{"id":96130,"date":"2017-01-24T11:01:40","date_gmt":"2017-01-24T13:01:40","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96130"},"modified":"2017-01-24T11:01:40","modified_gmt":"2017-01-24T13:01:40","slug":"o-matuto-franklin-tavora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-matuto-franklin-tavora","title":{"rendered":"O Matuto &#8211; Franklin T\u00e1vora"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#15\">Cap\u00edtulo XV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#16\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#17\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#18\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#19\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#20\">Cap\u00edtulo XX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#21\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#22\">Cap\u00edtulo XXII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#23\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#24\">Cap\u00edtulo XXIV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#25\">Cap\u00edtulo XXV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#26\">Cap\u00edtulo XXVI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#27\">Cap\u00edtulo XXVII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#28\">Cap\u00edtulo XXVIII <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#29\">Cap\u00edtulo XXIX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Franklin T\u00e1vora<\/h2>\n<h2><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I<\/a><\/h2>\n<p>Pasmado &eacute; uma velha povoa&ccedil;&atilde;o, outr&rsquo;ora aldeia<br \/>\n    de &iacute;ndios, duas l&eacute;guas ao norte de Iguarass&uacute;, na estrada<br \/>\n    de Goiana. &Eacute; c&eacute;lebre por seus ferreiros, ou mais especialmente<br \/>\n    pelas facas de ponta que estes fabricam, as quais passam pelas melhores de<br \/>\n    Pernambuco onde t&ecirc;m estendida e tradicional nomeada. N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    terra que se n&atilde;o distinga por usan&ccedil;a, defeito, qualidade ou<br \/>\n    particularidade local, que vem a ser o seu como tra&ccedil;o caracter&iacute;stico,<br \/>\n    a sua fei&ccedil;&atilde;o dominante. Quem passa por Tigipi&oacute;, na estrada<br \/>\n    de Jaboat&atilde;o, encontra a cada canto tocadores de viola que v&ecirc;m<br \/>\n    alegres, e p&eacute; no mato p&eacute; no caminho. Dos casebres do Barro o<br \/>\n    que logo se mostra aos olhos do viandante s&atilde;o mulheres metedi&ccedil;as,<br \/>\n    com as cabe&ccedil;as cobertas com flores, os cabe&ccedil;&otilde;es arrendados<br \/>\n    e decotados, os seios quase de fora. Costumes dos povoados onde ainda n&atilde;o<br \/>\n    tiveram grande entrada o trabalho e a instru&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Passando-se por Goiana ouve-se daqui uma trompa, dali um baixo, adiante um<br \/>\n    pistom, al&eacute;m um trombone, uma clarineta, uma flauta, um assobio, uma<br \/>\n    harmonia ou uma melodia qualquer, e n&atilde;o se v&ecirc; sala nem corredor<br \/>\n    que n&atilde;o tenha nas paredes uma, duas ou tr&ecirc;s ordens de gaiolas<br \/>\n    com passarinhos cantadores e chilreadores. H&aacute; ai o instinto musico<br \/>\n    da Bohemia. <\/p>\n<p>Quem atravessa Pasmado pela primeira vez, tem a ilus&atilde;o de que todas<br \/>\n    as arapongas da mata pr&oacute;xima est&atilde;o ali a soltar seus estr&iacute;dulos<br \/>\n    acentos. Mas logo v&ecirc; homens tisnados batendo com o martelo sobre a bigorna,<br \/>\n    foles assopradores, carv&otilde;es ardentes e flamejantes. Ent&atilde;o a<br \/>\n    ilus&atilde;o muda. O que parece &eacute; que todas as forjas de Vulcano foram<br \/>\n    transportadas para aquele imenso laborat&oacute;rio de instrumentos mais destruidores<br \/>\n    do que conservadores da vida e do sossego alheio. <\/p>\n<p>Neste particular, o de ser largo e opulento mercado de armas malfazejas,<br \/>\n    talvez Pasmado s&oacute; possa contar em todo o imp&eacute;rio brasileiro<br \/>\n    uma rival &#8211; a c&ocirc;rte do sobredito imp&eacute;rio, na qual a navalha do<br \/>\n    capoeira disputa a primazia, em g&ecirc;nero, numero e caso, &aacute; faca<br \/>\n    do matuto do norte. A c&ocirc;rte e a prov&iacute;ncia neste ponto cortam-se<br \/>\n    bem. Uma n&atilde;o tem que falar da outra. No que Pasmado se parece com todos<br \/>\n    os velhos povos, &eacute; em ter casas esburacadas; entulhos e matos pelo<br \/>\n    meio das ruas; aqui uma baixa, ali um barreiro, onde, de inverno, coaxam os<br \/>\n    sapos dia e noite, respondendo &aacute; vozeria desentoada dos seus semelhantes<br \/>\n    que moram nas moitas formadas por dentro dos largos, sem licen&ccedil;a nem<br \/>\n    proibi&ccedil;&atilde;o da municipalidade. A rua mais p&uacute;blica e principal<br \/>\n    da povoa&ccedil;&atilde;o &eacute; aquela por onde corre a pr&oacute;pria<br \/>\n    estrada. Perto ficam os olhos-d&rsquo;&aacute;gua nativa onde os moradores<br \/>\n    v&atilde;o prover-se da de que precisam, quando n&atilde;o aparam, por sua<br \/>\n    comodidade, como costumam, em potes e gamelas a que cai das biqueiras da casa<br \/>\n    durante as chuvas. O certo &eacute; que, ou indo busca-la nas fontes ou aparando-a<br \/>\n    na porta da casa, n&atilde;o curtem sede os moradores de Pasmado dias e noites,<br \/>\n    ainda de ver&atilde;o, como curte a pobreza deste esplendida e orgulhosa cidade<br \/>\n    &#8211; primeira capital da Am&eacute;rica do Sul. <\/p>\n<p>Em um rancho ou garapeira que se via algumas dezenas de passos antes da povoa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    estavam reunidos, por uma noite de 1706, &aacute; roda de um fardo de fazendas,<br \/>\n    v&aacute;rios matutos que voltavam do Recife, onde tinham ido vender algod&atilde;o.<br \/>\n    Entre eles havia dois almocreves das proximidades de Goiana, um por nome Francisco,<br \/>\n    o outro Victorino. <\/p>\n<p>O rancho n&atilde;o era mais do que o prolongamento da garapeira, com a qual<br \/>\n    tinha comunica&ccedil;&atilde;o interior. Era, como s&atilde;o tais pontos,<br \/>\n    apenas envarado at&eacute; meia altura e coberto de telhas. De um lado estava<br \/>\n    a longa manjedoura em que os cavalos dos rancheiros passavam a noite aproveitando,<br \/>\n    de mistura com alguns p&eacute;s de capim, cortados de tarde, os talos e retra&ccedil;os<br \/>\n    que nela tinham deixado os cavalos dos rancheiros na noite anterior. Do outro<br \/>\n    lado o alpendre mostrava-se inteiramente livre, como convinha, a fim de terem<br \/>\n    os hospedes espa&ccedil;o para as suas redes, que eles armavam de um enchamel<br \/>\n    para outro, e donde a qualquer hora da noite podiam ver os seus animais alguns<br \/>\n    passos de dist&acirc;ncia, comendo se havia o que, ou estudando como muitas<br \/>\n    vezes acontecia. O dono da garapeira, respons&aacute;vel pela seguran&ccedil;a<br \/>\n    dos animais, fechava as portas do puxado quando via os rancheiros recolhidos,<br \/>\n    e s&oacute; reaparecia ai de madrugadinha para receber destes a respectiva<br \/>\n    paga. Muitas vezes, estava ele ainda deitado quando ouvia uma voz que lhe<br \/>\n    dizia: <\/p>\n<p>&#8211; Aqui fica o dinheiro, seu Ignacio. <\/p>\n<p>Era a voz do rancheiro, o qual punha por baixo da porta a quantia devida.<br \/>\n    Nunca nenhum se ausentou sem ter primeiro cumprido o seu dever, com a proverbial<br \/>\n    probidade do matuto e do sertanejo do norte. <\/p>\n<p>No tocante ao traje, ver um dos matutos era o mesmo que ver os demais. Camisa<br \/>\n    por cima de ceroulas de algod&atilde;o &#8211; eis em que ele consistia. <\/p>\n<p>Todos tinham os p&eacute;s nus, e quase todos por cima do c&oacute;s das<br \/>\n    ceroulas o longo cinto de fio, cofre port&aacute;til onde traziam o dinheiro,<br \/>\n    terminando em cord&otilde;es com bolotas nas pontas, os quais serviam para<br \/>\n    dar muitas voltas em torno da cintura antes do la&ccedil;o final. Metida entre<br \/>\n    o cinto e o c&oacute;s guardava cada um sua faca de ponta presa pela orelha<br \/>\n    da bainha. Da arma s&oacute; aparecia o cabo, figurando a cabe&ccedil;a de<br \/>\n    uma serpente que tinha o restante do corpo oculto. <\/p>\n<p>J&aacute; era noite, e dentro do rancho lan&ccedil;ava crepuscular claridade<br \/>\n    o candeeiro de azeite, que pendia, por uma corda corredi&ccedil;a, de um dos<br \/>\n    caibros da coberta. <\/p>\n<p>Alguns dos rancheiros estavam com as mangas arrega&ccedil;adas como se foram<br \/>\n    prestes para entrar em pugilato de vida e morte. <\/p>\n<p>E de feito n&atilde;o era de outro g&ecirc;nero o mister ou a luta que os<br \/>\n    ajuntara ali, uns de p&eacute;, outros inclinados sobre a barriga, todos com<br \/>\n    as vistas concentradas na superf&iacute;cie do fardo, onde uma taboa se pusera<br \/>\n    para servir de base a dois bra&ccedil;os diferentes que nesse momento se al&ccedil;aram<br \/>\n    e logo ap&oacute;s se uniram pelas m&atilde;os, ficando firmes sobre os cotovelos.<br \/>\n    Um dos pegadores da queda-de-bra&ccedil;o chamava-se Manoel Francisco; o outro<br \/>\n    era o Victorino. A queda-de-bra&ccedil;o era j&aacute; nesse tempo em grande<br \/>\n    uso entre os almocreves do norte. <\/p>\n<p>Manoel Francisco era acaboclado, feio, baixo, grosso e refor&ccedil;ado;<br \/>\n    Victorino procedia de mulata e mameluco, era seco,, nervoso e de semblante<br \/>\n    bem assombrado. <\/p>\n<p>&#8211; Sustenta o motivo, Man&eacute; Francisco, sen&atilde;o Victorino te lambe<br \/>\n    &#8211; disse um dos circunstantes, quando viu os bra&ccedil;os inimigos se entesarem<br \/>\n    e ouviu o fardo ranger aos primeiros ensaios das duas for&ccedil;as que se<br \/>\n    experimentavam e mediam para uma grande luta, posto que dentro de acanhada<br \/>\n    arena. <\/p>\n<p>&#8211; Este bra&ccedil;o que est&atilde;o vendo &#8211; respondeu Manoel Francisco &#8211;<br \/>\n    tem botado abaixo enquanto o inimigo esfrega um olho, muito curema rebingudo<br \/>\n    das ribeiras do Cear&aacute; e do Piau&iacute;. <\/p>\n<p>&#8211; Agora &eacute; que havemos de ver ele para quanto presta, e se tudo isto<br \/>\n    o que voc&ecirc; est&aacute; dizendo n&atilde;o passa de uma hist&oacute;ria,<br \/>\n    retorquiu Victorino. Quando quiser cair, diga. <\/p>\n<p>&#8211; Se voc&ecirc; &eacute; homem, mostre agora o seu talento &#8211; replicou Manoel<br \/>\n    Francisco, retesando o bra&ccedil;o, como quem queria entrar sem deten&ccedil;a<br \/>\n    no momento decisivo. <\/p>\n<p>Pegaram-se definitivamente os dois atletas. <\/p>\n<p>O bra&ccedil;o de Manoel Francisco dava dois do de Victorino; mas a resist&ecirc;ncia<br \/>\n    que encontrou neste, fez que n&atilde;o passasse nem uma linha da posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que de principio se colocara. Eram duas pir&acirc;mides p&eacute;treas,<br \/>\n    im&oacute;veis, inabal&aacute;veis, uma talhada para competir com a outra<br \/>\n    na rijeza e na resist&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>A queda-de-bra&ccedil;o tem gra&ccedil;a justamente quando os lutadores medem<br \/>\n    for&ccedil;as iguais. D&aacute;-se ent&atilde;o o que &eacute; natural de<br \/>\n    pleitos id&ecirc;nticos. Dividem-se as opini&otilde;es sobre a probabilidades<br \/>\n    da vitoria. Uns, levando em conta as condi&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas<br \/>\n    dos combatentes, n&atilde;o hesitam em decretar, para o que lhes parece mais<br \/>\n    favorecido de tais circunstancias, as honras da peleja; outros publicam que<br \/>\n    essas honras h&atilde;o de caber, n&atilde;o a este mas &agrave;quele contendor,<br \/>\n    autorizados por precedentes ou por outros muitos elementos de indu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e convic&ccedil;&atilde;o. Fora da arena dos pelejadores reais, forma-se uma<br \/>\n    arena em que come&ccedil;am de porfiar os assistentes &aacute; pugna, discutindo,<br \/>\n    altercando, apostando cada qual pelo que sup&otilde;e ter por se mais probabilidades<br \/>\n    para o vencimento. <\/p>\n<p>Foi o que se deu no rancho logo depois de se terem colocado defronte um do<br \/>\n    outro, ficando o fardo de permeio, o Victorino e o Manoel Francisco. <\/p>\n<p>Ao cabo de alguns minutos, que bastaram a trazer os contendores cobertos<br \/>\n    de suor pelo esfor&ccedil;o despendido, e antes deste pelo brio empenhado<br \/>\n    no jogo de honra, disse um dos rancheiros: <\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; voc&ecirc; est&aacute; sabendo, Man&eacute; Francisco, que o<br \/>\n    Victorino n&atilde;o &eacute; quem voc&ecirc; julgava. <\/p>\n<p>Ora que tem isso? retrucou o que se achava mais pr&oacute;ximo do que acabava<br \/>\n    de falar. Ha de cair como os outros; n&atilde;o h&aacute; santos que o acudam.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Deixe-se disso, Renovato, deixe-se disso. Voc&ecirc; n&atilde;o v&ecirc;<br \/>\n    que ambos eles s&atilde;o dois cabras de talento? <\/p>\n<p>Sim, &eacute; verdade; mas voc&ecirc; n&atilde;o d&aacute; o desconto. Olhe<br \/>\n    que Man&eacute; Francisco j&aacute; tinha pegado com Dami&atilde;o e Thomaz,<br \/>\n    e a todos botou por terra. <\/p>\n<p>&#8211; Ele me botou, &eacute; verdade &#8211; acudiu Thomaz despeitado; mas de outra<br \/>\n    feita talvez n&atilde;o tenha a mesma felicidade. Olhe como o bra&ccedil;o<br \/>\n    j&aacute; lhe est&aacute; tremendo, batido por Victorino. <\/p>\n<p>&#8211; Aquilo &eacute; um peneirado que ele sabe. <\/p>\n<p>&#8211; Sustenta o motivo, Man&eacute; Francisco &#8211; gritou Dami&atilde;o ao que<br \/>\n    minutos antes o tinha derribado. <\/p>\n<p>&#8211; A coisa est&aacute; feia. O que cair para a aguardente. <\/p>\n<p>&#8211; E o rancho. <\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; dito. <\/p>\n<p>Caiu, caiu, Man&eacute; Francisco! Gritaram neste ponto muitas vozes, formando<br \/>\n    uma algazarra imensa, que repercutiu fora do alpendre. <\/p>\n<p>&#8211; Ainda n&atilde;o, ainda n&atilde;o &#8211; retorquiram outros no mesmo diapas&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o foi mais do que uma nega&ccedil;a. Vejam l&aacute; como se levanta.\n  <\/p>\n<p>De feito o caboclo, depois de derreado quase inteiramente o bra&ccedil;o,<br \/>\n    o levantara lentamente at&eacute; &aacute; altura em que se achavam no come&ccedil;o<br \/>\n    da luta: mas dai n&atilde;o passou. <\/p>\n<p>&#8211; Quem vence? perguntou um, logo que viu novamente restabelecidas a indecis&atilde;o<br \/>\n    e a duvida. <\/p>\n<p>Nenhum vence &#8211; respondeu Francisco. Est&aacute; visto que Man&eacute; Francisco<br \/>\n    e Victorino t&ecirc;m as for&ccedil;as iguais. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, senhor. &Eacute; preciso ir at&eacute; ao fim. Um deles h&aacute;<br \/>\n    de poder com o outro. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, n&atilde;o; disseram alguns da opini&atilde;o de Francisco.<br \/>\n    T&ecirc;m as for&ccedil;as iguais, est&aacute; acabado. <\/p>\n<p>Eu n&atilde;o me levanto se Victorino n&atilde;o se levanta &#8211; disse Manoel<br \/>\n    Francisco a modo de contrariado por ter encontrado no contendor for&ccedil;a<br \/>\n    com que n&atilde;o contara. Eu n&atilde;o me levantarei sen&atilde;o depois<br \/>\n    da sua queda &#8211; respondeu Victorino sem se alterar, antes com evidente serenidade.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Levantam-se ambos, que j&aacute; &eacute; tarde, e vem por ai o Valent&atilde;o-do-Timba&uacute;ba.\n  <\/p>\n<p>O Valent&atilde;o-do-Timba&uacute;ba! exclamaram os rancheiros, pondo-se<br \/>\n    de p&eacute;, inclusivamente os dois lutadores, que se separaram e com a vista<br \/>\n    percorreram como sobressaltados todo o &acirc;mbito do alpendre. <\/p>\n<p>&#8211; Quem disse que ele vem ai? perguntou Victorino. <\/p>\n<p>&#8211; Digo eu &#8211; respondeu Francisco. Por isso &eacute; preciso estar preparado<br \/>\n    para o receber. <\/p>\n<p>Se vier, h&aacute; de encontrar gente. Somos onze. N&atilde;o h&aacute; de<br \/>\n    chegar um pedacinho dele para cada um de n&oacute;s. <\/p>\n<p>Pelo sim, pelo n&atilde;o &#8211; disse Thomaz &#8211; vou p&ocirc;r nova escorva na<br \/>\n    minha espingarda. Vendo Thomaz encaminhar-se para o lugar onde estava encostada<br \/>\n    a arma a que aludira, Francisco rindo, atirou-se dentro da rede e disse aos<br \/>\n    companheiros ainda sobressaltados: <\/p>\n<p>&#8211; Qual valent&atilde;o, nem meio valent&atilde;o! Rezem-lhe pela alma. <\/p>\n<p>&#8211; Ele morreu? <\/p>\n<p>&#8211; Morreu, sim senhor, e ficou bem morto. <\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; est&aacute; gracejando, Francisco. <\/p>\n<p>&#8211; Estou falando serio. Vou contar como o caso foi. <\/p>\n<p>O Valent&atilde;o-da-Timba&uacute;ba era um malfeitor que por aquele tempo<br \/>\n    cometi roubos e assassinatos na redondeza de muitas l&eacute;guas de Pasmado.<br \/>\n    Esta alcunha foi-lhe dada pelo povo. Seu nome era Valentim. N&atilde;o teve<br \/>\n    a fama extensa do Cabeleira, ao qual foi muito inferior na &iacute;ndole natural,<br \/>\n    na coragem e no f&iacute;sico; mas no pequeno teatro das suas fa&ccedil;anhas<br \/>\n    adquiriu tamanha celebridade, especialmente nos ranchos, que de seu nome e<br \/>\n    feitos ainda hoje restam ai lembran&ccedil;as enlutadas. <\/p>\n<p>Era mais ladr&atilde;o do que assassino; usava primeiro o subterf&uacute;gio,<br \/>\n    o la&ccedil;o, a astucia, que a arma mort&iacute;fera; mas, quando a manha<br \/>\n    n&atilde;o bastava, ou quando era surpreendido antes do resultado em que pusera<br \/>\n    a mira, ent&atilde;o o encontravam facinoroso, cruel. Esfaqueava, matava,<br \/>\n    contanto que se apossasse do alheio que excitar&aacute; a sua cobi&ccedil;a.\n  <\/p>\n<p>Era cabra-negro, magro, anguloso. Tinha os olhos vermelhos, as orelhas largas,<br \/>\n    o queixo fino, a barba espalhada e carapinha. Havia nele alguma coisa do vampiro.<br \/>\n    Mas a voz, que ali&aacute;s era &aacute;spera e estridente, ele adocicava<br \/>\n    e abemolava por tal jeito que quem o n&atilde;o conhecesse, o teria por inofensivo<br \/>\n    e lhe daria esmola se ele a pedisse, o que muitas vezes praticou para se disfar&ccedil;ar.\n  <\/p>\n<p>Em luta pessoal com outro valent&atilde;o, recebera deste uma facada no olho<br \/>\n    direito. De outra vez levou-o &aacute;s portas da morte um tiro que lhe desfechar&aacute;<br \/>\n    sobre a perna esquerda certo sertanejo, a quem roubar&aacute; objetos de valor,<br \/>\n    e de cujas m&atilde;os conseguiu escapar, n&atilde;o obstante o ferimento.<br \/>\n    Resultou destes desastres ficar torto e coxo, o que se por um lado lhe diminuiu<br \/>\n    as faculdades do movimento e da inspe&ccedil;&atilde;o, lhe aumentou pelo<br \/>\n    outro os meios e pretextos de iludir e explorar a credulidade dos transeuntes.\n  <\/p>\n<p>Morava ele em uma palho&ccedil;a que distava tr&ecirc;s a quatro l&eacute;guas<br \/>\n    de Maricota, obscura povoa&ccedil;&atilde;o que o forte combate de que em<br \/>\n    1848 foi cen&aacute;rio, entre as for&ccedil;as praieiras e as do governo,<br \/>\n    tornou ilustre e hist&oacute;rica. <\/p>\n<p>Valentim levantar&aacute; de inten&ccedil;&atilde;o sua morada naquelas alturas<br \/>\n    para comodidade nos seus latroc&iacute;nios. <\/p>\n<p>O comboio que por ali passava duas ou tr&ecirc;s horas antes do p&ocirc;r<br \/>\n    do sol, tinha de sujeitar-se a uma destas duas alternativas: ou pedia rancho<br \/>\n    na pr&oacute;pria casa do malfeitor e pagava caro a hospedagem, deixando de<br \/>\n    ordin&aacute;rio um cavalo, uma saca de l&atilde;, uma barrica de a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    ou de bacalhau, que no dia seguinte nenhum esfor&ccedil;o, por maior que fosse,<br \/>\n    era bastante a descobrir; ou ia descarregar adiante; &aacute; sombra de alguma<br \/>\n    arvore, e o tributo vinha a ser mais pesado ainda do que o primeiro, visto<br \/>\n    que, por escusas veredas, o ladr&atilde;o ia ter ao rancho, e em vez de um,<br \/>\n    trazia dois ou tr&ecirc;s cavalos, duas ou tr&ecirc;s sacas, enfim muitos<br \/>\n    objetos de grande valor. Valentim vingava-se com usura de quem procurava escusar-se<br \/>\n    ao tributo que ele cobrava no deserto. <\/p>\n<p>&Eacute; curioso o estratagema que ao principio usava para enganar a vigil&acirc;ncia<br \/>\n    e a simplicidade dos rancheiros. <\/p>\n<p>A&rsquo;hora que conjeturava estarem todos j&aacute; deitados, aparecia no<br \/>\n    pouso sorrateiramente e com voz mel&iacute;flua e vagarosa dizia estas palavras,<br \/>\n    que eram h&aacute; bem pouco tempo tradicionais naqueles caminhos: <\/p>\n<p>&#8211; Coitados dos comboieiros! Como est&atilde;o enfadados! <\/p>\n<p>Assim falando e repetindo sempre com razo&aacute;veis intervalos, estes fingidos<br \/>\n    e trai&ccedil;oeiros d&oacute;s, metia-se por entre as redes dos rancheiros,<br \/>\n    muitas vezes passando de leve a m&atilde;o esquerda por cima deles, enquanto<br \/>\n    com a direita apanhava muito naturalmente as esporas ou a faca aparelhada<br \/>\n    de prata, a maca onde vinha o melhor fato e alguma vez j&oacute;ias preciosas<br \/>\n    e dinheiro, o rel&oacute;gio, que descansava sobre uma mala, o gib&atilde;o<br \/>\n    novo que estava pendente do galho da arvore ou do punho da rede. <\/p>\n<p>Tal era aquele cujo fim tr&aacute;gico Francisco se prop&ocirc;s contar aos<br \/>\n    companheiros. <\/p>\n<p>Para melhor ouvirem a narra&ccedil;&atilde;o, reuniram-se os matutos ao p&eacute;<br \/>\n    do narrador, uns fumando em cachimbos de barro, outros comendo da matalotagem<br \/>\n    que traziam em mochilas de algod&atilde;o ainda hoje em uso entre esta esp&eacute;cie<br \/>\n    de gente por ocasi&atilde;o de suas jornadas. <\/p>\n<h2><a name=\"2\">Cap&iacute;tulo II<\/a><\/h2>\n<p>Francisco principiou assim: <\/p>\n<p>&#8211; O sol estava a sumir-se, quando ouvimos, j&aacute; arranchados ao p&eacute;<br \/>\n    da oiticica ramalhuda, que fica adiante da casa de Valentim obra de duas l&eacute;guas,<br \/>\n    uns gemidos e uns queixumes que cortavam o cora&ccedil;&atilde;o a quem os<br \/>\n    escutava. <\/p>\n<p>&#8211; Quem me socorre? Crist&atilde;os, filhos de Deus, acudi-me &#8211; dizia a voz:<br \/>\n    Ai que dor! N&atilde;o tenho quem me meta a vela na m&atilde;o. Ai que morro<br \/>\n    neste mato sem ter quem me chame pelo nome de Jesus. <\/p>\n<p>Seu sargento-m&oacute;r Jo&atilde;o da Cunha, com quem eu vinha de Goiana,<br \/>\n    e que era o dono do comboio, &#8211; se por informa&ccedil;&otilde;es, ou por preven&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o o sei bem dizer, viu logo no afligido um velhaco; e quando, assim<br \/>\n    que chegou aonde n&oacute;s est&aacute;vamos, arrastando-se com muito trabalho<br \/>\n    e gemendo sempre, ele lhe pediu, com voz sumida um lugar entre os arreios<br \/>\n    para passar a noite junto de quem o pudesse ajudar na hora de morte, reconheceu<br \/>\n    no pobre o Valent&atilde;o-da-Timba&uacute;ba. Todos n&oacute;s o reconhecemos<br \/>\n    tamb&eacute;m pelo olho furado e a perna quebrada. <\/p>\n<p>&#8211; Estou pronto a consentir que voc&ecirc; pernoite entre n&oacute;s, mas<br \/>\n    h&aacute; de ser com uma condi&ccedil;&atilde;o, &#8211; disse-lhe seu sargento-m&oacute;r.<br \/>\n    Valentim respondeu: Farei tudo o que vossa senhoria ordenar, contanto que<br \/>\n    me deixe morrer entre filhos de Deus. <\/p>\n<p>Voc&ecirc; h&aacute; de dormir amarrado pelas m&atilde;os do Francisco debaixo<br \/>\n    de minhas vistas no tronco desta oiticica. <\/p>\n<p>&#8211; Ai meu senhor! tornou Valentim. Compade&ccedil;a-se do pobre enfermo. A<br \/>\n    ningu&eacute;m ofendi nesta vida para merecer tanta crueza. <\/p>\n<p>&#8211; Se n&atilde;o lhe serve a condi&ccedil;&atilde;o, v&aacute; morrer longe<br \/>\n    daqui enquanto &eacute; cedo. <\/p>\n<p>A estas palavras de seu Jo&atilde;o da Cunha, Valentim afastou-se do lugar<br \/>\n    sem mais demora, gemendo mais do que dantes. Todos n&oacute;s fizemos ten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de n&atilde;o pregar olho essa noite, mas o enfado da viagem tinha vencido<br \/>\n    a todos algumas horas depois. S&oacute; quem n&atilde;o dormiu foi seu sargento-m&oacute;r,<br \/>\n    que para fazer crer que estava deitado, mandou p&ocirc;r dentro da rede dele<br \/>\n    um surr&atilde;o carregado, e junto dela, entre duas caixas de fazenda, se<br \/>\n    sentou escondido como quem fazia tocaia a veado, esperando pelo ladr&atilde;o,<br \/>\n    com o bacamarte armado, por cima da caixa que lhe ficava na frente. <\/p>\n<p>Quando foi l&aacute; pelas tantas, um vulto veio tomando chegada p&eacute;<br \/>\n    ante p&eacute;. Estava nu da cintura para cima. Tinha as cal&ccedil;as arrega&ccedil;adas<br \/>\n    e trazia uma arma de fogo na m&atilde;o. Quando o ladr&atilde;o ia a por a<br \/>\n    m&atilde;o no cabresto de um dos animais que estavam comendo milho nos embornais<br \/>\n    defronte da oiticica, seu sargento-m&oacute;r desabrochou-lhe fogo. Todo o<br \/>\n    rancho acordou atordoado e ganhou m&atilde;o das armas. Eu fui o primeiro<br \/>\n    que corri ao ponto onde estavam os animais. Faltava um, e o ladr&atilde;o<br \/>\n    tinha desaparecido. Seu sargento-m&oacute;r ficou muito zangado com a perda<br \/>\n    do seu cavalo, e ainda mais por Ter errado o tiro. Mas que se havia de fazer?\n  <\/p>\n<p>&#8211; Gosto de um cabra danado assim como o Valentim! disse um dos matutos que<br \/>\n    ouviam a narra&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade, disseram outros. Fez o que quis, e acabou antes do amanhecer.\n  <\/p>\n<p>Sim, mas, quando amanheceu &#8211; prosseguiu Francisco &#8211; e se viu o rastilho de<br \/>\n    sangue que ele foi deixando pelo caminho afora, seu sargento-m&oacute;r mandou<br \/>\n    que eu e Mameluco, seu pagem de confian&ccedil;a, mont&aacute;ssemos nos melhores<br \/>\n    cavalos e lhe fiz&eacute;ssemos companhia, guiados pelo rastilho, em busca<br \/>\n    do Valent&atilde;o. <\/p>\n<p>O comboio seguiu para o sul, e n&oacute;s tiramos para o poente. Pouco adiante<br \/>\n    o rastilho perdeu-se no mato; mas n&oacute;s entramos por ele, e fomos dar<br \/>\n    em um riacho. <\/p>\n<p>Ai, bem na beira, debaixo de uma emburana, estava o cabra. <\/p>\n<p>&#8211; Acaba de matar este negro! Disse seu sargento-m&oacute;r a Mameluco. <\/p>\n<p>Mas, n&atilde;o foi preciso fazer nada mais. Valentim estava morto. <\/p>\n<p>Assim acabou o Valent&atilde;o-da-Timba&uacute;ba. Podemos, por isso, dormir<br \/>\n    todos sem susto que ningu&eacute;m mais nos h&aacute; de vir inquietar durante<br \/>\n    a noite. Tomando o conselho de Francisco, que, por sua idade e prud&ecirc;ncia,<br \/>\n    parecia exercer sobre os companheiros legitima influencia, tranq&uuml;ilos<br \/>\n    e serenos estes meteram-se em suas redes e pouco depois estavam ressonando<br \/>\n    profundamente. <\/p>\n<p>Como visse o rancho em sil&ecirc;ncio, o velho Ignacio apagou o candeeiro<br \/>\n    e retirou-se a seus aposentos, n&atilde;o sem ter primeiro fechado todas as<br \/>\n    portas, com excep&ccedil;&atilde;o da de entrada, que de costume ficava sempre<br \/>\n    aberta para a qualquer hora da noite se recolherem os viageiros que n&atilde;o<br \/>\n    podiam chegar mais cedo. <\/p>\n<p>N&atilde;o havia luar, mais a noite estava clara. As estrelas cintilavam<br \/>\n    com a luz suave que elas t&ecirc;m no deserto ou nos lugares onde n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;, para quebrarem sua branda claridade, as ilumina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    publicas. <\/p>\n<p>Seriam nove horas quando de junto das cangalhas e cargas que estavam atiradas<br \/>\n    a um canto de rancho, rumor suspeito se fez ouvir distintamente por Francisco<br \/>\n    a quem ainda o sono n&atilde;o tinha dado a respirar os seus deliciosos narc&oacute;ticos.\n  <\/p>\n<p>Francisco era prevenido, e armar&aacute; a rede perto da entrada que estava<br \/>\n    livre. Ouvindo o ru&iacute;do e tendo certeza de que pela porta donde ele<br \/>\n    guardava, como c&atilde;o fiel, a casa adormecida, n&atilde;o pressentir&aacute;<br \/>\n    entrar ai viva alma, sentou-se t&atilde;o cautelosamente como p&ocirc;de na<br \/>\n    rede, e dai volveu vistas perscrutadoras ao lugar donde lhe chegavam os sons<br \/>\n    suspeitos. N&atilde;o fossem resultado a sua inspe&ccedil;&atilde;o. Um vulto<br \/>\n    rastejava por entre os objetos lan&ccedil;ados a esmo no fundo do alpendre.\n  <\/p>\n<p>Quem era? Por onde entrar&aacute; quem quer que era? <\/p>\n<p>Estas interroga&ccedil;&otilde;es apresentaram-se logo no espirito do matuto,<br \/>\n    que por impress&atilde;o de natural supersti&ccedil;&atilde;o julgou ver na<br \/>\n    forma vaga e indecisa que se agitava sorrateiramente, sen&atilde;o o Valent&atilde;o-da-Timba&uacute;ba,<br \/>\n    ao menos o seu espectro ou a sua alma malfazeja. <\/p>\n<p>O vulto semelhava um c&atilde;o e, a uso deste animal, andava sobre quatro<br \/>\n    p&eacute;s, posto que lentamente, acusando a inten&ccedil;&atilde;o de iludir,<br \/>\n    pela brandura dos movimentos, o sono dos incautos. <\/p>\n<p>Francisco, depois de detida observa&ccedil;&atilde;o, convenceu-se enfim<br \/>\n    de que o desconhecido era vivente e arrastava consigo um volume tirado da<br \/>\n    bagagem comum. <\/p>\n<p>Ent&atilde;o todos os esp&iacute;ritos, um momento esmorecidos e vacilantes,<br \/>\n    voltaram a Francisco por ventura mais fortes e viris que dantes. Quem estava<br \/>\n    ali n&atilde;o podia ser sen&atilde;o um ladr&atilde;o, um sucessor de Valentim<br \/>\n    no ign&oacute;bil e torpe oficio de defraudar os inofensivos viageiros, justamente<br \/>\n    quando, em lugar ermo e estranho, mais direito tinham &aacute; boa hospedagem<br \/>\n    dos moradores. <\/p>\n<p>Desceu-se de manso e manso da rede, armou-se cum sua faca que ele tinha metido<br \/>\n    entre as pontas de uma ripa, que vinha morrer no portal mais pr&oacute;ximo,<br \/>\n    e em vez de ir no encal&ccedil;o do desconhecido quando este desapareceu por<br \/>\n    traz de um mont&atilde;o de cangalhas, rodeou por fora a garapeira, e correu<br \/>\n    ao seu encontro do lado da cavalari&ccedil;a na altura em que presumiu teria<br \/>\n    ele de sair. <\/p>\n<p>Este n&atilde;o se fez esperar; e o matuto calculara com tanta exatid&atilde;o<br \/>\n    a distancia que se metia entre se e ele, que foi inclinar-se ao p&eacute;<br \/>\n    da pr&oacute;pria abertura do envaramento por onde em menos de um minuto o<br \/>\n    estranho visitante poz a cabe&ccedil;a de fora. <\/p>\n<p>Cair-lhe ent&atilde;o com as m&atilde;os sobre o pesco&ccedil;o, tendo a<br \/>\n    faca atravessada na boca, foi a&ccedil;&atilde;o que Francisco obrou em um<br \/>\n    abrir e fechar d&rsquo;olhos. <\/p>\n<p>&#8211; Dami&atilde;o, Victorino, seu Ignacio, acudam c&aacute; sem demora, que<br \/>\n    o cabra est&aacute; pegado, e bem pegado! gritou o matuto com quantas for&ccedil;as<br \/>\n    tinha em si. <\/p>\n<p>Um tiro que se tivesse desfechado subitamente naquele ponto, n&atilde;o produziria<br \/>\n    t&atilde;o grande arruido e sobressalto como a voz de Francisco alterada pelo<br \/>\n    inopinado do acontecimento e pelo esfor&ccedil;o usado contra o desconhecido.\n  <\/p>\n<p>Tontos do sono e da surpresa, apresentam-se os rancheiros prontamente no<br \/>\n    lugar da a&ccedil;&atilde;o. Enquanto uns rodeavam a casa, outros passavam<br \/>\n    do outro lado atrav&eacute;s das varas. Este vem com a faca descascada, aquele<br \/>\n    com a pistola armada, seu companheiro com a catana, o outro com o fac&atilde;o,<br \/>\n    prestes todos eles a cair sobre o invasor. <\/p>\n<p>Entretanto o ladr&atilde;o, quase todo de fora, n&atilde;o obstante a for&ccedil;a<br \/>\n    empregada por Francisco para o Ter seguro entre os p&eacute;s dos enchameis,<br \/>\n    debatia-se com tal viol&ecirc;ncia e animo, que nas m&atilde;os de outrem<br \/>\n    que n&atilde;o fora Francisco, j&aacute; teria logrado escapar-se. <\/p>\n<p>Sen&atilde;o quando apresenta-se o dono da garapeira, trazendo acesa a candeia<br \/>\n    da sua serventia. O ladr&atilde;o j&aacute; safo e de p&eacute; lutava corpo<br \/>\n    a corpo com Francisco, despendendo herc&uacute;leos esfor&ccedil;os a fim<br \/>\n    de fugir de suas unhas. <\/p>\n<p>Quando a luz esclareceu o recinto do conflito, geral foi o espanto dos circunstantes.\n  <\/p>\n<p>Olhando para seu contendor, Francisco sentiu-se cobrir de vergonha e tristeza.<br \/>\n    Aquela luta ingente tinha sido sustentada com ele por um rapazito que n&atilde;o<br \/>\n    representava mais de doze anos. <\/p>\n<p>Entretanto estava ali um H&eacute;rcules. Aquele bra&ccedil;o teria botado<br \/>\n    abaixo os de Manoel Francisco e de Victorino reunidos, visto que tinha podido<br \/>\n    com os de Francisco, que era apontado em todos os ranchos, desde Goiana at&eacute;<br \/>\n    o Recife, como o primeiro pegador de queda-de-bra&ccedil;o daquelas alturas.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Louren&ccedil;o! Dem&ocirc;nio! Ladr&atilde;o sem vergonha! Exclamou enfurecido<br \/>\n    o velho Ignacio, os olhos postos no ator principal daquela cena de desordem<br \/>\n    e escanlado. Quando querer&aacute;s entrar no bom caminho, coisa ruim e desprez&iacute;vel?\n  <\/p>\n<p>Soltem-me. Quero ir-me embora &#8211; respondeu Louren&ccedil;o, rugindo de raiva,<br \/>\n    e revolvendo-se entre os bra&ccedil;os dos matutos a quem Francisco o tinha<br \/>\n    abandonado logo que reconheceu nele os anos infantis que na escurid&atilde;o<br \/>\n    o fizeram ter por forte e varonil atleta. <\/p>\n<p>Que menino! disse Francisco, correndo-o com a vista de cima a baixo. Tem<br \/>\n    for&ccedil;a que nem um touro. <\/p>\n<p>Assim &eacute; que eu gosto de ver um cabrinha bom &#8211; disse Victorino. Sem<br \/>\n    pau nem pedra est&aacute; dando que fazer a todos n&oacute;s. <\/p>\n<p>De feito Louren&ccedil;o atirava-se ora para um, ora para outro; investia<br \/>\n    contra este; atracava-se com aquele, por fugir do circulo em que o tinham<br \/>\n    como encurralado os rancheiros. <\/p>\n<p>&#8211; Isto &eacute; o dem&ocirc;nio do Pasmado &#8211; acrescentou Ignacio. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; por aqui quem n&atilde;o tenha o que dizer desta perversa criatura.<br \/>\n    Eu, que sou eu, tenho-lhe respeito, porque, mais dia, menos dia, se n&atilde;o<br \/>\n    lhe tiverem m&atilde;o, vir&aacute; a melar o Valent&atilde;o-da-Timba&uacute;ba.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Soltem-me, deixem-me passar, sen&atilde;o mato a um &#8211; disse Louren&ccedil;o,<br \/>\n    j&aacute; fatigado, mas cada vez mais enfurecido da resist&ecirc;ncia que<br \/>\n    se opunha &agrave; sua vontade serpentina. <\/p>\n<p>&#8211; Pega nele, Victorino &#8211; disse Francisco. Quero leva-lo comigo para casa.<br \/>\n    Quero ensina-lo hei de aproveitar-lhes as for&ccedil;as no cabo do machado<br \/>\n    e da enxada. H&aacute; de dar para um perfeito homem do campo. Assim os pais<br \/>\n    estejam pelo que eu quero. <\/p>\n<p>&#8211; Pai foi coisa que ele n&atilde;o conheceu &#8211; observou Ignacio. <\/p>\n<p>&#8211; E m&atilde;e? Perguntou Francisco. <\/p>\n<p>A m&atilde;e era a Bil&oacute;ca, falecida h&aacute; dois para tr&ecirc;s<br \/>\n    anos. Esta oncinha, que j&aacute; ent&atilde;o tinha mostrado para quanto<br \/>\n    havia de dar, quebrando as pernas dos cachorros a pedradas, furando com o<br \/>\n    espeto quente os porcos de casa a ver se lhes derretia o toucinho, segundo<br \/>\n    ele mesmo dizia, e pondo carv&otilde;es abrasados na rede onde dormia um irm&atilde;o<br \/>\n    menor que veio a morrer desta e de outras malindades, ficou depois da morte<br \/>\n    dela ao desamparo. Tantas tinha feito, que n&atilde;o houve aqui alma caridosa<br \/>\n    que n&atilde;o temesse te-lo perto de si. O mais compadecido de todos os moradores,<br \/>\n    a velha Aninha, recolheu-o um dia em sua palho&ccedil;a. Pelo correr da noite<br \/>\n    acordou debaixo de labaredas. Louren&ccedil;o tinha posto fogo na casa da<br \/>\n    velha. <\/p>\n<p>Desde ent&atilde;o todos fogem dele, at&eacute; o vig&aacute;rio que ao principio<br \/>\n    foi muito por ele e lhe deu de comer e de vestir. Louren&ccedil;o vive agora<br \/>\n    vagando pelas ruas judiando com os animais, furtando e roubando, como voc&ecirc;s<br \/>\n    acabam de ver. <\/p>\n<p>&#8211; Este menino s&oacute; enforcado pagar&aacute; o mal que tem feito &#8211; disse<br \/>\n    Dami&atilde;o. <\/p>\n<p>Pois se ningu&eacute;m o quer, levo-o eu comigo. Fa&ccedil;o esta obra de<br \/>\n    caridade, e fico bem satisfeito com isso, porque ele suprir&aacute; a falta<br \/>\n    que tenho de um filho para me ajudar. Queres ir comigo, Louren&ccedil;o? Perguntou<br \/>\n    Francisco ao rapazito. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o vou com ningu&eacute;m. N&atilde;o sairei daqui. <\/p>\n<p>&#8211; H&aacute;s de ir. <\/p>\n<p>&#8211; Eu lhe mostro se vou. <\/p>\n<p>&#8211; Eu te mostrarei se n&atilde;o v&aacute;s &#8211; retorquiu o matuto. <\/p>\n<p>E voltando-se para o velho Ignacio, acrescentou: <\/p>\n<p>&#8211; Tranque-me o menino em sua casa enquanto amanhece. Pago-lhe o dobro do<br \/>\n    rancho. <\/p>\n<p>Deus me livre &#8211; disse o velho. Se ele me cai dentro de casa tudo me arde<br \/>\n    como carv&atilde;o em forja de ferreiro. Nem que me d&ecirc; cincoenta cruzados.\n  <\/p>\n<p>Se fazes gosto em leva-lo contigo, amarramos o rapaz em um enchamel, como<br \/>\n    seu sargento-m&oacute;r queria fazer com o Valentim. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o rugiu e disse: <\/p>\n<p>&#8211; Soltem-me, porcos. <\/p>\n<p>&#8211; Guarde-me o menino por esta noite, seu Ignacio &#8211; tornou Francisco. Pago-lhe<br \/>\n    bem. <\/p>\n<p>&#8211; Pe&ccedil;a-me tudo, menos isso. Ele em me achando dormindo, era capaz<br \/>\n    de sangrar-me. <\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o durma. Tenha-o debaixo das vistas para de madrugadinha<br \/>\n    restituir-mo <\/p>\n<p>Como se calasse o velho, Francisco, tomando o seu silencio por aquiesc&ecirc;ncia,<br \/>\n    fez sinal a Victorino e Dami&atilde;o para que o conduzissem &aacute; garapeira.\n  <\/p>\n<p>Os dois matutos agarraram-no com quantas for&ccedil;as tinham; mas antes<br \/>\n    de chegarem &aacute; porta viram-se obrigados a larga-lo, porque Louren&ccedil;o<br \/>\n    a um tinha posto os bra&ccedil;os em sangue, e sobre o outro desandar&aacute;<br \/>\n    tamanho coice no est&ocirc;mago, que lhe tirou o animo para levar a efeito<br \/>\n    a empresa. <\/p>\n<p>&#8211; Vejam s&oacute;, vejam s&oacute; &#8211; acudiu o velho Ignacio. N&atilde;o lhes<br \/>\n    disse? L&aacute; dentro n&atilde;o me pisa esta fera. Nada. Nem por Santo-Antonio.<br \/>\n    Se dois homens mo&ccedil;os n&atilde;o podem com ele, que direi eu? <\/p>\n<p>Querem saber de uma coisa? Inquiriu Francisco a cabo de um momento. Largo-me<br \/>\n    agora mesmo com ele por estes caminhos. Vamos, Victorino? <\/p>\n<p>&#8211; Agora de noite? <\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; que tem? A lua n&atilde;o tarda a nascer. Olhe j&aacute; o<br \/>\n    clar&atilde;o dela por cima da mata. Vamos. N&atilde;o percamos tempo. <\/p>\n<p>Em menos de um quarto de hora Louren&ccedil;o estava atado com cordas pelas<br \/>\n    pernas na cangalha e em cima do cavalo que o devia conduzir para longe do<br \/>\n    povoado. <\/p>\n<p>&#8211; Adeus, adeus, minha gente, disse Francisco aos companheiros que ficavam<br \/>\n    no ponto. At&eacute; nos encontrarmos outra vez por estas estradas. <\/p>\n<p>&#8211; Fa&ccedil;a boa viagem, Francisco, disse um deles. Mas fique certo de que<br \/>\n    voc&ecirc; leva sarna para se co&ccedil;ar. Olhe, n&atilde;o se arrependa.\n  <\/p>\n<p>&#8211; A crian&ccedil;a &eacute; de estouro &#8211; acrescentou outro. <\/p>\n<p>&#8211; Deus &eacute; quem sabe. Muita vez n&atilde;o h&aacute; de ser assim. <\/p>\n<p>Francisco saltou sobre a garupa do cavalo onde estava Louren&ccedil;o, que<br \/>\n    s&oacute; faltou arrebentar de f&uacute;ria para a qual n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    qualifica&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel. <\/p>\n<p>Victorino, imitando o companheiro, montou no outro animal. Com pouco desapareceram<br \/>\n    na escurid&atilde;o. <\/p>\n<p>Francisco ia ruminando consigo em silencio estas id&eacute;ias: <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenho filho. Tratarei deste desgra&ccedil;ado que n&atilde;o<br \/>\n    tem quem por ele se doa. Farei conta que &eacute; meu filho. Espero em Deus<br \/>\n    que me h&aacute; de ajudar a fazer dele um homem que sirva a gente. <\/p>\n<p>Sem saber explicar como nem porque, Francisco sentia-se satisfeito com o<br \/>\n    presente que levava &aacute; sua mulher, n&atilde;o obstante os prantos e<br \/>\n    os uivos de que Louren&ccedil;o ia enchendo o caminho no ultimo desespero.\n  <\/p>\n<h2><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo III<\/a><\/h2>\n<p>Uma l&eacute;gua antes de Goiana, a estrada geral que vai do Recife &aacute;<br \/>\n    Para&iacute;ba, atravessa um lugar de presente aumentado, mas ao tempo desta<br \/>\n    historia apenas formado de uma casa de barro, e duas ou tr&ecirc;s palho&ccedil;as<br \/>\n    espalhadas n&atilde;o longe dela, por dentro dos matos circunvizinhos, sem<br \/>\n    regular alinhamento, a uso das casas que, para assim escrevermos, se improvisam<br \/>\n    nas entranhas das florestas. <\/p>\n<p>A casa de barro ficava &aacute; embocadura da mata de Bujari, a qual por<br \/>\n    ent&atilde;o tinha, n&atilde;o como hoje, meia l&eacute;gua, mas quase uma<br \/>\n    de comprido. O lugar supramencionado, j&aacute; nesse tempo apraz&iacute;vel<br \/>\n    e risonho, era alguns anos antes um como prolongamento dessa mata, menos fechado<br \/>\n    &#8211; &eacute; certo &#8211; , mas n&atilde;o menos ermo e desabitado do que ela. De<br \/>\n    um cajueiro velho que se mostrava, na beira do caminho, ao que saia da espessura,<br \/>\n    adveio-lhe o nome, que hoje designa o lugar, e tem por se a autoridade da<br \/>\n    consagra&ccedil;&atilde;o do povo e do tempo. <\/p>\n<p>Fizera-se subitamente a transforma&ccedil;&atilde;o daquela se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da floresta como nos contos antigos mudam as situa&ccedil;&otilde;es ao puro<br \/>\n    querer de um g&ecirc;nio ou de uma fada. Eis como a coisa se deu. <\/p>\n<p>Um matuto passando por ali, de jornada para Tejucupapo, ficou encantado pela<br \/>\n    amenidade e beleza da situa&ccedil;&atilde;o. Do cajueiro para dentro estendia-se<br \/>\n    larga plan&iacute;cie coberta de arvores me&atilde;s, sombrias e graciosas.<br \/>\n    Em arvores semelhantes h&aacute; algum tanto das donzelas faceiras e namoradas<br \/>\n    com que se arreiam os sal&otilde;es e que s&atilde;o as gra&ccedil;as mimosas<br \/>\n    do lar. Era o interm&eacute;dio entre a espessura &uacute;mida e medonha,<br \/>\n    e a campina nua, fresca, mon&oacute;tona, que se seguia &aacute; plan&iacute;cie<br \/>\n    adornada com a vegeta&ccedil;&atilde;o moderada e pitoresca. Emgim era, em<br \/>\n    escala ascendente, a transi&ccedil;&atilde;o natural para a mata virgem. <\/p>\n<p>Na volta entendeu-se o matuto (que n&atilde;o era outro sen&atilde;o Francisco)<br \/>\n    com o senhor do engenho Bujari a quem as terras pertenciam, e que consentiu<br \/>\n    em que ele levantasse casa de morada e abrisse ro&ccedil;ado. <\/p>\n<p>Francisco cortou madeiras, aparelhou-as e arrumou a casa ao p&eacute; do<br \/>\n    cajueiro. Havia barro perto. As palmeiras mais formosas daquela zona estavam<br \/>\n    agitando suas longas folhas verde-negras na espessura vizinha. Enfim, em menos<br \/>\n    de uma semana, aqueles que, de passagem para o Recife, tinham visto a casa<br \/>\n    apenas envarada ou encaibrada, vinham encontra-la agora fechada e coberta;<br \/>\n    e os que, tendo passado por ali antes destes &uacute;ltimos, voltavam ao mesmo<br \/>\n    tempo que eles da capital, ficavam admirados e satisfeitos de verem uma habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nova e risonha, onde quinze dias atr&aacute;s tinham deixado a solid&atilde;o<br \/>\n    e o mato fechado. <\/p>\n<p>Esta novidade era obra das m&atilde;os aben&ccedil;oadas de Francisco, homem<br \/>\n    de trabalho e paci&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Forte de constitui&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica; ajudado, sen&atilde;o<br \/>\n    animado, pela energia de seu espirito; afeito desde os mais verdes anos a<br \/>\n    ganhar pela for&ccedil;a de vontade, que era o seu primeiro dote natural,<br \/>\n    a vida honesta, os dias suados mas tranq&uuml;ilos, as noites sem remorso,<br \/>\n    o sono solto e largo, estava o matuto habilitado a levar efeito prod&iacute;gios<br \/>\n    semelhantes, e outros ainda maiores e mais admir&aacute;veis. <\/p>\n<p>Francisco era semi-branco, corpulento, espada&uacute;do e de boa estatura.<br \/>\n    Tinha no semblante a express&atilde;o da virilidade e da resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que luta quase incessantemente com a pobreza, e a vence a pouco, por ventura<br \/>\n    mais forte, mas nunca invenc&iacute;vel. <\/p>\n<p>Os matutos podem dividir-se em diferentes esp&eacute;cies, mas as mais comuns<br \/>\n    s&atilde;o as dos lavradores e almocreves. Os primeiros s&atilde;o os que<br \/>\n    disp&otilde;em de alguns meios, a saber, escravos, cavalos, terras, os quais<br \/>\n    sem darem para ter um engenho ou, ao menos, para move-lo, por se s&oacute;s<br \/>\n    habilitam o que os possuem, a cultivar a cana nas terras do engenho alheio,<br \/>\n    posto que sujeito a dividir com o respectivo propriet&aacute;rio o a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    apurado em cada safra. Os &uacute;ltimos s&atilde;o os que se alugam com sua<br \/>\n    pessoa e seu cavalo para a condu&ccedil;&atilde;o de cargas, por ajustado<br \/>\n    frete. Os lavradores s&atilde;o matutos limpos, que entram muitas vezes nos<br \/>\n    neg&oacute;cios &iacute;ntimos do grande propriet&aacute;rio, merecem a estima<br \/>\n    deles, a pesam com seu conselho na decis&atilde;o dos interesses comuns. Aos<br \/>\n    almocreves j&aacute; n&atilde;o sucede o mesmo. Paga-lhes o senhor de engenho<br \/>\n    o sal&aacute;rio, e eles retiram-se a seus casebres onde v&atilde;o comer,<br \/>\n    com a mulher e com a ninhada de filhos que ordinariamente contam, o escasso<br \/>\n    p&atilde;o que lhes deram o cavalo magro e o trabalho puxado e cansado. <\/p>\n<p>E pois o cavalo &eacute;, para assim escrevermos, a primeira riqueza do almocreve,<br \/>\n    visto que por ele &eacute; que vem a sua sustenta&ccedil;&atilde;o e a de<br \/>\n    sua fam&iacute;lia; ter um cavalo &eacute; a primeira aspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do pobre no mato. O almocreve n&atilde;o vota mais afeto &aacute; sua mulher<br \/>\n    do que a seu animal. Por ele d&aacute; muitas vezes a vida. Para o reaver,<br \/>\n    se lho furtam, vai ao fim do mundo e mata o ladr&atilde;o. <\/p>\n<p>Quando o almocreve, firmando-se pelos dois primeiros dedos do p&eacute;,<br \/>\n    sempre descal&ccedil;o, sobre a raiz da curva da perna do seu cavalo, ganha<br \/>\n    de um pulo a cangalha, se ele est&aacute; descarregado, ou a anca se o animal<br \/>\n    tem carga, considera-se mais feliz e garboso do que um general de mil batalhas.<br \/>\n    A seus olhos aquela altura que o homem de p&eacute; atinge com a m&atilde;o,<br \/>\n    lhe parece superior a todo poder humano. Dai n&atilde;o teme o agente da autoridade<br \/>\n    publica, nem o golpe ou o tiro mortal que lhe desfechem. Reputa-se inacess&iacute;vel<br \/>\n    a todos os males da terra. Entre suas pernas, querendo-o ele, o cavalo &eacute;<br \/>\n    uma locomotiva que se perde na imensidade dos caminhos ou dos descampados;<br \/>\n    &eacute; a faisca el&eacute;trica que corre terra a terra e desaparece, rompendo<br \/>\n    fechados e abatendo folhagens, na massa densa e sombria das selvas. O touro<br \/>\n    afasta-se, a on&ccedil;a recua, para o deixar passar livremente na vertiginosa<br \/>\n    carreira. <\/p>\n<p>De ordin&aacute;rio, por&eacute;m, a marcha do animal do almocreve n&atilde;o<br \/>\n    sai do roj&atilde;o de todo dia. Tendo sempre presente na lembran&ccedil;a<br \/>\n    o muito que lhe custou ganhar o seu precioso bem, poupa-lhe as for&ccedil;as<br \/>\n    quanto p&ocirc;de, e s&oacute; em caso extraordin&aacute;rio exige dele a<br \/>\n    corrida afanosa, os saltos s&uacute;bitos, o galope, o cansativo esquipar.\n  <\/p>\n<p>Do numero dos almocreves saem os cantadores e os repentistas, que, n&atilde;o<br \/>\n    obstante as priva&ccedil;&otilde;es ordin&aacute;rias de sua vida quase errante,<br \/>\n    t&ecirc;m dias de consola&ccedil;&atilde;o e regozijo. <\/p>\n<p>Pelas festas do ano ajuntam-se na casa dos camaradas para cantar, dan&ccedil;ar<br \/>\n    e beber. <\/p>\n<p>A esses sar&aacute;os campestres, conhecidos por sambas, n&atilde;o faltam<br \/>\n    as mo&ccedil;as mais desembara&ccedil;adas das vizinhan&ccedil;as, &#8211; fadas<br \/>\n    da ro&ccedil;a, que com suas chinelas de marroquim, seus vestidos de chita<br \/>\n    ou de cassa de flor&otilde;es, nos l&aacute;bios, que est&atilde;o a verter<br \/>\n    sangue e frescura, o riso vergonhoso e a promessa duvidosa, os cabelos enastrados<br \/>\n    de jasmins, manjeric&otilde;es e malmequeres, d&atilde;o alma a pastoris epis&oacute;dios,<br \/>\n    a curiosos melodramas e muitas vezes a trag&eacute;dias medonhas e fatais.<br \/>\n    Algumas delas mais desgarradas trazem os seios mal cobertos por vistosos cabe&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de que pendem, n&atilde;o sem acertadas combina&ccedil;&otilde;es e fantasias,<br \/>\n    bicos e rendas bem feitas e elegantes. <\/p>\n<p>Tais festas t&ecirc;m o seu lado bom e providencial, &#8211; fazem esquecer as<br \/>\n    magoas passadas e as priva&ccedil;&otilde;es presentes. O primeiro e o mais<br \/>\n    proveitoso resultado delas &eacute; o seguinte: diminuem a estat&iacute;stica<br \/>\n    dos crimes graves e infamantes. <\/p>\n<p>Pobres matutos! <\/p>\n<p>Quantas vezes, ao ver-vos descal&ccedil;os, mal vestidos e mal passados,<br \/>\n    n&atilde;o senti apertar-se-me o cora&ccedil;&atilde;o com pena de v&oacute;s?!<br \/>\n    Esta pena redobrava sempre que, passando pela frente dos vossos casebres,<br \/>\n    eu descobria ai por mob&iacute;lia um banco tosco, uma caixa grosseira, um<br \/>\n    pote de &aacute;gua suspenso entre os bra&ccedil;os de uma forquilha enterrada<br \/>\n    no canto da salinha, e por leito de dormida para v&oacute;s e vossos filhinhos<br \/>\n    uma esteira ou um gir&aacute;o de varas! <\/p>\n<p>Ent&atilde;o eu compreendia a raz&atilde;o por que em nossos encontros nos<br \/>\n    caminhos &eacute;reis v&oacute;s os primeiros que tir&aacute;veis o vosso<br \/>\n    chap&eacute;u e me salv&aacute;veis com mostras de profunda humildade, sem<br \/>\n    saberdes sequer quem eu era. &Eacute; que v&oacute;s t&iacute;nheis sempre<br \/>\n    presente no entendimento a consci&ecirc;ncia da vossa pobreza e consequentemente<br \/>\n    vossa fraqueza. Esta consci&ecirc;ncia, este aguilh&atilde;o intimo, que nunca<br \/>\n    se embota, vos dava uma falsa id&eacute;ia de superioridade de minha parte<br \/>\n    sobre v&oacute;s. Pobres criaturas sois v&oacute;s, &oacute; matutos, mais<br \/>\n    dignos de compaix&atilde;o e amparo do que do riso mofador de que vos fazem<br \/>\n    alvo os que na ignor&acirc;ncia, na simplicidade e na mis&eacute;ria alheia<br \/>\n    acham assumpto para desenfado e divertimento pr&oacute;prio! Pobres sois v&oacute;s<br \/>\n    dobradamente: porque recebestes de vossos pais por heran&ccedil;a esta lament&aacute;vel<br \/>\n    condi&ccedil;&atilde;o, e porque n&atilde;o podeis deixar em dote a vossos<br \/>\n    filhos condi&ccedil;&atilde;o diferente desta! <\/p>\n<p>Francisco pertencia &#8211; &eacute; verdade &#8211; &aacute; classe dos almocreves;<br \/>\n    mas tinha seu cavalo, que n&atilde;o era qualquer, antes pelo contrario, era<br \/>\n    passeiro, carregava baixo e esquipava t&atilde;o maciamente que quem nele<br \/>\n    ia, levava a ilus&atilde;o de que era conduzido e embalado em uma rede. <\/p>\n<p>Entremeava o oficio de almocreve com o de trabalhador de campo. Tinha mesmo<br \/>\n    planta&ccedil;&otilde;es, posto que fracas. <\/p>\n<p>Por felicidade sua casar&aacute; com Marcelina, cabocla ainda nova das proximidades<br \/>\n    da Alhandra, trabalhadeira poupona e ajuntadeira, que com as escassas economias<br \/>\n    de suas industrias ajudava o marido a achar a felicidade no seio da pobreza,<br \/>\n    e guardava a id&eacute;ia de libertar-se deste estado &aacute;s custas do<br \/>\n    seu esfor&ccedil;o. <\/p>\n<p>Tempos depois de mudado de Cruangi, onde ao principio morou, para o seu sitio<br \/>\n    do Cajueiro, nome que ficou pertencendo n&atilde;o s&oacute; ao sitio mas<br \/>\n    ao lugar de que Francisco foi o fundador, teve ele umas maleitas tremedeiras<br \/>\n    na for&ccedil;a de rigoroso inverno. A mol&eacute;stia pegou-o desprevenido,<br \/>\n    sem vint&eacute;m nem dez r&eacute;is, como diz o povo &#8211; ilustre saibo que<br \/>\n    versa a ci&ecirc;ncia da linguagem com autoridade e propriedade que lhe invejam<br \/>\n    os s&aacute;bios de maior conta. <\/p>\n<p>Mas durante ela nunca lhe faltaram rem&eacute;dios nem dietas: Marcelina<br \/>\n    supria as faltas e a casa com admir&aacute;vel prontid&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; Donde lhe veio dinheiro para tudo isto? Perguntou uma vez Francisco &aacute;<br \/>\n    sua mulher. <\/p>\n<p>E os cestos que la&ccedil;o n&atilde;o haviam de dar dinheiro? Respondeu-lhe<br \/>\n    ela com graciosa e m&oacute;vel express&atilde;o. Veja estas rodilhas de cip&oacute;<br \/>\n    que comprei ontem. Chegam para uma d&uacute;zia de cestos. Logo que estiverem<br \/>\n    prontos, n&atilde;o h&aacute; de faltar quem os queira. Os outros, que pendurei<br \/>\n    da banda de fora, n&atilde;o levaram uma semana a ser vendidos. <\/p>\n<p>&#8211; Ora, Marcelina, disse o marido com manifesto pesar. Para que se cansa tanto?<br \/>\n    Eu quero muito bem a meu cavalo, mas vai um cavalo hoje, vir&aacute; outro<br \/>\n    amanh&atilde;. Por isso sou de parecer que, em lugar de estar a trabalhar<br \/>\n    tanto para a casa, veja antes se algu&eacute;m quer comprar o pedrez. Ele<br \/>\n    est&aacute; em boas carnes e p&ocirc;de achar bom dinheiro. <\/p>\n<p>&#8211; Quem? O seu cavalo pedrez? Vende-lo? N&atilde;o, senhor, que voc&ecirc;<br \/>\n    precisia dele para quando ficar bom. Voc&ecirc; mesmo bem sabe que um cavalo<br \/>\n    n&atilde;o vem assim t&atilde;o depressa camo est&aacute; dizendo. N&atilde;o<br \/>\n    estamos ainda em ponto de vender o nosso &uacute;nico bem para remir as nossas<br \/>\n    necessidades, Deus louvado. <\/p>\n<p>&#8211; Deus mesmo havia sempre de ajudar-me a comprar outro. <\/p>\n<p>Mas que necessidade temos n&oacute;s de nos desfazermos do animalzinho? S&oacute;<br \/>\n    se eu estivesse doida o venderia. Deus me livre. <\/p>\n<p>N&atilde;o tinha medidas o amor que Francisco votava a Marcelina, exclusiva<br \/>\n    possuidora do seu cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Os matutos n&atilde;o casam por mera conveni&ecirc;ncia. Suas uni&otilde;es,<br \/>\n    ordinariamente precoces, n&atilde;o deixam por isso, em regra, de ter o principal<br \/>\n    fundamento na estima reciproca daqueles que as contraem. Grandes desgra&ccedil;as<br \/>\n    t&ecirc;m procedido das jun&ccedil;&otilde;es prematuras, mas no mato n&atilde;o<br \/>\n    constituem a regra geral. Ao reverso, tais jun&ccedil;&otilde;es s&atilde;o<br \/>\n    principio de moralidade no lar e no povoado matuto, porque, despertando cedo<br \/>\n    no homem os afetos conjugais e paternais, enfreiam e moderam, antes das erup&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    naturais dos primeiros anos, as paix&otilde;es juvenis, que, quando de todo<br \/>\n    soltas, t&ecirc;m arrojos inconvenientes e efeitos desastrosos. <\/p>\n<p>A paix&atilde;o que Marcelina inspirar&aacute; a Francisco, se tinha serenado,<br \/>\n    como sucede a cabo de certo tempo a todos os sentimentos, ainda aos mais veementes<br \/>\n    e exaltados, n&atilde;o arrefecera, antes se apurara com as mil retribui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o da cabocla, nunca brandamente estremecido ou amorosamente<br \/>\n    agitado sen&atilde;o pelo matuto. <\/p>\n<p>Mas a infelicidade &eacute; fatalmente na ess&ecirc;ncia humana. Ainda no<br \/>\n    meio das mais intemeratas serenidades, a id&eacute;ia de poder ser de um momento<br \/>\n    para outro desgra&ccedil;ado punge o homem e o faz reputar as venturas por<br \/>\n    ilus&otilde;es, cujo principal efeito &eacute; aguar-lhe os gostos no melhor<br \/>\n    deles e entristece-lo, quando n&atilde;o na face &#8211; espelho da alma, na consci&ecirc;ncia<br \/>\n    &#8211; centro de muitas suspeitas que nascem e morrem ignoradas do mundo, como<br \/>\n    os musgos interiores das cavernas inacess&iacute;veis. <\/p>\n<p>Marcelina podia ter a esse tempo de vinte e dois a vinte e cinco anos. O<br \/>\n    tipo caboclo estava nela representado com opul&ecirc;ncia e genuinidade. Tez<br \/>\n    aba&ccedil;anada, cabelos corridos e pretos, olhos rasos e grandes, cara cheia<br \/>\n    e redonda, estatura abaixo da m&eacute;dia, formas corretas, m&atilde;os e<br \/>\n    p&eacute;s pequenos &#8211; eis o conjunto harm&ocirc;nico e admir&aacute;vel em<br \/>\n    que a ra&ccedil;a a mostrava revestida. <\/p>\n<p>Quando Marcelina batia sua roupa no banco que ficava debaixo da meia-agua<br \/>\n    de palha levantada por Francisco para resguardar do sol o po&ccedil;o algumas<br \/>\n    bra&ccedil;as da casa de morada, os matutos, que passavam pelo caminho e a<br \/>\n    n&atilde;o conheciam, cravavam nela olhares c&uacute;pidos, e alguns &aacute;s<br \/>\n    vezes de l&aacute; lhe atiravam x&ecirc;tas que ele fingia n&atilde;o ouvir,<br \/>\n    ou a que, se lhe parecia, dava em resposta um muxoxo ou um olhar de mofa e<br \/>\n    desprezo, pelos quais ficavam sabendo que a matuta n&atilde;o era do pano<br \/>\n    que eles supunham. <\/p>\n<p>Muitos deles s&oacute; retiravam os olhos de sobre ela quando tinham de dar<br \/>\n    a volta da estrada ou entrar na mata. A taz&atilde;o era porque a saia, que<br \/>\n    Marcelina por essas ocasi&otilde;es trazia a tiracolo pela enfiadura, lhe<br \/>\n    punha &aacute; mostra o principio da perna &#8211; monumento de estaturia que deixava<br \/>\n    adivinhar, mas n&atilde;o descobria, os vendados tesouros da perfei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que a dotar&aacute;, por especial capricho, a natureza, m&atilde;e t&atilde;o<br \/>\n    pr&oacute;diga para ela como mesquinha para tantas outras. <\/p>\n<h2><a name=\"4\">Cap&iacute;tulo IV<\/a><\/h2>\n<p>Uma manh&atilde; Francisco, acordando, deu por falta da mulher. <\/p>\n<p>Era muito cedo ainda para o servi&ccedil;o da casa, e fora estava chovendo.<br \/>\n    O mato, de seu natural sombrio e ermo, desprazia antes do que convidava naquele<br \/>\n    momento a quem n&atilde;o fosse obrigado a busca-lo por grande negocio. <\/p>\n<p>No come&ccedil;o da trilha que ia ter &aacute; lagoa de presente mudada em<br \/>\n    terreno de lavoura, mas neste tempo com bastante &aacute;gua e oculta pelos<br \/>\n    matos que se levantavam, contornando-a em forma de semic&iacute;rculo, no<br \/>\n    lugar onde acabavam as terras plantadas de abacaxis por Francisco, viu ele<br \/>\n    atirados a uma banda sobre as ervas os socos grosseiros que sua mulher usava<br \/>\n    em casa. <\/p>\n<p>Pareceu-lhe claro que ela os tinha deixado ali para ter mais ligeiro e pronto<br \/>\n    o passo ao lugar aonde se dirigia. <\/p>\n<p>Antes disso j&aacute; tinha chamado por ela do lado da estrada; mas s&oacute;<br \/>\n    teve em resposta o eco de suas pr&oacute;prias palavras. <\/p>\n<p>Tendo agora a prova de que ela tomar&aacute; dire&ccedil;&atilde;o oposta,<br \/>\n    cruel suspeita atravessou-lhe, sem o menor fundamento, o espirito, sen&atilde;o<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o, que sobressaltado transbordava inquieta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e duvidas. <\/p>\n<p>Sem olhar para seu estado de convalescen&ccedil;a, Francisco, que viera da<br \/>\n    casa at&eacute; ali abrigado da chuva pelas folhagens das laranjeiras e dos<br \/>\n    cajueiros novos do sitio, n&atilde;o hesitou mais um s&oacute; momento e meteu-se<br \/>\n    pela trilha, que se lhe mostrava, agora mais do que nunca, em forma de serpente,<br \/>\n    pela plan&iacute;cie afora. N&atilde;o era grande a distancia que separava<br \/>\n    a lagoa da parte ro&ccedil;ada; por isso, dai a pouco se achou ele por traz<br \/>\n    da renque de arvores que circulava a lagoa e p&ocirc;de ter esta debaixo dos<br \/>\n    olhos, sem deixar a quem quer que fosse possibilidade para v&ecirc;-lo. <\/p>\n<p>Neste ponto parou Francisco, e poz-se a examinar com a vista de um lado para<br \/>\n    outro todo o espa&ccedil;o livre at&eacute; aonde podia chegar a sua inspe&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Ningu&eacute;m estava ali. Sobre a lagoa a chuva fina caia em forma de fumo<br \/>\n    ou de n&eacute;voa espessa. Os sapos coaxavam pela beira d&rsquo;&aacute;gua,<br \/>\n    e os ja&ccedil;an&atilde;s soltavam de dentro das moitas aqu&aacute;ticas<br \/>\n    suas risadinhas de som vibrante e agudo; tudo o mais era imobilidade e silencio.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o tendo mais para onde ir, Francisco em cuja imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exaltada pela fraqueza f&iacute;sica e pelos s&uacute;bitos temores, se desenhavam<br \/>\n    cenas desesperadoras, n&atilde;o p&ocirc;de acabar consigo que n&atilde;o<br \/>\n    chamasse novamente pela mulher. <\/p>\n<p>A voz desprendeu-se-lhe irresistivelmente da garganta, e o som das palavras<br \/>\n    &#8211; Marcelina? Marcelina? Repercutiu pela vasta solid&atilde;o. <\/p>\n<p>Imediatamente a seus olhos se mostrou uma vis&atilde;o cruel. <\/p>\n<p>Acima dos juncos, que formavam vastos partidos dentro da lagoa, apareceu-lhe<br \/>\n    uma cabe&ccedil;a coberta com um chap&eacute;u de palha. Um homem estava ali<br \/>\n    e Marcelina n&atilde;o podia achar-se longe. Talvez j&aacute; estivesse de<br \/>\n    volta. <\/p>\n<p>Francisco sobresteve um momento im&oacute;vel, como estatua; mas notando<br \/>\n    que o madrugador t&atilde;o depressa levantara a cabe&ccedil;a, como se abaixar&aacute;<br \/>\n    e desaparecera no meio do juncal, mergulhou por entre as folhagens que o ocultavam,<br \/>\n    e saiu da outra banda no animo de ir por dentro da &aacute;gua at&eacute;<br \/>\n    ao ponto onde se sumira o desconhecido. <\/p>\n<p>Quando ia a atirar-se na &aacute;gua, a cabe&ccedil;a reapareceu a seus olhos,<br \/>\n    e uma voz, reboando por cima das aningas e dos juncos, foi levar-lhe aos ouvidos<br \/>\n    estas palavras, em grau de grito e em tom de repreens&atilde;o: <\/p>\n<p>&#8211; Que vem c&aacute; fazer, Francisco? Voc&ecirc; quer morrer? <\/p>\n<p>Era a voz de Marcelina. <\/p>\n<p>Tanto bastou para que ele n&atilde;o avan&ccedil;asse mais um s&oacute; passo.<br \/>\n    Fixando a vista com mais serenidade, reconheceu no desconhecido sua mulher.\n  <\/p>\n<p>&#8211; E voc&ecirc; que est&aacute; fazendo ai metida, com esse tempo todo? Saia<br \/>\n    dai, que nem sabe os sustos que me causou com sua aus&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>&#8211; Anda voc&ecirc; sempre assustado, Francisco! Susto de que? Parece menino.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Saia j&aacute;, que eu n&atilde;o posso apanhar chuva. <\/p>\n<p>Agora j&aacute; n&atilde;o p&ocirc;de apanhar chuva. H&aacute;, instantinhos<br \/>\n    podia at&eacute; meter-se na &aacute;gua da lagoa. Parece menino este meu<br \/>\n    marido. J&aacute; l&aacute; vou. <\/p>\n<p>Momentos depois, Marcelina achava-se na margem, a saia a tiracolo, o chap&eacute;u<br \/>\n    de palha na cabe&ccedil;a, os p&eacute;s descal&ccedil;os, a perna de fora,<br \/>\n    sobra&ccedil;ando um alentado feixe de juncos. <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o acha que s&oacute; devo trabalhar nos cestos e na limpa dos<br \/>\n    abacaxis? perguntou ela ao marido, logo que se achou em terra firme. Vim cortar<br \/>\n    estes juncos para fazer esteiras de cangalha. Est&atilde;o dando muito em<br \/>\n    Goiana, segundo me disse ontem o compadre Victorino, que at&eacute; me encomendou<br \/>\n    umas de que precisa. <\/p>\n<p>Livre do peso que lhe oprimia o cora&ccedil;&atilde;o como se fora uma montanha,<br \/>\n    n&atilde;o teve Francisco para sua mulher demonstra&ccedil;&otilde;es de desagrado<br \/>\n    nem rudes express&otilde;es, antes agradecido &aacute; sua solicitude, para<br \/>\n    a qual n&atilde;o havia solu&ccedil;&atilde;o de continuidade; seu semblante<br \/>\n    fez-se de boa sombra, e at&eacute; um risosinho meigo e terno ensaiou o matuto<br \/>\n    satisfeito com esta nova manifesta&ccedil;&atilde;o do g&ecirc;nio essencialmente<br \/>\n    ativo e previdente daquela com quem repartia o peso da vida. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o estranho, Marcelina, disse-lhe ele brandamente. &#8211; que voc&ecirc;,<br \/>\n    vendo-me no estado em que me acho, trate de suprir as faltas da casa aumentando<br \/>\n    o seu esfor&ccedil;o e trabalhando por voc&ecirc; e por mim. Mas por que raz&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o me h&aacute; de dizer o que tem de fazer antes de entrar em obra?<br \/>\n    Que lhe custa isso? Se me tivesse dito o que vinha aqui fazer, eu n&atilde;o<br \/>\n    teria sa&iacute;do de casa com risco de recair, estando j&aacute; quase bom.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Para que est&aacute; dizendo isso? Se eu lhe dissesse que vinha cortar<br \/>\n    juncos na lagoa, voc&ecirc; n&atilde;o me deixaria vir. Eu bem o conhe&ccedil;o,<br \/>\n    Francisco. <\/p>\n<p>&#8211; Deixava. Porque n&atilde;o deixava? No que eu n&atilde;o vejo raz&atilde;o<br \/>\n    foi em esconder-se de mim, quando eu j&aacute; a tinha visto. <\/p>\n<p>&#8211; Cuidei que n&atilde;o me tinha visto, sen&atilde;o eu tinha logo aparecido.<br \/>\n    Eu disse comigo: Francisco, n&atilde;o me vendo, volta para casa, e deixa-me<br \/>\n    tempo de sair da lagoa nas costas dele. <\/p>\n<p>&#8211; Que lembran&ccedil;a esta, Marcelina! Ent&atilde;o as ervas n&atilde;o<br \/>\n    haviam de declarar-me a verdade? <\/p>\n<p>Ora! Eu podia dizer-lhe que as tinha comprado ao Manoel da Hora, como disse<br \/>\n    quando voc&ecirc; perguntou donde tinham vindo os cip&oacute;s. <\/p>\n<p>&#8211; E ent&atilde;o os cip&oacute;s tamb&eacute;m foram cortados por voc&ecirc;<br \/>\n    na mata virgem? <\/p>\n<p>Est&aacute; bom, Francisco; fiquemos nisso. Voc&ecirc; tudo quer saber. Vamos<br \/>\n    j&aacute; para casa; Deus queira que n&atilde;o lhe voltem as malditas. N&atilde;o<br \/>\n    satisfeito com apanhar esta chuva, ainda queria meter-se na &aacute;gua. <\/p>\n<p>&#8211; Marcelina, voc&ecirc; faz mal em andar assim s&oacute; pelos matos. Para<br \/>\n    que faz isso, meu bem? As vezes aparecem por estas bandas, malfeitores. Ali<br \/>\n    dentro havia at&eacute; bem pouco um couto dos negros fugidos do engenho.<br \/>\n    Quem sabe se n&atilde;o est&atilde;o metidos l&aacute; ainda alguns que seu<br \/>\n    sargento-m&oacute;r n&atilde;o p&ocirc;de descobrir? <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se lembre disso, Francisco. Quem &eacute; que me h&aacute; de<br \/>\n    ofender? Os negros? Eles n&atilde;o. Conhe&ccedil;o todos e sei que gostam<br \/>\n    de mim, porque compro algumas coisas que trazem de seus mucambos. Vamos j&aacute;,<br \/>\n    que a chuva est&aacute; engrossando. <\/p>\n<p>Assim falando, Francisco e Marcelina meteram-se por sob as folhagens, e com<br \/>\n    pouco estavam debaixo de coberta enxuta. <\/p>\n<p>De outravez achava-se Francisco muito a seu salvo, limpando o seu partido<br \/>\n    de abacaxis, quando ouviu fortes bateduras na janela da casa. <\/p>\n<p>Receando fosse alguma viol&ecirc;ncia praticada pelos ditos negros, em quem<br \/>\n    ele, menos cr&eacute;dulo e simples do que sua mulher, n&atilde;o tinha a<br \/>\n    menor confian&ccedil;a, poz no ombro a enxada com que estava trabalhando e<br \/>\n    que, em caso de necessidade, serviria de arma contra os agressores, e tirou<br \/>\n    para a casa. Entrou ai agitado e perturbado. <\/p>\n<p>&#8211; Hoje voltou muito cedo do servi&ccedil;o &#8211; disse-lhe Marcelina. <\/p>\n<p>&#8211; Vim correndo ver que pancadas eram estas. Cuidei que, tendo-se voc&ecirc;<br \/>\n    trancado com medo dos negros, eles, n&atilde;o pensando que eu me achasse<br \/>\n    aqui por perto, estavam botando a porta abaixo. Voc&ecirc; tem lembran&ccedil;as,<br \/>\n    Francisco! <\/p>\n<p>Eis a causa dos estrondos, que assustaram o almocreve. <\/p>\n<p>De h&aacute; muito Marcelina batalhava com o marido para que lhe arranjasse<br \/>\n    uma taboa, de que dizia ter grande necessidade. Por esquecimento ou por n&atilde;o<br \/>\n    lhe sobrar tempo, o matuto estava ainda em falta para com ela. Naquele dia<br \/>\n    Marcelina, que, quando tinha qualquer id&eacute;ia que lhe parecia vantajosa,<br \/>\n    n&atilde;o descansava enquanto a n&atilde;o punha por obra, lembrou-se de<br \/>\n    um meio de realizar sua inten&ccedil;&atilde;o, sem ser preciso o concurso<br \/>\n    do marido. <\/p>\n<p>N&atilde;o a porta, mas a janela da casa achou Francisco fora do seu lugar;<br \/>\n    s&oacute; os portais tinham ficado na mesma posi&ccedil;&atilde;o que dantes.<br \/>\n    As dobradi&ccedil;as tinham sido mudadas para o batente inferior, a fim de<br \/>\n    que a porta, em vez de ser aberta pelo lado, o fosse pela parte superior,<br \/>\n    e de modo que, cravado da banda de dentro no ch&atilde;o um pau que chegasse<br \/>\n    ao n&iacute;vel do primeiro batente, formasse ela, descansando sobre a cabe&ccedil;a<br \/>\n    do dito pau, um como balc&atilde;o que pudesse ser visto por quem passasse<br \/>\n    pela estrada. O fim de Marcelina, realizando esta mudan&ccedil;a, era ter<br \/>\n    onde expor aos viandantes frutas, tapiocas e outros produtos do comercio domestico.\n  <\/p>\n<p>Esta pequena industria &eacute; muito praticada nos caminhos do norte. Quantas<br \/>\n    vezes, em minhas digress&otilde;es pelas prov&iacute;ncias de Pernambuco e<br \/>\n    Alagoas, n&atilde;o tive ocasi&atilde;o de chegar-me, montado em meu cavalo,<br \/>\n    ao p&eacute; da janela ou do balc&atilde;o m&oacute;vel da casinha pobre,<br \/>\n    onde se mostravam frutos frescos e sazonados, e de os comprar para neles me<br \/>\n    desalterar do calor do sol e do cansa&ccedil;o da jornada! <\/p>\n<p>N&atilde;o levou a mal Francisco a altera&ccedil;&atilde;o que a mulher fizera<br \/>\n    na obra das m&atilde;os dele, antes aprovou, com elogios, a lembran&ccedil;a<br \/>\n    que lhe dava novo testemunho das faculdades industriais daquela que, como<br \/>\n    boa e fiel companheira, o ajudava a tornar f&aacute;cil e digna a aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do p&atilde;o custoso da pobreza. <\/p>\n<p>&#8211; Se me tivesse dito que a taboa que me pedia era para este fim, j&aacute;<br \/>\n    eu a teria trazido da vila. <\/p>\n<p>Gosto de fazer as minhas inven&ccedil;&otilde;es sem dizer nada a ningu&eacute;m,<br \/>\n    nem a voc&ecirc; mesmo &#8211; respondeu Marcelina. <\/p>\n<p>Vivia assim feliz, sem Ter coisa alguma que lhe causasse inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nem tristeza, aquele casal pobre, mas honrado e discreto, s&oacute; pedindo<br \/>\n    a Deus que lhes desse chuva e sol nos tempos oportunos, para que o milho,<br \/>\n    o feij&atilde;o, a mandioca, a macaxeira, as batatas, os abacaxis n&atilde;o<br \/>\n    morressem alagados ou queimados, e que n&atilde;o lhes mandasse doen&ccedil;as<br \/>\n    graves que os privassem do trabalho, sua distra&ccedil;&atilde;o e prazer<br \/>\n    de todo dia. <\/p>\n<p>Marcelina n&atilde;o ficava ai, levava ainda al&eacute;m o seu esp&iacute;rito<br \/>\n    empreendedor, a sua notabil&iacute;ssima voca&ccedil;&atilde;o para o pequeno<br \/>\n    comercio. <\/p>\n<p>Criava porcos, galinhas, patos e perus. Nos tempos de festa os porcos ou<br \/>\n    eram vendidos por bom dinheiro na vila, ou ela os retalhava, e em sua casa<br \/>\n    expunha &aacute; venda a carne e o toucinho, sempre com t&atilde;o boa cabe&ccedil;a<br \/>\n    que s&oacute; lhe ficava a por&ccedil;&atilde;o que reservava para seu pr&oacute;prio<br \/>\n    uso. As vezes, desta mesma parte fazia o picado e o sarapatel para vender<br \/>\n    aos matutos que eram perdidos por estas esp&eacute;cies de comidas. <\/p>\n<p>Quando as cria&ccedil;&otilde;es estavam muito aumentadas, Francisco metia-as<br \/>\n    nas capoeiras, e ia vende-las em Goiana, importante centro comercial de toda<br \/>\n    aquela redondeza, como o Recife j&aacute; o era de todo o norte por aqueles<br \/>\n    tempos. Voltava de Goiana trazendo parte dos g&ecirc;neros apurada em boa<br \/>\n    moeda, e a outra parte empregada em fazendas para uso da casa. <\/p>\n<p>Enfim, a vida do almocreve, a vida do pequeno negociante das estradas e feiras,<br \/>\n    ningu&eacute;m nem antes nem depois daquelas duas criaturas t&atilde;o irm&atilde;s<br \/>\n    e amigas uma da outra, compreendeu melhor do que elas, nem talvez t&atilde;o<br \/>\n    bem como elas, em suas especiais aplica&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Causava a todos inveja e admira&ccedil;&atilde;o a harmonia, a felicidade<br \/>\n    desses dois entes rudes, que dispensavam li&ccedil;&otilde;es da gente civilizada<br \/>\n    para viverem com honra e conveni&ecirc;ncia e que da beira de um caminho deserto,<br \/>\n    do p&eacute; de uma mata, sem saberem ler nem escrever, davam edificativos<br \/>\n    exemplos de moral domestica, amor ao trabalho, e f&eacute; no Criador. <\/p>\n<p>N&atilde;o se pretende fazer nestas palavras a apologia da ignor&acirc;ncia,<br \/>\n    nem a da pobreza, que s&atilde;o os dois maiores males da terra; o que deste<br \/>\n    r&aacute;pido esbo&ccedil;o de dois caracteres puros e respeit&aacute;veis<br \/>\n    se aspira a inferir &eacute; que o bom natural traz em se mesmo, como por<br \/>\n    instinto, a ci&ecirc;ncia da vida, e que o trabalho, ainda o mais humilde,<br \/>\n    &eacute; o primeiro meio de suprir as faltas da fortuna e vencer os defeitos<br \/>\n    da condi&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<h2><a name=\"5\">Cap&iacute;tulo V<\/a><\/h2>\n<p>Foi para esse ninho de modesta felicidade e de paz nunca perturbada, que<br \/>\n    Francisco levou consigo o tr&ecirc;fego Louren&ccedil;o, infeliz fruto de<br \/>\n    uni&atilde;o reprovada, precozmente apodrecido nas dissolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da povoa&ccedil;&atilde;o, pobre de instru&ccedil;&atilde;o, rica por&eacute;m<br \/>\n    de mis&eacute;rias e maus exemplos. <\/p>\n<p>Relatar aqui miudamente as maldades, os atentados cometidos pelo menino,<br \/>\n    entregue, at&eacute; bem pouco tempo atr&aacute;s, &aacute; torpe licen&ccedil;a;<br \/>\n    rememorar os esfor&ccedil;os usados para o reprimir e corrigir, por Francisco<br \/>\n    e Marcelina, que desde o dia de sua chegada n&atilde;o lhe faltaram com bons<br \/>\n    conselhos e as mais saud&aacute;veis li&ccedil;&otilde;es de moral, fora longo<br \/>\n    e fastidioso encargo. <\/p>\n<p>Imagine uma criatura humana com entranhas de tigre; na m&atilde;o o pau ou<br \/>\n    a faca prestes para ofender ou ferir a quem estava perto, a pedra para atirar<br \/>\n    contra quem estava longe; sempre a saltar e a correr pelo caminho, a trepar<br \/>\n    nas arvores novas, primeiro que nas arvores idosas por serem mais f&aacute;ceis<br \/>\n    de quebrar-se com o peso do corpo as primeiras do que as ultimas; imagine<br \/>\n    um ente essencialmente mal&eacute;volo que cortava, por gosto de fazer mal,<br \/>\n    os gerumusinhos ainda na erva, arrancava as batatas verdes, despeda&ccedil;ava<br \/>\n    os maturis, queimava as cercas, quebrava as pernas &aacute;s aves domesticas<br \/>\n    que se achavam a seu alcance quando ele entrava em seu furor; enfim imagine<br \/>\n    o espirito mais diab&oacute;lico, o cora&ccedil;&atilde;o mais duro, a constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais forte aos doze anos de idade, que tereis, n&atilde;o o retrato tirado<br \/>\n    pelo natural, mas apenas a miniatura de Louren&ccedil;o quando chegou ao Cajueiro.\n  <\/p>\n<p>Ao cabo de um ano a luta continuada de dois sexos, dois g&ecirc;nios, duas<br \/>\n    idades diferentes, representadas por Marcelina e Louren&ccedil;o, tinha trazido<br \/>\n    not&aacute;vel altera&ccedil;&atilde;o ao natural e aos costumes de ambos.<br \/>\n    Marcelina estava cansada de lutar; as faces se lhe alquebraram; com pouco<br \/>\n    se irritava. Por felicidade, por&eacute;m, Louren&ccedil;o dava mostras de<br \/>\n    achar-se menos duro, manos indiferente aos castos sentimentos, menos insens&iacute;vel<br \/>\n    aos afetos pl&aacute;cidos do lar, menos forte para fazer mal, e j&aacute;<br \/>\n    propenso ao trabalho e &aacute; pratica do bem. <\/p>\n<p>Luta insana e tit&acirc;nica fora essa, mas t&atilde;o gloriosa para a parte<br \/>\n    vencedora, como proveitosa para a vencida. <\/p>\n<p>A m&atilde;e mais amorosa, paciente e discreta teria que invejar &agrave;quela<br \/>\n    mulher ignorante e r&uacute;stica o esfor&ccedil;o que, em sua benevol&ecirc;ncia,<br \/>\n    empregava em domesticar o animo da fera metido no cora&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    criatura humana, que ela adotar&aacute; por filho. <\/p>\n<p>Aquela mulher era digna do estudo das m&atilde;es de fam&iacute;lia, e de<br \/>\n    ser por elas imitada. Era o modelo vivo da m&atilde;e pobre, boa e virtuosa.\n  <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; meu filho, dizia Marcelina consigo mesma. Porque n&atilde;o hei<br \/>\n    de ter para ele amor e brandura? Que tem que me d&ecirc; muito que fazer encaminha-lo<br \/>\n    para o bem? Muito custa a gente acertar com o bom caminho; mas querendo-se<br \/>\n    ir por ele, ou tendo-se quem sirva de guia para ai, chega-se ao fim sempre.<br \/>\n    Hei de amolecer a natureza de pedra deste menino; hei de o fazer bom, ainda<br \/>\n    que eu fique m&aacute; e dura de cora&ccedil;&atilde;o contra minha vontade.\n  <\/p>\n<p>Quem souber que o maior desejo de Marcelina era Ter um filho, facilmente<br \/>\n    compreender&aacute; os imposs&iacute;veis que ela vencia para fazer Louren&ccedil;o<br \/>\n    digno dos seus afetos grandiosos. <\/p>\n<p>As palavras que, no momento de chegar com Louren&ccedil;o da povoa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Francisco dissera &aacute; sua mulher, apresentando-lho, deram logo a esta<br \/>\n    a conhecer a grande obra em que tinha de empenhar suas gigantescas for&ccedil;as.\n  <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o pedias todo santo dia um filho a Deus? Pois aqui tens um que<br \/>\n    ele te enviou e est&aacute; j&aacute; em condi&ccedil;&otilde;es de te fazer<br \/>\n    companhia e ajudar, quando eu n&atilde;o estiver na terra. Achei-o rasgado,<br \/>\n    sujo, desamparado, obrando a&ccedil;&otilde;es feias, de todos desprezado<br \/>\n    e odiado. Lembrou-me o teu desejo, compadeci-me da crian&ccedil;a desviada<br \/>\n    do bom caminho, tomei-a para n&oacute;s, e aqui t&rsquo;a entrego. Se aprender<br \/>\n    a trabalhar, a ajuntar, e a fazer bem, de muito nos poder&aacute; servir,<br \/>\n    porque &eacute; forte como uma on&ccedil;a. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o estava hediondo. Os cabelos tinha-os imundos e crescidos,<br \/>\n    as unhas terrosas, os p&eacute;s cortados das pedras e dos vidros dos quintais<br \/>\n    e esterquil&iacute;nios por onde de noite andava em busca do alheio. <\/p>\n<p>Sobre o corpo, que sendo de cor branca, se apresentava enegrecido do p&oacute;<br \/>\n    e das imundices em que se espojava, como c&atilde;o, e sobre as quais dormia<br \/>\n    como porco, trazia, n&atilde;o roupa, mas p&uacute;tridos e repugnantes andrajos.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Onde achou voc&ecirc; este menino? perguntou-lhe Marcelina, n&atilde;o<br \/>\n    sem espanto do que via e n&atilde;o esperava. <\/p>\n<p>&#8211; Achei-o por ai al&eacute;m; n&atilde;o precisa saber onde. Toma-o &aacute;<br \/>\n    tua conta, limpa-o, trata dele. <\/p>\n<p>N&atilde;o tem pai nem m&atilde;e? Poderemos te-lo por nosso, sem risco de<br \/>\n    o perdermos ou de que algu&eacute;m o venha tirar de nosso poder quando j&aacute;<br \/>\n    estiver n&atilde;o como bicho, mas como gente? <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o tenhas receio de que haja quem o queira, Marcelina. Todo o Pasmado<br \/>\n    entregou-mo para ficar aliviado e livre dele. Tu n&atilde;o sabes de quanto<br \/>\n    &eacute; capaz este menino endiabrado que nos est&aacute; ouvindo sem dizer<br \/>\n    uma palavra sequer, passado de raiva e em termos de arrebentar. Enfim, para<br \/>\n    encurtar a historia, basta que eu te diga que pelo que me fez em t&atilde;o<br \/>\n    curta jornada, tive muitos &iacute;mpetos de o ir deixar outra vez no lugar<br \/>\n    onde o encontrei aborrecido e temido por todos. N&atilde;o foi uma nem duas<br \/>\n    vezes que me arrependi da minha caridade e de me terem lembrado as tuas encomenda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sempre que eu saia. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o diga assim, Francisco. Ele h&aacute; de ficar bondinho, com<br \/>\n    o favor de Deus. Voc&ecirc; h&aacute; de ver. N&atilde;o h&aacute; tanta gente<br \/>\n    que nasce ruim e que pelo tempo adiante fica boa? <\/p>\n<p>&#8211; Enfim, ai o tens. Foi o menino que encontrei, e agora ag&uuml;enta-te com<br \/>\n    ele, que tem sangue no olho e cabelo na venta. <\/p>\n<p>Dias depois, Louren&ccedil;o j&aacute; apresentava aspecto diferente do que<br \/>\n    trouxera. Marcelina tinha feito para ele ceroula e camisa nova, e principiou<br \/>\n    a sua obra de regenera&ccedil;&atilde;o pela limpa do corpo. <\/p>\n<p>&Aacute; tardinha, entrando Francisco com o feixe de capim que fora cortar<br \/>\n    na baixa para o cavalo, ficou admirado de ver a mudan&ccedil;a de Louren&ccedil;o.\n  <\/p>\n<p>A limpa corporal tinha sido completa. <\/p>\n<p>Desapareceu o cabelo s&oacute;rdido e especado, que fora cortado rente, as<br \/>\n    raj&aacute;s que desfiguravam a cara, as unhas que se podiam comparar com<br \/>\n    as garras dos carcar&aacute;s. Louren&ccedil;o mostrava-se agora na realidade<br \/>\n    outro do que viera. O banho geral que lhe foi dado por Marcelina o poz ao<br \/>\n    natural. A cara despojada da crosta terrena em que se envolvia, como em mascara,<br \/>\n    atestava pela brancura que o menino era de boa origem. Os vasos azuis desenhavam-se<br \/>\n    sob a c&uacute;tis das faces, murchadas pouco antes, agora por&eacute;m refrescadas<br \/>\n    pela ablu&ccedil;&atilde;o saud&aacute;vel, e como remo&ccedil;adas pela pronta<br \/>\n    rea&ccedil;&atilde;o que &eacute; natural da meninice. <\/p>\n<p>Conheceu-se ent&atilde;o que o menino n&atilde;o era feio. Tinha a fronte<br \/>\n    espa&ccedil;osa, os olhos rasgados e negros mas de desvairado brilho, efeito<br \/>\n    das ins&ocirc;nias que curtia; aquilino o nariz; bem proporcionada a boca;<br \/>\n    fendido o queixo. Lia-se-lhe por&eacute;m no semblante m&oacute;vel e no olhar<br \/>\n    sorrateiro, sem deixar de ser observador, a desconfian&ccedil;a, que &eacute;<br \/>\n    uma das manifesta&ccedil;&otilde;es naturais de quem se afez a obrar a&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    reprovadas, a cuja pratica se n&atilde;o animaria, se lhe n&atilde;o fossem<br \/>\n    prop&iacute;cios os esconderijos, as trevas, os ermos, que prometem a impunidade<br \/>\n    e quase a asseguram. <\/p>\n<p>Mas Louren&ccedil;o, posto que de todo solto desde os primeiros anos, n&atilde;o<br \/>\n    tinha certos v&iacute;cios que rebaixam nas cidades populosas a inf&acirc;ncia<br \/>\n    entregue a seu pr&oacute;prio e &uacute;nico alvedrio e dire&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ele era de &iacute;ndole mau, e cedendo &aacute;s impreter&iacute;veis e fatais<br \/>\n    leis do instinto, fora arrastado inumer&aacute;veis vezes a cometer atos reprovados.<br \/>\n    Ignorante, por&eacute;m, das vilezas que os meninos aprendem nos col&eacute;gios<br \/>\n    mal administrados, e que das mais puras e inocentes almas fazem pacientes<br \/>\n    e propagadores do enredo, da mentira e de vergonhosos prazeres que desnaturam<br \/>\n    as mais fortes e viris organiza&ccedil;&otilde;es, ele guardava ainda no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    intactos e como adormecidos os est&iacute;mulos pr&oacute;prios do homem,<br \/>\n    que ainda metido no charco das paix&otilde;es, n&atilde;o lhes bebe a lama<br \/>\n    como a dos charcos bebem os animais. <\/p>\n<p>As paix&otilde;es de Louren&ccedil;o davam para a briga, o roubo, e at&eacute;<br \/>\n    para o assass&iacute;nio, posto que nunca tivesse tirado diretamente a vida<br \/>\n    de ningu&eacute;m. Causava-lhe prazer destruir as animadas e as inanimadas<br \/>\n    criaturas, que n&atilde;o eram bastantemente fortes para fugir &aacute;s suas<br \/>\n    arremetidas, ou resistir a seu g&ecirc;nio demolidor. Mutilava as arvores,<br \/>\n    por despoja-las de uma parte de sua forma e faze-las defeituosas. Dava pancadas<br \/>\n    nos c&atilde;es por ouvi-los soltar gritos de dor. Com o padecimento mudo<br \/>\n    da arvore, e com o ruidoso do animal, ele se alegrava, porque era mau de cora&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas n&atilde;o usava habitualmente a mentira, a trai&ccedil;&atilde;o, nem<br \/>\n    tinha outros v&iacute;cios feios e sentimentos vis que revelam da parte de<br \/>\n    quem os cultiva, animo fraco e no todo desprez&iacute;vel. Era o perverso<br \/>\n    da selva, duro, dif&iacute;cil, mas n&atilde;o imposs&iacute;vel de vencer-se,<br \/>\n    e n&atilde;o o das c&ocirc;rtes, nojento, infame e t&atilde;o f&aacute;cil<br \/>\n    de prostrar-se qu&atilde;o imposs&iacute;vel de corrigir-se. Era o malvado<br \/>\n    ignorante, arrebatado, e n&atilde;o o corruptor manhoso, cort&ecirc;s, polido,<br \/>\n    muito mais danoso do que o malvado, para o qual h&aacute; pris&otilde;es e<br \/>\n    castigos; o corruptor entre em toda a parte impunemente, e com todos e com<br \/>\n    tudo comunica a sua pervers&atilde;o: suas palavras adocicadas, os gestos<br \/>\n    insinuantes, os olhares, os sorrisos, os gracejos, os agrados, os servi&ccedil;os<br \/>\n    gratuitos, os presentes abrem-lhe o espirito infantil, o seio da fam&iacute;lia<br \/>\n    cr&eacute;dula e at&eacute; o cora&ccedil;&atilde;o do amigo confiante. Dentro<br \/>\n    em pouco, de ordin&aacute;rio quando j&aacute; n&atilde;o &eacute; tempo de<br \/>\n    atalhar o mal, sentem-se estes dominados da pe&ccedil;onha mort&iacute;fera,<br \/>\n    e perdido no conceito dos que tiveram bastante habilidade ou felicidade para<br \/>\n    evitar o contato com o envenenador. <\/p>\n<p>O sitio de Francisco, pelo lado do sul, confinava com as terras onde o senho<br \/>\n    do engenho Bujari tinha umas carvoeiras, que ficavam muito dentro. N&atilde;o<br \/>\n    havia ai casa decente, mas uma palho&ccedil;a ligeiramente feita, onde se<br \/>\n    abrigava ele, quando vinha dar-lhes uma vista d&rsquo;olhos. Para evitar que<br \/>\n    estranhos, aproveitando-se dos cajueirais, fossem fazer carv&atilde;o em sua<br \/>\n    aus&ecirc;ncia, tinha ali o senhor de engenho um casal de negros idosos, cuja<br \/>\n    ocupa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era outra que p&ocirc;r sentido nas terras,<br \/>\n    guarda-las de intrusos, tratar dos cajueiros existentes e plantar novos, afim<br \/>\n    de que se n&atilde;o extinguissem os cajueirais. <\/p>\n<p>Para se ir &aacute; palho&ccedil;a, distante ainda menos de metade de um<br \/>\n    quarto de l&eacute;gua da estrada, tomava-se por um estreito trilho que desta<br \/>\n    partia, dentre duas touceiras de capimass&uacute;, e se metia para dentro,<br \/>\n    ocultando-se pouco adiante por traz das primeiras arvores da capoeira. <\/p>\n<p>Um dia, j&aacute; ao anoitecer, por ocasi&atilde;o de Marcelina entrar para<br \/>\n    acender a candeia, Louren&ccedil;o, que passar&aacute; a tarde amuado sobre<br \/>\n    um tronco de macaibeira que jazia estendido ao p&eacute; da casa, largou-se<br \/>\n    pela estrada afora. Pouco adiante, no ponto mesmo em que na estrada se encontrava<br \/>\n    a vereda, lobrigou ele ao longe Francisco, que tomava a casa. Deliberado a<br \/>\n    fugir da companhia dos seus benfeitores, &uacute;nica inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que o fizera apartar-se de casa, o menino, para evitar o encontro com o matuto,<br \/>\n    enfiou pela vereda. N&atilde;o sabia ele em que ponto ia ela morrer; mas parecendo-lhe<br \/>\n    que levava &aacute; lagoa, donde tinha visto de tarde chegar Marcelina com<br \/>\n    um bra&ccedil;ado de juncos, e donde se podia ir ao caminho geral por um caminho<br \/>\n    particular que ela sabia, apressou os passos, e s&oacute; parou quando, pressentindo<br \/>\n    gente perto da palho&ccedil;a, tr&ecirc;s formid&aacute;veis c&atilde;es,<br \/>\n    a&ccedil;ulados por Benedicto, molecote filho do casal de negros, lhe sa&iacute;ram<br \/>\n    ao encontro, n&atilde;o para o receberem atenciosamente, como fazem com os<br \/>\n    de fora os moradores hospitaleiros, mas para o despeda&ccedil;arem com desabrido<br \/>\n    furor. Cercado de todos os lados, Louren&ccedil;o mal se podia livrar dos<br \/>\n    tem&iacute;veis defensores de escuso lar, quando de dentro da palho&ccedil;a<br \/>\n    correu ao lugar do conflito uma negra apercebida com um jagun&ccedil;o, em<br \/>\n    atitude de quem o queria desancar. <\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute; voc&ecirc;? quem &eacute; voc&ecirc;? &#8211; perguntou ela, sem<br \/>\n    fazer o menor gesto aos c&atilde;es para que se acomodassem. <\/p>\n<p>&#8211; Sei l&aacute; quem eu sou?! Respondeu com maus modos, Louren&ccedil;o agitado<br \/>\n    e col&eacute;rico da estranha e inesperada recep&ccedil;&atilde;o. Vi este<br \/>\n    caminho na beira da estrada e sem ter o que fazer, enfiei por ele, para saber<br \/>\n    onde vinha dar. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; mentira sua &#8211; retorquiu a negra. Voc&ecirc; veio atr&aacute;s<br \/>\n    das minhas galinhas, e est&aacute; agora dizendo estas coisas. E eu que pensava<br \/>\n    que era a raposa que me estava dando no poleiro. <\/p>\n<p>&#8211; Negra do diabo! Gritou Louren&ccedil;o, cada vez mais zangado e irritado.<br \/>\n    Eu algum dia trepei no teu poleiro? O que eu sinto &eacute; n&atilde;o trazer<br \/>\n    na m&atilde;o uma vara para te enfiar pela boca a dentro. <\/p>\n<p>&#8211; Acuda c&aacute;, Mo&ccedil;ambique, acuda c&aacute;. Estou &aacute;s voltas<br \/>\n    com o ladr&atilde;o das minhas galinhas &#8211; gritou a preta como possessa, e<br \/>\n    movendo o jagun&ccedil;o contra Louren&ccedil;o. <\/p>\n<p>Os c&atilde;es, entretanto, a&ccedil;ulados por ela, e autorizados por este<br \/>\n    novo gesto hostil e agressivo, j&aacute; mordiam o rapaz pelas pernas como<br \/>\n    implac&aacute;veis inimigos, que de prop&oacute;sito se criam sem cortesia<br \/>\n    nem benevol&ecirc;ncia para maior seguran&ccedil;a dos lares confiados &aacute;<br \/>\n    sua guarda. <\/p>\n<p>Quando Louren&ccedil;o sentiu as primeiras dentadas dos terr&iacute;veis<br \/>\n    animais, atirou-se desesperado &aacute; preta, na inten&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    lhe arrancar a arma, de que ele precisava, assim para se defender, como para<br \/>\n    castigar as ofensas que tanto dela como dos seus companheiros tinha recebido;<br \/>\n    e teria realizado o seu pensamento, se a esse tempo n&atilde;o se achasse<br \/>\n    junto com eles, trazendo um longo quiri, descascado ao fogo, o preto por quem<br \/>\n    a negra chamara em seu socorro. <\/p>\n<p>O conflito tornou-se ent&atilde;o s&eacute;rio. O menino, o molecote, a negra,<br \/>\n    o negro e os c&atilde;es, tomando parte nele com o empenho de ter cada um<br \/>\n    por se a vitoria, formaram pelo bracejar e revolver vertiginoso um novelo,<br \/>\n    uma onda rotat&oacute;ria, um medonho redemoinho, do qual se levantava surdo<br \/>\n    rumor, produzido pelo respirar confuso, e abafado dos lutadores, e pelo rosnar<br \/>\n    da r&aacute;bida matilha. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o era forte, segundo sabemos. Mais de uma vez atirou para longe<br \/>\n    um c&atilde;o, para uma banda o moleque, para outra a negra. Mas os que ele<br \/>\n    assim afastava de ao p&eacute; de si, tornavam logo mais exacerbados ao ponto<br \/>\n    donde tinham sido atirados, e prolongavam o conflito com f&uacute;ria e esfor&ccedil;o<br \/>\n    novos. Al&eacute;m disso, Louren&ccedil;o achava-se desarmado, o que diminu&iacute;a<br \/>\n    consideravelmente a sua grande for&ccedil;a f&iacute;sica, incapaz para resistir<br \/>\n    &aacute;s dos inimigos, que eram gigantes em compara&ccedil;&atilde;o da sua,<br \/>\n    visto serem eles numerosos e terem, al&eacute;m das for&ccedil;as, instrumentos<br \/>\n    que contundiam, feriam e at&eacute; despeda&ccedil;avam. Com pouco mais sentiu-se<br \/>\n    enfraquecer. O sangue escorria-lhe de diferentes pontos das pernas; os c&atilde;es,<br \/>\n    ensinados desde pequenos a dilacerar os timbus, as raposas e os maracaj&aacute;s<br \/>\n    &#8211; hospedes importunos do sitio, tinham-lhe rasgado importantes vasos, e cortado<br \/>\n    com seus poderosos colmilho as carnes mo&iacute;das das cacetadas. Louren&ccedil;o<br \/>\n    estava quase desfalecido, e s&oacute; lhe faltava cair para ser de todo vitima<br \/>\n    e n&atilde;o se poder levantar mais. <\/p>\n<p>Achava-se neste extremo apuro, e seus p&eacute;s j&aacute; iam resvelando<br \/>\n    na areia poida do terreiro da casa, aonde as evolu&ccedil;&otilde;es desordenadas<br \/>\n    do conflito tinham arrastado os que nele eram parte, quando, repentinamente,<br \/>\n    vencendo o burburinho, voz forte e vibrante fez ouvir estas palavras: <\/p>\n<p>&#8211; Negro! Negro! Mo&ccedil;ambique! Tem m&atilde;o. Queres matar meu filho?\n  <\/p>\n<h2><a name=\"6\">Cap&iacute;tulo VI<\/a><\/h2>\n<p>Os negros sobrestiveram espantados. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; seu filho, seu Francisco? Perguntou Mo&ccedil;ambique ao rec&eacute;m-chegado,<br \/>\n    que n&atilde;o era outrem que Francisco mesmo. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; meu filho, negro do diabo. <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, perdoa, seu mo&ccedil;o. Ningu&eacute;m sabia. Perdoa a Mo&ccedil;ambique.\n  <\/p>\n<p>Francisco, sentindo falta de Louren&ccedil;o, e atra&iacute;do pelos primeiros<br \/>\n    latidos da canzoada, viera dar consigo no lugar onde a sua ben&eacute;fica<br \/>\n    interven&ccedil;&atilde;o n&atilde;o podia chegar mais oportunamente. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o estava muito maltratado. Chegando &aacute; casa, caiu de<br \/>\n    cama para n&atilde;o se levantar sen&atilde;o depois de um m&ecirc;s. Nos<br \/>\n    primeiros dias n&atilde;o deram nada pela vida dele. <\/p>\n<p>Este acontecimento, lastim&aacute;vel por um lado, foi pelo outro providencial,<br \/>\n    e, para assim escrevermos, acentuou a obra de regenera&ccedil;&atilde;o em<br \/>\n    que se empenharam aquelas duas almas que porfiavam para p&ocirc;r no bom caminho<br \/>\n    o menino perdido e infeliz. <\/p>\n<p>Preso pelas mordeduras e contus&otilde;es &aacute; cama, Louren&ccedil;o<br \/>\n    a quem nunca em Pasmado acontecera desastre que com este se parecesse, teve<br \/>\n    ocasi&atilde;o de fazer irresist&iacute;vel e fatalmente o ju&iacute;zo do<br \/>\n    seu procedimento desde o dia em que caiu na laxid&atilde;o das ruas, tabernas<br \/>\n    e ranchos. O senso intimo, at&eacute; aquele momento obscurecido pela inexperi&ecirc;ncia<br \/>\n    e verdor dos anos, come&ccedil;ou a reagir contra as camadas que o impediam<br \/>\n    de lhe mostrar as trilhas do dever e da s&atilde; doutrina. <\/p>\n<p>Marcelina, h&aacute;bil e natural educadora, aproveitara-se do ensejo para<br \/>\n    aconselhar o menino, tomando li&ccedil;&otilde;es do acontecimento, a n&atilde;o<br \/>\n    se encaminhar sen&atilde;o para o trabalho e o bem. <\/p>\n<p>&#8211; Que ias tu fazer, Louren&ccedil;o, quando os cachorros e os negros ca&iacute;ram<br \/>\n    sobre ti? Ias perder-te. Deixavas aqui pai e m&atilde;e, que olham por ti<br \/>\n    com amor e do&ccedil;ura; metias-te por esse mato a dentro, com risco de morreres<br \/>\n    de fome, de doen&ccedil;a ou de mordedura de cobra. <\/p>\n<p>&#8211; O que eu queria era ganhar o caminho que vai dar em minha terra &#8211; respondeu<br \/>\n    ele. O negro e a negra n&atilde;o me deixaram passar; mas eles h&atilde;o<br \/>\n    de pagar-me este desaforo. <\/p>\n<p>&#8211; E que ias ver em tua terra? Que foi que ela te deu? maus exemplos e maus<br \/>\n    costumes. Que ias tu achar l&aacute;? A mis&eacute;ria, o sujo e o desprezo.<br \/>\n    No fim de contas serias recrutado e acabarias sabe Deus onde, com a farda<br \/>\n    nas costas. <\/p>\n<p>&#8211; Cuida que eu tenho medo de ser soldado? Eu sou forte. <\/p>\n<p>&#8211; Isso sei eu. <\/p>\n<p>&#8211; E gosto de brigar e combater. Havia de vir uma guerra que eu mostraria<br \/>\n    para quanto sou. <\/p>\n<p>Assim que assentasses pra&ccedil;a te arrependias logo da asneira feita.<br \/>\n    Pensas que o soldado tem licen&ccedil;a para andar a toda hora por onde quer,<br \/>\n    como fazias tu antes de Francisco te trazer para o Cajueiro? Est&aacute;s<br \/>\n    enganado. O soldado n&atilde;o tem a menor liberdade; &eacute; pior do que<br \/>\n    negro de engenho; n&atilde;o pode dar um passo sem ordem do seu superior.<br \/>\n    &Eacute;s uma crian&ccedil;a, Louren&ccedil;o; n&atilde;o sabes ainda o que<br \/>\n    &eacute; o mundo. Acomoda-te com os bons e busca ser um deles. Ajuda-nos a<br \/>\n    trabalhar e a viver em nosso sossego, que o trabalho por pouco que d&ecirc;<br \/>\n    &aacute; gente, &eacute; sempre proveitoso e traz alegria e paz. <\/p>\n<p>Quando se levantou da cama, Louren&ccedil;o dava mostras de melhorado do<br \/>\n    g&ecirc;nio tr&ecirc;fego que fora causa da sua longa doen&ccedil;a. Um grande<br \/>\n    fruto, quando outros se n&atilde;o pudessem apontar, tinha produzido o recolhimento<br \/>\n    for&ccedil;ado do menino: sa&iacute;ra-lhe de todo do entendimento a id&eacute;ia<br \/>\n    de volver ao povoado donde viera. Aos olhos de Marcelina, que aprendeu sem<br \/>\n    que ningu&eacute;m lhe ensinasse, a ler nas palavras e na fisionomia de quem<br \/>\n    com ela tratava, os &iacute;ntimos pensamentos e intuitos, nenhum indicio<br \/>\n    de melhora podia parecer mais favor&aacute;vel do que este. A fugida de Louren&ccedil;o<br \/>\n    a Pasmado era o que ela mais receava, e para tolher que semelhante desgra&ccedil;a<br \/>\n    viesse a suceder, ela liberalizava agrados e carinhos ao menino, e com espertos<br \/>\n    cuidados vigiava sobre ele a toda hora. Nada lhe recusava, mas tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o o deixava pisar em ramo verde. <\/p>\n<p>A esta&ccedil;&atilde;o veio em seu auxilio na constru&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    grande obra moral que tinha em m&atilde;os. Chegou dezembro. O tempo estava<br \/>\n    enxuto, n&atilde;o obstante se mostrarem os campos borrifados das chuvas-do-caj&uacute;,<br \/>\n    nome que vem a tais chuvas de serem elas muito favor&aacute;veis a esta fruta.<br \/>\n    As laranjeiras novas, que Francisco plantara de um e de outro lado da casa,<br \/>\n    curvavam-se debaixo do peso das prim&iacute;cias do estio. Ao longe, para<br \/>\n    os fins do sitio, viam-se os abacaxis ostentando garbosos, dentre suas tou&ccedil;as<br \/>\n    lou&ccedil;&atilde;s, o distintivo que na ordem vegetal a todos lembrava a<br \/>\n    ins&iacute;gnia civil da realeza. <\/p>\n<p>Era a melhor esta&ccedil;&atilde;o do norte. Pobres, remediados e ricos apercebiam-se,<br \/>\n    sem excep&ccedil;&atilde;o, cada qual conforme suas for&ccedil;as o ajudavam,<br \/>\n    para a festa do natal, &eacute;poca de folgan&ccedil;as e divertimentos no<br \/>\n    campo, &aacute; sombra das arvores e dos r&uacute;sticos alpendres. <\/p>\n<p>Em toda a vasta zona a&ccedil;ucareira da prov&iacute;ncia os engenhos come&ccedil;avam<br \/>\n    a tirar sua safra; o que ficava do outro lado da mata, que sabemos &#8211; o engenho<br \/>\n    Bujari &#8211; tinha de botar dentro de uma semana. <\/p>\n<p>O dia da botada n&atilde;o tem igual, pelo reboli&ccedil;o que o caracteriza,<br \/>\n    na grande propriedade. <\/p>\n<p>Ajuntam-se parentes, amigos e conhecidos para acompanharem o propriet&aacute;rio<br \/>\n    na sua alegria, e participarem das suas larguezas. <\/p>\n<p>Francisco, a cujos bons sentimentos e qualidades devia o lugar que tinha<br \/>\n    diante do senhor de engenho, achou-se presente com Louren&ccedil;o &aacute;<br \/>\n    festa rural, que oferecia ao menino novo e indiz&iacute;vel encanto. <\/p>\n<p>N&atilde;o obstante ser quase n&ocirc;mada na povoa&ccedil;&atilde;o, nunca<br \/>\n    dai saiu este para assistir a festas semelhantes nos engenhos da freguesia<br \/>\n    pela distancia em que ficavam do lugar. De sorte que, penetrando agora com<br \/>\n    Francisco no engenho Bujari, experimentou desconhecido prazer. <\/p>\n<p>Um padre veio de prop&oacute;sito para dizer missa na capela e benzer a nova<br \/>\n    moenda, que se achava adornada com ramos verdes, lembran&ccedil;a e fineza<br \/>\n    dos negros. Depois da ben&ccedil;&atilde;o, entregou ele ao senhor do engenho<br \/>\n    a primeira cana, que devia ser mo&iacute;da aquele ano. O sargento-m&oacute;r<br \/>\n    meteu-a entre os eixos da moenda, os negros a&ccedil;oitaram as bestas, levantaram<br \/>\n    urras e vivas, v&aacute;rios moradores e convidados dispararam armas de fogo<br \/>\n    em sinal de regozijo, enfim encetou-se a moagem. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o ficou ao principio admirado, perplexo perante aqueles acontecimentos<br \/>\n    inteiramente novos para ele; dai a pouco, por&eacute;m, j&aacute; lhe faltou<br \/>\n    o tempo para beber do caldo de cana ainda quente, e mais tarde comer do mel-de-engenho<br \/>\n    saindo da tacha, subir &aacute; almanjarra e a&ccedil;oitar os animais de<br \/>\n    companhia com os molecotes mais espertos. <\/p>\n<p>Mo&ccedil;os e mo&ccedil;as formosas e elegantes, que tinham ido de Goiana<br \/>\n    &aacute; festa, faziam agrad&aacute;veis digress&otilde;es pelos campos e<br \/>\n    outeiros pr&oacute;ximos da propriedade. Alguns jovens pescavam no a&ccedil;ude,<br \/>\n    enquanto outros se metiam pelos matos a colher cajus e a passarinhar. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o ouviu de noite, de sobre as palhas da cana onde se deitara<br \/>\n    ao luar, defronte da casa-da-moenda, melanc&oacute;licas e saudosas harmonias,<br \/>\n    que lan&ccedil;avam ecos suav&iacute;ssimos em sua alma. <\/p>\n<p>Eram as toadas com que os negros respondiam da porta da senzala, de cima<br \/>\n    da bagaceira, da almanjarra, do p&aacute;tio da casa-de-purgar, aos regozijos<br \/>\n    da casa-de-vivenda, onde os toques ressoavam desacompanhados das alterca&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a que d&aacute; lugar o dem&ocirc;nio do jogo, ent&atilde;o bem menos conhecido<br \/>\n    do que hoje do fazendeiro nortista. <\/p>\n<p>Parece que se prepara grande guerra &agrave; cana-de-a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    no norte. Para levar a efeito este pensamento &#8211; o da destrui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da planta aben&ccedil;oada, servem-se do de cultivar com largueza o caf&eacute;<br \/>\n    no interior das prov&iacute;ncias onde at&eacute; o presente se cultivou largamente<br \/>\n    a cana. <\/p>\n<p>N&atilde;o me leves a mal uma declara&ccedil;&atilde;o que farei aqui, tocante<br \/>\n    &agrave; projetada revolu&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola. <\/p>\n<p>Entriste&ccedil;o-me, meu amigo, a qualquer indicio de que &aacute; cultura<br \/>\n    da cana se trata de substituir cultura de planta diferente, seja muito embora<br \/>\n    esta da estatura e import&acirc;ncia do caf&eacute;, ao qual desde pequeno<br \/>\n    me acostumei a votar grandes afei&ccedil;&otilde;es. A raz&atilde;o &eacute;<br \/>\n    porque a cana-de-a&ccedil;&uacute;car me inspira intima e saud&aacute;vel<br \/>\n    paix&atilde;o, que n&atilde;o sei explicar, mas que tem em mim a extens&atilde;o<br \/>\n    e a amplitude de uma elevada e pura estima. A meus olhos, ela n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    uma planta, &eacute; um ente magico e pitoresco. Vejo nela poesia e grandeza<br \/>\n    que irresistivelmente me levam a tributar-lhe culto do cora&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Causam-me profundas alegrias seus bastos ajuntamentos, seus partidos virentes,<br \/>\n    acamados, com suas folhas, ora encurvadas, ora destendidas ao sopro dos ventos<br \/>\n    irados ou brinc&otilde;es. Essas folhas s&atilde;o como harpas gigantes, melanc&oacute;licas,<br \/>\n    ternissimas, que as vira&ccedil;&otilde;es fazem vibrar docemente e que despedem<br \/>\n    harmonias e&oacute;lias. <\/p>\n<p>A vista da moagem produz em mim gratas altera&ccedil;&otilde;es, e traz-me<br \/>\n    saudades da inf&acirc;ncia, recorda&ccedil;&otilde;es vener&aacute;veis dos<br \/>\n    tempos felizes em que, levando a vida entre a vila e os engenhos, entre a<br \/>\n    casa paterna e os pain&eacute;is que a natureza exp&otilde;e gratuitamente<br \/>\n    aos que para ela t&ecirc;m os seus principais afetos e a sua primeira admira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    meu espirito adejava, como os sanha&ccedil;us e os bentevis, por sobre as<br \/>\n    folhagens, mergulhado alternativamente j&aacute; em luzes, j&aacute; em sombras,<br \/>\n    mas sempre enleado e passado de inocente contentamento. <\/p>\n<p>Para o homem do norte o engenho de a&ccedil;&uacute;car &eacute; o representante<br \/>\n    de imemoriais e gloriosas tradi&ccedil;&otilde;es. Especialmente o pernambucano<br \/>\n    nasce vendo com amigos olhos aquelas grandes propriedades que s&atilde;o como<br \/>\n    os seus castelos feudais. O engenho &eacute; o solar do norte. A nobreza do<br \/>\n    pa&iacute;s principiou por ele; n&atilde;o conheceu outro solar. Ele figura<br \/>\n    nas maiores paginas da historia daquela parte do vasto imp&eacute;rio. Sua<br \/>\n    import&acirc;ncia &eacute; lend&aacute;ria, hist&oacute;rica e santa. <\/p>\n<p>E querem agora que &aacute; cana-de-a&ccedil;&uacute;car se substitua o caf&eacute;!<br \/>\n    Promovem a extin&ccedil;&atilde;o do giganteo elemento que produziu e perpetuou<br \/>\n    fortunas respeit&aacute;veis naquela grande regi&atilde;o! <\/p>\n<p>Aperfei&ccedil;oar os processos de cultura dessa planta ilustre, a que Pernambuco<br \/>\n    deve brilho e grandeza imorredoura, &eacute; digno do progresso. O direito<br \/>\n    sen&atilde;o o dever de melhorar as condi&ccedil;&otilde;es da agricultura,<br \/>\n    do comercio, das industrias, est&aacute; acima de toda duvida; mas suprimir<br \/>\n    um g&ecirc;nero de cultura que tem por se a consagra&ccedil;&atilde;o de muitos<br \/>\n    s&eacute;culos e elevou muitas gera&ccedil;&otilde;es e opulentou a prov&iacute;ncia,<br \/>\n    n&atilde;o me parece nem justo, nem acertado, nem econ&ocirc;mico. <\/p>\n<p>Voz secreta e consoladora, dissipando os meus temores, segreda-me que tu,<br \/>\n    &oacute; planta benfazeja &#8211; estandarte da independ&ecirc;ncia e da riqueza<br \/>\n    do pernambucano, seja qual for a conspira&ccedil;&atilde;o tramada contra<br \/>\n    ti, n&atilde;o h&aacute;s de desaparecer das nossas plan&iacute;cies, dos<br \/>\n    nossos outeiros, dos nossos vales e encostas, por onde estendes h&aacute;<br \/>\n    tr&ecirc;s s&eacute;culos tua folhagem hospitaleira. <\/p>\n<p>A botada tendo ca&iacute;do em um s&aacute;bado, ficou Francisco com o menino<br \/>\n    para passar o Domingo. <\/p>\n<p>De manh&atilde; muito cedinho, Louren&ccedil;o achou-se de p&eacute;, contentando<br \/>\n    a vista no movimento que lhe oferecia a novidade. N&atilde;o se fartava de<br \/>\n    ver os negros passar com feixes de lenha e de baga&ccedil;o para alentarem<br \/>\n    o fogo da fornalha. Ia e vinha com eles, fazia-lhes perguntas sobre diferentes<br \/>\n    coisas que observava, mas n&atilde;o compreendia. Recebia as explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com vis&iacute;vel prazer. <\/p>\n<p>Norando que voltava aos partidos a buscar novos feixes de canas, um carro<br \/>\n    que acabava de ser descarregado &aacute; porta do engenho, Louren&ccedil;o<br \/>\n    saltou sobre a mesa dele e deixou-se conduzir aos canaviais de a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    coisa que, para bem dizermos, s&oacute; conhecia de nome. <\/p>\n<p>Quando suas vistas adejaram por sobre aquele mundo de verdura, experimentou<br \/>\n    sua alma indiz&iacute;vel impress&atilde;o de contentamento. <\/p>\n<p>Eis o que o menino viu. <\/p>\n<p>Formando um cord&atilde;o, os negros estavam ali a cortar com afiadas foicinhas<br \/>\n    de m&atilde;o as canas que outros iam despojando das folhas e atirando no<br \/>\n    campo, assim privadas da sua verde plumagem. Grandes pilhas delas mostravam-se<br \/>\n    do meio do imenso tapete de folhas. As hastes, pouco antes graciosas, estavam<br \/>\n    agora nuas e sem eleg&acirc;ncia. Sua formosa roupagem cobria o seu leito<br \/>\n    de morte. <\/p>\n<p>Na v&eacute;spera tinha sido distribu&iacute;do aos negros fato novo, que<br \/>\n    eles traziam ainda sobre o corpo, visto que a festa emendara com o Domingo.<br \/>\n    Com suas ceroulas e camisas azuis, seus chap&eacute;us de palha de pindoba,<br \/>\n    t&atilde;o novos como a roupa, figuravam eles uma linha de soldados que derribava<br \/>\n    matos para assaltar fortifica&ccedil;&otilde;es inimigas. <\/p>\n<p>Levando os olhos ao lado oposto ao de que vinha o corte, o menino s&oacute;<br \/>\n    descobriu ai estendido mares de folhas ondulantes. Eram os canaviais novos,<br \/>\n    que agitavam seus panos de verdura ao sabor das vira&ccedil;&otilde;es campesinas.\n  <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o voltou do engenho perdido por ele. A festa tornara-o expansivo<br \/>\n    e contador de historias, tudo o que com ele se passara, e o que vira, foi<br \/>\n    referido circunstancialmente a Marcelina, n&atilde;o esquecendo o menino nem<br \/>\n    as quedas-de-corpo que pegar&aacute; com outros meninos na bagaceira. <\/p>\n<p>&#8211; Se meu pai tivesse um engenho, a coisa havia de ser outra &#8211; dizia ele de<br \/>\n    quando em quando no curso da narra&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; E porque n&atilde;o h&aacute; de ter? inquiriu Marcelina. Se tu nos ajudares,<br \/>\n    no fim de alguns anos poderemos comprar uma engenhoca, ou ao menos um torcedor.<br \/>\n    Do torcedor vai &aacute; engenhoca, e da engenhoca ao engenho. Tu bem v&ecirc;s<br \/>\n    que todos n&oacute;s trabalhamos. Onde est&aacute; Francisco? Foi &aacute;<br \/>\n    vila vender abacaxis. Eu, como v&ecirc;s, estou fazendo minhas esteiras para<br \/>\n    ele levar a quem as encomendou aqui adiante, na encruzilhada. S&oacute; tu<br \/>\n    n&atilde;o trabalhas ainda. E queres um engenho! Sem trabalhares n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;s de ter nem de comer nem de vestir, quanto mais engenho. <\/p>\n<p>Pensando consigo s&oacute;, Louren&ccedil;o levantou-se sem dizer palavra,<br \/>\n    deu volta pelo sitio, e tornou &aacute; salinha da casa, que era a oficina<br \/>\n    de Marcelina. Esta o viu arrastar um tamborete para junto dela e uma rodilha<br \/>\n    de cip&oacute;s para junto de si. Sentando-se no tamborete, o menino cortou<br \/>\n    os cip&oacute;s pelo modo e medida que Marcelina lhe ensinou, e hei-lo a trabalhar<br \/>\n    pela primeira vez depois da sua chegada ao Cajueiro. <\/p>\n<p>Vendo-o exercitar t&atilde;o vem a sua atividade espontaneamente, como tocado<br \/>\n    de celeste inspira&ccedil;&atilde;o, Marcelina n&atilde;o p&ocirc;de suster<br \/>\n    as lagrimas. Louren&ccedil;o, a seus olhos, acabava de dar testemunho de emenda,<br \/>\n    resultado da const&acirc;ncia e paci&ecirc;ncia com que ela o dirigia para<br \/>\n    o bem desde o dia de sua chegada. <\/p>\n<p>Estava de feito ali uma conquista do seu esfor&ccedil;o aben&ccedil;oado<br \/>\n    por Deus, inquebrant&aacute;vel esteio dos crentes. <\/p>\n<h2><a name=\"7\">Cap&iacute;tulo VII<\/a><\/h2>\n<p>Uma manh&atilde; encaminhou-se Louren&ccedil;o &aacute; mata, armado com<br \/>\n    um fac&atilde;o afim de cortar sambaquis de que precisava para umas gaiolas,<br \/>\n    que lhe tinham encomendado. Este servi&ccedil;o ele o costumava realizar nas<br \/>\n    horas vagas. <\/p>\n<p>Trabalhar j&aacute; era uma lei de seu espirito. Adquirir meios de comprar<br \/>\n    um engenho foi id&eacute;ia que nunca mais o abandonou, antes constituiu a<br \/>\n    sua primeira e mais forte ambi&ccedil;&atilde;o. Por isso n&atilde;o perdia<br \/>\n    tempo, ou antes Marcelina o n&atilde;o deixava perder. <\/p>\n<p>Tinham j&aacute; passado muitos meses depois dos primeiros acontecimentos<br \/>\n    referidos nos cap&iacute;tulos anteriores. Colocado em novo centro e sujeito<br \/>\n    a novas leis morais, Louren&ccedil;o avan&ccedil;ava admiravelmente na requesta<br \/>\n    do bem, despertando cada dia em seus pais, por seu procedimento , novas esperan&ccedil;as<br \/>\n    e sendo para eles origem de inef&aacute;veis satisfa&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>A transforma&ccedil;&atilde;o era obra das m&atilde;os deles, na qual se<br \/>\n    reviam n&atilde;o sem justo orgulho, como na fonte limpa, outr&rsquo;ora charco,<br \/>\n    se rev&ecirc; o que lhe tirou as imund&iacute;cies. <\/p>\n<p>Por isso Louren&ccedil;o era j&aacute;, n&atilde;o somente estimado mas acariciado<br \/>\n    pelos dois consortes, que o consideravam o futuro esteio da casa, de seu natural<br \/>\n    fraca, o amigo e protetor deles, quando velhos, de seu natural forte. <\/p>\n<p>A esse tempo n&atilde;o era a habita&ccedil;&atilde;o de Francisco a &uacute;nica<br \/>\n    existente na estrada do Cajueiro. Obra de trezentas bra&ccedil;as para o sul<br \/>\n    via-se outra de melhor parecer, de paredes de pedra e coberta de telha. Pertencia<br \/>\n    a um padre que, tendo por ali aparecido n&atilde;o se sabia como nem porque,<br \/>\n    fora convidado pelo sargento-m&oacute;r Jo&atilde;o da Cunha para capel&atilde;o<br \/>\n    do engenho. O padre Ant&ocirc;nio escolheu aquele local para sua resid&ecirc;ncia,<br \/>\n    desprezando uma boa morada que o senhor do engenho possu&iacute;a dentro do<br \/>\n    cercado, e at&eacute; a resid&ecirc;ncia que lhe ofereceu na pr&oacute;pria<br \/>\n    casa grande. Escolhido o local e feito o pr&eacute;dio, o padre chegou-se<br \/>\n    a Jo&atilde;o da Cunha e lhe disse que de h&aacute; muito cumpria o voto de<br \/>\n    s&oacute; morar em propriedade que fosse sua, e por isso lhe pedia declarasse<br \/>\n    por quanto vendia, com os respectivos terrenos, a casa feita. O sargento-m&oacute;r,<br \/>\n    que achar&aacute; aquilo singular, e enxergar&aacute; no ato inocente do padre<br \/>\n    um assomo de independ&ecirc;ncia e altivez, n&atilde;o querendo por vaidade<br \/>\n    pr&oacute;pria da nobreza daqueles tempos ficar por baixo, declarou que lhe<br \/>\n    dava de m&atilde;o beijada casa e terrenos, e disso se lavrou termo. <\/p>\n<p>O novo vizinho foi recebido com alvoro&ccedil;o pela fam&iacute;lia do Cajueiro.<br \/>\n    Quem era que por ent&atilde;o n&atilde;o tinha em alta estima o sacerdote<br \/>\n    da religi&atilde;o santa do Crucificado? <\/p>\n<p>Francisco, saltando de contente, para me servir da frase do povo, dizia a<br \/>\n    Marcelina que dava mostras de sentir dobrado prazer com a nova vizinhan&ccedil;a.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Bem-dita foi a hora em que abri meu sitio nesta estrada. Olhe l&aacute;<br \/>\n    como o Cajueiro est&aacute; honrado. E daqui a pouco j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    haver&aacute; quem n&atilde;o queira vir levantar sua casa aqui por perto.<br \/>\n    Basta saber-se que o capel&atilde;o de Bujari quis antes morar no Cajueiro<br \/>\n    do que no engenho, para todo o povo correr para este ponto. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade, Francisco, &eacute; verdade, respondeu Marcelina. Temos<br \/>\n    agora bem perto de n&oacute;s quem nos confesse e unja em caso de morte, o<br \/>\n    que Deus tal n&atilde;o permita. <\/p>\n<p>&#8211; E que gloria tenho eu de se dizer que fui eu que fundei o Cajueiro! acrescentou<br \/>\n    o matuto. Se ele n&atilde;o prestasse, n&atilde;o havia de querer morar nele<br \/>\n    o capel&atilde;o do engenho. O que eu quero &eacute; que a todo tempo se saiba<br \/>\n    que fui o primeiro morador deste lugar. Seu padre Ant&ocirc;nio j&aacute;<br \/>\n    me fez esta justi&ccedil;a. Ainda ontem ele virou-se para mim, quando fui<br \/>\n    &aacute; v&ecirc;-lo, em sua casa nova, e me disse que eu que tenho olho para<br \/>\n    conhecer lugar de boa moradia. <\/p>\n<p>Por muito tempo levaram os moradores velhos a praticar neste sentido do novo<br \/>\n    morador. Da casa passaram ao homem f&iacute;sico, e do homem f&iacute;sico<br \/>\n    ao homem moral. Nada disseram dele na aus&ecirc;ncia que n&atilde;o pudesse<br \/>\n    ser dito na presen&ccedil;a. Ainda hoje a maledic&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    qualidade caracter&iacute;stica do povo; naqueles tempos ainda o era menos.\n  <\/p>\n<p>O que Francisco disse do padre, foi que sua palidez e sua magreza indicavam<br \/>\n    que ele perdia noites de sono no servi&ccedil;o de Deus; Marcelina acrescentou<br \/>\n    que seus olhos pardos e como quebrados, seus sorrisos tristes, suas palavras<br \/>\n    simples revelavam consci&ecirc;ncia limpa, desprezo pelo mundo e bondade de<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o. Francisco ajuntou que j&aacute; uma vez em Olinda tinha<br \/>\n    visto um frade com o qual muito se parecia o padre Ant&ocirc;nio, por sua<br \/>\n    estatura m&eacute;dia, a cabe&ccedil;a grande, a testa larga, o rosto comprido,<br \/>\n    as faces descarnadas. Enfim Marcelina, recordando-se de uma novena na igreja<br \/>\n    do Senhor-dos-martirios, disse que a voz fraca e branda do sacerdote que fez<br \/>\n    ai uma pratica ao povo, era a mesma do padre Ant&ocirc;nio. <\/p>\n<p>Nem o marido nem a mulher andavam longe da verdade. O padre Ant&ocirc;nio<br \/>\n    tinha sido frade, e foi provavelmente no tempo em que ainda o era, que se<br \/>\n    encontrou com ele o matuto. Um ano depois de secularizado, de passagem para<br \/>\n    Para&iacute;ba, aposentou-se no convento do Carmo em Goiana, aonde o foi convidar<br \/>\n    para dirigir a novena dos Mart&iacute;rios um negociante que o conhecia quando<br \/>\n    ele pertencia &aacute; recoleta do Recife. &Eacute; natural que ai o tivesse<br \/>\n    ouvido Marcelina. <\/p>\n<p>Eles n&atilde;o estavam tamb&eacute;m longe da verdade no tocante ao moral<br \/>\n    do padre Ant&ocirc;nio. Grande era a sua humildade, publica a sua piedade,<br \/>\n    not&oacute;ria a sua benevol&ecirc;ncia, de que todos davam noticia no Recife,<br \/>\n    em Olinda, e na Para&iacute;ba, donde viera para Goiana, fazia poucos meses.<br \/>\n    Com serem frades, gente de seu natural maldizente &#8211; estes sim &#8211; os do Carmo<br \/>\n    de Goiana que o conheciam, nada contavam dele que o desabonasse. S&oacute;<br \/>\n    um deles &#8211; vejam o que s&atilde;o frades &#8211; explicava a seculariza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do padre Ant&ocirc;nio dizendo que, realizando-a, n&atilde;o o fizera ele<br \/>\n    com outro fim que o de desimpossibilitar-se para herdar muitos mil cruzados<br \/>\n    de uma tia solteirona que lhe votava grande afei&ccedil;&atilde;o. O certo<br \/>\n    &eacute; que a tia morreu, e o padre foi o &uacute;nico herdeiro da fortuna<br \/>\n    deixada. <\/p>\n<p>O que o padre Ant&ocirc;nio era, quais os seus sentimentos e dotes naturais,<br \/>\n    sua piedade, seu intimo ver-se-h&aacute; melhor pela presente narrativa. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o sentiu inclinarem-se para o sacerdote os seus afetos, e teve<br \/>\n    por ele instintivo respeito. Por sua vez, o padre Ant&ocirc;nio, que parecia<br \/>\n    saber j&aacute; a historia do rapaz, n&atilde;o perdia ocasi&atilde;o de o<br \/>\n    encaminhar para a honestidade e a virtude com a satisfa&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    enche o cora&ccedil;&atilde;o do var&atilde;o reto quando se lhe depara a<br \/>\n    quem beneficiar. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o parecia t&atilde;o mudado, seus sentimentos eram t&atilde;o<br \/>\n    diferentes dos que trouxera da povoa&ccedil;&atilde;o para a estrada, que<br \/>\n    dificilmente o padre Ant&ocirc;nio acreditou tivessem sido praticadas pelo<br \/>\n    rapaz as feias a&ccedil;&otilde;es atribu&iacute;das ao menino. <\/p>\n<p>&#8211; Como &eacute; poss&iacute;vel que a gente se transforme de semelhante modo?<br \/>\n    Dizia ele uma vez a Francisco. Ainda se tivesse recebido depois desses desatinos<br \/>\n    saud&aacute;vel educa&ccedil;&atilde;o&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; Pois &eacute; o que digo a seu padre &#8211; respondeu o matuto. Louren&ccedil;o<br \/>\n    parecia ter o inimigo no couro. Eu nunca vi menino t&atilde;o endiabrado.<br \/>\n    Agora, quanto a ensino, o que ele recebeu foi o que lhe deu minha companheira;<br \/>\n    e parece que n&atilde;o foi mau, porque o rapaz j&aacute; est&aacute; outro.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Bom ensino foi o que lhe deu tua mulher, Francisco. As mulheres s&atilde;o<br \/>\n    muito pr&oacute;prias para isso. Quando elas querem, ningu&eacute;m tem melhores<br \/>\n    meios de endireitar as voltas de uma &iacute;ndole torta e defeituosa. <\/p>\n<p>&#8211; Dai a pouco, o padre, como se tivera um pensamento s&uacute;bito, uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    her&oacute;ica, acrescentou: <\/p>\n<p>&#8211; Quero prestar a voc&ecirc;s um servi&ccedil;o, que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    preciso me agrade&ccedil;am, visto que tenho o dever de proceder assim. Quero<br \/>\n    completar a obra que levaram t&atilde;o adiante. Vou ensinar a Louren&ccedil;o<br \/>\n    as primeiras letras. Louren&ccedil;o, que j&aacute; est&aacute; bom, ficar&aacute;<br \/>\n    melhor. Que dizes? <\/p>\n<p>&#8211; Ho, seu padre! retorquiu o matuto, cujo semblante pareceu iluminar-se do<br \/>\n    reflexo de prazer que lhe vinha do intr&iacute;nseco da alma. N&atilde;o tenho<br \/>\n    express&otilde;es para agradecer a vosmec&ecirc; tamanho beneficio. Quem me<br \/>\n    dera ver meu filho lendo carta-de-nomes. Eu j&aacute; me contentava com isso<br \/>\n    s&oacute;, porque quem l&ecirc; carta-de-nomes, pode chegar a ler um livro<br \/>\n    e escrever umas regras no papel. Deixa o rapaz, por minha conta, Francisco.<br \/>\n    Hei de ensinar-lhe a ler e a escrever. N&atilde;o &eacute; preciso que te<br \/>\n    mostres desde j&aacute; t&atilde;o agradecido por um servi&ccedil;o que ainda<br \/>\n    n&atilde;o fiz, e que, se grande valor deve ter para quem o recebe, nada custa<br \/>\n    a quem o faz; antes &eacute; seu dever presta-lo. Vai para tua casa e dize<br \/>\n    l&aacute; &aacute; tua mulher que todos os dias logo cedo &#8211; comecemos segunda-feira<br \/>\n    &#8211; mande c&aacute; o rapaz a passar comigo algumas horas. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    preciso mais.<\/p>\n<p>&#8211; Seu padre&#8230;seu padre&#8230; Deus &eacute; que lhe h&aacute; de pagar esta<br \/>\n    obra de caridade. <\/p>\n<p>No dia aprazado, antes do menino entrar na casa do padre para receber a primeira<br \/>\n    li&ccedil;&atilde;o, j&aacute; Marcelina tinha levado pessoalmente umas macaxeiras,<br \/>\n    uma galinha gorda e duas d&uacute;zias de ovos para almo&ccedil;o do ilustre<br \/>\n    vizinho, e jurado, com a eloqu&ecirc;ncia dos sorrisos e das lagrimas simultaneamente,<br \/>\n    gratid&atilde;o eterna e infinita &agrave;quele que se mostrava t&atilde;o<br \/>\n    bom e generoso para a obscura criatura. <\/p>\n<p>&#8211; Para que isto, Marcelina? Inquiriu o padre, quando ela lhe fez entrega<br \/>\n    do presente. Eu ensino de gra&ccedil;a e n&atilde;o por paga. Fica sabendo<br \/>\n    que ainda sem os teus mimos, hei de fazer este servi&ccedil;o ao pequeno.<br \/>\n    &Eacute; obra de miseric&oacute;rdia ensinar os ignorantes. Al&eacute;m disso,<br \/>\n    pelo meu sagrado minist&eacute;rio, tenho obriga&ccedil;&atilde;o rigorosa<br \/>\n    de lan&ccedil;ar nas trevas do espirito infantil a pouca luz que tiver a meu<br \/>\n    alcance. Olha. Diz-me o cora&ccedil;&atilde;o que Louren&ccedil;o ainda h&aacute;<br \/>\n    de ser almotac&ecirc; em Goiana. <\/p>\n<p>&#8211; Deus o queira, seu padre, Deus o queira. <\/p>\n<p>E porque n&atilde;o h&aacute; de querer? Louren&ccedil;o j&aacute; est&aacute;<br \/>\n    bom. Hoje j&aacute; &eacute; merecedor das ben&ccedil;&atilde;os do c&eacute;u,<br \/>\n    e da prote&ccedil;&atilde;o dos homens de bem. <\/p>\n<p>O que Louren&ccedil;o poz por obra na manh&atilde; supramencionada, vem desmentir<br \/>\n    este conceito e palavras de seu mestre. <\/p>\n<p>Tendo vagado durante algum tempo em busca de sambaquis, por dentro da mata,<br \/>\n    foi ele dar em uma trilha que lhe era ainda desconhecida. Tomou por ela, e,<br \/>\n    quando menos pensava, deu consigo em um cajueiral que se perdia de vista.<br \/>\n    De um lado aparecia uma casa de palha, e por entre o arvoredo, em parte bastantemente<br \/>\n    destru&iacute;do pelos machados dos lenheiros, foi descobrindo imensos socav&otilde;es,<br \/>\n    de alguns dos quais saiam ainda novel&otilde;es de fumo negro. O rapaz reconheceu<br \/>\n    que se achava nas carvoeiras onde tempos atr&aacute;s lhe tinham ido t&atilde;o<br \/>\n    mal as coisas. <\/p>\n<p>De prop&oacute;sito, e por incessantes recomenda&ccedil;&otilde;es de Marcelina,<br \/>\n    ele tinha, desde essa fatal noite, evitado digress&otilde;es por aquele lugar,<br \/>\n    t&atilde;o rico de belas paisagens e frescos e apraz&iacute;veis ermos. Agora,<br \/>\n    por&eacute;m, inesperada e involuntariamente achava-se de novo ali. Lembrou-lhe<br \/>\n    incontinente o que ai passara; pareceu-lhe ouvir a matinada dos c&atilde;es,<br \/>\n    e sentir nas carnes os dentes deles e o jagun&ccedil;o dos negros. <\/p>\n<p>Eles levaram a sua avante &#8211; disse instintivamente consigo mesmo &#8211; porque<br \/>\n    eu estava desarmado. Se nos encontr&aacute;ssemos agora, a coisa havia de<br \/>\n    ser outra muito diferente. J&aacute; sou homem, e trago o meu fac&atilde;o,<br \/>\n    que est&aacute; bem amolado. Eu havia de tirar a minha desforra. <\/p>\n<p>Pincel fatal ou fat&iacute;dico avivava em sua imagina&ccedil;&atilde;o a<br \/>\n    cada passo, que dava o rapaz, as cenas do sanguinolento epis&oacute;dio, que<br \/>\n    parecia de todo apagado de sua mem&oacute;ria. Imediatamente os ferozes instintos<br \/>\n    de outr&rsquo;ora ressurgiram violentamente como l&iacute;nguas de serpente<br \/>\n    ou de fogo em seu c&eacute;rebro, exigindo pronta vingan&ccedil;a. <\/p>\n<p>Sem mais refletir, Louren&ccedil;o botou-se para a palho&ccedil;a. Achou-a<br \/>\n    sem gente. Mas havia cria&ccedil;&atilde;o pelo terreiro, e debaixo do pequeno<br \/>\n    alpendre viu ele vasilhas de servi&ccedil;o di&aacute;rio, sinal de que os<br \/>\n    negros ainda ali residiam. <\/p>\n<p>Quando estava a olhar para uma banda e para outra, a ver se dava com algum<br \/>\n    dos antigos conhecidos, descobriu ao longe um vulto acocorado &aacute; beira<br \/>\n    de uma das covas que apareciam no vasto tabuleiro de areia. <\/p>\n<p>Encaminhou-se para ai, saboreando com antecipada sofreguid&atilde;o o prazer<br \/>\n    da projetada vingan&ccedil;a. <\/p>\n<h2><a name=\"8\">Cap&iacute;tulo VIII<\/a><\/h2>\n<p>O vulto era o moleque, j&aacute; ent&atilde;o quase negro feito, que lhe<br \/>\n    tinha posto os cachorros em cima &agrave;quela fatal noite. Louren&ccedil;o<br \/>\n    reconheceu-o logo: nem foi preciso para isto esfor&ccedil;o, visto que uma<br \/>\n    vez por outra o estava vendo, ora entrar, ora sair do sitio. <\/p>\n<p>&#8211; Que est&aacute; voc&ecirc; fazendo ai? perguntou ele, com voz de senhor<br \/>\n    arrogante e provocadora. <\/p>\n<p>Benedicto voltou-se espantado, e por &uacute;nica resposta, vendo quem a<br \/>\n    ele se dirigia, proferiu estas palavras: <\/p>\n<p>&#8211; Que quer saber? &Eacute; da sua conta? <\/p>\n<p>E com gestos e meneios de quem fazia pouco caso do visitante, deixou-se ficar<br \/>\n    na mesma posi&ccedil;&atilde;o em que se achava, a saber, de c&oacute;coras<br \/>\n    &aacute; beira da cova, e de costas voltadas para o seu interlocutor. <\/p>\n<p>Veja l&aacute; como fala &#8211; retorquiu Louren&ccedil;o, aproximando-se. N&atilde;o<br \/>\n    foi voc&ecirc; quem me botou aqui h&aacute; tempos os cachorros em cima como<br \/>\n    se eu fosse alguma raposa au maracaj&aacute;? Foi voc&ecirc; mesmo, que nunca<br \/>\n    mais sua cara me saiu da lembran&ccedil;a. <\/p>\n<p>&#8211; Fui eu mesmo &#8211; respondeu Benedicto. E que tem que fosse? &Eacute; voc&ecirc;<br \/>\n    meu senhor, ou meu pai para vir falar-me assim? Ora v&aacute; fazer seus balaios<br \/>\n    e suas gaiolas, e deixe-me sossegado, que eu n&atilde;o fa&ccedil;o conta<br \/>\n    de voc&ecirc;. <\/p>\n<p>&#8211; Este negro est&aacute; enganado comigo, retorquiu Louren&ccedil;o, como<br \/>\n    se dirigisse a terceiro. Ent&atilde;o voc&ecirc; acha que eu havia de esquecer<br \/>\n    aquele desaforo? Eu n&atilde;o sou de Goiana, sou do Pasmado; e se fa&ccedil;o<br \/>\n    gaiolas e cestos, &eacute; para n&atilde;o fazer facas de ponta. Agora, quanto<br \/>\n    a dizeres, negro, que n&atilde;o me levas em conta, isto &eacute; coisa que<br \/>\n    &eacute; mais f&aacute;cil de dizer do que mostrar. <\/p>\n<p>A esse tempo Louren&ccedil;o achava-se j&aacute; pertinho de Benedicto, e<br \/>\n    este estava de p&eacute;. As vistas de um cruzavam-se com as do outro como<br \/>\n    floretes manejados por dois inimigos, peritos no jogo, e curtidos no rancor.\n  <\/p>\n<p>De repente o olhar de Benedicto se perturba, e ele, de negro, que era, faz-se<br \/>\n    fulo. Palidez mortal cobriu-lhe a face, h&aacute; pouco retinta como carv&atilde;o.<br \/>\n    Tinha descoberto o fac&atilde;o, que Louren&ccedil;o trazia e em cuja larga<br \/>\n    folha se refletia a claridade do dia. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o aproximou-se mais do seu antagonista. <\/p>\n<p>&#8211; Se &eacute;s homem, disse ele, em atitude de quem estava mete n&atilde;o<br \/>\n    mete o fac&atilde;o no rapaz &#8211; repete as palavras que h&aacute; pouco disseste.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; ent&atilde;o quer brigar comigo dever&aacute;s? Ora deixe-se<br \/>\n    disso. O que passou est&aacute; passado. <\/p>\n<p>O que passou comigo n&atilde;o est&aacute; passado, n&atilde;o, negro mofino<br \/>\n    e sem vergonha. Eu s&oacute; sinto n&atilde;o encontrar tamb&eacute;m aqui<br \/>\n    os outros dois ti&ccedil;&otilde;es &#8211; teu pai e tua m&atilde;e &#8211; para dar<br \/>\n    a voc&ecirc;s todos um ensino de mestre com a folha deste fac&atilde;o. Mas<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; de faltar ocasi&atilde;o. <\/p>\n<p>Benedicto, que n&atilde;o era bom, encarou novamente com Louren&ccedil;o,<br \/>\n    como quem sentia voltar-lhe o animo que fugira um momento. Tinha-lhe lembrado<br \/>\n    um recurso, que ele passou imediatamente a p&ocirc;r em pratica. <\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; diz tudo isto porque tem ai um fac&atilde;o na m&atilde;o; se<br \/>\n    n&atilde;o fosse ele, n&atilde;o tinha barbas para o dizer. Mas ainda estando<br \/>\n    com esse ferro e n&atilde;o tendo eu arma nenhuma, n&atilde;o fa&ccedil;o<br \/>\n    conta de voc&ecirc;, quanto mais meu pai e minha m&atilde;e. E para que fique<br \/>\n    sabendo, de uma vez por todas, que eu n&atilde;o me lembro de suas valentias,<br \/>\n    vou dizer-lhe uma coisa: se tiver o atrevimento de passar outra vez de noite<br \/>\n    por junto do poleiro, tenha certeza de que lhe hei de p&ocirc;r os cachorros,<br \/>\n    como fiz da outra vez. <\/p>\n<p>Ainda bem n&atilde;o tinha Benedicto finalizado esta inocente amea&ccedil;a,<br \/>\n    quando Louren&ccedil;o atirava para longe o fac&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; Para te quebrar os bei&ccedil;os, negro, eu n&atilde;o preciso de arma.\n  <\/p>\n<p>Era o que Benedicto queria; seu advers&aacute;rio estava desarmado. Ent&atilde;o<br \/>\n    investiu contra ele como fera. Aparentemente, Benedicto representava ser mais<br \/>\n    forte do que Louren&ccedil;o. As ceroulas azuis arrega&ccedil;adas at&eacute;<br \/>\n    aos joelhos, deixavam &aacute; mostra pernas musculosas, que acusavam grande<br \/>\n    for&ccedil;a f&iacute;sica. O negro mesmo tinha consci&ecirc;ncia de sua robustez;<br \/>\n    do seu tope nenhum morador de quatro l&eacute;guas em redondo lhe era superior.<br \/>\n    Por isso, tendo l&aacute; para se que podia com Louren&ccedil;o, atirou-se<br \/>\n    sobre ele no pressuposto de o derrubar e p&ocirc;r debaixo dos p&eacute;s<br \/>\n    logo ao primeiro &iacute;mpeto. <\/p>\n<p>Nunca por&eacute;m uma falsa cren&ccedil;a teve mais pronta e estrondosa<br \/>\n    desilus&atilde;o. Agarrar-se com Louren&ccedil;o foi o mesmo que se agarrar<br \/>\n    com um touro bravo. Mal sabia ele que, al&eacute;m da imensa for&ccedil;a<br \/>\n    f&iacute;sica, de que nunca sup&ocirc;s possuidor, tinha Louren&ccedil;o meneios,<br \/>\n    jeitos e passos que o habilitavam a dar em terra com o mais corpulento animal.<br \/>\n    Em um instante o tr&ecirc;fego rapaz atirou o negro, n&atilde;o sobre a areia,<br \/>\n    mas dentro da cova pr&oacute;xima, onde havia um abismo de fogo, parte ainda<br \/>\n    em chamas, parte j&aacute; em carv&otilde;es, mas ainda vivos e ardentes.\n  <\/p>\n<p>E esta opera&ccedil;&atilde;o, r&aacute;pida como passar de faisca el&eacute;trica,<br \/>\n    seguiu-se um grito nu de agonia, que atroou os ares. Benedicto, que estava<br \/>\n    nu da cintura para cima, sentira no corpo, nas m&atilde;os, nos p&eacute;s<br \/>\n    as dores trazidas pelo fogo. <\/p>\n<p>Esse grito medonho e a vista que inesperadamente se apresentou aos olhos<br \/>\n    de Louren&ccedil;o, produziram nele s&uacute;bita como&ccedil;&atilde;o. O<br \/>\n    impulso de fera, que o levara a atirar na cova o advers&aacute;rio, foi instintivo,<br \/>\n    inevit&aacute;vel, fatal: n&atilde;o lhe deu tempo a refletir; tinha passado<br \/>\n    t&atilde;o r&aacute;pido como o pensamento, e em seu lugar estava agora a<br \/>\n    raz&atilde;o. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o correu a uma tora meio queimada que se via a um lado sobre<br \/>\n    a areia, e, pegando dele, e metendo-o imediatamente na cova, como se o fizera<br \/>\n    em um po&ccedil;o para impedir que se afogasse aquele que ali&aacute;s estava<br \/>\n    nadando em puro fogo, gritou da beira da cova a Benedicto, com voz comovida:\n  <\/p>\n<p>&#8211; Pegue-se neste pau e suba por ele para n&atilde;o se queimar. Eu nem pensei<br \/>\n    no fogo que havia ai dentro. <\/p>\n<p>Era ainda cedo e o casal de pretos, inquilinos da palho&ccedil;a, o qual<br \/>\n    tinha ido &aacute; Goiana, a servi&ccedil;o do engenho, s&oacute; poderia<br \/>\n    estar de volta sobre a tarde ou talvez no dia seguinte. <\/p>\n<p>Quando Benedicto disse isto a Louren&ccedil;o, sentiu este ainda maior abalo.<br \/>\n    A situa&ccedil;&atilde;o afigurou-se-lhe ent&atilde;o mais dif&iacute;cil<br \/>\n    e penosa do que ao principio lhe parecera. Quem trataria do negro, que se<br \/>\n    revolvia, em gritos, j&aacute; salvo do fogo, mas preso das extensas queimaduras,<br \/>\n    sobre folhas secas &aacute; sombra de um cajueiro pr&oacute;ximo? Era poss&iacute;vel<br \/>\n    que ele ficasse assim desamparado por todo esse tempo? E os gritos de dor<br \/>\n    que cada vez aumentavam mais, e o terror da situa&ccedil;&atilde;o que se<br \/>\n    tornava mais pungente e cruel, como resistir a eles sem tratar de os remediar?\n  <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o ficou abatido um momento, mas logo tornou em se e disse &aacute;<br \/>\n    vitima dos seus maus instintos: <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o grites, n&atilde;o chores, que vou chamar minha m&atilde;e para<br \/>\n    tratar de ti. <\/p>\n<p>Esta inspira&ccedil;&atilde;o, que transluziu como reflexo de prazer intimo,<br \/>\n    em seu semblante, pouco tempo antes anuviado pela sombra do desgosto, r&aacute;pida<br \/>\n    se desvaneceu, deixando em seu lugar no espirito do rapaz um sem numero de<br \/>\n    interroga&ccedil;&otilde;es, cada qual mais acerba e atroz. <\/p>\n<p>&#8211; Que dir&aacute; minha m&atilde;e quando souber do que eu fiz? perguntava<br \/>\n    ele em sil&ecirc;ncio a se mesmo. Para que tomei eu esta vingan&ccedil;a?<br \/>\n    Porque n&atilde;o esqueci de todo a ofensa passada? Minha m&atilde;e, meu<br \/>\n    pai, seu padre Ant&ocirc;nio que j&aacute; me quer tanto bem, que id&eacute;ia<br \/>\n    ficar&atilde;o fazendo de mim d&rsquo;ora em diante? Um me chamar&aacute;<br \/>\n    mau, outro cruel, outro desumano, cora&ccedil;&atilde;o de tigre. Minha m&atilde;e<br \/>\n    dir&aacute; que perdeu comigo seus conselhos; meu pai dir&aacute; que, em<br \/>\n    lugar de trabalhar, ando eu fazendo mal aos outros sem me lembrar de que ele<br \/>\n    s&oacute; me encaminha para o trabalho. E seu padre Ant&ocirc;nio, oh meu<br \/>\n    Deus, seu padre, que se mostra t&atilde;o meu amigo, de que modo n&atilde;o<br \/>\n    me ficar&aacute; tratando d&rsquo;ora por diante? Ainda ontem ele me fazia<br \/>\n    escrever esta passagem da Escritura: &ldquo;Que homem haver&aacute; por acaso<br \/>\n    entre v&oacute;s, que tenha uma ovelha, e que, se esta lhe cair no s&aacute;bado<br \/>\n    em uma cova, n&atilde;o lhe lance a m&atilde;o para dai a tirar!(S.Mat.cap.XII<br \/>\n    vers.11). Eu fui o primeiro a atirar, por vingan&ccedil;a e malvadeza, dentro<br \/>\n    de uma cova cheia de fogo, n&atilde;o uma ovelha, mas um meu semelhante! Ho<br \/>\n    meu Deus! Como vai ficar descontente de mim seu padre Ant&ocirc;nio por eu<br \/>\n    ter praticado um ato t&atilde;o desumano. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o deitou a correr para que mais depressa chegasse o socorro<br \/>\n    ao aflito. <\/p>\n<p>Quando Marcelina soube do que acontecera, foi ela pr&oacute;pria com o marido<br \/>\n    e Louren&ccedil;o buscar o negro queimado para a casa do Cajueiro, a fim de<br \/>\n    tratar dele, visto que, morando longe da palho&ccedil;a, n&atilde;o podia<br \/>\n    estar a tempo e a hora prestando os servi&ccedil;os e cuidados de que precisava<br \/>\n    o doente. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o, quando punha os olhos neste, inclinava-os logo abatidos<br \/>\n    ao ch&atilde;o. O remorso, o desgosto, a vergonha pesavam como an&eacute;is<br \/>\n    de chumbo em suas p&aacute;lpebras. <\/p>\n<p>&#8211; Para que fizeste isto, Louren&ccedil;o, com o pobre rapaz? perguntou-lhe<br \/>\n    Francisco. J&aacute; me viste fazer alguma vez coisa semelhante? <\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o fiz isto por vontade &#8211; respondeu ele. N&atilde;o me pude<br \/>\n    conter quando o vi. Lembrei-me do que tinha acontecido, e tive &iacute;mpetos<br \/>\n    de vingar-me. O ensino que vosmec&ecirc; e minha m&atilde;e me deram, n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de vencer em mim o arranco que me atirou para aquele de quem eu guardava<br \/>\n    uma grande ofensa. Al&eacute;m disso, ele me maltratou de novo, e me descomp&ocirc;s.<br \/>\n    Mas n&atilde;o foi por vontade, foi sem querer que eu o empurrei para dentro<br \/>\n    da carvoeira. <\/p>\n<p>Era o mau natural, ainda n&atilde;o vencido de todo pelos edificativos exemplos<br \/>\n    e ensinos da fam&iacute;lia, o que tinha levado o rapaz a praticar t&atilde;o<br \/>\n    feio ato. <\/p>\n<p>&#8211; Que havemos de fazer para castigar a Louren&ccedil;o sem pau nem pedra?<br \/>\n    perguntou Marcelina a Francisco. <\/p>\n<p>&#8211; Procura l&aacute; em teu ju&iacute;zo um meio, Marcelina. Eu n&atilde;o<br \/>\n    quero dar-lhe pancadas. <\/p>\n<p>&#8211; Eu nunca lhe pus a m&atilde;o sen&atilde;o para o acomodar ou limpar. <\/p>\n<p>Pois v&ecirc; l&aacute; o que se deve fazer. A a&ccedil;&atilde;o foi ruim,<br \/>\n    e deve ter um castigo. Neste momento entrou a Quiteria, que vinha saber como<br \/>\n    tinha o filho passado a noite. <\/p>\n<p>&#8211; Olhe, sinh&aacute; Marcelina, disse a negra, o que mais sinto &eacute;<br \/>\n    meu filho perder tantos dias de servi&ccedil;o. <\/p>\n<p>Que quer dizer isto? Inquiriu Marcelina. Pois a &uacute;nica ocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dele n&atilde;o era botar sentido aos cajueirais? <\/p>\n<p>&#8211; Esta era a obriga&ccedil;&atilde;o que lhe deu meu senhor. Mas o tempo<br \/>\n    chegava para mais, e Benedicto j&aacute; tinha ajustado limpar as canas e<br \/>\n    a ro&ccedil;a de um homem chamado seu Zeferino, que tem o sitio nos fundos<br \/>\n    da campina de meu senhor. <\/p>\n<p>Marcelina refletiu um momento, ao cabo do qual tornou &aacute; preta: <\/p>\n<p>&#8211; Quero dizer-te uma coisa, Quiteria. Se o ajuste est&aacute; feito, n&atilde;o<br \/>\n    digas nada ao Zeferino, que eu mando uma pessoa fazer o servi&ccedil;o. A<br \/>\n    paga fica pertencendo sempre a Benedicto. <\/p>\n<p>Como &eacute; isto, sinh&aacute; Marcelina? Pois vosmec&ecirc; me faz esta<br \/>\n    esmola, minha senhora? Oh! fico-lhe muito agradecida. E quem &eacute; a pessoa<br \/>\n    que vai fazer o servi&ccedil;o em lugar de Benedicto? <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; Louren&ccedil;o. <\/p>\n<p>&#8211; Seu Louren&ccedil;o? <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; ele mesmo. N&atilde;o foi ele que o botou dentro da cova? <\/p>\n<p>A negra nada mais disse, e Francisco, sabendo da resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Marcelina ou, antes do castigo de Louren&ccedil;o, aprovou-o com satisfa&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Quando Benedicto se deu por pronto, Quiteria e Mo&ccedil;ambique o vieram<br \/>\n    buscar. <\/p>\n<p>Traziam estampado nos semblantes o contentamento. <\/p>\n<p>Tinham recebido os cobres do Zeferino, o qual s&oacute; fazia gabar o servi&ccedil;o<br \/>\n    de Louren&ccedil;o. Os negros agradeceram pela ultima vez a bondade de Marcelina,<br \/>\n    e quando iam a sair, esta os fez parar e lhes disse: <\/p>\n<p>&#8211; Quando Louren&ccedil;o foi fazer a limpa no sitio de Zeferino, havia oito<br \/>\n    dias que Benedicto estava de cama, n&atilde;o &eacute; verdade, Quiteria?\n  <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;, sim senhora. <\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o quero que Louren&ccedil;o fique devendo ao filho de voc&ecirc;s<br \/>\n    nem uma hora. <\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; tudo pago, est&aacute; tudo pago j&aacute; e repago, minha<br \/>\n    senhora &#8211; disse Mo&ccedil;ambique. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o est&aacute;; eu sei o que estou dizendo. O trabalho de meu filho<br \/>\n    nesses oito dias &eacute; aquele. <\/p>\n<p>E indicou uma por&ccedil;&atilde;o de cestos e esteiras de cangalhas que<br \/>\n    estavam amontoados a um canto da casa. <\/p>\n<p>&#8211; Tudo isso pertence a Benedicto. N&atilde;o me deixem uma s&oacute; esteira,<br \/>\n    nem um s&oacute; cesto; levem tudo. Vendam, d&ecirc;em, fa&ccedil;am deles<br \/>\n    o que quiserem. Est&aacute; completo o castigo de Louren&ccedil;o. Com o seu<br \/>\n    pr&oacute;prio trabalho remiu ele a sua culpa. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o que assistiu &aacute; solene entrega desses objetos, filhos<br \/>\n    das suas m&atilde;os, viu com lagrimas nos olhos eles passarem do seu poder<br \/>\n    para o daquele cuja vida pusera em perigo, e a quem dera tanto que padecer.\n  <\/p>\n<p>Mas nada disse. Os olhos baixos, o semblante abatido, o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    abalado, compreendeu, do modo mais natural e positivo, que todo mal que praticasse<br \/>\n    dali por diante a outrem, seria praticado consigo pr&oacute;prio, n&atilde;o<br \/>\n    resultando em ofensa a sua pessoa, mas privando-o do resultado de sua atividade,<br \/>\n    que fosse necess&aacute;rio &aacute; respectiva indeniza&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Nunca ele tinha compreendido t&atilde;o bem, como nesse momento, que o homem<br \/>\n    que menos mal faz, &eacute; o que est&aacute; menos sujeito ao mal. <\/p>\n<p>Quando os pretos sa&iacute;ram satisfeitos e agradecidos, Marcelina dirigiu<br \/>\n    estas palavras ao filho: <\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;s vendo, Louren&ccedil;o? Trabalhaste dois meses inteiros para<br \/>\n    um moleque cativo. <\/p>\n<p>&#8211; Foi porque vosmec&ecirc; quis &#8211; disse ele, despeitado. <\/p>\n<p>N&atilde;o, foi porque assim devia ser. De ningu&eacute;m te deves queixar<br \/>\n    sen&atilde;o de teu mau natural, de ti mesmo. Deus queira que esta li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    te aproveite. L&aacute; se foi grande parte das tuas economias. Ficaste mais<br \/>\n    longe do que estiveste de poderes comprar um engenho. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o respondeu: <\/p>\n<p>&#8211; Trabalharei de dia e de noite, e em pouco tempo hei de recuperar o que<br \/>\n    perdi. Vosmec&ecirc; h&aacute; de ver. <\/p>\n<p>&#8211; Deus permita que isto aconte&ccedil;a. <\/p>\n<p>Nesse momento entrou o padre Ant&ocirc;nio, a quem os negros tinham contado<br \/>\n    o que pouco antes se dera. <\/p>\n<p>Venho dar-te os parab&eacute;ns, Marcelina, pelo modo como castigaste teu<br \/>\n    filho. Aprovo muito esta teoria. A pena de deten&ccedil;&atilde;o corporal,<br \/>\n    quero dizer a pris&atilde;o, n&atilde;o repara o mal que vem do crime. Traz<br \/>\n    um constrangimento, um sofrimento f&iacute;sico ao delinq&uuml;ente, mas &eacute;<br \/>\n    est&eacute;ril, sem resultado. Com excep&ccedil;&atilde;o do crime de morte,<br \/>\n    o qual nem pela pena de morte se pode reparar, todos os mais crimes podem<br \/>\n    achar justa repara&ccedil;&atilde;o no trabalho. Ao crime de morte mesmo &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel &aacute;s justi&ccedil;as arbitrarem uma repara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    razo&aacute;vel. Fizeste muito bem. e tu, Louren&ccedil;o, n&atilde;o botes<br \/>\n    fora a li&ccedil;&atilde;o, que de muito te h&aacute; de servir na vida. Trabalha<br \/>\n    e tem f&eacute; na Providencia. <\/p>\n<h2><a name=\"9\">Cap&iacute;tulo IX<\/a><\/h2>\n<p>Pouco distante do Cajueiro tinha Victorino sua casinha em um alto entre dois<br \/>\n    vales, por um dos quais desciam uns canaviais escassos que ai plantara, enquanto<br \/>\n    pelo outro apontava a ro&ccedil;a graciosa que ele sempre trazia limpa e parecia<br \/>\n    sorrir feliz a todos. <\/p>\n<p>N&atilde;o foi preciso que decorresse muito tempo para que Victorino e Francisco<br \/>\n    se aproximassem, e suas fam&iacute;lias criassem rela&ccedil;&otilde;es. A<br \/>\n    fam&iacute;lia de Victorino compunha-se de sua mulher, por nome Joaquina,<br \/>\n    e de Marianinha e Bernardina, filhas do casal. <\/p>\n<p>Levado da simpatia natural que lhe inspiraram Francisco e Marcelina, convidou-os<br \/>\n    Victorino para padrinhos de Marianinha, que contava por ent&atilde;o seus<br \/>\n    tr&ecirc;s para quatro anos. Este novo la&ccedil;o veio estreitar mais as<br \/>\n    duas fam&iacute;lias matutas, que j&aacute; se sentiam presas por mutuas inclina&ccedil;&otilde;es.\n  <\/p>\n<p>Por isso, era natural &#8211; e assim aconteceu &#8211; que na primeira ocasi&atilde;o<br \/>\n    Francisco levasse Louren&ccedil;o &aacute; casa do compadre, o qual j&aacute;<br \/>\n    o conhecia da garapeira, e dele dera noticia circunstanciada aos seus. <\/p>\n<p>Acharam ali o menino muito bonito, muito forte, e especialmente muito artista.<br \/>\n    Este ultimo dote de Louren&ccedil;o n&atilde;o obstou por&eacute;m a que tivessem<br \/>\n    logo para ele vistas particulares o pai e a m&atilde;e de fam&iacute;lia.<br \/>\n    No mato ainda hoje se contratam casamentos com grande facilidade e antecipa&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    ainda bem uma menina n&atilde;o se p&otilde;e mo&ccedil;a nem um menino rapaz,<br \/>\n    quando os pais falam em uni-los pelos la&ccedil;os do santo matrimonio e assim<br \/>\n    que atingem a idade necess&aacute;ria, os noivos s&atilde;o recebidos &aacute;<br \/>\n    face da igreja. O melhor &eacute; que essas uni&otilde;es prematuras quase<br \/>\n    sempre produzem bons frutos. Contrariamente sucede nas cidades e capitais<br \/>\n    adiantadas. Aqui n&atilde;o direi os casamentos assim contra&iacute;dos, mas<br \/>\n    at&eacute; aqueles a que precederam longos noviciados, n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    muitas vezes suficiente seguro de paz e felicidade no lar. <\/p>\n<p>Poucos anos depois da apresenta&ccedil;&atilde;o de Louren&ccedil;o em casa<br \/>\n    de Victorino, j&aacute; Marianinha, que desde os primeiros tempos sentira<br \/>\n    grande inclina&ccedil;&atilde;o para ele, alimentava a esperan&ccedil;a de<br \/>\n    ser sua mulher. Era isto o resultado das conversa&ccedil;&otilde;es particulares<br \/>\n    na casa do forasteiro, das comenta&ccedil;&otilde;es e gracejos das meninotas<br \/>\n    das vizinhan&ccedil;as, enfim das suposi&ccedil;&otilde;es dos conhecidos<br \/>\n    a quem n&atilde;o eram estranhas as rela&ccedil;&otilde;es das duas fam&iacute;lias.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o tinha ent&atilde;o Marianinha mais de doze anos, mas j&aacute;<br \/>\n    pensava na falada uni&atilde;o com tal const&acirc;ncia e satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que s&oacute; com isso se considerava feliz. Louren&ccedil;o era o passarinho<br \/>\n    verde dos seus sonhos infantis, a feiticeira imagem que tinha o primeiro lugar<br \/>\n    nos seus brinquedos de bonecas, e lhe enchia o espirito de suav&iacute;ssimo<br \/>\n    esplendor, de dia quando ela trabalhava, de noite quando se entregava &aacute;s<br \/>\n    enganosas cismas da primeira idade. <\/p>\n<p>Ao menino j&aacute; n&atilde;o sucedia o mesmo que &aacute; menina. Se estava<br \/>\n    alegre e brinc&atilde;o, bastava falarem no casamento, para que em seu rosto<br \/>\n    se mostrassem ind&iacute;cios de desprazer. Fugia, amuava-se, e s&oacute;<br \/>\n    aparecia de novo dai a tempos. <\/p>\n<p>Outras vezes vingava-se das finezas de Marianinha respondendo com demonstra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de pouco caso. <\/p>\n<p>Eis o que aconteceu um dia em que se achou com Francisco em casa de Victorino,<br \/>\n    por ocasi&atilde;o de uma arranca de feij&atilde;o. <\/p>\n<p>Os dois dias anteriores tinham sido empregados neste servi&ccedil;o. Em frente<br \/>\n    da casa viam-se os couros estendidos sobre os quais Victorino, a mulher, as<br \/>\n    filhas, e seu sobrinho Saturnino tinham atirado a erva trazida &aacute;s bra&ccedil;adas<br \/>\n    da planta&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Com tr&ecirc;s tigelas de feij&atilde;o mulatinho, uma do feij&atilde;o branco<br \/>\n    e outra do preto que Victorino plantara pela v&aacute;rzea que ficava do lado<br \/>\n    da casa e pelos p&eacute;s dos altos que do outro lado a cercavam, esperava<br \/>\n    ele apanhar tantos alqueires que lhe dessem para todo o ano. Parece que o<br \/>\n    calculo n&atilde;o ficou longe da realidade, visto que no servi&ccedil;o da<br \/>\n    arranca andaram empregados durante dois dias todos aqueles bra&ccedil;os.\n  <\/p>\n<p>Ao dar com os olhos sobre os grandes montes de vagens e ramas atiradas em<br \/>\n    cima dos couros, disse Francisco: <\/p>\n<p>&#8211; Sempre cuidei que eu bateria primeiro o meu feij&atilde;o do que voc&ecirc;<br \/>\n    o seu, compadre Victorino. Vejo agora que me enganei. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade, compadre Francisco. <\/p>\n<p>&#8211; E boa apanha fez voc&ecirc;. que putici! D&aacute; bem seus dois alqueires.\n  <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; quanto espero apurar. <\/p>\n<p>&#8211; Mas parece que ainda era cedo para arrancar esta erva. Vejo ainda tantas<br \/>\n    vagens zarolhas entre as secas. Nem por isso. Ele j&aacute; estava estralando<br \/>\n    ao sol mesmo no p&eacute;. <\/p>\n<p>&#8211; Como est&aacute; a comadre? Como passam as meninas? <\/p>\n<p>&#8211; Nenhuma quer morrer, n&atilde;o, meu compadre. <\/p>\n<p>&#8211; Fazem elas muito bem. <\/p>\n<p>&#8211; A comadre como ficou? <\/p>\n<p>&#8211; Trabalhando com seus cestos. <\/p>\n<p>Apareceu nesse momento Joaquina na porta da casa, as mangas do vestido para<br \/>\n    baixo, o cabe&ccedil;&atilde;o de rendas &aacute; mostra, os p&eacute;s no<br \/>\n    ch&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; Por isso &eacute; que o dia amanheceu t&atilde;o bonito. &Eacute; porque<br \/>\n    o compadre Francisco tinha de aparecer hoje por aqui. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o presto mais para nada, comadre. Mas por&eacute;m j&aacute; fui<br \/>\n    um cabra mesmo pimp&atilde;o. Muita mulata bonita j&aacute; se remexeu por<br \/>\n    mim ouvindo-me cantar ao som da viola, em noites de luar. Hoje deixo isso<br \/>\n    para esta mocidade que se est&aacute; enfeitando, para esses frangotes que<br \/>\n    como a nossa cria&ccedil;&atilde;o v&atilde;o enchendo os nossos terreiros.\n  <\/p>\n<p>E apontou para Louren&ccedil;o e as raparigas que nessa ocasi&atilde;o conversavam<br \/>\n    entre si. Estas n&atilde;o se demoraram a vir cumprimentar o matuto. Marianinha<br \/>\n    chegou-se para bem parto dele, e, estendendo a m&atilde;o direita, disse,<br \/>\n    corada e confusa: <\/p>\n<p>&#8211; Sua ben&ccedil;&atilde;o, meu padrinho. <\/p>\n<p>&#8211; Deus te d&ecirc; um bom marido. <\/p>\n<p>&#8211; Isto &eacute; que &eacute; o mais custoso &#8211; observou Joaquina. <\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; de aparecer, h&aacute; de aparecer, tornou Francisco. <\/p>\n<p>&#8211; Tamb&eacute;m se h&aacute; de ser algum vadio, algum pregui&ccedil;oso<br \/>\n    que n&atilde;o tenha animo nem para peiar um cavalo, melhor ser&aacute; que<br \/>\n    esteja ela solteira ai dentro de casa, acrescentou Victorino. <\/p>\n<p>Neste tom correu a palestra ainda por alguns minutos, Louren&ccedil;o conversando<br \/>\n    a maior parte do tempo com Bernardina, e Victorino e Joaquina com Francisco.\n  <\/p>\n<p>Entretanto o dia ia crescendo, o sol subindo e o feij&atilde;o estalando<br \/>\n    no terreiro: o que levou Francisco a dirigir esta pergunta ao compadre: <\/p>\n<p>&#8211; Para quando guarda bater o feij&atilde;o? <\/p>\n<p>&#8211; Estou esperando por meu sobrinho Saturnino, que ficou de voltar, mas ainda<br \/>\n    n&atilde;o chegou. <\/p>\n<p>Ora! Aqui estou eu e o Louren&ccedil;o para o ajudarmos. Eu n&atilde;o tenho<br \/>\n    que fazer hoje. Dei este salto at&eacute; c&aacute; por distrair-me. <\/p>\n<p>&#8211; Pois se voc&ecirc; quer, vamos a isso. <\/p>\n<p>Francisco chamou pelo pequeno. Para terem mais desembara&ccedil;ados os movimentos,<br \/>\n    tiraram as camisas; assim &#8211; nus da cintura para cima &#8211; ficaram inteiramente<br \/>\n    &aacute; vontade e conformemente ao costume do campo. Cada um pegou ent&atilde;o<br \/>\n    do seu cacete, e come&ccedil;aram a surrar a grande tulha que primeiro se<br \/>\n    lhes ofereceu &aacute; vista. <\/p>\n<p>As mulheres, pelo sentimento de pudor que lhes &eacute; natural, especialmente<br \/>\n    no campo, n&atilde;o obstante lhes faltarem as saud&aacute;veis praticas,<br \/>\n    presente da educa&ccedil;&atilde;o, tinham-se recolhido antes &aacute; sala<br \/>\n    da casa, e ai se entregaram a diferentes g&ecirc;neros de ocupa&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Bernardina, sentada em uma esteira de juncos, e Marianinha em um couro de<br \/>\n    cabra, faziam companhia, tendo cada uma entre as pernas sua almofada com vistosas<br \/>\n    rendas, a Joaquina que, pousada no ch&atilde;o, com as pernas estiradas uma<br \/>\n    sobre outra, fiava em um fuso pastas de alv&iacute;ssimo algod&atilde;o que<br \/>\n    ela ia tirando de dentro do balaio, onde trazia um mont&atilde;o delas abertas.\n  <\/p>\n<p>Dai a pouco Bernardina entrou a cantar para se umas letras matutas, enquanto<br \/>\n    sua m&atilde;e repetia os p&eacute;s de um bem-dito que de costume tirava<br \/>\n    sempre que se punha a fiar. Era lembran&ccedil;a da miss&atilde;o que um capuchinho<br \/>\n    fizera em Goiana anos atr&aacute;s. Marianinha guardava silencio. Ouvia com<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o as toadas das duas cantadeiras, por&eacute;m mais atentos<br \/>\n    do que os ouvidos tinha ela os olhos , que de quando em quando levava furtivamente<br \/>\n    da renda a Louren&ccedil;o por uma aberta da porta pela qual entrava com a<br \/>\n    imagem do rapaz um peda&ccedil;o de c&eacute;u azul. <\/p>\n<p>O amor que Marianinha votava a Louren&ccedil;o, vinha dos primeiros anos,<br \/>\n    mas j&aacute; era ardente, continuado, exclusivo. Nasceu no momento em que<br \/>\n    o menino foi apresentado &aacute; fam&iacute;lia. Remontemo-nos a esse momento.<br \/>\n    Victorino tinha dado do menino as piores informa&ccedil;&otilde;es; mas sua<br \/>\n    filha o achou t&atilde;o bonito que ficou escrava dele. Tinha ido Victorino<br \/>\n    abrir um ro&ccedil;ado dentro da mata que lhe ficava por traz da quadra de<br \/>\n    terra que o senhor do engenho lhe dera para cultivar. Como n&atilde;o era<br \/>\n    muito grande o espa&ccedil;o concedido, da casa ouvia-se o ru&iacute;do que,<br \/>\n    ao cair, produziam com as folhas e as arvores derrubadas pelo poderoso machado<br \/>\n    foreiro. Ao ru&iacute;do das arvores, ao ciciar das por entre a folhagem de<br \/>\n    um p&eacute; de massaranduba que ficava de um lado da casinha, ao cantar dos<br \/>\n    chech&eacute;us poisados esse momento sobre as bananeiras do quintal, Marianinha,<br \/>\n    que na ocasi&atilde;o de chegarem os hospedes, estava no terreiro brincando<br \/>\n    com suas bonecas, sentiu que despertar&aacute; novo sentimento em seu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Esse sentimento n&atilde;o se confundia com o que ela experimentava minutos<br \/>\n    antes ouvindo os mesmos rumores e o mesmo canto; era diferente, posto que<br \/>\n    acompanhado do mesmo natural cortejo. <\/p>\n<p>A manh&atilde; estava esplendida. O sol aquecia, sem queimar, as plantas<br \/>\n    e os animais, vivificando-os. As vastas sombras dos matos e dos oiteiros,<br \/>\n    projetando-se sobre o capinzal donde iam desaparecendo os &uacute;ltimos pingos<br \/>\n    da orvalhada brilhante da noite, poder-se-iam comparar com as folhas fechadas<br \/>\n    de um livro imenso &#8211;o livro da natureza. Poucas horas depois essas folhas<br \/>\n    estavam de todo abertas, a luz patenteava nelas muitas belezas, que a sombra<br \/>\n    ocultava antes, a saber, as moitas figurando ninhos virados, as flores inodoras,<br \/>\n    mas lindas, que costumam nascer pelos sop&eacute;s das montanhas, as rolinhas,<br \/>\n    de duas em duas &#8211; modelos da uni&atilde;o dos dois sexos estreitada pelos<br \/>\n    la&ccedil;os do afeto natural, modesto e s&oacute;brio que Deus plantou no<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o dos irracionais, e que s&oacute; a raz&atilde;o, ou<br \/>\n    antes, a oblitera&ccedil;&atilde;o dela perturba na esp&eacute;cie humana<br \/>\n    &#8211; depinicando silenciosas, a fazer voltas em sentidos opostos e a encontrar-se<br \/>\n    depois, como para afirmarem mutuamente que nunca jamais se separariam, a n&atilde;o<br \/>\n    ser momentaneamente. Nenhuma dessas manifesta&ccedil;&otilde;es da vida campestre,<br \/>\n    nem mesmo o conjunto de todas elas, tinha despertado no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Marianinha o sentimento brando e indefin&iacute;vel que ela come&ccedil;ou<br \/>\n    a conhecer dali por diante. Francisco e Louren&ccedil;o n&atilde;o se demoraram,<br \/>\n    tiraram para a mata a falar com Victorino; a impress&atilde;o por&eacute;m<br \/>\n    que a assaltou, quando ela viu pela primeira vez o menino, e que depois, acrescentada<br \/>\n    pelas rela&ccedil;&otilde;es de amizade e pelo tempo, se agigantou a ponto<br \/>\n    de constituir-se um mundo, uma imensidade, essa perdurou para sempre n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; em seus olhos, enchendo-os de novos brilhos, mas em toda a sua alma,<br \/>\n    povoando-a de nuvens rosadas e de paisagens verdoengas. <\/p>\n<p>Eis porque Marianinha olhava agora &aacute;s furtadelas para o rapaz, achando<br \/>\n    gra&ccedil;a particular no modo como ele botava o cacete sobre a tulha do<br \/>\n    feij&atilde;o. <\/p>\n<h2><a name=\"10\">Cap&iacute;tulo X<\/a><\/h2>\n<p>Seriam dez para onze horas quando deram principio ao trabalho. <\/p>\n<p>Com o calor e as cacetadas os caro&ccedil;os entraram a separar-se dos longos<br \/>\n    estojos. Duas horas depois um mont&atilde;o de p&oacute; cobria grossa camada<br \/>\n    de sementes alvas e luzidias. Ent&atilde;o os batedores suspenderam os cacetes<br \/>\n    e entraram para descansar. Victorino foi direitinho a uma botija que estava<br \/>\n    sobre a mesa, e derramando aguardente dentro de uma x&iacute;cara, ofereceu<br \/>\n    o refrigerante licor ao compadre. Este n&atilde;o se fez rogar; de um trago<br \/>\n    enxugou a vasilha. A Louren&ccedil;o, que n&atilde;o bebera do espirito, ofereceu<br \/>\n    nesse momento Marianinha uma tijelinha com cajuada. A menina tinha preparado<br \/>\n    com suas pr&oacute;prias m&atilde;osinhas este refresco. J&aacute; ent&atilde;o<br \/>\n    se achava ai o Saturnino, que n&atilde;o podendo ver com bons olhos o agrado,<br \/>\n    quis, com o pretexto de gracejar, toma-lo das m&atilde;os de Louren&ccedil;o.<br \/>\n    Este por&eacute;m entregou-o, sem a menor oposi&ccedil;&atilde;o, ao sobrinho<br \/>\n    de Victorino, dizendo-lhe estas palavras: <\/p>\n<p>&#8211; Tome para voc&ecirc;. N&atilde;o gosto de ponche de caju. <\/p>\n<p>Marianinha, corando de contrariedade e confus&atilde;o, voltou a trocar os<br \/>\n    bilros em sua almofada. Ela n&atilde;o queria mal ao primo, mas desde esse<br \/>\n    momento come&ccedil;ou a trata-lo com manifesta frieza. <\/p>\n<p>Entrava a esse tempo na sala a Bernardina trazendo um peda&ccedil;o de cana.<br \/>\n    Louren&ccedil;o foi-se a ela, no momento mesmo em que a menina o oferecia<br \/>\n    a Saturnino, e o arrancou da sua m&atilde;o com surpresa. Esta viol&ecirc;ncia<br \/>\n    irritou a mo&ccedil;oila que sem hesitar se atirou ao rapaz, a fim de retomar<br \/>\n    a propriedade. Ele resiste. A resist&ecirc;ncia leva a rapariga a insistir<br \/>\n    cada vez mais na sua resolu&ccedil;&atilde;o. Agarram-se os dois corpo a corpo.<br \/>\n    Agarrarem-se assim foi o mesmo que se abra&ccedil;arem naturalmente. Os cachos<br \/>\n    dos negros cabelos da matutinha ro&ccedil;am pelas faces do travesso rapaz.<br \/>\n    Com ou sem inten&ccedil;&atilde;o, conchega este aos seus seios os seios boleados<br \/>\n    da rapariguinha gentil e ofegante. Era j&aacute; tempo de Saturnino interpor-se<br \/>\n    e ele, compreendendo a gravidade da luta, n&atilde;o se fez esperar. <\/p>\n<p>Separam-se logo os discordes, um deles &#8211; Louren&ccedil;o &#8211; com o peda&ccedil;o<br \/>\n    do doce fruto disputado, o outro &#8211; Bernardina &#8211; com as m&atilde;os vazias.\n  <\/p>\n<p>&#8211; A cana n&atilde;o &eacute; para voc&ecirc;, Louren&ccedil;o &#8211; disse ela,<br \/>\n    resmungando com raiva. Eu a guardei par Saturnino. <\/p>\n<p>&#8211; Ora, deixe-se disso &#8211; respondeu o endiabrado rapaz. saturnino ainda achou<br \/>\n    pouca a cajuada que lhe dei? Se quiser cana, v&aacute; corta-la na baixada.<br \/>\n    Esta &eacute; minha. Est&aacute; doce que sabe j&aacute; a a&ccedil;&uacute;car.\n  <\/p>\n<p>Travou-se ent&atilde;o um dize tu, direi eu que s&oacute; teve fim quando<br \/>\n    os rapazes foram chamados pelos velhos para continuar o servi&ccedil;o interrompido.<br \/>\n    Ao sair para o p&aacute;tio, Louren&ccedil;o, pondo os olhos casualmente em<br \/>\n    Marianinha, achou-a p&aacute;lida e s&eacute;ria como nunca a vira. A menina<br \/>\n    tinha a vista pregada na renda, como estava esta pregada na almofada pelos<br \/>\n    espinhos de cardeiro que nela serviam de alfinetes, segundo era de costume<br \/>\n    por esses tempos entre os pobres. Marianinha n&atilde;o teve mais para o seu<br \/>\n    noivo in peto olhares nem sorrisos nem aten&ccedil;&otilde;es durante o restante<br \/>\n    do dia. Quando &aacute; tardinha, levantado o papel&atilde;o, que Joaquina<br \/>\n    lhe dera por tarefa, ela foi com sua m&atilde;e e irm&atilde; sessar o feij&atilde;o<br \/>\n    na urupema para o expurgar da areia e do barro original, a menina tinha no<br \/>\n    rosto a grave express&atilde;o que &eacute; pr&oacute;pria n&atilde;o da filha<br \/>\n    mas da m&atilde;e de fam&iacute;lia. O despeito e o ci&uacute;me mordiam pela<br \/>\n    primeira vez seu cora&ccedil;&atilde;o, antes merecedor do contentamento inef&aacute;vel<br \/>\n    a que ela aspirava, do que do pesar profundo que ai tinham deixado os dentes<br \/>\n    envenenados destas duas serpentes interiores. Assim se passou esse dia, que<br \/>\n    projetou sombria nuvem, em forma de espectro ou de ave agoureira, na imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da pequena. <\/p>\n<p>Tempos depois Francisco, levando em sua companhia Louren&ccedil;o, fez nova<br \/>\n    digress&atilde;o &aacute; casa do compadre. <\/p>\n<p>Eram todos no ro&ccedil;ado quebrando milho, que devia ser batido como fora<br \/>\n    o feij&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; Sempre chego em ocasi&atilde;o de trabalho, compadre Victorino, disse Francisco.\n  <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade. <\/p>\n<p>&#8211; A raz&atilde;o &eacute; porque meu compadre Francisco &eacute; muito trabalhador,<br \/>\n    observou Joaquina. <\/p>\n<p>&#8211; Adeus, meninas. <\/p>\n<p>&#8211; Sua b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, padrinho, disse Marianinha. <\/p>\n<p>&#8211; Boa tarde, seu Francisco, acrescentou Bernardina. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o deu o andar para onde estava esta ultima, e baixinho lhe<br \/>\n    perguntou: <\/p>\n<p>&#8211; Lembra-se ainda do peda&ccedil;o de cana? Est&aacute; zangada comigo? <\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o, respondeu ela. <\/p>\n<p>&#8211; Eu fiz aquilo somente para meter raiva a Saturnino. <\/p>\n<p>&#8211; E voc&ecirc; para que &eacute; mao, Louren&ccedil;o? <\/p>\n<p>&#8211; E voc&ecirc; para que faz tantos agrados a ele? <\/p>\n<p>&#8211; E voc&ecirc; que tem com isso? <\/p>\n<p>&#8211; Bernardina! Bernardina! <\/p>\n<p>&Eacute; melhor que v&aacute; se importar com Marianinha, que &eacute; sua<br \/>\n    noiva e mais dia menos dia vir&aacute; a ser sua mulher. <\/p>\n<p>0 semblante de Louren&ccedil;o fechou-se subitamente. Mais depressa nuvem<br \/>\n    escura n&atilde;o cobre a face risonha de estrela gentil e namorada. <\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; bom, disse ele com vis&iacute;vel contrariedade. Eu n&atilde;o<br \/>\n    quero destas gra&ccedil;as comigo. <\/p>\n<p>E pois estavam conversando em vozes t&atilde;o moderadas que ningu&eacute;m<br \/>\n    podia ouvir o que diziam. Francisco, a quem n&atilde;o pareceu muito agrad&aacute;vel<br \/>\n    este col&oacute;quio, dirigiu-se nos seguintes termos ao filho: <\/p>\n<p>&#8211; &Oacute; Louren&ccedil;o, vai ajudar ali a comadre, que mal pode com aquele<br \/>\n    bra&ccedil;ado de espigas. <\/p>\n<p>Em vez de levar a mal, o rapaz aceitou com as duas m&atilde;os o recurso,<br \/>\n    que se lhe oferecia, e foi prestar os seus servi&ccedil;os &aacute; Joaquina,<br \/>\n    n&atilde;o s&oacute; tomando sobre se parte da carga que ela trazia, mas quebrando<br \/>\n    o milho maduro que encontrou em suas proximidades. <\/p>\n<p>O aspecto do ro&ccedil;ado era o mesmo que oferece qualquer destas planta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em ocasi&otilde;es id&ecirc;nticas. <\/p>\n<p>Em um ponto central via-se um mont&atilde;o de espigas secas. Junto delas<br \/>\n    estava Bernardina sentada sobre umas palhas. Sua obriga&ccedil;&atilde;o consistia<br \/>\n    em as ir descascando e prendendo depois, de duas em duas, pelo filete de palha,<br \/>\n    de prop&oacute;sito deixado em cada uma para facilitar n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    o trabalho da contagem sen&atilde;o tamb&eacute;m o da condu&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Depois de assim atadas, atirava-as para outro ponto, do qual tinham de ser<br \/>\n    levadas para casa. <\/p>\n<p>O milharal, posto que na m&oacute;r parte ainda de p&eacute;, estava quase<br \/>\n    todo seco. As espigas volviam-se para a terra que alguns p&eacute;s, dobrados<br \/>\n    pelos ventos fortes, beijavam com os pend&otilde;es em sua maior parte despidos<br \/>\n    das flores de que se compunham. <\/p>\n<p>Quebrando aqui, ali, os frutos, foi-se Francisco metendo pelo ro&ccedil;ado<br \/>\n    a dentro at&eacute; chegar ao lugar onde estava a filha mais nova de Victorino.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Venho ajudar-te, Marianinha, disse ele. <\/p>\n<p>A menina tinha sobre os ombros alguns atilhos, de sorte que parte das espigas<br \/>\n    lhe caiam por cima dos seios e parte se derramava pelas costas. <\/p>\n<p>&#8211; Para que tem esse trabalho, meu padrinho? Estamos j&aacute; acabando. <\/p>\n<p>&#8211; Como me acho aqui, quero perguntar-te uma coisa. Tu est&aacute;s mal com<br \/>\n    Louren&ccedil;o? <\/p>\n<p>&#8211; Porque vosmec&ecirc; pergunta isso? <\/p>\n<p>Porque ainda h&aacute; pouco vi todos falarem com ele, menos tu. Que &eacute;<br \/>\n    que houve entre voc&ecirc;s? Eu n&atilde;o gosto de malqueren&ccedil;as. <\/p>\n<p>A menina parou involuntariamente. Seu bra&ccedil;o direito que nesse momento<br \/>\n    ela tinha al&ccedil;ado para uma espiga, descaiu como se for&ccedil;a oculta<br \/>\n    e desconhecida o fizera gravitar para a terra. Os olhos, vencidos pela mesma<br \/>\n    influencia, tendo relanceado primeiro para o matuto, cravou-os ela irresistivelmente<br \/>\n    no ch&atilde;o. <\/p>\n<p>Conhecendo que tocar&aacute; em uma ferida encoberta, Francisco adiantou-se<br \/>\n    a diminuir-lhe o vexame. <\/p>\n<p>Eu sei que tu gostavas do Louren&ccedil;o at&eacute; bem pouco tempo. Como<br \/>\n    &eacute; que aparece agora esta rixa? <\/p>\n<p>Passado um instante, a rapariguinha respondeu, aceso o rosto em suave rubor:\n  <\/p>\n<p>&#8211; Mas ele n&atilde;o gostava de mim. <\/p>\n<p>&#8211; Quem foi que te meteu isso na cabe&ccedil;a? <\/p>\n<p>&#8211; Era preciso que algu&eacute;m me dissesse o que eu estava vendo com os<br \/>\n    olhos? <\/p>\n<p>&#8211; Engano teu. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o estou enganada, n&atilde;o senhor. Louren&ccedil;o n&atilde;o<br \/>\n    se importa comigo. <\/p>\n<p>E tu n&atilde;o queres mais bem a ele? Anda, fala. Eu bem sei que tu gostas<br \/>\n    do pequeno. Se &eacute;s capaz, nega. <\/p>\n<p>Tomada da maior confus&atilde;o, Marianinha n&atilde;o soube o que responder.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Dize o que te pergunto &#8211; insistiu o matuto. Eu guardo segredo. N&atilde;o<br \/>\n    tenhas vergonha de mim. <\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o sei disso &#8211; retorquiu a menina, entre satisfeita e triste.\n  <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sabes? Ent&atilde;o quem &eacute; que h&aacute; de saber? <\/p>\n<p>A filha de Victorino caio novamente na mudez de h&aacute; pouco. <\/p>\n<p>&#8211; Deixa estar, Marianinha, tornou Francisco. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o h&aacute; de casar contigo. Se n&atilde;o for por gosto,<br \/>\n    h&aacute; de ser contra a vontade. <\/p>\n<p>&#8211; Contra a vontade? N&atilde;o, assim n&atilde;o &#8211; disse ela. <\/p>\n<p>&#8211; E porque n&atilde;o h&aacute; de ser por gosto? <\/p>\n<p>&#8211; Eu sei&#8230; Ele n&atilde;o me quer bem, n&atilde;o. Se ele quisesse, me tratava<br \/>\n    de outra moda. Como &eacute; ent&atilde;o que ele te trata? <\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o sei dizer como &eacute;, n&atilde;o, meu padrinho. Eu s&oacute;<br \/>\n    sei que Louren&ccedil;o &eacute; mau e ingrato. <\/p>\n<p>Triste e cabisbaixa, a menina poz-se a chorar. Era muito intensa a dor que<br \/>\n    feria seu cora&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o chores, pequena, disse Francisco<br \/>\n    abalado. Hei de fazer que ele venha a casar contigo. Pede bem a Nossa-Senhora-da-Concei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que eu n&atilde;o morra. Tanto farei que ele mesmo &eacute; que me h&aacute;<br \/>\n    de pedir licen&ccedil;a para dar este passo. <\/p>\n<p>Secreto pressentimento, por&eacute;m, dizia &aacute; menina, n&atilde;o obstante<br \/>\n    este formal compromisso do matuto, que nem o cora&ccedil;&atilde;o de Louren&ccedil;o<br \/>\n    nem sua m&atilde;o lhe pertenceriam jamais. <\/p>\n<p>Entretanto a esperan&ccedil;a que tais palavras infundiram em seu espirito,<br \/>\n    entrou ai como luz serena e divina. <\/p>\n<p>Momentos depois, voltaram todos para casa, conduzindo as m&atilde;os-de-milho.<br \/>\n    A uns derramavam-se espigas pelas costas, a outros caiam os atilhos dos bra&ccedil;os,<br \/>\n    ou das m&atilde;os. Marianinha, enquanto os demais tinham a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    concentrada na colheita, volvendo em torno de se seus belos olhos, h&aacute;<br \/>\n    pouco cheios de l&aacute;grimas, agora repletos dos fulgores do contentamento<br \/>\n    intimo, que se revelava, n&atilde;o por palavra mas pela luz do olhar meigo,<br \/>\n    pelo r&aacute;pido sorriso, pela irradia&ccedil;&atilde;o suav&iacute;ssima<br \/>\n    do semblante, tinha bem diversos pensamentos. Nas sombras crepusculares que<br \/>\n    come&ccedil;avam a cobrir a solid&atilde;o ela descobria encantos e primores<br \/>\n    naturais, que momentos antes, de caminho para o ro&ccedil;ado, debalde buscara<br \/>\n    na verdura da natureza, formosamente iluminada pelo clar&atilde;o imenso do<br \/>\n    sol. <\/p>\n<p>Nem com entrar em seu espirito acompanhada das sombras e dos mist&eacute;rios<br \/>\n    do deserto tinha para ela menos brilho e formosura a esperan&ccedil;a. <\/p>\n<h2><a name=\"11\">Cap&iacute;tulo XI<\/a><\/h2>\n<p>Numeroso foi o concurso de pessoas de alta e distinta jerarquia durante a<br \/>\n    noite da v&eacute;spera e o dia de S. Jo&atilde;o de 1711 no engenho do sargento-m&oacute;r<br \/>\n    Jo&atilde;o da Cunha. <\/p>\n<p>Esta respeit&aacute;vel campanha comp&ocirc;s-se dos cavaleiros que diremos:<br \/>\n    os irm&atilde;os Andr&eacute; Cavalcanti, Luiz Vidal e Cosme Bezerra; Filipe<br \/>\n    Cavalcanti, capit&atilde;o de ordenan&ccedil;as; Jorge Cavalcanti, sargento-m&oacute;r<br \/>\n    honor&aacute;rio, e filho natural de Andr&eacute; Vidal de Negreiros, o restaurador<br \/>\n    da Para&iacute;ba; Martinho de Bulh&otilde;es, que veio do engenho Itamb&eacute;,<br \/>\n    onde morava com seu sogro Matias Vidal, a quem o dito engenho pertencia, bem<br \/>\n    como todas as terras da povoa&ccedil;&atilde;o fundada por aquele restaurador.<br \/>\n    Al&eacute;m destes apontavam-se outros muitos propriet&aacute;rios e autoridades<br \/>\n    de Goiana, mais ou menos ligados, por la&ccedil;os de parentesco, amizade<br \/>\n    ou depend&ecirc;ncia particular com o senhor do engenho. <\/p>\n<p>Foi uma festa que muito deu que falar, n&atilde;o tanto pelo brilho, como<br \/>\n    principalmente pela concorr&ecirc;ncia. Dos principais nobres da vila n&atilde;o<br \/>\n    faltou nenhum. A posi&ccedil;&atilde;o social e pol&iacute;tica de Jo&atilde;o<br \/>\n    de Cunha; sua proced&ecirc;ncia ilustre; seus haveres geralmente tidos por<br \/>\n    avultados asseguravam-lhe grande respeito da parte dos seus vizinhos. <\/p>\n<p>Houve quem viu no importante ajuntamento, logo que ele se anunciou pela voz<br \/>\n    da fama, um pretexto para tratarem em fam&iacute;lia e em secreto os nobres<br \/>\n    de Goiana dos seus interesses amea&ccedil;ados pelos mascates do Recife. Nem<br \/>\n    era mister grande penetra&ccedil;&atilde;o para fazer esta conjectura, depois<br \/>\n    do rompimento destes contra aqueles, rompimento que se realizou em 18 de junho<br \/>\n    do ano apontado, de uma para duas horas da tarde. <\/p>\n<p>Para que fique inteirado do necess&aacute;rio o leitor que n&atilde;o for<br \/>\n    muito versado no conhecimento das lutas pol&iacute;ticas de nossa terra nos<br \/>\n    tempos coloniais, indispens&aacute;vel nos parece examinarmos aqui, posto<br \/>\n    que de relance, a causa da agita&ccedil;&atilde;o dos esp&iacute;ritos na<br \/>\n    &eacute;poca em que se passou esta historia. <\/p>\n<p>De que procedeu o sobredito rompimento? De quererem os negociantes do Recife<br \/>\n    que esta povoa&ccedil;&atilde;o passasse a vila, e de o n&atilde;o quererem<br \/>\n    os nobres da cidade de Olinda. Qual a raz&atilde;o de quererem os negociantes<br \/>\n    do Recife e de n&atilde;o quererem os nobres de Olinda que passasse a vila<br \/>\n    aquela prova&ccedil;&atilde;o, que ali&aacute;s j&aacute; tinha sido cidade<br \/>\n    no dom&iacute;nio holand&ecirc;s, por suas vantagens naturais, posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    f&iacute;sica, e principalmente por ser porto de mar e oferecer f&aacute;cil<br \/>\n    ancoradouro? A raz&atilde;o era porque, sendo o Recife quase em sua totalidade<br \/>\n    habitado por negociantes portugueses, passariam estes a ter, com a eleva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da povoa&ccedil;&atilde;o a vila, preponder&acirc;ncia no senado da c&acirc;mara,<br \/>\n    e por seus votos poderiam reduzir a nada, visto que o seu numero era grande,<br \/>\n    os nobres da cidade na taxa&ccedil;&atilde;o dos g&ecirc;neros, na arremata&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos contractos, enfim na governan&ccedil;a que at&eacute; ent&atilde;o tinha<br \/>\n    sempre andados nas m&atilde;os da nobreza da terra. Um cronista, contempor&acirc;neo<br \/>\n    da guerra dos mascates, escreveu sobre este ponto as palavras que trasladaremos<br \/>\n    para melhor compreens&atilde;o do leitor. S&atilde;o as seguintes: <\/p>\n<p>&lt; A dar-se ao Recife o termo que o governador queria, perdia a nobreza<br \/>\n    do pa&iacute;s; porquanto, igualando-se os nobres aos mascates, e sendo estes<br \/>\n    muito mais numerosos, vinham aqueles a ser exclu&iacute;dos nos pelouros dos<br \/>\n    lugares da republica; perdiam as rendas publicas na arremata&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos contractos, porquanto, sendo os arrematantes os mascates, e compondo estes<br \/>\n    o senado, perante quem se arrematavam, vinham eles a ser juizes e partes,<br \/>\n    e a seu salvo podiam arredar da arremata&ccedil;&atilde;o os nobres que quisessem<br \/>\n    lan&ccedil;ar; perdia finalmente toda a popula&ccedil;&atilde;o produtora,<br \/>\n    porquanto, competindo aos almotac&eacute;s taxarem os pre&ccedil;os dos viveres,<br \/>\n    e sendo o almotac&eacute; do Recife mascate, seguia-se, como se seguiu, que<br \/>\n    os g&ecirc;neros conduzidos a mercado pelos matutos se taxassem em pre&ccedil;o<br \/>\n    mui baixo, e os que vendiam os mascates taberneiros se estimassem em subido<br \/>\n    pre&ccedil;o&gt;. <\/p>\n<p>Por onde se v&ecirc; que nem era de todo sem fundamento o &oacute;dio que<br \/>\n    nobres e mercadores se votavam mutuamente, nem a guerra a que esse &oacute;dio<br \/>\n    deu lugar podia faltar em rebentar com a veem&ecirc;ncia e crueza que a caracterizaram.<br \/>\n    Enfim, a luta era menos de fidalgos e pe&otilde;es do que da agricultura amea&ccedil;ada<br \/>\n    de ru&iacute;na, e do comercio que aparecia como tirano. N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    luta mais fatal e terr&iacute;vel em seus resultados do que a em que se empenham<br \/>\n    dois princ&iacute;pios que devem constituir, nas &eacute;pocas normais, um<br \/>\n    s&oacute; elemento de prosperidade publica, servindo cada qual de complemento<br \/>\n    natural do outro. Estamos por isso muito distantes dos que nesse memor&aacute;vel<br \/>\n    movimento querem ver, antes um testemunho de rid&iacute;culos preconceitos,<br \/>\n    costumes e educa&ccedil;&atilde;o dominantes no s&eacute;culo pr&oacute;ximo<br \/>\n    passado, do que a s&eacute;ria colis&atilde;o de interesses que ainda em nossos<br \/>\n    dias podem trazer, achando-se em desacordo como ent&atilde;o se acharam, resultados<br \/>\n    ainda mais tristes e lastimosos. <\/p>\n<p>Enquanto as pretens&otilde;es dos mercadores n&atilde;o passaram de tentativas<br \/>\n    malogradas, mantiveram-se as coisas em saud&aacute;vel equil&iacute;brio.<br \/>\n    As pretens&otilde;es, por&eacute;m, de que &eacute; alma o interesse pecuni&aacute;rio<br \/>\n    ou a ambi&ccedil;&atilde;o de riquezas dificilmente se resignam a completa<br \/>\n    renuncia. Quando menos se espera, elas fazem explos&atilde;o, e s&oacute;<br \/>\n    ent&atilde;o se reconhece que o silencio em que por algum tempo estiveram<br \/>\n    a modo de sepultados, n&atilde;o foi o silencio da morte, mas da concentra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    espiritual e o do estudo dos meios de dar vitoria &aacute; dita ambi&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>O governador a que alude o cronista na passagem sobremencionada, era Sebasti&atilde;o<br \/>\n    de Castro Caldas. N&atilde;o foi o primeiro que chegando a Pernambuco e deixando-se<br \/>\n    quase dirigir por seus conterr&acirc;neos mais exaltados na sua pretens&atilde;o<br \/>\n    capital, representara a el-rei a favor da cria&ccedil;&atilde;o da vila. Antes<br \/>\n    dele j&aacute; o tinham feito alguns outros, inclinados sempre a proteger<br \/>\n    os interesses dos seus patr&iacute;cios. Nenhum, por&eacute;m, o fizera com<br \/>\n    t&atilde;o fortes raz&otilde;es como o novo governador, homem de grandes esp&iacute;ritos,<br \/>\n    de animo ousado e t&atilde;o dado &aacute; pratica de ator de despotismo que<br \/>\n    o pr&oacute;prio rei lhe estranhar&aacute; asperrissimamente, em data de 7<br \/>\n    de outubro de 1709 o &lt;Ter invadido a jurisdi&ccedil;&atilde;o dos ministros,<br \/>\n    soltado presos, mandado tirar devassas, suspendido no procedimento dele despoticamente,<br \/>\n    abusado das regias leis e provis&otilde;es e cometido outros absurdos e excessos<br \/>\n    de grande preju&iacute;zo &aacute; boa igualdade da raz&atilde;o e em grande<br \/>\n    dano da justi&ccedil;a dos povos de Pernambuco.&gt; <\/p>\n<p>&Eacute; fama que pouco tempo depois de haver entrado no exerc&iacute;cio<br \/>\n    do seu cargo, um negociante lhe foi dizer (n&atilde;o se sabe se havia verdade<br \/>\n    ou enredo na historia do oficioso senhor) que alguns pernambucanos tinham<br \/>\n    jurado repetir com ele, se metesse a tomar o partido dos do Recife na cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vila, o mesmo que seus antepassados tinham praticado com o governador Jeronimo<br \/>\n    de Mendon&ccedil;a Furtado no s&eacute;culo anterior. <\/p>\n<p>A isso respondeu Caldas: &#8211; Se s&atilde;o nobres e t&ecirc;m, segundo dizem,<br \/>\n    por se o popular da capitania, repitam o procedimento dos seus maiores. O<br \/>\n    que eu lhes asseguro &eacute; que n&atilde;o hei de imitar Mendon&ccedil;a<br \/>\n    Furtado, e que, desembainhada a minha espada, n&atilde;o a meterei novamente<br \/>\n    na bainha antes de embebida no cora&ccedil;&atilde;o do primeiro conjurado.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o aconteceu, assim por&eacute;m. Levado do capricho pessoal, ou<br \/>\n    do interesse, ou do &oacute;dio, ou da vaidade de dar mostras de ser capaz<br \/>\n    de arrostar com a oposi&ccedil;&atilde;o da nobreza de Pernambuco em peso,<br \/>\n    fez reiteradas instancias ao minist&eacute;rio e ao rei para que se realizasse<br \/>\n    a eleva&ccedil;&atilde;o do Recife a vila. Esta eleva&ccedil;&atilde;o foi<br \/>\n    afinal ordenada pela carta regia de 19 de novembro de 1709; mas, como se verificaram<br \/>\n    logo no ato da divis&atilde;o de novo termo grandes vexames e viol&ecirc;ncias,<br \/>\n    irritaram-se mais os &acirc;nimos de parte a parte. Caldas respondeu &aacute;<br \/>\n    rea&ccedil;&atilde;o dos pernambucanos not&aacute;veis mandando-os prender.<br \/>\n    Foram do numero dos presos Leonardo Bezerra Cavalcanti, seu irm&atilde;o Manoel<br \/>\n    Cavalcanti Bezerra, Luiz Barbalho, Afonso de Albuquerque e outros. O triste<br \/>\n    exemplo, produzindo impress&atilde;o de terror em v&aacute;rios agricultores,<br \/>\n    obrigou-os a deixar suas propriedades e ocultar-se foragidos nos bosques.<br \/>\n    Enquanto por&eacute;m alguns se retiravam aterrados, a rea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    concertava na sombra a sua desforra. Assim que pelas 4 horas da tarde de 17<br \/>\n    de outubro de 1710, por ocasi&atilde;o de passar o governador pela frente<br \/>\n    de uma casa desocupada da Rua-das-aguas-verdes, um tiro lhe foi dai desfechado,<br \/>\n    n&atilde;o tendo sido parte para que o n&atilde;o fizessem os dois mandat&aacute;rios<br \/>\n    obscuros o ir Caldas acompanhado e guardado por uma escolta de 25 homens.\n  <\/p>\n<p>Longe de o chamar &aacute; raz&atilde;o, o tiro, que mais parece Ter sido<br \/>\n    aviso de prud&ecirc;ncia do que meio de dar cabo do poderoso inimigo, visto<br \/>\n    que, se esta fora a inten&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o teriam posto na arma<br \/>\n    t&atilde;o pequena carga que, n&atilde;o obstante ser muito curta a distancia,<br \/>\n    a bala produziu unicamente no governador ligeira escoria&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    serviu antes para o arrojar de uma vez no caminho do atentado. Bastava Ter<br \/>\n    contra se suspeita de cumplicidade no nefando delito da Rua-das-aguas-verdes<br \/>\n    para qualquer ser atirado a horrorosa pris&atilde;o. O capit&atilde;o Andr&eacute;<br \/>\n    Dias de Figueiredo foi talvez preso como c&uacute;mplice, unicamente por Ter<br \/>\n    por nome o mesmo que o do juiz ordin&aacute;rio que em 1666 intimou ao governador<br \/>\n    Mendon&ccedil;a Furtado a ordem de pris&atilde;o em nome do rei. Enfim, foram<br \/>\n    tantos os excessos do governador Caldas, agora mandando abrir devassas, agora<br \/>\n    ordenando pris&otilde;es indevidas; ora estabelecendo pres&iacute;dios, como<br \/>\n    fez em S.Louren&ccedil;o-da-mata e em Santo_Ant&atilde;o, ora determinando<br \/>\n    que o povo fosse desarmado sem ter em aten&ccedil;&atilde;o sequer estar iminente<br \/>\n    a invas&atilde;o francesa, segundo acertadamente pondera o nosso cronista,<br \/>\n    que, antes do dia 5 de novembro, em que devia romper a revolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    rebentou esta por ocasi&atilde;o de pretender o capit&atilde;o Jo&atilde;o<br \/>\n    da Mota prender o capit&atilde;o-m&oacute;r de Santo-Ant&atilde;o Pedro Ribeiro<br \/>\n    da Silva. Foi em 2 do dito m&ecirc;s que, em lugar de Mota prender Ribeiro<br \/>\n    quando este ia ouvir missa na matriz, o sitiou ele em seu pr&oacute;prio presidio<br \/>\n    e o obrigou a capitular com a condi&ccedil;&atilde;o de n&atilde;o voltar<br \/>\n    ao Recife enquanto o povo, que tratava de reunir-se, n&atilde;o descesse a<br \/>\n    atacar a vila novamente criada. Enfim, no Domingo (10 de novembro) uma multid&atilde;o<br \/>\n    passante de 2.000 matutos tomou o Recife, e como n&atilde;o encontraram ai<br \/>\n    o governador, foram aquartelar-se em Olinda, senhores da situa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Caldas tinha fugido de v&eacute;spera para a Baia sem Ter cumprido a sua promessa<br \/>\n    de embeber, antes de partir, a sua espada em cora&ccedil;&otilde;es pernambucanos.\n  <\/p>\n<p>Foi logo chamado a tomar as r&eacute;deas do governo, visto vir apontado<br \/>\n    na carta regia que prevenia as vac&acirc;ncias, o bispo d. Manoel Alvarez<br \/>\n    da Costa que se havia retirado, em visita pastoral, para a Para&iacute;ba<br \/>\n    com o ouvidor dr. Jos&eacute; Ign&aacute;cio de Arouche pouco simp&aacute;tico<br \/>\n    aos do Recife por n&atilde;o Ter querido convir na amplia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do termo. D. Manoel volta a Olinda e assume o exerc&iacute;cio do novo cargo<br \/>\n    em 15 de novembro. O primeiro ato do seu governo foi perdoar aos povos a subleva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o tiro dado em Sebasti&atilde;o de Castro Caldas. <\/p>\n<p>Como era natural, o perd&atilde;o irritou os parciais do governador Caldas,<br \/>\n    os quais, n&atilde;o s&oacute; pelos &oacute;dios pr&oacute;prios, mas tamb&eacute;m<br \/>\n    pelas reiteradas sugest&otilde;es que lhes chegavam do mesmo governador para<br \/>\n    que, por sua vez, rompessem contra os do outro partido, assegurando-lhes que<br \/>\n    o rei n&atilde;o deixaria de levar a bem semelhante servi&ccedil;o, n&atilde;o<br \/>\n    pensaram sen&atilde;o em tomar estrondoso desfor&ccedil;o. Ou porque acreditassem<br \/>\n    piamente no que escrevia Caldas, ou porque o seu &oacute;dio n&atilde;o tinha<br \/>\n    outro objetivo que o de aniquilar a nobreza, a quem deviam t&atilde;o grande<br \/>\n    revez, que os havia prejudicado em seus interesses e em sua pol&iacute;tica,<br \/>\n    os europeus, que esposavam a causa da rea&ccedil;&atilde;o, alimentavam em<br \/>\n    silencio os seus projetos de vingan&ccedil;a e aparelhavam-se com sagacidade<br \/>\n    e tino para o rompimento formal. Neste intuito levaram muitos meses a prover-se<br \/>\n    de mantimentos. A farinha, o feij&atilde;o, o milho, o arroz, o a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    a carne, o peixe entravam todos os dias para os seus armaz&eacute;ns, onde<br \/>\n    ficavam em bom recato. Finalmente, no dia 18 de junho, aos gritos de &lt;Viva<br \/>\n    el-rei d. Jo&atilde;o V, morram os traidores&gt; puseram eles nas ruas a revolta,<br \/>\n    tomaram conta das fortalezas do Brum, Buraco, e Cincopontas, e no pressuposto<br \/>\n    de restaurarem a perdida autoridade de Caldas, consideraram o bispo suspenso<br \/>\n    de suas atribui&ccedil;&otilde;es e o recolheram no col&eacute;gio dos jesu&iacute;tas.<br \/>\n    Nomeando um governo monstruoso, composto de Jo&atilde;o da Mota e de um preto<br \/>\n    mestre de campo do Ter&ccedil;o-dos-Henriques, obrigaram o bispo a assinar<br \/>\n    ordens que importaram em os assegurar na posse da situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    assim violentamente roubada &aacute; legalidade. <\/p>\n<p>Fosse por&eacute;m qual fosse o verdadeiro motivo da reuni&atilde;o no engenho<br \/>\n    Bujari, o certo &eacute; que nunca em sua casa reuniu Jo&atilde;o da Cunha<br \/>\n    t&atilde;o numeroso concurso de pessoas escolhidas, com ser costume de longa<br \/>\n    data ajuntarem-se ai por S.Jo&atilde;o moradores de conta do lugar. <\/p>\n<p>N&atilde;o s&oacute; por ser poderoso, sen&atilde;o tamb&eacute;m por ser<br \/>\n    homem de resolu&ccedil;&atilde;o e de g&ecirc;nio arrebatado, era Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha muito temido em todo aquele termo. <\/p>\n<p>Uma tradi&ccedil;&atilde;o de sangue dava a seu nome e fam&iacute;lia triste<br \/>\n    celebridade. Contava-se que varias pessoas, das quais algumas por faltas muito<br \/>\n    leves, tinham sido mandadas matar por sua ordem e enterrar depois na bagaceira.<br \/>\n    Mais de um negro tinha morrido nos a&ccedil;oites, e de um at&eacute; se dizia<br \/>\n    que fora atirado vivo, n&atilde;o sabemos por que motivo, na fornalha do engenho,<br \/>\n    onde morreu queimado. <\/p>\n<p>Naqueles tempos tradi&ccedil;&otilde;es semelhantes, em vez de diminu&iacute;rem<br \/>\n    o tamanho moral do her&oacute;i dessas repugnantes il&iacute;adas, recomendavam<br \/>\n    aos povos os sanguin&aacute;rios Achiles, que por este modo se faziam conhecer<br \/>\n    e celebrizar. <\/p>\n<p>Por isso todos tinham pelo senhor do engenho Bujari profundo respeito; e<br \/>\n    se seu nome n&atilde;o vem apontado nas incompletas chronicas do tempo, como<br \/>\n    muitos outros, que n&atilde;o obstante pertencerem a not&aacute;veis sujeitos,<br \/>\n    ficaram inteiramente esquecidos, a tradi&ccedil;&atilde;o ainda o n&atilde;o<br \/>\n    deixou desaparecer de todo no p&oacute; onde jazem sepultados os que por circunstancias<br \/>\n    inexplic&aacute;veis n&atilde;o puderam sobreviver aos acontecimentos. <\/p>\n<p>Recebendo a influencia do tempo, da educa&ccedil;&atilde;o, dos preconceitos<br \/>\n    inveterados e dos exemplos de todo o dia, a mulher de Jo&atilde;o da Cunha,<br \/>\n    d. Damiana, que procedia, como seu marido, de troncos limpos, n&atilde;o lhe<br \/>\n    cedia a palma em altivez, posto que de seu natural era branda e ben&eacute;vola.\n  <\/p>\n<p>At&eacute; a idade de 12 anos, D. Damiana morou, para assim escrevermos,<br \/>\n    em casa dos pais de Jo&atilde;o da Cunha. Sua m&atilde;e era parenta muito<br \/>\n    chegada do casal fidalgo, e costumava passar tempos no engenho onde moravam.\n  <\/p>\n<p>Quando ela morreu, d. Damiana n&atilde;o contava mais do que 15 anos. O pai<br \/>\n    desta tinha falecido dez anos atr&aacute;s. Circunstancias especiais influ&iacute;ram<br \/>\n    diretamente para que, sendo ele um dos mais abastados agricultores do termo<br \/>\n    de Goiana, s&oacute; deixasse por morte &aacute; mulher um nome honrado e<br \/>\n    ilustre, heran&ccedil;a que esta transmitiu mais aumentada, por&eacute;m ainda<br \/>\n    muito menos brilhante do que a recebera, &aacute; sua filha. <\/p>\n<p>Dos cinco anos at&eacute; casar-se pode dizer que a jovem senhora viveu &aacute;<br \/>\n    sombra do rico fidalgo, pai do Jo&atilde;o e de Amador, de quem oportunamente<br \/>\n    se tratar&aacute;. Por esse tempo Jo&atilde;o da Cunha j&aacute; tinha contra&iacute;do<br \/>\n    o seu primeiro casamento. Enviuvando anos depois, contraiu o segundo com d.<br \/>\n    Damiana, que, j&aacute; se achando presa &aacute; fam&iacute;lia pela gratid&atilde;o<br \/>\n    que lhe devia, entrava agora em suas rela&ccedil;&otilde;es intimas e come&ccedil;ava<br \/>\n    a fazer parte dela por la&ccedil;os mais perdur&aacute;veis. <\/p>\n<p>O senhor de engenho achou em d. Damiana afei&ccedil;&otilde;es duplas &#8211; as<br \/>\n    de esposa e as de filha. Sua mulher, que j&aacute; tinha para ele respeito,<br \/>\n    votava-lhe agora estima conjugal, que trouxe ao senhor de engenho uma reprodu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da felicidade que gozara na const&acirc;ncia do primeiro matrimonio. <\/p>\n<p>Quando d. Damiana punha sobre ele seus grandes olhos negros e ternos, Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha sentia no intr&iacute;nseco de sua alma uma impress&atilde;o de brandura,<br \/>\n    que era talvez o reflexo da benevol&ecirc;ncia da esposa penetrando na dureza<br \/>\n    natural do cora&ccedil;&atilde;o do marido, como raio de luar em profunda<br \/>\n    e escura caverna. <\/p>\n<p>Ent&atilde;o o porco selvagem fazia-se escravo da juruti meiga e naturalmente<br \/>\n    elegante. Voltava-se todo para ele e ficava como em contempla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    asc&eacute;tica. Os cabelos abundantes e pretos, a rosto emoldurado em oval<br \/>\n    corret&iacute;ssima, a c&uacute;tis morena, fina e rosada, o nariz levemente<br \/>\n    erguido na ponta, a boca representante de altivez e bondade ao mesmo tempo,<br \/>\n    faziam de d. Damiana um como centro luminoso diante do qual o orgulhoso e<br \/>\n    duro Jo&atilde;o da Cunha sentia deslumbramentos. <\/p>\n<p>A influencia, por&eacute;m, que a mulher exercitava sobre o senhor de engenho,<br \/>\n    n&atilde;o era absoluta. <\/p>\n<p>Quando Jo&atilde;o da Cunha tomava uma resolu&ccedil;&atilde;o sobre objeto<br \/>\n    grave; quando seu orgulho exigia dela o preenchimento de um dos seus caprichos,<br \/>\n    leis do seu caracter, nem o olhar, nem o sorriso, nem a meiguice, nem as lagrimas<br \/>\n    dela venciam a dureza marm&oacute;rea do espirito, que de outras vezes parecia<br \/>\n    de cera. <\/p>\n<h2><a name=\"12\">Cap&iacute;tulo XII<\/a><\/h2>\n<p>O engenho Bujari estava situado em um ponto de que inteiramente se perdeu<br \/>\n    a mem&oacute;ria. O que se sabe ainda, pela tradi&ccedil;&atilde;o oral, &eacute;<br \/>\n    que, tendo ele ficado, pelo tempo adiante, todo em capoeira em conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    do longo desamparo, veio a confundir-se com a mata virgem. O engenho que traz<br \/>\n    hoje esse nome, fundou-se muito depois do desaparecimento do primeiro. <\/p>\n<p>Nesse tempo &#8211; &aacute;ureo per&iacute;odo da vida do respectivo propriet&aacute;rio<br \/>\n    &#8211; era ele uma das mais importantes propriedades r&uacute;sticas de Goiana,<br \/>\n    e a sua situa&ccedil;&atilde;o uma das mais formosas do termo. <\/p>\n<p>O tempo, na forma do costume, n&atilde;o respeitou as prendas naturais e<br \/>\n    ainda menos as obras de grosseira arquitetura da grande propriedade de Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha. No lugar onde foi a casa-de-vivenda &#8211; sobrado aca&ccedil;apado de<br \/>\n    telhado enegrecido, que, por muito alto no centro, era a primeira parte da<br \/>\n    casa que se via de longe acima dos matos, com seis janelas quadradas, entre<br \/>\n    as quais se rasgava a porta, para onde se subia por uma escada de tijolos<br \/>\n    grosseiros &#8211; existe hoje seguramente uma renque de sicupiras colossais, cuja<br \/>\n    folhagem enche os v&atilde;os das duas salas fronteiras &#8211; uma reservada aos<br \/>\n    hospedes, a outra &aacute; fam&iacute;lia &#8211; agora desaparecidas. Mais para<br \/>\n    o centro, no lugar dos aposentos interiores, floresce o amarelo, o p&aacute;o-d&rsquo;arco,<br \/>\n    o jatob&aacute;. Na casa-de-purgar, que devia ficar &aacute; esquerda, nasceram<br \/>\n    cedros, que se mostram gigantes, cobertos de cip&oacute;s, que, entrela&ccedil;ando-se<br \/>\n    com a vegeta&ccedil;&atilde;o circunvizinha, formam galerias e abobadas naturais,<br \/>\n    onde n&atilde;o penetra luz e se acoitam durante o dia aves noturnas e cobras<br \/>\n    venenosas. &Aacute; direita, no lugar da capela, &eacute; agora uma eleva&ccedil;&atilde;osita,<br \/>\n    de que se atiram aos ares uns sambaquis, umas mani&ccedil;&oacute;bas, uns<br \/>\n    marmeleiros, umas cabuat&atilde;s, cujos ramos e folhas se entretecortam e<br \/>\n    amigam. Por onde corria a rua dos negros, composta de vinte a vinte e cinco<br \/>\n    casinhas de cada lado, v&ecirc;m-se adjuntos de embiribas e juc&aacute;s.<br \/>\n    A casa-da-moenda foi substitu&iacute;da por um grupo de colossais angicos.<br \/>\n    Enfim a atividade da grande propriedade passou, para dar lugar &aacute; serenidade,<br \/>\n    ao sossego, ao silencio majestoso e solene da mata virgem. As obras da arte<br \/>\n    substitu&iacute;ram-se as produ&ccedil;&otilde;es, desde as m&iacute;nimas<br \/>\n    at&eacute; as m&aacute;ximas, da natureza. Ao viver do homem sucedeu o do<br \/>\n    bicho bravio. Assim s&atilde;o as coisas deste mundo. No topo de uma civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    germinam latentes as ra&iacute;zes de uma barbaria. <\/p>\n<p>Uma exce&ccedil;&atilde;o destaca-se, para confirmar a regra geral, do circulo<br \/>\n    vicioso em que giram, ap&oacute;s vidas, gera&ccedil;&otilde;es, progressos<br \/>\n    humanos, os seres, ou antes, as for&ccedil;as indestrut&iacute;veis da mat&eacute;ria.<br \/>\n    Por entre uns paus secos aqui, umas moitas enredadas ali, umas arvores frondosas<br \/>\n    al&eacute;m, arrasta ainda a exist&ecirc;ncia um ente contempor&acirc;neo<br \/>\n    de Jo&atilde;o da Cunha. Est&aacute; mais selvagem, por&eacute;m mais vivo<br \/>\n    e belo. <\/p>\n<p>Suas for&ccedil;as n&atilde;o diminu&iacute;ram, antes aumentaram. Em suas<br \/>\n    faces h&aacute; risos continuados. N&atilde;o lhe alvejam na fronte as cans<br \/>\n    da velhice. Esse ente &eacute; o rio Capibaribe-mirim, de que em 1711 passava<br \/>\n    por dentro do cercado do engenho Bujari, um bra&ccedil;o cheio e vigoroso,<br \/>\n    o qual se estendia ent&atilde;o sobre limpo e arenoso leito, enquanto hoje<br \/>\n    s&oacute; o ca&ccedil;ador ou algum viajor transviado o v&ecirc; dilatar-se<br \/>\n    por entre matos e por baixo de frescas e amenas sombras. Semelhante &aacute;s<br \/>\n    cobras que rastejam em suas margens, ele serpeai desconhecido e caracola,<br \/>\n    ora brando e vagaroso, ora barrento e assanhado, atravessando os pr&oacute;prios<br \/>\n    pontos onde no s&eacute;culo passado brincava com a luz do dia e recebia os<br \/>\n    beijos da franca vira&ccedil;&atilde;o dos descampados. As &aacute;guas, com<br \/>\n    que refresca essa parte central da mata banham, antes de chegar ai, as povoa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    denominadas Moc&oacute;s e Timba&uacute;ba, &uacute;nicos pontos populosos<br \/>\n    por onde passam. Toda a restante regi&atilde;o que elas percorrem, &eacute;<br \/>\n    solit&aacute;ria e erma. O morador do centro civilizado fez-se quase exclusivo<br \/>\n    habitante da solid&atilde;o e da floresta. <\/p>\n<p>O negro Andr&eacute;, carreiro do engenho, tinha descarregado, no p&aacute;tio<br \/>\n    da casa-de-vivenda muito antes do anoitecer do dia 23 de junho de 1711, v&aacute;rios<br \/>\n    carros de lenha destinada &aacute;s fogueiras de S. Jo&atilde;o. De dispor<br \/>\n    os grossos t&oacute;ros de angico e cajueiro tinham sido encarregados tr&ecirc;s<br \/>\n    ou quatro parceiros daquele carreiro, de prop&oacute;sito dispensados com<br \/>\n    cedo do servi&ccedil;o di&aacute;rio para este fim. <\/p>\n<p>No sobrado habitualmente silencioso, notava-se a anima&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o bul&iacute;cio que acompanham fatalmente esta festa popular. <\/p>\n<p>Viam-se senhoras na sala dos hospedes. Algumas delas eram mulheres, outras<br \/>\n    eram filhas dos nobres propriet&aacute;rios convidados para a reuni&atilde;o;<br \/>\n    e conversavam sentadas nas cadeiras de sola com pregaria que guarneciam a<br \/>\n    sala e das quais ainda se v&ecirc;m algumas, que s&atilde;o como as rel&iacute;quias<br \/>\n    do tempo em que representaram grande adiantamento da arte. <\/p>\n<p>A mob&iacute;lia, n&atilde;o obstante ser de uma casa em que se professavam<br \/>\n    h&aacute;bitos de nobreza e riqueza, n&atilde;o era de dar na vista; ao contrario,<br \/>\n    pouco adiantava &aacute; que se encontra presentemente em alguns engenhos,<br \/>\n    donde grande parte dos h&aacute;bitos daquele tempo n&atilde;o desapareceu<br \/>\n    inteiramente. Al&eacute;m das cadeiras viam-se dois canap&eacute;s, tamb&eacute;m<br \/>\n    cobertos de sola, tr&ecirc;s ou quatro bancas de acaju, e uma grande c&ocirc;moda<br \/>\n    de nogueira com muitas ordens de gavetas. Sobre as bancas havia alfaias de<br \/>\n    prata e sobre a mesa estava assente um candeeiro grande do mesmo metal. Pendiam<br \/>\n    da parede, fronteiros e na mesma altura dois quadros em que apareciam retratados<br \/>\n    o senhor e a senhora do engenho. <\/p>\n<p>A sala das mulheres, aquele momento deserta, atestava melhor o gosto, a educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a mocidade de d. Damiana. Sobre c&ocirc;moda de formas menos pesadas do<br \/>\n    que o da sala cont&iacute;gua, certamente obra de fora, em que se procurara<br \/>\n    entalhar uns longes do gosto de Luiz XIV, via-se um rico santu&aacute;rio<br \/>\n    de jacarand&aacute;, que, estando aberto, deixava ver por entre ramalhetes<br \/>\n    de frescas flores naturais, formosas e ricas imagens, adornadas com seda,<br \/>\n    ouro e pedras preciosas. Por junto da parede corria um estrado coberto de<br \/>\n    damasco, e fronteiro a ele mostrava-se o bufete de especial estima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da aristocr&aacute;tica senhora. Um tear ao canto, bancas de jacarand&aacute;<br \/>\n    de delicadas entalhas e sobre as bancas garrafinhas e frascos de vidro e cristal<br \/>\n    completavam, com o grande espelho afixado na parede, a sala particular de<br \/>\n    d. Damiana. <\/p>\n<p>Ao acender as fogueiras achavam-se os homens, n&atilde;o na sala-de-visitas,<br \/>\n    mas no aposento imediato &#8211; esp&eacute;cie de gabinete onde tinha Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha cama para descansar, papeis, roupas e armas. <\/p>\n<p>&Aacute; luz amarelenta de um candeeiro, colocado sobre uma secret&aacute;ria<br \/>\n    de forma de piano, lia o senhor de engenho, para os amigos ouvirem, as ultimas<br \/>\n    regras de uma carta que recebera de Andr&eacute; da Cunha, morador em Olinda.\n  <\/p>\n<p>&lt;Eis o extremo a que chegamos. Os mascates em armas, senhores do porto,<br \/>\n    das fortalezas e agora do governo, visto que tem o bispo guardado por 150<br \/>\n    soldados e &aacute;s ordens deles, tudo podem contra n&oacute;s, enquanto<br \/>\n    n&oacute;s muito pouco ou coisa nenhuma podemos contra eles. Se o bispo tivesse<br \/>\n    espirito, ou se o seu espirito fosse t&atilde;o grande como &eacute; o seu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, certo as coisas presentes seriam para n&oacute;s pequenas.<br \/>\n    Mas &eacute; fraco e entende pouco de estrat&eacute;gias e ciladas. Que for&ccedil;a<br \/>\n    se pode esperar de um governador que se deixou cair, por moleza, nas m&atilde;os<br \/>\n    dos seus pr&oacute;prios inimigos?&gt; <\/p>\n<p>&#8211; Que havia de fazer ele? inquiriu Matias Vidal. Aquele feixe de virtudes<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; para semelhantes lutas. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; isto exatamente o que escreve Andr&eacute; respondeu Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha. <\/p>\n<p>E prosseguiu a leitura: <\/p>\n<p>&lt; Enfim o Recife est&aacute; cercado de trincheiras, fortemente guarnecidas<br \/>\n    de gente e providas de muni&ccedil;&otilde;es de guerra. <\/p>\n<p>&lt; Como n&atilde;o tenho certeza de que esta v&aacute; Ter &aacute;s suas<br \/>\n    m&atilde;os, por isso que a todo canto a nobreza se est&aacute; picando nos<br \/>\n    espinhos da trai&ccedil;&atilde;o, finalizo, rogando a Deus se sirva olhar<br \/>\n    por n&oacute;s e por nossas fam&iacute;lias amea&ccedil;adas de toda sorte<br \/>\n    de calamidades, das quais a menos crua ser&aacute; a morte. <\/p>\n<p>&lt; Olinda, 19 de junho de 1711. &#8211; Andr&eacute; da Cunha.&gt; <\/p>\n<p>&#8211; Meus amigos &#8211; disse Jo&atilde;o da Cunha dobrando a carta e metendo-a em<br \/>\n    um dos escaninhos da secretaria &#8211; foi menos para tomardes parte no meu prazer<br \/>\n    do que na desgra&ccedil;a da p&aacute;tria, que me pareceu mandar chamar-vos<br \/>\n    &aacute; minha casa. Est&atilde;o consternadoras para n&oacute;s &#8211; os pernambucanos<br \/>\n    &#8211; as coisas publicas. Comandada a for&ccedil;a militar por Miguel Correa,<br \/>\n    Manoel Clemente, Euzebio de Oliveira e Antonio de Souza Marinho, mascates<br \/>\n    conhecidos como odientos por todos n&oacute;s, aos filhos da terra n&atilde;o<br \/>\n    nos resta, a meu parecer, outro recurso que o de lan&ccedil;armos m&atilde;os<br \/>\n    das armas. Devemos acudir com as nossas fabricas e moradores, ao lugar do<br \/>\n    perigo, e ai castigar a aud&aacute;cia dos rebeldes. Este recurso deve ser<br \/>\n    usado sem perda de tempo. Dar pancada mortal na cabe&ccedil;a da cobra pe&ccedil;onhenta.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o obstante ser mais forte Jo&atilde;o da Cunha em preconceitos de<br \/>\n    fidalguia do que em eloqu&ecirc;ncia, dote que vem do ber&ccedil;o mas que<br \/>\n    a cultura acrescenta e apura, suas palavras ressoaram, como ecos de discurso<br \/>\n    divino, nos cora&ccedil;&otilde;es dos amigos. <\/p>\n<p>Entre estes viam-se alguns que eram mais bem versados em letras e em ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    incendiarias do que o sargento-m&oacute;r. <\/p>\n<p>Contava-se neste numero Cosme Bezerra dentre todos os que ali se achavam<br \/>\n    o mais ardente membro da nobreza, e o que, por sua for&ccedil;a de vontade<br \/>\n    e grandeza de espirito, maior nome deixou nas cr&ocirc;nicas do tempo, porque,<br \/>\n    degredado para a &Iacute;ndia em 1713, dai n&atilde;o voltou mais &aacute;<br \/>\n    sua p&aacute;tria. Era juiz ordin&aacute;rio e capit&atilde;o de ordenan&ccedil;as.<br \/>\n    Tinha a presen&ccedil;a atrativa e gestos largos e arrebatados. <\/p>\n<p>Cosme Bezerra, que foi dos primeiros que reagiram contra os mercadores, como<br \/>\n    dos que sofreram as conseq&uuml;&ecirc;ncias dessa rea&ccedil;&atilde;o, quis<br \/>\n    tomar a m&atilde;o em seguida do sargento-m&oacute;r; mas antecipou-se-lhe<br \/>\n    Manoel de Lacerda, ex-alcaide-m&oacute;r; emprego que devera a seus longos<br \/>\n    e distintos m&eacute;ritos. <\/p>\n<p>&#8211; Estou de acordo convosco, disse Lacerda a Jo&atilde;o da Cunha. Querem<br \/>\n    grande e rude li&ccedil;&atilde;o esses que s&oacute; t&ecirc;m recebido de<br \/>\n    n&oacute;s hospitalidade e favores? Pois satisfa&ccedil;amos &aacute; sua<br \/>\n    vontade. N&atilde;o gosto de viol&ecirc;ncias; mas quando sagrados direitos<br \/>\n    andam em perigo, n&atilde;o olho a desastres nem espero pelo dia de amanh&atilde;.<br \/>\n    O fogo, o sangue, a morte n&atilde;o me amedrontam, nem o receio de ser vitima<br \/>\n    na luta me ret&eacute;m no rega&ccedil;o morno da vida domestica. <\/p>\n<p>&#8211; Demais, observou Cosme Bezerra, que estava impaciente por manifestar-se<br \/>\n    sobre o assunto, nas atuais circunstancias a guerra &eacute; inevit&aacute;vel.<br \/>\n    Certo, os mascates a esperam. Se n&oacute;s n&atilde;o formos leva-la a eles,<br \/>\n    h&atilde;o de vir eles traze-la a n&oacute;s. Das fortalezas passar&atilde;o<br \/>\n    &aacute;s estradas, e por estas vir&atilde;o Ter &aacute;s vilas mais importantes<br \/>\n    e enriquecidos, menos pela grandeza do seu trabalho do que do nosso cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da nossa complac&ecirc;ncia projetam sobre as ru&iacute;nas da agricultura,<br \/>\n    levantar em pedestais de ouro o seu comercio il&iacute;cito e plebeu. Quem<br \/>\n    julgar que eles ficam ai, engana-se. eles p&otilde;em a mira em completar<br \/>\n    a obra do desmoronamento pernambucano, derramando o sangue daqueles que com<br \/>\n    os nobres portugueses, e n&atilde;o com a gentalha de Portugal, sustentaram<br \/>\n    no mar e nos campos de batalha a honra e o poder da lusa monarquia. H&atilde;o<br \/>\n    de ir mais longe ainda, porque em seu bestunto sup&otilde;em, e at&eacute;<br \/>\n    o dizem, que somos t&atilde;o selvagens como os &iacute;ndios que eles destru&iacute;ram<br \/>\n    ou escravizaram. Armar&atilde;o ciladas a nossa honra, tentar&atilde;o manchar<br \/>\n    nossas fam&iacute;lias. Em seus tenebrosos plenos, tem mais lugar a id&eacute;ia<br \/>\n    de enxovalhar do que a de destruir a fidalguia, que os admitiu em sua terra,<br \/>\n    levada de d&oacute; pela mis&eacute;ria deles. E havemos de consentir em que<br \/>\n    esta baixeza sem nome se tente praticar ainda que n&atilde;o passe da tentativa?<br \/>\n    De modo nenhum. C&aacute; por mim estou prestes para a luta e entendo que<br \/>\n    &eacute; tempo de a travar com esses vis e ingratos hospedes. <\/p>\n<p>&#8211; Este pontos est&aacute; fora de duvidas, acrescentou Filipe Cavalcanti.<br \/>\n    Mas o essencial &eacute; assentarmos nos meios de ferir a batalha. Temos gente<br \/>\n    pronta para seguir &aacute; metr&oacute;pole da capitania? Convir&aacute;<br \/>\n    seguirmos? Ou ser&aacute; mais prudente esperarmos que de l&aacute; se nos<br \/>\n    pe&ccedil;a o auxilio das nossas for&ccedil;as! A meu parecer s&atilde;o estes<br \/>\n    os pontos mais importantes e graves da presente conjuntura. <\/p>\n<p>&#8211; E que mais esperaremos? Inquiriu Jorge Cavalcanti. A luva est&aacute; atirada,<br \/>\n    e embora nos venha de vil&atilde;o, cumpre-nos apanh&aacute;-la para castigarmos<br \/>\n    a vilania. <\/p>\n<p>&#8211; A nobreza da capital, ajuntou Cosme Bezerra, est&aacute; amea&ccedil;ada.<br \/>\n    A tardan&ccedil;a no socorro poder&aacute; trazer males irremedi&aacute;veis.\n  <\/p>\n<p>Estava neste ponto a discuss&atilde;o, quando Matias Vidal tomou a m&atilde;o,<br \/>\n    e disse: <\/p>\n<p>&#8211; Senhores, tudo o que acabo de ouvir de vossas bocas, parece-me inspirado<br \/>\n    pelo principio da pr&oacute;pria conserva&ccedil;&atilde;o de cada um de n&oacute;s,<br \/>\n    pela dignidade da nobreza pernambucana, e pelo amor da terra de que os forasteiros<br \/>\n    querem assenhorear-se. Mas quem nos afian&ccedil;a que n&atilde;o estamos<br \/>\n    j&aacute; amea&ccedil;ados tamb&eacute;m de perdermos as nossas vidas e propriedades?<br \/>\n    Honroso seria corrermos imediatamente &aacute; capital, afim de refor&ccedil;armos<br \/>\n    a sua defesa; mas um dever que me parece superior a todos, exige talvez a<br \/>\n    nossa presen&ccedil;a no seio das nossas fam&iacute;lias. Teremos acaso t&atilde;o<br \/>\n    seguros estes penhores da nossa estima que possamos, sem risco, deixa-los<br \/>\n    entregues a se pr&oacute;prios, enquanto vamos auxiliar os nossos parentes<br \/>\n    e amigos longe daqui? Certamente o plano dos forasteiros ficaria abaixo das<br \/>\n    suas ambi&ccedil;&otilde;es se nele entrasse o pensamento de se hostilizar<br \/>\n    a nobreza dos arredores da vila de fresco criada. Tudo ao contrario faz crer<br \/>\n    que eles conspiram contra a nobreza de toda a prov&iacute;ncia, porque sem<br \/>\n    a destrui&ccedil;&atilde;o total dela n&atilde;o poder&atilde;o ficar senhores<br \/>\n    de todo pa&iacute;s. N&atilde;o moro na vila de Goiana, mas l&aacute; mesmo<br \/>\n    no meu mato soube que o ouro dos mascates andava por aqui nas m&atilde;os<br \/>\n    de baixos comiss&aacute;rios. <\/p>\n<p>&#8211; Tendes raz&atilde;o, tendes raz&atilde;o &#8211; disse Manoel de Lacerda. O que<br \/>\n    dizeis &eacute; verdade. <\/p>\n<p>Antes de montar a cavalo para vir a esta reuni&atilde;o, disse-me um dos<br \/>\n    meus lavradores que soubera terem sido distribu&iacute;dos em Goiana, donde<br \/>\n    chegava, 14,000 cruzados para a compra de gente que apoie a causa dos mercadores.<br \/>\n    Se isto &eacute; ver&iacute;dico&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; ver&iacute;dico &#8211; disseram muitos dos que se achavam presentes.\n  <\/p>\n<p>Se assim &eacute;, prosseguiu Matias Vidal, n&atilde;o ser&aacute; imprud&ecirc;ncia<br \/>\n    desampararmos nossas casas, que, privadas de nosso encosto e sem nenhum meio<br \/>\n    de defesa, visto que teremos de levar conosco as nossas escravaturas, ficar&atilde;o<br \/>\n    expostas a grandes desgra&ccedil;as. <\/p>\n<p>A estas palavras, que sa&iacute;ram fracamente dos l&aacute;bios de Matias<br \/>\n    Vidal, como dentre duas pedras caem gotas de &aacute;gua nativa, seguiu-se<br \/>\n    um momento de silencio. Nelas vinha um cunho de madura prud&ecirc;ncia que<br \/>\n    abatia e resfriava os &iacute;mpetos e os &eacute;stos dos precedentes oradores.<br \/>\n    Aqui estava o pai de fam&iacute;lia, o agricultor, o matuto, sem exclus&atilde;o<br \/>\n    do patriota. A inspira&ccedil;&atilde;o sensata, a l&uacute;cida intui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que adivinhava os perigos pr&oacute;ximos, ao mesmo tempo que via os remotos<br \/>\n    j&aacute; descobertos, tomaram o lugar aos assomos da soberba de Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha, da valentia de Lacerda, da ard&ecirc;ncia de Bezerra, e apresentaram<br \/>\n    a solu&ccedil;&atilde;o natural do grave problema que os trazia ali reunidos.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Ela &eacute; verdade &#8211; disse primeiro o ex-alcaide-m&oacute;r, como quem<br \/>\n    caia em se e via agora de todo clara a situa&ccedil;&atilde;o h&aacute; pouco<br \/>\n    envolvida em densas trevas. Junto, em torno de n&oacute;s, mandat&aacute;rios<br \/>\n    disfar&ccedil;ados espreitam os nossos passos para os denunciarem aos mandantes,<br \/>\n    nossos inimigos.<\/p>\n<p>&#8211; Que diz voc&ecirc; a isto, irm&atilde;o Andr&eacute;? Perguntou Luiz Vidal<br \/>\n    a Andr&eacute; Cavalcanti, que atento ouvira os v&aacute;rios conceitos dos<br \/>\n    conferentes.<\/p>\n<p>&#8211; Digo que o nosso primeiro empenho deve consistir em tratarmos da nossa<br \/>\n    pr&oacute;pria defesa. Estou por isso inteiramente de acordo com o parecer<br \/>\n    de Matias Vidal. Quem sabe se dentro de poucas horas n&atilde;o teremos de<br \/>\n    haver-nos com revolta id&ecirc;ntica &aacute; do Recife? <\/p>\n<p>&#8211; Nem devemos esperar coisa diferente &#8211; disse Jorge Cavalcanti. <\/p>\n<p>&#8211; A que fim, sen&atilde;o a este, mandaram para c&aacute; os mascates o seu<br \/>\n    ouro? Observou Jos&eacute; de Barros. <\/p>\n<p>Ontem corria nas lojas e tabernas de Goiana &#8211; disse Manoel de Lacerda, que<br \/>\n    um motim se preparava contra a nobreza. Antonio Coelho, cuja aud&aacute;cia<br \/>\n    todos n&oacute;s sabemos, nunca se mostrou t&atilde;o derramado em arrogancias<br \/>\n    e insultos. De noite houve ajuntamento em sua loja, ajuntamento que s&oacute;<br \/>\n    se desfez quando j&aacute; era noite alta e depois de muitos urras, que ressoaram<br \/>\n    nas vizinhan&ccedil;as. Certo est&aacute; Antonio Coelho incumbido de dirigir<br \/>\n    o movimento. <\/p>\n<p>&#8211; Bom ser&aacute; que o n&atilde;o percamos de vista, disse Jo&atilde;o da<br \/>\n    Cunha.<\/p>\n<p>Hoje de manh&atilde;, passando eu pela frente de sua casa, vi-o fazendo gestos<br \/>\n    no balc&atilde;o. Estava, ao parecer, &eacute;brio; n&atilde;o tinha curtido<br \/>\n    de todo o vinho que bebera na v&eacute;spera, porque lhe ouvi palavras insultuosas<br \/>\n    que me iam lan&ccedil;ando fora do caminho da prud&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>&#8211; Que disse ele, Cosme Bezerra? Interrogou o sargento-m&oacute;r.<\/p>\n<p>Suas insol&ecirc;ncias tinham por objeto a vossa pr&oacute;pria pessoa. &lt;Hei<br \/>\n    de ensinar o Jo&atilde;o da Cunha; &eacute; tempo dele pagar o novo e o velho.<br \/>\n    Hei de ir com minha gente revirar a bagaceira de seu engenho, para p&ocirc;r<br \/>\n    &aacute; mostra a ossada do mascate que ele mandou seus negros matar, s&oacute;<br \/>\n    porque&#8230;&gt; <\/p>\n<p>&#8211; Porque?porque? perguntou o sargento-m&oacute;r, tomado de s&uacute;bita<br \/>\n    como&ccedil;&atilde;o, e fazendo-se l&iacute;vido. Que historia contou o vil&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8211; Contou que o mascate tinha sido assassinado por se queixar de lhe n&atilde;o<br \/>\n    terem pago certa quantia. <\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Cunha, sem o querer, tinha-se levantado. <\/p>\n<p>&#8211; Querem saber como foi o caso? A mulher de um morador chamou o labrego para<br \/>\n    lhe comprar n&atilde;o sei que bugigangas, de que ele saiu pago. Mas como<br \/>\n    vinha tonto, depressa esqueceu-lhe que tinha recebido a respectiva import&acirc;ncia.<br \/>\n    Hei-lo que volta e come&ccedil;a de exigir novo pagamento; e porque ningu&eacute;m<br \/>\n    saiu a dar-lhe mais dinheiro, a todos chamou ladr&otilde;es, sem exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do senhor do engenho. Dois negros foram-lhe ao encontro e castigaram, sem<br \/>\n    que de ningu&eacute;m tivessem recebido ordem para isso, a ousadia do mascate.<br \/>\n    Este caiu e n&atilde;o se levantou mais. No outro dia vieram dizer-me que<br \/>\n    amanhecera um homem morto na estrada. Foi ent&atilde;o que soube do ocorrido.<br \/>\n    Castiguei os escravos, e mandei sepultar o morto, n&atilde;o na bagaceira,<br \/>\n    mas na capela. Se o n&atilde;o sepultaram onde eu disse, n&atilde;o lhe fizeram<br \/>\n    injusti&ccedil;a; os animais do campo enterram-se nos monturos. Mas deixemos<br \/>\n    a um lado esse vil mascate, e tratemos do que nos deve merecer mais aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Que se deve fazer, meus amigos? Devemos ir ao encontro dos rebeldes, ou esperar<br \/>\n    que eles nos venham buscar a nossas casas? <\/p>\n<p>Ap&oacute;s um momento, respondeu o ex-alcaide-m&oacute;r: <\/p>\n<p>&#8211; O que entendo que se deve fazer &eacute; cuidar, sem perda de tempo, de<br \/>\n    p&ocirc;r em armas cada um de n&oacute;s a sua gente para o que possa acontecer.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Sairemos ou ficaremos? <\/p>\n<p>&#8211; Esperaremos prestes para dar-lhes li&ccedil;&atilde;o tremenda. <\/p>\n<p>Para andarmos seguros, parece-me conveniente que se mande um pr&oacute;prio,<br \/>\n    sem perda de tempo, a Olinda, a fim de sabermos dos amigos se s&atilde;o precisos<br \/>\n    os nossos servi&ccedil;os. A sua resposta nos servir&aacute; de guia. <\/p>\n<p>&#8211; Acho muito acertado este ultimo alvitre, indicado por Felipe &#8211; disse Cosme<br \/>\n    Bezerra. <\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, disse Jo&atilde;o da Cunha. Seja este o nosso primeiro passo.\n  <\/p>\n<p>A sala em que se achavam conferenciando sobre o grave assunto os principais<br \/>\n    vultos da nobreza de Goiana, tinha janelas que caiam sobre o pomar. Distante<br \/>\n    deste algumas bra&ccedil;as passava o rio, aquela noite aumentado pelas chuvas<br \/>\n    dos dias anteriores. De seu natural escasso, volvia agora barrentas e volumosas<br \/>\n    &aacute;guas que estavam lavando as estivas das toscas pontes que o atravessavam.\n  <\/p>\n<p>Mal acabara de falar Cosme Bezerra, quando chegou &aacute; sala o ru&iacute;do<br \/>\n    que produziam as &aacute;guas cortadas por um cavaleiro. <\/p>\n<p>Em qualquer engenho nada &eacute; mais natural do que semelhantes rumores.<br \/>\n    Fosse por&eacute;m porque se achavam sobreexcitados os esp&iacute;ritos pelo<br \/>\n    objeto da conversa&ccedil;&atilde;o, fosse porque o rumor tinha o quer que<br \/>\n    era particular e estranho, o certo &eacute; que Jo&atilde;o da Cunha julgou<br \/>\n    prudente chegar &aacute; janela, a fim de saber quem era que o produzia. <\/p>\n<p>Ao clar&atilde;o das fogueiras, de que a esse tempo j&aacute; se atiravam<br \/>\n    aos ares longas l&iacute;nguas de fogo, reconheceu ele quem chegava. <\/p>\n<p>Voltou-se ent&atilde;o para os circunstantes, que guardavam silencio, e lhes<br \/>\n    disse com certo tom de voz, em que n&atilde;o seria dif&iacute;cil adivinhar<br \/>\n    tr&ecirc;s impress&otilde;es diferentes &#8211; prazer, incerteza e ansiedade: <\/p>\n<p>&#8211; Vamos Ter noticias frescas de Olinda. <\/p>\n<p>Com pouco um matuto penetrou no aposento onde se estava celebrando a conferencia,<br \/>\n    e entregou a Jo&atilde;o da Cunha um pacote de papeis. <\/p>\n<p>O matuto era Francisco. <\/p>\n<h2><a name=\"13\">Cap&iacute;tulo XIII<\/a><\/h2>\n<p>O S.Jo&atilde;o, do mesmo modo que o natal, &eacute; festa essencialmente<br \/>\n    popular e campestre. Cada uma destas duas festas, com especialidade por&eacute;m<br \/>\n    a primeira, leva vantagem &aacute; da p&aacute;scoa , que, com ser comemorativa<br \/>\n    da ressurrei&ccedil;&atilde;o do proto-martir, de quem s&oacute; nos ficaram<br \/>\n    exemplos de humildade e singeleza, assumiu formas aristocr&aacute;ticas, e<br \/>\n    pertence hoje mais ao pal&aacute;cio e &aacute; cidade do que &aacute; choupana<br \/>\n    e ao povoado. <\/p>\n<p>O engenho Bujari dava em 23 de junho de 1711 testemunho desta verdade. N&atilde;o<br \/>\n    havia casa de lavrador ou de morador em que das 6 para as 7 horas da tarde<br \/>\n    o prazer n&atilde;o tivesse desabrochado entre risos e folgan&ccedil;a. <\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Cunha, com ser de seu natural de poucos amigos, tinha em suas<br \/>\n    terras muitos lavradores e foreiros. Alguns escolhiam, para se fixar, as terras<br \/>\n    do engenho Bujari, e havia raz&atilde;o para esta preferencia. Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha era r&iacute;spido, exigente e at&eacute; poder-se-h&aacute; dizer<br \/>\n    &#8211; mau. Mas tinha uma grande qualidade, que em certo modo atenuava os seus<br \/>\n    grandes defeitos. Bulir com um morador do seu engenho era o mesmo que bulir<br \/>\n    com ele pr&oacute;prio. Excedia os limites da defesa quando algum deles era<br \/>\n    ofendido. Tomava parte pelo morador em publico, ia pessoalmente aos juizes,<br \/>\n    para que ordenassem o castigo do delinq&uuml;ente, gastava do seu dinheiro<br \/>\n    com o pobre e sua fam&iacute;lia, enfim, deixava o papel de tirano e representava<br \/>\n    ao vivo o de pai ou zeloso protetor. Por esta raz&atilde;o particularmente,<br \/>\n    e porque das magnificas situa&ccedil;&otilde;es que se apontavam em derredor<br \/>\n    de Goiana onde os engenhos ainda n&atilde;o eram numerosos, as melhores lhe<br \/>\n    pertenciam, muitos eram os seus moradores, entre os quais alguns abastados.<br \/>\n    Ao numero dos que o eram menos, pertencia Victorino. <\/p>\n<p>Na hora em que se discutiam, com a gravidade que vimos, os interesses das<br \/>\n    fam&iacute;lias goianistas de primeira representa&ccedil;&atilde;o, Louren&ccedil;o<br \/>\n    descavalgava &aacute; porta de Victorino. <\/p>\n<p>Ai se estava festejando a noite com todo o entusiasmo e calor do estilo.<br \/>\n    As filhas do dono da casa faziam as honras aos hospedes, de que j&aacute;<br \/>\n    havia um bom numero no momento em que Louren&ccedil;o penetrou na salinha.\n  <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o foi entrando, e foram eles logo oferecendo a ele espigas<br \/>\n    de milho verde quebradinhas meia hora antes no ro&ccedil;ado pr&oacute;ximo<br \/>\n    e assadas na fogueira que iluminava o p&aacute;tio e a frente da casa. <\/p>\n<p>Joaquina n&atilde;o apareceu sen&atilde;o mais tarde. Estava na cozinha preparando<br \/>\n    a deliciosa canjica, que &eacute; o primeiro prato das mesas grandes e pequenas<br \/>\n    do norte nessa noite de t&atilde;o formosas e prazenteiras tradi&ccedil;&otilde;es.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o o afamado bolo de S. Jo&atilde;o, que s&oacute; nas mesas ricas<br \/>\n    ou ao menos abastadas costuma aparecer, mas uns bolos de mandioca estavam<br \/>\n    assando no forno, e por terem sido feitos pelas duas filhas de Victorino mereciam<br \/>\n    a honra de ser visitados por elas enquanto n&atilde;o ficavam no tom de apresentar-se.\n  <\/p>\n<p>Entre os hospedes apontavam-se mais de meia d&uacute;zia, que eram afamados<br \/>\n    tocadores de viola e guitarra. Alguns deles temperavam j&aacute; os seus instrumentos<br \/>\n    para dar principio ao samba. <\/p>\n<p>No p&aacute;tio, junto da fogueira, uns meninos descal&ccedil;os, de camisas<br \/>\n    compridas, rodeavam Saturnino, que, de quando em quando, cantarolando e pulando<br \/>\n    de alegria, descarregava um clavinote, em honra do santo folgaz&atilde;o.<br \/>\n    A estes tiros, soltados no terreiro, respondiam outros, tamb&eacute;m de armas<br \/>\n    de fogo, com que habitantes dos vales e da beira dos caminhos davam noticias<br \/>\n    suas. Trocavam assim os vizinhos, atrav&eacute;s das distancias, seus cumprimentos<br \/>\n    e as demonstra&ccedil;&otilde;es do seu inocente prazer. <\/p>\n<p>Aquele que nunca saiu da corte, onde os regozijos p&uacute;blicos se vestem<br \/>\n    de fitas, sedas, bandeiras, arcarias de sarrafos pintados, ilumina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    graciosas, fogos de artificio, apresentando o conjunto vistosas cores, caprichosas<br \/>\n    formas, elegantes perfis, n&atilde;o imagina que sem este aparato deslumbrante,<br \/>\n    e unicamente com a mat&eacute;ria prima que oferece a natureza, possam preparar-se<br \/>\n    deleitosos momentos para os esp&iacute;ritos mais dif&iacute;ceis de contentar.<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; outra por&eacute;m a verdade. Ilumina-se com uma fogueira<br \/>\n    o p&aacute;tio da casa, no qual se v&ecirc; uma laranjeira florida, uma mangueira<br \/>\n    copada, um cajueiro ramalhudo. Enche-se o p&aacute;tio do riso argentino das<br \/>\n    crian&ccedil;as, do assobio dos moleques, dos sons da viola, das saudosissimas<br \/>\n    toadas do matuto cantador, das harmonias melanc&oacute;licas da gaita tocada<br \/>\n    pelo negro do engenho. Tanto basta para que voe o tempo com a rapidez do raio<br \/>\n    e a satisfa&ccedil;&atilde;o das gentes de campo nada tenha que invejar a<br \/>\n    que trazem aos habitantes das cidades as musicas de pancadaria, os fogos artificiais,<br \/>\n    os esplendores agrad&aacute;veis a vista com que celebram suas alegrias. <\/p>\n<p>Meia hora n&atilde;o se tinha ainda passado depois da chegada de Louren&ccedil;o,<br \/>\n    a casa de Victorino, quando nadava com os demais em um mar de indescrit&iacute;vel<br \/>\n    contentamento. Todos os de casa e at&eacute; os de fora j&aacute; tinham visto<br \/>\n    a sombra de suas cabe&ccedil;as ao acender das fogueiras, sinal de que n&atilde;o<br \/>\n    morreriam aquele ano. Achando-se fora de duvida este ponto, n&atilde;o havia<br \/>\n    raz&atilde;o para que a alegria n&atilde;o fosse a primeira sen&atilde;o a<br \/>\n    &uacute;nica express&atilde;o de todos os semblantes. Por isso uns gracejavam,<br \/>\n    outros riam, outros tocavam seus instrumentos, e todos comiam e bebiam no<br \/>\n    seio da plenissima confian&ccedil;a que caracterizava aquelas &eacute;pocas<br \/>\n    como se foram todos membros da mesma fam&iacute;lia. <\/p>\n<p>Marianinha por&eacute;m, no meio do prazer imenso de que cada um tinha o<br \/>\n    seu quinh&atilde;o, deixava-se tomar naturalmente de ligeira sombra de tristeza,<br \/>\n    n&atilde;o obstante dever ser em verdade o seu quinh&atilde;o de prazer muito<br \/>\n    mais avultado do que o de qualquer dos convivas. <\/p>\n<p>N&atilde;o era verdadeiramente uma sombra de tristeza a que anuviava interpoladamente<br \/>\n    o seu rosto iluminado pela suave pureza da juventude. Era, sim, a asa pardacenta<br \/>\n    de receio trai&ccedil;oeiro ou de duvida intima a causa do intermitente eclipse<br \/>\n    daqueles olhos negros e vivos, daquele sorriso franco e lou&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    daquela voz afinada pelas harpas dos sabi&aacute;s e dos curi&oacute;s que<br \/>\n    cantavam ao nascer e ao p&ocirc;r do sol nas ramalhudas pitombeiras do quintal.\n  <\/p>\n<p>Quando seus olhos se encontravam com os de Louren&ccedil;o, a nuvem se adelga&ccedil;ava<br \/>\n    e desvanecia como fumo, e o brilho da face, antes escasso, parecia agora o<br \/>\n    de uma constela&ccedil;&atilde;o. Se o filho de Francisco dirigia a Bernardina<br \/>\n    as mesmas palavras, os mesmos gracejos que tinham feito reacender-se no rosto<br \/>\n    de Marianinha a gra&ccedil;a, a vida interrompida quando n&atilde;o eram outros<br \/>\n    mais languidos e ternos, nova interrup&ccedil;&atilde;o vinha cortar ai a<br \/>\n    ventura recentemente morta e logo renascida. Havia naquele cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mulher o ci&uacute;me antes mesmo do amor; havia o receio de perder a felicidade<br \/>\n    que ali&aacute;s n&atilde;o existia sen&atilde;o no seu desejo, e na promessa<br \/>\n    que lhe fizera Francisco. <\/p>\n<p>Marianinha de feito enganava-se. Toda ela era afetos por Louren&ccedil;o;<br \/>\n    mas este n&atilde;o tinha para ela especiais aten&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Mas, fosse engano, ilus&atilde;o ou infantil confian&ccedil;a, esse amor<br \/>\n    fant&aacute;stico, ideal, imposs&iacute;vel talvez enchia-lhe o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de suav&iacute;ssimos fulgores, a alma de todos os perfumes e c&acirc;nticos<br \/>\n    do para&iacute;so terreal, de que ela tinha uma ligeira noticia por ouvir,<br \/>\n    quando era menina, a historia do princ&iacute;pio do mundo a uma velhota das<br \/>\n    bandas de Nossa-Senhora-do-&oacute;. Quando na manh&atilde; seguinte ela foi<br \/>\n    achar murcho o dente d&rsquo;alho que enterrara na horta ao acender da fogueira,<br \/>\n    o que importava prof&eacute;tico sinal de que Louren&ccedil;o n&atilde;o casaria<br \/>\n    com ela, os olhos se lhe encheram de l&aacute;grimas. Supersticiosa e cr&eacute;dula,<br \/>\n    como &eacute; a mulher em geral e a filha do povo em particular, a pobre menina<br \/>\n    por um triz n&atilde;o deu consigo em terra, t&atilde;o grande foi o golpe<br \/>\n    que atravessou seu cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>N&atilde;o aconteceu j&aacute; o mesmo a Bernardina. Para esta noite de S.Jo&atilde;o<br \/>\n    foi uma grande aurora sem intervalos. Suas aspira&ccedil;&otilde;es sendo<br \/>\n    menos altas, a sorte apressou-se em cerc&aacute;-las de risonhos anuncios.<br \/>\n    Era de feito modesto o objeto delas. Este objeto era Saturnino, o qual, posto<br \/>\n    n&atilde;o sentisse por ela grande inclina&ccedil;&atilde;o, antes se inclinasse<br \/>\n    mais para Marianinha, se sentia inevitavelmente arrastrado pela gentileza<br \/>\n    franca, pelos requebros feiticeiros, pelos ditos engra&ccedil;ados, e especialmente<br \/>\n    pelos agrados da rapariga. <\/p>\n<p>Sempre que Saturnino pensava em sua condi&ccedil;&atilde;o obscura &#8211; a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do cargueiro, do almocreve sem eira nem beira &#8211; n&atilde;o podia ser indiferente<br \/>\n    aos afetos de sua prima, a qual, quando por outra coisa n&atilde;o fosse,<br \/>\n    tinha o direito de aspirar, por seus belos olhos, a um casamento mais vantajoso.<br \/>\n    Bernardina por&eacute;m n&atilde;o encaminhava seus pensamentos para o terreno<br \/>\n    &aacute;rido e escabroso das condi&ccedil;&otilde;es sociais. Tinha amor a<br \/>\n    seu primo, e este amor apagava, no conceito dela, as diferen&ccedil;as pessoais<br \/>\n    e nivelava a sua condi&ccedil;&atilde;o e a de seu primo. O certo &eacute;<br \/>\n    que o alho que ela plantara ao p&eacute; do de sua irm&atilde;, amanheceu<br \/>\n    com o caule de fora e como pendoado; o nome que ouviu publicar no momento<br \/>\n    de se acender a fogueira, principiava pela letra inicial do de Saturnino.<br \/>\n    E para coroar as suas esperan&ccedil;as, achou o gr&atilde;o de arroz que<br \/>\n    ela meteu em um dos tr&ecirc;s peda&ccedil;os em que dividira o bocado de<br \/>\n    feij&atilde;o por ocasi&atilde;o do jantar, n&atilde;o no que tinha escondido<br \/>\n    na soleira da porta do fundo n&atilde;o no do meio, mas no da frente. N&atilde;o<br \/>\n    havia pois que duvidar. S. Jo&atilde;o dizia que ela se casaria, n&atilde;o<br \/>\n    dai a tr&ecirc;s ou a dois anos, mas no pr&oacute;prio ano presente. <\/p>\n<p>Seriam oito horas quando Joaquina come&ccedil;ou a distribuir pelos hospedes,<br \/>\n    em tigelinhas de barro, a canjica saborosa. <\/p>\n<p>Marianinha, esquecida do que lhe acontecera por ocasi&atilde;o de oferecer<br \/>\n    a Louren&ccedil;o a cajuada, adiantou-se para o servir, corada e tremula.<br \/>\n    Deste vez n&atilde;o houve formal recusa como da outra: Louren&ccedil;o recebeu<br \/>\n    a tigela e esvaziou-a em poucos instantes; mas, levantando-se imediatamente,<br \/>\n    pegou do chap&eacute;u, e encaminhando-se para a porta, disse: <\/p>\n<p>Vou-me embora, minha gente. A festa est&aacute; muito boa, mas vem muita<br \/>\n    chuva, e eu tenho ainda de levar minha m&atilde;e do engenho para o Cajueiro.<br \/>\n    Entrei para me recolher da neblina, e ia-me esquecendo da minha obriga&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>&Oacute; xentes! Disseram do lado umas rapariguinhas das vizinhan&ccedil;as<br \/>\n    que tinham chegado minutos antes. J&aacute; vai t&atilde;o cedo? <\/p>\n<p>Que &eacute; isso, Louren&ccedil;o? Perguntou Victorino colando-se em frente<br \/>\n    do rapaz, como quem queria embargar-lhe o passo. Est&aacute;s gracejando,<br \/>\n    ou falas s&eacute;rio? <\/p>\n<p>&#8211; Falo s&eacute;rio, seu Victorino. Vou-me embora. <\/p>\n<p>&#8211; Ora, deixa-te disso. Hoje &eacute; noite de S. Jo&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; Por isso mesmo. Minha m&atilde;e est&aacute; esperando por mim, e n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; bonito que eu me deixe ficar aqui a divertir-me quando ela est&aacute;<br \/>\n    com os olhos no caminho para me ver chegar. E Francisco ainda n&atilde;o voltou<br \/>\n    da viagem a cidade? <\/p>\n<p>At&eacute; eu sair para a vila, ela n&atilde;o tinha chegado. Mas prometeu<br \/>\n    que havia de vir comer conosco milho assado hoje de noite. <\/p>\n<p>Pois ent&atilde;o, se tens esta certeza, para que semelhante pressa? Assim<br \/>\n    que ele chegar, vir&aacute; logo at&eacute; c&aacute;. <\/p>\n<p>&#8211; Ele n&atilde;o sabe que eu estou aqui. <\/p>\n<p>&#8211; A comadre lhe h&aacute; de dizer logo, e ele h&aacute; de vir. Fica, rapaz.<br \/>\n    Precisamos de ti para cantares. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o posso, seu Victorino. <\/p>\n<p>As filhas do almocreve, compreendendo o perigo em que se achavam, de perder<br \/>\n    t&atilde;o boa perna para a folgan&ccedil;a, como era Louren&ccedil;o, espontaneamente<br \/>\n    uniram seus pedidos ao do pai. <\/p>\n<p>&#8211; Fique, Louren&ccedil;o, fique, disse Bernardina. <\/p>\n<p>&#8211; Deixe-se de escusas, acrescentou Marianinha timidamente. <\/p>\n<p>Estas e outras instancias e interven&ccedil;&otilde;es determinaram afinal<br \/>\n    o rapaz a mudar de resolu&ccedil;&atilde;o, e a satisfazer aos rogos gerais.\n  <\/p>\n<p>Tratou-se ent&atilde;o de principiar logo o samba. Esta providencia era aconselhadas<br \/>\n    pelo interesse comum. Era o meio de prender os hospedes a casa. Al&eacute;m<br \/>\n    disso n&atilde;o faltava nada para come&ccedil;ar a dan&ccedil;a. Uma das<br \/>\n    primeiras violas do lugar &#8211; o Chico Pedro; uma das primeiras vozes &#8211; Louren&ccedil;o;<br \/>\n    os melhores dan&ccedil;adores &#8211; Nicolau e Roberto, estavam todos ali. N&atilde;o<br \/>\n    faltava aguardente, nem milho verde, nem bolos. As raparigas mostravam-se<br \/>\n    bem dispostas, e algumas at&eacute; impacientes por verem formar-se a roda.<br \/>\n    A fogueira dava estalidos festivos. O tempo prometia limpar. O concurso dos<br \/>\n    convidados engrossava cada vez mais. Enfim, em menos de um quarto de hora,<br \/>\n    bateu o pinho, e rompeu o samba de gosto. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o, tendo tomado uma pouca da cana, temperou a guela e soltou<br \/>\n    sua grande voz ao p&eacute; do violeiro, enquanto Bernardina, Mariquinha,<br \/>\n    as filhas da Bernarda, os sobrinhos do velho Cosme, o Manoel Jo&atilde;o,<br \/>\n    o Jacinto da Luzia e muitos outros caiam na roda por sua vez, tripudiando,<br \/>\n    fazendo recortes e nega&ccedil;as com o corpo, atirando embigadas na forma<br \/>\n    do imemorial estilo. <\/p>\n<p>O canto de Louren&ccedil;o era mon&oacute;tono como o dos sambistas em geral,<br \/>\n    mas a letra variava e tinha as gra&ccedil;as naturais das composi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do povo. <\/p>\n<p>Eis algumas das quadras com que o rapaz gratificou a companhia. Muitas delas<br \/>\n    ainda hoje em dia t&ecirc;m extensa voga entre os matutos de Pernambuco, aos<br \/>\n    quais as ouvi mais de uma vez, jornadeando, entre fins de novembro e princ&iacute;pios<br \/>\n    de dezembro, do Recife para Goiana nos meus tempos escolares. Elas pertencem<br \/>\n    exclusivamente ao povo, e eu aqui as dou com a exatid&atilde;o com que as<br \/>\n    recebi da grande musa que as produziu. <\/p>\n<p>Minha mulata, eu tenho <\/p>\n<p>Vontade de te servir; <\/p>\n<p>De dia falta-me o tempo, <\/p>\n<p>De noite quero dormir. <\/p>\n<p>Vou-me embora, vou-me embora <\/p>\n<p>Para minha terra vou; <\/p>\n<p>Se eu aqui n&atilde;o sou querido, <\/p>\n<p>L&aacute; na minha terra sou. <\/p>\n<p>Quando eu me for n&atilde;o choreis, <\/p>\n<p>Que s&atilde;o penas que me dais; <\/p>\n<p>Deixai o chorar pr&aacute; mim, <\/p>\n<p>Que eu me vou, n&atilde;o venho mais. <\/p>\n<p>Manjeric&atilde;o verde-escuro <\/p>\n<p>Tem a folha miudinha; <\/p>\n<p>S&oacute; em te ver eu te amo: <\/p>\n<p>Que fora se fosses minha? <\/p>\n<p>Passei pela tua porta, <\/p>\n<p>Pus a m&atilde;o na fechadura; <\/p>\n<p>Eu falei, tu n&atilde;o falaste, <\/p>\n<p>Cora&ccedil;&atilde;o de pedra dura. <\/p>\n<p>Meu passarinho t&atilde;o manso, <\/p>\n<p>Das minhas m&atilde;os escapou; <\/p>\n<p>Para mais penas me dar, <\/p>\n<p>Penas nas m&atilde;os me deixou. <\/p>\n<p>&#8211; Molha a guela, Louren&ccedil;o, molha a guela com a patricia &#8211; disse neste<br \/>\n    ponto ao cantador o Ignacio Macambira. A patricia &eacute; o vinho do pobre<br \/>\n    &#8211; acrescentou Chico &#8211; rosado. <\/p>\n<p>E Victorino, despejando aguardente na x&iacute;cara, que n&atilde;o estava<br \/>\n    quieta um s&oacute; instante em cima da banquinha do canto da sala, apresentou-a<br \/>\n    a Louren&ccedil;o, que dela tomou um trago forte. <\/p>\n<p>Mas como se sentia cansado, poucos versos cantou ainda, e concluiu pelo seguinte:\n  <\/p>\n<p>As conviv&ecirc;ncias do mundo <\/p>\n<p>S&atilde;o amparo da pobreza; <\/p>\n<p>Enquanto o pobre convive, <\/p>\n<p>N&atilde;o se lembra da riqueza. <\/p>\n<p>&#8211; Aqui est&aacute; o lugar para quem quiser, minha gente, disse ele, sentando-se.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Deste t&atilde;o cedo parte de fraco? <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; enquanto tomo f&ocirc;lego. <\/p>\n<p>&#8211; Quem vem? Quem vem? perguntou o violeiro. Quem vem, venha logo, que o fogo<br \/>\n    est&aacute; esfriando. <\/p>\n<p>&#8211; Vai tu, Bernardina &#8211; disse Victorino. <\/p>\n<p>&#8211; Muito bem, Victorino. <\/p>\n<p>&#8211; Logo, logo, Bernardina. <\/p>\n<p>A rapariga foi ocupar o lugar deixado por Louren&ccedil;o.<\/p>\n<h2><a name=\"14\">Cap&iacute;tulo XIV<\/a><\/h2>\n<p>A voz de Bernardina era volumosa e l&iacute;mpida. As mulheres invejavam<br \/>\n    a filha mais velha de foreiro este grande dote que atraia os homens a ela<br \/>\n    e lhe dava o prestigio e o renome de uma sereia. N&atilde;o sendo t&atilde;o<br \/>\n    bonita, como a irm&atilde;, via entretanto em roda como de se um sem numero<br \/>\n    de entusiastas e adoradores sempre que exercitava o seu divino privilegio.<br \/>\n    Por isso, quando rapariga se encaminhou para o lugar que Louren&ccedil;o deixara<br \/>\n    desocupado, surdo rumor, indicio da curiosidade, se fez ouvir em todos os<br \/>\n    cantos do casebre. Seguiu-se-lhe por&eacute;m logo profundo silencio. <\/p>\n<p>Eis os versos que a matutinha cantou por entre aplausos repetidos e fren&eacute;ticos:\n  <\/p>\n<p>Benzinho, quando te fores, <\/p>\n<p>Escreve-me do caminho; <\/p>\n<p>Se n&atilde;o achares papel, <\/p>\n<p>Nas asas de um passarinho. <\/p>\n<p>Assim, assim, Bernardina &#8211; disseram tr&ecirc;s ou quatro convivas, enfeiti&ccedil;ados<br \/>\n    do desembara&ccedil;o, j&aacute; conhecido, da filha do dono da casa. <\/p>\n<p>A rapariga, requebrando-se senhorilmente, prosseguiu relanceando os olhos<br \/>\n    para o namorado, que a esse tempo, j&aacute; tinha desamparado o terreiro<br \/>\n    e encostado a um canto o clavinote: <\/p>\n<p>Da boca faze o tinteiro, <\/p>\n<p>Da l&iacute;ngua pena aparada, <\/p>\n<p>Dos dentes letra mi&uacute;da, <\/p>\n<p>Dos olhos carta fechada. <\/p>\n<p>Oh, que rapariga candeia! exclamou o Ignacio Macambira, sem poder conter<br \/>\n    o entusiasmo, acrescentado pela cana. <\/p>\n<p>Bernardina prosseguiu: <\/p>\n<p>Manjeric&atilde;o verde cheira, <\/p>\n<p>Ele seco cheira mais; <\/p>\n<p>Mulher que se fia em homem <\/p>\n<p>Anda sempre dando ais. <\/p>\n<p>Eu de c&aacute; e tu de l&aacute;, <\/p>\n<p>Fica um rio de permeio; <\/p>\n<p>Tu de l&aacute; d&aacute;s um suspiro, <\/p>\n<p>Eu de c&aacute; suspiro e meio. <\/p>\n<p>Meu cora&ccedil;&atilde;o &eacute; de vidro, <\/p>\n<p>Feito de mil trava&ccedil;&otilde;es: <\/p>\n<p>Com qualquer coisa se quebra, <\/p>\n<p>N&atilde;o atura ingratid&otilde;es. <\/p>\n<p>Longo tempo levou Bernardina a cantar, ora variando, ora repetindo as letras<br \/>\n    ao paladar dos circunstantes. <\/p>\n<p>No mais aceso do samba, quando n&atilde;o s&oacute; se ouviam os sons das<br \/>\n    violas, mas tamb&eacute;m os &aacute;speros rechinar das costas da faca sobre<br \/>\n    a botija segundo praticam em ajuntamentos tais; quando os aplausos se manifestavam<br \/>\n    por meio de gritos e gargalhadas estridentes; quando n&atilde;o se dan&ccedil;ava<br \/>\n    s&oacute; o coc&ocirc; e o baiano, mas uma mistura de todas as dan&ccedil;as<br \/>\n    populares com o acr&eacute;scimo da fantasia de cada um, escaldada pelos vapores<br \/>\n    espirituosos; quando enfim era tudo algazarra, derri&ccedil;os pouco decentes,<br \/>\n    demonstra&ccedil;&otilde;es menos dignas, apareceu um novo conviva no meio<br \/>\n    da multid&atilde;o. Era Francisco, o qual, depois da entrega das cartas no<br \/>\n    engenho, viera em busca do filho, pelo motivo que adiante saberemos. <\/p>\n<p>N&atilde;o podia o matuto chegar mais oportunamente &agrave;quele ponto.<br \/>\n    No momento exatamente em que ele se fez ver por entre a matutada que enchia<br \/>\n    a salinha, sentiu Louren&ccedil;o bater-lhe no ombro pesada m&atilde;o, que<br \/>\n    o obrigou a voltar-se, a fim de saber quem era que lhe fazia t&atilde;o estranho<br \/>\n    cumprimento. O rapaz reconheceu o Tunda-Cumbe. <\/p>\n<p>Em poucas palavras poremos o leitor a par deste sujeito, que t&atilde;o importante<br \/>\n    papel desempenhou na Guerra-dos-mascates. E para que o retrato venha com o<br \/>\n    cunho de severa autenticidade, preencheremos a nossa promessa trasladando<br \/>\n    aqui as pr&oacute;prias palavras em que um cronista pernambucano o descreveu<br \/>\n    para conhecimento da posteridade. &lt; Este sujeito era um homem r&uacute;stico<br \/>\n    e grosseiro, de idade j&aacute; maior, que do reino de Portugal tinha h&aacute;<br \/>\n    anos vindo para esta terra, trazendo da sua, por divisa, uma grande cutilada<br \/>\n    no rosto, ou para que a se n&atilde;o desconhecesse, ou para que por ela fosse<br \/>\n    conhecido; mas diziam que por usar do oficio de parteira, e para disfar&ccedil;&aacute;-la<br \/>\n    de algum modo, conservava os seus bigodes, ou mustachos, em tempo que ningu&eacute;m<br \/>\n    fazia caso deles. Buscando meios de poder acomodar-se, fez em Goiana assento<br \/>\n    de feitor, por seu sal&aacute;rio em casa do sargento-m&oacute;r Matias Vidal,<br \/>\n    a fim de no servi&ccedil;o dirigir os negros; mas estes, conspirando-se contra<br \/>\n    ele em certo dia, lhe deram uma pista de pancadas que na eti&oacute;pica l&iacute;ngua<br \/>\n    chamam Tunda, e o lugar onde lhe deram chama-se Cumbe. Como se fez o caso<br \/>\n    publico, por antonosia lhe chamavam o Tunda-Cumbe, e sendo por este nome de<br \/>\n    todos conhecido, como quem faz do sambenito gala, quis do modo como era apelidado,<br \/>\n    apelidar-se. Da&iacute; se foi para a freguesia da V&aacute;rzea, e nela esteve<br \/>\n    com o mesmo exerc&iacute;cio de feitor do Capit&atilde;o Louren&ccedil;o do<br \/>\n    Cunha Moreno, e depois tornou para Goiana, e se fez almocreve de peixe, indo,<br \/>\n    com uma besta, a busc&aacute;-lo pelas praias, e pelas portas dos moradores<br \/>\n    a vend&ecirc;-lo: nesta ordem de vida se manteve at&eacute; que sucedeu o<br \/>\n    levante do Recife, em que tomou parte, que veremos. <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, menino cantador, disse o Tunda-Cumbe a Louren&ccedil;o, com<br \/>\n    entono e arrog&acirc;ncia mais de quem agredia, do que perguntava &#8211; ser&aacute;<br \/>\n    certo que voc&ecirc; est&aacute; apaixonado pela Bernardina? Pois olhe, quero<br \/>\n    preveni-lo de uma coisa, para que depois n&atilde;o v&aacute; voc&ecirc; chamar-se<br \/>\n    ao engano. Sabe muito bem que todas as semanas, da Sexta para o s&aacute;bado,<br \/>\n    ando eu por estas bandas a vender o meu peixe. <\/p>\n<p>&#8211; Sei, disse Louren&ccedil;o, sem se alterar, com os olhos postos, como quem<br \/>\n    nisso tinha prop&oacute;sito, na funda cicatriz do Tunda-Cumbe n&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o oculta pelo espesso bigode, que se n&atilde;o pudesse deixar ver.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Pois fique sabendo mais que aquilo &eacute; tainha que eu tenho contado<br \/>\n    h&aacute; de cair, mais dia, dentro do meu ca&ccedil;u&aacute;. <\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; refere-se a Bernardina? <\/p>\n<p>&#8211; A ela mesma &eacute; que me estou referindo, sim, senhor. <\/p>\n<p>Pois eu tamb&eacute;m quero dizer-lhe uma coisa. Eu com ela nada tenho. Se<br \/>\n    canto e gracejo com a rapariga, &eacute; porque tenho amizade na casa. Nela<br \/>\n    n&atilde;o tenho inten&ccedil;&atilde;o de esp&eacute;cie nenhuma, porque,<br \/>\n    quando a gente n&atilde;o sente inclina&ccedil;&atilde;o para uma mulher,<br \/>\n    por muito que ela se derrengue para a gente, n&atilde;o passa tudo isso de<br \/>\n    divertimento sem maldade. Mas como diz voc&ecirc; que j&aacute; conta com<br \/>\n    aquela tainha no seu ca&ccedil;u&aacute;, a coisa muda de figura. <\/p>\n<p>&#8211; Menino &#8211; tornou o Tunda-Cumbe, voc&ecirc; para Ter comigo esta linguagem,<br \/>\n    preciso fora primeiro que ou n&atilde;o estivesse no seu ju&iacute;zo, ou<br \/>\n    n&atilde;o me conhecesse devidamente. Saber&aacute; acaso com quem &eacute;<br \/>\n    que est&aacute; falando? <\/p>\n<p>&#8211; Sei muito bem que estou falando com seu Manoel Gon&ccedil;alves Tunda-Cumbe.\n  <\/p>\n<p>Pois ent&atilde;o veja d&rsquo;ora em diante como anda. Depois n&atilde;o<br \/>\n    v&aacute; dizendo que Santo Antonio o enganou. <\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; &eacute; que parece estar enganado comigo, retorquiu-lhe Louren&ccedil;o,<br \/>\n    sentindo faiscar-lhe j&aacute; os olhos. Eu h&aacute; muito tempo n&atilde;o<br \/>\n    fa&ccedil;o uma das minhas, mas, em ocasi&atilde;o se oferecendo, n&atilde;o<br \/>\n    lhe hei de torcer a cara, e bem pode acontecer quem para ficar voc&ecirc;<br \/>\n    melhor assinalado, lhe v&aacute; eu deixar no queixo direito o golpe que lhe<br \/>\n    falta para fazer parelha com o que lhe plantaram no outro queixo, quando voc&ecirc;<br \/>\n    tinha o oficio de partejar na santa terrinha. <\/p>\n<p>A viol&ecirc;ncia desta repres&aacute;lia deixou perplexo, e como espantado<br \/>\n    por momentos o Tunda-Cumbe, pouco habituado, n&atilde;o obstante a tunda sabida,<br \/>\n    a ouvir cara a cara t&atilde;o pesadas reprimendas. <\/p>\n<p>N&atilde;o conhecia ele o Louren&ccedil;o sen&atilde;o de o ver uma vez por<br \/>\n    outra almocrevando, e pensou que com a simples amea&ccedil;a, sendo t&atilde;o<br \/>\n    conhecido por seus feitos que, em abono da verdade, davam para um in-f&oacute;lio,<br \/>\n    levaria logo o terror ao animo do rapaz. o seu desengano foi formal, ou como<br \/>\n    quem procurava recursos e for&ccedil;a dentro em se mesmo, Tunda-Cumbe esteve<br \/>\n    um instante sem proferir palavra, dizendo por&eacute;m mil coisas pelos olhos<br \/>\n    que n&atilde;o arredou de sobre a cara de Louren&ccedil;o. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o embatuque por t&atilde;o pouco, acrescentou este como em acrescentamento<br \/>\n    do pouco caso em que revelara ter o seu agressor. O que voc&ecirc; disse est&aacute;<br \/>\n    dito; n&atilde;o queira agora tornar atr&aacute;s, que voc&ecirc; seria mais<br \/>\n    desprez&iacute;vel do que a besta em que costuma vender o seu peixe velho<br \/>\n    e mo&iacute;do, se recuasse depois desta avan&ccedil;ada. Agora, de que eu<br \/>\n    sou capaz de fazer o que prometi, voc&ecirc; a seu tempo h&aacute; de ter<br \/>\n    a prova. E para que fique logo conhecendo que eu n&atilde;o sou de caixas<br \/>\n    encoiradas e que aonde vou n&atilde;o mando, veja l&aacute; como me ponho<br \/>\n    j&aacute; a derreter com a filha de seu Victorino, mesmo aqui nos seus bigodes.\n  <\/p>\n<p>Todo este dialogo, posto que faiscante e eri&ccedil;ado de perigos, n&atilde;o<br \/>\n    foi pressentido por nenhum dos circunstantes, a n&atilde;o ser por Francisco.<br \/>\n    Este mesmo o n&atilde;o teria testemunhado se n&atilde;o fora a circunst&acirc;ncia<br \/>\n    especial que diremos. Ao chegar, talvez por fugir de ser convidado a cantar,<br \/>\n    se colocara por traz de umas esteiras, que tinham sido postas de p&eacute;<br \/>\n    em um dos cantos do casebre. Foi da&iacute; que tudo viu e ouviu sem ser visto,<br \/>\n    oculto pela concorr&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o, se bem o disse, melhor fez. Logo que se lhe ofereceu ocasi&atilde;o,<br \/>\n    caiu no meio da roda. Fez o seu sapateado, deu meia d&uacute;zia de castanholas,<br \/>\n    atirou uma embigada na rapariga que lhe ficava mais perto, e foi colocar-se<br \/>\n    ao p&eacute; do violeiro, fronteiro &agrave; Bernardina, que ainda estava<br \/>\n    deliciando os sambistas com suas graciosas vozes. <\/p>\n<p>Quando Bernardina conheceu que Louren&ccedil;o tinha ido colocar-se ali para<br \/>\n    alternar com ela as cantigas, empalideceu, mas sorriu. O desafio lhe era agrad&aacute;vel,<br \/>\n    posto que fosse mais forte do que ela o seu contendor. De seu natural vaidosa<br \/>\n    e leviana, nunca recusou demonstra&ccedil;&otilde;es de apre&ccedil;o a Louren&ccedil;o,<br \/>\n    embora tivesse o cora&ccedil;&atilde;o quase todo ocupado pela imagem de Saturnino.\n  <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o cantou este verso: <\/p>\n<p>Boca de cravo da &Iacute;ndia, <\/p>\n<p>Dentes de marfim dourado, <\/p>\n<p>Quando meus olhos te viram, <\/p>\n<p>Meu corpo fez um pecado. <\/p>\n<p>Bernardina respondeu com est&rsquo;outro: <\/p>\n<p>Voc&ecirc; vai pr&aacute; sua terra, <\/p>\n<p>Bem pudera me levar; <\/p>\n<p>Pr&aacute; saber que eu quero ir <\/p>\n<p>N&atilde;o carece perguntar. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o retorquiu: <\/p>\n<p>Dei um n&oacute; na fita verde, <\/p>\n<p>Dei-lhe a fita de presente; <\/p>\n<p>Voc&ecirc; fala, e n&atilde;o repara <\/p>\n<p>Que estamos diante de gente. <\/p>\n<p>Eis a resposta da rapariga: <\/p>\n<p>Amores, quando te fores, <\/p>\n<p>Antes de ir tira-me a vida, <\/p>\n<p>Que eu n&atilde;o tenho cora&ccedil;&atilde;o <\/p>\n<p>De ver a tua partida. <\/p>\n<p>O desafio foi neste ponto interrompido por um rumor inesperado, id&ecirc;ntico<br \/>\n    ao que produz o arranco de on&ccedil;a por entre a folhagem. N&atilde;o uma<br \/>\n    on&ccedil;a, mas o Tunda-Cumbe tinha atravessado de um salto, causa do rumor,<br \/>\n    a primeira ordem de pessoas que formavam o circulo, e achava-se ao p&eacute;<br \/>\n    de Louren&ccedil;o, com a catana levantada contra o rapaz. Mas ainda bem n&atilde;o<br \/>\n    erguia o bra&ccedil;o armado, quando um homem, sa&iacute;do, como ele, violentamente<br \/>\n    dentre os circunstantes, se interpunha entre o agressor e o agredido, tendo<br \/>\n    na m&atilde;o fora da bainha a faca que trazia ao c&oacute;s. O homem n&atilde;o<br \/>\n    era outro sen&atilde;o Francisco. <\/p>\n<p>Cessaram imediatamente as vozes dos cantores e instrumentos, e todas as vistas<br \/>\n    e aten&ccedil;&otilde;es concentraram-se no ponto do conflito.<\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Que a&ccedil;&atilde;o &eacute; esta, seu Tunda-Cumbe? perguntou Francisco<br \/>\n    a Manoel Gon&ccedil;alves. O que vosmec&ecirc; fizer a meu filho, ter&aacute;<br \/>\n    feito a mim mesmo. O que eu quero &eacute; que me digam o motivo deste barulho,<br \/>\n    disse Victorino apresentando-se. <\/p>\n<p>&Eacute; que este menino ainda n&atilde;o achou quem lhe desse o ensino de<br \/>\n    que precisa, respondeu Manoel Gon&ccedil;alves. <\/p>\n<p>&#8211; O que eu quero saber &eacute; o motivo do barulho, repetiu Victorino. <\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; o saber&aacute; quando for tempo. Palavra de Manoel Gon&ccedil;alves<br \/>\n    Tunda-Cumbe.<\/p>\n<p>Louren&ccedil;o, que at&eacute; ent&atilde;o guardara sil&ecirc;ncio, rugiu<br \/>\n    a meia voz: <\/p>\n<p>Eu se n&atilde;o me for embora daqui, fa&ccedil;o as todinhas e acabo ainda<br \/>\n    com muito sol. O sangue est&aacute; a ferver-me. <\/p>\n<p>Entretanto, o Tunda-Cumbe metera a catana na bainha, e Francisco tinha feito<br \/>\n    o mesmo com a faca. <\/p>\n<p>Victorino virou-se para este ultimo, enquanto aquele se afastava dando a<br \/>\n    um e a outro a raz&atilde;o do seu procedimento; e a meia voz perguntou: <\/p>\n<p>&#8211; Viu voc&ecirc; o principio da briga, compadre? Se viu, conte-me a historia<br \/>\n    como foi. <\/p>\n<p>Para dizer a verdade, eu n&atilde;o sei bem a causa da contenda. Mas parece-me<br \/>\n    que a Bernardina anda no meio. Tenha paci&ecirc;ncia, compadre, e perdoe o<br \/>\n    que lhe vou dizer. &Eacute; preciso acabar com estes sambas em sua casa. Quem<br \/>\n    tem filhas, n&atilde;o abre as suas portas assim a Deus e ao mundo. <\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o convidei o Tunda-Cumbe para o meu divertimento. Se ele entrou<br \/>\n    aqui foi confiado em ser nosso fregu&ecirc;s de peixe. <\/p>\n<p>&#8211; Pois abra os olhos, que ele disse que a Bernardina &eacute; tainha que<br \/>\n    ainda h&aacute; de cair no seu ca&ccedil;u&aacute;. E adeus, adeus. Vamos,<br \/>\n    Louren&ccedil;o. <\/p>\n<p>&#8211; Pois ele disse isto, meu compadre? Ele n&atilde;o conhece Victorino. <\/p>\n<p>Quando Francisco chegou com o filho &agrave; porta do casebre, achou a&iacute;<br \/>\n    da banda de fora o Victorino, o Tunda-Cumbe e um pardo de Goiana que tinha<br \/>\n    o oficio de sapateiro. A este &uacute;ltimo dizia o Tunda-Cumbe as seguintes<br \/>\n    palavras: <\/p>\n<p>&#8211; Diga a seu Antonio Coelho que fico entendido do recado, que me mandou por<br \/>\n    voc&ecirc; e daqui a pouco l&aacute; estarei. <\/p>\n<p>O pardo, por nome Lauriano, saiu, e o Victorino dirigiu-se nestes termos<br \/>\n    a Manoel Gon&ccedil;alves: <\/p>\n<p>Seu Tunda-Cumbe , eu quero dizer-lhe os meus sentimentos. A Bernardina &eacute;<br \/>\n    solteira, mas j&aacute; tem noivo. Por isso escusa andar vosmec&ecirc; a fazer<br \/>\n    desordens na casa alheia por causa dela. <\/p>\n<p>&#8211; Eu bem sei donde partem estas historias e por saber donde elas partem &eacute;<br \/>\n    que as suas palavras me entram por um ouvido e me saem pelo outro. Se a Bernardina<br \/>\n    tiver de ser minha, n&atilde;o h&aacute; de ser nem voc&ecirc; nem seus parceiros<br \/>\n    que tenham for&ccedil;as para o impedir. N&atilde;o seja tolo, Victorino.\n  <\/p>\n<p>Dizendo estas palavras, Manoel Gon&ccedil;alves ganhou a besta de um salto<br \/>\n    e tomou a correr, a caminho de Goiana. <\/p>\n<p>&#8211; Que lhe disse eu, compadre? Observou Francisco, que chegara ao lado de<br \/>\n    fora ainda a tempo de ouvir as &uacute;ltimas palavras do Tunda-Cumbe. Tome<br \/>\n    suas cautelas. Aquele malvado &eacute; trai&ccedil;oeiro e est&aacute; avezado<br \/>\n    a tirar mo&ccedil;as solteiras da casa de seus pais. <\/p>\n<p>&#8211; Ele poder&aacute; tirar alguma das minhas filhas; mas para fazer isso ser&aacute;<br \/>\n    preciso que primeiro me tenha morto e bem morto. Vou acabar j&aacute; com<br \/>\n    esta festa. <\/p>\n<p>Fosse, por&eacute;m, que os esp&iacute;ritos estavam muito exaltados para<br \/>\n    atenderem &agrave;s prudentes considera&ccedil;&otilde;es do foreiro, fosse<br \/>\n    que Victorino n&atilde;o quis desagradar &agrave;queles que lhe honravam a<br \/>\n    casa com sua presen&ccedil;a, o samba ferveu at&eacute; o amanhecer do dia,<br \/>\n    aos estouros intermitentes do bacamarte de Saturnino, e aos gritos de &#8211; Viva<br \/>\n    S. Jo&atilde;o &#8211; soltados pelos diferentes sambistas, alguns apenas alegres,<br \/>\n    outros inteiramente entregues ao esp&iacute;rito vertiginoso da cana.<\/p>\n<h2><a name=\"15\">Cap&iacute;tulo XV<\/a><\/h2>\n<p>Que raz&atilde;o teve Francisco para, apenas chegado da capital, ir em demanda<br \/>\n    do filho? Seria acaso para evitar que o rapaz se deixasse envolver em algum<br \/>\n    dist&uacute;rbio como aconteceu? Seria para faz&ecirc;-lo sair da desordem,<br \/>\n    segundo fez, no caso de j&aacute; o achar colhido nas malhas dela? <\/p>\n<p>A raz&atilde;o foi outra. N&atilde;o temia Francisco os perigos do samba.<br \/>\n    Desde pequeno sentia paix&atilde;o por este divertimento, de que fora ardente<br \/>\n    cultor na mocidade. Grande parte dos versos com que Louren&ccedil;o deliciara<br \/>\n    os festeiros da casa de Victorino, ele os aprendera de Francisco, insigne<br \/>\n    cantador e repentista. A fama deste ultimo era tal que muitos dos matutos<br \/>\n    daquelas vizinhan&ccedil;as andavam espreitando a ocasi&atilde;o de ir Francisco<br \/>\n    ao Recife para fazerem com ele as suas viagens. &Eacute; f&aacute;cil a explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deste procedimento. <\/p>\n<p>Em sua companhia, as longas noites que tinham de curtir na travessa de muitas<br \/>\n    l&eacute;guas de solid&otilde;es quase inteiramente inabitadas, eram suavizados<br \/>\n    pelos formosos cantares do matuto. Que soberbos ser&otilde;es n&atilde;o tiveram<br \/>\n    eles, ao luar, as redes armadas debaixo das arvores, os cavalos pastando peiados<br \/>\n    em frente a pousada, a viola quebrando com seus sons deleitosos a mudez da<br \/>\n    noite, e Francisco enchendo o deserto com as inspira&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    sua musa soberana e as harmonias de sua voz rica de ternura e de saudade!\n  <\/p>\n<p>Raz&atilde;o muito diferente teve o almocreve para procurar Louren&ccedil;o.\n  <\/p>\n<p>As noticias da guerra, trazidas por ele da capital, eram de suma gravidade.<br \/>\n    Ele pr&oacute;prio tinha ouvido em Olinda contar-se muito caso triste. A&iacute;<br \/>\n    soube o que projetavam os mascates e os nobres. Com seus pr&oacute;prios olhos<br \/>\n    testemunhou os aprestos para a guerra. Viu de perto a chama imensa que come&ccedil;ara<br \/>\n    a incendiar a prov&iacute;ncia. Jo&atilde;o da Cunha, lidas as cartas, fez-lhe<br \/>\n    varias indaga&ccedil;&otilde;es, e com ele os amigos presentes, sobre o quetinha<br \/>\n    visto e sabia. Combinadas as informa&ccedil;&otilde;es pessoais do morador<br \/>\n    com as noticias enviadas por Amador da Cunha, por Andr&eacute;, e por outros,<br \/>\n    for&ccedil;ado lhe foi reconhecer que, atirado o facho da revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos quatro ventos, dentro em pouco prenderia fogo a vila de Goiana, para onde<br \/>\n    emiss&aacute;rios particulares dos portugueses tinham sido adrede mandados,<br \/>\n    e na qual contavam eles parciais poderosos de meios e valorosos de animo.\n  <\/p>\n<p>Entre estes apontavam-se Antonio Coelho, sujeito de grandes esp&iacute;ritos;<br \/>\n    Jeronimo Paes dinheiroso marchante, n&atilde;o menos ardente do que o primeiro;<br \/>\n    Belchior Ferreira, r&aacute;bula que, posto fosse filho da terra, bem como<br \/>\n    o meirinho Rom&atilde;o da Silva que dele recebia diariamente li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    incendiarias, destinadas a decidir a gentalha do lugar a tomar o partido dos<br \/>\n    mercadores, fazia grandes entradas nos esp&iacute;ritos por falar em nome<br \/>\n    da liberdade do povo; Manoel Gaudencio, alfaiate pern&oacute;stico, patranheiro<br \/>\n    e ambicioso, que aspirava a melhorar de oficio com a descida dos nobres e<br \/>\n    a subida dos negociantes. <\/p>\n<p>O principio, ou antes os interesses contr&aacute;rios aos que estes sujeitos,<br \/>\n    e outros de id&ecirc;nticos sentimentos e intuitos, sustentavam eram representados<br \/>\n    pelos cavalheiros que j&aacute; apontamos, isto &eacute;, pelos senhores-de-engenho<br \/>\n    e pelas primeiras autoridades, assim civis, como militares da localidade.\n  <\/p>\n<p>S&oacute; uma vista curta n&atilde;o ver&aacute; na guerra dos mascates,<br \/>\n    antes uma luta travada por dois grandes princ&iacute;pios, do que uma revolta<br \/>\n    filha de preconceitos rid&iacute;culos e costumes atrasados. Certo concorreram<br \/>\n    n&atilde;o pouco para essa luta o costume e o capricho antigo, inflex&iacute;veis<br \/>\n    ambos; mas o seu papel nessa grande representa&ccedil;&atilde;o foi mais secund&aacute;rio<br \/>\n    do que principal. A parte essencial e verdadeiramente dram&aacute;tica da<br \/>\n    a&ccedil;&atilde;o, essa pertencia a dois grandes interesses, assim das sociedades<br \/>\n    modernas, como das antigas &#8211; ao comercio e a agricultura, princ&iacute;pios<br \/>\n    que, quando acordes em seu desenvolvimento, trazem a properidade e riqueza<br \/>\n    dos povos, e, quando divergentes, o seu atraso sen&atilde;o o seu aniquilamento.\n  <\/p>\n<p>As cartas de que Francisco foi portador, em substancia rezavam: <\/p>\n<p>Que a guerra, declarada pelos forasteiros contra os pernambucanos e o governo<br \/>\n    legal, e j&aacute; em principio de execu&ccedil;&atilde;o, prometia ser de<br \/>\n    vida e morte, atentos os meios de que dispunham aqueles, e o empenho em que<br \/>\n    se mostravam de aniquilar estes; <\/p>\n<p>Que esses meios, eram imensos e consistiam n&atilde;o s&oacute; em viveres<br \/>\n    acumulados durante os seis meses &uacute;ltimos nos armaz&eacute;ns do Recife,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m em grossas quantias com que eles habilitavam os seus confidentes<br \/>\n    nas localidades mais importantes a propagar e alentar a premeditada hostilidade;\n  <\/p>\n<p>Que esta hostilidade era tanto mais digna de temer-se quanto a patrocinavam,<br \/>\n    dando toda a for&ccedil;a que podiam aos negociantes do Recife, o governador<br \/>\n    Caldas, da Baia, onde estava, e at&eacute; alguns fidalgos portugueses, por<br \/>\n    exemplo d. Francisco de Souza e seu filho d. Jo&atilde;o de Souza, que se<br \/>\n    achavam ent&atilde;o no sul da prov&iacute;ncia; <\/p>\n<p>&Agrave; influencia destes dois fidalgos j&aacute; deviam os mascates a forte<br \/>\n    coopera&ccedil;&atilde;o do coronel dos &iacute;ndios do Cabo, d. Sebasti&atilde;o<br \/>\n    Pinheiro Camar&atilde;o, parente do grande Camar&atilde;o, que tanto brilhara<br \/>\n    na guerra holandesa. D. Sebasti&atilde;o Pinheiro deixara seduzir-se por eles,<br \/>\n    bem como outros importantes moradores da freguesia do Cabo; <\/p>\n<p>Que tinha Amador da Cunha (irm&atilde;o de Jo&atilde;o da Cunha) recebido<br \/>\n    ordem do capit&atilde;o-m&oacute;r de Jaboat&atilde;o para ir com sua gente<br \/>\n    por certo ao Recife, segundo o acordo havido com os capit&atilde;es-m&oacute;res<br \/>\n    de Maranguape, Iguarass&uacute;, V&aacute;rzea, Santo-Ant&atilde;o, S&atilde;o-Louren&ccedil;o,<br \/>\n    Nossa-Senhora-da-Luz, Ipojuca, Tracunhaem, Serinhaem e outras freguesias,<br \/>\n    afim de ver se conseguia que se rendessem os revoltosos; <\/p>\n<p>Que a ele, Amador, se lhe afigurava, pelos obst&aacute;culos conhecidos ou<br \/>\n    calculados, terem os pernambucanos guerra para muitos anos, se Deus n&atilde;o<br \/>\n    conjurasse o medonho cataclismo que amea&ccedil;ava devorar honras, fortunas<br \/>\n    e vidas. <\/p>\n<p>Enfim, tanto as cartas de Amador, como as de Andr&eacute; e outros, acordes<br \/>\n    em quase todos os pontos e noticias, respiravam sobressaltos, inquieta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e at&eacute; desanimo. Havia por&eacute;m no meio das trevas, que traziam,<br \/>\n    um ponto luminoso, que em todos os cora&ccedil;&otilde;es projetou um raio<br \/>\n    de esperan&ccedil;a. Era a noticia de que o bispo se tinha libertado, por<br \/>\n    uma pia fraude, do poder dos mercadores. <\/p>\n<p>O &oacute;dio, a ira, o receio, a impaci&ecirc;ncia e outros diferentes sentimentos<br \/>\n    tiveram por minutos perplexo e mudo o senhor-de-engenho. <\/p>\n<p>Quando estava para tomar parte nas reflex&otilde;es que os outros, durante<br \/>\n    o seu silencio, iam fazendo sobre o objeto da correspond&ecirc;ncia lida,<br \/>\n    umas das senhoras que se achavam na sala imediata, apareceu &agrave; porta<br \/>\n    do aposento. Era a mulher de Matias Vidal. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; ent&atilde;o certo que os mascates se mostram fortes e insolentes?<br \/>\n    Perguntou ela ao sargento-m&oacute;r. <\/p>\n<p>&#8211; Quem vos disse tal, senhora d. Izabel? Retorquiu ele. <\/p>\n<p>&#8211; As cartas que acabastes de ler, respondeu d. Damiana, aparecendo tamb&eacute;m.<br \/>\n    Daqui ouvimos toda a leitura. <\/p>\n<p>&#8211; Infelizmente parece que vamos ter guerra para muito tempo. <\/p>\n<p>&#8211; Que vos dizia eu ainda ontem, Matias? Disse d. Izabel, dirigindo-se ao<br \/>\n    marido. <\/p>\n<p>&#8211; As guerras, observou Manoel de Lacerda, se trazem males, tamb&eacute;m<br \/>\n    trazem bens. Demos tempo ao tempo. <\/p>\n<p>E levantando-se, encaminhou-se para a sala, aonde d. Damiana e d. Izabel<br \/>\n    retrocederam logo. J&aacute; a&iacute; estavam Cosme Bezerra e Filipe Cavalcanti,<br \/>\n    que a ele tinham precedido e conversavam com outras senhoras presentes. <\/p>\n<p>&#8211; Estes mascotes n&atilde;o est&atilde;o em si, dizia d. Maria Bezerra a<br \/>\n    seu marido. N&atilde;o querem ver que n&atilde;o podem levar a melhor a nobreza<br \/>\n    da terra. At&eacute; os de Goiana, que n&atilde;o s&atilde;o muitos, h&atilde;o<br \/>\n    de apresentar-se contra os nobres, disse o alcaide-mor. <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m os de Goiana? Inquiriu com incredulidade a mulher de Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha. A senhora d. Damiana duvida que o fa&ccedil;am? &Eacute; porque<br \/>\n    ignora que os do Recife mandaram grossas quantias para c&aacute; comprar a<br \/>\n    gentalha que nos odeia. Antonio Coelho, do balc&atilde;o de sua loja, que<br \/>\n    considera um trono, s&oacute; tem para os nobres injurias e desprezos. Belchior<br \/>\n    Ferreira, de certo tempo a esta parte, monta guarda a horas certas todos os<br \/>\n    dias, em companhia de Rom&atilde;o, na botica do Rogoberto, e leva horas a<br \/>\n    dizer maldades e aleives contra os senhores de engenho. <\/p>\n<p>N&atilde;o admira, Tras sempre a imagina&ccedil;&atilde;o excitada pelo vinho<br \/>\n    que lhe d&aacute; a beber Antonio Coelho, os olhos encandeados pelo ouro que<br \/>\n    lhe mostra, mas n&atilde;o lhe d&aacute;, Jeronimo Paes, disse Cosme Bezerra.\n  <\/p>\n<p>Tenha a senhora d. Izabel certeza de que dentro em pouco h&aacute; de soar<br \/>\n    em Goiana o grito da rebeli&atilde;o. Quem sabe se a este momento n&atilde;o<br \/>\n    est&atilde;o tramando nos esconderijos dos seus armaz&eacute;ns, Antonio Coelho<br \/>\n    com seus sequazes, a destrui&ccedil;&atilde;o de todos n&oacute;s? <\/p>\n<p>&#8211; Fa&ccedil;am o que fizerem &#8211; observou a mulher do sargento-m&oacute;r,<br \/>\n    Goiana n&atilde;o h&aacute; de render-se a eles. Porque n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de render-se? <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sabemos todos que Goiana &eacute; invenc&iacute;vel porque todas<br \/>\n    suas igrejas t&ecirc;m as frentes voltadas para dentro dela? <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade &#8211; disse uma senhora, que at&eacute; esse ponto assistira<br \/>\n    &agrave; conversa&ccedil;&atilde;o sem tomar parte nela. <\/p>\n<p>&#8211; E d. Maria Bezerra acudiu em apoio da velha, confirmando o que dela ouvira.<br \/>\n    Abus&otilde;es do povo, contestou Cosme. <\/p>\n<p>&#8211; Os antigos j&aacute; o diziam, replicou d. Maria e os antigos n&atilde;o<br \/>\n    diziam sen&atilde;o a verdade. Minha av&oacute; contava-me muitos casos de<br \/>\n    guerras, em que os que vinham a tomar Goiana ficavam destru&iacute;dos ou<br \/>\n    presos nela, e nunca a puderam dominar. Os santos das igrejas olham pelos<br \/>\n    moradores. V&atilde;o l&aacute; contar destas historias a Antonio Coelho e<br \/>\n    a Jeronimo Paes, que h&atilde;o de v&ecirc;-los responder &agrave; cren&ccedil;a<br \/>\n    do povo com risos mofadores. &Eacute; porque eles s&atilde;o dois refinados<br \/>\n    hereges, disse a velhota. E como hereges h&atilde;o de acabar. Quem for vivo<br \/>\n    h&aacute; de ver. Talvez que nesta guerra mesma que eles preparam, venha o<br \/>\n    seu fim encoberto. <\/p>\n<p>O crepitar das labaredas com que as fogueiras iluminavam todo o largo p&aacute;tio<br \/>\n    do engenho; as detona&ccedil;&otilde;es das armas de fogo que de todos os<br \/>\n    lados estavam indicando quanto o S. Jo&atilde;o &eacute; estimado pelo povo,<br \/>\n    fizeram enfim inclinar para a festa as aten&ccedil;&otilde;es at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    absorvidas nas tristes apreens&otilde;es que o grave acontecimento suscitava.\n  <\/p>\n<p>Como se compreendessem a conveni&ecirc;ncia de auxiliar esta nova disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos esp&iacute;ritos, as escravas copeiras entraram nesse momento na sala,<br \/>\n    conduzindo bandejas com bolos e doces, de que come&ccedil;aram a servir-se<br \/>\n    os hospedes. <\/p>\n<p>Dentro em pouco a conversa&ccedil;&atilde;o, ainda presa por uma ponta &agrave;<br \/>\n    guerra, espalhava-se pela outra em v&aacute;rios assuntos mais pr&oacute;ximos<br \/>\n    e positivos. Praticou-se da abund&acirc;ncia das chuvas, e do mal que tinham<br \/>\n    feito &agrave;s canas e &agrave; ro&ccedil;a; da escassez da farinha; da carestia<br \/>\n    da fazenda. <\/p>\n<p>A raz&atilde;o porque a farinha n&atilde;o aparece no mercado, observou Manoel<br \/>\n    de Lacerda, &eacute; porque os mascates se atravessam e compram por atacado<br \/>\n    a que encontram. A raz&atilde;o do alto pre&ccedil;o da fazenda &eacute; porque<br \/>\n    s&atilde;o eles os que a vendem. <\/p>\n<p>Vai por estes dias &agrave; pra&ccedil;a o engenho de Martins por execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe move o Porto, disse Felipe Cavalcanti. Por um ano que Porto levou<br \/>\n    a suprir o engenho de Martins, fez-se credor deste em avultada quantia. Absorveu-lhe<br \/>\n    tr&ecirc;s ou quatro safras, e por fim, n&atilde;o contente com este resultado<br \/>\n    ainda, prop&ocirc;s-lhe a&ccedil;&atilde;o em ju&iacute;zo e o obriga agora<br \/>\n    a dar o engenho a pagamento. Entretanto, observou Cosme Bezerra, Porto est&aacute;<br \/>\n    rico. O a&ccedil;&uacute;car, que recebia do Martins, em pagamento, a 400<br \/>\n    r&eacute;is a arroba, remetia a seus correspondentes na Europa &agrave; raz&atilde;o<br \/>\n    de 1$400. <\/p>\n<p>&#8211; S&oacute; por este modo poderia ele abrir os dois importantes armaz&eacute;ns<br \/>\n    que estabeleceu no Beco-do-pav&atilde;o, observou Jorge Cavalcanti. <\/p>\n<p>&#8211; E que &eacute; feito de Martins? Perguntou um. <\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; pobre, e &eacute; hoje meu lavrador, respondeu Matias Vidal.\n  <\/p>\n<p>&#8211; E n&atilde;o havemos de pegar em armas contra os mascates! Exclamou Cosme<br \/>\n    Bezerra. <\/p>\n<p>Foi neste ponto interrompida a conversa&ccedil;&atilde;o pela entrada de<br \/>\n    Francisco e de Louren&ccedil;o. Vendo-os, o sargento-m&oacute;r chamou-os<br \/>\n    ao gabinete onde minutos antes se celebrara em fam&iacute;lia a grave conferencia<br \/>\n    a que assistimos. <\/p>\n<p>&#8211; Aqui est&aacute; o rapaz, seu sargento-m&oacute;r, disse Francisco, entrando<br \/>\n    no gabinete. <\/p>\n<p>Estava impaciente pela tua volta. Dize-me c&aacute;. O rapaz poder&aacute;<br \/>\n    partir para a capital, ao nascer da lua? <\/p>\n<p>&#8211; Quem? Eu? perguntou Louren&ccedil;o. <\/p>\n<p>&#8211; Tu mesmo, Louren&ccedil;o. <\/p>\n<p>&#8211; Posso partir j&aacute;, assim o ordene vosmec&ecirc;. <\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;s pronto de tudo? <\/p>\n<p>&#8211; De tudo estou, porque nada tenho que aprontar. <\/p>\n<p>&#8211; Se Francisco n&atilde;o tivesse chegado h&aacute; pouco, ele &eacute; que<br \/>\n    havia de ir. A incumb&ecirc;ncia &eacute; de gravidade. <\/p>\n<p>&#8211; E que tem que eu tivesse chegado h&aacute; pouco? Perguntou o matuto. <\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute;s cansado. J&aacute; n&atilde;o &eacute;s menino para resistires<br \/>\n    a duas jornadas for&ccedil;adas uma atr&aacute;s da outra. <\/p>\n<p>Perdoe-me vosmec&ecirc;, seu sargento-m&oacute;r. Muito me agrada fazer pessoa<br \/>\n    em meu filho. Mas se &eacute; somente por me supor cansado da viagem que o<br \/>\n    escolheu, d&ecirc; prefer&ecirc;ncia a mim, para ir &agrave; cidade, eu devo<br \/>\n    dizer a vosmec&ecirc; que estou mais pronto do que ele para fazer a viagem.<br \/>\n    Fa&ccedil;o de conta que tomei o rancho em Goiana, e que a minha parada &eacute;<br \/>\n    na Para&iacute;ba. Louren&ccedil;o &eacute; digno de toda a confian&ccedil;a<br \/>\n    dos homens de bem. mas &eacute; ainda muito mo&ccedil;o, tem viajado pouco<br \/>\n    por esses caminhos, e sem ele o querer, pode sair o seu servi&ccedil;o mal<br \/>\n    feito. Vosmec&ecirc; entregue-me o que tinha para ele, que em menos de uma<br \/>\n    hora j&aacute; estou no caminho de Olinda. S&oacute; pe&ccedil;o licen&ccedil;a<br \/>\n    para ir ao Cajueiro dar um adeus &agrave; minha velha.<\/p>\n<p>&#8211; Pois vai. Quando voltares, receber&aacute;s as minhas ordens. <\/p>\n<p>&#8211; Senhor, sim. <\/p>\n<p>Dentro de poucos minutos, pai e filho estavam no Cajueiro; e quando a luz<br \/>\n    apontava por cima da mata, j&aacute; aquele se achava uma l&eacute;gua distante<br \/>\n    da vila, em direitura para a capital.<\/p>\n<h2><a name=\"16\">Cap&iacute;tulo XVI<\/a><\/h2>\n<p>Lauriano tinha sua tenda na rua do Ros&aacute;rio, perto da loja de Antonio<br \/>\n    Coelho. Era, como quase todos os sapateiros, paroleiro, indagador da vida<br \/>\n    alheia, e por isso sabedor de muita particularidade e segredo intimo. Seus<br \/>\n    freq&uuml;entadores n&atilde;o tinham nem podiam ter para ele reservas. <\/p>\n<p>Na dita tenda ajuntava-se o povo baixo da vila, que o vinho e o cobre do<br \/>\n    famoso mercador, por interesseira generosidade dele, faziam simpatizar com<br \/>\n    a causa dos mascates. Para esta gente estava ela nas mesmas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que a botica do Rogoberto para o r&aacute;bula, o meirinho e outros sujeitos<br \/>\n    de igual estofa. Era o club permanente da plebe. A&iacute; se discutiam com<br \/>\n    veem&ecirc;ncia e largueza os neg&oacute;cios da amiga e da inimiga parcialidade.<br \/>\n    N&atilde;o raras vezes, no estreito recinto desse singular parlamento, resolveram-se<br \/>\n    ofensas e defesas da m&aacute;xima import&acirc;ncia. O oficial de pedreiro,<br \/>\n    o servente de obras, o aprendiz e o oficial de outros of&iacute;cios, vinham<br \/>\n    deixar na tenda as noticias que colhiam nas ruas, e da&iacute; levavam as<br \/>\n    que os outros, seus iguais, tinham trazido para o ign&oacute;bil comercio<br \/>\n    em que eram pr&aacute;ticos. <\/p>\n<p>O Tunda-Cumbe fazia parte deste congresso il&iacute;cito. Ent&atilde;o as<br \/>\n    repugn&acirc;ncia reciprocas entre os portugueses e os homens de cor do pa&iacute;s<br \/>\n    n&atilde;o estavam t&atilde;o afirmadas como depois vieram a ficar. Eram adina<br \/>\n    de fresca data os grandes exemplos da fraternidade que em conjunturas grav&iacute;ssimas<br \/>\n    ligara ra&ccedil;as estrangeiras com ra&ccedil;as e castas nacionais; aquelas<br \/>\n    representadas por Jo&atilde;o Fernandes Vieira e outros, estas por Filipe<br \/>\n    Camar&atilde;o, Henrique Dias e tantos &iacute;ndios, mulatos e pretos que<br \/>\n    deixaram ilustres nomes esculpidos nas paginas da historia e glorificados<br \/>\n    pela tradi&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; pois de admirar que, vendido<br \/>\n    o seu peixe na vila, fosse o Tunda-Cumbe, n&atilde;o por obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mas por devo&ccedil;&atilde;o, tirar a ferrugem da l&iacute;ngua na tenda<br \/>\n    do Lauriano, onde se reuniam outros mascates da sua laia. <\/p>\n<p>Na antev&eacute;spera de S. Jo&atilde;o o Tunda-Cumbe tinha estado com o<br \/>\n    sapateiro e lhe havia dito que iria divertir-se &agrave; noite seguinte em<br \/>\n    casa do Victorino. Em conversa familiar j&aacute; revelara tempos antes as<br \/>\n    suas inclina&ccedil;&otilde;es por Bernardina. <\/p>\n<p>&lt;Em toda esta redondeza por onde ando, dissera o vendedor de peixes ao<br \/>\n    de sapatos, n&atilde;o conhe&ccedil;o rapariga que tanto tenha b&oacute;lido<br \/>\n    com o meu sentimento como a filha do Victorino.&gt; <\/p>\n<p>O tendeiro, que com os defeitos pr&oacute;prios da sua condi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    trazia aliado o de instigador das ruins paix&otilde;es, tantas coisas lhe<br \/>\n    meteu na cabe&ccedil;a que o mascate saiu dali cheio da falsa id&eacute;ia<br \/>\n    de que ningu&eacute;m melhor do que ele tinha direito &agrave; posse da rapariga.<br \/>\n    &Agrave;quela manh&atilde;, Antonio Coelho, passando pela porta de Lauriano,<br \/>\n    perguntara pelo Tunda-Cumbe. Respondera-lhe o tendeiro que lhe seria f&aacute;cil<br \/>\n    encontrar-se com o peixeiro &agrave; noite em um ponto, que sabia; e, como<br \/>\n    farejou negocio importante, ofereceu-se para transmitir-lhe o recado que o<br \/>\n    mercador quisesse dar. Este contentou-se com lhe pedir que dissesse, de sua<br \/>\n    parte, ao Tunda-Cumbe, que viesse falar com ele impreterivelmente em sua casa<br \/>\n    &agrave;quela noite. Tunda-Cumbe, n&atilde;o obstante Ter grandes desejos<br \/>\n    de n&atilde;o deixar o samba sen&atilde;o depois de ausentes todos os convivas,<br \/>\n    correu sem demora &agrave; vila, calculando que de semelhante chamado s&oacute;<br \/>\n    lhe poderiam provir vantagens, atento o estado das coisas na capital, do qual<br \/>\n    j&aacute; tinham chegado as graves noticias &agrave; Goiana. <\/p>\n<p>Os inimigos da nobreza, divertindo-se, como esta, ao menos aparentemente,<br \/>\n    e festejando com fogos enterrados &agrave; frente de suas casas, com reuni&otilde;es,<br \/>\n    dan&ccedil;as, comes e bebes a noite do precursor do Messias, projetavam tamb&eacute;m<br \/>\n    tenebrosas vingan&ccedil;as, seguindo, sem o saberem, os nobres, posto que<br \/>\n    o conjeturassem. <\/p>\n<p>A morada de Coelho ficava por cima da pr&oacute;pria loja. No vasto sobrado<br \/>\n    para isto destinado n&atilde;o faltava o luxo que caracteriza a vida de larguezas<br \/>\n    e deleites que o comercio d&aacute; e tira com a facilidade natural do jogo<br \/>\n    das opera&ccedil;&otilde;es mercantis. As extensas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que tinha entre os agricultores, e a circunstancia de ser o negociante de<br \/>\n    mais nota do lugar pelos meios pecuni&aacute;rios de que dispunha, obriga-lo-iam<br \/>\n    a essa vida fastosa, quando certa ambi&ccedil;&atilde;o de figurar e o prop&oacute;sito<br \/>\n    de competir no lustre e grandeza com os primeiros fidalgos de Goiana n&atilde;o<br \/>\n    exigissem dele o tratamento luxuoso que sustentava. At&eacute; certo tempo<br \/>\n    atr&aacute;s, fora visto com bons olhos por esses fidalgos. Mais de um deles<br \/>\n    lhe dera demonstra&ccedil;&otilde;es de respeito e estima. Chegou-se a dizer<br \/>\n    que &agrave; influencia de alguns devia Coelho a nomea&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    sargento-m&oacute;r com que o distinguira el-rei. Fosse porque fazia de se<br \/>\n    grande conta; fosse porque lhe parecera tempo de firmar a sua posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ainda n&atilde;o de todo segura; fosse porque n&atilde;o pudera resistir &agrave;s<br \/>\n    imposi&ccedil;&otilde;es do sentimento, deu Coelho um passo que, produzindo<br \/>\n    completa e radical mudan&ccedil;a em sua vida, converteu em hostilidade e<br \/>\n    &oacute;dios contra se pr&oacute;prio as afei&ccedil;&otilde;es e benevol&ecirc;ncias<br \/>\n    que tinham antes disso manifestado por ele os nobres da vila. Sabendo anos<br \/>\n    antes, que d. Damiana, pela qual sentia grande afeto, estava para ser dada<br \/>\n    em casamento a Jo&atilde;o da Cunha, antecipou-se ele e pediu-a para si. Foi-lhe<br \/>\n    peremptoriamente recusada; e n&atilde;o teve outra origem o eclipse da sua<br \/>\n    estrela, nem o &oacute;dio que cavou entre ele e o sargento-m&oacute;r o abismo<br \/>\n    insond&aacute;vel que os separava. Ao principio sentiu-se Coelho como curvado<br \/>\n    debaixo do peso deste grande desastre; mas, por derradeiro, reacendendo-se-lhe<br \/>\n    a chama do forte animo, um momento apagada pelo sopro da tormenta, o negociante<br \/>\n    ergueu a cabe&ccedil;a, fixou vistas altivas em seu altivo inimigo, e assentou<br \/>\n    de lutar com ele e seus parentes e iguais, at&eacute; que os vencesse ou ca&iacute;sse<br \/>\n    de todo exangue e morto. A esse tempo j&aacute; se iam manifestando as rivalidades<br \/>\n    que trouxeram como resultado a guerra. Coelho, em vez de procurar dissip&aacute;-las,<br \/>\n    foi o primeiro que em Goiana as ateou e lhes deu vulto e desenvolvimento;<br \/>\n    de modo que, quando, pela cria&ccedil;&atilde;o da vila do Recife, elas definitivamente<br \/>\n    fizeram explos&atilde;o, &agrave; frente dos mascates apareceu ele, sedento<br \/>\n    de vingan&ccedil;a, tomando para se toda a responsabilidade e dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos &oacute;dios insurgentes e tornando-se o alvo dos rancores da nobreza.<br \/>\n    Quando o Tunda-Cumbe apareceu na sala, achavam-se a&iacute; com o dono da<br \/>\n    casa Jeronimo Paes, o portugu&ecirc;s Manoel Rodrigues (taberneiro), Belchior,<br \/>\n    Rom&atilde;o e outros. O assunto da conversa&ccedil;&atilde;o era a guerra,<br \/>\n    nem podia ser outro o que os reunisse ent&atilde;o. Mas aqui n&atilde;o se<br \/>\n    manifestavam apreens&otilde;es e temores, como no engenho, entre os nobres.<br \/>\n    Aqui se tinha por segura a vitoria, n&atilde;o obstante j&aacute; se saber<br \/>\n    que o bispo se evadira e se achava exercitando o governo contra os mascates.<br \/>\n    &#8211; Que importa isso? Inquiria Jeronimo Paes. As fortalezas, os arsenais, a<br \/>\n    mil&iacute;cia de terra e a mil&iacute;cia naval, os homens bons do Recife<br \/>\n    e o povo s&atilde;o todos nossos. Em nossos armaz&eacute;ns temos g&ecirc;neros<br \/>\n    acumulados para seis meses. Falava-se em que os mazombos tencionavam sitiar<br \/>\n    a vila. Est&uacute;pido plano &eacute; este. Que mal nos pode trazer semelhante<br \/>\n    sitio, quando temos livre o porto, por onde podemos comunicar-nos, n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; com as outras capitanias, mas at&eacute; com importantes localidades<br \/>\n    do litoral de Pernambuco?<\/p>\n<p>&#8211; H&atilde;o de cansar-se eles primeiro de nos guardarem, que n&oacute;s<br \/>\n    de estarmos guardados por semelhante modo &#8211; acrescentou um dos circunstantes.<br \/>\n    Dando com os olhos em Tunda-Cumbe, Antonio Coelho levantou-se e acenou-lhe<br \/>\n    com a m&atilde;o que o acompanhasse ao aposento cont&iacute;guo. A&iacute;<br \/>\n    chegados, Coelho ofereceu ao peixeiro uma cadeira, e dando exemplo, disse-lhe:\n  <\/p>\n<p>&#8211; Senta-te, Manoel Gon&ccedil;alves. <\/p>\n<p>Este, a modo de admirado da intimidade que eq&uuml;ivalia a uma honra, que<br \/>\n    ele estava longe de esperar, respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Pode vosmec&ecirc; dizer o que ordena. Ouvirei t&atilde;o bem estando de<br \/>\n    p&eacute;, como se sentado estivera. Senta-te. O negocio exige pratica longa.\n  <\/p>\n<p>Tunda-Cumbe sentou-se. <\/p>\n<p>Por todos os de Goiana era o Tunda-Cumbe havido por meio mercador e meio<br \/>\n    bandido. Ningu&eacute;m ignorava suas rela&ccedil;&otilde;es com certos sujeitos<br \/>\n    de ruim fama, alguns dos quais se dizia serem associados ao peixeiro em criminosas<br \/>\n    negocia&ccedil;&otilde;es. Havia quem soubesse que no lugar denominado Sip&oacute;<br \/>\n    tinham eles um como rancho, onde celebravam seus concili&aacute;bulos. <\/p>\n<p>&#8211; Mandei chamar-te, Manoel Gon&ccedil;alves&#8230; <\/p>\n<p>Aqui interrompeu Antonio Coelho, e um momento depois continuou: <\/p>\n<p>Mas, antes de entrarmos no assunto, n&atilde;o ser&aacute; mau que desmanches<br \/>\n    um peda&ccedil;o de bolo fresco e laves a guela com um copo de vinho puro<br \/>\n    e velho, que h&aacute; dias me chegou do Porto. <\/p>\n<p>Assim falando, Coelho apontava para a c&ocirc;moda de cedro, onde se viam,<br \/>\n    em salvas de prata, bolos de S.Jo&atilde;o de diferentes tamanhos e formas,<br \/>\n    e em garrafas de cristal o vinho generoso a que aludira. Tenha paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    seu Antonio Coelho, &#8211; respondeu o peixeiro. Acabo de chegar agora mesmo do<br \/>\n    divertimento em que estava, quando o Lauriano me deu o recado. Queira ter<br \/>\n    vosmec&ecirc; a bondade de vir direitinho ao negocio, que eu fiquei de voltar<br \/>\n    ainda hoje ao dito divertimento, onde tenho uma grande empresa que executar,<br \/>\n    se para isso n&atilde;o me faltar o tempo. <\/p>\n<p>&#8211; Que empresa &eacute; essa? <\/p>\n<p>Quebrar os dentes a um p&eacute;-rapado, por n&atilde;o terem mordido a l&iacute;ngua<br \/>\n    dele na ocasi&atilde;o de me dizer meia d&uacute;zia de liberdades que lhe<br \/>\n    h&atilde;o de custar bem caro. <\/p>\n<p>&#8211; Folgo em encontrar-te nestas boas disposi&ccedil;&otilde;es. Mas, para<br \/>\n    n&atilde;o dares passo em falso, trata primeiro de organizar as tuas for&ccedil;as.<br \/>\n    N&atilde;o tens tu v&aacute;rios amigos com quem te podes ajuntar a qualquer<br \/>\n    hora que seja necess&aacute;rio? <\/p>\n<p>Tunda-Cumbe, n&atilde;o sem dar mostras de confus&atilde;o e hesita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    inclinou a cabe&ccedil;a como quem respondia afirmativamente. <\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, tornou o negociante. &Eacute; da m&aacute;xima conveni&ecirc;ncia<br \/>\n    que de hoje para amanh&atilde; reunas todos eles e &agrave; sua frente trates<br \/>\n    de hostilizar por todos os meios imagin&aacute;veis, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    o p&eacute;-rapado a quem queres quebrar os dentes, mas tantos p&eacute;s-rapados<br \/>\n    e mazombos quantos puderem cair em tuas m&atilde;os. J&aacute; deves saber<br \/>\n    o que resolveram os nossos patr&iacute;cios e amigos do Recife&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; Tudo sei. <\/p>\n<p>&Eacute; de nossa honra e de nosso interesse que o grito que eles soltaram<br \/>\n    na vila, acha eco em todos os pontos importantes da prov&iacute;ncia, especialmente<br \/>\n    em Goiana. <\/p>\n<p>&#8211; E o governo est&aacute; de nossa parte? <\/p>\n<p>O governo! O governador, o legitimo, o verdadeiro governador de Pernambuco,<br \/>\n    Sebasti&atilde;o de Castro Caldas, este est&aacute; conosco. D. Manoel &eacute;<br \/>\n    simplesmente o governador da rebeldia. Deu for&ccedil;a aos insurgentes, e<br \/>\n    est&aacute; exercendo atribui&ccedil;&otilde;es que lhe n&atilde;o competem.<br \/>\n    Os que o sustentam e por eles s&atilde;o sustentados, t&atilde;o criminosos<br \/>\n    s&atilde;o como ele. opuseram-se &agrave; cria&ccedil;&atilde;o da vila, o<br \/>\n    que quer dizer que se opuseram &agrave; vontade e &agrave; ordem de el-rei;<br \/>\n    tentaram contra a vida do legitimo governador, e o obrigaram a refugiar-se<br \/>\n    na Baia para escapar &agrave; morte; na aus&ecirc;ncia dele, tomaram conta<br \/>\n    do poder tumultuaria e revolucionariamente; o bispo por infame covardia ou<br \/>\n    por indigna coniv&ecirc;ncia, assumiu as r&eacute;deas do governo e expediu<br \/>\n    perd&atilde;o aos rebeldes e assassinos. Dev&iacute;amos n&oacute;s, leais<br \/>\n    vassalos de el-rei, ter por justo e legal o infame perd&atilde;o, quando as<br \/>\n    justi&ccedil;as do c&eacute;u e da terra exigiam antes as cabe&ccedil;as dos<br \/>\n    rebeldes? N&atilde;o, mil vezes n&atilde;o. Acumulamos viveres, ajuntamos<br \/>\n    dinheiro para que nos n&atilde;o faltasse nada na ocasi&atilde;o do desfor&ccedil;o.<br \/>\n    Julgando os nossos amigos do Recife chegada esta ocasi&atilde;o, acabam de<br \/>\n    soltar o brado em favor da restaura&ccedil;&atilde;o da autoridade legal,<br \/>\n    vil e trai&ccedil;oeiramente conspurcada pelos que se apelidam nobres, quando<br \/>\n    outra coisa n&atilde;o s&atilde;o sen&atilde;o rebeldes e sic&aacute;rios.<br \/>\n    Assim, todo leal portugu&ecirc;s tem o dever de lan&ccedil;ar m&atilde;o das<br \/>\n    armas para derrubar o governo de d. Manoel e levantar novamente o de Castro<br \/>\n    Caldas. Em favor desta empresa patri&oacute;tica e gloriosa &eacute; que te<br \/>\n    proponho reunas todos os amigos que puderes. O programa da luta &eacute; largo,<br \/>\n    mas resume-se nisto &#8211; destruir, seja por que meio for, qualquer for&ccedil;a,<br \/>\n    qualquer bem, at&eacute; a pr&oacute;pria vida de todos os fidalgos de Pernambuco.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Tudo de que precisares, a saber, dinheiro, viveres, apoio, prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ilimitada para ti e para os teus, a fim de se preencher este plano salvador<br \/>\n    das nossas fortunas, das nossas vidas e do nome portugu&ecirc;s, ser-te-h&aacute;<br \/>\n    prontamente dado ou feito, contanto que a repres&aacute;lia n&atilde;o fique<br \/>\n    nem por um instante retardada. Posso confiar em ti e nos teus, Manoel Gon&ccedil;alves?<br \/>\n    Concluiu Antonio Coelho com gestos e express&atilde;o de quem estava de corpo<br \/>\n    e alma entregue a este pensamento e por lev&aacute;-lo a efeito subiria a<br \/>\n    todas as emin&ecirc;ncias e desceria a todos os abismos. <\/p>\n<p>Antonio Coelho era de boa estatura. Tinha os cabelos pretos e corridos, os<br \/>\n    olhos rasgados e &uacute;midos. Espada&uacute;do e anafado, dir-se-ia que<br \/>\n    esse homem, uma vez sentado, n&atilde;o poderia levantar-se sen&atilde;o com<br \/>\n    auxilio de outrem. Nada entretanto encontraria mais a verdade. posto que maci&ccedil;o<br \/>\n    de formas, era pronto nos movimentos. Sua agilidade tinha o quer que fosse<br \/>\n    da eletricidade. Em seu semblante estavam esparzidos os toques de uma express&atilde;o<br \/>\n    particular que o tornavam atrativo. Usava a palavra com veem&ecirc;ncia e<br \/>\n    mobilidade que interpretavam brilhantemente os caprichosos raptos e oscila&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de seu espirito, umas vezes lento e tardo nas opera&ccedil;&otilde;es, outras<br \/>\n    franco e arrebatado at&eacute; a inconveni&ecirc;ncia e a temeridade. <\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; ent&atilde;o viveres e dinheiro bastante para serem distribu&iacute;dos<br \/>\n    pela gente que eu ajuntar? Inquiriu o peixeiro, como quem n&atilde;o queria<br \/>\n    ainda acreditar na formal promessa que acabava de fazer-lhe o negociante.\n  <\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; tudo de que precisares para as mais arriscadas e custosas arremetidas<br \/>\n    contra a nobreza, disse a com seguran&ccedil;a Antonio Coelho, qual se fizesse<br \/>\n    um juramento solene. Al&eacute;m disso, acrescentou como por demais, o saque<br \/>\n    entrar&aacute; por muito na ordem dos meios de suprir qualquer falta que se<br \/>\n    n&atilde;o tenha podido prever. <\/p>\n<p>&#8211; Eu quero ser franco a vosmec&ecirc;. Tenho j&aacute; comigo, n&atilde;o<br \/>\n    de hoje, mas de h&aacute; muito, vinte camaradas valentes e decididos. Se<br \/>\n    me autoriza a aumentar o n&uacute;mero, dentro de pouco tempo terei uma companhia<br \/>\n    organizada. Autorizo-te a organizares um batalh&atilde;o. Pagarei a todos<br \/>\n    o soldo, e a ti aquele que costumam vencer os coron&eacute;is. <\/p>\n<p>&#8211; Muito bem, respondeu o Tunda-Cumbe. Pode contar comigo. De hoje a oito<br \/>\n    dias teremos gente para tomar Goiana. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Trata-se, n&atilde;o de tomar Goiana, que nossa &eacute;, mas de ir em<br \/>\n    socorro dos nossos amigos do Recife, que est&atilde;o amea&ccedil;ados de<br \/>\n    um rigoroso sitio, posto pelos rebeldes de Olinda e das vilas mais pr&oacute;ximas.<br \/>\n    Pois sim; &eacute; para o que quiser. Sou pau para toda obra. <\/p>\n<p>&#8211; Fica pois assentado que de hoje em diante andaremos de acordo nesta grande<br \/>\n    obra. Sim, senhor. Est&aacute; decidido. <\/p>\n<p>&#8211; Em cado de necessidade, por quem poderia mandar chamar-te? <\/p>\n<p>&#8211; Por Lauriano. <\/p>\n<p>&#8211; Podemos confiar nele? <\/p>\n<p>&Eacute; um negro interesseiro, que odeia muito os nobres, porque de um deles<br \/>\n    foi escravo e provou muito bacalh&atilde;o. Ele sabe onde h&aacute; de procurar-me,<br \/>\n    nos dias em que n&atilde;o costumo vir &agrave; vila. <\/p>\n<p>Antonio Coelho deu algumas ordens ao peixeiro, assaz agrad&aacute;veis para<br \/>\n    este, por serem acompanhados de algumas moedas de prata. <\/p>\n<p>Metido o dinheiro na algibeira do gib&atilde;o velho que trazia, o Tunda-Cumbe<br \/>\n    retirou-se, levando consigo a convic&ccedil;&atilde;o de que desde o momento<br \/>\n    em que fora autorizado a acrescentear o seu s&eacute;quito, era ele t&atilde;o<br \/>\n    poderoso chefe sen&atilde;o mais do que o pr&oacute;prio que a isso o autorizara.<\/p>\n<h2><a name=\"17\">Cap&iacute;tulo XVII<\/a><\/h2>\n<p>Nos primeiros dias de julho, em lugar dos vinte malfeitores que dantes trazia<br \/>\n    mais ou menos ligados consigo, contava o Tunda-Cumbe numero superior a duzentos;<br \/>\n    e por tal forma lhes havia imposto a sua autoridade, que a seu grado os dirigia<br \/>\n    e movia t&atilde;o bem como se foram puros aut&ocirc;matos. <\/p>\n<p>Os insultos, as arrogancias, os furtos de cavalo, os roubos, as atrocidades<br \/>\n    de toda esp&eacute;cie come&ccedil;aram ent&atilde;o a aumentar de modo assustador.<br \/>\n    Hoje, era a casa de um foreiro assaltada, amanh&atilde;, era um negro do engenho<br \/>\n    castigado cruelmente porque se tinha oposto a que tirassem a cana, a macaxeira,<br \/>\n    a galinha, a ovelha, que eles por fim sempre tiravam. <\/p>\n<p>Para a fam&iacute;lia do pobre n&atilde;o houve mais respeito nem seguran&ccedil;a.<br \/>\n    Mulheres honestas e recolhidas, mo&ccedil;as solteiras que viviam honradamente<br \/>\n    sovre se ou em casa de seus pais eram raptadas sem o menor escr&uacute;pulo,<br \/>\n    e iam contra a vontade delas, os olhos arrasados de lagrimas, cevar a brutal<br \/>\n    concupisc&ecirc;ncia de assassinos e ladr&otilde;es, que, confiando na impunidade<br \/>\n    prometida para eles por seus protetores, as deixavam ao desamparo, nos bra&ccedil;os<br \/>\n    da devassid&atilde;o, ou entre as unhas felinas da mis&eacute;ria, depois<br \/>\n    de saciadas suas paix&otilde;es reprovadas e vis.<\/p>\n<p>Constituiu-se assim o Tunda-Cumbe dentro em pouco tempo o terror de todo<br \/>\n    o norte de Pernambuco, porque para suas correrias ele n&atilde;o escolhia<br \/>\n    lugares nem conhecia limites; e publicar o seu nome montava publicar, n&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; o nome de vinte ou duzentos facinorosos, mas o de quinhentos, afeitos<br \/>\n    a desrespeitar os homens s&eacute;rios, a roubar a honra das fam&iacute;lias<br \/>\n    fracas e a fazenda do propriet&aacute;rio pacifico, a matar o matuto que lhes<br \/>\n    resistia, a destruir e aniquilar homens e coisas. <\/p>\n<p>Pelo mesmo tempo outro caudilho truculento come&ccedil;ou a representar no<br \/>\n    sul as mesmas tradi&ccedil;&otilde;es de saque, sangue e morte que celebrizaram<br \/>\n    t&atilde;o tristemente o Tunda-Cumbe. Era o &iacute;ndio Sebasti&atilde;o<br \/>\n    Camar&atilde;o, de quem se dizia que recebera tr&ecirc;s mil cruzados dos<br \/>\n    mascates para ser por eles, com seu s&eacute;quito na guerra que se acendera.<br \/>\n    Este s&eacute;quito, composto em sua maior parte de homens que tinham dado<br \/>\n    inteiramente as costas &agrave; honra, &agrave; moral, &agrave; lei e a Deus,<br \/>\n    chegou a ser muito numeroso e a contar quase o dobro do outro bandido. Os<br \/>\n    maiores criminosos do sul faziam parte dele, raz&atilde;o porque nos lugares<br \/>\n    por onde passavam, nenhum principio ou interesse vener&aacute;vel ficava sem<br \/>\n    receber deles as mais graves viola&ccedil;&otilde;es e ofensas. <\/p>\n<p>De todos os senhores-de-engenho das cercanias de Goiana, o que servia de<br \/>\n    alvo ao &oacute;dio mais apurado do Tunda-Cumbe era Matias Vidal de Negreiros.<br \/>\n    A raz&atilde;o &eacute; obvia. <\/p>\n<p>Durante o seu almocrevar, quando sucedia passar, n&atilde;o por fazer negocio,<br \/>\n    mas por encurtar distancias ou evitar grandes atoleiros ou rios cheios, pelo<br \/>\n    engenho de Matias, fazia o Tunda-Cumbe, rosnando como c&atilde;o irritado,<br \/>\n    esta acerba jura: <\/p>\n<p>Hei de vingar-me algum dia neste vil&atilde;o ruim do que me fizeram seus<br \/>\n    negros. O dia pareceu-lhe ter chegado duas semanas depois da conferencia que<br \/>\n    tivera com Antonio Coelho, e para l&aacute; se encaminhou com cerca de sessenta<br \/>\n    dos seus valent&otilde;es no intuito de tomar a desforra longamente premeditada.\n  <\/p>\n<p>Quando chegou a Itamb&eacute; seria meia-noite. Fazia brando luar. Tendo<br \/>\n    sido muito abundantes as chuvas aquele ano, o mato fechara consideravelmente<br \/>\n    e quase tomara os cinco ou seis caminhos que iam ter na casa. Tunda-Cumbe<br \/>\n    dividiu a gente em partidas iguais, cada uma das quais tomou a dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    conveniente pelo caminho que lhe incumbiu percorrer. A casa n&atilde;o poderia<br \/>\n    resistir a sessenta homens, que simultaneamente a atacassem por todos os lados;<br \/>\n    mas n&atilde;o surtiu o plano o menor efeito, porque antes de chegados os<br \/>\n    atacantes ao ponto, diferentes tiros, partidos de dentro dos matos e canaviais<br \/>\n    lan&ccedil;aram susto e pavor no animo daqueles que tomavam da surpresa ou<br \/>\n    emboscada a sua principal valentia. Tunda-Cumbe, receoso de for&ccedil;as<br \/>\n    que n&atilde;o conhecia, ordenou a retirada. <\/p>\n<p>Foi o caso que tendo Matias Vidal negros e moradores de sua confian&ccedil;a,<br \/>\n    devidamente espalhados por dentro do mato, e empregados em vigiar durante<br \/>\n    a noite os caminhos, por sinais assentados antes tinham estes vigias dado<br \/>\n    aviso da aproxima&ccedil;&atilde;o do bando aos outros negros e moradores,<br \/>\n    que correram sem demora a impedir o passo aos assaltantes. De h&aacute; muito<br \/>\n    suspeitava Matias que o Tunda-Cumbe, em oferecendo-se ocasi&atilde;o oportuna,<br \/>\n    n&atilde;o deixaria para mais tarde a sua desforra. Todavia, n&atilde;o estaria<br \/>\n    preparado para frustrar t&atilde;o facilmente este ataque inopinado, se outra<br \/>\n    raz&atilde;o o n&atilde;o determinasse a ter prontos meios de debelar qualquer<br \/>\n    agress&atilde;o, por forte e s&uacute;bita que fosse. &Eacute; a raz&atilde;o<br \/>\n    que diremos. Assentado ficara entre os nobres em casa de Jo&atilde;o da Cunha,<br \/>\n    antes de dissolvido o ajuntamento a&iacute; celebrado na noite de S.Jo&atilde;o,<br \/>\n    que, n&atilde;o obstante dever-se esperar, para resolu&ccedil;&atilde;o definitiva,<br \/>\n    por noticias e indica&ccedil;&otilde;es formais das autoridades e amigos da<br \/>\n    capital, prudente era que cada um dos propriet&aacute;rios presentes tratasse<br \/>\n    de organizar sem perda de tempo ter&ccedil;os defensivos, com seus moradores<br \/>\n    e escravos. Dado este importante passo, era f&aacute;cil dentro em pouco tempo,<br \/>\n    no caso de necessidade, mobilizar-se em Goiana uma grande massa de gente,<br \/>\n    que acudisse ao primeiro reclamo da capital, quer para engrossar o cerco,<br \/>\n    se esta fosse a id&eacute;ia predominante, quer para tomar de assalto o Recife<br \/>\n    e destruir o governo constitu&iacute;do pelos mascates dentro nesta vila.<br \/>\n    Se n&atilde;o fossem reclamados socorros, nem por isso se perderia o que estivesse<br \/>\n    feito, visto que, devendo-se ter por mais que prov&aacute;vel que a rea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se generalizasse mais dia menos dia, ter cada um dos senhores-de-engenho junto<br \/>\n    de se seu contingente, era o mesmo que estar defendido em sua fam&iacute;lia<br \/>\n    e propriedade. A demonstra&ccedil;&atilde;o pratica da excel&ecirc;ncia e<br \/>\n    sabedoria deste acordo, foi Matias Vidal o primeiro que a teve, pelo que fica<br \/>\n    escrito. <\/p>\n<p>Esta li&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, longe de encurtar, posto que fosse<br \/>\n    incruenta, os arrojos do chefe dos bandoleiros, o incitou a investida ainda<br \/>\n    mais grave. <\/p>\n<p>O dia seguinte sendo Domingo, apresentou-se ele muito cedo na vila, deliberado<br \/>\n    a praticar qualquer dist&uacute;rbio, que, produzindo esc&acirc;ndalo, para<br \/>\n    logo desse lugar a que seu nome soasse como o de um diligente e fiel servidor<br \/>\n    dos mascates, tanto em Goiana, testemunha do insulto, como no Recife, aonde<br \/>\n    logo havia de chegar a noticia dele. <\/p>\n<p>Estava-se em 3 de julho. Os esp&iacute;ritos achavam-se por extremo excitados.<br \/>\n    Os parciais da nobreza, animados por saberem que tinha ela por se o governador,<br \/>\n    j&aacute; restitu&iacute;do a sua liberdade, n&atilde;o perdiam ensejo de<br \/>\n    exaltar a sua for&ccedil;a e ostentar o poder que d&aacute; a autoridade.<br \/>\n    Os parciais dos mascates n&atilde;o faziam por menos, publicando que sem dinheiro<br \/>\n    comprariam os mais nobres da terra, inventando inumer&aacute;veis rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de comunidade entre os rebeldes proeminentes e o governador geral do Brasil,<br \/>\n    d. Francisco de Souza, seu filho, e outros importantes vultos da Baia e de<br \/>\n    Portugal. <\/p>\n<p>Varias eram as pessoas que na botica do Rogoberto matavam o tempo enquanto<br \/>\n    o sino da matriz n&atilde;o vibrava a Segunda chamada para a missa conventual.<br \/>\n    Entre essas pessoas apontavam-se Jeronimo Paes e Belchior. Serviam de assunto<br \/>\n    as ultimas noticias chegadas do Recife. Eis a substancia de tais noticias.<br \/>\n    D. Manoel, logo que se achou de novo de posse da autoridade, mandou publicar<br \/>\n    na vila o edital pelo qual eram intimados os oficiais da mil&iacute;cia e<br \/>\n    os demais moradores que estavam em armas a retirar-se das fortalezas com as<br \/>\n    respectivas guarni&ccedil;&otilde;es, a fim de entrarem os povos no sossego<br \/>\n    do costume, sob pena de serem havidos por traidores e inimigos da paz, e ficarem<br \/>\n    por isso sujeitos ao rigor das leis. N&atilde;o tendo querido, por&eacute;m,<br \/>\n    os revoltosos aceitar estes avisos, e devendo-se por isso dar come&ccedil;o<br \/>\n    a procidencias mais en&eacute;rgicas, para as quais, por ser de paz e perd&atilde;o<br \/>\n    o seu minist&eacute;rio, n&atilde;o se julgava o mais pr&oacute;prio, resolveu<br \/>\n    encarregar do governo militar o ouvidor geral, dr. Luiz de Valenzuela Ortiz,<br \/>\n    o mestre de campo Christov&atilde;o de Mendon&ccedil;a Arraez e o senado da<br \/>\n    c&acirc;mara de Olinda, que se compunha do coronel Domingos Bezerra Monteiro,<br \/>\n    capit&atilde;o Antonio Bezerra Cavalcanti e tenente Estev&atilde;o Soares<br \/>\n    de Arag&atilde;o. <\/p>\n<p>O procedimento do prelado era considerado como covardia no congresso da botica.<br \/>\n    Belchior, para dar mais autoridade a este ju&iacute;zo, recordava diferentes<br \/>\n    circunstancias passadas, a saber, a partida de d. Manoel para a Para&iacute;ba<br \/>\n    quando desfecharam o tiro no governador Caldas; o ter-se deixado prender pelos<br \/>\n    mercadores no dia 18 do m&ecirc;s anterior; e outras circunstancias que n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o para o nosso caso. O bispo n&atilde;o &eacute; mais do que um vil&atilde;o<br \/>\n    ruim, um desprez&iacute;vel instrumento dos Cavalcantis que querem ter sempre<br \/>\n    curvados a seus p&eacute;s, como t&ecirc;m os negros dos seus engenhos, os<br \/>\n    povos de Pernambuco. Os mascates n&atilde;o precisam dele para castigarem<br \/>\n    a soberba e arrog&acirc;ncia dessa nobreza de meia tigela, que o que traz<br \/>\n    limpo em seu sangue deve a esses mesmos mascates; porque o que da&iacute;<br \/>\n    n&atilde;o procede, &eacute; cor da noite de &Aacute;frica ou cor do fogo<br \/>\n    das aldeias. <\/p>\n<p>Palavras n&atilde;o eram ditas quando um filho de Jorge Cavalcant, que vinha<br \/>\n    montado em fogoso ginete, chegando-se &agrave; porta da botica assim retorquiu,<br \/>\n    montado como estava, a Belchior com o calor e a imprud&ecirc;ncia dos primeiros<br \/>\n    anos: <\/p>\n<p>&#8211; Vil&otilde;es ruins s&atilde;o aqueles brasileiros desnaturados que se<br \/>\n    vendem ao ouro ou rendem &agrave;s l&aacute;bias dos estrangeiros, cujo sentimento<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; outro que o de revolverem a terra onde encontraram hospedagem.<br \/>\n    Esses, sim, s&atilde;o os mais infames vil&otilde;es que pisam na terra de<br \/>\n    Camar&atilde;o e de Henrique Dias. Sua baixeza n&atilde;o se compara nem mesmo<br \/>\n    com a dos que mordem a m&atilde;o que deveriam beijar. <\/p>\n<p>Replicou-lhe Belchior com quatro pedras na m&atilde;o; o filho de Jorge treplicou,<br \/>\n    j&aacute; com mostras de quem queria usar o chicote que trazia. Quando o gesto<br \/>\n    indicou a inten&ccedil;&atilde;o, quase todos os que estavam na botica, tomaram<br \/>\n    o partido de Belchior, mas n&atilde;o tardou que varias pessoas das vizinhan&ccedil;as<br \/>\n    e da rua vieram em socorro do outro contendor. <\/p>\n<p>Estavam justamente as coisas neste ponto, quando apareceu o chefe dos bandoleiros.<br \/>\n    Ao gib&atilde;o surrado, aos cal&ccedil;&otilde;es em diferentes partes serzidos<br \/>\n    e aos sapat&otilde;es grosseiros com que costumava andar, tinham-se substitu&iacute;do<br \/>\n    casaca e cal&ccedil;&otilde;es de veludo e sapatos de entrada baixa com fivelas.<br \/>\n    Trazia pendente um espadim que parecia novo, como o chap&eacute;u de pluma<br \/>\n    e a roupa. Naqueles tempos j&aacute; o habito fazia o monge. Tanto que o Tunda-Cumbe<br \/>\n    se apresentou vestido com este apuro e galhardia, n&atilde;o foi preciso mais<br \/>\n    para que todos logo conjeturassem que grande transforma&ccedil;&atilde;o se<br \/>\n    operara na vida do ex-peixeiro, e j&aacute; alguns lhe tirassem o chap&eacute;u,<br \/>\n    como demonstra&ccedil;&atilde;o de respeitosa cortesia. Tal houve que se afastou<br \/>\n    para que ele tivesse livre acesso ao ponto central do conflito. Muitos dos<br \/>\n    circunstantes explicaram esta aten&ccedil;&atilde;o, atribuindo-a a vir ele<br \/>\n    acompanhado de dez a doze valent&otilde;es conhecidos, pouco tempo antes seus<br \/>\n    companheiros, agora seus guarda-costas. <\/p>\n<p>&#8211; Donde vem esta grandeza e este poderio a Tunda-Cumbe, que ainda n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; um m&ecirc;s vendia bodi&otilde;es e amor&eacute;s pelas portas?<br \/>\n    perguntou a meia voz um parcial dos nobres. <\/p>\n<p>Respondeu-lhe no mesmo diapas&atilde;o o companheiro: <\/p>\n<p>&#8211; Dizem que tem ordem franca dos mascates para ajuntar gente, e do Recife<br \/>\n    lhe prometem a patente de coronel em paga dos servi&ccedil;os, j&aacute; vendidos<br \/>\n    a eles por bom dinheiro. <\/p>\n<p>Entretanto o Tunda-Cumbe chegara ao ponto onde se dera o veemente bate-barbas.<br \/>\n    Achou somente a&iacute; o Belchior. O filho do Jorge Cavalcanti tinha tomado<br \/>\n    j&aacute; a dire&ccedil;&atilde;o da matriz, e com pouco descavalgava e entrava.\n  <\/p>\n<p>Entendendo Tunda-Cumbe que n&atilde;o devia perder aquela ocasi&atilde;o<br \/>\n    de dar a mostra do pano, puxou do espadim e assentou-o de chapa sobre as costas<br \/>\n    de um sujeito que no canto da rua mais publica da vila exaltava a causa da<br \/>\n    nobreza e desfazia na rea&ccedil;&atilde;o dos mercadores. N&atilde;o foi<br \/>\n    preciso mais para que se desse novo conflito, que dentro de alguns minutos<br \/>\n    redundou em serio motim. Houve muitas contus&otilde;es, muitos ferimentos,<br \/>\n    muito sangue inutilmente derramado. Estando ainda nas m&atilde;os da nobreza<br \/>\n    a autoridade e a for&ccedil;a publica, pode-se dominar no fim de algum tempo<br \/>\n    a assuada. O nome, por&eacute;m, de Tunda-Cumbe e os dos bandoleiros mais<br \/>\n    violentos que com ele percorreram as ruas, espancando e ferindo os advers&aacute;rios<br \/>\n    que encontraram desprevenidos e inermes, esses nomes, especialmente o de Manoel<br \/>\n    Gon&ccedil;alves, come&ccedil;aram desde esse momento a voar nas asas da fama,<br \/>\n    e poucos dias depois designaram celebridades que todos entraram a respeitar<br \/>\n    e temer. <\/p>\n<p>Uma semana depois, Goiana foi testemunha de novas cenas, mais graves do que<br \/>\n    as primeiras, as quais chegaram a durar tr&ecirc;s dias. <\/p>\n<p>Por ordem de Jo&atilde;o da Maia da Gama, capit&atilde;o-m&oacute;r da Para&iacute;ba,<br \/>\n    t&atilde;o dedicado aos mascates que pelo senado da c&acirc;mara de Olinda<br \/>\n    foi apelidado em oficio de 26 de junho de 1711 &#8211; a pedra fundamental em que<br \/>\n    os do Recife se levantaram e formaram o quim&eacute;rico edif&iacute;cio e<br \/>\n    fabrica do industrioso levantamento &#8211; , veio Luiz Soares reunir-se com o Tunda-Cumbe<br \/>\n    a fim de irem ao Recife com sua gente passante de oitocentos homens, levantar<br \/>\n    o cerco. <\/p>\n<p>Achavam-se entre os da Para&iacute;ba, n&atilde;o s&oacute; Joaquim de Almeida,<br \/>\n    espirito por assim escrevermos, inspirador do capit&atilde;o-m&oacute;r Jo&atilde;o<br \/>\n    da Maia, mas tamb&eacute;m Pedro de Melo, um dos instrumentos da revolta sustentados<br \/>\n    pelo Almeida. Tendo esta por base, para tornar uniforme o movimento, dar Goiana<br \/>\n    como unida &agrave; Para&iacute;ba, veio desta Pedro de Melo eleito capit&atilde;o-m&oacute;r<br \/>\n    daquela. Feita a jun&ccedil;&atilde;o em Pedras-de-fogo, tomam posse com ele<br \/>\n    em Goiana os oficiais da nova c&acirc;mara, distribuem-se lugares aos mais<br \/>\n    esfor&ccedil;ados cabos da rebeli&atilde;o, constitui-se enfim o governo da<br \/>\n    vila independente do de Pernambuco. Pedro de Melo entra no exerc&iacute;cio<br \/>\n    do seu lugar com toda a solenidade do estilo. Sai da igreja do Carmo para<br \/>\n    a casa da c&acirc;mara debaixo do palio, acompanhado dos camaristas, t&atilde;o<br \/>\n    leg&iacute;timos como ele, e dos frades carmelitas, executores das ordens<br \/>\n    dos da recoleta do Recife. A vila, achando-se desguarnecida de for&ccedil;a<br \/>\n    militar, visto que a que havia tinha ido atacar o rancho do Sip&oacute;, no<br \/>\n    pressuposto de surpreender a&iacute; o Tunda-Cumbe, viu-se obrigada a aceitar<br \/>\n    este desatino quase a portas fechadas. E o intruso e ileg&iacute;timo governo<br \/>\n    se consolidaria talvez, sustentado por Maia, se logo depois da sua posse,<br \/>\n    em 14 de julho, n&atilde;o tivesse chegado a guarni&ccedil;&atilde;o incumbida<br \/>\n    da diligencia e ao mesmo tempo as for&ccedil;as legais mandadas de Olinda<br \/>\n    para impedir que seguissem os revoltosos e dissolver o governo intruso. Estas<br \/>\n    for&ccedil;as vinham comandadas pelo ajudante Bernardo de Alem&atilde;o e<br \/>\n    Mendon&ccedil;a, o qual se unira com o capit&atilde;o Bento Bezerra de Menezes,<br \/>\n    que comandava a companhia de Araripe, e com o ajudante Felipe Bandeira de<br \/>\n    Melo e os que com ele estavam na ilha de Itamarac&aacute;. Posto que n&atilde;o<br \/>\n    eram numerosos, tendo feito jun&ccedil;&atilde;o com a guarni&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vila, puderam por em violento e vergonhoso regresso todos os revoltosos<br \/>\n    Paraibanos. <\/p>\n<p>No intuito de deixarem inteiramente serenados os esp&iacute;ritos dos pac&iacute;ficos<br \/>\n    habitantes e restabelecida a ordem em Goiana, fixaram-se essas for&ccedil;as<br \/>\n    no engenho do capit&atilde;o Bento Correa de Lima, que ficava &agrave; vista<br \/>\n    da vila, e onde estiveram por muitos dias. <\/p>\n<p>O Tunda-Cumbe, sagaz e prevenido, tinha-se retirado com os seus ao valhacouto<br \/>\n    do Sip&oacute;, logo depois de constitu&iacute;do o governo que teve t&atilde;o<br \/>\n    ef&ecirc;mera exist&ecirc;ncia, o que n&atilde;o concorreu pouco para o aumento<br \/>\n    dos cr&eacute;ditos da sua manha e penetra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2><a name=\"18\">Cap&iacute;tulo XVIII<\/a><\/h2>\n<p>Antes de chegar &agrave; Goiana, praticou em Pedras-de-fogo o bando que viera<br \/>\n    da Para&iacute;ba, capitaneado por Luiz Soares, uma infame trag&eacute;dia.\n  <\/p>\n<p>Essa povoa&ccedil;&atilde;o, da qual, por efeito de nossa viciosa divis&atilde;o<br \/>\n    territorial, uma parte pertence &agrave; prov&iacute;ncia da Para&iacute;ba,<br \/>\n    e a outra parte a Pernambuco, j&aacute; naquele tempo representava certo esp&iacute;rito<br \/>\n    de resist&ecirc;ncia ao elemento estrangeiro, que depois da referida trag&eacute;dia<br \/>\n    se acentuou e manteve at&eacute; bem pouco tempo, segundo direi. <\/p>\n<p>A principal fam&iacute;lia de Pedras-de-fogo em 1711 n&atilde;o se caracterizava<br \/>\n    por clara linhagem nem por haveres, mas pelo numero de seus membros, pelo<br \/>\n    espirito de trabalho de cada um, pela harmonia que os trazia unidos uns aos<br \/>\n    outros, e pela valentia que de qualquer deles fazia um le&atilde;o. <\/p>\n<p>Manoel do O&rsquo;, sujeito tirante a pardo, natural de Nossa-Senhora-do-&oacute;<br \/>\n    fora ainda muito novo estabelecer-se com sua tenda de alfaiate em Pedras-de-fogo.\n  <\/p>\n<p>Esse lugar, que ainda hoje n&atilde;o &eacute; not&aacute;vel sen&atilde;o<br \/>\n    por sua grande feira de gados, a qual a&iacute; se faz semanalmente, por ent&atilde;o<br \/>\n    come&ccedil;ava apenas a povoar-se. poder-se-ia compor de quinze a vinte casinhas,<br \/>\n    em sua maior parte cobertas de palha. <\/p>\n<p>O alfaiate casou-se com a filha de um mulato por nome Jos&eacute; da Luz,<br \/>\n    que tinha na Rua-da-feira a casa de morada e defronte desta a tenda de ourives.<br \/>\n    A uni&atilde;o foi fecunda, cada ano nascia a Manoel do &Oacute; um filho;<br \/>\n    de tal sorte foram as coisas, que em 1710 a sua descend&ecirc;ncia se compunha<br \/>\n    de dez filhos e vinte e dois netos. Alguns destes j&aacute; taludos. <\/p>\n<p>N&atilde;o havia nenhum que n&atilde;o tivesse seu meio de vida. Alguns n&atilde;o<br \/>\n    o tinham muito decente e legitimo; n&atilde;o h&aacute; fam&iacute;lia numerosa<br \/>\n    em que se n&atilde;o aponte qualquer lepra. Em sua maioria, por&eacute;m,<br \/>\n    eram os descendentes var&otilde;es de Manoel do &Oacute; de regular procedimento<br \/>\n    e muito benquistos no lugar. <\/p>\n<p>Posto que, como meio de levantar a gentalha a seu favor, os mascates fizeram<br \/>\n    publicar que a sua causa era a da liberdade e da igualdade do povo contra<br \/>\n    a tirania constitu&iacute;da e os privil&eacute;gios antigos da nobreza, meio<br \/>\n    a que deveram a maior parte dos aux&iacute;lios dos naturais da terra, Manoel<br \/>\n    do &Oacute;, que n&atilde;o era tolo, convidado por Maia a aderir aos motins,<br \/>\n    escusou-se, dizendo que nada tinha nem com os nobres, nem com os mascates,<br \/>\n    visto que era ele, como todos os seus, mec&acirc;nico, plebeu e homem de cor.\n  <\/p>\n<p>Tanto bastou para excitar o desagrado dos insurgentes, dos quais foram, dentro<br \/>\n    em pouco, t&atilde;o positivas e repetidas as hostilidades e arrogancias contra<br \/>\n    Manoel do &Oacute;, que, ofendido este, ao principio simplesmente no seu melindre<br \/>\n    de fam&iacute;lia, e por derradeiro na pr&oacute;pria pessoa de um filho,<br \/>\n    certo dia, de um genro da&iacute; a pouco, e de um neto semanas depois, resolveu<br \/>\n    declarar-se pela causa dos nobres; e uma das tentativas de Maia para fazer<br \/>\n    jun&ccedil;&atilde;o em Goianinha com o bando do Tunda-Cumbe, a fim de se<br \/>\n    dirigirem ao Recife, foi frustrada por Manoel com sua companhia de filhos,<br \/>\n    mais ou menos ligados com ele por la&ccedil;os particulares. Foi t&atilde;o<br \/>\n    forte e acertada a oposi&ccedil;&atilde;o, que a for&ccedil;a mandada por<br \/>\n    Maia n&atilde;o pode passar sequer os limites da Para&iacute;ba.<\/p>\n<p>N&atilde;o foi s&oacute; esta a &uacute;nica tentativa de jun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    malograda; nenhuma houve de 11 de julho para traz que surtisse efeito. Manoel<br \/>\n    do &Oacute; achava-se diante de todas com sua gente como barreira intranspon&iacute;vel<br \/>\n    e fatal. <\/p>\n<p>Estas e outras id&ecirc;nticas contrariedades exacerbaram por tal forma o<br \/>\n    capit&atilde;o-m&oacute;r da Para&iacute;ba que este assentou de queimar o<br \/>\n    ultimo cartuxo para as fazer cessar de todo. <\/p>\n<p>&#8211; Diga a esse negro Manoel do &Oacute;, assim se exprimia ele uma vez a certo<br \/>\n    sujeito que tinha rela&ccedil;&otilde;es com o alfaiate, que muito breve lhe<br \/>\n    hei de provar que O &eacute; o mesmo que zero; e a seus filhos Jos&eacute;<br \/>\n    da Luz e Antonio da Luz, diga igualmente que hei de mandar apagar as luzes<br \/>\n    de sebo de Pedras-de-fogo pelo meu escravo Euzebio, com tiros de bacamarte.\n  <\/p>\n<p>Dito e feito. Em 10 de julho, quando menos se esperava no povoado, rompeu<br \/>\n    o fogo para as bandas da Baixinha, lugar de Pedras-de-fogo que pertence &agrave;<br \/>\n    Para&iacute;ba. Tinham sido dados os tiros pela gente de Luiz Soares contra<br \/>\n    uns sobrinhos do alfaiate que moravam desse lado. <\/p>\n<p>Manoel do &Oacute;, que n&atilde;o obstante a sua avan&ccedil;ada idade tinha<br \/>\n    ainda grandes esp&iacute;ritos e n&atilde;o perdia de vista os passos de Maia,<br \/>\n    saiu logo com sua gente; e pois na v&eacute;spera de noite seu filho Anacleto<br \/>\n    do Espirito-Santo, que chegara do Limoeiro, aonde tinha ido a destrocar uns<br \/>\n    cavalos, lhe dissera ter visto a&iacute; o Tunda-Cumbe, n&atilde;o pensou<br \/>\n    em proteger a retaguarda, at&eacute; porque, sendo muito numeroso o concurso<br \/>\n    dos agressores, toda a gente viu-se obrigada a empenhar-se em lhe fazer frente.\n  <\/p>\n<p>Este foi o seu mal, porque momentos depois teve a retaguarda atacada por<br \/>\n    for&ccedil;as n&atilde;o menos numerosas que as de Luiz Soares. Foi o caso<br \/>\n    que, tendo-se entendido Maia previamente por carta com Antonio Coelho e concertado<br \/>\n    com ele o ataque ao obst&aacute;culo comum, n&atilde;o se fizera esperar do<br \/>\n    lado de Goiana o refor&ccedil;o do Tunda-Cumbe. <\/p>\n<p>Vendo-se entre dois fogos o povo de Manoel do &Oacute;, n&atilde;o houve<br \/>\n    esfor&ccedil;o que n&atilde;o empregasse para romper qualquer dos lados, nem<br \/>\n    atos de bravura que n&atilde;o praticasse, a fim de levar a melhor aos agressores.<br \/>\n    Tudo por&eacute;m foi debalde. Trinta homens n&atilde;o podiam triunfar de<br \/>\n    oitocentos. <\/p>\n<p>A cabo de uma hora de peleja que n&atilde;o se pode descrever, Manoel com<br \/>\n    quase todos seus parentes estavam destro&ccedil;ados e vencidos. Restavam<br \/>\n    unicamente da fam&iacute;lia as mulheres, dois filhos e tr&ecirc;s sobrinhos,<br \/>\n    que lograram escapar-se quando reconheceram que a sorte das armas lhes era<br \/>\n    adversa. Estes, para n&atilde;o perderem a vida, ganharam o mato. <\/p>\n<p>N&atilde;o se podem imaginar as atrocidades que, vendo-se senhores do campo,<br \/>\n    cometeram na povoa&ccedil;&atilde;o, desamparada no mais aceso da luta, os<br \/>\n    bandoleiros desenfreados e sedentos. <\/p>\n<p>Refugiaram-se no mato os homens feridos e as mulheres chorosas e consternadas<br \/>\n    que constitu&iacute;am os &uacute;ltimos restos da parentela de Manoel do<br \/>\n    &Oacute;. A&iacute; o seu &oacute;dio cresceu e radicou-se profundamente no<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o de cada um dos foragidos. Exagerados em seus desejos<br \/>\n    de desagravar-se, juraram na solid&atilde;o da selva, testemunha da sua adversidade<br \/>\n    e depositaria dos seus prantos, que se pudessem voltar com vida a Pedras-de-fogo,<br \/>\n    como lei de sua honra, n&atilde;o consentiriam jamais que nenhum portugu&ecirc;s<br \/>\n    se demorasse mais de vinte e quatro horas na povoa&ccedil;&atilde;o fundada<br \/>\n    pela ilustre vitima cuja mem&oacute;ria eles deste modo queriam honrar. Julgavam,<br \/>\n    jurando preencher esta promessa solene, que cumpriam um preceito de alta justi&ccedil;a.<br \/>\n    N&atilde;o era por&eacute;m outro sentimento o deles, assim prometendo, que<br \/>\n    o sentimento da vingan&ccedil;a pessoal, sempre cego e injusto. <\/p>\n<p>Transmitindo-se de pai a filho, de filho a neto, nem foi esquecida a tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do mortic&iacute;nio nem ficou sem preenchimento a promessa feita entre prantos<br \/>\n    e angustias h&aacute; mais de um s&eacute;culo. <\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; no que a&iacute; fica relatado, inven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de romancista. At&eacute; bem pouco tempo, logo que chegava qualquer filho<br \/>\n    de Portugal a Pedras-de-fogo, era intimado de ordin&aacute;rio por moradores<br \/>\n    pertencentes &agrave;s primeiras fam&iacute;lias, para que dentro de poucas<br \/>\n    horas se retirasse. <\/p>\n<p>Este exagero passou de todo. A civiliza&ccedil;&atilde;o, polindo o brasileiro<br \/>\n    do interior, deixou-lhe inteiramente livres os movimentos de natural generosidade<br \/>\n    e brandura, que constituem a parte essencial de seu g&ecirc;nio. <\/p>\n<p>Enquanto estas cenas e outras semelhantes se passavam em diferentes pontos<br \/>\n    do termo de Goiana, acertadas providencias eram dadas pelo governo da capital<br \/>\n    a fim de que elas n&atilde;o se reproduzissem. <\/p>\n<p>N&atilde;o sem raz&atilde;o inspirava aos nobres plena confian&ccedil;a o<br \/>\n    ajudante-de-tenente Francisco Gil Ribeiro. A galhardia e a bravura militar<br \/>\n    de Gil eram tradicionais, e constitu&iacute;am um dos mais ricos e ilustres<br \/>\n    patrim&ocirc;nios da gloria pernambucana. Para descansar das fadigas da sua<br \/>\n    longa e trabalhosa vida, acolhera-se o anci&atilde;o na sombra do lar domestico.<br \/>\n    Afetos brandos, inclina&ccedil;&otilde;es respeit&aacute;veis, tinham-se substitu&iacute;do<br \/>\n    &agrave;s violentas explos&otilde;es da paix&atilde;o guerreira. Estabelecera<br \/>\n    ele sua resid&ecirc;ncia nas Salinas (hoje Santo-Amaro), &agrave; margem direita<br \/>\n    do Beberibe, entre cajueiros e sapotiseiros pitorescos. Da&iacute; o foi tirar<br \/>\n    o governo, para lhe entregar o comando da fortaleza de Itamarac&aacute;, amea&ccedil;ada<br \/>\n    de cair no poder dos amotinados de Goiana. As noticias, por&eacute;m, dos<br \/>\n    graves e sucessivos conflitos havidos nesta vila, determinaram o governo a<br \/>\n    ordenar que o ajudante-de-tenente, &agrave; frente de quarenta homens, e acompanhado<br \/>\n    dos alferes Carlos Teixeira e Francisco Alves, e do ajudante Felipe Bandeira<br \/>\n    de Melo, se dirigissem sem perda de tempo a pacificar aquela localidade. <\/p>\n<p>Ao entrarem na estrada geral do norte, um matuto que passava do Recife, vendo<br \/>\n    a for&ccedil;a, recuou o cavalo, para deixar livre o caminho. Parecendo suspeito<br \/>\n    a Gil este movimento de pura cortesia ou respeito, fez sinal a alguns soldados<br \/>\n    que segurassem o matuto. Este, por&eacute;m, que n&atilde;o era outro que<br \/>\n    Francisco, adivinhando a inten&ccedil;&atilde;o, p&ocirc;s-se a respeitosa<br \/>\n    distancia, aos primeiros gestos dos soldados. <\/p>\n<p>&#8211; Que id&eacute;ia faz de mim, seu comandante? perguntou ele com serenidade.<br \/>\n    Pensar&aacute; que sou pela mascataria? Pois se pensa, est&aacute; malenganado.\n  <\/p>\n<p>Ouvindo estas palavras, Gil, com gesto imperioso e grave chamou o matuto<br \/>\n    para mais perto de si; e lhe disse: <\/p>\n<p>&#8211; Quem foi que te ensinou este recado para me iludires? <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o quero iludir ningu&eacute;m. <\/p>\n<p>Cuidado com esta gente, senhor ajudante, disse Felipe Bandeira a meia voz<br \/>\n    a Gil. Parecendo simpl&oacute;rios, s&atilde;o finos e manhosos. <\/p>\n<p>&#8211; Mas quem lhe disse que eu sou pela mascataria? tornou Gil a Francisco.\n  <\/p>\n<p>Se &eacute; ou se n&atilde;o &eacute;, eu n&atilde;o posso jurar. C&aacute;<br \/>\n    eu &eacute; que n&atilde;o sou nem serei por eles nem neste mundo nem no outro.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, se eu tivesse necessidade de uma pessoa que me ensinasse<br \/>\n    os atalhos para chegar &agrave; vila sem ser pressentido pelos nobres, n&atilde;o<br \/>\n    me prestava voc&ecirc; de boa vontade este servi&ccedil;o t&atilde;o pequeno?\n  <\/p>\n<p>&#8211; Saber&aacute; vossa senhoria que nem de boa nem de m&aacute; vontade eu<br \/>\n    lhe ensinava os caminhos da vila para este fim. Daqui mesmo destorcia para<br \/>\n    traz no meu castanho, porque para servir a tais indiv&iacute;duos n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; for&ccedil;as humanas que me obriguem, nem dinheiro que me compre.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Grande &oacute;dio tem voc&ecirc; &agrave; esses homens que s&oacute; cuidam<br \/>\n    em viver do seu trabalho. <\/p>\n<p>Eu c&aacute; sei em que eles cuidam. Querem enriquecer &agrave; nossa custa.<br \/>\n    Vendem a fazenda pela hora da morte, agora os g&ecirc;neros da terra querem<br \/>\n    comprar por pouco mais que nada. N&atilde;o fazem isto s&oacute; com o pobre<br \/>\n    matuto, como eu; at&eacute; os senhores-de-engenho gemem entre as unhas deles.<br \/>\n    O que n&atilde;o tem o olho vivo, quando d&aacute; acordo de se est&aacute;<br \/>\n    com as terras, as canas, os negros de sua propriedade metidinhos todos dentro<br \/>\n    da gaveta do mascate, que faz os suprimentos e adiantamentos. Muito francos<br \/>\n    em fiarem s&atilde;o os tais mascates, quando v&ecirc;m que a pessoa a quem<br \/>\n    fazem seus oferecimentos, tem bens de seus. Agora, quando a conta est&aacute;<br \/>\n    bem aumentada, tomam tudo pela justi&ccedil;a, e ficam donos de casas, escravos<br \/>\n    e fazendas do dia para noite. Se isto &eacute; ser bom, o inimigo leve esta<br \/>\n    bondade para si, que eu n&atilde;o a quero nem de gra&ccedil;a, quanto mais<br \/>\n    &agrave; custa do meu ro&ccedil;ado, do meu cavalo e da minha casinha. <\/p>\n<p>Tendo dito estas palavras, Francisco, chegou a espora que trazia no p&eacute;<br \/>\n    direito &agrave; barriga do castanho e virou para o Recife. N&atilde;o pode,<br \/>\n    por&eacute;m, avan&ccedil;ar muitos passos, porque Gil, pondo as pernas &agrave;<br \/>\n    sua cavalgadura, tomou-lhe logo o caminho. <\/p>\n<p>&#8211; Para onde vai? Venha c&aacute;. Estamos de acordo, e podemos ir juntos<br \/>\n    at&eacute; Goiana. Voc&ecirc; &eacute; muito desconfiado, camarada, disse<br \/>\n    em tom de quem gracejava. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me fiz por minhas m&atilde;os, respondeu Francisco. Foi assim<br \/>\n    que nasci da barriga de minha m&atilde;e. <\/p>\n<p>&#8211; Mas n&atilde;o tem que desconfiar de mim. <\/p>\n<p>&#8211; Meu senhor, a gente v&ecirc; cara e n&atilde;o v&ecirc; cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Eu sei l&aacute; se vosmec&ecirc; vem contra os mascates ou pelos mascates&#8230;\n  <\/p>\n<p>&#8211; Pois voc&ecirc; n&atilde;o est&aacute; vendo a tropa? <\/p>\n<p>&#8211; Que tem a tropa? N&atilde;o podia ser deles? <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, voc&ecirc; vem da capital e n&atilde;o sabe que eles est&atilde;o<br \/>\n    cercados? <\/p>\n<p>&#8211; Eu sei muito bem que eles est&atilde;o cercados. Sou capaz de dizer at&eacute;<br \/>\n    por quem. <\/p>\n<p>&#8211; Diga l&aacute;. <\/p>\n<p>Pois escute. Nas trincheiras levantadas junto do muro do S. Bento est&aacute;<br \/>\n    a companhia do capit&atilde;o Dionizio, e a dos Estudantes, comandada pelo<br \/>\n    capit&atilde;o Antonio Tavares; nos pres&iacute;dios do Varadouro, Porto-dos-padres,<br \/>\n    Porto-das-lavadeiras, Carreira-dos-masombos e Tacaruna, est&atilde;o o tenente<br \/>\n    Jos&eacute; Tavares e o sargento-m&oacute;r Domingos Freire; as for&ccedil;as<br \/>\n    de S.Amarinho, Campina-da-cerca, Curtume e Santo-Andr&eacute; s&atilde;o comandadas<br \/>\n    pelo padre Paulo; na Concei&ccedil;&atilde;o, Saco, Olaria e Arraial-da-boa-vista<br \/>\n    est&aacute; o capit&atilde;o Carlos Ferreira; na Barreta e no Arraial-dos-afogados<br \/>\n    est&aacute; o comandante Jo&atilde;o de Barros. <\/p>\n<p>&#8211; Bem informado anda voc&ecirc; da distribui&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as<br \/>\n    do governo. <\/p>\n<p>&#8211; Se eu passei por todas elas, porque tive de ir a Jaboat&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; Mas ent&atilde;o porque &eacute; que duvida se somos pelos mascates ou<br \/>\n    pelos nobres? Inquiriu Felipe Bandeira. <\/p>\n<p>&#8211; Porque duvido? Ent&atilde;o os mascates tamb&eacute;m n&atilde;o tem tropas<br \/>\n    na vila? Eles n&atilde;o podiam mandar gente por mar do Recife para Itamarac&aacute;?<br \/>\n    Mas enfim, como vosmec&ecirc;s dizem que v&ecirc;m por parte do governo, estou<br \/>\n    calado. Eu n&atilde;o duvido da palavra dos homens. <\/p>\n<p>A esse tempo a tropa, que um instante estivera parada, seguia j&aacute; o<br \/>\n    caminho de Goiana. Gil, Felipe Bandeira e os outros oficiais iam no couce.<br \/>\n    Francisco tinha metido o cavalo entre o de Felipe Bandeira e o de Gil.<\/p>\n<h2><a name=\"19\">Cap&iacute;tulo XIX<\/a><\/h2>\n<p>Passado um momento, perguntou o ajudante-de-tenente ao matuto: <\/p>\n<p>&#8211; Poderemos saber quem &eacute; voc&ecirc;, camarada? <\/p>\n<p>&#8211; Chamo-me Francisco dos Prazeres, e sou morador do engenho Bujari. <\/p>\n<p>&#8211; A quem pertence esse engenho? <\/p>\n<p>&#8211; A seu sargento-m&oacute;r Jo&atilde;o da Cunha. <\/p>\n<p>&#8211; Sei quem &eacute;. <\/p>\n<p>Havemos de passar por dentro mesmo do engenho. Vou deixar vosmec&ecirc;s<br \/>\n    em Goiana, e volto ao Cajueiro, onde tenho minha fam&iacute;lia. H&aacute;<br \/>\n    mais de m&ecirc;s n&atilde;o sei dela, nem nova, nem mandado. Quem sabe o<br \/>\n    que n&atilde;o ter&aacute; acontecido &agrave; minha mulher e a meu filho<br \/>\n    durante a minha aus&ecirc;ncia? <\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; vai encontrar todos em paz. <\/p>\n<p>E se n&atilde;o encontrar, o Tunda-Cumbe &eacute; quem me h&aacute; de pagar.<br \/>\n    Eu nunca matei ningu&eacute;m. Trago uma faca de ponta aqui no c&oacute;s<br \/>\n    para me defender. Mas se o diabo do p&eacute;-de-chumbo tiver feito alguma<br \/>\n    das suas a gente que me perten&ccedil;a, n&atilde;o pregarei olhos enquanto<br \/>\n    n&atilde;o lhe pregar primeiro a faca na barriga. Hei de tirar-lhe o couro<br \/>\n    como se faz aos bodes para secar e dele fazer suador do meu cavalo. <\/p>\n<p>Quando chegaram ao engenho Itapirema, em cuja capela estivera oculto em outubro<br \/>\n    do ano anterior para escapar &agrave; pris&atilde;o ordenada pelo governador<br \/>\n    Castro Caldas, o ouvidor de Olinda dr. Jos&eacute; In&aacute;cio de Arouche,<br \/>\n    era quase noite. O rio tinha tomado muita &aacute;gua e estava de nado. <\/p>\n<p>&#8211; Como h&aacute; de ser isso agora? Perguntou Gil, pondo os olhos naquele<br \/>\n    mar d&rsquo;&aacute;gua, que se estorcia por baixo de galerias de folhagens,<br \/>\n    estrepitoso e medonho. Para atravessarmos esta imensidade agora de noite,<br \/>\n    corremos o risco de perder algum companheiro. &Eacute; entretanto necess&aacute;rio<br \/>\n    passarmos hoje mesmo da outra banda; porque, antes que a alva esclare&ccedil;a,<br \/>\n    devemos achar-nos na vila. Ali&aacute;s poderemos chegar j&aacute; fora de<br \/>\n    tempo. <\/p>\n<p>&#8211; Eu j&aacute; sei porque &eacute; esta pressa toda, disse Francisco. <\/p>\n<p>&#8211; Porque &eacute;? <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; porque em Goiana se receia que da Para&iacute;ba passe a gente<br \/>\n    prometida aos mascates pelo capit&atilde;o-m&oacute;r. Eu de tudo sei, seu<br \/>\n    comandante. <\/p>\n<p>&#8211; Mas ent&atilde;o v&ecirc; l&aacute; se nos d&aacute;s rem&eacute;dio a<br \/>\n    isto. <\/p>\n<p>Porque n&atilde;o havemos de passar j&aacute;? respondeu Francisco, saltando<br \/>\n    do cavalo &agrave; beira do rio, onde a tropa fora obrigada a fazer alto.<br \/>\n    H&aacute; aqui um ponto onde o Itapirema d&aacute; v&atilde;o. Mas est&aacute;<br \/>\n    tudo encoberto e n&atilde;o se pode saber onde fica a trilha. <\/p>\n<p>Quase meia hora gastou ele em procurar, sempre debalde, a oculta passagem.<br \/>\n    Com &aacute;gua, ora pela cintura, ora pelos peitos, ora pela boca, percorreu<br \/>\n    uma extens&atilde;o de cerca de vinte bra&ccedil;as ao longo da margem. De<br \/>\n    uma vez caiu dentro de um po&ccedil;o, de que s&oacute; se salvou por ser<br \/>\n    forte nadador. <\/p>\n<p>Estava j&aacute; quase de todo escuro quando, exausto do muito lutar com<br \/>\n    o impetuoso elemento, que puxava com extrema velocidade lhe pareceu ter dado<br \/>\n    com o v&atilde;o desejado, que ele pr&oacute;prio j&aacute; perdera a esperan&ccedil;a<br \/>\n    de achar. <\/p>\n<p>Veio &agrave; terra, muniu-se de um fac&atilde;o, e atirou-se novamente a<br \/>\n    nado para o meio do rio. Distante da margem cerca de seis bra&ccedil;as, um<br \/>\n    mulunguzeiro, cujo tronco o &iacute;mpeto da corrente retorcera e cuja folhagem<br \/>\n    redemoinhava a&ccedil;oitada pelos novel&otilde;es revoltos, foi o ponto negro<br \/>\n    para onde se dirigiu o matuto. Em torno da arvore desacompanhada as &aacute;guas<br \/>\n    fremiam vertiginosas, acusando de baixo delas abismo insond&aacute;vel. <\/p>\n<p>&#8211; Eh, meu negro! Exclamou Francisco, dirigindo-se ao rio. Est&aacute;s assobiando<br \/>\n    e gemendo? N&atilde;o v&ecirc;s aqui o teu amigo, famanaz do Cajueiro? deixa<br \/>\n    as tuas raivas para outros. Eu sou teu antigo conhecido. Faz-te de cera, cora&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Assim gracejando deixou-se o matuto levar pela for&ccedil;a da corrente,<br \/>\n    e quando &agrave; claridade duvidosa do crep&uacute;sculo pareceu a todos<br \/>\n    os que da margem tinham os olhos postos nele, inevit&aacute;vel a sua perda,<br \/>\n    o matuto barafustou na folhagem retorcida e apagou-se um momento da vista<br \/>\n    dos presentes. Morreu! <\/p>\n<p>&#8211; Afogou-se. <\/p>\n<p>Tais foram as vozes que partiram de diferentes bocas. <\/p>\n<p>S&uacute;bito ouviu-se bater o fac&atilde;o sobre os galhos superiores do<br \/>\n    mulunguzeiro. Ningu&eacute;m viu mais Francisco, mas todos ouviram o rumor<br \/>\n    dos golpes da pesada arma, movida por sua m&atilde;o possante contra o atleta<br \/>\n    vegetal que o Itapirema trabalhava por engolir. N&atilde;o se demorou muito<br \/>\n    que os golpes cessaram e uma sombra negra, passando r&aacute;pida, vertiginosa,<br \/>\n    como nuvem fat&aacute;stica, aos olhos da tropa, sumiu-se no turbilh&atilde;o.<br \/>\n    Era a ramagem do mulunguzeiro que fugia, deixando aparecer nua, escalavrada,<br \/>\n    acima da superf&iacute;cie do rio, a parte superior da &aacute;rvore, e no<br \/>\n    cimo desta o destemido matuto. <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o estava completo o servi&ccedil;o. Francisco veio outra vez<br \/>\n    &aacute; terra, e tendo tirado um fuzil do saco vazio que pendia do cabe&ccedil;ote<br \/>\n    da cangalha, encaminhou-se para uma macahibeira que a alguns passos aparecia<br \/>\n    solit&aacute;ria. Umas folhas secas, que a tempestade tinha abatido a&iacute;,<br \/>\n    foram apanhadas pelo intr&eacute;pido matuto, e com elas improvisou ele um<br \/>\n    facho. <\/p>\n<p>Ent&atilde;o, voltando-se para a tropa disse: <\/p>\n<p>&#8211; Vamos passar o rio. Eu vou na frente, feito guia. Com o homem ningu&eacute;m<br \/>\n    pode, comandante. &Eacute; o bicho mais valente que eu conhe&ccedil;o. Qual<br \/>\n    cobra, nem on&ccedil;a, nem rio, nem raio! Quando o homem &eacute; homem,<br \/>\n    fique certo que vence pedras, &aacute;gua, o pr&oacute;prio fogo. <\/p>\n<p>E meteu-se imediatamente no liquido elemento. <\/p>\n<p>Quem souber o que &eacute; um rio cheio, nos caminhos do norte, especialmente<br \/>\n    o Itapirema, que pelo inverno costumava arrebatar e ainda arrebata &agrave;s<br \/>\n    vezes algumas vidas, ajuizar&aacute; da coragem de Francisco e do servi&ccedil;o<br \/>\n    que prestava. O rio roncava e estorcia-se ainda irritado e amea&ccedil;ador.<br \/>\n    Mas a f&uacute;ria que causava horror a quem um momento atr&aacute;s levara<br \/>\n    a vista ao mulunguzeiro, essa, com a aus&ecirc;ncia da folhagem, tinha diminu&iacute;do,<br \/>\n    deixando que as &aacute;guas corressem mais livremente e menos arrebatadas<br \/>\n    que antes. <\/p>\n<p>Levaram talvez um quarto de hora a romper o vasto mar, ora em linha reta<br \/>\n    na dire&ccedil;&atilde;o do norte, ora contornando cotovelos de terra firme.\n  <\/p>\n<p>De repente uma luzinha apareceu como santelmo, na margem fronteira. Era o<br \/>\n    lume da casinha de um morador do engenho. <\/p>\n<p>&#8211; Estamos da outra banda, minha gente. Ali est&aacute; a casa do Manoel Felix,<br \/>\n    onde poderemos tomar algum trago. Acho-me todo resfriado. <\/p>\n<p>Quando pisaram terra, Gil Ribeiro, aproximando-se de Francisco, dirigiu-lhes<br \/>\n    estas palavras: <\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, camarada. Voc&ecirc; nos prestou um servi&ccedil;o que n&atilde;o<br \/>\n    tem pre&ccedil;o. <\/p>\n<p>&#8211; Ora qual, seu comandante. eu tamb&eacute;m estou doido por ver a minha<br \/>\n    gente. <\/p>\n<p>A noite estava fria, mas clara. A solid&atilde;o era profunda, e o mato,<br \/>\n    onde como fogos f&aacute;tuos, luziam interpoladamente os pirilampos, soturno<br \/>\n    e medonho. <\/p>\n<p>Mas por entre arvores ramalhudas, moitas bastas, barreiras nuas, mostrava-se<br \/>\n    a estrada a todas as vistas, figurando o leito arenosos de um riacho que secara.\n  <\/p>\n<p>O dia vinha rompendo, quando descobriram a massa sombria da mata de Bujari.<br \/>\n    O Cajueiro estava a menos de cem bra&ccedil;as, oculto por um cotovelo que<br \/>\n    formava a estrada. <\/p>\n<p>Sentindo o cora&ccedil;&atilde;o pular-lhe de contente, Francisco virou-se<br \/>\n    para Gil: <\/p>\n<p>&#8211; Seu comandante, vossa senhoria d&aacute; licen&ccedil;a que eu v&aacute;<br \/>\n    adiante acordar minha mulher e meu filho? Estou que n&atilde;o posso me conter.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Pode ir, meu bom companheiro. Corra j&aacute;. &Eacute; natural a sua impaci&ecirc;ncia.<br \/>\n    A nossa casinha fica ali adiante, na beira do caminho, &agrave; direita, continuou<br \/>\n    Francisco. A que fica a esquerda &eacute; a de seu padre Antonio. At&eacute;<br \/>\n    logo, seu comandante. <\/p>\n<p>Francisco esporeou o castanho, que, n&atilde;o obstante vir caindo de fome<br \/>\n    e enfado, se empinou, ainda debaixo das pernas do senhor, naturalmente por<br \/>\n    ter sentido o cheiro da manjedoura de casa, e, contornando o cotovelo da estrada,<br \/>\n    desapareceu quase de repente da vista dos que ficavam atr&aacute;s. <\/p>\n<p>&#8211; Estou cativo deste matuto, disse Gil, voltando-se para os companheiros.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Este profundo amor da fam&iacute;lia, comandante, &eacute; um dos dotes<br \/>\n    naturais do nosso almocreve, disse Felipe Bandeira. <\/p>\n<p>&#8211; Bem sei. Em minha longa vida poucos tenho encontrado que desmintam este<br \/>\n    modelo. Mas o que acho especial em Francisco &eacute; o desembara&ccedil;o,<br \/>\n    a gra&ccedil;a, a franqueza que p&otilde;e em suas palavras e a&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    &Eacute; verdade, disse o alferes Teixeira. Quase sempre os matutos se tornam<br \/>\n    bisonhos, quando se acham com pessoas a quem devem respeito. <\/p>\n<p>&#8211; Se tivesse meios, era capaz de obsequiar-nos com um lauto banquete. Assim<br \/>\n    parece. Mas&#8230; que vem a ser aquilo, comandante? perguntou Felipe Bandeira,<br \/>\n    apontando para frente. <\/p>\n<p>&#8211; Tinham dado a volta do caminho e entravam no Cajueiro. A casa do padre<br \/>\n    Antonio apareceu logo aos olhos de todos, &agrave; esquerda, como dissera<br \/>\n    Francisco; mas no ponto onde se devia mostrar a casa deste, o que eles viram<br \/>\n    foi um mont&atilde;o de cinzas, de que se levantavam ainda fumo e restos de<br \/>\n    chama por entre algumas paredes, esburacadas e enegrecidas. <\/p>\n<p>&#8211; O cavalo castanho, entregue de todo &agrave; fome que trazia, devorava,<br \/>\n    sem cavaleiro, a grama verde, que guarnecia a estrada. Grande desgra&ccedil;a<br \/>\n    houve por aqui! exclamou Gil. <\/p>\n<p>E atirou-se para diante da tropa e com pouco chegou ao p&eacute; das ru&iacute;nas<br \/>\n    fumegantes. <\/p>\n<p>&#8211; Francisco? Francisco? Chamou ele, sem poder dominar a sua como&ccedil;&#038;atiatilde;o.<br \/>\n    Que foi isto, meu amigo? <\/p>\n<p>O matuto, quase a queimar-se nos barrotes e caibros que ainda ardiam por<br \/>\n    entre o barro ca&iacute;do das paredes, revolvia com um ferro de cova, semelhando<br \/>\n    vis&atilde;o fant&aacute;stica, os paus e a terra abrasada. Ouvindo a voz<br \/>\n    de Gil, respondeu: <\/p>\n<p>&#8211; Estou desgra&ccedil;ado, seu comandante. Puseram-me fogo na casa, como<br \/>\n    v&ecirc;. Mas o que me aterra &eacute; pensar que podem estar debaixo destes<br \/>\n    torr&otilde;es minha mulher e meu filho queimados! <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o h&aacute; de ser assim, Francisco. <\/p>\n<p>Marcelina! Louren&ccedil;o! Exclamava de momento a momento o matuto, cavando<br \/>\n    e revolvendo sempre os entulhos eri&ccedil;ados de lascas, algumas flamejantes,<br \/>\n    muitas reduzidas a carv&atilde;o. Ningu&eacute;m me responde, comandante.<br \/>\n    morreram todos! Morreram! Estou sem mulher, sem filho, sem casa. S&oacute;<br \/>\n    me deixaram a mis&eacute;ria e o luto. <\/p>\n<p>As fei&ccedil;&otilde;es do matuto mostravam-se desfiguradas. Por cima de<br \/>\n    suas faces de quarenta anos, que h&aacute; pouco pareciam de trinta, porque<br \/>\n    as refrescava o reflexo do jubilo intimo, obra da esperan&ccedil;a que lhe<br \/>\n    assegurava veria ele com brevidade os entes prediletos de sua alma, escorriam<br \/>\n    agora lagrimas lentas, e nelas se lia, em vez do prazer, a dor, a afli&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o desespero. Foi f&aacute;cil a todos os circunstantes conhecer a s&uacute;bita<br \/>\n    mudan&ccedil;a, porque a esse momento o dia estava claro, e a aurora iluminava<br \/>\n    o c&eacute;u e a terra com reflexos que nenhum pintor pode ainda reproduzir<br \/>\n    na tela. <\/p>\n<p>Gil, sentindo a gravidade daquela crise, correu ao matuto, lan&ccedil;ou-lhe<br \/>\n    os bra&ccedil;os sobre os ombros, e disse-lhe em face: <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, que &eacute; isso, Francisco? Est&aacute;s a chamar a todo<br \/>\n    instante por teu filho e tua mulher? N&atilde;o v&ecirc;s que n&atilde;o podem<br \/>\n    estar aqui? <\/p>\n<p>&#8211; Mas ent&atilde;o onde est&atilde;o eles, comandante? Na casa do padre Antonio<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m. J&aacute; cansei de bater na porte. Ningu&eacute;m<br \/>\n    me falou de dentro. Oh! Meu Deus! Por aqui andou de certo o Tunda-Cumbe. Malvado!<br \/>\n    Malvado! Tu me pagar&aacute;s. <\/p>\n<p>&#8211; Isto, sim, disse Gil, conhecendo que a loucura um momento iminente ia fugindo,<br \/>\n    espancada pelo sentimento da vingan&ccedil;a, que acordara enfim, para salv&aacute;-lo,<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o do matuto. Havemos de vingar-nos desses perversos,<br \/>\n    que queimam as casas pacificas e levantam ranchos para novos salteadores.<br \/>\n    N&atilde;o percamos tempo. Salta no teu cavalo. Quem sabe o que n&atilde;o<br \/>\n    estar&atilde;o praticando a esta hora na vila os infames bandoleiros. Vamos,<br \/>\n    Francisco. Quero-te a meu lado. <\/p>\n<p>O matuto saltou sobre o castanho. Tinha os olhos e as faces em fogo. Na respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sentia calor de fornalha. Da m&atilde;o, em vez do chiqueirador de buranh&eacute;m<br \/>\n    que trazia, pendia agora uma catana fora da bainha. <\/p>\n<p>Mas de momento a momento ia repetindo, como de se para si: <\/p>\n<p>&#8211; Louren&ccedil;o, Marcelina, que ter&aacute; sido de voc&ecirc;s? Cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tu est&aacute;s a anunciar-me uma desgra&ccedil;a sem nome. Deus se lembre<br \/>\n    de mim, Deus se lembre de mim!<\/p>\n<h2><a name=\"20\">Cap&iacute;tulo XX<\/a><\/h2>\n<p>Eis o que tinha acontecido no Cajueiro, ao escurecer do dia anterior. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o, que depois do que se passara no samba esperava a cada momento<br \/>\n    ser ofendido por Tunda-Cumbe ou por algum dos seus sequazes, vendo entrar<br \/>\n    um vulto desconhecido no caminho das carvoeiras, pegou da espingarda de Francisco,<br \/>\n    e, sem que Marcelina soubesse, encaminhou-se par aquele ponto. <\/p>\n<p>Detr&aacute;s da palho&ccedil;a dos negros existia uma cova imensa, em que<br \/>\n    um homem podia meter-se at&eacute; aos peitos. Com as ultimas chuvas tomara<br \/>\n    ela muita &aacute;gua, e se convertera em barreiro, donde os sapos estavam<br \/>\n    a essa hora soltando suas mon&oacute;tonas toadas. O rapaz avan&ccedil;ou<br \/>\n    para ela por baixo das ramas rasteiras dos cajueiros. Na parte mais funda<br \/>\n    a &aacute;gua deu-lhe pela cintura. Louren&ccedil;o pouco se importou com<br \/>\n    isto. O que ele queria era saber quem era o vulto e o que ia fazer ali. Eis<br \/>\n    o que viu e ouviu. <\/p>\n<p>Estavam dentro da palho&ccedil;a, com os habitantes do costume, um negro<br \/>\n    do servi&ccedil;o domestico de Jo&atilde;o da Cunha por nome Germano e o Pedro<br \/>\n    de Lima, cabra destemido do s&eacute;quito de Tunda-Cumbe, bra&ccedil;o direito<br \/>\n    deste, para assim escrevermos, que deixou nome na historia da guerra, pelas<br \/>\n    &#8211; extors&otilde;es, mortes, roubos e outras desenvolturas que cometeu em Goiana,<br \/>\n    de que fora o terror. <\/p>\n<p>No momento em que Louren&ccedil;o pode enxerg&aacute;-los atrav&eacute;s<br \/>\n    das palhas da choupana, estava Pedro de Lima, a frente voltada para o casal<br \/>\n    de negros e o Germano, justamente a dizer-lhes estas palavras: <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; certinho o que digo; podem crer que ter&atilde;o voc&ecirc;s sua<br \/>\n    liberdade. Guardarei todo o segredo. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o compreendeu logo, por estas palavras, que o cabra prometia<br \/>\n    aos negros a alforria a troco de um levante contra Jo&atilde;o da Cunha. <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, ent&atilde;o, Germano, que dizes a esta proposta? perguntou<br \/>\n    Mo&ccedil;ambique ao negro da confian&ccedil;a do sargento-m&oacute;r. Pois<br \/>\n    a liberdade &eacute; coisa que se engeite? <\/p>\n<p>&#8211; A liberdade &eacute; boa coisa, e eu a n&atilde;o engeito, assim ela venha,<br \/>\n    respondeu Germano. Mas se os outros parceiros n&atilde;o quiserem aceitar<br \/>\n    a proposta, e meu senhor vier a saber que eu &eacute; que andei nisso, quem<br \/>\n    me livrar&aacute; de ir ao carro ou &agrave; fornalha? <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;s um pateta, moleque, disse Pedro de Lima. De hoje at&eacute; amanh&atilde;<br \/>\n    hei de dar no engenho de teu senhor. Se acontecer o que eu c&aacute; espero,<br \/>\n    amanh&atilde; de manh&atilde;zinha o chumbo assobia nas urupemas de sua casa<br \/>\n    e a faca trabalha nas banhas da barriga dele. Se os negros que ele l&aacute;<br \/>\n    tem consigo prontos para dar e apanhar, faltarem na hora do apuro, n&atilde;o<br \/>\n    haver&aacute; santos que o livrem de ir direitinho para a bagaceira, servir<br \/>\n    de pasto aos urubus. <\/p>\n<p>&#8211; Mas a&iacute; &eacute; que est&aacute; a historia, observou Germano. Eu<br \/>\n    sei l&aacute; se eles querem faltar ou n&atilde;o? <\/p>\n<p>Negros safados s&atilde;o todos voc&ecirc;s. N&atilde;o prestam nem para<br \/>\n    tratar de libertar-se. N&atilde;o sabem nem ao menos deixar a senzala, onde<br \/>\n    andam curtidos de fome e sono, pela mata virgem. Negros de patente eram os<br \/>\n    dos Palmares. Aqueles sim. Foram quarenta os que primeiro meteram a cabe&ccedil;a<br \/>\n    no mato; da&iacute; a pouco j&aacute; eram n&atilde;o sei quantos mil. Voc&ecirc;s<br \/>\n    s&atilde;o ao p&eacute; de duzentos e t&ecirc;m medo do chicote do feitor.<br \/>\n    Vai, Germano, falar a Jo&atilde;o-Congo, a Thomaz, a Januario e a Jacinto.<br \/>\n    Se eles n&atilde;o tiverem coragem para a trag&eacute;dia, faze tu o que te<br \/>\n    vou dizer. <\/p>\n<p>&#8211; Diga l&aacute;. <\/p>\n<p>Quando o engenho for atacado por n&oacute;s, corre a botar &aacute;gua dentro<br \/>\n    dos canos das armas de fogo. Isto &eacute; coisa muito f&aacute;cil, e que<br \/>\n    tu podes fazer sem ningu&eacute;m saber, nem ser preciso que algu&eacute;m<br \/>\n    te ajude neste servi&ccedil;o. <\/p>\n<p>Germano nada disse, e, pelos modos, deu mostras de que dentre diferentes<br \/>\n    alvitres indicados pelo audaz bandoleiro, era este o que mais lhe quadrava.<br \/>\n    Mas s&uacute;bito, com gesto de quem tinha tomado uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    decisiva, assim falou a Pedro de Lima: <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Sabe que mais, seu Pedro de Lima? Eu n&atilde;o fa&ccedil;o a meu senhor<br \/>\n    isso que vosmec&ecirc; prop&otilde;e. Ele para mim &eacute; bem bom senhor.<br \/>\n    At&eacute; minha senhora, que &eacute; uma soberbona, essa mesma j&aacute;<br \/>\n    uma vez me prometeu alforia. Pateta! Est&aacute;s com medo, moleque ruim.\n  <\/p>\n<p>Este moleque &eacute; assim mesmo, disse Quiteria. Promete as coisas e n&atilde;o<br \/>\n    faz. Quer e n&atilde;o quer. Tem medo do bacalhau &#8211; disse o cabra despeitado.<br \/>\n    N&atilde;o tem agora medo de minha faca, ou do bacamarte de Gon&ccedil;alo<br \/>\n    Ferreira. Eu s&oacute; digo uma coisa: encontrando-te diante de mim, no momento<br \/>\n    do ataque h&aacute; de ser para ti a minha primeira facada ou o meu primeiro<br \/>\n    tiro. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se zangue comigo, seu Pedro de Lima, disse Germano com certa<br \/>\n    express&atilde;o e revirado de olhos, para dar a entender ao mulato que ele<br \/>\n    tinha inten&ccedil;&atilde;o reservada. Pois se eu visse Germano metido na<br \/>\n    dan&ccedil;a, eu tamb&eacute;m me metia nela, disse Mo&ccedil;ambique. <\/p>\n<p>Est&aacute;s ouvindo? Olha l&aacute; o que perdemos. Eu por&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    quero que ningu&eacute;m me acompanhe contra a vontade. Nunca pensei que n&atilde;o<br \/>\n    aceitasses a minha proposta. Quando te vi passar de tarde para esta banda,<br \/>\n    eu logo conheci que vinhas ao sitio das carvoeiras, e disse comigo: &lsquo;Vou<br \/>\n    falar com Germano para ver se ele quer, a troco da sua liberdade, prestar-nos<br \/>\n    um servicinho. Eu estava na mente de que havia de te chamar para n&oacute;s;<br \/>\n    mas, como n&atilde;o queres, nem por isso te farei mal. O que eu disse h&aacute;<br \/>\n    pouco foi gracejo. De ti, pobre negro cativo, o que eu tenho n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    &oacute;dio, &eacute; pena. E adeus. Perdi meu tempo e minhas raz&otilde;es.<br \/>\n    De outra feita talvez a coisa j&aacute; n&atilde;o seja assim&rsquo;. <\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb&eacute;m me vou embora, que j&aacute; &eacute; tarde; disse Germano.<br \/>\n    Adeus, tio Mo&ccedil;ambique. Com Deus amanhe&ccedil;a, tia Quiteria. <\/p>\n<p>&#8211; Vai-te embora da&iacute; que tu n&atilde;o prestas sen&atilde;o para chotear<br \/>\n    de jaqueta de gal&atilde;o atr&aacute;s de teu senhor, abrir-lhe as porteiras<br \/>\n    para ele passar, e limpar as botas dele quando v&ecirc;m cheias de lama &#8211;<br \/>\n    respondeu Mo&ccedil;ambique. <\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; tamb&eacute;m de que serve? Perguntou Germano despeitado. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; tamb&eacute;m escravo dele, como eu sou? N&atilde;o &eacute; mais<br \/>\n    que a gente se levantar contra seu senhor! Mestre Mo&ccedil;ambique, sabe<br \/>\n    que mais? V&aacute; contar a outro as suas valentias, que eu nelas n&atilde;o<br \/>\n    creio, e tanto caso fa&ccedil;o delas como dos latidos de cachorro velho,<br \/>\n    carregado de rabuje, que j&aacute; n&atilde;o morde, porque nem dentes tem.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; bom, est&aacute; bom, vai-te embora, meu pimp&atilde;o &#8211; disse<br \/>\n    o Mo&ccedil;ambique. Amanh&atilde;, tu me dir&aacute;s quem &eacute; o cachorro<br \/>\n    velho que n&atilde;o morde. Talvez que a esta hora tu estejas na ponta da<br \/>\n    faca de Pedro de Lima, e eu na mata virgem. <\/p>\n<p>Germano deu o andar para a vereda, onde j&aacute; entrara Pedro de Lima,<br \/>\n    que sa&iacute;ra antes dele. <\/p>\n<p>Adiante, debaixo de um cajueiro, um vulto estava parado. Era o matuto. <\/p>\n<p>&#8211; Eu bem te endendi, Germano. E para saber todo o teu pensamento, aqui fiquei<br \/>\n    &agrave; tua espera. <\/p>\n<p>&#8211; Quando &eacute; que v&atilde;o atacar o engenho? <\/p>\n<p>&#8211; Para te falar verdade, eu n&atilde;o sei bem quando h&aacute; de ser o<br \/>\n    ataque. <\/p>\n<p>Mas vamos c&aacute; saber uma coisa, seu Pedro de Lima: como posso Ter eu<br \/>\n    certeza de que serei livre se fizer o que vosmec&ecirc; prop&otilde;e? <\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; duvida que tudo h&aacute; de ser conforme te digo. Pois<br \/>\n    queres melhor certeza do que a nossa vitoria? Olha c&aacute;. Se vencermos<br \/>\n    a nobreza, o governo passar&aacute; a ser outra vez dos mascates, e passando<br \/>\n    a ser dos mascates o novo governo, est&aacute; bem visto que todos aqueles<br \/>\n    escravos que nos tiverem ajudado a dar com o governo da nobreza em terra,<br \/>\n    ter&atilde;o em recompensa a sua liberdade. <\/p>\n<p>&#8211; E se, em lugar de darem a eles a liberdade, os mascates ficarem com os<br \/>\n    negros na escravid&atilde;o, n&atilde;o vir&aacute; tudo a dar no mesmo? <\/p>\n<p>&#8211; Mas se eu te afian&ccedil;o que tu pelo menos ganhar&aacute;s a tua alforria,<br \/>\n    que mais garantia queres do que minha palavra? N&atilde;o duvides da promessa.<br \/>\n    Ajuda-nos a dar um ensino de mestre a esses senhores soberb&otilde;es, e eu<br \/>\n    te asseguro que n&atilde;o te h&aacute;s de arrepender. Pois sim, seu Pedro.<br \/>\n    Eu, como confio na sua palavra, estarei pronto, quando chegar o momento, a<br \/>\n    molhar as armas. Mas, olhe: todo o meu servi&ccedil;o n&atilde;o passar&aacute;<br \/>\n    disso, porque eu n&atilde;o quero historias comigo. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Nem eu exijo outro servi&ccedil;o al&eacute;m deste. Ficarei com ele<br \/>\n    muito satisfeito, e ele s&oacute; ser&aacute; bastante para te forrares. Ent&atilde;o,<br \/>\n    fica assentado isso mesmo, n&atilde;o &eacute; verdade? <\/p>\n<p>Isso mesmo. E eu vou j&aacute; dizer ao Tunda-Cumbe a tua promessa, que &eacute;<br \/>\n    para n&atilde;o haver duvida. Os dois tinham chegado &agrave; beira da estrada.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Ah! Esqueci-me do saco de batatas que Mo&ccedil;ambique mandava l&aacute;<br \/>\n    para casa. Volto a busc&aacute;-lo. <\/p>\n<p>Separaram-se, Germano para tornar, como disse, &agrave; palho&ccedil;a dos<br \/>\n    negros, Pedro de Lima para tomar &agrave; direita a dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da mata. <\/p>\n<p>Quando eles desapareceram, saiu do mato um vulto com passo sorrateiro e cauteloso.<br \/>\n    Era Louren&ccedil;o, que por entre o arvoredo os havia seguido, amparado pelas<br \/>\n    folhagens, quase ombro a ombro com eles, sem que o vissem. Ele entretanto,<br \/>\n    que tamb&eacute;m os n&atilde;o vira, ouvira, sem perder uma palavra sequer,<br \/>\n    toda a conversa que tinham tido os dois conjurados desde a palho&ccedil;a<br \/>\n    at&eacute; a beira do caminho. <\/p>\n<p>Marcelina estava na porta da casa. <\/p>\n<p>Vendo o filho com a espingarda, as primeiras palavras que para ele teve foram<br \/>\n    estas: <\/p>\n<p>&#8211; Que anda fazendo pelo mato a esta hora, Louren&ccedil;o? Nem sabes que<br \/>\n    susto acabo de ter. <\/p>\n<p>&#8211; Que foi que aconteceu, minha m&atilde;e? <\/p>\n<p>&#8211; Passou por aqui mesmo, h&aacute; instantinhos, um homem que, depois de<br \/>\n    passar, ficou ali de p&eacute; a olhar para c&aacute; e a fazer jeito de quem<br \/>\n    queria saber ou ouvir alguma coisa de c&aacute; de casa. Sabe quem era? Pedro<br \/>\n    de Lima. <\/p>\n<p>&#8211; Pedro de Lima, aquele malvado?! Virgem-da-Concei&ccedil;&atilde;o. Entra<br \/>\n    Louren&ccedil;o, que quero fechar logo a porta. Ele que anda por aqui a esta<br \/>\n    hora, fazendo bem n&atilde;o &eacute;. Quer saber o que estava fazendo o cabra?\n  <\/p>\n<p>&#8211; Fala baixo, que ele ainda pode estar por ai. Mas o que foi? <\/p>\n<p>Uma das suas. Mas o pior foi o que fez o ladr&atilde;o do moleque, o Germano.<br \/>\n    Em vez de ser pelo senhor, prometeu ser pelos mascates e botar &aacute;gua<br \/>\n    dentro das armas, quando o engenho for atacado. Que negro ingrato e perverso!<br \/>\n    Tive desejos de lhe dar um tiro na cabe&ccedil;a, quando lhe ouvi as traidoras<br \/>\n    palavras. Mas eu nunca atirei em ningu&eacute;m. <\/p>\n<p>&#8211; Virgem Maria! exclamou Marcelina. Pois querem atacar o engenho? <\/p>\n<p>&#8211; Foi o que disse Pedro de Lima. Germano n&atilde;o tarda a passar por aqui.<br \/>\n    ah! Ali vem ele. <\/p>\n<p>&#8211; E que queres fazer? Queres dizer-lhe alguma coisa? <\/p>\n<p>&#8211; Quero, sim senhora. <\/p>\n<p>&#8211; Vai para dentro, que eu falo ao moleque. Ele a mim h&aacute; de atender<br \/>\n    mais do que a ti. <\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem n&atilde;o tinha Louren&ccedil;o entrado, quando o negro passava<br \/>\n    pela frente da casa trazendo o saco de batatas nas costas. Se n&atilde;o me<br \/>\n    engano, &eacute; Germano que vai a&iacute;, disse Marcelina em voz alta, a<br \/>\n    fim de ser ouvida. Sou eu mesmo, sinh&aacute; Marcelina, respondeu o negro.<br \/>\n    Quer alguma coisa? <\/p>\n<p>&#8211; Eu logo vi que tu ainda havias de andar por aqui. Porque diz vosmec&ecirc;<br \/>\n    isso? <\/p>\n<p>&#8211; Se n&atilde;o vais com muita pressa, d&aacute;-me c&aacute; uma palavra.\n  <\/p>\n<p>O negro parou &agrave; porta da casa. <\/p>\n<p>-Senta-te nessa pedra que te quero dizer uma coisa. <\/p>\n<p>&#8211; A pedra est&aacute; muito quente eu oi&ccedil;o mesmo de p&eacute; o que<br \/>\n    tiver de me dizer. Pois olha; nessa pedra mesma esteve ele sentado, h&aacute;<br \/>\n    pouquinho. <\/p>\n<p>&#8211; &Oacute; xentes! Ele quem, sinh&aacute; Marcelina? <\/p>\n<p>&#8211; Anda c&aacute;. Pois tu n&atilde;o sabes quem podia ser? O Pedro de Lima.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Seu Pedro de Lima?! perguntou o negro subitamente alterado. &Oacute; xentes!<br \/>\n    Seu Pedro de Lima! <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, ele n&atilde;o andou por estas beiradas ainda agorinha? Querer&aacute;s<br \/>\n    negar? <\/p>\n<p>&#8211; Ele andou, &eacute; verdade, respondeu Germano, entre aterrado e tremulo.\n  <\/p>\n<p>&#8211; E que coisas te disse ele? <\/p>\n<p>&#8211; Pois vosmec&ecirc; sabe o que ele me disse? <\/p>\n<p>&#8211; Chega-te para perto de mim, que eu n&atilde;o te quero botar a perder,<br \/>\n    Germano. <\/p>\n<p>O negro aproximou-se, com passo tardo, porque em cada p&eacute; come&ccedil;ou<br \/>\n    a sentir o peso de uma arroba, depois que ouvira as ultimas palavras da cabocla.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Queres saber o que foi? <\/p>\n<p>&#8211; Diga, sinh&aacute; Marcelina. <\/p>\n<p>Ele esteve contigo na palho&ccedil;a de Mo&ccedil;ambique, e falando-se a&iacute;<br \/>\n    sobre os motins que tem havido na vila e a revolta dos mascates do Recife,<br \/>\n    tu te ofereceste a botar &aacute;gua dentro das armas de teu senhor, para<br \/>\n    elas n&atilde;o pegarem fogo, quando o bando de Tunda-Cumbe atacasse o engenho.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o se pode imaginar a impress&atilde;o de medo, dor, arrependimento<br \/>\n    e c&oacute;lera, que estas palavras produziram no espirito do negro. <\/p>\n<p>Sem o querer, caiu-lhe do ombro o saco, e ele pr&oacute;prio, para sustentar-se<br \/>\n    de p&eacute;, teve de apoiar-se no ferro de cova que trazia em uma das m&atilde;os.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Ora, dize-me, Germano, prosseguiu Marcelina: isto era coisa que tu dissesses<br \/>\n    &agrave;quele malvado? Podias tu prometer semelhante trai&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    contra teu senhor, que te estima, e que, at&eacute; j&aacute; tem, por vezes<br \/>\n    prometido forrar-te? &Eacute;s um escravo indigno de ter liberdade. <\/p>\n<p>O negro n&atilde;o respondeu. Triste, cabisbaixo, im&oacute;vel, n&atilde;o<br \/>\n    sabia o que dizer &agrave; cabocla. <\/p>\n<p>Esta prosseguiu: <\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o seria muito mais bonito que, em vez de seres traidor e<br \/>\n    ingrato a seu sargento-m&oacute;r, fosses o primeiro a defend&ecirc;-lo na<br \/>\n    hora do ataque? N&atilde;o terias tu muito mais segura a tua alforria, se,<br \/>\n    quando Pedro da Lima partisse contra seu sargento-m&oacute;r, tu partisses<br \/>\n    contra Pedro de Lima, e com a foice, o fac&atilde;o, o chu&ccedil;o ou o bacamarte<br \/>\n    impedisses que ele fizesse mal a teu senhor ou &aacute; tua senhora? <\/p>\n<p>Germano n&atilde;o era um negro bronco. <\/p>\n<p>Ouvindo estas palavras, percebeu que nelas se lhe oferecia uma porta para<br \/>\n    sair da situa&ccedil;&atilde;o cruel e desprez&iacute;vel a que fora arrastado.\n  <\/p>\n<p>Ent&atilde;o soltou-se-lhe a voz, que estava presa. <\/p>\n<p>&#8211; Eu quero contar a vosmec&ecirc; a historia como foi. Seu Pedro de Lima<br \/>\n    foi quem me fez esta proposta, com a promessa de minha liberdade. Vosmec&ecirc;<br \/>\n    bem pode saber que todo cativo deseja ficar livre, ainda que seja muito bem<br \/>\n    tratado por seu senhor, como sou eu na escravid&atilde;o. Eu prometi fazer<br \/>\n    isso que ele disse, mas depois que ouvi suas palavras, estou arrependido;<br \/>\n    e posso jurar que n&atilde;o cumprirei a promessa que fiz a seu Pedro. <\/p>\n<p>&#8211; Estar&aacute;s tu dizendo a verdade, Germano? <\/p>\n<p>Eu sou negro, sinh&aacute; Marcelina, mas n&atilde;o minto. Pode vosmec&ecirc;<br \/>\n    crer que estou muito arrependido da minha ruim a&ccedil;&atilde;o. S&oacute;<br \/>\n    uma coisa lhe pe&ccedil;o: &eacute; que n&atilde;o v&aacute; dizer isso &agrave;<br \/>\n    minha senhora. <\/p>\n<p>&#8211; Se eu quisesse fazer mal, j&aacute; tinha corrido para l&aacute; a meter-lhe<br \/>\n    tudo no ouvido. Mas tu sabes que eu tenho bom cora&ccedil;&atilde;o. Antes<br \/>\n    quis aconselhar-te do que fazer-te a cama, mesmo porque esperava que mudasses<br \/>\n    de parecer. Tu est&aacute;s muito mo&ccedil;o; n&atilde;o te apresses que<br \/>\n    h&aacute;s de Ter a tua liberdade, n&atilde;o pela m&atilde;o de Pedro de<br \/>\n    Lima, ou do Tunda-Cumbe, mas pela m&atilde;o de teu senhor mesmo. Vai-te embora<br \/>\n    descansado, que nada por minha boca se h&aacute; de saber do que temos conversado.<br \/>\n    Pela boca de Pedro de Lima &eacute; que eu n&atilde;o respondo. <\/p>\n<p>O negro levantou o saco, p&ocirc;-lo novamente no ombro, e disse: <\/p>\n<p>&#8211; Pela boca dele, sinh&aacute; Marcelina, respondo eu. o que ele acaba de<br \/>\n    fazer comigo, h&aacute; de pagar-me com l&iacute;ngua de palmo e meio. <\/p>\n<p>&#8211; Olha bem, n&atilde;o te vais espetar em alguma trag&eacute;dia. O cabra<br \/>\n    &eacute; malvado e trai&ccedil;oeiro. <\/p>\n<p>Ele &eacute; cabra, e eu sou negro, mas por&eacute;m se ele n&atilde;o andar<br \/>\n    muito ligeiro, eu passo-lhe o p&eacute; adiante. Ele n&atilde;o sabe com que<br \/>\n    negro est&aacute; pegado. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo. Ainda bem<br \/>\n    Germano n&atilde;o tinha entrado na mata, quando novo vulto se mostrava na<br \/>\n    estrada, do lado oposto. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o te recolhas j&aacute;, Marcelina, disse o vulto de longe. <\/p>\n<p>Quem falava era o padre Antonio. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; vosmec&ecirc;, seu padre? perguntou a cabocla admirada. <\/p>\n<p>&#8211; Que ser&aacute; isso? disse Louren&ccedil;o aparecendo. Seu padre por aqui!\n  <\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc;s admiram-se, hein? E n&atilde;o deixam de ter sua raz&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Os tr&ecirc;s tornaram para dentro da casa. Marcelina, que foi a ultima a<br \/>\n    faz&ecirc;-lo, encostou a porta de baixo, pois a sala era muito pequena, e<br \/>\n    da&iacute; mesmo, com os olhos na estrada e nos outros dois interlocutores,<br \/>\n    alternativamente, fez-se toda ouvidos. O padre ent&atilde;o sentou-se em um<br \/>\n    tripe&ccedil;a, ao p&eacute; da mesinha da sala, enquanto Louren&ccedil;o,<br \/>\n    de p&eacute;, com as m&atilde;os sobre o espeque onde descansava a porta da<br \/>\n    janelinha, quando estava aberta, esperava impaciente que o sacerdote quebrasse<br \/>\n    os selos do mist&eacute;rio que o levava ali. <\/p>\n<p>&#8211; Venho pedir-te um servi&ccedil;o que, na aus&ecirc;ncia de teu pai, s&oacute;<br \/>\n    tu me poder&aacute;s prestar, Louren&ccedil;o. <\/p>\n<p>&#8211; Vosmec&ecirc; n&atilde;o pede, manda, seu padre, respondeu o rapaz. <\/p>\n<p>&#8211; Como tenho de fazer uma viagem esta madrugada para fora de Goiana, quero<br \/>\n    que v&aacute;s agora mesmo ajudar o Jos&eacute; a arrumar as minhas malas.<br \/>\n    Olha. P&otilde;e tudo o que &eacute; meu dentro delas. Deixa s&oacute; o que<br \/>\n    absolutamente n&atilde;o puder ir. <\/p>\n<p>&#8211; Se vosmec&ecirc; quer, vou eu, disse Marcelina. Louren&ccedil;o n&atilde;o<br \/>\n    sabe fazer bem estas coisas. <\/p>\n<p>&#8211; Sabe, sabe, respondeu o padre. Demais eu tenho que te falar. Vai, Louren&ccedil;o.\n  <\/p>\n<p>Quando se acharam s&oacute;s o padre Antonio e Marcelina, disse aquele a<br \/>\n    esta: <\/p>\n<p>&#8211; Marcelina, venho fazer-te uma confiss&atilde;o t&atilde;o verdadeira e<br \/>\n    sincera como se a fizesse a um padre do Senhor. <\/p>\n<p>&#8211; Uma confiss&atilde;o! Quem sou eu para merecer tanta honra e confian&ccedil;a?\n  <\/p>\n<p>&#8211; O que tu &eacute;s, bem o sei eu. Tu &eacute;s merecedora de honras e distin&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    muito mais altas do que esta, porque em ti a virtude fez sua morada, e a honestidade<br \/>\n    d&aacute; seus saud&aacute;veis frutos. Todos os elogios da terra ficariam<br \/>\n    ainda aqu&eacute;m do teu merecimento. O lar domestico ainda n&atilde;o encontrou<br \/>\n    nem encontrar&aacute; jamais quem o represente melhor do que tu o representas.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Seu padre est&aacute; exagerando. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o estou, n&atilde;o. H&aacute; quatro anos que moro no Cajueiro.<br \/>\n    estou por isso habilitado a conhecer as tuas qualidades, a saber os teus sacrif&iacute;cios,<br \/>\n    a admirar a rara beleza de tua alma. Mas venhamos j&aacute; ao que importa.<br \/>\n    De duas partes se comp&otilde;e a minha confiss&atilde;o. Come&ccedil;arei<br \/>\n    pela segunda. Estou-me vendo em uma colis&atilde;o cruel. Avalia por ti mesma.<br \/>\n    N&atilde;o viste entrar hoje em minha casa o sargento-m&oacute;r? <\/p>\n<p>&#8211; Vi, sim senhor. <\/p>\n<p>Veio pedir-me, antes impor-me, que eu partisse hoje at&eacute; amanh&atilde;<br \/>\n    para Goianinha, a fim de, por meio de praticas publicas, chamar ao partido<br \/>\n    dos nobres o povo que se declarou e tomou armas pelos mascates. Se o pedido<br \/>\n    fosse exclusivamente dele, eu acharia logo meios de escursar-me, posto que<br \/>\n    s&atilde;o muitos os obs&eacute;quios e as aten&ccedil;&otilde;es que me prendem<br \/>\n    ao sargento-m&oacute;r. Mas infelizmente n&atilde;o &eacute; assim; e o sargento-m&oacute;r<br \/>\n    foi portador de uma carta em que o bispo suplica que eu v&aacute; pacificar<br \/>\n    os &acirc;nimos daquele povo, e de l&aacute; siga at&eacute; os limites da<br \/>\n    Para&iacute;ba com o mesmo fim. Algu&eacute;m no meu caso recusaria este favor<br \/>\n    ao seu prelado e ao seu amigo? Ningu&eacute;m. Pois eu acabo de recusar, quando<br \/>\n    j&aacute; estava determinado a pratic&aacute;-lo. Sabes porque recuei? Escuta<br \/>\n    l&aacute;, Marcelina. N&atilde;o viste hoje de tarde sair de l&aacute; de<br \/>\n    casa um frade carmelita?- <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o vi, mas Louren&ccedil;o me disse. <\/p>\n<p>Era o prior do convento do Carmo. Veio de prop&oacute;sito &#8211; v&ecirc; l&aacute;<br \/>\n    tu como as coisas se ajuntam &#8211; com uma carta, antes ordem da recoleta do Recife,<br \/>\n    exigindo que eu sem perda de tempo me dirija a Para&iacute;ba, a fim de levantar<br \/>\n    os &acirc;nimos do capit&atilde;o-m&oacute;r Jo&atilde;o da Maia, que come&ccedil;am<br \/>\n    a resfriar. Esta providencia foi resolvida pelo padre Jo&atilde;o da Costa,<br \/>\n    a quem devo grandes benef&iacute;cios, e pelos Drs. Ferreira Castro e Mendes<br \/>\n    de Arag&atilde;o, conselheiros do governo dos mascates. N&atilde;o contentes<br \/>\n    com incumbir-me deste grav&iacute;ssimo mister, exigem que eu me ponha a caminho<br \/>\n    de hoje para amanh&atilde;. Neste sentido recebi, &agrave; entrada da noite,<br \/>\n    nova carta de frei Jos&eacute; de Monte Carmelo, que Antonio Coelho me mandou<br \/>\n    trazer por Pedro de Lima. entre as tr&ecirc;s e as quatro horas da madrugada<br \/>\n    h&atilde;o de estar por aqui os meus companheiros de jornada &agrave; Para&iacute;ba.<br \/>\n    Oh, que colis&atilde;o cruel, Marcelina? <\/p>\n<p>&#8211; E seu padre vai fazer este servi&ccedil;o aos mascates? Perguntou a cabocla.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Eu deixo o Cajueiro, mas, aqui em particular, que ningu&eacute;m nos ou&ccedil;a,<br \/>\n    devo dizer-te: n&atilde;o vou nem para Para&iacute;ba, nem para Goianinha.<br \/>\n    Vou para&#8230; Nem sei para onde vou eu. Vou fugindo de mascates e de nobres.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Mas, meu Deus, como h&aacute; de ser isso? Pois vosmec&ecirc; nos deixa<br \/>\n    assim? <\/p>\n<p>Nem uns nem outros t&ecirc;m raz&atilde;o, Marcelina. S&atilde;o exagerados<br \/>\n    ambos em suas paix&otilde;es. Cegou-os a vaidade, o interesse, o capricho<br \/>\n    conden&aacute;vel. Deviam estimar-se e auxiliar-se mutuamente como dantes;<br \/>\n    mas n&atilde;o; hostilizam-se, como se fossem dois povos b&aacute;rbaros e<br \/>\n    inimigos, como se n&atilde;o tivessem la&ccedil;os comuns &#8211; a mesma nacionalidade,<br \/>\n    a mesma religi&atilde;o, a mesma l&iacute;ngua, as mesmas leis. Porque &eacute;<br \/>\n    que brigam eles? Por um pedacinho de governo? Por uns vint&eacute;ns de mais<br \/>\n    ou de menos? Por uma vila? Mas em uma terra imensa, como esta, que ainda por<br \/>\n    muitos s&eacute;culos h&aacute; de ser um mundo universo, onde poder&atilde;o<br \/>\n    aposentar-se todas as na&ccedil;&otilde;es da Europa, brigar por uma vila,<br \/>\n    por um engenho, um armaz&eacute;m, uma loja, um assento no senado da c&acirc;mara,<br \/>\n    &eacute; dar testemunho de ter o entendimento obscurecido pelas trevas da<br \/>\n    ignor&acirc;ncia ou da loucura. Querem destruir-se os dois loucos? Pois destruam-se,<br \/>\n    como querem; eu &eacute; que n&atilde;o hei de ir meter-me entre eles dois.<br \/>\n    Ambos s&atilde;o meus irm&atilde;os; mas como n&atilde;o posso nem mesmo com<br \/>\n    um s&oacute; deles, quanto mais com ambos juntos? O recurso que tenho &eacute;<br \/>\n    deix&aacute;-los pegados at&eacute; que, pela dor f&iacute;sica, pelo sangue<br \/>\n    derramado, pela fome criem ambos medo &agrave; luta e volte um para a loja<br \/>\n    e o outro para o engenho a tratar, j&aacute; com as paix&otilde;es castigadas<br \/>\n    e o ju&iacute;zo claro, dos seus interesses particulares. O padre inclinou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, como quem meditava, e, passado um momento, voltando-se para<br \/>\n    Marcelina, disse-lhe com evidente desprazer e tristeza: <\/p>\n<p>&#8211; Vou passar ao segundo ponto de minha confiss&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Seu padre pode falar, que eu estou ouvindo com toda a aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    respondeu a cabocla. <\/p>\n<p>E sentou-se para escutar melhor.<\/p>\n<h2><a name=\"21\">Cap&iacute;tulo XXI<\/a><\/h2>\n<p>O padre prosseguiu assim a sua confidencia: <\/p>\n<p>&#8211; Abro o livro da minha vida sacerdotal para ler a triste e vergonhosa historia<br \/>\n    que te quero confiar. Custa-me por extremo volver a folha negra em que est&aacute;<br \/>\n    escrita, al&eacute;m desta historia, a minha pr&oacute;pria condena&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas fio que ser&aacute;s indulgente para os culpados. Na juventude, Marcelina,<br \/>\n    s&atilde;o veementes e cegas as paix&otilde;es, a carne obra como tirana;<br \/>\n    a fantasia, mais tarde estrela de branda luz, n&atilde;o passa ent&atilde;o<br \/>\n    de chama afogueada &#8211; ilumina, mas queima. Quando chega a idade madura, e o<br \/>\n    entendimento, como magistrado intimo, examinando, apreciando e julgando os<br \/>\n    atos da mocidade, descobre os mont&otilde;es de cinzas a que o fogo da paix&atilde;o<br \/>\n    juvenil reduziu sentimentos e princ&iacute;pios respeit&aacute;veis, e por<br \/>\n    baixo dessas cinzas fundos abismos e tenebrosas sepulturas; quando a raz&atilde;o,<br \/>\n    j&aacute; educada pelos anos e fortalecida com o conhecimento exato das coisas,<br \/>\n    transmite &agrave; consci&ecirc;ncia suas sever&iacute;ssimas leis, e exige<br \/>\n    o preenchimento delas, a fr&aacute;gil personalidade humana n&atilde;o tem<br \/>\n    para sua defesa outra voz al&eacute;m desta: &lsquo;Perd&atilde;o, &oacute;<br \/>\n    homens! Perd&atilde;o, &oacute; Deus!&rsquo; Presta aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Marcelina. &Eacute; chegado o momento do terr&iacute;vel sacrif&iacute;cio.<br \/>\n    Vou enfim abrir a teus olhos o lugar mais rec&ocirc;ndito do meu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o te aterres com o espet&aacute;culo, nem digas a ningu&eacute;m<br \/>\n    que debaixo das cinzas de minha velhice se aninha uma serpente que me prende,<br \/>\n    como anel de fogo, ao inferno. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Seu padre! exclamou a cabocla, profundamente abalada. Juro-lhe que lhe<br \/>\n    guardarei segredo at&eacute; &agrave; morte. Houve aqui h&aacute; anos uma<br \/>\n    terr&iacute;vel epidemia de bexigas desde o Recife at&eacute; &agrave; Para&iacute;ba.<br \/>\n    Morreu gente sem conta por esses povoados e estradas afora. Tu h&aacute;s<br \/>\n    de estar lembrada. <\/p>\n<p>&#8211; Ainda me lembro dessa peste. Se eu estive &agrave;s portas da morte&#8230;\n  <\/p>\n<p>Pois bem. Por esse tempo achava-me eu no convento de Iguarass&uacute;, donde,<br \/>\n    por ordem do bispo, parti para Tres-ladeiras, a fim de prestar os socorros<br \/>\n    espirituais &agrave; pobreza, que estava a&iacute; morrendo no maior desamparo<br \/>\n    e impenit&ecirc;ncia. Uma noite de muita chuva, tenho ainda na mem&oacute;ria<br \/>\n    bem frescos todos os passos, especialmente os primeiros do meu erro, quando<br \/>\n    eu voltava de um sitio aonde tinha ido ouvir de confiss&atilde;o um moribundo,<br \/>\n    senti-me de repente assaltado de tremedeiras t&atilde;o fortes que n&atilde;o<br \/>\n    sei como n&atilde;o vim do cavalo em terra; estava pesteado. Felizmente, alguns<br \/>\n    passos adiante, havia uma casa na beira do caminho, e dentro dela vi lume<br \/>\n    aceso. Pedi agasalho, o qual n&atilde;o se fez esperar. As moradoras, que<br \/>\n    me conheciam de ver-me passar todo dia pela porta, acolheram-me com as maiores<br \/>\n    aten&ccedil;&otilde;es. Era uma m&atilde;e com sua filha, ambas viuvas. N&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; durante o per&iacute;odo agudo da enfermidade, mas durante a convalescen&ccedil;a,<br \/>\n    que foi longa, nunca resfriou o zelo delas. A filha era nova e mui gentil.<br \/>\n    Enfim, Marcelina, quando voltei um m&ecirc;s depois &agrave; minha casa, levava<br \/>\n    comigo dois inimigos cru&eacute;is, uma paix&atilde;o e um remorso. O primeiro<br \/>\n    destes inimigos pude vencer, pretextando cansa&ccedil;o e fraqueza, e voltando<br \/>\n    ao convento; o segundo por&eacute;m nunca mais saiu de minha consci&ecirc;ncia;<br \/>\n    h&aacute; de baixar comigo &agrave; sepultura. S&oacute; Deus sabe, Marcelina,<br \/>\n    se esse crime n&atilde;o chamou sobre minh&rsquo;alma a condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    eterna. <\/p>\n<p>&#8211; Deus tem sempre o perd&atilde;o para os bons. <\/p>\n<p>E eu fui bom? Fui pusil&acirc;nime e r&eacute;probo. Tempos depois, dentro<br \/>\n    de minha cela, recebi uma carta. Aquela que me fizera cair e que eu arrastara<br \/>\n    em minha queda, tinha sido m&atilde;e e pedia-me que olhasse por ela e pelo<br \/>\n    filho. A velha tinha falecido, deixando a filha s&oacute; no mundo, com o<br \/>\n    testemunho vivo do meu crime. Nos primeiros tempos olhei de longe pela infeliz<br \/>\n    e pelo fruto do nosso amor fatal; mas sabendo depois que ela se havia desmandado<br \/>\n    em sua vida, faltou-me generosidade para continuar-lhe os meus aux&iacute;lios.<br \/>\n    Todavia, eu n&atilde;o perdia de vista esses entes com os quais o destino<br \/>\n    me prendera por inquebrant&aacute;veis cadeias. Quando ela se mudava de uma<br \/>\n    terra para outra, como muitas vezes aconteceu, eu achava sempre no novo lugar<br \/>\n    pessoa de minha confian&ccedil;a a quem recomendar a crian&ccedil;a que, rendendo<br \/>\n    a homenagem devida &agrave; dec&ecirc;ncia, eu dizia ser ligada comigo por<br \/>\n    parentesco remoto. Essa pessoa era o vig&aacute;rio ou outro qualquer sacerdote.<br \/>\n    Um dia recebo uma carta em que o vig&aacute;rio da freguesia, onde a mulher<br \/>\n    e o menino estavam ultimamente residindo, me informava da morte da m&atilde;e<br \/>\n    e do abandono do filho. A carta fora retardada, de sorte que quando me chegou<br \/>\n    &agrave;s m&atilde;os, mais de um ano tinha decorrido depois de sua data.<br \/>\n    Sendo-me ent&atilde;o mais f&aacute;cil tomar o menino &agrave; minha conta,<br \/>\n    n&atilde;o s&oacute; pelo falecimento daquela que a ele tinha melhor direito<br \/>\n    do que eu, mas pela minha seculariza&ccedil;&atilde;o, corro ao ponto em que<br \/>\n    o devia encontrar, impaciente por ver e conhecer aquele que na forma de espinho<br \/>\n    eu trazia incessantemente na consci&ecirc;ncia. Oh que amargas desilus&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o foram as minhas, quando a&iacute; cheguei! O menino tinha no lugar<br \/>\n    as mais tristes tradi&ccedil;&otilde;es que se podem imaginar, e, para c&uacute;mulo<br \/>\n    do meu desgosto, m&atilde;o desconhecida o tirar&aacute; violentamente, posto<br \/>\n    que com satisfa&ccedil;&atilde;o de todos os moradores. <\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! Que est&aacute; dizendo, seu padre? inquiriu Marcelina, abalada<br \/>\n    e confusa destas noticias, que caiam em seu espirito na forma de raios de<br \/>\n    luz. <\/p>\n<p>&#8211; Tu sabes o resto, Marcelina. <\/p>\n<p>&#8211; Eu, eu? <\/p>\n<p>&#8211; Sim. N&atilde;o te lembras do que fiz quando, de volta do engenho, entrei<br \/>\n    em tua casa? <\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; me n&atilde;o lembro, seu padre. <\/p>\n<p>&#8211; Pois lembro-me eu. chamei Louren&ccedil;o para junto de mim, meti-o entre<br \/>\n    as minhas pernas e abracei-o . Ah! era a primeira vez que eu via meu filho.<br \/>\n    Seu filho! Pois Louren&ccedil;o &eacute; seu filho, seu padre! exclamou a<br \/>\n    cabocla, fazendo gestos e meneios, que acusavam intenso e s&uacute;bito prazer.<br \/>\n    Oh! meu Deus, como eu sou feliz! <\/p>\n<p>As lagrimas saltavam dos olhos dela, mas n&atilde;o eram desacompanhadas;<br \/>\n    o padre tamb&eacute;m chorava. <\/p>\n<p>&#8211; Feliz foi Louren&ccedil;o, feliz fui eu, disse ele. se n&atilde;o foras<br \/>\n    tu, alma privilegiada, m&atilde;e perfeita, honra das mulheres, brilho do<br \/>\n    lar, se n&atilde;o foras tu, o que seria desse menino que vivia como animal<br \/>\n    imundo na povoa&ccedil;&atilde;o condenada? Mas&#8230; estou ouvindo o rumor de<br \/>\n    passos. &Eacute; talvez Louren&ccedil;o que se aproxima. Mudemos de assunto.<br \/>\n    N&atilde;o te esque&ccedil;as, Marcelina, do que me prometeste. N&atilde;o<br \/>\n    reveles a ningu&eacute;m a minha fealdade moral. Ningu&eacute;m saber&aacute;<br \/>\n    o que vosmec&ecirc; acaba de contar, menos Francisco. Francisco? Tens raz&atilde;o.<br \/>\n    A Francisco, primeiro instrumento da Providencia para a mudan&ccedil;a radical<br \/>\n    do destino de Louren&ccedil;o, podes e deves referir toda esta historia. Agora<br \/>\n    uma ultima palavra. Retiro-me deste lugar sem saber para onde vou. Se eu vier<br \/>\n    a morrer antes de terminada esta guerra, que me aparta de voc&ecirc;s contra<br \/>\n    a minha vontade, logo que tiveres noticia, faze Louren&ccedil;o senhor do<br \/>\n    seu pr&oacute;prio segredo e entrega-lhe este papel, que ele deve apresentar<br \/>\n    &agrave;s justi&ccedil;as. N&atilde;o &eacute; meu testamento, &eacute; a<br \/>\n    doa&ccedil;&atilde;o que lhe fa&ccedil;o, de meu sitio e de todas as terras<br \/>\n    que me pertencem. <\/p>\n<p>&#8211; O padre Antonio entregou a Marcelina o papel a que se referira. Era tempo.<br \/>\n    Louren&ccedil;o entrava para dizer que seus servi&ccedil;os j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    eram necess&aacute;rios no sitio. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Por derradeiro, quero dar-te um conselho, Marcelina, disse o padre levantando-se.<br \/>\n    Ao que parece, est&aacute; projetado um ataque ao engenho. Devem passar por<br \/>\n    aqui os assaltantes, e natural &eacute; que tentem algum desacato a voc&ecirc;s,<br \/>\n    por se vingarem das rela&ccedil;&otilde;es que Francisco mant&eacute;m com<br \/>\n    o sargento-m&oacute;r. Por isso prudente me parece que n&atilde;o pernoitem<br \/>\n    aqui por estes tempos. No engenho, onde h&aacute; mais for&ccedil;a, deve<br \/>\n    haver mais seguran&ccedil;a. Seu padre tem raz&atilde;o, respondeu Marcelina.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Mas no engenho &eacute; que eles t&ecirc;m sede, observou Louren&ccedil;o.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Pois fa&ccedil;am o que lhes parece melhor, tornou o sacerdote. <\/p>\n<p>&#8211; O melhor &eacute; irmos para a casa grande enquanto &eacute; cedo, disse<br \/>\n    a cabocla. <\/p>\n<p>&#8211; Verdade seja &#8211; acrescentou o rapaz &#8211; que eu devo estar junto de Germano,<br \/>\n    para ver esse negro o que faz. Vosmec&ecirc; bem sabe porque &eacute; que<br \/>\n    eu digo isto, minha m&atilde;e. <\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; acertado. Vamos j&aacute;. <\/p>\n<p>&#8211; Adeus, Marcelina. Deus te aben&ccedil;oe, Louren&ccedil;o, disse o padre<br \/>\n    Antonio, limpando a furto duas lagrimas que lhe apontaram nos olhos, e encaminhando-se<br \/>\n    para a estrada. <\/p>\n<p>&#8211; Da&iacute; voltou-se para dizer: &#8211; Escuta de l&aacute;, Louren&ccedil;o.<br \/>\n    A chave da casa, na ocasi&atilde;o de sair, mando por debaixo da porta. Quando<br \/>\n    voltares do engenho, ach&aacute;-la-has da banda de dentro. Senhor sim. <\/p>\n<p>Uma hora depois Louren&ccedil;o e Marcelina tomavam para o Bujari. N&atilde;o<br \/>\n    se meteu muito que o padre Antonio com seu escravo Jos&eacute; deixou como<br \/>\n    eles a estrada, seguindo por&eacute;m diferente dire&ccedil;&atilde;o. Era<br \/>\n    madrugada velha quando entrou pelo Cajueiro o Tunda-Cumbe com sua gente. Pedro<br \/>\n    de Lima bateu com o coice do bacamarte sobre a porta da casa de Francisco,<br \/>\n    e como da&iacute; ningu&eacute;m lhe respondeu, foi ele o primeiro que p&ocirc;s<br \/>\n    fogo nela. Outros bandidos o imitaram, tomados da vol&uacute;pia feroz que<br \/>\n    caracteriza os celerados. A casa do padre foi poupada por ser de quem era.<br \/>\n    Mal sabiam eles que poucas horas antes tinham voltado da&iacute;, inteiramente<br \/>\n    frustrados em sua expectativa e sem poderem explicar o fato que profundamente<br \/>\n    os contrariaria, dois parciais dos mascates mandados por Antonio Coelho com<br \/>\n    todo o necess&aacute;rio para acompanharem o padre &agrave; Para&iacute;ba.\n  <\/p>\n<p>Ao clar&atilde;o do inc&ecirc;ndio, penetraram os malvados na mata, caminho<br \/>\n    do engenho, supondo que iam surpreender o sargento-m&oacute;r. Este por&eacute;m,<br \/>\n    advertido desde muitos dias atr&aacute;s por diferentes circunst&acirc;ncias,<br \/>\n    suspeitas e at&eacute; boatos, tinha-se passado &agrave;quela tarde para o<br \/>\n    sobrado que costumava ocupar, quando festas publicas ou neg&oacute;cios particulares<br \/>\n    exigiam a sua estada tempor&aacute;ria na vila. Marcelina e Louren&ccedil;o,<br \/>\n    n&atilde;o tendo encontrado a fam&iacute;lia na casa grande, foram reunir-se<br \/>\n    com ela em Goiana. <\/p>\n<p>O sobrado estava situado no quarteir&atilde;o fronteiro &agrave; igreja do<br \/>\n    Carmo. Ficava olhando para o cruzeiro de pedra que a&iacute; se v&ecirc; e<br \/>\n    do qual se diz que em seus alicerces se acha enterrado grande tesouro destinado<br \/>\n    pelo instituidor &agrave; reedifica&ccedil;&atilde;o do convento, se suceder<br \/>\n    que venha a cair em ru&iacute;nas. <\/p>\n<p>Esta tradi&ccedil;&atilde;o existia j&aacute; em 1711 porque, por ocasi&atilde;o<br \/>\n    de um dos oitos motins de que, durante a guerra dos mascates, foi teatro Goiana,<br \/>\n    um bando da gente do Tunda-Cumbe atirou-se ao cruzeiro, e a uso dos v&acirc;ndalos,<br \/>\n    que tudo destru&iacute;am, mutilou parte da larga e solida peanha, sobre a<br \/>\n    qual ainda hoje se mostra assente a cruz, e fez profundas escava&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    afim de ver se davam com o cabedal oculto. N&atilde;o se sabe se a sua expectativa<br \/>\n    foi satisfeita ou iludida. Neste ponto a tradi&ccedil;&atilde;o anda adiante.\n  <\/p>\n<p>Com o sargento-m&oacute;r tinha ido para Goiana grande parte da escravatura;<br \/>\n    o restante ficara no engenho para o guardar e defender, sob as ordens de alguns<br \/>\n    moradores, entre os quais se apontava o Victorino, cuja intrepidez era por<br \/>\n    todos conhecida. A mudan&ccedil;a fora s&uacute;bita. <\/p>\n<p>Quando a coluna invasora chegou ao engenho, j&aacute; era a&iacute; esperada;<br \/>\n    e por isso foi recebida com todas as honras. A defesa tinha sido bem organizada<br \/>\n    por Victorino e seus companheiros. A casa grande semelhava uma cidadela fortificada.<br \/>\n    Mas, infelizmente, o animo que sobejava nos moradores, faltava nos escravos.<br \/>\n    Enquanto aqueles faziam prod&iacute;gios de valor, estes defendiam as entradas<br \/>\n    frouxamente. Dentro em pouco tempo conheceram os assaltantes, superiores aos<br \/>\n    assaltados n&atilde;o s&oacute; em numero, mas no manejo das armas, que a<br \/>\n    pra&ccedil;a n&atilde;o tardaria em cair debaixo do seu poder. C&ocirc;nscio<br \/>\n    desta verdade, o Tunda-Cumbe chamou de parte o Padre Lima e o Gon&ccedil;alo<br \/>\n    Ferreira, deu-lhes ordens &agrave; puridade, e, pondo as pernas ao cavalo,<br \/>\n    desapareceu por entre uns canaviais que do lado direito vinham morrer no cercado.<br \/>\n    Victorino, que de uma das janelas tinha debaixo das vistas o movimento inimigo,<br \/>\n    viu aos primeiros clar&otilde;es do amanhecer, tomar o caminho de sua casa<br \/>\n    o chefe da quadrilha. <\/p>\n<p>N&atilde;o foi preciso mais para compreender a inten&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    bandido. <\/p>\n<p>A honra de suas filhas, &uacute;nico tesouro, &uacute;nico dote delas e principal<br \/>\n    orgulho da fam&iacute;lia, afigurou-se-lhe, n&atilde;o sem raz&atilde;o, amea&ccedil;ada<br \/>\n    de iminente desastre. O almocreve esqueceu o sobrado pela palho&ccedil;a.<br \/>\n    Naquele estava uma fortuna de grande valor, consistente em j&oacute;ias, moveis<br \/>\n    e outros muitos objetos preciosos; nesta havia a pureza de duas graciosas<br \/>\n    donzelas, que representavam a seus olhos anos de trabalho, de sacrif&iacute;cios,<br \/>\n    e de bem querer. Em seu cora&ccedil;&atilde;o, em sua alma, tinham muito mais<br \/>\n    peso os risos gentis, as gra&ccedil;as meigas, o amor modesto, de Marianinha<br \/>\n    e Bernardina, do que toda a prata, todo o ouro, todos os brilhantes de Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha e de d. Damiana. Victorino desceu a modo de impelido por sopro de<br \/>\n    tempestade, montou em seu cavalo, que, por cautela, retivera amarrado no v&atilde;o<br \/>\n    do sobrado, e por uma aberta que fez na cavalari&ccedil;a pode ganhar os canaviais<br \/>\n    sem ser visto pelos assaltantes. <\/p>\n<p>Antes de chegar &agrave; casa, encontrou-se com Joaquina que j&aacute; vinha,<br \/>\n    como louca, em procura dele. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Corre, corre, Victorino, que talvez ainda pegues o malvado, o Tunda-Cumbe,<br \/>\n    que nos vai roubando a nossa filha, gritou a pobre mulher, os cabelos desgrenhados,<br \/>\n    as faces cobertas de lagrimas, e no semblante os tra&ccedil;os violentos do<br \/>\n    maior desgosto que ela tinha sentido at&eacute; esse momento na vida. Eu tudo<br \/>\n    vi da casa grande, disse ele. Miser&aacute;vel! <\/p>\n<p>E logo acrescentou, descobrindo umas cinquenta bra&ccedil;as adiante de se<br \/>\n    o Tunda-Cumbe, j&aacute; a perder-se de vista, pela veloz corrida do cavalo,<br \/>\n    por entre o mato com a Bernardina atravessada sobre as pernas: <\/p>\n<p>&#8211; Ou tu me matas, ou tu morres! <\/p>\n<p>&#8211; Ah! minha filha, minha querida filha! dizia Joaquina, carpindo-se na sua<br \/>\n    grande afli&ccedil;&atilde;o. E onde est&aacute; Marianinha? &Oacute; Marianinha?<br \/>\n    chamou a agoniada m&atilde;e. <\/p>\n<p>Dentre umas moitas emergiu ent&atilde;o a alguns passos de Joaquina a rapariga,<br \/>\n    por quem ela acabava de chamar. Os matos tinham-lhe rasgado a coberta em que<br \/>\n    se envolvera na ocasi&atilde;o de fugir com medo do malfeitor. <\/p>\n<p>Vinha chorando, e estava p&aacute;lida, triste, tremula. Do grande susto<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o parecia querer sair-lhe pela boa. Ela semelhava rolinha<br \/>\n    espantada por tiro de ca&ccedil;ador. <\/p>\n<p>&#8211; Minha m&atilde;e! minha m&atilde;e! Que desgra&ccedil;a foi esta? <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o podia ser maior, minha filha. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o fale assim, que ainda pode ser pior, minha m&atilde;e! <\/p>\n<p>&#8211; Olha. L&aacute; vai o malvado com tua irm&atilde;. <\/p>\n<p>E Joaquina apontou para uma baixada, onde nesse momento apareceu o Tunda-Cumbe.\n  <\/p>\n<p>&#8211; E l&aacute; vai meu pai, l&aacute; vai meu pai j&aacute; a pegar seu Manoel<br \/>\n    Gon&ccedil;alves. Oh meu Deus! Que &eacute; que me est&aacute; dizendo baixinho,<br \/>\n    minha m&atilde;e? <\/p>\n<p>&#8211; Nada, Marianinha. estou rezando, para que Deus se lembre de n&oacute;s<br \/>\n    neste cruel transe. <\/p>\n<p>De repente, aquela m&atilde;e e aquela filha, como se tivessem a mesma impress&atilde;o<br \/>\n    e a mesma id&eacute;ia, ou se deixassem vencer pela mesma for&ccedil;a intuitiva<br \/>\n    e fatal, deram alguns passos violentos para diante, com os olhos, para n&atilde;o<br \/>\n    escrevermos o cora&ccedil;&atilde;o, a alma, postos nos dois cavalheiros que<br \/>\n    corriam na baixada. Ambas tinham visto o que ia na frente, voltar arrebatadamente<br \/>\n    o animal e esperar o segundo; tinham visto este atirar-se para aquele com<br \/>\n    sua arma de fogo em uma das m&atilde;os e na outra o fac&atilde;o desembainhado;<br \/>\n    tinham ouvido a detona&ccedil;&atilde;o de um tiro, &aacute; qual se seguira<br \/>\n    uma nuvem de fumo que envolveu os dois contendores. <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o se meteu muito que as mulheres recuaram espavoridas, levantando<br \/>\n    alto brado de dor, que atroou todo o deserto. O Tunda-Cumbe acabava de desaparecer<br \/>\n    no mato com sua presa, enquanto Victorino ficava ca&iacute;do na baixada,<br \/>\n    estorcendo-se nas convuls&otilde;es da morte.<\/p>\n<h2><a name=\"22\">Cap&iacute;tulo XXII<\/a><\/h2>\n<p>O engenho, que ainda defendido por Victorino, teria de render-se &agrave;s<br \/>\n    armas numerosas e pr&aacute;ticas dos agressores , n&atilde;o podia, na aus&ecirc;ncia<br \/>\n    dele, sustentar-se a n&atilde;o ser por poucos momentos. <\/p>\n<p>De feito n&atilde;o era ainda de todo claro o dia, quando as portas da casa<br \/>\n    grande abalada em seus fundamentos caiam a poder de machados e por cima delas<br \/>\n    entravam em borbot&otilde;es os malfeitores impacientes pelo saque. <\/p>\n<p>Este foi feito com desabrimento incr&iacute;vel. Aquela malta de homens perdidos<br \/>\n    que, no rancho do Sip&oacute;, explorados pelo chefe, se haviam acostumado<br \/>\n    a odiar os nobres e a cobi&ccedil;ar os seus haveres, deparava enfim, depois<br \/>\n    de esfor&ccedil;os e tentativas malogradas, ocasi&atilde;o oportuna para matar<br \/>\n    a sede de vingan&ccedil;a e ouro que os abrasava. Para quase todos havia sabor<br \/>\n    especial nesta negra vitoria. A casa, que destru&iacute;am, saqueavam e humilhavam,<br \/>\n    era propriedade de Jo&atilde;o da Cunha, dentre os nobres o mais odiado, por<br \/>\n    ser talvez o mais poderoso e vingativo deles. Por isso destroem e aniquilam<br \/>\n    o que n&atilde;o lhes excita a ambi&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o podem conduzir<br \/>\n    em seus sacos. Moveis preciosos s&atilde;o jogados das janelas ao p&aacute;tio,<br \/>\n    onde se despeda&ccedil;am. Cada queda, cada destrui&ccedil;&atilde;o serve<br \/>\n    de objeto a indecentes motejos e d&aacute; lugar a indignos coment&aacute;rios.<br \/>\n    Enfim, longe ir&iacute;amos se quis&eacute;ssemos descrever as cenas aviltantes<br \/>\n    e lastim&aacute;veis que dentro de horas se representaram na aristocr&aacute;tica<br \/>\n    vivenda do sargento-m&oacute;r. <\/p>\n<p>Tinham eles dado com o deposito dos vinhos &#8211; a rica adega do fidalgo &#8211; e<br \/>\n    j&aacute; se entregavam aos deliciosos esp&iacute;ritos, quando, tr&ecirc;mulos<br \/>\n    e aterrados, entraram correndo alguns dos espias que, por ordem do Tunda-Cumbe,<br \/>\n    estavam vigiando nos cantos mais importantes do cercado. <\/p>\n<p>&#8211; Fujamos, fujamos, que ai vem uma grande for&ccedil;a. <\/p>\n<p>&#8211; Bem se dizia que ela havia de vir &#8211; disse Pedro de Lima. <\/p>\n<p>&#8211; Vamos a seu encontro &#8211; gritou Gon&ccedil;alo Ferreira. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, n&atilde;o &#8211; replicou Pedro de Lima. ganhemos o mato sem demora.<br \/>\n    Quando tiver passado, iremoa atr&aacute;s dela, que ficar&aacute; entre dois<br \/>\n    fogos &#8211; o nosso, pela retaguarda, e o de Luiz Soares pela vanguarda. Luiz<br \/>\n    Soares a esta hora, se entrou pelo Tanquinho, j&aacute; deve estar senhor<br \/>\n    da vila. Faremos a jun&ccedil;&atilde;o e queimaremos os p&eacute;s-rapados<br \/>\n    um por um. <\/p>\n<p>&#8211; Est&aacute; dito. <\/p>\n<p>&lsquo;Sair&rsquo; foi o grito que irrompeu de todos os peitos. <\/p>\n<p>Ao grito seguiu-se o exemplo. <\/p>\n<p>A for&ccedil;a, como o leitor j&aacute; deve ter compreendido, era a que<br \/>\n    Gil Ribeiro comandava. <\/p>\n<p>Vendo da estrada abertas as portas e janelas do sobrado, espalhados pelo<br \/>\n    p&aacute;tio os moveis, alguns dos quais, formando pequenos adjuntos, eram<br \/>\n    nesse momento presa das chamas, n&atilde;o pode Francisco acabar consigo que<br \/>\n    n&atilde;o fosse de perto verificar este lastimoso espet&aacute;culo. <\/p>\n<p>Quando esbarrou na frente da casa e reconheceu a terr&iacute;vel verdade,<br \/>\n    uma id&eacute;ia lhe atravessou o c&eacute;rebro, iluminando-o como rel&acirc;mpago.<br \/>\n    Esta id&eacute;ia lhe dizia que a sua casa tinha sido abandonada por Louren&ccedil;o<br \/>\n    e Marcelina, como o engenho lhe pareceu que o fora por Jo&atilde;o da Cunha.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Eles n&atilde;o morreram. Est&atilde;o todos no sobrado. Oh meu Deus! Permiti<br \/>\n    que assim seja. <\/p>\n<p>Estas palavras consoladoras, que lhe sa&iacute;ram irresistivelmente dos<br \/>\n    l&aacute;bios, foram como as primeiras manifesta&ccedil;&otilde;es de nova<br \/>\n    alma que lhe entrara no c&eacute;rebro. Voltou imediatamente &agrave; estrada<br \/>\n    e se incorporou outra vez na tropa que j&aacute; corria a marche-marche para<br \/>\n    a vila, por ordem de Gil. <\/p>\n<p>Pedro de Lima n&atilde;o se enganava. Desde o amanhecer achava-se Luiz Soares<br \/>\n    com suas for&ccedil;as em Goiana e dava ai que fazer &agrave; nobreza. <\/p>\n<p>Nesta vila lavrava a anarquia, ora mais, ora menos, extensamente desde 3<br \/>\n    de julho, data do primeiro motim. N&atilde;o menos de oito foram eles, numero<br \/>\n    que se elevar&aacute; a muito mais, se aos movimentos das ruas, em certo modo<br \/>\n    organizados, juntarmos as disputas particulares, os desfor&ccedil;os pessoais,<br \/>\n    as afrontas e os desagravos feitos em publico, enfim todos os conflitos naturais<br \/>\n    de duas for&ccedil;as pol&iacute;ticas que se hostilizam a todo o transe no<br \/>\n    pressuposto de aniquilar-se mutuamente. <\/p>\n<p>Al&eacute;m destas circunstancias comuns a todas as guerras civis, uma circunstancia<br \/>\n    especial tornava mais perigosas e freq&uuml;entes as agress&otilde;es e as<br \/>\n    repres&aacute;lias em Goiana &#8211; a de serem os goianistas ardentes assim nas<br \/>\n    lutas da raz&atilde;o, como nas do sentimento. <\/p>\n<p>De data imemorial &eacute; a terra de Nunes Machado, de Arruda C&acirc;mara<br \/>\n    e de tantos outros vultos eminentes, foco de faculdades viris f&aacute;cil<br \/>\n    de acender-se, dif&iacute;cil de apagar-se. Filha legitima do Recife &#8211; vasto<br \/>\n    laborat&oacute;rio, em que fermentam as paix&otilde;es populares sem intermit&ecirc;ncia,<br \/>\n    ainda que fria serenidade pare&ccedil;a algumas vezes indicar enfraquecimento<br \/>\n    ou sono da grande alma pernambucana que tem ai a sua sede, Goiana sempre representou<br \/>\n    consp&iacute;cuo papel nas agita&ccedil;&otilde;es da prov&iacute;ncia. <\/p>\n<p>Conhecedores da influencia, n&atilde;o s&oacute; comercial, mas tamb&eacute;m<br \/>\n    pol&iacute;tica da vila, puseram os mascates particular empenho em t&ecirc;-la<br \/>\n    de seu lado; e neste pressuposto fizeram dela sua segunda pra&ccedil;a forte,<br \/>\n    ou o principal ponto dos seus recursos e for&ccedil;as, depois da capital.\n  <\/p>\n<p>Logo que no Recife se fez sentir a falta de viveres, foi de Goiana que trataram<br \/>\n    de os enviar para os sitiados. Um &oacute;bice por&eacute;m apresentou-se<br \/>\n    imediatamente, o qual muito deu que pensar aos insurgentes &#8211; a rixa em que<br \/>\n    estavam com os habitantes de Goiana, os da Ilha, rixa que tem sua natural<br \/>\n    explica&ccedil;&atilde;o, que &eacute; a seguinte: <\/p>\n<p>De Itamarac&aacute; sede de uma capitania independente de Pernambuco, por<br \/>\n    doa&ccedil;&atilde;o que a Pero Lopes de Souza fizera por carta de 1&ordm;<br \/>\n    de setembro de 1534 d. Jo&atilde;o III, fora mudada a c&acirc;mara para Goiana<br \/>\n    em 1685. Despeitados, come&ccedil;aram desde ent&atilde;o os moradores de<br \/>\n    Itamarac&aacute; a ter para os de Goiana o sobr&rsquo;olho carregado, e n&atilde;o<br \/>\n    perdiam ocasi&atilde;o de lhes dar mostras do seu desagrado. Altos empenhos<br \/>\n    a favor da ilha, se n&atilde;o foram falsas informa&ccedil;&otilde;es movidas<br \/>\n    secretamente contra a vila, deram lugar a expedir-se em data de 20 de novembro<br \/>\n    de 1709 ordem regia, determinando voltasse para aquela a c&acirc;mara que<br \/>\n    de l&aacute; sa&iacute;ra. Este ato veio converter em novos &oacute;dios ressentimentos<br \/>\n    antigos. Por isso n&atilde;o foi preciso, para que os da ilha tomassem o lado<br \/>\n    do governo, isto &eacute;, o da nobreza, mais do que saberem que Goiana se<br \/>\n    amotinara contra ele. N&atilde;o podendo por&eacute;m a primeira competir<br \/>\n    com a segunda, e havendo at&eacute; suspeitas de que, para impedirem que fossem<br \/>\n    tomadas pelas autoridades da ilha os g&ecirc;neros remetidos pelos mascates<br \/>\n    para o Recife, tentavam estes apossar-se dela, encarregaram os governadores<br \/>\n    militares o ajudante-de-tenente Gil Ribeiro de ocupar o Forte-de-Orange. O<br \/>\n    ajudante ai esteve at&eacute; que partiu, por nova ordem, para Goiana, segundo<br \/>\n    vimos. <\/p>\n<p>A pacifica&ccedil;&atilde;o desta vila era na realidade empresa que exigia<br \/>\n    animo e esp&iacute;ritos fort&iacute;ssimos. Nunca estivera t&atilde;o acesa<br \/>\n    ali a fogueira das paix&otilde;es partid&aacute;rias, como nos &uacute;ltimos<br \/>\n    dias que precederam ao da chegada de Gil Ribeiro. A nobreza, em conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    da voz, que correra dias antes, de que o bando de Para&iacute;ba, de passagem<br \/>\n    para o Recife, tomaria em Goiana larga desforra das anteriores repres&aacute;lias,<br \/>\n    entendeu em fortificar-se, posto que sem ostenta&ccedil;&atilde;o, visto como<br \/>\n    os seus recursos n&atilde;o eram grandes, nas mais importantes embocaduras.\n  <\/p>\n<p>Nesse tempo a vasta campina que hoje se interp&otilde;e entre a ponte de<br \/>\n    Goiana, na Rua-do-rio, e o ancoradouro das barca&ccedil;as, denominado Porto-da-concei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    era um sitio ocupado por Jorge Cavalcanti, no qual tinha ele grandes olarias.<br \/>\n    A casa de morada ficava no centro das terras. Do mirante punha-se debaixo<br \/>\n    das vistas toda a volta do rio Goiana que vinha do Porto-da-concei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    passava pela frente da campina e ia morrer, como ainda hoje, no lugar onde<br \/>\n    se v&ecirc; o trapiche, que h&aacute; poucos anos serviu de casa de teatro.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o estava ent&atilde;o obstruindo o rio. Barcos e sumacas chegavam<br \/>\n    at&eacute; ao p&eacute; das casas da rua e ai recebiam ou deixavam os seus<br \/>\n    carregamentos. <\/p>\n<p>Com o pretexto de fortalecer as barreiras para o embarque de tijolos e lou&ccedil;a,<br \/>\n    mandou Jorge Cavalcanti levantar em v&aacute;rios pontos estacadas de pau-a-pique.<br \/>\n    Por tr&aacute;s das estacadas vastas tulhas de barro, e pela frente, no espa&ccedil;o<br \/>\n    da margem que ficava descoberto, largos e trai&ccedil;oeiros fojos, eri&ccedil;ados<br \/>\n    de mort&iacute;feros espeques, davam a esta posi&ccedil;&atilde;o as vantagens<br \/>\n    da primeira fortifica&ccedil;&atilde;o da nobreza, visto que cortava quaisquer<br \/>\n    inimigas comunica&ccedil;&otilde;es da Para&iacute;ba com a vila pelo rio.\n  <\/p>\n<p>Do lado do norte eis em que condi&ccedil;&otilde;es se achava a defesa. <\/p>\n<p>Nas terras que ainda se denominam &#8211; Tanquinho &#8211; tinha o ex-alcaide-m&oacute;r<br \/>\n    Manoel Cavalcanti de Lacerda sua casa de morada, a qual ficava na beira da<br \/>\n    estrada que vinha da Para&iacute;ba. <\/p>\n<p>O ex-alcaide-m&oacute;r sem hesitar um s&oacute; momento aproveitou-se dessa<br \/>\n    importante posi&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o somente concentrou ai seus recursos,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m mandou levantar ao longo da estrada e por dentro dos matos,<br \/>\n    trincheiras singulares, que grandes danos deveram causar aos assaltantes,<br \/>\n    se eles por ai tivessem feito a sua entrada. Mas n&atilde;o foi isto o que<br \/>\n    aconteceu, e assim destas amplas defesas, como das de Jorge Cavalcanti, que<br \/>\n    n&atilde;o o eram menos sen&atilde;o mais, como vimos, n&atilde;o se disparou<br \/>\n    um s&oacute; tiro contra os da Para&iacute;ba, visto que, de tudo informados,<br \/>\n    n&atilde;o obstante serem grandes as cautelas tomadas e o segredo mantido<br \/>\n    sobre tais fortifica&ccedil;&otilde;es, cortando por diferentes caminhos,<br \/>\n    entraram na vila por onde n&atilde;o eram esperados como adiante veremos.\n  <\/p>\n<p>Cosme Cavalcanti ocupava o sobrado que ainda existe do lado direito, no fim<br \/>\n    do Beco-do-pav&atilde;o e que d&aacute; para a Rua-do-meio. <\/p>\n<p>Chamou para junto de se e lhe entregou o comando de varias ordenan&ccedil;as,<br \/>\n    que estavam de prontid&atilde;o no pavimento t&eacute;rreo do sobrado, o alferes<br \/>\n    Diogo de Carvalho Maciel, o qual t&atilde;o brilhante nome deixou por seus<br \/>\n    feitos nessa guerra. Felipe Cavalcanti, que morava na Rua-da-Soledade, e Jos&eacute;<br \/>\n    de Barros na Rua-das-porteiras tinham tamb&eacute;m consigo gente armada,<br \/>\n    e s&oacute; esperavam qualquer indicio de rompimento para ca&iacute;rem sobre<br \/>\n    os inimigos. <\/p>\n<p>Guarnecia a cadeia o ilustre capit&atilde;o Antonio Rabelo, que, por ocasi&atilde;o<br \/>\n    dos primeiros motins, fora destacado pelo governo para auxiliar na vila a<br \/>\n    defens&atilde;o das autoridades e dos moradores pac&iacute;ficos; e a todos<br \/>\n    inspirava a maior confian&ccedil;a. <\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Cunha trazia a sua gente no vasto armaz&eacute;m que ficava<br \/>\n    por baixo do sobrado por ele ocupado. Varias caixas de a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    que a esse tempo ainda ai se viam, porque tanto que se trocaram as primeiras<br \/>\n    hostilidades, cessaram as transa&ccedil;&otilde;es entre os agricultores e<br \/>\n    os comerciantes, haviam sido colocadas por tr&aacute;s das portas da frente,<br \/>\n    de modo que pudessem servir de trincheiras com avan&ccedil;ada para o P&aacute;tio-do<br \/>\n    Carmo. <\/p>\n<p>Estava sujeito a especiais perigos o ponto ocupado por Jo&atilde;o da Cunha,<br \/>\n    em conseq&uuml;&ecirc;ncia de se achar fronteiro ao convento, que era, para<br \/>\n    assim escrevermos, o quartel-general dos mascates, sendo por estes os frades,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; influ&ecirc;ncia dos da recoleta. No convento achavam-se<br \/>\n    recolhidas armas e muni&ccedil;&otilde;es mandadas de Recife para serem distribu&iacute;das<br \/>\n    pelos amotinados. <\/p>\n<p>Eram estas as condi&ccedil;&otilde;es da defesa dos nobres em Goiana. Volvamos<br \/>\n    agora r&aacute;pida vista-d&rsquo;olhos sobre as dos seus advers&aacute;rios.\n  <\/p>\n<p>O plano destes era realmente tenebroso, e n&atilde;o ficava a dever ao da<br \/>\n    nobreza. <\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Maia, n&atilde;o obstante se mostrar mais moderado em sua<br \/>\n    ard&ecirc;ncia contra os senhores-de-engenho, do que ao principio, escrevera<br \/>\n    na v&eacute;spera o Antonio Coelho: <\/p>\n<p>&lsquo;Amanh&atilde; h&aacute; de estar logo muito cedinho ai Luiz Soares<br \/>\n    com seu ter&ccedil;o, passante de quinhentos homens.&rsquo; O pr&oacute;prio<br \/>\n    Luiz Soares mandara dizer a Jeronimo Paes por seu parente Joaquim Silverio:\n  <\/p>\n<p>&lsquo;Espere por mim com minha gente para almo&ccedil;armos. Queremos panelada<br \/>\n    gorda e bom vinho.&rsquo; O Tunda-Cumbe a quem Antonio Coelho escrevera aconselhando-o<br \/>\n    a que entrasse ao mesmo tempo que Luiz Soares a fim de ser decisivo o golpe<br \/>\n    que se desfechasse sobre a nobreza, respondera dizendo que n&atilde;o faltaria.\n  <\/p>\n<p>Por volta das cinco horas da tarde do dia anterior ao da entrada de Gil,<br \/>\n    justamente quando em sua casa fazia Antonio Coelho com Jeronimo Paes o computo<br \/>\n    das for&ccedil;as, que deviam no dia seguinte tomar Goiana, entrou na sala<br \/>\n    um pardo, escuro, corpulento, mal encarado, por nome Bartolomeu. Era o mestre<br \/>\n    de uma barca&ccedil;a de Antonio Coelho, circunstancia a que talvez devia<br \/>\n    a particular confian&ccedil;a que nele tinham os principais negociantes da<br \/>\n    vila. <\/p>\n<p>Ao parecer, sua chegada n&atilde;o era esperada, visto que deu lugar a revelarem<br \/>\n    surpresa, posto que agrad&aacute;vel, os dois amigos. <\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; de volta, Bartolomeu! exclamou Antonio Coelho. Pr&oacute;speros<br \/>\n    te foram os ventos. <\/p>\n<p>&#8211; Cheguei h&aacute; poucas horas, respondeu o barcaceiro. <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o? Inquiriu Jeronimo Paes. Foste feliz na viagem? Chegaram ao<br \/>\n    Recife sem novidade os viveres que mandamos? <\/p>\n<p>&#8211; Por for&ccedil;a, respondeu Bartolomeu com seguran&ccedil;a. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; um her&oacute;i, disse Coelho. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o foi sem perigo que cheguei ao meu destino. Da ilha tentaram<br \/>\n    cortar-me a marcha da embarca&ccedil;&atilde;o. Mas eu fiz-me no largo com<br \/>\n    t&atilde;o boa hora, que ainda me procuram supondo-me fora da barra, quando<br \/>\n    eu j&aacute; fui e j&aacute; aqui estou. E que novas nos trazes? Boas ou m&aacute;s?<br \/>\n    Interrogou Coelho. <\/p>\n<p>&#8211; As novas mais importantes devem vir nestas cartas &#8211; disse o barcaceiro,<br \/>\n    entregando ao negociante um alentado ma&ccedil;o de papel. <\/p>\n<p>Coelho rasgou com viol&ecirc;ncia o envolt&oacute;rio que reunia em um s&oacute;<br \/>\n    volume a sua correspond&ecirc;ncia, e p&ocirc;s a devor&aacute;-la. <\/p>\n<p>Entretanto Jeronimo Paes n&atilde;o cessava as indaga&ccedil;&otilde;es sobre<br \/>\n    o estado do Recife e dos seus habitantes sitiados. <\/p>\n<p>&#8211; O que eu sei dizer &eacute; que a fome dentro da vila &eacute; de meter<br \/>\n    horror, &#8211; disse o barcaceiro. D&aacute;-se um vint&eacute;m por uma espiga<br \/>\n    de milho e n&atilde;o se encontra. N&atilde;o h&aacute; carne de esp&eacute;cie<br \/>\n    nenhuma. De farinha n&atilde;o havia nem um caro&ccedil;o antes de eu l&aacute;<br \/>\n    chegar. Um papagaio j&aacute; serviu de galinha para caldo de um doente. O<br \/>\n    forte da popula&ccedil;&atilde;o &eacute; o marisco-pedra, tirado nas coroas<br \/>\n    quando a vazante as descobre. Mas vosmec&ecirc; n&atilde;o sabe que perigo<br \/>\n    corre o que l&aacute; os vai apanhar. Mais de cinquenta negras mariscadeiras<br \/>\n    tem ca&iacute;do no poder dos p&eacute;s-rapados que fazem o cerco da vila.<br \/>\n    Muito pescador de marisco tem morrido de tiro. <\/p>\n<p>&#8211; E porque n&atilde;o rompem o cerco? Para que servem os que est&atilde;o<br \/>\n    dentro? Onde est&aacute; o animo dessa gente? Que faz Mota? Oh que gente!<br \/>\n    Que gente! <\/p>\n<p>A coisa n&atilde;o &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil como parece. Seu governador<br \/>\n    Jo&atilde;o da Mota tem metido a cabe&ccedil;a muitas vezes para romper o<br \/>\n    cerco; mas os p&eacute;s-rapados s&atilde;o muitos; t&ecirc;m toda a vila<br \/>\n    rodeada de corpos de guarda. Dormem ainda menos do que tet&eacute;u. Est&atilde;o<br \/>\n    sempre alerta. <\/p>\n<p>&#8211; E que tem feito d. Francisco e o Camar&atilde;o? Acham cedo ainda para<br \/>\n    avan&ccedil;ar contra os sitiantes? <\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o puderam ser bons em nada. Os p&eacute;s-rapados cada dia<br \/>\n    fazem uma das suas pelos caminhos e engenhos onde v&atilde;o topando gente<br \/>\n    contraria. Se o cerco durar mais um m&ecirc;s, a vila entrega-se; porque &agagrave;<br \/>\n    fome ningu&eacute;m resiste. Fome tem cara de herege patr&atilde;o. <\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; de ser assim &#8211; disse Coelho, atirando sobre a mesa junto<br \/>\n    &agrave; qual estava sentado, as cartas que acabava de ler &#8211; n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de ser assim. Em poucos dias n&oacute;s os de Goiana havemos de romper o assedio<br \/>\n    e levantar nas ruas do Recife, livres de qualquer embara&ccedil;o a autoridade<br \/>\n    real, agora vilmente abatida pelos rebeldes, j&aacute; que os de l&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o d&atilde;o acordo de si. A&iacute; tendes, Sr. Paes o que me escrevem<br \/>\n    Mota, Correia Gomes e Sim&atilde;o Ribeiro, acrescentou dirigindo-se a Jeronimo<br \/>\n    Paes. Lede. Quando acabardes, mandai levar ao provincial esta carta do padre<br \/>\n    Jo&atilde;o da Costa. <\/p>\n<p>E voltando-se para o barcaceiro, perguntou-lhe como por encher o tempo: <\/p>\n<p>&#8211; Que mais, Bartolomeu? <\/p>\n<p>Na botica do Rogoberto estava muito povo reunido agora mesmo. Dizia um que<br \/>\n    seu Jo&atilde;o da Cunha tem a fabrica e os moradores na vila para em caso<br \/>\n    de necessidade sa&iacute;rem armados contra os mascates. Dizia outro que Antonio<br \/>\n    Coelho e seu Jeronimo Paes n&atilde;o t&ecirc;m armas nem dinheiro para dar<br \/>\n    ao povo que os quiser acompanhar ao Recife. <\/p>\n<p>&#8211; Qual foi o infame p&eacute;-rapado que aventurou semelhante aleivosia?\n  <\/p>\n<p>&#8211; Quem estava dizendo isto era o Ricardo. <\/p>\n<p>&#8211; Ajustaremos j&aacute; estas contas, disse Paes. Irei &agrave; botica para<br \/>\n    o desmentir, falarei ao povo. Isso n&atilde;o se atura. H&atilde;o de ver<br \/>\n    para quanto presto. <\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim, meu amigo. &Eacute; da maior conveni&ecirc;ncia opor &agrave;<br \/>\n    mentira o desmentido. Ireis &agrave; botica sem falta, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    assim, Sr. Paes? <\/p>\n<p>&#8211; Irei. Porque n&atilde;o? Irei j&aacute;, agora mesmo &#8211; disse o marchante,<br \/>\n    levantando-se para sair. <\/p>\n<p>&#8211; Antes de irdes, quero lembrar-vos uma providencia. Bem sabeis, Sr. Paes,<br \/>\n    que sem dinheiro n&atilde;o se fundam reinos. Vinde comigo at&eacute; c&aacute;<br \/>\n    dentro. Acompanha-nos, Bartolomeu. Quero que vejas com teus pr&oacute;prios<br \/>\n    olhos as coisas quais s&atilde;o, a fim que possas com seguran&ccedil;a saber<br \/>\n    quanto s&atilde;o infames os que nos irrogam faltas e fraquezas que n&atilde;o<br \/>\n    temos. <\/p>\n<p>&#8211; O pavimento inferior era repartido em duas metades. Para a da frente, na<br \/>\n    qual estava a loja com todas as suas depend&ecirc;ncias, entrava-se pelo lado<br \/>\n    da rua; para a outra descia-se por uma escada que comunicava com o primeiro<br \/>\n    andar por dentro de um gabinete secreto. Coelho, Paz e Bartolomeu atravessaram<br \/>\n    esse gabinete, desceram a escada e chegaram ao pavimento, que se esclareceu<br \/>\n    &agrave; luz de um candieirinho de prata de que se munira Coelho quando teve<br \/>\n    de descer. O v&atilde;o ocupava uma quinta parte do pr&eacute;dio. N&atilde;o<br \/>\n    tinha portas nem janelas, nem sequer frestas. Era um como t&uacute;mulo, sem<br \/>\n    nenhuma outra comunica&ccedil;&atilde;o com o ar e o mundo, a n&atilde;o ser<br \/>\n    a que se prendia &agrave; escada. Espalhados pelo ch&atilde;o viam-se alguns<br \/>\n    caix&otilde;es de pinho, e encostados a um canto objetos que reluziam. Coelho<br \/>\n    levantou a tampa de um desses caix&otilde;es para que o barcaceiro visse o<br \/>\n    seu conte&uacute;do. Que &eacute; que est&aacute;s vendo, Bartolomeu? perguntou<br \/>\n    ele a modo de desvairado. <\/p>\n<p>&#8211; Armas de fogo, patr&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade; s&atilde;o armas. Foste tu mesmo que as trouxeste, supondo<br \/>\n    que trazias ferragens para o engenho que estou construindo. S&atilde;o trezentas<br \/>\n    espingardas e duzentos bacamartes. Aquilo que reluz dali do canto s&atilde;o<br \/>\n    espadas, catanas e parna&iacute;bas. J&aacute; v&ecirc;s que Ricardo n&atilde;o<br \/>\n    passa de um mentiroso, um desprez&iacute;vel vil&atilde;o. Agora subamos.\n  <\/p>\n<p>Subiram. <\/p>\n<p>Ao penetrarem no gabinete, onde se escondia a escada, Coelho indicou ao barcaceiro<br \/>\n    um animal de tamanho descomunal, deitado aos p&eacute;s da cama de seu uso.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Que te parece isto, Bartolomeu? perguntou Coelho. <\/p>\n<p>&#8211; Um grande cachorro. Oh que monstro! <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o meu defensor. Ele agora est&aacute; dormindo. Aproxima-te. Tens<br \/>\n    medo? &Eacute; um c&atilde;o que s&oacute; tem dentes para os ladr&otilde;es.\n  <\/p>\n<p>&#8211; O barcaceiro, em vez de se aproximar, afastou-se. Coelho e Jeronimo sorriram.<br \/>\n    N&atilde;o fujas. O animal &eacute; ben&eacute;volo e inofensivo. Pega neste<br \/>\n    candeeiro e encosta-te bem a mim para o poderes ver de perto. Ficar&aacute;s<br \/>\n    sabendo o que ele vale. N&atilde;o sem receio, Bartolomeu fez o que mandara<br \/>\n    o mascate. Este meteu ent&atilde;o no canto de um dos olhos do animal adormecido<br \/>\n    um pequeno objeto que tirara do bolso. Houve um como movimento na fera, o<br \/>\n    que fez o barcaceiro recuar amedrontado. N&atilde;o fujas, Bartolomeu. Estou<br \/>\n    aqui. Aproxima-te.<\/p>\n<p>&#8211; Aos olhos de Bartolomeu mostrou-se ent&atilde;o um sonho, uma vis&atilde;o<br \/>\n    deslumbrante e incr&iacute;vel. O animal tinha-se aberto pelo ventre de banda<br \/>\n    &agrave; banda; e naquela sobre a qual estava deitado, o que o barcaceiro<br \/>\n    descobriu foram dobras em pequenas tulhas, formando carreiras pelo longo v&atilde;o.<br \/>\n    &Oacute; xentes! exclamou Bartolomeu maravilhado. Quanta moeda, quanto ouro!<br \/>\n    Meu Deus! Pois &eacute; esta a burra de seu Coelho?! <\/p>\n<p>Todo este dinheiro, disse o negociante, ganhei-o eu pela minha industria<br \/>\n    nesta terra. Devo acaso &agrave; terra ou ao meu trabalho, as minhas economias?<br \/>\n    Devo-as ao meu trabalho; a terra n&atilde;o d&aacute; dinheiro. Os pregui&ccedil;osos<br \/>\n    n&atilde;o ser&atilde;o capazes de o ajuntar, ainda que morram de velhos no<br \/>\n    pa&iacute;s mais fecundo e rico do globo. Dizem que esta terra &eacute; deles.<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; tal. O mundo &eacute; da humanidade. Povos que vivem<br \/>\n    hoje em um ponto, podem viver amanh&atilde; em outro com o mesmo direito.<br \/>\n    Assim os homens que trabalham. Pois bem, todo este cabedal, adquirido com<br \/>\n    o suor do meu rosto, ser&aacute; aplicado em defesa da autoridade real e do<br \/>\n    interesse do povo, a que os nobres tencionam antepor o seu bem estar, a sua<br \/>\n    rebeldia. Mas n&atilde;o percamos tempo, Sr. Paes, disse ao marchante, pegando<br \/>\n    de um a&ccedil;afate e atirando dentro nele algumas das tulhasinhas de dobr&otilde;es,<br \/>\n    que se viam enfileiradas no ventre do c&atilde;o de bronze. Eis a minha id&eacute;ia.<br \/>\n    &Eacute; preciso desfazer imediatamente, com dinheiro, as inven&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Ricardo. Correi &agrave; botica do Rogoberto, meu amigo e Sr. Paes. Falai<br \/>\n    do despotismo da nobreza, da covardia do bispo, da estupidez do bispo e dos<br \/>\n    nobres. Discorrei com o fervor que vos &eacute; natural, sobre igualdade,<br \/>\n    fraternidade e liberdade. O povo &eacute; perdido por estes sentimentos. Espraiai-vos<br \/>\n    em demonstrardes a conveni&ecirc;ncia de acabar-se com o cerco do Recife,<br \/>\n    o qual impede de sa&iacute;rem os nossos produtos, que t&ecirc;m bom pre&ccedil;o<br \/>\n    nas pra&ccedil;as estrangeiras, e de entrarem os produtos estrangeiros de<br \/>\n    que precisamos. Acrescentrai que a fome e a nudez h&atilde;o de chegar dentro<br \/>\n    de pouco tempo aos campos e aos sert&otilde;es. Talvez que, estimulados ou<br \/>\n    advertidos por vossas palavras, muitos dos que vos escutarem queiram pegar<br \/>\n    em armas contra o juiz ordin&aacute;rio, o sargento-m&oacute;r, enfim contra<br \/>\n    as autoridades atuais que tiveram quase todas por origem monstruosa rebeldia.<br \/>\n    Se o povo se mostrar deliberado a pegar em armas&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; E porque n&atilde;o se h&aacute; de mostrar? interrogou Jeronimo Paes.\n  <\/p>\n<p>Tendes raz&atilde;o, tendes raz&atilde;o. Enfim deixo o resto por vossa conta,<br \/>\n    Sr. Paes. Bem sabeis que o povo de Goiana deve pegar em armas de hoje at&eacute;<br \/>\n    amanh&atilde; contra os que se dizem nobres. &Eacute; indispens&aacute;vel<br \/>\n    que isto aconte&ccedil;a. &Eacute; absolutamente necess&aacute;rio que a excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    publica, em vez de se moderar, v&aacute; por diante cada vez mais. Ajudados<br \/>\n    por ela, os amigos, que esperamos, poder&atilde;o penetrar facilmente na vila<br \/>\n    e assenhorear-se dela. Achar&atilde;o os &acirc;nimos preparados para a grande<br \/>\n    empresa. <\/p>\n<p>Estas palavras levaram, como eletricamente, a exalta&ccedil;&atilde;o, a<br \/>\n    vertigem ao animo do marchante j&aacute; de se ardente. <\/p>\n<p>Dou-vos minha palavra que em menos de uma hora havemos de Ter o povo solto<br \/>\n    pelas ruas em procura de nobres para amarrar, como se foram caranguejos. <\/p>\n<p>A modo de alucinado, Jeronimo correu imediatamente de escadas abaixo, fazendo<br \/>\n    tinir as moedas dentro do a&ccedil;afate, e dizendo em altas vozes: <\/p>\n<p>&#8211; S&atilde;o rosas que me ca&iacute;ram do c&eacute;u. Cheguem-se a mim,<br \/>\n    que h&atilde;o de ver como s&atilde;o bonitas e cheirosas estas flores consoladoras.<\/p>\n<h2><a name=\"23\">Cap&iacute;tulo XXIII<\/a><\/h2>\n<p>Jeronimo Paes mostrava Ter quarenta anos. As soalheiras que apanhava em suas<br \/>\n    freq&uuml;entes jornadas para Pedras-de-fogo a comprar gado e para o Recife<br \/>\n    a recend&ecirc;-lo, tinham-lhe dado ao moreno do rosto e das m&atilde;os o<br \/>\n    trigueiro carregado que o fazia parecer homem de cor. Trazia o cabelo cortado<br \/>\n    rente e a barba inteira. <\/p>\n<p>Esta era negra, espessa e algum tanto hirsuta. Em seu rosto liam-se a energia,<br \/>\n    a firmeza e a tenacidade do tribuno. A fronte, estreita no alto, alargava-se<br \/>\n    para os olhos, que eram pequenos, mas vivos e avermelhados. O nariz tinha<br \/>\n    o quer que era do bico da arara. <\/p>\n<p>Jeronimo enviuvara meia d&uacute;zia de anos depois de casado. Ficaram-lhe<br \/>\n    tr&ecirc;s filhos, a saber Justino, Miguel e Victor, os quais ao tempo desta<br \/>\n    historia viviam com certa folga de meios, que eq&uuml;ivalia &agrave; abastan&ccedil;a,<br \/>\n    ou melhor &agrave; independ&ecirc;ncia. Al&eacute;m destes, j&aacute; senhores<br \/>\n    de si, tinha Jeronimo em sua companhia a ca&ccedil;ula, por nome Josefa. Em<br \/>\n    casa chamavam-lhe Zefinha. <\/p>\n<p>N&atilde;o era ela nem fei nem bonita, nem alta nam baixa, nem muito morena<br \/>\n    nem muito clara. Era um todo correto, proporcionado e como feito de prop&oacute;sito<br \/>\n    para existir justamente na burguesia. Tinha os cabelos corridos e acastanhados,<br \/>\n    os olhos pretos e algum tanto ca&iacute;dos, o sorriso engra&ccedil;ado, mas<br \/>\n    sem o colorido, sem o reflexo indefin&iacute;vel que acusa louras esperan&ccedil;as,<br \/>\n    sonhos purpurinos, anelos vagos mas n&atilde;o de todos cegos, f&eacute;rvido<br \/>\n    sentimento em quem o sorri. <\/p>\n<p>Sua instru&ccedil;&atilde;o era vulgar, e a falta dos conhecimentos morais,<br \/>\n    necess&aacute;rios &agrave; mulher por honra sua e seguran&ccedil;a do lar<br \/>\n    que possa ser chamada pelo destino a formar mais tarde, ela a supria com o<br \/>\n    admir&aacute;vel bom senso e imensa brandura de cora&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    a tornavam a primeira prenda da fam&iacute;lia. <\/p>\n<p>A preocupa&ccedil;&atilde;o principal de Jeronimo Paes, depois de ver seus<br \/>\n    tr&ecirc;s filhos casados, vivendo cada um do seu negocio, era achar um homem<br \/>\n    limpo que quisesse casar com Zefinha. <\/p>\n<p>Um Domingo, em que &agrave; porta do sitio que tinha nas proximidades do<br \/>\n    Po&ccedil;o-do-rei, Jeronimo esperava pela filha para ir &agrave; missa na<br \/>\n    Soledade, passou pela frente da casa Antonio Coelho. Como j&aacute; se conheciam<br \/>\n    e eram at&eacute; afreguesados, o marchante tirou conversa com o negociante<br \/>\n    e o teve preso ao p&eacute; de se at&eacute; que Zefinha apareceu. Seguiram<br \/>\n    ent&atilde;o os tr&ecirc;s para a vila, e juntos ouviram a sua missa, que<br \/>\n    teve para o jovem portugu&ecirc;s e a cachopa goianista, particular, posto<br \/>\n    que vaga delicia. <\/p>\n<p>Zefinha voltou apaixonada. Sentiu durante todo o dia e ainda no seguinte<br \/>\n    certo bem estar, certa inquieta&ccedil;&atilde;o, certa harmonia, que lhe<br \/>\n    tiraram a vontade de comer e o sono. <\/p>\n<p>Com o jovem portugu&ecirc;s n&atilde;o se deu o mesmo. De noite j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o lhe lembravam outras fei&ccedil;&otilde;es, outros feiti&ccedil;os,<br \/>\n    que os de d. Damiana, cuja imagem ele trazia permanentemente em seu olhos.\n  <\/p>\n<p>Desse dia por diante come&ccedil;ou Jeronimo a aproximar-se mais vezes de<br \/>\n    Coelho. Primeiro vieram os presentes, depois as visitas, e por fim os convites<br \/>\n    para almo&ccedil;os ou jantares em sua casa. Dentro em pouco estavam amigos.\n  <\/p>\n<p>Mas ao passo que o marchante n&atilde;o poupava finezas nem esfor&ccedil;os<br \/>\n    para prender definitivamente o negociante, lan&ccedil;ava-lhe este outras<br \/>\n    contas muito diferentes. Gostava de Jeronimo, n&atilde;o desgostava de Zefinha,<br \/>\n    mas seu ser moral revoava em torno da imagem da jovem senhora de engenho,<br \/>\n    como em torno de rosa gentil e delicada, revoa, absorvendo-lhe o saud&aacute;vel<br \/>\n    cheiro, namorado beija-flor. Quando Jeronimo dizia consigo estas palavras:<br \/>\n    &lsquo;Como n&atilde;o havia de ser feliz Zefinha se casasse com Antonio Coelho!&rsquo;<br \/>\n    monologava este de se para se do seguinte modo: &lsquo;Damiana, Damiana, meu<br \/>\n    amor, meu bem, minha vida, minha alma, que ser&aacute; de mim dentro em pouco<br \/>\n    tempo, se sorte propicia n&atilde;o vier arrasar a muralha que nos separa?<br \/>\n    Ah! eu n&atilde;o posso viver sem ti, delicia cruel de minha exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    doce fatalidade que fizeste de mim escravo e desgra&ccedil;ado!&rsquo;<\/p>\n<p>N&atilde;o foi preciso muito para que Zefinha compreendesse que os sonhos<br \/>\n    de Coelho, seus pensamentos, suas ambi&ccedil;&otilde;es afetivas tinham por<br \/>\n    objeto outra mulher. Mas, por infelicidade, j&aacute; sentia ela por ele todos<br \/>\n    os estremecimentos que revelam a exist&ecirc;ncia da paix&atilde;o. Herpe,<br \/>\n    corrosivo, o amor infeliz alastrava suas ves&iacute;culas pe&ccedil;onhentas<br \/>\n    pelo cora&ccedil;&atilde;o virgem da rapariga, envolvendo-o em camada de fogo<br \/>\n    que o abrasava. Ela sentia o rapaz nos olhos, na fantasia, na luz, na sombra,<br \/>\n    entre a costura e a agulha, entre o sorriso e as lagrimas, entre a esperan&ccedil;a<br \/>\n    v&atilde; e o desengano previsto ou adivinhado. &lsquo;Ele n&atilde;o quer<br \/>\n    saber de mim&rsquo; dizia Zefinha em seu entendimento. E chorava tristemente.<br \/>\n    Mas se Coelho aparecia, j&aacute; ela sorria de novo, n&atilde;o porque volvesse<br \/>\n    a acreditar, como nos primeiros tempos que o portugu&ecirc;s retribu&iacute;a<br \/>\n    o seu afeto, mas porque sua doce imagem lhe trazia o prazer que fugia quando<br \/>\n    ele se ausentava. A poder do esfor&ccedil;o, Zefinha mostrou-se aparentemente<br \/>\n    senhora de sua paix&atilde;o. Sem indiferen&ccedil;as despeitosas, sem contentamentos<br \/>\n    exagerados, ela conseguiu levar ao espirito de seu pai e ao do pr&oacute;prio<br \/>\n    Coelho a convic&ccedil;&atilde;o de que, se n&atilde;o era feliz, tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o era desgra&ccedil;ada; que sobre o lago azul dos seus afetos pairava<br \/>\n    a calma da inoc&ecirc;ncia; que por ai n&atilde;o sopravam os vulc&otilde;es<br \/>\n    que revolvem o c&eacute;u de anil da mocidade, e s&atilde;o antes lavas abrasadas<br \/>\n    do que sopros de tormenta. <\/p>\n<p>Para chegar a tamanho resultado a mo&ccedil;a p&ocirc;s em contribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    toda sua energia, que nunca fora t&atilde;o grande nem t&atilde;o bem sucedida.<br \/>\n    Aquela natureza, a modo de morna e indolente, acendeu-se para a luta, e com<br \/>\n    suas pr&oacute;prias for&ccedil;as pode triunfar de se mesma. O espirito dominou<br \/>\n    tiranamente o cora&ccedil;&atilde;o. O bom senso imp&ocirc;s silencio ao desprezado<br \/>\n    afeto. Poucas lutas interiores j&aacute; foram maiores em uma mulher ignorante<br \/>\n    e de vulgar condi&ccedil;&atilde;o do que a sustent&aacute;-la nesse asfixiar<br \/>\n    de um amor imenso que morria &agrave;s m&atilde;os de quem o devia ameigar<br \/>\n    e chegar bem ao seio, como fazia &agrave;s rolinhas gentis de casa. Pelo proceder<br \/>\n    da filha veio Jeronimo a conhecer que seus desejos e esperan&ccedil;as estavam<br \/>\n    longe de ser preenchidos. O descontentamento, o pesar trouxe a frieza, n&atilde;o<br \/>\n    a quebra das rela&ccedil;&otilde;es de amizade que o prendiam ao negociante.<br \/>\n    Esta frieza durou pouco, porque de certo dia em diante Coelho, fazendo-se<br \/>\n    mais ass&iacute;duo em casa do marchante, reanimou, por seu modo de tratar<br \/>\n    Zefinha, no espirito do pai dela a quase de todo extinta esperan&ccedil;a.<br \/>\n    Se para Ter explica&ccedil;&atilde;o desta r&aacute;pida e inesperada mudan&ccedil;a<br \/>\n    o marchante houvesse podido penetrar no espirito de Coelho, teria achado a&iacute;<br \/>\n    a seguinte ordem de id&eacute;ias: Despeitado com Jo&atilde;o da Cunha, voltava-se<br \/>\n    para Jeronimo, fazia-o entrever a possibilidade de vir ele Coelho a casar<br \/>\n    com Zefinha, e por este meio chamava para seu lado o primeiro elemento de<br \/>\n    hostilidade aos nobres de Goiana, o dito Jeronimo, que por seus sentimentos<br \/>\n    francamente populares, era o homem mais pr&oacute;prio para levantar as massas<br \/>\n    e encaminh&aacute;-las ao fim que lhe aprouvesse. <\/p>\n<p>Fosse que, desconhecendo a pol&iacute;tica tortuosa e dissimulada que certos<br \/>\n    homens, pr&aacute;ticos em explorar as paix&otilde;es alheias, usam no seu<br \/>\n    pr&oacute;prio interesse, se prestava de boa f&eacute; ao calculo do jovem<br \/>\n    europeu; fosse que obedecia simplesmente a impulsos do seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    votado ao povo por quem era capaz de derramar a ultima gota do seu sangue;<br \/>\n    fosse que s&oacute; tinha em mente, concorrendo com todos os aux&iacute;lios<br \/>\n    poss&iacute;veis a Coelho, penhor&aacute;-lo pela gratid&atilde;o, a fim de<br \/>\n    tornar f&aacute;cil a retribui&ccedil;&atilde;o dos seus servi&ccedil;os com<br \/>\n    o desejado consorcio, o certo &eacute; que Jeronimo se identificou com a causa<br \/>\n    dos mascates fervorosamente, arrastando ap&oacute;s de se seus filhos, amigos,<br \/>\n    afei&ccedil;oados, o pr&oacute;prio povo, segundo se v&ecirc; pela hist&oacute;ria.\n  <\/p>\n<p>O que se pode considerar fora de duvida &eacute; que Antonio Coelho n&atilde;o<br \/>\n    tinha grande empenho no aniquilamento da nobreza, mas no de um nobre, Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha, nem pensava verdadeiramente em outra mulher que n&atilde;o fosse<br \/>\n    d. Damiana. Completemos com algumas palavras mais o esbo&ccedil;o desse caracter,<br \/>\n    que vem na historia da guerra a par com o de Jeronimo Paes. <\/p>\n<p>Tendo chegado ao Brasil de pequena idade, cedo revelou Coelho particulares<br \/>\n    propens&otilde;es para a vida comercial, pelos progressos que fez. Quando<br \/>\n    Jo&atilde;o da Cunha o conheceu, era ele caixeiro em um dos armaz&eacute;ns<br \/>\n    do Recife. Ou por suas fei&ccedil;&otilde;es e maneiras atrativas, ou por<br \/>\n    seu talento que talvez fosse ainda mais atrativo do que as fei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    o certo que o senhor-de-engenho, simpatizando vivamente com ele, convidou-o<br \/>\n    para recebedor de seus a&ccedil;ucares em Goiana, convite que o jovem Antonio<br \/>\n    aceitou, atentas as vantagens prometidas pelo sargento-m&oacute;r. Ali os<br \/>\n    seus servi&ccedil;os cedo atra&iacute;ram-lhe tantos cr&eacute;ditos que em<br \/>\n    poucos anos Coelho foi geralmente estimado na vila, e conhecido no Recife;<br \/>\n    teve entrada nas principais casas comerciais destes dois centros; enfim tratou<br \/>\n    de estabelecer-se por sua conta. Revelando suas inten&ccedil;&otilde;es a<br \/>\n    Jo&atilde;o da Cunha, em vez de se opor a elas, o senhor-de-engenho fez que<br \/>\n    ele as realizasse logo, e a este efeito lhe prestou os necess&aacute;rios<br \/>\n    aux&iacute;lios. <\/p>\n<p>Coelho teria por ent&atilde;o seus vinte anos. Era elegante e bem parecido.<br \/>\n    Tinha sedu&ccedil;&atilde;o no olhar, e gra&ccedil;a especial na conversa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Sabia de cor paginas de Palmeirim-da Inglaterra e as repetia t&atilde;o possu&iacute;do<br \/>\n    das gentilezas namoradas que enchem a obra de Francisco de Moraes, que mais<br \/>\n    valia ouvi-las ao mo&ccedil;o portugu&ecirc;s do que as ler no pr&oacute;prio<br \/>\n    autor. Sentindo particular predile&ccedil;&atilde;o pelos nobres em cujas<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es se ufanava de aparecer ligado, foi pouco a pouco ascendendo<br \/>\n    da esfera opaca onde principiara a vida, &agrave;s alturas douradas em que<br \/>\n    calculava colocar-se definitivamente como um dos astros que formavam a constela&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Seus dotes pessoais granjearam-lhe as inclina&ccedil;&otilde;es das jovens<br \/>\n    damas e a benevol&ecirc;ncia dos cavalheiros de seu conhecimento. Por ent&atilde;o<br \/>\n    d.Damiana, solteira ainda, passava temporadas, como j&aacute; se referiu,<br \/>\n    em casa de Jo&atilde;o da Cunha. Era muito nova mas trazia j&aacute; em torno<br \/>\n    de se um circulo de adoradores em cujo numero Coelho soube aparecer t&atilde;o<br \/>\n    conspicuamente que, passados alguns meses, os outros bateram em retirada,<br \/>\n    deixando-o senhor exclusivo do campo. &Eacute; por&eacute;m de notar que nem<br \/>\n    a idade de d. Damiana nem os costumes da &eacute;poca deram lugar a que ela<br \/>\n    tivesse conhecimento ou sequer suspeita dessa luta travada entre os primeiros<br \/>\n    jovens assim agricultores como comerciantes da vila. Contavam-se por sua raridade<br \/>\n    as reuni&otilde;es familiares que se efetuavam na roda do ano ainda nas casas<br \/>\n    ricas; e mesmo nessas reuni&otilde;es era t&atilde;o respeitoso e cort&ecirc;s<br \/>\n    o trato entre os cavalheiros e as damas que, para assim escrevermos, o amor,<br \/>\n    ao contr&aacute;rio do que hoje acontece em nossos sal&otilde;es, mais se<br \/>\n    fazia adivinhar do que declarava. Todavia, por ocasi&atilde;o de uma festa<br \/>\n    do orago da freguesia, em que houve cavalhadas e fandango, na qual se achou<br \/>\n    d. Damiana, pode Coelho fazer-lhe protestos de amor, que, em sua mente, foram<br \/>\n    por ela bem aceitos. Mas veio logo o desengano com a recusa que o leitor sabe.<br \/>\n    Sendo at&eacute; ai um dos primeiros amigos da nobreza e seu comensal, converteu-se<br \/>\n    Coelho em seu ac&eacute;rrimo inimigo. O &oacute;dio que come&ccedil;ou a<br \/>\n    votar a Jo&atilde;o da Cunha, foi tanto mais intenso e profundo quanto tinha<br \/>\n    ele para se que nenhum outro, a n&atilde;o ser o senhor-de-engenho, poderia<br \/>\n    triunfar de seu triunfo. O golpe que a desgra&ccedil;a vibrara em seu afeto,<br \/>\n    o fez ainda mais injusto para com aquele que lhe dera a m&atilde;o no principio<br \/>\n    da carreira. Coelho assegurava que d. Damiana fora constrangida a renunciar<br \/>\n    &agrave; afei&ccedil;&atilde;o que consagrava a ele, e casara com o sargento-m&oacute;r,<br \/>\n    n&atilde;o mais livremente do que fizera a dita renuncia. Min&uacute;cias<br \/>\n    s&atilde;o estas em que escrupuliso entrar. O cora&ccedil;&atilde;o da mulher<br \/>\n    assemelha-se &agrave; gruta profunda e inacess&iacute;vel: quem empreende<br \/>\n    descer-lhe ao fundo, corre v&aacute;rios riscos, sendo o primeiro deles o<br \/>\n    de dar com estranhos reptis n&atilde;o classificados ainda pela fisiologia.<br \/>\n    A verdade &eacute; que o mercador nunca mais pode apagar do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a imagem suav&iacute;ssima de d. Damiana. Fora aquele o seu primeiro amor.<br \/>\n    O objeto dele insculpira-se-lhe por tal modo na alma, que fazia parte integrante<br \/>\n    do seu ser o olhar, o sorriso, o gesto, a voz da gentil dama. H&aacute; paix&otilde;es<br \/>\n    fatais que acompanham toda a vida aqueles a que se apegaram como a Nesso a<br \/>\n    t&uacute;nica fat&iacute;dica. O negociante era vitima de uma paix&atilde;o<br \/>\n    semelhante. &Agrave;s vezes a chama incessante abrandava; a vida agitada costuma<br \/>\n    trazer este efeito aos sentimentos; mas bastava encontrar suas vistas com<br \/>\n    as da senhora-de-engenho, para que logo sentisse reacender-se-lhe mais intensamente<br \/>\n    o fogo, um momento diminu&iacute;do ou serenado. Enfim a id&eacute;ia de a<br \/>\n    possuir &#8211; n&atilde;o importava quando &#8211; nunca mais o deixou, e essa ilus&atilde;o,<br \/>\n    esse desconhecido que vagamente lhe prometia a felicidade, alentava a labareda<br \/>\n    que ele trazia como deliciosa chaga no cora&ccedil;&atilde;o, iluminava-lhe<br \/>\n    a fantasia como estrela que fulge em canto de c&eacute;u prenhe de tempestades.<br \/>\n    O barcaceiro deu o andar para descer ap&oacute;s o marchante, mas foi atalhado<br \/>\n    pelo mercador que lhe disse: <\/p>\n<p>&#8211; Fica, Bartolomeu. Quero perguntar-te uma coisa: Em caso de aperto, amanh&atilde;<br \/>\n    ou depois, ter&aacute;s animo para te fazeres &agrave; vela novamente em direitura<br \/>\n    ao Recife? <\/p>\n<p>&#8211; Agora mesmo abro as asas &agrave; Borboleta e largo-me por estes mares<br \/>\n    afora; assim o patr&atilde;o ordene. Eu sou pau para toda obra. Conjeturo<br \/>\n    que amanh&atilde; a esta hora n&atilde;o exista mais um nobre em Goiana a<br \/>\n    n&atilde;o ser amarrado com boas cordas. Mas, como &eacute; preciso contar<br \/>\n    tamb&eacute;m com o mal, e n&atilde;o unicamente com o bem, ordena a prud&ecirc;ncia<br \/>\n    que tenhamos prontos os meios de escapar-nos aos inimigos se a eles pertencer<br \/>\n    a vitoria. Ora, nenhum outro se me afigura mais pronto nem mais eficaz do<br \/>\n    que a viagem pelo rio. <\/p>\n<p>&#8211; Vosmec&ecirc; tem raz&atilde;o. Montado na Borboleta, s&oacute; por um<br \/>\n    oculo poder&atilde;o ver-me os p&eacute;s-rapados. E as olarias de Jorge Cavalcanti?\n  <\/p>\n<p>&#8211; Que tem elas? <\/p>\n<p>&#8211; Tem bocas de fogo sobre o rio. <\/p>\n<p>&#8211; Taparemos essas bocas de fogo com as balas dos nossos bacamartes. Tens<br \/>\n    ent&atilde;o animo para passar em frente &agrave;s trincheiras, Bartolomeu?\n  <\/p>\n<p>Porque n&atilde;o, seu Coelho? Vosmec&ecirc; n&atilde;o conhece ainda este<br \/>\n    cabra com quem est&aacute; falfando. Ora escute: Nesta mesma viagem, de que<br \/>\n    acabo de chegar, mandaram-me, quando eu ia, da fortaleza de Itamarac&aacute;<br \/>\n    um chuveiro de balas, que a outro que n&atilde;o fora o Bartolomeu teria feito<br \/>\n    perder a tramontana. Mas eu peguei na cana-do-leme da Borboleta e fiz com<br \/>\n    ela tais cortes e recortes por cima das ondas que nem uma tainha seria capaz<br \/>\n    de a ganhar. Eram balas de uma banda e da outra, pela popa e pela proa; mas<br \/>\n    dentro s&oacute; o que caia eram as escumas dos mares que ela atravessava<br \/>\n    como jangadinha do alto. <\/p>\n<p>Pois bem, Bartolomeu, disse Coelho a cabo de alguns minutos de silencio em<br \/>\n    que, ao parecer, estivera meditando sobre grave assunto. Fica assentado que<br \/>\n    dormir&aacute;s hoje a bordo da Borboleta, e de l&aacute; n&atilde;o vir&aacute;s<br \/>\n    &agrave; terra sen&atilde;o por ordem minha. Vai ver tua mulher e teus filhos,<br \/>\n    que deves estar impaciente por abra&ccedil;&aacute;-los. &Agrave;s nove horas<br \/>\n    recolhe-te &agrave; embarca&ccedil;&atilde;o. achar&aacute;s j&aacute; ai<br \/>\n    todas as provis&otilde;es e muni&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para<br \/>\n    a viagem. <\/p>\n<p>&#8211; Mal tinha o negociante terminado estas palavras quando se fez ouvir do<br \/>\n    lado de fora descomunal ru&iacute;do de povo, retinir de armas, rumor de passos<br \/>\n    de cavalo. Quase no mesmo instante as portas da loja se fecharam com estrondo,<br \/>\n    e logo ap&oacute;s os caixeiros de Coelho corriam pelas escadas acima amedrontados<br \/>\n    e confusos. Que &eacute; isto? Que quer dizer isto? Inquiriu o negociante,<br \/>\n    vencendo sua surpresa, ao que primeiro penetrou na sala. <\/p>\n<p>&#8211; A casa est&aacute; cercada, e ai vem o juiz ordin&aacute;rio com ordenan&ccedil;as<br \/>\n    e oficiais do seu ju&iacute;zo. <\/p>\n<p>No mesmo instante uma voz que soou aos ouvidos de Coelho como eco das gemonias<br \/>\n    infernais, fez ouvir a seguinte intima&ccedil;&atilde;o: <\/p>\n<p>&#8211; Da parte d&rsquo;el-rei, componde a casa, que vimos fazer uma diligencia.\n  <\/p>\n<p>A esse tempo Cosme Bezerra assomava na porta da sala. <\/p>\n<p>Trajava cal&ccedil;&otilde;es e casaca preta, meias de seda amarela, sapatos<br \/>\n    com fivelas douro. Trazia chap&eacute;u com pluma branca, e espada pendente<br \/>\n    do talim. <\/p>\n<h2><a name=\"24\">Cap&iacute;tulo XXIV<\/a><\/h2>\n<p>Coelho foi ao encontro de Cosme Bezerra, e com irritante altivez que as circunst&acirc;ncias<br \/>\n    atuais at&eacute; certo ponto justificavam, rompeu o silencio que se seguira<br \/>\n    &agrave; intima&ccedil;&atilde;o: <\/p>\n<p>Da parte d&rsquo;el-rei, que quereis em minha casa ao lusco-fusco e com este<br \/>\n    aparato de for&ccedil;a, senhor juiz? <\/p>\n<p>Usais de um direito que pertence &agrave; justi&ccedil;a &#8211; o de interrogar<br \/>\n    &#8211; respondeu Cosme Bezerra com afetada serenidade que lhe era muito custosa<br \/>\n    de manter. Mandais distribuir armas e dinheiro pelo povo a fim de derrubar<br \/>\n    as autoridades legais, e vos admirais de ter a justi&ccedil;a em vossa porta.\n  <\/p>\n<p>&#8211; O que se diz &eacute; o contrario, retorquiu Coelho, sem diminuir sua arrog&acirc;ncia.<br \/>\n    Diz-se que n&oacute;s os portugueses, e os que nos acompanham, n&oacute;s<br \/>\n    os fi&eacute;is s&uacute;ditos d&rsquo;el-rei nosso senhor, n&atilde;o temos<br \/>\n    nem dinheiro nem armas com que rebater a rebeli&atilde;o da nobreza. <\/p>\n<p>&#8211; Pouco importa &agrave;s justi&ccedil;as saberem se tendes dinheiro. Falei-vos<br \/>\n    em dinheiro, porque em dinheiro se fala pelas ruas da vila, Sr. negociante.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Chamai-me mascate, j&aacute; que n&atilde;o quereis chamar-me sargento-m&oacute;r,<br \/>\n    t&iacute;tulo que n&atilde;o podeis tirar-me. <\/p>\n<p>&#8211; T&iacute;tulo que a n&oacute;s deveis. <\/p>\n<p>&#8211; Devo-o a el-rei, n&atilde;o a v&oacute;s. <\/p>\n<p>N&atilde;o vim a praticar convosco. Vim a saber se de feito tendes armas<br \/>\n    defesas que destinais aos populares por v&oacute;s comprados para executores<br \/>\n    ostensivos de vossos tenebrosos des&iacute;gnios. <\/p>\n<p>Se tenho armas! Exclamou Coelho. Se eu armas tivesse, n&atilde;o as deixaria<br \/>\n    passar sen&atilde;o depois de morto, das minhas para as vossas m&atilde;os.<br \/>\n    De armas precisamos n&oacute;s para defender a verdadeira autoridade, vilamente<br \/>\n    ultrajada por uma nobreza que na rebeldia sup&otilde;e consistir a sua maior<br \/>\n    for&ccedil;a e o seu primeiro bras&atilde;o. <\/p>\n<p>Em nome da lei, mascate! Gritou Cosme em tom de quem impunha silencio. Sois<br \/>\n    apontado como perturbador da ordem, protetor de rebeldes, e um deles. &Agrave;<br \/>\n    frente de todos os motins que h&aacute; dois meses perturbam o sossego desta<br \/>\n    vila, todos vos v&ecirc;em comprando os venais, desencabe&ccedil;ando os ignorantes,<br \/>\n    encaminhando para o mal, que &eacute; o vosso alvo, os desordeiros por habito<br \/>\n    e condi&ccedil;&atilde;o. Os homens bons est&atilde;o j&aacute; cansados de<br \/>\n    aturar as vossas provoca&ccedil;&otilde;es, a autoridade de ser desrespeitada,<br \/>\n    as fam&iacute;lias fracas de receber insultos e viol&ecirc;ncias dos malfeitores<br \/>\n    a que estendeis a m&atilde;o cheia de ouro. &Eacute; tempo de espezinhar a<br \/>\n    cascavel que tanta pe&ccedil;onha mortal tem vazado de sua boca imunda; e<br \/>\n    como o melhor meio de aniquilar a cobra &eacute; atac&aacute;-la em seu pr&oacute;prio<br \/>\n    covil, pareceu &agrave; autoridade competente que a vossa casa seja corrida,<br \/>\n    e de vosso crime se tire a devassa, se chegar &agrave; certeza de que sois<br \/>\n    criminoso. <\/p>\n<p>O direito, que vos arrogais, de violar o meu asilo domestico, nem o achais<br \/>\n    na lei, nem eu o reconhe&ccedil;o sen&atilde;o como filho do vosso violento<br \/>\n    natural, de todos conhecido. O testemunho de que n&atilde;o sou criminoso<br \/>\n    est&aacute; em sujeitar-me ao vosso desatino. Outro fora eu, que j&aacute;<br \/>\n    me ter&iacute;eis pago a vossa ousada. Correi, correi &agrave; minha casa.<br \/>\n    Este procedimento condiz com a fidalguia de que rezam os vossos encardidos<br \/>\n    pergaminhos. Quanto a dizerdes que sou rebelde e amotinador, cego seja para<br \/>\n    sempre aquele que ousar afirmar que primeiro se insurgiram contra a legalidade<br \/>\n    os mascates que os nobres. Cosme voltou as costas ao negociante, como quem<br \/>\n    n&atilde;o levava em conta suas acerbas ironias e rudes exprobra&ccedil;&otilde;es.\n  <\/p>\n<p>A verdade, por&eacute;m, &eacute; que elas o feriam, como pontas de punhais<br \/>\n    acerados no cora&ccedil;&atilde;o. Os beleguins cumpriram o seu dever, e o<br \/>\n    pr&oacute;prio juiz, n&atilde;o podendo vencer o despeito hostil e apaixonado,<br \/>\n    encaminhou-se ao interior da habita&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>A esse tempo Bartolomeu, que ainda n&atilde;o pudera descer, chegou-se a<br \/>\n    Coelho e lhe disse &agrave; puridade: <\/p>\n<p>&#8211; Quer sair, patr&atilde;o? Atiro-me daqui ao soldado, que ali est&aacute;<br \/>\n    de guarda na porta, e quando ele menos esperar, estar&aacute; sufocado entre<br \/>\n    as minhas m&atilde;os. Ent&atilde;o vosmec&ecirc; poder&aacute; descer com<br \/>\n    seus caixeiros, ganhar a rua e desaparecer por tr&aacute;s dessas moitas de<br \/>\n    jerobebas que cobrem os fundos da igreja. Eu lhe guardarei as costas. Pode<br \/>\n    ir descansado. <\/p>\n<p>Pensas que eu poderia realizar o que est&aacute;s indicando? Olha. A rua<br \/>\n    est&aacute; cheia de gente. A casa est&aacute; cercada. Ali embaixo v&aacute;rios<br \/>\n    soldados espreitam quem entra e quem sai. Mas porque me ausentaria eu? Que<br \/>\n    crimes cometi para fugir? <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; que as armas, que est&atilde;o l&aacute; embaixo&#8230; tornou o barcaceiro<br \/>\n    a meia voz. <\/p>\n<p>Duvido que as encontres tu mesmo que comigo as viste, quanto mais ele. e<br \/>\n    se queres ter a prova do que te digo, vai &agrave; escada por onde h&aacute;<br \/>\n    pouco descemos ao subterr&acirc;neo. <\/p>\n<p>Sem dizer palavra, o barcaceiro encaminhou-se ao gabinete, atravessou-o e<br \/>\n    chegou ao ponto indicado. <\/p>\n<p>Desciam o juiz, beleguins e soldados. Verificou ent&atilde;o por seus pr&oacute;prios<br \/>\n    olhos o que lhe dissera o negociante. A escada fazia uma volta para a direita<br \/>\n    e ia dar na loja, n&atilde;o no esconderijo. Bartolomeu ficou um instante<br \/>\n    confuso. Lembrava-se que por ali descera para o subterr&acirc;neo, por uma<br \/>\n    volta que a escada fazia &agrave; esquerda: mas, essa tinha desaparecido como<br \/>\n    por encanto, sem deixar o menor vest&iacute;gio por onde se pudesse descobrir<br \/>\n    o segredo. <\/p>\n<p>Quando Cosme volveu &agrave; sala, Coelho foi a seu encontro, e com express&atilde;o<br \/>\n    de mal disfar&ccedil;ado &oacute;dio, lhe disse: <\/p>\n<p>N&atilde;o achastes nem uma adaga, nem um arcabuz no meu armaz&eacute;m.<br \/>\n    Voltastes em branco. Pois bem. eu vos asseguro, senhor Cosme Cavalcanti, que<br \/>\n    dentro em pouco tempo a nobreza de Goiana h&aacute; de saber para quanto prestam<br \/>\n    as armas dos mascates, que as t&ecirc;m e de fina tempera. <\/p>\n<p>&#8211; Ah! Eles as t&ecirc;m? <\/p>\n<p>&#8211; Eles as t&ecirc;m, e tenho-as eu pr&oacute;prio a meu alcance. <\/p>\n<p>Melhor, melhor. Servir&atilde;o para atravessar ou degolar os mesmos que<br \/>\n    as guardam em seus esconderijos. <\/p>\n<p>&#8211; Veremos qual de n&oacute;s se engana, respondeu Coelho. <\/p>\n<p>&#8211; Veremos, veremos, mascate &#8211; disse Cosme descendo com seu s&eacute;quito.\n  <\/p>\n<p>Os olhos de Coelho despediam ins&oacute;lito brilho. Na face que a ira fazia<br \/>\n    subitamente contrair-se e dilatar-se, havia certos tons de ferocidade felina.\n  <\/p>\n<p>Miser&aacute;veis! Exclamou ele quando ainda o juiz n&atilde;o tinha descido<br \/>\n    de todo a escada. S&atilde;o ineptos na pr&oacute;pria hostilidade com que<br \/>\n    pretendem impor seu rid&iacute;culo poderio. <\/p>\n<p>Ent&atilde;o, voltando-se para um dos caixeiros: <\/p>\n<p>&#8211; Vai j&aacute;, j&aacute;, em procura de Jeronimo Paes &#8211; disse. &Eacute;<br \/>\n    preciso que ele me fale sem perda de tempo. <\/p>\n<p>&#8211; Patr&atilde;o, precisa de mim? perguntou-lhe Bartolomeu. <\/p>\n<p>&#8211; Hoje n&atilde;o, amanh&atilde;, talvez. Podes sair. Espera. Quando passares<br \/>\n    pela porta do Lauriano, dize-lhe que venha falar-me agora mesmo. <\/p>\n<p>Coelho deu alguns passos pela sala, penetrou no gabinete, voltou e logo ap&oacute;s<br \/>\n    tornou a tomar para o interior. Antes de transpor a porta que dava para o<br \/>\n    quarto secreto, parou e perguntou ao segundo dos seus caixeiros se havia ainda<br \/>\n    soldados pela rua. Quando o rapaz tomava para a sacada, entrava na sala Luiz<br \/>\n    de Gouveia, mulatinho musico, de violento e desvairado patriotismo. Vinha<br \/>\n    acompanhado por diferentes homens do povo, trazia as fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    demudadas, os cabelos revoltos. <\/p>\n<p>Que novos ultrajes e atentados nos vens anunciar, Luiz? Inquiriu o negociante,<br \/>\n    antes que o musico falasse. <\/p>\n<p>Um atentado nefando. Seu Jeronimo Paes acaba de ser ferido de um tiro de<br \/>\n    pistola, que lhe dispararam da rua, quando estava falando. <\/p>\n<p>Eu esparava por isso, tornou o negociante. &Eacute; natural que ao ultraje<br \/>\n    se seguisse o assassinato. Mas enganam-se. supondo aniquilar-nos, n&atilde;o<br \/>\n    fazem mais do que apressar a sua pr&oacute;pria queda. <\/p>\n<p>&#8211; Mas que mais esperamos, Sr. Coelho? Interrogou Luiz. N&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    ainda tempo de armar o povo e atir&aacute;-lo contra os fidalgotes? Havemos<br \/>\n    de morrer &agrave;s m&atilde;os deles, e s&oacute; ent&atilde;o nos meter&atilde;o<br \/>\n    nas m&atilde;os as armas? Vamos com isso, senhor, vamos com isso. O povo n&atilde;o<br \/>\n    pede sen&atilde;o armas, n&atilde;o quer sen&atilde;o ir contra os nobres.<br \/>\n    E h&aacute; muito povo pelas ruas? <\/p>\n<p>A vila inteira est&aacute; nas ruas. O tiro desfechado irritou todos os &acirc;nimos.<br \/>\n    Homens e mulheres correram &agrave; botica a saber o que tinha sucedido. Se<br \/>\n    apanham o assassino, fazem-no em postas. Dizem que &eacute; um escravo de<br \/>\n    Jo&atilde;o da Cunha. <\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; de ser, h&aacute; de ser. N&atilde;o tem ele mandado fazer tantas<br \/>\n    mortes? N&atilde;o &eacute; useiro e vezeiro nesse oficio? N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    ele o gran senhor desta herdade, e n&atilde;o somos n&oacute;s seus servos?<br \/>\n    Mas que a fa&ccedil;am bem feita, porque se assim a n&atilde;o fizerem, com<br \/>\n    seu sangue ser&atilde;o lavados os insultos e agravos com que todo o dia nos<br \/>\n    batem &agrave;s faces. <\/p>\n<p>Coelho foi interrompido neste ponto por uma voz rouca e tremula, que partia<br \/>\n    do meio da rua. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; a voz de Jeronimo &#8211; disse ele. <\/p>\n<p>Todos correram &agrave; sacada. <\/p>\n<p>&#8211; Ali vem ele &#8211; disse o musico. <\/p>\n<p>Querem a perturba&ccedil;&atilde;o, o sangue, a morte? Dizia o marchante.<br \/>\n    Pois h&atilde;o de ter todas estas calamidades. Sou o procurados do povo de<br \/>\n    Goiana. Ainda h&aacute; pouco vos dizia eu que da nobreza s&oacute; t&iacute;nhamos<br \/>\n    que esperar desdens e despotismos. Agora j&aacute; posso acrescentar que temos<br \/>\n    tamb&eacute;m que esperar o assassinato &agrave;s escurinhas e trai&ccedil;oeiramente.<br \/>\n    N&atilde;o me mataram; apenas feriram-me no ombro; mas a morte dos que defendem<br \/>\n    os direitos do povo e a autoridade real, essa eles a t&ecirc;m decretado como<br \/>\n    meio de consolidarem o seu poder, filho da viol&ecirc;ncia e do artificio.<br \/>\n    S&atilde;o r&eacute;us de crime de primeira cabe&ccedil;a. Ah! o que nos fazem<br \/>\n    &#8211; tenham certeza &#8211; n&atilde;o o botam em saco roto. <\/p>\n<p>Antes de ser ferido pelo tiro que lhe foi disparado por m&atilde;o at&eacute;<br \/>\n    hoje desconhecida, Jeronimo Paes tinha j&aacute; encaminhado parte do povo<br \/>\n    para o movimento insurrecional. <\/p>\n<p>Quando chegou &agrave; botica, ainda estava ai o Ricardo perorando em favor<br \/>\n    da nobreza. Ricardo era um rapaz de condi&ccedil;&atilde;o obscura, que &agrave;<br \/>\n    prote&ccedil;&atilde;o de um nobre devia certo emprego de que vivia. N&atilde;o<br \/>\n    tendo podido completar a carreira sacerdotal, que encetara em vida do pai,<br \/>\n    viu-se obrigado, por morte deste, a voltar &agrave; Goiana onde esperava por<br \/>\n    ele a fam&iacute;lia ac&eacute;fala. <\/p>\n<p>Jeronimo n&atilde;o teve para ele a menor cortesia na linguagem, e muito<br \/>\n    menos no gesto. <\/p>\n<p>&#8211; Tuas palavras s&atilde;o suspeitas, rufi&atilde;o &#8211; disse ele ao rapaz,<br \/>\n    rudemente, mostrando-lhe um punho cerrado. Cada uma delas representa uma das<br \/>\n    migalhas com que teu protetor te matou a fome, dando-te o emprego que tens.<br \/>\n    Disseste h&aacute; pouco que n&atilde;o temos nem armas nem dinheiro. Enganas-te,<br \/>\n    vil&atilde;o. Em nossos armaz&eacute;ns temos armas para levantar a vila inteira<br \/>\n    contra a nobreza sem freio que jurou aniquilar-nos. Quanto a dinheiro, olha<br \/>\n    da&iacute;, e dize l&aacute; se j&aacute; viste rosas t&atilde;o bonitas como<br \/>\n    estas que me ca&iacute;ram das alturas. <\/p>\n<p>Assim falando, Jeronimo Paes fez saltar as dobras ao ar e as aparou com o<br \/>\n    a&ccedil;afate. <\/p>\n<p>Ao sonido das moedas, um sem-n&uacute;mero de m&atilde;os se estendem para<br \/>\n    sua banda, e diferentes vozes dizem &agrave; porfia: <\/p>\n<p>&#8211; D&ecirc;-me uma rosa. <\/p>\n<p>Uma ao menos dessas rosinhas amarelas, seu Jeronimo Paes. Cosme Cavalcanti,<br \/>\n    a quem foram logo levar a declara&ccedil;&atilde;o, imprudentemente feita<br \/>\n    por Jeronimo, de que havia armamento nos armaz&eacute;ns dos mascates, corre<br \/>\n    a cercar a casa de Coelho que vareja, segundo vimos. <\/p>\n<p>Entretanto Jeronimo, no ardor da exalta&ccedil;&atilde;o e calculando o efeito<br \/>\n    da sua generosidade, distribui, pelos que lhe parecem mais dignos do presente,<br \/>\n    uma por uma, as dobras tentadoras. <\/p>\n<p>E ao mesmo tempo que com a m&atilde;o as distribui, segreda com os l&aacute;bios<br \/>\n    quase &agrave; puridade, ao que as recebe: <\/p>\n<p>Quando sair daqui v&aacute; a casa de Coelho, Jos&eacute;. N&atilde;o deixes<br \/>\n    de ir, Antonio. V&ecirc; l&aacute; o que fazes, Martinho. Ele tem que falar<br \/>\n    a voc&ecirc;s acerca de uma diligencia importante e rendosa. N&atilde;o faltes,<br \/>\n    Justino, nem tu, Jacinto; nem tu Sebasti&atilde;o. <\/p>\n<p>Todos estes sujeitos respondiam afirmativamente e embolsavam a moeda. <\/p>\n<p>O ouro d&aacute; calor e eloqu&ecirc;ncia; dos t&iacute;midos faz audazes,<br \/>\n    dos prudentes temer&aacute;rios. A corrup&ccedil;&atilde;o &eacute; feia,<br \/>\n    mas eficaz no momento; que tem que depois semelhe chaga podre, nojenta, mortal?<br \/>\n    Quando o tiro feriu o marchante, todos aqueles que tinham na algibeira uma<br \/>\n    rosa, tomaram imediatamente parte pelo ofendido e em altas vozes pediram armas<br \/>\n    para o desagravarem. Era mais o cheiro da flor do que o impulso da indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    natural o que lhes dava esta anima&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; Armas, armas, meu amigo, eis as primeiras palavras de Jeronimo quando entrou<br \/>\n    em casa de Antonio Coelho. Armas ao povo! Ele as pede; ele as quer. A vila<br \/>\n    &eacute; por n&oacute;s. <\/p>\n<p>Em menos de meia hora Goiana estava nos bra&ccedil;os da anarquia. As paix&otilde;es<br \/>\n    populares, exacerbadas e a&ccedil;uladas por Jeronimo Paes, por seus filhos,<br \/>\n    que correram em seu favor tanto que souberam do acontecido, por Belchior &#8211;<br \/>\n    o rabula, Manoel Gaudencio &#8211; o alfaiate, Rom&atilde;o da Silva &#8211; o meirinho,<br \/>\n    Manoel Rodrigues &#8211; o taverneiro, e por outros conhecidos e desconhecidos parciais,<br \/>\n    desafogavam em gritos, amea&ccedil;as, insultos. <\/p>\n<p>O sinos e os tambores deram logo sinal de rebate. <\/p>\n<p>Dos moradores, uns, manifestado o motim, correram a tomar parte nele; outros,<br \/>\n    j&aacute; escarmentados das viol&ecirc;ncias praticadas por ocasi&atilde;o<br \/>\n    dos motins anteriores, fugiam, como podiam, com suas fam&iacute;lias, para<br \/>\n    fora da vila; outros, n&atilde;o tendo para onde ir, ou receando por p&eacute;<br \/>\n    na rua com tanto povo revolto, se deixavam ficar em suas casas, resolutos<br \/>\n    a defender-se ou a resistir se acaso fossem atacados pelas turbas. Dos que<br \/>\n    se atiravam na vertigem muitos n&atilde;o o faziam tendo a mira em outro alvo<br \/>\n    que o de ser sua casa respeitada pelo saque &#8211; epilogo negro de quase todos<br \/>\n    os motins populares. <\/p>\n<p>Gritos contr&aacute;rios come&ccedil;aram a ressoar de pontos diferentes.\n  <\/p>\n<p>Daqui se ouvia este: <\/p>\n<p>&#8211; Vivam os mascates! Morram os nobres! <\/p>\n<p>D&rsquo;acol&aacute; j&aacute; era est&rsquo;outro: <\/p>\n<p>&#8211; Viva a nobreza de Goiana! Viva a nobreza de Pernambuco! Morra p&eacute;-de-chumbo.\n  <\/p>\n<p>Os adjuntos donde partiam estes &uacute;ltimos gritos, eram menos numerosos<br \/>\n    e menos densos. Dir-se-ia que estavam ainda em forma&ccedil;&atilde;o ou que<br \/>\n    tinham medo de formar-se. ressoavam &agrave; porta de fidalgos conhecidos<br \/>\n    e da&iacute; n&atilde;o se alongavam muito. <\/p>\n<p>Quando algum forte bando se aproximava deles, as manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    diminu&iacute;am ainda mais. Era medo, desd&eacute;m, ou prud&ecirc;ncia?\n  <\/p>\n<p>&#8211; Silencio, escravos! Respondiam de c&aacute; os mais exaltados. <\/p>\n<p>Os de l&aacute; n&atilde;o retorquiam. <\/p>\n<p>E o drag&atilde;o popular passava revolto, espumante, vertiginoso, cuspindo<br \/>\n    injurias e obscenidades contra os que considerava seus advers&aacute;rios,<br \/>\n    e pensando no desfor&ccedil;o pessoal e no roubo publico.<\/p>\n<h2><a name=\"25\">Cap&iacute;tulo XXV<\/a><\/h2>\n<p>Cosme Bezerra voltou a esquina, acompanhado de ordenan&ccedil;as e parciais,<br \/>\n    entrou na Rua-da-matriz e foi descavalgar no P&aacute;tio-do Carmo, &agrave;<br \/>\n    porta de Jo&atilde;o da Cunha. <\/p>\n<p>&#8211; Ufa! Ufa! O ladr&atilde;o do mascate &eacute; insolente, mas n&atilde;o<br \/>\n    tem armas, por mais que diga que tem. E onde as teria ele que me escapassem?<br \/>\n    N&atilde;o houve escaninho que n&atilde;o batessemos. <\/p>\n<p>Tais foram as palavras que dirigiu &agrave;s pessoas que se achavam reunidas<br \/>\n    na sala de visitas do senhor-de-engenho, onde fez a sua entrada j&aacute;<br \/>\n    com luzes acesas. <\/p>\n<p>Ent&atilde;o contou miudamente tudo o que acabava de acontecer, e de que<br \/>\n    ai j&aacute; tinha chegado vaga e confusa noticia. <\/p>\n<p>Estavam presentes os principais nobres do lugar, que para esse ponto se haviam<br \/>\n    encaminhado &agrave;s primeiras manifesta&ccedil;&otilde;es da desordem, como<br \/>\n    para a casa de Coelho haviam corrido os principais negociantes. E cumpre notar<br \/>\n    antes de tudo que Coelho interiormente estava satisfeito com as circunstancias<br \/>\n    que pareciam coloc&aacute;-lo no mesmo plano do senhor-de-engenho e fronteiro<br \/>\n    a ele. &lsquo;Se ele &eacute; sargento-m&oacute;r, tamb&eacute;m eu o sou<br \/>\n    &#8211; dizia o negociante em sua mente escaldada pelo &oacute;dio e pelo despeito.<br \/>\n    Se o cercam seus amigos, a mim tamb&eacute;m me cercam os meus no momento<br \/>\n    dif&iacute;cil. Se projeta aniquilar-me, eu de h&aacute; muito jurei reduzi-lo<br \/>\n    a cinzas. O futuro h&aacute; de decidir qual dos dois ficar&aacute; com a<br \/>\n    vitoria de seu lado.&rsquo; Por onde se v&ecirc; que o alvo em que o portugu&ecirc;s<br \/>\n    tinha as vistas era singular, &uacute;nico &#8211; Jo&atilde;o da Cunha. <\/p>\n<p>J&aacute; n&atilde;o eram os mesmos os intuitos deste &#8211; abrangiam o mais<br \/>\n    vasto teatro. Esquecido inteiramente da origem principal do &oacute;dio com<br \/>\n    que o distinguia o mercador, ele explicava a oposi&ccedil;&atilde;o dos mascates<br \/>\n    atribuindo-lhes ambi&ccedil;&otilde;es de mando e fortuna. Nunca lhe passou<br \/>\n    pela imagina&ccedil;&atilde;o que pudesse o amor contrariado dar inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e impulso &agrave;quele movimento. <\/p>\n<p>A seus olhos Coelho era mais um instrumento dos mascates do Recife, instrumento<br \/>\n    cego e habilmente manejado por eles, do que uma mola importante, uma for&ccedil;a<br \/>\n    de seu natural independente e vivaz do estranho artefato que perturbava a<br \/>\n    sociedade goianista. A verdade entretanto era justamente o contrario do que<br \/>\n    julgava o fidalgo. A a&ccedil;&atilde;o de Coelho no movimento hostil &agrave;<br \/>\n    nobreza partia de se mesmo. A n&atilde;o ser esse amor contrariado, o mo&ccedil;o<br \/>\n    portugu&ecirc;s estaria ao lado dos nobres, como estiveram durante a guerra<br \/>\n    v&aacute;rios portugueses, por exemplo Martinho de Bulh&otilde;es, genro de<br \/>\n    Matias Vidal. <\/p>\n<p>Em verdade, seus sentimentos casavam-se mais com os daqueles contra os quais<br \/>\n    movia seus recursos, do que com os sentimentos daqueles com quem aparecia<br \/>\n    identificado tanto para a ofensa como para a defesa. A nobreza semelhava ainda<br \/>\n    ent&atilde;o uma arvore de extensas ra&iacute;zes que penetrava profundamente<br \/>\n    no solo das sociedades, e cuja folhagem tinha a majestade das grandes alturas<br \/>\n    e das vastas sombras; a democracia era planta rasteira, sem ra&iacute;zes,<br \/>\n    sem ramas; era vegeta&ccedil;&atilde;o de vida duvidosa, incipiente; prometia,<br \/>\n    mas n&atilde;o assegurava assumir as propor&ccedil;&otilde;es gigantes, com<br \/>\n    que um s&eacute;culo depois sombreou o solo da p&aacute;tria e abrigou as<br \/>\n    institui&ccedil;&otilde;es a que este imp&eacute;rio deve a sua grandeza e<br \/>\n    o seu renome. Mas Coelho n&atilde;o tinha melhor motivo. O senhor-de-engenho<br \/>\n    julgava indigno e ingrato aquele que ali&aacute;s fora atirado na luta pelo<br \/>\n    amor imenso e pelo despeito feroz. <\/p>\n<p>Em casa de Jo&atilde;o da Cunha estavam sobressaltados n&atilde;o sem raz&atilde;o<br \/>\n    os esp&iacute;ritos. As noticias aterradoras que de momento a momento chegavam;<br \/>\n    os gritos dos magotes de povo que passavam, vociferando pela frente do sobrado<br \/>\n    ao principio desordenadamente, logo ap&oacute;s organizados para o acometimento<br \/>\n    e a pilhagem; o rebate dado pelos sinos e pelos tambores; as fam&iacute;lias<br \/>\n    que fugiam amedrontadas e como sem saberem caminho nem carreira; os soldados<br \/>\n    que corriam, acudindo aos toques dos clarins; enfim, todo o medonho cortejo<br \/>\n    de circunstancias que se prende ao furor e &agrave; anarquia das turbas, e<br \/>\n    que s&atilde;o como o colear, o sibilar, o bote, a dentada e a pe&ccedil;onha<br \/>\n    de enorme reptil, solto, mas assanhado em espa&ccedil;o estreito, n&atilde;o<br \/>\n    podiam gerar no animo de quem se via, como os que ali se achavam, amea&ccedil;ados<br \/>\n    de ser o alvo &uacute;nico da ferocidade da insurrei&ccedil;&atilde;o, impress&otilde;es<br \/>\n    diferentes dessas. <\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Cunha e Cosme Bezerra, compreendendo a gravidade do momento,<br \/>\n    trataram logo de assentar nos meios de conjurar o cataclismo, que amea&ccedil;ava<br \/>\n    engolir fortunas e vidas preciosas. <\/p>\n<p>&#8211; O melhor meio &#8211; disse Cosme &#8211; &eacute; reunir as ordenan&ccedil;as e mandar<br \/>\n    varrer as ruas a panos de espada e a tiros de arcabuz. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, n&atilde;o &#8211; disse Filipe Cavalcanti. Nem todos os que enchem<br \/>\n    as ruas s&atilde;o desordeiros. Procedendo assim, a for&ccedil;a publica arrisca-se<br \/>\n    a ferir fam&iacute;lias inofensivas que fogem da anarquia, e at&eacute; muitos<br \/>\n    que s&atilde;o por n&oacute;s. <\/p>\n<p>&#8211; Entendeis ent&atilde;o que de outro modo tereis restabelecido o sossego<br \/>\n    publico? Enganai-vos. Em momentos semelhantes ao presente, quem se deixa guiar<br \/>\n    pelo cora&ccedil;&atilde;o corre o perigo de morrer &agrave;s unhas inimigas.<br \/>\n    O racioc&iacute;nio, a justi&ccedil;a, o sentimento de humanidade devem estar<br \/>\n    na ponta da espada, na boca do clavinote, nas patas dos cavalos. Que dizeis,<br \/>\n    Luiz? perguntou Cosme voltando-se para seu irm&atilde;o Luiz Vidal, que, de<br \/>\n    p&eacute;, olhava, com mostras de quem tinha o espirito ocupado em acertar<br \/>\n    com o verdadeiro caminho, ora para o capit&atilde;o de ordenan&ccedil;as,<br \/>\n    ora para o sargento-m&oacute;r. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Em verdade n&atilde;o vejo outro meio de combater a insurrei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    respondeu Luiz Vidal. Entendo, por&eacute;m, que n&atilde;o h&aacute; necessidade<br \/>\n    de levar-se a repress&atilde;o ao extremo que v&oacute;s indicais. A for&ccedil;a<br \/>\n    publica deve apresentar-se imediatamente nos pontos em que a perturba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se mostrar mais veemente e amea&ccedil;adora; mas deve haver particular empenho<br \/>\n    em que sua presen&ccedil;a sirva antes para serenar os esp&iacute;ritos do<br \/>\n    que exalt&aacute;-los ainda mais, e muito menos para proceder a excessos que<br \/>\n    possam trazer o sangue e a morte. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Com quem estou metido! exclamou Cosme. Que dois fil&oacute;sofos humanit&aacute;rios!<br \/>\n    Observasse eu estes preceitos de refinada brandura, que amanh&atilde; Goiana<br \/>\n    em peso estaria nas garras de Antonio Coelho e de Jeronimo Paes, e cada um<br \/>\n    de n&oacute;s teria o seu gasnete entre as unhas do Lauriano, do Bartolomeu<br \/>\n    ou de outros vis instrumentos do &oacute;dio portugu&ecirc;s. Basta, meus<br \/>\n    amigos; dispenso os vossos conselhos. Ol&aacute;, Matias? Gritou ele a um<br \/>\n    soldado, que da porta da sala assistia, sem tugir nem mugir, como era seu<br \/>\n    dever, &agrave; conversa&ccedil;&atilde;o dos nobres senhores. Corre j&aacute;<br \/>\n    &agrave; casa, e dize ao alferes Maciel que espere por mim com toda a for&ccedil;a<br \/>\n    que l&aacute; tem sob suas ordens. P&otilde;e nova carga nas minhas pistolas<br \/>\n    e mete-as nos meus coldres. <\/p>\n<p>&#8211; Luiz Vidal, tendo ouvido estas ordens do irm&atilde;o, deu o andar pela<br \/>\n    sala e voltou ao ponto em que se achava um minuto antes. Fa&ccedil;o-vos companhia,<br \/>\n    Cosme, disse ele. <\/p>\n<p>&#8211; Muito folgo de o saber. Eu tamb&eacute;m vou, disse Jo&atilde;o da Cunha,<br \/>\n    encaminhando-se para a porta. Pois n&atilde;o hei de acompanh&aacute;-los?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; o lugar dos cavalheiros o seio quente da fam&iacute;lia<br \/>\n    quando a p&aacute;tria est&aacute; em perigo. <\/p>\n<p>Chegando &agrave; porta que dava para a escada, o sargento-m&oacute;r chamou:\n  <\/p>\n<p>&#8211; &Oacute; debaixo? Venha c&aacute; um de voc&ecirc;s. <\/p>\n<p>Um negro apareceu logo ap&oacute;s. <\/p>\n<p>&#8211; Onde est&aacute; Germano? <\/p>\n<p>&#8211; Foi chamar Mo&ccedil;ambique e Benedicto. <\/p>\n<p>&#8211; E voc&ecirc;s est&atilde;o todos a&iacute;? <\/p>\n<p>&#8211; Estamos todos, sim senhor. <\/p>\n<p>&#8211; Sela o meu cavalo. <\/p>\n<p>Entretanto, d. Damiana chegara-se para onde estavam Cosme, Luiz Vidal e Filipe<br \/>\n    Cavalcanti e com eles conversava sobre os sucessos vistos e previstos. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Ides tamb&eacute;m percorrer as ruas, Sr. Jo&atilde;o da Cunha? Perguntou<br \/>\n    ela ao marido que, dada a ordem, tornara a seu lugar. Meu dever imp&otilde;e-me<br \/>\n    este procedimento. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei se seria mais prudente n&atilde;o vos expordes &agrave;s<br \/>\n    iras dos vossos inimigos. Penso, ao contr&aacute;rio, que devo ir ao encontro<br \/>\n    deles a fim de os castigar. Mas &eacute; que em vossa aus&ecirc;ncia podem<br \/>\n    vir atacar o sobrado, observou Filipe Cavalcanti. <\/p>\n<p>&#8211; Meus escravos est&atilde;o a&iacute; para defend&ecirc;-lo. N&atilde;o<br \/>\n    nos h&aacute; de faltar nem p&oacute;lvora nem bala. <\/p>\n<p>&#8211; E n&atilde;o h&aacute; de ser s&oacute; a escravatura que o defenda. Eu<br \/>\n    tamb&eacute;m sei pegar de uma espingarda e dispar&aacute;-la, disse graciosamente<br \/>\n    a jovem senhora-de-engenho. <\/p>\n<p>&#8211; Bonito, prima! exclamou Cosme Bezerra, sorrindo. Quisera estar de parte<br \/>\n    a ver a galhardia desta valente amazona. <\/p>\n<p>N&atilde;o fa&ccedil;ais pouco em mim, Sr. Cosme, respondeu d. Damiana. Bem<br \/>\n    me conheceis. Se entrardes na sala das mulheres, ficareis admirado do armamento<br \/>\n    que l&aacute; existe. H&aacute; mais de uma semana n&atilde;o tinha eu no<br \/>\n    engenho outra ocupa&ccedil;&atilde;o que fazer cartuchame. Podeis pois levar<br \/>\n    tranq&uuml;ilo vosso espirito. Na casa de Jo&atilde;o da Cunha s&oacute; penetrar&aacute;<br \/>\n    mascate depois que Damiana da Cunha tiver exalado o ultimo suspiro. <\/p>\n<p>A gentileza com que a senhora-de-engenho dizia estas palavras n&atilde;o<br \/>\n    se descreve, nem se imagina sequer. Outros fossem aqueles a quem ela se dirigia<br \/>\n    nesse momento, que teriam por v&atilde; e rid&iacute;cula bravata essa afirma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a que a autorizava o conhecimento intimo do quanto valia o seu animo. D. Damiana<br \/>\n    era de feito perita em atirar desde os quatorze para os quinze anos. Manh&atilde;s<br \/>\n    inteiras levava ela por junto das capoeiras pr&oacute;ximas do cercado do<br \/>\n    engenho a passarinhar por distra&ccedil;&atilde;o. Mais de uma aposta ganhou<br \/>\n    a parentes seus com quem atirara ao alvo. As detona&ccedil;&otilde;es das<br \/>\n    armas de fogo, longe de amedront&aacute;-la, levantavam seus esp&iacute;ritos.<br \/>\n    Sentia nelas certa voluptuaria harmonia que lhe trazia deleite. Naquela forma<br \/>\n    juvenil, graciosa e fresca havia &acirc;nimos viris, que se impunham &agrave;<br \/>\n    vontade e condi&ccedil;&atilde;o feminil como leis fatais e impreter&iacute;veis.<br \/>\n    Enfim, era tradicional esta qualidade da mulher do sargento-m&oacute;r, e<br \/>\n    lhe acarretara entre o povo certa alcunha, com que as m&aacute;s l&iacute;nguas<br \/>\n    supunham injuri&aacute;-la. Chamavam-na &#8211; a Escopeteira. Longe, por&eacute;m,<br \/>\n    de se dar por ofendida, a mulher de Jo&atilde;o da Cunha n&atilde;o perdia<br \/>\n    ocasi&atilde;o de mostrar praticamente que esta alcunha lhe era agrad&aacute;vel<br \/>\n    e que a ela tinha indisput&aacute;vel direito. <\/p>\n<p>&#8211; Bem sei quanto valeis, senhora prima, tornou Cosme. Mas &eacute; que difere<br \/>\n    muito atirar em rolinhas e sanhass&uacute;s de atirar em salteadores afeitos<br \/>\n    a torcer o corpo &agrave;s balas e aos mais mortais golpes. <\/p>\n<p>&#8211; Seja como for, Sr. Cosme. Guardem os negros o baixo da casa, que eu guardarei<br \/>\n    o alto. Mas receio por meu marido, porque sei quanto o odeiam os mascates<br \/>\n    e a plebe. <\/p>\n<p>&#8211; Nada o h&aacute; de ofender. Demais, vamos apenas dar uma volta pelas ruas<br \/>\n    mais agitadas, disse Luiz Vidal. <\/p>\n<p>E estaremos dentro em pouco tempo de volta, acrescentou Jo&atilde;o da Cunha.<br \/>\n    Como a esse tempo estavam j&aacute; prontos os cavalos, desceram a mont&aacute;-los<br \/>\n    os cavaleiros presentes. Antes de sair, Jo&atilde;o da Cunha entrou no armaz&eacute;m.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Todos est&atilde;o ai, Roberto? Perguntou ele, Roberto era o feitor. Todos,<br \/>\n    menos Germano, que ainda n&atilde;o voltou do engenho. <\/p>\n<p>&#8211; Tem cuidado, Roberto, enquanto volto. <\/p>\n<p>Senhor sim. N&atilde;o h&aacute; de acontecer nada. Nesse momento, de um<br \/>\n    bando que passava pela frente do sobrado, partiu um grito insultuoso, que<br \/>\n    veio ferir o senhor-de-engenho no cora&ccedil;&atilde;o: <\/p>\n<p>&#8211; Morra o assassino! Morra a escopeteira ! <\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Cunha, a modo de gelado de c&oacute;lera, mal pode ir ter<br \/>\n    com os amigos que &agrave; porta da casa punham os p&eacute;s nos estribos.\n  <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Conhecestes aquela voz, Sr. Jo&atilde;o? Perguntou-lhe, j&aacute; montado<br \/>\n    Cosme Bezerra, mal podendo conter a raiva que o assaltara. H&aacute; de ser<br \/>\n    de algum vendido ao dinheiro de Coelho ou de Paes. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; a voz desse r&aacute;bula infame que imagina fundar em Goiana<br \/>\n    uma republica ateniense. <\/p>\n<p>&#8211; Quem? O Belchior? <\/p>\n<p>Ele mesmo, esse velhaco, essa p&uacute;stula do foro, que vive especialmente<br \/>\n    de promover a alforria dos negros dos engenhos para passar as unhas no magro<br \/>\n    cobre deles e fazer pirra&ccedil;a aos senhores. ningu&eacute;m ainda se inculcou<br \/>\n    t&atilde;o amante da liberdade, t&atilde;o independente, t&atilde;o probo<br \/>\n    como ele: a verdade, por&eacute;m, &eacute; que ele n&atilde;o passa de um<br \/>\n    saltimbanco audaz, um charlat&atilde;o formado em tretas e torpezas que despertam<br \/>\n    nojo. Mal acabadas estas palavras, novo bando que vinha nas pisadas do primeiro,<br \/>\n    parou diante da casa e repetiu o preg&atilde;o, que ainda soava aos ouvidos<br \/>\n    dos fidalgos: <\/p>\n<p>&#8211; Morra o assassino! Morra a escopeteira! <\/p>\n<p>&#8211; Quereis saber, Sr. Cosme? disse subitamente o sargento-m&oacute;r. Ide<br \/>\n    v&oacute;s a vosso destino, que eu fico. H&aacute; de vir terceiro grupo parar<br \/>\n    em frente de minha casa, e &eacute; preciso que eu esteja presente para dar-lhe<br \/>\n    a resposta que merecem. Roberto, Roberto? Gritou Jo&atilde;o da Cunha da porta<br \/>\n    que punha em comunica&ccedil;&atilde;o o armaz&eacute;m com a entrada. Carreguem<br \/>\n    as armas e venham colocar-se todos voc&ecirc;s em seus postos. Ao terceiro<br \/>\n    insulto quero ouvir soar o fogo. <\/p>\n<p>&#8211; Os cavaleiros partiram, enquanto o sargento-m&oacute;r, quase fora de si,<br \/>\n    subia para junto de sua mulher. Por seu gosto estaria nas ruas, promovendo<br \/>\n    a rea&ccedil;&atilde;o ou a contrarevolta. Mas compreendia que naquele momento<br \/>\n    n&atilde;o lhe era licito arredar-se de casa. Preste aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Sr. Jo&atilde;o da Cunha, disse-lhe d. Damiana, chegando a uma das janelas<br \/>\n    da sacada onde estava o marido. N&atilde;o ouvis ru&iacute;do de pancadas<br \/>\n    contra as portas na Rua-direita? <\/p>\n<p>&#8211; Estou ouvindo. Quem sabe se j&aacute; n&atilde;o &eacute; o saque? <\/p>\n<p>&#8211; O saque! <\/p>\n<p>&#8211; Quando a plebe se solta, &eacute; a&iacute; que vai parar. Mas onde est&aacute;<br \/>\n    e o que tem feito desde a tarde Antonio Rabelo com sua for&ccedil;a? Oh n&atilde;o<br \/>\n    poder eu sair! <\/p>\n<p>Enquanto assim falava o senhor-de-engenho, Cosme corria &agrave; Rua-do-meio<br \/>\n    a tomar o comando da pequena for&ccedil;a que se achava sob as ordens do alferes<br \/>\n    Maciel. Seus grandes esp&iacute;ritos n&atilde;o se compadeciam com a rea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    morna e frouxa. De caminho, ele descavalgava aqui para dar uma ordem, ou combinar<br \/>\n    uma providencia; arrojava-se acol&aacute; temerariamente sobre os adjuntos<br \/>\n    e impunha-lhes que se desfizessem. Se era atendido, passava; se n&atilde;o<br \/>\n    era, empregava meios indiretos de o ser. Esses meios eram a brandura, a persuas&atilde;o,<br \/>\n    a amea&ccedil;a. Faltava-lhe gente para desempenhar satisfatoriamente o papel<br \/>\n    que teve nesse, como nos principais motins de Goiana; mas todas as faltas<br \/>\n    supria admiravelmente sua intrepidez por todos reconhecida de h&aacute; muito<br \/>\n    e glorificada depois pelo historiador. <\/p>\n<p>Logo que tomou o comando da for&ccedil;a, encaminhou-se com ela &agrave;<br \/>\n    cadeia, para onde tinham ido Luiz Vidal e Filipe Cavalcanti a reunir-se com<br \/>\n    Antonio Rabelo, receosos de que os amotinados tentassem soltar os presos.\n  <\/p>\n<p>Antonio Rabelo foi de parecer que se n&atilde;o procurasse dissolver os ajuntamentos.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Onde temos n&oacute;s gente suficiente para dissolver essas multid&otilde;es<br \/>\n    numerosas, Sr. Capit&atilde;o? Perguntou ele a Cosme. Guarnecem a cadeia dezesseis<br \/>\n    pra&ccedil;as unicamente. Se daqui arredarem o p&eacute;, o povo levantado<br \/>\n    vir&aacute; abrir as pris&otilde;es, e aumentar&aacute; com os criminosos<br \/>\n    o seu numero e a sua ferocidade. V&oacute;s n&atilde;o tendes ai convosco<br \/>\n    mais de vinte ordenan&ccedil;as. Julgais que com t&atilde;o pequena for&ccedil;a<br \/>\n    poderemos bater os rebeldes e ficar senhores do campo? <\/p>\n<p>&#8211; Basta uma corrida forte e violenta sobre os inimigos, para que, cobrando<br \/>\n    medo, se dispersem. <\/p>\n<p>&#8211; Estais enganado. Eles s&atilde;o muitos e n&atilde;o lhes faltam armas.<br \/>\n    Armas? N&atilde;o as t&ecirc;m. <\/p>\n<p>T&ecirc;m-nas, Sr. capit&atilde;o., t&ecirc;m-nas. Reparai nos que passam.<br \/>\n    Haveis de ver cada um com seu arcabuz. Os mascates fizeram e fazem larga distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    delas por seus asseclas. O que me espanta &eacute; que ainda n&atilde;o se<br \/>\n    tenham lembrado de vir atacar este posto, t&atilde;o fraco qu&atilde;o arriscado.\n  <\/p>\n<p>Mal tinha Antonio Rabelo acabado estas palavras, quando uma massa negra come&ccedil;ou<br \/>\n    a aparecer no principio da rua. <\/p>\n<p>Deus queira que eu me engane. Mas, ao que parece, vem ali gente para nos<br \/>\n    dar que fazer toda esta noite &#8211; disse Antonio Rabelo. <\/p>\n<p>E logo mandou dobrar as guardas, e &agrave; frente da cadeia estendeu o restante<br \/>\n    da for&ccedil;a. <\/p>\n<p>&#8211; Quereis ir ao encontro do bando, Sr. capit&atilde;o? perguntou Diogo Maciel,<br \/>\n    impaciente por atirar-se ao tumulto onde mais tarde praticou atos de distinta<br \/>\n    bravura. &#8211; N&atilde;o; agora n&atilde;o enfraquecerei este ponto com a minha<br \/>\n    aus&ecirc;ncia. Os rebeldes v&ecirc;m direitinhos para c&aacute;. <\/p>\n<p>De feito, n&atilde;o tomaram eles outra dire&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>O bando, passante de cem homens, vinha preparado para entrar em fogo e era<br \/>\n    capitaneado por Jeronimo Paes e seus filhos. Sua inten&ccedil;&atilde;o era<br \/>\n    a que j&aacute; tinha sido prevista &#8211; a de soltar os criminosos. <\/p>\n<p>Obra de cinquenta passos antes, Antonio Rabelo intimou-lhes que passassem<br \/>\n    de largo. <\/p>\n<p>Jeronimo Paes, sem se importar com esta voz, deu ainda alguns passos para<br \/>\n    diante. Rabelo mandou distribuir cartuchos e carregar. Ent&atilde;o a multid&atilde;o<br \/>\n    fez alto a respeitosa distancia. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Que querem, bandidos? Perguntou fora de se Cosme Bezerra, mal podendo<br \/>\n    suster as r&eacute;deas ao cavalo, pela c&oacute;lera que o tomava. Bandido<br \/>\n    sois v&oacute;s &#8211; respondeu Jeronimo Paes. <\/p>\n<p>&#8211; A esta voz, Cosme p&ocirc;s as pernas ao cavalo, cravou-lhe as esporas<br \/>\n    com movimento nervoso e atirou-se para a frente da multid&atilde;o. Quando<br \/>\n    parou a tr&ecirc;s passos de Jeronimo Paes, trinta bacamartes tinham as bocas<br \/>\n    voltadas para ele. A seu lado tinham arrancado como arrastados no &iacute;mpeto<br \/>\n    vertiginoso da sua carreira, Diogo Maciel &agrave; esquerda, Filipe Cavalcanti<br \/>\n    e Luiz Vidal &agrave; direita, e atr&aacute;s deles cerca de dez ordenan&ccedil;as<br \/>\n    bisonhas, mas animosas. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Podeis assassinar-me &#8211; disse Cosme. &Eacute; o mais que podeis fazer,<br \/>\n    porque &eacute; s&oacute; o que sabeis, miser&aacute;veis. Mas ainda que corra<br \/>\n    perigo a minha vida, como se me achasse diante de feras bravias, nem por isso<br \/>\n    hei de deixar passar sem oposi&ccedil;&atilde;o a vossa rebeldia. Quem fala<br \/>\n    em rebeldia! disse Jeronimo. Rebelde &eacute;s tu, mazombo infame! disse para<br \/>\n    Cosme um dos filhos de Jeronimo. <\/p>\n<p>E cinquenta, oitenta, cem vozes gritaram: <\/p>\n<p>Tu &eacute; que &eacute;s o rebelde, tu &eacute; que &eacute;s o perturbador<br \/>\n    da ordem. Fora, fidalgos! Fora. Quando esta alarida serenou, ouviu-se a voz<br \/>\n    de Cosme Bezerra. Tinha todos os tons de c&oacute;lera mal sofreada. <\/p>\n<p>Goianistas, goianistas, gera em mim extremo pesar este vosso procedimento!<br \/>\n    Eu n&atilde;o falo aos mascates, falo a v&oacute;s, povo de Goiana, que meia<br \/>\n    d&uacute;zia de estrangeiros ingratos tem desnorteado e pervertido. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Cala-te, cala-te, mazombo. N&atilde;o te queremos ouvir. Sai de nossa<br \/>\n    presen&ccedil;a, se n&atilde;o te queres arrepender. Infame canalha! Exclamou<br \/>\n    fora de se Cosme Bezerra, desembainhando a espada, e dando mostras de quem<br \/>\n    queria investir. Cosme, contende-vos, disse Filipe Cavalcanti, entrevendo<br \/>\n    os perigos que levantava contra se por suas palavras e gestos o capit&atilde;o<br \/>\n    das ordenan&ccedil;as. <\/p>\n<p>Seu aviso j&aacute; n&atilde;o produziu o efeito saud&aacute;vel. O magote<br \/>\n    atirou-se sobre todos eles como vara de porcos do mato salta sobre imprudente<br \/>\n    ca&ccedil;ador. Alguns tiros foram disparados, mas nenhuma morte se seguiu<br \/>\n    a eles. Os que pretendiam tirar a vida ao destemido capit&atilde;o, cedo tiveram<br \/>\n    a prova de seu engano, vendo Cosme de espada nua abrindo caminho por entre<br \/>\n    a multid&atilde;o. Seu cavalo, esse tinha sido derrubado pela descarga. <\/p>\n<p>Cerca de dez minutos durava j&aacute; a luta desigual de treze homens contra<br \/>\n    cem, que os queriam enla&ccedil;ar, quando ao lado do Carmo apareceu uma m&oacute;<br \/>\n    de gente que corria para o ponto do conflito. Era uma parte da escravatura<br \/>\n    de Jo&atilde;o da Cunha que, com ele &agrave; frente, vinha a socorro dos<br \/>\n    parentes e amigos. Os tiros tinham servido ao senhor-de-engenho de aviso da<br \/>\n    luta pr&oacute;xima. Acompanhavam-no o feitor e outros moradores. Louren&ccedil;o<br \/>\n    ficara com Germano, j&aacute; ent&atilde;o no sobrado e o restante dos escravos<br \/>\n    no armaz&eacute;m, guardando a casa. <\/p>\n<p>No momento em que este auxilio chegou a Cosme, o conflito j&aacute; tinha<br \/>\n    tomado fei&ccedil;&atilde;o diferente. Como a inten&ccedil;&atilde;o principal<br \/>\n    da multid&atilde;o era abrir as portas da cadeia, a fim de sa&iacute;rem com<br \/>\n    os criminosos, dois mascates, Braga e Bernardino, ai recolhidos por delitos<br \/>\n    comuns, ela atirou-se em peso contra as entradas. Cosme, Felipe, Maciel e<br \/>\n    os demais que tinham resistido ao furac&atilde;o insurrecional, agora, escapos<br \/>\n    de seus novelos, serviam, com Antonio Rabelo e sua brava guarni&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de baluartes inexpugn&aacute;veis ante os quais se quebravam as investidas<br \/>\n    dos insurgentes. Achando seus parentes e amigos salvos, Jo&atilde;o da Cunha,<br \/>\n    que estava impaciente por tomar parte na luta, veio colocar-se ao lado deles.<br \/>\n    Tornou-se assim quase imposs&iacute;vel aos revoltosos lograrem o seu principal<br \/>\n    intento. Mas isto os n&atilde;o dissuadiu dele. Colocados em frente da cadeia,<br \/>\n    vociferavam contra os sustentadores da ordem. Alguns jogavam projeteis imensos<br \/>\n    e mortais sobre os que defendiam o importante passo. Garrafas vazias, grandes<br \/>\n    seixos da rua iam a mude batere despeda&ccedil;ar-se nas portas e grades,<br \/>\n    impelidos pelas m&atilde;os dos amotinados. Seus estilha&ccedil;os continuados<br \/>\n    feriam os imp&aacute;vidos defensores. <\/p>\n<p>De repente um homem, que vinha das bandas do Carmo, procura a cadeia. Alguns<br \/>\n    dos amotinados, suspeitando nele um mensageiro da nobreza, atravessam-se diante<br \/>\n    dos seus passos. Loucos que foram esses! Um jagun&ccedil;o enorme, que o desconhecido<br \/>\n    manejava t&atilde;o facilmente como se fora delicado espadim, prostrou dois<br \/>\n    deles por terra sem sentidos. Corre ent&atilde;o a seu encontro maior numero,<br \/>\n    que n&atilde;o tem sucesso melhor. O desconhecido n&atilde;o &eacute; muito<br \/>\n    alto, nem muito corpulento. Mas sua for&ccedil;a muscular faria inveja &agrave;<br \/>\n    mais possante fera. Quando seu bra&ccedil;o descarrega a arma, semelha este<br \/>\n    tro&ccedil;o de m&aacute;rmore e abate a seus p&eacute;s os maiores obst&aacute;culos.\n  <\/p>\n<p>Ele atira-se de ombro sobre um dos mais alentados de formas e d&aacute; com<br \/>\n    ele em terra. Consegue, enfim, derrubando e ferindo os que pretendem cortar-lhe<br \/>\n    a passagem, chegar ao p&eacute; do sargento-m&oacute;r. <\/p>\n<p>&#8211; Louren&ccedil;o! Que vens fazer aqui? Alguma novidade por l&aacute;? <\/p>\n<p>&#8211; Vim chamar vosmec&ecirc; a toda pressa. Do lado do rio dirigem-se para<br \/>\n    o sobrado for&ccedil;as numerosas. No sobrado se diz que s&atilde;o as for&ccedil;as<br \/>\n    de Luiz Soares. Luiz Soares! exclamou o sargento-m&oacute;r. <\/p>\n<p>&#8211; Luiz Soares! repetiram Felipe e Cosme Bezerra. <\/p>\n<p>&#8211; E que faremos agora? Inquiriu Jo&atilde;o da Cunha. <\/p>\n<p>&#8211; Sabendo do que havia, Antonio Rabelo aproximou-se e disse-lhes: <\/p>\n<p>&#8211; Podeis ir, senhores. Eu defenderei o meu posto at&eacute; exalar o ultimo<br \/>\n    suspiro. Pois bem. partiremos a cortar-lhe a vanguarda &#8211; disse Cosme a Antonio<br \/>\n    Rabelo. Mas ao vosso lado, senhor capit&atilde;o, ficar&aacute; o alferes<br \/>\n    Diogo Maciel. Tende certeza de que estareis bem acompanhado. <\/p>\n<p>Com as espadas nuas nas m&atilde;os, os fidalgos afastaram-se, formando uma<br \/>\n    m&oacute; impenetr&aacute;vel. <\/p>\n<p>Alguns dos do bando de Jeronimo Paes, que lhes sa&iacute;ram ao encontro,<br \/>\n    ca&iacute;ram ao peso da terr&iacute;vel massa de Louren&ccedil;o, o qual<br \/>\n    ia na frente abrindo caminho temerariamente. <\/p>\n<p>Seguiam ap&oacute;s eles as ordenan&ccedil;as de Cosme Bezerra e os escravos<br \/>\n    de Jo&atilde;o da Cunha. <\/p>\n<p>Penosa, mas r&aacute;pida, tinha corrido a noite. <\/p>\n<p>Raiava, enfim o dia 23 de agosto de 1711, que ficou sendo memor&aacute;vel<br \/>\n    nos fastos de Goiana.<\/p>\n<h2><a name=\"26\">Cap\u00edtulo XXVI<\/a><\/h2>\n<p>N&atilde;o tinha ainda amanhecido de todo, quando as balas dos assaltantes<br \/>\n    j&aacute; sibilavam pelas urupemas do sobrado de Jo&atilde;o da Cunha, como<br \/>\n    pelas enx&aacute;rcias de navio no alto mar esfuziam as lufadas de atroz procela.\n  <\/p>\n<p>Porque fora esse o lugar escolhido para as primeiras honras do assalto? Porque,<br \/>\n    em vez de correr imediatamente &agrave; cadeia, for&ccedil;&aacute;-la, quebrar-lhe<br \/>\n    os ferrolhos, soltar os sentenciados, tinha Luiz Soares tomado para o p&aacute;tio<br \/>\n    do Carmo, deixando entrever a inten&ccedil;&atilde;o de atacar a habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do fidalgo antes do que qualquer outro ponto? <\/p>\n<p>A resposta &eacute; f&aacute;cil. Antonio Coelho sabia a hora precisa em<br \/>\n    que Luiz Soares teria de entrar na vila. Sabia o lugar onde essa entrada devia<br \/>\n    efetuar-se: era aqu&eacute;m do Tanquinho, e quase fronteiro ao oit&atilde;o<br \/>\n    da igreja do Senhor-dos-martirios. Tomando essa dire&ccedil;&atilde;o, escapava<br \/>\n    &agrave;s trincheiras de Manoel de Lacerda, como aconteceu. <\/p>\n<p>O negociante, tanto que viu aproximar-se o momento, montou a cavalo e para<br \/>\n    l&aacute; se encaminhou, seguido de cerca de cem homens. Este tro&ccedil;o<br \/>\n    era composto em grande parte de europeus. Era o corpo de sua especial confian&ccedil;a.<br \/>\n    Coelho o denominava seu estado-maior. Partiram da Rua-de-rosario, ao mesmo<br \/>\n    tempo que a multid&atilde;o capitaneada por Jeronimo se dirigia para o lugar<br \/>\n    onde estacionou. <\/p>\n<p>Quando a gente de Luiz Soares, rompendo os &uacute;ltimos matos, saiu na<br \/>\n    Rua-dos-martirios, que n&atilde;o era ent&atilde;o mais do que o caminho do<br \/>\n    Tanquinho, achou j&aacute; ai para o receber o estado-maior dos mascates.\n  <\/p>\n<p>Vendo o comandante da tropa, Coelho correu a ele, chamou-o de parte e falou-lhe<br \/>\n    &agrave; puridade. Quando a cabo de alguns minutos se separaram, estava assentado<br \/>\n    o plano do ataque. Luiz Soares devia levar suas primeiras investidas contra<br \/>\n    a frente da casa do sargento-m&oacute;r, enquanto o negociante a atacaria<br \/>\n    pelo lado oposto. Entre dois fogos, o soberbo fidalgo cairia no poder dos<br \/>\n    inimigos sem grande custo, e tanto bastaria para que cessasse a resist&ecirc;ncia,<br \/>\n    visto que nenhum dos outros, nem Cosme nem Filipe, nem Jorge Cavalcanti, nem<br \/>\n    Manoel da Lacerda, em uma palavra nenhum deles tinha gente para fazer frente<br \/>\n    a seus advers&aacute;rios. Ent&atilde;o tudo tornar-se-ia f&aacute;cil. O<br \/>\n    povo j&aacute; estava solto; a vila abandonada por mais da metade dos habitantes<br \/>\n    pac&iacute;ficos; seguir-se-ia a revolta como se seguiu. As tropas invasoras<br \/>\n    engrossariam com os subs&iacute;dios que desse a insurrei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e tomariam sem perda de tempo o caminho do Recife, a fim de romper o cerco.\n  <\/p>\n<p>Estas foram as raz&otilde;es que publicou Coelho para autorizar o seu plano.<br \/>\n    Ele por&eacute;m tinha a sua raz&atilde;o particular em querer que prevalecesse<br \/>\n    este a outros planos indicados pelo destemido Paraibano. O leitor j&aacute;<br \/>\n    sabe qual ela seja. Acabar com Jo&atilde;o da Cunha era o seu fim, a sua preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todo o instante. Acabado ele, poderia finalizar a guerra, que ele n&atilde;o<br \/>\n    teria por isso pesar nem descontentamento. <\/p>\n<p>No momento em que, dando a volta da rua, descobriram os fidalgos, aos primeiros<br \/>\n    clar&otilde;es da manh&atilde;, a vasta multid&atilde;o, superior a seiscentos<br \/>\n    homens, uma id&eacute;ia assaltou incontinenti o espirito de Bezerra. Com<br \/>\n    sua l&uacute;cida previs&atilde;o a que devia tantos sucessos felizes no per&iacute;odo<br \/>\n    de agita&ccedil;&atilde;o de que se trata, concebeu logo ele um projeto de<br \/>\n    oposi&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; Um cavalo j&aacute; para Louren&ccedil;o. <\/p>\n<p>E voltando-se para o rapaz, disse-lhe: <\/p>\n<p>&#8211; Tu me acompanhar&aacute;s. N&atilde;o preciso de mais ningu&eacute;m. <\/p>\n<p>&#8211; Aonde tencionais ir, Cosme? perguntou Filipe Cavalcanti. <\/p>\n<p>Vou a Jorge Cavalcanti, que j&aacute; pode abandonar a sua fortifica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    visto que as for&ccedil;as inimigas, a que ele pretendia impedir a entrada,<br \/>\n    j&aacute; est&atilde;o tomando conta da vila. Louren&ccedil;o correr&aacute;<br \/>\n    ao Tanquinho a dizer a Manoel de Lacerda que venha em nosso socorro. Com a<br \/>\n    gente que cada um destes amigos tiver junta, bateremos esses bandidos. S&oacute;<br \/>\n    o que desejo me fa&ccedil;ais, Jo&atilde;o da Cunha, &eacute; que sustenteis<br \/>\n    a resist&ecirc;ncia at&eacute; que eu chegue. Bastam-me cinquenta, quarenta,<br \/>\n    vinte goianistas da gema para levar estes salteadores a panos de espada, este<br \/>\n    canalha a patas de cavalo. Em menos de dois minutos, Cosme e Louren&ccedil;o,<br \/>\n    tomando pela Rua-do-meio, corriam &agrave; desfilada. O momento era decisivo.\n  <\/p>\n<p>Chegando &agrave; sala, Filipe Cavalcanti, Luiz Vidal e Jo&atilde;o da Cunha<br \/>\n    deram com um espet&aacute;culo novo e singular. Cada uma das mulheres que<br \/>\n    ai se achavam &#8211; eram oito, a saber d. Damiana, Marcelina e seis mulatas escravas<br \/>\n    &#8211; mostrava-se aparelhada para travar a luta hom&eacute;rica. A capitoa era<br \/>\n    a mulher do sargento-m&oacute;r. Seu espirito belicoso tinha-se comunicado<br \/>\n    a todas as outras, excetuada Gertrudes, velha que a amamentara e que a um<br \/>\n    canto da sala tremia de medo. Sobre os bufetes, as mesas, os estrados viam-se<br \/>\n    a&ccedil;afates cheios de cartuchos, obra das suas m&atilde;os e das de algumas<br \/>\n    de suas mucamas durante os dias e as noites anteriores. <\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isto, senhora? perguntou o sargento-m&oacute;r &agrave; sua<br \/>\n    mulher, tanto que seus olhos leram na face dela a express&atilde;o da energia<br \/>\n    intima, reflexo do seu sangue e do seu orgulho. <\/p>\n<p>&#8211; De que vos admirais? Mandei trazer para a sala as armas e muni&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que estavam nas camarinhas. Ser&aacute; ainda cedo para aparecerem? <\/p>\n<p>-Cedo n&atilde;o &eacute;, disse o sargento-m&oacute;r. Mas &eacute; que<br \/>\n    em m&atilde;os de uma dama e de escravas elas se me afiguram postas com muita<br \/>\n    antecipa&ccedil;&atilde;o. Em ocasi&otilde;es como esta, e em havendo ainda<br \/>\n    homens, as mulheres n&atilde;o devem usar outras armas que os seus ros&aacute;rios.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Tem vosmec&ecirc; raz&atilde;o, seu sargento-m&oacute;r, disse a velha.<br \/>\n    Eu c&aacute; por mim n&atilde;o posso entender-me com armas de fogo. As minhas<br \/>\n    armas s&atilde;o d&rsquo;&aacute;gua &#8211; s&atilde;o as lagrimas. As de fogo,<br \/>\n    quando alguma vez as tenho, como agora debaixo das m&atilde;os, j&aacute;<br \/>\n    me parece que v&atilde;o estourar e despeda&ccedil;ar-me. <\/p>\n<p>Gertrudes tinha de feito nesse momento a m&atilde;o posta sobre o cano de<br \/>\n    um mosquete, que estava a seu lado sobre o estrado. Mal acabara de falar,<br \/>\n    um estrepito estranho e inesperado rebentou perto dela. A anci&atilde; recuou<br \/>\n    espavorida. Pareceu-lhe que se confirmava seu receio. Dera causa ao ru&iacute;do<br \/>\n    uma bala inimiga que, batendo no espelho da sala, o pusera em farelos. <\/p>\n<p>&#8211; Credo! Virgem sant&iacute;ssima! Exclamaram quase ao mesmo tempo as mulheres.\n  <\/p>\n<p>D. Damiana tinha corrido para junto do marido, como quem queria defend&ecirc;-lo.\n  <\/p>\n<p>-Correis aqui perigo de vida, disse Felipe Cavalcanti. O meu parecer &eacute;<br \/>\n    que vos retireis ao interior da casa, onde estareis mais resguardadas das<br \/>\n    balas perdidas. Ide a&iacute; encomendar nossas vidas a Deus, e pedir para<br \/>\n    as nossas armas a vitoria. <\/p>\n<p>A senhora-de-engenho n&atilde;o quis parecer obstinada. Deu o andar para<br \/>\n    dentro com sua antiga aia, Marcelina e as mucamas. &Eacute;, por&eacute;m,<br \/>\n    certo que seus esp&iacute;ritos, alvoro&ccedil;ados com a emin&ecirc;ncia<br \/>\n    do perigo, n&atilde;o se deixaram l&aacute; ficar, antes vieram emparelhar-se<br \/>\n    a Jo&atilde;o da Cunha, vigiando sobre ele, estremecendo por sua exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    a qualquer detona&ccedil;&atilde;o, a qualquer vibra&ccedil;&atilde;o suspeita<br \/>\n    de lhe ser ofensiva. <\/p>\n<h2><a name=\"27\">Cap&iacute;tulo XXVII<\/a><\/h2>\n<p>Quando se acharam s&oacute;s, correram os tr&ecirc;s fidalgos &agrave;s urupemas<br \/>\n    a examinar o aspecto do campo inimigo. <\/p>\n<p>&#8211; Estais vendo, Felipe? Inquiriu Luiz Vidal. <\/p>\n<p>&#8211; Que quereis dizer? <\/p>\n<p>&#8211; Aquela m&oacute; de gente de negro que se move do lado de l&aacute; do<br \/>\n    cruzeiro? <\/p>\n<p>&#8211; Estou vendo. S&atilde;o frades, ao que parece. <\/p>\n<p>&#8211; S&atilde;o os pr&oacute;prios frades do convento &#8211; disse Jo&atilde;o da<br \/>\n    Cunha &#8211; que distribuem armas e muni&ccedil;&otilde;es pelos matutos esfarrapados<br \/>\n    e imundos. Oh! os frades, os frades do Recife e de Goiana t&ecirc;m tido grande<br \/>\n    parte nesta guerra! <\/p>\n<p>Tendo dito estas palavras, o senhor-de-engenho deu o andar para descer. <\/p>\n<p>&#8211; Para onde ides? perguntou-lhe Luiz Vidal, carregando o mosquete de que<br \/>\n    lan&ccedil;ara m&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; Vou mandar subir para c&aacute; a metade dos negros. Precisamos dar logo<br \/>\n    sinal de n&oacute;s, rompendo o fogo sobre aqueles magotes ferozes. Prud&ecirc;ncia,<br \/>\n    amigo, prud&ecirc;ncia! Observou Filipe. Vede bem n&atilde;o v&aacute; esta<br \/>\n    provoca&ccedil;&atilde;o decidi-los a acometer logo o sobrado. <\/p>\n<p>&#8211; Que tem que venham? Tenho for&ccedil;as bastantes, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    a resistir-lhes, mas a bat&ecirc;-los. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o estareis enganado? Demais n&atilde;o ser&aacute; mais acertado<br \/>\n    nada tentarmos contra eles, antes de chegarem os refor&ccedil;os que Cosme<br \/>\n    foi buscar? Se aquela gente toda, reunida com a que est&aacute; na frente<br \/>\n    da cadeia, vier assaltar-nos, achais que poderemos ficar vencedores? <\/p>\n<p>&#8211; S&oacute; por milagre, ajuntou Luiz Vidal. Mas olhai que a for&ccedil;a<br \/>\n    inimiga, Filipe. N&atilde;o compreendeis aquela manobra, ordenada por Luiz<br \/>\n    Soares? <\/p>\n<p>As for&ccedil;as deste caudilho tinham-se dividido em tr&ecirc;s grandes<br \/>\n    pelot&otilde;es. O do centro, formando uma extensa linha ao longo da pra&ccedil;a,<br \/>\n    parecia querer adiantar-se at&eacute; ao cruzeiro, e de feito se encaminhou<br \/>\n    para ai; os das extremidades, mais numerosos e compactos, desceram, correndo<br \/>\n    a marche-marche a tomar as embocaduras, ao norte e ao sul da rua. <\/p>\n<p>Claro est&aacute; o plano do caudilho, disse o sargento-m&oacute;r. Atentai<br \/>\n    nele. A linha do centro manter&aacute; sobre nossa frente incessante fogo,<br \/>\n    enquanto as outras duas, ganhando os lados, v&ecirc;m reunir-se com ela no<br \/>\n    ponto comum, que n&atilde;o &eacute; outro sen&atilde;o as nossas portas.<br \/>\n    Houve um momento de silencio. Os fidalgos, por tr&aacute;s das rotulas, olhavam<br \/>\n    para um lado e para outro, como quem estava estudando as posi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inimigas. Enfim Luiz Vidal voltou-se para o senhor-de-engenho e lhe disse:\n  <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o percamos mais um momento. As for&ccedil;as a&iacute; v&ecirc;m.<br \/>\n    Se n&atilde;o resistirmos, em dez minutos estaremos no poder dos rebeldes.<br \/>\n    Descei, descei, e mandai a gente para c&aacute;. O forte dela deve ficar l&aacute;<br \/>\n    em baixo. C&aacute; em cima precisamos unicamente de quem saiba carregar e<br \/>\n    descarregar sua arma. L&aacute; em baixo requerem-se &acirc;nimos viris. Ser&aacute;<br \/>\n    l&aacute; o nosso posto de honra. <\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Cunha desceu e tornou logo. Vinham com ele o Roberto e mais<br \/>\n    dez negros. <\/p>\n<p>&#8211; V&ecirc;s aquela linha de homens que ali vem avan&ccedil;ando e atirando<br \/>\n    para c&aacute;? Perguntou o sargento-m&oacute;r, indicando ao feitor a parte<br \/>\n    da for&ccedil;a que era comandada pelo pr&oacute;prio Luiz Soares. Estou vendo,<br \/>\n    sim senhor. <\/p>\n<p>&#8211; Sobre ela devem ser feitas todas as pontarias. De l&aacute; debaixo, quero<br \/>\n    ver cair aqueles alteadores atravessados pelas balas dos meus escravos. Senhor<br \/>\n    sim, disse Roberto. <\/p>\n<p>Os negros foram distribu&iacute;dos pelas janelas. Pelos interst&iacute;cios<br \/>\n    das urupemas introduziram os canos dos bacamartes, e espararam a voz de &#8211;<br \/>\n    fogo. O sargento-m&oacute;r, tanto que viu as armas abocadas na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    conveniente, ordenou uma descarga. Queria por seus pr&oacute;prios olhos ter<br \/>\n    uma prova, antes de descer ao outro pavimento, do valor e da disciplina da<br \/>\n    sua gente. <\/p>\n<p>No mesmo instante um s&oacute; e infernal estampido encheu o &acirc;mbito<br \/>\n    da sala, e foi revoando pelos aposentos e salas imediatas. A casa, em que<br \/>\n    predominava a pesada alvenaria daqueles tempos, estremeceu, n&atilde;o obstante,<br \/>\n    como se fora de taipa de sebe, desde os fundamentos at&eacute; ao teto, de<br \/>\n    cujo estuque se desagregaram part&iacute;culas calcinadas. Dir-se-ia que ali<br \/>\n    o mundo acabava de ter uma das suas medonhas como&ccedil;&otilde;es, um desses<br \/>\n    terr&iacute;veis cataclismos que se resolvem no aparecimento de mais um vulc&atilde;o,<br \/>\n    na abertura de mais um abismo. Miseric&oacute;rdia! Miseric&oacute;rdia! Gritaram<br \/>\n    dentro algumas mulheres aterradas. Quando iam descendo, ouviram os fidalgos<br \/>\n    o estrondear de uma forte descarga do lado de fora. Era a resposta que os<br \/>\n    da rua davam aos do sobrado. Era mais do que uma simples resposta; era principalmente<br \/>\n    intima&ccedil;&atilde;o, feita pelo fogo, a que se rendessem, sen&atilde;o<br \/>\n    a acerba amea&ccedil;a de que dentro em pouco tempo n&atilde;o passariam de<br \/>\n    vencidos e prisioneiros. <\/p>\n<p>A luta estava terrivelmente travada. Em alguns minutos ningu&eacute;m mais<br \/>\n    pode entender-se. a mosquetaria atroava os ares com suas vozes assustadoras.<br \/>\n    As descargas sucediam-se incessantemente umas &agrave;s outras. Contra os<br \/>\n    pared&otilde;es e muralhas de solida e antiga fortaleza n&atilde;o batem com<br \/>\n    mais f&uacute;ria as balas de canh&otilde;es inimigos do que as dos mosquetes<br \/>\n    dos matutos contra as paredes, as portas, as janelas do sobrado do sargento-m&oacute;r<br \/>\n    em que eles consideravam encastelado o despotismo, o orgulho e a maldade de<br \/>\n    um senhor feudal. <\/p>\n<p>&#8211; Germano? Germano? Chamou o sargento-m&oacute;r, ao penetrar no vasto aposento<br \/>\n    em que tinha o grosso de sua tropa. Onde est&aacute;s, moleque? N&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;s que as portas da entrada se acham desamparadas? Para a frente, dem&ocirc;nios!\n  <\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Cunha trazia na cava do colete um punhal, no c&oacute;s dos<br \/>\n    cal&ccedil;&otilde;es uma pistola, e na m&atilde;o esquerda um clavinote curto.<br \/>\n    Por cima do gib&atilde;o de seu uso corria-lhe, cingindo-o, o talim, donde<br \/>\n    lhe pendia uma espada de ponta direita. Do ombro esquerdo para o quadril direito<br \/>\n    caia transversalmente uma correia lustrosa na qual se via segura uma patrona<br \/>\n    cheia de cartuchos fabricados por sua mulher. Trazia na cabe&ccedil;a chap&eacute;u<br \/>\n    de palha de largas abas. Com o trigueiro do rosto contrastava a barba grisalha,<br \/>\n    com o longo nariz aquilino os olhos pequeninos e redondos, como os de pomba.<br \/>\n    Em sua fisionomia liam-se sentimentos encontrados e violentos: a temeridade<br \/>\n    para avan&ccedil;ar, a firmeza para resistir. <\/p>\n<p>&Agrave; voz do senhor, Germano chamou os outros e tornou com eles para as<br \/>\n    portas. Por tr&aacute;s destas tinham sido colocadas diversas caixas-de-a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    com dobrado fim &#8211; amparar as entradas e dar aos atiradores posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobranceira. <\/p>\n<p>Subiram &agrave;s caixas os negros, e nos pequenos olhais, acinte feitos<br \/>\n    nas portas por ordem do sargento-m&oacute;r, puseram eles as bocas das armas.\n  <\/p>\n<p>Ent&atilde;o o sargento-m&oacute;r deu ordem para atirar. As pedras bateram<br \/>\n    nos fuzis, algumas escorvas arderam, mas nem um tiro soou. <\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Cunha, espantado, surpreso, olhou sucessivamente para os negros<br \/>\n    e para os dois fidalgos. R&aacute;pida lividez passou pelas faces destes &uacute;ltimos.<br \/>\n    Uma s&oacute; id&eacute;ia, uma suspeita cruel que lhe atravessara o c&eacute;rebro,<br \/>\n    fez chegar ao rosto deles a sombra de sua asa negra. <\/p>\n<p>Puseram os escravos novas escorvas nos mosquetes, que levaram novamente aos<br \/>\n    orif&iacute;cios das portas. &Agrave; voz de &#8211; fogo! &#8211; as escorvas arderam,<br \/>\n    mas, como da primeira vez, nenhuma arma disparou seu tiro. <\/p>\n<p>Fora de si, o sargento-m&oacute;r vai cair de um pulo junto de Germano, enquanto<br \/>\n    Filipe Cavalcanti e Luiz Vidal, desembainhando suas espadas, se colocam em<br \/>\n    atitude amea&ccedil;adora diante dos outros escravos. <\/p>\n<p>&#8211; Negro infame, quero saber o que t&ecirc;m estas armas. Confessa a verdade,<br \/>\n    sen&atilde;o te atravesso da outra banda. Jo&atilde;o da Cunha parecia uma<br \/>\n    vis&atilde;o infernal. Todos os m&uacute;sculos do rosto, as mais delicadas<br \/>\n    linhas de seus olhos despediam duras e mudas amea&ccedil;as, que falavam mais<br \/>\n    claro do que seus gestos e express&otilde;es violentas. Senhor, as armas est&atilde;o<br \/>\n    molhadas, respondeu Germano. N&atilde;o fui eu que as molhei, foi ele; mas<br \/>\n    j&aacute; pagou. <\/p>\n<p>&#8211; Molhadas as armas! exclamou Filipe. Traidores! <\/p>\n<p>&#8211; Ele quem? Ele quem? Dize j&aacute; quem foi o autor deste crime. <\/p>\n<p>&#8211; Mo&ccedil;ambique. <\/p>\n<p>Eis o que se tinha passado depois da subida do Roberto e dos seus companheiros<br \/>\n    para o andar superior. <\/p>\n<p>Mo&ccedil;ambique chegou-se a Germano e lhe disse: <\/p>\n<p>&#8211; Que esperas, moleque? Daqui a pouco o branco vem chamar-nos para o sobrado,<br \/>\n    e n&oacute;s levamos as armas enxutas. Bota logo &aacute;gua dentro delas.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Cala a boca, tio Mo&ccedil;ambique. Est&aacute;s doido? &Aacute;gua dentro<br \/>\n    das armas! Para que fim? <\/p>\n<p>&#8211; Ah! T&atilde;o depressa te esqueceste da promessa que fizeste a seu Pedro<br \/>\n    de Lima? <\/p>\n<p>&#8211; Eu nada prometi, Mo&ccedil;ambique, eu nada prometi do que voc&ecirc; est&aacute;<br \/>\n    inventando ai. <\/p>\n<p>&#8211; Pois j&aacute; te n&atilde;o lembras da conversa que tiveste ontem de tarde<br \/>\n    no mucambo? <\/p>\n<p>E que prometi eu, negro velho tonto? Melhor ser&aacute; que voc&ecirc; cale<br \/>\n    sua boca. Calou Mo&ccedil;ambique a boca um momento, mas seu espirito embrutecido,<br \/>\n    seu interesse, que sua ignor&acirc;ncia o fazia supor muito bem amparado pelas<br \/>\n    promessas de Pedro de Lima, alteou dentro em sua mente cada vez mais as vozes<br \/>\n    falazes e persuasivas. O negro deu uma volta, como para disfar&ccedil;ar a<br \/>\n    inten&ccedil;&atilde;o serpentina, dirigiu-se ao canto onde estavam encostadas<br \/>\n    as armas, e come&ccedil;ou a esvaziar no cano de cada uma o coco, que enchia<br \/>\n    no pote d&rsquo;&aacute;gua destinada a matar-lhes a sede. <\/p>\n<p>Germano deu pela opera&ccedil;&atilde;o, no momento precisamente em que Mo&ccedil;ambique<br \/>\n    molhava o ultimo mosquete. <\/p>\n<p>Correr ao negro velho, tomar-lhe a arma da m&atilde;o, exprobra-lo, foram<br \/>\n    atos que o moleque praticou em um momento. <\/p>\n<p>&#8211; Tio Mo&ccedil;ambique! Voc&ecirc; sempre fez o que queria?! exclamou na<br \/>\n    realidade aterrado Germano. <\/p>\n<p>&#8211; Fiz o que tu prometeste, mas n&atilde;o tiveste coragem para fazer, respondeu<br \/>\n    Mo&ccedil;ambique. Neg&atilde;o safado! Tu ouviste eu prometer alguma coisa?\n  <\/p>\n<p>Ouvi, sim. E se tu quiseres agora negar, eu tudo contarei ao senhor &#8211; disse<br \/>\n    Mo&ccedil;ambique, dando mostras de querer envolver em sua queda o parceiro.\n  <\/p>\n<p>Germano era fino. Viu de um lance d&rsquo;olhos todo o horror da situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    toda a imensidade do seu infame procedimento. Compreendeu que se o senhor-de-engenho<br \/>\n    sa&iacute;sse daquele aperto e viesse a ter conhecimento do que se passara<br \/>\n    no mucambo, a forca seria o seu fim, se n&atilde;o fosse a morte nos a&ccedil;oites.<br \/>\n    Ent&atilde;o lembrou-lhe uma id&eacute;ia, &uacute;nica que o podia salvar<br \/>\n    do abismo &agrave; borda do qual cambaleava mais morto do que vivo. Era destruir<br \/>\n    a &uacute;nica testemunha da sua entrevista com Pedro de Lima. Morto Mo&ccedil;ambique,<br \/>\n    estaria ele livre da responsabilidade que o negro queria repartir com ele,<br \/>\n    e poderia at&eacute;, se a vitoria pertencesse aos mascates t&atilde;o completamente<br \/>\n    como figuraria Pedro de Lima, exigir deste o preenchimento da promessa feita.<br \/>\n    Tanto que esta ordem de id&eacute;ias se acentuou bem em sua mente, para o<br \/>\n    que n&atilde;o foi preciso mais do que um instante, o moleque puxou resolutamente<br \/>\n    do fac&atilde;o que consigo trazia, e com ele traspassou o parceiro. <\/p>\n<p>Tendo contado pela rama esta fatal acontecimento a Jo&atilde;o da Cunha,<br \/>\n    Germano para dar inteira autoridade ao que dizia, indicou o canto do armaz&eacute;m<br \/>\n    onde se achava morto, dentro de uma po&ccedil;a de sangue ainda quente, o<br \/>\n    negro que punha sentido nas carvoeiras. <\/p>\n<p>O sargento-m&oacute;r soltou ent&atilde;o o moleque, dizendo-lhe estas palavras:\n  <\/p>\n<p>&#8211; Em recompensa da a&ccedil;&atilde;o que praticaste, Germano, dou-te a liberdade.<br \/>\n    Do ora por diante j&aacute; n&atilde;o &eacute;s meu escravo, mas meu amigo.<br \/>\n    Est&aacute;s forro. <\/p>\n<p>&#8211; Eu forro, eu livre senhor! exclamou, duvidoso ainda o negro, como quem<br \/>\n    n&atilde;o podia acreditar fosse senhor do sumo bem a que aspirava desde que<br \/>\n    tivera o uso da raz&atilde;o, mas cuja posse s&oacute; em sonho considerava<br \/>\n    poss&iacute;vel. <\/p>\n<p>Est&aacute;s livre. Palavra de Jo&atilde;o da Cunha. As lagrimas saltaram<br \/>\n    dos olhos do moleque, mas uma sombra, escurecendo-lhe o espirito e aguando<br \/>\n    o contentamento inef&aacute;vel que o repassava, volitou diante dos seus olhos.<br \/>\n    Esta sombra tinha a forma de um espectro agoureiro e medonho. Parecia com<br \/>\n    o negro morto, mas n&atilde;o era sen&atilde;o o remorso, porque, em consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    o moleque se reconhecia traidor e assassino. <\/p>\n<p>Nesse momento Roberto apareceu no armaz&eacute;m. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; P&oacute;lvora, senhor, queremos p&oacute;lvora &#8211; disse ele. acabaram-se<br \/>\n    todas as muni&ccedil;&otilde;es que havia l&aacute; em cima. E que fazem os<br \/>\n    inimigos? Interrogou Filipe Cavalcanti. <\/p>\n<p>Avan&ccedil;am, respondeu Roberto. Est&atilde;o j&aacute; batendo nas portas.<br \/>\n    P&oacute;lvora, Germano! Gritou o sargento-m&oacute;r. E uma id&eacute;ia<br \/>\n    sinistra, semelhante &agrave; sombra do inferno, atravessou seu espirito atribulado.<br \/>\n    &#8211; Se Mo&ccedil;ambique molhou a p&oacute;lvora, que ser&aacute; de n&oacute;s?-<br \/>\n    pensou ele. <\/p>\n<p>Germano corre ao barril que primeiro se lhe mostra. O sargento-m&oacute;r,<br \/>\n    sobressaltado, impaciente por saber imediatamente a sorte que lhe estava reservada<br \/>\n    naquele tremendo apuro, correu ap&oacute;s o moleque. Germano para diante<br \/>\n    do barril, abre-o com arrebatamento nervoso, e voltando-se imediatamente ao<br \/>\n    sargento-m&oacute;r que tinha os olhos postos nele, exclama: <\/p>\n<p>&#8211; A p&oacute;lvora est&aacute; molhada, senhor! <\/p>\n<p>Molhada! Molhada! Exclamam quatro vezes ao mesmo tempo, quatro vozes que<br \/>\n    se confundiram na mesma angustia, e que pareciam um s&oacute; grito de maldi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de horror. Eram as vozes de Jo&atilde;o da Cunha, Filipe Cavalcanti, Luiz<br \/>\n    Vidal e Roberto. <\/p>\n<p>Para se certificar, o sargento-m&oacute;r meteu suas pr&oacute;prias m&atilde;os<br \/>\n    dentro do primeiro barril, do segundo, de todos eles. Retirou-as cobertas<br \/>\n    de uma camada espessa e &uacute;mida, semelhante &agrave; lama da rua, que<br \/>\n    se lhes aderira. N&atilde;o havia mais que duvidar. O tremendo drama caminhava<br \/>\n    rapidamente &agrave; sua ultima cena. <\/p>\n<p>Mas Germano, que n&atilde;o gritar&aacute;, que n&atilde;o se surpreendera<br \/>\n    com esse grande desastre, parecia n&atilde;o obstante haver ele penetrado<br \/>\n    mais profunda e dolorosamente do que nos outros. Havia nisso o efeito de uma<br \/>\n    lei fisiol&oacute;gica, sen&atilde;o moral. Fora ele, ele pr&oacute;prio quem<br \/>\n    tinha derramado &aacute;gua nos barris, logo depois da morte de Mo&ccedil;ambique.<br \/>\n    Ent&atilde;o nem sequer lhe passara pela imagina&ccedil;&atilde;o a id&eacute;ia<br \/>\n    de ser alforriado por seu senhor. pensava por&eacute;m no que lhe dissera<br \/>\n    Pedro de Lima. Para justificar-se perante Jo&atilde;o da Cunha, se este vencesse,<br \/>\n    tinha ele o seu procedimento com o parceiro; matara-o: n&atilde;o podia dar<br \/>\n    melhor prova de sua lealdade. Para aparecer diante do bandido com direito<br \/>\n    a ser livre, necess&aacute;rio lhe era algum fato de grande alcance, cuja<br \/>\n    responsabilidade pudesse atribuir a se pr&oacute;prio, no caso de sa&iacute;rem<br \/>\n    vencedores os estrangeiros, em nome de quem o cabra prometia essas grandes<br \/>\n    recompensas. Eis porque pusera &aacute;gua na p&oacute;lvora. <\/p>\n<p>Mas a inesperada generosidade do senhor tornara-o perplexo, confuso, sem<br \/>\n    saber o que fazer. O remorso, o arrependimento, o pesar, a dor abafada e temerosa<br \/>\n    o tiveram por um momento fora do uso das suas faculdades. Germano n&atilde;o<br \/>\n    era mau negro. Tinha sido at&eacute; ao momento de se entender com ele o Pedro<br \/>\n    de Lima, muito dos seu senhores. Ainda depois n&oacute;s o vimos como arrependido<br \/>\n    em conseq&uuml;&ecirc;ncia das reflex&otilde;es que lhe fizera Marcelina.<br \/>\n    Desencabe&ccedil;ado, por&eacute;m, em nome da liberdade, atirara-se naquele<br \/>\n    escabroso despenhadeiro a modo de fatalmente. <\/p>\n<p>Vendo agora de perto os resultados de sua perf&iacute;dia; conhecendo-se<br \/>\n    assassino, sem ter nunca pensado s&ecirc;-lo; vendo seus senhores sujeitos<br \/>\n    aos duros azares que a vitoria dos contr&aacute;rios poderia trazer; vendo<br \/>\n    a ele pr&oacute;prio sem a&ccedil;&atilde;o, sem meios para afastar todos<br \/>\n    aqueles horrores, vencer todas aquelas cru&eacute;is fatalidades, encher o<br \/>\n    grande abismo que amea&ccedil;ava engoli-los, enfim reparar aquela imensa<br \/>\n    desgra&ccedil;a de seu natural irreparaval, s&oacute; faltou ao negro completar<br \/>\n    o seu mart&iacute;rio mudo e imponder&aacute;vel, cortando com suas pr&oacute;prias<br \/>\n    m&atilde;os o fio da exist&ecirc;ncia a que um momento se haviam rasgado horizontes<br \/>\n    cor de rosa, logo ap&oacute;s convertidos em profundas e infernais escurid&otilde;es.<br \/>\n    &Oacute; liberdade, quanto pareceste dolorosa nesse transe ao pobre escravo,<br \/>\n    vitima da natural ambi&ccedil;&atilde;o de te possuir! <\/p>\n<p>O estampido de uma nova descarga, abalando violentamente todos os esp&iacute;ritos,<br \/>\n    veio como reacender a perdida veem&ecirc;ncia do de Germano. Sua impetuosidade<br \/>\n    eti&oacute;pica rebentou pujante, como a catadupa que jorra subitamente de<br \/>\n    solo frio e pedregoso. <\/p>\n<p>O negro tivera uma inspira&ccedil;&atilde;o grandiosa, digna da heroicidade<br \/>\n    romana. Pondo-a em pratica, reabilitava-se perante sua pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia<br \/>\n    e dava manifesto testemunho ao senhor-de-engenho da sua gratid&atilde;o. ]<br \/>\n    &#8211; Senhor, senhor, &#8211; disse ele a Jo&atilde;o da Cunha, tendo na m&atilde;o<br \/>\n    desembainhado o fac&atilde;o com que tirara a vida a Mo&ccedil;ambique &#8211; a<br \/>\n    &aacute;gua molhou as armas e a p&oacute;lvora, mas n&atilde;o molhou o fac&atilde;o<br \/>\n    de Germano. Ainda que estivesse molhado, era agora a ocasi&atilde;o de o enxugar<br \/>\n    nos cora&ccedil;&otilde;es dos mascates. Se senhor d&aacute; licen&ccedil;a,<br \/>\n    vou esperar os inimigos da banda de fora com meus companheiros. <\/p>\n<p>&#8211; Quantos est&atilde;o aqui? <\/p>\n<p>&#8211; Dezenove, respondeu Germano. <\/p>\n<p>N&atilde;o, agora somos trinta, respondeu ao p&eacute; do sargento-m&oacute;r<br \/>\n    o Roberto, que descera. Nesse momento nova descarga soou na sala do sobrado.<br \/>\n    Jo&atilde;o da Cunha, espantado, perguntou a Roberto: <\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute; que ainda atira l&aacute; em cima? N&atilde;o est&atilde;o<br \/>\n    voc&ecirc;s todos c&aacute; embaixo? <\/p>\n<p>De feito, todos os negros, que Roberto capitaneava, achavam-se com os outros<br \/>\n    no armaz&eacute;m. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; a senhora d. Damiana, com as negras. <\/p>\n<p>&#8211; Que loucura! E onde acharam muni&ccedil;&otilde;es? Onde acharam muni&ccedil;&otilde;es?\n  <\/p>\n<p>&#8211; L&aacute; em cima. A senhora d. Damiana tinha muitas d&uacute;zias de cartuchos<br \/>\n    guardados. Cada um de n&oacute;s tem j&aacute; a patrona cheia. <\/p>\n<p>&#8211; Gra&ccedil;as, meu Deus! exclamaram os fidalgos. Mas ent&atilde;o porque<br \/>\n    desceram, porque abandonaram seu posto? perguntou o sargento-m&oacute;r. <\/p>\n<p>&#8211; Foi ela que nos mandou para baixo. Ela disse que havia mais necessidade<br \/>\n    de n&oacute;s c&aacute; embaixo onde nenhum tiro se disparava, do que l&aacute;<br \/>\n    em cima. E a senhora d. Damiana teve raz&atilde;o &#8211; disse Filipe Cavalcanti,<br \/>\n    que, tendo ido olhar pelos olhais, voltara correndo ao lugar onde estas coisas<br \/>\n    se passavam. Acudam todos. Os bandidos batem-nos &agrave; porta. Uma descarga<br \/>\n    agora contra eles deve ser de grande proveito para n&oacute;s. <\/p>\n<p>Correram todos os que tinham as armas carregadas. Um estampido imenso ecoou<br \/>\n    dentro do vasto armaz&eacute;m. No ch&atilde;o da rua ca&iacute;ram v&aacute;rios<br \/>\n    dos assaltantes &#8211; muitos feridos, alguns mortos. Era o primeiro sinal de vida<br \/>\n    que dava de se para o lado de fora o armaz&eacute;m. <\/p>\n<p>Tomando por estrat&eacute;gia o silencio que at&eacute; ent&atilde;o ai reinara,<br \/>\n    recuaram os assaltantes amedrontados, mas n&atilde;o o fizeram t&atilde;o<br \/>\n    prontamente que ficassem logo fora do alcance de novos tiros disparados do<br \/>\n    sobrado, desta vez mais certeiros do que das outras. Novas perdas contou a<br \/>\n    for&ccedil;a invasora. <\/p>\n<p>Quando cessou de todo o estrondo da ultima descarga, uma voz vibrou nos ares,<br \/>\n    forte e pujante, por entre as exclama&ccedil;&otilde;es de dor dos feridos.<br \/>\n    Partia ela do cruzeiro e parecia dirigir-se aos do sobrado. <\/p>\n<p>Mulheres &iacute;mpias, mulheres &iacute;mpias, que atirais contra a cruz<br \/>\n    do redentor, vede l&aacute; n&atilde;o venhais rasgar as veias sacrossantas<br \/>\n    daquele que em espirito est&aacute; aqui pregado nela. Ergueram-se todas as<br \/>\n    vistas ao ponto donde tais palavras caiam. <\/p>\n<p>Um vulto vestido de negro destacava sobre a larga peanha do cruzeiro. Estava<br \/>\n    de p&eacute;, o bra&ccedil;o esquerdo passado em torno da haste p&eacute;trea,<br \/>\n    enquanto o direito destendido parecia acompanhar e completar a dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o eco de sua voz. A cara branca e macilenta, o perfil negro e esguio, a<br \/>\n    voz fina e vibrante davam aquele vulto certa apar&ecirc;ncia majestosa e pat&eacute;tica.<br \/>\n    O que sobressaia nele, cercando-o de uma como virtude misteriosa e fatal,<br \/>\n    era o animo terso, a temeridade a modo de barbara, a f&eacute; passiva e animal<br \/>\n    que o fizera levantar-se diante das balas inimigas, que em torno de se cortavam<br \/>\n    o fio de muitas vidas. Esse vulto, esse espectro, esse animo que excedia a<br \/>\n    medida humana, era um membro da Companhia-de-Jesus. Era o padre Henrique Celini.<br \/>\n    Fora mandado expressamente do Recife para pregar contra os nobres e a favor<br \/>\n    dos mercadores. Seu nome devia figurar depois na carta monitoria em que o<br \/>\n    bispo cometia ao Padre Manoel Lopes todas as necess&aacute;rias faculdades<br \/>\n    a fim de que &lsquo;notificasse certos cl&eacute;rigos para aparecerem em<br \/>\n    sua presen&ccedil;a, e os corrigisse da escandalosa miss&atilde;o de andarem<br \/>\n    seduzindo os &acirc;nimos dos que os ouviam a seguirem por seleta e segura<br \/>\n    a nova doutrina sustentada pelos conjurados do Recife, com a qual agitaram<br \/>\n    o povo e deram tanto abalo a toda a terra.&rsquo; <\/p>\n<p>Apenas ouviu as primeiras palavras do jesu&iacute;ta, o sargento-m&oacute;r<br \/>\n    correu &agrave; sala superior. As balas paraibanas tinham deixado ai tra&ccedil;os<br \/>\n    medonhos. Viam-se nas paredes, por entre superficiais escoria&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    profundos ferimentos. Parte do estuque do teto estava por terra. Das rotulas<br \/>\n    algumas se mostravam despeda&ccedil;adas, outras com imensos rombos por onde<br \/>\n    do p&aacute;tio se via grande parte do que se fazia na sala. A frente da casa<br \/>\n    poder-se-ia comparar com a careta de um homem vesgo e desdentado. <\/p>\n<p>D. Damiana, de p&eacute; por tr&aacute;s de uma das rotulas mais destru&iacute;das,<br \/>\n    olhava para o pregador por um dos rombos, no momento em que seu marido entrou<br \/>\n    na sala. As outras mulheres imitavam a senhora-de-engenho das outras janelas.<br \/>\n    Vinde ouvir, Sr. Jo&atilde;o da Cunha, vinde ouvir o pregador &#8211; disse ela.<br \/>\n    Ainda est&aacute; falando ai essa sombra do inferno? Perguntou ele, lan&ccedil;ando<br \/>\n    as vistas para o p&aacute;tio, por cima do ombro da mulher. E rapidamente<br \/>\n    levou ao rosto o clavinote, como quem o queria desfechar sobre aquele novo<br \/>\n    sustentador da desordem e da destrui&ccedil;&atilde;o que aludiam a sua posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o seu poder. <\/p>\n<p>Mas no mesmo instante sentiu-se apertado entre dois bra&ccedil;os fortes,<br \/>\n    roli&ccedil;os e deliciosos. Sentiu uma macia m&atilde;o pegar-lhe do pulso<br \/>\n    e obrig&aacute;-lo a abaixar a arma. Ouviu uma voz terna, aflita, plangente<br \/>\n    pedir-lhe que n&atilde;o atirasse. <\/p>\n<p>N&atilde;o atireis, n&atilde;o atireis, Sr. Jo&atilde;o da Cunha, sobre o<br \/>\n    padre. Seria um grande pecado. Atreveis-vos a dizer-me estas palavras, senhora?<br \/>\n    exclamou o fidalgo. O que ali est&aacute; n&atilde;o &eacute; um padre, um<br \/>\n    ministro de Deus. &Eacute; o espirito de Satan&aacute;s. &Eacute; um perverso<br \/>\n    que deve cair atravessado por uma bala. Pe&ccedil;o-vos tamb&eacute;m eu que<br \/>\n    n&atilde;o atireis, seu sargento-m&oacute;r &#8211; disse-lhe outra voz ao p&eacute;<br \/>\n    de si. Jo&atilde;o da Cunha voltou-se e deu de face com Marcelina, que dava<br \/>\n    mostras de quem ia ajoelhar-se. Alongando os olhos algum tanto mais, viu todas<br \/>\n    as mulatas na mesma atitude, acusando sua fisionomia os mesmos sentimentos<br \/>\n    manifestados pela senhora-de-engenho e pela cabocla. A forte guarni&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que at&eacute; aquele momento mantivera nutrido e mort&iacute;fero fogo sobre<br \/>\n    os invasores; desamparava as posi&ccedil;&otilde;es, abaixava as armas &agrave;<br \/>\n    voz de um padre; e quando ele trovejava contra elas pr&oacute;prias, corriam<br \/>\n    medrosas a impedir, com suplicas e prantos, que lhe tirassem a vida. <\/p>\n<p>O jesu&iacute;ta entretanto prosseguia assim a sua terr&iacute;vel jacula&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Atirastes sobre a cruz do redentor. Estais por isso condenadas &agrave;s<br \/>\n    profundas dos infernos. Suspendei, suspendei, filha de Satan&aacute;s, a vossa<br \/>\n    impiedade. A maldi&ccedil;&atilde;o de Deus pesar&aacute; eternamente sobre<br \/>\n    v&oacute;s, se ousardes levantar ainda armas infernais para o lado onde est&aacute;<br \/>\n    o s&iacute;mbolo da f&eacute; e da religi&atilde;o cat&oacute;lica. Batei<br \/>\n    nas faces, mulheres &iacute;mpias. Pedi miseric&oacute;rdia a Deus. Miseric&oacute;rdia!<br \/>\n    Miseric&oacute;rdia! Exclamaram irresistivelmente todas as mulheres presentes.<br \/>\n    E suas m&atilde;os ainda quentes dos canos das armas, flagelaram, a modo de<br \/>\n    impelidas por oculta e fatal for&ccedil;a, as faces h&aacute; pouco afogueadas,<br \/>\n    agora p&aacute;lidas, sen&atilde;o l&iacute;vidas. <\/p>\n<p>Um dos tra&ccedil;os caracter&iacute;sticos daqueles tempos era a f&eacute;<br \/>\n    cega no padre e na sua doutrina. O sentimento religioso confundia-se com a<br \/>\n    supersti&ccedil;&atilde;o e dela recebia a influencia que ainda em nossos<br \/>\n    dias alenta no lar do rico e do pobre, do pequeno e do grande, cren&ccedil;as<br \/>\n    delet&eacute;rias e h&aacute;bitos fatalissimos. D. Damiana, educada no seio<br \/>\n    da fam&iacute;lia cat&oacute;lica, ao paladar da f&eacute; antiga &#8211; misto<br \/>\n    de sombra e luz, como a nuvem que no deserto guiava o povo de Israel &#8211; sentia-se<br \/>\n    fraca diante do sacerdote, n&atilde;o obstante ter-se mostrado um momento<br \/>\n    antes brava, sen&atilde;o temer&aacute;ria, diante das for&ccedil;as e das<br \/>\n    armas rebeldes, porque ela estava acostumada a ver no padre o representante<br \/>\n    de Deus na terra; a considerar suas palavras como senten&ccedil;as do c&oacute;digo<br \/>\n    divino. <\/p>\n<p>Mas o sargento-m&oacute;r, que j&aacute; n&atilde;o pensava assim, ergueu<br \/>\n    o clavinote e disparou-o. A bala foi bater nos p&eacute;s da cruz, e arrancar<br \/>\n    uma lasca de pedra. No mesmo instante uma fila de sangue vivo escorre do lugar<br \/>\n    onde a bala deixara profunda e alongada ferida. Viram todos o sangue descer<br \/>\n    pela pedra. Era o do padre Henrique, cujo corpo ca&iacute;ra traspassado aos<br \/>\n    p&eacute;s do cruzeiro. <\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus, que horror! Exclamou d. Damiana. Estamos perdidos. Deus n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; de ser mais por n&oacute;s. <\/p>\n<p>E inclinou sobre as m&atilde;os, pequenas de mais para ocultarem o horror<br \/>\n    que lhe vinha do intimo, o rosto desfigurado e abatido. <\/p>\n<p>O senhor-de-engenho, como se sua pr&oacute;pria obre tivesse excedido a medida<br \/>\n    da sua inten&ccedil;&atilde;o, teve por momentos os olhos, pasmos e desvairados,<br \/>\n    sobre o tra&ccedil;o vermelho que descrevera um como hier&oacute;glifo ou<br \/>\n    s&iacute;mbolo infernal na pedra secular do s&iacute;mbolo santo. <\/p>\n<p>Nesse momento diziam da rua: <\/p>\n<p>&#8211; O tiro, que o matou, veio do sobrado onde est&atilde;o a mulher e as negras<br \/>\n    do malvado. Sim, sim, veio de cima; veio. <\/p>\n<p>&#8211; Foi a escopeteira que atirou. <\/p>\n<p>&#8211; Foi ela, foi ela. Morra a escopeteira! <\/p>\n<p>&#8211; Morra, morra. Ao sobrado, ao sobrado! Gritaram os frades em torno do cad&aacute;ver<br \/>\n    do jesu&iacute;ta. Ao sobrado! respondeu a multid&atilde;o.<\/p>\n<p>XXVII<\/p>\n<p>O sobrado foi fortemente atacado, mas &agrave; for&ccedil;a exterior opuseram<br \/>\n    os que estavam dentro dele her&oacute;ica resist&ecirc;ncia, imposs&iacute;vel<br \/>\n    de descrever-se. <\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos momentos os negros, dirigidos por Germano, tinham-se batido<br \/>\n    quais feras. Prometera-lhes o sargento-m&oacute;r a liberdade a todos, e tanto<br \/>\n    bastou para que os guaribas lutassem como se foram le&otilde;es. <\/p>\n<p>Mas Germano devia ser punido da sua perf&iacute;dia. Defendendo a fac&atilde;o<br \/>\n    e a chu&ccedil;o com os parceiros uma das portas que os invasores tinham logrado<br \/>\n    romper, ele ca&iacute;ra traspassado de golpes. Com o sangue e a vida resgatara<br \/>\n    a culpa. <\/p>\n<p>Tanto que considerou perdida a esperan&ccedil;a de salva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o sargento-m&oacute;r pediu a Filipe Cavalcanti e a Luiz Vidal que pusessem<br \/>\n    a salvo sua mulher. <\/p>\n<p>&#8211; E porque n&atilde;o nos salvaremos todos? Inquiriu um deles. Roberto podia<br \/>\n    resistir com os negros que restam, ainda alguns minutos. Teremos tempo de<br \/>\n    ganhar a cavalari&ccedil;a. Tomaremos os animais e ficaremos fora do alcance<br \/>\n    dos malvados. <\/p>\n<p>&#8211; Desamparar a minha casa seria uma covardia, que eu nunca havia de perdoar-me,<br \/>\n    disse o sargento-m&oacute;r. Ide v&oacute;s. Correi, correi, senhores. Salvai-me<br \/>\n    Damiana, e n&atilde;o vos importais comigo. Hei de resistir at&eacute; &agrave;<br \/>\n    minha derradeira. Talvez que nesse entrementes chegue Cosme. <\/p>\n<p>Mal tinha acabado estas palavras que poderiam considerar-se inspiradas pela<br \/>\n    intui&ccedil;&atilde;o do momento final, quando as outras portas que ainda<br \/>\n    estavam de p&eacute;, ca&iacute;ram debaixo do peso dos machados e alavancas<br \/>\n    fortemente vibrados pela turba sedenta de vingan&ccedil;a. Na primeira linha<br \/>\n    dos atacantes viam-se, movendo os terr&iacute;veis instrumentos, diferentes<br \/>\n    frades carmelitas, que assim entendiam dever ressarcir a perda do jesu&iacute;ta.\n  <\/p>\n<p>&Agrave; vista desta cena extrema, n&atilde;o havia mais que hesitar. Os<br \/>\n    dois fidalgos, dois s&oacute;s, porque Jo&atilde;o da Cunha ficava embaixo,<br \/>\n    resistindo ainda, lutando sempre, atiraram-se de escada acima a fim de tentarem<br \/>\n    a fuga, com a senhora-de-engenho, pelos fundos do sobrado, &uacute;nica comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para uns casebres com frente para a Rua-do-meio. Mas qual n&atilde;o foi o<br \/>\n    seu espanto e tristeza, quando se encontraram com as mucamas de d. Damiana<br \/>\n    que, espavoridas e chorosas, corriam de escada abaixo pedindo socorro? <\/p>\n<p>Uma malta, n&atilde;o inferior a cinquenta homens, entrando justamente pela<br \/>\n    parte da casa por onde Felipe e Luiz tencionavam escapar-se, tinha j&aacute;<br \/>\n    tomado o andar superior. A senhora?! Onde est&aacute; a senhora?! perguntaram<br \/>\n    os fidalgos, passados de impaci&ecirc;ncia e afli&ccedil;&atilde;o indescrit&iacute;vel.\n  <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei &#8211; responde uma das escravas. <\/p>\n<p>&#8211; Fugiu, responde outra. <\/p>\n<p>&#8211; Trancou-se por dentro em um quarto, &#8211; acrescenta a terceira. <\/p>\n<p>&#8211; Negras do diabo! exclamou Luiz Vidal. <\/p>\n<p>E atira-se com Felipe, desesperado, agoniado, na dire&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    levava. A indigna&ccedil;&atilde;o e o vexame faiscavam-lhes dos olhos. Mas<br \/>\n    do topo da escada n&atilde;o passaram eles. Parte da multid&atilde;o veio<br \/>\n    ao seu encontro e embargou-lhes o caminho. <\/p>\n<p>&#8211; Afastai-vos miser&aacute;veis! gritou Luiz Vidal. Vou a salvar uma dona<br \/>\n    honrada. Para o lado, vil&otilde;es! Para o lado. <\/p>\n<p>&#8211; A quem vais tu salvar, mazombo infame! perguntou-lhe o sujeito que vinha<br \/>\n    na frente da onda. <\/p>\n<p>Os fidalgos reconheceram o que lhes dirigira este apodo acerbo. Era o Belchior.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Ser&aacute; uma escopeteira? perguntou outro sujeito em quem eles reconheceram<br \/>\n    Manoel Rodrigues &#8211; o taverneiro. <\/p>\n<p>&#8211; A escopeteira! A escopeteira! articulou o terceiro com ares de mofa. Est&aacute;<br \/>\n    nas unhas do nosso comandante, o bravo Antonio Coelho. <\/p>\n<p>Quem assim falava era o alfaiate Manoel Gaudencio. <\/p>\n<p>Coelho, de feito, entrando no sobrado do momento em que de fora ainda se<br \/>\n    pedia o cora&ccedil;&atilde;o, a cabe&ccedil;a de d. Damiana em paga da vida<br \/>\n    do frade, correu &agrave; senhora-de-engenho e disse: <\/p>\n<p>&#8211; Senhora, senhora minha, se n&atilde;o vos entregais em minhas m&atilde;os,<br \/>\n    mata-vos a multid&atilde;o! <\/p>\n<p>E dizer-lhe estas palavras foi o mesmo que tomar pela m&atilde;o a senhora-de-engenho,<br \/>\n    atravessar com ela por entre o seu pr&oacute;prio s&eacute;quito, acomodando<br \/>\n    os mais exaltados e exigentes, com a promessa de que ela pagaria a sua culpa<br \/>\n    &agrave;s justi&ccedil;as, e desaparecer por onde havia entrado na casa do<br \/>\n    sargento-m&oacute;r. <\/p>\n<p>Irritados pelo pouco caso e mofa que mostravam os invasores, os fidalgos<br \/>\n    precipitam-se contra eles, resolutos a abrir caminho por cima de cad&aacute;veres.<br \/>\n    Seus golpes n&atilde;o conseguem mais do que ferir alguns mascates. Acende-se<br \/>\n    logo pronta e terr&iacute;vel repres&aacute;lia. Tomam-nos &agrave;s m&atilde;os,<br \/>\n    arrebatam-lhes as armas, descarregam sobre eles pancadas e cutiladas, assacam-lhes<br \/>\n    mil improp&eacute;rios. <\/p>\n<p>Ent&atilde;o j&aacute; as duas multid&otilde;es, pondo-se em comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pela escada, formavam um s&oacute; corpo, uma como serpente imensa, irrequieta,<br \/>\n    assanhada, que se esfregava pelas paredes, sacudia-se pelas salas, sumia-se<br \/>\n    pelos quartos a dentro, penetrando nos pontos mais secretos da casa do fidalgo,<br \/>\n    enquanto este desarmado, ferido, coberto de bald&otilde;es, via-se com seus<br \/>\n    pr&oacute;prios escravos entre os primeiros cabos da for&ccedil;a de Luiz<br \/>\n    Soares, e era apontado por ele, que n&atilde;o ocultava a sua satisfa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como o seu primeiro trof&eacute;u. <\/p>\n<p>De todas as que estavam na casa de Jo&atilde;o da Cunha, s&oacute; uma pessoa<br \/>\n    pode escapar-se com sua liberdade. Foi Marcelina, que correra, n&atilde;o<br \/>\n    por fugir, sen&atilde;o por acompanhar d. Damiana, no momento em que com ela<br \/>\n    rompia Antonio Coelho por entre os seus partid&aacute;rios. <\/p>\n<p>&#8211; Hei de ir com ela at&eacute; ao infinito! Dizia a cabocla correndo ap&oacute;s<br \/>\n    a senhora-de-engenho. N&atilde;o hei de perder de vista a pobre senhora. Meu<br \/>\n    Deus! Como tudo se mudou! <\/p>\n<p>Mas a Coelho n&atilde;o fazia conta ser acompanhado por essa terr&iacute;vel<br \/>\n    testemunha, e cedo achou um meio de afast&aacute;-la de suas pisadas, por<br \/>\n    mais que a senhora-de-engenho pedisse depois que a deixasse passar. Para penetrar<br \/>\n    no quintal do sobrado, tinha Coelho feito caminho por um dos casebres que<br \/>\n    abriam sobre a Rua-do-meio. O mascate estugou os passos, atravessou o casebre,<br \/>\n    e, quando se achou com sua presa na rua, trancou pelo lado de fora a porta.<br \/>\n    Marcelina n&atilde;o era mulher a quem semelhante obst&aacute;culo cortasse<br \/>\n    a carreira em que ia. Mas quando, desimpedida a sa&iacute;da a poder de esfor&ccedil;o<br \/>\n    e viol&ecirc;ncia, ela passou da outra banda, Coelho e d. Damiana tinham desaparecido.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Pobre senhora! exclamou a cabocla em lagrimas. Que n&atilde;o far&aacute;<br \/>\n    com ela o b&aacute;rbaro? <\/p>\n<p>Seriam ent&atilde;o oito horas da manh&atilde;. O dia, risonho e esplendido,<br \/>\n    apareceu aos olhos da cabocla como a carranca de um malvado. A vira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que brincava com as folhas dos mamoeiros dos quintais, soou a seus ouvidos<br \/>\n    como a amea&ccedil;a de um assassino, o riso infernal de um dem&ocirc;nio.\n  <\/p>\n<p>Marcelina tinha at&eacute; certo ponto raz&atilde;o deixando formar-se em<br \/>\n    seu espirito esta ilus&atilde;o mentirosa. <\/p>\n<p>Era geral o destro&ccedil;o, l&uacute;gubre o espet&aacute;culo que seus<br \/>\n    olhos descobriram na rua. Homens de feia catadura passavam carregados dos<br \/>\n    despojos da noite. Outros agora &eacute; que iam a colher os frutos que sabe<br \/>\n    a pilhagem descobrir no meio do desamparo, e por entre as lagrimas dos aflitos.<br \/>\n    Dos armaz&eacute;ns, onde alguns senhores-de-engenho tinham recolhidos seus<br \/>\n    a&ccedil;ucares, saiam sujeitos maltrapilhos arrastando sacos e caixas, que<br \/>\n    deixavam pelas cal&ccedil;adas rastilhos brancos ou amarelados. V&aacute;rios<br \/>\n    tro&ccedil;os da for&ccedil;a de Luiz Soares, tanto que fora conhecida a vitoria,<br \/>\n    espalhavam-se derrubando as portas de novos armaz&eacute;ns, invadindo as<br \/>\n    casas de fam&iacute;lias afei&ccedil;oadas &agrave; nobreza que tinham fugido<br \/>\n    para pontos desconhecidos, e da&iacute; tirando tudo o que tentava sua cobi&ccedil;a<br \/>\n    e podia aprazer &agrave; sua voracidade. Essas hordas passavam impunemente,<br \/>\n    sem que ningu&eacute;m se atrevesse a ir ao seu encontro; porque os pr&oacute;prios<br \/>\n    grupos que na v&eacute;spera se tinham organizado em favor dos nobres e durante<br \/>\n    a noite haviam sido em muitos pontos obst&aacute;culo ao saque, desfizera-os<br \/>\n    a noticia de que o sobrado do sargento-m&oacute;r, que era como a pra&ccedil;a-forte<br \/>\n    dos nobres, fora tomado pelo partido contrario. A plebe tomara conta da vila<br \/>\n    e levava por diante a sua obra de destrui&ccedil;&atilde;o e rapina. Enfim,<br \/>\n    o que Marcelina tinha diante dos olhos era o saque em toda sua hediondez &#8211;<br \/>\n    o saque, serpente de vasta guela e insond&aacute;vel est&ocirc;mago, que tudo<br \/>\n    engole, viveres, j&oacute;ias, moveis, roupas, e o que n&atilde;o lhe apraz<br \/>\n    ingerir, despeda&ccedil;a, destr&oacute;e, inutiliza, como faz a enchente<br \/>\n    de um grande rio quando inunda um ponto habitado. <\/p>\n<p>Marcelina vagou sem norte, tendo o ju&iacute;zo em quase completa confus&atilde;o,<br \/>\n    pelas ruas cheias de figuras sinistras, e de vozes e ru&iacute;dos ingratos.<br \/>\n    Lembrou-se de Louren&ccedil;o e de Cosme Bezerra. &lsquo;Que ser&aacute; feito<br \/>\n    de meu filho?! Quem sabe o que n&atilde;o lhe ter&aacute; acontecido? E seu<br \/>\n    Cosme que foi buscar gente e nunca mais apareceu?&rsquo; <\/p>\n<p>Estas interroga&ccedil;&otilde;es tinham resposta f&aacute;cil. Cosme, quando<br \/>\n    vinha com os poucos trabalhadores e escravos de Jorge Cavalcanti, encontrou-se<br \/>\n    com o bando de Tunda-Cumbe &#8211; aquele mesmo que saqueara o engenho Bujari, e<br \/>\n    foi batido. Voltou ent&atilde;o, com Jorge Cavalcanti, derrotado e ferido.<br \/>\n    Mas ainda assim dirigira-se ao engenho Jacar&eacute;, a fim de ver se decidia<br \/>\n    o respectivo propriet&aacute;rio, at&eacute; ent&atilde;o indeciso, a tomar<br \/>\n    o partido da nobreza e a vir em auxilio da vila com sua fabrica e agregados.<br \/>\n    Quanto a Louren&ccedil;o, tendo preenchido a comiss&atilde;o que o levar&aacute;<br \/>\n    ao Tanquinho, lembrou-se de correr ao engenho Bujari, a fim de chamar a gente<br \/>\n    que ai ficara. Mal sabia ele o negro drama de que tinha sido teatro a risonha<br \/>\n    propriedade de sargento-m&oacute;r. <\/p>\n<p>Andando sempre sem destino, ora para um lado, ora para o outro, por fugir<br \/>\n    das turbas revoltas que n&atilde;o cessava, em seu frenesi, de botar abaixo<br \/>\n    portas, roubar o que lhe aprazia, despeda&ccedil;ar o que n&atilde;o falava<br \/>\n    &agrave; sua ambi&ccedil;&atilde;o, quando Marcelina deu acordo de se estava<br \/>\n    no oit&atilde;o de uma igreja. Era a da Miseric&oacute;rdia. Seriam nove horas.<br \/>\n    No lugar, como se deserto, passavam com intervalos, maltas de homens, vociferando,<br \/>\n    gritando, muitos deles j&aacute; nos bra&ccedil;os da embriaguez. <\/p>\n<p>De repente, ela viu vir correndo a marche-marche, pela Rua-das-porteiras,<br \/>\n    em procura do oit&atilde;o da igreja, onde ela se sentara, uma longa fileira<br \/>\n    de soldados, os p&eacute;s nus, as cal&ccedil;as arrega&ccedil;adas. Capitaneavam-nos<br \/>\n    dois cavaleiros. <\/p>\n<p>&#8211; Virgem Maria! exclamou ela, tomada de novo horror. Aonde ir&aacute; isso<br \/>\n    parar! Goiana hoje arrasa-se, acaba-se de uma vez. <\/p>\n<p>Supondo que era novo refor&ccedil;o de bandidos, correu a meter-se dentro<br \/>\n    de um fechado de arbustos que havia a um lado do oit&atilde;o. A pobre mulher<br \/>\n    estava possu&iacute;da de terror. Em todos via inimigos. <\/p>\n<p>Abaixou-se quanto pode, e nesta posi&ccedil;&atilde;o ficou im&oacute;vel,<br \/>\n    quieta, rezando baixinho a Magnificat. <\/p>\n<p>Quando estava nisso, passou por junto da moita o bando sempre a correr. N&atilde;o<br \/>\n    falavam. Parecia mudos. Todos corriam apressados. Adiante ia um oficial e<br \/>\n    atr&aacute;s outro, acompanhado de um paisano. Estes tr&ecirc;s vinham a cavalo.\n  <\/p>\n<p>S&uacute;bito uma voz soou aos ouvidos da cabocla. <\/p>\n<p>&#8211; Veja, seu ajudante. Olhe como corre o povo solto l&aacute; embaixo. <\/p>\n<p>&#8211; Estas palavras tinham sido ditas pelo paisano ao militar, apontando o que<br \/>\n    as dissera para o largo das Portas-de-Roma. <\/p>\n<p>&#8211; Elas produziram em Marcelina o efeito de um choque el&eacute;trico. Tinha<br \/>\n    reconhecido a voz de Francisco. <\/p>\n<p>&#8211; Marcelina n&atilde;o se pode Ter mais oculta um s&oacute; instante. Correu<br \/>\n    de dentro dos arbustos, gritando: Francisco, Francisco, foi Nossa-Senhora<br \/>\n    que te botou por aqui. <\/p>\n<p>N&atilde;o se pode descrever o prazer que tomou o matuto. Saltar do cavalo<br \/>\n    abaixo e correr, louco, delirante ao encontro de sua mulher foram atos que<br \/>\n    ele praticou a modo de impelido por uma mola magica. Apertou-a entre os bra&ccedil;os<br \/>\n    extasiado. Por cima de suas barbas que iam pintando, mas ainda negras, desceram-lhe<br \/>\n    duas lagrimas nitentes. Sobre seus l&aacute;bios crestados perpassou sorriso<br \/>\n    de inef&aacute;vel contentamento. <\/p>\n<p>&#8211; Marcelina, meu amor, que andas fazendo por aqui s&oacute;, escondida? Est&aacute;s<br \/>\n    com medo dos mascates, j&aacute; sei. Ah! Marcelina, Deus se lembrou de mim.<br \/>\n    Vim fugindo dos facinorosos. Os mascates est&atilde;o senhores de toda a vila.<br \/>\n    Seu sargento-m&oacute;r, tenho que j&aacute; o mataram. As for&ccedil;as de<br \/>\n    Luiz Soares atacaram o sobrado e levaram tudo a ferro e a fogo. N&oacute;s<br \/>\n    resistimos, mas por fim n&atilde;o pudemos mais, e demos os bra&ccedil;os.\n  <\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; sei de tudo, Marcelina. L&aacute; embaixo soubemos logo do que<br \/>\n    havia. Esta tropa, que est&aacute;s vendo, vem de Itamarac&aacute; por ordem<br \/>\n    do governo de Olinda para acabar com os mascates. Eu vinha fora de mim, minha<br \/>\n    mulher. Nem tu sabes o que fizeram os ladr&otilde;es, ao passarem pelo Cajueiro.<br \/>\n    Que fizeram eles? <\/p>\n<p>&#8211; Queimaram a nossa casa, mulher, a nossa casinha, que nunca lhes fez mal.\n  <\/p>\n<p>A nossa casinha! Que dizes tu, Francisco? Pois esses endemoniados chegaram<br \/>\n    a queimar a nossa moradinha de casa? Oh meu Deus! Cada um havia de Ter sua<br \/>\n    parte nessa desgra&ccedil;a geral?! At&eacute; o nosso suor havia de pagar<br \/>\n    pelos males dos outros?! Mas isso n&atilde;o h&aacute; de ficar assim. Deus<br \/>\n    h&aacute; de castigar esses malvados, essas feras malfazejas! <\/p>\n<p>&#8211; E que novas me d&aacute;s tu de Louren&ccedil;o? <\/p>\n<p>&#8211; Anda ai mesmo pela vila com seu Cosme, lutando com os mascates. Mas a minha<br \/>\n    casa, a minha casinha t&atilde;o bonitinha! Tudo queimado e destru&iacute;do!<br \/>\n    Ah! malvados do inferno! A luz h&aacute; de faltar a voc&ecirc;s na hora da<br \/>\n    morte. <\/p>\n<p>&#8211; E as lagrimas arrasaram os olhos de Marcelina, que tinha nas faces palidez<br \/>\n    mortal, nos olhos a express&atilde;o de profunda e entranh&aacute;vel dor.<br \/>\n    N&atilde;o chores, mulher. Foi-se uma, faz-se outra casa. E a minha caixa<br \/>\n    teria ardido tamb&eacute;m? <\/p>\n<p>&#8211; Qual caixa? <\/p>\n<p>&#8211; A nossa caixa, aquela onde tu guardavas o dinheiro. Se n&atilde;o a tiraste<br \/>\n    antes, ardeu tamb&eacute;m. Tudo l&aacute; estava em cinzas. <\/p>\n<p>&#8211; Ah Louren&ccedil;o, l&aacute; se foi a tua fortuna. Era na caixa que eu<br \/>\n    tinha guardado o papel que me deu seu padre Antonio no momento da despedida.<br \/>\n    Que papel era esse? <\/p>\n<p>Vamos ao Cajueiro, Francisco. Talvez ainda se possa salvar alguma coisa.<br \/>\n    Tem paci&ecirc;ncia. Agora n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel o que queres.<br \/>\n    Vou aqui servindo de guia &agrave; tropa. Mas se queres ir, vai. Aqui te deixo<br \/>\n    o cavalo, coitado! que j&aacute; n&atilde;o pode andar de enfadado. V&ecirc;<br \/>\n    como vais, Marcelina. Se vires algu&eacute;m que te possa ofender, mete-te<br \/>\n    no mato. Eu hei de dar contigo onde estiveres. Vou direitinho &agrave; minha<br \/>\n    casa. Mas antes que me esque&ccedil;a, quero dizer-te uma coisa: v&ecirc;<br \/>\n    se podes descobrir sinh&aacute; d. Damiana que seu Antonio Coelho prendeu<br \/>\n    e levou consigo para entregar &agrave; justi&ccedil;a. Pobre senhora! <\/p>\n<p>Francisco alcan&ccedil;ou logo adiante a tropa, enquanto Marcelina, tendo<br \/>\n    arrega&ccedil;ado as saias, saltara sobre a cangalha e pusera o cavalo para<br \/>\n    tr&aacute;s. <\/p>\n<p>A tropa que Francisco tinha guiado n&atilde;o era sen&atilde;o uma parte<br \/>\n    das for&ccedil;as comandadas pelo ajudante-de-tenente. <\/p>\n<p>Tinha este planejado, antes de entrar na vila, formar um como cerco que avan&ccedil;asse<br \/>\n    das ruas de fora para as de dentro, a fim de apertar e sufocar a insurrei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de modo que ela n&atilde;o tivesse por onde escapar. <\/p>\n<p>Obedecendo a este intuito, Gil Ribeiro dividiu as for&ccedil;as em duas colunas,<br \/>\n    e, ficando com a mais forte, entregou o comando da outra ao ajudante Filipe<br \/>\n    Bandeira com o alferes Carlos Teixeira. Ele fez a sua entrada pelo lado do<br \/>\n    ocidente, e um quarto de hora depois entrava no P&aacute;tio-do-Carmo pelo<br \/>\n    lado do rio. Ao mesmo tempo a coluna comandada pelo ajudante Filipe Bandeira,<br \/>\n    e habilmente encaminhada por Francisco, desembocava ai pelo Beco-do-limoeiro.<br \/>\n    As for&ccedil;as inimigas estavam ainda no P&aacute;tio-do-Carmo, tendo &agrave;<br \/>\n    sua frente Luiz Soares, Gon&ccedil;alo Ferreira, e os mais importantes mascates,<br \/>\n    seus parciais. <\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Cunha, Luiz Vidal e Filipe Cavalcanti, eram conduzidos &agrave;<br \/>\n    cadeia por Jeronimo Paes no momento em que as duas colunas desembocaram no<br \/>\n    p&aacute;tio. Eles deviam ficar ali ocupando o lugar dos criminosos que a<br \/>\n    multid&atilde;o ainda n&atilde;o tinha podido soltar, em conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    da tenaz resist&ecirc;ncia de Antonio Rabelo. A demais nobreza, menos Cosme<br \/>\n    Bezerra, Jorge Cavalcanti e Manoel de Lacerda que j&aacute; se achavam de<br \/>\n    volta novamente &agrave; vila para bater os invasores, tinha fugido para o<br \/>\n    mato. Todavia Gil encontrou j&aacute; uma nova rea&ccedil;&atilde;o principiada<br \/>\n    contra os amotinados. Grande numero de cidad&atilde;os pac&iacute;ficos, indignados<br \/>\n    com a cena do saque, tinham-se armado, e come&ccedil;avam a bater os que continuavam<br \/>\n    a pratic&aacute;-lo. De sorte que alguns pontos, por onde passaram as duas<br \/>\n    colunas, as receberam com vivas demonstra&ccedil;&otilde;es de contentamento.\n  <\/p>\n<p>Enfim, seriam dez horas da manh&atilde; quando o ajudante-de-tenente atacou<br \/>\n    os revoltosos. O povo &eacute; v&aacute;rio como as ondas. N&atilde;o foi<br \/>\n    preciso muito para que, operando-se o quase fatal reviramento, logo se declarasse<br \/>\n    pelos vencidos. <\/p>\n<p>Rompeu viv&iacute;ssimo fogo de uma parte sobre a outra. Mas os matutos bisonhos,<br \/>\n    cansados e quase famintos que constitu&iacute;am as for&ccedil;as de Luiz<br \/>\n    Soares, n&atilde;o podiam resistir por muito tempo &agrave;s for&ccedil;as<br \/>\n    frescas, adestradas no manejo das armas e impacientes por darem tremenda li&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que trazia Gil. <\/p>\n<p>Luiz Soares, em pouco tempo convencendo-se de que a sua estrela atingia o<br \/>\n    ocaso, tratou da retirada. <\/p>\n<p>Esta operou-se por dentro do pr&oacute;prio convento do Carmo. Os frades,<br \/>\n    ainda desta vez com as armas nas m&atilde;os, protegeram a causa dos estrangeiros.\n  <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o foi pequeno o numero dos mortos e feridos que deixavam os<br \/>\n    que fugiam com medo de sua pr&oacute;pria sombra. <\/p>\n<p>No mais aceso do combate, Francisco correra a soltar os tr&ecirc;s fidalgos<br \/>\n    que eram conduzidos por um tro&ccedil;o dirigido por Jeronimo Paes e seus<br \/>\n    tr&ecirc;s filhos. <\/p>\n<p>&#8211; Eu nunca matei ningu&eacute;m, meus senhores &#8211; disse Francisco ao bando.<br \/>\n    Mas para salvar esses homens, mato e morro; fa&ccedil;o tudo, contanto que<br \/>\n    lhes de a liberdade. <\/p>\n<p>Miguel, ouvindo estas palavras decisivas, partiu contra ele com o fac&atilde;o,<br \/>\n    e Victor imitou-o. A esse momento estavam j&aacute; com o matuto algumas pessoas<br \/>\n    de Goiana, que descarregaram terr&iacute;veis golpes sobre os agressores.<br \/>\n    Aproveitando a confus&atilde;o, Francisco consegue chegar-se aos prisioneiros<br \/>\n    e cortar-lhes as cordas que lhes prendiam os pulsos. A um d&aacute; o fac&atilde;o,<br \/>\n    a outro a arma de fogo. Ent&atilde;o eles investem terrivelmente. Pareciam<br \/>\n    feras soltas das jaulas. Em poucos instantes Jeronimo cai como morto; tinha<br \/>\n    sido alvo de golpes tremendos a que n&atilde;o pode resistir. Os filhos, por&eacute;m,<br \/>\n    ainda que feridos, levantam o procurador do povo (Jeronimo Paes dava-se esta<br \/>\n    denomina&ccedil;&atilde;o) e fogem com ele. Jo&atilde;o da Cunha quer persegui-los,<br \/>\n    mas de repente para, como se o mundo lhe desabara aos p&eacute;s, tanto que<br \/>\n    ouviu estas vozes de Francisco: <\/p>\n<p>&#8211; Seu sargento-m&oacute;r, os mascates est&atilde;o vencidos. Mas o principal<br \/>\n    para n&oacute;s est&aacute; ainda por fazer. Sinh&aacute; d. Damiana. <\/p>\n<p>&#8211; E que &eacute; feito da senhora d. Damiana? <\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; feito? Est&aacute; no poder do principal dos mascates. Quem?<br \/>\n    Antonio Coelho? <\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor. <\/p>\n<p>&#8211; Oh! n&atilde;o me digas isto, Francisco. E eu ainda aqui. vamos, corramos.<br \/>\n    Mas aonde iremos? Para onde correremos?! <\/p>\n<p>Para a casa do mascate. Correram os fidalgos e o matuto como loucos pela<br \/>\n    rua afora. Jo&atilde;o da Cunha levava o inferno no cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Aquela triste nova dava-lhe a esgotar as fezes do c&aacute;lix de amargura<br \/>\n    que bebia desde a v&eacute;spera. Em toda a sua vida nunca sentira t&atilde;o<br \/>\n    profunda, t&atilde;o desumana dor penetrar-lhe a alma. <\/p>\n<p>Todas as portas, tanto as inferiores como as superiores, estavam hermeticamente<br \/>\n    fechadas. Do lado de dentro o silencio era profundo. Tudo indicava que na<br \/>\n    casa n&atilde;o havia viva alma. <\/p>\n<p>A Jo&atilde;o da Cunha, perdido em cogita&ccedil;&otilde;es e incertezas,<br \/>\n    s&oacute; faltava desesperar. <\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus, meu Deus, que hei de fazer? Onde irei descobrir o infame? Onde<br \/>\n    irei achar minha infeliz mulher? <\/p>\n<p>Estiveram um momento curtindo silenciosos, de p&eacute;, a modo de privados<br \/>\n    do exerc&iacute;cio da raz&atilde;o, aquela angustia sem nome. <\/p>\n<p>S&uacute;bito uma detona&ccedil;&atilde;o, que parecia partir do interior<br \/>\n    do sobrado, veio ressoar do lado de fora. <\/p>\n<p>&#8211; Est&atilde;o ai, est&atilde;o dentro. Matou-a o malvado, exclamou o sargento-m&oacute;r.<br \/>\n    Adivinho tudo. Quis violent&aacute;-la, ela resistiu e ele matou-a. Mas eu<br \/>\n    o matarei tamb&eacute;m. Matarei o vil&atilde;o. <\/p>\n<p>L&iacute;vidos, como cad&aacute;veres, atiraram-se &agrave; porta que lhes<br \/>\n    pareceu menos resistente. A coices de arcabuz, conseguem met&ecirc;-la dentro.<br \/>\n    Voam de escadas acima como quatro sombras, quatro espectros fant&aacute;sticos.<br \/>\n    A claridade do dia chegava ao interior da casa como luz crepuscular; mas aos<br \/>\n    olhos deles o que se apresentava eram trevas profundas. Francisco foi o primeiro<br \/>\n    que abriu uma das portas, e Jo&atilde;o da Cunha o que se atirou para o interior<br \/>\n    da casa, que n&atilde;o conhecia. O cheiro da p&oacute;lvora e a nuvem de<br \/>\n    fuma ainda ondulante indicaram a dire&ccedil;&atilde;o que eles deviam tomar.<br \/>\n    Chegam enfim ao dormit&oacute;rio do negociante. Uma voz enfraquecida fez<br \/>\n    ouvir ent&atilde;o estas palavras: <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me matem, n&atilde;o me matem. <\/p>\n<p>Aos p&eacute;s do leito havia um vulto sentado e outro estendido. <\/p>\n<p>&#8211; Por Nosso-Senhor-Jesus-Cristo, n&atilde;o acabem comigo. <\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute;s tu, miser&aacute;vel? Perguntou o sargento-m&oacute;r. <\/p>\n<p>&#8211; Era Bartolomeu, o barcaceiro. Contou tudo. Tinha estado na v&eacute;spera<br \/>\n    com o negociante. Tinha concertado esperar por ele na Borboleta; mas tendo<br \/>\n    visto os dobr&otilde;es que o negociante inadvertidamente lhe mostrara, projetou<br \/>\n    logo apossar-se deles furtivamente. Esteve na barca&ccedil;a at&eacute; a<br \/>\n    hora em que a sorte pareceu ser pelas armas dos mascates; mas tanto que soube<br \/>\n    da entrada da tropa do governo, correu ao sobrado, calculando que Coelho seria<br \/>\n    morto, ou ao menos preso. Chegando ai, fechou-se por dentro para afastar qualquer<br \/>\n    suspeita, e for&ccedil;ou a burra. Quando a tampa cedeu &agrave; viol&ecirc;ncia,<br \/>\n    um tiro partiu de dentro, e o feriu acima do ventre. Era o tiro que eles tinham<br \/>\n    ouvido. Em v&atilde;o procurou o dinheiro que o tinha tentado. O que encontrou<br \/>\n    foi uma pistola presa ao cofre por oculto aparelho, ali posto intencionalmente<br \/>\n    para a fazer disparar sobre quem o violasse. E a Borboleta?<\/p>\n<p>Deve de estar ainda no porto &agrave; minha espera. Os quatro amigos atiraram-se<br \/>\n    imediatamente fora do aposento e ganharam a rua em violenta carreira para<br \/>\n    o porto.<\/p>\n<h2><a name=\"28\">Cap&iacute;tulo XXVIII<\/a><\/h2>\n<p>A enormidade e a imin&ecirc;ncia do perigo abateram o grande animo da senhora-de-engenho,<br \/>\n    a qual, percebendo levantar-se diante de seus olhos o vulto horripilante da<br \/>\n    morte, n&atilde;o escolheu meios de fugir a esta f&uacute;nebre vis&atilde;o,<br \/>\n    e deixou-se arrastar sem resist&ecirc;ncia e como sem consci&ecirc;ncia pelo<br \/>\n    mercador. <\/p>\n<p>De feito, ela ouvira centenas de vozes pedir do lado de fora a sua cabe&ccedil;a<br \/>\n    em resgate do crime que fora ali&aacute;s praticado por seu marido; vira a<br \/>\n    casa tomada pelos amotinados, resolutos a n&atilde;o terem para ningu&eacute;m,<br \/>\n    e muito menos para ela, se n&atilde;o fosse o negociante, a menor contempla&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    conhecera enfim que sua vida, posto que &agrave; sombra da prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dele, n&atilde;o se podia considerar ainda de todo segura. Ent&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    hesitou, n&atilde;o refletiu. Pegou da m&atilde;o que se lhe estendia. O instinto<br \/>\n    da pr&oacute;pria conserva&ccedil;&atilde;o imp&otilde;e-se como uma fatalidade.<br \/>\n    D. Damiana n&atilde;o podia mostrar-se superior a essa lei absoluta e impreter&iacute;vel.\n  <\/p>\n<p>Para Coelho a crise tinha chegado &agrave; solu&ccedil;&atilde;o natural<br \/>\n    e &uacute;nica. Jo&atilde;o da Cunha, uma vez nas m&atilde;os dos inimigos,<br \/>\n    n&atilde;o haveria sair delas com vida. E o homic&iacute;dio, previsto pelo<br \/>\n    mercador, n&atilde;o esteve longe de ser cometido nos primeiros momentos depois<br \/>\n    da pris&atilde;o do senhor-de-engenho; mas interp&ocirc;s-se uma circunstancia,<br \/>\n    menos filha do acaso do que da clem&ecirc;ncia com que o c&eacute;u quis vir<br \/>\n    a seu socorro. Os filhos de Jeronimo Paes assentaram n&atilde;o lhe tirar<br \/>\n    a vida sen&atilde;o depois de perdida a esperan&ccedil;a de um resgate em<br \/>\n    dinheiro, por ent&atilde;o muito em voga. <\/p>\n<p>Coelho n&atilde;o pensou mais sen&atilde;o em efetuar a sua viagem para o<br \/>\n    Recife. Ai esperaria a ultima palavra dos acontecimentos, que para ele n&atilde;o<br \/>\n    era duvidosa. Ai realizaria o seu sonho. Mas para que este resultado n&atilde;o<br \/>\n    estivesse sujeito ao m&iacute;nimo contraste, urgia deixar Goiana. Demais,<br \/>\n    as turbas achavam-se exacerbadas e podiam ter o capricho feroz de preencher<br \/>\n    a sua vingan&ccedil;a derramando o sangue de infeliz senhora. enfim, apresentando-se<br \/>\n    todas estas id&eacute;ias ao espirito do negociante, correu ele &agrave; casa,<br \/>\n    meteu em se todo o ouro que tinha em segredo no cofre, e dizendo a d. Damiana<br \/>\n    que a ia recolher em lugar onde o povo n&atilde;o pudesse suspeitar seu homizio,<br \/>\n    encaminhou-se com ela em direitura para a Rua-do-rio. <\/p>\n<p>D. Damiana n&atilde;o votava desafei&ccedil;&atilde;o a Coelho. Ele tinha<br \/>\n    sido, por assim escrevermos, seu companheiro de inf&acirc;ncia, e tanto bastava<br \/>\n    para que a seus olhos o jovem europeu n&atilde;o aparecesse sen&atilde;o como<br \/>\n    um amigo, ou um irm&atilde;o. &Eacute; verdade que, mais tarde, distancia<br \/>\n    maior se estendera entre eles dois, filha da desigualdade de condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que naqueles tempos tanto predominava nas rela&ccedil;&otilde;es sociais e<br \/>\n    de fam&iacute;lia. Mas as tradi&ccedil;&otilde;es da primeira idade, que,<br \/>\n    como os hier&oacute;glifos dos eg&iacute;pcios e os caracteres cuneiformes<br \/>\n    dos persas, que tem atravessado as eras e dizem id&eacute;ias t&atilde;o duradouras<br \/>\n    como as pedras em que existem entalhados, n&atilde;o se apagam, sen&atilde;o<br \/>\n    com a morte, da imagina&ccedil;&atilde;o ou, melhor, do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    onde se gravaram e donde dizem a todo tempo a sua muda e eloq&uuml;ente linguagem,<br \/>\n    essas tradi&ccedil;&otilde;es extintas e sempre vivas prendiam irresistivelmente<br \/>\n    a gentil senhora-de-engenho, pelo passado, ao jovem portugu&ecirc;s, como<br \/>\n    na escritura comum, o tra&ccedil;o de uni&atilde;o liga o verbo com o pronome,<br \/>\n    e de duas vozes diferentes faz uma s&oacute;. <\/p>\n<p>Em sua consci&ecirc;ncia mais de uma vez protestou contra certas manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do desd&eacute;m de Jo&atilde;o da Cunha para com o negociante; e, conquanto,<br \/>\n    melhor do que ningu&eacute;m, ajuizasse da profundeza do abismo que entre<br \/>\n    eles cavara a fatalidade, nem por isso negava a Coelho certas aten&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    aquelas que, pela pr&oacute;pria fidalguia dos seus sentimentos, entendia<br \/>\n    que devia ter para o antigo amigo da casa. Nunca deixou sem retribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    os cumprimentos e as sauda&ccedil;&otilde;es do mercador, nem lhe recusou<br \/>\n    falas respeitosas, por ocasi&atilde;o de se encontrarem. Seu natural espirito<br \/>\n    de justi&ccedil;a levava-a at&eacute; a justificar os profundos ressentimentos<br \/>\n    de Coelho, quando compreendeu a verdadeira causa deles. &lsquo; Ele cuidava<br \/>\n    &#8211; dizia d. Damiana consigo mesma &#8211; ele cuidava que poderia casar comigo. Julgava<br \/>\n    que, tendo entrada em nossas rela&ccedil;&otilde;es, estava habilitado para<br \/>\n    prender-se &agrave; fam&iacute;lia por la&ccedil;os que s&oacute; o parentesco<br \/>\n    e a igualdade de condi&ccedil;&atilde;o podem criar. &lsquo; <\/p>\n<p>Tais eram as id&eacute;ias e os sentimentos de d. Damiana. Por isso, sentindo<br \/>\n    a gravidade do momento, ela n&atilde;o escrupulisou acompanhar o negociante,<br \/>\n    &uacute;nica t&aacute;bua de salva&ccedil;&atilde;o que nos cruzados mares<br \/>\n    da s&uacute;bita adversidade lhe aparecia como instrumento do c&eacute;u.\n  <\/p>\n<p>E antes de passarmos adiante, justo &eacute; que deixemos bem claro este<br \/>\n    ponto essencial da presente narrativa: Coelho n&atilde;o era indigno da confian&ccedil;a<br \/>\n    que, por for&ccedil;a das circunstancias atuais, ou por influencia irresist&iacute;vel<br \/>\n    de circunstancias anteriores e remotas, depositou nele a jovem fidalga. O<br \/>\n    amor que ele lhe consagrava, era sublime e puro; tinha origem imediata no<br \/>\n    sentimento, n&atilde;o nos sentidos. O portugu&ecirc;s estava na flor dos<br \/>\n    anos, e seu car&aacute;ter n&atilde;o se tinha polu&iacute;do ainda no trato<br \/>\n    das rela&ccedil;&otilde;es sociais. Nessa &eacute;poca da vida e com esta<br \/>\n    circunstancia, o amor &eacute; mais do que um sentimento, &eacute; uma virtude.<br \/>\n    Tende sempre a elevar-se, e nunca a rebaixar-se. O negociante amava em d.<br \/>\n    Damiana um ente, uma criatura, um composto de qualidades corporais e imateriais,<br \/>\n    n&atilde;o unicamente uma feitura pl&aacute;stica, uma forma f&iacute;sica,<br \/>\n    n&atilde;o obstante se acharem coligidas nessa forma todas as perfei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que ele sonhava para o seu ideal. Sua aspira&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se<br \/>\n    limitava &agrave; posse do olhar, do sorriso, do carinho dessa criatura; ele<br \/>\n    aspirava, n&atilde;o menos do que a isto, &aacute;s suas perfei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    morais, &agrave; parte imaterial da pessoa humana, a essa por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do ser que n&atilde;o &eacute; a figura corporal, o arredondado dos contornos,<br \/>\n    o donaire do talhe, o aveludado da face e da m&atilde;o, o colorido da c&uacute;tis,<br \/>\n    a vibra&ccedil;&atilde;o da voz, mas, mostrando-se intimamente ligada com<br \/>\n    todas estas prendas n&atilde;o se confunde com elas, e sem se deixar ver,<br \/>\n    porque n&atilde;o &eacute; vis&iacute;vel, deixa-se adivinhar, conhecer, sentir<br \/>\n    na bondade, na dedica&ccedil;&atilde;o, na conformidade com o sentir da pessoa<br \/>\n    que lhe &eacute; id&ecirc;ntica nas inclina&ccedil;&otilde;es, nos gostos,<br \/>\n    no estado espiritual que lhes &eacute; comum. <\/p>\n<p>Certamente ele imaginava ser feliz ao lado dessa exist&ecirc;ncia seleta,<br \/>\n    dessa alma que constitu&iacute;a a ess&ecirc;ncia dos seus desejos, das suas<br \/>\n    vaidades, do seu nobre orgulho; mas essa felicidade ele nunca a imaginou de<br \/>\n    outra forma. Por isso, tanto que viu entre suas m&atilde;os o tesouro longamente<br \/>\n    apetecido, a &uacute;nica id&eacute;ia que lhe passou pela mente foi a de<br \/>\n    que cessara enfim o seu tormento e come&ccedil;ara, pelo gozo dos bens sonhados,<br \/>\n    o resgate dos males curtidos; a id&eacute;ia de, prevalecendo-se das circunstancias,<br \/>\n    sujeitar o ente querido e alcan&ccedil;ado ao papel de instrumento de paix&otilde;es<br \/>\n    menos dignas, essa ele n&atilde;o a teve ent&atilde;o, porque n&atilde;o a<br \/>\n    tivera nunca. No cora&ccedil;&atilde;o do jovem portugu&ecirc;s havia o afeto<br \/>\n    generoso do amante, n&atilde;o os ardores animais do barreg&atilde;o. <\/p>\n<p>Cortando pelas ruas exteriores, dando rodeios, atravessando becos desertos,<br \/>\n    Coelho chegou com a senhora-de-engenho ao embarcadouro. A Borboleta era a<br \/>\n    &uacute;nica embarca&ccedil;&atilde;o surta no rio. <\/p>\n<p>Como a revolta se concentrara, deste lado a vila aparecia quase deserta.<br \/>\n    O dia estava em seu come&ccedil;o, mas assim as casas de morada como as de<br \/>\n    negocio mostravam-se fechadas; e s&oacute; por intervalos passavam pela frente<br \/>\n    delas os magotes que andavam exercitando o ign&oacute;bil oficio da rapina.<br \/>\n    Vamos embarcar, senhora &#8211; disse Coelho, descendo a margem, onde ent&atilde;o<br \/>\n    se viam grandes mangues de basta e estendida folhagem. <\/p>\n<p>&#8211; Embarcar? inquiriu a senhora-de-engenho, n&atilde;o sem surpresa. Embarcar<br \/>\n    para onde, Sr. Coelho? <\/p>\n<p>&#8211; Senhora, o momento &eacute; grave, e n&atilde;o me d&aacute; lugar a refletir<br \/>\n    sobre a escolha do porto de salvamento. Correremos &aacute; merc&ecirc; das<br \/>\n    &aacute;guas e dos ventos, e, uma vez longe dos perigos que vos amea&ccedil;am,<br \/>\n    pensaremos ent&atilde;o com serenidade sobre esse objeto. <\/p>\n<p>&#8211; Que estais dizendo? tornou d. Damiana, mais p&aacute;lida, e porventura<br \/>\n    mais abalada do que estava antes. <\/p>\n<p>Talvez s&oacute; nesse momento a sua desgra&ccedil;a se lhe desenhou tal<br \/>\n    qual era na imagina&ccedil;&atilde;o, at&eacute; ent&atilde;o tolhida e obscurecida<br \/>\n    pelo terror que, por mais pr&oacute;ximo da morte, devera ser maior e mais<br \/>\n    intenso. <\/p>\n<p>&#8211; Tencionais ent&atilde;o levar-me para fora de Goiana? perguntou ela, com<br \/>\n    tremula e quase chorosa voz. <\/p>\n<p>&#8211; Certamente, minha senhora, certamente. Goiana neste momento tem para v&oacute;s<br \/>\n    sentimentos de madrasta, n&atilde;o de m&atilde;e. N&atilde;o ouvis aqueles<br \/>\n    tiros, aqueles ru&iacute;dos sinistros, aquele vozear confuso e medonho? Eles<br \/>\n    indicam que o povo &eacute; o triunfador, que os mascates est&atilde;o senhores<br \/>\n    da vila&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; sei, j&aacute; sei tudo isto &#8211; interrompeu ela freneticamente.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem. O povo &eacute; exigente, e vinga-se neste momento dos nobres.<br \/>\n    Vosso marido, senhora minha, deve j&aacute; ter acabado &agrave;s m&atilde;os<br \/>\n    dos populares. Pois se ele acabou, acabarei tant&eacute;m eu &#8211; disse a senhor-de-engenho<br \/>\n    solu&ccedil;ando.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, isso nunca. J&aacute; n&atilde;o pertenceis nem a v&oacute;s,<br \/>\n    nem a ele, observou Coelho.<\/p>\n<p>&#8211; E a quem perten&ccedil;o ent&atilde;o? perguntou ela com altivez. <\/p>\n<p>&#8211; O destino confiou a mim a vossa guarda, e hei de salvar-vos, ainda que<br \/>\n    a troco do meu sangue. <\/p>\n<p>Sem meu marido, senhor, n&atilde;o quero a vida. Senhora d. Damiana! exclamou<br \/>\n    Coelho com entranh&aacute;vel amargura que lhe estalara nos l&aacute;bios<br \/>\n    como se fora ves&iacute;cula de fel. <\/p>\n<p>&Eacute; o que vos digo, Sr. Coelho &#8211; repetiu a gentil senhora com a firmeza<br \/>\n    que indica as profundas convic&ccedil;&otilde;es. S&oacute; agora, continuou<br \/>\n    ela, s&oacute; agora compreendo todo o horror da minha situa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Porque fugi eu? Porque n&atilde;o me deixei matar pelo povo, ao lado de meu<br \/>\n    marido? <\/p>\n<p>&#8211; Porque a sorte tinha j&aacute; assentado que v&oacute;s dev&iacute;eis<br \/>\n    sobreviver a ele, talvez para completar uma exist&ecirc;ncia que vegeta entre<br \/>\n    as luzes e as sombras do mundo, sem experimentar outras impress&otilde;es<br \/>\n    que n&atilde;o sejam as que as sombras, n&atilde;o as luzes, despertam &#8211; respondeu<br \/>\n    o jovem negociante em tom sentido. Mas para que falais ainda &#8211; continuou logo,<br \/>\n    como quem se reanimava ao calor de uma inspira&ccedil;&atilde;o s&uacute;bita<br \/>\n    &#8211; para que falais ainda em &#8211; uma exist&ecirc;ncia que j&aacute; deve pertencer<br \/>\n    ao passado? A esta hora, senhora minha, deveis estar viuva, isto &eacute;,<br \/>\n    livre. <\/p>\n<p>&#8211; Sois cruel, Sr. Coelho! &#8211; retorquiu com voz amargurada a mulher do sargento-m&oacute;r.<br \/>\n    Porque trazeis ao meu espirito este f&uacute;nebre pensamento? Houve um momento<br \/>\n    na minha vida em que cheguei a supor que em vosso cora&ccedil;&atilde;o existia<br \/>\n    um sentimento fidalgo. <\/p>\n<p>&#8211; Que quereis dizer, Sra. d. Damiana? interrogou o negociante. <\/p>\n<p>Que pensei que, n&atilde;o obstante o rancor que tendes ao Sr. Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha, e que v&oacute;s explicais atribuindo-o &agrave; contrariedade de<br \/>\n    certo afeto que vos inspirei, n&atilde;o hesitar&iacute;eis um s&oacute; momento<br \/>\n    em salvardes do acabamento o objeto desse rancor, se a salva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dependesse de v&oacute;s e eu vo-la lembrasse com as lagrimas nos olhos, como<br \/>\n    agora fa&ccedil;o. Vejo, por&eacute;m, Sr. Coelho, que o vosso &oacute;dio<br \/>\n    &eacute; maior do que o vosso amor, e que s&oacute; a minha desgra&ccedil;a,<br \/>\n    esta sim n&atilde;o tem medida nem limite na terra. <\/p>\n<p>&#8211; Pens&aacute;veis ent&atilde;o, senhora&#8230; &#8211; retrucou o portugu&ecirc;s<br \/>\n    &#8211; Que pens&aacute;veis v&oacute;s? Dizei francamente a vossa id&eacute;ia.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Ah! Quereis ouvir-me? Pois bem, senhor, escutai. O que eu pensava era muito<br \/>\n    natural, e n&atilde;o era impr&oacute;prio de v&oacute;s nem de mim. Pensava<br \/>\n    que, em vez dos sentimentos ferozes que tendes mais de uma vez manifestado,<br \/>\n    dever&iacute;eis ter para meu marido antes benevol&ecirc;ncia e aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    respeitosas. <\/p>\n<p>&#8211; Esqueceis, Sra. d. Damiana, que nenhum homem que se prezasse dignamente,<br \/>\n    beijaria jamais a m&atilde;o do algoz que lhe houvesse afogado as mais caras<br \/>\n    esperan&ccedil;as, que lhe tivesse destru&iacute;do uma felicidade irrepar&aacute;vel.\n  <\/p>\n<p>&#8211; V&oacute;s &eacute; que esqueceis, Sr. Coelho, o passado que dev&iacute;eis<br \/>\n    ter bem presente na mem&oacute;ria. A meu marido deveis, n&atilde;o a desgra&ccedil;a,<br \/>\n    mas a posi&ccedil;&atilde;o de que soubestes fazer-vos digno. Sua m&atilde;o<br \/>\n    generosa e amiga indicou-vos o caminho para a vossa independ&ecirc;ncia. Por<br \/>\n    muito tempo n&atilde;o tivestes nesta vila outra prote&ccedil;&atilde;o, outro<br \/>\n    amparo, outro pai al&eacute;m de Jo&atilde;o da Cunha. A vossa entrada nas<br \/>\n    primeiras casas, a estima que para v&oacute;s tiveram os mais ricos e os mais<br \/>\n    nobres de Goiana, a quem as devestes principalmente, Sr. Coelho, quando &eacute;reis<br \/>\n    sem rela&ccedil;&otilde;es, sem nome, e sem haveres? N&atilde;o vos lembro<br \/>\n    estas causas por magoar-vos, mas por ver se desperto em vosso cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o nobre sentimento que sempre conheci em v&oacute;s antes do fatal desastre<br \/>\n    que levantou uma muralha entre v&oacute;s e meu marido &#8211; o sentimento da gratid&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Sra. d. Damiana, vossas palavras trazem-me terror e confus&atilde;o, disse<br \/>\n    o jovem europeu, a modo de atordoado. <\/p>\n<p>Seu espirito nadava em um mar de hesita&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>&#8211; Que esse sentimento acorde enfim, senhor. &Eacute; talvez tempo ainda de<br \/>\n    produzir sua a&ccedil;&atilde;o consoladora. N&atilde;o vos importeis comigo,<br \/>\n    importai-vos com o homem que um dia vos tratou como se fosseis seu filho.<br \/>\n    Correi e livrai-o do furor dos vossos parciais. Porque tanto &oacute;dio?<br \/>\n    Porque tanta vingan&ccedil;a? <\/p>\n<p>N&atilde;o pode continuar este singular dialogo, que prometia chegar a um<br \/>\n    desenlace talvez pat&eacute;tico e imprevisto. Bem perto dos dois interlocutores<br \/>\n    soaram vozes confusas e retintim de armas. O ch&atilde;o estremeceu, batido<br \/>\n    por um sem-n&uacute;mero de p&eacute;s que precipitada carreira movia em direitura<br \/>\n    ao rio.<\/p>\n<p>Afigurou-se ent&atilde;o aos fugitivos uma vis&atilde;o sinistra, um desfecho<br \/>\n    medonho.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o povo que vem em vossa procura, Sra. d. Damiana. n&atilde;o percamos<br \/>\n    um s&oacute; momento. Salvai-vos, senhora, salvai-vos enquanto &eacute; tempo.<\/p>\n<p>Eles tinham chegado ao p&eacute; de uma das arvores que da margem estendiam<br \/>\n    sua grande copa sobre o rio. Perto desta arvore levantava-se um armaz&eacute;m,<br \/>\n    feito de t&aacute;buas, onde se fazia o embarque dos a&ccedil;&uacute;cares,<br \/>\n    e o desembarque dos g&ecirc;neros importados pelas barca&ccedil;as, quando<br \/>\n    a mar&eacute; estava cheia e elas podiam ficar ao n&iacute;vel da estiva do<br \/>\n    armaz&eacute;m, do lado que entrava pelo rio sobre solidas estacas. Nesse<br \/>\n    momento a mar&eacute; cheia dava ao rio a sua natural plenitude, e a Borboleta,<br \/>\n    livrando-se sobre as &aacute;guas banzeiras que acusavam a aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da preamar, estava em comunica&ccedil;&atilde;o com o tosco trapiche por meio<br \/>\n    de uma prancha que para ele partia do embono de bombordo. Coelho, sem perder<br \/>\n    mais um instante, arrastou d. Damiana contra a vontade dela para dentro do<br \/>\n    armaz&eacute;m, e, todo preocupa&ccedil;&otilde;es e temores pela sua salva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    indicou-lhe a Borboleta, que aparecia no fim da estiva. &#8211; Correi, senhora,<br \/>\n    entrai na barca&ccedil;a, mandai atirar dentro da &aacute;gua a prancha, e<br \/>\n    ordenai, em meu nome, que sigam incontinenti rio abaixo. Nada temais, que<br \/>\n    eles daqui n&atilde;o h&atilde;o de passar. Cont&ecirc;-los-hei.<\/p>\n<p>Disse, e retrocedeu acesso em brio, mas p&aacute;lido como um cad&aacute;ver.<br \/>\n    Seu olhas fuzilava. Os m&uacute;sculos, obedecendo &agrave;s impress&otilde;es<br \/>\n    nervosas, experimentavam s&uacute;bitos estremecimentos. A terra parecia fugir-lhe<br \/>\n    sob os p&eacute;s, ao mesmo tempo pesados e c&eacute;leres. &#8211; Meus amigos<br \/>\n    &#8211; gritou ele, alguns passos distante do trapiche, dirigindo-se ao magote que<br \/>\n    vinha para seu lado, at&eacute; onde quereis levar o vosso desfor&ccedil;o?<br \/>\n    A li&ccedil;&atilde;o satisfaz. A nobreza est&aacute; vencida em Goiana. tratemos<br \/>\n    agora de ir venc&ecirc;-la no seu reduto principal &#8211; em Olinda. N&atilde;o<br \/>\n    percamos tempo. <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, do bando que corria com as armas nuas reluzindo ao sol, um<br \/>\n    grito partiu, e n&atilde;o foi preciso mais, ouvindo-o, para que o chefe dos<br \/>\n    mascates compreendesse que se enganara e que seus dias, esses, sim, estavam<br \/>\n    contados. Ainda falas, mascate infame?! <\/p>\n<p>Seguiu-se uma cena, s&oacute; pr&oacute;pria de canibais, mas que os excessos<br \/>\n    das paix&otilde;es humanas est&atilde;o reproduzindo todos os dias, ainda<br \/>\n    nos centros da mais adiantada civiliza&ccedil;&atilde;o. V&aacute;rios soldados<br \/>\n    da tropa que chegara, e que se haviam reunido aos fidalgos e a Francisco,<br \/>\n    ao saberem que eles vinham em demanda do negociante, de catanas desembainhadas<br \/>\n    se atiram sobre ele e covardemente o degolam. <\/p>\n<p>Ao darem de face com este repugnante espet&aacute;culo, os fidalgos estacam<br \/>\n    horrorizados. S&oacute; um deles, a cabo de um momento de confus&atilde;o,<br \/>\n    que se diria antes remorso, pode proferir estas palavras: <\/p>\n<p>&#8211; E minha mulher? Onde est&aacute; ela? Onde est&aacute; a senhora d. Damiana?\n  <\/p>\n<p>Na Borboleta &#8211; lembrou Luiz Vidal. Corramos. Mas eis que perto deles soa<br \/>\n    um grito, que n&atilde;o s&oacute; traz a tranq&uuml;ilidade, mas descomunal<br \/>\n    prazer ao espirito de todos. <\/p>\n<p>&#8211; Aqui estou, minha gente. E v&oacute;s salvo, Sr. Jo&atilde;o da Cunha!<br \/>\n    Foi Nossa-Senhora-do-rosario quem vos salvou. <\/p>\n<p>Os fidalgos apertaram em seus bra&ccedil;os a senhora-de-engenho, a cujo<br \/>\n    encontro fora Francisco o primeiro que correra. <\/p>\n<p>&#8211; Em poucas horas tudo estar&aacute; acabado e pacificado &#8211; exclamou o sargento-m&oacute;r.<br \/>\n    Os mascates ser&atilde;o vencidos, os populares h&atilde;o de ter uma rude<br \/>\n    li&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; E at&eacute; os frades tamb&eacute;m h&atilde;o de ter a sua, para n&atilde;o<br \/>\n    serem t&atilde;o audazes e metidos nas coisas do mundo &#8211; acrescentou Luiz<br \/>\n    Vidal. E Antonio Coelho? interrogou d. Damiana, que ainda ignorava o tr&aacute;gico<br \/>\n    fim do negociante. Deste estamos livres. Hei-lo ali morto, degolado &#8211; respondeu<br \/>\n    o sargento-m&oacute;r, apontando para o cad&aacute;ver que a poucos passos<br \/>\n    se mostrava rodeado pela m&oacute; de soldados, agora ocupados em apanhar<br \/>\n    o ouro, que, na ocasi&atilde;o de cair, se lhe entornara das algibeiras. <\/p>\n<p>&#8211; Morto! Morto! Fostes cru&eacute;is, senhores! Exclamou como alucinada a<br \/>\n    senhora-de-engenho. Quem praticou tamanho latroc&iacute;nio? Oh meu Deus!<br \/>\n    Que horror! <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o foi nenhum de n&oacute;s &#8211; responderam Francisco e Filipe ao<br \/>\n    mesmo tempo. <\/p>\n<p>N&atilde;o foi nenhum de n&oacute;s, repetiu o sargento-m&oacute;r, fitando<br \/>\n    na mulher seu olhar inflamado e a modo de pasmo. Mas eu o mataria, se fosse<br \/>\n    eu o primeiro a encontra-lo. Era um espirito danado. <\/p>\n<p>&#8211; Engana-vos. Era uma alma generosa, um bom cora&ccedil;&atilde;o; era um<br \/>\n    m&aacute;rtir &#8211; respondeu d. Damiana em lagrimas. Ele ia a salvar-vos, Sr.<br \/>\n    Jo&atilde;o da Cunha, supondo em perigo a vossa vida. Oh! meu Deus, por que<br \/>\n    raz&atilde;o as grandes criaturas n&atilde;o se h&atilde;o de entender melhor<br \/>\n    e formar uma companhia s&oacute; na terra? Mas fujamos daqui. N&atilde;o posso<br \/>\n    ter os olhos nesta desgra&ccedil;a que me esmaga. <\/p>\n<p>E a senhora-de-engenho foi a primeira que deu o exemplo da retirada. <\/p>\n<p>Era tempo de se ausentarem todos desse ponto deserto, porque Luiz Soares,<br \/>\n    batido fortemente pelo ajudante-de-tenente Gil Ribeiro, pelo ajudante Felipe<br \/>\n    Bandeira e pelo capit&atilde;o Antonio Rabelo, demandava esse lado para escapulir-se<br \/>\n    com sua gente. Conseguiu-o, com mais quinhentos, entre Paraibanos e portugueses.\n  <\/p>\n<p>Enfim, segundo anunciara o sargento-m&oacute;r, algumas horas depois Goiana<br \/>\n    estava pacificada. <\/p>\n<p>Mas era contristador o aspecto que apresentava, como facilmente se imagina.<br \/>\n    O saque tinha deixado nas casas vest&iacute;gios profundos de sua passagem<br \/>\n    fecunda em ru&iacute;nas e desastres. O sangue manchava a terra, ber&ccedil;o<br \/>\n    de tantos her&oacute;is ilustres e afamados. No P&aacute;tio-do-Carmo, de<br \/>\n    mistura com v&aacute;rios cad&aacute;veres pertencentes aos invasores, viam-se<br \/>\n    alguns das for&ccedil;as legais, e muitos da escravatura de Jo&atilde;o da<br \/>\n    Cunha. <\/p>\n<p>Jeronimo Paes, os filhos, Belchior, e outros proeminentes vultos do partido<br \/>\n    vencido tinham sido presos, e da&iacute; a tr&ecirc;s dias seguiam para Olinda,<br \/>\n    no meio da tropa vitoriosa de Gil Ribeiro. Paes mal podia consigo. Recebera<br \/>\n    durante a luta nove tiros, e inumer&aacute;veis cutiladas na cabe&ccedil;a.\n  <\/p>\n<p>Conta-se que, por ocasi&atilde;o de lhe darem na pris&atilde;o a noticia<br \/>\n    da morte de Coelho, dissera ele o seguinte, formais palavras: <\/p>\n<p>&#8211; Se desta n&atilde;o morrer, hei de vingar-me ainda de Jo&atilde;o da Cunha.<br \/>\n    O que ele devia a Antonio Coelho h&aacute; de pagar a mim, quando tivermos<br \/>\n    de ajustar as nossas contas. Est&atilde;o muito anchos com o sucesso, esses<br \/>\n    infames mazombos. J&aacute; pensam que os mascates se acabaram de uma vez.<br \/>\n    Est&atilde;o enganados. Hei de ver ainda Jo&atilde;o da Cunha e Cosme Bezerra<br \/>\n    correrem as ruas de Goiana, amarrados com cordas pelas minhas m&atilde;os,<br \/>\n    como se fossem negros fugidos. <\/p>\n<p>Estas palavras foram prof&eacute;ticas. Mas n&atilde;o antecipemos acontecimentos<br \/>\n    que tem lugar pr&oacute;prio na continua&ccedil;&atilde;o desta historia.\n  <\/p>\n<p>Diz-se que Zefinha faleceu a cabo de algumas semanas, depois do lastimoso<br \/>\n    fim de Antonio Coelho, e da pris&atilde;o do pai e dos irm&atilde;os. Atribuem<br \/>\n    seu falecimento &agrave; profunda impress&atilde;o que produziram nela t&atilde;o<br \/>\n    estranhos e cru&eacute;is golpes. <\/p>\n<p>Porque n&atilde;o havia de ser assim? <\/p>\n<p>Era uma excelente alma a rapariga.<\/p>\n<h2><a name=\"29\">Cap&iacute;tulo XXIX<\/a><\/h2>\n<p>Louren&ccedil;o tinha tirado para o engenho &agrave; desfilada, e antes de<br \/>\n    chegar ai nuvens de fumo j&aacute; lhe tinham indicado o que ele suspeitava,<br \/>\n    pelo que fora vendo ao sair da vila. Em seu trajeto do Cajueiro para esta,<br \/>\n    os bandoleiros de Pedro de Lima tinham posto fogo nos canaviais, e casas fechadas<br \/>\n    ou desamparadas, que ardiam agora como se a terra por ali, na combust&atilde;o<br \/>\n    primitiva, lhes houvesse comunicado o inc&ecirc;ndio. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o h&aacute; que duvidar &#8211; disse o rapaz. Andaram por aqui os ladr&otilde;es.<br \/>\n    Estiveram no engenho, e quem sabe o que por l&aacute; fizeram? <\/p>\n<p>Como tinham cortado quase por dentro do mato os bandoleiros, pode o rapaz<br \/>\n    chegar ao Cajueiro sem com eles se encontrar; e cedo testemunhou com seus<br \/>\n    pr&oacute;prios olhos, dando de face com a casa de Vitorino, o estrago, o<br \/>\n    desbarato, as ru&iacute;nas, que ai deixara a horda sem freio. <\/p>\n<p>Das portas algumas tinham sido arrancadas, outras postas por terra. S&oacute;<br \/>\n    as janelas estavam nos seus lugares. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o n&atilde;o pode fugir de entrar, n&atilde;o obstante sua<br \/>\n    pressa em chegar &agrave; casa grande. O estado interior da habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do almocreve n&atilde;o era mais animador do que o seu estado exterior. Tamboretes,<br \/>\n    caixas de madeira, giraus de varas, potes, estavam despeda&ccedil;ados e destru&iacute;dos.<br \/>\n    Lia-se ali s&oacute; perversidade, porque nesses moveis e vasilhas ningu&eacute;m<br \/>\n    suspeitava a exist&ecirc;ncia de objetos que pudessem tentar a cobi&ccedil;a,<br \/>\n    e explicar at&eacute; certo ponto a sua viola&ccedil;&atilde;o ou arrombamento.<br \/>\n    E para onde teriam fugido as mulheres? inquiriu de se para se o matuto. Ao<br \/>\n    montar de novo, o espirito cheio de pesar e incertezas, lan&ccedil;ou Louren&ccedil;o<br \/>\n    as vistas casualmente ao chiqueiro, onde Joaquina tinha o cevado, que devia<br \/>\n    dar uma fartadela &agrave; fam&iacute;lia no dia de S.Thom&eacute;. A sangueira,<br \/>\n    que cobria o ch&atilde;o desde o chiqueiro at&eacute; a meia-agua de palha,<br \/>\n    a cuja sombra as mulheres lavavam a sua roupa, fazia certo que o cevado passara<br \/>\n    pela execu&ccedil;&atilde;o capital antes do dia aprazado, e que se tinham<br \/>\n    aproveitado dele, n&atilde;o a fam&iacute;lia, que devia encher de alegrias,<br \/>\n    mas os salteadores e assassinos. O banco de lavar roupa, coberto de sangue,<br \/>\n    e aos p&eacute;s dele uns restos de palha queimada indicavam que ali mesmo<br \/>\n    se praticara o cruento sacrif&iacute;cio. <\/p>\n<p>Triste e col&eacute;rico ao mesmo tempo, Louren&ccedil;o prosseguiu o caminho.\n  <\/p>\n<p>Adiante apareceu-lhe a casa de Manoel das Dores, matuto muito pegado com<br \/>\n    Victorino, de quem se dizia contra-parente. Este sujeito era solteir&atilde;o<br \/>\n    do lugar. Vivia muito metido consigo mesmo, e s&oacute; uma vez ou outra surgia<br \/>\n    sem ser esperado em casa dos vizinhos. <\/p>\n<p>Ainda de longe o rapaz reconheceu que por ali passara tamb&eacute;m o devastador<br \/>\n    so&atilde;o. As portas, &agrave;s escancaras, deixavam &agrave; mostra a destrui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    efetuada dentro. N&atilde;o havia ficado ai pedra sobre pedra. Pela estreita<br \/>\n    sala viam-se espalhadas esteiras e roupas velhas. O ch&atilde;o fora revolvido<br \/>\n    &agrave; ponta de espada ou de ferro-de-cova. Praticando assim, os salteadores<br \/>\n    deixavam manifesta a sua inten&ccedil;&atilde;o. Tinham procurado dar com<br \/>\n    o mealheiro em que se dizia guardava o velho a pratinha que podia ajuntar.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Oh meu Deus! N&atilde;o vejo ningu&eacute;m. Onde se meteu esse povo? Nem<br \/>\n    morador nem negro do engenho! Parece que todos fugiram para o mato com medo<br \/>\n    dos ladr&otilde;es. <\/p>\n<p>Estas palavras escaparam dos l&aacute;bios de Louren&ccedil;o como uma dor<br \/>\n    que n&atilde;o cabia no cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Adiante da casa do velhote, era a de Sabino, em cuja companhia morava Saturnino.<br \/>\n    Do lado de fora, ao p&eacute; da porta da frente, via-se um volume im&oacute;vel,<br \/>\n    no meio de uma po&ccedil;a de sangue, por cima do qual esvoa&ccedil;ava um<br \/>\n    enxame de moscas. Era o c&atilde;o de Sabino, que por ser fiel defensor da<br \/>\n    morada de seu senhor, e ter feito fortes e repetidas investidas sobre os assaltantes,<br \/>\n    para impedir que entrassem, recebera uma bala, que o deixou por terra, com<br \/>\n    a cabe&ccedil;a aberta e a l&iacute;ngua a nadar sobre sanguinolento escumeiro.\n  <\/p>\n<p>Come&ccedil;ou a impressionar-se Louren&ccedil;o com esta solid&atilde;o,<br \/>\n    este deserto cruel em que s&oacute; se lhe deparavam ind&iacute;cios de atrocidades<br \/>\n    e carnificinas, de fraqueza e terror. <\/p>\n<p>Tinha j&aacute; descoberto o oit&atilde;o da casa grande e ia passar para<br \/>\n    ela por entre a capela e o pomar, quando um vulto se lhe apresenta do lado<br \/>\n    dos canaviais. Afirmando a vista, reconheceu Marianinha. <\/p>\n<p>Correu para ela tomado de s&uacute;bita alegria. As antigas reservas e aborrecimentos<br \/>\n    n&atilde;o lhe lembraram nesse momento. A presen&ccedil;a da mo&ccedil;a fora<br \/>\n    como um raio de luz que atravessara as densas sombras que enchiam o espirito<br \/>\n    do rapaz. <\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; por aqui, Marianinha?! Estou cansado de ver solid&atilde;o,<br \/>\n    estragos e sangue. Onde est&aacute; sua gente? N&atilde;o ou&ccedil;o nenhum<br \/>\n    rumor, nem vejo ningu&eacute;m na casa grande. Que quer dizer isto? <\/p>\n<p>&#8211; A primeira resposta da mo&ccedil;a foram as lagrimas. Depois, em r&aacute;pidas<br \/>\n    palavras, ela contou toda a desgra&ccedil;a, ou antes a serie de desgra&ccedil;as<br \/>\n    de que o engenho fora teatro momentos antes. <\/p>\n<p>&#8211; Ouvindo a f&uacute;nebre narra&ccedil;&atilde;o, Louren&ccedil;o n&atilde;o<br \/>\n    soube o que dizer por alguns instantes. Ficou a modo de privado, do uso da<br \/>\n    raz&atilde;o. O pesar, a c&oacute;lera, o desejo de vingar-se o tiveram entre<br \/>\n    o idiotismo e a loucura. O estado melindroso de suas faculdades aumentou ainda<br \/>\n    mais, quando ele soube que no engenho n&atilde;o havia ningu&eacute;m com<br \/>\n    quem contar para ir em socorro dos que estavam precisando dele na vila. Alguns<br \/>\n    corpos sem vida era s&oacute; o que restava das for&ccedil;as que tinham ficado<br \/>\n    para defesa da casa grande. Os negros que no combate n&atilde;o tinham ca&iacute;do<br \/>\n    mortos ou feridos, esses haviam fugido para o mato, determinados a n&atilde;o<br \/>\n    voltarem segunda vez para a escravid&atilde;o. <\/p>\n<p>&#8211; Para contar o acontecido, Marianinha parara ao p&eacute; da ingazeira centenaria<br \/>\n    que se levantava de um dos lados do caminho, e que com outras formava uma<br \/>\n    como galeria por cima do bra&ccedil;o de rio que cortava por dentro do cercado.<br \/>\n    Foi ai, na sombra e no retiro, que davam mais solenidade &aacute;s suas palavras,<br \/>\n    mais gravidade a seus prantos, que ela desfiou o ros&aacute;rio dos epis&oacute;dios<br \/>\n    de que tinha conhecimento. Quando chegou ao da morte de Victorino, a pobre<br \/>\n    rapariga entrou a chorar como louca. <\/p>\n<p>&#8211; &#8211; Vamos para fora, Marianinha, disse Louren&ccedil;o, vencendo a custo<br \/>\n    sua como&ccedil;&atilde;o. Quero ver sua m&atilde;e. Vamos, sim, disse a mo&ccedil;a.<br \/>\n    Eu tinha vindo em busca de Saturnino para ajudar minha m&atilde;e&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; Ajud&aacute;-la a que&#8230;? <\/p>\n<p>Voc&ecirc; vai j&aacute; saber, Louren&ccedil;o &#8211; respondeu a mo&ccedil;a,<br \/>\n    deixando-se banhar cada vez mais em suas aflitas lagrimas. Do lado de fora<br \/>\n    da galeria, &agrave; luz livre da manh&atilde;, luz graciosa e t&eacute;pida<br \/>\n    que parecia um sorriso de noiva, luz que patenteava os m&iacute;nimos acidentes<br \/>\n    da natureza, pode Louren&ccedil;o ver melhor Marianinha. <\/p>\n<p>Trazia ela os cabelos revoltos, avermelhados os olhos de muito chorar, crestada<br \/>\n    a macia pel&uacute;cia das faces, que n&atilde;o obstante mais acesas se mostravam<br \/>\n    de natural rubor. Mas esses olhos, posto que chorosos, tristes e afligidos,<br \/>\n    eram ainda t&atilde;o matadores, t&atilde;o ternos, que parecia concentrarem<br \/>\n    em se toda a suav&iacute;ssima beleza, esparzida pelas v&aacute;rzeas, pelos<br \/>\n    vales distantes, na luz que caia do c&eacute;u como chuva de ouro, nas flutua&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da folhagem, na frescura das vastas sombras, atiradas como leitos de paz e<br \/>\n    tranq&uuml;ilidade no meio da solid&atilde;o rica de esplendores e cantos.\n  <\/p>\n<p>Entraram na capela pela portinha da sacristia. <\/p>\n<p>Ao penetrar na estreita e sombria nave, o espet&aacute;culo que a Louren&ccedil;o<br \/>\n    se mostrou, foi o seguinte: <\/p>\n<p>No meio da igreja, ao lado de um monte de terra fresca, jazia um cad&aacute;ver;<br \/>\n    era o de Victorino. Entre esse cad&aacute;ver e o monte, uma mulher tirava<br \/>\n    do ch&atilde;o onde estava abrindo uma cova, p&aacute;s de terra, que atirava<br \/>\n    sobre a que havia fora. Era Joaquina. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o quase a n&atilde;o conheceu, t&atilde;o demudado estava o<br \/>\n    resto da infeliz. A dor envelhecera-a em poucas horas. A dor tem mais viol&ecirc;ncia<br \/>\n    e rapidez na sua obra do que o pr&oacute;prio tempo. <\/p>\n<p>&#8211; Joaquina s&oacute; se deixava ver da cintura para cima. A outra parte do<br \/>\n    corpo estava metida na cova. Os cabelos, em sua maior parte embranquecidos<br \/>\n    pelas necessidades usuais da vida do pobre, e agora pelo sopro da adversidade<br \/>\n    que lhe enrelegara os &uacute;ltimos alentos, caindo sobre as faces murchadas<br \/>\n    e macilentas, davam-lhe uma fei&ccedil;&atilde;o que gerava vexame em quem<br \/>\n    a via. <\/p>\n<p>&#8211; Sem dizer uma palavra sequer, Louren&ccedil;o que aprendera de Marcelina<br \/>\n    a Ter para os cad&aacute;veres pias demonstra&ccedil;&otilde;es, ajoelhou-se<br \/>\n    aos p&eacute;s do corpo de Victorino, rezou em silencio sua ora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e, erguendo-se, aproximou-se de Joaquina, tomou-lhe a p&aacute; das m&atilde;os<br \/>\n    e p&ocirc;s em lugar dela a prosseguir o ultimo trabalho que o morto exigia<br \/>\n    dos vivos na terra. A m&atilde;e e a filha, mudas e taciturnas, acompanharam<br \/>\n    com suas lagrimas as que o rapaz verteu, abrindo o leito final do seu vizinho,<br \/>\n    amigo de seu pai e quase seu parente, a quem votava estima e prestava respeito.\n  <\/p>\n<p>&#8211; Chegou enfim o momento de ser entregue &agrave; sepultura o corpo do finado.<br \/>\n    O pranto das mulheres redobrou. Marianinha fazia exclama&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de cortar o cora&ccedil;&atilde;o. Joaquina carpia-se inconsol&aacute;vel,<br \/>\n    envolvendo com o nome do marido o da filha mais velha que lhe fora arrebatada<br \/>\n    momentos antes da perda do primeiro. A m&atilde;o tremula, o bra&ccedil;o<br \/>\n    hesitante, come&ccedil;ou Louren&ccedil;o a impelir para dentro da cova, depois<br \/>\n    de se haver sumido nela para sempre o seu mudo habitador, com a p&aacute;<br \/>\n    que lhe pesava como barra de ferro, a terra acumulada nas bordas. A tristeza<br \/>\n    era profunda, solene o momento, indescrit&iacute;vel o espet&aacute;culo.<br \/>\n    Que ser&aacute; de mim sem meu marido? exclamou Joaquina solu&ccedil;ando.\n  <\/p>\n<p>Que ser&aacute; de mim sem meu pai? acrescentou Marianinha, desfazendo-se<br \/>\n    em lagrimas e suspiros. Louren&ccedil;o tinha posto na cova a ultima p&aacute;<br \/>\n    de terra. <\/p>\n<p>Sua m&atilde;o desca&iacute;ra sobre o cabo do instrumento. <\/p>\n<p>Por impulso irresist&iacute;vel de espirito, ele voltou-se para as mulheres,<br \/>\n    ouvindo aquelas palavras, e disse-lhes: <\/p>\n<p>&#8211; E onde est&atilde;o os outros filhos de Deus? Onde est&aacute; meu pai?<br \/>\n    Onde est&aacute; minha m&atilde;e? Onde estou eu? Deus &eacute; Deus em toda<br \/>\n    a parte, e quando tira um arrimo ao necessitado, j&aacute; tem posto outro<br \/>\n    diante dos olhos dele. <\/p>\n<p>Ouvindo estas palavras, Marianinha sentiu descer-lhe ao intimo do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    um como b&aacute;lsamo reparador e divino. Ergueu os olhos ao rapaz. estavam<br \/>\n    inundados de um clar&atilde;o suave. Havia ali talvez um agradecimento que<br \/>\n    lhe dirigia pela doce esperan&ccedil;a que, depois de tantas contrariedades,<br \/>\n    penas e agonias, muitas delas ocasionadas por ele pr&oacute;prio, ressurgia<br \/>\n    agora, posto que banhada em prantos, no solo crestado, que de repente se tornava<br \/>\n    fresco e fecundo ao calor dessa bendita consola&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Nesse momento ouviram bater a porteira do engenho, e logo ap&oacute;s o estrepito<br \/>\n    das pisadas de um animal que corria &agrave; toda a brida. Louren&ccedil;o<br \/>\n    lan&ccedil;a-se &agrave; porta da igreja, a fim de ver quem era o cavaleiro,<br \/>\n    e d&aacute; com olhos em Marcelina. <\/p>\n<p>O conforto no cora&ccedil;&atilde;o de Joaquina e de Marianinha aumentou<br \/>\n    com a chegada da cabocla, e especialmente depois que souberam que Francisco<br \/>\n    estava na vila, e que os mascates naquele momento deviam ter j&aacute; perdido<br \/>\n    a m&atilde;o. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o quis voltar imediatamente a Goiana, mas Marcelina n&atilde;o<br \/>\n    consentiu que o fizesse, dizendo-lhe que em pouco tempo Francisco se acharia<br \/>\n    com eles. <\/p>\n<p>De feito, n&atilde;o se meteram duas horas que o matuto se reuniu &agrave;<br \/>\n    fam&iacute;lia, trazendo a importante nova da vitoria. Para Marianinha a vitoria<br \/>\n    maior foi a que o matuto exprimiu nestas palavras: <\/p>\n<p>N&atilde;o chores, Marianinha. Perdeste teu pai, mas ali tens teu marido.<br \/>\n    E indicou Louren&ccedil;o que, com os olhos pregados na imagem do Crucificado,<br \/>\n    se mostrava nesse momento diante do altar, inteiramente alheio ao que se falava<br \/>\n    a seu lado. <\/p>\n<p>Eis em que estava absorvido o rapaz. <\/p>\n<p>Quando viera de Goiana horas antes, encontrara ca&iacute;do, entre a casa<br \/>\n    de Victorino e a de Manoel das Dores, um bandoleiro de Pedro de Lima &agrave;<br \/>\n    sombra de uma arvore. O malfeitor tinha passado a noite em claro, e na adega<br \/>\n    do senhor-de-engenho fora do que mais entraram pelo vinho generoso, o qual,<br \/>\n    dando-lhe na fraqueza, o impossibilitou para preencher o seu oficio naquele<br \/>\n    dia. Em uma das m&atilde;os tinha ainda um saco, de que marejava sangue. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o saltou do cavalo abaixo, tirou o saco das m&atilde;os do<br \/>\n    dono que estava ressonando, e abriu-o para ver o que continha. Era a cabe&ccedil;a<br \/>\n    do cevado de Joaquina, com que o salteador tencionava aumentar o almo&ccedil;o<br \/>\n    que por eles devia estar esperando, segundo calculava, em casa de Coelho ou<br \/>\n    de Paes. <\/p>\n<p>Teve ent&atilde;o o rapaz a id&eacute;ia de tomar uma vingan&ccedil;a original.<br \/>\n    Com cordas do seu cavalo suspendeu por baixo dos bra&ccedil;os o bandido ao<br \/>\n    alto da arvore. Ligou um p&eacute; ao outro, para que n&atilde;o tivesse meios<br \/>\n    de passar as pernas no tronco, e desprender os bra&ccedil;os, que atou pelos<br \/>\n    pulsos na altura da cabe&ccedil;a da vitima, por&eacute;m afastados. Enfim<br \/>\n    o todo figurava uma crucifica&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Planejava Louren&ccedil;o queimar vivo o infeliz. Al&eacute;m de ser de seu<br \/>\n    natural mau, acabava de ver os males trazidos pela horda de que o malfeitor<br \/>\n    fazia parte, &agrave; inofensiva propriedade de pessoas de seu conhecimento<br \/>\n    e estima. Apanhara-o mesmo com o roubo na m&atilde;o, praticado na casa a<br \/>\n    que mais se sentia preso por gratos elos dentre todas as casas das vizinhan&ccedil;as.<br \/>\n    Enfim, vinha da vila trazendo o cora&ccedil;&atilde;o repleto de fel e chama<br \/>\n    pelo que ai faziam desde a noite anterior os companheiros do malfeitor. Por<br \/>\n    tudo isso n&atilde;o hesitou em levar a efeito a abomin&aacute;vel inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu &oacute;dio e da sua maldade. Quem o visse ent&atilde;o, o acharia<br \/>\n    outro do que era. A brandura de cora&ccedil;&atilde;o, obra de Marcelina,<br \/>\n    tinha cedido o lugar, que n&atilde;o era ainda exclusiva propriedade sua,<br \/>\n    &agrave; paix&atilde;o animal, que o acompanhava do ber&ccedil;o. A educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pode muito, quando ajudada de muitas li&ccedil;&otilde;es e exemplos e ao<br \/>\n    cabo de tempo bastante, converter, pelo processo que em fisiologia &eacute;<br \/>\n    ainda um mist&eacute;rio, o espinho original em rosa filha do artificio, da<br \/>\n    delicadeza e da perseveran&ccedil;a. <\/p>\n<p>Como tinha pressa, Louren&ccedil;o deixara ai bem segura a sua presa, calculando<br \/>\n    sujeit&aacute;-la ao repugnante suplicio depois de vencidos os inimigos. <\/p>\n<p>Agora, por&eacute;m, casualmente erguendo as vistas ao crucificado, lembrara-lhe<br \/>\n    a crucifica&ccedil;&atilde;o, de que um momento o tinham feito esquecer-se<br \/>\n    os &uacute;ltimos acontecimentos. <\/p>\n<p>Francisco aproximou-se do rapaz, bateu-lhe no ombro e perguntou-lhe a causa<br \/>\n    do seu enleio. <\/p>\n<p>&#8211; Vosmec&ecirc; n&atilde;o viu suspenso na gameleira do caminho o cabra que<br \/>\n    matou o porco de sinh&aacute; Joaquina? tornou ele. <\/p>\n<p>&#8211; Vi, sim. Sabes quem era? Leonardo, sobrinho de Gon&ccedil;alo Ferreira.<br \/>\n    Quem foi que lhe fez aquela crueldade? Coitado! Por um pouquinho n&atilde;o<br \/>\n    morreu. <\/p>\n<p>&#8211; Pois eu estava agora mesmo pensando em ir acabar de matar aquele ladr&atilde;o,<br \/>\n    aquele assassino. <\/p>\n<p>&#8211; Quem? Tu, Louren&ccedil;o? <\/p>\n<p>&#8211; Eu mesmo, sim senhor. <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o digas isto. Est&aacute;s j&aacute; um homem e deves pensar melhor.<br \/>\n    At&eacute; onde querer&aacute;s levar o teu mal natural? <\/p>\n<p>Mas ent&atilde;o eu n&atilde;o devia ter feito o que fiz? o ladr&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o botou portas abaixo, n&atilde;o p&ocirc;s fogo nos canaviais e<br \/>\n    nas casas dos outros, n&atilde;o tirou o que n&atilde;o era seu? <\/p>\n<p>&#8211; Fez tudo isso, mas tu n&atilde;o &eacute;s juiz, n&atilde;o &eacute;s Deus<br \/>\n    para julgar os homens. <\/p>\n<p>Eu pensei &#8211; replicou o rapaz com ironia &#8211; que qualquer homem podia por suas<br \/>\n    m&atilde;os vingar-se de um malfazejo, matar um malvado que tivesse tirado<br \/>\n    a vida a muita gente. Est&aacute;s enganado. Nem eu te quero para palmat&oacute;ria<br \/>\n    ou espada do mundo. Sabes o que fiz quando vi o pobre gemendo e esperneando,<br \/>\n    pendurado, sem saber o que fazer para soltar-se? subi-me ao pau, cortei as<br \/>\n    cordas e disse a Leonardo que corresse, que fugisse para n&atilde;o cair no<br \/>\n    poder dos soldados do ajudante-de-tenente. Foge dessas maldades, Louren&ccedil;o,<br \/>\n    foge delas. Deus n&atilde;o h&aacute; de permitir, por esta hora em que estou<br \/>\n    falando, que pratiques ainda a&ccedil;&otilde;es como essa. Olha. Eu te quero<br \/>\n    para bom, e n&atilde;o para mau. Quero-te para servires de arrimo aos teus<br \/>\n    na velhice. Quero-te para casares com esta pobre menina, que hoje mais do<br \/>\n    que nunca precisa de quem olhe por ela, e que est&aacute; morrendo de te querer<br \/>\n    bem. <\/p>\n<p>E indicou a filha de Victorino. <\/p>\n<p>Louren&ccedil;o, que tivera os olhos postos no ch&atilde;o durante todo o<br \/>\n    tempo em que Francisco discorria com t&atilde;o boa moral, levou-os &agrave;<br \/>\n    cova, a Marianinha, ao Crucificado, ao templo &#8211; morada de Deus, seja o templo<br \/>\n    cat&oacute;lico, judaico, chin&ecirc;s ou &aacute;rabe &#8211; e n&atilde;o disse<br \/>\n    nada. <\/p>\n<p>Marianinha cruzou os dela, ainda rasos de lagrimas, com os do rapaz, e enrubesceu.\n  <\/p>\n<p>Mais corada n&atilde;o se mostra fresca rosa de maio, aljofrada pelo orvalho<br \/>\n    da madrugada. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX Cap\u00edtulo XXI Cap\u00edtulo XXII Cap\u00edtulo XXIII [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96130","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Matuto - Franklin T\u00e1vora, Obra O Matuto - Franklin T\u00e1vora<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Matuto - Franklin T\u00e1vora, Obra, Livro, Pasmado, Hist\u00f3ria, Jo\u00e3o da Cunha, Engenho Bujari, Literatura, O Matuto - Franklin T\u00e1vora\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Matuto - Franklin T\u00e1vora, Obra O Matuto - Franklin T\u00e1vora\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Matuto - Franklin T\u00e1vora, Obra, Livro, Pasmado, Hist\u00f3ria, Jo\u00e3o da Cunha, Engenho Bujari, Literatura, O Matuto - Franklin T\u00e1vora\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-matuto-franklin-tavora\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-24T13:01:40+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"464 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-matuto-franklin-tavora#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-matuto-franklin-tavora\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"O Matuto &#8211; 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