{"id":96022,"date":"2017-01-23T15:20:26","date_gmt":"2017-01-23T17:20:26","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96022"},"modified":"2017-01-23T15:20:26","modified_gmt":"2017-01-23T17:20:26","slug":"entrei-para-o-clube-jacome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/entrei-para-o-clube-jacome","title":{"rendered":"Entrei para o clube Jacome"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">CENA I &#8211; Dorot\u00e9ia e<br \/>\nChiquinha<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">CENA II &#8211; As Mesmas e Ant\u00f4nio<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">CENA III &#8211; Os Mesmos e Juli\u00e3o<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">CENA IV<b> <\/b> <b>&#8211; Os Mesmos<br \/>\ne Ant\u00f4nio<\/b><\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">CENA V &#8211; Juli\u00e3o e Chiquinha<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#6\">CENA VI &#8211; Os Mesmos e Ernesto<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#7\">CENA VII &#8211; Ant\u00f4nio e<br \/>\nos Mesmos<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#8\">CENA XIII &#8211; Anast\u00e1cio<br \/>\ne Juli\u00e3o<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#9\">CENA IX &#8211; Os Mesmos e Dorot\u00e9ia<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#10\">CENA X &#8211; Os Mesmos e Juli\u00e3o<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#11\">CENA XI &#8211; Juli\u00e3o e<br \/>\nErnesto<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#12\">CENA XII &#8211; O Comendador Anast\u00e1cio<br \/>\ne os Mesmos<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#13\">CENA XIII &#8211; Anast\u00e1cio<br \/>\ne Juli\u00e3o<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#14\">CENA XIV &#8211; Os Mesmos e Dorot\u00e9ia<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><a href=\"#15\"><strong><span style=\"font-size: small;\">CENA XV &#8211; Os Mesmos e Chiquinha<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#16\">CENA XVI &#8211; <\/a><a href=\"#16\"><b>Os<br \/>\nMesmos e Juli\u00e3o<\/b><\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#17\">CENA XVII &#8211; Juli\u00e3o<br \/>\ne os Mesmos<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#18\">CENA XVIII &#8211; Os Mesmos, Ernesto<br \/>\ne Membros do Clube J\u00e1come<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Ato \u00fanico<\/h2>\n<p>O teatro representa uma sala com uma porta ao fundo e duas laterais; aparadores,<br \/>\num sof\u00e1, cadeiras, etc. Das paredes pendem diversos quadros, figurando<br \/>\ncorridas de cavalos.<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>CENA I <b> &#8211; Dorot\u00e9ia e Chiquinha<\/b><\/h2>\n<p>Dorot\u00e9ia Digo-te que aquela criatura est\u00e1 doida.<\/p>\n<p>Chiquinha (Sentada num sof\u00e1, bordando num bastidor) Aquilo \u00e9<br \/>\numa mania, como qualquer outra, que h\u00e1 de passar, mam\u00e3e.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Minha filha, teu pai vai caminho do Hosp\u00edcio de Pedro<br \/>\nII, conhe\u00e7o muitos que est\u00e3o l\u00e1 por menos. Aquele Clube<br \/>\nJ\u00e1come! Aquele Clube J\u00e1come! Tu ainda h\u00e1s de ver se eu<br \/>\nminto. De noite, de dia, acordado ou dormindo, ele n\u00e3o pensa sen\u00e3o<br \/>\nem cavalos; \u00e9 a sua id\u00e9ia fixa! Uma noite dessas estava eu dormindo,<br \/>\neis que acordo sobressaltada com um peso enorme na boca do est\u00f4mago:<br \/>\nabro os olhos e vejo teu pai como um possesso, de cabelos arrepiados&#8230;up,<br \/>\nup, up&#8230;.e z\u00e1s, mete-me tamanha vergalhada no pesco\u00e7o que ainda<br \/>\nhoje sinto as dores. Pois se a criatura sonhava que estava saltando barreiras<br \/>\nem S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o! Teu pai, Chiquinha, acaba por ficar<br \/>\num cavalo!<\/p>\n<p>Chiquinha Ora mam\u00e3e, antes isto do que ir prestar-se ao desfrute no<br \/>\nAlcazar, como fazem muitos, mais velhos at\u00e9 do que ele. (Mostrando<br \/>\no bordado) Veja, n\u00e3o est\u00e1 chique?<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia C\u00e1 est\u00e1 o tema predileto. Cavalos at\u00e9<br \/>\nnas chinelas!<\/p>\n<p>Chiquinha \u00c9 para o dia dos seus anos. (\u00c0 parte) Ai, ai, o que<br \/>\neu sinto \u00e9 que Ernesto n\u00e3o perten\u00e7a ainda ao Clube J\u00e1come.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Ele n\u00e3o tarda a\u00ed. Onde est\u00e1 o Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p>Chiquinha Estava h\u00e1 pouco na estrebaria, limpando os arreios.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Ah, seu Ant\u00f4nio estou com muito medo de teu pai, minha<br \/>\nfilha; aquele homem&#8230;aquele homem. Ah, seu Ant\u00f4nio? Seu Ant\u00f4nio?<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>CENA II &#8211; <b>As Mesmas e Ant\u00f4nio<\/b><\/h2>\n<p>Ant\u00f4nio (Com uma bota enfiada no bra\u00e7o) Pronto minha arma.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Voc\u00ea j\u00e1 escovou, j\u00e1 limpou todas aquelas<br \/>\nbugigangas que seu amo encomendou-lhe? J\u00e1 p\u00f4s azeite no freio?<br \/>\nEle n\u00e3o tarda.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio J\u00e1 est\u00e1 tudo pronto, sim senhora; agora estou<br \/>\nlimpando as botas. Ele recomendou-me que as queria bem lustrosas. (Mostrando).<br \/>\nVeja, est\u00e1 que \u00e9 um espelho. (Ouve-se dentro um barulho de gargalhadas<br \/>\ne assovios).<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Jesus, meu Deus, o que \u00e9 isto? (Vai \u00e0 porta<br \/>\ndo fundo).<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>CENA III <b>&#8211; Os Mesmos e Juli\u00e3o<\/b><\/h2>\n<p>Juli\u00e3o (De dentro) Ant\u00f4nio? Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Pronto (Sai correndo)<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Querem ver que teu pai caiu?<\/p>\n<p>Juli\u00e3o (Entrando todo sujo de poeira e enlameado e limpando-se) Que<br \/>\nrodada!! Pois se o Mouro deu agora em passarinheiro&#8230; Mas, que galope! Dorot\u00e9ia:<br \/>\no cavalinho vinha ventando pelo Aterrado, cataprus, cataprus, cataprus. O<br \/>\nvento zunia-me pelos ouvidos como um guincho de maxambomba, a barriga do Mouro<br \/>\nferia fogo nas pedras: \u00e1rvores, lampi\u00f5es, casas, tudo corria<br \/>\npara tr\u00e1s, ningu\u00e9m se animava a atravessar a rua; eu s\u00f3<br \/>\nvia pessoas paradas de ambos os lados no meio de uma nuvem de poeira; j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o tinha mais f\u00f4lego! Em v\u00e3o quatro urbanos tentaram<br \/>\nembargar-me a corrida, eu os vi desaparecer com os lampi\u00f5es: o povo<br \/>\ngritava Cerca! Cerca! Cerca! Era tudo em v\u00e3o! Nisso uma negra atravessa<br \/>\na rua, o Mouro espanta-se ainda mais, eu cravo-lhe as esporas nos vazios,<br \/>\na negra cai, rola o barril que ela trazia na cabe\u00e7a, o Mouro salta<br \/>\no barril, perco os estribos, tento em v\u00e3o segurar-me com os joelhos,<br \/>\nroda o selim, o cavalo escorrega, prancheia, e tr\u00e1s!&#8230; caio em terra<br \/>\ncomo uma trouxa.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia E n\u00e3o podia ter quebrado uma costela? Pois o senhor,<br \/>\nseu Juli\u00e3o ainda \u00e9 homem para essas coisas? Na sua idade meter-se<br \/>\na rapaz, andar a correr por a\u00ed como um maluco. Todas as vezes que o<br \/>\nsenhor monta a cavalo eu fico com o cora\u00e7\u00e3o do tamanho de uma<br \/>\npulga, j\u00e1 espero alguma desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Chiquinha E o cavalo sofreu alguma coisa, papai?<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Qual! Pois o Mouro l\u00e1 \u00e9 cavalo que se incomode<br \/>\ncom essas ninharias! H\u00e1s de montar ainda nele para irmos ver as corridas<br \/>\nem s\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Seu Juli\u00e3o, deixe-se de gra\u00e7as, n\u00e3o<br \/>\nesteja a meter id\u00e9ias na cabe\u00e7a da menina.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o \u00c9 porque tu n\u00e3o sabes o que aquilo \u00e9.<br \/>\nOlha, Chiquinha: \u00e0s quatro horas da tarde j\u00e1 vem chegando o<br \/>\npovo. Que rapaziada! Toda ela desempenada! Gente toda assim da minha laia.<br \/>\n\u00c0s cinco horas j\u00e1 o campo de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 coalhado de quanta mo\u00e7a bonita h\u00e1 por aqueles arredores:<br \/>\ncarros, guigues, caleches, g\u00f4ndolas, tudo o que h\u00e1 de bom, ali<br \/>\nse v\u00ea. Fora da raia! \u00c9 o sinal de aten\u00e7\u00e3o. Da\u00ed<br \/>\na pouco estendem-se as barreiras, os cavalos se agrupam, os cavaleiros se<br \/>\npreparam, h\u00e1 um remexer em toda a linha, todos os olhos se fitam no<br \/>\ngrupo que vai saltar. Sai o primeiro cavaleiro, salta as barreiras, sai o<br \/>\nsegundo, sai o terceiro, sai o quarto, quinto, sexto, saltam todos, que pulos!<br \/>\nQue limpeza! Depois desse primeiro trabalho limpa-se a raia, e v\u00e3o<br \/>\nas corridas rasas. A\u00ed sim&#8230; a\u00ed entro eu. Da\u00ed a pouco<br \/>\ns\u00f3 se ouve em toda a linha: a\u00ed vem eles! \u00c9 o Baio que<br \/>\nvem na frente, n\u00e3o \u00e9, \u00e9 o Castanho, n\u00e3o \u00e9<br \/>\no Castanho, \u00e9 o Russo&#8230;Qual Russo nem Castanho! \u00c9 o Mouro que<br \/>\nvem, fino como uma seta, rompendo na frente e que ganha com luz a todos os<br \/>\noutros.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Pois n\u00e3o era melhor, seu Juli\u00e3o, que o senhor<br \/>\nestivesse aqui em casa conversando com a gente, ouvindo a menina tocar, no<br \/>\nrepouso da fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Pois h\u00e1 nada, senhora, que valha as emo\u00e7\u00f5es<br \/>\nde uma corrida? H\u00e1 dinheiro que pague dois gal\u00f5es de sa\u00edda,<br \/>\numa assentada, um grito de partida? Sair um homem colado ao companheiro, sentir-lhe<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o pulsar de emo\u00e7\u00e3o ao lado do seu e ouvir<br \/>\nfinalmente os urras da vit\u00f3ria! Dorot\u00e9ia, Dorot\u00e9ia, (Abra\u00e7ando-a)<br \/>\nainda h\u00e1s de correr comigo.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Chegue-se para l\u00e1, seu Juli\u00e3o, n\u00e3o me<br \/>\nfa\u00e7a perder-lhe o respeito.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>CENA IV<b> <\/b> <b>&#8211; Os Mesmos e Ant\u00f4nio<\/b><\/h2>\n<p>Ant\u00f4nio O milho acabou-se, meu amo.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Patife, pois s\u00f3 agora \u00e9 que vens me avisar.<\/p>\n<p>Chiquinha O cavalo pode ficar aguado.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Eu daria parab\u00e9ns \u00e0 minha fortuna, se o visse<br \/>\nseco e torrado como uma sardinha.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o V\u00e1 \u00e0 casa do farinheiro, v\u00e1 dizer-lhe<br \/>\nque me mande dois sacos de milho e um de fub\u00e1. (Ant\u00f4nio vai saindo).<br \/>\nOlhe, que seja milho Catete; e assim que vier d\u00ea uma boa ra\u00e7\u00e3o<br \/>\nao cavalo. (Ant\u00f4nio vai saindo). Olhe, j\u00e1 limpou o meu freio?<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia J\u00e1 est\u00e1 tudo pronto; o criado aqui n\u00e3o<br \/>\nfaz outra coisa sen\u00e3o cuidar do seu cavalo: quero mandar um recado<br \/>\nfora, quero mandar p\u00f4r a mesa, e a resposta que me d\u00e1 o seu Ant\u00f4nio<br \/>\n\u00e9 sempre esta: &#8211; estou tratando do cavalo. (Antonio sai).<\/p>\n<p>Chiquinha Papai, tem-se esquecido de uma coisa que me prometeu.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o O que \u00e9? Vestidos para bailes? N\u00e3o dou.<\/p>\n<p>Chiquinha N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso; ora veja se se lembra.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Seu Juli\u00e3o, a menina precisa de saias, de botinas,<br \/>\nde meias, e os len\u00e7\u00f3is est\u00e3o se acabando&#8230; O senhor<br \/>\nn\u00e3o pensa sen\u00e3o l\u00e1 no seu Clube J\u00e1come&#8230;<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Hei de lhe mandar fazer uma saia de montar, uma bonita amazona,<br \/>\ncomo vi ontem uma em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o.<\/p>\n<p>Chiquinha E o cavalo, papai?<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Arranja-se, arranja-se.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Que loucura, meu Deus! Pois o senhor acredita que eu tivesse<br \/>\ncriado uma filha at\u00e9 esta idade, para morrer de queda de burro?<\/p>\n<p>Juli\u00e3o De burro? Pois a senhora confunde cavalo com burro!!!<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Senhor Juli\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o estou para o aturar.<br \/>\nMenina, vamos para dentro. (Sai)<\/p>\n<p>Juli\u00e3o N\u00e3o, ela fica, preciso falar-lhe.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>CENA V<b> &#8211; Juli\u00e3o e Chiquinha<\/b><\/h2>\n<p>Juli\u00e3o Chiquinha, senta-te aqui. (Sentam-se no sof\u00e1). N\u00f3s<br \/>\nhavemos de ir, todos os domingos, a S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o: l\u00e1<br \/>\nh\u00e1 rapazes muito bonitos, que montam bem, tu h\u00e1s de v\u00ea-los;<br \/>\ntalvez que venhas ainda a gostar de alguns deles.<\/p>\n<p>Chiquinha Se \u00e9 para isso, papai, n\u00e3o quero ir.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o (\u00c0 parte) Mau, acordaria j\u00e1 tarde? J\u00e1<br \/>\nlhe transtornaram a cabe\u00e7a; aposto que s\u00e3o hist\u00f3rias<br \/>\nda Senhora Dorot\u00e9ia. (Alto) Pois fazes mal; aqueles mo\u00e7os do<br \/>\nClube J\u00e1come s\u00e3o muito bem educados e sobretudo que chique!<br \/>\nE que cavalos!! Olha, Chiquinha, h\u00e1 l\u00e1 um que se tu o visses&#8230;<\/p>\n<p>Chiquinha Ora qual, papai.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o (Zangado) Ora qual, ora qual&#8230; Tu ainda n\u00e3o sabes de<br \/>\nquem estou falando&#8230;Que mo\u00e7o! Tem um cavalo do Cabo, t\u00e3o bem<br \/>\nensinado pelo J\u00e1come que faz gosto: recua, ladeia, faz perfeitamente<br \/>\no passo espanhol, faz o piaf\u00e9 magistralmente, etc, etc. Tem uns olhos!<\/p>\n<p>Chiquinha Quem? O cavalo ou o mo\u00e7o, papai?<\/p>\n<p>Juli\u00e3o O mo\u00e7o. Que t\u00e1bua de pesco\u00e7o!<\/p>\n<p>Chiquinha Do mo\u00e7o?<br \/>\nJuli\u00e3o (Contrariado) N\u00e3o, do cavalo. E que posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nelegante sobre os arreios! Ar imponente, as r\u00e9deas leves sobre a m\u00e3o&#8230;Enfim<br \/>\nChiquinha, \u00e9 um rapaz que bem te convinha. H\u00e1s de ir comigo<br \/>\ndomingo \u00e0s corridas. Quero-te mostrar: que estampa!<\/p>\n<p>Chiquinha Qual, do mo\u00e7o, papai?<\/p>\n<p>Juli\u00e3o N\u00e3o, menina, do cavalo.<\/p>\n<p>Chiquinha (Abaixando a cabe\u00e7a) Pois&#8230;eu&#8230;queria comunicar-lhe, mas&#8230;<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Quem tem voc\u00ea, que est\u00e1 aqui a engolir palavras?<\/p>\n<p>Chiquinha \u00c9 que eu&#8230;papai&#8230;<\/p>\n<p>Juli\u00e3o (Zangado) \u00c9 que eu, \u00e9 que eu&#8230;\u00c9 que a<br \/>\nsenhora j\u00e1 tem a cabe\u00e7a transtornada por algum pintalegrete.<br \/>\nAposto que \u00e9 algum sujeito que nunca montou em sua vida, hein?<\/p>\n<p>Chiquinha N\u00e3o sei se ele j\u00e1 montou, papai.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o J\u00e1 sei, s\u00e3o hist\u00f3rias da Senhora Dorot\u00e9ia;<br \/>\nmas dou-lhe tamanha rodada, que ela me h\u00e1 de andar aqui em casa num<br \/>\nverdadeiro trote ingl\u00eas. E quanto a voc\u00ea, se me come\u00e7a<br \/>\na passarinhar, ponho-lhe os machinhos para entrar na verdadeira marcha. Pois<br \/>\nsaiba que voc\u00ea n\u00e3o se casa sen\u00e3o com um s\u00f3cio do<br \/>\nClube J\u00e1come: \u00e9 o meu ultimatum. (Batem) Entre.<\/p>\n<p>Chiquinha H\u00e1 de ser o criado com o milho. (\u00c0 parte) Se fosse<br \/>\no Ernesto&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>CENA VI <b>&#8211; Os Mesmos e Ernesto<\/b><\/h2>\n<p>Juli\u00e3o (A Ernesto, que entra, tomando-o pelo criado) Ent\u00e3o,<br \/>\nseu bruto, \u00e9 Catete?<\/p>\n<p>Ernesto N\u00e3o venho do Catete, n\u00e3o senhor, venho do Rio Comprido.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Oh, desculpe, senhor Ernesto, tomei-o pelo meu criado. Imagine<br \/>\no senhor, que h\u00e1 mais de um quarto de hora que mandei buscar milho<br \/>\npara o cavalo, porque estava sem milho em casa, e at\u00e9 agora nada.<\/p>\n<p>Ernesto Como tem passado a Dona Dorot\u00e9ia?<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Vai indo com alguma tosse; o meu cavalo \u00e9 que n\u00e3o<br \/>\ntem passado bem esses dias. (Impaciente) E at\u00e9 agora nada de milho.<br \/>\n(Entra o criado).<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>CENA VII<b> &#8211; Ant\u00f4nio e os Mesmos<\/b><\/h2>\n<p>Ant\u00f4nio (Com um punhado de milho) Veja, meu amo, a amostra.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Excelente. Quanto te pediram pelo saco?<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Onze mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Veja, Senhor Ernesto, milho Catete de primeira qualidade. Neste<br \/>\na Senhora Dorot\u00e9ia n\u00e3o mete o dente; se quiser milho para a<br \/>\nsua cria\u00e7\u00e3o, que compre. Com licen\u00e7a, fiquem a\u00ed<br \/>\nque j\u00e1 volto, vou assistir \u00e0 ra\u00e7\u00e3o. (Sai).<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>CENA VIII<b> &#8211; Ernesto e Chiquinha<\/b><\/h2>\n<p>Ernesto Ent\u00e3o, o que se decidiu?<\/p>\n<p>Chiquinha Por ora, nada. Meu pai, com aquela fatal mania, n\u00e3o pensa<br \/>\nsen\u00e3o em cavalos e no Clube J\u00e1come; e j\u00e1 me disse que<br \/>\nhavia de me dar por noivo um&#8230;<\/p>\n<p>Ernesto (Admirando) Um cavalo?!<\/p>\n<p>Chiquinha N\u00e3o, um s\u00f3cio do Clube J\u00e1come. Disse-me que<br \/>\nera o seu ultimatum. Ah, Senhor Ernesto, o senhor n\u00e3o pode avaliar<br \/>\ncomo eu fiquei.<\/p>\n<p>Ernesto E eu que nunca montei em dias de minha vida!<\/p>\n<p>Chiquinha E meu pai que j\u00e1 desconfiou disso.<\/p>\n<p>Ernesto Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Chiquinha Porque convidou-me para ir assistir \u00e0s corridas de S\u00e3o<br \/>\nCrist\u00f3v\u00e3o, disse-me que l\u00e1 havia mo\u00e7os muito bonitos<br \/>\nque montavam muito bem&#8230;Enfim, Senhor Ernesto, meu pai quer a todo transe<br \/>\nque eu me case com um s\u00f3cio do Clube J\u00e1come.<\/p>\n<p>Ernesto Ent\u00e3o, pelo que vejo, l\u00e1 se v\u00e3o as minhas esperan\u00e7as?<\/p>\n<p>Chiquinha Pois o senhor n\u00e3o pode ser s\u00f3cio do Clube J\u00e1come?<\/p>\n<p>Ernesto \u00c9 verdade&#8230;posso&#8230;Mas, como quer a senhora que eu entre<br \/>\npara uma sociedade de montaria&#8230;<\/p>\n<p>Chiquinha Entre, entre, Senhor Ernesto, para agradar a meu pai.<\/p>\n<p>Ernesto Mas se eu nunca montei em dias de minha vida, minha senhora!<\/p>\n<p>Chiquinha N\u00e3o faz mal, aprender\u00e1 a montar depois.<\/p>\n<p>Ernesto S\u00f3 se for assim. Mas Dona Chiquinha, pense bem; olhe que<br \/>\n\u00e9 uma grande inconveni\u00eancia entrar para semelhante Clube. Veja<br \/>\nos perigos que um homem corre a p\u00e9: uma casca de banana na cal\u00e7ada,<br \/>\num preto de ganho com um cesto \u00e0 cabe\u00e7a, um t\u00edlburi para<br \/>\naqui, uma g\u00f4ndola para acol\u00e1; se tudo isto a p\u00e9 faz uma<br \/>\nconfus\u00e3o tal na vista que muitas vezes o homem esbarra sem querer,<br \/>\nquanto mais um pobre mortal a cavalo! Se defende a anca, l\u00e1 entra a<br \/>\ncabe\u00e7a do cavalo pela portinhola de um t\u00edlburi; se defende a<br \/>\ncabe\u00e7a, vem a anca bater na vidra\u00e7a de uma loja&#8230;Enfim, Dona<br \/>\nChiquinha, eu n\u00e3o quero pensar mais nisto! Sou muito nervoso, n\u00e3o<br \/>\ntenho o sangue frio necess\u00e1rio para governar-me a cavalo. Decididamente<br \/>\nn\u00e3o entro para o Clube J\u00e1come.<\/p>\n<p>Chiquinha Pelo que vejo, ent\u00e3o o senhor d\u00e1 mais import\u00e2ncia<br \/>\naos seus nervos do que ao meu amor! N\u00e3o lhe valho o sacrif\u00edcio<br \/>\nde uma queda de cavalo?<\/p>\n<p>Ernesto N\u00e3o \u00e9 por isso, minha senhora; \u00e9 porque s\u00f3<br \/>\na id\u00e9ia de cavalo me repugna.<\/p>\n<p>Chiquinha A\u00ed vem mam\u00e3e!<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>CENA IX &#8211; <b>Os Mesmos e Dorot\u00e9ia<\/b><\/h2>\n<p>Dorot\u00e9ia Ora viva, Senhor Ernesto, como tem passado?<\/p>\n<p>Ernesto Est\u00e1vamos aqui a conversar sobre o Clube J\u00e1come.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Pois tamb\u00e9m o senhor est\u00e1 com a mesma mania?<br \/>\nSenhor Ernesto, Senhor Ernesto, n\u00e3o me fa\u00e7a perder-lhe a f\u00e9<br \/>\nque tenho.<\/p>\n<p>Chiquinha Ao contr\u00e1rio, mam\u00e3e, o Senhor Ernesto estava me dizendo<br \/>\nque nunca montou a cavalo.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Faz muito bem, Senhor Ernesto, ao menos mostra que tem mais<br \/>\nju\u00edzo do que muitos velhos que conhe\u00e7o. Olhe, Senhor Ernesto,<br \/>\neu perdoaria antes a meu marido se ele fosse ao Alcazar do que v\u00ea-lo<br \/>\npor a\u00ed de chibatinha e luvas, a cavalo. Pois aquele homem \u00e9<br \/>\nmais para essas coisas? Com aquela barriga, j\u00e1 pesado, a querer por<br \/>\nfor\u00e7a ser \u00e1gil! Est\u00e1 doido, Senhor Ernesto, est\u00e1<br \/>\ndoido! O senhor quer ver? Olhe: veja estas paredes, quadros de corridas de<br \/>\ncavalos; olhe estas chinelas, (mostrando o bordado) cavalos! Tem l\u00e1<br \/>\ndentro um chambre com cavalos pintados e at\u00e9 comprou chita para colchas<br \/>\nde cama toda estampada com cavalos! Foi no outro dia \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ncomigo e n\u00e3o tive tempo de ver coisa alguma. O homem levou tr\u00eas<br \/>\nhoras adiante das estrebarias: que anca! Que lombo curto! Que prumos! Que<br \/>\ncabe\u00e7a! Discutia, gesticulava, eu j\u00e1 estava vexada.<\/p>\n<p>Ernesto Agora mesmo, minha senhora, acabei de falar \u00e0 senhora sua<br \/>\nfilha sobre o pedido que j\u00e1 lhe tinha feito.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Ernesto Ent\u00e3o&#8230;vejo que \u00e9 quase um imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Pelo qu\u00ea?!<\/p>\n<p>Ernesto Porque entre mim e sua filha, vejo surgir, dia por dia, hora por<br \/>\nhora, um fantasma que diviso ali, (Todos recuam espavoridos) um cavalo!<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia (Rindo-se) Pensei que fosse algum rival.<\/p>\n<p>Ernesto Pois afian\u00e7o-lhe, minha senhora, que \u00e9 pior do que<br \/>\num rival.<\/p>\n<p>Chiquinha Eu j\u00e1 disse ao Senhor Ernesto, mam\u00e3e, que o \u00fanico<br \/>\nmeio de que ele pode dispor para cair nas boas gra\u00e7as de papai \u00e9<br \/>\nentrar para o Clube J\u00e1come.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Deus nos livre! Pois se um j\u00e1 \u00e9 bastante para<br \/>\ntrazer a casa numa corrida, quanto mais dois! Eram capazes de me converter<br \/>\naqui a sala em campo de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o.<\/p>\n<p>Ernesto N\u00e3o se assuste, Dona Dorot\u00e9ia, nessa n\u00e3o caio<br \/>\neu.<\/p>\n<p>Chiquinha H\u00e1 de entrar.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia N\u00e3o entra.<\/p>\n<p>Ernesto Vejam em que ficam.<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>CENA X <b>&#8211; Os Mesmos e Juli\u00e3o<\/b><\/h2>\n<p>Juli\u00e3o (Entrando e falando para dentro) V\u00e1 lavar os p\u00e9s<br \/>\ndo cavalo, d\u00ea-lhe \u00e1gua e passe-lhe a escova. N\u00e3o se pode,<br \/>\nn\u00e3o se pode ter animais. \u00c9 um trabalho insano, Senhor Ernesto.<br \/>\nJ\u00e1 viu o meu Mouro?<\/p>\n<p>Ernesto Que mouro?<\/p>\n<p>Chiquinha (Puxando-lhe a roupa diz-lhe baixo) Diga que j\u00e1 viu, \u00e9<br \/>\no cavalo dele. Fale-lhe j\u00e1 naquilo.<\/p>\n<p>Ernesto Senhor Juli\u00e3o, desejava-lhe dar-lhe uma palavra a s\u00f3s.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o (\u00c0 parte) J\u00e1 sei, quer entra para o Clube. (Alto)<br \/>\nMenina, v\u00e1 para dentro. Senhora Dorot\u00e9ia. (Faz men\u00e7\u00e3o<br \/>\nde quem a despede).<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>CENA XI &#8211; <b>Juli\u00e3o e Ernesto<\/b><\/h2>\n<p>Ernesto Senhor Juli\u00e3o, desejava&#8230;<\/p>\n<p>Juli\u00e3o J\u00e1 sei; o senhor n\u00e3o \u00e9 s\u00f3cio-fundador,<br \/>\ntem de pagar portanto trinta mil r\u00e9is de j\u00f3ia, a mensalidade<br \/>\n\u00e9 de dois mil r\u00e9is paga em trimestre.<\/p>\n<p>Ernesto N\u00e3o \u00e9 isso&#8230;desejava&#8230;o senhor, creio que j\u00e1<br \/>\ndeve saber&#8230;<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Ande, n\u00e3o empaque.<\/p>\n<p>Ernesto \u00c9 que &#8230;nas minhas circunst\u00e2ncias&#8230;<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Est\u00e1 o senhor s\u00f3 a refugar.<\/p>\n<p>Ernesto Pois eu me explico. H\u00e1 seguramente tr\u00eas meses&#8230;<\/p>\n<p>Juli\u00e3o \u00c9 justamente o tempo que possuo o Mouro. Ainda se me<br \/>\nn\u00e3o saiu da cabe\u00e7a a tal rodada! Continue.<\/p>\n<p>Ernesto H\u00e1 seguramente tr\u00eas meses que desejo possuir um objeto,<br \/>\nque \u00e9 o seu desvelo, o seu carinho, e para quem Sua Senhoria ambiciona<br \/>\ntodas as felicidades da vida.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o (\u00c0 parte) J\u00e1 sei, quer me comprar o Mouro; est\u00e1<br \/>\nse ninando.<\/p>\n<p>Ernesto Para encurtar-lhe raz\u00f5es, Senhor Juli\u00e3o, pe\u00e7o-lhe<br \/>\na m\u00e3o da senhora sua filha.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o C\u00e1spite! Folgo muito de saber disso.<\/p>\n<p>Ernesto Sou guarda-livros de uma das mais importantes casas comerciais da<br \/>\nCorte, tenho trinta ap\u00f3lices, duas moradas de casas&#8230;<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Basta, basta meu caro. O senhor sabe montar?<\/p>\n<p>Ernesto (\u00c0 parte) Estou em apuros. Eis o meu fantasma.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Responda, que tenho muito que fazer.<\/p>\n<p>Ernesto (\u00c0 parte) \u00c9 preciso lisonjear-lhe a mania (Indeciso)<br \/>\nMonto&#8230;j\u00e1 montei e creio mesmo at\u00e9 que montei num burro!<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Num burro! Senhor Ernesto, n\u00e3o me prostitua a arte h\u00edpica.<br \/>\nO senhor est\u00e1-se traindo, n\u00e3o minta; diga antes: Senhor Juli\u00e3o,<br \/>\neu quero ver a verdadeira luz, quero entrar para o Clube J\u00e1come. E<br \/>\nas portas do templo se abrir\u00e3o de par em par para receb\u00ea-lo.<br \/>\nDiga-me: qual \u00e9 o melhor sistema de montar? Qual o melhor sistema de<br \/>\nferrar? Como \u00e9 que conhece quando um cavalo est\u00e1 rengo? Ande,<br \/>\nresponda sem titubear. N\u00e3o sabe, n\u00e3o sabe nada, \u00e9 um<br \/>\nignorante, n\u00e3o lhe dou a m\u00e3o de minha filha.<\/p>\n<p>Ernesto Ah! Senhor Juli\u00e3o, o senhor n\u00e3o sabe, n\u00e3o pode<br \/>\navaliar o entusiasmo que de mim se apodera quando vejo uma corrida, todo eu<br \/>\nfico num tremor; os olhos saltam-me das \u00f3rbitas. (Juli\u00e3o acompanha<br \/>\ntamb\u00e9m o entusiasmo). Os cabelos arrepiam-se-me, um suor frio sobe-me<br \/>\ndos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a: n\u00e3o sabe, Senhor Juli\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o pode avaliar: eu seria capaz de passar at\u00e9 por cima de baionetas<br \/>\ncaladas para ver o seu Mouro correr.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Bravo, bravo. (Abra\u00e7ando-o). O senhor nasceu com a predestina\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo cavaleiro. Viu aquela \u00faltima corrida? Como saiu o Mouro fino! Por<br \/>\num triz que o Russo n\u00e3o me ganha. Hei de lhe dar algumas li\u00e7\u00f5es;<br \/>\nvou lhas dar j\u00e1.<\/p>\n<p>Ernesto (\u00c0 parte) Buli numa casa de marimbondos.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Sabe qual \u00e9 o sistema J\u00e1come? Primeira regra:<br \/>\no cavaleiro deve formar com o cavalo uma s\u00f3 pe\u00e7a, deve se confundir<br \/>\ncompletamente com o cavalo. O tronco desempenado, perpendicular ao selim,<br \/>\ndescansa sobre as pernas que devem se apoiar nos estribos, de maneira que<br \/>\nse possa tirar uma linha reta da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. (Tomando duas<br \/>\ncadeiras e dando uma a Ernesto). Monte. (Montando na outra). Assim. (Imita).<\/p>\n<p>Ernesto (Montando na cadeira) O que diria o meu patr\u00e3o se me visse<br \/>\nnesta posi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Juli\u00e3o A cabe\u00e7a deve estar firme nos ombros. N\u00e3o mexa<br \/>\ncom a cabe\u00e7a, Senhor Ernesto. O tronco ainda mais firme. R\u00e9deas<br \/>\nnesta posi\u00e7\u00e3o. O lugar onde a espinha dorsal muda de nome deve<br \/>\nficar colado ao selim: esta \u00e9 uma das regras gerais; sofre exce\u00e7\u00e3o<br \/>\nno trote ingl\u00eas que deve acompanhar o movimento do cavalo neste sentido.<br \/>\n(Imita o trote). Cuidado, n\u00e3o perca os estribos, a barriga da perna<br \/>\ncolada \u00e0 barriga do cavalo. N\u00e3o \u00e9 assim que se segura<br \/>\nnas r\u00e9deas: a m\u00e3o deve estar firme e na altura do est\u00f4mago.<br \/>\nPara ladear para a direita n\u00e3o tem mais do que fazer unhas acima e<br \/>\np\u00f4r a perna esquerda na virilha do cavalo; para a esquerda, unhas abaixo<br \/>\ne a perna direita toma a posi\u00e7\u00e3o da perna esquerda.<\/p>\n<p>Ernesto (\u00c1 parte) Tomo um tombo com toda a certeza.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Equilibre-se, Senhor Ernesto, o senhor est\u00e1 provando<br \/>\nque nunca trotou sem estribos. Agora prepare-se para a corrida.<\/p>\n<p>Ernesto Miseric\u00f3rdia!<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Ao grito do juiz, chegam-se as pernas \u00e0 barriga do cavalo,<br \/>\nfaz-se a m\u00e3o leve e cai-se-lhe com duas rimpadas na anca. (Cai para<br \/>\na frente e indica a posi\u00e7\u00e3o). Up, up, up. (Sai a correr com<br \/>\na cadeira, Ernesto acompanho-o) N\u00e3o se importe, Senhor Ernesto, com<br \/>\no povo que est\u00e1 na raia. Fora da raia! Firme, sempre, olhe que o cavalo<br \/>\ndesgarra. Eh l\u00e1 Mourinho de uma figa.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>CENA XII <b>&#8211; O Comendador Anast\u00e1cio e os Mesmos<\/b><\/h2>\n<p>Anast\u00e1cio (P\u00e1ra na porta) Est\u00e1 doido! J\u00e1 me tinham<br \/>\ndito e eu n\u00e3o queria acreditar. (Ernesto esbarra-se com Juli\u00e3o<br \/>\ne v\u00e3o ambos no ch\u00e3o)<\/p>\n<p>Ernesto (Levantando-se) O Comendador! Que esc\u00e2ndalo!<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Ei, Comendador, que tal? Assistiu \u00e0 corrida? Qual era<br \/>\no seu palpite?<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio Que o senhor estava doido. Ora, Senhor Juli\u00e3o, pois<br \/>\no senhor n\u00e3o satisfeito de dar desfrutes no campo de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o,<br \/>\nainda vem fazer crian\u00e7adas em casa? Onde est\u00e1 a sua fam\u00edlia?<\/p>\n<p>Juli\u00e3o L\u00e1 est\u00e1 na estrebaria. V\u00e1 v\u00ea-lo,<br \/>\nque eleg\u00e2ncia! Como est\u00e1 fino! Est\u00e1 um perfeito cavalo<br \/>\nde corrida.<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio N\u00e3o lhe perguntei pelo cavalo, perguntei-lhe pela<br \/>\nfam\u00edlia.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Venha ver, venha ver.<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio Bem me disse a Dona Dorot\u00e9ia.<\/p>\n<p>Ernesto Ent\u00e3o, Senhor Juli\u00e3o, o que decide depois de todo esse<br \/>\nexerc\u00edcio?<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Que n\u00e3o lhe dou a m\u00e3o de minha filha, sem v\u00ea-lo<br \/>\nno Clube J\u00e1come. V\u00e1 j\u00e1 falar com o homem, ele \u00e9<br \/>\num mo\u00e7o muito am\u00e1vel, h\u00e1 de receb\u00ea-lo de bra\u00e7os<br \/>\nabertos. V\u00e1 j\u00e1, n\u00e3o perca tempo. V\u00e1, v\u00e1,<br \/>\ne venha receber o meu consentimento. (Empurra a Ernesto pela porta fora)<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>CENA XIII <b>&#8211; Anast\u00e1cio e Juli\u00e3o<\/b><\/h2>\n<p>Juli\u00e3o Que corrida! (Sentando-se cansado)<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio O senhor n\u00e3o perde mais esta mania.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Mania?! O senhor ousa chamar o progresso de mania? \u00c9<br \/>\nmelhor sem d\u00favida andar montado num burro de marcha, como anda o senhor<br \/>\nl\u00e1 pela fazenda, ou nalgum cavalo de guinilha?<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio E h\u00e1 nada que pague uma boa besta? Nem o senhor nem<br \/>\no seu Mouro fundidos valem o meu Jo\u00e3o-pequeno: aquilo \u00e9 meter-se-lhe<br \/>\nas esporas e sai o burrinho que \u00e9 uma rede.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Comendador, n\u00e3o esteja a\u00ed a falar sem ver o animal,<br \/>\nvenha ver o bicho.<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio Ora, qual, s\u00e3o uns cavalos cansados que \u00e9<br \/>\ns\u00f3 vista e nada mais.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o E os seus s\u00e3o s\u00f3 p\u00ealo e lombo e nada mais.<br \/>\n\u00c9 por essas e outras que a ra\u00e7a cavalar est\u00e1 em abandono<br \/>\nno pa\u00eds, que o governo n\u00e3o olha seriamente para o importante<br \/>\nramo da zootecnia.<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio A\u00ed vem o senhor com os seus palavreados. Eu calo-lhe<br \/>\na boca, mostrando-lhe os burros da minha fazenda. Agora digo-lhe tamb\u00e9m:<br \/>\nv\u00e1 ver os bichos.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Pois eu vou mostrar-lhe o que \u00e9 um animal.<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio Se j\u00e1 o vi, Senhor Juli\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Espere, espere (Sai a correr e esbarra com Dorot\u00e9ia<br \/>\nque entra)<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>CENA XIV <b>&#8211; Os Mesmos e Dorot\u00e9ia<\/b><\/h2>\n<p>Dorot\u00e9ia Cruz, te arrenego, criatura! Senhor Comendador, desculpe-me,<br \/>\nh\u00e1 tr\u00eas meses que meu marido n\u00e3o est\u00e1 em si. S\u00e3o<br \/>\nvexames, sobre vexames por que passo.<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio Parece-me mesmo, Dona Dorot\u00e9ia, que o Senhor Juli\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o anda l\u00e1 muito bom da cabe\u00e7a. Quando eu entrei, estava<br \/>\nele aqui com um outro mo\u00e7o, cada um montado em sua cadeira, como dois<br \/>\nesbaforidos a correrem pela casa.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia O senhor ainda n\u00e3o viu nada! O criado anda num sarilho<br \/>\npara dentro e para fora com arreios, selins, cavalos. Estou vendo que acabo<br \/>\ntamb\u00e9m por ficar maluca.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>CENA XV<b> &#8211; Os Mesmos e Chiquinha<\/b><\/h2>\n<p>Chiquinha (Entrando a toda pressa) Mam\u00e3e, a\u00ed vem papai com<br \/>\no cavalo pelo corredor.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia O que est\u00e1s dizendo, menina?!<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio \u00c9 verdade, parece-me que ele foi buscar o cavalo.<br \/>\n(Ouve-se dentro barulho de patas de cavalo).<\/p>\n<h2><a name=\"16\"><\/a>CENA XVI<a href=\"#16\"><b> &#8211; Os Mesmos e Juli\u00e3o<\/b><\/a><\/h2>\n<p>Juli\u00e3o (De dentro) Deixem o animal; n\u00e3o o espantem. (Fazendo<br \/>\ncom a boca o som de quem chama um cavalo)<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio N\u00e3o estou aqui em seguran\u00e7a. (Trepa em cima<br \/>\ndo sof\u00e1). Deixe-me p\u00f4r em guarda.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Seu Juli\u00e3o, tenha ju\u00edzo. (Ouve-se barulho<br \/>\nda queda de trastes). L\u00e1 se vai tudo, l\u00e1 caiu o guarda-lou\u00e7a.<br \/>\nFrancisca, sai de detr\u00e1s desse cavalo, Senhor Comendador, v\u00e1<br \/>\nver aquilo. L\u00e1 pisou a crian\u00e7a. L\u00e1 caiu o papagaio assustado.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o L\u00e1 vai ele, Comendador.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia N\u00e3o entre aqui com o cavalo, Senhor Juli\u00e3o,<br \/>\nn\u00f3s brigamos seriamente.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Pois levo-o para a estrebaria.<\/p>\n<p>Dorot\u00e9ia Por causa daquele cavalo ainda h\u00e1 aqui em casa uma<br \/>\ncat\u00e1strofe!<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio Eu ainda estou tremendo; querer introduzir um cavalo parelheiro<br \/>\nnuma sala.<\/p>\n<h2><a name=\"17\"><\/a>CENA XVII &#8211; Juli\u00e3o e os Mesmos<\/h2>\n<p>Juli\u00e3o (Entrando) Eu queria mostrar-lhe o que \u00e9 uma estampa.<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio Fa\u00e7o id\u00e9ia, fa\u00e7o id\u00e9ia. (\u00c0<br \/>\nparte) Parece-me que o homem vai ter um acesso. (Alto) Com licen\u00e7a.<br \/>\n(Quer retirar-se)<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Espere, Comendador, quero ler-lhe uma obra que estou escrevendo<br \/>\nsobre o sistema moderno.<\/p>\n<h2><a name=\"18\"><\/a>CENA XVIII <b>&#8211; Os Mesmos, Ernesto e Membros do Clube J\u00e1come<\/b><\/h2>\n<p>Ernesto (Entra correndo) C\u00e1 est\u00e1 o meu diploma. Entrei, entrei<br \/>\npara o Clube J\u00e1come.<\/p>\n<p>Membros do Clube Viva o Clube J\u00e1come!<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio (\u00c1 parte) Outros?! Isto \u00e9 um Hosp\u00edcio<br \/>\nde Pedro II. Este \u00e9 tal da cadeira. Decididamente vou-me embora.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o (Abra\u00e7ando Ernesto) Meu filho, meu filho.<\/p>\n<p>Chiquinha Meu pai.<\/p>\n<p>Juli\u00e3o Toma, Chiquinha; \u00e9 teu faze-o feliz e que seja bom cavaleiro.<br \/>\nQue seja quanto antes, para irmos todos \u00e0 corrida e me verem l\u00e1<br \/>\nno Mouro. (Segurando em Anast\u00e1cio e pulando com ele) Up, up, up&#8230;<br \/>\n(Entra o criado com uma bota enfiada no bra\u00e7o e p\u00f5e-se tamb\u00e9m<br \/>\na pular). Up, up, up.<\/p>\n<p>Membros do Clube Up, up, up.<\/p>\n<p>Anast\u00e1cio Ponham-lhe duchas! Ponham-lhe duchas!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: CENA I &#8211; Dorot\u00e9ia e Chiquinha CENA II &#8211; As Mesmas e Ant\u00f4nio CENA III &#8211; Os Mesmos e Juli\u00e3o CENA IV &#8211; Os Mesmos e Ant\u00f4nio CENA V &#8211; Juli\u00e3o e Chiquinha CENA VI &#8211; Os Mesmos e Ernesto CENA VII &#8211; Ant\u00f4nio e os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96022","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Entrei para o clube Jacome, Fran\u00e7a J\u00fanior Entrei para o clube 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