{"id":96025,"date":"2017-01-23T15:27:12","date_gmt":"2017-01-23T17:27:12","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96025"},"modified":"2017-01-23T15:27:12","modified_gmt":"2017-01-23T17:27:12","slug":"ingleses-na-costa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/ingleses-na-costa","title":{"rendered":"Ingleses na Costa"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#1\">CENA I &#8211; F\u00e9lix e Silveira<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#2\">CENA II &#8211; Os Mesmos e Feliciano<\/a><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">CENA III &#8211; Os mesmos e Teixeira<br \/>\n<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#4\">CENA IV &#8211; Feliciano, Silveira,<br \/>\nF\u00e9lix e depois Teixeira<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#5\">CENA V &#8211; Os mesmos menos Teixeira<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#6\">CENA VI &#8211; Feliciano e Silveira<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">CENA VII &#8211; Feliciano, Silveira<br \/>\ne depois F\u00e9lix <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">CENA VIII &#8211; Feliciano e Silveira<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#9\">CENA IX &#8211; Os mesmos, Lulu e<br \/>\nRitinha<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">CENA X &#8211; Os mesmos menos Feliciano<\/a><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#11\">CENA XI &#8211; Lulu, Ritinha, Silveira<br \/>\ne Feliciano<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#12\">CENA XII &#8211; Os mesmos e Lu\u00eds<br \/>\nde Castro<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#13\">CENA XIII &#8211; Os mesmos e F\u00e9lix<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#14\">CENA XIV &#8211; Os mesmos e Teixeira<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#15\">CENA XV &#8211; Os mesmos, menos<br \/>\nTeixeira<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Ato \u00danico<\/h2>\n<p>O teatro representa um quarto com uma porta ao fundo e portas laterais. \u00c0<br \/>\ndireita e \u00e0 esquerda camas; no fundo uma estante com livros em desordem,<br \/>\num cabide com roupa; sapatos velhos espalhados, duas canastras ao lado do<br \/>\ncabide, uma mesa com pap\u00e9is e livros, etc.<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>CENA I <b> &#8211; F\u00e9lix e Silveira<\/b><\/h2>\n<p>(Ao subir do pano Silveira e F\u00e9lix dormem nas camas embrulhadas em<br \/>\ncobertores encarnados. Batem tr\u00eas vezes na porta do fundo.)<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Acordando sobressaltado.) Hein?<\/p>\n<p>Silveira (Pondo a cabe\u00e7a fora do cobertor.) Bata com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Insensato, o que fazes? \u00c9 um credor!<\/p>\n<p>Silveira Um credor! Pois j\u00e1 amanheceu?! (Batem outra vez: baixo.)<br \/>\nBate, grand\u00edssimo patife.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Ora isto \u00e9 incr\u00edvel! Vir um cad\u00e1ver assombrar<br \/>\num homem ao romper da aurora!<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>CENA II<b> &#8211; Os Mesmos e Feliciano<\/b><\/h2>\n<p>Feliciano (De dentro.) Abram a porta.<\/p>\n<p>Silveira (Escondendo-se no cobertor.) Salve-se quem puder! (Feliciano empurra<br \/>\na porta e entra; F\u00e9lix, levantando-se, esconde-se atr\u00e1s da cama.)<\/p>\n<p>Feliciano Pois ainda dormem! (Puxando o cobertor de Silveira.) Que esc\u00e2ndalo!<br \/>\n(Olhando para a direita v\u00ea a cabe\u00e7a de F\u00e9lix fora da cama.)<br \/>\nCom os diabos o que fazes debaixo da cama?<\/p>\n<p>F\u00e9lix Feliciano, h\u00e1 certas gra\u00e7as que n\u00e3o t\u00eam<br \/>\ngra\u00e7a.<\/p>\n<p>Feliciano Pelo qu\u00ea? (Rindo-se.) Ah! J\u00e1 sei: tomaram-me sem d\u00favida<br \/>\npor algum credor, por um ingl\u00eas?<\/p>\n<p>Silveira Por um ingl\u00eas?<\/p>\n<p>Feliciano J\u00e1 vejo que ainda n\u00e3o leram Balzac. Pois saibam que<br \/>\no espirituoso autor da Com\u00e9dia Humana apelida de ingleses a essa ra\u00e7a<br \/>\ndesapiedada que nos persegue por todo a parte. Depois da quest\u00e3o anglo-brasileira,<br \/>\ncreio que n\u00e3o pode haver um ep\u00edteto mais apropriado para designar<br \/>\num credor. Os ingleses s\u00e3o inimigos terr\u00edveis e um credor, a<br \/>\nmeu ver, \u00e9 o mais furibundo dos nossos inimigos. (Rindo-se.) Tomaram-me<br \/>\npor um ingl\u00eas!<\/p>\n<p>Silveira Quando se tem o esp\u00edrito sobressaltado&#8230;<\/p>\n<p>Feliciano Sei o que \u00e9 isso. Eu tamb\u00e9m venho tocado de casa.<br \/>\nAcredita-me, Silveira: eu sou um homem infeliz. \u00c0s vezes tenho \u00edmpetos<br \/>\nde perguntar ao cano de uma pistola os segredos da eternidade. Esses ingleses<br \/>\nh\u00e3o de ser a causa da minha morte!<\/p>\n<p>Silveira E da morte do Brasil inteiro! As coisas n\u00e3o v\u00e3o bem.<\/p>\n<p>Feliciano Mas tu n\u00e3o te levantas? S\u00e3o onze horas e um quarto.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Onze e um quarto? Ainda \u00e9 muito cedo. (Volta-se para<br \/>\no outro lado.)<\/p>\n<p>Feliciano Decididamente n\u00e3o pretendem sair hoje de casa?<\/p>\n<p>Silveira N\u00e3o sabes, insensato, que hoje \u00e9 o dia 15 do m\u00eas?<br \/>\nO dia 1\u00ba e o dia 15 de cada m\u00eas s\u00e3o dias fatais para um<br \/>\npobre estudante! As ruas est\u00e3o cal\u00e7adas de credores!<\/p>\n<p>F\u00e9lix Chi!&#8230;Andam por a\u00ed assanhados!<\/p>\n<p>Feliciano A quem o dizes. Na rua de S\u00e3o Gon\u00e7alo fui abordado<br \/>\npor quatro. Um deles era coxo; mas a fatalidade, que protege os verdugos,<br \/>\ndeparou-me um ma\u00e7ante no momento em que eu dobrava um beco para esconder-me<br \/>\nno corredor de uma casa. Imaginem voc\u00eas a minha situa\u00e7\u00e3o:<br \/>\nentre um ma\u00e7ante e um ingl\u00eas. A vit\u00f3ria do segundo foi<br \/>\ninevit\u00e1vel! O homem mediu-me de alto a baixo com a gravidade de um<br \/>\ns\u00fadito da rainha Vit\u00f3ria e entregou-me a conta. Creio que tive<br \/>\numa vertigem. Quando tornei a mim, j\u00e1 n\u00e3o tinha uns inocentes<br \/>\ndez mil r\u00e9is, que me restavam da mesada.<\/p>\n<p>Silveira E julgas-te infeliz por teres encontrado um credor coxo? Pois olha,<br \/>\ncaro Feliciano, eu tenho tido credores com todos os defeitos: coxos, corcundas,<br \/>\nsurdos, an\u00f5es&#8230;nunca viste o recrutamento na aldeia? E para coroar<br \/>\na obra, tenho ultimamente um caolho cujo nome h\u00e1 de ser gravado em<br \/>\nletras de ouro nos anais da hist\u00f3ria. \u00c9 um diabo em figura de<br \/>\nhomem com o dom da ubiq\u00fcidade: encontro-o em todos os lugares. Se nos<br \/>\nbailes, de bra\u00e7o com alguma encantadora menina, eu me transporto ao<br \/>\nc\u00e9u numa nuvem de poesia, a figura sinistra de um sujeito que discute<br \/>\ncom outro sobre a carestia dos g\u00eaneros aliment\u00edcios embarga-me<br \/>\na voz na garganta e eu fujo aterrado da sala; \u00e9 o Teixeira. (Chama-se<br \/>\nTeixeira.) Nos teatros, quando toda a plat\u00e9ia manifesta a sua expans\u00e3o<br \/>\npor uma chuva de palmas e bravos, eu, semelhante a um her\u00f3i de melodrama,<br \/>\nprocuro com a velocidade de um raio a porta da rua, \u00e9 ainda o Teixeira.<br \/>\nNos caf\u00e9s, nos botequins, nas igrejas&#8230; Enfim, por toda a parte o<br \/>\nTeixeira, sempre o Teixeira!&#8230; Se algum dia tiveres um credor caolho (ouve<br \/>\neste conselho que \u00e9 de uma pessoa experimentada) quando o avistares<br \/>\ntoma-lhe sempre o lado do olho arruinado; nunca lhe tomes a frente, porque<br \/>\no credor que s\u00f3 tem um olho, v\u00ea mais com ele do que veria com<br \/>\nos dois.<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Sonhando.) Sim, meu anjo&#8230;Hei de adorar-te&#8230;<\/p>\n<p>Silveira E pode sonhar este desalmado na manh\u00e3 do dia 15! (Puxando<br \/>\no cobertor e gritando-lhe no ouvido.) Acorda, bruto!<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Sobressaltado.) Hein?! Quem me chamou? B\u00e1rbaros! Acordaram-me<br \/>\nno meio de um sonho vaporoso. (Canta.)<\/p>\n<p>Sonhei que Ieda vieste<\/p>\n<p>Junto a meu leito cantar,<\/p>\n<p>Um canto que me dizia:<\/p>\n<p>Bardo, n\u00e3o sabes amar.<\/p>\n<p>Julguei-me por momentos um outro D. Juan ao lado da divina Haid\u00e9ia<br \/>\nsob a safira do belo c\u00e9u da Gr\u00e9cia. Seus olhos negros e \u00famidos<br \/>\nprocuravam as regi\u00f5es sublimes donde tinham desertado; seus cabelos<br \/>\nbrincavam em ondas sobre o colo cetinoso&#8230;Oh! Mas agora me lembro: o que<br \/>\nsonhei antes foi horr\u00edvel! Sonhei que meu tio, o desalmado Lu\u00eds<br \/>\nde Castro, tivera a infeliz id\u00e9ia de vir visitar-me a S\u00e3o Paulo,<br \/>\ne que praguejava a meu lado com um possesso: Isto \u00e9 comportamento?!<br \/>\nO senhor \u00e9 um dissipador! \u00e9 um caloteiro! \u00c9 um ladr\u00e3o!<br \/>\n(creio que ouvi a palavra ladr\u00e3o -) Os meus pressentimentos nunca falham,<br \/>\nSilveira.<\/p>\n<p>Silveira Tudo isso \u00e9 muito bonito, meu caro; mas at\u00e9 o presente<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 ainda dinheiro para o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Dinheiro, metal vil! O que \u00e9 o dinheiro?<\/p>\n<p>Silveira \u00c9 aquilo com que se compra o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>F\u00e9lix E onde est\u00e1 a sublime institui\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito?<br \/>\nN\u00e3o cr\u00eas no cr\u00e9dito? N\u00e3o cr\u00eas na Provid\u00eancia?<br \/>\n(Canta.)<\/p>\n<p>Credo in Dio<\/p>\n<p>Signor dellUniverso<\/p>\n<p>&#8230;N\u00e3o conheces este peda\u00e7o? \u00c9 dos M\u00e1rtires.<\/p>\n<p>Feliciano Pelo que vejo n\u00e3o temos almo\u00e7o?<\/p>\n<p>Silveira Desconfio que sim. Vou deitar-me, dizem que o sono sustenta.<\/p>\n<p>Feliciano N\u00e3o haver\u00e1 ao menos cobres em casa?<\/p>\n<p>F\u00e9lix H\u00e1 a sublime institui\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Silveira Desgra\u00e7ado, tu ainda ousas falar em cr\u00e9dito, quando<br \/>\nestamos desmoralizados e ningu\u00e9m j\u00e1 nos fia um vinte!<\/p>\n<p>F\u00e9lix N\u00e3o desesperem, colegas: o acaso \u00e9 nosso Deus.<br \/>\nVou proceder a uma busca. (Vai ao cabide e tira um colete.)<\/p>\n<p>Feliciano (Apalpando as algibeiras) Nem um cigarro!<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Tirando do bolso do colete um papel.) Um papel!<\/p>\n<p>Feliciano \u00c9 uma nota de dez tost\u00f5es.<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Lendo.) L\u00e1grimas de Sangue Poesias in\u00e9ditas por<br \/>\numa v\u00edtima oferecida em holocausto \u00e0 experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Silveira Ainda poesias.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Enganam-se: \u00e9 uma conta de alfaiate! (Vendo a outra algibeira.)<br \/>\nAgora n\u00e3o me engano: creio que \u00e9 uma nota de dois mil r\u00e9is.<br \/>\n(Os dois aproximam-se.) \u00c9 uma carta de namoro! (Lendo.) Meu querido&#8230;<\/p>\n<p>Silveira Dispensamos a leitura.<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Batendo na testa.) Ah! Eureka, Eureka! (Corre ao fundo e encontra-se<br \/>\ncom Teixeira que entra.)<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>CENA III<b> &#8211; Os mesmos e Teixeira <\/b><\/h2>\n<p>Teixeira O senhor Doutor Silveira.<\/p>\n<p>Silveira (Baixo a Feliciano.) Estou perdido! O Teixeira caolho, e estou do<br \/>\nlado esquerdo! Que fatalidade!<\/p>\n<p>Feliciano (Baixo a Silveira.) Passa para o lado direito.<\/p>\n<p>Silveira (Indo para a direita encontra-se de frente com Teixeira que avan\u00e7a<br \/>\npara a cena) Oh! Senhor Teixeira, como tem passado? Tenha bondade de sentar-se&#8230;sem<br \/>\ncerim\u00f4nia. F\u00e9lix? Traz esta canastra para o Senhor Teixeira.<br \/>\n(F\u00e9lix arrasta a canastra: Teixeira fica em p\u00e9.) Esteja a gosto.<br \/>\n(Teixeira senta-se.)<\/p>\n<p>Teixeira (Com ar severo.) A minha demora \u00e9 pequena.<\/p>\n<p>Silveira L\u00edamos, quando o senhor entrou, um dos mais belos peda\u00e7os<br \/>\nde poesia cl\u00e1ssica. Gosta de versos alexandrinos, Senhor Teixeira?<\/p>\n<p>Teixeira (\u00c0 parte.) Parece que est\u00e3o ca\u00e7oando comigo.<\/p>\n<p>Feliciano O senhor pode ter a bondade de me dar um charuto?<\/p>\n<p>Teixeira N\u00e3o fumo, senhor.<\/p>\n<p>Silveira Os cl\u00e1ssicos falam mais \u00e0 cabe\u00e7a do que ao<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Teixeira Eu n\u00e3o quero saber de cora\u00e7\u00f5es, senhor doutor,<br \/>\neu vim aqui tratar dos meus interesses.<\/p>\n<p>Feliciano O Senhor Teixeira \u00e9 acard\u00edaco?<\/p>\n<p>Teixeira Tudo, menos insultos: podemos brincar sem nos sujarmos. Vamos ao<br \/>\nque me interessa. (Tirando um papel do bolso.) Aqui tem a sua&#8230;<\/p>\n<p>F\u00e9lix Creio que o Senhor Teixeira \u00e9 mais apaixonado de m\u00fasica.<br \/>\nPrefere a m\u00fasica italiana \u00e0 m\u00fasica alem\u00e3? Ouve<br \/>\ntalvez uma melodia de Bellini, ou do inspirado Donizetti de prefer\u00eancia<br \/>\na uma fuga de Bach, a uma sinfonia de Beethoven, ou a um orat\u00f3rio de<br \/>\nHaydn. A m\u00fasica italiana \u00e9 a voz do cora\u00e7\u00e3o; a<br \/>\nm\u00fasica alem\u00e3, vaporosa como as Walk\u00edrias do norte, eleva-se<br \/>\nem harmonias at\u00e9 o c\u00e9u. \u00c9 a metaf\u00edsica da m\u00fasica,<br \/>\na m\u00fasica transcendental, como se inacess\u00edvel na vasta esfera<br \/>\nem que ele girava. Conheceu Mozart, Senhor Teixeira?<\/p>\n<p>Teixeira eu j\u00e1 disse que n\u00e3o gosto de gracejos.<\/p>\n<p>Silveira O Senhor Teixeira prefere a m\u00fasica italiana.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Ent\u00e3o ou\u00e7a este peda\u00e7o.(Canta.)<\/p>\n<p>Parigi o \u00f3 cara lascieremo<\/p>\n<p>La vita uniti percorreremo&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 a mais sublime situa\u00e7\u00e3o da \u00f3pera de Verdi!<\/p>\n<p>Silveira Oh! a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 admir\u00e1vel! Violeta<br \/>\nest\u00e1 crivada de d\u00edvidas; Alfredo, para salv\u00e1-la das garras<br \/>\ndos credores, suplica-lhe que abandone Paris. O credor, Senhor Teixeira, \u00e9<br \/>\no diabo. O senhor n\u00e3o pode fazer uma id\u00e9ia do que \u00e9 o<br \/>\ncredor.<\/p>\n<p>Teixeira Basta, senhor: ao admito mais gaiatadas. Ou o senhor paga o que<br \/>\ndeve, ou ent\u00e3o vou \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Silveira Mais devagar, meu caro: n\u00e3o se esquente.<\/p>\n<p>Teixeira Eu vejo no seu procedimento para comigo uma verdadeira velhacaria.<\/p>\n<p>Silveira O senhor n\u00e3o pode ver nada direito, porque tem s\u00f3<br \/>\num olho.<\/p>\n<p>Teixeira N\u00e3o! Isto j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 gaiatada! Isto \u00e9<br \/>\ndesaforo! Vou process\u00e1-lo por crime de inj\u00faria.<\/p>\n<p>Feliciano Faz mal, Senhor Teixeira: deve process\u00e1-lo por cal\u00fania.<\/p>\n<p>Teixeira Hei de arrast\u00e1-lo perante os tribunais. Antes ter um s\u00f3<br \/>\nolho do que, do que&#8230;J\u00e1 me sobe a espuma \u00e0 boca. Hei de lhe<br \/>\nmostrar para quanto serve o Teixeira caolho. (Riem-se todos.)<\/p>\n<p>Silveira Venha c\u00e1, Senhor Teixeira. (Teixeira sai.)<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>CENA IV &#8211; <b>Feliciano, Silveira, F\u00e9lix e depois Teixeira<\/b><\/h2>\n<p>Silveira Eis como deviam terminar as minhas rela\u00e7\u00f5es com o<br \/>\nSenhor Teixeira caolho: por um processo de inj\u00faria verbal.<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Cantando.) Ah! Dellindegno rendere&#8230;<\/p>\n<p>Silveira E tu cantas.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Queres que chore?<\/p>\n<p>Feliciano Afian\u00e7o-lhes que o homem saiu como uma bomba!<\/p>\n<p>Teixeira (Aparecendo no fundo.) Ent\u00e3o paga ou n\u00e3o paga?<\/p>\n<p>Silveira Ora ponha um olho de vidro, s\u00f4 caolho.<\/p>\n<p>Teixeira Antes ser caolho do que&#8230;do que&#8230;Vou estourar na pol\u00edcia.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>CENA V &#8211; <b>Os mesmos menos Teixeira<\/b><\/h2>\n<p>Feliciano (Batendo no ombro de Silveira.) Meu caro, n\u00e3o \u00e9 processo<br \/>\nde inj\u00faria que me aterra: o que me aterra \u00e9 a fome. (Vendo as<br \/>\nhoras.) Quase meio-dia, e n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a de almo\u00e7o!<\/p>\n<p>Silveira Na nossa vida h\u00e1 momentos terr\u00edveis, colega. Mas a<br \/>\ngenerosidade e a franqueza, esses dois sentimentos que s\u00e3o quase sempre<br \/>\na partilha dos vinte e dois anos, pulsam nesses trances em nossos cora\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNo grande mundo h\u00e1 homens que cal\u00e7am luvas de pelica para ocultar<br \/>\nas m\u00e3os manchadas no sangue do seu semelhante, h\u00e1 mulheres que<br \/>\nnos embebem o punhal no peito com o sorriso nos l\u00e1bios; h\u00e1 amigos<br \/>\nque nos abandonam na hora do perigo; mas aqui, na vida do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne das ilus\u00f5es, sob o teto enegrecido de uma mansarda, \u00e9 que<br \/>\nse encontram os grandes sentimentos. Toma um cigarro. (Tira um cigarro e uma<br \/>\ncaixa de f\u00f3sforos debaixo do travesseiro e d\u00e1-o a Feliciano.)<\/p>\n<p>Feliciano Obrigado, colega.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Isto tudo quer dizer que n\u00e3o h\u00e1 almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Silveira Mas tu gritaste Eureka quando entrou o Teixeira.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Gritei; mas n\u00e3o tive a felicidade do fil\u00f3sofo<br \/>\nde Siracusa. Fui a um colete velho&#8230;<\/p>\n<p>Feliciano E o que achaste?<\/p>\n<p>F\u00e9lix Um bilhete de g\u00f4ndola.<\/p>\n<p>Silveira Com os diabos! Isso n\u00e3o corre em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>F\u00e9lix O que querem? Devemos dizer como o cantor da Bo\u00eamia fr\u00e1geis<br \/>\ncani\u00e7os, a fatalidade d\u00e1-nos as honras de uma tempestade (Batendo<br \/>\nna testa.) Oh! que id\u00e9ia! (Dan\u00e7a e cantarola.)<\/p>\n<p>F\u00e9lix e Silveira O qu\u00ea?<\/p>\n<p>F\u00e9lix Est\u00e1 salva a p\u00e1tria! Hoje n\u00e3o \u00e9<br \/>\ndia 15? Fui convidado para um grande almo\u00e7o em casa do Bar\u00e3o<br \/>\nde Inhangaba\u00fa.<\/p>\n<p>Silveira E n\u00f3s?<\/p>\n<p>F\u00e9lix<\/p>\n<p>Ah! Lamor, lamor ondardo,<\/p>\n<p>Le favelli in mio favor.<\/p>\n<p>Feliciano Esta tua alegria \u00e9 um insulto.<\/p>\n<p>Silveira Esse almo\u00e7o repugna com os teus princ\u00edpios pol\u00edticos.<br \/>\nO Bar\u00e3o \u00e9 vermelho, e tu \u00e9s amarelo. N\u00e3o deves<br \/>\nir comer um p\u00e3o molhado nas l\u00e1grimas do povo. N\u00e3o deves<br \/>\nir.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Silveira, quando fala a barriga, cessam os princ\u00edpios.<br \/>\nE demais, quantos n\u00e3o entram amarelos num jantar, e saem vermelhos?<br \/>\nVou quanto antes: n\u00e3o me esquecerei de voc\u00eas: a casa do Bar\u00e3o<br \/>\n\u00e9 perto e em menos de meia hora eu estarei aqui com o que puder trazer.<\/p>\n<p>Silveira E com que roupa pretendes l\u00e1 te apresentar? Queres fazer<br \/>\numa figura rid\u00edcula?<br \/>\nFeliciano Queres salpicar de lama a ilustre corpora\u00e7\u00e3o a que<br \/>\npertences?<\/p>\n<p>F\u00e9lix E por causa de roupa hei de deixar de ir a um almo\u00e7o<br \/>\nespl\u00eandido? N\u00e3o: o homem n\u00e3o deve acobardar-se em face<br \/>\ndesses petits riens da vida. (Para Silveira.) H\u00e1s de me emprestar a<br \/>\ntua casaca preta. Quanto ao mais que me falta, vou proceder a uma busca. Esta<br \/>\ncamisa est\u00e1 muito indecente&#8230;com um colarinho posti\u00e7o, e casaca<br \/>\nabotoada&#8230;<\/p>\n<p>Silveira Colarinho \u00e9 o menos. E os sapatos?<\/p>\n<p>Feliciano (Apanhando um sapato.) Aqui est\u00e1 um sapato.<\/p>\n<p>F\u00e9lix C\u00e1 est\u00e1 outro. (Senta-se na cama e cal\u00e7a<br \/>\num.) Vai \u00e0s mil maravilhas! (Cal\u00e7ando outro.) Ananke! S\u00e3o<br \/>\nambos do mesmo p\u00e9! Mas n\u00e3o se conhece.<\/p>\n<p>Feliciano (Procurando.) Uma luva preta.<\/p>\n<p>Silveira Olha: c\u00e1 est\u00e1 outra.<\/p>\n<p>F\u00e9lix D\u00e1-ma. (Reparando.) \u00c9 branca.<\/p>\n<p>Silveira Isso \u00e9 o menos, pinta-se.<\/p>\n<p>F\u00e9lix N\u00e3o tenho tempo a perder: j\u00e1 tenho o essencial:<br \/>\ndispenso os objetos de luxo. Vou vestir-me. (Vai saindo pela direita.)<\/p>\n<p>Feliciano Uma gravata a solferino.<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Voltando.) D\u00e1-ma. (Sai.)<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>CENA VI <b>&#8211; Feliciano e Silveira<\/b><\/h2>\n<p>Feliciano Pela primeira vez em minha vida sinto a inveja.<\/p>\n<p>Silveira (Bocejando.) Ai, ai, vou dormir.<\/p>\n<p>Feliciano Ser convidado para um almo\u00e7o espl\u00eandido, enquanto<br \/>\nque n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>Silveira Enquanto que n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>Feliciano Silveira: esta vida \u00e9 cheia de espinhos. No lar dom\u00e9stico<br \/>\naquecido ao seio da fam\u00edlia eu nunca sentia fome.<\/p>\n<p>Silveira Ca\u00edmos no sentimentalismo.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>CENA VII &#8211; Feliciano, Silveira e depois F\u00e9lix<\/h2>\n<p>F\u00e9lix (De dentro cantando.) Ah! Che la morte ognora<\/p>\n<p>\u00c8 tarda nel venir&#8230;<\/p>\n<p>Silveira Canta, patife!<\/p>\n<p>Feliciano Ao menos resta-nos um consolo: n\u00e3o morreremos de indigest\u00e3o.<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Entrando.) Pronto. A casaca vai-me bem?<\/p>\n<p>Feliciano Como uma luva!<\/p>\n<p>Silveira Mas este colete est\u00e1 indecente: parece um fogo chin\u00eas!<br \/>\nIsto faz mal at\u00e9 \u00e0 vista. N\u00e3o deves ir ao almo\u00e7o.<br \/>\nTu podes indispor o Bar\u00e3o de Inhagaba\u00fa com este colete.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Abot\u00f4o a casaca. At\u00e9 logo, rapaziada. (Sai cantando.)<\/p>\n<p>Madre infelice<\/p>\n<p>Corro a salvar-te&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>CENA VIII <b>&#8211; <\/b> <b> Feliciano e Silveira<\/b><\/h2>\n<p>Feliciano J\u00e1 tenho suores frios,e a cabe\u00e7a anda-me \u00e0<br \/>\nroda.<\/p>\n<p>Silveira Feliciano, creio que vou ter uma vertigem. (Ouvem-se fora gargalhadas<br \/>\nde mulheres.) Hein?!<\/p>\n<p>Feliciano O qu\u00ea?<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>CENA IX<b> &#8211; Os mesmos, Lulu e Ritinha<\/b><\/h2>\n<p>Lulu Vivam os doutores.<\/p>\n<p>Silveira Lulu!<\/p>\n<p>Feliciano Adeus, adorada Ritinha. Sempre bela e arrebatadora, como as cria\u00e7\u00f5es<br \/>\nantigas de F\u00eddias e de Prax\u00edteles.<\/p>\n<p>Lulu Saibam que viemos jantar com voc\u00eas.<\/p>\n<p>Silveira O qu\u00ea?<\/p>\n<p>Ritinha Olha, Lulu! Fingem-se de surdos. Viemos jantar com voc\u00eas. Queremos<br \/>\nsobretudo Champagne.<\/p>\n<p>Lulu Apoiado. N\u00e3o dispensamos Champagne.<\/p>\n<p>Silveira N\u00e3o preferem clicau?<\/p>\n<p>Feliciano Est\u00e1 dito: manda-se vir Champagne, Chambertin, Sothern&#8230;Quem<br \/>\npaga?<\/p>\n<p>Ritinha Olha, Lulu. Est\u00e3o ca\u00e7oando!<\/p>\n<p>Silveira N\u00f3s ca\u00e7oamos; mas voc\u00eas fazem mais: voc\u00eas<br \/>\ninsultam-nos. Sim, porque \u00e9 um insulto entrar ao meio-dia em casa de<br \/>\ndois desgra\u00e7ados que ainda n\u00e3o almo\u00e7aram e vir pedir<br \/>\njantar.<\/p>\n<p>Ritinha e Lulu Ainda n\u00e3o almo\u00e7aram?!<\/p>\n<p>Lulu Tanto melhor; almo\u00e7aremos juntos.<\/p>\n<p>Feliciano Viva a Lulu! (Abra\u00e7a-a.)<\/p>\n<p>Lulu Mas eu n\u00e3o os compreendo. H\u00e1 pouco eu insultava-os e agora<br \/>\nabra\u00e7am-me!<\/p>\n<p>Feliciano Pois n\u00e3o pagas o almo\u00e7o?<\/p>\n<p>Ritinha E que tal!<\/p>\n<p>Silveira N\u00e3o h\u00e1 em casa nem um real!<\/p>\n<p>Lulu (Depois de alguma pausa.) Est\u00e1 dito: eu pago o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Feliciano e Silveira Viva a Lulu!<\/p>\n<p>Silveira Eu vou j\u00e1 ao hotel defronte. (Vai saindo e volta.) N\u00e3o,<br \/>\nvai, tu, Feliciano. A felicidade desvairou-me. Louco, ia eu mesmo procurar<br \/>\na boca do lobo!<\/p>\n<p>Feliciano Por que n\u00e3o vais?<\/p>\n<p>Silveira Tenho l\u00e1 um credor.<\/p>\n<p>Lulu (Rindo-se.) Cobarde!<\/p>\n<p>Feliciano Vou j\u00e1 num pulo. (Vai saindo, volta: para Lulu.) \u00c9<br \/>\nverdade e o &#8230; (Faz o acionado de quem pede dinheiro.)<br \/>\nLulu Mande assentar na minha conta; e sobretudo que venha Champagne do melhor.<br \/>\n(Feliciano sai.)<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>CENA X &#8211; Os mesmos menos Feliciano<\/h2>\n<p>Lulu Senhor Silveira: o seu procedimento para comigo ultimamente tem sido<br \/>\ninqualific\u00e1vel! H\u00e1 duas semanas que n\u00e3o tenho a honra<br \/>\nde o ver.<\/p>\n<p>Silveira Menina, os credores&#8230;<\/p>\n<p>Ritinha Quanto a mim, tenho do Senhor Silveira uma ofensa que jamais esquecerei.<br \/>\nLembra-se daquela c\u00e9lebre viagem a Santo Amaro, em que o senhor, entrando<br \/>\nnuma venda para comprar cigarros sem ter dinheiro, deixou-me na porta, e disse-me:<br \/>\n_ Ritinha, meu cora\u00e7\u00e3o, espera-me dez minutos que eu j\u00e1<br \/>\nvolto, e trocando algumas palavras em voz baixa com o caixeiro, desapareceu<br \/>\nsem mais voltar? Deixar-me empenhada numa venda por meia pataca de cigarros!<br \/>\nDesta nunca me hei de esquecer!<\/p>\n<p>Silveira (Rindo-se.) \u00c1guas passadas n\u00e3o moem moinhos, menina.<br \/>\nAgora que a felicidade come\u00e7a a sorrir-nos, falemos de coisas alegres.<br \/>\nO que teremos para almo\u00e7o?<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>CENA XI &#8211; <b>Lulu, Ritinha, Silveira e Feliciano<\/b><\/h2>\n<p>Feliciano (Com uma caixa de charutos.) Um magn\u00edfico roastbeef, ovos,<br \/>\nBordeaux, Champagne, Porto, doces finos&#8230; Trouxe esta caixa de charutos por<br \/>\nconta. S\u00e3o trabucos.<\/p>\n<p>Silveira Viva a Lulu.<\/p>\n<p>Feliciano Vivam. (Cantam.)<\/p>\n<p>Silveira<\/p>\n<p>Viva a bela Provid\u00eancia<\/p>\n<p>Que o c\u00e9u nos deparou,<\/p>\n<p>Viva o anjo tutelar<\/p>\n<p>Que o almo\u00e7o nos pagou.<\/p>\n<p>Lulu<\/p>\n<p>Nada t\u00eam que agradecer-me<\/p>\n<p>Eu olho para o porvir,<br \/>\nDa vossa algibeira um dia<\/p>\n<p>O almo\u00e7o h\u00e1 de sair.<\/p>\n<p>Coro Viva a bela Provid\u00eancia etc, etc.<\/p>\n<p>(Entra um criado com uma bandeja.)<\/p>\n<p>Silveira Arreia, arreia: n\u00e3o h\u00e1 tempo a perder. (Feliciano<br \/>\ne Lulu arrastam a mesa at\u00e9 o meio da cena: Silveira p\u00f5e a bandeja<br \/>\nem cima da mesa.)<\/p>\n<p>Ritinha (Destapando os pratos.) N\u00e3o \u00e9 um almo\u00e7o: \u00e9<br \/>\num lauto jantar!<\/p>\n<p>Silveira (Sentando-se na canastra e comendo.) J\u00e1 n\u00e3o posso<br \/>\nmais; sentem-se e fa\u00e7am o mesmo, nada de cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>Feliciano Ritinha, queres um bocado de roastbeef?<\/p>\n<p>Ritinha Aceito, meu anjo.<\/p>\n<p>Lulu Eu come\u00e7o pelo Champagne: \u00e9 a bebida dos amores. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 saca-rolha?<\/p>\n<p>Feliciano Veio um. Aqui est\u00e1. Champagne \u00e0 saca-rolha!<\/p>\n<p>Lulu (Abrindo a garrafa.) Viva o n\u00e9ctar dos deuses! (Bebe.) Agora<br \/>\nserve-me de qualquer coisa.<\/p>\n<p>Feliciano Queres ervilhas?<\/p>\n<p>Lulu Qualquer coisa.<\/p>\n<p>Ritinha O colega da frente perdeu a fala!<\/p>\n<p>Feliciano (Suspirando.) Ai, ai, meninas; n\u00e3o h\u00e1 gozo perfeito<br \/>\nnesta vida. Diante deste roastbeef eu vejo dissiparem-se todos os meus sonhos<br \/>\nde felicidade. E sabes por qu\u00ea? Porque a id\u00e9ia de roastbeef associa-se<br \/>\numa outra: a de ingl\u00eas!-.<\/p>\n<p>Ritinha E o que tem o senhor com os ingleses?<\/p>\n<p>Feliciano Cala-te: n\u00e3o quero inocular o mal da experi\u00eancia em<br \/>\nteu cora\u00e7\u00e3o de vinte e dois anos. S\u00f3 o que te digo \u00e9<br \/>\nque eles h\u00e3o de ser a causa da minha desgra\u00e7a. Num belo dia<br \/>\nvoc\u00eas h\u00e3o de encontrar o meu corpo pendurado a um p\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Lulu De malvas.<\/p>\n<p>Silveira (Para Feliciano.) Por falar em malvas, passa-me o prato das ervas.<br \/>\n(Feliciano passa o prato.)<\/p>\n<p>Lulu (Levantando-se.) Meus senhores: \u00e0 sa\u00fade daqueles e daquelas<br \/>\na quem consagramos nossas horas de ventura h\u00e1 de ser com Ups &#8211; .<\/p>\n<p>Todos (Menos Silveira.) Ups, ups, urrah, etc, etc.<\/p>\n<p>Feliciano Eu proponho outro brinde. \u00c0 sa\u00fade da nossa Provid\u00eancia<br \/>\ndo dia 15. \u00c1 tua sa\u00fade, Lulu.<\/p>\n<p>Silveira \u00c0 raz\u00e3o da mesma.<\/p>\n<p>Todos (Menos Silveira.) Ups, ups, etc, etc.<\/p>\n<p>Ritinha N\u00e3o tem medo de uma apoplexia fulminante, Senhor Silveira?<\/p>\n<p>Feliciano Silveira? \u00c9s homem: p\u00e1ra!<\/p>\n<p>Silveira Vejo tudo azul! Creio que desta n\u00e3o escapo. Amanh\u00e3<br \/>\nos jornais publicar\u00e3o: Fato Extraordin\u00e1rio! Morreu um estudante<br \/>\nde indigest\u00e3o. Eu serei depois de morto o alvo das aten\u00e7\u00f5es<br \/>\np\u00fablicas. Mas, antes que me entoem o Requiescat in pace -, eu quero<br \/>\nfazer um brinde. Encham os c\u00e1lices de Champagne. \u00c0 morte de<br \/>\ntodos os credores.<\/p>\n<p>Feliciano Bravo! Se \u00e9 exato o princ\u00edpio dos Romanos Mors omnia<br \/>\nsolvit &#8211; , eu seria capaz de beber&#8230;eu nem sei o que beberia para solenizar<br \/>\neste brinde. (Ouve-se dentro bater palmas.)<\/p>\n<p>Silveira Hein?!<\/p>\n<p>Feliciano Ingleses na Costa!<\/p>\n<p>Silveira Salve-se quem puder. (Correm todos e escondem-se na porta do lado<br \/>\ndireito.)<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>CENA XII <b> &#8211; Os mesmos e Lu\u00eds de Castro<\/b><\/h2>\n<p>Lu\u00eds de Castro (Entra com botas de montar; traz um grande chap\u00e9u<br \/>\nde palha e uma mala de viagem na m\u00e3o.) D\u00e3o licen\u00e7a. Ningu\u00e9m?!<br \/>\nOl\u00e1 de dentro!<\/p>\n<p>Feliciano Um credor de botas!<\/p>\n<p>Silveira \u00c9 um cometa!<\/p>\n<p>Feliciano Tu tens d\u00edvidas no Rio de Janeiro?<\/p>\n<p>Silveira N\u00e3o sei; parece-me que tenho verdugos at\u00e9 na China!<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (Sentando-se aos poucos na canastra.) Ui, ui, ui. Irra!<br \/>\nDoze l\u00e9guas! Parece-me um sonho estar aqui! Que viagem, que precip\u00edcios<br \/>\ne que burro! Corcoveou um quarto de hora comigo na serra; afinal n\u00e3o<br \/>\npude: deixei-me escorregar pelo rabicho, e ca\u00ed com a parte onde a espinha<br \/>\ndorsal muda de nome mesmo na ponta de uma pedra! Vi estrelas! Ui, ui, ui.<br \/>\nE tudo para qu\u00ea? Para vir ver o patife de um sobrinho que me anda esbanjando<br \/>\na fortuna! Ah! S\u00e3o Paulo, tu \u00e9s um foco de imoralidades! Mas<br \/>\nonde estar\u00e1 esse bigorrilhas? Disseram-me que ele morava aqui. (P\u00f5e<br \/>\na mala no ch\u00e3o e tira as esporas.)<\/p>\n<p>Silveira Um sobrinho?! Quem ser\u00e1?<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Hei de lhe mostrar para quanto sirvo, Senhor F\u00e9lix<br \/>\nde Castro. H\u00e1 de me pagar. (Ferindo-se com as esporas. ) Ui, ainda<br \/>\nmais esta. Ora esta! Bebi um pouco de aguardente a viagem. Estou assim meio<br \/>\na\u00e9reo!<\/p>\n<p>Feliciano \u00c9 o tio do F\u00e9lix: \u00e9 o desalmado Lu\u00eds<br \/>\nde Castro. Ritinha e Lulu, v\u00e3o batizar aquele mouro.<\/p>\n<p>Lulu Fiquem voc\u00eas aqui: quando o homem estiver convertido, eu os chamarei.<br \/>\n(Ritinha e Lulu entram em cena.)<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Minhas senhoras&#8230;Perd\u00e3o: creio que estou enganado.<br \/>\n(\u00c1 parte.) \u00c9 uma casa de fam\u00edlia. (Alto.) Como cheguei<br \/>\nagora mesmo, julguei que fosse esta a casa de meu sobrinho F\u00e9lix de<br \/>\nCastro.<\/p>\n<p>Lulu Esteja a gosto, pode ficar, o senhor est\u00e1 em sua casa.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Bondade de vossa excel\u00eancia, minha senhora.<\/p>\n<p>Ritinha (Tirando um charuto da caixa e fumando.) N\u00e3o quer um charuto?<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Obrigado, minha senhora. (\u00c0 parte.) E esta!<\/p>\n<p>Lulu Prefere cigarros campineiros? N\u00e3o quer um c\u00e1lice de Champagne?<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (\u00c0 parte.) Com que gente estou metido! Estou<br \/>\nna Torre de Nesly. (Alto.) Eu estou enganado, minhas senhoras; vou procurar<br \/>\no meu sobrinho. (Vai a sair.)<\/p>\n<p>Lulu Ora, n\u00e3o v\u00e1 j\u00e1, n\u00e3o seja mau. (Tomam-lhe<br \/>\nambas a frente.)<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Deixem-me, senhoras. Eu sou um pai de fam\u00edlia.<br \/>\nN\u00e3o me envolvo em intrigas amorosas.<\/p>\n<p>Ritinha Pois tem \u00e2nimo de nos deixar t\u00e3o cedo?!<\/p>\n<p>Lulu Ora, fique.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Eu porventura as conhe\u00e7o? Tenho neg\u00f3cios<br \/>\ncom as senhoras? (\u00c0 parte.) Decididamente vou-me embora: dizem que<br \/>\no fogo perto da p\u00f3lvora&#8230;(Alto.) Minhas senhoras. (Vai sair.)<\/p>\n<p>Lulu (Baixo.) N\u00e3o v\u00e1: se for h\u00e1 de se arrepender.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro O qu\u00ea?<\/p>\n<p>Ritinha (Baixo.) Ingrato.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Como? (\u00c0 parte.) Mau, que j\u00e1 vai me virando<br \/>\na bola!<\/p>\n<p>Lulu Pois o senhor ousa abordar a ilha de Calipso e quer retirar-se impune?!<\/p>\n<p>Ritinha (Oferecendo-lhe um c\u00e1lice de Champagne.) N\u00e3o seja ego\u00edsta:<br \/>\nbeba ao menos \u00e0 sa\u00fade daquela que tanto lhe adora: \u00e0<br \/>\nminha sa\u00fade.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (\u00c0 parte.) \u00c9 um fazend\u00e3o! (Alto.)<br \/>\nEste vinho irrita-me os nervos, minha senhora.<\/p>\n<p>Lulu O senhor padece dos nervos?<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (\u00c0 parte.) A provoca\u00e7\u00e3o j\u00e1<br \/>\n\u00e9 muito direta: vou-me embora. (Alto.) Minhas senhoras. (Vai sair,<br \/>\nRitinha toma-lhe a frente com o c\u00e1lice.)<\/p>\n<p>Ritinha Ent\u00e3o n\u00e3o quer satisfazer o meu pedido?<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (\u00c0 parte.) Vai tudo com os diabos. (Alto.) Bebo.<\/p>\n<p>Lulu (Enchendo outro c\u00e1lice.) Mais este.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Venha (\u00c0 parte.) N\u00e3o me apanham no la\u00e7o.<\/p>\n<p>Lulu (Baixo a Ritinha.) Est\u00e1 filado.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro \u00c0s suas ordens.<\/p>\n<p>Lulu (Dando-lhe um charuto.) Fume sempre um charutinho.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (\u00c0 parte) Esta \u00e9 melhor fazenda. (Alto.)<br \/>\nN\u00e3o fumo: eu s\u00f3 tomo rap\u00e9. (Tirando uma boceta.) N\u00e3o<br \/>\ngostam?<\/p>\n<p>Lulu (Pondo-lhe a m\u00e3o no ombro.) E se eu lhe pedir muito?<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Desencoste-se, senhora. (\u00c0 parte.) N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 d\u00favida: estou na Torre de esly. Vivam. (Vai sair, Lulu e<br \/>\nRitinha ajoelham-se.)<\/p>\n<p>Lulu N\u00e3o v\u00e1, meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ritinha Ora, fique&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (\u00c0 parte.) \u00c9 preciso muita coragem. (Alto.)<br \/>\nFico.<\/p>\n<p>Lulu (Oferecendo-lhe outro c\u00e1lice.) Ent\u00e3o \u00e0 sa\u00fade<br \/>\ndos nossos amores.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro V\u00e1 l\u00e1: \u00e0 sa\u00fade dos nossos<br \/>\namores. (Bebe at\u00e9 o meio.)<\/p>\n<p>Lulu Esta \u00e9 de virar.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Viro.<\/p>\n<p>Silveira (Para Feliciano.) Isto promete um desfecho majestoso.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (Risonho.) Mas as senhoras moram mesmo aqui&#8230;sozinhas?<\/p>\n<p>Ritinha Sozinhas.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (\u00c0 parte.) \u00c9 c\u00e9lebre! Estou t\u00e3o<br \/>\nleve! (Alto.) Ent\u00e3o com que&#8230;(Rindo-se.) Eu vou-me embora: eu bem<br \/>\ndisse que aquele vinho fazia-me mal aos nervos.<\/p>\n<p>Lulu \u00c9 porque n\u00e3o est\u00e1 ainda acostumado. Beba outro<br \/>\nc\u00e1lice que h\u00e1 de sentir-se melhor. (D\u00e1-lhe outro c\u00e1lice.)<br \/>\nTem \u00e2nimo de rejeitar?<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Quem pode resistir ao fogo desses olhos? (Bebe.)<\/p>\n<p>Ritinha Mais outro.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Tudo o que quiseres, meu cora\u00e7\u00e3ozinho.<br \/>\n(Beija a m\u00e3o de Ritinha. Lulu lan\u00e7a-lhe um olhar l\u00e2nguido.)<br \/>\nMachuca-me todo, (Ajoelhando-se.) mata-me; mas n\u00e3o me lances este olhar!<br \/>\n(Lulu d\u00e1 sinal a Feliciano e a Silveira que entrem para a cena.)<\/p>\n<p>Silveira (A Lu\u00eds de Castro que quer levantar-se.) Esteja a gosto.<br \/>\n(Tirando um charuto da caixa.) N\u00e3o quer um charuto?<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Eu bem disse que estava enganado. Eu vou-me embora.<br \/>\n(Levanta-se cambaleando.) Mas aquele patife h\u00e1 de me pagar. (Vai saindo.)<\/p>\n<p>Ritinha N\u00e3o v\u00e1.<\/p>\n<p>Lulu Ora, fique.<\/p>\n<p>Silveira Fique.<\/p>\n<p>Feliciano Ora, fique.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (Consigo.) Que papel representam estes dois sujeitos<br \/>\naqui? Estou abismado! Era preciso que eu viesse a S\u00e3o Paulo para presenciar<br \/>\nesta cena!<\/p>\n<p>Silveira Senhor Lu\u00eds de Castro.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro O senhor sabe o meu nome?! Donde me conhece o senhor?<\/p>\n<p>Silveira (Para Feliciano.) Uma id\u00e9ia! (Para Lu\u00eds de Castro:<br \/>\nbaixo.) Magan\u00e3o feliz! Ent\u00e3o com que pensa que n\u00e3o o<br \/>\nconhe\u00e7o. N\u00e3o se lembra talvez daquele c\u00e9lebre pagode<br \/>\nno Rio de Janeiro&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Eu nunca estive em pagodes, senhor.<\/p>\n<p>Silveira (Continuando.) Em que havia uma c\u00e9lebre menina de olhos negros,<br \/>\ncor de jambo,cabelos encrespados&#8230;Magan\u00e3o! N\u00e3o tem mau gosto.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Fale mais baixo, senhor, n\u00e3o me comprometa.<\/p>\n<p>Silveira (\u00c0 parte.) Creio que pegam as bichas. (Alto.) E no entretanto<br \/>\nquer fingir-se santar\u00e3o&#8230;Diz que o Champagne faz-lhe mal aos nervos&#8230;<\/p>\n<p>Feliciano (Para Lulu e Ritinha.) O que querer\u00e1 o Silveira com aquele<br \/>\nD. Juan em segunda m\u00e3o?<\/p>\n<p>Silveira Basta de hipocrisia. Se continuar com esse ar estudado de moralista,<br \/>\nirei denunci\u00e1-lo ao seu sobrinho e ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Basta, senhor: o que quer que eu fa\u00e7a?<\/p>\n<p>Silveira Quero que se apresente tal qual \u00e9: deixe-se de hipocrisias.<br \/>\n(Para Lulu e Ritinha.) Meninas, o Senhor Lu\u00eds de Castro \u00e9 dos<br \/>\nnossos: \u00e9 velho no corpo, mas crian\u00e7a na alma. Senhor Lu\u00eds<br \/>\nde Castro: viva a p\u00e2ndega!<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (Gritando.) Viva a p\u00e2ndega! (\u00c0 parte.)<br \/>\nEstou desmoralizado!<\/p>\n<p>Silveira (Baixo a Feliciano.) Est\u00e1 preparada a situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\n(Baixo a Lulu.) Enche um c\u00e1lice de vinho do Porto. (Lulu enche o c\u00e1lice.)<br \/>\nSenhor Lu\u00eds de Castro (Dando o c\u00e1lice.) \u00e0 sa\u00fade<br \/>\ndos velhos mo\u00e7os.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Vivam! (Bebe at\u00e9 o meio.)<\/p>\n<p>Silveira N\u00e3o senhor; esta \u00e9 de virar.<\/p>\n<p>Ritinha (Baixo.) Olhe que o homem j\u00e1 bebeu muito Champagne.<\/p>\n<p>Silveira V\u00e1 outra: \u00e0 sa\u00fade dos seus verdadeiros amigos.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro V\u00e1.<\/p>\n<p>Todos Up, up, urrah, etc, etc.<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>CENA XIII <b>&#8211; Os mesmos e F\u00e9lix<\/b><\/h2>\n<p>F\u00e9lix (Cantando dentro.) La donna \u00e9 mobile<\/p>\n<p>Qual pouima alvento&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Esta voz&#8230;<\/p>\n<p>Silveira (Para Feliciano.) Vejamos o desfecho.<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Entrando.) Um cometa! (Lu\u00eds de Castro volta-se.) Meu<br \/>\ntio! Estou perdido! Ah! meus pressentimentos! (Para Lu\u00eds de Castro.)<br \/>\nAben\u00e7a.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro S\u00f4 bigorrilhas!<\/p>\n<p>F\u00e9lix (\u00c0 parte.) Ai! Que cheiro de vinho!<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (Cambaleando.) O seu comportamento \u00e9 inqualific\u00e1vel!<br \/>\nO seu of\u00edcio em S\u00e3o Paulo tem sido pregar calotes. (Esbarra<br \/>\nna canastra.)<\/p>\n<p>F\u00e9lix Meu tio, olhe a canastra.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro E tem o arrojo de n\u00e3o corar em minha presen\u00e7a!<br \/>\nQuem julga o senhor que eu sou?<\/p>\n<p>F\u00e9lix A princ\u00edpio supus que fosse um cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Cad\u00e1ver, grand\u00edssimo patife! Estou vivo<br \/>\ne bem vivo para te meter o chicote. (F\u00e9lix senta-se.) Levante-se.<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Sentado.) Admira-me bastante que o senhor meu tio venha moralizar<br \/>\nnum lugar destes entre garrafas de Champagne, e exalando vapores de vinho.<br \/>\n(Baixo.) Quando chegar ao Rio de Janeiro, minha tia h\u00e1 de ser informada<br \/>\nde tudo isso.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (Brando.) Sim&#8230;mas tu n\u00e3o tens te comportado<br \/>\nbem: Constantemente estou a receber contas tuas. Tu n\u00e3o sabes que eu<br \/>\nn\u00e3o tenho grande fortuna?<\/p>\n<p>F\u00e9lix Meu tio: \u00e0 primeira vista parece que eu devo muito: mas<br \/>\nest\u00e1 ali o Silveira que deve mais do que eu.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Eu n\u00e3o digo que deixe de se divertir&#8230;mas (Cambaleando.)<\/p>\n<p>F\u00e9lix Meu tio, n\u00e3o caia.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>CENA XIV <b>&#8211; Os mesmos e Teixeira<\/b><\/h2>\n<p>Silveira Ainda o Teixeira caolho.<\/p>\n<p>Teixeira Venho aqui&#8230;<\/p>\n<p>Silveira (Baixo.) J\u00e1 sei, espere. (Baixo a F\u00e9lix.) Diz a teu<br \/>\ntio que o Teixeira \u00e9 teu credor. O homem hoje est\u00e1 disposto<br \/>\na tudo!<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro (Voltando-se.) Quem \u00e9 este senhor?<\/p>\n<p>F\u00e9lix Este senhor&#8230;<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Diga logo: \u00e9 um credor.<\/p>\n<p>Silveira \u00c9 uma pequena d\u00edvida de 100$000, Senhor Lu\u00eds<br \/>\nde Castro.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Tome. Trouxe o recibo? (Recebe.) Suma-se. (\u00c0<br \/>\nparte) Com os diabos, anda-me tudo \u00e0 roda!<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>CENA XV <b>&#8211; Os mesmos, menos Teixeira<\/b><\/h2>\n<p>Silveira (Suspirando.) Estou livre do Teixeira caolho!<\/p>\n<p>Lulu, Ritinha e Feliciano Viva o Senhor Luis de Castro.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Hoje mesmo pagarei todas as tuas d\u00edvidas; mas<br \/>\nh\u00e1s de me prestar dois juramentos: 1\u00ba de n\u00e3o as contrair<br \/>\nmais; 2\u00ba (Baixo.) de nada revelares a tua tia do que se passou aqui.<\/p>\n<p>F\u00e9lix Juro.<\/p>\n<p>Silveira Eu tamb\u00e9m quero impor uma condi\u00e7\u00e3o. O senhor<br \/>\nh\u00e1 de ficar aqui pelo menos dois meses.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Fico.<\/p>\n<p>Silveira (Para Feliciano.) J\u00e1 n\u00e3o morreremos mais de fome.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Estou desmoralizado, perdido, esbandalhado, e tudo<br \/>\npor qu\u00ea? Por causa de um sobrinho extravagante.<\/p>\n<p>Feliciano Engana-se, Senhor Lu\u00eds de Castro: tudo isso \u00e9 devido<br \/>\na Ingleses na Costa.<\/p>\n<p>Lu\u00eds de Castro Que ingleses?<\/p>\n<p>F\u00e9lix (Segurando em Lu\u00eds de Castro.) Venha para o quarto, meu<br \/>\ntio. \u00c9 uma hist\u00f3ria muito complicada; logo lha contarei.<\/p>\n<p>Silveira Esperem. Eu tenho que falar com estes senhores por parte do autor.<\/p>\n<p>Se algum ingl\u00eas se ofendeu,<\/p>\n<p>Com o autor n\u00e3o encavaque<\/p>\n<p>O autor s\u00f3 se refere<\/p>\n<p>&#8211; aos Ingleses de Balzac.<\/p>\n<p><b>(Cai o Pano.)<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: CENA I &#8211; F\u00e9lix e Silveira CENA II &#8211; Os Mesmos e Feliciano CENA III &#8211; Os mesmos e Teixeira CENA IV &#8211; Feliciano, Silveira, F\u00e9lix e depois Teixeira CENA V &#8211; Os mesmos menos Teixeira CENA VI &#8211; Feliciano e Silveira CENA VII &#8211; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96025","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Ingleses na Costa, Fran\u00e7a J\u00fanior Ingleses na Costa<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Ingleses na Costa, Fran\u00e7a J\u00fanior, Obra Liter\u00e1ria, Livro, F\u00e9lix, Silveira, Feliciano, Lulu, Ritinha, Liter\u00e1ria, Ingleses na Costa\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" 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