estar<br \/>\n    mais longe, pelas sombras das &aacute;rvores, que n&atilde;o nos deixam ver<br \/>\n    com exatid&atilde;o a dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos &agrave; Concei&ccedil;&atilde;ozinha. Talvez j&aacute; encontremos<br \/>\n    os noivos.<\/p>\n<p> &#8211; Podemos atalhar o caminho por estes cajueiros. A cerca ali adiante est&aacute;<br \/>\n    quebrada, e oferece f&aacute;cil sa&iacute;da.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo n&atilde;o se enganara. Em poucos minutos, chegaram ao boqueir&atilde;o.<br \/>\n    Na largura de uma bra&ccedil;a, a cerca estava de fato aberta; mas a vara<br \/>\n    inferior, na altura dos joelhos de um homem, mostrava-se ainda suspensa pelos<br \/>\n    cip&oacute;s que a traziam presa &agrave;s estacas. &Acirc;ngelo, apoiando-se<br \/>\n    sobre a vara, atravessou da outra banda, e da&iacute; ofereceu a m&atilde;o<br \/>\n    &agrave; Maur&iacute;cia para a ajudar a transpor a cerca. Mal tinha ela posto<br \/>\n    o p&eacute; na travessa, quando deu um grito, que n&atilde;o parecia arrancado<br \/>\n    somente pelo susto, mas tamb&eacute;m pelo terror; e, em vez de passar para<br \/>\n    o outro lado, recuou amedrontada e meteu-se por tr&aacute;s do tronco de um<br \/>\n    cajueiro pr&oacute;ximo, como quem queria ocultar-se.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo, assustado, acudiu logo:<br \/>\n    &#8211; Meu Deus? Que &eacute; que tem, D. Maur&iacute;cia?<br \/>\n    Esta respondeu, como quem cobrava os esp&iacute;ritos que um momento a tinham<br \/>\n    desamparado:<br \/>\n    &#8211; Desculpe-me, Sr. Dr. &Acirc;ngelo, N&atilde;o tenho nada, n&atilde;o foi<br \/>\n    nada.<\/p>\n<p> &#8211; Mas por que deu este grito?<br \/>\n    &Acirc;ngelo j&aacute; estava ao p&eacute; de Maur&iacute;cia, e ambos quase<br \/>\n    ocultos pela folhagem do cajueiro.<\/p>\n<p> &#8211; Eu poderia dizer-lhe que tinha sentido uma cobra passar por cima dos meus<br \/>\n    p&eacute;s, e tudo estaria explicado; mas n&atilde;o seria esta a verdade.<\/p>\n<p> &#8211; Diga ent&atilde;o o que foi.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo estava profundamente impressionado. Tinha ainda na sua a m&atilde;o<br \/>\n    de Maur&iacute;cia, e lhe sentia o frio e o tremor, conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    da violenta impress&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Estou deveras assustada, Sr. Dr. &Acirc;ngelo. Veja como me bate o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o vi uma cobra, vi um dem&ocirc;nio.<\/p>\n<p> Assim falando, ela levou a m&atilde;o do bacharel ao seu peito e a apertou<br \/>\n    contra ele. &Acirc;ngelo, atrav&eacute;s da onda de cambraia e rendas, sentiu<br \/>\n    as pulsa&ccedil;&otilde;es violentas desse cora&ccedil;&atilde;o que ele desejara<br \/>\n    pulasse, n&atilde;o de susto, mas de amor por ele.<\/p>\n<p> &#8211; Mas o que foi que lhe ocasionou tamanho susto?<br \/>\n    &#8211; Quando o senhor me estendia a m&atilde;o para me ajudar a sair, n&atilde;o<br \/>\n    sentiu passar pela estrada um homem?<br \/>\n    &#8211; Sim, sim; ele ainda ali vai.<\/p>\n<p> &#8211; Nunca em vi em homem algum tamanha semelhan&ccedil;a com meu marido.<\/p>\n<p> &#8211; Com seu marido! exclamou o bacharel sentindo fel nos l&aacute;bios. Meu<br \/>\n    Deus! Tal n&atilde;o diga, por quem &eacute;. Seria a maior das desgra&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8211; Para mim n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que seria isso o maior dos<br \/>\n    infort&uacute;nios.<\/p>\n<p> &#8211; E para mim tamb&eacute;m &#8211; acrescentou o bacharel; por que&#8230; Oh, eu n&atilde;o<br \/>\n    devia dize-lo, mas n&atilde;o est&aacute; em mim prender no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como se prende uma cobra dentro de um frasco, o sentimento que a senhora veio<br \/>\n    despertar nesta morada de solid&atilde;o e trevas.<\/p>\n<p> &#8211; Saiamos j&aacute;, Sr. Dr. &Acirc;ngelo, disse Maur&iacute;cia, como quem<br \/>\n    n&atilde;o tinha ouvido aquela perigosa revela&ccedil;&atilde;o. E voltemos<br \/>\n    antes para casa; j&aacute; n&atilde;o quero ir com as meninas da capela.<\/p>\n<p> Do lado de fora, a estrada estava deserta como dentro do s&iacute;tio.<\/p>\n<p> &#8211; Havia de ser ilus&atilde;o sua, minha senhora, disse &Acirc;ngelo, oferecendo<br \/>\n    o bra&ccedil;o a Maur&iacute;cia. O homem que passou parece-me ser um que<br \/>\n    mora aqui adiante.<\/p>\n<p> &#8211; Talvez; mas, ent&atilde;o, &eacute; a c&oacute;pia fiel do Bezerra. Depois<br \/>\n    de tr&ecirc;s anos de liberdade e tranq&uuml;ilidade, ser-me-ia por extremo<br \/>\n    penoso pensar, ainda que fosse por um momento, em voltar &agrave; antiga vida<br \/>\n    de humilha&ccedil;&atilde;o e mart&iacute;rio, porque eu detesto esse homem,<br \/>\n    que n&atilde;o era para mim, que foi meu algoz por uma d&uacute;zia de anos,<br \/>\n    que hoje s&oacute; me merece compaix&atilde;o ou esquecimento. Como n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; quem nos ou&ccedil;a, quero contar-lhe um epis&oacute;dio de minha<br \/>\n    escravid&atilde;o conjugal; por ele, poder&aacute; o senhor ajuizar do baixo<br \/>\n    drama em que a mim me coube o papel de v&iacute;tima, e a ele o de tirano<br \/>\n    sanguin&aacute;rio. Depois de proibir que eu conversasse em franc&ecirc;s<br \/>\n    com as minhas amigas, imp&ocirc;s-me que n&atilde;o tocasse mais piano. Perguntei-lhe<br \/>\n    o porque; respondeu-me que ouvira na tarde anterior, por ocasi&atilde;o de<br \/>\n    eu estar tocando umas melodias de Schubert, um vizinho dizer que eu n&atilde;o<br \/>\n    devia ter casado com ele. Sabedora do quanto Bezerra era capaz, fechei imediatamente<br \/>\n    o meu piano, que assim tomava parte no meu infort&uacute;nio e mart&iacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Vejo que o seu sofrimento foi na verdade original.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! o senhor que tem esp&iacute;rito elevado, e no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dotes surpreendentes, n&atilde;o imagina at&eacute; onde pode descer um homem<br \/>\n    de curto entendimento, sem educa&ccedil;&atilde;o, sem alma. Ou&ccedil;a.<br \/>\n    N&atilde;o podendo resignar-me inteiramente &agrave; priva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquelas vozes sublimes que eram o meu &uacute;nico conforto, que desde crian&ccedil;a<br \/>\n    n&atilde;o se separavam de mim, que era as irm&atilde;s da minha voz, espiei<br \/>\n    qualquer momento em que o meu tirano se dirigisse<br \/>\n    a algum arrabalde, deixando-me livre algumas horas. Esse momento ofereceu-se<br \/>\n    uma tarde em que Bezerra teve que entender-se com certo sujeito sobre neg&oacute;cios<br \/>\n    que lhes eram comuns. Logo que o vi montar a cavalo, corri como louca ao meu<br \/>\n    piano. Havia quase tr&ecirc;s meses que estava muda como t&uacute;mulo aquela<br \/>\n    arca dos meus particulares afetos. Sobre as teclas ca&iacute;ram e correram<br \/>\n    meus dedos desvairados e febricitantes. O prazer que senti, ouvindo os primeiros<br \/>\n    acordes, desceu t&atilde;o intensamente ao fundo do meu sistema nervoso que<br \/>\n    de meus olhos saltaram l&aacute;grimas, como contas de cristal, sobre a face<br \/>\n    de marfim insens&iacute;vel e fria, mas amiga. Irresistivelmente, a voz saiu-me<br \/>\n    da garganta, com a ternura apaixonada que nesse momento me transbordava do<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, ninho de sentimentos muito diferentes dos de Bezerra.<br \/>\n    Nunca a musa da harmonia, ao que me parece, havia socorrido tanto o meu canto<br \/>\n    com a sua paix&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem &#8211; disse &Acirc;ngelo comovido.<\/p>\n<p> &#8211; De repente, uma voz ressoou no &acirc;mbito da sala: &quot;-Bravo! Bravo!&quot;<br \/>\n    &#8211; dizia a voz.<\/p>\n<p> &#8211; Era a de seu marido?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, era a do tal meu vizinho, a quem meu marido ouvira dizer que<br \/>\n    n&atilde;o devia ter casado com ele. Este vizinho era um solteir&atilde;o<br \/>\n    inofensivo e algum tanto parvo. Tinha chegado &agrave; varanda e da&iacute;<br \/>\n    alongava o pesco&ccedil;o para dentro da minha casa. &#8211; Estou de longe mesmo<br \/>\n    apreciando os seus dotes. &#8211; continuou ele, e mal tinha acabado de proferir<br \/>\n    estas palavras, senti sobre as m&atilde;os, que ainda percorriam o teclado,<br \/>\n    uma pancada violenta: o piano fora rudemente fechado, contra os meus dedos.<br \/>\n    Bezerra estava de p&eacute; junto de mim, fingira que ia para longe para pegar-me<br \/>\n    em culpa.<\/p>\n<p> &#8211; Adivinho o resto &#8211; disse &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> &#8211; No mesmo instante &#8211; prosseguiu Maur&iacute;cia &#8211; Bezerra corre &agrave;<br \/>\n    varanda com o intento talvez de pegar o solteir&atilde;o pelas goelas e sufoc&aacute;-lo;<br \/>\n    mas j&aacute; n&atilde;o o encontrou; tinha fugido. Todo o seu furor se voltou,<br \/>\n    ent&atilde;o, contra mim. Ergueu o chicote, que mal tocava a anca do seu cavalo.<br \/>\n    Eu estava de p&eacute;, e olhava para ele, horrorizada; nem me ocorrera fugir<br \/>\n    para um quarto e trancar-me por dentro. Mas quando, para que eu representasse<br \/>\n    todo o papel de escrava, s&oacute; me faltava receber o golpe infamante, o<br \/>\n    bra&ccedil;o de Bezerra descaiu, e ele empalideceu. Acovardara-se, vendo algumas<br \/>\n    gotas de sangue que tinham ca&iacute;do dos meus dedos sobre o meu vestido<br \/>\n    e a&iacute; deixavam escrita em caracteres vermelhos a hist&oacute;ria do<br \/>\n    seu crime. Foi esta brutal afronta que trouxe a nossa separa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pela minha fugida com minha filha para o Recife.<\/p>\n<p> &#8211; A senhora tinha raz&atilde;o, hoje, quando me dizia que eu n&atilde;o<br \/>\n    sabia uma quarta parte dos seus padecimentos &#8211; disse &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho ou n&atilde;o motivos de temer qualquer encontro com semelhante<br \/>\n    homem? Ah! Sr. Dr. &Acirc;ngelo, se os maldizentes soubessem toda as particularidades<br \/>\n    da vida daqueles em quem aferram o dente envenenado, talvez recusassem praticar<br \/>\n    o seu torpe of&iacute;cio.<\/p>\n<p> Essas palavras foram proferidas alguns passos antes da entrada da casa de<br \/>\n    Martins.<\/p>\n<p> Fizeram a&iacute; uma pequena parada. Pelas portas abertas, via-se de fora<br \/>\n    a sala ao clar&atilde;o das luzes.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus! exclamou Maur&iacute;cia. Veja quem est&aacute; ali.<\/p>\n<p> E apontou para a sala.<\/p>\n<p> A um lado da mesa, tr&ecirc;s pessoas estavam sentadas, Martins, Eug&ecirc;nia<br \/>\n    e Bezerra.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia sentiu-se enfraquecer, e inclinou-se, para n&atilde;o cair,<br \/>\n    sobre o bra&ccedil;o de &Acirc;ngelo.<\/p>\n<h2><a name=\"5\">Cap&iacute;tulo V<\/a><\/h2>\n<p>Albuquerque, senhor de engenho com quem Maur&iacute;cia contratara os seus<br \/>\n    servi&ccedil;os, pertencia, segundo o est&aacute; atestando o pr&oacute;prio<br \/>\n    apelido, a uma das primeiras fam&iacute;lias de Pernambuco. Em muitos pontos<br \/>\n    adiantado pela natural influ&ecirc;ncia das id&eacute;ias modernas, mostrava-se<br \/>\n    sumamente aqu&eacute;m do seu tempo no tocante &agrave;s antigas regalias<br \/>\n    de sangue. Revia-se com vaidade que para assim dizermos trouxera do ber&ccedil;o,<br \/>\n    nos pergaminhos da fam&iacute;lia. Esta vaidade era nele uma como intui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    inata e irresist&iacute;vel. A educa&ccedil;&atilde;o, que se ajustara a esse<br \/>\n    molde tosco, dera-lhe novos acrescentamentos.<\/p>\n<p> De seu natural, era brando e ben&eacute;volo, n&atilde;o obstante serem<br \/>\n    rudes os sentimentos e algum tanto carregadas as tradi&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    herdara dos seus maiores.<\/p>\n<p> Quando se sentia pisado na dignidade por p&eacute;, movido pela aud&aacute;cia,<br \/>\n    elevava-se a toda &agrave; altura do passado, e no vasto arsenal da fam&iacute;lia<br \/>\n    encontrava, sen&atilde;o armas de a&ccedil;o fino e cortante com que rebater<br \/>\n    o agressor, as armas da soberba, do desd&eacute;m, da altivez, e, &agrave;s<br \/>\n    vezes, at&eacute; as da amea&ccedil;a e da hostilidade moral.<\/p>\n<p> Esta&ccedil;&otilde;es desfavor&aacute;veis e contratempos privados tiveram-no<br \/>\n    por alguns anos em embara&ccedil;os e atribula&ccedil;&otilde;es que o assoberbaram.<\/p>\n<p> Chegou a ver quase todos os seus bens arriscados. Mas os tempos melhoraram<br \/>\n    e pode desempenhar-se dos seus compromissos. A paz e a fortuna vieram ocupar<br \/>\n    de novo no lar, onde um eclipse se demorara n&atilde;o sem grande des&acirc;nimos<br \/>\n    e desgostos, o lugar que lhes pertencia antes das adversidades agora de todo<br \/>\n    desaparecidas.<\/p>\n<p> Foi por esse tempo que o servi&ccedil;os de Maur&iacute;cia foram aceitos.<br \/>\n    Alice, &uacute;ltima filha de Albuquerque, entrava no seu d&eacute;cimo ano<br \/>\n    de idade; urgia ter educa&ccedil;&atilde;o. Quanto ao primog&ecirc;nito, por<br \/>\n    nome de Paulo, este n&atilde;o inspirava cuidados a Albuquerque; tinha dezessete<br \/>\n    para dezoito anos e n&atilde;o dava mostras de voca&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    letras. Muito cedo deixara a escola, para dedicar-se de corpo e alma &agrave;<br \/>\n    agricultura, que era a carreira de sua predile&ccedil;&atilde;o. Fosse que<br \/>\n    a voca&ccedil;&atilde;o o inclinasse fortemente para a vida do campo, onde<br \/>\n    o contato com a natureza despertava em seu esp&iacute;rito novas simpatias<br \/>\n    pelos prazeres inocentes que a&iacute; encontram; fosse que os eu gesto procedesse<br \/>\n    dos h&aacute;bitos a que desde a primeira idade se entregara de cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    certo &eacute; que Paulo era, ao tempo desta narrativa, o tipo do agricultor,<br \/>\n    e nele tinha seu pai as melhores esperan&ccedil;as. A capacidade do rapaz<br \/>\n    em regular o servi&ccedil;o de engenho; a sua discri&ccedil;&atilde;o em tratar<br \/>\n    com os trabalhadores e os interesses da grande propriedade o haviam tornado<br \/>\n    objeto de t&atilde;o larga confian&ccedil;a que Albuquerque s&oacute; tinha<br \/>\n    olhos para o que constitu&iacute;a a administra&ccedil;&atilde;o exterior;<br \/>\n    das porteiras para dentro, Paulo superintendia em tudo. Quando algu&eacute;m<br \/>\n    procurava o senhor do engenho, a fim de lhe pedir qualquer favor, ou coloca&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Albuquerque dizia:<br \/>\n    &#8211; Entenda-se com o Sr. Paulo, que &eacute; quem sabe o que precisa, ou o que<br \/>\n    se pode fazer. O que ele decidir est&aacute; decidido.<\/p>\n<p> Paulo experimentava precisamente por aquele tempo a necessidade de completar-se.<br \/>\n    As cenas da Natureza, seus pain&eacute;is, suas belezas, suas maravilhas,<br \/>\n    provocavam-lhe o esp&iacute;rito de risonhas vis&otilde;es; mas no fundo dessas<br \/>\n    vis&otilde;es o que suas m&atilde;os encontravam, quando ele buscava verificar<br \/>\n    se a&iacute; havia o que a imagina&ccedil;&atilde;o gerava e coloria, era<br \/>\n    a aus&ecirc;ncia da realidade; as propor&ccedil;&otilde;es desta mediam-se<br \/>\n    pelas terras do engenho.<\/p>\n<p> Quando voltava do servi&ccedil;o di&aacute;rio, tinha bom apetite, e depois<br \/>\n    da &uacute;ltima refei&ccedil;&atilde;o o corpo, que requeria repouso, achava<br \/>\n    na cama novas for&ccedil;as, trazidas pelo sono para recome&ccedil;ar no dia<br \/>\n    seguinte a tarefa interrompida na v&eacute;spera. mas esta fase de apetite,<br \/>\n    que se satisfazia com os alimentos, e de fadiga que desaparecia com o sono<br \/>\n    reparador, tinha de ser profundamente alterada; o cora&ccedil;&atilde;o devia<br \/>\n    dar sinais do termo de seu repouso e da aproxima&ccedil;&atilde;o do seu despertar;<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o devia exigir vis&otilde;es e sonhos diferentes<br \/>\n    dos que inspirava o espet&aacute;culo dos campos, dos rios, das matas.<\/p>\n<p> Paulo sentira nos &uacute;ltimos tempos acender-se no intr&iacute;nseco<br \/>\n    do seu peito fogo desconhecido, que, por ser tal, n&atilde;o deixava de o<br \/>\n    abrasar. Sentiu anelos teimosos, prazer e tristeza, cren&ccedil;a e d&uacute;vida,<br \/>\n    que n&atilde;o sabia explicar e mal conhecia, porque a ess&ecirc;ncia de sua<br \/>\n    vida assentava na inoc&ecirc;ncia, que o campo alenta. Um mestre particular<br \/>\n    ensinara-lhe as primeiras letras. N&atilde;o se tendo achado em contato com<br \/>\n    a meninice tr&ecirc;fega, ou com a juventude viciosa de certos col&eacute;gios,<br \/>\n    quase todas as pequenas corrup&ccedil;&otilde;es que se devem a tais centos,<br \/>\n    e que s&atilde;o, muitas vezes, a origem de grandes corrup&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sociais, lhe eram inteiramente desconhecidas. O seu esp&iacute;rito podia<br \/>\n    considerar-se estreme, o seu cora&ccedil;&atilde;o podia reputar-se de um<br \/>\n    modelo digno de ser estudado e seguido.<\/p>\n<p> Quando de volta do trabalho, Paulo achou uma tarde em casa a menina de fisionomia<br \/>\n    triste, olhar meigo mas, melanc&oacute;lico, adivinhou por l&uacute;cida previs&atilde;o,<br \/>\n    que a sorte lhe trouxera, enfim, aquela delicada forma do esp&iacute;rito,<br \/>\n    da bondade, da dedica&ccedil;&atilde;o, do amor que ele, apenas, conhecia<br \/>\n    como deliciosas abstra&ccedil;&otilde;es ou vagas fantasias.<\/p>\n<p> Virg&iacute;nia era t&atilde;o fraca de complei&ccedil;&atilde;o que, &agrave;<br \/>\n    primeira vista, todos sentiam apreens&otilde;es pela sua exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Olhando-se para aquele corpo franzino, delicado, posto que n&atilde;o desgracioso,<br \/>\n    antes cheio e modesta eleg&acirc;ncia, pensava-se que n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    formas que n&atilde;o resistem sen&atilde;o por muito pouco tempo ao trabalho<br \/>\n    das intemp&eacute;ries e dos climas. Tinha-se pena de pegar em sua m&atilde;o,<br \/>\n    porque parecia que com qualquer movimento menos brando poderiam sentir-se<br \/>\n    os dedos finos, a palminha delicada, o bracinho delgado da encantadora menina.<\/p>\n<p> &Agrave; Maur&iacute;cia atribui-se este conceito a respeito da filha:<br \/>\n    &#8211; Virg&iacute;nia parece ter nascido de um respiro, e estar destinada a morrer<br \/>\n    de um sopro!<br \/>\n    Uma vez, conversando com D. Carolina, mulher de Albuquerque, sobre a fraca<br \/>\n    organiza&ccedil;&atilde;o da menina, dissera Maur&iacute;cia:<br \/>\n    &#8211; Quando da minha janela vejo Virg&iacute;nia passeando ao sol posto, pelo<br \/>\n    cercado, e trazendo soltos sobre o roup&atilde;zinho branco os cabelos louros,<br \/>\n    s&oacute; se me afigura ter diante dos olhos uma nuvenzinha que caiu das alturas<br \/>\n    sobre a terra.<\/p>\n<p> A natureza caprichosa na distribui&ccedil;&atilde;o dos seus favores dera<br \/>\n    a Virg&iacute;nia, como se fizera para resgatar a fragilidade do corpo, o<br \/>\n    mais vigoroso esp&iacute;rito que j&aacute; se viu em t&atilde;o verdes anos.<\/p>\n<p> Em casa, quando a viam vencer ao piano algumas das grandes dificuldades<br \/>\n    que as &oacute;peras oferecem, diziam:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o nega que &eacute; filha de quem &eacute;!<br \/>\n    N&atilde;o andava longe da verdade a gente do engenho, quando se exprimia<br \/>\n    a respeito de Virg&iacute;nia, nesse desataviado modo porque o povo traduz<br \/>\n    os seus conceitos. A verdade, por&eacute;m, a verdade completa, era que a<br \/>\n    menina trouxera do ber&ccedil;o, com o talento, outros muitos tesouros, a<br \/>\n    saber, ju&iacute;zo, porque, cada uma destas virtudes &eacute; uma grandeza,<br \/>\n    capaz por si s&oacute; de caracterizar, n&atilde;o dizemos tudo, de encher<br \/>\n    uma exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Quando Maur&iacute;cia chegou ao engenho, Virg&iacute;nia, com ser muito<br \/>\n    nova, tinha j&aacute; quase completa sua educa&ccedil;&atilde;o. As qualidades<br \/>\n    insignes que brilhavam em sua m&atilde;e, por uma como reprodu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    m&aacute;gica, se tinham continuado nela porventura mais vivas e ador&aacute;veis.<\/p>\n<p> Paulo ficou extasiado diante daquela criaturinha que escrevia e falava corretamente<br \/>\n    o franc&ecirc;s, tocava graciosamente piano, entendia de geografia e desenho,<br \/>\n    cosia, bordava; Virg&iacute;nia pagou igual tributo de admira&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    achou em Paulo tamanha candura, tanta conveni&ecirc;ncia nas a&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    tanta compostura no dizer, no olhar, no falar, no sorrir, que n&atilde;o pode<br \/>\n    deixar de comunicar a Maur&iacute;cia sua impress&atilde;o; e o fez nestes<br \/>\n    termos:<br \/>\n    &#8211; Que bonitos modos tem o filho do Sr. Albuquerque, mam&atilde;e!<br \/>\n    Estas duas admira&ccedil;&otilde;es t&atilde;o irm&atilde;s, t&atilde;o naturais,<br \/>\n    t&atilde;o espont&acirc;neas, de duas organiza&ccedil;&otilde;es virgens,<br \/>\n    de diferente sexo, s&oacute; podiam trazer um resultado &#8211; a enamora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    m&uacute;tua, o que queria indicar um sentimento comum &#8211; o amor. Mas este<br \/>\n    amor nasceu sem fogo, sem veem&ecirc;ncia, sem estridor; nasceu l&iacute;mpido<br \/>\n    e brando, como nasce no deserto, por sob a folhagem, cristalina fonte, cujas<br \/>\n    &aacute;guas o sol n&atilde;o queima e a tempestade n&atilde;o revolve. Foi<br \/>\n    um rel&acirc;mpago que fulgiu ao longe; todos viram o seu clar&atilde;o, mas<br \/>\n    ele n&atilde;o deslumbrou ningu&eacute;m, e n&atilde;o foi seguido de medonho<br \/>\n    estrondo.<\/p>\n<p> Testemunhemos uma das manifesta&ccedil;&otilde;es desse amor.<\/p>\n<p> Uma tarde, Albuquerque, de passagem para o cercado, ouviu o rumor das vozes<br \/>\n    dos dois jovens em col&oacute;quio no oit&atilde;o da casa. Estavam sentados<br \/>\n    sobre uma viga de sucupira, que ali esperava, ao tempo, o ver&atilde;o para<br \/>\n    ir substituir uma trave podre da coberta.<\/p>\n<p> Era longe deles o pensamento de ocultar-se &agrave;s vistas da fam&iacute;lia.<br \/>\n    Encontraram-se por ali casualmente. Paulo por ocasi&atilde;o de ir verificar<br \/>\n    quantas formas havia na casa de purgar. Virg&iacute;nia de caminho para a<br \/>\n    choupana de uma moradora a quem devia encomendar umas varas de rendas de que<br \/>\n    precisava Maur&iacute;cia. Sentaram-se um momento, e entraram a conversar,<br \/>\n    sem lhes ocorrer nenhum pensamento de que semelhante passo poderia dar causa<br \/>\n    a reparos.<\/p>\n<p> A tarde estaca deliciosa. Namorados de outra esfera, namorados da cidade,<br \/>\n    trocariam ente si, apartados como estavam eles do centro da fam&iacute;lia,<br \/>\n    frases de sentido duvidoso, e talvez amplexos e beijos, que arriscassem as<br \/>\n    canduras que velam as primeiras paix&otilde;es, como as neblinas ocultam os<br \/>\n    abismos . Aqueles dois pintassilgos, por&eacute;m, meigos e inocentes, tinham<br \/>\n    suaves confid&ecirc;ncias que eram mais gorjeios do que palavras.<\/p>\n<p> Eis o que eles diziam:<br \/>\n    &#8211; Caiu? E por meu respeito! Quem o mandou &agrave; &aacute;rvore?<br \/>\n    &#8211; Queria trazer-lhe estes ing&aacute;s. O galho, onde pus os p&eacute;s, estava<br \/>\n    podre, e vim ao ch&atilde;o antes e tirar as frutas.<\/p>\n<p> &#8211; Podia ter-lhe sucedido alguma coisa pior, Paulo. Para que faz isso?<br \/>\n    &#8211; Como n&atilde;o tinha uma lembran&ccedil;a que lhe trazer, corri &agrave;s<br \/>\n    frutas logo que as vi. Eu quero que voc&ecirc; saiba, Virg&iacute;nia, que<br \/>\n    n&atilde;o me esque&ccedil;o nunca de voc&ecirc;.<\/p>\n<p> &#8211; Eu bem sei que voc&ecirc; me quer bem. N&atilde;o &eacute; preciso que<br \/>\n    se exponha a perigos. N&atilde;o caia em outra, Paulo.<\/p>\n<p> Outra vez foi D. Carolina que deu com eles conversando depois do almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Volte cedo hoje &#8211; dizia Virg&iacute;nia. Quando voc&ecirc; chega j&aacute;<br \/>\n    estou cansada de esperar; tenho curtido uma saudade imensa. Assim que me parecem<br \/>\n    horas, subo ao quarto de mam&atilde;e, e da janela olho ao longe; nada de<br \/>\n    voc&ecirc; aparecer! Vejo somente as &aacute;rvores, os canaviais, os caminhos<br \/>\n    sem gente. As horas custam a passar. O sol fica preso no c&eacute;u, e n&atilde;o<br \/>\n    anda.<\/p>\n<p> &#8211; Que hei de fazer? disse Paulo em resposta. N&atilde;o sabe que sem mim<br \/>\n    os negros n&atilde;o trabalham?<br \/>\n    &#8211; Se mam&atilde;e n&atilde;o se agastasse, eu era capaz de ir fazer-lhe companhia<br \/>\n    no servi&ccedil;o. Que &eacute; que tinha? Levava a minha costura, e tendo-o<br \/>\n    por junto de mim, sentiria grande prazer no meu trabalho.<\/p>\n<p> Para este rasgo de amor singelo e inocente, Paulo teve uma resposta muda:<br \/>\n    passou o bra&ccedil;o pela cintura de Virg&iacute;nia e apertou-a contra o<br \/>\n    peito. A menina inclinou os olhos ao ch&atilde;o e pela primeira vez, sentiu,<br \/>\n    por um gesto de Paulo, o sangue subir-lhe as faces.<\/p>\n<p> D. Carolina julgou prudente referir o que vira ao marido acrescentando algumas<br \/>\n    reflex&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; uma vez &#8211; disse Albuquerque &#8211; achei-os conversando ao lado do<br \/>\n    alpendre. Sua conversa&ccedil;&atilde;o era inocentes, mas indicava que eles<br \/>\n    se amam.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o ser&aacute; tempo e atalhar este sentimento? Paulo, se as coisas<br \/>\n    continuarem como v&atilde;o, vir&aacute; a perder o casamento com Iaiazinha,<br \/>\n    e isto seria muito desagrad&aacute;vel porque h&aacute; toda uma conveni&ecirc;ncia<br \/>\n    em que se case com a prima.<\/p>\n<p> &#8211; E &eacute; verdade &#8211; tornou Albuquerque; s&atilde;o parentes muito chegados;<br \/>\n    o sangue &eacute; o mesmo. Quanto &agrave; fortuna de Iaiazinha pode calcular-se<br \/>\n    em cem contos de r&eacute;is. Mas qual o meio de impedir, sem risco de desagradar<br \/>\n    a D. Maur&iacute;cia o desenvolvimento destas inclina&ccedil;&otilde;es? Se<br \/>\n    Alice n&atilde;o precisasse hoje, mais do que nunca, dos servi&ccedil;os de<br \/>\n    D. Maur&iacute;cia, a dispensa destes servi&ccedil;os remediava o mal, e podia<br \/>\n    realizar-se sem o ind&iacute;cio do seu principal motivo; mas devemos acaso<br \/>\n    arriscar-nos com alguma provid&ecirc;ncia de rigor e perder t&atilde;o boa<br \/>\n    mestra? Demais, o que n&atilde;o sucederia nesta casa com semelhante separa&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Alice, como voc&ecirc; sabe, tem para D. Maur&iacute;cia afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de filha; Paulo pelo mesmo. Por a&iacute;, calcule quanta tristeza n&atilde;o<br \/>\n    entraria aqui com a aus&ecirc;ncia dela. D. Maur&iacute;cia &eacute; muito<br \/>\n    digna, &eacute; at&eacute; respons&aacute;vel; e se n&atilde;o fosse viver<br \/>\n    separada do marido, estou quase a dizer-lhe que n&atilde;o haveria desdouro<br \/>\n    em Paulo casar-se com Virg&iacute;nia, porque o que verdadeiramente se deve<br \/>\n    exigir na uni&atilde;o conjugal &#8211; o amor, este os liga e promete ser indissol&uacute;vel.<br \/>\n    Ora, eu quero a felicidade de meus filhos, e n&atilde;o estou ainda deliberado<br \/>\n    a aprovar o casamento de Paulo com a prima, cuja educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    me parece boa. Esta &eacute; a verdade.<\/p>\n<p> Esta linguagem na boca de Albuquerque era a maior das contradi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e s&oacute; indicava que os merecimentos de Maur&iacute;cia e Virg&iacute;nia<br \/>\n    tinham dado golpe profundo no preconceito que fora at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    a primeira lei moral do senhor do engenho.<\/p>\n<p> &#8211; Eu tamb&eacute;m n&atilde;o estou longe de pensar com voc&ecirc; neste<br \/>\n    ponto. Mas ent&atilde;o, vejo l&aacute; aonde isso ir&aacute; ter, porque<br \/>\n    a afei&ccedil;&atilde;o deles, com a docilidade que h&aacute;, ir&aacute;<br \/>\n    aumentando de dia em dia, e D. Maur&iacute;cia n&atilde;o cessa de dizer que<br \/>\n    nunca mais voltar&aacute; para a companhia do marido. Veja, ent&atilde;o,<br \/>\n    o que se h&aacute; de fazer, concluiu D. Carolina.<\/p>\n<p> Assim como aos olhos dos pais de Paulo os col&oacute;quios entre este e<br \/>\n    Virg&iacute;nia pareceram depressa adverti-los que deviam velar sobre o futuro<br \/>\n    do filho, assim tamb&eacute;m aos de Maur&iacute;cia eles indicaram os perigos<br \/>\n    que cercavam sua filha, n&atilde;o obstante a pureza e a grandeza do grande<br \/>\n    afeto dos dois jovens. Desde que conheceu a inclina&ccedil;&atilde;o de Virg&iacute;nia,<br \/>\n    come&ccedil;ou a ter cuidados, vigil&acirc;ncia, estremecimentos e apreens&otilde;es<br \/>\n    pela menina. &quot;Hoje s&atilde;o puros, ing&ecirc;nuos, infantis&quot; dizia<br \/>\n    consigo no fundo do aposento, que se lhe havia destinado no sobrado da casa<br \/>\n    da vivenda. Mas quem me assegura que h&aacute; de ser sempre um inocente &eacute;gloga<br \/>\n    o amor deles? E se Virg&iacute;nia, ainda quando seja sempre digna do seu<br \/>\n    nome, viesse Paulo a preferir outra mulher, sua prima por exemplo, quem lhe<br \/>\n    resgataria o dano que, depois de conhecidas as rela&ccedil;&otilde;es deles<br \/>\n    dois atualmente, semelhante acontecimento deveria trazer? Que imputa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    cru&eacute;is as l&iacute;nguas viperinas n&atilde;o se julgariam com o direito<br \/>\n    de irrogar a minha querida filha? Isso n&atilde;o pode continuar assim&quot;.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia tomou uma resolu&ccedil;&atilde;o s&uacute;bita, e desceu<br \/>\n    &agrave; sala de visitas, onde Albuquerque estava lendo os jornais daquele<br \/>\n    dia.<\/p>\n<p> &#8211; Sr. Albuquerque &#8211; disse ela, n&atilde;o sem r&aacute;pidos toques de palidez<br \/>\n    nas faces, e ligeiro tremor na voz &#8211; desculpe que ainda t&atilde;o cedo venha<br \/>\n    tomar-lhe o tempo.<\/p>\n<p> &#8211; Alguma novidade D. Maur&iacute;cia? &#8211; inquiriu quase sobressaltado o senhor<br \/>\n    do engenho.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho por grave e por da maior conta para mim o assunto desta entrevista.<\/p>\n<p> &#8211; Sente-se ao p&eacute; de mim.<\/p>\n<p> E Albuquerque ofereceu-lhe uma cadeira.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia n&atilde;o se demorou em falar-lhe nos termos seguintes:<br \/>\n    &#8211; O Sr. j&aacute; deve ter conhecido que Paulo e Virg&iacute;nia se amam,<br \/>\n    e que seu amor, ao que parece, &eacute; puro e desinteressado.<\/p>\n<p> &#8211; A senhora faz-me justi&ccedil;a quando diz que eu j&aacute; devia conhecer<br \/>\n    a afei&ccedil;&atilde;o comum ente meu filho e sua filha. De fato, essa afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de h&aacute; muito me preocupa.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho perdido noites de sono somente em cuidar nisso. Vivendo eu e minha<br \/>\n    filha a bem dizer &agrave;s suas expensas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, senhora; em minha casa a senhora tem vivido do seu trabalho.<\/p>\n<p> -&#8230; esse amor &#8211; prosseguiu Maur&iacute;cia &#8211; poder&aacute; parecer a muitos<br \/>\n    um c&aacute;lculo para eu melhorar de sorte, ou uma baixa retribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da hospitalidade que recebemos.<\/p>\n<p> &#8211; Em minha casa, Sra. D. Maur&iacute;cia, n&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m,<br \/>\n    nem os meus escravos, que seja capaz de semelhante aleivosia.<\/p>\n<p> &#8211; Eu assim penso, Sr. Albuquerque; mas fora da casa e at&eacute; fora do<br \/>\n    engenho n&atilde;o h&aacute; de faltar quem, por maldade, inveja, ou gosto<br \/>\n    diab&oacute;lico se apresse a atirar a lama sobre o v&eacute;u c&acirc;ndido<br \/>\n    de uma menina inocente que &eacute; digna da melhor sorte.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenha este receio. Os tempos dos falsos testemunhos j&aacute;<br \/>\n    passaram, e a virtude resiste a todas as agress&otilde;es da maledic&ecirc;ncia<br \/>\n    e de todas triunfa.<\/p>\n<p> &#8211; Seja como for, tenho como m&atilde;e um dever imperioso a preencher neste<br \/>\n    grave assunto. Venho declarar-lhe positivamente, Sr. Albuquerque, que n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; c&aacute;lculo nem baixeza por parte da minha filha. Se Paulo tem<br \/>\n    bras&otilde;es ilustres, sangue limpo corre pelas veias de Virg&iacute;nia;<br \/>\n    se Virg&iacute;nia &eacute; pobre, Paulo n&atilde;o &eacute; rico; se hoje<br \/>\n    eu e ela nos sentamos &agrave; mesa do Sr. Albuquerque, hoje mesmo podemos<br \/>\n    deixar vagos os nossos lugares para quem queira prestar os mesmos servi&ccedil;os<br \/>\n    que estou prestando.<\/p>\n<p> &#8211; Conclua, D. Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; Concluo, dizendo que preciso saber do Sr. Albuquerque a sua opini&atilde;o<br \/>\n    a respeito das rela&ccedil;&otilde;es que entret&eacute;m seu filho e minha<br \/>\n    filha.<\/p>\n<p> Albuquerque tinha Maur&iacute;cia em grande conta, e consagrava-lhe particular<br \/>\n    estima, que era compartida por todos os da casa. Ao princ&iacute;pio, tivera<br \/>\n    para ela a maior reserva. Terminadas as li&ccedil;&otilde;es de Alice, Maur&iacute;cia<br \/>\n    subia aos seus aposentos e a fam&iacute;lia recolhia-se aos que lhe pertencia,.<br \/>\n    Ficavam as comunica&ccedil;&otilde;es interrompidas at&eacute; a hora da refei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    em que Maur&iacute;cia, descendo com Virg&iacute;nia, vinha encontrar os donos<br \/>\n    da casa e sua disc&iacute;pula silenciosos &agrave; mesa, esperando por elas.<br \/>\n    Estas cerim&ocirc;nias duraram por algum tempo. Albuquerque e D. Carolina<br \/>\n    estudavam os costumes, os sentimentos, o car&aacute;ter da mulher a quem tinham<br \/>\n    dado entrada, por necessidade, no seio da fam&iacute;lia. Tanto, por&eacute;m,<br \/>\n    que reconheceram os largos merecimentos de Maur&iacute;cia, cortaram o cord&atilde;o<br \/>\n    sanit&aacute;rio que os separavam, e foram os primeiros que atra&iacute;ram<br \/>\n    &agrave; intimidade a h&oacute;spede que ainda queria continuar as suas reservas.<br \/>\n    Ent&atilde;o, Maur&iacute;cia e Virg&iacute;nia vieram a ser consideradas<br \/>\n    os primeiros encantos da casa e quase a fazer parte da fam&iacute;lia. Albuquerque<br \/>\n    apresentou-as com certo orgulho &aacute;s pessoas de representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que vinham passar dias no engenho. Neste, come&ccedil;ou a reinar outra ordem<br \/>\n    de alegrias. Dantes, havia a&iacute; lautos jantares, mas sem grande anima&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    agora, j&aacute; n&atilde;o era assim; com sua voz divina , Maur&iacute;cia<br \/>\n    dava &agrave;s reuni&otilde;es o tom de verdadeiros saraus. Com ela, entrara<br \/>\n    ali a musa da harmonia, que deixava extasiados e saudosos os que iam passar<br \/>\n    os domingos com Albuquerque.<\/p>\n<p> A brilhante sociedade que j&aacute; concorria semanalmente ao engenho tornou-se<br \/>\n    mais freq&uuml;ente, e aumentou e brilho e n&uacute;mero. Um presidente de<br \/>\n    prov&iacute;ncia foi passar um domingo em Caxang&aacute; somente para ouvi-la<br \/>\n    cantar.<\/p>\n<p> Ouvindo as suas palavras Albuquerque n&atilde;o se deu por ofendido, antes<br \/>\n    acudiu a dar-lhes o maior apoio, procurando tranq&uuml;iliz&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenho sobre este objeto inten&ccedil;&atilde;o hostil a Virg&iacute;nia,<br \/>\n    que eu considero no caso de dar a Paulo a felicidade que ele deseja. Mas o<br \/>\n    casamento n&atilde;o se realizar&aacute; sen&atilde;o depois e preenchida<br \/>\n    uma condi&ccedil;&atilde;o, uma condi&ccedil;&atilde;o &uacute;nica.<\/p>\n<p> &#8211; Qual, Sr. Albuquerque? inquiriu a inquieta m&atilde;e, sentindo lavar-se<br \/>\n    no seu esp&iacute;rito, at&eacute; aquele momento carregado de d&uacute;vidas<br \/>\n    e temores, no mais suave contentamento.<\/p>\n<p> &#8211; Est&atilde;o bem mo&ccedil;os ainda; s&atilde;o duas crian&ccedil;as &#8211;<br \/>\n    prosseguiu Albuquerque. No governo da vida, Paulo &eacute; um homem perfeito;<br \/>\n    eu n&atilde;o sei se poderia em caso algum dirigir t&atilde;o discretamente<br \/>\n    as minhas a&ccedil;&otilde;es, e trazer t&atilde;o bem velados os meus interesses.<br \/>\n    Mas Paulo, segundo a senhora reconhece, n&atilde;o tem fortuna; agora &eacute;<br \/>\n    que trata de formar pec&uacute;lio. Ele desmentiria seu conhecido ju&iacute;zo,<br \/>\n    se tomasse fam&iacute;lia sem os meios de a manter decente e dignamente. Talvez<br \/>\n    que j&aacute; tenha estes meios, quando se preencher a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que lhe falei. Ent&atilde;o, sim, D. Maur&iacute;cia; o casamento, que<br \/>\n    n&oacute;s e eles desejamos, se realizar&aacute; com satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todos.<\/p>\n<p> &#8211; Mas n&atilde;o poderei saber qual &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o a<br \/>\n    que o Sr. se refere?<br \/>\n    &#8211; Permita que por ora n&atilde;o a revele. Em ocasi&atilde;o oportuna, a senhora<br \/>\n    ser&aacute; sabedora; mas dependendo a condi&ccedil;&atilde;o da sua vontade,<br \/>\n    ou do tempo, n&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o para supor que prometo o que<br \/>\n    &eacute; imposs&iacute;vel. Est&aacute; satisfeita, minha senhora?<br \/>\n    &#8211; Estou tranq&uuml;ila; satisfeita, ainda n&atilde;o, respondeu Maur&iacute;cia,<br \/>\n    graciosamente.<\/p>\n<p> &#8211; Esperemos pelo tempo &#8211; disse Albuquerque.<\/p>\n<p> E levantou-se.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia imitou-o, e subiu. Levava um dem&ocirc;nio no esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8211; Que condi&ccedil;&atilde;o ser&aacute; esta? perguntava inquieta a si<br \/>\n    mesma, e n&atilde;o achava reposta que lan&ccedil;asse um raio de luz sobre<br \/>\n    este mist&eacute;rio impenetr&aacute;vel.<\/p>\n<p> Neste mesmo dia, Albuquerque, dando parte a sua mulher do que se passara<br \/>\n    entre ele e Maur&iacute;cia, disse estas palavras:<br \/>\n    &#8211; Daqui at&eacute; que Alice esteja de todo educada, hei de ter conseguido<br \/>\n    conciliar D. Maur&iacute;cia com o marido, e ent&atilde;o darei a Paulo a<br \/>\n    felicidade que mais deseja. Talvez, n&atilde;o seja preciso promover-se esta<br \/>\n    concilia&ccedil;&atilde;o, &agrave; vista das circunst&acirc;ncias em que<br \/>\n    ficava o marido de D. Maur&iacute;cia por ocasi&atilde;o das &uacute;ltimas<br \/>\n    indaga&ccedil;&otilde;es a que mandei proceder no Par&aacute;. Estava pobre<br \/>\n    e enfermo. Conjeturo que a esta hora o infeliz j&aacute; n&atilde;o mais existe.<\/p>\n<p> N&atilde;o chegou a contar-se uma semana que Albuquerque teve a prova de<br \/>\n    que era mentirosa a sua conjetura.<\/p>\n<h2><a name=\"6\">Cap&iacute;tulo VI<\/a><\/h2>\n<p>Na mesma sala em que Albuquerque e Maur&iacute;cia tinham conferenciado sobre<br \/>\n    o grave assunto que vimos, foi introduzido, seriam noves horas da manh&atilde;,<br \/>\n    no dia da festa em honra de Eug&ecirc;nia, um homem que poderia ter quarenta<br \/>\n    anos de idade. Era alto, magro, p&aacute;lido. Tinha a fisionomia desfigurada.<br \/>\n    Trajava de peto. Trazia os cabelos e a barba crescidos, a camisa enxovalhada.<\/p>\n<p> &#8211; Queira ter a bondade de dizer o que o trouxe a esta casa, disse-lhe Albuquerque.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor, disse o sujeito, estava eu no leito de morte, quando um amigo,<br \/>\n    com o intento de reanimar-me, deu-me a ler uma carta em que uma pessoa desta<br \/>\n    cidade recomendava a outra, moradora na em que eu agonizava, que lhe desse<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es minuciosas acerca do meu estado moral, sobre os<br \/>\n    meus meios de vida, etc.<\/p>\n<p> &#8211; Estou falando com o Sr. Bezerra? &#8211; inquiriu Albuquerque.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhor; tornou o sujeito.<\/p>\n<p> &#8211; Sente-se.<\/p>\n<p> Depois de um minuto e sil&ecirc;ncio, Bezerra prosseguiu:<br \/>\n    &#8211; V.S. ter&aacute; bem presente tudo o que disse nessa carta?<br \/>\n    &#8211; Lembra-me por alto o que escrevi.<\/p>\n<p> &#8211; Falo-lhe nestes termos porque eu a tenho de cor, o que n&atilde;o deve<br \/>\n    causar espanto, visto ser ela a minha salva&ccedil;&atilde;o. Posso assegurar<br \/>\n    a V.S. que as suas letras me arrancaram das garras da morte.<\/p>\n<p> &#8211; Eu tudo ignoro a seu respeito, porque a pessoa a quem pedi informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nenhuma me deu ainda.<\/p>\n<p> &#8211; Essa pessoa julgou-se dispensada de o fazer, quando soube que eu vinha<br \/>\n    a Pernambuco. Procurou-me para me pedir que entregasse a V.S. a presente carta.<\/p>\n<p> Assim falando Bezerra punha nas m&atilde;os de Albuquerque a carta a que<br \/>\n    se referira.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; uma carta de apresenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Albuquerque, depois de l&ecirc;-la, disse a Bezerra:<br \/>\n    &#8211; Antes de passarmos adiante, julgo no meu dever declarar-lhe que nenhuma<br \/>\n    parte teve no passo que dei para obter as informa&ccedil;&otilde;es a seu<br \/>\n    respeito a Sra. D. Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; Minha mulher&#8230; disse Bezerra.<\/p>\n<p> &#8211; Andei nisso por exclusiva inspira&ccedil;&atilde;o minha, e at&eacute;<br \/>\n    a este momento ela tudo ignora a semelhante respeito.<\/p>\n<p> A estas palavras, Bezerra tornou-se mais p&aacute;lido do que era.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! disse. Eu cuidava que tudo se havia feito por indica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dela.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Sei, prosseguiu Bezerra, que minha mulher n&atilde;o encontrou em V.S.<br \/>\n    somente um cavalheiro, encontrou tamb&eacute;m um irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o lhe tenho feito sen&atilde;o aquilo a que tem direito, pelas<br \/>\n    suas qualidades pessoais.<\/p>\n<p> &#8211; V.S. diz a verdade nestas &uacute;ltimas palavras, minha mulher &eacute;<br \/>\n    uma ador&aacute;vel criatura; e s&oacute; a cegueira em que vivi nos primeiros<br \/>\n    anos depois do meu casamento poderia dar origem a cenas fatais que hoje eu<br \/>\n    recordo com pejo. Mas, senhor, posso assegurar-lhe que a cegueira est&aacute;<br \/>\n    agora de todo extinta; e que, ensinado pela experi&ecirc;ncia, castigado pela<br \/>\n    sorte, trago para minha mulher o primeiro dos meus afetos, e para a minha<br \/>\n    querida Virg&iacute;nia todos os extremos de que &eacute; capaz o mais terno<br \/>\n    dos pais.<\/p>\n<p> Albuquerque tinha os olhos fixos em Bezerra, que parecia exprimir-se n&atilde;o<br \/>\n    com os l&aacute;bios, mas com a alma.<\/p>\n<p> Bezerra n&atilde;o fora destitu&iacute;do de gra&ccedil;a nas suas fei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de vivacidade no olhar. Conhecia-se pelas ru&iacute;nas ainda not&aacute;veis<br \/>\n    destes dotes que eles tinham sido pingues. O senhor de engenho ouvia-o com<br \/>\n    toda aten&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o sem prazer.<\/p>\n<p> Bem depressa, Bezerra conheceu que da parte do seu interlocutor havia toda<br \/>\n    a benevol&ecirc;ncia para ele. Considerou, ent&atilde;o, ganha a sua causa.<\/p>\n<p> Continuou:<br \/>\n    &#8211; Apanhei muito na cabe&ccedil;a, senhor, apanhei muito mesmo. Fui negociante,<br \/>\n    fazendeiro, advogado, jornalista. Tudo o que era meu se foi pela &aacute;gua<br \/>\n    abaixo; mas o meu primeiro tesouro, a minha &uacute;nica fortuna, que eu julgava<br \/>\n    para sempre perdido, a Deus aprouve que tivessem em V.S. um defensor, um protetor,<br \/>\n    um deposit&aacute;rio vener&aacute;vel. Obrigado, senhor, brigado. Vendido<br \/>\n    e revendido eu n&atilde;o poderia pagar-lhe este servi&ccedil;o, esta honra,<br \/>\n    esta esmola, esta felicidade.<\/p>\n<p> &#8211; Sr. Bezerra, atalhou Albuquerque, o senhor est&aacute; laborando em verdadeira<br \/>\n    equivoca&ccedil;&atilde;o informando-me do estado da sua vida. N&atilde;o<br \/>\n    foi meu intento cham&aacute;-lo a Pernambuco para restituir-lhe a fam&iacute;lia<br \/>\n    que o senhor deixou sair pela porta afora em pranto e desespero. N&atilde;o<br \/>\n    tinha e n&atilde;o tenho autoridade para isso. Informei-me por mera curiosidade.<br \/>\n    Eu queria saber se a mulher que eu recebera no seio de minha fam&iacute;lia<br \/>\n    tinha raz&atilde;o de estar separada do marido, at&eacute; certo ponto pareceu-me<br \/>\n    at&eacute; dever meu ter disso conhecimento para minha dire&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Se, pelas minhas informa&ccedil;&otilde;es, eu chegasse a convencer-me de<br \/>\n    que a Sra. D. Maur&iacute;cia n&atilde;o era digna de viver &agrave; minha<br \/>\n    sombra, retirar-lhe-ia imediatamente toda a confian&ccedil;a, e sobre as suas<br \/>\n    costas fecharia para sempre as portas de minha casa. Felizmente, senhor, parece-me<br \/>\n    que n&atilde;o foi ela quem mais concorreu para a separa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lastimo.<\/p>\n<p> &#8211; Toda a responsabilidade deste deplor&aacute;vel acontecimento me pertence.<br \/>\n    Minha mulher foi m&aacute;rtir das minhas loucuras. Quero pedir-lhe que me<br \/>\n    perdoe, e que venha d&#8217;ora em diante proporcionar-me a felicidade, a que eu<br \/>\n    n&atilde;o soube dar o devido valor.<\/p>\n<p> &#8211; Neste particular, senhor, tudo correr&aacute; por sua conta.<\/p>\n<p> &#8211; Mas V.S. h&aacute; de auxiliar-me na extin&ccedil;&atilde;o do esc&acirc;ndalo<br \/>\n    e da desgra&ccedil;a que h&aacute; tr&ecirc;s anos trazem apartados de mim<br \/>\n    dois entes que hoje constituem a minha &uacute;nica riqueza.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho os melhores desejos de que cessem este esc&acirc;ndalo e desgra&ccedil;a;<br \/>\n    e prometo-lhe que tudo farei para que o senhor e ela voltem a viver em harmonia,<br \/>\n    respeitados e estimados dos homens de bem. Antes, por&eacute;m, de chegarmos<br \/>\n    a qualquer resultado, exijo do senhor um servi&ccedil;o, a que me considero<br \/>\n    com direito.<\/p>\n<p> &#8211; Tenha V.S. a bondade de declara que servi&ccedil;o &eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Exijo que o Sr. Bezerra fa&ccedil;a ver a sua mulher, em termos que metam<br \/>\n    f&eacute;, que a sua vinda a Pernambuco &eacute; o resultado de delibera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sua na qual n&atilde;o tive a menor parte. H&aacute; tr&ecirc;s anos que D.<br \/>\n    Maur&iacute;cia vive em minha casa, em t&atilde;o estreita cordialidade que<br \/>\n    s&oacute; nos tem proporcionado horas de contentamento. Todos a t&ecirc;m<br \/>\n    aqui na maior conta. Eu voto-lhe particular estima, porque n&atilde;o vejo<br \/>\n    nela somente uma mulher de qualidades distintas, vejo principalmente a educadora<br \/>\n    carinhosa, a quem minha filha deve prendas de grande pre&ccedil;o que constituem<br \/>\n    o melhor do seu dote. O senhor compreende que em condi&ccedil;&otilde;es tais<br \/>\n    muito desagrad&aacute;vel me seria que, sem fundamento, ali&aacute;s, tivesse<br \/>\n    sua mulher motivo para de qualquer modo atribuir-me neste neg&oacute;cio solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que n&atilde;o fosse de seu agrado.<\/p>\n<p> &#8211; A minha defesa e a minha gl&oacute;ria est&atilde;o principalmente na<br \/>\n    espontaneidade com que resolvi procur&aacute;-la. Sem essa espontaneidade,<br \/>\n    nenhuma seguran&ccedil;a daria eu de ser no futuro o reverso do que fui no<br \/>\n    passado.<\/p>\n<p> Quando Bezerra soube que a mulher a e filha n&atilde;o estavam no engenho,<br \/>\n    grande foi a sua contrariedade. Compreende-se que ele tivesse pressa em ver<br \/>\n    decidida t&atilde;o importante quest&atilde;o.<\/p>\n<p> Bezerra dissera, n&atilde;o a verdade inteira, mas s&oacute; meia verdade<br \/>\n    a Albuquerque relativamente &agrave;s diferentes fases de sua vida. Ele, no<br \/>\n    Par&aacute;, fora quase tudo o que pode ser um homem que se deixa resvalar<br \/>\n    no plano escorregadio do desmando, principiando o escorrego pelo lar dom&eacute;stico.<br \/>\n    Vendera tudo o que lhe restava dos poucos bens que a mulher lhe levara em<br \/>\n    dote, para consumir seu valor na dissipa&ccedil;&atilde;o, no jogo, na malandragem.<br \/>\n    Tivera v&aacute;rias aventuras, e por uma delas chegara a ir &agrave; pris&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica. Quando ficou livre, meteu-se a r&aacute;bula. Ele n&atilde;o<br \/>\n    era inteiramente in&aacute;bil, e porque as necessidades urgiam, chegou, pelo<br \/>\n    esfor&ccedil;o, fazer aquisi&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos que no foro<br \/>\n    se exigem. Por algum tempo se manteve nesta carreira; mas tendo-se sumido<br \/>\n    dos autos de uma quest&atilde;o importante o documento em que a parte contr&aacute;ria<br \/>\n    fundava o seu direito, jurou ela vingar-se extrajudicialmente. De feito, uma<br \/>\n    noite em que Bezerra, ao lado de uma das &uacute;ltimas companheiras lia uma<br \/>\n    novela, quatro sujeitos mascarados tomaram-lhe as portas da entrada e sa&iacute;da,<br \/>\n    e dentro de sua pr&oacute;pria casa deram-lhe tamanha surra que por morto<br \/>\n    o deixaram. A companheira desamparou-o nesta hora de suprema agonia, e se<br \/>\n    n&atilde;o fosse um caridoso vizinho, que dele se condoeu, n&atilde;o sairia<br \/>\n    da cama sen&atilde;o para a sepultura. Estava ele neste estado, quando a carta<br \/>\n    de Albuquerque chegou ao Par&aacute;. A pessoa mostra-lha; ele cria alma nova.<br \/>\n    Lembra-se da mulher e da filha, e em voltar &agrave; vida conjugal, por tanto<br \/>\n    tempo desamparada, julga estar a sua salva&ccedil;&atilde;o; considera-se<br \/>\n    arrependido; pede a Deus que lhe conserve a vida para que ele tenha, ao menos,<br \/>\n    ensejo de dar at&eacute; aos fins dela prova p&uacute;blica de sua emenda.<br \/>\n    Seus desejos foram cumpridos.<\/p>\n<p> Mas era tamanho o empenho em ver Maur&iacute;cia, que n&atilde;o se resignou<br \/>\n    a esperar que ela voltasse a Caxang&aacute;. Tendo ficado de voltar no dia<br \/>\n    seguinte, depois de jantar no Engenho, regressa a Recife e encaminha-se para<br \/>\n    a casa de Martins.<\/p>\n<p> Entretanto, Albuquerque dava-se os parab&eacute;ns do desfecho feliz que<br \/>\n    o triste drama parecia ter.<\/p>\n<p> Ficara toda a tarde no aterrado do engenho com sua mulher. Alice tinha ido<br \/>\n    passar o domingo em casa de uma parenta; e como se a sorte julgasse necess&aacute;rio<br \/>\n    todo o tempo a Albuquerque para refletir sobre a nova situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que se desenhava a seus olhos, nesse dia n&atilde;o apareceu nenhum dos habituais<br \/>\n    freq&uuml;entadores da casa.<\/p>\n<p> &#8211; Eles ficar&atilde;o aqui ao p&eacute; de n&oacute;s &#8211; dizia Albuquerque<br \/>\n    a D. Carolina, referindo-se a Bezerra e Maur&iacute;cia. A casa onde faleceu<br \/>\n    minha irm&atilde; ser&aacute; para eles. &Eacute; uma boa casa, em que poder&atilde;o<br \/>\n    morar o tempo que lhes parecer. Como n&atilde;o tem esse homem nenhum meio<br \/>\n    de vida por ora, verei o que se h&aacute; de fazer para que fique arranjado.<br \/>\n    Se proceder bem, como espero, Paulo casar-se-&aacute;, e restar-me-&aacute;<br \/>\n    o prazer de ter chamado ao bom caminho um casal que andava desnorteado, e<br \/>\n    de ter realizado a felicidade do meu filho.<\/p>\n<p> D. Carolina, depois de algumas reflex&otilde;es, ou obje&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que Albuquerque destruiu, achou tudo o mais muito bom, e j&aacute; desejava<br \/>\n    que todo esse castelo fosse levado a efeito quando uma carruagem do engenho,<br \/>\n    que voltava, trouxe Maur&iacute;cia e Virg&iacute;nia.<\/p>\n<p> Albuquerque e D. Carolina foram ao encontro das duas senhoras.<\/p>\n<p> Pegando da m&atilde;o de Maur&iacute;cia, o senhor do engenho, com o sorriso<br \/>\n    nos l&aacute;bios, disse-lhe:<br \/>\n    &#8211; Tenho uma feliz nova que lhe comunicar, D. Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; Uma feliz nova! Eu tamb&eacute;m tenho uma novidade que lhe referir. Mas<br \/>\n    esta, Sr. Albuquerque, &eacute; triste: &Eacute; a minha desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o Maur&iacute;cia deu alguns passos para D. Carolina.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! minha boa amiga. A minha tranq&uuml;ilidade, o meu sossego, acabaram.<br \/>\n    Foram-se os dia felizes. Ai de mim!<br \/>\n    Assim falando, Maur&iacute;cia lan&ccedil;ou-se nos bra&ccedil;os da senhora<br \/>\n    do engenho, e umedeceu-lhe o seio com l&aacute;grimas.<\/p>\n<h2><a name=\"7\">Cap&iacute;tulo VII<\/a><\/h2>\n<p>N&atilde;o se pode descrever o assombro de Maur&iacute;cia ao dar com as<br \/>\n    vistas em Bezerra na sala do s&iacute;tio. A medonha vis&atilde;o, que lhe<br \/>\n    aparecera no boqueir&atilde;o e se desvanecera quase inteiramente no trajeto<br \/>\n    para a casa de Martins, surgia agora novamente, envenenando-lhe o esp&iacute;rito<br \/>\n    e repassando-lhe de fel a malfadada exist&ecirc;ncia. Terr&iacute;veis amea&ccedil;as<br \/>\n    vinham com esta vis&atilde;o merenc&oacute;ria e truculenta. O passado de<br \/>\n    que Maur&iacute;cia desenterrara a p&aacute;gina, que lera a &Acirc;ngelo,<br \/>\n    ressurgiu a seus olhos com todos os epis&oacute;dios, dando-lhe a fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma trag&eacute;dia.<\/p>\n<p> &#8211; Eu logo vi que n&atilde;o havia de enganar-me &#8211; disse ela tristemente.<\/p>\n<p> E acrescentou no mesmo instante:<br \/>\n    &#8211; Que ser&aacute; de mim, se esse homem me jungir outra vez ao carro de sua<br \/>\n    tirania?<br \/>\n    E porque a esse tempo tinha passado a primeira impress&atilde;o do assombro,<br \/>\n    Maur&iacute;cia volveu imediatamente sobre seus passos. &Acirc;ngelo, que<br \/>\n    tinha ainda preso ao seu bra&ccedil;o o dela, deixou-se arrastar irresistivelmente.<br \/>\n    O acaso os unira, e a fatalidade parecia n&atilde;o querer solt&aacute;-los.<br \/>\n    O abismo, em que um esteve perto de cair, amea&ccedil;ou o outro. O pensamento<br \/>\n    de escapar a esse abismo era comum a ambos.<\/p>\n<p> &#8211; Fujamos daqui, Sr. Dr. &Acirc;ngelo. Deus me livre de ser vista por meu<br \/>\n    carrasco. Parece-me que para afugentar-se espavorida a minha liberdade, bastaria<br \/>\n    que ele me cobrisse com seu olhar sinistro.<\/p>\n<p> Foi profundamente abalada que Maur&iacute;cia disse estas palavras, arrancos<br \/>\n    de seu &acirc;nimo quase exausto. Sentia-se presa da febre e do frio ao mesmo<br \/>\n    tempo. Em sua alma, havia fogo e gelo &#8211; o fogo do desespero; o gelo do terror.<\/p>\n<p> Deram a andar em demanda do port&atilde;o, protegidos pelas sombras das<br \/>\n    &aacute;rvores a que as da noite aumentavam o vulto e a densid&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; talvez excesso nos seus receios, D. Maur&iacute;cia &#8211; disse<br \/>\n    &Acirc;ngelo, depois de um momento de sil&ecirc;ncio. Quem a poder&aacute;<br \/>\n    obrigar a viver com este homem? A senhora n&atilde;o pertence ao acaso! N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; dona das suas a&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    &#8211; Perten&ccedil;o-me e sou senhora das minhas a&ccedil;&otilde;es &#8211; respondeu<br \/>\n    ela. Mas a verdade &eacute; que ele me aterra como se fora um duende. N&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; em mim deixar de tem&ecirc;-lo. Contra esse homem s&oacute; fui<br \/>\n    forte em um momento da vida &#8211; o da minha separa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Recobre os &acirc;nimos &#8211; prosseguiu o bacharel. Voltar &agrave; companhia<br \/>\n    dele, ou ficar livre como at&eacute; hoje, s&atilde;o coisas que dependem<br \/>\n    exclusivamente da sua vontade. N&atilde;o tem vivido longe dele durante tr&ecirc;s<br \/>\n    anos? Por que o teme? Demais, a senhora n&atilde;o est&aacute; s&oacute;.<br \/>\n    Ao seu lado pulsa um cora&ccedil;&atilde;o virgem e amigo, onde predominam<br \/>\n    dois sentimentos intensos &#8211; o amor e a dedica&ccedil;&atilde;o. Exija qualquer<br \/>\n    prova destes sentimentos que ela n&atilde;o ser&aacute; recusada, nem retardada.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo tinha na voz estranhas vibra&ccedil;&otilde;es. Seu corpo estremecia<br \/>\n    nervosamente. Fulgiam-lhe no esp&iacute;rito clar&otilde;es sinistros. Era<br \/>\n    a terceira vez que o seu amor se revelava. Maur&iacute;cia, que se considerava<br \/>\n    de fato amea&ccedil;ada no que tinha mais caro de seu, n&atilde;o pode fazer-se<br \/>\n    desentendida como das outras vezes. Os perigos que se levantaram contra a<br \/>\n    sua tranq&uuml;ilidade eram maiores do que os que amea&ccedil;avam a sua honra.<\/p>\n<p> &#8211; Eu preciso realmente de prote&ccedil;&atilde;o, Sr. Dr. &#038;AcircAcirc;ngelo.<br \/>\n    Dentre os parentes que tenho s&oacute; confio em Eug&ecirc;nia e no marido;<br \/>\n    mas a moral severa em que foram educados talvez n&atilde;o lhes consinta fazerem<br \/>\n    comigo uma barreira contra as pretens&otilde;es do meu perseguidor. N&atilde;o<br \/>\n    lhe far&atilde;o a menor resist&ecirc;ncia, quando ele declarar que pretende<br \/>\n    restabelecer a moralidade no seu lar, n&atilde;o obstante saberem que ele<br \/>\n    foi o &uacute;nico perturbador da nossa harmonia, a causa da nossa separa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Desculpe-me D. Maur&iacute;cia. Isto que prev&ecirc; parece-me imposs&iacute;vel<br \/>\n    de realizar-se. N&atilde;o somente uma, mas muitas vezes, tenho ouvido Martins<br \/>\n    e D. Eug&ecirc;nia terem para o Bezerra acerbas censuras.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, mas logo que se trate de reconciliar-nos, h&atilde;o<br \/>\n    de mudar de parecer, e ser&atilde;o os primeiros a promover o nosso congra&ccedil;amento.<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; isto o que sucede a todas as fam&iacute;lias em casos<br \/>\n    an&aacute;logos?<br \/>\n    O des&acirc;nimo entrara no esp&iacute;rito da infeliz senhora.<\/p>\n<p> &#8211; Considero-me desamparada. Por que motivo hei de ocultar a minha fraqueza?<br \/>\n    Se meu marido pretender chamar-me para a sua companhia, terei necessidade<br \/>\n    de bater &agrave; porta de algu&eacute;m para pedir que me livre das garras<br \/>\n    do monstro.<\/p>\n<p> Estas revela&ccedil;&otilde;es &iacute;ntimas foram arrancadas pela gravidade<br \/>\n    das circunst&acirc;ncias. Conhecendo tal gravidade, Maur&iacute;cia n&atilde;o<br \/>\n    teve reservas, nem as podia ter. Demais, o afeto pelo bacharel, ao primeiro<br \/>\n    hesitante e t&iacute;mido, ia ganhando de instante a instante propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    avultadas em sua alma, que at&eacute; ent&atilde;o fora uma vasta regi&atilde;o<br \/>\n    desocupada. Os temores, os perigos vieram auxiliar em seu desenvolvimento<br \/>\n    as inclina&ccedil;&otilde;es do seu cora&ccedil;&atilde;o. No seio da intensa<br \/>\n    sombra &iacute;ntima em que nadava sua alma solit&aacute;ria e vacilante,<br \/>\n    surdira, como para lhe servir de companhia, pirilampo gentil e namorado, que<br \/>\n    devia ter em breve o luzeiro de um astro. Por que havia de fugir Maur&iacute;cia<br \/>\n    &agrave; deleitosa impress&atilde;o trazida pela primeira luz que rompia suavemente<br \/>\n    a noite do seu cora&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    O amor nascia a&iacute;, como nasce semente fecunda em solo ferac&iacute;ssimo;<br \/>\n    e, com o amor, nascia a confian&ccedil;a insepar&aacute;vel deste sentimento,<br \/>\n    &agrave;s vezes enganosa, mas quase sempre cega.<\/p>\n<p> Suas &uacute;ltimas palavras adiantaram o jovem bacharel no caminho que<br \/>\n    sua paix&atilde;o abrira; nem foram obst&aacute;culos ao avan&ccedil;o de<br \/>\n    &Acirc;ngelo as cerim&ocirc;nias das rela&ccedil;&otilde;es recentes e o passado<br \/>\n    dessa mulher que ele conhecia havia poucas horas.<\/p>\n<p> &#8211; Eu sempre lhe aconselharia, disse ele, que primeiro procurasse chamar<br \/>\n    a si o seu cunhado e a sua irm&atilde;, minha senhora: mas, se este recurso<br \/>\n    n&atilde;o surtir efeito, o outro h&aacute; de surtir. N&atilde;o tenho fortuna;<br \/>\n    obriga&ccedil;&otilde;es, sim, conto-as em grande n&uacute;mero; pobre de<br \/>\n    meios, sou rico de confian&ccedil;a no futuro, tenho grande esp&iacute;rito,<br \/>\n    alguns amigos e muito amor. Por que n&atilde;o lhe hei de dizer tudo o que<br \/>\n    a senhora me tem feito sentir?<br \/>\n    &#8211; Esta linguagem aumenta cada vez mais o meu terror, disse Maur&iacute;cia,<br \/>\n    sem reserva, tr&ecirc;mula, confusa, dominada de infantis pavores.<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;? Por qu&ecirc;? &#8211; inquiriu o bacharel por extremo excitado.<\/p>\n<p> &#8211; Porque tais palavras me advertem que, fugindo de um abismo insond&aacute;vel,<br \/>\n    aproximo-me de outro abismo t&atilde;o insond&aacute;vel como o primeiro.<\/p>\n<p> &#8211; Engana-se, minha senhora, retorquiu o bacharel. A senhora foge de uma<br \/>\n    regi&atilde;o desolada, e penetra em um asilo de paz e conc&oacute;rdia. Ora,<br \/>\n    escute. Daqui a trinta l&eacute;guas, existe uma povoa&ccedil;&atilde;o banhada<br \/>\n    a leste pelo Atl&acirc;ntico, e ao sul por um riacho de &aacute;guas cristalinas<br \/>\n    e puras; ao norte e ao ocidente, essa regi&atilde;o &eacute; cercada de vastas<br \/>\n    florestas, em sua maioria formadas por cajueirais imensos. Nesse povoa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    moram meus pais. A vida ali &eacute; obscura, mas tranq&uuml;ila. Dos enredos<br \/>\n    do mundo, poucos penetram neste asilo aberto &agrave;s grandes afei&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    A sociedade dos pescadores lembra o trato com a Graziela; quem ali ama n&atilde;o<br \/>\n    raras vezes sente em sua alma as grandezas desta concep&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Lamartine. Suponha que, partindo daqui, achasse a&iacute; no seio de uma fam&iacute;lia<br \/>\n    honesta, hospedeira e afetuosa todos os carinhos e desvelos que tinha no seu<br \/>\n    lar paterno; suponha que a&iacute;, a seu lado, uma alma ardente a acompanharia<br \/>\n    de manh&atilde; e de tarde pelas dunas da praia, ou pelos caminhos que cortam<br \/>\n    a floresta, sentindo ressoar entro de si a doce harmonia de sua voz; suponha<br \/>\n    que algumas economias levadas daqui poderiam assegurar-lhe uma exist&ecirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o opulenta, mas decente e tranq&uuml;ila; ora, diga-me: se este sonho<br \/>\n    pudesse realizar-se; se uma voz amiga chegasse aos seus ouvidos e lhe dissesse<br \/>\n    &agrave; puridade: &quot;esta pintura n&atilde;o &eacute; mentirosa; esse<br \/>\n    canto feliz existe; essa vida imaginada, esse sossego long&iacute;nquo, essa<br \/>\n    floresta cheia de perfumes, essas praias povoadas de jangadas, pertencentes<br \/>\n    a pescadores que h&atilde;o de ser nossos amigos, esse rio de &aacute;guas<br \/>\n    cristalinas, esse Atl&acirc;ntico imenso, essa fam&iacute;lia hospedeira,<br \/>\n    enfim , esse &Eacute;den existe, e podes tu existir no seio dele a senhora<br \/>\n    teria &acirc;nimo para dizer-lhe: &quot;cala-te, que esse mundo, essa vida,<br \/>\n    &eacute; um abismo?&quot;<br \/>\n    Maur&iacute;cia ouvira estas palavras em profundo sil&ecirc;ncio. Enquanto<br \/>\n    &Acirc;ngelo as proferia, ela absorta em ouvi-las, esquecera-se da triste<br \/>\n    realidade que a cercava. Seu esp&iacute;rito acompanhava a brilhante descri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    feita pelo poeta. Afigurava-se-lhe um para&iacute;so este cantinho pequeno<br \/>\n    na terra, imenso em sua alma, infinito em sua imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Se eu pudesse viver a&iacute; sem remorso, sem inquieta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    sem saudades, como havia de ser feliz! &#8211; disse ela insensivelmente arrastada<br \/>\n    pelo fio de pensamentos &iacute;ntimos que tinha a for&ccedil;a de uma cadeia<br \/>\n    fatal e ominosa.<\/p>\n<p> &#8211; E por que n&atilde;o h&aacute; de poder? &#8211; perguntou o advogado, mais<br \/>\n    escravo de sua exalta&ccedil;&atilde;o, do que senhor do seu afeto, na realidade<br \/>\n    dif&iacute;cil de dominar, porque era aquela vez a primeira que rebentava,<br \/>\n    tinha pujan&ccedil;a, a impetuosidade das correntes nativas, que se atiram<br \/>\n    &agrave;s pedras, se despeda&ccedil;am contra elas, mas transpondo-as em fios<br \/>\n    cristalinos, adiante coligem os seus cristais espalhados e prosseguem a sua<br \/>\n    vertiginosa carreira.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o posso, respondeu Maur&iacute;cia. Se eu desse esse semelhante<br \/>\n    passo o mundo cobrir-me-ia de bald&otilde;es, e o futuro de minha filha correria<br \/>\n    iminente perigo.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo sobresteve, sentindo a for&ccedil;a destas palavras. mas o<br \/>\n    seu repentino amor n&atilde;o lhe consentiu larga reflex&atilde;o. Ele tornou<br \/>\n    logo:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, se o ju&iacute;zo do mundo lhe causa estes medos, como &eacute; que<br \/>\n    a senhora fala em recusar a conviv&ecirc;ncia com o seu marido? N&atilde;o<br \/>\n    se engane, minha senhora. Veja que est&aacute; colocada entre as duas pontas<br \/>\n    de um dilema terr&iacute;vel. Cuida que h&aacute; de poder evitar a l&iacute;ngua<br \/>\n    do mundo e ao mesmo tempo a companhia daquele de quem vive fugindo horrorizada?<br \/>\n    Isto &eacute; imposs&iacute;vel. Urge escolher um destes dois princ&iacute;pios<br \/>\n    extremos, j&aacute; que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel ambos. &Eacute;<br \/>\n    quest&atilde;o de prefer&ecirc;ncia. Pensar&aacute; acaso que vindo a Pernambuco<br \/>\n    aquele a quem a fatalidade a ligou, e procurando a casa de sua irm&atilde;,<br \/>\n    tem outro intento que n&atilde;o seja o de chamar a senhora aos eu poder?<br \/>\n    Cuidar&aacute; que ele fez de prop&oacute;sito esta viagem somente para lhe<br \/>\n    dizer com o sorriso nos l&aacute;bios, e brando fulgor dos olhos: &quot;Vim<br \/>\n    ver-te, porque tinha grandes saudades de ti; porque tuas lindas fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    estavam quase todas apagadas de minha imagina&ccedil;&atilde;o, e eu queria<br \/>\n    aviv&aacute;-las para as levar comigo ao t&uacute;mulo como o derradeiro penhor<br \/>\n    do nosso afeto?&quot; Se tem essa cren&ccedil;a, D. Maur&iacute;cia, permita-me<br \/>\n    disser-lhe que ela &eacute; enganosa. Os homens, especialmente aqueles a quem<br \/>\n    o contato com o mundo destruiu todas as brandas pudic&iacute;cias da honra,<br \/>\n    n&atilde;o alimentam o cora&ccedil;&atilde;o com estas delicadas iguarias.<br \/>\n    Desse homem, que j&aacute; foi o seu algoz, n&atilde;o espere car&iacute;cias,<br \/>\n    sen&atilde;o as severidades de uma vingan&ccedil;a longamente estudada. Mas,<br \/>\n    se n&atilde;o lhe parece acertado o que digo, ent&atilde;o, voltemos. Bezerra<br \/>\n    ainda l&aacute; est&aacute;.<\/p>\n<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo foi desapiedado. No seu amor, na sua paix&atilde;o, tornou-se<br \/>\n    c&aacute;ustico, mordaz, quase descort&ecirc;s.<\/p>\n<p> S&atilde;o cru&eacute;is estas armas quando t&ecirc;m por alvo a mulher<br \/>\n    adorada; ordinariamente, saem vencedores. Foi o que sucedeu ent&atilde;o.<br \/>\n    Maur&iacute;cia, que tinha ali&aacute;s fort&iacute;ssimos &acirc;nimos, n&atilde;o<br \/>\n    pode resistir a estas considera&ccedil;&otilde;es. que se pareciam com invectivas,<br \/>\n    mas vinham saturadas do imenso amor, que inflamava a alma do bacharel. Viu<br \/>\n    neste uma organiza&ccedil;&atilde;o superior, e sentiu prazer em deixar-se<br \/>\n    vencer por ele. Foi com certa impress&atilde;o de vol&uacute;pia deliciosa,<br \/>\n    posto que triste, que ela respondeu:<br \/>\n    &#8211; Tem raz&atilde;o, tem raz&atilde;o! Escolherei, e escolha &eacute; f&aacute;cil.<br \/>\n    J&aacute; uma vez afrontei o mundo, e n&atilde;o sai triunfante? Por que tomaria<br \/>\n    agora o lado oposto? Fugirei de meu algoz enquanto tiver for&ccedil;as para<br \/>\n    o fazer.<\/p>\n<p> &#8211; Mas ent&atilde;o, atalhou &Acirc;ngelo, lembre-se, D. Maur&iacute;cia,<br \/>\n    de que h&aacute; nesta vida um homem de cora&ccedil;&atilde;o puro que estremece<br \/>\n    de amor pela senhora, e que para lhe poupar o menor desgosto ser&aacute; capaz<br \/>\n    de toda a sorte de sacrif&iacute;cios. Por que n&atilde;o assentamos logo<br \/>\n    o que devemos fazer? Rogo-lhe que n&atilde;o me poupe na obra de sua tranq&uuml;ilidade.<br \/>\n    Estou pronto a fazer tudo o que ordenar. Quer a prova? Ordene.<\/p>\n<p> Nesse momento, viram eles ao longe na estrada uns vultos vagos, e logo ouviram<br \/>\n    o rumor de vozes.<\/p>\n<p> &#8211; Estou ouvindo Virg&iacute;nia falar, disse Maur&iacute;cia. Vamos ao seu<br \/>\n    encontro. Quero faze-la voltar. Esperaremos no s&iacute;tio de D. Rosa pela<br \/>\n    carruagem do engenho, que n&atilde;o deve tardar. Eu deixei dito que nos mandassem<br \/>\n    buscar logo que anoitecesse. demais, tenho ainda de escrever a Eug&ecirc;nia.<br \/>\n    Meu Deus! que ser&aacute; de mim? Tenho a cabe&ccedil;a em fogo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas&#8230; o que resolve? inquiriu &Acirc;ngelo com insist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia pareceu refletir um momento, durante o qual o bacharel mal<br \/>\n    pode suster a sua impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Se precisar dos seus servi&ccedil;os, respondeu Maur&iacute;cia, escrever-lhe-ei.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo, agradecido, tomou-lhe uma das m&atilde;os, e beijou-a com<br \/>\n    frenesi de louco.<\/p>\n<p> &#8211; Obrigado, obrigado, disse como quem acabava de entrar em um mundo de del&iacute;cias,<br \/>\n    longamente esperadas. Lembre-se de mim. N&atilde;o sou de todo in&uacute;til.<\/p>\n<p> &#8211; Olhe, tornou Maur&iacute;cia. N&atilde;o me enganei. A&iacute; vem Virg&iacute;nia<br \/>\n    com Sinhazinha.<\/p>\n<p> &#8211; Para onde vai, mam&atilde;e? perguntou Virg&iacute;nia, tanto que por<br \/>\n    entre &aacute;rvores e sombras reconheceu Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; Eu ia a tua procura. Voltemos, voltemos.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; que diz, D. Maur&iacute;cia? interrogou Sinhazinha admirada.<br \/>\n    Voltar para onde?<br \/>\n    &#8211; Pe&ccedil;o-lhe um obs&eacute;quio, Sr. Dr. &Acirc;ngelo, disse Maur&iacute;cia,<br \/>\n    dirigindo-se ao bacharel. D&ecirc; o bra&ccedil;o a Sinhazinha, e diga a Eug&ecirc;nia<br \/>\n    que um s&uacute;bito mal- estar nos obriga a voltarmos inopinadamente. Eu<br \/>\n    estou realmente em termos de cair. N&atilde;o, n&atilde;o lhe diga nada &#8211;<br \/>\n    acudiu logo. Vou j&aacute; escrever-lhe.<\/p>\n<p> Sinhazinha n&atilde;o sabia o que pensar do que via e ouvia: e quando ia<br \/>\n    fazer novas interroga&ccedil;&otilde;es, Maur&iacute;cia abra&ccedil;ou-a,<br \/>\n    e, dando o bra&ccedil;o a Virg&iacute;nia, arrastou esta como quem fugia a<br \/>\n    um flagelo iminente.<\/p>\n<p> &#8211; Tornemos &agrave; casa de Martins, disse &Acirc;ngelo &agrave; filha de<br \/>\n    D. Sofia.<\/p>\n<p> &#8211; Mas o que &eacute; isto? Que foi que houve?<br \/>\n    &Acirc;ngelo nada respondeu. O que fez foi volver sobre seus passos sem demora.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia e Virg&iacute;nia tinham j&aacute; desaparecido nas sombras<br \/>\n    da estrada. <\/p>\n<h2><a name=\"8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/h2>\n<p>Eug&ecirc;nia, vendo Sinhazinha entrar, levantou-se, foi ao seu encontro<br \/>\n    e, tomando-lhe o bra&ccedil;o, encaminhou-se com ela para junto do salgueiro.<\/p>\n<p> A&iacute; estavam a conversar &agrave; meia voz, quando uma escrava de D.<br \/>\n    Rosa lhe entregou um papel. Era a carta de Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> Eug&ecirc;nia, na porta da casa, leu &agrave; luz que da sala se projetava<br \/>\n    at&eacute; o p&aacute;tio, as palavras seguintes:<br \/>\n    &quot;Minha querida irm&atilde;,<br \/>\n    Mal sabia eu que no meio da maior ventura que ainda encontrei na terra, reapareceu<br \/>\n    o drag&atilde;o que j&aacute; devorou os meus &uacute;ltimos bens e agora<br \/>\n    se prop&otilde;e a devorar a minha exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Fujo dele como quem foge de um mal mort&iacute;fero. N&atilde;o te canses<br \/>\n    em comunicar-me sua chegada. Eu j&aacute; sei que ele est&aacute; na terra.<br \/>\n    Fui eu a primeira que o vi; n&atilde;o; foi meu cora&ccedil;&atilde;o atemorizado,<br \/>\n    que adivinhou.<\/p>\n<p> Mas defende a minha causa como se fosse tua.<\/p>\n<p> Estas palavras v&atilde;o ser-te entregues agora mesmo. Naturalmente, h&aacute;s<br \/>\n    de l&ecirc;-las, tendo o meu algoz a olhar para ti.<\/p>\n<p> Rogo-lhe que digas que eu o detesto hoje mais do que nunca.<\/p>\n<p> Tem coragem, minha irm&atilde; e amiga, para arrostar com o espectro que<br \/>\n    me persegue, amea&ccedil;ando empolgar-me com suas garras que j&aacute; uma<br \/>\n    vez me puseram as carnes em sangue.<\/p>\n<p> N&atilde;o lhe digas onde eu moro, e seja teu particular empenho em dissuadi-lo<br \/>\n    de se aproximar de mim e tentar uma reconcilia&ccedil;&atilde;o, que tenho<br \/>\n    por imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> Falta-me tempo e espa&ccedil;o para dizer-te tudo o que meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sente h&aacute; um quarto de hora.<\/p>\n<p> Virg&iacute;nia manda-te um beijo em despedida; eu mando-te l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Tua irm&atilde; e amiga Maur&iacute;cia. <\/p>\n<p>Quando Eug&ecirc;nia terminou a leitura destas linhas, Bezerra acabava de<br \/>\n    contar o que se passara entre ele e Albuquerque no engenho.<\/p>\n<p> Martins ouvira-o atento. silencioso, sem mudar a vista. N&atilde;o o conhecia.<br \/>\n    Era aquela a primeira vez que lhe falava. Quando recebera o seu retrato, enviado<br \/>\n    do Par&aacute; por Maur&iacute;cia alguns dias depois do casamento, Martins<br \/>\n    dissera como fisionomista experiente: &quot;Esta cara n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a de um homem de bem&quot;. Agora, ouvindo o original falar com ares de contrito,<br \/>\n    vendo-lhe no rosto estampado certa express&atilde;o de quem sentia m&aacute;goa<br \/>\n    &iacute;ntima, disse consigo: &quot;Neste homem, h&aacute;, pelo menos, um<br \/>\n    grande arrependido&quot;.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo sentara-se em uma cadeira de balan&ccedil;o que ficava afastada<br \/>\n    da mesa, ao lado da qual estavam os dois homens conferenciando. Estava p&aacute;lido,<br \/>\n    comovido. Ouvira as &uacute;ltimas palavras de Bezerra, tocantes &agrave;<br \/>\n    sua entrevista com Albuquerque, e conheceu que corria risco o sossego de Maur&iacute;cia.<br \/>\n    Isto o consternou por extremo. Mas, que fazer?<br \/>\n    &#8211; O que mais me est&aacute; custando &eacute; n&atilde;o ver minha mulher<br \/>\n    e minha filha, observou Bezerra.<\/p>\n<p> Martins ia falar, quando Eug&ecirc;nia, penetrando na sala, disse:<br \/>\n    &#8211; Maur&iacute;cia, n&atilde;o sabendo que o senhor estava aqui, retirou-se<br \/>\n    com Virg&iacute;nia.<\/p>\n<p> &#8211; Retirou-se! &#8211; exclamou Bezerra com espanto.<\/p>\n<p> E acrescentou logo:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; singular. Eu tinha que a m&aacute; fortuna j&aacute; me havia deixado<br \/>\n    de m&atilde;o; mas, enganei-me; vejo agora que ainda conspira contra mim.<\/p>\n<p> Martins interveio:<br \/>\n    &#8211; Minha cunhada h&aacute; de voltar. Veio passar com a irm&atilde; o dia dos<br \/>\n    seus anos, e n&atilde;o &eacute; natural que se retire, antes de terminado<br \/>\n    o dia, sem se despedir de n&oacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; Maur&iacute;cia n&atilde;o volta, acudiu Eug&ecirc;nia. Escreveu-me, dizendo<br \/>\n    que um s&uacute;bito mal-estar de Virg&iacute;nia a obrigara a tornar ao engenho.<\/p>\n<p> Ouvindo estas palavras, n&atilde;o pode Bezerra ocultar o seu desgosto.<\/p>\n<p> &#8211; Vejo, Sr. Martins, que minha mulher foge de mim. Mas&#8230; perd&atilde;o!<br \/>\n    disse, moderando a voz, ao dar com os olhos em &Acirc;ngelo e Sinhazinha que<br \/>\n    entrara. Parece que tudo isso se deve antes atribuir a ser inoportuno o momento<br \/>\n    de apresentar-me do que &agrave; recusa formal de um dever. Eu procurarei<br \/>\n    ocasi&atilde;o oportuna. A casa est&aacute; em festa, e eu sou de mais entre<br \/>\n    os que devem tomar parte nela.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; de mais. Fique, disse Martins.<\/p>\n<p> Volvendo os olhos a Eug&ecirc;nia, que se conservava silenciosa, Bezerra<br \/>\n    respondeu:<br \/>\n    &#8211; Preciso falar-lhe, Sr. Martins, quando estivermos desacompanhados de qualquer<br \/>\n    testemunhas. Voltarei, amanh&atilde;, e rogo-lhe que indique a hora que lhe<br \/>\n    parecer mais conveniente para a nossa confer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Venha jantar conosco. Depois do jantar, conversaremos.<\/p>\n<p> No dia seguinte, por ocasi&atilde;o de Martins sentar-se &agrave; mesa para<br \/>\n    almo&ccedil;ar, vieram trazer-lhe uma carta. Era de Maur&iacute;cia. Dizia:<br \/>\n    Sr. Martins,<br \/>\n    Passei a noite em claro.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei como ainda tenho for&ccedil;as para lhe escrever, tal &eacute;<br \/>\n    a prostra&ccedil;&atilde;o em que estou.<\/p>\n<p> Mas a desgra&ccedil;a n&atilde;o tem piedade, n&atilde;o se cond&oacute;i<br \/>\n    de suas v&iacute;timas.<\/p>\n<p> Estou resolvida a divorciar-me por justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> Venho por isso pedir-lhe que se entenda com algum advogado de sua confian&ccedil;a<br \/>\n    para defender os meus interesses.<\/p>\n<p> Todas as economias que durante estes tr&ecirc;s &uacute;ltimos anos pude<br \/>\n    realizar ficam &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o para qualquer despesa<br \/>\n    com a causa.<\/p>\n<p> Eug&ecirc;nia que n&atilde;o se esque&ccedil;a de mim.<\/p>\n<p> Sua cunhada e amiga Maur&iacute;cia<\/p>\n<p>Martins, passando a carta &agrave; mulher que estava sentada a seu lado,<br \/>\n    disse, n&atilde;o sem desgosto.<\/p>\n<p> &#8211; Isto n&atilde;o pode ir assim.<\/p>\n<p> Eug&ecirc;nia leu a carta, e n&atilde;o quis almo&ccedil;ar. A tristeza<br \/>\n    estendia sobre o seu rosto a sombra que a acompanha, destruidora de todo o<br \/>\n    vi&ccedil;o e brilho com que a tranq&uuml;ilidade, que &eacute; quase felicidade,<br \/>\n    esmalta os semblantes, ainda os menos frescos.<\/p>\n<p> Bezerra n&atilde;o faltou ao prazo dado.<\/p>\n<p> &Agrave;s quatro horas, sentaram-se ele e Martins ao p&eacute; do salgueiro.<\/p>\n<p> &#8211; Minha cunhada recusa voltar &agrave; vida conjugal, disse Martins, sem<br \/>\n    mais pre&acirc;mbulos.<\/p>\n<p> &#8211; O senhor tem fundamento para dizer-me isto? &#8211; perguntou Bezerra.<\/p>\n<p> &#8211; Ela escreveu-me.<\/p>\n<p> &#8211; Eu n&atilde;o podia esperar que ela estivesse em outro &acirc;nimo; mas<br \/>\n    nesta importante quest&atilde;o, Sr. Martins, o que deve merece maior peso<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; a fantasia de minha mulher, s&atilde;o certos interesses,<br \/>\n    que n&atilde;o podem ficar expostos a graves preju&iacute;zos. Eu desejo,<br \/>\n    antes de tudo, saber qual &eacute; a sua opini&atilde;o sobre este assunto.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenho ainda ju&iacute;zo formado a semelhante respeito. Meu<br \/>\n    desejo &eacute; o mais natural poss&iacute;vel; &eacute;, por isso, trivial.<br \/>\n    Eu quisera que cessasse todo o motivo de repugn&acirc;ncia, que traz o senhor<br \/>\n    e minha cunhada separados; quisera que voltassem a viver como c&ocirc;njuges<br \/>\n    de condi&ccedil;&atilde;o distinta. Mas sua mulher insiste em n&atilde;o querer<br \/>\n    tornar &agrave; sua companhia, e d&aacute; raz&otilde;es em que assenta a<br \/>\n    recusa. Foi antes sua v&iacute;tima do que sua mulher; antes escrava do que<br \/>\n    v&iacute;tima, o que quer dizer que foi v&iacute;tima duas vezes.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o foi tanto assim; <br \/>\n    &#8211; Ela o diz; eu de nada sei, a n&atilde;o ser o que ela conta.<\/p>\n<p> &#8211; O que ela sofreu muitas pessoas que moravam no Par&aacute; poder&atilde;o<br \/>\n    atestar em qualquer tempo que seja preciso.<\/p>\n<p> Estas palavras foram ditas por Eug&ecirc;nia, que viera tomar parte na confer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Em seu rosto, ordinariamente banhado em franca express&atilde;o de jovialidade,<br \/>\n    n&atilde;o se via impressa somente a tristeza que de manh&atilde; trazia,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m certos tons de desgosto, que eq&uuml;ivaliam &agrave;s primeiras<br \/>\n    manifesta&ccedil;&otilde;es do &oacute;dio incipiente. Que cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    por grande que seja, n&atilde;o ser&aacute; capaz de acender-se em paix&otilde;es<br \/>\n    hostis diante do sacrif&iacute;cio de um dos seus primeiros afetos?<br \/>\n    Bezerra n&atilde;o se demorou em confutar aquele pensamento.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; muitos difamadores e intrigantes por toda a parte. Eu n&atilde;o<br \/>\n    nego o que na fam&iacute;lia de minha mulher ningu&eacute;m ignora; N&atilde;o<br \/>\n    fui mau nos primeiros tempos depois do meu casamento; o que tive foi pouco<br \/>\n    ju&iacute;zo. Maur&iacute;cia era por esse tempo muito mo&ccedil;a, e n&atilde;o<br \/>\n    tinha mais ju&iacute;zo do que eu.<\/p>\n<p> &#8211; Minha irm&atilde; &#8211; acudiu Eug&ecirc;nia, atalhando a proposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Bezerra &#8211; sempre foi muito ajuizada.<\/p>\n<p> &#8211; Em minha companhia &#8211; prosseguiu Bezerra &#8211; deu provas de caprichosa e tenaz.<br \/>\n    Contrariou por diversas vezes minhas determina&ccedil;&otilde;es; alimentou,<br \/>\n    em lugar de apagar, o inc&ecirc;ndio que as minhas pequeninas loucuras acenderam<br \/>\n    entre n&oacute;s. Mas depois e uma separa&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s anos,<br \/>\n    depois do que eu e ela temos sofrido, depois de sua resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e do meu arrependimento, que raz&atilde;o poder&aacute; justificar a sua tenacidade<br \/>\n    em permanecer fora da &uacute;nica companhia digna da mulher casada &#8211; a do<br \/>\n    seu marido?<br \/>\n    &#8211; Quem &eacute; que pode assegurar que a antiga desarmonia n&atilde;o se renove?<br \/>\n    &#8211; Estou pobre, e j&aacute; passei da metade da vida. Sinto em mim moderadas,<br \/>\n    sen&atilde;o extintas, todas as paix&otilde;es que me exaltavam a imagina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e me incitavam outro do que fui. Demais, tenho uma filha mo&ccedil;a, e o<br \/>\n    dever de tratar do seu futuro.<\/p>\n<p> A vida, que passara nos &uacute;ltimos tempos, cheia de perip&eacute;cias,<br \/>\n    variada em epis&oacute;dios, atravessada de dificuldades, curtida de desgostos,<br \/>\n    desenvolvera em Bezerra o esp&iacute;rito, apurara as suas faculdades, e do<br \/>\n    que era uma habilidade comum fizera quase um talento.<\/p>\n<p> Bezerra n&atilde;o se apartou mais da confer&ecirc;ncia. Aduziu v&aacute;rias<br \/>\n    e abundantes considera&ccedil;&otilde;es para provar a alta conveni&ecirc;ncia<br \/>\n    que o termo do esc&acirc;ndalo devia trazer. Falou com tanta fec&uacute;ndia<br \/>\n    que chegou a comover Eug&ecirc;nia, e a abalar a opini&atilde;o que tinha<br \/>\n    dele Martins. Foi fatal aquela tarde para Maur&iacute;cia. No mesmo dia recebeu<br \/>\n    ela esta carta que Martins ditara e Eug&ecirc;nia escrevera.<\/p>\n<p> Minha irm&atilde; do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Acaba de sair daqui teu marido, que jantou conosco.<\/p>\n<p>Depois do jantar, sentou-se com Martins junto do salgueiro, e come&ccedil;ou<br \/>\n    a contar a sua hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> Quanto tem sofrido aquele pobre homem! N&atilde;o o avalias.<\/p>\n<p> N&atilde;o nos ocultou a menor circunst&acirc;ncia da sua vida&#8230; As faltas,<br \/>\n    os erros, as culpas tudo nos referiu, pedindo perd&otilde;es. Coitado! &Eacute;<br \/>\n    digno de compaix&atilde;o.<\/p>\n<p> Eu, que estava muito prevenida contra ele, e que entrei na conversa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sem que ele o esperasse, inteiramente resolvida a combater tudo o que ele<br \/>\n    dissesse, n&atilde;o pude deixar de mudar de opini&atilde;o quando lhe ouvi<br \/>\n    a rela&ccedil;&atilde;o dos seus infort&uacute;nios.<\/p>\n<p> N&atilde;o te agastes comigo, minha querida irm&atilde;, pelo que vou dizer.<\/p>\n<p> A minha opini&atilde;o &eacute; que teu marido tem padecido muito mais que<br \/>\n    tu, Tem padecido doen&ccedil;as, desamparos, desprezos, e at&eacute; pris&otilde;es;<br \/>\n    e, pelo que diz, est&aacute; inteiramente arrependido dos males que te deu<br \/>\n    a sofrer, e deliberado a n&atilde;o ter dora em diante sen&atilde;o extremos<br \/>\n    de amor para ti e tua filha.<\/p>\n<p> N&atilde;o sou suspeita neste assunto. Bem sabes quanto eu detestava o homem<br \/>\n    que foi a causa dos maiores desgostos que temos curtido na fam&iacute;lia,<br \/>\n    depois da morte de nossos pais.<\/p>\n<p> Mas ele mostrou-se t&atilde;o contrito, que s&oacute; merece que o acolhas<br \/>\n    de novo ao teu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Por que n&atilde;o h&aacute;s de viver com o teu marido, quando &eacute;<br \/>\n    ele que te procura?<br \/>\n    Eu sei que tu est&aacute;s muito bem a&iacute;; que na casa onde est&aacute;s<br \/>\n    todos te estimam; mas l&aacute; diz o ditado &#8211; Casa alheia, brasa no seio.<\/p>\n<p> Tem paci&ecirc;ncia, Maur&iacute;cia. Sou mais velha do que tu, posso aconselhar-te.<\/p>\n<p> Torna de novo a ter casa.<\/p>\n<p> N&atilde;o ir&aacute;s para longe; por isso h&aacute; de ter-nos sempre<br \/>\n    a teu lado para velarmos pela tua seguran&ccedil;a e pelo teu sossego.<\/p>\n<p> Se n&atilde;o me sentisse um pouco adoentada desde a noite dos meus anos,<br \/>\n    metia-me num carro e ia abra&ccedil;ar-te.<\/p>\n<p> Adeus. At&eacute; breve.<\/p>\n<p> Recebe afagos e saudades de<br \/>\n    Tua irm&atilde; e amiga<br \/>\n    Eug&ecirc;nia<\/p>\n<p>Ainda bem Maur&iacute;cia n&atilde;o tinha conclu&iacute;do a leitura destas<br \/>\n    linhas, quando um moleque lhe anunciava, por parte de Albuquerque a visita<br \/>\n    de Bezerra.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia levantou-se quase louca.<\/p>\n<p> &#8211; Dize-lhe que n&atilde;o lhe falo, que n&atilde;o lhe quero falar &#8211; disse<br \/>\n    p&aacute;lida, tr&ecirc;mula, sentindo-se pr&oacute;xima do desespero.<\/p>\n<p> E trancando-se por dentro, recome&ccedil;ou a leitura mal conclu&iacute;da<br \/>\n    da carta que lhe dava tanto que sofrer.<\/p>\n<p> Depois de algum tempo, um pensamento sinistro atravessou-lhe o esp&iacute;rito,<br \/>\n    j&aacute; combatido por tantos sopros da tormenta que se desencadeara sobre<br \/>\n    a sua cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> E Virg&iacute;nia?! &#8211; exclamou sobressaltada, ligando este nome querido<br \/>\n    &agrave; ordem de id&eacute;ias que lhe tumultuavam em confus&atilde;o e tropel<br \/>\n    no entendimento. Se ele lembrar de roubar-me Virg&iacute;nia, o que ser&aacute;<br \/>\n    de mim? Nem quero pensar nisso.<\/p>\n<p> Incontinente correu &agrave; porta, abriu-a violentamente, e atirou-se &agrave;<br \/>\n    escada, que ia ter na sala de jantar. Ainda n&atilde;o tinha descido os primeiros<br \/>\n    degraus, quando ouviu solu&ccedil;ar uma pessoa que subia. Era Virg&iacute;nia.<\/p>\n<p> &#8211; Mam&atilde;e! Mam&atilde;e! &#8211; dizia por entre l&aacute;grimas a menina.<\/p>\n<p> Diante deste inopinado espet&aacute;culo, afli&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima<br \/>\n    da desventurada m&atilde;e teve tr&eacute;guas. Maur&iacute;cia esqueceu tudo<br \/>\n    o que se referia especialmente a si, para s&oacute; inquirir a causa ainda<br \/>\n    ignorada do pranto da filha.<\/p>\n<p> &#8211; Que te aconteceu, Virg&iacute;nia, que te aconteceu? &#8211; repetiu uma, duas<br \/>\n    e mais vezes, como em del&iacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; tudo acabado, mam&atilde;e! Meu Deus, meu Deus, como poderei<br \/>\n    viver sem Paulo?<br \/>\n    &#8211; Sem Paulo? perguntou Maur&iacute;cia cada vez mais dolorosamente surpreendida.<br \/>\n    Mas o que foi? Aconteceu-lhe algum desastre? Morreu? Casaram-no com outra?<br \/>\n    &#8211; Querem privar-me de Paulo?<br \/>\n    &#8211; Quem? Quem? Oh, meu Deus, se algu&eacute;m se atrevesse a tentar contra<br \/>\n    a tua felicidade, eu teria para quem o tentasse, fosse homem ou mulher, todas<br \/>\n    as armas que o meu esfor&ccedil;o e condi&ccedil;&atilde;o podem forjar. Como<br \/>\n    foi isso, Virg&iacute;nia! Conta-me tudo.<\/p>\n<p> &#8211; Mam&atilde;e! Mam&atilde;e! Oh, como me custa dizer o que ouvi.<\/p>\n<p> &#8211; E que foi que ouviste? Quero saber o que foi. N&atilde;o sei o que se<br \/>\n    passou, mas quase adivinho. N&atilde;o esteve a&iacute; um homem, que diz<br \/>\n    ser teu pai? Foi ele que te amea&ccedil;ou com a desgra&ccedil;a, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade? Cedo come&ccedil;a o monstro.<\/p>\n<p> A menina solu&ccedil;ava e as l&aacute;grimas teimosas e abundantes embargavam-lhe<br \/>\n    a voz.<\/p>\n<p> Todavia, pode, dominando a sua impress&atilde;o, referir o que se passara<br \/>\n    na sala de visitas.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai abra&ccedil;ou-me, e deu-me um beijo na face. Ent&atilde;o, o<br \/>\n    Sr. Albuquerque lhe disse que ele voltasse em outro dia, que havia de ser<br \/>\n    mais feliz na sua visita. Tanto que meu pai saiu, o Sr. Albuquerque dirigiu-me<br \/>\n    estas palavras: &quot;Virg&iacute;nia, se sua m&atilde;e n&atilde;o voltar<br \/>\n    para a companhia de sua pai, Paulo n&atilde;o casar&aacute; com voc&ecirc;.<br \/>\n    Eu n&atilde;o tenho meu filho para a filha de uma mulher que teima em viver<br \/>\n    separada do marido e lhe d&aacute; as costas quando ele a procura. Suba, e<br \/>\n    diga &agrave; sua m&atilde;e que a sua felicidade, Virg&iacute;nia, est&aacute;<br \/>\n    dependendo dela. Sem o preenchimento desta condi&ccedil;&atilde;o &#8211; a de restabelecer<br \/>\n    a uni&atilde;o conjugal, poder&aacute; ser ainda por algum tempo a mestra<br \/>\n    de minha filha, mas nunca h&aacute; de ser a sogra do meu filho.&quot; Ele<br \/>\n    entrou no gabinete, e eu subi, mam&atilde;e, para lhe pedir, pela alma dos<br \/>\n    meus av&oacute;s, que n&atilde;o seja a causadora da minha desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia esteve um instante sem dizer palavra. Era cruel a colis&atilde;o<br \/>\n    que se apresentava ao seu esp&iacute;rito &#8211; ou a felicidade de sua filha ou<br \/>\n    a sua felicidade.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenho ningu&eacute;m por mim, disse com amargura. Todos conspiram<br \/>\n    contra o meu sossego. Meu cunhado, meu protetor, minha pr&oacute;pria irm&atilde;,<br \/>\n    minha pr&oacute;pria filha, parecem dizer-me nas palavras que me dirigem:<br \/>\n    &quot;exigimos o teu sacrif&iacute;cio!&quot; Oh, como s&atilde;o cru&eacute;is<br \/>\n    os grilh&otilde;es que imp&otilde;em o casamento! Fatal sociedade, em que<br \/>\n    um h&aacute; de ser inevitavelmente a v&iacute;tima do outro!<br \/>\n    Ouvindo estas acerbas palavras , que Maur&iacute;cia proferia entre l&aacute;grimas,<br \/>\n    Virg&iacute;nia, abra&ccedil;ando-se com ela, disse-lhe ternamente:<br \/>\n    &#8211; Perdoe-me mam&atilde;e. N&atilde;o chore por meu respeito.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia solu&ccedil;ava com o rosto entre as m&atilde;os.<\/p>\n<h2><a name=\"9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/h2>\n<p>Passados alguns momentos, Maur&iacute;cia enxugou as l&aacute;grimas, ergueu<br \/>\n    a cabe&ccedil;a e volveu &agrave; roda de si um olhar a modo de desvairada;<br \/>\n    era simplesmente perscrutador. Meiga e triste como sempre, tinha Virg&iacute;nia<br \/>\n    agora os olhos postos em sua m&atilde;e. Esta compreendeu imediatamente o<br \/>\n    pensamento daquela. Era uma s&uacute;plica que ela lhe fazia mudamente, mas<br \/>\n    do &iacute;ntimo da alma. A t&iacute;mida menina n&atilde;o se animava a repetir<br \/>\n    com os l&aacute;bios as palavras de h&aacute; pouco, que tinham suscitada<br \/>\n    &agrave; aflita m&atilde;e as acerbas express&otilde;es indicativas de sua<br \/>\n    grande pena.<\/p>\n<p> Mas Maur&iacute;cia, contra o seu costume, teve bastante &acirc;nimo para<br \/>\n    lhe n&atilde;o deferir a s&uacute;plica.<\/p>\n<p> &#8211; O que quer o Sr. Albuquerque &eacute; imposs&iacute;vel, Virg&iacute;nia<br \/>\n    &#8211; disse ela resolutamente. Se a tua felicidade depende de ajuntar-me novamente<br \/>\n    &agrave;quele de quem me separei, sentindo nas faces a impress&atilde;o de<br \/>\n    uma amea&ccedil;a e no cora&ccedil;&atilde;o os espinhos de inumer&aacute;veis<br \/>\n    afrontas, ent&atilde;o ser&aacute;s infeliz, pobre filha, porque semelhante<br \/>\n    sacrif&iacute;cio &eacute; superior &agrave;s minhas for&ccedil;as. N&atilde;o<br \/>\n    me separei de teu pai por leviana, caprichosa ou desonesta; separei-me por<br \/>\n    ter conhecido que maior desgra&ccedil;a seria para mim e talvez para ele,<br \/>\n    continuarmos unidos do que separados. O muito que ent&atilde;o padeci est&aacute;<br \/>\n    constantemente a p&ocirc;r-me diante dos olhos o muito que deverei padecer<br \/>\n    se tornar &agrave; sua companhia, na qual n&atilde;o tive uma impress&atilde;o<br \/>\n    de verdadeiro prazer que resgatasse as humilha&ccedil;&otilde;es, as contrariedades,<br \/>\n    os vexames, os desgostos que me causou, sem dar mostras do menor pesar, antes<br \/>\n    revelando que se comprazia em ver-me representar o papel de v&iacute;tima.<br \/>\n    Tem paci&ecirc;ncia, minha filha. Deixaremos em poucos dias esta casa. Outra<br \/>\n    h&aacute; de ter aberta para n&oacute;s as suas portas. N&atilde;o tenho vivido<br \/>\n    at&eacute; hoje do meu trabalho? Ele n&atilde;o me h&aacute; de faltar fora<br \/>\n    daqui. Tenhamos confian&ccedil;a em n&oacute;s.<\/p>\n<p> Virg&iacute;nia, como se acabasse de ouvir a sua senten&ccedil;a de morte,<br \/>\n    mostrou no rosto dobrada express&atilde;o de m&aacute;goa &iacute;ntima. Levantou-se<br \/>\n    e pegou uma das m&atilde;os de sua m&atilde;e, que levou aos l&aacute;bios<br \/>\n    por certo requinte de ternura.<\/p>\n<p> &#8211; E Paulo, mam&atilde;e? &#8211; interrogou com voz chorosa e comovida.<\/p>\n<p> Nesse momento, bateram &agrave; porta do quarto. Virg&iacute;nia desdeu<br \/>\n    a volta da chave, e a luz da vela que ardia sobre a mesa a um dos &acirc;ngulos<br \/>\n    do aposento esclareceu a face de um homem. Era Albuquerque.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia foi ao seu encontro. Ele pegou-lhe da m&atilde;o e conduziu-a<br \/>\n    para junto da mesa. Sentaram-se a&iacute;, tendo ambos nos rostos os tons<br \/>\n    sombrios do pesar que traziam no esp&iacute;rito. Foi Albuquerque o primeiro<br \/>\n    que falou.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o quis deixar para amanh&atilde; o que eu devia dizer-lhe j&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Estimo muito saber que o senhor d&aacute; a devida import&acirc;ncia a<br \/>\n    um acontecimento que parece destinado a influir diretamente na minha vida.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; isto, D. Maur&iacute;cia? &#8211; interrogou o senhor de engenho<br \/>\n    com ares de quem estranhava o procedimento dela, que dera causa &agrave; sua<br \/>\n    visita. O que foi que t&atilde;o inesperadamente a compeliu a praticar um<br \/>\n    ato contr&aacute;rio a todo o seu passado de h&aacute; tr&ecirc;s anos? Todos<br \/>\n    notamos que a senhora, que sempre deu provas de ajuizada, se recusasse a aparecer<br \/>\n    a seu marido, cuja volta &agrave; minha casa fora assentada por mim no pressuposto<br \/>\n    de que lhe mereceria, quando n&atilde;o a satisfa&ccedil;&atilde;o do seu<br \/>\n    dever logo que eu chamasse para ele a sua aten&ccedil;&atilde;o, a pr&aacute;tica<br \/>\n    ao menos de uma delicadeza.<\/p>\n<p> &#8211; Neste ponto, o senhor tem raz&atilde;o, e eu pe&ccedil;o-lhe desculpa,<br \/>\n    disse Maur&iacute;cia. Fui descort&ecirc;s para o senhor, mas n&atilde;o podia<br \/>\n    deixar de ter semelhante descortesia quando o meu sossego exigia que destru&iacute;sse<br \/>\n    imediatamente no esp&iacute;rito do meu marido qualquer esperan&ccedil;a de<br \/>\n    reconcilia&ccedil;&atilde;o que ele alentasse. Eu devia ser cruel para esse<br \/>\n    homem, embora hoje se considere honrado com o t&iacute;tulo de meu marido,<br \/>\n    outrora puro objeto de desprezo. Eu precisava dar uma demonstra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    decisiva da minha eterna esquivan&ccedil;a a quem s&oacute; esquivan&ccedil;a<br \/>\n    me merece.<\/p>\n<p> Albuquerque n&atilde;o esperava de sua h&oacute;spede palavras t&atilde;o<br \/>\n    positivas.<\/p>\n<p> &#8211; Quanto me parece extraordin&aacute;rio o que acabo de ouvir! &#8211; disse.<br \/>\n    &Eacute; ent&atilde;o certo que a Sra. D. Maur&iacute;cia insiste na sua recusa?<br \/>\n    &Eacute; ent&atilde;o certo que a senhora de educa&ccedil;&atilde;o distinta,<br \/>\n    de moralidade at&eacute; hoje inatacada, que recebi em minha casa, quando<br \/>\n    as casas dos seus parentes se lhe mostravam fechadas, umas por n&atilde;o<br \/>\n    querem eles receb&ecirc;-la, outras porque n&atilde;o o podiam, est&aacute;<br \/>\n    resolvida a deixar-me ficar mal em um empenho em que entrei com a minha honra?<br \/>\n    Por mais que o diga, n&atilde;o acredito nas suas palavras. Mas n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; isto o essencial nesta ponderosa quest&atilde;o. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a descortesia, n&atilde;o &eacute; o desamor, n&atilde;o &eacute; a ingratid&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Senhor, atalhou Maur&iacute;cia, mere&ccedil;o-lhe mais considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e mais justi&ccedil;a. Sou sua h&oacute;speda, &eacute; verdade; devo-lhe<br \/>\n    aten&ccedil;&otilde;es e gratid&atilde;o, &eacute; certo; mas n&atilde;o pratiquei<br \/>\n    antes do ato que ainda se discute, nenhum outro que lhe d&ecirc; o direito<br \/>\n    de magoar-me gratuitamente, quando j&aacute; n&atilde;o tenho no meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    espa&ccedil;o para novas m&aacute;goas.<\/p>\n<p> Albuquerque sobresteve durante um momento a esta justa e elevada repres&aacute;lia.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se ofenda, observou com modera&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o<br \/>\n    vim aqui para ofend&ecirc;-la. Voto-lhe particular estima. Quero v&ecirc;-la<br \/>\n    superior a qualquer ju&iacute;zo menos digno. Mas ponhamos de parte estas<br \/>\n    circunst&acirc;ncias. Quer a senhora saber ao que dou a primeira import&acirc;ncia<br \/>\n    neste assunto? N&atilde;o &eacute; &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es pr&oacute;ximas<br \/>\n    ou remotas que porventura me liguem a ele; n&atilde;o &eacute; a parte com<br \/>\n    que entre nele a sua pessoa; &eacute; ao futuro desta inocente e infeliz menina<br \/>\n    para quem tenho hoje os sentimentos de pai.<\/p>\n<p> Assim falando, o senhor do engenho apontava para Virg&iacute;nia, que, sem<br \/>\n    proferir uma s&oacute; palavra, mas sem perder nenhuma das que se proferiam,<br \/>\n    tinha os seus lindos e meigos olhos a relancearem inquietos e observadores,<br \/>\n    ora para Albuquerque, ora para Maur&iacute;cia; e no que dizia cada um dos<br \/>\n    dois buscava penetrar o segredo de sua duvidosa sorte.<\/p>\n<p> &#8211; Agrade&ccedil;o-lhe o interesse que revela por esta menina que eu considero<br \/>\n    &oacute;rf&atilde; de pai, tornou Maur&iacute;cia; mas se o Sr. Albuquerque<br \/>\n    sente o que diz (e eu n&atilde;o tenho raz&atilde;o para pensar que n&atilde;o<br \/>\n    sente), por que prolonga uma situa&ccedil;&atilde;o que lhe deve trazer dissabor,<br \/>\n    e que est&aacute; em suas m&atilde;os extinguir neste momento?<br \/>\n    &#8211; Em minhas m&atilde;os! &#8211; exclamou o senhor do engenho com manifesta estranheza.<br \/>\n    O que est&aacute; em minhas m&atilde;os ou eu j&aacute; fiz, ou o farei oportunamente.<br \/>\n    P&otilde;e em d&uacute;vida o empenho que tenho empregado em trazer a harmonia<br \/>\n    onde ainda reina contra a minha vontade a desintelig&ecirc;ncia mantida por<br \/>\n    uma das duas partes? Queira a senhora renunciar ao seu capricho, que ver&aacute;<br \/>\n    amanh&atilde; mudada toda esta situa&ccedil;&atilde;o desagrad&aacute;vel.<br \/>\n    Queira-o, que ter&aacute; em poucos dias casa para morar com seu marido, e<br \/>\n    ele ter&aacute; meio de vida pouco rendoso, mas decente. Queira-o, que sua<br \/>\n    filha dentro em pouco estar&aacute; amparada e ver&aacute; o seu futuro inteiramente<br \/>\n    livre das incertezas que atualmente o escravizam.<\/p>\n<p> &#8211; Permita-me fraqueza?<br \/>\n    &#8211; Pode dizer o que quiser.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o vejo raz&atilde;o, Sr. Albuquerque, em fazer depender de um<br \/>\n    passo que me repugna, porque nele adivinho o meu acabamento, a sorte de minha<br \/>\n    filha a quem vota sentimentos paternais de que tem dado manifestos testemunhos.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o v&ecirc; raz&atilde;o!<br \/>\n    &#8211; Que &eacute; que tem, senhor, que eu continue separada do meu marido, para<br \/>\n    que Virg&iacute;nia n&atilde;o seja digna de Paulo?<br \/>\n    Ouvindo tais palavras, Albuquerque franziu os sobrolhos com evidente mostras<br \/>\n    de desagrado. Neste franzir subira-lhe &agrave; face o preconceito de muitos<br \/>\n    anos. O passado orgulho da fam&iacute;lia estava ali expresso.<\/p>\n<p> &#8211; A senhora teve coragem de me dizer isto? &#8211; perguntou ele, inteiramente<br \/>\n    mudado. Repugna &agrave; senhora renunciar a uma opini&atilde;o pouco justific&aacute;vel<br \/>\n    e muito prejudicial &agrave; sua reputa&ccedil;&atilde;o de discreta e ajuizada;<br \/>\n    a mim, por&eacute;m, n&atilde;o deve repugnar, no seu entender, a liga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de meu filho com uma fam&iacute;lia que, se a alguns pode parecer simplesmente<br \/>\n    infeliz, pode parecer a outros, por esta mesma infelicidade, inferior a uma<br \/>\n    alian&ccedil;a sem nota! Vejo que n&atilde;o nos entendemos. Proceda como<br \/>\n    quiser, minha senhora. Tenha, por&eacute;m, uma certeza, que Deus queira n&atilde;o<br \/>\n    lhe seja fatal: se sua filha vier a ser infeliz, n&atilde;o serei eu v&iacute;tima<br \/>\n    do remorso que esta eventualidade deve ocasionar.<\/p>\n<p> Albuquerque saiu sem dizer mais uma palavra. Maur&iacute;cia e Virg&iacute;nia,<br \/>\n    tamb&eacute;m, nada disseram, mas, enquanto a primeira parecia absorta em<br \/>\n    ocultos e imperscrut&aacute;veis pensamentos, a &uacute;ltima desafogava em<br \/>\n    l&aacute;grimas e solu&ccedil;os a sua desventura.<\/p>\n<p> Seriam oito horas da noite quando um novo personagem foi introduzido no<br \/>\n    aposento de Maur&iacute;cia. De todos era o que mais temia. Era Paulo.<\/p>\n<p> Trazia no gesto a express&atilde;o de indescrit&iacute;vel tormento interior.<\/p>\n<p> Tanto que ele entrou, Virg&iacute;nia correu a encontr&aacute;-lo; abra&ccedil;ou-se<br \/>\n    com ele; e confundiu com as l&aacute;grimas dele as suas l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; seu pai que quer esta desgra&ccedil;a, Paulo &#8211; disse-lhe Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; Como tudo se mudou num instante! &#8211; respondeu o rapaz. &Eacute;ramos t&atilde;o<br \/>\n    felizes, e de repente a desgra&ccedil;a veio sentar-se entre n&oacute;s. Meu<br \/>\n    Deus, eu n&atilde;o hei de ter &acirc;nimo para ver esta separa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o havemos de separar-nos, n&atilde;o havemos de separar-nos!<br \/>\n    &#8211; exclamou Virg&iacute;nia. Paulo, Paulo, eu n&atilde;o posso viver um momento<br \/>\n    sem voc&ecirc;.<\/p>\n<p> &#8211; Nem eu sem voc&ecirc;, Virg&iacute;nia.<\/p>\n<p> &#8211; Mas se o Sr. Albuquerque assim o quer&#8230; &#8211; acrescentou Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; A senhora n&atilde;o h&aacute; de sair daqui, D. Maur&iacute;cia. N&atilde;o<br \/>\n    haver&aacute; for&ccedil;as humanas que possam tir&aacute;-la da casa de meu<br \/>\n    pai. Seria preciso que eu morresse primeiro. Antes disso, n&atilde;o. Virg&iacute;nia<br \/>\n    n&atilde;o sair&aacute; daqui!<br \/>\n    Estes e outros juramentos, estas e outras exclama&ccedil;&otilde;es, repetiram-se<br \/>\n    v&aacute;rias vezes, por entre l&aacute;grimas, que confundiam os tr&ecirc;s<br \/>\n    personagens de t&atilde;o comovedora cena.<\/p>\n<p> &Agrave;s nove horas, vieram chamar Paulo da parte de Albuquerque. Ele come&ccedil;ava<br \/>\n    a condenar aquelas demonstra&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Querendo D. Carolina repetir com Alice pela quarta ou quinta vez a sua visita<br \/>\n    ao aposento de Maur&iacute;cia, a fim de tentar novamente resolv&ecirc;-la<br \/>\n    a realizar o que ela recusava por considerar tal realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a pr&aacute;tica do seu suic&iacute;dio, Albuquerque proibiu positivamente<br \/>\n    que levasse a efeito esta nova tentativa.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; n&atilde;o &eacute; digno de n&oacute;s, nem decente qualquer<br \/>\n    esfor&ccedil;o neste sentido.<\/p>\n<p> No outro dia, ainda muito cedo, Paulo subiu ao quarto de Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> Ele tinha passado a noite em claro. Trazia as fei&ccedil;&otilde;es demudadas<br \/>\n    da longa ins&ocirc;nia e das l&aacute;grimas choradas.<\/p>\n<p> De fora, disse a Maur&iacute;cia que lhe queria revelar uma coisa antes<br \/>\n    de ir para o servi&ccedil;o. Tinha natural explica&ccedil;&atilde;o esta visita<br \/>\n    matinal. Ao descer na v&eacute;spera para o seu dormit&oacute;rio, Faustino,<br \/>\n    moleque de servi&ccedil;o da casa, muito pegado com Paulo, da sua mesma idade,<br \/>\n    lhe revelara em segredo uma suspeita que tinha. Parecia-lhe que Maur&iacute;cia<br \/>\n    deixaria o engenho naquele dia, depois que Paulo partisse para as lavouras<br \/>\n    e Albuquerque para a cidade. A suspeita de Faustino tinha racional fundamento.<br \/>\n    No dia anterior, Maur&iacute;cia mandara uma carta por ele a certa senhora,<br \/>\n    que morava na cidade, a qual, ao entregar a resposta, lhe dissera: &#8211; &quot;Diga<br \/>\n    a D. Maur&iacute;cia que pode vir amanh&atilde; sem susto. H&aacute; de achar-me<br \/>\n    com as portas e os bra&ccedil;os abertos para receb&ecirc;-la.&quot; Essa<br \/>\n    senhora &#8211; D. Joaquina Vilares &#8211; era m&atilde;e de uma condisc&iacute;pula<br \/>\n    de Maur&iacute;cia, com a qual tivera boas rela&ccedil;&otilde;es no col&eacute;gio.<br \/>\n    A amiga de Maur&iacute;cia falecera, quando ainda ela estava no Par&aacute;;<br \/>\n    mas, ultimamente, por ocasi&atilde;o de uma reuni&atilde;o familiar em casa<br \/>\n    de uma amiga comum, Maur&iacute;cia e D. Joaquina se tinham dado a conhecer.<br \/>\n    D. Joaquina era vi&uacute;va, n&atilde;o tinha filhos, e vivia pobremente<br \/>\n    de fazer doces de carrega&ccedil;&atilde;o. No engenho, ningu&eacute;m conhecia<br \/>\n    essas rela&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Paulo, achando jeito no que Faustino lhe dissera, quis voltar imediatamente<br \/>\n    ao pavimento superior, mas a vontade de seu pai era para ele a mais sagrada<br \/>\n    das leis. P&ocirc;s-se, ent&atilde;o, a pensar no que havia de sobrevir-lhe<br \/>\n    depois da aus&ecirc;ncia de Virg&iacute;nia. O pensamento que lhe ocorreu<br \/>\n    foi o de que n&atilde;o teria for&ccedil;as para sobreviver a semelhante desgra&ccedil;a.<br \/>\n    D&oacute;cil, brando, terno como era, em v&atilde;o procurou em si esp&iacute;ritos<br \/>\n    em que se elevar at&eacute; &agrave; altura das circunst&acirc;ncias. -&quot;Hei<br \/>\n    de morrer, hei de morrer de desgostos, de saudades&quot; &#8211; dissera ele. Para<br \/>\n    acrescentar o vulto do fantasma que encheu a sua imagina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    antes povoada de risonhas formas em que se refletiam todas as luzes do primeiro<br \/>\n    amor e se desenhavam todos os sorrisos dos vinte anos inocentes que ainda<br \/>\n    passaram sobre uma c&acirc;ndida exist&ecirc;ncia, acudiu-lhe &agrave; lembran&ccedil;a<br \/>\n    um fato que muito o impressionara alguns anos antes. O seu professor, talvez<br \/>\n    para lisonjear o amor-pr&oacute;prio de Albuquerque, se n&atilde;o foi por<br \/>\n    natural prazer de proporcionar ao disc&iacute;pulo uma li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    s&atilde; e edificante, escolhera a hist&oacute;ria de &quot;Paulo e Virg&iacute;nia&quot;<br \/>\n    para um livro de leitura. Paulo nunca mais se esqueceu de t&atilde;o sublime<br \/>\n    hist&oacute;ria, e o que nela mais o impressionara fora a morte do seu hom&ocirc;nimo<br \/>\n    &#8211; e a morte pelas saudades, pela perda daquela a quem dedicava o seu insigne<br \/>\n    afeto. Agora todo o poema de Saint-Pierre surgiu-lhe na imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como uma amea&ccedil;a, como um estranho agouro. Mais de uma coincid&ecirc;ncia<br \/>\n    aumentou n&atilde;o sem raz&atilde;o os seus supersticiosos pavores. Seu nome,<br \/>\n    o da menina, a aus&ecirc;ncia desta eram reais; por que raz&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    havia de realizar-se e tamb&eacute;m o de seu acabamento, como o do Paulo<br \/>\n    da hist&oacute;ria, que ele julgava t&atilde;o verdadeira como a sua pr&oacute;pria<br \/>\n    hist&oacute;ria?<br \/>\n    Entrando no quarto de Maur&iacute;cia, as palavras que proferiu foram estas:<br \/>\n    &#8211; Virg&iacute;nia, Virg&iacute;nia, eu sei que n&atilde;o nos havemos de ver<br \/>\n    mais.<\/p>\n<p> &#8211; Quem lhe disse isto, Paulo? &#8211; atalhou Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; Quem me disse? Ningu&eacute;m, mas eu sei que h&aacute; de ser assim.<br \/>\n    Eu sei que a senhora deixar&aacute; hoje o engenho e me levar&aacute; Virg&iacute;nia.<br \/>\n    N&atilde;o tenho for&ccedil;as para impedir esta separa&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    quem tem n&atilde;o a quer impedir; o que me resta pois?<br \/>\n    &#8211; O que lhe resta? Crer no futuro. trabalhar e esperar.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o a senhora cuida que sem Virg&iacute;nia eu poderia trabalhar<br \/>\n    e esperar? Eu n&atilde;o quero a vida sem Virg&iacute;nia, n&atilde;o quero<br \/>\n    viver um momento sem ela.<\/p>\n<p> &#8211; Que est&aacute; dizendo, Paulo? &#8211; interrogou Maur&iacute;cia com sobressalto,<br \/>\n    que n&atilde;o pode disfar&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8211; E porque n&atilde;o hei de viver muito tempo sem Virg&iacute;nia, aqui<br \/>\n    lhe trago o que eu estava ajuntando para lhe dar no dia do meu casamento.<\/p>\n<p> Paulo tendo dito tais palavras, apresentou a Maur&iacute;cia, para que a<br \/>\n    recebesse, uma caixinha preta sem entalhes e sem relevos.<\/p>\n<p> &#8211; Mas o que vem a ser isto?<br \/>\n    &#8211; H&aacute; de achar aqui o dinheiro que h&aacute; tr&ecirc;s anos eu guardo.<br \/>\n    Ele pertence &agrave; Virg&iacute;nia. Para que o quero, se ela me &eacute;<br \/>\n    arrebatada, e eu fico s&oacute; e triste? Receba este penhor da minha infeliz<br \/>\n    afei&ccedil;&atilde;o. Eu n&atilde;o quero nada para mim desde que perco Virg&iacute;nia<br \/>\n    para sempre.<\/p>\n<p> &#8211; Para sempre! &#8211; exclamou banhada de l&aacute;grimas a inocente menina.<br \/>\n    Paulo, Paulo, n&atilde;o diga isto. N&atilde;o repita estas palavras que n&atilde;o<br \/>\n    terei for&ccedil;as para as ouvir sem morrer.<\/p>\n<p> Paulo e Virg&iacute;nia estavam abra&ccedil;ados, e as suas l&aacute;grimas<br \/>\n    pareciam-se com dias fontes que deviam n&atilde;o secar nunca mais.<\/p>\n<p> A luz risonha do sol que nesse momento penetrou no quarto, atrav&eacute;s<br \/>\n    dos vidros da janela, veio tirar o rapaz do longo e desalentado amplexo. Em<br \/>\n    baixo, j&aacute; se ouviu a voz de Albuquerque. Os negros tinham partido para<br \/>\n    o servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> Era tempo de deixar o aposento.<\/p>\n<p> Paulo pode separar-se de Virg&iacute;nia, mas n&atilde;o pode ainda suster<br \/>\n    o pranto. Deu o andar para a porta, procurando encobrir o rosto aos olhos<br \/>\n    de Maur&iacute;cia. esta chorava como ele, e tinha como ele, na alma a maior<br \/>\n    das ang&uacute;stias.<\/p>\n<p> Quando Paulo ia j&aacute; a desaparecer, Maur&iacute;cia percorreu com um<br \/>\n    olhar o &acirc;mbito do aposento. Virg&iacute;nia estava ca&iacute;da com<br \/>\n    a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os sobre a cama, onde curtira durante a<br \/>\n    noite a sua imensa dor. Seus solu&ccedil;os abafados repercutiram no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Maur&iacute;cia como os ecos de f&uacute;nebre surdina. Em presen&ccedil;a<br \/>\n    desta cena angustiosa, ela &#8211; a comovida m&atilde;e &#8211; n&atilde;o pode senhorear<br \/>\n    o seu sentimento.<\/p>\n<p> Chamou Paulo.<\/p>\n<p> &#8211; Paulo, venha c&aacute;. N&atilde;o se entriste&ccedil;a. A tristeza n&atilde;o<br \/>\n    quadra bem a voc&ecirc;s, meigas crian&ccedil;as. Sua felicidade triunfou.<br \/>\n    A vencida sou eu. O meu sossego, a minha liberdade, estes imensos bens da<br \/>\n    vida, este, sim, acabo de perd&ecirc;-los neste momento. Sobre as suas ru&iacute;nas<br \/>\n    levantam voc&ecirc;s o edif&iacute;cio de sua ventura, que Deus h&aacute;<br \/>\n    de aben&ccedil;oar. Sustenham as l&aacute;grimas. Seja eu a &uacute;nica pessoa<br \/>\n    que nunca as tenha estanques sen&atilde;o na sepultura. Leve consigo as suas<br \/>\n    economias, e diga a seu pai que estou resolvida a reconciliar-me com o pai<br \/>\n    de Virg&iacute;nia. N&atilde;o posso mais resistir.<\/p>\n<p> Paulo e Virg&iacute;nia, por impulso simult&acirc;neo, dif&iacute;cil de<br \/>\n    explicar-se, mas f&aacute;cil de compreender-se, correram a abra&ccedil;ar<br \/>\n    aquela que tinha o poder de os fazer chorar e de os fazer sorrir como se fora<br \/>\n    uma divindade misteriosa e fatal.<\/p>\n<h2><a name=\"10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/h2>\n<p>Em v&atilde;o, esperou &Acirc;ngelo que Maur&iacute;cia lhe escrevesse, pedindo-lhe<br \/>\n    o aux&iacute;lio dos seus servi&ccedil;os, segundo ajustado entre eles. Decorrera<br \/>\n    j&aacute; uma semana depois da festa que os reunira em casa de Martins. Era<br \/>\n    tempo bastante para uma resolu&ccedil;&atilde;o. Mas o sil&ecirc;ncio de Maur&iacute;cia<br \/>\n    sobre o prometido era absoluto.<\/p>\n<p> Indo no domingo &agrave; casa do amigo, foi sabedor dos meios empregados<br \/>\n    por ele, Albuquerque e Eug&ecirc;nia para induzirem a m&atilde;e de Virg&iacute;nia<br \/>\n    a dar o passo que ela condenava. Eug&ecirc;nia contou-lhe as coisas pelo mi&uacute;do;<br \/>\n    repetiu-lhe trechos da carta que escrevera &agrave; irm&atilde;; os mais decisivos<br \/>\n    ela os tinha de mem&oacute;ria, e f&aacute;cil por isso lhe foi reproduzi-los.<br \/>\n    N&atilde;o era, por&eacute;m, ainda conhecida a &uacute;ltima resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Maur&iacute;cia, e os parentes desta mostravam-se inquietos e apreensivos.<br \/>\n    Em sua opini&atilde;o ela havia de usar a maior tenacidade, antes de decidir-se<br \/>\n    pela solu&ccedil;&atilde;o que eles indicavam e tinham por justa e conveniente.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo n&atilde;o pode ocultar o seu espanto ao v&ecirc;-los assim<br \/>\n    mudados. Pediram o seu parecer sobre o ponderoso objeto que os trazia preocupados;<br \/>\n    ele habilmente fugiu de se declarar a semelhante respeito.<\/p>\n<p> Voltou &agrave; casa inteiramente entregue ao seu violento afeto, mau conselheiro,<br \/>\n    mas absoluto senhor das suas a&ccedil;&otilde;es. D. Rosalina conheceu-lhe<br \/>\n    a diferen&ccedil;a, e atribuindo o estado da excita&ccedil;&atilde;o moral,<br \/>\n    que notou no sobrinho, a uma paix&atilde;o passageira t&atilde;o comum na<br \/>\n    mocidade, dirigiu-lhe gracejos para os quais ele s&oacute; teve em resposta<br \/>\n    o sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo inclinou-se sobre a chaise-longue , que tinha no seu quarto,<br \/>\n    ao p&eacute; da janela que dava para o jardim. Seus olhos azulados volveram-se<br \/>\n    para o arvoredo cont&iacute;guo em demanda de uma id&eacute;ia decisiva. Os<br \/>\n    raios de sol ajudados da vira&ccedil;&atilde;o brincavam coma folhagem dos<br \/>\n    cajueiros e das mangueiras, vertendo sobre a solid&atilde;o os vivos tons<br \/>\n    da sua luz. Havia a&iacute; serenidade e paz, que contrastavam com o desvairado<br \/>\n    da vista e o revolto dos pensamentos do bacharel. Este contraste foi uma como<br \/>\n    advert&ecirc;ncia para que no fogo do seu c&eacute;rebro, e n&atilde;o na<br \/>\n    suave tepidez da Natureza buscasse ele caminho por onde devia dirigir-se a<br \/>\n    pr&oacute;ximo e inevit&aacute;vel abismo.<\/p>\n<p> De feito, o caminho, para n&atilde;o dizer os desvios, por onde a raz&atilde;o<br \/>\n    se perde em demanda do desconhecido, depressa se lhe mostrou, n&atilde;o coberto<br \/>\n    de puas trai&ccedil;oeiras e mortais, mas juncado de rosas esquisitas, que<br \/>\n    a sua imagina&ccedil;&atilde;o tingia com as cores afogueadas da sua exalta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Passados alguns instantes, &Acirc;ngelo levantou-se. Tinha tomado uma resolu&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ao p&eacute; da estante, que olhava para o jardim, estava o ba&uacute; onde<br \/>\n    era guardada a sua roupa branca. &Acirc;ngelo abriu-o, tirou de dentro uma<br \/>\n    caixinha de pau-cetim, e de dentro v&aacute;rios bilhetes de banco. Eram as<br \/>\n    suas economias. Contou-os um por um. &quot;&Eacute; pouco, disse consigo,<br \/>\n    mas basta para as despesas urgentes&quot;. Tirou alguns desses bilhetes, que<br \/>\n    meteu na carteira, e guardou o restante no lugar onde estavam antes.<\/p>\n<p> Sentou-se depois &agrave; mesa de estudo, e escreveu uma longa carta &agrave;<br \/>\n    Maur&iacute;cia. A pena correra no papel nervosamente. Nessa carta, havia<br \/>\n    um poema ou antes um corpo de delito; mas os seus olhos n&atilde;o viram nela<br \/>\n    o delito, sen&atilde;o a poesia, que o cora&ccedil;&atilde;o em febre vertia<br \/>\n    como revela&ccedil;&atilde;o de altos intuitos.<\/p>\n<p>Maur&iacute;cia ir&aacute; comigo, disse ele, terminando a leitura da carta.<br \/>\n    Havemos de ser felizes. Meu pai e minha m&atilde;e h&atilde;o de ficar satisfeitos<br \/>\n    de me ver voltar. Dir-lhe-eis que Maur&iacute;cia vai refugiar-se no seio<br \/>\n    deles para escapar &agrave; sanha de um tirano; que &eacute; parenta de um<br \/>\n    meu amigo; que merece a benevol&ecirc;ncia das suas almas carinhosas. A intimidade<br \/>\n    h&aacute; de proporcionar-lhe ocasi&atilde;o de reconhecerem as insignes qualidades<br \/>\n    das suas h&oacute;spedes. H&atilde;o de ter para Maur&iacute;cia e Virg&iacute;nia<br \/>\n    paternais solicitudes. N&atilde;o haver&aacute; nisso nada que se possa estranhar.<br \/>\n    Albuquerque n&atilde;o as recebeu em casa, n&atilde;o as trata como pessoas<br \/>\n    da fam&iacute;lia?<br \/>\n    Era evidente a exalta&ccedil;&atilde;o cerebral do advogado.<\/p>\n<p> Ao sair, disse a D. Rosalina que n&atilde;o esperasse por ele para jantar.<br \/>\n    Disse mais que devia voltar de noite; que tinha saudades dos pais; que talvez,<br \/>\n    muito breve, realizasse uma viagem &agrave; povoa&ccedil;&atilde;o, onde moravam.<br \/>\n    Tr&ecirc;s horas depois, tinha contratado com um barcaceiro da sua confian&ccedil;a<br \/>\n    uma viagem &agrave;quela povoa&ccedil;&atilde;o para qualquer dos pr&oacute;ximos<br \/>\n    dias.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo delirava. O seu talento enfraquecia e deixava se vencer na<br \/>\n    luta com o seu amor. N&atilde;o podia ser diferente o resultado dessa luta,<br \/>\n    visto que ele tinha o cora&ccedil;&atilde;o virgem, e aquele amor era o primeiro<br \/>\n    que a&iacute; despertava. Posto que poeta, nenhuma das belezas humildes da<br \/>\n    povoa&ccedil;&atilde;o o apaixonara no meio dos passados dissabores. Alguma<br \/>\n    vez em que os seus afetos, quase afogados nas ondas do infort&uacute;nio,<br \/>\n    sobrenadavam como n&aacute;ufragos, e demandavam regi&atilde;o hospitaleira,<br \/>\n    onde aportarem, esse regi&atilde;o n&atilde;o era o amor; a mulher n&atilde;o<br \/>\n    era o fanal que surdia diante dos olhos do desnorteado, prestes a submergir-se<br \/>\n    no iroso p&eacute;lago; o seu fanal era a Natureza, para qual o n&aacute;ufrago<br \/>\n    se voltava com confian&ccedil;a que n&atilde;o se divide, antes se concentra<br \/>\n    em um ponto &uacute;nico.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo fora do Recife, onde se acostumara a ver mulheres de sedutora<br \/>\n    beleza, que ostentavam, com suas gra&ccedil;as naturais, os ourop&eacute;is<br \/>\n    do luxo e as galas com que a vaidade se alimenta.<\/p>\n<p> Em lugar dessa divindade rutilante, que devesse &agrave; arte do toucador<br \/>\n    a metade dos seus primores e milagres , ele fora achar na praia long&iacute;nqua<br \/>\n    e pobre a filha do pescador com seu vestidinho curto e estreito, as chinelas<br \/>\n    grosseiras, o cabelo desleixadamente atado, uma flor entre as tran&ccedil;as,<br \/>\n    uma fita na cinta. Convivendo com os pescadores, ouvira referir-se &aacute;s<br \/>\n    novenas na capela, aos fandangos , aos bois , tradicionais brinquedos com<br \/>\n    que se costumam celebrar o Natal por aquelas praias, onde ainda se observam<br \/>\n    muitos dos h&aacute;bitos do tempo do rei velho. Nenhuma dessas belezas r&uacute;sticas<br \/>\n    lhe falara, como as jovens praianas das representa&ccedil;&otilde;es teatrais,<br \/>\n    dos bailes ruidosos, das festas espl&ecirc;ndidas, que ele, mau grado seu,<br \/>\n    n&atilde;o podia esquecer no meio dos seus desgostos, e cuja lembran&ccedil;a,<br \/>\n    avivando-lhe a dor de as haver perdido, mais aumentava a intensidade deles.<br \/>\n    Ent&atilde;o, quase descrente, o esp&iacute;rito fatigado de procurar em v&atilde;o<br \/>\n    &iacute;dolo para seu culto, o cora&ccedil;&atilde;o ermo de amor e s&oacute;<br \/>\n    povoado de sombras que a&iacute; projetavam as asas negras do infort&uacute;nio,<br \/>\n    voltava-se aos pain&eacute;is da Natureza, e em contempl&aacute;-los achava<br \/>\n    for&ccedil;a e alentos afim de n&atilde;o morrer de todo. Eis porque tornado<br \/>\n    ao Recife, trouxera a alma desacompanhada, sincera e impression&aacute;vel.<\/p>\n<p> &Agrave;s cinco horas da tarde, &Acirc;ngelo entrou na Estrada Nova. Alugara<br \/>\n    um cavalo na melhor cocheira do Recife e seguira amparado das primeiras sombras<br \/>\n    da noite, manto protetor dos namorados.<\/p>\n<p> Era levado ali pela inten&ccedil;&atilde;o de encontrar-se com Maur&iacute;cia;<br \/>\n    mas, podendo acontecer que tal encontro se n&atilde;o realizasse, conduzia<br \/>\n    a carta que sabemos, e que ele esperava ter meios seguros de fazer que fosse<br \/>\n    entregue. N&atilde;o s&atilde;o dif&iacute;ceis nos engenhos mensageiros dos<br \/>\n    que este servi&ccedil;o requeira.<\/p>\n<p> O engenho ficava antes da povoa&ccedil;&atilde;o; mas &Acirc;ngelo, ou porque<br \/>\n    havia ainda muito ar de dia ou porque imaginasse que podia encontrar Maur&iacute;cia<br \/>\n    no povoado, passou pelo engenho, e foi parar &agrave; porta de uma cocheira,<br \/>\n    onde devia deixar o cavalo, a fim de ser menos ruidosa a sua excurs&atilde;o.<\/p>\n<p> Ainda nenhum namorado foi melhor favorecido pelo acaso do que o bacharel<br \/>\n    neste arriscado passo. Mal descavalgava, um vulto simp&aacute;tico, em que<br \/>\n    ele imediatamente reconheceu Maur&iacute;cia, passava pelo outro lado da estrada.<br \/>\n    A cocheira estava na &uacute;ltima casa da rua, e entre ela e o engenho metia-se<br \/>\n    uma centena de bra&ccedil;as. Este espa&ccedil;o era despovoado, e ordinariamente<br \/>\n    deserto. De certo ponto em diante, come&ccedil;ava o cercado. Passadas obras<br \/>\n    de cinq&uuml;enta bra&ccedil;as, era a pesada porteira. Os espa&ccedil;os<br \/>\n    que ficavam desta para o Recife e para Caxang&aacute; eram numa parte descobertos,<br \/>\n    mas em outras apresentavam-se protegidos por &aacute;rvores sombrias.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia tinha sa&iacute;do a visitar uma disc&iacute;pula que morava<br \/>\n    no povoado. Era sempre acompanhada de Virg&iacute;nia que ela se dirigia ao<br \/>\n    Caxang&aacute; para tomar li&ccedil;&atilde;o a v&aacute;rias alunas que ali<br \/>\n    tinha; mas Virg&iacute;nia sa&iacute;ra a passeio com Alice e Paulo para as<br \/>\n    bandas de Apicucos, quando lhe vieram dizer que aquela disc&iacute;pula estava<br \/>\n    doente. Os dias que se tinham passado depois das cenas representadas nos aposentos<br \/>\n    de Maur&iacute;cia, esta os vivera na mais acerba tristeza. Comunicada a sua<br \/>\n    her&oacute;ica resolu&ccedil;&atilde;o a Albuquerque, ela n&atilde;o descera<br \/>\n    mais do sobrado sen&atilde;o para as refei&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o tinha<br \/>\n    olhos, n&atilde;o tinha alma, sen&atilde;o para ver interiormente a sua desventura,<br \/>\n    e pensar na incerteza do seu destino. Quando uma semana antes voltara de estrada<br \/>\n    de Jo&atilde;o de Barros, o pensamento que prevalecia entre outros muitos<br \/>\n    que lhe tumultuavam no entendimento era o de sacrificar todas as conveni&ecirc;ncias<br \/>\n    &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o da sua independ&ecirc;ncia. Evidentemente,<br \/>\n    esta criatura estava fora do seu natural, quando n&atilde;o se dirigia por<br \/>\n    si mesma, quando era obrigada a aceitar o governo estranho para seus atos.<br \/>\n    Conhecendo o que valia, viera resoluta a defender a sua liberdade. Seu amor<br \/>\n    incipiente, mas j&aacute; grande, fortificara-a neste intento e chegara a<br \/>\n    inspirar-lhe a carta que escreveu a Martins. Mas as circunst&acirc;ncias tinham<br \/>\n    sido mais poderosas do que a sua vontade, tinham imposto cruelmente ao seu<br \/>\n    esp&iacute;rito a solu&ccedil;&atilde;o que ela mais temia, e que considerava<br \/>\n    a mais contr&aacute;ria ao seu futuro sossego.<\/p>\n<p> Este golpe enfraqueceu as suas faculdades. Sobreviera o des&acirc;nimo,<br \/>\n    e em conseq&uuml;&ecirc;ncia o isolamento. O piano, term&ocirc;metro do estado<br \/>\n    dos seu afetos, tornara-se silencioso. Enfim, Maur&iacute;cia ca&iacute;ra<br \/>\n    nessa atonia moral, que parece indicar um estado m&oacute;rbido do esp&iacute;rito,<br \/>\n    quando n&atilde;o passa de uma lenta consun&ccedil;&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas aquela tarde uma como rea&ccedil;&atilde;o, proveniente talvez da impress&atilde;o<br \/>\n    que produzia nela a not&iacute;cia de estar enferma aquela amiga para quem<br \/>\n    tinha grandes prefer&ecirc;ncias, viera dar-lhe novos alentos.<\/p>\n<p> Se tal n&atilde;o foi a raz&atilde;o do seu procedimento, teve este por<br \/>\n    origem motivo diverso, mas correlativo. Bezerra, depois da &uacute;ltima visita,<br \/>\n    por ocasi&atilde;o da qual Maur&iacute;cia se negara a aparecer-lhe, n&atilde;o<br \/>\n    tornara ao engenho. Maur&iacute;cia suspeitou que ele viria aquela tarde;<br \/>\n    e, pois n&atilde;o tinha ainda as for&ccedil;as que semelhante recep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exigia, aproveitou-se da aludida circunst&acirc;ncia, no pressuposto, talvez<br \/>\n    falso, de diminuir uma dor que o espa&ccedil;amento antes aumentava. O capricho<br \/>\n    natural da mulher, achou, ent&atilde;o, ocasi&atilde;o para exercitar seu<br \/>\n    predom&iacute;nio. Maur&iacute;cia escolheu um dos seus melhores vestidos.<br \/>\n    Ao cabelo, que h&aacute; tr&ecirc;s dias andava quase despenteado, deu ela<br \/>\n    forma graciosa que, ostentando a sua opul&ecirc;ncia, lhe deixou livre a ampla<br \/>\n    fronte, e descoberto o pesco&ccedil;o claro e esbelto. Maur&iacute;cia estava<br \/>\n    encantadora.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo alcan&ccedil;ou-a tanto que ela entrou na quadra deserta do<br \/>\n    caminho.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o podendo esquecer-me da senhora, vim pessoalmente receber suas<br \/>\n    ordens.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia n&atilde;o soube a princ&iacute;pio o que dizer. A sua surpresa<br \/>\n    fora grande. Confus&atilde;o de prazer e descontentamento, de confian&ccedil;a<br \/>\n    e temor foi a primeira impress&atilde;o do seu gesto, que ela n&atilde;o pode<br \/>\n    ocultar.<\/p>\n<p> &#8211; Como eu estava longe de esper&aacute;-lo por aqui! &#8211; disse revelando com<br \/>\n    franqueza toda a sua violenta impress&atilde;o.<\/p>\n<p> A esse tempo &Acirc;ngelo tinha-lhe oferecido o bra&ccedil;o, e caminhavam<br \/>\n    juntos.<\/p>\n<p> &#8211; Sabendo que todos aqueles de quem a senhora devia esperar aux&iacute;lio<br \/>\n    tinha tomado o partido de seu marido, julguei do meu dever vir oferecer-lhe<br \/>\n    os meus servi&ccedil;os. Est&aacute; tudo pronto. A viagem j&aacute; est&aacute;<br \/>\n    contratada. Nada nos h&aacute; de faltar. Embarcaremos hoje mesmo, se o quiser.<br \/>\n    Tenha confian&ccedil;a em mim. Meu cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; com a<br \/>\n    senhora. Defend&ecirc;-la-ei em toda parte. Sacrificar-me-ei, se tanto for<br \/>\n    preciso, por lhe ser agrad&aacute;vel. Oh! nada me agrade&ccedil;a, nada me<br \/>\n    agrade&ccedil;a. Nada me deve. Eu, sim, tudo lhe devo. N&atilde;o obstante<br \/>\n    as apreens&otilde;es, as preocupa&ccedil;&otilde;es que me dominaram durante<br \/>\n    esta semana. tenho vivido mais nestes &uacute;ltimos dias do que vivi em todos<br \/>\n    os meus vinte e dois anos. N&atilde;o percamos tempo. A senhora n&atilde;o<br \/>\n    tem uma pessoa por si, a n&atilde;o ser eu. Se se demorar mais um dia no engenho,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o lhe ser&aacute; poss&iacute;vel, talvez, escapar, &agrave;s<br \/>\n    garras de seu marido.<\/p>\n<p> Para que Maur&iacute;cia ajuizasse do estado moral do bacharel n&atilde;o<br \/>\n    era preciso mais do que acabava de ouvir. Estas palavra veementes e desconexas<br \/>\n    acusavam tal excita&ccedil;&atilde;o em seu amigo que produziam nela certa<br \/>\n    impress&atilde;o de pavor. Conheceu que a paix&atilde;o que inspirara a &Acirc;ngelo<br \/>\n    tinha nascido com for&ccedil;a descomunal como a crian&ccedil;a mitol&oacute;gica<br \/>\n    que sufocava no ber&ccedil;o as serpentes. Esta grandeza lisonjeou o seu amor<br \/>\n    pr&oacute;prio, e, ao mesmo tempo, assustou-a. A lembran&ccedil;a da sua &uacute;ltima<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o, ela ainda a trazia na mem&oacute;ria como sombra<br \/>\n    agoureira, e foi motivo para que os seus temores aumentasse ainda mais. Procurou<br \/>\n    em si for&ccedil;as para revelar-lhe esta decis&atilde;o, e n&atilde;o as<br \/>\n    encontrou. Que n&atilde;o faria &Acirc;ngelo, quando fosse sabedor de semelhante<br \/>\n    desenlace, que importava o aniquilamento da f&eacute; imensa que enchia os<br \/>\n    eu esp&iacute;rito e dava ao seu afeto as propor&ccedil;&otilde;es de um poder<br \/>\n    sobrenatural?<br \/>\n    Maur&iacute;cia n&atilde;o teve coragem para derruir com algumas palavras<br \/>\n    o risonho castelo que o poeta levantara no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &quot;N&atilde;o serei eu, disse ela consigo, repassada em amargura, n&atilde;o<br \/>\n    serei eu quem destrua este grande amor, espl&ecirc;ndida ilus&atilde;o, que<br \/>\n    &eacute; obra minha; que eu pr&oacute;pria gerei.&quot;<br \/>\n    Obedecendo a esta ordem de id&eacute;ias, julgou prudente ocultar a verdade;<br \/>\n    e o fez, dando nova dire&ccedil;&atilde;o ao pensamento capital da pr&aacute;tica<br \/>\n    encetada por &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor, eu n&atilde;o posso deixar de agradecer-lhe tanta solicitude.<\/p>\n<p> &#8211; Por que n&atilde;o d&aacute; o devido nome ao que chama de solicitude?<br \/>\n    Por que n&atilde;o lhe chama antes de amor?<br \/>\n    &#8211; Tem raz&atilde;o. Posso eu ser indiferente a estas demonstra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do amor, que me vota? Este amor me cativa. D&aacute;-me prazer e orgulho.<br \/>\n    Nunca tive quem manifestasse t&atilde;o afervorado afeto por mim. Encontro,<br \/>\n    enfim, a felicidade no meio da maior desventura. N&atilde;o o duvide: a desventura<br \/>\n    &eacute; o meu estado atual, n&atilde;o obstante a grandeza que seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    me oferece, e que &eacute; um tesouro que n&atilde;o tem pre&ccedil;o. Mas<br \/>\n    o que o senhor prop&otilde;e &eacute; atualmente imposs&iacute;vel. Para escapar<br \/>\n    a companhia do meu marido h&aacute; meios mais convenientes do que a fuga.<br \/>\n    Martins n&atilde;o lhe disse que eu lhe falara de divorciar-me por justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Neste sentido, nada me disse; mas para que h&aacute; de pedir a senhora<br \/>\n    aos tribunais a separa&ccedil;&atilde;o que j&aacute; uma vez levou a efeito,<br \/>\n    e se pode realizar agora mesmo sem interven&ccedil;&atilde;o de ningu&eacute;m?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o concorramos para um resultado que a precipita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pode tornar fatal.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; precipita&ccedil;&atilde;o. Uma carruagem poder&aacute;<br \/>\n    vir em menos de meia hora receber a senhora e D. Virg&iacute;nia, e conduzi-las<br \/>\n    para o lugar do embarque. Ao amanhecer, estaremos longe, e dentro de trinta<br \/>\n    horas poderemos aportar no cantinho feliz, onde tenho meus pais que h&atilde;o<br \/>\n    de receber-nos com o mais vivo contentamento, como se todos f&ocirc;ssemos<br \/>\n    seus filhos.<\/p>\n<p> Tinham chegado a certo ponto, onde a estrada formava um &acirc;ngulo. Havia<br \/>\n    a&iacute; uma grande &aacute;rvore. A estrada estava deserta. As sombras da<br \/>\n    noite estendiam-se rapidamente. A paisagem parecia lan&ccedil;ar nos esp&iacute;ritos<br \/>\n    vagas confian&ccedil;as, misturadas de pavores &#8211; contradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    gerada pela luz que fugia e pelas sombras que adiantavam.<\/p>\n<p> Diante dessa natureza, que era uma incita&ccedil;&atilde;o muda, posto que<br \/>\n    irresist&iacute;vel, ao que as paix&otilde;es oferecem veemente e embriagante,<br \/>\n    &Acirc;ngelo parou tomado de delicioso sentir.<\/p>\n<p> Pegando as m&atilde;os de Maur&iacute;cia, pousou nela os olhos que despediam<br \/>\n    grandes brilhos azulados como as estrelas. Maur&iacute;cia estava p&aacute;lida<br \/>\n    e abalada. Nada disse. Recebeu, n&atilde;o sem prazer, na face o fulgor dessa<br \/>\n    inspe&ccedil;&atilde;o, que o bacharel parecia querer levar-lhe no &iacute;ntimo<br \/>\n    da alma.<\/p>\n<p> &#8211; Por que n&atilde;o aceita os meus servi&ccedil;os? Que pretextos s&atilde;o<br \/>\n    estes? Enquanto eu me sinto capaz de levar a efeito imposs&iacute;veis para<br \/>\n    t&ecirc;-la comigo, a senhora levanta escusas fr&iacute;volas. &Eacute; manifesta<br \/>\n    a causa de tais escusas. Cuidei que lhe merecia um afeto, mas o que a senhora<br \/>\n    sente por mim &eacute; simples curiosidade. Quer ver talvez, at&eacute; onde<br \/>\n    ir&aacute; o del&iacute;rio de uma alma que teve a desgra&ccedil;a de se deixar<br \/>\n    vencer pelo esplendor de sua beleza.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia demorou-se um momento a dar-lhe a resposta. Parecia ter<br \/>\n    a voz presa e a respira&ccedil;&atilde;o opressa.<\/p>\n<p> &#8211; Como &eacute; injusto! o disse enfim. N&atilde;o s&atilde;o escusas fr&iacute;volas<br \/>\n    que levanto, s&atilde;o justas raz&otilde;es que aconselham a sermos prudentes;<br \/>\n    Que id&eacute;ia dar&iacute;amos de n&oacute;s, se fug&iacute;ssemos assim?<br \/>\n    E por que havemos de fugir? O senhor j&aacute; refletiu maduramente na grave<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o em que ficaria Virg&iacute;nia, se realiz&aacute;ssemos<br \/>\n    semelhante loucura?<br \/>\n    &#8211; Chama a isso de loucura? &#8211; inquiriu &Acirc;ngelo, sentindo as m&atilde;os<br \/>\n    geladas e tr&ecirc;mulas.<\/p>\n<p> &#8211; E que nome se deve dar a t&atilde;o arriscado plano?<br \/>\n    &#8211; Diz a verdade &#8211; tornou o bacharel. Que sou, eu, sen&atilde;o um louco? Sinto<br \/>\n    que a raz&atilde;o se me desvaira; mas &eacute; &agrave; senhora que devo<br \/>\n    tal desvairamento; devo-o aos seus olhares magn&eacute;ticos, &agrave; majestade<br \/>\n    das suas gra&ccedil;as, ao brilho do seu talento. A senhora escravizou-me,<br \/>\n    e agora quer cortar o v&ocirc;o da paix&atilde;o que &eacute; obra sua, e<br \/>\n    que de suas m&atilde;os recebeu o impulso, que me atira para o imprevisto!<br \/>\n    Seja cordata e justa. A senhora deve acompanhar-me nesta vertigem, que p&ocirc;s<br \/>\n    em minha alma, e cuja responsabilidade lhe pertence em sua maior parte.<\/p>\n<p> &#8211; Acompanh&aacute;-lo-ei oportunamente. Agora, n&atilde;o. &Eacute; imposs&iacute;vel.<br \/>\n    N&atilde;o vejo nisto ind&iacute;cio de desamor. Como eu seria feliz, se pudesse<br \/>\n    ser desamorosa! N&atilde;o duvide do meu amor; duvide da oportunidade das<br \/>\n    circunst&acirc;ncias; duvide da conveni&ecirc;ncia deste modo de resolver<br \/>\n    uma dificuldade que &eacute; um la&ccedil;o de ferro, que me prende por toda<br \/>\n    a vida &agrave;quele que a fatalidade p&ocirc;s no meu caminho para apavorar<br \/>\n    os meus sorrisos, e afugentar a chuva de flores em que se banhava a minha<br \/>\n    mocidade. N&atilde;o duvide de mim. Escute. As minhas circunst&acirc;ncias<br \/>\n    s&atilde;o melindrosas. Quem sabe o que neste momento n&atilde;o se estar&aacute;<br \/>\n    pensando a meu respeito ao notar-se a minha aus&ecirc;ncia? Fa&ccedil;o um<br \/>\n    apelo ao seu crit&eacute;rio. Entreguemos ao futuro os nossos destinos. Ter&aacute;<br \/>\n    coragem o senhor para proceder de modo diferente. N&atilde;o h&aacute; de<br \/>\n    ter. Volte &agrave; sua casa. Teremos ocasi&atilde;o de nos entendermos sobre<br \/>\n    este assunto.<\/p>\n<p> &#8211; Poderei levar pelo menos a certeza que lhe mere&ccedil;o o seu afeto?<br \/>\n    &#8211; perguntou &Acirc;ngelo, compreendendo tardiamente que urgia sair de t&atilde;o<br \/>\n    arriscada situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia fitou-o com os seus grandes olhos deslumbrantes. O ardente<br \/>\n    col&oacute;quio com o bacharel tinha-lhe trazido um resultado n&atilde;o isento<br \/>\n    de perigos; as paix&otilde;es que repousavam silenciosas no fundo da sua alma,<br \/>\n    ela as sentiu erguerem-se vivazes como nos primeiros anos da mocidade.<\/p>\n<p> &#8211; Pode &#8211; respondeu com voz t&iacute;mida.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo apertou-a contra si e deu-lhe um longo beijo a que ela n&atilde;o<br \/>\n    op&ocirc;s nenhuma resist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> As paix&otilde;es de Maur&iacute;cia tinham de feito despertado.<\/p>\n<h2><a name=\"11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><\/h2>\n<p>Separaram-se alguns passos antes da porteira. &Acirc;ngelo para volver &agrave;<br \/>\n    povoa&ccedil;&atilde;o imersa no seu habitual sil&ecirc;ncio, Maur&iacute;cia<br \/>\n    para ocultar no fundo do aposento, t&atilde;o cuidadosamente que ningu&eacute;m<br \/>\n    o suspeitasse, a deleitosa revolu&ccedil;&atilde;o que lhe deixava na alma<br \/>\n    o beijo do bacharel.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus, que ser&aacute; de mim? &#8211; disse ela como quem sentia &agrave;<br \/>\n    roda de si, amea&ccedil;ando perd&ecirc;-la, todos os perigos que cercam os<br \/>\n    amores il&iacute;citos. Como &eacute; violenta a sua paix&atilde;o por mim!<br \/>\n    E como eu ao amo! Oh! que desgra&ccedil;a, que desgra&ccedil;a, meu Deus!<br \/>\n    Maur&iacute;cia mal podia dominar o esto das suas paix&otilde;es, acesas de<br \/>\n    repente, quando elas as julgava cinzas.<\/p>\n<p> &#8211; Meu cora&ccedil;&atilde;o ainda vice, por infelicidade minha! E devo eu<br \/>\n    mat&aacute;-lo?<br \/>\n    Devo, sim, a felicidade de Virg&iacute;nia exige-o. Devo asfixi&aacute;-lo<br \/>\n    com as duas m&atilde;os para que depressa expire. Mas qual ser&aacute; o meu<br \/>\n    estado depois da morte deste sentimento, que veio revelar-me tesouros de del&iacute;cia<br \/>\n    &iacute;ntima que me eram inteiramente desconhecidos? Que infort&uacute;nio<br \/>\n    n&atilde;o foi para mim ver esse homem!<br \/>\n    Deste solil&oacute;quio, meio racional, meio desvairado, despertou-a o estrondo<br \/>\n    produzido pelo bater da porteira.<\/p>\n<p> Havia j&aacute; um minuto que ela andava dentro do cercado. Neste momento,<br \/>\n    confrontava com uma palho&ccedil;a abandonada que pertencera a certo negro<br \/>\n    velho do engenho, e que ficava entre dois cajueiros ramalhudos &agrave; beira<br \/>\n    do caminho.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia, voltando-se, reconheceu Bezerra num homem que transpusera<br \/>\n    a porteira e se encaminhava para a casa-grande. Ainda assustada, ainda comovida,<br \/>\n    ela n&atilde;o hesitou um momento. Entrou na palho&ccedil;a com medo de ser<br \/>\n    alcan&ccedil;ada por ele.<\/p>\n<p> No mesmo instante, uma mulher que sa&iacute;ra de sob uma meia &aacute;gua<br \/>\n    coberta de palha cerca de cem passos antes da casa-grande, encaminhou-se para<br \/>\n    a porteira. Essa meia &aacute;gua estava algum tanto afastada do caminho e<br \/>\n    quase oculta por uma renque de laranjeiras idosas, que iam terminar na casa<br \/>\n    de purgar. Cobria a cacimba, onde se lavava a roupa do engenho e dos moradores<br \/>\n    circunvizinhos. Ordinariamente, havia gente ali; quando n&atilde;o eram escravas,<br \/>\n    eram mulheres livres dos arredores, que, com permiss&atilde;o de Albuquerque,<br \/>\n    iam exercer ali, por ser mais f&aacute;cil, a sua ind&uacute;stria. &Agrave;s<br \/>\n    vezes, entre elas, apareciam rapariguinhas novas, algumas bem parecidas e<br \/>\n    gentis, a cujo n&uacute;mero pertencia uma cachopa cor de canela, de cabelos<br \/>\n    cacheados ao longe, olhos rasgados, boca grande, mas engra&ccedil;ada, formas<br \/>\n    grosseiras e fornidas. O rapazio do povoado andava ca&iacute;do por ela. Falava-se<br \/>\n    entre o povo na filha da cabocla Janu&aacute;ria &#8211; a formosa Janoca &#8211; como<br \/>\n    nos sal&otilde;es de Recife se falava da filha do comendador M&#8230;, na sobrinha<br \/>\n    do Bar&atilde;o de L&#8230;, ou na irm&atilde;o do D. F&#8230;, a saber, com admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e elogios. Janu&aacute;ria morava perto do engenho, mas do lado de fora do<br \/>\n    cercado. Passava a vida desregrada, dando maus exemplos para a filha, para<br \/>\n    a qual n&atilde;o tinha cuidados de que ela precisava pelos seus verdes anos.<br \/>\n    Muitas vezes, ia ao Recife, deixando a rapariga a lavar roupa na palho&ccedil;a,<br \/>\n    entregue a Deus e &agrave; aventura. Nesse dia, com ser domingo, Janoca voltava<br \/>\n    ao lusco-fusco da meia &aacute;gua para casa; Sobra&ccedil;ava uma trouxa<br \/>\n    der roupa lavada. Vinha distra&iacute;da, ou pensando em oculto objeto. Nem<br \/>\n    ela, nem Bezerra viram Maur&iacute;cia, porque encontrando-se bem defronte<br \/>\n    a choupana arruinada, alimentaram curiosos di&aacute;logo, que Bezerra certamente<br \/>\n    n&atilde;o quisera fosse ouvido por sua mulher.<\/p>\n<p> A rapariga, com certo disfarce c&iacute;nico, foi a primeira que o tirou<br \/>\n    a terreiro.<\/p>\n<p> &#8211; Vosmec&ecirc; bem me podia dar um vestido para o Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; a primeira vez que me dizes isto, diabrete! Por que<br \/>\n    achas de te meter comigo, quando h&aacute; por a&iacute; tanto rapaz que pode<br \/>\n    corresponder &agrave;s tuas poucas vergonhas?<br \/>\n    &#8211; Aqui s&oacute; h&aacute; dois rapazes que me ca&iacute;ram em gra&ccedil;a;<br \/>\n    mas um, que podia, n&atilde;o quer e at&eacute; parece n&atilde;o entender<br \/>\n    disto; vive somente para a sua noiva; &eacute; o Sr. Paulo. O outro quer,<br \/>\n    mas n&atilde;o pode. &Eacute; o caixeiro da venda do canto da rua.<\/p>\n<p> &#8211; Pois procura outros, que h&aacute;s de achar. N&atilde;o v&ecirc;s que<br \/>\n    sou velho, que j&aacute; tenho cabelos brancos?<br \/>\n    Assim falando, Bezerra volveu os olhos &agrave; roda de si como quem queria<br \/>\n    certificar-se de que ningu&eacute;m o via a conversar com a cachopa.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se assuste. As mo&ccedil;as do engenho sa&iacute;ram a passear<br \/>\n    com seu Paulo; os negros andam vadiando na povoa&ccedil;&atilde;o. At&eacute;<br \/>\n    mam&atilde;e foi ao Recife e me deixou s&oacute;.<\/p>\n<p> &#8211; E eu tamb&eacute;m te deixo a&iacute;.<\/p>\n<p> Bezerra deu o andar para o engenho. Janoca, que ficara de p&eacute;, defronte<br \/>\n    da palho&ccedil;a abandonada, disse com voz lamuriosa: &#8211; Por que n&atilde;o<br \/>\n    me d&aacute; o vestido que pe&ccedil;o? &Eacute; uma coisa t&atilde;o pequena<br \/>\n    para o senhor!<br \/>\n    A estas vozes, Bezerra voltou-se. Janoca tinha um p&eacute; firma no ch&atilde;o<br \/>\n    e o outro posto sobre o cotovelo de um dos cajueiros, o qual ficava na altura<br \/>\n    dos joelhos de uma pessoa. A saia, j&aacute; de si curta, lhe descobria, pela<br \/>\n    atitude em que estava a rapariga, o princ&iacute;pio de uma perna alentada<br \/>\n    sobre a qual ela se derreava sobra&ccedil;ando a trouxa. A cabe&ccedil;a guarnecida<br \/>\n    de cachos, os seios salientes, o corpo, que parecia n&atilde;o caber no cabe&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e na saia escassa, levemente encurvado sobre o dorso, davam-lhe certos jeitos<br \/>\n    e certa nudez de ninfa, que o lugar ermo e a hora crepuscular armavam com<br \/>\n    mil perigos.<\/p>\n<p> &#8211; Que diabo irritante! &#8211; disse Bezerra.<\/p>\n<p> E n&atilde;o pode vencer a provoca&ccedil;&atilde;o. Voltou.<\/p>\n<p> &#8211; O senhor sabe onde moro? &Eacute; ali embaixo. Se n&atilde;o quiser ir<br \/>\n    mesmo, pode mandar para l&aacute; o vestido que mam&atilde;e recebe. Olhe,<br \/>\n    a casa &eacute; ali &agrave; m&atilde;o direita depois e passar a porteira.<\/p>\n<p> Janoca deu o andar.<\/p>\n<p> &#8211; Se quer ver a casa, venha comigo. N&atilde;o tenha medo, que ningu&eacute;m<br \/>\n    h&aacute; de nos ver.<\/p>\n<p> &#8211; Sempre quero saber onde &eacute; que tens o teu inferno, dem&ocirc;nio!<br \/>\n    &#8211; disse Bezerra, seguindo atr&aacute;s da rapariga.<\/p>\n<p> Bezerra tinha a infelicidade de sentir particular predile&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por esta esp&eacute;cie de gente. Uma mesti&ccedil;a, quase da mesma idade<br \/>\n    de Janoca, levara-o a praticar loucuras no Par&aacute; alguns meses antes;<br \/>\n    uma fora causadora de grandes desastres em sua vida.<\/p>\n<p> Testemunhando essas trivialidades indignas, Maur&iacute;cia passou da suprema<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o &agrave; suprema pena. A transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi r&aacute;pida e cruel. A exalta&ccedil;&atilde;o em que estava favoreceu<br \/>\n    este resultado. &Oacute;dio e asco sentia ela pelo marido, que nunca se mostrara<br \/>\n    digno de sua companhia; mas, nesse momento, pungiu-lhe o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    al&eacute;m de tais sentimentos, outro que nunca lhe parecera pudesse inspirar-lhe<br \/>\n    o objeto deles &#8211; um ci&uacute;me inexplic&aacute;vel, incompreens&iacute;vel,<br \/>\n    paix&atilde;o nova que pela primeira vez penetrou nas carnes do seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    as aceradas garras.<\/p>\n<p> Atrav&eacute;s da palha da casa e por entre as sombras do crep&uacute;sculo,<br \/>\n    Maur&iacute;cia viu o marido usar adiante um gesto que cada vez agu&ccedil;ou<br \/>\n    mais a ponta do espinho que j&aacute; a lacerava. Bezerra, olhando, como quem<br \/>\n    espreitava, a um e a outro lado, passou o bra&ccedil;o direito &agrave; roda<br \/>\n    da cintura da mesti&ccedil;a, e cosido com ela lhe segredou ao ouvido palavras<br \/>\n    que a mulher n&atilde;o pode ouvir, mas sup&ocirc;s adivinhar.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; o mesmo homem! &#8211; disse Maur&iacute;cia com entranh&aacute;vel<br \/>\n    dor no cora&ccedil;&atilde;o. mas se &eacute; o mesmo que dantes, deverei<br \/>\n    acaso voltar &agrave; sua companhia para ser espectadora de mais uma cena<br \/>\n    destas?<br \/>\n    Desejara ouvir tudo; desejara ir atr&aacute;s dele, p&eacute; ante p&eacute;,<br \/>\n    ainda que isto lhe parecesse pouco digno de si, para n&atilde;o perder uma<br \/>\n    s&oacute; palavra dessa conversa&ccedil;&atilde;o indecente; mas semelhante<br \/>\n    intento era irrealiz&aacute;vel; demais urgia deixar o esconderijo. Saiu cautelosamente.<br \/>\n    Estava quase fora de si.<\/p>\n<p> Tanto que se viu do lado de fora, correu t&atilde;o velozmente como pode,<br \/>\n    at&eacute; alcan&ccedil;ar o laranjal. Protegida por este e estugando sempre<br \/>\n    os passos, chegou a dentro em pouco tempo &agrave; casa do engenho.<\/p>\n<p> Estava p&aacute;lida, fria e tr&ecirc;mula. O seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinha servido aquela tarde de campo de muitas batalhas que ela sa&iacute;ra<br \/>\n    j&aacute; vencedora, j&aacute; vencida.<\/p>\n<p> Pesar e prazer, amor e &oacute;dio, ci&uacute;me e desconhecido desejo de<br \/>\n    vingan&ccedil;a, grandes surpresas, grandes esperan&ccedil;as e grandes desesperos<br \/>\n    &#8211; eis as encontradas for&ccedil;as que a traziam suspensa entre mil incertezas<br \/>\n    e mil desvarios.<\/p>\n<p> Entrando no aposento, Maur&iacute;cia tinha inteiramente resolvida a sua<br \/>\n    vingan&ccedil;a. A suave imagem de &Acirc;ngelo, que enchia o seu entendimento,<br \/>\n    incitava-a a p&ocirc;-la por obra. Era terr&iacute;vel o que concebera o seu<br \/>\n    esp&iacute;rito. Eis pouco mais ou menos no que consistia. Ela desceria &agrave;<br \/>\n    sala de visitas e, quando Bezerra entrasse, declararia, em presen&ccedil;a<br \/>\n    de todos, que, posto tivesse resolvido voltar para sua companhia, adotara<br \/>\n    opini&atilde;o contr&aacute;ria. Albuquerque havia de inquirir-lhe a raz&atilde;o<br \/>\n    desta s&uacute;bita mudan&ccedil;a; ent&atilde;o ela referiria o que acabava<br \/>\n    de ver o marido praticar; fulminaria este com a vergonhosa revela&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    imposs&iacute;vel seria que n&atilde;o tomasse todos os seu partido. Ficaria<br \/>\n    vingada e salva.<\/p>\n<p> A imagem de &Acirc;ngelo, que trazia no seu pensamento como luz benfazeja<br \/>\n    e consoladora, tinha ficado superior a este plano; n&atilde;o fora o amor<br \/>\n    que lho inspirara. fora o &oacute;dio, o desprezo, a raiva, o despeito, que<br \/>\n    nas mulheres assume n&atilde;o raras vezes propor&ccedil;&otilde;es brutais.<\/p>\n<p> Estava para descer, quando Virg&iacute;nia entrou no quarto. A menina subira<br \/>\n    as escadas, correndo satisfeita e feliz. Passara toda a tarde em companhia<br \/>\n    de Paulo, e ao entrar no engenho, alcan&ccedil;ara Bezerra.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai est&aacute; a&iacute;, mam&atilde;e. Venho pedir-lhe que n&atilde;o<br \/>\n    deixe de aparecer hoje.<\/p>\n<p> &#8211; Aparecer-lhe hoje? &#8211; inquiriu Maur&iacute;cia. Sim, hei de aparecer-lhe<br \/>\n    para lhe dizer que &eacute; imposs&iacute;vel a minha volta.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus! &#8211; exclamou a menina. Para que quer fazer isso? Ou n&atilde;o<br \/>\n    lhe meta mais raiva. Ele j&aacute; vem t&atilde;o triste, t&atilde;o p&aacute;lido,<br \/>\n    que me parece estar sofrendo alguma dor.<\/p>\n<p> &#8211; Enganas-te, Virg&iacute;nia. &Eacute; a hipocrisia em pessoa. A vileza<br \/>\n    inspira-lhe o disfarce para ocultar-se. Vi-o h&aacute; pouco risonho e &#8230;<br \/>\n    prazenteiro.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, ent&atilde;o, alguma coisa lhe aconteceu depois. Verdade &eacute;<br \/>\n    que ele tinha na m&atilde;o uma carta, que acabara de ler. E quer saber, mam&atilde;e?<br \/>\n    Ele perguntou se a senhora estava no engenho, se tinha sa&iacute;do, se algu&eacute;m<br \/>\n    a procurara.<\/p>\n<p> &#8211; Que carta era essa? &#8211; disse Maur&iacute;cia, empalidecendo.<\/p>\n<p> E instintivamente levou a m&atilde;o ao seio mais morta do que viva. N&atilde;o<br \/>\n    achou a&iacute; a carta que lhe dera &Acirc;ngelo, debaixo da &aacute;rvore.<br \/>\n    Pulara-lhe do seio na carreira da palho&ccedil;a abandonada para o laranjal.<\/p>\n<p> Pode-se compreender, mas n&atilde;o dizer, o tropel de pensamentos que passaram<br \/>\n    pela cabe&ccedil;a de Maur&iacute;cia naquele momento. Que lhe teria escrito<br \/>\n    &Acirc;ngelo? Ela n&atilde;o leu a carta; trazia-a fechada ainda; mas calculava<br \/>\n    que devia ser largo documento contra eles dois. Devia tratar da fugida, dos<br \/>\n    meios de realiz&aacute;-la. Bezerra n&atilde;o podia dever ao acaso mais forte<br \/>\n    arma para atravessar-lhe o cora&ccedil;&atilde;o do que esse malfadado. Se<br \/>\n    o mostrasse a Albuquerque, talvez fosse o bastante para que este retirasse<br \/>\n    a sua promessa de consentir no casamento de Paulo com Virg&iacute;nia; se<br \/>\n    o mostrasse &agrave; Martins, este e a mulher talvez a considerassem indigna<br \/>\n    de entrar dali por diante em sua casa.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! que infelicidade! &#8211; exclamou Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> O seu desejo de vingan&ccedil;a, h&aacute; pouco t&atilde;o cru e exaltado,<br \/>\n    esfriou inopinadamente; foi substitu&iacute;do pelo terror. Os pap&eacute;is<br \/>\n    trocaram-se. Era ela que estava agora nas m&atilde;os do marido. Ainda quando<br \/>\n    Maur&iacute;cia referisse o que vira, ningu&eacute;m acreditaria em suas palavras;<br \/>\n    Bezerra j&aacute; n&atilde;o estava no mesmo caso; tinha consigo uma prova<br \/>\n    material da sua culpa; podia esmag&aacute;-la, atirando simplesmente o papel<br \/>\n    sobre a mesma, como se esmaga uma cobra, atirando-se-lhe uma pedra sobre a<br \/>\n    cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Passados alguns instantes, disse consigo:<br \/>\n    &#8211; Mas, quem sabe se n&atilde;o est&aacute; nisto a minha salva&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Quero crer que esteja; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel que Bezerra, lendo<br \/>\n    semelhantes revela&ccedil;&otilde;es de um cora&ccedil;&atilde;o altamente<br \/>\n    apaixonado, queira ainda que eu v&aacute; viver com ele. Vir&aacute;, talvez,<br \/>\n    &agrave; terra, o formoso castelo que acabo de erigir para Virg&iacute;nia;<br \/>\n    mas o meu infort&uacute;nio ter&aacute; encontrado o seu termo. Entre mim<br \/>\n    e o meu indigno marido, ter-se-&aacute; levantado uma barreira eterna, que<br \/>\n    ele n&atilde;o transpor&aacute; nunca mais. Estarei livre, embora com uma<br \/>\n    nota, que o tempo h&aacute; de apagar.<\/p>\n<p> Como se tais id&eacute;ias lhe ocorressem por intui&ccedil;&atilde;o sobrenatural,<br \/>\n    Maur&iacute;cia sentia-se reanimada. Onde um momentos antes estivera a sombra<br \/>\n    da morte, estava agora suav&iacute;ssimo b&aacute;lsamo de consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o grande que apagou toda a sua m&aacute;goa.<\/p>\n<p> Chegou ao espelho, alisou o cabelo e encaminhou-se com Virg&iacute;nia para<br \/>\n    a porta.<\/p>\n<p> J&aacute; a vinham chamar por parte de Albuquerque.<\/p>\n<p> N&atilde;o foi sem pronunciada palidez que entrou na sala. Estavam a&iacute;,<br \/>\n    sentados ao lado de D. Carolina, perto do sof&aacute;, Albuquerque e Bezerra,<br \/>\n    e ao p&eacute; de Alice, junto da porta que dava para o terra&ccedil;o, Paulo<br \/>\n    e Martins. Este havia chegado um minuto antes de Maur&iacute;cia entrar.<\/p>\n<p> Quando ela apontou na porta, Bezerra levantou-se e foi pressuroso ao seu<br \/>\n    encontro. Fazia tr&ecirc;s anos que a n&atilde;o via. Abra&ccedil;ou-a respeitosamente<br \/>\n    diante de todos. Maur&iacute;cia sentiu-se, ent&atilde;o, enfraquecer novamente.<br \/>\n    Conheceu que estava amea&ccedil;ada de dobrada desgra&ccedil;a; A sua preven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fora enganosa. O seu tirano n&atilde;o se deu por achado. Isto queria significar<br \/>\n    que aos seus olhos ela havia de ser inevitavelmente v&iacute;tima de d&uacute;plice<br \/>\n    vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Bezerra estava p&aacute;lido, mas mostrava-se satisfeito. Tinha risos que<br \/>\n    &agrave; sua mulher se afiguraram infernais. Raras vezes a hipocrisia representou<br \/>\n    melhor o seu papel.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia, entretanto, no meio do turbilh&atilde;o de id&eacute;ias<br \/>\n    contr&aacute;rias que lhe enchiam a imagina&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o podia<br \/>\n    esquecer-se de &Acirc;ngelo. Quando seu marido a abra&ccedil;ou, entre expansivo<br \/>\n    e reservado, ela teve desejos de lhe fugir. Pareceu-lhe que o direito de aconcheg&aacute;-la<br \/>\n    ao seio j&aacute; n&atilde;o lhe pertencia, e tinha passado ao homem que se<br \/>\n    mostrava louco de amor por ela. Aquele era indigno de seu corpo; estava ao<br \/>\n    n&iacute;vel da Janoca da Janu&aacute;ria, perdia-se abaixo dos seus p&eacute;s.<\/p>\n<p> Compreendendo que Bezerra premeditaria contra o seu rival desapiedada vingan&ccedil;a,<br \/>\n    come&ccedil;ou a sentir por este tormentos imagin&aacute;rios. Jurou morrer<br \/>\n    ao lado de &Acirc;ngelo, caro objeto de seu exclusivo amor. A presen&ccedil;a<br \/>\n    do marido, longe de a prender na sala, apartou-a em esp&iacute;rito para fora<br \/>\n    desse estreito &acirc;mbito onde mal cabia as paix&otilde;es despertas. Ela<br \/>\n    ia em busca do bacharel, nas asas de uma saudade imensa. Parando no ponto<br \/>\n    onde uma hora antes se tinham separado, perguntou a si mesma, no deserto,<br \/>\n    que testemunhara o seu col&oacute;quio: &quot;Onde estar&aacute; ele? Que<br \/>\n    pensamentos ter&aacute; agora?&quot;<br \/>\n    &Acirc;ngelo, entretanto, volvera ao Recife, levando em sua alma a vaga impress&atilde;o<br \/>\n    da felicidade, que o embriagara com alguns momentos, e que era o resultado<br \/>\n    das palavras que ouvira de Maur&iacute;cia, do amplexo que parecia t&ecirc;-la<br \/>\n    ainda aconchegado ao corpo, do beijo que ele sentia perfumar-lhe os l&aacute;bios.<\/p>\n<p> Chegara cedo &agrave; estrada, e n&atilde;o sa&iacute;ra mais.<\/p>\n<p> Estava entregue &agrave; sua embriaguez, pensando na felicidade que devia<br \/>\n    trazer-lhe a vida com essa mulher ador&aacute;vel. Este pensamento n&atilde;o<br \/>\n    era constante. Em seu esp&iacute;rito, davam-se muta&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas;<br \/>\n    T&atilde;o depressa passavam a&iacute; cenas felizes, como dramas desgra&ccedil;ados.<br \/>\n    Bezerra n&atilde;o lhe sa&iacute;a da cabe&ccedil;a. Mais de uma vez, afigurou-se-lhe<br \/>\n    seu sonho despeda&ccedil;ado entre os dedos dele, como as nuvens cor de rosa<br \/>\n    se despeda&ccedil;am n&atilde;o raro entre as pontas dos altos picos.<\/p>\n<p> Num desses momentos, um carro parou &agrave; porta do s&iacute;tio, e logo<br \/>\n    depois Martins entrou no aposento do advogado.<\/p>\n<p> &#8211; Sabes donde venho?<br \/>\n    &#8211; Julgava-te em casa.<\/p>\n<p> &#8211; Fui ao Caxang&aacute;. Tinha ajustado com Bezerra encontramo-nos no engenho.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo empalideceu.<\/p>\n<p> &#8211; Parece que n&atilde;o gostas do Bezerra. Pois olha, deves mudar de opini&atilde;o,<br \/>\n    como eu mudei. Andava prevenido, mas convenci-me da minha sem-raz&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Estiveste com ele l&aacute;?<br \/>\n    &#8211; Estive; Virg&iacute;nia casa-se no s&aacute;bado, e Maur&iacute;cia manda<br \/>\n    convidar-te para o casamento.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo mal pode acreditar nestas palavras.<\/p>\n<p> &#8211; Pois n&atilde;o &eacute; o melhor. Queres saber o melhor? Maur&iacute;cia<br \/>\n    vai viver outra vez com o marido. A separa&ccedil;&atilde;o era uma coisa<br \/>\n    que me trazia descontente. Eug&ecirc;nia vivia desgostosa e envergonhada.<br \/>\n    Mas que tens?<br \/>\n    &Acirc;ngelo sentira uma como&ccedil;&atilde;o mortal.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute;s l&iacute;vido &#8211; continuou Martins. Nunca te vi assim.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; a tua vista que se engana; ou antes tu n&atilde;o contas a hist&oacute;ria<br \/>\n    verdadeira. Queres fazer a experi&ecirc;ncia in anima amici . Perdes o tempo;<br \/>\n    &#8211; Afirmo-te que te estou dizendo a verdade.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Palavra de honra. &Acirc;ngelo. Mas nisso n&atilde;o h&aacute; nada de<br \/>\n    singular. H&aacute; quase uma semana, segundo te disse, n&atilde;o usado esfor&ccedil;o<br \/>\n    sen&atilde;o para chegar a este resultado. Maur&iacute;cia voltou &agrave;<br \/>\n    raz&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Mas quando foi que se deu isso?<br \/>\n    &#8211; Quando? Agora mesmo.<\/p>\n<p> Martins entrou numa longa s&eacute;rie de particularidades para trazer a<br \/>\n    convic&ccedil;&atilde;o ao espirito do amigo. Quando a verdade se tornou evidente,<br \/>\n    e n&atilde;o foi mais poss&iacute;vel recus&aacute;-la, &Acirc;ngelo deixou-se<br \/>\n    ficar em sil&ecirc;ncio. Mais de uma vez, Martins dirigiu-lhe a palavra, mas<br \/>\n    n&atilde;o conseguiu arrancar-lhe a resposta. A sua concentra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era incr&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Condenas uma a&ccedil;&atilde;o t&atilde;o bonita?<br \/>\n    &#8211; Nada tenho com isso. Mas pode-se deixar de ficar espantado diante de t&atilde;o<br \/>\n    r&aacute;pida mudan&ccedil;a?<br \/>\n    &#8211; Ora, meu amigo; tem sempre curso tortuoso as coisas desta vida. E adeus!<br \/>\n    Tenho pressa. Quero levar a Eug&ecirc;nia esta agrad&aacute;vel nova.<\/p>\n<p> Passemos por cima do sofrimento de &Acirc;ngelo durante os primeiros dias<br \/>\n    que se seguiram a esta revela&ccedil;&atilde;o. Em v&atilde;o, tentar&iacute;amos<br \/>\n    pint&aacute;-los; . A linguagem humana n&atilde;o tem tintas para por em tela<br \/>\n    as crises em que a ins&ocirc;nia ro&ccedil;a pela raz&atilde;o, e a morte,<br \/>\n    espectro medonho nos dias felizes, aparece no curto horizonte do pensamento<br \/>\n    como a mensageira da &uacute;nica consola&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> No dia em que Virg&iacute;nia devia casar-se, Martins procurou &Acirc;ngelo<br \/>\n    depois do almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Virg&iacute;nia casa-se hoje. Vais?<br \/>\n    &#8211; &Eacute; imposs&iacute;vel. Morreu meu pai. &Agrave;s duas horas, embarco<br \/>\n    para ir buscar minha m&atilde;e e meus irm&atilde;os.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo dizia a verdade. Aquela semana fora fecunda em dores para ele.<\/p>\n<p> Martins ficou estatelado. Ignorava esse acontecimento. Exprobrou ao amigo<br \/>\n    o seu ego&iacute;smo na dor.<\/p>\n<p> &Agrave; hora indicada, o bacharel deixou a estrada.<\/p>\n<p> Seu cora&ccedil;&atilde;o parecia s&oacute; pulsar pelos entes queridos<br \/>\n    que a trinta l&eacute;guas tinham nele a &uacute;nica esperan&ccedil;a.<\/p>\n<h2><a name=\"12\">Cap\u00edtulo XII<\/a><\/h2>\n<p>N&atilde;o quis Albuquerque que Virg&iacute;nia sa&iacute;sse da casa-grande,<br \/>\n    depois de casada, n&atilde;o obstante chegar para duas fam&iacute;lias a casa<br \/>\n    que ele mandara preparar para os pais da menina. Muitas raz&otilde;es dava,<br \/>\n    quando queria justificar a resolu&ccedil;&atilde;o de ficar com os noivos<br \/>\n    em sua companhia; as m&aacute;s l&iacute;nguas, por&eacute;m, diziam que a<br \/>\n    predominante, que ele ocultava sempre, era a de n&atilde;o lhe inspirar confian&ccedil;a<br \/>\n    a harmonia dos esposos reconciliados.<\/p>\n<p> N&atilde;o quis igualmente que a mudan&ccedil;a de Maur&iacute;cia com o<br \/>\n    marido para a nova habita&ccedil;&atilde;o se realizasse, sen&atilde;o na<br \/>\n    mesma noite do casamento da filha. De feito, quando o &uacute;ltimo convidado<br \/>\n    se despediu, Maur&iacute;cia abra&ccedil;ou Virg&iacute;nia, abra&ccedil;ou<br \/>\n    Paulo e tomou o caminho da porta. Tinha nos olhos l&aacute;grimas nitentes.<br \/>\n    Bezerra deu-lhe o bra&ccedil;o que ela aceitou sem hesitar. Depois de tr&ecirc;s<br \/>\n    anos, era aquela a primeira vez que estes corpos se tocavam.<\/p>\n<p> Ao passar pela senzala dos pretos, um deles disse:<br \/>\n    &#8211; Sinh&aacute; Maur&iacute;cia tamb&eacute;m teve hoje o seu noivado.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia viu neste pensamento um epigrama que lhe dirigira a fatalidade.<\/p>\n<p> Em sil&ecirc;ncio, atravessaram o p&aacute;tio do engenho e entraram na<br \/>\n    habita&ccedil;&atilde;o, que lhes estava destinada. Ficava distante obra de<br \/>\n    cem passos da casa-grande. Para que oferecesse c&ocirc;modos bastantes, mandara<br \/>\n    Albuquerque que se aumentassem quartos e salas. Noivos amorosos e felizes<br \/>\n    tinham achado ali modesto e perfumado ninho, onde aqueciam os seus anelos.<br \/>\n    Os novos habitadores, por&eacute;m, estavam longe de achar na conviv&ecirc;ncia<br \/>\n    m&uacute;tua o contentamento que s&oacute; o amor verdadeiro proporciona.<\/p>\n<p> Duas conveni&ecirc;ncias os tinham levado a ajuntar-se novamente: Maur&iacute;cia<br \/>\n    sacrificava-se pela filha; Bezerra, o que queria era um meio de vida e as<br \/>\n    perspectiva de um futuro melhor. Ao princ&iacute;pio, chegara a acreditar<br \/>\n    na possibilidade despertar no cora&ccedil;&atilde;o da mulher a afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que, verdadeiramente falando, a&iacute; nunca existira. Mas as freq&uuml;entes<br \/>\n    recusas, obje&ccedil;&otilde;es e l&aacute;grimas de Maur&iacute;cia convenceram-no<br \/>\n    de que, se a primeira parte de sua esperan&ccedil;a n&atilde;o estava longe<br \/>\n    de realizar-se, a &uacute;ltima era de todo o ponto irrealiz&aacute;vel. Esta<br \/>\n    convic&ccedil;&atilde;o trouxe-lhe certo descontentamento, mas n&atilde;o<br \/>\n    o levou a considerar-se de todo infeliz. Tal momento houve em que pensou conseguir<br \/>\n    para o tempo adiante o que atualmente lhe parecia de dif&iacute;cil aquisi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a saber, a gra&ccedil;a da mulher. Eram estas as id&eacute;ias em que se deixava<br \/>\n    absorver, quando achou no caminho a carta escrita por &Acirc;ngelo. Houve,<br \/>\n    ent&atilde;o, uma revolu&ccedil;&atilde;o em seu interior, que ocasionou not&aacute;vel<br \/>\n    mudan&ccedil;a no que ele trazia assentado no racioc&iacute;nio. Nesse documento,<br \/>\n    viu n&atilde;o s&oacute; a prova de um crime dela, mas, tamb&eacute;m, o testemunho<br \/>\n    irrefrag&aacute;vel da desgra&ccedil;a dele. Teve &iacute;mpeto de meter uma<br \/>\n    bala na cabe&ccedil;a do homem, que armava ciladas &agrave; sua honra, e um<br \/>\n    punhal no cora&ccedil;&atilde;o da mulher que a n&atilde;o sabia guardar devidamente.<br \/>\n    O primeiro impulso foi considerar o dito por n&atilde;o dito, o feito por<br \/>\n    n&atilde;o feito, desaparecer dos olhos de Albuquerque e tratar de sua vingan&ccedil;a,<br \/>\n    exclusivamente.<\/p>\n<p> Pensava em tudo isto ao entrar na casa-grande. Deparando-se-lhe com Virg&iacute;nia,<br \/>\n    que o fora receber com afabilidade carinhosa, sentiu-se mais fraco ainda de<br \/>\n    que estava. Havia de dar um passo que redundasse na desgra&ccedil;a de sua<br \/>\n    filha? &#8211; &quot;N&atilde;o!&quot; &#8211; tal foi a resposta que encontrou em si<br \/>\n    mesmo como revela&ccedil;&atilde;o do sentimento que atualmente predominava<br \/>\n    em seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A primeira demonstra&ccedil;&atilde;o de Bezerra para sua mulher tanto que<br \/>\n    se viu a s&oacute;s com ela, n&atilde;o foi de amor, mas de rigor. Maur&iacute;cia,<br \/>\n    entretanto, nunca se mostrara t&atilde;o formosa, posto que a tristeza &iacute;ntima<br \/>\n    a devesse trazer abatida no exterior. Quando ela fugira da companhia do marido,<br \/>\n    estava magra, angulosa e feia.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o foi o mesmo esqueleto, a mesma m&uacute;mia eg&iacute;pcia<br \/>\n    o que ele veio achar em Pernambuco; foi sim, uma beleza ador&aacute;vel, que,<br \/>\n    pelo completo desenvolvimento, parecia ter tocado a meta das propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que devem ter, no ponto mas elevado das suas gra&ccedil;as, as belezas pl&aacute;sticas.<br \/>\n    Naquela noite trazia ela vestido de escumilha azul cor de c&eacute;u, apanhado<br \/>\n    de arrega&ccedil;os das cavas para as ombreiras com tran&ccedil;as e brilhantinas.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sei se sabe &#8211; disse-lhe ele, pegando-lhe da m&atilde;o com<br \/>\n    certas mostras de autoridade amea&ccedil;adora, n&atilde;o sei se sabe que<br \/>\n    tenho em meu poder um terr&iacute;vel documento contra a senhora.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia, julgando reconhecer no semblante do marido, at&eacute;<br \/>\n    &agrave;quela hora risonho, a express&atilde;o de arrog&acirc;ncia, que lhe<br \/>\n    era habitual nos tempos em que vivera com ela, sentiu coar-lhe pelos membros<br \/>\n    o frio da morte.<\/p>\n<p> &#8211; Contra mim o senhor n&atilde;o pode ter nenhum documento, nenhuma prova<br \/>\n    que mere&ccedil;a f&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Talvez n&atilde;o houvesse chegado &agrave;s suas m&atilde;os o que eu<br \/>\n    tenho nas minhas; mas que ele faz grande prova contra a senhora, n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; que duvid&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Sei que alude a uma carta. Eu a tive em minhas m&atilde;os, mas a n&atilde;o<br \/>\n    cheguei a abrir. Joguei-a fora, sem a ler. A sua assevera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute;, portanto, inexata.<\/p>\n<p> &#8211; A senhora tem um apaixonado. Tratava de fugir com ele, e se o n&atilde;o<br \/>\n    fez, n&atilde;o foi porque lhe repugnasse esse passo, mas porque talvez compreendesse<br \/>\n    quanto ele era falso e perigoso.<\/p>\n<p> &#8211; O homem que escreveu tal carta poder&aacute; amar-me, mas n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    nada meu. Vi-o uma vez em casa e meu cunhado, e outra na povoa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E que culpa tenho eu de que ele escrevesse essa carta? Que mulher pode estar<br \/>\n    livre de que algu&eacute;m lhe escreva? Mas o que me espanta em suas palavras<br \/>\n    &eacute; que o senhor as tenha t&atilde;o cruas e desamorosas para mim depois<br \/>\n    de tr&ecirc;s anos de separa&ccedil;&atilde;o, depois de mil esfor&ccedil;os<br \/>\n    empregados ultimamente para que tal separa&ccedil;&atilde;o cessasse.<\/p>\n<p> Dizendo estas palavras, Maur&iacute;cia solu&ccedil;ava.<\/p>\n<p> &#8211; Espanta-se de que eu procure tomar-lhe contas? N&atilde;o terei este direito?<br \/>\n    N&atilde;o me pertence fazer uma interroga&ccedil;&atilde;o ao passado? Vindo<br \/>\n    novamente para minha companhia, julgaria a senhora que continuava sem um juiz<br \/>\n    para os seus atos?<br \/>\n    &#8211; O que eu julguei, acedendo aos votos da minha filha, por bem da sua felicidade,<br \/>\n    foi coisa diferente, e sempre o disse, porque nunca, depois de separada do<br \/>\n    senhor, me iludi jamais acerca dos seus sentimentos; o que eu suspeitava encontrar<br \/>\n    no senhor, vim encontrar por desgra&ccedil;a minha. Eu quisera ter diante<br \/>\n    de mim o juiz, severo embora; o que tenho &eacute; o mesmo inimigo, o mesmo<br \/>\n    carrasco dos meus primeiros anos de casada.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia quis levantar-se, mas Bezerra por um gesto de viol&ecirc;ncia<br \/>\n    a reteve na cadeira que ela ocupava ao lado dele.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; cedo ainda para se levantar, Maur&iacute;cia &#8211; disse-lhe. Tenho<br \/>\n    algumas palavras que lhe dizer. &Eacute; minha vontade que a senhora nunca<br \/>\n    mais veja esse homem.<\/p>\n<p> &#8211; Quer, ent&atilde;o, que eu n&atilde;o ponha mais os p&eacute;s em casa<br \/>\n    de minha irm&atilde;?<br \/>\n    &#8211; Quero-o, se for isto necess&aacute;rio para que a minha vontade se cumpra.<\/p>\n<p> &#8211; Pois eu o farei. Hei de levar ao fim sem pesar o meu sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sou t&atilde;o mau, como j&aacute; fui &#8211; tornou Bezerra, tirando<br \/>\n    de um dos bolsos da cal&ccedil;as um papel dobrado. Olhe. Aqui est&aacute;<br \/>\n    a carta que lhe foi dirigida. Vou queim&aacute;-la para lhe ser agrad&aacute;vel.<br \/>\n    Isto quer dizer que aceito sua justifica&ccedil;&atilde;o. Certo, nenhuma<br \/>\n    mulher est&aacute; isenta de que algum insolente lhe dirija ep&iacute;stolas<br \/>\n    desonestas. Dou pela sua defesa. &Eacute; um indulto que lhe quero conceder<br \/>\n    no meu segundo noivado.<\/p>\n<p> Bezerra chegou a carta &agrave; vela que ardia dentro de um candelabro sobre<br \/>\n    a mesa no meio da sala e atirou-a inflamada no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Havia nesse papel palavras t&atilde;o infames que nunca a senhora as devera<br \/>\n    saber; t&atilde;o infames s&atilde;o elas que, se outrem as pudesse vir a<br \/>\n    ler, talvez fosse isso motivo para que eu me atirasse no caminho do crime,<br \/>\n    a fim de desafrontar-me. Fa&ccedil;amos agora as pazes. Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> Bezerra conchegou a mulher com ambos os bra&ccedil;os ao seu peito, e deu-lhe<br \/>\n    um beijo na boca. Quando retirou os l&aacute;bios, trazia-os &uacute;midos<br \/>\n    de l&aacute;grimas da infeliz.<\/p>\n<p>Dentro de pouco mais de um m&ecirc;s, come&ccedil;ou Maur&iacute;cia a notar<br \/>\n    a frieza do marido, acompanhada de circunst&acirc;ncia que parecia terem com<br \/>\n    ela a maior liga&ccedil;&atilde;o. A filha de Janu&aacute;ria. que quase nunca<br \/>\n    passara al&eacute;m da meia-&aacute;gua, atravessava agora o restante do p&aacute;tio<br \/>\n    do engenho v&aacute;rias vezes, durante a semana e passava pela porta da casa,<br \/>\n    onde ela morava. Um dia, chegou a perguntar a um moleque do servi&ccedil;o<br \/>\n    dom&eacute;stico, se Bezerra estava em casa. Mais de uma vez, saindo mais<br \/>\n    cedo do que costumava para ir tomar a li&ccedil;&atilde;o de Alice, n&atilde;o<br \/>\n    encontrou Maur&iacute;cia na casa-grande o marido, que para a&iacute; lhe<br \/>\n    dissera ir. Maur&iacute;cia n&atilde;o deu mostras e ci&uacute;me, e n&atilde;o<br \/>\n    o sentia. N&atilde;o se casara como Bezerra por amor, mas por fazer as vontades<br \/>\n    dos pais. Tinha, ent&atilde;o, Bezerra catorze anos menos; dispunha de meios<br \/>\n    que lhe permitiam aparecer com mais dec&ecirc;ncia na sociedade; n&atilde;o<br \/>\n    trazia consigo um passado odioso. Mas, n&atilde;o obstante reunir semelhantes<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis, n&atilde;o lhe havia inspirado<br \/>\n    afeto especial; tinha para ele olhos simplesmente ben&eacute;volos, palavras<br \/>\n    corteses e respeitosas. Agora, as circunst&acirc;ncias o favoreciam ainda<br \/>\n    menos. Estava pobre, alquebrado e carregava &aacute;s costas um saco de mazelas.<br \/>\n    Procurava de novo a sua companhia para ter segura a vida que era sumamente<br \/>\n    custosa de manter. Quase dependia dela. Perdera grandes partes da antiga arrog&acirc;ncia<br \/>\n    e cultivava a conveni&ecirc;ncia. Era um homem de corpo aberto. Mas n&atilde;o<br \/>\n    obstante, mostrava-se magoada, e uma vez chegou a revelar-lhe a cena que um<br \/>\n    m&ecirc;s antes o tinha visto representar com a mesti&ccedil;a entre a meia-&aacute;gua<br \/>\n    e a porteira. Bezerra deu pouca import&acirc;ncia, ou nenhuma, aos ressentimentos<br \/>\n    da mulher, e n&atilde;o alterou o seu h&aacute;bito de fazer aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de noite e de dia.<\/p>\n<p> Por esse tempo, adoecendo a escrava que Albuquerque encarregara do servi&ccedil;o<br \/>\n    em casa de Bezerra, veio preencher-lhe a falta uma crioula nova, por nome<br \/>\n    de Br&iacute;gida, que D. Carolina tinha em grande estima&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Com esta rapariga, entraram na casa novos desgostos para Maur&iacute;cia.<br \/>\n    Bezerra dirigia-lhe gracejos a furto, e lan&ccedil;ava-lhe olhares de ternura<br \/>\n    ign&oacute;bil. Um tarde, em que Maur&iacute;cia voltara mais cedo do engenho,<br \/>\n    surpreendeu o marido em pr&aacute;tica familiar com a cativa. Deu-se por ofendida,<br \/>\n    e as l&aacute;grimas saltaram-lhe dos olhos. Teve &iacute;mpetos de ir imediatamente<br \/>\n    contar &agrave; D. Carolina o que vira; mas a vergonha de revelar a vileza<br \/>\n    reteve-a silenciosa. Ela, por&eacute;m, n&atilde;o pode acabar consigo que<br \/>\n    n&atilde;o desse grande demonstra&ccedil;&atilde;o da sua profunda m&aacute;goa<br \/>\n    &agrave;quele que era desta causador.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor &#8211; disse &#8211; daquela porta para fora, poderemos continuar a ser dois<br \/>\n    consortes que, depois de v&aacute;rias e cru&eacute;is vicissitudes, convieram<br \/>\n    em encurtar a dist&acirc;ncia que os trazia afastados, e emendar o roto la&ccedil;o<br \/>\n    do combatido afeto, mas, das portas adentro, espero que estejamos de hoje<br \/>\n    em diante t&atilde;o distantes como se entre n&oacute;s se interpusessem,<br \/>\n    como j&aacute; se interpuseram, dezenas de l&eacute;guas de oceano.<\/p>\n<p> Bezerra teve para esse assomo de justo e elevado agravo risos mofadores.<br \/>\n    Saiu e voltou tarde. A porta da alcova estava trancada por dentro. Bezerra<br \/>\n    ficou alguns momentos em p&eacute; junto dessa porta, que o amea&ccedil;ava<br \/>\n    com ares de senten&ccedil;a de desquite.<\/p>\n<p> &#8211; Eu podia por no ch&atilde;o esta porta e entrar; mas era dar muita import&acirc;ncia<br \/>\n    ao que merece pouca.<\/p>\n<p> Encaminhou-se para o gabinete fronteiro, onde havia uma cama de solteiro,<br \/>\n    algumas cadeiras, uma mesa e um toucador.<\/p>\n<p> Ao lado da cama, viu os ba&uacute;s que mandara conduzir do Recife no dia<br \/>\n    da sua mudan&ccedil;a para o engenho. Dos ganchos de um cabide de faia, pendiam<br \/>\n    os seus palet&oacute;s e cal&ccedil;as. Aos p&eacute;s da cama, estava o seu<br \/>\n    par de chinelas.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um mandado de despejo. Por t&atilde;o pouco!&#8230;<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia praticara este ato de energia n&atilde;o tanto por ci&uacute;me,<br \/>\n    como por ferida em seus melindres; e estava no &acirc;nimo de n&atilde;o retroceder,<br \/>\n    ainda diante das mais graves conseq&uuml;&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> &#8211; Depois disto &#8211; dissera ela &#8211; s&oacute; se deve seguir ou a completa emenda<br \/>\n    dele, ou a sa&iacute;da de um de n&oacute;s dois.<\/p>\n<p> Bezerra, que, ao princ&iacute;pio, tomara esta resolu&ccedil;&atilde;o em<br \/>\n    ar de mofa, caindo em si depois, julgou-se na obriga&ccedil;&atilde;o de refletir<br \/>\n    mais maduramente. Tinham mudado muito as suas condi&ccedil;&otilde;es. No<br \/>\n    Par&aacute;, tr&ecirc;s anos antes, as coisas eram outras, e ainda assim Maur&iacute;cia<br \/>\n    triunfara da sua tirania, quanto mais em Pernambuco, estando ela no seio de<br \/>\n    uma fam&iacute;lia respeit&aacute;vel, que da sua honra e discri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinham o melhor documento em v&ecirc;-la praticar o sacrif&iacute;cio de voltar<br \/>\n    &agrave; companhia dele. Outras considera&ccedil;&otilde;es de n&atilde;o<br \/>\n    inferior tomo lhe ocorreram. Se, por qualquer modo, viesse a desgostar Albuquerque,<br \/>\n    de que iria viver? No engenho estava incumbido de fazer a escritura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    relativa &agrave; venda dos a&ccedil;ucares, do mel, da aguardente e dos demais<br \/>\n    produtos da grande propriedade. Por este trabalho, que Paulo costumava fazer<br \/>\n    aos domingos, arbitrara-lhe Albuquerque m&oacute;dico vencimento; mas lhe<br \/>\n    dava de gra&ccedil;a casa para morar, carne e farinha para a mesa, escravos<br \/>\n    para o servirem. Se lhe faltassem tudo isto, de repente, a que ficaria reduzido?<br \/>\n    A n&atilde;o ter um lugar onde cair morto. Faltava-lhe coragem para tentar<br \/>\n    novos meios de vida. O cabelo, que come&ccedil;ava a alvejar-lhe a testa que<br \/>\n    mostrava cortada de grandes rugas; os olhos fundos, as faces murchas indicavam<br \/>\n    que as for&ccedil;as come&ccedil;avam a desampar&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Da sua cogita&ccedil;&atilde;o veio tir&aacute;-lo o rel&oacute;gio que<br \/>\n    do alto, entre as duas janelas, parecia fit&aacute;-lo impass&iacute;vel como<br \/>\n    a fatalidade. Foram doze pancadas que deu.<\/p>\n<p> Ele ent&atilde;o levantou-se da cama, onde estivera a pensar, e encaminhando-se<br \/>\n    para a alcova, disse:<br \/>\n    &#8211; Fa&ccedil;amos as pazes, ainda que para isso seja preciso pedir mil perd&otilde;es.<\/p>\n<p> Bateu na porta devagarinho, depois mais fortemente, chamando por Maur&iacute;cia,<br \/>\n    que n&atilde;o lhe deu uma s&oacute; palavra em resposta. Esteve alguns instantes<br \/>\n    de p&eacute;, a olhar para dentro atrav&eacute;s da fechadura. De uma das<br \/>\n    vezes, abalou a porta com toda for&ccedil;a, quase deliberado a dar com ela<br \/>\n    em terra por maior que fosse o ru&iacute;do que produzisse tal viol&ecirc;ncia;<br \/>\n    mas julgou prudente variar de conselho, ouvindo ru&iacute;do de vozes da banda<br \/>\n    de fora; dois negros do engenho tinham-se sentado no batente da casa, e a&iacute;<br \/>\n    conversavam em sua algaravia inintelig&iacute;vel. Ocorreu-lhe, ent&atilde;o,<br \/>\n    escalar a parede, e este pensamento veio seguido de outro. Ainda estava encostada<br \/>\n    ao p&eacute; da parede do oit&atilde;o da casa uma escada do engenho, de que<br \/>\n    se tinham servido os pedreiros por ocasi&atilde;o das novas obras. Bezerra<br \/>\n    tomou pela porta que ia dar no interior, e voltou pouco depois com a escada<br \/>\n    que colocou de manso na parede. Subiu. Entre a parede e a telha v&atilde;,<br \/>\n    havia o espa&ccedil;o da altura de um homem; f&aacute;cil, portanto, se afigurou<br \/>\n    a Bezerra a sua descida para dentro do quarto com o aux&iacute;lio do mesmo<br \/>\n    instrumento por onde subira. Maur&iacute;cia dormia. A vela de uma manga de<br \/>\n    vidro, colocada sobre uma mesa do lado da cabeceira, tinha chegado ao papel<br \/>\n    que lhe servia de cal&ccedil;o, e ardendo com ele derramava no &acirc;mbito<br \/>\n    do aposento clar&atilde;o amarelado, que trazia &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o come&ccedil;o de um inc&ecirc;ndio.<\/p>\n<p> Bezerra, equilibrando-se conforme pode, pegou da escada e levantou-a; mas<br \/>\n    quando j&aacute; a travessava sobre o frechal, que corria ao longo d parede,<br \/>\n    ela, escorregando, caiu quase para o lado da sala e ele para n&atilde;o cair<br \/>\n    teve de a soltar.<\/p>\n<p> Despertada pelo estrondo, Maur&iacute;cia sentou-se tr&ecirc;mula, atemorizada,<br \/>\n    e dando com os olhos no marido, tudo compreendeu.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda me persegue? &#8211; disse saltando envolta na longa colcha.<\/p>\n<p> &#8211; Maur&iacute;cia, por que foge de mim? &#8211; perguntou Bezerra.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia tinha de feito corrido &agrave; porta do aposento e desdado<br \/>\n    &agrave; volta da chave. Bezerra viu-a dirigir-se ao quarto, onde ele estivera<br \/>\n    e trancar-se outra vez pior dentro.<\/p>\n<p> &#8211; Hei de venc&ecirc;-la, hei de venc&ecirc;-la, hoje mesmo &#8211; disse ele.<\/p>\n<p> Mas como havia de descer? Faltava-lhe &acirc;nimo para saltar. A parede<br \/>\n    tinha talvez cinco metros de alto. Era uma altura suficiente para guardar<br \/>\n    uma mulher, mas excessiva para a descida de um homem sem outro aux&iacute;lio<br \/>\n    que as m&atilde;os e os p&eacute;s. E contudo urgia descer. Na sala de visitas<br \/>\n    e no aposento onde Maur&iacute;cia se refugiara estava tudo &agrave;s escuras.<br \/>\n    dentro em pouco tempo, na alcova, fariam invas&atilde;o as trevas. N&atilde;o<br \/>\n    deixava de ser em certo modo aflitivo o momento.<\/p>\n<p> Quase desesperado, Bezerra, calculando que poderia ser v&iacute;tima de<br \/>\n    risos mofadores, decidiu-se a saltar, deliberado a deitar por terra a porta<br \/>\n    que se interpunha entre ele e a mulher. P&ocirc;s as m&atilde;os sobre o frechal,<br \/>\n    onde tinha os p&eacute;s, e com as pontas destes tentou descer ao longo da<br \/>\n    parede. Mas depressa as m&atilde;os fugiram do alto, e ele julgou que ia quebrar-se<br \/>\n    de encontro ao ladrilho da sala. Quando j&aacute; se considerava v&iacute;tima<br \/>\n    do desastre, sentiu-se com surpresa cair entre uns bra&ccedil;os robustos,<br \/>\n    que o apararam com firmeza descomunal.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, ainda aturdido, ouviu &agrave; meia voz estas palavras:<br \/>\n    &#8211; O Sr. queria morrer? Se n&atilde;o fosse eu, podia estar quebrado.<\/p>\n<p> &#8211; Br&iacute;gida! &#8211; exclamou Bezerra, sentindo-se apertado ente os bra&ccedil;os<br \/>\n    e os seios resistentes da negrota.<\/p>\n<p> N&atilde;o tinha dormido ainda, e, sabendo o que se passara entre Maur&iacute;cia<br \/>\n    e Bezerra, quase previra o que acabara de dar-se. Vendo-o entrar com a escada<br \/>\n    fora de horas. viera p&eacute; ante p&eacute;, e colocara-se &agrave; porta<br \/>\n    da sala de visitas, que abria a comunica&ccedil;&atilde;o para o corredor.<br \/>\n    Dali, testemunhara a ascens&atilde;o de Bezerra, a sa&iacute;da violenta de<br \/>\n    Maur&iacute;cia e os embara&ccedil;os dele para descer. Enfim, vendo-o tentar<br \/>\n    a descida, correra a tempo de o aparar entre os bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> &#8211; Estava aqui h&aacute; muito tempo? &#8211; perguntou-lhe Bezerra;<br \/>\n    &#8211; Eu vi tudo &#8211; respondeu Br&iacute;gida. O que admiro &eacute; a pachorra<br \/>\n    de vosmec&ecirc;. Tanta mulher que h&aacute; no mundo.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade &#8211; retorquiu Bezerra.<\/p>\n<p> E em vez de atirar-se contra a porta fronteira, entrou na alcova, onde a<br \/>\n    vela agonizante despediu o &uacute;ltimo clar&atilde;o e apagou-se.<\/p>\n<h2><a name=\"13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/h2>\n<p>Toda a noite Maur&iacute;cia passou em claro, vendo sombras gigantescas atravessar<br \/>\n    a escurid&atilde;o do quarto, onde se refugiara. Por extremo excitada, pareceu-lhe<br \/>\n    mais de uma vez ouvir na sala rumor de passos, e na alcova, que abandonara,<br \/>\n    ru&iacute;do de vozes abafadas. De uma vez, levantou-se da cama, abriu devagarinho<br \/>\n    a porta, e deu alguns passos em direitura da alcova. Foi de encontra ao piano,<br \/>\n    que com o estreme&ccedil;&atilde;o teve uma harmonia surda &#8211; voz confusa de<br \/>\n    todas as cordas abaladas. No mesmo instante, afigurou-se-lhe que um vulto<br \/>\n    se afastara da porta da alcova em procura do corredor. Pelas formas, esse<br \/>\n    vulto parecia-se com Faustino. O medo de encontrar-se com o moleque f&ecirc;-la<br \/>\n    voltar e trancar novamente.<\/p>\n<p> Muito cedo ainda Bezerra deixou o aposento. Maur&iacute;cia ouviu-o dizer<br \/>\n    algumas palavras a Faustino, que lhe dera n&atilde;o sei que recado; ouviu<br \/>\n    o rumor das pisadas do lado de fora. Ent&atilde;o, levantou-se cautelosamente.<br \/>\n    A sala estava deserta. Do lado da cozinha, o moleque conversava animadamente<br \/>\n    com Br&iacute;gida. Entrou no quarto. A cama indicava, pelo desarranjo, que<br \/>\n    Bezerra se servira dela. Sentou-se do lado da cabeceira.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o pode vencer-me &#8211; disse; nem me vencer&aacute; jamais. Dissuadido<br \/>\n    de realizar o seu intento, repousou s&oacute;.<\/p>\n<p> E repetiu logo este monoss&iacute;labo:<br \/>\n    &#8211; S&oacute;!<br \/>\n    Depois acudiu:<br \/>\n    &#8211; Mas terei eu o direito de separar-me dele assim?<br \/>\n    Havia nesta interroga&ccedil;&atilde;o a ponta de uma d&uacute;vida.<\/p>\n<p> Irresistivelmente, Maur&iacute;cia entrou a pensar. A cabe&ccedil;a pesava-lhe,<br \/>\n    mas seu esp&iacute;rito buscava solu&ccedil;&atilde;o para aquele terr&iacute;vel<br \/>\n    problema. N&atilde;o era poss&iacute;vel que continuassem a viver assim unidos<br \/>\n    de direito e divorciados de fato, Maur&iacute;cia julgou esta primeira prova<br \/>\n    cruel.<\/p>\n<p> &#8211; Ele &eacute; meu marido &#8211; disse. Quando me sujeitei a viver de novo com<br \/>\n    ele, n&atilde;o me obriguei acaso a padecer todos os tormentos, sem o direito<br \/>\n    de lhe resistir? Uma das primeiras virtudes da mulher casada n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    porventura, ocultar, ainda com o sacrif&iacute;cio da sua tranq&uuml;ilidade,<br \/>\n    as fraquezas e as mis&eacute;rias do marido? Que devia eu esperar de Bezerra?<br \/>\n    N&atilde;o fui testemunha do que ele praticou com a filha de Janu&aacute;ria,<br \/>\n    antes da minha &uacute;ltima declara&ccedil;&atilde;o de vivermos juntos?<br \/>\n    Que me obrigou a sujeitar-me a esta prova&ccedil;&atilde;o? Ningu&eacute;m<br \/>\n    me obrigou a isto; fui eu mesma que aceitei a situa&ccedil;&atilde;o que ora<br \/>\n    me traz vexame e dor. Qual &eacute;, por&eacute;m, o meu dever? Estar por<br \/>\n    tudo. Pois bem: estarei de ora em diante. Que hei de fazer, meu Deus? Nem<br \/>\n    haveria merecimento no passo que dei, se eu n&atilde;o curtisse com silenciosa<br \/>\n    resigna&ccedil;&atilde;o as cruas dores do mart&iacute;rio.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia estava arrependida do que praticara na v&eacute;spera.<\/p>\n<p> &#8211; Uma mulher casada n&atilde;o pode ter destas opini&otilde;es. Ela n&atilde;o<br \/>\n    se pertence; pertence ao marido, ou antes &agrave; fatalidade do dever, sempre<br \/>\n    mais cruel para a mulher do que para o homem.<\/p>\n<p> Assim falando, Maur&iacute;cia tomou as &uacute;ltima roupas, deliberada<br \/>\n    a estudar o meio mais natural eficaz de reconciliar-se, sem evidente humilha&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com Bezerra. Chegou-se ao espelho para arranjar o cabelo que se lhe espalhava<br \/>\n    pelas esp&aacute;duas nuas. Tinha o rosto demudado. As cores come&ccedil;avam<br \/>\n    a fugir-lhe das faces. A c&uacute;tis, outrora t&atilde;o limpa, emurchecia<br \/>\n    agora, e mostrava-se sem a frescura de tr&ecirc;s meses atr&aacute;s. Aos<br \/>\n    primeiros raios de sol, ela com espanto viu no fim da testa um cabelo que<br \/>\n    embranquecia. Era o primeiro ind&iacute;cio do seu outono, a primeira folha,<br \/>\n    que amea&ccedil;ava cair da &aacute;rvore da sua mocidade. Ao cabo de mais<br \/>\n    um ano de padecimentos, n&atilde;o restaria dessa &aacute;rvore sen&atilde;o<br \/>\n    o arcabou&ccedil;o. Duas l&aacute;grimas deslizaram-se-lhe pelas faces amea&ccedil;adas<br \/>\n    de terem para sempre perdido o lustre que lhe dava o sossego.<\/p>\n<p> &#8211; Estou ficando velha &#8211; disse com amargura. O sofrimento encurta a minha<br \/>\n    viagem, e, dentro em breve, terei diante dos olhos a sepultura; eu n&atilde;o<br \/>\n    poderei resistir por muito tempo a semelhantes tormentos. Tamb&eacute;m o<br \/>\n    meu papel no teatro do mundo parece tocar o seu termo. Virg&iacute;nia est&aacute;<br \/>\n    casada e amparada, e o meu cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; morto.<\/p>\n<p> Estas &uacute;ltimas palavras trouxeram-lhe &agrave; lembran&ccedil;a &Acirc;ngelo,<br \/>\n    e n&atilde;o foi preciso mais para que em seu interior se derramasse a impress&atilde;o<br \/>\n    de b&aacute;lsamo suav&iacute;ssimo.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o! O meu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o est&aacute; morto!<br \/>\n    &#8211; disse ela de si para si. Por desgra&ccedil;a minha, n&atilde;o posso esquecer-me<br \/>\n    desse homem, ainda quando a descren&ccedil;a invade a minha alma, como agora,<br \/>\n    e vejo diante dos olhos o espectro da morte. Ao lado dele, a mocidade me voltaria,<br \/>\n    e com ela todos os meus sorrisos que se mudaram em l&aacute;grimas em companhia<br \/>\n    do meu cruel marido. Meu Deus, meu Deus, n&atilde;o h&aacute; maior tormento<br \/>\n    do que este &#8211; sofrer assim, amar assim, sofrer sem tr&eacute;guas e amar sem<br \/>\n    tr&eacute;guas ao mesmo tempo, sofrer daquele a que se aborrece, e amar aquele<br \/>\n    de quem n&atilde;o se possui sen&atilde;o a ef&iacute;gie querida no seio<br \/>\n    da fantasia, e cujo nome nem ao menos &eacute; l&iacute;cito proferir de modo<br \/>\n    que os ouvidos o ou&ccedil;am! <br \/>\n    Maur&iacute;cia sentou-se a modo de desalentada ao p&eacute; do espelho. Ap&oacute;s<br \/>\n    as primeiras, vieram novas l&aacute;grimas porventura mais abrasadoras. Dava<br \/>\n    pena daquela silenciosa afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Uma disc&oacute;rdia entre Faustino e Br&iacute;gida, cujas vozes, alteando-se<br \/>\n    gradativamente, vieram ressoar, no ambiente da alcova, arrancou Maur&iacute;cia<br \/>\n    da prostra&ccedil;&atilde;o mental em que a tinham deixado os encontrados<br \/>\n    pensamentos do seu &uacute;ltimo solil&oacute;quio.<\/p>\n<p> Levantando-se, disse:<br \/>\n    &#8211; Deus h&aacute; de ajudar-me a levar sem covardia ao Calv&aacute;rio a minha<br \/>\n    cruz. Fa&ccedil;amos de conta uma vez por todas que est&aacute; para sempre<br \/>\n    acabado tudo que se passou entre mim e esse homem. Sejamos de ora em diante<br \/>\n    exclusivamente a mulher casada, escrava de seu dever.<\/p>\n<p> Aproximando-se de uma cadeira para apanhar um len&ccedil;o que a&iacute;<br \/>\n    deixara, suas vistas ca&iacute;ram casualmente na parte da cama, que ficava<br \/>\n    do lado da parede. Sobre o alvo len&ccedil;ol, neste ponto n&atilde;o revolvido,<br \/>\n    viam-se marcas de p&eacute;s grosseiros, que indicavam pelos tra&ccedil;os<br \/>\n    negros, terem andado em ch&atilde;o imundo.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia mal pode descobrir esta indigna vis&atilde;o, sem cair ferida<br \/>\n    de vergonha e dor. Compreendeu toda a inf&acirc;mia de Bezerra. Diante de<br \/>\n    tal testemunho de ins&oacute;lita baixeza, nenhuma mulher se conservaria dentro<br \/>\n    dos limites da discri&ccedil;&atilde;o. Abriu a porta arrebatadamente e correu<br \/>\n    para a cozinha. Que ia fazer? Ela mesma n&atilde;o podia saber. A verdade,<br \/>\n    por&eacute;m, &eacute; que ela estava desvairada.<\/p>\n<p> Chegando ali encontrou Faustino.<\/p>\n<p> &#8211; Vosmec&ecirc; vem ralhar comigo, sinh&aacute; Dona Maur&iacute;cia, por<br \/>\n    eu estar brigando com Br&iacute;gida? &#8211; perguntou o moleque tanto que reconheceu<br \/>\n    pelo semblante de Maur&iacute;cia a c&oacute;lera que lhe ia na alma.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia nada disse. N&atilde;o podia falar. Tinha a voz presa por<br \/>\n    oculta garra.<\/p>\n<p> &#8211; Vosmec&ecirc; me perdoe &#8211; continuou o moleque em tom de humildade despeitosa.<br \/>\n    Eu queria muito bem a essa negra, mas ele me fez ontem uma s&oacute; me deu<br \/>\n    a vontade de a matar. Vosmec&ecirc; sabe que minha senhora prometeu que Br&iacute;gida<br \/>\n    havia de casar comigo. Mas de que serviu esta promessa? A negra botou as mangas<br \/>\n    de fora, e tem andado solta como as bestas do engenho, Ontem de noite, quando<br \/>\n    eu cheguei do Recife, onde tinha ido de tarde, por mandado de meu senhor,<br \/>\n    n&atilde;o achei Br&iacute;gida aqui. A porta do corredor, que vosmec&ecirc;<br \/>\n    costuma fechar todas as noites, estava aberta, H&aacute; muitos dias que eu<br \/>\n    andava suspeitando uma coisa muito feira. Por isso, deixei-me ficar na sala.<br \/>\n    De uma vez, ouvi abrir a porta do gabinete e apontar um vulto branco; fugi<br \/>\n    para o corredor para esperar por ele, supondo que era Br&iacute;gida; mas<br \/>\n    assim que fugi, o vulto foi outra vez meter-se no gabinete. N&atilde;o pude<br \/>\n    ter-me e corri at&eacute; l&aacute; a ver se dava com a negra; mas achei a<br \/>\n    porta trancada. N&atilde;o pude sair da sala. Estive a&iacute; at&eacute;<br \/>\n    amanhecer. Quando seu Bezerra abriu a porta da rua e saiu, eu, que estava<br \/>\n    detr&aacute;s da porta do corredor, via negra tomar da sala para a cozinha.<br \/>\n    &Eacute; por isso que eu estava ralhando com Br&iacute;gida.<\/p>\n<p> &#8211; E onde est&aacute; ela? &#8211; perguntou Maur&iacute;cia<br \/>\n    &#8211; Fugiu com medo de mim para a casa-grande.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia que duvidar. Os ind&iacute;cios acabavam de ter a mais<br \/>\n    cabal confirma&ccedil;&atilde;o. O torpe segredo estava j&aacute; nos dom&iacute;nios<br \/>\n    da cozinha. Se houvesse encontrado a negra, Maur&iacute;cia teria talvez praticado<br \/>\n    um desatino que n&atilde;o se compadecia com a sua &iacute;ndole e educa&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas, na aus&ecirc;ncia do objeto do seu &oacute;dio, do seu desprezo e da<br \/>\n    sua vingan&ccedil;a, ela n&atilde;o pode suster o pranto. Nunca se vira t&atilde;o<br \/>\n    aviltada aos seus olhos.<\/p>\n<p> &#8211; Vosmec&ecirc; n&atilde;o chore, que aquela negra n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de voltar mais aqui &#8211; disse o moleque.<\/p>\n<p> &#8211; E que tem que ela volte ou n&atilde;o, se j&aacute; aqui deixou a sua<br \/>\n    inf&acirc;mia? &#8211; respondeu Maur&iacute;cia. N&atilde;o te entriste&ccedil;as,<br \/>\n    Faustino. Vou contar tudo a D. Carolina, a fim de ver se ela p&otilde;e cobro<br \/>\n    &agrave; ousadia de Br&iacute;gida.<\/p>\n<p> &#8211; Vosmec&ecirc; pode contar &agrave; minha senhora o que se passou, mas<br \/>\n    eu nada tenho com isso, porque eu n&atilde;o quero mais saber de Br&iacute;gida.<br \/>\n    Ela para mim est&aacute; cortada.<\/p>\n<p> &#8211; Que est&aacute; dizendo?<br \/>\n    &#8211; &Eacute; o que digo a vosmec&ecirc;. Deus me livre de casar com uma negra<br \/>\n    t&atilde;o ruim. N&atilde;o faltam negras boas no engenho de meu senhor. Eu<br \/>\n    para mim n&atilde;o a quero nem de gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia encaminhou-se imediatamente para a casa-grande. Antecipando-se,<br \/>\n    Br&iacute;gida inutilizara toda a obra que a infeliz senhora devera levantar,<br \/>\n    sobre verdadeiros fundamentos, no esp&iacute;rito da senhora do engenho. N&atilde;o<br \/>\n    acreditou esta nas palavras de Maur&iacute;cia. Atribuiu tudo a ci&uacute;me,<br \/>\n    desculpando a negra, que, em seu conceito, segundo disse, era incapaz de tal<br \/>\n    procedimento; Sucedeu, ent&atilde;o, o que n&atilde;o &eacute; raro em tal<br \/>\n    caso, Maur&iacute;cia, que antes do casamento de Paulo com Virg&iacute;nia,<br \/>\n    era objeto de particulares aten&ccedil;&otilde;es, tanto que por tal casamento<br \/>\n    entrou nos la&ccedil;os da fam&iacute;lia, j&aacute; n&atilde;o merecia a<br \/>\n    mesma urbanidade. Descontente, procurou Albuquerque para desaforar no seio<br \/>\n    dele as novas afli&ccedil;&otilde;es e pedir-lhe provid&ecirc;ncias e conselhos.<br \/>\n    Que outros passos poderia dar, sentindo-se quase fora de si pela dor que lhe<br \/>\n    deixara o golpe inesperado e nefando?<br \/>\n    Albuquerque, depois de ouvir a sua narrativa sem lhe fazer a menor observa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    disse simplesmente em resposta.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o direi que a senhora n&atilde;o tem raz&atilde;o, D. Maur&iacute;cia,<br \/>\n    mas devo observar-lhe que as minhas crias de casa s&atilde;o muito moralizadas;<br \/>\n    e que at&eacute; agora nada me constou ainda de seu marido, que o fizesse<br \/>\n    descer do conceito que formo dele. A senhora pede-me provid&ecirc;ncias, mas<br \/>\n    que provid&ecirc;ncias posso dar, a n&atilde;o ser a de n&atilde;o consentir<br \/>\n    mais na continua&ccedil;&atilde;o de minha escrava em sua casa? Essa provid&ecirc;ncia<br \/>\n    tenha por certa, ainda que me pese priv&aacute;-la de quem lhe preste servi&ccedil;os<br \/>\n    dom&eacute;sticos, que a senhora n&atilde;o est&aacute; acostumada a praticar.<br \/>\n    Pelo que respeita aos conselhos, s&oacute; tenho uma judiciosa senten&ccedil;a<br \/>\n    que lhe lembrar; &eacute; a seguinte: a mulher, que d&aacute; o devido valor<br \/>\n    &agrave; sua honra, longe de por em pra&ccedil;a p&uacute;blica as fraquezas<br \/>\n    da sua casa, &eacute; a primeira que as encobre, ainda que da&iacute; resultem<br \/>\n    danos e desgra&ccedil;as.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia n&atilde;o pode dizer uma palavra diante desse procedimento<br \/>\n    t&atilde;o cru, e voltou decidida a n&atilde;o por mais os seus p&eacute;s<br \/>\n    na casa-grande. Reconheceu, ent&atilde;o, que estava s&oacute; em frente do<br \/>\n    seu infort&uacute;nio; s&oacute; como n&atilde;o se vira jamais! Muito cara<br \/>\n    lhe ia saindo a felicidade de sua filha. Teve por instantes o pensamento de<br \/>\n    acabar com os seus dias, mas faltou-lhe o &acirc;nimo que requer este passo<br \/>\n    extremo. Quando o funesto pensamento passou de todo, outro veio ocupar o seu<br \/>\n    lugar na imagina&ccedil;&atilde;o escaldada na infeliz v&iacute;tima &#8211; o de<br \/>\n    fugir para a companhia de &Acirc;ngelo; mas duas raz&otilde;es se opuseram<br \/>\n    a que t&atilde;o grava id&eacute;ia chegasse a realizar-se; em primeiro lugar,<br \/>\n    &Acirc;ngelo havia de votar-lhe agora, em vez do amor de outrora, &oacute;dio<br \/>\n    e desprezo, &uacute;nicos sentimentos, que o procedimento dela, resolvendo-se<br \/>\n    a voltar &agrave; vida conjugal, devera inspirar-lhe; em segundo lugar, repugnava<br \/>\n    ao seu car&aacute;ter e ao seu imenso amor procurar o bacharel como quem fugia<br \/>\n    covardemente de um grave passo na vida. A ocasi&atilde;o de levar a efeito<br \/>\n    a fugida tinha passado, Se esta se houvesse realizado no tempo pr&oacute;prio,<br \/>\n    ela teria chegado &agrave; casa de &Acirc;ngelo, como a primavera chega aos<br \/>\n    campos desolados, por entre flores e gra&ccedil;as; seria objeto de adora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    espont&acirc;nea e grata; pequena, se fosse aferida pelo dever, mostrar-se-ia<br \/>\n    de grandeza descomunal na medida da paix&atilde;o de que ela era &iacute;dolo<br \/>\n    sobrenatural, a quem o jovem bacharel queimaria, ent&atilde;o, o melhor incenso<br \/>\n    do seu afeto. Agora, por&eacute;m, era tudo muito diferente. Ela pr&oacute;pria<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o tinha no rosto as gra&ccedil;as que tanto havia imposto<br \/>\n    a &Acirc;ngelo o culto da beleza. Os olhos estavam amortecidos, as faces estavam<br \/>\n    crestadas do continuado pranto. N&atilde;o eram j&aacute; os mesmos encantos<br \/>\n    que davam a sua conserva&ccedil;&atilde;o particular valor. A sua voz desaprendera<br \/>\n    grande parte dos delicados segredos que traziam o bacharel rendido aos seus<br \/>\n    p&eacute;s; havia quase dois meses que ela n&atilde;o vivia para o mundo da<br \/>\n    arte, que, ali&aacute;s, tanto a cativara nos tempos da sua maior liberdade.<br \/>\n    O piano mudo; as m&uacute;sicas debaixo de uma crosta de p&oacute; sobre uma<br \/>\n    mesa ao canto da sala; os livros trancados na pequena estante, e nenhum ao<br \/>\n    seu lado, ou ao alcance da sua m&atilde;o, testemunhavam que lhe entrara na<br \/>\n    vida outro sistema, outro regime inteiramente oposto ao que dera conveniente<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o aos seus dotes naturais, e criara nela o gosto pelas<br \/>\n    coisas do esp&iacute;rito, que a suas inclina&ccedil;&otilde;es tornaram de<br \/>\n    f&aacute;cil aquisi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia sentou-se numa poltrona no gabinete, onde passara a noite.<br \/>\n    Combalida de tantas impress&otilde;es, o cansa&ccedil;o e a luta interior<br \/>\n    puderam vence-la, quando ela mais se preparava para refletir sobre a gravidade<br \/>\n    da conjuntura atual. Adormeceu ali mesmo.<\/p>\n<p> Uma cena curiosa representava-se nesse momento &agrave; beira do rio, que<br \/>\n    banha a povoa&ccedil;&atilde;o de Caxang&aacute;, e Paulo era dela espectador<br \/>\n    mudo e abalado.<\/p>\n<p> Deixando os negros no servi&ccedil;o, fora ele tomar banho &agrave; sombra<br \/>\n    de umas &aacute;rvores copadas, juntos das quais passava o rio. O ponto era<br \/>\n    inteiramente ermo. &Agrave; direita, morriam os canaviais e &agrave; esquerda<br \/>\n    estendia-se um capinzal vasto. Corriam pelo meio as &aacute;guas, deixando<br \/>\n    do lado do engenho, entre elas e as &uacute;ltimas touceiras de cana, uma<br \/>\n    pano de &aacute;rea descoberto; lambiam as ra&iacute;zes salientes do arvoredo;<br \/>\n    e desapareciam obra de cem passos adiante por baixo de uma vegeta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aqu&aacute;tica muito cruzada e basta, que se confundia no capinzal.<\/p>\n<p> Antes de descobrir a natural banheira formada pelo rio, Paulo ouviu o ru&iacute;do<br \/>\n    de vozes e o ressoar de risos esgani&ccedil;ados, que n&atilde;o lhe pareceram<br \/>\n    de todo estranhos. A natural curiosidade o fez cauteloso. Abaixou-se algum<br \/>\n    tanto, e por entre as folhas das canas descobriu o ponto donde vinham tais<br \/>\n    rumores. Eis o que viu. Estavam dentro da &aacute;gua um homem e uma mulher.<br \/>\n    Brincavam, riam-se, mergulhavam e davam cambap&eacute;s estrepitosos. Quando<br \/>\n    a mulher gritava com mais for&ccedil;a, ou fazia nas &aacute;guas mais barulhos,<br \/>\n    o homem recomendava-lhe modera&ccedil;&atilde;o e sil&ecirc;ncio; mas n&atilde;o<br \/>\n    tinham essas recomenda&ccedil;&otilde;es a menor import&acirc;ncia para ela,<br \/>\n    que prosseguia com os seus movimentos agitados e aumentava o diapas&atilde;o<br \/>\n    das suas vozes.<\/p>\n<p> Do lugar onde estava, n&atilde;o pode Paulo saber quem eram os desconhecidos.<br \/>\n    As &aacute;rvores cobriam com sombras todo o &acirc;mbito das &aacute;guas<br \/>\n    onde eles procediam &agrave;queles violentos exerc&iacute;cios, e a dist&acirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o era pequena. Paulo, entretanto, come&ccedil;ou a sentir maior curiosidade<br \/>\n    em reconhec&ecirc;-los. Por ali perto, n&atilde;o se apontavam moradores,<br \/>\n    e at&eacute; lhe pareceu digno de nota que tais pessoas, n&atilde;o sendo<br \/>\n    da redondeza, soubessem que havia essa banheira s&oacute; conhecida da gente<br \/>\n    do engenho ou de quem tinha a liberdade de atravessar os canaviais e as lavouras.<br \/>\n    Mas ao mesmo tempo que desejava conhecer os folgaz&otilde;es, o seu natural<br \/>\n    pudor vedava-lhe empregar os meios mais prontos para chegar a este conhecimento.<br \/>\n    Pensava j&aacute; em voltar, quando um ru&iacute;do mais forte e uma gargalhada<br \/>\n    mais vibrante chamaram novamente a sua aten&ccedil;&atilde;o para a banheira.<br \/>\n    Fora o caso que a mulher correra de destro das &aacute;guas para fora em busca<br \/>\n    do pano de areia, que vinha morrer poucos passos diante do ponto onde ele<br \/>\n    estava oculto. A mulher, correndo, parando, tornando a correr e olhando para<br \/>\n    tr&aacute;s, atravessou todo o espa&ccedil;o que havia descoberto. Paulo viu-a,<br \/>\n    em toda a nudez natural, de frente para ele; e logo que, saindo da sombra,<br \/>\n    a luz do sol pode cair em cheio em cima dela, reconheceu a Janoca. O espanto,<br \/>\n    a que esta vis&atilde;o deu lugar em seu esp&iacute;rito, subiu de ponto,<br \/>\n    quando ele ouviu a homem chamar por ela em voz mais elevada. Era a voz de<br \/>\n    Bezerra.<\/p>\n<p> &#8211; Sai da&iacute;; volta &#8211; disse Bezerra. Olha que pode vir gente.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; que tem? &#8211; retorquiu a mesti&ccedil;a com disfarce impudente.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o quero; n&atilde;o quero que algu&eacute;m te veja.<\/p>\n<p> &#8211; Quero eu.<\/p>\n<p> &#8211; Volta, Janoca.<\/p>\n<p> &#8211; Venha voc&ecirc; buscar-me. Tenho j&aacute; frio e o sol est&aacute; muito<br \/>\n    bom.<\/p>\n<p> E a mesti&ccedil;a estendeu-se a fio comprido na areia.<\/p>\n<p> Paulo teve, ent&atilde;o, ocasi&atilde;o de observar as formas que ele nem<br \/>\n    sequer imaginara nunca. A sua primeira impress&atilde;o, vendo a rapariga<br \/>\n    correr para a banda dele, fora fugir, desaparecer; mas a novidade e o esc&acirc;ndalo<br \/>\n    puderam mais que o escr&uacute;pulo do rapaz, posto que educado nas li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de s&atilde; moralidade.<\/p>\n<p> &#8211; Se n&atilde;o vier buscar-me, n&atilde;o voltarei t&atilde;o cedo &#8211; prosseguiu<br \/>\n    a mesti&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Deixa-te disso; vem. Se eu for l&aacute;, hei de trazer-te arrastada pelos<br \/>\n    cabelos.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o v&ecirc;! Os meus cabelos s&atilde;o as suas pris&otilde;es.<br \/>\n    Sua mulher h&aacute; de ter inveja deles. N&atilde;o tem?<br \/>\n    &#8211; Vem, diabo! &#8211; tornou Bezerra contrariado.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; isto? Est&aacute; com raiva porque falei na sua mulher? Bonito<br \/>\n    que voc&ecirc; &eacute;! A sua mulher sou eu.<\/p>\n<p> &#8211; Pois sim, &eacute;s tu mesma; mas o que eu quero &eacute; que saias da&iacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Eu n&atilde;o. Est&aacute; com ci&uacute;mes? Cuidar&aacute;s que algu&eacute;m,<br \/>\n    vendo-me nua, vai tirar-me do seu poder?<br \/>\n    &#8211; Deixa-te de asneiras, e n&atilde;o me metas raiva.<\/p>\n<p> Dizendo estas palavras, Bezerra correu da &aacute;gua para a margem, onde<br \/>\n    a rapariga se espojava, ora encolhendo, ora estirando as pernas. Vinha resoluto<br \/>\n    a lev&aacute;-la por for&ccedil;a, mas quando entre ele e ela n&atilde;o se<br \/>\n    interpunham mais de dez passos, Janoca, por diabrura, encheu a m&atilde;o<br \/>\n    de areia e atirou-lhe sobre a cara, acompanhando este movimento de c&iacute;nica<br \/>\n    e estrepitosa risada. Bezerra deu um grito, sobresteve um momento com as m&atilde;os<br \/>\n    no rosto, e depois voltou ao rio. A areia ca&iacute;ra-lhe nos olhos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, Janoca levantou-se rapidamente e correu ap&oacute;s ele.<\/p>\n<p> &#8211; Caiu-lhe nos olhos a areia, meu benzinho? &#8211; perguntou com voz sentida.<br \/>\n    Coitado do meu marido!<br \/>\n    E foi ela que arrastou Bezerra para dentro da &aacute;gua, onde, abra&ccedil;ando-o<br \/>\n    e dando-lhe beijos, come&ccedil;ou a banhar-lhe o rosto e a pedir-lhe perd&otilde;es<br \/>\n    ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> Paulo aproveitou-se deste acidente para retirar-se do lugar, onde o acaso<br \/>\n    acabava de dar-lhe t&atilde;o nojento e infame espet&aacute;culo. Estava maravilhado.<br \/>\n    A impud&ecirc;ncia e a nudez haviam deixado em seu esp&iacute;rito estranha<br \/>\n    impress&atilde;o de assombro. Pensou logo em Maur&iacute;cia, que ele tinha<br \/>\n    em conta de sua segunda m&atilde;e. &quot;Quanto n&atilde;o deve ter ela padecido?<br \/>\n    &#8211; disse ele consigo. Agora acredito em todas as suas palavras; quem pratica<br \/>\n    o que acaba de praticar esse homem &eacute; capaz de todas as vilezas&quot;.<br \/>\n    Paulo sentiu tamanha pena que, dados alguns passos, parou de novo e p&ocirc;s-se<br \/>\n    a pensar no que testemunhara. A estranha vis&atilde;o apresentou-se-lhe outra<br \/>\n    vez diante dos olhos escandalizados, em tintas t&atilde;o vivas como a realidade.<br \/>\n    &quot;Oh, nunca supus que ele tivesse coragem para semelhante procedimento!&quot;<br \/>\n    Voltou esse dia mais cedo do servi&ccedil;o. Tinha pressa de ver Maur&iacute;cia.<br \/>\n    Quanto mais reconhecia a sua desgra&ccedil;a, mais se sentia na obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ir em socorro da infeliz senhora. Nada lhe revelaria do que vira, mas trataria<br \/>\n    de cortar as rela&ccedil;&otilde;es criminosas que Bezerra e a mesti&ccedil;a<br \/>\n    mantinham. &quot;Ela se sacrificou por mim; eu tenho o dever de lhe tornar<br \/>\n    o mais suave que puder o sacrif&iacute;cio. Essa infame rapariga n&atilde;o<br \/>\n    pode continuar nesse lugar. H&aacute; de sair daqui dentro do mais breve tempo<br \/>\n    que for poss&iacute;vel.! E formou logo sua resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Chegando ao engenho, antes da hora costumada, Virg&iacute;nia fez-lhe mil<br \/>\n    indaga&ccedil;&otilde;es para saber a causa desta altera&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    Paulo respondeu-lhe que se sentira indisposto. Deixando a mulher em seu aposento,<br \/>\n    dirigiu-se &agrave; sala onde D. Carolina se demorava a maior parte do dia.<br \/>\n    Queria contar o que vira &agrave; sua m&atilde;e e pedir-lhe que o aconselhasse;<br \/>\n    mas antes de fazer qualquer revela&ccedil;&atilde;o, D. Carolina come&ccedil;ou<br \/>\n    a relatar-lhe o que se passara naquela manh&atilde; entre ela e Maur&iacute;cia.<br \/>\n    Em sua opini&atilde;o, Maur&iacute;cia criava fantasmas para desacreditar<br \/>\n    o marido, que n&atilde;o era t&atilde;o mau como dizia. Ent&atilde;o, Paulo<br \/>\n    referiu tudo: Maur&iacute;cia tinha carradas de raz&atilde;o. Ele pr&oacute;prio<br \/>\n    fora testemunha da cena mais aviltante que se pode imaginar para um homem<br \/>\n    casado. D. Carolina ouvindo estas atrozes revela&ccedil;&otilde;es, mostrou-se<br \/>\n    ao princ&iacute;pio incr&eacute;dula; mas, depois, for&ccedil;oso foi ter<br \/>\n    por certas as palavras do filho. Paulo estava triste e indignado e os seus<br \/>\n    sentimentos eram comunicativos. Sabendo que Maur&iacute;cia voltara desgostosa,<br \/>\n    convidou sua m&atilde;e para ir com ele e Virg&iacute;nia aquela tarde busc&aacute;-la<br \/>\n    para tomar ch&aacute; no engenho. Conhecia quanto Maur&iacute;cia era melindrosa.<br \/>\n    &quot;Se minha m&atilde;e n&atilde;o for l&aacute;, D. Maur&iacute;cia nunca<br \/>\n    mais tornar&aacute; a esta casa&quot;.<\/p>\n<p> Ficou assentado que haviam de ir depois do jantar.<\/p>\n<h2><a name=\"14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/h2>\n<p>Maur&iacute;cia despertou, seriam cinco horas da tarde, ao estrondo produzido<br \/>\n    por fortes pancadas na porta do gabinete. Olhando por a&iacute;, viu Bezerra,<br \/>\n    que arrancava a fechadura, tendo em uma das m&atilde;os um escopro e na outra<br \/>\n    um martelo. Lan&ccedil;ando as vistas &agrave; alcova fronteira, viu mais<br \/>\n    que &agrave; porta se substitu&iacute;ra um reposteiro de pano verde, em cujo<br \/>\n    centro se mostrava a palavra &#8211; Toilette &#8211; feita de letras amarelas.<\/p>\n<p> &#8211; Que quer dizer isso? &#8211; inquiriu espantada, apontando de p&eacute; para<br \/>\n    a alcova.<\/p>\n<p> &#8211; Quer dizer, Maur&iacute;cia, que eu resolvi dar &agrave; minha casa o<br \/>\n    tom de uma casa de baile. Isto n&atilde;o lhe pode ser desagrad&aacute;vel,<br \/>\n    visto que ningu&eacute;m ainda teve mais do que a senhora o gosto delicado,<br \/>\n    que se aprende em Paris.<\/p>\n<p> Passada a primeira impress&atilde;o que lhe deixava o remoque do marido,<br \/>\n    Maur&iacute;cia sentou-se e disse-lhe:<br \/>\n    &#8211; O senhor fez isso para se vingar do que eu pratiquei ontem?<br \/>\n    Bezerra aproximou-se da mulher, e tornou-lhe em resposta:<br \/>\n    &#8211; E julga a senhora ter praticado uma bonita a&ccedil;&atilde;o para o seu<br \/>\n    marido?<br \/>\n    &#8211; Ao homem que fosse verdadeiramente meu marido eu certo n&atilde;o faria<br \/>\n    o que fiz; mas o senhor, n&atilde;o obstante dizer-se tal, pode acaso julgar-se<br \/>\n    com direito a procedimento diverso?<br \/>\n    &#8211; Maur&iacute;cia, voc&ecirc; anda iludida. Sup&otilde;e que os homens se<br \/>\n    devem equiparar &agrave;s mulheres. Entende que os deveres e os direitos da<br \/>\n    mulher s&atilde;o id&ecirc;nticos aos do marido. Ignora que o pecado mortal<br \/>\n    para a mulher n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o culpa venial para o homem.<br \/>\n    Estranha que os maridos tenham liberdade ampla em suas a&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e as mulheres s&oacute; a tenham muito reduzida. Ora, tudo isto s&atilde;o<br \/>\n    erros, Maur&iacute;cia! Aceite a sociedade, Maur&iacute;cia, como &eacute;.<br \/>\n    Se n&atilde;o lhe agrada esta constitui&ccedil;&atilde;o social, tenha paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    resigne-se. Nenhuma outra ser&aacute; poss&iacute;vel, sen&atilde;o passados<br \/>\n    muitos tempos, e revolvida a atual sociedade desde as suas ra&iacute;zes.<br \/>\n    Que preju&iacute;zo lhe causo com os meus pequeninos passatempos?<br \/>\n    &#8211; A mim n&atilde;o me causa nenhum preju&iacute;zo, senhor, o que me causa<br \/>\n    &eacute; vergonha. Este sentimento &eacute; insepar&aacute;vel de toda mulher<br \/>\n    que, posto educada em Paris, de pequena se afez a ver a maior moralidade no<br \/>\n    lar dos seus pais, e receber dos seus mestres li&ccedil;&otilde;es inspiradas<br \/>\n    em tal sentimento, base da fam&iacute;lia nos tempos felizes, e o seu esteio,<br \/>\n    que a impede de vir &agrave; terra, quando sopra o furac&atilde;o dos contratempos.<br \/>\n    A vergonha &eacute; insepar&aacute;vel dos meus olhos, porque eu nunca vi<br \/>\n    na casa paterna, nunca vi na casa do meu protetor as lastimosas e indignas<br \/>\n    cenas que o senhor representou em minha casa nos primeiros anos do meu casamento,<br \/>\n    e agora reproduz depois de empregar os maiores esfor&ccedil;os a fim de que<br \/>\n    eu voltasse para a sua companhia. Priva-me da porta do meu quarto, &uacute;nico<br \/>\n    meio, que me restava, de cobrir-me contra os seus insultos grosseiros, de<br \/>\n    resguardar os meus melindres ofendidos por seus ignominiosos amores de palho&ccedil;a<br \/>\n    e de cozinha!<br \/>\n    Espantado, sen&atilde;o atemorizado desta r&aacute;pida s&iacute;ntese de<br \/>\n    suas vilezas, que Maur&iacute;cia fizera com a mesma mobilidade meridional,<br \/>\n    onde a sua linguagem afetiva deparava raros atavios e encantos, Bezerra, que,<br \/>\n    ao princ&iacute;pio julgara esmag&aacute;-la com sua hostilidade c&iacute;nica,<br \/>\n    sobresteve entre o receio de perder a vasa e a dificuldade de a n&atilde;o<br \/>\n    fazer brava. Quis interromper Maur&iacute;cia com algumas palavras de dureza,<br \/>\n    mas ela, ou porque estava cheia de raz&atilde;o, ou porque a sua exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lhe n&atilde;o dava lugar a atender sen&atilde;o &agrave; sua grande dor,<br \/>\n    prosseguiu com a mesma veem&ecirc;ncia que tivera at&eacute; a&iacute;:<br \/>\n    &#8211; Cumpre absolutamente que de uma vez nos entendamos sobre o melhor modo de<br \/>\n    carregar a pesada cruz de um casamento desigual. Estou por tudo, menos pelo<br \/>\n    aviltamento. Por que procede t&atilde;o vilmente comigo?<br \/>\n    Bezerra sorriu cinicamente, e respondeu em termos ign&oacute;beis.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, Maur&iacute;cia ergueu-se arrebatadamente, mostrando no gesto<br \/>\n    ind&iacute;cio de entranhada indigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Se o senhor tem este direito, igual devo ter eu. Mas n&atilde;o! &#8211; acudiu<br \/>\n    imediatamente. Ainda que mo assegurassem&#8230;<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia n&atilde;o pode concluir a frase. Bezerra, de p&eacute;<br \/>\n    ao lado dela, amea&ccedil;ava despeda&ccedil;ar-lhe a cabe&ccedil;a com o<br \/>\n    martelo que tinha na m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; A senhora n&atilde;o sabe o que disse. Quer fazer de mim um assassino?<br \/>\n    Maur&iacute;cia retorquiu sem se acovardar:<br \/>\n    &#8211; Assassino j&aacute; &eacute; o senhor, assassino do meu modesto e inofensivo<br \/>\n    sossego; pode bem assassinar-me agora.<\/p>\n<p> As l&aacute;grimas saltaram com veem&ecirc;ncia dos olhos de Maur&iacute;cia<br \/>\n    que se sentara novamente.<\/p>\n<p> Bezerra ainda estava de p&eacute; em posi&ccedil;&atilde;o hostil, quando<br \/>\n    se ouviu na sala ru&iacute;do de passos na banda de fora. N&atilde;o passou<br \/>\n    um minuto que a voz de Virg&iacute;nia ecoou na porta:<br \/>\n    &#8211; D&aacute; licen&ccedil;a, mam&atilde;e? Aqui est&aacute; Sinhazinha, que<br \/>\n    vem passar com a senhora esta semana.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia enxugou as l&aacute;grimas rapidamente, enquanto Bezerra,<br \/>\n    sentindo-se enfraquecer, n&atilde;o deu um passo, n&atilde;o disse uma palavra<br \/>\n    sequer.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s Virg&iacute;nia, entraram Sinhazinha, D. Carolina e Paulo. Sinhazinha<br \/>\n    correu para Maur&iacute;cia, abra&ccedil;ou-a e cobriu-lhe as faces de beijos.<br \/>\n    Havia alguns meses que n&atilde;o a via, e estava muito saudosa.<\/p>\n<p> Dando com os olhos no reposteiro, Virg&iacute;nia n&atilde;o pode suster<br \/>\n    um gracejo?<br \/>\n    &#8211; Bravo, mam&atilde;e! Em honra de quem &eacute; a partida?<br \/>\n    &#8211; Em honra de Sinhazinha, Virg&iacute;nia &#8211; respondeu Maur&iacute;cia, tentando<br \/>\n    sorrir-se, mas em v&atilde;o. Tinha a noite no esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Entretanto, Paulo chegara-se a Bezerra, que se encaminhara para o quarto.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; que tempo n&atilde;o nos vemos, D. Maur&iacute;cia! &#8211; disse<br \/>\n    Sinhazinha. E como est&aacute; mudada a senhora!<br \/>\n    &#8211; Acha-me muito mudada? H&aacute; de ser assim mesmo. Por que n&atilde;o veio<br \/>\n    ao casamento de Virg&iacute;nia? &#8211; perguntou-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o pude, mas aqui estou para lhe dar os parab&eacute;ns e mil<br \/>\n    beijos.<\/p>\n<p> E as duas mo&ccedil;as abra&ccedil;aram-se e beijaram-se graciosa e ternamente.<\/p>\n<p> &#8211; Passar&aacute; comigo n&atilde;o uma semana, Sinhazinha, mas um m&ecirc;s,<br \/>\n    disse Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> E, como quem tivera um pensamento repentino, chamou Paulo.<\/p>\n<p> &#8211; Eu estava mesmo precisando de voc&ecirc;, Paulo. Olhe: pergunte a meu<br \/>\n    marido onde p&ocirc;s a porta que ele tirou de meu quarto, e coloque-a outra<br \/>\n    vez no seu lugar. Fica o reposteiro assim como est&aacute;. Quero que voc&ecirc;<br \/>\n    trate disso sem demora, que Sinhazinha dormir&aacute; nessa alcova comigo.<\/p>\n<p> Estava neste ponto a conversa&ccedil;&atilde;o, quando se apresentou um<br \/>\n    moleque que viera chamar Bezerra da parte de Albuquerque. Eis a causa do chamado.<\/p>\n<p> Ouvindo grande vozerio na meia-&aacute;gua, Albuquerque pusera o chap&eacute;u<br \/>\n    de palha do Chile na cabe&ccedil;a, pegara do varapau de quiri, que nunca<br \/>\n    o desacompanhava em suas digress&otilde;es pelas lavouras, e encaminhara-se<br \/>\n    para o lugar, onde se estava dando o barulho.<\/p>\n<p> Fora este travado entre Br&iacute;gida e Janu&aacute;ria. Havia outras lavadeiras<br \/>\n    presentes, assim como escravas, como moradores do engenho; mas umas e outras<br \/>\n    continuaram a bater sua roupa sem volver vistas &agrave;s briosas.<\/p>\n<p> &#8211; Quero saber o motivo desta briga &#8211; inquiriu o senhor de engenho em tom<br \/>\n    senhoril e arrogante.<\/p>\n<p> E porque o sil&ecirc;ncio foi a &uacute;nica resposta que ainda teve desta<br \/>\n    vez, Albuquerque amea&ccedil;ou Br&iacute;gida de a mandar a&ccedil;oitar<br \/>\n    no carro, e Janu&aacute;ria de expuls&aacute;-la das suas terras depois de<br \/>\n    lhe por a casa abaixo.<\/p>\n<p> A esta voz, a cabocla aproximou-se de Albuquerque e contou-lhe tudo em poucas<br \/>\n    palavras, que a dec&ecirc;ncia ordena que n&atilde;o sejam reproduzidas.<\/p>\n<p> Albuquerque voltou possu&iacute;do de estranha como&ccedil;&atilde;o. Os<br \/>\n    olhos se lhe encovaram dentro de poucos momentos, as cores fugiram-lhe da<br \/>\n    face que ordinariamente pareciam verter sangue.<\/p>\n<p> No mesmo instante, mandou chamar Bezerra.<\/p>\n<p> &#8211; Acabo de ter uma prova &#8211; disse Albuquerque logo que Bezerra penetrou na<br \/>\n    sala &#8211; de que o senhor &eacute; indigno, j&aacute; n&atilde;o digo do interesse<br \/>\n    que tomei em melhorar as suas condi&ccedil;&otilde;es, mas de transpor aquela<br \/>\n    porta, a n&atilde;o ser para sair e n&atilde;o voltar mais. Arranquei-o do<br \/>\n    leito da morte, ou antes da enxerga da mis&eacute;ria. Restitui-lhe a fam&iacute;lia,<br \/>\n    que nunca mais o senhor havia de ter. Dei-lhe um emprego em minha casa. Enfim,<br \/>\n    fiz do senhor gente. Vejo agora que empreguei mal o meu tempo, os meus esfor&ccedil;os<br \/>\n    e a minha prote&ccedil;&atilde;o. D. Maur&iacute;cia &#8211; acredito-o agora &#8211;<br \/>\n    foi uma v&iacute;tima de suas baixezas. Est&aacute; justificada aos meus olhos.<br \/>\n    Eu, por&eacute;m, considero-me agora na obriga&ccedil;&atilde;o de lhe dar<br \/>\n    plena satisfa&ccedil;&atilde;o, e de lhe provar que fazia do senhor ju&iacute;zo<br \/>\n    muito superior as suas qualidades. Por isso, exijo que se retire do meu engenho<br \/>\n    dentro de vinte e quatro horas. Tem aqui um dinheiro &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Saia inesperadamente. como inesperadamente entrou por aqui adentro. Com este<br \/>\n    procedimento me dar&aacute; plena quita&ccedil;&atilde;o do que me deve.<\/p>\n<p> Albuquerque tirou de uma gaveta algumas c&eacute;dulas que p&ocirc;s sobre<br \/>\n    a mesa do lado de Bezerra. Este n&atilde;o acusou ningu&eacute;m. Longe de<br \/>\n    negar o que lhe fora imputado, pediu perd&atilde;o a Albuquerque, que n&atilde;o<br \/>\n    lhe respondeu sen&atilde;o com desprezo. Ent&atilde;o, Bezerra, passados alguns<br \/>\n    momentos, fez a Albuquerque um cumprimento e saiu. Grande preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o tomava. &Agrave; noite, n&atilde;o apareceu para o ch&aacute;. Virg&iacute;nia,<br \/>\n    que tudo ignorava, estranhando a aus&ecirc;ncia do pai, mostrou-se muito sobressaltada.<br \/>\n    Pela manh&atilde; bem cedo, mandou saber se lhe acontecera algum desastre.<br \/>\n    Maur&iacute;cia estava, de certo modo, aflita. Bezerra n&atilde;o foi encontrado<br \/>\n    em parte nenhuma. Seus ba&uacute;s tinham desaparecido. Dias depois, soube-se<br \/>\n    de tudo pelo menor. Ele fugira, levando em sua companhia a mesti&ccedil;a.<\/p>\n<p>Dentro de pouco mais de um m&ecirc;s, come&ccedil;ou Maur&iacute;cia a notar<br \/>\n    a frieza do marido, acompanhada de circunst&acirc;ncia que parecia terem com<br \/>\n    ela a maior liga&ccedil;&atilde;o. A filha de Janu&aacute;ria. que quase nunca<br \/>\n    passara al&eacute;m da meia-&aacute;gua, atravessava agora o restante do p&aacute;tio<br \/>\n    do engenho v&aacute;rias vezes, durante a semana e passava pela porta da casa,<br \/>\n    onde ela morava. Um dia, chegou a perguntar a um moleque do servi&ccedil;o<br \/>\n    dom&eacute;stico, se Bezerra estava em casa. Mais de uma vez, saindo mais<br \/>\n    cedo do que costumava para ir tomar a li&ccedil;&atilde;o de Alice, n&atilde;o<br \/>\n    encontrou Maur&iacute;cia na casa-grande o marido, que para a&iacute; lhe<br \/>\n    dissera ir. Maur&iacute;cia n&atilde;o deu mostras e ci&uacute;me, e n&atilde;o<br \/>\n    o sentia. N&atilde;o se casara como Bezerra por amor, mas por fazer as vontades<br \/>\n    dos pais. Tinha, ent&atilde;o, Bezerra catorze anos menos; dispunha de meios<br \/>\n    que lhe permitiam aparecer com mais dec&ecirc;ncia na sociedade; n&atilde;o<br \/>\n    trazia consigo um passado odioso. Mas, n&atilde;o obstante reunir semelhantes<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis, n&atilde;o lhe havia inspirado<br \/>\n    afeto especial; tinha para ele olhos simplesmente ben&eacute;volos, palavras<br \/>\n    corteses e respeitosas. Agora, as circunst&acirc;ncias o favoreciam ainda<br \/>\n    menos. Estava pobre, alquebrado e carregava &aacute;s costas um saco de mazelas.<br \/>\n    Procurava de novo a sua companhia para ter segura a vida que era sumamente<br \/>\n    custosa de manter. Quase dependia dela. Perdera grandes partes da antiga arrog&acirc;ncia<br \/>\n    e cultivava a conveni&ecirc;ncia. Era um homem de corpo aberto. Mas n&atilde;o<br \/>\n    obstante, mostrava-se magoada, e uma vez chegou a revelar-lhe a cena que um<br \/>\n    m&ecirc;s antes o tinha visto representar com a mesti&ccedil;a entre a meia-&aacute;gua<br \/>\n    e a porteira. Bezerra deu pouca import&acirc;ncia, ou nenhuma, aos ressentimentos<br \/>\n    da mulher, e n&atilde;o alterou o seu h&aacute;bito de fazer aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de noite e de dia.<\/p>\n<p> Por esse tempo, adoecendo a escrava que Albuquerque encarregara do servi&ccedil;o<br \/>\n    em casa de Bezerra, veio preencher-lhe a falta uma crioula nova, por nome<br \/>\n    de Br&iacute;gida, que D. Carolina tinha em grande estima&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Com esta rapariga, entraram na casa novos desgostos para Maur&iacute;cia.<br \/>\n    Bezerra dirigia-lhe gracejos a furto, e lan&ccedil;ava-lhe olhares de ternura<br \/>\n    ign&oacute;bil. Um tarde, em que Maur&iacute;cia voltara mais cedo do engenho,<br \/>\n    surpreendeu o marido em pr&aacute;tica familiar com a cativa. Deu-se por ofendida,<br \/>\n    e as l&aacute;grimas saltaram-lhe dos olhos. Teve &iacute;mpetos de ir imediatamente<br \/>\n    contar &agrave; D. Carolina o que vira; mas a vergonha de revelar a vileza<br \/>\n    reteve-a silenciosa. Ela, por&eacute;m, n&atilde;o pode acabar consigo que<br \/>\n    n&atilde;o desse grande demonstra&ccedil;&atilde;o da sua profunda m&aacute;goa<br \/>\n    &agrave;quele que era desta causador.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor &#8211; disse &#8211; daquela porta para fora, poderemos continuar a ser dois<br \/>\n    consortes que, depois de v&aacute;rias e cru&eacute;is vicissitudes, convieram<br \/>\n    em encurtar a dist&acirc;ncia que os trazia afastados, e emendar o roto la&ccedil;o<br \/>\n    do combatido afeto, mas, das portas adentro, espero que estejamos de hoje<br \/>\n    em diante t&atilde;o distantes como se entre n&oacute;s se interpusessem,<br \/>\n    como j&aacute; se interpuseram, dezenas de l&eacute;guas de oceano.<\/p>\n<p> Bezerra teve para esse assomo de justo e elevado agravo risos mofadores.<br \/>\n    Saiu e voltou tarde. A porta da alcova estava trancada por dentro. Bezerra<br \/>\n    ficou alguns momentos em p&eacute; junto dessa porta, que o amea&ccedil;ava<br \/>\n    com ares de senten&ccedil;a de desquite.<\/p>\n<p> &#8211; Eu podia por no ch&atilde;o esta porta e entrar; mas era dar muita import&acirc;ncia<br \/>\n    ao que merece pouca.<\/p>\n<p> Encaminhou-se para o gabinete fronteiro, onde havia uma cama de solteiro,<br \/>\n    algumas cadeiras, uma mesa e um toucador.<\/p>\n<p> Ao lado da cama, viu os ba&uacute;s que mandara conduzir do Recife no dia<br \/>\n    da sua mudan&ccedil;a para o engenho. Dos ganchos de um cabide de faia, pendiam<br \/>\n    os seus palet&oacute;s e cal&ccedil;as. Aos p&eacute;s da cama, estava o seu<br \/>\n    par de chinelas.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um mandado de despejo. Por t&atilde;o pouco!&#8230;<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia praticara este ato de energia n&atilde;o tanto por ci&uacute;me,<br \/>\n    como por ferida em seus melindres; e estava no &acirc;nimo de n&atilde;o retroceder,<br \/>\n    ainda diante das mais graves conseq&uuml;&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> &#8211; Depois disto &#8211; dissera ela &#8211; s&oacute; se deve seguir ou a completa emenda<br \/>\n    dele, ou a sa&iacute;da de um de n&oacute;s dois.<\/p>\n<p> Bezerra, que, ao princ&iacute;pio, tomara esta resolu&ccedil;&atilde;o em<br \/>\n    ar de mofa, caindo em si depois, julgou-se na obriga&ccedil;&atilde;o de refletir<br \/>\n    mais maduramente. Tinham mudado muito as suas condi&ccedil;&otilde;es. No<br \/>\n    Par&aacute;, tr&ecirc;s anos antes, as coisas eram outras, e ainda assim Maur&iacute;cia<br \/>\n    triunfara da sua tirania, quanto mais em Pernambuco, estando ela no seio de<br \/>\n    uma fam&iacute;lia respeit&aacute;vel, que da sua honra e discri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinham o melhor documento em v&ecirc;-la praticar o sacrif&iacute;cio de voltar<br \/>\n    &agrave; companhia dele. Outras considera&ccedil;&otilde;es de n&atilde;o<br \/>\n    inferior tomo lhe ocorreram. Se, por qualquer modo, viesse a desgostar Albuquerque,<br \/>\n    de que iria viver? No engenho estava incumbido de fazer a escritura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    relativa &agrave; venda dos a&ccedil;ucares, do mel, da aguardente e dos demais<br \/>\n    produtos da grande propriedade. Por este trabalho, que Paulo costumava fazer<br \/>\n    aos domingos, arbitrara-lhe Albuquerque m&oacute;dico vencimento; mas lhe<br \/>\n    dava de gra&ccedil;a casa para morar, carne e farinha para a mesa, escravos<br \/>\n    para o servirem. Se lhe faltassem tudo isto, de repente, a que ficaria reduzido?<br \/>\n    A n&atilde;o ter um lugar onde cair morto. Faltava-lhe coragem para tentar<br \/>\n    novos meios de vida. O cabelo, que come&ccedil;ava a alvejar-lhe a testa que<br \/>\n    mostrava cortada de grandes rugas; os olhos fundos, as faces murchas indicavam<br \/>\n    que as for&ccedil;as come&ccedil;avam a desampar&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Da sua cogita&ccedil;&atilde;o veio tir&aacute;-lo o rel&oacute;gio que<br \/>\n    do alto, entre as duas janelas, parecia fit&aacute;-lo impass&iacute;vel como<br \/>\n    a fatalidade. Foram doze pancadas que deu.<\/p>\n<p> Ele ent&atilde;o levantou-se da cama, onde estivera a pensar, e encaminhando-se<br \/>\n    para a alcova, disse:<br \/>\n    &#8211; Fa&ccedil;amos as pazes, ainda que para isso seja preciso pedir mil perd&otilde;es.<\/p>\n<p> Bateu na porta devagarinho, depois mais fortemente, chamando por Maur&iacute;cia,<br \/>\n    que n&atilde;o lhe deu uma s&oacute; palavra em resposta. Esteve alguns instantes<br \/>\n    de p&eacute;, a olhar para dentro atrav&eacute;s da fechadura. De uma das<br \/>\n    vezes, abalou a porta com toda for&ccedil;a, quase deliberado a dar com ela<br \/>\n    em terra por maior que fosse o ru&iacute;do que produzisse tal viol&ecirc;ncia;<br \/>\n    mas julgou prudente variar de conselho, ouvindo ru&iacute;do de vozes da banda<br \/>\n    de fora; dois negros do engenho tinham-se sentado no batente da casa, e a&iacute;<br \/>\n    conversavam em sua algaravia inintelig&iacute;vel. Ocorreu-lhe, ent&atilde;o,<br \/>\n    escalar a parede, e este pensamento veio seguido de outro. Ainda estava encostada<br \/>\n    ao p&eacute; da parede do oit&atilde;o da casa uma escada do engenho, de que<br \/>\n    se tinham servido os pedreiros por ocasi&atilde;o das novas obras. Bezerra<br \/>\n    tomou pela porta que ia dar no interior, e voltou pouco depois com a escada<br \/>\n    que colocou de manso na parede. Subiu. Entre a parede e a telha v&atilde;,<br \/>\n    havia o espa&ccedil;o da altura de um homem; f&aacute;cil, portanto, se afigurou<br \/>\n    a Bezerra a sua descida para dentro do quarto com o aux&iacute;lio do mesmo<br \/>\n    instrumento por onde subira. Maur&iacute;cia dormia. A vela de uma manga de<br \/>\n    vidro, colocada sobre uma mesa do lado da cabeceira, tinha chegado ao papel<br \/>\n    que lhe servia de cal&ccedil;o, e ardendo com ele derramava no &acirc;mbito<br \/>\n    do aposento clar&atilde;o amarelado, que trazia &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o come&ccedil;o de um inc&ecirc;ndio.<\/p>\n<p> Bezerra, equilibrando-se conforme pode, pegou da escada e levantou-a; mas<br \/>\n    quando j&aacute; a travessava sobre o frechal, que corria ao longo d parede,<br \/>\n    ela, escorregando, caiu quase para o lado da sala e ele para n&atilde;o cair<br \/>\n    teve de a soltar.<\/p>\n<p> Despertada pelo estrondo, Maur&iacute;cia sentou-se tr&ecirc;mula, atemorizada,<br \/>\n    e dando com os olhos no marido, tudo compreendeu.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda me persegue? &#8211; disse saltando envolta na longa colcha.<\/p>\n<p> &#8211; Maur&iacute;cia, por que foge de mim? &#8211; perguntou Bezerra.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia tinha de feito corrido &agrave; porta do aposento e desdado<br \/>\n    &agrave; volta da chave. Bezerra viu-a dirigir-se ao quarto, onde ele estivera<br \/>\n    e trancar-se outra vez pior dentro.<\/p>\n<p> &#8211; Hei de venc&ecirc;-la, hei de venc&ecirc;-la, hoje mesmo &#8211; disse ele.<\/p>\n<p> Mas como havia de descer? Faltava-lhe &acirc;nimo para saltar. A parede<br \/>\n    tinha talvez cinco metros de alto. Era uma altura suficiente para guardar<br \/>\n    uma mulher, mas excessiva para a descida de um homem sem outro aux&iacute;lio<br \/>\n    que as m&atilde;os e os p&eacute;s. E contudo urgia descer. Na sala de visitas<br \/>\n    e no aposento onde Maur&iacute;cia se refugiara estava tudo &agrave;s escuras.<br \/>\n    dentro em pouco tempo, na alcova, fariam invas&atilde;o as trevas. N&atilde;o<br \/>\n    deixava de ser em certo modo aflitivo o momento.<\/p>\n<p> Quase desesperado, Bezerra, calculando que poderia ser v&iacute;tima de<br \/>\n    risos mofadores, decidiu-se a saltar, deliberado a deitar por terra a porta<br \/>\n    que se interpunha entre ele e a mulher. P&ocirc;s as m&atilde;os sobre o frechal,<br \/>\n    onde tinha os p&eacute;s, e com as pontas destes tentou descer ao longo da<br \/>\n    parede. Mas depressa as m&atilde;os fugiram do alto, e ele julgou que ia quebrar-se<br \/>\n    de encontro ao ladrilho da sala. Quando j&aacute; se considerava v&iacute;tima<br \/>\n    do desastre, sentiu-se com surpresa cair entre uns bra&ccedil;os robustos,<br \/>\n    que o apararam com firmeza descomunal.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, ainda aturdido, ouviu &agrave; meia voz estas palavras:<br \/>\n    &#8211; O Sr. queria morrer? Se n&atilde;o fosse eu, podia estar quebrado.<\/p>\n<p> &#8211; Br&iacute;gida! &#8211; exclamou Bezerra, sentindo-se apertado ente os bra&ccedil;os<br \/>\n    e os seios resistentes da negrota.<\/p>\n<p> N&atilde;o tinha dormido ainda, e, sabendo o que se passara entre Maur&iacute;cia<br \/>\n    e Bezerra, quase previra o que acabara de dar-se. Vendo-o entrar com a escada<br \/>\n    fora de horas. viera p&eacute; ante p&eacute;, e colocara-se &agrave; porta<br \/>\n    da sala de visitas, que abria a comunica&ccedil;&atilde;o para o corredor.<br \/>\n    Dali, testemunhara a ascens&atilde;o de Bezerra, a sa&iacute;da violenta de<br \/>\n    Maur&iacute;cia e os embara&ccedil;os dele para descer. Enfim, vendo-o tentar<br \/>\n    a descida, correra a tempo de o aparar entre os bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> &#8211; Estava aqui h&aacute; muito tempo? &#8211; perguntou-lhe Bezerra;<br \/>\n    &#8211; Eu vi tudo &#8211; respondeu Br&iacute;gida. O que admiro &eacute; a pachorra<br \/>\n    de vosmec&ecirc;. Tanta mulher que h&aacute; no mundo.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade &#8211; retorquiu Bezerra.<\/p>\n<p> E em vez de atirar-se contra a porta fronteira, entrou na alcova, onde a<br \/>\n    vela agonizante despediu o &uacute;ltimo clar&atilde;o e apagou-se.<\/p>\n<h2><a name=\"13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/h2>\n<p>Toda a noite Maur&iacute;cia passou em claro, vendo sombras gigantescas atravessar<br \/>\n    a escurid&atilde;o do quarto, onde se refugiara. Por extremo excitada, pareceu-lhe<br \/>\n    mais de uma vez ouvir na sala rumor de passos, e na alcova, que abandonara,<br \/>\n    ru&iacute;do de vozes abafadas. De uma vez, levantou-se da cama, abriu devagarinho<br \/>\n    a porta, e deu alguns passos em direitura da alcova. Foi de encontra ao piano,<br \/>\n    que com o estreme&ccedil;&atilde;o teve uma harmonia surda &#8211; voz confusa de<br \/>\n    todas as cordas abaladas. No mesmo instante, afigurou-se-lhe que um vulto<br \/>\n    se afastara da porta da alcova em procura do corredor. Pelas formas, esse<br \/>\n    vulto parecia-se com Faustino. O medo de encontrar-se com o moleque f&ecirc;-la<br \/>\n    voltar e trancar novamente.<\/p>\n<p> Muito cedo ainda Bezerra deixou o aposento. Maur&iacute;cia ouviu-o dizer<br \/>\n    algumas palavras a Faustino, que lhe dera n&atilde;o sei que recado; ouviu<br \/>\n    o rumor das pisadas do lado de fora. Ent&atilde;o, levantou-se cautelosamente.<br \/>\n    A sala estava deserta. Do lado da cozinha, o moleque conversava animadamente<br \/>\n    com Br&iacute;gida. Entrou no quarto. A cama indicava, pelo desarranjo, que<br \/>\n    Bezerra se servira dela. Sentou-se do lado da cabeceira.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o pode vencer-me &#8211; disse; nem me vencer&aacute; jamais. Dissuadido<br \/>\n    de realizar o seu intento, repousou s&oacute;.<\/p>\n<p> E repetiu logo este monoss&iacute;labo:<br \/>\n    &#8211; S&oacute;!<br \/>\n    Depois acudiu:<br \/>\n    &#8211; Mas terei eu o direito de separar-me dele assim?<br \/>\n    Havia nesta interroga&ccedil;&atilde;o a ponta de uma d&uacute;vida.<\/p>\n<p> Irresistivelmente, Maur&iacute;cia entrou a pensar. A cabe&ccedil;a pesava-lhe,<br \/>\n    mas seu esp&iacute;rito buscava solu&ccedil;&atilde;o para aquele terr&iacute;vel<br \/>\n    problema. N&atilde;o era poss&iacute;vel que continuassem a viver assim unidos<br \/>\n    de direito e divorciados de fato, Maur&iacute;cia julgou esta primeira prova<br \/>\n    cruel.<\/p>\n<p> &#8211; Ele &eacute; meu marido &#8211; disse. Quando me sujeitei a viver de novo com<br \/>\n    ele, n&atilde;o me obriguei acaso a padecer todos os tormentos, sem o direito<br \/>\n    de lhe resistir? Uma das primeiras virtudes da mulher casada n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    porventura, ocultar, ainda com o sacrif&iacute;cio da sua tranq&uuml;ilidade,<br \/>\n    as fraquezas e as mis&eacute;rias do marido? Que devia eu esperar de Bezerra?<br \/>\n    N&atilde;o fui testemunha do que ele praticou com a filha de Janu&aacute;ria,<br \/>\n    antes da minha &uacute;ltima declara&ccedil;&atilde;o de vivermos juntos?<br \/>\n    Que me obrigou a sujeitar-me a esta prova&ccedil;&atilde;o? Ningu&eacute;m<br \/>\n    me obrigou a isto; fui eu mesma que aceitei a situa&ccedil;&atilde;o que ora<br \/>\n    me traz vexame e dor. Qual &eacute;, por&eacute;m, o meu dever? Estar por<br \/>\n    tudo. Pois bem: estarei de ora em diante. Que hei de fazer, meu Deus? Nem<br \/>\n    haveria merecimento no passo que dei, se eu n&atilde;o curtisse com silenciosa<br \/>\n    resigna&ccedil;&atilde;o as cruas dores do mart&iacute;rio.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia estava arrependida do que praticara na v&eacute;spera.<\/p>\n<p> &#8211; Uma mulher casada n&atilde;o pode ter destas opini&otilde;es. Ela n&atilde;o<br \/>\n    se pertence; pertence ao marido, ou antes &agrave; fatalidade do dever, sempre<br \/>\n    mais cruel para a mulher do que para o homem.<\/p>\n<p> Assim falando, Maur&iacute;cia tomou as &uacute;ltima roupas, deliberada<br \/>\n    a estudar o meio mais natural eficaz de reconciliar-se, sem evidente humilha&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com Bezerra. Chegou-se ao espelho para arranjar o cabelo que se lhe espalhava<br \/>\n    pelas esp&aacute;duas nuas. Tinha o rosto demudado. As cores come&ccedil;avam<br \/>\n    a fugir-lhe das faces. A c&uacute;tis, outrora t&atilde;o limpa, emurchecia<br \/>\n    agora, e mostrava-se sem a frescura de tr&ecirc;s meses atr&aacute;s. Aos<br \/>\n    primeiros raios de sol, ela com espanto viu no fim da testa um cabelo que<br \/>\n    embranquecia. Era o primeiro ind&iacute;cio do seu outono, a primeira folha,<br \/>\n    que amea&ccedil;ava cair da &aacute;rvore da sua mocidade. Ao cabo de mais<br \/>\n    um ano de padecimentos, n&atilde;o restaria dessa &aacute;rvore sen&atilde;o<br \/>\n    o arcabou&ccedil;o. Duas l&aacute;grimas deslizaram-se-lhe pelas faces amea&ccedil;adas<br \/>\n    de terem para sempre perdido o lustre que lhe dava o sossego.<\/p>\n<p> &#8211; Estou ficando velha &#8211; disse com amargura. O sofrimento encurta a minha<br \/>\n    viagem, e, dentro em breve, terei diante dos olhos a sepultura; eu n&atilde;o<br \/>\n    poderei resistir por muito tempo a semelhantes tormentos. Tamb&eacute;m o<br \/>\n    meu papel no teatro do mundo parece tocar o seu termo. Virg&iacute;nia est&aacute;<br \/>\n    casada e amparada, e o meu cora&ccedil;&atilde;o est&aacute; morto.<\/p>\n<p> Estas &uacute;ltimas palavras trouxeram-lhe &agrave; lembran&ccedil;a &Acirc;ngelo,<br \/>\n    e n&atilde;o foi preciso mais para que em seu interior se derramasse a impress&atilde;o<br \/>\n    de b&aacute;lsamo suav&iacute;ssimo.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o! O meu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o est&aacute; morto!<br \/>\n    &#8211; disse ela de si para si. Por desgra&ccedil;a minha, n&atilde;o posso esquecer-me<br \/>\n    desse homem, ainda quando a descren&ccedil;a invade a minha alma, como agora,<br \/>\n    e vejo diante dos olhos o espectro da morte. Ao lado dele, a mocidade me voltaria,<br \/>\n    e com ela todos os meus sorrisos que se mudaram em l&aacute;grimas em companhia<br \/>\n    do meu cruel marido. Meu Deus, meu Deus, n&atilde;o h&aacute; maior tormento<br \/>\n    do que este &#8211; sofrer assim, amar assim, sofrer sem tr&eacute;guas e amar sem<br \/>\n    tr&eacute;guas ao mesmo tempo, sofrer daquele a que se aborrece, e amar aquele<br \/>\n    de quem n&atilde;o se possui sen&atilde;o a ef&iacute;gie querida no seio<br \/>\n    da fantasia, e cujo nome nem ao menos &eacute; l&iacute;cito proferir de modo<br \/>\n    que os ouvidos o ou&ccedil;am! <br \/>\n    Maur&iacute;cia sentou-se a modo de desalentada ao p&eacute; do espelho. Ap&oacute;s<br \/>\n    as primeiras, vieram novas l&aacute;grimas porventura mais abrasadoras. Dava<br \/>\n    pena daquela silenciosa afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Uma disc&oacute;rdia entre Faustino e Br&iacute;gida, cujas vozes, alteando-se<br \/>\n    gradativamente, vieram ressoar, no ambiente da alcova, arrancou Maur&iacute;cia<br \/>\n    da prostra&ccedil;&atilde;o mental em que a tinham deixado os encontrados<br \/>\n    pensamentos do seu &uacute;ltimo solil&oacute;quio.<\/p>\n<p> Levantando-se, disse:<br \/>\n    &#8211; Deus h&aacute; de ajudar-me a levar sem covardia ao Calv&aacute;rio a minha<br \/>\n    cruz. Fa&ccedil;amos de conta uma vez por todas que est&aacute; para sempre<br \/>\n    acabado tudo que se passou entre mim e esse homem. Sejamos de ora em diante<br \/>\n    exclusivamente a mulher casada, escrava de seu dever.<\/p>\n<p> Aproximando-se de uma cadeira para apanhar um len&ccedil;o que a&iacute;<br \/>\n    deixara, suas vistas ca&iacute;ram casualmente na parte da cama, que ficava<br \/>\n    do lado da parede. Sobre o alvo len&ccedil;ol, neste ponto n&atilde;o revolvido,<br \/>\n    viam-se marcas de p&eacute;s grosseiros, que indicavam pelos tra&ccedil;os<br \/>\n    negros, terem andado em ch&atilde;o imundo.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia mal pode descobrir esta indigna vis&atilde;o, sem cair ferida<br \/>\n    de vergonha e dor. Compreendeu toda a inf&acirc;mia de Bezerra. Diante de<br \/>\n    tal testemunho de ins&oacute;lita baixeza, nenhuma mulher se conservaria dentro<br \/>\n    dos limites da discri&ccedil;&atilde;o. Abriu a porta arrebatadamente e correu<br \/>\n    para a cozinha. Que ia fazer? Ela mesma n&atilde;o podia saber. A verdade,<br \/>\n    por&eacute;m, &eacute; que ela estava desvairada.<\/p>\n<p> Chegando ali encontrou Faustino.<\/p>\n<p> &#8211; Vosmec&ecirc; vem ralhar comigo, sinh&aacute; Dona Maur&iacute;cia, por<br \/>\n    eu estar brigando com Br&iacute;gida? &#8211; perguntou o moleque tanto que reconheceu<br \/>\n    pelo semblante de Maur&iacute;cia a c&oacute;lera que lhe ia na alma.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia nada disse. N&atilde;o podia falar. Tinha a voz presa por<br \/>\n    oculta garra.<\/p>\n<p> &#8211; Vosmec&ecirc; me perdoe &#8211; continuou o moleque em tom de humildade despeitosa.<br \/>\n    Eu queria muito bem a essa negra, mas ele me fez ontem uma s&oacute; me deu<br \/>\n    a vontade de a matar. Vosmec&ecirc; sabe que minha senhora prometeu que Br&iacute;gida<br \/>\n    havia de casar comigo. Mas de que serviu esta promessa? A negra botou as mangas<br \/>\n    de fora, e tem andado solta como as bestas do engenho, Ontem de noite, quando<br \/>\n    eu cheguei do Recife, onde tinha ido de tarde, por mandado de meu senhor,<br \/>\n    n&atilde;o achei Br&iacute;gida aqui. A porta do corredor, que vosmec&ecirc;<br \/>\n    costuma fechar todas as noites, estava aberta, H&aacute; muitos dias que eu<br \/>\n    andava suspeitando uma coisa muito feira. Por isso, deixei-me ficar na sala.<br \/>\n    De uma vez, ouvi abrir a porta do gabinete e apontar um vulto branco; fugi<br \/>\n    para o corredor para esperar por ele, supondo que era Br&iacute;gida; mas<br \/>\n    assim que fugi, o vulto foi outra vez meter-se no gabinete. N&atilde;o pude<br \/>\n    ter-me e corri at&eacute; l&aacute; a ver se dava com a negra; mas achei a<br \/>\n    porta trancada. N&atilde;o pude sair da sala. Estive a&iacute; at&eacute;<br \/>\n    amanhecer. Quando seu Bezerra abriu a porta da rua e saiu, eu, que estava<br \/>\n    detr&aacute;s da porta do corredor, via negra tomar da sala para a cozinha.<br \/>\n    &Eacute; por isso que eu estava ralhando com Br&iacute;gida.<\/p>\n<p> &#8211; E onde est&aacute; ela? &#8211; perguntou Maur&iacute;cia<br \/>\n    &#8211; Fugiu com medo de mim para a casa-grande.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia que duvidar. Os ind&iacute;cios acabavam de ter a mais<br \/>\n    cabal confirma&ccedil;&atilde;o. O torpe segredo estava j&aacute; nos dom&iacute;nios<br \/>\n    da cozinha. Se houvesse encontrado a negra, Maur&iacute;cia teria talvez praticado<br \/>\n    um desatino que n&atilde;o se compadecia com a sua &iacute;ndole e educa&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas, na aus&ecirc;ncia do objeto do seu &oacute;dio, do seu desprezo e da<br \/>\n    sua vingan&ccedil;a, ela n&atilde;o pode suster o pranto. Nunca se vira t&atilde;o<br \/>\n    aviltada aos seus olhos.<\/p>\n<p> &#8211; Vosmec&ecirc; n&atilde;o chore, que aquela negra n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de voltar mais aqui &#8211; disse o moleque.<\/p>\n<p> &#8211; E que tem que ela volte ou n&atilde;o, se j&aacute; aqui deixou a sua<br \/>\n    inf&acirc;mia? &#8211; respondeu Maur&iacute;cia. N&atilde;o te entriste&ccedil;as,<br \/>\n    Faustino. Vou contar tudo a D. Carolina, a fim de ver se ela p&otilde;e cobro<br \/>\n    &agrave; ousadia de Br&iacute;gida.<\/p>\n<p> &#8211; Vosmec&ecirc; pode contar &agrave; minha senhora o que se passou, mas<br \/>\n    eu nada tenho com isso, porque eu n&atilde;o quero mais saber de Br&iacute;gida.<br \/>\n    Ela para mim est&aacute; cortada.<\/p>\n<p> &#8211; Que est&aacute; dizendo?<br \/>\n    &#8211; &Eacute; o que digo a vosmec&ecirc;. Deus me livre de casar com uma negra<br \/>\n    t&atilde;o ruim. N&atilde;o faltam negras boas no engenho de meu senhor. Eu<br \/>\n    para mim n&atilde;o a quero nem de gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia encaminhou-se imediatamente para a casa-grande. Antecipando-se,<br \/>\n    Br&iacute;gida inutilizara toda a obra que a infeliz senhora devera levantar,<br \/>\n    sobre verdadeiros fundamentos, no esp&iacute;rito da senhora do engenho. N&atilde;o<br \/>\n    acreditou esta nas palavras de Maur&iacute;cia. Atribuiu tudo a ci&uacute;me,<br \/>\n    desculpando a negra, que, em seu conceito, segundo disse, era incapaz de tal<br \/>\n    procedimento; Sucedeu, ent&atilde;o, o que n&atilde;o &eacute; raro em tal<br \/>\n    caso, Maur&iacute;cia, que antes do casamento de Paulo com Virg&iacute;nia,<br \/>\n    era objeto de particulares aten&ccedil;&otilde;es, tanto que por tal casamento<br \/>\n    entrou nos la&ccedil;os da fam&iacute;lia, j&aacute; n&atilde;o merecia a<br \/>\n    mesma urbanidade. Descontente, procurou Albuquerque para desaforar no seio<br \/>\n    dele as novas afli&ccedil;&otilde;es e pedir-lhe provid&ecirc;ncias e conselhos.<br \/>\n    Que outros passos poderia dar, sentindo-se quase fora de si pela dor que lhe<br \/>\n    deixara o golpe inesperado e nefando?<br \/>\n    Albuquerque, depois de ouvir a sua narrativa sem lhe fazer a menor observa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    disse simplesmente em resposta.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o direi que a senhora n&atilde;o tem raz&atilde;o, D. Maur&iacute;cia,<br \/>\n    mas devo observar-lhe que as minhas crias de casa s&atilde;o muito moralizadas;<br \/>\n    e que at&eacute; agora nada me constou ainda de seu marido, que o fizesse<br \/>\n    descer do conceito que formo dele. A senhora pede-me provid&ecirc;ncias, mas<br \/>\n    que provid&ecirc;ncias posso dar, a n&atilde;o ser a de n&atilde;o consentir<br \/>\n    mais na continua&ccedil;&atilde;o de minha escrava em sua casa? Essa provid&ecirc;ncia<br \/>\n    tenha por certa, ainda que me pese priv&aacute;-la de quem lhe preste servi&ccedil;os<br \/>\n    dom&eacute;sticos, que a senhora n&atilde;o est&aacute; acostumada a praticar.<br \/>\n    Pelo que respeita aos conselhos, s&oacute; tenho uma judiciosa senten&ccedil;a<br \/>\n    que lhe lembrar; &eacute; a seguinte: a mulher, que d&aacute; o devido valor<br \/>\n    &agrave; sua honra, longe de por em pra&ccedil;a p&uacute;blica as fraquezas<br \/>\n    da sua casa, &eacute; a primeira que as encobre, ainda que da&iacute; resultem<br \/>\n    danos e desgra&ccedil;as.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia n&atilde;o pode dizer uma palavra diante desse procedimento<br \/>\n    t&atilde;o cru, e voltou decidida a n&atilde;o por mais os seus p&eacute;s<br \/>\n    na casa-grande. Reconheceu, ent&atilde;o, que estava s&oacute; em frente do<br \/>\n    seu infort&uacute;nio; s&oacute; como n&atilde;o se vira jamais! Muito cara<br \/>\n    lhe ia saindo a felicidade de sua filha. Teve por instantes o pensamento de<br \/>\n    acabar com os seus dias, mas faltou-lhe o &acirc;nimo que requer este passo<br \/>\n    extremo. Quando o funesto pensamento passou de todo, outro veio ocupar o seu<br \/>\n    lugar na imagina&ccedil;&atilde;o escaldada na infeliz v&iacute;tima &#8211; o de<br \/>\n    fugir para a companhia de &Acirc;ngelo; mas duas raz&otilde;es se opuseram<br \/>\n    a que t&atilde;o grava id&eacute;ia chegasse a realizar-se; em primeiro lugar,<br \/>\n    &Acirc;ngelo havia de votar-lhe agora, em vez do amor de outrora, &oacute;dio<br \/>\n    e desprezo, &uacute;nicos sentimentos, que o procedimento dela, resolvendo-se<br \/>\n    a voltar &agrave; vida conjugal, devera inspirar-lhe; em segundo lugar, repugnava<br \/>\n    ao seu car&aacute;ter e ao seu imenso amor procurar o bacharel como quem fugia<br \/>\n    covardemente de um grave passo na vida. A ocasi&atilde;o de levar a efeito<br \/>\n    a fugida tinha passado, Se esta se houvesse realizado no tempo pr&oacute;prio,<br \/>\n    ela teria chegado &agrave; casa de &Acirc;ngelo, como a primavera chega aos<br \/>\n    campos desolados, por entre flores e gra&ccedil;as; seria objeto de adora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    espont&acirc;nea e grata; pequena, se fosse aferida pelo dever, mostrar-se-ia<br \/>\n    de grandeza descomunal na medida da paix&atilde;o de que ela era &iacute;dolo<br \/>\n    sobrenatural, a quem o jovem bacharel queimaria, ent&atilde;o, o melhor incenso<br \/>\n    do seu afeto. Agora, por&eacute;m, era tudo muito diferente. Ela pr&oacute;pria<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o tinha no rosto as gra&ccedil;as que tanto havia imposto<br \/>\n    a &Acirc;ngelo o culto da beleza. Os olhos estavam amortecidos, as faces estavam<br \/>\n    crestadas do continuado pranto. N&atilde;o eram j&aacute; os mesmos encantos<br \/>\n    que davam a sua conserva&ccedil;&atilde;o particular valor. A sua voz desaprendera<br \/>\n    grande parte dos delicados segredos que traziam o bacharel rendido aos seus<br \/>\n    p&eacute;s; havia quase dois meses que ela n&atilde;o vivia para o mundo da<br \/>\n    arte, que, ali&aacute;s, tanto a cativara nos tempos da sua maior liberdade.<br \/>\n    O piano mudo; as m&uacute;sicas debaixo de uma crosta de p&oacute; sobre uma<br \/>\n    mesa ao canto da sala; os livros trancados na pequena estante, e nenhum ao<br \/>\n    seu lado, ou ao alcance da sua m&atilde;o, testemunhavam que lhe entrara na<br \/>\n    vida outro sistema, outro regime inteiramente oposto ao que dera conveniente<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o aos seus dotes naturais, e criara nela o gosto pelas<br \/>\n    coisas do esp&iacute;rito, que a suas inclina&ccedil;&otilde;es tornaram de<br \/>\n    f&aacute;cil aquisi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia sentou-se numa poltrona no gabinete, onde passara a noite.<br \/>\n    Combalida de tantas impress&otilde;es, o cansa&ccedil;o e a luta interior<br \/>\n    puderam vence-la, quando ela mais se preparava para refletir sobre a gravidade<br \/>\n    da conjuntura atual. Adormeceu ali mesmo.<\/p>\n<p> Uma cena curiosa representava-se nesse momento &agrave; beira do rio, que<br \/>\n    banha a povoa&ccedil;&atilde;o de Caxang&aacute;, e Paulo era dela espectador<br \/>\n    mudo e abalado.<\/p>\n<p> Deixando os negros no servi&ccedil;o, fora ele tomar banho &agrave; sombra<br \/>\n    de umas &aacute;rvores copadas, juntos das quais passava o rio. O ponto era<br \/>\n    inteiramente ermo. &Agrave; direita, morriam os canaviais e &agrave; esquerda<br \/>\n    estendia-se um capinzal vasto. Corriam pelo meio as &aacute;guas, deixando<br \/>\n    do lado do engenho, entre elas e as &uacute;ltimas touceiras de cana, uma<br \/>\n    pano de &aacute;rea descoberto; lambiam as ra&iacute;zes salientes do arvoredo;<br \/>\n    e desapareciam obra de cem passos adiante por baixo de uma vegeta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aqu&aacute;tica muito cruzada e basta, que se confundia no capinzal.<\/p>\n<p> Antes de descobrir a natural banheira formada pelo rio, Paulo ouviu o ru&iacute;do<br \/>\n    de vozes e o ressoar de risos esgani&ccedil;ados, que n&atilde;o lhe pareceram<br \/>\n    de todo estranhos. A natural curiosidade o fez cauteloso. Abaixou-se algum<br \/>\n    tanto, e por entre as folhas das canas descobriu o ponto donde vinham tais<br \/>\n    rumores. Eis o que viu. Estavam dentro da &aacute;gua um homem e uma mulher.<br \/>\n    Brincavam, riam-se, mergulhavam e davam cambap&eacute;s estrepitosos. Quando<br \/>\n    a mulher gritava com mais for&ccedil;a, ou fazia nas &aacute;guas mais barulhos,<br \/>\n    o homem recomendava-lhe modera&ccedil;&atilde;o e sil&ecirc;ncio; mas n&atilde;o<br \/>\n    tinham essas recomenda&ccedil;&otilde;es a menor import&acirc;ncia para ela,<br \/>\n    que prosseguia com os seus movimentos agitados e aumentava o diapas&atilde;o<br \/>\n    das suas vozes.<\/p>\n<p> Do lugar onde estava, n&atilde;o pode Paulo saber quem eram os desconhecidos.<br \/>\n    As &aacute;rvores cobriam com sombras todo o &acirc;mbito das &aacute;guas<br \/>\n    onde eles procediam &agrave;queles violentos exerc&iacute;cios, e a dist&acirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o era pequena. Paulo, entretanto, come&ccedil;ou a sentir maior curiosidade<br \/>\n    em reconhec&ecirc;-los. Por ali perto, n&atilde;o se apontavam moradores,<br \/>\n    e at&eacute; lhe pareceu digno de nota que tais pessoas, n&atilde;o sendo<br \/>\n    da redondeza, soubessem que havia essa banheira s&oacute; conhecida da gente<br \/>\n    do engenho ou de quem tinha a liberdade de atravessar os canaviais e as lavouras.<br \/>\n    Mas ao mesmo tempo que desejava conhecer os folgaz&otilde;es, o seu natural<br \/>\n    pudor vedava-lhe empregar os meios mais prontos para chegar a este conhecimento.<br \/>\n    Pensava j&aacute; em voltar, quando um ru&iacute;do mais forte e uma gargalhada<br \/>\n    mais vibrante chamaram novamente a sua aten&ccedil;&atilde;o para a banheira.<br \/>\n    Fora o caso que a mulher correra de destro das &aacute;guas para fora em busca<br \/>\n    do pano de areia, que vinha morrer poucos passos diante do ponto onde ele<br \/>\n    estava oculto. A mulher, correndo, parando, tornando a correr e olhando para<br \/>\n    tr&aacute;s, atravessou todo o espa&ccedil;o que havia descoberto. Paulo viu-a,<br \/>\n    em toda a nudez natural, de frente para ele; e logo que, saindo da sombra,<br \/>\n    a luz do sol pode cair em cheio em cima dela, reconheceu a Janoca. O espanto,<br \/>\n    a que esta vis&atilde;o deu lugar em seu esp&iacute;rito, subiu de ponto,<br \/>\n    quando ele ouviu a homem chamar por ela em voz mais elevada. Era a voz de<br \/>\n    Bezerra.<\/p>\n<p> &#8211; Sai da&iacute;; volta &#8211; disse Bezerra. Olha que pode vir gente.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; que tem? &#8211; retorquiu a mesti&ccedil;a com disfarce impudente.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o quero; n&atilde;o quero que algu&eacute;m te veja.<\/p>\n<p> &#8211; Quero eu.<\/p>\n<p> &#8211; Volta, Janoca.<\/p>\n<p> &#8211; Venha voc&ecirc; buscar-me. Tenho j&aacute; frio e o sol est&aacute; muito<br \/>\n    bom.<\/p>\n<p> E a mesti&ccedil;a estendeu-se a fio comprido na areia.<\/p>\n<p> Paulo teve, ent&atilde;o, ocasi&atilde;o de observar as formas que ele nem<br \/>\n    sequer imaginara nunca. A sua primeira impress&atilde;o, vendo a rapariga<br \/>\n    correr para a banda dele, fora fugir, desaparecer; mas a novidade e o esc&acirc;ndalo<br \/>\n    puderam mais que o escr&uacute;pulo do rapaz, posto que educado nas li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de s&atilde; moralidade.<\/p>\n<p> &#8211; Se n&atilde;o vier buscar-me, n&atilde;o voltarei t&atilde;o cedo &#8211; prosseguiu<br \/>\n    a mesti&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Deixa-te disso; vem. Se eu for l&aacute;, hei de trazer-te arrastada pelos<br \/>\n    cabelos.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o v&ecirc;! Os meus cabelos s&atilde;o as suas pris&otilde;es.<br \/>\n    Sua mulher h&aacute; de ter inveja deles. N&atilde;o tem?<br \/>\n    &#8211; Vem, diabo! &#8211; tornou Bezerra contrariado.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; isto? Est&aacute; com raiva porque falei na sua mulher? Bonito<br \/>\n    que voc&ecirc; &eacute;! A sua mulher sou eu.<\/p>\n<p> &#8211; Pois sim, &eacute;s tu mesma; mas o que eu quero &eacute; que saias da&iacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Eu n&atilde;o. Est&aacute; com ci&uacute;mes? Cuidar&aacute;s que algu&eacute;m,<br \/>\n    vendo-me nua, vai tirar-me do seu poder?<br \/>\n    &#8211; Deixa-te de asneiras, e n&atilde;o me metas raiva.<\/p>\n<p> Dizendo estas palavras, Bezerra correu da &aacute;gua para a margem, onde<br \/>\n    a rapariga se espojava, ora encolhendo, ora estirando as pernas. Vinha resoluto<br \/>\n    a lev&aacute;-la por for&ccedil;a, mas quando entre ele e ela n&atilde;o se<br \/>\n    interpunham mais de dez passos, Janoca, por diabrura, encheu a m&atilde;o<br \/>\n    de areia e atirou-lhe sobre a cara, acompanhando este movimento de c&iacute;nica<br \/>\n    e estrepitosa risada. Bezerra deu um grito, sobresteve um momento com as m&atilde;os<br \/>\n    no rosto, e depois voltou ao rio. A areia ca&iacute;ra-lhe nos olhos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, Janoca levantou-se rapidamente e correu ap&oacute;s ele.<\/p>\n<p> &#8211; Caiu-lhe nos olhos a areia, meu benzinho? &#8211; perguntou com voz sentida.<br \/>\n    Coitado do meu marido!<br \/>\n    E foi ela que arrastou Bezerra para dentro da &aacute;gua, onde, abra&ccedil;ando-o<br \/>\n    e dando-lhe beijos, come&ccedil;ou a banhar-lhe o rosto e a pedir-lhe perd&otilde;es<br \/>\n    ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> Paulo aproveitou-se deste acidente para retirar-se do lugar, onde o acaso<br \/>\n    acabava de dar-lhe t&atilde;o nojento e infame espet&aacute;culo. Estava maravilhado.<br \/>\n    A impud&ecirc;ncia e a nudez haviam deixado em seu esp&iacute;rito estranha<br \/>\n    impress&atilde;o de assombro. Pensou logo em Maur&iacute;cia, que ele tinha<br \/>\n    em conta de sua segunda m&atilde;e. &quot;Quanto n&atilde;o deve ter ela padecido?<br \/>\n    &#8211; disse ele consigo. Agora acredito em todas as suas palavras; quem pratica<br \/>\n    o que acaba de praticar esse homem &eacute; capaz de todas as vilezas&quot;.<br \/>\n    Paulo sentiu tamanha pena que, dados alguns passos, parou de novo e p&ocirc;s-se<br \/>\n    a pensar no que testemunhara. A estranha vis&atilde;o apresentou-se-lhe outra<br \/>\n    vez diante dos olhos escandalizados, em tintas t&atilde;o vivas como a realidade.<br \/>\n    &quot;Oh, nunca supus que ele tivesse coragem para semelhante procedimento!&quot;<br \/>\n    Voltou esse dia mais cedo do servi&ccedil;o. Tinha pressa de ver Maur&iacute;cia.<br \/>\n    Quanto mais reconhecia a sua desgra&ccedil;a, mais se sentia na obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ir em socorro da infeliz senhora. Nada lhe revelaria do que vira, mas trataria<br \/>\n    de cortar as rela&ccedil;&otilde;es criminosas que Bezerra e a mesti&ccedil;a<br \/>\n    mantinham. &quot;Ela se sacrificou por mim; eu tenho o dever de lhe tornar<br \/>\n    o mais suave que puder o sacrif&iacute;cio. Essa infame rapariga n&atilde;o<br \/>\n    pode continuar nesse lugar. H&aacute; de sair daqui dentro do mais breve tempo<br \/>\n    que for poss&iacute;vel.! E formou logo sua resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Chegando ao engenho, antes da hora costumada, Virg&iacute;nia fez-lhe mil<br \/>\n    indaga&ccedil;&otilde;es para saber a causa desta altera&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    Paulo respondeu-lhe que se sentira indisposto. Deixando a mulher em seu aposento,<br \/>\n    dirigiu-se &agrave; sala onde D. Carolina se demorava a maior parte do dia.<br \/>\n    Queria contar o que vira &agrave; sua m&atilde;e e pedir-lhe que o aconselhasse;<br \/>\n    mas antes de fazer qualquer revela&ccedil;&atilde;o, D. Carolina come&ccedil;ou<br \/>\n    a relatar-lhe o que se passara naquela manh&atilde; entre ela e Maur&iacute;cia.<br \/>\n    Em sua opini&atilde;o, Maur&iacute;cia criava fantasmas para desacreditar<br \/>\n    o marido, que n&atilde;o era t&atilde;o mau como dizia. Ent&atilde;o, Paulo<br \/>\n    referiu tudo: Maur&iacute;cia tinha carradas de raz&atilde;o. Ele pr&oacute;prio<br \/>\n    fora testemunha da cena mais aviltante que se pode imaginar para um homem<br \/>\n    casado. D. Carolina ouvindo estas atrozes revela&ccedil;&otilde;es, mostrou-se<br \/>\n    ao princ&iacute;pio incr&eacute;dula; mas, depois, for&ccedil;oso foi ter<br \/>\n    por certas as palavras do filho. Paulo estava triste e indignado e os seus<br \/>\n    sentimentos eram comunicativos. Sabendo que Maur&iacute;cia voltara desgostosa,<br \/>\n    convidou sua m&atilde;e para ir com ele e Virg&iacute;nia aquela tarde busc&aacute;-la<br \/>\n    para tomar ch&aacute; no engenho. Conhecia quanto Maur&iacute;cia era melindrosa.<br \/>\n    &quot;Se minha m&atilde;e n&atilde;o for l&aacute;, D. Maur&iacute;cia nunca<br \/>\n    mais tornar&aacute; a esta casa&quot;.<\/p>\n<p> Ficou assentado que haviam de ir depois do jantar.<\/p>\n<h2><a name=\"14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/h2>\n<p>Maur&iacute;cia despertou, seriam cinco horas da tarde, ao estrondo produzido<br \/>\n    por fortes pancadas na porta do gabinete. Olhando por a&iacute;, viu Bezerra,<br \/>\n    que arrancava a fechadura, tendo em uma das m&atilde;os um escopro e na outra<br \/>\n    um martelo. Lan&ccedil;ando as vistas &agrave; alcova fronteira, viu mais<br \/>\n    que &agrave; porta se substitu&iacute;ra um reposteiro de pano verde, em cujo<br \/>\n    centro se mostrava a palavra &#8211; Toilette &#8211; feita de letras amarelas.<\/p>\n<p> &#8211; Que quer dizer isso? &#8211; inquiriu espantada, apontando de p&eacute; para<br \/>\n    a alcova.<\/p>\n<p> &#8211; Quer dizer, Maur&iacute;cia, que eu resolvi dar &agrave; minha casa o<br \/>\n    tom de uma casa de baile. Isto n&atilde;o lhe pode ser desagrad&aacute;vel,<br \/>\n    visto que ningu&eacute;m ainda teve mais do que a senhora o gosto delicado,<br \/>\n    que se aprende em Paris.<\/p>\n<p> Passada a primeira impress&atilde;o que lhe deixava o remoque do marido,<br \/>\n    Maur&iacute;cia sentou-se e disse-lhe:<br \/>\n    &#8211; O senhor fez isso para se vingar do que eu pratiquei ontem?<br \/>\n    Bezerra aproximou-se da mulher, e tornou-lhe em resposta:<br \/>\n    &#8211; E julga a senhora ter praticado uma bonita a&ccedil;&atilde;o para o seu<br \/>\n    marido?<br \/>\n    &#8211; Ao homem que fosse verdadeiramente meu marido eu certo n&atilde;o faria<br \/>\n    o que fiz; mas o senhor, n&atilde;o obstante dizer-se tal, pode acaso julgar-se<br \/>\n    com direito a procedimento diverso?<br \/>\n    &#8211; Maur&iacute;cia, voc&ecirc; anda iludida. Sup&otilde;e que os homens se<br \/>\n    devem equiparar &agrave;s mulheres. Entende que os deveres e os direitos da<br \/>\n    mulher s&atilde;o id&ecirc;nticos aos do marido. Ignora que o pecado mortal<br \/>\n    para a mulher n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o culpa venial para o homem.<br \/>\n    Estranha que os maridos tenham liberdade ampla em suas a&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e as mulheres s&oacute; a tenham muito reduzida. Ora, tudo isto s&atilde;o<br \/>\n    erros, Maur&iacute;cia! Aceite a sociedade, Maur&iacute;cia, como &eacute;.<br \/>\n    Se n&atilde;o lhe agrada esta constitui&ccedil;&atilde;o social, tenha paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    resigne-se. Nenhuma outra ser&aacute; poss&iacute;vel, sen&atilde;o passados<br \/>\n    muitos tempos, e revolvida a atual sociedade desde as suas ra&iacute;zes.<br \/>\n    Que preju&iacute;zo lhe causo com os meus pequeninos passatempos?<br \/>\n    &#8211; A mim n&atilde;o me causa nenhum preju&iacute;zo, senhor, o que me causa<br \/>\n    &eacute; vergonha. Este sentimento &eacute; insepar&aacute;vel de toda mulher<br \/>\n    que, posto educada em Paris, de pequena se afez a ver a maior moralidade no<br \/>\n    lar dos seus pais, e receber dos seus mestres li&ccedil;&otilde;es inspiradas<br \/>\n    em tal sentimento, base da fam&iacute;lia nos tempos felizes, e o seu esteio,<br \/>\n    que a impede de vir &agrave; terra, quando sopra o furac&atilde;o dos contratempos.<br \/>\n    A vergonha &eacute; insepar&aacute;vel dos meus olhos, porque eu nunca vi<br \/>\n    na casa paterna, nunca vi na casa do meu protetor as lastimosas e indignas<br \/>\n    cenas que o senhor representou em minha casa nos primeiros anos do meu casamento,<br \/>\n    e agora reproduz depois de empregar os maiores esfor&ccedil;os a fim de que<br \/>\n    eu voltasse para a sua companhia. Priva-me da porta do meu quarto, &uacute;nico<br \/>\n    meio, que me restava, de cobrir-me contra os seus insultos grosseiros, de<br \/>\n    resguardar os meus melindres ofendidos por seus ignominiosos amores de palho&ccedil;a<br \/>\n    e de cozinha!<br \/>\n    Espantado, sen&atilde;o atemorizado desta r&aacute;pida s&iacute;ntese de<br \/>\n    suas vilezas, que Maur&iacute;cia fizera com a mesma mobilidade meridional,<br \/>\n    onde a sua linguagem afetiva deparava raros atavios e encantos, Bezerra, que,<br \/>\n    ao princ&iacute;pio julgara esmag&aacute;-la com sua hostilidade c&iacute;nica,<br \/>\n    sobresteve entre o receio de perder a vasa e a dificuldade de a n&atilde;o<br \/>\n    fazer brava. Quis interromper Maur&iacute;cia com algumas palavras de dureza,<br \/>\n    mas ela, ou porque estava cheia de raz&atilde;o, ou porque a sua exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lhe n&atilde;o dava lugar a atender sen&atilde;o &agrave; sua grande dor,<br \/>\n    prosseguiu com a mesma veem&ecirc;ncia que tivera at&eacute; a&iacute;:<br \/>\n    &#8211; Cumpre absolutamente que de uma vez nos entendamos sobre o melhor modo de<br \/>\n    carregar a pesada cruz de um casamento desigual. Estou por tudo, menos pelo<br \/>\n    aviltamento. Por que procede t&atilde;o vilmente comigo?<br \/>\n    Bezerra sorriu cinicamente, e respondeu em termos ign&oacute;beis.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, Maur&iacute;cia ergueu-se arrebatadamente, mostrando no gesto<br \/>\n    ind&iacute;cio de entranhada indigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Se o senhor tem este direito, igual devo ter eu. Mas n&atilde;o! &#8211; acudiu<br \/>\n    imediatamente. Ainda que mo assegurassem&#8230;<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia n&atilde;o pode concluir a frase. Bezerra, de p&eacute;<br \/>\n    ao lado dela, amea&ccedil;ava despeda&ccedil;ar-lhe a cabe&ccedil;a com o<br \/>\n    martelo que tinha na m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; A senhora n&atilde;o sabe o que disse. Quer fazer de mim um assassino?<br \/>\n    Maur&iacute;cia retorquiu sem se acovardar:<br \/>\n    &#8211; Assassino j&aacute; &eacute; o senhor, assassino do meu modesto e inofensivo<br \/>\n    sossego; pode bem assassinar-me agora.<\/p>\n<p> As l&aacute;grimas saltaram com veem&ecirc;ncia dos olhos de Maur&iacute;cia<br \/>\n    que se sentara novamente.<\/p>\n<p> Bezerra ainda estava de p&eacute; em posi&ccedil;&atilde;o hostil, quando<br \/>\n    se ouviu na sala ru&iacute;do de passos na banda de fora. N&atilde;o passou<br \/>\n    um minuto que a voz de Virg&iacute;nia ecoou na porta:<br \/>\n    &#8211; D&aacute; licen&ccedil;a, mam&atilde;e? Aqui est&aacute; Sinhazinha, que<br \/>\n    vem passar com a senhora esta semana.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia enxugou as l&aacute;grimas rapidamente, enquanto Bezerra,<br \/>\n    sentindo-se enfraquecer, n&atilde;o deu um passo, n&atilde;o disse uma palavra<br \/>\n    sequer.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s Virg&iacute;nia, entraram Sinhazinha, D. Carolina e Paulo. Sinhazinha<br \/>\n    correu para Maur&iacute;cia, abra&ccedil;ou-a e cobriu-lhe as faces de beijos.<br \/>\n    Havia alguns meses que n&atilde;o a via, e estava muito saudosa.<\/p>\n<p> Dando com os olhos no reposteiro, Virg&iacute;nia n&atilde;o pode suster<br \/>\n    um gracejo?<br \/>\n    &#8211; Bravo, mam&atilde;e! Em honra de quem &eacute; a partida?<br \/>\n    &#8211; Em honra de Sinhazinha, Virg&iacute;nia &#8211; respondeu Maur&iacute;cia, tentando<br \/>\n    sorrir-se, mas em v&atilde;o. Tinha a noite no esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Entretanto, Paulo chegara-se a Bezerra, que se encaminhara para o quarto.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; que tempo n&atilde;o nos vemos, D. Maur&iacute;cia! &#8211; disse<br \/>\n    Sinhazinha. E como est&aacute; mudada a senhora!<br \/>\n    &#8211; Acha-me muito mudada? H&aacute; de ser assim mesmo. Por que n&atilde;o veio<br \/>\n    ao casamento de Virg&iacute;nia? &#8211; perguntou-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o pude, mas aqui estou para lhe dar os parab&eacute;ns e mil<br \/>\n    beijos.<\/p>\n<p> E as duas mo&ccedil;as abra&ccedil;aram-se e beijaram-se graciosa e ternamente.<\/p>\n<p> &#8211; Passar&aacute; comigo n&atilde;o uma semana, Sinhazinha, mas um m&ecirc;s,<br \/>\n    disse Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> E, como quem tivera um pensamento repentino, chamou Paulo.<\/p>\n<p> &#8211; Eu estava mesmo precisando de voc&ecirc;, Paulo. Olhe: pergunte a meu<br \/>\n    marido onde p&ocirc;s a porta que ele tirou de meu quarto, e coloque-a outra<br \/>\n    vez no seu lugar. Fica o reposteiro assim como est&aacute;. Quero que voc&ecirc;<br \/>\n    trate disso sem demora, que Sinhazinha dormir&aacute; nessa alcova comigo.<\/p>\n<p> Estava neste ponto a conversa&ccedil;&atilde;o, quando se apresentou um<br \/>\n    moleque que viera chamar Bezerra da parte de Albuquerque. Eis a causa do chamado.<\/p>\n<p> Ouvindo grande vozerio na meia-&aacute;gua, Albuquerque pusera o chap&eacute;u<br \/>\n    de palha do Chile na cabe&ccedil;a, pegara do varapau de quiri, que nunca<br \/>\n    o desacompanhava em suas digress&otilde;es pelas lavouras, e encaminhara-se<br \/>\n    para o lugar, onde se estava dando o barulho.<\/p>\n<p> Fora este travado entre Br&iacute;gida e Janu&aacute;ria. Havia outras lavadeiras<br \/>\n    presentes, assim como escravas, como moradores do engenho; mas umas e outras<br \/>\n    continuaram a bater sua roupa sem volver vistas &agrave;s briosas.<\/p>\n<p> &#8211; Quero saber o motivo desta briga &#8211; inquiriu o senhor de engenho em tom<br \/>\n    senhoril e arrogante.<\/p>\n<p> E porque o sil&ecirc;ncio foi a &uacute;nica resposta que ainda teve desta<br \/>\n    vez, Albuquerque amea&ccedil;ou Br&iacute;gida de a mandar a&ccedil;oitar<br \/>\n    no carro, e Janu&aacute;ria de expuls&aacute;-la das suas terras depois de<br \/>\n    lhe por a casa abaixo.<\/p>\n<p> A esta voz, a cabocla aproximou-se de Albuquerque e contou-lhe tudo em poucas<br \/>\n    palavras, que a dec&ecirc;ncia ordena que n&atilde;o sejam reproduzidas.<\/p>\n<p> Albuquerque voltou possu&iacute;do de estranha como&ccedil;&atilde;o. Os<br \/>\n    olhos se lhe encovaram dentro de poucos momentos, as cores fugiram-lhe da<br \/>\n    face que ordinariamente pareciam verter sangue.<\/p>\n<p> No mesmo instante, mandou chamar Bezerra.<\/p>\n<p> &#8211; Acabo de ter uma prova &#8211; disse Albuquerque logo que Bezerra penetrou na<br \/>\n    sala &#8211; de que o senhor &eacute; indigno, j&aacute; n&atilde;o digo do interesse<br \/>\n    que tomei em melhorar as suas condi&ccedil;&otilde;es, mas de transpor aquela<br \/>\n    porta, a n&atilde;o ser para sair e n&atilde;o voltar mais. Arranquei-o do<br \/>\n    leito da morte, ou antes da enxerga da mis&eacute;ria. Restitui-lhe a fam&iacute;lia,<br \/>\n    que nunca mais o senhor havia de ter. Dei-lhe um emprego em minha casa. Enfim,<br \/>\n    fiz do senhor gente. Vejo agora que empreguei mal o meu tempo, os meus esfor&ccedil;os<br \/>\n    e a minha prote&ccedil;&atilde;o. D. Maur&iacute;cia &#8211; acredito-o agora &#8211;<br \/>\n    foi uma v&iacute;tima de suas baixezas. Est&aacute; justificada aos meus olhos.<br \/>\n    Eu, por&eacute;m, considero-me agora na obriga&ccedil;&atilde;o de lhe dar<br \/>\n    plena satisfa&ccedil;&atilde;o, e de lhe provar que fazia do senhor ju&iacute;zo<br \/>\n    muito superior as suas qualidades. Por isso, exijo que se retire do meu engenho<br \/>\n    dentro de vinte e quatro horas. Tem aqui um dinheiro &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Saia inesperadamente. como inesperadamente entrou por aqui adentro. Com este<br \/>\n    procedimento me dar&aacute; plena quita&ccedil;&atilde;o do que me deve.<\/p>\n<p> Albuquerque tirou de uma gaveta algumas c&eacute;dulas que p&ocirc;s sobre<br \/>\n    a mesa do lado de Bezerra. Este n&atilde;o acusou ningu&eacute;m. Longe de<br \/>\n    negar o que lhe fora imputado, pediu perd&atilde;o a Albuquerque, que n&atilde;o<br \/>\n    lhe respondeu sen&atilde;o com desprezo. Ent&atilde;o, Bezerra, passados alguns<br \/>\n    momentos, fez a Albuquerque um cumprimento e saiu. Grande preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o tomava. &Agrave; noite, n&atilde;o apareceu para o ch&aacute;. Virg&iacute;nia,<br \/>\n    que tudo ignorava, estranhando a aus&ecirc;ncia do pai, mostrou-se muito sobressaltada.<br \/>\n    Pela manh&atilde; bem cedo, mandou saber se lhe acontecera algum desastre.<br \/>\n    Maur&iacute;cia estava, de certo modo, aflita. Bezerra n&atilde;o foi encontrado<br \/>\n    em parte nenhuma. Seus ba&uacute;s tinham desaparecido. Dias depois, soube-se<br \/>\n    de tudo pelo menor. Ele fugira, levando em sua companhia a mesti&ccedil;a.<\/p>\n<h2><a name=\"15\">Cap\u00edtulo XV<\/a><\/h2>\n<p>Sinhazinha viera do Recife com um irm&atilde;o que voltou logo depois de<br \/>\n    a deixar na casa-grande. N&atilde;o podendo assistir ao casamento de Virg&iacute;nia,<br \/>\n    sua particular amiga, resolvera, tanto que lhe foi poss&iacute;vel, visit&aacute;-la,<br \/>\n    passar com ela oito dias, segundo dissera a menina por ocasi&atilde;o de entrar<br \/>\n    em casa de Maur&iacute;cia. Este fim ostensivo da sua vinda era acompanhado<br \/>\n    de outro fim oculto que particularmente lhe dizia respeito, e que a continua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desta narrativa h&aacute; de por patente aos olhos do leitor.<\/p>\n<p> Com a aus&ecirc;ncia de Bezerra, vieram Paulo e Virg&iacute;nia fazer companhia<br \/>\n    a Maur&iacute;cia. Foi esta uma das melhores fases da sua vida e ela n&atilde;o<br \/>\n    o ocultava. Paulo sa&iacute;a para o servi&ccedil;o, e as tr&ecirc;s senhoras<br \/>\n    entremeavam a sua costura com toques e cantos. O piano abriu-se de novo, sacudiu-se<br \/>\n    o p&oacute; das m&uacute;sicas. &Agrave;s vezes era a leitura de um livro<br \/>\n    importante, j&aacute; conhecido de Maur&iacute;cia e Virg&iacute;nia, mas<br \/>\n    n&atilde;o da sua h&oacute;speda que as reunia no gabinete, durante a primeira<br \/>\n    parte do dia. Ordinariamente era Virg&iacute;nia a encarregada de proceder<br \/>\n    &agrave; leitura, encargo que ela preenchia com a habilidade de gra&ccedil;a<br \/>\n    que lhe davam lugar t&atilde;o distinto no seio da fam&iacute;lia. Depois<br \/>\n    de jantar, sa&iacute;am a passeio pelo cercado e n&atilde;o paravam sen&atilde;o<br \/>\n    na casa-grande, onde Paulo se lhes fazia juntar, e com elas se demorava at&eacute;<br \/>\n    tomarem ch&aacute;.<\/p>\n<p> Fazia j&aacute; doze dias que Bezerra se ausentara, quando Sinhazinha entendeu<br \/>\n    que era chegada a ocasi&atilde;o de dizer a Maur&iacute;cia o que especialmente<br \/>\n    a tinha levado ao engenho. Para realizar este pensamento, aproveitou-se de<br \/>\n    uma manh&atilde; em que Virg&iacute;nia fora &agrave; casa-grande a chamado<br \/>\n    de D. Carolina a fim de lhe cortar uns vestidos. Sinhazinha amanhecera nesse<br \/>\n    dia mais pesarosa do que ordinariamente se mostrava todas as manh&atilde;s.<br \/>\n    Chegou-se para junto de Maur&iacute;cia, que nesse momento tinha um papel<br \/>\n    de m&uacute;sica na m&atilde;o e se encaminhava para o piano.<\/p>\n<p> &#8211; Faz tanto tempo que estou aqui &#8211; disse ela &#8211; e ainda a senhora n&atilde;o<br \/>\n    se lembrou de pedir not&iacute;cias do Dr. &Acirc;ngelo, que era t&atilde;o<br \/>\n    amigo desta casa.<\/p>\n<p> Ouvindo estas palavras que lhe desceram improvisas no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Maur&iacute;cia sobresteve inopinadamente. O nome do bacharel soava sempre<br \/>\n    aos seus ouvidos como uma nota de harmonia misteriosa e terr&iacute;vel que<br \/>\n    primeiro lhe penetrava na alma do que nos sentidos.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, Sinhazinha &#8211; respondeu. Que novas me d&aacute; dele?<br \/>\n    E foi sentar-se ao lado da amiga no sof&aacute;, atra&iacute;da pelo assunto<br \/>\n    que lhe oferecia indiz&iacute;vel encanto.<\/p>\n<p> Sinhazinha que, como todos, ignorava as rela&ccedil;&otilde;es que &Acirc;ngelo<br \/>\n    e Maur&iacute;cia tinham por alguns dias sustentado com a maior das lutas<br \/>\n    para esta e o maior dos prazeres para aquele, n&atilde;o guardou a menor reserva<br \/>\n    nas suas revela&ccedil;&otilde;es. Era muito jovem ainda e tinha a maior confian&ccedil;a<br \/>\n    na m&atilde;e de Virg&iacute;nia &agrave; qual se sentia presa por la&ccedil;os<br \/>\n    de irresist&iacute;vel simpatia e admira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Contou que &Acirc;ngelo estava morando com a m&atilde;e e os irm&atilde;os<br \/>\n    em casa da tia; que nos primeiros tempos depois da chegada andara triste e<br \/>\n    desalentado; que cobrara t&eacute;dio, &agrave; vida, segundo lhe parecia<br \/>\n    a ela, e emagrecera e se tornara pensativo e reservado; que raras vezes surdia<br \/>\n    pela casa de Martins.<\/p>\n<p> &#8211; Nunca se lhe ofereceu a voc&ecirc; ocasi&atilde;o de lhe falar, Sinhazinha?<br \/>\n    &#8211; perguntou Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; Isto foi nos primeiros tempos depois que chegou a povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como j&aacute; disse. Uma tarde, estava eu no port&atilde;o sem mam&atilde;e,<br \/>\n    quando vi o Dr. &Acirc;ngelo apontar na estrada. Quando eu cuidava que ele<br \/>\n    ia entrar no s&iacute;tio do Sr. Martins, encaminhou-se para o ponto, onde<br \/>\n    me vira. Falou-me, perguntou-me por mam&atilde;e e seguiu logo depois. Estava<br \/>\n    melanc&oacute;lico. O luto, que trazia pela morte do pai, contrastava com<br \/>\n    a sua palidez. Na tarde seguinte, ele passou outra vez &agrave; mesma hora<br \/>\n    e falou comigo. Quis entrar, mas depois desculpou-se dizendo que se equivocara,<br \/>\n    e tomou para a casa de D. Eug&ecirc;nia. &Agrave; noite, eu e mam&atilde;e<br \/>\n    nos reunimos a&iacute;. O Dr. &Acirc;ngelo ainda l&aacute; estava. Seriam<br \/>\n    onze horas quando sa&iacute;mos. N&atilde;o pude dormir. A imagem do Dr. &Acirc;ngelo<br \/>\n    ocupava todo o meu entendimento. Eu notara da parte dele certa inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para mim que se casava com a que eu sentia por ele desde que comecei a conhec&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia n&atilde;o pode suster uma interroga&ccedil;&atilde;o, metade<br \/>\n    exprobra&ccedil;&atilde;o, metade surpresa que lhe viera &agrave; alma.<\/p>\n<p> &#8211; Que est&aacute; dizendo, Sinh&aacute;zinha?!<br \/>\n    E com o olhar inflamado cobriu o rosto da menina, como quem queria de um jato<br \/>\n    de luz iluminar-lhe, n&atilde;o o rosto, mas sim os recantos de seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e descobrir-lhe os segredos que a inoc&ecirc;ncia e a pudic&iacute;cia da<br \/>\n    primeira mocidade n&atilde;o permitiam subir aos l&aacute;bios dela para se<br \/>\n    revelarem ainda que fosse a uma amiga.<\/p>\n<p> Sinhazinha prosseguiu:<br \/>\n    &#8211; Eu n&atilde;o me enganara, D. Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se enganara! &#8211; exclamou Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o, D. Maur&iacute;cia. O Dr. &Acirc;ngelo come&ccedil;ava<br \/>\n    a amar-me, e eu&#8230; eu de h&aacute; muito que o amava.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia esteve um momento sem saber o que dizer. Faltou-lhe a voz.<br \/>\n    Seus olhos fixos sobre o rosto da mo&ccedil;a tinham a imobilidade dos olhos<br \/>\n    dos finados; mas, quando era esta a express&atilde;o exterior do seu rosto,<br \/>\n    sentia ela no c&eacute;rebro o torvelinho e o fogo precursores da loucura.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! N&atilde;o imagina como fui feliz durante os dois primeiros meses<br \/>\n    do meu malfadado amor!<br \/>\n    &#8211; Malfadado? &#8211; inquiriu Maur&iacute;cia, respirando como quem apartava de<br \/>\n    seu peito um peso que amea&ccedil;ava sufoc&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; Eu lhe contarei tudo. O Dr. &Acirc;ngelo n&atilde;o faltou mais de tarde<br \/>\n    em casa de seu cunhado. A&iacute; convers&aacute;vamos largas horas. Nos domingos<br \/>\n    o meu prazer n&atilde;o tinha limites. Eu sentia-me orgulhosa de ser a &uacute;nica<br \/>\n    dentre as demais senhoras que concorriam ao retiro liter&aacute;rio para a<br \/>\n    qual o Dr. &Acirc;ngelo tinha todas as aten&ccedil;&otilde;es. A m&atilde;e<br \/>\n    dele que nos &uacute;ltimos tempos j&aacute; entrara nas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    &iacute;ntimas de D. Eug&ecirc;nia, acompanhava o filho, e dava particular<br \/>\n    encanto &agrave; reuni&atilde;o. &Eacute; uma senhora de alta distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que cativa pela sua benevol&ecirc;ncia e brandura de alma. Eu j&aacute; via<br \/>\n    nela, n&atilde;o sei por que singular favor da minha fantasia, a minha segunda<br \/>\n    m&atilde;e, quando uma circunst&acirc;ncia veio privar-me desta deleitosa<br \/>\n    uni&atilde;o. Uma atriz da companhia dram&aacute;tica, que chegou ultimamente,<br \/>\n    trouxera para o Dr. &Acirc;ngelo carta de apresenta&ccedil;&atilde;o de um<br \/>\n    literato de Lisboa. Essa atriz procurou-o no escrit&oacute;rio e entregou-lhe<br \/>\n    a carta. Ela &eacute; bonita, D. Maur&iacute;cia, como poucas mulheres tenho<br \/>\n    visto t&atilde;o bonitas entre n&oacute;s. Por que motivo n&atilde;o hei de<br \/>\n    prestar este tributo &agrave; verdade?<br \/>\n    &#8211; Por muito bonita que ela seja &#8211; disse Maur&iacute;cia &#8211; n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de exceder a voc&ecirc; em boniteza.<\/p>\n<p> &#8211; Quando a vi pela primeira vez no teatro, n&atilde;o pude fugir de render<br \/>\n    certa homenagem ao seu talento e aos seus encantos; mas o que praticou depois,<br \/>\n    o modo por que ainda procede d&atilde;o-me o direito de odi&aacute;-la.<\/p>\n<p> Depois de um momento de sil&ecirc;ncio, Sinhazinha continuou:<br \/>\n    &#8211; No domingo que se seguiu &agrave; apresenta&ccedil;&atilde;o dela ao Dr.<br \/>\n    &Acirc;ngelo, e &agrave;s primeiras representa&ccedil;&otilde;es teatrais,<br \/>\n    falou-se muito nela no s&iacute;tio do Sr. Martins. O Dr. &Acirc;ngelo fez-lhe<br \/>\n    os maiores elogios; o Martins mostrou-se inteiramente de acordo com ele neste<br \/>\n    ponto; os outros mo&ccedil;os que estiveram presentes s&oacute; se ocuparam<br \/>\n    com ela. Oh! A senhora mal sabe quanto eu comecei logo a sofrer por causa<br \/>\n    dessa mulher.<\/p>\n<p> E os olhos de Sinhazinha arrasaram-se de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia sentiu mais espanto, mais surpresa do que dor; mas a sua<br \/>\n    curiosidade e impaci&ecirc;ncia eram ainda maiores.<\/p>\n<p> &#8211; Quantas novidades dentro de pouco mais de tr&ecirc;s meses! &#8211; exclamou<br \/>\n    com amargura.<\/p>\n<p> &#8211; Uma semana depois, comecei a notar grande mudan&ccedil;a no Dr. &Acirc;ngelo.<br \/>\n    No domingo, faltou ao retiro ; no s&aacute;bado anterior, j&aacute; tinha<br \/>\n    faltado ao ch&aacute; em casa do Sr. Martins, onde, havia mais de um m&ecirc;s,<br \/>\n    era um dos h&oacute;spedes mais certos. Ent&atilde;o, pelas conversa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos mo&ccedil;os que estiveram presentes , eu inferi que ele estava apaixonado<br \/>\n    pela J&uacute;lia (tal &eacute; o nome da atriz). Oh! D. Maur&iacute;cia,<br \/>\n    quando me convenci que ele me deixava por essa mulher que nunca ser&aacute;<br \/>\n    capaz de lhe ter o amor que eu sinto por ele, oh! n&atilde;o sei como n&atilde;o<br \/>\n    me estalou a cabe&ccedil;a! H&aacute; mais de um m&ecirc;s que dura o meu<br \/>\n    tormento. N&atilde;o v&ecirc; como estou? O sono fugiu dos meus olhos, o prazer<br \/>\n    abandonou a minha alma. Com a minha tristeza, mam&atilde;e anda aflita. Ela<br \/>\n    sabe de tudo o que se passou entre mim e ele. Tem procurado consolar-me, mas<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; consola&ccedil;&atilde;o para quem sofre como eu. Entrei<br \/>\n    nesse amor com toda a minha exist&ecirc;ncia. Eu via no Dr. &Acirc;ngelo,<br \/>\n    n&atilde;o s&oacute; a minha felicidade, mas a minha nobreza. Considerava-o<br \/>\n    j&aacute; uma parte de mim mesma, quando entre mim e essa parte em que estavam<br \/>\n    concentrados todos os meus afetos se interp&ocirc;s fundo abismo, e eu fiquei<br \/>\n    com todas as ang&uacute;stias que deixa o ladr&atilde;o no esp&iacute;rito<br \/>\n    da pessoa a quem roubou o maior tesouro.<\/p>\n<p> Dizendo estas palavras, Sinhazinha deu largas ao seu pranto; e Maur&iacute;cia,<br \/>\n    que, no come&ccedil;o da narrativa a ouvia com inten&ccedil;&atilde;o reservadamente<br \/>\n    hostil, n&atilde;o pode deixar de comover-se. As l&aacute;grimas da ing&ecirc;nua<br \/>\n    mo&ccedil;a eram irm&atilde;s das suas; vinham do fundo do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    porque tinham por origem o amor infeliz.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia pegou de uma das m&atilde;os de Sinhazinha como quem queria<br \/>\n    anim&aacute;-la a prosseguir suas queixas, que pareciam poder mais do que<br \/>\n    ela. Sinhazinha continuou:<br \/>\n    &#8211; Lembrei-me, ent&atilde;o, da senhora para me ajudar a tir&aacute;-lo do<br \/>\n    poder deste monstro encantador que o traz t&atilde;o escravizado aos seus<br \/>\n    m&aacute;gicos feiti&ccedil;os.<\/p>\n<p> &#8211; De mim, Sinhazinha, lembrou-se de mim? &#8211; inquiriu Maur&iacute;cia, repentinamente.<\/p>\n<p> &#8211; Eu sei que o Dr. &Acirc;ngelo a tem no maior conceito. N&atilde;o fui<br \/>\n    testemunha do modo como ele a tratou no domingo em que estivemos todos reunidos<br \/>\n    por ocasi&atilde;o do anivers&aacute;rio natal&iacute;cio de D. Eug&ecirc;nia?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o tenho a menor import&acirc;ncia para ele. Atualmente eu me considero<br \/>\n    objeto do seu &oacute;dio.<\/p>\n<p> &#8211; Do seu &oacute;dio! N&atilde;o diga isso. Por que &eacute; que ele h&aacute;<br \/>\n    de ter-lhe &oacute;dio?<br \/>\n    Compreendendo que se tinha excedido na revela&ccedil;&atilde;o do seu ju&iacute;zo<br \/>\n    &iacute;ntimo, Maur&iacute;cia acrescentou, imediatamente:<br \/>\n    &#8211; Ouviu-o falar alguma vez em mim depois da minha reconcilia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com meu marido?<br \/>\n    Sinhazinha guardou sil&ecirc;ncio por alguns momentos, parecendo procurar<br \/>\n    na lembran&ccedil;a a resposta que a&iacute; n&atilde;o podia achar.<\/p>\n<p> &#8211; Ele s&oacute; tem para mim atualmente &oacute;dio, desprezo, ou, pelo<br \/>\n    menos, indiferen&ccedil;a, concluiu Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8211; Porque vendo-me tornar &agrave; companhia do homem, que me infligira as<br \/>\n    maiores humilha&ccedil;&otilde;es, inferiu talvez ou que eu me n&atilde;o<br \/>\n    sinto, ou que tudo quanto me ouvira dizer a respeito desse homem era pura<br \/>\n    inven&ccedil;&atilde;o. O Dr. &Acirc;ngelo, Sinhazinha, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de formar ainda de mim o ju&iacute;zo que j&aacute; formou. Aos seus olhos,<br \/>\n    eu devo ser hoje uma mulher vulgar, sen&atilde;o desprez&iacute;vel. Quantas<br \/>\n    vezes n&atilde;o ter&aacute; dito consigo: &quot;Como me enganei com ela!&quot;<br \/>\n    E, demais n&atilde;o poderia eu fazer para dissuadi-la de prosseguir no caminho<br \/>\n    escolhido pelos seus sentidos ou pela sua alucina&ccedil;&atilde;o? O seu<br \/>\n    apelo a mim, Sinhazinha, &eacute; de todo ponto in&uacute;til. Em nome de<br \/>\n    que sentimento deveria eu falar-lhe a seu favor? Que autoridade tenho? Que<br \/>\n    armas poderia empregar?<br \/>\n    Sinhazinha, corando de pudor, p&ocirc;s um dos bra&ccedil;os &agrave; roda<br \/>\n    do pesco&ccedil;o de Maur&iacute;cia, e em voz branda e t&iacute;mida respondeu<br \/>\n    como quem lhe segredava ao ouvido grave revela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; A senhora tem a autoridade do seu talento, tem as armas das suas gra&ccedil;as<br \/>\n    a que ningu&eacute;m resiste.<\/p>\n<p> &#8211; Quanto voc&ecirc; &eacute; ing&ecirc;nua! &#8211; exclamou Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; Que quer que eu lhe diga? &#8211; respondeu a jovem lacrimosa. Toda a minha<br \/>\n    confian&ccedil;a, toda a minha esperan&ccedil;a est&aacute; posta na senhora.<br \/>\n    Diz-me o cora&ccedil;&atilde;o que se a senhora tomar a si a minha causa ela<br \/>\n    triunfar&aacute;. Condoa-se de mim, minha querida amiga. Este amor &eacute;<br \/>\n    hoje a minha exist&ecirc;ncia; sem ele, que ser&aacute; de mim? Olhe, eu tenho<br \/>\n    refletido muito no meu estado e nos meios de conjurar os males que sobre ele<br \/>\n    pesam. H&aacute; mais de um m&ecirc;s que o Dr. &Acirc;ngelo n&atilde;o aparece<br \/>\n    em casa do Sr. Martins; mas se ele souber que a senhora vai passar alguns<br \/>\n    dias na estrada, ele h&aacute; de voltar; e talvez com ele volte para mim<br \/>\n    a felicidade. Seja o meu bom anjo, D. Maur&iacute;cia. A ocasi&atilde;o &eacute;<br \/>\n    oportuna. H&aacute; mais de tr&ecirc;s meses que a senhora n&atilde;o vai<br \/>\n    ao Recife.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia, sem dizer sim, nem n&atilde;o, levantou-se a modo de distra&iacute;da<br \/>\n    por oculto pensamento. Entre as m&uacute;sicas que estavam sobre a mesa, escolheu<br \/>\n    uma que p&ocirc;s na estante do piano e entrou a tocar e a cantar. Sua voz<br \/>\n    tinha particular ternura. Eram graciosas as harmonias, mas tristes, quase<br \/>\n    dolorosas.<\/p>\n<h2><a name=\"16\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><\/h2>\n<p>O que Sinhazinha contou a Maur&iacute;cia n&atilde;o era sen&atilde;o a verdade.<br \/>\n    Apenas &Acirc;ngelo soube, por boca de Martins, que a cunhada ia unir-se outra<br \/>\n    vez ao marido, considerou despeda&ccedil;ados os estreitos elos que o tinham<br \/>\n    t&atilde;o intimamente ligados aos seus encantos. Ao princ&iacute;pio, s&oacute;<br \/>\n    teve para ela indigna&ccedil;&atilde;o e desprezo; mas posteriormente, refletindo<br \/>\n    melhor sobre as circunst&acirc;ncias fatais que seguem de perto o casamento,<br \/>\n    tratou de esquecer-se dela, julgando-a antes digna de sua compaix&atilde;o<br \/>\n    do que do seu rancor. Ent&atilde;o, seu cora&ccedil;&atilde;o readquiriu a<br \/>\n    perdida independ&ecirc;ncia. Muitas vezes, meditando em sil&ecirc;ncio, conclu&iacute;a<br \/>\n    a ordem das suas id&eacute;ias por este conceito: &quot;Ando por entre duas<br \/>\n    sepulturas &#8211; a do meu pai e a do meu amor.&quot; Parecia-lhe que nunca mais<br \/>\n    havia de ressuscitar este em seu cora&ccedil;&atilde;o como aquele n&atilde;o<br \/>\n    havia de ressuscitar mais na vida. Considerava essas duas perdas irrepar&aacute;veis<br \/>\n    e equiparava a import&acirc;ncia de uma &agrave; da outra. No meio das suas<br \/>\n    tristezas, uma &uacute;nica consola&ccedil;&atilde;o servia-lhe de amparo<br \/>\n    e impedia que ca&iacute;sse de todo desalentado e vencido &#8211; era a de ser &uacute;til<br \/>\n    &agrave; m&atilde;e e aos irm&atilde;os menores. &quot;Esta heran&ccedil;a<br \/>\n    que me deixou meu pai &#8211; dizia, referindo-se aos entes queridos que tinha a<br \/>\n    seu cargo &#8211; hei de defend&ecirc;-la e zel&aacute;-la, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    porque desde o momento em que n&atilde;o a tiver comigo, me considerarei desligado<br \/>\n    inteiramente deste mundo, e s&oacute; me restar&aacute; desaparecer do banquete<br \/>\n    da vida.&quot;\n  <\/p>\n<p>  Tal era o estado da sua alma , quando uma tarde, passeando pela estrada, se<br \/>\n  lhe deparou Sinhazinha de p&eacute; no port&atilde;o, suavemente beijada pelos<br \/>\n  &uacute;ltimos raios do sol poente. A menina trajava vestido de azul desmaiado<br \/>\n  como o do c&eacute;u por noites de luar. Tinha uma saudade entre os cabelos.<br \/>\n  Os olhos l&acirc;nguidos e ternos, ela os volvia brandamente para o lado donde<br \/>\n  ele se encaminhava. Vendo-o, corara ligeiramente. Este excesso de pudor produziu<br \/>\n  no cora&ccedil;&atilde;o de &Acirc;ngelo, que ele julgava profundamente adormecido,<br \/>\n  sen&atilde;o morto, indiz&iacute;vel impress&atilde;o semelhante &agrave; que<br \/>\n  experimenta aquele que acorda de diuturno sono. Por essa ocasi&atilde;o, afirmando<br \/>\n  a vista no rosto da menina, descobriu-lhe modestos encantos em que nunca fizera<br \/>\n  reparo. N&atilde;o tinha o intento de lhe falar, mas misteriosa fascina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n  o reteve junto dela por alguns momentos. Ouvindo-lhe a voz, achou-a engra&ccedil;ada.<br \/>\n  &quot;Onde andava eu &#8211; disse consigo, que nunca adverti nesta suave e t&iacute;mida<br \/>\n  harmonia?&quot; Dois meses depois deste encontro e destas observa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n  os dois jovens, entendendo-se, eram como dois espelhos postos um defronte do<br \/>\n  outro &#8211; refletiam-se e iluminavam-se mutuamente. <\/p>\n<p> Foi por esse tempo que &Acirc;ngelo conheceu J&uacute;lia, cujos encantos<br \/>\n    tinha a vivez dos pain&eacute;is pintados a fresco. Sinhazinha tinha a beleza<br \/>\n    correta, mas silenciosa e modesta das gravuras; J&uacute;lia trazia no rosto<br \/>\n    o colorido ardente, nos gestos a majestade que a arte ensina e que senhoreia<br \/>\n    os esp&iacute;ritos mais altivos.<\/p>\n<p> J&uacute;lia, entretanto, n&atilde;o era de todo estranha e indiferente<br \/>\n    aos seus sentimentos elevados; seu cora&ccedil;&atilde;o guardava ainda restos<br \/>\n    de simpatia para as afei&ccedil;&otilde;es ardentes e irresist&iacute;veis;<br \/>\n    ela era ainda capaz de amar, e chegou at&eacute; a amar &Acirc;ngelo. Educada<br \/>\n    no centro liter&aacute;rio, iluminado ainda pelos graciosos talentos de Lopes<br \/>\n    de Mendon&ccedil;a, Rabelo Silva e tantos outros escritores de que hoje s&oacute;<br \/>\n    restam ilustres e saudosas lembran&ccedil;as, ela n&atilde;o podia eximir-se<br \/>\n    de se sentir arrastada para o bacharel que nas horas vagas escrevia para as<br \/>\n    primeiras folhas do Recife, compunha dramas e romances, e sustentara um peri&oacute;dico<br \/>\n    liter&aacute;rio, que deixou ligado ao seu nome honrada e vantajosa mem&oacute;ria.<br \/>\n    Quando &Acirc;ngelo finalizou a leitura do seu primeiro drama em presen&ccedil;a<br \/>\n    da companhia, o qual um m&ecirc;s depois passou pelas provas p&uacute;blicas,<br \/>\n    J&uacute;lia foi a primeira que teve para eles palavras de admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e demonstra&ccedil;&otilde;es de simpatia. &Acirc;ngelo come&ccedil;ou ent&atilde;o<br \/>\n    a viver exclusivamente para o teatro.<\/p>\n<p> Estava na maior intensidade essa paix&atilde;o, quando &Acirc;ngelo foi<br \/>\n    sabedor da fugida de Bezerra. Lembrou-se de Maur&iacute;cia, e do que se passara<br \/>\n    meses antes entre ela e ele; mas a lembran&ccedil;a depressa se desvaneceria<br \/>\n    se logo depois ele n&atilde;o tivesse recebido uma carta de Maur&iacute;cia,<br \/>\n    acompanhada de uma tradu&ccedil;&atilde;o da L&eacute;lia , de George Sand,<br \/>\n    que ele lhe pedira no dia da festa natal&iacute;cia de Eug&ecirc;nia para<br \/>\n    public&aacute;-la no peri&oacute;dico que tinha a seu cargo.<\/p>\n<p> Grande foi a surpresa de &Acirc;ngelo ao receber a carta de Maur&iacute;cia.<br \/>\n    Ao princ&iacute;pio, pareceu-lhe que era v&iacute;tima de alguma conspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    teatral, visto que, na companhia as suas rela&ccedil;&otilde;es com J&uacute;lia<br \/>\n    j&aacute; tinham suscitado despeito e hostilidades surdas; mas, atentando<br \/>\n    na letra, reconheceu que a carta era de Maur&iacute;cia; esta nunca lhe havia<br \/>\n    escrito nenhuma regra; mas ele conhecia sua letra de a ver em carta e em m&uacute;sicas<br \/>\n    dirigidas a Eug&ecirc;nia. Demais, ali estava a tradu&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    ele pedira, h&aacute; tempos, e o acompanhamento da sua poesia, que Maur&iacute;cia<br \/>\n    lhe prometera.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo, dando a tal epis&oacute;dio a import&acirc;ncia que lhe merecia,<br \/>\n    p&ocirc;s-se a refletir maduramente; e logo uma multiplicidade de interroga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    encheu o seu entendimento. Por que lhe escrevera? Que era l&iacute;cito inferir<br \/>\n    de lhe escrever ela depois da fugida do marido? Como se explicava o n&atilde;o<br \/>\n    se ter esquecido ainda dele e do pedido que lhe fizera? &Acirc;ngelo sentiu-se<br \/>\n    volver ao passado, que j&aacute; tivera tanta esperan&ccedil;a e tanta grandeza<br \/>\n    para ele. Maur&iacute;cia foi pouco a pouco reaparecendo em sua imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por entre mil hesita&ccedil;&otilde;es, temores, promessas v&atilde;s, riscos<br \/>\n    iminentes, aus&ecirc;ncias repentinas, sorrisos e l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Agora, as condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o eram as mesmas. As circunst&acirc;ncias<br \/>\n    que cercavam a evas&atilde;o de Bezerra foram t&atilde;o singulares que tornavam<br \/>\n    imposs&iacute;vel nova reconcilia&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia estava, portanto, livre, inteiramente senhora das suas a&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    O antigo amor que mostrar por ele tinha ressurgido, e era disto prova evidente<br \/>\n    aquela carta. No esp&iacute;rito do bacharel a imagem de Maur&iacute;cia desenhou-se<br \/>\n    diante da de J&uacute;lia. estabeleceu-se logo muito naturalmente o confronto<br \/>\n    entre estas duas tenta&ccedil;&otilde;es; &Acirc;ngelo n&atilde;o hesitou<br \/>\n    sen&atilde;o por alguns segundos; aquela venceu esta.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo, por&eacute;m, enganava-se ainda desta vez. N&atilde;o era<br \/>\n    o amor de Maur&iacute;cia que voltava; era uma nova luta que se ia travar<br \/>\n    para arranc&aacute;-lo do poder da atriz. Uma grande generosidade estava oculta<br \/>\n    nas demonstra&ccedil;&otilde;es do ressurgido amor.<\/p>\n<p> A situa&ccedil;&atilde;o de Maur&iacute;cia nunca se afigurara t&atilde;o<br \/>\n    cruel para ela. Apenas livre de um tormento, j&aacute; ca&iacute;a a infeliz<br \/>\n    senhora em outro porventura maior. O amor de Sinhazinha assombrou-a como se<br \/>\n    fora um espectro. Quando ela, de noite, refletiu sobre o que a amiga da sua<br \/>\n    filha lhe revelara pela manh&atilde;, mal pode resignar-se a n&atilde;o lhe<br \/>\n    disputar a presa. Mas esta presa j&aacute; estava nas m&atilde;os de outra<br \/>\n    mulher, e ela n&atilde;o tinha armas apropriadas para combater esta nova inimiga<br \/>\n    a que o teatro devera ter ensinado a arte de prender as suas v&iacute;timas<br \/>\n    em cadeias de flores envenenadas, pareceu-lhe arriscada empresa. Mas devia<br \/>\n    cruzar os bra&ccedil;os, vendo escravizado aos p&eacute;s dela o objeto dos<br \/>\n    seus afetos? O seu amor, e especialmente a sua vaidade, pela primeira vez<br \/>\n    estimulada, n&atilde;o lhe aconselharam a absten&ccedil;&atilde;o, antes a<br \/>\n    incitaram para a luta, ainda que de duvidoso resultado. Este poderia ser favor&aacute;vel<br \/>\n    aos seus intuitos, se ao plano procedesse rigoroso exame e se antes do emprego<br \/>\n    das armas ficassem assentados os melhores meios.<\/p>\n<p> &#8211; Escrever-lhe-ei, Sinhazinha. N&atilde;o acha melhor que eu escreva antes<br \/>\n    de irmos?<br \/>\n    &#8211; &Eacute; melhor! &Eacute; melhor! &#8211; disse a menina.<\/p>\n<p> N&atilde;o obstante a promessa feita &agrave; Sinhazinha com grandes veras,<br \/>\n    Maur&iacute;cia julgou prudente espa&ccedil;ar a sua ida ao Recife. A menina,<br \/>\n    cansada j&aacute; de contar as semanas, os dias, as horas, come&ccedil;ava<br \/>\n    a descrer da amizade e benevol&ecirc;ncia de Maur&iacute;cia, quando, por<br \/>\n    uma tarde de novembro, a carruagem de Albuquerque parou no port&atilde;o do<br \/>\n    s&iacute;tio de Martins, e dela saltou a m&atilde;e de Virg&iacute;nia, desacompanhada<br \/>\n    desta. Sinhazinha criou alma nova; correu &agrave; casa de Eug&ecirc;nia,<br \/>\n    abra&ccedil;ou-se com Maur&iacute;cia e umedeceu-lhe o colo com l&aacute;grimas<br \/>\n    de alegria. Eram passados dois meses depois da sua estada no engenho.<\/p>\n<p> No dia seguinte Martins procurou &Acirc;ngelo no escrit&oacute;rio. Achou<br \/>\n    a&iacute; um sujeito de quarenta e cinco anos, a quem &Acirc;ngelo dava um<br \/>\n    tanto para abrir todos os dias a casa, varrer a sala, espanar os m&oacute;veis<br \/>\n    e os livros, receber e entregar os autos. Chamava-se Jacinto.<\/p>\n<p> Notando Martins que, sendo onze horas da manh&atilde;, &Acirc;ngelo n&atilde;o<br \/>\n    estivesse ainda no escrit&oacute;rio, o Jacinto respondeu:<br \/>\n    &#8211; Nem vir&aacute; t&atilde;o cedo.<\/p>\n<p> &#8211; Demora-se muito?<br \/>\n    &#8211; S&oacute; estar&aacute; aqui por volta das duas horas.<\/p>\n<p> &#8211; Mas isto n&atilde;o acontece todos os dias &#8211; advertiu Martins.<\/p>\n<p> &#8211; Todos os dias &#8211; tornou Jacinto.<\/p>\n<p> &#8211; At&eacute; agora, quero dizer, h&aacute; tr&ecirc;s meses atr&aacute;s<br \/>\n    n&atilde;o era assim. Nunca deixei e encontr&aacute;-lo no escrit&oacute;rio<br \/>\n    depois das nove e meia.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; l&aacute; se foi esse tempo. Agora, o doutor vive mais para<br \/>\n    as atrizes e os espet&aacute;culos que para as partes e os autos,<br \/>\n    Martins, bom amigo, n&atilde;o quis alentar o di&aacute;logo sobre assunto<br \/>\n    t&atilde;o escabroso. Demais, ele nada ignorava do que lhe dizia o ajudante,<br \/>\n    ou antes o servente de &Acirc;ngelo. O Jacinto, por&eacute;m, que tinha o<br \/>\n    vezo de dar com a l&iacute;ngua nos dentes, prosseguiu sem se importar com<br \/>\n    a reserva de Martins.<\/p>\n<p> &#8211; Isto n&atilde;o vai bem. O doutor n&atilde;o despacha os autos, e n&atilde;o<br \/>\n    ouve as poucas partes que ainda o procuram. Se o senhor se demorar algum tempo,<br \/>\n    h&aacute; de ver protocolistas virem buscar os pap&eacute;is retardados, e<br \/>\n    voltarem ainda desta vez sem eles. O doutor est&aacute; precisando de conselhos.<br \/>\n    Se o senhor &eacute; seu amigo, n&atilde;o deixe de d&aacute;-los.<\/p>\n<p> &#8211; Voltarei &agrave;s duas horas &#8211; tornou Martins. Se, na minha aus&ecirc;ncia,<br \/>\n    &Acirc;ngelo aparecer, diga-lhe que espere por mim.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenha susto. O senhor h&aacute; de vir e de esperar ainda por<br \/>\n    ele.<\/p>\n<p> Martins desceu, sentindo longes de tristeza na alma. Era um homem que devia<br \/>\n    ao menos gratid&atilde;o a &Acirc;ngelo que fazia dele t&atilde;o boas aus&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> No p&eacute; da escada um oficial de justi&ccedil;a estava conversando com<br \/>\n    um procurador de causas. O primeiro dizia que &Acirc;ngelo lhe devia ainda<br \/>\n    uma dezena de intima&ccedil;&otilde;es atrasadas; o segundo viera cobrar o<br \/>\n    restante de um d&eacute;bito, proveniente de trabalhos que o jovem bacharel<br \/>\n    o encarregara fora da cidade. O procurador dizia ao oficial:<br \/>\n    &#8211; O dinheiro que o homem apanha &eacute; pouco para com&eacute;dias, presentes,<br \/>\n    passeio a carro e outras loucuras.<\/p>\n<p> O oficial respondeu ao procurador:<br \/>\n    &#8211; Um dia destes tive em minhas m&atilde;os um requerimento chamando-o a concilia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por trezentos mil-r&eacute;is que ele deve ao Pereira, que tem loja de fazendas<br \/>\n    na Rua do Queimado. N&atilde;o quis encarregar-me da cita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para o doutor n&atilde;o dizer que, se ele n&atilde;o me devesse, eu n&atilde;o<br \/>\n    me animaria a cit&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Ainda quando Martins n&atilde;o formasse do estado de &Acirc;ngelo o ju&iacute;zo<br \/>\n    mais aproximado, estes esbo&ccedil;os feitos a carv&atilde;o, como os desenhos<br \/>\n    obscenos dos moleques nas paredes, foram mais que bastantes para que de tal<br \/>\n    estado n&atilde;o lhe restasse a menor d&uacute;vida.<\/p>\n<p> E, dando o devido desconto ao que ouvira, encaminhou-se para o ponto onde<br \/>\n    exercia a sua ind&uacute;stria, e a&iacute; se deixou ficar at&eacute; &agrave;s<br \/>\n    duas horas; trinta minutos depois, entrou novamente no escrit&oacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute;s mal comigo, &Acirc;ngelo? &#8211; perguntou ao entrar.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; a mim que me cabe fazer-te esta pergunta.<\/p>\n<p> &#8211; Estive ontem &agrave; noite em tua casa. Tinhas ido ao teatro. Tomei ch&aacute;<br \/>\n    com tua m&atilde;e e tuas tias. Vi teus irm&atilde;os. Um deles pareceu-me<br \/>\n    estar j&aacute; perdendo ao ano.<\/p>\n<p> &#8211; Conheces algum mestre brando, ben&eacute;volo e paciente? N&atilde;o quero<br \/>\n    expor meus irm&atilde;os ao desamor de certos professores que tornam odioso<br \/>\n    aos meninos o mister de aprender.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho um primo que &eacute; um professor exemplar. Falar-lhe-ei amanh&atilde;.<br \/>\n    sobre a entrada de teu irm&atilde;o na sua escola; e, na semana vindoura,<br \/>\n    pode o menino come&ccedil;ar o trabalho. Mas &#8211; mudando de assunto &#8211; qual a<br \/>\n    raz&atilde;o do teu afastamento de minha casa. L&aacute; ningu&eacute;m tem<br \/>\n    ofendeu.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenho aparecido por estar muito sobrecarregado com trabalhos;<br \/>\n    &#8211; Forenses?<br \/>\n    &#8211; Na maior parte.<\/p>\n<p> &#8211; Queria-me parecer, ao entrar aqui, o contr&aacute;rio do que est&aacute;s<br \/>\n    dizendo. H&aacute; tr&ecirc;s para quatro meses que n&atilde;o venho ao teu<br \/>\n    escrit&oacute;rio, e em t&atilde;o curto espa&ccedil;o de tempo noto agora<br \/>\n    grande diferen&ccedil;a. Ent&atilde;o, via-se o escrit&oacute;rio ordinariamente<br \/>\n    cheio de clientes; hoje, vejo-o deserto. Somos tr&ecirc;s os que est&atilde;o<br \/>\n    aqui &#8211; eu, tu, e ali o Sr. Jacinto, matando moscas. Como vais com o teu jornal.<\/p>\n<p> &#8211; Agoniza. Muitos dos assinantes n&atilde;o renovaram as assinaturas e ver-me-ei<br \/>\n    na conting&ecirc;ncia, se n&atilde;o entrarem novos que compensem os que n&atilde;o<br \/>\n    tornaram, de suspender a publica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Deves &agrave; tipografia?<br \/>\n    &#8211; Estou num pequeno atraso.<\/p>\n<p> &#8211; Entretanto, h&aacute; quatro meses era pr&oacute;spero o estado do jornal.<br \/>\n    N&atilde;o se dever&aacute; atribuir o resfriamento dos assinantes &agrave;<br \/>\n    publica&ccedil;&atilde;o quase exaustiva de tradu&ccedil;&otilde;es e transcri&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    em vez de artigos originais, em que at&eacute; certo tempo te mostraste t&atilde;o<br \/>\n    fecundo?<br \/>\n    &#8211; Talvez. De fato, n&atilde;o tenho tido tempo de escrever como j&aacute;<br \/>\n    escrevi. Ando a modo de preocupado.<\/p>\n<p> &#8211; Andas; e &eacute; sobre isto que venho tomar-te alguns minutos.<\/p>\n<p> &#8211; Senta-te aqui.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo e Martins encaminharam-se para um gabinete curto e estreito,<br \/>\n    que corria paralelo &agrave; sala, onde aquele tinha a sua mesa e estantes.<br \/>\n    &Acirc;ngelo recostou-se sobre um sofazinho de vime, que com duas cadeiras<br \/>\n    de bra&ccedil;os adornavam o pequeno aposento. Martins sentou-se em uma das<br \/>\n    cadeiras, e come&ccedil;ou assim:<br \/>\n    &#8211; &Acirc;ngelo, venho falar-te sem outra autoridade sen&atilde;o a de amigo<br \/>\n    sincero que te deseja mil prosperidades e muitas gl&oacute;rias que redundem<br \/>\n    em proveito dos teus.<\/p>\n<p> &#8211; Podes falar com toda a liberdade. Sou o primeiro a reconhecer que uma<br \/>\n    das minhas mais urgentes necessidades &eacute; a de ter um amigo que me d&ecirc;<br \/>\n    saud&aacute;veis conselhos.<\/p>\n<p> &#8211; Vim resoluto a d&aacute;-los. Tua m&atilde;e, t&atilde;o discreta, t&atilde;o<br \/>\n    conformada com a sua sorte, teve ontem para mim maternais franquezas e comovedores<br \/>\n    ressentimentos. Considera-te, n&atilde;o sem raz&atilde;o, afastado do caminho<br \/>\n    que sempre soubeste trilhar, ainda quando estavas nos teus verdes anos. Este<br \/>\n    triste resultado ela o atribuiu ao teatro, que deve ser, e, quando bem compreendido,<br \/>\n    certamente escola de bons costumes, edificativa de s&atilde; moralidade por<br \/>\n    exemplos de altas virtudes sociais e dom&eacute;sticas. Sem o afirmar positivamente,<br \/>\n    deu-me a entender que tudo o que ganhas pela tua profiss&atilde;o das m&atilde;os<br \/>\n    te sai para despesas v&atilde;s e in&uacute;teis.<\/p>\n<p> Martins ficou aqui. Pousara as vistas no amigo, e pela express&atilde;o<br \/>\n    do semblante parecia ter toda a alma empenhada em conhecer o efeito das suas<br \/>\n    reflex&otilde;es. Este n&atilde;o tardou muito a revelar-se; &Acirc;ngelo,<br \/>\n    deixando o encosto do sofazinho, sentou-se e respondeu:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o obstante chegarem fora de tempo os teus conselhos, ganhaste com<br \/>\n    eles novo direito &agrave; minha gratid&atilde;o pela boa inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que os inspirou.<\/p>\n<p> &#8211; Chegaram fora de tempo? &#8211; inquiriu Martins quase inquieto.<\/p>\n<p> &#8211; Est&atilde;o inteiramente extintas as rela&ccedil;&otilde;es que me prendiam<br \/>\n    &agrave; J&uacute;lia.<\/p>\n<p> &#8211; Obrigado, obrigado, &Acirc;ngelo! &#8211; disse Martins com efus&atilde;o de<br \/>\n    sentimento que n&atilde;o pudera reter em seu cora&ccedil;&atilde;o. Est&aacute;<br \/>\n    ent&atilde;o tudo acabado?<br \/>\n    &#8211; Tudo, tudo.<\/p>\n<p> Martins procurava no pensamento uma forma, uma frase mais viva para manifestar<br \/>\n    o seu contentamento ao amigo de inf&acirc;ncia, quando viu nos olhos deste<br \/>\n    duas l&aacute;grimas a bailarem.<\/p>\n<p> Levantou-se comovido e triste. Deu alguns passos em sil&ecirc;ncio pelo<br \/>\n    gabinete. &Acirc;ngelo, compreendendo o que a sua fraqueza devera ter feito<br \/>\n    gerar-se no esp&iacute;rito do amigo, passou o len&ccedil;o pelos olhos e<br \/>\n    foi ao encontro de Martins.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o duvides das minhas palavras. Senti, sinto ainda o golpe, mas<br \/>\n    definitivamente est&aacute; tudo acabado entre mim e essa mulher. Onde havia<br \/>\n    paix&atilde;o violenta h&aacute; agora uma barreira ingente, que nem eu transporei,<br \/>\n    nem ela transpor&aacute;. Tive por J&uacute;lia grande amor, que ela me retribuiu<br \/>\n    com isen&ccedil;&atilde;o de &acirc;nimo at&eacute; pouco tempo. H&aacute;<br \/>\n    duas semanas comecei a notar de sua parte n&atilde;o s&oacute; resfriamento<br \/>\n    mas esquivan&ccedil;a. Faltou ao prometido, deixando-se ficar na caixa do<br \/>\n    teatro. Anteontem de tarde, cometi um ato de loucura. Meti-me num carro e<br \/>\n    mandei tocar para o Monteiro. Ela mora numa casa de terra&ccedil;o com gradil,<br \/>\n    sobranceira &agrave; estrada.<\/p>\n<p> &#8211; Sei onde &eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; J&uacute;lia estava no terra&ccedil;o, quando apontei na estrada e tanto<br \/>\n    que me avistou fugiu para dentro. Fiquei indignado. Assaltou-me o pensamento<br \/>\n    de lhe fazer qualquer manifesta&ccedil;&atilde;o insultuosa; por exemplo,<br \/>\n    a de lhe atirar uma luva, se ela aparecesse no momento de passar o carro defronte<br \/>\n    da casa. Ela n&atilde;o apareceu, mas eu estava tr&ecirc;mulo de raiva, e<br \/>\n    quase n&atilde;o podia governar-me. Mandei parar o carro, meti num dos dedos<br \/>\n    da luva um anel, que ela me havia dado de presente, e, pondo-me de p&eacute;,<br \/>\n    atirei a luva e o anel por cima do gradil. N&atilde;o pude dormir. Mau esp&iacute;rito<br \/>\n    perdeu-se em v&atilde;s conjunturas sobre a origem do desd&eacute;m de J&uacute;lia<br \/>\n    para comigo. Hoje, seriam dez horas da manh&atilde;, entrei no teatro. Ela<br \/>\n    n&atilde;o fora ao ensaio. Quando eu sa&iacute;a, o porteiro veio ao meu encontro<br \/>\n    e entregou-me uma carta que podes ler.<\/p>\n<p> Martins tomou a carta e leu:<br \/>\n    &quot;N&atilde;o pense que sou uma mulher vulgar. Sinto ainda pelo senhor<br \/>\n    grande paix&atilde;o, n&atilde;o obstante ter assentado cortar todas as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que existiam ente n&oacute;s. A explica&ccedil;&atilde;o do meu procedimento<br \/>\n    &eacute; a que passo a dar. Vieram dizer-me que sua m&atilde;e estava sofrendo<br \/>\n    por meu respeito. Ora, eu venero a m&atilde;e de quem quer que seja. Para<br \/>\n    atalhar os padecimentos de minha m&atilde;e, casei-me contra a minha vontade.<br \/>\n    Ela acompanha-me por toda a parte; por ela tenho feito e farei os maiores<br \/>\n    sacrif&iacute;cios. Condo&iacute;-me, por isso, de sua m&atilde;e sem a conhecer.<br \/>\n    Por que havia eu de prolongar os eu sofrimento? Se eu pudesse aspirar a possuir<br \/>\n    o senhor at&eacute; a morte, talvez o ego&iacute;smo, sentimento cruel, me<br \/>\n    desse &acirc;nimo para sustentar a luta com o sentimento maternal, e disputar-lhe<br \/>\n    a vit&oacute;ria; mas poderei acaso, sem dar triste id&eacute;ia da minha<br \/>\n    raz&atilde;o, nutrir semelhante esperan&ccedil;a? Presa pelo destino, falaz<br \/>\n    e fatal. ao teatro, mundo sombrio sobre o qual, se algumas vezes assoma o<br \/>\n    sol da gl&oacute;ria, &eacute; mais para mostrar as suas manchas do que para<br \/>\n    projetar a sua luz, o que me cumpre fazer sen&atilde;o resignar-me ao meu<br \/>\n    papel e &agrave; minha condi&ccedil;&atilde;o? Aceitei por isso a proposta<br \/>\n    que me fizeram do Maranh&atilde;o e seguirei para ali no primeiro vapor. Pe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    que se esque&ccedil;a de mim, e que me perdoe esta resolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como eu perdoei o seu insulto que me lan&ccedil;ou fel no mais &iacute;ntimo<br \/>\n    da alma.<\/p>\n<p> J.<\/p>\n<p>&#8211; Tens medo dessa mulher, &Acirc;ngelo &#8211; disse Martins, conclu&iacute;da<br \/>\n    a leitura da carta. E como &eacute; poss&iacute;vel que ela algum dia volte<br \/>\n    a repetir a luta com o amor maternal para lhe disputar o seu penhor predileto,<br \/>\n    n&atilde;o ser&aacute; por demais quebrar esta arma que ela deixa em tuas<br \/>\n    m&atilde;os contra ti mesmo.<\/p>\n<p> Dizendo estas palavras, Martins fez o gesto de rasgar a carta de J&uacute;lia.<br \/>\n    &Acirc;ngelo correu a tolher que ele levasse a efeito a inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apenas denunciada.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o rasgues a carta.<\/p>\n<p> &#8211; Pe&ccedil;o-te perd&atilde;o, &Acirc;ngelo. O crime est&aacute; cometido.<\/p>\n<p> Os peda&ccedil;os, em que Martins pusera o papel, rolaram aos p&eacute;s<br \/>\n    dos dois amigos.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me queiras mal por isso. Quebrei uma arma que estava dirigida<br \/>\n    contra o teu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Receias que fa&ccedil;amos as pazes? &Eacute; imposs&iacute;vel. Depois,<br \/>\n    J&uacute;lia embarcou ontem. N&atilde;o viste a data da carta? Foi escrita<br \/>\n    h&aacute; tr&ecirc;s dias. N&atilde;o &eacute; uma mulher vulgar. Pode mais<br \/>\n    que o seu amor.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; ainda este ju&iacute;zo que formas dela? Queres saber porque<br \/>\n    foi que deixou o Recife? &Eacute; f&aacute;cil de compreender esta abnega&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Do Maranh&atilde;o ofereceram-lhe maiores vencimentos. Mas ou a verdade esteja<br \/>\n    contigo, ou comigo, dou-te os parab&eacute;ns, e vou pedir alv&iacute;ssaras<br \/>\n    a tua m&atilde;e.<\/p>\n<p> Martins ia sair, quando volveu imediatamente sobre os seus passos.<\/p>\n<p> &#8211; Tinha-me esquecido de dizer-te que Maur&iacute;cia chegou ontem &agrave;<br \/>\n    noite a Caxang&aacute;, disse.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o te admires. Se n&atilde;o andasses t&atilde;o longe do mundo<br \/>\n    onde vives, se n&atilde;o tivesse at&eacute; estas presentes horas o esp&iacute;rito<br \/>\n    t&atilde;o perto da luz, j&aacute; terias acertado com a origem da vinda dela;<br \/>\n    V&ecirc; l&aacute; se podes adivinhar.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo em v&atilde;o procurou o alvo indicado pelo amigo. Foi para<br \/>\n    ele um ponto inacess&iacute;vel, invis&iacute;vel, um mist&eacute;rio impenetr&aacute;vel.<br \/>\n    O que em seu entendimento desenhou-se imediatamente com as mais vivas tintas<br \/>\n    foi a imagem de Maur&iacute;cia tal qual a vira ele na tarde rica de encantos<br \/>\n    e ilus&otilde;es em que fora com ela do Caxang&aacute; at&eacute; a porta<br \/>\n    do engenho. Lembrou-se das cenas vivas, das frases apaixonadas, dos castelos<br \/>\n    brilhantes que depressa se haviam desvanecido como neblinas. Teve saudades<br \/>\n    daquela criatura espl&ecirc;ndida, que ele durante os quatro &uacute;ltimos<br \/>\n    meses odiava e desprezava.<\/p>\n<p> Martins tirou-o do seu enleio com estas palavras:<br \/>\n    &#8211; Estamos em v&eacute;speras de dezembro.<\/p>\n<p> &#8211; Querer&aacute;s dizer que ela vem passar todo o m&ecirc;s, que vai entrar,<br \/>\n    na estrada de Jo&atilde;o de Barros?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, &Acirc;ngelo. Ela vem ensaiar os versos que deve cantar por<br \/>\n    ocasi&atilde;o das novenas da Concei&ccedil;&otilde;azinha, as quais prometem<br \/>\n    este ano ser espl&ecirc;ndidas. N&atilde;o h&aacute;s de faltar.<\/p>\n<p> &#8211; Quais s&atilde;o as cantoras?<br \/>\n    &#8211; As que costumam cantar todos os anos, as nossas vizinhas mais pr&oacute;ximas-<br \/>\n    Iai&aacute;, Sinhazinha e outras. Aposto que n&atilde;o sabes mais quem &eacute;<br \/>\n    Sinhazinha &#8211; acrescentou com ares brejeiros.<\/p>\n<p> &#8211; Hei de reconhec&ecirc;-la, hei de reconhec&ecirc;-la &#8211; tornou &Acirc;ngelo,<br \/>\n    n&atilde;o sem r&aacute;pida perturba&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, Martins, trocando os ares de h&aacute; pouco pelos que assumem<br \/>\n    as pessoas picadas que repelem a palavra ou gesto ofensivo, redarg&uuml;iu:<br \/>\n    &#8211; Pois n&atilde;o h&aacute;s de reconhec&ecirc;-la, &Acirc;ngelo. Tu a puseste<br \/>\n    a um passo da sepultura.<\/p>\n<p> &#8211; Eu?<br \/>\n    Martins saiu, deixando o amigo absorto em mil conjeturas, que revoavam entre<br \/>\n    a forma de Maur&iacute;cia e a da filha de D. Sofia como bandos de irrequietas<br \/>\n    aves, mensageiras de pr&oacute;ximas tormentas, t&atilde;o naturais nos cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    humanos.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, Maur&iacute;cia come&ccedil;ou a cantar. Dir-se-ia que na longa<br \/>\n    aus&ecirc;ncia sua voz fizera aquisi&ccedil;&atilde;o de novas harmonias at&eacute;<br \/>\n    &agrave;quele momento desconhecidas dos ecos da estrada. Essas harmonias tinham<br \/>\n    sentimento e grandeza. O motivo era religioso, mas os tons de certas profanidades<br \/>\n    afetiva, a frescura e a vivacidade que n&atilde;o parecem muito compat&iacute;veis<br \/>\n    com os graves acentos e a morna languidez das m&uacute;sicas sacras, estavam<br \/>\n    traindo de parte dela certo desejo, certo empenho em ser mais agrad&aacute;vel<br \/>\n    ao amor profano do que ao amor divino. Maur&iacute;cia cantava exclusivamente<br \/>\n    para &Acirc;ngelo ouvir; a vaidade tomara lugar da devo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Terminados os versos, ela veio sentar-se ao lado de &Acirc;ngelo, junto<br \/>\n    de uma janela, enquanto as outras mo&ccedil;as, que se haviam mostrado mal<br \/>\n    ensaiadas, ficaram ainda ao p&eacute; do piano para repetir o estribilho.<\/p>\n<p> &#8211; Por que falou t&atilde;o friamente com Sinhazinha? &#8211; perguntou Maur&iacute;cia<br \/>\n    ao bacharel a meia voz. H&aacute; tr&ecirc;s meses n&atilde;o lhe falava assim.<\/p>\n<p> &#8211; Quem lhe disse que eu falava de outro modo?<br \/>\n    &#8211; De tudo, ando informada. A paix&atilde;o tem linguagem mais viva ao seu<br \/>\n    servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Nunca senti paix&atilde;o por Sinhazinha.<\/p>\n<p> &#8211; Para que diz isto? N&atilde;o des&ccedil;a do lugar que j&aacute; ocupou<br \/>\n    no altar do seu cora&ccedil;&atilde;o aquele delicado &iacute;dolo.<\/p>\n<p> &#8211; Quem lhe disse o contr&aacute;rio, faltou &agrave; verdade, D. Maur&iacute;cia.<br \/>\n    Eu s&oacute; senti uma paix&atilde;o na vida; essa existe ainda t&atilde;o<br \/>\n    veemente, t&atilde;o profunda como nos primeiros tempos.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia sorriu tristemente.<\/p>\n<p> &#8211; Cuida o senhor que, por estar morando distante duas l&eacute;guas do Recife,<br \/>\n    n&atilde;o sei dos seus passos? Sinhazinha tem-lhe uma grande inclina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que o senhor ainda retribuiria como nas primeiras semanas, se os seus trabalhos<br \/>\n    dram&aacute;ticos n&atilde;o lhe tivessem voltado inteiramente a cabe&ccedil;a<br \/>\n    para o teatro, a ponto de o tornarem esquecido das suas mais &iacute;ntimas<br \/>\n    afei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Sei ao que pretende aludir &#8211; respondeu &Acirc;ngelo, algum tanto contrariado.<br \/>\n    Foi tudo isso um sonho de poucos meses. Est&aacute; tudo acabado.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o diga isso. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel o que est&aacute;<br \/>\n    dizendo. As paix&otilde;es n&atilde;o se desvanecem como os sonhos. Aquelas<br \/>\n    que assim se desvanecem n&atilde;o s&atilde;o paix&otilde;es, s&atilde;o pretens&otilde;es<br \/>\n    materiais e falazes, s&atilde;o desejos desprez&iacute;veis que s&oacute;<br \/>\n    podem ter morada em &acirc;nimos fr&iacute;volos, em almas vulgares. Eu n&atilde;o<br \/>\n    compreendo as paix&otilde;es deste modo. Eu as comparo com inc&ecirc;ndios<br \/>\n    que ordinariamente terminam depois das grandes destrui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    n&atilde;o deixando lama, sen&atilde;o cinzas.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo respondeu: &#8211; Nunca senti paix&atilde;o por essa mulher, nem<br \/>\n    por Sinhazinha. A maior, a &uacute;nica que ainda me tomou na vida foi a que<br \/>\n    a senhora me inspirou. Esta existe ainda; existir&aacute; sempre.<\/p>\n<p> &#8211; O senhor est&aacute; enganado &#8211; disse Maur&iacute;cia, sorrindo ironicamente.<\/p>\n<p> &#8211; Enganado! Pensa que, se n&atilde;o fora a senhora, eu estaria aqui?<br \/>\n    &#8211; Mas para que h&aacute; de ser ingrato e injusto? Veja Sinhazinha como o<br \/>\n    procura com a vista. Ela tem direito a retribui&ccedil;&atilde;o diferente<br \/>\n    desta. Demais, por que h&aacute; de insistir em avultar um castelo que, se<br \/>\n    existe na sua imagina&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o tem alicerces no seu cora&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Declaro-lhe positivamente, Sr. Dr. &Acirc;ngelo, que n&atilde;o creio em sua<br \/>\n    paix&atilde;o por mim; mas, ainda quando esse imposs&iacute;vel sentimento<br \/>\n    n&atilde;o fosse a trivial ilus&atilde;o, que suponho, cr&ecirc; o senhor<br \/>\n    que eu poderia aliment&aacute;-lo? Sou escrava do meu dever.<\/p>\n<p> &#8211; Pois sim, sim &#8211; respondeu &Acirc;ngelo com maus modos. N&atilde;o falemos<br \/>\n    mais nisso, minha senhora.<\/p>\n<p> E levantou-se para por o charuto fora.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>  Com pouco, conclu&iacute;do o ensaio do coro, Maur&iacute;cia e as outras senhoras<br \/>\n  passaram &agrave; sala de jantar, onde se serviu o ch&aacute;. &Acirc;ngelo<br \/>\n  n&atilde;o falou mais com Maur&iacute;cia esta noite. &Agrave;s dez horas, despediu-se,<br \/>\n  tomou com sua m&atilde;e o caminho da casa. <\/p>\n<p> Nessa mesma note, Maur&iacute;cia soube que tinham cessado as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de &Acirc;ngelo e J&uacute;lia. Martins referiu com demonstra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de satisfa&ccedil;&atilde;o a parte essencial da entrevista no escrit&oacute;rio.<br \/>\n    J&aacute; era meio caminho andado. Esta revela&ccedil;&atilde;o veio mudar<br \/>\n    os seus planos de luta para tirar o bacharel do poder da atriz. Tinha vindo<br \/>\n    mais para entrar nessa luta do que para praticar devo&ccedil;&atilde;o, visto<br \/>\n    que tomara &agrave; sua conta o futuro de Sinhazinha. Mas sendo outras as<br \/>\n    circunst&acirc;ncias, julgou conveniente aproveitar-se das facilidades que<br \/>\n    elas ofereciam. A luta agora deveria travar-se exclusivamente com o bacharel.<br \/>\n    Maur&iacute;cia esperou pela primeira ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p> Esta ofereceu-se na noite seguinte, depois da conversa. Havia luar. A temperatura<br \/>\n    estava fresca e saud&aacute;vel. Maur&iacute;cia prop&ocirc;s um passeio pela<br \/>\n    estrada, e a sua proposta foi aceita. Dividiu-se o juntamento deste modo:<br \/>\n    Alfredo e Iai&aacute; rompiam a marcha; duas senhoras do Recife, que tinham<br \/>\n    ficado por inst&acirc;ncias de Martins e Eug&ecirc;nia, seguiram com estes<br \/>\n    ap&oacute;s aqueles; Sinhazinha e D. Matilde seguiram, ap&oacute;s o segundo<br \/>\n    grupo; Maur&iacute;cia e &Acirc;ngelo iam atr&aacute;s de todos.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; zangado comigo? &#8211; perguntou Maur&iacute;cia ao advogado.<\/p>\n<h2><a name=\"17\">Cap&iacute;tulo XVII<\/a><\/h2>\n<p> &#8211; Queria que eu n&atilde;o ficasse magoado com os seus cru&eacute;is desenganos?<br \/>\n    &#8211; Mas o que lhe posso dizer, Sr. Dr. &Acirc;ngelo? Que quer o senhor que eu<br \/>\n    lhe diga?<br \/>\n    &#8211; Quero que me diga que corresponde e corresponder&aacute; ao meu afeto com<br \/>\n    a veem&ecirc;ncia que &eacute; o primeiro sinal, ou antes, a ess&ecirc;ncia<br \/>\n    do meu. N&atilde;o lhe mere&ccedil;o este sentimento? N&atilde;o tenho mais<br \/>\n    nada com mulher nenhuma. Deixe que eu seja franco. Durante alguns dias, senti<br \/>\n    certa simpatia, inclina&ccedil;&atilde;o por Sinhazinha; ela n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    feia; &eacute; at&eacute; elegante e tem muito boas qualidades espirituais.<br \/>\n    Percebi essa inclina&ccedil;&atilde;o e cheguei a alimentar, por palavras<br \/>\n    e obras, no esp&iacute;rito da Sinhazinha a esperan&ccedil;a de vir a ser,<br \/>\n    no futuro, seu marido. Eu estava por esse tempo inteiramente desenganado do<br \/>\n    seu amor, D. Maur&iacute;cia. A senhora tinha voltado &agrave; vida conjugal;<br \/>\n    sua filha tinha casado; tive por certo que nunca mais se mudassem estas circunst&acirc;ncias,<br \/>\n    que exclu&iacute;am qualquer possibilidade de reatarmos as nossas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    violentamente despeda&ccedil;adas pela sua ilus&oacute;ria reconcilia&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Descrente, descontente, sentindo dentro em minha alma dobrado v&aacute;cuo<br \/>\n    deixado pela morte do seu amor e pela morte de meu pai, era f&aacute;cil ser<br \/>\n    atra&iacute;do por essa gentil menina e ficar algum tempo enleado. Eu achara<br \/>\n    gra&ccedil;a na sua mod&eacute;stia, na sua timidez e, sobretudo, nas suas<br \/>\n    idealidades, porque eu estava sem ideal. Depois, conheci outra mulher, que,<br \/>\n    por seus sentimentos arrebatados, seus talentos art&iacute;sticos me teve<br \/>\n    preso por poucos meses junto dela, numa ilus&atilde;o confusa e atordoada,<br \/>\n    human&iacute;ssima, no estado em que eu vivia. Quando esse astro desapareceu<br \/>\n    dos meus olhos, tinha j&aacute; fugido antes dele do meu pensamento a imagem<br \/>\n    da jovem singela, que fora o meu santelmo nos mares cruzados da vida e &#8211; coisa<br \/>\n    singular! na imensidade do meu esp&iacute;rito, assim desocupado, ressurgiu<br \/>\n    a sua forma, a sua pessoa, que eu julgava de todo morta. Eis a verdade. Pois<br \/>\n    bem: quando eu esperava que as suas primeiras palavras para mim fossem poemas<br \/>\n    de consola&ccedil;&atilde;o e id&iacute;lios de esperan&ccedil;a; quando eu<br \/>\n    supunha que, estando a senhora livre como est&aacute; &#8211; e para sempre, porque<br \/>\n    seu marido n&atilde;o h&aacute; de tornar mais nunca &#8211; n&atilde;o teria para<br \/>\n    mim a expans&atilde;o franca e expont&acirc;nea do amor imenso que &eacute;<br \/>\n    compat&iacute;vel com o seu imenso cora&ccedil;&atilde;o, o que cai dos seus<br \/>\n    l&aacute;bios, no entanto, s&atilde;o senten&ccedil;as cru&eacute;is, que<br \/>\n    v&ecirc;m aumentar a aridez de minha alma, j&aacute; queimada pelo fogo de<br \/>\n    tantos desenganos.<\/p>\n<p> &#8211; A sua ilus&atilde;o, Sr. Dr. &Acirc;ngelo, tem um falso fundamento. Pensa<br \/>\n    o senhor que eu estou livre, quando eu sinto ainda pungir-me o pulso a cadeia<br \/>\n    de ferro, que me prende a meu marido, e n&atilde;o se partir&aacute; sen&atilde;o<br \/>\n    com a morte de um de n&oacute;s dois. Eu n&atilde;o estou livre, continuo<br \/>\n    a ser a escrava infeliz, que, embora na aus&ecirc;ncia de seu senhor, sente,<br \/>\n    ao pensar na sua m&iacute;sera condi&ccedil;&atilde;o, a ponta do azorrague<br \/>\n    machucar-lhe as carnes. Hoje, &eacute; muito mais melindrosa a minha situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que antes do casamento de Virg&iacute;nia; o senhor compreende sem dificuldade<br \/>\n    que a uma filha casada tem sua m&atilde;e muito mais rigoroso dever de dar<br \/>\n    exemplos de honestidade, do que a uma solteira, do que a uma donzela, que<br \/>\n    traz em sua condi&ccedil;&atilde;o parte de sua defesa. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    certo que a corrup&ccedil;&atilde;o chega muito mais facilmente, porque chega<br \/>\n    sem deixar vest&iacute;gios, ao seio da consorte do que ao seio da virgem?<br \/>\n    N&atilde;o tenha mais nenhuma ilus&atilde;o a meu respeito. Estou morta para<br \/>\n    o amor, a n&atilde;o ser para o amor maternal.<\/p>\n<p> Estas palavras levaram o gelo &agrave; alma do bacharel, que estava em fogo<br \/>\n    um momento antes. Ele parou. O luar cobria-os de suave claridade, que ajudou<br \/>\n    Maur&iacute;cia a distinguir no semblante de &Acirc;ngelo ind&iacute;cios<br \/>\n    de &iacute;ntimo desespero.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, ent&atilde;o, disse ele como quem n&atilde;o achava palavras para<br \/>\n    exprimir com precis&atilde;o as suas id&eacute;ias, por que de l&aacute; mesmo<br \/>\n    onde estava, n&atilde;o cortou com decisivo e rude golpe esse amor parasita<br \/>\n    que me corr&oacute;i o cora&ccedil;&atilde;o? Por que me escreveu a senhora?<br \/>\n    Por que teve para mim nessa carta express&otilde;es que se parecem com saud&aacute;veis<br \/>\n    confortos e promessas de prazer eterno? Tenho aqui comigo a sua carta. Muitos<br \/>\n    e ardentes beijos t&ecirc;m meus l&aacute;bios imprimido nela.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo tirou do bolso a carta que Maur&iacute;cia lhe enviara com<br \/>\n    a tradu&ccedil;&atilde;o do romance de George Sand, e o acompanhamento da<br \/>\n    poesia dele; e sem poder suster o seu destino, beijou v&aacute;rias vezes<br \/>\n    o papel.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus! &#8211; exclamou Maur&iacute;cia a modo de assustada. Pe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    perd&atilde;o, mil perd&otilde;es. N&atilde;o cuidei que alentaria assim o<br \/>\n    fogo do seu cora&ccedil;&atilde;o. Deus &eacute; testemunha de que, escrevendo-lhe<br \/>\n    essas letras, a minha inten&ccedil;&atilde;o foi outra. Julgava todo o seu<br \/>\n    afeto por mim extinto, inteiramente aniquilado; e tinha raz&atilde;o para<br \/>\n    pensar assim. Mas, se as minhas palavras foram sementes fatais que vieram<br \/>\n    viver entre as chamas como as salamandras, n&atilde;o me recuse o seu perd&atilde;o,<br \/>\n    porque cometi esse crime sem inten&ccedil;&atilde;o, antes pensando em praticar<br \/>\n    a&ccedil;&atilde;o l&iacute;cita e boa.<\/p>\n<p> E tomando novamente o bra&ccedil;o do bacharel, compeliu-o a andar. Pouco<br \/>\n    adiante, estavam parados os outros.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho uma coisa que lhe dizer, D. Maur&iacute;cia, acudiu Sinhazinha,<br \/>\n    tanto que pode ser ouvida pela m&atilde;e de Virg&iacute;nia.<\/p>\n<p> E correu para ela, gentilmente. &Acirc;ngelo, deixando ent&atilde;o as duas<br \/>\n    amigas juntas, foi dar o bra&ccedil;o a D. Matilde. Da&iacute;, voltaram.<\/p>\n<p> O que Sinhazinha queria dizer &agrave; Maur&iacute;cia &eacute; f&aacute;cil<br \/>\n    adivinhar. Ela soubera naquele momento da aus&ecirc;ncia da rival. D. Matilde,<br \/>\n    que votava grandes simpatias &agrave; filha de D. Sofia, revelara-lhe a sua<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o por ver o filho livre do perigo. &Eacute; f&aacute;cil<br \/>\n    compreender o efeito de tal revela&ccedil;&atilde;o no esp&iacute;rito, para<br \/>\n    assim dizermos, no cora&ccedil;&atilde;o da menina. Ela andava triste. Aquelas<br \/>\n    aventuras tinham-lhe dado muito fel a beber. Durante os dois meses que se<br \/>\n    seguiram &agrave; sua chegada do engenho o seu desgosto, o seu amargor &iacute;ntimo<br \/>\n    tinha ido em aumento. Quando Maur&iacute;cia chegou, mas pode conhec&ecirc;-la,<br \/>\n    porque as carnes pareciam ter fugido do corpo dela e a palidez cobria-lhe<br \/>\n    o rosto. Era inda este o seu estado. A not&iacute;cia dada por D. Matilde<br \/>\n    mudou subitamente as condi&ccedil;&otilde;es do seu esp&iacute;rito. Ordinariamente,<br \/>\n    t&iacute;mida e modesta, Sinhazinha n&atilde;o guardou desta vez coer&ecirc;ncia<br \/>\n    com sua &iacute;ndole e seus h&aacute;bitos. Tomando o bra&ccedil;o de Maur&iacute;cia,<br \/>\n    n&atilde;o a deixou mais sen&atilde;o em casa de Martins. Tornara-se outra.<br \/>\n    Estava alegre. Mais de uma vez aproximou-se de &Acirc;ngelo e dirigiu-lhe<br \/>\n    a palavra; o bacharel notou esta diferen&ccedil;a, porque nos encontros que<br \/>\n    tivera com a mo&ccedil;a durante as duas noites &uacute;ltimas, vira-a apenas<br \/>\n    corresponder aos seus cumprimentos e, em vez de aproximar-se, n&atilde;o perder<br \/>\n    ocasi&#038;atildatilde;o de se distanciar dele. O prazer de Sinhazinha, por&eacute;m,<br \/>\n    durou pouco, porque dentro em breve ela teve a certeza de que &Acirc;ngelo<br \/>\n    estava a todo momento a manifestar-lhe esquivan&ccedil;a. As impress&otilde;es<br \/>\n    de Sinhazinha foram a modo de comunicativas: Maur&iacute;cia, &agrave; propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que os dias se adiantavam, ca&iacute;a tamb&eacute;m em funda melancolia.<\/p>\n<p> Uma vez, perguntou-lhe Eug&ecirc;nia:<br \/>\n    &#8211; Que tem voc&ecirc;, Maur&iacute;cia? Todos notam que voc&ecirc; anda descontente<br \/>\n    e preocupada. Parece-me que n&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o para semelhante<br \/>\n    t&eacute;dio &agrave; vida.<\/p>\n<p> Virg&iacute;nia, que j&aacute; tinha chegado, aproximou-se de Maur&iacute;cia<br \/>\n    e disse-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; Ora, mam&atilde;e, deixe-se de tristeza. Vamos tocar, ou antes, venha<br \/>\n    cantar. Venha, mam&atilde;e.<\/p>\n<p> Por satisfazer &agrave; filha, Maur&iacute;cia p&ocirc;s-se ao piano. Quando<br \/>\n    terminou a harmonia de Schubert, que era a sua predileta, estava banhada de<br \/>\n    l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Interrogada sobre a causa do seu pranto, dissera que n&atilde;o podia ser<br \/>\n    outra sen&atilde;o a sua pouca sorte. Todos foram levados a achar a raz&atilde;o<br \/>\n    desse pranto no procedimento de Bezerra. Maur&iacute;cia n&atilde;o disse<br \/>\n    sim, nem n&atilde;o, a semelhante respeito. Mas os eu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a sua consci&ecirc;ncia protestaram em sil&ecirc;ncio contra o ju&iacute;zo<br \/>\n    geral. <\/p>\n<h2><a name=\"18\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><\/h2>\n<p>O sino da capela deu sinal que ia entrar a festa. As novenas tinham terminado<br \/>\n    na v&eacute;spera com grandes elogios &agrave;s cantoras; mas o concurso de<br \/>\n    gente que elas haviam atra&iacute;do n&atilde;o cessara, antes, na &uacute;ltima<br \/>\n    noite, mostrava-se ainda maior. Muito de ind&uacute;stria, o juiz fizera correr<br \/>\n    fama que os versos seriam cantados pelas primeiras vozes do Recife e que entre<br \/>\n    estas se faria ouvir pela primeira vez a mais gentil das de que ali se poderiam<br \/>\n    jactar at&eacute; ent&atilde;o nas festas das igrejas. Alguns jornais publicaram<br \/>\n    esta not&iacute;cia, e n&atilde;o foi preciso mais para que da rede de arrabaldes,<br \/>\n    que cerca a estrada, chegassem milhares de pessoas dentre as quais, se muitas<br \/>\n    eram arrastadas pela devo&ccedil;&atilde;o, a maioria n&atilde;o tinha outro<br \/>\n    fim que o de divertir-se como &eacute; de costume.<\/p>\n<p> A popular&iacute;ssima festa de Nossa Senhora da Sa&uacute;de que se celebra<br \/>\n    no Po&ccedil;o da Panela; a de Nossa Senhora dos Prazeres de Guararapes, que<br \/>\n    se celebra na freguesia do Cabo; a de Nossa Senhora do Monte, em Olinda, tiveram<br \/>\n    aquele ano digna &ecirc;mula na da Concei&ccedil;&atilde;ozinha da estrada<br \/>\n    Jo&atilde;o de Barros. Nunca festa de arraial foi mais brilhantemente concorrida.<\/p>\n<p> E o espet&aacute;culo sob muitos aspectos importantes, pagava a curiosidade<br \/>\n    das visitas.<\/p>\n<p> Sendo o boqueir&atilde;o, por onde meses antes &Acirc;ngelo passeara com<br \/>\n    Maur&iacute;cia, o ponto do s&iacute;tio que ficava mais perto da capela,<br \/>\n    mandou Martins decotar as &aacute;rvores pr&oacute;ximas e conduzir para ali<br \/>\n    cadeiras, a fim de que as senhoras pudessem, sem risco, ver desse recanto<br \/>\n    ameno o espet&aacute;culo festivo. As sete horas, via-se ali reunida a luzida<br \/>\n    sociedade, que privava com Martins; e ao lado das jovens elegantes, mostravam-se<br \/>\n    mo&ccedil;os de talento e nomeada que ele tinha a fortuna de saber chamar<br \/>\n    &agrave; sua amizade por seus modos francos e obsequiosos. Dos freq&uuml;entadores<br \/>\n    do s&iacute;tio, s&oacute; um faltava: era &Acirc;ngelo. A aus&ecirc;ncia<br \/>\n    deste era sentida por todos, mas especialmente por Maur&iacute;cia, posto<br \/>\n    que sua discri&ccedil;&atilde;o n&atilde;o lhe permitisse revel&aacute;-lo.<br \/>\n    Durante toda a semana, Maur&iacute;cia queixara-se de calafrios e r&aacute;pidas<br \/>\n    pontas de febre. Dizia sentir dores pelo corpo e peito, mas a sua enfermidade<br \/>\n    era moral. &Acirc;ngelo ausentara-se da casa de Martins desde a primeira noite<br \/>\n    de novena, aquela em que tivera de Maur&iacute;cia o mais formal desengano<br \/>\n    e nisso estava a origem do mal dela. Que fizera durante este tempo? N&atilde;o<br \/>\n    podendo vencer a contrariedade e o desgosto, achou um meio de sair desse penoso<br \/>\n    estado, e de vingar-se ao mesmo tempo da m&atilde;e de Virg&iacute;nia fazendo<br \/>\n    que ela viesse a ter tamb&eacute;m o seu quinh&atilde;o de sofrimento. Demais,<br \/>\n    ele estava triste e descontente da cidade que meses antes tomara por uma mans&atilde;o<br \/>\n    celestial. N&atilde;o podia ir ao teatro na aus&ecirc;ncia de J&uacute;lia;<br \/>\n    n&atilde;o podia freq&uuml;entar Martins, depois do que se passara com a cunhada<br \/>\n    deste. Acudiu-lhe, ent&atilde;o, o pensamento de deixar o Recife. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia,<br \/>\n    procurou um amigo pol&iacute;tico de grande import&acirc;ncia para o Presidente<br \/>\n    da Prov&iacute;ncia, que prometeu nome&aacute;-lo para um dos lugares de promotor<br \/>\n    que estavam vagos. Inteiramente absorto na promessa, &Acirc;ngelo, enquanto<br \/>\n    ela se realizava, fugia da sociedade que costumava freq&uuml;entar antes.<br \/>\n    No dia da festa, meteu-se em um dos carros da linha de ferro do Recife a Apicucos,<br \/>\n    e, chegando a este povoado, come&ccedil;ou a matar o tempo andando de um lugar<br \/>\n    para outro, visitando antigos conhecidos, passando horas no hotel entregue<br \/>\n    &agrave; mais cruel monotonia.<\/p>\n<p> Antes de come&ccedil;ar a festa, havia ainda em alguns dos h&oacute;spedes<br \/>\n    de Martins a esperan&ccedil;a de que &Acirc;ngelo repararia a longa aus&ecirc;ncia<br \/>\n    durante toda a semana, comparecendo agora. Maur&iacute;cia, posto que, mais<br \/>\n    competentemente do que ningu&eacute;m, ajuizasse do despeito e contrariedade<br \/>\n    de &Acirc;ngelo, n&atilde;o podia capacitar-se de que ele tivesse &acirc;nimo<br \/>\n    para fugir de assistir a sua despedida. Dentro em breve, por&eacute;m, teve<br \/>\n    a prova do quanto se enganava; e, quando terminado o Te-Deum , sem que o jovem<br \/>\n    advogado houvesse ainda aparecido, a sua tristeza aumentou de intensidade<br \/>\n    e crueldade. Muitas l&aacute;grimas silenciosas recebeu em segredo o seu len&ccedil;o<br \/>\n    perfumado, muitos suspiros ela os abafou cuidadosamente, a fim de que n&atilde;o<br \/>\n    fossem suscitar desconfian&ccedil;as que lhe seriam desairosas.<\/p>\n<p> Conclu&iacute;da a cerim&ocirc;nia, n&atilde;o houve inst&acirc;ncias de<br \/>\n    Martins, n&atilde;o houve rogativas de Eug&ecirc;nia e Sinhazinha que dissuadissem<br \/>\n    Maur&iacute;cia de seguir &agrave;quela mesma hora para o Caxang&aacute;.<br \/>\n    A todos os pedidos, respondeu dizendo que lhe estavam fazendo mal os ares<br \/>\n    da estrada, e que deveria ter pressa em fugir deles; os ares nunca tinham<br \/>\n    sido mais saud&aacute;veis; os aromas das flores dos cajueiros e das mangueiras<br \/>\n    saturavam a atmosfera de &aacute;tomos bals&acirc;micos e gratos. N&atilde;o<br \/>\n    houve nada que a retivesse no s&iacute;tio. &Agrave;s onze horas, a porteira<br \/>\n    do engenho batia sobre a carruagem que entrara conduzindo Maur&iacute;cia,<br \/>\n    Virg&iacute;nia e Martins.<\/p>\n<p> O afastamento de &Acirc;ngelo e a tristeza de Maur&iacute;cia lan&ccedil;aram<br \/>\n    no esp&iacute;rito de Sinhazinha grandes suspeitas, Aquela retirara-se sem<br \/>\n    lhe dizer uma s&oacute; palavra sobre a sua prometida interven&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Somente uma vez dizendo-lhe a filha de D. Sofia que lhe parecia n&atilde;o<br \/>\n    ter diminu&iacute;do a indiferen&ccedil;a do advogado, visto que nunca mais<br \/>\n    ele tornara ao s&iacute;tio, ela lhe respondera:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o perca as esperan&ccedil;as. O tempo acabar&aacute; tudo.<\/p>\n<p> Parte destas suspeitas fora insuflada por D. Sofia, a quem a filha revelava<br \/>\n    todas as ocorr&ecirc;ncias que lhe diziam respeito.<\/p>\n<p> &#8211; Tens tanta confian&ccedil;a em D. Maur&iacute;cia, Sinhazinha, como se<br \/>\n    ela fosse tua m&atilde;e ou tua irm&atilde;. Se pensas que h&aacute; de fazer<br \/>\n    mais por ti do que por ela, est&aacute; enganada.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o diga isso, minha m&atilde;e. D. Maur&iacute;cia tem muito boa<br \/>\n    alma.<\/p>\n<p> &#8211; Tola! N&atilde;o passas de uma tola! Eu tudo estou vendo e pelos domingos<br \/>\n    vou tirando os dias santos. J&aacute; observaste que o Dr. &Acirc;ngelo s&oacute;<br \/>\n    se senta ao p&eacute; dela, e que s&oacute; com ela tira conversa?<br \/>\n    &#8211; Quem &eacute; que n&atilde;o gosta de conversar com D. Maur&iacute;cia,<br \/>\n    que &eacute; t&atilde;o instru&iacute;da e bem educada?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o seja simpl&oacute;ria, minha filha. Eles aproximam-se um do outro<br \/>\n    porque alguma coisa existe entre eles dois. Que quer dizer D. Maur&iacute;cia<br \/>\n    compor um acompanhamento para uma poesia do Dr. &Acirc;ngelo, mandar-lhe tradu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    feitas por ela, conversar com ele horas inteiras? N&atilde;o te iludas, Sinhazinha!<br \/>\n    A menina come&ccedil;ou atentar nestas trai&ccedil;oeiras sagacidades do amor<br \/>\n    maternal e achou que havia fundamento. As suas suspeitas redobraram com a<br \/>\n    intensidade da mol&eacute;stia espiritual de Maur&iacute;cia, que lhe parecia<br \/>\n    ocasionada pelo amuo do bacharel.<\/p>\n<p> Uma manh&atilde;, Martins, passando os olhos por uma das folhas di&aacute;rias<br \/>\n    do Recife, teve grande surpresa. Acabara de ler a nomea&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    &Acirc;ngelo para o lugar de promotor de uma comarca do interior. Mas a surpresa<br \/>\n    n&atilde;o lhe foi inteiramente desagrad&aacute;vel; e dando a not&iacute;cia<br \/>\n    a Eug&ecirc;nia, acrescentou estas palavras:<br \/>\n    &#8211; J&aacute; era tempo de procurar um emprego e entrar numa carreira s&eacute;ria<br \/>\n    e decente. est&aacute; apodrecendo no Recife.<\/p>\n<p> Igual, sen&atilde;o maior surpresa teve D. Matilde, quando o filho lhe indicou<br \/>\n    o seu despacho na folha, Por pouco ela n&atilde;o teve uma s&iacute;ncope.<br \/>\n    N&atilde;o havia para ela sacrif&iacute;cio maior do que viver separada do<br \/>\n    filho.<\/p>\n<p> &#8211; Que resolu&ccedil;&atilde;o foi esta, &Acirc;ngelo? E por que n&atilde;o<br \/>\n    me ouviste antes, meu filho?<br \/>\n    &#8211; Eu sabia que as suas l&aacute;grimas haviam de ter for&ccedil;a para dissuadir-me<br \/>\n    de um pensamento, e um prop&oacute;sito que n&atilde;o pode, ali&aacute;s,<br \/>\n    deixar de redundar em benef&iacute;cio de minha m&atilde;e e meus irm&atilde;os.<\/p>\n<p> D. Matilde come&ccedil;ou a chorar.<\/p>\n<p> &#8211; Muito me h&aacute; de custar a separa&ccedil;&atilde;o, minha m&atilde;e,<br \/>\n    mas a lei fatal da necessidade pode mais que as leis do cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Tenha paci&ecirc;ncia. Preciso de meios para sustentar a fam&iacute;lia, e<br \/>\n    o escrit&oacute;rio n&atilde;o os proporciona. Devo ir busc&aacute;-lo onde<br \/>\n    eles se me oferecem, ainda que seja distante daqui.<\/p>\n<p> Dois dias depois, &Acirc;ngelo seguiu para a comarca. Ia com ele imensa<br \/>\n    dor. A imagem de Maur&iacute;cia, impressa no pensamento, n&atilde;o o deixava<br \/>\n    um instante, no meio das suas fundas cogita&ccedil;&otilde;es; e ao lado dela,<br \/>\n    aparecia D. Matilde, chorosa e triste como no momento da despedida. Nunca<br \/>\n    as saudades tiveram tamanha for&ccedil;a em seu cora&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m<br \/>\n    as longas e desertas solid&otilde;es, que ele atravessava muito deveriam concorrer<br \/>\n    para semelhantes impress&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Talvez &#8211; dizia ele consigo &#8211; talvez que, tendo conhecimento deste meu<br \/>\n    passo, Maur&iacute;cia ainda venha a retribuir o meu afeto. Mas quem sabe<br \/>\n    se eu n&atilde;o ando iludido? Maur&iacute;cia pensar&aacute; ainda em mim?<br \/>\n    Pense ou n&atilde;o, &eacute; ela o &uacute;nico objeto do meu afeto.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia pensava nele, e n&atilde;o podia esquecer-se dele. Quando<br \/>\n    Virg&iacute;nia lhe disse que lera no jornal a nomea&ccedil;&atilde;o de &Acirc;ngelo,<br \/>\n    ela correu como louca para verificar com seus olhos esta fatal not&iacute;cia.<br \/>\n    Sentiu todas as amarguras, todos os tormentos que sofrem de perto os namorados<br \/>\n    com tudo o que pode prolongar a aus&ecirc;ncia do objeto das suas afei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Estava ela ocupando de novo o antigo aposento, na casa-grande, para onde<br \/>\n    se mudara depois da fugida de Bezerra. Concentrou-se a&iacute; com a grande<br \/>\n    dor. Poucas vezes, descia &agrave; sala, onde costumava reunir-se com D. Carolina,<br \/>\n    Virg&iacute;nia e outras senhoras. Deu em tocar e cantar m&uacute;sicas tristes.<br \/>\n    Perdia as noites em longas abstra&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Foi a fatalidade que p&ocirc;s em minha alma esta paix&atilde;o! &#8211; dizia<br \/>\n    algumas vezes.<\/p>\n<p> E as l&aacute;grimas deslizavam-se-lhe pelas faces.<\/p>\n<p> Outras vezes, advertia:<br \/>\n    &#8211; Se eu fosse livre, se eu pudesse dizer-lhe: &quot;posso dar-lhe o meu amor,<br \/>\n    posso retribuir o seu afeto, podemos viver juntos at&eacute; a morte&quot;<br \/>\n    n&atilde;o haveria quem fosse mais ditosa do que eu!<br \/>\n    Mas logo reca&iacute;a em sua habitual melancolia. E ent&atilde;o acrescentava:<br \/>\n    &#8211; Ai de mim! Esta paix&atilde;o leva-me &agrave; sepultura.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia tinha-se esquecido quase inteiramente de Sinhazinha. Tamb&eacute;m<br \/>\n    esta n&atilde;o lhe aparecera, nem escrevera mais. Quando alguma vez aquele<br \/>\n    se lembrava da promessa que fizera, acudia como defesa de si pr&oacute;pria.<\/p>\n<p> &#8211; Fiz por ela o que me foi poss&iacute;vel; mas ele n&atilde;o esteve pelas<br \/>\n    minhas s&uacute;plicas.<\/p>\n<p> Uma tarde, Virg&iacute;nia subiu banhada em l&aacute;grimas ao aposento<br \/>\n    de Maur&iacute;cia. Esta foi ao seu encontro sobressaltada e aflita. A menina<br \/>\n    trazia na m&atilde;o um jornal, onde vinha publicado, entre as not&iacute;cias<br \/>\n    no Norte, a de ter sido assassinado Bezerra na Para&iacute;ba, num ajuntamento<br \/>\n    de povo, por ocasi&atilde;o de uma festa de arraial. Dera lugar ao homic&iacute;dio<br \/>\n    a repres&aacute;lia de Bezerra a uma provoca&ccedil;&atilde;o de um valent&atilde;o<br \/>\n    afamado que bulira com Janoca. N&atilde;o era duvidosa a not&iacute;cia. O<br \/>\n    fato estava narrado pelo mi&uacute;do, e os nomes n&atilde;o deixavam a menor<br \/>\n    incerteza. No fim de um m&ecirc;s, a dor de Virg&iacute;nia estava curada<br \/>\n    e para Maur&iacute;cia come&ccedil;aram a raiar os alegres dias. Quando pela<br \/>\n    primeira vez depois da l&uacute;gubre not&iacute;cia, elas p&ocirc;s as m&atilde;os<br \/>\n    ao piano para tocar, foi uma m&uacute;sica de escolhidas harmonias, que rebentou<br \/>\n    em notas animadas, daquele gigante cofre de suas predile&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Estava neste momento presente uma senhora de sua amizade que lhe pediu cantasse.<br \/>\n    Maur&iacute;cia cantou um dos mais belos peda&ccedil;os do seu repert&oacute;rio.<br \/>\n    A felicidade voltara ao seu esp&iacute;rito; astro risonho come&ccedil;ara<br \/>\n    a surgir acima do horizonte de seu cora&ccedil;&atilde;o, onde tinha reinado<br \/>\n    at&eacute; ent&atilde;o merenc&oacute;rias sombras. &quot;Eu vos agrade&ccedil;o,<br \/>\n    meu Deus, a miseric&oacute;rdia que tivestes para mim&quot;, dizia ela consigo<br \/>\n    nos longos solil&oacute;quios a que costumava entregar-se no aposento. Mas<br \/>\n    a felicidade n&atilde;o devera ficar somente na liberdade. Ela possu&iacute;a<br \/>\n    certamente, o amor que lhe consagrava &Acirc;ngelo. O pensamento de ser venturosa<br \/>\n    com ele rebentou pujante. Fora contrariado por suas declara&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que ele tomara a resolu&ccedil;&atilde;o de exilar-se para o centro da prov&iacute;ncia.<br \/>\n    Tudo, pois, a levava a acreditar no sentimento do bacharel a seu respeito.<br \/>\n    Por isso, n&atilde;o podendo mais resistir ao mais natural desejo de ser feliz,<br \/>\n    assentou de escrever-lhe para que voltasse ao Recife, onde poderiam realizar<br \/>\n    o seu sonho de tantos meses.<\/p>\n<p> Estava j&aacute; com a pena na m&atilde;o, quando vieram dizer-lhe que duas<br \/>\n    senhoras queriam falar-lhe. Maur&iacute;cia desceu. e qual n&atilde;o foi<br \/>\n    a sua surpresa deparando-se Sinhazinha e D. Sofia, que vinham dar-lhe condol&ecirc;ncias<br \/>\n    pela morte de Bezerra.<\/p>\n<p> Sinhazinha estava p&aacute;lida, e quase disforme. A dor moral fizera da<br \/>\n    sua juventude uma ru&iacute;na. Abra&ccedil;ando-se com Maur&iacute;cia, a<br \/>\n    menina n&atilde;o pode suster as l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! a amizade na terra &eacute; uma ilus&atilde;o! N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    amizade verdadeira. O que se apresenta com este nome n&atilde;o passa de v&atilde;<br \/>\n    cortesia que praticam pessoas de educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; tanto assim, Sinhazinha.<\/p>\n<p> D. Sofia deu for&ccedil;a ao pensamento da filha, acrescentando algumas<br \/>\n    palavras acerbas.<\/p>\n<p> Foi curta a visita. Ao sair, Sinhazinha, por palavras impregnadas de ressentimento,<br \/>\n    deu a entender que suspeitava o amor de Maur&iacute;cia, e que esse amor era<br \/>\n    o inimigo do seu. Maur&iacute;cia, sem saber a princ&iacute;pio o que responder,<br \/>\n    pode, enfim, defender-se, dizendo que Sinhazinha estava enganada; que ela<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o era para isso; que s&oacute; na prosperidade de Virg&iacute;nia<br \/>\n    fazia consistir a sua, nem queria outra ainda que lhe fosse f&aacute;cil alcan&ccedil;&aacute;-la.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia subiu ao seu aposento, levando inesperadas amarguras na<br \/>\n    alma. Tinha passado alguns dias nos bra&ccedil;os de uma ilus&atilde;o inef&aacute;vel;<br \/>\n    algumas manh&atilde;s haviam surgido cheias de luzes e vis&otilde;es feiticeiras<br \/>\n    aos seus olhos; algumas noites tinha levado em claro, enamorada dos castelos,<br \/>\n    que a esperan&ccedil;a lhe levantara na imagina&ccedil;&atilde;o. Mas tudo<br \/>\n    ca&iacute;a por terra. A presen&ccedil;a da filha de D. Sofia, seu emagrecimento,<br \/>\n    sua tristeza, seu des&acirc;nimo, suas queixas, suas l&aacute;grimas, tinham<br \/>\n    destru&iacute;do, como se fossem vendavais, as flores que estas manh&atilde;s<br \/>\n    se mostraram toucadas, como as jovens de Anacreonte. Por uma singular generosidade<br \/>\n    de sua alma, Sinhazinha se lhe afigurou uma segunda filha. O sentimento maternal<br \/>\n    que lograra alcan&ccedil;ar a felicidade para Virg&iacute;nia, ela o sentiu<br \/>\n    despertar no cora&ccedil;&atilde;o para favorecer aquela desconsolada menina,<br \/>\n    cujas qualidades morais tinha na melhor conta. Doeu-lhe que fosse ela que<br \/>\n    concorresse de qualquer modo para destruir o futuro da meiga criatura e aos<br \/>\n    seus pr&oacute;prios olhos envergonhou-se de pensar em ser feliz &agrave;<br \/>\n    custa do amor dessa mulher que no mais apertado transe procurara a sua prote&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Pareceu-lhe que, se levasse por diante a resolu&ccedil;&atilde;o, nenhuma<br \/>\n    senhora de sua amizade, ningu&eacute;m que a conhecesse teria para ela outro<br \/>\n    ep&iacute;teto que o de &#8211; p&eacute;rfida! Esta ordem de id&eacute;ias acovardou<br \/>\n    Maur&iacute;cia. H&aacute;, ainda, posto que sejam raros, como era o dela,<br \/>\n    caracteres que rejeitam riqueza, brilho, prazeres da vida, se para a aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tais bens se exigir que eles sujeitem a uma imputa&ccedil;&atilde;o menos<br \/>\n    digna, que seria o seu perp&eacute;tuo tormento, a sua t&uacute;nica de Nesso.<\/p>\n<p> Quando as suas vistas ca&iacute;ram sobre o papel, que ainda estava aberto<br \/>\n    na mesa, ela sentiu que os olhos se lhe arrasavam de l&aacute;grimas. Se a<br \/>\n    visita de Sinhazinha se realizasse no dia seguinte, ou talvez algumas horas<br \/>\n    depois, a carta teria seguido j&aacute; os eu destino, e ela lograria, talvez,<br \/>\n    o que sonhava; mas a fatalidade, que a perseguia de h&aacute; muito n&atilde;os<br \/>\n    e esquecera dela ainda esta vez.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cia sentou-se defronte do papel<br \/>\n    &#8211; Que devo fazer? &#8211; perguntou a si mesma. Devo escrever, ou devo, ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    renunciar para sempre a esperan&ccedil;a de ter completa na terra a mais nobre<br \/>\n    ambi&ccedil;&atilde;o de minha alma?<br \/>\n    Passou alguns momentos em aflitiva hesita&ccedil;&otilde;es, muda, o olhar<br \/>\n    gelado sobre a p&aacute;gina branca. Sinhazinha n&atilde;o lhe sa&iacute;a<br \/>\n    da pensamento.<\/p>\n<p> Quando estava nesta perplexidade, Virg&iacute;nia entrou e come&ccedil;ou<br \/>\n    a falar-lhe sobre o depauperamento e a tristeza da amiga.<\/p>\n<p> &#8211; Mam&atilde;e, sabe por que &eacute; que Sinhazinha est&aacute; assim?<br \/>\n    &#8211; Por que &eacute;? &#8211; interrogou Maur&iacute;cia por demais.<\/p>\n<p> &#8211; S&atilde;o saudades do Dr. &Acirc;ngelo. Ela tem-lhe muito amor. N&atilde;o<br \/>\n    se pode esquecer dele. Coitada de Sinhazinha!<br \/>\n    &#8211; Tens pena de Sinhazinha, Virg&iacute;nia?<br \/>\n    &#8211; E por que n&atilde;o hei de ter? Mam&atilde;e bem sabe que eu gosto muito<br \/>\n    Sinhazinha; ela &eacute; uma das minhas melhores amigas. Se estivesse em minhas<br \/>\n    m&atilde;os dar-lhe o que mais deseja, eu n&atilde;o hesitaria um momento.<br \/>\n    Ela &eacute; t&atilde;o boa, t&atilde;o meiga, t&atilde;o sincera.<\/p>\n<p> &#8211; Acreditas na sua amizade?<br \/>\n    &#8211; Acredito, sim. Quantas vezes ela me consolou nas minhas tristezas, antes<br \/>\n    do meu casamento, quando me parecia que ele n&atilde;o havia de realizar-se!<br \/>\n    Quantas vezes me disse, vendo-me chorar: &quot;N&atilde;o chore, Virg&iacute;nia.<br \/>\n    Tenha confian&ccedil;a em Deus. O Sr. Paulo h&aacute; de ser seu marido. Que<br \/>\n    tem que Iaiazinha tenha muitos contos de r&eacute;is, seja prima do Sr. Paulo,<br \/>\n    e D. Carolina mostre desejo que eles se casem? Tudo isto n&atilde;o lhe h&aacute;<br \/>\n    de fazer mal nenhum. N&atilde;o desanime.&quot; Quem fazia isto comigo, quem<br \/>\n    me dava tanta coragem, quando eu sentia meu esp&iacute;rito abatido, quem<br \/>\n    queria do meu cora&ccedil;&atilde;o a minha felicidade n&atilde;o me deve<br \/>\n    merecer muito, muito?<br \/>\n    Estas palavras foram agudos punhais desferidos contra o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Maur&iacute;cia, que se sentiu depois disso ainda menos forte pata levar<br \/>\n    a efeito a sua resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o escreverei &#8211; disse, levantando-se. Custar-me-&aacute;, talvez,<br \/>\n    a vida este passo, mas hei de ter for&ccedil;as para d&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Sem compreender o que dissera sua m&atilde;e, Virg&iacute;nia olhou para<br \/>\n    ela at&ocirc;nita e confusa; e no seu rosto, por onde lhe corria em bagas<br \/>\n    o pranto, buscou em v&atilde;o ler o natural sentido daquelas palavras.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus! &#8211; exclamou a menina ao cabo de um momento, em que lobrigava<br \/>\n    muito ao longe nuvem cheia de tempestades no horizonte, por ora sem fogos<br \/>\n    e sem vulc&otilde;es destruidores, da vida de Maur&iacute;cia. &#8211; A quem ia<br \/>\n    escrever, mam&atilde;e? Se minhas palavras concorreram para que a senhora<br \/>\n    mudasse de uma resolu&ccedil;&atilde;o que lhe era agrad&aacute;vel, n&atilde;o<br \/>\n    se importe com elas. Fa&ccedil;a o que for melhor.<\/p>\n<p> Era tarde. Estava resolvido o sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<h2><a name=\"19\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><\/h2>\n<p>Longe do Recife, numa vila de costumes primitivos, de vida quase rudimentar<br \/>\n    no alto sert&atilde;o, o amor de &Acirc;ngelo por Maur&iacute;cia requintara.<br \/>\n    Dia e noite, o bacharel trazia na lembran&ccedil;a a bela imagem dessa mulher,<br \/>\n    umas vezes a modo assustada, outras mostrando r&aacute;pidos ci&uacute;mes,<br \/>\n    outras indiferentes &agrave;s suas exalta&ccedil;&otilde;es. Maur&iacute;cia<br \/>\n    de feito passara por todos estes estados espirituais, que se alternavam e<br \/>\n    sucediam ao sabor das circunst&acirc;ncias ou dos acontecimentos de sua vida<br \/>\n    agitada por for&ccedil;as diferentes, contradit&oacute;rias ou reciprocamente<br \/>\n    hostis. Qualquer que fosse, por&eacute;m, a face dessa imagem que se reproduzisse<br \/>\n    no pensamento do jovem bacharel, tinha sempre ele para ela as mais distintas<br \/>\n    preferencias.<\/p>\n<p> Nos primeiros tempos, &Acirc;ngelo sentiu-se inteiramente arrependido do<br \/>\n    passo que dera; esteve ainda para pedir demiss&atilde;o, tamanho foi o seu<br \/>\n    descontentamento, e t&atilde;o incompat&iacute;veis se lhe afiguraram com<br \/>\n    sua &iacute;ndole e educa&ccedil;&atilde;o costumes e sentimentos t&atilde;o<br \/>\n    prim&aacute;rios de mistura com sentimentos e costumes inocentes e singelos;<br \/>\n    mas, dominando os receios de desgostos e sobretudo, desanimado ante o pensamento<br \/>\n    de continuar a sofrer no Recife os tormentos silenciosos de sua paix&atilde;o<br \/>\n    contrariada, logrou perder a id&eacute;ia de voltar. Todo o seu esp&iacute;rito<br \/>\n    come&ccedil;ou a revoar em torno dessa imagem imperecedoura, dessa ideal cria&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que distante do original, se tornava cada vez mais espiritual, mais fant&aacute;stica,<br \/>\n    mais po&eacute;tica, e por isso mais rica de atra&ccedil;&atilde;o pelos eu<br \/>\n    prest&iacute;gio quase divino. Enfim, a id&eacute;ia fixa de &Acirc;ngelo<br \/>\n    era esta: que Bezerra havia de morrer primeiro que ele e Maur&iacute;cia,<br \/>\n    e que, esta lhe pertenceria. Imagine-se, por isso, com que mostras de satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    interior n&atilde;o leu ele no jornal a not&iacute;cia da morte daquele infeliz<br \/>\n    homem. Quanto o amor &eacute; perverso!<br \/>\n    N&atilde;o leu uma vez s&oacute;, releu muitas vezes a not&iacute;cia de cuja<br \/>\n    veracidade ao princ&iacute;pio pareceu duvidar, mas em que acreditou, por<br \/>\n    &uacute;ltimo, visto que era irrecus&aacute;vel a evid&ecirc;ncia. Ocorreu-lhe,<br \/>\n    ent&atilde;o, o pensamento de voltar ao Recife, procurar Maur&iacute;cia e<br \/>\n    dizer-lhe: &quot;Eis-me aqui, belo anjo. Cessaram todos os obst&aacute;culos<br \/>\n    que cavavam entre n&oacute;s abismo intranspon&iacute;vel.&quot; E a sua imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de poeta conclu&iacute;a este como c&acirc;ntico de ressurrei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com um verso de Martins, que andava muito em voga e se repetia entre mo&ccedil;as<br \/>\n    e rapazes no retiro liter&aacute;rio da estrada:<\/p>\n<p>&quot;Sejamos, meu anjo, sejamos um s&oacute;&quot;<\/p>\n<p>O primeiro correio que partira da vila, depois da chegada da not&iacute;cia<br \/>\n    consoladora, trouxe a um amigo de &Acirc;ngelo que o era tamb&eacute;m do<br \/>\n    presidente da prov&iacute;ncia &#8211; o mesmo que obtivera a nomea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; um pedido de licen&ccedil;a para vir tratar de sua sa&uacute;de na capital.<br \/>\n    Por essa ocasi&atilde;o o bacharel escreveu tamb&eacute;m a D. Matilde e a<br \/>\n    Martins, mas nada lhe disse a respeito do passo que dera.<\/p>\n<p> O seu empenho em fazer surpresa a Maur&iacute;cia era tamanho que ele recomendou<br \/>\n    &agrave;quele amigo toda a reserva. A licen&ccedil;a n&atilde;o foi publicada.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo p&ocirc;s-se a caminho, logo depois que recebeu o despacho<br \/>\n    oficial, e depois de longa jornada a cavalo, alcan&ccedil;ou uma das &uacute;ltimas<br \/>\n    esta&ccedil;&otilde;es da estrada de ferro Recife a S&atilde;o Francisco.<br \/>\n    Chegou &agrave;quela cidade na mesma tarde. Entre o pedido de licen&ccedil;a<br \/>\n    e a chegada, haviam decorrido cerca e tr&ecirc;s meses.<\/p>\n<p> Quanto lhe custou o trajeto da esta&ccedil;&atilde;o das Cinco Pontas &agrave;<br \/>\n    estrada Jo&atilde;o de Barros! Tinha o cora&ccedil;&atilde;o em aflitiva e<br \/>\n    doce ansiedade. A carruagem n&atilde;o rodava, voava por ordem sua, o plaustro<br \/>\n    das ninfas antigas n&atilde;o era mais veloz. E ele tinha raz&atilde;o de<br \/>\n    querer vencer a dist&acirc;ncia com a rapidez do pensamento; estava quase<br \/>\n    alucinado. Havia perto de seis meses que n&atilde;o sabia not&iacute;cia de<br \/>\n    Maur&iacute;cia, que durante esse tempo tivera quase exclusivo dom&iacute;nio<br \/>\n    em suas id&eacute;ias. Enfim, ao escurecer, o carro parou &agrave; porta do<br \/>\n    s&iacute;tio de D. Rosalina. &Acirc;ngelo, tendo na m&atilde;o a bolsa de<br \/>\n    viagem, saltou, quando o carro ainda n&atilde;o estava parado, e transp&ocirc;s<br \/>\n    correndo a soleira do port&atilde;o. Arbustos, que ele deixara pequenos, estavam<br \/>\n    grandes. Madressilvas novas, resed&aacute;s, jasmins-laranjas, que haviam<br \/>\n    sido plantados em sua aus&ecirc;ncia, formavam latadas sombrias e muitas espessas<br \/>\n    nas proximidades da porta da entrada. Os cajueiros ostentando os primeiros<br \/>\n    frutos daquele ano, recendiam aromas agrad&aacute;veis.<\/p>\n<p> &#8211; Reconhe&ccedil;o os aromas do cajueiro &#8211; disse ele &#8211; entrando. Como s&atilde;o<br \/>\n    gratos os perfumes da casa paterna!<br \/>\n    Uma afilhada de D. Matilde, por nome Joana, que ao p&eacute; de uma das janelas,<br \/>\n    se aproveitava das &uacute;ltimas claridades do dia para concluir a sua tarefa<br \/>\n    em uma almofada de renda, correu como louca pelo corredor a dentro, gritando:<br \/>\n    &#8211; Dindinha, Dindinha, aqui est&aacute; seu &Acirc;ngelo!<br \/>\n    Foi um reboli&ccedil;o, uma revolu&ccedil;&atilde;o, um deus-nos-acuda na<br \/>\n    casa de D. Rosalina. Por alguns momentos, pareceu que o mundo vinha abaixo.<br \/>\n    mas n&atilde;o estava longe do prazer o desgosto, da esperan&ccedil;a o desespero<br \/>\n    para o infeliz homem de letras.<\/p>\n<p> &#8211; D&aacute;-me not&iacute;cias de D. Maur&iacute;cia, minha m&atilde;e?<br \/>\n    &#8211; perguntou &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> D. Matilde hesitou. Seu rosto, por onde discorria a aurora boreal de uma<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o inesperada e inef&aacute;vel, seu rosto, que, sem<br \/>\n    falar, parecia dizer mil prazeres interiores, vestiu repentinamente a sombra<br \/>\n    do luto &iacute;ntimo. A boca, que estava dizendo mir&iacute;ada de emo&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    emudeceu.<\/p>\n<p> A mudan&ccedil;a s&uacute;bita, que &Acirc;ngelo notou imediatamente, agu&ccedil;ou<br \/>\n    a sua curiosidade, redobrou a sua ang&uacute;stia.<\/p>\n<p> &#8211; Por que se cala, minha m&atilde;e? &#8211; inquiriu ele, mal disfar&ccedil;ando<br \/>\n    a contrariedade. N&atilde;o me oculte nada. Li no jornal que o marido tinha<br \/>\n    morrido. Antes de tudo, diga-me se o jornal falou a verdade ou mentiu.<\/p>\n<p> &#8211; Falou a verdade, &Acirc;ngelo &#8211; respondeu D. Matilde. Assim n&atilde;o<br \/>\n    tivesse D. Maur&iacute;cia&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tivesse o qu&ecirc;, minha m&atilde;e?<br \/>\n    -&#8230; morrido tamb&eacute;m, &Acirc;ngelo!<br \/>\n    &#8211; O qu&ecirc;? O que, minha m&atilde;e? &#8211; exclamou o bacharel.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus, meu Deus! &#8211; acudiu D. Matilde. N&atilde;o te impressiones com<br \/>\n    a vontade de Deus, meu filho, por mais dolorosa que te pare&ccedil;a.<\/p>\n<p> Durante alguns momentos, &Acirc;ngelo n&atilde;o pode dizer uma palavra<br \/>\n    sequer. V&eacute;u de profunda noite descera como mortalha negra sobre o seu<br \/>\n    esp&iacute;rito, onde alvejavam antes roupas de noivado querido. P&ocirc;s<br \/>\n    as m&atilde;os na cabe&ccedil;a e, cravados os cotovelos na mesa, que tinha<br \/>\n    diante de si, no quarto, entregou-se &agrave; acerba dor que o tomara no meio<br \/>\n    do mais intenso prazer que sonhara. Era a segunda vez que se lhe deparava<br \/>\n    na vida o espet&aacute;culo da morte de uma pessoa cara. As l&aacute;grimas<br \/>\n    em borbot&otilde;es come&ccedil;aram a cair-lhe pelas faces e a formar uma<br \/>\n    po&ccedil;a cristalina, onde se refletia a luz j&aacute; ent&atilde;o acesa.<\/p>\n<p> Vendo-o chorar, D. Matilde entrou a chorar, tamb&eacute;m. E por esta forma<br \/>\n    se trocaram sorrisos em l&aacute;grimas, doces como&ccedil;&otilde;es por<br \/>\n    afli&ccedil;&otilde;es pungentes.<\/p>\n<p> Horas depois, &Acirc;ngelo deitado no sofazinho de vime do seu aposento,<br \/>\n    tendo a cabe&ccedil;a sobre as pernas de D. Matilde, ouviu desta a narra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos &uacute;ltimos dias de vida de Maur&iacute;cia. O que a m&atilde;e contou<br \/>\n    ao filho pode resumir-se no seguinte:<br \/>\n    Certa manh&atilde;, Maur&iacute;cia sentira-se sem for&ccedil;as para levantar-se<br \/>\n    da cama. Passara a noite prostrada e febril. Nas faces, l&iacute;vida cor<br \/>\n    substitu&iacute;ra as mimosas tintas esparzidas a&iacute; meses antes pelo<br \/>\n    pincel do artista insigne que se chama sa&uacute;de , ou antes tranq&uuml;ilidade<br \/>\n    espiritual . O vigor, e com ele a vida fugiam espavoridos.<\/p>\n<p> A doen&ccedil;a trouxe grandes sustos &agrave; fam&iacute;lia. Em conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com a mulher, Albuquerque, que j&aacute; tinha notado dias atr&aacute;s os<br \/>\n    progressos da decad&ecirc;ncia f&iacute;sica dessa criatura robusta, que os<br \/>\n    sofrimentos mais cru&eacute;is nunca tinham podido vencer, e que, ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    de todos triunfara.<\/p>\n<p> Virg&iacute;nia muitas vezes surpreendera a m&atilde;e chorando em sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    Empregara todo o esfor&ccedil;o para saber a origem dessas l&aacute;grimas,<br \/>\n    que levavam dor mortal diretamente ao seu cora&ccedil;&atilde;o; mas nem de<br \/>\n    longe Maur&iacute;cia dera a entender a verdadeira causa delas. Uma vez disse<br \/>\n    &agrave; filha, depois de fugir por muitos modos &agrave;s suas indaga&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o te assustes com o meu pranto, Virg&iacute;nia. N&atilde;o &eacute;s<br \/>\n    tu feliz? A tua felicidade n&atilde;o vai aumentar com o nascimento do primeiro<br \/>\n    fruto do teu amor? Deixa-me chorar em sil&ecirc;ncio; choro sem causa; as<br \/>\n    minhas l&aacute;grimas prov&ecirc;m de uma melancolia que eu n&atilde;o compreendo<br \/>\n    e n&atilde;o posso explicar.<\/p>\n<p> Naquele dia, Maur&iacute;cia pedira Albuquerque que mandasse por os cavalos<br \/>\n    na carruagem; queria ir &agrave; estrada de Jo&atilde;o de Barros; tinha muitas<br \/>\n    saudades de Eug&ecirc;nia; queria v&ecirc;-la. &Agrave; noitinha a m&atilde;e<br \/>\n    e a filha entraram em casa de Martins.<\/p>\n<p> &#8211; Venho v&ecirc;-los &#8211; disse aquela, entrando; e creio que daqui n&atilde;o<br \/>\n    sairei mais, sen&atilde;o para o cemit&eacute;rio. Procuro uma regi&atilde;o<br \/>\n    apraz&iacute;vel para exalar o meu &uacute;ltimo suspiro.<\/p>\n<p> Martins e Eug&ecirc;nia, que n&atilde;o sabiam da doen&ccedil;a da parenta,<br \/>\n    sentiram uma impress&atilde;o dolorosa, vendo-a naquela abatimento geral,<br \/>\n    que indicava pr&oacute;ximo acabamento, e ouvindo palavras que pareciam anunci&aacute;-lo<br \/>\n    j&aacute;.<\/p>\n<p> Nessa mesma noite, Maur&iacute;cia mandou dizer a Sinhazinha que a viesse<br \/>\n    ver, e ela n&atilde;o se fez esperar. Aquelas duas mulheres, que estavam padecendo<br \/>\n    do mesmo mal, abra&ccedil;aram-se com ternura.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda est&aacute; muito descrente, Sinhazinha? &#8211; perguntou-lhe Maur&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8211; Cada vez estou mais. A sinceridade fugiu do mundo.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o tem raz&atilde;o para dizer isso. Deixe-se de descren&ccedil;a.<br \/>\n    Seu futuro est&aacute; clareando. A tempestade cessar&aacute; brevemente,<br \/>\n    e surgir&aacute; depois um dia risonho e espl&ecirc;ndido, que h&aacute; de<br \/>\n    acompanh&aacute;-la por toda a vida sem nuvens e sem ventanias.<\/p>\n<p> &#8211; Qual, D. Maur&iacute;cia! A senhora diz-me estas coisas t&atilde;o bonitas<br \/>\n    para consolar-me. Ningu&eacute;m melhor do que a senhora sabe que as minhas<br \/>\n    ilus&otilde;es murcharam e secaram.<\/p>\n<p> &#8211; Para que metes pontas de remoques nas tuas palavras? N&atilde;o me queira<br \/>\n    mal, Sinhazinha. Fa&ccedil;o votos sinceros para que voc&ecirc; logre o que<br \/>\n    mais deseja.<\/p>\n<p> Aparecendo Eug&ecirc;nia e Virg&iacute;nia, as duas senhoras mudaram de<br \/>\n    assunto.<\/p>\n<p> Eug&ecirc;nia disse que o mal de Maur&iacute;cia desapareceria com o leite<br \/>\n    tomado todas as manh&atilde;s ao p&eacute; da vaca, banhos frios, e passeios<br \/>\n    pela estrada. Virg&iacute;nia aprovou este tratamento, e Sinhazinha prometeu<br \/>\n    fazer companhia a Maur&iacute;cia. Esta, por&eacute;m, mostrava-se no todo<br \/>\n    desanimada. Tinha por certo o seu aniquilamento. Estava resignada, e dizia<br \/>\n    que n&atilde;o havia de chegar ao fim do ano.<\/p>\n<p> Uma tarde, Maur&iacute;cia foi atacada de febre t&atilde;o forte que dela<br \/>\n    n&atilde;o se levantou mais. Os m&eacute;dicos deram &agrave; mol&eacute;stia<br \/>\n    fatal um nome acabado em ite : mas o que a levou &agrave; sepultura n&atilde;o<br \/>\n    foi sen&atilde;o o sacrif&iacute;cio que se impusera.<\/p>\n<p> Tr&ecirc;s dias depois do ataque, a casa de Martins que durante tantos anos<br \/>\n    servira de est&acirc;ncia de prazeres puros e alegres, oferecia um espet&aacute;culo<br \/>\n    altamente contristador. Ia emudecer a voz que fizera vibrar as harpas mais<br \/>\n    harmoniosas que ainda ressoavam na pitoresca estrada; iam tolher-se finos<br \/>\n    e gelados os dedos torneados e coloridos, que arrancaram das teclas mudas<br \/>\n    e frias as mais ardentes e apaixonadas inspira&ccedil;&otilde;es dos grandes<br \/>\n    mestres da arte dos sons e das melodias; ia, enfim, morrer aquela beleza ainda<br \/>\n    fresca, ainda admir&aacute;vel, dando o grande exemplo de uma rara abnega&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    depois dos maiores e mais eloq&uuml;entes testemunhos de respeito ao dever<br \/>\n    conjugal. Mulheres, mirai-vos nesse espelho de a&ccedil;o puro! Maur&iacute;cia<br \/>\n    existiu. Foi, como aqui se pinta, uma mulher que honrou seu sexo e a fam&iacute;lia<br \/>\n    brasileira.<\/p>\n<p> Albuquerque e Paulo, que tinham vindo do engenho na v&eacute;spera, ora<br \/>\n    se sentavam, ora passeavam pela sala comovidos mas silenciosos. Na alcova,<br \/>\n    D. Eug&ecirc;nia, Sinhazinha, D. Carolina e D. Teodora, em pranto, rodeavam<br \/>\n    o leito da agonizante. D. Matilde, mais perto dela do que nenhuma outra, tinha<br \/>\n    quase sobre os joelhos a sua cabe&ccedil;a e pegava-lhe de uma das m&atilde;os.<br \/>\n    Virg&iacute;nia, que n&atilde;o tivera coragem de arrostar a transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquela que ia levar consigo parte de sua alma, solu&ccedil;ava inconsol&aacute;vel<br \/>\n    em um aposento vizinho.<\/p>\n<p> &#8211; O Dr. &Acirc;ngelo est&aacute; t&atilde;o distante daqui! &#8211; disse Maur&iacute;cia.<br \/>\n    Mandem cham&aacute;-lo. Quero v&ecirc;-lo antes de morrer.<\/p>\n<p> &#8211; Ele vem a&iacute; &#8211; respondeu-lhe D. Matilde.<\/p>\n<p> &#8211; Levo algumas saudades da vida &#8211; tornou a agonizante.<\/p>\n<p> E depois disse:<br \/>\n    &#8211; O meu sacrif&iacute;cio matou-me&#8230;<\/p>\n<p> Foram estas as suas &uacute;ltimas palavras.<\/p>\n<p> Depois da morte de Nunes Machado, n&atilde;o houve naquela estrada outro<br \/>\n    caso de morte que produzisse nos habitantes t&atilde;o profunda impress&atilde;o.<br \/>\n    Nem podia acontecer o contr&aacute;rio. Por v&aacute;rios anos, especialmente<br \/>\n    por ocasi&atilde;o das festas de S&atilde;o Jo&atilde;o, do Natal e da Concei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    eles tinham visto passar de bra&ccedil;o dado com alguma jovem das mais estimadas,<br \/>\n    ou algum cavalheiro de maior distin&ccedil;&atilde;o, em grupos de fam&iacute;lias<br \/>\n    por baixo das &aacute;rvores, colhendo flores, sorrindo feliz, gracejando<br \/>\n    e brincando, aquela senhora respeit&aacute;vel sem entono, esbelta sem afeta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    formosa sem os esplendores da primeira juventude, sempre desejada, sempre<br \/>\n    querida e sempre digna do apre&ccedil;o e respeito dos que a conheciam.<\/p>\n<p> No outro dia, a capelinha, onde fora depositado o cad&aacute;ver parecia<br \/>\n    horto. N&atilde;o houve rosas, perp&eacute;tuas, saudades, murtas e alecrins<br \/>\n    em todos os s&iacute;tios dos arredores, que n&atilde;o tivessem vindo adornar<br \/>\n    o pen&uacute;ltimo pa&ccedil;o de t&atilde;o preciosos restos mortais. N&atilde;o<br \/>\n    houve matrona, ou mo&ccedil;a, ainda que n&atilde;o pertencesse ao c&iacute;rculo<br \/>\n    de onde havia emigrado para nunca mais voltar aquela musa canora, apaixonada<br \/>\n    e honesta, que n&atilde;o mandasse levar &agrave; capelinha o seu ramalhete<br \/>\n    ou o seu a&ccedil;afate com flores &#8211; delicado tributo de estima, espontaneamente<br \/>\n    rendido em honra de quem deixava t&atilde;o gentil mem&oacute;ria na face<br \/>\n    da terra<\/p>\n<h2>CONCLUS&Atilde;O<\/h2>\n<p>Voltando do interior &agrave; capital de Pernambuco, o primeiro ponto para<br \/>\n    onde me encaminhei, depois de ter ido ao meu cabeleiro, foi o teatro. Havia<br \/>\n    cerca de oito meses que eu estava fora do Recife. A minha estada na remota<br \/>\n    povoa&ccedil;&atilde;o aonde me levara interesse particular, fora um longo<br \/>\n    e ininterrupto t&eacute;dio. Cheguei &aacute;vido de distra&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Ora, a primeira que se me ofereceu foi um espet&aacute;culo anunciado para<br \/>\n    aquele dia. Esse espet&aacute;culo despertou logo em mim dobrada curiosidade:<br \/>\n    o drama, al&eacute;m de novo, era original de &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> No teatro, encontrei-me com Martins, que fora atra&iacute;do pela mesma<br \/>\n    novidade que eu. &Acirc;ngelo estava num camarote da segunda ordem. Notando<br \/>\n    eu a presen&ccedil;a de duas senhoras que me pareceram estranhas &agrave;<br \/>\n    fam&iacute;lia do dramaturgo, Martins veio em socorro &agrave; minha lembran&ccedil;a:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o conheces mais Sinhazinha e a m&atilde;e?<br \/>\n    &#8211; Ah! S&atilde;o elas?<br \/>\n    &#8211; &Acirc;ngelo est&aacute; de casamento justo com Sinhazinha.<\/p>\n<p> Nesse momento, o nosso amigo, que nos vira, fez sinal para que fossemos<br \/>\n    ter com ele. Subimos, e do camarote assistimos aos seus triunfos liter&aacute;rios.<\/p>\n<p> Quase n&atilde;o conhe&ccedil;o Sinhazinha. Estava muito menos delgada do<br \/>\n    que antes, corada, bonita e parecia ter perdido parte dos modos t&iacute;midos,<br \/>\n    melhor direi, do acanhamento que um ano atr&aacute;s era a sua fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dominante. &Acirc;ngelo mostrava-se satisfeito, para n&atilde;o dizer feliz.<br \/>\n    Enfim, notei entre as duas fam&iacute;lias uma como benevol&ecirc;ncia rec&iacute;proca<br \/>\n    e &iacute;ntima, que me deu a medida da harmonia a coroar o la&ccedil;o ajustado<br \/>\n    entre os dois jovens.<\/p>\n<p> Lembrei-me de Maur&iacute;cia ao sair do teatro, e falei nela a Martins.<\/p>\n<p> &#8211; Vai fazer um ano que a acompanhei &agrave; sepultura. Teve uma vida bem<br \/>\n    penosa e crua. Descansou.<\/p>\n<p> Comoveram-me estas palavras.<\/p>\n<p> Entrei em casa, revolvendo no pensamento aquela profunda senten&ccedil;a<br \/>\n    que Herculano p&ocirc;s nas elegias do Presb&iacute;tero de Cart&eacute;ia:<br \/>\n    &quot;Haver&aacute; paz no t&uacute;mulo? Deus sabe o destino de cada homem.<br \/>\n    Para o que a&iacute; repousa, sei eu que h&aacute; na terra o esquecimento!&quot;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Franklin T\u00e1vora Cap&iacute;tulo I Todas as vezes que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96134","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Sacrif\u00edcio - Franklin T\u00e1vora, Obra O Sacrif\u00edcio - Franklin T\u00e1vora<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Sacrif\u00edcio - Franklin T\u00e1vora, Obra, Hist\u00f3ria, \u00c2ngelo, Martins, Eug\u00eania, D. 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