{"id":96031,"date":"2017-01-23T15:40:06","date_gmt":"2017-01-23T17:40:06","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96031"},"modified":"2017-01-23T15:40:06","modified_gmt":"2017-01-23T17:40:06","slug":"meia-hora-do-cinismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo","title":{"rendered":"Meia Hora do Cinismo"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#1\">CENA I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#2\">CENA II <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#3\">CENA III <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#4\">CENA IV <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a href=\"#5\">CENA V <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#6\">CENA VI <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#7\">CENA VII <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#8\">CENA VIII <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#9\">CENA IX <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#10\">CENA X<\/a> <\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#11\">CENA XI <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#12\">CENA XII <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#13\">CENA XIII <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#14\">CENA XIV <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>A Quem Ler<\/h2>\n<p>Duas palavras sobre aquelles que, na noite de 17 de Julho de 1861, tanto<br \/>\ncontribu\u00edram para o bom acolhimento, e feliz successo de minha primeira<br \/>\ncomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apresentando-me pela primeira vez perante uma plat\u00e9a intelligente<br \/>\ne ilustrada, dependia todo o meu futuro de artistas poderosos e eminentes,<br \/>\nque podessem com o seu talento supprir o que a penna me neg\u00e1ra.<\/p>\n<p>Era assim que, depositando todas as minhas esperan\u00e7as no Sr. Furtado<br \/>\nCoelho e na Sr.a D. Eug\u00eania C\u00e2mara, e nos Sr.s. Leal, Peregrino,<br \/>\nHenrique e Joaquim C\u00e2mara, n\u00e3o fui iludido; e os applausos que<br \/>\nobteve a \u201cMeia Hora de Cynismo\u201d vier\u00e3o confirmar mais uma<br \/>\nvez o talento brilhante dos dous primeiros artistas, e o merecimento dos outros.<\/p>\n<p>Exceptuando o Sr. Furtado Coelho e a Sra. D. Eug\u00eania C\u00e2mara,<br \/>\nartistas superiores \u00e0 todos os elogios, sem offender o merecimento<br \/>\ndos outros, eu destacarei do grupo o Sr. Leal, que na parte de Frederico fez<br \/>\nquanto pode fazer um actor de talento e dedica\u00e7\u00e3o pela arte.<br \/>\nOxal\u00e1 receba sempre o Sr. Leal as li\u00e7\u00f5es d\u2019aquelle<br \/>\nque tanto tem contribu\u00eddo para melhorar o theatro de S. Paulo, e o<br \/>\nseu nome ser\u00e1 em breve uma gl\u00f3ria para o nosso palco.<\/p>\n<p>O Sr. Peregrino, posto que lhe tocasse um papel de pequena import\u00e2ncia,<br \/>\ndeixou comtudo entrever a habilidade de que \u00e9 dotado.<\/p>\n<p>Os Srs. Henrique e Joaquim C\u00e2mara identificar\u00e3o-se perfeitamente<br \/>\ncom os typos que concebi.<\/p>\n<p>Com taes soldados a victoria \u00e9 certa.<\/p>\n<h2>Personagens Atores<\/h2>\n<p>Nogueira, estudante do segundo ano F. Coelho<\/p>\n<p>Frederico, estudante de preparat\u00f3rios Leal<\/p>\n<p>Neves, estudante do terceiro ano Henrique<\/p>\n<p>Macedo, dito do quarto ano Peregrino<\/p>\n<p>Jac\u00f3, negociante J. Camara<\/p>\n<p>Trindade, calouro Eug\u00eania Camara<\/p>\n<p>Um Oficial de Justi\u00e7a n\u00e3o h\u00e1 registro<\/p>\n<p>A cena passa-se em S\u00e3o Paulo Atualidade.<\/p>\n<h2>Ato \u00danico<\/h2>\n<p>O teatro representa o quarto de Trindade; ao fundo uma porta aberta e uma<br \/>\njanela; duas portas laterais. Junto \u00e0 janela um cabide com alguma roupa<br \/>\nem desordem, uma estante com livros encostada \u00e0 parede do fundo. \u00c0<br \/>\ndireita um piano, uma mesa no centro como livros espalhados, e a \u00e0<br \/>\nesquerda uma cama com os len\u00e7\u00f3is e um cobertor encarnado em<br \/>\ndesalinho. Cadeiras, etc, etc.<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>CENA I<\/h2>\n<p>(Ao subir o pano ouve-se dentro uma gritaria infernal, na qual devem sobressair<br \/>\nas palavras: \u00f3 calouro, \u00f3 burro, \u00f3 ladr\u00e3o de galinha,<br \/>\n\u00f3 desfrut\u00e1vel, etc.)<\/p>\n<p>Trindade, s\u00f3<\/p>\n<p>Trindade (Entrando furioso pela porta do fundo.) Berra, canalha!&#8230;Miser\u00e1veis!&#8230;Infames<br \/>\nque assentam e desmoralizar um homem, qualquer que seja o lugar em que se<br \/>\nache. (Pausa: mudando de tom.) S\u00e3o gaiatices do Senhor Nogueira. (Voltando-se<br \/>\npara a plat\u00e9ia.) Os senhores acham isto bonito? Quase todos os senhores<br \/>\ns\u00e3o veteranos, pois bem; coloquem-se na minha posi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne fa\u00e7am id\u00e9ia com que cara passa um homem pela rua sacudido<br \/>\npor uma vaia com esta que acabo de tomar! Todas as janelas se abriram, milhares<br \/>\nde caras \u00e0s gargalhadas gritavam na minha passagem, \u00f3 burro,<br \/>\n\u00f3 desfrut\u00e1vel, \u00f3 ladr\u00e3o de galinhas!&#8230;Ora, senhores,<br \/>\nchamarem burro a mim que fiz h\u00e1 dias uma sabatina brilhante em Direito<br \/>\nNatural, sim, senhores, (Com express\u00e3o.) uma sabatina brilhante, brilhant\u00edssima.<br \/>\nAo apelo de meu nome marcharei majestoso para o banco augusto dos eleitos,<br \/>\ne ent\u00e3o pela primeira vez elevei minha voz eloq\u00fcente no sagrado<br \/>\nrecinto do templo da ci\u00eancia. Os senhores n\u00e3o foram \u00e0<br \/>\nfeijoada? Pois n\u00e3o sabem o que perderam. Mas ah! Qual n\u00e3o foi<br \/>\na minha desespera\u00e7\u00e3o, quando, depois dos parab\u00e9ns e abra\u00e7os<br \/>\ndos meus colegas, vejo-me cercado nos gerais da Academia por um grupo de segundanistas<br \/>\nque, atochando-me um barrete vermelho na cabe\u00e7a, obrigaram-me a correr<br \/>\npelo Largo \u00e0 guise de uma v\u00edtima do Santo-Of\u00edcio! Julguei-me<br \/>\nno meio de uma horda de selvagens, de Cafres, de Hotetontes, de Antrop\u00f3fagos,<br \/>\nsim, de Antrop\u00f3fagos, porque estava vendo a hora em que me comiam,<br \/>\nem que me devoravam! Quis resistir; por\u00e9m quatro valentes pi\u00favas,<br \/>\ne milhares de punhos fechados que surdiram como por encanto do grupo negro<br \/>\nque e cercava, embargaram-me a voz na garganta, e ent\u00e3o pela primeira<br \/>\nvez em minha vida tremi; tremi, n\u00e3o o nego, mas foi de raiva. (Indo<br \/>\n\u00e0 porta do fundo, e falando para fora.) H\u00e3o de me pagar, miser\u00e1veis;<br \/>\nhei de lhes mostrar que n\u00e3o se desmoraliza um homem impunemente.<\/p>\n<p>Berra, canalha, que eu hei de a cacete<\/p>\n<p>Rachar a cabe\u00e7a de algum valent\u00e3o,<\/p>\n<p>Pregarem uma vaia, domingo, na rua<\/p>\n<p>Num homem como eu que j\u00e1 tem posi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Infames! Eu juro que a minha vingan\u00e7a<\/p>\n<p>Cruel e terr\u00edvel tremenda h\u00e1 de ser,<\/p>\n<p>Qu\u00e3o pode um calouro ferido em seus brios<\/p>\n<p>Eu juro, canalha, que em breve h\u00e3o de ver.<\/p>\n<p>Berra, canalha, que eu hei de a cacete<\/p>\n<p>Rachar a cabe\u00e7a de algum valent\u00e3o,<\/p>\n<p>Pregarem uma vaia, domingo, na rua<\/p>\n<p>Num homem como eu que j\u00e1 tem posi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Do sangue beber-lhes, de acre vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas ah! Agora \u00e9 que me lembro que ainda n\u00e3o almocei&#8230;(Puxando<br \/>\no rel\u00f3gio e vendo as horas.) Bem; ainda falta um quarto para as onze:<br \/>\nhoje \u00e9 domingo, e meus companheiros n\u00e3o almo\u00e7am sen\u00e3o<br \/>\nl\u00e1 para o meio-dia; provavelmente ainda est\u00e3o dormindo, vou<br \/>\nacord\u00e1-los. (Vai sair pela porta do lado direito na mesma ocasi\u00e3o<br \/>\nem que entra Nogueira pela porta do fundo, olha meio atrapalhado para Nogueira,<br \/>\nque ri \u00e0s gargalhadas na ocasi\u00e3o em que ele sai.)<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>CENA II<\/h2>\n<p><b>Nogueira, s\u00f3<\/b><\/p>\n<p>Nogueira (Fumando um cigarro.) Que impag\u00e1vel calouro! \u00c9 pior<br \/>\ndo que uma barrica de p\u00f3lvora inglesa. N\u00e3o se me d\u00e1 de<br \/>\napostar que se ele pilhasse uma pistola fazia-me alguma gracinha. Mas, coitado!<br \/>\nPrescindindo do desfrute e de todas essas suceptibilidades pr\u00f3prias<br \/>\nda posi\u00e7\u00e3o que ocupa, \u00e9 uma bela alma; fornece-me todos<br \/>\nos dias cigarros, e ontem levou a bondade ao ponto de pagar-me um bilhete<br \/>\nde plat\u00e9ia. Mas onde est\u00e1 essa gente? (Virando-se para a porta<br \/>\ndo lado direito.) \u00d3 Macedo! (Voltando-se para o lado esquerdo.) \u00d3<br \/>\nFrederico!<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>CENA III<\/h2>\n<p><b>O Mesmo, Frederico e Macedo<\/b><\/p>\n<p>Macedo (De dentro.) O que queres?<\/p>\n<p>Nogueira Vamos \u00e0 prosa. (Macedo e Frederico entram pela porta do lado<br \/>\ndireito.)<\/p>\n<p>Frederico (Palitando os dentes.) Desconheci agora a tua voz: pensei que fosse<br \/>\no Ara\u00fajo.<\/p>\n<p>Macedo (Deitando-se na cama, tamb\u00e9m palitando os dentes.) O que h\u00e1<br \/>\nde novo por a\u00ed, Nogueira?<\/p>\n<p>Nogueira O que h\u00e1 de novo? Pois voc\u00eas n\u00e3o sabem?<\/p>\n<p>Macedo Se soub\u00e9ssemos n\u00e3o te perguntar\u00edamos.<\/p>\n<p>Nogueira (Sentando-se.) Pois bem; vou contar-lhes. H\u00e1 pouco estava<br \/>\neu na janela do meu quarto com o Albuquerque, o In\u00e1cio, o Martins,<br \/>\ne mais uns quatro ou cinco colegas do Neves, que v\u00e3o todas as manh\u00e3s<br \/>\nfilar-lhe o caf\u00e9 de m\u00e1quina, quando vejo sair do Largo do pelourinho,<br \/>\ne dobrar a Rua da Gl\u00f3ria a impagabil\u00edssima figura do Trindade.<br \/>\nO homem, apenas avistou-nos, veio cambaleando e trope\u00e7ando em quanta<br \/>\npedra encontrava pelo caminho. Descrever ent\u00e3o o que se passou \u00e9<br \/>\nimposs\u00edvel! Insensivelmente seguro em uma lata de folha que tinha debaixo<br \/>\nde minha mesa&#8230;(Mudando de tom.) Mas entre par\u00eantesis, voc\u00eas<br \/>\nj\u00e1 almo\u00e7aram?<\/p>\n<p>Frederico N\u00e3o nos v\u00eas de palito?<\/p>\n<p>Nogueira (Rindo \u00e0s gargalhadas.) Que pagode: fa\u00e7o id\u00e9ia<br \/>\ncomo n\u00e3o estar\u00e1 o Trindade furioso.<\/p>\n<p>Frederico e Macedo (Admirados.) Pelo qu\u00ea?<\/p>\n<p>Nogueira Pela tremend\u00edssima hip\u00f3tese de almo\u00e7o que voc\u00eas<br \/>\nlhe pregaram. O homem hoje faz um assassinato.<\/p>\n<p>Frederico O almo\u00e7o estava marcado para as dez e meia horas; ele chegou<br \/>\ndepois da hora, a culpa n\u00e3o \u00e9 nossa: queixe-se de si.<\/p>\n<p>Macedo Ora, o que \u00e9 uma hip\u00f3tese de almo\u00e7o? Console-se<br \/>\ncomigo que j\u00e1 tenho tomado muitas de almo\u00e7o, jantar e ch\u00e1.<\/p>\n<p>Frederico (Sentando-se em uma extremidade da cama em que se acha Macedo.)<br \/>\nSe eu contar a voc\u00eas o que se passou comigo h\u00e1 quatro anos, talvez<br \/>\nn\u00e3o me acreditem. Estava eu nesse tempo no col\u00e9gio do Jo\u00e3o<br \/>\nCarlos, e estudava alguns preparat\u00f3rios que me restavam para largar<br \/>\na maldita casca de bicho, casca que at\u00e9 hoje ainda possuo, e julgo<br \/>\npossuirei per omnia saecula saeculorum, se Deus me der vida e sa\u00fade,<br \/>\nquando em um belo s\u00e1bado, saindo do col\u00e9gio, deliberei l\u00e1<br \/>\nn\u00e3o voltar sen\u00e3o da\u00ed a uma semana; por outra, resolvi<br \/>\nficar na p\u00e2ndega para entregar-me aos doces prazeres de uma tacada de<br \/>\nbilhar no Lefebre, e respirar o ar puro e livre das ruas que eu s\u00f3<br \/>\nvia aos domingos e dias santos. Mas desgra\u00e7adamente meus c\u00e1lculos<br \/>\nfalharam, pois meti-me na noite em que sa\u00ed do col\u00e9gio em um<br \/>\nmalfadado lansquenet, e perdi, ainda me lembro com grande dor, uns magros<br \/>\ndez mil r\u00e9is com que procurava satisfazer todos os meus sonhos e ambi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde cascabulho. Sa\u00ed da tal casa leve como uma pena, sem um real no bolso,<br \/>\ndisposto j\u00e1 a vagar pelas ruas at\u00e9 que rompesse a aurora, quando<br \/>\nencontrei-me com o Martins.<\/p>\n<p>Nogueira Quem? O Martins que \u00e9 hoje meu colega?<\/p>\n<p>Frederico Mas, como ia dizendo, encontrei-me com o Martins, e conto-lhe imediatamente<br \/>\no ocorrido; ele solta uma risada, e diz-me que se achava nas mesmas condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nisto \u00e9, sem dinheiro, mas que entretanto morava j\u00e1 h\u00e1<br \/>\ndois dias (note-se que o Martins tamb\u00e9m estava fugido do col\u00e9gio.)<br \/>\nem uma casa que um estudante do 4\u00ba ano tinha deixado alugada nas f\u00e9rias.<br \/>\nIntroduzimo-nos na tal casa, e a\u00ed (Ah! Nem sei como o conte) passamos<br \/>\nquatro dias a p\u00eassegos verdes, que e ceroulas colh\u00edamos com as<br \/>\nnossas pr\u00f3prias m\u00e3os de um rafado pessegueiro que havia no quintal,<br \/>\ncomo outrora a boa m\u00e3e Eva no estado primitivo colhia os frutos da<br \/>\n\u00e1rvore proibida. No quarto dia eu estava mais magro que um canivete<br \/>\ndo Capit\u00e3o, e o Martins foi transportado para o col\u00e9gio, por<br \/>\nordem do correspondente, com uma tremenda inflama\u00e7\u00e3o de intestinos.<br \/>\n(Riem-se todos \u00e0s gargalhadas.)<\/p>\n<p>Nogueira A poesia da nossa vida consiste nesses belos epis\u00f3dios. (Para<br \/>\nMacedo.) \u00d3 Macedo, d\u00e1-me um cigarro.<\/p>\n<p>Macedo (Tirando um cigarro do bolso, e atirando para Nogueira.) Tome, e sem<br \/>\nexemplo. Na Rua de S\u00e3o Gon\u00e7alo h\u00e1 muito bons: mande comprar.<\/p>\n<p>Nogueira (Prepara o cigarro, e tirando uma caixa de f\u00f3sforos de cima<br \/>\nda mesa, acende-o) N\u00e3o duvido: por\u00e9m eu prefiro os teus. (Mudando<br \/>\nde tom.) Sil\u00eancio, que se n\u00e3o me engano a\u00ed vem o Trindade.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>CENA IV<\/h2>\n<p><b>Os Mesmos e Trindade<\/b><\/p>\n<p>(\u00c0 entrada de Trindade todos olham para o teto, palitando os dentes.<br \/>\nTrindade fica por algum tempo mudo, e para disfar\u00e7ar a sua perturba\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsegura em um livro que se acha em cima da mesa. Frederico, Nogueira e Macedo<br \/>\nprocuram abafar o riso.)<\/p>\n<p>Nogueira (Dirigindo-se a Trindade.) Bom dia, doutor.<\/p>\n<p>Trindade O senhor \u00e9 bem ordin\u00e1rio, t\u00e3o ordin\u00e1rio<br \/>\nque n\u00e3o me abaixo a responder-lhe; e se n\u00e3o fosse atender \u00e0<br \/>\nconsidera\u00e7\u00e3o de achar-se o senhor em meu quarto, j\u00e1 h\u00e1<br \/>\nmuito lhe teria quebrado uma cadeira nas costas.<\/p>\n<p>Nogueira O doutor est\u00e1 realmente queimado! Quer que lhe v\u00e1<br \/>\nbuscar um copo com \u00e1gua? Sans fa\u00e7on, sem cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Trindade Senhor Nogueira, Senhor Nogueira, n\u00e3o me insulte que eu hoje<br \/>\nperco-me.<\/p>\n<p>Nogueira Que mal lhe fiz eu, doutorzinho? Dar-se-\u00e1 caso que, sem o<br \/>\nsaber, lhe tenha invadido a esfera jur\u00eddica?<\/p>\n<p>Trindade O senhor ainda se atreve a perguntar-me que mal me tem feito? Quando<br \/>\nem plena rua se insulta um homem e o desmoralizam s\u00f3 pelo simples fato<br \/>\nde se achar ele ainda no princ\u00edpio de sua carreira; quando chama-se<br \/>\na um homem de burro e ladr\u00e3o de galinhas, sem que ele tenha ainda revelado<br \/>\nestupidez, nem atacado galinheiro de casa alguma, \u00e9 preciso ter sangue<br \/>\nde barata, Senhor Nogueira, para n\u00e3o calcar um miser\u00e1vel deste<br \/>\na p\u00e9s, e encher-lhe a cara de bofetadas. (Avan\u00e7ando para Nogueira.)<\/p>\n<p>Nogueira (Pondo uma cadeira de permeio.) N\u00e3o quer sentar-se, doutor?<\/p>\n<p>Trindade Miser\u00e1vel!<\/p>\n<p>Frederico Deixa-te de queima\u00e7\u00f5es est\u00fapidas, Trindade,<br \/>\no Nogueira n\u00e3o tem culpa da hip\u00f3tese que tomaste.<\/p>\n<p>Trindade Tamb\u00e9m voc\u00ea, s\u00f4 gaiat\u00e3o, quer divertir-se<br \/>\n\u00e1 minha custa? Vamos l\u00e1, n\u00e3o tem mais nada para dizer?<br \/>\nOra, que eu seja nesta casa debicado at\u00e9 por um bicho! Olhem por favor<br \/>\npara aquela cara.<\/p>\n<p>Frederico N\u00e3o \u00e9 l\u00e1 das piores, n\u00e3o \u00e9 das<br \/>\nmais feias.<\/p>\n<p>Trindade O senhor acha que eu sou o palito c\u00e1 da casa?<\/p>\n<p>Nogueira (Para os dois.) Psica, psica: segura Minerva, (Para Trindade.) Pega<br \/>\nTurbante. (Para Frederico.) Psica, psica.<\/p>\n<p>Trindade Psica, s\u00f4 miser\u00e1vel, diz-se aos c\u00e3es e c\u00e3o<br \/>\n\u00e9 voc\u00ea que vem aqui todos os dias filar cigarros e mendigar muitas<br \/>\nvezes obje\u00e7\u00f5es de Eclesi\u00e1stico ao Macedo, para fazer,<br \/>\nal\u00e9m de tudo, um papel rid\u00edculo na sabatina. Eu sou calouro,<br \/>\n\u00e9 verdade, por\u00e9m a primeira vez que falei em p\u00fablico,<br \/>\nn\u00e3o desonrei o meu nome nem salpiquei de lama a ilustre classe a que<br \/>\nperten\u00e7o. V\u00e1 perguntar aos colegas que figura fez o Trindade<br \/>\nna sabatina outro dia? E eles todos responder\u00e3o \u00c9 a primeira<br \/>\nque tem aparecido at\u00e9 o presente.<\/p>\n<p>Frederico e Nogueira (Tocam o bitu e gritam.) Viva o Trindade! Viva! Viva!<\/p>\n<p>Macedo (Segurando no bra\u00e7o de Trindade, procura lev\u00e1-lo para<br \/>\nfora do quarto.) Vai-te embora, Trindade, que tu est\u00e1s te prestando<br \/>\n\u00e0 vista aqui destes senhores. (Apontando para a plat\u00e9ia.)<\/p>\n<p>Nogueira Deixa o calouro, Macedo, agora \u00e9 que ele est\u00e1 come\u00e7ando<br \/>\na ficar impag\u00e1vel.<\/p>\n<p>Trindade Eu vou, Senhor Macedo, e acredite que se n\u00e3o quebro as ventas<br \/>\ndeste patife (Apontando para Nogueira.) \u00e9 em considera\u00e7\u00e3o<br \/>\nao senhor. (Indo \u00e0 direita.) \u00d3 moleque, quando estes senhores<br \/>\nsa\u00edrem fecha a porta do meu quarto. (\u00c0 parte.) Hei de acabar<br \/>\ncom o tal pagode.<\/p>\n<p>Frederico (A Nogueira.) Vamos para o meu quarto, antes que o Trindade quebre-nos<br \/>\nas ventas. Al\u00e9m disso eu tenho que te falar.(Frederico e Nogueira saem<br \/>\npela porta da esquerda.)<\/p>\n<p>Trindade (\u00c0 parte.) J\u00e1 tenho minha resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nformada, hoje mesmo ponho-me no olho da rua, e ficarei livre dessas amola\u00e7\u00f5es<br \/>\ncont\u00ednuas. (Sai pela porta do fundo.)<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>CENA V<\/h2>\n<p><b>Macedo, s\u00f3<\/b><\/p>\n<p>Macedo \u00c9 hoje o dia em que tem de vencer-se essa maldita letra, e<br \/>\nat\u00e9 o presente n\u00e3o sei o que fazer, n\u00e3o tenho um real,<br \/>\ne nem sei mesmo onde buscar dinheiro para satisfazer esse compromisso de honra.<br \/>\nConcordo que deixei-me arrastar por alguns momentos nesse turbilh\u00e3o<br \/>\nde loucuras que se me apresentou, sem pensar, nem refletir; por\u00e9m quando<br \/>\na minha honra e o meu cr\u00e9dito podiam prejudicar-se, a raz\u00e3o<br \/>\nfalou mais alto, e ent\u00e3o fugi. N\u00e3o querendo comprometer a minha<br \/>\ndignidade, assinei essa letra e n\u00e3o posso pag\u00e1-la. Oh! Malditos<br \/>\nsejam todos esses credores! (Sai pela direita.)<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>CENA VI<\/h2>\n<p><b>Neves, s\u00f3<\/b><\/p>\n<p>Neves (Entrando pela porta do fundo, fumando um cigarro, com as m\u00e3os<br \/>\nno bolso do chambre, passei por algum tempo distra\u00eddo pela cena, senta-se<br \/>\nem uma cadeira, e diz pausadamente.) Que cinismo! (Sai lentamente pela porta<br \/>\nda direita.)<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>CENA VII<\/h2>\n<p>Nogueira e Frederico (Entrando pela esquerda.)<\/p>\n<p>Frederico \u00c9 o que te digo, Nogueira, hoje vence-se uma letra que o<br \/>\nJac\u00f3 obrigou o Macedo a assinar est\u00e1 portanto realmente encalacrado.<br \/>\nAquele maldito verdugo \u00e9 capaz de fazer-lhe alguma, e eu antevejo um<br \/>\nresultado bem funesto em tudo isso.<\/p>\n<p>Nogueira Deixa o neg\u00f3cio por minha conta, e ver\u00e1s como se trata<br \/>\num credor de estudante. Acredita, Frederico; um credor de estudante \u00e9<br \/>\no animal mais covarde que pisa o solo de S\u00e3o Paulo: com quatro gritos<br \/>\ne meio abranda-se e humilha-se como o mais inocente cordeirinho. E ent\u00e3o<br \/>\neste que foge de um estudante atrevido, como o diabo da cruz! Al\u00e9m<br \/>\ndisso o Macedo \u00e9 filho-fam\u00edlia, e em face da nossa legisla\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pelas d\u00edvidas que contrai; se<br \/>\nquiser pagar \u00e9 somente para salvar a sua dignidade.<\/p>\n<p>Frederico E tu sabes qual \u00e9 a Ordena\u00e7\u00e3o que trata disso<br \/>\npara lermos ao Jac\u00f3, quando ele vier?<\/p>\n<p>Nogueira N\u00e3o, por\u00e9m \u00e9 o mesmo: improvisa-se qualquer<br \/>\nOrdena\u00e7\u00e3o, e ele engolir\u00e1 a p\u00edlula com a mesma<br \/>\nfacilidade com que qualquer de n\u00f3s engole uma das do Etchecoin. Deixa<br \/>\no neg\u00f3cio por minha conta e ver\u00e1s.<\/p>\n<p>Frederico N\u00e3o fa\u00e7as alguma das tuas costumadas pagodeiras,<br \/>\nque podes comprometer o Macedo. Eu falo-te com experi\u00eancia; estou aqui<br \/>\nh\u00e1 mais tempo que tu, e em uma ocasi\u00e3o quase fui fazer companhia<br \/>\nao Taborda por uma brincadeira desse g\u00eanero.<\/p>\n<p>Nogueira Por falar em Taborda: lembras-te daquela noite em que o Vilares<br \/>\nfoi encontrado pela patrulha nos degraus da Igreja da S\u00e9 mais b\u00eabado<br \/>\ndo que um marinheiro ingl\u00eas em terra, e que da\u00ed foi levado em<br \/>\nbra\u00e7os para a cadeia?<\/p>\n<p>Frederico Se me lembro! Nessa noite tomei eu uma carraspana de conhaque que<br \/>\ndeu-me para quebrar quantos lampi\u00f5es encontrava pelas ruas. \u00c9<br \/>\nque a claridade me fazia mal.<\/p>\n<p>Nogueira O pagode n\u00e3o termina a\u00ed: o melhor foi sair o Vilares<br \/>\nno dia seguinte pelo Largo da Cadeia de chambre e gorro bordado. Com que cara<br \/>\namarrotada vinha o pobre coitado; isso, por\u00e9m n\u00e3o o impedia<br \/>\nde marchar avante e pretensioso como um sult\u00e3o. Est\u00e1 hoje formado,<br \/>\ncasado, e dizem que \u00e9 um excelente pai de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Frederico \u00d3 tempora! \u00d3 mores! Que belos tempos! (Suspirando.)<br \/>\nTens a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>Nogueira Um cigarro? Ia te fazer o mesmo pedido.<\/p>\n<p>Frederico Pois deixa de ser filante, que \u00e9 coisa muito rid\u00edcula.<\/p>\n<p>Nogueira Qual, isto \u00e9 boato espalhado pelos vinagres. Mas, mudando<br \/>\nde assunto, j\u00e1 sabes por quem o Trindade est\u00e1 solenemente apaixonado?<\/p>\n<p>Frederico (Sentando-se na cadeira.) \u00c9 mol\u00e9stia de cabe\u00e7a,<br \/>\nn\u00e3o fa\u00e7as caso.<\/p>\n<p>Nogueira N\u00e3o, \u00e9 real: \u00e9 pela filha do Juca do Braz.<br \/>\nPassa por l\u00e1 todas as tardes, e \u00e9 raro o dia que n\u00e3o<br \/>\nvenha para casa meio triste e meio alegre.<\/p>\n<p>Frederico Explica-te.<\/p>\n<p>Nogueira Alegre, porque v\u00ea a bela, e triste, porque lhe d\u00e3o<br \/>\nvaias. A vaia parte da casa do Martins, e amanh\u00e3 convido-te para apreciarmos<br \/>\nde l\u00e1 o pagode. \u00c9 uma paix\u00e3o de Otelo!<\/p>\n<p>Frederico Qual, isto \u00e9 um gracejo teu, porque realmente a Desdemonda<br \/>\n\u00e9 uma lambisg\u00f3ia.<\/p>\n<p>Nogueira \u00c9 uma paix\u00e3o diab\u00f3lica que o levou \u00e0<br \/>\nloucura de empenhar um fraque! Isto deu lugar a que o Martins parodiasse esta<br \/>\npoesia do Furtado Coelho Quero fugir-te, mas n\u00e3o posso, \u00f3 virgem.<\/p>\n<p>Frederico E sabes a par\u00f3dia?<\/p>\n<p>Nogueira &#8211; L\u00e1 vai (Sentando-se ao piano.) Quando pretendem voc\u00eas<br \/>\nmandar levar este piano l\u00e1 para a casa? Voc\u00eas souberam mandar<br \/>\nbusc\u00e1-lo para o pagode, mas&#8230;<\/p>\n<p>Frederico Recita a poesia, e deixa-te de ma\u00e7adas.<\/p>\n<p>Nogueira (Acompanhando o recitativo.)<\/p>\n<p>Quero fugir-te, mas n\u00e3o posso, \u00f3 fraque,<\/p>\n<p>Ah! Sou levad pela on\u00e7a ingrata!<\/p>\n<p>Quero fugir-te, mas fatal ataque<\/p>\n<p>Me lan\u00e7a em terra, me desgra\u00e7a e mata!<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado ao prego \u00e9s meu vedado pomo,<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m no mundo minha dor compreende,<\/p>\n<p>Quero fugir-te, quero, sim, mas como?<\/p>\n<p>Para enganar-me digo muitas vezes,<\/p>\n<p>Que \u00e9s velho, infame que \u00e9 loucura amar-te:<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me lembro que n\u00e3o h\u00e1 dois meses,<\/p>\n<p>Que eu fui \u00e0 casa do Fresneau buscar-te.<\/p>\n<p>Oh! Quantas vezes eu passava as horas,<\/p>\n<p>Mirando as gra\u00e7as de teu talhe airoso,<\/p>\n<p>Hoje perdido para mim tu choras,<\/p>\n<p>Pendido ao prego, ferrugento, idoso.<\/p>\n<p>Fraque querido&#8230;<br \/>\n(Representando.) \u00d3 diabo, n\u00e3o me lembro do resto.<\/p>\n<p>Frederico Bravo, bonito, sim senhor.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>CENA VIII<\/h2>\n<p><b>Os Mesmos e Neves<\/b><\/p>\n<p>Neves (Entrando pela direita.) Que cinismo! Meus senhores, estou-os cumprimentando.<br \/>\n(Tira do bolso um canivete e, deitando-se na cama, come\u00e7a a aparar<br \/>\nas unhas.)<\/p>\n<p>Frederico Que furioso c\u00ednico! \u00c9 capaz de levar todo o dia ali<br \/>\nnaquela cama, aparando unhas,e contando as t\u00e1buas do teto. Em S\u00e3o<br \/>\nPaulo h\u00e1 duas classes de vadios: uns que, parecendo ter o do da ubiq\u00fcidade,s<br \/>\ne apresentam em toda a parte, em bailes, teatros, festas de igreja, leil\u00f5es<br \/>\ndo Joly, novenas, etc, menos na Academia; outros que, inimigos do progresso<br \/>\ne da atividade, passam onde deixam \u00e0 vontade crescer o abd\u00f4men.<br \/>\nTu pertences \u00e0 primeira seita, e c\u00e1 o senhor, que est\u00e1<br \/>\ndeitado, \u00e0 \u00faltima.<\/p>\n<p>Nogueira Fechaste a porta do meu quarto quando sa\u00edste, Neves?<\/p>\n<p>Neves (Pausadamente) Sim, fechei. (Muda de posi\u00e7\u00e3o na cama.)<\/p>\n<p>Frederico Tens um companheiro de casa assaz divertido!<\/p>\n<p>Nogueira H\u00e1 dias que n\u00e3o diz uma palavra; no entretanto \u00e9<br \/>\no homem que mais aprecia uma prosa, deitado em uma boa cama, j\u00e1 se<br \/>\nsabe, sem nada dizer, mas pronto para tudo ouvir. E sabes qual \u00e9 a<br \/>\nespecialidade de prosa que ele mais aprecia?<\/p>\n<p>Frederico Sem d\u00favida ca\u00e7ada de veados ou cruzamento de ra\u00e7as<br \/>\nde cavalo?<\/p>\n<p>Nogueira Nada, coisa mais s\u00e9ria; \u00e9 a tese das teses a vida<br \/>\nalheia. Respeita-o como uma das primeiras rabecas de S\u00e3o Paulo: toca<br \/>\nadmiravelmente varia\u00e7\u00f5es sobre motivos de qualquer tema; tem<br \/>\narcadas de Paganini. Tamb\u00e9m n\u00e3o respeita ningu\u00e9m: \u00e9<br \/>\num verdadeiro pag\u00e3o!<\/p>\n<p>Frederico E qual \u00e9 o sistema da rabequea\u00e7\u00e3o que ele<br \/>\nmais aprecia? Sim, porque h\u00e1 diversos sistemas de rabequear.<\/p>\n<p>Neves Falem mais alto que eu tamb\u00e9m vim para a prosa.<\/p>\n<p>Nogueira Falamos dos diversos sistemas de rabequea\u00e7\u00e3o, e o<br \/>\nFrederico tem a palavra.<\/p>\n<p>Frederico (Em atitude magistral.) Pois, meus amigos, pela experi\u00eancia<br \/>\nque tenho, atrevo-me a oferecer-lhes uma brilhante prele\u00e7\u00e3o<br \/>\nsobre este assunto. Querem?<\/p>\n<p>Nogueira Sim, venha l\u00e1 isso.<\/p>\n<p>Neves Topo.<\/p>\n<p>Frederico (Com dignidade c\u00f4mica.) H\u00e1 sujeitos que rabequeiam<br \/>\nde uma maneira insinuativa: eu me explico melhor h\u00e1 sujeitos, por exemplo,<br \/>\nque nas suas arcadas dizem: \u201cO Nogueira \u00e9 um tratante, um canalha,<br \/>\num miser\u00e1vel, um caloteiro, mas no entretanto \u00e9 bom mo\u00e7o,<br \/>\ncumpre as suas obriga\u00e7\u00f5es, tem boa alma, toma regularmente a<br \/>\nsua carraspana, por divertimento, j\u00e1 se v\u00ea, desmoraliza-se em<br \/>\nlugares p\u00fablicos, mas n\u00e3o \u00e9 mau rapaz, tem bons sentimentos\u201d.<br \/>\nEste \u00e9 o sistema aristocr\u00e1tico, rabeca de sal\u00e3o, e que<br \/>\ntem grande n\u00famero de sect\u00e1rios. O segundo \u00e9 o sistema<br \/>\ndos ronhas. O ronha \u00e9 o homem que exerce a ronha. A ronha pode-se estender<br \/>\na todos os atos humanos: assim \u00e9, por exemplo, ronha o beato ou o hip\u00f3crita<br \/>\nque, acabando de bater nos peitos na igreja, vem c\u00e1 fora entregar-se<br \/>\nreligiosamente \u00e0s del\u00edcias de C\u00e1pua. Parece-me que n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 estudantes dessa natureza; no entretanto, se \u00e9 que h\u00e1,<br \/>\nsou de opini\u00e3o que andem de mantilha para se distinguir dos outros.<br \/>\nMas a ronha, aplicada especialmente \u00e0 hip\u00f3tese vertente, \u00e9<br \/>\num certo desprezo e mesmo rancor que alguns sujeitos parecem afetar em uma<br \/>\nprosa de vida alheia, mas que entretanto extasiam-se \u00e0s mais pequenas<br \/>\nnotas de instrumento divino, como o poeta se expande diante do belo. Estes<br \/>\nentram somente de ouvido, e s\u00e3o tantos os sect\u00e1rios como os<br \/>\nadmiradores do Padre Pereira.<\/p>\n<p>Nogueira A compara\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo de bicho.<\/p>\n<p>Frederico N\u00e3o me interrompa. O terceiro sistema \u00e9 o dos que<br \/>\nfalam mal de tudo e de todos e n\u00e3o encontram nos homens sen\u00e3o<br \/>\ndefeitos: \u00e9 o exclusivismo, e peca como todos os sistemas exclusivistas.<\/p>\n<p>Nogueira \u00c9 o sistema do Neves.<\/p>\n<p>Frederico Justamente.<\/p>\n<p>Neves N\u00e3o tanto.<\/p>\n<p>Frederico O quarto sistema \u00e9 o dos que rabequeiam por mero passatempo,<br \/>\npara suavizar as horas de cinismo. \u00c9 este o sistema que quase todos<br \/>\nn\u00f3s seguimos, \u00e9 o menos nocivo, e o que produz menos males,<br \/>\nporque n\u00e3o \u00e9 o \u00f3dio nem o rancor que preside a prosa,<br \/>\nmas apenas um desejo de pagode. Tais s\u00e3o, senhores, as observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nque tenho colhido de minha longa vida de bicho, e que procurarei ir aperfei\u00e7oando<br \/>\ncom o correr dos tempos.<\/p>\n<p>Nogueira Bravo! Falas com a experi\u00eancia de um velho: \u00e9s um alcor\u00e3o;<br \/>\nentretanto esqueces o sistema dos mitras, que tecem os maiores paneg\u00edricos<br \/>\na um sujeito pela frente e por detr\u00e1s n\u00e3o s\u00e3o rabecas,<br \/>\ns\u00e3o rabec\u00f5es.<\/p>\n<p>Frederico Cada dia aparecem novos sistemas, e eu ultimamente n\u00e3o estou<br \/>\nmuito a par do progresso da ci\u00eancia, porque os credores n\u00e3o me<br \/>\ndeixam p\u00f4r o nariz na rua.<\/p>\n<p>Neves Voc\u00eas est\u00e3o muito c\u00ednicos.<\/p>\n<p>Nogueira (Rindo-se.) Este desgra\u00e7ado ainda acaba tocando realejo para<br \/>\nse distrair.<\/p>\n<p>Frederico \u00d3 Neves! Diz alguma coisa para animar a prosa: est\u00e1s<br \/>\nmesmo de neve.<\/p>\n<p>Neves Voc\u00eas est\u00e3o estupidamente c\u00ednicos: eu me retiro.<br \/>\n(Levanta-se da cama e sai pela porta do fundo.)<\/p>\n<p>Frederico \u00d3 Neves! Amanh\u00e3 aparece mais cedo para prosearmos.<br \/>\n(Nogueira e Frederico riem-se \u00e0s gargalhadas.)<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>CENA IX<\/h2>\n<p><b>Frederico, Nogueira e Trindade<\/b><\/p>\n<p>Trindade (Entrando com dois negros, aponta para as canastras.) Rapaz , segura<br \/>\nali. (Virando-se para o outro negro.) Rapaz, ajuda ali teu parceiro. Irra!<br \/>\nHoje acaba-se o pagode, mudo-me, e est\u00e1 tudo decidido.<\/p>\n<p>Nogueira (Para Frederico.) \u00c9 preciso abrandarmos o homem. O Macedo,<br \/>\nquando souber que fui eu a causa da mudan\u00e7a do calouro, queima-se comigo,<br \/>\ne eu n\u00e3o estou para indispor-me com ele. N\u00e3o quero ser o ponto<br \/>\nde disc\u00f3rdia desta casa. Vou fazer as pazes com o calouro. (Para Trindade,<br \/>\nbatendo-lhe no ombro.) N\u00e3o sejas crian\u00e7a, Trindade, foi uma<br \/>\nbrincadeira pr\u00f3pria de rapazes.<\/p>\n<p>Trindade V\u00e1-se embora, senhor, n\u00e3o me aborre\u00e7a.<\/p>\n<p>Frederico Voc\u00ea tamb\u00e9m cavaqueia com qualquer coisa, encordoa<br \/>\npor uma bagatela.<\/p>\n<p>Trindade Pois \u00e9 qualquer coisa, \u00e9 bagatela ser um homem constantemente<br \/>\namolado, n\u00e3o poder dizer uma palavra que n\u00e3o lhe respondam com<br \/>\nquatro gargalhadas n\u00e3o poder sair \u00e0 rua sob pena de lhe gritarem:<br \/>\n\u00f3 burro, \u00f3 sandeu, \u00f3 calouro? Isto \u00e9 bonito? \u00c9<br \/>\npr\u00f3prio de mo\u00e7os decentes e civilizados que freq\u00fcentam<br \/>\nos bancos de uma Academia?<\/p>\n<p>Nogueira Concordo com tudo que quiseres; mas d\u00e1-me um abra\u00e7o<br \/>\ne fa\u00e7amos as pazes. (Trindade deixa-se abra\u00e7ar um pouco friamente.)<br \/>\nManda os pretos embora, e continua a viver com os teus companheiros que te<br \/>\nestimam como um bom menino que \u00e9s. Deixa-te de crian\u00e7adas, e<br \/>\nviva a p\u00e2ndega!<\/p>\n<p>Trindade Pois bem, se juram doravante tratar-me como um companheiro de casa,<br \/>\ne n\u00e3o como um c\u00e3o, fico.<\/p>\n<p>Nogueira e Frederico Juramos.<\/p>\n<p>Trindade (Virando-se para os negros.) Ponham-se fora. (Os negros saem.)<\/p>\n<p>Nogueira (Abra\u00e7ando a Trindade.) Viva a concilia\u00e7\u00e3o!<br \/>\nSe tiv\u00e9ssemos uma boa garrafa de vinho, poder\u00edamos tornar mais<br \/>\nsolene este tratado de paz.<\/p>\n<p>Trindade Se prometem cumprir o juramento, isso \u00e9 o que menos custa.<br \/>\nTenho ali na canastra duas garrafas de vinho que me restaram do pagode que<br \/>\ndei no dia de minha sabatina&#8230;<\/p>\n<p>Nogueira (\u00c0 parte.) Sempre desfrut\u00e1vel.<\/p>\n<p>Frederico (\u00c0 parte.) L\u00e1 vem a sabatina.<\/p>\n<p>Trindade (Continuando.) E podemos esvazi\u00e1-las.<\/p>\n<p>Frederico e Nogueira Prometemos.<\/p>\n<p>Nogueira Eu ainda levo a minha promessa mais longe: prometo que de hoje em<br \/>\ndiante serei o teu mais fiel e dedicado amigo.(\u00c0 parte.) \u00d3 m\u00e1gico<br \/>\npoder do vinho.<\/p>\n<p>Trindade Pois bem, viva a rapaziada e vamos \u00e0 p\u00e2ndega. (Enquanto<br \/>\nTrindade tiras as garrafas da canastra, Frederico e Nogueira fazem-lhe gaifonas<br \/>\npelas costas.) Aqui est\u00e3o, rapaziada. (D\u00e1 uma garrafa a Nogueira<br \/>\ne fica com a outra.)<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>CENA X<\/h2>\n<p><strong>Os mesmos e Macedo <\/strong><\/p>\n<p>Macedo (\u00c0 parte.) Aproxima-se o momento fatal: \u00e9 quase meio-dia,<br \/>\ne o verdugo n\u00e3o tarda a aparecer. (Reparando para o grupo.) Pois qu\u00ea,<br \/>\nj\u00e1 fizeram as pazes?<\/p>\n<p>Nogueira N\u00e3o h\u00e1 copos nem saca-rolha.<\/p>\n<p>Frederico Saca-rolha h\u00e1 um aqui em cima da mesa. (Tira o saca-rolha<br \/>\ne d\u00e1 a Nogueira.) Quanto a copos dispensa-se perfeitamente, podemos<br \/>\nbeber pela garrafa \u00e9 mais cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>Trindade Est\u00e1 dito, vai-se ao gargalo. (Recebe o saca-rolha e abre<br \/>\na garrafa.)<\/p>\n<p>Nogueira Viva o Trindade. (Bebe.)<\/p>\n<p>Frederico (Tirando-lhe a garrafa.) Alto frente: ainda n\u00e3o bebi. \u00c0<br \/>\nsa\u00fade de sua brilhante sabatina, Senhor Trindade. (Vira a garrafa.)<\/p>\n<p>Trindade Meus senhores, um brinde: \u00e0 sa\u00fade da emancipa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo primeiranista, e \u00e0 morte de todos esses preju\u00edzos acad\u00eamicos<br \/>\nque herdamos da velha Coimbra. \u00c0 sa\u00fade de todas aquelas por<br \/>\nquem nossos cora\u00e7\u00f5es palpitam.<\/p>\n<p>Nogueira (Para Frederico.) Percebo. A filha do Juca do Braz.<\/p>\n<p>Trindade Viva a mocidade inteligente e briosa que abandonando, que abandonando,<br \/>\nque&#8230;<\/p>\n<p>Frederico (\u00c0 parte.) Temos cabeleira.<\/p>\n<p>Nogueira N\u00e3o se engasgue, d\u00ea-me o caro\u00e7o.<\/p>\n<p>Trindade &#8211; &#8230;as afei\u00e7\u00f5es mais caras, o lar dom\u00e9stico<br \/>\ne a terra que lhe deu o ser, v\u00eam, longe de tudo isso, conquistar os<br \/>\nlouros que engrinaldaram a fronte de Homero, Tasso, Petrarca, Dante e Cam\u00f5es<br \/>\nque, cantando as a\u00e7\u00f5es her\u00f3icas dos Lusitanos, enxergava<br \/>\num horizonte de gl\u00f3rias no futuro.<\/p>\n<p>Frederico E assim mesmo n\u00e3o via pouco; olhe que tinha s\u00f3 um<br \/>\nolho.<\/p>\n<p>Nogueira Pelo menos assim o diz a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Trindade (Pulando em cima da cadeira com entusiasmo.) Vou arrematar este<br \/>\nbrinde, senhores, bebendo \u00e0 sa\u00fade daquelas id\u00e9ias que<br \/>\nmais se harmonizam com o estado de perfectibilidade e civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos povos: \u00e0 sa\u00fade das id\u00e9ias republicanas. (Vira a garrafa<br \/>\ntoda.)<\/p>\n<p>Viva o Porto,<\/p>\n<p>Viva o Madeira,<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 tolice<\/p>\n<p>Uma cabeleira.<\/p>\n<p>(Todos, menos Macedo.)<\/p>\n<p>Viva o Porto,<\/p>\n<p>Viva o Madeira,<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 tolice<\/p>\n<p>Uma cabeleira.<\/p>\n<p>Nogueira (\u00c0 parte.) O vinho j\u00e1 come\u00e7a a fazer efeito<br \/>\nantes de tempo. (Para Trindade.) Passa-me a garrafa.<\/p>\n<p>Trindade (Descendo da cadeira.) J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais nada.<br \/>\n(Vira a garrafa de boca para baixo.)<\/p>\n<p>Macedo (Que durante esse tempo passeia pensativo.) Entretanto esqueceram-se<br \/>\nde mim.<\/p>\n<p>Nogueira Pois tamb\u00e9m est\u00e1s hoje t\u00e3o c\u00ednico! N\u00e3o<br \/>\nsei o que tens.<\/p>\n<p>Trindade (Mal podendo suster-se em p\u00e9.) Que diabo, anda-me tudo \u00e0<br \/>\nroda&#8230;o tal vinho \u00e9 forte. \u00d3 Nogueira, tu est\u00e1s meio<br \/>\nfardado, fala franco. Est\u00e1-me tudo a andar \u00e0 roda&#8230; \u00d3<br \/>\nNogueira anda c\u00e1, d\u00e1-me ali aquela vela para acender um cigarro.<br \/>\n(Mete a m\u00e3o no bolso, e tira da algibeira um l\u00e1pis que p\u00f5e<br \/>\nna boca, julgando ser um cigarro.) que diabo tem este fumo? (Olhando para<br \/>\no l\u00e1pis.) Est\u00e1 furado. (Atira o l\u00e1pis no ch\u00e3o.)<\/p>\n<p>Frederico (Encostando-se \u00e0 mesa.) Furada est\u00e1 a tua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Nogueira De que cor \u00e9 esta linha, Trindade?<\/p>\n<p>Trindade Que pagode, minha comadre. Vem c\u00e1, Mariquinha, n\u00e3o<br \/>\nfujas; olha que \u00e9 teu benzinho quem fala.<\/p>\n<p>Nogueira (Segurando em Macedo, e puxando Frederico.) N\u00e3o sejam c\u00ednicos,<br \/>\nvamos formar aqui uma p\u00e2ndega, e apreciar o Trindade enquanto est\u00e1<br \/>\nimpag\u00e1vel. Dance-se o cancan, e viva o pagode.(A orquestra toca a \u00faltima<br \/>\nquadrilha da Corda Sens\u00edvel -; Frederico e Nogueira dan\u00e7am em<br \/>\ncancan desesperado, e Trindade sempre cambaleando embrulha-se no cobertor<br \/>\nencarnado, trepa em cima da cama, e a\u00ed dan\u00e7a um cancan infernal,<br \/>\nno meio do qual Jac\u00f3 aparece no fundo, e o cancan continua.)<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>CENA XI<\/h2>\n<p><b>Os mesmos e Jac\u00f3<\/b><\/p>\n<p>Jac\u00f3 (Entrando.) Com licen\u00e7a, meus senhores. (Macedo e Frederico<br \/>\nescondem-se na porta da esquerda. Nogueira p\u00e1ra espantado, olhando<br \/>\npara Jac\u00f3, obriga-o a valsar pelo meio da cena e largando-o de repente,<br \/>\natira-o de costas.) \u00c9 desta maneira (Levantando-se e sacudindo a roupa.)<br \/>\nque os senhores recebem as pessoas? (\u00c0 parte.) Se n\u00e3o viesse<br \/>\nbuscar dinheiro&#8230;\u00e9 preciso humilhar-me para ver se o pilho. (Alto.)<br \/>\nN\u00e3o sabem dizer se o Senhor Doutor Macedo est\u00e1 em casa?<\/p>\n<p>Nogueira Julgo que n\u00e3o. O senhor deseja alguma coisa? \u00c9 sem<br \/>\nd\u00favida dinheiro que vem buscar?<\/p>\n<p>Jac\u00f3 (Risonho.) Como o senhor doutor adivinha; \u00e9 isso mesmo.<br \/>\nVossa Senhoria \u00e9 muito pitoresco. Vence-se hoje uma letra que o Senhor<br \/>\nDoutor Macedo assinou, e eu vim buscar os 300$000 por que ele se obrigou.<\/p>\n<p>Nogueira Queira sentar-se. (Na ocasi\u00e3o em que Jac\u00f3 vai sentar-se,<br \/>\nTrindade puxa-lhe a cadeira, e atira-o de costas.)<\/p>\n<p>Jac\u00f3 (Furioso.) O senhor n\u00e3o me deixar\u00e1! (\u00c0 parte.)<br \/>\nEste sujeito est\u00e1 b\u00eabado.<\/p>\n<p>Trindade (Batendo-lhe no ombro.) Excelso vinagr\u00e3o, eu te sa\u00fado.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 (Risonho.) Isso \u00e9 lisonja, senhor doutor.<\/p>\n<p>Nogueira (Vai buscar o viol\u00e3o, e vem sentar-se em cima da mesa ao<br \/>\np\u00e9 de Jac\u00f3.) Tenha a bondade de explicar-se pausadamente para<br \/>\nque eu o entenda.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 Eu j\u00e1 disse ao que vim. (Nogueira acompanha-lhe a frase<br \/>\na viol\u00e3o.)<\/p>\n<p>Nogueira Pode continuar.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 O Senhor Doutor Macedo deve-me j\u00e1 h\u00e1 dois anos<br \/>\n300$000 (Nogueira acompanha-o a viol\u00e3o.) e para garantia dessa d\u00edvida<br \/>\npedi-lhe que me assinasse uma letra&#8230;(Acompanhamento de viol\u00e3o.) Senhor<br \/>\nDoutor, olhe que falo s\u00e9rio: deixe-se de ca\u00e7oadas. (Acompanhamento<br \/>\nde viol\u00e3o.)<\/p>\n<p>Nogueira Senhor Jac\u00f3, tenha a bondade de falar outra vez e repetir<br \/>\no recitativo, para ver como \u00e9 sonoro este acompanhamento. (Fere o viol\u00e3o.)<\/p>\n<p>Jac\u00f3 (Levantando-se.) Eu n\u00e3o vi, aqui para ouvir m\u00fasica,<br \/>\nsenhor doutor; quando quero vou \u00e0s retretas.<\/p>\n<p>Nogueira Est\u00e1 incomodado, Senhor Jac\u00f3? A retrete \u00e9 no<br \/>\nfundo do corredor \u00e0 esquerda. (Indicando a porta da direita.)<\/p>\n<p>Jac\u00f3 S \u00f3 o que desejo \u00e9 falar com o Senhor Doutor Macedo.<br \/>\n(Acompanhamento.)<\/p>\n<p>Frederico (Para Macedo.) O Nogueira com aquele debique \u00e9 capaz de<br \/>\ncomprometer-te.<\/p>\n<p>Macedo Haja o que houver eu n\u00e3o apare\u00e7o.<\/p>\n<p>Nogueira (Continuando a tocar.) Ora, Senhor Jac\u00f3, esque\u00e7a-se<br \/>\ndisso: o Macedo est\u00e1 sem dinheiro, e ainda mesmo que tivesse \u00e9<br \/>\nfilho-fam\u00edlia, e n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel pelas obriga\u00e7\u00f5es<br \/>\nque contrai.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 (Furioso.) N\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel, senhor doutor!<br \/>\nN\u00e3o me diga isso: a letra est\u00e1 assinada por ele, e em nome de<br \/>\nsua dignidade deve pag\u00e1-la.<\/p>\n<p>Trindade (Dando uma encapela\u00e7\u00e3o em Jac\u00f3.) Est\u00e1<br \/>\nqueimado! Viva o rei dos Vinagres!<\/p>\n<p>Jac\u00f3 Olhe que o senhor est\u00e1 me fazendo chegar a mostarda ao<br \/>\nnariz. (Faz men\u00e7\u00e3o de avan\u00e7ar para Trindade.)<\/p>\n<p>Nogueira (Empurrando-o) Ponha-se fora.<\/p>\n<p>Frederico (Entrando em cena.) Fora! Fora! (Trindade d\u00e1 uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde encapela\u00e7\u00f5es em Jac\u00f3, Nogueira d\u00e1-lhe com o<br \/>\nviol\u00e3o nas costas, e Frederico ri-se \u00e0s gargalhadas.)<\/p>\n<p>Macedo (Entrando.) O homem queima-se e \u00e9 capaz de fazer alguma.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 (Sai pela porta do fundo aos empurr\u00f5es, e voltando, p\u00e1ra<br \/>\nna porta.) Isto \u00e9 um estorp\u00edcio, \u00e9 um vandalismo. Por<br \/>\nterem for\u00e7a julgam-se uns Rockchilles. Hei de mostrar o que \u00e9<br \/>\num negociante ofendido em sua dignidade! Eu j\u00e1 volto acompanhado. (Sai.)<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>CENA XII<\/h2>\n<p><b>Frederico, Nogueira, Macedo, Trindade e depois Neves<\/b><\/p>\n<p>Trindade (Ainda envolvido no cobertor encarnado, deita-se de barriga para<br \/>\nbaixo em cima da cama.) Que pagodeira!<\/p>\n<p>Neves (Entrando com toda a fleuma.) Que algazarra foi esta que voc\u00eas<br \/>\nfizeram?<\/p>\n<p>Nogueira Foi uma pequena corre\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica em um credor.<\/p>\n<p>Macedo Voc\u00eas com o seu pagode acabam de comprometer-me. O homem saiu<br \/>\ndesesperado.<\/p>\n<p>Frederico Ele \u00e9 incapaz de queimar-se: aquilo foi fogo de cavaco.<\/p>\n<p>Nogueira Eu responsabilizo-me pelo resultado.<\/p>\n<p>Trindade (Levantando-se da cama.) Esteve riqu\u00edssima a pagodeira. \u00d3<br \/>\nNogueira! Tu viste a cara com que saiu o Jac\u00f3? O homem saiu vraiment<br \/>\nindignado! \u00d3 Frederico! Passa a garrafa, e vamos beber \u00e0 sa\u00fade<br \/>\ndo Jac\u00f3. Ora esta, homem, quem me vir \u00e9 capaz de apostar que<br \/>\nestou b\u00eabado.<\/p>\n<p>Frederico Qual, n\u00e3o tens nada: est\u00e1s somente com um fard\u00e3o<br \/>\nde grande gala.<\/p>\n<p>Macedo (Passeando.) Vejamos qual \u00e9 o desfecho desta trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Nogueira Eu j\u00e1 te disse que n\u00e3o te maces; deixa correr o neg\u00f3cio<br \/>\npor minha conta.<\/p>\n<p>Neves Mas que diabo de cinismo: eu n\u00e3o os entendo.<\/p>\n<p>Trindade Nem eu t\u00e3o pouco, meu amigo.<\/p>\n<p>Nogueira Pois eu lhes explico, meus amigos. O Macedo deve 300$000 ao Jac\u00f3,<br \/>\nele veio cobr\u00e1-los, e n\u00f3s toc\u00e2mo-lo a cacha\u00e7\u00f5es<br \/>\npela porta fora. \u00c9 uma coisa muito natural, e que nada tem de extraordin\u00e1rio:<br \/>\nseria extraordin\u00e1rio se o Macedo pagasse a d\u00edvida e o deixasse<br \/>\nsair impunemente.<\/p>\n<p>Trindade L\u00e1 isso \u00e9; tem toda a raz\u00e3o. Mas que diabo<br \/>\ntenho eu que est\u00e1 tudo a andar-me \u00e0 roda? E esta? Parece-me<br \/>\nque tenho tanta gente na minha frente; dar-se-\u00e1 o caso que e esteja<br \/>\nem aula? \u00d3 Ara\u00fajo! D\u00e1-me o comp\u00eandio, e passa-me<br \/>\numa li\u00e7\u00e3o que eu estou in albis.<\/p>\n<p>Frederico (Segurando em Trindade e procurando lev\u00e1-lo para a cama.)<br \/>\nVai-te deitar, Trindade, que tu est\u00e1s meio incomodado.<\/p>\n<p>Trindade Quem? Eu incomodado? \u00d3 Frederico! N\u00e3o me insultes;<br \/>\nolha, eu vou aqui \u00e0 rep\u00fablica vizinha, e v\u00ea s\u00f3<br \/>\na certeza com que ando. (Vai cambaleando para o fundo da cena , e encontrando-se<br \/>\ncom Jac\u00f3, que entra com um oficial de justi\u00e7a, atira-o ao ch\u00e3o.)<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>CENA XIII<\/h2>\n<p><b>Os mesmos, Jac\u00f3 e um Oficial de Justi\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>Jac\u00f3- N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida este sujeito est\u00e1<br \/>\ntocado.<\/p>\n<p>Trindade Levante-se, que eu n\u00e3o brigo com homem deitado.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 (Levantando-se.) Pois, meus senhores agora espero obter um melhor<br \/>\nresultado, porque trouxe uma boa carta de recomenda\u00e7\u00e3o de pessoa<br \/>\ninfluente, a quem os senhores n\u00e3o podem deixar de servir. (Tira do<br \/>\nbolso uma cita\u00e7\u00e3o, e entrega a Macedo.)<\/p>\n<p>Macedo (Lendo.) \u00c9 uma cita\u00e7\u00e3o; eis o desfecho terr\u00edvel<br \/>\nque eu esperava de tudo isso.<\/p>\n<p>Nogueira Uma cita\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Jac\u00f3 Quando vim pela primeira vez j\u00e1 a tinha comigo; pois sabia<br \/>\nperfeitamente que o Senhor Macedo havia de esquivar-se ao pagamento da d\u00edvida;<br \/>\npor\u00e9m o acolhimento ben\u00e9volo que aquele senhor (Apontando para<br \/>\nTrindade.) prodigalizou-me e obrigou-me a ir pedir o aux\u00edlio da justi\u00e7a<br \/>\npara fazer valer o meu direito: \u00e9 a raz\u00e3o por que volto agora<br \/>\ncom este senhor.<\/p>\n<p>Macedo E julga o senhor que vem fazer valer o seu direito quando usa de uma<br \/>\ninf\u00e2mia?<\/p>\n<p>Frederico (Batendo o p\u00e9.) Sim, \u00e9 uma inf\u00e2mia.<\/p>\n<p>Trindade (Cambaleando para ele, e dando-lhe um arroto na cara.) \u00c9<br \/>\num desaforo; \u00e9 uma vinagreira.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 Ser\u00e1 tudo o que os senhores quiserem.<\/p>\n<p>Nogueira Pois bem, se eram os seus des\u00edgnios comprometer a reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\nsem mancha de um mo\u00e7o, fazendo-o comparecer perante uma autoridade<br \/>\npor um motivo que o difama e extorquir depois, abrigado \u00e0 sombra da<br \/>\nlei, o dinheiro que lhe roubou, se eram estes os seus des\u00edgnios, Senhor<br \/>\nJac\u00f3, fique convencido que nunca os realizaria. Eu j\u00e1 volto.<br \/>\n(Sai precipitadamente.)<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>CENA XIV<\/h2>\n<p><b>Trindade, Jac\u00f3, Frederico, Macedo, Neves, depois Nogueira<\/b><\/p>\n<p>Jac\u00f3 (\u00c0 parte.) Eles todos falam em dignidade, em vinagreira<br \/>\ne dizem tudo o que lhes vem \u00e0 boca, mas quando t\u00eam de bater o<br \/>\ncobre, v\u00eam com desculpas, quando n\u00e3o d\u00e3o para atrevidos.<\/p>\n<p>Macedo Ent\u00e3o com que o senhor esperava que eu havia de esquivar-me<br \/>\nao pagamento da d\u00edvida? (Com furor.) O senhor \u00e9 bem ordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 Ora, senhor doutor, isto n\u00e3o vai a zangar.<\/p>\n<p>Frederico( \u00c0 parte.) O que iria fazer o Nogueira em casa?<\/p>\n<p>Trindade Estes credores s\u00e3o tem\u00edveis!<\/p>\n<p>Macedo \u00c9 bem triste a minha posi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m a<br \/>\nsua ainda \u00e9 mais, \u00e9 degradante. Diga-me, finalmente, Senhor<br \/>\nJac\u00f3, o que pretende fazer?<\/p>\n<p>Nogueira (Entrando apressado.) Coisa nenhuma. (Para Macedo.) Aqui tens o<br \/>\ndinheiro que te devo.<\/p>\n<p>Macedo Dinheiro que me deves?<\/p>\n<p>Nogueira (Em voz baixa.) Cala-te e aceita. Senhor Jac\u00f3, a sua d\u00edvida<br \/>\nvai ser satisfeita, mas antes de tudo h\u00e1 de ouvir-me. H\u00e1 ladr\u00f5es<br \/>\nque, embrenhando-se pelas matas, assaltam os viandantes de pistola e faca;<br \/>\nh\u00e1 outros que roubam de luva de pelica nos sal\u00f5es da nossa aristocracia,<br \/>\nestes t\u00eam por campo de batalha uma mesa de jogo; h\u00e1 outros, finalmente,<br \/>\nos mais corruptos, que s\u00e3o aqueles que, arrimados a um balc\u00e3o,<br \/>\nroubam com papel, pena e tinta. O senhor faz honra a esta \u00faltima esp\u00e9cie:<br \/>\n\u00e9 um ladr\u00e3o e um ladr\u00e3o muito mais perigoso do que os<br \/>\noutros. D\u00ea-me essa letra, documento aut\u00eantico de sua inf\u00e2mia<br \/>\ne tome o seu dinheiro. (Tira o dinheiro da m\u00e3o de Macedo, e esfrega-lhe<br \/>\nna cara.)<\/p>\n<p>Jac\u00f3 Ora, senhor doutor, n\u00e3o se zangue; deixe-se de brincadeiras.<\/p>\n<p>Macedo (Abra\u00e7ando Nogueira.) Obrigado, meu amigo, obrigado. Acabas<br \/>\nde provar que tens uma alma grande e generosa, que, no meio dos risos e folguedos<br \/>\npr\u00f3prios da nossa idade, n\u00e3o olvidas esses sentimentos sagrados,<br \/>\nque tanto enobrecem o cora\u00e7\u00e3o do bom amigo. Obrigado, obrigado.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 (Que durante esse tempo est\u00e1 contando o dinheiro.) Est\u00e1<br \/>\nexato. Agora vamos fazer outra visita. O dia est\u00e1 feliz.<\/p>\n<p>Nogueira Ponha-se fora. (Todos tocam Jac\u00f3 pela porta fora.)<\/p>\n<p>Trindade Viva a p\u00e2ndega! (Cai na cama.)<\/p>\n<p>Neves (Olhando ao redor da cena .) Que cinismo!<\/p>\n<p>(Toca a orquestra a \u00faltima quadrilha da Corda Sens\u00edvel; dan\u00e7am<br \/>\ntodos o cancan.)<\/p>\n<p>(Cai o pano.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: CENA I CENA II CENA III CENA IV CENA V CENA VI CENA VII CENA VIII CENA IX CENA X CENA XI CENA XII CENA XIII CENA XIV A Quem Ler Duas palavras sobre aquelles que, na noite de 17 de Julho de 1861, tanto contribu\u00edram [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96031","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior Meia Hora do Cinismo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior, Obra Liter\u00e1ria, Livro, Frederico, Macedo, Joaquim C\u00e2mara, Nogueira, Literatura, Meia Hora do Cinismo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior Meia Hora do Cinismo\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior, Obra Liter\u00e1ria, Livro, Frederico, Macedo, Joaquim C\u00e2mara, Nogueira, Literatura, Meia Hora do Cinismo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-23T17:40:06+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"34 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/meia-hora-do-cinismo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/meia-hora-do-cinismo\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Meia Hora do Cinismo\",\"datePublished\":\"2017-01-23T17:40:06+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/meia-hora-do-cinismo\"},\"wordCount\":6743,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/meia-hora-do-cinismo#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/meia-hora-do-cinismo\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/meia-hora-do-cinismo\",\"name\":\"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior Meia Hora do Cinismo\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-01-23T17:40:06+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"description\":\"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior, Obra Liter\u00e1ria, Livro, Frederico, Macedo, Joaquim C\u00e2mara, Nogueira, Literatura, Meia Hora do Cinismo\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/meia-hora-do-cinismo#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/meia-hora-do-cinismo\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/meia-hora-do-cinismo#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Meia Hora do Cinismo\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\",\"name\":\"Augusto Abreu\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior Meia Hora do Cinismo","description":"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior, Obra Liter\u00e1ria, Livro, Frederico, Macedo, Joaquim C\u00e2mara, Nogueira, Literatura, Meia Hora do Cinismo","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior Meia Hora do Cinismo","og_description":"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior, Obra Liter\u00e1ria, Livro, Frederico, Macedo, Joaquim C\u00e2mara, Nogueira, Literatura, Meia Hora do Cinismo","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-01-23T17:40:06+00:00","author":"Augusto Abreu","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Augusto Abreu","Est. tempo de leitura":"34 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo"},"author":{"name":"Augusto Abreu","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578"},"headline":"Meia Hora do Cinismo","datePublished":"2017-01-23T17:40:06+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo"},"wordCount":6743,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo","name":"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior Meia Hora do Cinismo","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-01-23T17:40:06+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578"},"description":"Meia Hora do Cinismo, Fran\u00e7a J\u00fanior, Obra Liter\u00e1ria, Livro, Frederico, Macedo, Joaquim C\u00e2mara, Nogueira, Literatura, Meia Hora do Cinismo","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/meia-hora-do-cinismo#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Meia Hora do Cinismo"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578","name":"Augusto Abreu"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96031","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=96031"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/96031\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=96031"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=96031"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=96031"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}