{"id":96013,"date":"2017-01-23T14:46:58","date_gmt":"2017-01-23T16:46:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96013"},"modified":"2017-01-23T14:46:58","modified_gmt":"2017-01-23T16:46:58","slug":"caiu-o-misterio-franca-junior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/caiu-o-misterio-franca-junior","title":{"rendered":"Caiu o Mist\u00e9rio &#8211; Fran\u00e7a Junior"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Ato Primeiro<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Ato Segundo<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Ato Terceiro<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Fran\u00e7a Junior<\/h2>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>Um vendedor de bilhetes de loteria<br \/>\nPrimeiro vendedor de jornais<br \/>\nSegundo idem<br \/>\nTerceiro idem<br \/>\nQuarto idem<br \/>\nDR. RAUL MONTEIRO<br \/>\nERNESTO<br \/>\nGOULARTE<br \/>\nPEREIRA<br \/>\nDESEMBARGADOR ANAST\u00c1CIO FLORINDO FRANCISCO COELHO<br \/>\nBARBARA COELHO, sua mulher<br \/>\nMARIQUINHAS, sua filha<br \/>\nFELICIANINHA<br \/>\nFILOMENA<br \/>\nBEATRIZ<br \/>\nFILIPE FLECHA<br \/>\nMR. JAMES<br \/>\nCONSELHEIRO FEL\u00cdCIO DE BRITO, presidente do Conselho<br \/>\nMINISTRO DA GUERRA<br \/>\nMINISTRO DO IMP\u00c9RIO<br \/>\nMINISTRO DE ESTRANGEIROS<br \/>\nMINISTRO DA JUSTI\u00c7A<br \/>\nDR. MONTEIRINHO, ministro da marinha<br \/>\nSENADOR FELIZARDO<br \/>\nPEREIRA<br \/>\nIN\u00c1CIO<br \/>\nARRUDA<br \/>\nRIBEIRO<br \/>\nAZAMBUJA<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>ATO PRIMEIRO<\/h2>\n<p>O teatro representa parte da rua do Ouvidor. Ao fundo a reda\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Globo, a casa imediata, a confeitaria do Castel\u00f5es e o armarinho<br \/>\nvizinho. O interior destes estabelecimentos deve ser visto pelos espectadores.<br \/>\nAo subir o pano a escada que comunica o pavimento inferior do escrit\u00f3rio<br \/>\ndo Globo com o superior deve estar ocupada por muitos meninos, vendedores<br \/>\nde gazetas; algumas pessoas bem vestidas conversam junto ao balc\u00e3o.<br \/>\nEm casa do Castel\u00f4es muita gente conversa e come. No armarinho grupos<br \/>\nde mo\u00e7as, encostadas ao balc\u00e3o, conversam e escolhem fazendas.<br \/>\nGrande movimento na rua.<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p><b>Um vendedor de bilhetes de loteria, 1\u00b0, 2\u00b0, 3\u00b0 e 4\u00b0 VENDEDORES<\/p>\n<p>DE JORNAIS, DOUTOR RAUL MONTEIRO e ERNESTO<\/b><\/p>\n<p>VENDEDOR DE BILHETES &#8211; Quem quer os duzentos contos? Os duzentos contos do<br \/>\nIpiranga!<\/p>\n<p>1\u00b0 VENDEDOR DE JORNAIS &#8211; A Gazeta da Tarde, trazendo a queda do minist\u00e9rio,<br \/>\na lista da loteria, tamb\u00e9m trazendo a cr\u00f4nica parlamentar.<\/p>\n<p>2\u00b0 VENDEDOR &#8211; A Gazeta de Not\u00edcias. Traz a carta do Doutor Seabra.<\/p>\n<p>3\u00b0 VENDEDOR &#8211; A Gazetinha.<\/p>\n<p>4\u00b0- VENDEDOR &#8211; A Espada de D\u00e2mocles, trazendo o grande esc\u00e2ndalo<br \/>\nda C\u00e2mara dos Deputados, a hist\u00f3ria do minist\u00e9rio, o movimento<br \/>\ndo porto, e tamb\u00e9m trazendo o assassinato da rua do Senado.<\/p>\n<p>3\u00b0 VENDEDOR &#8211; A Gazetinha e o Cruzeiro.<\/p>\n<p>RAUL MONTEIRO (Que deve estar parado \u00e0 porta do Globo a ler os telegramas;<br \/>\nvoltando-se e vendo Ernesto, que sai do Castel\u00f5es.) &#8211; Oh! Ernesto,<br \/>\ncomo vais?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Bem. E tu?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Ent\u00e3o? Nada ainda?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ouvi dizer agora mesmo no Bernardo que foi chamado para organizar<br \/>\no minist\u00e9rio o Faria Soares.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Ora! Ora! O Soares partiu ontem com a fam\u00edlia para Teres\u00f3polis.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; \u00c9 verdade; por\u00e9m disseram-me que ontem mesmo recebeu<br \/>\no telegrama e que desce hoje. A\u00ed vem o Goularte.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Homem, o Goularte deve estar bem informado.<\/p>\n<h2>CENA II<br \/>\nOS MESMOS e GOULARTE<\/h2>\n<p>RAUL &#8211; Oh! Goularte, quem foi o chamado?<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; O Silveira d&#8217;Assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; O que est\u00e1s dizendo?<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; A pura verdade.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Com os diabos! Por esta n\u00e3o esperava eu. Estou aqui, estou<br \/>\ndemitido.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Mas isto \u00e9 de fonte pura?<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; E at\u00e9 j\u00e1 est\u00e1 organizado o minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Quem ficou na Fazenda?<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; O Rocha.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; E na Justi\u00e7a?<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; O Brand\u00e3o. Para a Guerra entrou o Fel\u00edcio; para<br \/>\na Agricultura o Bar\u00e3o de Botafogo.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; O Bar\u00e3o de Botafogo?<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Sim, pois n\u00e3o o conheces! \u00c9 o Ladislau Medeiros.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ah! j\u00e1 sei.<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Para Estrangeiros o Visconde de Pedregulho; para a pasta do Imp\u00e9rio<br \/>\no Serzedelo.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Miseric\u00f3rdia!<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; E para a Marinha o Lucas Viriato.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Lucas Viriato?! Quem \u00e9?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; N\u00e3o o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Eu tamb\u00e9m nunca o vi mais gordo, mas dizem que \u00e9<br \/>\num sujeito muito inteligente.<\/p>\n<h2>CENA III<br \/>\nOS MESMOS e COMENDADOR PEREIRA<\/h2>\n<p>PEREIRA &#8211; Bom dia, meu senhores. (Aperta-lhes as m\u00e3os.)<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Ora viva, Senhor Comendador.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Ent\u00e3o, j\u00e1 sabem?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Acabamos de saber agora mesmo. O presidente do Conselho \u00e9 o<br \/>\nSilveira d&#8217;Assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; N\u00e3o h\u00e1 tal, foi chamado, \u00e9 verdade, mas n\u00e3o<br \/>\naceitou.<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Mas, Senhor Comendador, eu sei&#8230;<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Tamb\u00e9m eu sei que o homem esteve cinco horas em S\u00e3o<br \/>\nCrist\u00f3v\u00e3o, e que de l\u00e1 saiu \u00e0 meia-noite, sem<br \/>\nse haver decidido coisa alguma.<\/p>\n<p>RAUL (Vendo Anast\u00e1cio entrar pela direita.) &#8211; Ora a\u00ed est\u00e1<br \/>\nquem nos vai dar not\u00edcias frescas.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Quem \u00e9?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; O Conselheiro Anast\u00e1cio, que ali vem. (Seguem para a direita,<br \/>\ne formam um grupo.)<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Chama-o.<\/p>\n<h2>CENA IV<br \/>\nOS MESMOS, ANAST\u00c1CIO e vendedores<\/h2>\n<p>VENDEDOR DE BILHETES (Que juntamente com os outros tem passado pela rua,<br \/>\nvendendo ao povo os objetos que apregoam durante as cenas anteriores.) &#8211; Quem<br \/>\nquer os duzentos contos do Ipiranga!<\/p>\n<p>1\u00b0 VENDEDOR &#8211; A Gazeta da Tarde, a 40 r\u00e9is.<\/p>\n<p>2\u00b0 VENDEDOR &#8211; A Gazeta de Not\u00edcias.<\/p>\n<p>3\u00b0 VENDEDOR &#8211; A Gazetinha. Traz a queda do minist\u00e9rio. (Saem os<br \/>\nvendedores.)<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Senhor Conselheiro, satisfa\u00e7a-nos a curiosidade. Quem \u00e9<br \/>\no homem que nos vai governar?<\/p>\n<p>ANAST\u00c1CIO &#8211; Pois ainda n\u00e3o sabem?<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; S\u00e3o tantas as vers\u00f5es,..<\/p>\n<p>ANAST\u00c1CIO &#8211; Pensei que estivessem mais adiantados. Ora ou\u00e7am<br \/>\nl\u00e1. (Tira um papelinho do bolso; todos preparam-se para ouvi-lo com<br \/>\naten\u00e7\u00e3o.) Presidente do Conselho, Visconde da Pedra Funda; ministro<br \/>\ndo Imp\u00e9rio, Andr\u00e9 Gonzaga.<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Bem bom, bem bom.<\/p>\n<p>ANAST\u00c1CIO &#8211; Da Marinha, Bento Ant\u00f4nio de Campos.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Nem eu.<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Nem eu.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Nem eu.<\/p>\n<p>ANAST\u00c1CIO &#8211; Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sei quem seja. Ouvi dizer<br \/>\nque \u00e9 um sujeito dos sert\u00f5es de Minas.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; E por conseguinte muito entendido em coisas de mar.<\/p>\n<p>ANAST\u00c1CIO &#8211; Ministro da Fazenda, o Bar\u00e3o do Bico do Papagaio.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Para a Fazenda?!<\/p>\n<p>ANAST\u00c1CIO &#8211; Sim, senhor.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Por\u00e9m este homem nunca deu provas de si. \u00c9 pouco conhecido&#8230;<br \/>\nNas circunst\u00e2ncias em que se acha o pais.<\/p>\n<p>GOULARTE N\u00e3o diga isto, e aquele \u00e0 parte que ele deu ao Ramiro&#8230;<br \/>\nLembra-se, Senhor Conselheiro?<\/p>\n<p>ANAST\u00c1CIO &#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Um \u00e0 parte dado na quest\u00e3o do Xingu.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Era melhor que o tivessem deixado \u00e0 parte. Vamos adiante.<\/p>\n<p>ANAST\u00c1CIO &#8211; Ministro da Guerra, Ant\u00f4nio Horta.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Magn\u00edfico!<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Qual magn\u00edfico.<\/p>\n<p>ANAST\u00c1CIO &#8211; Da Agricultura, Jo\u00e3o Ces\u00e1rio, e fica na<br \/>\npasta dos Estrangeiros o presidente do Conselho.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; L\u00e1 est\u00e3o pondo um telegrama na porta do Globo. Vamos<br \/>\nver o que \u00e9. (Dirigem-se \u00e0 porta do Globo, ao redor da qual<br \/>\nre\u00fanem-se todos que est\u00e3o em cena, e depois retiram-se. Ernesto<br \/>\nentra no Globo.)<\/p>\n<h2>CENA V<br \/>\nDONA B\u00c1RBARA COELHO e MARIQUINHAS<\/h2>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (Entrando com Mariquinhas pela esquerda.) &#8211; Que ma\u00e7ada.<br \/>\nSe eu soubesse que esta maldita rua estava hoje neste estado, n\u00e3o tinha<br \/>\nsa\u00eddo de casa.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Pois olhe, mam\u00e3e; \u00e9 assim que eu gosto da rua<br \/>\ndo Ouvidor.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Tomara eu j\u00e1 que se organize o minist\u00e9rio,<br \/>\ns\u00f3 para assim ver se teu pai sossega. Encasquetou-se-lhe na cabe\u00e7a<br \/>\nque h\u00e1 de ser por for\u00e7a ministro.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; E por que n\u00e3o, mam\u00e3e? Os outros s\u00e3o melhores<br \/>\ndo que ele?!<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; E vive h\u00e1 tr\u00eas dias encerrado em casa,<br \/>\ncomo um verdadeiro maluco. Por mais que lhe diga &#8211; seu Chico, v\u00e1 para<br \/>\na C\u00e2mara, contente-se em ser deputado, que n\u00e3o \u00e9 pouco,<br \/>\ne o homem a dar-lhe. J\u00e1 quando caiu o outro minist\u00e9rio foi a<br \/>\nmesma coisa. Passa o dia inteiro a passear de um lado para o outro; assim<br \/>\nque ouve o ru\u00eddo de um carro, ou o tropel de cavalos corre para a janela,<br \/>\nespreita pelas frestas da veneziana, e come\u00e7a a dizer-me todo tr\u00eamulo:<br \/>\n&#8211; E agora, \u00e9 agora, Barbinha, mandaram-me chamar. De cinco em cinco<br \/>\nminutos pergunta ao criado: &#8211; N\u00e3o h\u00e1 alguma carta para mim?<br \/>\nQue afli\u00e7\u00e3o de homem, Santo Deus! Aquilo j\u00e1 \u00e9<br \/>\nmol\u00e9stia! Parece que se ele n\u00e3o sair ministro desta vez, arrebenta!<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Faz papai muito bem. Se eu fosse homem tamb\u00e9m havia<br \/>\nde querer governar.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Pois eu se fosse homem acabava com c\u00e2maras, com<br \/>\ngoverno, com liberais, conservadores e republicanos e reformava este pa\u00eds.<\/p>\n<h2>CENA VI<br \/>\nAS MESMAS e FELICIANINHA<\/h2>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Gentes, Dona Felicianinha por aqui!<\/p>\n<p>FELICIANINHA (Com embrulhos.) &#8211; \u00c9 verdade. Como est\u00e1, Dona<br \/>\nB\u00e1rbara? (Aperta a m\u00e3o de B\u00e1rbara e de Mariquinhas e<br \/>\nbeijam-se.)<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Como vai a Bibi? A Fifina est\u00e1 boa? H\u00e1 muito<br \/>\ntempo que n\u00e3o vejo a Cocota.<\/p>\n<p>FELICIANINHA &#8211; Todos bons. Eu \u00e9 que n\u00e3o tenho andado muito<br \/>\nboa. S\u00f3 a necessidade me faria sair hoje de casa.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; \u00c9 o mesmo que me acontece.<\/p>\n<p>FELICIANINHA &#8211; Fui ao Palais-Royal experimentar um vestido, fui depois ao<br \/>\ndentista, entrei no Godinho para ver umas fitas para o vestido da Chiquinha&#8230;<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; N\u00f3s tamb\u00e9m estivemos no Godinho. N\u00e3o viu<br \/>\na Filomena Brito com a filha?<\/p>\n<p>FELICIANINHA &#8211; Vi, por sinal que tanto uma como a outra estavam caiadas que<br \/>\nera um Deus nos acuda.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Andam constantemente assim. E a sirigaita da filha<br \/>\na estropiar palavras em franc\u00eas, ingl\u00eas, alem\u00e3o e italiano,<br \/>\npara mostrar aos circunstantes que j\u00e1 esteve na Europa.<\/p>\n<p>FELICIANINHA &#8211; Eu acho uma coisa t\u00e3o rid\u00edcula! E o que quer<br \/>\ndizer vestir-se a m\u00e3e igual \u00e0 filha!<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; E moda c\u00e1 da na terra. Andam as velhas por a\u00ed<br \/>\ntodas pintadas, frisadas, esticadas e arrebicadas, \u00e0 espera dos rapazes<br \/>\npelas portas dos armarinhos e das confeitarias. Cruz, credo, Santa B\u00e1rbara!<br \/>\nS\u00f3 se benzendo a gente com a m\u00e3o canhota. Olhe, l\u00e1 em<br \/>\nMinas nunca vi disto e estou com cinq\u00fcenta anos!<\/p>\n<h2>CENA VII<br \/>\nDONA B\u00c1RBARA, MARIQUINHAS, FELICIANINHA, FILOMENA e BEATRIZ<\/h2>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; L\u00e1 vem a Filomena com a filha.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Olhem s\u00f3 que sirigaitas!<\/p>\n<p>FILOMENA (Saindo com Beatriz do armarinho do fundo.) &#8211; Como est\u00e1,<br \/>\nDona B\u00e1rbara? (Cumprimentam-se todas, beijando-se.)<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Como est\u00e1, minha amiga?<\/p>\n<p>MARIQUINHAS (Para Beatriz.) &#8211; Sempre bonita e interessante.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (Para Filomena.) &#8211; E a senhora cada vez mais mo\u00e7a.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; S\u00e3o os seus olhos.<\/p>\n<p>FELICIANINHA (Para Beatriz.) &#8211; Como tem passado?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Assim, assim. \u00c7\u00e1 v\u00e1 doucement, ou como dizem<br \/>\nos alem\u00e3es: so, so.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (Baixo a Mariquinhas.) &#8211; Come\u00e7a ela com a algaravia.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; N\u00e3o tive o prazer de v\u00ea-la no \u00faltimo baile<br \/>\ndo Cassino. Esteve ravissant, esplendide. O high-life do Rio de Janeiro estava<br \/>\nrepresentado em tudo quanto possui de mais recherch\u00e8. O sal\u00e3o<br \/>\niluminado a giorno, e a last fashion exibia os seus mais belos esplendores.<br \/>\nPrachtvoll, ausgezeichnet, como dizem os alem\u00e3es.<\/p>\n<p>DONA BARB\u00c1RA (Baixo a Mariquinhas.) &#8211; Olha s\u00f3 para aquilo.<br \/>\nAusgetz&#8230; Parece que tem um peda\u00e7o de car\u00e1 fervendo na boca.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; A Beatriz causou sensa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o leram a descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua toilette?<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Ouvi dizer alguma coisa a respeito.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Pois saiu em todos os jornais, no Globo, na Gazetinha, na Gazeta<br \/>\nda Tarde, na Gazeta de Not\u00edcias&#8230;<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; O corpinho estava come ci, come c\u00e1. A saia \u00e9 que<br \/>\nestava ravissant! Era toda bouillon\u00e9, com fitas veill&#8217;or e inteiramente<br \/>\ncurta.<\/p>\n<p>FELICIANINHA &#8211; Vestido curto para baile?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; \u00c9 a \u00faltima moda.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Onde mandou faz\u00ea-lo?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Veio da Europa.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E foi feito pelo Worth.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (Baixo a Mariquinhas.) &#8211; Com toda a certeza foi feito<br \/>\nem casa, com aviamentos comprados em algum armarinho muito cangueiro.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Mas n\u00e3o vale a pena mandar vir vestidos da Europa. Chegam<br \/>\npor um dinheir\u00e3o, e aqui n\u00e3o apreciam essas coisas.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; O que aqui apreciam \u00e9 muita fita, muitas cores espantadas&#8230;<br \/>\nenfim, tout ce qu&#8217;il y a de camelote.<\/p>\n<p>FELICIANINHA &#8211; N\u00e3o \u00e9 tanto assim.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Agora mesmo acabamos de encontrar com as filhas do Trancoso, vestidas<br \/>\nde um modo&#8230;<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; \u00c9 verdade, vinham muito rid\u00edculas.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Escorridas, coitadas, que pareciam um chap\u00e9u de sol fechado.<br \/>\nSapristi!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E onde \u00e9 que foi a mulher do Seabra buscar aquele vestido<br \/>\nbranco todo cheio de fofinhos e crespinhos!<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Parecia que estava vestida de tripas. C&#8217;est incroyable.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Deixe estar que na Europa tamb\u00e9m se h\u00e1<br \/>\nde ver muita coisa rid\u00edcula. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aqui que&#8230;<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Disto l\u00e1 nunca vi; pelo menos em Paris.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (\u00c1 parte.) &#8211; Desfrut\u00e1vel! (Para Mariquinhas,<br \/>\nalto.) Menina, vamos embora, que j\u00e1 \u00e9 tarde.<\/p>\n<p>MARIQUINHAS &#8211; Adeus, Dona Beatriz.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Addio. (Beijam-se todas reciprocamente.)<\/p>\n<p>FILOMENA (Para Dona B\u00e1rbara.) &#8211; Apare\u00e7a; sabe que sou, fui<br \/>\ne serei sempre sua amiga.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Da mesma forma. E se assim n\u00e3o fosse tamb\u00e9m<br \/>\ndizia-lhe logo; eu c\u00e1 sou muito franca.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; \u00c9 por isso \u00e9 que a estimo e considero. (Saem Dona<br \/>\nB\u00e1rbara, Mariquinhas e Felicianinha.)<\/p>\n<h2>CENA VIII<br \/>\nBEATRIZ e FILOMENA<\/h2>\n<p>BEATRIZ (Vendo Mariquinhas.) &#8211; Olhe s\u00f3 como vai aquele chap\u00e9u<br \/>\nespecado no alto da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E a m\u00e3e cada vez se veste pior. N\u00e3o parece que j\u00e1<br \/>\ntem vindo ao Rio. Viste o Doutor Raul?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; N\u00e3o senhora.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; \u00c9 singular! Por que desapareceu ele l\u00e1 de casa?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; N\u00e3o sei! Alguma intriga talvez. Sou t\u00e3o infeliz&#8230;<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Pois olha, aquele era um excelente partido. Mo\u00e7o, talentoso.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Tout a fait chique.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E tout a fait, (Faz sinal de dinheiro.) que \u00e9 o principal.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Se papai fosse chamado agora para o minist\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<h2>CENA IX<br \/>\nAS MESMAS, RAUL e GOULARTE<\/h2>\n<p>RAUL (Entrando do fundo com Goularte e vendo Beatriz e Filomena.) &#8211; Oh! diabo!<br \/>\nl\u00e1 est\u00e1 a mulher do Conselheiro Brito com a filha&#8230; Se me descobrem<br \/>\nestou perdido.<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Por qu\u00ea? Porque a filha namora-me, desgra\u00e7ado, julga-me<br \/>\nmuito rico, e noutro dia no Cassino, caindo eu na asneira de dizer-lhe que<br \/>\nera bela, encantadora, essas banalidades, tu sabes, que costumamos dizer \u00e0s<br \/>\nmo\u00e7as nos bailes, o diabinho da rapariga fez-se vermelha, abaixou os<br \/>\nolhos, e disse-me: &#8211; Senhor Doutor Raul, por que n\u00e3o me pede a papai?<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Pois pede-lhe.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Nessa n\u00e3o caio eu! \u00c9 pobre como J\u00f3, e mulher<br \/>\nsem isto (Sinal de dinheiro.) est\u00e1 se ninando. Vamos embora. (Saem.)<\/p>\n<h2>CENA X<br \/>\nFILOMENA, BEATRIZ, MISTER JAMES e PEREIRA<\/h2>\n<h2>FILOMENA &#8211; E Mister James? N\u00e3o me disseste que ele tamb\u00e9m?&#8230;<\/h2>\n<p>BEATRIZ &#8211; Faz-me a corte, \u00e9 verdade; por\u00e9m aquilo \u00e9<br \/>\np\u00e1ssaro bisnau, e n\u00e3o cai assim no la\u00e7o com duas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Dizem que \u00e9 o ingl\u00eas mais rico do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Isto sei eu.<\/p>\n<p>MR. JAMES (Saindo do Castel\u00f5es com Pereira e vendo as duas.) &#8211; How?<br \/>\nMim n\u00e3o p\u00f3de fica aqui; vai embora depressa, Senhor Comendador.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Semana passada, mim estar na baile de Cassino, diz aquele menina,<br \/>\nque ele estar bonita; menina estar est\u00fapida, e diz a mim &#8211; How? Por<br \/>\nque vouc\u00ea n\u00e3o mi pede a papai?<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Bravo! E por que n\u00e3o ~e casa com ela?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! no; mim n\u00e3o estar vem a Brasil pra casa. Mim vem aqui<br \/>\npra faz neg\u00f3cia. Menina n\u00e3o tem dinheiro, casamento estar mau<br \/>\nneg\u00f3cia. No, no, no quer. Eu vai embora. (Sai para um lado, e Pereira<br \/>\npara outro.)<\/p>\n<p>FILOMENA (Tirando uma carteirinha do bolso.) &#8211; Vejamos o que h\u00e1 ainda<br \/>\na fazer.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Vamos \u00e0 Notre-Dame ver os colarinhos e ao Boulevard do Manuel<br \/>\nRibeiro.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; \u00c9 verdade; vamos J\u00e1. (Saem.)<\/p>\n<h2>CENA XI<br \/>\nERNESTO e FILIPE FLECHA<\/h2>\n<p>FILIPE (Saindo do armarinho com uma caixa de papel\u00e3o debaixo do bra\u00e7o,<br \/>\na Ernesto, que sai do Globo.) &#8211; Senhor Ernesto, v\u00ea aquela mulher?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Qual delas? Uma \u00e9 a senhora do Conselheiro Brito, a outra<br \/>\n\u00e9 a filha.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Aquela mulher \u00e9 a minha desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Quem?&#8230; A filha?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Ela sim! Por causa dela j\u00e1 n\u00e3o durmo, j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ncomo, j\u00e1 n\u00e3o bebo. Vi-a pela primeira vez, h\u00e1 uma semana,<br \/>\nno Castel\u00f5es. Comia uma empada! Com que gra\u00e7a ela segurava a<br \/>\napetitosa iguaria entre o fura-bolo e o mata-piolho, assim, olhe. (Imita.)<br \/>\nV\u00ea-la e perder a cabe\u00e7a foi obra de um momento.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Mas, desventurado, n\u00e3o sabes?&#8230;<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; J\u00e1 sei o que vai dizer-me. Que sou um simples caixeiro de<br \/>\narmarinho e que n\u00e3o posso aspirar \u00e0 m\u00e3o daquele anjo.<br \/>\nMas dentro do peito deste caixeiro pulsa um cora\u00e7\u00e3o de poeta.<br \/>\nN\u00e3o pode imaginar as torturas por que tenho passado desde o instante<br \/>\nem que a vi&#8230; Vi-a pela primeira vez no Castel\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Comia uma empada. J\u00e1 me disseste.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Mas o que ainda n\u00e3o lhe disse \u00e9 que por causa dela<br \/>\ntenho chuchado as maiores descomposturas dos patr\u00f5es, e que em um belo<br \/>\ndia ficarei na rua a tocar leques com bandurras. A sua imagem n\u00e3o me<br \/>\nsai um s\u00f3 instante da cabe\u00e7a. Estou no armarinho; se me encomendam<br \/>\nlinha dou marcas de lamparinas; se gritam retr\u00f3s preto trago sabonetes;<br \/>\na um velho que me pediu ontem suspens\u00f3rios meti-lhe nas m\u00e3os<br \/>\numa bisnaga! O homem gritou, o patr\u00e3o chamou-me de burro, os fregueses<br \/>\ntomaram pagode comigo. Estou desmoralizado.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Est\u00e1 bom, j\u00e1 sei.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; N\u00e3o pode saber, seu Ernesto.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Olha, se o patr\u00e3o te v\u00ea de l\u00e1 a conversar aqui,<br \/>\nest\u00e1s arranjado.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Noutro dia \u00e0 noite, quando os outros caixeiros dormiam, eu<br \/>\nlevantei-me, acendi a vela, e escrevi este soneto. (Tira um papel do bolso<br \/>\ne l\u00ea.) Ou\u00e7a s\u00f3 o princ\u00edpio:<\/p>\n<p class=\"imagem\">Quando te vejo radiante e bela,<br \/>\nPor entre rendas, fil\u00f3s e escumilha<br \/>\nMeu cora\u00e7\u00e3o ardente se humilha,<br \/>\nE minha alma murmura \u00e9 ela!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Magn\u00edfico! Est\u00e1 muito bom.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Mandei-o para a Gazetinha. Pois querem saber o que fizeram? (Tirando<br \/>\na Gazetinha do bolso e mostrando.) Leia. \u00c9 aqui na correspond\u00eancia.<\/p>\n<p>ERNESTO (Lendo.) &#8211; &#8220;Sr. P. F.&#8221;.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Filipe Flecha, sou eu.<\/p>\n<p>ERNESTO (Lendo.) &#8211; &#8220;Os seus versos cheiram a metro e a balc\u00e3o;<br \/>\no poeta n\u00e3o passa talvez de um caixeiro de armarinho.&#8221; (Rindo.)<br \/>\n\u00c9 boa! \u00c9 boa!<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; O maldito fil\u00f3 e a escumilha comprometeram-me. N\u00e3o<br \/>\nleio mais este papelucho. (Sobe.) L\u00e1 est\u00e1 ela parada \u00e0<br \/>\nporta do Farani.<\/p>\n<h2>CENA XII<br \/>\nOS MESMOS, 1\u00b0 VENDEDOR, 2\u00b0 VENDEDOR, 3\u00b0 IDEM, 4\u00b0 IDEM (Saindo<br \/>\ndo Globo.)<\/h2>\n<p>1\u00b0 VENDEDOR &#8211; O Globo da tarde a 40 r\u00e9is.<\/p>\n<p>2\u00b0 VENDEDOR &#8211; O Globo, trazendo o minist\u00e9rio e a lista da loteria.<\/p>\n<p>3\u00b0 VENDEDOR &#8211; O Globo.<\/p>\n<p>4\u00b0 VENDEDOR &#8211; O Globo a 40 r\u00e9is.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Vejamos se j\u00e1 h\u00e1 alguma coisa de novo. (Compra. Para<br \/>\nFilipe.) N\u00e3o queres saber quem foi chamado para o minist\u00e9rio?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Que me importa o minist\u00e9rio? O meu minist\u00e9rio \u00e9<br \/>\nela! Olhe, quando a vi pela primeira vez foi no Castel\u00f5es. Ela comia&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Uma empada, com os diabos, j\u00e1 sei; n\u00e3o me amoles.<br \/>\n(Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XIII<br \/>\nFILIPE e VENDEDOR DE BILHETES<\/h2>\n<p>VENDEDOR DE BILHETES &#8211; A sorte grande do Ipiranga!&#8230; Quem quer os duzentos<br \/>\ncontos!<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Oh! Como te amo!<\/p>\n<p>VENDEDOR (Para Filipe.) &#8211; N\u00e3o quer os duzentos contos?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Deixa-me.<\/p>\n<p>VENDEDOR &#8211; Fique com este n\u00famero que \u00e9 o \u00faltimo.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; N\u00e3o quero..<\/p>\n<p>VENDEDOR &#8211; Eu tenho um palpite de que o senhor apanha a taluda.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Homem, v\u00e1-se embora.<\/p>\n<p>VENDEDOR &#8211; Veja s\u00f3 o n\u00famero.<\/p>\n<p>FILIPE (\u00c0 parte.) &#8211; Quem sabe se n\u00e3o est\u00e1 aqui a minha<br \/>\nfelicidade?!<\/p>\n<p>VENDEDOR &#8211; Ent\u00e3o, n\u00e3o se tenta?<\/p>\n<p>FILIPE (\u00c1 parte, tirando dinheiro do bolso.) &#8211; L\u00e1 se v\u00e3o<br \/>\nos \u00faltimos vinte e cinco mil r\u00e9is, que me restam do ordenado<br \/>\ndeste m\u00eas. (Alto.) Tome. N\u00e3o quero ver o n\u00famero. (Sai<br \/>\no vendedor.) L\u00e1 seguiu ela para a rua dos Ourives. (Sai correndo.)<\/p>\n<h2>CENA XIV<br \/>\nMISTER JAMES e RAUL<\/h2>\n<h2>RAUL (Saindo da direita e lendo o Globo.) &#8211; &#8220;\u00c0 hora em que entrou<br \/>\na nossa folha para o prelo, ainda n\u00e3o se sabia&#8230;&#8221; (Continua a<br \/>\nler baixo.)<\/h2>\n<p>MR. JAMES (Que vem lendo tamb\u00e9m o Globo, entrando por outro lado.)<br \/>\n&#8211; &#8220;Os \u00faltimos telegramas da Europa anunciam. (Continua a ler baixo,<br \/>\nencontrando-se com Raul.)<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Oh! Mister James! Como est\u00e1?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; How, Senhor Raul, como tem passada?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Ent\u00e3o sabe j\u00e1 alguma coisa acerca do minist\u00e9rio?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; N\u00e3o estar j\u00e1 bem informada. \u00c9 dif\u00edcil<br \/>\neste crise. Neste pa\u00eds tem duas cousas que n\u00e3o estar bom; \u00e9<br \/>\ncriadas e minist\u00e9ria. Criadas n\u00e3o quer p\u00e1ra em casa,<br \/>\ne minist\u00e9ria dura tr\u00eas, quatro meses, bumba! Vai em terra. Brasileira<br \/>\nn\u00e3o pode suporta governo muite tempa. Quando ministra come\u00e7a<br \/>\na faz alguma cousa, tudo grita &#8211; No presta, homem estar est\u00fapida, homem<br \/>\nestar tratanta&#8230;<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Infelizmente \u00e9 a pura verdade.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Quando outra sobe diz mesma cousa, muda presidenta de prov\u00edncia,<br \/>\nsubdelegada, inspetor de quarteir\u00e3o, e pa\u00eds, em vez de anda,<br \/>\nestar sempre parada.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; A verdade nua e crua.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Vouc\u00ea escusa, se mim diz isto. Tudo quanto faz neste terra<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 pra ingl\u00eas ver?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Assim dizem.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Pois ent\u00e3o mim estar ingl\u00eas, mim estar na direita<br \/>\nde faz cr\u00edtica do Brasil.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; A maldita pol\u00edtica \u00e9 que tem sido sempre a nossa desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! Yes. Vem liberal, faz couse boe, vem conservador desmanche<br \/>\ncouse boe de liberal.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; E vice-versa.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! Yes.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; E os republicanos?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; How! N\u00e3o fala em republicanas. Estar gente toda very good.<br \/>\nMas mim n\u00e3o gosta de republicana que faz barulha no meio da rua; governo<br \/>\nd\u00e1 emprega e republicana cala sua boca.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Mas no n\u00famero destes que calam a boca com empregos n\u00e3o<br \/>\nse compreendem os republicanos evolucionistas; aqueles que, como eu, querem<br \/>\no ideal dos governos sem sangue derramado, sem como\u00e7\u00f5es sociais&#8230;<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! Republicana evolucionista estar a primeira de todos republicanas.<br \/>\nEspera de bra\u00e7o cruzado que rep\u00fablica aparece; e enquanto rep\u00fablica<br \/>\nn\u00e3o aparece, republicana estar ministra, deputada, senador, conselheira,<br \/>\ntuda. Republicana evolucionista estar partida que tem por partida tira partida<br \/>\nde todas as partidas.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; N\u00e3o \u00e9 nos partidos que est\u00e1 o nosso mal.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Sua mal de vouc\u00eas est\u00e1 no l\u00edngua. Brasileira<br \/>\nfala muito, faz discursa very beautiful, mas pa\u00eds n\u00e3o anda pra<br \/>\nadiante com discursa.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Pa\u00eds precisa de bra\u00e7as, de com\u00e9rcia, de<br \/>\nind\u00fastria, de estradas de ferro&#8230;<\/p>\n<p>RAUL &#8211; \u00c9 verdade, e a sua estrada para o Corcovado?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Mim estar em ajuste com companhia. Mas quando pretende compra<br \/>\nestrada e que tem promessa de governa pra privil\u00e9gia, maldita governa<br \/>\ncai, e mim deixa de ganha muita dinheira.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Mas pode obter o privil\u00e9gio com esta gente.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! Yes! Para alcan\u00e7a privil\u00e9gia em que ganha dinheira<br \/>\nmim faz tudo, tudo.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Se eu pudesse alcan\u00e7ar tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Uma privil\u00e9gia?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; N\u00e3o; contento-me com um emprego.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Mas esta not\u00edcia \u00e9 verdadeira?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Est\u00e1 \u00e0 porta de todos os jornais. Na Gazetinha, na<br \/>\nGazeta de Not\u00edcias..<\/p>\n<p>GOULARTE &#8211; Na Gazeta da Tarde, no Cruzeiro&#8230; no Jornal do Commercio&#8230;<\/p>\n<p>RAUL &#8211; L\u00e1 est\u00e3o pregando um papel no Globo (Re\u00fanem-se<br \/>\ntodos junto ao Globo, menos Raul, Filipe e Mister James, que ficam no prosc\u00eanio.)<\/p>\n<p>RAUL (\u00c0 parte.) &#8211; Beatriz julga-me rico, ofere\u00e7o-lhe a m\u00e3o,<br \/>\nque ali\u00e1s ela j\u00e1 pediu, e apanho um emprego.<\/p>\n<p>MR. JAMES (\u00c0 parte.) &#8211; Filha de presidenta de conselha estar apaixonada<br \/>\npor mim; mim com certeza apanha privil\u00e9gia.<\/p>\n<p>FILIPE (\u00c0 parte.) &#8211; Eu amo-a, adoro-a cada vez mais. Ah! que se eu<br \/>\napanho a sorte grande!!<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Est\u00e1 chovendo. (Abre o chap\u00e9u-de-chuva.)<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; \u00c9 verdade. (Abre o guarda-chuva. Todos abrem guarda-chuvas,<br \/>\nmenos Filipe.)<\/p>\n<p>FILIPE (\u00c0 parte.) &#8211; L\u00e1 vem ela!<\/p>\n<p>RAUL (\u00c0 parte.) &#8211; Ela!<\/p>\n<p>MR. JAMES (Vendo Beatriz.) &#8211; How! (Ao entrar em cena Beatriz, acompanhada<br \/>\nde Filomena, Raul d\u00e1-lhe o bra\u00e7o e cobre-a com o chap\u00e9u,<br \/>\nJames d\u00e1 o bra\u00e7o a Filomena e cobre-a.)<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Dou-lhe os meus sinceros parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Minhas felicita\u00e7\u00e3os.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Obrigada.<\/p>\n<p>FILIPE (Tomando os embrulhos de Filomena e Beatriz) &#8211; Fa\u00e7am o favor,<br \/>\nminhas senhoras!<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; N\u00e3o se incomode.<\/p>\n<p>FILIPE (\u00c0 parte.) &#8211; Que m\u00e3o, Santo Deus! Estou aqui, estou-lhe<br \/>\nem casa.<\/p>\n<h2><b>(Fim do primeiro ato.)<\/b><\/h2>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>ATO SEGUNDO<\/h2>\n<p>Sala elegantemente mobiliada. Portas ao fundo e laterais.<\/p>\n<h2>CENA I<br \/>\nERNESTO e FILIPE<\/h2>\n<p>ERNESTO (Entrando, a Filipe, que deve estar tomando notas em uma pequena<br \/>\ncarteira.) &#8211; Filipe?! Por aqui?!<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; \u00c9s tamb\u00e9m pretendente?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; N\u00e3o; sou rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Rep\u00f3rter?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; \u00c9 verdade. O amor ou \u00e9 a minha perdi\u00e7\u00e3o<br \/>\nou h\u00e1 de ser talvez a causa da minha felicidade. Venho aqui todos os<br \/>\ndias, extasio-me diante daquelas formas divinas&#8230; Olhe, quando a vi pela<br \/>\nprimeira vez foi no Castel\u00f5es, ela&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Comia uma empada.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Ah! J\u00e1 lhe disse?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Milhares de vezes; j\u00e1 sei esta hist\u00f3ria de cor e<br \/>\nsalteado. Mas como diabo te fizeste rep\u00f3rter?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Desde o dia em que tive a felicidade de encontrar essa mulher na<br \/>\nestrada sinuosa, espinhosa, lacrimosa da exist\u00eancia, tornei-me completamente<br \/>\noutro homem. A atmosfera do armarinho pesava-me, o balc\u00e3o acachapava-me,<br \/>\no metro desmoralizava-me, e a id\u00e9ia de ter um patr\u00e3o encafifava-me&#8230;<br \/>\nEu sentia dentro de mim um n\u00e3o sei qu\u00ea que me dizia: &#8211; Filipe<br \/>\nFlecha, tu n\u00e3o nasceste para vender agulhas, alfazema e lamparinas<br \/>\nmarca de pau, ergue a cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; E ergueste-a.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; N\u00e3o, abaixei-a para evitar um cascudo que o patr\u00e3o<br \/>\npretendia dar-me em um belo dia em que estava a olhar para a rua, em vez de<br \/>\nservir as freguesas, e n\u00e3o voltei mais \u00e0 loja. Achando-me s\u00f3,<br \/>\nsem em prego, disse com os meus bot\u00f5es: &#8211; \u00e9 preciso que eu fa\u00e7a<br \/>\nalguma coisa. Escrever para o p\u00fablico, ver o meu nome em letra redonda,<br \/>\no senhor sabe, foi sempre a minha cacha\u00e7a. Fiz-me rep\u00f3rter,<br \/>\nnas horas vagas escrevo versos, e daqui para jornalista \u00e9 um pulo.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; \u00c9s mais feliz do que eu.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Porque n\u00e3o pretendes sentar-te a uma grande mesa que h\u00e1<br \/>\nneste pa\u00eds, chamada do or\u00e7amento, e onde, com bem raras exce\u00e7\u00f5es,<br \/>\ntodos t\u00eam o seu talher. Nesta mesa uns banqueteiam-se, outros comem,<br \/>\noutros apenas lambiscam. E \u00e9 para lambiscar um bocadinho, que venho<br \/>\nprocurar o ministro.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Ele n\u00e3o deve tardar.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Fui classificado em primeiro lugar no \u00faltimo concurso da<br \/>\nsecretaria.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Ent\u00e3o est\u00e1 com certeza nomeado.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Se a isso n\u00e3o se opuser um senhor de bara\u00e7o e cutelo,<br \/>\nchamado empenho, que tudo ata e desata nesta terra, e a quem at\u00e9 os<br \/>\nmais poderosos curvam a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; A\u00ed vem o ministro.<\/p>\n<h2>CENA II<br \/>\nOS MESMOS, CONSELHEIRO FEL\u00cdCIO DE BRITO<\/h2>\n<p>ERNESTO (Cumprimentando.) &#8211; \u00c0s ordens de Sua Excel\u00eancia.<\/p>\n<p>FILIPE (Cumprimentando.) &#8211; Excelent\u00edssimo.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; O que desejam?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Vinha trazer esta carta para Sua Excel\u00eancia e implorar-lhe<br \/>\na sua valiosa prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>BRITO (Depois de ler a carta.) &#8211; Sim, senhor. Diga ao Senhor Senador que<br \/>\nhei de fazer todo o poss\u00edvel por servi-lo. V\u00e1 descansado.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Eu tenho a observar a Sua Excel\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>BRITO &#8211; J\u00e1 sei, j\u00e1 sei.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Que fui classificado em primeiro lugar.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; J\u00e1 sei, j\u00e1 sei. V\u00e1. (Ernesto cumprimenta e sai.<br \/>\nA Filipe, que deve estar a fazer muitos cumprimentos.) O que quer? Ah! \u00c9<br \/>\no senhor?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Humil\u00edssimo servo de Sua Excel\u00eancia. Desejava saber<br \/>\nse j\u00e1 h\u00e1 alguma coisa de definitivo.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Pode dizer na sua folha que hoje mesmo deve ficar preenchida a pasta<br \/>\nda Marinha; que o governo tem lutado com dificuldades&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\ndiga isto.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; E essas dificuldades devem ter sido bem grandes; porque h\u00e1<br \/>\nquinze dias que o minist\u00e9rio est\u00e1 organizado, e ainda n\u00e3o<br \/>\nse p\u00f4de achar um ministro para a Marinha.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; O verdadeiro \u00e9 n\u00e3o dizer nada. Venha c\u00e1 logo,<br \/>\ne comunicar-lhe-ei ent\u00e3o tudo o que houver ocorrido.<\/p>\n<p>FILIPE (\u00c0 parte.) &#8211; Onde estar\u00e1 ela?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; V\u00e1, v\u00e1, venha logo.<\/p>\n<p>FILIPE (\u00c0 parte.) &#8211; Se eu pudesse v\u00ea-la. (Alto.) Excelent\u00edssimo.<br \/>\n(Cumprimenta e sai.)<\/p>\n<h2>CENA III<br \/>\nBRITO, FILOMENA e BEATRIZ<\/h2>\n<p>BRITO (Toca a campainha; aparece um criado.) &#8211; N\u00e3o deixe ningu\u00e9m<br \/>\nentrar nesta sala. (O criado inclina-se.)<\/p>\n<p>FILOMENA (Que entra com Beatriz, pela esquerda.) &#8211; E as minhas visitas?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E as minhas, papai? Voyons. \u00c7a ne se fait pas.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Por\u00e9m, minha querida Beatriz, espero aqui os meus colegas,<br \/>\ntemos que tratar de neg\u00f3cios do Estado, que s\u00e3o neg\u00f3cios<br \/>\nmuito s\u00e9rio.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; \u00c7a ne fait rien.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Ao menos d\u00ea ordem para que deixem entrar Mr. James.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E o Senhor Raul tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Valha-me Deus! Voc\u00eas alcan\u00e7am de mim tudo \u00f3 que<br \/>\nquerem. (Para o criado.) Quando o Senhor James e o Senhor Raul chegarem, manda-os<br \/>\nentrar. (O criado cumprimenta e sai.) Est\u00e3o satisfeitas?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; I love you, meu querido papai.<\/p>\n<p>FILOMENA (Reparando a sala.) &#8211; E ent\u00e3o? A sala j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nparece a mesma!<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E as cortinas est\u00e3o assorti com a mob\u00edlia, Mas este<br \/>\ntapete \u00e9 um escarro.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; \u00c9 verdade. Fel\u00edcio, precisamos comprar um tapete.<br \/>\nVi ontem um muito bonito no Costrejean.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; N\u00e3o compro mais coisa alguma, minha senhora. A senhora pensa<br \/>\nporventura que eu aceitei esta prebenda para ainda em cima arruinar-me?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Quando se est\u00e1 em certa posi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\nse deve fazer figura rid\u00edcula.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Noblesse oblige, papai.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; N\u00e3o sei o que quer dizer ser ministro e andar de bonde<br \/>\ncomo os outros, ter uma casa modestamente mobiliada, como os outros, n\u00e3o<br \/>\nreceber, n\u00e3o dar bailes, n\u00e3o dar jantares, como os outros, vestir-se<br \/>\ncomo os outros&#8230;<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; \u00c9 verdade. C&#8217;est ridicule.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Mas, minhas filhas, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m por a\u00ed<br \/>\nque n\u00e3o saiba que tenho poucos recursos, que vivo apenas dos meus ordenados.<br \/>\nA vida de um homem de Estado \u00e9 devassada e esmerilhada por todos, desde<br \/>\nos mais \u00ednfimos at\u00e9 os mais elevados representantes da escala<br \/>\nsocial. O que dir\u00e3o se me virem amanh\u00e3 ostentando um luxo incompat\u00edvel<br \/>\ncom os meus haveres?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Se a gente for dar satisfa\u00e7\u00f5es a tudo o que dizem&#8230;<\/p>\n<p>BRITO &#8211; E olha que aqui n\u00e3o se cochila para dizer que um ministro<br \/>\n\u00e9 ladr\u00e3o. O que mais querem voc\u00eas de mim? J\u00e1 obrigaram-me<br \/>\na alugar esta casa em Botafogo.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Dev\u00edamos ficar morando em Catumbi?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; E o que tem Catumbi?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Ora papai.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Sim, o que tem?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; N\u00e3o \u00e9 um bairro como il faut.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Obrigaram-me a assinar o Teatro L\u00edrico e&#8230; camarote.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Est\u00e1 visto. Havia de ser interessante ver a fam\u00edlia<br \/>\ndo presidente do Conselho sentada nas cadeiras&#8230;<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Como qualquer Sinh\u00e1 Ritinha da Prainha ou da Gamboa&#8230; Dieu<br \/>\nm&#8217;en garde! Eu preferiria l\u00e1 n\u00e3o ir.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Obrigaram-me mais a ter criados estrangeiros de casaca e gravata<br \/>\nbranca, quando eu podia perfeitamente arranjar a festa com o Paulo, o Zebedeu<br \/>\ne a Maria Ang\u00e9lica.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Pois n\u00e3o, s\u00e3o frescos, sobretudo o Zebedeu. No outro<br \/>\ndia, \u00e0 mesa de jantar, mam\u00e3e disse-lhe: &#8211; V\u00e1 buscar l\u00e1<br \/>\ndentro uma garrafa de vinho do Porto, mas tome cuidado, n\u00e3o a sacuda.<br \/>\nQuando chegou com a garrafa, mam\u00e3e perguntou-lhe: &#8211; Sacudiu? &#8211; N\u00e3o<br \/>\nsenhora, diz ele, mas vou sacudir agora. E come\u00e7a, z\u00e1s, z\u00e1s,<br \/>\nz\u00e1s. (Faz men\u00e7\u00e3o de quem sacode.) Quelle \u00edmbecile.<br \/>\nAquilo \u00e9 que os alem\u00e3es chamam &#8211; ein Schafskopf!<\/p>\n<p>BRITO &#8211; At\u00e9 a minha roupa voc\u00eas querem reformar.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Com franqueza, Fel\u00edcio, a tua sobrecasaca j\u00e1 estava<br \/>\nmuito sebosa!<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Papai quer fazer a mesma figura que faz o ministro do Imp\u00e9rio?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; \u00c9 um homem muito inteligente. Tem um grande tino administrativo.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Tem, sim, senhor; mas era melhor que ele tivesse um palet\u00f3<br \/>\nna raz\u00e3o direta da intelig\u00eancia. E depois, como come, Santo Deus!<br \/>\nSegura na faca assim, olhe, (Mostra.) e mete-a na boca at\u00e9 o cabo,<br \/>\ntoda atulhada de comida. Choking.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Em compensa\u00e7\u00e3o o ministro de Estrangeiros.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; \u00c9 o melhorzinho deles. Mas n\u00e3o sabe l\u00ednguas.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Est\u00e1s enganada, fala muito bem franc\u00eas.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Muito bem, muito bem, l\u00e1 para que digamos n\u00e3o senhor.<br \/>\nDiz mons\u00ed\u00f9, neglig\u00e8, bord\u00f3, e outras que tais.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Enfim h\u00e1 quinze dias apenas que subi ao poder e j\u00e1<br \/>\nestou cheio de d\u00edvidas!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; N\u00e3o \u00e9 tanto assim.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; S\u00f3 ao compadre Bastos devo dez contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E se n\u00e3o fosse ele, estar\u00edamos representando um<br \/>\npapel bem triste.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; N\u00e3o poder\u00edamos receber \u00e0s quintas-feiras o<br \/>\nhigh life do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Sim, esse high l\u00edfe que aqui vem dan\u00e7ar o cotillon,<br \/>\nouvir boa m\u00fasica, saborear-me os vinhos; e que abandonar-me-\u00e1<br \/>\ncom a mesma facilidade com que hoje me adula, no dia em que eu n\u00e3o<br \/>\npuder mais dispor dos empregos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Papai n\u00e3o tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Pois bem, minha filha, quer tenha ou n\u00e3o raz\u00e3o, s\u00f3<br \/>\nte pe\u00e7o uma coisa, e fa\u00e7o igual pedido \u00e0 tua m\u00e3e.<br \/>\nN\u00e3o exijam de mim imposs\u00edveis. Voc\u00eas sabem que nada lhes<br \/>\nposso negar. (Tirando o rel\u00f3gio e vendo as horas.) Os meus companheiros<br \/>\nn\u00e3o tardam. Vou ao meu gabinete; j\u00e1 volto.<\/p>\n<h2>CENA IV<br \/>\nFILOMENA, BEATRIZ e MISTER JAMES<\/h2>\n<p>BEATRIZ (Sentando-se e lendo um livro, que deve trazer na m\u00e3o.) &#8211;<br \/>\n\u00c9 muito bem escrito este romance de Manzoni.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Um tapete novo aqui deve fazer um vist\u00e3o. N\u00e3o achas?<\/p>\n<p>MR. JAMES (Com um rolo debaixo do bra\u00e7o.) &#8211; Mim pode entra?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Oh! Mr. James!<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Como est\u00e1, senhorra? (Para Beatriz.) Vosmec\u00ea vai<br \/>\nbem?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Pensei que n\u00e3o viesse.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! mim d\u00e1 palavra que vem; mim n\u00e3o falta sua palavra.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Assim deve ser.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Trouxe os seus pap\u00e9is?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! Yes.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; O seu projeto \u00e9 a great attraction do dia.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Projeto estar muita grandiosa. (Desenrola o papel e mostra.)<br \/>\nCarros sai daqui de Cosme Velha, e sobe Corcovada em vinte minutas.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E estes cachorros que est\u00e3o aqui pintados?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Senhorras n\u00e3o entende deste cousa: mim fala com pai de<br \/>\nvosmec\u00ea, explica o que \u00e9 todos esses cachorras.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Tudo quanto temos de bom devemos aos senhores estrangeiros.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; C&#8217;est vrai. Os brasileiros, com raras exce\u00e7\u00f5es, n\u00e3o<br \/>\nse ocupam destas coisas.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Brasileira estar muito inteligenta; mas estar tamb\u00e9m muito<br \/>\npregui\u00e7a. Passa vida no rua do Ouvidor a fala de pol\u00edtica, pensa<br \/>\ns\u00f3 de pol\u00edtica de manh\u00e3 at\u00e9 a noite. Brasileira<br \/>\nquer estar deputada, juiz de paz, vereador&#8230; Vereador ganha dinheira?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; N\u00e3o, senhor; \u00e9 um cargo gratuito.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Ent\u00e3o mim n\u00e3o sabe como tudo quer ser vereador.<br \/>\nSenhorra j\u00e1 fala com sua marida a respeita de minha projeta?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; N\u00e3o, senhor, mas hei de falar-lhe.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Sua marida estar engenheira ou agricultor?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Papai \u00e9 doutor em Direito.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; \u00c9 ministra de Imp\u00e9rio?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Tamb\u00e9m doutor em Direito.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Ministra d&#8217;Estrangeiras?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Doutor em Direito.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; How! Toda minist\u00e9ria estar doutor em direita?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Sim, senhor.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Na escola de doutor em direita estuda marinha, aprende planta<br \/>\nbatatas e caf\u00e9, e sabe todas essas cousas de guerra?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Estudam-se leis.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; No Brasil estar tudo doutor em direita. Pa\u00eds no indireita<br \/>\nassim. Mim n\u00e3o sabe se estar incomodando senhora. (Sentam-se.)<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Oh! o senhor nunca nos incomoda, d\u00e1-nos sempre muito prazer.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Pois mim tem tamb\u00e9m multo prazer em conversa com vosmec\u00ea;<br \/>\n(Para Beatriz) pois eu gosta muito de brasileiras.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Mas as inglesas s\u00e3o very beautiful. Eu vi em Londres, no<br \/>\nHyde-Park, verdadeiras formosuras.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! yes. Inglesas estar muito bonitas, mas brasileira tem mais&#8230;<br \/>\ntem mais&#8230; Como chama este palavra&#8230; Eu tem no ponta da l\u00edngua&#8230;<br \/>\nBrasileira tem mais pasquim.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Pasquim?!<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; No, no, como chama este gra\u00e7a de brasileira?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Ah! quindins.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! yes, very well. Quindins.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Muito bem, Mr. James. Falta agora que o senhor confirme o que<br \/>\nacaba de dizer casando-se com uma brasileira.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Mim no pode casa, por ora, porque s\u00f3 tem cinq\u00fcenta<br \/>\nmil libras sterlinas; mas se mim arranja este privil\u00e9gia, d\u00e1<br \/>\npalavra que fica em Brasil e casa com brasileira.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Pelo que vejo j\u00e1 est\u00e1 enfeiti\u00e7ado pelos quindins<br \/>\nde alguma?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; N\u00e3o duvida, senhora, e cr\u00ea que feiti\u00e7a n\u00e3o<br \/>\nestar muito longe daqui. (Olha significativamente para Beatriz.)<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; (\u00c0 parte.) &#8211; Isto j\u00e1 eu sabia.<\/p>\n<p>FILOMENA (\u00c0 parte.) &#8211; \u00c9 a sorte grande!<\/p>\n<h2>CENA V<br \/>\nOS MESMOS e BRITO<\/h2>\n<p>BRITO (Vendo o rel\u00f3gio.) Ainda nada. Oh! Mister James. Como est\u00e1?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Criada de Sua Excel\u00eancia. (Conversa com Beatriz.)<\/p>\n<p>FILOMENA (Levando Brito para um lado.) &#8211; Este ingl\u00eas possui uma fortuna<br \/>\nde mais de quinhentos contos, parece gostar de Beatriz&#8230; Se n\u00f3s soubermos<br \/>\nlev\u00e1-lo, poderemos fazer a felicidade da menina.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; E o que queres que fa\u00e7a?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Que lhe concedas o privil\u00e9gio que ele pede.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Mas, senhora, estas quest\u00f5es n\u00e3o dependem s\u00f3<br \/>\nde mim. Eu n\u00e3o quero comprometer-me.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Ent\u00e3o para que te serve ser presidente do Conselho?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Mas eu n\u00e3o posso nem devo dispor das coisas do Estado para<br \/>\narranjos de fam\u00edlia. A senhora j\u00e1 me endividou e quer agora<br \/>\ndesacreditar-me.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Pois isto h\u00e1 de se fazer. Mr. James, meu marido quer conversar<br \/>\ncom o senhor a respeito do seu neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Estarei \u00e0s suas ordens, Senhor James; por\u00e9m um pouco<br \/>\nmais tarde. Espero os meus colegas.<\/p>\n<p>Ma. JAMES &#8211; A que horas mim pode procura Sua Excel\u00eancia?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; \u00c0s duas horas.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; At\u00e9 logo. (Cumprimenta e sai.)<\/p>\n<h2>CENA VI<br \/>\nOS MESMOS, menos MISTER JAMES<\/h2>\n<p>BRITO &#8211; A senhora ainda h\u00e1 de comprometer-me. (Sa\u00ed.)<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Dizem todos que \u00e9 um projeto grandioso.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Vou acabar a leitura deste romance.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Eu vou dar as ordens para a partida desta noite.<\/p>\n<h2>CENA VII<br \/>\nDONA B\u00c1RBARA, CRIADO e o DESEMBARGADOR FRANCISCO COELHO<\/h2>\n<p>CRIADO &#8211; Sua Excel\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 em casa.<\/p>\n<p>COELHO &#8211; Quero falar com as senhoras. Aqui tem o meu cart\u00e3o. (Criado<br \/>\ncumprimenta e sai.)<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Est\u00e1 em casa com toda a certeza; mas negou-se.<\/p>\n<p>COELHO &#8211; Isto sei eu; e por isso \u00e9 que entrei.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Eu n\u00e3o devia vir. Estas sirigaitas aborrecem-me<br \/>\nextraordinariamente.<\/p>\n<p>COELHO &#8211; Mas, minha filha, tu pensas que em pol\u00edtica a gente sobe<br \/>\nunicamente por seus belos olhos? N\u00e3o sou rico, j\u00e1 estou velho,<br \/>\nn\u00e3o tenho pai alcaide, se deixar fugir as ocasi\u00f5es, quando serei<br \/>\nministro?<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; E para que voc\u00ea quer ser ministro, seu Chico?<\/p>\n<p>COELHO &#8211; Ora, tens \u00e0s vezes certas perguntas? Para qu\u00ea? Para<br \/>\ngovernar, para fazer o que os outros fazem.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o tem sabido governar a fazenda,<br \/>\ne quer governar o Estado!<\/p>\n<p>COELHO &#8211; A senhora n\u00e3o entende destas coisas.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Ora, diga c\u00e1! Suponha que voc\u00ea \u00e9<br \/>\nnomeado ministro.<\/p>\n<p>COELHO &#8211; Sim, senhora.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Perde a cadeira na C\u00e2mara. Tem de sujeitar-se<br \/>\na uma nova elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>COELHO &#8211; E o que tem isto?<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; O que tem?! \u00c9 que se voc\u00ea cair nesta asneira,<br \/>\nseu Chico, toma uma derrota, t\u00e3o certo como eu chamar-me B\u00e1rbara<br \/>\nBenvinda da Purifica\u00e7\u00e3o Coelho.<\/p>\n<p>COELHO &#8211; Eu, ministro, derrotado?<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; E por que n\u00e3o? Voc\u00ea \u00e9 melhor do<br \/>\nque os outros?<\/p>\n<h2>CENA VIII<br \/>\nOS MESMOS, RAUL, BEATRIZ e FILOMENA<\/h2>\n<p>RAUL &#8211; Senhor Desembargador.<\/p>\n<p>COELHO &#8211; Senhor doutor.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Minha senhora.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Fiz-lhe esperar muito?<\/p>\n<p>BEATRIZ (Para Raul.) &#8211; N\u00e3o sabia que estava tamb\u00e9m aqui.<\/p>\n<p>COELHO &#8211; O conselheiro n\u00e3o est\u00e1 em casa?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Est\u00e1 no seu gabinete.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (Baixo.) &#8211; O que te dizia eu?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Quer falar-lhe?<\/p>\n<p>COELHO &#8211; Se fosse poss\u00edvel.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Entre.<\/p>\n<p>COELHO &#8211; Com licen\u00e7a. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA IX<br \/>\nRAUL, BEATRIZ, DONA B\u00c1RBARA e FILOMENA<\/h2>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Como v\u00e3o os seus pequenos?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; O Chiquinho vai bem; a Rosinha \u00e9 que tem passado mal.<\/p>\n<p>BEATRIZ (A Raul.) &#8211; Por que n\u00e3o tem aparecido?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Sabe que o meu desejo era viver sempre a seu lado.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Est\u00e1 nas suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Se fosse poss\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Quem sabe se ela n\u00e3o sofre de vermes?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; O pr\u00f3prio m\u00e9dico n\u00e3o sabe o que \u00e9.<br \/>\nSente umas coisas que sobem e descem; \u00e0s vezes fica meia apatetada.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Querem ver que \u00e9 mau olhado!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Ora, a senhora acredita nessas coisas?!<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; \u00c9 porque a senhora ainda n\u00e3o viu o que<br \/>\neu presenciei com estes que a terra h\u00e1 de comer.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Ah! ah! ah! O senhor cr\u00ea em mau olhado, Senhor Raul?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; N\u00e3o, minha senhora; apenas no bom olhado de uns olhos feiticeiros.<br \/>\n(Olha para Beatriz significativamente.)<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Pois eu vi l\u00e1 em Minas uma criatura, que estava<br \/>\nbem atacada. E em dez minutos ficou boa.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Com a homeopatia?<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Com uma ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Ah! E como \u00e9 esta ora\u00e7\u00e3o?!<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; A mulher chamava-se Francisca. Molharam um ramo de<br \/>\narruda em \u00e1gua benta e rezaram-lhe o seguinte: &#8220;Francisca, se<br \/>\ntens mau olhado, ou olhos atravessados, eu te benzo em nome do Padre, do Filho<br \/>\ne do Esp\u00edrito Santo. Deus te olhe e Deus te desolhe, e Deus te tire<br \/>\nessa mau olhado, que entre a carne e os ossos, tens criado; que saia do tutano<br \/>\ne v\u00e1 para os ossos, que saia dos ossos e v\u00e1 para a carne, que<br \/>\nsaia da carne e v\u00e1 para a pele, E que da\u00ed saia, e v\u00e1<br \/>\npara o Rio Jord\u00e3o, onde n\u00e3o fa\u00e7a mal a nenhum crist\u00e3o.&#8221;<br \/>\n\u00c9 infal\u00edvel. Experimente.<\/p>\n<p>BEATRIZ (Baixo a Raul.) &#8211; Quelle b\u00eatise.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; N\u00e3o acredita na influ\u00eancia dos olhos?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Sim; mas n\u00e3o creio na efic\u00e1cia daquelas ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; E sabe ler neles?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Quelque chose.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; O que lhe dizem os meus?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Que o senhor \u00e9 um grande bandoleiro.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isto o que eles dizem.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; O que dizem ent\u00e3o? Voyons.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Que aqui dentro h\u00e1 um cora\u00e7\u00e3o que pulsa pela<br \/>\nsenhora e s\u00f3 para a senhora.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Non lo credo.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Dona Beatriz, se estivesse em condi\u00e7\u00f5es de faz\u00ea-la<br \/>\nfeliz, hoje mesmo dirigia-me a seu pai, e pedia-lhe o que mais ambiciono neste<br \/>\nmundo &#8211; a sua m\u00e3o.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E o que lhe falta para tornar-me feliz?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Uma posi\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; O senhor n\u00e3o \u00e9 bacharel em Direito?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Alors&#8230;<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Por\u00e9m, se o ser bacharel em Direito fosse um emprego, haveria<br \/>\nmuito pouca gente desempregada no Brasil. Seu pai est\u00e1 hoje no governo,<br \/>\npoderia lan\u00e7ar as suas vistas sobre mim. Como ser\u00edamos felizes<br \/>\num ao lado do outro.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Eu vou falar com mam\u00e3e. Comunicar-lhe-ei as suas inten\u00e7\u00f5es<br \/>\na meu respeito, e dar-lhe-ei a resposta.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Advogue bem a minha causa, ou antes a nossa causa.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Sim. (\u00c0 parte.) E eu que o julgava desinteressado. Oh! les<br \/>\nhommes! les hommes!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Por que n\u00e3o veio \u00e0 nossa \u00faltima partida,<br \/>\nSenhor Raul?<\/p>\n<p>BEATRIZ (Para Raul.) &#8211; Dan\u00e7amos um cotillon que durou quase duas horas.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Quem marcava?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; O ministro da B\u00e9lgica. Oh! que j&#8217;aime le cotillon<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; O que vem a ser isto de coti\u00e1o?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Uma dan\u00e7a arrebatadora.<\/p>\n<h2>CENA X<br \/>\nOS MESMOS e COELHO<\/h2>\n<p>COELHO (Zangado.) &#8211; Vamos embora.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; J\u00e1?!<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (Baixo a Coelho.) &#8211; Ent\u00e3o; o que arranjaste?<\/p>\n<p>COELHO (Baixo.) &#8211; O que arranjei?! Nada; mas ele arranjou uma oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde arrancar couro e cabelo. Hei de mostrar-lhe o que valho. Est\u00e3o aqui<br \/>\nest\u00e3o na rua.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (Baixo.) &#8211; Bem feito.<\/p>\n<p>COELHO (Baixo.) &#8211; Vamos embora.<\/p>\n<p>FILOMENA (Para Coelho e B\u00e1rbara, que se despedem.) &#8211; Espero que apare\u00e7am<br \/>\nmais vezes.<\/p>\n<p>COELHO &#8211; Obrigado, minha senhora. (Saem.)<\/p>\n<p>RAUL &#8211; H\u00e1 de permitir-me tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Ent\u00e3o at\u00e9 a noite.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; At\u00e9 a noite. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XI<br \/>\nFILOMENA e BEATRIZ<\/h2>\n<p>BEATRIZ &#8211; O Senhor Raul acaba agora mesmo de pedir-me a m\u00e3o.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Agora mesmo?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Mas sob uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Qual \u00e9?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; De arranjar-lhe com papai um emprego. Veja s\u00f3 a senhora<br \/>\no que s\u00e3o os homens de hoje!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E que lhe respondeste?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Que havia de falar com vosmec\u00ea e que dar-lhe-ia depois a<br \/>\nresposta.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Muito bem. N\u00e3o lhe digas nada, por ora, enquanto n\u00e3o<br \/>\nse decidir o neg\u00f3cio do ingl\u00eas. Tenho mais f\u00e9 em Mr. James.<br \/>\nAquilo \u00e9 que se pode chamar um bom partido.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E ele querer\u00e1 casar comigo?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Ora, n\u00e3o quer ele outra coisa.<\/p>\n<h2>CENA XII<\/h2>\n<p><b>CRIADO, MINISTRO DA GUERRA, MINISTRO DA JUSTI\u00c7A, MINISTRO DO IMP\u00c9RIO,<br \/>\nMINISTRO DE ESTRANGEIROS, FILOMENA e BEATRIZ<\/b><\/p>\n<p>CRIADO (Na porta.) &#8211; Sua Excel\u00eancia o Senhor Ministro da Guerra.<\/p>\n<p>MINISTRO DA GUERRA &#8211; Minhas senhoras. (Cumprimenta Beatriz.)<\/p>\n<p>FILOMENA (Para o criado.) &#8211; V\u00e1 chamar seu amo. (O criado sai pela<br \/>\nporta da esquerda.)<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Como est\u00e1 sua senhora?<\/p>\n<p>MINISTRO DA GUERRA &#8211; Bem, obrigado, minha senhora.<\/p>\n<p>FILOMENA (Despedindo-se.) &#8211; Com licen\u00e7a. (Sai com Beatriz.)<\/p>\n<h2>CENA XIII<br \/>\nOS MESMOS e BRITO, menos FILOMENA e BEATRIZ<\/h2>\n<p>BRITO &#8211; Meu caro conselheiro. Os outros colegas ainda n\u00e3o vieram?<\/p>\n<p>MINISTRO DA GUERRA &#8211; A\u00ed est\u00e1 o ministro da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>MINISTRO DA JUSTI\u00c7A &#8211; Conselheiro&#8230;<\/p>\n<p>MINISTRO DA GUERRA &#8211; E do Imp\u00e9rio. (Entra o ministro do Imp\u00e9rio.)<\/p>\n<p>MINISTRO DA JUSTI\u00c7A &#8211; O nosso colega de Estrangeiros a\u00ed vem.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Ei-lo. (Entra o ministro de Estrangeiros.) Meus senhores, precisamos<br \/>\nconjurar seriamente as dificuldades que nos cercam.<\/p>\n<p>MINISTRO DA GUERRA &#8211; Apoiado.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; H\u00e1 quinze dias apenas que subimos ao poder, e j\u00e1 se<br \/>\nnotam muitos claros nas fileiras da maioria.<\/p>\n<p>MINISTRO DA JUSTI\u00c7A &#8211; A oposi\u00e7\u00e3o se engrossa a olhos<br \/>\nvistos.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Agora mesmo acaba de sair daqui o Desembargador Coelho. \u00c9<br \/>\nmais um descontente que passa para o outro lado.<\/p>\n<p>MINISTRO DA JUSTI\u00c7A &#8211; O Coelho? Ainda ontem, pode-se dizer, aspirava<br \/>\na ser o l\u00edder da maioria.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; \u00c9 verdade! Por\u00e9m suspira por uma pasta, e nas circunst\u00e2ncias<br \/>\natuais n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<h2>CENA XIV<\/h2>\n<p><b>O CRIADO, BRITO, MINISTRO DA GUERRA, MINISTRO DA JUSTI\u00c7A, MINISTRO<br \/>\nDO IMP\u00c9RIO, MINISTRO DE ESTRANGEIROS, CONSELHEIRO FELIZARDO e DOUTOR<br \/>\nMONTEIRINHO<\/b><\/p>\n<p>CRIADO (\u00c0 parte.) &#8211; O Senhor Conselheiro Felizardo.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Oh! Senhor Conselheiro. (Cumprimentam-se todos.) Esperava ansiosamente<br \/>\npor Vossa Excel\u00eancia.<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Estou \u00e0s ordens de Vossa Excel\u00eancia.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; O seu nome, o prest\u00edgio de que goza, a sua dedica\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0s id\u00e9ias dominantes, s\u00e3o t\u00edtulos que muito o<br \/>\nhabilitam.<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Bondade de meus correligion\u00e1rios.<\/p>\n<p>MINISTRO DO IMP\u00c9RIO &#8211; Pura justi\u00e7a.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Precisamos do apoio de Vossa Excel\u00eancia, como do ar que respiramos.<br \/>\nA pasta da Marinha ainda est\u00e1 vaga.<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; J\u00e1 estou velho&#8230;<\/p>\n<p>BRITO &#8211; N\u00e3o nos animamos a oferec\u00ea-la. Longe de n\u00f3s semelhante<br \/>\npensamento! O lugar de Vossa Excel\u00eancia \u00e9 na presid\u00eancia<br \/>\ndo Conselho.<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Se Vossas Excel\u00eancias permitem, dou um homem por mim.<\/p>\n<p>MINISTRO DO IMP\u00c9RIO &#8211; Basta ser de sua confian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Para ser recebido de bra\u00e7os abertos.<\/p>\n<p>FELIZARDO (Apresentando o Doutor Monteirinho.) &#8211; Aqui est\u00e1 o homem,<br \/>\no Doutor Monteiro, meu sobrinho, filho de minha irm\u00e3 Maria Jos\u00e9;<br \/>\ne que acaba de chegar da Europa, raz\u00e3o pela qual ainda n\u00e3o tomou<br \/>\nassento na C\u00e2mara.<\/p>\n<p>BRITO (Admirado.) &#8211; Senhor Doutor, folgo muito de conhec\u00ea-lo. (Baixo<br \/>\na Felizardo.) Acho-o, por\u00e9m, t\u00e3o mocinho.<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Formou-se o ano passado em S\u00e3o Paulo. (Baixo.) Que intelig\u00eancia,<br \/>\nmeu amigo!<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Sa\u00ed apenas dos bancos da academia, \u00e9 verdade,<br \/>\nmeus senhores; mas tenho procurado estudar com afinco todas as grandes quest\u00f5es<br \/>\nsociais que se agitam atualmente. A minha pena j\u00e1 \u00e9 conhecida<br \/>\nno jornalismo di\u00e1rio e nas revistas cient\u00edficas. Na pol\u00eamica,<br \/>\nnas quest\u00f5es liter\u00e1rias, nos debates pol\u00edticos, nas diversas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es, enfim, da atividade intelectual, tenho feito<br \/>\no poss\u00edvel por criar um nome.<\/p>\n<p>FELIZARDO (Baixo.) &#8211; \u00c9 muito h\u00e1bil.<\/p>\n<p>BRITO (Baixo.) &#8211; \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>FELIZARDO (Baixo.) &#8211; \u00c9 um can\u00e1rio.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Se n\u00e3o fossem as influ\u00eancias mesol\u00f3gicas<br \/>\nassaz acanhadas, em que vivem nesta terra as intelig\u00eancias que procuram<br \/>\nabrir a corola aos raios ardentes da luz, eu j\u00e1 teria talvez aparecido,<br \/>\na despeito dos meus verdes anos.<\/p>\n<p>BRITO (Baixo a Felizardo.) &#8211; Que idade tem?<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Que idade tens, Cazuza?<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Vinte e dois anos.<\/p>\n<p>MINISTRO DA JUSTI\u00c7A &#8211; O Senhor Doutor Monteiro n\u00e3o \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Chame-o Doutor Monteirinho. \u00c9 o nome por que ele \u00e9<br \/>\nconhecido.<\/p>\n<p>MINISTRO DA JUSTI\u00c7A &#8211; O Doutor Monteirinho n\u00e3o \u00e9 o autor<br \/>\nda c\u00e9lebre poesia O grito da escravid\u00e3o, que veio publicada<br \/>\nno Correio Paulistano?<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; E que foi transcrita em todos os jornais do Imp\u00e9rio.<br \/>\nUm seu criado. J\u00e1 cultivei a poesia em tempos que l\u00e1 v\u00e3o.<br \/>\nHoje, em vez de tanger a lira clor\u00f3tica do romantismo ou de dedilhar<br \/>\nas cordas, afinadas ao sabor moderno, dos poetas realistas, leio Spencer,<br \/>\nSchopenhauer, B\u00fcckner, Littr\u00e9, todos esses grandes vultos, que<br \/>\nconstituem o apostolado das sociedades modernas.<\/p>\n<p>FELIZARDO (Baixo, a Brito.) &#8211; Este rapaz vai fazer um figur\u00e3o no minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Creio. Ter\u00e1, por\u00e9m, ele a experi\u00eancia dos neg\u00f3cios<br \/>\np\u00fablicos?<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; N\u00e3o lhe d\u00ea cuidado. Fica sob as minhas vistas: eu<br \/>\nsaberei gui\u00e1-lo.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; A grande naturaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das quest\u00f5es<br \/>\natuais mais importantes para o Brasil.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Podemos contar, portanto, com o apoio decidido de Vossa Excel\u00eancia.<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Se at\u00e9 aqui eu quebrava lan\u00e7as por este minist\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>BRITO &#8211; L\u00e1 isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Imagine agora&#8230; (Olhando para Monteirinho.) O meu Cazuzinha!<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; E a quest\u00e3o das terras? J\u00e1 leram a Quest\u00e3o<br \/>\nIrlandesa, de Henry George? \u00c9 um livro admiravelmente escrito. Um livro<br \/>\ndo futuro!<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Senhor Doutor Monteirinho, temos a honra de considerar Vossa Excel\u00eancia<br \/>\nno n\u00famero dos nossos colegas.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Oh! Senhor Conselheiro.<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Cazuza, faz por seguir o caminho de teu tio. Vou correndo para<br \/>\na casa. Que alegr\u00e3o vai ter a Maria Jos\u00e9. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XV<br \/>\nOS MESMOS e JAMES, menos FELIZARDO<\/h2>\n<p>BRITO &#8211; Vamos para o gabinete.<\/p>\n<p>MR. JAMES (Aparecendo na porta.) &#8211; Duas horas em ponta.<\/p>\n<p>BRITO (\u00c0 parte.) &#8211; Que ma\u00e7ada. N\u00e3o me lembrava mais<br \/>\ndele. (James entra. Alto.) Meus senhores, apresento-lhes Mr. James, que requer<br \/>\num privil\u00e9gio que parece ser de grande utilidade.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Vejamos.<\/p>\n<p>MR. JAMES (Desenrolando o papel e mostrando.) &#8211; Aqui tem, senhoras.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; O que vem a ser isto?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Uma estrada especial para o Corcovado.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Maquinisma estar muito simples. Em vez de duas trilhas, ou de<br \/>\ntr\u00eas trilhas, como tem sistema adotada, mim coloca uma s\u00f3 trilha<br \/>\nlarga, de meu inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; \u00c9 bitola estreita?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! estreit\u00edssima! \u00c9 bitola zero.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; E como se sust\u00e9m o carro?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Perfeitamente bem.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; O sistema parece ser fac\u00edlimo.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; E estar muito econ\u00f4mica, senhorr.<\/p>\n<p>MINISTRO DA JUSTI\u00c7A &#8211; Mas n\u00e3o vejo m\u00e1quina, vejo apenas<br \/>\ncachorros. O que quer dizer isto?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Ai \u00e9 que est\u00e1 tuda.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; N\u00e3o compreendo. Tenha a bondade de explicar-me.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Id\u00e9ia estar aqui completamente nova. Mim quer adota sistema<br \/>\ncin\u00f3fero. Quer dizer que trem sobe puxada por cachorras.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; N\u00e3o era precisa a explica\u00e7\u00e3o. N\u00f3s<br \/>\ntodos sabemos que cin\u00f3fero vem do grego cynos, que quer dizer c\u00e3o,<br \/>\ne feren, que significa puxar, etc.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Muito bem, senhorr.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO Agora o que se quer saber \u00e9 como \u00e9 que os cachorros<br \/>\npuxam.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Cachorra propriamente no puxa. Roda \u00e9 oca. Cachorra fica<br \/>\ndentro de roda. Ora, cachorra dentro de roda, no pode estar parada. Roda ganha<br \/>\nimpulsa, quanto mais cachorra mexe, mais o roda caminha!<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; E de quantos cachorros precisa o senhor para o tr\u00e1fego<br \/>\ndos trens di\u00e1rios do Cosme Velho ao Corcovado?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Mim precisa de for\u00e7a de cinq\u00fcenta cachorras por trem;<br \/>\nmas deve muda cachorra em todas as viagens.<\/p>\n<p>MINISTRO DA JUSTI\u00c7A &#8211; Santo Deus! \u00c9 preciso uma cachorrada<br \/>\nenorme.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Mas eu aproveita todas as cachorras daqui e faz vir ainda muitas<br \/>\ncachorras de Inglaterra.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Mas se estes animais forem atacados de hidrofobia n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nperigo para os passageiros?<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Eu entendo que n\u00e3o se pode conceder este privil\u00e9gio,<br \/>\nsem se ouvir primeiro a junta de higiene.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! senhorr, n\u00e3o tem a menor periga. Se cachorra estar<br \/>\ndanada, estar ainda melhor, porque faz mais esfor\u00e7a e trem tem mais<br \/>\nvelocidade.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Em resumo, qual \u00e9 a sua pretens\u00e3o?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Mim quer privil\u00e9gia para introduzir minha sistema em Brasil,<br \/>\ne estabelecer primeira linha em Corcovada, com todas as favores de lei de<br \/>\nBrasil para empresa de caminha de ferro.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Mas o cachorro n\u00e3o est\u00e1 ainda classificado como motor<br \/>\nna nossa legisla\u00e7\u00e3o de caminhos de ferro.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Neste caso deve levar-se a quest\u00e3o ao poder legislativo.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Est\u00e1 bem: n\u00f3s vamos ver e resolveremos como for de<br \/>\njusti\u00e7a.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Em quanto tempa decide este neg\u00f3cia?<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Vamos resolver.<\/p>\n<p>MINISTRO no IMP\u00c9RIO &#8211; Tenha paci\u00eancia, espere.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; \u00c0s suas ordens. (Despede-se, os outros despedem-se de James<br \/>\ne saem pela esquerda.)<\/p>\n<h2>CENA XVI<br \/>\nJAMES, s\u00f3<\/h2>\n<p>MR. JAMES &#8211; Tem paci\u00eancia, espera! Sistema de brasileira. Time is money.<br \/>\nEu fala com mulher, e arranja tuda. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XVII<br \/>\nBEATRIZ e depois FILIPE<\/h2>\n<p>BEATRIZ &#8211; Vejamos se aqui posso concluir sossegada a leitura deste romance.<br \/>\n(L\u00ea.)<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Ela?! Oh! Eu atiro-me e confesso tudo. Ora adeus! (Trope\u00e7a<br \/>\nem uma cadeira.)<\/p>\n<p>BEATRIZ (Revolvendo-se.) &#8211; Quem \u00e9?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Filipe Flecha, um criado de Vossa Excel\u00eancia. Sou rep\u00f3rter.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Papai est\u00e1 agora em conselho com os outros ministros.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Como \u00e9 bela! (Beatriz continua a ler.)<\/p>\n<p>BEATRIZ (\u00c0 parte.) &#8211; Este estafermo pretender\u00e1 ficar aqui.<br \/>\nQue bruta faccia.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Eu atiro-me-lhe aos p\u00e9s. Coragem! (Encaminha-se para Beatriz.)<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Quer alguma coisa?<\/p>\n<p>FILIPE (Tirando uma carteira.) &#8211; O senhor seu pai onde nasceu, minha senhora?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; No Par\u00e1.<\/p>\n<p>FILIPE (Escrevendo na carteira.) &#8211; Onde formou-se?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Em Pernambuco.<\/p>\n<p>FILIPE (Escrevendo.) &#8211; Que empregos tem exercido? Que condecora\u00e7\u00f5es<br \/>\ntem?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Mas para que o senhor quer saber tudo isto? Oh! qu&#8217;il est drole!<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; \u00c9 que quando ele morrer a not\u00edcia para o jornal j\u00e1<br \/>\nest\u00e1 pronta. (\u00c0 parte.) Oh! que diabo de asneira!<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; O senhor est\u00e1 doido?<\/p>\n<p>FILIPE (Ajoelhando-se.) &#8211; Sim, doido, minha senhora, doido varrido. Quando<br \/>\na vi pela primeira vez foi no Castel\u00f5es. A senhora comia uma empada..<br \/>\n. (Beatriz procura tocar a campainha.) O que vai fazer?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Chamar algu\u00e9m para p\u00f4-lo daqui para fora.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Pelo amor de Deus, n\u00e3o fa\u00e7a esc\u00e2ndalo. (Levantando-se.)<br \/>\nEu vou, eu vou, mas creia que ningu\u00e9m no mundo a idolatra como eu!<br \/>\n(Sai olhando amorosamente para Beatriz.)<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Pobre louco! Mas este ao menos n\u00e3o me falou em emprego nem<br \/>\nem privil\u00e9gio! (Senta-se e continua a leitura.)<\/p>\n<p><b>(Cai o pano.)<\/b><\/p>\n<h2><b>(Fim do segundo ato.)<\/b><\/h2>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>ATO TERCEIRO<\/h2>\n<p>Sala de espera em casa do Conselheiro Brito<\/p>\n<h2>CENA<br \/>\nBRITO e FILOMENA<\/h2>\n<p>FILOMENA &#8211; Podias ter decidido o neg\u00f3cio perfeitamente sem lev\u00e1-lo<br \/>\n\u00e0s C\u00e2maras.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Como?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Como? Colocassem-me na Presid\u00eancia do Conselho, que eu te<br \/>\nmostraria.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Mas, Filomena, tu n\u00e3o sabes que se tratava de uma esp\u00e9cie<br \/>\ncompletamente nova, que o governo&#8230;<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Tanto melhor! Se a esp\u00e9cie era completamente nova, o governo<br \/>\ndevia resolver por si e n\u00e3o abrir o mal precedente de consultar a C\u00e2mara.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Olha, queres saber de uma coisa? Eu merecia que me vestissem uma<br \/>\ncamisola de for\u00e7a, por me haver metido em semelhante entrosga.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Ora, qual entrosga! O neg\u00f3cio era muito simples. Tratava-se<br \/>\nde uma estrada para o Corcovado&#8230;<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Mas de uma estrada especial, com carros movidos por cachorros&#8230;<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E o que tem os cachorros?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; \u00c9 que levantou-se a d\u00favida se o cachorro podia ser<br \/>\nconsiderado motor, se a estrada estava nas condi\u00e7\u00f5es da lei.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Pois eu presidente do Conselho cortava a d\u00favida, dizendo:<br \/>\n&#8211; o cachorro \u00e9 motor, e concedia o privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Tu n\u00e3o entendes destas coisas.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E o que se lucrou em consultar a C\u00e2mara? Em assanhar a oposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne formar no seio do parlamento dois partidos, o dos cachorros e o dos que<br \/>\nse batem, como le\u00f5es, contra os cachorros.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; E que partidos!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E l\u00e1 se vai o privil\u00e9gio, falto \u00e0 palavra<br \/>\nque dei ao ingl\u00eas, e o casamento da menina, v\u00edspora!<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Mas o que queres que fa\u00e7a?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Que envides todos os esfor\u00e7os para que o projeto passe!<br \/>\nHoje \u00e9 a \u00faltima discuss\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>BRITO &#8211; E o \u00faltimo dia talvez do minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Quais s\u00e3o os deputados que votam contra?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Uma infinidade.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; O El\u00f3i \u00e9 cachorro?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Sim, senhora.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; O Azambuja?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Cachorro.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; O Pereira da Rocha?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Este \u00e9 de fila.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; O Vicente Coelho?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Era cachorro; mas passou anteontem para o outro lado.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E o Barbosa?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Est\u00e1 assim, assim. Talvez passe hoje para cachorro.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Ah! Que se as mulheres tivessem direitos pol\u00edticos e pudessem<br \/>\nrepresentar o pa\u00eds&#8230;<\/p>\n<p>BRITO &#8211; O que fazias?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; O privil\u00e9gio havia de passar, custasse o que custasse.<br \/>\nEu \u00e9 que devia estar no teu lugar, e tu no meu. \u00c9s um mingau,<br \/>\nn\u00e3o nasceste para a luta.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Mas com a breca! Queres que fa\u00e7a quest\u00e3o de gabinete?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Quero que fa\u00e7as tudo, contanto que o privil\u00e9gio<br \/>\nseja concedido.<\/p>\n<p>BRITO (Resoluto.) &#8211; Pois bem; farei quest\u00e3o de gabinete, e assim fico<br \/>\nlivre mais depressa desta maldita t\u00fanica de Nessus.<\/p>\n<h2>CENA II<br \/>\nOS MESMOS e o DOUTOR MONTEIRINHO<\/h2>\n<p>DR. MONTEIRINHO (Cumprimentando Filomena.) &#8211; Minha senhora. (Para Brito.)<br \/>\nVamos para a C\u00e2mara, conselheiro. \u00c9 hoje a grande batalha.<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Estou \u00e0s suas ordens.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Havemos de vencer, custe o que custar.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Doutor Monteirinho, empregue todo o fogo de sua palavra.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Fique descansada, minha senhora. Levo o meu discurso na<br \/>\nponta da l\u00edngua. Hei de tratar a parte t\u00e9cnica, sobretudo, com<br \/>\no maior cuidado. Na discuss\u00e3o deste projeto ou conquisto os foros de<br \/>\nestadista, ou caio para nunca mais erguer a fronte.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Bravo! Bravo!<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Vamos, conselheiro, s\u00e3o horas.<\/p>\n<p>FILOMENA (Para Brito.) &#8211; Vai. Que Deus te inspire. (Saem Monteiro e Brito.)<\/p>\n<h2>CENA III<br \/>\nFILOMENA e BEATRIZ<\/h2>\n<p>FILOMENA &#8211; Que boa madrugada! Onze horas!<\/p>\n<p>BEATRIZ (Beijando Filomena.) &#8211; N\u00e3o posso acordar-me cedo, por mais<br \/>\nesfor\u00e7os que fa\u00e7a. Vosmec\u00ea n\u00e3o sai hoje?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; N\u00e3o. Estou muito nervosa.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; \u00c9 mais uma raz\u00e3o para sair.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Se cai o projeto e com ele o minist\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Estamos arranjadas.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; L\u00e1 se vai o ingl\u00eas.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E o Sr. Raul tamb\u00e9m. (\u00c0 parte.) Se ao menos aquele<br \/>\npobre doido que ofereceu-me o cora\u00e7\u00e3o&#8230; (Alto.) Ora, ser\u00e1<br \/>\no que Deus quiser. (Mirando-se ao espelho, canta.)<\/p>\n<p>La donna \u00e9 mobile<br \/>\nQual piuma al vento.<br \/>\nMuta d&#8217;accento<br \/>\nE di pensiero.<\/p>\n<p>O paquete franc\u00eas deve chegar hoje?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Creio que sim.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Estou ansiosa por ver os vestidos de ver\u00e3o que encomendamos.<\/p>\n<h2>CENA IV<br \/>\nBEATRIZ, FILOMENA e CRIADO<\/h2>\n<p>CRIADO (Com uma gaiola com papagaio.) &#8211; Veio da parte do Senhor Tinoco, com<br \/>\nesta carta. (Entrega a carta a Filomena.)<\/p>\n<p>FILOMENA (Depois de ler a carta.) &#8211; Estes pretendentes entendem que devem<br \/>\nencher-me a casa de bichos. Leva para dentro. (O criado sai.)<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E coisa c\u00e9lebre, pelos presentes pode-se conhecer a que<br \/>\nprov\u00edncia ou a que lugar pertencem os pretendentes. Os do Cear\u00e1<br \/>\nmandam corrupi\u00f5es; os do Par\u00e1 redes, paus de guaran\u00e1<br \/>\ne macacos de cheiro; os de Pernambuco, cajus secos e abacaxis; os de S\u00e3o<br \/>\nPaulo, formigas vestidas, figos em calda.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E arapongas. Se o pretendente \u00e9 do Maranh\u00e3o, a mulher<br \/>\ndo ministro n\u00e3o passa sem len\u00e7o de labirinto.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E se \u00e9 da Bahia, l\u00e1 v\u00eam as quartinhas, o azeite<br \/>\nde cheiro e os sag\u00fcis.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Os do Rio Grande do Sul exprimem a gratid\u00e3o com l\u00ednguas<br \/>\nsalgadas e origones.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; E os de Minas com queijos e rolos de fumo. Mas, coitados! Muito<br \/>\nsofrem! S\u00f3 a lida em que eles vivem &#8211; Venha hoje, venha amanh\u00e3,<br \/>\nespere um pouco, agora n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; \u00c9 para admirar que a esta hora j\u00e1 n\u00e3o esteja<br \/>\na sala cheia deles.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; \u00c9 verdade.<\/p>\n<h2>CENA V<br \/>\nFILOMENA, BEATRIZ e DONA B\u00c1RBARA<\/h2>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Desculpe-me se fui entrando sem an\u00fancio pr\u00e9vio.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; A Senhora Dona B\u00e1rbara \u00e9 sempre recebida com prazer<br \/>\na qualquer hora.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; E \u00e9 por saber disto que vim v\u00ea-la, apesar<br \/>\ndo que se tem passado.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Creio que entre n\u00f3s nada se tem passado que possa porventura<br \/>\ninterromper, sequer de leve, as nossas rela\u00e7\u00f5es amistosas.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Quero dizer do que se tem passado entre os nossos maridos.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o sei o que possa ter havido entre eles.<br \/>\nPertencem ao mesmo credo pol\u00edtico, ainda ontem para bem dizer, eram<br \/>\namigos&#8230;<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (\u00c0 parte.) &#8211; Se n\u00e3o digo na bochecha desta<br \/>\nemproada tudo quanto sinto, estouro. (Alto.) Eram amigos, \u00e9 verdade,<br \/>\npor\u00e9m&#8230; meu marido tem raz\u00f5es especiais&#8230; Ele est\u00e1<br \/>\nna C\u00e2mara cumprindo o seu dever.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Faz muito bem.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; N\u00e3o \u00e9 hoje que se discute um c\u00e9lebre<br \/>\nprivil\u00e9gio de uma estrada para o Corcovado?<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Creio que sim.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; N\u00e3o sabia; passando por acaso pela rua do Ouvidor&#8230;<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Como \u00e9 fingida esta vecch\u00eda strega!<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Ouvi os garotos apregoarem a Gazeta da Tarde, traz<br \/>\na not\u00edcia da grande patota dos cachorros! E por entre os grupos dos<br \/>\nindiv\u00edduos que conversavam no ponto dos bondes, pude distinguir estas<br \/>\nfrases, cujo sentido n\u00e3o compreendi bem: arranjos de fam\u00edlia,<br \/>\nministro patoteiro, casamento da filha com o ingl\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; \u00c9 verdade, minha senhora; mas o que n\u00e3o sabe \u00e9<br \/>\nque por entre aqueles grupos estava a mulher despeitada de um ministro gorado<br \/>\ne que era esta a que mais gritava.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Um ministro gorado?!<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Sim. Un ministre manqu\u00e9.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (Para Beatriz.) &#8211; Minha senhora, tenha a bondade de falar<br \/>\nem portugu\u00eas, se quer que a entenda.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Eu falarei portugu\u00eas claro. O ministro gorado \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Seu marido&#8230; voila tout.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E a mulher despeitada&#8230;<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Sou eu?!<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Sans doute.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA (\u00c0 parte.) &#8211; Eu arrebento. (Alto.) Pois j\u00e1<br \/>\nque as senhoras s\u00e3o t\u00e3o positivas dir-lhes-ei que meu marido<br \/>\nnunca teve a id\u00e9ia de fazer parte de semelhante minist\u00e9rio.<br \/>\nEle \u00e9 um homem de muito bom senso e sobretudo de muita probidade.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Observo \u00e0 senhora que estou em minha casa.<\/p>\n<p>BEATRIZ (\u00c0 parte.) &#8211; C&#8217;est incroyable! Dreadful.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Foi a senhora a primeira que esqueceu esta circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; N\u00e3o me obrigue&#8230;<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Eu retiro-me para nunca mais p\u00f4r os p\u00e9s<br \/>\naqui.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Estimo muito.<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; E fique sabendo que o Chico&#8230;<\/p>\n<p>FILOMENA (Com dignidade.) &#8211; Minha senhora. (Cumprimenta e sai.)<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Au revoir. (Sai.)<\/p>\n<p>DONA B\u00c1RBARA &#8211; Emproada, sirigaita, patoteira! Hei de tomar uma desforra.<br \/>\n(Sai zangada.)<\/p>\n<h2>CENA VI<br \/>\nPEREIRA, IN\u00c1CIO, ARRUDA, RIBEIRO, AZAMBUJA, mais pessoas e o CRIADO<\/h2>\n<p>CRIADO &#8211; Sua Excel\u00eancia n\u00e3o est\u00e1. Os senhores que quiserem<br \/>\nesperar podem ficar nesta sala.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; O homem est\u00e1 em casa.<\/p>\n<p>IN\u00c1CIO &#8211; Eu c\u00e1 hei de falar-lhe hoje, por for\u00e7a, haja<br \/>\no que houver.<\/p>\n<p>ARRUDA &#8211; E eu tamb\u00e9m. S\u00f3 se ele n\u00e3o passar por aqui.<\/p>\n<p>RIBEIRO &#8211; O que \u00e9 bem poss\u00edvel, porque a casa tem sa\u00edda<br \/>\npara outra rua.<\/p>\n<p>AZAMBUJA &#8211; H\u00e1 quatro meses que ando neste inferno.<\/p>\n<p>RIBEIRO &#8211; Console-se comigo, que ando pretendendo um lugar h\u00e1 cinco<br \/>\nanos, e ainda n\u00e3o mo deram.<\/p>\n<p>ARRUDA &#8211; H\u00e1 cinco anos?!<\/p>\n<p>RIBEIRO &#8211; Sim, senhor.<\/p>\n<p>AZAMBUJA &#8211; E tem esperan\u00e7as de obt\u00ea-lo?<\/p>\n<p>RIBEIRO &#8211; Ol\u00e9! J\u00e1 atravessei seis minist\u00e9rios. Venho<br \/>\naqui duas vezes por dia.<\/p>\n<p>IN\u00c1CIO &#8211; E eu que vim dos confins do Amazonas; e aqui estou h\u00e1<br \/>\nseis meses a fazer despesas, hospedado na casa do Eiras, com uma numerosa<br \/>\nfam\u00edlia, composta de mulher, seis filhos, duas cunhadas, tr\u00eas<br \/>\nescravas, quatorze canastras, um papagaio e um corrupi\u00e3o!<\/p>\n<h2>CENA VIII<br \/>\nOS MESMOS e ERNESTO<\/h2>\n<p>ERNESTO &#8211; Meus senhores.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Oh! Senhor Ernesto.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Como est\u00e1, Senhor Pereira?<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; O seu neg\u00f3cio? Ainda nada?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Qual! Trago agora aqui uma carta&#8230; Vamos ver se com esta arranjo<br \/>\no que quero. \u00c9 de um deputado mineiro governista.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; \u00c9 bom empenho?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Quem me arranjou foi um negociante da rua dos Beneditinos, em cuja<br \/>\ncasa acha-se hospedado o tal deputado.<\/p>\n<p>RIBEIRO &#8211; Meu amigo, v\u00e1 \u00e0 fonte limpa, procure um deputado<br \/>\nda oposi\u00e7\u00e3o e digo-lhe desde j\u00e1 que est\u00e1 servido.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Muito se sofre!<\/p>\n<p>AZAMBUJA &#8211; \u00c9 verdade.<\/p>\n<h2>CENA VIII<br \/>\nOS MESMOS e FILIPE<\/h2>\n<p>FILIPE &#8211; Adeus, Senhor Ernesto.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Adeus, Filipe.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Ainda perde seu tempo em vir por aqui?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Porque o minist\u00e9rio est\u00e1 morto!<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Caiu?!<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; A esta hora j\u00e1 deve ter ca\u00eddo. A rua do Ouvidor est\u00e1<br \/>\nassim. (Fechando a m\u00e3o.) N\u00e3o se pode entrar na C\u00e2mara.<br \/>\nH\u00e1 gente nas galerias como terra.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; O partido dos cachorros est\u00e1 bravo?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Os cachorros?! Est\u00e3o danados! A tal estrada n\u00e3o passa,<br \/>\nn\u00e3o, mas \u00e9 o mesmo. O Doutor Monteirinho levantou-se para falar&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ah! Ele falou hoje?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Qual! N\u00e3o p\u00f4de dizer uma palavra. Rompeu uma vaia das<br \/>\ngalerias, mas uma vaia de tal ordem, que foi preciso entrar a for\u00e7a<br \/>\narmada na C\u00e2mara.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; L\u00e1 se vai o meu lugar da Alf\u00e2ndega.<\/p>\n<p>AZAMBUJA &#8211; E o meu.<\/p>\n<p>RIBEIRO &#8211; E o meu.<\/p>\n<p>FILIPE (Levando Ernesto para um lado.) Ainda n\u00e3o a vi hoje.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Mas \u00e9 verdade tudo isto?<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Como \u00e9 bela!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Com os diabos! que transtorno!<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Quando a vi pela primeira vez foi no Castel\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Comia uma empada, comia uma empada&#8230;<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; \u00c9 isso mesmo.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Irra! N\u00e3o me amoles.<\/p>\n<p>PEREIRA (Para Ernesto.) &#8211; O senhor quer saber onde est\u00e1 a minha esperan\u00e7a?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Onde?<\/p>\n<p>PEREIRA (Tirando um bilhete de loteria do bolso.) &#8211; Aqui neste bilhete do<br \/>\nIpiranga.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Eu tamb\u00e9m tenho um. (Vendo na carteira.) Querem ver que o<br \/>\nperdi! N\u00e3o, c\u00e1 est\u00e1. A esta hora j\u00e1 deve ter andado<br \/>\na roda. Com a breca, nem me lembrava! (Olhando para dentro.) Se pudesse ao<br \/>\nmenos ver-lhe a pontinha do nariz.<\/p>\n<p>PEREIRA &#8211; Vou ver o que tirei. (Sai.)<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; E eu tamb\u00e9m. Mas qual! Sou de um caiporismo horrendo. Adeus,<br \/>\nSenhor Ernesto. (Olhando para todos os lados.) Onde estar\u00e1 ela?! (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA IX<br \/>\nOS MESMOS, menos PEREIRA e FILIPE e DOUTOR RAUL<\/h2>\n<p>ERNESTO &#8211; Esta not\u00edcia veio transtornar-me os planos.<\/p>\n<p>AZAMBUJA &#8211; Talvez seja mentira.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; As m\u00e1s novas s\u00e3o sempre verdadeiras.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Ora, vivam, meus senhores!<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Doutor Raul, o que h\u00e1 acerca do minist\u00e9rio?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Dizem que est\u00e1 em crise.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Mas h\u00e1 esperan\u00e7as?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Hum!&#8230; N\u00e3o sei. Vejo as coisas muito embrulhadas.<\/p>\n<h2>CENA X<br \/>\nOS MESMOS e MISTER JAMES<\/h2>\n<p>RAUL &#8211; Oh! Mr. James! Fazia-o pela C\u00e2mara.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Mim s\u00f3 sai de casa hoje pra vem aqui&#8230;<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Os neg\u00f3cios est\u00e3o feios.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! Yes, muito feias.<\/p>\n<p>RIBEIRO (A Ernesto.) &#8211; Este \u00e9 o tal ingl\u00eas da patota de que<br \/>\nos jornais falam hoje?<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; \u00c9 o bicho.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Voc\u00ea quer sabe de uma cousa. Mim estar muito stup\u00edde.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Eu j\u00e1 deve saber que este minist\u00e9ria n\u00e3o<br \/>\npode dura muite tempo, e mim cai na asneira de faz neg\u00f3cia com ele.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Mas em que se fundava para saber disto?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Ora escuta vosminc\u00ea, presidenta de Conselho onde estar<br \/>\nnascida?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; No Par\u00e1.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Ministra de Imp\u00e9rio?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Ministra de Justi\u00e7a?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Creio que \u00e9 de Piau\u00ed.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; No senhor; de Para\u00edba.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Ou isso.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Ministra de Marinha estar de Alagoas, ministra de Estrangeiros&#8230;<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Este \u00e9 do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Yes. Ministra de Guerra estar de Maranh\u00e3o, de Fazenda,<br \/>\nRio de Janeiro.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Mas o que tem isto?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; N\u00e3o tem uma s\u00f3 ministra de Bahia. E minist\u00e9ria<br \/>\nsem baiana &#8211; estar defunta logo, senhor.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Baiana estar gente muito poderosa. N\u00e3o se pode esquece<br \/>\ndela.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; O minist\u00e9rio estava fraco, l\u00e1 isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; E tem inda mais; Ministra da Marinha&#8230;<\/p>\n<p>RAUL &#8211; O Doutor Monteirinho?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Yes. Ministra da Marinha estar muito pequenina.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Muito mo\u00e7o \u00e9 que o senhor quer dizer?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; All right. No pode ser estadista e governa pais logo que sai<br \/>\nde escola. \u00c9 preciso aprende primeiro, aprende muito, senhor. Todo<br \/>\nmundo estar ca\u00e7oanda, e chama ministra de Cazuzinhe. O senhor sabe<br \/>\ndizer o que \u00e9 Cazuzinhe?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; \u00c9 um nome de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; How? Mas fam\u00edlia fica em casa, e no tem nada com minist\u00e9ria.<br \/>\nVosmec\u00eas aqui t\u00eam costume de chama homem de estado de Juquinha,<br \/>\nLulu, Fernandinha. Governa estar muito sem-cerim\u00f4nia.<\/p>\n<h2>CENA XI<br \/>\nOS MESMOS, BEATRIZ e FILOMENA<\/h2>\n<p>MR. JAMES &#8211; Como est\u00e1, senhorra?<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Minhas senhoras.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Veio da C\u00e2mara?<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; No senhorra.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Pois n\u00e3o foi l\u00e1? No dia em que se deve decidir o<br \/>\nseu neg\u00f3cio&#8230;<\/p>\n<p>BEATRIZ (A Raul.) &#8211; Mam\u00e3e ainda n\u00e3o teve tempo de falar com<br \/>\npapai acerca da sua pretens\u00e3o.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Meu neg\u00f3cia estar perdida.<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Tenho f\u00e9 que n\u00e3o.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! Yes.<\/p>\n<h2>CENA XII<br \/>\nOS MESMOS e FELIZARDO<\/h2>\n<p>FELIZARDO (Entrando apressado.) &#8211; Caiu o minist\u00e9rio!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Caiu! Ai! Falta-me a luz! (Cai desmaiada em uma cadeira.)<\/p>\n<p>BEATRIZ (Correndo.) &#8211; Mam\u00e3e.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Dona Filomena!<\/p>\n<p>MR. JAMES (Para todos.) &#8211; \u00d3 no incomoda! Vai passa j\u00e1.<\/p>\n<p>ERNESTO &#8211; Ora sebo! (Sai.)<\/p>\n<p>IN\u00c1CIO &#8211; Ora bolas. (Sai.)<\/p>\n<p>ARRUDA &#8211; Ora p\u00edlulas. (Sai.)<\/p>\n<p>RIBEIRO &#8211; Ora, com os diabos. (Sai.)<\/p>\n<p>AZAMBUJA &#8211; Ora&#8230; (Sai.)<\/p>\n<p>MR. JAMES (Vendo Filomena levantar-se.) &#8211; Estar pronta, j\u00e1 passou.<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; E o pobre do Cazuzinha que tinha tanta coisa que fazer! Tamb\u00e9m<br \/>\nlhes digo, que se ele consegue falar, a despeito das vaias da galeria, o m\u00ednist\u00e9rio<br \/>\ntinha vida por cinco anos, pelo menos.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Deveras?<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; \u00c9 um rapaz muito h\u00e1bil. O senhor n\u00e3o imagina<br \/>\nque discurso tinha ele preparado. Ontem recitou-mo todo. Sabia-o na ponta<br \/>\nda l\u00edngua.<\/p>\n<p>RAUL &#8211; Foi uma pena! (\u00c0 parte.) E l\u00e1 se foi o meu emprego,<br \/>\nque \u00e9 o que mais sinto.<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Como n\u00e3o vai ficar a Maria Jos\u00e9 quando souber da<br \/>\nnot\u00edcia!<\/p>\n<p>RAUL (A Beatriz.) &#8211; Minha senhora; creio estar desligado dos compromissos<br \/>\nque contra\u00ed para com Vossa Excel\u00eancia.<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Eu j\u00e1 o sabia; n\u00e3o era preciso mo dizer. O que o<br \/>\nsenhor doutor queria era uma posi\u00e7\u00e3o social e n\u00e3o a minha<br \/>\nm\u00e3o!<\/p>\n<p>RAUL (\u00c0 parte.) &#8211; Fa\u00e7amos cara de n\u00e3o ter compreendido.<\/p>\n<h2>CENA XIII<\/h2>\n<p><b>FELIZARDO, RAUL, BEATRIZ, FILOMENA, MISTER JAMES, BRITO e DOUTOR MONTEIRINHO<\/b><\/p>\n<p>BRITO (Abra\u00e7ando Filomena.) &#8211; Minha Filomena, tenho necessidade de<br \/>\nabra\u00e7ar-te. Vem c\u00e1, Beatriz, abra\u00e7a-me tamb\u00e9m.<br \/>\n(Beatriz abra\u00e7a.) Foram voc\u00eas que me perderam; mas como isto<br \/>\n\u00e9 bom.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Mim sente muito derrota de Vossa Excel\u00eancia; agradece tudo<br \/>\nque faz pela minha privil\u00e9gia e pede desde j\u00e1 a Vossa Excel\u00eancia<br \/>\num apresenta\u00e7\u00e3o para nova m\u00ednist\u00e9ria que tem de<br \/>\nsubir.<\/p>\n<p>FELIZARDO (Que deve estar abra\u00e7ado com Monteirinho.) -Ah! Cazuza!<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 gosto perfeito neste mundo!<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; E mam\u00e3e, que n\u00e3o teve a ventura de me ver<br \/>\nde fard\u00e3o!<\/p>\n<p>FELIZARDO &#8211; Mas h\u00e1 de t\u00ea-la muito breve; eu te prometo.<\/p>\n<h2>CENA XIV<br \/>\nOS MESMOS e CRIADO<\/h2>\n<p>CRIADO &#8211; Trouxeram estes jornais e esta carta. (Sai.)<\/p>\n<p>BRITO &#8211; O que ser\u00e1? (Vendo o sobrescrito da carta, para Filomena.)<br \/>\n\u00c9 para ti.<\/p>\n<p>FILOMENA (Abrindo a carta e lendo.) &#8211; &#8220;Minha senhora, tenho a honra<br \/>\nde enviar a Vossa Excel\u00eancia o \u00faltimo n\u00famero da Espada<br \/>\nde D\u00e2mocles, que acaba de sair agora mesmo e de chamar a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Vossa Excel\u00eancia para a not\u00edcia, publicada sob o titulo \u00c0<br \/>\n\u00faltima hora. Sua veneradora e criada, B\u00e1rbara Coelho.&#8221;<br \/>\n(Fecha a carta.) Que infame!<\/p>\n<p>BRITO &#8211; L\u00ea. (Filomena quer rasgar o jornal.) L\u00ea, eu terei a coragem<br \/>\nde ouvir.<\/p>\n<p>FILOMENA (Lendo.) &#8211; &#8220;Caiu finalmente o minist\u00e9rio das patotas.<br \/>\nParab\u00e9ns aos nossos concidad\u00e3os, estamos livres do homem que<br \/>\nmais tem sugado os cofres p\u00fablicos em proveito dos seus afilhados.&#8221;<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Saio do minist\u00e9rio mais pobre do que entrei, porque estou<br \/>\ncrivado de d\u00edvidas, e com a pecha de ladr\u00e3o!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; E o que pretendes fazer?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; Nada neste pa\u00eds, infelizmente, esta \u00e9 a sorte de quase<br \/>\ntodos que descem do poder.<\/p>\n<h2>CENA XV<\/h2>\n<p><b>FILOMENA, RAUL, DOUTOR MONTEIRINHO, BEATRIZ, MISTER JAMES, FELIZARDO,<br \/>\nBRITO e FILIPE<\/b><\/p>\n<p>MR. JAMES (A Filipe que entra \u00e0s carreiras, ofegante, e cai-lhe desmaiado<br \/>\nnos bra\u00e7os.) &#8211; How! Tudo estar desmaia nesta casa!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; V\u00e3o ver depressa vinagre. (Raul corre para dentro.)<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Como ele est\u00e1 p\u00e1lido! Vou buscar \u00e1gua de Col\u00f4nia.<br \/>\n(Corre para dentro.)<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Oh! n\u00f3, n\u00f3, \u00e9 melhor traz cognac.<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; Vou busc\u00e1-lo. (Sai correndo.)<\/p>\n<p>BRITO (Batendo-lhe nas m\u00e3os.) &#8211; Senhor, senhor! \u00c9 o pobre do<br \/>\nrep\u00f3rter!<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Aqui est\u00e1. (P\u00f5e \u00e1gua de Col\u00f4nia no len\u00e7o<br \/>\ne chega-lhe ao nariz. Filipe abre os olhos.) \u00c7a y est! Il est gueri!<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; Onde estou? Ah! (Sa\u00ed dos bra\u00e7os de Mister James.)<\/p>\n<p>DR. MONTEIRINHO &#8211; C\u00e1 est\u00e1 o conhaque. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 preciso?<\/p>\n<p>BRITO &#8211; O que tem?<\/p>\n<p>FILIPE (N\u00e3o podendo falar.) &#8211; Comprei este bilhete. (Mostra-o, tirando-o<br \/>\ndo bolso.) Vou ver a lista&#8230;<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; Branca.<\/p>\n<p>FILIPE &#8211; E tirei duzentos contos!<\/p>\n<p>FILOMENA &#8211; Duzentos contos!<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; Ah! Bah!<\/p>\n<p>FILIPE (Ajoelhando-se aos p\u00e9s de Beatriz.) &#8211; Minha senhora, eu adoro-a,<br \/>\nidolatro-a. Quando a vi pela primeira vez foi no Castel\u00f5es, a senhora<br \/>\ncomia uma empada. Quer aceitar a minha m\u00e3o?<\/p>\n<p>BEATRIZ &#8211; De tout mon coeur.<\/p>\n<p>MR. JAMES &#8211; All right! Boa neg\u00f3cia.<\/p>\n<p><b>(Cai o pano.)<\/b><\/p>\n<h2><b>(Fim do terceiro ato.)<\/b><\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Ato Primeiro Ato Segundo Ato Terceiro Fran\u00e7a Junior PERSONAGENS Um vendedor de bilhetes de loteria Primeiro vendedor de jornais Segundo idem Terceiro idem Quarto idem DR. 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