{"id":96019,"date":"2017-01-23T15:14:09","date_gmt":"2017-01-23T17:14:09","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96019"},"modified":"2017-01-23T15:14:09","modified_gmt":"2017-01-23T17:14:09","slug":"dois-proveitos-e-um-saco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/dois-proveitos-e-um-saco","title":{"rendered":"Dois Proveitos e um Saco"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cena I &#8211; Am\u00e9lia e Catarina<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">CENA II &#8211; Catarina e depois<br \/>\nboaventura<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">CENA III &#8211; Boaventra e depois<br \/>\nAm\u00e9lia<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">CENA IV &#8211; Os mesmos e Catarina<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#5\"><span style=\"font-size: small;\">CENA V &#8211; Am\u00e9lia, Catarina<br \/>\ne depois Lu\u00eds<\/span><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#6\"><span style=\"font-size: small;\">CENA VI &#8211; Am\u00e9lia e Boaventura<\/span><\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>AM\u00c9LIA TEIXEIRA<br \/>\nLU\u00cdS TEIXEIRA, seu marido<br \/>\nCATARINA, criada alem\u00e3<br \/>\nBOAVENTURA FORTUNA DA ANUNCIA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>A cena passa-se em Petr\u00f3polis, no ver\u00e3o de 1873.<\/p>\n<h2>ATO \u00daNICO<\/h2>\n<p>Sala regularmente mobiliada<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>CENA I &#8211; AM\u00c9LIA e CATARINA<\/h2>\n<p>AM\u00c9LIA (Mirando-se em um espelho.) &#8211; Como achas este vestido?<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Vai-lhe \u00e0s mil maravilhas, minha ama.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Lisonjeira.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Somente tenho que fazer-lhe uma observa\u00e7\u00e3o. Permite-me?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Fala.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Parece-me que se a cauda fosse mais pequena&#8230;<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Tola, tu n\u00e3o sabes o que \u00e9 o chique.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Pois olhe, n\u00e3o \u00e9 isto o que diz o seu Antonico Mamede.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; E quem \u00e9 este Senhor Antonico?<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Seu Antonico Mamede \u00e9 um mo\u00e7o louro, que costuma<br \/>\nir todos os s\u00e1bados ao baile alem\u00e3o. Aquilo \u00e9 que \u00e9<br \/>\nrapaz de truz Se minha ama visse com que gra\u00e7a e eleg\u00e2ncia ele<br \/>\ndan\u00e7a a polca!&#8230;<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Oh! atrevida! Tu queres fazer-me confid\u00eancias amorosas?<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Minha ama n\u00e3o namorou tamb\u00e9m ao Senhor Teixeira<br \/>\nantes de se casar com ele? Ainda me lembro quando aqui chegaram em novembro<br \/>\ndo ano passado, para passarem a lua de mel. Vinham t\u00e3o agarradinhos<br \/>\nque dir-se-ia um casal de pombos batedores. E como estava este chal\u00e9!<br \/>\nEra um brinco!<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; E os tais oito dias oficiais da lua de mel prolongaram-se<br \/>\nat\u00e9 hoje gra\u00e7as ao belo clima de Petr\u00f3polis. Ser condenada<br \/>\na passar aqui uma vida inteira, sem ter uma distra\u00e7\u00e3o no inverno,<br \/>\ncontemplando, saudosa, todos os anos, esses bandos de andorinhas que voam<br \/>\npara a corte, apenas o arvoredo come\u00e7a a perder o brilho de suas folhas<br \/>\nverde-negras. Ora, diz-me uma coisa. Este seu Antonico sofre do f\u00edgado?<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Do f\u00edgado?! Que lembran\u00e7a! \u00c9 um rapag\u00e3o<br \/>\nsadio como h\u00e1 poucos.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Olha, Catarina, quando ele te pedir a m\u00e3o, manda-o<br \/>\nexaminar atentamente por um m\u00e9dico e se tiver a tal v\u00edscera<br \/>\nestragada, casa-te, mas n\u00e3o venhas passar a lua de mel em Petr\u00f3polis.<br \/>\nToma a receita e n\u00e3o te dar\u00e1s mal com ela. Antes de me levar<br \/>\nao altar, disse-me o Senhor Teixeira: &#8211; Vamos para Petr\u00f3polis, meu<br \/>\nanjo; l\u00e1 passaremos oito dias, respirando o ar puro dos campos, embalsamado<br \/>\npelo perfume suave das flores, em um pitoresco chal\u00e9 que mandei alugar<br \/>\nna rua de Dona Francisca. Acordaremos ao romper da aurora, ao c\u00e2ntico<br \/>\ndos passarinhos e juntos, bem juntos, como se f\u00f4ramos duas almas em<br \/>\num s\u00f3 corpo, escreveremos a p\u00e1gina a mais feliz da nossa vida<br \/>\nnaquele \u00c9den de del\u00edcias. A perspectiva do quadro agradou-me.<br \/>\nPassar a lua de mel no campo era um requinte do bom tom, que at\u00e9 certo<br \/>\nponto lisonjeava-me o amor pr\u00f3prio de mo\u00e7a elegante. Quando<br \/>\naqui chegamos, no come\u00e7o do ver\u00e3o, Petr\u00f3polis come\u00e7ava<br \/>\na animar-se, e os oito dias correram velozes como um raio. Trazia as malas<br \/>\ncheias de luxuosas toaletes. Escusado \u00e9 dizer-te que regalei-me de<br \/>\narrastar sedas por estes campos. Passados os oito dias, disse-me meu marido<br \/>\nque dava-se perfeitamente com este clima e que havia resolvido ficar mais<br \/>\ndois meses. Aceitei a id\u00e9ia. Aproximava-se o inverno, Petr\u00f3polis<br \/>\ncome\u00e7ava a despovoar-se e o Senhor Teixeira, que se sentia cada vez<br \/>\nmais sadio e nutrido, foi-se deixando ficar por aqui, como se estivera no<br \/>\npara\u00edso. Em um belo dia apareceu-me ele todo expansivo e batendo-me<br \/>\nno rosto com aquela afabilidade que lhe \u00e9 peculiar, cravou-me em cheio<br \/>\nno peito esta punhalada: &#8211; Am\u00e9lia, dou-te a agrad\u00e1vel not\u00edcia<br \/>\nde que comprei este chal\u00e9 e que n\u00e3o sairemos mais de Petr\u00f3polis.<br \/>\nQuero restabelecer-me para sempre destas malditas c\u00f3licas de f\u00edgado.<br \/>\nAh! o f\u00edgado do meu marido! O f\u00edgado do meu marido! (Levanta-se.)<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Por\u00e9m, o que deseja mais, minha ama? N\u00e3o vive aqui<br \/>\nporventura t\u00e3o feliz? Tem carro para passear todas as tardes ao alto<br \/>\nda serra, mora em uma excelente casa, meu amo a adora.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; No ver\u00e3o. (Vai ao espelho.)<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Est\u00e1 bem relacionada, todos a estimam, ouve m\u00fasica<br \/>\naos domingos no passeio p\u00fablico&#8230;<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; No ver\u00e3o.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Vai \u00e0s partidas do clube, aos bailes do hotel Bragan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; No ver\u00e3o! Mas no inverno, desgra\u00e7ada, o que<br \/>\nfico aqui fazendo?<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Come excelente manteiga fresca, magn\u00edfico p\u00e3o de<br \/>\ncerveja, bebe bom leite e passeia.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; E hei de passar aqui a minha mocidade, enquanto que outras<br \/>\nmais felizes do que eu dan\u00e7am no Cassino, v\u00e3o \u00e0s corridas<br \/>\ndo J\u00f3quei Clube, divertem-se pelos teatros, gozam, enfim, de todos<br \/>\nos prazeres da corte! Se soubesses como fico, quando neste ermo leio os jornais<br \/>\nde maio a outubro! Nunca viste contar a hist\u00f3ria de certo sujeito que<br \/>\nn\u00e3o tendo dinheiro para comer costumava colocar-se todos os dias \u00e0<br \/>\nporta de um hotel e a\u00ed saboreava um peda\u00e7o de p\u00e3o duro,<br \/>\naspirando o perfume das iguarias que partiam da sala de jantar? Assim sou<br \/>\neu quando recebo not\u00edcias da corte durante o inverno.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Tenha f\u00e9 em Deus, minha ama. N\u00e3o havemos de ficar<br \/>\naqui eternamente.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Que horas s\u00e3o?<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Oito horas. Vosmec\u00ea n\u00e3o vai buscar meu amo? Hoje<br \/>\n\u00e9 domingo e os carros da serra devem chegar \u00e0s dez.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; N\u00e3o; espero-o aqui. Antes de partir fizemos uma Philippina<br \/>\nque vai decidir da minha sorte e n\u00e3o quero perder a \u00fanica ocasi\u00e3o<br \/>\nque tenho de mudar-me de uma vez para a corte.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Uma Philippina?! O que vem a ser isto, minha ama?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Eu te explico. Como sabes, Teixeira foi para o Rio a fim<br \/>\nde tratar de um neg\u00f3cio importante, n\u00e3o querendo levar-me, sob<br \/>\npretexto de que a febre amarela l\u00e1 est\u00e1 grassando com muita<br \/>\nintensidade. Anteontem, quando jant\u00e1vamos, descobri por acaso, \u00e0<br \/>\nsobremesa, duas am\u00eandoas unidas sob o mesmo inv\u00f3lucro. Comendo<br \/>\numa, e entregando outra a meu marido, disse-lhe J&#8217;y pense.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Gypan\u00e7a?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; J&#8217;y pense \u00e9 um jogo em que as mulheres ganham sempre<br \/>\ne os homens perdem.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; E em que consiste este jogo?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; No seguinte: logo que Teixeira encontrar-me, se ao receber<br \/>\num objeto qualquer de minhas m\u00e3os n\u00e3o disser imediatamente J&#8217;y<br \/>\npense, ter\u00e1 de pagar uma prenda e o mesmo acontecer\u00e1 comigo<br \/>\nem id\u00eanticas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Que excelente jogo! E a senhora ganha com toda a certeza, porque<br \/>\nele n\u00e3o tarda a chegar e (Dando-lhe uma carta.) pode meter-lhe logo<br \/>\nnas m\u00e3os esta carta que h\u00e1 pouco vieram aqui trazer.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Magn\u00edfico! (Guarda a carta.) Aposto, por\u00e9m,<br \/>\nque n\u00e3o sabes quais foram as condi\u00e7\u00f5es que estabelecemos.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Se meu amo perder, d\u00e1 \u00e0 minha ama um bonito bracelete.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Qual bracelete! Se Teixeira perder muda-se de uma vez para<br \/>\na corte e se eu tiver a desgra\u00e7a de ser codilhada, bordo-lhe um par<br \/>\nde chinelas.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; E meu amo estar\u00e1 pelos autos?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Que rem\u00e9dio! Comprometeu a sua palavra de honra!<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Ent\u00e3o tome cuidado que ele h\u00e1 de fazer todo o poss\u00edvel<br \/>\npor ganhar.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Veremos. Logo que o carro parar no port\u00e3o, vem avisar-me.<br \/>\nArranja esta sala e manda preparar o almo\u00e7o. (Sai.)<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>CENA II &#8211; Catarina e depois boaventura<\/h2>\n<p>CATARINA (Arrumando a sala.) &#8211; Muito sofre esta pobre mo\u00e7a, coitada!<br \/>\nAh! Se eu tivesse a fortuna que ela possui, como n\u00e3o seria feliz ao<br \/>\nlado do meu Antonico! \u00c9 verdade que eu o amo e ele me adora, mas o<br \/>\nof\u00edcio de fazer bengalas n\u00e3o d\u00e1 para viver e n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 rem\u00e9dio sen\u00e3o ir dan\u00e7ando polcas at\u00e9<br \/>\nque lhe sopre alguma aragem de felicidade.<\/p>\n<p>BOAVENTURA (Entrando com uma mala e parasitas.) &#8211; Ora, muito bons dias.<\/p>\n<p>CATARINA (Assustando-se.) &#8211; Ah! que susto!<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; N\u00e3o se incomode comigo. Onde est\u00e1 a dona da casa?<br \/>\nFa\u00e7a o favor de guardar esta mala. Eu fico em qualquer quarto. N\u00e3o<br \/>\nsou homem de cerim\u00f4nias. Pe\u00e7o-lhe que tenha cuidado com as parasitas.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Mas quem \u00e9 o senhor? O que quer?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Sou um homem, como v\u00ea. Vim passar alguns dias em Petr\u00f3polis<br \/>\ne n\u00e3o hei de dormir no meio da rua.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Mas isto aqui n\u00e3o \u00e9 hotel.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; J\u00e1 sei o que vem dizer-me. Dos hot\u00e9is venho eu,<br \/>\nn\u00e3o me conta nada de novo. Que noite! Se eu lhe disser que ainda n\u00e3o<br \/>\npreguei olho at\u00e9 agora, talvez n\u00e3o acredite.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; E o que tenho eu com isto?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; O que tem a senhora com isto?! Decididamente isto \u00e9 uma<br \/>\nterra de ego\u00edstas! Onde est\u00e1 a dona da casa, quero me entender<br \/>\ncom ela.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Tome a sua mala, v\u00e1-se embora, senhor.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Sair daqui? Nem que me rachem de meio a meio.<\/p>\n<p>CATARINA (Atirando a mala e as parasitas no ch\u00e3o.) &#8211; Eu j\u00e1<br \/>\nlhe mostro. (Sai.)<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; N\u00e3o me esbandalhe as parasitas.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>CENA III &#8211; Boaventra e depois Am\u00e9lia<\/h2>\n<p>BOAVENTURA &#8211; E dizer-se que vem gente a esta terra para divertir-se! Pois<br \/>\nn\u00e3o! Que belo divertimento, Senhor Boaventura. Sair um cidad\u00e3o<br \/>\nda corte com o sol a pino, suando por todos os poros, andar aos trambolh\u00f5es<br \/>\nda barca para o caminho de ferro, do caminho de ferro para os carros, chegar<br \/>\naqui quase ao cair das sombras, percorrer os hot\u00e9is um por um e ouvir<br \/>\nda boca de todos os locandeiros esta frase consoladora: &#8211; N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nmais quartos, est\u00e3o todos ocupados. Quem me mandou vir a Petr\u00f3polis!<br \/>\nPois eu n\u00e3o podia estar agora muito a gosto no beco do Cotovelo, aspirando<br \/>\no ar puro da praia de D. Manoel? Quem me mandou acreditar em caraminholas<br \/>\nde febre amarela?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (Entrando.) &#8211; O que deseja, senhor?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Sente-se, minha senhora, (Dando-lhe uma cadeira.) e fa\u00e7a<br \/>\no favor de ouvir-me com toda aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (\u00c0 parte.) &#8211; E ent\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 ele<br \/>\nque vem oferecer-me cadeiras em minha casa?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Tenha a bondade de sentar-se.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Estou bem.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Uma vez que quer ouvir-me em p\u00e9, n\u00e3o fa\u00e7a<br \/>\ncerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; O seu comportamento n\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Explica-se da maneira a mais f\u00e1cil poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Chamo-me Boaventura Fortuna da Anuncia\u00e7\u00e3o, tenho cinq\u00fcenta<br \/>\ne dois anos, sou solteiro e vim para Petr\u00f3polis passar estes tr\u00eas<br \/>\ndias santos aconselhado pelos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; N\u00e3o tenho o prazer de conhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; As rela\u00e7\u00f5es adquirem-se e \u00e9 por isto que<br \/>\nestou me apresentando.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (\u00c0 parte.) &#8211; \u00c9 inaudito!<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Eu bem sei que deve ser at\u00e9 certo ponto estranh\u00e1vel<br \/>\neste meu procedimento, mas estou certo de que a senhora no meu lugar faria<br \/>\no mesmo. Faria o mesmo, sim, n\u00e3o se admire; porque, enfim, n\u00e3o<br \/>\nhavendo mais lugares nos hot\u00e9is, \u00e9 justo que se entre pela primeira<br \/>\nporta que se encontra aberta para pedir uma pousada.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Ah! Agora compreendo. E pensa o senhor que a minha casa \u00e9<br \/>\nestalagem?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; A senhora diz isto porque n\u00e3o imagina a balb\u00fardia<br \/>\nque vai por a\u00ed. (Mudando de tom.) \u00c9 verdade, o seu nome? Como<br \/>\ntemos de morar juntos por alguns dias, \u00e9 justo que saiba desde j\u00e1<br \/>\ncom quem vou ter a honra de tratar.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (\u00c0 parte.) &#8211; E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Tem cara de que se chama Bonif\u00e1cia! Aposto que acertei.<br \/>\nQue sarilho, Dona Bonif\u00e1cia! O Bragan\u00e7a est\u00e1 cheio como<br \/>\num ovo: dorme-se ali por toda a parte, sobre os bilhares, sobre a mesa de<br \/>\njantar, a de cozinha, em cima do piano, pelos corredores, na escada, at\u00e9<br \/>\na pr\u00f3pria sala do baile alem\u00e3o j\u00e1 foi transformada em<br \/>\ndormit\u00f3rio. O Du Jardin est\u00e1 que \u00e9 uma lua cheia, o MacDowalis<br \/>\nvomita gente pelas janelas e portas.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Ainda tem o recurso do hotel dos Estrangeiros, senhor.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Pois n\u00e3o, fresco recurso! Cansado de andar correndo Seca<br \/>\ne Meca, fui l\u00e1 bater anteontem, \u00e0s 9 horas da noite e a muito<br \/>\ncusto consegui que dois h\u00f3spedes que l\u00e1 estavam e que deviam<br \/>\ndormir na mesma cama, cedessem-me um lugar no meio, observando-me o dono da<br \/>\ncasa que nada tinha que pagar por ser aquilo um obs\u00e9quio que os dois<br \/>\nsujeitos me faziam. Instalei-me no centro e quando principiava a conciliar<br \/>\no sono, come\u00e7aram os companheiros das extremidades a brigar por causa<br \/>\ndo len\u00e7ol. O dito era na realidade um pouco curto! Um puxava daqui,<br \/>\noutro dacol\u00e1, at\u00e9 que afinal um deles zangado perguntou-me:<br \/>\no senhor tamb\u00e9m n\u00e3o puxa? Eu que me achava bem acomodado e que<br \/>\nestava gostando do fresco, disse-lhe: &#8211; Meu caro senhor, eu n\u00e3o puxo<br \/>\nporque n\u00e3o paguei. N\u00e3o acha que respondi bem?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Esta resposta define-o.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Os tais companheiros n\u00e3o quiseram mais me receber. Ontem<br \/>\ndormi ao relento nos bancos da porta do hotel de<\/p>\n<p>Bragan\u00e7a. Sabe a Senhora Dona Bonif\u00e1cia o que \u00e9 dormir<br \/>\naqui ao relento, alumiado pelos pirilampos, ouvindo uma orquestra diab\u00f3lica<br \/>\nde sapos? Hoje n\u00e3o estou disposto a passar a mesma noite e portanto<br \/>\ninstalo-me aqui. A casa conv\u00e9m-me, \u00e9 bastante espa\u00e7osa,<br \/>\narejada, est\u00e1 em um belo s\u00edtio.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Ou eu estou sonhando ou o senhor \u00e9 de um desfa\u00e7amento<br \/>\nsem igual!<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Nem uma nem outra coisa.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Quer ent\u00e3o instalar-se aqui?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Se n\u00e3o lhe der isto grande inc\u00f4modo&#8230;<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Ah! Essa \u00e9 boa! Provavelmente h\u00e1 de querer<br \/>\ntamb\u00e9m que lhe d\u00ea carro para ir ao bois todas as tardes, um ginete<br \/>\npara ir \u00e0 Cascatinha.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; N\u00e3o, eu c\u00e1 dispenso essas coisas; prefiro boa<br \/>\nmesa e boa cama. Mas, agora reparo, a senhora tem um vestido chibante.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Acha?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Gosto de ver como anda esta gente por aqui! Caudas de seda e<br \/>\nde veludo a varrerem a lama das ruas, os homens todos enluvados com enormes<br \/>\ncatimpl\u00f3rias na cabe\u00e7a e alguns at\u00e9 de casaca com luvas<br \/>\ncor de papo de can\u00e1rio. Gosto disto. Assim \u00e9 que eu entendo<br \/>\nviver em campo. Por\u00e9m, eu estou tomando-lhe o tempo. V\u00e1 tratar<br \/>\nde arranjo da casa. Provavelmente ainda n\u00e3o almo\u00e7ou e enquanto<br \/>\nse prepara o almo\u00e7o, h\u00e1 de permitir-me que me entregue por alguns<br \/>\nmomentos \u00e0 leitura.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (\u00c0 parte.) &#8211; Estou pasma. (Boaventura senta-se, tira<br \/>\num livro do bolso e l\u00ea.) O que est\u00e1 lendo?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Um livro precioso.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Deveras?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Precios\u00edssimo!<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; O que vem a ser ent\u00e3o esse livro?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Intitula-se: Manual pr\u00e1tico do celibat\u00e1rio. \u00c9<br \/>\na vig\u00e9sima edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Deve ser uma obra interessante.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Interessant\u00edssima. Este livro jamais me abandona. \u00c9<br \/>\no meu brevi\u00e1rio, o meu evangelho, a cartilha por onde rezo&#8230;<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Sim? Estou curiosa por saber o que ele cont\u00e9m.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Nada mais nada menos que todos os meios de que uma mulher pode<br \/>\nlan\u00e7ar m\u00e3o para enganar um homem.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; E est\u00e3o a\u00ed todos esses meios?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Todos, todos, um por um. A este filantr\u00f3pico livrinho<br \/>\ndevo a liberdade de que gozo. Leio-o todos os dias pela manh\u00e3, em jejum,<br \/>\nao meio-dia e \u00e0 noite antes de me deitar.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Acho-o pequeno demais para a vastid\u00e3o do assunto.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Oh! mas isto \u00e9 ess\u00eancia e ess\u00eancia muito<br \/>\nfina.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; De maneira que n\u00e3o h\u00e1 mulher que possa hoje<br \/>\nengan\u00e1-lo.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Desafio a mais pintada.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (\u00c0 parte.) &#8211; Este homem \u00e9 um original! Oh! Que<br \/>\nid\u00e9ia! N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, \u00e9 um presente que<br \/>\no c\u00e9u me envia para realizar o que pretendo. M\u00e3os \u00e0 obra.<br \/>\n(Alto com meiguice.) Senhor Boaventura?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; O que \u00e9, Dona Bonif\u00e1cia?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; N\u00e3o me trate por este nome. Eu me chamo Am\u00e9lia<br \/>\nTeixeira, a mais humilde de suas criadas.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Oh! Minha senhora! (\u00c0 parte.) Que metamorfose!<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; N\u00e3o acha bonito o nome de Am\u00e9lia?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Encantador! Conheci uma Am\u00e9lia a quem amei com todas<br \/>\nas veras de minha alma.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Ah! J\u00e1 amou?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Muito!<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Acaso poderei saber quem era essa criatura feliz, esse ente<br \/>\nventuroso, com quem o senhor repartiu os tesouros de um afeto t\u00e3o puro?<br \/>\n(Lan\u00e7ando um olhar l\u00e2nguido.)<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Pois n\u00e3o, minha senhora. Era minha av\u00f3. (\u00c0<br \/>\nparte.) E esta! Que olhos que me deita!<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (Suspirando.) &#8211; Ai! Ai!<\/p>\n<p>BOAVENTURA (\u00c0 parte.) &#8211; Suspira para a\u00ed que comigo n\u00e3o<br \/>\narranjas nada.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Senhor Boaventura?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Minha senhora?&#8230;<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; N\u00e3o conhece febre?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Todos n\u00f3s mais ou menos somos m\u00e9dicos. Est\u00e1<br \/>\ndoente?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; N\u00e3o me sinto boa.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; O que tem?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Uma dor aqui. (Aponta para o cora\u00e7\u00e3o.)<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Isto \u00e9 constipa\u00e7\u00e3o. Tome um ch\u00e1<br \/>\nde sabugueiro, abafe-se bem e ponha um sinapismo na sola dos p\u00e9s. (\u00c0<br \/>\nparte.) N\u00e3o me apanhas n\u00e3o, mas \u00e9 o mesmo.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Tenha a bondade de examinar o meu pulso.<\/p>\n<p>BOAVENTURA (\u00c0 parte.) &#8211; E esta! (Levanta-se e examina-lhe o pulso,<br \/>\n\u00e0 parte.) Que m\u00e3o, santo Deus! (Alto.) N\u00e3o \u00e9 nada.<br \/>\n(\u00c0 parte.) Cuidado, Senhor Boaventura. Fa\u00e7a-se firme e compenetre-se<br \/>\ndas verdades preciosas do seu livrinho. (Senta-se e continua a ler.)<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (\u00c0 parte.) &#8211; Est\u00e1 a cair no la\u00e7o. (Alto.)<br \/>\nChegue a sua cadeira mais para c\u00e1.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Estou bem aqui, minha senhora.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Ora, chegue-se mais para c\u00e1, eu lhe pe\u00e7o.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; E que a\u00ed deste lado bate o sol&#8230;<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; E o senhor tem medo de queimar-se?<\/p>\n<p>BOAVENTURA (\u00c0 parte.) &#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida! Esta mulher<br \/>\nest\u00e1 mesmo me provocando.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Chegue a sua cadeira.<\/p>\n<p>BOAVENTURA (\u00c0 parte.) &#8211; Sejamos forte. (Chega a cadeira.)<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Feche este livro. Vamos conversar. (Fecha o livro.)<\/p>\n<p>BOAVENTURA (\u00c0 parte.) &#8211; Que olhos! Parecem lanternas! Estou aqui,<br \/>\nestou perdido.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; D\u00ea-me a sua m\u00e3o.<\/p>\n<p>BOAVENTURA (Dando a m\u00e3o, \u00e0 parte.) &#8211; Santa B\u00e1rbara,<br \/>\nS\u00e3o Jer\u00f4nimo! Que veludo!<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Diga-me uma coisa. Nunca amou a mais ningu\u00e9m neste<br \/>\nmundo, sen\u00e3o a sua av\u00f3?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Se quer que lhe responda, largue-me a m\u00e3o.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; \u00c9 que estou sentindo uns arrepios como se estivesse com<br \/>\nsez\u00f5es.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Diga. Nunca amou a ningu\u00e9m?<\/p>\n<p>BOAVENTURA (Terno.) &#8211; N\u00e3o, por\u00e9m agora sinto que se opera dentro<br \/>\nde mim uma revolu\u00e7\u00e3o como jamais senti. Eu amo uns olhos negros<br \/>\nque me fascinaram, mas largue a minha m\u00e3o pelo amor de Deus, n\u00e3o<br \/>\nme perca.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (\u00c0 parte, rindo-se.) &#8211; Ah! ah! ah!<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Sim, eu amo uma&#8230; amo&#8230; quero dizer&#8230; amo uma mulher, que<br \/>\n\u00e9 a estrela do meu firmamento. (\u00c0 parte.) J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nsei o que digo. Atiro-me de joelhos aos p\u00e9s dela, e est\u00e1 tudo<br \/>\nacabado.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; E quem \u00e9 essa mulher?<\/p>\n<p>BOAVENTURA (Atirando-se de joelhos.) &#8211; Dona Am\u00e9lia, tenha pena de<br \/>\num desgra\u00e7ado que a adora. A seus p\u00e9s deposito o meu nome e<br \/>\na minha fortuna!<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>CENA IV &#8211; Os mesmos e Catarina<\/h2>\n<p>CATARINA (Entrando \u00e0s pressas.) &#8211; Minha ama, minha ama, meu amo chegou.<br \/>\nA\u00ed vem o carro.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Jesus!<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Teu amo? Ent\u00e3o a senhora \u00e9 casada?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Sim, senhor e com um homem que \u00e9 ciumento como um<br \/>\nOtelo!<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Mas por que n\u00e3o me disse isto logo!<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Saia, senhor: se ele pilha-o aqui, mata-o.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Estou arranjado! (Para Catarina.) D\u00e1 c\u00e1 a minha<br \/>\nmala e as parasitas.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Ande, senhor, avie-se. (Boaventura vai a sair pela porta do fundo.)<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Por a\u00ed n\u00e3o; vai esbarrar-se com ele.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Quem me mandou vir a Petr\u00f3polis?!<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Esconda-se ali, naquele quarto.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; E depois?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Esconda-se ali, j\u00e1 lhe disse. (Boaventura esconde-se<br \/>\nno quarto, Am\u00e9lia tranca a porta e fica com a chave.)<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>CENA V &#8211; Am\u00e9lia, Catarina e depois Lu\u00eds<\/h2>\n<p>CATARINA &#8211; O que fazia aquele sujeito a seus p\u00e9s, minha ama?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Saber\u00e1s daqui a pouco.<\/p>\n<p>LU\u00cdS (Entrando com uma mala e diversos embrulhos.) Querida Am\u00e9lia.<br \/>\n(D\u00e1-lhe um beijo. Catarina toma a mala e os embrulhos.)<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Que saudades, Lu\u00eds! Estes dois dias que estiveste<br \/>\nna corte pareceram-me dois s\u00e9culos.<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Foi o mesmo que me aconteceu, meu anjo. Venho cheio de abra\u00e7os<br \/>\ne beijos que te enviam tua m\u00e3e, as manas, tuas primas&#8230; \u00c9 verdade,<br \/>\na Lulu manda-te dizer que morreu aquele celeb\u00e9rrimo felpudo que lhe<br \/>\ndeste.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; O Jasmim? Coitadinho!<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; L\u00e1 ficou toda chorosa. Est\u00e1 inconsol\u00e1vel<br \/>\na pobre menina. Como vai isto por aqui?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Cada vez melhor.<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Tem subido muita gente?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; N\u00e3o imaginas. Anteontem vieram vinte e dois carros,<br \/>\nontem outros tantos&#8230; Isto est\u00e1 que \u00e9 um c\u00e9u aberto.<br \/>\nQue luxo, Lu\u00eds!<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Trouxe-te duas ricas t\u00fanicas que comprei na Notre Dame.<br \/>\nDisse-me o caixeiro que eram as \u00fanicas que vieram.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; E como deixaste o Rio?<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Est\u00e1 que \u00e9 uma fornalha do inferno, Am\u00e9lia.<br \/>\nA febre amarela de m\u00e3os dadas com o calor, a bexiga, a companhia City<br \/>\nlmprovements e o canal do Mangue t\u00eam matado gente que \u00e9 uma coisa<br \/>\nnunca vista. L\u00ea o obitu\u00e1rio e ver\u00e1s. Ontem fui ao Alcazar&#8230;<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Ah! Tu foste ao Alcazar?<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Mas n\u00e3o pude aturar mais do que o primeiro ato da pe\u00e7a.<br \/>\nSa\u00ed alagado! (Vendo Catarina, que deve estar inquieta olhando para<br \/>\n\u00e0 porta por onde entrou Boaventura.) Mas que diabo tem esta rapariga<br \/>\nque est\u00e1 t\u00e3o assustada?<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; N&amp;atatilde;o tenho nada, n\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; \u00c9 que&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; \u00c9 que o qu\u00ea?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; \u00c9 que na tua aus\u00eancia deu-se aqui uma cena um<br \/>\npouco desagrad\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Uma cena desagrad\u00e1vel?!<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Sim&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Mas que cena foi esta?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; N\u00e3o te amofines, eu te pe\u00e7o.<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Fala&#8230; que estou sobre brasas.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Prometes-me que n\u00e3o dar\u00e1s esc\u00e2ndalo?<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Am\u00e9lia, eu tremo de adivinhar.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Adeus, adeus: se come\u00e7as deste modo n\u00e3o conseguir\u00e1s<br \/>\ncoisa alguma.<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Anda, fala.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Introduziu-se h\u00e1 pouco um sedutor em minha casa&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Um sedutor?! Onde est\u00e1 ele?! Onde est\u00e1 este miser\u00e1vel?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Ajudada por Catarina e pelos escravos consegui prend\u00ea-lo<br \/>\nnaquele quarto, a fim de que pudesse receber de tuas m\u00e3os o castigo<br \/>\nque merece.<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Tu me pagar\u00e1s j\u00e1, patife. (Vai \u00e0 porta<br \/>\ndo quarto.)<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Onde vais?<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Sufocar o bigorrilhas.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Queres arrombar a porta?&#8230; Espera. Toma a chave.<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; D\u00e1 c\u00e1; d\u00e1 c\u00e1. (Recebe a chave.)<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (Rindo-se.) &#8211; Ah! ah! ah!<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; E tu te ris?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; J&#8217;y pense, j&#8217;y pense.<\/p>\n<p>CATARINA &#8211; Ah! ah! \u00c9 boa, \u00e9 boa. Foi o primeiro objeto que<br \/>\nmeu amo recebeu e portanto perdeu o jogo.<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Ah! velhaca! Lograste-me.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Ah! ah! ah! Confessa que perdeste e que foi uma maneira engenhosa<br \/>\nde eu ganhar a Philippina.<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; \u00c9s mulher e basta.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Lembras-te do que convencionamos?<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Sim, levar-te-ei para a corte todos os invernos. Mas olha que<br \/>\nme meteste um susto!&#8230;<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA (Para Catarina.) &#8211; Apronta o almo\u00e7o. (Para Lu\u00eds.)<br \/>\nVai mudar de roupa.<\/p>\n<p>LU\u00cdS &#8211; Velhaca&#8230; (Sai.)<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>CENA VI &#8211; Am\u00e9lia e Boaventura<\/h2>\n<p>AM\u00c9LIA (Abrindo a porta.) &#8211; Saia, senhor.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; J\u00e1 se foi?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; J\u00e1.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; N\u00e3o me meto em outra. Parto para a corte e n\u00e3o<br \/>\nme apanham t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Antes de sair diga uma coisa.<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; O que \u00e9, minha senhora?<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Ouviu o que se acaba de passar entre mim e meu marido?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Ouvi tudo, mas n\u00e3o compreendo coisa alguma.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; N\u00e3o me disse h\u00e1 pouco que naquele livro encontram-se<br \/>\ntodos os recursos de que uma mulher pode servir-se para enganar um homem?<\/p>\n<p>BOAVENTURA &#8211; Sim, senhora.<\/p>\n<p>AM\u00c9LIA &#8211; Pois acrescente l\u00e1 esse meio de que uma mulher lan\u00e7ou<br \/>\nm\u00e3o para enganar a dois homens. Ah! ah! ah! Boa viagem.<\/p>\n<p>(Boaventura sai.)<\/p>\n<p><b>(Cai o pano.)<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cena I &#8211; Am\u00e9lia e Catarina CENA II &#8211; Catarina e depois boaventura CENA III &#8211; Boaventra e depois Am\u00e9lia CENA IV &#8211; Os mesmos e Catarina CENA V &#8211; Am\u00e9lia, Catarina e depois Lu\u00eds CENA VI &#8211; Am\u00e9lia e Boaventura PERSONAGENS AM\u00c9LIA TEIXEIRA LU\u00cdS TEIXEIRA, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96019","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - 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