{"id":96036,"date":"2017-01-23T15:51:34","date_gmt":"2017-01-23T17:51:34","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96036"},"modified":"2017-01-23T15:51:34","modified_gmt":"2017-01-23T17:51:34","slug":"tipos-da-atualidade-franca-junior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tipos-da-atualidade-franca-junior","title":{"rendered":"Tipos da Atualidade &#8211; Fran\u00e7a Junior"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#1\">Ato Primeiro<\/a><\/span><\/strong><strong><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#2\">Ato Segundo<\/a><\/strong><\/span><span style=\"font-size: small;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">Ato Terceiro<\/a><\/strong><\/span><span style=\"font-size: small;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Com\u00e9dia em tr\u00eas atos<\/p>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>BAR\u00c3O DA CUTIA &#8211; 50 anos<br \/>\nGASPARINO DE MENDON\u00c7A &#8211; 25 anos<br \/>\nDOUTOR CARLOS DE BRITO &#8211; 26 anos<br \/>\nDONA ANA DE LEMOS, m\u00e3e de &#8211; 40 anos<br \/>\nMARIQUINHAS &#8211; 17 anos<br \/>\nPORF\u00cdRIA DE MENDON\u00c7A &#8211; 70 anos<\/p>\n<p><b>A a\u00e7\u00e3o passa-se no Rio de Janeiro.<\/b><\/p>\n<p><b>Atualidade.<\/b><\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>ATO PRIMEIRO<\/h2>\n<p>A cena representa urna sala mobilada com gosto: no fundo portas que d\u00e3o<br \/>\npara um jardim; \u00e0 esquerda uma janela, portas laterais, etc.<\/p>\n<h3>CENA I &#8211; MARIQUINHAS e DONA ANA DE LEMOS<\/h3>\n<p>MARIQUINHAS (Encostada \u00e0 janela.) &#8211; Que bela tarde, mam\u00e3e.<br \/>\nE bem prov\u00e1vel que o Senhor Carlos venha hoje fazer-nos uma visita.<br \/>\nH\u00e1 tanto tempo que ele n\u00e3o aparece; talvez que esteja doente.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Tomas tanto interesse pelo Senhor Carlos, Mariquinhas.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Saindo da janela e sentando-se defronte de D. Ana.) &#8211; Engana-se,<br \/>\nmam\u00e3e: estimo-o apenas como se pode estimar um mo\u00e7o de belas<br \/>\nqualidades e de fina educa\u00e7\u00e3o. O Senhor Carlos foi-nos apresentado<br \/>\nem uma das partidas do Clube, e estou bem certa que vosmec\u00ea n\u00e3o<br \/>\nlhe ofereceria a sua casa, se n\u00e3o visse nele um mo\u00e7o delicado<br \/>\ne da alta sociedade.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; N\u00e3o duvido, minha filha; por\u00e9m seria melhor que te<br \/>\nocupasses mais com os teus bordados, com as tuas m\u00fasicas e os teus<br \/>\ndesenhos, do que com o Senhor Carlos.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Pois bem, mam\u00e3e, n\u00e3o falarei mais nele.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Escuta, Mariquinhas; n\u00e3o te zangues, tu ainda est\u00e1s<br \/>\nmuito crian\u00e7a e pouca experi\u00eancia tens do mundo; est\u00e1s<br \/>\nnuma idade em que te deixas levar mais pela paix\u00e3o do que pela raz\u00e3o.<br \/>\nO Senhor Carlos tem transformado essa cabecinha: viste-o pela primeira vez<br \/>\nno Clube, e desde ent\u00e3o tenho reparado que \u00e9 ele o objeto constante<br \/>\nde tuas conversa\u00e7\u00f5es. Tu j\u00e1 o amas, Mariquinhas; n\u00e3o<br \/>\nme negues. E sendo assim, pergunto-te eu agora: o que pretendes com esse namoro?<br \/>\nCasar com o Senhor Carlos? Esperas fazer a sua felicidade, unindo-te a um<br \/>\ndoutorzinho em medicina, que agora come\u00e7a a sua carreira, e cuja fortuna<br \/>\nconsiste em um diploma?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Mas, minha m\u00e3e, o Senhor Carlos \u00e9 um mo\u00e7o<br \/>\ninteligente e estudioso, e com o seu diploma poder\u00e1 em breve sustentar<br \/>\na dignidade de sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Dignidade de posi\u00e7\u00e3o! Que posi\u00e7\u00e3o tem<br \/>\num doutor em medicina? Bem digo eu que a senhora est\u00e1 com essa cabecinha<br \/>\nvirada. Diga-me, Senhora Dona Mariquinhas, quando eu me casei com seu pai,<br \/>\nque Deus tenha em sua Santa Gl\u00f3ria, n\u00e3o era ele um homem respeit\u00e1vel<br \/>\npela sua posi\u00e7\u00e3o? e era porventura seu pai formado em medicina?<br \/>\nseu pai foi negociante na rua do Ros\u00e1rio, e negociante muito honrado.<br \/>\nSe veio para o Brasil sem posi\u00e7\u00e3o, soube elevar-se com o suor<br \/>\nde seu trabalho, tanto que freq\u00fcentou depois as melhores sociedades,<br \/>\ne foi estimado de todos.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Mas, minha m\u00e3e, acredite vosmec\u00ea que, se meu pai<br \/>\nera estimado de todos, como acaba de dizer, n\u00e3o era unicamente pelos<br \/>\nseus belos olhos, mas sim por causa do dinheiro que tinha.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Justamente! chegou a senhora onde eu queria chegar. Seu pai tinha<br \/>\ndinheiro, e foi o dinheiro que lhe deu posi\u00e7\u00e3o. Enquanto ele<br \/>\nera caixeiro, ningu\u00e9m lhe deu import\u00e2ncia; mas depois a senhora<br \/>\nbem sabe que o dinheiro granjeou-lhe uma comenda, que o dinheiro abriu-lhe<br \/>\nas portas das melhores sociedades, e que finalmente o dinheiro deu-lhe considera\u00e7\u00e3o<br \/>\ne import\u00e2ncia. Eu n\u00e3o quero portanto namoro em minha casa: quando<br \/>\nfor ocasi\u00e3o arranjar-lhe-ei um negociante honrado, ou algum homem sisudo<br \/>\npara fazer a sua felicidade. Deixe-se de doutorzinhos.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Pois bem, mam\u00e3e, n\u00e3o se amofine; sujeitar-me-ei<br \/>\n\u00e0s suas vontades. (\u00c0 parte.) Pobre Carlos!<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Seria melhor que, em lugar de pensar em namoros, fosse tocar alguma<br \/>\ncoisa ao piano para divertir sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Depois de alguma pausa.) &#8211; Vosmec\u00ea pretende ir hoje ao<br \/>\nteatro? representa-se a Traviata e canta a de La Grange.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Hoje n\u00e3o posso: estou constipada, e o sereno h\u00e1 de<br \/>\nfazer-me mal.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c0 parte.) &#8211; Mais esta esperan\u00e7a perdida! (Alto.)<br \/>\nmas n\u00f3s vamos de carro, e vosmec\u00ea podia ir bem agasalhada&#8230;<br \/>\n(Ouve-se o rodar de um carro: \u00e0 parte.) &#8211; \u00c9 ele! sinto o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nbater, e o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o me engana. \u00c9 Carlos! (Vai<br \/>\na uma das portas do fundo e encontra-se com Gasparino, que faz-lhe uma grande<br \/>\ncortesia.)<\/p>\n<h3>CENA II &#8211; AS MESMAS e GASPARINO<\/h3>\n<p>GASPARINO &#8211; \u00c9 um humilde criado de Vossa Excel\u00eancia.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c0 parte.) &#8211; Que ma\u00e7ante!<\/p>\n<p>GASPARINO (Dirigindo-se a D. Ana faz-lhe outra cortesia.) &#8211; Tenho a honra<br \/>\nde fazer os meus sinceros cumprimentos \u00e0 Senhora Dona Ana de Lemos.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Ora viva, Senhor Gasparino. Pensei que j\u00e1 se tivesse esquecido<br \/>\nde n\u00f3s, e que n\u00e3o quisesse mais honrar esta sua casa.<\/p>\n<p>GASPARINO (Sentando-se.) &#8211; Depois que Vossa Excel\u00eancia mudou-se para<br \/>\no Engenho Velho, raras s\u00e3o as tardes e noites de que tenho podido dispor.<br \/>\nS\u00f3cio dos Clubes Fluminense e de Botafogo, do Cassino, assinante de<br \/>\numa cadeira do Gin\u00e1sio, de outra no L\u00edrico, freq\u00fcentador<br \/>\nde todas essas sociedades onde se re\u00fane o grand monde faz-se necess\u00e1ria<br \/>\na minha presen\u00e7a nesses lugares. \u00c0s tardes costumo dar o meu<br \/>\npasseio pelo Catete, Botafogo e S\u00e3o Clemente. Ultimamente mandei vir<br \/>\numa \u00e9gua de Meklemburg, oh! que linda \u00e9gua, minha senhora! Comprei<br \/>\num elegante faetonte&#8230; (Mudando de tom.) Com licen\u00e7a, (Indo \u00e0<br \/>\njanela.) James! vira o carrinho, e afasta o cavalo do trilho da Maxambomba.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c0 parte.) &#8211; Oh! que bobo, meu Deus! (Encosta-se pensativa<br \/>\n\u00e0 janela.)<\/p>\n<p>GASPARINO (Voltando-se para D. Ana.) &#8211; \u00c9 necess\u00e1rio ter muito<br \/>\ncuidado com aquele animal: \u00e9 muito fogoso e espanta-se de qualquer<br \/>\ncoisa.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Se quiser pode mandar entrar o carrinho para a ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso, minha senhora&#8230; Mas, como ia dizendo,<br \/>\ncomprei este lindo faetonte e todas as tardes fa\u00e7o o meu tour de promenade<br \/>\npelas ruas mais freq\u00fcentadas da capital. Hoje quis respirar os ares do<br \/>\nEngenho Velho, e ao mesmo tempo apreciar no campo microsc\u00f3pio do meu<br \/>\npince-nez as belas ninfas deste arrabalde.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; N\u00e3o tenciona ir depois de amanh\u00e3 \u00e0 partida<br \/>\ndo Clube, Senhor Gasparino?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Se n\u00e3o estiver comprometido para outros lugares&#8230;<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; A sua aus\u00eancia h\u00e1 de ser sentida, principalmente por<br \/>\naquela linda menina de vestido branco que tanto ocupou sua aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nno baile passado!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Quer Vossa Excel\u00eancia falar-me da p\u00e9rola de S\u00e3o<br \/>\nClemente? Oh! c&#8217;est ravissant\u00e9! tive, \u00e9 verdade, um pequeno<br \/>\nnamoro de dias, mas afinal deixei-a.<\/p>\n<p>D. ANA (Rindo-se.) &#8211; Por qu\u00ea, Senhor Gasparino?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Soube que o pai era um negociante falido, e bem v\u00ea que<br \/>\numa mulher sem dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Entendo; o Senhor Gasparino anda \u00e0 ca\u00e7a de um casamento<br \/>\nrico.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Um casamento rico, minha senhora, \u00e9 na minha opini\u00e3o<br \/>\num emprego mais vantajoso do que outros tantos que por a\u00ed h\u00e1.<br \/>\nDevemos acompanhar as id\u00e9ias do s\u00e9culo; longe v\u00e3o esses<br \/>\ntempos em que o cavaleiro de espada em punho combatia pela sua dama. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 Romeu nem Julieta, e se ainda existe o amor plat\u00f4nico,<br \/>\ncomo o concebeu o fil\u00f3sofo da antiguidade, \u00e9 t\u00e3o somente<br \/>\nna cabe\u00e7a desses loucos que se intitulam poetas. Hoje as teorias s\u00e3o<br \/>\nmais positivas.<\/p>\n<p>D. ANA (Suspirando.) &#8211; Desgra\u00e7adamente nem todos pensam assim, Senhor<br \/>\nGasparino. (Para Mariquinhas.) Menina, vai tocar alguma coisa para o Senhor<br \/>\nGasparino ouvir.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; O piano est\u00e1 muito desafinado, mam\u00e3e. (\u00c0<br \/>\nparte.) Este homem n\u00e3o nos deixar\u00e1!<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; O Senhor Gasparino h\u00e1 de desculpar. (Mariquinhas dirige-se<br \/>\nao piano para abri-lo.)<\/p>\n<p>GASPARINO (Para Mariquinhas.) &#8211; Sans fa\u00e7\u00f3n, minha senhora,<br \/>\nVossa Excel\u00eancia apreciava da janela o grato perfume das flores do seu<br \/>\njardim, e a queda do astro brilhante que l\u00e1 se atufa num oceano de<br \/>\nluz na horizonte. (Pondo a luneta.) Oh! c&#8217;est magnifique! \u00c9 um quadro<br \/>\ndigno do pincel o mais inspirado.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; O Senhor Gasparino sabe desenhar?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Alguma coisa, minha senhora, o meu pincel n\u00e3o \u00e9<br \/>\nl\u00e1 dos melhores. (Ouve-se o toque da corneta da Maxambomba, e em seguida<br \/>\num rumor surdo de carro.)<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c0 parte.) &#8211; Oh! sem d\u00favida \u00e9 Carlos. (Alto.<br \/>\nDirige-se \u00e0 janela.) Oh! mam\u00e3e, l\u00e1 caiu um homem da Maxambomba;<br \/>\nest\u00e1 todo sujo de poeira, coitado; levantou-se e dirige-se para aqui.<\/p>\n<p>D. ANA (Indo ao fundo.) &#8211; Machucar-se-ia? coitado!<\/p>\n<p>GASPARINO (Pondo a luneta.) &#8211; \u00c9 uma figura antediluviana!<\/p>\n<h3>CENA III &#8211; OS MESMOS e o BAR\u00c3O DA CUTIA<\/h3>\n<p>BAR\u00c3O (Entra todo sujo de poeira, sacudindo a roupa.) &#8211; \u00c9 aqui<br \/>\nque mora a Senhora Dona Ana de Lemos?<\/p>\n<p>D. ANA (Fazendo uma cortesia.) &#8211; \u00c9 esta sua criada: queira ter a bondade<br \/>\nde sentar-se.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c0 parte.) &#8211; O que querer\u00e1 este homem!<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; \u00c9 uma figura antediluviana, n\u00e3o<br \/>\nretiro a express\u00e3o. (Dirige-se ao espelho, torce o bigode e arranja<br \/>\nos colarinhos e a gravata.)<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Sentando-se, fica por algum tempo atrapalhado com o chap\u00e9u<br \/>\ne a bengala, e um ma\u00e7o de cartas que tira do bolso.) &#8211; Trago esta carta<br \/>\nde S\u00e3o Paulo para Vossa Senhoria.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Vossa Senhoria? Isto \u00e9 coisa muito ordin\u00e1ria,<br \/>\nn\u00e3o tem d\u00favida.<\/p>\n<p>D. ANA (Recebendo a carta.) &#8211; Com licen\u00e7a, (Abre-a lendo.) &#8220;Ilustr\u00edssima<br \/>\ne Excelent\u00edssima Senhora Dona Ana de Lemos. S\u00e3o Paulo, etc.<br \/>\nA maneira obsequiosa e delicada com que Vossa Excel\u00eancia se dignou tratar-me<br \/>\ndurante o tempo que estive em sua am\u00e1vel companhia, animou-me a utilizar-me<br \/>\nainda de seu valioso pr\u00e9stimo, apresentando a Vossa Excel\u00eancia,<br \/>\npor meio desta, o meu sincero amigo e companheiro de inf\u00e2ncia, o Excelent\u00edssimo<br \/>\nSenhor Bar\u00e3o da Cutia, um dos mais ricos fazendeiros desta Prov\u00edncia&#8230;<br \/>\n(Procurando a assinatura.) Seu Venerador e Criado. &#8211; Prud\u00eancio Augusto<br \/>\nde Villas-Boas&#8221;. &#8211; (Para o Bar\u00e3o.) Oh! Senhor Bar\u00e3o, d\u00ea-me<br \/>\no seu chap\u00e9u e a sua bengala. (Para Mariquinhas) Menina, venha cumprimentar<br \/>\no Excelent\u00edssimo Senhor Bar\u00e3o da Cutia. (Mariquinhas faz uma<br \/>\ngrande cortesia ao Bar\u00e3o.)<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; O Senhor Gasparino de Mendon\u00e7a, 1o Oficial da Secretaria<br \/>\nda Justi\u00e7a, mo\u00e7o delicado e distinto que d\u00e1-nos a honra<br \/>\nde freq\u00fcentar esta nossa casa. (Mudando de tom.) Vossa Excel\u00eancia<br \/>\ndeve estar bastante machucado com a queda que acaba de dar, e um c\u00e1lice<br \/>\nde licor talvez lhe fa\u00e7a bem. Menina, manda trazer licor para o Senhor<br \/>\nBar\u00e3o. (Mariquinhas sai pela direita.)<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o se incomode, minha senhora: sofri apenas um pequeno<br \/>\nabalo. Aqueles carros t\u00eam esse inconveniente; cada vez me conven\u00e7o<br \/>\nmais de que n\u00e3o h\u00e1 nada como uma boa besta.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Pois quando Vossa Excel\u00eancia quiser utilizar-se da minha<br \/>\n\u00e9gua de Meklemburgo, est\u00e1 muito a seu dispor.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Eu prefiro uma boa besta. Em S\u00e3o Paulo tenho uma burra<br \/>\nbranca que \u00e9 uma rede; foi um presente que deu-me no dia de meus anos<br \/>\no Juiz de Paz da Cutia: custou-lhe na feira de Sorocaba 500$000 r\u00e9is.<br \/>\nOh! que lindo animal! \u00e9 meter-se-lhe as esporas, e a mulinha sai pela<br \/>\nestrada que \u00e9 um regalo.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Vossa Excel\u00eancia \u00e9 a primeira vez que vem ao Rio?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; \u00c9 verdade, minha senhora.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; E como tem achado Vossa Excel\u00eancia o Rio de Janeiro?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Para falar com franqueza prefiro viver em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nAqui vive um homem constrangido, e constantemente a suar: olhe, ontem mudei<br \/>\ntr\u00eas camisas, e assim mesmo ainda suava como um alambique de engenho!<br \/>\nl\u00e1 no meu s\u00edtio da Cutia, aquilo sim, \u00e9 que era viver;<br \/>\nn\u00e3o andava metido numa casaca de pano preto, como estou agora: com<br \/>\no meu chap\u00e9u de palha, o meu palet\u00f3 branco, e as minhas cal\u00e7as<br \/>\nde enfiar, percorria aquilo tudo, como se estivesse em minha casa. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 nada que pague a minha comodidade. N\u00e3o tinha distra\u00e7\u00f5es,<br \/>\n\u00e9 verdade; mas quando queria divertir-me, montava na minha burra branca,<br \/>\ne ia a S\u00e3o Paulo. (Entra uma negra com um licoreiro e oferece ao Bar\u00e3o.)<\/p>\n<p>D. ANA (Enche um c\u00e1lice e oferece ao Bar\u00e3o.) &#8211; Beba deste licor,<br \/>\nSenhor Bar\u00e3o, que lhe h\u00e1 de fazer bem: \u00e9 leg\u00edtimo<br \/>\nCura\u00e7\u00e1o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Acabando de beber, d\u00e1 um grande estalo com a boca.)<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 mau, minha senhora, Vossa Senhoria j\u00e1 bebeu garapa<br \/>\nde Santo Amaro?<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Garapa! Qu&#8217;est ce que c&#8217;est que \u00e7a!<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Ainda n\u00e3o, Senhor Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Pois \u00e9 pena, minha senhora, \u00e9 uma bebida muito<br \/>\nsaborosa, principalmente quando est\u00e1 um pouco picada. Eu prefiro-a<br \/>\nao licor.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Desculpando a minha indiscri\u00e7\u00e3o, Senhor Bar\u00e3o,<br \/>\nVossa Excel\u00eancia \u00e9 casado?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Suspirando.) &#8211; Sou vi\u00favo, minha senhora: h\u00e1 quatro<br \/>\nanos que morreu a minha cara In\u00eas.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Que formoso D. Pedro!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Deus a tenha em sua Santa Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>D. ANA (\u00c0 parte.) &#8211; Um Bar\u00e3o&#8230; vi\u00favo e um dos mais<br \/>\nricos fazendeiros da Prov\u00edncia&#8230; (Alto.) A fazenda de Vossa Excel\u00eancia<br \/>\n\u00e9 mesmo na Cutia?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Tenho duas, minha senhora, uma em Itu, e outra em Porto-Feliz,<br \/>\ne al\u00e9m do s\u00edtio da Cutia, tenho outra no Senhor Bom-Jesus de<br \/>\nPirapora, onde vou todos os anos passar a festa. O lugar da minha resid\u00eancia<br \/>\n\u00e9 na Cutia, onde sou o eleitor mais votado, e prefiro-o por ser mais<br \/>\nperto de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Mesmo porque Vossa Excel\u00eancia deve estar relacionado com<br \/>\nas pessoas mais gradas da Capital.<\/p>\n<p>D. ANA (\u00c0 parte.) &#8211; Duas fazendas! (Alto.) Mariquinhas? Mariquinhas?<\/p>\n<h3>CENA IV &#8211; OS MESMOS e MARIQUINHAS<\/h3>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Quer alguma coisa, mam\u00e3e?<\/p>\n<p>D. ANA (Indicando uma cadeira.) &#8211; Sente-se aqui, e converse com o Senhor<br \/>\nBar\u00e3o.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Sentando-se; \u00e0 parte.) &#8211; Que ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Fica algum tempo atrapalhado sem saber o que h\u00e1 de dizer.)<br \/>\n&#8211; Que idade tem, Sinh\u00e1? (Mariquinhas abaixa os olhos.)<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Responda, menina; n\u00e3o se fa\u00e7a de tola; n\u00e3o<br \/>\nv\u00ea que o Senhor Bar\u00e3o pergunta que idade tem.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Dezessete anos.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; \u00c9 justamente a idade da minha&#8230; (\u00c0 parte.)<br \/>\nOh! que diabo de asneira ia eu dizer. (Alto.) Sim&#8230; quero dizer.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c1 parte.) &#8211; Que malcriado!<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; C&#8217;est trop fort!<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; N\u00e3o \u00e9 por ser minha filha, Senhor Bar\u00e3o; esta<br \/>\nmenina \u00e9 muito inteligente e muito prendada: saiu h\u00e1 dois anos<br \/>\ndo Col\u00e9gio, e tem tido uma educa\u00e7\u00e3o completa; toca muito<br \/>\nbem piano, canta, desenha, fala o franc\u00eas e o ingl\u00eas&#8230; (Mudando<br \/>\nde tom.) Olhe, quer ver, Senhor Bar\u00e3o? (Para Mariquinhas.) Menina,<br \/>\nconversa um pouco em franc\u00eas com o Senhor Gasparino para o Senhor Bar\u00e3o<br \/>\nouvir. (Para Gasparino.) Faz favor, Senhor Gasparino.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Pois n\u00e3o, minha senhora. (Refletindo.) Est ce que vouz<br \/>\nallez ao Th\u00e9\u00e0tre aujourd&#8217;hui, mademoiselle?<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; N\u00e3o responde, menina? (Para o Bar\u00e3o.) Tenho-me esmerado<br \/>\ncom a sua educa\u00e7\u00e3o, Senhor Bar\u00e3o, e no entretanto \u00e9<br \/>\nisto que v\u00ea!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ela tem cara de ser espertinha; mas eu aprecio mais uma boa<br \/>\ndona de casa: a minha In\u00eas! aquilo sim, \u00e9 que era uma verdadeira<br \/>\nmulher: ela mesma assistia a deitar-se o milho de molho, a recolher o gado,<br \/>\ntrazia a casa sempre com muita ordem&#8230; enfim, era uma verdadeira mulher!<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c1 parte.) &#8211; O tal Bar\u00e3o ainda est\u00e1 um pouco<br \/>\npeludo: eu me encarregarei de civiliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Mas isso n\u00e3o a impede de vir a ser uma boa dona de casa,<br \/>\nSenhor Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o duvido, minha senhora; mas a educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmoderna \u00e9 muito mais perigosa.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Mudando de assunto, Senhor Bar\u00e3o, onde Vossa Excel\u00eancia<br \/>\nest\u00e1 morando?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Na rua Direita, casa comercial de Azevedo &amp; Cia.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Excusado \u00e9 dizer a Vossa Excel\u00eancia que esta casa est\u00e1<br \/>\nsempre ao seu dispor e que tudo quanto estiver no limitado c\u00edrculo<br \/>\nde minhas for\u00e7as.<\/p>\n<p>GASPARINO (Interrompendo.) &#8211; Quanto a mim, Senhor Bar\u00e3o, sou apenas<br \/>\num simples Oficial de Secretaria, mas as minhas rela\u00e7\u00f5es nesta<br \/>\nCapital, uma tal ou qual influ\u00eancia que exer\u00e7o entre as fam\u00edlias<br \/>\nas mais importantes, a longa experi\u00eancia que tenho adquirido nos sal\u00f5es<br \/>\nda Corte, s\u00e3o considera\u00e7\u00f5es bastantes para a apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Vossa Excel\u00eancia no grand monde.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O gr\u00e3o monde? \u00c9 alguma sociedade de baile? Em<br \/>\nS\u00e3o Paulo tamb\u00e9m h\u00e1 uma chamada &#8211; Conc\u00f3rdia.<\/p>\n<p>GASPARINO (Rindo-se.) &#8211; Vossa Excel\u00eancia entendeu mal.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Pois, minha senhora, Vossa Senhoria h\u00e1 de consentir<br \/>\nque eu me retire. Ainda tenho que fazer algumas visitas.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; J\u00e1, Senhor Bar\u00e3o? N\u00e3o seria melhor darmos um<br \/>\npasseio pela ch\u00e1cara, enquanto eu mando aprontar o carro para conduzir<br \/>\nVossa Excel\u00eancia \u00e0 cidade?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; N\u00e3o se incomode, minha senhora, o Senhor Bar\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 de dar-me a honra de ocupar por momentos a almofada esquerda do<br \/>\nmeu faetonte. \u00c9 um lindo carrinho, tout \u00e1 fait chie, puxado<br \/>\npor uma das mais lindas \u00e9guas que t\u00eam vindo ao Brasil.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Levantando-se.) &#8211; Estou por tudo que quiserem.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Se n\u00e3o \u00e9 inc\u00f4modo para Vossa Excel\u00eancia,<br \/>\npodemos dar o nosso passeio pela ch\u00e1cara. (Designando uma das portas<br \/>\ndo fundo.) Quero ter o prazer de oferecer-lhe um ramalhete das mais belas<br \/>\nflores do meu jardim. (Saem todos pela porta do fundo, depois de ter Gasparino<br \/>\ninstado com o Bar\u00e3o para que saia primeiro.)<\/p>\n<h3>CENA V &#8211; MARIQUINHAS, s\u00f3<\/h3>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Gra\u00e7as a Deus que estou s\u00f3. Minha m\u00e3e<br \/>\nh\u00e1 de estar sem d\u00favida enfadada, por n\u00e3o ter ido acompanhar<br \/>\n\u00e0 ch\u00e1cara o tal Senhor Bar\u00e3o da Cutia, que, seja dito<br \/>\nentre par\u00eantesis, \u00e9 bem malcriado! Esta nossa casa est\u00e1<br \/>\nse tornando presentemente um museu de raridades: at\u00e9 agora t\u00ednhamos<br \/>\no Senhor Gasparino com os seus bigodes retorcidos, com o seu cat\u00e1logo<br \/>\nde conquistas e ultimamente com a sua \u00e9gua de Meklemburgo; dora em<br \/>\ndiante teremos o Senhor Bar\u00e3o da Cutia; e que nome t\u00e3o implicante<br \/>\n&#8211; Bar\u00e3o da Cutia -. (Indo \u00e0 janela.) E Carlos h\u00e1 uma<br \/>\nsemana que n\u00e3o aparece, ele que t\u00e3o repetidas vezes freq\u00fcentava<br \/>\na nossa casa; est\u00e1 sem d\u00favida ao lado de outra fazendo os mesmos<br \/>\njuramentos e protestos de amor, que tantas vezes me dirigiu. E acredite uma<br \/>\nmo\u00e7a em juramentos de amor! Tamb\u00e9m eu juro que a primeira vez<br \/>\nque ele por aqui aparecer, hei de receb\u00ea-lo com o maior indiferentismo.<br \/>\nJ\u00e1 estou quase achando raz\u00e3o em minha m\u00e3e. (Senta-se<br \/>\npensativa.)<\/p>\n<h3>CENA VI &#8211; MARIQUINHAS e CARLOS<\/h3>\n<p>CARLOS (Entrando pelo fundo, \u00e0 parte.) &#8211; S\u00f3! Seja-me ao menos<br \/>\npermitido depois de tantos dias de aus\u00eancia, gozar de alguns momentos<br \/>\nda ventura. (Alto, dirige-se para Mariquinhas, e p\u00e1ra atr\u00e1s<br \/>\nda cadeira.) Em que pensa? (Mariquinhas assusta-se e levanta-se.) Perd\u00e3o<br \/>\nse vim cortar o doce fio dos seus pensamentos.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Cumprimentando-o.) &#8211; Senhor Doutor Carlos.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O t\u00edtulo de Doutor, minha senhora, procurei-o unicamente<br \/>\npara satisfazer as vaidades e caprichos deste s\u00e9culo em que vivemos:<br \/>\n\u00e9 a primeira vez, depois de dois meses, dois meses que resumem toda<br \/>\na minha exist\u00eancia, que o recebo de seus l\u00e1bios: n\u00e3o sei<br \/>\npor que me trata assim!<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; N\u00e3o fa\u00e7o mais do que dar-lhe o tratamento que<br \/>\ntem. (Senta-se, tira uma flor dos cabelos, e come\u00e7a a desfolh\u00e14a.)<\/p>\n<p>CARLOS (\u00c1 parte.) &#8211; S\u00e3o arrufos. (Alto.) A senhora sua m\u00e3e<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 em casa?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Est\u00e1 passeando pela ch\u00e1cara com o Senhor Gasparino,<br \/>\ne um Bar\u00e3o que chegou de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Sem d\u00favida \u00e9 o tal Bar\u00e3o a causa da indiferen\u00e7a<br \/>\ncom que me recebe depois de tantos dias de aus\u00eancia, n\u00e3o?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Dias talvez bem agrad\u00e1veis para o senhor!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; H\u00e1 de permitir que lhe diga que n\u00e3o a compreendo.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Nem eu.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Minha senhora, em tudo isto h\u00e1 um mist\u00e9rio, filho<br \/>\ntalvez de alguma intriga baixa e mesquinha. Em nome desse amor t\u00e3o<br \/>\npuro e santo que lhe consagro, pe\u00e7o-lhe que mo explique. (Mariquinhas<br \/>\ncontinua a desfolhar a flor.) Oh! n\u00e3o responde. (Mudando de tom.) Eu<br \/>\nme retiro, minha senhora. N\u00e3o quero importun\u00e1-la mais. Vossa<br \/>\nExcel\u00eancia esqueceu o passado, e \u00e9 justo que sufoque no peito<br \/>\nas esperan\u00e7as que acalentei. Duas \u00fanicas ambi\u00e7\u00f5es<br \/>\ntenho eu tido em minha vida: a primeira, o meu sonho dourado desde os mais<br \/>\ntenros anos, consegui realiz\u00e1-lo \u00e0 custa de sacrif\u00edcios<br \/>\ne de l\u00e1grimas de sangue: \u00e9 esse o t\u00edtulo que hoje me<br \/>\nenobrece; a segunda&#8230; oh! foi um sonho! (Mudando de tom.) Adeus, minha senhora.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Levantando-se.) &#8211; Escuta, Carlos: acusas-me de ingrata, quando<br \/>\ndevia ser eu a primeira a faz\u00ea-lo. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9s o<br \/>\nmesmo de outrora! J\u00e1 n\u00e3o freq\u00fcentas a nossa casa como dantes,<br \/>\ne hoje tenho notado que j\u00e1 n\u00e3o procuras aquela que parecia ser<br \/>\no \u00fanico objeto de teus pensamentos! \u00c9 justo: talvez outras ilus\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Oh! n\u00e3o continues, Mariquinhas: n\u00e3o podes avaliar<br \/>\no quanto me custa viver longe de ti. Amo-te muito, amo-te como se pode amar<br \/>\npela primeira vez na vida, e \u00e9 esse mesmo amor t\u00e3o santo que<br \/>\nme aparta de ti. Sei das inten\u00e7\u00f5es de tua m\u00e3e, e \u00e9<br \/>\npreciso que eu mate esta paix\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o posso fazer<br \/>\na tua felicidade! Al\u00e9m disso, se eu freq\u00fcentar a tua casa constantemente,<br \/>\no que dir\u00e1 o mundo?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Que nos amamos, Carlos; e o mundo respeitar\u00e1 nossas<br \/>\ncren\u00e7as, porque elas s\u00e3o as cren\u00e7as de um primeiro amor.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Mas infelizmente o mundo n\u00e3o as compreende. Ele calca aos<br \/>\np\u00e9s os sentimentos mais puros, e n\u00e3o duvida mesmo ferir-nos<br \/>\nno que temos de mais caro; Sabes o que por a\u00ed se diz? Que um homem,<br \/>\na quem a sociedade respeita, porque infelizmente ela s\u00f3 olha para as<br \/>\napar\u00eancias, vai em breve alcan\u00e7ar a tua m\u00e3o!<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Quem, Carlos? Oh! dize-me, eu te pe\u00e7o, quem \u00e9<br \/>\nesse homem?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; O Senhor Gasparino de Mendon\u00e7a.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; E tu acreditaste?!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Conhe\u00e7o-te bastante para te supor capaz de amar um tal homem!<br \/>\nEducada nos sal\u00f5es, sei que n\u00e3o te deixas levar por seu falso<br \/>\ne pomposo brilho: poderias amar uma fronte p\u00e1lida, que trai um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9brio de vida e de esperan\u00e7a, mas nunca uma caricatura da imagem<br \/>\nde Deus, um personagem rid\u00edculo de com\u00e9dia, que consulta ao<br \/>\nespelho a melhor maneira de entrar em um sal\u00e3o.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Eu odeio esse homem, Carlos, e juro-te que, se alguma esperan\u00e7a<br \/>\nele nutre por mim, h\u00e1 de por for\u00e7a odiar-me.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Creio-te, Mariquinhas, agora v\u00ea se te amo. (Ouve-se passos<br \/>\nde quem sobe a escada.)<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Sinto passos: \u00e9 minha m\u00e3e. (Sentam-se e fingem<br \/>\nconversar.)<\/p>\n<h3>CENA VII &#8211; OS MESMOS, BAR\u00c3O, D. ANA e GASPARINO<\/h3>\n<p>GASPARINO (Pondo uma cravina no peito.) &#8211; \u00c9 uma bela ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Com um ramo de flores.) &#8211; E est\u00e1 muito bem plantada.<br \/>\nQue excelente capim tem Vossa Senhoria nos fundos!<\/p>\n<p>CARLOS (Para D. Ana.) &#8211; Minha senhora. (Faz um cumprimento.)<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Como tem passado, Senhor Doutor Carlos?<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Mau, j\u00e1 n\u00e3o estou aqui muito<br \/>\nbem; a presen\u00e7a deste homem faz-me mal aos nervos; sabe-me da cr\u00f4nica,<br \/>\ne \u00e9 o diabo.<\/p>\n<p>D. ANA (Para o Bar\u00e3o.) &#8211; Apresento a Vossa Excel\u00eancia o Senhor<br \/>\nDoutor Carlos de Brito, um dos mo\u00e7os que faz o favor de freq\u00fcentar<br \/>\na nossa casa. (Para Carlos.) \u00c9 o Excelent\u00edssimo Senhor Bar\u00e3o<br \/>\nda Cutia, um dos mais importantes fazendeiros da Prov\u00edncia de S\u00e3o<br \/>\nPaulo.<\/p>\n<p>CARLOS (Cumprimentando-o.) &#8211; Tenho muita honra e prazer em conhecer a Vossa<br \/>\nExcel\u00eancia.<\/p>\n<p>GASPARINO (Que durante esse tempo passeia aflito, v\u00ea as horas.) &#8211; Senhor<br \/>\nBar\u00e3o, quando Vossa Excel\u00eancia quiser retirar-se, estou \u00e0s<br \/>\nsuas ordens.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Vamos, meu amigo, porque j\u00e1 estou alagado em suor,<br \/>\ne quero mudar a camisa. Que calor!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; C&#8217;est vrai, bien chaud.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Homem, diga-me uma coisa, naquele seu carrinho n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 perigo de cair-se? \u00e9 t\u00e3o pequenino! As rodas parecem<br \/>\nde pia\u00e7aba! Eu j\u00e1 estou escarmentado com o tal Puxa-bomba, Saca-bomba,<br \/>\nMete-bomba, Vira-bomba, ou o diabo que o carregue.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Vossa Excel\u00eancia engana-se, aquilo \u00e9 um carrinho<br \/>\nque re\u00fane a eleg\u00e2ncia \u00e0 consist\u00eancia. E o que se<br \/>\nchama um verdadeiro faetonte.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Para D. Ana.) &#8211; Minha senhora, vou penhorado pelas maneiras<br \/>\naf\u00e1veis com que Vossa Senhoria tratou-me; se precisar de qualquer coisa,<br \/>\nl\u00e1 estou na rua Direita no 54.<\/p>\n<p>D. ANA (Fazendo uma cortesia.) &#8211; S\u00f3 o que desejo, Senhor Bar\u00e3o,<br \/>\n\u00e9 que Vossa Excel\u00eancia continue a vir a esta sua casa, para que<br \/>\neu possa ter o prazer de passar momentos t\u00e3o agrad\u00e1veis em sua<br \/>\nam\u00e1vel companhia.<\/p>\n<p>GASPARINO (Indo ao fundo.) &#8211; James, volta o carrinho. (Voltando e dirigindo-se<br \/>\nao Bar\u00e3o.) Vamos pela rua Nova do Imperador, o passeio \u00e9 mais<br \/>\npo\u00e9tico. (\u00c0 parte.) Quero ter a honra de pentear um Bar\u00e3o.<br \/>\n(Alto, para D. Ana.) Minha senhora. (Cumprimenta. Para Mariquinhas.) Minha<br \/>\nsenhora. (Faz um cumprimento a Carlos e sai com o Bar\u00e3o.)<\/p>\n<h3>CENA VIII &#8211; OS MESMOS, menos GASPARINO e BAR\u00c3O<\/h3>\n<p>D. ANA &#8211; Tem estado incomodado, Senhor Doutor Carlos? h\u00e1 tanto tempo<br \/>\nque n\u00e3o aparece.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; J\u00e1 me desculpei com Dona Mariquinhas, minha senhora: os doentes<br \/>\nroubam-me a maior parte do tempo, e impedem-me muitas vezes de cumprir certos<br \/>\ndeveres.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; \u00c9 o inconveniente de procurar-se uma profiss\u00e3o t\u00e3o<br \/>\ntrabalhosa, e sobre a qual pesa t\u00e3o grande responsabilidade.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Fui levado pela voca\u00e7\u00e3o, minha senhora, mas infelizmente<br \/>\no mundo n\u00e3o compreende as voca\u00e7\u00f5es. Vale mais aos olhos<br \/>\nda sociedade atual aquele que amontoa riquezas, embora tenha o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ncorrompido e o esp\u00edrito coberto de mis\u00e9rias, do que aquele que,<br \/>\npelo suor de seu trabalho e \u00e0 custa de tantos sacrif\u00edcios, conquista<br \/>\num t\u00edtulo que o eleva. A gl\u00f3ria \u00e9 um sonho de loucos:<br \/>\no mundo s\u00f3 olha para os fins e n\u00e3o atende aos meios. Voltemos<br \/>\naos primitivos tempos do paganismo; levante-se um altar ao deus Merc\u00fario<br \/>\ne seja tudo o que o homem pode ter de mais caro e de mais sublime sacrificado<br \/>\nnesse altar.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c0 parte.) &#8211; E Carlos que me compromete, meu Deus!<\/p>\n<p>D. ANA (\u00c0 parte.) &#8211; A tal fingida j\u00e1 lhe disse tudo. (Alto.)<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 tanto assim, Senhor Doutor Carlos: a sociedade n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 t\u00e3o corrompida como julga e custa-me a crer que ainda t\u00e3o<br \/>\njovem, j\u00e1 esteja t\u00e3o descrente.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N\u00e3o \u00e9 descren\u00e7a, minha senhora; desgra\u00e7adamente<br \/>\n\u00e9 a convic\u00e7\u00e3o da verdade.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Talvez o Senhor Doutor Carlos fale despeitado.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Talvez, minha senhora, o futuro mo dir\u00e1.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Apesar da sua descren\u00e7a, cr\u00ea ainda no futuro, doutor?<\/p>\n<p>CARLOS (Vendo as horas.) &#8211; Sinto bastante n\u00e3o poder continuar a discuss\u00e3o,<br \/>\nminha senhora: \u00e9 quase noite, e tenho ainda que ver dois doentes.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Pois n\u00e3o passa a noite conosco?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Se n\u00e3o fossem os doentes, com muito prazer. (Apertando a<br \/>\nm\u00e3o de D. Ana.) At\u00e9 breve, minha senhora. (Apertando a m\u00e3o<br \/>\nde Mariquinhas.) Adeus, Dona Mariquinhas.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; N\u00e3o seja t\u00e3o esquivo e continue a aparecer como dantes.<br \/>\n(Carlos sai.)<\/p>\n<h3>CENA IX &#8211; MARIQUINHAS e D. ANA<\/h3>\n<p>D. ANA &#8211; Agora n\u00f3s, Senhora Dona Mariquinhas. Diga-me por que raz\u00e3o<br \/>\nesteve a senhora sozinha com esse mo\u00e7o, durante todo o tempo em que<br \/>\nestive na ch\u00e1cara? n\u00e3o podia lev\u00e1-lo para onde eu estava?<br \/>\n\u00c9 bonito que uma menina de sua idade converse s\u00f3, horas esquecidas,<br \/>\ncom um rapaz solteiro?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Ele tinha chegado h\u00e1 pouco, mam\u00e3e, e eu ia lev\u00e1-lo<br \/>\n\u00e0 ch\u00e1cara, quando vosmec\u00ea entrou.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; N\u00e3o minta, que eu bem vi quando ele chegou; assim como tamb\u00e9m<br \/>\nj\u00e1 sei que a senhora foi meter-lhe no bico tudo quanto lhe disse h\u00e1<br \/>\npouco relativamente ao seu futuro. Ele veio atirar-me indiretas e pedrinhas,<br \/>\nmas engana-se, que eu bem sei o que hei de fazer. Sou capaz de apostar que<br \/>\na senhora n\u00e3o se agradou daquele homem respeit\u00e1vel e sisudo<br \/>\nque aqui esteve? N\u00e3o \u00e9 nenhum bonequinho de cheiro, nem qualquer<br \/>\ndoutorzinho!<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Quem, mam\u00e3e? o Bar\u00e3o da Cutia?<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Sim, o Bar\u00e3o da Cutia, que \u00e9 vi\u00favo, e um dos<br \/>\nmais importantes fazendeiros da Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Rindo-se.) &#8211; Ora, mam\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; O que quer dizer esse &#8211; ora mam\u00e3e?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Quer dizer que o Bar\u00e3o da Cutia poder\u00e1 servir<br \/>\npara tudo neste mundo, menos para meu marido.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; E quem \u00e9 a senhora para dizer que este ou aquele n\u00e3o<br \/>\npode ser meu marido? Quem manda aqui nesta casa, Senhora Dona Mariquinhas?<br \/>\nUma vez por todas: a senhora h\u00e1 de fazer aquilo que eu quiser, e nunca<br \/>\naquilo que bem lhe parecer; entendeu?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Farei tudo o que vosmec\u00ea quiser, mas desde j\u00e1<br \/>\nprevino-a, que com o tal Bar\u00e3o n\u00e3o me caso.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Ah! a senhora desafia-me? pois bem, veremos quem vence. Sente-se<br \/>\nali, e v\u00e1 estudar sua li\u00e7\u00e3o de piano.<\/p>\n<p><b>(Cai o pano.) <\/b><\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>ATO SEGUNDO<\/h2>\n<p>O teatro representa uma sala com portas ao fundo, duas portas laterais.<br \/>\nUm sof\u00e1, espelhos, etc. \u00c9 noite.<\/p>\n<h3>CENA I &#8211; CARLOS e MARIQUINHAS<\/h3>\n<p>Ao subir do pano ouve-se a m\u00fasica dentro tocar uma quadrilha que continua<br \/>\ndurante todo o di\u00e1logo. Carlos e Mariquinhas entram de bra\u00e7o<br \/>\npelo fundo e passeiam pela cena.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; J\u00e1 sabes que o Senhor Gasparino casou-se, Carlos?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N\u00e3o sabia.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Pois \u00e9 exato: casou-se h\u00e1 dois meses com uma<br \/>\nvelha muito rica.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; S\u00e3o casamentos da \u00e9poca.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; E talvez que eles sejam bem felizes.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Oh! n\u00e3o repitas, Mariquinhas: conhe\u00e7o bastante tua<br \/>\nalma para que te julgue capaz de partilhar de tais id\u00e9ias. Pensas que<br \/>\na felicidade consiste na suntuosidade e no luxo?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; N\u00e3o, Carlos. Mas minha m\u00e3e, infelizmente, assim<br \/>\no entende e eu n\u00e3o sei o que sinto desde que esse maldito Bar\u00e3o<br \/>\napareceu em nossa casa: o cora\u00e7\u00e3o vaticina-me que esse homem<br \/>\nh\u00e1 de ser a causa da nossa desgra\u00e7a; \u00e9 vi\u00favo,<br \/>\nrico e sem filhos; e minha m\u00e3e j\u00e1 me deu a entender que era<br \/>\nele o \u00fanico que poderia fazer a minha felicidade.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; A tua felicidade!&#8230;<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Sim, Carlos. Ultimamente o Senhor Gasparino tornou-se o seu<br \/>\namigo insepar\u00e1vel e talvez insuflado por minha m\u00e3e representa<br \/>\nentre mim e esse homem o papel mais rid\u00edculo que pode representar um<br \/>\nmo\u00e7o de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E falas de educa\u00e7\u00e3o, Mariquinhas? Tens raz\u00e3o.<br \/>\nO Senhor Gasparino \u00e9 um mo\u00e7o bem educado, que passa por ter<br \/>\nmesmo as mais belas qualidades: freq\u00fcenta os sal\u00f5es&#8230; intermedeia<br \/>\nnas conversa\u00e7\u00f5es algumas frases estudadas do franc\u00eas,<br \/>\nenfim&#8230; \u00e9 um mo\u00e7o bem educado. Inculca-se 1o Oficial da Secretaria<br \/>\nda Justi\u00e7a e s\u00f3 fala em grandezas quando n\u00e3o passa de<br \/>\num simples praticante, cuja ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 fumar charutos<br \/>\ne copiar of\u00edcios. Mora no Hotel dos Estrangeiros; janta e almo\u00e7a<br \/>\ncom diplomatas, diz ele, mas entretanto anda em cont\u00ednua guerra com<br \/>\nos cabeleireiros e alfaiates da rua do Ouvidor. A sua vida \u00e9 um mist\u00e9rio.<br \/>\nMas a sociedade tamb\u00e9m pouco se importa com isso: acolhe-o com os bra\u00e7os<br \/>\nabertos em seu seio e considera-o mesmo um dos seus filhos prediletos.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Mas minha m\u00e3e o recebeu em sua casa na persuas\u00e3o<br \/>\nde que ele era um mo\u00e7o distinto.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Oh! o que eu n\u00e3o contesto \u00e9 que ele seja distinto,<br \/>\nat\u00e9 bem distinto!<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; N\u00e3o conversemos sobre futilidades, Carlos; deixemos<br \/>\no Senhor Gasparino. Estamos a s\u00f3s. Estes momentos s\u00e3o preciosos:<br \/>\nfalemos de n\u00f3s s\u00f3, de n\u00f3s e do nosso futuro. (Senta-se<br \/>\njuntamente com Carlos.) N\u00e3o ignoras que este baile foi dado por minha<br \/>\nm\u00e3e ao Bar\u00e3o da Cutia: minha m\u00e3e tem se desfeito em obs\u00e9quios<br \/>\npara com esse homem, leva constantemente a falar na minha educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne nas minhas prendas e \u00e9 raro o dia em que n\u00e3o mande o carro<br \/>\n\u00e0 cidade para que ele venha passar as tardes conosco. Eu conhe\u00e7o<br \/>\nperfeitamente as inten\u00e7\u00f5es e julgo que esta com\u00e9dia,<br \/>\nonde, bem contra minha vontade, estou representando um papel t\u00e3o importante,<br \/>\nvai terminar como todas pelo casamento. Assim pois, s\u00f3 tu me poder\u00e1s<br \/>\nsalvar antes que isso se realize. Jura-me, Carlos, em nome do nosso amor,<br \/>\nque h\u00e1s de cumprir um pedido que vou fazer-te.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Em nome do nosso amor, Mariquinhas, n\u00e3o duvidarei fazer os<br \/>\nmaiores sacrif\u00edcios. Dize.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Pois bem, pede-me quanto antes em casamento \u00e0 minha<br \/>\nm\u00e3e.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E julgas que o meu pedido seria atendido! Queres matar a \u00fanica<br \/>\nesperan\u00e7a que me acalenta, a \u00fanica ilus\u00e3o que me resta?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Eu juntarei os meus rogos aos teus, Carlos, e ela nos atender\u00e1.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Acostumado desde crian\u00e7a aos revezes, este golpe seria o<br \/>\nmais doloroso para mim. Deixa-me portanto viver neste doce engano porque esta<br \/>\nilus\u00e3o \u00e9 toda minha vida. \u00d3rf\u00e3o de pai e m\u00e3e,<br \/>\ndesde a inf\u00e2ncia fui confiado aos cuidados de um tio bastante rico,<br \/>\nque, incumbindo-se da minha educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poupou sacrif\u00edcios<br \/>\npara sustentar-me na carreira que hoje trilho: foi um pai carinhoso e desvelado<br \/>\nque a Provid\u00eancia me deparou e a quem devo tudo neste mundo. At\u00e9<br \/>\naqui s\u00f3 tenho tido l\u00e1grimas e dores, Mariquinhas, poupa-me o<br \/>\nmart\u00edrio: deixa-me viver nesta ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Mas, Carlos, teu tio \u00e9 rico.. . (Mariquinhas levanta-se<br \/>\ne indo \u00e0 direita encontra-se com Gasparino que entra com uma capa ao<br \/>\nbra\u00e7o ao lado de Porf\u00edria.)<\/p>\n<h3>CENA II &#8211; OS MESMOS, GASPARINO e PORF\u00cdRIA<\/h3>\n<p>MARIQUINHAS (Dando um abra\u00e7o e um beijo em Porf\u00edria.) &#8211; Chegaram<br \/>\nt\u00e3o tarde&#8230;<\/p>\n<p>GASPARINO (Tirando o rel\u00f3gio.) &#8211; S\u00e3o dez horas, \u00e9 a<br \/>\nmelhor hora de entrar-se num sal\u00e3o: al\u00e9m disso a menina esteve<br \/>\narranjando o seu toalete. (Olhando para Carlos, diz \u00e0 parte.) Sempre<br \/>\neste homem.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; N\u00e3o quer ir ao toalete arranjar os seus cabelos e os<br \/>\nseus enfeites, Dona Porf\u00edria?<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; Ai&#8230; Estou muito fatigada: os balan\u00e7os do carro<br \/>\nincomodaram-me excessivamente; quero descansar um pouco. Trouxeste o meu vidrinho<br \/>\nde \u00e1gua de Col\u00f4nia, Gasparino?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Esqueci-me, deixei-o no boudoir.<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; Fizeste mal, menino, tu sabes que sou achacada dos nervos<br \/>\ne a menor emo\u00e7\u00e3o incomoda-me.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c0 parte.) &#8211; E diz ela que tem emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; D\u00e1-me a capa, Gasparino; estou um pouco suada e<br \/>\nvem dali&#8230; daquela porta, uma correnteza de ar&#8230; que pode fazer-me mal.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; N\u00e3o sejas crian\u00e7a, Porf\u00edria, n\u00e3o<br \/>\nv\u00eas que \u00e9 uma brisa fagueira e saud\u00e1vel que sopra? Eu<br \/>\nsou at\u00e9 de opini\u00e3o que v\u00e1s ao jardim respirar este ar,<br \/>\nque h\u00e1 de fazer-te bem.<\/p>\n<p>CARLOS (\u00c0 parte.) &#8211; Que par t\u00e3o elegante!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Vai arranjar o teu toalete, menina. A Senhora Dona Ana de Lemos<br \/>\nj\u00e1 deve estar \u00e0 nossa espera. Aqui tens a tua capa. (Entrega<br \/>\na capa.) Eu vou passar um golpe de vista pelo sal\u00e3o.<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; Estou \u00e0s suas ordens, Dona Mariquinhas. (Mariquinhas<br \/>\ne Porf\u00edria saem pela esquerda.)<\/p>\n<h3>CENA III &#8211; CARLOS e depois o BAR\u00c3O<\/h3>\n<p>CARLOS &#8211; S\u00e3o na realidade bem originais esses quadros da sociedade<br \/>\nde hoje! Bem originais, palavra de honra. (Tira um charuto e vai acend\u00ea-lo.)<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Entrando pelo fundo.) &#8211; Que calor, meu Deus! Se me demorasse<br \/>\nnaquela sala morria sufocado! Al\u00e9m disso, por meu caiporismo, meti<br \/>\nos p\u00e9s no vestido de uma mo\u00e7a e o reduzi a trapos: olhe que<br \/>\nsou mesmo um desastrado!<\/p>\n<p>CARLOS (\u00c0 parte.) &#8211; \u00c9 o Bar\u00e3o: desfrutemo-lo.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Oh! Doutor, por aqui: n\u00e3o dan\u00e7a?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Gosto mais de apreciar, senhor Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Pois olhe: eu j\u00e1 dancei duas quadrilhas, mas, meu amigo,<br \/>\ncustaram-me caras, porque estou alagado em suor e com uma dor de cabe\u00e7a&#8230;<br \/>\nOh! Que dor de cabe\u00e7a, doutor.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Padece da cabe\u00e7a, senhor Bar\u00e3o?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Muito, doutor, desde o tempo de casado: parece-me que isto<br \/>\nj\u00e1 \u00e9 cr\u00f4nico, \u00e9 de fam\u00edlia. Foi uma felicidade<br \/>\nencontr\u00e1-lo:<\/p>\n<p>se pudesse dar-me um rem\u00e9dio&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; As dores s\u00e3o peri\u00f3dicas?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Se eu tenho &#8211; peri\u00f3dicos? n\u00e3o senhor. Apenas<br \/>\nassinante do Correio Paulistano.<\/p>\n<p>CARLOS (\u00c0 parte.) &#8211; Que est\u00fapido! (Alto.) Quero dizer: se essas<br \/>\ndores aparecem todos os dias a uma hora certa e determinada.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o senhor, passo muitas vezes sem t\u00ea-las; quase<br \/>\nsempre aparecem quando fa\u00e7o um grande excesso; mas no meu tempo de<br \/>\ncasado eram constantes.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Deixe-me ver o seu pulso. (Apalpa o pulso.) Tenha a bondade de p\u00f4r<br \/>\na l\u00edngua de fora. (Bar\u00e3o mostra a l\u00edngua.) A sua l\u00edngua<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 boa. (A orquestra toca urna valsa.) Com licen\u00e7a,<br \/>\nsenhor Bar\u00e3o, vou ver se encontro um par de valsa. (Sai apressado pelo<br \/>\nfundo.)<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; \u00d3 doutor! Doutor!&#8230; &#8211; A sua l\u00edngua n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 boa! &#8211; E esta! Que diabo ter\u00e1 a minha l\u00edngua. (Vai<br \/>\nao espelho e examina a l\u00edngua.)<\/p>\n<h3>CENA IV &#8211; OS MESMOS e GASPARINO<\/h3>\n<p>GASPARINO (Entrando pelo fundo.) &#8211; Quel domage! o par de valsa roeu-me a<br \/>\ncorda. (Reparando para Bar\u00e3o.) O que est\u00e1 fazendo a\u00ed,<br \/>\nsenhor Bar\u00e3o?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Mostrando a l\u00edngua.) &#8211; Veja, (Pausa.) a minha l\u00edngua<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 boa!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; O que quer dizer isso?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Disse-me o Doutor Carlos!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; E Vossa Excel\u00eancia acredita no que dizem os m\u00e9dicos?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Oh! se acredito, meu amigo! Tenho medo desta cidade; todos<br \/>\nos dias leio o obitu\u00e1rio no Jornal do Commercio e arrepio-me diante<br \/>\nde uma fileira de pessoas que morrem de gastrites, fistrites, ou coisa que<br \/>\no valha; e de uma mol\u00e9stia chamada idem, idem que eu n\u00e3o sei<br \/>\no que seja. Estou vendo que se a tal mol\u00e9stia &#8211; idem &#8211; continua, vou-me<br \/>\nembora quanto antes para S\u00e3o Paulo. Aquilo, sim, \u00e9 que \u00e9<br \/>\nterra; aparece de vez em quando l\u00e1 um ou outro caso de bexigas ou de<br \/>\nmaletas, mas isso n\u00e3o quer dizer nada \u00e0 vista do que por aqui<br \/>\nh\u00e1.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; N\u00e3o pense nisso, senhor Bar\u00e3o, Vossa Excel\u00eancia<br \/>\nest\u00e1 sadio e robusto. J\u00e1 andei \u00e0 sua procura pela sala.<br \/>\nSaiba que ainda n\u00e3o pude realizar o seu neg\u00f3cio: trago a carta<br \/>\naqui no bolso, mas ainda n\u00e3o me foi poss\u00edvel estar em um t\u00eate<br \/>\na t\u00eate com a menina. Eu entendo que Vossa Excel\u00eancia deve dirigir-se<br \/>\na ela e declarar positivamente tudo o que sente; isto de cartas compromete;<br \/>\nas palavras convencem mais. Olhe: eu nunca escrevi \u00e0 minha cara Porf\u00edria;<br \/>\npintei-lhe em uma ocasi\u00e3o a seus p\u00e9s a paix\u00e3o que me<br \/>\ndevorava com as cores as mais vivas, cantei ao piano um romance cheio de inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de dor&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ent\u00e3o acha que eu devo&#8230; cantar!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; N\u00e3o \u00e9 de absoluta necessidade, senhor Bar\u00e3o;<br \/>\nbasta somente dizer que a ama, que a adora, etc., etc.<\/p>\n<h3>CENA V &#8211; OS MESMOS e CARLOS<\/h3>\n<p>CARLOS (Aparecendo no fundo, \u00e0 parte.) &#8211; Oh! O Bar\u00e3o e o Senhor<br \/>\nGasparino! Ou\u00e7amos o que eles dizem.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Mas, meu amigo, eu n\u00e3o sou o senhor, o senhor sabe<br \/>\nessas palavras bonitas que eu n\u00e3o sei; ainda \u00e9 mo\u00e7o,<br \/>\ne pode, com facilidade, fazer uma declara\u00e7\u00e3o de amor.<\/p>\n<p>CARLOS (\u00c0 parte.) &#8211; Uma declara\u00e7\u00e3o de amor!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Mas acredite, senhor Bar\u00e3o, que n\u00e3o h\u00e1 nada<br \/>\nmais f\u00e1cil do que uma declara\u00e7\u00e3o de amor.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Mas os meus cabelos brancos<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Oh! Mais \u00e7a n&#8217;est fait rien, quando ama-se loucamente<br \/>\numa menina, como Vossa Excel\u00eancia ama a Dona Mariquinhas.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Se ela ao menos j\u00e1 tivesse lido a carta. . . Oh! \u00e9<br \/>\nimposs\u00edvel que aquela carta que o senhor escreveu n\u00e3o lhe v\u00e1<br \/>\nfazer c\u00f3cegas no cora\u00e7\u00e3o; olhe que est\u00e1 muito<br \/>\nbem escrita! Aqueles dois versos do fim&#8230; n\u00e3o se lembra, Senhor Gasparino?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Aquilo foi escrito ao correr da pena, senhor Bar\u00e3o: \u00e9<br \/>\nimposs\u00edvel reter. Eu entendo que Vossa Excel\u00eancia deve aproveitar<br \/>\nesta noite para fazer a sua declara\u00e7\u00e3o. A Senhora Dona Ana de<br \/>\nLemos leva muito a bem, e at\u00e9 estima este casamento, como ela mesmo<br \/>\nme deu a entender, e Vossa Excel\u00eancia n\u00e3o deve perder esses momentos<br \/>\npreciosos. Parece-me que este doutorzinho em medicina que freq\u00fcenta a<br \/>\ncasa faz a corte e pode tirar-lhe do lance.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Pois qu\u00ea? esse pinga, esse pelintra que teve h\u00e1<br \/>\npouco o desaforo de dizer que a minha l\u00edngua n\u00e3o estava boa,<br \/>\narrasta a asa \u00e0 menina?<\/p>\n<p>CARLOS (\u00c0 parte.) &#8211; S\u00e3o t\u00edtulos que me honram, \u00e9<br \/>\num Bar\u00e3o quem mos d\u00e1.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Eu n\u00e3o sei com certeza. N\u00e3o lhe posso afian\u00e7ar,<br \/>\nmas pelo que tenho observado&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ent\u00e3o acha que eu devo fazer-lhe uma declara\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; \u00c9 minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Mas \u00e9 o diabo! O senhor n\u00e3o poderia ensinar-me<br \/>\nalgumas frases, ao menos s\u00f3 para come\u00e7ar, sim, porque o mais<br \/>\ndif\u00edcil \u00e9 come\u00e7ar. Eu sou um pouco est\u00fapido, reconhe\u00e7o.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; \u00c9 mod\u00e9stia de Vossa Excel\u00eancia: fa\u00e7o<br \/>\njusti\u00e7a \u00e0 sua reconhecida intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>CARLOS (\u00c0 parte.) &#8211; Oh! pois n\u00e3o!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; E se o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe manda aos l\u00e1bios<br \/>\nessas palavras fervorosas de paix\u00e3o, \u00e9 porque Vossa Excel\u00eancia<br \/>\nama com del\u00edrio e a presen\u00e7a dessa menina faz-lhe perder a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Oh! bonito! meu amigo, bonito! E assim que devo come\u00e7ar?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; N\u00e3o, senhor Bar\u00e3o. Vossa Excel\u00eancia deve<br \/>\ncome\u00e7ar, pintando esse fogo que o abrasa em segredo h\u00e1 tr\u00eas<br \/>\nmeses, que a ama como um insensato, que, para merecer-lhe um olhar, n\u00e3o<br \/>\nduvidaria arriscar a sua gl\u00f3ria e o seu futuro, que por um seu sorriso,<br \/>\ndaria a vida, e que para alcan\u00e7ar a sua m\u00e3o trocaria as harmonias<br \/>\ndos anjos e a mans\u00e3o celeste pelas chamas e tormentos do inferno!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Bravo, meu amigo: brav\u00edssimo! Continue, continue: eu<br \/>\nlhe pe\u00e7o.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; A\u00ed, necessariamente, ela h\u00e1 de dizer que os homens<br \/>\ns\u00e3o uns perjuros, uns inconstantes&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o \u00e9 melhor fazermos isto ao vivo, Senhor Gasparino?<\/p>\n<p>CARLOS (\u00c0 parte.) &#8211; Ao vivo! O neg\u00f3cio complica-se.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Eu quero ficar com essas palavras bem gravadas na mem\u00f3ria<br \/>\ne \u00e9 preciso que nem uma s\u00f3 delas se perca. Suponha o meu amigo<br \/>\nque eu sou Dona Mariquinhas e que o senhor representa a minha pessoa.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Est\u00e1 dito: como \u00e9 para bem de Vossa Excel\u00eancia&#8230;<br \/>\nSente-se nesta cadeira. (Oferece uma cadeira ao Bar\u00e3o que senta-se.)<br \/>\nEu fico deste lado. L\u00e1 vai: minha senhora. (Faz uma cortesia.) Aqui<br \/>\nfaz Vossa Excel\u00eancia uma cortesia. Vamos ensaiar outra vez.<\/p>\n<p>CARLOS (\u00c0 parte.) &#8211; Se eu contar esta cena ningu\u00e9m me acreditar\u00e1!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Minha senhora&#8230; (Faz uma cortesia e o Bar\u00e3o levantando-se<br \/>\ncorresponde.) Justamente: h\u00e1 tr\u00eas meses que um sentimento vago<br \/>\ne indeciso preenche um v\u00e1cuo que existia em meu cora\u00e7\u00e3o:<br \/>\npor toda a parte uma imagem de anjo, uma fada, uma vis\u00e3o de roupas<br \/>\nbrancas me persegue e preocupa-me o pensamento; quer acordado, quer em sonhos<br \/>\nvejo esse anjo adejar sobre minha cabe\u00e7a e apontar-me sorrindo para<br \/>\num c\u00e9u de venturas e prazer: esse anjo, essa mulher, essa vis\u00e3o<br \/>\nde roupas brancas (veja Vossa Excel\u00eancia a express\u00e3o com que<br \/>\neu digo isto), essa vis\u00e3o sois v\u00f3s.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Agora eu passo para o seu lugar e o senhor passa para o meu.<br \/>\n(Trocam de lugares.) Mas eu n\u00e3o posso exprimir-me por outras palavras?<br \/>\n\u00c9 imposs\u00edvel decorar em t\u00e3o pouco tempo toda esta trapalhada.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Vossa Excel\u00eancia pode usar de outros termos: basta que<br \/>\neles exprimam o que o seu cora\u00e7\u00e3o sente. Cumpre por\u00e9m<br \/>\nacabar de joelhos: isto \u00e9 o mais essencial.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; L\u00e1 vai: eu te amo Mariquinhas, tu \u00e9s uma fada<br \/>\nde vis\u00f5es brancas; quero dizer, uma vis\u00e3o de fadas brancas&#8230;<br \/>\nOh! diabo, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9: ora, isto tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 essencial! l\u00e1 vai outra vez: amo-te, sim, amo-te e por que<br \/>\nn\u00e3o hei de amar-te? Amo-te como amava a minha cara In\u00eas, (Possu\u00eddo,<br \/>\nsegura nas m\u00e3os de Gasparino e ajoelha a seus p\u00e9s.) como a minha<br \/>\ncara In\u00eas, que l\u00e1 repousa no Jazigo de Itu. (Entra Dona Ana de<br \/>\nLemos pela esquerda e p\u00e1ra admirada olhando para o Bar\u00e3o: Carlos<br \/>\ndesaparece.) Amo-te e adoro-te. (Gasparino olha para Dona Ana de Lemos e levanta-se.)<\/p>\n<h3>CENA VI &#8211; OS MESMOS, D. ANA, menos CARLOS<\/h3>\n<p>D. ANA (\u00c0 parte.) &#8211; O Bar\u00e3o aos p\u00e9s do Senhor Gasparino!<br \/>\nUm homem aos p\u00e9s do outro! (Alto.) O que fazia, senhor Bar\u00e3o?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Ainda de joelhos.) &#8211; Nem sei, minha senhora. (Levanta-se.)<\/p>\n<p>GASPARINO (Perturbado.) &#8211; O senhor Bar\u00e3o perguntava-me&#8230; Sim. ..<br \/>\n(\u00c0 parte.) Que esc\u00e2ndalo! (Alto.) Com licen\u00e7a, minha senhora,<br \/>\neu vou \u00e0 sala ver a minha Porf\u00edria que deve estar ansiosa por<br \/>\nmim. (Sai.)<\/p>\n<h3>CENA VII &#8211; D. ANA e BAR\u00c3O<\/h3>\n<p>BAR\u00c3O (Fica perturbado sem saber o que h\u00e1 de dizer: pausa longa.)<br \/>\n&#8211; Que tal tem achado Vossa Senhoria o baile?<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; A mim \u00e9 que compete fazer essa pergunta, senhor Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; Bonito! j\u00e1 disse uma asneira.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Vossa Excel\u00eancia tem-se divertido?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Alguma coisa, minha senhora, alguma coisa.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Tem dan\u00e7ado, j\u00e1 sei.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Duas quadrilhas, minha senhora.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; N\u00e3o valsa, senhor Bar\u00e3o?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Na minha idade, minha senhora! J\u00e1 estou um pouco pesado;<br \/>\nj\u00e1 fiz \u00e9poca. Uma ocasi\u00e3o valsei no baile da Conc\u00f3rdia<br \/>\nem S\u00e3o Paulo com a filha do alferes Braga e ela deu a entender que<br \/>\neu n\u00e3o valsava mal: mas hoje j\u00e1 n\u00e3o sou o mesmo.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; J\u00e1 dan\u00e7ou com Mariquinhas, senhor Bar\u00e3o? Ela<br \/>\ndan\u00e7a muito bem: \u00e9 principalmente na dan\u00e7a onde ela prima.<br \/>\nAprendeu tr\u00eas meses no col\u00e9gio e dan\u00e7a com muita gra\u00e7a.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; Oh! ela fala-me desse anjinho: vou declarar-lhe<br \/>\ntudo quanto sinto. (Alto.) A sua filha, minha senhora, a sua filha \u00e9&#8230;<br \/>\nSim&#8230; a sua filha dan\u00e7a bem. Mas eu tenho a cabe\u00e7a em febre,<br \/>\nsinto no peito.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Est\u00e1 incomodado, senhor Bar\u00e3o?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; L\u00e1 vai tudo: \u00e2nimo e coragem.<br \/>\n(Alto.) Oh! minha senhora eu a amo, eu amo uma fada, uma roupa de vis\u00f5es<br \/>\nbrancas, um anjo que me consome a exist\u00eancia. Esse anjo, essa mulher,<br \/>\nessa vis\u00e3o sois vos.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Ai! ser\u00e1 poss\u00edvel, senhor Bar\u00e3o? Tanta felicidade!<br \/>\ntanta ventura! Oh! diga-me que tudo isto \u00e9 um sonho! Tire-me desta<br \/>\nilus\u00e3o!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Oh! n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um sonho: eu amo, sim,<br \/>\neu amo: por um seu sorriso daria as chamas do inferno e por um seu olhar as<br \/>\nalegrias dos anjos. A vossos p\u00e9s deposito duas fazendas.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O meu s\u00edtio da Cutia&#8230;<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Oh!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O meu s\u00edtio do Senhor Bom-Jesus de Parapora.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Ah!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; A minha burra branca e o meu t\u00edtulo de Bar\u00e3o.<br \/>\n(D. Ana desmaia.) O que \u00e9 isto, minha senhora? O que tem? (Tira um<br \/>\nlen\u00e7o e abana-lhe o rosto.) Minha senhora! Minha senhora!<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Estou melhor; o prazer, a emo\u00e7\u00e3o&#8230; Aceito com reconhecimento<br \/>\ntanto sacrif\u00edcio, senhor Bar\u00e3o. Em troca de tudo isto s\u00f3<br \/>\nposso dar-lhe a minha m\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; A sua m\u00e3o! O diabo da velha n\u00e3o<br \/>\nme entendeu!<\/p>\n<p>D. ANA (\u00c0 parte.) &#8211; Oh! \u00c9 um sonho! Eu o queria para genro<br \/>\ne ele quer dar-me o doce t\u00edtulo de esposa.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; A sua m\u00e3o! Ent\u00e3o Vossa Senhoria n\u00e3o me<br \/>\ncompreendeu.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Pois n\u00e3o \u00e9 da nossa uni\u00e3o de que se trata,<br \/>\nsenhor Bar\u00e3o?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Vossa Senhoria entendeu mal! \u00c9 a m\u00e3o de sua<br \/>\nfilha, de Dona Mariquinhas que eu pe\u00e7o.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Oh! bem eu dizia que era um sonho; mas ainda sou muito feliz, senhor<br \/>\nBar\u00e3o, muito feliz: n\u00e3o mereci o doce nome de esposa, mas posso<br \/>\nde ora em diante chamar-lhe meu adorado, meu idolatrado filho.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Oh! minha senhora, Vossa Senhoria enternece-me.<\/p>\n<p>D. ANA (\u00c0 parte.) &#8211; Duas fazendas! Um baronato! Realizou-se enfim<br \/>\no meu sonho dourado. (Alto.) Vou para a sala, senhor Bar\u00e3o, quero dar<br \/>\nquanto antes a Mariquinhas esta agrad\u00e1vel not\u00edcia.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Por ora nada lhe diga, minha senhora: ela pode desmaiar de<br \/>\nprazer.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Vou quanto antes, senhor Bar\u00e3o. (\u00c0 parte.) Duas fazendas!<br \/>\n(Sai apressada pelo fundo.)<\/p>\n<h3>CENA VIII &#8211; O BAR\u00c3O, MARIQUINHAS e PORF\u00cdRIA<\/h3>\n<p>BAR\u00c3O (Respirando.) &#8211; Parece-me que estou livre de uma carga! Ora<br \/>\ntamb\u00e9m o diabo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feio como o pintam; pensei<br \/>\nque fosse mais dif\u00edcil. (Entra Mariquinhas com Porf\u00edria pela<br \/>\nesquerda.) A\u00ed vem ela: que peix\u00e3o!<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA (Cumprimentando o Bar\u00e3o.) &#8211; Senhor Bar\u00e3o&#8230;<br \/>\nainda n\u00e3o tive o prazer de v\u00ea-lo hoje, mas j\u00e1 perguntei<br \/>\npor Vossa Excel\u00eancia. (Senta-se juntamente com Mariquinhas depois desta<br \/>\nfazer uma cortesia ao Bar\u00e3o.)<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Estou aqui tomando fresco.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Como tem achado esta nossa reuni\u00e3o, Dona Porf\u00edria?<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; Bem agrad\u00e1vel, Dona Mariquinhas. Mas infelizmente<br \/>\nn\u00e3o a tenho apreciado como devia. Depois que me casei, qualquer coisinha<br \/>\n\u00e9 bastante para chocar-me os nervos. O calor das luzes, a orquestra,<br \/>\no murm\u00fario das salas, os balan\u00e7os do carro, tudo isto incomoda-me<br \/>\nextraordinariamente. Estou casada h\u00e1 dois meses e Gasparino n\u00e3o<br \/>\nme tem deixado sossegar um s\u00f3 instante: leva-me a bailes, festas, teatros,<br \/>\npasseios&#8230; enfim, \u00e9 um motu cont\u00ednuo. Eu j\u00e1 lhe tenho<br \/>\ndito muitas vezes que n\u00e3o posso viver assim, mas ele sempre me responde<br \/>\nque n\u00e3o \u00e9 bonito para um rapaz casado aparecer em p\u00fablico<br \/>\nsem a sua cara metade. Al\u00e9m disto obriga-me a andar todos os dias em<br \/>\ncasa espartilhada.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Mas isso h\u00e1 de fazer-lhe mal?<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; J\u00e1 tenho um verg\u00e3o na cintura e ultimamente<br \/>\nestou padecendo do est\u00f4mago. Mas em compensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o<br \/>\npodia acertar melhor na escolha de um marido: faz-me todas as vontades e n\u00e3o<br \/>\nduvida mesmo sacrificar-se para realizar os meus menores caprichos. Foi um<br \/>\npouco extravagante em solteiro, \u00e9 verdade, mas doravante espero que<br \/>\nh\u00e1 de ser um bom pai de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; Nem sequer olha para mim: olhem que \u00e9<br \/>\nmesmo um peix\u00e3o!<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Deve ser um estado bem feliz o casamento, quando se encontra<br \/>\num bom marido.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Na verdade&#8230; bem feliz, minha senhora. Ao lado da minha In\u00eas<br \/>\neu gozava momentos de verdadeira felicidade! (\u00c0 parte.) N\u00e3o<br \/>\nme responde. Se aqui n\u00e3o estivesse esta maldita velha repetia-lhe a<br \/>\ndeclara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Esteve ontem no Clube, Dona Porf\u00edria? Dizem que a partida<br \/>\nesteve muito concorrida.<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; Estivemos no teatro &#8211; Gasparino quis ir ouvir a Norma.<br \/>\n(A orquestra toca uma polca.)<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; N\u00e3o vai dan\u00e7ar, Dona Porf\u00edria?<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; Tenho par para a quarta, mas julgo que tocam uma polca.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; Vou pedir-lhe uma quadrilha. Esta velha<br \/>\nempata-me as vasas. (Alto para Mariquinhas.) Tem par para esta quadrilha,<br \/>\nSinh\u00e1?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; J\u00e1 tenho, senhor Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; E para a seguinte?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Tamb\u00e9m j\u00e1 tenho, senhor Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; E para a outra?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; J\u00e1 tenho par para todas, senhor Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; Se ao menos ela j\u00e1 tivesse recebido<br \/>\na carta&#8230;<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; Senhor Bar\u00e3o: d\u00ea-me o seu bra\u00e7o e vamos<br \/>\ndar um passeio pela sala.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; Que maldita velha! (Alto.) Pois n\u00e3o,<br \/>\nminha senhora. (D\u00e1 o bra\u00e7o a Porf\u00edria.)<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; N\u00e3o vem, Dona Mariquinhas?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; H\u00e1 de desculpar-me, Dona Porf\u00edria. Tenho que<br \/>\ndar algumas ordens l\u00e1 dentro. (Porf\u00edria e Bar\u00e3o saem.)<\/p>\n<h3>CENA IX &#8211; MARIQUINHAS, s\u00f3.<\/h3>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; N\u00e3o sei o que sinto quando estou ao p\u00e9 deste<br \/>\nhomem: a sua figura, os seus gestos e o seu ar aparvalhado s\u00f3 me inspiram<br \/>\nterror e repugn\u00e2ncia. Para minha m\u00e3e talvez seja ele a felicidade<br \/>\nque entrou em casa; para mim \u00e9 o an\u00fancio terr\u00edvel de<br \/>\numa desgra\u00e7a que pressinto. Paci\u00eancia! Resta-me ao menos a esperan\u00e7a<br \/>\nde que Carlos me salvar\u00e1. (Vai ao espelho e arranja as flores do cabelo.)<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; N\u00e3o sei o que sinto quando estou ao p\u00e9 deste<br \/>\nhomem: a sua figura, os seus gestos e o seu ar aparvalhado s\u00f3 me inspiram<br \/>\nterror e repugn\u00e2ncia. Para minha m\u00e3e talvez seja ele a felicidade<br \/>\nque entrou em casa; para mim \u00e9 o an\u00fancio terr\u00edvel de<br \/>\numa desgra\u00e7a que pressinto. Paci\u00eancia! Resta-me ao menos a esperan\u00e7a<br \/>\nde que Carlos me salvar\u00e1. (Vai ao espelho e arranja as flores do cabelo.)<\/p>\n<h3>CENA X &#8211; A MESMA e GASPARINO<\/h3>\n<p>GASPARINO (Aparecendo no fundo, \u00e0 parte.) &#8211; Afinal encontrei-a s\u00f3.<br \/>\n(Dirige-se para a cena: Mariquinhas volta-se.) Minha senhora: aflito procurava<br \/>\numa ocasi\u00e3o para dirigir-lhe a s\u00f3s algumas palavras.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Sinto bastante n\u00e3o poder satisfazer-lhe, Senhor Gasparino:<br \/>\nvou dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Oh! conceda-me ao menos um s\u00f3 instante, eu lhe suplico.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Tenha a bondade de dizer o que deseja.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Quero cumprir uma miss\u00e3o santa e sublime de que me encarregaram.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; J\u00e1 lhe disse que vou dan\u00e7ar. (Quer sair: Gasparino<br \/>\ntoma-lhe a frente.)<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Eu lhe suplico, minha senhora: duas palavras apenas.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Pois bem, fale. (\u00c0 parte.) Quero certificar-me de minhas<br \/>\nsuspeitas.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Minha senhora: h\u00e1 tr\u00eas meses que um homem a adora<br \/>\ncomo um insensato, que a idolatra, que fez de Vossa Excel\u00eancia o \u00fanico<br \/>\nsonho de seus pensamentos e que para alcan\u00e7ar um sorriso de seus l\u00e1bios<br \/>\nseria capaz de dar a pr\u00f3pria vida. Esse homem deposita aos p\u00e9s<br \/>\nde Vossa Excel\u00eancia uma fortuna de 500 contos e um t\u00edtulo pomposo<br \/>\ne nobre que a colocar\u00e1 nos primeiros degraus da escala social.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Com altivez.) &#8211; E quem \u00e9 esse homem?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; O Bar\u00e3o da Cutia, minha senhora.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c0 parte.) &#8211; Oh! bem me dizia o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n(Alto.) E o senhor n\u00e3o fez mais do que representar um papel que lhe<br \/>\nencomendaram? \u00c9 na realidade um brilhante papel, Senhor Gasparino.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; \u00c9 um servi\u00e7o, minha senhora, que pode e at\u00e9<br \/>\ndeve prestar todo o amigo dedicado e fiel.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Estou ciente, Senhor Gasparino: est\u00e1 cumprida a sua<br \/>\nmiss\u00e3o?<\/p>\n<p>GASPARINO (Tirando uma carta do bolso.) &#8211; Pediu-me mais que lhe entregasse<br \/>\neste &#8211; p\u00e1rfum\u00e9 &#8211; e que dissesse a Vossa Excel\u00eancia que,<br \/>\nj\u00e1 que ele pr\u00f3prio n\u00e3o podia manifestar os seus sentimentos,<br \/>\nconfiava ao papel os arcanos de sua alma, pede-lhe resposta. (Entrega a carta.)<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Rasgando a carta.) &#8211; Diga-lhe que a melhor resposta que lhe<br \/>\nposso dar \u00e9 esta.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; O que fez, minha senhora? Vossa Excel\u00eancia rasgou uma p\u00e1gina<br \/>\ncheia de inspira\u00e7\u00e3o e de sentimento! Uma p\u00e1gina que encerra<br \/>\nas confiss\u00f5es de uma alma apaixonada! \u00c9 preciso n\u00e3o ter<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o! O Bar\u00e3o ama-a como um louco, adora-a e em nome<br \/>\nde tudo que Vossa Excel\u00eancia tem de mais caro e de mais santo, em nome<br \/>\nde sua m\u00e3e, eu pe\u00e7o-lhe, suplico-lhe de joelhos (Ajoelhando-se.)<br \/>\nque alimente essa paix\u00e3o que pode lev\u00e1-lo \u00e0 sepultura.<\/p>\n<h3>CENA XI &#8211; OS MESMOS, o BAR\u00c3O e PORF\u00cdRIA<\/h3>\n<p>PORF\u00cdRIA (Entrando de bra\u00e7o com o Bar\u00e3o pelo fundo.)<br \/>\n&#8211; Ai&#8230; os meus nervos&#8230; eu morro&#8230; segure-me, senhor Bar\u00e3o. (Desmaia.)<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Dona Porf\u00edria! Dona Porf\u00edria! (Sentando-a no<br \/>\nsof\u00e1.)<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Bonito!&#8230; por esta n\u00e3o esperava eu.<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; Os meus nervos&#8230; eu morro&#8230; ai! senhor Bar\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o me desampare.<\/p>\n<p>GASPARINO (Dirigindo-se a Porf\u00edria sust\u00e9m-lhe a cabe\u00e7a.<br \/>\nPara o Bar\u00e3o.) &#8211; Vossa Excel\u00eancia acaba de comprometer-me. (Para<br \/>\nPorf\u00edria.) Menina, \u00f3 menina, o que tens? Olha, \u00e9 o teu<br \/>\nGasparino.<\/p>\n<p>PORF\u00cdRIA &#8211; Ah!&#8230; eu morro&#8230; eu morro&#8230; meu Deus.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Para Gasparino.) &#8211; Talvez que cheirando um pouco de \u00e1gua<br \/>\nde Col\u00f4nia lhe passasse.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Isto costuma dar-lhe quase sempre, n\u00e3o \u00e9 nada,<br \/>\nminha senhora.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ou ent\u00e3o uma canja de galinha. (Indo ao fundo grita.)<br \/>\nUma canja! Uma canja!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Como, senhor Bar\u00e3o? Canja num baile!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Sim, senhor: l\u00e1 para os meus lados em todos os bailes<br \/>\nh\u00e1 canja de galinha, isto \u00e9 fraqueza e a canja sendo substancial<br \/>\nfaz-lhe bem.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso, senhor Bar\u00e3o, traga-lhe antes<br \/>\num sorvete, isto \u00e9 proveniente do calor.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c0 parte.) &#8211; Um sorvete para uma vertigem!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Porf\u00edria! Porf\u00edria! meu anjo! meu cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\no que tens? Dize, eu te pe\u00e7o.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; N\u00e3o seria bom desatar o vestido, Senhor Gasparino?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, minha senhora, a Gudin<br \/>\nfaz-lhe os vestidos muito largos. (Para Porf\u00edria.) Minha Porf\u00edria!<br \/>\nMinha Porf\u00edria! Comeste alguma coisa indigesta? (\u00c0 parte.) Se<br \/>\nisto se espalha, que esc\u00e2ndalo, meu Deus!<\/p>\n<h3>CENA XII &#8211; OS MESMOS, CARLOS e o BAR\u00c3O<\/h3>\n<p>BAR\u00c3O (Entrando pelo fundo com Carlos.) &#8211; Venha, doutor, venha, ali<br \/>\nest\u00e1 ela. (Carlos dirige-se para Porf\u00edria.)<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; N\u00e3o \u00e9 nada, doutor: \u00e9 uma pequena vertigem.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Mas ela est\u00e1 muito p\u00e1lida! (\u00c0 parte.)<br \/>\nE a pequena nem sequer olha para mim!<\/p>\n<p>CARLOS (Apalpando o pulso de Porf\u00edria.) &#8211; O seu pulso est\u00e1<br \/>\nagitado, mas julgo que \u00e9 simplesmente uma s\u00edncope.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Uma s\u00edncope, doutor?! \u00c9 mol\u00e9stia grave?&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS (Com riso ir\u00f4nico.) &#8211; Talvez seja, Senhor Gasparino. (Para Mariquinhas.)<br \/>\nTenha a bondade de levar esta senhora ao toalete, Dona Mariquinhas, desatar<br \/>\no colete e ministrar-lhe os socorros necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>GASPARINO (Baixo para o Bar\u00e3o.) &#8211; J\u00e1 lhe disse tudo.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; E ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS (Baixo para Mariquinhas.) &#8211; Tenho muito que dizer-te.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; E eu tamb\u00e9m, Carlos. (Carlos ajuda a Mariquinhas a levar<br \/>\nPorf\u00edria para a esquerda.)<\/p>\n<p><b>(Cai o pano.)<\/b><\/p>\n<h2><b>(Fim do Ato 2)<\/b><\/h2>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>ATO TERCEIRO<\/h2>\n<p>O teatro representa a mesma cena do primeiro ato.<\/p>\n<h3><b>CENA I &#8211; BAR\u00c3O, s\u00f3.<\/b><\/h3>\n<p>BAR\u00c3O (Lendo o Jornal do Commercio.) &#8211; &#8220;Aluga-se&#8230; Vende-se&#8230;&#8221;<br \/>\n\u00c9 c\u00e9lebre! Estas folhas do Rio de Janeiro n\u00e3o trazem<br \/>\nnada de importante! Em S\u00e3o Paulo l\u00ea-se o Correio Paulistano e<br \/>\nfaz gosto ver as not\u00edcias curiosas que traz aquele jornal. (Virando<br \/>\na folha do jornal, l\u00ea): &#8220;No dia 6 foram sepultados&#8230; Juli\u00e3o<br \/>\nPraxedes da Cunha, de fistrites, quistrites, entre coletes ou colites.&#8221;<br \/>\nIsto \u00e9 erro de imprensa. &#8220;Ant\u00f4nio Gerv\u00e1sio de Ara\u00fajo,<br \/>\nidem, Luciano Pimentel, idem&#8230; idem&#8230; idem&#8230;&#8221; C\u00e1 est\u00e1<br \/>\no tal implicante idem. \u00c9 &#8211; a fantasma &#8211; que me persegue nesta maldita<br \/>\nterra! Noutro dia fui consultar um m\u00e9dico e ele disse-me que era mol\u00e9stia<br \/>\ncontagiosa! Os sintomas s\u00e3o terr\u00edveis: dilata\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo nariz&#8230; (Apalpando o nariz.) Felizmente o meu ainda est\u00e1 do mesmo<br \/>\ntamanho; afec\u00e7\u00e3o nervosa pela circunfer\u00eancia do cr\u00e2nio,<br \/>\nestremecimento de orelhas, terminando por cair o indiv\u00edduo de quatro<br \/>\np\u00e9s e entregar-se a um furor infrene. Oh! h\u00e1 de ser uma morte<br \/>\nhorr\u00edvel! Logo que sentir o primeiro estremecimento de orelhas, estou<br \/>\nmarchando para S\u00e3o Paulo. (Virando a folha do jornal, l\u00ea): &#8220;O<br \/>\nDoutor Carlos de Brito d\u00e1 consulta todos os dias \u00fateis das 9<br \/>\nhoras \u00e0s 10 da manh\u00e3.&#8221; E o pelintra que anda fazendo roda<br \/>\n\u00e0 pequena e que, segundo me disseram, est\u00e1 hoje senhor de boas<br \/>\npatacas. (Tirando o rel\u00f3gio e vendo as horas.) E esta! H\u00e1 quase<br \/>\nmeia hora que estou aqui e ainda ningu\u00e9m veio falar-me! \u00c9 c\u00e9lebre!<br \/>\nTenho reparado que h\u00e1 um m\u00eas para c\u00e1 esta gente j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o me recebe como dantes; a velha j\u00e1 n\u00e3o manda o carro<br \/>\nbuscar-me todas as tardes e ultimamente sempre que aqui venho aparece-me de<br \/>\nnariz torcido, depois de meia hora de espera. Ontem falei-lhe para marcar<br \/>\nquanto antes o dia do casamento e a maldita respondeu-me que por ora nada<br \/>\npodia fazer, porque ainda se est\u00e1 preparando o enxoval. Maldito enxoval,<br \/>\nque demora-me o cas\u00f3rio! (Suspirando.) Ai, ai; muito padece quem ama!<\/p>\n<h3>CENA II &#8211; O MESMO e GASPARINO<\/h3>\n<p>GASPARINO (Entrando vestido de luto, \u00e0 parte.) &#8211; Oh! o Bar\u00e3o!<br \/>\nQue ma\u00e7ante! (Alto.) Bons dias, senhor Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Oh! meu caro amigo, como vai? H\u00e1 muito tempo que o<br \/>\nn\u00e3o vejo. Por onde tem andado? J\u00e1 n\u00e3o quer aparecer por<br \/>\naquela sua casa.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Depois da morte da minha cara Porf\u00edria&#8230; (Tirando o len\u00e7o<br \/>\ne levando-o aos olhos.) Oh! n\u00e3o posso lembrar-me daquele anjinho sem<br \/>\nderramar copiosas l\u00e1grimas. Foi uma fatalidade!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Tamb\u00e9m enxugando os olhos.) &#8211; Tamb\u00e9m a minha<br \/>\nburra branca morreu. S\u00e3o decretos da Provid\u00eancia!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Ontem fui ao cemit\u00e9rio e depositei sobre a sua sepultura<br \/>\numa capela de saudades.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; A minha jaz na Cutia, dormindo o sono dos inocentes. Era mesmo<br \/>\numa inocente criatura! Como marchava aquele animal, Senhor Gasparino, era<br \/>\numa rede!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Deixemos aqueles que repousam na mans\u00e3o dos justos (Mudando<br \/>\nde tom.) Vossa Excel\u00eancia j\u00e1 fixou o dia do seu casamento?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; At\u00e9 agora nada est\u00e1 decidido.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; E creio que nada arranjar\u00e1s.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Se o senhor pudesse interceder por mim&#8230; Eu n\u00e3o tenho<br \/>\njeito para essas coisas. Se n\u00e3o fosse o senhor talvez que a Senhora<br \/>\nDona Ana ignorasse at\u00e9 as minhas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Veremos, senhor Bar\u00e3o. Hei de fazer tudo que estiver no<br \/>\nc\u00edrculo de minhas for\u00e7as. (\u00c0 parte.) Conta comigo, meu<br \/>\nlorpa.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Tirando o rel\u00f3gio, \u00e0 parte.) &#8211; Cinco e meia:<br \/>\nh\u00e1 mais de meia hora que estou aqui e ainda ningu\u00e9m! Que ma\u00e7ada!<br \/>\n(Alto) Ora diga-me c\u00e1, Senhor Gasparino: o senhor que \u00e9 um mo\u00e7o<br \/>\nde intelig\u00eancia e de saber, poder\u00e1 explicar-me uma coisa extraordin\u00e1ria<br \/>\nque observo h\u00e1 perto de um m\u00eas?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; J\u00e1 sei: quer falar-me do cometa que aparece as noites?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 isso. Em S\u00e3o Paulo<br \/>\naparecem muitos, mesmo de dia; mas como n\u00e3o devo nada a ningu\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o tenho medo dos cometas.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Je ne le comprends pas, mais c&#8217;est la m\u00eame<br \/>\nchose.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Quero que o senhor me explique a raz\u00e3o por que a Senhora<br \/>\nDona Ana de Lemos trata-me presentemente com tanta frieza.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Felizmente j\u00e1 reparou. (Alto.) Nada<br \/>\nmais f\u00e1cil de explicar-se, senhor Bar\u00e3o. Outrora era Vossa Excel\u00eancia<br \/>\numa pessoa importante e de cerim\u00f4nia, cujas rela\u00e7\u00f5es era<br \/>\npreciso firmar com carinhos e um tratamento condigno com a sua posi\u00e7\u00e3o;<br \/>\nhoje Vossa Excel\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais do que um filho da casa,<br \/>\num amigo dedicado e fiel, para quem morrem essas regras banais e fr\u00edvolas<br \/>\nda etiqueta.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Apertando a m\u00e3o a Gasparino.) &#8211; Oh! meu amigo, obrigado.<br \/>\nQuando estou ao p\u00e9 do senhor \u00e9 que reconhe\u00e7o a minha<br \/>\nestupidez. J\u00e1 n\u00e3o me lembrava que eu era um filho da casa e<br \/>\nque n\u00e3o devia reparar nessas coisas. E a pequena ainda consagra-me<br \/>\naquele afeto?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Oh! Ela ama-o como uma insensata!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o me diga isso que enlouque\u00e7o.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Este homem n\u00e3o se conhecer\u00e1?<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Segurando no chap\u00e9u.) &#8211; Eu vou aqui \u00e0 casa do<br \/>\nComendador Lisboa fazer uma visita e depois virei cumprimentar a minha futura<br \/>\ncostela. \u00c9 um anjinho! Se falar com a Senhora Dona Ana de Lemos, n\u00e3o<br \/>\nse esque\u00e7a do meu pedido.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; J\u00e1 disse a Vossa Excel\u00eancia que hei de fazer tudo<br \/>\no que puder.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Apertando a m\u00e3o de Gasparino.) &#8211; Obrigado, meu amigo.<br \/>\nAt\u00e9 logo. (Sai pelo fundo.)<\/p>\n<h3>CENA III &#8211; GASPARINO, s\u00f3.<\/h3>\n<p>GASPARINO &#8211; Quelle b\u00e9te. At\u00e9 agora ainda n\u00e3o compreendeu<br \/>\nque esta fam\u00edlia o repele e pede-me que interceda por ele na fixa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo dia do casamento, quando a Senhora Dona Ana de Lemos, confiada na perspic\u00e1cia<br \/>\nque me caracteriza suplicou-me que o despedisse quanto antes desta casa da<br \/>\nmaneira a menos escandalosa. Na realidade a miss\u00e3o \u00e9 um pouco<br \/>\ndif\u00edcil, mas enfim \u00e9 preciso cumpri-la porque tenho c\u00e1<br \/>\nmeus c\u00e1lculos. Concordo que a Senhora Dona Ana de Lemos, prometendo<br \/>\na m\u00e3o da menina a esse lorpa, ele tenha um justo motivo para revoltar-se,<br \/>\nsofrendo agora uma repulsa; mas tamb\u00e9m ningu\u00e9m poder\u00e1<br \/>\ndeixar de concordar que uma fortuna de mil contos n\u00e3o \u00e9 uma<br \/>\nfortuna de quinhentos. Ora, o Senhor Doutor Carlos de Brito, que parecia ser<br \/>\num mau mo\u00e7o, mas que hoje vejo que \u00e9 um mo\u00e7o de excelentes<br \/>\nqualidades, possui com a morte de um tio uma fortuna de mil contos; logo,<br \/>\ndeve ser preferido ao Bar\u00e3o da Cutia, que possui quinhentos. Isto \u00e9<br \/>\nl\u00f3gico e n\u00e3o pode sofrer refuta\u00e7\u00e3o. Uma fortuna<br \/>\nde mil contos! Parbleu que j\u00e1 \u00e9 um belo capital. (Sentando-se<br \/>\nno sof\u00e1 e suspirando.) Ai, ai! Se eu possu\u00edsse tanto dinheiro<br \/>\nn\u00e3o estava, decerto, crivado de d\u00edvidas. Logrado por aquela<br \/>\nvelha, a quem o destino ligou-me por tr\u00eas meses, e que o mundo dizia<br \/>\npossuir as minas da Calif\u00f3rnia, poderia hoje fazer uma brilhante figura,<br \/>\nse a maldita n\u00e3o possu\u00edsse unicamente uns miser\u00e1veis<br \/>\ntrinta contos, metade dos quais empreguei no pagamento de algumas dividas<br \/>\nminhas e se ela n\u00e3o tivesse a extravagante id\u00e9ia de deixar a<br \/>\nsua ter\u00e7a a irmandades e obras pias. Mas em compensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nfiz-lhe tamb\u00e9m uma obra pia e de caridade, mandando-a para outro mundo<br \/>\nda maneira a mais f\u00e1cil poss\u00edvel. (Levantando-se.) \u00c9<br \/>\num meio pronto e eficaz que recomendo a todos aqueles que se casarem com velhas<br \/>\nricas. Tornei-me s\u00f3cio de todos os bailes que por a\u00ed h\u00e1,<br \/>\nassinante de todos os teatros e por toda a parte levava a velha comigo sempre<br \/>\napertada de colete e trajando os melhores vestidos que figuravam nas vidra\u00e7as<br \/>\ndo Wallerstein. Se estava suada oferecia-lhe um sorvete para refrescar-se;<br \/>\nse se queixava dos vestidos apertados, convencia-a de que era muito rid\u00edculo<br \/>\nandar uma menina de vestidos largos: ceias todas as noites para prevenir indigest\u00f5es;<br \/>\nbanhos de \u00e1gua fria depois de um passeio pelo campo para dar vigor<br \/>\nao corpo; fogos de artif\u00edcio etc., etc. Com tal receita pode qualquer<br \/>\ndar o passaporte a uma velha desta para a melhor dentro de tr\u00eas meses.<br \/>\nOh! Se eu n\u00e3o tivesse sido logrado, poderia hoje ser o homem mais feliz<br \/>\ndo mundo! (Pensando.) Mas enfim n\u00e3o conv\u00e9m desesperar. A Senhora<br \/>\nDona Ana de Lemos tem alguma coisa&#8230; julga-me sem d\u00favida senhor de<br \/>\numa boa fortuna com a morte da velha&#8230; a menina casa-se com mil contos&#8230;<br \/>\nfica este bolo em casa&#8230; Sil\u00eancio, minhas esperan\u00e7as fagueiras!<br \/>\nA\u00ed vem ela.<\/p>\n<h4>CENA IV &#8211; O MESMO e D. ANA<\/h4>\n<p>D. ANA (Entrando pela direita.) &#8211; Ansiosa esperava a sua chegada. J\u00e1<br \/>\nsei que esteve aqui com o Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Por ora n\u00e3o lhe disse nada de positivo.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Senhor Gasparino, \u00e9 um favor que lhe pe\u00e7o: veja se<br \/>\nme enxota quanto antes aqui de casa aquela bisca.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Hei de empregar os meios, minha senhora, mas conv\u00e9m n\u00e3o<br \/>\ndar esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; \u00c9 um toleir\u00e3o, um malcriado que vem todos os dias<br \/>\naborrecer a menina e ma\u00e7ar-me a paci\u00eancia contando-me hist\u00f3rias<br \/>\nda sua burra branca, falando-me das vantagens da garapa de Santo Amaro, da<br \/>\nfarinha de milho, de sua fazenda e de tudo que lhe vem \u00e0 boca. N\u00e3o<br \/>\nacha, Senhor Gasparino, que \u00e9 um homem sem polidez, sem educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; \u00c9 minha opini\u00e3o de h\u00e1 muito, minha senhora.<br \/>\n(\u00c0 parte.) \u00c9 preciso adular a velha.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Veja se pode haver compara\u00e7\u00e3o entre o Doutor Carlos<br \/>\ne aquela figura de jarro de lou\u00e7a: \u00e9 um homem at\u00e9 feio,<br \/>\nnoutro dia estive reparando.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; E al\u00e9m disso n\u00e3o est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que se acha o Doutor Carlos de Brito!<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Justamente. O Senhor Carlos \u00e9 um mo\u00e7o inteligente<br \/>\ne estudioso, que tem diante de si um futuro brilhante e se n\u00e3o \u00e9,<br \/>\ncomo o primeiro, um Bar\u00e3o, possui um t\u00edtulo ainda mais nobre,<br \/>\nporque adquiriu-o \u00e0 custa de sacrif\u00edcios e trabalhos. Al\u00e9m<br \/>\ndisso os t\u00edtulos hoje compram-se e com uma fortuna de mil contos n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 ningu\u00e9m que deixe de ser Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Com mil contos eu seria at\u00e9 Imperador da China.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Demais, devemos respeitar as primeiras inclina\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO Senhor Carlos foi o primeiro mo\u00e7o por quem palpitou o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Mariquinhas: cortar a felicidade desses dois inocentes seria mat\u00e1-los.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; A felicidade? E um sonho dourado que n\u00e3o se realiza na<br \/>\nterra.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Descr\u00ea da felicidade, Senhor Gasparino? Tem raz\u00e3o,<br \/>\ncom a perda que acaba de sofrer&#8230;<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; \u00c9 uma perda irrepar\u00e1vel, minha senhora!<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; N\u00e3o descreia. Na posi\u00e7\u00e3o em que est\u00e1,<br \/>\ntalvez encontre brevemente algu\u00e9m que possa fazer a ventura de seus<br \/>\ndias.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Esta mulher est\u00e1 me desafiando.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; E se tiver de dar pela segunda vez esse passo, ou\u00e7a os conselhos<br \/>\nde uma pessoa experiente e que o estima. Escolha uma mulher sisuda, j\u00e1<br \/>\ngasta das ilus\u00f5es do mundo e deixe as mocinhas da moda, essas cabecinhas<br \/>\nde avel\u00e3, em cujo seio s\u00f3 poder\u00e1 encontrar a desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: \u00e9<br \/>\nmesmo uma provoca\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Essas nunca poder\u00e3o ser boas consortes, nem tampouco boas<br \/>\nm\u00e3es de fam\u00edlia, porque, n\u00e3o tendo discernimento bastante<br \/>\npara compreender a for\u00e7a desta palavra santa e sublime: amor; falam<br \/>\ncom o cora\u00e7\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o as atrai\u00e7oa!<br \/>\nMas o que tem, Senhor Gasparino? Est\u00e1 incomodado? (\u00c0 parte.)<br \/>\nSem d\u00favida j\u00e1 compreendeu tudo.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; N\u00e3o tenho nada, minha senhora. Vossa Excel\u00eancia<br \/>\nfala-me em coisas t\u00e3o tocantes, que \u00e9 imposs\u00edvel deixar<br \/>\nde comover-me.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Feliz daquela que possuir um cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o sens\u00edvel!<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Isto j\u00e1 \u00e9 muito positivo! Vou<br \/>\ndeclarar-me. (Alto.) Minha senhora, uma vez que Vossa Excel\u00eancia pinta-me<br \/>\ncom cores t\u00e3o vivas a felicidade de um estado que tanto amei, e do<br \/>\nqual t\u00e3o cedo vi-me privado, \u00e9 justo que eu tamb\u00e9m abra<br \/>\no meu cora\u00e7\u00e3o a Vossa Excel\u00eancia, manifestando um sentimento<br \/>\nque nele germina apenas h\u00e1 um m\u00eas, mas que \u00e9 toda a minha<br \/>\nvida. (\u00c0 parte.) Ainda n\u00e3o compreendeu?<\/p>\n<p>D. ANA (\u00c0 parte.) &#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; E se uma senhora, nas condi\u00e7\u00f5es que Vossa Excel\u00eancia<br \/>\napresenta, quisesse preencher esse v\u00e1cuo&#8230;<\/p>\n<h3>CENA V &#8211; OS MESMOS e CARLOS<\/h3>\n<p>CARLOS (Entrando pelo fundo vestido de luto.) &#8211; Desculpem se venho interromper<br \/>\na conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>D. ANA Chegou muito a prop\u00f3sito, doutor; h\u00e1 pouco fal\u00e1vamos<br \/>\nna sua pessoa.<\/p>\n<p>GASPARINO (Oferecendo urna cadeira a Carlos.) &#8211; N\u00e3o quer sentar-se,<br \/>\ndoutor?<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Aceito: muito agradecido. (Sentam-se todos.)<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Ontem tinha prometido vir jantar conosco e no entretanto logrou-nos.<br \/>\nPois n\u00e3o sabe o que perdeu: jantou aqui o Senhor Gasparino e tivemos<br \/>\num belo jantar.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; S\u00f3 o que sinto \u00e9 n\u00e3o ter gozado duma t\u00e3o<br \/>\nam\u00e1vel companhia.<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; O doutor foi quem n\u00e3o quis proporcionar-nos este prazer.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Mariquinhas sentiu bastante a sua aus\u00eancia. Ai vem ela. (Entra<br \/>\nMariquinhas.)<\/p>\n<h3>CENA VI &#8211; OS MESMOS e MARIQUINHAS<\/h3>\n<p>CARLOS &#8211; Como tem passado, Dona Mariquinhas?<\/p>\n<p>GASPARINO (Fazendo uma cortesia.) &#8211; Minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; H\u00e1 duas horas que est\u00e1-se vestindo, doutor. Quando<br \/>\nespera pelo senhor n\u00e3o quer sair do espelho. Veja como est\u00e1<br \/>\nbonitinha!<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Mam\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Em compensa\u00e7\u00e3o traz uma elegante toalete.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E muito natural que uma mo\u00e7a na idade de Dona Mariquinhas,<br \/>\npossuindo tantos encantos, ame aos espelhos.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Rindo-se.) &#8211; Mas o que n\u00e3o \u00e9 natural \u00e9<br \/>\nque o Senhor Doutor Carlos seja t\u00e3o lisonjeiro para comigo.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Lisonjeiro, porque disse a verdade.<\/p>\n<p>D. ANA (Para Gasparino.) &#8211; Olhe como est\u00e3o ternos! Nem ao menos respeitam<br \/>\na presen\u00e7a de uma m\u00e3e para renderem-se finezas. Vamos dar um<br \/>\npasseio pelo jardim, Senhor Gasparino, para n\u00e3o perturbar a felicidade<br \/>\ndestes dois anjinhos. L\u00e1 continuaremos aquela conversa\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o bela que foi interrompida.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Est\u00e1 mesmo me desafiando. Vou acabar<br \/>\na declara\u00e7\u00e3o. (D\u00e1 o bra\u00e7o a D. Ana.)<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Vamos dar um passeio pelo jardim: at\u00e9 j\u00e1. (Saem pelo<br \/>\nfundo.)<\/p>\n<h3>CENA VII &#8211; CARLOS e MARIQUINHAS<\/h3>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Realizou-se enfim toda a nossa ventura, Carlos!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E verdade, Mariquinhas, mas, se n\u00e3o te adorasse como um anjo,<br \/>\nnunca a aceitaria por um tal pre\u00e7o! Outrora eu era um simples doutorzinho<br \/>\nem medicina, cuja fortuna consistia em um diploma, um desgra\u00e7ado que<br \/>\nfreq\u00fcentava a tua casa, e se n\u00e3o era maltratado por tua m\u00e3e,<br \/>\nera muitas vezes recebido com indiferen\u00e7a. Hoje trocaram-se as cenas<br \/>\ne o Doutor Carlos de Brito toma o lugar do est\u00fapido Bar\u00e3o pelos<br \/>\nmotivos que tu bem sabes e que meus l\u00e1bios n\u00e3o devem pronunciar.<br \/>\nTua m\u00e3e especula com a tua m\u00e3o, tua m\u00e3e calca aos p\u00e9s<br \/>\na virtude e a dedica\u00e7\u00e3o para ajoelhar-se diante do \u00eddolo<br \/>\nda \u00e9poca, tua m\u00e3e \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; \u00c9 minha m\u00e3e, Carlos.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Tens raz\u00e3o, \u00e9 tua m\u00e3e. Perdoa este desvario.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Risonha.) &#8211; Est\u00e1 perdoado. Agora s\u00f3 o que te pe\u00e7o<br \/>\n\u00e9 que n\u00e3o sejas t\u00e3o mau e que freq\u00fcentes esta casa.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Para quem vem disposto a solicitar hoje mesmo tua m\u00e3o, esse<br \/>\npedido \u00e9 in\u00fatil.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Oh! eu te agrade\u00e7o, Carlos. O cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nvaticina-me que havemos de ser muito felizes. Mas o que me d\u00f3i e que<br \/>\nmais me amofina, \u00e9 ver minha m\u00e3e zombar assim desse pobre homem<br \/>\na quem prometeu a minha m\u00e3o sem consultar minha vontade e desprezando<br \/>\ntodas as considera\u00e7\u00f5es, quando devia ser a primeira a desengan\u00e1-lo.<br \/>\nTenho pena dele, Carlos.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N\u00e3o te incomodes: tua m\u00e3e h\u00e1 de sair deste<br \/>\nembara\u00e7o da melhor maneira poss\u00edvel.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; E \u00e9 o Senhor Gasparino, o mesmo que lisonjeava o seu<br \/>\namor pr\u00f3prio e que um papel t\u00e3o indigno representou entre mim<br \/>\ne ele, que se incumbe de despedi-lo desta casa.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; N\u00e3o me dizias que o Senhor Gasparino era um mo\u00e7o de<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o? (Bar\u00e3o aparece no fundo.)<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Julgava-o apenas uma cabe\u00e7a leviana. mas nunca o tive<br \/>\npor um homem infame!<\/p>\n<h3>CENA VIII &#8211; OS MESMOS e BAR\u00c3O (No fundo.)<\/h3>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; Ela chamou-o de infame!<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; \u00c9 um homem da \u00e9poca.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Mas o que \u00e9 verdade \u00e9 que eu tenho pena do Bar\u00e3o,<br \/>\nporque vejo que \u00e9 um pobre homem.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; Oh! ela fala em meu nome! Vou livr\u00e1-la<br \/>\ndas garras daquele malvado. (Avan\u00e7ando para a cena.) Ora viva!<\/p>\n<p>CARLOS (Fazendo uma cortesia.) &#8211; Senhor Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Deixemo-nos de cumprimentos. O senhor \u00e9 um homem infame,<br \/>\ne eu n\u00e3o cumprimento a infames.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Como, senhor Bar\u00e3o? Tenha a bondade de repetir.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (\u00c0 parte.) &#8211; Este homem enlouqueceu!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Abusar da inoc\u00eancia de uma menina para fazer-lhe propostas<br \/>\ninconvenientes&#8230;<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; Senhor Bar\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; D\u00ea-me o seu bra\u00e7o, Senhor Carlos. Vamos chamar<br \/>\nminha m\u00e3e para vir cumprimentar o senhor Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>CARLOS (Dando o bra\u00e7o) &#8211; Se n\u00e3o estivesse ao p\u00e9 de uma<br \/>\nsenhora a quem respeito e a quem o senhor devia respeitar por todos os t\u00edtulos,<br \/>\ndar-lhe-ia uma resposta conveniente. (Carlos e Mariquinhas saem conversando<br \/>\nbaixo.)<\/p>\n<h3>CENA IX &#8211; BAR\u00c3O, s\u00f3.<\/h3>\n<p>E esta! Querem-na mais clara, deitem-lhe \u00e1gua. Chama-o de infame e<br \/>\nsai de bra\u00e7o com ele a conversar muito amigavelmente! Os diabos levem<br \/>\nquem for capaz de entender uma mulher! H\u00e1 tr\u00eas meses que gosto<br \/>\ndesta menina e at\u00e9 ao presente n\u00e3o me disse coisa com coisa.<br \/>\nOra n\u00e3o me vem logo falar porque est\u00e1 com dor de cabe\u00e7a;<br \/>\nora desculpa-se com trabalhos de costura; umas vezes recebe-me com muita alegria;<br \/>\noutras vezes trata-me mal&#8230; enfim o diabo que a entenda. J\u00e1 estou<br \/>\narrependido de me ter metido em semelhante alhada. N\u00e3o podia estar<br \/>\neu na Cutia muito \u00e0 minha vontade! Vir a esta terra endiabrada cheia<br \/>\nde carros, de lama e de calor, para deixar-me apaixonar nesta idade por uma<br \/>\nmenina que \u00e9 um dem\u00f4nio de saia bal\u00e3o! Sou na verdade<br \/>\nbem desgra\u00e7ado! (Senta-se.)<\/p>\n<h3>CENA X &#8211; O MESMO, D. ANA e GASPARINO<\/h3>\n<p>D. ANA (Entrando com Gasparino pelo bra\u00e7o.) &#8211; Oh! havemos de ser muito<br \/>\nfelizes! Sil\u00eancio! Eis a\u00ed o Bar\u00e3o. E preciso desengan\u00e1-lo<br \/>\nde uma vez. Senhor Bar\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; At\u00e9 que afinal tenho o prazer de v\u00ea-la.<\/p>\n<p>GASPARINO (Baixo para D. Ana.) &#8211; Vou desengan\u00e1-lo j\u00e1. (Para<br \/>\no Bar\u00e3o.) Saiba Vossa Excel\u00eancia que&#8230;<\/p>\n<p>D. ANA (Para Gasparino.) &#8211; Espere que eu o despe\u00e7o em poucas palavras.<br \/>\n(Para o Bar\u00e3o.) Saiba Vossa Excel\u00eancia que&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Interrompendo.) &#8211; J\u00e1 sei: Vossa Senhoria quer desculpar-se<br \/>\npor n\u00e3o me ter aparecido h\u00e1 mais tempo. Eu sei o que s\u00e3o<br \/>\nessas coisas; a minha defunta In\u00eas muitas vezes n\u00e3o aparecia<br \/>\n\u00e0s visitas porque tinha de preparar garapa.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Ora, senhor Bar\u00e3o, essas conversa\u00e7\u00f5es para<br \/>\numa sala&#8230;<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Eu tamb\u00e9m acho-as impr\u00f3prias.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Garapa n\u00e3o \u00e9 coisa indecente.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; N\u00e3o duvido, senhor Bar\u00e3o: mas h\u00e1 certas conversa\u00e7\u00f5es<br \/>\nque S\u00e3o impr\u00f3prias de uma sala.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; E esta!<\/p>\n<p>D. ANA (Para Gasparino.) &#8211; Agora vai tudo de uma vez. Saiba Vossa Excel\u00eancia<br \/>\nque a menina&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Interrompendo.) &#8211; J\u00e1 sei, minha senhora, eu j\u00e1<br \/>\na vi: n\u00e3o p\u00f4de aparecer logo que eu cheguei, porque est\u00e1<br \/>\nocupada com o enxoval. Eu n\u00e3o reparo nestas coisas.<\/p>\n<p>D. ANA (Para Gasparino.) &#8211; O homem faz-se de tolo.<\/p>\n<p>GASPARINO (Baixo.) &#8211; N\u00e3o senhora, \u00e9 mesmo muito est\u00fapido:<br \/>\neu o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Pois senhor Bar\u00e3o, Vossa Excel\u00eancia h\u00e1 de permitir&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Sem mais inc\u00f4modo, minha senhora.<\/p>\n<h3>CENA XI &#8211; OS MESMOS, CARLOS e MARIQUINHAS<\/h3>\n<p>MARIQUINHAS (Entrando pelo fundo de bra\u00e7o com Carlos.) &#8211; J\u00e1<br \/>\nandei \u00e0 sua procura pelo jardim, mam\u00e3e.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Eu passeava pela ch\u00e1cara com o Senhor Gasparino.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; E ainda me aparece de bra\u00e7o com o<br \/>\ntal pelintra. Vou deslindar toda esta alhada. (Alto, para D. Ana.) Minha senhora,<br \/>\ndesejava dirigir algumas palavras unicamente \u00e0 senhora e \u00e0 sua<br \/>\nfilha.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Os nossos neg\u00f3cios foram sempre p\u00fablicos, senhor Bar\u00e3o;<br \/>\nnunca tive segredos com Vossa Excel\u00eancia.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (\u00c0 parte.) &#8211; E ela tem raz\u00e3o, porque o casamento<br \/>\n\u00e9 um ato p\u00fablico. (Alto.) Ent\u00e3o posso dizer aqui mesmo<br \/>\nna vista destes senhores?<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Se n\u00e3o for alguma coisa que ofenda as regras da dec\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Nada, n\u00e3o senhora. Somente quero que Vossa Excel\u00eancia<br \/>\ndesigne positivamente o dia do casamento.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Mariquinhas \u00e9 quem poder\u00e1 diz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Baixo para Carlos.) &#8211; V\u00ea em que apuros me p\u00f5e mam\u00e3e,<br \/>\nCarlos.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Para Mariquinhas.) &#8211; O que decide, Sinh\u00e1? (\u00c0<br \/>\nparte.) Como palpita-me o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Eu&#8230;<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Esta menina h\u00e1 dias para c\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; A Senhora Dona Mariquinhas, senhor Bar\u00e3o, ama a outra<br \/>\npessoa e \u00e9 imposs\u00edvel realizar-se este casamento.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ama a outra pessoa!<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Nunca o escolhi para int\u00e9rprete de meus sentimentos,<br \/>\nSenhor Gasparino; agrade\u00e7o-lhe o interesse que toma por mim, senhor<br \/>\nBar\u00e3o: o meu cora\u00e7\u00e3o nunca poderia pertencer a um homem<br \/>\na quem sempre respeitei e tratei com toda a considera\u00e7\u00e3o, mas<br \/>\nque nunca me inspirou esse sentimento inexplic\u00e1vel, que deve fazer<br \/>\na felicidade do estado conjugal. O Senhor Doutor Carlos de Brito j\u00e1<br \/>\nsolicitou a minha m\u00e3o: \u00e9 ele o \u00fanico que pode tornar-me<br \/>\nfeliz.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Afinal est\u00e1 tudo decidido!<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; J\u00e1 v\u00ea, portanto, senhor Bar\u00e3o, que n\u00e3o<br \/>\nposso ir de encontro \u00e0 vontade de minha filha. Al\u00e9m disso, o<br \/>\nSenhor Doutor Carlos est\u00e1 em tal posi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; No que \u00e9 que a posi\u00e7\u00e3o do senhor aqui<br \/>\n\u00e9 melhor que a minha? E o meu t\u00edtulo de Bar\u00e3o? e as minhas<br \/>\nduas fazendas? e os meus dois s\u00edtios?<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; Isso \u00e9 nada em rela\u00e7\u00e3o a uma fortuna de<br \/>\nmil contos!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ah! agora tudo compreendo; e \u00e9 por causa disso que<br \/>\nme desprezam? Eu j\u00e1 devia sab\u00ea-lo antes de pisar nesta terra!<br \/>\n(Para D. Ana.) A senhora \u00e9 uma mulher falsa e fingida que p\u00f5e<br \/>\npre\u00e7o \u00e0 m\u00e3o de sua filha e que n\u00e3o duvida comprometer<br \/>\na sua palavra s\u00f3 por causa do dinheiro.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Para Carlos.) &#8211; Ele insulta a minha m\u00e3e, Carlos.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; E com raz\u00e3o, Mariquinhas.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; A senhora ser\u00e1 at\u00e9 mesmo capaz de saltar por<br \/>\ncima das considera\u00e7\u00f5es da honra e da dignidade&#8230;<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Senhor Bar\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; N\u00e3o receio amea\u00e7as porque, se a minha linguagem<br \/>\n\u00e9 de um homem est\u00fapido e sem isso o que a senhora chama educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne que eu chamarei antes a m\u00e1scara que oculta uma alma corrompida, tenho<br \/>\nao menos a franqueza e a lealdade que caracteriza um homem de prov\u00edncia.<br \/>\nAntes me falasse com essa linguagem no dia em que pedi a m\u00e3o de sua<br \/>\nfilha do que obrigar-me a representar um papel t\u00e3o indigno! A senhora<br \/>\nadulava-me e chegou mesmo a tomar para si uma declara\u00e7\u00e3o que<br \/>\nera para sua filha, porque tinha em vista lucrar com a minha entrada nesta<br \/>\ncasa. Eu n\u00e3o encontro at\u00e9 mesmo palavras para dizer o que a<br \/>\nsenhora \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Senhor Bar\u00e3o, lembre-se que est\u00e1 no seio de uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Onde estou sei eu: \u00e9 no seio da corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da mis\u00e9ria!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; E melhor retirar-se, senhor Bar\u00e3o, para n\u00e3o dar<br \/>\nesc\u00e2ndalos.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; E \u00e9 o senhor que fala em esc\u00e2ndalos!<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Ei-lo comigo.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O senhor que \u00e9 talvez a causa de tudo isto! O senhor<br \/>\nque especulou tamb\u00e9m com este neg\u00f3cio, servindo de correio de<br \/>\nmeus amores, para exigir depois o pagamento de algumas d\u00edvidas que<br \/>\nsua mulher n\u00e3o quis pagar! O senhor, que pela entrega de uma carta<br \/>\nesfolou-me trezentos mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>GASPARINO (\u00c0 parte.) &#8211; Que esc\u00e2ndalo!<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; O senhor \u00e9 um homem vil, ordin\u00e1rio e infame!<\/p>\n<p>GASPARINO &#8211; O sil\u00eancio \u00e9 a arma de que me sirvo para responder<br \/>\naos insultos.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Vou-me embora quanto antes. O ar que aqui se respira \u00e9<br \/>\nvenenoso e eu quero entrar na Cutia t\u00e3o puro e t\u00e3o limpo como<br \/>\nde l\u00e1 sa\u00ed. (Para D. Ana e Gasparino.) Vivam! (Para Carlos e<br \/>\nMariquinhas.) Que sejam muito felizes, \u00e9 o que desejo. Vivam! (Sai<br \/>\npelo fundo sem chap\u00e9u.)<\/p>\n<h3>CENA XII <b> &#8211; GASPARINO, CARLOS, MARIQUINHAS, D. ANA e depois BAR\u00c3O<\/b><\/h3>\n<p>GASPARINO &#8211; O homem saiu vraiment furioso!<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; Agora posso respirar mais livremente.<\/p>\n<p>CARLOS (Para D. Ana.) &#8211; Minha senhora, solicitando a m\u00e3o de sua filha,<br \/>\npermita-me que fa\u00e7a-lhe uma pequena observa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 o interesse, nem uma esperan\u00e7a de lucros que me liga a este<br \/>\nprot\u00f3tipo de virtudes, mas sim um sentimento que Vossa Excel\u00eancia<br \/>\ndesconhece e que na \u00e9poca atual desafia o epigrama. Como simples doutor<br \/>\nem medicina sei que a m\u00e3o de sua filha me seria negada: Vossa Excel\u00eancia<br \/>\nqueria um t\u00edtulo ainda mais nobre; esse t\u00edtulo a fortuna mo<br \/>\ndeparou. N\u00e3o \u00e9 o Doutor Carlos de Brito que hoje vem fazer parte<br \/>\nda sua fam\u00edlia: \u00e9 um milion\u00e1rio, um capitalista que vem<br \/>\nrealizar as ambi\u00e7\u00f5es de Vossa Excel\u00eancia.<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; N\u00e3o fa\u00e7a injusti\u00e7a aos meus sentimentos, doutor.<br \/>\nPode avaliar-se os feitos de uma paix\u00e3o quando a sentimos tamb\u00e9m<br \/>\nno peito.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O (Entrando.) &#8211; O meu chap\u00e9u. (Procurando o chap\u00e9u.)<\/p>\n<p>D. ANA &#8211; E para prova disso apresento-lhe o Senhor Gasparino de Mendon\u00e7a,<br \/>\nque de hoje em diante far\u00e1 parte da nossa fam\u00edlia com o doce<br \/>\nnome de meu esposo.<\/p>\n<p>BAR\u00c3O &#8211; Ah! Casam-se. Que boa pe\u00e7a lhe cai em casa! J\u00e1<br \/>\nestou vingado. C\u00e1 est\u00e1 o chap\u00e9u. (Sai pelo fundo.)<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Para Carlos.) &#8211; Nunca consentiremos que nossa m\u00e3e case-se<br \/>\ncom semelhante homem, Carlos.<\/p>\n<p>CARLOS &#8211; \u00c9 ainda uma ambi\u00e7\u00e3o fatal que a cega: cumpra-se<br \/>\no seu castigo na terra.<\/p>\n<p><b>(Cai o pano.)<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Ato Primeiro Ato Segundo Ato Terceiro Com\u00e9dia em tr\u00eas atos PERSONAGENS BAR\u00c3O DA CUTIA &#8211; 50 anos GASPARINO DE MENDON\u00c7A &#8211; 25 anos DOUTOR CARLOS DE BRITO &#8211; 26 anos DONA ANA DE LEMOS, m\u00e3e de &#8211; 40 anos MARIQUINHAS &#8211; 17 anos PORF\u00cdRIA DE MENDON\u00c7A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96036","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Tipos da Atualidade - Fran\u00e7a Junior, Obra Tipos da Atualidade - Fran\u00e7a Junior<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Tipos da Atualidade - Fran\u00e7a Junior, Obra, Bar\u00e3o da Cutia, Mariquinhas, Dona Ana de Lemos, Literatura, Tipos da Atualidade - Fran\u00e7a Junior\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Tipos da Atualidade - Fran\u00e7a Junior, Obra Tipos da Atualidade - Fran\u00e7a Junior\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Tipos da Atualidade - Fran\u00e7a Junior, Obra, Bar\u00e3o da Cutia, Mariquinhas, Dona Ana de Lemos, Literatura, Tipos da Atualidade - Fran\u00e7a Junior\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tipos-da-atualidade-franca-junior\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-23T17:51:34+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"74 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tipos-da-atualidade-franca-junior#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tipos-da-atualidade-franca-junior\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Tipos da Atualidade &#8211; 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