{"id":96124,"date":"2017-01-24T10:36:22","date_gmt":"2017-01-24T12:36:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96124"},"modified":"2017-01-24T10:38:22","modified_gmt":"2017-01-24T12:38:22","slug":"lourenco-franklin-tavora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/lourenco-franklin-tavora","title":{"rendered":"Louren\u00e7o &#8211; Franklin T\u00e1vora"},"content":{"rendered":"<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a> <\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#15\">Cap\u00edtulo XV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#16\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#17\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#18\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Franklin T\u00e1vora<\/h2>\n<p align=\"center\"><em>Palavras que escrevi, aos 3 de julho do ano corrente,<br \/>\n    na folha exterior do original donde fora copiado o <\/em>Louren&ccedil;o<em><br \/>\n    para a <\/em>Revista Brasileira<em>.<\/em> <\/p>\n<p>Esta cr&ocirc;nica, pronta h&aacute; mais de dois anos para seguir em volume<br \/>\n    o <em>Matuto<\/em>, cujo &eacute; conclus&atilde;o l&oacute;gica e natural,<br \/>\n    acaba de sair a lume na <em>Revista Brasileira<\/em>, a que dedico afetos de<br \/>\n    natureza paternal.<\/p>\n<p> Mudando-se o plano da publica&ccedil;&atilde;o, tive por necess&aacute;rio<br \/>\n    adaptar aos leitores da <em>Revista<\/em>, que eu n&atilde;o podia presumir<br \/>\n    fossem absolutamente os mesmos do <em>Matuto.<\/em> Fiz por isso muitas altera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    neste manuscrito. Aumentei informa&ccedil;&otilde;es e min&uacute;cias, reproduzi<br \/>\n    id&eacute;ias in&uacute;teis no primeiro caso, indispens&aacute;veis no segundo.<br \/>\n    Quem ler agora o <em>Matuto<\/em> e o <em>Louren&ccedil;o<\/em> notar&aacute;<br \/>\n    algumas repeti&ccedil;&otilde;es. &Eacute; certo, por&eacute;m, que, na leitura,<br \/>\n    pode ser este desacompanhado daquele. Pelo que respeita &agrave;s repeti&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    passar&aacute; as vistas por cima delas o leitor ben&eacute;volo, sem enxergar<br \/>\n    mat&eacute;ria para corpo de delito contra o autor, atentos os motivos explicados.<\/p>\n<p> Cumpre advertir, que, conquanto cada uma das duas narrativas tenha a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pr&oacute;pria, conquanto cada uma delas possa subsistir sem a outra, para<br \/>\n    melhor conhecimento da guerra dos mascates em que ambas se inspiraram, a leitura<br \/>\n    do <em>Matuto <\/em>sem a do <em>Louren&ccedil;o<\/em>, e vice-versa, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; bastante.<\/p>\n<p> Esforcei-me por dar, quer no primeiro quer no &uacute;ltimo, uma id&eacute;ia<br \/>\n    t&atilde;o completa quanto poss&iacute;vel, dessa guerra, ainda pouco estudada,<br \/>\n    n&atilde;o obstante a sua originalidade, por si s&oacute; no caso de convidar<br \/>\n    a s&eacute;rio exame e medita&ccedil;&atilde;o o historiador depois do economista<br \/>\n    e do pol&iacute;tico. Pouca ou nenhuma import&acirc;ncia se lhe tem dado entre<br \/>\n    n&oacute;s; &eacute; certo contudo que, sem a guerra dos mascates, a qual<br \/>\n    deixou um valo profundo entre brasileiros e portugueses. n&atilde;o ter&iacute;amos<br \/>\n    a revolu&ccedil;&atilde;o de 1817, radiante e alva de que fora aquela guerra<br \/>\n    o p&aacute;lido crep&uacute;sculo precursor do dia da Independ&ecirc;ncia<br \/>\n    em 1822.<\/p>\n<p> Antes da emancipa&ccedil;&atilde;o das col&ocirc;nias americanas (1776),<br \/>\n    antes da conjura&ccedil;&atilde;o mineira (1789), reunida a nobreza com o<br \/>\n    Senado da C&acirc;mara de Olinda, em 1710 tratou de dar &agrave; capitania<br \/>\n    de Pernambuco outra forma de governo, independente de Portugal: foi a guerra<br \/>\n    dos mascates o primeiro grito do novo mundo contra as metr&oacute;poles europ&eacute;ias.<br \/>\n    N&atilde;o imitou Pernambuco a Fran&ccedil;a nem os Estados Unidos. Pensou<br \/>\n    e obrou por si muito antes de nesses pa&iacute;ses se pensar em independ&ecirc;ncia<br \/>\n    e rep&uacute;blica.<\/p>\n<p> O ajuntamento discutiu a id&eacute;ia sugerida por v&aacute;rios nobres<br \/>\n    de se estabelecer em Olinda uma rep&uacute;blica aristocr&aacute;tica modelada<br \/>\n    pela de Veneza; e se esta id&eacute;ia, considerada por todos de alta magnitude,<br \/>\n    e recebida por muitos com medo, n&atilde;o prevaleceu, porque foram votos<br \/>\n    vencedores os dos <em>moderados<\/em> que, como meio de conciliar os &acirc;nimos<br \/>\n    discordes, propuseram fosse aceito para governador o bispo alheio &agrave;s<br \/>\n    lutas partid&aacute;rias, e a quem ali&aacute;s cabia o governo, na falta<br \/>\n    do governador fugitivo, por via de sucess&atilde;o, conforme dispunha a carta-r&eacute;gia<br \/>\n    prevenindo as vac&acirc;ncias, nem por isso se deve desconhecer a prioridade<br \/>\n    de Pernambuco em cogitar na independ&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> A devassa, instaurada depois da chegada do governador F&eacute;lix Jos&eacute;<br \/>\n    Machado, ocasionou hom&iacute;zios, pris&otilde;es, seq&uuml;estros, que somente<br \/>\n    tiveram termo em 1714. A capitania ficou arruinada, muitas fam&iacute;lias<br \/>\n    na viuvez e na mis&eacute;ria; muitas fortunas desapareceram: foram quatro<br \/>\n    longos anos de calamidades, de l&aacute;grimas e luto. Se n&atilde;o houve<br \/>\n    execu&ccedil;&otilde;es capitais, n&atilde;o foi por faltarem bons desejos<br \/>\n    ao governador e aos ministros, mas por se poderem avir neste ponto com aquelas<br \/>\n    autoridades sanguin&aacute;rias os ouvidores da Para&iacute;ba e das Alagoas;<br \/>\n    houve, por&eacute;m, mortes e n&atilde;o poucas por ocasi&atilde;o dos levantes<br \/>\n    nos assaltos e batalhas; houve assass&iacute;nios nas estradas e at&eacute;<br \/>\n    nos ref&uacute;gios onde os nobres tinham buscado p&ocirc;r em seguran&ccedil;a<br \/>\n    a sua vida.<\/p>\n<p> Com todo o fundamento dever-se-ia reputar esta guerra como uma das mais<br \/>\n    prejudiciais a Pernambuco, se ela n&atilde;o fora a semente donde pululou<br \/>\n    a planta da nossa independ&ecirc;ncia pol&iacute;tica.<\/p>\n<h2><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I <\/a><\/h2>\n<p>  &nbsp;&nbsp; &nbsp;O governador F&eacute;lix Jos&eacute; Machado de Mendon&ccedil;a<br \/>\n  E&ccedil;a Castro e Vasconcelos, que chegara a Pernambuco em 7 de outubro de<br \/>\n  1711, depois de ter passado alguns dias em Olinda, mudou a sua resid&ecirc;ncia<br \/>\n  para Recife, com grande desagrado e desconfian&ccedil;a dos nobres, porque a<br \/>\n  florescente vila era a pra&ccedil;a forte da burguesia portuguesa, que aspirava<br \/>\n  &agrave; posse e mando da capit&acirc;nia.<\/p>\n<p> Posto que j&aacute; muito aumentado, n&atilde;o podia no lustre e n&uacute;mero<br \/>\n    dos habitantes competir o Recife com a opulenta e populosa Capital, que, do<br \/>\n    alto do seu orgulho, olhava com desd&eacute;m de soberana para a humilde vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    a quem hoje paga feudo de vassalagem. Eram poucas as ruas, quase nenhum os<br \/>\n    estabelecimentos p&uacute;blicos. Maur&iacute;cio de Nassau fizera surgir,<br \/>\n    da ilha pitoresca, aos sobrados, pal&aacute;cios e outras obras, cujos restos<br \/>\n    ainda atestam a grandeza do g&ecirc;nio batavo. Mas todos estes edif&iacute;cios<br \/>\n    e estabelecimentos, bastantes para certificar vinte e quatro anos de dom&iacute;nio<br \/>\n    fecundo de um grande povo, pouco eram em compara&ccedil;&atilde;o &agrave;s<br \/>\n    ruas sem conta, aos templos suntuosos, &agrave;s habita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    aristocr&aacute;ticas com que dos seus outeiros descia at&eacute; os vales,<br \/>\n    por entre pomares e jardins espl&ecirc;ndidos, a Olinda dos poetas, que nascera<br \/>\n    de um conflito de prazer das vistas de Albuquerque com as risonhas perspectivas<br \/>\n    que de cima desses outeiros se descortinam, como nascera V&ecirc;nus do ajuntamento<br \/>\n    do sangue do c&eacute;u com as escumas do mar.<\/p>\n<p> A prefer&ecirc;ncia do governador feriu a nobreza nos seus foros anci&atilde;os,<br \/>\n    e a cidade na sua justa e leg&iacute;tima vaidade. Todavia os nobres teriam<br \/>\n    curtido em sil&ecirc;ncio este dobrado desdouro, se&nbsp; em 18 de novembro,<br \/>\n    quarenta dias depois da chegada de F&eacute;lix Jos&eacute; Machado, n&atilde;o<br \/>\n    fossem escandalizados com a nova inaugura&ccedil;&atilde;o do pelourinho,<br \/>\n    causa primordial da guerra extinta (1). N&atilde;o podendo mais reter, em<br \/>\n    presen&ccedil;a do novo desacato, os seus ressentimentos mal ocultos, os mais<br \/>\n    importantes membros da nobreza pernambucana procuraram o bispo D. Manuel Alves<br \/>\n    da Costa, de cujas m&atilde;os o governador recebera as r&eacute;deas do governo,<br \/>\n    para o consultarem sobre o procedimento que deviam ter.<\/p>\n<p> O bispo, modelo de brandura crist&atilde; e de conc&oacute;rdia fraternal,<br \/>\n    tratou de amaciar os fidalgos melindres eri&ccedil;ados.<\/p>\n<p> Senhores, disse ele, n&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o para assim vos mostrardes<br \/>\n    descontentes. O ouvidor n&atilde;o podia deixar de restabelecer o pelourinho,<br \/>\n    demolido em 1710 no ardor das paix&otilde;es pelo povo levantado, visto que<br \/>\n    a vila est&aacute; criada. At&eacute; me parece que, a n&atilde;o ter este<br \/>\n    procedimento, o ouvidor incorreria em culpa.<\/p>\n<p> Perdoe-me v. exa., redarg&uuml;iu Estevam de Arag&atilde;o. &Eacute; verdade<br \/>\n    que a vila est&aacute; criada; mas, tendo oposto os nobres e os homens bons,<br \/>\n    ou antes o clero, a nobreza e o povo da capitania (que n&atilde;o podem compreender<br \/>\n    neste n&uacute;mero os abomin&aacute;veis mascates) geral rea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a este ato, justo parecera que sem novo ato em que se visse manifesta a vontade<br \/>\n    de el-rei acerca de tal assunto, n&atilde;o houvesse por parte dos ministros<br \/>\n    a menor delibera&ccedil;&atilde;o. Poder-se-&aacute; acaso compreender que<br \/>\n    os pernambucanos derramassem o seu sangue, que a nobreza lan&ccedil;asse m&atilde;o<br \/>\n    das armas e gastasse rios de dinheiro pra no fim de t&atilde;o sanguinolenta<br \/>\n    e dispendiosa contenda, ficarem satisfeitos com a renova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do infame padr&atilde;o?! Demais, que significam a carta de D. Louren&ccedil;o<br \/>\n    de Almeida, e a confirma&ccedil;&atilde;o do perd&atilde;o aos nobres pelo<br \/>\n    primeiro levante sen&atilde;o que estes tinham raz&atilde;o no dito assunto?<br \/>\n    Declaro a v. exa., n&atilde;o posso conformar-me com a opini&atilde;o dos<br \/>\n    que entendem estar tudo acabado, e nada nos restar d&rsquo;ora em diante neste<br \/>\n    singular pleito, sen&atilde;o curvarmos a cabe&ccedil;a aos que tem agora<br \/>\n    por si a autoridade que n&atilde;o sabem dar o devido apre&ccedil;o &agrave;<br \/>\n    sua honra, e &agrave; justi&ccedil;a entregue nas suas m&atilde;os. A meu<br \/>\n    parecer, a quest&atilde;o est&aacute; de p&eacute;, a luta n&atilde;o teve<br \/>\n    o natural desfecho. O pelourinho, h&aacute; pouco inaugurado por entre festivas<br \/>\n    demonstra&ccedil;&otilde;es dos mercadores, deve ser novamente demolido.<\/p>\n<p> Nem nos custar&aacute; muito darmos aos vil&otilde;es esta li&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ajuntou Ant&ocirc;nio Dias de Figueiredo. Robustos est&atilde;o ainda os bra&ccedil;os<br \/>\n    que constru&iacute;ram &agrave; roda do Recife essas trincheiras, que o novo<br \/>\n    governador mandou destruir tanto que tomou conta da terra, mas que as maiores<br \/>\n    e mais desesperadas investidas dos mascates n&atilde;o puderam romper durante<br \/>\n    quatro longos meses de cerco. Os pleitos patri&oacute;ticos, que castigaram<br \/>\n    a arrog&acirc;ncia da vilanagem, depressa voltar&atilde;o ao posto, onde morrer<br \/>\n    pela p&aacute;tria lhes parecia mais nobre do que vencer o inimigo.<\/p>\n<p> Senhores, respondeu o bispo, as guerras s&atilde;o cruas calamidades, que<br \/>\n    os estados devem evitar e os homens temer; elas se op&otilde;em &agrave; civiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e a moral condena-as. Milh&otilde;es de cruzados e, o que &eacute; mais, milhares<br \/>\n    de vidas gastaram-se nesses infaustos meses. Sofreu a agricultura, sofreu<br \/>\n    o com&eacute;rcio, sofreu o governo, sofreu a fam&iacute;lia, sofreu a religi&atilde;o<br \/>\n    preju&iacute;zos incalcul&aacute;veis. Mas para justificar o estado lastimoso<br \/>\n    de Pernambuco, havia uma raz&atilde;o o governo tinha o direito de se fazer<br \/>\n    obedecer e a obriga&ccedil;&atilde;o de impor aos rebeldes a obedi&ecirc;ncia.<br \/>\n    Nestes intuitos, a nobreza fez o que ordenara sua honra e o seu dever. Mas<br \/>\n    as circunst&acirc;ncias atuais n&atilde;o s&atilde;o as mesmas. A nossa resist&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave;s novas autoridades meteria na m&atilde;o deles a arma que brandimos<br \/>\n    contra os rebeldes, e estigma de rebeldia deixaria em nossas frontes. Cuidemos<br \/>\n    antes de reparar os grandes males que nos deixou como legado fatal essa luta<br \/>\n    ingl&oacute;ria e fratricida. Deixemos o mais &agrave; conta da disciplina<br \/>\n    das coisas humanas, aos altos conselhos da Provid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Este parecer, que tinhas as principais ra&iacute;zes no &acirc;nimo piedoso<br \/>\n    do bispo, n&atilde;o foi bem aceito pelos circunstantes. Entre estes, o que<br \/>\n    mais tenaz se mostrou em n&atilde;o se conformar com a nova dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das coisas p&uacute;blicas, foi Le&atilde;o Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a.<br \/>\n    Estava ele para os fidalgos do sul da prov&iacute;ncia, pela sua intrepidez<br \/>\n    e exalta&ccedil;&atilde;o, na mesma rela&ccedil;&atilde;o que Cosme Cavalcanti<br \/>\n    para os do norte. Pelo seu voto, o primeiro passo que deviam dar os pernambucanos<br \/>\n    era porem abaixo o pelourinho. Disse ele que tinha amigos e moradores em Tracunha&eacute;m<br \/>\n    que o seguiriam na repres&aacute;lia, sem entrarem na indaga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e dos perigos e do resultado final. Disse mais, que n&atilde;o queria a vida<br \/>\n    sen&atilde;o at&eacute; o momento de dar esse segundo ensino aos mascates,<br \/>\n    depressa esquecidos do primeiro.<\/p>\n<p> Cosme Cavalcanti trouxe tamb&eacute;m a sua pedra para o edif&iacute;cio<br \/>\n    da revolta.<\/p>\n<p> N&atilde;o ignorais que vim de prop&oacute;sito de Goiana a cumprimentar<br \/>\n    o governador, porque se me mandara dizer desta cidade que os nobres haviam<br \/>\n    assentado fazer cada qual a sua visita, e recolher-se enquanto a obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de algum neg&oacute;cio os n&atilde;o chamasse. Ia eu chegando &agrave;s portas<br \/>\n    do pal&aacute;cio, quando sa&iacute;am de dentro Jo&atilde;o da Mota e o padre<br \/>\n    Jo&atilde;o da Costa. Ao darem com as vistas em mim, risos escarninhos s&atilde;o<br \/>\n    os cumprimentos que tem um, olhares amea&ccedil;adores e desdenhosos s&atilde;o<br \/>\n    a cortesia que tem o outro. Diante dessas figuras ainda macilentas pela fome<br \/>\n    que com o cerco padeceram, todos os meus brios sentiram-se insultados. Pareceu-me<br \/>\n    que subir cabisbaixo as escadas por onde haviam descido triunfantes duas v&iacute;boras<br \/>\n    pe&ccedil;onhentas n&atilde;o era a&ccedil;&atilde;o que se compadecesse com<br \/>\n    o meu sangue e linhagem. Dei de r&eacute;deas ao cavalo e torci para tr&aacute;s.<br \/>\n    N&atilde;o me hajais por arrebatado, senhores. Eu j&aacute; trazia nesse momento<br \/>\n    todos os esp&iacute;ritos erguidos: pelas ruas da infame povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    encontrara magotes de reles mercadores com alegres ares, e palavras descompostas.<br \/>\n    Uns diziam versos em honra do seu triunfo; outros cantavam as trovas depravadas<br \/>\n    contra a nobreza, chocalhando da nossa derrota. Sabeis ao que ia essa desprez&iacute;vel<br \/>\n    gentalha? Ia levar os seus agradecimentos ao ouvidor e ao governador pelo<br \/>\n    restabelecimento do pelourinho.<\/p>\n<p> Coisas de imprudentes, disse o bispo. Ponhamos bem altos os nossos ouvidos<br \/>\n    para que n&atilde;o escutemos insultos e inj&uacute;rias, e bem atentas as<br \/>\n    vistas no estudo da nossa posi&ccedil;&atilde;o. Senhores, n&atilde;o nos<br \/>\n    iludamos. O governador traz largos poderes, e empregar&aacute; todos os meios<br \/>\n    para se fazer obedecer. N&atilde;o &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil como vos<br \/>\n    parece entorpecer a administra&ccedil;&atilde;o em sua marcha. Ele procura<br \/>\n    mostrar-se imparcial, se acaso n&atilde;o o &eacute;.<\/p>\n<p> Procurou ao princ&iacute;pio, hoje n&atilde;o. Hoje tem-no consigo, os mascates,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; for&ccedil;a milagrosa do seu ouro e dos padres da<br \/>\n    recoleta.<\/p>\n<p> Graves coisas afirmais, Sr. Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a, observou o<br \/>\n    bispo em ar de quem fazia amiga censura.<\/p>\n<p> Sentindo a inten&ccedil;&atilde;o de D. Manuel, Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a<br \/>\n    retorquiu: Perdoe-me v. exa., n&atilde;o estou levantando aleives. Contou-me<br \/>\n    Jos&eacute; da Silva que, indo com um requerimento um dia &agrave; casa do<br \/>\n    ouvidor, achara a&iacute; dois mission&aacute;rios, que naquela ocasi&atilde;o<br \/>\n    lhe entregavam um cartucho de porte; e, querendo, sem que esta parte o visse,<br \/>\n    receb&ecirc;-lo, rompendo-se-lhe nas m&atilde;os o papel com o peso que embrulhava,<br \/>\n    se espalharam sobre um bufete as moedas de ouro, que ca&iacute;ram em quantidade,<br \/>\n    do que ficou o que as recebera, se bem pago, em nada satisfeito da testemunha<br \/>\n    de vista (2). Quer v. exa. lhe aponte outros fatos? No banquete que deu h&aacute;<br \/>\n    oito dias, o governador, em seu pal&aacute;cio, aos mascates, aceitou pe&ccedil;as<br \/>\n    de ouro, louvando por essa ocasi&atilde;o a intelig&ecirc;ncia deles e, dizendo-lhes<br \/>\n    que era muito superior &agrave; dos naturais de Pernambuco(3).<\/p>\n<p> N&atilde;o obstante esse forte &acirc;nimo dos nobres contra a pol&iacute;tica<br \/>\n    do governador e do ouvidor, n&atilde;o obstante a inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das suas paix&otilde;es para o novo conflito, que devia resolver-se em segunda<br \/>\n    guerra porventura mais encarni&ccedil;ada e mort&iacute;fera que a primeira,<br \/>\n    p&ocirc;de D. Manuel, gra&ccedil;as ao prest&iacute;gio que lhe ficara do<br \/>\n    governo, ao seu sagrado minist&eacute;rio, &agrave; sua piedade, ao seu esfor&ccedil;o,<br \/>\n    dissuadir os nobres do grave pensamento que alimentavam. D. Manuel foi ainda<br \/>\n    al&eacute;m deste resultado.<\/p>\n<p> Sou de parecer, dissera ele por derradeiro, que cada um dos amigos presentes<br \/>\n    volte &agrave; sua casa a tratar dos seus interesses, sem outro &acirc;nimo<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica<br \/>\n    sen&atilde;o o de obedecer &agrave;s autoridades e ser fiel a el-rei que elas<br \/>\n    representam.<\/p>\n<p> Estas palavras foram ouvidas por todos. Ate Cosme Bezerra e Falc&atilde;o<br \/>\n    d&rsquo;E&ccedil;a dentro de vinte e quatro horas volviam a seus lares.<\/p>\n<p> O bispo n&atilde;o se enganara nas conjeturas. De fato, F&eacute;lix Jos&eacute;<br \/>\n    Machado estava armado com todos os poderes para vencer o esp&iacute;rito da<br \/>\n    rebeli&atilde;o, fosse de que lado fosse. A corte de Lisboa n&atilde;o quisera<br \/>\n    desconsiderar inteiramente os pernambucanos, importantes pelas suas tradi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o e fortuna; mas incumbira o governador de destruir tudo<br \/>\n    o que se parecesse com germens de resist&ecirc;ncia, de que pudesse proceder<br \/>\n    o pensamento de tornar independente o Brasil. N&atilde;o era sem raz&atilde;o<br \/>\n    que se previa ali este caso: soubera-se em Portugal tudo o que em Olinda se<br \/>\n    passara em 1710, por ocasi&atilde;o de reunir-se a nobreza com o Senado da<br \/>\n    C&acirc;mara para escolha do governador, depois da fuga de Sebasti&atilde;o<br \/>\n    de Castro Caldas. D. Jo&atilde;o V percorrera com a vistas algumas das cartas,<br \/>\n    em que pelo mi&uacute;do se referiam, a importantes pessoas do reino, palavras<br \/>\n    dos nobres, reveladoras do intento de realizar essa independ&ecirc;ncia. De<br \/>\n    feito, este intento j&aacute; expresso em 1650, quando a coroa esteve para<br \/>\n    abandonar a col&ocirc;nia &agrave; sua pr&oacute;pria sorte, em 1710 teve<br \/>\n    ainda mais positiva afirma&ccedil;&atilde;o. Pedro Ribeiro da Silva, capit&atilde;o-mor<br \/>\n    de Santo Ant&atilde;o, Jo&atilde;o de Barros Rego, capit&atilde;o-mor em Olinda,<br \/>\n    Jo&atilde;o de Freitas da Cunha, mestre de campo, Bernardino Vieira de Mello,<br \/>\n    sargento-mor, enfim a principal nobreza opinara pela separa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Bernardino Vieira chegara a propor que se declarasse a capitania em rep&uacute;blica<br \/>\n    <em>ad instar<\/em> dos venezianos.<\/p>\n<p> O primeiro cuidado de F&eacute;lix Jos&eacute; de Machado depois de chegar<br \/>\n    a Pernambuco foi estudar o estado dos dois partidos que se combatiam.<\/p>\n<p> Estavam ambos cansados por mais que se inculcassem o contr&aacute;rio. Os<br \/>\n    mascates, al&eacute;m de cansados, n&atilde;o tinham meios de prosseguir a<br \/>\n    luta. Em toda a guerra s&oacute; haviam contado uma vit&oacute;ria a de Sibir&oacute;.<br \/>\n    Esta mesma teve por principal origem a circunst&acirc;ncia de haver o mestre<br \/>\n    de campo, comandante das tropas da nobreza, jurado ao bispo que em caso nenhum<br \/>\n    derramaria sangue; era o juramento de entregar-se ao inimigo. A vit&oacute;ria<br \/>\n    incruenta trouxe grande for&ccedil;a moral aos mascates, e at&eacute; lhes<br \/>\n    facilitou pelo lado do sul o fornecimento de g&ecirc;neros, sem os quais dentro<br \/>\n    em pouco tempo cairia o Recife em poder dos nobres. Mas aquela impress&atilde;o<br \/>\n    desvaneceu-se, e as facilidades cessaram com a vit&oacute;ria de Ipojuca,<br \/>\n    e o ass&eacute;dio da fortaleza de Tamandar&eacute;, que tanto ilustraram<br \/>\n    o j&aacute; ilustre ajudante de tenente Francisco Gil Ribeiro. F&eacute;lix<br \/>\n    Jos&eacute; Machado, que trazia a inten&ccedil;&atilde;o reservada de tomar<br \/>\n    o partido dos mascates, n&atilde;o p&ocirc;de sustentar a m&aacute;scara de<br \/>\n    imparcialidade sen&atilde;o nos primeiros dias: e em vez de compor os discordes,<br \/>\n    afastar os motivos da contenda, realizar, numa palavra, a obra do congra&ccedil;amento,<br \/>\n    entendeu em mostrar-se forte para com os nobres em que o cansa&ccedil;o n&atilde;o<br \/>\n    pudera ainda gerar a fraqueza, nem os grandes gastos e preju&iacute;zos o<br \/>\n    receio de cair em pen&uacute;ria.<\/p>\n<p> N&atilde;o satisfeito com a restaura&ccedil;&atilde;o do pelourinho, ordenou<br \/>\n    ao novo ouvidor Jo&atilde;o Marques Bacalhau, que com ele viera, que institu&iacute;sse<br \/>\n    a devassa sobre o primeiro levante, sem embargo de perd&atilde;o; e nesta<br \/>\n    devassa atropelaram t&atilde;o parcialmente os princ&iacute;pios da justi&ccedil;a,<br \/>\n    que dezenove dos principais nobres de Olinda, pronunciados em segredo, foram<br \/>\n    mandados prender pelo governador, em 17 de fevereiro de 1712. De alguns, como<br \/>\n    do sargento-mor Leonardo Bezerra e do alferes Andr&eacute; Vieira de Mello,<br \/>\n    verificou-se a pris&atilde;o por ocasi&atilde;o de sa&iacute;rem do pr&oacute;prio<br \/>\n    pal&aacute;cio do governador. As pris&otilde;es continuaram. O capit&atilde;o<br \/>\n    Andr&eacute; Dias de Figueiredo, depois de passar quase uma semana dentro<br \/>\n    de uma mina, no convento dos jesu&iacute;tas, em Olinda, teve de ser ali arrancado<br \/>\n    para a semi-tumba das Cinco Pontas. A fuga para o mato foi ent&atilde;o o<br \/>\n    primeiro, sen&atilde;o o &uacute;nico recurso dos nobres. Em poucos dias Olinda<br \/>\n    ficou entregue somente &agrave;s fam&iacute;lias apavoradas, os engenhos ficaram<br \/>\n    ao desamparo, como a cidade e vilas. A guerra j&aacute; contribu&iacute;ra<br \/>\n    poderosamente para paralisar o servi&ccedil;o da lavoura; o novo golpe veio<br \/>\n    completar a triste obra.<\/p>\n<p> A capitania era como um pa&iacute;s conquistado. Olinda chorava l&aacute;grimas<br \/>\n    de sangue e trajava luto. O Recife, por&eacute;m, embalava entre verdores<br \/>\n    gentis e &aacute;guas mansas, como c&acirc;ndida ninfa.<\/p>\n<p> Os mascates banqueteavam-se como os novos ministros. Chegara a sua vez.\n  <\/p>\n<h2><a name=\"2\">Cap\u00edtulo II <\/a><\/h2>\n<p>O eclipse do astro dos nobres em Olinda alongou a sua sombra at&eacute; Goiana,<br \/>\n    e nele viram medonho an&uacute;ncio de pr&oacute;ximos males todos os daquela<br \/>\n    vila que pertenciam &agrave; nobreza.<\/p>\n<p> Goiana era um dos pontos da capitania onde a causa dos mascates passara<br \/>\n    por maiores reveses. Do combate que ali se dera na noite de 23 de agosto de<br \/>\n    1711, haviam sa&iacute;do vitoriosos o sargento-mor Jo&atilde;o da Cunha,<br \/>\n    senhor do engenho Bujari, Cosme Cavalcanti, juiz ordin&aacute;rio, e outros<br \/>\n    fidalgos, auxiliados pelo ajudante de tenente Gil Ribeiro, que completamente<br \/>\n    destro&ccedil;ara com as suas tropas as paraibanas capitaneadas por Lu&iacute;s<br \/>\n    Soares. Realizaram-se por essa ocasi&atilde;o a morte dos sargento-mor dos<br \/>\n    mascates Ant&ocirc;nio Coelho,&nbsp; a pris&atilde;o de Jer&ocirc;nimo Paz,<br \/>\n    poderoso marchante, e a de v&aacute;rios cabe&ccedil;as no mesmo partido.<br \/>\n    Era portanto de esperar que, restitu&iacute;do Jer&ocirc;nimo Paz &agrave;<br \/>\n    liberdade com a chegada do novo governador, n&atilde;o se demorasse a desforra<br \/>\n    que devia ser atroz, desforra premeditada e jurada pelo feroz <em>procurador<br \/>\n    do povo<\/em> desde o momento da sua pris&atilde;o (4).<\/p>\n<p> O perigo era eminente. Trataram de prevenir-se os principais nobres.<\/p>\n<p> Prometi ao bispo curvar a cabe&ccedil;a aos decretos da autoridade que nos<br \/>\n    mandaram para aniquilar-nos; mas n&atilde;o devo considerar-me ligado por<br \/>\n    esta promessa, porque para fazer tive o fundamento de supor que o intento<br \/>\n    do governador era administrar justi&ccedil;a a todos igualmente. O seu &uacute;ltimo<br \/>\n    procedimento prova o contr&aacute;rio, e eu n&atilde;o estou mais pela obedi&ecirc;ncia<br \/>\n    sen&atilde;o pela oposi&ccedil;&atilde;o ao tirano. A devassa continua aberta.<br \/>\n    O governador, o ouvidor e o juiz de fora, os tr&ecirc;s paus da forca destinada<br \/>\n    a acabar com os pernambucanos, n&atilde;o pararam em sua obra destruidora.<br \/>\n    Jer&ocirc;nimo Paz diz pelas tabernas que nos h&aacute; de p&ocirc;r as cordas.<br \/>\n    &Agrave; vista disso, deveremos ficar impass&iacute;veis? N&atilde;o. Organizar<br \/>\n    a guerra &agrave; tirania eis o que nos cumpre a fazer.<\/p>\n<p> Com que gente contais v&oacute;s, Sr. Cosme Cavalcanti, para organizar e<br \/>\n    sustentar essa guerra? Onde est&atilde;o as vossas ordenan&ccedil;as? Est&atilde;o<br \/>\n    com os inimigos, que s&atilde;o as atuais autoridades, ou os sustentadores<br \/>\n    delas. Onde est&atilde;o os nossos escravos? Uns morreram, outros fugiram;<br \/>\n    os que ainda restam, mal chegam para dar-nos &aacute;gua para os p&eacute;s.<br \/>\n    Onde est&atilde;o os nossos moradores, que os n&atilde;o vejo, por mais que<br \/>\n    estenda as vistas? Os que n&atilde;o ganharam, fugitivos, o sert&atilde;o<br \/>\n    a fim de n&atilde;o servirem contra a sua vontade nos regimentos que o governador<br \/>\n    vai formando a seu modo, s&atilde;o velhos achacados, ou meninos que para<br \/>\n    nada prestam. Dizei-me, por caridade, com quem havemos de fazer frente aos<br \/>\n    carrascos? Tendes raz&atilde;o, Jo&atilde;o da Cunha disse Lu&iacute;s Vidal.<br \/>\n    O baralho caiu nas m&atilde;os dos inimigos, que formam o jogo que lhes faz<br \/>\n    conta.<\/p>\n<p> Cosme Cavalcanti redarg&uuml;iu: N&atilde;o perdi ainda a esperan&ccedil;a<br \/>\n    de dar a esse governador que recebe em pal&aacute;cio aos pares as mulheres<br \/>\n    de m&aacute; vida, e sustenta a&iacute; banca de jogo, a li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que receberam de n&oacute;s, por v&aacute;rias vezes, os que com ele se d&atilde;o<br \/>\n    agora &agrave;quele v&iacute;cio, deixando-se roubar, para terem o grande<br \/>\n    vicioso a seu lado. Corramos daqui a Itamb&eacute;. Matias Vidal deve ter<br \/>\n    muita gente reunida para arrostar com os nossos opressores.<\/p>\n<p> Ouvindo falar em Matias Vidal, os outros fidalgos sobrestiveram: aquele<br \/>\n    ilustre pernambucano, filho natural de Andr&eacute; Vidal de Negreiros um<br \/>\n    dos her&oacute;is da restaura&ccedil;&atilde;o grangeara grande nomeada com<br \/>\n    a forma&ccedil;&atilde;o do <em>batalh&atilde;o sagrado<\/em>, composto de<br \/>\n    sacerdotes resolutos a derramar at&eacute; a &uacute;ltima gota de sangue<br \/>\n    em defesa do bispo amea&ccedil;ado em sua vida pelos mascates, nos primeiros<br \/>\n    tempos do cerco do Recife.<\/p>\n<p> Mas a agrad&aacute;vel ilus&atilde;o durou pouco. Rumor de passos fez-se<br \/>\n    ouvir, e um novo interlocutor, entrando inesperadamente na sala, advertiu:<br \/>\n    Matias Vidal desapareceu, n&atilde;o se sabe para onde. &Eacute; o que acabo<br \/>\n    de ler em uma carta escrita por seu genro a Manoel de Lacerda.<\/p>\n<p> O novo interlocutor era Andr&eacute; Cavalcanti que, sabendo esta triste<br \/>\n    not&iacute;cia, correra a particip&aacute;-la a Cosme Cavalcanti, seu irm&atilde;o.<\/p>\n<p> Cosme refletiu um momento.<\/p>\n<p> N&atilde;o importa disse depois. Tenho c&aacute; o meu plano, e para sua<br \/>\n    realiza&ccedil;&atilde;o conto convosco, Sr. Lu&iacute;s Vidal, e convosco,<br \/>\n    Andr&eacute;. Estarei enganado? Podeis contar, podeis contar conosco responderam<br \/>\n    os dois ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> Morrerei onde morrerdes ajuntou Lu&iacute;s Vidal.<\/p>\n<p> Estando convosco, Sr. Cosme disse Andr&eacute; Cavalcanti parece-me que<br \/>\n    terei por mais certa a vit&oacute;ria que a derrota.<\/p>\n<p> Que plano &eacute; o vosso? perguntou o sargento-mor.<\/p>\n<p> Irei para as minhas fazendas de gado no A&ccedil;u.<\/p>\n<p> Est&atilde;o muito distantes. N&atilde;o poderei acompanhar-vos at&eacute;<br \/>\n    l&aacute; tornou Jo&atilde;o da Cunha.<\/p>\n<p> A&iacute; continuou Cosme reunirei os meus vaqueiros e criadores que quiserem<br \/>\n    seguir-me: todos h&atilde;o de seguir-me. Tenho f&eacute; que em menos de<br \/>\n    dois meses F&eacute;lix Jos&eacute; Machado h&aacute; de tremer ao ouvir falar<br \/>\n    em meu nome.<\/p>\n<p> Um momento de sil&ecirc;ncio que sucedeu a esta declara&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    indicou que os valorosos pernambucanos ali congregados refletiam sobre a sua<br \/>\n    sorte. &Agrave;s palavras de Cosme, sempre de peso para os amigos, parentes<br \/>\n    e todos os que conheciam os seus grandes esp&iacute;ritos, seguiu-se breve<br \/>\n    mas solene interrup&ccedil;&atilde;o. Jo&atilde;o da Cunha foi o primeiro<br \/>\n    que se libertou dessa pris&atilde;o do prest&iacute;gio natural da coragem<br \/>\n    e import&acirc;ncia pessoal.<\/p>\n<p> E quando &eacute; vossa partida? perguntou.<\/p>\n<p> Para t&atilde;o breve a tenho assentada que talvez seja esta a &uacute;ltima<br \/>\n    vez que nos achemos juntos. H&aacute; muitos dias que me aparelhei para realiz&aacute;-la.<br \/>\n    Vejo que &eacute; chegado o momento de deixar Goiana, a fim de poder ser &uacute;til<br \/>\n    a Goiana. Os inimigos n&atilde;o dormem. Devemos ser, como eles, espertos<br \/>\n    e diligentes.<\/p>\n<p> Cosme levantou-se, deu alguns passos em dire&ccedil;&atilde;o a Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha, abriu os bra&ccedil;os, e apertou-o, entre eles.<\/p>\n<p> Se n&atilde;o virmos mais, seja esta a nossa despedida disse.<\/p>\n<p> Os dois fidalgos ficaram comovidos. Aquela cena foi t&atilde;o inesperada,<br \/>\n    t&atilde;o muda e t&atilde;o eloq&uuml;ente que n&atilde;o podia ser outro<br \/>\n    o sentimento dos que tomaram parte nela.<\/p>\n<p> Depois de abra&ccedil;ar Lu&iacute;s Vidal e Andr&eacute; Cavalcanti, Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha encaminhou-se &agrave; escada.<\/p>\n<p> Vede bem como sois, observou Cosme acompanhando-o. Antes de pordes o p&eacute;<br \/>\n    na rua, examinai primeiro se h&aacute; do lado de fora algum vulto suspeito.<br \/>\n    Andamos cercados de espi&otilde;es.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; novidades. Matias e Jos&eacute; ficaram embaixo; trazem<br \/>\n    armas, s&atilde;o valentes, e j&aacute; teriam vindo a meu encontro se houvesse<br \/>\n    qualquer desconfian&ccedil;a. A noite est&aacute; medonha, mas eles s&atilde;o<br \/>\n    dois gatos do mato; v&ecirc;em perfeitamente no escuro.<\/p>\n<p> Agora n&oacute;s disse Cosme a meia voz aos irm&atilde;os, tornando &agrave;<br \/>\n    sala do sobrado onde estas coisas se passavam. S&atilde;o dezoito horas. &Agrave;<br \/>\n    meia-noite devemos achar-nos em marcha. Ide dizer adeus &agrave; fam&iacute;lia,<br \/>\n    enquanto tomo as &uacute;ltimas provid&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> &Agrave; meia-noite tr&ecirc;s cavalos selados, e cinco carregados deixavam-se<br \/>\n    ver no quintal da casa. As cargas eram formadas com barricas, caix&otilde;es<br \/>\n    e malas. Nas barricas em que se imaginavam estarem metidos comest&iacute;veis,<br \/>\n    o que continha era p&oacute;lvora e bala: nos caix&otilde;es havia armas de<br \/>\n    fogo. Quando Zacarias, escravo de estima&ccedil;&atilde;o de Cosme, veio dizer-lhe<br \/>\n    que as suas ordens tinham sido executadas, ele, com os dois irm&atilde;os,<br \/>\n    que desde as onze horas se achavam de volta, entraram para o quarto de vestir,<br \/>\n    e com pouco tornaram &agrave; sala. Mostravam-se inteiramente disfar&ccedil;ados.<br \/>\n    Cada um era um perfeito sertanejo com as suas <em>perneiras, guarda-peito<br \/>\n    e v&eacute;stia de couro<\/em>. Quando puseram na cabe&ccedil;a o chap&eacute;u,<br \/>\n    e um pegou do chicote, e outro da peia, tendo cada qual na m&atilde;o esquerda<br \/>\n    um clavinote, ningu&eacute;m diria que ali se ofereciam &agrave; vista tr&ecirc;s<br \/>\n    fidalgos finos, sen&atilde;o tr&ecirc;s vaqueiros encourados que voltavam<br \/>\n    com carregamento ao sert&atilde;o.<\/p>\n<p> Cosme desceu ao quintal, abriu de manso a porta que comunicava com a rua,<br \/>\n    e examinou cautelosamente as adjac&ecirc;ncias: estavam metidas em trevas;<br \/>\n    o sil&ecirc;ncio era absoluto.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o ordenou aos escravos e arrieiros que tocassem os animais carregados,<br \/>\n    e montando a cavalo, tomou lugar no couce do comboio. Andr&eacute; e Lu&iacute;s<br \/>\n    seguiram o seu exemplo. Aquelas sombras mudas e tristes desapareceram em menos<br \/>\n    de um minuto na erma escurid&atilde;o da noite.<\/p>\n<p> Passados alguns dias, Jo&atilde;o da Cunha recebeu no seu engenho dentro<br \/>\n    de um s&oacute; envolt&oacute;rio duas cartas de circunst&acirc;ncia. A primeira<br \/>\n    rezava assim: <\/p>\n<p><em>Amigo e Sr. Sargento-mor<\/em> <\/p>\n<p>  <em>A tempestade que desabou sobre este Pernambuco alcan&ccedil;ou como um raio<br \/>\n  mortal o meu amigo e sogro, quando ele julgava ter cessado a f&uacute;ria dos<br \/>\n  elementos. Mas a inf&acirc;mia do mau g&ecirc;nio que preside atualmente os<br \/>\n  destinos da capitania, n&atilde;o h&aacute; quem dela possa tomar conhecimento<br \/>\n  sem se encher de assombro. Tanto que constou que pela devassa aberta pelo ouvidor<br \/>\n  contra os levantes, os nobres estavam expostos &agrave;s persegui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n  e &agrave;s afli&ccedil;&otilde;es que se usam nestes neg&oacute;cios, tratou<br \/>\n  o Sr. Sargento-mor honor&aacute;rio, meu ilustre sogro, de ocultar-se nos matos<br \/>\n  da sua propriedade em Itamb&eacute;. E porque foram dizer l&iacute;nguas serpentinas<br \/>\n  ao governador que a&iacute; o mesmo sargento-mor honor&aacute;rio planejava,<br \/>\n  de acordo com os nobres, terceiro levante, e o dito governador tenha em muita<br \/>\n  conta o valor e os meios do Sr. Matias Vidal, o mandou declarar em um bando,<br \/>\n  que se publicou a toque de caixas, revoltoso e inconfidente. E vendo que por<br \/>\n  este meio n&atilde;o conseguia prend&ecirc;-lo, lembrou-lhe a perf&iacute;dia<br \/>\n  publicar novo bando, destruindo todo o conceito que no primeiro patenteara contra<br \/>\n  aquele sargento-mor, restituindo-lhe as honras, mandando que lhe fossem entregues<br \/>\n  todos os bens que lhe haviam sido seq&uuml;estrados, e declarando por &uacute;ltimo<br \/>\n  que ele podia recolher-se livremente &agrave; sua casa, que n&atilde;o haveria<br \/>\n  pessoa que lho impedisse. Mas aqui, amigo e senhor meu, &eacute; que est&aacute;<br \/>\n  a nefanda perf&iacute;dia, porque tudo isso n&atilde;o passou de la&ccedil;o<br \/>\n  para prender o Sr. Matias Vidal, que, confiando na palavra do primeiro magistrado<br \/>\n  desta capitania, largou m&atilde;o das cautelas at&eacute; aquele momento observadas,<br \/>\n  e tanto que o tiveram fora do esconderijo deram passos para o prender; e se<br \/>\n  a pris&atilde;o n&atilde;o se realizou desta vez, foi porque, avisado em tempo<br \/>\n  pelos amigos de que tudo quilo era uma trai&ccedil;&atilde;o, voltou ao seu<br \/>\n  esconderijo. Mas da&iacute; o foram arrancar os agentes do governador, e a esta<br \/>\n  hora jaz sepultado aquele honrado pernambucano na semi-tumba das Cinco Pontas,<br \/>\n  com outros companheiros de luta e infort&uacute;nio.<\/em> <em>&Agrave; vista<br \/>\n  disto, senhor e amigo meu, tomei a delibera&ccedil;&atilde;o de ocultar-me nestas<br \/>\n  matas de Tracunha&eacute;m. Onde vos escrevo as presentes regras, que particularmente<br \/>\n  se dirigem a chamar-vos para este abrigo, no qual o valoroso Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a<br \/>\n  espera dar terr&iacute;vel ensino aos algozes dos pernambucanos. Se vos parecer,<br \/>\n  com a demais nobreza dessa vila, vir fazer-nos companhia nestas&nbsp; matas,<br \/>\n  mandai prevenir-nos, para que todas as provid&ecirc;ncias sejam dadas a fim<br \/>\n  de se vos facilitar a entrada nos segredos.<\/em> <em>Deus vos guarde, amigo<br \/>\n  e senhor meu<\/em> <em>Vosso humilde servo<\/em> <em>MARTINHO DE BULH&Otilde;ES.<\/em> <\/p>\n<p>A outra carta era escrita pelo bispo, e n&atilde;o tinha mais que as linhas<br \/>\n    seguintes: <\/p>\n<p><em>Amigo e senhor sargento-mor<\/em> <\/p>\n<p>  <em>N&atilde;o tendo aqui um amigo que vos avise, visto que, uns por se acharem<br \/>\n  presos, outros por andarem foragidos pelos bosques, todos est&atilde;o ausentes,<br \/>\n  tomo eu este caridoso of&iacute;cio.<\/em> <em>Ocultai-vos com os amigos. Vai<br \/>\n  partir para a&iacute; uma grande for&ccedil;a comandada por Jo&atilde;o da Mota.<\/em><br \/>\n  <em>Martinho pede-me que vos remeta a carta junta.<\/em> <em>+ D. MANUEL A. DA<br \/>\n  COSTA.<\/em> <\/p>\n<p>O sargento-mor acabou de ler estas cartas com profunda m&aacute;goa. Chamar<br \/>\n    pela mulher, D. Damiana, e dizer-lhe em poucas palavras o que lera, foi o<br \/>\n    seu primeiro passo. D. Damiana, posto que mo&ccedil;a, era discreta e ajuizada.<br \/>\n    A estes dotes reunia outro estimava muito o marido; estimava-o como esposa<br \/>\n    e como filha. O seu conselho era o da prud&ecirc;ncia; o seu parecer tinha<br \/>\n    as principais for&ccedil;as na confian&ccedil;a que inspirava &agrave;quele<br \/>\n    que, podendo ser seu pai e sendo rico, compartira com ela a sorte a fortuna.<\/p>\n<p> N&atilde;o vos assusteis disse o senhor de engenho, disfar&ccedil;ando o<br \/>\n    seu pesar. O malvado governador jurou acabar com a nobreza de Pernambuco,<br \/>\n    e vai cumprindo o juramento. Vem a&iacute; uma grande for&ccedil;a para prender<br \/>\n    os fidalgos de Goiana. Em Olinda j&aacute; a maldade n&atilde;o tem em que<br \/>\n    p&ocirc;r os dentes e as garras. Os nobres que n&atilde;o caem nas pris&otilde;es,<br \/>\n    perdem-se nos matos. D. Manuel manda dizer-me que me oculte. N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    outra esperan&ccedil;a de salva&ccedil;&atilde;o. L&aacute; se foi o tempo<br \/>\n    em que eu podia castigar t&atilde;o grandes ousadias. Hoje tudo me falta.<br \/>\n    A guerra levou-me as economias que eu tinha juntas. H&aacute; um ano que meu<br \/>\n    engenho n&atilde;o m&oacute;i uma cana, e as minhas lavouras mal d&atilde;o<br \/>\n    para o gasto da casa. A nossa f&aacute;brica est&aacute; reduzida pela morte<br \/>\n    de uns escravos, pela fuga de outros. Os meus foreiros, cansados do servi&ccedil;o<br \/>\n    da guerra a que foram for&ccedil;ados ante de chegar o governador, ocultam-se<br \/>\n    agora para n&atilde;o serem chamados a igual inclem&ecirc;ncia. Nestas penosas<br \/>\n    circunst&acirc;ncias, que me resta fazer sen&atilde;o meter-me nas brenhas?<br \/>\n    Nos primeiros momentos, D. Damiana, tomada de amargura, n&atilde;o soube o<br \/>\n    que dizer. A separa&ccedil;&atilde;o &eacute; morte tempor&aacute;ria para<br \/>\n    os esposos que se estimam: e, a esta id&eacute;ia, poucos esp&iacute;ritos<br \/>\n    feitos na suave paz conjugal, t&atilde;o rica de brandas satisfa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    n&atilde;o perdem a serenidade necess&aacute;ria a resolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que podem traduzir-se na priva&ccedil;&atilde;o daquelas.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o se demorou a recobrar os &acirc;nimos. Era mulher para lutas<br \/>\n    pr&oacute;prias de homens. Chamavam-lhe <em>Escopeteira<\/em>, por ser perita<br \/>\n    em atirar ao alvo. Antes de Goiana ser atacada pelo bando de Lu&iacute;s Soares,<br \/>\n    ele dissera a Cosme Cavalcanti: Se entrardes na sala das mulheres, ficareis<br \/>\n    admirado do armamento que l&aacute; existe. H&aacute; mais de uma semana que<br \/>\n    n&atilde;o tinha eu no engenho outra ocupa&ccedil;&atilde;o, que fazer cartuchame.<br \/>\n    Na casa de Jo&atilde;o da Cunha s&oacute; penetrar&aacute; mascate depois<br \/>\n    que Damiana da Cunha houver exalado o &uacute;ltimo suspiro. N&atilde;o fora<br \/>\n    isto uma bravata v&atilde; e rid&iacute;cula, porque na manh&atilde; seguinte<br \/>\n    defendera heroicamente com as mucamas e escravos o sobrado onde se achava,<br \/>\n    atirando contra os assaltantes, exposta nos maiores perigos(5).<\/p>\n<p> Por que motivo havia de querer ocultar-vos? Estar&aacute; perdida toda a<br \/>\n    esperan&ccedil;a? inquiriu D. Damiana.<\/p>\n<p> Que outra esperan&ccedil;a me resta? respondeu-lhe o sargento-mor. Aqueles<br \/>\n    parentes e amigos que me ajudaram a dar um ensino aos inimigos em agosto do<br \/>\n    ano passado abandonaram-me. Vejo-me s&oacute;. Tudo se mudou para pior. Nem<br \/>\n    negros, nem moradores, nem provis&otilde;es de boca.<\/p>\n<p> D. Damiana n&atilde;o se deu por vencida, A aus&ecirc;ncia do marido afigurava-se-lhe<br \/>\n    mais penosa que as persegui&ccedil;&otilde;es ordenadas pelo governador. Enquanto<br \/>\n    p&ocirc;de, impediu Jo&atilde;o da Cunha de resolver-se a deixar o engenho.<\/p>\n<p> Chegou, por&eacute;m, uma manh&atilde; decisiva. A tropa a que se referia<br \/>\n    o bispo, estava perto. Uma pobre mulher, amiga da fam&iacute;lia amea&ccedil;ada,<br \/>\n    viera, atravessando florestas, trazer ao senhor de engenho esta triste nova.<\/p>\n<p> Se est&aacute;s deliberado a deixar Goiana, iremos juntos disse D. Damiana<br \/>\n    ao marido. N&atilde;o quero ficar aqui. Os nossos inimigos insultar-me-iam<br \/>\n    se eu ficasse s&oacute;. N&atilde;o v&atilde;o eles mostrando para quanto<br \/>\n    prestam com os desacatos que, por onde passam, t&ecirc;m para as fam&iacute;lias?<br \/>\n    Infelizmente n&atilde;o podeis, senhora advertiu Jo&atilde;o da Cunha. A minha<br \/>\n    jornada h&aacute; de ser &aacute;rdua, por dentro de bosques, atrav&eacute;s<br \/>\n    de desertos medonhos e in&oacute;spitos. Ser-me-&aacute; preciso recorrer<br \/>\n    ao disfarce que n&atilde;o h&aacute; de valer muito em v&oacute;s, porque<br \/>\n    o disfarce nas mulheres por pouco tempo engana. Ser-me-&aacute; preciso estar<br \/>\n    s&oacute;, para, se tiver de morrer, poder morrer s&oacute;, e menos dura<br \/>\n    me ser a dor da morte. Mas nada temais. Ficam convosco os &uacute;ltimos escravos<br \/>\n    da nossa confian&ccedil;a: alguns deles carregaram-vos em seus bra&ccedil;os<br \/>\n    quando &eacute;reis menina. Mandei vir para junto de v&oacute;s Marcelina,<br \/>\n    essa santa e piedosa mulher. Louren&ccedil;o, que dever&aacute; acompanhar-me,<br \/>\n    porque eu n&atilde;o confio em outrem para viagem de tanto risco, voltar&aacute;<br \/>\n    a Bujari, e tereis nele um defensor que valer&aacute; por cem. Deus, com a<br \/>\n    sua vigil&acirc;ncia, completar&aacute; o amparo.<\/p>\n<p> Confidenciava o senhor de engenho com a mulher naquele mesmo gabinete particular<br \/>\n    onde, pouco mais de um ano antes, por S&atilde;o Jo&atilde;o, reunira a principal<br \/>\n    nobreza da vila, e lhe propusera o ataque aos mascates do Recife. Ent&atilde;o<br \/>\n    dera mostras de for&ccedil;a pelas quais se pudera aferir quanto era superior<br \/>\n    &agrave;queles em recursos, quer materiais, quer morais. Agora, era tudo diferente.<br \/>\n    Em lugar de atacar, tratava de fugir aos inimigos. Ao seu lado via somente<br \/>\n    a mulher, que, posto fosse resoluta, e rogasse participar da sua sorte, antes<br \/>\n    lhe inspirava incerteza que decis&atilde;o. Em vez de rubra soberba, mostrava<br \/>\n    no gesto cauteloso, p&aacute;lida resigna&ccedil;&atilde;o, em vez de arrog&acirc;ncia,<br \/>\n    tinha nas palavras magoados tons.<\/p>\n<p> D. Damiana sentou-se ao p&eacute; do marido, e p&ocirc;s-lhe meigamente<br \/>\n    um bra&ccedil;o sobre o ombro. N&atilde;o lhe consentiu ele ficar assim mais<br \/>\n    que um instante e, levantando-se, disse: Partirei dentro de poucas horas.<br \/>\n    Irei tratar sem demora dos preparativos dessa jornada que o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    me anuncia ser a &uacute;ltima.<\/p>\n<p> D. Damiana encaminhou-se para dentro, levando l&aacute;grimas a banhar-lhe<br \/>\n    as faces, onde antes se acendiam, vi&ccedil;osas como a juventude, as rosas<br \/>\n    de felicidade agora murchas e quase extintas. <\/p>\n<h2><a name=\"3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/h2>\n<p>Marcelina e Louren&ccedil;o, depois do inc&ecirc;ndio praticado pelo bando<br \/>\n    de Lu&iacute;s Soares na casa que Francisco fizera &agrave; beira da estrada,<br \/>\n    no <em>Cajueiro<\/em>, lugarejo distante de Goiana uma l&eacute;gua, atualmente<br \/>\n    muito estendido, moravam em uma palho&ccedil;a, obra de vinte bra&ccedil;as<br \/>\n    para dentro na mesma dire&ccedil;&atilde;o da casa queimada. Fora f&aacute;cil<br \/>\n    ao rapaz e &agrave; sua m&atilde;e de cria&ccedil;&atilde;o, mulher afeita<br \/>\n    ao trabalho do campo, t&atilde;o resoluta como Francisco, seu marido, reconstru&iacute;rem<br \/>\n    a antiga habita&ccedil;&atilde;o; mas, estando os tempos muito contr&aacute;rios,<br \/>\n    e receando a cada momento as hostilidades movidas pelos parciais dos mercadores,<br \/>\n    pareceu-lhe melhor espa&ccedil;ar a reconstru&ccedil;&atilde;o para depois,<br \/>\n    contentando-se com levantarem a ligeira palho&ccedil;a onde se recolheram,<br \/>\n    e cuja perda lhes seria de pouco tomo, se houvessem de passar por este novo<br \/>\n    preju&iacute;zo.<\/p>\n<p> A palho&ccedil;a f&ocirc;ra de prop&oacute;sito feita entre umas &aacute;rvores<br \/>\n    grandes e ramalhudas, muito juntas e entrela&ccedil;adas, que quase a encobriam<br \/>\n    do lado da estrada. Do lado oposto, por&eacute;m, dava ela em um como descampado<br \/>\n    que se interpunha entre aquelas &aacute;rvores e a renque de dendezeiros e<br \/>\n    cajueiros que circulava a lagoa, onde certa manh&atilde; Francisco surpreendera<br \/>\n    Marcelina a cortar juncos para fazer esteiras.<\/p>\n<p> Logo que constou em Goiana o levantamento do cerco, Marcelina mandou Louren&ccedil;o<br \/>\n    tomar o caminho do Recife.<\/p>\n<p> N&atilde;o percas nem um dia, sequer; prepara o cavalo e corre a buscar<br \/>\n    Francisco. Ele j&aacute; h&aacute; de estar no Recife, ou na cidade; e quem<br \/>\n    sabe se n&atilde;o espera por condu&ccedil;&atilde;o para voltar? Quantas<br \/>\n    saudades tenho do meu marido! E irresistivelmente as l&aacute;grimas de um<br \/>\n    amor sinceramente comovido come&ccedil;aram a bailar nos olhos da cabocla.<\/p>\n<p> Marcelina tinha raz&atilde;o: havia alguns meses que Francisco estava ausente.<br \/>\n    Caindo na gra&ccedil;a do ajudante de tenente, pelos bons servi&ccedil;os<br \/>\n    que, com lealdade e discri&ccedil;&atilde;o admir&aacute;veis, lhe prestara<br \/>\n    desde que com ele se encontrara ao sair de Itamarac&aacute;, at&eacute; a<br \/>\n    completa vit&oacute;ria, no dia 23 de agosto do ano precedente, Francisco,<br \/>\n    a quem Gil Ribeiro fizera grandes vantagens e prometera outras maiores, o<br \/>\n    tinha acompanhado ao sul, e se comprometera a n&atilde;o o deixar sen&atilde;o<br \/>\n    quando acabasse a guerra.<\/p>\n<p> &nbsp; Se hei de andar almocrevando com risco de me tomarem o meu cavalo<br \/>\n    e fazerem o diabo comigo dissera o matuto por ocasi&atilde;o de discorrer<br \/>\n    com sua mulher sobre a proposta do ajudante de tenente melhor &eacute; que<br \/>\n    me acoste a seu ajudante, e v&aacute; ganhar meu dinheiro prestando servi&ccedil;os<br \/>\n    &agrave; nobreza. Esta guerra n&atilde;o pode durar muito, porque os <em>p&eacute;s<br \/>\n    de chumbo<\/em> est&atilde;o encurralados. Portanto, no fim de dois meses j&aacute;<br \/>\n    estarei de volta com <em>gimbo<\/em> bastante para encher o nosso mealheiro.<\/p>\n<p> Para fazer a proposta ao matuto, muito influ&iacute;ra em Gil, al&eacute;m<br \/>\n    das raz&otilde;es referidas, o conhecimento que tinha aquele de toda a regi&atilde;o<br \/>\n    das matas, desde Goiana at&eacute; Jaboat&atilde;o. De sorte que Francisco<br \/>\n    era ao mesmo tempo confidente e guia do ajudante de tenente.<\/p>\n<p> Francisco, por&eacute;m, enganara-se, e Marcelina, a quem ao princ&iacute;pio<br \/>\n    se afigurara, pelo interesse esperado, poder arrostar a aus&ecirc;ncia, nos<br \/>\n    &uacute;ltimos tempos sentia-se ralada de saudades e todo dia fazia novas<br \/>\n    promessas aos santos da sua devo&ccedil;&atilde;o para que permitissem que<br \/>\n    seu marido voltasse logo.<\/p>\n<p> Recebendo a ordem de sua m&atilde;e, Louren&ccedil;o n&atilde;o gastou mais<br \/>\n    tempo no Cajueiro que o necess&aacute;rio ao arranjo da jornada. No outro<br \/>\n    dia bem cedo j&aacute; estava em caminho.<\/p>\n<p> A vida de Louren&ccedil;o entrava em nova fase depois do que se tinha passado<br \/>\n    no memor&aacute;vel 23 de agosto de 1711.<\/p>\n<p> Com o cerco do Recife, os produtos das pequenas lavouras come&ccedil;aram<br \/>\n    a escassear, e consequentemente a encarecer. Todos os lavradores da zona das<br \/>\n    matas, que circula o Recife, tinham acudido ao chamado do governo a fim de<br \/>\n    pegar em armas, arrastando consigo os matutos e escravos que cultivavam suas<br \/>\n    terras. Por isso, aqueles que&nbsp; por qualquer circunst&acirc;ncia especial<br \/>\n    n&atilde;o se acharam neste caso, e puderam prosseguir o seu trabalho do campo,<br \/>\n    depressa come&ccedil;aram a vender por bom dinheiro as sementes e cereais<br \/>\n    que levavam ao Recife. Compravam-lhes os capit&atilde;es-mores esses produtos<br \/>\n    por ordem do governo para manter as gentes que sustentavam os pres&iacute;dios.<br \/>\n    E al&eacute;m de lhes comprarem a mercadoria, consideravam grande favor o<br \/>\n    apresentarem-se com ela, porque, sem este recurso, sustentar o cerco lhes<br \/>\n    seria imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> Marcelina, que tinha o instinto mercantil mais desenvolvido, entreviu os<br \/>\n    grandes resultados que deveria tirar das circunst&acirc;ncias. Infelizmente,<br \/>\n    n&atilde;o podia encher a medida dos seus desejos, porque, al&eacute;m de<br \/>\n    Francisco n&atilde;o plantar sen&atilde;o quanto era necess&aacute;rio ao<br \/>\n    sustento da fam&iacute;lia (nem dispunha de meios para mais, ainda que o quisesse),<br \/>\n    o ajudante de tenente o levara para a capital, como dissemos. &Agrave; vista<br \/>\n    de t&atilde;o favor&aacute;veis promessas, o matuto n&atilde;o achava argumentos<br \/>\n    com que se esquivar. Demais, Louren&ccedil;o estava j&aacute; um homem, e<br \/>\n    ficava com Marcelina, a quem defenderia nas horas de perigo. O matuto, conhecendo<br \/>\n    os &acirc;nimos do rapaz, e n&atilde;o havendo motivo de perder os proveitos,<br \/>\n    disse adeus ao Cajueiro, e partiu, o que n&atilde;o lhe custou pouco. Sempre<br \/>\n    que se separava da mulher, da casa, do seu mundo, sentia uma como mutila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da alma. <\/p>\n<h2>Marcelina, por&eacute;m, n&atilde;o perdia por falta de quem a dirigisse,<br \/>\n    porque trazia em si o melhor senso administrativo e comercial que ainda se<br \/>\n    conheceu em mulher. Terras no engenho Bujari n&atilde;o lhe faltavam; e quanto<br \/>\n    a bra&ccedil;os, tratou de aproveitar os que p&ocirc;de. Nem lhe foi preciso<br \/>\n    ir muito longe, para preencher esse fim. Com a morte de Vitorino, por ocasi&atilde;o<br \/>\n    do assalto contra o engenho e da destrui&ccedil;&atilde;o da casa, ficariam<br \/>\n    Joaquina e Marianinha ao desamparo, se Marcelina as n&atilde;o chamasse para<br \/>\n    sua companhia. Outra palho&ccedil;a foi feita nas proximidades da de Francisco,<br \/>\n    a a&iacute; vieram morar a m&atilde;e e a filha do morto. Marcelina disse-lhes<br \/>\n    o seu pensamento, e como eram mulheres do campo, longe de se oporem, mostraram-se<br \/>\n    deliberadas a trabalhar com vontade. Dentro de algumas semanas, lavouras graciosas<br \/>\n    cobriam uma vasta quadra de terra at&eacute; aonde a vista podia alcan&ccedil;ar.<br \/>\n    E porque t&atilde;o cedo n&atilde;o estivesse em estado de colher-se, Louren&ccedil;o,<br \/>\n    que instru&iacute;do e educado na escola de Marcelina, n&atilde;o tinha &acirc;nimo<br \/>\n    para ver perdida t&atilde;o boa ocasi&atilde;o de ganhar com que comprar uma<br \/>\n    engenhoca, adotou, por conselho da cabocla, outro meio de interesse. Muitos<br \/>\n    plantadores careciam de coragem para ir ao Recife vender os seus produtos;<br \/>\n    levavam-nos ent&atilde;o a Goiana, onde os deixavam por baixo pre&ccedil;o.<br \/>\n    Ao princ&iacute;pio com algumas economias de sua m&atilde;e, e depois j&aacute;<br \/>\n    com lucros das primeiras vendas, Louren&ccedil;o comprava o que ningu&eacute;m<br \/>\n    queria mais nas feiras; e depois, conduzia os g&ecirc;neros comprados para<br \/>\n    Olinda e Recife, e a&iacute; os revendia com grandes lucros. Esse lucros j&aacute;<br \/>\n    chegavam para fazer aquisi&ccedil;&atilde;o de terras onde levantar uma engenhoca,<br \/>\n    e Louren&ccedil;o tinha de olho uma meia l&eacute;gua de massap&eacute; que<br \/>\n    do outro lado das em que morava, estavam em capoeira, e pertencia a um sujeito<br \/>\n    que andava oferecendo por falta de bra&ccedil;os que a cultivassem.<\/h2>\n<\/p>\n<p> N&atilde;o custou muito a Louren&ccedil;o encontrar-se com Francisco no<br \/>\n    Recife; mas a sorte parecia querer caprichosamente prolongar a aus&ecirc;ncia<br \/>\n    do matuto, e as saudades de Marcelina. Apenas o primeiro viu o segundo, correu<br \/>\n    para ele e atirou-se em seus bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> Tu por aqui, Louren&ccedil;o? E que novas me d&aacute;s de Marcelina? Fala,<br \/>\n    fala logo, filho de minha alma.<\/p>\n<p> Deixei-a boa, Deus louvado. Foi ela que me mandou buscar vosmec&ecirc;.<br \/>\n    E vosmec&ecirc; ainda est&aacute; de farda? <br \/>\n    E estarei por meus pecados. Nem tu sabes o que acaba de acontecer. Quando<br \/>\n    eu j&aacute; me supunha livre e tratava de arrumar a minha trouxa, sabes o<br \/>\n    que havia de suceder? Oh! Estes mascates s&oacute; queimados! Diabos os levem,<br \/>\n    os malditos.<\/p>\n<p> Que foi que sucedeu? <br \/>\n    Recebi ordem para continuar a servir el-rei. Maldita foi a hora em que disse<br \/>\n    a seu ajudante que vinha com ele.<\/p>\n<p> Que est&aacute; dizendo, meu pai? Pois vosmec&ecirc; que at&eacute; poucos<br \/>\n    dias serviu aos nobres, vai agora servir aos mascates? <br \/>\n    &Eacute; verdade, meu filho. Fizeram-me esta os endemoninhados. Mas isto n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o melhor; Queres saber o resto? Por ordem do governador, foram tomadas<br \/>\n    todas as presas que seu ajudante tinha feito em Itamarac&aacute;. Tu sabes<br \/>\n    que eu devia ter parte nelas, mas, agora, fico em branco.<\/p>\n<p> Que est&aacute; dizendo? <br \/>\n    L&aacute; se v&atilde;o as nove sumacas e tudo o mais pela &aacute;gua abaixo<br \/>\n     bois, cavalos, j&oacute;ias, dinheiro; tudo vai entregar-se ao governador.<br \/>\n    Eu nas sumacas n&atilde;o tinha parte, porque seu ajudante as tomou em Itamarac&aacute;<br \/>\n    antes de ir para Goiana; mas no restante devia ter meu quinh&atilde;o, e n&atilde;o<br \/>\n    era usura, n&atilde;o senhor. Olha, Louren&ccedil;o, eu estou falando com<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o nas m&atilde;os. No ataque do engenho Garapu, em Ipojuca,<br \/>\n    atirei-me &agrave;s trincheiras inimigas como doido. Recebi ali uma bala no<br \/>\n    ombro, que me deixou um rasg&atilde;o no couro, que j&aacute; est&aacute;<br \/>\n    s&atilde;o e logo te mostrarei. Os inimigos desampararam as trincheiras, e<br \/>\n    n&oacute;s da&iacute; fomos a Tamandar&eacute;, encontrando sempre gente contr&aacute;ria<br \/>\n    a fazer-nos fogo. Onde seu ajudante se achava, eu com ele. Nunca virei a cara<br \/>\n    &agrave; bala. Se n&atilde;o chega o novo governador, ter&iacute;amos de contar<br \/>\n    nova vit&oacute;ria. Mas os tempos mudaram-se, e de Tamandar&eacute; partimos<br \/>\n    para aqui, onde tivemos a not&iacute;cia desta boa paga. Seu ajudante est&aacute;<br \/>\n    muito desgostoso. E pelo jeito das coisas, parece que vamos ter nova guerra<br \/>\n    dos fidalgos contra os mascates.<\/p>\n<p> Antes isso, meu pai, de que ficar vosmec&ecirc; &agrave;s ordens desta gente<br \/>\n    ruim, que queimou a nossa casa e levou a nossa cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Eu j&aacute; me lembrei de desertar. mas al&eacute;m de n&atilde;o ser isso<br \/>\n    bonito, onde iria me meter, que eles n&atilde;o pudessem dar comigo? Mas,<br \/>\n    se os nobres quiserem novamente pegar em armas, podes dizer que nem um momento<br \/>\n    estarei com os p&eacute;s de chumbo.<\/p>\n<p> Quando ainda nem tinham dito um ao outro o necess&aacute;rio, um soldado<br \/>\n    aproximou-se de Francisco e intimou-o a que voltasse imediatamente ao quartel,<br \/>\n    por ordem superior. Para encurtar raz&otilde;es, algumas horas depois Francisco<br \/>\n    saiu em destacamento volante que devia auxiliar o Camar&atilde;o em importantes<br \/>\n    dilig&ecirc;ncias contra certos nobres de Serinha&eacute;m.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o voltou ao Cajueiro verdadeiramente amargurado.<\/p>\n<p> Diabos levem a vida de soldado. E eu que j&aacute; quis sentar pra&ccedil;a!<br \/>\n    Deus me livre. Antes ser negro cativo.<\/p>\n<p> Os dissabores de Marcelina foram maiores. Esperava o marido com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    transbordando de alegrias, e em vez de consoladoras do&ccedil;ura, recebeu<br \/>\n    o fel da prolonga&ccedil;&atilde;o da aus&ecirc;ncia por tempo indefinido.<br \/>\n    Mas logo caiu naquele esp&iacute;rito privilegiado o b&aacute;lsamo da resigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Que hei de fazer, meu Deus! Tanta promessa pedida a Nossa Senhora do Ros&aacute;rio,<br \/>\n    a Santo Cristo dos Milagres, ao Bom Jesus dos Mart&iacute;rios. Os meus merecimentos<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o nenhuns. Que hei de fazer?! <br \/>\n    E voltou-se de corpo e alma ao trabalho, sua esperan&ccedil;a, sua f&eacute;,<br \/>\n    sua consola&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Uma tarde, j&aacute; em 1712, chamou Louren&ccedil;o e disse-lhe: <br \/>\n    Vamos aumentar o puxado, que j&aacute; n&atilde;o tenho onde botar as esteiras<br \/>\n    novas que acabei. Estou vendo a hora que os ladr&otilde;es v&ecirc;em furt&aacute;-las<br \/>\n    do alpendre.<\/p>\n<p> Sendo j&aacute; quase sol posto. Louren&ccedil;o, para n&atilde;o se expor<br \/>\n    e anoitecer dentro da mata, lembrou-se de aproveitar a madeira da casa queimada,<br \/>\n    que se estava perdendo ao tempo. Pegou de um ferro-de-cova e uma enxada, e<br \/>\n    encaminhou-se &agrave;s ru&iacute;nas. Por baixo de um grande entulho, formado<br \/>\n    pelo barro das paredes e por peda&ccedil;os de estacas que a for&ccedil;a<br \/>\n    do vento e das chamas havia atirado em uma s&oacute; dire&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    apareciam as pontas de uns caibros que n&atilde;o alcan&ccedil;ara o fogo.<\/p>\n<p> Era talvez este o &uacute;nico entulho que n&atilde;o tinha sido bulido.<br \/>\n    Todo mais o espa&ccedil;o restante, ocupado pelos destro&ccedil;os, mostrava-se<br \/>\n    resolvido, e em alguns pontos viam-se at&eacute; fundas covas, algumas das<br \/>\n    quais se converteram em barreiras onde as chuvas deixaram as &aacute;guas<br \/>\n    estagnadas.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o meteu a enxada no barro com vontade e em pouco tempo ouviu<br \/>\n    um som cavo ecoar de sob as camadas que cobriam a madeira.<\/p>\n<p> Com uma nova enxadada, um objeto estalou debaixo do instrumento. Louren&ccedil;o<br \/>\n    meteu o ferro-de-cova nesse ponto, e forcejando no cabo, revirou parte dos<br \/>\n    caibros sotopostos. Ao mesmo tempo um embrulho passou por entre a terra solta,<br \/>\n    trazido na ponta do ferro. O rapaz corre presto a ver ao achado. Era como<br \/>\n    uma palma de luva de couro cobrindo um objeto brando e flex&iacute;vel. Com<br \/>\n    a ponta da faca que trazia ao c&oacute;s, descoseu este envolt&oacute;rio<br \/>\n    misterioso, e o que lhe fica nas m&atilde;os, tirado o couro, &eacute; um<br \/>\n    papel dobrado em quatro faces.<\/p>\n<p> Que ser&aacute; isto, meu Deus? disse consigo o rapaz.<\/p>\n<p> Abriu o papel e leu o seguinte: <\/p>\n<p><em>Dou a Louren&ccedil;o, &oacute;rf&atilde;o que Francisco dos Prazeres<br \/>\n    e sua mulher Marcelina, moradores no Cajueiro, t&ecirc;m como filho em sua<br \/>\n    companhia, a casa e as terras que me deu o senhor do engenho Bujari, sargento-mor<br \/>\n    Jo&atilde;o da Cunha Cavalcanti, do outro lado da estrada onde t&ecirc;m a<br \/>\n    sua casa os ditos moradores.<\/em> <br \/>\n    <em>Os limites das terras que ora v&atilde;o ao referido &oacute;rf&atilde;o,<br \/>\n    est&atilde;o lan&ccedil;ados por escritura nas notas do tabeli&atilde;o Belchior<br \/>\n    da Fonseca e Silva.<\/em> <br \/>\n    <em>Goiana, 22 de agosto de 1711<\/em> <br \/>\n    <em>PADRE ANT&Ocirc;NIO DO ESP&Iacute;RITO SANTO MARIZ<\/em> <\/p>\n<p>Est&aacute;tico, os olhos im&oacute;veis, as pernas tr&ecirc;mulas, Louren&ccedil;o<br \/>\n    exclamou: <br \/>\n    Oh, meu Deus! Eu n&atilde;o sei o que &eacute; que estou lendo! Ser&aacute;<br \/>\n    certo que seu Padre Ant&ocirc;nio me deu a sua casa e as suas terras?&nbsp;<br \/>\n    Mas, como veio isso parar aqui? E quem coseu o papel no couro? Ah! j&aacute;<br \/>\n    entendo tudo. Foi minha m&atilde;e que guardou esta fortuna. Foi por isso<br \/>\n    que ela andou fazendo tantos buracos por aqui, e n&atilde;o cessava de procurar<br \/>\n    nestes entulhos uma coisa que nunca disse o que era. Achei, achei, minha m&atilde;e;<br \/>\n    est&aacute; aqui, est&aacute; aqui a minha fortuna, o meu dote. Deus lhe d&ecirc;<br \/>\n    o pago, seu Padre. Deus lhe d&ecirc; muitos aumentos por me ter feito esta<br \/>\n    esmola de tanto valor. Mas, onde estar&aacute; seu Padre? Oh! Se eu pudesse<br \/>\n    v&ecirc;-lo, abra&ccedil;&aacute;-lo, beijar-lhe, de joelhos, a benfeitora<br \/>\n    m&atilde;o&#8230; Meu Deus! Meu Deus! Ser&aacute; verdade que a casa que ali est&aacute;<br \/>\n    me pertence? E foi seu Padre Ant&ocirc;nio quem me fez este benef&iacute;cio?<br \/>\n    \n  <\/p>\n<p>  L&aacute;grimas de satisfa&ccedil;&atilde;o indiz&iacute;vel acudiram aos olhos<br \/>\n  do rapaz.<\/p>\n<p> Passado o primeiro momento desta como&ccedil;&atilde;o, ele, inclinando-se,<br \/>\n    examinou o lugar donde o ferro-de-cova tirara aquele tesouro, e pode descobrir<br \/>\n    uma caixinha onde Marcelina costumava guardar v&aacute;rias ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    prodigiosas para a cura de maleita e outras doen&ccedil;as.<\/p>\n<p> Quando Louren&ccedil;o se ergueu, a fim de ler de novo o papel em que parecia<br \/>\n    n&atilde;o acreditar estivessem escritas t&atilde;o agrad&aacute;veis coisas,<br \/>\n    sentiu atr&aacute;s de si rumor de passos.<\/p>\n<p> &Eacute; minha m&atilde;e, disse consigo.<\/p>\n<p> Voltando-se, viu um homem. Era Jo&atilde;o da Cunha.<\/p>\n<p> Seu sargento-mor, por aqui! emendou ele, ocultando instintivamente o papel<br \/>\n    na m&atilde;o.<\/p>\n<p> Vai buscar o teu cavalo, para acompanhar-me. Temos de sair j&aacute;. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; tempo sen&atilde;o de tomares o cavalo.<\/p>\n<p> Minha m&atilde;e sabe para onde vamos? <br \/>\n    Sabe tudo; j&aacute; me entendi com ela. Neste momento dirigiu-se a Bujari<br \/>\n    a fazer companhia &agrave; sra. D. Damiana. N&atilde;o te demores, que j&aacute;<br \/>\n    me parece ouvir o rumor surdo dos passos da tropa que vem em busca de mim.<\/p>\n<p> &Eacute; j&aacute;, seu sargento-mor.<\/p>\n<p> N&atilde;o tendo meios de guardar o papel em lugar seguro, ele o atou por<br \/>\n    dentro da camisa na cintura, envolto no mesmo couro que o tivera ileso debaixo<br \/>\n    da terra.<\/p>\n<p> Antes de anoitecer tomaram a dire&ccedil;&atilde;o de Tracunha&eacute;m.<\/p>\n<p> Ficava o famoso ponto de resist&ecirc;ncia, estabelecido e sustentado a&iacute;<br \/>\n    por Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a perto do rio que deu o nome &agrave;<br \/>\n    liga, cerca de um quarto de l&eacute;gua. Guarnecido de matos por todos os<br \/>\n    lados, s&oacute; se podia ir ter ali por um caminho oculto que come&ccedil;ava<br \/>\n    entre duas pedras quase unidas na beira do rio. Para tomar entrada entre essas<br \/>\n    duas pedras, era preciso seguir um bom peda&ccedil;o rio acima, de ver&atilde;o<br \/>\n    com a &aacute;gua pela barriga, e de inverno a nado. Sem isto o ponto era<br \/>\n    inacess&iacute;vel, porque pelo lado de Tracunha&eacute;m os matos vinham<br \/>\n    morrer quase dentro das &aacute;guas, entre talhados que n&atilde;o deixavam<br \/>\n    nenhum espa&ccedil;o &agrave; passagem nem de cabras; e pelos outros lados,<br \/>\n    &aacute;rvores seculares, que dois homens n&atilde;o podiam abarcar, serviam<br \/>\n    de natural pali&ccedil;ada, imposs&iacute;vel de romper. Jo&atilde;o da Cunha,<br \/>\n    que tinha todas as indica&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para entrar<br \/>\n    no pouso, mandadas pelo pr&oacute;prio Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a, muito<br \/>\n    antes, chegou sem novidades ao cora&ccedil;&atilde;o do segredo.<\/p>\n<p> Perto de cinq&uuml;enta fidalgos, tendo &agrave; sua frente Falc&atilde;o<br \/>\n    d&rsquo;E&ccedil;a, arrostavam neste majestoso esconderijo todos os rigores<br \/>\n    da sorte adversa. <\/p>\n<h2><a name=\"4\">Cap\u00edtulo IV <\/a><\/h2>\n<p>O rigoroso inverno que caiu sobre Pernambuco em 1713, um ano antes come&ccedil;ara<br \/>\n    a mostrar o que havia de ser. Em agosto estavam os rios ainda muito grossos,<br \/>\n    os caminhos cortados de atoleiros, as terras baixas convertidas em vastos<br \/>\n    p&acirc;ntanos.<\/p>\n<p> Em uma das noites mais &aacute;speras de 1712, Louren&ccedil;o entrou nas<br \/>\n    matas de Tracunha&eacute;m. J&aacute; muito lhe custara atravessar o rio,<br \/>\n    e como n&atilde;o oferecesse este passagem, sen&atilde;o arriscada, para o<br \/>\n    ponto onde se escondiam os nobres, julgou aquele prudente pernoitar por ali<br \/>\n    mesmo. Em certo fechado ao p&eacute; de um cedro colossal, em cujo tronco<br \/>\n    se via uma grande fenda na altura de um homem p&ocirc;s abaixo a carga de<br \/>\n    mantimento e roupa que levava do engenho para o sargento-mor.<\/p>\n<p> Se vier por a&iacute; alguma <em>trovoada<\/em>, &#8211; dissera ele consigo, &#8211;<br \/>\n    meto-me dentro deste oco, onde ningu&eacute;m me h&aacute; de ver.<\/p>\n<p> O enfado da jornada trouxe-lhe sono que depressa o prendeu, n&atilde;o obstante<br \/>\n    a chuva. Pela madrugada acordou, ouvindo soar tiros ao longe; e conquanto<br \/>\n    estivesse certo de se terem ordenado dilig&ecirc;ncias contra os nobres escondidos,<br \/>\n    recuperou o sono, e dormiu at&eacute; o raiar do dia, que foi fresco e belo.<br \/>\n    A chuva cessara inteiramente. O sol dardejava raios horizontais por entre<br \/>\n    as folhagens, que se esclareciam tomando diferente aspecto.<\/p>\n<p> Apenas de p&eacute;, quando tratava de buscar o cavalo para continuar a<br \/>\n    jornada, ouviu ru&iacute;do de passos e vozes perto. Os passos e as vozes<br \/>\n    foram aumentando pouco a pouco. Dentro de algum tempo aquele ru&iacute;do<br \/>\n    j&aacute; era acompanhado do retintim de muitas armas. Enfim, viu o rapaz,<br \/>\n    com espanto e confus&atilde;o, desfilar por diante das &aacute;rvores, que<br \/>\n    o encobriam, grande partida de soldados.<\/p>\n<p> Afiguravam-se estes aos seus olhos vultos patibulares, vis&otilde;es pavorosas<br \/>\n    como dem&ocirc;nios em que ele acreditava.<\/p>\n<p> Tinham cal&ccedil;as arrega&ccedil;adas e enlameadas, as jaquetas pegadas<br \/>\n    ao corpo, os chap&eacute;us ainda umedecidos e demudados, nas faces estampado<br \/>\n    o sono, o cansa&ccedil;o, a fome e a maldade, nas m&atilde;os armas sinistras<br \/>\n    e amea&ccedil;adoras.<\/p>\n<p> Grande parte desta for&ccedil;a passante, de duzentos homens, era composta<br \/>\n    de caboclos; no restante havia de tudo  negros, curibocas, mesti&ccedil;os,<br \/>\n    semi-brancos e at&eacute; brancos.<\/p>\n<p> Formava o todo uma grande m&oacute;, em cujo centro se destacavam onze membros<br \/>\n    da nobreza. No couce da tropa mostravam-se a cavalo os coron&eacute;is Manoel<br \/>\n    Gon&ccedil;alves Tunda-Cumbe e Sebasti&atilde;o Pinheiro Camar&atilde;o, chefes<br \/>\n    do bando. A um lado deles, seguiam-nos o capit&atilde;o-mor de Iguara&ccedil;u,<br \/>\n    Ant&ocirc;nio da Silva Pereira, e o de Tracunha&eacute;m Jo&atilde;o Cavalcanti<br \/>\n    de Albuquerque, que por ordem do governador auxiliaram com gente sua os dois<br \/>\n    primeiros na importante busca. O semblante destes caudilhos acusava sinistra<br \/>\n    vaidade; o daqueles tinha a express&atilde;o alvar do delator.<\/p>\n<p> Quando menos esperava, impress&atilde;o mais violenta deixou o rapaz at&ocirc;nito:<br \/>\n    descobrira, entre os prisioneiros, Jo&atilde;o da Cunha. Uma corda ligava-o<br \/>\n    com outro nobre pelo bra&ccedil;o direito. Trazia ele a fisionomia decomposta<br \/>\n    por afli&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima, por desgosto mortal, antes vergonha<br \/>\n    filha do desdouro em que se via posto.<\/p>\n<p> Em toda a sua vida, Louren&ccedil;o nunca sentia dor t&atilde;o atroz. Afeito<br \/>\n    desde menino a ver no sargento-mor representada uma institui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que ele n&atilde;o sabia explicar, mas que impunha a seu esp&iacute;rito a<br \/>\n    for&ccedil;a de lei fatal e quase divina  a institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da nobreza, foi com verdadeiro assombro que testemunhou agora aquele claro<br \/>\n    pulso aviltado pelo instrumento destinado aos r&eacute;us vulgares, que s&oacute;<br \/>\n    despertavam compaix&atilde;o. A filosofia da vida, dava pela primeira vez<br \/>\n    a ler ao bisonho almocreve uma das p&aacute;ginas tristes, que o homem versado<br \/>\n    em letras encontra aos milhares no imenso livro da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> Passada esta primeira como&ccedil;&atilde;o, uma como revolta interior operou-se<br \/>\n    de repente em todo o seu ser.<\/p>\n<p> Impulso irresist&iacute;vel atira-o para diante, eletricamente.<\/p>\n<p> Por entre os ramos que o ocultam, a m&atilde;o direita armada com a faca<br \/>\n    livre da bainha, mostra-se em atitude de descarregar golpe cruel. Mas a voz<br \/>\n    da consci&ecirc;ncia soou mais alto que a da paix&atilde;o no &acirc;nimo<br \/>\n    do almocreve. Ele tinha diante de si duzentos homens armados.<\/p>\n<p> Ser&aacute; poss&iacute;vel  disse consigo  que eu n&atilde;o<br \/>\n    possa valer nesta amargura a seu sargento-mor? Desgra&ccedil;ado que sou!<br \/>\n    Fraco e s&oacute;, diante de tanta gente forte! Triste foi a hora que fiz<br \/>\n    esta viagem.<\/p>\n<p> S&uacute;bito o assalta um pensamento que ele realiza inconscientemente,<br \/>\n    mecanicamente. P&otilde;e o p&eacute; sobre a borda do grande oco, e sobre<br \/>\n    ao pau. Ganhando posi&ccedil;&atilde;o elevada, atira dentre a folhagem a<br \/>\n    faca que empalmara quando se lhe deparara a estranha vista. O movimento foi<br \/>\n    r&aacute;pido. Como fa&iacute;sca el&eacute;trica, a arma, descrevendo uma<br \/>\n    elipse no v&aacute;cuo, foi bater contra o alvo. Um grito quebrou a mudez<br \/>\n    dos bosques: soltara-o Tunda-Cumbe, em cujo bra&ccedil;o esquerdo a faca se<br \/>\n    cravara.<\/p>\n<p> No mesmo instante sentiu o rapaz forte pancada contra os quadris, semelhante<br \/>\n    &agrave; que produz o bote de alentada cobra; e logo for&ccedil;a descomunal<br \/>\n    o puxa para baixo. Mal seguro, n&atilde;o pode resistir &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    que o alcan&ccedil;ara, e teve de cair, n&atilde;o ao p&eacute; da &aacute;rvore,<br \/>\n    mas no interior do oco, onde a escurid&atilde;o era profunda.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, uma voz abafada, mas conhecida dele, segredou-lhe aos ouvidos:<br \/>\n    <br \/>\n    Est&aacute;s doido, Louren&ccedil;o? Queres que os malvados te matem? <br \/>\n    &Eacute; vosmec&ecirc;, seu Falc&atilde;o? inquiriu o rapaz aturdido da descida<br \/>\n    rude, que lhe lan&ccedil;ara grande confus&atilde;o no esp&iacute;rito. Vosmec&ecirc;<br \/>\n    quer desgra&ccedil;ar-me? Eu n&atilde;o sou bom, e n&atilde;o gosto que me<br \/>\n    tratem deste modo. Por que n&atilde;o me deixa matar aquele <em>pu&ccedil;o<\/em>,<br \/>\n    aquele infame Tunda-Cumbe? <br \/>\n    Cala-te, menino, retorquiu o capit&atilde;o. Tu n&atilde;o tens ju&iacute;zo;<br \/>\n    &eacute;s um tolo. Que seria de ti se eles chegassem a ver-te? <br \/>\n    Verdade &eacute; que estou desarmado. Mas tenho muita for&ccedil;a. Deus louvado.<br \/>\n    Era capaz de quebrar os ossos do <em>marinheiro<\/em>, se o apertasse entre<br \/>\n    os bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> Guarda a tua for&ccedil;a para quando for tempo.<\/p>\n<p> Vosmec&ecirc; atirou-me aqui dentro, quando eu j&aacute; ia salvar seu sargento-mor.<br \/>\n    Estou zangado. N&atilde;o me fa&ccedil;a mais isso.<\/p>\n<p> Ias perder-te. Por ver a tua loucura foi que te puxei para aqui. N&atilde;o<br \/>\n    sejas crian&ccedil;a. Que farias tu, s&oacute;, sem armas, sem uma faca ao<br \/>\n    menos? Ali v&atilde;o amarrados parentes e amigos, que muito me merecem; mas<br \/>\n    nem por isso praticarei asneiras.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o ia responder, quando sentiu sobre os l&aacute;bios a m&atilde;o<br \/>\n    do capit&atilde;o querendo dizer que n&atilde;o falasse. Ao mesmo tempo ouviu<br \/>\n    surdo rumor de passos acima de sua cabe&ccedil;a. Eram v&aacute;rios soldados<br \/>\n    que haviam corrido a ver se descobriam o autor do atentado contra o coronel.<\/p>\n<p> Neste momento, o Tunda-Cumbe, rangendo os dentes, clamou inflamado na paix&atilde;o<br \/>\n    que o tomara: <br \/>\n    H&aacute;s de pagar-me, Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a, h&aacute;s de pagar-me<br \/>\n    o que ora fizeste. Hei de cortar-te as orelhas para dar de presente ao meu<br \/>\n    c&atilde;o. Se estes matos t&ecirc;m ouvidos, eles que ou&ccedil;am a tua<br \/>\n    senten&ccedil;a de morte, que se h&aacute; de realizar no futuro, pois t&atilde;o<br \/>\n    cobarde &eacute;s que n&atilde;o te apresentas e somente me feres &agrave;<br \/>\n    trai&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ditas estas palavras, o Tunda-Cumbe, como se reconhecesse os perigos de<br \/>\n    dar busca em dom&iacute;nios encobertos, alheios e desconhecidos, voltou imediatamente<br \/>\n    ao ponto onde fizera alto a tropa, que ele ordenou que seguisse a marche-marche.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; nada, disse como para tranq&uuml;ilizar os seus. J&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o vertem sangue as minhas veias; o da est&uacute;pida nobreza de<br \/>\n    Pernambuco, descendente de Caet&eacute; com Mo&ccedil;ambique, esse sim, n&atilde;o<br \/>\n    vejo atadura que o fa&ccedil;a t&atilde;o cedo estacar.<\/p>\n<p> N&atilde;o o matei, mas sempre lhe dei um ensino  disse Louren&ccedil;o<br \/>\n    a meia-voz debaixo da terra, sentindo serenada com as palavras do capit&atilde;o,<br \/>\n    parte da sua grande c&oacute;lera. Assim foi bom. Os nobres precisam da tua<br \/>\n    vida, miser&aacute;vel peixeiro, para tomarem a vingan&ccedil;a que mereces.<br \/>\n    Havemos de ver qual dos dois sangues deixar&aacute; primeiro de correr em<br \/>\n    Pernambuco, se o teu sangue de bicho da outra banda, se o da nobreza de minha<br \/>\n    terra, o sangue azul daqueles que te mataram a fome e agora cobres de lama<br \/>\n    e desaforos.<\/p>\n<p> E voltando-se para o capit&atilde;o, acrescentou: <br \/>\n    E o que faz vosmec&ecirc;, seu Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a, que n&atilde;o<br \/>\n    mostra ao governador e ao ouvidor dos mascates para quanto presta o seu brio?<br \/>\n    Ser&aacute; poss&iacute;vel que tanta gente, tanto fidalgo limpo, tanto homem<br \/>\n    rico e que sabe onde tem as ventas, esteja a sofrer as ousadias de labregos<br \/>\n    sujos, que deviam ser botados para fora &agrave; peia? <br \/>\n    Veremos agora o que se h&aacute; de fazer  disse o capit&atilde;o.<\/p>\n<p> Os pernambucanos metidos entre a escolta tinham sido presos por ocasi&atilde;o<br \/>\n    da dilig&ecirc;ncia que vem apontada nas cr&ocirc;nicas&nbsp; daquele tempo<br \/>\n    com a denomina&ccedil;&atilde;o de <em>ca&ccedil;ada geral.<\/em> <br \/>\n    O fim principal desta ca&ccedil;ada, para cujo bom resultado os bandoleiros<br \/>\n    do Camar&atilde;o e do Tunda-Cumbe at&eacute; amestraram c&atilde;es a pegar<br \/>\n    gente no mato, era destruir pela pris&atilde;o de Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a,<br \/>\n    que por suas grandes faculdades naturais, se tornara o apoio da nobreza, e<br \/>\n    um dos que mais davam que pensar ao governador, aquele asilo onde se encastelavam<br \/>\n    muitos e importantes cavalheiros.<\/p>\n<p> Falc&atilde;o tinha direito a esta distin&ccedil;&atilde;o que deixou seu<br \/>\n    nome t&atilde;o conspicuamente inscrito nos anais pernambucanos.<\/p>\n<p> Tanto que, pelas primeiras pris&otilde;es, a nobreza come&ccedil;ou a procurar<br \/>\n    os matos, ou ausentar-se para fora da capitania. F&eacute;lix Jos&eacute;<br \/>\n    Machado, a quem n&atilde;o &eacute; l&iacute;cito recusar &acirc;nimos excepcionais,<br \/>\n    considerando-se inatac&aacute;vel, entregou-se a passeios, banquetes, divertimentos,<br \/>\n    digress&otilde;es pelos arrabaldes, e at&eacute; a grandes jogos e largas<br \/>\n    cr&aacute;pulas.<\/p>\n<p> Nas cr&ocirc;nicas se l&ecirc;em os nomes dos que freq&uuml;entavam a banca<br \/>\n    de jogo armada em pal&aacute;cio, e os das meretrizes que tinham a&iacute;<br \/>\n    entrada franca.<\/p>\n<p> Um dia, disse-lhe Manoel Carneiro: <br \/>\n    Breve teremos tinguijada, Sr. governador.<\/p>\n<p> Tanto bastou para que este se desse por convidado, e no dia aprazado se<br \/>\n    achasse em casa de Carneiro com o ouvidor, o juiz de fora, D. Francisco de<br \/>\n    Souza, e outros importantes membros do partido dos mercadores.<\/p>\n<p> N&atilde;o era a primeira vez que ele compelia Manoel Carneiro a aumentar<br \/>\n    os pratos da sua mesa. Meses antes, um grande jantar se realizara ali por<br \/>\n    ocasi&atilde;o da <em>botada<\/em> do engenho, ao qual compareceu F&eacute;lix<br \/>\n    Jos&eacute; Machado.<\/p>\n<p> Mas nenhuma festa deu tanto que falar como a <em>tinguijada.<\/em> Foram<br \/>\n    tr&ecirc;s dias gordos. S&oacute; em ovos sessenta patacas se despenderam,<br \/>\n    diz, admirado, o principal cronista da guerra dos mascates.<\/p>\n<p> Chegado o momento da apanha do peixe o governador encaminhou-se para a beira<br \/>\n    do Capibaribe.<\/p>\n<p> N&atilde;o deixando o rio po&ccedil;os, duas tapagens tinham sido feitas<br \/>\n    com palmas de coqueiros. Entre as ditas tapagens ficava o espa&ccedil;o talvez<br \/>\n    de vinte e trinta bra&ccedil;as. As &aacute;guas estavam ali dentro em um<br \/>\n    como remanso. Tirados antes os grandes ramos que por muitos dias haviam ficado<br \/>\n    sobre elas a fim de chamar os peixes para aquele ponto, convidados pela sombra,<br \/>\n    viam-se ainda a <em>meladinha<\/em>, o <em>&nbsp;mel&atilde;o de Caetano<\/em><br \/>\n    e o <em>tingui<\/em>, que depois de machucados tinham sido lan&ccedil;ados<br \/>\n    dentro da tapagem. As &aacute;guas nesse ponto estavam esverdeadas, e grandes<br \/>\n    camorins, prateadas carapebas e tantos outros habitadores do rio mostravam-se<br \/>\n    boiando por entre as crostas venenosas, embriagadas pelo forte narc&oacute;tico<br \/>\n    dos cip&oacute;s; outros enchiam giquisenfiados nas cercas.<\/p>\n<p> F&eacute;lix Jos&eacute; Machado entrou na canoa que devia percorrer o &acirc;mbito<br \/>\n    da tapagem, e com outros convidados de porte come&ccedil;ou a apanhar com<br \/>\n    a m&atilde;o o peixe que boiava possesso da mortal tontura.<\/p>\n<p> Olhos atentos e perspicazes haveriam notado que, por entre o prazer, os<br \/>\n    risos, os gracejos, os banhos involunt&aacute;rios e outros mil incidentes<br \/>\n    naturais de semelhantes patuscadas, o governador n&atilde;o tirava as vistas<br \/>\n    da parte superior do rio. Havia nos seus lances d&rsquo;olhos ind&iacute;cios<br \/>\n    de inquieta&ccedil;&atilde;o e receio. Eis os fundamentos deste dois sentimentos,<br \/>\n    que ali&aacute;s n&atilde;o se compadeciam com as alegrias e a confian&ccedil;a<br \/>\n    que costumam reinar em semelhantes reuni&otilde;es.<\/p>\n<p> Um mulato do capit&atilde;o-mor de Tracunha&eacute;m dirigiu-se ao governador<br \/>\n    em princ&iacute;pios de junho e lhe dissera que se seu senhor, cunhado de<br \/>\n    Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a, e que muitos servi&ccedil;os prestara no<br \/>\n    primeiro levante contra Sebasti&atilde;o de Castro Caldas, n&atilde;o fosse<br \/>\n    incomodado nem sua fam&iacute;lia, ele revelaria um grande movimento que estava<br \/>\n    planejado. Tendo a promessa n&atilde;o s&oacute; de ser poupado o dito capit&atilde;o-mor,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m de se lhe dar um pr&ecirc;mio pela revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do segredo, disse o mulato que consistia aquele plano em um levante contra<br \/>\n    o governador, assentado entre Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a e outros nobres<br \/>\n    que com ele se tinham homiziado nas matas. Os conspiradores, aproveitando-se<br \/>\n    da festa da <em>tinguijada<\/em> no engenho de Manoel Carneiro, por ocasi&atilde;o<br \/>\n    da qual o governador ficava distante da capital e sem meios prontos de resistir<br \/>\n    com vantagem ao assalto, deveriam sair do esconderijo com todos os sequazes,<br \/>\n    embarcar em certo ponto em canoas, com antecipa&ccedil;&atilde;o preparadas<br \/>\n    para este fim, descer pelo rio, e surpreender o governador no meio da folgan&ccedil;a.<br \/>\n    O que se seguiria n&atilde;o p&ocirc;de o mulato dizer, mas F&eacute;lix Machado<br \/>\n    compreendeu que semelhante surpresa n&atilde;o podia ter um termo que lhe<br \/>\n    n&atilde;o fosse fatal. E porque o capit&atilde;o-mor fazia parte da conspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    visto que, temendo ser preso, se recolhera ao mato com Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a,<br \/>\n    mandou o governador cham&aacute;-lo pelo mesmo mulato &agrave; sua presen&ccedil;a,<br \/>\n    ao que se n&atilde;o esquivou o capit&atilde;o-mor, tendo somente o cuidado<br \/>\n    de comparecer &agrave;s escondidas. F&eacute;lix Jos&eacute; Machado confirmou<br \/>\n    a promessa feita ao mulato, mas exigiu, como principal condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do ajuste, que o pr&oacute;prio capit&atilde;o-mor guiasse as for&ccedil;as<br \/>\n    encarregadas da <em>ca&ccedil;ada geral<\/em> ao esconderijo n&atilde;o sabido.<br \/>\n    Esta infame condi&ccedil;&atilde;o foi aceita, e a trai&ccedil;&atilde;o teria<br \/>\n    sortido todo o efeito se Falc&atilde;o, havendo dado pela falta do cunhado<br \/>\n    na v&eacute;spera do projetado assalto, n&atilde;o se prevenisse em tempo.<\/p>\n<p> Como conhecesse a capacidade do parente, e desse todo o valor &agrave; responsabilidade<br \/>\n    que a si pr&oacute;prio cabia como principal membro da <em>Liga de Tracunha&eacute;m<\/em>,<br \/>\n    congra&ccedil;ando&nbsp; os companheiros, comunicou-lhes francamente os seus<br \/>\n    receios.<\/p>\n<p> N&atilde;o vos assusteis, por&eacute;m, concluiu Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a.<br \/>\n    Retiros n&atilde;o nos faltam neste mundo virgem para nos ocultarmos do traidor.<br \/>\n    Proponho-vos que desamparemos j&aacute; este pouso. Amanh&atilde; talvez j&aacute;<br \/>\n    seja tarde.<\/p>\n<p> Alguns dos nobres, n&atilde;o querendo acreditar na possibilidade de serem<br \/>\n    tra&iacute;dos por parente e companheiro t&atilde;o qualificado, hesitaram<br \/>\n    indecisos. Deste n&uacute;mero foi Jo&atilde;o da Cunha.<\/p>\n<p> Que diria de n&oacute;s Albuquerque, se viesse a saber, n&atilde;o se verificando<br \/>\n    a vossa suspeita, Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a, que hav&iacute;amos formado<br \/>\n    dele conceito t&atilde;o incompat&iacute;vel com homens de bem?  inquiriu<br \/>\n    Jo&atilde;o da Cunha. Considero imprudente o passo que aconselhais, e n&atilde;o<br \/>\n    estou resoluto a d&aacute;-lo, para n&atilde;o me arriscar a cair no justo<br \/>\n    desprezo de um homem de nossa igualha. Demais, temos armas e muni&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    O ponto em que nos achamos pode reputar-se inexpugn&aacute;vel. Desta banda<br \/>\n    est&aacute; o rio de nado, das outras grossos paus que se amparam uns aos<br \/>\n    outros em muitas ordens &agrave; roda de n&oacute;s. Por que havemos de abandonar<br \/>\n    t&atilde;o seguro abrigo? Por uma simples suspeita? Por isso somente n&atilde;o<br \/>\n    o deixarei.<\/p>\n<p> Fixando a vista em Jo&atilde;o da Cunha: <br \/>\n    Sois livre, sargento-mor  disse Falc&atilde;o; podeis ficar, eu por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o ficarei. Oxal&aacute; n&atilde;o se verifiquem as minhas previs&otilde;es;<br \/>\n    mas o cora&ccedil;&atilde;o leal anuncia-me que, se ainda hoje pernoitarmos<br \/>\n    neste recesso, a nossa liberdade e a vida correr&atilde;o perigo. Podeis ficar,<br \/>\n    e convosco os que quiserem. Deixo-vos grande parte das muni&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de guerra. At&eacute; a primeira vista, <br \/>\n    Falc&atilde;o deu o andar. Alguns dos nobres seguiram-no imediatamente, outros<br \/>\n    pouco depois. Ele era a alma da resist&ecirc;ncia; a sua aus&ecirc;ncia enfraquecia<br \/>\n    os mais fortes. Com Jo&atilde;o da Cunha ficaram perto de vinte que tinham<br \/>\n    o mesmo pensar que ele. Este procedimento cravava as ra&iacute;zes na nobreza<br \/>\n    dos seus cora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Mas, bem depressa tiveram a prova de quanto a sua grandeza moral se enganara.<br \/>\n    Antes do amanhecer, despertou-o do sono a perf&iacute;dia. Defronte da entrada<br \/>\n    alguma balsas, vencendo a for&ccedil;a das &aacute;guas, atracaram entre as<br \/>\n    duas pedras; vinham carregadas de bandoleiros. O Camar&atilde;o dirigiu o<br \/>\n    assalto. Exercitados na vida do mato, os seus caboclos penetraram no pouso<br \/>\n    sem grande custo, n&atilde;o obstante ser preciso, para chegar a&iacute;,<br \/>\n    dar muitas voltas onde haviam grandes fojos com estepes agu&ccedil;ados, habilmente<br \/>\n    dispostos por baixo de camadas de folhas secas. Os nobres somente tiveram<br \/>\n    tempo de dar alguns tiros a que os agressores responderam com vantagem. Jo&atilde;o<br \/>\n    da Cunha, conquanto muito animoso, teve de render-se ao grande n&uacute;mero,<br \/>\n    depois de ferido. Os bandoleiros saquearam o pouco, derrubaram &aacute;rvores,<br \/>\n    e deslocaram pedras para o abrir e patentear.<\/p>\n<p> Ao amanhecer, alguns espias vieram referir a Falc&atilde;o o que se havia<br \/>\n    passado. Ent&atilde;o, tomando escusa vereda, o chefe da liga penetrou na<br \/>\n    manga subterr&acirc;nea, e foi parar no cedro oco donde esperava ver a tropa,<br \/>\n    e pela vista avaliar o destro&ccedil;o.<\/p>\n<p> A hora em que se deu come&ccedil;o &agrave; tinguijada, nada constava ainda<br \/>\n    a F&eacute;lix Jos&eacute; Machado sobre o resultado da dilig&ecirc;ncias<br \/>\n    &agrave;s matas. Seu esp&iacute;rito por isso vacilava inquieto entre o bom<br \/>\n    e o mau &ecirc;xito; e seus olhos n&atilde;o cessavam de volver-se para o<br \/>\n    lado donde deveriam vir as canoas inimigas, se acaso a tropa n&atilde;o tivesse<br \/>\n    dado sobre os conspiradores a tempo de frustrar-lhes o plano.<\/p>\n<p> A tinguijada durou at&eacute; depois do meio-dia. Da beira do rio levaram<br \/>\n    peixe para o engenho em ca&ccedil;u&aacute;s, t&atilde;o grande fora a pescaria.<br \/>\n    O vinho, a aguardente, a viola, a toada, a dan&ccedil;a come&ccedil;aram a<br \/>\n    reinar com toda a sua for&ccedil;a. Calculando que, visto n&atilde;o aparecerem<br \/>\n    as canoas, deveriam estar na corda todos os conspiradores, o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o esp&iacute;rito de F&eacute;lix Jos&eacute; Machado expandiam-se gradualmente<br \/>\n    &agrave; propor&ccedil;&atilde;o que o dia ia subindo.<\/p>\n<p> Passando pela casa onde estava a balan&ccedil;a de pesar o a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    do engenho, o governador, cujo corpo era de propor&ccedil;&otilde;es herc&uacute;leas,<br \/>\n    teve o pensamento de se fazer pesar. Pesou dois quintais e quatro libras (6).<\/p>\n<p> Quando chegou a hora da refei&ccedil;&atilde;o, p&ocirc;s-se a comer t&atilde;o<br \/>\n    alambazadamente, que a todos meteu assombro(6).<\/p>\n<p> Sobre a tarde recebeu a comunica&ccedil;&atilde;o do resultado da dilig&ecirc;ncia.<br \/>\n    Sentiu ent&atilde;o grande desgosto por saber que Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a<br \/>\n    n&atilde;o havia ca&iacute;do no trama urdido.<\/p>\n<p> Mas, Sr. governador, disse o capit&atilde;o-mor, vieram entre outros o capit&atilde;o<br \/>\n    Ant&ocirc;nio Silva, o capit&atilde;o Miguel Lopes, os irm&atilde;os do padre<br \/>\n    Ant&ocirc;nio Jorge Guerra, o alferes Diogo de Carvalho Maciel, o sargento-mor<br \/>\n    Jo&atilde;o da Cunha, e um escravo de E&ccedil;a que &eacute; seu bra&ccedil;o<br \/>\n    direito.<\/p>\n<p> O governador respondeu: <br \/>\n    Pois bem. Fa&ccedil;amos conta de que o escravo vale o senhor. Da&iacute;<br \/>\n    ordem, sr. ouvidor, para que esse vil cativo seja hoje mesmo trateado, hoje<br \/>\n    mesmo, sem falta; ouvistes, sr. ouvidor? <br \/>\n    A ordem foi rigorosamente cumprida. &Agrave; noite soube-se na V&aacute;rzea<br \/>\n    que o padecente n&atilde;o pudera sobreviver aos tratos sen&atilde;o algumas<br \/>\n    horas.<\/p>\n<p> Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a  disse F&eacute;lix Machado, h&aacute;<br \/>\n    de chegar a tua vez. <\/p>\n<h2><a name=\"5\">Cap\u00edtulo V <\/a><\/h2>\n<p>A cavidade onde estavam Louren&ccedil;o e Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a<br \/>\n    terminava, com a forma de funil, em abertura entre certo bamburral enredado,<br \/>\n    obra de vinte bra&ccedil;as distante do cedro: por esta abertura dificilmente<br \/>\n    passava um homem. Rastejando um atr&aacute;s do outro, chegaram os dois &agrave;<br \/>\n    extremidade, e esperaram que cessasse inteiramente o ru&iacute;do dos passos<br \/>\n    dos soldados e animais.<\/p>\n<p> Segue-me  disse Falc&atilde;o a Louren&ccedil;o. Nada temas. Quase<br \/>\n    todo o dia transito por estes lugares onde, para bem dizer, me nasceram os<br \/>\n    dentes.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o trazia o esp&iacute;rito preso a certa ordem de id&eacute;ias<br \/>\n    que o envolviam como em cipoal mais inextric&aacute;vel do que o bamburral<br \/>\n    por onde iam. Pensava em livrar o sargento-mor, ainda que para o livramento<br \/>\n    lhe fosse preciso sacrificar a pr&oacute;pria vida. Pensava em castigar atrozmente<br \/>\n    os inimigos que tinham levado a aud&aacute;cia ao ponto de prenderem o ilustre<br \/>\n    senhor de engenho, como se fora um dos seus negros: Louren&ccedil;o estava<br \/>\n    quase fora de si, arrebatado, nas asas do desespero, da vingan&ccedil;a e<br \/>\n    do &oacute;dio.<\/p>\n<p> Seu Falc&atilde;o  disse ele ao sa&iacute;rem do estreito<br \/>\n    se vosmec&ecirc; n&atilde;o pensa em meio de prender, a&ccedil;oitar, matar,<br \/>\n    queimar os infames <em>camar&otilde;es e tunda-cumbes<\/em>, escusa de estar<br \/>\n    com estes atalhos e estas voltas, eu n&atilde;o sirvo para isso, n&atilde;o<br \/>\n    senhor; eu queria morrer mesmo entre eles, contanto que matasse esse cachorro<br \/>\n    que tem feito tantos latroc&iacute;nios por a&iacute; al&eacute;m.<\/p>\n<p> Ouvindo estas palavras, o capit&atilde;o parou e encarou o rapaz, como quem<br \/>\n    queria ler-lhe o &iacute;ntimo atrav&eacute;s da face.<\/p>\n<p> E que cuidas tu, Louren&ccedil;o? inquiriu a modo de ofendido. Cuidas que<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; o meu pensamento de todas as horas, de todos os instantes,<br \/>\n    tomar uma vingan&ccedil;a dos nossos inimigos? N&atilde;o sabes que estava<br \/>\n    tudo pronto para darmos hoje um assalto ao engenho de Manoel Carneiro, e tirarmos<br \/>\n    dali o governador e o ouvidor, e enforcar depois <em>um na tripa do outro<\/em>?<br \/>\n    Mas em toda parte h&aacute; traidores: Cristo teve um Judas para o entregar:<br \/>\n    eu tive um cunhado. Se n&atilde;o fora a infame trai&ccedil;&atilde;o, pod&iacute;amos<br \/>\n    ter a esta hora nossos principais carrascos, prontinhos para um sarapatel<br \/>\n    no meio destas matas.<\/p>\n<p> Mas  disse Louren&ccedil;o  por uma vez mentir fogo a espingarda,<br \/>\n    a gente n&atilde;o deixa de lhe p&ocirc;r nova escova e fazer pontaria outra<br \/>\n    vez sobre a ca&ccedil;a.<\/p>\n<p> Mis&eacute;ria, mis&eacute;ria sem nome! Ajustaram a minha cabe&ccedil;a<br \/>\n    com o governador. Venderam-me ao ouro portugu&ecirc;s. Denunciaram o abrigo<br \/>\n    de cinq&uuml;enta patriotas, cinq&uuml;enta bravos, que representaram nestas<br \/>\n    matas seculares a nacionalidade brasileira. Pernambucanos degenerados, vil&otilde;es<br \/>\n    ruins que lan&ccedil;am com esta a&ccedil;&atilde;o infame uma mancha eterna<br \/>\n    sobre a nossa hist&oacute;ria, rica de p&aacute;ginas verdadeiramente imortais.<\/p>\n<p> E n&atilde;o poderemos ir tomar aqueles presos? <br \/>\n    Como? Poder&iacute;amos fazer uma surpresa, mas n&atilde;o empenhar-nos em<br \/>\n    luta mais s&eacute;ria. Falta-nos o ex&eacute;rcito; s&oacute; temos comandantes.<br \/>\n    O povo n&atilde;o est&aacute; conosco. porque o governador o n&atilde;o importuna,<br \/>\n    antes o chama para o seu lado, fingindo-se amigo dele. Por ora, contamos apenas<br \/>\n    com meios de defesa, e estes mesmos escassos; meios de agress&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    temos nenhum; Talvez para diante possamos compor tropas regulares, que estejam<br \/>\n    no caso de fazer frente &agrave;s infantarias de F&eacute;lix Jos&eacute;<br \/>\n    Machado. Mas n&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o para desanimarmos. Tenho c&aacute;<br \/>\n    um pensamento que, se for posto em pr&aacute;tica, a vit&oacute;ria h&aacute;<br \/>\n    de ser necessariamente nossa. Vamos ver o que diz da minha id&eacute;ia o<br \/>\n    Padre Guerra.<\/p>\n<p> Eram chegados ao novo pouso, que n&atilde;o se distinguia por nenhuma fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    particular, a n&atilde;o ser um embastido de &aacute;rvores colossais, que<br \/>\n    formavam com sua basta folhagem um abrigo sombrio. Nenhuma &aacute;rvore fora<br \/>\n    abatida, nenhuma cabana fora levantada. Viam-se apenas algumas redes armadas,<br \/>\n    alforjes pelos p&eacute;s de paus, trouxas, malas e armas.<\/p>\n<p> No momento em que chegaram Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a e Louren&ccedil;o,<br \/>\n    havia no pouso de quinze a vinte foragidos, entre os quais estava o Padre<br \/>\n    Ant&ocirc;nio Jorge Guerra.<\/p>\n<p> Que not&iacute;cias nos trazeis? perguntou o padre a Falc&atilde;o.<\/p>\n<p> Tristes, muito tristes. O Tunda-Cumbe apanhou sempre onze dos nossos companheiros.<br \/>\n    Que lhes disse eu? <br \/>\n    Grande desgra&ccedil;a! <br \/>\n    Mas, n&atilde;o nos deixemos desanimar, senhores, por este rev&eacute;s. Tratemos<br \/>\n    de desforra, e eu chamo a vossa aten&ccedil;&atilde;o para o que vou dizer-vos.<br \/>\n    Se o bispo se dirigir, por um pastoral, aos povos da capitania, declarando-lhes<br \/>\n    que est&aacute; em campo, e pedindo o seu aux&iacute;lio contra o governo<br \/>\n    de F&eacute;lix Jos&eacute; Machado, exclusivamente empenhado em acabar com<br \/>\n    os pernambucanos, fio que o povo acompanhar&aacute; o seu prelado; e se o<br \/>\n    acompanhar, a vit&oacute;ria h&aacute; de ser nossa.<\/p>\n<p> Toda a dificuldade est&aacute; em resolver o bispo a fazer a guerra<br \/>\n    disse Martinho de Bulh&otilde;es.<\/p>\n<p> N&atilde;o a far&aacute;, n&atilde;o a far&aacute; nunca  disse o<br \/>\n    ajudante Bernardo Alem&atilde;o.<\/p>\n<p> Se, quando ele exercitava o governo, faltou-lhe &acirc;nimo para dirigir<br \/>\n    a guerra, como tomar&aacute; hoje &agrave; sua conta esta obriga&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    inquiriu o coronel Duarte de Albuquerque.<\/p>\n<p> Mas, senhores, tornou Falc&atilde;o  refleti que, se n&atilde;o o<br \/>\n    fizer, ele pr&oacute;prio ser&aacute; preso, e talvez correr&aacute; risco<br \/>\n    a sua cabe&ccedil;a. Ignorais o &oacute;dio que lhe votam os principais dos<br \/>\n    mascates? Ignorais que j&aacute; foi entre eles ponto resolvido tirar-lhe<br \/>\n    a vida? T&atilde;o fraco ser&aacute; D. Manoel, que nem ao menos se defenda?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel. Chegou a ocasi&atilde;o de fazermos o<br \/>\n    Brasil grande e feliz. N&atilde;o sou pela guerra de um partido contra outro,<br \/>\n    guerra pessoal e local; sou pela guerra inspirada num motivo verdadeiramente<br \/>\n    nobre  o de tornarmos nossa terra independente de Portugal. Senhores,<br \/>\n    at&eacute; quando havemos de ser col&ocirc;nia de portugueses? N&atilde;o<br \/>\n    poderemos prosperar enquanto n&atilde;o nos pertencerem os nossos pr&oacute;prios<br \/>\n    destinos. &Eacute; chegada a ocasi&atilde;o de quebrarmos a pesada cadeia<br \/>\n    que nos acorrenta. N&atilde;o deixemos para mais tarde uma obra grandiosa,<br \/>\n    que podemos realizar hoje com algum esfor&ccedil;o e sacrif&iacute;cio. Se<br \/>\n    h&aacute; dois anos, por ocasi&atilde;o da fuga de Castro Caldas, tiv&eacute;ssemos<br \/>\n    levantado bem alto a bandeira da independ&ecirc;ncia brasiliense, conforme<br \/>\n    propuseram Bernardo Vieira de Melo Silva e outros patriotas insignes, n&atilde;o<br \/>\n    estar&iacute;amos agora derramados por estas matas, separados de nossa mulheres<br \/>\n    e filhos, curtindo as m&aacute;goas e dores, comendo o sobressaltado p&atilde;o<br \/>\n    do homizio. Padre Guerra, que fazeis, v&oacute;s que sois amigo particular<br \/>\n    de D. Manoel, que fazeis, que n&atilde;o pegais j&aacute; da pena para o convidardes<br \/>\n    a vir colocar-se ente n&oacute;s, ser o nosso general, levantar conosco o<br \/>\n    pend&atilde;o da liberdade do meio destas solid&otilde;es, que por si s&oacute;<br \/>\n    aterram a tirania? <br \/>\n    Nas palavras do capit&atilde;o havia o que quer que era de majestoso e pat&eacute;tico.<br \/>\n    O sentimento nacional subira-lhe at&eacute; os l&aacute;bios, e dali se derramava,<br \/>\n    comunicando a todos que o escutavam, os tons desta paix&atilde;o excelsa.<\/p>\n<p> N&atilde;o creio que D. Manoel aceite esta posi&ccedil;&atilde;o; ele n&atilde;o<br \/>\n    viu a luz do Brasil. Mas, n&atilde;o obstante, escrever-lhe-ei. Tendes portador<br \/>\n    seguro para lhe levar a carta? <br \/>\n    Quanto a isto n&atilde;o vos inquieteis  respondeu Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o o padre, tirando de uma maleta um frasco com tinta, uma pena<br \/>\n    e papel escreveu sobre um tronco derrubado, a carta seguinte: <\/p>\n<p><em>Revmo. Senhor.<\/em> <\/p>\n<p><em>Do seio destas matas, ref&uacute;gio franco e largo contra a tirania,<br \/>\n    sou obrigado a enviar a V. Revma., nestas regras escritas sobre tosco madeiro,<br \/>\n    a s&uacute;plica de pernambucanos &ecirc;xules e perseguidos.<\/em> <br \/>\n    <em>Revmo. Senhor: ningu&eacute;m melhor do que V. Revma. pode ajuizar das<br \/>\n    nossas desgra&ccedil;as, porque delas tem sido, como n&oacute;s, ilustre v&iacute;tima.<\/em><br \/>\n    <br \/>\n    <em>As armas, as algemas, as inj&uacute;rias ainda n&atilde;o cessaram contra<br \/>\n    n&oacute;s o seu odioso of&iacute;cio. Nossos inimigos n&atilde;o escolhem<br \/>\n    meios de aniquilar-nos.<\/em> <br \/>\n    <em>Tendo por eles o governador e o ouvidor, n&atilde;o h&aacute; ofensas<br \/>\n    que destes desnaturados ministros n&atilde;o consigam contra nossas pessoas,<br \/>\n    nossas fam&iacute;lias, nossas pr&oacute;prias vidas.<\/em> <br \/>\n    <em>A ca&ccedil;ada geral, ordenada pelo parcial governador, apanhou onze<br \/>\n    dos nossos mais estimados amigos, e ilustres pernambucanos.<\/em> <br \/>\n    <em>Neste momento tivemos aqui a not&iacute;cia da pris&atilde;o dos meus<br \/>\n    dignos irm&atilde;os Jo&atilde;o Alves Guerra e Miguel Lopes. Para levarem<br \/>\n    a efeito este intento, n&atilde;o hesitaram ante o sangue e a morte; pelo<br \/>\n    crime de tomar a defesa de seus senhores, um escravo fiel foi assassinado.<\/em><br \/>\n    <br \/>\n    <em>Do nosso seio os bandoleiros de Camar&atilde;o e Tunda-Cumbe acabaram<br \/>\n    de arrancar t&atilde;o importantes amigos e patr&iacute;cios, e sobre a cabe&ccedil;a<br \/>\n    destes est&aacute; pendente cruel senten&ccedil;a de morte.<\/em> <br \/>\n    <em>Enfim, de toda a parte levantaram-se aos c&eacute;us clamores contra a<br \/>\n    tirania de F&eacute;lix Jos&eacute; Machado e Marques Bacalhau, instrumentos<br \/>\n    dos mascates do Recife.<\/em> <br \/>\n    <em>&Agrave; vista de tantos e t&atilde;o violentos atentados, Revmo. Senhor,<br \/>\n    estamos deliberados a lan&ccedil;ar m&atilde;o das armas para defesa da p&aacute;tria<br \/>\n    e de tudo o que nos pertence.<\/em> <br \/>\n    <em>Essa defesa n&oacute;s a imaginamos grande, forte, tenaz. O que n&oacute;s<br \/>\n    queremos &eacute; a independ&ecirc;ncia de Pernambucano, e antes que V. Revma.<br \/>\n    nos pergunte qual o meio de realizar essa independ&ecirc;ncia, apresso eu<br \/>\n    a declara&ccedil;&atilde;o: esse meio &eacute; a revolu&ccedil;&atilde;o.<\/em><br \/>\n    <br \/>\n    <em>Aos que nos disserem, Revmo. Senhor, que, n&atilde;o procedendo de el-rei,<br \/>\n    mas de seu governo, os males que padecemos, haveria excesso do recurso indicado,<br \/>\n    responderei que n&atilde;o se podendo compreender sejam bons reis aqueles<br \/>\n    que sustentam maus governos, n&atilde;o h&aacute; excesso, antes h&aacute;<br \/>\n    justi&ccedil;a, na projetada provid&ecirc;ncia.<\/em> <br \/>\n    <em>N&atilde;o &eacute; de hoje que na separa&ccedil;&atilde;o do Brasil do<br \/>\n    reino de Portugal eu vejo o &uacute;nico rem&eacute;dio para os nossos males.<\/em><br \/>\n    <br \/>\n    <em>Quando em 1710, em Olinda, reunidos o senado da C&acirc;mara e a nobreza<br \/>\n    se tratou da elei&ccedil;&atilde;o do governador, por ter fugido covardemente<br \/>\n    para a Bahia, Sebasti&atilde;o de Castro Caldas, antes que fosse feita a escolha<br \/>\n    t&atilde;o honrosamente para a p&aacute;tria, por ter reca&iacute;do na pessoa<br \/>\n    de V. Revma., largamente se discutiu a id&eacute;ia de sacudir com os mascates,<br \/>\n    o jugo de Portugal, e V. Revma. sabe decerto, que a independ&ecirc;ncia de<br \/>\n    Pernambuco era ponto decidido e concertado pelo venerando anci&atilde;o Bernardo<br \/>\n    Vieira de Mello, her&oacute;i talhado pela natureza para libertador da p&aacute;tria<br \/>\n    com seu mestre de campo, o famoso Jo&atilde;o de Freitas da Cunha e o capit&atilde;o-mor<br \/>\n    Ant&ocirc;nio Ribeiro da Silva<\/em> <br \/>\n    <em>Nesse ajuntamento, Revmo. Senhor, votei com estes ex&iacute;mios patriotas<br \/>\n    para que nos declar&aacute;ssemos em Rep&uacute;blica ad instar dos venezianos;<br \/>\n    e se ent&atilde;o os nossos votos n&atilde;o prevaleceram, por entender a<br \/>\n    maioria do ajuntamento que o nosso projeto era de alta aud&aacute;cia e magnitude,<br \/>\n    e que, com a mudan&ccedil;a do odiado governador, volveriam a Pernambuco ditosos<br \/>\n    e serenos tempo, n&atilde;o pensam mais assim esses mesmos que ilusoriamente<br \/>\n    acreditaram na efic&aacute;cia dos meios incompletos, e ao menos todos os<br \/>\n    que nos achamos no seio destas matas seculares, n&atilde;o temos por eficaz<br \/>\n    nenhum outro rem&eacute;dio sen&atilde;o a independ&ecirc;ncia do Brasil,<br \/>\n    seja qual for a forma de governo que possa ele vir a ter.<\/em> <br \/>\n    <em>Cheguei ao ponto essencial desta carta, Revmo. Senhor.<\/em> <br \/>\n    <em>Somos por hora trinta, os que nos achamos aqui; amanh&atilde; seremos<br \/>\n    talvez mil. Dos presentes n&atilde;o um s&oacute;que n&atilde;o prefira perecer<br \/>\n    honrosamente no campo da batalha, pelejando pela liberdade da p&aacute;tria,<br \/>\n    a afinar-se obscura e ignominiosamente nos subterr&acirc;neos das Cinco Pontas,<br \/>\n    servindo de ludibrio a estrangeiros que nunca jamais h&atilde;o de ter para<br \/>\n    n&oacute;s sentimentos ben&eacute;volos.<\/em> <\/p>\n<p align=\"left\"><em>Que &eacute; que nos falta para realizarmos a magna id&eacute;ia<br \/>\n    da liberta&ccedil;&atilde;o do Brasil, ou pelo menos de Pernambuco? Falta-nos<br \/>\n    um chefe querido do povo da capitania, Revmo. Senhor, um chefe de re&uacute;na<br \/>\n    em si altas virtudes particulares e p&uacute;blicas, que seja de egr&eacute;gias<br \/>\n    tradi&ccedil;&otilde;es, de ilustre consci&ecirc;ncia e ilustrada raz&atilde;o,<br \/>\n    que comungue conosco amigavelmente aos p&eacute;s do altar da liberdade, que<br \/>\n    francamente, como n&oacute;s, queira a revolu&ccedil;&atilde;o, por bem da<br \/>\n    felicidade dos brasileiros.<\/em> <br \/>\n    <em>V. Revma. preenche satisfatoriamente as condi&ccedil;&otilde;es exigidas<br \/>\n    no chefe de que necessitamos. V. revma. &eacute; v&iacute;tima como n&oacute;s,<br \/>\n    da sanha dos mascates, por ter sido desde o come&ccedil;o da guerra o primeiro<br \/>\n    esteio da nobreza, &eacute; alvo das iras inimigas e est&aacute; exposto &agrave;<br \/>\n    pris&atilde;o e &agrave; morte; por suas altas virtudes e respeitabil&iacute;ssima<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o, pode melhor do que nenhum outro, ocupar o lugar mais<br \/>\n    elevado e consp&iacute;cuo no movimento libertador. E logo que proclamar aos<br \/>\n    povos da capit&acirc;nia, todos se levantar&atilde;o para o seguir, como um<br \/>\n    s&oacute; homem, ao caminho da gl&oacute;ria.<\/em> <br \/>\n    <em>Eis-nos, por todas estas raz&otilde;es, a pedir a V. Revma. que salve<br \/>\n    a nossa p&aacute;tria, aceitando o lugar que est&aacute; por preencher na<br \/>\n    frente das falanges pernambucanas.<\/em> <br \/>\n    <em>&Eacute; esta a nossa s&uacute;plica, Revmo. Senhor.<\/em> <br \/>\n    <em>Vosso humilde servo e respeitador,<\/em><\/p>\n<p align=\"left\"><em>PADRE A. JORGE GUERRA<\/em> <\/p>\n<p>Em menos de cinco minutos Louren&ccedil;o estava de caminho para Olinda,<br \/>\n    e dois dias depois entregava a resposta do prelado que foi desanimadora. &ldquo;Que<br \/>\n    nos resta sen&atilde;o curvamos a cabe&ccedil;a aos decretos da Provid&ecirc;ncia?<br \/>\n    assim conclu&iacute;a ele.<\/p>\n<p> Passado um momento Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a perguntou aos seus companheiros<br \/>\n    de infort&uacute;nio: <br \/>\n    Que havemos de fazer, meus amigos? <br \/>\n    Se havemos de errar expatriados, famintos, sem sossego de noite e de dia,<br \/>\n    e por fim cair no poder dos nossos opressores, melhor &eacute; que, poupando<br \/>\n    tantas inclem&ecirc;ncias e padecimentos, nos entreguemos em suas m&atilde;os.<br \/>\n    Teremos por esta forma, feito jus ao perd&atilde;o d&rsquo;el rei, e salvado<br \/>\n    com as nossas vidas, parte das nossas fortunas.<\/p>\n<p> Entregue-se quem quiser, disse Falc&atilde;o; eu n&atilde;o me entregarei<br \/>\n    jamais. Daqui n&atilde;o sairei sen&atilde;o morto ou livre. Ainda que todos<br \/>\n    me abandonem, n&atilde;o abandonarei eu estas solid&otilde;es e espessuras<br \/>\n    protetoras. At&eacute; a &uacute;ltima gota resistirei &agrave; opress&atilde;o.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m n&oacute;s resistiremos disseram alguns dos foragidos.<\/p>\n<p> Resistiremos todos, Falc&atilde;o disse o padre Guerra. N&atilde;o ficareis<br \/>\n    s&oacute;. Trinta homens dentro de uma fortaleza batem um ex&eacute;rcito<br \/>\n    aguerrido, quanto mais dentro de um mundo imenso e desconhecido, como s&atilde;o<br \/>\n    estas matas intricadas.<\/p>\n<p> Tendes raz&atilde;o, padre Guerra.<\/p>\n<p> O que devemos fazer agora &eacute; alargar e aumentar os meios de defesa<br \/>\n    e agress&atilde;o.<\/p>\n<p> Isto corre por minha conta,.<\/p>\n<p> Eis como finalizou o congresso dos fugitivos, ap&oacute;s a leitura da carta<br \/>\n    do bispo.<\/p>\n<p> O esp&iacute;rito de resist&ecirc;ncia em todos os dominava; a firmeza de<br \/>\n    seus &acirc;nimos; a coragem; a f&eacute;; a convic&ccedil;&atilde;o de que<br \/>\n    por seu n&uacute;mero, que tendia a aumentar, e pelas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de defesa, n&atilde;o havia for&ccedil;as que os pudesse bater, fizeram voltar-lhe<br \/>\n    aos cora&ccedil;&otilde;es o sossego, um momento interrompido.<\/p>\n<p> N&atilde;o tendo mais de fazer ali, Louren&ccedil;o, que ouvira as &uacute;ltimas<br \/>\n    palavras, profundamente comovido, despediu-se de Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a<br \/>\n    e tomou para Goiana.<\/p>\n<p> Ia descontente e desanimado. N&atilde;o lhe restava a mais pequena esperan&ccedil;a<br \/>\n    de salvar o sargento-mor. A &uacute;ltima carta tinha sido jogada, e perdera-se<br \/>\n    a m&atilde;o.<\/p>\n<p> Sempre pensei dizia consigo que seu Falc&atilde;o faria alguma coisa; mas<br \/>\n    toda esperan&ccedil;a est&aacute; acabada. Vejo que n&atilde;o posso ser bom<br \/>\n    em nada. E como terei &acirc;nimo para contar em Goiana, a sinh&aacute; D.<br \/>\n    Damiana e &agrave; minha m&atilde;e, esta grande desgra&ccedil;a? Oh! que<br \/>\n    tempos, meu Deus, que tempos! A gente n&atilde;o sabe meios nem modo de fugir<br \/>\n    &agrave; adversidade, <br \/>\n    E para matar as id&eacute;ias tristes que lhe iam na cabe&ccedil;a, come&ccedil;ou<br \/>\n    a cantarolar as letras de uma chula popular: <\/p>\n<p>Tenho minha cachorrinha.<\/p>\n<p> Que minha Tat&aacute; me deu; <br \/>\n    Tenho um s&oacute; desgosto dela: <br \/>\n    &Eacute; ser filha de europeu <br \/>\n    Toda mo&ccedil;a que &eacute; briosa, <br \/>\n    N&atilde;o casa com marinheiro; <\/p>\n<p>Espera para casar <br \/>\n    Com os <em>quindins dos brasileiros<\/em>. <\/p>\n<p>Bravo, patusco <br \/>\n    Patusquinho, patusc&atilde;o <br \/>\n    Marinheiros, p&eacute; de chumbo, <br \/>\n    Comedor e beberr&atilde;o <\/p>\n<p>Lodo impuro que o exclusivismo partid&aacute;rio, revolvendo os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    trazia &agrave; luz como arma de guerra, colocava &agrave; frente da fam&iacute;lia,<br \/>\n    primeiro santu&aacute;rio do povo. <\/p>\n<h2><a name=\"6\">Cap\u00edtulo VI <\/a><\/h2>\n<p>Jo&atilde;o da Mota chegou com a tropa &agrave; Goiana, no dia seguinte ao<br \/>\n    da partida de Jo&atilde;o da Cunha para as matas.<\/p>\n<p> Faltam-me express&otilde;es para pintar o estado de agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vila, desde as primeiras horas do dia. Soubera-se da fuga do sargento-mor,<br \/>\n    e n&atilde;o fora preciso mais para que os que eram pelos mascates se considerassem<br \/>\n    absolutamente invenc&iacute;veis e irrespons&aacute;veis, e os que pertenciam<br \/>\n    ao partido oposto se sentissem mortalmente desanimados. N&atilde;o havia ent&atilde;o<br \/>\n    em Goiana os dois partidos que antes lutavam para aniquilar-se mutuamente.<br \/>\n    Agora ela se mostrava dividida em um campo vencedor e outro vencido; neste<br \/>\n    dominava o terror, naquele exercia poder absoluto a vingan&ccedil;a sedenta<br \/>\n    de esc&acirc;ndalo e sangue. Os nobres de grande representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na vila, que antes da chegada do governador, tinham, &agrave; frente de uma<br \/>\n    parte da popula&ccedil;&atilde;o, batido o p&eacute; &agrave; outra parte<br \/>\n    que lhes fazia face, esses desapareciam do dia para a noite, por n&atilde;o<br \/>\n    serem v&iacute;timas. Ficava o povo fraco e desamparado, e em cima dele ca&iacute;a<br \/>\n    o peso da desforra.<\/p>\n<p> Das dez para as onze horas da manh&atilde; foram presos Jorge Cavalcanti<br \/>\n    em seu s&iacute;tio da Concei&ccedil;&atilde;o, e Manoel de Lacerda quando<br \/>\n    sa&iacute;a da sua propriedade do Tanquinho.<\/p>\n<p> Antes disso j&aacute; se soubera em Goi&acirc;nia da pris&atilde;o do sargento-mor<br \/>\n    Jorge Camelo de Valc&aacute;cer, e dos capit&atilde;es Ant&ocirc;nio Rebello<br \/>\n    e Jos&eacute; de Barros Cavalcanti na Para&iacute;ba, para onde se haviam<br \/>\n    retirado, logo que em Goiana, onde, pela sua longa resid&ecirc;ncia, contavam<br \/>\n    contra si muitos dos principais mercadores, se teve conhecimento das pris&otilde;es<br \/>\n    no Recife.<\/p>\n<p> Jer&ocirc;nimo Paes e os filhos, que chegaram com Jo&atilde;o da Mota, ao<br \/>\n    saberem que, al&eacute;m de Jo&atilde;o da Cunha, puderam escapar-se os irm&atilde;os<br \/>\n    Cavalcanti, lastimaram t&atilde;o importantes perdas. Por sua conta procederam<br \/>\n    imediatamente as indaga&ccedil;&otilde;es a fim de averiguarem onde paravam<br \/>\n    os fugitivos. Os segredos, por mais bem guardados, acham sempre reveladores.<br \/>\n    Tanto indagaram eles que, por boca de um f&acirc;mulo, vieram a ter certeza<br \/>\n    de estarem os Cavalcantis no A&ccedil;u, onde possu&iacute;am fazendas de<br \/>\n    gado.<\/p>\n<p> Jer&ocirc;nimo Paes, vencido do &oacute;dio que votava a Cosme, ofereceu-se<br \/>\n    a Jo&atilde;o da Mota para ir, pelo Cear&aacute;, prender-se os tr&ecirc;s<br \/>\n    expatriados. Aceito este oferecimento, expediram-se as necess&aacute;rias<br \/>\n    ordens ao governador Manoel da Rocha Lima; e Jer&ocirc;nimo partiu a seu destino.<\/p>\n<p> A aus&ecirc;ncia destes ardentes sequazes dos mascates moderou, mas n&atilde;o<br \/>\n    fez cessar inteiramente a agita&ccedil;&atilde;o, que, como febre, dominava<br \/>\n    o povo da vila. Belchior, Manoel Rodrigues, Manoel Gaud&ecirc;ncio, Rom&atilde;o<br \/>\n    da Silva, e at&eacute; o preto Lauriano alentavam a efervesc&ecirc;ncia p&uacute;blica,<br \/>\n    ora percorrendo as ruas, em vocifera&ccedil;&otilde;es, ora comentando em<br \/>\n    adjuntos nas esquinas e adros, os acontecimentos que se davam; agora, soltando<br \/>\n    vivas e morras, agora penetrando nas casas onde se achavam as mulheres e filhas<br \/>\n    dos nobres, para as insultar e desacatar. A medida da desforra era como o<br \/>\n    tonel das Danaides: n&atilde;o se enchia nunca.<\/p>\n<p> Nos semblantes desfigurados desses homens que as bebidas alco&oacute;licas,<br \/>\n    larga e gratuitamente fornecidas por taberneiros sem f&eacute; nem moral,<br \/>\n    tornavam mais malvados do que na realidade eram liam-se baixos sentimentos<br \/>\n    e paix&otilde;es indignas que a pol&iacute;cia do tempo, em vez de a&ccedil;ular<br \/>\n    como fazia, visto que era conivente nas desordens e motins, devia refrear<br \/>\n    e punir.<\/p>\n<p> Quando constou a pris&atilde;o do senhor do engenho Bujari, subiram &agrave;<br \/>\n    altura de del&iacute;rio as demonstra&ccedil;&otilde;es e regozijo com que<br \/>\n    os inimigos a festejaram.<\/p>\n<p> &Agrave; frente de um espesso magote, de que faziam parte os mais afamados<br \/>\n    vultos da gentalha, Belchior correu ao condenado engenho, alvo das mais entranh&aacute;veis<br \/>\n    animadvers&otilde;es vil&atilde;s. A casa grande mereceu as honras da primeira<br \/>\n    v&iacute;tima: apedrejaram-na, tomados de brutal sanha. Os insultos praticados<br \/>\n    foram tanto mais agravantes quanto aumentaram a dor de uma senhora ilustre,<br \/>\n    que, no resignado mart&iacute;rio, buscava rem&eacute;dio contra a saudade.<br \/>\n    D. Damiana teve, por fim, de suster as l&aacute;grimas para cuidar da sua<br \/>\n    defesa. Afigurou-se-lhe n&atilde;o sem raz&atilde;o, que o engenho passaria<br \/>\n    pelo mesmo transe de que fora v&iacute;tima um ano antes, como o sobrado do<br \/>\n    p&aacute;tio do Carmo. Poucos eram os escravos restantes, e estes mesmos em<br \/>\n    sua maioria, velhos. Marcelina estava ao seu lado. Por conselho dela, trancaram-se<br \/>\n    todos a fim de ver se quebravam a f&uacute;ria da canalha, por esta demonstra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de fraqueza. Os exaltados que capitaneavam a partida desordeira tiveram um<br \/>\n    momento de senso comum, e dando-se por satisfeitos com o apedrejamento da<br \/>\n    casa, a gritaria da plebe, as inj&uacute;rias atiradas a <em>Escopeteira<\/em>,<br \/>\n    voltaram &agrave; vila, onde repetiram o que nos dias precedentes haviam feito<br \/>\n    o insulto &agrave;s fam&iacute;lias, a viola&ccedil;&atilde;o do lar dom&eacute;stico,<br \/>\n    destruindo o que n&atilde;o tentava a sua cobi&ccedil;a e levando aquilo em<br \/>\n    que ela se comprazia.<\/p>\n<p> Dias depois da feroz romaria ao engenho, novo ensejo ofereceu-se ao esp&iacute;rito<br \/>\n    de perturba&ccedil;&atilde;o para prolongar o seu est&uacute;pido entusiasmo<br \/>\n    a not&iacute;cia da pris&atilde;o de Cosme Cavalcanti, Andr&eacute; Cavalcanti<br \/>\n    e Lu&iacute;s Vidal. Parecia que a vila vinha abaixo, tamanha foi a vertigem<br \/>\n    das turbas sem freio.<\/p>\n<p> Era situada a fazenda de gado de Cosme Cavalcanti na comarca de A&ccedil;u,<br \/>\n    &agrave; margem de um rio. Receando ser a&iacute; mesmo perseguidos, n&atilde;o<br \/>\n    obstante estarem muitas l&eacute;guas distantes dos rancores e vingan&ccedil;as<br \/>\n    pessoais, resolveram ocultar-se n&atilde;o na casa da fazenda, mas em uma<br \/>\n    palho&ccedil;a em que os vaqueiros se recolhiam por ocasi&atilde;o da ajunta<br \/>\n    do gado. Para mais seguran&ccedil;a, somente tomavam a palho&ccedil;a de dia:<br \/>\n    as noites iam eles pass&aacute;-las numa caatinga.<\/p>\n<p> Cosme pouco ou nada pudera fazer para a forma&ccedil;&atilde;o do corpo<br \/>\n    de milicianos que planejara. Todos os vaqueiros e criadores tinham sido chamados<br \/>\n    antes de sua chegada, pelo governador Manoel da Rocha Lima, a pegar em armas;<br \/>\n    a maioria deles ocupava-se em proceder a dilig&ecirc;ncia contra a nobreza.<br \/>\n    Depois de esfor&ccedil;os incompar&aacute;veis, reconhecendo que somente lhe<br \/>\n    estava como &uacute;nico recurso, encobrir-ser &agrave;s vistas dos que tramavam<br \/>\n    incessantemente o seu aniquilamento, chamou para junto de si os poucos sertanejos<br \/>\n    que p&ocirc;de reunir, e os escravos fi&eacute;is. Mas esta resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quando foi tomada, j&aacute; n&atilde;o podia surtir o efeito esperado, era<br \/>\n    de todo sabido que ele estava no lugar, e o governador j&aacute; aparelhava<br \/>\n    expedi&ccedil;&atilde;o para dar no rancho, quando chegou Jer&ocirc;nimo Paes,<br \/>\n    com as requisi&ccedil;&otilde;es do governador de Pernambuco. Ent&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o houve mais demora, Rocha Lima encarrega o Coronel do A&ccedil;u,<br \/>\n    Jo&atilde;o de Barros Braga, de prender a todo custo os emigrados pernambucanos.<br \/>\n    Um vaqueiro, encontrando-se com a for&ccedil;a, deitou a correr para preveni-los.<br \/>\n    Fizeram-lhe fogo pelas costas, e ele caiu com uma perna quebrada, correndo-lhe<br \/>\n    o cavalo. Ao estrondo dos tiros, o mulato Barnab&eacute;, de um dos homiziados,<br \/>\n    acode com uma espingarda que dispara contra a tropa. O tiro emprega-se em<br \/>\n    um dos soldados e prosta-o morto, por terra; mas imediatamente d&atilde;o<br \/>\n    uma descarga, contra o escravo, que cai atravessado por balas. Dando-se estas<br \/>\n    tristes cenas quase defronte a palho&ccedil;a, n&atilde;o tiveram os homiziados<br \/>\n    tempo de fugir. Perdido esse recurso, trataram de combinar meios de defesa.<\/p>\n<p> N&atilde;o vejo nenhum, a n&atilde;o ser a fuga disse Lu&iacute;s Vidal.<\/p>\n<p> A fuga? inquiriu Andr&eacute; Cavalcanti. Mas por que modo? A tropa a&iacute;<br \/>\n    est&aacute;.<\/p>\n<p> Cosme cortou a discuss&atilde;o com estas palavras decisivas.<\/p>\n<p> Cosme Bezerra Cavalcanti, quando tem pela frente o inimigo, n&atilde;o sabe<br \/>\n    dar-lhe as costas. Para que nos h&atilde;o de servir as armas e muni&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que trouxemos de Goiana? Lutaremos como homens at&eacute; morrer, mas n&atilde;o<br \/>\n    fujamos jamais, como fracas mulheres, quando est&aacute; com vistas em n&oacute;s<br \/>\n    o inimigo, que atiraria contra n&oacute;s pelas costas, como se faz aos covardes,<br \/>\n    se us&aacute;ssemos esse meio indigno.<\/p>\n<p> N&atilde;o tinha ainda acabado, quando rompeu o fogo de fora sobre a fr&aacute;gil<br \/>\n    cabana.<\/p>\n<p> Eram doze a dezesseis homens os que haviam dentro, doze a dezesseis para<br \/>\n    um tro&ccedil;o de cinq&uuml;enta a sessenta, bem municiados, tendo consigo<br \/>\n    a for&ccedil;a da autoridade. Travou-se desigual, por&eacute;m fort&iacute;ssima<br \/>\n    luta; mas a vit&oacute;ria, ainda que demorada, n&atilde;o podia caber a quem<br \/>\n    estava cercado, e recebia balas por todos os lados cada qual mais exposto<br \/>\n    &agrave;s agress&otilde;es. No medonho conflito, Cosme chegou a matar um dos<br \/>\n    agressores, e ferir dois mortalmente. E porque, n&atilde;o obstante a superioridade<br \/>\n    em n&uacute;mero da tropa sobre os da casa, a resist&ecirc;ncia se prolongava<br \/>\n    tenazmente, lembrou-se o coronel Braga de um recurso trivial e covarde&nbsp;<br \/>\n    contra os que de dentro combatiam como her&oacute;is o de por fogo na palho&ccedil;a.<br \/>\n    Ent&atilde;o a defesa tornou-se de todo o ponto imposs&iacute;vel. Logo que<br \/>\n    as chamas come&ccedil;aram a invadir o &acirc;mbito, Andr&eacute; e Lu&iacute;s<br \/>\n    Vidal, depondo as armas, entregaram-se &agrave; pris&atilde;o. Cosme n&atilde;o<br \/>\n    fez outro tanto; os seus &acirc;nimos n&atilde;o se compadeciam com esta solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de prud&ecirc;ncia extrema: resistiu at&eacute; onde foi humanamente imposs&iacute;vel.<br \/>\n    Quando as labaredas, cercando-o por todos os lados, o amea&ccedil;avam com<br \/>\n    mais f&uacute;ria do que os inimigos que, ali&aacute;s, de fora n&atilde;o<br \/>\n    cessavam de ajudar o terr&iacute;vel elemento com tiros sem conta, saltou<br \/>\n    por uma janela resolvido a abrir, ainda assim, caminho por entre as chamas<br \/>\n    e os agressores, intento que se frustrou.<\/p>\n<p> Isto n&atilde;o &eacute; nada, &eacute; a vossa hora derradeira, Sr. Cosme<br \/>\n    Bezerra disse um dos da escolta, levantando-o do ch&atilde;o onde o nobre<br \/>\n    ca&iacute;ra por ocasi&atilde;o do salto.<\/p>\n<p> Cosme, ainda aturdido da queda, volvendo as vistas ao que lhe falara, reconheceu<br \/>\n    Jer&ocirc;nimo Paes.<\/p>\n<p> Trazia este na m&atilde;o uma catana desembainhada. Dos olhos fuzilavam-lhe<br \/>\n    brilhos indescrit&iacute;veis. O rancor, a c&oacute;lera, a vingan&ccedil;a<br \/>\n    satisfeita nunca tiveram mais fiel e completa express&atilde;o.<\/p>\n<p> Eu contava com o assass&iacute;nio como termo natural desta persegui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    respondeu Cosme. Quando saltei pela janela para n&atilde;o morrer pelo fogo<br \/>\n    que a vossa covardia p&ocirc;s na casa, escapuliu-me a arma da m&atilde;o,<br \/>\n    e caindo em baixo desloquei um p&eacute;. Estou que nem posso andar; valho<br \/>\n    menos que uma crian&ccedil;a. N&atilde;o &eacute; pois de admirar que me assassineis.<\/p>\n<p> N&atilde;o vos fa&ccedil;ais de fraco e inocente. H&aacute; algumas horas<br \/>\n    que resistis com as armas nas m&atilde;os, ferindo e matando gente. Ali est&atilde;o<br \/>\n    tr&ecirc;s camaradas a quem tirastes a vida; vede aqui quanto sangue derramado<br \/>\n    de outros tr&ecirc;s que nem se podem mexer. Como &eacute; que agora que vos<br \/>\n    pondes numa cruz, dizendo que somos assassinos? <br \/>\n    Cosme nada respondeu. Tinha nesses momento os olhos voltados para Andr&eacute;<br \/>\n    e Lu&iacute;s Vidal que, no centro da escolta, recusavam entregar os pulsos<br \/>\n    &agrave;s cordas com que, por ordem do coronel Braga, pretendiam maniet&aacute;-los.<\/p>\n<p> Somos nobres e n&atilde;o temos nenhum crime, dizia Lu&iacute;s Vidal. N&atilde;o<br \/>\n    nos sujeitaremos jamais &agrave; inf&acirc;mia de nos deixar amarrar como<br \/>\n    cativos ou vil&otilde;es.<\/p>\n<p> O tempo da nobreza acabou respondeu um, chacoteando.<\/p>\n<p> Falais ainda em nobreza, <em>mazombo<\/em>? Tu e teus irm&atilde;os n&atilde;o<br \/>\n    passais de rebeldes. Havemos de p&ocirc;r as cordas em todos v&oacute;s. Haveis<br \/>\n    de pagar-nos o novo e o velho.<\/p>\n<p> Foi frustrado todo o esfor&ccedil;o dos vencidos. No meio dos maiores improp&eacute;rios,<br \/>\n    seis robustos ilh&eacute;us que acompanhavam a for&ccedil;a, ataram os tr&ecirc;s<br \/>\n    irm&atilde;os com os vaqueiros, e, o que &eacute; mais, com os pr&oacute;prios<br \/>\n    escravos que n&atilde;o haviam ca&iacute;do na luta. Quando Cosme, passada<br \/>\n    a exalta&ccedil;&atilde;o, reconheceu que sem for&ccedil;as, sem armas, sem<br \/>\n    um bra&ccedil;o livre que o defendesse, n&atilde;o era mais que um r&eacute;u<br \/>\n    no poder de verdugos apaixonados, pensou em diminuir a humilha&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    e valendo-se do momento de vir o coronel fazer-lhe certas perguntas sobre<br \/>\n    os bens que possu&iacute;a, dirigiu-lhe estas palavras: <br \/>\n    N&atilde;o sei, Sr. Coronel, se alguma vez vos ofendi. A minha consci&ecirc;ncia<br \/>\n    apressa-se a dizer-me que nunca dei motivo ao vosso desagrado, quanto mais<br \/>\n    ao vosso &oacute;dio. Mas se n&atilde;o &eacute; esta a verdade, pe&ccedil;o-vos<br \/>\n    me declareis a minha culpa, que talvez possa convencer-vos da sem raz&atilde;o.<\/p>\n<p> Braga respondeu: <br \/>\n    Sr. Capit&atilde;o, de v&oacute;s nunca recebi a menor ofensa. Apenas vos<br \/>\n    conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p> E por que ent&atilde;o procedeis t&atilde;o atrozmente conosco? <br \/>\n    Cumpro ordens. As instru&ccedil;&otilde;es do governador, que me foram transmitidas,<br \/>\n    s&atilde;o positivas e rigorosas. Parece-me que, se por qualquer circunst&acirc;ncia,<br \/>\n    o que Deus n&atilde;o h&aacute; de permitir, vi&eacute;sseis a escapar de<br \/>\n    meu poder, a minha cabe&ccedil;a pagaria esta desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> N&atilde;o penseis que estranho a parte que tomaste em nossa pris&atilde;o;<br \/>\n    o que estranho &eacute; a descortesia que tendes com presos a quem a adversidade<br \/>\n    n&atilde;o pode ainda, nem poder&aacute; nunca fazer esquecer a nobreza natural<br \/>\n    do seu car&aacute;ter. Uma vez presos, Coronel, nem Cosme Bezerra Cavalcanti,<br \/>\n    nem Andr&eacute; Cavalcanti, nem Lu&iacute;s Vidal Cavalcanti fugiriam jamais<br \/>\n    ainda que lhes fosse f&aacute;cil a fuga. A sua palavra honrada tornaria indispens&aacute;veis<br \/>\n    cordas e algemas.<\/p>\n<p> Sr. Cosme, eu n&atilde;o acredito na honra, na nobreza e ainda menos nas<br \/>\n    palavras dos rebeldes respondeu o coronel. Haveis de seguir amarrados at&eacute;<br \/>\n    o Recife. As instru&ccedil;&atilde;o que me foram dadas n&atilde;o permitem<br \/>\n    lugar a outro procedimento.<\/p>\n<p> Cosme sorriu com amargura.<\/p>\n<p> Enganai-vos, coronel, se pensais que vos pe&ccedil;o miseric&oacute;rdia.<br \/>\n    Podeis em lugar de cordas mandar p&ocirc;r em nossos pulsos pesadas algemas;<br \/>\n    podeis p&ocirc;r-nos &agrave; ra&ccedil;&atilde;o de p&atilde;o e &aacute;gua:<br \/>\n    com isso n&atilde;o fareis mais que antecipar os tratos que nos esperam na<br \/>\n    semi-tumba das Cinco Pontas. N&atilde;o vos pe&ccedil;o que mandeis afrouxar<br \/>\n    as cordas que est&atilde;o cortando os meus bra&ccedil;os, tamanha foi a for&ccedil;a<br \/>\n    que Jer&ocirc;nimo Paes os amarrou. Seriam indignos da causa que nos faz sofrer,<br \/>\n    se vos ped&iacute;ssemos brandura em vez do rigor a que temos direito.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei o que quereis dizer.<\/p>\n<p> Quero saber se nas vossas instru&ccedil;&otilde;es vem determinado o itiner&aacute;rio,<br \/>\n    como vem, ao que parece, o modo de sermos levados presos.<\/p>\n<p> Depois de refletir por alguns instantes, Braga respondeu: <br \/>\n    Quanto ao itiner&aacute;rio, nada se me determinou.<\/p>\n<p> Portanto uma vez que nos leveis ao Recife, tereis preenchido a vossa obriga&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    <br \/>\n    Certamente.<\/p>\n<p> Pois bem. &Eacute; agora que vos pe&ccedil;o um favor.<\/p>\n<p> Qual &eacute;? <br \/>\n    Imaginai que em vez de sermos vossos prisioneiros, &eacute;reis v&oacute;s<br \/>\n    nosso; e que, em vez de seguirmos para o Recife, ter&iacute;amos de ir a um<br \/>\n    ponto al&eacute;m do A&ccedil;u, donde sois natural, onde viste correr a vossa<br \/>\n    mocidade, onde tendes representa&ccedil;&atilde;o. Qual dos dois caminhos<br \/>\n    preferidos o que passa por dentro do lugar do vosso nascimento, ou que rodeia<br \/>\n    por fora? <br \/>\n    Compreendi j&aacute; o que desejais, disse Braga.<\/p>\n<p> Em Goiana, Coronel, nasci eu, e nasceram os meus irm&atilde;os, que est&atilde;o<br \/>\n    presentes. Sou ali juiz ordin&aacute;rio e Capit&atilde;o de ordenan&ccedil;as;<br \/>\n    tenho a&iacute; fam&iacute;lia e amigos que me prezam com todas as veras.<br \/>\n    Meus amigos e parentes, vendo-me passar por dentro da vila neste estado lastimoso,<br \/>\n    sentiriam o mais acerbo desgosto. Para poupar-lhes este golpe, pe&ccedil;o-vos,<br \/>\n    que ordeneis outro caminho, onde s&oacute; encontremos inimigos ou indiferente.<br \/>\n    Eis o favor.<\/p>\n<p> Braga respondeu: <br \/>\n    Estais servido. Passaremos por fora de Goiana.<\/p>\n<p> Prometeis ent&atilde;o que n&atilde;o passarei por dentro de Goiana, Coronel?<br \/>\n    <br \/>\n    Podeis ficar tranq&uuml;ilo, que h&aacute; de ser satisfeita neste ponto a<br \/>\n    vossa vontade.<\/p>\n<p> Coronel, perd&ocirc;o-vos a parte que tendes tomado nos meus males, e desde<br \/>\n    j&aacute; vos agrade&ccedil;o tamanha gra&ccedil;a. Eu tinha-vos por vil&atilde;o,<br \/>\n    mas agora reconhe&ccedil;o que sois nobre. Beijo-vos as m&atilde;os.<\/p>\n<p> Cosme fez um sinal de cabe&ccedil;a em sinal de rever&ecirc;ncia a Braga.\n  <\/p>\n<h2><a name=\"7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/h2>\n<p>N&atilde;o tinha cessado ainda, se n&atilde;o aumentara, a agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em Goi&acirc;nia, quando Louren&ccedil;o chegou ai Cajueiro, de volta de Tracunha&eacute;m.<\/p>\n<p> Vinham com ele v&aacute;rios almocreves com quem se juntara algumas l&eacute;guas<br \/>\n    atr&aacute;s. Iam todos &agrave;quela vila, e eram antigos conhecidos de Louren&ccedil;o,<br \/>\n    que uma hora por outra se encontrava com eles nos caminhos e ranchos.<\/p>\n<p> Uma circunst&acirc;ncia muito contribu&iacute;ra, pouco antes de chegaram<br \/>\n    ao Cajueiro, para estreitar cada vez mais as rela&ccedil;&otilde;es de simpatia<br \/>\n    que j&aacute; ligavam a maioria deles ao rapaz. Foi o caso que jornadeavam<br \/>\n    muito tranq&uuml;ilamente, quando de improviso lhes aparece pela frente uma<br \/>\n    partida de bandoleiros. Apenas avistam o comboio, o chefe do bando e mais<br \/>\n    tr&ecirc;s que o seguiam de perto, foram ao seu encontro; e sem mais nem menos,<br \/>\n    intimam-lhe que entreguem os animais por ordem de Tunda-Cumbe, para que o<br \/>\n    bando pudesse realizar certa dilig&ecirc;ncia de que estavam incumbidos. Naqueles<br \/>\n    tempos o terror dominava todos os que n&atilde;o pertenciam &agrave; classe<br \/>\n    elevada do partido do governador. O povo n&atilde;o tinha direitos. Qualquer<br \/>\n    bandido julgava-se autorizado para apoderar-se da propriedade do pobre, e<br \/>\n    fazer dele o seu mo&ccedil;o de recados. In&uacute;meros pais de fam&iacute;lia,<br \/>\n    pertencentes &agrave; classe desfavorecida, perderam muitos dias de servi&ccedil;o<br \/>\n    por se ocuparem na condu&ccedil;&atilde;o de of&iacute;cio ou outro qualquer<br \/>\n    objeto a pontos long&iacute;nquos, por ordem de agentes subalternos. Por isso<br \/>\n    a intima&ccedil;&atilde;o foi ouvida pelos almocreves como uma senten&ccedil;a<br \/>\n    de que n&atilde;o havia onde apelar.<\/p>\n<p> N&atilde;o estavam os bandidos acostumados a declarar as suas vontades sem<br \/>\n    as verem imediatamente cumpridas. O chefe, que vinha a cavalo, atirou-o com<br \/>\n    for&ccedil;a que p&ocirc;de sobre o matuto que mais pr&oacute;ximo estava,<br \/>\n    dizendo arrogantemente: <br \/>\n    Ainda est&atilde;o montados? N&atilde;o ouviram o que lhes disse? <br \/>\n    Seus olhos tinham a express&atilde;o da insol&ecirc;ncia brutal que caracteriza<br \/>\n    o poder nos agentes subalternos.<\/p>\n<p> Montados est&atilde;o e estar&atilde;o advertiu a este tempo um grito que<br \/>\n    viera ecoando por sobre as cabe&ccedil;as dos almocreves parados na frente.<\/p>\n<p> S&uacute;bito, por entre eles, rompe o que soltara aquelas palavras. Era<br \/>\n    Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Logo que se achou diante do chefe, o rapaz prosseguiu assim: <br \/>\n    Ent&atilde;o vosmec&ecirc; entende que quem comprou um cavalinho com o suor<br \/>\n    do seu rosto, e dele precisa para seu meio de vida, h&aacute; de entreg&aacute;-lo<br \/>\n    a quem quer andar montado &agrave; custa dos outros? <br \/>\n    Que desaforo! gritou o chefe em brasas. Atreves-te a fazer-me observa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    confiado? <br \/>\n    Este p&eacute;-rapado precisa de uma <em>roda de pau<\/em> disse um dos da<br \/>\n    tropa, aproximando-se de Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Este j&aacute; tinha o fac&atilde;o desembainhado na m&atilde;o.<\/p>\n<p> Desaforo &eacute; o seu respondeu ele ao chefe. Nenhum de n&oacute;s est&aacute;<br \/>\n    resolvido a entregar o seu animal. Ainda quando todos entregassem o seu, eu<br \/>\n    c&aacute; n&atilde;o entregarei o meu castanho. Se os senhores andam em dilig&ecirc;ncia,<br \/>\n    sigam o seu caminho devagar, para n&atilde;o serem pressentidos; agora se<br \/>\n    andam fazendo coisa que n&atilde;o devem, est&atilde;o pior um pouco.<\/p>\n<p> Soava ainda o veemente protesto, quando um dos bandoleiros fez men&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de pegar no cabresto do <em>castanho<\/em>; mas antes que m&atilde;o tocasse<br \/>\n    a corda j&aacute; o bra&ccedil;o se retra&iacute;a &agrave; dor de uma forte<br \/>\n    pancada que sobre ele vibrara Louren&ccedil;o, o qual, voltando-se aos almocreves,<br \/>\n    lhes falou com gesto imperioso.<\/p>\n<p> Para diante, para diante, camaradas! <br \/>\n    E deu o exemplo, esporeando o castanho que t&atilde;o depressa sentiu a espora,<br \/>\n    como rompeu caminho, aos pinotes e aos coices, por entre a tropa, debaixo<br \/>\n    de um chuveiro de pancadas.<\/p>\n<p> A tropa tentou ent&atilde;o impedir a passagem dos almocreves; mas j&aacute;<br \/>\n    foi tarde: o exemplo de Louren&ccedil;o levantara os esp&iacute;ritos. N&atilde;o<br \/>\n    houvesse um s&oacute; dentre aqueles que n&atilde;o desse mostras de grande<br \/>\n    valor. Aos golpes dos bandidos, respondiam com chicotadas e pranchadas. Estando<br \/>\n    a maioria dos bandidos a p&eacute;, n&atilde;o foi dif&iacute;cil aos almocreves<br \/>\n    escapar-lhes. O chefe e dois ou tr&ecirc;s, quando muito, que estavam cavalgando,<br \/>\n    cansados animais, ainda tentaram atalhar a fuga, descarregando as armas de<br \/>\n    fogo que traziam sobre os que fugiam. Mas, assim que viram Louren&ccedil;o<br \/>\n    seguidos de tr&ecirc;s ou quatro mais animosos torcer para tr&aacute;s, e<br \/>\n    de fac&atilde;o em punho, fazer-lhes frente, sobrestiveram, espantados de<br \/>\n    tanta coragem e receosos de serem v&iacute;timas deles.<\/p>\n<p> Havemos de encontrar-nos muito em breve disse o chefe.<\/p>\n<p> &Eacute; quando quiser. Ando sempre por estas estradas a qualquer hora do<br \/>\n    dia e da noite retorquiu Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Assim falando, voltou com os quatro a reunir-se aos outros, que, livres<br \/>\n    do embate, j&aacute; corriam &agrave; brida solta pela estrada afora.<\/p>\n<p> Come&ccedil;aram agora as reflex&otilde;es sobre o que poderia acontecer-lhes.<br \/>\n    Fracos homens do povo, sem o menor amparo, porque o &uacute;nico que tinham<br \/>\n    eram os senhores de engenho, por ent&atilde;o ainda em mais estreitas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do que eles mesmos, levaram algum tempo, n&atilde;o a mostrar-se arrependidos<br \/>\n    do seu procedimento, mas lastimando-se por ter a sorte criado para eles t&atilde;o<br \/>\n    perigosa alternativa. Louren&ccedil;o por&eacute;m tratou de tranq&uuml;iliz&aacute;-los,<br \/>\n    o que lhe n&atilde;o custou muito, porque a sua energia impusera os seus sentimentos<br \/>\n    aos outros, que, se j&aacute; o estimavam antes, agora n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    come&ccedil;aram a respeit&aacute;-lo, mas at&eacute; a cham&aacute;-lo digno<br \/>\n    de sua confian&ccedil;a.<\/p>\n<p> N&atilde;o tenham medo destes assassinos, destes ladr&otilde;es do alheio,<br \/>\n    que s&oacute; t&ecirc;m valentia par as mulheres que vestem saia, para os<br \/>\n    poleiros de galinhas, as estrebarias de bestas velhas mal guardadas e os chiqueiros<br \/>\n    dos porcos.<\/p>\n<p> Eles s&atilde;o capazes de esperar-nos na vila e prender-nos.<\/p>\n<p> Pois ent&atilde;o, em vez de tomarem voc&ecirc;s o rancho, fa&ccedil;am<br \/>\n    a sua pousada no mato. Mas afora me lembra uma coisa. O rancho &eacute; na<br \/>\n    entrada da vila, e eu moro muito para c&aacute; do Cajueiro, como voc&ecirc;s<br \/>\n    sabem, e a minha casa, que por ora &eacute; uma palho&ccedil;a, est&aacute;<br \/>\n    sem gente, porque a minha m&atilde;e foi fazer companhia &agrave; senhora<br \/>\n    do engenho Bujari. Podem voc&ecirc;s arranchar-se na minha palho&ccedil;a,<br \/>\n    que fica da estrada muito para dentro, e de noite n&atilde;o se v&ecirc;;<br \/>\n    amanh&atilde; de manh&atilde;zinha seguir&atilde;o ent&atilde;o para Goiana.<br \/>\n    De dia e dentro da vila j&aacute; eles, se a&iacute; ainda se acharem, n&atilde;o<br \/>\n    far&atilde;o o que lhes vier nos narizes; porque, ainda que os mascates est&atilde;o<br \/>\n    de cima, sempre nos povoados h&aacute; algu&eacute;m que fala pelos perseguidos.<\/p>\n<p> Este alvitre de Louren&ccedil;o foi aceito com reconhecimento por todos<br \/>\n    os almocreves, e ainda mais acrescentou o seu vulto, j&aacute; desenhado em<br \/>\n    grande tela na imagina&ccedil;&atilde;o deles.<\/p>\n<p> Quando chegaram &agrave; palho&ccedil;a, era quase noite. Louren&ccedil;o<br \/>\n    apenas lhe deu os esclarecimentos necess&aacute;rios, continuou a jornada<br \/>\n    at&eacute; Bujari, onde n&atilde;o se demorou, e mais tarde, com o intento<br \/>\n    de saber se o encontro com o bando j&aacute; era conhecido na vila e se tomavam<br \/>\n    provid&ecirc;ncias contra os desobedientes, dirigiu-se at&eacute; l&aacute;.<\/p>\n<p> Goiana estava cheia de uma not&iacute;cia, mas de estrondo a pris&atilde;o<br \/>\n    dos irm&atilde;os Cavalcanti.<\/p>\n<p> Quero ter o gosto de v&ecirc;-los entrar aqui amanh&atilde; com as cordas<br \/>\n    nos pulsos dizia um mascate. Quero chegar-me ao Cosme, que de todos ele &eacute;<br \/>\n    o mais <em>peitudo<\/em>, e perguntar-lhe: &ldquo;Onde est&aacute; a tua fama,<br \/>\n    p&eacute;-rapado mofino? <br \/>\n    Outro dizia: <br \/>\n    Hei de dar-lhe uma bofetada e amea&ccedil;&aacute;-lo de dar outra se ele<br \/>\n    n&atilde;o disser em altas vozes: &ldquo;Viva quem me deu. S&oacute; assim<br \/>\n    me pagar&aacute; o pouco caso em que sempre me teve esse ruim e arrogante<br \/>\n    mazombo.<\/p>\n<p> C&aacute; as minhas contas s&atilde;o com o Andr&eacute;, que ainda pela<br \/>\n    &uacute;ltima quaresma teve para mim gestos de desprezo, por lhe parecer que<br \/>\n    estavam mal pesadas umas caixas de a&ccedil;&uacute;car que mandara para o<br \/>\n    meu armaz&eacute;m. Chegou a chamar-me ladr&atilde;o. Hei de lhe perguntar<br \/>\n    quem &eacute; mais ladr&atilde;o se o que est&aacute; solto e livre, tratando<br \/>\n    do seu neg&oacute;cio, ou se o que vem amarrado, e em pouco tempo h&aacute;<br \/>\n    de subir &agrave; forca? <br \/>\n    &Eacute; imposs&iacute;vel dar uma id&eacute;ia aproximada da ang&uacute;stia<br \/>\n    de Louren&ccedil;o, quando soube a cruel not&iacute;cia, e da afli&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que o possu&iacute;a por n&atilde;o poder dar incontinenti o castigo a quem<br \/>\n    o merecia, quando nos adjuntos pelas ruas, e nas portas das tabernas e das<br \/>\n    boticas, ouvia semelhantes projetos de vil&atilde;s vingan&ccedil;as contra<br \/>\n    os nobres em quem se acostumara a n&atilde;o p&ocirc;r as vistas sen&atilde;o<br \/>\n    com respeito.<\/p>\n<p> Que desgra&ccedil;a, meu Deus! Parece que n&atilde;o ficar&aacute; um fidalgo<br \/>\n    que n&atilde;o seja preso. Mal pensa seu Cosme o que est&aacute; para lhe<br \/>\n    acontecer.<\/p>\n<p> Cosme Bezerra, entretanto, confiando na promessa do Coronel Braga, p&ocirc;s<br \/>\n    o esp&iacute;rito ao largo, e da grandeza do infort&uacute;nio tratou de tirar<br \/>\n    for&ccedil;as e resigna&ccedil;&atilde;o maiores que o mesmo infort&uacute;nio<br \/>\n    para o vencer com dignidade.<\/p>\n<p> Estou preso como um cativo, mas no meu crime h&aacute; um protesto em favor<br \/>\n    da liberdade dos pernambucanos. Demais, desobedecer ao despotismo, &agrave;<br \/>\n    viol&ecirc;ncia, em lugar de crime, &eacute; direito. Poder&atilde;o matar-me,<br \/>\n    porque s&atilde;o assassinos; poderei subir &agrave; forca, e outro fim n&atilde;o<br \/>\n    espero, se antes disso n&atilde;o me assassinarem por estes caminhos, sob<br \/>\n    qualquer pretexto para se verem logo livres de mim. Mas, meu nome passar&aacute;,<br \/>\n    com meu &acirc;nimo, ao grande quadro da hist&oacute;ria de Pernambuco, onde<br \/>\n    v&ecirc;em desenhados vultos t&atilde;o ilustres, que basta ocupar um lugar<br \/>\n    ao p&eacute; deles para ter seguro o respeito dos p&oacute;steros.<\/p>\n<p> Mal acabara este solil&oacute;quio, quando, erguendo a vista &agrave; roda<br \/>\n    de si, sentiu que o esp&iacute;rito se lhe abatia repentinamente. Conhecera<br \/>\n    os lugares que o dia, ao romper, lhe ia mostrando aos olhos. Estava na estrada<br \/>\n    de Goiana.<\/p>\n<p> Mas o abatimento foi r&aacute;pido; a antiga energia correu de novo pelas<br \/>\n    veias do brioso goianista; o esp&iacute;rito ergueu-se-lhe fresco, forte,<br \/>\n    diante das paisagens natais, alentado pela sua gentileza em que se deliciara<br \/>\n    nos bons tempos da mocidade.<\/p>\n<p> Vamos entrar em Goiana, disse a Lu&iacute;s Vidal.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade, respondeu este tristemente.<\/p>\n<p> Neste momento passou por junto dos presos o Coronel.<\/p>\n<p> Sr. Coronel, disse-lhe Cosme, quer ter a bondade de ouvir uma palavra? <br \/>\n    Braga aproximou-se.<\/p>\n<p> Se n&atilde;o me engano, este caminho vai dar &agrave; vila de Goiana.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade.<\/p>\n<p> Mas v&oacute;s me prometestes que passar&iacute;amos por fora.<\/p>\n<p> A estas palavras, Jer&ocirc;nimo Paes, que se aproximara tamb&eacute;m dos<br \/>\n    prisioneiros, disse: <br \/>\n    O Sr. Coronel fez esta promessa, &eacute; verdade, mas mudou de resolu&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    por eu lhe lembrar uma circunst&acirc;ncia. Como extremosos filhos, segundo<br \/>\n    inculcais, da terra que vos viu nascer, seria grande crueza cortar, para n&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;-la pela &uacute;ltima vez, por escusos atalhos e rodeios.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o me dirijo a ti, vil&atilde;o imundo, retorquiu Cosme.<\/p>\n<p> Sr. Cosme Bezerra! advertiu o Coronel Braga.<\/p>\n<p> Dirigia-me a v&oacute;s, Coronel, que ali&aacute;s sois tamb&eacute;m um<br \/>\n    vil&atilde;o ruim, um homem infame, um soldado covarde, que outros n&atilde;o<br \/>\n    cabem a quem falta &agrave; palavra dada a um nobre prisioneiro.<\/p>\n<p> Os c&atilde;es acorrentados ladram com mais f&uacute;ria do que os soltos,<br \/>\n    replicou Braga.<\/p>\n<p> E deu o andar, enquanto Paes, achegando-se mais da m&oacute; formada pelos<br \/>\n    prisioneiros, ia talvez erguer o chicote para flagelar Cosme na face, quando<br \/>\n    foi compelido a voltar-se para inquirir com as vistas a causa de um ramalhar<br \/>\n    violento que um dos lados do caminho se fizera sentir.<\/p>\n<p> E volver as vistas, ao ponto, foi o mesmo que ver uma partida de cavaleiros<br \/>\n    armados de fac&otilde;es e pistolas correr sobre a tropa. O Coronel deu imediatamente<br \/>\n    ordem para que as for&ccedil;as cercasse os presos e disparasse as armas contra<br \/>\n    os assaltantes. Poucos tiros soaram; com a umidade da noite, as escovas da<br \/>\n    maior parte das armas haviam esfriado e muitas destas mentiram fogo. N&atilde;o<br \/>\n    se viu depois sen&atilde;o um torvelinho medonho e indescrit&iacute;vel. Os<br \/>\n    cavaleiros ca&iacute;ram sobre a tropa, e a patas de cavalo, come&ccedil;aram<br \/>\n    a atropelar os que n&atilde;o lhe davam passagem. Braga, que descalvagara<br \/>\n    momentos antes de falar com Cosme Bezerra, n&atilde;o teve tempo de tomar<br \/>\n    o seu animal. Jer&ocirc;nimo Paes, por&eacute;m, homem de lutas desabridas<br \/>\n    e de valentia, tivera tempo de saltar sobe a sua cavalgadura, e com a espada<br \/>\n    investia, em defesa dos que formavam um c&iacute;rculo &agrave; roda dos presos,<br \/>\n    como possesso do g&ecirc;nio do mal.<\/p>\n<p> Esta luta durou poucos momentos, porque um dos assaltantes correu acesso<br \/>\n    em valor, ao c&iacute;rculo, e expondo-se a dezenas de golpes, pode romper<br \/>\n    o cord&atilde;o, e chegar at&eacute; aos prisioneiros.<\/p>\n<p> &Eacute;s tu, Louren&ccedil;o, &eacute;s tu, Louren&ccedil;o! clamaram os<br \/>\n    nobres admirados de tanta bravura, e satisfeitos com a nova face que a sua<br \/>\n    sorte apresentava, um momento depois de ter para eles uma das mais feias carrancas.<\/p>\n<p> Sou eu mesmo, seu Cosme. Em poucos instantes, seu Cosme, havemos de mostrar<br \/>\n    a estes safados mascates para quanto prestam os pernambucanos.<\/p>\n<p> O fac&atilde;o de Louren&ccedil;o cortava j&aacute; os &uacute;ltimos n&oacute;s<br \/>\n    da corda passada &agrave; roda dos bra&ccedil;os de Cosme, quando uma pranchada<br \/>\n    vigorosa fez o rapaz sobressaltar. Com este novo est&iacute;mulo, o homem<br \/>\n    mudou-se em fera. Perdida a sensibilidade que o momento exigia, deixou a obra<br \/>\n    de salva&ccedil;&atilde;o em mais de meio, e voltou-se para investir contra<br \/>\n    o seu ofensor. Inexperi&ecirc;ncia da idade que frustrou a grande obra quase<br \/>\n    terminada.<\/p>\n<p> O ofensor era Jer&ocirc;nimo Paes. A sua coragem, se fosse ajudada de for&ccedil;a<br \/>\n    t&atilde;o extensa como ela, seria, talvez, digna de competir com a de Louren&ccedil;o;<br \/>\n    mas s&oacute; este, de todos os que ali estavam, trazia os dois tesouros reunidos.<br \/>\n    Descarregar um golpe sobre Jer&ocirc;nimo foi o mesmo que prostr&aacute;-lo;<br \/>\n    mas quando ia acabar com este inimigo, teve que volver a sua aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para outro ponto, donde um da tropa dissera aos camaradas: <br \/>\n    N&atilde;o esmore&ccedil;am, minha gente, que ali vem o Tunda-Cumbe.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o da Mota, receando que os nobres que andavam foragidos pelos<br \/>\n    matos se reunissem e tentassem tomar os presos trazidos do norte, dera a ordem<br \/>\n    para que Tnda-Cumbe, que j&aacute; voltara do Recife, onde deixara os outros<br \/>\n    presos, fosse refor&ccedil;ar com gente fresca e descansada a que trazia tantos<br \/>\n    dias de jornada passando rios cheios, fomes e outras inclem&ecirc;ncias naturais<br \/>\n    da longa digress&atilde;o pelo sert&atilde;o. E porque tinha recebido informa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Coronel Braga sobre a hora da entrada na vila, muito cedinho fizera partir<br \/>\n    o Manuel Gon&ccedil;alves com trinta homens do seu s&eacute;quito.<\/p>\n<p> Tunda-Cumbe caiu sem piedade com os seus sobre os assaltantes, e n&atilde;o<br \/>\n    obstante terem estes j&aacute; do seu lado a vit&oacute;ria, pode, a golpes<br \/>\n    e a tiros, dispersar os que n&atilde;o morreram no meio da luta.<\/p>\n<p> Os assaltantes n&atilde;o eram outros sen&atilde;o os matutos a quem Louren&ccedil;o<br \/>\n    dera pousada em casa &agrave; noite anterior.<\/p>\n<p> Eis o que tinha havido: <br \/>\n    Voltando &agrave; palho&ccedil;a, com grande m&aacute;goa, pelo que vira e<br \/>\n    ouvira nas ruas e tabernas onde se tratava da recep&ccedil;&atilde;o hostil<br \/>\n    a Cosme e aos irm&atilde;os.<\/p>\n<p> Trago o cora&ccedil;&atilde;o negro, como tinta de escrever dissera. Meu<br \/>\n    desgosto &eacute; t&atilde;o grande que, se n&atilde;o tivesse pai e m&atilde;e<br \/>\n    ainda vivos, eu me atiraria por a&iacute; al&eacute;m, em busca da morte.<\/p>\n<p> Ora, deixe-se disso, Louren&ccedil;o. N&atilde;o vejo raz&atilde;o para<br \/>\n    essa zanga.<\/p>\n<p> Olhem voc&ecirc;s. Enquanto eu n&atilde;o tomar uma desforra desses mascates,<br \/>\n    e dos ladr&otilde;es que andam a&iacute; prendendo a gente limpa da terra,<br \/>\n    eu n&atilde;o fico bom nem tenho sossego. Estou em termos de arrebentar.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o lhes referiu o que ouvira e presenciara na vila.<\/p>\n<p> Mas, por que n&atilde;o tiras a desforra? Que te falta? A ocasi&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o podia ser melhor. Vamos tomar os nobres pelo poder da for&ccedil;a.<\/p>\n<p> Este &eacute; o meu intento, e se voc&ecirc;s me ajudam&#8230;<\/p>\n<p> Ora! disse um. Somos t&atilde;o somente nove, mas assim mesmo havemos de<br \/>\n    dar o que fazer.<\/p>\n<p> A minha birra &eacute; com o ladr&atilde;o desse peixeiro desprez&iacute;vel,<br \/>\n    o desavergonhado Tunda-Cumbe, que traz gal&otilde;es dourados nas mangas,<br \/>\n    quando devia trazer algemas.<\/p>\n<p> Pensa voc&ecirc; ent&atilde;o em se pegar com o Tunda-Cumbe que, al&eacute;m<br \/>\n    de n&atilde;o ser peco, valha a verdade, traz consigo tanto cabra&nbsp; matador,<br \/>\n    e tanto negro feio mandingueiro? <br \/>\n    Louren&ccedil;o sorriu em ar de mofa e impaciente.<\/p>\n<p> E por que n&atilde;o me hei de pegar com ele, Manoel F&eacute;lix. Eu s&oacute;<br \/>\n    sou capaz de lhe dar com a bainha da minha faca nas ventas quanto mais se<br \/>\n    voc&ecirc;s lhe fizeram uma perna. O <em>marinheiro<\/em> bem me conhece, e<br \/>\n    tem-me <em>ronha<\/em>. Em um samba que houve o ano passado, em casa do defunto<br \/>\n    Vitorino, o Tunda-Cumbe bem viu o pau da minha canoa. H&aacute; pouco tempo<br \/>\n    mesmo ele sentiu no bra&ccedil;o o dente da minha faca; se as folhas dos paus<br \/>\n    n&atilde;o estivessem t&atilde;o embrenhadas, havia de sentir o gosto dela,<br \/>\n    n&atilde;o no bra&ccedil;o, mas no cora&ccedil;&atilde;o, que foi para a&iacute;<br \/>\n    que eu a atirei. Eis a&iacute;. Voc&ecirc;s bem sabem a cantiga que eu canto:\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o tenho medo de homem <br \/>\n    Nem do ronco que ele tem <br \/>\n    O besouro tamb&eacute;m ronca <br \/>\n    Vai se ver, n&atilde;o &eacute; ningu&eacute;m. <\/p>\n<p> Est&aacute; bem, basta, Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Voc&ecirc; tamb&eacute;m parece que est&aacute; com medo, Antonio Lu&iacute;s.<br \/>\n    Ora n&atilde;o seja mofino, que um homem quando come carne e farinha &eacute;<br \/>\n    para ser duro.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o tenho medo. Por mim est&aacute; j&aacute; assentado que tomaremos<br \/>\n    os presos das m&atilde;os dos malvados.<\/p>\n<p> Os matutos escorvaram algumas armas de fogo que traziam, examinaram os fac&otilde;es<br \/>\n    e as facas, e puseram-se a espiar o momento do assalto. No outro dia de manh&atilde;<br \/>\n    apontou a escolta na extremidade do caminho. Foi ent&atilde;o quem por entre<br \/>\n    as folhagens que lhes serviam de graciosa e natural moldura, ca&iacute;ram<br \/>\n    os almocreves sobre os soldados.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o lutou at&eacute; n&atilde;o poder mais, at&eacute; ficar<br \/>\n    s&oacute; em campo, e seria v&iacute;tima debaixo do peso do grande n&uacute;mero<br \/>\n    do bando, se Cosme Bezerra, que chegara a ter um bra&ccedil;o livre, n&atilde;o<br \/>\n    descarregasse uma arma contra o Coronel Braga. Supondo que este ia morrer,<br \/>\n    as aten&ccedil;&otilde;es dos bandidos e soldados dividiram-se entre os prisioneiros<br \/>\n    e o ferido. Neste momento p&ocirc;de Louren&ccedil;o escapar-se. O ch&atilde;o<br \/>\n    estava juncado de cad&aacute;veres.<\/p>\n<p> Das onze horas para o meio-dia, um homem, que entrara gacheiro, afastando<br \/>\n    os matos aqui, unindo-se acol&aacute;, para passar sem ser visto, meteu a<br \/>\n    cabe&ccedil;a por entre as estacas do engenho Bujari, e correu para a casa<br \/>\n    grande.<\/p>\n<p> Quando o desconhecido, cujas roupas se mostravam rasgadas em alguns pontos,<br \/>\n    cobertas de sangue em outros, penetrou na sala onde somente se achavam as<br \/>\n    mulheres D. Damiana, Marcelina, Joaquina e Mariana algumas delas amedrontadas<br \/>\n    da inesperada vis&atilde;o, chegaram a procurar os quartos para se trancarem,<br \/>\n    supondo que estavam com um malfeitor em casa. Marcelina, por&eacute;m, reconhecendo<br \/>\n    logo com m&aacute;goa o filho, correu ao seu encontro, e tomou-o nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> Minha Nossa Senhora do Ros&aacute;rio, Virgem Sant&iacute;ssima! Que te<br \/>\n    fizeram, Louren&ccedil;o? <br \/>\n    Este respondeu por interroga&ccedil;&atilde;o: <br \/>\n    N&atilde;o passou por aqui seu Cosme com os irm&atilde;os? <br \/>\n    N&atilde;o fales nisso Louren&ccedil;o observou Marcelina. Tem piedade daquela<br \/>\n    senhora que mal pode enxugar as l&aacute;grimas de tantas que s&atilde;o.<br \/>\n    Nem tu sabes o que disseram, o que praticaram os malvados. Eles a&iacute;<br \/>\n    v&atilde;o ainda. Quase nos matam. Olha para aquelas urupemas. N&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;s como est&atilde;o quebradas e esburacadas? N&atilde;o v&ecirc;s<br \/>\n    as paredes como est&atilde;o? As balas e as pedras dos endemoninhados choveram<br \/>\n    aqui dentro. Parecia que o mundo ia se acabar, tamanho foi o estrondo, o estrago,<br \/>\n    o desatino. Com as balas e as pedras, chegavam aqui tamb&eacute;m os desaforos<br \/>\n    e as poucas vergonhas que eles diziam. A canalha do Tunda-Cumbe foi quem teve<br \/>\n    a maior parte nisso. A outra gente ia ocupada com o seu Cosme, seu Andr&eacute;<br \/>\n    e seu Lu&iacute;s, e pouco se demorou &agrave; porta da casa. Sinh&aacute;<br \/>\n    D. Damiana ainda quis abrir a urupema para falar a seu Cosme. Se n&atilde;o<br \/>\n    sou eu, ela fazia esta asneira, e talvez n&atilde;o vivesse. Mas, quem foi<br \/>\n    que te p&ocirc;s neste estado? <br \/>\n    Quis ver se podia livr&aacute;-los das m&atilde;os dos malvados, minha m&atilde;e;<br \/>\n    mas Deus n&atilde;o quis. Quando j&aacute; estavam quase soltos, chegou o<br \/>\n    Tunda-Cumbe com a quadrilha, e n&atilde;o houve meio de vencer. Os meus camaradas<br \/>\n    morreram quase todos; e eu fiquei jurado pelo Tunda-Cumbe de morrer mais cedo<br \/>\n    ou mais tarde &agrave;s suas m&atilde;os. Talvez que hoje mesmo ele ainda<br \/>\n    venha correr esta casa, ou v&aacute; &agrave; palho&ccedil;a para ver se me<br \/>\n    encontra.<\/p>\n<p> Santo Cristo de Ipojuca! Valei-nos, minha Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    <br \/>\n    Olhe, minha m&atilde;e, tenha paci&ecirc;ncia; porque o pior &eacute; o que<br \/>\n    eu lhe vou dizer agora. Eu n&atilde;o tenho medo do marinheiro, mas ele tem<br \/>\n    muito quem o acompanhe. Por isso acho bom ganhar o mato por alguns dias, at&eacute;<br \/>\n    ver se as cousas tomam outra cara.<\/p>\n<p> Filho de minh&rsquo;alma, queres deixar-me? <br \/>\n    Louren&ccedil;o, Louren&ccedil;o, n&atilde;o nos desampares disse Marianinha.<\/p>\n<p> Que resolu&ccedil;&atilde;o &eacute; esta, Louren&ccedil;o? perguntou D.<br \/>\n    Damiana, quase solu&ccedil;ando.<\/p>\n<p> O rapaz n&atilde;o soube o que dizer. Calado, impass&iacute;vel, confuso,<br \/>\n    lan&ccedil;ava olhares est&uacute;pidos de uma para outra das mulheres, que<br \/>\n    assim recebiam a triste declara&ccedil;&atilde;o e sua aus&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Mas, minha m&atilde;e&#8230; sinh&aacute; D. Damiana&#8230; Marianinha&#8230; Se eu<br \/>\n    ficar aqui, ainda pode ser pior. Se eles me prenderem, se me levarem para<br \/>\n    o Recife, que ser&aacute; de vosmec&ecirc;s? Eu n&atilde;o vou desamparar<br \/>\n    esta casa por uma vez, minha m&atilde;e; Deus me livre disso; nem tenho cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para fazer semelhante ingratid&atilde;o. Andarei por aqui mesmo em roda da<br \/>\n    casa, mas dentro do mato. Se os neg&oacute;cios forem ficando muito feios,<br \/>\n    irei para Tracunha&eacute;m; irei reunir-me a seu Falc&atilde;o, que j&aacute;<br \/>\n    deve ter muita gente junta.<\/p>\n<p> As mulheres ouviram atentas, no maior sil&ecirc;ncio, estas palavras, nascidas<br \/>\n    do sentimento da prud&ecirc;ncia, que era ali&aacute;s obra de Marcelina no<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o do corajoso jovem.<\/p>\n<p> Valha-me Deus! disse Marcelina, como quem compreendia que era absolutamente<br \/>\n    necess&aacute;rio resignar-se &agrave; aus&ecirc;ncia daquele que, com ser<br \/>\n    filho de outra mulher, se tornara objeto dos seus maternais afetos.<\/p>\n<p>Ele nos queria valer, Marcelina acrescentou D. Damiana. Longe estava eu ainda<br \/>\n    h&aacute; bem pouco tempo de pensar neste novo rev&eacute;s da minha infeliz<br \/>\n    sorte.<\/p>\n<p> Ontem era seu Francisco, hoje &eacute; Louren&ccedil;o que vai deixar-nos<br \/>\n    disse Joaquina. Ser&aacute; o que Deus quiser.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o h&aacute; corda em meu cora&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o<br \/>\n    tenha estalado acrescentou Marcelina. mas, j&aacute; que Deus assim ordena,<br \/>\n    vai Louren&ccedil;o, mete-te no mato, esconde-te bem dos facinorosos; e por<br \/>\n    nosso respeito n&atilde;o te percas. A Virgem Maria, na tua aus&ecirc;ncia<br \/>\n    h&aacute; de ser a nossa advogada, h&aacute; de proteger-nos.<\/p>\n<p> Esta cena de dor foi interrompida pela chegada de um negro que acompanhara<br \/>\n    Jo&atilde;o da Cunha &agrave;s matas e com ele seguira para a pris&atilde;o<br \/>\n    no Recife. Vendo-o coberto e suor, e ofegante de cansa&ccedil;o de longa jornada,<br \/>\n    D. Damiana foi a primeira que lhe falou, n&atilde;o sem grande sobressalto.<\/p>\n<p> Que novas nos trazes, Jos&eacute;? <br \/>\n    O escravo fiel e respeitoso, por &uacute;nica resposta, entregou-lhe um papel<br \/>\n    que ela inquieta e nervosa, desdobrou rapidamente. Era uma carta do seu cunhado<br \/>\n    Amador Cavalcanti, senhor de engenho, residente em Jaboat&atilde;o.<\/p>\n<p> Eis o que continha&nbsp; a carta: <\/p>\n<p><em>&ldquo;Prezada prima <br \/>\n    <\/em><\/p>\n<p>  Escrevo-lhe estas regras quase &agrave;s escuras, porque estou na semi-tumba<br \/>\n  das Cinco Pontas, onde me recolheram ontem, por ordem do governador depois de<br \/>\n  sofrer os maiores vexames da quadrilha do Camar&atilde;o que me prendeu.<\/p>\n<p><em> Vim aqui encontrar o meu irm&atilde;o, o seu marido Jo&atilde;o da Cunha.<\/em><\/p>\n<p><em> Mal poder&aacute; imaginar em que estado o encontrei. Ferido, enfermo,<br \/>\n    maltratado pelos nossos verdugos&#8230; n&atilde;o tenho &acirc;nimo para lhe<br \/>\n    dizer tudo; mas o parentesco e a amizade n&atilde;o permitem furtar-me a este<br \/>\n    penoso dever.<\/em><\/p>\n<p><em> Hoje, pela manh&atilde;, ele chamou-me para junto de si; os seus ferimentos<br \/>\n    tinham se agravado. Mal pude entender o que me disse; digo mal: n&atilde;o<br \/>\n    entendi uma s&oacute; das suas palavras.<\/em><\/p>\n<p><em> Abra&ccedil;ou-me, e inclinou a cabe&ccedil;a sobre o peito. N&atilde;o<br \/>\n    a levantou mais, sen&atilde;o talvez para comparecer perante o Criador, que<br \/>\n    nos h&aacute; de julgar e vingar.<\/em><\/p>\n<p><em> Resigne-se <br \/>\n    AMADOR CAVALCANTI<\/em><\/p>\n<p>D. Mariana caiu quase sem sentidos nos bra&ccedil;os de D. Marcelina. Os<br \/>\n    solu&ccedil;os queriam arrancar-lhe a vida.<\/p>\n<p> A este tempo, Cosme Cavalcanti e os irm&atilde;os, atravessavam a rua principal<br \/>\n    de Goiana no meio do mais p&uacute;blico espet&aacute;culo cujo &uacute;nico<br \/>\n    objeto eram eles.<\/p>\n<p> Para que fosse espl&ecirc;ndida a recep&ccedil;&atilde;o das ilustres v&iacute;timas,<br \/>\n    os principais mercadores da vila tinham ordenado com&eacute;dias e cavalhadas.<\/p>\n<p> Fogos estouraram de todos os cantos e alguns sinos repicaram em sinal e<br \/>\n    alegria, logo que os presos se aproximaram. Na rua das Portas de Rom&atilde;o<br \/>\n    armara-se um tablado pelo modelo do que se tinha levantado em Olinda para<br \/>\n    festejar a chegada do governador, a 7 de dezembro de 1711. A&iacute; apareceram<br \/>\n    cinco figuras ricamente vestidas; quatro representavam as quatro partes do<br \/>\n    mundo, e outra, Goiana.<\/p>\n<p> O tablado ficava como o de Olinda. debaixo de uma &ldquo;parreira agrad&aacute;vel<br \/>\n    na forma, e abundante de uvas, com passarinhos que as depinicavam.<\/p>\n<p> Quando os presos passaram pela frente do tablado a figura que representava<br \/>\n    Goiana fez sinal que parasse o tro&ccedil;o, e com &ecirc;nfase dirigiu &ldquo;em<br \/>\n    romance curioso, uma alocu&ccedil;&atilde;o a Jer&ocirc;nimo Paes, que exaltou<br \/>\n    como benem&eacute;rito do povo e da realeza. A rua n&atilde;o tinha mais onde<br \/>\n    se p&ocirc;r um p&eacute; de pessoa. A vila em peso, uns por satisfa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    outros por natural curiosidade, assistia ao estrepitoso espet&aacute;culo.<\/p>\n<p> Os mercadores mais dinheirosos distribu&iacute;am aos soldados pe&ccedil;as<br \/>\n    de ouro e bebidas finas; a plebe atirava insultos e inj&uacute;rias aos algemados.<\/p>\n<p> Estes nunca haviam demonstrado tanta nobreza no gesto e no porte. Tinham<br \/>\n    a serenidade de m&aacute;rtires. O sil&ecirc;ncio dava-lhes gravidade, e a<br \/>\n    eleva&ccedil;&atilde;o da face deixava manifesto que os seus esp&iacute;ritos,<br \/>\n    longe de rastejarem, se sustentavam na altura do seu nome e posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A um insulto que lhes dirigiu o taberneiro Joaquim Rodrigues, Cosme Bezerra<br \/>\n    retorquiu: <br \/>\n    Insulta os nobres que v&ecirc;s presos, marinheiros; mas fica sabendo que<br \/>\n    se n&atilde;o pudermos algum dia ajustar as nossas contas contigo, ajust&aacute;-la-&atilde;o<br \/>\n    com os teus <em>malungos<\/em>, que para c&aacute; vierem, os nossos filhos,<br \/>\n    os nossos netos, enfim a nossa gera&ccedil;&atilde;o; &oacute;dio eterno &agrave;<br \/>\n    tua ra&ccedil;a &eacute; a primeira heran&ccedil;a que ensinaremos e deixaremos<br \/>\n    aos nossos descendentes.<\/p>\n<p> Toma l&aacute; que te dou, profeta sujo retorquiu-lhe em ar de zombaria<br \/>\n    o taberneiro.<\/p>\n<p> E atirou-lhe uma moeda de cobre. <\/p>\n<h2><a name=\"8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/h2>\n<p>Receoso de encontrar-se com algum bando inimigo, Louren&ccedil;o que, ao<br \/>\n    deixar o engenho, tomara a margem direita do Tracunha&eacute;m, pela qual<br \/>\n    passava o caminho por onde se sa&iacute;a de Goiana atravessou n&atilde;o<br \/>\n    sem risco o rio com bastante &aacute;gua pelas chuvas torrenciais do inverno,<br \/>\n    e meteu-se numa capoeira que, ao cabo de um quarto de l&eacute;gua, vinha<br \/>\n    morrer na margem esquerda.<\/p>\n<p> Era quase noite, e desde a sa&iacute;da, a chuva n&atilde;o cessara ainda,<br \/>\n    antes aumentara.<\/p>\n<p> Em todas as paragens circunvizinhas, n&atilde;o se descobria uma s&oacute;<br \/>\n    habita&ccedil;&atilde;o. |O rio entrava aqui pelos matos, sa&iacute;a acol&aacute;<br \/>\n    por entre lajedos, espraiava-se al&eacute;m em v&aacute;rzeas cobertas de<br \/>\n    buritizeiros. De ver&atilde;o, a regi&atilde;o que Louren&ccedil;o percorria<br \/>\n    agora silencioso e pesaroso, tinha aspecto risonho; era um lindo painel, n&atilde;o<br \/>\n    obstante ser deserta e quase virgem. Atualmente v&ecirc;em-se j&aacute; por<br \/>\n    ali casinhas de almocreves, quadras de terra cobertas de ro&ccccedil;as, partidinhos<br \/>\n    de canas que alegram a vista e comunicam ao esp&iacute;rito a sua graciosa<br \/>\n    flutua&ccedil;&atilde;o iluminada e colorida. Por esse tempo, s&oacute; se<br \/>\n    avistavam ali &aacute;guas, matos e c&eacute;u, que o ver&atilde;o enchia<br \/>\n    de limpidez, verdura e azul. Aos olhos de Louren&ccedil;o, por&eacute;m, n&atilde;o<br \/>\n    eram estas tintas oferecidas pelas paisagens feiticeiras. Com o inverno elas<br \/>\n    haviam tomado fei&ccedil;&otilde;es espessas e sombrias. As &aacute;guas barrentas,<br \/>\n    em v&aacute;rios pontos encachoeiradas, enovelando-se com arbustos e pedras,<br \/>\n    semelhavam terras dilu&iacute;das por forte ebuli&ccedil;&atilde;o, mostrando<br \/>\n    todas as fezes e lia deixadas no seu seio pelo curso de muitas idades, as<br \/>\n    folhagens inclinadas para o ch&atilde;o, quando as &aacute;guas do c&eacute;u<br \/>\n    ca&iacute;am sobre elas sem sopro de tormenta, ou revoltas e confusas quando<br \/>\n    a tempestade as a&ccedil;oitava com a sua violenta c&oacute;lera, apresentavam<br \/>\n    o semblante de tristeza ou do desespero; o c&eacute;u cor de cinza tinha comunicativa<br \/>\n    morbidez que penetrava nos cora&ccedil;&otilde;es ternos. Enfim, longe de<br \/>\n    despertar pensamentos e sensa&ccedil;&otilde;es gratas, essa regi&atilde;o<br \/>\n    demorada n&atilde;o oferecia ao h&oacute;spede perdido no seio dela outros<br \/>\n    presentes sen&atilde;o o t&eacute;dio, a ingratid&atilde;o e a aspereza do<br \/>\n    deserto.<\/p>\n<p> Ao anoitecer, saindo de uns pauis perigosos, onde quase se havia sumido<br \/>\n    com o cavalo, ouviu, surpreso, o bater de uma <em>ca&ccedil;ula<\/em> por ali<br \/>\n    perto. Guiado por este sinal, ganhou um alto onde deu de rosto com uma casinha<br \/>\n    de barro, coberta de palha. Alongando as vistas, descobriu na baixada que<br \/>\n    ficava do outro lado da emin&ecirc;ncia, uma como aldeia de &iacute;ndios.<br \/>\n    Contavam-se talvez de quinze a vinte palho&ccedil;as. Quase todas estavam<br \/>\n    fechadas, e somente da que ficava mais pr&oacute;xima da casinha do alto,<br \/>\n    se levantava aos ares, sem embargo dos pesados pingos d&rsquo;&aacute;gua<br \/>\n    que no momento ca&iacute;am, uma fumacinha azulada, indicando que havia moradores<br \/>\n    na palho&ccedil;a.<\/p>\n<p> J&aacute; tenho, gra&ccedil;as a Deus pensou o rapaz onde passar esta cruel<br \/>\n    noite de inverno.<\/p>\n<p> E tirou para a casinha, donde lhe chegava aos ouvidos o som levantado pelo<br \/>\n    alternado bater das m&atilde;os do pil&atilde;o sobre o milho.<\/p>\n<p> Faziam a <em>ca&ccedil;ula<\/em> uma rapariga e uma mulher j&aacute; de idade.<br \/>\n    Aquela podia passar por branca, e n&atilde;o era mal parecida: cabelos negros<br \/>\n    e cacheados emolduravam-lhe o rosto jovial e franco; formas boleadas sem car&ecirc;ncia<br \/>\n    de gentileza, acusavam tesouros que se perdiam ocultos ou mal apreciados no<br \/>\n    ermo.<\/p>\n<p> A outra mulher tinha fei&ccedil;&atilde;o e formas vulgares, que nenhum<br \/>\n    tra&ccedil;o particular tornava distintas, a n&atilde;o ser o olhar suspeitoso<br \/>\n    e a grossura corp&oacute;rea: ambas trajavam saia de chita e cabe&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de renda. Estavam de p&eacute;, na sala posterior da casinha, perto de um<br \/>\n    banco largo, esp&eacute;cie de porta deitada sobre quatro p&eacute;s cravados<br \/>\n    no ch&atilde;o, a qual, pelos ind&iacute;cios, preenchia o of&iacute;cio de<br \/>\n    estrado, mesa de jantar e cama de dormir. Sobre o banco via-se um alguidar<br \/>\n    de barro de tamanho, contendo certa quantidade de milho pilado; junto do alguidar,<br \/>\n    um rapa-coco de ferro e alguns pratos ordin&aacute;rios. Dentro de um destes<br \/>\n    estava o coco, partido j&aacute; em duas bandas, destinado a dar as rapas<br \/>\n    de que se devia extrair, pela express&atilde;o, o leite grosso e saboroso.<br \/>\n    O leitor entendido nos usos do norte h&aacute; de ter compreendido por estas<br \/>\n    particularidades dom&eacute;sticas, que as duas mulheres se ocupavam em fazer<br \/>\n    o popular e apreciado <em>mucunz&aacute;<\/em>. Ficava de permeio entre uma<br \/>\n    e outra, o pil&atilde;o que lhes dava pela cintura.<\/p>\n<p> A quantidade de milho quebrado que se via dentro do alguidar, e o suor que<br \/>\n    aljofrava o rosto e as esp&aacute;duas das mulheres, n&atilde;o obstante o<br \/>\n    tempo frio, revelavam que a <em>ca&ccedil;ula<\/em> j&aacute; ia puxada, ou<br \/>\n    antes, estava perto de acabar.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o, rodeando a casa, foi parar defronte da janela, onde se<br \/>\n    entregavam &agrave;quela ocupa&ccedil;&atilde;o culin&aacute;ria as duas mulheres.<\/p>\n<p> &Oacute; de casa? disse ele.<\/p>\n<p> Apenas estas palavras ressoaram dentro, as moradoras fizeram uma pausa,<br \/>\n    e cessou o <em>batecum.<\/em> <br \/>\n    &Oacute; de fora respondeu a mais velha, enquanto a mais nova, que estava<br \/>\n    oculta por tr&aacute;s da parede, estirou o pesco&ccedil;o, e com os olhos<br \/>\n    procurou ver quem era o h&oacute;spede. T&atilde;o depressa por&eacute;m o<br \/>\n    viu como, deixando a sua m&atilde;o de pil&atilde;o metida no milho, deitou<br \/>\n    a correr para a camarinha, &uacute;nico aposento encoberto que havia na casa.<\/p>\n<p> Tenha vosmec&ecirc; muito boas noites, minha senhora disse Louren&ccedil;o,<br \/>\n    chegando o cavalo mais para junto da janela.<\/p>\n<p> Nosso Senhor lhe d&ecirc; as mesmas respondeu a matuta.<\/p>\n<p> Minha senhora prosseguiu o rapaz venho pedir a vosmec&ecirc; um rancho por<br \/>\n    esta noite. Com semelhante chuvarada, que vosmec&ecirc; bem est&aacute; vendo,<br \/>\n    &eacute; imposs&iacute;vel a gente andar por dentro de lamas que querem engolir<br \/>\n    homem e animal.<\/p>\n<p> Mas senhor&#8230; balbuciou a mulher com evidente embara&ccedil;o.<\/p>\n<p> E como n&atilde;o passou dali, Louren&ccedil;o, compreendendo estar amea&ccedil;ado<br \/>\n    de eminente recusa, acrescentou: <br \/>\n    Quer vosmec&ecirc; acredite, quer n&atilde;o, o que eu lhe posso dizer &eacute;<br \/>\n    que ainda hoje n&atilde;o comi nem descansei. Estou resfriado desde os p&eacute;s<br \/>\n    at&eacute; a cabe&ccedil;a. N&atilde;o sei bem em que altura ando. Al&eacute;m<br \/>\n    disso, com os rios cheios e de noite pelo escuro, n&atilde;o se pode viajar.<\/p>\n<p> Meu senhor&#8230; retorquiu a mulher sempre hesitante, eu n&atilde;o teria d&uacute;vida<br \/>\n    em lhe dar o rancho: mas o dono da casa n&atilde;o est&aacute; em casa, e<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; de bem&#8230; vosmec&ecirc; bem sabe.<\/p>\n<p> Sim, se o dono da casa n&atilde;o est&aacute; em casa, nem aqui por perto,<br \/>\n    &eacute; verdade, vosmec&ecirc; tem raz&atilde;o. Mas tamb&eacute;m quero<br \/>\n    lhe dizer uma coisa: eu com&nbsp; pouco me satisfa&ccedil;o. Basta que vosmec&ecirc;<br \/>\n    consinta que eu me recolha debaixo deste alpendre, ao menos enquanto ponho<br \/>\n    um punhado de farinha e um peda&ccedil;o de carne na boca, e o meu cavalo<br \/>\n    descansa.<\/p>\n<p> A mulher n&atilde;o disse uma palavra; continuou indecisa. Estava sem saber<br \/>\n    determinar-se.<\/p>\n<p> Passado um momento, como visse Louren&ccedil;o que n&atilde;o cessava a<br \/>\n    indecis&atilde;o, disse o seguinte: <br \/>\n    Minha senhora, eu n&atilde;o sou nenhum malfeitor. Pela cara dou logo a conhecer.<\/p>\n<p> N&atilde;o digo menos disso retorquiu ela.<\/p>\n<p> Meto-me ali debaixo do puxado, e pode vosmec&ecirc; ter certeza que n&atilde;o<br \/>\n    arredarei dali o p&eacute; sen&atilde;o para ver o meu cavalo, ou tratar da<br \/>\n    jornada quando as barras vierem quebrando.<\/p>\n<p> A mulher ia refor&ccedil;ar a recusa com outras raz&otilde;es, mas a um<br \/>\n    sinal feito do dentro da camarinha pela mo&ccedil;a mudou de rumo, e respondeu<br \/>\n    sem os escr&uacute;pulos de h&aacute; pouco.<\/p>\n<p> Est&aacute; bom. No alpendre pode vosmec&ecirc; ficar.<\/p>\n<p> Deus &eacute; que lha h&aacute; de pagar este favor, disse o rapaz, criando<br \/>\n    alma nova com a resposta.<\/p>\n<p> E sem mais esperar, tirou para o pequenino alpendre, onde descavalgou.<\/p>\n<p> Quando estava para soltar o cavalo com a peia, como &eacute; costume, ouviu<br \/>\n    dizer da janela: <br \/>\n    &Oacute; meu senhor? &Oacute; meu senhor? <br \/>\n    Pela voz reconheceu a mulher, e imediatamente botou-se para aquele ponto onde<br \/>\n    a encontrou, tendo numa da m&atilde;os uma cuia.<\/p>\n<p> Se vosmec&ecirc; n&atilde;o tem o que dar ao seu cavalo, aqui lhe ofere&ccedil;o<br \/>\n    este bocado de milho que sempre h&aacute; de chegar para ele ir roendo durante<br \/>\n    a noite.<\/p>\n<p> Aceito o favor, e muito agrade&ccedil;o a vosmec&ecirc; a sua lembran&ccedil;a.<br \/>\n    Eu j&aacute; ia soltar o animal a&iacute; no campo, sem esperan&ccedil;a que<br \/>\n    ele comesse qualquer coisa, porque est&aacute; tudo debaixo de &aacute;gua.<\/p>\n<p> Pouco depois, sob a folhagem de uma gameleira pr&oacute;xima do alpendre,<br \/>\n    o cavalo quebrava com estr&eacute;pito o presente da hospitalidade, e o seu<br \/>\n    dono, de uma rede que armara, fazia-lhe companhia, comendo, com apetite devorador,<br \/>\n    da matalotagem que trazia em um saco de couro, onde a &aacute;gua da chuva<br \/>\n    n&atilde;o pudera penetrar.<\/p>\n<p> Ali mesmo, rendendo-se do enfado da jornada, Louren&ccedil;o, recostado<br \/>\n    na rede, adormeceu. A noite fechada, a chuva, o sil&ecirc;ncio, o ermo convidavam<br \/>\n    ao repouso.<\/p>\n<p> Por volta de oito horas, n&atilde;o obstante estar no melhor do sono, foi<br \/>\n    despertado pelo ladrar do cachorro da casa contra o cavalo. Logo depois ouviu<br \/>\n    uma porta, rumor de algu&eacute;m que sa&iacute;a, e as palavras seguintes:<br \/>\n    <br \/>\n    N&atilde;o me demoro, n&atilde;o. Vou levar a Joaninha esta tigela de <em>mucunz&aacute;<\/em><br \/>\n    para ela cear, e dizer-lhe que eu venho hoje fazer companhia a voc&ecirc;.<\/p>\n<p> Compreendeu Louren&ccedil;o que a mulher era dali mesmo das vizinhan&ccedil;as,<br \/>\n    e viera ajudar a moradora no servi&ccedil;o da ca&ccedil;ula. E como levantara<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, deram seus olhos com a suave claridade no alpendre. Era produzida<br \/>\n    por um fogo que havia sido feito n&atilde;o muito distante da rede onde ele<br \/>\n    estava.<\/p>\n<p> Esta fineza com que ele n&atilde;o contara, deu-lhe grande satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Boa gente &eacute; a desta casa, disse, levantando-se para ati&ccedil;ar<br \/>\n    o fogo, e ver o cavalo que, com os latidos do c&atilde;o, se afastara um pouco<br \/>\n    da gameleira. Pois n&atilde;o me pareceu assim, quando cheguei logo.<\/p>\n<p> Fizera-se uma estiada, o que permitiu a Louren&ccedil;o ir sem repugn&acirc;ncia<br \/>\n    at&eacute; o lugar onde estava o cavalo, que ele tocou para junto do alpendre.<\/p>\n<p> J&aacute; ia sentar-se novamente na rede, a fim de retomar o sono do ponto<br \/>\n    em que fora interrompido, quando enxergou, &agrave; claridade do fogo, um<br \/>\n    vulto que se encaminhava para o seu lado. Era a dona da casinha. Mostrava-se<br \/>\n    cautelosa, olhando para um lado e para o outro.<\/p>\n<p> Quando n&atilde;o faltavam sen&atilde;o alguns passos, Louren&ccedil;o quis<br \/>\n    levantar-se; mas antes que se pusesse de p&eacute;, a rapariga estava sentada<br \/>\n    com ele na rede, apertava-o entre os bra&ccedil;os com frenesi de alucinada.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o, Louren&ccedil;o, voc&ecirc; n&atilde;o me conhece? perguntou<br \/>\n    ela em voz baixa.<\/p>\n<p> Estou reconhecendo a sua voz disse o rapaz, tomando posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    conveniente para ver o rosto da rapariga.<\/p>\n<p> Sou Bernardina, disse ela.<\/p>\n<p> Bernardina! Bernardina! exclamou Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, afirmando a vista, reconheceu, de feito, com indescrit&iacute;vel<br \/>\n    prazer, a filha de Vitorino que fora raptada por Tunda-Cumbe, por ocasi&atilde;o<br \/>\n    do ataque contra o engenho.<\/p>\n<p> Bernardina n&atilde;o parecia a mesma que estivera de tarde na ca&ccedil;ula,<br \/>\n    com a outra mulher. Substitu&iacute;ra a saia caseira por um vestido de chita<br \/>\n    impregnado dos cheiros do <em>coradouro<\/em> campestre. Entre os cabelos anelados,<br \/>\n    que o pente alisara momentos antes, um galhinho de alecrim recendia suav&iacute;ssimo<br \/>\n    aroma. As faces estavam animadas de irradia&ccedil;&atilde;o r&oacute;sea;<br \/>\n    os bra&ccedil;os e as esp&aacute;duas acusavam recente ablu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m diria, em presen&ccedil;a daquele asseio modesto, &uacute;nico<br \/>\n    talvez ao alcance da pobre, ningu&eacute;m diria que o suor do trabalho umedecera,<br \/>\n    algumas horas atr&aacute;s, pele t&atilde;o fresca e limpa. O que &agrave;<br \/>\n    primeira vista se adivinhava, era que a galante cachopa havia posto particular<br \/>\n    cuidado em aparecer sem vexame ao seu camarada da meninice.<\/p>\n<p> Meu Deus! continuou ele. Como s&atilde;o as coisas! Quem havia de dizer<br \/>\n    que eu teria hoje este encontro? Eu bem ouvi cantar, um pouco antes de chegar<br \/>\n    a este lugar, um pitiguari no olho de um catol&eacute;.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade disse ela. Eu reconheci voc&ecirc;, logo que o vi chegar<br \/>\n    &agrave; janela, ainda que voc&ecirc; est&aacute; muito diferente. Est&aacute;<br \/>\n    um mo&ccedil;o alto, e bonito de fazer a gente ter oura de gosto de v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Mas por que se escondeu de mim? Por que fugiu t&atilde;o depressa, tanto<br \/>\n    que a n&atilde;o pude ver sen&atilde;o pelas costas, e por isso n&atilde;o<br \/>\n    pude saber que era voc&ecirc;? <br \/>\n    Fugi para lhe poder falar mais tarde. Se eu me desse logo a conhecer &agrave;<br \/>\n    vista da mulher que saiu daqui h&aacute; pouco, ela n&atilde;o nos deixava<br \/>\n    s&oacute;s, e eu n&atilde;o podia abrir-lhe o meu cora&ccedil;&atilde;o, como<br \/>\n    estou fazendo. Ela &eacute; uma boa mulher, mas n&atilde;o havia de consentir<br \/>\n    que os avist&aacute;ssemos, nem eu quero que ela saiba da minha vida.<\/p>\n<p> E o que faz voc&ecirc; por estas alturas, Bernardina? <br \/>\n    Ora! Foi a minha desgra&ccedil;a. Mas por que n&atilde;o se deita como estava<br \/>\n    ainda h&aacute; pouco? Deitemo-nos, para n&atilde;o parecer que est&atilde;o<br \/>\n    aqui duas pessoas. Meta o seu bra&ccedil;o por debaixo do meu pesco&ccedil;o.<br \/>\n    Falaremos baixinho. Direi assim tudo que lhe quero dizer. Voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    sabe como estou satisfeita com a sua presen&ccedil;a. N&atilde;o tenha vergonha<br \/>\n    de mim. Fa&ccedil;a de conta que ainda somos meninos.<\/p>\n<p> A rapariga foi a primeira a deitar-se transversalmente na rede: o rapaz<br \/>\n    imitou-a. Os seus h&aacute;litos se confundiram. Os negros cabelos de Bernardina<br \/>\n    espalharam-se, em ondas, voluptuosas, pelas faces n&eacute;dias e afogueadas<br \/>\n    de Louren&ccedil;o, que parecia estar numa fascina&ccedil;&atilde;o parva.<\/p>\n<p> Perto da rede jazia atirado um tronco seco destinado ao fogo. Bernardina,<br \/>\n    tomada de frenesi irresist&iacute;vel, alcan&ccedil;ou com a ponta do p&eacute;<br \/>\n    a cabe&ccedil;a do tronco, e firmando-se nela, deu balan&ccedil;o &agrave;<br \/>\n    rede. Caiu-lhe ent&atilde;o a chinela e com o movimento enfunou-se-lhe parte<br \/>\n    da saia arrendada, aparecendo, com uma tenta&ccedil;&atilde;o, o p&eacute;<br \/>\n    pequenino e metade da perna de perfei&ccedil;&atilde;o incompar&aacute;vel.<\/p>\n<p> Mas Bernardina n&atilde;o atentou no seu estado. Era outra a ordem de id&eacute;ias<br \/>\n    que lhe andava no c&eacute;rebro. Fervilhava-lhe a&iacute; a serpente do remorso<br \/>\n    e da saudade.<\/p>\n<p> Quando eu n&atilde;o quis falar com voc&ecirc; diante daquela mulher foi<br \/>\n    justamente porque os meus segredos n&atilde;o eram para ela ouvir. Mas antes<br \/>\n    de tudo, n&atilde;o se demore; d&ecirc;-me not&iacute;cias dos meus. Minha<br \/>\n    m&atilde;e e Marianinha como est&atilde;o? H&aacute; quase dois anos que as<br \/>\n    n&atilde;o vejo. S&oacute; Deus sabe a minha dor, as l&aacute;grimas que tenho<br \/>\n    derramado, longe dos meus, com saudades deles.<\/p>\n<p> Elas est&atilde;o boas, Bernardina.<\/p>\n<p> N&atilde;o houve nenhuma novidade? <br \/>\n    Houve somente a morte de seu pai.<\/p>\n<p> Desta j&aacute; soube. Meu pai era t&atilde;o bom para mim! <br \/>\n    Mas que vida &eacute; a sua, Bernardina? <br \/>\n    N&atilde;o me fale, n&atilde;o me fale, Louren&ccedil;o. Nem sei como me deixei<br \/>\n    desgra&ccedil;ar, em vez de morrer; antes tivesse morrido. L&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    souberam como eu fui roubada por seu Tunda-Cumbe, quando entraram com ele<br \/>\n    no engenho os malvados que lhe d&atilde;o for&ccedil;a para fazer tudo o que<br \/>\n    lhe vem &agrave;s ventas? <br \/>\n    E o que est&aacute; voc&ecirc; fazendo aqui? <br \/>\n    Aqui &eacute; que eu moro. N&atilde;o sabe que este &eacute; o <em>Rancho<br \/>\n    do Cip&oacute;?<\/em> <br \/>\n    Pois aqui &eacute; o <em>Cip&oacute;<\/em>? Aqui &eacute; que o ladr&atilde;o<br \/>\n    do Tunda-Cumbe tem os seus malfeitores? <br \/>\n    Aqui mesmo. A&iacute; adiante na baixada moram eles. S&oacute; eu moro aqui<br \/>\n    com seu Tunda Cumbe, neste deserto por onde n&atilde;o passa ningu&eacute;m,<br \/>\n    com medo de ser atacado e assassinado.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o estava admirado do que ouvia. Nunca pensara em tal.<\/p>\n<p> Eu sou mulher continuou Bernardina; mas assim mesmo, n&atilde;o tenho medo<br \/>\n    dele nem dos malfeitores; e mais de uma vez tenho feito ten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de deixar este degredo, d&ecirc; no que der.<\/p>\n<p> Pois este &eacute; o falado rancho do Cip&oacute;! inquiriu Louren&ccedil;o<br \/>\n    pela segunda vez, parecendo n&atilde;o ter o seu pensamento preso a assunto<br \/>\n    diferente, ou fingindo-se alheio do que na realidade pusera alerta todos os<br \/>\n    seus sentidos. Ah! &eacute; verdade. Eu vi, quando vinha, as tais casinhas<br \/>\n    l&aacute; embaixo. Em boas estou metido. Venho fugindo do malvado, e caio<br \/>\n    dentro do seu <em>giqui.<\/em> <br \/>\n    Em poucas palavras referiu Louren&ccedil;o os acontecimentos em que andara<br \/>\n    envolvido de manh&atilde;, a luta com o Tunda-Cumbe, o juramento que este<br \/>\n    fizera de vingar-se dele, enfim, as circunst&acirc;ncias que davam a sua posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    atual um car&aacute;ter melindroso, pelos muitos perigos que o cercavam.<\/p>\n<p> Para um homem da sua coragem, Louren&ccedil;o, n&atilde;o h&aacute; perigos,<br \/>\n    disse Bernardina. Eu tenho tanta confian&ccedil;a em voc&ecirc; que, se voc&ecirc;<br \/>\n    quisesse tirar-me daqui, eu n&atilde;o punha a menor d&uacute;vida.<\/p>\n<p> Dizendo isto, a rapariga ro&ccedil;ava a face pela do rapaz, que, embriagado<br \/>\n    e ofegante, devorava com os olhos acesos em estranho anelo aquela imagem provocadora.<\/p>\n<p> Voc&ecirc; diz o que eu tenho no ju&iacute;zo. E fique sabendo que, ainda<br \/>\n    que houvesse de cair, transpassado de balas, ali diante nos atoleiros, eu<br \/>\n    a levava comigo para entrega-la &agrave; sua m&atilde;e. O ajuste de contas<br \/>\n    com o ladr&atilde;o do <em>marinheiro<\/em> se n&atilde;o pudesse ser antes,<br \/>\n    ficaria para depois. O principal era tirar voc&ecirc; do poder dele, que &eacute;<br \/>\n    um ladr&atilde;o muito desaforado.<\/p>\n<p> Que est&aacute; dizendo? Pois voc&ecirc; tem esta id&eacute;ia? N&atilde;o<br \/>\n    sei como agradecer a Deus esta merc&ecirc;.<\/p>\n<p> Mas, presentemente, Bernardina observou o rapaz, pegando-lhe de uma das<br \/>\n    m&atilde;os eu n&atilde;o a procurava. Nos primeiros tempos da sua aus&ecirc;ncia<br \/>\n    , andei com Saturnino pelos matos a ver se a achava; n&atilde;o foi uma nem<br \/>\n    duas vezes que fizemos isto, foram muitas que n&atilde;o tem conta; e se nunca<br \/>\n    viemos ao rancho do Cip&oacute;, foi porque nunca pensamos que o Tunda-Cumbe<br \/>\n    a tivesse trazido para viver junto dos negros e cabras safados que comp&otilde;em<br \/>\n    a sua quadrilha. Mas desta feita o meu destino ser&aacute; outro.<\/p>\n<p> Eu estou aqui desde que ele me roubou do Bujari. N&atilde;o viu voc&ecirc;<br \/>\n    a mulher que estava comigo e ficou de voltar? &Eacute; a caseira do Pedro<br \/>\n    de Lima, que ele encarregou de me espiar.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o ficou silencioso um instante, como quem refletia.<\/p>\n<p> Agora, disse depois, a ocasi&atilde;o n&atilde;o &eacute; das melhores para<br \/>\n    ir comigo, porque n&atilde;o vou para o Cajueiro, vou at&eacute; fugindo dele.<\/p>\n<p> N&atilde;o me diga isso, Louren&ccedil;o, tornou Bernardina pesarosa. N&atilde;o<br \/>\n    o deixarei sair sem me levar em sua companhia. Ainda que v&aacute; para o<br \/>\n    inferno, irei com voc&ecirc;, porque t&atilde;o cedo n&atilde;o se h&aacute;<br \/>\n    de oferecer outra ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p> Depois de novo instante de sil&ecirc;ncio, disse o rapaz: <br \/>\n    Quer tomar um conselho? Deixe-me ir primeiro aonde tenho de ir, a Tracunha&eacute;m,<br \/>\n    a ver se d&aacute; algum jeito para livrar-se da pris&atilde;o seu Cosme Bezerra<br \/>\n    e os irm&atilde;os. Na volta passarei outra vez por aqui, e ent&atilde;o voc&ecirc;<br \/>\n    ir&aacute; comigo.<\/p>\n<p> Ora, Louren&ccedil;o! disse a rapariga ainda mais magoada. Voc&ecirc; est&aacute;<br \/>\n    com isso para se livrar de mim. Sou uma desgra&ccedil;ada.<\/p>\n<p> Os olhos da gentil matuta, h&aacute; pouco t&atilde;o cheios de alegres<br \/>\n    brilhos, inundaram-se de tristeza e l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o reparando na mudan&ccedil;a, sentiu-se comovido.<\/p>\n<p> Para consolar a mo&ccedil;a, apertou-a contra o cora&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    ternura e meiguice infantil.<\/p>\n<p> Para que diz isso de mim, Bernardina? Voc&ecirc; bem me conhece, e sabe<br \/>\n    que eu n&atilde;o sou de prometer uma coisa e fazer outra.<\/p>\n<p> Nisto o c&atilde;o, que h&aacute; pouco ladrara, come&ccedil;ou a ladrar<br \/>\n    de novo. Ouvindo os latidos, Bernardina sentou-se na rede.<\/p>\n<p> &Eacute; sinh&aacute; Manuela que volta. N&atilde;o posso mais demorar-me.<\/p>\n<p> Talvez n&atilde;o seja ela. Fique ainda um instantinho s&oacute;, Bernardina.<\/p>\n<p> N&atilde;o; adeus. Se n&atilde;o nos virmos mais, leve este abra&ccedil;o<br \/>\n    para mam&atilde;e, e este outro para Marianinha.<\/p>\n<p> Assim falando, a rapariga, de p&eacute;, inclinada sobre a rede, suspendeu<br \/>\n    e apertou por duas vezes o rapaz aos seios em quantas for&ccedil;as tinha.<\/p>\n<p> Este agora &eacute; o seu disse por fim.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o, que estava j&aacute; tamb&eacute;m de p&eacute;, foi o<br \/>\n    primeiro a tomar ente os bra&ccedil;os Bernardina, cujas formas, com o ardente<br \/>\n    contato da despedida, lhe deixara no corpo deleitoso quebranto.<\/p>\n<p> Dou-lhe este abra&ccedil;o, para que voc&ecirc; n&atilde;o se esque&ccedil;a<br \/>\n    de mim.<\/p>\n<p> Foram estas as suas palavras. Correu para dentro rapidamente e desapareceu.<\/p>\n<p> Pouca era j&aacute; a claridade espalhada no alpendre. A fogueira estava<br \/>\n    extinta. O frio da noite invadia o informe aposento. Louren&ccedil;o, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o precisava de calor extremo para se sentir aquecido. Tinha o fogo<br \/>\n    interior, o fogo das paix&otilde;es, o fogo dos dezoito anos que as prova&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    quase ing&ecirc;nuas de Bernardina, t&atilde;o mo&ccedil;a como ele, haviam<br \/>\n    deixado no maior grau de intensidade. <\/p>\n<h2><a name=\"9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/h2>\n<p>Os bra&ccedil;os de Bernardina, antes irresist&iacute;vel manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de estima e contentamento sem mal&iacute;cia, do que ind&iacute;cio de paix&atilde;o<br \/>\n    desonesta como se pode afigurar ao leitor menos entendido na singeleza dos<br \/>\n    costumes do campo, deixaram Louren&ccedil;o num estado de excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nervosa que n&atilde;o revelava a mesma simplicidade, nem o mesmo puro incentivo.<br \/>\n    De feito, Louren&ccedil;o via as coisas por outro lado. Das duas filhas do<br \/>\n    finado Vitorino, fora sempre Bernardina a que, por muito sa&iacute;da, merecera<br \/>\n    a sua particular aten&ccedil;&atilde;o. Demais, havendo tantos meses que n&atilde;o<br \/>\n    a via, o vulto da sedutora rapariga teve para ele, com o tom misterioso que<br \/>\n    lhe davam as condi&ccedil;&otilde;es da atualidade, o encanto das vis&otilde;es<br \/>\n    inesperadas, frescas e gentis, dessas que matizam os sonhos apaixonados da<br \/>\n    juventude. Bernardina, na fantasia estreita de Louren&ccedil;o, limitada aos<br \/>\n    horizontes dos bosques, dos rios, dos engenhos, das &aacute;speras jornadas<br \/>\n    e dos sambas rudes, surgira como a estrela boeira nas madrugadas de ver&atilde;o.<br \/>\n    A rapariga iluminara-se com o fogo dos dezoito anos, cujo reflexo revelava<br \/>\n    nos olhos o calor da alma. N&atilde;o obstante a vida, n&atilde;o raro orvalhada<br \/>\n    de l&aacute;grimas, que ela arrastava na solid&atilde;o agreste da sua desgra&ccedil;a,<br \/>\n    tinha o seu corpo ganhado formas esbeltas, as suas fei&ccedil;&otilde;es distinta<br \/>\n    vivacidade. Ao clar&atilde;o da fogueira, vira ele nesse vulto de natural<br \/>\n    eleg&acirc;ncia o quer que fosse que lhe descobriu novos mundos at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o perdidos na vacuidade do seu esp&iacute;rito mais positivo que<br \/>\n    sonhador.<\/p>\n<p> Depois que Joaquina fora morar junto de Marcelina, e para assim dizer &agrave;<br \/>\n    sua sombra, quase todos os dias ofereciam-se ensejos de Louren&ccedil;o conversar<br \/>\n    a s&oacute;s com Marianinha, impressionar-se da sua beleza fresca e r&oacute;sea,<br \/>\n    e comover-se da brandura do seu natural. Muitas provas de estima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dava-lhe a filha mais nova de Joaquina e ele, se bem que n&atilde;o se havia<br \/>\n    entregado inteiramente a este amor, porque a juventude raras vezes se deixa<br \/>\n    cativar das paix&otilde;es modestas, da ternura passada ainda que pura e imensa,<br \/>\n    sentia j&aacute; por Marianinha doce afei&ccedil;&atilde;o, que come&ccedil;ava<br \/>\n    a encher-lhe o cora&ccedil;&atilde;o como o aroma do manac&aacute; silvestre<br \/>\n    povoa as ab&oacute;badas formadas pelas ingazeiras nas margens dos rios.<\/p>\n<p> Ainda na manh&atilde; daquele dia, depois da cena de dor e prantos a que<br \/>\n    assistiu na sala do engenho, quando Louren&ccedil;o desceu &agrave; cavalari&ccedil;a,<br \/>\n    seguiu atr&aacute;s dele Marianinha trazendo os olhos arrasados de l&aacute;grimas;<br \/>\n    era a dor da separa&ccedil;&atilde;o que lhe arrancava aos sentimentos aquela<br \/>\n    triste homenagem.<\/p>\n<p> &ldquo; Louren&ccedil;o, Louren&ccedil;o perguntara ela voc&ecirc; se esquecer&aacute;<br \/>\n    de mim? <br \/>\n    &ldquo; N&atilde;o me esque&ccedil;o, n&atilde;o, Marianinha. Olhe, quando<br \/>\n    n&atilde;o esperar por mim, h&aacute; de ver-me bem juntinho de voc&ecirc;,<br \/>\n    de todos de casa.<\/p>\n<p> &ldquo; Eu n&atilde;o deixarei nunca de esperar por voc&ecirc;; esperarei<br \/>\n    sempre, de dia e de noite, a todo momento. N&atilde;o se ocupa com ningu&eacute;m,<br \/>\n    sen&atilde;o com voc&ecirc;, a minha lembran&ccedil;a, a minha imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Quando o rapaz estava para tomar o cavalo, Marianinha aproximou-se, cada<br \/>\n    vez mais comovida.<\/p>\n<p> &ldquo; Tome esta ora&ccedil;&atilde;o. Ela serve para voc&ecirc; se lembrar<br \/>\n    de mim, e para o livrar dos perigos.<\/p>\n<p> Era uma ora&ccedil;&atilde;o prodigiosa, um <em>breve<\/em>, cosido dentro<br \/>\n    de um saquinho de cetim, e preso a um ros&aacute;rio de contas t&atilde;o<br \/>\n    l&iacute;mpidas como as l&aacute;grimas que se deslizavam pelas faces da mo&ccedil;oila.<\/p>\n<p> &ldquo; Reze todas as noites, e todas as manh&atilde;s, a Nossa Senhora<br \/>\n    do Ros&aacute;rio esta coroa. Ela h&aacute; de protege-lo.<\/p>\n<p> Com as pr&oacute;prias m&atilde;os, hesitantes e tr&ecirc;mulas pela como&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a filha de Vitorino lan&ccedil;ara ao pesco&ccedil;o do rapaz o talism&atilde;<br \/>\n    popular misto de fetichismo e catolicismo, t&atilde;o conhecido das gentes<br \/>\n    do campo. Louren&ccedil;o agradeceu-lhe a lembran&ccedil;a, o presente da<br \/>\n    despedida, e, para retribuir a fineza, apertou a rapariga ao peito, com vontade<br \/>\n    de a levar ao sert&atilde;o, ao deserto, ao desconhecido, onde necessariamente<br \/>\n    devia precisar de uma companhia, ou antes de uma companheira que suavizasse<br \/>\n    os rigores da peregrina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> As despedidas exercem grande influ&ecirc;ncia na vida. Durante a jornada,<br \/>\n    Louren&ccedil;o s&oacute; pensava em Marianinha, chorosa e meiga por ocasi&atilde;o<br \/>\n    de lhe entregar o ros&aacute;rio e o brevezinho. N&atilde;o foi uma nem duas<br \/>\n    vezes que teve vontade de chorar de saudade lembrando-se da menina, da m&atilde;e,<br \/>\n    do engenho, lembrando-se de tudo o que deixara, e que n&atilde;o sabia quando<br \/>\n    havia de tornar a ver. Foi assim, enternecido por lembran&ccedil;a t&atilde;o<br \/>\n    grata e comovente, que ele chegou ao rancho do Cip&oacute;.<\/p>\n<p> Mas Bernardina, aparecendo-lhe de improviso com uma alma benfazeja, filha<br \/>\n    do mato, criada na solid&atilde;o, uma alma nova, n&atilde;o obstante ser<br \/>\n    sua conhecida da inf&acirc;ncia, aparecendo-lhe assim, quando ele menos esperava,<br \/>\n    ente uma fogueira s&iacute;mbolo da paix&atilde;o, e uma rede s&iacute;mbolo<br \/>\n    do gozo, por uma noite de inverno esta&ccedil;&atilde;o prop&iacute;cia ao<br \/>\n    aconchego, e sem outras testemunhas que os elementos mudos posto que trai&ccedil;oeiros<br \/>\n    e irritantes, apagou com a sua imagem, rica de est&iacute;mulos sensuais,<br \/>\n    a doce cena de amor inocente em que se deixara entrever a irm&atilde; com<br \/>\n    o recato da alma c&acirc;ndida, como apaga o pintor com o pincel ensopado<br \/>\n    em tintas vivas, brancas virgens retratadas em quadros ainda mais branco que<br \/>\n    elas.<\/p>\n<p> Depois de um instante de vacila&ccedil;&atilde;o, o rapaz correu em busca<br \/>\n    da fugitiva mo&ccedil;a. Esta j&aacute; estava dentro da casa fazendo que<br \/>\n    repousava. Nem sombra restava de t&atilde;o encantadora vis&atilde;o. Afigurou-se<br \/>\n    a Louren&ccedil;o um momento ter-lhe ido a vida com ela. Fora um enganoso<br \/>\n    ego&iacute;smo que o provocara, que o exacerbara, e que o havia esquecido,<br \/>\n    fugindo rapidamente quando ele mais desejava t&ecirc;-la unido ao peito. Levara<br \/>\n    consigo todas as formas da sedu&ccedil;&atilde;o; todas? N&atilde;o; uma tinha<br \/>\n    ficado no alpendre, talvez contra a vontade daquela tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    revestida em contornos ondulantes como os das serpentes: era o galhinho de<br \/>\n    alecrim que Bernardina trouxera entre os cachos do cabelo.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o achou-o pouco antes da porta, no ch&atilde;o, e reconhecendo-o,<br \/>\n    apanhou-o, aspirou-lhe o brando cheiro, e meteu-o entre a camisa e o corpo.<br \/>\n    Penetrando a&iacute;, a sua m&atilde;o tocou involuntariamente em outro objeto<br \/>\n    que lhe veio imediatamente &agrave; lembran&ccedil;a o talism&atilde; que<br \/>\n    lhe dera Marianinha, o qual, pendente do ros&aacute;rio, nadava sobre o peito<br \/>\n    do rapaz. Louren&ccedil;o estremeceu, sentindo o contato do <em>breve<\/em>;<br \/>\n    e seria capaz de afirmar que as paix&otilde;es que se lhe haviam mitigado<br \/>\n    repentinamente com esse contato. Toda a id&eacute;ia que tinha de for&ccedil;ar<br \/>\n    a fr&aacute;gil porta da palho&ccedil;a varreu-se-lhe do esp&iacute;rito.<br \/>\n    Poderoso cord&atilde;o aquele, Marianinha, aquele que deste a Louren&ccedil;o!<br \/>\n    Poderoso porque lhe acalmou por um instante os ardores infrenes que o atiravam<br \/>\n    para imprevistos abismos, poderoso, porque o fez volver &agrave; rede, quando<br \/>\n    j&aacute; ia passando de tempo. De fato, n&atilde;o se meteu um momento, que<br \/>\n    atravessou o terreiro, encaminhando-se &agrave; porta, que abriu, uma sombra<br \/>\n    em que Louren&ccedil;o reconheceu a grosseira Manuela.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o n&atilde;o dormiu mais. Em seu esp&iacute;rito travou-se<br \/>\n    ent&atilde;o uma luta fratricida a luta das duas irm&atilde;s uma que ressurgira<br \/>\n    depois de apagada, outra que perdera metade da sua grande for&ccedil;a, logo<br \/>\n    que se achou defronte da primeira.<\/p>\n<p> Que seria dele, solicitado por duas atra&ccedil;&otilde;es iguais? Ficou<br \/>\n    sem dar um passo nem para um lado nem para outro. Tinha a in&eacute;rcia de<br \/>\n    um corpo pequeno entre dois maiores de igual grandeza. Mas se a vontade ca&iacute;ra<br \/>\n    nessa indecis&atilde;o passiva, indecis&atilde;o da crian&ccedil;a, que, vendo<br \/>\n    ao alcance dois quadros sedutores, n&atilde;o sabe por qual deles se h&aacute;<br \/>\n    de decidir, o seu esp&iacute;rito parecia inclin&aacute;-lo para aquela que,<br \/>\n    a poucos passos de dist&acirc;ncia, ouvindo talvez o rumor dos seus movimentos,<br \/>\n    lhe havia despertado no cora&ccedil;&atilde;o alvoro&ccedil;os que se assemelhavam<br \/>\n    a chamas.<\/p>\n<p> Perto do amanhecer a chuva cessou inteiramente. &Agrave; claridade do dia,<br \/>\n    as condi&ccedil;&otilde;es do estado do almocreve modificaram-se consideravelmente.<br \/>\n    A realidade, eri&ccedil;ada de perigos, ressurgiu-lhe de novo aos olhos. Volvendo-os<br \/>\n    &agrave; baixada, avistou l&aacute; a rua de casinhas que lhe avivou a id&eacute;ia<br \/>\n    da quadrilha e do chefe, a que ele ia fugindo. Era tempo de deixar a amea&ccedil;adora<br \/>\n    pousada, por algumas horas t&atilde;o hospedeira e carinhosa.<\/p>\n<p> Mas partir sem ver Bernardina, sem lhe protestar estima recente, cujas ra&iacute;zes<br \/>\n    vinham do passado, sem receber, talvez, na despedida, uma daqueles sorrisos<br \/>\n    feiticeiros que, quando a menina cantava e dan&ccedil;ava nos sambas, deixaram<br \/>\n    tantas vezes cora&ccedil;&otilde;es atravessados de desejos mais agudos que<br \/>\n    pontas de espinho, isto afigurou-se-lhe um tormento, um imposs&iacute;vel.<br \/>\n    Ainda esteve um instante para bater &agrave; janela sob qualquer pretexto;<br \/>\n    mas, receando-se n&atilde;o ter for&ccedil;as para ausentar-se, se a rapariga<br \/>\n    lhe aparecesse, quando a sua salva&ccedil;&atilde;o exigia rapidez no apartamento,<br \/>\n    dominou o desejo, e partiu.<\/p>\n<p> N&atilde;o tinha ainda perdido de vista a casa, quando, ao emparelhar-se<br \/>\n    com umas &aacute;rvores sombrias e fechadas, virando-se para tr&aacute;s,<br \/>\n    viu vir descendo a rua do rancho a mulher que fizera companhia a Bernardina.<br \/>\n    Foi o caso que Manuela, tanto que percebera, pelo rumor das pisadas do cavalo,<br \/>\n    que Louren&ccedil;o deixava a casa, se despediu de Bernardina e encaminhou-se<br \/>\n    &agrave; sua cabana.<\/p>\n<p> Este incidente, com que o rapaz n&atilde;o contava, reacendeu-lhe o desejo<br \/>\n    de voltar. Sobresteve um instante, pensando. As &aacute;rvores ocultavam-no<br \/>\n    inteiramente. Ele podia refletir por quanto tempo quisesse, sem receio de<br \/>\n    ser notada a sua presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Estou quase voltando disse consigo, ao cabo de alguns minutos de reflex&atilde;o.<\/p>\n<p> Pouco depois, tomada a resolu&ccedil;&atilde;o, acrescentou: <br \/>\n    Ora! Aconte&ccedil;a o que acontecer. Para os perigos &eacute; que s&atilde;o<br \/>\n    os homens.<\/p>\n<p> N&atilde;o se demorou mais. Com pouco, estava junto da janela que se abriu<br \/>\n    tanto que ele chegou, para deixar aparecer o rosto da gentil rapariga, mais<br \/>\n    sedutor do que nunca, porque se mostrava agora orvalhado de l&aacute;grimas,<br \/>\n    como as florinhas do campo estavam nadando entre as &aacute;guas da noite.<\/p>\n<p> Eu logo vi que voc&ecirc; n&atilde;o havia de se ir embora de um vez sem<br \/>\n    me dizer adeus, Louren&ccedil;o disse ela, recobrando, com a vista do rapaz,<br \/>\n    o fulgor da sua natural express&atilde;o. Louren&ccedil;o aproximou-se mais,<br \/>\n    e perguntou-lhe &agrave; meia-voz: <br \/>\n    Bernardina, voc&ecirc; ainda est&aacute; no parecer de me acompanhar? <br \/>\n    Como ouvira a voz da sua salva&ccedil;&atilde;o, a rapariga, erguendo-se sobre<br \/>\n    as pontas dos p&eacute;s, inclinou-se para fora, e, estendendo os bra&ccedil;os<br \/>\n    como quem queria prender o almocreve, respondeu num assomo de entrega, filho<br \/>\n    de absoluta confian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Pois ainda pergunta, Louren&ccedil;o? <br \/>\n    Ent&atilde;o venha depressa, antes que chegue algu&eacute;m tornou ele. Eu<br \/>\n    bem sei que vou correr grandes perigos; mas por seu respeito, cometo tudo.<br \/>\n    Que espero mais? Acabemos j&aacute; com isso. O que chegar, chegou. Comigo<br \/>\n    ningu&eacute;m pode.<\/p>\n<p> Em poucos minutos o card&atilde;o passeiro e passarinheiro, que Louren&ccedil;o<br \/>\n    tirara da estrebaria do engenho para se meter na jornada, tomou sobre o dorso<br \/>\n    o rapaz e a rapariga; e n&atilde;o obstante esta dobrada carga, atravessou<br \/>\n    com p&eacute;s seguros os atoleiros, e ganhou outra vez o caminho sem mostrar<br \/>\n    o menor enfado, antes lesto e forte, gra&ccedil;as ao milho que comera de<br \/>\n    noite.<\/p>\n<p> Por toda a parte foram encontrados riachos cheios que se assemelhavam a<br \/>\n    rios, campos inundados que se assemelhavam a lagos, vales que se assemelhavam<br \/>\n    a correntes encachoeiradas, e enfim as provas evidentes do inverno que se<br \/>\n    prolongou em Pernambuco de 1712 a 1713.<\/p>\n<p> Mas Bernardina, na sua qualidade de mulher, tinha &acirc;nimo inexced&iacute;vel.<br \/>\n    A sua organiza&ccedil;&atilde;o parecia de ferro. Nada a fatigava.<\/p>\n<p> Quanto mais se afastavam da col&ocirc;nia de malfeitores, mais animada e<br \/>\n    contente se mostrava a fugitiva.<\/p>\n<p> Estou vendo que voc&ecirc; &eacute; muito forte, Bernardina observou uma<br \/>\n    vez Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Ora! retorquiu ela com disfarce. Neste cortado vou at&eacute; o fim do mundo.<br \/>\n    Estou t&atilde;o contente como voc&ecirc; n&atilde;o avalia. Vou achando tanta<br \/>\n    gra&ccedil;a nos matos que eu aborrecia ainda ontem&#8230; Que bonita manh&atilde;,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; Louren&ccedil;o? Eu vou achando tudo t&atilde;o bonito,<br \/>\n    porque me soltei da pris&atilde;o.<\/p>\n<p> Passados momentos, acrescentou: <br \/>\n    Que prazer vou ter, meu Deus! H&aacute; tanto tempo que n&atilde;o vejo minha<br \/>\n    m&atilde;e e minha irm&atilde;. Chegaremos hoje &agrave; Goiana? <br \/>\n    A Goiana! Pois eu n&atilde;o lhe disse que a nossa viagem n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    para Goiana? Se eu voltasse ao Cajueiro ou a Bujari, era o mesmo que ir meter-me<br \/>\n    na boca da on&ccedil;a.<\/p>\n<p> E para onde vamos n&oacute;s? <br \/>\n    Vamos&#8230; vamos para o sul respondeu Louren&ccedil;o, com voz hesitante. Eu<br \/>\n    estava me lembrando agora mesmo de um lugar onde podemos demorar algum tempo<br \/>\n    sem grande risco. Vou cortando para Jaboat&atilde;o. A&iacute; mora seu Amador,<br \/>\n    irm&atilde;o do defunto Jo&atilde;o da Cunha: Deus se lembre de sua alma.<br \/>\n    Os <em>Camar&otilde;es<\/em> deram-lhe no engenho, e ele, coitado, est&aacute;<br \/>\n    preso no Recife; mas como ningu&eacute;m nos conhece nem a mim, nem a voc&ecirc;<br \/>\n    em Jaboat&atilde;o, podemos ficar a&iacute; mesmo pelo engenho, ou em alguma<br \/>\n    casinha por perto, at&eacute; vermos tudo isto em que d&aacute;.<\/p>\n<p> Ora! disse Bernardina. Estava j&aacute; t&atilde;o satisfeita de ver os<br \/>\n    meus de hoje para amanh&atilde;! <br \/>\n    Mas que lhe parece, Bernardina? N&atilde;o acha que meu plano &eacute; bom?<br \/>\n    <br \/>\n    &Eacute; bom, Louren&ccedil;o. Que havemos de fazer? Para mim, tendo sa&iacute;do<br \/>\n    do poder do Tunda-Cumbe, todo lugar me serve para moradia, enquanto n&atilde;o<br \/>\n    chega ocasi&atilde;o de reunir-me outra vez com minha m&atilde;e.<\/p>\n<p> Muita raiva tem voc&ecirc; do Tunda-Cumbe.<\/p>\n<p> Nem na hora da morte lhe hei de perdoar o que ele me fez contra a minha<br \/>\n    vontade.<\/p>\n<p> E por que voc&ecirc; n&atilde;o fugiu logo? Nunca achou uma ocasi&atilde;o?<br \/>\n    <br \/>\n    Nunca. Nos primeiros tempos, Tunda-Cumbe deixava sempre no rancho muitos espi&otilde;es.<br \/>\n    Eu n&atilde;o era senhora de sair no terreiro sem ser acompanhada. Fui pouco<br \/>\n    a pouco perdendo a esperan&ccedil;a de voltar para a companhia da minha m&atilde;e.<br \/>\n    Al&eacute;m disso, o Tunda-Cumbe disse-me uma vez que ela se tinha mudado<br \/>\n    de Goiana, e estava em outra terra muito distante. Ent&atilde;o tive paci&ecirc;ncia.<br \/>\n    Quando reconheci voc&ecirc; ontem de tarde, Louren&ccedil;o, estava longe<br \/>\n    de cuidar que voc&ecirc; havia de aparecer por estas paragens.<\/p>\n<p> Ele nunca lhe falou em se casar com voc&ecirc;? <br \/>\n    Casar-se comigo? quem? o Tunda-Cumbe? Malvado! depois de ser um parteiro na<br \/>\n    sua terra, e vendedor de peixe c&aacute;, est&aacute; fidalgo. Ele havia de<br \/>\n    casar-se com filha de gente pobre? <br \/>\n    E se houvesse quem o obrigasse a casar com voc&ecirc;, era do seu gosto o<br \/>\n    casamento? <br \/>\n    Eu n&atilde;o quero casar-me com semelhante diabo, renego dele! Quem quiser<br \/>\n    que o tome para si, que eu passo muito bem sem ele. Um diabo que matou meu<br \/>\n    pai! <br \/>\n    Louren&ccedil;o deixou correr um instante em sil&ecirc;ncio, e tornou depois:<br \/>\n    <br \/>\n    E comigo quer casar-se, Bernardina? <br \/>\n    A rapariga, como se n&atilde;o ouvira a pergunta, ou como se fizesse que a<br \/>\n    n&atilde;o ouvira, nada respondeu.<\/p>\n<p> Diga, diga, insistiu Louren&ccedil;o, sentindo r&aacute;pido calafrio a<br \/>\n    percorrer-lhe o corpo.<\/p>\n<p> Pois voc&ecirc; h&aacute; de querer-me para sua mulher, Louren&ccedil;o?<br \/>\n    respondeu ela enfim, a modo de quem via um imposs&iacute;vel na id&eacute;ia<br \/>\n    do rapaz.<\/p>\n<p> Fa&ccedil;a de conta que eu quero, e responda ent&atilde;o, tornou ele,<br \/>\n    cada vez mais empenhado em obter resposta decisiva.<\/p>\n<p> O lugar onde estas coisas se passavam, tinha uma beleza suave, plana e ampla.<br \/>\n    De um e outra banda estendia-se um varjado, coberto de cajueiros novos, mangabeiras<br \/>\n    e ara&ccedil;azeiros bravos. Abaixava-se para o lado do ocidente, mas n&atilde;o<br \/>\n    perdia a sua natural decora&ccedil;&atilde;o. O sol, que nascera havia pouco,<br \/>\n    lan&ccedil;ava sobre a face dessas milhares de &aacute;rvores, quase todas<br \/>\n    do mesmo tamanho, uma neblina de luz, que dando nas gotas de chuva ainda espalhadas<br \/>\n    nas folhas lisas, fazia sair dali uma imensa esteira de reflexos cristalinos.<br \/>\n    Dir-se-ia que a maior prodigalidade conhecida atirara por cima daquele extenso<br \/>\n    arvoredo todos os brilhantes que t&ecirc;m sa&iacute;do das minas do mundo.<br \/>\n    Era uma regi&atilde;o nova, nitente, alegre, fresca, paradis&iacute;aca. Louren&ccedil;o<br \/>\n    parou o cavalo, e voltou-se para encarar a rapariga, que com um dos bra&ccedil;os<br \/>\n    lhe cingia o corpo. Todo o sentimento dos dezoito anos, vivaz como a natureza<br \/>\n    circunstante, havia acordado, ora tr&ecirc;mulo e t&iacute;mido, ora afirmando<br \/>\n    sua pujan&ccedil;a nos impulsos mal refreados. Longe ia a imagem de Marianinha,<br \/>\n    peregrina na vastid&atilde;o daquele mundo, apropriada somente &agrave; vida<br \/>\n    do lar, onde n&atilde;o se querem como&ccedil;&otilde;es vertiginosas, indom&aacute;veis,<br \/>\n    mas mornas como a fam&iacute;lia, despertadas pela ternura, n&atilde;o pela<br \/>\n    paix&atilde;o. Quem Louren&ccedil;o sentia junto dele era a mulher ardente,<br \/>\n    de vigorosas formas, de inebriante contato, mulher que o acompanharia ao cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos sert&otilde;es mais adustos, &agrave;s margens dos rios mais arrebatados,<br \/>\n    aos bra&ccedil;os dos vales mais ingratos, enfim era a mulher que exigia a<br \/>\n    vida do deserto com todas as suas impress&otilde;es mordentes, agudas e atrozes.<\/p>\n<p> Mas a fisiologia humana &eacute; um enigma indecifr&aacute;vel Bernardina,<br \/>\n    ordinariamente desembara&ccedil;ada, guardou sil&ecirc;ncio. A sua m&atilde;o<br \/>\n    esquerda tremia no corpo do cavaleiro. Este, paciente, pegou-lhe da outra<br \/>\n    m&atilde;o, e levou-a aos l&aacute;bios. Em vez de quente, estava resfriada,<br \/>\n    n&atilde;o pela temperatura, sen&atilde;o por sobressalto invenc&iacute;vel.<\/p>\n<p> Diga, Bernardina instou ele. Voc&ecirc; sabe que seus olhos sempre me renderam,<br \/>\n    que sua dan&ccedil;as e cantigas sempre me cativaram.<\/p>\n<p> E porque, ainda com isto, a rapariga continuou tenazmente calada, Louren&ccedil;o<br \/>\n    acrescentou: <br \/>\n    Ora, deixe-se de vergonhas. Ningu&eacute;m nos v&ecirc;, ningu&eacute;m nos<br \/>\n    ouve; estamos s&oacute;s neste deserto, e podemos fazer o que quisermos.<\/p>\n<p> Eu s&oacute; me casava com voc&ecirc;, Louren&ccedil;o, se tivesse a certeza<br \/>\n    de uma coisa.<\/p>\n<p> Que &eacute;? <br \/>\n    S&oacute; me casava se voc&ecirc; jurasse nunca mais voltarmos ao Cajueiro.<\/p>\n<p> Mas por que n&atilde;o havemos de voltar? <br \/>\n    Por qu&ecirc;? Pois voc&ecirc; acha que eu teria cara para aparecer como sua<br \/>\n    mulher diante de minha m&atilde;e e de <\/p>\n<p>Marianinha? Se jura que n&atilde;o havemos de voltar l&aacute; nunca mais,<br \/>\n    ent&atilde;o sim.<\/p>\n<p> No primeiro momento, Louren&ccedil;o n&atilde;o soube o que dizer. Compreendeu<br \/>\n    e achou, al&eacute;m de naturais, muito louv&aacute;veis os escr&uacute;pulos<br \/>\n    da sua camarada de inf&acirc;ncia. Desde pequeno na casa do pai, na de Vitorino,<br \/>\n    nas vizinhan&ccedil;as, o seu casamento com Marianinha considerava-se coisa<br \/>\n    assentada. Francisco afian&ccedil;ara muitas vezes que esta uni&atilde;o havia<br \/>\n    de realizar-se.<\/p>\n<p> Mas logo depois a paix&atilde;o, fustigando-o com mais veem&ecirc;ncia,<br \/>\n    p&ocirc;s-lhe no esp&iacute;rito estas interroga&ccedil;&otilde;es: Por que<br \/>\n    n&atilde;o havia de sujeitar-se &agrave; condi&ccedil;&atilde;o indicada pela<br \/>\n    mo&ccedil;a? Esta condi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o estava t&atilde;o concorde<br \/>\n    com o tempo? N&atilde;o ia ele fugindo bem longe, sem saber quando poderia<br \/>\n    voltar? Marianinha n&atilde;o ficaria solteira, quase certa de n&atilde;o<br \/>\n    ver realizados os seus sonhos? Enfim, o que Bernardina propunha n&atilde;o<br \/>\n    era quase a realidade das coisas, na atualidade? <br \/>\n    O juramento acudiu aos l&aacute;bios do rapaz. Se tomasse para a Para&iacute;ba,<br \/>\n    o Cear&aacute; ou Piau&iacute;, quem saberia mais deles em Goiana? E por que<br \/>\n    n&atilde;o havia de seguir para um desses lugares estranhos e desconhecidos?<br \/>\n    Estava assim ele, como ela, na flor da mocidade; ambos tinham grandes energias<br \/>\n    para o trabalho e a vida; meter-se-iam num retiro ignorado, onde gozariam<br \/>\n    a exist&ecirc;ncia satisfeitos.<\/p>\n<p> O esp&iacute;rito, ou antes o &acirc;nimo de Louren&ccedil;o, oscilava entre<br \/>\n    estas id&eacute;ias de um lado, e aquelas do outro, quando uma lembran&ccedil;a,<br \/>\n    rompendo como fa&iacute;sca el&eacute;trica o nebuloso c&eacute;u do seu c&eacute;rebro,<br \/>\n    o fez empalidecer. Lembrou-se Marcelina e Francisca, seus bons pais, t&atilde;o<br \/>\n    ricos de meiguice para ele. Lembrou-se especialmente de Marcelina no momento<br \/>\n    da despedida, tendo as faces banhadas de l&aacute;grimas, rogando aos santos<br \/>\n    que o protegessem, rogando-lhe que n&atilde;o se esquecesse dela, que esquec&ecirc;-la<br \/>\n    era mat&aacute;-la, n&atilde;o porque precisasse do seu arrimo para viver,<br \/>\n    mas porque, na sua aus&ecirc;ncia, o cora&ccedil;&atilde;o dela ficava sangrando<br \/>\n    de saudades dele, e de sobressalto pela sua conserva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Sa&iacute;ram-lhe imediatamente dos l&aacute;bios estas palavras: <br \/>\n    &mdash; A troco de semelhante coisa, Bernardina, j&aacute; n&atilde;o quero<br \/>\n    aquilo que h&aacute; pouco tanto cobi&ccedil;ava. Deus me livre de n&atilde;o<br \/>\n    acompanhar minha m&atilde;e de perto, a fim de a defender quando ela precisar<br \/>\n    de ter quem a defenda. Ela fez tanto por mim  voc&ecirc; bem sabe<br \/>\n    quando eu era pequeno e estava no mau caminho, que a minha primeira obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; dar por ela a vida, se tanto for preciso.<\/p>\n<p> Ouvindo palavras t&atilde;o consoladoras, Bernardina respirou livremente,<br \/>\n    e sentiu-se aliviada do grande peso que a oprimia; <br \/>\n    &mdash; E pensa voc&ecirc; muito bem. Era isto mesmo o que eu queria e esperava<br \/>\n    que voc&ecirc; dissesse.<\/p>\n<p> &mdash; Mas, observou o rapaz, voltando ao estafado assunto, que tem que<br \/>\n    vamos viver casados no Cajueiro, na mesma harmonia com todos? <br \/>\n    &mdash; Est&aacute; bom, est&aacute; bom; vamos para diante. Logo falaremos<br \/>\n    sobre o que voc&ecirc; prop&otilde;e.<\/p>\n<p> Tinham ele descido o declive da plan&iacute;cie, e estavam perto do rio<br \/>\n    Tracunha&eacute;m. No lugar onde iam, o rio apenas se dava a perceber pelo<br \/>\n    medonho fragor das &aacute;guas. Se n&atilde;o fora este, ainda que por ali<br \/>\n    se notavam pedras espelhadas, ningu&eacute;m diria que o tinha a poucos passos<br \/>\n    de dist&acirc;ncia mais embaixo. Ficava encoberto por uma orla de &aacute;rvores<br \/>\n    espessas de cujos galhos ca&iacute;am largos panos de samambaia a que um poeta<br \/>\n    chamaria barbas ou guedelhas daqueles monges seculares. De um e de outro lado<br \/>\n    apareciam p&eacute;s de manac&aacute;, de cujos ramos pareciam namorar a manh&atilde;<br \/>\n    as flores ora roxas. ora brancas, que lhe matizavam a copa.<\/p>\n<p> O cavalo deu alguns passos, e atravessando, por uma lamacenta trilha, a<br \/>\n    r&uacute;stica paragem, achou-se quase de repente &agrave; beira do Tracunha&eacute;m.<br \/>\n    Do embastido passara ao descampado.<\/p>\n<p> Descobriram ent&atilde;o os dois fugitivos na vasta margem, em sua maior<br \/>\n    parte alagada, tr&ecirc;s sujeitos armados. Haviam eles passado o rio pouco<br \/>\n    antes, e estavam apertando as cilhas das selas, e experimentando os loros,<br \/>\n    como quem se aparelhava para apostar carreira. Do outro lado, seis <em>tangerinos<\/em><br \/>\n    tocavam para dentro da &aacute;gua uma boiada, passante talvez de cem cabe&ccedil;as.<\/p>\n<p> &mdash; Meu Deus! disse baixinho Bernardina, tomada de sobressalto, e buscando<br \/>\n    o mais poss&iacute;vel esconder o rosto por tr&aacute;s do corpo de Louren&ccedil;o.<br \/>\n    Que homens ser&atilde;o esses? <br \/>\n    &mdash; Se n&atilde;o me engano, Bernardina, vamos ter caldo derramado; quem<br \/>\n    est&aacute; ali &eacute; Pedro de Lima, Manoel Hil&aacute;rio e Chico Andorinha.<br \/>\n    Mas voc&ecirc; n&atilde;o esmore&ccedil;a, que &eacute; pior.<\/p>\n<p> A rapariga quase cai do cavalo abaixo, tamanho foi o terror que estas palavras<br \/>\n    lhe causaram; mas Louren&ccedil;o, depois de lhe dirigir outras palavras de<br \/>\n    anima&ccedil;&atilde;o, seguiu adiante na marcha que ia.<\/p>\n<p> &mdash; Louren&ccedil;o, pelo amor de Deus, voltemos.<\/p>\n<p> O rapaz j&aacute; n&atilde;o tinha ouvidos para rogativas. Todos os seus<br \/>\n    esp&iacute;ritos estavam concentrados em um ponto  o grupo dos malfeitores.<\/p>\n<p> Logo que Pedro Lima reconheceu Louren&ccedil;o, voltou-se para os companheiros,<br \/>\n    e disse-lhes: <br \/>\n    &mdash; Chegou a hora de tirar uma desforra deste p&eacute;-rapado. Meto-lhe<br \/>\n    a peia e tomo a camarada.<\/p>\n<p> Assim falando, o cabra, que j&aacute; sabia de quanto o almocreve era capaz,<br \/>\n    em vez de pegar a peia a que se referiu, segurou o bacamarte e examinou com<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o se a escova estava enxuta.<\/p>\n<p> A esse tempo achavam-se os inimigos a dez passos de dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p> &mdash; Tire j&aacute; o chap&eacute;u e apeie-se para passar por baixo<br \/>\n    da barriga do meu cavalo, p&eacute;-rapado de borra  gritou o bandido,<br \/>\n    pondo as pernas ao cavalo, e indo esbarrar com viol&ecirc;ncia e arrog&acirc;ncia<br \/>\n    em frente de Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> &mdash; Tu n&atilde;o sabes com quem est&aacute; falando, cabra ruim. Era<br \/>\n    preciso que eu me chamasse Pedro de Lima, que j&aacute; apanhou com uma bainha<br \/>\n    de parna&iacute;ba na cara, ou Manoel Gon&ccedil;alves, que j&aacute; levou<br \/>\n    <em>Tunda<\/em> da m&atilde;o de escravos no engenho <em>Cumbe<\/em>, para cobrar<br \/>\n    esta a&ccedil;&atilde;o de negro cambado.<\/p>\n<p> Pedro de Lima n&atilde;o esperou por mais nada; levantou com a m&atilde;o<br \/>\n    direita o bacamarte at&eacute; a altura dos peitos de Louren&ccedil;o, e amea&ccedil;ando-o<br \/>\n    com uma tabica que trazia na outra m&atilde;o, replicou alvoro&ccedil;ado:<br \/>\n    <br \/>\n    &mdash; Se queres morrer, patife, repete o que a&iacute; disseste.<\/p>\n<p> &mdash; Negro, eu te direi j&aacute; com quem &eacute; que est&aacute;s<br \/>\n    metido.<\/p>\n<p> Firmando-se nas cordas da cangalha em que se estribava, Louren&ccedil;o<br \/>\n    deu um salto para agarrar Pedro de Lima, e com a m&atilde;o procurou tomar-lhe<br \/>\n    o bacamarte. A esse tempo um tiro soou, e o card&atilde;o, em que se empregara<br \/>\n    toda a carga da arma do bandido, rolou por terra em sangue, estrebuchando.<\/p>\n<p> Imediatamente Louren&ccedil;o voltou-se, temendo que debaixo do cavalo agonizante<br \/>\n    ficasse Bernardina. Pode ver ent&atilde;o que um dos companheiros de Pedro<br \/>\n    de Lima tinha agarrado a rapariga pelos bra&ccedil;os, e afastava-a do lugar<br \/>\n    da luta com quem queria p&ocirc;-la a salvo de qualquer golpe perdido.<\/p>\n<p> Quando encarou novamente Pedro de Lima, estava este desmontado, e tinha<br \/>\n    uma espada de ponta direita na m&atilde;o. O bacamarte descarregado pedia-lhe<br \/>\n    a tiracolo, pela correia. A seu lado estava tamb&eacute;m armado com uma catana<br \/>\n    Manoel Hil&aacute;rio, mameluco refor&ccedil;ado, cuja cara por si s&oacute;<br \/>\n    era uma provoca&ccedil;&atilde;o de meter medo. Ambos os malfeitores ca&iacute;ram<br \/>\n    imediatamente sobre o rapaz decididos a faz&ecirc;-lo em postas.<\/p>\n<p> Pedro de Lima n&atilde;o era fraco, Manoel Hil&aacute;rio era assassino<br \/>\n    de profiss&atilde;o. Louren&ccedil;o era a coragem e a for&ccedil;a no mais<br \/>\n    alto grau. &Agrave; vista dos outros, poder-se-ia dizer dele que era uma crian&ccedil;a.<br \/>\n    As suas fei&ccedil;&otilde;es corretas e finas, a cor branca que mais parecia<br \/>\n    indicar sentimento de paz e &iacute;ndole branda, a juventude, fase da exist&ecirc;ncia<br \/>\n    em que se desconhecem ainda os recursos que a experi&ecirc;ncia e o traquejo<br \/>\n    do mundo sugerem e aperfei&ccedil;oam deviam torn&aacute;-lo inferior na luta<br \/>\n    de vida e morte com os dois malvados, mais velhos que ele, mais experimentas<br \/>\n    e inteiramente familiarizados com o sangue humano pelo assassinato. Quem os<br \/>\n    visse antes de travada a briga assombrosa, pouco daria pelo jovem, tudo pelos<br \/>\n    maduros matadores; mas em pouco tempo de assist&ecirc;ncia e observa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    coisa diversa se lhe afiguraria; porque a intrepidez e a temeridade, a energia<br \/>\n    muscular, a agilidade mais flex&iacute;vel postas em a&ccedil;&atilde;o por<br \/>\n    Louren&ccedil;o lhe davam inquestion&aacute;vel superioridade sobre os dois<br \/>\n    contendores, ainda que apostados a destru&iacute;-lo e aniquil&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Como conhecessem, logo nos primeiros golpes com que Louren&ccedil;o respondeu<br \/>\n    aos deles, a sua incompar&aacute;vel habilidade no manejo da arma branca,<br \/>\n    trataram de met&ecirc;-lo entre eles dois; Louren&ccedil;o, por&eacute;m,<br \/>\n    alcan&ccedil;ando a estrat&eacute;gia, encostou-se ao tronco de uma ingazeira,<br \/>\n    conseguindo por este meio impedir que qualquer deles o pudesse atacar pelas<br \/>\n    costas, fito principal de Pedro Lima.<\/p>\n<p> A luta prolongar-se-ia por mais tempo, se Chico Andorinha n&atilde;o corresse<br \/>\n    a aumentar a agress&atilde;o, fazendo frente a Louren&ccedil;o, enquanto os<br \/>\n    outros dois bandidos o tomavam pelos lados. Andorinha amarrara Bernardina<br \/>\n    pelas m&atilde;os com um cabresto a um tronco, para que n&atilde;o fugisse.<br \/>\n    Ele conhecia-a do rancho do Cip&oacute;, sabia que com ela estava amasiado<br \/>\n    o Tunda-Cumbe, e para prestar servi&ccedil;o a este, por baixa adula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    resolvera lev&aacute;-la &agrave; casa.<\/p>\n<p> Em v&atilde;o Bernardina estorcia-se e forcejava para romper a sua cadeia;<br \/>\n    em v&atilde;o carpia, arrastando-se pelo ch&atilde;o, a sua desgra&ccedil;a<br \/>\n    extrema; em v&atilde;o pedia socorro, em altas vozes, rogando que n&atilde;o<br \/>\n    matassem Louren&ccedil;o, e protestando a inoc&ecirc;ncia dele.<\/p>\n<p> Dessa tribula&ccedil;&atilde;o veio arranc&aacute;-la um estrupido vasto,<br \/>\n    medonho, ap&oacute;s um tiro que ressoara na imensa solid&atilde;o. A larga<br \/>\n    margem do rio estremeceu, com uma onda sonora no interior: os terremotos devem<br \/>\n    produzir o som cavernoso que saiu naquele instante do ch&atilde;o rudemente<br \/>\n    percutido. Quem n&atilde;o soubesse o que era, julgaria que um cataclismo,<br \/>\n    revolvendo as entranhas da terra, ia abrir covas profundas, goelas tenebrosas<br \/>\n    que imediatamente se iluminariam, deixando passar fogo e lavas abrasadoras.<br \/>\n    O tiro tinha sido dado por Andorinha contra Louren&ccedil;o; o ru&iacute;do<br \/>\n    subterr&acirc;neo n&atilde;o fora produzido sen&atilde;o pela corrida da boiada<br \/>\n    que arrancara da beira do rio, espantada pela detona&ccedil;&atilde;o do tiro.<\/p>\n<p> Foi ent&atilde;o tudo confus&atilde;o e burburinho. O fato de arrancar uma<br \/>\n    boiada &eacute; vulgar para os que conhecem a vida sertaneja; mas sempre infunde<br \/>\n    pavor, ainda nos que melhor sabem esta fei&ccedil;&atilde;o daquela vida.<br \/>\n    Quando uma boiada arranca, uma boiada de duzentas a trezentas cabe&ccedil;as,<br \/>\n    pouco depois de ter deixado o pasto usual, isto &eacute;, quando est&aacute;<br \/>\n    em quase todo o vigor, e n&atilde;o tem ainda perdido, pelo cansa&ccedil;o,<br \/>\n    parte das for&ccedil;as ganhas na vida livre do sert&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    fica inc&oacute;lume e ileso o que encontra &agrave; sua frente. O ch&atilde;o<br \/>\n    arrasa-se, porque as moitas desaparecem e os arbustos acamam-se torcidos ou<br \/>\n    quebrados sob os seus p&eacute;s. Os espinheiros ficam lisos. Onde n&atilde;o<br \/>\n    havia nenhuma trilha, nem uma aberta, mostram-se depois entradas novas, que<br \/>\n    o homem aproveita algumas vezes. As longas cortinas de cip&oacute; pendentes<br \/>\n    das folhagens das grandes &aacute;rvores, esfrangalhadas, despeda&ccedil;adas,<br \/>\n    ou deslocam-se das alturas donde as suas flores namoravam o sol e o azul et&eacute;reo,<br \/>\n    e v&ecirc;m alcatifar confusas e revolvidas o ch&atilde;o, ou, partidas ao<br \/>\n    meio, oscilavam dali em retalhos que resistiram &agrave; invas&atilde;o das<br \/>\n    centenas de cabe&ccedil;as bicornes que, atrav&eacute;s deste floridos cortinados<br \/>\n    com que a natureza decora os tetos e as ab&oacute;badas dos sombrios pa&ccedil;os<br \/>\n    de espessura, abriram improvisa passagem, no desespero do p&acirc;nico bruto.<br \/>\n    Tudo leva de rojo a mole ambulante, na disparada. A tempestade muitas vezes<br \/>\n    n&atilde;o produz tantos estragos, n&atilde;o muda t&atilde;o prontamente<br \/>\n    os aspectos da solid&atilde;o.<\/p>\n<p> Bernardina cosera-se com o tronco da &aacute;rvore, para n&atilde;o ficar<br \/>\n    debaixo dos p&eacute;s dos bois. Quanto a Louren&ccedil;o, seus dias pareciam<br \/>\n    estar contados. O tiro covardemente desfechado, ferira-o gravemente em um<br \/>\n    dos ombros. O fac&atilde;o fugiu-lhe das m&atilde;os, as pernas cambalearam,<br \/>\n    o sangue envolveu-lhe o corpo em rubra mortalha. Enfim, caindo quase sem sentidos<br \/>\n    somente ele dentre os lutadores, ficou exposto a acabar sob o peso da vaga<br \/>\n    bravia que assolava a paragem, porque os outros, n&atilde;o tendo podido montar<br \/>\n    os cavalos que correram espavoridos, se haviam suspendido a galhos superiores<br \/>\n    de &aacute;rvores pr&oacute;ximas, e dali aguardaram que passasse o vertiginoso<br \/>\n    so&atilde;o. <\/p>\n<h2><a name=\"10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/h2>\n<p>Por alguns momentos ouviu-se, agora perto, depois mais longe, o rude bater<br \/>\n    dos chifres das reses, uns contra os outros, o som soturno que despedia de<br \/>\n    si o ch&atilde;o violentamente contundido pelas patas daqueles animais unidos,<br \/>\n    conchegados, conforme soem correr em semelhantes ocasi&otilde;es, o estalar<br \/>\n    dos ramos, o rechinar das folhas, o espadanar das lamas sem empate nem medida,<br \/>\n    no varjado espl&ecirc;ndido.<\/p>\n<p> Restabelecidos o sil&ecirc;ncio e a imobilidade do ermo, os assassinos desceram<br \/>\n    das &aacute;rvores, em busca do ferido. Covardes, faltara-lhes coragem para<br \/>\n    fazerem frente aos animais alvoro&ccedil;ados e infrenes; tiveram-na, por&eacute;m,<br \/>\n    de sobejo, para correrem ao tronco de uma &aacute;rvore que, com um galho<br \/>\n    baixo e curvo, sob o qual se metera Louren&ccedil;o, e que os bois na corrida<br \/>\n    haviam saltado, o protegera e o salvara.<\/p>\n<p> &mdash; J&aacute; conhecestes para quanto presto, <em>caneludo<\/em>, moleir&atilde;o,<br \/>\n    que s&oacute; tens parolas e desaforos? disse Pedro de Lima, arrastando por<br \/>\n    uma perna Louren&ccedil;o ao meio da trilha onde a lama quase o afoga. Eu<br \/>\n    bem disse que este cabra n&atilde;o servia para nada.<\/p>\n<p> E porque, atrav&eacute;s da mutilada camisa do rapaz tomado de mortal del&iacute;quio,<br \/>\n    lhe descobriu o cinto em torno da barriga, imediatamente o cortou, supondo<br \/>\n    que trazia dinheiro. O que encontrou foi a luva de couro, dentro da qual estava<br \/>\n    o papel de doa&ccedil;&atilde;o. Indignado por ter sido iludido em sua cobi&ccedil;a,<br \/>\n    ia cravar o fac&atilde;o no peito de Louren&ccedil;o, quando sentiu o bra&ccedil;o<br \/>\n    preso por uma vigorosa m&atilde;o. Viu ent&atilde;o, ao seu lado um homem<br \/>\n    cal&ccedil;ado de botas, vestido de preto, com um chap&eacute;u de palha na<br \/>\n    cabe&ccedil;a: era o dono da boiada. Junto dele estava um dos tangerinos e<br \/>\n    um negro, que minutos antes haviam passado o rio.<\/p>\n<p> Logo que deu com os olhos no primeiro dos novos personagens, Pedro de Lima<br \/>\n    abrandou a raiva e a arrog&acirc;ncia, mostrando-se outro que ningu&eacute;m<br \/>\n    diria ser o mesmo.<\/p>\n<p> &mdash; Vosmec&ecirc; me perdoe, seu Jo&atilde;o Mateus  disse, em<br \/>\n    tom respeitoso, ao fazendeiro. H&aacute; muito que eu tinha umas contas a<br \/>\n    ajustar com este p&eacute;-rapado, que sempre foi muito confiado, e parecia<br \/>\n    n&atilde;o fazer caso de ningu&eacute;m. O pior &eacute; que, cuidando que<br \/>\n    ele trazia algum <em>gimbo<\/em>, s&oacute; encontrei no cinto magro este papel<br \/>\n    metido num peda&ccedil;o de couro velho. Parece que &eacute; um <em>patu&aacute;<br \/>\n    <\/em>&nbsp;para livrar de arma e de pris&atilde;o; mas o cabra n&atilde;o<br \/>\n    tem f&eacute;, que o <em>patu&aacute;<\/em> n&atilde;o lhe valeu, e ele fica<br \/>\n    bem castigado.<\/p>\n<p> Assim falando, Pedro de Lima passou o papel de doa&ccedil;&atilde;o ao fazendeiro<br \/>\n    que, como se vira nos caracteres ali tra&ccedil;ados, uma escritura cabal&iacute;stica<br \/>\n    e maldita, deu um grito  mistura de espanto e consterna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    volvendo r&aacute;pidas vistas a Louren&ccedil;o. Pedro de Lima e Manoel Hil&aacute;rio,<br \/>\n    a quem este gesto n&atilde;o escapara, puseram os olhos em cima do fazendeiro,<br \/>\n    em ar de quem interrogava.<\/p>\n<p> &mdash; &Eacute; uma ora&ccedil;&atilde;o&#8230; N&atilde;o, &eacute; uma ora&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    S&atilde;o palavras diab&oacute;licas as que est&atilde;o aqui escritas, disse-lhes<br \/>\n    o fazendeiro. Se vosmec&ecirc;s soubessem ler, haviam de reconhecer que este<br \/>\n    papel tem coisas infernais. Coitado de quem o trazia.<\/p>\n<p> E com gesto nervoso despeda&ccedil;ou o papel, dando mostras de forte como&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que aumentava de instante a instante.<\/p>\n<p> &mdash; Mas  acrescentou logo  que querem ainda vosmec&ecirc;s<br \/>\n    fazer deste infeliz? Est&aacute; moribundo, se ainda n&atilde;o morreu. Deixem-no<br \/>\n    comigo. &ldquo;N&atilde;o matar&aacute;s,&nbsp; disse Deus por boca de Mois&eacute;s<br \/>\n    aos Hebreus; e esta senten&ccedil;a &eacute; hoje um dos primeiros preceitos<br \/>\n    da Cristandade. Querer&atilde;o vosmec&ecirc;s ainda matar algu&eacute;m que<br \/>\n    j&aacute; est&aacute; quase morto? <br \/>\n    O semblante do fazendeiro tinha adquirido fei&ccedil;&otilde;es t&atilde;o<br \/>\n    particularmente severas e tristes, que n&atilde;o s&oacute; os dois assassinos,<br \/>\n    mas at&eacute; o tangedor, companheiro daquele, se sentiram tomados de espanto.<\/p>\n<p> Pedro de Lima n&atilde;o se demorou a responder.<\/p>\n<p> &mdash; Eu n&atilde;o o quero mais matar. Ainda quando ele desta se levante,<br \/>\n    o que eu duvido, n&atilde;o teria eu mais para quem &eacute; t&atilde;o mofino<br \/>\n    a minha arma, porque o ensino est&aacute; dado. S&oacute; pe&ccedil;o a vosmec&ecirc;<br \/>\n    que me perdoe.<\/p>\n<p> Tendo disto estas palavras, cortejou o dono da boiada como quem se despedia,<br \/>\n    e encaminhou-se para o fechado em busca do cavalo. Manoel Hil&aacute;rio,<br \/>\n    acompanhou-o, silencioso e cabisbaixo.<\/p>\n<p> Um quarto de l&eacute;gua distante do lugar onde se deu este encontro, via-se<br \/>\n    dentro de um cap&atilde;o de mato que vinha morrer &agrave; beira do rio,<br \/>\n    uma casa de tacani&ccedil;a, de aspecto quase claustral, que convidava ao<br \/>\n    repouso. &Agrave; volta, fora ro&ccedil;ado vasto espa&ccedil;o, destinado<br \/>\n    a pequena lavoura e cria&ccedil;&atilde;o de aves e animais mi&uacute;dos.<br \/>\n    Entre a casa e o mato, do lado sul, era um extenso curral de vacas, e ao lado<br \/>\n    do norte um curral de cabras. Logo &agrave; primeira vista, reconhecia-se<br \/>\n    que naquela situa&ccedil;&atilde;o agreste estava fundada uma fazendola de<br \/>\n    gado.<\/p>\n<p> O dono desta propriedade era Jo&atilde;o Mateus, sujeito magro, de cabelos<br \/>\n    e barbas compridos, que no meio das brenhas onde se concentrara, lugar semi-b&aacute;rbaro,<br \/>\n    quase inteiramente inacess&iacute;vel &agrave; luz das letras, levava grande<br \/>\n    parte do tempo a ler seus livros. Tipo misterioso e incompreens&iacute;vel,<br \/>\n    cujo segredo ningu&eacute;m penetrara. N&atilde;o era casado, nem tinha fam&iacute;lia<br \/>\n    de esp&eacute;cie alguma, com exce&ccedil;&atilde;o de uma negrota que lhe<br \/>\n    fazia comida, uma negra idosa que lhe lavava a roupa,e um negro de meia idade<br \/>\n    que era o seu pajem e confidente.<\/p>\n<p> Levantava-se logo cedo, chamava as aves, e com as pr&oacute;prias m&atilde;os<br \/>\n    dava-lhes a ra&ccedil;&atilde;o de milho ou arroz. As galinhas, os patos,<br \/>\n    os perus, os capotes, depinicavam os caro&ccedil;os, escarvavam o ch&atilde;o,<br \/>\n    soltavam as suas toadas  uma ba&ccedil;as, outras argentinas<br \/>\n    alegres, dom&eacute;sticos, mansos, amigos do seu senhor, em redor do qual<br \/>\n    se demoravam, como se, presos pela confian&ccedil;a, lhes custasse muito apartar-se<br \/>\n    de quem era t&atilde;o bom para eles. Jo&atilde;o Mateus dirigia-se depois<br \/>\n    a um e outro curral, e passava as vistas por sobre as reses, algumas cabras<br \/>\n    que andavam soltas do lado de fora, iam a seu encontro logo que o avistavam,<br \/>\n    e tomadas de familiar ternura, lambiam-lhe as pernas ou as m&atilde;os, na<br \/>\n    mesma doce entrega da amizade que para o fazendeiro tinha a cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Nos primeiros tempos que sucederam &agrave; chegada de Jo&atilde;o Mateus,<br \/>\n    sumiram-se algumas cabe&ccedil;as de gado; mas depois os ladr&otilde;es come&ccedil;aram<br \/>\n    a excluir do n&uacute;mero das suas explora&ccedil;&otilde;es a propriedade<br \/>\n    do velho, mudan&ccedil;a que tinha natural explica&ccedil;&atilde;o na caridade<br \/>\n    com que ele tratava aquela gente sem cultura, mas n&atilde;o sem o discernimento<br \/>\n    necess&aacute;rio para render homenagem &agrave; virtude, especialmente se<br \/>\n    lhe devia gratid&atilde;o. Os pobres, os viajeiros, os doentes sem encosto<br \/>\n    encontravam em casa de Jo&atilde;o Mateus abrigo paternal e piedoso.<\/p>\n<p> A sua fama, porque a fama dos bons homens vai a grandes dist&acirc;ncias<br \/>\n    como v&atilde;o os sons, invadira as cercanias e impusera aos que antes o<br \/>\n    defraudavam, respeitosa afei&ccedil;&atilde;o que nos &uacute;ltimos tempo<br \/>\n    se traduziu em estima de filhos para pai. Os pr&oacute;prios bandidos desenfreados<br \/>\n    n&atilde;o ousavam penetrar na fazenda do <em>Jatob&aacute;<\/em>, sen&atilde;o<br \/>\n    quando tinham de pedir com que matar as suas necessidades, nunca se apossarem,<br \/>\n    como dantes, do que lhes n&atilde;o pertencia. A qualquer hora do dia ou da<br \/>\n    noite, de ver&atilde;o ou de inverno, a porta da casa do <em>Jatob&aacute;<\/em><br \/>\n    abria-se para dar agasalho a quem batia nela. Mariana  a negra, e Clara<br \/>\n     a negrota, inquiriam do h&oacute;spede se precisava de alimentos ou<br \/>\n    de rem&eacute;dios; os primeiros davam-lhos elas, os &uacute;ltimos era o<br \/>\n    anci&atilde;o quem os ministrava; se o caso urgia, levantava-se ele ainda<br \/>\n    que fosse fora de horas, a fim de acudir &agrave;quele a quem os seus socorros<br \/>\n    deviam oferecer al&iacute;vio. E porque as mol&eacute;stias que ordinariamente<br \/>\n    atacavam as pessoas do povo naquelas circunst&acirc;ncias, eram uma dor, umas<br \/>\n    maleitas, uma <em>maligna<\/em>, quase sempre a limitada ci&ecirc;ncia pr&aacute;tica<br \/>\n    de Jo&atilde;o Mateus e os rem&eacute;dios de que ele dispunha, bastavam a<br \/>\n    minorar sen&atilde;o a extinguir o padecimento alheio.<\/p>\n<p> Ao passo que cuidava t&atilde;o paternalmente dos outros, n&atilde;o se<br \/>\n    descuidava inteiramente de si mesmo. De tudo o que havia dentro das suas terras<br \/>\n    ele vendia a quem estava nas condi&ccedil;&otilde;es de o comprar; estas vendas,<br \/>\n    por&eacute;m, eram feitas sem relevar a m&iacute;nima cobi&ccedil;a, nem usura<br \/>\n    da parte dele. O anci&atilde;o, que diziam ter vindo do Cear&aacute; ou do<br \/>\n    Piau&iacute;, comprara a fazenda do <em>Jatob&aacute;<\/em> nos come&ccedil;os<br \/>\n    da guerra. Recebendo-a muito estragada e empobrecida, dentro de uma m&atilde;o<br \/>\n    lhe dera aumento que a todos causava admira&ccedil;&atilde;o. Quando algu&eacute;m<br \/>\n    lhe dizia que seu antecessor n&atilde;o prosperara, porque, por pregui&ccedil;oso<br \/>\n    ou desmazelado, n&atilde;o era para andar com semelhante ramo de vida, Jo&atilde;o<br \/>\n    Mateus acudia logo, refutando estes descaridosos conceitos.<\/p>\n<p> &mdash; A raz&atilde;o n&atilde;o &eacute; esta; a raz&atilde;o principal<br \/>\n    &eacute; porque ele tinha talvez grande fam&iacute;lia, enquanto eu n&atilde;o<br \/>\n    tenho nenhuma; ele despendia talvez com incont&aacute;veis credores, doen&ccedil;as<br \/>\n    graves, ou largas fian&ccedil;as ou pequenos rendimentos; eu, gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus, n&atilde;o tenho sentido a unha ou o dente destes males que amofinam<br \/>\n    tantos pais de fam&iacute;lia amantes dos seus, e dignos da considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todos. N&atilde;o devemos fazer mau ju&iacute;zos dos outros, porque n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; r&eacute;u que n&atilde;o possa alegar a sua justifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou as suas escusas.<\/p>\n<p> A verdade, por&eacute;m, &eacute; que Jo&atilde;o Mateus, que n&atilde;o<br \/>\n    possu&iacute;a sen&atilde;o aqueles tr&ecirc;s escravos, n&atilde;o sentia<br \/>\n    falta, e parecia ir amoedando j&aacute; alguns lucros de manso e manso. Era<br \/>\n    isto o que dizia o povo.<\/p>\n<p> Certa manh&atilde;, p&ocirc;s-se a caminho para Goiana com uma grande boiada<br \/>\n    que ali deveria vender por bom dinheiro. O vaqueiro Valentim ficara na fazenda;<br \/>\n    com Jo&atilde;o Mateus iam seis tangedores, entre os quais um de nome Cipriano,<br \/>\n    rapaz de excelente cora&ccedil;&atilde;o, trabalhador e sossegado. Depois<br \/>\n    que comprara a fazenda era a primeira vez que arredava dali o p&eacute; o<br \/>\n    dono dela. Quando chegaram &agrave; beira do rio, come&ccedil;avam a atravess&aacute;-lo<br \/>\n    os tr&ecirc;s malfeitores que sabemos.<\/p>\n<p> Os tangedores tocaram os bois para &aacute;gua, e iam estes pelo meio do<br \/>\n    rio, quando soou o primeiro tiro, o que fora disparado por Pedro Lima; e conquanto<br \/>\n    as boiadas n&atilde;o arranquem de dentro da &aacute;gua, ficaram as reses<br \/>\n    t&atilde;o espantadas, que, com a detona&ccedil;&atilde;o do segundo tiro,<br \/>\n    quando j&aacute; estavam da outra banda, deitaram a correr. Quatro dos tangedores<br \/>\n    seguiram a boiada praticando esfor&ccedil;o, gritando aos animais, a fim de<br \/>\n    os conterem; dos outros dois, um sabedor das proezas dos malvados<br \/>\n    deixou-se ficar com o negro ao p&eacute; do fazendeiro, para o defender se<br \/>\n    fosse preciso; o outro  Cipriano  condoendo-se de Bernardina,<br \/>\n    correra a salv&aacute;-la, sem que o vissem os malfeitores. Quanto a Jo&atilde;o<br \/>\n    Mateus, resolvera ir em socorro de Louren&ccedil;o, parte fraca. Posto que<br \/>\n    o n&atilde;o conhecesse, a nobreza dos seus sentimentos sugeriu-lhe este procedimento;<br \/>\n    e foi assim que se achou t&atilde;o a ponto de livrar o moribundo da f&uacute;ria<br \/>\n    dos bandidos.<\/p>\n<p> O fazendeiro tomou Louren&ccedil;o nos bra&ccedil;os com especial express&atilde;o<br \/>\n    de d&oacute;. De instante a instante escapavam-lhe dos l&aacute;bios palavras<br \/>\n    repassadas de m&aacute;goa e afli&ccedil;&atilde;o: <br \/>\n    &mdash; Meu Deus! Meu Deus! Quem havia de dizer que seria este o seu destino?<br \/>\n    Est&aacute; acabado. Somente a miseric&oacute;rdia divina o poder&aacute;<br \/>\n    salvar.<\/p>\n<p> Com o aux&iacute;lio do tangedor e do negro, conduziu o enfermo para um<br \/>\n    lugar mais alto, aonde as &aacute;guas do rio n&atilde;o tinham podido chegar,<br \/>\n    e em panos que trazia na maleta presa &agrave; garupa, tomou-lhe os golpes,<br \/>\n    e enxugou-lhe o sangue.<\/p>\n<p> Ali esteve com ele enquanto o negro e o tangedor improvisavam uma balsa<br \/>\n    para transport&aacute;-los &agrave; outra margem. Enfim, antes do meio dia,<br \/>\n    Louren&ccedil;o ocupava o melhor aposento da casa da fazenda.<\/p>\n<p> Por muitas horas esteve sem fala. Jo&atilde;o Mateus j&aacute; sentia desampar&aacute;-lo&nbsp;<br \/>\n    a &uacute;ltima esperan&ccedil;a de salvar aquela vida, quando Louren&ccedil;o,<br \/>\n    depois de um ai que lhe arrancara a dor dos ferimentos perguntou: <br \/>\n    &mdash; Bernardina? Onde est&aacute; Bernardina? <br \/>\n    &mdash; Estou aqui, Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> A rapariga estava, de fato, &agrave; cabeceira do moribundo. Cipriano pudera<br \/>\n    salv&aacute;-la, metendo-se pelo mato, por fugir aos bandidos, no momento<br \/>\n    em que estes falavam com Jo&atilde;o Mateus, tomando depois atalhos que lhe<br \/>\n    eram usuais, descendo &agrave; margem do rio cerca de um quarto de l&eacute;gua<br \/>\n    abaixo do lugar do conflito, atravessando as &aacute;guas, e enfim levando-a<br \/>\n    &agrave; fazenda onde presumia j&aacute; estar o ferido.<\/p>\n<p> Junto de Bernardina, Jo&atilde;o Mateus tinha as vistas presas em Louren&ccedil;o.<br \/>\n    Um dos ferimentos era profundo e mortal; requeria toda a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e cuidado. Por isso, aqueles dois entes, que parecia dedicarem igual afeto<br \/>\n    ao doente, n&atilde;o consentiam em deix&aacute;-lo entregue somente a si.<\/p>\n<p> Por volta da meia-noite, taciturno, p&aacute;lido, os olhos encovados, Jo&atilde;o<br \/>\n    Mateus mandou que a rapariga o deixasse s&oacute; com o enfermo. Ela obedeceu,<br \/>\n    levando os olhos cheios de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Na sala da frente havia um oratoriozinho com alguns santos. Estava aberto;<br \/>\n    um candeeiro de metal esclarecia-o com sua luz amarelenta, quase l&uacute;gubre.<br \/>\n    Bernardina ajoelhou-se diante dos santos, e fez uma promessa a S. Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    que se via preso a uma &aacute;rvore, tendo o corpo flechado, segundo reza<br \/>\n    a cr&ocirc;nica, por selvagens. Feita a promessa, a rapariga retirou-se, cheia<br \/>\n    de esperan&ccedil;a e f&eacute;, ao interior da casa.<\/p>\n<p> Enquanto esta cena de piedade, que estava no esp&iacute;rito daqueles tempos,<br \/>\n    e ainda se pratica no seio de muitas fam&iacute;lias, se passava na sala,<br \/>\n    o fazendeiro, levado por id&ecirc;ntico sentimento religioso, propunha no<br \/>\n    quarto ao enfermo a confiss&atilde;o, nestas palavras: <br \/>\n    &mdash; Louren&ccedil;o, poder&aacute;s confessar-te? <br \/>\n    Abrindo os olhos a custo, o matuto respondeu com voz pesarosa: <br \/>\n    &mdash; Quem &eacute; que me h&aacute; de confessar? <br \/>\n    &mdash; O que te pergunto  retorquiu o fazendeiro, &eacute; se podes<br \/>\n    cumprir este dever de todo bom crist&atilde;o.<\/p>\n<p> &mdash; Posso e desejo, porque sei que desta n&atilde;o hei de escapar.<\/p>\n<p> O fazendeiro levantou-se, puxou a porta do quarto contra si, deu volta &agrave;<br \/>\n    chave, e tomou por uma portinha que parecia estabelecer secreta comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com o aposento cont&iacute;guo. Era neste que ele tinha em bom recado os seus<br \/>\n    livros e outros objetos que muito zelava. Ao cabo de alguns minutos estava<br \/>\n    de volta &agrave; alcova, e dizia ao enfermo: <br \/>\n    &mdash; Louren&ccedil;o, os teus desejos v&atilde;o ser satisfeitos.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o abriu novamente os olhos. &Agrave; sua cabeceira achava-se<br \/>\n    um padre com a vestimenta negra e tala. Procurando com as vistas, &agrave;<br \/>\n    luz do candeeiro que alumiava a alcova, o fazendeiro que acabara de falar-lhe,<br \/>\n    n&atilde;o o encontrou. Volvendo-as depois ao padre, e parecendo reconhecer<br \/>\n    nele um antigo conhecido: <br \/>\n    &mdash; &ldquo;Seu padre Antonio! exclamou espantado.<\/p>\n<p> &mdash; Tu me reconheces? respondeu o fazendeiro, que n&atilde;o era outro<br \/>\n    sen&atilde;o o padre Antonio de Mariz.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o, sem se poder dominar, tentou um esfor&ccedil;o para levantar-se.<br \/>\n    Estendeu os bra&ccedil;os como quem queria prender ente eles o sacerdote;<br \/>\n    mas, faltando-lhe as for&ccedil;as, recaiu em mortal prostra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    banhado de sangue.<\/p>\n<p> O padre, por&eacute;m, foi em seu aux&iacute;lio. Inclinou-se sobre o enfermo,<br \/>\n    e pegando-lhe em uma das m&atilde;os, inquiriu brandamente: <br \/>\n    &mdash; Que queres de mim, Louren&ccedil;o? <br \/>\n    &mdash; Que quero? tornou o moribundo. Quero agradecer-lhe a sua bondade,<br \/>\n    &ldquo;seu padre. Estou para morrer, mas ainda me lembro do que vosmec&ecirc;<br \/>\n    me fez no Cajueiro, do ensino que me deu, e das terras e casa&#8230;<\/p>\n<p> E como estas palavras lhe avivassem uma lembran&ccedil;a obliterada inteiramente,<br \/>\n    procurou, ainda que com dificuldade, na cintura, o cinto de algod&atilde;o<br \/>\n    que sempre trazia consigo.<\/p>\n<p> &mdash; Os ladr&otilde;es at&eacute; me tiraram o papel&#8230; o papel que vosmec&ecirc;,<br \/>\n    &ldquo;seu padre, deixou em m&atilde;os de minha m&atilde;e&#8230; Roubaram o<br \/>\n    meu papel&#8230;<\/p>\n<p> &mdash; O teu papel agora, Louren&ccedil;o, &eacute; o que cumpre a todo<br \/>\n    bom crist&atilde;o. Estou pronto a ouvir-te.<\/p>\n<p> Terminada a confiss&atilde;o, o padre dirigiu estas palavras ao penitente:<br \/>\n    <br \/>\n    &mdash; Se Deus se lembrar de ti, e te sarar, imponho-te que a ningu&eacute;m<br \/>\n    reveles o meu segredo.<\/p>\n<p> &mdash; &ldquo;Seu padre, a ningu&eacute;m direi quem &eacute; vosmec&ecirc;;<br \/>\n    mas meu cora&ccedil;&atilde;o estar&aacute; a dizer-me, a todo instante, que<br \/>\n    vosmec&ecirc; &eacute; &ldquo;seu padre Antonio, aquele que me ensinou a ler,<br \/>\n    que me deu muitos conselhos, que ajudou meus pais a fazerem de mim gente,<br \/>\n    que me deu a casa e as terras do Cajueiro, que tem sido para mim um segundo<br \/>\n    pai.<\/p>\n<p> &mdash; Louren&ccedil;o, o padre Antonio fugiu, e ningu&eacute;m sabe onde<br \/>\n    ele se meteu. Quem est&aacute; aqui, neste homem que v&ecirc;s, de barbas<br \/>\n    e cabelos compridos, magro e taciturno, mas conformado com a sua sorte, &eacute;<br \/>\n    o fazendeiro Jo&atilde;o Mateus. Est&aacute;s ouvindo? <br \/>\n    &mdash; Pode vosmec&ecirc; descansar.<\/p>\n<p> &mdash; Agora pega-te com Deus, e repousa.<\/p>\n<p> Desaparecendo na porta que dava para o aposento secreto, o padre foi dizendo<br \/>\n    consigo estas palavras: <br \/>\n    &mdash; Podes agora comparecer perante o Supremo julgador dos homens. O teu<br \/>\n    dever de crist&atilde;o e o meu de sacerdote est&atilde;o cumpridos.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o por&eacute;m n&atilde;o estava destinado a acabar obscuramente,<br \/>\n    no seio daquela solid&atilde;o agreste de poucos conhecida. Dentro de alguma<br \/>\n    semanas, gra&ccedil;as &agrave; solicitude do padre e de Bernardina, come&ccedil;ou<br \/>\n    a sair da regi&atilde;o da vida que parece pertencer aos dom&iacute;nios da<br \/>\n    morte, t&atilde;o confuso e sombrio &eacute; o seu horizonte, t&atilde;o longo<br \/>\n    o crep&uacute;sculo que a&iacute; reina. As for&ccedil;as voltavam-se lentamente,<br \/>\n    por fios tenu&iacute;ssimos ao princ&iacute;pio, por mais grosso canais depois,<br \/>\n    que lhe traziam ao cora&ccedil;&atilde;o e o c&eacute;rebro a riqueza do seu<br \/>\n    antigo &acirc;nimo.<\/p>\n<p> Uma manh&atilde;, o padre, que penetrara a forte inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Louren&ccedil;o por Bernardina, levantou-se muito cedinho, como de costume,<br \/>\n    e encaminhou-se ao curral das vacas, onde encontrou j&aacute; Cipriano tirando<br \/>\n    leite. Imediatamente mandou chamar Bernardina para ajudar o vaqueiro no servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> Logo que chegou a rapariga, disse o padre a Cipriano: <br \/>\n    &mdash; Dize-me c&aacute; uma coisa, Cipriano: que idade tens? <br \/>\n    &mdash; Vou fazer vinte e dois anos.<\/p>\n<p> &mdash; &Eacute; uma idade casadoira, e n&atilde;o sei porque ainda est&aacute;<br \/>\n    solteiro.<\/p>\n<p> &mdash; Como me hei de casar? O que eu ganho mal chega para mim e para minha<br \/>\n    m&atilde;e.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o seja esta a d&uacute;vida. Tens-me prestado muitos servi&ccedil;os,<br \/>\n    e eu n&atilde;o desgosto de ti, porque &eacute;s um bom rapaz. Venho em teu<br \/>\n    aux&iacute;lio. Procura uma rapariga que te agrade, que te darei gado e terras<br \/>\n    bastante para principiares uma fazendola.<\/p>\n<p> Cipriano, que nesse momento batia no ubre de uma vaca a fim de chamar o<br \/>\n    leite, ergueu-se e p&ocirc;s o olhar no seu interlocutor, com quem perguntava<br \/>\n    se nas palavras proferidas estava uma promessa real e s&eacute;ria.<\/p>\n<p> &mdash; &Eacute; o que te digo  retorquiu o padre. Procura uma consorte.<br \/>\n    Mas parece que em toda esta redondeza n&atilde;o encontrar&aacute;s nenhuma.<br \/>\n    Verdade seja  prosseguiu  que para este inconveniente ter&iacute;amos<br \/>\n    um rem&eacute;dio ao p&eacute; de n&oacute;s. Olha l&aacute;. Tu salvaste<br \/>\n    Bernardina das unhas dos bandidos, atravessastes com ela os matos e o Tracunha&eacute;m,<br \/>\n    expuseste por ela a tua vida em terra e nas &aacute;guas, porque o Andorinha,<br \/>\n    tanto que deu pela falta, entrou a rastejar a fugitiva, para ver se a descobria.<br \/>\n    Ora, &agrave; vista de tanto risco que correste, de tanto esfor&ccedil;o que<br \/>\n    puseste em salvar esta menina, justo parece que ela sinta por ti, sen&atilde;o<br \/>\n    afei&ccedil;&atilde;o, ao menos qualquer inclina&ccedil;&atilde;o, que possa<br \/>\n    vir a ser no futuro um respeit&aacute;vel amor conjugal. Que dizem voc&ecirc;s?<br \/>\n    <br \/>\n    N&atilde;o disseram uma palavra sequer o rapaz nem a rapariga.<\/p>\n<p> O padre, por&eacute;m, conheceu que as suas palavras tinham tido o efeito<br \/>\n    que ele calculara.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o se vexem com isto  tornou. Pensem no futuro que<br \/>\n    lhes ofere&ccedil;o, e que Deus h&aacute; de aben&ccedil;oar. Amanh&atilde;<br \/>\n    a esta hora e neste lugar dar-me-&atilde;o a resposta.<\/p>\n<p> E retirou-se, deixando Cipriano e Bernardina no trabalho de ordenhar as<br \/>\n    vacas.<\/p>\n<p> Tanto que o padre Antonio deu o andar, Bernardina disse, &agrave; meia voz:<br \/>\n    <br \/>\n    &mdash; N&atilde;o pensei que seu Jo&atilde;o Mates me chamava para me fazer<br \/>\n    esta entrega.<\/p>\n<p> Cipriano acudiu logo: <br \/>\n    &mdash; Para que voc&ecirc; diz isto, sinh&aacute; Bernardina? Ele nos quer<br \/>\n    bem. Se n&atilde;o quisesse, ele n&atilde;o propunha este neg&oacute;cio.<\/p>\n<p> &mdash; Mas ele sabe se eu quero casar com voc&ecirc;? <br \/>\n    &mdash; Ele n&atilde;o sabe, nem eu sei. Mas a inten&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o boa para voc&ecirc; como para mim. L&aacute; a voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    querer casar comigo, &eacute; outro caso.<\/p>\n<p> &mdash; Pois eu n&atilde;o quero casar com voc&ecirc;, n&atilde;o, seu Cipriano,<br \/>\n    disse Bernardina com disfarce.<\/p>\n<p> Cipriano n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p> E porque tinham acabado o servi&ccedil;o, cada um se encaminhou para a casa<br \/>\n    com sua panela cheia de leite.<\/p>\n<p> Logo depois, encontrando-se o vaqueiro com Bernardina, junto do chiqueiro<br \/>\n    das cabras, disse-lhe estas palavras: <br \/>\n    &mdash; Pense no que faz, sinh&aacute; Bernardina. Olhe que manh&atilde; bem<br \/>\n    cedo tem de dar a resposta a seu Jo&atilde;o Mates.<\/p>\n<p> &mdash; Eu j&aacute; sei que resposta hei e dar.<\/p>\n<p> &mdash; Qual &eacute;? <br \/>\n    &mdash; Voc&ecirc; quer saber? <br \/>\n    &mdash; Quero, sim, porque tenho meu interesse a&iacute; tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &mdash; Pois amanh&atilde; saber&aacute; e talvez o seu interesse tenha<br \/>\n    a sorte de ovo goro.<\/p>\n<p> E fugiu para dentro da casa. Mas antes de anoitecer de todo, teve ela de<br \/>\n    ir ao poleiro buscar uma galinha para Louren&ccedil;o; e quando se aproximava<br \/>\n    do jirau onde as galinhas dormiam, viu tomando chegada, um vulto que veio<br \/>\n    para junto dela. Era Cipriano, que, segundo indicavam as apar&ecirc;ncias,<br \/>\n    n&atilde;o pensara em outro assunto durante o dia, sen&atilde;o no casamento,<br \/>\n    e andava rondando a rapariga.<\/p>\n<p> &mdash; Ent&atilde;o, sinh&aacute; Bernardina, que decide voc&ecirc;? perguntou<br \/>\n    ele, pegando de surpresa, da m&atilde;o da filha de Vitoriano.<\/p>\n<p> A rapariga estava triste. Em lugar da natural vivacidade, que n&atilde;o<br \/>\n    perdiam nos mais arriscados transes, tinham seus olhos uma express&atilde;o<br \/>\n    de m&aacute;goa &iacute;ntima. Em seu esp&iacute;rito operara-se uma revolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    cruel e devastadora. O padre Antonio chamara-a depois do almo&ccedil;o, e<br \/>\n    tivera com ela uma larga confer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &mdash; Menina, dissera ele, seja qual for o favor que a sorte tenha lhe<br \/>\n    guardado no futuro, n&atilde;o se pode duvidar que o seu casamento com um<br \/>\n    rapaz de bons sentimentos, e de costumes ainda melhores, fora a maior felicidade,<br \/>\n    e voc&ecirc; n&atilde;o a dever&aacute; recusar. Voc&ecirc; n&atilde;o conhece<br \/>\n    Cipriano, mas eu dou testemunho das suas excelentes qualidades. Em toda esta<br \/>\n    redondeza n&atilde;o h&aacute; nenhum que possa ombrear com ele na dilig&ecirc;ncia,<br \/>\n    no trabalho, e no bom cora&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o &eacute; de hoje que<br \/>\n    eu o tenho ao meu servi&ccedil;o. Enfim, basta que eu lhe diga, se Cipriano<br \/>\n    n&atilde;o fosse digno de minha benevol&ecirc;ncia, eu n&atilde;o lhe daria<br \/>\n    o que lhe prometi. E o que mais deseja voc&ecirc;, minha filha? Melhor marido<br \/>\n    posso quase assegurar-lhe que em v&atilde;o procurar&aacute; no mundo. Demais,<br \/>\n    minha filha, voc&ecirc; teve a desgra&ccedil;a de lhe haverem roubado o &uacute;nico<br \/>\n    tesouro que traz como dote a filha do pobre. Aceite portanto a minha proposta.<br \/>\n    Se Cipriano a quiser para mulher, n&atilde;o enjeite a felicidade.<\/p>\n<p> O vaqueiro n&atilde;o era mal parecido. Bernardina sentia at&eacute; por<br \/>\n    ele inclina&ccedil;&otilde;es vagas, que se n&atilde;o fossem as condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que a ligavam a Louren&ccedil;o naquele momento, poderiam ter-se convertido<br \/>\n    talvez em amor. Quando o vaqueiro cortou com sua faca de campo a corda que<br \/>\n    lhe apertava os pulsos, e a prendia ao tronco da &aacute;rvore, ela sentiu-se<br \/>\n    t&atilde;o grata ao mo&ccedil;o por esta a&ccedil;&atilde;o, filha da sua<br \/>\n    coragem e da sua caridade, que n&atilde;o teve express&otilde;es para manifestar<br \/>\n    exatamente quanto ficara cativa dele.<\/p>\n<p> Arrancando-a, para que assim o digamos, das m&atilde;os do perverso, ele<br \/>\n    n&atilde;o a livrar somente do Tunda-Cumbe, cujo despotismo j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    podia sofrer; ele seguira com ela atrav&eacute;s de matos, atravessara &aacute;guas<br \/>\n    impetuosas, e sem o menor ind&iacute;cio de a querer aviltar, trouxera-a respeitosamente<br \/>\n    at&eacute; a casa da fazenda. Por muito menos t&ecirc;m-se visto acender-se<br \/>\n    paix&otilde;es imortais; e tudo leva a supor que no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da matuta alguma dessas sublimes paix&otilde;es teria origem, se n&atilde;o<br \/>\n    se interpusesse entre o vaqueiro e ela o vulto de Louren&ccedil;o. Este vulto<br \/>\n    era simp&aacute;tico &agrave; menina por mais de um motivo. Ela conhecia Louren&ccedil;o<br \/>\n    desde a sua inf&acirc;ncia e voltava-lhe afei&ccedil;&atilde;o fraternal,<br \/>\n    quando foi roubada pelo Tunda-Cumbe.<\/p>\n<p> O sentimento fraternal n&atilde;o era contudo o que ela aninhara no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    depois que Louren&ccedil;o, revelando a sua paix&atilde;o, dera mostras de<br \/>\n    lhe dedicar especial afeto. A rapariga pouco e pouco habituara-se a querer<br \/>\n    bem ao rapaz de modo diferente. Em sua longa enfermidade esse bem aumentara.<br \/>\n    A dor aproxima as almas irm&atilde;s. Ela sofria com o sofrimento da v&iacute;tima.<\/p>\n<p> Ao princ&iacute;pio escrupulizara amar Louren&ccedil;o. &ldquo;Louren&ccedil;o<br \/>\n    pertence a Marianinha, dissera-lhe a consci&ecirc;ncia em sua linguagem muda,<br \/>\n    imperiosa. Mas depois, com os cuidados que se julgava obrigada a prestar,<br \/>\n    e de feito prestara ao rapaz em sua longa doen&ccedil;a, a voz &iacute;ntima<br \/>\n    fora pouco a pouco abafada pelo sentimento nascente: e este resultado chegara<br \/>\n    a tal ponto que o sentimento avultara, se tornara for&ccedil;a quase invenc&iacute;vel,<br \/>\n    e a consci&ecirc;ncia, posto que nunca inteiramente vencida, transigira por<br \/>\n    &uacute;ltimo.<\/p>\n<p> O amor contrariado torna-se indagador e discutidor. Bernardina, antes de<br \/>\n    responder ao fazendeiro, pensara no caso.<\/p>\n<p> &mdash; Que interesse tem seu Jo&atilde;o Mateus em me ver casada com Cipriano?<br \/>\n    Ele n&atilde;o &eacute; seu filho, n&atilde;o &eacute; seu irm&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; seu parente, n&atilde;o &eacute; nada seu: donde vem este empenho?<br \/>\n    Eu bem estou vendo que o casamento n&atilde;o &eacute; mau, e at&eacute; n&atilde;o<br \/>\n    desgosto de Cipriano, que n&atilde;o &eacute; feio, &eacute; trabalhador,<br \/>\n    e tem o g&ecirc;nio muito brando. Tamb&eacute;m estou vendo que a minha pouca<br \/>\n    sorte, entregando-me a seu Tunda-Cumbe, aumentou a minha desgra&ccedil;a.<br \/>\n    Mas quem sabe se assim como fui desgra&ccedil;ada com Tunda-Cumbe, n&atilde;o<br \/>\n    poderei vir a ser feliz com outro homem que n&atilde;o seja Cipriano? O melhor<br \/>\n    &eacute; dizer a verdade a seu Jo&atilde;o Mateus, j&aacute; que ele n&atilde;o<br \/>\n    compreendeu ainda que eu gosto de Louren&ccedil;o e Louren&ccedil;o gosta<br \/>\n    de mim. O melhor &eacute; dizer-lhe que eu quero bem a Louren&ccedil;o, e<br \/>\n    que s&oacute; com ele me casarei.<\/p>\n<p> De acordo com esta ordem de id&eacute;ias, a rapariga deu ao padre Antonio<br \/>\n    a resposta seguinte: <br \/>\n    &mdash; Eu n&atilde;o quero casar-me aqui. Louren&ccedil;o, quando me tirou<br \/>\n    do rancho do Cip&oacute;, foi me levar para a companhia de minha m&atilde;e.<br \/>\n    Se estou aqui, &eacute; porque tivemos a desgra&ccedil;a de encontrar-nos<br \/>\n    com malvados que nos quiseram matar, e a Louren&ccedil;o deixaram por morto.<br \/>\n    Esta &eacute; a verdade que estou dizendo a vosmec&ecirc;. Agora, se eu me<br \/>\n    quisesse casar, ent&atilde;o seria com Louren&ccedil;o que me conhece, e que<br \/>\n    &eacute; meu conhecido desde menino.<\/p>\n<p> O padre, que n&atilde;o contava com esta resposta, p&ocirc;s os olhos penetrantes<br \/>\n    em Bernardina, como quem queria ler todo o passado em seu semblante. Ignorando<br \/>\n    o como compromisso que Francisco tomara para com Marianinha, ficou supondo,<br \/>\n    por estas palavras de Bernardina, que esse amor que ele tratava de extinguir,<br \/>\n    tinha as suas ra&iacute;zes nos cora&ccedil;&otilde;es dos dois jovens desde<br \/>\n    os seus primeiros anos. A suposi&ccedil;&atilde;o f&ecirc;-lo por momentos<br \/>\n    considerar mais dif&iacute;cil do que ao princ&iacute;pio lhe parecera, impedir<br \/>\n    o cons&oacute;rcio; mas tirando argumentos do que acontecera &agrave; rapariga,<br \/>\n    retorquiu: <br \/>\n    &mdash; Quaisquer que forem as rela&ccedil;&otilde;es que liguem voc&ecirc;<br \/>\n    a Louren&ccedil;o, minha filha, o seu casamento com ele me parece altamente<br \/>\n    inconveniente, para n&atilde;o dizer imposs&iacute;vel. Eu tenho amplo conhecimento<br \/>\n    da vida de Louren&ccedil;o. Se, pela parte que Louren&ccedil;o tem tomado<br \/>\n    pela nobreza, j&aacute; lhe &eacute; muito arriscado, n&atilde;o obstante<br \/>\n    ser solteiro, viver em Goiana, agora, que ele foi tirar a menina do poder<br \/>\n    do feroz chefe dos bandoleiros do norte, a sua estada l&aacute;, tendo em<br \/>\n    sua companhia a menina, seria a mais direta provoca&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    vingan&ccedil;a desse chefe, e, pelo estado atual das coisas, Louren&ccedil;o<br \/>\n    seria irremissivelmente vencido. O homem que a levasse em sua companhia para<br \/>\n    Goiana, expor-se-ia a morrer. Voc&ecirc;, voltando &agrave; casa de sua m&atilde;e,<br \/>\n    pode ter desde j&aacute; a certeza de ser novamente tirada por Tunda-Cumbe.<br \/>\n    Somente longe dos lugares onde esse bandoleiro domina despoticamente, poder&aacute;<br \/>\n    ter alguma tranq&uuml;ilidade. Ora, estas paragens est&atilde;o neste caso;<br \/>\n    mas Louren&ccedil;o est&aacute; impossibilitado de procurar abrigo nelas,<br \/>\n    porque a sua fam&iacute;lia, as suas amizades, os seus benzinhos l&aacute;<br \/>\n    &eacute; que se acham, e pode-se dizer que de l&aacute; n&atilde;o podem ser<br \/>\n    deslocados. Seja, pois, cordata, e n&atilde;o enjeite a felicidade que se<br \/>\n    lhe oferece; Cipriano &eacute; de um natural muito estim&aacute;vel, eu conhe&ccedil;o-o<br \/>\n    de h&aacute; muito, e folgaria de o ter casado aqui, ao p&eacute; de mim.<br \/>\n    Deixe Louren&ccedil;o seguir o seu destino. Seus pais j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o crian&ccedil;as; mais dia, menos dia, h&atilde;o e precisar dos<br \/>\n    servi&ccedil;os e amparo do filho. Estou informado que a m&atilde;e e a irm&atilde;<br \/>\n    da menina vivem com a m&atilde;e de Louren&ccedil;o; &eacute; portanto de<br \/>\n    presumir que elas, a quem roubou o &uacute;nico protetor aquele que a voc&ecirc;<br \/>\n    roubou a honra, participem da prote&ccedil;&atilde;o que Louren&ccedil;o tem<br \/>\n    para a m&atilde;e. D&ecirc; voc&ecirc; uma prova de benevol&ecirc;ncia para<br \/>\n    a sua m&atilde;e e sua irm&atilde;, n&atilde;o sendo causa, quando por outra<br \/>\n    raz&atilde;o n&atilde;o seja, ao menos em aten&ccedil;&atilde;o ao bem estar<br \/>\n    de ambas, para que se aparte da companhia delas aquele de quem hoje tudo esperam.<\/p>\n<p> Estas palavras exprimiam t&atilde;o exatamente a verdade, que Bernardina<br \/>\n    n&atilde;o teve que retorquir ao padre, em resposta. Inclinou a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    cravou as vistas no ch&atilde;o e dali a pouco as l&aacute;grimas come&ccedil;aram<br \/>\n    a apontar-lhe nos olhos.<\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o chore, minha filha disse o padre Antonio. Voc&ecirc; ficar&aacute;<br \/>\n    morando aqui ao p&eacute; de mim. Do que eu comer, voc&ecirc;s h&atilde;o<br \/>\n    de comer tamb&eacute;m. Servir-me-&atilde;o de companhia neste deserto, e<br \/>\n    eu gui&aacute;-los-ei na vida, cujos caminhos s&atilde;o t&atilde;o dif&iacute;ceis<br \/>\n    e enredados. Em Deus fio que havemos de ter aqui a tranq&uuml;ilidade de esp&iacute;rito,<br \/>\n    e paz do Senhor, que em v&atilde;o se buscaria nestas terras, que o vento<br \/>\n    da anarquia tem revolvido, e continua a revolver.<\/p>\n<p> O padre, como se considerasse vencida a dificuldade do lado de Bernardina,<br \/>\n    encaminhou-se para o quarto onde estava Louren&ccedil;o; era preciso destruir<br \/>\n    ali o outro obst&aacute;culo, porventura mais forte que o primeiro. Mas, sem<br \/>\n    desanimar, antes fortificado com a vit&oacute;ria ganha, ele tinha quase por<br \/>\n    certo que igual vit&oacute;ria ganharia. Refletiu alguns instantes em sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    antes de penetrar no aposento do enfermo.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o estava sentado na cama, quando o padre entrou.<\/p>\n<p> Pensava precisamente em Bernardina, em quem o seu esp&iacute;rito andava<br \/>\n    absorvido.<\/p>\n<p> Tinha terminado a primeira refei&ccedil;&atilde;o, e ficara encostado &agrave;<br \/>\n    parede, os olhos voltados para a natureza que, pela janela, nesse momento<br \/>\n    aberta, se lhe mostrava fresca, espl&ecirc;ndida e magnificente.<\/p>\n<p> &mdash; H&aacute; quantos dias estou na cama? perguntou ele ao padre.<\/p>\n<p> &mdash; H&aacute; talvez, umas cinco semanas.<\/p>\n<p> &mdash; Estou doido por me levantar. Tenho muitas saudades da minha vida<br \/>\n    no campo.<\/p>\n<p> &mdash; E dos teus n&atilde;o te lembras? <br \/>\n    &mdash; De minha m&atilde;e me lembro a toda hora. N&atilde;o v&aacute; ela<br \/>\n    cuidar que j&aacute; morri por a&iacute; al&eacute;m.<\/p>\n<p> &mdash; E &eacute; natural que n&atilde;o seja outra a sua id&eacute;ia.<\/p>\n<p> &mdash; Coitada! Quantas l&aacute;grimas n&atilde;o ter&aacute; derramado<br \/>\n    por mim! <br \/>\n    &mdash; N&atilde;o te amofines por isso. Vejo-te quase s&atilde;o; em breve<br \/>\n    h&aacute;s de levantar-te. Tanto que puderes montar a cavalo, bom ser&aacute;<br \/>\n    que n&atilde;o retardes a tua volta. Deves encurtar a afli&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da pobrezinha e das outras que com ela vivem hoje.<\/p>\n<p> &mdash; &Eacute; verdade. Sinh&aacute; Joaquina e Marianinha h&atilde;o<br \/>\n    de pensar tamb&eacute;m muito em mim.<\/p>\n<p> &mdash; Mas a estas ter&aacute;s uma boa nova que levar. Quanto souberem<br \/>\n    que&nbsp; Bernardina est&aacute; bem, e fica amparada&#8230; &Eacute; verdade:<br \/>\n    devo dizer-te que Bernardina, que parecia estar condenada a trazer os olhos<br \/>\n    sempre inclinados para o ch&atilde;o pela sua desgra&ccedil;a, dentro em pouco<br \/>\n    tempo ser&aacute; digna de entrar em qualquer casa de fam&iacute;lia sem sentir<br \/>\n    os sangue subir-lhe as faces, ou sem o fazer subir &agrave;s faces das donzelas<br \/>\n    e das damas honradas.<\/p>\n<p> &mdash; Que quer dizer com isto, &ldquo;seu padre? inquiriu o rapaz, inquieto<br \/>\n    e como espantado.<\/p>\n<p> &mdash; Bernardina casar&aacute; dentro de algum tempo com Cipriano.<\/p>\n<p> &mdash; Bernardina! exclamou Louren&ccedil;o violentamente, como se lhe<br \/>\n    tivesse ca&iacute;do junto um raio. Pois Bernardina vai casar-se? <br \/>\n    &mdash; N&atilde;o te comovas tanto, meu filho. Condoendo-me da infeliz rapariga,<br \/>\n    procurei-lhe essa uni&atilde;o, que Deus h&aacute; de aben&ccedil;oar.<\/p>\n<p> &mdash; E foi vosmec&ecirc; &ldquo;seu padre, quem lhe arranjou este casamento?<br \/>\n    <br \/>\n    &mdash; De que te admiras? Cuidei que esta not&iacute;cia em vez de te causar<br \/>\n    esc&acirc;ndalo, fosse origem de muita satisfa&ccedil;&atilde;o para ti. Cipriano<br \/>\n    tem uma parte nestas terras, e tantas cabe&ccedil;as de gado quantas forem<br \/>\n    bastante para situar, ao lado desta, outra fazenda. Pareceu-me Louren&ccedil;o,<br \/>\n    que nenhum outro partido t&atilde;o favor&aacute;vel se poderia oferecer a<br \/>\n    essa menina, de quem a sorte tem feito joguete.<\/p>\n<p> &mdash; E Bernardina, &ldquo;seu padre, e Bernardina casa-se por gosto?<br \/>\n    <br \/>\n    &mdash; E por que n&atilde;o h&aacute; de&nbsp; casar por gosto? Em que parte<br \/>\n    acharia ela t&atilde;o bom marido? Em Goiana, onde conheceu seu infort&uacute;nio,<br \/>\n    e onde n&atilde;o pisar&aacute; sem expor a mil perigos a sua vida e a do<br \/>\n    homem que a levar em sua companhia? <br \/>\n    &mdash; Meu Deus! meu Deus! como as coisas se armam! exclamou Louren&ccedil;o,<br \/>\n    profundamente abalado. Eu cuidei que Bernardina&#8230;<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o n&atilde;o p&ocirc;de acabar.<\/p>\n<p> A luz fugiu-lhe dos olhos. A raz&atilde;o perdeu-se-lhe em um mar de conjeturas.<br \/>\n    Caiu sem sentidos sobre o leito.<\/p>\n<p> Correndo a socorr&ecirc;-lo, o padre Antonio dizia a meia voz, como quem<br \/>\n    respondia a uma interroga&ccedil;&atilde;o ou exprobra&ccedil;&atilde;o &#038;iaciacute;ntima:<br \/>\n    <br \/>\n    &mdash; Antes quero v&ecirc;-lo morto do que ligado a uma mulher que o n&atilde;o<br \/>\n    mere&ccedil;a. <\/p>\n<h2><a name=\"11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><\/h2>\n<p>Ainda hoje o seq&uuml;estro &eacute; um grande mal, n&atilde;o obstante suavizado<br \/>\n    pelos princ&iacute;pios novos, mal que at&eacute; nos indiferentes que o v&ecirc;em<br \/>\n    realizar-se produz vexame: pacientes h&aacute; que &agrave; dor da vergonha,<br \/>\n    preferem o suic&iacute;dio.<\/p>\n<p> A justi&ccedil;a entra pelas casas estranhas, e como se foram dela, apreende<br \/>\n    bens ali que os donos n&atilde;o deixariam passar, contra sua vontade, ao<br \/>\n    poder de outrem, sem defesa ou resist&ecirc;ncia formal, n&atilde;o raro ensang&uuml;entada.<br \/>\n    A justi&ccedil;a procede assim, fria, inexor&aacute;vel, algumas vezes arrogante,<br \/>\n    sempre hirta. Em certos casos, talvez n&atilde;o cumpra o seu of&iacute;cio<br \/>\n    com os olhos enxutos; mas, dado que isso aconte&ccedil;a, como ter uma prova<br \/>\n    da sua piedade, se a justi&ccedil;a traz nos olhos uma faixa que os vela?<br \/>\n    A verdade &eacute; que a justi&ccedil;a n&atilde;o chora nunca, n&atilde;o<br \/>\n    tem cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o tem entranhas: a justi&ccedil;a n&atilde;o<br \/>\n    tem o direito de chorar, direito vulgar que pertence a todos, at&eacute; ao<br \/>\n    que n&atilde;o tem direito nenhum.<\/p>\n<p> Era, ao menos, assim a que em Goiana, quando na fazenda do <em>Jatob&aacute;<\/em><br \/>\n    se passavam os acontecimentos que sabemos, invadiu com surpresa dos moradores<br \/>\n    o engenho Bujari, onde haviam feito estada a afli&ccedil;&atilde;o e o luto,<br \/>\n    desde que ali se teve not&iacute;cia do falecimento do sargento-mor.<\/p>\n<p> Acompanhado da fez do foro venal, parcial, ou vingativo, o oficial p&uacute;blico,<br \/>\n    incumbido da execu&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o chegou &agrave; sala da casa,<br \/>\n    trazendo a compostura, ainda que severa, da linguagem da lei, chegou ali,<br \/>\n    precedido por insultadores canalhas, quadrilheiros afeitos a conspurcar a<br \/>\n    modesta majestade das fam&iacute;lias desamparadas, e a assenhorear-se do<br \/>\n    que nos lares desprotegidos encontravam agrad&aacute;vel &agrave; sua cobi&ccedil;a;<br \/>\n    chegou ali trazendo carranca e esgares pavorosos, pelos quais se podia aferir<br \/>\n    a sua brandura, ou antes, a sua inten&ccedil;&atilde;o. Bastar&aacute; dizer<br \/>\n    que faziam parte do s&eacute;quito o Tunda-Cumbe e o Pedro de Lima, nunca<br \/>\n    assaz execrados bandidos do rancho do Cip&oacute;.<\/p>\n<p> Os insultos ign&oacute;beis, as zombarias torpes n&atilde;o tiveram for&ccedil;as<br \/>\n    para vencer o esp&iacute;rito da jovem vi&uacute;va. Em vez de se abater com<br \/>\n    esta face da sua adversidade, colheu ela novos alentos da aspereza do transe,<br \/>\n    primeiro t&atilde;o rude por que passava.<\/p>\n<p> Dois escravos, &uacute;nicos que no engenho restavam da avultada f&aacute;brica,<br \/>\n    inveja de muitos vizinhos, e que, vendo aproximar-se o bando, tentaram a fuga,<br \/>\n    quase pagaram com a vida esta dedica&ccedil;&atilde;o &agrave; senhora de<br \/>\n    engenho. Animais, m&oacute;veis, j&oacute;ias, tudo quanto representava qualquer<br \/>\n    valor, foi irremissivelmente seq&uuml;estrado. O sargento-mor, embora falecido,<br \/>\n    estava indiciado em crime de primeira cabe&ccedil;a; todos os seus haveres<br \/>\n    deviam ser confiscados para a coroa, nos termos da tenebrosa Ord. do Liv.<br \/>\n    5&ordm;. Era isto o que dizia o executor, era isto o que repetiam, vociferando<br \/>\n    irados, os sequazes, dignos daquela legisla&ccedil;&atilde;o de sangue e rapina,<br \/>\n    que os tempos justificava, mas n&atilde;o enobreciam.<\/p>\n<p> Logo que recebeu a intima&ccedil;&atilde;o para despejar o sobrado, D. Damiana,<br \/>\n    voltando-se ao santu&aacute;rio, que ainda se via em cima de uma mesa, p&ocirc;s<br \/>\n    os olhos na imagem de sua devo&ccedil;&atilde;o, e, traindo a amargura que<br \/>\n    lhe ia na alma, disse: <br \/>\n    &mdash; Para onde hei de ir, Virgem da Concei&ccedil;&atilde;o? <br \/>\n    Uma resposta amiga n&atilde;o se fez esperar: <br \/>\n    &mdash; Para a minha casa, sinh&aacute; D. Damiana, para minha casinha, que<br \/>\n    h&aacute; de ter muita honra em receb&ecirc;-la.<\/p>\n<p> A senhora de engenho, enternecida, caiu nos bra&ccedil;os de Marcelina.<\/p>\n<p> &mdash; Bem sei prosseguiu a cabocla que ela, &agrave; vista deste pal&aacute;cio,<br \/>\n    n&atilde;o merece que vosmec&ecirc; volte para ela os olhos; est&aacute; na<br \/>\n    mesma esteira dos mocambos dos negros fugidos&#8230; Mas ter&aacute; l&aacute;<br \/>\n    uma escrava para olhar por vosmec&ecirc;, e dar-lhe &aacute;gua para os p&eacute;s.<\/p>\n<p> &mdash; Havemos de ver disse um dos da multid&atilde;o havemos de ver at&eacute;<br \/>\n    quando durar&aacute; este amparo reles.<\/p>\n<p> &mdash; H&aacute; de durar at&eacute; quando vosmec&ecirc;s quiserem respondeu,<br \/>\n    sem titubear, a cabocla. Eu sei que nada do que &eacute; meu me pertence contra<br \/>\n    a vontade de vosmec&ecirc;s.<\/p>\n<p> &mdash; Marcelina, por piedade, cala-te disse D. Damiana, receando-se de<br \/>\n    roubarem aquele mesmo cantinho obscuro onde podia repousar a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    depois de haver chorado livremente os seus males.<\/p>\n<p> &mdash; Pois, j&aacute; que t&ecirc;m onde se metam, ponham-se no andar<br \/>\n    da estrada sem demora. Tudo o que est&aacute; aqui pertence a el-rei, tirado<br \/>\n    antes o que deve caber aos credores do nobre senhor falecido.<\/p>\n<p> Era, em termos ir&ocirc;nicos, a intima&ccedil;&atilde;o para que sa&iacute;ssem<br \/>\n    as duas mulheres.<\/p>\n<p> D. Damiana ergue-se imediatamente. As roupas negras, real&ccedil;ando-lhe<br \/>\n    a palidez do rosto, davam-lhe aspecto senhoril, em que ainda falava a altivez<br \/>\n    de outrora.<\/p>\n<p> Relanceou os olhos por sobre os m&oacute;veis que decoravam a sala, e dos<br \/>\n    quais ia apartar-se para sempre.<\/p>\n<p> Dando as suas vistas, no r&aacute;pido percurso, com o orat&oacute;rio,<br \/>\n    pousaram a&iacute; um momento, e dos l&aacute;bios lhe sa&iacute;ram, sem<br \/>\n    que as vistas se afastassem estas palavras: <br \/>\n    &mdash; E as minhas imagens tamb&eacute;m me s&atilde;o arrancadas das m&atilde;os?<br \/>\n    <br \/>\n    &mdash; Tudo o que existe no engenho, de porteiras para dentro, pertence &agrave;<br \/>\n    coroa, respondeu o oficial que dirigia a execu&ccedil;&atilde;o judicial.<br \/>\n    De tudo o que os rebeldes deixam, as suas vi&uacute;vas somente herdam a m&aacute;<br \/>\n    fama.<\/p>\n<p> &mdash; Vamos, Marcelina, disse D. Damiana, com decis&atilde;o, voltando-se<br \/>\n    &agrave; cabocla.<\/p>\n<p> E caminhou-se &agrave; porta, por entre a turba, que sem inten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    se abriu a fim de lhe dar passagem. Por algum tempo aqueles homens ordinariamente<br \/>\n    bulhentos, n&atilde;o tiveram uma palavra das suas grosseiras e banais chacotas<br \/>\n    com que menoscabarem a solenidade de t&atilde;o aflitivo momento.<\/p>\n<p> Chegando embaixo, Marcelina disse &agrave; senhora de engenho: <br \/>\n    &mdash; Se pud&eacute;ssemos tirar um cavalo da estrebaria&#8230; Daqui ao Cajueiro<br \/>\n    &eacute; longe para vosmec&ecirc;, sinh&aacute; D. Damiana. Como &eacute;<br \/>\n    que h&aacute; de romper tanta dist&acirc;ncia a p&eacute;? <br \/>\n    &mdash; Vamos assim mesmo, Marcelina. Nem eles nos deixariam tirar qualquer<br \/>\n    cavalo, nem os cavalos me pertencem mais. Vamos a p&eacute;. Havemos de chegar<br \/>\n    l&aacute;, ainda que seja com a noite ou com a madrugada. Demais, o Cajueiro<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; t&atilde;o longe, como dizes. Daqui uma hora, quando muito,<br \/>\n    estaremos l&aacute;.<\/p>\n<p> A vida de D. Damiana no Cajueiro, ao princ&iacute;pio passada de amarguras<br \/>\n    quase incomport&aacute;veis, foi perdendo pouco a pouco o travo dos primeiros<br \/>\n    tempos. N&atilde;o se demorou a resigna&ccedil;&atilde;o, devida em grande<br \/>\n    parte &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es ministradas por Marcelina, que fazia<br \/>\n    tudo por adivinhar os pensamentos da sua nobre h&oacute;spede.<\/p>\n<p> Uma vez, depois de certa fineza, a vi&uacute;va falou nestes termos &agrave;<br \/>\n    cabocla: <br \/>\n    &mdash; Marcelina, tu n&atilde;o nasceste para viver na pobreza; tu devias<br \/>\n    ser muito rica, e viver em pal&aacute;cio, t&atilde;o nobre &eacute;s nas<br \/>\n    tuas a&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &mdash; Quer vosmec&ecirc; que lhe diga uma coisa, sinh&aacute; D. Damiana?<br \/>\n    Dentro das casas de palha, na gente pobre, encontra-se muito bom cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Era a voz do povo que se erguia, sem floreios, em linguagem trivial, para<br \/>\n    responder &agrave; voz da nobreza vencida, mas n&atilde;o convencida.<\/p>\n<p> A hist&oacute;ria da aludida fineza conta-se em poucas palavras.<\/p>\n<p> Dois dias depois de estar no Cajueiro,a vi&uacute;va de Jo&atilde;o da Cunha<br \/>\n    travou com ela, a mulher de Francisco, o seguinte di&aacute;logo: <br \/>\n    &mdash; Eu sei disse Marcelina que vosmec&ecirc; n&atilde;o passa bem aqui.<br \/>\n    A casinha &eacute; pequena e n&atilde;o &eacute; digna.<\/p>\n<p> &mdash; Muda de conversa respondeu-lhe D. Damiana. Que &eacute; que me falta?<br \/>\n    Vim at&eacute; encontrar a tranq&uuml;ilidade e a consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que haviam fugido da casa grande.<\/p>\n<p> &mdash; Vosmec&ecirc; me perdoe, mas eu bem vejo as coisas. Por sua honra,<br \/>\n    vosmec&ecirc; diz que est&aacute; muito bem; mas pela minha tamb&eacute;m<br \/>\n    eu hei de dizer o que conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p> &mdash; Estou muito bem, sim.<\/p>\n<p> &mdash; Pois se est&aacute; bem pode ficar melhor; e isto &eacute; o que<br \/>\n    eu quero dizer. Vosmec&ecirc; pode mudar de casa, sem ir para muito longe;<br \/>\n    ficar&aacute; t&atilde;o perto daqui que, chamando por mim, eu daqui mesmo<br \/>\n    ouvirei a sua voz.<\/p>\n<p> &mdash; Como h&aacute; de ser isso ent&atilde;o? <br \/>\n    &mdash; Eu estive pensando ontem de noite e achei o que queria. Lembrei-me<br \/>\n    de que tenho em meu poder a chave da casa de seu padre Antonio, que fica ai,<br \/>\n    do outro lado da estrada. &Eacute; uma casinha bonita, limpinha e boa. Vosmec&ecirc;<br \/>\n    sabe melhor do que eu que ela foi dada a seu padre por seu sargento-mor.<\/p>\n<p> &mdash; E est&aacute; sem morador? <br \/>\n    &mdash; Est&aacute;, sim senhora. Na v&eacute;spera de fazer a viagem, que<br \/>\n    ningu&eacute;m sabe onde foi, seu Padre Antonio disse-me estas palavras, que<br \/>\n    nunca mais hei de esquecer: &ldquo;Como &eacute; poss&iacute;vel que no lugar<br \/>\n    para onde vou, tenha de entregar a alma a Deus, pe&ccedil;o-te, Marcelina,<br \/>\n    que olhes por tudo o que &eacute; meu, a minha casa, a minha cria&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    as minhas planta&ccedil;&otilde;ezinhas, de que levo tantas saudades. A estas<br \/>\n    palavras, acrescentou ele estas outras: &ldquo;Se eu morrer por l&aacute;<br \/>\n    mesmo, podem voc&ecirc;s dispor de tudo o que lhes entrego, sejam meus herdeiros;<br \/>\n    mas, enquanto n&atilde;o tiverem certeza do meu acabamento, tratem de minha<br \/>\n    casa como bons vizinhos e amigos. Eu n&atilde;o tenho certeza de seu padre<br \/>\n    ter morrido, e Deus queira que ele tenha ainda muitos anos de vida, e muito<br \/>\n    breve esteja de volta ao Cajueiro, a que deu tantos aumentos deu com a sua<br \/>\n    presen&ccedil;a; mas, enquanto ele n&atilde;o chega, sua casa h&aacute; de<br \/>\n    estar se enchendo de aranhas e de ratos, n&atilde;o &eacute; melhor estar<br \/>\n    servindo a quem j&aacute; foi dono dela e das terras onde ela est&aacute;,<br \/>\n    e que j&aacute; morou e ainda h&aacute; de morara em ricos pal&aacute;cios?<br \/>\n    <br \/>\n    D. Damiana achou caminho na proposta, e aceitou-a com reconhecimento. E para<br \/>\n    que tudo sa&iacute;sse &agrave; fei&ccedil;&atilde;o, uma preta idosa, muito<br \/>\n    pegada com a vi&uacute;va, e que fugira para o mato, por certo desgosto no<br \/>\n    engenho, vindo a saber as condi&ccedil;&otilde;es que estava a senhora, apareceu<br \/>\n    no Cajueiro logo depois da mudan&ccedil;a desta para ali, onde aquela ficou.<br \/>\n    Com a nova companhia, D. Damiana passou-se para a casa do padre, continuando<br \/>\n    Joaquina e Marianinha a morar junto de Marcelina na palho&ccedil;a que fora<br \/>\n    levantada entre a lagoa e a casa queimada.<\/p>\n<p> Estavam as coisas neste p&eacute;, quando uma noite, por volta das oito<br \/>\n    horas, D. Damiana, ainda n&atilde;o recolhida ao seu quarto, sentiu ru&iacute;dos<br \/>\n    de pisadas por perto da casa. Tinham-lhe dito que, sabedora de estar com ela<br \/>\n    a escrava Fel&iacute;cia, a autoridade viria tir&aacute;-la &agrave;s escondidas<br \/>\n    do seu poder, a fim de adjudic&aacute;-la, com os outros bens, &agrave; coroa.<br \/>\n    Novos dissabores e novas inquieta&ccedil;&otilde;es para a infeliz vi&uacute;va.<\/p>\n<p> Era aquele o &uacute;nico benzinho de que estava de posse; era todo o seu<br \/>\n    haver. E porque na atualidade os servi&ccedil;os da escrava valiam pelo de<br \/>\n    cem escravos para a senhora de engenho, a id&eacute;ia de lha tirarem trazia-a<br \/>\n    sobressaltada e agoniada.<\/p>\n<p> Por isso, ouvindo as pisadas j&aacute; ao p&eacute; da casa, correu &agrave;<br \/>\n    cozinha em busca de Fel&iacute;cia. Esta n&atilde;o se achava ali, e a porta<br \/>\n    que dava para fora estava aberta.<\/p>\n<p> Tomada de exalta&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea, sem medir a gravidade<br \/>\n    do passo, a senhora de engenho ganhou o terreiro, resoluta a disputar a presa<br \/>\n    ao roubador que, valendo-se das trevas e do ermo, viera, com emboscada, despoj&aacute;-la<br \/>\n    do &uacute;ltimo possu&iacute;do.<\/p>\n<p> Junto da porta estava, de p&eacute;, um homem que parecia indagar com as<br \/>\n    vistas, cautelosamente, se havia algu&eacute;m dentro. Vendo-o s&oacute;,<br \/>\n    a vi&uacute;va como se cobrara novos &acirc;nimos, encaminhou-se apressadamente<br \/>\n    at&eacute; onde ele estava e falou-lhe com veem&ecirc;ncia nervosa: <br \/>\n    &mdash; Senhor, quero a minha escrava, quero a minha escrava. &Eacute; o &uacute;nico<br \/>\n    bem que me resta; todos os mais levaram em nome de el-rei; mas ela, n&atilde;o<br \/>\n    consentirei que a levem. Preciso de uma escrava para o meu servi&ccedil;o.<br \/>\n    A justi&ccedil;a deve ser feita com a prata, os brilhantes, os m&oacute;veis,<br \/>\n    os bens de raiz e at&eacute; os santos de que me privou, quando eu deles mais<br \/>\n    necessitava para minha consola&ccedil;&atilde;o. Fa&ccedil;a de conta que<br \/>\n    Fel&iacute;cia j&aacute; n&atilde;o existe, ou anda fuga. A &uacute;nica s&uacute;plica<br \/>\n    que fa&ccedil;o &agrave; justi&ccedil;a de Goiana &eacute; que me deixe a<br \/>\n    minha negra.<\/p>\n<p> Estas palavras foram um raio de luz no esp&iacute;rito do desconhecido que,<br \/>\n    a modo de espanto e confuso, nenhuma palavra dirigira &agrave; agoniada senhora.<br \/>\n    Em lugar de afastar-se correu para ela, como quem queria tom&aacute;-la nos<br \/>\n    bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> Este gesto atemorizou a vi&uacute;va, que s&oacute; ent&atilde;o pareceu<br \/>\n    medir o alcance de sua temeridade.<\/p>\n<p> Faltou-lhe inteiramente a coragem para sustentar o seu papel. Quis correr,<br \/>\n    mas entrara tanto pelo terreiro que quem quando com os olhos buscou a porta<br \/>\n    da casa, viu entre esta e ela, o desconhecido, que se adiantara e se aproximava<br \/>\n    cada vez mais, fazendo men&ccedil;&atilde;o de a querer cingir com os bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o corra, n&atilde;o corra de mim, sinh&aacute; D. Damiana.<\/p>\n<p> Foi tarde. Temor p&acirc;nico tomara a gentil senhora, e ap&oacute;s o temor<br \/>\n    viera o del&iacute;quio. Se o desconhecido a n&atilde;o amparasse, se a n&atilde;o<br \/>\n    sustentasse contra o peito, ela daria com o corpo em terra, tamanha fora a<br \/>\n    exalta&ccedil;&atilde;o que lhe esgotara os poucos alentos deixados pelas<br \/>\n    adversidades recentes.<\/p>\n<p> O desconhecido era Louren&ccedil;o. Acabara de chegar da fazenda do <em>Jatob&aacute;<\/em>.<br \/>\n    Deixara o cavalo preso pelas r&eacute;deas no fundo do s&iacute;tio e viera,<br \/>\n    p&eacute; ante p&eacute;, cauteloso, para n&atilde;o ser visto, a fim de atravessar<br \/>\n    inc&oacute;lume a estrada e ganhar o lado oposto. Contando com o s&iacute;tio<br \/>\n    desabitado, tomara por ele para maior seguran&ccedil;a; mas, vendo aberta<br \/>\n    a porta da cozinha, e pressentindo morador dentro da casa, por curiosidade<br \/>\n    ficara a espiar, quando saiu D. Damiana, que de modo nenhum o pudera reconhecer,<br \/>\n    n&atilde;o s&oacute; porque estava longe de o supor t&atilde;o perto dela,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m porque era de noite, conquanto esclarecida por t&iacute;bio<br \/>\n    luar, e especialmente porque estava Louren&ccedil;o trajado muito diversamente<br \/>\n    do costume, pois trazia chap&eacute;u de palha fina, burjaca preta, cal&ccedil;as<br \/>\n    de ganga, botas de polimento, onde retiniam esporas de prata; numa palavra,<br \/>\n    Louren&ccedil;o n&atilde;o era mais o matuto ch&atilde;o, descal&ccedil;o<br \/>\n    e vulgar como quando fugira de Bujari para n&atilde;o cair nas unhas do Tunda-Cumbe.<\/p>\n<p> Toda esta transforma&ccedil;&atilde;o, como bem se compreende, era devida<br \/>\n    ao padre Antonio que, na hora da partida, brindara ao filho com aquele fato<br \/>\n    novo, o seu cavalo mais forte que tinha, o selim e arreios do seu uso, alguns<br \/>\n    trajos caseiros que chegavam exatamente no rapaz, e um cartucho de moedas<br \/>\n    de prata, n&atilde;o sem recomendar-lhe primeiro que fosse tratando de se<br \/>\n    apresentar mais dignamente, para que tivesse a considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos homens de bem; que deixasse a vida errante, e se empregasse em trabalhos<br \/>\n    est&aacute;veis; que fugisse de batebarbas com quem quer que fosse enfim,<br \/>\n    que se desse o respeito para que qualquer malfeitor n&atilde;o se julgasse<br \/>\n    no caso de lhe fazer o que os tr&ecirc;s malvados haviam praticado com ele<br \/>\n    semanas antes.<\/p>\n<p> &mdash; Se tu n&atilde;o andasses com mulheres dos outros na garupa, n&atilde;o<br \/>\n    havia de acontecer o que te aconteceu.<\/p>\n<p> Por &uacute;ltimo, disse-lhe o padre Antonio: <br \/>\n    &mdash; At&eacute; aqui, tenho somente tratado de ti; quero agora dar-te instru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que se ligam com o meu interesse. Ainda uma vez te encomendo, Louren&ccedil;o,<br \/>\n    que a ningu&eacute;m, exceto Marcelina, te suceda declarar o nome do dono<br \/>\n    desta fazenda. N&atilde;o quero fazer ju&iacute;zo temer&aacute;rio; mas uma<br \/>\n    vez &iacute;ntima, a voz de Satan&aacute;s est&aacute; a dizer-me que, se<br \/>\n    os&nbsp; frades de Goiana forem sabedores da minha estada nestas paragens,<br \/>\n    s&atilde;o capazes de mandar tirar o restante da minha inofensiva exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    somente porque n&atilde;o consenti em prestar-me a auxili&aacute;-los nos<br \/>\n    seus planos de iniq&uuml;idade e feroz vingan&ccedil;a. S&ecirc; prudente<br \/>\n    e cauteloso. N&atilde;o tenho grande apego &agrave; vida Louren&ccedil;o,<br \/>\n    mas n&atilde;o desejo que ela me seja tirada por outrem, sen&atilde;o por<br \/>\n    Aquele que me achou merecedor de guardar este pesado dep&oacute;sito.<\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o de todo restabelecido, Louren&ccedil;o deixara a fazenda,<br \/>\n    por n&atilde;o poder vencer o desgosto de ver Bernardina casar-se com o Cipriano.<\/p>\n<p> &mdash; Est&aacute; em minhas m&atilde;os dissera ele mais de uma vez impedir<br \/>\n    este casamento, que tanto desgosto me tem dado; era s&oacute; eu querer; tomava<br \/>\n    a rapariga outra vez na garupa e abalava para este mundo que n&atilde;o tem<br \/>\n    fim. Mas, o muito que devo a &ldquo;seu padre Antonio, que foi que me arranjou<br \/>\n    tamanha desgra&ccedil;a, prende-me tanto as m&atilde;os, que eu n&atilde;o<br \/>\n    posso ser bom em nada.<\/p>\n<p> Bernardina, acometida de grave enfermidade, ficara em cima de uma cama,<br \/>\n    &agrave;s portas da morte. <\/p>\n<h2><a name=\"12\">Cap\u00edtulo XII<\/a><\/h2>\n<p>A chegada de Louren&ccedil;o foi uma festa, uma primavera para todos no Cajueiro;<br \/>\n    n&atilde;o foi somente uma festa, foi principalmente uma ressurrei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma evoca&ccedil;&atilde;o que reviveu ilus&otilde;es e esperan&ccedil;as<br \/>\n    mortas, porque ele j&aacute; tido ali por perdido para sempre &agrave; vista<br \/>\n    da sua longa aus&ecirc;ncia e do sil&ecirc;ncio tumular que havia crescido<br \/>\n    em torno do seu nome.<\/p>\n<p> Passados alguns dias depois da abortada tentativa de tomada de presos, come&ccedil;aram<br \/>\n    a mostrar-se no Cajueiro, umas vezes &agrave; boca da noite, outras ao raiar<br \/>\n    do dia, nunca em hora certa, sujeitos estranhos, de suspeitas cataduras, que<br \/>\n    alguns vizinhos diziam ser do rancho do Cip&oacute;. Mais de uma vez Marcelina<br \/>\n    havia surpreendido um ou outro rondando-lhe a casa, como quem espiava a vida<br \/>\n    dos moradores. De uma feita, um deles, com todo o desplante, encarando a matuta,<br \/>\n    perguntou-lhe: <br \/>\n    &mdash; Que novas me d&aacute; de seu filho, que h&aacute; muito ningu&eacute;m<br \/>\n    lhe p&otilde;e os olhos em cima? Pois era agora ocasi&atilde;o de aparecer<br \/>\n    quem andava por estas beiradas arrotando tanta valentia.<\/p>\n<p> &mdash; Eu ia perguntar mesmo a vosmec&ecirc; tornou a cabocla o fim que<br \/>\n    lhe haviam dado; porque n&atilde;o sei onde ele para. De todo o mal que aconte&ccedil;a<br \/>\n    ao rapaz, eu s&oacute; tenho que me queixar de vosmec&ecirc;s, porque sem<br \/>\n    raz&atilde;o juraram de dar-lhe fim, desde aquela matinada que os homens fizeram<br \/>\n    para soltar &ldquo;seu Cosme Cavalcanti. Come&ccedil;aram a espalhar que Louren&ccedil;o<br \/>\n    tinha sido o autor da trag&eacute;dia, e quase que o matam.<\/p>\n<p> &mdash; E quem foi sen&atilde;o ele, que meteu os outros na dan&ccedil;a?<br \/>\n    N&atilde;o foi outro. Voc&ecirc; deve saber de tudo, agora p&otilde;e-se de<br \/>\n    fora como quem n&atilde;o sabe como se arranjou a hist&oacute;ria. Eu s&oacute;<br \/>\n    queria ainda encontr&aacute;-lo com vida. E se fosse hoje, que estou com os<br \/>\n    meus <em>calundus<\/em>, voc&ecirc; e ele haviam de ver o bonito.<\/p>\n<p> &mdash; Vosmec&ecirc; n&atilde;o tem raz&atilde;o; o rapaz n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mau.<\/p>\n<p> &mdash; Ele sempre foi muito mauzinho, n&atilde;o por voc&ecirc;, mas pelos<br \/>\n    bofes que trouxe do Pasmado. Pelo gosto de voc&ecirc;, ele n&atilde;o fazia<br \/>\n    muita coisa que n&atilde;o era para ele fazer, porque ele n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    nada; mas &eacute; que ele lhe tomou f&ocirc;lego,e n&atilde;o leva mais voc&ecirc;<br \/>\n    em conta.<\/p>\n<p> &mdash; O que eu sei &eacute; que vosmec&ecirc;s deram fim aqui ao meu filho;<br \/>\n    s&oacute; me parece que nunca mais o tornarei a ver.<\/p>\n<p> Ditas estas palavras, Marcelina p&ocirc;s-se a chorar, enquanto o espi&atilde;o,<br \/>\n    como se comovera, ou convencera, nenhuma lhe voltou em resposta, e deu logo<br \/>\n    o andar.<\/p>\n<p> Posteriormente, espalhou-se em Goiana que o rapaz tinha morrido. Pedro de<br \/>\n    Lima dizia a quem queria ouvir, jactando-se da sua proeza, que havia deixado<br \/>\n    por morto o filho de Francisco, &agrave; beira do Tracunha&eacute;m, por ocasi&atilde;o<br \/>\n    de encontr&aacute;-lo, vindo ele, Pedro de Lima, entender-se com o Tunda-Cumbe<br \/>\n    sobre certa dilig&ecirc;ncia de muita circunst&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Ocioso seria dizer quanto esta triste nova enlutou as mulheres que por tantos<br \/>\n    la&ccedil;os, cada qual mais estreito, se achavam ligados ao jovem almocreve.<br \/>\n    Marcelina, conquanto acostumada a receber m&aacute;s not&iacute;cias desde<br \/>\n    que Francisco se ausentara, e que Louren&ccedil;o dera em fazer freq&uuml;entes<br \/>\n    jornadas para fora; Marcelina que, muitas vezes, quando algu&eacute;m vinha<br \/>\n    lhe dizer que seu filho estava preso, que o marido era morto, tinha esta resposta<br \/>\n    invari&aacute;vel: &ldquo;Tempo de guerra, mentira como terra, desta vez n&atilde;o<br \/>\n    pode suster as l&aacute;grimas por muitos dias; e quanto mais tempo se passava,<br \/>\n    mais crescia aos seus olhos a certeza daquela infausta nova, que o testemunho<br \/>\n    pessoal de Pedro de Lima e os dois companheiros, verificado por pessoas s&eacute;rias,<br \/>\n    viera confirmar em termos que n&atilde;o admitiam r&eacute;plica.<\/p>\n<p> Foi nestas condi&ccedil;&otilde;es que Louren&ccedil;o ressurgiu inesperadamente,<br \/>\n    vivo, forte, e at&eacute; mais bonito de fei&ccedil;&otilde;es. A longa estada<br \/>\n    &agrave; sombra, pela enfermidade, e posteriormente pela convalescen&ccedil;a,<br \/>\n    dera ocasi&atilde;o a que suas formas se desenvolvessem e aumentassem, se<br \/>\n    lhe afinasse e clareasse a pele, enegrecesse o cabelo, apontasse a barba.<br \/>\n    Essas formas, j&aacute; varonis, adquiriram um novo dom a gentileza; os olhos,<br \/>\n    j&aacute; cheios de brilho, receberam de desconhecido centro de luz novos<br \/>\n    raios em que se deixava reconhecer o reflexo de paix&otilde;es impacientes.<br \/>\n    A express&atilde;o dessas esferas luminosas. que graciosamente se moviam entre<br \/>\n    as pestanas finas e bastas, era banhada em &aacute;ureas vivacidades, com<br \/>\n    uns longes lampejos l&aacute;cteos, que um pintor poderia copiar para primor<br \/>\n    das suas estampas. Demais e era talvez esta circunst&acirc;ncia exterior o<br \/>\n    que mais afirmava a diferen&ccedil;a no trajar, Louren&ccedil;o j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o era o almocreve <em>tu<\/em>, desasseado e grosseiro; as novas roupas<br \/>\n    em que apareceu metido, davam-lhe o aspecto que distingue os homens de boa<br \/>\n    proced&ecirc;ncia e educa&ccedil;&atilde;o. Poucos meses bastaram para o afeto<br \/>\n    de pai transformar o filho.<\/p>\n<p> No outro dia pela manh&atilde;, reunidos todos na casa ocupada por D. Damiana,<br \/>\n    Louren&ccedil;o deu mostras de n&atilde;o ter mudado o seu sentimento para<br \/>\n    Francisco, assim como tinha mudado de formas e trajos.<\/p>\n<p> &mdash; Eu vim somente dizer-lhes, advertiu ele, n&atilde;o morri, porque<br \/>\n    nem eu posso ficar por muito tempo aqui &agrave; vista de todos, nem, ainda<br \/>\n    que pudesse, ficaria antes de saber not&iacute;cias de meu pai. Eu sempre<br \/>\n    cuidei que ele j&aacute; estivesse de volta; mas uma vez que ainda n&atilde;o<br \/>\n    veio, uma vez que est&aacute; sabe Deus onde, devo ir ver se o encontro vivo<br \/>\n    ou morto.<\/p>\n<p> &mdash; Filho aben&ccedil;oado, tornou-lhe Marcelina, era isto mesmo o que<br \/>\n    eu queria te dizer. Vai, e n&atilde;o voltes sem trazer Francisco adiante<br \/>\n    de ti. N&atilde;o me digas nem por gra&ccedil;a que ele morreu, porque assim<br \/>\n    como tu tornaste cada vez mais bonito, quando todos aqui diziam e at&eacute;<br \/>\n    eu cuidava que j&aacute; n&atilde;o existias, assim Francisco h&aacute; de<br \/>\n    tornar tamb&eacute;m, gordo, forte e mais mo&ccedil;o, que Deus n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; de permitir que meu marido, t&atilde;o bom, morra por a&iacute;<br \/>\n    al&eacute;m sem ter quem, na hora da morte, lhe chame pelo nome de Jesus.<\/p>\n<p> Nada, por&eacute;m, ficou assentado quanto ao dia da partida. Louren&ccedil;o<br \/>\n    disse que se sentia cansado da longa jornada; D. Damiana, que ficara muito<br \/>\n    abalada do susto e como&ccedil;&atilde;o porque passara na noite precedente<br \/>\n    pediu tempo para escrever, com a devida pausa e medita&ccedil;&atilde;o, uma<br \/>\n    carta minuciosa que Louren&ccedil;o devia entregar a Amador, &uacute;nico<br \/>\n    parente que, conquanto preso, a podia atualmente valer e socorrer.<\/p>\n<p> Um ponto negro, que se mostrara logo no horizonte iluminado pela presen&ccedil;a<br \/>\n    do rapaz, come&ccedil;ou a avultar de hora em hora a id&eacute;ia do perigo<br \/>\n    que ele correria, se se deixasse ficar no Cajueiro, enquanto n&atilde;o seguia<br \/>\n    para o Recife. Aos olhos de Marcelina, prudente e prevenida, j&aacute; come&ccedil;avam<br \/>\n    a aparecer a cada canto os vultos suspeitos, os espi&otilde;es sinistros que<br \/>\n    tempos atr&aacute;s haviam tido as vistas sobre a palho&ccedil;a, amea&ccedil;ando<br \/>\n    devass&aacute;-la e esmerilha-la, cantinho por cantinho, na inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de descobrir quem havia incorrido no &oacute;dio dos mascates pela sua dedica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos nobres. Marcelina tinha o cora&ccedil;&atilde;o nas m&atilde;os, de sobressaltada<br \/>\n    e temerosa que andava. Ainda n&atilde;o haviam decorrido vinte e quatro horas<br \/>\n    depois da chegada de Louren&ccedil;o, e j&aacute; a solicitude da cabocla,<br \/>\n    estremecendo pela seguran&ccedil;a dele, n&atilde;o sabia onde o resguardar<br \/>\n    de emboscadas e dela&ccedil;&otilde;es inimigas.<\/p>\n<p> &mdash; Tu n&atilde;o podes ficar aqui muito tempo, Louren&ccedil;o. V&ecirc;<br \/>\n    l&aacute; como te haveis.<\/p>\n<p> Depois de refletir por alguns momentos, Louren&ccedil;o, dando mostras de<br \/>\n    ter achado a melhor solu&ccedil;&atilde;o, tranq&uuml;ilizou os esp&iacute;ritos<br \/>\n    com estas palavras: <br \/>\n    &mdash; N&atilde;o se importem comigo. Os cabras n&atilde;o h&atilde;o de<br \/>\n    lamber-me. Tenho um lugar que ningu&eacute;m suspeita, e para mim &eacute;<br \/>\n    o melhor que eu podia encontrar. Irei dormir l&aacute; todas as noites; e<br \/>\n    at&eacute; de dia, estando eu l&aacute;. N&atilde;o h&aacute; quem seja capaz<br \/>\n    de descobrir onde estou.<\/p>\n<p> Passou-se o dia sem coisa de maior. Quando o sol desapareceu por tr&aacute;s<br \/>\n    da mata do Bujari, deixando cair sobre a estrada as primeiras sombras da tarde,<br \/>\n    o rapaz, armado com faca e pistola uma pistola que encontrara em casa do padre<br \/>\n    Antonio despedindo-se das mulheres, tomou pelos fundos do s&iacute;tio do<br \/>\n    mesmo padre, e alcan&ccedil;ou a mata. Logo adiante deu com o cavalo dentro<br \/>\n    do fechado onde o deixara todo o dia. Em vez de o cavalgar, foi levando-o<br \/>\n    por um cabresto, com grande dificuldade, porque n&atilde;o podia dar um passo<br \/>\n    sem lhe ser preciso antes abrir caminho atrav&eacute;s das folhagens e cip&oacute;s<br \/>\n    emaranhados, que faziam redes e tapagens de diferentes formas.<\/p>\n<p> Depois de andar um bom peda&ccedil;o pelo mato a dentro, parou para se orientar.<br \/>\n    Tinha o esp&iacute;rito confuso. Perdera-se no labirinto e n&atilde;o sabia<br \/>\n    onde estava. Com o rigoroso inverno, as antigas veredas haviam desaparecido,<br \/>\n    e em lugar delas, e onde supunha encontr&aacute;-las, o que achou foram &aacute;rvores<br \/>\n    novas, cujos galhos se entrela&ccedil;avam, fazendo com os longos fios e as<br \/>\n    mi&uacute;das folhas dos cip&oacute;s, largos panos que o seu bra&ccedil;o<br \/>\n    por fim j&aacute; se sentia cansado de mutilar e romper. A cada passo ouvia<br \/>\n    o sibilar de cascav&eacute;is, ouvia os suspeitos ru&iacute;dos da massa enorme<br \/>\n    da selva que n&atilde;o se afronta impunemente.<\/p>\n<p> &mdash; Por onde ando eu, meu Deus? disse come&ccedil;ando a apoderar-se<br \/>\n    de inquieta&ccedil;&atilde;o. Estou perdido. J&aacute; nada vejo. Escureceu<br \/>\n    de todo mais cedo do que eu cuidava. Agora n&atilde;o h&aacute; outro rem&eacute;dio<br \/>\n    sen&atilde;o ficar aqui mesmo.<\/p>\n<p> Quando estava neste solil&oacute;quio, ouviu, n&atilde;o longe o ponto onde<br \/>\n    parara, rumor de cavalgada e vozes. Deu mais alguns passos para a frente,<br \/>\n    e p&ocirc;de reconhecer, por entre as sombras da noite, que estava n&atilde;o<br \/>\n    no seio da mata, como julgara, mas &agrave; beira do cercado do engenho Bujari.<br \/>\n    Obra de cinq&uuml;enta bra&ccedil;as na frente dele passava a estrada, e pouco<br \/>\n    adiante se deixava ver, como uma grande laje escalvada e negra, a casa grande<br \/>\n    do engenho.<\/p>\n<p> &mdash; Ora, meu Deus! Como vim parar aqui? <br \/>\n    Ficou um momento em sil&ecirc;ncio, observando o lugar, combinando as id&eacute;ias,<br \/>\n    buscando uma resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o tardou muito que lhe ocorreu um pensamento singular, e, na realidade,<br \/>\n    original o de pernoitar na pr&oacute;pria casa do engenho, que, conquanto<br \/>\n    seq&uuml;estrada com os demais bens do defunto, nenhum destino se lhe havia<br \/>\n    dado ainda.<\/p>\n<p> &mdash; &Eacute;, e n&atilde;o &eacute; arriscado dormir l&aacute; disse<br \/>\n    Louren&ccedil;o, como se praticasse consigo mesmo. Quem &eacute; que h&aacute;<br \/>\n    de pensar que eu vou dormir no engenho? Ainda que soubessem que eu j&aacute;<br \/>\n    estou em Goiana, ningu&eacute;m havia de me julgar com a coragem de ir recolher-me<br \/>\n    na casa grande, quanto mais n&atilde;o havendo quem saiba que eu cheguei.<br \/>\n    Em vez de arriscado, eu acho at&eacute; que &eacute; o lugar mais seguro que<br \/>\n    possa encontrar por aqui para estar. Nunca ningu&eacute;m h&aacute; de ir<br \/>\n    l&aacute; em minha procura.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o quebrou as varas do cercado, para que o cavalo pudesse passar,<br \/>\n    e, logo que lhe pareceu estar longe a cavalgada atravessando a estrada, tomou<br \/>\n    para a casa grande.<\/p>\n<p> Chegando a&iacute;, estranhou quase tudo o que viu. Nada h&aacute; que desfigure<br \/>\n    tanto os lugares destinados &agrave; habita&ccedil;&atilde;o do homem como<br \/>\n    deix&aacute;-los por algum tempo sem habitador, porque tomam conta dele outras<br \/>\n    habitantes de diversa natureza, tomam conta dele os matos, os musgos, as pariet&aacute;rias,<br \/>\n    os bichos pe&ccedil;onhentos: a situa&ccedil;&atilde;o demuda-se: as paredes<br \/>\n    amarelecem ou enegrecem: aqui escalam-se, acol&aacute; embu&ccedil;am-se nessa<br \/>\n    vegeta&ccedil;&atilde;o parasitas que estendem os seus dom&iacute;nios mais<br \/>\n    depressa pelas regi&#038;otildeotilde;es onde pisou o p&eacute;, ou pousou a m&atilde;o<br \/>\n    humana, do que nas regi&otilde;es virgens em que plantas mais fortes e avultadas<br \/>\n    n&atilde;o lhe d&atilde;o lugar &agrave; invas&atilde;o.<\/p>\n<p> &Agrave; roda da casa nascera um jerobebal espesso, em cujo fechado poderia<br \/>\n    esconder-se, n&atilde;o s&oacute; um homem, mas muitos homens; dentro dele,<br \/>\n    em caso de aperto, ainda mesmo de dia, Louren&ccedil;o poderia ocultar-se<br \/>\n    com o cavalo, sem receio de ser descoberto, a n&atilde;o haver suspeita ou<br \/>\n    den&uacute;ncia que determinassem busca minuciosa.<\/p>\n<p> O seu primeiro passo foi para a estrebaria.<\/p>\n<p> &mdash; Ponho a&iacute; meu cavalo, e deito-me perto dele. Uma noite passa<br \/>\n    depressa.<\/p>\n<p> Assim fez. A porta da estrebaria estava encostada, mas n&atilde;o trancada.<br \/>\n    A invernada tinha esburacado as paredes do lado norte,e&nbsp; pelos buracos<br \/>\n    penetrava no interior a escassa luz da lua cheia, que mal deixava distinguir<br \/>\n    os objetos, dando-lhes fei&ccedil;&otilde;es que infundiam pavor.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o p&ocirc;s o cavalo a comer na longa manjedoura deserta um<br \/>\n    pouco de milho que trouxera do Cajueiro, e estendeu-se sobre uma t&aacute;bua<br \/>\n    velha, junto da porta.<\/p>\n<p> &mdash; O ladr&atilde;o que entrar aqui h&aacute; de primeiro pisar em mim,<br \/>\n    antes de pegar o cavalo.<\/p>\n<p> Tentou dormir, mas n&atilde;o p&ocirc;de. As sombras do aposento destinado<br \/>\n    a animais, e n&atilde;o a homens, lan&ccedil;avam-lhe vagos temores no esp&iacute;rito.<br \/>\n    De um e outro lado ouvia silvos de cobras. Pesados sapos saltavam-lhe por<br \/>\n    cima do corpo, aumentando a intensidade das impress&otilde;es desagrad&aacute;veis.<br \/>\n    O mau cheiro das emana&ccedil;&otilde;es delet&eacute;rias que se desprendiam<br \/>\n    de restos de mat&eacute;rias corruptas por tantos meses retidas naquele pequeno<br \/>\n    espa&ccedil;o, onde o ar n&atilde;o girava livremente, come&ccedil;ou a produzir<br \/>\n    no h&oacute;spede tonturas e n&aacute;useas, que o determinaram a mudar de<br \/>\n    pouso.<\/p>\n<p> Pensou ent&atilde;o em pernoitar no sobrado. Mas havia de deixar o cavalo<br \/>\n    sem defesa? Ainda se a estrebaria pudesse trancar-se&#8230;<\/p>\n<p> Levando a m&atilde;o &agrave; porta, deu ai com a chave na fechadura.<\/p>\n<p> &mdash; Ora bem! disse com satisfa&ccedil;&atilde;o. Fechada a porta, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o ser&aacute; t&atilde;o f&aacute;cil furtarem o animal. Qualquer<br \/>\n    barulho me despertar&aacute;, e em dois saltos estarei c&aacute; embaixo.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o deu a volta &agrave; chave, que tirou. A porta era segura.<br \/>\n    N&atilde;o se podia por dentro com duas raz&otilde;es.<\/p>\n<p> Rodeou a casa, n&atilde;o sem as devidas cautelas, e vencida a escada de<br \/>\n    tijolo, parou &agrave; porta de entrada, entre as tr&ecirc;s janelas da direita,<br \/>\n    e as outras tr&ecirc;s da esquerda, que davam ao sobrado o aspecto de um convento.<br \/>\n    Pela entrada principal n&atilde;o podia abrir caminho, visto que estava trancada;<br \/>\n    mas, com a for&ccedil;a das chuvas, ou da ventania, fora aberta a primeira<br \/>\n    janela da direita, para a qual n&atilde;o era dif&iacute;cil passar do peitoril<br \/>\n    de pedra e cal com que terminava o longo plano de parede que ladeava a escada,<br \/>\n    sem esfor&ccedil;o p&ocirc;de ele alcan&ccedil;ar o batente, e saltar dentro.<\/p>\n<p> A sala, onde se achava, era a destinada &agrave;s mulheres. Penetrando a&iacute;,<br \/>\n    sentiu-se tomado de instintivo respeito, porque pouca vezes em vida do sargento-mor<br \/>\n    tivera ocasi&atilde;o de chegar at&eacute; o aristocr&aacute;tico aposento<br \/>\n    de D. Damiana, e sempre que nele entrava, era seguido de todos os escr&uacute;pulos<br \/>\n    que a nobreza e a representa&ccedil;&atilde;o da gentil senhora impunham aos<br \/>\n    que mais ou menos dependiam de sua casa.<\/p>\n<p> A admira&ccedil;&atilde;o do rapaz foi ainda maior quando notou que a mob&iacute;lia<br \/>\n    nova, comprada por Jo&atilde;o da Cunha para ocupar o lugar da que fora arremessada<br \/>\n    de cima do p&aacute;tio do engenho e a&iacute; entregue &agrave;s chamas pelo<br \/>\n    bando do Tunda-Cumbe dois anos antes, estava no mesmo lugar em que a vira<br \/>\n    pela &uacute;ltima vez. O santu&aacute;rio, o estrado, o bufete de D. Damiana<br \/>\n    faziam nascer a ilus&atilde;o de morar ela ainda na sua casa, longe de qualquer<br \/>\n    constrangimento, e ainda menos pen&uacute;ria. O seq&uuml;estro parecia n&atilde;o<br \/>\n    ter tido sen&atilde;o um fim o de humilhar a vi&uacute;va e o nome do orgulhoso<br \/>\n    membro da nobreza.<\/p>\n<p> Bem depressa por&eacute;m outras foram as impress&otilde;es.<\/p>\n<p> A luz do luar, alongando-se pela sala em forma de um vasto len&ccedil;os<br \/>\n    da largura da janela, mostrou-lhe a porta da alcova aberta, e l&aacute; dentro<br \/>\n    um vulto de grandes dimens&otilde;es que aparecia, como uma larga mancha escura,<br \/>\n    no fundo da parede. Era a cama do casal ausente. do casal que nunca mais se<br \/>\n    de juntar havia ali, cama altaneira, ao paladar do tempo, para a qual se subia<br \/>\n    por degraus. Estava nua, mas tinha o estrado em ser.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o parou defronte dela: contemplou-a por instantes; chegou<br \/>\n    a comover-se. Aquela arma&ccedil;&atilde;o parecia-se mais com uma e&ccedil;a<br \/>\n    do que o teto de um leito onde a tranq&uuml;ilidade e o repouso deveram ter<br \/>\n    dado momentos de suave satisfa&ccedil;&atilde;o. Os bons tempos tinham passado<br \/>\n    por cima daquela &aacute;rvore de felicidade, tinham-lhe levado os adornos<br \/>\n    e eleg&acirc;ncia, filhos da posse e condi&ccedil;&atilde;o dos c&ocirc;njuges,<br \/>\n    e tinham-lhe deixado os ramos nus, secos e desgraciosos, representavam o arcabou&ccedil;o<br \/>\n    da passada exist&ecirc;ncia, outrora vestido de len&ccedil;aria, sedas e damascos,<br \/>\n    agora mal coberto por tecidos de outra esp&eacute;cie os que fabricavam no<br \/>\n    escuro e no sil&ecirc;ncio as aranhas, essa industriais dos bairros despovoados.<br \/>\n    Era a imagem viva do casal j&aacute; desfeito em parte pela morte. Figurava<br \/>\n    a vi&uacute;va reduzida &agrave; extrema pobreza, desataviada, recolhida,<br \/>\n    em escuro canto e condi&ccedil;&atilde;o. Tudo o que fora grandeza e soberba<br \/>\n    desaparecera com o finado consorte.<\/p>\n<p> Logo que se desvaneceu esta primeira impress&atilde;o que n&atilde;o podia<br \/>\n    durar muito, porque o momento n&atilde;o era para reflex&otilde;es filos&oacute;ficas,<br \/>\n    nem o c&eacute;rebro do rapaz comportava larga medita&ccedil;&atilde;o, ocorreu-lhe<br \/>\n    a id&eacute;ia de passar a noite na pr&oacute;pria cama diante da qual se<br \/>\n    achava.<\/p>\n<p> Mas agora eis que lhe surgem novos escr&uacute;pulos no curto esp&iacute;rito;<br \/>\n    nova luta vem a&iacute; travar-se: vem o respeito pueril dizer-lhe que n&atilde;o<br \/>\n    devia ocupar o lugar que pertencera a t&atilde;o nobres e respeit&aacute;veis<br \/>\n    pessoas. Pareceu-lhe que o vulto do sargento-mor surgiria diante dele, com<br \/>\n    a usual arrog&acirc;ncia, para tomar-lhe satisfa&ccedil;&atilde;o da sua ousadia.<\/p>\n<p> &mdash; Deitar-me na cama de seu sargento-mor! advertia ele dentro de si<br \/>\n    mesmo. Dormirei em ouro lugar, naquele estrado, ou naquele canap&eacute;.<\/p>\n<p> Antes de se decidir por qualquer dos m&oacute;veis indicados, chegou-se<br \/>\n    &agrave; janela para ver se havia alguma novidade da banda de fora. Era tudo<br \/>\n    sil&ecirc;ncio e imobilidade. Abaixando a cabe&ccedil;a para o lado da cavalari&ccedil;a,<br \/>\n    e prestando aten&ccedil;&atilde;o como quem escutava, pareceu-lhe ouvir longe,<br \/>\n    longe, o estalido do milho quebrado pelos forte molares do cavalo. A lua estava<br \/>\n    no horizonte, e mal esclarecia a paragem com a sua alva luz enfraquecida.<br \/>\n    Ao cabo de pouco mais a escurid&atilde;o dentro do sobrado seria completa.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o voltou-se para a alcova, e ganhou resolutamente a cama.<\/p>\n<p> Por um fen&ocirc;meno fisiol&oacute;gico, que os sensualistas ou os materialistas<br \/>\n    talvez expliquem facilmente, em lugar do vulto do sargento-mor, o que surgiu<br \/>\n    na fantasia do rapaz, foi a imagem da vi&uacute;va, conjunto de perfei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    humanas. Deitar-se na mesma cama onde ela se deitava, afigurou-se-lhe o mesmo<br \/>\n    que ter a gentil vi&uacute;va ao seu lado. A intimidade com um objeto de pessoa<br \/>\n    que consideramos acima de n&oacute;s, parece dar-nos a intimidade com o pr&oacute;prio<br \/>\n    dono dele: abate as barreiras, enche os abismos que nos separam.<\/p>\n<p> Ilus&atilde;o ou fen&ocirc;meno natural, Louren&ccedil;o sentiu-se imediatamente<br \/>\n    outro. Acenderam-se-lhes as paix&otilde;es, determinando-lhe estremecimentos<br \/>\n    nervosos. Ofegava, como se a imagem da formosa mulher fora uma realidade,<br \/>\n    e esta ali estivera com o calor, a suavidade da pele, a voluptuosidade do<br \/>\n    amplexo e do &oacute;sculo, produzindo nele a excita&ccedil;&atilde;o, ou<br \/>\n    antes estimulando-lhe as sufocantes ambi&ccedil;&otilde;es da carne. Louren&ccedil;o<br \/>\n    pensou em tudo o que a natureza p&otilde;e nas formas da mulher bela para<br \/>\n    ado&ccedil;ar no homem, por instantes, as agruras deixadas pelo trabalho,<br \/>\n    que &eacute; a sua lei fatal, pela inveja dos outros homens, pelas injusti&ccedil;as<br \/>\n    da sociedade, enfim pelas mis&eacute;rias da comunh&atilde;o exterior, que,<br \/>\n    se em certos casos protege e ampara, em outros gera cren&ccedil;as vener&aacute;veis,<br \/>\n    destr&oacute;i incentivos nobres, desnorteia e avilta afetos que devia encaminhar<br \/>\n    e ajudar a subir, bafeja ruins paix&otilde;es que desenvolve indiretamente,<br \/>\n    comunica a bons cora&ccedil;&otilde;es o v&iacute;rus da sua perf&iacute;dia,<br \/>\n    ensina maus caminhos pelo seu exemplo, planta a semente do ego&iacute;smo<br \/>\n    onde havia o germe da generosidade natural.<\/p>\n<p> A ilus&atilde;o, casando-se com a lembran&ccedil;a, p&ocirc;s na fantasia<br \/>\n    do rapaz um quadro completo. Ele reviu, porventura mais vivamente, a cena<br \/>\n    em que representara vinte e quatro horas antes, perto da casa do padre Antonio,<br \/>\n    com a orgulhosa senhora de engenho. Sentiu novamente os bra&ccedil;os, desta<br \/>\n    vez com melhor consci&ecirc;ncia, porque em lugar do inesperado de ent&atilde;o,<br \/>\n    tinha agora o conhecimento pr&eacute;vio e a sensa&ccedil;&atilde;o antecipada,<br \/>\n    sentiu o doce contato do corpo de D. Damiana, inteiramente entregue ao seu<br \/>\n    corpo. A precipita&ccedil;&atilde;o com que atravessara a estrada e fora bater,<br \/>\n    sobressaltado e aflito &agrave; porta da palho&ccedil;a onde j&aacute; dormia<br \/>\n    Marcelina, n&atilde;o lhe tinha dado, al&eacute;m disso, ocasi&atilde;o para<br \/>\n    bem apreciar os atrativos daquela que carregara em desmaio. Esses atrativos<br \/>\n    desenhavam-se agora, no fundo sombrio do quarto, como se fora iluminado em<br \/>\n    tela; e ele via-os distintamente, um por um, cada qual mais encantador, ou<br \/>\n    fossem os grandes olhos ternos que ela pusera nele quando tornou a si, ou<br \/>\n    fossem os espessos cabelos negros que pelos ombros se lhe espalharam, ora<br \/>\n    cobrindo, ora descobrindo o colo anelante, ou fossem as m&atilde;os afiladas,<br \/>\n    aristocr&aacute;ticas, frias, em que ele pegara tr&ecirc;mulo e comovido,<br \/>\n    ou fossem sobre todos os outros atrativos, o corpo nem muito pobre nem muito<br \/>\n    rico de carnes, mas muit&iacute;ssimo graciosos, pelas curvas brandas, pela<br \/>\n    flexibilidade compar&aacute;vel &agrave; das hastes das plantas novas que,<br \/>\n    ao mais leve toque da vira&ccedil;&atilde;o, se inclinam, e tornam logo &agrave;<br \/>\n    sua natural atitude.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o viu tudo isto, ora vagamente, ora permanentemente, sem poder<br \/>\n    ter diante dos olhos outra vis&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o dormiu um s&oacute; instante, posto houvesse levado a noite neste<br \/>\n    sonho fant&aacute;stico e ideal.<\/p>\n<p> Quando menos pensava a primeira claridade do dia penetrou na c&acirc;mara.<\/p>\n<p> Passara toda a noite lidando com a vi&uacute;va do sargento-mor, no dormir<br \/>\n    mais original que ainda tivera na vida.<\/p>\n<h2><a name=\"13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/h2>\n<p>Aos vinte e tr&ecirc;s anos de idade por grandes que sejam os dissabores<br \/>\n    e desenganos, ningu&eacute;m pode impor &agrave;s suas pr&oacute;prias paix&otilde;es<br \/>\n    que se n&atilde;o agitem. O cora&ccedil;&atilde;o, como o c&eacute;rebro,<br \/>\n    rege-se por leis impreter&iacute;veis. Ora, a primeira, ao menos, uma das<br \/>\n    principais dessas leis &eacute; a linguagem pr&aacute;tica da for&ccedil;a,<br \/>\n    resist&ecirc;ncia &agrave;s adversidades, confian&ccedil;a no volver dos dias,<br \/>\n    esquecimento das dores passadas, f&eacute;  n&atilde;o encontro outra<br \/>\n    palavra que t&atilde;o bem designe o poder de n&atilde;o cair aos golpes dos<br \/>\n    acontecimentos, e de arrost&aacute;-los com intrepidez  f&eacute; nas<br \/>\n    energias f&iacute;sicas e nas aspira&ccedil;&otilde;es espirituais, que diz<br \/>\n    interiormente, com acentos prof&eacute;ticos: N&atilde;o esmore&ccedil;as,<br \/>\n    n&atilde;o enfraque&ccedil;as. &Eacute;s mo&ccedil;o, resiste, vence as dificuldades;<br \/>\n    luta com as resist&ecirc;ncias que se atravessam. N&atilde;o v&ecirc;s no<br \/>\n    mundo, no passado, na hist&oacute;ria, nos teus dias, n&atilde;o v&ecirc;s<br \/>\n    os mo&ccedil;os dominando terr&iacute;veis oposi&ccedil;&otilde;es, porque<br \/>\n    eles t&ecirc;m for&ccedil;a, porque os seus m&uacute;sculos, os seus nervos,<br \/>\n    o seu c&eacute;rebro ainda t&ecirc;m vigor para muitos anos, para muito tempo,<br \/>\n    e os anos&nbsp; e os tempos mudam as circunst&acirc;ncias, matam inimigos,<br \/>\n    fazem surgir amigos novos, fazem aparecer outros merecimentos, criam novas<br \/>\n    recomenda&ccedil;&otilde;es, restabelecem o imp&eacute;rio da justi&ccedil;a,<br \/>\n    que &eacute; a lei em virtude da qual cada um deve adquirir aquilo que vale?<br \/>\n    \n  <\/p>\n<p>  D. Damiana era um po&ccedil;o de desgostos. De uma alta representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n  na vila onde nascera, caiu na plan&iacute;cie da pobreza, afundou-se na obscuridade.<br \/>\n  &Agrave;s sedas e aos brilhantes substitu&iacute;ram-se-lhe j&oacute;ias e roupas<br \/>\n  da viuvez. Os sorrisos que so&iacute;am entreabrir-lhe os l&aacute;bios, quando,<br \/>\n  para comemorar datas distintas se reunia em sua casa a primeira nobreza no lugar,<br \/>\n  haviam desaparecido sob l&aacute;grimas silenciosas e longas, que lhe desciam<br \/>\n  agora pelas faces cobertas de mortal palidez. &Eacute; f&aacute;cil imaginar<br \/>\n  o desgosto que lhe acarretara a s&uacute;bita transforma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas uma j&oacute;ia, um tesouro, havia ficado com ela. Por n&atilde;o lho<br \/>\n    poder arrebatar a morte do marido, a aus&ecirc;ncia dos parentes, as inj&uacute;rias<br \/>\n    da plebe amotinada e capitaneada pelos inimigos da nobreza, o seq&uuml;estro,<br \/>\n    a r&aacute;pida mudan&ccedil;a de uma exist&ecirc;ncia talvez de fausto para<br \/>\n    uma exist&ecirc;ncia que estava ao n&iacute;vel das que sustenta a caridade<br \/>\n    particular; essa j&oacute;ia, esse tesouro, eram os seus vinte e tr&ecirc;s<br \/>\n    anos; era a musculatura nova; eram a s carnes rijas, o sangue puro, o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sem les&atilde;o, a massa encef&aacute;lica forte, funcionando regular e plenamente.<\/p>\n<p> Para quem est&aacute; em semelhantes condi&ccedil;&otilde;es, a resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o tarda, e a resigna&ccedil;&atilde;o em tais casos &eacute; o ressurgir<br \/>\n    das esperan&ccedil;as um instante submersa no mar dos contratempos. D. Damiana<br \/>\n    conformou-se. As fadas amigas, nas quais se acreditava ent&atilde;o, praticando<br \/>\n    com ela em misterioso e secreto dialeto, tinham lan&ccedil;ado no seu esp&iacute;rito<br \/>\n    estas id&eacute;ias: Pensar&aacute;s que o mundo se acabou para ti, com a<br \/>\n    morte do teu marido, com a perda dos teus bens? Enganas-te. Tens beleza, e<br \/>\n    est&aacute;s na flor da vida. Se choras hoje, amanh&atilde; poder&aacute;s<br \/>\n    ter nos l&aacute;bios sorrisos novos, mais lou&ccedil;&atilde;os talvez que<br \/>\n    os que perdeste. Se est&aacute;s agora na mis&eacute;ria, poder&aacute;s daqui<br \/>\n    a pouco voltar &agrave; abund&acirc;ncia, e reergueres o cetro que te caiu<br \/>\n    da m&atilde;o.<\/p>\n<p> D. Damiana acreditou nestas vozes lisonjeiras, que n&atilde;o eram vozes<br \/>\n    de fadas, porque as fadas, como anjos, ou diabos, ou quaisquer influ&ecirc;ncias<br \/>\n    de semelhante natureza, nunca existiram sen&atilde;o nas supersti&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos tempos ignaros que precederam os nossos mas, sim, eram a linguagem natural<br \/>\n    da consci&ecirc;ncia, enriquecida e esclarecida pela observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e pelo conhecimento da vida.<\/p>\n<p> Por singular coincid&ecirc;ncia que n&atilde;o &eacute;, todavia, dif&iacute;cil<br \/>\n    explicar, n&atilde;o ouviu elas advert&ecirc;ncias &iacute;ntimas sen&atilde;o<br \/>\n    depois de ter visto Louren&ccedil;o. N&atilde;o era ele o testemunho vivo<br \/>\n    e irrecus&aacute;vel dessa verdade? De pobre e humilde, que fora, n&atilde;o<br \/>\n    se ia tornando de pouco a pouco outro, quer quanto &agrave;s suas posses,<br \/>\n    quer quanto &agrave; sua condi&ccedil;&atilde;o? N&atilde;o havia achado um<br \/>\n    protetor  o fazendeiro desconhecido, que talvez fosse seu pai visto<br \/>\n    que tinha para ele extremos de afeto e liberalidade pouco comum? Esse desconhecido<br \/>\n    n&atilde;o poderia dar-lhe mais tarde tudo o que era seu, e definitivamente<br \/>\n    afian&ccedil;ar a sua completa independ&ecirc;ncia? Assim como por uma volta<br \/>\n    inesperada a sorte se tornara prop&iacute;cia para quem dantes rastejava no<br \/>\n    p&oacute; dos caminhos, por que somente para ela, Damiana, havia de ser implac&aacute;vel<br \/>\n    e imut&aacute;vel? N&atilde;o era poss&iacute;vel que dentro de pouco tempo<br \/>\n    outra revolu&ccedil;&atilde;o rebentasse contra o governador Machado, a exemplo<br \/>\n    do sucedera ao seu antecessor, Sebasti&atilde;o de Castro Caldas? <br \/>\n    Quem me diz  ponderava consigo a vi&uacute;va  quem me diz que,<br \/>\n    de posse novamente dos meus bens, hoje no poder da justi&ccedil;a ou de terceiros,<br \/>\n    n&atilde;o&nbsp; se me deparar&aacute; outro marido, que me levante da humildade<br \/>\n    em que ora jazo? <br \/>\n    Absorta nesta ordem de id&eacute;ias, por entre as quais o vulto do rapaz<br \/>\n    se mostrava na vaga recorda&ccedil;&atilde;o da cena do terreiro, estava D.<br \/>\n    Damiana sentada &agrave; porta do s&iacute;tio, com as vistas embebidas no<br \/>\n    laranjal verde e florido que o sombreava, quando pressentiu que se avizinhava<br \/>\n    algu&eacute;m. Voltando os olhos, deu com Louren&ccedil;o, que vinha chegando<br \/>\n    do engenho.<\/p>\n<p> Vaga impress&atilde;o de satisfa&ccedil;&atilde;o sentiu a vi&uacute;va,<br \/>\n    descobrindo o rapaz. Durante a noite, sem que ela o quisesse. pensara mais<br \/>\n    de uma vez nele. Fora triste a sua principal id&eacute;ia. Temia que lhe acontecesse<br \/>\n    qualquer desastre. Se o prendessem, que seria dela e das outras mulheres?<br \/>\n    <br \/>\n    O seu semblante, talvez por isto, talvez por nascente interesse que a ia prendendo<br \/>\n    ao rapaz, traiu o prazer &iacute;ntimo que a vista dele produzira nela. Quanto<br \/>\n    a Louren&ccedil;o, trazia no rosto uns longes de palidez, nos olhos brilho<br \/>\n    &uacute;nico e a modo de amortecido que lhe n&atilde;o eram usuais.<\/p>\n<p> Bom dia, sinh&aacute; D. Damiana  disse ele &agrave; vi&uacute;va.<\/p>\n<p> Esta, sem se poder dominar, j&aacute; tinha dito antes: <br \/>\n    Gra&ccedil;as a Deus que te vejo, Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Por que diz vosmec&ecirc; esta palavra? <br \/>\n    Porque&#8230; porque estes tempos est&atilde;o cru&eacute;is. A gente deita-se<br \/>\n    livre, e acorda na pris&atilde;o.<\/p>\n<p> Teriam andado aqui em busca de mim? <br \/>\n    N&atilde;o, porque n&atilde;o sabem talvez que est&aacute; no Cajueiro; mas,<br \/>\n    a id&eacute;ia de que andam nas tuas pisadas, n&atilde;o me deixa o esp&iacute;rito.<br \/>\n    A cada canto parece-me ver inimigos e perseguidores.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o mostrou-se satisfeito com estas palavras, que acusavam da<br \/>\n    parte da vi&uacute;va solicitude para ele.<\/p>\n<p> E como sem consci&ecirc;ncia, tornou irresistivelmente: <br \/>\n    Eu tamb&eacute;m levei toda a noite pensando em sinh&aacute; D. Damiana.<\/p>\n<p> Cuidavas, talvez, que me dariam na casa, que viriam fazer-me novos insultos.<\/p>\n<p> Cuidei em tanta coisa, que nem vosmec&ecirc; sabe. Cuidei em tanta coisa,<br \/>\n    em tanta coisa, meu Deus!&#8230;<\/p>\n<p> De repente, acrescentou: <br \/>\n    Vou ver minha m&atilde;e como amanheceu. Vou dizer-lhe que os cabras me deixaram<br \/>\n    em paz por esta.<\/p>\n<p> A primeira pessoa que o rapaz viu sentada &agrave; porta da palho&ccedil;a,<br \/>\n    com os olhos na dire&ccedil;&atilde;o donde ele ia, foi Marianinha. Pouco<br \/>\n    depois apareceu Marcelina.<\/p>\n<p> Deitei-me com o credo na boca, Louren&ccedil;o. Deus te aben&ccedil;oe.<br \/>\n    Deixa-me tomar um f&ocirc;lego bem comprido, que levei toda a noite com um<br \/>\n    peso no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Marianinha disse somente que n&atilde;o era bom Louren&ccedil;o andar pelas<br \/>\n    bandas da casa do padre Antonio, porque os mascates que deviam ter os olhos<br \/>\n    na negra de D. Damiana, podiam v&ecirc;-lo e prend&ecirc;-lo. Marcelina achou<br \/>\n    raz&atilde;o no que dizia Marianinha, mas Louren&ccedil;o dissipou estes receios,<br \/>\n    observando que quando tivessem que cercar a casa, haviam de vir de noite,<br \/>\n    e n&atilde;o &agrave;quelas horas.<\/p>\n<p> Na manh&atilde; seguinte, voltando Louren&ccedil;o do sobrado, foi sabedor<br \/>\n    de uma novidade que o abalou; a casa onde residia D. Damiana tinha sido cercada<br \/>\n    de noite, e haviam arrancado de dentro a negra Fel&iacute;cia.<\/p>\n<p> Para ostenta&ccedil;&atilde;o do pouco caso, realizou-se a dilig&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave; luz de fachos, e com grande acompanhamento; e para melhor fundamento<br \/>\n    desta publicidade, haviam feito correr antes voz de fama que naquela casa<br \/>\n    estavam acoitados, al&eacute;m da negra, todos os escravos que tinham fugido<br \/>\n    para o mato, logo que a estrela do sargento-mor empalidecera.<\/p>\n<p> Os esbirros varejaram todos os cantos e recantos, n&atilde;o s&oacute; da<br \/>\n    casa principal, mas tamb&eacute;m de todas as palho&ccedil;as da redondeza.<br \/>\n    Na de Marcelina a busca foi mi&uacute;da e paciente.<\/p>\n<p> O tro&ccedil;o  j&aacute; se sabe, mas devo repeti-lo, ainda com<br \/>\n    o risco de me tornar enfadonho  era composto, em sua maior parte, da<br \/>\n    ral&eacute; que formava o esquadr&atilde;o do Tunda-Cumbe. Informado de se<br \/>\n    planejar aquela dilig&ecirc;ncia, tinha vindo expressamente do rancho do Cip&oacute;,<br \/>\n    a porem por obra as suas maldades, esses vagabundos organizados em um corpo<br \/>\n    numeroso, que chegava aos pontos mais importantes da vasta regi&atilde;o das<br \/>\n    matas, isto &eacute;, daquela regi&atilde;o onde se mostravam situados os<br \/>\n    duzentos&nbsp; e cinq&uuml;enta engenhos que se contavam em Pernambuco. Tristes<br \/>\n    e lastimosos tempos eram estes, em que &ldquo;a vil e p&iacute;fia canalha<br \/>\n    vagabunda tinha permiss&atilde;o de entrar pelas fazendas e moradas destitu&iacute;das<br \/>\n    do poder que as defendesse, a decomp&ocirc;-las, e roub&aacute;-las, como<br \/>\n    por of&iacute;cio, sem respeito &agrave; nobreza dos donos, nem ao decoro<br \/>\n    das venerandas matronas, nelas assistentes, sem armas, sem for&ccedil;as e<br \/>\n    sem socorro algum que as amparasse(2). Medonhos tempos em que &ldquo;metidos<br \/>\n    os nobres pelos matos, suas mulheres, suas filhas e fam&iacute;lias em triste<br \/>\n    desamparo, o Camar&atilde;o e o Tunda-Cumbe roubavam nas campanhas, matando<br \/>\n    cada qual por sua parte bois, vacas e cria&ccedil;&otilde;es, e corriam e<br \/>\n    revolviam os interiores mais rec&ocirc;nditos das casas principais de Pernambuco,<br \/>\n    sem cortesia, nem respeito &agrave;s suas donas(2).<\/p>\n<p> D. Damiana mal p&ocirc;de resistir ao golpe de lhe tirarem a escrava. Tinha<br \/>\n    visto, cheia de coragem, ir-se toda a sua fortuna; mas aquele pequeno resto,<br \/>\n    que era quase metade da sua exist&ecirc;ncia, atento o estado em que se achava<br \/>\n    posta, n&atilde;o p&ocirc;de v&ecirc;-lo desaparecer de seu poder, sem cair<br \/>\n    de cama.<\/p>\n<p> O desacato, conquanto previsto, e a tristeza em que encontrou a senhora<br \/>\n    de engenho, sugeriram a Louren&ccedil;o um pensamento que se deu pressa a<br \/>\n    realizar. A escrava foi logo arrematada por um senhor de engenho dali perto.<br \/>\n    Com ele entendeu-se Louren&ccedil;o; e com o dinheiro que lhe dera o padre,<br \/>\n    e um pouco das economias destinadas por Marcelina para a compra de um s&iacute;tio,<br \/>\n    recomprou a Fel&iacute;cia. &Eacute; in&uacute;til dizer da satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de D. Damiana, ao ver entrar novamente em casa a sua escrava de estima&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Obrigada, obrigada, Louren&ccedil;o, disse, sentindo algumas l&aacute;grimas<br \/>\n    umedecer-lhe os olhos. Restitu&iacute;ste-me uma parte da minha tranq&uuml;ilidade,<br \/>\n    do meu sossego.<\/p>\n<p> Este ato foi origem de novas altera&ccedil;&otilde;es no Cajueiro. Marianinha<br \/>\n    que notara grande frieza no rapaz, sentiu aumentarem-se as suas suspeitas<br \/>\n    e ci&uacute;mes.<\/p>\n<p> Uma manh&atilde;, voltando Louren&ccedil;o da casa de engenho, onde continuava<br \/>\n    a pernoitar, porque mais do que nunca se receava de ciladas, viu na beira<br \/>\n    da estrada, no ponto que ficava justamente fronteiro &agrave; casa de D. Damiana,<br \/>\n    uma mulher sentada. Era a filha de Joaquina.<\/p>\n<p> Que est&aacute; fazendo aqui, Marianinha? <br \/>\n    Por &uacute;nica resposta, disse-lhe a rapariga: <br \/>\n    Olhe, Louren&ccedil;o: h&aacute; muito que tenho ten&ccedil;&atilde;o de lhe<br \/>\n    dizer os meus sentimentos. Voc&ecirc; &eacute; muito ingrato para mim.<\/p>\n<p> Marianinha, voc&ecirc; parece que n&atilde;o est&aacute; em seu ju&iacute;zo<br \/>\n    desde que cheguei.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade que n&atilde;o estou. Vivo triste sem gosto de nada. Desde<br \/>\n    que essa mulher veio morar aqui, foi-se embora a minha esperan&ccedil;a. Vejo<br \/>\n    tudo cor de carv&atilde;o.<\/p>\n<p> Que mulher? <br \/>\n    Que mulher! Fa&ccedil;a-se desentendido. Voc&ecirc; bem sabe a quem &eacute;<br \/>\n    que me quero referir.<\/p>\n<p> Tenha ju&iacute;zo, Marianinha. Voc&ecirc; est&aacute; ofendendo com suas<br \/>\n    palavras uma dona que n&atilde;o &eacute; qualquer. Voc&ecirc; est&aacute;<br \/>\n    dizendo coisas &agrave; toa.<\/p>\n<p> Estou dizendo o que o meu peito sente.<\/p>\n<p> Mas eu &eacute; que n&atilde;o estou para ouvir coisas que n&atilde;o devo.<br \/>\n    Que tenho eu com o que seu peito sente? <br \/>\n    A rapariga inclinou a cabe&ccedil;a. N&atilde;o teve outra resposta sen&atilde;o<br \/>\n    o sil&ecirc;ncio e as l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> N&atilde;o chore, tornou-lhe o rapaz. N&atilde;o sei o que querem dizer<br \/>\n    estas l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Esta fingida e calculada ignor&acirc;ncia de Louren&ccedil;o, irritando<br \/>\n    os melindres da matutinha, deu-lhe &acirc;nimo para retorquir, com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    erguida, em atitude de quem exprobrava: <br \/>\n    Querem dizer que a sua ingratid&atilde;o atravessa o meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como faca de matador; Bernardina, desgra&ccedil;ada no princ&iacute;pio, vai<br \/>\n    ter um marido, vai ter sua casa; eu sou mais desgra&ccedil;ada do que ela,<br \/>\n    porque estou vendo me roubarem aquele que me pertencia.<\/p>\n<p> Eu nunca lhe pertenci, Marianinha.<\/p>\n<p> Dizendo isto, com maus modos, deu o andar, deixando a rapariga sem pingo<br \/>\n    de sangue nas faces, porque todo ele lhe reflu&iacute;ra ao cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pela impress&atilde;o nervosa.<\/p>\n<p> No dia seguinte, Louren&ccedil;o n&atilde;o a encontrou ali; mas, no outro,<br \/>\n    l&aacute; estava, quando ele atravessou a estrada, mais tarde do que costumava.<\/p>\n<p> Logo que seus olhos deram na filha de Joaquina, Louren&ccedil;o encaminhou-se<br \/>\n    diretamente para ela, e, com modos ainda mais rudes do que da outra vez, falou-lhe<br \/>\n    neste termos: <br \/>\n    Marianinha, n&atilde;o fa&ccedil;a mais isto, n&atilde;o fa&ccedil;a. Devo-lhe<br \/>\n    alguma coisa, para voc&ecirc; ficar aqui &agrave; espera? <br \/>\n    N&atilde;o me deve nada, mas quero vir v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Visivelmente contrariado, tornou-lhe Louren&ccedil;o: <br \/>\n    N&atilde;o estou para semelhantes impertin&ecirc;ncias. N&atilde;o quero que<br \/>\n    me espiem, nem &eacute; bonito voc&ecirc; ficar aqui &agrave; beira da estrada,<br \/>\n    onde passa tanta gente.<\/p>\n<p> Mas, ela respondeu-lhe com brandura que quase o enterneceu: <br \/>\n    N&atilde;o se zangue, Louren&ccedil;o. Eu n&atilde;o lhe mere&ccedil;o ingratid&otilde;es,<br \/>\n    o que eu lhe mere&ccedil;o s&atilde;o outros sentimentos. N&oacute;s pod&iacute;amos<br \/>\n    ser t&atilde;o felizes&#8230;<\/p>\n<p> Felizes? Voc&ecirc; &eacute; que est&aacute; na obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de buscar a felicidade para mim, ou sou eu mesmo que a devo buscar? <br \/>\n    N&atilde;o se zangue, Louren&ccedil;o  repetiu ela. O que eu defendo<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; a sua, &eacute; a minha felicidade, que me querem tirar.<br \/>\n    Eu a tinha no cora&ccedil;&atilde;o; mas isto n&atilde;o valeu nada. Da&iacute;<br \/>\n    mesmo a est&atilde;o arrancando.<\/p>\n<p> Passando adiante, Louren&ccedil;o deixou-a ainda mais chorosa que no outro<br \/>\n    dia.<\/p>\n<p> No momento em que a rapariga voltava &agrave; sua palho&ccedil;a, Joaquina<br \/>\n    procurava-a na de Marcelina.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o &eacute; esta a primeira vez que Marianinha me deixa<br \/>\n    s&oacute;, e vai meter-se n&atilde;o sei onde. A rapariga anda t&atilde;o<br \/>\n    triste que tenho medo de alguma coisa.<\/p>\n<p> N&atilde;o adivinha voc&ecirc; o que &eacute; isto? inquiriu Marcelina.<\/p>\n<p> Que ser&aacute;? <br \/>\n    Vontade de casar-se.<\/p>\n<p> N&atilde;o duvido.<\/p>\n<p> Marianinha n&atilde;o se esquece de Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o &eacute; uma grande pessoa. Se eu visse minha filha casada<br \/>\n    com ele, considerava todos os meus gostos satisfeitos.<\/p>\n<p> Eu tenho muito desejo de v&ecirc;-lo casado. Na idade dele o homem perde-se<br \/>\n    depressa, se n&atilde;o se casa logo. Ora deixe estar que eu hei de falar<br \/>\n    a Louren&ccedil;o, sobre este neg&oacute;cio. Mas n&atilde;o v&aacute; dizer<br \/>\n    nada &agrave; menina. Nestes dois dias direi o que se passar.<\/p>\n<p> Marianinha, ao princ&iacute;pio, quase inteiramente desorientada com o que<br \/>\n    acontecera, tomou, por fim, uma dessas resolu&ccedil;&otilde;es her&oacute;icas<br \/>\n    que somente o amor sugere, estimulado pelo ci&uacute;me.<\/p>\n<p> Hei de vencer Louren&ccedil;o pela minha const&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Firme nesta resolu&ccedil;&atilde;o, foi esper&aacute;-lo no ponto onde<br \/>\n    costumava.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o tinha passado a manh&atilde; mais feliz da sua vida. Os<br \/>\n    seus col&oacute;quios com a senhora de engenho nada ofereciam digno de reparo;<br \/>\n    eram sempre sustentados em termos respeitosos e discretos; a coragem de Louren&ccedil;o<br \/>\n    enfraquecia perante a id&eacute;ia de revelar a sua mais preciosa elei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ele e D. Damiana conversavam sobre a guerra, as persegui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    as ocorr&ecirc;ncias do tempo. O prazer de Louren&ccedil;o resumia-se em ver<br \/>\n    a vi&uacute;va t&atilde;o graciosa, em ouvir-lhe as palavras t&atilde;o bonitas:<br \/>\n    o rapaz vivia encantado pela companhia. A vi&uacute;va, do seu lado, gostava<br \/>\n    de ver o rapaz, cujo rosto adquirira grandes atrativos; gostava de admirar<br \/>\n    nele uma grande &acirc;nimo.<\/p>\n<p> Tanto em um como no outro, o que havia, quando assim se embebiam em m&uacute;tua<br \/>\n    e branda contempla&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o era sen&atilde;o amor; mas<br \/>\n    esse amor n&atilde;o sabia como se declarar; era um amor original<br \/>\n    receio e respeito de um lado, superioridade, altivez, gratid&atilde;o do outro.<br \/>\n    Era um amor que ainda n&atilde;o havia amadurecido  eis a verdade.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o fora feliz naquela manh&atilde;, porque, da conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com D. Damiana, notara de parte dela menos altivez, mais benevol&ecirc;ncia.<br \/>\n    mais intimidade, e certas revela&ccedil;&otilde;es de ternura que, conquanto<br \/>\n    sem a penetra&ccedil;&atilde;o que a educa&ccedil;&atilde;o gera ou agu&ccedil;a,<br \/>\n    o rapaz interpretou como a confiss&atilde;o t&aacute;cita de lhe ir dando<br \/>\n    posse do seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Vinha ele absorto na considera&ccedil;&atilde;o de t&atilde;o grande bem,<br \/>\n    quando, pela terceira vez, descobriu Marianinha no ponto sabido.<\/p>\n<p> De chofre, passando da satisfa&ccedil;&atilde;o ao dissabor, apressou o<br \/>\n    passo para aquele lugar. A sua exalta&ccedil;&atilde;o revelou-se-lhe t&atilde;o<br \/>\n    vivamente no rosto, que a rapariga tremeu imediatamente do passo que tinha<br \/>\n    dado.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o n&atilde;o p&ocirc;de dominar-se. Os seus instintos animais,<br \/>\n    tanto tempo adormecidos, acordaram impetuosos, e ofuscaram-lhe, por assim<br \/>\n    dizer, o discernimento. Com a viol&#038;ecircecirc;ncia que tinha quando lhe chegavam<br \/>\n    estas tem&iacute;veis manifesta&ccedil;&otilde;es da &iacute;ndole bravia,<br \/>\n    pegou no bra&ccedil;o da rapariga, como se fora um galho de &aacute;rvore<br \/>\n    que quisesse arrancar.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o! gritou ela aterrada. Que &eacute; isto, Louren&ccedil;o?<br \/>\n    <br \/>\n    Ainda pergunta? <br \/>\n    A voz soturna foi um novo motivo de pavor para a rapariga, <br \/>\n    N&atilde;o lhe disse que n&atilde;o viesse mais aqui? <br \/>\n    Foi o ci&uacute;me, o ci&uacute;me&#8230;<\/p>\n<p> Ci&uacute;me!  clamou ele irando-se cada vez mais  Se para<br \/>\n    me ver livre de quem tanto me aborrece, for necess&aacute;rio fazer uma morte,<br \/>\n    hei de faz&ecirc;-la, hei de faz&ecirc;-la.<\/p>\n<p> N&atilde;o me mate, Louren&ccedil;o  suplicou a rapariga em pranto.<\/p>\n<p> Mato-te, sim. N&atilde;o quero mais enxergar-te diante dos meus olhos.<\/p>\n<p> Vendo no mesmo instante, luzir a faca na m&atilde;o do almocreve, Marianinha<br \/>\n    empregou os esfor&ccedil;os que p&ocirc;de para soltar-se. Louren&ccedil;o<br \/>\n    correu atr&aacute;s dela, e chegou a feri-la covardemente pelas costas. O<br \/>\n    mais vil assass&iacute;nio ter-se-ia consumado, se a rapariga n&atilde;o alcan&ccedil;asse<br \/>\n    logo a palho&ccedil;a.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o parou &agrave; porta, enquanto Marcelina e Joaquina tomavam<br \/>\n    nos bra&ccedil;os a mo&ccedil;a banhada em sangue.<\/p>\n<p> Que loucura foi esta, Louren&ccedil;o. Dize-me, por que fizeste esta a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o feia? Virgem da Concei&ccedil;&atilde;o! E eu que cuidava que estavas<br \/>\n    curado do teu mal natural, desgra&ccedil;ado filho.<\/p>\n<p> De outro lado, Joaquina, indignada, horrorizada, dizia, com a valentia das<br \/>\n    m&atilde;es ofendidas: <br \/>\n    Pela minha ben&ccedil;&atilde;o, te pe&ccedil;o, filha, que n&atilde;o olhes<br \/>\n    mais para este homem. Esquece-te dele, filha de minha alma.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o esteve um momento em sil&ecirc;ncio, contemplando a sua<br \/>\n    triste obra. Pouco a pouco, a sua exalta&ccedil;&atilde;o foi moderando, a<br \/>\n    sua loucura transit&oacute;rio foi cedendo lugar &agrave; consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Caiu em si. A palidez dos finados tomou-lhe as faces. Enfiado, envergonhado,<br \/>\n    arrependido, deu o andar para onde estava Marcelina, e disse-lhe, pondo as<br \/>\n    m&atilde;os, em atitude de quem suplicava: <br \/>\n    N&atilde;o chore, n&atilde;o chore, minha m&atilde;e. Estou arrependido.<\/p>\n<p> Pois n&atilde;o hei de chorar, quando te vejo dar t&atilde;o triste c&oacute;pia<br \/>\n    de ti?! <br \/>\n    Perdoe-me, minha m&atilde;e. Eu sou um animal, uma fera. N&atilde;o pensei<br \/>\n    no que fiz. Tudo isto se acaba, deixando eu o Cajueiro. Vou-me embora, vou-me<br \/>\n    embora. Se eu j&aacute; tivesse ido em busca de meu pai, n&atilde;o aconteceria<br \/>\n    isto agora.<\/p>\n<p> Abra&ccedil;ou Marcelina e saiu enxugando os olhos. <\/p>\n<h2><a name=\"14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/h2>\n<p>No mesmo dia em que se deu este triste caso, um cavaleiro, acompanhado de<br \/>\n    vistosos pajens, descavalgou, por volta de tr&ecirc;s horas da tarde, &agrave;<br \/>\n    porta de D. Damiana.<\/p>\n<p> N&atilde;o me esperava por aqui agora, prima?  perguntou ele, logo<br \/>\n    que avistou a senhora de engenho.<\/p>\n<p> Esta correu para o rec&eacute;m-chegado. Abra&ccedil;aram-se com efus&atilde;o:<br \/>\n    l&aacute;grimas de contentamento orvalharam os olhos da vi&uacute;va.<\/p>\n<p> Por aqui, Amador?! Eu tinha j&aacute; uma carta escrita para lhe mandar.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o pensava que n&atilde;o nos tornar&iacute;amos mais a ver? <br \/>\n    Que poderia eu pensar, sendo t&atilde;o crus os nossos inimigos? S&oacute;<br \/>\n    milagre.<\/p>\n<p> Amador sorriu ironicamente.<\/p>\n<p> Sim, milagre foi; milagre do deus-a&ccedil;&uacute;car, ou antes, do deus-dinheiro.<br \/>\n    N&atilde;o me compreendes, prima? N&atilde;o sabe que Cristovam de Holanda,<br \/>\n    nosso parente, preso pelo Bacalhau a dezoito caixas de a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    de que abriu m&atilde;o a sua mulher, deve o ter voltado &agrave; sua liberdade?(6)<br \/>\n    N&atilde;o sabe que o mesmo milagre se reproduziu com Andr&eacute; de Abril<br \/>\n    de Souza, Antonio Cavalcanti Bezerra e outros? (6) &Eacute; um deus todo poderoso<br \/>\n    o deus-a&ccedil;&uacute;car: F&eacute;lix Jos&eacute; Machado rende-lhe o<br \/>\n    culto especial que n&atilde;o tem para o verdadeiro Deus  aquele que<br \/>\n    o h&aacute; de punir pelos seus crimes. Ao deus-a&ccedil;&uacute;car devo<br \/>\n    tamb&eacute;m a minha salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Amador tinha entrado. No exterior dava logo a conhecer que ele se tratava<br \/>\n    &agrave; lei da nobreza. Um pouco empertigado, um pouco arrogante, olhando<br \/>\n    por cima do ombro, era o mesmo que dantes. A pris&atilde;o n&atilde;o lhe<br \/>\n    abatera a vaidade. Solto, parecia mais orgulhoso do antes de ser preso, <br \/>\n    Percorrendo as vistas por sobre os objetos que cercavam a cunhada, e somente<br \/>\n    descobrindo neles humildade e mod&eacute;stia, n&atilde;o p&ocirc;de fugir<br \/>\n    de observar, com acento de moralista: <br \/>\n    Mas, em que estado a venho encontrar, prima! A &uacute;ltima vez que a vi<br \/>\n    foi ao lado do mano Jo&atilde;o. Tinha voc&ecirc; todos os mimos da felicidade<br \/>\n    e da nobreza. Venho agora ach&aacute;-la s&oacute;, vestida de luto, quase<br \/>\n    desamparada neste ingrato ermo. Reveses da sorte. Mas Deus &eacute; grande.<br \/>\n    Quando voc&ecirc; nem mais se lembrava de mim, entro-lhe pela porta, para<br \/>\n    velar pelo seu destino. Nada lhe faltar&aacute; de hora em diante. Estou livre,<br \/>\n    outra vez livre.<\/p>\n<p> Por ocasi&atilde;o do jantar, Amador desenrolou aos olhos da cunhada o tristonho<br \/>\n    quadro das persegui&ccedil;&otilde;es e rigores.<\/p>\n<p> Principiou contando-lhe o que ele pr&oacute;prio sofrera de Lu&iacute;s<br \/>\n    Br&aacute;s, o famigerado carcereiro das Cinco-Pontas.<\/p>\n<p> Lu&iacute;s Br&aacute;s &eacute; a imagem fiel dos ministros, seus superiores<br \/>\n    na hierarquia, seus iguais nas perf&iacute;dias e manhas. O seu Deus j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; o deus-a&ccedil;&uacute;car; tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o Deus d&rsquo;Abr&atilde;o, mas o deus-dobr&atilde;o. Os grilh&otilde;es<br \/>\n    &ldquo;feitos a molde de tormento e de mart&iacute;rio, porque n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m mais de um palmo, para impedir aos presos o andar, com o ferro quadrado<br \/>\n    e farpado para ferir, os elos t&atilde;o justos que a alguns presos fazem<br \/>\n    inchar as pernas, os grilh&otilde;es, inventiva do ministro da devassa, realizada<br \/>\n    pela C&acirc;mara, enchem as m&atilde;os de Lu&iacute;s Br&aacute;s de alourado<br \/>\n    fruto. &ldquo;Sem mais ordem de justi&ccedil;a, ele bota nos presos para,<br \/>\n    a pre&ccedil;o de moedas d&rsquo;ouro, se livrarem deles. Outras vezes, &ldquo;quando<br \/>\n    quer que lhas d&ecirc;em, amea&ccedil;a-os com eles, o que n&atilde;o produz<br \/>\n    pequeno lucro. Nenhum dos presos logra escrever duas regras a quem quer que<br \/>\n    seja, sem pagar a este fiscal da tirania o costumado imposto. &ldquo;As boas<br \/>\n    festas que Lu&iacute;s Br&aacute;s d&aacute; aos presos nas ocasi&otilde;es<br \/>\n    e dias delas, &eacute; convid&aacute;-los para grilh&otilde;es, inventando<br \/>\n    novas ordens para bot&aacute;-los, a fim de haver por este modo, em c&acirc;mbio,<br \/>\n    moedas d&rsquo;ouro, porque mais que este, valem em sua m&atilde;o os ferros.<br \/>\n    A este c&atilde;o da porta do inferno, porque inferno &eacute; a pris&atilde;o<br \/>\n    das Cinco-Pontas, paguei eu o tributo extorquido pela fereza e perversidade.<br \/>\n    Provei dos seus grilh&otilde;es, enchi-lhe do meu ouro as m&atilde;os. A carta<br \/>\n    que escrevi &agrave; prima, participando o falecimento de seu marido, custou-me<br \/>\n    seis moedas d&rsquo;ouro. As pernas, trago-as ainda inchadas do tormento infernal,<br \/>\n    mais rendoso que um engenho ou uma fazenda. Imagine a prima, pelo que rapidamente<br \/>\n    lhe estou narrando, o que n&atilde;o padeceram as onze v&iacute;timas que<br \/>\n    compuseram a primeira remessa para Lisboa, o que padeceram Andr&eacute; Dias<br \/>\n    de Figueiredo, Bernardo Vieira de Melo, Cosme Bezerra, Cosme Bezerra Cavalcanti<br \/>\n     nosso primo, Jo&atilde;o de Barros Correa, Jos&eacute; Tavares de<br \/>\n    Holanda, Leonardo Bezerra Cavalcanti, Louren&ccedil;o da Silva e Manoel Bezerra,<br \/>\n    ilustres m&aacute;rtires em que o governador e os infames ministros primeiro<br \/>\n    ensaiaram a sua sanha.<\/p>\n<p> D. Damiana escutava, atenta e comovida, esta r&aacute;pida rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos padecimentos infligidos aos nobres pelos instrumentos do governador. Por<br \/>\n    vezes benzia-se, de assombrada do que ouvia, e em que dificilmente queria<br \/>\n    crer.<\/p>\n<p> Amador prosseguiu: <br \/>\n    Com a chegada do desembargador Cristovam Soares Rom&atilde;o, que veio substituir<br \/>\n    Bacalhau, a sorte dos nobres, se n&atilde;o piorou, n&atilde;o melhorou. T&iacute;nhamos<br \/>\n    visto passar os p&eacute;s de um cad&aacute;ver com um sovel&atilde;o, para<br \/>\n    verificarem se a morte fora real ou mentida, como fizeram ao respeit&aacute;vel<br \/>\n    capit&atilde;o-mor Jo&atilde;o de Barros; t&iacute;nhamos visto meterem no<br \/>\n    subterr&acirc;neo das Cinco-Pontas o licenciado David de Albuquerque, porque<br \/>\n    &ldquo;sendo advogado insigne e perfeit&iacute;ssimo, conhecido por tal, e<br \/>\n    finalmente homem grande nas letras, temeram o governador e o ouvidor que por<br \/>\n    seu conselho viessem a pagar o mal que a tantos sem raz&atilde;o estavam fazendo<br \/>\n     um homem quase morto, chagado e sem m&atilde;os para servir-se; t&iacute;nhamos<br \/>\n    visto mandarem matar o crioulo do Capit&atilde;o Nicolau Pereira, cortarem-lhe<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, levarem-na ao ouvidor, e receberem deste 3$ de gratifica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    por haver aquele crioulo  instrumento da justi&ccedil;a divina<br \/>\n    tirado a vida ao malvado bandido Pedro de Lima.<\/p>\n<p> Pedro de Lima! exclamou a vi&uacute;va . J&aacute; me pagou os insultos<br \/>\n    e ousadias.<\/p>\n<p> &#8230; T&iacute;nhamos visto todas estas estranhezas, sem contarmos as pris&otilde;es,<br \/>\n    os seq&uuml;estros, os despotismos contra a nobreza; e parecia-nos que o novo<br \/>\n    ministro, conquanto de muitos conhecido por apaixonado e ambicioso, viria<br \/>\n    p&ocirc;r cobro a tamanhos desatinos; mas os males n&atilde;o tiveram termo,<br \/>\n    prima; a ambi&ccedil;&atilde;o e o &oacute;dio n&atilde;o desapareceram da<br \/>\n    face de Pernambuco: Cristovam Rom&atilde;o seguiu o caminho de Marques Bacalhau.<br \/>\n    Um dos seus primeiros passos foi instar para que fossem embarcados os onze<br \/>\n    m&aacute;rtires, que a esta hora, talvez, j&aacute; tenham sido degolados<br \/>\n    em Lisboa. Tratou depois da devassa, na qual ouviu como testemunhas, hoje<br \/>\n    um mulato, amanh&atilde; um cativo, um vil, um destinado, e com esta madeira<br \/>\n    erigiu a execr&aacute;vel f&aacute;brica destinada a servir de cadafalso &agrave;<br \/>\n    nobreza. O capit&atilde;o Antonio Bezerra foi recebido a toque de charamelas<br \/>\n    pelos mascates, regozijados da sua pris&atilde;o. O Capit&atilde;o Francisco<br \/>\n    de Freitas andou quatorze l&eacute;guas, presas as m&atilde;os ambas nas algemas.<br \/>\n    Por impedir que os nobres se entendessem, foram estabelecidos pres&iacute;dios<br \/>\n    em v&aacute;rios pontos, dos quais n&atilde;o passam os passageiros, sejam<br \/>\n    brancos ou pretos, cl&eacute;rigos ou frades, por n&atilde;o terem licen&ccedil;a<br \/>\n    de ir adiante, nem ainda de voltar para tr&aacute;s, por mais que o desejem;<br \/>\n    somente em Tracunha&eacute;m se contam nove. E porque o &oacute;dio ainda<br \/>\n    n&atilde;o se sentia satisfeito, ordenou o governador que o Tunda-Cumbe, com<br \/>\n    trezentos e sessenta vagabundos, se unisse com o Camar&atilde;o e seus trezentos<br \/>\n    &iacute;ndios, para baterem novamente as matas, com c&atilde;es de ca&ccedil;a,<br \/>\n    &ldquo;a fim de levantarem aos que, por fugirem dos homens, se haviam acolhido<br \/>\n    ao trato das feras. Neste exerc&iacute;cio passaram largos dias sem verem<br \/>\n    rasto de pessoa alguma, andando mais de quatrocentas escondidas, e nem de<br \/>\n    todas as que chegaram a esconder-se puderam prender-se jamais algumas, porque<br \/>\n    n&atilde;o eram no mato t&atilde;o afoitos os que as buscavam, como nas casas<br \/>\n    onde sabiam n&atilde;o haver mais poder que o das mulheres! Prima, o que t&ecirc;m<br \/>\n    feito contra a nobreza os portugueses europeus com o seu ouro e os seus instrumentos<br \/>\n    de baixa ou da alta origem, nunca havemos de esquecer.<\/p>\n<p> Amador sobresteve, um instante. Tinha os olhos inundados de estranho e ins&oacute;lito<br \/>\n    brilho. Depois continuou: <br \/>\n    Cinco dias passou sem comer, o capit&atilde;o-mor Matias Coelho, dentro de<br \/>\n    um pau oco sem dele sair; e o Capit&atilde;o Gon&ccedil;alo Carneiro, homem<br \/>\n    de mais de setenta anos, outros cinco esteve debaixo da terra em um caix&atilde;o<br \/>\n    bem coberto, ficando parte dentro de uma casa e outra parte fora dela, sem<br \/>\n    ser visto, aberto para ter entrada o ar. O sargento-mor Domingos Coelho Nunes<br \/>\n    assistiu a uma temporada no meio do Capibaribe, entre umas lapas, sem mais<br \/>\n    com&eacute;rcio, nem mais trato do que com as &aacute;guas do mesmo rio, e<br \/>\n    um filho que lhe levava o sustento. Prima, a valentia dos pernambucanos em<br \/>\n    lutar com todos os inimigos que esta guerra assanhou como fim de abater egr&eacute;gias<br \/>\n    tradi&ccedil;&otilde;es, tem-se manifestado por v&aacute;rios modos que eu<br \/>\n    me sinto insuficiente para dar a conhecer.<\/p>\n<p> Em id&ecirc;ntica recorda&ccedil;&otilde;es levou Amador o resto do dia.<\/p>\n<p> Na manh&atilde; seguinte, deixando o campo das divaga&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e mostrando-se mais ligado aos interesses da fam&iacute;lia, disse &agrave;<br \/>\n    cunhada: <br \/>\n    N&atilde;o lhe parece ser tempo de tratarmos da nossa ida? <br \/>\n    Devo dizer-lhe, Amador, que, perdendo meu marido, encontrei uma prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    amiga  respondeu D. Damiana.<\/p>\n<p> Esta declara&ccedil;&atilde;o encheu-me de satisfa&ccedil;&atilde;o; mas<br \/>\n    devo tamb&eacute;m dizer-lhe que, vindo a Goiana, n&atilde;o tenho outro fim<br \/>\n    sen&atilde;o levar voc&ecirc; comigo para o seio de minha fam&iacute;lia,<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o a sua mesma,.<\/p>\n<p> D. Damiana n&atilde;o disse uma palavra. Notando este sil&ecirc;ncio, acrescentou<br \/>\n    Amador: <br \/>\n    Esteja pronta no mais breve tempo que for poss&iacute;vel. Precisam muito<br \/>\n    de mim no meu engenho. N&atilde;o posso demorar-me aqui sen&atilde;o o tempo<br \/>\n    necess&aacute;rio aos aprestos da partida.<\/p>\n<p> Primo  tornou-lhe D. Damiana  muito lhe agrade&ccedil;o o<br \/>\n    seu desvelo; mas n&atilde;o estou resolvida a deixar Goiana. Por que raz&atilde;o<br \/>\n    deixarei a terra onde nasci? Bem sei que estou pobre, porque tudo me roubaram<br \/>\n    os perseguidores da nobreza; mas, bem depressa me conformei com a adversidade<br \/>\n    e vivo hoje tranq&uuml;ila neste ermo, sem outra cobi&ccedil;a sen&atilde;o<br \/>\n    a de continuar viver nele. Voc&ecirc; n&atilde;o conhece os tesouros de ternura<br \/>\n    das pessoas que me receberam na sua companhia. Marcelina, aos respeitos que,<br \/>\n    por sua condi&ccedil;&atilde;o obscura, julga dever ter para mim, ajunta afetos<br \/>\n    que me lembram os de minha prezada m&atilde;e; Louren&ccedil;o, filho de Marcelina,<br \/>\n    n&atilde;o sabe onde me ponha; a solicitude dele para mim n&atilde;o se pode<br \/>\n    avaliar. Entre os meus, Amador, nunca encontrei nem hei de encontrar mais<br \/>\n    verdadeira estima.<\/p>\n<p> Estas palavras, impondo sil&ecirc;ncio ao irm&atilde;o de Jo&atilde;o da<br \/>\n    Cunha deram-lhe que pensar por alguns momentos.<\/p>\n<p> Horas depois, voltou ao mesmo assunto, outra era a express&atilde;o do seu<br \/>\n    rosto, o tom da sua voz.<\/p>\n<p> Disse: <br \/>\n    Em poucos meses, prima Damiana, aprendeu voc&ecirc; uma li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que &eacute; a repulsa viva e absoluta de todas as li&ccedil;&otilde;es da<br \/>\n    nossa fam&iacute;lia e da sua vida passada. Muito pode a adversidade; seja,<br \/>\n    por&eacute;m, qual for a sua conformidade com as circunst&acirc;ncias que<br \/>\n    tanto lhe mudaram os sentimentos, devo declarar-lhe que n&atilde;o acho para<br \/>\n    isso explica&ccedil;&atilde;o razo&aacute;vel. Compreendo, e todos compreendem,<br \/>\n    que, tendo voc&ecirc; o esp&iacute;rito elevado e o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cat&oacute;lico, as vicissitudes da sorte gerassem nele menos o desespero<br \/>\n    que a resigna&ccedil;&atilde;o, e que voc&ecirc; visse nos &uacute;ltimos<br \/>\n    infort&uacute;nios largas ocasi&otilde;es oferecidas por Deus, para dar provas<br \/>\n    das grandes qualidades de que &eacute; dotada. O que nem eu, nem voc&ecirc;,<br \/>\n    nem ningu&eacute;m poder&aacute; explicar, &eacute; este enfraquecimento dos<br \/>\n    la&ccedil;os que a ligaram por tanto tempo a uma vida distinta e limpa. Nem<br \/>\n    ainda &eacute; isto o que mais me admira. Quer saber o que me parece verdadeiramente<br \/>\n    misteriosos e incompreens&iacute;vel: &Eacute; a sua indiferen&ccedil;a &agrave;s<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es da fam&iacute;lia; &eacute; o seu desapego aos afetos<br \/>\n    que sempre lhe tiveram os seus parentes, e, entre estes, eu sobre todos.<\/p>\n<p> Mas, quem lhe disse, Amador, que sou indiferente &agrave; sua benevol&ecirc;ncia,<br \/>\n    &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es da nossa fam&iacute;lia? Ser&aacute; prova<br \/>\n    de desamor querer viver no retiro? <br \/>\n    N&atilde;o, &eacute; o retiro o que se lhe pode estranhar, prima. &Eacute;<br \/>\n    natural que, havendo perdido aquele a que, deve o seu maior lustre, busque<br \/>\n    ocultar do mundo as suas l&aacute;grimas. O que n&atilde;o &eacute; natural<br \/>\n    &eacute; que voc&ecirc; troque pela prote&ccedil;&atilde;o que lhe devem os<br \/>\n    parentes, a que, por caridade, lhe d&atilde;o humildes estranhos. Isto &eacute;<br \/>\n    inexplic&aacute;vel. Atente bem nisso, prima. O mundo tem mil bocas maldizentes.<br \/>\n    Vendo voc&ecirc; viver &agrave;s costas de uma fam&iacute;lia an&ocirc;nima<br \/>\n    e pobre, o mundo h&aacute; de ter para mim os maiores bald&otilde;es. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; de faltar quem diga que, &agrave; baixeza minha, e n&atilde;o ao<br \/>\n    seu capricho na realidade dif&iacute;cil de compreender, se deve o fato de<br \/>\n    ficar voc&ecirc; vivendo de esmola, quando eu disponho de largos meios.<\/p>\n<p> D. Damiana foi sentar-se mais perto de Amador.<\/p>\n<p> Amador, disse-lhe com voz suplicante, que interesse tem voc&ecirc; de privar-me<br \/>\n    de uma ilus&atilde;o que me resta na vida? Quero ter toda a franqueza para<br \/>\n    voc&ecirc;. Tudo o que acabou de figurar, j&aacute; me tinha passado antes<br \/>\n    pelo esp&iacute;rito. O que o mundo poder&aacute; dizer de mim, j&aacute;<br \/>\n    o ouvi eu da minha consci&ecirc;ncia. Mas, Amador  por que n&atilde;o<br \/>\n    lhe hei de dizer toda a verdade?  j&aacute; n&atilde;o poderei viver<br \/>\n    apartada desta fam&iacute;lia, sem sentir o cora&ccedil;&atilde;o despeda&ccedil;ado.<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; muitos meses que estou aqui; mas, as cadeias que me prendem<br \/>\n    a esta gente, s&atilde;o t&atilde;o fortes, que se algu&eacute;m as quebrasse,<br \/>\n    quebraria com elas as veias do meu corpo, e n&atilde;o sei como poderia viver<br \/>\n    depois disso. Sinto que n&atilde;o terei for&ccedil;as para libertar-me de<br \/>\n    pris&otilde;es que s&atilde;o hoje cordas do meu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Amador em poucas horas estava informado de tudo. Soubera de Fel&iacute;cia<br \/>\n    a hist&oacute;ria da restitui&ccedil;&atilde;o dela; soubera da triste cena<br \/>\n    da estrada entre Louren&ccedil;o e Marianinha. Suspeitou que este e a vi&uacute;va<br \/>\n    o amor os enleara em estreitos la&ccedil;os.<\/p>\n<p> Ergueu-se, e deu alguns passo pela sala. Voltou-se depois para a cunhada,<br \/>\n    em cujas faces a palidez se estampava. Fitou-a, n&atilde;o revelando &oacute;dio,<br \/>\n    sim tristeza; n&atilde;o ira, sim, desd&eacute;m.<\/p>\n<p> Sra. D. Damiana  disse-lhe  se se tratasse simplesmente da<br \/>\n    felicidade de uma mulher, fosse nobre ou mec&acirc;nica, n&atilde;o seria<br \/>\n    Amador Cavalcanti quem se interpusesse entre essa mulher e a fonte da sua<br \/>\n    felicidade, posto que as mulheres, al&eacute;m de caprichosas, s&atilde;o<br \/>\n    muito f&aacute;ceis de cegar-se e acham muitas vezes grandeza de le&atilde;o<br \/>\n    no verme que rasteja pelo p&oacute;. Trata-se, por&eacute;m, de uma mulher<br \/>\n    que foi recebida por um nobre, como leg&iacute;tima consorte, digna do seu<br \/>\n    nome e do seu sangue, &agrave; face da igreja e do mundo. Dobrada covardia<br \/>\n    seria a minha, se eu fosse t&atilde;o f&aacute;cil em retroceder, quanto foi<br \/>\n    f&aacute;cil &agrave; senhora adiantar-se: como irm&atilde;o desse nobre,<br \/>\n    tenho o dever de afastar de sobre o seu nome uma mancha iminente. Se eu n&atilde;o<br \/>\n    procedesse assim, seria mais vil&atilde;o que o vil&atilde;o que, valendo-se<br \/>\n    da adversidade de uma senhora para quem nunca jamais devera erguer as vistas,<br \/>\n    pode lan&ccedil;ar no cora&ccedil;&atilde;o dela germes fatais, de que se<br \/>\n    geraram serpentes pe&ccedil;onhentas.<\/p>\n<p> A sua inten&ccedil;&atilde;o &eacute; oculta, Amador. Seja claro.<\/p>\n<p> J&aacute; compreendi tudo, sra. D. Damiana; de tudo fui sabedor: o mist&eacute;rio<br \/>\n    de h&aacute; pouco, penetrei-o. Aquele que morreu m&aacute;rtir de sua nobreza,<br \/>\n    vai ter um sucessor que nem apelido tem. Os mascates n&atilde;o calcularam<br \/>\n    com esta vingan&ccedil;a, que muito mais os deve alegrar do que a pr&oacute;pria<br \/>\n    morte do sargento-mor Jo&atilde;o da Cunha. A vi&uacute;va deste nobre ser&aacute;<br \/>\n    amanh&atilde; mulher de um ente an&ocirc;nimo, que percorre as estradas de<br \/>\n    Pernambuco, descal&ccedil;o e maltrapilho, vendendo os seus servi&ccedil;os<br \/>\n    por muito menos dinheiro do que vendia outrora os seus a Tunda-Cumbe.<\/p>\n<p> Meu Deus! Que est&aacute; dizendo, Amador! Que fiz eu, que autorize a formar<br \/>\n    de mim este conceito? O senhor ofende-me sem raz&atilde;o. N&atilde;o preciso<br \/>\n    das suas li&ccedil;&otilde;es para saber respeitar-me.<\/p>\n<p> Se esta desgra&ccedil;a houvesse chegado ao meu conhecimento, antes de me<br \/>\n    ver outra vez livre, eu diria que Deus resolvera extinguir de todo a nobreza<br \/>\n    de Pernambuco, pela pris&atilde;o, pela morte, e pela inf&acirc;mia. N&atilde;o<br \/>\n    posso compelir, porque n&atilde;o tenho esse direito, n&atilde;o posso compelir<br \/>\n    a sra. D. Damiana a zelar a sua pr&oacute;pria honra; a minha nobreza, herdada<br \/>\n    de meus avoengos, aumentada com a educa&ccedil;&atilde;o que me deram meus<br \/>\n    pais, impede-me de constranger a ter nobre procedimento qualquer mulher que<br \/>\n    a n&atilde;o queira ter, ainda que essa mulher seja a vi&uacute;va de meu<br \/>\n    irm&atilde;o. Mas, o direito de desprezar essa mulher, que &eacute; a primeira<br \/>\n    a desprezar-se, este eu o tenho, e ningu&eacute;m pode impedir-me de me o<br \/>\n    exercitar. A sra. D. Damiana &eacute; livre; pode acompanhar-me, pode ficar.<br \/>\n    O que, por&eacute;m, lhe afian&ccedil;o &eacute; que Amador Cavalcanti saber&aacute;<br \/>\n    perseverar na altura a que tem direito, e aonde n&atilde;o chegar&atilde;o<br \/>\n    jamais nunca os salpicos das lamas levantadas pelos animais dos arreeiros<br \/>\n    ou pelos pr&oacute;prios p&eacute;s destes.<\/p>\n<p> Amador n&atilde;o deixou tempo para mais a D. Damiana. Voltando-lhe as costas,<br \/>\n    chamou imediatamente por um dos fl&acirc;mulos, e, em voz alta, deu-lhe ordem<br \/>\n    a fim de ter os animais prestes para a volta, no dia seguinte, muito cedinho.<\/p>\n<p> &Agrave; noitinha, um vulto veio rompendo do fundo do s&iacute;tio, e, conhecendo<br \/>\n    gente demais na casa, esteve para voltar; pouco depois, tirou para a cozinha.<br \/>\n    Era Louren&ccedil;o que sem &acirc;nimo para deixar Goiana tornava ao Cajueiro.<br \/>\n    Fel&iacute;cia informou-o de tudo. O rapaz quase perde o uso de suas faculdades<br \/>\n    mentais.<\/p>\n<p> Passada essa primeira impress&atilde;o, tomou para a palho&ccedil;a, onde<br \/>\n    foi encontrar Marcelina chorando. Com a sua presen&ccedil;a a cabocla reanimou-se.<\/p>\n<p> N&atilde;o imaginas o que tem acontecido nestas vinte e quatro horas. Joaquina<br \/>\n    com a Marianinha mudaram-se das nossas vizinhan&ccedil;as; e sinh&aacute;<br \/>\n    D. Damiana segue de madrugadinha para Jaboat&atilde;o. O Cajueiro vai ficar<br \/>\n    bem triste. Quanta novidade em t&atilde;o pouco tempo, sem a gente esperar!<br \/>\n    Felizmente, vejo-te ao p&eacute; de mim, filho.<\/p>\n<p> Que lhe disse sinh&aacute; D. Damiana, minha m&atilde;e? <br \/>\n    Saiu h&aacute; pouquinho daqui. Ia banhada em l&aacute;grimas. &ldquo;Nunca<br \/>\n    julguei  disse-me ela  que havia de passar por este golpe. Tinha<br \/>\n    para mim t&atilde;o resoluto o meu destino!! Mas, que hei de fazer, minha<br \/>\n    boa amiga? Amador &eacute; duro. Falou-me em nome da mem&oacute;ria de meu<br \/>\n    marido. Disse-me que se eu o n&atilde;o acompanhasse, cobrir-me-ia de inf&acirc;mia;<br \/>\n    que os mascates, para menoscabarem essa mem&oacute;ria, me levantariam mil<br \/>\n    aleives. Tenho medo da m&aacute; fama, muito medo. Al&eacute;m disso, n&atilde;o<br \/>\n    me perten&ccedil;o, conquanto pare&ccedil;a que sou senhora de mim; perten&ccedil;o<br \/>\n    a uma fam&iacute;lia. Como havia de ser feliz se n&atilde;o tivesse um nome!<br \/>\n    Na riqueza n&atilde;o vivi melhor do que na pobreza. Mas, que hei de fazer,<br \/>\n    sen&atilde;o pagar o tributo que se exige de mim? Nunca me esquecerei de ti,<br \/>\n    Marcelina, nem de Louren&ccedil;o. Ah!  disse ainda ela  dize<br \/>\n    a teu filho que eu lhe quero falar antes de partir.<\/p>\n<p> Sinh&aacute; D. Damiana n&atilde;o sabia que eu havia indo embora? <br \/>\n    N&atilde;o sabia. Eu n&atilde;o quis contar-lhe o ato de desespero praticado<br \/>\n    ontem por ti.<\/p>\n<p> Fez bem, minha m&atilde;e; mas o que n&atilde;o farei &eacute; v&ecirc;-la<br \/>\n    mais.<\/p>\n<p> Por que n&atilde;o h&aacute;s de v&ecirc;-la, Louren&ccedil;o, se a pobre<br \/>\n    senhora se mostra t&atilde;o agradecida a todos n&oacute;s? <br \/>\n    Mostra-se muito agradecida? N&atilde;o tem de que. N&atilde;o passamos de<br \/>\n    uns miser&aacute;veis que n&atilde;o lhe fizemos sen&atilde;o o nosso dever.<br \/>\n    Se ela n&atilde;o nos tivesse nesta conta, n&atilde;o havia de deixar-nos<br \/>\n    com tanta ingratid&atilde;o.<\/p>\n<p> Quando ia a prosseguir, Louren&ccedil;o sentiu sobre o ombro uma press&atilde;o<br \/>\n    meiga. Voltando-se rapidamente, viu junto dele a gentil vi&uacute;va. A m&atilde;o,<br \/>\n    que lhe pousara no ombro um instante tomou uma das dele. Nunca o rapaz tinha<br \/>\n    sentido o doce contato dessa m&atilde;o fina e deliciosa, sen&atilde;o por<br \/>\n    ocasi&atilde;o do desmaio da vi&uacute;va, ou nos fant&aacute;sticos del&iacute;rios<br \/>\n    em que ele se absorvia, durante as &uacute;ltimas noites no sobrado.<\/p>\n<p> N&atilde;o me queiras mal pelo que eu fa&ccedil;o contra a minha vontade,<br \/>\n    Louren&ccedil;o, disse ela enternecida. Tenho o cora&ccedil;&atilde;o despeda&ccedil;ado.<br \/>\n    Minha alma fica no Cajueiro, ao lado de voc&ecirc;s. Mere&ccedil;o mais a<br \/>\n    tua compaix&atilde;o do que o teu agravo. Levo comigo a saudade e a tristeza,<br \/>\n    bem cru&eacute;is companheiras; levo-as para bem longe, donde talvez n&atilde;o<br \/>\n    torne mais nunca a esta terra dos meus pais, das minhas recorda&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    das minhas m&aacute;goas. N&atilde;o te esque&ccedil;as inteiramente de mim,<br \/>\n    Marcelina, nem tu, Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m h&aacute; de esquecer-se aqui da sinh&aacute; D. Damiana,<br \/>\n    respondeu o rapaz comovido.<\/p>\n<p> As l&aacute;grimas acudiram-lhe aos olhos. Deu o andar para a porta e desapareceu<br \/>\n    nas &uacute;ltimas sombras do lusco-fusco, hora atroz para os amantes que<br \/>\n    se despedem certos de nunca mais se avistarem. <\/p>\n<p>A liga de Tracunha&eacute;m engrossara. Reduzida, pela ca&ccedil;ada geral,<br \/>\n    a trinta membros, compunha-se de quinhentos um ano depois, n&atilde;o se compreendendo<br \/>\n    neste n&uacute;meros os escravos e agregados dos senhores de engenho que com<br \/>\n    eles se haviam asilado nas matas. O nome do chefe andava de boca em boca.<br \/>\n    Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a era a &eacute;gide dos expatriados, a provid&ecirc;ncia<br \/>\n    dos perseguidos; alguns dos nobres tinham-no por doido, muitos por temer&aacute;rio,<br \/>\n    a maioria deles por defensor das suas pessoas e fortunas.<\/p>\n<p> Falc&atilde;o n&atilde;o descansava. Mensageiros de confian&ccedil;a levavam<br \/>\n    os seus convites suas&oacute;rios aos pontos mais afastados. Os nobres, que<br \/>\n    pela dist&acirc;ncia em que ficavam de Tracunha&eacute;m, n&atilde;o podiam<br \/>\n    sem perigo vir aumentar com suas pessoas o grande n&uacute;cleo da resist&ecirc;ncia,<br \/>\n    remetiam mantimentos, roupas e muni&ccedil;&otilde;es. Alguns tinham contribu&iacute;do<br \/>\n    com escravos e moradores.<\/p>\n<p> Todas estas dilig&ecirc;ncias por&eacute;m realizavam-se com grandes cautelas<br \/>\n    por evitar os grandes perigos a que se expunham os que nela se metiam.<\/p>\n<p> Como era este o &uacute;nico ponto que o a&ccedil;oite do governo ainda<br \/>\n    n&atilde;o lograra reduzir &agrave; ultima express&atilde;o, o governador<br \/>\n    tinha nele concentradas as vistas. Muitos piquetes varriam quase constantemente<br \/>\n    as estradas que iam ter a Tracunha&eacute;m; muitos percorriam as proximidades<br \/>\n    do ref&uacute;gio. A cada momento, para assim dizermos, estavam sendo espiados<br \/>\n    os menores passos dos refugiados, e somente &agrave; conhecida valentia do<br \/>\n    chefe da liga se devia n&atilde;o se animarem os tro&ccedil;os ambulantes<br \/>\n    a penetrar no esconderijo onde aquele chefe devia ter o centro das suas opera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e que eles por maiores esfor&ccedil;os empregados n&atilde;o haviam logrado<br \/>\n    devassar.<\/p>\n<p> Coisas maravilhosas diziam-se sobre o ponto. Exagerando as for&ccedil;as<br \/>\n    e recursos dos asilados, o povo propalava e acreditava que o inimigo, por<br \/>\n    mais poderoso, que penetrasse ali, estaria irremissivelmente perdido. No dizer<br \/>\n    popular, as matas estavam cortadas de minas. Inexpugn&aacute;veis fortifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    haviam sido constru&iacute;das para defend&ecirc;-la de assaltos. Existia<br \/>\n    dentro verdadeiro arraial de guerra, onde nada faltava.<\/p>\n<p> Havia exagera&ccedil;&otilde;es nesses boatos, que explicam a reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quase lend&aacute;ria, que cercava o nome do chefe da liga e a pr&oacute;pria<br \/>\n    liga.<\/p>\n<p> Ao contr&aacute;rio disso, Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a assentara por<br \/>\n    maior seguran&ccedil;a n&atilde;o ter pouso fixo e ter muitos em v&aacute;rios<br \/>\n    pontos. Certo havia dentro das matas uma regi&atilde;o, um vasto per&iacute;metro<br \/>\n    que os nobres tinham por seguro, e consideravam do seu exclusivo dom&iacute;nio.<br \/>\n    Dentro dessa regi&atilde;o, rica de naturais defesas, em parte aumentadas<br \/>\n    pelo trabalho dos refugiados, moviam-se estes, segundo convinha. Certo tinham<br \/>\n    eles armas e muni&ccedil;&otilde;es, v&iacute;veres e gente para lutar quando<br \/>\n    oferecesse ocasi&atilde;o; mas  pode-se quase afirmar  n&atilde;o<br \/>\n    passavam da&iacute; os seus elementos de defesa; porque o pensamento de Falc&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o era ficar nas matas por muito tempo, n&atilde;o era somente defender-se,<br \/>\n    mas principalmente, quando a medida dos seus recursos estivesse completa,<br \/>\n    fazer irrup&ccedil;&atilde;o sobre a vila odiada, e dar cabo do governador<br \/>\n    e dos ministros, ou, ao menos, expuls&aacute;-los de Pernambuco, a exemplo<br \/>\n    do que em 1710 haviam feito a Sebasti&atilde;o de Castro Caldas.<\/p>\n<p> &mdash; N&oacute;s n&atilde;o somos negros fugidos, dissera ele uma vez<br \/>\n    a um dos companheiros. Os negros contentam-se com o seu esconderijo. Quanto<br \/>\n    mais oculto &eacute; este, tanto mais lhes conv&eacute;m; porque os negros<br \/>\n    fugidos, como morcegos, t&ecirc;m horror &agrave; luz. N&oacute;s somos patriotas,<br \/>\n    que nos ajuntamos aqui especialmente para combinarmos sobre os meios de lan&ccedil;ar<br \/>\n    fora da terra, que nos deixaram nossos av&oacute;s, os intrusos que miram<br \/>\n    apoderar-se da heran&ccedil;a que nos deixaram nossos pais. As matas de Tracunha&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o os Palmares. Aqui h&aacute; homens livres que tratam<br \/>\n    de castigar o despotismo; aqui h&aacute; patriotas que esperam quebrar as<br \/>\n    cadeias com que pretendem acorrent&aacute;-los aventureiros ralados de cobi&ccedil;a;<br \/>\n    aqui n&atilde;o h&aacute; escravos, h&aacute; senhores, que h&atilde;o de<br \/>\n    castigar, como a escravos esses estrangeiros, que inculcando-se amigos do<br \/>\n    povo e atraindo-o a si, t&ecirc;m o pensamento clandestino de tornar-se donos<br \/>\n    de Pernambuco.<\/p>\n<p> Em um dos primeiros dias de junho de 1714, cortando por manhosas veredas<br \/>\n    que iam dar na regi&atilde;o dos homiziados, onde eram esperados, quatro sujeitos<br \/>\n    chegaram a um dos pousos.<\/p>\n<p> Seriam dez para onze horas da noite. Chovia copiosamente; as gotas de &aacute;gua,<br \/>\n    caindo na vasta folhagem da mata, produziam rumor mon&oacute;tono e surdo,<br \/>\n    que se assemelhava ao do vento nas folhas do coqueiral.<\/p>\n<p> No pouso estava o chefe da liga, que foi o primeiro a receb&ecirc;-los.<br \/>\n    Dois deles eram Faustino Figueira e Domingos Gon&ccedil;alves Freire que,<br \/>\n    depois de muito buscados pelos bandos do governador, e depois de v&aacute;rias<br \/>\n    tentativas abortadas para chegarem &agrave;s matas, tinham realizado o seu<br \/>\n    intento, auxiliados por mensageiros de Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a.&nbsp;<br \/>\n    O terceiro era o nosso conhecido Francisco dos Prazeres, marido de Marcelina.<br \/>\n    O quarto era Saturnino.<\/p>\n<p> O aspecto do pouso era simples. Em um ponto onde os matos haviam deixado<br \/>\n    um pequeno espa&ccedil;o livre, mostrava-se suspensa, sobre quatro forquilhas<br \/>\n    de boa altura, uma ramada mais baixa para um lado que para o outro, em forma<br \/>\n    de meia-&aacute;gua, sob a qual uma fogueira que esclarecia, tanto quanto<br \/>\n    era preciso, o &acirc;mbito. N&atilde;o obstante ser muito copiosa, a chuva<br \/>\n    n&atilde;o ofendia o fogo assim abrigado.<\/p>\n<p> Para livrar-se do mau tempo, tinham os refugiados posto em pr&aacute;tica<br \/>\n    o meio simples que em certas tribos os selvagens empregam: em altura conveniente<br \/>\n    haviam sido fortemente ligadas por cip&oacute;s aos troncos de grandes &aacute;rvores<br \/>\n    folhas de palmeira, de um e de outro lado, inclinadas obliquamente, de modo<br \/>\n    que ao mesmo tempo serviam de condutores de &aacute;guas e de coberta &agrave;s<br \/>\n    redes pendentes dos primeiros galhos destinadas ao repouso dos donos durante<br \/>\n    a noite. N&atilde;o eram poucas as &aacute;rvores que se mostravam decoradas<br \/>\n    com estas palmas largas e compridas, o que indicava n&atilde;o ser pequeno<br \/>\n    o n&uacute;mero das pessoas existentes naquele pouso. Todavia, como nesta<br \/>\n    ind&uacute;stria n&atilde;o interviera sen&atilde;o mat&eacute;ria prima oferecida<br \/>\n    pela floresta, n&atilde;o se imaginaria, se n&atilde;o fora a fogueira, que<br \/>\n    por ali passara a m&atilde;o do homem.<\/p>\n<p> Faustino Figueira era capit&atilde;o do ter&ccedil;o de linha de Olinda.<br \/>\n    Por ocasi&atilde;o do levante dos mascates, em 1711, marchara contra o Camar&atilde;o.<br \/>\n    Pelo seu arrojo e intrepidez, na batalha de Sibir&oacute;, onde praticara<br \/>\n    atos de bravura, pondo duas vezes em retirada as for&ccedil;as daquele caudilho,<br \/>\n    tanto se expusera que, perdida a batalha, teve de cair no poder dos inimigos.<br \/>\n    Remetido para o Recife, foi solto pelo bispo, que era ent&atilde;o o governador;<br \/>\n    mas, com a mudan&ccedil;a dos tempos, sendo tenazmente perseguido, escapava<br \/>\n    &agrave;s persegui&ccedil;&otilde;es, asilando-se nas matas de Tracunha&eacute;m.<\/p>\n<p> O outro, Domingos Gon&ccedil;alves Freire, sargento-mor da ordenan&ccedil;a<br \/>\n    em Olinda, e que, na distribui&ccedil;&atilde;o dos pres&iacute;dios, quando<br \/>\n    os mascates estiveram sitiados, tivera a seu cargo o comando e inspe&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos pontos que pelo lado daquela cidade fechavam o ass&eacute;dio, receoso<br \/>\n    de pagar com sua liberdade estes atos de hostilidade contra os mascates, viera<br \/>\n    com o mesmo destino de Figueira.<\/p>\n<p> Quanto a Francisco, bastar&aacute; dizer que, n&atilde;o podendo vencer<br \/>\n    o remorso de prestar servi&ccedil;os aos perseguidores da nobreza, resolvera<br \/>\n    enfim passar-se para os perseguidos. O ajudante-de-tenente indicara-o a Figueira,<br \/>\n    exaltando muito a sua fidelidade e discri&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Foi, talvez, ele o principal guia ao pouso, isto &eacute;, o que melhor<br \/>\n    compreendeu as indica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &mdash; Gra&ccedil;as a Deus, que j&aacute; posso dizer &mdash;&ldquo;n&atilde;o<br \/>\n    estou com os mascates, dissera o matuto, penetrando na mata. Eu sei bem que<br \/>\n    se eles me pegam me penduram logo no primeiro p&eacute; de pau que encontrarem;<br \/>\n    porque antes de tudo sou desertor  dir&atilde;o eles. Mas eu direi<br \/>\n    que desertor era eu quando l&aacute; estava, porque a minha gente sempre foi<br \/>\n    a nobreza, e nunca os p&eacute;s de chumbo. Se estive com eles todo este tempo,<br \/>\n    s&oacute; Deus sabe quanto isto me custou. Por vontade minha n&atilde;o foi;<br \/>\n    foi porque encontrando-me com a farda nas costas e pau furado na m&atilde;o,<br \/>\n    puderam dar-me leis e obrigar-me a fazer coisas que, em meu ju&iacute;zo e<br \/>\n    em minha liberdade, eu n&atilde;o faria nunca; Mas agora, l&aacute; se avenham;<br \/>\n    ag&uuml;entem-se como puderem, que eu, se puder, ajudo a lhes tirar o couro.<br \/>\n    Estou muito pr&aacute;tico no servi&ccedil;o da arma; sou hoje um soldado<br \/>\n    de patente; podia at&eacute; ser um sargento-mor. Estou pronto para entrar<br \/>\n    em fogo, tendo &agrave; minha frente &ldquo;seu Falc&atilde;o, que &eacute;<br \/>\n    s&oacute; em quem se fala. Eu tamb&eacute;m s&oacute; falo nele, porque tenho<br \/>\n    muita f&eacute; em quem mostra tanta coragem.<\/p>\n<p> Tudo isto dissera Francisco ao entrar na mata. Parecia ter ganhado a&iacute;<br \/>\n    alma nova, ter recuperado os seus antigos esp&iacute;ritos, e at&eacute; a<br \/>\n    sua gra&ccedil;a e bom humor natural.<\/p>\n<p> &mdash; Capit&atilde;o  disse Figueira, logo que avistou Falc&atilde;o<br \/>\n    d&rsquo;E&ccedil;a  trago-vos uma not&iacute;cia cruel.<\/p>\n<p> &mdash; Mais uma que venha n&atilde;o far&aacute; mossa na minha coura&ccedil;a.<br \/>\n    H&aacute; dois anos que n&atilde;o recebo aqui not&iacute;cias de outra natureza,<br \/>\n    mas dizei-me sempre o que &eacute;, dizei logo, sr. Capit&atilde;o Figueira.<\/p>\n<p> &mdash; Tranq&uuml;ilizai-vos. N&atilde;o &eacute; nada contra as matas<br \/>\n    de Tracunha&eacute;m.<\/p>\n<p> &mdash; Contra as matas, retorquiu Falc&atilde;o, j&aacute; eles n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m mais nada que p&ocirc;r por obra. O seu entendimento esgotou-se;<br \/>\n    digo mal, esgotou-se a sua covardia, a sua perf&iacute;dia. Somente lhes resta<br \/>\n    hoje um meio, que a chuva do c&eacute;u n&atilde;o lhes permite por em pr&aacute;tica:<br \/>\n    &eacute; tocar fogo nas matas. Se n&atilde;o fora invernada parece que estas<br \/>\n    l&eacute;guas de espessura j&aacute; teriam ardido, e com elas os que existem<br \/>\n    aqui dentro, mais prontos para morrer que cuidadosos da vida.<\/p>\n<p> Tinham desembarcado na pequena aberta onde ardia a fogueira. Vendo-os chegar<br \/>\n    salvos, v&aacute;rios dos refugiados, saltando das redes e dos troncos secos<br \/>\n    onde estavam, correram ao seu encontro: havia uma como comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de alegria em todos, sempre que chegava um novo companheiro. Ao reflexo do<br \/>\n    fogo, aqueles vultos de barbas e cabelos compridos, de variados trajos, uns<br \/>\n    altos e esguios, outros baixos e cheios de corpo, quase todos silenciosos;<br \/>\n    alguns trazendo arma de fogo na m&atilde;o, e cartucheira a tiracolo, alguns<br \/>\n    com espadim, ou catana pendentes de cintura, alguns arrimados a grossos cip&oacute;s-paus;<br \/>\n    estes trazendo chap&eacute;us na cabe&ccedil;a, aqueles trazendo unicamente<br \/>\n    esta parte do corpo envoltas em len&ccedil;os de cor, como praticam com len&ccedil;os<br \/>\n    brancos as mulheres beatas, ou as de humilde condi&ccedil;&atilde;o, mal se<br \/>\n    cuidara que ali estava representada a primeira nobreza da prov&iacute;ncia,<br \/>\n    e que homens de clara estirpe, muitos deles senhores de grandes fortunas,<br \/>\n    se confundiam assim pelas mostras, com um bando de malfeitores, r&eacute;us<br \/>\n    de todos os crimes. Havia, contudo, ali cora&ccedil;&otilde;es verdadeiramente<br \/>\n    nobres; esp&iacute;ritos verdadeiramente dignos, pelas id&eacute;ias de engrandecer<br \/>\n    a terra natal; entre esses mesmos haviam muitos que eram realistas sinceros,<br \/>\n    inimigos do governador, mas vassalos fi&eacute;is que, n&atilde;o sem m&aacute;goa,<br \/>\n    viam em colis&atilde;o a sua vida e a hostilidade aos representantes do rei,<br \/>\n    os deposit&aacute;rios da autoridade p&uacute;blica.<\/p>\n<p> Restabelecido o sil&ecirc;ncio, Falc&atilde;o voltou ao assunto de que tratara<br \/>\n    momentos antes: <br \/>\n    &mdash; N&atilde;o nos dissestes ainda qual &eacute; a triste not&iacute;cia<br \/>\n    que tendes para dar-nos.<\/p>\n<p> Figueira respondeu: <br \/>\n    &mdash; N&atilde;o fostes sabedor de ter chegado ao Recife uma esquadra de<br \/>\n    Lisboa, e nela ordem para que o bispo se retirasse cem l&eacute;guas da sua<br \/>\n    catedral, a fim de n&atilde;o influir suborno nas testemunhas? <br \/>\n    &mdash; Fomos sabedores, sim, dessa gentileza do governo da metr&oacute;pole,<br \/>\n    respondeu Falc&atilde;o.<\/p>\n<p> &mdash; Pois bem. O bispo j&aacute; est&aacute; de marcha para as Alagoas,<br \/>\n    cumprindo humildemente a vontade caprichosa dos fariseus.<\/p>\n<p> Depois de r&aacute;pidos instantes de sil&ecirc;ncio que sucederam a estas<br \/>\n    palavras: <br \/>\n    &mdash; Que vos disse eu, padre Guerra? perguntou Falc&atilde;o, voltando-se<br \/>\n    para um dos nobres que cercavam os rec&eacute;m-chegados. Eu esperava que<br \/>\n    assim tratassem quem j&aacute; os teria posto fora, se houvesse aceitado o<br \/>\n    convite para ser o chefe da revolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &mdash; Mas, senhores  disse o padre  j&aacute; a igreja n&atilde;o<br \/>\n    merece nenhum respeito a quem tem o dever de velar pela majestade dela? Quando<br \/>\n    a impiedade partia dos aventureiros, nada havia que dizer: os aventureiros<br \/>\n    profanam os lugares sagrados, e arrancam dos santos as j&oacute;ias que vendem<br \/>\n    nas tabernas a troco de cacha&ccedil;a ou bertagel; mas que da corte de Lisboa<br \/>\n    venha semelhante desacato, coisa me parece esta que excede a medida da maldade<br \/>\n    humana, e bem indica o &oacute;dio de Portugal contra a nobreza de Pernambuco.<\/p>\n<p> &mdash; A chegada daquela frota n&atilde;o foi de todo m&aacute;, visto<br \/>\n    que esta not&iacute;cia nos trouxe outra com que devemos alegrar-nos. Veio<br \/>\n    ordem para que devassasse dos levantes o desembargador Cristovam Soares Rom&atilde;o&#8230;<br \/>\n    disse Domingos Freire.<\/p>\n<p> &mdash; O <em>Cutia<\/em>, o <em>Cutia<\/em>  acudiu Falc&atilde;o<br \/>\n    d&rsquo;E&ccedil;a&#8230; Sim&#8230; &Eacute; boa chita o <em>Cutia<\/em>. Falas ironicamente,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; assim? <br \/>\n    &mdash; N&atilde;o vos pareceu sempre um pouquinho melhor que o Bacalhau,<br \/>\n    a quem os drs. Ortiz e Brand&atilde;o deram por suspeito em Lisboa pela sua<br \/>\n    not&oacute;ria parcialidade a favor dos mascates? <br \/>\n    &mdash; Melhor! exclamou Antonio Bezerra. Achais pouco o que tem feito? Conheci<br \/>\n    na Para&iacute;ba o <em>Cutia.<\/em> &Eacute; capaz de todas as aleivosias,<br \/>\n    e o tempo vai mostrando se eu n&atilde;o tenho raz&atilde;o. Ah! pensais que<br \/>\n    nos h&aacute; de chegar de Lisboa coisa que preste? <br \/>\n    Falc&atilde;o concentrou-se um momento, enquanto os companheiros praticavam<br \/>\n    de v&aacute;rios assuntos relativos ao ponto principal.<\/p>\n<p> Domingos Freire, que era dotado de g&ecirc;nio jovial, quando os outros<br \/>\n    consideravam o assunto pelo lado s&eacute;rio, atraiu a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de alguns, encarando o lado c&ocirc;mico.<\/p>\n<p> &mdash; Senhores, tenho um presente que lhes dar, mas antes de tudo, quero<br \/>\n    cacha&ccedil;a para tomar uns goles, porque estou resfriado; e depois dos<br \/>\n    goles, alguma coisa que comer, ainda que sejam past&eacute;is fresquinhos,<br \/>\n    ou queijadas doces, como as que aparecem nos presepes de D. &Uacute;rsula.<\/p>\n<p> &mdash; Past&eacute;is frescos e queijadas doces nestas alturas! Sempre<br \/>\n    te conheci chalaceiro, Domingos, disse Manoel Bezerra.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o desconversem. Voc&ecirc;s, que s&atilde;o os donos do<br \/>\n    rancho, est&atilde;o na obriga&ccedil;&atilde;o de dar boa ceia a h&oacute;spedes<br \/>\n    da minha pros&aacute;pia. Se, por gulosos, comeram na janta o peru e toda<br \/>\n    a eletria, contento-me com um pouco de carne de sol assada ali na fogueira.<br \/>\n    Quem &eacute; o despenseiro? <br \/>\n    &mdash; A despensa &eacute; franca. Do jantar nos ficou ali um quarto de carneiro.<br \/>\n    Tira um peda&ccedil;o, mete-o no espeto, assa-o tu mesmo.<\/p>\n<p> &mdash; Asso eu, asso eu  gritou Francisco.<\/p>\n<p> &mdash; Ent&atilde;o faze logo esta obra de caridade &agrave;s nossas barrigas<br \/>\n    famintas. Molharemos depois a goela com bom vinho de Lisboa, que deve haver<br \/>\n    na adega de Falc&atilde;o.<\/p>\n<p> &mdash; Aqui n&atilde;o entra nada de Lisboa, nada da santa terrinha.<\/p>\n<p> &mdash; Perd&atilde;o, perd&atilde;o, n&atilde;o adverti que estava num<br \/>\n    acampamento onde se trama contra tudo quanto &eacute; europeu.<\/p>\n<p> &mdash; Mas olha: ali h&aacute; &oacute;tima aguardente num garraf&atilde;o.<br \/>\n    Chegou ontem do engenho Cumbe. Presente que mandaram a Bulh&otilde;es.<\/p>\n<p> &mdash; Mas enquanto n&atilde;o chega o carneiro, d&aacute;-nos o mimo que<br \/>\n    trouxeste, observou Francisco Botelho.<\/p>\n<p> &mdash; Isto s&oacute; ao p&eacute; da fogueira.<\/p>\n<p> Encaminharam-se para ali, e em troncos sentaram-se todos os que com Domingos<br \/>\n    Freire estavam formando grupo. Al&eacute;m de Matias Barbosa, Antonio Bezerra,<br \/>\n    Manuel Bezerra e Francisco Botelho, compunham aquele grupo Francisco de Melo,<br \/>\n    Jo&atilde;o Nunes Tinoco, Louren&ccedil;o Uchoa, &Aacute;lvaro Marreiros e<br \/>\n    Sim&atilde;o Mendes.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o &eacute; nem brilhante nem ouro em p&oacute;; mas &eacute;<br \/>\n    coisa que vale ouro e brilhante. &Eacute; uma d&eacute;cima que comp&ocirc;s<br \/>\n    para epit&aacute;fio do juiz de fora uma musa nossa patr&iacute;cia.<\/p>\n<p> &mdash; Para epit&aacute;fio do juiz de fora? <br \/>\n    &mdash; Sim, o juiz de fora Paula Carvalho, que &eacute; morto.<\/p>\n<p> &mdash; &Eacute; verdade.<\/p>\n<p> &mdash; Morreu hidr&oacute;pico do muito mal que fez &agrave; nobreza, e<br \/>\n    das largas peitas que recebeu da mascataria. T&atilde;o hidr&oacute;pico morresse<br \/>\n    o Bacalhau que publicamente dizia que a &ldquo;todos que morassem das pontes<br \/>\n    do Recife para fora, se n&atilde;o pudesse tirar a pele, havia de tirar a<br \/>\n    camisa. O diabo os fez e o governador os ajuntou, esse governador alarve,<br \/>\n    que &eacute; capaz de comer um boi numa assentada, t&atilde;o sevandija que,<br \/>\n    estando &agrave; mesa, mandou buscar o asqueroso e imundo vaso de esp&uacute;rias<br \/>\n    pra exonera&ccedil;&atilde;o do ventre cheio, e &agrave; vista dos assistentes,<br \/>\n    no mesmo ato do comer, estar em ato contr&aacute;rio(2).<\/p>\n<p> &mdash; Quem pratica &ldquo;a&ccedil;&atilde;o t&atilde;o fidalga pode presumir-se<br \/>\n    e afirmar-se que teve&nbsp; o nascimento em alguma estrebaria, e a cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em algum chiqueiro(2), disse Sim&atilde;o Mendes.<\/p>\n<p> &mdash; Vamos &agrave; d&eacute;cima, acrescentou Botelho.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o Domingos Freire, tirando do bolso um papel, desdobrou-o e leu:\n  <\/p>\n<p>&ldquo;Jaz debaixo de um calhau <br \/>\n    Que &eacute; de pederneira galho <br \/>\n    O defunto juiz Carvalho <br \/>\n    Esperando o Bacalhau <br \/>\n    Da morte deste mar&atilde;o <br \/>\n    Nenhum dos mortais se queixe <br \/>\n    Deixe andar o mundo, deixe <br \/>\n    Que a morte n&atilde;o acabou <br \/>\n    Se ela o Carvalho cortou <br \/>\n    Inda h&aacute; de pescar o peixe(2) <\/p>\n<p>Gargalhadas e palmas, sucedendo-se irressistivelmente a este produto da musa<br \/>\n    pernambucana do s&eacute;culo XVIII, atroaram os ares abafados da floresta.<\/p>\n<p> Quando cessou o estr&eacute;pito do aplauso, Domingos Freire, voltando-se<br \/>\n    para um lado, gritou: <br \/>\n    &mdash; &Oacute; Francisco, traze logo o carneiro.<\/p>\n<p> Francisco entrou, quando ainda soavam estas palavras, no pequeno espa&ccedil;o<br \/>\n    esclarecido pela fogueira; mas em lugar de carne, o que trazia era um homem<br \/>\n    agarrado pela v&eacute;stia. Com grande esfor&ccedil;o pudera arrast&aacute;-lo<br \/>\n    at&eacute; ali. A luta fora t&atilde;o renhida que parte da camisa do matuto<br \/>\n    vinha em peda&ccedil;os.<\/p>\n<p> &mdash; Tomem conta do cabra, que j&aacute; n&atilde;o posso comigo mesmo!<br \/>\n    <br \/>\n    Assim dizendo, atirou para o lado da fogueira com quantas for&ccedil;as lhe<br \/>\n    restavam o desconhecido, e, por n&atilde;o se poder ter mais em p&eacute;,<br \/>\n    caiu para o outro lado.<\/p>\n<p> Em menos de um minuto o desconhecido estava cercado por todos os que de<br \/>\n    perto, ou de longe, haviam testemunhado a inesperada cena. Alentada a fogueira<br \/>\n    de prop&oacute;sito, para que pudessem ser bem reconhecidas as fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do espi&atilde;o, puseram-lhe as cordas, e amarraram-no ao tronco de uma &aacute;rvore.<\/p>\n<p> Havia por esse tempo no Recife uma mascate de nome Greg&oacute;rio, muito<br \/>\n    protegido por um europeu chamado Afonso Maciel, de todos temido. Quando o<br \/>\n    Camar&atilde;o, primeiro sustent&aacute;culo dos mascates ao sul da prov&iacute;ncia,<br \/>\n    entrou no Recife para visitar F&eacute;lix Jos&eacute; Machado, chegado de<br \/>\n    h&aacute; pouco, muito esc&acirc;ndalo ocasionou &agrave; nobreza Afonso Maciel<br \/>\n    com os vitup&eacute;rios e conv&iacute;cios que para ela teve.<\/p>\n<p> Com um grande s&eacute;quito de conterr&acirc;neos seus, fora esperar e<br \/>\n    receber o caudilho em Afogados, ao som de fagotes e chamarelas. No momento<br \/>\n    de Miguel lan&ccedil;ar ao pesco&ccedil;o do Cora&ccedil;&atilde;o uma medalha<br \/>\n    em fest&atilde;o lavrada de ouro, Maciel, n&atilde;o querendo ficar atr&aacute;s,<br \/>\n    desabotoou o talabarte donde pendia vistoso espadim de bainha de ouro, e cingiu<br \/>\n    com ele o chefe caboclo. Ao passar pela rua onde morava, alcatifada como se<br \/>\n    houvera de receber um monarca, ou um benem&eacute;rito da humanidade, foi<br \/>\n    a mulher de Maciel, que de cima das suas janelas adornadas com tape&ccedil;arias<br \/>\n    as que mais custosas ostentava, foi a mulher desse europeu a que mais &aacute;gua<br \/>\n    de C&oacute;rdova, mais flores, mais confeitos e mais moedas atirou em honra<br \/>\n    do Camar&atilde;o. Foi ela a que, descendo da sua morada at&eacute; a rua,<br \/>\n    obtida permiss&atilde;o do marido, correu e abra&ccedil;ou o chefe caboclo,<br \/>\n    que arrogante e ancho de t&atilde;o estrondosa recep&ccedil;&atilde;o ostentava<br \/>\n    &agrave; frente dos seus quatrocentos &iacute;ndios, a bizarria de um guerreiro<br \/>\n    e a altivez de um ditador.<\/p>\n<p> N&atilde;o lhe faltando meios, porque ele era negociante s&oacute;lido,<br \/>\n    n&atilde;o lhe faltando est&iacute;mulo, porque a maioria dos seus conterr&acirc;neos,<br \/>\n    reconhecendo de quanto era capaz, lisonjeava a sua vaidade, e o incitava a<br \/>\n    praticar os maiores desd&eacute;ns para os nobres, disse um dia, no fim de<br \/>\n    um jantar op&iacute;paro, em um dos sobrados da rua dos judeus, que lhe havia<br \/>\n    de ser o seu Greg&oacute;rio quem daria com o esconderijo de Falc&atilde;o<br \/>\n    d&rsquo;E&ccedil;a, e quando n&atilde;o pusesse as algemas neste rebelde,<br \/>\n    havia de tirar-lhe a vida, para que n&atilde;o tramasse novo levante, e de<br \/>\n    uma vez para sempre ficasse ensinado. Fora dito isto depois de larga comezaina<br \/>\n    e de copiosos licores que lhe deveram perturbar a consci&ecirc;ncia; mas,<br \/>\n    no outro dia, camaradas exaltados lembraram-lhe o juramento feito no dia precedente,<br \/>\n    e foi isto bastante para que Afonso Maciel o ratificasse. Entre os baixos<br \/>\n    sequazes dos mascates, aqueles que percorriam em continuadas jornadas o sul<br \/>\n    da prov&iacute;ncia, n&atilde;o havia um s&oacute; que n&atilde;o soubesse<br \/>\n    entrar nas matas de Tracunha&eacute;m e chegar at&eacute; a regi&atilde;o<br \/>\n    onde n&atilde;o corria risco inspe&ccedil;&atilde;o estranha, porque constitu&iacute;a<br \/>\n    dom&iacute;nio do p&uacute;blico; mas dentre tantos que chegavam at&eacute;<br \/>\n    terreno ou campo neutro, nenhum se arriscara jamais a dar um passo para adiante,<br \/>\n    temendo, n&atilde;o sem raz&atilde;o, cair na emboscada do c&eacute;lebre<br \/>\n    chefe da liga.<\/p>\n<p> Greg&oacute;rio, por&eacute;m, levado por sequazes conhecedores das veredas,<br \/>\n    animou-se a penetrar nas que eram suspeitas; e com a coragem dos instrumentos<br \/>\n    da sua condi&ccedil;&atilde;o, deixara-se ficar em paciente observa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    oculto pelos matos, na entrada de uma dessas veredas, aguardando meio de penetrar<br \/>\n    no segredo.<\/p>\n<p> Duas desgra&ccedil;as esperavam-no por&eacute;m ali. A primeira foi Faustino<br \/>\n    Figueira acertar, com os companheiros, de tomar pela mesma vereda para o pouso.<br \/>\n    Greg&oacute;rio acompanhou-os, servindo-lhes eles, sem o suspeitarem, de guias<br \/>\n    no intricado labirinto dos matos, e nas trevas da medonha noite de inverno.<\/p>\n<p> A segunda desgra&ccedil;a foi colocar-se perto da &aacute;rvore donde pendia<br \/>\n    a matalotagem que Francisco buscava.<\/p>\n<h2><a name=\"15\">Cap\u00edtulo XV<\/a><\/h2>\n<p> Se isto n&atilde;o o fora, ou ele, cansado de esperar em v&atilde;o, deixaria<br \/>\n    o mato sem coisa de maior, desenganado de achar o ref&uacute;gio dos pernambucanos;<br \/>\n    ou n&atilde;o seria descoberto por Francisco, e teria sido o her&oacute;i<br \/>\n    de uma alta fa&ccedil;anha no conceito dos mascates, ocasionando a pris&atilde;o<br \/>\n    de quinhentos nobres, entre os quais o chefe da liga, que por si s&oacute;<br \/>\n    valia mais para o governador do que todos os outros quatrocentos e noventa<br \/>\n    e nove. <\/p>\n<h2><a name=\"16\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><\/h2>\n<p>Reconhecendo no espi&atilde;o o acostado de Afonso Maciel, Falc&atilde;o<br \/>\n    d&rsquo;E&ccedil;a empalideceu. Como pudera penetrar at&eacute; ali? Teria<br \/>\n    vindo s&oacute;, ou seguido de tropas incumbidas de prender os nobres? Estavam<br \/>\n    estas perto ou longe? Demorar-se-ia o ataque, ou deveria romper j&aacute;?<br \/>\n    \n  <\/p>\n<p>  A primeira id&eacute;ia que lhe ocorreu, foi a de mudar de pouso. Os outros<br \/>\n  companheiros tiveram o mesmo pensamento em presen&ccedil;a do perigo considerado<br \/>\n  iminente.<\/p>\n<p> &mdash; Nem mais um instante aqui! disse um, disseram quase todos, entreolhando-se<br \/>\n    confusos, sen&atilde;o admirados de n&atilde;o haver ainda rompido fogo contra<br \/>\n    eles.<\/p>\n<p> Sobressaltados e prec&iacute;pites, cada um se muniu das suas armas; cada<br \/>\n    um, no seu f&acirc;mulo, ou escravo, pegou da ligeira bagagem; todos tomaram<br \/>\n    imediatamente o caminho em direitura para o <em>Rancho do quiri<\/em>, denomina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dada por Falc&atilde;o a outro arraial que ficava distante, cerca de tr&ecirc;s<br \/>\n    quartos de l&eacute;gua, do que desamparavam. Devia chegar l&aacute; ao amanhecer,<br \/>\n    depois de atravessarem v&aacute;rios arraiais, donde iriam coligindo as for&ccedil;as<br \/>\n    esparzidas na vasta massa dos bosques. Esta era uma estrat&eacute;gia que<br \/>\n    o chefe praticava sempre que se pressentia amea&ccedil;ado  concentrar<br \/>\n    em um s&oacute; ponto os v&aacute;rios contingentes.<\/p>\n<p> A noite estava medonha, assim pela escurid&atilde;o, como pelo tempo, que<br \/>\n    n&atilde;o suspendera.<\/p>\n<p> Falc&atilde;o ia na frente. Ningu&eacute;m sabia, como ele, as sendas amigas.<br \/>\n    Intr&eacute;pido e h&aacute;bil, n&atilde;o havia matos, lamas, barrocais,<br \/>\n    desfiladeiros, precip&iacute;cios, que lhe retivessem a marcha por perigosos<br \/>\n    ou desconhecidos. &Agrave;s vezes, deslizava-lhe o p&eacute; nas folhas umedecidas,<br \/>\n    ou na argila escorregadia, e ele vinha em terra; mas logo se levantava, e<br \/>\n    seguia, sem proferir uma palavra que, ao menos e longe, indicasse indecis&atilde;o<br \/>\n    ou des&acirc;nimo.<\/p>\n<p> Os outros acompanhavam-no quase instintivamente como aut&ocirc;matos. Os<br \/>\n    que eram mais sabedores dos caminhos conduziam os menos pr&aacute;ticos, dando-lhes<br \/>\n    a extremidade de uma vara, e pegando na outra extremidade, como usam os guias<br \/>\n    com os cegos.<\/p>\n<p> Era de singular efeito a vista oferecida, de tempos a tempos, por aquele<br \/>\n    longo cord&atilde;o de figuras silenciosas em que se notavam semblantes de<br \/>\n    todas as fei&ccedil;&otilde;es, ao fuzilar dos rel&acirc;mpagos nas abertas<br \/>\n    dos matos, ou ao clarear dos vaga-lumes no mais fechado. Uns de bota, outros<br \/>\n    descal&ccedil;os, todos, escorrendo &aacute;gua e tiritando de frio, lembravam,<br \/>\n    em parte, o tropel de fugitivos que no s&eacute;culo XVII, deixando o Recife<br \/>\n    e as est&acirc;ncias vizinhas, que haviam ca&iacute;do no poder dos holandeses,<br \/>\n    caminhavam a p&eacute;, na dire&ccedil;&atilde;o do sul, em demanda das Alagoas,<br \/>\n    por escapar aos vencedores.<\/p>\n<p> O <em>Rancho do quiri<\/em>, que tomava a sua denomina&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    ser o lugar muito abundante daquela madeira, ficava quase no fim da mata,<br \/>\n    &agrave; beira de uma baixada, que com as grossas chuvas se mudara em vasto<br \/>\n    lago mediterr&acirc;neo.<\/p>\n<p> Estavam ali os refugiados mais pr&oacute;prios para entrar em fogo, os de<br \/>\n    fibra rija, pela vida &aacute;spera que tinham levado antes. Compunham-se,<br \/>\n    em sua maioria, de moradores e foreiros, dedicados aos senhores do engenho.<br \/>\n    Quase toda esta gente, passante de cem indiv&iacute;duos, se sustentava de<br \/>\n    ca&ccedil;a e frutas agrestes. Uma vez por outra, sa&iacute;am alguns do esconderijo,<br \/>\n    e nos povoados mais pr&oacute;ximos iam prover-se de farinha e bebidas, ou<br \/>\n    iam buscar nos engenhos, onde tinham fam&iacute;lias, outras provis&otilde;es;<br \/>\n    o mato, por&eacute;m, era o seu principal fornecedor, agora lhes dando a paca,<br \/>\n    o tatu, a cutia, o pre&aacute;; agora o jacu, a juriti, o nambu, pato bravo;<br \/>\n    agora o anan&aacute;s, o inhame, a mangaba, o caju.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes sa&iacute;am a pescar &agrave; noite, nas lagoas perdidas<br \/>\n    no interior da espessura; era para ver como tarrafeava habilmente o que se<br \/>\n    supunha, &agrave; primeira vista, n&atilde;o saber outro of&iacute;cio sen&atilde;o<br \/>\n    o de carguejar. Voltavam trazendo cestos cheios de camar&otilde;es e tra&iacute;ras.<\/p>\n<p> Para esses homens, n&atilde;o trouxera grandes inclem&ecirc;ncias o homizio.<br \/>\n    Muitos deles preferiram estas ind&uacute;strias grosseiras e selv&aacute;ticas<br \/>\n    &agrave; do trabalho de plantar ou almocrevar. Alguns que tinham a sua ponta<br \/>\n    de &iacute;ndio, compraziam-se nesse viver despreocupado, pr&oacute;prio e<br \/>\n    querido dos povos n&ocirc;mades. Tais haviam que diziam com sinceridade, quando<br \/>\n    sucedia falar-se-lhes no termo das persegui&ccedil;&otilde;es e na volta ao<br \/>\n    antigo estado: <br \/>\n    &mdash; Deus queira que n&atilde;o acabe mais esta guerra, <br \/>\n    Outros completavam a id&eacute;ia: <br \/>\n    &mdash; Quero antes esta vida muito menos trabalhosa, que o do engenho. A<br \/>\n    &uacute;nica falta que sinto &eacute; a da minha mulher.<\/p>\n<p> Pela madrugada chegaram Falc&atilde;o com os companheiros ao <em>Rancho<br \/>\n    do quiri<\/em>, e ao amanhecer, reunidos em figura de&nbsp; conselho os principais<br \/>\n    nobres, trataram de sentenciar sumariamente o espi&atilde;o.<\/p>\n<p> Notava-se no ponto ins&oacute;lito alvoro&ccedil;o. Todos os semblantes,<br \/>\n    ainda os de seu natural mais serenos, davam mostras de invenc&iacute;vel inquieta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Muitos dos fugitivos ali reunidos nunca se tinham achado em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de testemunhar espet&aacute;culo id&ecirc;ntico ao que fora resolvido.<\/p>\n<p> Chegado o momento, em uma aberta da mata, seis escravos formaram uma roda,<br \/>\n    como se se aparelhassem para certa dan&ccedil;a circular que usavam os nossos<br \/>\n    &iacute;ndios.<\/p>\n<p> Ao meio do c&iacute;rculo fora arrojado o espi&atilde;o, nu, da cintura<br \/>\n    para cima, com as m&atilde;os atadas atr&aacute;s da costa. Alguns dos refugiados<br \/>\n    mais animosos, os mais duros, de p&eacute;, ou sentados junto das &aacute;rvores<br \/>\n    que formavam o desigual anfiteatro  grosseira semelhan&ccedil;a dos<br \/>\n    circos romanos onde prisioneiros de guerra combatiam para divertimento do<br \/>\n    p&uacute;blico  testemunhavam a puni&ccedil;&atilde;o cruenta que talvez<br \/>\n    terminasse com a morte do delinq&uuml;ente. Sobre este, que umas vezes implorava<br \/>\n    perd&atilde;o, outras soltava impreca&ccedil;&otilde;es injuriosas, descarregavam<br \/>\n    os executores os instrumentos da infame e infamante pena.<\/p>\n<p> O paciente, que ao princ&iacute;pio rugia de c&oacute;lera, ou gritava ou<br \/>\n    vociferava, do meio para o fim, quebradas as for&ccedil;as, enfraquecidos<br \/>\n    os esp&iacute;ritos, recebia em sil&ecirc;ncio, mal se sustentando de p&eacute;,<br \/>\n    e por &uacute;ltimo ca&iacute;do por terra, as varadas brandidas pelos vigorosos<br \/>\n    pulsos africanos.<\/p>\n<p> Era a isto que se chamavam <em>roda de pau<\/em>, castigo muito praticado<br \/>\n    naqueles tempos, por naturais de Pernambuco, especialmente contra os portugueses<br \/>\n    europeus.<\/p>\n<p> V&aacute;rios alvitres tinham sido indicados, v&aacute;rias penas propostas,<br \/>\n    entre as quais a do <em>saco de areia<\/em>, hoje inteiramente desusada, como<br \/>\n    a da <em>roda de pau<\/em>.<\/p>\n<p> A surra de saco de areia ligava-se a uma supersti&ccedil;&atilde;o: o povo<br \/>\n    acreditava que o paciente de semelhante supl&iacute;cio n&atilde;o declarava,<br \/>\n    em caso de nenhum, o nome do ofensor. Era castigo aplicado a culpas graves,<br \/>\n    e consistia em longo estojo de lona cheio de areia fina bem socada, que, tanto<br \/>\n    pela forma, como pelo tamanho e dureza, se parecia com um cacete. &Agrave;<br \/>\n    circunst&acirc;ncia de ter no fundo uma moeda de cobre e uma rodela de fumo,<br \/>\n    inven&ccedil;&atilde;o da supersti&ccedil;&atilde;o do povo ignaro, atribu&iacute;a<br \/>\n    este a especial virtude de impor sil&ecirc;ncio ao que com ele era castigado,<br \/>\n    e que, por muito mo&iacute;do em todo o corpo, mui raras vezes sobrevivia<br \/>\n    ao castigo.<\/p>\n<p> Quando no rancho foi indicada a surra de saco de areia, para a puni&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do espi&atilde;o, um dos matutos observou, em tom de chala&ccedil;a: <br \/>\n    &mdash; Isto &eacute; l&aacute; para a beira da praia, onde n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    madeira forte; n&atilde;o &eacute; para aqui, onde n&atilde;o falta quiri<br \/>\n    nem piti&aacute;, e s&oacute; temos barro duro, e n&atilde;o areia fina.<\/p>\n<p> Ainda por estas raz&otilde;es, que, bem indicam n&atilde;o ser o aludido<br \/>\n    castigo filho da regi&atilde;o das matas, ou do sert&atilde;o, mas, sim, do<br \/>\n    litoral, e talvez at&eacute; de pa&iacute;s estrangeiro, provavelmente da<br \/>\n    Holanda, prevaleceu o da roda de pau, o qual, parecendo mais atroz que o outro,<br \/>\n    nem sempre, na cren&ccedil;a do povo, tinha, como aquele, resultados fatais;<br \/>\n    porque &agrave; roda de pau muitos sobreviviam, ao saco de areia quase nenhum;<br \/>\n    o primeiro tinha por fim castigar, ou <em>ensinar<\/em>, como se dizia ent&atilde;o,<br \/>\n    ao passo que o &uacute;ltimo tinha por fim matar.<\/p>\n<p> Ora, os nobres n&atilde;o quiseram sentenciar &agrave; morte o espi&atilde;o;<br \/>\n    ao contr&aacute;rio, entrara no seu plano que, longe de ocultar o nome de<br \/>\n    quem lhe aplicara o castigo, fosse depois o espi&atilde;o revel&aacute;-lo<br \/>\n    &agrave;queles cujo era mandat&aacute;rio. Havia nisto particular sabor de<br \/>\n    vingan&ccedil;a  o desd&eacute;m por n&atilde;o ter o ardil sortido<br \/>\n    o esperado efeito. Estava t&atilde;o enraizado no esp&iacute;rito pernambucano<br \/>\n    do s&eacute;culo passado, que n&atilde;o contribuiu pouco para a explos&atilde;o<br \/>\n    revolucion&aacute;ria de 1817 a preven&ccedil;&atilde;o contra os portugueses,<br \/>\n    at&eacute; certo ponto justificada pelo exclusivismo que afastava os brasileiros<br \/>\n    das posi&ccedil;&otilde;es e empregos importantes na regi&atilde;o oficial,<br \/>\n    e t&atilde;o em voga o castigo corporal como repres&aacute;lia &agrave;quele<br \/>\n    exclusivismo, &agrave; qual se ligava a id&eacute;ia de ter em pouca conta<br \/>\n    os preferidos, ou de os rebaixar, que um dos nobres  o sargento-mor<br \/>\n    Leonardo Bezerra, depois de tr&ecirc;s anos de pris&atilde;o em Lisboa, escreveu<br \/>\n    da Bahia, onde voltando ao Brasil, se fixara definitivamente, aos parentes<br \/>\n    de Pernambuco, lugar do seu nascimento: <br \/>\n    &ldquo;N&atilde;o corteis um s&oacute; <em>quiri<\/em> das matas; tratai de<br \/>\n    poup&aacute;-los para, em tempo oportuno, quebrarem-se as costas dos marinheiros(7).<\/p>\n<p> Reproduzindo estas palavras, n&atilde;o sou levado por intuito de picar<br \/>\n    a nacionalidade irm&atilde;, intuito que n&atilde;o teria o menor fundamento,<br \/>\n    e contra o qual, muito ao contr&aacute;rio, n&atilde;o me seria dif&iacute;cil<br \/>\n    aduzir provas, tomadas de mim mesmo. O meu fim &uacute;nico &eacute; dar id&eacute;ias<br \/>\n    dos costumes e paix&otilde;es dominantes naquele tempo; &eacute; autorizar<br \/>\n    a narrativa com a tradi&ccedil;&atilde;o, junto da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> Terminado o atroz supl&iacute;cio, mandou Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a<br \/>\n    por um pano nos olhos do supliciado, e conduzir este para fora do pouco. In&uacute;til,<br \/>\n    sen&atilde;o irris&oacute;ria precau&ccedil;&atilde;o, Greg&oacute;rio, mole,<br \/>\n    esqu&aacute;lido, metia horror. As alvas costas, para onde, por especial recomenda&ccedil;&atilde;atilde;o,<br \/>\n    tinham convergido os golpes dos executores, haviam enegrecido: n&atilde;o<br \/>\n    se notava diferen&ccedil;a de cor entre os algozes e a v&iacute;tima. Somente<br \/>\n    as m&atilde;os e os p&eacute;s atestavam, pela brancura, a ra&ccedil;a do<br \/>\n    infeliz.<\/p>\n<p> Deixaram-no, por morto, na entrada da mata, tendo em uma das m&atilde;os<br \/>\n    um papel com este improviso em verso, obra de Domingos Freire: <\/p>\n<p>&ldquo;Buscar l&atilde; veio o Greg&oacute;rio, <br \/>\n    Mas volta bem tosquiado: <br \/>\n    Se vier, por mais fin&oacute;rio, <br \/>\n    O Felix Jos&eacute; Machado, <br \/>\n    O Cutia e o Bacalhau, <br \/>\n    Havemos de ter, n&atilde;o uma, <br \/>\n    mas quatro <em>rodas de pau<\/em>. <\/p>\n<p>Seria meio-dia. Tinha feito uma estiada, O sol chegou a mostrar-se, ardente<br \/>\n    e amarelento, como &eacute; o sol do inverno. Aproveitando a impress&atilde;o<br \/>\n    deixada nos esp&iacute;ritos pela not&iacute;cia da partida de D. Manoel para<br \/>\n    as Alagoas, e pela aud&aacute;cia da recente espionagem, aproveitando, enfim,<br \/>\n    a cren&ccedil;a de todos os homiziados, e n&atilde;o esperarem rem&eacute;dios<br \/>\n    aos seus males sen&atilde;o de si mesmos, e de estarem constantemente cercados<br \/>\n    de emboscadas e perigos, Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a chamou de parte<br \/>\n    alguns amigos, em cujo crit&eacute;rio e decis&atilde;o mais confiava, para<br \/>\n    que lhe ouvissem a &uacute;ltima palavra: \n  <\/p>\n<p>  &mdash; &Eacute; tempo de tomarmos uma resolu&ccedil;&atilde;o. Quando me meti<br \/>\n  nestas matas, n&atilde;o foi com o &uacute;nico intento de escapar &agrave;<br \/>\n  pris&atilde;o ou &agrave; morte. Tendo parentes no Cear&aacute;, ser-me-ia f&aacute;cil,<br \/>\n  se o meu intento fosse somente evitar a pris&atilde;o, emigrar para o seio deles,<br \/>\n  onde estaria ao abrigo de toda hostilidade. Quem primeiro me impeliu para aqui,<br \/>\n  senhores, n&atilde;o foi um sentimento baixo  o medo; foi um sentimento<br \/>\n  elevado  o amor da p&aacute;tria; fio que v&oacute;s poderei dizer outro<br \/>\n  tanto.<\/p>\n<p> &mdash; Decerto, respondeu o padre Guerra.<\/p>\n<p> &mdash; Que v&iacute;amos antes da luta? Dois interesses, um estrangeiro,<br \/>\n    outro brasileiro. Levados de cobi&ccedil;a, e n&atilde;o satisfeitos com serem<br \/>\n    senhores do com&eacute;rcio e das ind&uacute;strias, os portugueses europeus<br \/>\n    queriam chamar a si a agricultura, impondo aos agricultores obriga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que redundavam em ficarem estes &agrave; merc&ecirc; daqueles. Como n&atilde;o<br \/>\n    pudessem, por meios l&iacute;citos, levar a efeito o seu intento, maquinaram<br \/>\n    criar a vila onde tinham e onde t&ecirc;m a sua for&ccedil;a, e tornar-se,<br \/>\n    por este modo, &aacute;rbitros dos pre&ccedil;os dos g&ecirc;neros que haviam<br \/>\n    de ser for&ccedil;osamente tachados por almotac&eacute;s do seu plano; e este<br \/>\n    diab&oacute;lico intento estaria de todo realizado, se a nobreza n&atilde;o<br \/>\n    pusesse para fora o governador que tivera o arrojo de promover a cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vila maldita. Sabeis, t&atilde;o bem como eu, o que se seguiu ao ato de<br \/>\n    energia, que nos livrara de Sebasti&atilde;o de Caldas. Foi no Senado da C&acirc;mara<br \/>\n    de Olinda, reunido para providenciar sobre o governo da capit&acirc;nia ac&eacute;fala,<br \/>\n    foi ali que o amor da p&aacute;tria, fazendo-nos pulsar os cora&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    proclamou em nossas consci&ecirc;ncias a necessidade de tornarmos Pernambuco<br \/>\n    independente da metr&oacute;pole, madrasta e n&atilde;o m&atilde;e. O amor<br \/>\n    da p&aacute;tria, pernambucanos, o amor da p&aacute;tria &eacute; uma paix&atilde;o<br \/>\n    grande que se gera, n&atilde;o do ajuntamento de dois seres como geram as<br \/>\n    criaturas, mas do ajuntamento de milhares de seres, dos ajuntamento dos povos;<br \/>\n    que nasce, n&atilde;o sob o teto particular, ou em leito clandestino, mas<br \/>\n    sob o teto p&uacute;blico, sob a ab&oacute;bada livre e ampla dos c&eacute;us,<br \/>\n    no largo leito das pra&ccedil;as; que nasce, n&atilde;o ocultamente, &agrave;<br \/>\n    luz da candeia noturna, trancadas as portas, mas nas vistas de todos, fora<br \/>\n    de paredes ou cortinas, alumiados pelo sol do dia; que nasce, n&atilde;o como<br \/>\n    nascem as crian&ccedil;as que acende, rubor nas faces das m&atilde;es, mas<br \/>\n    como nascem os sentimentos imortais, trazendo &agrave; face dos patriotas<br \/>\n    o sangue vivo do cora&ccedil;&atilde;o, porque o amor da p&aacute;tria n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; uma paix&atilde;o vergonhosa, e sim uma paix&atilde;o egr&eacute;gia,<br \/>\n    que dignifica os que nela se abrasam. Sabeis, t&atilde;o bem como eu, que<br \/>\n    a primeira palavra nesse cons&oacute;rcio do Senado da C&acirc;mara com a<br \/>\n    nobreza, foi no sentido de Pernambuco declarar-se rep&uacute;blica; mas, como<br \/>\n    naturalmente acontece sempre que se congregam muitas vontades, os que assim<br \/>\n    pensavam, encontraram da parte de outros pensar, sen&atilde;o inteiramente<br \/>\n    oposto, ao menos restrito quanto &agrave; oportunidade da declara&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O que os <em>exaltados<\/em>, a cujo n&uacute;mero tenho orgulho de pertencer<br \/>\n    hoje mais do que ent&atilde;o, porque os acontecimentos posteriores, confirmando<br \/>\n    a nossa raz&atilde;o, vieram provar que dos meios brandos nada colher&iacute;amos,<br \/>\n    queriam realizar imediatamente, isto &eacute;, separa&ccedil;&atilde;o, entenderam<br \/>\n    os <em>moderados<\/em> que se devia adiar para logo. N&atilde;o faltou nestes,<br \/>\n    senhores, amor da p&aacute;tria, faltou um pouco de previs&atilde;o, um pouco<br \/>\n    do conhecimento dos homens, e sobejou prud&ecirc;ncia que n&atilde;o mereciam<br \/>\n    os nossos inimigos. Os <em>moderados<\/em>, no pensamento de conciliarem os<br \/>\n    &acirc;nimos, propuseram a elei&ccedil;&atilde;o do bispo, ficando este obrigado<br \/>\n    a conceder aos nobres o perd&atilde;o em nome de el-rei. Entendiam-se eles,<br \/>\n    e entendem todos, menos alguns, de cujo n&uacute;mero fa&ccedil;o parte, que<br \/>\n    esta provid&ecirc;ncia reconduziria a Pernambuco a tranq&uuml;ilidade e a<br \/>\n    paz, fazendo entrar nos justos limites os mascates exorbitantes. Sabeis, t&atilde;o<br \/>\n    bem como eu, que em vez de se submeterem a t&atilde;o prudente alvitre, os<br \/>\n    mascates levaram seis meses a aparelhar o golpe, que descarregaram contra<br \/>\n    n&oacute;s, e ocasionou o s&iacute;tio do Recife, at&eacute; a chegada de<br \/>\n    F&eacute;lix Jos&eacute; Machado; o que trouxe a certeza da sua perseveran&ccedil;a<br \/>\n    e contum&aacute;cia em sotopor-nos. Sucedendo as pris&otilde;es, quase em<br \/>\n    massa, e por senten&ccedil;as arbitr&aacute;rias dos novos ministros contra<br \/>\n    os nobres, o &uacute;nico rem&eacute;dio que a estes se ofereceu, foi desamparar<br \/>\n    as suas fam&iacute;lias e propriedades, para se meterem como feras, nos bosques.<br \/>\n    Depois desta prova da inefic&aacute;cia do meio paliativo, proposto em Olinda<br \/>\n    pelos <em>moderados<\/em>, que se devia fazer? O que se devia fazer era voltar<br \/>\n    &agrave; primeira id&eacute;ia, aventada em Olinda pelos <em>exaltados<\/em><br \/>\n    ou antes, pelos de maior previd&ecirc;ncia  &agrave; id&eacute;ia da<br \/>\n    separa&ccedil;&atilde;o; era p&ocirc;r em campo a revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nacional. Sabeis, t&atilde;o bem como eu, que do seio destas matas vozes eloq&uuml;entes,<br \/>\n    soltadas por quem na tribuna sagrada est&aacute; afeito a arrebatar os mais<br \/>\n    vastos audit&oacute;rios &#8211; vozes eloq&uuml;entes do padre Guerra  representando<br \/>\n    a aspira&ccedil;&atilde;o de trinta refugiados ilustres pelos seus troncos<br \/>\n    e haveres, foram levar ao bispo D. Manuel  ponto culminante do nosso<br \/>\n    partido, n&atilde;o s&oacute; pela sua posi&ccedil;&atilde;o na igreja, mas<br \/>\n    tamb&eacute;m por ter sido o nosso chefe o governador no levante dos mascates<br \/>\n     as nossas s&uacute;plicas e inst&acirc;ncias, para que aceitasse o<br \/>\n    primeiro lugar &agrave; frente de n&oacute;s, nessa revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o nobre quanto justa. Sabeis, t&atilde;o bem como eu, que surdo &agrave;s<br \/>\n    nossas rogativas, a sua resposta foi uma recusa formal, foi um ato de des&acirc;nimo,<br \/>\n    inspirado talvez em piedosa ingratid&atilde;o. Todavia, alguns dos que me<br \/>\n    escutam aqui agora, n&atilde;o afastaram de todo as vistas de sobre o prelado;<br \/>\n    e esperavam que mais cedo ou mais tarde, vendo os destro&ccedil;os daqueles<br \/>\n    que o haviam elegido em Olinda para o chefe, se resolvesse a dar o passo direito,<br \/>\n    e &uacute;nico adequado &agrave; nossa salva&ccedil;&atilde;o e gl&oacute;ria.<br \/>\n    Acabamos, por&eacute;m, de saber que D. Manoel, intimado para se ausentar<br \/>\n    da sede do levante cem l&eacute;guas, j&aacute; est&aacute; de marcha para<br \/>\n    as Alagoas, como corre a long&iacute;nquo est&aacute;bulo fraco cordeirinho<br \/>\n    apavorado por lobos carniceiros. Depois desta solu&ccedil;&atilde;o final<br \/>\n    da abortada esperan&ccedil;a, dizei-nos senhores, o que nos resta? Devemos<br \/>\n    continuar aqui foragidos, nus e crus, ausentes de nossos filhos, os nossos<br \/>\n    engenhos e fazendas destro&ccedil;ados e seq&uuml;estrados, a nossa sa&uacute;de<br \/>\n    enfraquecida pelas inj&uacute;rias do tempo, fomes, vig&iacute;lias, febres<br \/>\n    e frialdades, sem um f&iacute;sico que nos receite um xarope, os mantimentos<br \/>\n    escasseando de dia a dia, os inimigos levantando cada vez mais a cabe&ccedil;a<br \/>\n    deles, enquanto n&oacute;s cada vez abaixamos mais a nossa? Preciso de saber<br \/>\n    o que resolveis.<\/p>\n<p> Falc&atilde;o calou-se.<\/p>\n<p> O padre Guerra, como se estivesse de intelig&ecirc;ncia com o chefe da liga<br \/>\n    respondeu-lhe depois de curta interrup&ccedil;&atilde;o: <br \/>\n    &mdash; N&atilde;o nos pergunteis, Falc&atilde;o, o que resolvemos; dizei-nos<br \/>\n    o que tendes resolvido. V&oacute;s que haveis sido a nossa coluna neste ermo<br \/>\n    de amarguras, tendes o direito de indicar-nos a vossa vontade. Por minha parte<br \/>\n    dir-vos-ei que estarei cegamente pelo que vos parecer melhor. Entendeis que<br \/>\n    devemos continuar doentes, famintos, rotos e esfarrapados, sem tranq&uuml;ilidade<br \/>\n    de esp&iacute;rito nem comodidades f&iacute;sicas, a cada momento julgando-nos<br \/>\n    descobertos como ainda ontem, enfim com o cora&ccedil;&atilde;o nas m&atilde;os<br \/>\n    e a alma somente entregue a Deus e &agrave; aventura? Se &eacute; este o vosso<br \/>\n    parecer, estarei por ele; ficaremos aqui indefinidamente, at&eacute; que nos<br \/>\n    mares encapelados da adversidade sobrenade uma t&aacute;bua de salva&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Entendeis que, tendo em menoscabo todos os sacrif&iacute;cios porque h&aacute;<br \/>\n    dois anos estamos passando, devemos n&oacute;s, enfim, para o ep&iacute;logo<br \/>\n    condigno de tamanha trag&eacute;dia, deixar o nosso asilo, correr &agrave;<br \/>\n    vila maldita, subir as escadas  escorregadias de v&iacute;cio e devassid&atilde;o<br \/>\n     do pal&aacute;cio das duas torres, e a&iacute; batendo com a m&atilde;o<br \/>\n    no peito, como penitente em artigo de morte, confessar ao governador culpas<br \/>\n    que na realidade n&atilde;o temos, e pedir perd&atilde;o que provavelmente<br \/>\n    nos ser&aacute; recusado? Se vos parece decisivo, para termos dos nossos males,<br \/>\n    este recurso sem nome, acompanhar-vos-ei at&eacute; a morada da soberba, da<br \/>\n    avareza, da lux&uacute;ria, da ira, da gula, de todos os pecados mortais,<br \/>\n    a&iacute; rojar-me-ei aos p&eacute;s do que tem feito do of&iacute;cio de<br \/>\n    governador edif&iacute;cio do &oacute;dio, imoralidade, v&iacute;cios e crimes.<br \/>\n    Se vos parecer&#8230;<\/p>\n<p> Falc&atilde;o interrompeu o padre Guerra, com uma interroga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;bil e estrat&eacute;gica, e um gesto rasgado que acusava irrup&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de sentimentos por muito tempo sustidos: <br \/>\n    &mdash; Padre, falais em vosso nome, somente, ou falais tamb&eacute;m em nome<br \/>\n    de todos os que nos escutam? <br \/>\n    O padre Guerra, que estava sentado em um toro seco,&nbsp; ergue-se imediatamente.<br \/>\n    Quem fora estranho ao congresso da selva n&atilde;o dissera que estava ali<br \/>\n    um padre. Os cabelos e a barba de mais de um ano, trazidos em parte pela dificuldade<br \/>\n    de serem aparados a tempo e a hora, em parte pela conveni&ecirc;ncia de ter<br \/>\n    o rosto mudado, chegavam-lhe aos peitos e &agrave;s esp&aacute;duas, e davam-lhe<br \/>\n    uns longe de solenidade que haviam &agrave;s suas grenhas os antigos profetas.<br \/>\n    Os olhos brilhantes, o nariz alto no meio e grosso na ponta, as m&atilde;os<br \/>\n    e a testa salientes, a tez entre p&aacute;lida e tostada, ajudavam a express&atilde;o<br \/>\n    da guedelha, dando ao antigo profeta parte do moderno tributo.<\/p>\n<p> &mdash; Creio poder afian&ccedil;ar-vos, capit&atilde;o, disse ele, discorrendo<br \/>\n    r&aacute;pido olhar sobre os companheiros, alguns dos quais, imitando-o, pela<br \/>\n    for&ccedil;a comunicativa do seu gesto, j&aacute; estavam de p&eacute;, entregues<br \/>\n    a poderosa como&ccedil;&atilde;o  creio poder jurar-vos que num uma<br \/>\n    voz divergente vir&aacute; contradizer o meu enunciado, filho da nobreza e<br \/>\n    lealdade que nos s&atilde;o comuns a todos, filhos principalmente da confian&ccedil;a<br \/>\n    sem limites que, pelo vosso procedimento alevantado, nos tendes merecido at&eacute;<br \/>\n    este momento.<\/p>\n<p> Falc&atilde;o deu alguns instantes ao sil&ecirc;ncio, como quem aguardava<br \/>\n    manifesta&ccedil;&atilde;o mais larga e positiva. O seu sil&ecirc;ncio era<br \/>\n    na realidade uma interroga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Compreendendo-o talvez alguns dos nobres, e entre estes, Ribeiro da Silva,<br \/>\n    Faustino Figueira e Bernardo de Alem&atilde;o, adiantaram-se para clamarem<br \/>\n    com certa &ecirc;nfase: <br \/>\n    Falc&atilde;o, que era um homem bonito, nesse momento aliava &agrave; gra&ccedil;a<br \/>\n    do seu gesto o prest&iacute;gio que lhe haviam captado dois anos de perseverantes<br \/>\n    esfor&ccedil;os em triunfar das maquina&ccedil;&otilde;es e trai&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos inimigos, dois anos de insano lidar. Alto, espada&uacute;do, o rosto corado,<br \/>\n    os olhos retintos, de fulgor seco e vivo, oferecia majestoso e insinuativo<br \/>\n    aspecto. Era o tipo da for&ccedil;a e da resolu&ccedil;&atilde;o  um<br \/>\n    desses homens que nos afastam dela os advers&aacute;rios e comunicam aos amigos<br \/>\n    grande e her&oacute;ica firmeza  um desses homens em quem se encontram<br \/>\n    qualidades de dois mais admir&aacute;veis representantes do esp&iacute;rito<br \/>\n    revolucion&aacute;rio  Cromwell e Mirabeau.<\/p>\n<p> &mdash; Darei a minha resposta em poucas palavras: somos quinhentos nobres,<br \/>\n    temos quatrocentos escravos e duzentos camaradas; mil e cem homens bem armados<br \/>\n    e municiados para tomar a vila de surpresa, p&ocirc;r abaixo o governador<br \/>\n    e os ministros e expulsar os mascates que n&atilde;o quiserem submeter-se,<br \/>\n    proclamar a independ&ecirc;ncia de Pernambuco. O meu intento n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    outro, senhores! O meu intento &eacute; libertar a terra que nos viu nascer.<br \/>\n    Eu quero a liberdade de Pernambuco, ou do Brasil, eu quero acabar, de uma<br \/>\n    vez por todas, com o jugo dessa metr&oacute;pole ingrata que nos traz em baixa<br \/>\n    vassalagem.<\/p>\n<p> Apenas tinha acabado de proferir estas palavras, quando se ouviu ru&iacute;dos<br \/>\n    de passos de cavalo em uma das veredas que vinham dar no pouso.<\/p>\n<p> &mdash; Quem ser&aacute;? disse um dos nobres em tom de quem se assustava.<\/p>\n<p> E a esta voz, todos os outros presentes, levantando-se com um s&oacute;<br \/>\n    homem, lan&ccedil;aram m&atilde;o das armas.<\/p>\n<p> Falc&atilde;o, empalidecendo levemente, fez-lhes sinal que ficassem silenciosos<br \/>\n    e quedos.<\/p>\n<p> O papel arriscado de ir ao encontro de quem quer que fosse, ele o n&atilde;o<br \/>\n    quis passar a ningu&eacute;m. Rompendo por entre troncos seculares, desapareceu<br \/>\n    das vistas dos outros, num abris e fechar d&rsquo;olhos.<\/p>\n<p> Mas logo retornou ao recinto, possu&iacute;do de diferentes impress&otilde;es,<br \/>\n    ouvindo uma voz conhecida  a de Louren&ccedil;o. O semblante do rapaz<br \/>\n    indicava uma extraordin&aacute;ria satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &mdash; Alv&iacute;ssaras, seu Falc&atilde;o, alv&iacute;ssaras! <br \/>\n    &mdash; Que not&iacute;cias trazes? perguntou o capit&atilde;o espantado.<\/p>\n<p> &mdash; O perd&atilde;o.<\/p>\n<p> &mdash; O perd&atilde;o? inquiriram dez, vinte, cem bocas ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> &mdash; Sim, o perd&atilde;o que o rei mandou para a nobreza; chegou ontem.<br \/>\n    Andei toda a noite, debaixo de chuva que Deus dava, para ser o primeiro que<br \/>\n    trouxesse a vosmec&ecirc;s este alegre presente.<\/p>\n<p> Por entre a multid&atilde;o, que ocorrera ao ponto, a fim de ouvir de perto<br \/>\n    a grande nova, Louren&ccedil;o enxergou Francisco e Saturnino, que se adiantavam<br \/>\n    para ele. Atirou-se ao encontro, tendo antes entregue a Falc&atilde;o uma<br \/>\n    carta, que este leu em voz alta, depois de a haver lido para si: <\/p>\n<p>&ldquo;Amigo e senhor, \n  <\/p>\n<p>  N&atilde;o tenho tempo sen&atilde;o para lhe participar, sumamente regozijado,<br \/>\n  que chegou esta manh&atilde; de Lisboa um navio com a not&iacute;cia de estarem<br \/>\n  perdoados os nobres.<\/p>\n<p> O governador ainda n&atilde;o fez p&uacute;blico o perd&atilde;o com que<br \/>\n    el-rei se amerceou dos pernambucanos; mas, v&aacute;rias cartas do reino a<br \/>\n    amigos nossos s&atilde;o un&acirc;nimes em afirmar que o perd&atilde;o foi<br \/>\n    concedido e o governador ser&aacute; mudado.<\/p>\n<p> Receba os meus parab&eacute;ns e abrace todos os nossos amigos e patr&iacute;cios.<\/p>\n<p> Salinas, 3 de junho de 1714 <br \/>\n    Gil Ribeiro <\/p>\n<p>Apenas acabada a leitura, muitos exultando de prazer, soltaram irresistivelmente<br \/>\n    vivas a el-rei que foram calorosamente correspondidos.<\/p>\n<p> O padre Guerra n&atilde;o p&ocirc;de fugir de dizer: <br \/>\n    &mdash; Eu logo vi, senhores, que el-rei n&atilde;o havia de ser surdo &agrave;s<br \/>\n    nossas s&uacute;plicas <em>conte&uacute;das<\/em> nas cartas dos cl&eacute;rigos,<br \/>\n    das matronas pernambucanas&#8230;<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o esque&ccedil;ais as vossas eloq&uuml;entes cartas<br \/>\n    acrescentou Christovam de Holanda.<\/p>\n<p> &mdash; Senhores, senhores, tornou o padre, demos gra&ccedil;as a Deus por<br \/>\n    este celestial benef&iacute;cio.<\/p>\n<p> O ru&iacute;do, o burburinho produzido pelos que celebravam e comentavam<br \/>\n    a nova; os sorrisos de uns, os gracejos de outros, os abra&ccedil;os e as<br \/>\n    alegrias gerais indicavam que a id&eacute;ia da separa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica,<br \/>\n    h&aacute; pouco aceita e proclamada por todos os homiziados, n&atilde;o tinha<br \/>\n    grandes ra&iacute;zes sen&atilde;o em Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a, o<br \/>\n    qual emudecera, triste e eclipsado, quando o j&uacute;bilo dava brilho a todos<br \/>\n    os semblantes, e eloq&uuml;&ecirc;ncia a todas as vozes. <\/p>\n<h2><a name=\"17\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><\/h2>\n<p>Vinte e quatro horas antes chegara Louren&ccedil;o ao s&iacute;tio do ajudante<br \/>\n    de tenente Gil Ribeiro, nas Salinas: viera saber o que era feito de Francisco.<\/p>\n<p> O ajudante mal o reconheceu, n&atilde;o porque o rapaz se mostrasse outro<br \/>\n    no trajar, como quando voltara ao Cajueiro, depois de sua longa aus&ecirc;ncia,<br \/>\n    mas porque no rosto cadav&eacute;rico trazia vest&iacute;gios de resignada<br \/>\n    ang&uacute;stia. Os &uacute;ltimos acontecimentos passado ali tinham-lhe deixado<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o grandes estragos que a sua fisionomia indiscreta,<br \/>\n    sem a escola da hipocrisia, estampava como vago esbo&ccedil;o.<\/p>\n<p> Apressara a jornada a fim de atenuar a intensidade da dor ocasionada pela<br \/>\n    mudan&ccedil;a da vi&uacute;va do sargento-mor; a jornada, por&eacute;m, por<br \/>\n    paragens e regi&otilde;es que lhe eram familiares, pouco ou nenhum al&iacute;vio<br \/>\n    trouxera ao rapaz, em quem o ajudante viu antes um enfermo do que o robusto<br \/>\n    atleta que admirara em Goiana por ocasi&atilde;o de se bater com as tropas<br \/>\n    de Lu&iacute;s Soares.<\/p>\n<p> Mas o que a jornada n&atilde;o conseguira, devia Louren&ccedil;o encontrar<br \/>\n    no Recife  o seu restabelecimento por violenta e grande como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe abalou e restaurou os abatidos esp&iacute;ritos  a como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que despertou nele a not&iacute;cia do perd&atilde;o aos nobres, not&iacute;cia<br \/>\n    imensamente grata, que ele teve a dita de ser o primeiro a levar aos refugiados<br \/>\n    de Tracunha&eacute;m.<\/p>\n<p> Estava o Recife possu&iacute;do de febril impaci&ecirc;ncia por saber a<br \/>\n    causa de vir entrando um navio adornado com enfiada de galhardetes, ostentando<br \/>\n    alegres ares, e disparando artilharia de tempos a tempos.<\/p>\n<p> Usurpando os foros de Olinda, &agrave; qual ainda hoje est&aacute; preso<br \/>\n    pelo &iacute;stimo  cord&atilde;o umbilical que parece destinado a<br \/>\n    certificar as rela&ccedil;&otilde;es de m&atilde;e e filha entre a cidade<br \/>\n    de Albuquerque&nbsp; e a cidade de Nassau  o Recife, n&atilde;o obstante<br \/>\n    ser ent&atilde;o vila, concentrara em si desde a chegada do governador Machado,<br \/>\n    toda a vida da capitania, enquanto Olinda, triste e chorosa, deca&iacute;da<br \/>\n    do seu ilustre orgulho, curtia longos dias e agras noites em sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    parecido com o que cerca os t&uacute;mulos.<\/p>\n<p> Com aqueles ind&iacute;cios de extraordin&aacute;rio acontecimento, a vila<br \/>\n    alvoro&ccedil;ou-se como soe fazer jovem garrida aos primeiros sons de orquestra<br \/>\n    festiva em sal&atilde;o e baile. Sorriu feliz, agitou-se, pensou em mil assuntos,<br \/>\n    espreitando a ocasi&atilde;o de transbordarem as suas como&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Alguns dos mais insofridos moradores correram ao porto, onde deviam ter<br \/>\n    trocada em m&aacute;goa a leviana alegria. Contra todas as presun&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a not&iacute;cia trazida pelo mensageiro auspicioso n&atilde;o era agrad&aacute;vel;<br \/>\n    ao contr&aacute;rio, vinha impregnada am azedume e fel. A causa da estrondosa<br \/>\n    manifesta&ccedil;&atilde;o era o perd&atilde;o concedido aos nobres por el-rei.<\/p>\n<p> Conhecida esta causa, a agita&ccedil;&atilde;o aumentou: uns corriam para<br \/>\n    aqui, outros para acol&aacute;, a levarem a not&iacute;cia; mas, depois come&ccedil;aram<br \/>\n    a debandar-se, a fugir dos lugares p&uacute;blicos, a concentrar-se no interior<br \/>\n    dos estabelecimentos e das casas, onde se espraiaram em reflex&otilde;es sobre<br \/>\n    o novo tema.<\/p>\n<p> As pra&ccedil;as e esquinas ficaram desertas. S&uacute;bita paralisia pareceu<br \/>\n    tomar as ruas. Zacarias de Brito, mercador apacatado, dava ao diabo a fatalidade<br \/>\n    que escolhera seu navio para portador de t&atilde;o infausta novidade.<\/p>\n<p> Penetremos, por volta de sete horas da noite, no pal&aacute;cio das duas<br \/>\n    torres, outrora morada de Maur&iacute;cio de Nassau, agora resid&ecirc;ncia<br \/>\n    do governador Machado.<\/p>\n<p> &Agrave; luz de um candeeiro de prata, seis sujeitos conversam sentados<br \/>\n    em torno de uma mesa, sobre a qual se v&ecirc; estendido um papel que, pela<br \/>\n    flacidez, est&aacute; denunciando ter andado de m&atilde;o em m&atilde;o.<\/p>\n<p> O primeiro destes&nbsp; sujeitos, &agrave; vista das aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que os outros lhe prestam, &eacute; o governador. Os seus olhos &agrave;s<br \/>\n    vezes incendeiam-se em violento brilho; mas logo este amortece e n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m eles outra express&atilde;o que a sua express&atilde;o usual<br \/>\n    a de chata animalidade.<\/p>\n<p> O outro sujeito, o que lhe ficava imediato do lado direito, tinha fronte<br \/>\n    estreita, os olhos apertados e piscos, o nariz comprido e fino. Sobre o nariz<br \/>\n    viam-se ainda os &oacute;culos com que o cavalgara seu dono para ler o papel<br \/>\n    que da&iacute; n&atilde;o saiu mais; a raz&atilde;o era porque a leitura,<br \/>\n    ou, ao menos, o exame visual do documento se repetia de momento a momento,<br \/>\n    &agrave;s vezes para se decidir algum ponto acerca do qual a conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sugeria d&uacute;vidas, &agrave;s vezes como sem inten&ccedil;&atilde;o, ou<br \/>\n    simplesmente para iludir o sil&ecirc;ncio entrecortado de r&aacute;pidas observa&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Era o desembargador Cristovam Soares, que da Para&iacute;ba, onde se achava<br \/>\n    de h&aacute; muito, viera expressamente por ordem do governo, a fim de proceder<br \/>\n    &agrave; devassa dos levantes de Pernambuco, por terem os drs. Lu&iacute;s<br \/>\n    de Valenzuela Ortiz e Pedro Ferreira Brand&atilde;o dado de suspeito na corte<br \/>\n    o ouvidor Bacalhau, conforme se disse em outro ponto desta cr&ocirc;nica.<\/p>\n<p> O dito desembargador, conhecido por duas alcunhas que passaram &agrave;<br \/>\n    hist&oacute;ria  <em>Cutia<\/em> na Para&iacute;ba, <em>Tubar&atilde;o<\/em><br \/>\n    no Cear&aacute;  caracterizava-se por certas habilidades&nbsp; que<br \/>\n    n&atilde;o raro aparece nas administra&ccedil;&otilde;es acanhadas e decadentes.<br \/>\n    Cuidava ele mais dos pequenos do que dos grandes assuntos, mais do exterior<br \/>\n    do que das entranhas deles. Bastar&atilde;o algumas linha tomadas ao cronista<br \/>\n    da famosa guerra para se juizar do esp&iacute;rito deste magistrado. &ldquo;Come&ccedil;ou<br \/>\n    o sindicante os seus trabalhos  pela escolha do papel para a devassa,<br \/>\n    de maneira que andou um meirinho de loja em loja e de venda em venda, sem<br \/>\n    descobrir um papel que agradasse ao ministro.<\/p>\n<p> Do seu car&aacute;ter ainda diz o cronista: &ldquo;Sendo ouvidor da Para&iacute;ba,<br \/>\n    pelas coisas desordenadas que ali fez, veio para Pernambuco preso, a fim de<br \/>\n    ir, como foi, para Lisboa; mas porque os maus tiveram sempre padrinhos, que<br \/>\n    s&atilde;o a quem s&oacute; servem,&nbsp; pois os bons n&atilde;o carecem<br \/>\n    deles, por meio dos tais padrinhos, teve tal dita, que pode merecer quanto<br \/>\n    j&aacute; tinha desmerecido. Tornou para o mesmo lugar e ocupa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    deixando na corte ofuscada a verdade que dele se dissera. E com esta pena,<br \/>\n    de seus erros se p&ocirc;s t&atilde;o emendado como dantes e como se pode<br \/>\n    presumir &agrave; vista dela. Queria com invers&otilde;es do natural mostrar-se<br \/>\n    reto; mas isso mesmo o obrigava a descobrir-se; porque quando humano se supunha,<br \/>\n    ent&atilde;o era v&ecirc;-lo impaciente e desabrido. Depois de ouvidor passou<br \/>\n    a medir terras, enchendo as medidas de quem lhe enchia as m&atilde;os, ainda<br \/>\n    que a parte lesada se queixasse. E deste modo ficaram nas montanhas de Jaguaribe<br \/>\n    e A&ccedil;u, por onde andou feito Silvano, memor&aacute;veis hist&oacute;rias<br \/>\n    suas que ainda hoje se celebram <br \/>\n    Do ouro lado do governador achava-se o ouvidor Bacalhau, e junto deste frei<br \/>\n    Estev&atilde;o (da reformada), D. Matias, c&ocirc;nego regrante, irm&atilde;o<br \/>\n    de Jo&atilde;o da Maia, o qual chegara da Para&iacute;ba por ocasi&atilde;o<br \/>\n    de se dar come&ccedil;o &agrave; devassa; e o padre Jo&atilde;o da Costa (da<br \/>\n    recoleta da Madre de Deus); <br \/>\n    Eis o que rezava o papel: <\/p>\n<p><em>&ldquo;Fa&ccedil;o saber a v&oacute;s, governador da capitania de Pernambuco,<br \/>\n    que fazendo-se-me presente, pelo meu conselho ultramarino, a conta que me<br \/>\n    destes das pris&otilde;es, que se haviam feito nesta capitania nas pessoas<br \/>\n    compreendidas nos levantamentos que houve nela, e que tamb&eacute;m me deu<br \/>\n    o desembargador Cristovam Soares Rom&atilde;o sobre o mesmo particular, e<br \/>\n    que pelo erro que houve na &uacute;ltima ordem, que se lhe passou, tinha procedido<br \/>\n    contra os culpados no primeiro e segundo levante; me pareceu mandar-vos estranhar<br \/>\n    muito severamente por resolu&ccedil;&atilde;o de 7 do presente m&ecirc;s;<br \/>\n    pois nela vos declarava que Eu havia confirmado os perd&otilde;es do primeiro<br \/>\n    e segundo levantamento, pelo que respeitava aos moradores de Olinda; pois<br \/>\n    segundo o ministro tivera esta not&iacute;cia, n&atilde;o inquirira dos ditos<br \/>\n    levantamentos, pelo que pertencia aos ditos moradores; e assim lhe ordeno<br \/>\n    que se abstenha de perguntar pelos primeiros levantamentos, e que mande soltar<br \/>\n    os culpados neles por estarem por mim perdoados, fazendo-lhes repor e restituir<br \/>\n    os bens que lhes foram seq&uuml;estrados: e o dinheiro que se tiver despendido<br \/>\n    das pessoas, que indevidamente foram pronunciadas pelo primeiro e segundo<br \/>\n    levantamento, se pague pelas despesas da justi&ccedil;a, ou minha real fazenda,<br \/>\n    por ora. El-rei nosso senhor o mandou por Miguel Carlos, conde geral da armada<br \/>\n    do mar oceano, de seus conselhos de estado e guerra, e presidente do ultramarino:<br \/>\n    e se passou por quatro vias. Manuel Barbosa a fez em Lisboa, a 7 de abril<br \/>\n    de 1714. O secret&aacute;rio Andr&eacute; Lopes de Lavra fez escrever.<\/em><br \/>\n    <br \/>\n    <em>Miguel Carlos<\/em> <\/p>\n<p>&mdash; Id&ecirc;ntica a esta ordem r&eacute;gia  disse o Cutia pegando<br \/>\n    pela d&eacute;cima quinta vez no papel  &eacute; a que el-rei se serviu<br \/>\n    mandar-me, segundo viu v.exa.; mas falta-me disposi&ccedil;&atilde;o, sr.<br \/>\n    governador, para cumprir esta vontade real, em que melhor se est&aacute; vendo<br \/>\n    a fatal interven&ccedil;&atilde;o do valimento de Antonio de Albuquerque Coelho,<br \/>\n    do que a justi&ccedil;a usual e natural de el-rei.<\/p>\n<p> &mdash; Parece-vos isto sr. desembargador sindicante? perguntou F&eacute;lix<br \/>\n    Machado, a modo de quem n&atilde;o tinha convic&ccedil;&atilde;o formada sobre<br \/>\n    o objeto, ou de quem vacilava na que tinha.<\/p>\n<p> &mdash; Posso afirm&aacute;-lo a v.exa., respondeu o Cutia.<\/p>\n<p> &mdash; E eu estou de acordo com o parecer do sr. sindicante  acrescentou<br \/>\n    o Bacalhau.<\/p>\n<p> O Cutia continuou: <br \/>\n    &mdash; Pode v.exa. ter por seguras todas as minhas afirmativas, porque de<br \/>\n    tudo o que digo estou informado; nem &eacute; de hoje que pratico o of&iacute;cio<br \/>\n    de sindicante, mas pelo contr&aacute;rio de h&aacute; muito que estou afeito<br \/>\n    &agrave;s indaga&ccedil;&otilde;es. A Albuquerque e n&atilde;o a outrem devemos<br \/>\n    este rev&eacute;s, que a muitos desastres, qui&ccedil;&aacute;, dar&aacute;<br \/>\n    lugar,se a nobreza quiser tirar dele todos os desfor&ccedil;os a que ele se<br \/>\n    presta.<\/p>\n<p> &mdash; Eu j&aacute; tive ocasi&atilde;o de declarar ao sr. governador<br \/>\n    disse o Bacalhau  quantos males dev&iacute;amos esperar de Antonio<br \/>\n    Albuquerque. Durante os dezoito dias de sua estada em Pernambuco, donde &eacute;<br \/>\n    natural, n&atilde;o o deixaram desacompanhado um s&oacute; instante os seus<br \/>\n    parentes e conterr&acirc;neos. Sabido &eacute; que nada do que se passou lhe<br \/>\n    foi oculto, e que ainda n&atilde;o satisfeitos com isso os <em>mazombos<\/em>,<br \/>\n    grandes inven&ccedil;&otilde;es lhe meteram na cabe&ccedil;a. Conta-se que<br \/>\n    de tantos documentos, cartas, requerimentos e informa&ccedil;&otilde;es o<br \/>\n    fizeram portador para os homens que mais representam diante d el-rei, e at&eacute;<br \/>\n    para el-rei mesmo, que uma grande canastra ainda n&atilde;o chegou para os<br \/>\n    acondicionar.<\/p>\n<p> &mdash; De tudo sei, sr. ouvidor, de tudo sei  disse secamente o<br \/>\n    governador. Sei mais o que talvez n&atilde;o saiba o sr. ouvidor  que<br \/>\n    grande parte de uma hist&oacute;ria da guerra que se est&aacute; escrevendo,<br \/>\n    recheadas de mentiras e aleivosias, foi entregue a Antonio de Albuquerque<br \/>\n    para ser presente a el-rei.<\/p>\n<p> Neste ponto tomou a m&atilde;o da reformada e disse: <br \/>\n    &mdash; Mas o que talvez v.exa. ignore, &eacute; quem seja o autor desta hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> &mdash; Sei tudo, frei Estevam. O autor &eacute; o padre Antonio Gon&ccedil;alves<br \/>\n    Leit&atilde;o  acrescentou o governador  que sup&otilde;e muito<br \/>\n    resguardado o seu nome da publicidade, quando n&atilde;o &eacute; desta, mas<br \/>\n    da minha gaveta, ou da sua sindic&acirc;ncia, sr. desembargador, que ele mais<br \/>\n    deve recear.<\/p>\n<p> &mdash; No meu canhenho est&aacute; ele, disse o Cutia; e n&atilde;o se<br \/>\n    meter&aacute; de permeio uma semana que eu n&atilde;o lhe mande bater &agrave;<br \/>\n    porta.<\/p>\n<p> &mdash; Agora talvez j&aacute; n&atilde;o seja tempo, observou o governador.<\/p>\n<p> &mdash; V. exa. sabe melhor do que eu que todo tempo &eacute; bom para se<br \/>\n    inquirir de um crime.<\/p>\n<p> &mdash; Menos, ajuntou o governador, quando crimes maiores acabaram de ser<br \/>\n    perdoados, e r&eacute;us de lesa-majestade s&atilde;o mandados soltar pela<br \/>\n    pr&oacute;pria majestade.<\/p>\n<p> &Agrave; estas palavras do governador, que em outro c&iacute;rculo de que<br \/>\n    n&atilde;o fizessem parte o Cutia, o Bacalhau e o frei Estevam, teriam cortado<br \/>\n    pela raiz a quest&atilde;o, seguiu-se um momento de profundo sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    mas n&atilde;o todo o sil&ecirc;ncio que deviam produzir.<\/p>\n<p> O Cutia, quando julgou que era tempo de tornar ao grave objeto que ali os<br \/>\n    trazia juntos, disse: <br \/>\n    &mdash; Mas perdoe-me v. exa.: o sr. governador est&aacute; no &acirc;nimo<br \/>\n    de fazer cumprir as vontades de Antonio de Albuquerque? <br \/>\n    &mdash; O que se h&aacute; de cumprir, sr. desembargador sindicante, &eacute;<br \/>\n    a ordem de el-rei, respondeu F&eacute;lix Jos&eacute; Machado.<\/p>\n<p> Novo instante de sil&ecirc;ncio sucedeu a esta decisiva senten&ccedil;a<br \/>\n    do governador, o qual, com uma perna sobre a outra, o lado direito voltado<br \/>\n    para a mesa, os olhos postos na imensidade escura da noite, que envolvia do<br \/>\n    lado de fora toda a natureza, na qual engolfara a vista atrav&eacute;s da<br \/>\n    janela do pal&aacute;cio que ca&iacute;a sobre o Capibaribe, parecia fazer<br \/>\n    companhia &agrave;s visitas mais com o ouvido do que com os olhos e o pensamento.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o sei para que serviram os procuradores que foram mandados<br \/>\n    &agrave; corte, disse o Bacalhau. Se era para ao cabo de tantos trabalhos<br \/>\n    e inquieta&ccedil;&otilde;es voltarem a usar, mais altaneiros, do que dantes,<br \/>\n    os r&eacute;us de alta justi&ccedil;a, das antigas licenciosidades e soberbias,<br \/>\n    melhor fora que l&aacute; n&atilde;o tivesse ido.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o devemos culpar desta faculdade os nossos amigos que foram<br \/>\n    para Lisboa na frota, e ainda l&aacute; est&atilde;o, respondeu o governador.<br \/>\n    Antonio Barbosa de Lima, escreve-me por todos os navios, dando-me parte do<br \/>\n    muito que fez desde que chegou ali, e est&aacute; ali fazendo a bem da causa<br \/>\n    portuguesa; e nenhum dos atos deste meu secret&aacute;rio me deu ainda lugar<br \/>\n    a suspeitar da sua lealdade e entendimento. Devemos antes referir &agrave;<br \/>\n    felicidade dos <em>mazombos <\/em>ao grande lugar que tem, diante de el-rei,<br \/>\n    Antonio de Albuquerque, desde que foi governador das Minas do ouro e do Rio<br \/>\n    de Janeiro, do que a descuido e fraqueza dos nossos procuradores. Nem &eacute;<br \/>\n    s&oacute; Antonio de Albuquerque o empenhado na defesa destes r&eacute;us,<br \/>\n    que a esta hora j&aacute; deveriam estar degolados por sua alta contum&aacute;cia<br \/>\n    e desmesurada trai&ccedil;&atilde;o. Muitas cartas foram mandadas daqui a<br \/>\n    fidalgos de grande porte que n&atilde;o podendo, por estarem longe do lugar<br \/>\n    onde se passam as coisas, ajuizar devidamente da gravidade delas, d&atilde;o<br \/>\n    muito pelo que lhes escrevem uma D. Louren&ccedil;a Tavares, em cujas m&atilde;os<br \/>\n    melhor cabida teriam os bilros do que a pena, se as cartas que ela assina,<br \/>\n    n&atilde;o se devem ao padre Guerra; um Cristovam de Holanda, po&ccedil;o<br \/>\n    de altivez inaudita; um Miguel da Rocha, enfim tantos outros, ente os quais<br \/>\n    mulheres e cl&eacute;rigos, que n&atilde;o conhecem o que devem a seu sexo<br \/>\n    e a seu minist&eacute;rio.<\/p>\n<p> Depois do sil&ecirc;ncio que sempre sucedia &agrave;s palavras do governador,<br \/>\n    este, como se acordara de um sonho profundo, volta-se inopinadamente para<br \/>\n    Jo&atilde;o da Costa e lhe dirige estas palavras: <br \/>\n    &mdash; E que nos dizeis v&oacute;s, padre, dos vossos companheiros que foram<br \/>\n    na frota com o meu secret&aacute;rio? Qual foi o seu papel em tudo o que vemos?<br \/>\n    Deveis ter deles recebido prolixos esclarecimentos.<\/p>\n<p> &mdash; Os da recoleta, excelent&iacute;ssimo, preencheram o mandado que<br \/>\n    os levara &agrave; metr&oacute;pole. N&atilde;o descansaram ainda, desde que<br \/>\n    aportaram em Lisboa. Em outra ocasi&atilde;o poderei mostrar a v.exa. o entendido<br \/>\n    relat&oacute;rio que frei Ferr&atilde;o me enviou, e onde v&ecirc;m apontados,<br \/>\n    pelo menor, os meios empregados para o vencimento da causa, infelizmente j&aacute;<br \/>\n    perdida.<\/p>\n<p> &mdash; O pior de tudo isto, o nosso mal, excelent&iacute;ssimo, est&aacute;<br \/>\n    em n&atilde;o ter feito em Pernambuco a justi&ccedil;a que, por seus crimes,<br \/>\n    mereciam os <em>caneludos, <\/em>&nbsp;disse o Cutia.<\/p>\n<p> &mdash; E n&atilde;o sabeis v&oacute;s que sempre foi este o meu parecer<br \/>\n    e desejo? Ignorais, sr. desembargador sindicante, que entre estas mesmas paredes<br \/>\n    que nos est&atilde;o ouvindo, reuni eu, entre junho e julho de 1712, com o<br \/>\n    dr. ouvidor Bacalhau e o defunto juiz de fora Carvalho, os ouvidores da Para&iacute;ba<br \/>\n    e das Alagoas para, em rela&ccedil;&atilde;o, julgarmos dos crimes cometidos<br \/>\n    pela nobreza rebelde? Ignorais que os principais motores do levante devem<br \/>\n    o trazerem ainda hoje fixas nos ombros as cabe&ccedil;as serpentinas, n&atilde;o<br \/>\n    &agrave; generosidade minha, que nunca a tive nem a terei jamais para r&eacute;probos<br \/>\n    semelhantes, mas &agrave; pertin&aacute;cia e firmeza brutal do ouvidor das<br \/>\n    Alagoas, Jo&atilde;o Soares da Cunha, e do ouvidor da Para&iacute;ba, Jer&ocirc;nimo<br \/>\n    Correa do Amaral, muito nosso conhecido, que com o pretexto de nada poderem<br \/>\n    resolver sobre o assunto sem ordem expressa de el-rei, se retiraram a seus<br \/>\n    distritos, deixando com isto mais seguros em sua ousadia os r&eacute;us, ent&atilde;o<br \/>\n    impunes, agora perdoados? N&atilde;o sabeis v&oacute;s, sr. sindicante, que<br \/>\n    do ouvidor das Alagoas corre at&eacute; assinado um infame papel em que declara<br \/>\n    lhe terem sido oferecidos pelos nossos amigos tr&ecirc;s mil cruzados para<br \/>\n    que votasse pela execu&ccedil;&atilde;o dos r&eacute;us? <br \/>\n    &mdash; De tudo sei, excelent&iacute;ssimo  respondeu o Cutia; mas&#8230;<br \/>\n    Enfim, v. exa. sabe o melhor. O que todos n&oacute;s sabemos e estamos vendo<br \/>\n    &eacute; que o pior de tudo chegou para n&oacute;s quando n&atilde;o sem fundamento<br \/>\n    pelo melhor esper&aacute;vamos. A&iacute; est&aacute; o perd&atilde;o, e a<br \/>\n    n&atilde;o querer v. exa. fazer que o n&atilde;o recebeu, a fim de irmos por<br \/>\n    diante na devassa, carregando mais a m&atilde;o sobre quem n&atilde;o tem<br \/>\n    tido a sua leva para n&oacute;s, n&atilde;o sei como poderemos sair com vida<br \/>\n    de Pernambuco.<\/p>\n<p> F&eacute;lix Jos&eacute; Machado levantou-se, deu alguns passos pela sala,<br \/>\n    e voltou a ocupar o lugar e a posi&ccedil;&atilde;o de h&aacute; pouco. Ao<br \/>\n    cabo de um momento, disse com voz em que vibrava mistura de pesar e despeito:<br \/>\n    <br \/>\n    &mdash; E posso eu ocultar o perd&atilde;o? <br \/>\n    &mdash; E por que n&atilde;o, sr. governador? perguntaram ao mesmo tempo o<br \/>\n    Cutia, o Bacalhau e Jo&atilde;o da Costa, que pareciam estar de antem&atilde;o<br \/>\n    combinados em indicar a Machado este indigno e criminoso procedimento. N&atilde;o<br \/>\n    se fez o mesmo da outra vez? continuou o sindicante com o calor a que o autorizava<br \/>\n    a fria e como hesitante pergunta do governador.<\/p>\n<p> &mdash; Quereis referir-vos&#8230; disse ele.<\/p>\n<p> &mdash; Quero referir-me  prosseguiu o Cutia  ao perd&atilde;o<br \/>\n    mandado por D. Louren&ccedil;o de Almeida aos portugueses, quando se achavam<br \/>\n    cercados pelos <em>p&eacute;s-rapados.<\/em> N&atilde;o se ocultou o dito perd&atilde;o,<br \/>\n    apesar de recebido? E n&atilde;o teve este procedimento por fim impedir que<br \/>\n    cessasse a guerra, porque, cessada esta, teria cessado tamb&eacute;m a esperan&ccedil;a<br \/>\n    de tirarem os portugueses a sua desforra dos nobres? N&atilde;o se praticou<br \/>\n    tudo isto, sr. governador? E o que se previu n&atilde;o veio a acontecer?<br \/>\n    Se v. exa, n&atilde;o publicar o perd&atilde;o, quem mais haver&aacute; competente<br \/>\n    para o fazer, ainda que de Lisboa o tenha recebido? Se v. exa. declarar que<br \/>\n    o n&atilde;o recebeu, quem poder&aacute; asseverar o contr&aacute;rio? <br \/>\n    O governador levantou-se novamente, e dirigiu-se &agrave; varanda do pal&aacute;cio.<\/p>\n<p> Neste momento uma como constela&ccedil;&atilde;o luzia ao longe, e, aos<br \/>\n    seus reflexos, apareceu no horizonte long&iacute;nquo o vulto de Olinda.<\/p>\n<p> N&atilde;o se meteu muito tempo que de diferentes pontos da orgulhosa cidade<br \/>\n    come&ccedil;aram a levantar-se aos ares gir&acirc;ndolas de variados fogos,<br \/>\n    que por todos os que se achavam com o governador, chamados por este &agrave;<br \/>\n    varanda, foram logo vistos.<\/p>\n<p> &mdash; Eis ali a resposta que tenho para dar &agrave; vossa &uacute;ltima<br \/>\n    interroga&ccedil;&atilde;o, sr. desembargador sindicante. A not&iacute;cia<br \/>\n    do perd&atilde;o &eacute; motivo de festas gerais na soberba cidade. N&atilde;o<br \/>\n    vedes como ela est&aacute; iluminada de uma extremidade &agrave; outra? A<br \/>\n    esta hora os restantes da empavesada nobreza que ficaram fora da devassa cavalcantina,<br \/>\n    se banqueteiam n&atilde;o s&oacute; com os das linhas que a cruzam, mas tamb&eacute;m<br \/>\n    com os aduladores e agregados de uma e de outras, Naturalmente da pr&oacute;pria<br \/>\n    secretaria do ultramarino enviaram c&oacute;pia da ordem que me foi dirigida,<br \/>\n    a algum mazombo de Olinda, a Duarte Tavares por exemplo, para prevenir a perda<br \/>\n    do original. Amanh&atilde; o perd&atilde;o estar&aacute; estampado por todos<br \/>\n    os cantos da cidade, a fim de que sobre sua exist&ecirc;ncia n&atilde;o haja<br \/>\n    d&uacute;vidas. N&atilde;o seria, pois, o maior dos desacertos a oculta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deles por parte de quem o recebeu para o fazer cumprir sem tardan&ccedil;a?<br \/>\n    N&atilde;o seria, al&eacute;m de desacerto, perder tempo, com o risco de perder<br \/>\n    alguma coisa mais? <br \/>\n    &mdash; Se eu fora governador  disse ent&atilde;o o Bacalhau<br \/>\n    assim como sou ministro, &ldquo;eu lhes construiria ou fizera construir o<br \/>\n    que isto &eacute;; n&atilde;o lhes consentiria estes alguergues e parvo&iacute;ces(8).<\/p>\n<p> &mdash; Sr. ouvidor  disse Machado  o meu &acirc;nimo e o<br \/>\n    meu desejo n&atilde;o podem ir al&eacute;m dos limites da minha autoridade.<br \/>\n    A campanha que dei aos nobres est&aacute; finda; &eacute; tempo de recolher-me<br \/>\n    &agrave; minha tenda de guerra; se n&atilde;o fui vencedor, n&atilde;o fui<br \/>\n    vencido. Amanh&atilde; se botar&aacute; bando, fazendo manifesta a gra&ccedil;a<br \/>\n    de sua majestade; e darei ordem para que desembarquem os que est&atilde;o<br \/>\n    nos navios, e sejam todos eles postos em liberdade, excetuados somente Jo&atilde;o<br \/>\n    Luiz Correa, Felipe Cavalcanti, seu irm&atilde;o Jorge Cavalcanti, Leandro<br \/>\n    Bezerra e Felipe Bandeira, que interpuseram recurso para a Bahia. De l&aacute;<br \/>\n    naturalmente voltar&atilde;o livres, visto que segundo se me escreve do reino,<br \/>\n    o novo governador-geral e vice-rei v&ecirc;m no &acirc;nimo de compor todas<br \/>\n    as disc&oacute;rdias atuais.<\/p>\n<p> &mdash; E quem &eacute; o novo governador-geral? perguntou o Cutia.<\/p>\n<p> &mdash; D. Pedro Antonio de Noronha, conde de Vila-Verde, marqu&ecirc;s<br \/>\n    de Angeja, respondeu F&eacute;lix Machado.<\/p>\n<p> &mdash; Assim senhor, est&aacute; tudo acabado sobre estas terras, e do<br \/>\n    que fizeram os nobres em sua louca e audaciosa rebeldia nada mais resta, tirante<br \/>\n    a mem&oacute;ria dela? <br \/>\n    &mdash; E que quereis que reste mais, sr. ouvidor? Eu n&atilde;o sou suspeito.<br \/>\n    Nunca perdoei aos emperrados desta terra, e agora ainda menos lhes perd&ocirc;o<br \/>\n    os males que nos trouxeram a sua natural baz&oacute;fia e arrog&acirc;ncia.<br \/>\n    Por muito que me desprezem ou que me odeiem, ficar&atilde;o ainda aqu&eacute;m<br \/>\n    dos meus o seu &oacute;dio ou o seu desprezo. Mas, pois o quer e o manda el-rei,<br \/>\n    que se lhes d&ecirc; a liberdade, muito embora n&atilde;o venha ela servir<br \/>\n    para outros fins que o de revolverem novamente a terra, abaterem a autoridade,<br \/>\n    impedirem o desenvolvimento material e comercial, cevarem &oacute;dios, alentarem<br \/>\n    vingan&ccedil;as, tirarem a vida a quem devera tem muitas para os poder aniquilar<br \/>\n    um por um, de gera&ccedil;&atilde;o em gera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o se lhes poderia imputar nova rebeldia, novo levante,<br \/>\n    ainda n&atilde;o perdoado? perguntou o Bacalhau.<\/p>\n<p> &mdash; Qual? <br \/>\n    &mdash; O levante de Tracunha&eacute;m, essa liga tremenda de que &eacute;<br \/>\n    cabe&ccedil;a Falc&atilde;o d&rsquo;E&ccedil;a.<\/p>\n<p> &mdash; A liga de Tracunha&eacute;m  respondeu Machado  n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; propriamente levante, sr. ouvidor. E em que aproveitaria a sindic&acirc;ncia<br \/>\n    que dela se fizesse? <br \/>\n    &Agrave; propor&ccedil;&atilde;o que a noite ia se adiantando, a sala onde<br \/>\n    se realizou este di&aacute;logo enchia-se dos principais da parcialidade oposta<br \/>\n    &agrave; nobreza. Todos corriam a certificar-se da not&iacute;cia ouvindo-a<br \/>\n    da boca de F&eacute;lix Jos&eacute; Machado. Todos tinham os olhos em Olinda,<br \/>\n    e os ouvidos &agrave; escuta; e n&atilde;o era sem raz&atilde;o que o faziam<br \/>\n    porque ali come&ccedil;avam a manifestar-se estranho e geral regozijo. As<br \/>\n    casas e as igrejas estavam iluminadas. Repicavam os sinos; bandas de m&uacute;sica,<br \/>\n    improvisadas em poucos momentos, percorriam as ruas, derramando o movimento<br \/>\n    e a alegria onde horas antes era tudo imobilidade e recolhimento. Os ecos<br \/>\n    da demonstra&ccedil;&atilde;o febril e vibrante, ondulando por cima das &aacute;guas<br \/>\n    mansas do Capibaribe, por cima dos tufos verde-negros, pitorescos e murmurosos<br \/>\n    dos mangues, que bordavam as suas ilhas e margens, vinham ferir os t&iacute;mpanos<br \/>\n    dos ouvidos da burguesia portuguesa que enchia as salas do pal&aacute;cio<br \/>\n    das duas torres, e nesses ecos parecia escutar os de uma orquestra f&uacute;nebre.<\/p>\n<p> No outro dia, pela manh&atilde;. &agrave; porta dos principais mascates,<br \/>\n    amanheceram pap&eacute;is com rid&iacute;culas caricaturas e s&aacute;tiras<br \/>\n    ferinas, alusivas ao destro&ccedil;o daquela parcialidade. Em algumas casas<br \/>\n    e not&oacute;rios amigos de Camar&atilde;o, viam-se covos com alguns camar&otilde;es<br \/>\n    dentro, indicando que os parciais do chefe caboclo tinham ca&iacute;do na<br \/>\n    armadilha. Em outras viam-se forcas de varinhas. Andava ali o engenho popular<br \/>\n    que n&atilde;o perde vasa.<\/p>\n<p> A musa an&ocirc;nima, que j&aacute; celebrava a morte do juiz de fora em<br \/>\n    graciosa d&eacute;cima, produziu mais duas comemorativas de certo fato que<br \/>\n    dera muito o que falar  o de ter tentado contra os seus dias em Olinda<br \/>\n    certo partid&aacute;rio do Camar&atilde;o, o qual morreria enforcado se a<br \/>\n    mulher n&atilde;o o salvasse.<\/p>\n<p> A cr&ocirc;nica, prevenida, recolheu estes produtos que me considero na<br \/>\n    obriga&ccedil;&atilde;o de trasladar aqui: <\/p>\n<p>&ldquo;Nesta cidade se quis <br \/>\n    Enforcar um camar&atilde;o, <br \/>\n    Fazendo, por sua m&atilde;o, <br \/>\n    O la&ccedil;o como se diz: <br \/>\n    J&aacute; pela boca e nariz, <br \/>\n    Sem poder resfolegar, <br \/>\n    Acudiu, no pernear, <br \/>\n    A mulher deste madra&ccedil;o; <br \/>\n    E, cortando-lhe o cadar&ccedil;o, <br \/>\n    O tirou de se enforcar. <\/p>\n<p>Foi coisa bem mal tirada.<\/p>\n<p> Porque a todos desta seita, <br \/>\n    N&atilde;o vi coisa mais bem feita, <br \/>\n    Que enforcados, quando nada, <br \/>\n    A&ccedil;&atilde;o foi desesperada, <br \/>\n    E de um homem j&aacute; perdido; <br \/>\n    Mas ficando suspendido <br \/>\n    Pela f&eacute; dos camar&otilde;es, <br \/>\n    Livrava-se de quest&otilde;es, <br \/>\n    E a mulher de tal marido.(2) <\/p>\n<p>A cidade de Albuquerque devolvia assim, aumentados, os insultos e mofas com<br \/>\n    que havia mais de dois anos a ousada e risonha vila respondia aos seus pesares<br \/>\n    e l&aacute;grimas, dia por dia, &agrave;s m&atilde;os cheias, como inimigo<br \/>\n    atroz e implac&aacute;vel. <\/p>\n<h2><a name=\"18\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><\/h2>\n<p>Obra de um m&ecirc;s depois, pacificada a capitania, voltados aos seus lares<br \/>\n    Francisco e Louren&ccedil;o, saiu este uma manh&atilde; do s&iacute;tio do<br \/>\n    padre Antonio, onde todos moravam agora, enquanto Francisco cortava umas varas<br \/>\n    na mata para fazer um <em>carit&oacute;<\/em> onde guardar goiamus, que come&ccedil;ava<br \/>\n    a <em>andar ao atar. <\/em>Fora Marcelina a autora da id&eacute;ia, dizendo<br \/>\n    ao marido que os goiamus, bem cevados como ela os sabia cevar, haviam de dar<br \/>\n    bom dinheiro na vila, e n&atilde;o convinha perder este lucro.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o, conquanto a manh&atilde; estivesse fresca e risonha, levava<br \/>\n    no rosto a sombra do desgosto &iacute;ntimo que, passada a impress&atilde;o<br \/>\n    do grande acontecimento, voltou de novo, n&atilde;o t&atilde;o intenso como<br \/>\n    dantes, mas tenaz e constante como um, remorso ou uma chaga incur&aacute;vel.<\/p>\n<p> E sa&iacute;ra com o p&eacute; esquerdo, porque, adiante, saltando um pau<br \/>\n    que cortava a passagem, foi cair com a cabe&ccedil;a de encontro a uma pedra<br \/>\n    onde se feriu, ficando com a camisa lavrada de longas machas de sangue.<\/p>\n<p> Como tinha feito ten&ccedil;&atilde;o de ir ver um peda&ccedil;o de terra,<br \/>\n    do lado de Jopomim, que lhe fora oferecido pelo dono que o vendia por pouco<br \/>\n    dinheiro, prosseguiu o caminho, n&atilde;o obstante o desastre e a m&aacute;<br \/>\n    apar&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Depois de andar cerca de meia hora, deu na v&aacute;rzea que de h&aacute;<br \/>\n    muito n&atilde;o via, a v&aacute;rzea do Jopomim, por onde brincara alguns<br \/>\n    anos antes, pegando can&aacute;rios e gurinhat&atilde;s, quando o seu esp&iacute;rito<br \/>\n    discorria por horizontes sem nuvens nem limites, quando no seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o havia nenhum espinho.<\/p>\n<p> De repente ouviu umas vozes femininas que partiam de ponto n&atilde;o muito<br \/>\n    distante do em que estava. Com pouco descobriu, de fato, duas mulheres, uma<br \/>\n    das quais trazia um saco nas costas, e era acompanhada por um c&atilde;o,<br \/>\n    que farejava de moita em moita, e &agrave;s vezes parava de latir. Ent&atilde;o<br \/>\n    a mulher aproximava-se do lugar, arreava o saco, inclinava-se para o ch&atilde;o,<br \/>\n    e a&iacute; apanhava, ora rindo-se ora fugindo com o corpo e as m&atilde;os,<br \/>\n    um objeto que, com toda a precau&ccedil;&atilde;o, atirava dentro do saco.<br \/>\n    Louren&ccedil;o compreendeu logo que a mulher andava apanhando goiamus.<\/p>\n<p> A outra, que estava mais perto dele, e parecia mais nova, em vez de imitar<br \/>\n    a mais velha, colhia ara&ccedil;&aacute;s aqui e acol&aacute;, e atirava-os<br \/>\n    dentro de uma cuia, correndo e saltando com os cabelos soltos, de um ara&ccedil;azeiro<br \/>\n    para outro, como fazem os beija flores de roseira em roseira, nos jardins.<\/p>\n<p> Pressentindo gente por ali, antes de ver quem era, o c&atilde;o, mais defensor<br \/>\n    que ca&ccedil;ador, deixou aquela a quem estava prestando seus bons servi&ccedil;os,<br \/>\n    e correu na dire&ccedil;&atilde;o de Louren&ccedil;o, com quem deu em um instante.<br \/>\n    Logo que a mulher que se achava mais perto, viu o rapaz com a camisa cheia<br \/>\n    de lavores pouco tranq&uuml;ilizadores, um cacete em uma das m&atilde;os,<br \/>\n    um fac&atilde;o na outra, e as vistas cravadas nela, deixando escapar um grito<br \/>\n    angustioso, e cair da m&atilde;o a cuia, correu para onde estava a outra:<br \/>\n    <br \/>\n    &mdash; Minha m&atilde;e! minha m&atilde;e! gritou ela, assusta da e tr&ecirc;mula.<br \/>\n    &Eacute; Louren&ccedil;o! &Eacute; ele. Corramos, fujamos, minha m&atilde;e.<br \/>\n    Quem sabe se ele n&atilde;o vem matar-me! <br \/>\n    &mdash; Cala a boca, Marianinha. Quem te disse que &eacute; Louren&ccedil;o?<br \/>\n    respondeu Joaquina, a qual, pela dist&acirc;ncia, n&atilde;o pudera ainda<br \/>\n    distinguir bem as fei&ccedil;&otilde;es do rapaz.<\/p>\n<p> Este reconheceu pelas vozes as suas amigas vizinhas e camaradas.<\/p>\n<p> Penetrante e atroz foi a m&aacute;goa sentida por Louren&ccedil;o, quando<br \/>\n    ouviu as acerbas palavras da filha de Vitorino. O seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; t&atilde;o castigado pelos &uacute;ltimos acontecimentos, o seu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o infeliz que tinha a sensibilidade nervosa dos enfermos<br \/>\n    de doen&ccedil;a moral, experimentou uma dessas impress&otilde;es produzidas<br \/>\n    por choques traum&aacute;ticos a que muitas vezes n&atilde;o se pode resistir<br \/>\n    com a vida.<\/p>\n<p> Ao princ&iacute;pio, quis fugir para o lado oposto. N&atilde;o era este<br \/>\n    o meio direto de resolver aquela situa&ccedil;&atilde;o aflitiva? Fugir das<br \/>\n    vistas daquele a quem desagradamos, n&atilde;o &eacute; passo natural e racional?<br \/>\n    <br \/>\n    Louren&ccedil;o esteve para d&aacute;-lo; mas, compreendendo que, se assim<br \/>\n    procedesse, confirmaria o mau conceito que dele j&aacute; formava Marianinha,<br \/>\n    tomou resolu&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria.<\/p>\n<p> &mdash; Elas t&ecirc;m para si que sou um assassino; mas eu n&atilde;o sou<br \/>\n    o que elas pensam. &Eacute; preciso que se desenganem. &Agrave;s vezes, quando<br \/>\n    me esquento, sou capaz de comer gente viva, mas isto acontece uma vez na vida.<\/p>\n<p> Eis o que ele pensou, eis o que lhe ocorreu, ap&oacute;s o primeiro impulso,<br \/>\n    vencido pelas reflex&otilde;es. N&atilde;o hesitou mais, e encaminhou-se para<br \/>\n    onde estavam m&atilde;e e filha.<\/p>\n<p> &mdash; Ent&atilde;o, que &eacute; isto, Marianinha? perguntou ele, ainda<br \/>\n    de longe. Correu de mim? Eu n&atilde;o venho fazer mal a ningu&eacute;m. O<br \/>\n    meu fac&atilde;o n&atilde;o tem ponta; partiu-se ali atr&aacute;s em uma pedra<br \/>\n    onde quebrei a cabe&ccedil;a; e &eacute; por isso que estou com a camisa cheia<br \/>\n    de sangue.<\/p>\n<p> Assim falando, Louren&ccedil;o atirou o fac&atilde;o, de feito quebrado,<br \/>\n    aos p&eacute;s da menina, a fim de que ela visse distintamente que ele dissera<br \/>\n    a verdade.<\/p>\n<p> N&atilde;o obstante a humildade e brandura destas express&otilde;es, Marianinha<br \/>\n    n&atilde;o ousava levantar os olhos ao rapaz. Mudas e abaladas, Joaquina e<br \/>\n    a filha n&atilde;o sabiam o que dizer.<\/p>\n<p> &mdash; Nunca matei ningu&eacute;m, nem Deus h&aacute; de permitir que eu<br \/>\n    chegue a matar quem quer que seja algum dia. Vim por aqui para as ver. Tenho<br \/>\n    sentido muitas saudades da sua companhia. Mudaram-se do Cajueiro sem me dizerem<br \/>\n    adeus, zangadas comigo sem grande raz&atilde;o, porque&#8230;<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o n&atilde;o soube como continuar.<\/p>\n<p> &mdash; Se n&atilde;o nos despedimos, disse Joaquina, foi porque voc&ecirc;<br \/>\n    tinha feito o que n&atilde;o devia fazer com&nbsp; a&nbsp; Marianinha, que<br \/>\n    morria por voc&ecirc;, que lhe queria tanto bem, que vivia somente para lhe<br \/>\n    querer bem.<\/p>\n<p> &mdash; Naquele tempo, tornou o rapaz, eu andava fora de mim. Agora n&atilde;o<br \/>\n    hei de sair mais do bom caminho. Foram-se os que tinham vindo, e ficaram os<br \/>\n    que c&aacute; estavam. Com estes &eacute; que eu me hei de achar.<\/p>\n<p> Enquanto falava, Louren&ccedil;o punha os olhos em Marianinha, cujas formas<br \/>\n    tinham se tornado espl&ecirc;ndidas. Quantas diferen&ccedil;as lhe notou!<br \/>\n    <br \/>\n    Desgostosa do que acontecera, Marianinha cortara os cabelos logo depois da<br \/>\n    mudan&ccedil;a. Estava agora com cabelos novos, bastos e lindos. Libertada<br \/>\n    do amor e do ci&uacute;mes que a amofinavam, engordou e cobrou cores finas.<br \/>\n    As esp&aacute;duas, o pesco&ccedil;o, a raiz dos seios, os bra&ccedil;os curtos,<br \/>\n    as m&atilde;os pequeninas, estavam revelando a Louren&ccedil;o, no boleado<br \/>\n    e no ilustre, quanto ganhara ela com a transforma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o fujam mais de mim, que me fazem ficar tristes<br \/>\n    prosseguiu o rapaz. N&atilde;o vivemos sempre em boa harmonia? <br \/>\n    &mdash; Sempre n&atilde;o  atalhou Joaquina; at&eacute; certo tempo,<br \/>\n    enquanto n&atilde;o se meteu entre n&oacute;s uma nuvem negra que foi a causa<br \/>\n    do nosso desgosto.<\/p>\n<p> &mdash; Est&aacute; tudo acabado agora. A nuvem foi-se embora. N&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; t&atilde;o bonita esta manh&atilde;? Pois quem sabe se n&atilde;o<br \/>\n    vem com ela a manh&atilde; da nossa passada amizade? <br \/>\n    &mdash; Como est&aacute; Marcelina? Como est&aacute; Francisco? Ainda n&atilde;o<br \/>\n    o vi depois que chegou, disse Joaquina, como quem ia se acomodando com a nova<br \/>\n    ordem de id&eacute;ias sugerias pela imagina&ccedil;&atilde;o de Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> &mdash; Est&atilde;o bons. Vou j&aacute; dizer-lhes que estive aqui, e que<br \/>\n    depois de amanh&atilde;, que &eacute; domingo, sinh&aacute; Joaquina e Marianinha<br \/>\n    v&atilde;o passar o dia l&aacute; em casa.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o, Louren&ccedil;o; l&aacute; n&atilde;o  disse<br \/>\n    Joaquina.<\/p>\n<p> &mdash; Pois ent&atilde;o h&aacute; de ser c&aacute;. Venho eu, meu pai<br \/>\n    e minha m&atilde;e. Pegaremos o resto dos goiamus. A andada n&atilde;o dura<br \/>\n    tr&ecirc;s dias? <br \/>\n    &mdash; Se quiserem vir, venham. Aqui nos achar&atilde;o para os recebermos.<\/p>\n<p> &mdash; Havemos de fazer a nossa festa mesmo debaixo destes ara&ccedil;azeiros.<br \/>\n    Mas, que &eacute; isto, Marianinha? Voc&ecirc; parece que est&aacute; muda.<br \/>\n    Se n&atilde;o diz que posso vir, n&atilde;o venho.<\/p>\n<p> &mdash; Minha m&atilde;e j&aacute; n&atilde;o disse que voc&ecirc; podia<br \/>\n    vir? O que ela disse &eacute; o que &eacute;.<\/p>\n<p> &mdash; Ent&atilde;o, at&eacute; domingo.<\/p>\n<p> &mdash; At&eacute; domingo. Olhe. O caminho &eacute; por ali, e a casa &eacute;<br \/>\n    aquela  ponderou a vi&uacute;va do Vitorino, apontando, por ver que<br \/>\n    o rapaz se resolvia a partir.<\/p>\n<p> No dia seguinte amanheceu Marianinha tratando dos preparativos para a esperada<br \/>\n    recep&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A casa era de barro, coberta com palhas. Tinha pertencido a um morador que,<br \/>\n    por desgostos com a senhora daquelas terras, se passara para outras. Estava<br \/>\n    ainda muito bem conservada e ficava em boa situa&ccedil;&atilde;o. Do lado<br \/>\n    direito vinham morrer-lhe no oit&atilde;o uns canaviais; pela esquerda e pelos<br \/>\n    fundos tinha a v&aacute;rzea; pela frente passava o caminho que levava a Goiana;<br \/>\n    Entre a casa e o caminho havia um ara&ccedil;azal mais basto do que se via<br \/>\n    na zona interm&eacute;dia entre aquela e a mata.<\/p>\n<p> Marianinha cortou com o fac&atilde;o alguns matos que fechavam o caminho,<br \/>\n    decotou umas goiabeiras ramalhudas que tiravam a vista do alpendre, limpou<br \/>\n    &agrave; enxada a frente, a fim de tornar mais espa&ccedil;oso e alegre o<br \/>\n    p&aacute;tio. De tarde mostrava-se graciosa e faceira. Remo&ccedil;ara com<br \/>\n    o asseio, e estava como sorrindo aos h&oacute;spedes ainda ausentes.<\/p>\n<p> Quem soubesse dos precedentes entre as duas fam&iacute;lias, que circunst&acirc;ncias<br \/>\n    supervenientes tinham separado, havia de cuidar que a filha de Joaquina, t&atilde;o<br \/>\n    sol&iacute;cita em preparar digna recep&ccedil;&atilde;o &agrave; suas antigas<br \/>\n    amizades, entre as quais se compreendia Francisco, seu padrinho, estava nadando<br \/>\n    em satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas a verdade &eacute; que bem diverso sentimento dominava Marianinha. Em<br \/>\n    vez de clar&otilde;es suav&iacute;ssimos, clar&otilde;es e esperan&ccedil;as,<br \/>\n    tinha no esp&iacute;rito nuvens negras, nuvens de desgosto invenc&iacute;vel.<br \/>\n    A vinda de Louren&ccedil;o avivara todo o seu passado de que n&atilde;o restavam<br \/>\n    na lembran&ccedil;a dela sen&atilde;o quadros desbotados, quase extintos;<br \/>\n    e o passado n&atilde;o lhe era agrad&aacute;vel, porque nunca Louren&ccedil;o<br \/>\n    lhe dera motivos de verdadeira satisfa&ccedil;&atilde;o, antes quase sempre<br \/>\n    a contrariara.<\/p>\n<p> Marianinha passou toda a noite pensando no que havia de fazer. Louren&ccedil;o<br \/>\n    para ela j&aacute; tinha morrido, e com ele o grande amor que lhe dedicara.<br \/>\n    Ressurgindo-lhe agora diante dos olhos, devia ela desenterrar o falecido amor?<br \/>\n    Louren&ccedil;o merecia-lhe este milagre? Louren&ccedil;o, que nunca lhe dera<br \/>\n    provas de sincera estima, devia voltar a ocupar nas aras do seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o lugar de honra, e receber o culto exclusivo que ele pr&oacute;prio desprezara?<br \/>\n    Depois de pensar em tudo isto, e de meditar cada uma das graves quest&otilde;es<br \/>\n    que no esp&iacute;rito se lhe apresentavam, a menina, tomando uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    her&oacute;ica, disse consigo: <br \/>\n    &mdash; Louren&ccedil;o morreu para mim de uma vez. Seja de quem quiser, menos<br \/>\n    meu; nem eu serei dele. Louren&ccedil;o acabou-se para mim, como homem a quem<br \/>\n    eu queria bem.<\/p>\n<p> Com Louren&ccedil;o dera-se o contr&aacute;rio. Aparecendo-lhe acrescentada<br \/>\n    de beleza e gra&ccedil;a, quando ele tinha a alma devastada e &aacute;rida,<br \/>\n    a gentil rapariga deu-lhe frescura e vigor. A sua imagem restituiu-lhe o amor<br \/>\n    &agrave; vida. Dissuadido do enganoso sonho, sentiu-se voltar todo, como o<br \/>\n    girassol, para aquele astro que se lhe deparou no horizonte brusco. Marianinha<br \/>\n    era meiga e boa, era extremosa e dedicada, era paciente e c&acirc;ndida. Ele<br \/>\n    conhecia as suas superiores qualidades raras numa menina, ador&aacute;veis<br \/>\n    numa esposa. Onde acharia mulher mais digna dele? Nenhuma conhecia que se<br \/>\n    comparasse com ela na ternura, na mod&eacute;stia, no afeto, e poucas poderiam<br \/>\n    ser rivais nos seus encantos.<\/p>\n<p> Aceso em desejos, anelou pelo domingo. Tinha tomado tamb&eacute;m a sua<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o. Na mesa, por ocasi&atilde;o do almo&ccedil;o ou do<br \/>\n    jantar, recordaria a passada promessa, e designaria dia para o casamento.<\/p>\n<p> No domingo aprazado, ainda com escuro, bateram &agrave; porta da casa da<br \/>\n    v&aacute;rzea. Marianinha e Joaquina puseram-se imediatamente de p&eacute;,<br \/>\n    julgando serem as visitas. Era um negro que Louren&ccedil;o mandara adiante<br \/>\n    com um carneiro que devia ser sacrificado nas aras da reconcilia&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e com algumas garrafas de vinho dentro e um cesto, licor indispens&aacute;vel<br \/>\n    em semelhantes sacrif&iacute;cios, como &eacute; no sacrif&iacute;cio por<br \/>\n    excel&ecirc;ncia da igreja cat&oacute;lica.<\/p>\n<p> Pouco depois chegaram Marcelina, Louren&ccedil;o e Francisco, que foram<br \/>\n    recebidos pelas duas mulheres &agrave; beira da estrada, onde eram esperados<br \/>\n    com impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Todos sabem ou ao menos avaliam com que aten&ccedil;&otilde;es e cortesias<br \/>\n    se tratam no primeiro encontro pessoas que, depois de desavindas, reatam as<br \/>\n    antigas rela&ccedil;&otilde;es. Neste particular, nenhum dos que se achavam<br \/>\n    presentes levou vantagem a Louren&ccedil;o, origem da desaven&ccedil;a.<\/p>\n<p> Das nove para as dez horas come&ccedil;ou o almo&ccedil;o, na parte lateral<br \/>\n    do alpendre que dava para a v&aacute;rzea. Com ser almo&ccedil;o de gente<br \/>\n    pobre, foi variado e abundante.<\/p>\n<p> Moquecas e amor&eacute;s, e frigideiras e ensopados de goiamus, preparados<br \/>\n    na v&eacute;spera por Marianinha; sarapatel feito do sangue do carneiro por<br \/>\n    Marcelina; angu de milho j&aacute; nesse tempo muito usado entre o povo, e<br \/>\n    que Joaquina sabia fazer primorosamente, deram-lhe, com caf&eacute; com leite,<br \/>\n    e as usuais macaxeiras e batatas doces, honras de lauta refei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de gente abastada.<\/p>\n<p> Quando foi chegando a ocasi&atilde;o do caf&eacute;, Francisco pegou do<br \/>\n    copo e, dirigindo-se a Marianinha, disse-lhe: <br \/>\n    &mdash; Marianinha, enche o teu copo. H&aacute; de ser de virar. &Agrave;<br \/>\n    sa&uacute;de do teu casamento.<\/p>\n<p> A menina empalideceu, e guardou sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> &mdash; Ent&atilde;o, Marianinha, que &eacute; isso? inquiriu Marcelina.<br \/>\n    P&otilde;e vinho no copo, menina. N&atilde;o fiques triste. Desta vez h&aacute;<br \/>\n    de fazer-se o que tanto desejas.<\/p>\n<p> &mdash; &Agrave; sa&uacute;de do teu casamento, Marianinha, repetiu Francisco,<br \/>\n    pondo-se de p&eacute;.<\/p>\n<p> E voltando-se para Louren&ccedil;o: <br \/>\n    &mdash; Que fazes tu tamb&eacute;m a&iacute; que n&atilde;o despejas logo<br \/>\n    o teu bacamarte? Queres ou n&atilde;o queres casar com Marianinha.<\/p>\n<p> &mdash; Quero, sim senhor. Eu j&aacute; tinha feito ten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de falar nisto hoje, se vosmec&ecirc; me desse licen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &mdash; E por que n&atilde;o? Jurei sobre a cova do compadre Vitorino que<br \/>\n    tu, Louren&ccedil;o, havias de ser o marido de Marianinha. Chegou a ocasi&atilde;o.<br \/>\n    Mas&#8230; que tens, menina? perguntou Francisco, vendo a afilhada com os olhos<br \/>\n    cheios de l&aacute;grimas. N&atilde;o chores. A ocasi&atilde;o &eacute; para<br \/>\n    a gente rir.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o, Francisco, Marcelina e Joaquina levaram os copos aos l&aacute;bios,<br \/>\n    e esvaziaram-nos. Somente Marianinha n&atilde;o bebeu.<\/p>\n<p> &mdash; Por que motivo n&atilde;o bebes? perguntou Francisco espantado.<\/p>\n<p> &mdash; Porque esse casamento n&atilde;o se h&aacute; de fazer, respondeu<br \/>\n    a menina, com voz chorosa.<\/p>\n<p> &mdash; Est&aacute;s malucando, menina, tornou Francisco.<\/p>\n<p> Os outros, silenciosos e confusos, cravaram as vistas na filha de Vitorino,<br \/>\n    cuja palidez aumentara.<\/p>\n<p> &mdash; H&aacute; de fazer-se o casamento, porque eu quero, Louren&ccedil;o<br \/>\n    quer, e tu queres.<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o, eu n&atilde;o quero, meu padrinho, respondeu ela com<br \/>\n    firmeza, que a todos deixou por um instante espantados, quase fulminados.<\/p>\n<p> &mdash; Tu n&atilde;o queres! exclamou o matuto, tomado de assombro. Por<br \/>\n    esta n&atilde;o esperava eu! <br \/>\n    &mdash; N&atilde;o quero, n&atilde;o senhor. N&atilde;o quero, porque sei<br \/>\n    que Louren&ccedil;o n&atilde;o me quer bem.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o, a esta voz, quis vir ao encontro da rapariga, mas faltaram-lhe<br \/>\n    express&otilde;es. Como havia de provar o contr&aacute;rio, quando na consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de todos parecia haver um tropel de provas a favor da afirma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Marianinha? <br \/>\n    Houve, por instantes, uma como suspens&atilde;o da vida em todos os convivas.<br \/>\n    No semblante de alguns, em cujo n&uacute;mero estava Marcelina, revelou-se<br \/>\n    vaga express&atilde;o de pesar.<\/p>\n<p> Francisco, levando as vistas ao rosto de Louren&ccedil;o, foi o primeiro<br \/>\n    que rompeu o sil&ecirc;ncio: <br \/>\n    &mdash; Quanto a isto, estou calado. Se Louren&ccedil;o te quer bem ou n&atilde;o<br \/>\n    quer, s&oacute; ele &eacute; que sabe, s&oacute; ele poder&aacute; dizer.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o acudiu simplesmente: <br \/>\n    &mdash; Por meu gosto, quero casar com Marianinha.<\/p>\n<p> Esta retorquiu: <br \/>\n    &mdash; Eu j&aacute; quis, mas agora n&atilde;o quero mais. Se n&atilde;o<br \/>\n    me casar nunca, nem por isso hei de morrer. Tenho vivido muito bem em companhia<br \/>\n    de minha m&atilde;e.<\/p>\n<p> T&atilde;o decisiva resposta p&ocirc;s termo &agrave; quest&atilde;o. O<br \/>\n    casamento estava definitivamente desmanchado.<\/p>\n<p> Neste &iacute;nterim, ouvindo ru&iacute;do de passos de cavalo no caminho<br \/>\n    e, logo depois o eco de pancadas na porta da frente, correu Joaquina a ver<br \/>\n    quem era.<\/p>\n<p> &mdash; Querem ver que temos por aqui o Saturnino, que volta do <em>Jatob&aacute;<\/em><br \/>\n     conjeturou Francisco.<\/p>\n<p> Palavras n&atilde;o eram ditas, quando Joaquina gritou de fora: <br \/>\n    &mdash; Marianinha, Marianinha, aqui est&aacute; Bernardina! <br \/>\n    Todos correram ao encontro da filha mais velha de Vitorino.<\/p>\n<p> Era de feito ela com o marido, o incompar&aacute;vel Cipriano, j&aacute;<br \/>\n    casados, que, aproveitando a ocasi&atilde;o de ter ido com eles por mandado<br \/>\n    de Joaquina, o Saturnino logo depois da sua chegada do Tracunha&eacute;m com<br \/>\n    Louren&ccedil;o e Francisco, vinham abra&ccedil;ar a velha e a mo&ccedil;a,<br \/>\n    contentes e felizes.<\/p>\n<p> O conv&iacute;vio que esfriara um momento, recobrou novo calor.<\/p>\n<p> Bernardina, depois da grave doen&ccedil;a que a pusera de cama, botara corpo,<br \/>\n    e estava outra, isto &eacute;, cada vez mais bonita.<\/p>\n<p> Cipriano tamb&eacute;m mudara muito com o casamento. De concentrado e bisonho<br \/>\n    que era, tornara-se expansivo e soci&aacute;vel. &Agrave; sombra do padre<br \/>\n    Antonio formara-se aquela modesta fam&iacute;lia, por ele dotada e favorecida.<\/p>\n<p> O padre mandara a Louren&ccedil;o uma carta: <br \/>\n    &mdash; Que diz essa carta, Louren&ccedil;o? perguntou Francisco, vendo o<br \/>\n    rapaz passar as vistas por cima das regras tremidas.<\/p>\n<p> Louren&ccedil;o leu em voz alta, para todos ouvirem: <\/p>\n<p><em>Louren&ccedil;o, Deus te aben&ccedil;oe.<\/em> <br \/>\n    <em>Depois de casados e arranjados aqui juntos de mim, Cipriano e Bernardina<br \/>\n    resolveram mudar-se para Goiana, onde ela diz querer morrer. L&aacute; nasceu,<br \/>\n    l&aacute; lhe correram os dias da primeira mocidade, l&aacute; tem as cinzas<br \/>\n    de seu pai, l&aacute; quer acabar, ao lado da m&atilde;e e da irm&atilde;.<br \/>\n    Para que tudo se arranjasse do melhor modo, fiquei com a parte da terra, que<br \/>\n    tinha dado de dote &agrave; menina, e dei-lhe o equivalente em dinheiro, com<br \/>\n    a condi&ccedil;&atilde;o de comprarem a&iacute; outra terra onde vivam, sem<br \/>\n    serem pesados &agrave; ningu&eacute;m.<\/em> <br \/>\n    <em>Estando eu j&aacute; no fim a vida, e vendo-me s&oacute; neste ermo, venho<br \/>\n    propor-te a tua mudan&ccedil;a para aqui.<\/em> <br \/>\n    <em>Em casa deste padre velho e achacado achar&aacute;s, ao menos, bons conselhos<br \/>\n    que de muito te devem servir na vida.<\/em> <br \/>\n    <em>Cipriano por&aacute; nas tuas m&atilde;os novo papel de doa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    no s&iacute;tio do Cajueiro, onde poder&atilde;o ficar morando Francisco e<br \/>\n    Marcelina.<\/em> <br \/>\n    <em>Est&aacute; com os olhos no caminho o<\/em> <br \/>\n    <em>Padre Antonio.<\/em> <\/p>\n<p>Quando Louren&ccedil;o terminou a leitura, Marcelina tinha os olhos nadando<br \/>\n    em l&aacute;grimas, Francisco emudecera comovido, e o pr&oacute;prio rapaz,<br \/>\n    dobrando o papel, sentia uma grande aperto no cora&ccedil;&atilde;o. A carta<br \/>\n    era uma ordem terminante a que ele devia obedecer. A separa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era inevit&aacute;vel.<\/p>\n<p> &mdash; Vais assim deixar-nos, meu filho! exclamou Marcelina. Meu Deus!<br \/>\n    Quantas coisas neste dia! S&oacute; consinto que nos deixe, porque sei que<br \/>\n    tu n&atilde;o me pertences.<\/p>\n<p> Depois, enxugando os olhos, a cabocla disse com voz segura: <br \/>\n    &mdash; Deves ir, Louren&ccedil;o. A felicidade est&aacute; te chamando. &Eacute;<br \/>\n    a felicidade, filho; acredita nas minhas palavras, porque eu sei o que estou<br \/>\n    dizendo. Seu padre que te aben&ccedil;oa &eacute; porque ele quer ser teu<br \/>\n    pai.<\/p>\n<p> Dizendo estas palavras, a cabocla parecia querer fazer-se forte; mas, foi<br \/>\n    em v&atilde;o. As l&aacute;grimas, desta vez copiosas, voltaram-lhe aos olhos;<br \/>\n    e com pouco, entrou a solu&ccedil;ar. Sem se poder conter, correu ao rapaz,<br \/>\n    abra&ccedil;ou-o ternamente, com quem ia separar-se de uma vez, por morte.<\/p>\n<p> No outro dia, pela manh&atilde;, deu-se uma cena ainda mais viva do que<br \/>\n    esta entre Marcelina&nbsp; Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> &mdash; Minha m&atilde;e, perguntou este, vosmec&ecirc; viu o que Marianinha<br \/>\n    me fez ontem? <br \/>\n    &mdash; Vi sim. Eu n&atilde;o esperava por aquilo, ainda que tu&#8230;<\/p>\n<p> &mdash; N&atilde;o me diga nada, minha m&atilde;e que eu tudo sei. Se lhe<br \/>\n    falo nisto agora, &eacute; para lhe dizer que antes de sair do Cajueiro para<br \/>\n    o Jatob&aacute;, hei de vingar-me de Marianinha.<\/p>\n<p> Um raio que ca&iacute;sse aos p&eacute;s da cabocla n&atilde;o teria aterrado<br \/>\n    tanto como estas palavras do rapaz.<\/p>\n<p> &mdash; Louren&ccedil;o, Louren&ccedil;o, que est&aacute;s dizendo, Louren&ccedil;o?!<br \/>\n    respondeu ela com os tons de suprema ang&uacute;stia.<\/p>\n<p> E atirando-se de joelhos aos p&eacute;s do rapaz com as m&atilde;os postas,<br \/>\n    em atitude de quem suplicava, continuou: <br \/>\n    &mdash; Por minha ben&ccedil;&atilde;o te rogo, Louren&ccedil;o, que te esque&ccedil;as<br \/>\n    de semelhante del&iacute;rio.<\/p>\n<p> &mdash; Deixe-me falar, minha m&atilde;e  tornou ele, levantando-a;<br \/>\n    vosmec&ecirc; n&atilde;o sabe o que vou dizer. Pensa que, para vingar-me do<br \/>\n    que Marianinha me fez, quero mat&aacute;-la? <br \/>\n    &mdash; Nem por gra&ccedil;a digas esta palavra, filho.<\/p>\n<p> &mdash; Eu quero vingar-me dela de modo muito diferente. Quando ela souber<br \/>\n    para quanto presto, h&aacute; de correr para me abra&ccedil;ar; mas j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; de encontrar-me, minha m&atilde;e, porque eu estarei<br \/>\n    bem longe desta terra onde tenho sofrido tanto desgosto, onde s&oacute; eu<br \/>\n    tenho sido o infeliz.<\/p>\n<p> &mdash; E que &eacute; que tu queres fazer? <br \/>\n    &mdash; Vosmec&ecirc; sabe que Saturnino, desde pequeno, sempre quis muito<br \/>\n    bem a Marianinha.<\/p>\n<p> &mdash; &Eacute; verdade.<\/p>\n<p> &mdash; Pois, sim; eu quero fazer um presente a Marianinha coma condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de casar com Saturnino; mas o presente depende de vosmec&ecirc; e de meu pai.<\/p>\n<p> &mdash; Que presente? <br \/>\n    &mdash; Quero dar-lhe este s&iacute;tio, que seu padre me deu.<\/p>\n<p> &mdash; O teu s&iacute;tio, Louren&ccedil;o? O teu s&iacute;tio t&atilde;o<br \/>\n    bom, t&atilde;o bonito? <br \/>\n    &mdash; Bom e bonito? Sim, ele &eacute; tudo isto; mas ele me recorda sempre<br \/>\n    coisas muito tristes. Eu n&atilde;o passo daqui sem me lembrar de sinh&aacute;<br \/>\n    D. Damiana, e de tudo que mais que houve. Al&eacute;m disso, para que eu o<br \/>\n    quero, se n&atilde;o hei de voltar mais para Goiana sen&atilde;o de passagem?<br \/>\n    Sinh&aacute; D. Damiana deve voltar, porque todos os seus bens h&atilde;o<br \/>\n    de ser-lhe restitu&iacute;dos. Ora, Deus me livre de ter terras e casa junto<br \/>\n    das dela. Vosmec&ecirc;s tamb&eacute;m n&atilde;o precisam dele, para morarem<br \/>\n    porque t&ecirc;m o seu pedacinho de terra e a sua casa. Assim, minha m&atilde;e,<br \/>\n    deixe-me tomar a vingan&ccedil;a a meu modo. S&oacute; assim sairei de Goiana<br \/>\n    consolado.<\/p>\n<p> &mdash; Pois faze o que quiseres, Louren&ccedil;o.<\/p>\n<p> Tr&ecirc;s dias depois, quando os galos come&ccedil;aram a amiudar, Louren&ccedil;o<br \/>\n    montou a cavalo &agrave; porta do s&iacute;tio do Cajueiro, Francisco e Marcelina<br \/>\n    de p&eacute;, do lado de fora, viram-no partir, viram-no desaparecer, ouviram<br \/>\n    ambos, com as faces inundadas de l&aacute;grimas, os &uacute;ltimos ru&iacute;dos<br \/>\n    dos passos do cavalo, que conduzia para bem longe o melhor das esperan&ccedil;as,<br \/>\n    o melhor dos afetos, daquelas exist&ecirc;ncias t&atilde;o boas, t&atilde;o<br \/>\n    dignas, t&atilde;o irm&atilde;s  daquelas exist&ecirc;ncias t&atilde;o<br \/>\n    ricas na sua pobreza, t&atilde;o grandes no seu pequenino mundo, t&atilde;o<br \/>\n    nobres na sua humilde condi&ccedil;&atilde;o  dois tomos de uma obra<br \/>\n    que se poderia intitular  <em>Trabalho, bom senso e virtude.<\/em> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Franklin T\u00e1vora Palavras que escrevi, aos 3 de julho do ano [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96124","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Louren\u00e7o - Franklin T\u00e1vora, Obra Louren\u00e7o - Franklin T\u00e1vora<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Louren\u00e7o - Franklin T\u00e1vora, Obra, Cr\u00f4nica, Governador F\u00e9lix, Bispo, Andr\u00e9 Cavalcanti, Literatura, Louren\u00e7o - Franklin T\u00e1vora\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Louren\u00e7o - Franklin T\u00e1vora, Obra Louren\u00e7o - Franklin T\u00e1vora\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Louren\u00e7o - Franklin T\u00e1vora, Obra, Cr\u00f4nica, Governador F\u00e9lix, Bispo, Andr\u00e9 Cavalcanti, Literatura, Louren\u00e7o - Franklin T\u00e1vora\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/lourenco-franklin-tavora\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-24T12:36:22+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2017-01-24T12:38:22+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"377 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/lourenco-franklin-tavora#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/lourenco-franklin-tavora\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Louren\u00e7o &#8211; 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