{"id":96128,"date":"2017-01-24T10:45:15","date_gmt":"2017-01-24T12:45:15","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96128"},"modified":"2017-01-24T10:45:15","modified_gmt":"2017-01-24T12:45:15","slug":"o-cabeleira-franklin-tavora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-cabeleira-franklin-tavora","title":{"rendered":"O Cabeleira &#8211; Franklin T\u00e1vora"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00cdtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00cdtulo II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Cap\u00cdtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Cap\u00cdtulo IV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Cap\u00cdtulo V<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">Cap\u00cdtulo VI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">Cap\u00cdtulo VII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#9\">Cap\u00cdtulo IX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">Cap\u00cdtulo X<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#11\">Cap\u00cdtulo XI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#11\">Cap\u00cdtulo XII <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#13\">Cap\u00cdtulo XIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#15\">Cap\u00cdtulo XV<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#16\">Cap\u00cdtulo XVI <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#17\">Cap\u00cdtulo XVII<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#18\">Cap\u00cdtulo XVIII <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Franklin T\u00e1vora<\/h2>\n<h2><a name=\"1\">Cap&Iacute;tulo I<\/a><\/h2>\n<p>A hist&oacute;ria de Pernambuco oferece-nos exemplos de hero&iacute;smo e<br \/>\n    grandeza moral que podem figurar nos fastos dos maiores povos da antig&uuml;idade<br \/>\n    sem desdour&aacute;-los. N&atilde;o s&atilde;o estes os &uacute;nicos exemplos<br \/>\n    que despertam nossa aten&ccedil;&atilde;o sempre que estudamos o passado desta<br \/>\n    ilustre prov&iacute;ncia, ber&ccedil;o tradicional da liberdade brasileira.<br \/>\n    Merecem-nos particular medita&ccedil;&atilde;o, ao lado dos que a&iacute;<br \/>\n    se mostram dignos da gratid&atilde;o da p&aacute;tria pelos nobres feitos<br \/>\n    com que a magnificaram, alguns vultos infelizes, em quem hoje venerar&iacute;amos<br \/>\n    talvez modelos de altas e varonis virtudes, se certas circunst&acirc;ncias<br \/>\n    de tempo e lugar, que decidem dos destinos das na&ccedil;&otilde;es e at&eacute;<br \/>\n    da humanidade, n&atilde;o pudessem desnaturar os homens, tornando-os a&ccedil;oites<br \/>\n    das gera&ccedil;&otilde;es coevas e algozes de si mesmos. Entra neste n&uacute;mero<br \/>\n    o protagonista da presente narrativa, o qual se celebrizou na carreira do<br \/>\n    crime, menos por maldade natural, do que pela crassa ignor&acirc;ncia que<br \/>\n    em seu tempo agrilhoava os bons instintos e deixava soltas as paix&otilde;es<br \/>\n    canibais. Autorizavam-nos a formar este ju&iacute;zo do Cabeleira a tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    oral, os versos dos trovadores e algumas linhas da hist&oacute;ria que trouxeram<br \/>\n    seu nome aos nossos dias envolto em uma grande li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A sua aud&aacute;cia e atrocidades deve seu renome este her&oacute;i legend&aacute;rio<br \/>\n    para o qual n&atilde;o achamos par nas cr&ocirc;nicas provinciais. Durante<br \/>\n    muitos anos, ouvindo suas m&atilde;es ou suas aias cantarem as trovas comemorativas<br \/>\n    da vida e morte desse como Cid, ou Robin Hood pernambucano, os meninos, tomados<br \/>\n    de pavor, adormeceram mais depressa do que se lhes contassem as proezas do<br \/>\n    lobisomem ou a hist&oacute;ria do negro do surr&atilde;o muito em voga entre<br \/>\n    o povo naqueles tempos.<\/p>\n<p>Com a simplicidade irrepreens&iacute;vel que &eacute; o primeiro ornamento<br \/>\n    das concep&ccedil;&otilde;es do esp&iacute;rito popular, habilitam-nos esses<br \/>\n    trovadores a ajuizarmos do famoso valent&atilde;o pela seguinte letra:<\/p>\n<p>Fecha a porta, gente, Cabeleira a&iacute; vem, Matando mulheres, Meninos<br \/>\n    tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>O Cabeleira chamava-se Jos&eacute; Gomes, e era filho de um mameluco por<br \/>\n    nome Joaquim Gomes, sujeito de m&aacute;s entranhas, dado &agrave; pr&aacute;tica<br \/>\n    dos mais hediondos crimes.<\/p>\n<p>De parceria com um pardo de nome Teod&oacute;sio, que primou na ast&uacute;cia<br \/>\n    e nos inventos para se apossar do que lhe n&atilde;o pertencia, percorriam<br \/>\n    Jos&eacute; e Joaquim o vasto per&iacute;metro da prov&iacute;ncia em todas<br \/>\n    as dire&ccedil;&otilde;es, deixando a sua passagem assinalada pelo roubo,<br \/>\n    pelo inc&ecirc;ndio, pela carnificina.<\/p>\n<p>Um dia assentaram dar um assalto &agrave; pr&oacute;pria vila do Recife.<\/p>\n<p>As popula&ccedil;&otilde;es do interior, em sua maioria destitu&iacute;das<br \/>\n    de bens da fortuna, e ent&atilde;o muito mais espalhadas do que atualmente,<br \/>\n    pouco tinham j&aacute; com que cevar a voracidade dos tr&ecirc;s aventureiros<br \/>\n    a quem desde muito pagavam um triplo imposto consistente em v&iacute;veres,<br \/>\n    dinheiro e sangue. O assalto foi resolvido em secreto concili&aacute;bulo<br \/>\n    dentro das matas de Pau d&#8217;Alho onde mais uma vez se haviam reunido para concertos<br \/>\n    id&ecirc;nticos.<\/p>\n<p>Na mesma hora aperceberam-se para a temer&aacute;ria tentativa, e, com o<br \/>\n    arrojo que lhes era natural, puseram-se a caminho contando de antem&atilde;o<br \/>\n    com o feliz sucesso em que tinham posto a mira.<\/p>\n<p>A not&iacute;cia da sua aproxima&ccedil;&atilde;o a maior parte dos moradores,<br \/>\n    deixando os povoados, ent&atilde;o muito fracos por n&atilde;o terem ainda<br \/>\n    a densid&atilde;o que s&oacute; um s&eacute;culo depois tornou alguns deles<br \/>\n    respeit&aacute;veis, emigrou para os matos, &uacute;nico abrigo com que lhos<br \/>\n    era permitido contar, embora se achassem a poucas l&eacute;guas do Recife;<br \/>\n    tais houve que, n&atilde;o tendo tempo ou recursos para fugir aos cru&eacute;is<br \/>\n    visitantes, lhes deram hospedagem como meio de n&atilde;o incorrerem no seu<br \/>\n    desagrado.<\/p>\n<p>Ao declinar do dia seguinte eram eles na Est&acirc;ncia. Sentaram-se no adro<br \/>\n    da capela de taipa que fora a&iacute; levantada por Henrique Dias, para recordar<br \/>\n    aos vindouros que nesse lugar tivera ele o seu posto militar pelas guerras<br \/>\n    da restaura&ccedil;&atilde;o. Esse posto era dentre todos o que ficava mais<br \/>\n    vizinho ao inimigo. Eloq&uuml;ente testemunho de bravura do tro&ccedil;o da<br \/>\n    gente preta a quem a p&aacute;tria reservou distinta men&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nas maiores p&aacute;ginas da hist&oacute;ria colonial. &Eacute; muito cedo<br \/>\n    para entrarmos na vila disse o Cabeleira. E n&atilde;o ser&aacute; at&eacute;<br \/>\n    melhor que o Teod&oacute;sio v&aacute; primeiro que n&oacute;s para assentar<br \/>\n    ainda com dia no meio mais certo de realizar a empresa?<\/p>\n<p> Tens raz&atilde;o, Jos&eacute; Gomes, acrescentou Joaquim; o Teod&oacute;sio,<br \/>\n    que &eacute; macaco velho, deve ir adiante a sondar as coisas. Para bater<br \/>\n    o p&eacute; ao inimigo e fazer frente a qualquer dunga, voc&ecirc;s sabem<br \/>\n    muito bem que eu sou cabra decidido; agora, para espertezas n&atilde;o contem<br \/>\n    comigo; isso &eacute; l&aacute; com o Teod&oacute;sio que &eacute; mestre<br \/>\n    em saberetes; e ningu&eacute;m lhe vai ao bojo.<\/p>\n<p>Os tr&ecirc;s malfeitores traziam consigo bacamartes, parna&iacute;bas, facas<br \/>\n    e pistolas.<\/p>\n<p>Cabeleira podia ter vinte e dois anos. A natureza o havia dotado com vigorosas<br \/>\n    formas. Sua fronte era estreita, os olhos pretos e l&acirc;nguidos, o nariz<br \/>\n    pouco desenvolvido, os l&aacute;bios delgados como os de um menino. &Eacute;<br \/>\n    de notar que a fisionomia deste mancebo, velho na pr&aacute;tica do crime,<br \/>\n    tinha uma express&atilde;o de insinuante e jovial candidez.<\/p>\n<p>Joaquim, que contava o duplo da idade de seu filho, era baixo, corpulento<br \/>\n    e menos feito que o Teod&oacute;sio, o qual, posto que mais entrado em anos,<br \/>\n    sabia dar, quando queria, &agrave; cara romba e de cor fula, uma apar&ecirc;ncia<br \/>\n    de bestial simplicidade em que s&oacute; uma vista perspicaz, e acostumada<br \/>\n    a ler no rosto as id&eacute;ias e os sentimentos &iacute;ntimos, poderia descobrir<br \/>\n    a mais refinada hipocrisia.<\/p>\n<p> Entendo que &eacute; bem lembrado o que dizes, Cabeleira acrescentou o cabra<br \/>\n    levantando-se; corro sem demora armar o la&ccedil;o para apanhar o passarinho;<br \/>\n    ainda que, a bem dizer, j&aacute; c&aacute; tenho o meu plano que h&aacute;<br \/>\n    de cair t&atilde;o certinho como S&atilde;o Jo&atilde;o a vinte e quatro.<\/p>\n<p> E onde depois nos encontraremos? perguntou Joaquim, vendo que o Teod&oacute;sio<br \/>\n    se achava j&aacute; de marcha para a vila.<\/p>\n<p> N&atilde;o ser&aacute; o mais custoso. Esperarei por voc&ecirc;s debaixo<br \/>\n    da ingazeira da ponte.<\/p>\n<p>Teod&oacute;sio, n&atilde;o estando mais para conversa, conchegou o chap&eacute;u<br \/>\n    de palha &agrave; cabe&ccedil;a para que o vento n&atilde;o lho arrebatasse,<br \/>\n    e desapareceu em r&aacute;pido marche-marche, por detr&aacute;s dos matos<br \/>\n    que naquele tempo enchiam ainda em sua maior parte a zona onde hoje se ostenta<br \/>\n    com suas graciosas habita&ccedil;&otilde;es entre risonhos verdores a Passagem<br \/>\n    da Madalena.<\/p>\n<p>Antes que o sol descesse ao horizonte e as trevas envolvessem de todo a natureza,<br \/>\n    meteram-se o pai e o filho pelo caminho onde um quarto de hora atr&aacute;s<br \/>\n    havia desaparecido o outro companheiro, alma do neg&oacute;cio e principal<br \/>\n    respons&aacute;vel pelos perigos a que todos eles iam expor talvez a pr&oacute;pria<br \/>\n    vida.<\/p>\n<p>A solid&atilde;o estava sombria e triste.<\/p>\n<p>Contavam-se ent&atilde;o as casas por aquelas paragens. Em torno delas o<br \/>\n    deserto come&ccedil;ava a aumentar antes de p&ocirc;s-se o sol. Uma lei cruel,<br \/>\n    a lei da necessidade, obrigava os moradores a trancar-se cedo por bem da pr&oacute;pria<br \/>\n    conserva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Os roubos e assassinatos reproduziam-se com incr&iacute;vel freq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    nos caminhos e at&eacute; nas beiradas dos s&iacute;tios.<\/p>\n<p>S&oacute;lidas habita&ccedil;&otilde;es n&atilde;o tinham em muitos casos<br \/>\n    assegurado &agrave;s fam&iacute;lias inelut&aacute;vel obst&aacute;culo ao<br \/>\n    assalto dos malfeitores. Triste &eacute;poca em que o despotismo tudo podia<br \/>\n    contra os cidad&atilde;os pac&iacute;ficos e bons, nada contra a parte cancerosa<br \/>\n    da sociedade!<\/p>\n<p>A vila estava em festa. Foi no primeiro domingo de dezembro de 1773. Era<br \/>\n    governador Manuel da Cunha de Meneses, depois conde de Lumiar, jovem fidalgo<br \/>\n    a quem a igreja pernambucana deve distintos benef&iacute;cios.<\/p>\n<p>Com a data do 1.&deg; daquele m&ecirc;s tinha ele feito publicar um bando<br \/>\n    pelo qual ordenara aos moradores que pusessem lumin&aacute;rias em demonstra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da alegria que causara &agrave; na&ccedil;&atilde;o portuguesa a aboli&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos jesu&iacute;tas em todo o orbe crist&atilde;o, pelo santo padre Clemente<br \/>\n    XIV.<\/p>\n<p>No lugar onde hoje existe a formosa ponte Sete de Setembro que liga o bairro<br \/>\n    do Recife ao de Santo Ant&ocirc;nio, via-se nessa &eacute;poca uma ponte de<br \/>\n    madeira, a qual fora mandada construir em 1737 sobre os s&oacute;lidos pilares<br \/>\n    de pedra e cal da primitiva ponte, obra de Maur&iacute;cio de Nassau, por<br \/>\n    Henrique Lu&iacute;s Vieira Freire de Andrade, um dos governadores que mais<br \/>\n    honrada e benem&eacute;rita mem&oacute;ria deixaram de si em Pernambuco.<\/p>\n<p>Era uma rica constru&ccedil;&atilde;o, nada menos do que uma rua suspensa<br \/>\n    sobre as &aacute;guas do rio Capibaribe, que passa a&iacute; reunido ao Beberibe,<br \/>\n    depois de um curso de oitenta l&eacute;guas por entre matas, por sobre pedras<br \/>\n    e ao p&eacute; de pitorescas vilas, povoa&ccedil;&otilde;es e arrabaldes.<br \/>\n    De um e outro lado, exceto na parte central, que fora guarnecida de bancos<br \/>\n    para recreio do p&uacute;blico, viam-se pequenos armaz&eacute;ns de taipa<br \/>\n    de sebe em que se vendiam miudezas e ferragens, que logo depois de prontos<br \/>\n    acharam alugadores, come&ccedil;aram a render a quantia de oitocentos mil-r&eacute;is<br \/>\n    anuais, a qual no come&ccedil;o do s&eacute;culo corrente se havia elevado<br \/>\n    &agrave; de quatro contos de r&eacute;is. Com a funda&ccedil;&atilde;o das<br \/>\n    casinhas sobreditas teve por fim o governador de criar uma fonte de rendas<br \/>\n    destinada &agrave; conserva&ccedil;&atilde;o das pontes da prov&iacute;ncia,<br \/>\n    quase todas nesse tempo em deplor&aacute;vel ru&iacute;na. Destas obras com<br \/>\n    que dotou Pernambuco o g&ecirc;nio desse ilustre governador, n&atilde;o resta<br \/>\n    hoje o menor vest&iacute;gio. Tudo desapareceu, tudo, at&eacute; as arcadas<br \/>\n    holandesas que ainda alcancei. O monumento das idades &eacute; mais depressa<br \/>\n    destru&iacute;do pelos homens do que pelo tempo, esse consumidor que, como<br \/>\n    ser voraz, n&atilde;o deixa de respeitar a obra da virtude.<\/p>\n<p>A boca da noite os dois aventureiros chegaram &agrave; parte do bairro da<br \/>\n    Boa Vista que &eacute; de n&oacute;s conhecida por Ponte Velha. Raras casas<br \/>\n    mostravam-se ent&atilde;o a&iacute;.<\/p>\n<p>A pouca distancia para o sul do lugar onde existira a antiga ponte, nesse<br \/>\n    tempo j&aacute; substitu&iacute;da pela da Boa Vista mandada construir por<br \/>\n    Henrique Lu&iacute;s a quem j&aacute; nos referimos, levantava-se na margem<br \/>\n    uma ingazeira idosa e ramalhuda. Abrindo sobre o rio a copa &agrave; semelhan&ccedil;a<br \/>\n    de chap&eacute;u-de-sol, formava esta &aacute;rvore uma vasta camarinha que<br \/>\n    servia de porto de abrigo aos canoeiros quando o vento era teso, e as mar&eacute;s<br \/>\n    puxavam com velocidade. Debaixo desse teto protetor as &aacute;guas corriam<br \/>\n    sempre mansas e bonan&ccedil;osas, e, sem primeiro descer ao p&eacute; do<br \/>\n    gigantesco vegetal, era dif&iacute;cil descobrir, pela densid&atilde;o da<br \/>\n    sua folhagem, qualquer objeto ou ente que &agrave; sombra desta se acolhesse,<br \/>\n    ainda que estivesse o sol dardejando os seus luminosos raios. Fora este o<br \/>\n    ponto de reuni&atilde;o indicado por Teod&oacute;sio aos companheiros.<\/p>\n<p>Dar com as primeiras casas iluminadas foi para os dois valent&otilde;es motivo<br \/>\n    de justo espanto e receio. N&atilde;o sabendo do regozijo oficial, e tendo<br \/>\n    bem presentes na consci&ecirc;ncia os crimes que haviam cometido, logo lhes<br \/>\n    pareceu que seriam descobertos ao clar&atilde;o das luzes, n&atilde;o se demorando<br \/>\n    o clamor p&uacute;blico, se assim acontecesse, a denunci&aacute;-los &agrave;s<br \/>\n    justi&ccedil;as de el-rei.<\/p>\n<p>Pelo voto de Cabeleira tinha-se verificado no mesmo instante a volta ao deserto.<br \/>\n    Mas Joaquim, cuja temeridade n&atilde;o conhecia limites, desprezando os conselhos<br \/>\n    do filho sobre o qual exercitava a tirania do d&eacute;spota primeiro que<br \/>\n    a autoridade do pai, foi fazer alto ao p&eacute; da ingazeira sobredita, tendo<br \/>\n    atravessado para chegar a este ponto as ruas mais p&uacute;blicas do nascente<br \/>\n    bairro da Boa Vista.<\/p>\n<p>Profundo silencio reinava no vasto areal que guarnecia o rio por aquele lado.<br \/>\n    As &aacute;guas mal se moviam. Desceram os dois &agrave; margem a ajuntar-se<br \/>\n    ao Teod&oacute;sio conforme o convencionado, mas a sua expectativa foi iludida;<br \/>\n    n&atilde;o havia a&iacute; viva alma; unicamente se mostrou aos seus olhos<br \/>\n    um corpo negro, oscilando debaixo da folhagem, ao brando ondear das &aacute;guas:<br \/>\n    era uma canoa que estava presa por uma corda ao tronco da ingazeira.<\/p>\n<p>Depois de alguns momentos de espera n&atilde;o sem inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para os rec&eacute;m-chegados, um ru&iacute;do que veio interromper o silencio<br \/>\n    reinante na margem obrigou-os a p&ocirc;r-se em armas por precau&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A corda rapidamente encurtando atraiu sem aux&iacute;lio vis&iacute;vel a<br \/>\n    canoa &agrave; margem, e um corpulento canoeiro, nu da cintura para cima,<br \/>\n    arrastando uma vara pela m&atilde;o, saltou &agrave; frente dos malfeitores.<\/p>\n<p> Sou eu, Cabeleira, sou eu.<\/p>\n<p> Teod&oacute;sio ! Meteste-te em boas.<\/p>\n<p> Eu estava escondido dentro da canoa para fazer um susto a voc&ecirc;s.<\/p>\n<p> A bom diabo te encomendaste hoje que o meu bacamarte mentiu fogo duas vezes<br \/>\n    disse Cabeleira.<\/p>\n<p> N&atilde;o falemos mais nisso acudiu Teod&oacute;sio; celebraremos depois<br \/>\n    o caso. Para agora vamos ao que importa.<\/p>\n<p> Que &eacute; que h&aacute; ?<\/p>\n<p> N&atilde;o me est&atilde;o vendo em figura de canoeiro ? Vamos a ela enquanto<br \/>\n    &eacute; tempo.<\/p>\n<p>Teod&oacute;sio inclinou-se para passar aos dois um segredo que em pouco<br \/>\n    tempo foi por ambos compreendido, e que entrou no mesmo instante a ser posto<br \/>\n    em execu&ccedil;&atilde;o pelos tr&ecirc;s. O pai e o filho foram guardar<br \/>\n    as suas armas de fogo na canoa, e o cabra saltou novamente dentro dela e fez-se<br \/>\n    ao largo. Quem visse um instante depois o lenho resvalando na vasta superf&iacute;cie<br \/>\n    do rio &agrave; claridade dos astros da noite, juraria que nessa sombra fugitiva,<br \/>\n    nesse ponto que se perdeu por fim nos seios da escurid&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    ia mais que um canoeiro, sabedor das manhas das &aacute;guas e senhor dos<br \/>\n    meios de as vencer. Ia entretanto a&iacute; uma maldade muito mais consider&aacute;vel<br \/>\n    e perigosa, porque era hip&oacute;crita e estava disfar&ccedil;ada, do que<br \/>\n    a malvadez de Joaquim sempre alerta, e a impavidez de Jos&eacute; sempre franco<br \/>\n    at&eacute; na estrat&eacute;gia e na emboscada.<\/p>\n<p>Estes dois &uacute;ltimos, tanto que o cabra se afastou da margem, atravessaram<br \/>\n    a ponte da Boa Vista e, ladeando o canal que cercava Santo Ant&ocirc;nio pelo<br \/>\n    lado ocidental e ia encher ao sul as valas da fortaleza das Cinco Pontas,<br \/>\n    e ao norte as do forte Ernesto, hoje inteiramente desaparecido, passaram em<br \/>\n    frente do pal&aacute;cio do governador e por este forte, o qual ficava pouco<br \/>\n    adiante do convento de S. Francisco, e entraram na ponte do Recife que apresentava<br \/>\n    uma vista majestosa e deslumbrante. Colunas e arcos triunfais profusamente<br \/>\n    iluminados tinham sido ali erguidos a iguais dist&acirc;ncias. Ao som das<br \/>\n    m&uacute;sicas marciais, o povo percorria o a&eacute;reo passeio entre risos<br \/>\n    e folgares.<\/p>\n<p>Ainda bem n&atilde;o se haviam os malfeitores confundido com os passeantes,<br \/>\n    quando se ouviu um grito arrancado pelo p&acirc;nico terror de um matuto que<br \/>\n    os conhecera.<\/p>\n<p> O Cabeleira ! O Cabeleira ! Grandes desgra&ccedil;as vamos ter, minha gente<br \/>\n    ! clamou o mal avisado roceiro.<\/p>\n<p>Estas palavras ca&iacute;ram como raios mort&iacute;feros no meio da multid&atilde;o<br \/>\n    que se entregava, incuidosa e confiante, ao regozijo oficial.<\/p>\n<p>A confus&atilde;o foi indescrit&iacute;vel. As expans&otilde;es da p&uacute;blica<br \/>\n    alegria sucederam as demonstra&ccedil;&otilde;es do geral terror. Homens,<br \/>\n    mulheres, crian&ccedil;as atropelaram-se, correndo, fugindo, gritando, caindo<br \/>\n    como impelidos por infernal ciclone. A fama do Cabeleira tinha, n&atilde;o<br \/>\n    sem raz&atilde;o, criado na imagina&ccedil;&atilde;o do povo um fantasma sanguin&aacute;rio<br \/>\n    que naquele momento se animou no esp&iacute;rito de todos e a todos amea&ccedil;ou<br \/>\n    com inevit&aacute;vel exterm&iacute;nio.<\/p>\n<p>Ouvindo aquelas palavras e sendo assim surpreendidos por uma ocorr&ecirc;ncia<br \/>\n    com que n&atilde;o contavam, os dois malfeitores instintivamente bateram m&atilde;os<br \/>\n    das parna&iacute;bas primeiro para se defenderem, por lhes parecer que corria<br \/>\n    a sua liberdade iminente perigo, que para investirem com massa ingente, a<br \/>\n    qual ali&aacute;s fugia como rebanho apavorado pela presen&ccedil;a das on&ccedil;as.<br \/>\n    Os seus gestos concorreram para aumentar o terror da multid&atilde;o, a qual,<br \/>\n    mal interpretando-os, imaginou que ia ter come&ccedil;o a carnificina.<\/p>\n<p> Sim, &eacute; o Cabeleira, gente fraca. Ele n&atilde;o vem s&oacute;, vem<br \/>\n    seu pai tamb&eacute;m gritou Jos&eacute; Gomes, cujo rosto come&ccedil;ou<br \/>\n    a anuviar-se.<\/p>\n<p>Joaquim; feroz por natureza, sanguin&aacute;rio por longo h&aacute;bito,<br \/>\n    descarregou a parna&iacute;ba sobre a cabe&ccedil;a do primeiro que acertou<br \/>\n    de passar por junto dele. A cutilada foi certeira, e o sangue da v&iacute;tima,<br \/>\n    espadanando contra a face do matador, deixou a&iacute; estampada uma m&aacute;scara<br \/>\n    vermelha atrav&eacute;s da qual s&oacute; se viam brilhar os olhos felinos<br \/>\n    daquele animal humano.<\/p>\n<p>Jos&eacute; Gomes, por irresist&iacute;vel for&ccedil;a do instinto que muitas<br \/>\n    vezes o traiu aos olhos do carniceiro pai, voltou-se de chofre e lhe disse:<\/p>\n<p> Para que matar se eles fogem de n&oacute;s<\/p>\n<p>Corram, minha gente Cabeleira a&iacute; vem; Ele n&atilde;o vem s&oacute;,<br \/>\n    Vem seu pai tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Matar sempre, Z&eacute; Gomes retorquiu o mameluco com as narinas dilatadas<br \/>\n    pelo odor do sangue fresco e quente que do rosto lhe descia aos l&aacute;bios<br \/>\n    e destes penetrava na-boca cerval.N&atilde;o temos aqui um s&oacute; amigo.<br \/>\n    Todos nos querem mal. &Eacute; preciso fazer a obra bem feita.<\/p>\n<p>Este homem era o g&ecirc;nio da destrui&ccedil;&atilde;o e do crime. Por<br \/>\n    sua boca falavam as baixas paix&otilde;es que &agrave; sombra da ignor&acirc;ncia,<br \/>\n    da impunidade e das florestas haviam crescido sem freio e lhe tinham apagado<br \/>\n    os lampejos da consci&ecirc;ncia racional que todo homem traz do ber&ccedil;o,<br \/>\n    ainda aqueles que v&ecirc;m a ser depois truculentos e consumados sic&aacute;rios.<\/p>\n<p>Seu cora&ccedil;&atilde;o estava empedernido, seu senso moral obcecado.<\/p>\n<p>Nenhum sentimento brando e terno, nenhum pensamento elevado exercitava a<br \/>\n    sua salutar influ&ecirc;ncia nas a&ccedil;&otilde;es deste ente degenerado<br \/>\n    e infeliz.<\/p>\n<p> Est&aacute;s com medo, Z&eacute; Gomes, deste povil&eacute;u ? Parece-me<br \/>\n    ver-te fraquejar. Por minha b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o e maldi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    te ordeno que me ajudes a fazer o bonito enquanto &eacute; tempo. N&atilde;o<br \/>\n    sejas mole, Z&eacute; Gomes; s&ecirc; valent&atilde;o como &eacute; teu pai<br \/>\n    .<\/p>\n<p>Tendo ouvido estas palavras, o Cabeleira, em cuja vontade exercitava Joaquim<br \/>\n    irresist&iacute;vel poder, fez-se f&uacute;ria descomunal e, atirando-se no<br \/>\n    meio do concurso de gente, foi acutilando a quem encontrou com diab&oacute;lico<br \/>\n    desabrimento. Como dois raios exterminadores, descreviam pai e filho no seio<br \/>\n    da massa revolta desordenadas e vertiginosas elipses.<\/p>\n<p>A geral consterna&ccedil;&atilde;o teria cessado em poucos instantes se o<br \/>\n    povo pudesse escapar pelas duas entradas da ponte. Achavam-se por&eacute;m<br \/>\n    estas j&aacute; tomadas por piquetes de infantaria &agrave;s pressas organizados<br \/>\n    para embargarem a fuga aos matadores e reduzi-los &agrave; pris&atilde;o.<\/p>\n<p>A medida que estes piquetes se foram movendo das extremidades para o centro,<br \/>\n    &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, obrigada a aproximar-se dos assassinos,<br \/>\n    preferiu a este perigo atirar-se ao rio, e a baldea&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    se fez esperar.<\/p>\n<p>Em poucos momentos os perturbadores da ordem acharam-se debaixo das vistas<br \/>\n    da for&ccedil;a p&uacute;blica. O lugar da cena estava quase inteiramente<br \/>\n    desocupado. As colunas militares operaram um movimento &uacute;nico, indescrit&iacute;vel.<br \/>\n    Carregaram sem demora sobre os delinq&uuml;entes que, &agrave; vista da estreiteza<br \/>\n    do passo e do cerco, s&oacute; nas &aacute;guas puderam, como as suas v&iacute;timas,<br \/>\n    achar salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Um soldado, impelido talvez primeiro pelo &iacute;mpeto da paix&atilde;o<br \/>\n    que pela consci&ecirc;ncia do dever, o qual em ocasi&otilde;es iguais &agrave;quela<br \/>\n    raramente fala mais alto que os instintos animais, atirou-se de arma em punho<br \/>\n    ap&oacute;s os assassinos com o fim de apreender um dos dois, ainda que custasse<br \/>\n    a pr&oacute;pria vida. N&atilde;o logrou o seu intento este valente defensor<br \/>\n    da sociedade e da lei. Quando sua m&atilde;o tocava em um dos delinq&uuml;entes<br \/>\n    de cima de uma canoa que nesse momento desatracara da ponte, desfecharam-lhe<br \/>\n    com a vara t&atilde;o forte golpe sobre a cabe&ccedil;a, que o, infeliz, perdendo<br \/>\n    os sentidos, foi arrebatado pela corrente. Igual cena se presenciou em 1821,<br \/>\n    figurando como v&iacute;tima Jo&atilde;o Souto Maior que procurara salvar-se<br \/>\n    no rio depois de haver ferido com um tiro de bacamarte na ponte da Boa Vista<br \/>\n    o governador Lu&iacute;s do Rego Barreto.<\/p>\n<p>Assim se passou na vila do Recife a noite do primeiro domingo de dezembro<br \/>\n    de 1773, noite memor&aacute;vel, que principiou pela alegria e terminou pelo<br \/>\n    terror p&uacute;blico.<\/p>\n<h2><a name=\"2\">Cap&Iacute;tulo II<\/a><\/h2>\n<p>Por entre as v&iacute;timas do terror que lutavam com as &aacute;guas do<br \/>\n    Capibaribe nas sombras da noite deslizou indiferente a canoa onde ia o Teod&oacute;sio,<br \/>\n    assassino do soldado que se atirara ao rio em busca dos delinq&uuml;ente.<\/p>\n<p>Teod&oacute;sio, como os leitores h&atilde;o de lembrar-se, viera s&oacute;<br \/>\n    mas n&atilde;o voltava agora desacompanhado. Jos&eacute;, taciturno e quieto,<br \/>\n    e Joaquim, rosnando como besta fera que indiscreto ca&ccedil;ador irrita em<br \/>\n    escuso bosque, testemunhavam ao p&eacute; do cabra, sentados na popa do fugitivo<br \/>\n    lenho, com os bacamartes nas m&atilde;os, o espet&aacute;culo de afli&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e desespero; e, como se o fizessem de caso pensado para denotarem a pouca<br \/>\n    conta em que tinham uma sociedade que eles dois unicamente acabavam de entregar<br \/>\n    em alguns minutos &agrave; perturba&ccedil;&atilde;o e &agrave; dor, pareciam<br \/>\n    afrontar com olhares insultuosos n&atilde;o somente os homens mas tamb&eacute;m<br \/>\n    aquele que ao fulgor das estrelas v&ecirc; melhor do que os mortais &agrave;<br \/>\n    luz do dia, e que das alturas, onde paira, distribui por todos a sua indefect&iacute;vel<br \/>\n    justi&ccedil;a, tanto para premiar como para punir. Foi Deus o &uacute;nico<br \/>\n    que conheceu os tr&ecirc;s aventureiros, rompendo as &aacute;guas, o &uacute;nico<br \/>\n    que em suas frontes manchadas do sangue e do opr&oacute;brio recente leu o<br \/>\n    passado que os condenava e o futuro que por eles esperava para justi&ccedil;&aacute;-los<br \/>\n    com a excessiva severidade que havemos de ver.<\/p>\n<p>Os n&aacute;ufragos s&oacute; trataram de salvar-se e fugir; qual se agarrasse<br \/>\n    aos mangues, ent&atilde;o muito bastos e numerosos, que bordam o rio como<br \/>\n    ilhas de verdura, qual demandasse, a fim de escapar da inclem&ecirc;ncia da<br \/>\n    corrente, os bancos de areia formados pelo fluxo e refluxo das mar&eacute;s.<br \/>\n    Ningu&eacute;m cuidou mais do Cabeleira sen&atilde;o para se distanciar com<br \/>\n    horror crescente da sua sombra cruel, do seu vulto fatal e ominoso.<\/p>\n<p>Achavam-se na ponte o pai e o filho, n&atilde;o para serem socorridos, como<br \/>\n    foram, pelo companheiro, mas para protegerem a sua fuga, caso fosse ele descoberto<br \/>\n    antes de haver conclu&iacute;do o roubo que assentaram de praticar em um dos<br \/>\n    armaz&eacute;ns. A den&uacute;ncia do matuto transtornara esta combina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pela forma que o leitor conhece, n&atilde;o impedindo por&eacute;m que no<br \/>\n    essencial viesse ela a verificar-se, porque, ouvindo o trov&atilde;o do alarido<br \/>\n    e fazendo conta que o conflito fora provocado pelos amigos como meio de concentrar<br \/>\n    em um s&oacute; ponto as gerais aten&ccedil;&otilde;es a fim de deix&aacute;-lo<br \/>\n    ao abrigo de qualquer surpresa, tratara Teod&oacute;sio de aproveitar o tempo<br \/>\n    com a prontid&atilde;o e per&iacute;cia que lhe eram habituais em semelhante<br \/>\n    g&ecirc;nero de ocupa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na extremidade de uma vara fora acinte atado um ferro adunco para facilitar<br \/>\n    o escalamento. Prend&ecirc;-lo na varanda do armaz&eacute;m, subir pela longa<br \/>\n    haste at&eacute; a estiva, passar desta &agrave; janela, e saltar dentro fora<br \/>\n    obra de um instante para o Teod&oacute;sio. Em poucos minutos quinquilharias<br \/>\n    preciosas, armas de fogo, perfumarias, miudezas de toda sorte desceram por<br \/>\n    cordas em suas caixas ou pacotes para a canoa. As gavetas, primeiro que as<br \/>\n    vidra&ccedil;as, foram violadas e revistadas, e o dinheiro que continham passara<br \/>\n    a povoar o bolso do atrevido roubador.<\/p>\n<p>S&atilde;o tradicionais os roubos que deste modo se praticaram na ponte do<br \/>\n    Recife por aqueles tempos e durante muitos anos depois. Segundo contam os<br \/>\n    antigos, eles reproduziram-se no come&ccedil;o deste s&eacute;culo com tanta<br \/>\n    freq&uuml;&ecirc;ncia, que os armaz&eacute;ns ao princ&iacute;pio com raz&atilde;o<br \/>\n    cobi&ccedil;ados pelos comerciantes perderam de valor, e ficariam de todo<br \/>\n    depreciados se a pol&iacute;cia, por uma rigorosa vigil&acirc;ncia que lhe<br \/>\n    faz honra, n&atilde;o houvesse impedido a continua&ccedil;&atilde;o destes<br \/>\n    atentados.<\/p>\n<p>Quando n&atilde;o houve mais objeto de pre&ccedil;o que baldear; Teod&oacute;sio<br \/>\n    desceu. Era tempo. Ainda bem n&atilde;o tinha terminado o seu a&eacute;reo<br \/>\n    trajeto, quando dois corpos surgiram dentre ruidoso espumeiro produzido por<br \/>\n    violenta queda e passaram-se &agrave; embarca&ccedil;&atilde;o. Eram Joaquim<br \/>\n    e Jos&eacute; Gomes que se haviam atirado ao rio para escaparem &agrave; pris&atilde;o,<br \/>\n    como vimos.<\/p>\n<p>A escurid&atilde;o que reinava no Capibaribe, as auras da noite e uns restos<br \/>\n    de enchente favoreciam a evas&atilde;o dos navegantes. Mantendo-se a igual<br \/>\n    distancia das duas margens, o improvisado canoeiro, ao passo que se subtra&iacute;a<br \/>\n    a qualquer inspe&ccedil;&atilde;o do lado da terra, era arrebatado com os<br \/>\n    h&oacute;spedes pelas &aacute;guas do canal que s&atilde;o profundas e correm<br \/>\n    ali com impetuosidade.<\/p>\n<p>Em pouco tempo, contornando o pal&aacute;cio do governador, e deixando &agrave;<br \/>\n    direita o forte Waerdenburch, constru&iacute;do em 16381 nas Salinas, hoje<br \/>\n    Santo Amaro, pelos holandeses que lhe deram esta denomina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para honrarem o seu general Diederik can Waerdenburch, seguiu rumo ao sul,<br \/>\n    rompendo, por entre ilhas de mangues, a escurid&atilde;o e as &aacute;guas.<\/p>\n<p>Entre as casas de que por esse tempo se compunha a povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Afogados contava-se a de um colono por nome Tim&oacute;teo, sujeito pontista,<br \/>\n    como tal conhecido das vizinhan&ccedil;as, e por isso mesmo buscado sempre<br \/>\n    que se tratava de realizar qualquer transa&ccedil;&atilde;o il&iacute;cita<br \/>\n    ou simplesmente equ&iacute;voca.<\/p>\n<p>Era uma casa de taipa como quase todas as outras do lugar, e achando-se a<br \/>\n    pouca distancia do forte tomado pelos holandeses sob o comando do coronel<br \/>\n    Louren&ccedil;o van Rembach aos portugueses em 1633 e denominado por estes<br \/>\n    Forte da Piranga e por aqueles Pr&iacute;ncipe Guilherme em honra do pr&iacute;ncipe<br \/>\n    de Orange. Ficava &agrave; direita da entrada da povoa&ccedil;&atilde;o, por<br \/>\n    detr&aacute;s das primeiras casas. Foi demolido em 181S, pelo intendente da<br \/>\n    marinha Siqueira, que com o respectivo material aterrou a camboa que contornava<br \/>\n    pelo lado do rio a primeira casa, na qual morava.<\/p>\n<p>Tim&oacute;teo estabelecera ali uma vendola ou bodega aonde ia ter o a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    a galinha, a colher de prata, a pe&ccedil;a de roupa ou qualquer objeto que<br \/>\n    era furtado pelos negros dos engenhos da redondeza. No exerc&iacute;cio desta<br \/>\n    criminosa ind&uacute;stria comprava-lhes muitas vezes por dez r&eacute;is<br \/>\n    de mel coado objetos de valor que revendia depois pela hora da morte aos boiadeiros<br \/>\n    e almocreves que acertavam de entrar na venda.<\/p>\n<p>Tim&oacute;teo tivera por companheira uma mameluca de nome Chica, mulher<br \/>\n    bem apessoada, ainda mo&ccedil;a, metida a valentona, finalmente uma dessas<br \/>\n    mulheres que tomam satisfa&ccedil;&otilde;es a Deus e ao mundo por d&aacute;<br \/>\n    c&aacute; aquela palha. Diziam as m&aacute;s l&iacute;nguas que nos primeiros<br \/>\n    tempos de sua vida com o colono ela lhe fora por diferentes vezes ao pelo;<br \/>\n    e que, compreendendo ele que n&atilde;o podia fazer cinco montes, e renunciando<br \/>\n    &agrave; pretens&atilde;o, que a princ&iacute;pio nutrira, trazer sopeada<br \/>\n    a caseira, deixara esta tamb&eacute;m, por justa compensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de repetir o caridoso ensino com que o edificara logo depois de sua lua-mel.<\/p>\n<p>Uma manh&atilde; um rapazito descorado parou &agrave; porta da bodega, saltou<br \/>\n    do cavalo abaixo e mandou medir contrametade de aguardente.<\/p>\n<p> Ol&aacute;, menino Jos&eacute;. Muito cedo navega voc&ecirc; hoje disse<br \/>\n    Tim&oacute;teo ao rec&eacute;m chegado.<\/p>\n<p> Parti de Santo Ant&atilde;o na madrugada velha tornou-lhe o h&oacute;spede.<\/p>\n<p>Enquanto o taverneiro aviava o matinal fregu&ecirc;s, o cavalo que jejuava<br \/>\n    desde a v&eacute;spera p&ocirc;s-se a devorar a grama do p&aacute;tio, e,<br \/>\n    sem consci&ecirc;ncia dos riscos em que se ia meter, foi cair muito naturalmente<br \/>\n    dentro da pequena ro&ccedil;a da mameluca e come&ccedil;ou a destru&iacute;-la<br \/>\n    mostrando ten&ccedil;&atilde;o de dar conta dela.<\/p>\n<p>Mas ainda bem o primeiro jerimum n&atilde;o se havia derretido entre os poderosos<br \/>\n    molares do faminto animal, quando a dona da planta&ccedil;&atilde;o desfechou<br \/>\n    neste tamanho golpe com uma das estacas da cerca, que o pobrezito, dando &agrave;s<br \/>\n    popas pelo meio do p&aacute;tio, foi atirando os sacos aqui, os ca&ccedil;u&aacute;s<br \/>\n    acol&aacute;, a cangalha al&eacute;m, e desembestou por fim, pela margem afora,<br \/>\n    em violenta fuga.<\/p>\n<p>N&atilde;o satisfeita com semelhante desforra, Chica em um pulo ganhou a<br \/>\n    venda, e investiu com o inofensivo matutinho.<\/p>\n<p> Amarelo de Goiana! gritou-lhe ela ao p&eacute; do ouvido. N&atilde;o sei<br \/>\n    onde estou que n&atilde;o te ponho mole com este pau para te ensinar a amarrares<br \/>\n    melhor a tua besta esganada de fome.<\/p>\n<p>O rapaz, volvendo a vista ao volume humano que lhe acabava de falar e cujos<br \/>\n    olhos pareciam querer saltar das &oacute;rbitas, respondeu-lhe sem se alterar<br \/>\n    nem mover:<\/p>\n<p> Besta ! Besta &eacute; ela.<\/p>\n<p>E, senhor de si qual se estivesse gracejando com um amigo, levou o copo aos<br \/>\n    l&aacute;bios com o maior sangue-frio que ainda se p&ocirc;de mostrar na taverna,<br \/>\n    onde as paix&otilde;es se acendem com a prontid&atilde;o do raio.<\/p>\n<p>Irritada por esta repres&aacute;lia que a seus olhos pareceu condensar todo<br \/>\n    o desprezo do mundo, a mameluca n&atilde;o teve d&uacute;vida, n&atilde;o,<br \/>\n    e levantou a acha para o rapazito.<\/p>\n<p>Tinha este deposto o copo sobre o imundo balc&atilde;o quando pressentiu<br \/>\n    a arremetida; p&ocirc;de por isso fugir em tempo com o corpo &agrave; violenta<br \/>\n    pancada. A estaca bateu a meio no balc&atilde;o&#8217; e metade dela voou pelos<br \/>\n    ares em estilha&ccedil;os que foram quebrar as panelas de barro e as poentas<br \/>\n    botijas com que se achavam adornadas as sujas prateleiras da pocilga.<\/p>\n<p>Ouviu-se ent&atilde;o um estalo, e logo o baque de um pesado corpo. Jos&eacute;<br \/>\n    havia desandado com tanta for&ccedil;a uma bofetada na mameluca, que a fizera<br \/>\n    cair redondamente no ch&atilde;o.<\/p>\n<p>Quis Tim&oacute;teo acudir &agrave; companheira na apertada conjuntura que<br \/>\n    se lhe desenhou aos olhos com as negras cores de um desastre, ou vergonha<br \/>\n    para o lar e bodega onde nunca sofrera afronta igual ou que com esta se parecesse.<br \/>\n    Mas quando apercebia o animo para dar o arriscado passo, descobriu na m&atilde;o<br \/>\n    de Jos&eacute; uma faca de Pasmado que o reteve a respeitosa dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Julgando-se Jos , &agrave; vista do agravo que recebera, com direito a p&uacute;blico<br \/>\n    e estrondoso despique, arrastou por uma perna a mameluca, ainda tonta, para<br \/>\n    o terreiro, e a&iacute;, com uma raiz de gameleira com que os meninos tinham<br \/>\n    brincado na v&eacute;spera, come&ccedil;ou a p&ocirc;r em pr&aacute;tica a<br \/>\n    mais edificativa sova de que nos d&atilde;o not&iacute;cia as tradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    matutas.<\/p>\n<p>A mameluca tentou por diferentes vezes livrar se das m&atilde;os do rapazito,<br \/>\n    espernegando como possessa. As m&atilde;os de Jos&eacute; por&eacute;m pareciam,<br \/>\n    pela dureza e pelo peso, manoplas fundidas de prop&oacute;sito para esmagar<br \/>\n    um gigante. Demais, Jos&eacute; havia posto um p&eacute; no pesco&ccedil;o<br \/>\n    da Chica, e com ele comprimia lhe o gasnete, tirava lhe a respira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    afogava a sem piedade.<\/p>\n<p>A estrada estava deserta. Os moradores da povoa&ccedil;&atilde;o, de ordin&aacute;rio<br \/>\n    madrugadores, por infelicidade da caseira de Tim&oacute;teo dormiram demais<br \/>\n    nesse dia do que tinham por costume. Al&eacute;m disso, as casas mais pr&oacute;ximas<br \/>\n    da venda ficavam ainda a distancia, sendo todas, como ent&atilde;o eram, muito<br \/>\n    espalhadas. Esta circunst&acirc;ncia, tirando toda esperan&ccedil;a de pronto<br \/>\n    socorro, animou Jos&eacute; a prolongar o exerc&iacute;cio para o qual podia<br \/>\n    dizer se estava preparado por diuturno h&aacute;bito. Depois de alguns minutos,<br \/>\n    sentiu Tim&oacute;teo subirem lhe enfim &agrave;s faces os restos do equ&iacute;voco<br \/>\n    brio e gritou, sempre de longe:<\/p>\n<p> Voc&ecirc; quer matar me a Chica, Jos&eacute; ?<\/p>\n<p> Deixe ensinar esta cabra, seu Tim&oacute;teo. Ela nunca viu homem, e por<br \/>\n    isso anda aqui feita galinho de terreiro, ou peru de roda, metendo medo a<br \/>\n    todos estes papa siris dos Afogados.<\/p>\n<p>Assim dizendo, Jos&eacute; montava se literalmente na mameluca, e dava lhe<br \/>\n    com os restos da raiz da gameleira j&aacute; sem serventia. A faca, que minutos<br \/>\n    antes reluzira em uma das m&atilde;os estava agora atravessada na boca do<br \/>\n    matuto, em quem o ign&oacute;bil vendeiro parecia ver, n&atilde;o uma figura<br \/>\n    humana, mas uma vis&atilde;o infernal que o amea&ccedil;ava, a ele tamb&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o com igual pisa, mas com a morte, que para ele era mil vezes pior.<\/p>\n<p>De repente Jos&eacute; colheu o &iacute;mpeto, p&ocirc;s se de p&eacute;,<br \/>\n    e inquiriu de si para si:<\/p>\n<p> E o meu cavalo ?<\/p>\n<p>Correu incontinenti &agrave; margem e soltou um longo assobio que atroou<br \/>\n    o solid&atilde;o mal desperta; a margem estava erma, e s&oacute; o sil&ecirc;ncio<br \/>\n    respondeu ao seu chamamento. Tornou ao p&aacute;tio onde alguns vizinhos,<br \/>\n    finalmente atra&iacute;dos pelos gritos, ao princ&iacute;pio furiosos, depois<br \/>\n    rouquenhos, e por &uacute;ltimo cansados e quase impercept&iacute;veis da<br \/>\n    moribunda mulher banhada em sangue, tratavam de restitu&iacute; la &agrave;<br \/>\n    casa.<\/p>\n<p> E o que te vale, cabra do diabo! disse Jos&eacute;, olhando para o volume<br \/>\n    inanimado que m&atilde;os tardiamente piedosas arrastavam ao casebre. O que<br \/>\n    te vale &eacute; ter eu que ir em busca do meu cavalo. Se n&atilde;o fosse<br \/>\n    ele, nunca mais comias farinha.<\/p>\n<p>Dias depois voltou Jos&eacute;, montado no seu cavalo, trazendo uma espingarda<br \/>\n    nova na m&atilde;o, uma faca de arrasto pendente da cintura, os ca&ccedil;u&aacute;s<br \/>\n    cheios de pe&ccedil;as de pano e outros objetos que se vendiam nas lojas da<br \/>\n    vila.<\/p>\n<p> Boa tarde, seu Tim&oacute;teo disse ele, pondo se em terra de um pulo e<br \/>\n    entrando sem cerim&ocirc;nia na tasca. D&aacute; me not cias de Chica ?<\/p>\n<p> Voc&ecirc; ainda vem falar nisso ? redarg&uuml;iu o vendeiro com semblante<br \/>\n    hip&oacute;crita, mas na realidade sobressaltado.<\/p>\n<p> Por que n&atilde;o? Queria acabar de dar lhe a li&ccedil;&atilde;o que principiei<br \/>\n    na quarta feira. Mas desta feita a coisa havia de ser de outra moda. Queria<br \/>\n    ver se lhe entrava nas banhas da barriga este fac&atilde;o, como entra nesta<br \/>\n    melancia.<\/p>\n<p> Pois n&atilde;o sabe que a Chica morreu da sua tirania ?<\/p>\n<p> Ah! fez esta bestidade? Pois ent&atilde;o, para .celebrarmos o caso, bote<br \/>\n    aguardente e bebamos.<\/p>\n<p>Tim&oacute;teo encheu sem demora o copo que apresentou a Jos&eacute;.<\/p>\n<p> Beba primeiro disse este.<\/p>\n<p> N&atilde;o, eu n&atilde;o bebo respondeu o taverneiro.<\/p>\n<p> N&atilde;o bebe ? H&aacute; de beber. E n&atilde;o se demore que tenho pressa.<br \/>\n    Atr&aacute;s de mim vem algu&eacute;m em minha procura, e eu n&atilde;o estou<br \/>\n    disposto a fazer mais carni&ccedil;a por hoje.<\/p>\n<p> Que imprud&ecirc;ncia a sua, menino! N&atilde;o bebo, n&atilde;o quero beber,<br \/>\n    est&aacute; acabado. Veja se me obriga.<\/p>\n<p>A este rasgo de cobarde arrog&acirc;ncia que seria digna do riso se n&atilde;o<br \/>\n    despertasse compaix&atilde;o, Jos&eacute; retrucou, fitando os olhos do colono:<\/p>\n<p> Seu Tim&oacute;teo, voc&ecirc; vai errado. Olhe que eu n&atilde;o posso<br \/>\n    demorar me nem sou de gra&ccedil;as. Beba a aguardente por quem &eacute;.<\/p>\n<p>O taverneiro, sem replicar, p&ocirc;s o copo na boca, e, depois de haver<br \/>\n    sorvido alguns goles que lhe souberam a qu&aacute;ssia ou jurubeba, restituiu<br \/>\n    o ao rapazito, que o esvaziou quase de um trago.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, sem cuidar de pagar a despesa, Jos&eacute; saltou sobre a cangalha,<br \/>\n    p&ocirc;s o cavalo a todo o galope e desapareceu no caminho como desaparece<br \/>\n    um raio na atmosfera.<\/p>\n<p>Com pouco uma escolta subiu a ponte e foi fazer alto na vendola de Tim&oacute;teo.<br \/>\n    Vinha na batida de Jos&eacute;, que havia cometido um roubo consider&aacute;vel<br \/>\n    na pra&ccedil;a, tendo, para escapar se, assassinado um caixeiro e deixado<br \/>\n    &agrave;s portas da morte com um sem n&uacute;mero de golpes, dois soldados<br \/>\n    que diligenciaram prend&ecirc; lo.<\/p>\n<p>Pertencem estas ao n&uacute;mero das primeiras proezas do Cabeleira. N&atilde;o<br \/>\n    contava ele ent&atilde;o dezesseis anos completos. Perpetrava entretanto,<br \/>\n    destes crimes, e com esta firmeza que daria renome aos mais h&aacute;beis<br \/>\n    e audaciosos assassinos.<\/p>\n<p>N&atilde;o obstante o modo por que o tratara desta o vez o jovem Cabeleira,<br \/>\n    nunca Tim&oacute;teo ficara mal ou se arrufara sequer com ele. Quem n&atilde;o<br \/>\n    descobre a raz&atilde;o de tal segredo ? O colono respeitava e temia o matuto.<br \/>\n    Por detr&aacute;s, dizia, &agrave;queles de cuja fraqueza estava certo, que<br \/>\n    o Jos&eacute; era uma oncinha que se estava criando e que era preciso, enquanto<br \/>\n    n&atilde;o passava de tempo, tirar do pasto; na presen&ccedil;a do rapaz,<br \/>\n    que j&aacute; lhe tinha mostrado por duas vezes de quanto era capaz, s&oacute;<br \/>\n    tinha ele aten&ccedil;&otilde;es e baixezas que bem denotavam os quilates<br \/>\n    do seu esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>Jos&eacute; cresceu, reformou, p&ocirc;s se de todo homem. Perdeu a cor terrena<br \/>\n    e p&aacute;lida com o que vimos da primeira vez na taverna, e tornou se robusto<br \/>\n    de corpo e bonito de fei&ccedil;&otilde;es. Cabelos compridos e anelados,<br \/>\n    que lhe ca&iacute;am nos ombros, substitu&iacute;ram a penugem que mal lhe<br \/>\n    abrigava a cabe&ccedil;a nos primeiros anos.<\/p>\n<p>Tim&oacute;teo fora testemunha de todas estas transforma&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    O rapaz tinha escolhido para seu ponto de opera&ccedil;&otilde;es contra a<br \/>\n    vila a taverna dos Afogados. Esta taverna passara a ser um como entreposto<br \/>\n    onde ele depositava o que roubava com o pai e, mais tarde, com o Teod&oacute;sio<br \/>\n    que viera associar lhes nos perigos e nos proveitos. O taverneiro achara se<br \/>\n    assim em condi&ccedil;&otilde;es de acompanhar dia por dia as diferentes fases,<br \/>\n    os variad&iacute;ssimos sucessos de uma das exist&ecirc;ncias mais admir&aacute;veis<br \/>\n    que se conhecem na carreira do crime.<\/p>\n<p>Por sua vez Jos&eacute; vira o florescer e o declinar do taverneiro. Quando<br \/>\n    o livrara da companhia da Chica achava se Tim teo nos seus quarenta e oito<br \/>\n    anos. Agora or&ccedil;ava pelos cinq&uuml;enta e cinco. Tornara lhe o cabelo<br \/>\n    branco; distendera lhe o abdome, ca&iacute;ram lhe um pouco as faces, sumiram<br \/>\n    lhe os olhos debaixo das espessas sobrancelhas, que pareciam espinhos de cardeiro.<br \/>\n    Sem que um entrasse nos segredos do outro, os dois diziam se amigos, e at&eacute;<br \/>\n    certo ponto apoiavam se reciprocamente, havendo muitos respeitos entre ambos,<br \/>\n    perfeito acordo de inten&ccedil;&otilde;es e inteira comunidade de interesses.<\/p>\n<p>As barras vinham quebrando quando a canoa dirigida por Teod&oacute;sio encostou<br \/>\n    na beira do Capibaribe, junto &agrave; ponte dos Afogados. Dentro em pouco<br \/>\n    a pingue messe da noite. colhida &agrave;s custas de sustos, sangue e morte,<br \/>\n    passou para os esconderijos da taverna. Beberam em comum os quatro; celebraram<br \/>\n    todos a magistral fa&ccedil;anha. Tim&oacute;teo aplaudiu a coragem do pai<br \/>\n    e do filho, e a finura e as m&aacute;gicas do Teod&oacute;sio.<\/p>\n<p>De repente este levou a m&atilde;o &agrave; testa e correu como desesperado<br \/>\n    &agrave; margem. Os companheiros meteram m&atilde;os &agrave;s armas e prepararam<br \/>\n    se para o que desse e viesse.<\/p>\n<p>Tim&oacute;teo, chegando &agrave; porta e estendendo os olhos pelo aterro<br \/>\n    dos Afogados afora, nada descobriu na extensa solid&atilde;o que pudesse justificar<br \/>\n    a inquieta&ccedil;&atilde;o do seu digno conviva.<\/p>\n<p>S&oacute; o Teod&oacute;sio, de p&eacute; sobre uma das mais altas ribanceiras,<br \/>\n    olhava para um e outro lado do rio, e dava mostras de querer arrancar os cabelos<br \/>\n    no auge do desespero. Jos&eacute; disp&ocirc;s se a arrostar com o que pudesse<br \/>\n    acontecer e foi ter com o consternado amigo.<\/p>\n<p> Que diabo tens tu, Teod&oacute;sio?<\/p>\n<p> O dinheiro, Cabeleira, o dinheiro!<\/p>\n<p>E o pardo, com o semblante desfigurado por uma dor profunda, apontou o rio<br \/>\n    que suavemente discorria por entre o deserto, mobilizando as &aacute;guas<br \/>\n    azuladas em que se refletia o belo c&eacute;u pernambucano que disputa a primazia<br \/>\n    ao c&eacute;u de It&aacute;lia.<\/p>\n<p> O dinheiro que tirei das gavetas do armaz&eacute;m l&aacute; se foi no camarote<br \/>\n    da canoa!disse o Teod&oacute;sio, fulo de pesar que se n&atilde;o descreve.<\/p>\n<p> E que fim levou ela? interrogou Jos&eacute;.<\/p>\n<p> Fugiu, desapareceu ! L&aacute; se foi tudo pela &aacute;gua abaixo.<\/p>\n<p>N&atilde;o acabava quando, ei la que aponta movida por dois meninos que,<br \/>\n    tendo ido encher os potes no rio, se haviam apoderado dela para brincarem<br \/>\n    como costumavam sempre que davam com alguma canoa sem dono. Pobres crian&ccedil;as<br \/>\n    !<\/p>\n<p>Tanto que os viu, Teod&oacute;sio empalideceu. Cabeleira por&eacute;m correu<br \/>\n    a encontr&aacute; los aceso em ira, gritando e ralhando como louco. Amedrontados<br \/>\n    saltaram na margem os pobrezinhos e fugiram, ao passo que a canoa, ficando<br \/>\n    solta, desaparecia novamente impelida pela enchente da mar&eacute;.<\/p>\n<p>Fazendo conta Jos&eacute; que os meninos se haviam assenhoreado do dinheiro,<br \/>\n    continuou a correr no encal&ccedil;o deles sem ter outra id&eacute;ia que<br \/>\n    apanh&aacute; los para arrancar lhes das m&atilde;os o que considerava propriedade<br \/>\n    sua. Mas como sua c&oacute;lera aumentou com a fugitiva resist&ecirc;ncia<br \/>\n    dos pequenos, atirou ele sobre o primeiro que lhe ficou ao alcance o fac&atilde;o<br \/>\n    com tanta certeza, que o pobrezinho, cravado pelas costas, caiu banhado em<br \/>\n    seu pr&oacute;prio sangue. N&atilde;o parou a&iacute; ent&atilde;o a fereza<br \/>\n    inaudita. Jos&eacute;, achando limpas as m&atilde;os da v&iacute;tima, lan&ccedil;ou<br \/>\n    se com encarni&ccedil;ada f&uacute;ria atr&aacute;s do camarada, o qual, tendo<br \/>\n    j&aacute; ganho grande distancia, e sentindo que era perseguido tenazmente,<br \/>\n    se lembrou de trepar no primeiro coqueiro que descobriu com os olhos p&aacute;vidos,<br \/>\n    crendo escapar por este modo ao terr&iacute;vel assassino. Reconheceu, por&eacute;m,<br \/>\n    que se havia enganado, quando deu com as vistas em Jos&eacute; que do ch&atilde;o<br \/>\n    diligenciava feri lo com o fac&atilde;o.<\/p>\n<p> Acuda, mam&atilde;e, que o homem me quer matar gritou o menino das alturas<br \/>\n    aonde havia subido.<\/p>\n<p> Ah, tu p&otilde;es a boca no mundo, caiporinha ? observou Jos&eacute;. Pois<br \/>\n    vou tirar te a fala em um instante.<\/p>\n<p>Um tiro cobarde, cruel, assassino, atroou os ares. Sangue copioso e quente<br \/>\n    gotejou como granizo sobre a areia e no mesmo instante o corpo do inocentinho,<br \/>\n    crivado de bala e chumbo, caindo aos p&eacute;s de Cabeleira, veio dar lhe<br \/>\n    novo testemunho de sua per&iacute;cia na arte de atirar contra seu semelhante.<\/p>\n<p>Quem estivesse com os olhos em Teod&oacute;sio no momento em que Cabeleira<br \/>\n    correra atr&aacute;s dos meninos, t&ecirc; ia visto atirar dentro em uma moita<br \/>\n    de mu&ccedil;amb&eacute;s e manjeriobas, que ficava perto da ribanceira, um<br \/>\n    pesado pacote que tirara do bolso. Neste pacote achava se o dinheiro roubado<br \/>\n    ao lojista pelo astucioso ladr&atilde;o que agora o furtava novamente aos<br \/>\n    pr&oacute;prios companheiros de rapinas, depois de haver concorrido, por sua<br \/>\n    trapa&ccedil;a, para a morte das inocentes criaturas.<\/p>\n<p>Quando se soube que Cabeleira estava na terra e tinha sido o autor do latroc&iacute;nio,<br \/>\n    a povoa&ccedil;&atilde;o horrorizada tratou unicamente de escapar a sua ferocidade.<\/p>\n<p>Grande parte dos moradores fugiu para os matos e praias circunvizinhas. Outros,<br \/>\n    dos mais corajosos, fortificaram se nas pr&oacute;prias habita&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    contando que seriam assaltados pelos matadores.<\/p>\n<p>Felizmente estes demoraram se no lugar unicamente o tempo que lhes foi preciso<br \/>\n    para por&eacute;m em boa esp&eacute;cie os objetos roubados segundo usavam<br \/>\n    depois de suas depreda&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<h2><a name=\"3\">Cap&Iacute;tulo III<\/a><\/h2>\n<p>Como nunca um mal vem desacompanhado, segundo mui bem diziam nossos maiores<br \/>\n    com aquela autoridade que, entre outros graves of&iacute;cios, n&atilde;o<br \/>\n    se lhes pode recusar na ci&ecirc;ncia da vida, ao grande cont&aacute;gio das<br \/>\n    bexigas, que todo o ano de 1775 e uma parte do seguinte levou assolando a<br \/>\n    prov&iacute;ncia de Pernambuco, sucedeu uma seca abrasadora, mal n&atilde;o<br \/>\n    menos penoso sen&atilde;o mais funesto que o primeiro em seus resultados.<\/p>\n<p>Se por ocasi&atilde;o do referido cont&aacute;gio subiu o n&uacute;mero das<br \/>\n    v&iacute;timas a tanto, que os cemit&eacute;rios e as igrejas j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    tinham espa&ccedil;o para lhes oferecer sepulturas, que diremos n&oacute;s<br \/>\n    para darmos a conhecer, n&atilde;o unicamente os efeitos da peste, comum a<br \/>\n    todos os climas e a todas as regi&otilde;es, mas juntamente com estes efeitos<br \/>\n    os da seca, flagelo especial de algumas de nossas prov&iacute;ncias do Norte<br \/>\n    ?<\/p>\n<p>Excetuada a febre amarela por ocasi&atilde;o de sua primeira invas&atilde;o,<br \/>\n    a qual se verificou em Pernambuco em 168G, n&atilde;o consta que alguma outra<br \/>\n    calamidade de poste haja sido mais fatal &agrave;queles povos do que a sobredita<br \/>\n    calamidade. Do mesmo modo a seca, chamada em Cear&aacute; &quot;seca grande&quot;,<br \/>\n    que arrasou Pernambuco desde 1791 at&eacute; 1793, com ser mais intensa e<br \/>\n    duradoura do que a de 1776, ficou?lhe aqu&eacute;m nos estragos produzidos<br \/>\n    nesta &uacute;ltima prov&iacute;ncia onde esta seca foi precedida do terr&iacute;vel<br \/>\n    cont&aacute;gio que levou milhares de almas como j&aacute; dissemos. Dois<br \/>\n    flagelos, um imediatamente depois do outro, para n&atilde;o dizermos dois<br \/>\n    flagelos reunidos, dos quais o primeiro disputava ao segundo a primazia no<br \/>\n    abater e o destruir, traziam pois a prov&iacute;ncia em cont&iacute;nuo pranto<br \/>\n    e luto, pranto nunca chorado e luto nunca visto em tamanho extens&atilde;o,<br \/>\n    ao tempo em que se passaram os acontecimentos que diremos neste cap&iacute;tulo.<\/p>\n<p>Governava ent&atilde;o Pernambuco Jos&eacute; C&eacute;sar de Meneses que<br \/>\n    n&atilde;o se demorou a expedir para diferentes pontos recursos m&eacute;dicos<br \/>\n    e aliment&iacute;cios, a fim de combater a epidemia, e acudir &agrave; pobreza<br \/>\n    no seio da qual, ao mesmo tempo que a fome, conseq&uuml;&ecirc;ncia natural<br \/>\n    da seca, ia ela buscar, como sempre sucede, o maior n&uacute;mero de suas<br \/>\n    v&iacute;timas.<\/p>\n<p>N&atilde;o se fez esperar com seu quinh&atilde;o de aux&iacute;lio o poder<br \/>\n    espiritual, ent&atilde;o amigo desinteressado e leal do poder civil, n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; em Pernambuco, mas tamb&eacute;m em todas as capitanias do Brasil.<br \/>\n    E por que n&atilde;o havia de suceder assim, se sob as ab&oacute;badas do<br \/>\n    Vaticano ainda volteava, representado na pureza e sabedoria de sua doutrina,<br \/>\n    o grandioso esp&iacute;rito de Ganganelli; se aos jesu&iacute;tas, expatriados,<br \/>\n    repelidos do seio de todos os Estados civilizados, faltava a organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que havia antes imposto ao mundo esta companhia como a mais poderosa das at&eacute;<br \/>\n    a esse tempo conhecidas, e que veio depois restituir?lhes, n&atilde;o a totalidade,<br \/>\n    mas uma grande parte do perdido predom&iacute;nio; se no pal&aacute;cio da<br \/>\n    Soledade se sentava d. Tom&aacute;s da Encarna&ccedil;&atilde;o Costa e Lima<br \/>\n    que tornou distinto o dec&ecirc;nio de seu minist&eacute;rio por sua circunspe&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    por sua brandura, por suas virtudes, as quais nos cora&ccedil;&otilde;es dos<br \/>\n    diocesanos lhe erigiram altares mais naturais e mais s&oacute;lidos que os<br \/>\n    dos pr&oacute;prios templos ?<\/p>\n<p>Um bispo, que compreende sua miss&atilde;o, &eacute; uma das maiores fortunas<br \/>\n    dos povos que pastoreio; porque um tal bispo, para proceder assim, tem necessidade<br \/>\n    de saber e de exercitar a caridade; porque um tal bispo n&atilde;o admite<br \/>\n    em seu cora&ccedil;&atilde;o a mais m&iacute;nima sombra de &oacute;dio, e<br \/>\n    s&oacute; possibilita a entrada nele &agrave; humildade, &agrave; mod&eacute;stia,<br \/>\n    aos mais delicados afetos paternais; porque de todos estes predicados s&oacute;<br \/>\n    se podem originar grandes e edificantes benef&iacute;cios para os crentes,<br \/>\n    e particularmente para os pobres.<\/p>\n<p>D. Tom&aacute;s dirigiu?se a este ideal, &uacute;nico em que devem ter os<br \/>\n    olhos aqueles que se acobertam com as vestiduras episcopais antes para representarem,<br \/>\n    como lhes cumpre, o of&iacute;cio da piedade e do amor celestial, que a magistratura<br \/>\n    das mundanas ambi&ccedil;&otilde;es. Ah, esta magistratura &eacute; muito<br \/>\n    mais dif&iacute;cil de contrastar e muito mais cruel quando m&oacute;i em<br \/>\n    nome de Deus as consci&ecirc;ncias, do que quando, galoada ao sabor de fic&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    caducas, encorrenta a liberdade em nome da ordem e da raz&atilde;o p&uacute;blica,<br \/>\n    as quais s&atilde;o um dia as primeiras que proclamam estarem inocentes. Deus<br \/>\n    por&eacute;m, com ser t&atilde;o poderoso e grande, n&atilde;o pode falar,<br \/>\n    e &eacute; por isso que muitas e reprovadas paix&otilde;es se dizem ecos de<br \/>\n    sua voz.<\/p>\n<p>Acredito que d. Tom&aacute;s foi bom, piedoso e justo por efeito de sua pr&oacute;pria<br \/>\n    natureza; h&aacute; por&eacute;m quem diga que deve ele seu adiantamento no<br \/>\n    caminho da perfei&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica, de que nos deixou formos&iacute;ssima<br \/>\n    estampa, ao estudo dos exemplos que lhe legaram seus predecessores e ao empenho<br \/>\n    com que buscou imit&aacute;?los.<\/p>\n<p>O que fica fora de toda d&uacute;vida &eacute; que d. Tom&aacute;s achou<br \/>\n    a cadeira episcopal de Olinda verdadeiramente ilustrada por consp&iacute;cuas<br \/>\n    e benem&eacute;ritas virtudes que n&atilde;o foram at&eacute; hoje igualadas.<br \/>\n    Assim, d. Francisco de Lima morreu t&atilde;o pobre que unicamente se lhe<br \/>\n    encontraram de seu quarenta r&eacute;is em dinheiro. Ele havia despendido<br \/>\n    todas as rendas da mitra na sustenta&ccedil;&atilde;o das trinta miss&otilde;es<br \/>\n    de &iacute;ndios que reunira e visitara no seio de in&oacute;spitos sert&otilde;es,<br \/>\n    sendo?lhe preciso, para cumprimento deste apost&oacute;lico dever, transpor<br \/>\n    mais de duzentas l&eacute;guas na avan&ccedil;ada idade de setenta anos. D.<br \/>\n    Jos&eacute; Fialho n&atilde;o deixou nunca de exercitar as fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pastorais com honra sua e proveito p&uacute;blico. Por ocasi&atilde;o de uma<br \/>\n    epidemia que grassou na prov&iacute;ncia, este respeit&aacute;vel ant&iacute;stite<br \/>\n    freq&uuml;entou o p&uacute;lpito, visitou os enfermos, acudiu aos necessitados,<br \/>\n    e deu ordem nas boticas para que, por conta dele, se aviassem rem&eacute;dios<br \/>\n    para os doentes que os m&eacute;dicos e cirurgi&otilde;es declarassem serem<br \/>\n    pobres. Exercitou a caridade com tanto fervor que sua fam&iacute;lia veio<br \/>\n    a experimentar em casa falta do necess&aacute;rio. D. Lu&iacute;s de Santa<br \/>\n    Teresa deu come&ccedil;o ao pal&aacute;cio da Soledade, e concorreu para a<br \/>\n    funda&ccedil;&atilde;o dos recolhimentos de Olinda, Iguara&ccedil;u, Afogados<br \/>\n    e Para&iacute;ba, gastando nas respectivas obras o produto de suas rendas:<br \/>\n    missionou desde Porto Calvo at&eacute; ao Rio Grande do Norte. Finalmente<br \/>\n    d. Francisco Xavier Aranha concluiu o sobredito pal&aacute;cio, realizou diferentes<br \/>\n    melhoramentos na igreja da S&eacute; e em v&aacute;rias outras igrejas, visitou<br \/>\n    grande parte da diocese, e foi muito zeloso nos deveres de seu sagrado minist&eacute;rio.<br \/>\n    Depois de d. Tom&aacute;s dignificaram ainda aquela cadeira d. Diogo de Jesus<br \/>\n    Jardim, o esmoler, d. Azevedo Coutinho, o s&aacute;bio, d. Marques Perdig&atilde;o,<br \/>\n    o piedoso, o pacificador dos cabanos.<\/p>\n<p>Estamos pois em 1776. E no momento em que o fogo da peste mais abrasara a<br \/>\n    prov&iacute;ncia.<\/p>\n<p>D. Tom&aacute;s mandou distribuir esmolas pelos pobres de Olinda e do Recife<br \/>\n    e despachou, como havia feito o governador, socorros em dinheiro e v&iacute;veres<br \/>\n    &agrave;s povoa&ccedil;&otilde;es mais afligidas do mal. Para completo desempenho<br \/>\n    de seu dever pastoral, ordenou que se fizessem preces em todas as matrizes<br \/>\n    e em todos os conventos, e convidou o povo a prociss&otilde;es de penit&ecirc;ncia.<br \/>\n    As prociss&otilde;es eram ent&atilde;o atos majestosos e dignos. Uma delas<br \/>\n    produziu t&atilde;o viva e salutar impress&atilde;o no esp&iacute;rito do<br \/>\n    povo daquele tempo, que o historiador se julgou na obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de transmitir sua mem&oacute;ria &agrave; posteridade.<\/p>\n<p>Eram sete horas da noite quando esta prociss&atilde;o, que saiu da igreja<br \/>\n    de S. Pedro, se encaminhou &agrave; da Madre de Deus, designada para um rigoroso<br \/>\n    miserere. O bispo acompanhou?a em pessoa, descal&ccedil;o, e confundido com<br \/>\n    o povo. Todos, vestidos de branco, disciplinavam?se com sincera contri&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Tendo chegado &agrave; igreja, d. Tom&aacute;s subiu ao p&uacute;lpito, donde<br \/>\n    sua palavra come&ccedil;ou a cair com a singela eloq&uuml;&ecirc;ncia que<br \/>\n    a verdadeira piedade suscita e a que o amor paternal autoriza. O devoto bispo<br \/>\n    havia?se inspirado naquela passagem que um dos primeiros luminares das letras<br \/>\n    portuguesas, frei Lu&iacute;s de Sousa, nos deixou em sua imortal Hist&oacute;ria<br \/>\n    de S. Domingos, e que se refere ao serm&atilde;o pregado com id&ecirc;ntico<br \/>\n    fim pelo visitador frei Jo&atilde;o Furtado, em &Eacute;vora.<\/p>\n<p>Antes que o povo come&ccedil;asse a dispersar?se, tr&ecirc;s penitentes,<br \/>\n    envoltos nos competentes len&ccedil;&oacute;is e armados com as respectivas<br \/>\n    disciplinas, tomram pela rua Direita abaixo trocando &agrave; puridade entre<br \/>\n    si palavras que davam a entender acharem?se eles penetrados antes de contentamento<br \/>\n    que de contri&ccedil;&atilde;o, sentimento que a ocasi&atilde;o autorizava<br \/>\n    com mais justi&ccedil;a a supor em sujeitos tais. Eram Joaquim, Jos&eacute;<br \/>\n    e Teod&oacute;sio como o leitor j&aacute; deve ter compreendido.<\/p>\n<p>Quando d. Tom&aacute;s se recolheu a seu pal&aacute;cio achou?se roubado.<br \/>\n    Jos&eacute;, Joaquim e Teod&oacute;sio, que no momento em que ele sa&iacute;ra<br \/>\n    a cumprir o piedoso mister, se haviam introduzido &agrave; sorrelfa, com a<br \/>\n    facilidade que proporciona o disfarce, em uma das muitas salas ou em um dos<br \/>\n    muitos corredores desse edif&iacute;cio, tinham tirado, na aus&ecirc;ncia<br \/>\n    do venerando propriet&aacute;rio, n&atilde;o os casti&ccedil;ais de prata<br \/>\n    como fizera Jo&atilde;o Valjean em casa do bispo Miriel, mas diferentes quantias<br \/>\n    que d. Tom&aacute;s destinara para novos aux&iacute;lios &agrave; pobreza<br \/>\n    do alto sert&atilde;o mais afligida da fome do que nenhuma outra da diocese.<br \/>\n    Estas quantias achavam?se repartidas e j&aacute; devidamente acondicionadas<br \/>\n    em pacotes distintos, que s&oacute; esperavam oportunidade para seguirem seu<br \/>\n    destino.<\/p>\n<p>O digno prelado leu a triste verdade na confus&atilde;o em que, ao entrar<br \/>\n    em seu gabinete, achou os of&iacute;cios e instru&ccedil;&otilde;es que, com<br \/>\n    as esmolas da sua profunda piedade agora desaparecidas, dirigia aos p&aacute;rocos<br \/>\n    dessas long&iacute;nquas e desvalidas freguesias.<\/p>\n<p>No dia seguinte, muito cedinho, um cavaleiro esbarrou na vendola de Tim&oacute;teo<br \/>\n    e, saltando em terra e batendo com alguma precipita&ccedil;&atilde;o na porta,<br \/>\n    perguntou para dentro:<\/p>\n<p> Ainda est&aacute; dormindo, seu Tim&oacute;teo ?<\/p>\n<p> Quem &eacute; voc&ecirc;? interrogou o vendeiro em resposta &agrave; pergunta<br \/>\n    que deixamos repetida.<\/p>\n<p> Abra a porta sem demora, que tenho que lhe dizer.<\/p>\n<p>O rec&eacute;m?chegado era um crioulo alto, magro, de boa cara e de jeitos<br \/>\n    e meneios que revelavam extrema benevol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Olhe, seu Tim&oacute;teo; ou&ccedil;a?me c&aacute;. Eu sei que em sua casa<br \/>\n    est&aacute; o Cabeleira com o pai e o Teod&oacute;sio; e por isso corri a<br \/>\n    avis&aacute;?los. Uma tropa vem j&aacute; do Recife para prend&ecirc;?los.<br \/>\n    Diga a eles que se metam na capoeira enquanto &eacute; tempo.<\/p>\n<p> E como soube voc&ecirc; disso ?<\/p>\n<p> Sabendo. No come&ccedil;o do Aterro passei eu por ela. O governador ficou<br \/>\n    muito escandalizado com o que eles fizeram ontem &agrave; noite no pal&aacute;cio<br \/>\n    do bispo, e diz que h&aacute; de p&ocirc;?los na corda mais dias menos dias.<br \/>\n    Tudo isso me contaram na venda de seu Jos&eacute; do p&aacute;tio da Ribeira.<\/p>\n<p> Homem, n&atilde;o posso deixar de lhe agradecer seu aviso.<\/p>\n<p> N&atilde;o tem que me agradecer. Eu quis fazer este servi&ccedil;o ao pr&oacute;prio<br \/>\n    Z&eacute; Gomes; com o pai pouco me importa, que, aqui entre n&oacute;s, &eacute;<br \/>\n    muito descort&ecirc;s e desaforado. Mas, tendo meu irm&atilde;o Liberato visto<br \/>\n    Z&eacute; Gomes; menino, e querendo?lhe por isso algum bem, achei que era<br \/>\n    minha obriga&ccedil;&atilde;o fazer o que em meu caso faria meu irm&atilde;o<br \/>\n    para livrar do risco o antigo conhecido. Diga?lhe isto mesmo. E at&eacute;<br \/>\n    a primeira vista, que tenho que ir encher ainda de aguardente estas ancoretas<br \/>\n    no engenho da Madalena; al&eacute;m disso a soldadesca j&aacute; deve vir<br \/>\n    bem perto no faro das cascav&eacute;is que est&atilde;o no ninho.<\/p>\n<p>Quando Tim&oacute;teo volveu a dar parte do que lhe dissera o negro, n&atilde;o<br \/>\n    encontrou os tr&ecirc;s malfeitores (os quais na realidade tinham passado<br \/>\n    a noite na taverna), sen&atilde;o o Teod&oacute;sio que, sabendo de tudo melhor<br \/>\n    do que os outros dois, os quais haviam unicamente ouvido atrav&eacute;s das<br \/>\n    portas algumas das palavras do negro, correu sem demora a meter?se em uma<br \/>\n    esp&eacute;cie de esconderijo que arranjara em Tigipi&oacute; e cuja exist&ecirc;ncia<br \/>\n    era s&oacute; dele conhecida.<\/p>\n<p>Na &eacute;poca em que se passou esta hist&oacute;ria, fazia o Capibaribe,<br \/>\n    adiante do Forte da Piranga, um cotovelo, que foi depois aterrado, e &eacute;<br \/>\n    hoje quintal de uma casa. O &acirc;ngulo internava?se na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do sul por entre uns lajedos alcantilados que se sumiam dentro de um cap&atilde;o<br \/>\n    de mato.<\/p>\n<p>Era uma situa&ccedil;&atilde;o selvagem e encantadora, pela fartura da amenidade<br \/>\n    e das sombras com que a dotara a natureza, a qual desde os Afogados at&eacute;<br \/>\n    o Peres apresenta uma face mon&oacute;tona e tristeuma imensa plan&iacute;cie,<br \/>\n    coberta de capim?luca.<\/p>\n<p>Por entre as lajes via?se uma vereda de gado que ia ter no engenho da Madalena<br \/>\n    ou do Mendon&ccedil;a, segundo o chamaram antes. Esse atalho encurtada quase<br \/>\n    um quarto de l&eacute;gua do caminho para quem tinha de ir da margem direita<br \/>\n    ao dito engenho.<\/p>\n<p>O crioulo, por nome Gabriel, foi marginando o rio at&eacute; ao ponto em<br \/>\n    que este fazia sua interna&ccedil;&atilde;o no continente. Nesse ponto o terreno<br \/>\n    acidentava?se um pouco, e elevava?se at&eacute; as lajes negras pelo meio<br \/>\n    das quais o gado tinha aberto sua passagem, melhor e mais naturalmente do<br \/>\n    que o faria o homem.<\/p>\n<p>No momento em que o negro ia entrar na capoeira que cobria o s&iacute;tio,<br \/>\n    alguns ramos se afastaram violentamente de um dos lados, e dois sujeitos literalmente<br \/>\n    armados surgiram diante de seu olhos.<\/p>\n<p>Vendo?se assim assaltado por Joaquim e pelo filho deste o crioulo p&ocirc;de<br \/>\n    unicamente dizer estas palavras:<\/p>\n<p> Acabo de Ihes fazer um bem, e &eacute; deste modo que vosmec&ecirc;s me<br \/>\n    d&atilde;o o pago ?<\/p>\n<p> Desce do cavalo, negro. Este cavalo foi teu at&eacute; este momento; dagora<br \/>\n    em diante ele nos pertence, e &eacute; preciso que no?lo entregues quanto<br \/>\n    antes.<\/p>\n<p> Meu cavalo ! exclamou o crioulo com entranhada dor. Meu cavalo &eacute;<br \/>\n    meu &uacute;nico haver, meus senhores. Se vosmec&ecirc;s mo tomarem, com que<br \/>\n    darei eu de comer a minha mulher e a meus filhos, que n&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n    outro arrimo sen&atilde;o eu ?<\/p>\n<p> Que morram de fome como est&atilde;o morrendo da seca os outros por a&iacute;<br \/>\n    al&eacute;m. Demais, n&atilde;o te custar&aacute; ganhar com que comprares<br \/>\n    outro cavalo para continuares em teu of&iacute;cio. Deste &eacute; que deves<br \/>\n    perder o feitio. Precisamos dele j&aacute; para fugirmos com tempo &agrave;<br \/>\n    tropa que a&iacute; vem.<\/p>\n<p> Perd&atilde;o, meus brancos disse Gabriel com a voz mais doce e terna que<br \/>\n    p&ocirc;de. Eu pe&ccedil;o a vosmec&ecirc;s que me deixem ir embora. Em que<br \/>\n    os ofendi ? N&atilde;o os tenho respeitado sempre ? Vosmec&ecirc;s n&atilde;o<br \/>\n    me conhecem ? Sou um pobre preto que nunca fez mal a ningu&eacute;m, e que<br \/>\n    segue seu caminho caladinho sem se importar com a vida dos outros filhos de<br \/>\n    Deus.<\/p>\n<p>Os dois matadores n&atilde;o estavam, ao menos naquele momento, para estas<br \/>\n    banalidades, e, c&ocirc;nscios de que urgia remover o &oacute;bice, saltaram<br \/>\n    sobre o crioulo e, apeando?o com viol&ecirc;ncia, tomaram?lhe o animal, o<br \/>\n    qual se deixou passivamente conduzir pelo cabresto a um fechado da capoeira<br \/>\n    onde Joaquim julgou prudente recolh&ecirc;?lo sem demora.<\/p>\n<p> Gabriel, que de p&eacute; e im&oacute;vel viu, com l&aacute;grimas nos olhos,<br \/>\n    desaparecer o seu &uacute;nico bem, reflexionou com pesar:<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, vosmec&ecirc;s v&atilde;o montados para sua casa, e eu &eacute;<br \/>\n    que hei de ir para a minha de p&eacute;, sem o meu cavalo, hein ?<\/p>\n<p> Ainda est&aacute;s a&iacute; falando, negro ? Querer&aacute;s tomar?nos<br \/>\n    satisfa&ccedil;&otilde;es ? replicou o Cabeleira voltando?se de chofre e fixando<br \/>\n    sobre o Gabriel a vista que chamejava como a de um chacal.<\/p>\n<p> Sim, eu sou negro, &eacute; verdade; mas os brancos tomam?me o que &eacute;<br \/>\n    meu, e deixam?me sem caminho nem carreira, com uma m&atilde;o adiante e outra<br \/>\n    atr&aacute;s.<\/p>\n<p>A estas vozes o Cabeleira n&atilde;o p&ocirc;de mais conter?se, e de um s&oacute;<br \/>\n    pulo fez?se sobre o seu interlocutor. Este, por&eacute;m, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    se achava no mesmo lugar, mas sobre uma das lajes que davam para o rio, tendo<br \/>\n    em uma das m&atilde;os uma faca nua, que refulgia aos raios do sol.<\/p>\n<p> Se quer brincar na ponta da faca, meu branco, a coisa &eacute; outra, e<br \/>\n    vosmec&ecirc; encontra homem disse de cima.<\/p>\n<p>Ainda bem n&atilde;o tinha preferido estas express&otilde;es, quando a seus<br \/>\n    olhos brilhava tamb&eacute;m a faca de seu feroz contendor.<\/p>\n<p>Travou?se ent&atilde;o entre eles um combate de gigantes que durou alguns<br \/>\n    minutos. A esse combate surdo, medonho, dava l&uacute;gubre realce o deserto<br \/>\n    com sua profunda solid&atilde;o.<\/p>\n<p>Os dois contendores eram habil&iacute;ssimos em jogar a faca. Nunca se encontraram<br \/>\n    competidores mais dignos um do outro.<\/p>\n<p>As l&acirc;minas inimigas cruzavam?se a modo de impelidas por eletricidades<br \/>\n    iguais. O jogo da faca era j&aacute; nesse tempo uma especialidade caracter&iacute;stica<br \/>\n    dos matutos do Norte, m&aacute;xime dos matutos de Pernambuco.<\/p>\n<p>Na violenta porfia tinham os jogadores percorrido toda a face da laje que,<br \/>\n    come&ccedil;ando no estreito angulo, ia morrer no Capibaribe por um declive<br \/>\n    quase abrupto. Haviam?se avizinhado tanto do rio, que o ru&iacute;do das &aacute;guas<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o deixava ouvir o incessante bater dos ferros assassinos.<br \/>\n    Estes ferros eram como duas serpentes que mutuamente se mordem sem se poderem<br \/>\n    devorar.<\/p>\n<p>De repente surgiu Joaquim em cima da pedra a um lado de Gabriel, o qual ficou<br \/>\n    assim entre dois inimigos capitais.<\/p>\n<p> Ainda est&aacute; vivo este negro, Z&eacute; Gomes ? perguntou o mameluco<br \/>\n    ao filho.<\/p>\n<p> &Eacute; agora a sua derradeira respondeu este.<\/p>\n<p> Com dois &eacute; imposs&iacute;vel a um s&oacute; se divertir tornou o<br \/>\n    negro, em cuja testa .&agrave; alvura do suor contrastava com o negror da<br \/>\n    pele luzidia.<\/p>\n<p>Jos&eacute; Gomes estava excitado ao &uacute;ltimo ponto e rolavam?lhe tamb&eacute;m<br \/>\n    pelo rosto bagas de suor alvinitente. Querendo por isso e por outras raz&otilde;es<br \/>\n    abreviar o duelo, cuja dura&ccedil;&atilde;o realmente excedia a sua previs&atilde;o,<br \/>\n    apertou com o crioulo com toda a viol&ecirc;ncia de que era capaz e que, como<br \/>\n    sempre, levou de vencida todas as resist&ecirc;ncias adversas. Gabriel, ou<br \/>\n    porque conhecesse que na realidade estava exposto a eminente perigo, ou por<br \/>\n    que julgasse ser chegado o momento de p&ocirc;r por obra a sua tra&ccedil;a,<br \/>\n    deixou?se escorregar quando menos esperava o inimigo, pela face oposta da<br \/>\n    laje, e foi cair dentro das &aacute;guas que passavam ali r&aacute;pidas e<br \/>\n    espumosas.<\/p>\n<p>Cabeleira correu, fora de si, ap&oacute;s o fugitivo a fim de ver se o apanhava<br \/>\n    para mitigar no sangue dele a sede que o combate lhe acendera; mas antes que<br \/>\n    houvesse transposto o espa&ccedil;o que os separava, a detona&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um tiro lhe anunciou que o temer&aacute;rio que lhe resistia acabava de<br \/>\n    pagar com a vida esta ousadia.<\/p>\n<p>Um momento depois o cad&aacute;ver de Gabriel, entalado entre duas pedras<br \/>\n    que sobressa&iacute;am &agrave;s &aacute;guas no meio do canal, tingia?se<br \/>\n    com o seu sangue, e Joaquim o mostrava com o cano do bacamarte, ainda fumegante,<br \/>\n    ao filho, que nunca pode, como seu pai, matar curim&atilde;s a tiro nas &aacute;guas<br \/>\n    turvas das enchentes.<\/p>\n<h2><a name=\"4\">Cap&Iacute;tulo IV<\/a><\/h2>\n<p>Segundo as tradi&ccedil;&otilde;es mais correntes e autorizadas o Cabeleira<br \/>\n    trouxe do seio materno um natural brando e um cora&ccedil;&atilde;o ben&eacute;volo.<br \/>\n    A deprava&ccedil;&atilde;o, que t&atilde;o funesta lhe foi depois, operou?se<br \/>\n    dia por dia, durante os primeiros anos, sob a a&ccedil;&atilde;o ora lenta<br \/>\n    ora violenta do poder paterno, o qual em lugar de desenvolver e fortalecer<br \/>\n    os seus belos pendores, desencaminhou o menino como veremos, e o reduziu a<br \/>\n    uma m&aacute;quina de cometer crimes.<\/p>\n<p>Como &eacute; poss&iacute;vel por&eacute;m que se houvesse abastardado por<br \/>\n    tal forma a obra que saiu sem defeito das m&atilde;os da natureza ? Como se<br \/>\n    compreende que uma organiza&ccedil;&atilde;o s&atilde; se tivesse corrompido<br \/>\n    ao ponto de exceder, no desprezo da esp&eacute;cie humana, a fera cerval que<br \/>\n    se alimenta de sangue e carnes fumegantes, n&atilde;o por uma aberra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas por uma lei da sua mesma animalidade ?<\/p>\n<p>&Eacute; que a mais forte das constitui&ccedil;&otilde;es, ou &iacute;ndoles,<br \/>\n    est&aacute; sujeita a alterar?se sempre que as for&ccedil;as estranhas, que<br \/>\n    atuam sobre a exist&ecirc;ncia, v&ecirc;m a achar?se em luta com suas inclina&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Por mais en&eacute;rgicas que tais inclina&ccedil;&otilde;es sejam, n&atilde;o<br \/>\n    poder&atilde;o resistir a estas tr&ecirc;s ordens de m&oacute;veis das a&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    humanas o temor, o conselho e o exemplo , que formam a base da educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    segunda natureza, porventura mais poderosa do que a primeira.<\/p>\n<p>No caminho da vida veio encontrar o Cabeleira a seu lado Joana, exemplo vivo<br \/>\n    e edificante pela ternura, pela bondade, pelo esp&iacute;rito de religi&atilde;o<br \/>\n    que a caracterizava. Em contraposi&ccedil;&atilde;o por&eacute;m a este salutar<br \/>\n    elemento de edifica&ccedil;&atilde;o, do outro lado da crian&ccedil;a achava?se<br \/>\n    Joaquim, n&atilde;o s&oacute; naturalmente mau, mas tamb&eacute;m obcecado<br \/>\n    desde a mais tenra idade na pr&aacute;tica das torpezas e dos crimes.<\/p>\n<p>Boa m&atilde;e era Joana, mas era fraca. Que podia a sua do&ccedil;ura contrastado<br \/>\n    pela amea&ccedil;a, pelo rigor, pela brutal crueldade daquele que estava destinado<br \/>\n    a ser o primeiro algoz do pr&oacute;prio ente a quem dera a exist&ecirc;ncia<br \/>\n    ?<\/p>\n<p>A mulher &eacute; tanto mais forte, e a sua influ&ecirc;ncia direta e decisiva<br \/>\n    na forma&ccedil;&atilde;o dos costumes, quanto mais puro &eacute; somente<br \/>\n    uma provid&ecirc;ncia sobretudo, ambiente do meio social onde ela respira,<br \/>\n    e esclarecidos s&atilde;o os entes com quem coexiste. Colocada em um tal centro,<br \/>\n    a mulher n&atilde;o &eacute; somente uma providencia sobretudo, uma divindade.<br \/>\n    As suas for&ccedil;as elevam?se &agrave; altura das pot&ecirc;ncias de primeira<br \/>\n    ordem, e ordinariamente s&atilde;o pot&ecirc;ncias triunfantes, onde quer<br \/>\n    que seja o mundo moral, n&atilde;o um caos, mas uma cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    grandiosa e harm&ocirc;nica, em conformidade &agrave;s leis da est&eacute;tica<br \/>\n    crist&atilde; e &agrave;s altas conquistas da civiliza&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    possu&iacute;mos. As suas qualidades delicadas, fontes de grandezas &iacute;mpares,<br \/>\n    tornam?se por&eacute;m nulas ou s&atilde;o vencidas sempre que entram em luta<br \/>\n    com a ignor&acirc;ncia, com o v&iacute;cio, com o crime.<\/p>\n<p>Infelizmente para o Cabeleira, grande animo que poderia ter vindo a ser uma<br \/>\n    das gl&oacute;rias da p&aacute;tria se a sua bravura e a sua firmeza houvessem<br \/>\n    servido antes a causas nobres que a reprovados interesses e cru&eacute;is<br \/>\n    necessidades, sua m&atilde;e d&oacute;cil, posto que ignorante, de bonitas<br \/>\n    a&ccedil;&otilde;es, posto que nascida de gente humilde, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    n&atilde;o pode exercitar no infeliz lar a a&ccedil;&atilde;o ben&eacute;fica<br \/>\n    que &agrave; esposa e m&atilde;e reservou a natureza, mas at&eacute; foi,<br \/>\n    como seu filho, uma v&iacute;tima, n&atilde;o menos do que ele digna de compaix&atilde;o,<br \/>\n    um joguete dos caprichos e instintos brutais daquele a quem ela havia ligado<br \/>\n    o seu destino, n&atilde;o para que fosse o seu tirano mas para que a ajudasse<br \/>\n    a carregar a cruz da pobreza.<\/p>\n<p> Pela sua organiza&ccedil;&atilde;o, pelos seus predicados naturais, o Cabeleira<br \/>\n    n&atilde;o estava destinado a ser o que foi, n&oacute;s o repetimos. Os maus<br \/>\n    conselhos e os p&eacute;ssimos exemplos que lhe foram dados pelo desnaturado<br \/>\n    pai converteram seu cora&ccedil;&atilde;o, acess&iacute;vel em come&ccedil;o<br \/>\n    ao bem e ao amor, em um m&uacute;sculo bastardo que s&oacute; pulsava por<br \/>\n    fim a paix&otilde;es condenadas. Desgra&ccedil;adamente estas paix&otilde;es<br \/>\n    que nele escandalizaram a sociedade coeva n&atilde;o desceram com seu corpo<br \/>\n    &agrave; sepultura. Elas est&atilde;o a&iacute; exercitando em nossos dias<br \/>\n    o seu terr&iacute;vel imp&eacute;rio &agrave; sombra da ignor&acirc;ncia que<br \/>\n    ainda nos assoberba, e que em todas as terras e em todas as idades tem sido<br \/>\n    considerada com raz&atilde;o a origem das principais desgra&ccedil;as que<br \/>\n    afligem e destroem as fam&iacute;lias e os Estados.<\/p>\n<p>Joana, a m&atilde;e boa e fraca, viveu em luta incessante com Joaquim, o<br \/>\n    pai sem alma nem cora&ccedil;&atilde;o. Jos&eacute; foi sempre o motivo, a<br \/>\n    causa desse combate sem tr&eacute;guas, Jos&eacute;, o filho sem sorte que<br \/>\n    estava fadado a legar &agrave; posteridade um eloq&uuml;ente exemplo para<br \/>\n    provar que sem educa&ccedil;&atilde;o e sem moralidade &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    a fam&iacute;lia; e que a sociedade tem o dever, primeiro que o direito, de<br \/>\n    obrigar o pai a proporcionar &agrave; prole, ou de proporcion&aacute;?lo ela<br \/>\n    quando ele o n&atilde;o possa, o ensino que forma os costumes dom&eacute;sticos<br \/>\n    nos quais os costumes p&uacute;blicos se firmam e pelos quais se modelam.<\/p>\n<p>Aos sete anos de idade o pequeno j&aacute; sabia matar passarinhos com seu<br \/>\n    bodoque, presente que lhe fizera o pai com expressa recomenda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de amestrar?se em seu uso para que viesse a ser mais tarde um escopeteiro<br \/>\n    consumado.<\/p>\n<p> &Oacute; Jos&eacute;, ouve bem o que te vou dizer. Quando o sanha&ccedil;u<br \/>\n    ou bem?te?vi n&atilde;o cair morto da bala do bodoque, mas s&oacute; com uma<br \/>\n    perna ou uma asa quebrada, n&atilde;o lhe apertes o pesco&ccedil;o para que<br \/>\n    n&atilde;o esteja penando. Faze um espetinho de cabuat&atilde;, e crava?o<br \/>\n    na titela do passarinho. Tu n&atilde;o sabes que os passarinhos s&atilde;o<br \/>\n    diabinhos que nos perseguem, furando as laranjas e destruindo as bananas do<br \/>\n    quintal ?<\/p>\n<p> Tenho pena, papai, e n&atilde;o farei isso aos pobrezinhos respondeu o menino.<\/p>\n<p> Tens pena, tu, Jos&eacute; ? Pois sabe que &eacute; preciso que percas esta<br \/>\n    pena e que te v&aacute;s acostumando a ser homem. Se hoje cravas o espeto<br \/>\n    na titela do bem?te?vi, amanh&atilde; ter&aacute;s necessidade de cravar a<br \/>\n    faca no peito de um homem; e se no momento da execu&ccedil;&atilde;o tiveres<br \/>\n    a mesma pena, ai de ti ! que a m&atilde;o te fraquear&aacute;, e o homem te<br \/>\n    matar&aacute;.<\/p>\n<p>Uma manh&atilde; Jos&eacute; entrou saltando de contente, e trazendo um pre&aacute;<br \/>\n    que o fojo tinha apanhado.<\/p>\n<p> &Oacute; papai, como &eacute; que hei de matar este pre&aacute; ?<\/p>\n<p>Joana chamou o menino para junto de si, tomou?lhe a presa que ele trazia,<br \/>\n    e p&ocirc;s?se a mir&aacute;?la com ternura.<\/p>\n<p> Olha, meu filho, olha bem para ele. N&atilde;o achas vivos e bonitos os<br \/>\n    olhos do preazinho ? Que lindo pesco&ccedil;o ! Que m&atilde;os bem?feitas<br \/>\n    ! Que dizes, Jos&eacute; ?<\/p>\n<p> &Eacute;, mam&atilde;e. Acho tudo bonitinho.<\/p>\n<p> E se o achas bonitinho, para que o queres matar, meu filho ?<\/p>\n<p> Para aprender a matar gente quando eu for grande.<\/p>\n<p> Matar gente! Jos&eacute;, Jos&eacute; ! Quem te ensinou esta barbaridade<br \/>\n    ? Virgem da Concei&ccedil;&atilde;o !<\/p>\n<p> Foi papai, mam&atilde;e.<\/p>\n<p> N&atilde;o, eu n&atilde;o consentirei, nem o c&eacute;u permitir&aacute;<br \/>\n    que levantes em tempo algum a tua m&atilde;o para ofender a algu&eacute;m.<br \/>\n    Que desgra&ccedil;a, M&atilde;e Sant&iacute;ssima! Como &eacute; que Joaquim<br \/>\n    ensina semelhantes coisas ao filho ?<\/p>\n<p> De?me o meu pre&aacute;, mam&atilde;e. Quero espet&aacute;?lo vivo como<br \/>\n    fiz ontem com o papa?capim.<\/p>\n<p> Ainda me vens falar nisso ? exclamou Joana consternada.<\/p>\n<p>E levada de uma inspira&ccedil;&atilde;o ou de um repente irresist&iacute;vel,<br \/>\n    chegou &agrave; porta que dava para o pequeno cercado onde o capinzal crescia,<br \/>\n    e a&iacute; soltou o inocente prisioneiro.<\/p>\n<p>Jos&eacute; chorou, gritou, esperneou, rolou pelo ch&atilde;o com raiva.<br \/>\n    Irritada por este procedimento, para o qual ela foi buscar explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    antes na inconveniente dire&ccedil;&atilde;o que a Jos&eacute; ia dando Joaquim<br \/>\n    que no impulso de reprovadas paix&otilde;es de que julgava isento o filho<br \/>\n    naturalmente d&oacute;cil e terno, puxou?lhe de leve pelas orelhas, dizendo?lhe<br \/>\n    que se outra vez judiasse com os passarinhos lhe daria uma surra que ele havia<br \/>\n    de agradecer.<\/p>\n<p>Quando Joaquim voltou &agrave; casa, o menino correu a relatar?lhe o que<br \/>\n    tinha acontecido. O mau marido, o p&eacute;ssimo pai ralhou com Joana em quem<br \/>\n    por um triz n&atilde;o bateu; e para completar a li&ccedil;&atilde;o e o exemplo<br \/>\n    pernicioso, prometeu a Jos&eacute; que o primeiro pre&aacute; que c fojo pegasse<br \/>\n    havia de ser sujeito a um g&ecirc;nero de morte que ele ainda n&atilde;o conhecia.<\/p>\n<p>O menino mal pode dormir aquela noite. Nunca desejou tanto que a armadilha<br \/>\n    lhe desse ca&ccedil;a. A curiosidade de conhecer a nova forma de matar os<br \/>\n    animais, prometida ao primeiro que tivesse a sorte de se deixar apanhar, o<br \/>\n    teve por muito tempo na maior excita&ccedil;&atilde;o e vig&iacute;lia.<\/p>\n<p>Pela manh&atilde; correu Jos&eacute; ao fojo, onde encontrou, em lugar de<br \/>\n    pre&aacute;, um coelho.<\/p>\n<p>Era uma lindeza o animal. Gordo, coberto de macio pelo em que se divisavam<br \/>\n    ligeiras malhas t&atilde;o alvas como o algod&atilde;o que pendia dos capulhos<br \/>\n    estalados acima de sua masmorra, o filho do campo despertava, pela beleza<br \/>\n    das formas, e pela harmonia dos contornos, todos os sentimentos ben&eacute;volos<br \/>\n    de que &eacute; capaz o humano cora&ccedil;&atilde;o. Os olhos reluziam como<br \/>\n    dois coquinhos polidos. O cora&ccedil;&atilde;o batia?lhe prec&iacute;pite<br \/>\n    qual se quisesse sair?lhe pela boca. E essa criatura t&atilde;o c&acirc;ndida<br \/>\n    e inofensiva ia morrer! Oh, meu Deus, por que extravagante e b&aacute;rbara<br \/>\n    interpreta&ccedil;&atilde;o das leis naturais h&aacute; de o homem julgar?se<br \/>\n    com direito &agrave; vida de semelhantes entes que mais merecem a sua prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que desafiam a sua cobardia ?<\/p>\n<p>Quando Jos&eacute;, irresistivelmente cativo da formosura da inocente criaturinha,<br \/>\n    estava ainda admirando os seus encantos, um movimento violento arrancou?lhe<br \/>\n    das m&atilde;os.<\/p>\n<p> Meu coelho ! gritou o menino sentido de lhe terem arrebatado a graciosa<br \/>\n    presa.<\/p>\n<p> Ah, supunhas que havias de por?me terra nos olhos, Jos&eacute; ? N&atilde;o,<br \/>\n    este lindo animal n&atilde;o morrer&aacute;.<\/p>\n<p> Sim, sim, mam&atilde;e; eu n&atilde;o o levarei a papai para o matar como<br \/>\n    ele disse; n&atilde;o quero que o meu coelho morra. Ele &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    bonitinho, que faz gosto. Quero cri&aacute;?lo para mim, para mim s&oacute;,<br \/>\n    j&aacute; ouviu, mam&atilde;e ? Meu coelhinho t&atilde;o bonitinho!<\/p>\n<p>Jos&eacute; estava fortemente comovido, e Joana, fixando nele olhos perscrutadores,<br \/>\n    leu em seu rosto a pureza e a sinceridade da sua como&ccedil;&atilde;o, ind&iacute;cio<br \/>\n    irrecus&aacute;vel, sen&atilde;o prova convincente, da excel&ecirc;ncia das<br \/>\n    inclina&ccedil;&otilde;es do filho. Todas as hesita&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    traziam seu esp&iacute;rito em cont&iacute;nua inquieta&ccedil;&atilde;o dissiparam?se<br \/>\n    diante do enternecimento do menino de cuja brandura e natural bondade j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o lhe foi l&iacute;cito duvidar.<\/p>\n<p> D&ecirc;-me o meu bichinho, mam&atilde;e &Oacute; pediu Jos&eacute; quase<br \/>\n    chorando.<\/p>\n<p> Ele &eacute; teu, Jos&eacute;, e ningu&eacute;m, ainda que seja teu pai,<br \/>\n    te privar&aacute; dele. Mas, antes que o tenhas contigo, quero saber por curiosidade<br \/>\n    o que vais fazer do coelhinho.<\/p>\n<p> Ora ! Vou lev&aacute;?lo para casa. Levo logo daqui capim bem verde para<br \/>\n    ele comer, e fa&ccedil;o l&aacute; uma caminha no canto do meu quarto para<br \/>\n    ele dormir junto de mim.<\/p>\n<p> E se teu pai o quiser matar ?<\/p>\n<p> Pedirei a papai que o n&atilde;o mate, n&atilde;o. Olhe, mam&atilde;e: o<br \/>\n    melhor &eacute; eu ir esconder o coelhinho no mato sempre que meu pai estiver<br \/>\n    para chegar. Deus me livre de ver meu coelho morrer.<\/p>\n<p> Deus te livre, atrevido ! &Oacute; gritou ao p&eacute; da mulher e do filho<br \/>\n    o mau marido, o pai desnaturado, carrasco da fam&iacute;lia antes de s&ecirc;?lo<br \/>\n    da sociedade e de si pr&oacute;prio.<\/p>\n<p>E arrebatando com rudeza bruta das m&atilde;os de Joana o pobre animal, fez<br \/>\n    gesto de lhe quebrar a cabe&ccedil;a contra uma pedra que lhe ficava fronteira.<\/p>\n<p> Que queres fazer, Joaquim ? &Oacute; interrogou Joana, n&atilde;o obstante<br \/>\n    achar?se aterrada pela presen&ccedil;a do marido.<\/p>\n<p> Ainda mo perguntas, m&atilde;e cobarde que s&oacute; sabes dar a teu filho<br \/>\n    li&ccedil;&otilde;es de mofineza ? Eu n&atilde;o quero meu filho para chor&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas eu tamb&eacute;m n&atilde;o o quero para assassino.<\/p>\n<p> Hei de ensin&aacute;?lo a ser valente. H&aacute; de aprender comigo jogar<br \/>\n    a faca, a n&atilde;o desmaiar diante de sangue como desmaias tu, mulher sem<br \/>\n    esp&iacute;rito que n&atilde;o tens animo para matar um bacorinho. N&atilde;o<br \/>\n    sabes que o assassino &eacute; respeitado e temido ? Queres que n&atilde;o<br \/>\n    haja quem fa&ccedil;a caso de teu filho ?<\/p>\n<p> Mas eu n&atilde;o quero que meu coelhinho morra, papai.<\/p>\n<p> Que est&aacute;s tu a dizer, mal?ensinado ?<\/p>\n<p>O menino quis chorar, com o que se mostrou escandalizado por extremo o tirano<br \/>\n    da fam&iacute;lia, que, para o fazer chorar com gosto, segundo disse, lhe<br \/>\n    deu tr&ecirc;s ou quatro cipoadas fortes, depois das quais Jos&eacute; mal<br \/>\n    se p&ocirc;de ter em p&eacute;. Joana, n&atilde;o podendo ver o filho apanhar<br \/>\n    sem raz&atilde;o, partiu para Joaquim, a fim de lhe tirar das m&atilde;os<br \/>\n    o pequeno, mas Joaquim repeliu?a com tanta for&ccedil;a, que a fez cair por<br \/>\n    terra; e voltando?se imediatamente para Jos&eacute;, perguntou?lhe com gesto<br \/>\n    e voz de aterrar:<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, mata?se ou n&atilde;o se mata o coelho, Jos&eacute; ?<\/p>\n<p> Mata?se, papai respondeu o pequeno com as faces banhadas de l&aacute;grimas<br \/>\n    ainda.<\/p>\n<p> N&atilde;o quero que chores. Quem &eacute; homem n&atilde;o chora; quem<br \/>\n    &eacute; homem faz chorar.<\/p>\n<p>E dando o andar para a casa, com o filho pela m&atilde;o:<\/p>\n<p> Vais ver agora de que modo morre o coelho disse com express&atilde;o que<br \/>\n    se n&atilde;o pode descrever.<\/p>\n<p> Meus Deus, meu Deus ! Que desgra&ccedil;a esta, que desgra&ccedil;a a minha!<br \/>\n    exclamou Joana quando os viu desaparecer na volta do caminho.<\/p>\n<p>Os cora&ccedil;&otilde;es maternais tem inspira&ccedil;&otilde;es ang&eacute;licas<br \/>\n    e grandes. Joana, que n&atilde;o se havia levantado ainda, p&ocirc;s?se de<br \/>\n    joelhos no meio da natureza verde e espl&ecirc;ndida que a tinha recebido<br \/>\n    em sua queda, e, elevando os olhos &uacute;midos e tristes ao c&eacute;u profundo<br \/>\n    e belo que se estendia a perder de vista acima de sua cabe&ccedil;a, enviou<br \/>\n    a Deus esta s&uacute;plica cheia de amor e filosofia:<\/p>\n<p> Senhor, Senhor, protegei meu filho. Inspirai?lhe sentimentos brandos por<br \/>\n    quem sois, meu Deus. Que ele seja bom, e que vos conhe&ccedil;a e tema.<\/p>\n<p>N&atilde;o pode ir adiante a desventurada m&atilde;e cuja voz fora embargada<br \/>\n    por l&aacute;grimas violentas que lhe saltaram dos olhos contra o seu querer.<br \/>\n    Mas de repente, como se tornasse em si de um sonho penoso e achasse de novo<br \/>\n    todas as suas id&eacute;ias um instante obliteradas pela intensa dor, Joana<br \/>\n    fez em peda&ccedil;os a t&aacute;bua, e entupiu com pedras e maravalhas o<br \/>\n    buraco que com aquela armava ciladas aos inofensivos filhos do deserto. Tendo<br \/>\n    destru&iacute;do a armadilha, tomou o caminho de casa na qual se lhe deparou<br \/>\n    um espet&aacute;culo em que ela nunca imaginara e que por um triz n&atilde;o<br \/>\n    abateu de todo o seu cansado esp&iacute;rito. Uma forca havia sido levantada<br \/>\n    com ramos verdes no terreiro em sua aus&ecirc;ncia, e dela pendia por uma<br \/>\n    embira o coelho, minutos atr&aacute;s cheio de vida, agora morto, o pesco&ccedil;o<br \/>\n    distendido, os belos olhos empanados. Jos&eacute; n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o<br \/>\n    chorava mas at&eacute; se mostrava indiferente ao espet&aacute;culo repugnante,<br \/>\n    como se j&aacute; n&atilde;o fosse o mesmo que poucos instantes antes havia<br \/>\n    manifestado os mais generosos sentimentos a favor da v&iacute;tima. O reverso<br \/>\n    deste recente passado representava?se agora aos olhos de Joana: o pequeno<br \/>\n    prorrompia em aplausos a cada balan&ccedil;o que dava o corpo inanimado do<br \/>\n    animal que Joaquim, por entre chutas grosseiras e de mau gosto, impelia de<br \/>\n    quando em quando com a m&atilde;o ensang&uuml;entada e torpe.<\/p>\n<p>Joana n&atilde;o p&ocirc;de conter, diante da cena final daquela trag&eacute;dia<br \/>\n    infame, a sua justa e bela indigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Homem cruel, onde aprendestes esta li&ccedil;&atilde;o indigna que acabas<br \/>\n    de ensinar a teu filho ?<\/p>\n<p>A esta ang&eacute;lica exprobra&ccedil;&atilde;o Joaquim respondeu com uma<br \/>\n    gargalhada de desprezo que retumbou por toda a vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Quem matou o coelho, Jos&eacute; ? perguntou Joana ao menino, para o qual<br \/>\n    tinha a autoridade que n&atilde;o podia exercitar sobre o principal respons&aacute;vel<br \/>\n    do estranho delito.<\/p>\n<p> Fui eu, mam&atilde;e. Papai mandou que eu matasse, e por isso matei o coelho.<\/p>\n<p>Joana volveu novamente os olhos entristecidos a Joaquim, o qual n&atilde;o<br \/>\n    se demorou a retorquir com a imprud&ecirc;ncia que o caracterizava:<\/p>\n<p> Fui eu mesmo que o mandei. Que tens com isso ? Querer&aacute;s tomar?me<br \/>\n    contas, Joana ?<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o, Deus sim; Deus h&aacute; de tomar?tas um dia, homem sem cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Deus ! Quem &eacute; Deus, toleirona ? Quem j&aacute; o viu? Quem j&aacute;<br \/>\n    ouviu a sua voz ? Est&aacute;s caducando, mulher.<\/p>\n<p>Sem ter para o seu tirano outra resposta que o silencio, Joana resignou?se<br \/>\n    a dar?lha, e foi cair sobre um tamborete, com o rosto inundado novamente de<br \/>\n    l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>Tempos depois entrou Jos&eacute; em casa gritando e chorando. Foi o caso,<br \/>\n    que, tendo ele querido tomar de um menino do vizinho uma x&iacute;cara de<br \/>\n    arroz doce, o menino, que tinha mais idade, mais corpo e mais forca do que<br \/>\n    ele, n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o se deixou esbulhar de sua propriedade,<br \/>\n    mas at&eacute; bateu em Jos&eacute; com vontade, sem contudo se sair ileso,<br \/>\n    porque Jos&eacute; lhe p&ocirc;s a cara em sangue com as unhas, e lhe arrancou<br \/>\n    da coxa um peda&ccedil;o de carne com os dentes.<\/p>\n<p>Sabendo do acontecido, Joaquim fez de uma folha de fac&atilde;o velho um<br \/>\n    punhalzinho e, chamando o filho, entregou?lhe a nova arma, mediante este discurso:<\/p>\n<p> Sabes para que fim te dou este ferro Jos&eacute; ? &Eacute; para n&atilde;o<br \/>\n    sofreres desaforo de ningu&eacute;m, seja menino ou menina, homem ou mulher,<br \/>\n    velho ou mo&ccedil;o, branco ou preto o que te ofender. Se alguma vez entrares<br \/>\n    em casa, como entraste hoje, apanhado, chorando, ouve bem o que te estou dizendo,<br \/>\n    dou?te uma surra de tirar pele e cabelo, e corto?te uma orelha para ficares<br \/>\n    assinalado. Toma o ferro.<\/p>\n<p>Jos&eacute; tinha ent&atilde;o seus nove para dez anos, e ouviu a advert&ecirc;ncia<br \/>\n    do pai com toda aten&ccedil;&atilde;o, prometendo cumprir fielmente as suas<br \/>\n    &oacute;rdens.<\/p>\n<p>Joana, que tudo presenciara, e de certo tempo atr&aacute;s adotara o alvitre<br \/>\n    de n&atilde;o contrariar abertamente o marido para o n&atilde;o incitar a<br \/>\n    maiores excessos, aguardou a sua aus&ecirc;ncia, e quando foi tempo pregou<br \/>\n    a Jos&eacute; as li&ccedil;&otilde;es de moral que seguem:<\/p>\n<p> Meu filho, Deus, nosso pai, que est&aacute; no c&eacute;u, n&atilde;o pode<br \/>\n    receber bem os feios atos a que teu pai, que est&aacute; na terra, te aconselhou<br \/>\n    h&aacute; pouco. Para os mais velhos n&atilde;o tenhas nunca express&otilde;es<br \/>\n    descorteses e muito menos a&ccedil;&otilde;es ofensivas; ainda que seja um<br \/>\n    negro, deves ter, embora n&atilde;o sejas de sua qualidade, respeito pela<br \/>\n    idade dele. Seja a tua &uacute;nica vingan&ccedil;a, quando algu&eacute;m<br \/>\n    te ofender, pacifica retirada; n&atilde;o h&aacute; vingan&ccedil;a maior,<br \/>\n    nem mais digna: procedendo deste modo, ter&aacute;s, meu filho, agradado a<br \/>\n    Deus e dado aos homens mais bonito exemplo do que se houveres preferido, em<br \/>\n    resposta, palavras injuriosas ou insultosas contra o teu ofensor. As armas<br \/>\n    s&oacute; servem para excitar &agrave; pr&aacute;tica de crimes; os homens<br \/>\n    bons n&atilde;o trazem consigo armas. D&aacute;?me o punhal, de que teu pai<br \/>\n    te fez presente e recebe em troca este ros&aacute;rio que te dou para tua<br \/>\n    consola&ccedil;&atilde;o nas tribula&ccedil;&otilde;es. Reza por estas contas,<br \/>\n    e encomenda?te todas as manh&atilde;s e todas as noites a Deus. Assim praticando,<br \/>\n    vir&aacute; a ser estimado de todos e dar&aacute;s prazer a tua m&atilde;e<br \/>\n    que morreria de dor e vergonha se te visse apartado do caminho do bem.<\/p>\n<p>De que serviram por&eacute;m estes bons conselhos, se Joaquim, vendo mais<br \/>\n    tarde o ros&aacute;rio no pesco&ccedil;o do filho, fez em peda&ccedil;os a<br \/>\n    enfiadura, espalhou as contas pelo ch&atilde;o, e chamou a mulher feiticeira<br \/>\n    ?<\/p>\n<p>N&atilde;o ficou a&iacute; a manifesta&ccedil;&atilde;o do seu desagrado.<br \/>\n    Voltando?se para Joana:<\/p>\n<p> Se continuares a fazer asneiras como esta disse ele , acabas queimada, bruxa;<br \/>\n    e eu n&atilde;o respondo pelo que venha a praticar para impedir que continues<br \/>\n    a contrariar as minhas determina&ccedil;&otilde;es. Quem avisa amigo &eacute;.<\/p>\n<p>O p&aacute;roco, a cujo conhecimento chegou, por portas travessas, o esc&acirc;ndalo,<br \/>\n    mandou chamar Joaquim &agrave; sua presen&ccedil;a, e lhe disse que se ele<br \/>\n    repetisse a cena do ros&aacute;rio, ou obrasse ato id&ecirc;ntico, seria ele<br \/>\n    Joaquim quem deveria de morrer queimado por crime de heresia.<\/p>\n<p> Joaquim tornou &agrave; casa t&atilde;o furioso, que puxou pela faca para<br \/>\n    matar Joana, a quem atribuiu o mexerico; esta, por&eacute;m. n&atilde;o correu<br \/>\n    nem pediu que a socorressem; limitou?se a chorar em sil&ecirc;ncio a sua desgra&ccedil;a<br \/>\n    e a apelar para Deus a quem n&atilde;o cessava de encomendar o filho em suas<br \/>\n    ora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Depois de haver esgotado o vocabul&aacute;rio dos ep&iacute;tetos infamantes<br \/>\n    contra sua mulher, e dos conv&iacute;cios imundos contra o vig&aacute;rio,<br \/>\n    determinou Joaquim de deixar a casa para se ir meter com Jos&eacute; no oco<br \/>\n    do mundo, palavras suas.<\/p>\n<p>Que noite passou Joana !<\/p>\n<p>N&atilde;o houve rogativa, n&atilde;o houve l&aacute;grimas que abrandassem<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o do mameluco. Desgra&ccedil;ada m&atilde;e, que pediste<br \/>\n    e choraste em v&atilde;o, em v&atilde;o como sempre !<\/p>\n<p> Vai s&oacute;, Joaquim, j&aacute; que me queres deixar; deixa por&eacute;m<br \/>\n    comigo meu filho; pe&ccedil;o?te esta gra&ccedil;a por tudo quanto h&aacute;<br \/>\n    sagrado na terra e no c&eacute;u disse ao marido a infeliz mulher com angelical<br \/>\n    do&ccedil;ura, momentos antes da partida fatal.<\/p>\n<p> Nessa n&atilde;o cai ! eu replicou Joaquim. Se Jos&eacute; ficasse em tua<br \/>\n    companhia, quando eu voltasse um dia por aqui, achava?o servindo ao vig&aacute;rio,<br \/>\n    ou, pelo menos, feito sacrist&atilde;o.<\/p>\n<p>Jos&eacute; entretanto, como querendo escusar?se &agrave;s saudades da despedida,<br \/>\n    encaminhou?se para o quintal donde se p&ocirc;s a olhar para os ara&ccedil;azeiros<br \/>\n    e goiabeiras em que ele foi encontrar novo motivo de pesar com que n&atilde;o<br \/>\n    contava. Eis que uma menina de longos cabelos castanhos, que estava brincando<br \/>\n    em um dos quintais cont&iacute;guos, foi tir&aacute;?lo da sua contempla&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Que est&aacute; voc&ecirc; fazendo, Jos&eacute; ?<\/p>\n<p> Ora ! N&atilde;o sabes que vou sair de casa, Luisinha ?<\/p>\n<p> N&atilde;o sabia, n&atilde;o.<\/p>\n<p> Pois vou, e n&atilde;o sei quando voltarei. Estou triste. Tenho pena de<br \/>\n    deixar mam&atilde;e.<\/p>\n<p> E de mim n&atilde;o tem tamb&eacute;m pena ? perguntou ela com suave ingenuidade.<\/p>\n<p> Tenho tamb&eacute;m, sim; eu estava lembrando?me de voc&ecirc; agora mesmo.<br \/>\n    Olhe, Luisinha: se eu algum dia voltar voc&ecirc; me quer para seu marido<br \/>\n    ?<\/p>\n<p> Eu lhe quero muito bem, Jos&eacute;. Mas n&atilde;o gosto quando voc&ecirc;<br \/>\n    judia com os passarinhos e d&aacute; pancadas nos meninos.<\/p>\n<p> Pois eu lhe digo uma coisa: se algum dia eu chegar aqui de volta, tenha<br \/>\n    logo por certo que n&atilde;o fa&ccedil;o mais mal a ningu&eacute;m. Se pare&ccedil;o<br \/>\n    mau, Luisinha, n&atilde;o &eacute; por mim.<\/p>\n<p>Deste inocente col&oacute;quio os veio tirar a voz de Joaquim que chamava<br \/>\n    por Jos&eacute; para partirem. Pouco depois o pai e o filho deram as costas<br \/>\n    &agrave; povoa&ccedil;&atilde;o. Joana ficou de cama.<\/p>\n<p>Data desse dia a vida que levaram at&eacute; o momento de ca&iacute;rem no<br \/>\n    poder da justi&ccedil;a. N&atilde;o foi ela nada menos do que uma longa s&eacute;rie<br \/>\n    de atentados que dificilmente se acreditam. O n&uacute;mero destes atentados<br \/>\n    e as circunst&acirc;ncias que os revestiram, n&atilde;o h&aacute; quem os<br \/>\n    saiba com individua&ccedil;&atilde;o e clareza. Muitos deles foram de todo<br \/>\n    esquecidos, na longa travessa de mais de um s&eacute;culo que se conta de<br \/>\n    sua perpetra&ccedil;&atilde;o; e dos que assim se n&atilde;o perderam chegou<br \/>\n    aos nossos dias uma not&iacute;cia vaga, incompleta e por vezes t&atilde;o<br \/>\n    escura, ou t&atilde;o confusa, que temos lutado com grandes dificuldades para,<br \/>\n    por ela, recompor esta hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> &Eacute; que as tradi&ccedil;&otilde;es do crime s&atilde;o menos duradouras<br \/>\n    que as da virtude.<\/p>\n<p> H&aacute; nisto uma lei salutar da Provid&ecirc;ncia.<\/p>\n<h2><a name=\"5\">Cap&Iacute;tulo V<\/a><\/h2>\n<p>Luisinha era uma menina branca, &oacute;rf&atilde;, de &iacute;ndole benigna<br \/>\n    e de muito bonitos modos. Compadecida da pouca sorte da pequena, uma vi&uacute;va<br \/>\n    recolheu?a em sua casa &agrave; conta de filha, e come&ccedil;ou logo a ter<br \/>\n    para ela maternal solicitude. Luisinha era digna deste amparo, n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; pelos predicados sobreditos, sen&atilde;o tamb&eacute;m pelos seus<br \/>\n    encantos naturais que a todos cativavam com justa raz&atilde;o.<\/p>\n<p>Florinda, a vi&uacute;va, deu &agrave; menina a educa&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    ent&atilde;o se usava e que, com poucas modifica&ccedil;&otilde;es, e alguns<br \/>\n    acrescentamentos, ainda hoje se usa no campo. Assim, n&atilde;o se demorou<br \/>\n    muito que Luisinha soube fiar, coser costurar ch&atilde;s, fazer bicos e rendas,<br \/>\n    respeitar os mais velhos e encomendar?se a Deus. Como era dotada de excelente<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, dentro em pouco era estimada por todos do lugar, e<br \/>\n    at&eacute; pelos comboieiros e boiadeiros que se arranchavam no povoado para<br \/>\n    deixar passar a for&ccedil;a do sol do meio?dia, ou a&iacute; pernoitarem<br \/>\n    quando n&atilde;o podiam, ainda com ar de dia, romper a mata onde se a&ccedil;oitavam<br \/>\n    negros fugidos e malfeitores.<\/p>\n<p>A mata tinha mais de l&eacute;gua de comprido, e ningu&eacute;m lhe sabia<br \/>\n    os esconderijos.<\/p>\n<p>Quando se divulgou que Joaquim havia deixado a mulher, todos, a uma voz,<br \/>\n    logo prognosticaram que ele ia estabelecer dentro da mata virgem o seu novo<br \/>\n    domicilio. A vista da sua m&aacute; &iacute;ndole de todos conhecida, houve<br \/>\n    quem assegurasse que ele estava de m&atilde;os dadas com os facinorosos de<br \/>\n    Pernambuco, da Para&iacute;ba e do Rio Grande do Norte, que ali se homiziavam.<br \/>\n    Muitos destes eram conhecidos por seus nomes e pessoas, e uma vez por outra<br \/>\n    faziam sortidas sobre os povoados, saqueavam as vendas, perpetravam mil desatinos,<br \/>\n    e escapavam sempre &agrave; a&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a, ineficaz<br \/>\n    naquele tempo, como ainda o &eacute; hoje a nossa pol&iacute;cia nos povoados<br \/>\n    long&iacute;nquos, para n&atilde;o dizermos nas pr&oacute;prias capitais segundo<br \/>\n    sabemos.<\/p>\n<p>A voz do povo n&atilde;o era sen&atilde;o o eco da verdade.<\/p>\n<p>N&atilde;o se meteu muito tempo que crimes de nova esp&eacute;cie, revestidos<br \/>\n    de circunst&acirc;ncias que revelaram a maior perversidade de parte dos delinq&uuml;ente,<br \/>\n    vieram a atestar que os negros arraiais estabelecidos no centro da espessura<br \/>\n    haviam feito novas aquisi&ccedil;&otilde;es que primavam, nas ciladas, no<br \/>\n    manejo das armas, na firmeza das execu&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A princ&iacute;pio n&atilde;o se soube a quem atribuir o sangue novo levado<br \/>\n    &agrave;s veias dos grupos dos criminosos a&iacute; asilados, os quais bem<br \/>\n    que numerosos, nunca manifestaram a aud&aacute;cia, a ferocidade inaudita<br \/>\n    que surpreendiam e aterravam agora as popula&ccedil;&otilde;es. Para maior<br \/>\n    confus&atilde;o destas, tinha sido visto mais de uma vez o Joaquim, ora de<br \/>\n    companhia com o filho, ora cada um sozinho, montado no seu cavalo, vendendo<br \/>\n    legumes, macaxeras, farinha, a&ccedil;&uacute;car pelas povoa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e fazendo compras no Recife; o que deixava, pelo menos, supor que eles se<br \/>\n    davam ao trabalho da lavoura, e passavam a vida honestamente &agrave; custa<br \/>\n    do suor de seu rosto. Mas em menos de dois anos n&atilde;o se p&ocirc;de mais<br \/>\n    p&ocirc;r em d&uacute;vida que fossem consenhores dos vastos e virgens dom&iacute;nios,<br \/>\n    onde figuravam talvez como os primeiros e mais respeitados de todos os outros<br \/>\n    conquistadores, seus iguais.<\/p>\n<p>Algumas v&iacute;timas que tinham conseguido, por felicidade ou acaso, escapar<br \/>\n    com vida das garras dos feros algozes, deixando?lhes unicamente dinheiro,<br \/>\n    fazendas ou g&ecirc;neros, declaravam que o mais audaz e o mais terr&iacute;vel<br \/>\n    dentre eles era um jovem de cabelos t&atilde;o crescidos que lhe batiam nos<br \/>\n    ombros, assemelhando?se aos de uma dama. Outros diziam que tinham visto por<br \/>\n    muitas vezes o Joaquim na mata dos salteadores, e que na pessoa do jovem dos<br \/>\n    cabelos compridos ou do Cabeleira, segundo come&ccedil;aram logo de cham&aacute;?lo,<br \/>\n    haviam reconhecido seu filho Jos&eacute; Gomes.<\/p>\n<p>Notou?se tamb&eacute;m uma esp&eacute;cie de modera&ccedil;&atilde;o, ou<br \/>\n    de suspens&atilde;o de hostilidades, ou ao menos de cessa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de crueldade nestas, de parte dos salteadores em certas quadras do ano, durante<br \/>\n    as quais n&atilde;o figuravam nos acometimentos nem o Cabeleira nem seu pai.<br \/>\n    Da&iacute; se inferiu, com todo o fundamento, que os dois matadores n&atilde;o<br \/>\n    limitavam as suas correrias &agrave;quelas redondezas, mas, que pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    deixando os seus esconderijos, visitavam novos termos, percorriam outros lugares,<br \/>\n    como os selvagens mudam de regi&atilde;o quando, na que preferiram para a<br \/>\n    sua transit&oacute;ria resid&ecirc;ncia, n&atilde;o encontram mais com que<br \/>\n    alimentar a sua indol&ecirc;ncia e b&aacute;rbara voracidade.<\/p>\n<p>Esta conjuntura foi dentro de pouco tempo confirmada pelos clamores que se<br \/>\n    levantaram nas freguesias e termos vizinhos, e nos lugares remotos aonde o<br \/>\n    Cabeleira e seu pai foram levar o assombro e o terror de que j&aacute; tinham<br \/>\n    enchido a prov&iacute;ncia natal. As pac&iacute;ficas ribeiras do rio Para&iacute;ba<br \/>\n    e do rio Grande do Norte, os engenhos, povoa&ccedil;&otilde;es e vilas das<br \/>\n    duas prov&iacute;ncias, que trazem os nomes destes dois grandes rios, come&ccedil;aram<br \/>\n    a pagar, como as ribeiras do Capibaribe, e as propriedades rurais e os pontos<br \/>\n    populosos de Pernambuco, o terr&iacute;vel imposto a que por mais de uma vez<br \/>\n    nos temos referido no correr desta narrativa. Os bandos dos salteadores escolheram<br \/>\n    para centros das suas opera&ccedil;&otilde;es as matas pr&oacute;ximas dos<br \/>\n    rios, as catingas pegadas aos caminhos donde podiam facilmente espreitar e<br \/>\n    acometer a seu salvo os inofensivos viajantes que, com o fruto do trabalho<br \/>\n    honesto e da ind&uacute;stria esfor&ccedil;ada, deixaram muitas vezes nessas<br \/>\n    medonhas solid&otilde;es o seu sangue, a sua pr&oacute;pria vida.<\/p>\n<p>Cresceram a par a idade de Luisinha e o nome odioso do Cabeleira, nome que,<br \/>\n    principiando como um boato ou uma d&uacute;vida, se foi de dia em dia condensando<br \/>\n    e se constituiu afinal uma fama que ecoou, com os uivos das feras carniceiras<br \/>\n    do sul ao norte, do sert&atilde;o ao litoral, engrossando sempre com as novas<br \/>\n    fa&ccedil;anhas, como um fraco regato acrescenta o volume das &aacute;guas<br \/>\n    e se faz rio caudal com os subs&iacute;dios que cada dia recebe em sua longa<br \/>\n    e demorada passagem pelo deserto.<\/p>\n<p>Do fundo da obscuridade, que envolvia a sua exist&ecirc;ncia, a menina acompanhou<br \/>\n    com os olhos inundados de l&aacute;grimas as fases sucessivas que atravessou<br \/>\n    esse nome destinado a ter uma p&aacute;gina enlutada na hist&oacute;ria da<br \/>\n    p&aacute;tria. E que bem dentro no seu cora&ccedil;&atilde;o estava a imagem<br \/>\n    do companheiro de inf&acirc;ncia a quem ela nunca p&ocirc;de esquecer, ainda<br \/>\n    quando esta imagem lhe aparecia, como tantas vezes aconteceu, envolta em uma<br \/>\n    nuvem de sangue, e acompanhada de un&iacute;ssonas maldi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A not&iacute;cia de um novo atentado cometido pelo mo&ccedil;o que por uma<br \/>\n    lei natural da imagina&ccedil;&atilde;o sempre se lhe representava com as<br \/>\n    fei&ccedil;&otilde;es do menino de outrora, Luisinha sentia no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    uma dor semelhante &agrave; que produz a dentada de uma serpente.<\/p>\n<p>No ter&ccedil;o, que se rezava de noite em casa de Florinda; na miss&atilde;o<br \/>\n    que o coadjutor celebrava de madrugada: em qualquer ocasi&atilde;o pr&oacute;pria<br \/>\n    para elevar o pensamento &agrave;s regi&otilde;es onde flui a eterna fonte<br \/>\n    das consola&ccedil;&otilde;es em cujas &aacute;guas se retemperam das dores<br \/>\n    da vida os esp&iacute;ritos resignados e crentes, a pobre mo&ccedil;a tinha<br \/>\n    sempre uma ora&ccedil;&atilde;o para que Deus abrandasse a natureza de Jos&eacute;<br \/>\n    e o tornasse, pela contri&ccedil;&atilde;o e pela emenda, digno do perd&atilde;o<br \/>\n    da sociedade. Ela n&atilde;o podia crer que, tendo sido esta tantas vezes<br \/>\n    indulgente para outros criminosos, fosse inexor&aacute;vel para o mancebo<br \/>\n    que por algum tempo andara apartado do caminho do dever. Pobre, ing&ecirc;nua<br \/>\n    e cr&eacute;dula crian&ccedil;a !<\/p>\n<p>Mal sabia que, para grande li&ccedil;&atilde;o da sociedade do futuro, estava<br \/>\n    escrito que o cometa que assim abrasava a terra percorreria a vast&iacute;ssima<br \/>\n    &oacute;rbita que a Provid&ecirc;ncia lhe tra&ccedil;ara, e se afundaria nos<br \/>\n    espa&ccedil;os, n&atilde;o entre refulgentes auroras, mas dentro de profundas<br \/>\n    e medonhas escurid&otilde;es.<\/p>\n<p>Uma tarde Luisinha foi buscar &aacute;gua no rio Tapacur&aacute;, que banha<br \/>\n    a cidade da Vit&oacute;ria, ent&atilde;o povoa&ccedil;&atilde;o de Santo Ant&atilde;o,<br \/>\n    &agrave; qual pertencia Gl&oacute;ria de Goit&aacute; donde era natural o<br \/>\n    Cabeleira. Santo Ant&atilde;o distingue?se na hist&oacute;ria pernambucana<br \/>\n    pela circunst&acirc;ncia de lhe estar pr&oacute;ximo o Monte das Tabocas no<br \/>\n    qual se verificou em 3 de agosto de 1645 a batalha que iniciou a insurrei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    portuguesa contra o dom&iacute;nio holand&ecirc;s, e exercitou direta e decisiva<br \/>\n    influ&ecirc;ncia no futuro pol&iacute;tico, comercial, industrial e religioso<br \/>\n    do Brasil. Esta memor&aacute;vel batalha, depois de seis longas horas de fogo,<br \/>\n    declarou?se em favor dos nossos primeiros dominadores. Em comemora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deste acontecimento, uma lei provincial de B de maio de 1843 erigiu a antiga<br \/>\n    povoa&ccedil;&atilde;o em cidade a que chamou da Vitoria como acima se v&ecirc;.<\/p>\n<p>O Tapacur&aacute;, que de inverno tem enchentes formid&aacute;veis, estava<br \/>\n    ent&atilde;o cortado pelo rigor da seca de que tratamos no cap&iacute;tulo<br \/>\n    anterior. No seu largo leito viam?se unicamente, a espa&ccedil;os como de<br \/>\n    ordin&aacute;rio, pequenos po&ccedil;os onde os habitantes mal achavam &aacute;gua<br \/>\n    para o consumo di&aacute;rio.<\/p>\n<p>Luisinha, n&atilde;o querendo levar para a casa &aacute;gua chafurdada, passou<br \/>\n    pelos primeiros po&ccedil;os, j&aacute; muito remexidos, e foi encher a sua<br \/>\n    vasilha em um que distava pouco menos de quarto de l&eacute;gua da povoa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O po&ccedil;o ficava &agrave; beira de um cap&atilde;o de mato. De um lado<br \/>\n    o terreno elevava?se gradualmente, e acidentava?se mais adiante, formando<br \/>\n    ziguezagues quase inacess&iacute;veis e esconderijos escuros, a que a espessura<br \/>\n    das &aacute;rvores dava um aspecto medonho. Do lado oposto a margem plana,<br \/>\n    igual e descampada, formava com a banda fronteira um admir&aacute;vel contraste.<\/p>\n<p>Quando Luisinha, da areia do rio onde se sentara a descansar, se dispunha<br \/>\n    a levantar?se para tornar &agrave; casa, deu com os olhos em um homem que<br \/>\n    da borda do mato a observava em sil&ecirc;ncio com tal interesse que parecia<br \/>\n    querer atra&iacute;?la a si com a vista.<\/p>\n<p>Sem demora correu ela ao pote, mas j&aacute; foi tarde. Formando um pulo<br \/>\n    do outro lado do rio onde estava, o desconhecido veio cair no mesmo instante<br \/>\n    entre ela e a vasilha, sem perder, no r&aacute;pido v&ocirc;o, uma s&oacute;<br \/>\n    das armas com que se achava apercebido.<\/p>\n<p> Em v&atilde;o, meu bem, pretendes fugir?me. Antes que o diabo esfregasse<br \/>\n    um olho, eis?me aqui ao p&eacute; de ti, disposto a n&atilde;o te deixar ir<br \/>\n    embora sen&atilde;o por minha livre vontade.<\/p>\n<p>O s&iacute;tio era inteiramente deserto, e as trevas da noite n&atilde;o<br \/>\n    tardavam a envolver de todo a natureza.<\/p>\n<p>Luisinha, lan&ccedil;ando os olhos pela margem afora, n&atilde;o viu viva<br \/>\n    alma. Teve ent&atilde;o tamanho medo, que involuntariamente caiu sentada aos<br \/>\n    p&eacute;s do terr&iacute;vel desconhecido. Lembrou?se de gritar por socorro,<br \/>\n    mas logo viu que seria in&uacute;til esta tentativa, visto que as suas vozes<br \/>\n    se perderiam no vasto ermo onde unicamente ecoava o coaxar dos sapos e das<br \/>\n    r&atilde;s, o silvo das cobras, o canto agoureiro dos bacuraus.<\/p>\n<p> Meu Deus ! exclamou ela. N&atilde;o haver&aacute; um crist&atilde;o que<br \/>\n    me valha nesta afli&ccedil;&atilde;o ?<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m, ningu&eacute;m te valer&aacute;, bonita rapariga respondeu<br \/>\n    o desconhecido, levantando?a por um bra&ccedil;o e como querendo arrast&aacute;?la<br \/>\n    na dire&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua de terreno por onde se podia ir,<br \/>\n    a p&eacute; enxuto, &agrave; margem fronteira.<\/p>\n<p> Mas, meu senhor tornou Luisinha achando em si mesma coragem de que nunca<br \/>\n    se julgara capaz , por tudo quanto &eacute; sagrado lhe pe&ccedil;o que me<br \/>\n    deixe ir embora. &Eacute; quase de noite, e, se me demorar mais tempo aqui,<br \/>\n    arrisco?me a encontrar algum malfeitor que me ofenda no caminho.<\/p>\n<p> Queres maior malfeitor do que eu ?<\/p>\n<p> Vosmec&ecirc; n&atilde;o &eacute; um malfeitor. Vosmec&ecirc; veio ca&ccedil;ar<br \/>\n    por estas bandas, e, como me encontrou neste ermo, est&aacute;?me metendo<br \/>\n    medo para divertir?se &agrave; minha custa. E creio at&eacute; que havia de<br \/>\n    defender?me se algu&eacute;m quisesse fazer?me mal.<\/p>\n<p> Certamente. Nenhum gavi&atilde;o seria capaz de tirar?me das unhas a minha<br \/>\n    formosa juruti. Ora, vem comigo; n&atilde;o tenhas medo. Atravessamos por<br \/>\n    este limpo, ganhamos a capoeira, subimos pela aba da serra e&#8230;<\/p>\n<p> Deus me livre ! exclamou Luisinha assaltada por novos terrores.<\/p>\n<p> Olhe: se voc&ecirc; n&atilde;o quiser vir por bem, vem por mal disse o desconhecido.<\/p>\n<p> Por mal ? E onde est&aacute; Deus ? interrogou Luisinha, elevando todo o<br \/>\n    seu esp&iacute;rito aos p&eacute;s daquele que est&aacute; em toda parte para<br \/>\n    acudir aos atribulados que o invocam com sincera confian&ccedil;a. Nem por<br \/>\n    mal nem por bem. Eu n&atilde;o vou com vosmec&ecirc; ainda que me custe a<br \/>\n    pr&oacute;pria vida. Eu sei que Deus me est&aacute; ouvindo de dentro deste<br \/>\n    mato, de cima deste c&eacute;u. Ele h&aacute; de lembrar?se de mim.<\/p>\n<p>Diante da firmeza na realidade admir&aacute;vel, com que a fr&aacute;gil<br \/>\n    mo&ccedil;a respondeu &agrave; sua amea&ccedil;a, o malfeitor sobresteve involuntariamente.<br \/>\n    Tornando logo em si, por&eacute;m, continuou com certo disfarce de mau an&uacute;ncio:<\/p>\n<p> Ora, menina, deixe?se de asneiras e vamos para diante enquanto o caso n&atilde;o<br \/>\n    fica mais s&eacute;rio. Se voc&ecirc; &eacute; bonita, eu tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    sou feio; assim, podemos ter filhos galantes como os t&ecirc;m os passarinhos<br \/>\n    no seio da solid&atilde;o.<\/p>\n<p> Meu Deus, meu Deus, compadecei?vos de mim enquanto &eacute; tempo ! exclamou<br \/>\n    ela quase vencida de terror.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, &agrave; luz crepuscular que enchia a plan&iacute;cie como<br \/>\n    uma neblina, lobrigou Luisinha um vulto que se dirigia para o lugar onde ela<br \/>\n    se achava com o malfeitor. N&atilde;o foi preciso mais para que recrudescesse<br \/>\n    o seu valor que a ia desamparando.<\/p>\n<p> Cuidas que n&atilde;o vejo quem ali vem ? perguntou o desconhecido, apontando<br \/>\n    o volto que, como vinha pelo rasto da mo&ccedil;a, com pouco mais estaria<br \/>\n    com eles. Eu podia agora mesmo meter?me contigo pelo mato adentro. Se tentasses<br \/>\n    gritar, tapava?te a boca, e ningu&eacute;m saberia o teu fim. Mas quero ficar,<br \/>\n    para em vez de uma, levar em minha companhia duas mulheres para o mato, onde<br \/>\n    h&aacute; grande necessidade desta fazenda.<\/p>\n<p> Estou aqui, minha m&atilde;e, estou aqui gritou Lu&iacute;sa quase &eacute;bria<br \/>\n    de prazer pela sua salva&ccedil;&atilde;o, que teve por indubit&aacute;vel<br \/>\n    desde que na mulher rec&eacute;m?aparecida reconheceu Florinda.<\/p>\n<p>O malfeitor, por&eacute;m, seguro de seu poder, nem se moveu, nem se alterou<br \/>\n    sequer; e para dar testemunho irrecus&aacute;vel de que n&atilde;o fazia caso<br \/>\n    do inesperado adjut&oacute;rio, chasqueou de Florinda, por se apresentar armada<br \/>\n    com um cacete e um fac&atilde;o.<\/p>\n<p>Querendo Luisinha correr ao encontro da vi&uacute;va que, tendo ouvido as<br \/>\n    palavras da rapariga, fora em seu socorro com gestos e meneios de louca, o<br \/>\n    desconhecido, cujos olhos cobriram de repente com uma express&atilde;o indescrit&iacute;vel<br \/>\n    a pobre v&iacute;tima, n&atilde;o lhe consentiu arredar o p&eacute; de junto<br \/>\n    de si.<\/p>\n<p> N&atilde;o ir&aacute;s disse rudemente, assentando a m&atilde;o sobre o<br \/>\n    bra&ccedil;o da mo&ccedil;a com tanta for&ccedil;a e viol&ecirc;ncia, que<br \/>\n    a ela se afigurou que ele lhe tinha dado um golpe com o coice da arma.<\/p>\n<p>Florinda passava por ser a mulher mais forte de toda aquela ribeira.<\/p>\n<p>Ela derrubava grossas &aacute;rvores a machado, abria ro&ccedil;ados por<br \/>\n    empreitada, cortava na mata virgem lenha que vendia na povoa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e at&eacute; tarrafeava nas lagoas como um h&aacute;bil pescador. N&atilde;o<br \/>\n    se distinguia s&oacute; nos servi&ccedil;os do campo, mas tamb&eacute;m em<br \/>\n    fazer excelentes tapiocas e &oacute;timo arroz?doce, que eram as del&iacute;cias<br \/>\n    dos matutos e sertanejos nas feiras.<\/p>\n<p>Era curiboca, refor&ccedil;ada, n&atilde;o feia e de boa estatura. Acreditava<br \/>\n    na exist&ecirc;ncia do diabo, no inferno e nas penas eternas como ainda hoje<br \/>\n    acredita a gente do campo e uma grande parte dos habitantes das cidades; mas<br \/>\n    em compensa&ccedil;&atilde;o tinha uma f&eacute; viva e fervorosa em Deus,<br \/>\n    e era de costumes irrepreens&iacute;veis, f&eacute; e costumes que desgra&ccedil;adamente<br \/>\n    faltam a muitos dos que t&ecirc;m hoje aquela primeira cren&ccedil;a.<\/p>\n<p>Tendo ficado vi&uacute;va, sem filhos, na flor dos anos, n&atilde;o se quis<br \/>\n    casar segunda vez, e nunca ningu&eacute;m achou motivo de por em d&uacute;vida<br \/>\n    a sua honestidade. A Luisinha, a quem pouco depois de ter casado, tomou sob<br \/>\n    sua prote&ccedil;&atilde;o, como j&aacute; referimos, consagrava ela todos<br \/>\n    os seus afetos, e nela fazia consistir o seu orgulho, o seu prazer e a sua<br \/>\n    felicidade.<\/p>\n<p>N&atilde;o sendo de meias medidas quando se julgava ofendida, Florinda botou?se<br \/>\n    com todo o &iacute;mpeto, que trazia, ao desconhecido, o qual, sem soltar<br \/>\n    Luisinha, que se torcia ao aperto da m&atilde;o de ferro que a segurava, rebateu<br \/>\n    o golpe do fac&atilde;o de Florinda com o cano do bacamarte. Com o choque<br \/>\n    o fac&atilde;o partiu?se, e a folha inteira foi cair dentro do po&ccedil;o,<br \/>\n    ficando na m&atilde;o da curiboca o cabo imprest&aacute;vel da infame arma.<\/p>\n<p>Florinda era prudente. Tanto que se viu desarmada, sobresteve, dominou a<br \/>\n    sua justa indigna&ccedil;&atilde;o, e, com voz masculina que lhe dera a natureza,<br \/>\n    assim falou ao malfeitor:<\/p>\n<p> Que quer vosmec&ecirc; fazer com minha filha ?<\/p>\n<p> Quero lev&aacute;?la comigo para meu divertimento. Se tens for&ccedil;a<br \/>\n    para impedires o meu intento, &eacute; agora a ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p>Ouvindo estas acerbas express&otilde;es, Florinda, que com a vista medira<br \/>\n    de cima a baixo o seu advers&aacute;rio, meteu?lhe o cacete com todo o animo<br \/>\n    que lhe dava sua vida sem mancha, e a justa defesa da filha, seu &uacute;nico<br \/>\n    tesouro, de todos acatado e querido. No mesmo instante o ar sibilou, e ouviu?se<br \/>\n    o som de uma pancada contra um corpo sonoro. Um grito, antes urro medonho,<br \/>\n    ecoou pela vasta solid&atilde;o, e uma massa, que se parecia, na forma e no<br \/>\n    peso, com um tronco de angico anoso, tombou sobre a areia. O desconhecido<br \/>\n    acabava de obrar uma a&ccedil;&atilde;o vil. Com a coronha do bacamarte tirara<br \/>\n    os sentidos &agrave;quela digna mulher, que o encarara sem medo.<\/p>\n<p>Vendo sua m&atilde;e cair desfalecida, Luisinha quis correr em seu amparo,<br \/>\n    mas n&atilde;o lho permitiu a m&atilde;o do malfeitor que a puxou para tr&aacute;s<br \/>\n    com for&ccedil;a herc&uacute;lea.<\/p>\n<p> Ah ! n&atilde;o conheceste o Cabeleira, cascavel ? acrescentou ele com os<br \/>\n    olhos fitos em Florinda. V&ecirc;m meter?se na boca da on&ccedil;a, e depois<br \/>\n    dizem que a on&ccedil;a &eacute; cruel.<\/p>\n<p>Aos ouvidos de Luisinha aquele nome passou como uma chama el&eacute;trica,<br \/>\n    que lhe deu for&ccedil;as para volver &agrave; vida.<\/p>\n<p> Cabeleira ! repetiu ela.<\/p>\n<p>S&oacute; ent&atilde;o viu os longos cabelos que ca&iacute;am em ondas por<br \/>\n    debaixo das abas do chap&eacute;u de palha sobre os ombros do assassino.<\/p>\n<p> De que te admiras ? N&atilde;o sabes que o Cabeleira est&aacute; em toda<br \/>\n    parte onde n&atilde;o o esperam ? Vem comigo.<\/p>\n<p>E sem mais contempla&ccedil;&atilde;o, o matador arrastou a menina contra<br \/>\n    a vontade, a resist&ecirc;ncia, os sobre?humanos esfor&ccedil;os que esta<br \/>\n    lhe opunha, por junto do corpo de Florinda, e seguiu em busca da margem fronteira,<br \/>\n    onde a noite era j&aacute; fechada, e o aspecto do s&iacute;tio pavoroso.<\/p>\n<p> Agora te conhe&ccedil;o, Jos&eacute; malvado disse a mo&ccedil;a. Mata?me<br \/>\n    tamb&eacute;m, j&aacute; me mataste minha m&atilde;e que nunca te ofendeu.<\/p>\n<p> Ah, conheceste afinal o Cabeleira ?<\/p>\n<p> Tanto me conheceste tu, desgra&ccedil;ado!<\/p>\n<p> Que queres dizer com estas palavras ? perguntou o bandido.<\/p>\n<p> Olha?me bem. At&eacute; de Lu&iacute;sa te esqueceste ! Assassino, eu te<br \/>\n    perd&ocirc;o a morte: mata?me.<\/p>\n<p>Tinham chegado &agrave; beira do cap&atilde;o de mato. O Cabeleira estacou.<br \/>\n    O que acabava de ouvir t&ecirc;?lo?ia prostrado mais depressa do que um golpe<br \/>\n    igual ao que descarregara, havia pouco, sobre uma das fontes de Florinda,<br \/>\n    se no mesmo instante n&atilde;o lhe houvesse chegado aos ouvidos um assobio<br \/>\n    agudo, sinal de extrema afli&ccedil;&atilde;o no couto pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p> Ah ! era voc&ecirc; ? Perdoe?me, Luisinha. Eu n&atilde;o a esqueci. Perdoe?me.<br \/>\n    Eu n&atilde;o sabia que era voc&ecirc; disse ent&atilde;o, com brandura, soltando<br \/>\n    a mo&ccedil;a sem mais demora.<\/p>\n<p> S&oacute; Deus te poder&aacute; perdoar, assassino de minha m&atilde;e,<br \/>\n    respondeu, abafada em l&aacute;grimas e solu&ccedil;os, aquela que se considerava<br \/>\n    &oacute;rf&atilde; e desvalida pela segunda vez.<\/p>\n<p> Perdoe?me, Luisinha. Nem eu a posso levar comigo, nem posso demorar?me por<br \/>\n    mais tempo. O meu rancho est&aacute; em perigo, e os camaradas chamam?me em<br \/>\n    socorro deles. Mas espere por mim um pouco debaixo deste juazeiro, que eu<br \/>\n    quero que voc&ecirc; me ou&ccedil;a. Eu volto j&aacute;.<\/p>\n<p>E, sem perder mais um momento, desapareceu dos olhos de Lu&iacute;sa como<br \/>\n    uma v&atilde; sombra.<\/p>\n<h2><a name=\"6\">Cap&Iacute;tulo VI<\/a><\/h2>\n<p>N&atilde;o se pode escrever o abalo que experimentou Cabeleira ao reconhecer<br \/>\n    Lu&iacute;sa, menina at&eacute; aquele momento em sua imagina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mo&ccedil;a de ent&atilde;o por diante aos seus olhos deslumbrados do esplendor<br \/>\n    daquela beleza correta, natural, irritada e crente.<\/p>\n<p>Pela primeira vez depois de tantos anos, o m&uacute;sculo endurecido que<br \/>\n    ele trazia no peito dobrou se a uma impress&atilde;o profunda, a uma for&ccedil;a<br \/>\n    irresist&iacute;vel e fatal, como a cera se dobra ao calor do lume.<\/p>\n<p>A medida que se internava na espessura ia caindo em si, e mais dif&iacute;cil<br \/>\n    de transpor se lhe ia tornando a via dolorosa por onde nesse momento arrastava<br \/>\n    os p&ocirc;s menos pesados que sua cabe&ccedil;a cheia de encontrados pensamentos.<\/p>\n<p>Pouco a pouco o passado se lhe foi desenhando na tela, ao princ&iacute;pio<br \/>\n    escura, depois di&aacute;fana e resplandecente da imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    vivamente excitada pela violenta como&ccedil;&atilde;o. Por &uacute;ltimo<br \/>\n    todas as cenas infantis, t&atilde;o afastadas, que poderiam considerar se<br \/>\n    sen o de todo desvanecidas, ao menos vagas, confusas e de imposs&iacute;vel<br \/>\n    resurrei&ccedil;&atilde;o, reapareceram aos seus olhos com o vigor de outrora<br \/>\n    sen&atilde;o mais vivas e animadas que dantes.<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa, representou lhe sorrindo e brincando nas campinas, por junto<br \/>\n    dos a&ccedil;udes, &agrave; sombra dos juazeiros. Era a mesma menina meiga<br \/>\n    e am&aacute;vel, com quem ele folgara &agrave; beira dos po&ccedil;os e valados,<br \/>\n    e para quem tantas vezes apanhara camar&otilde;es nas enxurradas.<\/p>\n<p>O bandido lembrou se de que uma quadra tinha havido em sua vida, na qual<br \/>\n    ele s&oacute; cuidava em armar arapucas por entre os beir&otilde;es do ro&ccedil;ado<br \/>\n    para pegar juritis, em abrir fojos debaixo das moitas, ou armar quix&oacute;s<br \/>\n    e mund&eacute;us na capoeira com o fim de apanhar pre&aacute;s para a menina.<\/p>\n<p>A conhecida cena do coelho pendurado da forca de ramos, obra de Joaquim,<br \/>\n    se lhe estampou novamente, por natural associa&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias,<br \/>\n    na tela do pensamento, e veio acrescentar lhe o vexame que lhe oprimia o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Viu depois Lu&iacute;sa encostada na cerca do quintal, ao p&eacute; de uma<br \/>\n    goiabeira, os cabelos soltos, os pezinhos descal&ccedil;os.<\/p>\n<p>Esta &uacute;ltima vis&atilde;o recordava lhe a cena da despedida que o leitor<br \/>\n    conhece. Jos&eacute; estava t&atilde;o vivamente excitado, que lhe pareceu<br \/>\n    ouvir as vozes, as queixas, as rogativas, os prantos de Joana, e as recusas,<br \/>\n    os remoques, as asperezas, o desprezo que para ela tivera Joaquim na manh&atilde;<br \/>\n    fatal, em que o pequeno fora arrancado dos bra&ccedil;os de sua m&atilde;e<br \/>\n    quase alucinada pela dor da separa&ccedil;&atilde;o. Pareceu lhe ouvir as<br \/>\n    palavras de Lu&iacute;sa: &quot;Quero lhe muito bem, mas n&atilde;o gosto<br \/>\n    quando voc&ecirc; judia com os passarinhos, e tenho medo de sua faca&quot;.<br \/>\n    Pareceu lhe escutar distintamente o som das suas pr&oacute;prias express&otilde;es:<br \/>\n    &quot;Quando eu chegar de volta, n&atilde;o maltratarei mais os animais&quot;.<\/p>\n<p>E a menina a quem tanto amara, a quem nunca esquecera, e cuja imagem indecisa<br \/>\n    e vaporosa os olhos do seu pensamento tinham por mais de uma vez surpreendido<br \/>\n    junto de si testemunhando a perpetra&ccedil;&atilde;o de algum crime, essa<br \/>\n    menina crescera, pusera se mo&ccedil;a, chegara &agrave; idade em que todos<br \/>\n    tem no crit&eacute;rio natural um corpo de leis e na consci&ecirc;ncia um<br \/>\n    juiz para julgar as suas e as alheias a&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Que ju&iacute;zo ficaria fazendo de mim Luisinha ? perguntou de si para<br \/>\n    si o Cabeleira, insensivelmente arrastado por esta ordem de id&eacute;ias.<br \/>\n    Ah ! que pode ela pensar de mim sen&atilde;o que sou um assassino ?<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa tinha o, de feito, nomeado por esta palavra, havia poucos instantes,<br \/>\n    entre as l&aacute;grimas que lhe arrancara o desespero. Era pois certo, e<br \/>\n    o bandido bem o compreendia, que o abismo que j&aacute; na meninice de ambos<br \/>\n    os separava, longe de se ter arrasado, se tornara mais fundo com o correr<br \/>\n    dos anos. Agora ele n&atilde;o judiava s&oacute; com os animais como em outro<br \/>\n    tempo; ele saqueava povoa&ccedil;&otilde;es e matava gente; e desta verdade<br \/>\n    era irrecus&aacute;vel prova o que acabara de praticar com Florinda.<\/p>\n<p>Se at&eacute; aquele momento Luisinha lhe votara afei&ccedil;&atilde;o ou<br \/>\n    se condoera de sua pouca sorte, era natural supor que estes sentimentos se<br \/>\n    tivessem modificado, se n&atilde;o de todo extinguido, depois do &uacute;ltimo<br \/>\n    acontecimento. A afei&ccedil;&atilde;o deveria ter sucedido o desprezo, &agrave;<br \/>\n    pena o &oacute;dio.<\/p>\n<p>N&atilde;o eram outras as id&eacute;ias que tumultuavam na cabe&ccedil;a<br \/>\n    de Cabeleira. Estas id&eacute;ias produziram no seu animo t&atilde;o profunda<br \/>\n    impress&atilde;o que ele sentiu l&aacute;grimas nos olhos, ele, o grande assassino<br \/>\n    que sempre se mostrara insens&iacute;vel ao longo pranto que por toda parte<br \/>\n    fazia correr.<\/p>\n<p>Sem se poder governar, achou se de repente voltado para o rio. Seus p&eacute;s,<br \/>\n    primeiro que sua vontade, o queriam guiar de novo ao lugar onde tinha achado<br \/>\n    os motivos para tamanha transforma&ccedil;&atilde;o. Eis que novo assobio,<br \/>\n    precedido da detona&ccedil;&atilde;o de alguns tiros, rompeu os ares e veio<br \/>\n    diverti lo destas preocupa&ccedil;&otilde;es. O esconderijo, n&atilde;o havia<br \/>\n    de duvidar, precisava de seu socorro. Ent&atilde;o uma nuvem de sangue envolveu<br \/>\n    a vista do infeliz mancebo. O passado caiu lhe novamente em peda&ccedil;os<br \/>\n    aos p&eacute;s. O esp&iacute;rito de vingan&ccedil;a fustigou o com veem&ecirc;ncia<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o, teatro de encontradas e profundas paix&otilde;es.<br \/>\n    Cabeleira volveu a ser outra vez fera, e r&aacute;pido deslizou se como uma<br \/>\n    cobra por entre as &aacute;rvores e por debaixo da folhagem.<\/p>\n<p>Com a mata que dava asilo aos malfeitores confinavam as terras onde Liberato,<br \/>\n    irm&atilde;o de Gabriel, tinha uma engenhoca.<\/p>\n<p>A princ&iacute;pio Liberato viveu muito satisfeito em suas terras. Tendo<br \/>\n    se, por&eacute;m, anos depois formado o couto ali junto, foi se ele desgostando<br \/>\n    a ponto que s&oacute; por n&atilde;o ter outro rem&eacute;dio continuou a<br \/>\n    morar nelas.<\/p>\n<p>As terras eram muito f&eacute;rteis, e a sua situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    podia ser melhor do que era; mas, pela p&eacute;ssima vizinhan&ccedil;a, estavam,<br \/>\n    como nenhumas, expostas em todos os sentidos a serem usufru&iacute;das, como<br \/>\n    eram constantemente, pelos malfeitores, o que as havia inteiramente depreciado.<\/p>\n<p>Na realidade quem menos se gozava das suas planta&ccedil;&otilde;es era Liberato,<br \/>\n    dono delas. A macaxera mais enxuta, a melancia mais madura, o melhor milho<br \/>\n    verde, o feij&atilde;o de melhor qualidade eram para a boca ou antes, ao dizer<br \/>\n    popular, para o papo dos pesados vizinhos. A galinha gorda anoitecia no poleiro<br \/>\n    mas n&atilde;o amanhecia no terreiro, n&atilde;o porque a raposa a tivesse<br \/>\n    pegado, mas porque os raposos a tinham tirado para a sua panela, que estava<br \/>\n    quase sempre fervendo dentro da mata virgem.<\/p>\n<p>A vaca leiteira, o quartau carnudo desaparecia do pasto quando menos pensava<br \/>\n    o crioulo, que os ia recomprar em segunda m&atilde;o, se, como quase sempre<br \/>\n    acontecia, os animais furtados eram da sua particular estima&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    n&atilde;o escapavam da rapacidade dos malfeitores as pr&oacute;prias bestas<br \/>\n    do servi&ccedil;o da engenhoca. Dentro dos canaviais apareciam vastas camarinhas,<br \/>\n    obra de ladr&otilde;es; as canas passavam para a mata aos feixes. Enfim era<br \/>\n    uma calamidade aquela gente, era uma desgra&ccedil;a para o Liberato, mais<br \/>\n    do que para nenhum outro, aquela vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Liberato prop&ocirc;s a venda das terras a mais de um morador do lugar, mas<br \/>\n    todos se escusaram a compr&aacute; las. De que valiam elas em realidade, com<br \/>\n    serem t&atilde;o boas, estando sujeitas, como estavam, &agrave;quela on&iacute;moda<br \/>\n    servid&atilde;o ? N&atilde;o tendo para onde ir, nem outro algum recurso,<br \/>\n    resignou se Liberato &agrave; sua sorte, e botou para Deus, juiz supremo,<br \/>\n    que d&aacute; provimento a todos os recursos interpostos com justo fundamento.<br \/>\n    Era de &iacute;ndole pac&iacute;fica, tinha mulher e filhos, n&atilde;o queria<br \/>\n    rixas com ningu&eacute;m, e muito menos as queria com matadores de profiss&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando lhe aconselhavam em fam&iacute;lia, a mulher, ou os filhos, para que<br \/>\n    reagisse contra os ladr&otilde;es, ele respondia sempre com estas palavras,<br \/>\n    ou com outras equivalentes:<\/p>\n<p> Deus me livre. Se os brancos e o rei n&atilde;o podem com eles, eu, que<br \/>\n    sou negro, &eacute; que hei de poder ? Vamos passando assim mesmo conforme<br \/>\n    Deus nos ajudar. Pode se dizer que vivo trabalhando para eles. Paci&ecirc;ncia!<br \/>\n    Um dia isto h&aacute; de ter fim, ou com a vida, ou com a morte. Ser&aacute;<br \/>\n    quando Deus quiser.<\/p>\n<p>Liberato n&atilde;o procedia deste modo por fraqueza, mas por bon&iacute;ssimo<br \/>\n    discernimento. Ele era at&eacute; valente por origem. Vinha a ser neto ou<br \/>\n    bisneto de Henrique Dias, com cuja fama se gloriava. Do ilustre guerreiro<br \/>\n    lhe vinham por sucess&atilde;o as terras que possu&iacute;a nas proximidades<br \/>\n    do Monte das Tabocas, onde o negro her&oacute;i conquistara brilho inescurec&iacute;vel<br \/>\n    para seu nome que ficou sendo uma das primeiras gl&oacute;rias da p&aacute;tria.<br \/>\n    Mas bem estava vendo que n&atilde;o podia avantajar se a quadrilhas de ladr&otilde;es<br \/>\n    e assassinos afeitos &agrave; pr&aacute;tica de toda sorte de depreda&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Havia j&aacute; muitos anos que ele vivia sem ter neste assunto outras id&eacute;ias.<br \/>\n    Pouco a pouco se habituara a repartir o seu pelos ladr&otilde;es. Esta partilha<br \/>\n    ele a considerava t&atilde;o for&ccedil;ada, t&atilde;o fatal, que, sempre<br \/>\n    que abria um novo ro&ccedil;ado, ou encoivarava terras para algum novo partido<br \/>\n    de canas, dizia, entre gracejo e resigna&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p> E preciso fazer mais acrescentando para que os meus vizinhos levem tudo,<br \/>\n    e eu n&atilde;o venha a ficar sem ter com que remir as minhas necessidades.<\/p>\n<p>Estava Liberato um dia consertando uns covos para os meter em um po&ccedil;o<br \/>\n    onde os camar&otilde;es saltavam em cardumes, quando, banhada em pranto, carpindo<br \/>\n    a sua desgra&ccedil;a lhe entrou pela porta a mulher de Gabriel.<\/p>\n<p> Mataram meu marido, Liberato. Estou vi&uacute;va, e voc&ecirc; j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o tem seu irm&atilde;o.<\/p>\n<p> Quem lhe contou isso, Aninha ? perguntou o negro quase esmagado da dor que<br \/>\n    lhe trouxe a repentina e f&uacute;nebre nova. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel.<br \/>\n    H&aacute; de ser mentira. Quem havia de matar Gabriel, que nunca se importou<br \/>\n    com os outros ?<\/p>\n<p> Desgra&ccedil;adamente n&atilde;o &eacute; mentira, n&atilde;o. Eu soube<br \/>\n    de tudo. Foi o Cabeleira quem o matou. E o malvado a&iacute; vem com o pai,<br \/>\n    roubando e esfaqueando a quem encontram. Previna se, Liberato, que eles j&aacute;<br \/>\n    devem estar na mata. Ai de mim ! Que desgra&ccedil;a, meu Deus ! Que ser&aacute;<br \/>\n    de mim sem Gabriel que era t&atilde;o bom marido ?!<\/p>\n<p> E onde estou eu, Aninha ? N&atilde;o chore. Eu ainda n&atilde;o creio neste<br \/>\n    conto. Mas se suceder a desgra&ccedil;a que voc&ecirc; diz, nem por isso dever&aacute;<br \/>\n    desesperar, que os homens ainda n&atilde;o se acabaram na terra.<\/p>\n<p>Seguiu se um longo pranto na casa do crioulo. Ao carpir de Aninha vieram<br \/>\n    juntar se as lamenta&ccedil;&otilde;es de Rosalina, mulher de Liberato e irm&atilde;o<br \/>\n    da vi&uacute;va.<\/p>\n<p>Liberato passou tr&ecirc;s noites sem pregar os olhos, pensando consigo s&oacute;.<br \/>\n    A dor acerba a que ele, sem dar amostras, talvez por prud&ecirc;ncia, mal<br \/>\n    tinha podido resistir com sobre humano esfor&ccedil;o, veio despertar os longos<br \/>\n    ressentimentos e antigos desgostos que jaziam como arrefecidos no fundo do<br \/>\n    seu cora&ccedil;&atilde;o. Aqueles que cotidianamente o despojavam dos produtos<br \/>\n    do seu trabalho e da economia tinham lhe roubado uma vida preciosa. Quem lhe<br \/>\n    podia assegurar que eles n&atilde;o viessem mais tarde a tomar lhe a mulher,<br \/>\n    a tirar lhe a filha, a arrancar lhe a pr&oacute;pria vida se ele se opusesse<br \/>\n    &agrave; sua vontade criminosa ?<\/p>\n<p>Liberato refletiu maduramente sobre este grande assunto, e a cabo de tr&ecirc;s<br \/>\n    dias tomou a resolu&ccedil;&atilde;o que lhe pareceu melhor. N&atilde;o se<br \/>\n    contava na distancia de tr&ecirc;s, ou quatro, ou dez, vinte l&eacute;guas<br \/>\n    da povoa&ccedil;&atilde;o um s&oacute; propriet&aacute;rio, lavrador, foreiro,<br \/>\n    almocreve ou morador que n&atilde;o tivesse queixas dos malfeitores, especialmente<br \/>\n    do Cabeleira que a todos excedia na petul&acirc;ncia e fereza. Aqueles a quem<br \/>\n    faltavam motivos de ofensa pessoal tinham raz&atilde;o de sobra para quererem<br \/>\n    a dissolu&ccedil;&atilde;o do couto nas ofensas feitas pelos facinorosos aos<br \/>\n    parentes e amigos. S&oacute; uma popula&ccedil;&atilde;o cansada de lutas<br \/>\n    sanguinolentas, e um governo que cuidava menos de proteger eficazmente a propriedade<br \/>\n    e a vida na col&ocirc;nia do que de adquirir grossas rendas para a metr&oacute;pole,<br \/>\n    e riquezas para si pr&oacute;prio, poderiam sofrer bandos de sic&aacute;rios<br \/>\n    que, assim fortificados ao p&eacute; das fam&iacute;lias, roubavam impunemente<br \/>\n    bens, honra e vida.<\/p>\n<p>Liberato entendeu se com tr&ecirc;s ou quatro dos vizinhos mais pr&oacute;ximos,<br \/>\n    e depois de lhes haver dado parte do golpe de que fora v&iacute;tima na pessoa<br \/>\n    de seu irm&atilde;o, prop&ocirc;s lhe coligarem todas suas for&ccedil;as para<br \/>\n    tentarem a expuls&atilde;o dos malfeitores. N&atilde;o obstante haver por<br \/>\n    essa ocasi&atilde;o recordado os danos irrepar&aacute;veis que a cada um desses<br \/>\n    vizinhos tinham eles ocasionado, n&atilde;o houve um s&oacute; que estivesse<br \/>\n    pela proposta do negro, tal era o terror de que todos se achavam penetrados.<\/p>\n<p>Nenhum queria arriscar se a pagar com a vida semelhante ousadia aconselhada<br \/>\n    ali&aacute;s pelo instinto da pr&oacute;pria conserva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Liberato voltou a casa triste e desanimado, mas n&atilde;o dissuadido de<br \/>\n    tentar o assalto, &uacute;nico meio que se lhe oferecia de vingar se dos assassinos<br \/>\n    de Gabriel, e libertar se do violento imposto que sobre sua fraca fortuna,<br \/>\n    j&aacute; muito depauperada, os malvados faziam pesar sem tr&eacute;guas nem<br \/>\n    piedade.<\/p>\n<p>Concertou seu plano consigo mesmo debaixo de rigoroso sigilo. Na tarde seguinte,<br \/>\n    com o pretexto de tirar uma abelha e encovar tatus, encaminhou se para a mata,<br \/>\n    acompanhado de seus dois filhos Ricardo e Sebasti&atilde;o, e de seu genro<br \/>\n    Vicente, todos apercebidos com espingardas, fac&otilde;es e chu&ccedil;os.<\/p>\n<p>Conhecia algumas das veredas que levavam ao covil. Acostumados a verem nele<br \/>\n    uma v&iacute;tima paciente de que mais tinham que tirar do que temer, n&atilde;o<br \/>\n    cuidaram os malfeitores em ocultar lhe essas veredas. Liberato e os seus embocaram<br \/>\n    por uma delas sem hesita&ccedil;&otilde;es nem temores, perfeitamente senhores<br \/>\n    de si e conhecedores do terreno onde pisavam.<\/p>\n<p>Antes de chegarem ao rancho foram pressentidos. A vereda, antes picada aberta<br \/>\n    a machado, era estreita, e passava por um embastido de &aacute;rvores colossais,<br \/>\n    que formavam natural estacada, imposs&iacute;vel de romper.<\/p>\n<p>Liberato sabia o perigo a que se expunha com este passo. Estava, por&eacute;m,<br \/>\n    disposto a dar aos malvados uma li&ccedil;&atilde;o de mestre, ainda que lhe<br \/>\n    custasse a pr&oacute;pria vida, desmoralizando, quando outro sucesso n&atilde;o<br \/>\n    pudesse obter, o fatal valhacouto.<\/p>\n<p>Ainda bem n&atilde;o tinham chegado ao ponto em que a picada se bifurcava,<br \/>\n    quando ouviram um assobio que repercutiu com estranho som na profunda selva.<\/p>\n<p> Ah ! disse Liberato aos seus perdemos a dilig&ecirc;ncia. Est&atilde;o prevenidos<br \/>\n    e esperam por n&oacute;s.<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o se enganava. Um dos moradores a quem convidara para o assalto,<br \/>\n    pondo se em secreta intelig&ecirc;ncia com um dos criminosos, delatara por<br \/>\n    medo a inten&ccedil;&atilde;o de Liberato. Dupla cobardia, tanto mais digna<br \/>\n    de ser execrada quanto foi parte para que viessem a dar se lament&aacute;veis<br \/>\n    cenas!<\/p>\n<p>Posto que logo conhecesse que n&atilde;o havia salva&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel<br \/>\n    para nenhum deles, Liberato, n&atilde;o querendo dar o bra&ccedil;o a torcer,<br \/>\n    prosseguiu com firmeza em sua marcha como se nada houvesse.<\/p>\n<p>Pouco adiante, a vereda estava completamente tomada por grossos troncos ligados<br \/>\n    &agrave;s &aacute;rvores paralelas por fort&iacute;ssimos cip&oacute;s.<\/p>\n<p> Estamos encurralados disse ele com serenidade. Melhor um pouco; havemos<br \/>\n    de bater nos a faca e a chu&ccedil;o.<\/p>\n<p>Voltemos, j&aacute; que n&atilde;o podemos aqui avan&ccedil;ar. Cada qual<br \/>\n    trate de matar para n&atilde;o morrer.<\/p>\n<p> N&atilde;o podemos abrir caminho atrav&eacute;s destes paus ? perguntou<br \/>\n    Sebasti&atilde;o.<\/p>\n<p> De que modo ? E imposs&iacute;vel respondeu Liberato.<\/p>\n<p> S&oacute; se n&oacute;s trep&aacute;ssemos, e f&ocirc;ssemos saltando de<br \/>\n    galho em galho at&eacute; deixarmos atr&aacute;s de n&oacute;s a estacada<br \/>\n    lembrou Ricardo.<\/p>\n<p> Eles nos deixariam fazer isto ? observou Vicente.<\/p>\n<p>Mal tinham acabado estas palavras quando uma descarga da trincheira, deitando<br \/>\n    por terra o genro de Liberato, veio anunciar lhes que para eles tudo estava<br \/>\n    acabado.<\/p>\n<p>Afastarem se da trincheira para ficarem ao abrigo de seus trai&ccedil;oeiros<br \/>\n    tiros foi a primeira coisa em que todos entenderam.<\/p>\n<p> Cobardes ! exclamou Liberato com raiva concentrada. T&ecirc;m gente como<br \/>\n    farinha, e encurralam quatro homens que eles n&atilde;o se animam a bater<br \/>\n    em campo aberto. Onde est&aacute; a valentia destes ladr&otilde;es que s&atilde;o<br \/>\n    satisfeitos com o que me furtam, mataram meu irm&atilde;o para lhe roubarem<br \/>\n    seu &uacute;nico bem ?<\/p>\n<p>Depois de se haverem alongado alguns passos mais da trincheira onde reinou<br \/>\n    logo profundo sil&ecirc;ncio, perceberam que os inimigos vinham a seu encontro<br \/>\n    para lhes embargar a sa&iacute;da. Achavam se deste modo os assaltantes entre<br \/>\n    a espada e a parede.<\/p>\n<p>Era medonha a escurid&atilde;o dentro da mata.<\/p>\n<p> Facas em punho, e avancemos gritou, n&atilde;o obstante, Liberato aos filhos,<br \/>\n    cert&iacute;ssimo de que poucos instantes de vida restavam a todos eles.<\/p>\n<p>Para dar o exemplo precipitou se, como um raio, contra a m&oacute; de malfeitores<br \/>\n    que dificilmente lobrigou a pouca distancia diante de si. Sebasti&atilde;o<br \/>\n    e Ricardo praticaram o mesmo, e dentro em pouco as armas inimigas cruzaram<br \/>\n    se com f&uacute;ria tal de parte a parte, que delas saltavam chispas, e o<br \/>\n    som dos seus embates ia perder se ao longe no seio da vasta selva.<\/p>\n<p>Depois de alguns minutos que decorreram em incessante lutar, terceiro assobio<br \/>\n    sibilou por entre a folhagem. A este sinal caiu de cima de uma das &aacute;rvores<br \/>\n    mais pr&oacute;ximas a luz sinistra de dois fachos cujo clar&atilde;o encheu<br \/>\n    o estreito passo.<\/p>\n<p>Metia horror o teatro da luta. Dos assaltantes s&oacute; restava o Liberato<br \/>\n    que se batia, como um bravo que era, com o pr&oacute;prio Cabeleira; dos salteadores<br \/>\n    muitos faziam companhia com seus cad&aacute;veres aos de Ricardo, de Sebasti&atilde;o<br \/>\n    e de Vicente.<\/p>\n<p> Eu logo vi que tinha pela frente o ingrato Cabeleira disse Liberato, que<br \/>\n    s&oacute; a seu grande animo devia estar ainda de p&eacute;. J&aacute; que<br \/>\n    mataste meu irm&atilde;o, miser&aacute;vel, podes tamb&eacute;m tirar me a<br \/>\n    vida agora; mas fica sabendo que n&atilde;o lograrias o teu intento se n&atilde;o<br \/>\n    fosse o adjut&oacute;rio de teus cobardes companheiros.<\/p>\n<p>A palavra ingrato Jos&eacute; sentiu surgir lhe espont&acirc;neo remorso<br \/>\n    na consci&ecirc;ncia, e instintivamente recolheu o &iacute;mpeto com que ia<br \/>\n    dar em Liberato o golpe de honra.<\/p>\n<p> N&atilde;o fui eu que matei Gabriel disse sem se sentir, sem o querer o<br \/>\n    malfeitor.<\/p>\n<p> Fui eu, fui eu trovejou Joaquim com f&uacute;ria aterradora. E que tem isso<br \/>\n    ? Pois ainda est&aacute;s dando satisfa&ccedil;&otilde;es a este negro, Z&eacute;<br \/>\n    Gomes ?<\/p>\n<p>Ouviu se ent o o estalo de galhos e cip&oacute;s que se romperam com viol&ecirc;ncia<br \/>\n    inesperada para deixarem passar um corpo &aacute;gil, que foi cair de um salto<br \/>\n    &agrave; frente de Liberato. Esse corpo, ou antes essa on&ccedil;a petulante,<br \/>\n    irritada e cruel, n&atilde;o era sen&atilde;o o pai de Cabeleira.<\/p>\n<p> Rende te, negro gritou Joaquim ao infeliz, descarregando lhe sobre a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    j&aacute; em diferentes partes mutilada o fac&atilde;o que trazia na m&atilde;o<br \/>\n    esquerda, enquanto com a faca presa na direita, aparava o golpe que vibrava<br \/>\n    como &uacute;ltimo arranco a sua v&iacute;tima.<\/p>\n<p>Liberato, de feito, n&atilde;o p&ocirc;de mais resistir. Tinha o corpo crivado<br \/>\n    de facadas. Cambaleou e caiu.<\/p>\n<p>Joaquim, atirando se ao desgra&ccedil;ado, embebeu lhe no peito, sem hesitar,<br \/>\n    antes com a firmeza de c&iacute;nico sic&aacute;rio, a folha de sua faca,<br \/>\n    que lhe atravessou o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Por este guarida fico eu disse. N&atilde;o h&aacute; de vir mais perturbar<br \/>\n    o nosso sossego.<\/p>\n<p>Os cad&aacute;veres dos assaltantes foram examinados entre risos, insultos<br \/>\n    e galhofas &iacute;mpias, &agrave; luz dos fachos sinistros. Completou se<br \/>\n    por este modo a trag&eacute;dia.<\/p>\n<h2><a name=\"7\">Cap&Iacute;tulo VII<\/a><\/h2>\n<p>A vit&oacute;ria, n&atilde;o obstante o lugar e o n&uacute;mero que deram<br \/>\n    superioridade aos fortificados, custou lhes consider&aacute;veis danos. Com<br \/>\n    outra investida da mesma for&ccedil;a que a primeira, ou ainda menor, o couto<br \/>\n    arriscava se a ser dissolvido. Os malfeitores n&atilde;o eram muito numerosos<br \/>\n    e qualquer perda, por pequena que fosse, os expunha a desastres certos e qui&ccedil;&aacute;<br \/>\n    fatais. Al&eacute;m disso, achavam se divididos por diferentes pontos donde<br \/>\n    protegiam as correrias empreendidas pelos mais destemidos. A organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    protetiva era tal, que o mameluco e o filho, dentre todos os mais temer&aacute;rios<br \/>\n    e valorosos, percorriam, n&atilde;o j&aacute; somente a prov&iacute;ncia donde<br \/>\n    eram naturais, mas Para&iacute;ba e Rio Grande do Norte em todas as dire&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sem maior perigo, porque quando as justi&ccedil;as os perseguiam, eles achavam<br \/>\n    sempre perto de si um ref&uacute;gio amigo onde se acolhiam, e se a&iacute;<br \/>\n    eram buscados, como muitas vezes aconteceu, resistiam, ajudados por seus iguais,<br \/>\n    com tanta energia e denodo que sempre a vit&oacute;ria ficava de seu lado.<\/p>\n<p>Desta vez por&eacute;m n&atilde;o lhes fora muito favor&aacute;vel o lance.<\/p>\n<p>O Cabeleira, cuja bravura estava acima de todo o encarecimento, e seu pai,<br \/>\n    que a nenhum cedia o lugar na crueldade, tinham ficado cobertos de golpes,<br \/>\n    alguns deles mortais. Maracaj&aacute;, cabra de m&aacute;s entranhas e por<br \/>\n    isso de cr&eacute;ditos colossais entre eles, ficara com uma m&atilde;o horrivelmente<br \/>\n    destru&iacute;da, e o ombro esquerdo mutilado. Ventania, outro matador de<br \/>\n    fama, apresentava no rosto e peito feridas extensas e profundas. Jurema, Jacarand&aacute;,<br \/>\n    Gavi&atilde;o e dois negros fugidos tinham morrido nas pontas das facas dos<br \/>\n    assaltantes.<\/p>\n<p>A vista de tudo isso, tanto que considerou restabelecida a ordem na l&ocirc;brega<br \/>\n    est&acirc;ncia, Joaquim reuniu o restante das suas for&ccedil;as, e lhes falou<br \/>\n    nestes termos:<\/p>\n<p> A luta foi feia, camaradas, e devemos dar um exemplo de estrondo para que<br \/>\n    ela n&atilde;o venha a repetir se t&atilde;o cedo. &Eacute;: certo que dos<br \/>\n    cabras que se atreveram a vir bater nos, n o voltou um s&oacute; que fosse<br \/>\n    contar a sua derrota, mas o abalo que padecemos foi grande, e, se a justi&ccedil;a<br \/>\n    vier por a&iacute; nestes dias, correremos grande perigo, s&oacute; n&atilde;o<br \/>\n    se nos ausentarmos. Entendo que devemos obrar um feito que a todos d&ecirc;<br \/>\n    que falar, que aterre a popula&ccedil;&atilde;o e o capit&atilde;o mor, que<br \/>\n    fa&ccedil;a crer que nunca estivemos t&atilde;o fortes nem mais dispostos<br \/>\n    a sustentar o nosso posto.<\/p>\n<p> Estou pronto para ir p&ocirc;r fogo agora mesmo na povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    disse Manuel Corisco, calceta evadido da cadeia do Recife por ocasi&atilde;o<br \/>\n    do segundo arrombamento praticado nos &uacute;ltimos tempos da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do governador Henrique Lu&iacute;s.<\/p>\n<p>Este sentenciado tinha tomado parte, aos dezesseis anos, no levante dos soldados<br \/>\n    que se verificou quando governava Pernambuco d. Manuel Rolim de Moura. Do<br \/>\n    dito levante existe ainda a viva lembran&ccedil;a na prov&iacute;ncia, pelo<br \/>\n    grande saque a que procederam, n&atilde;o s&oacute; na vila do Recife, mas<br \/>\n    tamb&eacute;m na rica e populosa cidade de Olinda, a p&eacute;rola de Coelho.<br \/>\n    Os sessenta e seis anos, que contava, ainda lhe permitiam for&ccedil;as e<br \/>\n    animo para atentar contra os bens e a vida com tanto maior firmeza quanto<br \/>\n    era fragueiro no crime por uma pr&aacute;tica de longos anos.<\/p>\n<p> Em vez do inc&ecirc;ndio, o saque acudiu Miguel Mulatinho.<\/p>\n<p> Para tanto n&atilde;o temos for&ccedil;as, mas se o querem, encontram me<br \/>\n    pronto, como sempreobservou Manuel Corisco. A minha opini&atilde;o &eacute;<br \/>\n    que apanhemos os cavalos e gados que ainda existem por estas beiradas. Eles<br \/>\n    devem render na feira dinheiro fresco para irmos resistindo &agrave; seca.<br \/>\n    Feito isto, levantemos o acampamento por algum tempo tornou Miguel.<\/p>\n<p> Que &eacute; que resta por aqui ? perguntou Corisco. Na fazenda de Liberato<br \/>\n    poucas reses se contam. Antes de morrer, o ladr&atilde;o do negro j&aacute;<br \/>\n    estava limpo; s&oacute; tinha em casa os cachorros, os gatos, a mulher e a<br \/>\n    filha.<\/p>\n<p> Boa id&eacute;ia, boa id&eacute;ia gritou o Joaquim, cujos olhos nadavam<br \/>\n    em ferocidade. Ter&atilde;o voc&ecirc;s coragem para darem conta da empresa<br \/>\n    ?<\/p>\n<p> Diga l&aacute;, Joaquim. Voc&ecirc; n&atilde;o est&aacute; com patativas<br \/>\n    choronas, voc&ecirc; est&aacute; com carcar&aacute;s que t&ecirc;m boa vista,<br \/>\n    boas asas e melhores unhas acudiu Miguel Mulatinho, librando se nos p&eacute;s<br \/>\n    para imitar o p&aacute;ssaro que quer voar.<\/p>\n<p> Vamos l&aacute; ver o que prop&otilde;e voc&ecirc; acrescentou Manuel Corisco.<\/p>\n<p> Proponho o roubo das melhores raparigas da povoa&ccedil;&atilde;o. Isto,<br \/>\n    sim, h&aacute; de dar a todos a medida da nossa aud&aacute;cia, e por todos<br \/>\n    ser&aacute; considerado uma prova de que estamos fortes como nunca estivemos.<\/p>\n<p> Sim senhor, muito bem lembrado disse o Mulatinho , melhor n&atilde;o podia<br \/>\n    ser, mas a coisa &eacute; s&eacute;ria, Joaquim.<\/p>\n<p> Ora ! Tens medo ?<\/p>\n<p> Medo ! O medo comi eu com as papas que minha m&atilde;e me deu quando era<br \/>\n    pequenino retrucou o malfeitor como por demais.<\/p>\n<p> Dito e feito, Joaquim. Quando ser&aacute; isso ? Hoje ? Amanh&atilde; ?<br \/>\n    perguntou Jos&eacute; Trov&atilde;o, negro hediondo, cuja cara apresentava<br \/>\n    profundas cicatrizes e cujos olhos, vermelhos como tomates, padeciam de estrabismo<br \/>\n    divergente.<\/p>\n<p> Hoje n&atilde;o. Amanh&atilde;, ou depois, conforme entender melhor Z&eacute;<br \/>\n    Gomes respondeu Joaquim.<\/p>\n<p>E logo acrescentou:<\/p>\n<p> Mas onde se meteu Z&eacute; Gomes que n&atilde;o o vejo aqui ?<\/p>\n<p>O lugar onde se achavam reunidos os bandidos era um dos pontos mais centrais<br \/>\n    da mata.<\/p>\n<p>Tinham eles assentado o seu arraial ao p&eacute; de um olho d&#8217;&aacute;gua<br \/>\n    que n&atilde;o secava, ainda no rigor do ver&atilde;o. Este arraial compunha<br \/>\n    se de meia d&uacute;zia de ranchos abertos por todos os lados e unicamente<br \/>\n    cobertos de palhas de pindoba. Dos caibros pendiam surr&otilde;es, v&eacute;stias<br \/>\n    e chap&eacute;us de couro. Algumas redes estavam armadas dentro das palho&ccedil;as.<br \/>\n    A noite alumiavam se ordinariamente com fogueiras; tinham por&eacute;m sempre<br \/>\n    em quantidade fachos de que se serviam nas suas idas e voltas por dentro da<br \/>\n    mata, quando fazia escuro. Tudo anunciava que o ponto era sempre provis&oacute;rio,<br \/>\n    e podia ser deixado de um momento para outro sem preju&iacute;zo nem saudades.<\/p>\n<p>O Cabeleira estava longe deles naquele instante.<\/p>\n<p>Apenas viu passada a borrasca, reapareceu lhe a imagem de Lu&iacute;sa em<br \/>\n    quem ele via dois tipos cada qual mais sedutor em um a menina de oito anos<br \/>\n    com o rosto banhado da express&atilde;o de meninice, que &eacute; agrad&aacute;vel<br \/>\n    at&eacute; aos olhos dos que t&ecirc;m o cora&ccedil;&atilde;o mais endurecido<br \/>\n    do mundo; no outro a mo&ccedil;a ing&ecirc;nua, corajosa, banhada em pranto,<br \/>\n    de rojo a seus p&eacute;s, pedindo lhe miseric&oacute;rdia, insultando o,<br \/>\n    amaldi&ccedil;oando o, bela, tanto mais bela quanto mais aumentavam sua dor<br \/>\n    e sua indigna&ccedil;&atilde;o, ambas t&atilde;o profundas como era o afeto<br \/>\n    que ela votava ao bandido.<\/p>\n<p>Este n&atilde;o tinha tido at&eacute; aquele momento predile&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    amorosa para alguma outra mulher.<\/p>\n<p>Sua vida n&ocirc;mada, arriscada, cheia de sobressaltos, ensopada de sangue<br \/>\n    s&oacute; lhe tinha permitido querer bem &agrave; imagem da menina que ainda<br \/>\n    na v&eacute;spera se debuxava em seu esp&iacute;rito com um vago e p&aacute;lido<br \/>\n    reflexo do passado. Inesperadamente, por&eacute;m, este reflexo se ilumina<br \/>\n    com todos os brilhos do mais primoroso &iacute;ris. A reminisc&ecirc;ncia<br \/>\n    desmaiada, quase desaparecida, tomou corpo, forma, cor, contornos suaves,<br \/>\n    olhos matadores, cabelos escuros, voz harmoniosa, en&eacute;rgico sentimento,<br \/>\n    e com solu&ccedil;os o comove, e com exprobra&ccedil;&otilde;es o faz conhecer<br \/>\n    e sentir a dor, nunca talvez experimentada, de um remorso cruel. Seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que se havia convertido em foco de paix&otilde;es sanguin&aacute;rias, era<br \/>\n    agora ninho de doce e indefin&iacute;vel sentimento.<\/p>\n<p>O bandido estava experimentando, n&atilde;o a lasc&iacute;via bruta que proporciona<br \/>\n    r&aacute;pidos prazeres, dele conhecidos como a aguardente que bebia nos dias<br \/>\n    quentes e nas noites frias, mas uma fatalidade ben&eacute;vola, branda e terna<br \/>\n    que o impelia para a mo&ccedil;a, primeiro pelo esp&iacute;rito, e s&oacute;<br \/>\n    depois pela beleza da forma que o atra&iacute;a; e essa fatalidade era t&atilde;o<br \/>\n    poderosa que ele n&atilde;o achava for&ccedil;as em si para lhe resistir apesar<br \/>\n    do seu querer.<\/p>\n<p>Chegando &agrave; beira do rio para onde se dirigira correndo em busca da<br \/>\n    vis&atilde;o que a&iacute; deixara, achou em seu lugar a solid&atilde;o infinita,<br \/>\n    a solid&atilde;o s&oacute;.<\/p>\n<p>Era em maio. Frouxo estava o luar. Elevava se das margens, com os ru&iacute;dos<br \/>\n    do deserto, fresca e grata emana&ccedil;&atilde;o que teve para o seu peito<br \/>\n    abrasado o efeito do b&aacute;lsamo fragrante.<\/p>\n<p>Pareceu lhe que debaixo da folhagem do juazeiro onde, segundo o seu pedido,<br \/>\n    esperava encontrar a mo&ccedil;a, um corpo indeciso e vago se agitava brandamente.<\/p>\n<p> Luisinha ? Luisinha? chamou ele.<\/p>\n<p>Ilus&atilde;o ! Estava ali o v&aacute;cuo mais cruel do que um raio que o<br \/>\n    houvesse fulminado. A sombra da &aacute;rvore movida pela brisa noturna representava<br \/>\n    a forma graciosa que o bandido acreditou ser Lu&iacute;sa<\/p>\n<p> Foi se embora ! disse o Cabeleira esmagado.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o com olhar de gavi&atilde;o abrangeu a vasta plan&iacute;cie<br \/>\n    que se estendia diante de si. Ningu&eacute;m ! Nem sequer um vulto que por<br \/>\n    um instante ao menos lhe desse o prazer de uma nova esperan&ccedil;a, falaz<br \/>\n    embora como a que se despeda&ccedil;ara a seus p&eacute;s naquele momento.<br \/>\n    S&oacute; o deserto lhe apareceu, menos vago, mais real com taciturna imensidade,<br \/>\n    s&oacute; o deserto lhe respondeu com a mudez do descampado, das selvas profundas,<br \/>\n    e das &aacute;guas mortas.<\/p>\n<p>Assim desmascarada em plena natureza, a realidade o fez voltar a si. Sentiu<br \/>\n    as dores dos golpes recebidos, pouco havia, dentro da mata. Lembrou se de<br \/>\n    banhar as feridas como costumava depois de id&ecirc;nticos desastres. Mas<br \/>\n    a &aacute;gua fresca que tantas vezes lhe havia servido de b&aacute;lsamo<br \/>\n    refrigerante, produziu lhe agora diferente efeito. A vista do bandido foi<br \/>\n    pouco a pouco escurecendo, a cabe&ccedil;a pesou lhe mais do que o corpo,<br \/>\n    e ele caiu sem sentidos &agrave; beira do po&ccedil;o.<\/p>\n<p>Deste modo passou horas. Quando tornou em si de seu del&iacute;quio, a aurora<br \/>\n    vinha rompendo as nuvens do horizonte, com sua luz extensa e vasta que se<br \/>\n    confunde no infinito. A vira&ccedil;&atilde;o matutina transm&iacute;tiu lhe<br \/>\n    aos ouvidos uns sons cadenciados que vinham de longe. Era o eco das loas cantadas<br \/>\n    pelas meninas e raparigas da povoa&ccedil;&atilde;o que vinham encher os potes<br \/>\n    nos po&ccedil;os como de costume.<\/p>\n<p>Levantou se ainda aturdido. Seus olhares foram logo cair sobre o lugar onde<br \/>\n    na tarde anterior ele havia deitado Florinda em terra com o coice do bacamarte.<br \/>\n    N&atilde;o se achava, por&eacute;m, ali o cad&aacute;ver da curiboca. O bandido<br \/>\n    deu ent&atilde;o o andar para a est&acirc;ncia, com o pensamento concentrado<br \/>\n    em Lu&iacute;sa que, tendo se visto livre de suas m&atilde;os, correra em<br \/>\n    socorro de Florinda.<\/p>\n<p> Minha m&atilde;e ? minha m&atilde;e ? chamara ela, abra&ccedil;ando o corpo<br \/>\n    da v&iacute;tima, e chorando como crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>No seu prantear e no seu carpir, Lu&iacute;sa tivera todavia esp&iacute;rito<br \/>\n    para lembrar se das &uacute;ltimas palavras do Cabeleira. &quot;Com pouco<br \/>\n    ele estar&aacute; aqui outra vez&quot;, pensou ela. &quot;Deus me livre de<br \/>\n    que ele venha ainda encontrar me neste ermo. Que seria de mim se tal acontecesse<br \/>\n    ? Mas posso eu deixar aqui o corpo de minha m&atilde;e s&oacute; e desamparado<br \/>\n    ?! N&atilde;o, n&atilde;o; n&atilde;o o deixarei ainda que me matem. Ficarei<br \/>\n    at&eacute; que amanhe&ccedil;a. H&aacute; de aparecer algu&eacute;m que me<br \/>\n    ajude a lev&aacute; lo para casa&quot;.<\/p>\n<p>E aflita, consternada, Lu&iacute;sa olhara ao longo da margem a ver se descobria<br \/>\n    quem a socorresse. Por mais de uma vez uns vultos escuros moveram se sobre<br \/>\n    a areia, &agrave; beira dos po&ccedil;os. Ele sentira ent&atilde;o voltar<br \/>\n    lhe o animo, falara, perguntara quem estava ali, pedira que a fossem amparar<br \/>\n    em tamanha afli&ccedil;&atilde;o, mas ningu&eacute;m a ouvira, ningu&eacute;m<br \/>\n    acudira ao seu chamamento. Tudo fora ilus&atilde;o. Esses vultos foram as<br \/>\n    sombras das &aacute;rvores movidas pelo vento, as quais enganaram depois o<br \/>\n    bandido como vimos.<\/p>\n<p>A noite, por&eacute;m, corria com rapidez. A lua que descia a ocultar se<br \/>\n    por detr&aacute;s da floresta, dentro em breve deixaria em trevas toda a natureza.<br \/>\n    O sil&ecirc;ncio tornava se mais profundo, tornava se absoluto. O s&iacute;tio,<br \/>\n    de si ermo, estava agora l&uacute;gubre por se haver convertido em mans&atilde;o<br \/>\n    de morte e luto.<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa lembrara se de ir chamar algu&eacute;m, visto que ningu&eacute;m<br \/>\n    lhe aparecia para a tirar daquele aflitivo transe. Mas a casa que ficava mais<br \/>\n    pr&oacute;xima era de Liberato, a qual distava, entretanto, pouco menos de<br \/>\n    meio quarto de l&eacute;gua do lugar. Al&eacute;m disso, ela n&atilde;o queria<br \/>\n    deixar o corpo de Florinda desacompanhado ainda que fosse por momentos quanto<br \/>\n    mais por horas.<\/p>\n<p>De uma vez correra ao longo da margem a ver se o c&eacute;u lhe tinha enviado<br \/>\n    algum protetor. Mas logo voltara, lembrando se de que o cad&aacute;ver podia,<br \/>\n    de um instante para o outro ser ofendido por algum animal.<\/p>\n<p> N&atilde;o, n&atilde;o, minha m&atilde;e ! exclamou ela. N&atilde;o te deixarei,<br \/>\n    haja o que houver.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o ela vira que o cad&aacute;ver erguera os bra&ccedil;os para<br \/>\n    concheg&aacute; la, ao que parecia, ao seu seio. A mo&ccedil;a fizera conta<br \/>\n    que estava sonhando e delirando, e que o movimento de Florinda fora como uma<br \/>\n    ilus&atilde;o dos olhos dela.<\/p>\n<p> Abra&ccedil;a me, minha m&atilde;e, abra&ccedil;a me. Leva me contigo que<br \/>\n    eu, sem ti, sou o ente mais desgra&ccedil;ado do mundo.<\/p>\n<p>Mas, sentindo a press&atilde;o f&iacute;sica e irrecus&aacute;vel dos bra&ccedil;os<br \/>\n    que tinha por mortos, recuou para a p&aacute;lida claridade do escasso luar,<br \/>\n    certificar se da verdade.<\/p>\n<p> N&atilde;o fujas, Lu&iacute;sa. Vem. N&atilde;o estou morta. Ajuda me, que<br \/>\n    me levantarei.<\/p>\n<p>N&atilde;o podia ser mentira dos seus ouvidos. Era a voz de Florinda, aquela<br \/>\n    voz branda e ben&eacute;vola que ela estava acostumada a escutar desde a inf&acirc;ncia<br \/>\n    como o eco de materna] provid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Minha m&atilde;e ! Vive ainda, minha querida m&atilde;ezinha? perguntara<br \/>\n    Lu&iacute;sa, chorando e sorrindo alternativamente, beijando, como louca,<br \/>\n    sem ordem nem modera&ccedil;&atilde;o, aquele cad&aacute;ver que se tornara<br \/>\n    vivente, aquela vida que ressuscitara no seio da natureza onde lhe parecera<br \/>\n    que se havia afundado para nunca mais voltar como se afundam as borboletas<br \/>\n    que as tempestades arrojam aos charcos e marn&eacute;is.<\/p>\n<p> V&ecirc; se podes levantar me, Luisinha.<\/p>\n<p> Sim, saiamos j&aacute; daqui antes que tornem os malfeitores. Eles n&atilde;o<br \/>\n    tardam por a&iacute;, creio eu. Vamos j&aacute;, minha m&atilde;e. Est&aacute;<br \/>\n    me parecendo que dali, daquele mato trai&ccedil;oeiro, um homem nos acomete,<br \/>\n    ou um tiro nos vem ferir.<\/p>\n<p>Cambaleante e tr&ocirc;pega, Florinda dera o andar arrimando se no ombro<br \/>\n    da filha.<\/p>\n<p> Que tens, Luizinha, que olhas horrorizada para aquela banda ? Fez te algum<br \/>\n    dano o assassino ?<\/p>\n<p> N&atilde;o, nada me fez. Mas eu tenho medo destes lugares. Nunca mais virei<br \/>\n    buscar &aacute;gua aqui.<\/p>\n<p> Conta me tudo, Luisinha. Como te livraste do malfeitor? Quem era ele? N&atilde;o<br \/>\n    o conheceste? Seria o Cabeleira ?<\/p>\n<p> N&atilde;o sei, minha m&atilde;e. Estava j&aacute; t&atilde;o escuro quando<br \/>\n    ele apareceu&hellip; Sei por&eacute;m, que ele se compadeceu de mim.<\/p>\n<p> Est&aacute;s dizendo a verdade, Luisinha ?<\/p>\n<p> Sim, minha m&atilde;e, ele n&atilde;o me ofendeu. Dando mostras de estar<br \/>\n    arrependido, fugiu logo depois, e n&atilde;o voltou mais.<\/p>\n<p> Malvado ! ? disse Florinda. Que pancada me deu ele! P&ocirc;e a m&atilde;o<br \/>\n    em minha fonte. V&ecirc; como fiquei. Virgem Sant&iacute;ssima ! N&atilde;o<br \/>\n    sei como n&atilde;o me saltaram os miolos. Mas&hellip; ampara me bem, que<br \/>\n    uma nova perturba&ccedil;&atilde;o me vem tirar os sentidos. Ampara me, sen&atilde;o<br \/>\n    caio. N&atilde;o posso andar mais.<\/p>\n<p> Temos de feito andado muito, minha m&atilde;e, e deve estar cansada.<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa, novamente aflita, volvendo os olhos em torno de si, viu, a<br \/>\n    poucas bra&ccedil;as, uma sombra im&oacute;vel que brilhou aos seus olhos<br \/>\n    como um astro de prote&ccedil;&atilde;o e conforto.<\/p>\n<p>Estavam salvas. Era a casa de Liberato.<\/p>\n<h2><a name=\"8\">Cap&iacute;tulo VIII<\/a><\/h2>\n<p>A casa de Liberato estava situada dentro do cercado que, beirando o rio em<br \/>\n    linha reta, de norte a sul, ia morrer na mata virgem, limite natural das terras<br \/>\n    pertencentes &agrave; engenhoca. Era fraca de constru&ccedil;&atilde;o, mas<br \/>\n    podia considerar se uma verdadeira casa de campo por sua bonita apar&ecirc;ncia,<br \/>\n    pela vista que tinha para todos os lados, pelo alpendre circular e pelo meio<br \/>\n    peitoril de madeira que n&atilde;o contribu&iacute;a pouco para a sua r&uacute;stica<br \/>\n    eleg&acirc;ncia.<\/p>\n<p>A pequena distancia tinham sido edificadas tr&ecirc;s casas menores e menos<br \/>\n    vistosas do que a primeira. Em uma destas morava o genro, nas outras duas<br \/>\n    os filhos do crioulo. Nos fundos do cercado via se outra casinha que na forma<br \/>\n    arremedava a casa grande. Pertencia a Gabriel que, &agrave; sombra do irm&atilde;o,<br \/>\n    a&iacute; vivia com sua mulher e filhos, na paz do Senhor.<\/p>\n<p>Sem ter escravos nem dispor de grandes meios pecuni&aacute;rios, com o aux&iacute;lio<br \/>\n    de Gabriel, Sebasti&atilde;o, Ricardo e Vicente, plantava canas, fazia ro&ccedil;ados<br \/>\n    e vazantes, e, no tempo pr&oacute;prio, fabricava a&ccedil;&uacute;car e rapaduras,<br \/>\n    desfilava aguardente, e desmanchava mandioca que lhe dava farinha para todo<br \/>\n    o ano.<\/p>\n<p>Viviam em perfeito acordo aquele pai, aquele irm&atilde;o, aqueles filhos,<br \/>\n    aquele genro, cada um com sua mulher e seus filhos, e todos dando os mais<br \/>\n    bonitos exemplos, que se conhecem, de uni&atilde;o, aux&iacute;lio m&uacute;tuo,<br \/>\n    rec&iacute;proco respeito e comum felicidade.<\/p>\n<p>Na engenhoca ficaram todos ignorando o verdadeiro motivo da jornada &agrave;<br \/>\n    mata. Liberato, para maior seguran&ccedil;a dos seus des&iacute;gnios, havia<br \/>\n    recomendado aos companheiros o mais rigoroso segredo. E como tinham eles por<br \/>\n    costume ca&ccedil;ar pacas e tatus uma vez por outra,.quando fazia luar e<br \/>\n    o tempo estava enxuto, n&atilde;o houve quem duvidasse da palavra dos ca&ccedil;adores.<br \/>\n    Quando, por&eacute;m, se soube do acontecido por boca de Lu&iacute;sa, e pelo<br \/>\n    vest&iacute;gio da atrocidade que Florinda trazia na face, a qual bem estava<br \/>\n    dizendo donde havia procedido, a inquieta&ccedil;&atilde;o e o susto vieram<br \/>\n    tomar o lugar ao sono e ao repouso a que se achavam entregues os habitantes<br \/>\n    da engenhoca.<\/p>\n<p>Raiou finalmente o dia longamente suspirado pelos que da meia noite at&eacute;<br \/>\n    o amanhecer n&atilde;o haviam tido olhos para dormir, mas para chorar.<\/p>\n<p>O sol espargiu a luz suave sobre o sert&atilde;o, e com ela despertou a natureza.<br \/>\n    Inspirando as aves, colorindo os campos, e permitindo ver no espelho sereno<br \/>\n    das &aacute;guas do Tapacur&aacute; o belo c&eacute;u que nele se refletia<br \/>\n    com os seus espl&ecirc;ndidos matizes, essa luz vivificadora restituiu ao<br \/>\n    deserto o movimento e a vida que as trevas tinham ocultado debaixo de seu<br \/>\n    espesso v&eacute;u.<\/p>\n<p>Com a tornada do dia, ressurgiu em todos a confian&ccedil;a, s&oacute; n&atilde;o<br \/>\n    em Lu&iacute;sa, que via pr&oacute;ximo o termo da vida de sua m&atilde;e<br \/>\n    privada novamente do uso da fala por lhe haver voltado a congest&atilde;o.<\/p>\n<p>Chegou a hora do almo&ccedil;o, a do jantar, e finalmente escureceu de novo<br \/>\n    sem que os ca&ccedil;adores houvesse volvido a seus lares. Ent&atilde;o a<br \/>\n    consterna&ccedil;&atilde;o tornou se geral e verdadeiramente cruel.<\/p>\n<p>As fam&iacute;lias reuniram se todas na casa grande para se protegerem em<br \/>\n    caso de perigo que logo tiveram por iminente.<\/p>\n<p>Tr&ecirc;s dias se passaram nessa afli&ccedil;&atilde;o que se n&atilde;o<br \/>\n    pode descrever mas que facilmente se imagina.<\/p>\n<p>Rosalina pensou de uma vez em ir pedir socorro no povoado, mas a quem ? O<br \/>\n    capit&atilde;o mor achava se no Recife, e o povoado, que um s&eacute;culo<br \/>\n    antes constava de uma capela dedicada a Santo Ant&atilde;o, e de meia d&uacute;zia<br \/>\n    de casas, pouco mais era do que isto na &eacute;poca em que se passou esta<br \/>\n    hist&oacute;ria; precisava tamb&eacute;m de prote&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>De sua agonia a veio tirar um caboclo velho, que morava no caminho do povoado,<br \/>\n    em terras da engenhoca, e que era o estafeta do lugar. Vivia s&oacute; em<br \/>\n    uma palho&ccedil;a &agrave; beira da estrada. Chamava se Matias mas era mais<br \/>\n    conhecido pela alcunha de Veado, a qual se originara de ser ele muito &aacute;gil<br \/>\n    e andador.<\/p>\n<p>Matias, achando se sem fumo para o cachimbo, dirigiu se &agrave; casa grande<br \/>\n    no pressuposto de encontrar a&iacute; o Liberato que uma vez por outra lhe<br \/>\n    dava do melhor que tinha alguns peda&ccedil;os para seu gasto. S&oacute; ent&atilde;o<br \/>\n    soube do que havia, e logo se ofereceu para ir dar com o crioulo a quem devia<br \/>\n    muitas obriga&ccedil;&otilde;es e respeito. Havendo Rosalinda aceitado o oferecimento,<br \/>\n    Matias voltou &agrave; choupana a buscar uma espingarda velha, e um minuto<br \/>\n    depois estava no rasto dos ca&ccedil;adores.<\/p>\n<p>Antes de transpor os limites da fazenda, viu ele para as bandas do Monte<br \/>\n    das Tabocas um bando de urubus esvoa&ccedil;ando como costumam quando sentem<br \/>\n    carni&ccedil;a. Seria alguma r&ecirc;s morta o objeto da inspe&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dessas aves? Talvez fosse. A seca estava fazendo no gado v&iacute;timas aos<br \/>\n    centos.<\/p>\n<p>O Veado por&eacute;m, naturalmente suspeitoso, acreditou logo que estava<br \/>\n    ali o cad&aacute;ver de Liberato ou de alguns dos seus.<\/p>\n<p>Para ir ter &agrave; grota sobre a qual se libravam os urubus, n&atilde;o<br \/>\n    era preciso entrar a mata, mas unicamente contorn&aacute; la pelo lado oposto<br \/>\n    ao rio. O terreno apresentava desse lado um vasto tabuleiro, e depois ia gradualmente<br \/>\n    alteando at&eacute; &agrave; grota, que se interpunha entre o tabuleiro e<br \/>\n    a mata, formando um fosso natural que protegia o couto. S&oacute; quem tivesse<br \/>\n    grande coragem, e fosse perfeito conhecedor dos acidentes do solo, se animaria<br \/>\n    a arriscar o p&eacute; no profundo despenhadeiro.<\/p>\n<p>Matias em pouco tempo atravessou toda a plan&iacute;cie e chegou &agrave;<br \/>\n    borda do abismo. Cheiro de carnes putrefatas feriu lhe logo o olfato agud&iacute;ssimo<br \/>\n    que sentia, &agrave; distancia, o quati, o veado, a anta, e at&eacute; a cobra.<\/p>\n<p>De cima nada p&ocirc;de ver, porque do fundo do vale e das encostas da montanha<br \/>\n    se levantava uma vegeta&ccedil;&atilde;o secular cuja folhagem basta e enredada<br \/>\n    parecia destinada a conservar perpetuamente oculta &agrave;s vistas do homem<br \/>\n    a escusa regi&atilde;o. O cheiro da carne corruta por&eacute;m foi um ind&iacute;cio,<br \/>\n    um raio de luz para o &iacute;ndio que, havendo tomado a peito descobrir a<br \/>\n    verdade, estava no prop&oacute;sito de n&atilde;o hesitar, para o conseguir,<br \/>\n    diante da perda da pr&oacute;pria vida.<\/p>\n<p>A seus p&eacute;s mostrava se um sulco deixado no terreno pelas &aacute;guas<br \/>\n    que, descendo ao longo do estreito espinha&ccedil;o, aqui se escoavam para<br \/>\n    o tabuleiro, ali para,dentro do precip&iacute;cio. Por ele se encaminhou Matias,<br \/>\n    arrimando se na espingarda, e com ela rompendo a custo os cip&oacute;s que<br \/>\n    formavam diante de sua passagem uma rede quase inexplic&aacute;vel.<\/p>\n<p>Passou se uma hora. O sol chegou ao poente. Veio o lusco fusco, e com ele<br \/>\n    aumentaram as tristezas, os medos e as agonias das mulheres recolhidas na<br \/>\n    casa grande.<\/p>\n<p>Rosalina, tendo posto todos os c&atilde;es da banda de fora, e fechado todas<br \/>\n    as portas da casa, abriu o seu tosco orat&oacute;rio, e convidou as outras<br \/>\n    ao ter&ccedil;o tradicional, agora mais do que nunca necess&aacute;rio para<br \/>\n    fortalecer os esp&iacute;ritos abatidos.<\/p>\n<p>Florinda estava expirando. Ao lado dela achava se Lu&iacute;sa, desfeita<br \/>\n    em l&aacute;grimas, e Aninha que ajudava a enferma a morrer. A porta do aposento<br \/>\n    inteiramente aberta deixava ver as outras mulheres de joelhos na sala, aos<br \/>\n    p&eacute;s do orat&oacute;rio, cantando as rezas que constituem o ter&ccedil;o,<br \/>\n    essa parte do culto externo que, depois de longamente usada em quase todo<br \/>\n    o Norte, desapareceu das capitais, e j&aacute; n&atilde;o tem no pr&oacute;prio<br \/>\n    interior das prov&iacute;ncias a pr&aacute;tica geral a que em grande parte<br \/>\n    se deve referir o ado&ccedil;amento dos costumes dessas povoa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    antes de haverem sido dotadas com as escolas e com os institutos de educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que atualmente as disputam &agrave; ignor&acirc;ncia com mais vigor e proveito.<\/p>\n<p>De s&uacute;bito o ladrar dos c&atilde;es veio interromper o concerto das<br \/>\n    vozes femininas que enchiam o &acirc;mbito da sala, e iam repercurtir no vasto<br \/>\n    p&aacute;tio. O ladrar aumentou, e com ele tornou se mais distinto, mais pr&oacute;ximo,<br \/>\n    ao princ&iacute;pio um estrupido de passos, depois um ru&iacute;do de vozes<br \/>\n    surdas do lado de fora da habita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nesta a alegria e a afli&ccedil;&atilde;o, a primeira quando se lhes afigurou<br \/>\n    que os ca&ccedil;adores chegavam, a segunda quando, em lugar destes, pensavam<br \/>\n    serem os malfeitores que as vinham assaltar, disputaram um instante em violenta<br \/>\n    porfia os esp&iacute;ritos das pobres mulheres naturalmente expostas, pelas<br \/>\n    suas circunst&acirc;ncias especiais, a estas cru&eacute;is alternativas.<\/p>\n<p>Depressa por&eacute;m se dissiparam todas as d&uacute;vidas. Com f&uacute;ria<br \/>\n    ind&ocirc;mita, os c&atilde;es deram mostras de querer despeda&ccedil;ar os<br \/>\n    visitantes. Semelhante ind&iacute;cio foi uma prova evidente de que, n&atilde;o<br \/>\n    de casa, mas estranhos eram estes.<\/p>\n<p>De repente ouviu se uma voz que, ecoando no terreiro, veio ressoar dentro<br \/>\n    de casa:<\/p>\n<p> Aqui estou. Sou eu.<\/p>\n<p>Era a voz de Matias.<\/p>\n<p>Rosalina, &eacute;bria de violenta alegria, correu &agrave; porta para a<br \/>\n    abrir, mas logo sobresteve a este novo falar do caboclo:<\/p>\n<p> N&atilde;o digo, n&atilde;o digo isto, ainda que me matem.<\/p>\n<p> Dize que abre a porta, sen&atilde;o te varo com esta faca, Veado do demo<br \/>\n    disse Joaquim a meia voz.<\/p>\n<p> N&atilde;o digo repetiu o caboclo.<\/p>\n<p>E alteando a voz, tr&ecirc;mula e como abafada, gritou com toda a for&ccedil;a<br \/>\n    que p&ocirc;de:<\/p>\n<p> N&atilde;o abram, n&atilde;o abram. Eu trouxe os malvados enganados at&eacute;<br \/>\n    aqui para poder avis&aacute; la, sinh&aacute; Rosalina. Liberato, Ricardo,<br \/>\n    Sebasti&atilde;o e Vicente s&atilde;o com Deus. Fujam, se podem, que eu sei<br \/>\n    que morro.<\/p>\n<p> Ah ! miser&aacute;vel, que nos iludiste vociferou Joaquim.<\/p>\n<p>E com a faca atravessou incontinenti o cora&ccedil;&atilde;o de Matias que,<br \/>\n    sem soltar um ai, caiu envolto em um turbilh&atilde;o de sangue.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; sem grande constrangimento, leitor, que a minha pena,<br \/>\n    molhada em tinta, gra&ccedil;as a Deus, e n&atilde;o em sangue, descreve cenas<br \/>\n    de estranho canibalismo como as que nesta hist&oacute;ria se l&ecirc;em. Aperta<br \/>\n    me naturalmente o cora&ccedil;&atilde;o sempre que me vejo obrigado a relat&aacute;<br \/>\n    las. Entre os motivos da minha repugn&acirc;ncia e da minha tristeza sobressai<br \/>\n    o seguinte: Eu vejo nestes horrores e desgra&ccedil;as a prova, infelizmente<br \/>\n    irrecus&aacute;vel, de que o ente por excel&ecirc;ncia, a criatura fadada,<br \/>\n    como nenhuma outra, para alt&iacute;ssimos fins, pode cair na abje&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais profunda, se o afastam dos seus sumos destinos circunst&acirc;ncias de<br \/>\n    tempo e lugar que, nada, ou muito pouco valendo por si mesmas, s&atilde;o<br \/>\n    de grande peso para a perturba&ccedil;&atilde;o do equil&iacute;brio moral<br \/>\n    do rei da cria&ccedil;&atilde;o, tal &eacute; a fragilidade da realeza, ou<br \/>\n    antes das realezas humanas. Mas desgra&ccedil;adamente estas cenas n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o geradas pela minha fantasia. S&atilde;o fatos acontecidos h&aacute;<br \/>\n    pouco mais de um s&eacute;culo. Se s&oacute; alguns deles foram recolhidos<br \/>\n    pela hist&oacute;ria, quase todos pertencem &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que n&ocirc; los legou, antes como l&iacute;mpido espelho, que como tenebrosa<br \/>\n    not&iacute;cia do passado. N&atilde;o estou imaginando, estou, sim, recordando;<br \/>\n    e recordar &eacute; instruir, e quase sempre moralizar. Com estas raz&otilde;es<br \/>\n    considero me justificado aos teus olhos, leitor ben&eacute;volo.<\/p>\n<p>Gritos, queixumes, impreca&ccedil;&otilde;es e prantos que nenhuma pena humana<br \/>\n    pode descrever seguiram se, de dentro da casa, &agrave;s &uacute;ltimas palavras<br \/>\n    do Veado.<\/p>\n<p>Teresa, mulher de Vicente, abra&ccedil;ou se com Rosalina, menos madrasta<br \/>\n    do que m&atilde;e, e come&ccedil;ou a carpir com ela a desgra&ccedil;a comum,<br \/>\n    dando mostras de ter enlouquecido. N&atilde;o se demoraram a imit&aacute;<br \/>\n    las nas demonstra&ccedil;&otilde;es de dor e desespero Josefa, mulher de Ricardo,<br \/>\n    e Candida, mulher de Sebasti&atilde;o.<\/p>\n<p>Da sua ang&uacute;stia, para a qual ser&aacute; dif&iacute;cil encontrar<br \/>\n    paralelo na hist&oacute;ria das desgra&ccedil;as humanas, vieram tir&aacute;<br \/>\n    las uma fort&iacute;ssima pancada contra a porta, e estas formais palavras<br \/>\n    de Joaquim:<\/p>\n<p> Se n&atilde;o abrem por bem, h&atilde;o de abrir por mal.<\/p>\n<p> Quando for tempo de tocar fogo na capuaba, &eacute; s&oacute; dizer, Joaquim<br \/>\n    acrescentou Manuel Corisco.<\/p>\n<p> Querem queimar a casa, Rosalinda disse Candida Estamos perdidas, minha gente.<br \/>\n    Meu Deus, meu Deus, socorrei nos.<\/p>\n<p>Rosalina poderia ter vinte anos. Suas formas eram arredondadas, os cabelos<br \/>\n    crespos e negros, os olhos admiravelmente fendidos, a boca imposs&iacute;vel<br \/>\n    de descrever se, porque exprimia gra&ccedil;a, vol&uacute;pia soberba e desd&eacute;m<br \/>\n    ao mesmo tempo. Era o tipo da mulata ardente, caprichosa, cheia de vivacidade<br \/>\n    e energia, tipo que est&aacute; destinado a desaparecer dentre n&oacute;s<br \/>\n    com o correr dos anos, mas que h&aacute; de ser sempre objeto de tradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    muito especiais no seio da sociedade brasileira, pelo muito que tem figurado<br \/>\n    no campo, na cidade e no lar.<\/p>\n<p> Sim, querem tocar fogo na casa para nos obrigarem a sair. Mas n&atilde;o<br \/>\n    sairemos disse Rosalina com firmeza.<\/p>\n<p>E acrescentou sem demora:<\/p>\n<p> Sair para onde ? Os nossos maridos desapareceram para sempre dentre os nossos<br \/>\n    bra&ccedil;os. N&atilde;o temos mais quem olhe por n&oacute;s neste mundo<br \/>\n    de amarguras e mis&eacute;rias. Somos cinco desgra&ccedil;adas a quem a vida<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o pode oferecer prazer nem sossego, mas s&oacute; desgostos<br \/>\n    e l&aacute;grimas. N&atilde;o, Candida, n&atilde;o sairemos daqui.<\/p>\n<p> Mas que faremos, Rosalina ?<\/p>\n<p> Que faremos ! Pois voc&ecirc; ainda pergunta ?<\/p>\n<p> Sim, porque os malvados est&atilde;o a&iacute;, e &eacute; tempo de tomarmos<br \/>\n    a nossa resolu&ccedil;&atilde;o. Est&aacute; tomada respondeu Rosalina. Morreremos,<br \/>\n    e n&atilde;o nos entregaremos aos malvados.<\/p>\n<p> Meu Deus ! meu Deus ! exclamou Teresa.<\/p>\n<p> N&atilde;o, n&atilde;o, Rosalina acrescentou Josefa. Vamos ver se nos salvamos.<\/p>\n<p> Se nos salvamos !&#8230; disse a mulata com ironia e desd&eacute;m. N&atilde;o<br \/>\n    ouves os malfeitores bateram na porta ?<\/p>\n<p> Mas ent&atilde;o&#8230; balbuciou Teresa.<\/p>\n<p> Morreremos todas, Teresa, morreremos todas, mas com honra, ao p&eacute;<br \/>\n    deste orat&oacute;rio gritou Rosalina com tal energia e decis&atilde;o que<br \/>\n    nenhuma das outras se animou a proferir uma palavra sequer contra a sua senten&ccedil;a<br \/>\n    de morte.<\/p>\n<p>Para dar o exemplo, a mulata caiu de joelhos diante do santu&aacute;rio,<br \/>\n    tendo no rosto a serenidade que faz belos o venerandos os m&aacute;rtires,<br \/>\n    os verdadeiros m&aacute;rtires.<\/p>\n<p>Teresa foi a primeira que imitou sua madrasta, e as outras n&atilde;o se<br \/>\n    demoraram a acompanhar Teresa. Quem poderia resistir &agrave; her&oacute;ica<br \/>\n    decis&atilde;o de Rosalina inspirada no sentimento da honra, e na ora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ?<\/p>\n<p> Abrem, ou n&atilde;o abrem ? perguntou nesse &iacute;nterim de fora Joaquim<br \/>\n    impaciente.<\/p>\n<p>A resposta que a esta pergunta deram as mulheres foi o continuarem o ter&ccedil;o<br \/>\n    alguns minutos antes interrompido, resposta que h&aacute; de perdurar nas<br \/>\n    tradi&ccedil;&otilde;es populares, como um tra&ccedil;o caracter&iacute;stico<br \/>\n    da firmeza e do valor das gentes do Norte naqueles tempos de grandeza de animo<br \/>\n    que raro aparece hoje.<\/p>\n<p> Ah ! est&atilde;o rezando. Fogo, Manuel Corisco. fogo, Mulatinho, fogo,<br \/>\n    Trov&atilde;o !<\/p>\n<p>De repente um clar&atilde;o afogueado inundou o terreiro, e indicou que a<br \/>\n    ordem do capit&atilde;o do bando ia ser prontamente executada.<\/p>\n<p> Depressa, depressa gritou Joaquim.<\/p>\n<p> Enquanto o diabo esfrega um olho, o mocambo fica torrado, e as caiporinhas<br \/>\n    s&atilde;o nossas respondeu Jos&eacute; Trov&atilde;o, chegando a chama do<br \/>\n    seu facho a um mont&atilde;o de cangalhas, tripe&ccedil;as, gamelas e outros<br \/>\n    objetos encontrados no alpendre, e que ele havia apinhado de prop&oacute;sito,<br \/>\n    para servirem de combust&iacute;veis, ao p&eacute; das quatro janelas da casa.<\/p>\n<p>Esta opera&ccedil;&atilde;o reproduziu se na porta fronteira, nas portas<br \/>\n    e janelas laterais, no peitoril de madeira e nas toscas colunas que sustentavam<br \/>\n    de espa&ccedil;o a espa&ccedil;o o telheiro do alpendre.<\/p>\n<p>Quando o esp&iacute;rito racional ultrapassa os limites que o separam dos<br \/>\n    instintos da fera; quando o homem deixa atr&aacute;s de si, na sua marcha<br \/>\n    descendente, o animal cerval que bebe o sangue por natural fatalidade a que<br \/>\n    n&atilde;o pode resistir, n&atilde;o raro figura de protagonista de dramas<br \/>\n    que, como este, enlutam a hist&oacute;ria e envergonham a humanidade.<\/p>\n<p>A porta principal tinha sido respeitada. Diante dela estendeu se E,elo ch&atilde;o,<br \/>\n    formando se em semic&iacute;rculo, o bando dos salteadores, os quais ao espet&aacute;culo<br \/>\n    das chamas que do peitoril passando &agrave;s paredes e destas &agrave; coberta,<br \/>\n    envolveram em poucos momentos a casa e formaram uma s&oacute; chama, uma fogueira,<br \/>\n    &uacute;nica, gigantesca e medonha, s&oacute; tinham infames gra&ccedil;olas<br \/>\n    e indecentes insultos para as v&iacute;timas. Sujos, maltrapilhos, nas m&atilde;os<br \/>\n    as facas nuas e os bacamartes sinistros, semelhavam, ao clar&atilde;o da fogueira<br \/>\n    imensa, uma legi&atilde;o de dem&ocirc;nios que s&oacute; as crepitantes labaredas<br \/>\n    separavam dos anjos.<\/p>\n<p> Quando se resolverem a n&atilde;o morrer assadas na coivara, como lagartixas,<br \/>\n    abram a porta e saiam sem susto que n&atilde;o havemos de brigar disse Joaquim.<\/p>\n<p>O estalido da madeira, do barro, das telhas abafou em poucos momentos as<br \/>\n    vozes das mulheres.<\/p>\n<p> Que fazem, que n&atilde;o saem logo ? perguntou o Mulatinho depois de alguns<br \/>\n    minutos de espera infrut&iacute;fera.<\/p>\n<p> Venham para fora, raparigas acrescentou o Trov&atilde;o.<\/p>\n<p>Ainda bem n&atilde;o tinha preferido estas palavras, quando a frente da casa<br \/>\n    vinha abaixo, atirando torr&otilde;es abrasados contra as feras que, afrontando<br \/>\n    o pudor com express&otilde;es obscenas, assistiam, &eacute;brios de ferocidade,<br \/>\n    &agrave; medonha representa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Parece me que as caiporinhas se escaparam disse Joaquim.<\/p>\n<p>A esta voz todos os malfeitores correram &agrave; porta principal sobre cujos<br \/>\n    portais descansavam uns restos de caibros incendiados.<\/p>\n<p>Descarregando ent&atilde;o os coices dos bacamartes sobre a porta, fizeram<br \/>\n    na em peda&ccedil;os, e invadiram o estreito espa&ccedil;o aonde as chamas<br \/>\n    ainda n&atilde;o haviam chegado.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo um grito, a que melhor se chamara o eco de uma ang&uacute;stia<br \/>\n    longamente recalcada e de s&uacute;bito desprendida, dominando o estrondear<br \/>\n    do inc&ecirc;ndio, veio ressoar no p&aacute;tio.<\/p>\n<p> Minha m&atilde;e, minha m&atilde;e n&atilde;o morrer&aacute; no fogo !<\/p>\n<p>Ent&atilde;o viu se uma cena horrivelmente bela. Lu&iacute;sa, saltando por<br \/>\n    cima da cali&ccedil;a e dos enxaim&eacute;is abrasados, ganhava o p&aacute;tio<br \/>\n    com Florinda nas costas, semelhando uma vis&atilde;o &iacute;gnea, fant&aacute;stica<br \/>\n    e sobrenatural.<\/p>\n<p>Os malvados, sem se podarem governar, voltaram um passo atr&aacute;s, n&atilde;o<br \/>\n    tanto pela estranha e fugitiva apari&ccedil;&atilde;o, como principalmente<br \/>\n    por verem no lugar ocupado, havia pouco, por aquelas contra cujo pudor a sua<br \/>\n    brutal concupisc&ecirc;ncia se agu&ccedil;ava, pequenos troncos carbonizados<br \/>\n    em torno da mesa sobre a qual ardia nesse momento &uacute;ltima imagem.<\/p>\n<p> Diabo ! bradaram com raiva concentrada os algozes, mais dignos de compaix&atilde;o<br \/>\n    do que as v&iacute;timas.<\/p>\n<p> Todas mortas ! acrescentou o Mulatinho com uns longes de pesar que acusava<br \/>\n    a malograda e lasciva esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> S&oacute; nos resta uma disse o Trov&atilde;o, correndo em busca de Lu&iacute;sa,<br \/>\n    que havia ca&iacute;do quase sem sentidos no terreiro junto ao cad&aacute;ver<br \/>\n    de Matias.<\/p>\n<p> C&aacute; est&aacute; ela. S&atilde;o duas, s&atilde;o duas.<\/p>\n<p> Esta &eacute; minha exclamou o Trov&atilde;o, acercando se de Florinda para<br \/>\n    assenhorear se dela.<\/p>\n<p> Trov&atilde;o do diabo ! exclamou o Mulatinho com indescrit&iacute;vel express&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o v&ecirc;s que &eacute; uma defunta.<\/p>\n<p>Florinda estava na realidade morta.<\/p>\n<p> Resta me a outra.<\/p>\n<p> A outra ? N&atilde;o v&ecirc;s que o Joaquim j&aacute; a tem em seus bra&ccedil;os<br \/>\n    ?<\/p>\n<p> H&aacute; de ser minha, custe o que custar redarguiu o negro.<\/p>\n<p> A outra &eacute; minha disse um terceiro a cuja voz estremeceram irresistivelmente<br \/>\n    os dois bandidos.<\/p>\n<p>Era o Cabeleira.<\/p>\n<p>A casa de Liberato estava situada dentro do cercado que, beirando o rio em<br \/>\n    linha reta, de norte a sul, ia morrer na mata virgem, limite natural das terras<br \/>\n    pertencentes &agrave; engenhoca. Era fraca de constru&ccedil;&atilde;o, mas<br \/>\n    podia considerar se uma verdadeira casa de campo por sua bonita apar&ecirc;ncia,<br \/>\n    pela vista que tinha para todos os lados, pelo alpendre circular e pelo meio<br \/>\n    peitoril de madeira que n&atilde;o contribu&iacute;a pouco para a sua r&uacute;stica<br \/>\n    eleg&acirc;ncia.<\/p>\n<p>A pequena distancia tinham sido edificadas tr&ecirc;s casas menores e menos<br \/>\n    vistosas do que a primeira. Em uma destas morava o genro, nas outras duas<br \/>\n    os filhos do crioulo. Nos fundos do cercado via se outra casinha que na forma<br \/>\n    arremedava a casa grande. Pertencia a Gabriel que, &agrave; sombra do irm&atilde;o,<br \/>\n    a&iacute; vivia com sua mulher e filhos, na paz do Senhor.<\/p>\n<p>Sem ter escravos nem dispor de grandes meios pecuni&aacute;rios, com o aux&iacute;lio<br \/>\n    de Gabriel, Sebasti&atilde;o, Ricardo e Vicente, plantava canas, fazia ro&ccedil;ados<br \/>\n    e vazantes, e, no tempo pr&oacute;prio, fabricava a&ccedil;&uacute;car e rapaduras,<br \/>\n    desfilava aguardente, e desmanchava mandioca que lhe dava farinha para todo<br \/>\n    o ano.<\/p>\n<p>Viviam em perfeito acordo aquele pai, aquele irm&atilde;o, aqueles filhos,<br \/>\n    aquele genro, cada um com sua mulher e seus filhos, e todos dando os mais<br \/>\n    bonitos exemplos, que se conhecem, de uni&atilde;o, aux&iacute;lio m&uacute;tuo,<br \/>\n    rec&iacute;proco respeito e comum felicidade.<\/p>\n<p>Na engenhoca ficaram todos ignorando o verdadeiro motivo da jornada &agrave;<br \/>\n    mata. Liberato, para maior seguran&ccedil;a dos seus des&iacute;gnios, havia<br \/>\n    recomendado aos companheiros o mais rigoroso segredo. E como tinham eles por<br \/>\n    costume ca&ccedil;ar pacas e tatus uma vez por outra,.quando fazia luar e<br \/>\n    o tempo estava enxuto, n&atilde;o houve quem duvidasse da palavra dos ca&ccedil;adores.<br \/>\n    Quando, por&eacute;m, se soube do acontecido por boca de Lu&iacute;sa, e pelo<br \/>\n    vest&iacute;gio da atrocidade que Florinda trazia na face, a qual bem estava<br \/>\n    dizendo donde havia procedido, a inquieta&ccedil;&atilde;o e o susto vieram<br \/>\n    tomar o lugar ao sono e ao repouso a que se achavam entregues os habitantes<br \/>\n    da engenhoca.<\/p>\n<p>Raiou finalmente o dia longamente suspirado pelos que da meia noite at&eacute;<br \/>\n    o amanhecer n&atilde;o haviam tido olhos para dormir, mas para chorar.<\/p>\n<p>O sol espargiu a luz suave sobre o sert&atilde;o, e com ela despertou a natureza.<br \/>\n    Inspirando as aves, colorindo os campos, e permitindo ver no espelho sereno<br \/>\n    das &aacute;guas do Tapacur&aacute; o belo c&eacute;u que nele se refletia<br \/>\n    com os seus espl&ecirc;ndidos matizes, essa luz vivificadora restituiu ao<br \/>\n    deserto o movimento e a vida que as trevas tinham ocultado debaixo de seu<br \/>\n    espesso v&eacute;u.<\/p>\n<p>Com a tornada do dia, ressurgiu em todos a confian&ccedil;a, s&oacute; n&atilde;o<br \/>\n    em Lu&iacute;sa, que via pr&oacute;ximo o termo da vida de sua m&atilde;e<br \/>\n    privada novamente do uso da fala por lhe haver voltado a congest&atilde;o.<\/p>\n<p>Chegou a hora do almo&ccedil;o, a do jantar, e finalmente escureceu de novo<br \/>\n    sem que os ca&ccedil;adores houvesse volvido a seus lares. Ent&atilde;o a<br \/>\n    consterna&ccedil;&atilde;o tornou se geral e verdadeiramente cruel.<\/p>\n<p>As fam&iacute;lias reuniram se todas na casa grande para se protegerem em<br \/>\n    caso de perigo que logo tiveram por iminente.<\/p>\n<p>Tr&ecirc;s dias se passaram nessa afli&ccedil;&atilde;o que se n&atilde;o<br \/>\n    pode descrever mas que facilmente se imagina.<\/p>\n<p>Rosalina pensou de uma vez em ir pedir socorro no povoado, mas a quem ? O<br \/>\n    capit&atilde;o mor achava se no Recife, e o povoado, que um s&eacute;culo<br \/>\n    antes constava de uma capela dedicada a Santo Ant&atilde;o, e de meia d&uacute;zia<br \/>\n    de casas, pouco mais era do que isto na &eacute;poca em que se passou esta<br \/>\n    hist&oacute;ria; preciepresenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Parece me que as caiporinhas se escaparam disse Joaquim.<\/p>\n<p>A esta voz todos os malfeitores correram &agrave; porta principal sobre cujos<br \/>\n    portais descansavam uns restos de caibros incendiados.<\/p>\n<p>Descarregando ent&atilde;o os coices dos bacamartes sobre a porta, fizeram<br \/>\n    na em peda&ccedil;os, e invadiram o estreito espa&ccedil;o aonde as chamas<br \/>\n    ainda n&atilde;o haviam chegado.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo um grito, a que melhor se chamara o eco de uma ang&uacute;stia<br \/>\n    longamente recalcada e de s&uacute;bito desprendida, dominando o estrondear<br \/>\n    do inc&ecirc;ndio, veio ressoar no p&aacute;tio.<\/p>\n<p> Minha m&atilde;e, minha m&atilde;e n&atilde;o morrer&aacute; no fogo !<\/p>\n<p>Ent&atilde;o viu se uma cena horrivelmente bela. Lu&iacute;sa, saltando por<br \/>\n    cima da cali&ccedil;a e dos enxaim&eacute;is abrasados, ganhava o p&aacute;tio<br \/>\n    com Florinda nas costas, semelhando uma vis&atilde;o &iacute;gnea, fant&aacute;stica<br \/>\n    e sobrenatural.<\/p>\n<p>Os malvados, sem se podarem governar, voltaram um passo atr&aacute;s, n&atilde;o<br \/>\n    tanto pela estranha e fugitiva apari&ccedil;&atilde;o, como principalmente<br \/>\n    por verem no lugar ocupado, havia pouco, por aquelas contra cujo pudor a sua<br \/>\n    brutal concupisc&ecirc;ncia se agu&ccedil;ava, pequenos troncos carbonizados<br \/>\n    em torno da mesa sobre a qual ardia nesse momento &uacute;ltima imagem.<\/p>\n<p> Diabo ! bradaram com raiva concentrada os algozes, mais dignos de compaix&atilde;o<br \/>\n    do que as v&iacute;timas.<\/p>\n<p> Todas mortas ! acrescentou o Mulatinho com uns longes de pesar que acusava<br \/>\n    a malograda e lasciva esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> S&oacute; nos resta uma disse o Trov&atilde;o, correndo em busca de Lu&iacute;sa,<br \/>\n    que havia ca&iacute;do quase sem sentidos no terreiro junto ao cad&aacute;ver<br \/>\n    de Matias.<\/p>\n<p> C&aacute; est&aacute; ela. S&atilde;o duas, s&atilde;o duas.<\/p>\n<p> Esta &eacute; minha exclamou o Trov&atilde;o, acercando se de Florinda para<br \/>\n    assenhorear se dela.<\/p>\n<p> Trov&atilde;o do diabo ! exclamou o Mulatinho com indescrit&iacute;vel express&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o v&ecirc;s que &eacute; uma defunta.<\/p>\n<p>Florinda estava na realidade morta.<\/p>\n<p> Resta me a outra.<\/p>\n<p> A outra ? N&atilde;o v&ecirc;s que o Joaquim j&aacute; a tem em seus bra&ccedil;os<br \/>\n    ?<\/p>\n<p> H&aacute; de ser minha, custe o que custar redarguiu o negro.<\/p>\n<p> A outra &eacute; minha disse um terceiro a cuja voz estremeceram irresistivelmente<br \/>\n    os dois bandidos.<\/p>\n<p>Era o Cabeleira.<\/p>\n<h2><a name=\"9\">Cap&Iacute;tulo IX<\/a><\/h2>\n<p>Profunda revolu&ccedil;&atilde;o se havia operado durante uma noite no &iacute;ntimo<br \/>\n    do bandido.<\/p>\n<p>Quando ele chegou ao couto, estava j&aacute; resolvido o assalto &agrave;<br \/>\n    fam&iacute;lia de Liberato, a qual por se achar mais pr&oacute;xima do que<br \/>\n    qualquer outra, estava no caso de merecer as honras da prioridade na prova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Cabeleira n&atilde;o deu mostras de que aprovava, ou reprovava semelhante<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Seu animo, ordinariamente prestes para toda sorte de temeridades e investidas,<br \/>\n    mostrava se agora frio diante do assentado acometimento. Vira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    suav&iacute;ssima passara por cima do f&eacute;rvido charco das suas paix&otilde;es,<br \/>\n    e deixara, se n&atilde;o purificadas, decerto quietas as &aacute;guas que<br \/>\n    a&iacute; se enovelavam turvas e lodosas. Essas &aacute;guas nunca jamais<br \/>\n    viriam a ter a limpidez do regato que se desliza em manh&atilde; de ver&atilde;o,<br \/>\n    por cima de prateadas areias; podiam, por&eacute;m, perder o lodo e os vermes<br \/>\n    que se geram e alimentam em p&uacute;tridos p&acirc;ntanos; podiam tornar<br \/>\n    se mansas, como as dos lagos, azuis como as dos golfos.<\/p>\n<p>A princ&iacute;pio os companheiros do bandido atribu&iacute;ram o seu sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    a sua tristeza e a sua abstra&ccedil;&atilde;o aos ferimentos recebidos na<br \/>\n    luta.<\/p>\n<p>Mas mudaram de opini&atilde;o tanto que o viram pegar da viola, seu instrumento<br \/>\n    querido que, n&atilde;o s&oacute; a ele, mas tamb&eacute;m a todos os do couto<br \/>\n    proporcionava, nas m&atilde;os do inspirado tocador&#8217; momentos de prazer e<br \/>\n    consola&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Era de tarde. Os bandidos tomaram por uma vereda que ia ter &agrave; borda<br \/>\n    da grota aonde chegava levemente a aragem do tabuleiro, donde se descortinava<br \/>\n    o vasto sert&atilde;o opresso e abrasado.<\/p>\n<p>Aos sons da viola puseram se uns a cantar, outros a dan&ccedil;ar, como brincam<br \/>\n    saltando as crian&ccedil;as nas campinas.<\/p>\n<p>De repente Manuel Corisco fez sinal para que se calassem.<\/p>\n<p> Estou vendo ali embaixo um homem que vem na dire&ccedil;&atilde;o da grata<br \/>\n    disse ele aos camaradas.<\/p>\n<p> Voc&ecirc; n&atilde;o se engana, Manuel. Ele vem tomando chegada t&atilde;o<br \/>\n    gacheiro e amedrontado, que n&atilde;o pode ser amigo nosso.<\/p>\n<p>Os salteadores tinham raz&atilde;o, porque o desconhecido era Matias.<\/p>\n<p>Um deles quis imediatamente estend&ecirc; lo por terra com um tiro do seu<br \/>\n    bacamarte. Assentaram por&eacute;m ocultar se a fim de verem primeiramente<br \/>\n    o que pretendia.<\/p>\n<p>Quando Matias desapareceu por um lado, segundo j&aacute; dissemos, os malfeitores<br \/>\n    sumiram se pelo lado oposto, p&eacute; ante p&eacute;, na embocadura do profundo<br \/>\n    abismo.<\/p>\n<p>Tinha o Cabeleira avan&ccedil;ado j&aacute; alguns passos ap&oacute;s os<br \/>\n    companheiros, quando uma id&eacute;ia s&uacute;bita, atuando sobre sua vontade<br \/>\n    por modo irresist&iacute;vel, o fez sobressaltar se. Ele se lembrara de que<br \/>\n    se os companheiros conseguissem apoderar se do desconhecido, n&atilde;o o<br \/>\n    deixariam com vida. Mas o bandido sentia se naquele momento t&atilde;o pouco<br \/>\n    disposto a contribuir para a morte de um homem que n&atilde;o pode acabar<br \/>\n    consigo que voltasse &agrave; beira da grota<\/p>\n<p> Se eu quisesse, esse desconhecido n&atilde;o morreria disse de si para si.<br \/>\n    Mas n&atilde;o. Se n&atilde;o vou ajudar os outros a lhe tirarem a vida, tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o o irei salvar.<\/p>\n<p>O lodo tinha j&aacute; desaparecido da superf&iacute;cie do charco imundo<br \/>\n    que ele trazia no cora&ccedil;&atilde;o; restava, por&eacute;m, ainda no fundo,<br \/>\n    como se v&ecirc; a vasa corruta e pestilencial.<\/p>\n<p>Para que Matias declarasse o fim que o levava &agrave;quele ponto, preciso<br \/>\n    foi primeiro que o ligassem com cip&oacute;s a um tronco, e batessem nele<br \/>\n    sem piedade. Supl&iacute;cio atroz e cobarde que o &iacute;ndio sofreu com<br \/>\n    est&oacute;ica resigna&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stica de sua ra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o dizes, ou n&atilde;o dizes a que vieste, Veado do inferno ?<br \/>\n    perguntara Joaquim.<\/p>\n<p> Vim em procura daqueles que ali est&atilde;o para os urubus comerem respondera<br \/>\n    o velho.<\/p>\n<p> At&eacute; que enfim deste com a l&iacute;ngua nos dentes.<\/p>\n<p> Quiseste primeiramente provar o cip&oacute; de rego.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o nos dir&aacute;s quem foi que te mandou a isso ?<\/p>\n<p> Quem me mandou ! Tive pena dequelas mulheres que choravam por seus maridos,<br \/>\n    e larguei me a ver se os encontrava.<\/p>\n<p> Tiveste pena das mulheres, hein ? Magan&atilde;o! Havemos de l&aacute; ir<br \/>\n    hoje de noite para tamb&eacute;m termos pena como tu tiveste.<\/p>\n<p> Elas n&atilde;o ser&atilde;o tolas que apare&ccedil;am a qualquer que l&aacute;<br \/>\n    chegue retorquiu Matias com segunda ten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas a ti abriram elas a porta, velho mandigueiro.<\/p>\n<p> Para mim h&atilde;o de ter sempre franca a sua casa, porque sabem que eu<br \/>\n    sou incapaz de as ofender.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, se l&aacute; formos, n&atilde;o nos deixar&atilde;o entrar<br \/>\n    ? perguntou Joaquim.<\/p>\n<p>Matias, depois de um momento de reflex&atilde;o, respondeu:<\/p>\n<p> S&oacute; se forem comigo.<\/p>\n<p> Pois est&aacute; dito. Iremos contigo disse o Mulatinho.<\/p>\n<p> Mas tu ir&aacute;s amarrado, bem amarrado, jia de lagoa acrescentou Jos&eacute;<br \/>\n    Trov&atilde;o.<\/p>\n<p> Como quiserem, contanto que &atilde;o me matem no caminho.<\/p>\n<p> Se nos facilitares a entrada, podes ter por certo que n&atilde;o haver&aacute;<br \/>\n    quem se atreva a tocar te em um cabelo sequer. Bem sabes que n&atilde;o precisamos<br \/>\n    do aux&iacute;lio de pessoa alguma para tomarmos conta de uma casa onde s&oacute;<br \/>\n    h&aacute; mulheres choronas observou Joaquim. Mas sempre &eacute; melhor entrar<br \/>\n    sem fazer barulho para n&atilde;o dar que falar &agrave; vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Era quase noite, e j&aacute; a lua espargia a luz suave por sobre a solid&atilde;o,<br \/>\n    quando se acharam novamente na beira do despenhadeiro. Segundo um plano assentado<br \/>\n    entre eles, quatro seguiram com Matias pelo lado por onde havia descido, enquanto<br \/>\n    os outros, subindo pelo lado oposto, se dirigiram ao esconderijo a fim de<br \/>\n    se proverem dos instrumentos necess&aacute;rios para o assalto. Os primeiros<br \/>\n    esperariam pelos &uacute;ltimos na boca da mata para, reunidos, seguirem a<br \/>\n    seu destino.<\/p>\n<p>No momento em que os malfeitores tomaram a dire&ccedil;&atilde;o da engenhoca,<br \/>\n    um cavaleiro, que entrara na mata por secretos atalhos, fora dar com o Cabeleira<br \/>\n    em seu retiro. Era o Teod&oacute;sio.<\/p>\n<p> Arrumem as trouxas, e mudem de acampamento.<\/p>\n<p>Foram estas as suas primeiras palavras.<\/p>\n<p> Donde vens tu ? Que diabo tens, Teod&oacute;sio ?<\/p>\n<p> Vem a&iacute; soldados que nem terra.<\/p>\n<p> Quem te contou semelhante coisa ?<\/p>\n<p> Eu que sei. O governador est&aacute; comendo fogo pelo que fizemos na noite<br \/>\n    da prociss&atilde;o.<\/p>\n<p> Ora !&hellip; Pois que venham. H&atilde;o de saber para quanto presto. Nunca<br \/>\n    torci a cara a homem nenhum, e n&atilde;o morro de careta, como sag&uuml;i.<\/p>\n<p> Eu tamb&eacute;m n&atilde;o tenho medo deles disse o cabra. Mas &eacute;<br \/>\n    bom a gente estar prevenido para n&atilde;o cair no mund&eacute;u como bicho<br \/>\n    do mato.<\/p>\n<p>O Teod&oacute;sio unicamente suspeitava o que dizia estar para acontecer.<br \/>\n    Fino, matreiro, como era, facilmente previra que n&atilde;o ficaria sem puni&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o crime que haviam eles cometido na vila.<\/p>\n<p>Ora, Teod&oacute;sio ! redarg&uuml;iu Jos&eacute; com mostras de fazer pouco<br \/>\n    do que lhe dizia o camarada. Eu, por ser bicho do mato, &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    hei de cair no mund&eacute;u. Olha tu: enquanto houver mata virgem por esse<br \/>\n    mund&atilde;o de meu Deus, podem eles mandar contra mim os soldados que quiserem,<br \/>\n    que n&atilde;o me apanham, ainda que sejam tantos como formigas. N&atilde;o<br \/>\n    me h&atilde;o de ver nem a fuma&ccedil;a.<\/p>\n<p> N&atilde;o digo menos disso respondeu Teod&oacute;sio.<\/p>\n<p> Eu sou cabra mesmo danado prosseguiu Cabeleira. Quem se engana comigo &eacute;<br \/>\n    porque quer. Meto a unha no ch&atilde;o, e entro nooco do mundo para nunca<br \/>\n    mais ningu&eacute;m me por o olho em cima. As matas de Serinha&eacute;m, &Aacute;gua<br \/>\n    Preta, Goit&aacute;, Goiana, Para&iacute;ba, Rio Grande a&iacute; est&atilde;o<br \/>\n    bem fresquinhas para esconderem em seu seio a on&ccedil;a pintada. &Eacute;:<br \/>\n    bom que n&atilde;o me assanhem. Se o governador duvidar do meu s&eacute;rio,<br \/>\n    sou capaz de me largar daqui, pi,pi, at&eacute; &agrave; vila, e l&aacute;<br \/>\n    mesmo vou mostrar lhe com quantos paus se faz jangada.<\/p>\n<p> Pois afia bem a tua faca, e escorva de novo o teu bacamarte, que o trov&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o tarda a roncar. Eu nunca deixei de trazer a faca e o bacamarte<br \/>\n    prontinhos para o servi&ccedil;o. Quem quiser, venha ver.<\/p>\n<p> Est&aacute; bom. At&eacute; j&aacute; disse o Teod&oacute;sio, despedindo<br \/>\n    se para sair.<\/p>\n<p> Aonde vais ? perguntou lhe o Cabeleira.<\/p>\n<p> Tenho c&aacute; uma id&eacute;ia. Vou passar pela porta do capit&atilde;o<br \/>\n    mor.<\/p>\n<p> O capit&atilde;o mor est&aacute; na vila ? disse Jos&eacute;.<\/p>\n<p> N&atilde;o, senhor, est&aacute; a&iacute;. Veio antes de mim, que n&atilde;o<br \/>\n    me escapou. Vou passar me pela porta, e tirar conversa com algum soldado bisonho<br \/>\n    que a&iacute; se ache de servi&ccedil;o a fim dever se pesco not&iacute;cia<br \/>\n    que nos oriente.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; mau o que queres fazer. Mas, olha bem, n&atilde;o caias<br \/>\n    em alguma ratoeira.<\/p>\n<p> Macaco velho n&atilde;o mete m&atilde;o em cumbuca respondeu Teod&oacute;sio,<br \/>\n    preparando se para montar novamente.<\/p>\n<p> Fa&ccedil;o te companhia at&eacute; o cercado da engenhoca do defunto Liberato<br \/>\n    acudiu o Cabeleira.<\/p>\n<p>E saltou sobre a garupa do cavalo que Teod&oacute;sio p&ocirc;s a passo pela<br \/>\n    vereda secreta que ia dar na via p&uacute;blica.<\/p>\n<p> U&ecirc; ! exclamou Teod&oacute;sio, voltando se para o companheiro a fim<br \/>\n    de melhor saber dele a verdade. Pois morreu o Liberato, t&atilde;o amigo nosso,<br \/>\n    que nunca nos faltou com jerimum, canas e cria&ccedil;&atilde;o ?<\/p>\n<p> Ele era camarada, &eacute; verdade. Mas meteu lhe na cabe&ccedil;a que havia<br \/>\n    de tirar nos o couro, e h&aacute; tr&ecirc;s dias veio bulir conosco.<\/p>\n<p> Que est&aacute;s dizendo ?<\/p>\n<p> N&atilde;o s&oacute; ele, mas tamb&eacute;m os filhos e o bom do genro.<\/p>\n<p> Foi a sua derradeira deles, hein ?<\/p>\n<p> &Eacute; verdade. O Z&eacute; Rufino, que o negro fora convidar para o ajudar<br \/>\n    na trag&eacute;dia que tinha ideado contra n&oacute;s, correu logo a dar nos<br \/>\n    parte de tudo ainda em tempo. Quando os cabras apareceram, encontraram gente.<br \/>\n    Fizemos o bonito em poucas horas. Est&atilde;o todos dentro do grot&atilde;o.<\/p>\n<p> E que vais tu ver &agrave; engenhoca ?<\/p>\n<p> Vou reunir me com os outros que l&aacute; est&atilde;o fazendo uma das suas.<br \/>\n    Mas onde arranjaste tu este quartau passeiro e passarinheiro que se vai derretendo<br \/>\n    na estrada depois da grande caminhada que traz da vila ?<\/p>\n<p> Falta a&iacute; engenho onde se v&aacute; buscar um animalzinho fora de<br \/>\n    horas para a gente fazer sua viagem? Pois ent&atilde;o vai logo pondo de olho<br \/>\n    alguns outros para fazermos a nossa mudan&ccedil;a se a tropa vier perseguiu<br \/>\n    nos.<\/p>\n<p> Amanh&atilde; pela manh&atilde; teremos um lote, e poderemos meter terra<br \/>\n    em meio antes que o trop&atilde;o bata por c&aacute;.<\/p>\n<p>Tinham deixado a vereda e achando se j&aacute; na estrada que, fazendo pouco<br \/>\n    adiante um &acirc;ngulo, seguia em linha mais ou menos reta at&eacute; o povoado.<\/p>\n<p>Ao passarem por baixo de uma pitombeira que no &acirc;ngulo apontado agitava<br \/>\n    no ar a sua copa gigantesca, s&uacute;bito ru&iacute;do espantou o cavalo<br \/>\n    que por um triz n&atilde;o tirou o cabresto da m&atilde;o do Teod&oacute;sio.<br \/>\n    Com o violento arranco, partiu se a cilha da cangalha, e os dois cavaleiros<br \/>\n    vieram &agrave; terra.<\/p>\n<p> Diabo ! exclamou o Teod&oacute;sio contrariado e perturbado. Foi alguma<br \/>\n    coruja que abalou da pitombeira.<\/p>\n<p>N&atilde;o se havia partido s&oacute; a cilha, mas tamb&eacute;m a arma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da cangalha.<\/p>\n<p> Sabes que mais, Teod&oacute;sio ? Acho melhor que n&atilde;o v&aacute;s<br \/>\n    ao povoado.<\/p>\n<p> Por que n&atilde;o ?<\/p>\n<p> A cilha partida, a cangalha arrebentada, tudo me parece aviso para que n&atilde;o<br \/>\n    fa&ccedil;as a viagem disse o Cabeleira.<\/p>\n<p> Estou j&aacute; em outro acordo. Deixo te o cavalo e vou a p&eacute;. Este<br \/>\n    cavalo &eacute; que me est&aacute; encaiporando.<\/p>\n<p>Enquanto o Teod&oacute;sio seguia pela beira do rio, o Cabeleira, que havia<br \/>\n    tomado a dire&ccedil;&atilde;o da engenhoca, dava a volta do caminho, e descobria<br \/>\n    a casa envolta em chamas cujo clar&atilde;o sinistro iluminava a estendida<br \/>\n    solid&atilde;o. Em breves instantes achava se entre os companheiros, e cortava,<br \/>\n    como vimos&quot; a porfia do Trov&atilde;o e do Mulatinho sobre a posse de<br \/>\n    Lu&iacute;sa.<\/p>\n<p> Luisinha ! exclamou o bandido. Tu me pertences.<\/p>\n<p> Que dizes, Z&eacute; Gomes ? interrogou Joaquim sem poder bem compreender<br \/>\n    o que ouvir&aacute; ao filho, que lhe pareceu alucinado.<\/p>\n<p> Digo o que &eacute;. Houve tempo em que juramos, eu e ela, pertencer nos<br \/>\n    na mocidade. Chegou a ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p> Atreves te a falar me em juramento ! N&atilde;o sabes o que est&aacute;s<br \/>\n    dizendo. Esta mulher &eacute; minha, e quem for homem que se meta a vir tomar<br \/>\n    ma.<\/p>\n<p>Ainda bem n&atilde;o havia proferido estas palavras quando o Cabeleira puxava<br \/>\n    da faca dando mostras de querer ferir com ela o seu interlocutor.<\/p>\n<p> Z&eacute; Gomes, olha bem o que dizes ! redarg&uuml;iu Joaquim. Teu pai<br \/>\n    ?<\/p>\n<p> N&atilde;o tenho pai; s&oacute; tenho m&atilde;e que me ensinou o caminho<br \/>\n    do bem; pai nunca tive nem tenho. N&atilde;o &eacute; meu pai aquele que s&oacute;<br \/>\n    me ensinou a roubar e a matar.<\/p>\n<p> Z&eacute; Gomes, olha bem o que dizes! redarg&uuml;iu Joaquim, medindo o<br \/>\n    filho com olhar amea&ccedil;ador e terr&iacute;vel.<\/p>\n<p> J&aacute; lhe disse retorquiu o mancebo sobreexcitado pela oposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do velho, ao qual se atirou com f&uacute;ria brutal para lhe arrancar das<br \/>\n    m&atilde;os os pulsos de Lu&iacute;sa. afogada em prantos e solu&ccedil;os.<\/p>\n<p>Joaquim resistiu. Outros malfeitores reuniram se em torno daquelas duas hienas<br \/>\n    que amea&ccedil;avam despeda&ccedil;ar se mutuamente. Mas n&atilde;o houve<br \/>\n    um s&oacute; dentre tantos que tentasse compor os discordes.<\/p>\n<p>Cabeleira brandiu enfim a faca contra o velho.<\/p>\n<p>Neste momento voz chorosa e solu&ccedil;ada ressoou na solid&atilde;o. Foi<br \/>\n    a voz de Lu&iacute;sa.<\/p>\n<p> Cabeleira disse ela , ter&aacute;s animo para ferir teu pai ?!<\/p>\n<p>O bra&ccedil;o do bandido descaiu incontinente como se aquela voz lhe tivesse<br \/>\n    cortado os m&uacute;sculos atl&eacute;ticos.<\/p>\n<p> Meu pai! exclamou o desgra&ccedil;ado. Um pai n&atilde;o toma a mulher de<br \/>\n    seu filho. Mas j&aacute; que o queres, fica te com ela acrescentou voltando<br \/>\n    se para Joaquim. Cabeleira vai desaparecer para sempre, e sem o seu aux&iacute;lio<br \/>\n    h&atilde;o de cair nas m&atilde;os da justi&ccedil;a todos os que me cercam.<br \/>\n    A tropa a&iacute; vem.<\/p>\n<p> A tropa ! gritaram os malfeitores sobressaltados, olhando uns para os outros,<br \/>\n    e todos para a solid&atilde;o que, ao declinar do inc&ecirc;ndio, retomava<br \/>\n    seu aspecto equ&iacute;voco e medonho.<\/p>\n<p>Tendo assim falado, Cabeleira deu o andar na dire&ccedil;&atilde;o da estrada.<br \/>\n    Seu esp&iacute;rito estava abatido, seu cora&ccedil;&atilde;o despeda&ccedil;ado<br \/>\n    pelo golpe cruel que lhe havia vibrado a desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o Lu&iacute;sa, vendo assim perdido o &uacute;ltimo raio de esperan&ccedil;a,<br \/>\n    que ainda a guiava no meio das trevas do seu infort&uacute;nio, exclamou:<\/p>\n<p> Meu Deus, meu Deus, que ser&aacute; de mim ?<\/p>\n<p>Joaquim entretanto tinha se atravessado diante do Cabeleira. Todo assassino<br \/>\n    &eacute; cobarde.<\/p>\n<p> Por que nos queres deixar ? perguntou ele ao filho. No momento em que mais<br \/>\n    precisamos de ti, &eacute; que tu nos desamparas ? N&atilde;o sejas mau, Z&eacute;<br \/>\n    Gomes. Eu te perd&ocirc;o a desobedi&ecirc;ncia, e te restituo a mulher. Fujamos<br \/>\n    todos.<\/p>\n<p>Cabeleira atirou se a Lu&iacute;sa, e tomou a nos bra&ccedil;os com frenesi<br \/>\n    de alucinado.<\/p>\n<p>Volvendo um instante depois os olhos ao redor, n&atilde;o viu um s&oacute;<br \/>\n    sequer dos companheiros. Penetrados de p&acirc;nico terror, todos tinham corrido,<br \/>\n    sem exce&ccedil;&atilde;o de Joaquim, a ocultar se na mata.<\/p>\n<p> Vamos, Luisinha disse o bandido &agrave; mo&ccedil;a, com ternura. Ningu&eacute;m<br \/>\n    a ofender&aacute;, ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> E minha m&atilde;e ?! solu&ccedil;ou Lu&iacute;sa caindo, que a eternidade<br \/>\n    se ia meter entre ela e Florinda, e que sobre a terra estava tudo acabado<br \/>\n    para ela.<\/p>\n<p>O bandido conchegou a ao peito e abafou lhe as &uacute;ltimas palavras com<br \/>\n    um beijo.<\/p>\n<h2><a name=\"10\">Cap&Iacute;tulo X<\/a><\/h2>\n<p>Que valeu a Lu&iacute;sa ter-se libertado das m&atilde;os de Joaquim, se<br \/>\n    o Cabeleira a prendia em seus bra&ccedil;os possantes e atl&eacute;ticos ?<\/p>\n<p> Solte-me, solte-me disse a mo&ccedil;a ao bandido.<\/p>\n<p> Quer ficar aqui ? N&atilde;o a deixarei s&oacute;.<\/p>\n<p> N&atilde;o se importe comigo. Siga seu pai, que eu irei para minha casa.<br \/>\n    N&atilde;o preciso da companhia de ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Com esfor&ccedil;os sobre humanos Lu&iacute;sa tentou libertar-se das suas<br \/>\n    pris&otilde;es. Foram in&uacute;teis esses esfor&ccedil;os.<\/p>\n<p> Se n&atilde;o me soltar, h&aacute; de ver-me cair morta a seus p&eacute;s.<\/p>\n<p>Ela tinha podido apoderar-se do fac&atilde;o do malfeitor, e o voltava contra<br \/>\n    si mesma.<\/p>\n<p>O Cabeleira parou, e soltou-a.<\/p>\n<p> Que pretende voc&ecirc; fazer, Luisinha? N&atilde;o tem pai, n&atilde;o<br \/>\n    tem m&atilde;e, n&atilde;o tem quem por si olhe. Para onde quer ir ?<\/p>\n<p> Quero matar-me aos p&eacute;s de minha m&atilde;e.<\/p>\n<p> Isso nunca.<\/p>\n<p>Sem esfor&ccedil;o nem luta ele a desarmou em um momento.<\/p>\n<p>Depois perguntou, com a voz mais branda do mundo:<\/p>\n<p> Matar-se por que, Luisinha ? N&atilde;o se lembra que me prometeu ser minha<br \/>\n    mulher quando um dia nos encontr&aacute;ssemos ?<\/p>\n<p> Eu fiz esta promessa com uma condi&ccedil;&atilde;o, que voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    cumpriu.<\/p>\n<p> Pois bem. Estou pronto a cumpri-la agora tornou ele com ternura.<\/p>\n<p> Quer enganar-me, Jos&eacute; ? Para que eu acreditasse em suas palavras<br \/>\n    fora preciso n&atilde;o o ter visto levantar h&aacute; pouco a faca para seu<br \/>\n    pai.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade; assim foi. Eu estava fora de mim respondeu com ar pesaroso<br \/>\n    que indicava remorso, vergonha e arrependimento do feio ato que tinha praticado.<br \/>\n    Mas que importa isso ? continuou ele. O tanto matar j&aacute; me aborrece,<br \/>\n    e eu quero mudar de vida.<\/p>\n<p> N&atilde;o creio, n&atilde;o posso crer no que voc&ecirc; diz observou Lu&iacute;sa.<\/p>\n<p> Nem se eu jurar ?<\/p>\n<p> Eu sei !&hellip;<\/p>\n<p> Que raz&atilde;o tem para duvidar tanto de mim, Luisinha ? Estou vendo que<br \/>\n    voc&ecirc; nunca me quis bem.<\/p>\n<p> Eu &eacute; que posso dizer isso de voc&ecirc;.<\/p>\n<p> Se eu n&atilde;o lhe quisesse bem, n&atilde;o a tinha deixado livre como<br \/>\n    est&aacute;. Se eu s&oacute; a quisesse lograr como fazem com as outras, quem<br \/>\n    me poderia impedir de realizar a minha vontade ? Ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> Podia, e pode ainda matar-me, mas fazer isso, nunca, nunca. S&oacute; depois<br \/>\n    de me haver tirado a vida.<\/p>\n<p> Como se engana ! Assim o quisesse eu; mas n&atilde;o quero. Eu sei que voc&ecirc;<br \/>\n    me quer bem, e por isso n&atilde;o me vexo nem apresso.<\/p>\n<p>Com os bra&ccedil;os tr&ecirc;mulos o Cabeleira apertou Lu&iacute;sa novamente<br \/>\n    contra o peito onde lhe ardia o cora&ccedil;&atilde;o em chamas de entranhado<br \/>\n    amor.<\/p>\n<p> Deixe-me, Jos&eacute;. Aquela que voc&ecirc; ofendeu, aquela que voc&ecirc;<br \/>\n    arrancou dentre os meus bra&ccedil;os, dali o est&aacute; vendo e amaldi&ccedil;oando.<\/p>\n<p> Perdoe-me, n&atilde;o me odeie, Luisinha, por sua bondade, e pelo muito<br \/>\n    que nos queremos nos primeiros anos. Se eu a privei de sua m&atilde;e, estou<br \/>\n    pronto a proteg&ecirc;-la de agora por diante. Pelo corpo de sua m&atilde;e,<br \/>\n    juro que farei isso, Luisinha.<\/p>\n<p> Jurar&aacute; tamb&eacute;m que n&atilde;o h&aacute; de tirar mais a vida<br \/>\n    de ningu&eacute;m, ainda que seja de um passarinho ?<\/p>\n<p>O bandido refletiu um momento.<\/p>\n<p> E se me quiserem matar ? perguntou depois.<\/p>\n<p> Fugir&aacute; respondeu Lu&iacute;sa.<\/p>\n<p> E se n&atilde;o puder fugir?<\/p>\n<p> Eu quero que voc&ecirc; jure, Cabeleira, que em caso nenhum derramar&aacute;<br \/>\n    mais sangue sobre a terra, ouviu ? Se n&atilde;o for assim, tudo estar&aacute;<br \/>\n    acabado entre n&oacute;s.<\/p>\n<p> Pois bem, Luisinha. Eu juro. O malvado ser&aacute; de hoje em diante homem<br \/>\n    de bem.<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa fitou-o como um anjo deve fitar um dem&ocirc;nio que promete<br \/>\n    ser anjo. O Cabeleira, por&eacute;m, n&atilde;o lhe deu tempo para grande<br \/>\n    contempla&ccedil;&atilde;o, porque de chofre a tomou pela terceira vez nos<br \/>\n    bra&ccedil;os febris, e desapareceu com ela no meio da escurid&atilde;o.<\/p>\n<p>Saltar ao cavalo, vencer o vasto p&aacute;tio, galgar a cerca, e, em vez<br \/>\n    de ir em demanda da mata, voltar ao rio e descer pela margem esquerda na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do norte, foi obra de um instante para o destemido sic&aacute;rio. Lu&iacute;sa<br \/>\n    deixou-se conduzir em sil&ecirc;ncio ao meio do fatal desconhecido.<\/p>\n<p>Ainda bem n&atilde;o tinham vencido uma milha na veloz corrida, quando o<br \/>\n    Cabeleira descobria uma cinta escura que se desenhava e movia, como nuvem<br \/>\n    de tormenta, no confuso horizonte. Seu primeiro cuidado, ao ver aquela vis&atilde;o<br \/>\n    aterradora, foi afastar-se da margem, e meter-se em um alagadi&ccedil;o que<br \/>\n    ficava a alguma distancia do rio. Com a grande seca o brejo estava em p&oacute;,<br \/>\n    e a poderosa vegeta&ccedil;&atilde;o aqu&aacute;tica reduzida a raras tou&ccedil;as<br \/>\n    que mal encobriam uma pessoa sentada.<\/p>\n<p> Esperemos aqui, Luisinha, que passe a tropa que vai para o povoado.<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa conheceu que estavam em perigo, e n&atilde;o fez a menor oposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Atravessando o cavalo diante de si, acomodaram-se ambos de p&eacute;, do melhor<br \/>\n    modo que puderam, Lu&iacute;sa a rezar como costumava nos momentos arriscados,<br \/>\n    Cabeleira observando em profundo sil&ecirc;ncio, atrav&eacute;s da escurid&atilde;o<br \/>\n    da noite, a mata que aparecia, como gigantesca e estendida mole, do lado oposto<br \/>\n    da plan&iacute;cie deserta e medonha.<\/p>\n<p>O mancebo n&atilde;o se enganara. Era de feito uma tropa que vinha em busca<br \/>\n    dos salteadores.<\/p>\n<p>Os pelot&otilde;es encaminharam-se para as embocaduras das veredas. N&atilde;o<br \/>\n    havia mais que duvidar. O segredo da encoberta estava no poder da justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> Est&atilde;o perdidos disse o Cabeleira comovido. Se foram tomadas as sa&iacute;das<br \/>\n    que ficam do lado do poente, nenhum se salvar&aacute;.<\/p>\n<p>Como impelido por for&ccedil;a irresist&iacute;vel, o Cabeleira deu o andar<br \/>\n    para o mato.<\/p>\n<p> Que vai voc&ecirc; fazer? perguntou-lhe a mo&ccedil;a com inquieta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    atravessando-se na frente dele.<\/p>\n<p> N&atilde;o se assuste, Luisinha. Vou defend&ecirc;-los.<\/p>\n<p> Diga antes que vai morrer.<\/p>\n<p> N&atilde;o, o que eu vou fazer &eacute; matar gente sem piedade acudiu o<br \/>\n    bandido.<\/p>\n<p> Matar gente ! repetiu Lu&iacute;sa. Que valeu ent&atilde;o o juramento que<br \/>\n    fez h&aacute; pouco ?<\/p>\n<p> Ah ! disse ele, caindo em si. &Eacute; verdade, Luisinha. Mas que quer que<br \/>\n    eu fa&ccedil;a ? Pois n&atilde;o hei de ir ajudar os meus a sa&iacute;rem<br \/>\n    da tribula&ccedil;&atilde;o em que se acham ?<\/p>\n<p> Eles s&atilde;o muitos e valentes respondeu Lu&iacute;sa; podem bem dispensar<br \/>\n    o seu adjut&oacute;rio. Demais, voc&ecirc; n&atilde;o pertence mais a eles,<br \/>\n    mas a mim, a mim s&oacute;; ouviu, Jos&eacute; ?<\/p>\n<p> Sim, eu sou seu, Luisinha; eu perten&ccedil;o a voc&ecirc; pelo cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pelo amor.<\/p>\n<p>Ouvindo estas palavras, ela inclinou ao ch&atilde;o seus olhos mais belos<br \/>\n    que as estrelas que brilhavam no c&eacute;u.<\/p>\n<p> Mas, voc&ecirc; fez bem em lembrar o juramento que h&aacute; pouco fiz prosseguiu<br \/>\n    o Cabeleira. Eu n&atilde;o podia ver meus companheiros em perigo sem correr<br \/>\n    para junto deles a defend&ecirc;-los. Se n&atilde;o fosse voc&ecirc;, Luisinha,<br \/>\n    eu j&aacute; n&atilde;o estava aqui. Mas agora me lembro: saiamos sem demora,<br \/>\n    que talvez seja ainda tempo de os salvar por outro meio.<\/p>\n<p>Em menos de um instante acharam-se montados no cavalo que o bandido pos a<br \/>\n    galope em direitura ao rio.<\/p>\n<p> Para onde vamos n&oacute;s ? perguntou Lu&iacute;sa, agarrando-se, sobressaltada,<br \/>\n    ao destemido matador. <\/p>\n<p> Aonde me leva voc&ecirc;, Jos&eacute; ?<\/p>\n<p> N&atilde;o fale, Luisinha, n&atilde;o fale, que pelas suas palavras podem<br \/>\n    vir sobre n&oacute;s.<\/p>\n<p>Nesse momento a detona&ccedil;&atilde;o de alguns tiros e as vozes de um<br \/>\n    clarim, pregoeiro de n&atilde;o sei que opera&ccedil;&atilde;o militar, indicaram<br \/>\n    que a for&ccedil;a tinha dado com os bandidos, e que qualquer aviso para que<br \/>\n    fugissem seria in&uacute;til.<\/p>\n<p> &Eacute; tarde disse o Cabeleira. J&aacute; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    a salva&ccedil;&atilde;o. Mas h&atilde;o de Ter-me ao p&eacute; de si na sua<br \/>\n    derradeira exclamou, saltando do cavalo abaixo e dando mostras de querer correr<br \/>\n    ao lugar do perigo.<\/p>\n<p> Cabeleira ! exclamou Lu&iacute;sa penetrada de terror. Voc&ecirc; ter&aacute;<br \/>\n    animo de desamparar-me neste deserto ? N&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; de<br \/>\n    fazer isso comigo. Veja que eu sou hoje s&oacute; no mundo.<\/p>\n<p>O bandido parou incontinenti. Estas palavras foram grilh&otilde;es que o<br \/>\n    prenderam aos pos da adolescente.<\/p>\n<p> Tem raz&atilde;o, Luisinha.<\/p>\n<p> Fujamos sem perda de tempo acrescentou ela.<\/p>\n<p>Nesse momento uma das escoltas sa&iacute;a da mata.<\/p>\n<p>Grande vit&oacute;ria tinha sido ganha pelas armas reais contra os destruidores<br \/>\n    da propriedade, honra e vida de inofensivas povoa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>In&uacute;meras partidas militares j&aacute; tinham sido expedidas contra<br \/>\n    os malfeitores sem resultado.<\/p>\n<p>Pouco depois do canibalismo perpetrado no primeiro domingo de dezembro de<br \/>\n    1773 na ponte do Recife, o governador Manuel da Cunha de Meneses fizera seguir<br \/>\n    contra eles uma for&ccedil;a consider&aacute;vel.<\/p>\n<p>Esta for&ccedil;a chegou a Afogados alguns minutos depois da retirada dos<br \/>\n    autores da desordem; e da&iacute; n&atilde;o passou, por n&atilde;o ter sido<br \/>\n    poss&iacute;vel, apesar das mais minuciosas indaga&ccedil;&otilde;es, saber<br \/>\n    o rumo que haviam tomado os criminosos.<\/p>\n<p>O Tim&oacute;teo, cuja taverna foi varejada, declarou unicamente que eles<br \/>\n    tinham de feito estanciado a&iacute;, mas que se haviam retirado sem lhe dizerem<br \/>\n    para onde. N&atilde;o houve promessas nem amea&ccedil;as bastantes a obter<br \/>\n    dele declara&ccedil;&atilde;o mais formal e menos lac&ocirc;nica do que esta.<\/p>\n<p>Tempos depois novas partidas foram mandadas a ver se se conseguia o fim desejado.<\/p>\n<p>Tanto a que seguiu ao norte, como a que seguiu ao sul, bateram matos, atravessaram<br \/>\n    rios cheios, empregaram enfim os maiores esfor&ccedil;os inutilmente. Em mais<br \/>\n    de um lugar, ou de um pouso encontraram vest&iacute;gios da recente passagem<br \/>\n    dos bandidos, ou da sua a&ccedil;&atilde;o destruidora e fatal, mas nunca<br \/>\n    lhes foi poss&iacute;vel dar com os tr&ecirc;s personagem, tipos legend&aacute;rios<br \/>\n    que todos conheciam pelos seus tristes feitos, que todos tinham visto, a quem<br \/>\n    quase todos tinham pago pesado tributo, mas que iludiam a vigil&acirc;ncia<br \/>\n    e zombavam dos esfor&ccedil;os de todos, sem exce&ccedil;&atilde;o do poder<br \/>\n    p&uacute;blico. Nuvem miraculosa envolvia-os, ocultava-os, aos olhos da justi&ccedil;a<br \/>\n    e da lei, que tem em toda parte vistas penetrantes e perscrutadoras a que<br \/>\n    ningu&eacute;m se encobre por muito tempo. Nos seus tenebrosos antros saboreavam<br \/>\n    o corrosivo prazer que proporciona o roubo e a impunidade. Esta animava-os<br \/>\n    &agrave; pr&aacute;tica de novos crimes, e expunha ao p&uacute;blico descr&eacute;dito<br \/>\n    &agrave; administra&ccedil;&atilde;o menos digna de temer-se, ao parecer deles,<br \/>\n    do que o particular que muitas vezes resistia, defendendo a sua propriedade,<br \/>\n    e na defesa e resist&ecirc;ncia os feria, embora tivesse de cair aos golpes<br \/>\n    descarregados por eles com tal firmeza, que nunca deixou de ser fatal.<\/p>\n<p>Cunha de Meneses, convicto da inefic&aacute;cia dos seus esfor&ccedil;os<br \/>\n    contra os quais se levantava, al&eacute;m da aud&aacute;cia e cinismo dos<br \/>\n    malfeitores, um tr&iacute;plice embara&ccedil;o que mais do que estes contrastava<br \/>\n    aqueles esfor&ccedil;os a falta de popula&ccedil;&atilde;o, de tropas e de<br \/>\n    estradas , embara&ccedil;o que era favorecido indiretamente pela indiferen&ccedil;a<br \/>\n    dos mais fortes, e diretamente pelo temor da maior parte dos moradores, renunciou<br \/>\n    ao empenho, que por muito tempo alimentou de reivindicar os foros da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    assim afrontados di&aacute;ria e ostensivamente pelos sobreditos malfeitores.<\/p>\n<p>Com esta mudan&ccedil;a de resolu&ccedil;&atilde;o coincidiu a sua promo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao lugar de governador da Bahia. Em 31 de agosto de 1774 entregava ele a Jos&eacute;<br \/>\n    C&eacute;sar de Meneses, a quem j&aacute; nos referimos, as r&eacute;deas<br \/>\n    do governo de Pemambuco, ent&atilde;o, como ainda hoje, dif&iacute;ceis de<br \/>\n    sopesar.<\/p>\n<p>Jos&eacute; C&eacute;sar teve de voltar a sua aten&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    a guerra com a Espanha; e quatro meses depois de haver tomado conta do governo,<br \/>\n    fez partir para a Col&ocirc;nia do Sacramento, ent&atilde;o novamente no poder<br \/>\n    dos espanh&oacute;is, bem como os fortes brasileiros de S. Miguel, Santa Teresa<br \/>\n    e S. Pedro do Rio Grande do Sul, um regimento de infantaria.<\/p>\n<p>Em 1776 tinham seguido do Recife para aquela col&ocirc;nia cerca de 1100<br \/>\n    pernambucanos.<\/p>\n<p>A guerra seguiu-se a peste, e &agrave; peste a fome como vimos.<\/p>\n<p>Quando se achava assim a bra&ccedil;os com este tr&iacute;plice flagelo,<br \/>\n    teve ci&ecirc;ncia de que diferentes ambul&acirc;ncias que, em parte &agrave;s<br \/>\n    custas do r&eacute;gio er&aacute;rio, e em parte &agrave;s custas dos negociantes<br \/>\n    mais ricos da vila haviam sido expedidas por ordem sua para os pontos onde<br \/>\n    o mal se manifestava com maior intensidade, tinham ca&iacute;do nas m&atilde;os<br \/>\n    dos salteadores.<\/p>\n<p>O governador mal p&ocirc;de dominar a sua c&oacute;lera, e na pr&aacute;tica<br \/>\n    &iacute;ntima com os que tinham muito lugar diante dele, declarou que daquele<br \/>\n    momento em diante o principal empenho do governo ficava sendo dar cabo dos<br \/>\n    criminosos que devastavam a prov&iacute;ncia.<\/p>\n<p>Desgra&ccedil;adamente faleciam-lhe gente e dinheiro para p&ocirc;r por obra<br \/>\n    este louv&aacute;vel empenho. A terr&iacute;vel epidemia tinha desolado povoa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inteiras.<\/p>\n<p>A fome continuava a gerar os males que em toda parte s&atilde;o seus companheiros<br \/>\n    naturais e inevit&aacute;veis.<\/p>\n<p>A seca desvastava ainda o interior da prov&iacute;ncia como chama que irrompe<br \/>\n    do seio da terra, e tudo abrasa e destr&oacute;i.<\/p>\n<p>Mas Jos&eacute; C&eeacute;sar era ativo, en&eacute;rgico, esfor&ccedil;ado<br \/>\n    e de grandes esp&iacute;ritos. Confiava no poder da autoridade, e tinha por<br \/>\n    certo que havia de restaurar a tranq&uuml;ilidade e a seguran&ccedil;a privadas,<br \/>\n    e restabelecer o dom&iacute;nio das leis.<\/p>\n<p>Enfim, depois de haver pensado com madureza sobre o grave assunto, deu ordem<br \/>\n    a seu secret&aacute;rio para que impedisse em seu nome aos capit&atilde;es<br \/>\n    mores de Iguara&ccedil;u, Itamarac&aacute;, V&aacute;rzea, S. Louren&ccedil;o,<br \/>\n    Santo Ant&atilde;o, Tracunha&eacute;m, Nossa Senhora da Luz, Jaboat&atilde;o,<br \/>\n    Muriboca, Cabo, Ipojuca e Serinha&eacute;m a circular seguinte:<\/p>\n<p>&quot;Ordena o Sr. Governador e capit&atilde;o general que, para um neg&oacute;cio<br \/>\n    que entende altamente com a paz p&uacute;blica, se ache vm. no dia oito do<br \/>\n    corrente m&ecirc;s, pelas nove horas da manh&atilde;, neste pal&aacute;cio,<br \/>\n    onde se h&aacute; de celebrar junta a fim de tratar-se do mesmo neg&oacute;cio.<\/p>\n<p>Vm. far&aacute; igual aviso aos coron&eacute;is das ordenan&ccedil;as que<br \/>\n    houver em seu distrito&quot;.<\/p>\n<p>No dia designado acharam-se presentes onze capit&atilde;es mores e outros<br \/>\n    tantos coron&eacute;is.<\/p>\n<p>Depois do almo&ccedil;o, durante o qual lhes disse, explicou e particularizou<br \/>\n    todo o seu pensamento, convidou-os o governador a chegarem at&eacute; aos<br \/>\n    pa&ccedil;os do senado da c&acirc;mara de Olinda.<\/p>\n<p>Uma galeota, que estava &agrave;s ordens em uma das rampas do pal&aacute;cio,<br \/>\n    os recebeu e os conduziu &agrave; capital ilustre.<\/p>\n<p>A sess&atilde;o da junta foi secreta.<\/p>\n<p>Todos presumiram que a fome e a peste eram os motivos principais da reuni&atilde;o,<br \/>\n    mas dificilmente conciliaram esses motivos, que estavam no p&uacute;blico<br \/>\n    dom&iacute;nio, com o sigilo que se guardou durante a sess&atilde;o, e continuou<br \/>\n    a ser mantido depois do seu encerramento.<\/p>\n<p>Seguiram-se, como &eacute; f&aacute;cil imaginar, diferentes vers&otilde;es<br \/>\n    e fizeram-se longos e variados coment&aacute;rios.<\/p>\n<p>Falou-se de guerra no exterior, de geral recrutamento, e de novos impostos.<\/p>\n<p>Veio logo a pelo lembrar igual ajuntamento que se verificou em 1727, sob<br \/>\n    o governo de Duarte Sodr&eacute; Pereira, e o imposto decretado nessa ocasi&atilde;o<br \/>\n    pelo dito ajuntamento, imposto calculado em 1 milh&atilde;o e 50 mil cruzados,<br \/>\n    que se tornou efetivo em vinte anos, e foi destinado a ocorrer aos gastos<br \/>\n    com o casamento dos pr&iacute;ncipes de Portugal.<\/p>\n<p>Cuidou-se em opor &agrave; for&ccedil;ada contribui&ccedil;&atilde;o, caso<br \/>\n    viesse a verificar-se, a resist&ecirc;ncia que naquele tempo apresentaram<br \/>\n    os povos da ribeira de S. Francisco.Mas passaram-se dias e semanas sem que<br \/>\n    ato algum p&uacute;blico, oficial, ou simples revela&ccedil;&atilde;o particular<br \/>\n    viesse confirmar as suspeitas. A delibera&ccedil;&atilde;o continuou trancada<br \/>\n    debaixo dos selos do mais rigoroso segredo.<\/p>\n<p>Uma manh&atilde; um batalh&atilde;o de infantaria, devidamente municiado,<br \/>\n    moveu-se, e p&ocirc;s-se em ordem de marcha na dire&ccedil;&atilde;o do sul.<\/p>\n<p>Este batalh&atilde;o fez alto em Afogados.<\/p>\n<p> Temos guerra gritaram os meticulosos pelos &acirc;ngulos da vila.<\/p>\n<p>Alguns parasitas, plantas conhecidas e existentes em todas as regi&otilde;es,<br \/>\n    mas muito mais abundantes nas regi&otilde;es oficiais, ou governativas, correram<br \/>\n    ao pal&aacute;cio a verem se podiam, pelos meios que sabe a ast&uacute;cia<br \/>\n    p&eacute;rfida e servil, inferir das palavras de Jos&eacute; C&eacute;sar,<br \/>\n    ditas na intimidade, o destino a que se dirigia a coluna militar, inesperadamente<br \/>\n    posta em armas e a caminho. O semblante do governador, por&eacute;m, semelhava<br \/>\n    uma superf&iacute;cie plana; n&atilde;o apresentava uma s&oacute; roga que<br \/>\n    pudesse trair oculto desgosto, ou indicar grave apreens&atilde;o. Se da fronte<br \/>\n    passavam a estudar as palavras de Jos&eacute; C&eacute;sar, n&atilde;o descobriam<br \/>\n    no sentido destas menos discri&ccedil;&atilde;o e reserva do que tinham encontrado<br \/>\n    na express&atilde;o daquela. Os l&aacute;bios do governador guardavam com<br \/>\n    a severidade da disciplina militar e das pr&aacute;ticas do governo naqueles<br \/>\n    tempos sil&ecirc;ncio absoluto a respeito do acontecimento que preocupava<br \/>\n    os grandes e o popular.<\/p>\n<p>A curiosidade p&uacute;blica mostrou-se dentro em pouco ainda mais excitada<br \/>\n    com certas not&iacute;cias trazidas do interior pelos boiadeiros, almocreves<br \/>\n    e estafetas. Em todos os distritos, por ordem dos respectivos capit&atilde;es<br \/>\n    mores, de acordo com os coron&eacute;is de ordenan&ccedil;as, se tinham levantado<br \/>\n    mil&iacute;cias locais que evidentemente se aprestavam para um fim de grande<br \/>\n    importancia, a julgar pelas apar&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Das sedes de alguns desses distritos j&aacute; os destacamentos haviam marchado<br \/>\n    para certos e determinados pontos que os informantes n&atilde;o sabiam dizer.<\/p>\n<p>Enfim, tendo reunido todos estes elementos de duvidar e de decidir, e os<br \/>\n    tendo pesado na balan&ccedil;a da cr&iacute;tica, arte ou ci&ecirc;ncia comum<br \/>\n    a todas as sociedades ainda as que se acham no estado mais rudimentar, julgou-se<br \/>\n    o publico autorizado a afirmar que se tratava de efetuar uma dilig&ecirc;ncia<br \/>\n    de alta monta, para a qual tinham de concorrer simultaneamente as diferentes<br \/>\n    for&ccedil;as locais, de combina&ccedil;&atilde;o com algum destacamento da<br \/>\n    capital.<\/p>\n<h2><a name=\"11\">Cap&Iacute;tulo XI<\/a><\/h2>\n<p>Antes de se haver movido da capital o destacamento que foi estacionar em<br \/>\n    Afogados, grande confus&atilde;o dominara nos esp&iacute;ritos dos habitantes<br \/>\n    desta localidade.<\/p>\n<p>Foi o caso que pelas oito horas da noite, pouco mais ou menos, dois vultos<br \/>\n    se tinham ido colocar defronte da taberna do Tim&oacute;teo.<\/p>\n<p>A alguns fregueses e freq&uuml;entadores do taberneiro causou reparo o misterioso<br \/>\n    par que ningu&eacute;m se animou a ir reconhecer, n&atilde;o obstante a todos<br \/>\n    parecer ele equ&iacute;voco e digno de recear-se.<\/p>\n<p>N&atilde;o se podia confiar no tempo, principalmente nos lugares afastados<br \/>\n    da vila.<\/p>\n<p>Roubos e assassinatos repetiam-se a cada canto. Na pr&oacute;pria capital<br \/>\n    os habitantes n&atilde;o tinham por seguras nem sua propriedade nem sua vida.<br \/>\n    Por isso, qualquer sujeito duvidoso suscitava, com raz&atilde;o, desconfian&ccedil;as<br \/>\n    e medos nos homens pac&iacute;ficos que por interesse pr&oacute;prio se apartavam<br \/>\n    sem demora dos pontos onde tais sujeitos apareciam ou podiam aparecer.<\/p>\n<p>Quem menos se inquietou com os desconhecidos foi o Tim&oacute;teo que, acostumado<br \/>\n    a tratar, de instante a instante por assim dizermos, com essa esp&eacute;cie<br \/>\n    de gente, se considerava fora de todo risco ainda quando este se desenhasse,<br \/>\n    como em certas ocasi&otilde;es, com as mais vivas e medonhas cores. A seu<br \/>\n    parecer, de indiv&iacute;duos tais s&oacute; tinha ele que esperar favor e<br \/>\n    prote&ccedil;&atilde;o, visto que, sendo sua taberna ponto obrigado das rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da capital com o centro, quer fosse de dia quer de noite, assim de inverno<br \/>\n    como de ver&atilde;o, tinham eles, como ele pr&oacute;prio, grande interesse,<br \/>\n    se n&atilde;o maior do que ele tinha, em conservar, defender, amparar esse<br \/>\n    poderoso ponto de apoio para os seus dolos, viol&ecirc;ncias e infames ciladas<br \/>\n    de que era v&iacute;tima o matuto simpl&oacute;rio, o sertanejo de boa f&eacute;,<br \/>\n    o mascate, enfim quem quer que passava por aquela infernal est&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Apontavam-se no lugar outras tabernas, das quais algumas tinham &agrave;<br \/>\n    sua frente patr&otilde;es mais h&aacute;beis do que o Tim&oacute;teo; a do<br \/>\n    velho, por&eacute;m, mestre no mister como nenhum outro, tinha fama extensa,<br \/>\n    quase geral na prov&iacute;ncia. Era uma taberna tradicional por ter servido<br \/>\n    muitas vezes de teatro a cenas de sangue e morte.<\/p>\n<p>Pelas festas de arraial, o jogo, a cr&aacute;pula a&iacute; se praticavam<br \/>\n    com preju&iacute;zo consider&aacute;vel da ordem p&uacute;blica, da fortuna<br \/>\n    particular, do sossego e honra das fam&iacute;lias.<\/p>\n<p>Estas circunst&acirc;ncias, este passado davam-lhe certo prest&iacute;gio<br \/>\n    que atra&iacute;a para o imundo balc&atilde;o, ou para a l&ocirc;brega camarinha<br \/>\n    da tasca o vicioso por h&aacute;bito, o filho da vi&uacute;va, a rapariga<br \/>\n    infeliz, os quais iam encontrar debaixo das quatro telhas do casebre largo<br \/>\n    campo onde dar expans&atilde;o a suas paix&otilde;es reprovadas.<\/p>\n<p>Quando algum freq&uuml;entador, exaltado pela cacha&ccedil;a, amea&ccedil;ava<br \/>\n    esfaquear o vendeiro por alguma das suas, respondia ele, abrindo a camisa,<br \/>\n    e mostrando o largo peito coberto de espessos e avermelhados pelos:<\/p>\n<p> Pode fazer do peito do velho Tim&oacute;teo bainha da sua faca. J&aacute;<br \/>\n    bebeu a minha aguardente, n&atilde;o ser&aacute; para admirar que queira agora<br \/>\n    dar meu sangue a seu cachorro magro. Mas de uma coisa tenha voc&ecirc; certeza;<br \/>\n    ainda que me mate, ainda que me esfole, n&atilde;o passa o gadanho no meu<br \/>\n    zimbo. Poder&aacute; comer mais sardinhas, chupar do meu vinho, mas de dinheiro<br \/>\n    nem ceitil h&aacute; de cair na sua unha.<\/p>\n<p>Tim&oacute;teo dizia a verdade. Ele tinha todo o seu haver amoedado em lugar<br \/>\n    s&oacute; dele conhecido.<\/p>\n<p>Ficara s&oacute; no mundo depois da morte da Chica, e entesourava sem destino<br \/>\n    o que ilicitamente adquiria. Seus &uacute;nicos companheiros de casa eram<br \/>\n    um c&atilde;o e dois gatos. Estes &uacute;ltimos comiam com ele &agrave; mesa,<br \/>\n    quase no mesmo prato, e, para bem dizermos, dormiam na mesma cama.<\/p>\n<p>Por isso, quando viu os misteriosos vultos parados defronte da taberna; quando<br \/>\n    os viu mais tarde dirigir-se para esta no momento em que ele ia fechar as<br \/>\n    portas por se haver de uma vez retirado a freguesia do dia, disse Tim&oacute;teo<br \/>\n    com a maior fleuma:<\/p>\n<p> Podem entrar sem susto, que o Tim&oacute;teo &eacute; amigo.<\/p>\n<p>Os desconhecidos ganharam de um pulo a tasca, e trataram de fechar as portas.<\/p>\n<p> Fazem bem disse-lhes o vendeiro, sem se dar por achado. O tempo n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; para gra&ccedil;as. Mas se vosmec&ecirc;s est&atilde;o aqui de<br \/>\n    emboscada a algum tonante, ser&aacute; bom deixarem aberta esta janelinha<br \/>\n    da porta.<\/p>\n<p> N&atilde;o estamos de emboscada a ningu&eacute;m, porque quem quer&iacute;amos<br \/>\n    j&aacute; est&aacute; seguro disse um deles, trancando com a taramela a janelinha<br \/>\n    indicada.<\/p>\n<p> Ah ! J&aacute; sei. Querem cear comigo. N&atilde;o ponho d&uacute;vida.<\/p>\n<p>Os desconhecidos entreolharam-se como se se consultassem.<\/p>\n<p> N&atilde;o fa&ccedil;am cerim&ocirc;nia, camaradas. Naquela mesinha, que<br \/>\n    ali v&ecirc;em, muito fidalgo tem feito a sua refei&ccedil;&atilde;o. Tirem<br \/>\n    os capotes, se querem estar &agrave; vontade; e esperem um momento que n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; demora.<\/p>\n<p>Sem esperar resposta, o velho tomou o interior do casebre, e voltou logo,<br \/>\n    trazendo p&atilde;es, postas de peixe frito, e uma cuia com farinha.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o ? Que fazem ? V&atilde;o sentando-se, e toca a comer.<\/p>\n<p>N&atilde;o esperem por mim, que sou de casa e n&atilde;o tenho etiquetas.<\/p>\n<p>E entrou novamente, manifestando, pela prontid&atilde;o com que tratava de<br \/>\n    p&ocirc;r a ceia, a melhor vontade de ser agrad&aacute;vel aos entranhos h&oacute;spedes.<\/p>\n<p>N&atilde;o eram estes no todo simp&aacute;ticos, mas tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    eram mal encarados<\/p>\n<p>O que representava ser mais mo&ccedil;o era seco de corpo, tinha boa estatura,<br \/>\n    cor fula, olhos cintilantes e redondos, cabelo chegado ao casco. O nariz um<br \/>\n    pouco rombo estava em desarmonia com as outras partes da cara onde se lia<br \/>\n    uma express&atilde;o de aud&aacute;cia, que respondia bem &agrave; agilidade<br \/>\n    do corpo.<\/p>\n<p>O outro era feio de fei&ccedil;&otilde;es, baixote e roli&ccedil;o. A cor,<br \/>\n    o &acirc;ngulo facial, o cabelo carapinha estavam claramente denunciando a<br \/>\n    sua proveni&ecirc;ncia africana.<\/p>\n<p>Por baixo dos capotes, j&aacute; velhos, cingia-lhe os rins um cinto de couro<br \/>\n    donde a cada um pendia uma espada de ponta direita. Eram as espadas as &uacute;nicas<br \/>\n    armas que traziam &agrave; vista. Sentaram-se &agrave; mesa sem tirar os chap&eacute;us<br \/>\n    de palha com que estavam cobertos.<\/p>\n<p> Vinho ou cacha&ccedil;a ? perguntou o velho, apontando, de volta, na porta,<br \/>\n    com uma penca de bananas que lhe vinham caindo das m&atilde;os de maduras.<\/p>\n<p> Vinho disse o mais mo&ccedil;o.<\/p>\n<p> Traga da cana para mim acrescentou o outro.<\/p>\n<p> Muito bem respondeu Tim&oacute;teo. Olhem: o p&atilde;o &eacute; da padaria<br \/>\n    do Z&eacute; Braga, o peixe &eacute; do viveiro do Muniz, a farinha &eacute;<br \/>\n    de Muribeca, e as bananas s&atilde;o do meu quintal. A cacha&ccedil;a &eacute;<br \/>\n    do engenho Mendon&ccedil;a, e o vinho &eacute; puro de Lisboa.<\/p>\n<p>No fim da ceia, que as reiteradas liba&ccedil;&otilde;es prolongaram, e que<br \/>\n    correu animada, por mais de um dito, um gracejo, uma senten&ccedil;a licenciosa,<br \/>\n    o Tim&oacute;teo dirigiu estas palavras aos h&oacute;spedes:<\/p>\n<p> N&atilde;o est&aacute; m&aacute; esta. Dei-lhes da minha ceia sem saber<br \/>\n    quem s&atilde;o vosmec&ecirc;s. Agora, os seus semblantes, se n&atilde;o me<br \/>\n    falta a mem&oacute;ria, n&atilde;o me s&atilde;o de todo estranhos.<\/p>\n<p> Assim deve ser disse o cabra. Mais de uma vez tenho comprado aqui o meu<br \/>\n    vint&eacute;m de aguardente.<\/p>\n<p> Isto &eacute; outro cantar; j&aacute; vejo que somos conhecidos velhos.<\/p>\n<p> T&atilde;o conhecidos somos, seu Tim&oacute;teo replicou o cabra , que tomo<br \/>\n    a liberdade de o convidar para um passeio agora mesmo por esta estrada afora.<\/p>\n<p> Nossa Senhora da Paz livre-me tal disse Tim&oacute;teo empalidecendo. Sair<br \/>\n    a esta hora, por este tempo, deixar a minha casa &agrave; revelia, Santo Deus!<br \/>\n    Nem pensem nisto, meus bons amigos.<\/p>\n<p> N&atilde;o tem que recear, meu caro. Cada um de n&oacute;s traz, como v&ecirc;,<br \/>\n    uma espada &agrave; cinta, e a sabe manejar.<\/p>\n<p> Bem estou vendo disse Tim&oacute;teo. Mas sempre lhes quero dizer: o crioulo<br \/>\n    Gabriel sabia muito bem jogar a espada, e melhor a faca, mas o Cabeleira o<br \/>\n    lambeu.<\/p>\n<p> Ah ! o Cabeleira? disse o negro.<\/p>\n<p> Sim, senhor; ele aparece por aqui &agrave;s vezes; eu o tenho visto fazer<br \/>\n    proezas de espantar.<\/p>\n<p> Seu Tim&oacute;teo disse o cabra, levantando-se , fez bem em falar no Cabeleira.<br \/>\n    Eu quero perguntar ao senhor uma coisa&hellip;<\/p>\n<p>Antes que terminasse a sua ora&ccedil;&atilde;o fez-lhe um sinal o negro,<br \/>\n    e ele disfar&ccedil;ou por este modo:<\/p>\n<p> Mas &eacute; j&aacute; tarde, e n&oacute;s n&atilde;o podemos demorar mais.<br \/>\n    Vem ou n&atilde;o vem ?<\/p>\n<p> Para onde, senhor ? perguntou o vendeiro, levantando-se aterrado por haver<br \/>\n    finalmente compreendido que tinha diante dos olhos dois inimigos.<\/p>\n<p> Saber&aacute; depois. O essencial &eacute; que nos acompanhe.<\/p>\n<p> N&atilde;o posso fazer tal coisa.<\/p>\n<p>Tim&oacute;teo recuou instintivamente quando ouviu as &uacute;ltimas palavras<br \/>\n    do desconhecido. Este por&eacute;m, em um instante o tinha segurado pelos<br \/>\n    pulsos enquanto o negro lhe passava uma corda nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> Como &eacute; que me fazem isto ? perguntou Tim&oacute;teo Querem matar-me<br \/>\n    ?<\/p>\n<p> N&atilde;o, senhor disse o cabra. Voc&ecirc; h&aacute; de chegar vivo, bem<br \/>\n    vivo a seu destino, ainda que o Cabeleira se meta a tir&aacute;-lo das nossas<br \/>\n    unhas, o que eu duvido.<\/p>\n<p> E a minha venda ?<\/p>\n<p> A sua venda fica a&iacute;; n&oacute;s n&atilde;o a levamos.<\/p>\n<p> Mas&#8230; roubam-me tudo, tudo.<\/p>\n<p> N&atilde;o tem voc&ecirc; roubado a tanta gente ?<\/p>\n<p> Ora ! Feche bem as portas, e avie-se que &eacute; tempo. Se n&atilde;o quer<br \/>\n    ir pelos p&eacute;s, ir&aacute; amarrado como um porco.<\/p>\n<p>Tim&oacute;teo aceitou, contra vontade, j&aacute; se v&ecirc;, e por n&atilde;o<br \/>\n    ter outro rem&eacute;dio a situa&ccedil;&atilde;o que lhe afigurou irrevog&aacute;vel.<\/p>\n<p>Vista o seu gib&atilde;o, que voc&ecirc; vai ser apresentado a gente nobre.<\/p>\n<p> Ah ! disse o vendeiro,respirando, mas n&atilde;o sem grande espanto, que<br \/>\n    mal disfar&ccedil;ou.<\/p>\n<p>Pouco depois os tr&ecirc;s convivas seguiam, a marcha batida, pela estrada<br \/>\n    de Santo Ant&atilde;o. Tendo deixado a taberna, cujas chaves o Tim&oacute;teo<br \/>\n    levava consigo por permiss&atilde;o dos desconhecidos, haviam estes pouco<br \/>\n    adiante entrado com ele no mato para tomarem dois cavalos que ali tinham deixado<br \/>\n    ocultos. Em um deles montou o negro, e no outro montaram o cabra e o vendeiro,<br \/>\n    este passado de medo, que o acaso n&atilde;o era para menos, aquele guardando-o<br \/>\n    na garupa, e tendo uma faca nua na m&atilde;o. Tomaram novamente a estrada,<br \/>\n    e logo desapareceram como sombras fant&aacute;sticas, no fundo da escurid&atilde;o.<\/p>\n<p>Conforme a delibera&ccedil;&atilde;o tomada no senado da c&acirc;mara pelo<br \/>\n    governador, capit&atilde;es mores e coron&eacute;is de ordenan&ccedil;as,<br \/>\n    a busca dos malfeitores tinha de ser dada ao mesmo tempo nas matas dos respectivos<br \/>\n    distritos.<\/p>\n<p> Estes bandidos dissera o governador fazem-nos maior dano do que a fome,<br \/>\n    a peste e a guerra. Matam a sangue frio, para roubarem a fazenda &agrave;quele<br \/>\n    que pacificamente a ganhou com o suor do seu rosto. Penetram nas casas, nas<br \/>\n    lojas, nos engenhos, nos pr&oacute;prios templos, e, tirando da&iacute; o<br \/>\n    fruto da economia e o trabalho honesto e esfor&ccedil;ado da propriedade alheia,<br \/>\n    v&atilde;o consumi-lo nas suas orgias e del&iacute;rio. A sua passagem o pobre<br \/>\n    n&atilde;o fica privado somente das suas migalhas; fica tamb&eacute;m privado<br \/>\n    da sua honra, da honra das suas filhas; se se n&atilde;o atrevem a fazer hoje<br \/>\n    o mesmo aos ricos e nobres, amanh&atilde; o far&atilde;o, animados por um<br \/>\n    longo passado para o qual n&atilde;o posso volver os olhos sen&atilde;o com<br \/>\n    tristeza, porque ele diz que aos meus predecessores faltou animo para esmagar<br \/>\n    a hidra do crime, ou que foram eles indiferentes aos males privados e publicados<br \/>\n    que resultaram da sua impunidade dela. N&atilde;o quero que o meu nome passe<br \/>\n    &agrave; hist&oacute;ria de envolta com essa impunidade; h&aacute; de passar<br \/>\n    com o lustre da autoridade que se faz respeitada por cumprir com zelo e coragem<br \/>\n    os seus deveres, entre os quais se conta o de castigar os delinquentes. Fio<br \/>\n    que os senhores capit&atilde;es mores e coron&eacute;is h&atilde;o de auxiliar<br \/>\n    a administra&ccedil;&atilde;o, que, nestes intuitos, n&atilde;o atende sen&atilde;o<br \/>\n    &agrave; gl&oacute;ria de sua majestade, que Deus guarde, e a paz e felicidade<br \/>\n    dos povos. A falta de tropas ser&aacute; suprida pela cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mil&iacute;cias provis&oacute;rias, e locais para o fim &uacute;nico de<br \/>\n    acabar com os coutos dos facinorosos; e a de dinheiro s&ecirc; pelo er&aacute;rio<br \/>\n    r&eacute;gio, que segundo me autorizou sua majestade por carta firmada por<br \/>\n    sua real m&atilde;o, adiantar&aacute; por empr&eacute;stimo a quantia necess&aacute;ria<br \/>\n    para a manten&ccedil;a dessas tropas at&eacute; que de todo se tenham aniquilado<br \/>\n    os coutos. O er&aacute;rio ser&aacute; ressarcido das quantias que houver<br \/>\n    adiantado, por meio de um imposto que se lan&ccedil;ar&aacute; para o dito<br \/>\n    fim sobre os povos dos distritos rurais, ou dos que ficam distantes desta<br \/>\n    vila duas l&eacute;guas, atendendo-se a que a estes o benef&iacute;cio da<br \/>\n    extin&ccedil;&atilde;o dos coutos ocasiona particular proveito.<\/p>\n<p>Nenhum dos convocados teve que opor ao pensamento e vontade do governador,<br \/>\n    conhecido como uma autoridade arbitr&aacute;ria. Todos, ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    votaram por estas id&eacute;ias, certos de que se atendia por tais meios a<br \/>\n    uma necessidade p&uacute;blica da maior magnitude. &quot;Jos&eacute; C&eacute;sar<br \/>\n    governou arbitrariamente, &eacute; verdade, diz um historiador, mas as suas<br \/>\n    arbitrariedades raras vezes deixaram de ter um fundo de justi&ccedil;a. Na<br \/>\n    puni&ccedil;&atilde;o dos delinq&uuml;entes foi infastig&aacute;vel&quot;.<\/p>\n<p>Chegado a seu distrito, cada capit&atilde;o mor tratou de levantar a mil&iacute;cia<br \/>\n    volante, a qual foi formada dos indiv&iacute;duos solteiros, maiores de vinte<br \/>\n    e menores de quarenta anos, com exclus&atilde;o somente daqueles que por si<br \/>\n    dessem outrem.<\/p>\n<p>N&atilde;o foram poucas as dificuldades que tiveram de vencer para que se<br \/>\n    formassem os contingentes, destinados a pacificar o interior.<\/p>\n<p>N&atilde;o sabendo o verdadeiro fim que se propunha a autoridade com a funda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desses contingentes, suspeitaram os povos uma grande leva para fora da terra<br \/>\n    para combater o estrangeiro. Mas os capit&atilde;es mores conseguiram desvanecer<br \/>\n    as suspeitas por meio de afirma&ccedil;&otilde;es sob palavra de honra. Naqueles<br \/>\n    tempos a palavra do homem equivalia a jur&iacute;dica obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou a solene tratado, e a honra era digna e eficazmente representada por um<br \/>\n    cabelo da barba. Hoje, as pr&oacute;prias palavras dos reis tornam atr&aacute;s,<br \/>\n    as conven&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas n&atilde;o passam de ciladas<br \/>\n    internacionais, a honra tem-se refugiado nos retiros com medo da publicidade,<br \/>\n    que a exp&otilde;e a geral pouco caso.<\/p>\n<p>Temos subido muito nas ci&ecirc;ncias, ind&uacute;strias e artes, sem exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da arte de governar; mas, em ponto de honra, em virtudes c&iacute;vicas, em<br \/>\n    moral dom&eacute;stica, a nossa decad&ecirc;ncia, imposs&iacute;vel de recusar,<br \/>\n    atesta que temos levado a obra da reforma&ccedil;&atilde;o al&eacute;m dos<br \/>\n    limites pertinentes, e prova a necessidade de transplantarmos das ru&iacute;nas<br \/>\n    do passado, onde vicejam esquecidas, algumas plantas modestas, cujas flores<br \/>\n    purificam o ar com seus perfumes, e cujos frutos formam sangue novo e s&atilde;o.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o mor de Santo Ant&atilde;o, querendo avantajar-se aos outros,<br \/>\n    antecipou-se nos meios de por a m&atilde;o nos malfeitores.<\/p>\n<p>Sabia ele das ass&iacute;duas rela&ccedil;&otilde;es do Cabeleira com o velho<br \/>\n    taberneiro, a princ&iacute;pio por mera suspeita, e posteriormente por informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que tomou de agregados e ordenan&ccedil;as seus, alguns dos quais, de passagem<br \/>\n    para o Recife, entravam na taberna, bebiam nela o seu grogue, e algumas vezes<br \/>\n    at&eacute; ali pernoitaram. No dia fatal, em que o famigerado bandido tirava<br \/>\n    a vida aos dois meninos, passara por Afogados o capit&atilde;o mor momentos<br \/>\n    depois do dobrado delito.<\/p>\n<p>O com&eacute;rcio il&iacute;cito do taberneiro, a sua m&aacute; fama, as<br \/>\n    suas estreitas liga&ccedil;&otilde;es com sujeitos mal vistos de todos, principalmente<br \/>\n    com o Cabeleira, deram-lhe a convic&ccedil;&atilde;o de que qualquer dilig&ecirc;ncia,<br \/>\n    que tivesse por fim a pris&atilde;o dos delinq&uuml;entes n&atilde;o poderia<br \/>\n    surtir efeito se n&atilde;o fosse precedida da pris&atilde;o do taberneiro.<br \/>\n    Duas pra&ccedil;as de sua confian&ccedil;a foram por ele encarregadas de levarem<br \/>\n    o velho a sua presen&ccedil;a sem que se soubesse para onde nem como ele fora.<br \/>\n    Alexandre, o negro, e Valentim, o cabra que vimos ceando com Tim&oacute;teo<br \/>\n    e que por sobremesa o prenderam foram as tais pra&ccedil;as; e a vista do<br \/>\n    modo como se houveram, cabalmente justificaram a confian&ccedil;a do capit&atilde;o<br \/>\n    mor.<\/p>\n<p>Ia amanhecendo quando os tr&ecirc;s cavaleiros se apearam na porta deste.<\/p>\n<p>As casas do povoado estavam ainda fechadas, e ningu&eacute;m os viu entrar;<br \/>\n    o capit&atilde;o mor que levara a noite em claro, &agrave; espera dos seus<br \/>\n    comiss&aacute;rios, foi abrir-lhes a porta em pessoa.<\/p>\n<p>Tim&oacute;teo, posto em confiss&atilde;o, negou tudo ao princ&iacute;pio,<br \/>\n    saindo-se, com v&aacute;rias evasivas, das redes que lhe lan&ccedil;ava o<br \/>\n    capit&atilde;o-mor, perito em interrogar.<\/p>\n<p>Quando por&eacute;m a sua vida amea&ccedil;ada; quando formalmente se lhe<br \/>\n    declarou que a sua morte seria inevit&aacute;vel se n&atilde;o auxiliasse<br \/>\n    com lealdade a a&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a na busca dos criminosos;<br \/>\n    quando o Alexandre de espada desembainhada, e o Valentim de faca na m&atilde;o,<br \/>\n    receberam do capit&atilde;o mor ordem para infligir-lhe a pena &uacute;ltima<br \/>\n    dentro da capoeira pr&oacute;xima; quando se viu arrastado por eles ao teatro<br \/>\n    onde se lhe destinara o tr&aacute;gico fim que horroriza todo homem a morte<br \/>\n    natural, o instinto da pr&oacute;pria conserva&ccedil;&atilde;o retomou ao<br \/>\n    c&aacute;lculo e &agrave;s manhas do vendeiro os seus direitos. Confuso e<br \/>\n    abatido, Tim&oacute;teo aceitou o odioso papel que lhe foi distribu&iacute;do<br \/>\n    naquela grave representa&ccedil;&atilde;o em que importantes interesses e<br \/>\n    muitas vidas iam correr iminente risco.<\/p>\n<p>Tim&oacute;teo conhecia todos aqueles lugares onde tinha andado na sua mocidade<br \/>\n    em dias de feira de gado.<\/p>\n<p>A seca que estava desvastando a prov&iacute;ncia tinha-lhe proporcionado<br \/>\n    ocasi&otilde;es de conhec&ecirc;-los melhor. A escassa farinha, os poucos<br \/>\n    legumes e outros comest&iacute;veis que apareciam nas feiras gerais eram logo<br \/>\n    comprados por atravessadores que os iam revender com usura no Recife. Nos<br \/>\n    primeiros tempos Tim&oacute;teo resignou-se a ver passar os produtos no poder<br \/>\n    dos atravessadores; mas faltando-lhe esses produtos, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    para os expor na sua taverna, sen&atilde;o tamb&eacute;m para o pr&oacute;prio<br \/>\n    uso, tomara o acordo de ir pessoalmente um s&aacute;bado por outro a Santo<br \/>\n    Ant&atilde;o prover-se do necess&aacute;rio para a semana. Quando o Cabeleira<br \/>\n    estava na mata, Tim&oacute;teo ia ter com ele e lhe comprava por quase nada<br \/>\n    o que muitas vezes tinha custado a vida do pobre roceiro, que deixava mulher<br \/>\n    vi&uacute;va e uma infinidade de filhos na orfandade.<\/p>\n<p>Destarte estava ele senhor dos caminhos e carreiras que iam ter &agrave;<br \/>\n    encoberta onde entrava com familiaridade, e donde sa&iacute;a como amigo.<\/p>\n<p>Ele sabia que o Cabeleira se achava na terra por haver estado de passagem<br \/>\n    na sua taverna, conforme vimos. De tudo informado, o capit&atilde;o-mor aguardou<br \/>\n    ansioso a noite seguinte, para dar come&ccedil;o &agrave; batida da mata.<br \/>\n    Com o fim de iludir por&eacute;m a vigil&acirc;ncia dos assassinos e escusar<br \/>\n    as suas suspeitas, mandou notificar as pra&ccedil;as do contingente para que<br \/>\n    se achassem em um ponto das matas do seu engenho, ao qual cada um devia dirigir-se<br \/>\n    desacompanhado a fim de n&atilde;o dar na vista de quem quer que fosse.<\/p>\n<p>Tanto que anoiteceu, o capit&atilde;o mor deu ordem para que Valentim, Alexandre<br \/>\n    e dez matutos experimentados se trepassem em &aacute;rvores pr&oacute;ximas<br \/>\n    das quais pudessem observar o rumo que os malfeitores tomassem depois do escurecer.<br \/>\n    Estas sentinelas perdidas deviam dar aviso &agrave; tropa que estava no engenho,<br \/>\n    para que ela, guiada por Tim&oacute;teo, corresse a tomar as entradas, e pudesse<br \/>\n    prender os malfeitores em sua volta ao couto. Foi o que sucedeu. Quando Valentim<br \/>\n    viu os ladr&otilde;es tomarem, &agrave; boca da noite, pelo caminho da engenhoca,<br \/>\n    desceu-se da pitombeira onde se trepara, montou no cavalo que tinha preso<br \/>\n    de preven&ccedil;&atilde;o dentro de uma moita, e correu ao engenho. A tropa<br \/>\n    moveu-se incontinenti, sob o imediato comando do capit&atilde;o mor.<\/p>\n<p>Dividida a metade dela em tantos piquetes quantas eram as picadas secretas,<br \/>\n    tomou todas estas, e achou-se em condi&ccedil;&otilde;es de interceptar a<br \/>\n    passagem daqueles para o ponto central. A outra metade, colocada a um lado<br \/>\n    da mata a distancia conveniente, p&ocirc;de acudir aqueles pontos logo que<br \/>\n    o Valentim que depois do aviso havia voltado ao seu posto, foi inform&aacute;-los<br \/>\n    da volta dos malfeitores. Assim, acharam-se estes, quando voltaram da engenhoca,<br \/>\n    entre duas colunas inimigas, &agrave;s quais for&ccedil;ado foi entregarem-se,<br \/>\n    quase todos com a morte. Ao Joaquim se poupou a vida, a fim de se cumprir<br \/>\n    a determina&ccedil;&atilde;o do governador, n&atilde;o s&oacute; a respeito<br \/>\n    dele, mas tamb&eacute;m do Cabeleira e do Teod&oacute;sio para fins de alta<br \/>\n    justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Quando o Cabeleira se afastou com Lu&iacute;sa da beira do rio para o alagadi&ccedil;o,<br \/>\n    o Valentim estava dando o seu segundo aviso, e eles puderam, por isso, escapar<br \/>\n    &agrave; sua inspe&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Tinha ele, por&eacute;m, ouvido antes, de cima da pitombeira, o di&aacute;logo<br \/>\n    do Cabeleira com o Teod&oacute;sio, e sido causa do ru&iacute;do que espantara<br \/>\n    o cavalo deste &uacute;ltimo. Tinha visto aquele encaminhar-se &agrave; engenhoca,<br \/>\n    o que o fizera acreditar que entre os malfeitores, que tinham de tornar, e<br \/>\n    efetivamente tornaram &agrave; mata, se achava o famigerado bandido, alma<br \/>\n    do couto, terror dos povos. N&atilde;o lhe parecendo, por isso, necess&aacute;rio<br \/>\n    vigiar o terr&iacute;vel salteador, que ele considerava seguro com os outros<br \/>\n    na armadilha que lhes havia armado, consagrou-se todo a evitar que lhe escapasse<br \/>\n    o Teod&oacute;sio. E como queria ter grande parte na gl&oacute;ria que resultasse<br \/>\n    da extin&ccedil;&atilde;o dos c&eacute;lebres assassinos, voltou sobre seus<br \/>\n    passos &agrave; estrada, e encaminhou-se ao povoado.<\/p>\n<p>Valentim era bravo como uma on&ccedil;a, e tinha deste animal a agilidade<br \/>\n    e a destreza no mais alto grau. Confiava, n&atilde;o s&oacute; nestes dotes<br \/>\n    naturais, mas tamb&eacute;m na sua espada de ponta direita que muitas vit&oacute;rias<br \/>\n    j&aacute; lhe havia proporcionado. Ele jogava com insigne habilidade esta<br \/>\n    arma.<\/p>\n<p>Pouco adiante ouviu vozes. Apressou os passos, e encontrou-se face a face<br \/>\n    com o Teod&oacute;sio, que, nada sabendo do que havia, demandava o couto.<\/p>\n<p>Com &iacute;mpeto de fera botou-se a ele, n&atilde;o para venc&ecirc;-lo<br \/>\n    mas para mat&aacute;-lo.<\/p>\n<p> O seu gracejo &eacute; pesado, camarada disse o Teod&oacute;sio, recuando<br \/>\n    ante a brutal investida.<\/p>\n<p> Valentim n&atilde;o graceja. Rende-te, cabra Teod&oacute;sio; ou ent&atilde;o<br \/>\n    reza o ato de contri&ccedil;&atilde;o, que esta &eacute; a tua derradeira.<\/p>\n<p> Se eu trouxesse a minha espada, n&atilde;o lhe enjeitada o bote. E se quer<br \/>\n    saber para quanto presta o cabra Teod&oacute;sio, embainhe o seu ferro, e<br \/>\n    vamos decidir da sorte pela faca.<\/p>\n<p> N&atilde;o estou para tuas parolas, cabra safado. Se n&atilde;o te entregas<br \/>\n    j&aacute; nas m&atilde;os do Valentim, que nunca escolheu armas para provar<br \/>\n    que &eacute; homem, tiro-te o couro antes do amanhecer.<\/p>\n<p>Teod&oacute;sio, vendo aquela decis&atilde;o ante a qual poucos &acirc;nimos,<br \/>\n    talvez unicamente o do Cabeleira, deixariam de curvar-se; e conquanto nos<br \/>\n    recursos do seu g&ecirc;nio astucioso que nunca o havia desamparado ainda<br \/>\n    nos maiores apertos, respondeu com voz mel&iacute;flua:<\/p>\n<p> N&atilde;o me mate, meu amo; o Teod&oacute;sio rende-se.<\/p>\n<p>No momento em que assim falava, o Valentim descarregou-lhe tamanha pranchada<br \/>\n    na cara, que ele caiu redondamente no ch&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando voltou a si, tinha nos pulsos enrodilhada uma corda de couro cru,<br \/>\n    em cuja ponta segurava o cabra.<\/p>\n<p> Levanta-te, que quero olhar para a tua cara disse-lhe Valentim fustigando<br \/>\n    o prisioneiro com a ponta da espada. Onde est&aacute; a tua fama, cabra Teod&oacute;sio<br \/>\n    ?<\/p>\n<p>Este n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p>S&uacute;bita tristeza invadira-lhe o esp&iacute;rito ordinariamente expansivo<br \/>\n    como o de uma crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>Tinha ouvido tiros na mata, e conhecido que a situa&ccedil;&atilde;o era<br \/>\n    mortal.<\/p>\n<h2><a name=\"12\">Cap&Iacute;tulo XII<\/a><\/h2>\n<p>Ao amanhecer a regi&atilde;o litoral da prov&iacute;ncia desde Alagoas at&eacute;<br \/>\n    Para&iacute;ba estava separada do sert&atilde;o por cord&atilde;o sanit&aacute;rio<br \/>\n    formado pelas mil&iacute;cias volantes dos diferentes distritos rurais.<\/p>\n<p>Todas as matas compreendidas na zona que fica entre a costa e o sert&atilde;o<br \/>\n    foram batidas ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Os piquetes que penetram nas de Serinha&eacute;m, &Aacute;gua Preta, Muribeca,<br \/>\n    Merueira, S. Louren&ccedil;o, Catuc&aacute;, Iguara&ccedil;u, Goiana, Pau<br \/>\n    d&#8217;Alho, Limoeiro, recolheram?se mais tarde &agrave;s respectivas sedes, depois<br \/>\n    de terem realizado importantes capturas.<\/p>\n<p>Assassinos de profiss&atilde;o e de fama, que, protegidos pelas trevas da<br \/>\n    noite e pelas sombras das selvas virgens, tinham horrorizado durante muitos<br \/>\n    anos as povoa&ccedil;&otilde;es pac&iacute;ficas, apareceram &agrave; luz<br \/>\n    do dia, trazendo nos pulsos cordas e algemas que bem denotavam que a justi&ccedil;a<br \/>\n    dos homens, reflexo ainda que p&aacute;lido da justi&ccedil;a de Deus, cedo<br \/>\n    ou tarde restaura os seus foros e faz?se respeitar como uma fatalidade reparadora.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o?mor de Santo Ant&atilde;o, justamente vangloriado por ver<br \/>\n    no seio de sua for&ccedil;a o Joaquim e o Teod&oacute;sio, cuja fama ofuscava<br \/>\n    a de todos os criminosos, com exce&ccedil;&atilde;o somente do Cabeleira,<br \/>\n    seguiu imediatamente, &agrave; frente dela, para o Recife a apresentar?se<br \/>\n    ao governador.<\/p>\n<p>No caminho de Afogados reuniu?se ela com a for&ccedil;a que, tendo aguardado<br \/>\n    nesse lugar aquele dia, designado para a geral batida das matas, se movera<br \/>\n    pela manh&atilde; em direitura &agrave;s que lhe ficavam nos limites ocidentais.<br \/>\n    As duas for&ccedil;as chegaram ao Recife formando uma s&oacute; expedi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que foi recebida pelos habitantes com inequ&iacute;vocas demonstra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de considera&ccedil;&atilde;o e reconhecimento pelo relevante servi&ccedil;o<br \/>\n    que haviam feito.<\/p>\n<p>Tantos eram os crimes cometidos pelo Cabeleira, e estes crimes haviam sido<br \/>\n    revestidos, na sua maior parte, de circunst&acirc;ncias t&atilde;o odiosas,<br \/>\n    que, quando se divulgou que o afamado bandido tinha escapado &agrave;s malhas<br \/>\n    da rede da justi&ccedil;a, mostras de justo pesar vieram substituir?se nos<br \/>\n    semblantes de todos &agrave; express&atilde;o do regozijo recente que havia<br \/>\n    manifestado a popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Com raras exce&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o se contava fam&iacute;lia, desde<br \/>\n    o Recife at&eacute; o alto sert&atilde;o, a quem a pela, a faca ou o bacamarte<br \/>\n    do terr&iacute;vel matador n&atilde;o houvesse roubado uma existencia querida.<\/p>\n<p>Por isso, era ele o alvo em que todos haviam posto a mira, e perd&ecirc;?lo<br \/>\n    montava perder a dilig&ecirc;ncia, ao parecer da maioria.<\/p>\n<p>Alguns, n&atilde;o sem raz&atilde;o, mostravam?se receosos de que, quando<br \/>\n    menos se esperasse, ele viesse for&ccedil;ar a cadeia do Recife onde tinham<br \/>\n    sido postos a ferro os novos presos, e restituindo?lhes a liberdade de que<br \/>\n    t&atilde;o mau uso haviam feito, se pusesse com eles novamente em campo para<br \/>\n    matar com maior ferocidade que dantes, roubar sem tr&eacute;guas, incendiar<br \/>\n    povoa&ccedil;&otilde;es, reduzir tudo a sangue, ossos e cinzas.<\/p>\n<p>O governador entretanto mal podia conter a. sua satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    diante do resultado das provid&ecirc;ncias que ele pr&oacute;prio havia indicado<br \/>\n    para a extin&ccedil;&atilde;o dos bandos dos criminosos que infestavam a prov&iacute;ncia.<br \/>\n    Ele conhecia melhor do que o povo e os figur&otilde;es da vila e da capital,<br \/>\n    as dificuldades, algumas delas invenc&iacute;veis, que se atravessam naturalmente<br \/>\n    diante de expedi&ccedil;&otilde;es semelhantes. Ele sabia que perseguir atrav&eacute;s<br \/>\n    do deserto, para reduzi?los &agrave; pris&atilde;o, homens que vivem como<br \/>\n    as feras, e com elas, no seio de escusas brenhas, de regi&otilde;es in&oacute;spitas<br \/>\n    e desconhecidas, &eacute; empresa para grandes &acirc;nimos, raros em todos<br \/>\n    os tempos e em todas as terras, m&aacute;xime naquelas terras em que, como<br \/>\n    em todo o Brasil ent&atilde;o, o importante servi&ccedil;o da pol&iacute;cia<br \/>\n    est&aacute; por ser organizado, &agrave; m&iacute;ngua de pessoal apto para<br \/>\n    isso, de recursos pecuni&aacute;rios, de vias de comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    interior, de pris&otilde;es e de outros muitos elementos indispens&aacute;veis<br \/>\n    a este grande mister.<\/p>\n<p>A cadeia, que por poucas altera&ccedil;&otilde;es passou h&aacute; poucos<br \/>\n    anos a fim de servir, como serve, para casa do j&uacute;ri e do tribunal da<br \/>\n    rela&ccedil;&atilde;o, tinha sido dada por pronta pelo coronel de engenheiros<br \/>\n    Costa Monteiro, &agrave; c&acirc;mara nos fins de 1732, e preenchia todas<br \/>\n    as condi&ccedil;&otilde;es de seguran&ccedil;a pela sua solidez. N&atilde;o<br \/>\n    obstante, ordenou o governador que a sua guarda fosse confiada a for&ccedil;as<br \/>\n    duplas que tornassem imposs&iacute;vel qualquer tentativa de invas&atilde;o<br \/>\n    ou de arrombamento. As vizinhan&ccedil;as ofereciam o aspecto de uma pra&ccedil;a<br \/>\n    de armas, principalmente dos lados do norte e leste onde a vigil&acirc;ncia<br \/>\n    nunca seria demasiada, por oferecer o rio destes lados f&aacute;cil e natural<br \/>\n    acesso ao edif&iacute;cio.<\/p>\n<p>As pessoas de sua intimidade que lhe manifestavam descontentamento por n&atilde;o<br \/>\n    ter sido preso o Cabeleira, respondia o governador:<\/p>\n<p> H&aacute; de chegar a sua vez. Confio muito em Crist&oacute;v&atilde;o de<br \/>\n    Holanda Cavalcanti que ainda n&atilde;o deixou de corresponder aos intuitos<br \/>\n    do governo sempre que se trata do proveito da col&ocirc;nia.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o de Holanda Cavalcanti, que trazia, como se v&ecirc;,<br \/>\n    o nome que seu pai, sargento das ordenan&ccedil;as, ilustrara por ocasi&atilde;o<br \/>\n    da memor&aacute;vel Guerra dos Mascates, era o capit&atilde;o?mor de Itamarac&aacute;,<br \/>\n    e achava?se a esse tempo em Goiana.<\/p>\n<p>Goiana pertencia ent&atilde;o &agrave; jurisdi&ccedil;&atilde;o de Itamarac&aacute;,<br \/>\n    que deixara de ser em 1763 capitania independente, por hav&ecirc;?la comprado<br \/>\n    d. Jo&atilde;o V a Jos&eacute; de G&oacute;is, para incorpor&aacute;?la na<br \/>\n    capitania de Pernambuco, vendida &agrave; coroa em 1716 pelo conde de Vimioso,<br \/>\n    d. Francisco de Portugal, &uacute;nico genro de Duarte de Albuquerque Coelho,<br \/>\n    4.&deg; donat&aacute;rio de Pernambuco.<\/p>\n<p>Era uma modesta povoa&ccedil;&atilde;o em 1636, quando os esfor&ccedil;os<br \/>\n    de Ant&ocirc;nio Filipe Camar&atilde;o que a defendeu com o valor que o caracterizava,<br \/>\n    n&atilde;o foram bastantes a tolher que ela ca&iacute;sse no poder dos holandeses,<br \/>\n    povo cheio de grandeza, e digno da admira&ccedil;&atilde;o e do reconhecimento<br \/>\n    dos pernambucanos. Tendo?se mudado em 1685 para esta povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a c&acirc;mara da capitania de Itamarac&aacute;, passou ela por este fato<br \/>\n    &agrave; categoria de vila. Em 1742 deu?lhe d. Jo&atilde;o V um ouvidor que<br \/>\n    foi substitu&iacute;do em 1808 por um juiz de fora. A sua crescente prosperidade<br \/>\n    foi parte para que pela lei provincial de 5 de maio de 1840 fosse elevada<br \/>\n    &agrave; cidade.<\/p>\n<p>De presente &eacute; Goiana a cidade pernambucana de mais nota, depois do<br \/>\n    Recife, a capital, e de Olinda que figurou, com brilho e bizarria inexced&iacute;veis<br \/>\n    nos tempos coloniais.<\/p>\n<p>Est&aacute; em condi&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o s&oacute; de competir<br \/>\n    com as primeiras cidades interiores do norte e do sul do Imp&eacute;rio, e<br \/>\n    de se avantajar &agrave;s capitais de algumas prov&iacute;ncias que, por motivos<br \/>\n    de alta conveni&ecirc;ncia deixamos de apontar aqui, mas at&eacute; de rivalizar<br \/>\n    com algumas cidades europ&eacute;ias de que n&atilde;o pouco se fala nas narra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de viagens.<\/p>\n<p>E se n&atilde;o, vejamos.<\/p>\n<p>Tem um pa&ccedil;o municipal muito decente na rua Direita, e uma matriz e<br \/>\n    mais oito templos que podem pertencer sem desaire a uma capital. Tem uma pra&ccedil;a<br \/>\n    de com&eacute;rcio, a qual se estende desde a rua chamada Portas de Roma (denomina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do tempo dos jesu&iacute;tas) at&eacute; ao Beco do Pav&atilde;o, para n&atilde;o<br \/>\n    dizermos at&eacute; &agrave; rua do Meio, ou &agrave; rua do Rio.<\/p>\n<p>Tem um teatro onde j&aacute; tive ocasi&atilde;o de ver representar?se o<br \/>\n    &quot;D. C&eacute;sar de Bazar&quot;, os &quot;Dois Renegados&quot;, a &quot;Corda<br \/>\n    Sens&iacute;vel&quot; e o &quot;Judas em S&aacute;bado de Aleluia&quot;.<\/p>\n<p>Tem caf&eacute;s e bilhares, brinca o Carnaval pelo inverno, toma sorvetes<br \/>\n    pelo ver&atilde;o, d&aacute; alguns saraus pelo Natal; enfim, para estar inteiramente<br \/>\n    na moda, trata de iluminar?se a g&aacute;s, de fundar uma biblioteca popular,<br \/>\n    e tem j&aacute; fundada uma loja ma&ccedil;&ocirc;nica, denominada Fraternidade<br \/>\n    e Progresso, a qual tem prosperado notavelmente depois das &uacute;ltimas<br \/>\n    excomunh&otilde;es que o p&uacute;blico sabe.<\/p>\n<p>&Eacute; uma cidade onde se pode viver com poucos meios, porque os habitantes<br \/>\n    s&atilde;o hospitaleiros, os senhores de engenho fazem pingues presentes,<br \/>\n    os negociantes vendem fiado e n&atilde;o executam os devedores.<\/p>\n<p>&Eacute; plana, limpa, elegante e espalhada. Dela n&atilde;o poderia dizer<br \/>\n    Amp&egrave;re o que disse de Goteborg, cidade da Su&eacute;cia que tanto o<br \/>\n    encantou de tarde com suas casas altas e regulares, quando o desiludiu pela<br \/>\n    manh&atilde; sendo vista da torre da catedral, por n&atilde;o ser mais do<br \/>\n    que uma rua.<\/p>\n<p>Goiana, n&atilde;o s&oacute; tem muitas ruas, mas tamb&eacute;m muitos becos,<br \/>\n    verdade seja que alguns deles sem sa&iacute;da. Merecem particular apontamento<br \/>\n    as suas casas brancas que lhe d&atilde;o certos ares de novidade, ou de noivado,<br \/>\n    ares que infundem indefin&iacute;vel alegria no esp&iacute;rito do h&oacute;spede.<br \/>\n    Se este &eacute; lido, entrando em Goiana, logo sabe que n&atilde;o entrou<br \/>\n    por engano em Saint Jean de Luz, ilustre cidade onde se celebrou por procura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o casamento de Lu&iacute;s XIV com Maria Teresa de Espanha, e que, ao dizer<br \/>\n    de um escritor, apresenta uma fisionomia sanguin&aacute;ria e b&aacute;rbara,<br \/>\n    em conseq&uuml;&ecirc;ncia do extravagante uso de pintarem de vermelho antigo<br \/>\n    os batentes, as portas, as gelosias das suas habita&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>H&aacute; um prov&eacute;rbio espanhol que diz:<\/p>\n<p>Quien no ha visto Sevilla No ha visto maravilha.<\/p>\n<p>Te&oacute;filo Gautier pensa que mais justo fora que este prov&eacute;rbio<br \/>\n    se aplicasse a Toledo, ou a Granada, do que a Sevilha, onde nada encontrou<br \/>\n    particularmente maravilhoso, exceto a catedral.<\/p>\n<p>O poeta sergipano, doutor Pedro de Calasans, que cedo foi arrebatado pelo<br \/>\n    infort&uacute;nio e pela fatalidade &agrave;s musas do norte, dizia outrora,<br \/>\n    parodiando o prov&eacute;rbio espanhol:<\/p>\n<p>Quem n&atilde;o ama Olinda, N&atilde;o a viu ainda.<\/p>\n<p>Assim ser&aacute;, assim &eacute;. Olinda semelha n&aacute;iade gentil que<br \/>\n    adormeceu sobre arrelvado morro os p&eacute;s banhados pelo Atl&acirc;ntico,<br \/>\n    a cabe&ccedil;a &agrave; sombra das mangueiras odor&iacute;feras.<\/p>\n<p>Goiana, por&eacute;m, tem tamb&eacute;m prov&eacute;rbio seu, e o seu prov&eacute;rbio<br \/>\n    &eacute; de tal significa&ccedil;&atilde;o, que, na singeleza em que se expressa,<br \/>\n    e de que o povo tem o segredo, insinua irresist&iacute;veis feiti&ccedil;os<br \/>\n    a favor dela.<\/p>\n<p>V&ecirc; tu, meu amigo, como s&atilde;o expressivas estas retic&ecirc;ncias<br \/>\n    duvidosas, amb&iacute;guas, deliciosamente traidoras: Goiana&hellip;&hellip;&hellip;&hellip;&hellip;&hellip;.<br \/>\n    Que a todos engana.<\/p>\n<p>Eu n&atilde;o conhe&ccedil;o nenhum t&atilde;o expressivo na ordem dos rif&otilde;es<br \/>\n    populares.<\/p>\n<p>O voc&aacute;bulo enganar n&atilde;o tem nos nossos dicion&aacute;rios o<br \/>\n    sentido que a intelig&ecirc;ncia rica e l&uacute;cida do povo goianista lhe<br \/>\n    refere; tem somente a acep&ccedil;&atilde;o ingrata que todos lhe sabemos.<\/p>\n<p>Mas logo ao primeiro exame se v&ecirc; que semelhante acep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; muito distante da que a imagina&ccedil;&atilde;o deste grande<br \/>\n    povo liga ao sobredito verbo, quando emprega para exaltar o seu torr&atilde;o<br \/>\n    natal.<\/p>\n<p>A palavra enganar, que faz parte do rif&atilde;o, significa seduzir, cativar,<br \/>\n    prender, mas seduzir com mil agrados irre<\/p>\n<p>sist&iacute;veis; cativar com benignidade t&atilde;o doce e fagueira, que<br \/>\n    &eacute; imposs&iacute;vel deixar de ficar dela escravo; prender com tantas<br \/>\n    demonstra&ccedil;&otilde;es afetuosas, com tamanha benqueren&ccedil;a, que<br \/>\n    em vez de buscar fugir, cada vez se sente o prisioneiro mais dese joso de<br \/>\n    estar nessa suav&iacute;ssima pris&atilde;o, de n&atilde;o se desligar jamais<br \/>\n    dos seus deliciosos grilh&otilde;es.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o de Holanda dirigira em pessoa, como haviam feito<br \/>\n    todos os outros capit&atilde;es?mores, o seu contingente na batida das matas<br \/>\n    do seu distrito.<\/p>\n<p>N&atilde;o tendo por&eacute;m encontrado o Cabeleira, mas somente ladr&otilde;es<br \/>\n    de cavalos e negros fugidos, recolheu?se &agrave; vila em paz com&#8217; a sua consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    &eacute; verdade, mas descontente de n&atilde;o ver coroados dos brilhantes<br \/>\n    sucessos, que esperava, os seus esfor&ccedil;os.<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe custou pouco renunciar ao empenho de p&ocirc;r nas cordas,<br \/>\n    como dizia ele, o maior facinoroso que pisava em Pernambuco.<\/p>\n<p>Era presun&ccedil;&atilde;o geral que a ele caberia, mais dia menos dia,<br \/>\n    a gl&oacute;ria de prender o Cabeleira que dava mostras de consagrar particular<br \/>\n    estima&ccedil;&atilde;o &agrave;s matas de Goit&aacute;, lugar em que nascera<br \/>\n    e que, posto pertencia neste tempo a Santo Ant&atilde;o, ficava mais pr&oacute;ximo<br \/>\n    do engenho Petribu que era propriedade daquele capit&atilde;o?mor; e pertencia<br \/>\n    ent&atilde;o a Goiana.<\/p>\n<p>Mas o boato falso que correu a respeito da pris&atilde;o do bandido pelo<br \/>\n    capit&atilde;o?mor de Santo Ant&atilde;o, desvaneceu toda a esperan&ccedil;a<br \/>\n    que Crist&oacute;v&atilde;o de Holanda alimentava a semelhante respeito.<\/p>\n<p>E que era feito do Cabeleira ?<\/p>\n<p>Por onde andava ele quando seu nome corria por milhares de bocas um milh&atilde;o<br \/>\n    de vezes no dia; quando sua imagem enchia o pensamento de um povo que o considerava<br \/>\n    um flagelo n&atilde;o menos fatal do que a peste e a fome que o reduziam &agrave;<br \/>\n    dor extrema?<\/p>\n<p>Dizia?se que o Cabeleira, vendo?se perseguido t&atilde;o estendidamente,<br \/>\n    tinha rompido, sem deixar tra&ccedil;os da sua passagem como costumava, o<br \/>\n    cord&atilde;o sanit&aacute;rio, e se havia internado nos sert&otilde;es de<br \/>\n    Cimbres, ou de Paje&uacute;, donde era imposs&iacute;vel desentranh&aacute;?lo<br \/>\n    por serem ent&atilde;o, como s&atilde;o ainda hoje, quase de todo desconhecidos<br \/>\n    esses medonhos sert&otilde;es.<\/p>\n<p>Dizia?se que, tomando para o norte, atravessara o Capibaribe e ganhara a<br \/>\n    ribeira do Pilar do Taipu, na Para&iacute;ba, a qual muitas vezes percorrera,<br \/>\n    tendo?a deixado coberta de cad&aacute;veres e ru&iacute;nas.<\/p>\n<p>Correram estes boatos e outros mais que com estes se pareciam.<\/p>\n<p>O certo por&eacute;m &eacute; que ningu&eacute;m sabia do Cabeleira, ente<br \/>\n    incompreens&iacute;vel que surgia de s&uacute;bito da terra sem ser esperado,<br \/>\n    e pela mesma forma desaparecia, como se se metesse por ela adentro, por partes<br \/>\n    do demo, segundo alguns acreditavam, ou por ter em toda a parte parciais,<br \/>\n    ou protetores, segundo pensavam outros que se diziam melhor informados do<br \/>\n    que os primeiros.<\/p>\n<h2><a name=\"13\">Cap&Iacute;tulo XIII<\/a><\/h2>\n<p>O Cabeleira entretanto atravessava matos, riachos e tabuleiros por novos<br \/>\n    caminhos que, infatig&aacute;vel e ousado, ia abrindo, em direitura ao lugar<br \/>\n    do seu nascimento.<\/p>\n<p>Sentia-se atra&iacute;do para esse lugar por uma saudade infinda, por uma<br \/>\n    confian&ccedil;a enganosa e fatal.<\/p>\n<p>Parecia-lhe que ningu&eacute;m, nem a justi&ccedil;a dos homens nem a de<br \/>\n    Deus, na qual desde os mais verdes anos o tinham ensinado a n&atilde;o acreditar,<br \/>\n    teriam poder para arranc&aacute;-lo desses sombrios e protetores esconderijos,<br \/>\n    dessas grutas insond&aacute;veis, perpetuamente abertas &agrave;s on&ccedil;as<br \/>\n    e a ele, perpetuamente fechadas ao restante dos animais e dos homens que n&atilde;o<br \/>\n    se animavam a transpor-lhes o escuro limiar com receio de ficarem sepultados<br \/>\n    para sempre em t&atilde;o medonhos sarc&oacute;fagos.<\/p>\n<p>Tendo-se afastado do p&eacute; da mata onde haviam sido vencidos e capturados<br \/>\n    em seus redutos os outros malfeitores, descreveu uma obl&iacute;qua de cerca<br \/>\n    de uma l&eacute;gua no rumo do ocidente e desceu depois a uma distancia donde<br \/>\n    pudesse ter debaixo das vistas o Tapacur&aacute;, que lhe servia de guia atrav&eacute;s<br \/>\n    do sert&atilde;o.<\/p>\n<p>Estava em pleno deserto. Do lado direito protegiam-no estendidos tabocais<br \/>\n    e profundas gargantas de serra inacess&iacute;veis, sem habita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sem viva alma; do outro lado do rio um espinhal basto, alguns serrotes escalvados,<br \/>\n    catingas sem fim, brejos combustos do calor do sol completavam o largo amparo<br \/>\n    que lhe abria em seu seio a natureza.<\/p>\n<p>Com a seca abrasadora essa regi&atilde;o, que nunca fora amena, ainda na<br \/>\n    forca do verde, estava in&oacute;spita, &aacute;rida, cruel.<\/p>\n<p>Via-se a espa&ccedil;os um p&eacute; de xiquexique perdido nos alvos tabuleiros,<br \/>\n    ou entre serros alcantilados, e junto do rio uma ingazeira com a folhagem<br \/>\n    coberta de samambaia, um juazeiro solit&aacute;rio e sem fruto.<\/p>\n<p>Seria meio dia.<\/p>\n<p>Bem que o Cabeleira pelo longo h&aacute;bito de jornadear por dentro dos<br \/>\n    matos, e pelo cuidado que tinha de escusar importunos encontros, s&oacute;<br \/>\n    &agrave; sombra das &aacute;rvores fazia a travessa do deserto; contudo entraram<br \/>\n    ele e Lu&iacute;sa a experimentar o cansa&ccedil;o que o excessivo calor gera<br \/>\n    m&aacute;xime durante uma viagem de muitas horas.<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa mal se podia ter sobre o cavalo, que nem ao menos oferecia o<br \/>\n    c&ocirc;modo de uma regular montaria. A marcha do pobre animal tanto mais<br \/>\n    penosa tornava para os fugitivos quanto as for&ccedil;as lhe iam faltando<br \/>\n    em conseq&uuml;&ecirc;ncia do longo jejum, e da puxada viagem.<\/p>\n<p>Desde muito tempo afeito a viver no deserto, tinha o Cabeleira adquirido<br \/>\n    uma virtude s&oacute;bria, obra de longas priva&ccedil;&otilde;es, e fonte<br \/>\n    de admir&aacute;vel hero&iacute;smo; n&atilde;o assim Lu&iacute;sa, pobre<br \/>\n    menina, criada com grande afeto, e maternal solicitude.<\/p>\n<p>N&atilde;o tivera ela uma exist&ecirc;ncia de gozos e grandezas, mas nunca<br \/>\n    lhe faltaram os c&ocirc;modos que assegura a vida regrada da fam&iacute;lia,<br \/>\n    que, embora pobre, encontra no trabalho e na economia recursos folgados para<br \/>\n    todas as necessidades at&eacute; alguns confortos. A sombra de um jatob&aacute;<br \/>\n    o Cabeleira parou, e, lan&ccedil;ando o olhar por toda a natureza, que os<br \/>\n    abra&ccedil;ava como a imensidade abra&ccedil;a um ponto:<\/p>\n<p> Estamos fora de perigo disse para Lu&iacute;sa.<\/p>\n<p>Esta chorava em sil&ecirc;ncio. Em seu rosto abatido, mas sempre belo transparecia<br \/>\n    a m&aacute;goa profunda que lhe minava o cora&ccedil;&atilde;o, onde se refletia<br \/>\n    a viva lembran&ccedil;a das cenas da noite anterior.<\/p>\n<p> De que chora, Luisinha ? perguntou-lhe o bandido com do&ccedil;ura.<\/p>\n<p>S&oacute; com a mudez e as l&aacute;grimas lhe respondeu a mo&ccedil;a, em<br \/>\n    cujo esp&iacute;rito se haviam concentrado todas as sombras da tristeza, sombras<br \/>\n    espessas em que o sol a pino n&atilde;o pode lan&ccedil;ar um raio de luz<br \/>\n    sequer.<\/p>\n<p> Est&aacute; cansada, n&atilde;o &eacute;, meu amor? perguntou o Cabeleira.<br \/>\n    Estou para morrer. Sinto uma pena imensa no cora&ccedil;&atilde;o, e dores<br \/>\n    insuport&aacute;veis na cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> N&atilde;o me queira mal, Luisinha, por eu ter sido a causa de todo este<br \/>\n    destro&ccedil;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o lhe quero mal; quero-lhe bem, muito bem, Cabeleira. Mas n&atilde;o<br \/>\n    posso esquecer-me de minha m&atilde;e, nem poderei resistir &agrave; minha<br \/>\n    desgra&ccedil;a, que eu considero muito maior do que a sua.<\/p>\n<p> Descansemos um pouco &agrave; sombra deste jatob&aacute;. Terei tempo de<br \/>\n    procurar algumas frutas para voc&ecirc; comer.<\/p>\n<p> N&atilde;o tenho fome, s&oacute; tenho sede.<\/p>\n<p> Vamos ent&atilde;o arranchar-nos debaixo daquela ingazeira, que fica a poucos<br \/>\n    passos do rio.<\/p>\n<p>Tendo-se apeado ao p&eacute; da &aacute;rvore indicada, o Cabeleira peou<br \/>\n    o cavalo em uma baixa que formava a margem, da qual n&atilde;o havia desaparecido<br \/>\n    de todo a grama nascida com o &uacute;ltimo inverno; e sem demora desceu ao<br \/>\n    po&ccedil;o cont&iacute;guo para apanhar &aacute;gua em uma casca de sapucaia<br \/>\n    que descobriu por acaso entre umas folhas secas.<\/p>\n<p>Notou que quanto mais se estendia a depress&atilde;o do terreno para o lado<br \/>\n    do rio, mais aumentava a verdura que a revestia. Conheceu por fim que havia<br \/>\n    dado em uma vazante.<\/p>\n<p>Semelhante achado pareceu-lhe coisa extraordin&aacute;ria naquelas alturas<br \/>\n    &iacute;nvias e desertas. Mas n&atilde;o se tinha enganado; a regi&atilde;o<br \/>\n    que se lhe oferecia &agrave; vista n&atilde;o era de todo desabitada; ali<br \/>\n    brilhavam vest&iacute;gios da m&atilde;o do homem; ali havia o cunho de um<br \/>\n    esfor&ccedil;o de que ele nunca fora capaz, o cunho do trabalho.<\/p>\n<p>Era pequena a planta&ccedil;&atilde;o, mas tida, ao que parecia, em alta<br \/>\n    conta por quem quer lhe consagrava os seus cuidados e vigil&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Estava verde, limpa, matizada de frutos. Com os ramos do jerimunzeiro se<br \/>\n    confundiam as folhas lanceoladas do batateiral. Ao lado da melancia lourejava<br \/>\n    o mel&atilde;o, de que recendia suave cheiro; e dentre o entretecido de verdura<br \/>\n    formado pelo conjunto dos ramos rasteiros em que se achavam presos estes deliciosos<br \/>\n    presentes da terra, levantavam-se ao c&eacute;u, de covas eq&uuml;idistantes,<br \/>\n    os p&eacute;s de milho com seus pend&otilde;es inclinados e suas corpulentas<br \/>\n    espigas, em torno das quais se esparziam os fulvos cabelos que costumavam<br \/>\n    adornar estes aben&ccedil;oados frutos.<\/p>\n<p>&Eacute; indescrit&iacute;vel o prazer que sentiu o bandido ao deparar com<br \/>\n    aquele tesouro.<\/p>\n<p>Tinha a seu alcance com que matar a fome, cujos efeitos come&ccedil;ava a<br \/>\n    sentir, tinha um presente que oferecer &agrave; sua companheira, extenuada<br \/>\n    de fadiga.<\/p>\n<p>Separar do p&eacute; com a faca, duas melancias, e quebrar algumas espigas<br \/>\n    foram opera&ccedil;&otilde;es que o Cabeleira praticou em menos de um minuto.<br \/>\n    O estalar do milho despertou um rapazito, que, achando-se ali para enxotar<br \/>\n    as maracan&atilde;s que destroem os milharais, adormecera ao calor do meio<br \/>\n    dia na extremidade da vazante debaixo de uma latada formada pelos ramos de<br \/>\n    um p&eacute; de maracuj&aacute; que, com a frescura do solo, se mostrava verdejante<br \/>\n    e florido.<\/p>\n<p> Ladr&atilde;o ! Ladr&atilde;o ! gritou o rapazito com valor e for&ccedil;a<br \/>\n    superiores aos que o seu corpo e estatura prometiam.<\/p>\n<p>E armado com um pau, investiu contra o Cabeleira, que a inesperada apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deixara um instante perplexo com parte do furto em uma m&atilde;o, e a faca<br \/>\n    nua na outra.<\/p>\n<p>O rapaz ganhou em poucos passos a dist&acirc;ncia que o separava do bandido,<br \/>\n    e descarregou sobre a cabe&ccedil;a deste, sem dizer tir-te nem guar-te, o<br \/>\n    pau que trazia al&ccedil;ado. O Cabeleira em repres&aacute;lia atirou-lhe<br \/>\n    um golpe com o intuito de cort&aacute;-lo de meio a meio, intuito que foi<br \/>\n    burlado por Lu&iacute;sa que-lhe havia pegado do bra&ccedil;o a tempo de evitar<br \/>\n    a desgra&ccedil;a iminente.<\/p>\n<p> Cabeleira ! Queria fazer uma morte ainda ? Meu Deus, abrandai-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Luisinha, eu n&atilde;o sei bem o que queria fazer disse o mo&ccedil;o caindo<br \/>\n    em si. Mas este dorminhoco deu-me com o seu graveto como se eu fosse algum<br \/>\n    pinto.<\/p>\n<p> Quero-lhe muito bem, meu amor acrescentou a mo&ccedil;a com a profunda ternura<br \/>\n    que, quando verdadeiramente quer e sente o que quer, a mulher sabe ter no<br \/>\n    olhar, no gesto, na voz. Mas quando o vejo como agora de arma em punho, amea&ccedil;ando<br \/>\n    com certeiros quais s&atilde;o os seus, a vida de algu&eacute;m, sinto t&atilde;o<br \/>\n    grande dor, que voc&ecirc; n&atilde;o pode compreender o meu padecimento.<\/p>\n<p>Cabeleira inclinou os olhos ao ch&atilde;o, meteu a faca na bainha e deu<br \/>\n    a andar com os frutos debaixo do bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> Para que traz voc&ecirc; estes frutos consigo ? perguntoulhe Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Eles n&atilde;o nos pertencem, e n&atilde;o podemos apossarnos, contra a vontade<br \/>\n    de seu dono, daquilo que n&atilde;o &eacute; nosso.<\/p>\n<p> Que vamos comer ? perguntou muito naturalmente o mancebo.<\/p>\n<p> Comeremos o que nos der o mato. Deus est&aacute; em toda parte, e n&atilde;o<br \/>\n    se esquece dos que invocam a sua prote&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Cabeleira submisso e humildemente dep&ocirc;s as frutas no ch&atilde;o sem<br \/>\n    mais reparo. Quanto ao rapazito, guarda da vazante, havia desaparecido desde<br \/>\n    que ouvira pronunciar o nome, que de sul a norte significava, para grandes<br \/>\n    e pequenos, roubo e atrocidade.<\/p>\n<p>Nova surpresa os esperava na margem, onde o bandido foi dar com dois indiv&iacute;duos<br \/>\n    que de p&eacute; o olhavam do alto de uma pedra, tendo um deles pelo cabresto<br \/>\n    o &aacute;rdego alaz&atilde;o, j&aacute; livre da peia com que o atirara ao<br \/>\n    campo o Cabeleira.<\/p>\n<p>Defronte da &aacute;rvore, a cuja sombra os fugitivos haviam descansado,<br \/>\n    formava o terreno uma grande ribanceira.<\/p>\n<p>Os desconhecidos estavam a&iacute; com a frente voltada para a vazante, o<br \/>\n    lado direito para o continente, e o esquerdo para o rio, que nessa altura<br \/>\n    era largo e profundo.<\/p>\n<p> Parece que voc&ecirc; veio enganado, camarada disse o Cabeleira, saltando<br \/>\n    em um minuto aos p&eacute;s daquele que tinha pela m&atilde;o o cavalo. Este<br \/>\n    animal n&atilde;o lhe pertence.<\/p>\n<p> Este animal &eacute; meu no c&eacute;u e na terra. H&aacute; dois dias o<br \/>\n    furtaram do meu ro&ccedil;ado no Angico Torto. Pus-me na batida do ladr&atilde;o,<br \/>\n    e finalmente vim dar com o meu cavalo. Ele &eacute; meu, t&atilde;o certo<br \/>\n    como estou aqui. Tem o meu ferro na anca direita, e voc&ecirc; o pode ver,<br \/>\n    se ainda n&atilde;o se quis dar a esse trabalho.<\/p>\n<p> Pois o que eu lhe digo, camarada, &eacute; que fosse ele de quem fosse,<br \/>\n    por mais homem que seja, ningu&eacute;m ser&aacute; capaz de tir&aacute;-lo<br \/>\n    do meu poder.<\/p>\n<p> Isto agora &eacute; que havemos de ver disse o desconhecido, batendo m&atilde;o<br \/>\n    da faca que trazia no c&oacute;s da ceroula e fazendo-se prestes para lutar<br \/>\n    pela reivindica&ccedil;&atilde;o da sua propriedade.<\/p>\n<p> Monta no teu cavalo, Marcolino gritou o outro desconhecido ao companheiro;<br \/>\n    monta no teu cavalo e vai-te embora, que eu s&oacute; sou demais para lamber<br \/>\n    este cabra.<\/p>\n<p>Ainda bem n&atilde;o tinha acabado, quando cortava os ares um corpo semelhante<br \/>\n    a tronco de &aacute;rvore que o furac&atilde;o arrebata &agrave;s florestas<br \/>\n    e arroja a distancias incomensur&aacute;veis. O fanfarr&atilde;o fora jogado<br \/>\n    com todos seus b&eacute;licos aprestos dentro do po&ccedil;o pelas m&atilde;os<br \/>\n    possantes do famoso matador.<\/p>\n<p> Cabeleira ! gritou Lu&iacute;sa, correndo ao lugar onde em menos de um instante<br \/>\n    se passara a inesperada cena.<\/p>\n<p>Marcolino, que a esse tempo se achava montado no alaz&atilde;o, tendo ouvido<br \/>\n    este fatal apelido, deu de pernas ao cavalo e fugiu evidentemente aterrado<br \/>\n    como se a seus p&eacute;s houvesse visto cair um raio.<\/p>\n<p>O Cabeleira, entretanto, tinha corrido ao p&eacute; da ingazeira onde havia<br \/>\n    deixado o bacamarte quando se apeara. Mas n&atilde;o logrou lev&aacute;-lo<br \/>\n    ao rosto para dispar&aacute;-lo como pretendia, contra o fugitivo, porque<br \/>\n    Lu&iacute;sa, unindo-se com ele, e buscando arrancar-lhe a arma das m&atilde;os,<br \/>\n    lhe disse com voz magoada, entre exprobra&ccedil;&atilde;o e pranto:<\/p>\n<p> Por que n&atilde;o me tira a vida de uma s&oacute; vez, Cabeleira ?<\/p>\n<p>Diria que Lu&iacute;sa estava possu&iacute;da de um esp&iacute;rito ang&eacute;lico.<\/p>\n<p> De ontem para c&aacute; prosseguiu ela tem jurado milhares de vezes n&atilde;o<br \/>\n    derramar mais sangue sobre a terra, e milhares de vezes tem quebrado seus<br \/>\n    juramentos ! Sempre que falta &agrave; sua palavra, atravessa sem o suspeitar<br \/>\n    o meu cora&ccedil;&atilde;o com sua faca. N&atilde;o demore mais o meu penar,<br \/>\n    mate-me de uma vez. Perd&ocirc;o-lhe a morte, por Deus lhe juro, por Deus<br \/>\n    que nos est&aacute; ouvindo no meio desta solid&atilde;o.<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa tinha-se insensivelmente ajoelhado aos pesdo bandido, e lhe<br \/>\n    abra&ccedil;ava as pernas com mostras de irrepreens&iacute;vel afeto. Dos<br \/>\n    olhos rolavam-lhe l&aacute;grimas como contas de ros&aacute;rio espeda&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Est&aacute;tico, e confuso, n&atilde;o achou Jos&eacute; palavras para responder<br \/>\n    &agrave; exprobra&ccedil;&atilde;o e rogativas que aquele cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    generoso ditava inspirado pela piedade de uma alma grande e terna.<\/p>\n<p> N&atilde;o me fale assim, Luisinha respondeu enfim o bandido, levantando-a<br \/>\n    e abra&ccedil;ando-a.Quando eu a vejo chorar, sinto-me enfraquecer; quando<br \/>\n    voc&ecirc; me pede alguma coisa, sou incapaz de negar-lhe, ou de resistir<br \/>\n    &agrave; sua vontade.<\/p>\n<p> Mas de que serve o que me diz, se n&atilde;o se esquece da sua vida t&atilde;o<br \/>\n    triste e infeliz ? Cabeleira, por que n&atilde;o se h&aacute; de tornar brando<br \/>\n    e terno como Lu&iacute;sa ? Olhe. A morte est&aacute; mais perto de mim do<br \/>\n    que&#8230;<\/p>\n<p> A morte ! exclamou o bandido.<\/p>\n<p> Sim; dentro em pouco eu o deixarei, mas enquanto n&atilde;o nos separarmos,<br \/>\n    poupe-me estas cenas que me transpassam o cora&ccedil;&atilde;o. Quando eu<br \/>\n    desaparecer de seus olhos, n&atilde;o se considere s&oacute; no mundo. No<br \/>\n    lugar que meu corpo deixar vazio ao p&eacute; de si, h&aacute; de ver sempre<br \/>\n    a alma ben&eacute;vola da pobre Lu&iacute;sa; ela o acompanhar&aacute; por<br \/>\n    toda parte para inspirar-lhe os bons pensamentos e aconselhar-lhe a pr&aacute;tica<br \/>\n    das boas a&ccedil;&otilde;es. Por que n&atilde;o me d&aacute; consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de reconhecer em voc&ecirc; desde j&aacute; um esp&iacute;rito arrependido<br \/>\n    dos passados erros ?<\/p>\n<p> Ah! Luisinha! Voc&ecirc; me abranda com suas palavras, em sua presen&ccedil;a<br \/>\n    eu me considero uma crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> &Eacute; Deus que me ajuda a quebrar seus &iacute;mpetos, a moderar sua<br \/>\n    c&oacute;lera. Ele h&aacute; de ouvir todos meus rogos, h&aacute; de inspirar-lhe<br \/>\n    horror ao sangue e aos instrumentos que o derramam.<\/p>\n<p>Cabeleira, como se tivesse recebido nestas palavras aviso celeste, replicou:<\/p>\n<p> N&atilde;o levantarei mais minha m&atilde;o contra ningu&eacute;m, Luisinha.<br \/>\n    Quer uma prova desta resolu&ccedil;&atilde;o ? Veja. &Eacute; a maior que<br \/>\n    lhe posso dar.<\/p>\n<p>Tirou o fuzil e a pedra do bacamarte, os quais meteu na algibeira da v&eacute;stia.<\/p>\n<p>E por um desses sublimes impulsos que s&oacute; visitam o ho mem uma vez<br \/>\n    na vida, arremessou a arma dentro do rio. Este ato foi seguido de outro que<br \/>\n    o completou e confirmou. Batendo com a faca sobre uma pedra que ficava na<br \/>\n    ribanceira, fez saltar dentro da &aacute;gua metade da folha de a&ccedil;o<br \/>\n    que tinha cortado o fio de muitas vidas preciosas, e feito correr muito sangue<br \/>\n    inocente sobre a terra.<\/p>\n<p>O bandido obrou estas duas a&ccedil;&otilde;es com tanta f&eacute; e grandeza<br \/>\n    d&#8217;alma, que Lu&iacute;sa correu a ele dominada de peregrina como&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e o apertou em seus bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>S&oacute; o deserto foi testemunha desta grande cena, porque eles estavam,<br \/>\n    como havia poucos, s&oacute;s.<\/p>\n<p>O menino que guardava a vazante havia desaparecido logo que ouvira pronunciar<br \/>\n    o nome do Cabeleira.<\/p>\n<p>Os dois desconhecidos, um salvo das &aacute;guas, outro salvo do tiro iminente,<br \/>\n    tinham corrido a refugiar-se no seio da espessura.<\/p>\n<p>E agora, Luisinha, ter&aacute; ainda alguma coisa que dizer de mim ? perguntou<br \/>\n    Jos&eacute; com ingenuidade infantil.<\/p>\n<p> Os meus rogos foram ouvidos por aquele que dali nos v&ecirc; e ouve como<br \/>\n    pai misericordioso. O medo que eu tenho agora &eacute; que as tropas o peguem<br \/>\n    e o roubem de meus bra&ccedil;os ! Oh ! fujamos j&aacute; deste lugar. Quem<br \/>\n    sabe se aqueles homens n&atilde;o correram a denunci&aacute;-lo ! Miseric&oacute;rdia,<br \/>\n    meu Deus ! Que fazemos ainda aqui ?<\/p>\n<p>Puseram-se no mesmo instante a caminho na dire&ccedil;&atilde;o do ocidente.<\/p>\n<h2><a name=\"14\">Cap&iacute;tulo XIV<\/a><\/h2>\n<p>O sol chegou ao horizonte, e as sombras come&ccedil;aram a vasta solid&atilde;o.<\/p>\n<p>O Cabeleira parou ao p&eacute; de um serrote, e escutou.<\/p>\n<p>Um ru&iacute;do estranho vencia a distancia e vinha ecoar aos ouvidos dos<br \/>\n    fugitivos.<\/p>\n<p> Estamos perto disse ele. N&atilde;o houves este barulho? S&atilde;o as &aacute;guas<br \/>\n    do Tapacur&aacute; que caem no Capibaribe. De madrugada atravessaremos este<br \/>\n    rio, e se bem andarmos poderemos estar depois de amanh&atilde; a esta hora<br \/>\n    em Goit&aacute;, terra do Cabeleira.<\/p>\n<p> Ai ! disse a mo&ccedil;a. N&atilde;o posso mais.<\/p>\n<p>Tinha as faces em brasa, e os olhos, injetados, acusavam a febre ardente<br \/>\n    que a consumia desde a noite anterior.<\/p>\n<p> N&atilde;o esmore&ccedil;as, meu bem disse o mancebo. Havemos de ser felizes.<\/p>\n<p> Onde ? Neste mundo ? perguntou ela com incredulidade. Na terra n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; felicidade, Cabeleira; na terra s&oacute; h&aacute; dores e prantos,<br \/>\n    saudades e remorsos.<\/p>\n<p> Pois eu te mostrarei que se pode ser feliz no deserto, no fundo das brenhas.<br \/>\n    N&atilde;o matarei mais a ningu&eacute;m, meu amor. Bem dentro da mata virgem,<br \/>\n    em um lugar que s&oacute; eu conhe&ccedil;o, h&aacute; um olho d&#8217;&aacute;gua,<br \/>\n    que nunca deixou de correr. Junto deste olho d&#8217;&aacute;gua h&aacute; uma ch&atilde;,<br \/>\n    no fim da ch&atilde; um bosque, e por detr&aacute;s do bosque uma montanha<br \/>\n    imensa que rompe as nuvens. O olho d&#8217;&aacute;gua nos matar&aacute; a sede<br \/>\n    todo o ano, na ch&atilde; levantarei uma casinha de palha para n&oacute;s;<br \/>\n    no meio do bosque abrirei um ro&ccedil;ado que nos h&aacute; de dar farinha,<br \/>\n    macaxera, feij&atilde;o e milho com abund&acirc;ncia; e quando a seca for<br \/>\n    muito forte, como esta, subiremos a serra, e a&iacute; passaremos dias melhores.<\/p>\n<p> Se assim fosse&hellip; Se assim pudesse ser&hellip; balbuciou Lu&iacute;sa.<\/p>\n<p> Por que n&atilde;o ?<\/p>\n<p> Por que ? Porque a desgra&ccedil;a a&iacute; est&aacute; para desmentir<br \/>\n    o seu sonho, Cabeleira.<\/p>\n<p> Olha, Luisinha. Os homens me deixar&atilde;o logo que eu n&atilde;o os ofender<br \/>\n    mais. N&atilde;o sei ainda trabalhar, mais hei de saber. Tu me ensinar&aacute;s,<br \/>\n    e eu aprenderei.<\/p>\n<p>O Cabeleira disse estas palavras com a ingenuidade e do&ccedil;ura de uma<br \/>\n    crian&ccedil;a. Lu&iacute;sa n&atilde;o se p&ocirc;de conter; correu a ele,<br \/>\n    e pela segunda vez o apertou em seus bra&ccedil;os e cobriu com as suas l&aacute;grimas.<br \/>\n    Ele abra&ccedil;ou-a e beijou-a com a efus&atilde;o do primeiro amor, que,<br \/>\n    depois de longamente adormecido, desperta de s&uacute;bito com as energias<br \/>\n    que cresceram durante o sono, e se fizeram for&ccedil;as invenc&iacute;veis.<\/p>\n<p> Ali adiante disse o Cabeleira apontando para um embastido de &aacute;rvores<br \/>\n    que aparecia ao p&eacute; de um serrote poderemos passar a noite, a nossa<br \/>\n    primeira noite de noivado.<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa estremeceu, e supirou. Se n&atilde;o se tivesse arrimado ao<br \/>\n    bra&ccedil;o do bandido, teria ca&iacute;do.<\/p>\n<p> Triste noivado, Cabeleira, triste noivado, que se cobre de prantos e luto.<\/p>\n<p> N&atilde;o te amofines assim. O Cabeleira n&atilde;o &eacute; mais o assassino,<br \/>\n    Luisinha. O ladr&atilde;o, o matador j&aacute; n&atilde;o est&aacute; aqui<br \/>\n    ao p&eacute; de ti. Quem aqui est&aacute; &eacute; um homem que quer ser um<br \/>\n    homem de bem.<\/p>\n<p>Deram o andar para o lugar indicado.<\/p>\n<p>A este tempo o sol tinha desaparecido, e o horizonte estava j&aacute; envolto<br \/>\n    nas sombras precursoras da noite. Nem leve brisa movia as folhas dos matos<br \/>\n    mudos e quedos.<\/p>\n<p>Os perfis das &aacute;rvores solit&aacute;rias desenhavam-se, no fundo do<br \/>\n    pavoroso ermo, como perfis de fantasmas.<\/p>\n<p>Os fugitivos entraram no embastido, e depois de alguns passos deram em uma<br \/>\n    clareira, esp&eacute;cie de asilo reservado pela natureza aos peregrinos que<br \/>\n    vagam sem rumo e sem guia.<\/p>\n<p>Uma fogueira foi logo improvisada para terem luz durante a noite e evitar<br \/>\n    que se aproximassem as on&ccedil;as cujos uivos medonhos come&ccedil;aram<br \/>\n    a repercutir nas quebradas e gargantas das serras.<\/p>\n<p>Procurava o mancebo galhos secos para entreter o fogo quando, ao p&eacute;<br \/>\n    de uma &aacute;rvore que se levantava a um lado da clareira, deu com uma tosca<br \/>\n    cruz de pau cravada na terra.<\/p>\n<p>Era quase noite, e, no meio das sombras crepusculares, confundiu ele ao princ&iacute;pio<br \/>\n    o emblema da reden&ccedil;&atilde;o com um tronco de &aacute;rvore cortada<br \/>\n    por algum viajante transviado, ou despeda&ccedil;ada pela tormenta.<\/p>\n<p>Quando reconheceu o sagrado emblema, o Cabeleira, suspenso pela surpresa,<br \/>\n    sentiu-se abalado ao mesmo tempo por uma como&ccedil;&atilde;o desconhecida.<br \/>\n    No lugar ocupado pela cruz tinha ele assassinado um ano antes um marchante<br \/>\n    de gados para lhe roubar o dinheiro que trazia da feira em Santo Ant&atilde;o.<\/p>\n<p>O bandido voltou o passo atr&aacute;s horrorizado e correu em busca da mo&ccedil;a,<br \/>\n    gritando, como um menino:<\/p>\n<p> Luisinha ! Luisinha !&hellip;<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a aflita sem saber por que, lan&ccedil;ou-se ao seu encontro<br \/>\n    e o recebeu em seus bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m te h&aacute; de tirar daqui disse ela, suspeitando que o<br \/>\n    queriam prender. N&atilde;o, n&atilde;o, tu me pertences. Deus ajudou-me a<br \/>\n    parar-te no caminho do bem. Ningu&eacute;m tem mais o direito de te perseguir.<\/p>\n<p> Eu o vi l&aacute; outra vez, Luisinha. Ele olhou-me silencioso e triste.<\/p>\n<p> Ele quem ? perguntou ela.<\/p>\n<p> O marchante; o velho a quem assassinei para roubar. L&aacute; est&aacute;<br \/>\n    ele com os cabelos brancos ensopados em sangue.<\/p>\n<p> Meu Deus ! Meu Deus ! exclamou a mo&ccedil;a. Cometeste ainda um assassinato,<br \/>\n    Cabeleira ? Meu Deus, quanto sou infeliz !<\/p>\n<p> N&atilde;o, n&atilde;o foi agora; faz um ano; foi ali, junto do jatob&aacute;.<br \/>\n    Olha; n&atilde;o v&ecirc;s aquela cruz de pau enterrada no ch&atilde;o ? Foi<br \/>\n    a&iacute; que matei o sertanejo.<\/p>\n<p>&Eacute; imposs&iacute;vel descrever a como&ccedil;&atilde;o de ambos. O<br \/>\n    s&iacute;tio, a hora, tudo concorria para dar &agrave; impress&atilde;o uma<br \/>\n    intensidade que ia ao fundo do cora&ccedil;&atilde;o, &agrave; medula dos<br \/>\n    ossos.<\/p>\n<p> Estou-me lembrando de tudo prosseguiu o bandido. Eu estava sentado, com<br \/>\n    o clavinote atravessado nas pernas debaixo daquele p&eacute; de pau. Ouvi<br \/>\n    as pisadas de um cavalo, e o estratar garranchos e cip&oacute;s que se quebravam.<br \/>\n    Meti-me um pouco mais para dentro, a fim de ver, sem ser visto, quem &eacute;<br \/>\n    que vinha. Eu estava com fome, e n&atilde;o tinha dinheiro nenhum. &quot;Se<br \/>\n    fosse um homem que trouxesse dinheiro&quot;, pensei eu, &quot;estava muito<br \/>\n    bem !&quot; Neste momento o cavaleiro passou por diante de mim. Trazia chap&eacute;u<br \/>\n    novo, um gib&atilde;o de pano fino azul, botas lustrosas e esporas de prata;<br \/>\n    montava um cavalo ru&ccedil;o pombo, gordo e passeiro. Conheci logo que era<br \/>\n    um marchante. Levei o bacamarte ao rosto, e quando o cavaleiro quebrou ali<br \/>\n    &agrave; direita para tomar o vau do rio, fiz-lhe fogo na cabe&ccedil;a. Corri<br \/>\n    com a minha faca na m&atilde;o ao lugar onde ele havia ca&iacute;do. Estava<br \/>\n    morto; a bala tinha-lhe entrado ao p&eacute; da orelha direita e sa&iacute;do<br \/>\n    acima do olho esquerdo. Ambos os olhos estavam da banda de fora, o cabelo<br \/>\n    e a barba nadavam em sangue. Tirei-lhe um ma&ccedil;o de patac&otilde;es que<br \/>\n    trazia em um dos bolsos do gib&atilde;o, o punhal aparelhado de prata, os<br \/>\n    bot&otilde;es de ouro, o rel&oacute;gio e as esporas; e meti-me no mato virgem.<\/p>\n<p>Luisinha mal p&ocirc;de ouvir esta hist&oacute;ria que foi rapidamente contada,<br \/>\n    com vivas e medonhas cores.<\/p>\n<p> Miseric&oacute;rdia, Senhor ! exclamou ela.<\/p>\n<p> Ele l&aacute; est&aacute;, Luisinha, de p&eacute;, com o chicote na m&atilde;o,<br \/>\n    olhando para mim com os seus olhos mortos, &agrave; flor da cara.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a meditou um momento.<\/p>\n<p> Vamos disse por fim, encaminhando-se para a sepultura; vem comigo.<\/p>\n<p> Oh! n&atilde;o; aquela vis&atilde;o me aterra. Nunca tive tanto medo, eu<br \/>\n    que vi imensos cad&aacute;veres banhados em sangue aos meus p&eacute;s.<\/p>\n<p> O medo passar&aacute; em um instante, Cabeleira.<\/p>\n<p> De que modo, Luisinha ?<\/p>\n<p> Vamos. Vem rezar comigo em cima da cova ao p&eacute; da cruz.<\/p>\n<p> A rezar ?<\/p>\n<p> Assim que tiveres rezado um Padre Nosso e uma Ave-Maria em ten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do morto, sua alma desaparecer&aacute; de tua vista. Vamos, Cabeleira.<\/p>\n<p>O bandido deixou-se ir a modo de arrastado pela mo&ccedil;a que parecia,<br \/>\n    com seu vestido azul e seu len&ccedil;o branco, passado em torno do pesco&ccedil;o,<br \/>\n    o anjo da prece na solid&atilde;o.<\/p>\n<p>Ajoelharam-se ao p&eacute; da cruz, Cabeleira com a face quase oculta por<br \/>\n    seus longos cabelos negros, Lu&iacute;sa com a cabe&ccedil;a erguida, e os<br \/>\n    olhos postos na frouxa claridade do sol que se desvanecia na ab&oacute;bada<br \/>\n    celeste. Defronte deles a cruz ressequida, solit&aacute;ria e muda testemunhava<br \/>\n    aquela cena com a solene indiferen&ccedil;a dos s&iacute;mbolos sagrados que<br \/>\n    &eacute; muito mais expressiva e eloq&uuml;ente para os seus crentes do que<br \/>\n    as vozes da mor parte dos sacerdotes da respectiva religi&atilde;o.<\/p>\n<p> Reza, Cabeleira disse a mo&ccedil;a ao matador assombrado.<\/p>\n<p> Ai, Luisinha! N&atilde;o sei rezar! disse ele com voz t&atilde;o sentida<br \/>\n    e magoada que indicou a pena profunda que lhe cortava o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ele estava na realidade comovido at&eacute; as entranhas. Superexcitado pela<br \/>\n    falta de alimenta&ccedil;&atilde;o, pelo cansa&ccedil;o da jornada, pelo calor<br \/>\n    do dia, pelas recorda&ccedil;&otilde;es que o afligiam de envolta com o remorso<br \/>\n    incipiente, via a cada canto a terr&iacute;vel vis&atilde;o reproduzida na<br \/>\n    clareira, na selva, nos ares, finalmente em toda parte aonde volvesse os p&aacute;vidos<br \/>\n    olhos.<\/p>\n<p> Eu te ensinarei redarg&uuml;iu Luisinha. Dize comigo.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a principiou ent&atilde;o em voz alta o Padre Nosso.<\/p>\n<p>A voz do bandido, ao princ&iacute;pio titubeante e temerosa, foi-se pouco<br \/>\n    e pouco animando, e elevando.<\/p>\n<p>Quando houverem de passar &agrave; Ave Maria, o Cabeleira tinha j&aacute;<br \/>\n    os olhos pregados na cruz, e a f&eacute;, que come&ccedil;ava a germinar em<br \/>\n    seu esp&iacute;rito, elevava-o insensivelmente a regi&otilde;es desconhecidas,<br \/>\n    onde, sem que ele pudesse explicar como, lhe davam a respirar confortos que<br \/>\n    s&oacute; podiam ser celestiais.<\/p>\n<p>Da Ave Maria passaram &agrave; Santa<\/p>\n<p>Maria e desta &agrave; Salve Rainha.<\/p>\n<p>Em cada uma das palavras destas ora&ccedil;&otilde;es achava o bandido uma<br \/>\n    beleza nova e insinuante que lhe despertava delicioso sentir.<\/p>\n<p>Seu esp&iacute;rito, que durante vinte anos s&oacute; conhecera id&eacute;ias<br \/>\n    de sangue e morte; seus ouvidos, afeitos a escutarem palavras licenciosas,<br \/>\n    insultos, arrog&acirc;ncias, queixumes e maldi&ccedil;&otilde;es, recebiam<br \/>\n    agora doces express&otilde;es que anunciavam uma consoladora exist&ecirc;ncia<br \/>\n    superior.<\/p>\n<p>Do pavor, que trouxera aos p&eacute;s da cruz, passara a uma fortaleza de<br \/>\n    animo quase invenc&iacute;vel.<\/p>\n<p>Antes de se levantar volveu os olhos em torno de si e n&atilde;o viu mais<br \/>\n    a vis&atilde;o que o amendrontara, havia pouco.<\/p>\n<p> Oh! Luisinha, como &eacute; poderosa a ora&ccedil;&atilde;o ! disse ele.<br \/>\n    Minha m&atilde;e, que tantas vezes pos as suas contas nas minhas m&atilde;os,<br \/>\n    bem sabia que a ora&ccedil;&atilde;o tem mais for&ccedil;a do que os homens<br \/>\n    e vence todas as armas ! &Eacute; por isso que me ensinava a rezar, a mim<br \/>\n    que s&oacute; aprendi a tirar a fazenda e a vida dos meus semelhantes.<\/p>\n<p>Datou desse feliz momento o arrependimento do Cabeleira.<\/p>\n<p>Depois de oferecidas estas ora&ccedil;&otilde;es, lavantaram-se os fugitivos,<br \/>\n    e foram depor cada um seu beijo aos p&eacute;s da cruz do ermo.<\/p>\n<p>No bandido j&aacute; n&atilde;o havia o assassino, havia um esp&iacute;rito<br \/>\n    contrito, um cora&ccedil;&atilde;o cheio do temor de Deus. Uma mulher fraca,<br \/>\n    tendo ao seu servi&ccedil;o unicamente a benevol&ecirc;ncia natural, a perseveran&ccedil;a,<br \/>\n    as l&aacute;grimas e um passado quase desvanecido, havia operado uma convers&atilde;o<br \/>\n    com a qual poderia legitimamente orgulhar-se um verdadeiro ap&oacute;stolo<br \/>\n    do cristianismo. Com sua luz suave enchia o deserto o astro das recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e da saudade. O c&eacute;u estava azul e estrelado. As brisas da noite come&ccedil;avam<br \/>\n    a mover as folhas do bosque, onde os silvos das cobras, os pios das aves erradias,<br \/>\n    os uivos dos animais carniceiros formavam l&uacute;gubre e medonha orquestra.<\/p>\n<p>Luisinha caiu em uma esp&eacute;cie de sonol&ecirc;ncia e pouco depois sentiu<br \/>\n    perturba&ccedil;&atilde;o mental, e veio-lhe del&iacute;rio, durante o qual<br \/>\n    deixou escapar palavras desconexas. A febre que a devorava tinha aumentado<br \/>\n    com a excessiva fadiga, e com a intensidade das impress&otilde;es do dia.<br \/>\n    Cabeleira estendeu por cima dela a sua v&eacute;stia de couro, e, profundamente<br \/>\n    comovido, foi sentar-se ao p&eacute; da fogueira para n&atilde;o a deixar<br \/>\n    extinguir-se, e para impedir que se aproximassem as on&ccedil;as que n&atilde;o<br \/>\n    cessavam de ulular em derredor deles, amea&ccedil;ando devor&aacute;-los.<br \/>\n    A vida no deserto est&aacute; exposta a perigos, que mal compreende o que<br \/>\n    n&atilde;o nasceu no meio deles; s&oacute; os compensa a liberdade que se<br \/>\n    depara em qualquer dos gozos que a&iacute; se logram.<\/p>\n<p>Pela madrugada adormeceu ao peso da fadiga e ao sil&ecirc;ncio que foram<br \/>\n    fazendo em torno de si as feras. Quando acordou era quase dia. Os passarinhos<br \/>\n    cantavam com o entusiasmo que desperta em todos os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    o raiar de um dia de ver&atilde;o no seio da natureza.<\/p>\n<p>Seu primeiro cuidado foi saudar aquela a quem devia a ressurrei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de sua alma, outrora em trevas aflitivas, agora inundada do suave clar&atilde;o<br \/>\n    da piedade crist&atilde;.<\/p>\n<p> Luisinha, acorda disse ele. A manh&atilde; est&aacute; fresca. Os passarinhos<br \/>\n    cantam. A vira&ccedil;&atilde;o tem os cheiros do deserto.<\/p>\n<p>Aproximou-se de Lu&iacute;sa tomou-a nos bra&ccedil;os, conchegou-a ao seio,<br \/>\n    e dep&ocirc;s-lhe nos l&aacute;bios um beijo de amor. Os l&aacute;bios da<br \/>\n    gentil menina estavam frios, seu corpo gelado. Lu&iacute;sa n&atilde;o pertencia<br \/>\n    mais a esta vida.<\/p>\n<p>Reconhecendo a cruel realidade, o bandido deu um grito de dor que atroou<br \/>\n    a imensa solid&atilde;o como urro de touro selvagem.<\/p>\n<p> Morta ! Morta ! Luisinha !<\/p>\n<p>O cad&aacute;ver da mo&ccedil;a escapou-lhe dos bra&ccedil;os, mas logo o<br \/>\n    bandido caiu de joelhos aos p&eacute;s desse corpo inanimado, com o qual tinham<br \/>\n    falecido todas as suas esperan&ccedil;as de felicidade.<\/p>\n<p> Luisinha, responde me disse ele. De que morreste, meu amor ?<\/p>\n<p>Levantou-se, deu alguns passos a esmo, e tornou ao leito de ramos que tinha<br \/>\n    servido de leito de morte &agrave; virgem dos seus pensamentos.<\/p>\n<p>Pegou-lhe das m&atilde;os, que beijou uma, duas, in&uacute;meras vezes, examinou-as,<br \/>\n    examinou o rosto da infeliz, e s&oacute; encontrou a&iacute; os vest&iacute;gios<br \/>\n    do transito final. Tudo estava acabado para ela. Foi esta a verdade cruel<br \/>\n    que ele viu traspassado de uma pena que se n&atilde;o descreve, e que s&oacute;<br \/>\n    ele sentiu nesta vida.<\/p>\n<p>Sentou-se no ch&atilde;o, e suspendeu o cad&aacute;ver para o atravessar<br \/>\n    sobre os joelhos. Um galho da &aacute;rvore, que com sua folhagem havia obrigado<br \/>\n    a mo&ccedil;a durante a noite, afastou-lhe o lencinho branco que lhe envolvia<br \/>\n    o pesco&ccedil;o, e indiscretamente descobriu aos olhos do consternado amante<br \/>\n    seus seios virgens.<\/p>\n<p>Ao v&ecirc;-los, soltou este nova exclama&ccedil;&atilde;o de dor. A chama<br \/>\n    que Lu&iacute;sa para salvar Florinda do inc&ecirc;ndio, transpusera a noite<br \/>\n    anterior, havia deixado uma s&oacute; chaga no lugar onde a natureza tinha-a<br \/>\n    dotado com um cofre de gra&ccedil;as e perfei&ccedil;&otilde;es peregrinas.<\/p>\n<p> Queimada ! Oh ! Luisinha, que sofrimento n&atilde;o foi o teu ! Que dores<br \/>\n    n&atilde;o suportaste em sil&ecirc;ncio, desgra&ccedil;ada crian&ccedil;a<br \/>\n    ! E como fico eu sem ti, meu amor ? Ai de mim, Luisinha ! Ai de mim !<\/p>\n<p>O &acirc;nimo varonil, que sempre se mostrara inteiro e imoto, agora agitado<br \/>\n    por como&ccedil;&otilde;es t&atilde;o violentas, dobrou-se enfim e deu larga<br \/>\n    prova de fragilidade humana. Dos olhos do bandido irrompeu uma torrente de<br \/>\n    l&aacute;grimas. Solu&ccedil;os, como animal bravio, escaparam de seu peito<br \/>\n    e ecoaram pela imensidade ainda em grande parte adormecida. Havia quinze anos<br \/>\n    que esses olhos n&atilde;o choravam diante dos mais tristes e lastimosos espet&aacute;culos.<\/p>\n<p> Que noivado o meu ! &Eacute; o noivado do assassino ! Oh ! meu Deus !<\/p>\n<p>De repente do lado do rio soou um clarim.<\/p>\n<p>A dor sucedeu o susto, e depois o terror no animo do desgra&ccedil;ado mancebo.<br \/>\n    S&oacute;, sem armas, arrependido de toda sua vida de crimes, que restava<br \/>\n    ao Cabeleira naquele doloroso transe ?<\/p>\n<p>O clarim soou mais perto, e com as vozes deste instrumento chegou aos ouvidos<br \/>\n    do mancebo um retintim de espadas e fac&otilde;es que indicava, junto com<br \/>\n    as sobreditas vozes, a exist&ecirc;ncia de um corpo militar por aquelas bandas.<br \/>\n    Andava de feito por ali um dos piquetes do regimento de Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    de Holanda, o qual, depois de ter batido algumas matas suspeitas, se recolhia<br \/>\n    &agrave; vila, donde havia partido na noite imediata.<\/p>\n<p>Cabeleira dep&ocirc;s o cad&aacute;ver de Lu&iacute;sa sobre os ramos, e<br \/>\n    afastou-se para dentro do mato n&atilde;o sem novo sobressalto, &agrave; vista<br \/>\n    do risco em que se achava.<\/p>\n<p>Depois de ter desaparecido, voltou novamente e suspendeu em seus bra&ccedil;os<br \/>\n    o corpo com o intuito de conduzi-lo consigo para dentro da espessura. Mas<br \/>\n    quando ia a entrar a&iacute; com o triste resto do seu tesouro, um homem apareceu<br \/>\n    na extremidade da clareira. Era o Marcolino que, havendo-se encontrado com<br \/>\n    o piquete ao cair da tarde anterior relatara o que havia acontecido junto<br \/>\n    da vazante, e se oferecera para o guiar no rumo do fugitivo.<\/p>\n<p>Este, vendo que a sua vida estava em perigo, e que a perda de um momento<br \/>\n    podia ser-lhe fatal, resignou-se a deixar o precioso despojo, e internou-se<br \/>\n    de uma vez no mato.<\/p>\n<p>Com pouco uma companhia de soldados penetrou no pouso onde Marcolino j&aacute;<br \/>\n    havia dado com o corpo de Lu&iacute;sa<\/p>\n<p> Cheguem, cheguem depressa. Dormiu aqui o assassino. Ali est&aacute; a fogueira<br \/>\n    ardendo ainda, e aqui a sua pr&oacute;pria companheira, que ele deixou morta.<br \/>\n    Ah ! malvado !<\/p>\n<p>Os milicianos rodearam o cad&aacute;ver de Lu&iacute;sa sobre cujo rosto<br \/>\n    n&atilde;o seria dif&iacute;cil descobrir ainda vest&iacute;gios das l&aacute;grimas<br \/>\n    do desgra&ccedil;ado mancebo.<\/p>\n<p> Perversol Perverso! exclamaram alguns deles indignados do que viam, mas<br \/>\n    n&atilde;o sabiam.<\/p>\n<p> N&atilde;o satisfeito de ter matado mulheres e meninos no fogo, veio tirar<br \/>\n    aqui a vida a sangue frio &agrave;quela que o quis acompanhar.<\/p>\n<p> N&atilde;o percamos tempo observou Marcolino. Ele deve estar perto daqui.<br \/>\n    Vamos, minha gente, vamos descobrir o assassino enquanto ele n&atilde;o nos<br \/>\n    escapa.<\/p>\n<p>&Eacute; verdade. Alto frente. Toca a corneta. Tiririca.<\/p>\n<p> N&atilde;o toques, que se o Cabeleira nos ouvisse, ningu&eacute;m mais lhe<br \/>\n    punha o olho em cima, quanto mais a m&atilde;o.<\/p>\n<p> Se n&atilde;o fosse esta corneta, j&aacute; t&iacute;nhamos pegado o cabra<br \/>\n    observou Marcolino.<\/p>\n<p> Qual cabra nem meio cabra. Aquele que tem de pegar o Cabeleira est&aacute;<br \/>\n    ainda por nascer.<\/p>\n<p>E entraram na espessura.<\/p>\n<h2><a name=\"15\">Cap&Iacute;tulo XV<\/a><\/h2>\n<p>O Cabeleira desapareceu no mato como desaparece o peixe no seio da corrente<br \/>\n    caudal.<\/p>\n<p>Os milicianos, bem que homens igualmente r&uacute;sticos, e conhecedores<br \/>\n    das florestas, n&atilde;o tinham todavia o longo uso da espessura, uso que,<br \/>\n    ainda neste particular, tornava superior a eles o valoroso malfeitor.<\/p>\n<p>Espalharam-se em diferentes dire&ccedil;&otilde;es, a esmo, sem plano, e<br \/>\n    por isso sem probabilidade de bom resultado.<\/p>\n<p>O piquete n&atilde;o era numeroso, e vinha quase debandado quando encontrou<br \/>\n    o Marcolino que denunciou o ponto onde havia deixado o fugitivo.<\/p>\n<p>Poucos deram cr&eacute;dito &agrave;s palavras do matuto, e s&oacute; por<br \/>\n    desencargo da consci&ecirc;ncia alguns se prestaram a dar a busca que ele<br \/>\n    prop&ocirc;s, e que, a seu parecer, n&atilde;o podia deixar de surtir o desejado<br \/>\n    efeito.<\/p>\n<p>Gastaram quase o dia inteiro na dilig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Por fim, dissuadidos de descobrirem o assassino, cada um tomou o caminho<br \/>\n    mais curto para sua casa, dando alguns ao diabo o Marcolino por t&ecirc;-los<br \/>\n    feito andar para dentro e para fora do mato inutilmente, e acreditar em esperan&ccedil;as<br \/>\n    que n&atilde;o se realizam.<\/p>\n<p> E veio voc&ecirc; fazer-nos perder mais um dia, compadre Marcolino disse<br \/>\n    um dos milicianos, aborrecido e fatigado do infrut&iacute;fero lidar. Nem<br \/>\n    voc&ecirc; chegou a ver o Cabeleira. Viu algum rangedor de cachos compridos,<br \/>\n    e j&aacute; pensou que era o mameluco.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o digo uma coisa por outra. Vi-o com estes olhos que a terra<br \/>\n    fria h&aacute; de comer. Falei com ele como estou falando com voc&ecirc; agora.<br \/>\n    L&aacute; o ele ter voado como passarinho, ou Ter-se metido pela terra adentro<br \/>\n    como tatu ou jararaca, &eacute; caso &agrave; parte.<\/p>\n<p> Voc&ecirc; viu periquito e cuidou que era arara ou canind&eacute; replicou<br \/>\n    o miliciano.<\/p>\n<p> Compadre, voc&ecirc; est&aacute; fazendo pouco em mim. Ora, deixe-se disso,<br \/>\n    que eu n&atilde;o sou de l&eacute;rias, como voc&ecirc; bem sabe. &Eacute;<br \/>\n    t&atilde;o certo que vi o Cabeleira, que at&eacute; lhe tomei o cavalo que<br \/>\n    ele me havia furtado, o meu alaz&atilde;o.<\/p>\n<p> Pois, ent&atilde;o, pode montar no seu alaz&atilde;o e voltar &agrave; casa.<br \/>\n    De lembran&ccedil;as &agrave; comadre Maria e lance a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a meu afilhado Gazuza. Se encontrar outra vez o Cabeleira, de-lhe um abra&ccedil;o<br \/>\n    por mim, um belisc&atilde;o e uma boquinha.<\/p>\n<p> Eu, se tivesse ainda o meu alaz&atilde;o, juro-lhe que havia de desencavar<br \/>\n    o Cabeleira, ou com a vida ou com a morte.<\/p>\n<p> E que fim levou o seu quartau ?<\/p>\n<p> Espaduou de muito andar. Parece que desde a hora em que o maldito demo o<br \/>\n    tirou do meu quintal n&atilde;o soube mais o que era comer nem beber, e andou<br \/>\n    num cortado.<\/p>\n<p> Se voc&ecirc; quer servir-se do meu cavalo castanho, ele nos est&aacute;<br \/>\n    ali ouvindo. Desta vez estou falando s&eacute;rio.<\/p>\n<p> Onde est&aacute; ele ?<\/p>\n<p> No s&iacute;tio do Felisberto, aonde o mandei com um costal de mandi&oacute;ca.<\/p>\n<p> Pois aceito, meu compadre, a sua proposta. Hei de mostrar-lhe que o que<br \/>\n    digo, digo. Se eu n&atilde;o descobrir neste mat&atilde;o, ou por estas beiradas<br \/>\n    de rio o Cabeleira, hei de saber not&iacute;cias dele seja onde for. Tamb&eacute;m<br \/>\n    de uma coisa tenha voc&ecirc; certeza: quando ouvir sua mulher dizer: &quot;A&iacute;<br \/>\n    vem o compadre Marcolino no cavalo castanho&quot;, fique logo sabendo que,<br \/>\n    se eu n&atilde;o deixei o Cabeleira na embira, o deixei no buraco.<\/p>\n<p>Os dois matutos achavam-se na margem esquerda do Capibaribe.<\/p>\n<p>Na margem oposta levantava-se, entre umas laranjeiras e uns oitizeiros, uma<br \/>\n    casa de bom parecer. Era a casa de Felisberto.<\/p>\n<p>Eles atravessaram a vau o rio, e foram ter &agrave; graciosa habita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que no meio daquele deserto atestava a exist&ecirc;ncia de uma civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rudimentar no lugar onde havia ca&iacute;do, sem tentativa de proveito para<br \/>\n    a sociedade que o sucedera, o gentilismo guarani digno de melhor sorte.<\/p>\n<p>Do alto onde fora constru&iacute;da a habita&ccedil;&atilde;o via-se o rio<br \/>\n    que corria na distancia de umas dezenas de bra&ccedil;as, e desaparecia por<br \/>\n    entre umas lajes brancas no rumo de leste; do lado do ocidente mostravam-se<br \/>\n    as lavouras de Felisberto desde as proximidades da casa at&eacute; onde a<br \/>\n    vista alcan&ccedil;ava.<\/p>\n<p>Felisberto aplicava-se quase exclusivamente &agrave; cultura da ro&ccedil;a.<br \/>\n    No per&iacute;metro de vinte l&eacute;guas em derredor era o lavrador que<br \/>\n    desmanchava mais mandioca no fabrico da farinha, que era de t&atilde;o boa<br \/>\n    qualidade que competia no mercado do Recife com a farinha de Moribeca, j&aacute;<br \/>\n    ent&atilde;o afamada. Havia anos em que ele mandava para o Recife cerca de<br \/>\n    duzentos alqueires.<\/p>\n<p>Um negro, uma negra, duas negrotas e tr&ecirc;s molecotes filhos dos dois<br \/>\n    primeiros faziam prod&iacute;gios de valor na cultura das terras. Amanheciam<br \/>\n    no cabo da enxada e s&oacute; se recolhiam quando faltava uma bra&ccedil;a<br \/>\n    para o sol se esconder no horizonte. Estes escravos viviam por&eacute;m felizes<br \/>\n    tanto quanto &eacute; poss&iacute;vel viver feliz na escravid&atilde;o. N&atilde;o<br \/>\n    lhes faltava que comer e que vestir. Dormiam bem, e nos domingos trabalhavam<br \/>\n    nos seus ro&ccedil;ados. Em algum dia grande faziam seu batuque, ao qual concorriam<br \/>\n    os negros das vizinhan&ccedil;as.<\/p>\n<p>Quando o Felisberto se casou com a filha de Louren&ccedil;o Ribeiro, mestre<br \/>\n    de a&ccedil;&uacute;car do engenho Curcuranas, teve a feliz id&eacute;ia de<br \/>\n    ir estabelecer-se naquele s&iacute;tio que comprara com algumas economias<br \/>\n    que lhe legara um tio que vivera de arrematar d&iacute;zimos de gado. Essas<br \/>\n    economias deram-lhe tamb&eacute;m para comprar duas moradinhas de casas e<br \/>\n    o negro Andr&eacute;. Com a negra Maria, que a mulher lhe trouxera em dote,<br \/>\n    casou Felisberto o seu negro, na esperan&ccedil;a de que em poucos anos a<br \/>\n    fam&iacute;lia escrava estaria aumentada, e por conseguinte aumentada tamb&eacute;m<br \/>\n    a fortuna do casal. Essa esperan&ccedil;a foi brilhantemente confirmada.<\/p>\n<p>Felisberto n&atilde;o estava em casa &agrave; chegada dos dois matutos. Havia<br \/>\n    ido &agrave; vila a neg&oacute;cio e ningu&eacute;m sabia quando ele estaria<br \/>\n    de volta.<\/p>\n<p>Eles tiraram para a casa de farinha, que ficava a um lado da casa de morada,<br \/>\n    e apresentava nesse momento um aspecto que n&atilde;o era o usual.<\/p>\n<p>Estava-se fazendo farinha para ser a toda pressa mandada ao Recife, onde<br \/>\n    a grande falta que havia deste g&ecirc;nero assegurava pingue lucro ao vendedor.<\/p>\n<p>Frutos do trabalho honesto e esfor&ccedil;ado, o qual &eacute; sempre favorecido<br \/>\n    pela Providencia, n&atilde;o tinham sido de todo destru&iacute;dos pela grande<br \/>\n    seca os ro&ccedil;ados do Felisberto. Ele j&aacute; enumerava muitos preju&iacute;zos,<br \/>\n    mas olhando em torno de si via ainda muito com que contar na tremenda crise<br \/>\n    que reduzira o geral da popula&ccedil;&atilde;o da prov&iacute;ncia a extrema<br \/>\n    pen&uacute;ria.<\/p>\n<p>Era quase noite, e ainda chegavam animais com ca&ccedil;u&aacute;s cheios<br \/>\n    de mandiocas que eram despejados nas tulhas j&aacute; formadas destas ra&iacute;zes.<\/p>\n<p>Mulheres sentadas pelo ch&atilde;o ou em cepos, ao p&eacute; dessas tulhas,<br \/>\n    tiravam as mandiocas uma a uma, e as iam raspando a quic&eacute;, e, atirando<br \/>\n    depois dentro de cestos que eram conduzidos para junto das rodas a fim de<br \/>\n    serem elas passadas pelos ralos que circulam estas.<\/p>\n<p>A casa de farinha n&atilde;o era mais do que um vasto alpendre aberto por<br \/>\n    todos os lados e coberto de palhas de pindoba.<\/p>\n<p>No centro via-se o forno onde tinha de ser cozida a massa j&aacute; apertada<br \/>\n    pela prensa e livre da manipueira. Parte dela por&eacute;m, tanto que sa&iacute;a<br \/>\n    do p&eacute; das rodas, era lavada em gamelas e alguidares onde deixava o<br \/>\n    res&iacute;duo ou goma para os beijus e tapiocas.<\/p>\n<p>A prensa estava armada a um dos lados do alpendre; no outro viam-se as duas<br \/>\n    rodas que n&atilde;o cessavam de girar. Quando cansavam os matutos ou escravos<br \/>\n    que as moviam eram logo substitu&iacute;dos por gente fresca.<\/p>\n<p>Os dois matutos ali bem conhecidos, foram saudados pelas pessoas que estavam<br \/>\n    trabalhando, e, como &eacute; costume em tais ocasi&otilde;es ainda hoje,<br \/>\n    trataram eles de concorrer gratuitamente com o aux&iacute;lio dos seus bra&ccedil;os<br \/>\n    descansados, o que a muitos n&atilde;o deixou de ser agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> Venha para c&aacute;, seu Marcolino. Pegue no veio da roda, e desmanche-me<br \/>\n    esta mandioca que est&aacute; custosa de acabar disse um.<\/p>\n<p> E eu ponho de boa vontade em sua m&atilde;o, Marciano, este rodo. N&atilde;o<br \/>\n    precisa mexer muito a massa: o forno n&atilde;o est&aacute; muito quente e<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; risco de queimar-se a farinha disse outro.<\/p>\n<p> Prepara os beijus Mariquinhas disse o Marciano a uma rapariguinha morena<br \/>\n    e cacheada que, com as mangas arrega&ccedil;adas, lavava em um alguidar uma<br \/>\n    por&ccedil;&atilde;o de massa.<\/p>\n<p>Mariquinhas sorriu e continuou no seu trabalho que lhe absorvia toda a aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Pouco depois chegaram dois cunhados de Felisberto, que tinham feito parte<br \/>\n    do regimento volante da freguesia.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o que fizeram ? perguntaram muitos a uma voz logo que os viram<br \/>\n    entrar.<\/p>\n<p> Nada. Voc&ecirc;s pensam que pegar o Cabeleira &eacute; o mesmo que raspar<br \/>\n    mandioca, ou comer farinha mole ?<\/p>\n<p> N&atilde;o o viram nem com os olhos, seu Quinquim ?<\/p>\n<p> Qual, senhor ! Cabeleira de minha vida !<\/p>\n<p> Encontramos muita on&ccedil;a, e muita cascavel, mas do Cabeleira nem novas<br \/>\n    nem mandado. H&aacute; quem diga que ele a esta hora j&aacute; est&aacute;<br \/>\n    nos sert&otilde;es dos Cairiris.<\/p>\n<p> Qual Cairiris, senhor ! Amanh&atilde; hei de dar com esse dunga disse o<br \/>\n    Marcolino.<\/p>\n<p> O compadre Marcolino jura que o viu hoje junto das cachoeiras do rio acrescentou<br \/>\n    o Marciano.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o nos mostrou o cabra durante todo o dia respondeu Agostinho.<\/p>\n<p> Est&aacute; bem, senhores, n&atilde;o falemos mais nisso. Os senhores est&atilde;o<br \/>\n    desfazendo agora no meu dizer, talvez amanh&atilde; a coisa j&aacute; seja<br \/>\n    outra. Eu sou um p&eacute;-rapado, &eacute; certo, mas muito verdadeiro.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m duvida de sua palavra, Marcolino.<\/p>\n<p>Um negro que estava metendo lenha no forno virou-se ent&atilde;o para o matuto,<br \/>\n    e, de improviso, lhe dirigiu este verso:<\/p>\n<p>Vosmec&ecirc;, seu Marcolino, Vai atr&aacute;s do Cabeleira ? Se quiser pegar<br \/>\n    o cabra, Monte na basta louceira.<\/p>\n<p>Ainda bem n&atilde;o tinha terminado o seu repente, quando um caboclo que,<br \/>\n    a um canto do alpendre estava lavando em um cocho uma por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mandioca, se saiu com esta resposta: <\/p>\n<p>Monte na besta fouveira, Ou no cavalo card&atilde;o, N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de pegar o cabra No meio desse mund&atilde;o.<\/p>\n<p>Reinou ent&atilde;o sil&ecirc;ncio no alpendre para s&oacute; se ouvirem<br \/>\n    os dois repentistas. Estava travado um desses desafios que s&atilde;o t&atilde;o<br \/>\n    comuns nos sert&otilde;es do Norte, e, muitas vezes, pela facilidade das rimas<br \/>\n    e originalidade dos conceitos, chegaram a oferecer versos que podem figurar<br \/>\n    entre os mais primorosos monumentos da literatura natal. O negro replicou:<\/p>\n<p>Se voc&ecirc; gosta do bicho Porque rouba, e mata gente, Veja que algu&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o lhe tire As orelhas pra presente.<\/p>\n<p>O caboclo respondeu:<\/p>\n<p>Mete, negro, a tua lenha No teu forno, caladinho; Mas n&atilde;o te metas<br \/>\n    com o homem; Podes ficar sem focinho. O negro:<\/p>\n<p>Eu que sou negro nas cores Mas n&atilde;o negro nas a&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    Se fosse atr&aacute;s do malvado, Cortava-lhe os espor&otilde;es.<\/p>\n<p>O caboclo:<\/p>\n<p>Para o negro que se mete Onde n&atilde;o lhe d&atilde;o entrada N&atilde;o<br \/>\n    tem faca o Cabeleira, Tem uma peia ensebada.<\/p>\n<p>O negro:<\/p>\n<p>Eu respeito a meus senhores E senhoras que aqui est&atilde;o; Mas por&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o levo em conta Quem n&atilde;o teve cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O caboclo:<\/p>\n<p>Caboclo do p&eacute; da serra, Criado &agrave; beira do rio, Eu sempre tratei<br \/>\n    com gente, Porque sustento o meu brio.<\/p>\n<p>O desafio, t&atilde;o bem encaminhado, foi interrompido pela chegada de um<br \/>\n    cavaleiro. Era o Felisberto que voltava da vila.<\/p>\n<p>A lida na casa de farinha continuou n&atilde;o obstante at&eacute; alta noite,<br \/>\n    entre risos e cantigas.<\/p>\n<p>O luar inundava o vasto p&aacute;tio do s&iacute;tio, e ia pratear as margens<br \/>\n    e &aacute;guas do Capibaribe.<\/p>\n<p>Vira&ccedil;&atilde;o intermitente agitava as folhas das macaibeiras e dendezeiros<br \/>\n    que se levantavam pela extrema das terras de Felisberto.<\/p>\n<p>Cortava os ares o suave murm&uacute;rio das &aacute;guas casado com o canto<br \/>\n    mon&oacute;tono dos curiangos, que pulavam pelos caminhos.<\/p>\n<p>Pela madrugada, o Marcolino montou no cavalo castanho, atravessou o rio,<br \/>\n    e meteu se no vasto deserto, ainda adormecido. Como quase todos os homens<br \/>\n    r&uacute;sticos, era caprichoso, e entendia que se n&atilde;o cumprisse a<br \/>\n    sua palavra solenemente empenhada, ficaria sendo o lud&iacute;brio de todos<br \/>\n    os que o conheciam. Preferia, a este extremo, morrer de fome e sede no mato,<br \/>\n    ou comido das on&ccedil;as, coisa em que, para dizermos, pouco cuidava. Todas<br \/>\n    suas id&eacute;ias estavam voltadas para um centro &uacute;nico: descobrir<br \/>\n    o Cabeleira. Era este o seu ponto de honra.<\/p>\n<p>Sabendo que o Cabeleira ordinariamente, quando se ausentava das matas de<br \/>\n    Santo Ant&atilde;o, aparecia nas de Pau d&#8217;Alho, tomou a dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desta povoa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Pau d&#8217;Alho fazia ent&atilde;o parte da freguesia de Iguara&ccedil;u, da qual<br \/>\n    foi desmembrada em 1799 para ser elevada a freguesia por proposta do visitador<br \/>\n    Joaquim Saldanha Marinho, nome que traz hoje com invej&aacute;vel brilho um<br \/>\n    dos maiores esp&iacute;ritos que conta o Brasil moderno. Passou a vila por<br \/>\n    alvar&aacute; de 27 de julho de 1811, e a comarca pela lei provincial de 5<br \/>\n    de maio de 1840.<\/p>\n<p>Marcolino subiu pela margem do Capibaribe, e antes do meio dia entrou na<br \/>\n    povoa&ccedil;&atilde;o que fica em terreno plano &agrave; beira deste rio.<br \/>\n    Nada lhe constou a respeito do Cabeleira.<\/p>\n<p>Demorou-se o tempo estritamente necess&aacute;rio ao descanso do cavalo,<br \/>\n    e quando o sol quebrou pos-se novamente a caminho para Goit&aacute;, que fica<br \/>\n    quatro l&eacute;guas distante de Pau d&#8217;Alho, e nesse tempo era um lugarejo<br \/>\n    de nenhuma import&acirc;ncia, pertencente a Santo Ant&atilde;o.<\/p>\n<p>H&aacute; loucuras transit&oacute;rias que por tal modo revolucionam o esp&iacute;rito<br \/>\n    do homem, que o tornam capaz assim de grandes baixezas, como de virtudes &iacute;mpares.<br \/>\n    Feliz aquele que, sob a influencia de loucuras semelhantes, p&otilde;e os<br \/>\n    seus esfor&ccedil;os e sacrif&iacute;cios ao servi&ccedil;o da humanidade<br \/>\n    ou de uma causa nobre.<\/p>\n<p>Marcolino estava possu&iacute;do de uma dessas loucuras.<\/p>\n<p>Sem o pensar nem querer, tinha fatalmente arriscado a sua palavra, o seu<br \/>\n    brio, a sua honra. Estava apaixonado pelo lance, e era inevitavelmente arrastado<br \/>\n    a seu destino.<\/p>\n<p>Deixando mulher e filhos, em duelo com a necessidade, vinha, como um cruzado,<br \/>\n    um peregrino, um ap&oacute;stolo do bem, ou um vision&aacute;rio em busca<br \/>\n    de um ente que fazia tremer povoa&ccedil;&otilde;es inteiras, que preocupava<br \/>\n    o governo, que aparecia como fantasma, e desaparecia como uma sombra.<\/p>\n<p>Este ente tinha &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o o mato para o receber,<br \/>\n    os ecos para o avisarem da aproxima&ccedil;&atilde;o dos que o buscavam, os<br \/>\n    rios para encherem depois de sua passagem, as grutas para o esconderem, a<br \/>\n    natureza enfim para o disputar tenazmente aos homens, ao poder p&uacute;blico,<br \/>\n    &agrave;s leis, &agrave; justi&ccedil;a, ao pr&oacute;prio Deus segundo parecia.<\/p>\n<p>A tardinha Marcolino estava no lugarejo. Debalde perguntou, debalde indagou.<br \/>\n    N&atilde;o houve quem lhe desse novas do famoso bandido.<\/p>\n<p>A&iacute; pernoitou, mas n&atilde;o dormiu.<\/p>\n<p>Muito cedo meteu-se nas matas.<\/p>\n<p>A cabo de dois dias, consumidos sem resultado, entrou a cair em si. A raz&atilde;o<br \/>\n    tinha-se libertado da alucina&ccedil;&atilde;o que a prendera em suas redes<br \/>\n    de a&ccedil;o. A sua doce luz reapareceram os caminhos que as trevas da paix&atilde;o<br \/>\n    tinham encoberto ao olhos da v&iacute;tima do sonho fatal.<\/p>\n<p>Marcolino ca&iacute;ra em si no meio do deserto, ouvindo o rugir das feras,<br \/>\n    lutando com a fome.<\/p>\n<p>Desanimado, envergonhado da sua fraqueza, resolveu voltar ao seio da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o a imagem dos filhos e da mulher lhe apareceu na mente. Ele teve<br \/>\n    saudades da casa e quis partir &agrave; mesma hora; mas conhecendo os perigos<br \/>\n    a que se expunha se o fizesse, aguardou s&ocirc;frego a madrugada. Quando<br \/>\n    os horizontes come&ccedil;aram a desmaiar, e o brilho das estrelas a embranquecer,<br \/>\n    Marcolino pos-se a caminho.<\/p>\n<p>Estava inteiramente outro.<\/p>\n<p>A vergonha cobria-lhe o rosto, o medo dominava-lhe o esp&iacute;rito, na<br \/>\n    consci&ecirc;ncia do&iacute;a-lhe o remorso de haver, sem o menor interesse<br \/>\n    pessoal, desamparado mulher e filhos nas garras da mis&eacute;ria.<\/p>\n<p>O dono da casa onde ele havia pernoitado dois dias antes, ao qual devia,<br \/>\n    al&eacute;m desta, outras muitas obriga&ccedil;&otilde;es, dera-lhe uma carta<br \/>\n    para ser entregue por ele ao senhor do Engenho Novo que de presente faz parte<br \/>\n    da freguesia de Pau d&#8217;Alho, e pertencia naquele tempo a Goiana.<\/p>\n<p>Quando Marcolino chegou a Pau d&#8217;Alho, o cavalo estava cansado da viagem,<br \/>\n    e do mau passar durante ela. Para levar a carta a seu destino, teve o matuto<br \/>\n    de caminhar a p&eacute;. Ele viu nisso uma nova tribula&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    que a sorte o punia da sua loucura.<\/p>\n<p>Ao anoitecer, de um alto por onde passava o caminho antes de sair da mata<br \/>\n    que cercava o engenho pelo lado do sul, viu ele um homem correr gacheiro e<br \/>\n    cauteloso pelo aceiro afora, e entrar adiante no canavial.<\/p>\n<p>Marcolino por um triz n&atilde;o caiu fulminado de espanto, sobressalto e<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Tinha reconhecido nesse homem o Cabeleira.<\/p>\n<h2><a name=\"16\">Cap&Iacute;tulo XVI<\/a> <\/h2>\n<p>A fome obrigara o bandido a deixar o mato, como obriga as aves a emigrarem,<br \/>\n    e as feras cervais a deixarem seus covis.<\/p>\n<p>Havia cinco dias que ele partira de Santo Ant&atilde;o, e tr&ecirc;s que<br \/>\n    n&atilde;o comia sen&atilde;o os escassos frutos que lhe dava a macaibeira,<br \/>\n    o ananaseiro bravio, o jatob&aacute; do deserto.<\/p>\n<p>Uma tarde em que a fome e a fadiga o tinham prostrado, viu dentre umas touceiras<br \/>\n    de taquara onde se recolhera para cobrar animo, um cavaleiro que, havendo<br \/>\n    atravessado o rio, de for&ccedil;a tinha de passar a poucos passos dele, em<br \/>\n    um cotovelo formado pela picada.<\/p>\n<p>O cavaleiro era um velho e parecia?se mais com uma m&uacute;mia do que com<br \/>\n    um ente vivo.<\/p>\n<p>Tinha a pele grudada nos ossos, e seu corpo apresentava &acirc;ngulos e retas<br \/>\n    de dureza escultural.<\/p>\n<p>O cavalo n&atilde;o tinha melhor parecer do que seu senhor. Era uma arma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &oacute;ssea informe, pesada, cadav&eacute;rica e triste.<\/p>\n<p>Trazia o velho t&atilde;o ca&iacute;da a cabe&ccedil;a para diante, que quase<br \/>\n    chegava com o queixo recurvado ao cabe&ccedil;ote da cangalha. O cavalo, parecendo<br \/>\n    ceder &agrave; mesma lei que o cavaleiro, por vezes varria com os bei&ccedil;os<br \/>\n    cori&aacute;ceos o p&oacute; do caminho. Essa lei era a lei da fome.<\/p>\n<p>&quot;Este velho&quot;, pensou o Cabeleira, &quot;traz pelo menos farinha<br \/>\n    nos ca&ccedil;u&aacute;s. Vou tomar?lhe para mim, e se ele n&atilde;o quiser<br \/>\n    entregar?me a sua carga, corto?lhe a garganta.&quot;<\/p>\n<p>Empunhou o peda&ccedil;o da faca, &uacute;nica arma que lhe restava do terr&iacute;vel<br \/>\n    canga&ccedil;o de outrora, e quando o velho confrontou com ele, saltou?lhe<br \/>\n    ao cabresto do cavalo. Este parou de muito boa vontade, enquanto seu dono,<br \/>\n    sem se mostrar aterrado nem sobressaltado, disse ao bandido:<\/p>\n<p> Guarde?o Deus, meu senhor sauda&ccedil;&atilde;o que at&eacute; bem pouco<br \/>\n    tempo se ouvia no sert&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando estava para fazer a terr&iacute;vel intima&ccedil;&atilde;o, sentiu<br \/>\n    o Cabeleira faltar?lhe for&ccedil;a para suster o cabresto, tromeram?lhe as<br \/>\n    pernas, vacilaram?lhe os p&eacute;s. Seus olhos tinham dado com a imagem de<br \/>\n    Lu&iacute;sa, de joelhos na beira do caminho com as m&atilde;os postas, os<br \/>\n    olhos suplicantes, tristes e chorosos, voltados para ele. Pareceu?lhe at&eacute;<br \/>\n    ouvir as seguintes palavras:<\/p>\n<p> N&atilde;o o mates, Cabeleira.<\/p>\n<p>Esta ilus&atilde;o era efeito da sobreexcita&ccedil;&atilde;o nervosa, produzida<br \/>\n    em todo o seu organismo pela falta de alimentos, pela dor moral que lhe causara<br \/>\n    o transito da mo&ccedil;a, ou talvez pela profunda revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que antes de ter ela falecido havia obrado nos seus instintos, id&eacute;ias,<br \/>\n    e h&aacute;bitos, o sentimento destinado a redimi?lo do erro, e do crime o<br \/>\n    amor.<\/p>\n<p>Foi t&atilde;o profundo e violento o abalo que experimentou ao ver aquela<br \/>\n    doce ef&iacute;gie (a qual ele julgava ter desaparecido para sempre de seus<br \/>\n    olhos ), que irresistivelmente lhe escaparam dos l&aacute;bios estas palavras:<\/p>\n<p> N&atilde;o o matarei, meu amor; n&atilde;o o matarei. Mas n&atilde;o foram<br \/>\n    somente as palavras que lhe escaparam violentamente dos l&aacute;bios; dos<br \/>\n    olhos lhe saltaram tamb&eacute;m l&aacute;grimas espont&acirc;neas, que ele<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de reprimir.<\/p>\n<p>E como para dar plena satisfa&ccedil;&atilde;o &agrave;quela doce imagem<br \/>\n    que se atravessava diante dele no momento em que um crime estava a ser cometido<br \/>\n    por sua m&atilde;o, Cabeleira atirou dentro de uma grota que ficava do outro<br \/>\n    lado da picada o resto da arma de que estivera pendente a vida do pobre velho.<\/p>\n<p>Este, acordando novamente do profundo abatimento que pesava sobre todos os<br \/>\n    seus membros, dirigiu outra vez a palavra ao bandido:<\/p>\n<p> Camarada, estou pronto para servi?lo.<\/p>\n<p> H&aacute; tr&ecirc;s dias que n&atilde;o boto na minha boca um punhado de<br \/>\n    farinha disse Jos&eacute;. Traz voc&ecirc; a&iacute; alguma coisa que me queira<br \/>\n    dar para comer ?<\/p>\n<p> &Eacute; seguramente meio?dia, meu senhor m disse o velho erguendo a custo<br \/>\n    os olhos ao sol para se certificar da hora. Amanh&atilde; pela manh&atilde;<br \/>\n    faz quatro dias que este corpo velho, que o senhor est&aacute; vendo, n&atilde;o<br \/>\n    sabe o que &eacute; comer. Dou a Deus por testemunha da minha verdade.<\/p>\n<p> E que &eacute; que traz dentro destes ca&ccedil;u&aacute;s ? perguntou?lhe<br \/>\n    o Cabeleira.<\/p>\n<p> Pode ver o que trago. Nada. Tinha uma filha solteira, outra vi&uacute;va<br \/>\n    e tr&ecirc;s netinhos. Veio a peste e levou?me as duas filhas em menos de<br \/>\n    oito dias. N&atilde;o tendo recurso nenhum para acudir &agrave;s minhas necessidades,<br \/>\n    sa&iacute; a pedir. Fui &agrave; casa de meu compadre, que mora na Ladeira<br \/>\n    Grande; o compadre tinha morrido das bexigas, e a mulher estava para entregar<br \/>\n    a alma a Deus; o gadinho que possu&iacute;a desaparecera com a seca; alguma<br \/>\n    cria&ccedil;&atilde;o que ficara no terreiro tinha sido comida pelos magotes<br \/>\n    de gente, que v&ecirc;m a&iacute; em retirada, caindo aqui, morrendo acol&aacute;<br \/>\n    de fome, s&oacute; de fome. Achei no p&aacute;tio da propriedade este cavalo<br \/>\n    velho, que me vai arrastando at&eacute; a casa. Sabe Deus se l&aacute; chegarei,<br \/>\n    ou se n&atilde;o ficarei no caminho, sem ter visto meus pobres netos ainda<br \/>\n    uma vez antes de morrer.<\/p>\n<p> Est&aacute; bom, meu velho; v&aacute; seguindo seu caminho. Voc&ecirc; &eacute;<br \/>\n    mais necessitado do que eu.<\/p>\n<p> N&atilde;o da gra&ccedil;a de Deus, senhor disse o velho.<\/p>\n<p>O Cabeleira entrou de novo no tabocal.<\/p>\n<p>O abalo que a vis&atilde;o lhe causara, o espet&aacute;culo de mis&eacute;ria<br \/>\n    que lhe descrevera o velho, mis&eacute;ria muito maior do que a sua, deram?lhe<br \/>\n    for&ccedil;as para prosseguir na peregrina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No dia seguinte entrava ele nas matas de Goit&aacute;, seu mundo virgem,<br \/>\n    em cujo seio, talvez pela raz&atilde;o de lhe consagrar entranh&aacute;vel<br \/>\n    afeto, se considerava o mais seguro e feliz dos mortais.<\/p>\n<p>Deitou?se e dormiu.<\/p>\n<p>Quando acordou sentiu que consigo havia acordado, mais devoradora e cruel,<br \/>\n    a fome que o tinha prostrado por terra na v&eacute;spera.<\/p>\n<p>Depois de ter levado quase todo o dia em v&atilde;o &agrave; ca&ccedil;a<br \/>\n    de algum fruto silvestre, deu com a vista, no meio de uma aberta que fazia<br \/>\n    a mata, sobre os estendidos canaviais do Engenho Novo. Da lomba, onde havia<br \/>\n    parado, desceu rapidamente &agrave; orla da floresta.<\/p>\n<p>Era quase noite.<\/p>\n<p>Alongou os olhos pelas imensas quebradas onde a cana acamava, e s&oacute;<br \/>\n    viu um mundo de verdura que lhe acenava com doces presentes.<\/p>\n<p>Ah! ele podia passar meses dentro desse mundo, sem que o vissem, e sem risco<br \/>\n    de ser devorado por animais ferozes. Era uma regi&atilde;o amiga a que se<br \/>\n    lhe abria diante dos olhos.<\/p>\n<p>A planta que estava destinada a ser mais tarde a base principal da fortuna<br \/>\n    e riqueza de um vasto imp&eacute;rio; essa planta aben&ccedil;oada que dali<br \/>\n    punha &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o nutritivo e precioso suco oferecia?lhe<br \/>\n    tamb&eacute;m prote&ccedil;&atilde;o &agrave; sombra da sua basta folhagem.<br \/>\n    Podia ele, pobre foragido, refazer as for&ccedil;as no seio dessa solid&atilde;o<br \/>\n    generosa que lhe daria a sorver licor suav&iacute;ssimo, como o que mana de<br \/>\n    um seio maternal.<\/p>\n<p>Cabeleira, r&aacute;pido como um jaguar, pos a cabe&ccedil;a de fora do mato,<br \/>\n    olhou, observou, e, nada vendo, atravessou o aceiro e penetrou no canavial.<\/p>\n<p>Achando?se j&aacute; dentro, voltou?se e observou de novo. N&atilde;o viu<br \/>\n    viva alma. Do outro lado do aceiro estava a floresta virgem, donde ele havia<br \/>\n    sa&iacute;do. As sombras do lusco?fusco cobriam as montanhas, as quebradas,<br \/>\n    os vales, todo o retiro enfim. Em torno dele, e al&eacute;m das folhagens,<br \/>\n    al&eacute;m das planuras at&eacute; onde pode chegar com a vista e com as<br \/>\n    ou&ccedil;as, s&oacute; viu a solid&atilde;o profunda, s&oacute; ouviu o sil&ecirc;ncio<br \/>\n    absoluto da natureza.<\/p>\n<p>Ia adiantada a noite quando ele terminou sua refei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A lua discorria suavemente, entre castelos de nuvens, na vasta campina celeste,<br \/>\n    e a vira&ccedil;&atilde;o ciciava brandamente no canavial onde deixava as<br \/>\n    fragr&acirc;ncias que, como abelha da noite, trazia do pau?d&#8217;arco da mata<br \/>\n    pr&oacute;xima em suas asas sutis.<\/p>\n<p>Cabeleira p&ocirc;s nos ombros as &uacute;ltimas das canas que quebrara e<br \/>\n    tomou a aberta por onde havia entrado. Mas foi logo obrigado a voltar sobre<br \/>\n    seus passos para n&atilde;o ser visto por dois negros do engenho que estavam<br \/>\n    defronte da abertura da camarinha.<\/p>\n<p>O canavial n&atilde;o tinha somente esta sa&iacute;da. Mas qualquer delas<br \/>\n    para onde encaminhou seus passos se lhe mostrou tornada por escravos do engenho.<\/p>\n<p>O Cabeleira achava?se t&atilde;o longe de pensar que o guardavam, que acreditou,<br \/>\n    para explicar o que seus olhos descobriram, que os negros faziam quinguingu<br \/>\n    ao luar como de costume.<\/p>\n<p> Deitou?se, e o sono que dormiu foi profundo e reparador. Se tivessem penetrado<br \/>\n    no lugar onde ele adormecera t&ecirc;?lo?iam prendido sem dificuldade, como<br \/>\n    se fora uma crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>Raiou enfim o dia com seu cortejo de luz e movimento.<\/p>\n<p>O sol despertou o bandido com um raio que lhe enviou por entre a folhagem.<br \/>\n    N&atilde;o para sair, mas unicamente para observar, o Cabeleira aproximou?se,<br \/>\n    sem fazer ru&iacute;do, da primeira abertura que se lhe oferecera. O que ent&atilde;o<br \/>\n    viu deu?lhe id&eacute;ia da triste realidade que ele estava longe de suspeitar,<br \/>\n    mas que o abra&ccedil;ava como um c&iacute;rculo de ferro. N&atilde;o estavam<br \/>\n    guardadas as sa&iacute;das por negros como durante a noite, mas por sentinelas<br \/>\n    militares. Cedo seus olhos reconheceram que uma linha compacta de soldados<br \/>\n    cercava todo o canavial, donde n&atilde;o poderia sair um rato contra a vontade<br \/>\n    deles.<\/p>\n<p> Oh ! como apareceu carregada aos olhos do infeliz mancebo aquela doce natureza,<br \/>\n    onde acreditara que poderia estar ao abrigo da persegui&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    homens, e da fatalidade da sorte !<\/p>\n<p>&quot;Estou perdido para sempre&quot;, pensou ele. &quot;Cercado por todos<br \/>\n    os lados, sem companheiros que me auxiliem na evas&atilde;o, sem uma arma<br \/>\n    com que possa abrir passagem entre os que me cercam, n&atilde;o poderei salvar?me.&quot;<\/p>\n<p>Seu esp&iacute;rito caiu em profunda medita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O canavial estava literalmente sitiado. No mesmo instante em que soube, por<br \/>\n    boca de Marcolino, que o Cabeleira tinha passado do mato ao canavial, o senhor<br \/>\n    do Engenho Novo reunira a f&aacute;brica passante de trezentos negros e os<br \/>\n    mandara p&ocirc;r se de guarda ao bandido.<\/p>\n<p>Sem perda de tempo expedira o pr&oacute;prio Marcolino com uma carta participando<br \/>\n    o fato ao capit&atilde;o?mor que se achava j&aacute; ent&atilde;o no seu engenho<br \/>\n    Petribu, e pedindo?lhe prontas provid&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Uma companhia completa de milicianos achava?se ainda de ordens ao capit&atilde;o?mor<br \/>\n    que tinha em mente dar novo varejo nos matos, por ocasi&atilde;o de sua volta<br \/>\n    a Goiana. Essa companhia partira incontinenti, tendo &agrave; sua frente Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    de Holanda, para o lugar onde se tinha de verificar a importante dilig&ecirc;ncia.<br \/>\n    Ordens terminantes foram expedidas durante a noite aos coron&eacute;is de<br \/>\n    ordenan&ccedil;as que se achavam mais pr&oacute;ximos, a fim de que antes<br \/>\n    do amanhecer se achassem com fortes partidas no lugar indicado.<\/p>\n<p>Um inimigo poderoso que houvesse batido &agrave;s portas da freguesia n&atilde;o<br \/>\n    teria motivado o movimento de tropas que se verificara nas doze horas daquela<br \/>\n    noite com prontid&atilde;o que faz honra &agrave; disciplina militar daqueles<br \/>\n    tempos.<\/p>\n<p>Pela manh&atilde; as paragens cont&iacute;guas ao ponto assediado figuravam<br \/>\n    um pequeno campo de batalha. Cerca de duzentas pra&ccedil;as achavam?se ali<br \/>\n    reunidas, por que o ass&eacute;dio fosse sustentado com todo o rigor militar.<\/p>\n<p>Ao cair da tarde um oficial ofereceu?se para penetrar no canavial com doze<br \/>\n    homens de sua escolha, assegurando que o bandido n&atilde;o viria a contar<br \/>\n    vit&oacute;ria.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o de Holanda, tendo ouvido os seus coron&eacute;is<br \/>\n    sobre a proposta do destemido oficial, considerou?a inconveniente por dar<br \/>\n    ocasi&atilde;o &agrave; luta pessoal, da qual poderia resultar a morte do<br \/>\n    bandido.<\/p>\n<p>N&atilde;o havendo, para conseguir?se a rendi&ccedil;&atilde;o deste, outro<br \/>\n    meio que o ass&eacute;dio, foi este resolvido por unanimidade.<\/p>\n<p>O Cabeleira tentou mais de uma vez iludir a vigil&acirc;ncia das guardas<br \/>\n    durante a noite, mas em v&atilde;o. Antes de escurecer essas guardas eram<br \/>\n    refor&ccedil;adas, e a vigil&acirc;ncia dobrava na propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das facilidades que naturalmente a noite oferece para a evas&atilde;o.<\/p>\n<p>Passaram?se dois dias sem resultado. Ningu&eacute;m, durante esse espa&ccedil;o<br \/>\n    de tempo, havia visto o prisioneiro. Come&ccedil;ou?se a desconfiar de sua<br \/>\n    exist&ecirc;ncia dentro do canavial.<\/p>\n<p>Marcolino foi interrogado pela segunda vez, e declarou que tinha visto o<br \/>\n    bandido entrar ali, s&oacute; e sem armas.<\/p>\n<p> Esta &uacute;ltima declara&ccedil;&atilde;o veio aumentar a desconfian&ccedil;a<br \/>\n    geral. N&atilde;o se p&ocirc;de, com raz&atilde;o, explicar que o famoso assassino<br \/>\n    se houvesse despojado, para penetrar ali, de suas armas no momento em que<br \/>\n    mais se expunha &agrave; a&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Marcolino, &agrave; vista destas considera&ccedil;&otilde;es, &agrave;s quais<br \/>\n    nada teve que opor, come&ccedil;ou a descrer de si mesmo e a acreditar que<br \/>\n    seus olhos o tinham enganado. O desanimo, a tristeza, a vergonha, que j&aacute;<br \/>\n    o haviam deixado, volveram a abat&ecirc;?lo novamente.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o de Holanda excogitava j&aacute; um meio de sair com<br \/>\n    honra da situa&ccedil;&atilde;o em que se via, quando lhe lembrou mandar arrasar<br \/>\n    o canavial.<\/p>\n<p>Toda a f&aacute;brica foi chamada incontinenti ao lugar onde as foices afiadas<br \/>\n    tinham de abater em poucas horas a ridente floresta que durante quase tr&ecirc;s<br \/>\n    dias servira de pitoresca muralha ao Cabeleira.<\/p>\n<p>Ele ouviu do centro da espessura onde estava, com o sangue?frio que &eacute;<br \/>\n    natural aos homens afeitos aos perigos, o rumor, ao princ&iacute;pio afastado,<br \/>\n    depois mais pr&oacute;ximo, da queda dessas touceira aben&ccedil;oadas a que<br \/>\n    devia o franco asilo que nunca encontrara entre os seus semelhantes.<\/p>\n<p>O c&iacute;rculo foi?se estreitando gradualmente em torno do prisioneiro,<br \/>\n    com a rapidez de um inc&ecirc;ndio que ao mesmo tempo avan&ccedil;a da circunfer&ecirc;ncia<br \/>\n    ao centro.<\/p>\n<p>A propor&ccedil;&atilde;o que as camadas iam caindo aos golpes dos possantes<br \/>\n    segadores, eram logo retiradas a fim de que se tivesse sempre desobstru&iacute;da<br \/>\n    a passagem, e f&aacute;cil fosse o acesso ao ponto objetivo.<\/p>\n<p>As linhas militares, que mantinham o ass&eacute;dio, acompanhando o descrescimento<br \/>\n    do espa&ccedil;o que desaparecia aos olhos dos circunstantes, tornavam?se<br \/>\n    gradualmente compactas, fortes, imposs&iacute;veis de romper.<\/p>\n<p> A princ&iacute;pio acreditou?se, n&atilde;o obstante o que dissera o Marcolino,<br \/>\n    que o Cabeleira n&atilde;o estava desacompanhado.<\/p>\n<p>A cada momento esperava?se ouvir a detona&ccedil;&atilde;o de uma descarga<br \/>\n    de dentro contra a for&ccedil;a que cercava o ponto. Quem n&atilde;o se considerou<br \/>\n    exposto ao punhal, &agrave; bala, &agrave; morte julgando ter atrav&eacute;s<br \/>\n    de fr&aacute;geis plantas, um inimigo, se n&atilde;o uma companhia de inimigos<br \/>\n    amestrados na pr&aacute;tica de todos os crimes ?<\/p>\n<p>Chegou enfim o momento dos negros descarregarem suas cortantes foices sobre<br \/>\n    o &uacute;ltimo renque de tou&ccedil;as aquele que separava do campo arrasado<br \/>\n    a vasta camarinha em que se acoutara o bandido.<\/p>\n<p>Desapareceu de todo o verde tufo aos olhos dos circunstantes; as duas superf&iacute;cies<br \/>\n    a exterior e a interior uniram?se como por encanto; o Cabeleira surgiu dentre<br \/>\n    as folhas com que pouco antes brincava a brisa, agora confundidas com as palhas<br \/>\n    secas, imagem, como aquelas, do seu perdido poder.<\/p>\n<p>Serena e resignada tristeza cobria?lhe o rosto queimado pelo sol que naquele<br \/>\n    momento lhe beijava a face onde haviam deixado ind&iacute;cios das suas garras<br \/>\n    a dor moral e a fome. Ca&iacute;a?lhe sobre os ombros a basta onda de cabelos,<br \/>\n    cacheados ao longe, e mais negros do que a barba escassa e nova que atestava<br \/>\n    a sua pouca idade. Seu trajo era simples: v&eacute;stia de couro surrado,<br \/>\n    camisa e cal&ccedil;a que deixavam ver, atrav&eacute;s dos rasg&otilde;es,<br \/>\n    o corpo de cor branca. O Cabeleira estava descal&ccedil;o, e tinha a cabe&ccedil;a<br \/>\n    coberta por um chap&eacute;u de palha de pindoba.<\/p>\n<p>Quando se achou de s&uacute;bito em, presen&ccedil;a da multid&atilde;o,<br \/>\n    levou instintamente a m&atilde;o ao chap&eacute;u, e descobriu?se.<\/p>\n<p>Os mais animosos que haviam corrido a p&ocirc;r?lhe as m&atilde;os para segur&aacute;?lo,<br \/>\n    tomando o gesto respeitoso que bem denotava o bom natural do bandido, por<br \/>\n    uma amea&ccedil;a, ou meneio de agress&atilde;o, recuaram amedrontados.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o de Holanda Cavalcanti, sustentando os foros de uma<br \/>\n    estirpe que j&aacute; se havia ilustrado em 1710, e que no Brasil independente<br \/>\n    ?estava destinada a figurar com o brilho que sabemos, aproximou?se do bandido<br \/>\n    e com o ar e jeito grave que lhe davam a nobreza e a autoridade que revestia:<\/p>\n<p> &Eacute; voc&ecirc; o Cabeleira ? perguntou ele ao mancebo.<\/p>\n<p> Saber&aacute; V. S&ordf; que sou eu Jos&eacute; Gomes respondeu ele sem<br \/>\n    hesitar nem subterfugir.<\/p>\n<p>Uma centena de vozes confirmou esta resposta franca, completa, e pr&oacute;pria<br \/>\n    do seu grande &acirc;nimo.<\/p>\n<p> Jos&eacute; Gomes disse?lhe Crist&oacute;v&atilde;o pondo a m&atilde;o direita<br \/>\n    no ombro do mancebo , voc&ecirc; pelos enormes crimes que tem cometido, est&aacute;<br \/>\n    preso em nome da lei, e vai responder perante a junta de justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, em conformidade da ordem dada por ele, um toque de corneta,<br \/>\n    que atroou a solid&atilde;o, anunciou que o criminoso tinha ca&iacute;do nas<br \/>\n    m&atilde;os dos agentes da for&ccedil;a p&uacute;blica.<\/p>\n<p> Gon&ccedil;alo Pais disse Crist&oacute;v&atilde;o voltando?se para o seu<br \/>\n    ajudante , mande soltar o matuto, que denunciou o criminoso. Se este n&atilde;o<br \/>\n    fosse encontrado dentro do cerco, o denunciante pagaria com tr&ecirc;s tratos<br \/>\n    de pol&eacute; a humilha&ccedil;&atilde;o a que me houvesse exposto perante<br \/>\n    o governador. Como se verificou a sua declara&ccedil;&atilde;o, ser&aacute;<br \/>\n    recompensado pelo r&eacute;gio er&aacute;rio, e recomendado &agrave; munific&ecirc;ncia<br \/>\n    del?rei nosso senhor.<\/p>\n<p>Meia hora depois, Marcolino, montado em fogoso cavalo baio, desapareceu com<br \/>\n    ar e jeito de quem alcan&ccedil;ou grande vit&oacute;ria, no caminho de Santo<br \/>\n    Ant&atilde;o, a levar a not&iacute;cia de uma pris&atilde;o que salvara a<br \/>\n    sua honra, e com que ele se considerava coberto de gl&oacute;ria.<\/p>\n<h2><a name=\"17\">Cap&Iacute;tulo XVII<\/a><\/h2>\n<p>Grande concurso de povo tomava uma tarde uma das embocaduras da rua do Amparo<br \/>\n    da ilustre vila de Goiana.<\/p>\n<p>Depois de algum tempo chegaram de longe, do lado do Barro Vermelho, ao ponto<br \/>\n    da reuni&atilde;o os sons de um clarim, que logo cessaram para deixarem ouvir<br \/>\n    os rufos de um tambor.<\/p>\n<p>A este sinal, sofregamente esperado, alvoro&ccedil;ou?se a multid&atilde;o.<br \/>\n    As mulheres compuseram seus len&ccedil;os no pesco&ccedil;o, os len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    na cabe&ccedil;a, os cabe&ccedil;&otilde;es de rendas, ent&atilde;o muito<br \/>\n    em uso. As m&atilde;es conchegaram bem a si os filhos menores, que tinham<br \/>\n    pela m&atilde;o; os pais foram ocupar seu posto, que n&atilde;o mais desampararam,<br \/>\n    ao p&eacute; das consortes e filhas, que se mostravam temerosas do que poderia<br \/>\n    vir a acontecer, porque, em muitos dos circunstantes, &agrave; curiosidade<br \/>\n    se substituiu logo o terror p&acirc;nico, dif&iacute;cil de vencer, e sempre<br \/>\n    contagioso e pegadi&ccedil;o.<\/p>\n<p>A rua do Amparo contava ent&atilde;o uma s&oacute; casa de sobrado.<\/p>\n<p>Via?se na varanda deste d. Leonor, mulher do capit&atilde;o?mor. Seus belos<br \/>\n    olhos estavam voltados para o extremo da rua onde era tudo confus&atilde;o<br \/>\n    e burburinho. Entre os an&eacute;is dos seus negros cabelos brilhavam ricas<br \/>\n    flores de ouro e coral, semelhantes a malmequeres e pitangas. Um vestido de<br \/>\n    seda azul, com ramos de rosas brancas que lhe subiam da f&iacute;mbria &agrave;<br \/>\n    cintura, deixava adivinhar as formas admiravelmente corretas da nobre senhora,<br \/>\n    cuja gentileza impunha a todos preito com que se n&atilde;o daria mal uma<br \/>\n    princesa. A seu lado, mostravam?se outras senhoras pertencentes &agrave;s<br \/>\n    primeiras fam&iacute;lias da vila.<\/p>\n<p>De repente ouviu?se de novo o clarim, a quem coube a distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de anunciar a entrada da tropa com o grande prisioneiro.<\/p>\n<p>A soldadesca rompeu por entre a multid&atilde;o, e encaminhou?se &agrave;<br \/>\n    casa do capit&atilde;o?mor.<\/p>\n<p>Este vinha &agrave; frente do batalh&atilde;o, e montava sua cavalgadura<br \/>\n    de estima&ccedil;&atilde;o ricamente ajaezada. Ao lado do capit&atilde;o?mor<br \/>\n    mostravam?se alguns coron&eacute;is de ordenan&ccedil;as.<\/p>\n<p>O prisioneiro aparecia no centro da tropa. Sua fisionomia estava triste;<br \/>\n    mas n&atilde;o tinha a carregada express&atilde;o da perversidade, nem o vil<br \/>\n    abatimento da covardia. Seu passo, posto que forcado, era firme, qual devera<br \/>\n    ser o de um homem de poderosa organiza&ccedil;&atilde;o, aos 24 para 25 anos<br \/>\n    de idade.<\/p>\n<p>Faltava por&eacute;m a esse homem a prontid&atilde;o nos movimentos f&iacute;sicos<br \/>\n    a que por in&uacute;meras vezes devera sua salva&ccedil;&atilde;o. Uma corda<br \/>\n    de couro cru prendia?lhe em diferentes an&eacute;is os bra&ccedil;os, poucos<br \/>\n    dias antes prestes a levar a destrui&ccedil;&atilde;o e a morte a afastadas<br \/>\n    regi&otilde;es.<\/p>\n<p>Poucos foram os que n&atilde;o tiveram os olhos arrasados de l&aacute;grimas<br \/>\n    quando viram escravo de uma cadeia ign&oacute;bil o infeliz mo&ccedil;o, que,<br \/>\n    ainda ontem, tinha a imensid&atilde;o a seu dispor, e era livre como as feras<br \/>\n    no deserto. A presen&ccedil;a do infeliz despertara a piedade de quase todos<br \/>\n    os espectadores.<\/p>\n<p>Naquele tempo a cadeia de Goiana n&atilde;o tinha a solidez da que se v&ecirc;<br \/>\n    presentemente na rua Direita. Era uma casa de um s&oacute; pavimento a que<br \/>\n    faltavam quase todas as condi&ccedil;&otilde;es de seguran&ccedil;a e higiene<br \/>\n    que as penitenci&aacute;rias modernas re&uacute;nem.<\/p>\n<p> Viam?se em suas janelas n&atilde;o grades, mas var&otilde;es de madeira.<br \/>\n    Muitos criminosos conseguiram evadir?se quebrando alguns desses var&otilde;es.<br \/>\n    Nem &eacute; de admirar que tais fossem as condi&ccedil;&otilde;es da cadeia<br \/>\n    p&uacute;blica daquela vila em 1776, se ainda hoje, com exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das capitais e de algumas cidades interiores de mais nota, se apontam localidades<br \/>\n    importantes e at&eacute; sedes de comarcas que n&atilde;o t&ecirc;m melhores<br \/>\n    pris&otilde;es que as do tempo colonial.<\/p>\n<p>N&atilde;o s&oacute; pela manifesta incapacidade da pris&atilde;o p&uacute;blica,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m por n&atilde;o confiar de ningu&eacute;m a guarda de um<br \/>\n    r&eacute;u dos quilates do Cabeleira resolveu Crist&oacute;v&atilde;o de Holanda<br \/>\n    t&ecirc;?lo em sua pr&oacute;pria casa durante o tempo que fosse necess&aacute;rio<br \/>\n    para os preparativos da jornada ao Recife.<\/p>\n<p>As primeiras autoridades de Goiana reuniram?se &agrave; noite em casado capit&atilde;o?mor,<br \/>\n    que a tuba da fama come&ccedil;ou a apregoar como o salvador da prov&iacute;ncia.<\/p>\n<p>Enquanto essas autoridades praticavam da quest&atilde;o do dia a pris&atilde;o<br \/>\n    do malfeitor, este, no pavimento inferior, de que uma parte lhe fora dada<br \/>\n    por menagem, entregava?se a fundas cogita&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Um soldado, que dele se compadecera, o tinha persuadido a ir passar alguns<br \/>\n    momentos no quintal, a fim de se divertir de suas id&eacute;ias tristes. O<br \/>\n    Cabeleira sentara?se a um canto, &agrave; sombra de uma cajazeira.<\/p>\n<p>Em qualquer parte para onde volveu os olhos s&oacute; lhe apareceram guardas<br \/>\n    que n&atilde;o perdiam um s&oacute; dos seus movimentos. Ergueu os olhos acima<br \/>\n    dos altos muros que o cercavam, e deu com a vista nas belas estrelas que tinham<br \/>\n    sido suas companheiras no deserto. Aqueles astros saudosos, guias leais e<br \/>\n    constantes do filho da liberdade, n&atilde;o alumiavam agora nesse filho sen&atilde;o<br \/>\n    o escravo da justi&ccedil;a que qualquer crian&ccedil;a poderia impunemente<br \/>\n    insultar.<\/p>\n<p>Lembrou?se de Lu&iacute;sa, cujo cad&aacute;ver n&atilde;o lhe havia permitido<br \/>\n    dar &agrave; sepultura o instinto da pr&oacute;pria conserva&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    o medo irresist&iacute;vel da morte o impelira para o seio da floresta antes<br \/>\n    que ele houvesse cumprido este piedoso dever.<\/p>\n<p> Ah ! Luisinha ! pensou ele. Se eu tinha de cair alguns dias depois no poder<br \/>\n    da justi&ccedil;a, por que fugi ent&atilde;o sem ter primeiro posto teu corpo<br \/>\n    ao abrigo dos urubus, ou dos c&atilde;es de ca&ccedil;a ? Ah ! meu amor, perdoa<br \/>\n    minha crueldade, perdoa minha ingratid&atilde;o.<\/p>\n<p>As l&aacute;grimas saltaram?lhe dos olhos em impetuosa torrente.<\/p>\n<p> De que choras, Cabeleira ? perguntou?lhe o soldado que dele se mostrara<br \/>\n    compassivo. Est&aacute;s com medo da morte ?<\/p>\n<p> N&atilde;o, n&atilde;o tenho medo de morrer disse ele. Estou chorando de<br \/>\n    me haver lembrado da &uacute;nica mulher, a quem, depois de minha m&atilde;e,<br \/>\n    quis bem nesta vida.<\/p>\n<p> Qual mulher? Ser&aacute; a que deixaste morta junto das cabeceiras do rio<br \/>\n    ?<\/p>\n<p> Essa mesma. Voc&ecirc; a viu ?<\/p>\n<p> Sim, eu a vi. Mas que bem poderias querer a ela, se foste tu pr&oacute;prio,<br \/>\n    Cabeleira, que a mataste ?<\/p>\n<p> N&atilde;o, eu n&atilde;o a matei; ela morreu, ela mesma, quando se considerava<br \/>\n    feliz comigo, e quando eu via nela meu maior prazer, minha maior dita. Ah,<br \/>\n    Luisinha, tu bem sabes que eu te queria muito bem, muito ! Que pena tenho<br \/>\n    eu quando considero que te perdi para sempre, que te deixei no deserto, que<br \/>\n    os carcar&aacute;s furaram teus olhos, que os urubus despeda&ccedil;aram tuas<br \/>\n    carnes, e que os anus, pretos como meu cora&ccedil;&atilde;o, esvoa&ccedil;aram<br \/>\n    por cima de teus ossos !<\/p>\n<p>Os solu&ccedil;os embargaram a voz do desgra&ccedil;ado.<\/p>\n<p> Se &eacute; por isso, n&atilde;o chores, Cabeleira. O corpo de Luisinha<br \/>\n    n&atilde;o ficou &agrave;s aves nem aos animais do mato.<\/p>\n<p> N&atilde;o ficou ?<\/p>\n<p> Eu o enterrei com minhas pr&oacute;prias m&atilde;os.<\/p>\n<p> Voc&ecirc; ?<\/p>\n<p> Eu e mais outro companheiro.<\/p>\n<p>O bandido correu ao soldado para o apertar em seus bra&ccedil;os em sinal<br \/>\n    de reconhecimento. Mas a corda que o prendia pelos lagartos tolheu que ele<br \/>\n    lhe desse esta demonstra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o tem que me agradecer disse o miliciano. Eu vi Luisinha menina.<br \/>\n    Voc&ecirc; n&atilde;o me conhece, mas eu tamb&eacute;m o vi pequeno; e se<br \/>\n    sua pris&atilde;o estivesse em minhas m&atilde;os, nunca ela se teria feito.<\/p>\n<p>O soldado afastou?se do Cabeleira para que este n&atilde;o lhe visse as l&aacute;grimas<br \/>\n    que de quatro em quatro estavam banhando suas faces.<\/p>\n<p> N&atilde;o se afaste, camarada disse o prisioneiro. Tenho certeza de que<br \/>\n    voc&ecirc; n&atilde;o me quer mal, e por isso quero pedir?lhe um favor. N&atilde;o<br \/>\n    sei como poderei passar esta noite com a tristeza que tenho. Poder&aacute;<br \/>\n    voc&ecirc; arranjar?me uma viola ?<\/p>\n<p>Pouco depois ignotos sons, que est&atilde;o acima do maior elogio, levaram<br \/>\n    melancolia e saudade ao cora&ccedil;&atilde;o de todo aquele de quem se fizeram<br \/>\n    ouvir.<\/p>\n<p>Fora j&aacute; servida a &uacute;ltima refei&ccedil;&atilde;o, e os h&oacute;spedes<br \/>\n    se haviam retirado a suas casas. Era tudo mudez na rua e vizinhan&ccedil;as.<br \/>\n    Os sons mel&iacute;fluos que j&aacute; haviam imposto silencio aos soldados<br \/>\n    chegaram ao terrado da casa de Crist&oacute;v&atilde;o como uma torrente de<br \/>\n    celestiais melodias, que lembraram a harpa de Davi, ou a lira de Anfi&atilde;o.<br \/>\n    Estas melodias comoveram o capit&atilde;o?mor e sua jovem senhora, que iam<br \/>\n    ficar dentro em algumas horas separados de novo.<\/p>\n<p> Como s&atilde;o tristes os sons desta viola ! disse ele. S&atilde;o as &uacute;ltimas<br \/>\n    despedidas de quem est&aacute; a entrar no reino da verdade.<\/p>\n<p> Mais me entristecem estas palavras suas, Crist&oacute;v&atilde;o disse dona<br \/>\n    Leonor. Se n&oacute;s o pud&eacute;ssemos salvar&#8230;<\/p>\n<p> Que diz, Leonor? Ele &eacute; um grande assassino. Sua m&atilde;o tem derramado<br \/>\n    rios de sangue inocente. Os monstros n&atilde;o tem entranhas mais cruas do<br \/>\n    que as dele.<\/p>\n<p> Pobre mo&ccedil;o! Para atestar que seu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o mau, nem sequer lhe vale a express&atilde;o de bondade<br \/>\n    que tem no rosto ! Escute, Crist&oacute;v&atilde;o. Convers&aacute;vamos aqui<br \/>\n    h&aacute; pouco eu e dona Catarina; Gon&ccedil;alo Pais estava ao nosso lado.<br \/>\n    Sen&atilde;o quando vieram trazer?nos del&iacute;cias e despertar em n&oacute;s<br \/>\n    saudades comoventes os sons que o prisioneiro extrai com rara delicadeza de<br \/>\n    seu inspirado instrumento. Dona Catarina manifestou ent&atilde;o grandes desejos<br \/>\n    de o conhecer.<\/p>\n<p> E que fizeram ?<\/p>\n<p> Descemos ao quintal acompanhadas de Gon&ccedil;alo. Assim que nos viu, ele<br \/>\n    levantou?se, e nos saudou respeitosamente. &quot;Continue a tocar, Cabeleira&quot;,<br \/>\n    disse?lhe eu. &quot;Ah, senhora, mal posso pegar na viola. Al&eacute;m disso<br \/>\n    eu n&atilde;o sei tocar coisa capaz, senhora minha. Mas estes sons grosseiros<br \/>\n    podem melhorar se vossa senhoria, por sua bondade, mandar que me afrouxem<br \/>\n    um pouco estes la&ccedil;os. A corda penetrou?me na raiz das carnes, e tira?me<br \/>\n    toda a a&ccedil;&atilde;o.&quot; Fiz sinal a Gon&ccedil;alo para que satisfizesse<br \/>\n    o pedido do prisioneiro, mas Gon&ccedil;alo hesitou.<\/p>\n<p> Fez bem disse o capit&atilde;o?mor.<\/p>\n<p> &quot;Pode fazer sem susto o que minha senhora manda, sr. tenente. Cabeleira<br \/>\n    n&atilde;o fugir&aacute; porque est&aacute; cansado de viver&quot;, disse<br \/>\n    o prisioneiro. Faltam?me express&otilde;es para lhe dizer, Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    o que ouvimos ent&atilde;o. Notas de &oacute;rg&atilde;o inspirado n&atilde;o<br \/>\n    dizem os mist&eacute;rios, as melancolias que se debulharam da viola do desgra&ccedil;ado.<br \/>\n    Vendo?o t&atilde;o mo&ccedil;o, t&atilde;o artista e t&atilde;o infeliz,todos<br \/>\n    nos sentimos comovidos da sua sorte; e ele, o prisioneiro, chorava e solu&ccedil;ava<br \/>\n    como uma crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Basta, Leonor disse Crist&oacute;v&atilde;o abalado com a narra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que acabava de ouvir.<\/p>\n<p>Dona Leonor, surpreendendo este sentimento do marido, prop&ocirc;s?se tirar<br \/>\n    dele o maior proveito para o infeliz. Atirou?se a Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    de Holanda, e o cobriu de afagos e carinhos.<\/p>\n<p>Fez mil rogativas para que se amerceasse da sorte do Cabeleira. A seu entender,<br \/>\n    alguns anos de pris&atilde;o bastariam para que ele se corrigisse e emendasse.<\/p>\n<p> Mas quem diz que n&atilde;o ser&aacute; esta a pena que se lhe vai impor<br \/>\n    ? perguntou o capit&atilde;o?mor.<\/p>\n<p> N&atilde;o o disse j&aacute; o senhor, Crist&oacute;v&atilde;o? Sou eu que<br \/>\n    lhe pe&ccedil;o que de escapula ao infeliz.<\/p>\n<p> Escapula, Leonor, esc&aacute;pula ! exclamou Cristav&atilde;o. E minha honra,<br \/>\n    e meu dever?<\/p>\n<p> Eles n&atilde;o ficar&atilde;o manchados com um ato de humanidade. Todos<br \/>\n    dizem que a maus conselhos e funestas instiga&ccedil;&otilde;es deve o Cabeleira<br \/>\n    o ter cometido tantos crimes. Pois bem; aquele que o aconselhou e instigou<br \/>\n    &agrave; pr&aacute;tica desses crimes, o verdadeiro criminoso, l&aacute; est&aacute;<br \/>\n    para responder pelo que fez, e mandou o filho fazer. Sua condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    servir&aacute; de exemplo &agrave; sociedade e ao pr&oacute;prio filho dele;<br \/>\n    mas a condena&ccedil;&atilde;o deste ser&aacute; uma grande injusti&ccedil;a,<br \/>\n    e o c&eacute;u n&atilde;o permitir&aacute; jamais que para ela concorra Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    Cavalcanti que sempre trouxe limpo o bras&atilde;o que lhe legaram seus av&oacute;s.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o?mor levantou?se com a palidez na face. A poderosa dial&eacute;tica<br \/>\n    da consorte o havia feito sentir mais altera&ccedil;&otilde;es na alma do<br \/>\n    que seus pr&oacute;prios carinhos no cora&ccedil;&atilde;o. A verdade sobre<br \/>\n    o Cabeleira era justamente aquela que sua mulher havia resumido em meia d&uacute;zia<br \/>\n    de palavras vivas e violentas.<\/p>\n<p>Depois de ter dado alguns passos pelo terrado Crist&oacute;v&atilde;o caminhou<br \/>\n    para dona Leonor, que o n&atilde;o tinha perdido de vista.<\/p>\n<p> Tudo o que disse &eacute; verdade, Leonor; mas sou eu acaso juiz ? N&atilde;o<br \/>\n    sou mais do que o executor de uma ordem do governador. Acredito que prendi<br \/>\n    um criminoso, para o qual, se a mim competisse julg&aacute;?lo, teria eu uma<br \/>\n    condena&ccedil;&atilde;o mais branda. Mas o direito de o mandar ir embora<br \/>\n    n&atilde;o o tenho eu. Se usasse de semelhante faculdade, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    de Holanda teria lan&ccedil;ado sobre seu nome honrado uma mancha indel&eacute;vel.<\/p>\n<p>Tendo dito estas palavras, Crist&oacute;v&atilde;o de Holanda recolheu?se<br \/>\n    imediatamente a seu gabinete em companhia de Gon&ccedil;alo Pais.<\/p>\n<p>tatuando a lua apareceu no c&eacute;u triste e p&aacute;lida como os anjos<br \/>\n    dos sepulcros, a tropa recebeu ordem para partir no mesmo instante. O capit&atilde;o?mor<br \/>\n    precipitava a jornada que havia dilatado para o dia seguinte.<\/p>\n<p>Pouco depois a tropa moveu?se. Dona Leonor, anjo de amor e de benevol&ecirc;ncia,<br \/>\n    deixava cair nesse momento, em silencio, algumas l&aacute;grimas, l&iacute;mpidas<br \/>\n    como sua alma.<\/p>\n<p>A respeit&aacute;vel senhora tinha saudades do esposo que novamente se ausentava,<br \/>\n    e pena do infeliz, que a morte atra&iacute;a a si na forma de um pat&iacute;bulo,<br \/>\n    e em nome da lei.<\/p>\n<h2><a name=\"18\">Cap&Iacute;tulo XVIII<\/a><\/h2>\n<p>Chegou enfim o momento da extrema prova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o tinha decorrido um m&ecirc;s, quando se ouviram os duros<br \/>\n    sons das crebras marteladas, que anunciavam &agrave; popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Recife o pr&oacute;ximo e fatal fim dos delinq&uuml;ente. Levantava?se<br \/>\n    a forca no largo das Cinco Pontas.<\/p>\n<p>Pela segunda vez este instrumento de supl&iacute;cio sobressaltou os &acirc;nimos<br \/>\n    e encheu de dor os cora&ccedil;&otilde;es na vila her&oacute;ica.<\/p>\n<p>Por grandes que sejam as ofensas que a sociedade tenha recebido de um dos<br \/>\n    seus membros, a raz&atilde;o p&uacute;blica sente?se abatida diante da sua<br \/>\n    puni&ccedil;&atilde;o por meio da morte natural.<\/p>\n<p>A mem&oacute;ria dos primeiros supl&iacute;cios estava quase de todo apagado<br \/>\n    do esp&iacute;rito do povo. Realizaram?se eles durante a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do governador Henrique Lu&iacute;s. Haviam decorrido da sua realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    38 anos, tempo mais que bastante para que se oblitere da tela do pensamento<br \/>\n    a imagem de semelhantes representa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Os pernambucanos lembravam?se por&eacute;m ainda em 1776 do muito que custara<br \/>\n    a esse governador sentenciar &agrave; morte alguns criminosos.<\/p>\n<p>Uma provis&atilde;o r&eacute;gia de data de 20 de outubro de 1735 tinha criado<br \/>\n    em Pernambuco a junta de justi&ccedil;a criminal, a mesma que 1776 julgou<br \/>\n    o Cabeleira, seu pai e os demais r&eacute;us que sabemos.<\/p>\n<p>Havia?se reunido em conformidade da citada provis&atilde;o na casa da c&acirc;mara<br \/>\n    aquela junta, composta do governador, dos ouvidores de Pernambuco e Para&iacute;ba,<br \/>\n    do juiz de fora de Olinda, e de um dos ouvidores que tinham servido na primeira<br \/>\n    das sobreditas prov&iacute;ncias. Apesar das raz&otilde;es mais de humanidade,<br \/>\n    do que de Estado, expostas por Henrique Lu&iacute;s, a maioria condenara os<br \/>\n    criminosos a serem justi&ccedil;ados no pat&iacute;bulo. Henrique Lu&iacute;s,<br \/>\n    o modelo dos governadores portugueses, passara pelo desgosto de lavrar a senten&ccedil;a<br \/>\n    de morte que feriu primeiro a ele que aos condenados.<\/p>\n<p>No julgamento do Cabeleira e dos demais presos a inviolabilidade da pessoa<br \/>\n    humana fora melhor compreendida e respeitada pela junta, da qual s&oacute;<br \/>\n    um membro opinara pela pena capital.<\/p>\n<p>Assim, no espa&ccedil;o de 38 anos o n&iacute;vel da consci&ecirc;ncia moral<br \/>\n    subira em tr&ecirc;s dos membros dessa terr&iacute;vel comiss&atilde;o; mas<br \/>\n    por desgra&ccedil;a baixara no mais importante deles. Jos&eacute; C&eacute;sar,<br \/>\n    desprezando o voto dessa maioria, digna de figurar nos tribunais modernos,<br \/>\n    sentenciara &agrave; pena &uacute;ltima os infelizes com o apoio de um voto<br \/>\n    contra tr&ecirc;s, excedendo assim as atribui&ccedil;&otilde;es do governador<br \/>\n    a quem a citada provis&atilde;o conferia unicamente, no caso de empate entre<br \/>\n    os quatro membros, o direito de desempatar. Por onde se v&ecirc; que entre<br \/>\n    estes dois governadores, ambos bem intencionados, embora as suas inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    fossem contr&aacute;rias entre si e em seus efeitos, n&atilde;o mediavam somente<br \/>\n    58 anos, mas tamb&eacute;m a barreira que separa das trevas a luz, do poder<br \/>\n    arbitr&aacute;rio, que destr&oacute;i, o sentimento liberal, que edifica.<\/p>\n<p> Henrique Lu&iacute;s, posto que mais afastado do que seu colega, representava<br \/>\n    o direito novo de que o mesmo Portugal do s&eacute;culo 18 trasladou em seu<br \/>\n    c&oacute;digo, que o honra, uma parcela no s&eacute;culo 19 com aplauso de<br \/>\n    todas as na&ccedil;&otilde;es cultas. Esta parcela &eacute; a que afirma e<br \/>\n    consagra a inviolabilidade da pessoa humana.<\/p>\n<p> Se algu&eacute;m houvesse dito ent&atilde;o a Jos&eacute; C&eacute;sar que<br \/>\n    sua p&aacute;tria em menos de um s&eacute;culo riscaria de sua legisla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a pena que ele impunha com tamanho arb&iacute;trio a tr&ecirc;s desgra&ccedil;ados<br \/>\n    a quem faltava a instru&ccedil;&atilde;o mais elementar, teria ouvido o poderoso<br \/>\n    agente da realeza metropolitana classificar como uma utopia dos sonhadores<br \/>\n    do s&eacute;culo 18 esta brilhante conquista das nossas luzes. Os tempos vingam?se,<br \/>\n    e se a humanidade algumas vezes, como as aves, rasteja e se enloda nos charcos<br \/>\n    da terra, purifica?se como elas, nas chuvas celestes, e eleva?se a regi&otilde;es<br \/>\n    seren&iacute;ssimas donde v&ecirc; a grandeza do Onipotente nos milh&otilde;es<br \/>\n    de mundos que povoam a imensidade; a sua sabedoria na harmonia que os prende;<br \/>\n    a sua bondade no sem?n&uacute;mero de leis, assim f&iacute;sicas, como morais,<br \/>\n    que protegem os corpos e dignificam os esp&iacute;ritos.<\/p>\n<p>Na hora em que se constru&iacute;a o cadafalso, uma mulher que representava<br \/>\n    cinq&uuml;enta, mas na realidade n&atilde;o tinha sen&atilde;o 36 anos de<br \/>\n    idade, pedia por tudo quanto h&aacute; sagrado, a uma das sentinelas do pal&aacute;cio<br \/>\n    permiss&atilde;o para falar ao governador.<\/p>\n<p>Joana havia chegado de Santo Ant&atilde;o no dia anterior, e de noite soubera<br \/>\n    que o filho e o marido tinham sido condenados &agrave; morte. N&atilde;o lhe<br \/>\n    permitiram ver os entes que pertenciam mais a ela, representante do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por dobrado direito, do que &agrave; justi&ccedil;a que nesse momento exprimia<br \/>\n    uma vontade poderosa e apaixonada.<\/p>\n<p>Pela manh&atilde; Joana correra ao pal&aacute;cio para cair aos p&eacute;s<br \/>\n    de Jos&eacute; C&eacute;sar, e rogar?lhe que lhe deixasse ver o filho. A sentinela,<br \/>\n    em resposta, perguntara?lhe simplesmente:<\/p>\n<p> Quem &eacute; voc&ecirc; para falar ao sr. governador ?<\/p>\n<p> Sou a m&atilde;e do Cabeleira. Ser&aacute; poss&iacute;vel que meu filho<br \/>\n    morra sem que eu o tenha visto antes ?<\/p>\n<p> Ponha?se no largo das Cinco Pontas, que o ver&aacute; subir &agrave; forca<br \/>\n    &agrave; volta de uma hora da tarde.<\/p>\n<p> Meu filho ! gritara ela em solu&ccedil;o. Pois hei de ver meu filho morrer<br \/>\n    na forca !<\/p>\n<p>Joana ca&iacute;ra com a face sobre a laje do pavimento, carpindo?como louca<br \/>\n    a sua desventura.<\/p>\n<p>Tendo ouvido os ais, lamentos, exclama&ccedil;&otilde;es e gritos daquela<br \/>\n    consternada m&atilde;e, mandara Jos&eacute; C&eacute;sar inquirir a causa<br \/>\n    do alarido. Quando lhe disseram a desoladora verdade, ordenara que incontinenti<br \/>\n    a m&atilde;e infeliz fosse posta em cust&oacute;dia at&eacute; que se cumprisse<br \/>\n    a execu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Joana mal pudera ouvir a intima&ccedil;&atilde;o deste cruel mandado.<\/p>\n<p> N&atilde;o, n&atilde;o ! gritara, atirando?se para fora do pal&aacute;cio<br \/>\n    em estado de puro desespero.<\/p>\n<p>Alguns soldados correram a peg&aacute;?la, mas em v&atilde;o, porque, empregando<br \/>\n    esfor&ccedil;os sobre a natureza, pudera Joana escapar, n&atilde;o sem deixar<br \/>\n    primeiro despeda&ccedil;ados nas m&atilde;os de um o len&ccedil;ol em que<br \/>\n    estava envolta, nas de outro parte dos seus cabelos que haviam de todo embranquecido.<br \/>\n    Aquela pobre mulher fora condenada pela adversidade a padecer angustiados<br \/>\n    momentos, para os quais n&atilde;o acharemos semelhantes no cat&aacute;logo<br \/>\n    das trag&eacute;dias humanas.<\/p>\n<p>Ela fora p&ocirc;r?se junto da masmorra, donde Cabeleira, Joaquim e Teod&oacute;sio,<br \/>\n    que a&iacute; se achavam em grande recado, logo que houvessem recebido os<br \/>\n    confortos da religi&atilde;o, tinham de partir para o lugar do supl&iacute;cio.<\/p>\n<p>A esse tempo j&aacute; as circunvizinhan&ccedil;as desse lugar se achavam<br \/>\n    ocupadas por grandes massas de povo.<\/p>\n<p> Quando no rel&oacute;gio da cadeia soou a hora fatal,; viu?se desfilar entre<br \/>\n    fortes colunas militares e a multid&atilde;o os condenados. O sil&ecirc;ncio<br \/>\n    e a tristeza que aumentam a solenidade destes espet&aacute;culos indescrit&iacute;veis,<br \/>\n    eram de momento a momento perturbados pelos lamentos de Joana.<\/p>\n<p> Meu filho vai morrer enforcado ! Ah ! meu Deus, v&oacute;s bem sabeis que<br \/>\n    ele n&atilde;o teve culpa dizia ela com a voz entrecortada de solu&ccedil;os.<\/p>\n<p>Jos&eacute; C&eacute;sar, cercado dos seus privados e lisonjeiros viu da<br \/>\n    varanda do pal&aacute;cio, outrora povoado pelo vulto hom&eacute;rico de Maur&iacute;cio<br \/>\n    de Nassau, tipo de mais fidalgo liberalismo que ainda transp&ocirc;s aqueles<br \/>\n    umbrais, com uma esp&eacute;cie de recolhimento qual se estivesse presenciado<br \/>\n    uma prociss&atilde;o desfilar o f&uacute;nebre pr&eacute;stito, que em seu<br \/>\n    trajeto percorreu as ruas do Crespo, Queimado, Livramento, Direita, P&aacute;tio<br \/>\n    do Ter&ccedil;o, e finalmente parou no largo das Cinco Pontas ao p&eacute;<br \/>\n    do terr&iacute;vel artefato. Era uma hora da tarde.<\/p>\n<p>O juiz nomeado pelo governador para assistir &agrave; execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em conformidade do disposto na provis&atilde;o r&eacute;gia, ordenou que o<br \/>\n    escriv&atilde;o repetisse a leitura da senten&ccedil;a. Os delinq&uuml;ente.<br \/>\n    ouviram pela vig&eacute;sima vez, com sincera contri&ccedil;&atilde;o, esse<br \/>\n    padr&atilde;o do absolutismo colonial.<\/p>\n<p>Finda a leitura, viu?se o Cabeleira aparecer, quase de s&uacute;bito, no<br \/>\n    estrado da forca, ao lado do carrasco.<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o havia vacilado na r&aacute;pida ascens&atilde;o nem dava mostras<br \/>\n    de abatido.<\/p>\n<p>Seu rosto estava p&aacute;lido, mas sereno. A cabe&ccedil;a tinha despojada<br \/>\n    do belo distintivo a que o mancebo devia a alcunha com que seu nome chegou<br \/>\n    &agrave; posteridade.<\/p>\n<p>Com um olhar longo e r&aacute;pido abrangeu a multid&atilde;o que se apinhava<br \/>\n    em derredor do pat&iacute;bulo, e proferi, sem titubear, com voz ligeiramente<br \/>\n    alterada, estas palavras que a tradi&ccedil;&atilde;o recebeu como heran&ccedil;a,<br \/>\n    para transmitir &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es vindouras:<\/p>\n<p> Morro arrependido dos meus erros. Quando ca&iacute; no poder da justi&ccedil;a,<br \/>\n    meu bra&ccedil;o era j&aacute; incapaz de matar, porque eu j&aacute; tinha<br \/>\n    entrado no caminho do bem&#8230;<\/p>\n<p> Meu filho ! meu filho ! gritou nesse momento Joana do meio do povo por entre<br \/>\n    o qual buscava embalde abrir caminho para chegar ao p&eacute; do cadafalso.<\/p>\n<p> A esta exclama&ccedil;&atilde;o, o Cabeleira voltou?se confuso e comovido.<br \/>\n    Um longo suspiro escapou?lhe do peito opresso da s&uacute;bita afli&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Seus l&aacute;bios tr&ecirc;mulos deixaram passar estas precisas e pontuais<br \/>\n    palavras:<\/p>\n<p> Adeus mam&atilde;ezinha do meu cora&ccedil;&atilde;o !<\/p>\n<p>No mesmo instante, aos olhos da multid&atilde;o profundamente abalada, a<br \/>\n    cena transformou?se como por oculto maquinismo. O infeliz mancebo, que, mal<br \/>\n    acabara de falar tinha sido rudemente impelido do estrado para o v&aacute;cuo,<br \/>\n    pendia da corda assassina, tendo sobre os ombros o carrasco que apertava com<br \/>\n    as m&atilde;os cobardes o la&ccedil;o sufocante. Cena b&aacute;rbara que enche<br \/>\n    de horror a humanidade, e cobre de vergonha e luto, como tantas outras, a<br \/>\n    hist&oacute;ria do per&iacute;odo colonial !<\/p>\n<p>No meio da multid&atilde;o esta cena de morte reproduziu?se no mesmo instante,<br \/>\n    unicamente modificada na forma. Entre os bra&ccedil;os de umas mulheres do<br \/>\n    povo, pobres m&atilde;es decerto, Joana acabara de exalar o &uacute;ltimo<br \/>\n    suspiro. O cora&ccedil;&atilde;o tinha?se instantaneamente estalado de dor.<\/p>\n<p> Poucos momentos depois ao cad&aacute;ver do Cabeleira reuniram?se os de<br \/>\n    Joaquim e Teod&oacute;sio, seus companheiros na vida e na morte, na hist&oacute;ria<br \/>\n    da prov&iacute;ncia e nas reminisc&ecirc;ncias do povo, ?de presente quase<br \/>\n    de todo apagadas pela m&atilde;o do tempo.<\/p>\n<p>A not&iacute;cia de t&atilde;o triste exemplo atravessou as remotas paragens<br \/>\n    onde repercutia a fama do grande matador, e passou ainda al&eacute;m nas asas<br \/>\n    ligeiras dos versos j&aacute; citados, aos quais se devem reunir estes dois<br \/>\n    &uacute;ltimos, trovistas pernambucanos:<\/p>\n<p>Quem tiver seus filhos<br \/>\n    Saiba?os ensinar;<br \/>\n    Veja Cabeleira<br \/>\n    Que vai a enforcar.<\/p>\n<p>Adeus, &oacute; cidade,<br \/>\n    Adeus, Santo Ant&atilde;o, <br \/>\n    Adeus, mam&atilde;ezinha <br \/>\n    Do meu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A execu&ccedil;&atilde;o do Cabeleira e seus co?r&eacute;us n&atilde;o atalhou<br \/>\n    as desordens e delitos, a que se refere a provis&atilde;o; n&atilde;o trouxe<br \/>\n    terror nem emenda aos malfeitores.<\/p>\n<p>Os crimes atrozes, ent&atilde;o muito freq&uuml;entes, se t&ecirc;m diminu&iacute;do,<br \/>\n    ainda n&atilde;o cessaram de todo. As folhas p&uacute;blicas registram todos<br \/>\n    os dias por infelicidade nossa muitos deles, perpetrados no Norte, no Sul<br \/>\n    e na pr&oacute;pria corte do Imp&eacute;rio.<\/p>\n<p>De que serviu pois a provis&atilde;o r&eacute;gia ? Em que consistiu o proveito<br \/>\n    da execu&ccedil;&atilde;o dos tr&ecirc;s infelizes no regime colonial; e dos<br \/>\n    que os precederam, ou se lhes seguiram neste e no regime do Imp&eacute;rio<br \/>\n    ?<\/p>\n<p>Ah ! meu amigo, a pena de morte, que as idades e as luzes t&ecirc;m demonstrado<br \/>\n    n&atilde;o ser mais que um crime jur&iacute;dico, de feito n&atilde;o corrige<br \/>\n    nem moraliza. O que ela faz &eacute; enegrecer os c&oacute;digos que em suas<br \/>\n    p&aacute;ginas a estampam, por mais liberais e s&aacute;bios que sejam como<br \/>\n    &eacute; o nosso; &eacute; abater o poder que a aplica; &eacute; escandalizar,<br \/>\n    consternar e envilecer as popula&ccedil;&otilde;es em cujo seio se efetua.<\/p>\n<p>A justi&ccedil;a executou o Cabeleira por crimes que tiveram sua principal<br \/>\n    origem na ignor&acirc;ncia e na pobreza.<\/p>\n<p> Mas o respons&aacute;vel de males semelhantes n&atilde;o ser&aacute; primeiro<br \/>\n    que todos a sociedade que n&atilde;o cumpre o dever de difundir a instru&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    fonte da moral, e de organizar o trabalho, fonte da riqueza?<\/p>\n<p>Se a sociedade n&atilde;o tem em caso nenhum o direito de aplicar a pena<br \/>\n    de morte a ningu&eacute;m, muito menos tem o de aplic&aacute;?la aos r&eacute;us<br \/>\n    ignorantes e pobres, isto &eacute;, aqueles que cometem o delito sem pleno<br \/>\n    conhecimento do mal, e obrigados muitas vezes da necessidade. O Cabeleira<br \/>\n    pode acaso comparar?se em culpabilidade a Lapomerais, m&eacute;dico ilustrado,<br \/>\n    ou a esse negociante alem&atilde;o ou americano, Tom&aacute;s ou Thompson,<br \/>\n    que, com intuito de enriquecer do dia para a noite, ocasionou com a perda<br \/>\n    do paquete Moselle a morte de oitenta, e os ferimentos de cem passageiros<br \/>\n    ?<\/p>\n<p>Condena?se &agrave; forca o escravo que mata o senhor, sem se atender a que,<br \/>\n    rebaixado pela condi&ccedil;&atilde;o servil, paciente do a&ccedil;oite di&aacute;rio,<br \/>\n    coberto de andrajos, quase sempre faminto, sobrecarregado com trabalhos excessivos,<br \/>\n    semelhante criatura &eacute; mais pr&oacute;pria para o cego instrumento do<br \/>\n    desespero, do que competente para o exerc&iacute;cio da raz&atilde;o. Ainda<br \/>\n    em 28 de abril do corrente ano, em uma cidade da prov&iacute;ncia das Alagoas<br \/>\n    um destes infelizes padeceu o supl&iacute;cio capital. Por honra da civiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    um dos primeiros &oacute;rg&atilde;os da imprensa do Norte, o Di&aacute;rio<br \/>\n    de Pernambuco lavrou contra essa cobardia jur&iacute;dica o seguinte protesto:<br \/>\n    &laquo;Registramos este acontecimento com a m&aacute;goa que s&oacute;i causar<br \/>\n    &agrave;queles que amam a p&aacute;tria e a humanidade a continua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre n&oacute;s da b&aacute;rbara pena de morte, que, infamando, nem ao menos<br \/>\n    corrige&quot;.<\/p>\n<p>Arrastam os delinq&uuml;ente. &agrave; barra dos tribunais ou ao p&eacute;<br \/>\n    dos ju&iacute;zes para serem interrogados sobre as circunst&acirc;ncias dos<br \/>\n    crimes que cometeram. N&atilde;o devia ser assim. O interrogat&oacute;rio<br \/>\n    principal devia ter por objeto os precedentes do culpado, o grau da sua instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    liter&aacute;ria, a sua educa&ccedil;&atilde;o, os seus teres.<\/p>\n<p>A pobreza, que &eacute; na realidade uma desgra&ccedil;a, deve a sociedade<br \/>\n    atribuir o maior n&uacute;mero dos crimes que pune e dos erros e faltas que<br \/>\n    n&atilde;o se julga com o direito de punir. A pobreza nunca foi nem ser&aacute;<br \/>\n    jamais um elemento de eleva&ccedil;&atilde;o; ela foi e ser&aacute; sempre<br \/>\n    um elemento de degrada&ccedil;&atilde;o social.<\/p>\n<p>A riqueza, meu amigo, &eacute; um dos primeiros bens da vida.<\/p>\n<p>Quando ela resulta de um trabalho honesto, e servido por uma ambi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nobre e ponderada, n&atilde;o podem dela redundar males. Ao reverso, de uma<br \/>\n    riqueza assim adquirida, prov&eacute;m quase sempre benef&iacute;cios n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; para aquele que a possui, mas tamb&eacute;m para a sociedade.<\/p>\n<p>Quanto mais medito sobre este assunto, mais me parece que o evangelho que<br \/>\n    ensina a pobreza volunt&aacute;ria, considerada pela moderna ci&ecirc;ncia<br \/>\n    um absurdo econ&ocirc;mico, e um imposs&iacute;vel social, &eacute; antes<br \/>\n    um c&oacute;digo de moral pr&aacute;tica sujeito &agrave; revis&atilde;o da<br \/>\n    sabedoria dos tempos, do que o corpo de leis de uma religi&atilde;o imut&aacute;vel.<br \/>\n    A prova de que n&atilde;o estou em erro, eu a vou achar no exemplo que nos<br \/>\n    d&atilde;o os atuais ministros do evangelho, os quais, muito diferentes dos<br \/>\n    pescadores da Galil&eacute;ia e da Samaria que, descal&ccedil;os e humildes,<br \/>\n    o ensinaram gratuitamente a todas as gentes, empregam hoje todos os meios<br \/>\n    de tornar?se ricos e poderosos, e n&atilde;o desestimam a opul&ecirc;ncia,<br \/>\n    come&ccedil;ando pelos que ocupam os primeiros lugares na hierarquia eclesi&aacute;stica.<\/p>\n<p>N&atilde;o sirvam estas verdades de consterna&ccedil;&atilde;o aos pobres.<\/p>\n<p>Sirvam?lhe de est&iacute;mulo para que trabalhem, cultivem a terra, as ind&uacute;strias,<br \/>\n    as artes, e possam, por seu pr&oacute;prio esfor&ccedil;o, vir a ser independentes<br \/>\n    &eacute; felizes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00cdtulo I Cap\u00cdtulo II Cap\u00cdtulo III Cap\u00cdtulo IV Cap\u00cdtulo V Cap\u00cdtulo VI Cap\u00cdtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00cdtulo IX Cap\u00cdtulo X Cap\u00cdtulo XI Cap\u00cdtulo XII Cap\u00cdtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00cdtulo XV Cap\u00cdtulo XVI Cap\u00cdtulo XVII Cap\u00cdtulo XVIII Franklin T\u00e1vora Cap&Iacute;tulo I A hist&oacute;ria de Pernambuco oferece-nos exemplos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96128","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Cabeleira - Franklin T\u00e1vora, Obra O Cabeleira - Franklin T\u00e1vora<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Cabeleira - Franklin T\u00e1vora, Obra, Livro, Hist\u00f3ria, Luisinha, Teod\u00f3sio, Joaquim, Z\u00e9 Gomes, Literatura, O Cabeleira - Franklin T\u00e1vora\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Cabeleira - Franklin T\u00e1vora, Obra O Cabeleira - Franklin T\u00e1vora\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Cabeleira - Franklin T\u00e1vora, Obra, Livro, Hist\u00f3ria, Luisinha, Teod\u00f3sio, Joaquim, Z\u00e9 Gomes, Literatura, O Cabeleira - Franklin T\u00e1vora\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-cabeleira-franklin-tavora\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-24T12:45:15+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"317 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-cabeleira-franklin-tavora#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-cabeleira-franklin-tavora\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"O Cabeleira &#8211; 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