{"id":96010,"date":"2017-01-23T14:39:28","date_gmt":"2017-01-23T16:39:28","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96010"},"modified":"2017-01-23T14:39:28","modified_gmt":"2017-01-23T16:39:28","slug":"as-doutoras-franca-junior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-doutoras-franca-junior","title":{"rendered":"As Doutoras &#8211; Fran\u00e7a Junior"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Ato Primeiro<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Ato Segundo<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Ato Terceiro<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Ato Quarto<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Fran\u00e7a Junior<\/h2>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>MANUEL PRAXEDES &#8211; 55 anos<br \/>\nDOUTOR PEREIRA &#8211; 25 anos<br \/>\nBACHAREL MARTINS &#8211; 28 anos<br \/>\nGREG\u00d3RIO, doente<br \/>\nMARIA PRAXEDES &#8211; 58 anos<br \/>\nDOUTORA LU\u00cdSA PRAXEDES &#8211; 24 anos<br \/>\nBACHARELA CARLOTA DE AGUIAR &#8211; 23 anos<br \/>\nEUL\u00c1LIA, criada &#8211; 50 anos<br \/>\nDIRETORA DO GR\u00caMIO FEMINIL SACERDOTISAS DE EUTERPE<br \/>\nPRIMEIRA DOENTE<br \/>\nSEGUNDA DOENTE<br \/>\nTERCEIRA DOENTE<br \/>\nS\u00f3cias do Gr\u00eamio, banda de m\u00fasica, povo, etc.<\/p>\n<h5>Rio de Janeiro &#8211; Atualidade.<br \/>\n1887<\/h5>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>ATO PRIMEIRO<\/h2>\n<p>Uma sala elegantemente mobiliada.<\/p>\n<h2>CENA I<\/h2>\n<p><b>MANUEL PRAXEDES, EUL\u00c1LIA, MARIA PRAXEDES e DOUTORA PRAXEDES<\/b><\/p>\n<p>MANUEL PRAXEDES (Entrando pela porta da direita de cal\u00e7a e colete<br \/>\npretos, gravata branca, em mangas de camisa e segurando a casaca.) &#8211; Eul\u00e1lia!<br \/>\nEul\u00e1lia!<\/p>\n<p>MARIA (Falando dentro.) &#8211; Oh! Eul\u00e1lia?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Entrando apressada.) &#8211; O que \u00e9, meu amo? Esta casa<br \/>\nhoje est\u00e1 imposs\u00edvel, n\u00e3o sei para onde me virar.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Onde meteste a minha escova de roupa? Que horas s\u00e3o? Onde<br \/>\nest\u00e1 a senhora? O carro j\u00e1 veio?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Falando dentro.) &#8211; Eul\u00e1lia!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; L\u00e1 est\u00e1 a outra a chamar-me! Jesus, fico doida!<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; O que direi eu ent\u00e3o? O dia da formatura de minha filha.<\/p>\n<p>MARIA (Dentro.) &#8211; Eul\u00e1lia!<\/p>\n<p>MANUEL (Segurando a m\u00e3o de Eul\u00e1lia que quer sair.) &#8211; A Lu\u00edsa,<br \/>\nlembras-te? Aquela crian\u00e7a que ainda ontem saltava no meu colo em fraldinhas<br \/>\nde camisa, com as bochechas rosadas!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Pois n\u00e3o me hei de lembrar, meu amo! Parece-me que<br \/>\nestou a v\u00ea-la a dizer adeus \u00e0 gente com os dedinhos mi\u00fados,<br \/>\nassim (Imita.) Ai! que gracinha!<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Pois bem. (Caindo num choro convulso.) &#8211; Aquela criancinha, Eul\u00e1lia,<br \/>\n\u00e9 hoje a Doutora Lu\u00edsa Praxedes, formada em ci\u00eancias m\u00e9dicas<br \/>\ne cir\u00fargicas pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. (Mudando<br \/>\nde tom.) Vai buscar a escova.<\/p>\n<p>MARIA (Entrando de vestido decotado e flores na cabe\u00e7a, a Eul\u00e1lia.)<br \/>\n&#8211; Pois eu estou l\u00e1 dentro a chamar-te h\u00e1 mais de meia hora&#8230;<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; O culpado foi meu amo.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Vai ver o que quer a Luisinha. (Eul\u00e1lia sai.)<\/p>\n<h2>CENA II<br \/>\nOS MESMOS, menos EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>MANUEL &#8211; Luisinha! Luisinha!&#8230; A senhora \u00e9 incorrig\u00edvel.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Como acha ent\u00e3o o senhor que devo tratar a minha filha?<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; A Doutora Lu\u00edsa Praxedes. A doutora, sim, senhora! A mim<br \/>\nparece-me tamb\u00e9m um sonho; mas \u00e9 o t\u00edtulo a que ela tem<br \/>\ndireito, que foi ganho \u00e0 custa do seu trabalho e que \u00e9 uma honra<br \/>\npara a fam\u00edlia e para a sociedade.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Havemos de ver em que d\u00e1 tudo isto.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; H\u00e1 de dar em alguma coisa que a senhora com as suas vistas<br \/>\ncurtas n\u00e3o pode enxergar. (Vestindo a casaca.) Onde diabo est\u00e1<br \/>\na manga desta casaca?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Tens adiantado muito com as tuas vistas largas.<\/p>\n<p>MANUEL (Sem conseguir vestir a casaca.) &#8211; Maldita manga&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Em todas as empresas em que te meteste tens dado com os burros n\u00e1gua.<br \/>\nLogo que nos casamos montaste uma grande f\u00e1brica de papel.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; E n\u00e3o era uma boa id\u00e9ia?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Segundo os teus c\u00e1lculos; mas o papel que fizeste foi t\u00e3o<br \/>\nordin\u00e1rio que nem para embrulho o quiseram.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Fui infeliz, fui. Mas quem \u00e9 que n\u00e3o erra? Afian\u00e7o-te<br \/>\npor\u00e9m, que se eu conseguisse fazer ali alguma coisa, estava hoje com<br \/>\num fortun\u00e3o.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; T\u00e3o grande como o que ganhaste com a explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mariscos, na linha de bondes para o Morro do Nheco, na ilumina\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Valen\u00e7a \u00e0 luz el\u00e9trica.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Isto prova, senhora, que sou um homem do progresso, que amo a minha<br \/>\np\u00e1tria, que quero v\u00ea-la prosperar, engrandecer. (Sem encontrar<br \/>\na manga.) Que diabo, n\u00e3o me dir\u00e1s onde \u00e9 que se meteu<br \/>\nesta manga? (Maria ajuda-o a vestir a casaca.) E a prova do meu patriotismo<br \/>\nest\u00e1 nesta menina, laureada hoje com um t\u00edtulo.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Bem contra a minha vontade.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Bem contra a sua vontade, compreende-se; porque a senhora foi criada<br \/>\nem uma casinha de r\u00f3tula e janela na rua do Aljube&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Onde recebi a educa\u00e7\u00e3o a mais brilhante que se poderia<br \/>\nter naquele tempo. O que Luisinha, ou antes, o que a Doutora Lu\u00edsa<br \/>\nPraxedes sabe de franc\u00eas, de ingl\u00eas, de desenho e sobretudo de<br \/>\nm\u00fasica, deve-o a esta sua criada. Parece-me que n\u00e3o te casaste<br \/>\ncom uma analfabeta!<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Sim, mas tudo quanto sabes foi aprendido no tempo das bananas a<br \/>\ntr\u00eas por dois, do toque do Arag\u00e3o, das vilegiaturas em Mataporcos,<br \/>\ndas toalhas de crivo, do junco do pedestre&#8230; Tempos em que o Rio de Janeiro<br \/>\nera iluminado a azeite de peixe.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Mas em que as mulheres n\u00e3o se lembravam de ser doutoras e<br \/>\nlimitavam-se ao nobre e verdadeiro papel de m\u00e3es de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; J\u00e1 tardava que n\u00e3o viesses com o chav\u00e3o&#8230;<br \/>\na m\u00e3e de fam\u00edlia. \u00c9 sempre a figura de ret\u00f3rica<br \/>\nj\u00e1 muito cheia de bolor com que o carrancismo pretende esmagar no nascedouro<br \/>\nas aspira\u00e7\u00f5es grandiosas da emancipa\u00e7\u00e3o do sexo<br \/>\nfeminino.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9 por estas e outras que tudo chegou ao estado de desorganiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que vivemos.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Isto que a senhora chama desorganiza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9 a ordem, talvez?<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; N\u00e3o \u00e9 a ordem ainda, mas \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nda qual muito naturalmente ela h\u00e1 de surgir. O papel da mulher de hoje<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 o da de ontem. Aquelas criaturas que viviam em casa trancadas<br \/>\na sete chaves, p\u00e1lidas, an\u00eamicas, de perna inchada, feitorando<br \/>\nas costuras das negrinhas, come\u00e7am por honra nossa, a ser substitu\u00eddas<br \/>\npela verdadeira companheira do homem, colaborando com ele no progresso da<br \/>\ngrande civiliza\u00e7\u00e3o moderna. N\u00f3s, os homens, temos a pol\u00edtica,<br \/>\na espada, as letras, as artes, as ci\u00eancias, a ind\u00fastria&#8230; Por<br \/>\nque raz\u00e3o seres organizados como n\u00f3s, mais inteligentes at\u00e9<br \/>\ndo que n\u00f3s, haviam de se mover eternamente no acanhado c\u00edrculo<br \/>\nde ferro do dedal e da agulha?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Porque basta-nos o amor.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Mas a prova, senhora, de que o amor est\u00e1 no programa de vida<br \/>\nda mulher moderna, \u00e9 o casamento de nossa filha, hoje, no dia de seu<br \/>\ngrau, com o Doutor Pereira, seu colega de banco na Academia.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; E entra, por acaso, o amor na uni\u00e3o de Lu\u00edsa com este<br \/>\nhomem?<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Certamente.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Olha, Praxedes, podes gastar toda a tua ret\u00f3rica, mas nunca<br \/>\nme convencer\u00e1s de que o Doutor Pereira e Lu\u00edsa se amem! Acompanho-os<br \/>\nh\u00e1 6 anos nas aulas, no anfiteatro, nos hospitais, nos exames.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; E que tem isto?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Nunca nos l\u00e1bios daquelas duas criaturas ouvi a palavra amor.<br \/>\nSempre entre eles, como que a separ\u00e1-los, a medicina, a cirurgia, a<br \/>\nterap\u00eautica, o diagn\u00f3stico, a hematose, a di\u00e1tese, a idiossincrasia,<br \/>\na cefalalgia, os emolientes, os t\u00f4nicos, a patologia e toda esta s\u00e9rie<br \/>\nde nomes arrevesados que me ficaram no ouvido \u00e0 for\u00e7a de ouvi-los<br \/>\nrepetir constantemente. Esse sentimento que faz de dois cora\u00e7\u00f5es<br \/>\num s\u00f3!&#8230;<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; A\u00ed vem a pieguice.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Sim, esta pieguice sublime nunca poderia nascer e desenvolver-se<br \/>\nnaquele meio infecto de mol\u00e9stias hediondas ou diante do sangue coagulado<br \/>\nde \u00f3rg\u00e3os putrefatos expostos em indecente nudez.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Bravo! No fim de contas, parece-me que em vez de uma, tenho duas<br \/>\ndoutoras em casa. Falta-te s\u00f3 o grau.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; O que me falta sei eu, \u00e9 a energia bastante para n\u00e3o<br \/>\nter consentido que as coisas chegassem a este ponto. (Vai a sair.)<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Mas, vem c\u00e1 Maria Praxedes, pensas tu, porventura, que os<br \/>\ncasamentos hoje fazem-se como foi feito o nosso?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Os casamentos, em todos os tempos, s\u00e3o feitos do mesmo modo.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; O namoro de passar pela porta, piscar o olho; levar com a janela<br \/>\nna cara, a loja do barbeiro da esquina como centro de opera\u00e7\u00f5es,<br \/>\no bilhete cheirando a alm\u00edscar, os olhos requebrados, o descante de<br \/>\nviol\u00e3o: meu bem, meu amor, minhas candongas.. tudo isso acabou&#8230; O<br \/>\nque h\u00e1 presentemente&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9 o pedido entre o diagn\u00f3stico de um catarro cr\u00f4nico<br \/>\ne a aplica\u00e7\u00e3o de um vesicat\u00f3rio ou de uma cataplasma<br \/>\nde linha\u00e7a&#8230; J\u00e1 sei, j\u00e1 sei.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; O que h\u00e1 presentemente \u00e9 o casamento-contrato, isto<br \/>\n\u00e9, o casamento propriamente dito como ele deve ser. O m\u00f3vel<br \/>\nde dois seres que se ligam \u00e9 a conveni\u00eancia.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Ent\u00e3o confessas com todo o cinismo que o casamento de Lu\u00edsa&#8230;<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Confesso&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Mas onde est\u00e1 a fortuna do Doutor Pereira? Os pais s\u00e3o<br \/>\npobres&#8230; Forma-se hoje.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; E a senhora sem querer compreender nada, a confundir tudo! O casamento<br \/>\nde conveni\u00eancia, sob o ponto de vista da evolu\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; J\u00e1 tardava a evolu\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Quer ou n\u00e3o quer ouvir-me?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Fale.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; O casamento de conveni\u00eancia, sob o ponto de vista da evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\natual, n\u00e3o \u00e9 o casamento de dinheiro. O homem sem of\u00edcio<br \/>\nnem benef\u00edcio que se liga a uma mulher de fortuna para viver \u00e0<br \/>\ncusta do que ela tem, deveria ser expulso da comunh\u00e3o civilizada. O<br \/>\nverdadeiro casamento de conveni\u00eancia que \u00e9 a aspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Id\u00e9ia Nova e de que a minha filha vai ser o exemplo edificante,<br \/>\nconsiste na uni\u00e3o de dois seres, tendo cada um o mesmo modo de vida,<br \/>\na mesma profiss\u00e3o. O marido trabalha, a mulher trabalha.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9 uma sociedade comercial.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Sim, mas v\u00ea o alcance enorme desta sociedade. N\u00e3o \u00e9<br \/>\ns\u00f3 a forma\u00e7\u00e3o do pec\u00falio do casal, mas muito principalmente<br \/>\no desenvolvimento das classes, a sele\u00e7\u00e3o delas. O marido m\u00e9dico,<br \/>\na mulher m\u00e9dica&#8230; todos os filhos m\u00e9dicos. .. O marido advogado,<br \/>\na mulher advogada&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Toda a prole bacharela em direito.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Justamente. O pintor ligar-se-\u00e1 \u00e0 pintora e desta<br \/>\nuni\u00e3o sair\u00e1 uma fam\u00edlia de pintores. N\u00e3o v\u00eas<br \/>\no que a imprensa costuma dizer quando trata de um sujeito que faz alguma obra<br \/>\nde arte importante? &#8211; &#8220;\u00c9 um artista de ra\u00e7a!&#8221; Pois<br \/>\nbem, esta frase vai deixar de ser doravante uma figura de ret\u00f3rica.<br \/>\nVamos ter m\u00e9dicos de ra\u00e7a, advogados de ra\u00e7a, a sociedade<br \/>\nenfim toda de ra\u00e7a, desenvolvida e aperfei\u00e7oada nos diversos<br \/>\nramos da sua vasta atividade. Compreendeste agora o alcance filos\u00f3fico,<br \/>\npol\u00edtico, moral e social deste casamento? Eis porque estou aqui radiante<br \/>\nde alegria, cheio de emo\u00e7\u00f5es, quase doido.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Podes tirar o &#8220;quase&#8221;.<\/p>\n<h2>CENA III<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; A menina j\u00e1 est\u00e1 prontinha, meus amos.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; A menina, n\u00e3o, Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Desculpe-me, meu amo, a Senhora Doutora Lu\u00edsa Praxedes<br \/>\nj\u00e1 p\u00f4s aquela vestimenta. Como \u00e9 que se chama aquilo?<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Beca.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Est\u00e1 muito engra\u00e7ada! Ai! que reina\u00e7\u00e3o!<br \/>\nEu sempre punha-lhe uma anquinha ou um puff: para armar mais a saia.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Ela est\u00e1 contente, Eul\u00e1lia?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Muit\u00edssimo, meu amo. Assim que eu lhe vesti a tal<br \/>\nseca&#8230;<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; N\u00e3o \u00e9 seca, \u00e9 beca.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Como \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Beca.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Olhem s\u00f3 o diabo do nome, beca! Pois assim que lhe<br \/>\nvesti aquilo come\u00e7ou a passear de um lado para outro, no quarto&#8230;<br \/>\nAssim, olhe&#8230; (Imita.) muito s\u00e9ria. Parecia, mal comparando, o taverneiro<br \/>\nali da esquina, quando p\u00f5e a casaca e a comenda.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Est\u00e1 bem, est\u00e1 bem. Em vez de estar a\u00ed contando<br \/>\nhist\u00f3rias \u00e9 melhor que v\u00e1 tratar do arranjo da casa.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Do arranjo da casa! Ora esta. Pois quem \u00e9 que tem<br \/>\ntratado disso at\u00e9 agora sen\u00e3o eu?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; N\u00e3o responda, Eul\u00e1lia, v\u00e1.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Hei de responder, sim senhora. Estou aqui desde que cheguei<br \/>\nda terra, h\u00e1 25 anos e creio que a patroa n\u00e3o pode ter raz\u00e3o<br \/>\nde queixa de mim.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Certamente.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Enquanto a senhora andava o dia inteiro no meio da rua acompanhando<br \/>\na menina por toda a parte, eu ficava aqui a p\u00e9 firme, como um c\u00e3o<br \/>\nde fila guardando-lhe a casa e a bolsa. A bolsa, sim senhora, porque se n\u00e3o<br \/>\nfosse a Eul\u00e1lia dos Prazeres da Concei\u00e7\u00e3o de Maria, filha<br \/>\nda Engr\u00e1cia da Porcalhota e do Manuel Tib\u00farcio, que Deus haja,<br \/>\na senhora era depenada por toda essa s\u00facia de criados que entravam<br \/>\nnuma semana com as m\u00e3os abanando e sa\u00edam na outra levando tudo<br \/>\nquanto pilhavam.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Tens raz\u00e3o, Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Que tenho raz\u00e3o, sei eu! Meu amo, n\u00e3o sabe<br \/>\nda missa nem a metade.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Vai buscar a escova.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Olhe, quer ver como eu puxava pela fisiolostria da intelig\u00eancia<br \/>\ncomo diz o Ant\u00f4nio da venda, para n\u00e3o ser emba\u00e7ada pelos<br \/>\ntais criaditos?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9 a hist\u00f3ria do a\u00e7\u00facar? J\u00e1 a conhe\u00e7o<br \/>\nde cor e salteada.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Vai buscar a escova.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; E n\u00e3o era bem lembrada? Eles roubavam o a\u00e7\u00facar,<br \/>\no que fazia eu?&#8230; Apanhava uma mosca, (Fazendo men\u00e7\u00e3o de quem<br \/>\napanha uma mosca.) abria o a\u00e7ucareiro, z\u00e1s&#8230; (Men\u00e7\u00e3o<br \/>\nde atirar.) e tampava-o com todo o cuidado. De vez em quando ia verificar<br \/>\nse a mosca ainda l\u00e1 estava&#8230; N\u00e3o \u00e9 bem lembrado, meu<br \/>\namo? Aprendi isto na casa de um visconde no Porto.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Est\u00e1 bem, vai buscar a escova.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Na manteiga tamb\u00e9m n\u00e3o me passavam a perna.<br \/>\nFazia-lhe em cima com a faca uma por\u00e7\u00e3o de rabiscos. (Batem<br \/>\n\u00e0 porta.)<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Est\u00e3o batendo. Vai ver quem \u00e9. (Eul\u00e1lia sai.<br \/>\nPara Maria.) Eu vou l\u00e1 dentro escovar-me. Esta maldita rapariga quando<br \/>\ncome\u00e7a a falar&#8230; (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA IV<br \/>\nEUL\u00c1LIA, MARIA e o DOUTOR PEREIRA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (Rindo.) &#8211; Ah! Ah! Ah!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; O que \u00e9 isto, Eul\u00e1lia, est\u00e1s doida?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Ah! Ah! Ah!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; O Senhor Doutor Pereira de saias. Ah! Ah! Ah!&#8230; Minha ama<br \/>\nn\u00e3o imagina como est\u00e1 engra\u00e7ado! Olhe, a\u00ed est\u00e1<br \/>\nele. (O Doutor Pereira entra.) Ah! Ah! Ah!&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Eul\u00e1lia, passa para dentro.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (A Eul\u00e1lia.) &#8211; N\u00e3o me conhecias?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Pois eu podia imaginar que era o noivo da menina! Ah! que<br \/>\nreina\u00e7\u00e3o! Ah! Ah! Ah!<\/p>\n<p>MARIA (Empurrando Eul\u00e1lia para dentro.) &#8211; Est\u00e1 bem, vai para<br \/>\ndentro. (Eul\u00e1lia sai.)<\/p>\n<h2>CENA V<br \/>\nMARIA, DOUTOR PEREIRA e LU\u00cdSA<\/h2>\n<p>DR. PEREIRA (Com alguns folhetos.) &#8211; O Doutor Martins ainda n\u00e3o veio?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Ainda n\u00e3o.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; A cerim\u00f4nia do grau est\u00e1 marcada para o meio-dia&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Devem ser 9 horas apenas. A\u00ed vem Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (A Lu\u00edsa que entra e apertando-lhe a m\u00e3o.) &#8211; Colega!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Apertando a m\u00e3o a Pereira.) &#8211; Colega!<\/p>\n<p>MARIA (\u00c1 parte; imitando-os.) &#8211; Colega! Colega!&#8230; E ali est\u00e3o<br \/>\ndois noivos!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Que folhetos s\u00e3o esses?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; S\u00e3o exemplares da minha tese que pretendo distribuir<br \/>\npor alguns amigos que v\u00e3o assistir ao grau.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ah! \u00e9 verdade! Sabe que esta noite fui chamada para<br \/>\nver um doente de febre amarela.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Caso grave?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Grav\u00edssimo. Term\u00f4metro a 41 graus, ansiedade<br \/>\nepig\u00e1strica e todo o aparato para romperem-se as hemorragias; compreende<br \/>\no colega a dificuldade de uma terap\u00eautica apropriada para debelar-se<br \/>\no mal cuja patogenia \u00e9 ainda desconhecida.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Patogenia desconhecida! Pois a colega n\u00e3o tem not\u00edcia<br \/>\ndo cryptococus xantogenicus&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O cryptococus&#8230; o cryptococus&#8230;<\/p>\n<p>MARIA (\u00c0 parte.) &#8211; Parece incr\u00edvel! Isto contado ningu\u00e9m<br \/>\nacredita.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; O cryptococus sim; revelado pelo microsc\u00f3pico nos luminosos<br \/>\ntrabalhos do Doutor Freire. N\u00e3o sei como se possa ignorar os efeitos<br \/>\nda vacina\u00e7\u00e3o pela cultura atenuada.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Mas quem lhe disse que eu ignoro?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Pelo menos a colega&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O que eu sustento, com os conhecimentos profundos que tenho<br \/>\nda mat\u00e9ria \u00e9 que esta teoria microbiana, tratando-se de febre<br \/>\namarela, pode ser quando muito uma aspira\u00e7\u00e3o do futuro.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Uma aspira\u00e7\u00e3o do futuro, quando o presente nos<br \/>\nest\u00e1 demonstrando todos os dias a verdade!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ora! colega!&#8230; Leia os trabalhos de Stemberg, de Gibier e<br \/>\nconven\u00e7a-se de que na cl\u00ednica mais vale a sintomatologia do<br \/>\nque teorias abstratas.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Abstratas, n\u00e3o; tenha paci\u00eancia.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Abstratas sim; porque n\u00e3o receberam a san\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas autoridades da nossa ci\u00eancia.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Mas foram aplaudidas pela Sociedade Dosim\u00e9trica de Paris.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o foram tal.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Foram, sim, senhora.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o foram.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Foram.<\/p>\n<p>MARIA (Colocando-se entre eles.) &#8211; N\u00e3o acham que este cryptococus<br \/>\nxantogenicus, na sua qualidade de micr\u00f3bio, pode infeccionar dois cora\u00e7\u00f5es<br \/>\nque daqui a pouco ter\u00e3o de se unir \u00e0 face da igreja e que a\u00ed<br \/>\ndever\u00e3o aparecer sem rancores, sem azedumes, ungidos de m\u00edstica<br \/>\npoesia?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; A\u00ed vem mam\u00e3e com a sua poesia.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Os nossos cora\u00e7\u00f5es, Senhora Dona Maria Praxedes,<br \/>\nn\u00e3o t\u00eam rancores nem azedumes. Estamos apenas discutindo um ponto<br \/>\nde ci\u00eancia.<\/p>\n<p>MARIA (Para os dois.) &#8211; Ent\u00e3o amam-se deveras?<\/p>\n<p>OS DOIS &#8211; Certamente.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9 um amor singular.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o \u00e9 como o de Julieta e Romeu, com balc\u00e3o,<br \/>\nescada de corda, cantos de cotovia.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Est\u00e1 visto!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Pois olhem, meus filhos, eu tinha at\u00e9 aqui a ingenuidade de<br \/>\nacreditar que aos 20 anos o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 como o c\u00e1lice<br \/>\nperfumado de um l\u00edrio&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O cora\u00e7\u00e3o, mam\u00e3e, \u00e9 um m\u00fasculo<br \/>\noco que tem as suas fun\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias como o ba\u00e7o,<br \/>\no f\u00edgado, os rins e outras v\u00edsceras do organismo.<\/p>\n<h2>CENA VI<br \/>\nOS MESMOS, BACHAREL MARTINS e CARLOTA<\/h2>\n<p>MARTINS (Cumprimentando a todos.) &#8211; Cheguei talvez um pouco tarde?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; O meu amigo chega sempre em tempo.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; H\u00e3o de permitir-me que lhes apresente a Senhora Dona Carlota<br \/>\nde Aguiar, estudante do 5\u00b0 ano da Faculdade de Direito de S\u00e3o Paulo<br \/>\ne futura bacharela em Direito.<\/p>\n<p>CARLOTA (Apertando a m\u00e3o de Dona Maria e do Doutor Pereira.) &#8211; Apresento<br \/>\n\u00e0 ilustre doutora a curvatura de meus respeitos. (Apertam-se as m\u00e3os.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; J\u00e1 a conhecia muito de nome como um dos mais brilhantes<br \/>\ntalentos da moderna gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; E o que direi eu da mulher duas vezes ilustre pela intelig\u00eancia<br \/>\ne pela coragem tit\u00e2nica com que acaba de abater a muralha cicl\u00f3pica<br \/>\ndos preconceitos tacanhos? Vossa Excel\u00eancia \u00e9 o alfa desta conquista<br \/>\nsociol\u00f3gica que veio desfraldar aos ventos sul-americanos a bandeira<br \/>\nimaculada da nossa reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>MARTINS (Para Maria Praxedes.) &#8211; Fala admiravelmente bem.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9 uma can\u00e1ria!<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Que talento!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Est\u00e1-se vendo que \u00e9 de for\u00e7a!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Entretanto o passo que acabo de dar tem sido por tal forma<br \/>\ncomentado pela opini\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o creia, minha senhora! Vossa Excel\u00eancia est\u00e1<br \/>\nsubped\u00e2nea no conceito p\u00fablico.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Eu assim o entendo.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; A minha situa\u00e7\u00e3o \u00e9 que se vai tornando um<br \/>\nam\u00e1lgama ac\u00e9falo, incongruente e esfacelado de lutas de direito,<br \/>\ncom pequenos interesses masculinos.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Como assim?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Ainda n\u00e3o recebi a investidura do meu grau, ainda n\u00e3o<br \/>\ntive a posse do tibi quo que e j\u00e1 o magn\u00e2nimo Instituto dos Advogados<br \/>\nlevanta a quest\u00e3o de n\u00f3s mulheres podermos exercer a advocacia<br \/>\ne os demais cargos inerentes ao bacharelado em Direito.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Parece incr\u00edvel!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; N\u00e3o se admire, doutora, n\u00e3o se admire. J\u00e1<br \/>\nem Nic\u00e9ia reuniu-se um conc\u00edlio para decidir se a mulher devia<br \/>\nou n\u00e3o fazer parte do g\u00eanero humano. Tentaram expelir-nos do<br \/>\nposto que ocupamos na escala zool\u00f3gica e pretendem agora com miser\u00e1veis<br \/>\nsubterf\u00fagios de ret\u00f3rica e uma l\u00f3gica anacr\u00f4nica<br \/>\ntirar-nos o talher a que temos direito na op\u00edpara mesa do banquete<br \/>\nsocial.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Como eles receiam a nossa concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Em todos os pontos da atividade humana, ilustre doutora! Mas havemos<br \/>\nde conquistar-lhes paulatinamente o m\u00e1sculo reduto.<\/p>\n<h2>CENA VII<br \/>\nOS MESMOS e MANUEL PRAXEDES<\/h2>\n<p>MANUEL (Entrando e vendo Lu\u00edsa de beca.) &#8211; Lu\u00edsa! De beca!&#8230;<br \/>\nMinha filha! (Vai desmaiar.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Indo agarr\u00e1-lo.) &#8211; Papai, o que tem?!<\/p>\n<p>MARIA (Segurando-o.) &#8211; Manuel Praxedes! Manuel Praxedes!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Que lividez marm\u00f3rea!<\/p>\n<p>MARIA (Gritando.) &#8211; Eul\u00e1lia! Eul\u00e1lia!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E melhor deit\u00e1-lo, deit\u00e1-lo j\u00e1 em dec\u00fabito<br \/>\ndorsal.<\/p>\n<h2>CENA VIII<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (Entrando.) &#8211; Ai! o meu rico amo! O que \u00e9 que ele tem,<br \/>\nsenhora?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Traz l\u00e1 de dentro qualquer coisa&#8230; \u00e1gua, vinagre&#8230;<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Vou correndo. (Sai.)<\/p>\n<p>MARIA &#8211; O que \u00e9 isto, minha filha, um ataque?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o, minha m\u00e3e, uma simples lipotimia.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (Tomando o pulso e examinando as pupilas de Manuel.) &#8211; Perd\u00e3o,<br \/>\nparece-me coisa mais grave. Vejo todos os sintomas de uma s\u00edncope card\u00edaca.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o se diagnostica por suposi\u00e7\u00f5es. A<br \/>\npatologia do cora\u00e7\u00e3o, colega, \u00e9 uma coisa hoje conhecida!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Mas pelo amor de Deus, minha filha, deixa-te de discuss\u00f5es<br \/>\ne trata de salvar teu pai. Manuel Praxedes! Manuel Praxedes!<\/p>\n<h2>CENA IX<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (Trazendo um vidro de galheteiro e uma monngue.) &#8211; C\u00e1<br \/>\nest\u00e1 o vinagre e a \u00e1gua. (Maria p\u00f5e o vidro de vinagre<br \/>\nno nariz de Manuel.) O verdadeiro, minha ama, \u00e9 atirar-lhe com o moringue<br \/>\nde \u00e1gua \u00e0 cara&#8230; Olhe que a \u00e1gua \u00e9 um santo rem\u00e9dio<br \/>\npara estas maleitas. Conheci uma senhora l\u00e1 no Porto que teve um desses<br \/>\ntremeliques e note-se que n\u00e3o era coisa c\u00e1 de pouco mais ou<br \/>\nmenos, porque a mulher tinha cada olho esbugalhado deste tamanho e berrava<br \/>\nque parecia mal comparando, um boi, com perd\u00e3o dos senhores que me<br \/>\nouvem.<\/p>\n<p>MANUEL (Abrindo os olhos.) &#8211; Onde estou? O que foi isto? (Abra\u00e7ando<br \/>\nLu\u00edsa.) Lu\u00edsa, minha filha, esta emo\u00e7\u00e3o me mata.<br \/>\n(Maria d\u00e1 o vidro a Eul\u00e1lia.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Cheirando o vidro.) &#8211; Ai! que reina\u00e7\u00e3o! Ah!<br \/>\nAh! Ah!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; O que \u00e9 isto, Eul\u00e1lia?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Em vez de vinagre, senhora, trouxe azeite&#8230; Ah! Ah! Ah!<br \/>\n(Sai correndo.)<\/p>\n<h2>CENA X<br \/>\nOS MESMOS menos EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA (Apresentando Carlota.) &#8211; A Senhora Dona Carlota de Aguiar,<br \/>\nestudante do 5\u00b0 ano da Faculdade de Direito de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; A futura bacharela em Direito de que os jornais se t\u00eam ocupado!<br \/>\nOh! quanto folgo em conhec\u00ea-la. (Ouve-se o som da m\u00fasica e foguetes.)<\/p>\n<h2>CENA XI<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Patr\u00e3o!&#8230; Patr\u00e3o!&#8230; Ai est\u00e1 \u00e0<br \/>\nporta um bonde embandeirado, com m\u00fasica e uma por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde gente que grita: &#8211; Viva a Doutora Lu\u00edsa Praxedes! Viva a Doutora<br \/>\nLu\u00edsa Praxedes!&#8230;<\/p>\n<p>MANUEL &#8211; Uma manifesta\u00e7\u00e3o!&#8230; Ainda esta emo\u00e7\u00e3o!&#8230;<br \/>\nMeu cora\u00e7\u00e3o!&#8230; Que afli\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Vou buscar azeite, minha ama?<\/p>\n<p>MARIA (A Manuel.) &#8211; Outro desmaio?<\/p>\n<h2>CENA XII<\/h2>\n<p><b>OS MESMOS e a DIRETORA do GR\u00caMIO FEMININO SACERDOTISAS DE EUTERPE<\/b><\/p>\n<p>DIRETORA (Entrando acompanhada pela banda de m\u00fasica de raparigas em<br \/>\ncujo estandarte se v\u00ea a seguinte inscri\u00e7\u00e3o: G. M. Sacerdotisas<br \/>\nde Euterpe.) &#8211; A gratid\u00e3o, senhora, \u00e9 a moeda dos pobres. A<br \/>\nsociedade musical Gr\u00eamio Sacerdotisas de Euterpe deixaria de cumprir<br \/>\ncom o mais sagrado dos deveres, se n\u00e3o viesse hoje, no dia em que se<br \/>\nrealizam os vossos sonhos dourados, dar-vos um p\u00fablico testemunho do<br \/>\nquanto vos deve pelos servi\u00e7os que generosamente tendes prestado a<br \/>\ncada uma de n\u00f3s, (Praxedes limpa as l\u00e1grimas.) na epidemia que<br \/>\ndesgra\u00e7adamente est\u00e1 assolando esta cidade. (Entregando a Lu\u00edsa<br \/>\num rolo de papel.) Aceitai, portanto, ilustre doutora, como homenagem ao vosso<br \/>\nbrilhante talento (Praxedes solu\u00e7a.) e \u00e0s qualidades morais<br \/>\nque vos ornam, o diploma de s\u00f3cia benem\u00e9rita da nossa modesta<br \/>\nassocia\u00e7\u00e3o. (Manuel solu\u00e7a.) Viva a Doutora Lu\u00edsa<br \/>\nPraxedes!<\/p>\n<p>TODOS &#8211; Viva! (Toca a m\u00fasica.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o tenho, infelizmente, recursos orat\u00f3rios<br \/>\npara responder \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o com que acabo de ser surpreendida<br \/>\ne que assaz me penhora. Pe\u00e7o \u00e0 Senhora Doutora Carlota de Aguiar<br \/>\nque com o seu verbo eloq\u00fcente seja a int\u00e9rprete dos meus sentimentos.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA e MARTINS &#8211; Muito bem!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Minhas senhoras! (Conserta a garganta.) Flutua-me no c\u00e9rebro<br \/>\num ponto de interroga\u00e7\u00e3o: estar\u00e1 a mulher destinada nos<br \/>\n\u00faltimos estertores do s\u00e9culo que finda a devassar os arcanos<br \/>\nde todas as atividades que lhe t\u00eam sido roubadas pelo monop\u00f3lio<br \/>\nsacr\u00edlego das aspira\u00e7\u00f5es e vaidades masculinas? Aquela<br \/>\nque neste momento t\u00e3o indignamente represento&#8230;<\/p>\n<p>TODOS &#8211; N\u00e3o apoiado.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; V\u00f3s, as congregadas da harmonia, e eu, a mais humilde paladina<br \/>\ndesta conquista santa de direitos, poderemos responder \u00e0 fat\u00eddica<br \/>\ninterroga\u00e7\u00e3o? Sim! A mulher caminha, a mulher conquista, a mulher<br \/>\nvencer\u00e1. Um viva pois, \u00e0 Doutora Lu\u00edsa Praxedes que simboliza<br \/>\na consubstancia\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria brilhante do&#8230;<\/p>\n<p>TODOS (Menos Lu\u00edsa e Maria.) &#8211; Viva. (M\u00fasica.)<\/p>\n<p>MANUEL (A todos.) &#8211; Vindo assistir ao grau de minha filha, eu vos convido<br \/>\ntamb\u00e9m, meus senhores e minhas senhoras, para que abrilhanteis com<br \/>\na vossa presen\u00e7a a cerim\u00f4nia do casamento que ter\u00e1 lugar<br \/>\nlogo depois daquele ato na Igreja de S\u00e3o Jos\u00e9.<\/p>\n<p>A DIRETORA &#8211; Viva a Doutora Lu\u00edsa Praxedes!<\/p>\n<p>TODOS (Menos Lu\u00edsa.) &#8211; Viva!<\/p>\n<p><b>(Toca a m\u00fasica e desfilam todos saindo pelo fundo.)<\/b><\/p>\n<p><b>(Cai o pano.)<\/b><\/p>\n<h2><b>FIM DO PRIMEIRO ATO<\/b><\/h2>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>ATO SEGUNDO<\/h2>\n<p>Gabinete da Doutora Lu\u00edsa. \u00c0 direita, estantes de livros. \u00c1<br \/>\nesquerda, um sof\u00e1 tendo ao lado uma cadeira de opera\u00e7\u00f5es;<br \/>\nsobre a estante diversos vidros com fetos e prepara\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas<br \/>\nconservadas em \u00e1lcool. Ao fundo uma mesa com tinteiro e penas, jornais<br \/>\ne revistas espalhados e uma vitrine dentro da qual figura um esqueleto articulado.<br \/>\nSobre as paredes quadros com retratos de m\u00e9dicos e se\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo corpo humano. Em cima da vitrine um quadro com o seguinte letreiro: &#8211; &#8220;Consultas<br \/>\npagas \u00e0 vista.&#8221; Ao lado do sof\u00e1 o telefone.<\/p>\n<h2>CENA I<br \/>\nEUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (S\u00f3, falando ao telefone.) &#8211; Allon!.. . Allon!&#8230; Quem<br \/>\nfala? Quem fala?&#8230; Ah! \u00c9 para o Doutor Pereira, ou para a Doutora<br \/>\nPereira? N\u00e3o entendo&#8230; Fale mais alto. Doutor ou doutora? (Deixando<br \/>\no telefone.) Isto \u00e9 uma ma\u00e7ada! Todos os dias h\u00e1 uma<br \/>\nbriga de mil diabos nesta casa por causa dos malditos doentes.<\/p>\n<h2>CENA II<br \/>\nA MESMA e MARIA PRAXEDES<\/h2>\n<p>MARIA (Entrando.) Sim, senhora! \u00c9 o que se chama o c\u00famulo da<br \/>\ntagarelice. N\u00e3o tens com quem falar, falas sozinha.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Deixe-me, pelo amor de Deus! Olhe que se n\u00e3o fosse<br \/>\no amor que tenho \u00e0 menina, j\u00e1 tinha voltado para a casa da patroa.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Continuam as brigas?&#8230;<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Ora! Ora! Ainda ontem houve aqui um bate-boca tremendo.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; E sempre por causa dos chamados?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Est\u00e1 visto, n\u00e3o brigam por outra coisa. E<br \/>\nnestas brigas sai cada nome, patroa&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Meu Deus! Chegam ent\u00e3o a descompor-se?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Eu n\u00e3o sei se aquilo \u00e9 descompostura. Olhe,<br \/>\nos nomes que eu ou\u00e7o, se n\u00e3o s\u00e3o desaforos de arrancar<br \/>\ncouro e cabelo, J\u00e1 muito bons para que digamos n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; O que \u00e9 que eles dizem?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; E symfostria pra l\u00e1, milogia pra c\u00e1, raboses,<br \/>\ncoloses, futrica. A menina muito vermelha a dar com os bra\u00e7os, o patr\u00e3o<br \/>\nde olhos esbugalhados a gesticular.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Ah! S\u00e3o discuss\u00f5es cient\u00edficas!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Pois olhe, senhora, eu sou solteira, em t\u00e3o boa hora<br \/>\no diga e o diabo seja surdo, mas, se fosse casada, e meu marido me atirasse<br \/>\n\u00e0 cara todas aquelas ravoses, coloses e mitogias, e me chamasse futrica,<br \/>\nsabe o que fazia a Eul\u00e1lia dos Prazeres da Concei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Maria, filha da Engr\u00e1cia da Porcalhota e do Manuel Tib\u00farcio,<br \/>\nque Deus haja?&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; N\u00e3o fazias nada, tagarela.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Arrumava a trouxa e ia procurar a minha vida.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Mas fora destas discuss\u00f5es eles n\u00e3o conversam?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; A que horas? A menina, de manh\u00e3 muito cedo, vai ver<br \/>\ndoentes, o patr\u00e3o mal acorda, veste-se a toda a pressa e toca pra mesma<br \/>\nlida.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Sim, mas quando est\u00e3o em casa&#8230; \u00e0 hora do almo\u00e7o<br \/>\ne do jantar&#8230;<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Quando est\u00e3o em casa, se n\u00e3o est\u00e3o<br \/>\nbrigando, a menina l\u00ea ou escreve, o patr\u00e3o escreve ou l\u00ea.<br \/>\n\u00c0 mesa do almo\u00e7o ou do jantar, cada um tem o seu livro. Comem<br \/>\nde cabe\u00e7a baixa. N\u00e3o olham um para o outro!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Lu\u00edsa ainda toca e canta?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Qual, senhora, no outro dia fui abrir o piano para limp\u00e1-lo,<br \/>\nestavam as teclas cheinhas de bolor. (Eul\u00e1lia tira o chap\u00e9u<br \/>\nde Maria Praxedes.)<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Lu\u00edsa h\u00e1 de vir jantar.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Certamente. E a senhora passa o dia conosco?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Olha, Eul\u00e1lia, o meu desejo \u00e9 que n\u00e3o abandones<br \/>\nnunca Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Fique descansada, patroa. (Tocam o telefone.) \u00c9 verdade,<br \/>\ncom o diacho da conversa esqueci de dar a resposta ao homem. (Batendo no telefone<br \/>\ne falando.) Allon! Quem fala? \u00c9 o Senhor Salazar da Rua do Hosp\u00edcio?<br \/>\nSim. Mas \u00e9 para o Doutor Pereira, ou para a Doutora Pereira? (Fica<br \/>\nalgum tempo a ouvir, falando para Maria.) Tenha paci\u00eancia, patroa. Ponha<br \/>\no ouvido aqui e veja se distingue, doutor ou doutora?<\/p>\n<p>MARIA (Falando ao telefone.) &#8211; \u00c9 Doutor Pereira ou Doutora Pereira?<br \/>\n(Deixa o telefone.) Ouvi bem claro: doutora.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Ainda bem. Ent\u00e3o \u00e9 para a menina?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Sim.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Vou ver l\u00e1 dentro o que est\u00e1 fazendo a cozinheira.<br \/>\nNunca vi peste maior! (Maria senta-se \u00e0 mesa e l\u00ea jornais.)<\/p>\n<h2>CENA III<br \/>\nMARIA PRAXEDES e LU\u00cdSA<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA (Entrando.) &#8211; Bom dia, minha m\u00e3e!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; H\u00e1 uma semana que n\u00e3o me apareces, Lu\u00edsa, vim<br \/>\nver-te.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o tenho um minuto de que possa dispor!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Quando se quer, minha filha&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; \u00c9 que a mam\u00e3e n\u00e3o imagina, nem pode imaginar<br \/>\nO que \u00e9 a vida da m\u00e9dica. Estou visitando doentes desde as 6<br \/>\nhoras da manh\u00e3. (Puxando a lista.) E veja a via-sacra que tenho de<br \/>\npercorrer ainda hoje.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9s na verdade muito feliz na tua cl\u00ednica!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Estou formada h\u00e1 um ano e quatro meses, posso dizer<br \/>\ncom orgulho que neste curto espa\u00e7o de tempo tenho feito mais que todos<br \/>\nos meus colegas juntos.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Pena \u00e9, entretanto&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; J\u00e1 sei a que vai se referir. \u00c0s lutas que se<br \/>\nd\u00e3o aqui nesta casa entre mim e meu marido. O que quer a senhora? Tenho<br \/>\neu porventura a culpa de que ele procure por todos os meios prejudicar os<br \/>\nmeus interesses, tomando doentes que s\u00e3o meus, exclusivamente meus?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Mas minha filha, h\u00e1 porventura, meu e teu num casal que se<br \/>\nestima?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; H\u00e1, sim senhora; quando esse meu e teu representa o<br \/>\nesfor\u00e7o de cada um. Eu n\u00e3o sou uma mulher vulgar que veio colocar-se<br \/>\npelo fato do casamento sob a prote\u00e7\u00e3o de um homem. A minha posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nno casal \u00e9 igual, perfeitamente igual \u00e0 de meu marido sob o<br \/>\nponto de vista do trabalho. Mas acima desse ponto de vista h\u00e1 ainda<br \/>\noutra coisa que a senhora n\u00e3o quer compreender. Sabe qual \u00e9?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Ignoro, minha filha!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; \u00c9 a minha personalidade cient\u00edfica, a minha<br \/>\nautonomia m\u00e9dica que meu marido tem tentado ofuscar; mas que eu hei<br \/>\nde obrig\u00e1-lo a reconhecer, custe o que custar. Custe o que custar,<br \/>\nouviu minha m\u00e3e?<\/p>\n<p>MARIA (\u00c0 parte.) &#8211; Meu Deus! (Alto.) Mas voc\u00eas ent\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o se amam?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Amamo-nos, minha m\u00e3e, amamo-nos. \u00c9 preciso por\u00e9m<br \/>\nque cada um se conserve no seu posto; que as nossas posi\u00e7\u00f5es<br \/>\nse definam; ou por outra, \u00e9 preciso que meu marido se conven\u00e7a<br \/>\nde que eu posso ganhar perfeitamente a minha vida sozinha e de que ele n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 mais inteligente do que eu! (Pondo a m\u00e3o na cabe\u00e7a<br \/>\ne sentindo como que uma vertigem.)<\/p>\n<p>MARIA &#8211; O que tens?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Nada.<\/p>\n<p>MARIA (Apalpando-lhe o pulso.) &#8211; Mas est\u00e1s em suores frios.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Estou-me sentindo um pouco enjoada&#8230; Mas j\u00e1 passou!<br \/>\nJ\u00e1 passou!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9 fraqueza talvez, minha filha. Sa\u00edste de manh\u00e3<br \/>\nt\u00e3o cedo, sem comer nada.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Tomei ovos quentes e uma x\u00edcara de caf\u00e9.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; N\u00e3o \u00e9 bastante. Vou ver se h\u00e1 l\u00e1 dentro<br \/>\nalguma coisa. (Vai a sair.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso. Diga a Eul\u00e1lia que mande<br \/>\nentrar os doentes l\u00e1 embaixo. (Maria sai. Lu\u00edsa tirando uma<br \/>\nlista do bolso e um l\u00e1pis.) Rua das Marrecas, j\u00e1 fui; Pra\u00e7a<br \/>\ndo Rocio Pequeno, Largo do Machado&#8230; (Senta-se \u00e0 mesa, abre um livro<br \/>\ne escreve assentamentos.)<\/p>\n<h2>CENA IV<br \/>\nLU\u00cdSA e o PRIMEIRO DOENTE<\/h2>\n<p>PRIMEIRO DOENTE (Entrando com uma crian\u00e7a ao colo embrulhada em um<br \/>\ncobertor.) &#8211; Bom dia, Senhora Doutora.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Bom dia. Ent\u00e3o como passou a pequena de ontem para<br \/>\nc\u00e1?<\/p>\n<p>PRIMEIRO DOENTE &#8211; Ah! Senhora Doutora, n\u00e3o passou bem, n\u00e3o.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Vamos ver isto, vamos ver isto! (Levanta-se e examina a crian\u00e7a.)<br \/>\nAh! est\u00e1 muito melhor. (Apalpando-lhe o pulso.) J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ntem febre. O que voc\u00ea deve fazer \u00e9 mudar-se quanto antes do corti\u00e7o<br \/>\nonde mora. Aquilo \u00e9 um lugar terr\u00edvel.<\/p>\n<p>PRIMEIRO DOENTE &#8211; J\u00e1 hoje estive \u00e0 procura de casa, doutora.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Continue com as p\u00edlulas que receitei.<\/p>\n<p>PRIMEIRO DOENTE &#8211; O que \u00e9 que ela pode comer, Senhora Doutora?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Tem fastio?<\/p>\n<p>PRIMEIRO DOENTE &#8211; Muito.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Pode comer tudo, somente \u00e9 bom n\u00e3o abusar de<br \/>\napimentados e salgados. (Primeiro doente vai a sair.) Espere. (Escrevendo.)<br \/>\nPara abrir o apetite tome em cada refei\u00e7\u00e3o meio c\u00e1lice<br \/>\ndeste vinho que a\u00ed vai. (Entrega-lhe a receita.) Mande fazer isto na<br \/>\nbotica do Nogueira, no Largo da Lapa.<\/p>\n<p>PRIMEIRO DOENTE &#8211; Sim, senhora. Ent\u00e3o passe bem. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA V<br \/>\nA MESMA e SEGUNDA DOENTE<\/h2>\n<p>SEGUNDA DOENTE (Entra muito bem vestida.) &#8211; Doutora!&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Levantando-se.) &#8211; Oh! como est\u00e1, minha senhora?<\/p>\n<p>SEGUNDA DOENTE &#8211; Muito melhor!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Bem, isto \u00e9 o que se quer. Vamos ver a garganta. (Segura<br \/>\num pequeno objeto de metal que deve estar em cima da mesa e abaixando com<br \/>\nele a l\u00edngua da segunda doente, examinando a garganta.) Aspire&#8230; (A<br \/>\nsegunda doente aspira.) N\u00e3o est\u00e1 de todo boa.<\/p>\n<p>SEGUNDA DOENTE &#8211; \u00c9 neg\u00f3cio grave, doutora? Ser\u00e1 preciso<br \/>\nfazer opera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Sentando-se \u00e0 mesa e escrevendo.) &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o,<br \/>\n\u00e9 uma coisa insignificante, um pequeno prolapso da \u00favula. (Entregando-lhe<br \/>\na receita.) Tome uma colher de sopa deste rem\u00e9dio tr\u00eas vezes<br \/>\npor dia, uma logo de manh\u00e3, assim que acordar, outra ao meio-dia e<br \/>\noutra \u00e0 noite, antes de se deitar. Mande fazer isto na botica do Nogueira,<br \/>\nno Largo da Lapa.<\/p>\n<p>SEGUNDA DOENTE &#8211; Adeus, doutora&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Adeus!<\/p>\n<h2>CENA VI<br \/>\nA MESMA e TERCEIRA DOENTE<\/h2>\n<p>TERCEIRA DOENTE &#8211; Ai! Ai! Ai! Estou que n\u00e3o posso.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Descanse, descanse um pouco.<\/p>\n<p>TERCEIRA DOENTE &#8211; Custa-me tanto subir esta escada.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ent\u00e3o? Deu-se mal com aquele rem\u00e9dio que lhe<br \/>\nreceitei?<\/p>\n<p>TERCEIRA DOENTE &#8211; Passei um pouco melhor, doutora. Ao menos, consegui dormir<br \/>\nduas horas e deitada.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Eu bem lhe disse. (Examinando as pupilas.) N\u00e3o vai<br \/>\nmal, n\u00e3o. (Pondo-lhe as m\u00e3os no pesco\u00e7o.) Um bocado melhor.<\/p>\n<p>TERCEIRA DOENTE &#8211; Eu estou sofrendo do cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9, doutora? Fale com franqueza.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Qual cora\u00e7\u00e3o! Esque\u00e7a-se disto.<\/p>\n<p>TERCEIRA DOENTE E estas palpita\u00e7\u00f5es que sinto, esta zuada constantemente<br \/>\nnos ouvidos?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O que a senhora tem \u00e9 uma simples anemia que se pode<br \/>\nfacilmente debelar. (Senta-se e escreve.)<\/p>\n<p>TERCEIRA DOENTE &#8211; O m\u00e9dico dizia a mesma coisa ao meu defunto e um<br \/>\nbelo dia quando ele acordou, coitadinho, estava morto.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Entregando-lhe uma receita.) &#8211; Tome um c\u00e1lice de duas<br \/>\nem duas horas por espa\u00e7o de 3 dias, descanse dois dias e depois venha<br \/>\nc\u00e1! Mande fazer isto na botica do Nogueira no Largo da Lapa.<\/p>\n<p>TERCEIRA DOENTE &#8211; Deus Nosso Senhor lhe ajude, Doutora. (Sai andando devagar.)<\/p>\n<h2>CENA VII<br \/>\nLU\u00cdSA e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p><b>(Ao sair a terceira doente, Lu\u00edsa toca o t\u00edmpano que est\u00e1<br \/>\nem cima da mesa.)<\/b><\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Entrando.) &#8211; A senhora quer alguma coisa?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Diz ao Ant\u00f4nio que v\u00e1 chamar-me um t\u00edlburi.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Vai sair?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Vou.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Vai saindo e volta.) Ah! \u00e9 verdade. Recebi pelo telefone<br \/>\num chamado para a senhora.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; De quem?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Do Senhor Salazar, da Rua do Hosp\u00edcio.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; \u00c9 uma casa onde meu marido est\u00e1 tratando. Ouviste<br \/>\nbem: \u00e9 para mim ou para ele?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Para a Doutora Lu\u00edsa Pereira, ouvi bem claro. E a<br \/>\nm\u00e3e da menina que estava aqui ouviu tamb\u00e9m: Doutora Lu\u00edsa<br \/>\nPereira. Mas isto \u00e9 f\u00e1cil de verificar, senhora, temos ali o<br \/>\ntelefone&#8230; sim, porque eu n\u00e3o quero que venha o patr\u00e3o depois<br \/>\nc\u00e1 dizer-me como aconteceu outro dia&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Est\u00e1 bom, vai chamar o tilburi.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; N\u00e3o senhora, \u00e9 que as injusti\u00e7as doem<br \/>\nmuito e n\u00e3o h\u00e1 neste mundo nada mais triste que pagar o justo<br \/>\npelo pecador&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Sim, sim&#8230; Mas vai chamar o tilburi.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Eu nunca fui apanhada em mentiras. Gra\u00e7as a Deus<br \/>\ntenho a minha consci\u00eancia muito pura e a filha de Manuel Tib\u00farcio,<br \/>\nque Deus haja, n\u00e3o \u00e9 pra ai qualquer mulher \u00e0 toa de<br \/>\ncuja palavra se possa duvidar.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Se n\u00e3o queres ir dar o recado, vou eu.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Vou, sim senhora, mas&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Est\u00e1 bom, est\u00e1 bom! (Empurrando-a para dentro.)<\/p>\n<h2>CENA VIII<br \/>\nLU\u00cdSA e GREG\u00d3RIO<\/h2>\n<p>GREG\u00d3RIO (Entrando com ar meio apalermado.) &#8211; N\u00e3o \u00e9<br \/>\naqui que mora uma doutora que tem anunciado nos jornais?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Sim, senhor!<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; Ainda que mal pregunte, \u00e9 Vossa Senhoria?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Uma sua criada.<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; U\u00ea, gentes! Tinham-me dito l\u00e1 na ro\u00e7a<br \/>\nque era uma mui\u00e9 v\u00e9ia e feia. Ora esta! (Pausa.) Trata mesmo<br \/>\nde mol\u00e9stias de homens?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; Descurpe, mas eu pensava&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; A consulta \u00e9 para o senhor ou para algu\u00e9m de<br \/>\nsua fam\u00edlia?<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; E para mim mesmo, sinh\u00e1 dona&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Conte-me l\u00e1 o que sofre. (Manda-o sentar e senta-se<br \/>\na seu lado.)<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; Em premero que tudo tenho muita farta de ar e muitas sufoca\u00e7\u00f5es.<br \/>\nPor\u00e9m o que mais me avexa \u00e9 uma dor forte aqui mesmo na boca<br \/>\ndo estambago. (Aponta para o lugar.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Mas esta dispn\u00e9ia e esta dor&#8230;<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; Na espinhela n\u00e3o tenho nada, n\u00e3o, sinh\u00e1<br \/>\ndona.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isto. Pergunto-lhe se esta<br \/>\nfalta de ar costuma vir antes ou depois das refei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; De premero vinham antes&#8230; mas agora v\u00eam ao despois&#8230;<br \/>\nJ\u00e1 consurtei a halipatia, homopatia, a dosometria, tudo, tudo. Afinal<br \/>\ndisseram-me l\u00e1 na ro\u00e7a: &#8211; Voc\u00ea j\u00e1 foi ao Nascimento?<br \/>\nJ\u00e1 foi ao caboclo da Praia Grande? Pra que n\u00e3o vai v\u00ea<br \/>\na Doutora? Tarvez ela te d\u00ea vorta. E aqui estou nas m\u00e3o da sinh\u00e1<br \/>\ndona.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Tire o palet\u00f3. (Greg\u00f3rio tira o palet\u00f3,<br \/>\nLu\u00edsa vai buscar uma toalha, coloca-a nas costas de Greg\u00f3rio<br \/>\ne ausculta-o.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Conte, um, dois, tr\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; Um&#8230; dois&#8230; tr\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; V\u00e1 contando.<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; Quatro&#8230; 5&#8230; 6&#8230; 7&#8230; 8&#8230; 9&#8230;10&#8230; 11&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Respire. (Greg\u00f3rio toma aspira\u00e7\u00e3o.) &#8211;<br \/>\nRespire mais forte. (Greg\u00f3rio respira mais forte.) Mais forte ainda.<br \/>\n(Greg\u00f3rio fica de boca aberta tomando uma longa respira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nLu\u00edsa passou a auscult\u00e1-lo pela frente colocando a cabe\u00e7a<br \/>\nno peito.<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; Que banha cheirosa tem sinh\u00e1 dona na cabe\u00e7a!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Levantando-se.) &#8211; Deite-se ali naquele sof\u00e1. (Greg\u00f3rio<br \/>\ndeita-se de lado.) N\u00e3o, de barriga pra o ar. (Greg\u00f3rio deita-se<br \/>\nde barriga para cima.) Desabotoe-se.<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO (Espantado.) &#8211; Desabotoar-me?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Sim, desabotoe o colete! (Greg\u00f3rio desabotoa o colete.)<br \/>\nEncolha as pernas. (Greg\u00f3rio encolhe as pernas. Lu\u00edsa apalpa-lhe<br \/>\no f\u00edgado.)<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO (Saltando do sof\u00e1.) &#8211; Ah! Ah! Ah!&#8230; N\u00e3o fa\u00e7a<br \/>\nisso, sinh\u00e1 dona, que eu sinto coscas como qu\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Deite-se, desse modo n\u00e3o posso examin\u00e1-lo. (Greg\u00f3rio<br \/>\ndeita-se de pernas encolhidas. Lu\u00edsa apalpa-lhe o f\u00edgado.) D\u00f3i<br \/>\naqui?<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; Ah! Ah! Ah! Que coscas!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Sentando-se \u00e0 mesa.) &#8211; Pode vestir-se! (Escreve a receita<br \/>\ne entrega a Greg\u00f3rio.) Tome as p\u00edlulas duas vezes por dia; uma<br \/>\nao deitar e outra logo pela manh\u00e3. O emplastro \u00e9 para colocar<br \/>\nsobre o f\u00edgado. Mande fazer isto na botica do Nogueira, no Largo da<br \/>\nLapa.<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; A sinh\u00e1 dona qu\u00e9 que eu pague j\u00e1 ou<br \/>\ndespois?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Depois.<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; Ant\u00e3o quando \u00e9 que devo vort\u00e1?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Para a semana. (Greg\u00f3rio vai saindo e encontra-se \u00e0<br \/>\nporta com Pereira.)<\/p>\n<h2>CENA IX<br \/>\nLU\u00cdSA, GREG\u00d3RIO e o DOUTOR PEREIRA<\/h2>\n<p>GREG\u00d3RIO (Ao Doutor Pereira que entra.) &#8211; Deus lhe sarve.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Adeus.<\/p>\n<p>GREG\u00d3RIO &#8211; Passe bem, sinh\u00e1 dona. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA X<br \/>\nLU\u00cdSA e o DOUTOR PEREIRA<\/h2>\n<p>DR. PEREIRA (Vendo Greg\u00f3rio sair. A Lu\u00edsa.) &#8211; Mol\u00e9stias<br \/>\nde senhoras e crian\u00e7as. Creio que \u00e9 isto que est\u00e1 l\u00e1<br \/>\nembaixo \u00e0 porta em um grande letreiro!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O que est\u00e1 l\u00e1 embaixo \u00e9: Doutora Lu\u00edsa<br \/>\nPereira, m\u00e9dica. Especialidade: &#8211; mol\u00e9stias de senhoras e crian\u00e7as.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Ou isto.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ou isto, n\u00e3o. S\u00e3o coisas muito diferentes.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; De modo que a senhora&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Clinico em todos os ramos de medicina; ocupando-me com especialidade<br \/>\nde mol\u00e9stias de crian\u00e7as e de pessoas do meu sexo.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; O contrato ent\u00e3o que fizemos logo que nos casamos&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Esse contrato perdeu a raz\u00e3o de ser desde o dia em<br \/>\nque o senhor se encarregou de dois partos e de um caso de coqueInche, que<br \/>\npor direito me pertenciam.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Minha senhora, chegamos a um estado em que a nossa vida juntos<br \/>\nvai-se tornar imposs\u00edvel. Ou eu hei de abdicar \u00e0 minha autonomia<br \/>\nprofissional, ou, o que \u00e9 mais triste ainda, \u00e0 minha posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde chefe na fam\u00edlia, ou a senhora conserve-se no lugar que lhe compete.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; A sua autonomia de profissional \u00e9 igual \u00e0 minha.<br \/>\nNa fam\u00edlia que constitu\u00edmos n\u00e3o h\u00e1 chefes e o<br \/>\nlugar que me compete \u00e9 o que estou ocupando.<\/p>\n<h2>CENA XI<br \/>\nOS MESMOS e MARIA PRAXEDES<\/h2>\n<p>MARIA (Entrando com uma x\u00edcara de caldo.) &#8211; Toma este caldo, minha<br \/>\nfilha.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Ent\u00e3o a senhora quer positivamente a luta?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Estou preparada, n\u00e3o me arreceio dela.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Meus filhos, pelo amor de Deus, por tudo quanto pode haver de mais<br \/>\nsagrado neste mundo&#8230;<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (A Maria.) &#8211; Ah! minha senhora, estou cheio at\u00e9 aqui.<br \/>\n(Indica a garganta.) Acha que posso, que devo continuar nesta posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumilhante?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Toma o caldo, minha filha.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o quero, minha m\u00e3e. (Maria p\u00f5e a x\u00edcara<br \/>\nem cima da mesa.)<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Perdi o meu nome como um gal\u00e9. Deixei de ser o Doutor<br \/>\nPereira para ser o marido da Doutora Lu\u00edsa Praxedes.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Logo que nos casamos, passei a assinar-me Doutora Lu\u00edsa<br \/>\nPereira. Tomei, por defer\u00eancia, o seu nome de fam\u00edlia do qual<br \/>\nali\u00e1s, seja dito de passagem, n\u00e3o precisava. Com o seu nome<br \/>\ntenho-me anunciado, com este tenho receitado. Se o p\u00fablico continua<br \/>\na conhecer-me pelo apelido antigo, \u00e9 porque ainda est\u00e3o bem<br \/>\nvivos na sua mem\u00f3ria os sucessos que alcancei na Academia e vai acompanhando<br \/>\npari-passu a marcha progressiva da minha carreira cient\u00edfica! Tenho<br \/>\neu porventura culpa disso?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Os sucessos da Academia!&#8230; A marcha progressiva da sua carreira<br \/>\ncient\u00edfica! A sua pomada \u00e9 que a senhora deve dizer!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Pomadas s\u00e3o os agradecimentos de doentes, feitos nos<br \/>\njornais e \u00e0 custa do m\u00e9dico que os tratou. S\u00e3o as estat\u00edsticas<br \/>\npublicadas mensalmente nas folhas p\u00fablicas com exagero escandaloso<br \/>\nde cifra e mencionando pomposos nomes, para embair o p\u00fablico, as mais<br \/>\nsingulares opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; N\u00e3o me provoque, senhora, pe\u00e7o-lhe pelo amor<br \/>\nde Deus que n\u00e3o me provoque&#8230;<\/p>\n<p>MARIA (Entre os dois.) &#8211; Acalmem-se, meus filhos.<\/p>\n<h2>CENA XII<br \/>\nOS MESMOS e MANUEL PRAXEDES<\/h2>\n<p>PRAXEDES (Entrando e ouvindo a discuss\u00e3o.) &#8211; Ent\u00e3o o que \u00e9<br \/>\nisto? est\u00e3o brigando? Discuss\u00f5es cient\u00edficas!&#8230; Bravo!<br \/>\nmuito bem.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Pomada! O senhor era o menos competente para atirar-me ao<br \/>\nrosto semelhante nome. A minha cl\u00ednica&#8230;<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; A sua cl\u00ednica desaparecer\u00e1, minha senhora, no<br \/>\ndia em que as mulheres formarem-se \u00e0s d\u00fazias e aos centos.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; E este dia n\u00e3o est\u00e1 longe. Em todo caso, cabe \u00e0<br \/>\nminha doutora a gl\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>MARIA (Baixo a Praxedes.) &#8211; Pois em vez de acalmar, est\u00e1s a fomentar<br \/>\ndiscuss\u00f5es!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Deixa, mulher, isto \u00e9 muito bonito!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; No dia em que as mulheres formarem-se aos centos, a medicina<br \/>\nter\u00e1 tocado o z\u00eanite da sua gl\u00f3ria; porque s\u00f3 assim<br \/>\nentrar\u00e3o nela as aptid\u00f5es cient\u00edficas que at\u00e9<br \/>\naqui os senhores, egoisticamente, nos t\u00eam negado, e os sentimentos de<br \/>\ncaridade que s\u00e3o o mais belo apan\u00e1gio do nosso sexo.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Muito bem!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Sinto n\u00e3o ter vontade de rir; porque o que acaba de<br \/>\ndizer s\u00f3 pode ser respondido com uma gargalhada, Senhora Doutora Lu\u00edsa<br \/>\nPraxedes&#8230; Note que eu digo Doutora Lu\u00edsa Praxedes, e n\u00e3o Doutora<br \/>\nLu\u00edsa Pereira.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O grau que recebi foi de Doutor e n\u00e3o de Doutora! A<br \/>\nFaculdade de Medicina n\u00e3o conhece Doutoras. Uma vez que toca neste<br \/>\nponto, fique sabendo que vou mandar tirar a placa que est\u00e1 l\u00e1<br \/>\nembaixo, e declarar pelos jornais que doravante assinar-me-ei Doutor Lu\u00edsa<br \/>\nPraxedes porque foi este o nome com que me formei.<\/p>\n<p>PRAXEDES (Para Maria.) &#8211; Sim, senhora! L\u00e1 isto \u00e9 verdade!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Pois bem, Senhora Doutora ou Doutor Lu\u00edsa Praxedes,<br \/>\ncomo queira, eu n\u00e3o estou disposto a representar por mais tempo o papel<br \/>\nrid\u00edculo de marido de parteira, de professora p\u00fablica ou de<br \/>\ncantora l\u00edrica. Sou cabe\u00e7a do casal. Tenho a minha posi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndefinida em Direito perante a fam\u00edlia e perante a sociedade. Ou a senhora<br \/>\nmuda de rumo ou&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Acabe o dilema.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Ou eu dou-lhe uma li\u00e7\u00e3o que lhe h\u00e1 de<br \/>\nser fatal. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XIII<br \/>\nLU\u00cdSA, MANUEL e MARIA PRAXEDES<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Li\u00e7\u00e3o fatal! Que li\u00e7\u00e3o fatal poder\u00e1<br \/>\nele dar-me?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Minha filha, s\u00e3o t\u00e3o feias essas brigas constantes<br \/>\nentre seres que se devem estimar&#8230; adorar&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Sim, podem discutir&#8230; acho isso at\u00e9 muito bonito. Da discuss\u00e3o<br \/>\n\u00e9 que nasce a luz. Mas&#8230; est de modus in rebus&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Desejava talvez que eu fosse uma mulher est\u00fapida, ou<br \/>\nvulgar, para que n\u00e3o ficassem na penumbra as prerrogativas da sua individualidade?<br \/>\nMas n\u00e3o, eu tenho uma miss\u00e3o a cumprir. Hei de cumpri-la. (Sentindo<br \/>\ncomo que uma vertigem.)<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Outra vertigem, minha filha! Est\u00e1s t\u00e3o p\u00e1lida!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o \u00e9 nada.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Lu\u00edsa! Lu\u00edsa!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; J\u00e1 passou! (Eul\u00e1lia entra e dirige-se a Lu\u00edsa.)<\/p>\n<h2>CENA XIV<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (Para Lu\u00edsa.) &#8211; Oh! senhora, o tilburi est\u00e1<br \/>\na\u00ed na porta a roer h\u00e1 mais de um quarto de hora.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; \u00c9 verdade, j\u00e1 nem me lembrava&#8230; Estou t\u00e3o<br \/>\nfatigada.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Toma ao menos o caldo que ali est\u00e1.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Este deve estar frio. Se a menina quiser, eu vou buscar<br \/>\noutro. Olhe que est\u00e1 muito bom; a cozinheira tem o defeito de ser muito<br \/>\nfaladora e roubar um pouco nas compras, mas l\u00e1 no que diz respeito<br \/>\na tempero de panela, justi\u00e7a lhe seja feita, n\u00e3o h\u00e1 nada<br \/>\nque se lhe dizer, e olhe, patroa, que eu n\u00e3o preciso estar-lhe em cima<br \/>\na repetir-lhe que fa\u00e7a isto, ou fa\u00e7a aquilo.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Tomando o chap\u00e9u.) &#8211; Est\u00e1 bem, est\u00e1 bem!<br \/>\nJ\u00e1 sei! (Despedindo-se.) At\u00e9 j\u00e1, minha m\u00e3e. (Abra\u00e7a-a.)<br \/>\nAdeus, meu pai! (Sai.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Coitadinha! Anda numa lida! (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XV<br \/>\nMANUEL e MARIA PRAXEDES<\/h2>\n<p>MARIA &#8211; J\u00e1 viste a tua obra. Est\u00e1s satisfeito?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Satisfeit\u00edssimo. O que querias tu? Que um casal de doutores<br \/>\nandasse a brigar por causa de arrufos ou questi\u00fanculas de governo de<br \/>\ncasa?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Os arrufos e questi\u00fanculas do governo dom\u00e9stico, meu<br \/>\ncaro marido, sempre existiram no nosso lar, mas nunca nos levaram, felizmente,<br \/>\nao excesso das cenas a que acabamos de assistir.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; S\u00e3o discuss\u00f5es cient\u00edficas, minha mulher,<br \/>\nmuito naturais. Antigamente brigava-se por ci\u00fames e faziam-se as pazes<br \/>\ndepois do cl\u00e1ssico faniquito. H\u00e1 ainda hoje quem fa\u00e7a<br \/>\ndisto, bem sei. Mas o nosso genro e Lu\u00edsa n\u00e3o est\u00e3o nas<br \/>\nmesmas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Genro? Genro no nome, porque eu pelo menos, ate aqui, sogra n\u00e3o<br \/>\ntenho sido.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; N\u00e3o tens sido sogra?&#8230; Ora esta!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Nas rixas que se d\u00e3o constantemente nesta casa j\u00e1 viste<br \/>\nenvolvido o meu nome? Sou para o Doutor Pereira uma criatura completamente<br \/>\nindiferente. Dos seus l\u00e1bios ainda n\u00e3o partiu contra mim a mais<br \/>\npequena censura, ou uma palavra sequer que deixasse transparecer embora sutilmente<br \/>\no veneno do epigrama.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; E queixaste por isso? Queria que ele te chamasse como costumam<br \/>\nchamar as sogras: &#8211; v\u00edbora, jararaca, cascavel&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Queria ser uma sogra em regra, porque s\u00f3 assim teria a certeza<br \/>\nde que minha filha era verdadeiramente feliz&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Mas tu n\u00e3o v\u00eas, Maria Praxedes, que este casamento<br \/>\n\u00e9 uma coisa completamente nova? \u00c9 a primeira experi\u00eancia<br \/>\nque se faz. As pe\u00e7as do maquinismo ainda n\u00e3o est\u00e3o bem<br \/>\nassentadas, n\u00e3o podem por conseguinte trabalhar com a regularidade<br \/>\nde um maquinismo j\u00e1 experimentado. Espera um pouco, deixa a coisa entrar<br \/>\nem seus eixos e ver\u00e1s que nisto que tu condenas atualmente est\u00e1<br \/>\na fam\u00edlia do futuro, a sociedade do futuro, a felicidade do futuro&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Havemos de ver este futuro.<\/p>\n<h2>CENA XVI<br \/>\nOS MESMOS e CARLOTA DE AGUIAR<\/h2>\n<p>CARLOTA (Entrando.) &#8211; Entrei subrepticiamente sem me fazer anunciar.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ora, seja bem vinda, Doutora!<\/p>\n<p>CARLOTA (Inclinando-se diante de Maria.) &#8211; Minha senhora, a curvatura de<br \/>\nmeus respeitos.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Sinceros parab\u00e9ns pelos triunfos alcan\u00e7ados anteontem<br \/>\nno j\u00fari. Li em todos os jornais a not\u00edcia da sua brilhante defesa.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Foi um debate hom\u00e9rico; com r\u00e9plica e tr\u00e9plica,<br \/>\nem que derroquei \u00e0 luz da aurora bruxoleante do Direito moderno, os<br \/>\ncastelos carcomidos da vetusta legisla\u00e7\u00e3o, crivados de teorias<br \/>\nincongruentes e obsoletas.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; E tratava-se de um caso completamente novo.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; A esposa que surpreende o marido com a amante e que resolve a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ntrucidando os dois. Mas deixemos o j\u00fari, a minha defesa, os meus triunfos.<br \/>\nO que me traz aqui \u00e9 um motivo de ordem grand\u00edloqua, elevada<br \/>\ne arquicivilizadora. Senhor Manuel Praxedes, apresento-me candidato \u00e0<br \/>\nDeputa\u00e7\u00e3o Geral, pelo Munic\u00edpio Neutro.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Bravo! Bravo! Muito bem!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Pois as senhoras querem tamb\u00e9m ser deputadas?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Por que n\u00e3o? Nos Estados Unidos, as mulheres s\u00e3o<br \/>\ncaixeiras, empregadas nos tel\u00e9grafos, nas estradas de ferro, nos correios&#8230;<br \/>\ns\u00e3o at\u00e9 capit\u00e3es de navios.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; At\u00e9 bombeiras. Amanh\u00e3 sair\u00e1 em todas as folhas<br \/>\na minha circular. Nesta pe\u00e7a estereotipo o programa das reformas sociol\u00f3gicas<br \/>\nfemininas de que pretendo dotar o meu pa\u00eds. Vai ver, fica a mulher<br \/>\nequiparada ao homem em tudo por tudo. \u00c9 uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Creio bem!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; O Brasil est\u00e1 atrasad\u00edssimo na ci\u00eancia do Direito.<br \/>\nBasta considerar que esta ci\u00eancia n\u00e3o corresponde \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es<br \/>\ngrand\u00edloquas cond\u00f3ricas se \u00e9 que posso exprimir-me assim&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Perfeitamente.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Do nosso progresso material. O telefone invade tudo, o telefone<br \/>\nleva o pensamento \u00e0s mais long\u00ednquas dist\u00e2ncias e entretanto<br \/>\nainda n\u00e3o temos o Direito Telegram\u00e1tico, a Jurisprud\u00eancia<br \/>\nTelefon\u00e9tica.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; O telefone podia ter acabado com as precat\u00f3rias&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Justo. Entrou perfeitamente no \u00e2mago do meu pensamento.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Quando houvesse necessidade de deprecar de um ju\u00edzo para<br \/>\noutro, para uma avalia\u00e7\u00e3o por exemplo&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; O juiz a quo ia ao telefone, o ad quem ouvia&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Procedia \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; E gritava pelo telefone: est\u00e1 cumprida a dilig\u00eancia.<br \/>\nQuanta economia de tempo&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; E de papel!&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Apoiado! (Tirando do bolso cart\u00f5es e entregando a Praxedes.)<br \/>\nAqui tem para distribuir pelos seus amigos. (O mesmo a Maria.) Pe\u00e7o-lhe,<br \/>\nminha senhora, que advogue tamb\u00e9m a minha causa; vai nela hasteada<br \/>\na fl\u00e2mula da emancipa\u00e7\u00e3o feminina, que hei de defender<br \/>\nat\u00e9 a morte com o gl\u00e1dio incandescente do meu humilde verbo!<\/p>\n<p>PRAXEDES (Lendo os cart\u00f5es.) &#8211; &#8220;Para Deputado Geral pelo Primeiro<br \/>\nDistrito da Corte: Bacharela Carlota Sinfr\u00f4nia de Aguiar, advogada.<br \/>\n&#8211; Telefone 2028.&#8221; (A Carlota.) Muito bem!<\/p>\n<h2>CENA XVII<br \/>\nOS MESMOS e DOUTOR PEREIRA<\/h2>\n<p>CARLOTA (Ao Doutor Pereira, que entra.) &#8211; Venho fazer-lhe uma visita e um<br \/>\npedido.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (Apertando-lhe a m\u00e3o.) &#8211; Doutora. Estou \u00e0s suas<br \/>\nordens!<\/p>\n<p>CARLOTA (Entregando os cart\u00f5es a Pereira.) &#8211; Leia! DR. PEREIRA (Lendo.)<br \/>\n&#8211; J\u00e1 o sabia. E a prop\u00f3sito, incomodou-me bastante o artigo<br \/>\nque li ontem no Correio do Norte a respeito da sua candidatura.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Uma publica\u00e7\u00e3o a pedido.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Sim. Que miser\u00e1vel!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; O meu amigo compreende que se eu fosse dar import\u00e2ncia a<br \/>\ntodos esses c\u00e3es que ladram nas vielas taludas do jornalismo insalubre.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Faz muito bem. H\u00e1 coisas que n\u00e3o devem ser respondidas.<\/p>\n<h2>CENA XVIII<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (Para Maria.) &#8211; A senhora v\u00e1 comer alguma coisinha,<br \/>\nque o jantar hoje h\u00e1 de ser um pouco tarde. Venha tamb\u00e9m, patr\u00e3o.<\/p>\n<p>PRAXEDES (Para Carlota.) &#8211; Quando quiser aparecer por aquela nossa casa&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Vou v\u00ea-lo breve. (Aperta a m\u00e3o de Manuel Praxedes,<br \/>\nque sai.)<\/p>\n<p>MARIA (Apertando a m\u00e3o de Carlota.) &#8211; Doutora&#8230; (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XIX<br \/>\nEUL\u00c1LIA, CARLOTA e DOUTOR PEREIRA<\/h2>\n<p>CARLOTA (Ao Doutor Pereira.) &#8211; Esta sua criada pode tamb\u00e9m prestar-me<br \/>\nservi\u00e7os! Como se chama?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Eul\u00e1lia&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA (A Eul\u00e1lia, que espana os trastes.) &#8211; Vem c\u00e1, Eul\u00e1lia!<\/p>\n<p>FULA LIA &#8211; Minha senhora!&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Eu sou a Bacharela Carlota de Aguiar.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Vosmec\u00ea \u00e9 quem diz.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Como? Vosmec\u00ea \u00e9 quem diz? Duvidas?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; N\u00e3o duvido, n\u00e3o senhora; mas l\u00e1 na<br \/>\nminha terra costuma-se dizer quando um homem fala muito: \u00e9 um bacharel.<br \/>\nOra, se um bacharel \u00e9 assim, fa\u00e7o id\u00e9ia o que n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 de ser uma bacharela!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Tens gra\u00e7a. Toma estes cart\u00f5es! (D\u00e1-lhos.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Para que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; A qualquer lugar onde fores, deixa dois pelo menos.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; daqui a pouco vou \u00e0<br \/>\nvenda da esquina, posso deix\u00e1-los l\u00e1 todos. (Continua a espanar.)<\/p>\n<p>CARLOTA (Ao Doutor Pereira.) &#8211; A sua senhora, n\u00e3o est\u00e1?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Saiu. H\u00e1 de vir logo.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Vou ent\u00e3o fazer uma visita ao meu colega ali defronte que<br \/>\npode dar-me grande parte da vota\u00e7\u00e3o da Candel\u00e1ria e voltarei<br \/>\ndepois&#8230; Adeus! (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XX<br \/>\nDOUTOR PEREIRA e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Vem c\u00e1, Eul\u00e1lia. (Tira do bolso uma seringa.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; O patr\u00e3o deseja alguma coisa?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (Mostrando a seringa.) &#8211; Sabes o que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA1 &#8211; Sei, sim senhor; \u00e9 uma seringa.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Sim, senhor.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Mas o que tu n\u00e3o sabes \u00e9 o que est\u00e1 dentro<br \/>\ndela.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; A\u00ed dentro n\u00e3o vejo nada.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Pois olhe, aqui dentro est\u00e1 o micr\u00f3bio da febre<br \/>\namarela.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Cruz!!&#8230; Credo, meu amo!&#8230; Abren\u00fancio! Arrede-se<br \/>\npara l\u00e1. Mas o que vem a ser isto de sicr\u00f3bio?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; \u00c9 um bichinho.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Ent\u00e3o a febre amarela \u00e9 um bicho? Ora esta!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; O que tu n\u00e3o sabes ainda \u00e9 que metendo-se este<br \/>\nbichinho no corpo de uma pessoa fica ela livre de ter o mal.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Pois ent\u00e3o a febre \u00e9 um bicho; mete-se o bicho<br \/>\nno corpo da gente e a gente n\u00e3o tem febre? Tenha paci\u00eancia, patr\u00e3o,<br \/>\neu n\u00e3o engulo esta.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; \u00c9 muito simples.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; E como se apanha o bichinho?2<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Com um instrumento que n\u00f3s temos, chamado chupete esterilizado.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Chupete esterelizado, sim, senhor. (Prestando muita aten\u00e7\u00e3o.)<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Tira-se uma gota de sangue de um doente de febre amarela quase<br \/>\na expirar. Esta gota \u00e9 deitada em caldo apropriado. Ai o bichinho prolifera!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; O que vem a ser prolifera, patr\u00e3o?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Procria, desenvolve-se.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Dentro do caldo! Tudo aquilo? (Faz um gesto com as m\u00e3os<br \/>\ncomo indicando formiga\u00e7\u00e3o.) Jesus! que porcaria!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Depois mete-se uma por\u00e7\u00e3o daquele caldo dentro<br \/>\ndesta seringa e injeta-se em um porquinho da \u00edndia ou em um coelho.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Ai! O pobre bichinho, coitado, morre logo!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; N\u00e3o; da\u00ed a alguns dias.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; E depois?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Depois tira-se uma gota de sangue deste porquinho da \u00edndia<br \/>\ne p\u00f5e-se em um caldo id\u00eantico. Deste caldo injeta-se ainda outros<br \/>\nporquinhos que v\u00e3o morrendo at\u00e9 que injetado num, ele tenha<br \/>\napenas a febre com car\u00e1ter benigno. Com o caldo deste ent\u00e3o<br \/>\n\u00e9 que se vacina o homem.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Quanto caldo e quanta porcaria, meu amo. J\u00e1 sei que<br \/>\nhoje n\u00e3o janto com o diabo da conversa. Se j\u00e1 estou aqui engulhando&#8230;<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Eul\u00e1lia, a epidemia est\u00e1 grassando com muita<br \/>\nintensidade, tu \u00e9s estrangeira, al\u00e9m disto forte e robusta.<br \/>\nEst\u00e1s sujeita de um momento para outro a ter a febre.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; O que \u00e9 que o patr\u00e3o quer?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Vacinar-te.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; O qu\u00ea? Meter essa seringa no meu corpo? Com caldo<br \/>\nde febre amarela? Em mim o senhor n\u00e3o mete isto, n\u00e3o, mas \u00e9<br \/>\no mesmo. Chegue-se para l\u00e1, patr\u00e3o.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Mas isto n\u00e3o d\u00f3i, \u00e9 uma coisa \u00e0<br \/>\ntoa. N\u00e3o v\u00eas; \u00e9 uma pequena seringa de Pravat.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; \u00c9 seringa depravada ainda de mais a mais.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; D\u00e1 c\u00e1 o bra\u00e7o, deixa-te de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Gritando.) &#8211; Socorro! Socorro! Aqui del Rei!<\/p>\n<h2>CENA XXI<br \/>\nOS MESMOS, MANOEL, MARIA e LU\u00cdSA<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA (Entrando.) &#8211; O que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; O que foi?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Eul\u00e1lia?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Para Lu\u00edsa.) &#8211; Oh! senhora, tire aquela seringa depravada<br \/>\nda m\u00e3o do patr\u00e3o, ou arrumo a minha trouxa e vou-me embora.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Est\u00e1 bem; n\u00e3o te zangues.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Ao Doutor Pereira.) &#8211; Acho pouco curial que o senhor queira<br \/>\nestender at\u00e9 as fl\u00e2mulas desta casa a aplica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas suas teorias microbianas quando sabe que as n\u00e3o aceito. (Pereira<br \/>\nri furioso.) Venho de casa de um doente seu.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Est\u00e1 gracejando.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; De um doente seu. E vim correndo dar-lhe esta not\u00edcia,<br \/>\npara dizer-lhe que, declarando-me ele que n\u00e3o depositava confian\u00e7a<br \/>\nno tratamento, discordei do seu diagn\u00f3stico e receitei.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; E quem \u00e9 esse doente?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O filho do Salazar, da Rua do Hosp\u00edcio.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; O chamado foi para a senhora! Eu ouvi no telefone. (Voltando-se<br \/>\npara Maria.) E a patroa tamb\u00e9m ouviu!..<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Eu ouvi bem claro; Doutora Lu\u00edsa Pereira.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (Com raiva concentrada.) &#8211; Minha senhora! Eu disse-lhe que havia<br \/>\nde dar-lhe uma li\u00e7\u00e3o. O que a senhora acaba de praticar \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Diga.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; N\u00e3o digo. Tenho ainda a generosidade de guardar para<br \/>\ncom o respeito que se deve ao seu sexo, aten\u00e7\u00f5es que a senhora<br \/>\nn\u00e3o teve para com a profiss\u00e3o que exerce. Depois do ato que<br \/>\nacaba de praticar \u00e9 imposs\u00edvel a nossa vida juntos. Vou deixar<br \/>\nesta casa.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Uma separa\u00e7\u00e3o! Aceito-a! Mas quero que ela seja<br \/>\ncompleta.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Meus filhos!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Vou mandar chamar meu advogado. (Sai.) (Maria encosta-se \u00e0<br \/>\nmesa.)<\/p>\n<h2>CENA XXII<br \/>\nOS MESMOS, CARLOTA, menos LU\u00cdSA<\/h2>\n<p>DR. PEREIRA (A Carlota, que entra.) &#8211; Doutora, preciso dos seus conselhos<br \/>\nprofissionais.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; \u00c9 uma prova de confian\u00e7a que me eleva ao empyreo<br \/>\ndo desvanecimento. Estou \u00e0s suas ordens&#8230;<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Espero-a, aqui, amanh\u00e3, \u00e0s duas horas da tarde.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; C\u00e1 estarei. (Doutor Pereira aperta-lhe a m\u00e3o. Carlota<br \/>\nsai pela esquerda, Pereira pela direita.)<\/p>\n<h2>CENA XXIII<br \/>\nEUL\u00c1LIA, MARIA e MANUEL PRAXEDES<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (Chorando em altos gritos.) &#8211; Ah! meu Deus! que desgra\u00e7a!<br \/>\nE tudo por causa daquela seringa\u00e7\u00e3o da febre amarela! Pelo amor<br \/>\nde Deus, senhores, me desculpem, que eu n\u00e3o sou culpada!<\/p>\n<p>PRAXEDES (Pensando.) &#8211; Se eles ao menos tivessem um filho&#8230;<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Ainda chorando.) &#8211; Qual filhos, patr\u00e3o! Se eles n\u00e3o<br \/>\nt\u00eam tempo para isso&#8230; Se nunca pensaram nisso! (Sai a chorar pela esquerda.)<\/p>\n<p>(Cai o pano.)<\/p>\n<h2><b>FIM DO SEGUNDO ATO<\/b><\/h2>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>ATO TERCEIRO<\/h2>\n<h2>CENA I<br \/>\nLU\u00cdSA e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (A Lu\u00edsa.) &#8211; Deste modo a menina est\u00e1 se matando.<br \/>\nN\u00e3o dormiu \u00e0 noite, n\u00e3o comeu nada&#8230; Olhe que n\u00e3o<br \/>\nvale a pena. A vida \u00e9 t\u00e3o curta que, quando a gente menos espera,<br \/>\nest\u00e1 a viajar deitada, sem chap\u00e9u e de barriga pra o ar. Venha<br \/>\ncomer alguma coisita, sim?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o quero nada.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Olhe, vou preparar-lhe uma gemada, ou ent\u00e3o um mingau<br \/>\nde tapioca daqueles que eu costumava fazer quando a menina era pequena, lembra-se?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; J\u00e1 te disse, n\u00e3o quero nada.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; A senhora est\u00e1 zangada comigo?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o estou.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Aquela maldita seringa depravada \u00e9 que foi a causa<br \/>\nde tudo. (Batem.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Vai ver quem \u00e9. (Eul\u00e1lia vai mas volta logo.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; O Senhor Doutor Martins.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Manda-o entrar.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Ent\u00e3o a menina n\u00e3o quer tomar nada?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; J\u00e1 te disse que n\u00e3o. Deixa-nos s\u00f3s. (Eul\u00e1lia<br \/>\nintroduz Martins e sai.)<\/p>\n<h2>CENA II<br \/>\nLU\u00cdSA e MARTINS<\/h2>\n<p>MARTINS (Apertando a m\u00e3o de Lu\u00edsa.) &#8211; Minha senhora!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Indicando-lhe uma cadeira.) &#8211; Doutor, tenha a bondade de se<br \/>\nsentar.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Recebi ontem a sua carta.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Abusando das nossas antigas rela\u00e7\u00f5es de fam\u00edlia,<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es que muito prezo e venero, tomei a liberdade de pedir-lhe<br \/>\nque viesse a esta sua casa para tratar de neg\u00f3cio que me diz respeito.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Estou \u00e0s suas ordens, minha senhora! Quest\u00f5es relativas<br \/>\ntalvez \u00e0 profiss\u00e3o que t\u00e3o brilhantemente est\u00e1<br \/>\ndesempenhando. Algum executivo por honor\u00e1rios m\u00e9dicos&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Oh! por isto n\u00e3o valia a pena incomod\u00e1-lo.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Como n\u00e3o valia a pena? Invocando h\u00e1 pouco as nossas<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es, creia que eu sentir-me-ia profundamente magoado se<br \/>\na senhora precisando de servi\u00e7os da profiss\u00e3o que exer\u00e7o,<br \/>\nainda os mais insignificantes, fosse bater \u00e0 porta de outro advogado.<br \/>\nTrata-se ent\u00e3o de neg\u00f3cio grave?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Trata-se do meu div\u00f3rcio.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Do seu div\u00f3rcio?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Sim.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Vamos l\u00e1, minha senhora, est\u00e1 gracejando!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; A minha exist\u00eancia e a de meu marido tornaram-se incompat\u00edveis.<br \/>\nVivermos juntos por mais tempo sob o mesmo teto, fora prolongar uma situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumilhante para a qual me n\u00e3o sinto com for\u00e7as e que terminaria<br \/>\npelo aniquilamento completo da minha individualidade, \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Seja-me l\u00edcito dar-lhe um conselho, minha senhora; n\u00e3o<br \/>\ncomo advogado, mas como amigo dedicado da casa.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Se vem falar-me em reconcilia\u00e7\u00e3o, doutor, digo-lhe<br \/>\nque entre n\u00f3s dois, ela \u00e9 um imposs\u00edvel. Conhece-me h\u00e1<br \/>\nmuitos anos. Sabe que sou uma mulher superior a caprichos e a paix\u00f5es<br \/>\ne que n\u00e3o daria semelhante passo se n\u00e3o tivesse calculado bem<br \/>\numa a uma todas as conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; \u00c9 ent\u00e3o do Doutor Martins advogado, e n\u00e3o<br \/>\ndo amigo, que precisa?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Preciso de ambos, por\u00e9m, mais do advogado que do amigo.<br \/>\nUma simples separa\u00e7\u00e3o amig\u00e1vel n\u00e3o me conv\u00e9m.<br \/>\nAmanh\u00e3 reunir-se-\u00e3o os parentes, os \u00edntimos, os oficiosos<br \/>\nque costumam aparecer em tais ocasi\u00f5es e viria depois a com\u00e9dia<br \/>\nda reconcilia\u00e7\u00e3o! N\u00e3o. Para que a nossa situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nse defina por uma vez, \u00e9 preciso que ela seja pleiteada, embora com<br \/>\nesc\u00e2ndalo, nos tribunais.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Bem. A sua resolu\u00e7\u00e3o pois, \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Tenha a bondade ent\u00e3o, minha senhora, de expor os fatos<br \/>\nem que se baseia para dar este passo.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Baseio-me apenas em um; mas este por si s\u00f3 \u00e9<br \/>\nbastante para justificar o meu procedimento.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Qual \u00e9?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; A minha autonomia m\u00e9dica.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; As causas do div\u00f3rcio pelo nosso Direito, minha senhora,<br \/>\nresumem-se em duas: adult\u00e9rio e sev\u00edcias.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ent\u00e3o fora deste antediluviano adult\u00e9rio e destas<br \/>\nsev\u00edcias que deveriam antes fazer parte do C\u00f3digo Criminal,<br \/>\nn\u00e3o existe para a mulher nas minhas condi\u00e7\u00f5es outro recurso<br \/>\nde desagravo de direitos?<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; O legislador n\u00e3o conhecia Doutoras, minha senhora. Imaginava<br \/>\nque as mulheres fossem sempre as mesmas em todos os tempos e lugares.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Sou casada com um homem que exerce profiss\u00e3o igual<br \/>\n\u00e0 minha. Ele aufere os lucros do meu trabalho, alegando, como o Le\u00e3o<br \/>\nda f\u00e1bula, a posi\u00e7\u00e3o de chefe. N\u00e3o satisfeito<br \/>\ncom isto, procura por meio de subterf\u00fagios e tricas ign\u00f3beis<br \/>\nafastar-me do plano em que me coloquei pela capacidade de profissional. Pois<br \/>\nbem: hei de cruzar os bra\u00e7os, sofrer resignada todas as humilha\u00e7\u00f5es,<br \/>\ns\u00f3 porque n\u00e3o posso alegar contra este homem procedimentos brutais<br \/>\npara com minha pessoa e ele n\u00e3o pode lan\u00e7ar-me em rosto a inf\u00e2mia<br \/>\nde haver manchado o leito conjugal? Que lei \u00e9 esta, Doutor? A que v\u00eam<br \/>\neste adult\u00e9rio e estas sev\u00edcias para o caso em que eu me acho?<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; O caso em que Vossa Excel\u00eancia se acha, minha senhora, \u00e9<br \/>\ntodo excepcional. O Direito n\u00e3o podia prever estas lutas de interesses<br \/>\ne autonomias cient\u00edficas nas sociedades conjugais. O amor foi sempre<br \/>\na base da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O amor, sempre esse eterno amor a humilhar a mulher, a transform\u00e1-la<br \/>\nem m\u00e1quina de procria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Ah! minha senhora, por mais que inovem, por maiores larguezas que<br \/>\nd\u00eaem \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es do eterno feminino, ele h\u00e1<br \/>\nde girar fatalmente em torno do c\u00edrculo do amor, porque n\u00e3o<br \/>\ntem outro caminho a percorrer.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Somos ent\u00e3o as condenadas de Dante?! Fora desta \u00f3rbita<br \/>\nde ferro tra\u00e7ada por est\u00fapidas conven\u00e7\u00f5es sociais<br \/>\n&#8211; Lasciate ogni speranza&#8230;<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Depende do ponto de vista, minha senhora!&#8230; O que Vossa Excel\u00eancia<br \/>\nchama Inferno, eu chamo Para\u00edso.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Enfim, senhor, nesse Direito que o senhor estuda n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 um rem\u00e9dio para o meu mal? Combatem-se as mol\u00e9stias<br \/>\nas mais violentas, o escapelo da cirurgia decepando partes gangrenadas do<br \/>\ncorpo humano, faz surgir das podrid\u00f5es dessa gangrena a vida, que \u00e9<br \/>\ntudo quanto pode haver de mais precioso. Lutamos bra\u00e7o a bra\u00e7o<br \/>\ncontra a morte \u00e0 cabeceira do doente e vencemos. E o senhor n\u00e3o<br \/>\ntem na sua ci\u00eancia um b\u00e1lsamo, um al\u00edvio sequer para os<br \/>\nmeus sofrimentos. (Caindo num choro convulso nos bra\u00e7os de Martins.)<br \/>\nAh! Doutor, Doutor!&#8230; N\u00e3o pode avaliar que dor pungente \u00e9 a<br \/>\nhumilha\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>CENA III<br \/>\nOS MESMOS e MARIA PRAXEDES<\/h2>\n<p>MARTINS &#8211; Acalme-se, minha senhora, acalme-se!<\/p>\n<p>MARIA (Entrando de chap\u00e9u.) &#8211; Lu\u00edsa! Lu\u00edsa!&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Bom dia, minha m\u00e3e! (Maria abra\u00e7a-a.)<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Est\u00e1s t\u00e3o fraca, t\u00e3o abatida! Por que n\u00e3o<br \/>\nvais descansar?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o tenho nada.<\/p>\n<h2>CENA IV<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (Entrando.) &#8211; L\u00e1 est\u00e1 no consult\u00f3rio<br \/>\num doente \u00e0 espera da senhora!&#8230; Eu quis dizer-lhe que a menina n\u00e3o<br \/>\nestava em casa, mas se n\u00e3o quer ir v\u00ea-lo olhe que ainda est\u00e1<br \/>\nem tempo. Gra\u00e7as a Deus at\u00e9 hoje ainda ningu\u00e9m me pilhou<br \/>\nem mentira; mas sendo preciso, prega-se uma e at\u00e9 duas. L\u00e1 por<br \/>\nisso n\u00e3o seja a d\u00favida. Olhe, vou dizer-lhe que a patroa n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1. Est\u00e1 dito?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o, vou v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>MARTINS (A Lu\u00edsa, que se despede dele.) Calma e resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E o \u00fanico rem\u00e9dio que me d\u00e1? Bem. Verei<br \/>\no partido que cumpre tomar. (Sai.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Ai! meu Deus! que desgra\u00e7a. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA V<br \/>\nMARIA PRAXEDES e DOUTOR MARTINS<\/h2>\n<p>MARIA &#8211; Acabo de certificar-me pelas suas \u00faltimas palavras, Doutor,<br \/>\nque procedeu como um verdadeiro amigo! Nem era de esperar outra coisa de sua<br \/>\nintelig\u00eancia e sobretudo do car\u00e1ter nobre e elevado.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; O fato que me foi comunicado, minha senhora, encheu-me das mais<br \/>\ntristes apreens\u00f5es.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; N\u00e3o h\u00e1 ent\u00e3o possibilidade de uma reconcilia\u00e7\u00e3o,<br \/>\nDoutor?<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Se as rixas fossem da natureza daquelas que se d\u00e3o naturalmente<br \/>\nentre marido e mulher; se se tratasse de um desses temporais originados pelo<br \/>\nci\u00fame e que se desfazem aos primeiros beijos em aguaceiros de l\u00e1grimas,<br \/>\ncompreendo que a felicidade pudesse raiar hoje mesmo debaixo deste teto, mas<br \/>\no que foi exposto por sua filha&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; S\u00e3o rixas ocasionadas por choques de vaidade e interesses,<br \/>\nbem o sei, Doutor!<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; E nestas rixas, minha senhora, n\u00e3o encontrei a mulher. Vi<br \/>\napenas uma criatura h\u00edbrida, que n\u00e3o \u00e9 por certo a companheira<br \/>\ndo homem.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Tem raz\u00e3o, Doutor!<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; E no entanto, eu, que assim penso e que assim falo, amo nas mesmas<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; A Bacharela Carlota de Aguiar! J\u00e1 o tinha desconfiado!<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Aquele demoninho pern\u00f3stico com os seus ares enfatuados<br \/>\nde homem, mas em que a mulher transparece cheia de encantos, tem-me transtornado<br \/>\npor tal forma a cabe\u00e7a que, confesso, ainda mesmo vendo as barbas do<br \/>\nvizinho a arder, n\u00e3o me sinto com for\u00e7as de p\u00f4r as minhas<br \/>\nde molho.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Est\u00e1 ent\u00e3o como vulgarmente se diz, chumbado?<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Chumbad\u00edssimo. Amarrou-me para sempre, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nd\u00favida, aconte\u00e7a o que acontecer.<\/p>\n<h2>CENA VI<br \/>\nOS MESMOS e MANUEL PRAXEDES<\/h2>\n<p>PRAXEDES (Entrando.) &#8211; Venho do seu escrit\u00f3rio. Ent\u00e3o, est\u00e1<br \/>\nresolvida a situa\u00e7\u00e3o da minha doutora?<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Uma situa\u00e7\u00e3o daquelas n\u00e3o se resolve assim.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Aquilo n\u00e3o \u00e9 nada, absolutamente nada! Minha mulher<br \/>\nfaz de qualquer coisa um bicho de sete cabe\u00e7as e v\u00ea tudo neste<br \/>\nmundo pelo lado pior.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; O div\u00f3rcio! A desgra\u00e7a de uma mulher. N\u00e3o \u00e9<br \/>\nnada?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Qual div\u00f3rcio! Qual desgra\u00e7a de uma filha! O que<br \/>\nhouve, Doutor, foi uma briga mais forte, mas uma briga muito natural. O rapaz,<br \/>\nnovo, formado h\u00e1 pouco tempo, a rapariga formada no mesmo dia&#8230; Ambos<br \/>\ninteligentes, muito estudiosos e com o sangue na guelra. Um n\u00e3o quer<br \/>\nficar por baixo, a outra quer ficar por cima. Dizem-se muitas coisas reciprocamente.<br \/>\nEngalfinham-se com todos aqueles termos t\u00e9cnicos; mas passada a trovoada<br \/>\nvoltam de novo \u00e0 vida calma e serena do lar&#8230; como se nada tivesse<br \/>\nacontecido.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; O Senhor Manuel Praxedes \u00e9 otimista!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Vejo as coisas como s\u00e3o.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Como s\u00e3o? Como um verdadeiro doente; \u00e9 o que tu deves<br \/>\ndizer.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ah! Ah! Ah! Pois minha mulher n\u00e3o est\u00e1 a fazer trocadilhos,<br \/>\nDoutor?&#8230; Tem gra\u00e7a&#8230; Tem gra\u00e7a&#8230; Ora, pois, estamos todos<br \/>\nalegres; isto \u00e9 o que eu quero!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Alegres?!&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Alegres, sim! Deixa o div\u00f3rcio! (A Martins.) Sabe, Doutor,<br \/>\nque tenho uma id\u00e9ia, um ide\u00e3o?<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; N\u00e3o \u00e9 para admirar, com o seu g\u00eanio empreendedor!&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Chi!&#8230; Que empresa! que empresa, Doutor!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; H\u00e1 de ser igual \u00e0 da f\u00e1brica de papel.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; J\u00e1 tardava. A senhora em vez de me admirar&#8230;<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; O que vem a ser ent\u00e3o?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Imagine l\u00e1 o que \u00e9.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Uma companhia galinocultora. (Abrindo um rolo de papel que traz<br \/>\nna m\u00e3o e mostrando a Martins.) Aqui est\u00e3o os modelos dos fornos.<br \/>\nSegundo os c\u00e1lculos feitos, com meia d\u00fazia de cap\u00f5es<br \/>\napenas, um galo vigilante e dois procriadores, estou habilitado a inundar<br \/>\nde galinhas os mercados de toda a Am\u00e9rica!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; E da Europa.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; E n\u00e3o diga a senhora brincando; porque se at\u00e9 aqui<br \/>\ntemos importado ovos de Portugal, doravante, com a minha empresa, tomaremos<br \/>\na desforra exportando para l\u00e1 galinhas. O lucro \u00e9 cert\u00edssimo!<br \/>\nOlhe, vou explicar-lhe. (Tirando do bolso um papel.)<\/p>\n<p>MARTINS (Tirando o rel\u00f3gio.) &#8211; Esperam-me no escrit\u00f3rio&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Vai para baixo ou para cima?<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Para baixo.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Acompanho-o.<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Enganei-me, vou para cima!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Acompanho-o tamb\u00e9m. E indiferente. Em caminho mostrar-lhe-ei<br \/>\nque isto \u00e9 neg\u00f3cio que n\u00e3o falha. Est\u00e1 tudo calculado,<br \/>\nmuito bem calculado.<\/p>\n<p>MARIA (A Praxedes.) &#8211; Pois ent\u00e3o abandonas tua filha no estado em<br \/>\nque ela est\u00e1?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Que estado? Pois eu j\u00e1 te disse que isto n\u00e3o \u00e9<br \/>\nnada. Eu volto logo. Adeus. (Despedem-se os dois de Maria e saem.)<\/p>\n<h2>CENA VII<br \/>\nMARIA e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; A senhora ainda de chap\u00e9u! (Tira-lho.) A menina l\u00e1<br \/>\nest\u00e1 a dar consultas, coitadinha! Olhe que \u00e9 forte! Benza-a<br \/>\nDeus! (Tocam a campainha.) Est\u00e3o batendo.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; H\u00e1 de ser algum doente. Vou dizer-lhe que a menina<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 em casa. Isto assim n\u00e3o pode continuar. A coitadita<br \/>\npassou a noite no sof\u00e1 do consult\u00f3rio a dar de vez em quando<br \/>\nsuspiros, muito ansiada&#8230; (Tocam.) Espere l\u00e1, n\u00e3o tenha pressa.<br \/>\nOlhe, senhora, eu n\u00e3o devo meter-me nestas coisas, porque quem se mete<br \/>\nnos neg\u00f3cios alheios sai sempre mal. O defunto meu pai, que Deus haja,<br \/>\ncostumava dizer: cada um deve tratar da sua vida, que j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nfaz t\u00e3o pouco. Mas, se numa compara\u00e7\u00e3o, eu fosse casada<br \/>\ncom um homem que me estimasse como o patr\u00e3o estima a patroa, n\u00e3o<br \/>\nestava c\u00e1 a brigar todos os dias por causa desta cambada de doentes.<br \/>\n(Tocam.) Espere l\u00e1, tem muita pressa? A senhora n\u00e3o acha que&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Vai ver quem bate! (Tocam.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; L\u00e1 vou, l\u00e1 vou!&#8230; (Sai.)<\/p>\n<p>MARIA (Suspirando.) &#8211; Ai! Ai! (Segura o chap\u00e9u que Eul\u00e1lia<br \/>\np\u00f4s sobre a mesa e sai.)<\/p>\n<h2>CENA VIII<br \/>\nEUL\u00c1LIA e CARLOTA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; A Senhora Bacharela tenha a bondade de assentar-se. Vou<br \/>\nchamar meu amo. (Sai. Carlota que deve vir elegantemente vestida mira-se no<br \/>\nespelho, endireita a rosa que traz no peito do casaco. Lu\u00edsa entra,<br \/>\nfica \u00e0 porta a observ\u00e1-la, por algum tempo. Carlota vendo-a<br \/>\npelo espelho volta-se para falar-lhe.)<\/p>\n<h2>CENA IX<br \/>\nCARLOTA e LU\u00cdSA<\/h2>\n<p>CARLOTA &#8211; Apresento \u00e0 ilustre Doutora a curvatura dos meus sinceros<br \/>\nrespeitos.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Secamente.) &#8211; Bom dia, minha senhora!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Recebi ontem uma intima\u00e7\u00e3o do meu amigo Doutor Pereira.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O seu amigo j\u00e1 vem.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Creio que se trata de neg\u00f3cio pertencente \u00e0 minha<br \/>\nprofiss\u00e3o.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ou outro qualquer, a senhora deve sab\u00ea-lo melhor do<br \/>\nque eu!<\/p>\n<h2>CENA X<br \/>\nOS MESMOS e DOUTOR PEREIRA<\/h2>\n<p>DR. PEREIRA (A Carlota.) &#8211; Doutora. Esperava-a ansiosamente. (Cumprimentando<br \/>\nsecamente Lu\u00edsa.)<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Se fui ser\u00f4dia, ou para servir-me da linguagem vulgar, se<br \/>\nn\u00e3o cheguei \u00e0 hora estipulada, pe\u00e7o-lhe mil desculpas.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (Para Lu\u00edsa que n\u00e3o deixou de olhar Carlota.) &#8211;<br \/>\nPreciso conferenciar nesta sala com a minha advogada. (Lu\u00edsa sai olhando<br \/>\nsempre Carlota e esconde-se atr\u00e1s da cortina da porta do fundo \u00e0<br \/>\nesquerda, conservando-se ali durante o di\u00e1logo.)<\/p>\n<h2>CENA XI<br \/>\nDOUTOR PEREIRA e CARLOTA<\/h2>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Sentemo-nos.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Trata-se&#8230;<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Do meu div\u00f3rcio.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Um div\u00f3rcio!!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Em duas palavras, resumo-lhe a situa\u00e7\u00e3o! Sou<br \/>\nm\u00e9dico da ponta dos p\u00e9s at\u00e9 a raiz dos cabelos: minha<br \/>\nmulher \u00e9 m\u00e9dica da raiz dos cabelos at\u00e9 a ponta dos p\u00e9s.<br \/>\nViver, para mim, \u00e9 clinicar, clinicar, para ela, \u00e9 viver. N\u00e3o<br \/>\npodemos clinicar juntos, o que quer dizer que juntos n\u00e3o podemos viver.<br \/>\nDiga-me agora o que a sua ci\u00eancia do Direito pensa a respeito.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Difficelem rem postulasti. O nosso Direito, eivado de arca\u00edsmos,<br \/>\nn\u00e3o cogitou propriamente da hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Se n\u00e3o cogitou, estamos aqui a perder tempo.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Perd\u00e3o; eu disse n\u00e3o cogitou propriamente; mas a<br \/>\ntoda a lei se interpreta&#8230;<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Se torce, \u00e9 o que quer dizer.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Scire leges non est verba carum tenere sed vim ac potestatem. Para<br \/>\nprosseguir na concatena\u00e7\u00e3o l\u00f3gica das linhas de clinicar,<br \/>\noriginavam-se rixas ou doestos dom\u00e9sticos?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Constantes. E \u00e9 por causa deles&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Bem. Nestas rixas trocaram-se talvez verbos incandescentes que<br \/>\nescoriavam pelo menos a epiderme do amor pr\u00f3prio de cada um.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; O amor pr\u00f3prio e os interesses.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; O legislador assinalou apenas duas causas para o div\u00f3rcio:<br \/>\nadult\u00e9rio e sev\u00edcias. H\u00e1 ainda uma causa que os canonistas<br \/>\nchamam impedimentos derimentes, mas&#8230; est\u00e1 fora da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; N\u00e3o posso alegar a primeira.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Mas havemos de ganhar a demanda pela segunda. Pela segunda, sim,<br \/>\nporque constituindo inj\u00farias esses verbos incandescentes das rixas,<br \/>\no que s\u00e3o essas inj\u00farias sen\u00e3o verdadeiras sev\u00edcias<br \/>\nmorais?&#8230; O seu caso \u00e9 o que os canonistas cognominam no idioma vern\u00e1culo<br \/>\n&#8211; incompatibilidade de caracteres.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Aconselha-me ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Que proponha a a\u00e7\u00e3o. E havemos de ganh\u00e1-la.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Bem. (Levanta-se.)<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Que sucesso piramidal! Vai ver como vou aureolar de gl\u00f3ria<br \/>\no meu nome. Hei de mostrar a esses miser\u00e1veis apedeutas o que h\u00e1<br \/>\ndebaixo desta arcada craniana. (Bate na testa.)<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Decidido por\u00e9m o div\u00f3rcio, ficarei numa posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nan\u00f4mala.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; An\u00f4mala?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Quero dizer que n\u00e3o serei nem solteiro, nem casado,<br \/>\nnem vi\u00favo!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Pode casar perfeitamente.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; E a indissolubilidade do contrato?<\/p>\n<p>CARLOTA (Com indiferen\u00e7a.) &#8211; Desaparecer\u00e1&#8230; com uma simples<br \/>\nmudan\u00e7a de religi\u00e3o.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Ah! (Fica pensativo.)<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; E uma vez desembara\u00e7ado, o meu amigo escolher\u00e1 para<br \/>\nesposa n\u00e3o outra m\u00e9dica; mas sim uma engenheira&#8230; uma advogada&#8230;<br \/>\n(Lu\u00edsa tem um \u00edmpeto de indigna\u00e7\u00e3o, quer entrar<br \/>\nem cena mas, arrepende-se, e esconde-se de novo.)<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Ent\u00e3o, Doutora, posso dar uma li\u00e7\u00e3o em<br \/>\nminha mulher?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Pode.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; A que horas est\u00e1 amanh\u00e3 no seu escrit\u00f3rio?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Amanh\u00e3 \u00e9&#8230; Logo escrever-lhe-ei mandando dizer-lhe<br \/>\nqual o dia e a hora em que deve procurar-me. (Apertando-lhe a m\u00e3o.)<br \/>\nAdeus! (Pereira aperta-lhe a m\u00e3o e ela sai.)<\/p>\n<h2>CENA XII<br \/>\nDOUTOR PEREIRA e LU\u00cdSA<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA (Sofreando a raiva.) &#8211; Esteve com a sua advogada?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Sim, senhora.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Uma advogada \u00e9 sempre prefer\u00edvel a um advogado.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; As mulheres s\u00e3o mais inteligentes que os homens.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Obrigada&#8230; pela parte que me toca!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; N\u00e3o h\u00e1 de qu\u00ea!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Sobretudo quando a advogada vem \u00e0 casa do constituinte<br \/>\ntoda coquete, de rosa ao peito.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Isto ent\u00e3o \u00e9 ouro sobre azul.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E que sem o menor pudor ou respeito para com o decoro do seu<br \/>\nsexo, aconselha ao cliente que mude de religi\u00e3o. (Pereira olha para<br \/>\nela admirado.) Ouvi tudo daquela porta. E s\u00f3 Deus sabe o esfor\u00e7o<br \/>\nque fiz, a luta que travei comigo para n\u00e3o esbofetear essa mulher e<br \/>\np\u00f4-la fora desta casa que ainda \u00e9 minha.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; A senhora esquece-se de que na posi\u00e7\u00e3o em que<br \/>\nnos achamos&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ah! ela queria v\u00ea-lo livre e desembara\u00e7ado&#8230;<br \/>\nPara isto bastavam duas coisas apenas, duas coisas insignificantes, na opini\u00e3o<br \/>\ndaquela miser\u00e1vel, torcer a lei e renegar as cren\u00e7as!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; A minha resolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 tomada, minha senhora,<br \/>\nn\u00e3o posso nem devo ouvi-la neste terreno. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XIII<br \/>\nLU\u00cdSA, EUL\u00c1LIA e MARIA<\/h2>\n<p>(Lu\u00edsa acompanha-o quase rompendo; det\u00e9m-se e desce, caindo<br \/>\nna cadeira \u00e0 esquerda do sof\u00e1.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Um chamado para a senhora! Creio que \u00e9 neg\u00f3cio<br \/>\nurgente! O homem est\u00e1 l\u00e1 embaixo. \u00c9 um sujeito gordo,<br \/>\ncoitado! Muito esbaforido, quase que nem pode falar.<\/p>\n<p>MARIA (Entrando e vendo Lu\u00edsa a solu\u00e7ar.) &#8211; Minha filha! (Abra\u00e7ando-se<br \/>\nambas.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ah! minha m\u00e3e! minha m\u00e3e! Sou uma desgra\u00e7ada!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; O que \u00e9 isto, a menina est\u00e1 a chorar?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Passa-se dentro de mim qualquer coisa de estranho, de anormal,<br \/>\nque eu n\u00e3o sei explicar!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Isto \u00e9 flato, senhora: vou l\u00e1 dentro, enquanto<br \/>\no diabo esfrega um olho, fazer-lhe um chazito de capim lim\u00e3o. Esfregue-lhe<br \/>\nos pulsos, patroa, esfregue-lhe os pulsos enquanto eu vou preparar-lhe o ch\u00e1!<br \/>\nAi! Ai! Meu Deus, que desgra\u00e7a! O que h\u00e1 de acontecer mais nesta<br \/>\ncasa. (Sai.)<\/p>\n<h2>CENA XIV<br \/>\nMARIA e LU\u00cdSA<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA (Agitada.) &#8211; Meu marido tem uma advogada.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; A Carlota de Aguiar?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Uma miser\u00e1vel, uma infame, uma mulher sem pudor.<\/p>\n<p>MARIA (Alegre.) &#8211; Bravo, minha filha!&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Que lhe aconselha que se divorcie, que mude de religi\u00e3o,<br \/>\nque se lhe oferece at\u00e9 para substituir-me. Ouvi tudo daquela porta,<br \/>\nminha m\u00e3e&#8230; N\u00e3o sei como n\u00e3o morri. A minha cabe\u00e7a<br \/>\nestala! (Senta-se \u00e0 esquerda.)2<\/p>\n<h2>CENA XV<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (Entrando com o ch\u00e1.) &#8211; Aqui est\u00e1 o chazito.<br \/>\nTome, patroa, enquanto est\u00e1 quente.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Leva isto para dentro!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Tome o ch\u00e1 que \u00e9 muito bom.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Leva, j\u00e1 te disse&#8230; (Eul\u00e1lia sai.)<\/p>\n<h2>CENA XVI<br \/>\nLU\u00cdSA e MARIA PRAXEDES<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Eu imaginava que n\u00e3o pudesse haver neste mundo sofrimento<br \/>\nmais terr\u00edvel que a humilha\u00e7\u00e3o. Todos os golpes, por\u00e9m,<br \/>\nque me feriram a vaidade, s\u00e3o mil vezes mais ligeiros do que este que<br \/>\nme fere diretamente aqui. (Aponta o cora\u00e7\u00e3o.) \u00c9 o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nda mulher, minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; N\u00e3o \u00e9 um m\u00fasculo oco, como dizias, Lu\u00edsa?!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o: h\u00e1 dentro dele sentimentos que eu fingia<br \/>\nignorar. Eu enlouque\u00e7o! Ai! minha cabe\u00e7a! minha cabe\u00e7a!<\/p>\n<h2>CENA XVII<br \/>\nAS MESMAS, DOUTOR PEREIRA e depois EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>DR. PEREIRA (De chap\u00e9u na m\u00e3o para Lu\u00edsa.) &#8211; Disse-me<br \/>\nh\u00e1 pouco, minha senhora, que esta casa ainda era sua&#8230; Fique em paz<br \/>\nnos seus dom\u00ednios. Eu me retiro.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Tomando-lhe a frente.) &#8211; H\u00e1 ent\u00e3o outra mulher<br \/>\nque pretende substituir-me?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Entrando.) &#8211; Oh! patroa, que resposta devo dar ao homem que<br \/>\nest\u00e1 l\u00e1 todo esbaforido? Al\u00e9m deste chegaram mais dois<br \/>\ncom chamados urgentes.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Agitada.) &#8211; Manda-os embora, todos, entendes? Vai l\u00e1<br \/>\nembaixo, arranca da porta da rua a placa que anuncia o meu nome. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o sou a Doutora Lu\u00edsa Pereira. Sou uma miser\u00e1vel mulher<br \/>\nque n\u00e3o tem a dignidade precisa para repelir um homem que a repudia.<br \/>\nVai. (Eul\u00e1lia sai.)<\/p>\n<h2>CENA XVIII<br \/>\nOS MESMOS, menos EUL\u00c1LIA e PRAXEDES<\/h2>\n<p>PRAXEDES (Com uma carta.) &#8211; Deram-me esta carta da Doutora Carlota de Aguiar<br \/>\npara entregar-lhe.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Esta carta pertence-me. (Arranca-lhe a carta e l\u00ea.)<br \/>\nEspero-o amanh\u00e3 no meu escrit\u00f3rio \u00e0 uma hora da tarde.<br \/>\nEstarei s\u00f3. (Atirando a carta ao ch\u00e3o; a Pereira.) Saia, senhor&#8230;<br \/>\nsaia! (Desata em pranto convulso e tem um ataque.)<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Lu\u00edsa! (Segura-a e leva-a para o sof\u00e1.)<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Eul\u00e1lia! Eul\u00e1lia! (A Manuel.) Vai ver qualquer coisa<br \/>\nl\u00e1 dentro depressa!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; N\u00e3o lhe d\u00eaem nada. Ela est\u00e1 no seu estado<br \/>\ninteressante. (Ajoelha-se e beija-lhe a m\u00e3o.) Lu\u00edsa!<\/p>\n<p>MARIA (A Praxedes.) &#8211; Ouviste? Ah! Praxedes! que alegria! Estamos salvos!<br \/>\n(Segura-lhe o rosto e d\u00e1-lhe uma por\u00e7\u00e3o de beijos.)<\/p>\n<h2>CENA XIX<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (Entrando com a placa onde se l\u00ea o seguinte letreiro.<br \/>\nDoutora Lu\u00edsa Pereira, m\u00e9dica. Especialidade: Mol\u00e9stias<br \/>\nde senhoras e crian\u00e7as) &#8211; Aqui est\u00e1 a placa! (Vendo Maria beijar<br \/>\no marido, puxa o avental e tapa a cara.) Oh! patroa!&#8230; Cruz! Credo!.<\/p>\n<p>(Cai o pano.)<\/p>\n<h2><b>FIM DO TERCEIRO ATO<\/b><\/h2>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>ATO QUARTO<\/h2>\n<p>Sala regularmente mobiliada. Ao lado um ber\u00e7o.<\/p>\n<h2>CENA I<br \/>\nLU\u00cdSA e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA (Ninando ao colo uma crian\u00e7a, cantarolando.) &#8211; Tu, tu,<br \/>\nru, tu, tu, ru!.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Deixe-me carreg\u00e1-lo um poucochinho, a senhora deve<br \/>\nestar cansada!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o sei o que ele tem hoje, est\u00e1 t\u00e3o<br \/>\nimpertinente!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Tirando a crian\u00e7a do colo de Lu\u00edsa e carregando-a.)<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 nada, patroa!.. . (Olhando-a.) Como \u00e9 bonitinho!<br \/>\nOlhe, isto daqui para cima \u00e9 a m\u00e3e, sem tirar nem p\u00f4r.<br \/>\n(Mostrando o nariz e a testa.) Daqui para baixo, \u00e9 o pai, escarradinho,<br \/>\n(Mostrando a boca e o queixo.) e as m\u00e3ozinhas ent\u00e3o, Jesus!<br \/>\nNunca vi nada t\u00e3o parecido.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; De quem s\u00e3o as m\u00e3os?&#8230;<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Do av\u00f4, patroa. At\u00e9 tem as unhas f\u00eameas<br \/>\ncomo as dele.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Neste andar acabar\u00e1s por ach\u00e1-lo parecido at\u00e9<br \/>\ncom o meu defunto bisav\u00f4 que nunca viste. (Segurando no queixo da crian\u00e7a<br \/>\ne fazendo-lhe festas.) Est\u00e3o ca\u00e7oando com voc\u00ea, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9, meu negrinho?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Olhe l\u00e1 como ele ri!&#8230; Ai que gracinha!<\/p>\n<h2>CENA II<br \/>\nAS MESMAS e MARIA<\/h2>\n<p>MARIA &#8211; D\u00e1 c\u00e1, d\u00e1 c\u00e1 este ladr\u00e3ozinho,<br \/>\nque ainda n\u00e3o segurei nele hoje! (Tira-o do colo de Eul\u00e1lia<br \/>\ne carrega-o.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA N\u00e3o o acha um pouco abatido, minha m\u00e3e?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Qual, menina! Est\u00e1 t\u00e3o coradinho!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; A patroa permite que eu meta o meu bedelho onde n\u00e3o<br \/>\nsou chamada?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Eu acho que d\u00e3o banhos demais nesta crian\u00e7a!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Querias ent\u00e3o que ele n\u00e3o se lavasse?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; N\u00e3o, ora, mas \u00e9 que esses banhos de corpo<br \/>\nesfregado, z\u00e1s, z\u00e1s, que te z\u00e1s, com uma esponja tiram<br \/>\nmuito a sust\u00e2ncia duma pobre criatura. O que conv\u00e9m \u00e9<br \/>\num banho de sopapos.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Mas que hist\u00f3ria \u00e9 essa de banhos de sopapos?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Pois a patroa n\u00e3o sabe? Deita-se o pequenino dentro<br \/>\nda bacia e a gente de longe, com a m\u00e3o aberta, vai-lhe jogando \u00e1gua<br \/>\nem cima. (Imitando o barulho d\u00e1gua.) Xoque! Xoque! Xoque!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Tens cada lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Eu c\u00e1 nunca tomei banhos sen\u00e3o de sopapos<br \/>\ne olhe a senhora que tenho-me dado muito bem com eles!<\/p>\n<h2>CENA III<br \/>\nOS MESMOS e PRAXEDES<\/h2>\n<p>PRAXEDES (Entrando e querendo tirar a crian\u00e7a.) &#8211; Vem para o colo<br \/>\nde vov\u00f4, meu bem!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Deixa-o aqui. Ele est\u00e1 t\u00e3o bem!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Mas h\u00e1 dois dias que n\u00e3o lhe fa\u00e7o uma festinha.<\/p>\n<p>MARIA (Falando com a crian\u00e7a.) &#8211; Com quem voc\u00ea quer ir? Com<br \/>\no vov\u00f4 ou com a vov\u00f3?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Est\u00e1 rindo outra vez! Olhe que gracinha!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Se est\u00e1 rindo \u00e9 por que quer vir comigo. (Tira-o<br \/>\ne carrega-o.)<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9s muito desajeitado! N\u00e3o \u00e9 assim que se carrega<br \/>\numa crian\u00e7a!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ent\u00e3o como \u00e9?! Quem \u00e9 que carregava aquela<br \/>\nquando era pequenina? (Indica Lu\u00edsa.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; L\u00e1 isso \u00e9 verdade, senhora! O patr\u00e3o<br \/>\nsempre teve muito jeito para ninar a menina. Todas as vezes que a carregava<br \/>\nao colo ela principiava a berrar que era um Deus nos acuda!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; O que \u00e9 isto l\u00e1?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; A verdade manda Deus que se diga, patr\u00e3o. De uma<br \/>\nfeita ainda me lembro que at\u00e9 lhe arranhou o nariz!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; N\u00e3o \u00e9 tal, tu \u00e9 que foste sempre muito bruta!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Oh! papai, cuidado que est\u00e1 quase a cair. N\u00e3o<br \/>\no segure assim.<\/p>\n<h2>CENA IV<br \/>\nOS MESMOS e DOUTOR PEREIRA<\/h2>\n<p>DR. PEREIRA (Entrando.) &#8211; Venha c\u00e1, seu Luizinho&#8230; (Tira a crian\u00e7a<br \/>\ndos bra\u00e7os de Praxedes.) Ainda n\u00e3o tomou hoje a b\u00ean\u00e7\u00e3o<br \/>\na seu papai. Como passou?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; N\u00e3o se pode estar aqui dois minutos com o menino.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; \u00c9 verdade! Vem um puxa, vem outro pega, vem outra segura.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; \u00c9 a alegria desta casa, patroa!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; O pior, \u00e9 que ele j\u00e1 come\u00e7a a ficar manhoso.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Coitadinho.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; E quem lhe est\u00e1 pondo as manhas \u00e9 a senhora!<br \/>\n(A Maria.) A senhora, sim! Por que \u00e9 que ele quando est\u00e1 chorando<br \/>\nno ber\u00e7o, cala a boca apenas o carregam ao colo? Por que \u00e9 que<br \/>\nquando est\u00e1 no colo chora e sossega logo que a pessoa que o est\u00e1<br \/>\nninando come\u00e7a a passear?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Ora, isto \u00e9 pr\u00f3prio de toda a crian\u00e7a!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; N\u00e3o \u00e9 tal. E porque a senhora habituou-o a dormir<br \/>\nno colo e passeando.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; S\u00e3o os av\u00f3s que perdem sempre os netos.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Neste ponto, minha m\u00e3e, o Pereira tem raz\u00e3o!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Hoje foi isto; amanh\u00e3 h\u00e1 de ser outra coisa.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Tomando a crian\u00e7a do colo de Pereira.) &#8211; Deixa-me lev\u00e1-lo<br \/>\npara o ber\u00e7o!<\/p>\n<p>MARIA (Apontando para Lu\u00edsa.) &#8211; Aquela que ali est\u00e1 foi educada<br \/>\npor mim!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Aquela n\u00e3o era neta, era filha. \u00c9 muito diferente.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Quer dizer que agora sou sogra!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; N\u00e3o se zangue comigo, minha mam\u00e3ezinha, mas creia<br \/>\nque daria o mais solene cavaco se a senhora, carinhosa e desarrazoada, como<br \/>\ns\u00e3o em geral todas as av\u00f3s, come\u00e7asse desde j\u00e1<br \/>\na contrariar o programa da educa\u00e7\u00e3o que imaginei para o meu<br \/>\nrapaz.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ent\u00e3o tem um programa j\u00e1 feito?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Bravo! Bravo!&#8230; Muito bem! Eu tamb\u00e9m assim o entendo.<br \/>\nDe pequenino \u00e9 que se torce o pepino. Olhe, se eu n\u00e3o me metesse,<br \/>\n\u00e9 verdade que j\u00e1 foi um pouco tarde, na educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Lu\u00edsa&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Cala a boca, cala a boca, que \u00e9 melhor!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Ao lado de Lu\u00edsa, junto ao ber\u00e7o.) &#8211; N\u00e3o<br \/>\nacha que a cabecinha dele est\u00e1 um pouco alta? coitadito, \u00e9 capaz<br \/>\nde ficar com o pesco\u00e7o torto. (Endireita o travesseiro.)<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Enfim o meu programa \u00e9 fazer deste rapaz um verdadeiro<br \/>\nhomem.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Foi o que eu fiz com a Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; L\u00e1 isso \u00e9 verdade. Felizmente por\u00e9m, a Divina<br \/>\nProvid\u00eancia meteu-se no meio e ela hoje \u00e9 uma mulher.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Veja se tenho ou n\u00e3o raz\u00e3o. A senhora come\u00e7a<br \/>\na habitu\u00e1-lo agora a dormir no calor do colo, mais tarde quando ele<br \/>\nquiser saltar, pular, desenvolver-se, cumprir enfim as justas reclama\u00e7\u00f5es<br \/>\nda natureza, h\u00e1 de dizer: &#8211; menino, fica quieto, menino, passa para<br \/>\naqui, h\u00e1 de amarr\u00e1-lo ao p\u00e9 da mesa, prend\u00ea-lo<br \/>\nna sala de costura. E n\u00e3o satisfeita com isto, incutir-lhe-\u00e1<br \/>\no medo do pap\u00e3o do quarto escuro, do pobre cego, do saci, do zumbi!&#8230;<br \/>\nA crian\u00e7a educada nesta escola, onde, infelizmente, ali\u00e1s, se<br \/>\ntem formado muita gente, acabar\u00e1 por tomar-se um verdadeiro poltr\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o quero isto. Meu filho h\u00e1 de ser um homem; mas um homem no<br \/>\nrigor da palavra, preparado para as lutas f\u00edsicas e morais da vida.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Sim, senhor!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Parece-me que ele quer mamar, senhora.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Tirando-o do ber\u00e7o.) &#8211; Vamos dar um passeio. (Vai saindo<br \/>\ncom Eul\u00e1lia.)<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; At\u00e9 logo.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Vais sair j\u00e1?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Tenho dois doentes na vizinhan\u00e7a!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Falando para o menino.) &#8211; D\u00e1 um beijinho em papai!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (Beijando-o.) &#8211; Adeus seu Lu\u00eds, veja l\u00e1 como se<br \/>\nporta.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Falando pelo menino.) &#8211; Deixe estar, papai, que eu hei de portar-me<br \/>\nmuito bem. Eu j\u00e1 sou um homem de ju\u00edzo. (Pereira sai.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Acompanhando Lu\u00edsa, que vai a sair.) &#8211; Olhe como ele<br \/>\nabre a boca! Est\u00e1-se espregui\u00e7ando, coitadinho. (Saem.)<\/p>\n<h2>CENA V<br \/>\nMARIA e MANUEL PRAXEDES<\/h2>\n<p>PRAXEDES &#8211; Deves estar contente. J\u00e1 \u00e9s sogra!<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Content\u00edssima!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Mas vamos a saber de uma coisa, e isto para mim \u00e9 o mais<br \/>\nimportante: Lu\u00edsa deixou definitivamente a cl\u00ednica?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Ainda o duvidas?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Pois ent\u00e3o por um mero capricho, por uma fantasia, por<br \/>\numa caraminhola que se encaixou na cabe\u00e7a, ela atira sem mais nem menos<br \/>\npela janela fora o seu futuro?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Que futuro?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ora que futuro! O futuro dela. Est\u00e1 visto que n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 de ser o teu nem o meu.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Mas o futuro dela \u00e9 o presente que estamos vendo.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Carregar o filho e dar-lhe de mamar?&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Sim.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Mas, para amamentar uma crian\u00e7a n\u00e3o era preciso<br \/>\ncursar seis anos uma Academia. Se eu a tivesse destinado para isso, tinha<br \/>\ndado outra orienta\u00e7\u00e3o \u00e0 sua vida.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Que queres? As leis da natureza s\u00e3o mais fortes que a vontade<br \/>\ndos reformadores.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; N\u00e3o! Isto n\u00e3o pode continuar assim. A menina tinha<br \/>\numa carreira brilhante diante de si. O seu nome principiava a ser conhecido,<br \/>\na cl\u00ednica aumentava de dia para dia, e com ela o interesse do casal&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; O que pretendes fazer?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; O que pretendo fazer?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Sim.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Vou ter uma confer\u00eancia com Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Para dizer-lhe que n\u00e3o seja tola, que mande recolocar a<br \/>\nplaca na porta da rua e continue a clinicar, porque este \u00e9 o seu meio<br \/>\nde vida.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; E quem d\u00e1 de mamar ao filho, ao teu neto, pelo qual \u00e9s<br \/>\num verdadeiro bab\u00e3o?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ora, mulher, pois faltam por a\u00ed amas-de-leite para o netinho?<\/p>\n<p>MARIA &#8211; E achas isso natural? Olha, meu amigo, se a galinocultura, com todos<br \/>\nos seus galos vigilantes e procriadores n\u00e3o \u00e9 bastante para<br \/>\nsatisfazer a tua atividade, trata de arranjar outra empresa. H\u00e1 tanta<br \/>\ncoisa por a\u00ed. Um elevador para o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar<br \/>\npor exemplo, um t\u00fanel submarino para a Praia Grande, um restaurante<br \/>\nno Bico do Papagaio, uma nova f\u00e1brica de papel, se quiseres&#8230; Mas<br \/>\npelo amor de Deus, deixa em paz a vida de Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Paz! Paz! A vida \u00e9 a luta, senhora. E o que a senhora chama<br \/>\nde paz, n\u00e3o \u00e9 paz!<\/p>\n<p>MARIA. &#8211; O que \u00e9 ent\u00e3o?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; \u00c9 pasmaceira. N\u00e3o posso nem devo consentir que a<br \/>\nDoutora Lu\u00edsa Pereira, ou antes, que a Doutora Lu\u00edsa Praxedes,<br \/>\ncomo \u00e9 conhecida, sacrifique a posi\u00e7\u00e3o brilhante que<br \/>\nj\u00e1 tinha conquistado.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Aos deveres&#8230; de m\u00e3e!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ai vem a senhora com a cantilena de todos os dias; os deveres<br \/>\nde m\u00e3e&#8230; Pois ela n\u00e3o pode ser m\u00e3e e m\u00e9dica ao<br \/>\nmesmo tempo? N\u00e3o quer chamar uma ama, quer dar de mamar ao pequeno.<br \/>\n.. Pois que d\u00ea a de mamar e clinique&#8230; uma coisa n\u00e3o impede<br \/>\na outra&#8230;<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Com esta l\u00f3gica pr\u00e1tica&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; E al\u00e9m disso sendo a especialidade dela mol\u00e9stias<br \/>\nde crian\u00e7as, nada mais natural do que ser chamada para a cl\u00ednica<br \/>\ndaquelas enfermidades a m\u00e9dica que tem filhos. Pelo menos est\u00e1<br \/>\nmais experimentada.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; Queres ent\u00e3o fazer reviver nesta casa as lutas de outrora!<br \/>\nH\u00e1 um ano, pouco mais ou menos, quando me disseste: &#8211; se eles tivessem<br \/>\num filho, n\u00e3o entrava em tua mente o sonho de felicidade que presenciamos?<br \/>\nO que sonhavas ent\u00e3o?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; N\u00e3o sonhava coisa alguma; n\u00e3o tenho por h\u00e1bito<br \/>\nsonhar. Desejei-lhe um filho, porque sempre ouvi dizer que os filhos apertam<br \/>\nmais os la\u00e7os conjugais. Mas o que eu nunca podia prever, \u00e9<br \/>\nque ele desse este resultado. Isto n\u00e3o est\u00e1 direito.<\/p>\n<h2>CENA VI<br \/>\nOS MESMOS e LU\u00cdSA (Carregando o filho.)<\/h2>\n<p>PRAXEDES &#8211; N\u00e3o largas esse menino?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Estou muito aflita, papai. Coitadinho! Esteve l\u00e1 dentro<br \/>\na chorar, t\u00e3o inquieto. Veja se ele tem febre!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; A mim \u00e9 que tu o perguntas?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Veja, mam\u00e3e: a Eul\u00e1lia disse-me que o pulso<br \/>\nestava regular.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Pois tamb\u00e9m foste consultar a Eul\u00e1lia! Ora, louvado<br \/>\nseja Deus!!!<\/p>\n<h2>CENA VII<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA (Entrando com um pires na m\u00e3o.) &#8211; C\u00e1 est\u00e1,<br \/>\npatroa, c\u00e1 est\u00e1. Isto n\u00e3o \u00e9 nada: o que o pequeno<br \/>\ntem \u00e9 uma dor de barriga.<\/p>\n<p>MARIA &#8211; O que \u00e9 que trazes ai no pires?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Algod\u00e3o queimado com \u00f3leo de am\u00eandoas<br \/>\ndoces, senhora! \u00c9 um santo rem\u00e9dio. Chimpa-se isto no umbigo<br \/>\nda crian\u00e7a e n\u00e3o h\u00e1 dor de barriga que lhe resista.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Vamos, Eul\u00e1lia, vamos!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; O melhor \u00e9 lev\u00e1-lo para o ber\u00e7o! (Lu\u00edsa<br \/>\nleva a crian\u00e7a para o ber\u00e7o.)<\/p>\n<p>MARIA (Baixo a Praxedes.) &#8211; Vai ali junto \u00e0quele ber\u00e7o e se<br \/>\n\u00e9s capaz convence a tua doutora de todas essas belas teorias que pregaste<br \/>\nh\u00e1 pouco. Anda, vai, meu reformador!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Parece incr\u00edvel!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Dir-se-ia que est\u00e1 mais aliviadinho.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Aplicando o curativo.) Ora, ora! Daqui a pouco est\u00e1<br \/>\na dormir que \u00e9 um gosto. \u00c9 santo rem\u00e9dio, senhora! Quisera<br \/>\nde contos de r\u00e9is \u00e0s vezes que fomentei o umbigo da menina com<br \/>\nisto. Uma ocasi\u00e3o ainda me lembro.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o fa\u00e7as barulho, ele est\u00e1 dormindo!<\/p>\n<p>PRAXEDES (Consigo.) &#8211; Contado n\u00e3o se acredita!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Psiu! Papai! Pode acord\u00e1-lo&#8230; (A Maria, dirigindo-se<br \/>\npara a esquerda.) N\u00e3o fa\u00e7a barulho, mam\u00e3e! (Maria sai<br \/>\nnas pontas dos p\u00e9s pela esquerda. Praxedes senta-se pensativo. Eul\u00e1lia<br \/>\ne Lu\u00edsa embalam o ber\u00e7o.)<\/p>\n<h2>CENA VIII<br \/>\nLU\u00cdSA, EUL\u00c1LIA, PRAXEDES e DOUTOR PEREIRA<\/h2>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Acabo de estar neste instante com o Doutor Martins.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ia com a senhora, a Carlota de Aguiar?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Com a senhora e uma ama toda cheia de fitas e carregando o<br \/>\nprimeiro beb\u00ea.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; J\u00e1 tem um filho a Carlota?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Ora que admira\u00e7\u00e3o! Est\u00e3o casados h\u00e1<br \/>\num ano e tanto.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E rapaz, ou menina?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Uma menina e muito bonitinha. Quando me lembro que tiveste<br \/>\nci\u00fames&#8230; (Lu\u00edsa baixa a cabe\u00e7a.) Confessa, vamos l\u00e1,<br \/>\nque foste uma grande tolinha.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ainda est\u00e1 muito pedante?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; A mesma coisa.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Era uma rapariga inteligente.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Viva&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; E creio que abandonou o foro, porque h\u00e1 muito tempo n\u00e3o<br \/>\nlhe tenho visto o nome nos jornais.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Vive para a sua Luisinha. Ah! a pequena chama-se Lu\u00edsa,<br \/>\n\u00e9 tua xar\u00e1.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E o nosso, Lu\u00eds.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; \u00c9 verdade, que coincid\u00eancia!<\/p>\n<p>PRAXEDES (Pensando.) &#8211; Ent\u00e3o abandonou tudo?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Tudo. O marido foi nomeado Presidente para o Amazonas.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; O Doutor Martins mandou-me participa\u00e7\u00e3o de casamento.<br \/>\nEu e minha mulher n\u00e3o o fomos visitar&#8230; Tamb\u00e9m depois das cenas<br \/>\nque se deram&#8230;<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Comuniquei que est\u00e1vamos morando juntos. Mostrou grande<br \/>\ndesejo de ver-nos. &#8220;Por que n\u00e3o vai at\u00e9 l\u00e1 em casa&#8221;<br \/>\ndisse-lhe eu. &#8220;Ora, n\u00e3o sei!&#8221; balbuciou. Afinal, disse-lhe<br \/>\na mulher: &#8220;Vamos, mas h\u00e1 de ser hoje, porque partimos amanh\u00e3.&#8221;<br \/>\nDaqui a pouco, portanto, devem estar a\u00ed. Fiz bem ou mal?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Fizeste bem.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; \u00c9s um anjo! (Tocam a campainha fora. A Eul\u00e1lia.)<br \/>\nV\u00ea quem toca.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Mostrando o pequeno a Pereira.) &#8211; Olha como est\u00e1 gordinho&#8230;<br \/>\nVou p\u00f4r-lhe ao pesco\u00e7o duas figas.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (Rindo.) &#8211; Para livr\u00e1-lo do mau olhado?! Pois acreditas<br \/>\ntamb\u00e9m nisso?!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; N\u00e3o sei!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA (Rindo.) &#8211; Aposto que acreditas!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Acredito. (Esconde o rosto no peito de Pereira.)<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Tolinha. (Saem os dois.)<\/p>\n<h2>CENA IX<br \/>\nMANUEL e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p><b>Manuel fica pensativo por instantes; depois levanta-se, vai ao ber\u00e7o<br \/>\ne embala a crian\u00e7a.<\/b><\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Entrando.) &#8211; Um chamado para a patroa.<\/p>\n<p>PRAXEDES (Levantando-se.) &#8211; Para Lu\u00edsa?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Sim, senhor&#8230;<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Vai j\u00e1 avis\u00e1-la.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Avis\u00e1-la? Nessa n\u00e3o caio eu!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Vai avis\u00e1-la, j\u00e1 te disse.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Quem eu vou chamar \u00e9 o patr\u00e3o, esse sim.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Mas o doente \u00e9 para ela ou para ele?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Agora n\u00e3o h\u00e1 aqui mais para ela, nem para<br \/>\nele! E admira-me bastante que o patr\u00e3o morando nesta casa ainda n\u00e3o<br \/>\nsaiba que a menina abandonou de uma vez todos os doentes.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; De uma vez n\u00e3o. Ficou assentado, logo que ela se sentiu<br \/>\nno seu estado interessante, que deixaria a cl\u00ednica por algum tempo.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Pois deixou para sempre, senhor! O \u00fanico doente que<br \/>\nela tem agora \u00e9 estezinho. (Aponta para o ber\u00e7o.) E creia que<br \/>\neste d\u00e1-lhe mais que fazer que todos os outros juntos.<\/p>\n<h2>CENA X<br \/>\nOS MESMOS e LU\u00cdSA<\/h2>\n<p>PRAXEDES &#8211; Se o chamado \u00e9 para Lu\u00edsa, n\u00e3o tens o direito<br \/>\nde pregar uma mentira.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Mas eu n\u00e3o minto, senhor, nunca menti. Menos essa!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Que tem entrado e est\u00e1 junto ao ber\u00e7o.) &#8211; O que<br \/>\n\u00e9 isto, Eul\u00e1lia?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; E o senhor que est\u00e1 aqui a dizer que eu minto. A<br \/>\nsenhora algum dia apanhou-me em mentira?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Mas o que foi?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Nada mais, nada menos, que um chamado para ti.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Para mim?<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Sim, senhora!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ent\u00e3o vai j\u00e1 avisar meu marido!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Era o que eu ia fazer. Mas o patr\u00e3o p\u00f4s-se<br \/>\naqui com uma lenga-lenga muito grande, e sem mais nem menos, z\u00e1s! chimpa-me<br \/>\nna bochecha: &#8211; Voc\u00ea \u00e9 uma mentirosa! Ora, senhora, isto d\u00f3i,<br \/>\n\u00e9 preciso confessar que d\u00f3i muito, sim, porque, no fim de contas<br \/>\npor mais baixa que seja uma pobre criatura de Deus&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Est\u00e1 bem, vai chamar meu marido.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Se eu j\u00e1 tivesse sido apanhada em mentira.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Tens raz\u00e3o.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Eu sou uma mulher honrada.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Sim, sim.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Fique a patroa sabendo que no Porto rejeitei propostas muito<br \/>\nvantajosas e n\u00e3o era c\u00e1 meia d\u00fazia de melquatrefes. Eram<br \/>\nviscondes e bar\u00f5es, sujeitos apatacados. Se quisesse escorregar, senhora,<br \/>\npodia estar hoje muito bem!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; J\u00e1 sei, j\u00e1 sei, Eul\u00e1lia.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; As injusti\u00e7as doem.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Sim, sim, sim; mas vai chamar teu amo! (Eul\u00e1lia sai<br \/>\nresmungando.)<\/p>\n<h2>CENA XI<br \/>\nLU\u00cdSA e MANUEL PRAXEDES<\/h2>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Coitada! \u00c9 uma boa alma! E ultimamente tem sido t\u00e3o<br \/>\ncarinhosa para meu filho!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ora! At\u00e9 d\u00e1-lhe rem\u00e9dios!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; \u00c9 verdade!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; O que me admira \u00e9 que os aceites.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; E por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; N\u00e3o valia a pena surrar durante 6 anos os bancos de uma<br \/>\nAcademia e encetar brilhantemente a cl\u00ednica, afrontando est\u00fapidos<br \/>\npreconceitos sociais para chegar a este triste resultado!<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Triste resultado?<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Sim. Queres nada de mais triste, para uma mulher em tuas condi\u00e7\u00f5es!<br \/>\nque papel representas hoje?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O \u00fanico, meu pai, que pode e deve representar uma mulher.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ent\u00e3o o juramento que prestaste no dia do teu grau de socorrer<br \/>\ntodos aqueles que te viessem bater \u00e0 porta.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Meu pai: dizem que o c\u00e9rebro da mulher \u00e9 fraco.<br \/>\nPois bem, por um sentimento de vaidade, que dizem tamb\u00e9m ser inato<br \/>\nem nosso sexo, eu enchi esse c\u00e9rebro de tudo quanto a ci\u00eancia<br \/>\npode ter de mais grandioso e mais \u00fatil. Percorri com coragem inaudita<br \/>\ntoda a escala do saber humano na minha especialidade. Calquei \u00f3dios<br \/>\ne vaidades dos colegas, ergui a cabe\u00e7a, sem corar, acima desses preconceitos<br \/>\nsociais de que falou h\u00e1 pouco e que eu tamb\u00e9m considerava est\u00fapidos!<br \/>\nVenci. Entrei na sociedade triunfante com o meu t\u00edtulo. O prest\u00edgio<br \/>\nque se formou em tomo do meu nome fez-me esquecer de que era uma mulher&#8230;<br \/>\nA gl\u00f3ria atordoava-me&#8230; Dentro de mim sentia, por\u00e9m, qualquer<br \/>\ncoisa de vago, de estranho, que n\u00e3o sabia explicar! Eu que muitas vezes<br \/>\nno anfiteatro havia apalpado o cora\u00e7\u00e3o humano, que o tinha dissecado<br \/>\nfibra por fibra, que pretendia conhecer-lhe a fundo a fisiologia! Desconhecia<br \/>\nentretanto, o sentimento mais sublime que enche todo esse \u00f3rg\u00e3o.<br \/>\nTudo quanto aprendi nos livros, tudo quanto a ci\u00eancia podia dar-me de<br \/>\nconforto, n\u00e3o vale o poema sublime do amor que se encerra neste pequeno<br \/>\nber\u00e7o!<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ent\u00e3o esta crian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; \u00c9 bastante, meu pai, para encher toda a minha alma.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Mas minha filha, j\u00e1 n\u00e3o te falo em gl\u00f3rias,<br \/>\nno prest\u00edgio do teu nome, nos compromissos que tomaste para com a sociedade,<br \/>\nolha um pouco para os teus interesses, que n\u00e3o podes desprezar, por<br \/>\namor mesmo deste que aqui est\u00e1 (Aponta o ber\u00e7o.) e diz-me com<br \/>\ntoda a franqueza: \u00e9 justo que abandones por um falso ponto de vista,<br \/>\na miss\u00e3o sublime que tinhas no teu casal, cooperando honestamente para<br \/>\na forma\u00e7\u00e3o e o aumento do pec\u00falio dele?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; O pec\u00falio do casal, pelas leis naturais, meu pai, compete<br \/>\nao marido.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Ent\u00e3o abandonas todos os teus direitos, todas as tuas obriga\u00e7\u00f5es,<br \/>\ntodos os teus deveres?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Tudo; exceto a felicidade de criar e educar meu filho.<\/p>\n<h2>CENA XII<br \/>\nOS MESMOS e o DOUTOR PEREIRA<\/h2>\n<p>DR. PEREIRA (Dirigindo-se ao ber\u00e7o.) &#8211; Este magan\u00e3o ainda est\u00e1<br \/>\ndormindo?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Ainda. N\u00e3o o acordes. Recebeste um chamado?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; J\u00e1 vou. E para o Lu\u00eds Maria, o disp\u00e9ptico<br \/>\nmais ma\u00e7ante que tenho na minha cl\u00ednica!<\/p>\n<h2>CENA XIII<br \/>\nOS MESMOS e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; Oh! patroa, sabe quem est\u00e1 a\u00ed? Aposto que<br \/>\nn\u00e3o adivinha.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Quem \u00e9?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; \u00c9 o Martins com a mulher.<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; \u00c9 verdade. A senhora n\u00e3o imagina como est\u00e1<br \/>\nengra\u00e7ada a ama da menina. Tem uma touca deste tamanho, (Indica.) com<br \/>\nduas fitas enormes que arrastam at\u00e9 o ch\u00e3o. Mando-os entrar<br \/>\npara aqui mesmo?<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Sim. (Eul\u00e1lia sai.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Para Pereira.) &#8211; Aposto em como a filhinha dele n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 mais bonita que o nosso Lu\u00eds.<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Vaidosa!<\/p>\n<h2>CENA XIV<br \/>\nOS MESMOS, MARTINS, CARLOTA e a ama. (Com uma crian\u00e7a.)<\/h2>\n<p>MARTINS (Apertando a m\u00e3o de Pereira.) &#8211; J\u00e1 v\u00eas que cumpri-mos<br \/>\na nossa palavra!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; E que eu os recebo como amigos antigos, sem a menor cerim\u00f4nia<br \/>\nnesta sala onde Lu\u00edsa passa os dias a namorar o seu beb\u00ea.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Quero v\u00ea-lo! Quero v\u00ea-lo! (Lu\u00edsa leva-a ao ber\u00e7o.)<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Est\u00e1 acordado, felizmente. (Tira-o do ber\u00e7o<br \/>\ne entrega-o a Carlota.)<\/p>\n<p>CARLOTA (Com a crian\u00e7a ao colo.) &#8211; E um querubim rafaelesco! Como<br \/>\nest\u00e1 gordo e anafado! Dir-se-ia uma r\u00f3sea aurora de maio!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; Gosta muito de crian\u00e7as?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Adoro-as! (Mostra a Martins.) Olha, meu Lacinho.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Seu Lacinho?<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; E o po\u00e9tico diminutivo por que sou hoje conhecido em casa.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Deixe-me ver agora a sua. J\u00e1 sei que \u00e9 uma menina.<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Tirando a crian\u00e7a do colo da ama.) &#8211; Oh! \u00c9 muito<br \/>\nbonitinha!<\/p>\n<p>MARTINS &#8211; Sai ao pai!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Tem paci\u00eancia, meu Lacinho, mas todos dizem que ela \u00e9<br \/>\nsem tirar nem p\u00f4r a minha ef\u00edgie.<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (Mostrando a Pereira.) &#8211; Olha!<\/p>\n<p>DR. PEREIRA &#8211; \u00c9 muito galante!&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA (A Carlota.) &#8211; E a senhora que a est\u00e1 amamentando?<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Sim, e a senhora tamb\u00e9m cria o seu?<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Coitadinha! A minha veio chorando tanto no bonde. Creio que tem<br \/>\nfome. Se me permitisse&#8230;<\/p>\n<p>LU\u00cdSA &#8211; Que lhe d\u00ea de mamar? Pois n\u00e3o! Vou fazer o mesmo<br \/>\nao meu. (Trocam as crian\u00e7as: Lu\u00edsa senta-se de um lado e d\u00e1<br \/>\nde mamar ao filho; Carlota faz o mesmo do outro lado.)<\/p>\n<p>PRAXEDES (A Carlota.) &#8211; Ent\u00e3o o foro, a candidatura, a Deputa\u00e7\u00e3o<br \/>\nGeral pela corte, os projetos grandiosos da reforma da nossa legisla\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>CARLOTA &#8211; Chi!&#8230; Est\u00e1 toda molhada! (Para a ama.) V\u00ea a\u00ed<br \/>\num cueiro. (A ama tira um cueiro que deve trazer dentro de uma cesta e entrega-o<br \/>\na Carlota que vai p\u00f4-lo na crian\u00e7a, entregando o molhado \u00e0<br \/>\nama.)<\/p>\n<p>MARTINS (A Praxedes.) &#8211; Quer resposta mais eloq\u00fcente? O senhor pergunta-lhe<br \/>\npelos sonhos de ontem, ela responde-lhe com o cueiro da sua Luisinha.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Afinal tudo isto acabou em cueiros!<\/p>\n<h2>CENA XV<br \/>\nOS MESMOS, MARIA e EUL\u00c1LIA<\/h2>\n<p>MARIA &#8211; Bravo! Bravo! As duas doutoras amamentando os filhinhos! (Para Carlota<br \/>\nque quer levantar-se para falar-lhe.) N\u00e3o se incomode. (A Martins.)<br \/>\nD\u00ea-me um abra\u00e7o. (Martins abra\u00e7a-a.) \u00c9, na realidade,<br \/>\nfeliz!<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA (Entrando.) &#8211; Ele n\u00e3o quer mamar, senhora! Eu o carrego!<br \/>\n(Toma do colo de Lu\u00edsa a crian\u00e7a.)<\/p>\n<p>MARIA (A Praxedes.) &#8211; Olha, meu amigo, em que deu o teu programa filos\u00f3fico,<br \/>\npol\u00edtico, moral e social, a tua evolu\u00e7\u00e3o do futuro.<\/p>\n<p>PRAXEDES &#8211; Sim, mas n\u00e3o perdi de todo o meu latim. (Tomando a crian\u00e7a<br \/>\ne mostrando-a a todos.) Aqui est\u00e1 um m\u00e9dico de ra\u00e7a!<br \/>\n(D\u00e1-lhe muitos beijos.)<\/p>\n<p>EUL\u00c1LIA &#8211; De ra\u00e7a! Ai que reina\u00e7\u00e3o! Ah! Ah! Ah!<\/p>\n<p><b>(Cai o pano.)<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Ato Primeiro Ato Segundo Ato Terceiro Ato Quarto Fran\u00e7a Junior PERSONAGENS MANUEL PRAXEDES &#8211; 55 anos DOUTOR PEREIRA &#8211; 25 anos BACHAREL MARTINS &#8211; 28 anos GREG\u00d3RIO, doente MARIA PRAXEDES &#8211; 58 anos DOUTORA LU\u00cdSA PRAXEDES &#8211; 24 anos BACHARELA CARLOTA DE AGUIAR &#8211; 23 anos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96010","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>As Doutoras - Fran\u00e7a Junior, Obra As Doutoras - Fran\u00e7a Junior<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"As Doutoras - Fran\u00e7a Junior, Obra, Liter\u00e1ria, Manuel Praxedes, Bacharel Martins, Eul\u00e1lia, As Doutoras - Fran\u00e7a Junior\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"As Doutoras - Fran\u00e7a Junior, Obra As Doutoras - Fran\u00e7a Junior\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"As Doutoras - Fran\u00e7a Junior, Obra, Liter\u00e1ria, Manuel Praxedes, Bacharel Martins, Eul\u00e1lia, As Doutoras - Fran\u00e7a Junior\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-doutoras-franca-junior\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-23T16:39:28+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"96 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/as-doutoras-franca-junior#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/as-doutoras-franca-junior\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"As Doutoras &#8211; 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