{"id":96007,"date":"2017-01-23T14:31:04","date_gmt":"2017-01-23T16:31:04","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=96007"},"modified":"2017-01-23T14:31:04","modified_gmt":"2017-01-23T16:31:04","slug":"amor-com-amor-se-paga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/amor-com-amor-se-paga","title":{"rendered":"Amor com Amor se Paga"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cena I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#2\">Cena II<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">Cena III<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#4\">Cena IV<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Cena V <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">Cena VI <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">Cena VII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">Cena VIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#9\">Cena IX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">Cena X<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#11\">Cena XI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#12\">Cena XII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#13\">Cena XIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#14\">Cena XIV <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Fran\u00e7a Junior<\/h2>\n<h2>Ato \u00danico<\/h2>\n<p>O teatro representa uma sala elegantemente mobiliada. Portas ao fundo, \u00e0<br \/>\ndireita e \u00e0 esquerda. No centro uma mesa coberta por um pano em cima<br \/>\nda qual h\u00e1 um viol\u00e3o.<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Cena I<\/h2>\n<p>Vicente e Eduardo Coutinho<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Arranjaste tudo quanto te encomendei?<\/p>\n<p>Vicente (Limpando os trastes.) &#8211; Tudo, Nhonh\u00f4. Vosmec\u00ea j\u00e1<br \/>\nsabe para quanto presta este mulatinho. C\u00e1 ao degas n\u00e3o \u00e9<br \/>\npreciso repetir as coisas. Se vosmec\u00ea bem o disse, melhor o fiz. Olhe:<br \/>\numa empada, dois pratos de croquetes, uma galinha de molho pardo&#8230;<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Podes limpar a m\u00e3o \u00e0 parede com o tal molho pardo.<br \/>\nAlugo este aposento para receber uma mulher que \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o<br \/>\nda eleg\u00e2ncia e do chique. Encomendo-te uma ceia esquisita e procuras<br \/>\nmatar a poesia de uma segunda entrevista amorosa, apresentado-nos \u00e0<br \/>\nmesa um prato, que traz em seu seio os germens de uma indigest\u00e3o. Tens<br \/>\n\u00e0s vezes certas lembran\u00e7as&#8230;Decididamente acabo por te dar<br \/>\nbaixa deste servi\u00e7o. Aposto que esqueceste o vaso de flores.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; O vaso de flores?<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Est\u00e1 visto, \u00e9s um estonteado.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; dou as m\u00e3os \u00e0 palmat\u00f3ria, Nhonh\u00f4; mas<br \/>\nem compensa\u00e7\u00e3o preparei uma surpresa, que h\u00e1 de p\u00f4r<br \/>\na mocinha (imitando.) assim&#8230;de bei\u00e7o ca\u00eddo.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Fa\u00e7o id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Nhonh\u00f4 n\u00e3o sabe o que \u00e9. S\u00e3o dois guardanapos,<br \/>\ndobrados em forma de cora\u00e7\u00e3o: num enterrei uma faca, no outro<br \/>\nespetei um garfo, e arranjei uns floreados da silva&#8230;est\u00e1 mesmo coisa<br \/>\npapafina.<\/p>\n<p>S\u00e3o dois lindos cora\u00e7\u00f5es,<br \/>\nQue \u00e0 mocinha h\u00e3o de encantar.<br \/>\nC\u00e1 o degas, meu Nhonh\u00f4,<br \/>\nSabe as coisas preparar.<\/p>\n<p>Quando a mo\u00e7a vir aquilo<br \/>\nSentir\u00e1 tal emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\nQue, ao pegar no guardanapo,<br \/>\nDar-lhe-\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Capad\u00f3cio!<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Aquilo dispensa uma declara\u00e7\u00e3o; poupa palavras e ale<br \/>\npor trinta vasos de flores.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Est\u00e1 bom; n\u00e3o h\u00e1 tempo a perder. (Vendo as<br \/>\nhoras.) \u00c9 quase meia-noite e ela est\u00e1 \u00e0 minha espera.<br \/>\nO segredo \u00e9 a alma do neg\u00f3cio: se deres com a l\u00edngua<br \/>\nnos dentes&#8230;At\u00e9 j\u00e1.(Sai.).<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cena II<\/h2>\n<p>Vicente, s\u00f3.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Pois n\u00e3o! Era preciso que eu fosse um peda\u00e7o de asno<br \/>\npara andar por a\u00ed contando o que ou\u00e7o e o que vejo. C\u00e1<br \/>\no degas n\u00e3o mete m\u00e3os em cumbuca. Tenho casa e comida gr\u00e1tis<br \/>\npor Deo, passo aqui os dias em santo \u00f3cio a cantar modinhas, com as<br \/>\nalgibeiras sempre recheadas, e pouco se me d\u00e1 de saber que interesse<br \/>\ntem este sujeito em ocultar-me a sua morada e muito menos de indagar o nome<br \/>\nda tal sirigaita, que entra por aqui, toda embu\u00e7ada e estremecendo<br \/>\nao mais pequeno ru\u00eddo. O que lucraria eu, se come\u00e7asse a papaguear?<br \/>\nEra posto no olho da rua, perdia a manjuba e recrutamento me fecit. O filho<br \/>\nde Inoc\u00eancia Floresbela do Amparo n\u00e3o vai para o Paraguai n\u00e3o,<br \/>\nmas \u00e9 o mesmo. Tenho muito amor a este p\u00ealo e n\u00e3o caio<br \/>\nde cavalo magro.<\/p>\n<p>Por amor de contar novidades<br \/>\nN\u00e3o arrisco este p\u00ealo t\u00e3o caro,<br \/>\nEm cumbuca n\u00e3o mete os gadanhos<br \/>\nO fin\u00f3rio Vicente do Amparo.<\/p>\n<p>(Ouve-se fora grande algazarra e gritos de pega ladr\u00e3o!)<\/p>\n<p>O que \u00e9 isto?<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Cena III<\/h2>\n<p>O mesmo e Miguel Carneiro (Que entra correndo, em mangas de camisa, muito cansado;<br \/>\natira Vicente ao ch\u00e3o.)<\/p>\n<p>Vicente &#8211; \u00d3 senhor!<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Cala-te, pelo amor de Deus.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Quem \u00e9 o senhor?<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Ponho \u00e0s tuas ordens a minha bolsa, dou-te tudo o que me pedires<br \/>\nsob condi\u00e7\u00e3o de e esconderes aqui at\u00e9 amanh\u00e3. Eu<br \/>\nficarei em qualquer parte; na cozinha, dentro de um arm\u00e1rio, na clarab\u00f3ia,<br \/>\ndebaixo de um cesto; mas salva-me por tudo quanto tens de mais caro nesta vida.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Mas como \u00e9 que o senhor entra, sem mais nem menos, a esta hora,<br \/>\npelo asilo do cidad\u00e3o, e nestes trajes?!<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Se tu soubesses o que me aconteceu, desgra\u00e7ado, terias d\u00f3<br \/>\nde mim.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Percebo. (Gira com os dedos da m\u00e3o direita ao redor do dedo<br \/>\ngrande.).<\/p>\n<p>Miguel &#8211; N\u00e3o me julgues pelo que acabas de ouvir. \u201cPega ladr\u00e3o\u201d<br \/>\n\u00e9 uma f\u00f3rmula de que o povo se serve para alcan\u00e7ar o infeliz<br \/>\nque a pol\u00edcia persegue. Eu sou uma v\u00edtima do amor. Imagina uma<br \/>\nCena de Julieta e Romeu, sem balc\u00e3o nem escada de corda. Eu e ela! Por<br \/>\ncima de nossas cabe\u00e7as o c\u00e9u crivado de estrelas e por teatro<br \/>\nda nossa felicidade um modesto quintal. \u00c0 hora indicada abro a porta<br \/>\ncom esta chave (Mostrando-a), coso-me ao muro como uma lagartixa e espero, mal<br \/>\npodendo conter a respira\u00e7\u00e3o, que aparecesse o anjo dos meus sonhos.<br \/>\nUm cachorrinho felpudo, ou antes a imagem do diabo, aparece na porta da cozinha,<br \/>\ne seus latidos foram bastantes para acordar um galo e com ele toda a pac\u00edfica<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o, que dormia empoleirada no galinheiro. O ru\u00eddo<br \/>\nque fizeram os gansos do Capit\u00f3lio na cidadela de Roma, pondo em alarma<br \/>\nas for\u00e7as de Manlio, n\u00e3o pode ser equiparado \u00e0 algazarra<br \/>\ninfernal que houve naquela casa. O grito de \u201cpega ladr\u00e3o\u201d<br \/>\nveio coroar a obra. Esgueiro-me pela rua, e come\u00e7o a correr como um veado,<br \/>\nperseguido por dois urbanos, em cujas m\u00e3os deixei o palet\u00f3 e por<br \/>\numa s\u00facia de vagabundos, que afinavam o maldito \u201cpega\u201d em<br \/>\ntodos os tons. Foi esta a \u00fanica porta aberta que encontrei. Salva-me,<br \/>\nsalva-me por tudo quanto tens de mais caro sobre a terra.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Mas o senhor n\u00e3o pode ficar aqui: meu amo n\u00e3o tarda,<br \/>\ne ele recomendou-me&#8230;Oh diabo, l\u00e1 ia dando com a l\u00edngua nos dentes.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Desalmado, queres me expor ao rid\u00edculo da sociedade? N\u00e3o<br \/>\nsabes que tenho um emprego p\u00fablico, que sou o juiz de paz mais votado<br \/>\nda freguesia, que tenho mulher e filhos e que, se caio nas garras da pol\u00edcia,<br \/>\ndepois de amanh\u00e3 aparecer\u00e1 o meu nome nos jornais como o de um<br \/>\nlar\u00e1pio?<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Mas, senhor&#8230;<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Queres me reduzir \u00e0 triste posi\u00e7\u00e3o de filho do<br \/>\nCeleste Imp\u00e9rio, atacando a horas mortas os galinheiros estranhos?<\/p>\n<p>Vicente &#8211; E por que foi se meter o senhor em camisas de onze varas? \u00c9<br \/>\nBoa!<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Tu n\u00e3o sabes o que \u00e9 o amor. Sentir no peito as pulsa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde um cora\u00e7\u00e3o, que se expande em suaves harmonias, ouvir de uns<br \/>\nl\u00e1bios purpurinos palavras de consolo, como notas m\u00edsticas de<br \/>\num coro de anjos, apertar a m\u00e3o cetinosa,q eu se nos confia a medo, sobra\u00e7ar<br \/>\na cintura que foge&#8230;Olha&#8230;.Como te chamas?<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Vicente Maria do Amparo, um seu criado.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Nunca amaste, Vicente?<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Que o diga o meu viol\u00e3o. N\u00f3s c\u00e1 n\u00e3o amamos<br \/>\ncomo os senhores, que dizem \u00e0s mo\u00e7as umas bobages e umas tolices<br \/>\nque ningu\u00e9m entende. Passa-se, pisca-se o olho&#8230;Assim, olhe. (Arremedando.)<br \/>\nDe noite re\u00fane-se a tro\u00e7a debaixo da janela da crioula, e o viol\u00e3o<br \/>\ncome\u00e7a a gemer.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Mas que diabo lucras tu com isto?<\/p>\n<p>Vicente &#8211; N\u00e3o exponho o p\u00ealo a uma sova de pau como lhe ia acontecendo,<br \/>\ne a gente se adverte.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; \u00c9s engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Deita-se o cigarro atr\u00e1s da orelha, afina-se o viol\u00e3o,<br \/>\ne a gente canta assim. (Segurando o viol\u00e3o e cantando.):<\/p>\n<p>Trovador, o que tens, o que sofres,<br \/>\nPor que choras com tanta afli\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Olhe s\u00f3 este transporte (Ferindo o viol\u00e3o.); isto chama-se tom<br \/>\nde pestana.<\/p>\n<p>O teu pranto assaz me compunge,<br \/>\nTrovador, ah! N\u00e3o chores mais, n\u00e3o.<\/p>\n<p>O essencial \u00e9 que se floreie bem nos bord\u00f5es e que este peda\u00e7o<br \/>\nde pau (Mostrando o viol\u00e3o.) n\u00e3o trasteje na prima. Eu c\u00e1<br \/>\nsou m\u00fasico de orelha, mas&#8230;<\/p>\n<p>Miguel &#8211; E \u00e9 por isso que flagelas as orelhas de tuas amadas.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Oh! mas conhe\u00e7o isto a palmos. (Indicando o viol\u00e3o.)<br \/>\nL\u00e1 vai o resto.<\/p>\n<p>Se acaso a mulher que tu amas<br \/>\nTe tratou com acerbo rigor,<br \/>\nTrovador, ah! Por isto n\u00e3o chores&#8230;<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Est\u00e1 bom, basta.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Cantei esta modinha pela primeira vez debaixo da janela do meu primeiro<br \/>\namor. Era uma crioula linda como os amores; chamava-se&#8230;chamava-se&#8230;(Procurando<br \/>\nrecordar-se.) Como se chamava ela, Vicente?<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Pois bem; tu j\u00e1 amaste muito, e podes avaliar os apuros em que<br \/>\nme vejo.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Chamava-se&#8230;Que maldita mem\u00f3ria!<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Eu tenho os p\u00e9s em cima de uma cratera.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Repita, repita esta palavra estrangeira, que o senhor acaba de dizer.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Cratera!<\/p>\n<p>Vicente (Batendo na testa.) &#8211; \u00e9 isso mesmo! Maria Joaquina chamava-se<br \/>\na crioula. (Ouve-se o rodar de um carro.) \u00c9 meu amo, saia, senhor; n\u00e3o<br \/>\nme comprometa.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Nestes trajes? Mas por onde?<\/p>\n<p>Vicente &#8211; saia por aqui. (Indicando a porta da esquerda.) Por a\u00ed n\u00e3o.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Que noite, meu Deus!<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Esconda-se, esconda-se, senhor; n\u00e3o tempo a perder. Eles sobem<br \/>\nj\u00e1 a escada. (Miguel vai sair por uma das portas da direita , que deve<br \/>\nestar fechada, esbarra-se nela e esconde-se embaixo da mesa.)<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Cena IV<\/h2>\n<p>Os mesmos, Eduardo Coutinho e Adelaide Carneiro<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Ap\u00f3ie-se no meu bra\u00e7o. N\u00e3o tenha o mais pequeno<br \/>\nreceio. Estamos s\u00f3s. (Para Vicente.) Passa para dentro. (Vicente sai.)<br \/>\nNingu\u00e9m testemunhar\u00e1 as nossas confid\u00eancias e aqui, entre<br \/>\nas quatro paredes deste aposento, longe dos falsos ourop\u00e9is do mundo<br \/>\nque se agita l\u00e1 fora, escreveremos a p\u00e1gina mais feliz da nossa<br \/>\nvida.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; Uma entrevista!<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; Sinto faltarem-se-me as for\u00e7as, mas como s\u00e3o gratas<br \/>\nestas emo\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; Eu conhe\u00e7o esta voz.<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; Afigura-se-me Parisina, indo ao encontro do desditoso amante nessa<br \/>\nhora em que o rouxinol, oculto na espessa ramagem, modula as mais sentidas<br \/>\nendeixas. Lembra-se desta situa\u00e7\u00e3o? \u00c9 logo no primeiro<br \/>\ncanto do poema. Oh! mas este amor criminoso n\u00e3o h\u00e1 de levar-me<br \/>\nao sepulcro. Eu terei a for\u00e7a necess\u00e1ria para arranc\u00e1-lo<br \/>\ndo peito.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; Esta voz \u00e9 de minha mulher!<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Oh! n\u00e3o fales na fria lousa que deve encerrar os restos preciosos<br \/>\nde tua beleza, diante da vida que nos sorri.<\/p>\n<p>Ah, n\u00e3o fales em sepulcro<br \/>\nQuando a esperan\u00e7a nos sorri.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c1 parte.) &#8211; ! Patife de uma figa,<br \/>\nQuanta gente tenho em ti.<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; O amor \u00e9 sentimento<br \/>\nQue a mulher prende e seduz,<br \/>\nSomos qual a mariposa<br \/>\nQue queima as asas na luz.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Se o amor \u00e9 sentimento<br \/>\nQue a mulher prende e seduz,<br \/>\nVoemos juntos, voemos<br \/>\nEm torno da mesma luz.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; \u00d3 que l\u00e1bia de patife,<br \/>\nQue fin\u00f3rio sedutor!<br \/>\nMuito caro h\u00e1s se Pagar-me<br \/>\nAs venturas deste amor.<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; \u00c9 justamente como disse Byron: &#8211; Na vida do homem o amor<br \/>\n\u00e9 um epis\u00f3dio; para a mulher \u00e9 a exist\u00eancia inteira.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; Cita Byron! \u00c9 minha mulher. Estava escrito<br \/>\nque aquele livro perigoso me havia de ser fatal.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; E no entretanto, por que te mostras t\u00e3o esquiva para comigo,<br \/>\nfazendo surgir sempre entre nossos cora\u00e7\u00f5es, que palpitam cheios<br \/>\nde vida e de esperan\u00e7a, a imagem severa de teu marido?<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; Que patife!<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; \u00c9 porque amo muito meu marido. Quando vi pela primeira vez<br \/>\naquela fronte p\u00e1lida, aqueles olhos l\u00e2nguidos e rasgados, exclamei:<br \/>\n&#8211; Ali est\u00e1 uma alma de poeta! E em minha mente, incendiada pela flama<br \/>\nda mais radiante poesia, desenhou-se em toda a majestade o tipo de D. Juan,<br \/>\nacordando \u00e0 luz amortecida das estrelas do c\u00e9u da Gr\u00e9cia,<br \/>\nno rega\u00e7o perfumado da divina Haid\u00e9ia.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Eu serei o teu D. Juan; deixa-me repousar tamb\u00e9m a fronte<br \/>\nem teu rega\u00e7o.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; Que noite, meu Deus!<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; Meu marido tamb\u00e9m me dizia o mesmo nos dias felizes da lua<br \/>\nde mel. Um m\u00eas depois de ter-me levado ao altar, ria-se quando eu lhe<br \/>\nfalava da nossa felicidade, virava-me as costas, quando lhe exprobava o seu<br \/>\ncomportamento, e o \u00f3sculo marital que me dava ao entrar em casa, era<br \/>\ndizer-me que o feij\u00e3o estava muito caro.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; E \u00e9 por causa da carestia do feij\u00e3o<br \/>\nque esta mulher, mesmo nas minhas bochechas&#8230;Vou fazer uma estralada.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Deixa-me abra\u00e7ar esta cintura delicada. (Faz men\u00e7\u00e3o<br \/>\nde abra\u00e7\u00e1-la.)<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; N\u00e3o me toque, senhor. Eu j\u00e1 lhe disse que amo muito<br \/>\nmeu marido, apesar da indiferen\u00e7a com que sou tratada. H\u00e1 neste<br \/>\npeito, por\u00e9m, muita sede de poesia e o senhor n\u00e3o \u00e9 para<br \/>\nmim neste momento mais que o ideal de um belo romance, que acabo de ler.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c1 parte.) &#8211; \u00c9 o Rafael de Lamartine. E fui eu quem o<br \/>\ncomprou! Eu acabo por atacar fogo em todas as livrarias.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Mas isto n\u00e3o pode ser. \u00c9 a segunda entrevista que<br \/>\na senhora me concede e eu tenho direitos.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; Direitos tenho eu de te meter o cacete.<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; Direitos t\u00e3o-somente \u00e0 minha estima e amizade. Se<br \/>\naqui vim, \u00e9 porque amo o imprevisto e o mist\u00e9rio e estas Cenas<br \/>\nromanescas falam-me \u00e0s fibras mais rec\u00f4nditas da alma. Eu queria<br \/>\nsentir as emo\u00e7\u00f5es de uma entrevista e nada mais.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; Que ou\u00e7o!<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Ent\u00e3o a senhora ama deveras seu marido?<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; Amo-o com estremecimento.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Pois bem; eu o amo igualmente com idolatria. Am\u00eamo-lo n\u00f3s<br \/>\ndois.<\/p>\n<p>Eu o amo, tu o amas,<br \/>\nEle ama, n\u00f3s amamos,<br \/>\nE amando gozaremos<br \/>\nA ventura que sonhamos.<\/p>\n<p>Conjugando o doce verbo<br \/>\nSentimos igual paix\u00e3o<br \/>\nNesse amor de parceria<br \/>\nCada qual teu seu quinh\u00e3o.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; \u00c8 demais. Vou arrebentar a cara deste patife.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>Cena V<\/h2>\n<p>Eduardo, Miguel, Adelaide e Vicente<\/p>\n<p>Vicente &#8211; A ceia est\u00e1 na mesa.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Passemos \u00e0 sala imediata. L\u00e1 ergueremos um brinde a<br \/>\nesse amor casto e puro, que eu e a senhora consagramos a seu marido.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; E eu hei de dar o urras! Tratante. (Saem todos menos<br \/>\nMiguel.)<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>Cena VI<\/h2>\n<p>Miguel, s\u00f3.<\/p>\n<p>Miguel (Saindo debaixo da mesa.) &#8211; E esta! Escapo de Cila e venho cair em Car\u00edbides.<br \/>\nMas agora, n\u00e3o h\u00e1 mais considera\u00e7\u00f5es que me obriguem<br \/>\na guardar conveni\u00eancias. Este tratante h\u00e1 se Pagar-me. Minha mulher<br \/>\njulga-me no clube, jogando o voltarete, e enquanto eu namoro a mulher do pr\u00f3ximo,<br \/>\nela procura id\u00e9ias fora de casa. \u00c9 bem feito, seu Miguel Carneiro.<br \/>\nMas, em suma, quem \u00e9 este homem que eu n\u00e3o conhe\u00e7o? Eu<br \/>\ntenho o direito de saber o seu nome; porque no fim de contas minha mulher tem<br \/>\npor ele uma paix\u00e3o&#8230;plat\u00f4nica. Oh! este platonismo alivia-me de<br \/>\num peso&#8230;\u00c9 demais! Quero saber tudo. (Avan\u00e7a para a porta e \u00e9<br \/>\ndetido por Vicente.)<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>Cena VII<\/h2>\n<p>O mesmo e Vicente<\/p>\n<p>Vicente &#8211; O senhor ainda est\u00e1 aqui!<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Quem \u00e9 esse homem que daqui saiu?<\/p>\n<p>Vicente &#8211; V\u00e1-se embora, senhor; n\u00e3o me fa\u00e7a perder a paci\u00eancia.<br \/>\nSuma-se, suma-se.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Eu quero saber o nome desse homem, e daqui n\u00e3o sairei, enquanto<br \/>\nn\u00e3o arrancar do seu poder aquela mulher.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Mau, mau, o senhor est\u00e1 me fazendo perder as estribeiras. N\u00e3o<br \/>\nme obrigue a lan\u00e7ar m\u00e3o da grafia. (Faz partes de capoeira.)<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Estou disposto a arrostar um esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Vicente &#8211; Olhe que eu lhe mostro para quanto presta este mulatinho. Se duvida<br \/>\nmuito, passo-lhe as bocas enquanto o diabo esfrega um olho. V\u00e1-se embora,<br \/>\nmo\u00e7o, v\u00e1-se embora. Que mo\u00e7o de ma\u00e7ada!<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>Cena VIII<\/h2>\n<p>Os mesmos e Em\u00edlia Coutinho<\/p>\n<p>Em\u00edlia (Entrando \u00e0s pressas.) &#8211; Felizmente encontro-o s\u00e3o<br \/>\ne salvo!<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Senhora! O que veio aqui fazer?!<\/p>\n<p>Vicente (\u00c0 parte.) &#8211; Por esta casa anda hoje o diabo.<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; Que susto, meu Deus! Repare como estou tremendo. Quando o vi<br \/>\nperseguido pela pol\u00edcia, como um ladr\u00e3o, n\u00e3o pude conter-me:<br \/>\nsa\u00ed tamb\u00e9m para a rua, afrontando as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndeste passo irrefletido e , depois de muito indagar, soube que tinha entrado<br \/>\naqui. Estou comprometida at\u00e9 a raiz dos cabelos, apesar da inoc\u00eancia<br \/>\ndos nossos amores e agora n\u00e3o sei como sair deste apuro.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Fuja quanto antes, minha senhora; a sua presen\u00e7a nesta casa<br \/>\n\u00e9 a minha perdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vicente (\u00c0 parte.) &#8211; Isto acaba numa grande \u00e1gua suja. Eu vou<br \/>\npara dentro e c\u00e1 n\u00e3o venho mais, haja o que houver. (Sai.)<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; Meu marido j\u00e1 est\u00e1 talvez em casa. Que fizeste,<br \/>\nEm\u00edlia!<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Que noite, que noite, meu Deus!<\/p>\n<p>Em\u00edlia (Chorando) &#8211; O senhor foi o culpado.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; N\u00e3o grite, senhora.<\/p>\n<p>Em\u00edlia (Chorando.) &#8211; Eu amava muito meu marido. Por que veio desinquietar-me?<br \/>\nEstou perdida por causa de um namoro de passatempo e amanh\u00e3 serei apontada<br \/>\npor toda a cidade como uma r\u00e9proba.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; N\u00e3o grite, senhora, que eles est\u00e3o ali.<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; N\u00e3o poder aparecer mais diante de meus filhos. Que fizeste,<br \/>\nEm\u00edlia?<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Mas com os diabos, quem lhe mandou vir aqui a estas horas? Queixe-se<br \/>\nde sua leviandade. A\u00ed v\u00eam eles: esconda-se. (Depois de correrem<br \/>\natrapalhados pela Cena, escondem-se afinal os dois ao lado da mesa.)<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>Cena IX<\/h2>\n<p>Em\u00edlia, Miguel, Eduardo e Vicente<\/p>\n<p>Eduardo (A Vicente.) &#8211; Vai depressa buscar um carro.<\/p>\n<p>Em\u00edlia (\u00c0 parte.) &#8211; \u00c9 a voz de meu marido; segure-me que<br \/>\nestou desmaiando. (Cai nos bra\u00e7os de Miguel.)<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; Seu marido!<\/p>\n<p>Vicente &#8211; \u00d3 Nhonh\u00f4, aquela mocinha parece-me meia gira. Eu creio<br \/>\nque ela sofre do f\u00edgado. (Apontando para a cabe\u00e7a; sa\u00ed.)<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Decididamente n\u00e3o \u00e9 uma mulher; \u00e9 um romance<br \/>\nvivo. Sou para ela D. Juan, Gilbert, Dartagnan, tudo que tem sa\u00eddo da<br \/>\ncabe\u00e7a dos poetas, menos o que sou. J\u00e1 n\u00e3o posso atur\u00e1-la.<\/p>\n<p>Miguel (\u00c0 parte.) &#8211; Que noite, meu Deus!<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Enquanto ela l\u00ea versos, reclinada nos coxins do div\u00e3,<br \/>\nvou respirar um pouco de ar \u00e0 janela. (Sai.)<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>Cena X<\/h2>\n<p>Em\u00edlia e Miguel<\/p>\n<p>Miguel &#8211; \u00d3 senhora, olhe que a ocasi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3pria<br \/>\npara faniquitos. Acabe com isto.<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; Ele j\u00e1 partiu?<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Ele quem?<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; Meu marido; eu ouvi a sua voz. Estou comprometida para sempre,<br \/>\ne no entretanto o senhor bem sabe que ainda n\u00e3o me esqueci dos meus deveres.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Infelizmente sei: mas descanse que a senhora est\u00e1 salva e eu<br \/>\ntamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; Salva?! O senhor n\u00e3o o conhece; \u00e9 ciumento como<br \/>\num Otelo e ser\u00e1 capaz de estrangular-me aqui mesmo com este pano de mesa.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Eu aposto a minha cabe\u00e7a como ele n\u00e3o lhe dir\u00e1<br \/>\na mais pequena palavra. Escute; eu vou ajoelhar-me a seus p\u00e9s, segurar-lhe<br \/>\nna cetinosa m\u00e3o. (Ajoelha-se e segura-lhe na m\u00e3o. ) E a senhora<br \/>\ngritar\u00e1, fingindo que forceja por sair de meus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; Deixe-me, senhor; deixe-me, ele pode chegar e a minha vida corre<br \/>\nperigo.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; bravo, bravo, muito bem; \u00e9 isto mesmo o que eu quero.<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; N\u00e3o abuse da minha situa\u00e7\u00e3o e considere<br \/>\nque sou uma m\u00e3e de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Eu te amo, te idolatro, \u00e9s a estrela polar do meu firmamento.<br \/>\nAnde, grite mais.<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; Senhor.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>Cena XI<\/h2>\n<p>Os mesmos e Adelaide<\/p>\n<p>Adelaide (\u00c0 parte.) &#8211; O que vejo? De joelhos aos p\u00e9s de outra<br \/>\nmulher, e j\u00e1 em mangas de camisa! (Alto.) Senhor, o seu comportamento<br \/>\n\u00e9 inqualific\u00e1vel! (Em\u00edlia grita. Miguel levanta-se e volta-se.)<br \/>\nMeu marido! (Desmaia.)<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; N\u00e3o me explicar\u00e1 o que significa tudo isto, senhor?<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Oculte-se aqui; n\u00e3o devemos perder um s\u00f3 minuto. Vai<br \/>\nsaber em breve a decifra\u00e7\u00e3o de tudo. (Leva-a para uma das portas<br \/>\nda direita e fecha a porta; para Adelaide.) Levante-se, minha senhora, os desmaios<br \/>\nest\u00e3o j\u00e1 muito explorados pelos romances modernos.<\/p>\n<p>Adelaide (Ajoelhando-se.) &#8211; Perd\u00e3o, Miguel.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Esta posi\u00e7\u00e3o \u00e9 rid\u00edcula demais para uma<br \/>\nhero\u00edna.<\/p>\n<p>Adelaide (Erguendo-se com altivez.) &#8211; Tens raz\u00e3o; eu n\u00e3o sou t\u00e3o<br \/>\ncriminosa como te parece, e assiste-me, por conseguinte, o direito de perguntar-te<br \/>\no que fazias nesta sala com aquela mulher.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; \u00c9 o mesmo direito que me assiste. O que veio a senhora fazer<br \/>\nnesta casa?<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; Miguel, eu te juro pela minha vida que estou inocente.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Quem \u00e9 esse homem que aqui mora?<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>Cena XII<\/h2>\n<p>Eduardo, Miguel e Adelaide<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Que faz o senhor aqui?<\/p>\n<p>Miguel &#8211; N\u00e3o tenho que dar-lhe satisfa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Eduardo (Para Adelaide.) &#8211; Quem \u00e9 este homem?<\/p>\n<p>Adelaide (\u00c0 parte.) &#8211; Estou perdida.<\/p>\n<p>Miguel (Sentando-se no sof\u00e1.) &#8211; Minha senhora, tenha a bondade de dizer<br \/>\naqui ao senhor quem eu sou. (Pausa.) J\u00e1 que \u00e9 t\u00e3o curioso,<br \/>\nvou satisfaz\u00ea-lo. Chamo-me Miguel Carneiro, e apesar de estar intimamente<br \/>\nconvencido de que o senhor n\u00e3o passa de um ideal para esta mulher romanesca,<br \/>\nda qual sou marido, eu ainda assim o desafiaria para um duelo, como fazem os<br \/>\nhomens de brio, se n\u00e3o aprouvesse \u00e0 fatalidade trazer-me a esta<br \/>\ncasa, como que expressamente para dizer-lhe &#8211; que nada devemos um ao outro.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Senhor Miguel Carneiro, creia que&#8230;<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Sei tudo. O senhor amou minha mulher.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Puro platonismo; estou disto intimamente convencido. Ora, na minha<br \/>\nqualidade de marido, devo ser grato aos obs\u00e9quios que fazem \u00e0<br \/>\nminha mulher.<\/p>\n<p>Adelaide (\u00c0 parte.) &#8211; O que querer\u00e1 ele fazer, meu Deus!<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Eu gosto se Pagar os benef\u00edcios \u00e0 boca do cofre.<\/p>\n<p>Adelaide (Ajoelhando-se entre os dois.) &#8211; Se sinistras s\u00e3o as tuas inten\u00e7\u00f5es,<br \/>\noh! Miguel, antes de consum\u00e1-las, ter\u00e1s de passar por cima do<br \/>\nmeu cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Tranq\u00fcilize-se, senhora; eu n\u00e3o lhe darei o gosto de mais<br \/>\numa emo\u00e7\u00e3o romanesca. (Adelaide levanta-se; para Eduardo.) Devo-lhe<br \/>\nem mat\u00e9ria de amor uma repara\u00e7\u00e3o; vou satisfazer-lhe j\u00e1<br \/>\na minha d\u00edvida. (Indo \u00e0 porta onde se acha Em\u00edlia.) Pode<br \/>\nsais, minha senhora. (Em\u00edlia sai.)<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>Cena XIII<\/h2>\n<p>Os mesmos e Em\u00edlia<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Em\u00edlia!!!<\/p>\n<p>Em\u00edlia &#8211; N\u00e3o me condenes. Sobre tua cabe\u00e7a pesa um crime<br \/>\ntalvez, eu apenas cometi uma leviandade.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Fique descansada; sobre nossas cabe\u00e7as n\u00e3o pesa absolutamente<br \/>\ncoisa alguma. Pode abra\u00e7ar sua mulher, eu abra\u00e7arei a minha.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; E por que artes veio o senhor ter a esta casa?<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Enquanto o senhor fazia a corte \u00e0 minha metade, eu constipava-me<br \/>\nno seu galinheiro \u00e0 espera da sua. Mas j\u00e1 lhe disse que pode ficar<br \/>\ntranq\u00fcilo; o divino Plat\u00e3o velava por n\u00f3s. Sua mulher explicar-lhe-\u00e1<br \/>\no que aqui me trouxe.<\/p>\n<p>Eduardo (Abra\u00e7ando Em\u00edlia.) &#8211; Em\u00edlia!<\/p>\n<p>Adelaide (Abra\u00e7ando Miguel.) &#8211; Miguel!<\/p>\n<p>Miguel (Para Eduardo.) &#8211; Amor com amor se paga. J\u00e1 v\u00ea que nada<br \/>\ndevemos um ao outro; dou-lhe o troco na mesma moeda.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>Cena XIV<\/h2>\n<p>Eduardo, Adelaide, Em\u00edlia, Miguel e Vicente<\/p>\n<p>Vicente &#8211; O carro est\u00e1 ai. (\u00c0 parte.) Ol\u00e9!<\/p>\n<p>Miguel &#8211; H\u00e1 de permitir-me que o aproveite. N\u00e3o posso ir a p\u00e9<br \/>\npara a casa nestes trajes.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Com muito prazer.<\/p>\n<p>Miguel (Despedindo-se.) &#8211; \u00c9 verdade, a sua gra\u00e7a?<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Eduardo Coutinho, seu humilde criado.<\/p>\n<p>Miguel &#8211; Pois, Senhor Eduardo, l\u00e1 estou \u00e0s suas ordens. Creio<br \/>\nque j\u00e1 sabe onde moro.<\/p>\n<p>Eduardo &#8211; Da mesma forma. Para que n\u00e3o tenha mais o inc\u00f4modo de<br \/>\nentrar pelo quintal, a porta da minha casa d\u00e1 para a Rua da Ajuda.<\/p>\n<p>Vicente (\u00c0 parte.) &#8211; Os diabos me carreguem, se compreendo esta embrulhada.<\/p>\n<p>Todos (Menos Vicente.) &#8211; \u00d3 Plat\u00e3o, bendito sejas.<\/p>\n<p>Foste o nosso protetor;<br \/>\nViva a bela teoria<br \/>\nDo teu casto e puro amor.<\/p>\n<p>\u00c9 sublime, edificante,<br \/>\nA li\u00e7\u00e3o que tu nos d\u00e1s,<br \/>\nOnde plantas teu dom\u00ednio,<br \/>\nReina a ordem, impera a paz.<\/p>\n<p><b>(Cai o pano.) <\/b><\/p>\n<h3>FIM<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cena I Cena II Cena III Cena IV Cena V &nbsp; Cena VI Cena VII Cena VIII Cena IX Cena X Cena XI Cena XII Cena XIII Cena XIV Fran\u00e7a Junior Ato \u00danico O teatro representa uma sala elegantemente mobiliada. Portas ao fundo, \u00e0 direita e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-96007","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Amor com Amor se Paga, Fran\u00e7a J\u00fanior Amor com Amor se Paga<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Amor com Amor se Paga, Fran\u00e7a J\u00fanior, Livro, Obra Liter\u00e1ria, Vicente, Eduardo Coutinho, Miguel Carneiro, Literatura, Amor com Amor se Paga\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta 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