{"id":95907,"date":"2017-01-23T09:03:57","date_gmt":"2017-01-23T11:03:57","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95907"},"modified":"2017-01-23T09:03:57","modified_gmt":"2017-01-23T11:03:57","slug":"prosas-fernando-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/prosas-fernando-pessoa","title":{"rendered":"Prosas &#8211; Fernando Pessoa"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><span style=\"font-size: small;\"><strong> P\u00e1ginas de est\u00e9tica<br \/>\ne de teoria e cr\u00edticas liter\u00e1rias<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">P\u00e1ginas<br \/>\n\u00cdntimas e de Auto-Interpreta\u00e7\u00e3o<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#3\"><strong><span style=\"font-size: small;\">Pessoa e o Fado: um depoimento<br \/>\nde 1929<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>P\u00e1ginas de est\u00e9tica e de teoria e cr\u00edticas<br \/>\nliter\u00e1rias<\/h2>\n<h2>I &#8211; Aforismos e Fragmentos sobre a Arte<\/h2>\n<p>1<\/p>\n<p>[ms.] [1914?]<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 a Arte \u00e9 \u00fatil. Cren\u00e7as, ex\u00e9rcitos,<br \/>\nimp\u00e9rios, atitudes &#8211; tudo isso passa. S\u00f3 a arte fica, por isso<br \/>\ns\u00f3 a arte v\u00ea-se, porque dura.<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>[ms.] [1925?]<\/p>\n<p>O valor essencial da arte est\u00e1 em ela ser o ind\u00edcio da passagem<br \/>\ndo homem no mundo, o resumo da sua experi\u00eancia emotiva dele; e, como<br \/>\n\u00e9 pela emo\u00e7\u00e3o, e pelo pensamento que a emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nprovoca, que o homem mais realmente vive na terra, a sua verdadeira experi\u00eancia,<br \/>\nregista-a ele nos fastos das suas emo\u00e7\u00f5es e n\u00e3o na cr\u00f3nica<br \/>\ndo seu pensamento cientifico, ou nas hist\u00f3rias dos seus regentes e<br \/>\ndos seus donos [?].<\/p>\n<p>Com a ci\u00eancia buscamos compreender o mundo que habitamos, mas para<br \/>\nnos utilizarmos dele; porque o prazer ou \u00e2nsia s\u00f3 da compreens\u00e3o,<br \/>\ntendo de ser gerais, levam \u00e0 metaf\u00edsica, que \u00e9 j\u00e1<br \/>\numa arte.<\/p>\n<p>Deixamos a nossa arte escrita para guia da experi\u00eancia dos vindouros,<br \/>\ne encaminhamento plaus\u00edvel das suas emo\u00e7\u00f5es. \u00c9<br \/>\na arte, e n\u00e3o a hist\u00f3ria, que \u00e9 a mestra da vida.<\/p>\n<p>3<\/p>\n<p>[ms.] [1909?]<\/p>\n<p>A ci\u00eancia descreve as coisas como s\u00e3o; a arte descreve-as como<br \/>\ns\u00e3o sentidas, como se sente que s\u00e3o.<\/p>\n<p>O essencial na arte \u00e9 exprimir; o que se exprime n\u00e3o interessa.<\/p>\n<p>4<\/p>\n<p>[ms.] [1913?]<\/p>\n<p>A arte \u00e9 a auto-express\u00e3o forcejando por ser absoluta.<\/p>\n<p>5<\/p>\n<p>[ms.] [1915?]<\/p>\n<p>O valor de uma obra de arte \u00e9 tanto maior quanto \u00e9 puramente<br \/>\nart\u00edstico o meio de manifestar a ideia.<\/p>\n<p>6<\/p>\n<p>[ms.] [1910?]<\/p>\n<p>H[istory] of a D[ictatorship] (1) ou Est\u00e9tica<\/p>\n<p>A arte \u00e9 apenas e simplesmente a express\u00e3o de uma emo\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUm grito, uma simples carta pertencem um \u00e0 arte de cantar, \u00e0<br \/>\nliteratura a outra, inevit\u00e0velmente.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio gesto \u00e9 art\u00edstico segundo \u00e9 ou n\u00e3o<br \/>\ninterpreta\u00e7\u00e3o de uma emo\u00e7\u00e3o. Porque no gesto h\u00e1<br \/>\no fim do gesto e a express\u00e3o desse fim. Uma cousa reporta-se \u00e0<br \/>\nvontade, a outra \u00e0 emo\u00e7\u00e3o. Eleg\u00e2ncia ou deseleg\u00e2ncia<br \/>\nde um gesto significam conformidade ou n\u00e3o-conformidade com a emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nque exprime. Assim uma est\u00e1tua da dor \u00e9 a fixa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos gestos que mostram a dor &#8211; e ser\u00e1 tanto mais bela quanto mais justa<br \/>\ne exactamente representar por esses gestos a emo\u00e7\u00e3o da dor,<br \/>\nquanto mais adaptados em tudo forem esses gestos ao mostrar essa emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(1) O titulo refere-se ao projecto duma hist\u00f3ria da ditadura de Jo\u00e3o<br \/>\nFranco, de que existem alguns fragmentos no esp\u00f3lio do autor.<\/p>\n<p>7<\/p>\n<p>[ms.] [1915?]<\/p>\n<p>Arte &#8211; Idealiza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Todo o material da arte repousa sobre uma abstrac\u00e7\u00e3o: a escultura,<br \/>\np. ex., desdenha o movimento e a cor; a pintura desdenha a 3 dimens\u00e3o<br \/>\ne o movimento portanto; a m\u00fasica desdenha tudo quanto n\u00e3o seja<br \/>\no som; a poesia baseia-se na palavra, que \u00e9 a abstrac\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuprema, e por ess\u00eancia, porque n\u00e3o conserva nada do mundo exterior,<br \/>\nporque o som &#8211; acess\u00f3rio da palavra &#8211; n\u00e3o tem valor sen\u00e3o<br \/>\nassociado &#8211; por impercebida que seja essa associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A arte, portanto, tendo sempre por base uma abstrac\u00e7\u00e3o da realidade,<br \/>\ntenta reaver a realidade idealizando. Na propor\u00e7\u00e3o da abstrac\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu material est\u00e1 a propor\u00e7\u00e3o em que \u00e9 preciso<br \/>\nidealizar. E a arte em que mais \u00e9 preciso idealizar \u00e9 a maior<br \/>\ndas artes.<\/p>\n<p>8<\/p>\n<p>[ms.] [1930?]<\/p>\n<p>Porque a arte d\u00e1-nos, n\u00e3o a vida com beleza, que, porque \u00e9<br \/>\na vida [var.: concreta], passa, mas a beleza com vida, que, como \u00e9<br \/>\nbeleza [var.: abstracta], n\u00e3o pode perecer.<\/p>\n<p>A cada conceito da vida cabe n\u00e3o s\u00f3 uma metaf\u00edsica,<br \/>\nmas tamb\u00e9m uma moral. O que o metaf\u00edsico n\u00e3o faz porque<br \/>\n\u00e9 falso, e o moralista n\u00e3o faz porque \u00e9 mau, o esteta<br \/>\nn\u00e3o faz porque \u00e9 feio.<\/p>\n<p>9<\/p>\n<p>[ms.] [1913?]<\/p>\n<p>Os desvios ideativos da poesia moderna<\/p>\n<p>Emo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja vaga, pensamento que o seja n\u00e3o<br \/>\nprestam. Os modernos poetas franceses t\u00eam o contr\u00e1rio: s\u00e3o<br \/>\nn\u00edtidos e (&#8230;) na emo\u00e7\u00e3o e vagos, deplor\u00e0velmente<br \/>\nvagos na ideia.<\/p>\n<p>Uma obra liter\u00e1ria procura sentimentos que t\u00eam que ver com:<br \/>\na ideia, a emo\u00e7\u00e3o, a imagina\u00e7\u00e3o (que vem a ser<br \/>\numa combina\u00e7\u00e3o inteira de ideia e emo\u00e7\u00e3o). A ideia<br \/>\ndeve ser n\u00edtida, a emo\u00e7\u00e3o vaga, a imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo \u00e9 composta essencialmente de ambos, ao mesmo tempo vaga e n\u00edtida.<br \/>\n&#8211; A arte deve dirigir-se a estas 3 faculdades, que n\u00e3o a uma ou duas<br \/>\ndelas isoladamente.<\/p>\n<p>10<\/p>\n<p>[ms.] [1916?]<\/p>\n<p>Se a obra de arte proviesse da inten\u00e7\u00e3o de faz\u00ea-la, podia<br \/>\nser produto da vontade. Como n\u00e3o prov\u00e9m, s\u00f3 pode ser,<br \/>\nessencialmente, produto do instinto; pois que instinto e vontade s\u00e3o<br \/>\nas \u00fanicas duas qualidades que operam.<\/p>\n<p>A obra de arte \u00e9, portanto, uma produ\u00e7\u00e3o do instinto.<br \/>\nO drama, sendo prim\u00e0riamente uma obra de arte, \u00e9-o tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>11<\/p>\n<p>[dact.] [1925?]<\/p>\n<p>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Est\u00e9tica<\/p>\n<p>Exigir de sensibilidades como as nossas, sobre que pesam, por heran\u00e7a,<br \/>\ntantos s\u00e9culos de tantas cousas, que sintam e portanto se exprimam<br \/>\ncom a limpidez, e a inoc\u00eancia de sentidos, de Safo ou de Anacreonte,<br \/>\nnem \u00e9 leg\u00edtimo, nem razo\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 no<br \/>\nconte\u00fado da sensibilidade que est\u00e1 a arte, ou a falta dela:<br \/>\n\u00e9 no uso que se faz desse conte\u00fado.<\/p>\n<p>Distinguiremos na arte, como em tudo, um elemento material, e um formal.<br \/>\nA mat\u00e9ria da arte, d\u00e1-a a sensibilidade, a forma, dirige-a a<br \/>\nintelig\u00eancia. E na forma h\u00e1, ainda, duas partes a considerar:<br \/>\na forma concreta ou material, que se prende com a mat\u00e9ria mesma da<br \/>\nobra, e a forma abstracta ou imaterial, que se prende s\u00f3 com a intelig\u00eancia<br \/>\ne depende de suas leis imut\u00e1veis.<\/p>\n<p>Tr\u00eas s\u00e3o as leis da forma abstracta, e, como s\u00e3o da forma<br \/>\nabstracta, aplicam-se a todas as artes e a todas as formas de cada arte. Abdicar<br \/>\ndelas \u00e9 abdicar da mesma arte. Podemos eleger quebrar tais leis; n\u00e3o<br \/>\npodemos, por\u00e9m, elegendo-o, presumir que fazemos arte, pois a arte<br \/>\nconsiste, mais que em qualquer outra cousa, na obedi\u00eancia a essas leis.<br \/>\nAs tr\u00eas leis da forma abstracta s\u00e3o: a unidade; a universalidade<br \/>\nou objectividade; e (&#8230;).<\/p>\n<p>Por unidade se entende que a obra de arte h\u00e1-de produzir uma impress\u00e3o<br \/>\ntotal definida, e que cada seu elemento deve contribuir para a produ\u00e7\u00e3o<br \/>\ndessa impress\u00e3o; n\u00e3o havendo nela nem elemento que n\u00e3o<br \/>\nsirva para esse fim, nem falta de elemento que possa servir para esse fim.<br \/>\n\u00c9 uma falha art\u00edstica, por exempla, a introdu\u00e7\u00e3o<br \/>\nem um poema de um trecho, por belo que seja, que n\u00e3o tenha rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nnecess\u00e1ria com o conjunto do poema, como o \u00e9, mais palp\u00e0velmente,<br \/>\na introdu\u00e7\u00e3o em um drama de uma cena em que, por grande que<br \/>\nseja a for\u00e7a ou a gra\u00e7a pr\u00f3pria, a ac\u00e7\u00e3o<br \/>\np\u00e1ra ou n\u00e3o progride, ou, o que \u00e9 pior, se atrasa.<\/p>\n<p>Por universalidade, ou objectividade, se entende que a obra de arte h\u00e1-de<br \/>\nser imediatamente compreens\u00edvel a quem tenha o n\u00edvel mental<br \/>\nnecess\u00e1rio para poder compreend\u00ea-la.<\/p>\n<p>Quanto mais altamente intelectual for uma obra de arte, maior ser\u00e1,<br \/>\nem princ\u00edpio, a sua universalidade, pois que a intelig\u00eancia abstracta<br \/>\n\u00e9 a mesma em todos os tempos e em todos os lugares &#8211; dada a esp\u00e9cie<br \/>\nhumana no n\u00edvel de t\u00ea-la -, enquanto a sensibilidade varia de<br \/>\ntempo para tempo e de lugar para lugar.<\/p>\n<p>Cumpre esclarecer este ponto. A obra de arte procede de uma impress\u00e3o<br \/>\nou emo\u00e7\u00e3o do artista que a constr\u00f3i, impress\u00e3o<br \/>\nou emo\u00e7\u00e3o que, como tal, \u00e9 pr\u00f3pria e intransmiss\u00edvel.<br \/>\nSe o valor dessa emo\u00e7\u00e3o, para quem a sente, \u00e9 o ser pr\u00f3pria,<br \/>\ndeve gozar-se simplesmente, e n\u00e3o exprimir-se. Se o valor dela, por\u00e9m,<br \/>\n\u00e9 mais alguma cousa, (&#8230;).<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s sentimos a dor e o del\u00edrio do Rei Lear de Shakespeare;<br \/>\nesse del\u00edrio, contudo, \u00e9, diagnostic\u00e0velmente, o da dem\u00eancia<br \/>\nsenil, de que n\u00e3o podemos ter experi\u00eancia, pois quem cai em dem\u00eancia<br \/>\nsenil nem pode perceber Shakespeare, nem qualquer outra causa. Porque \u00e9,<br \/>\nent\u00e3o, que, sendo esse del\u00edrio t\u00e3o caracterizadamente<br \/>\no do demente senil, o sentimos tanto n\u00f3s, que n\u00e3o temos conhecimento<br \/>\ndesse del\u00edrio? Porque Shakespeare p\u00f4s nesse del\u00edrio s\u00f3<br \/>\naquela parte que nele \u00e9 humano, e afastou a que nele seria, ou particular<br \/>\ndo indiv\u00edduo Lear, ou especial do demente senil. Todo o processo m\u00f3rbido<br \/>\nenvolve essencialmente ou um excesso, ou um abatimento, de fun\u00e7\u00e3o;<br \/>\nou uma hipertrofia, ou uma atrofia, de \u00f3rg\u00e3o. O desvio, que<br \/>\nconstitui a doen\u00e7a, est\u00e1 na dist\u00e2ncia a que fica o excesso,<br \/>\nou o abatimento, do n\u00edvel da fun\u00e7\u00e3o normal; na dessemelhan\u00e7a<br \/>\nque se estabelece entre o \u00f3rg\u00e3o hipertrofiado, ou atrofiado,<br \/>\ne o \u00f3rg\u00e3o s\u00e3o. Assim a doen\u00e7a \u00e9, ao mesmo<br \/>\ntempo, e no mesmo acto, um excesso ou abatimento do normal, e um desvio (ou<br \/>\ndiferen\u00e7a) desse normal. Se, apresentando um caso de doen\u00e7a<br \/>\nmental, o apresentarmos pelo lado em que \u00e9 excesso ou abatimento da<br \/>\nfun\u00e7\u00e3o normal, com isso mesmo o apresentamos como liga\u00e7\u00e3o<br \/>\na essa fun\u00e7\u00e3o, e compreens\u00edvel para quem a tenha; se,<br \/>\npor\u00e9m, o apresentarmos pelo lado em que \u00e9 desvio ou diferen\u00e7a,<br \/>\ncom isso mesmo o apresentamos como desligado ou separado dessa fun\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne incompreens\u00edvel, portanto, a quem n\u00e3o esteja no mesmo caso<br \/>\nm\u00f3rbido, o que ser\u00e1 pouca gente, sen\u00e3o pouqu\u00edssima.<br \/>\nAs duas maneiras s\u00e3o compar\u00e1veis \u00e0 maneira racional,<br \/>\ne \u00e0 dogm\u00e1tica ou afor\u00edstica, de apresentar uma conclus\u00e3o:<br \/>\no raciocinador leva o ouvinte ou lente at\u00e9 \u00e0 conclus\u00e3o<br \/>\npor um processo gradual, e ainda que a conclus\u00e3o seja estranha ou paradoxal,<br \/>\ntorna-se em certo modo aceit\u00e1vel por se tornar compreens\u00edvel<br \/>\ncomo se chegou at\u00e9 ela; o dogm\u00e1tico p\u00f5e a conclus\u00e3o<br \/>\nsem explicar como chegou a ela, e sucede, como se n\u00e3o v\u00ea rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre o ponto de partida e o de chegada, que s\u00f3 quem tenha feito o<br \/>\nracioc\u00ednio necess\u00e1rio, ou quem aceite a conclus\u00e3o sem<br \/>\nracioc\u00ednio, pode convir nessa conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo que se passa numa mente humana de algum modo an\u00e1logo se passou<br \/>\nj\u00e1 em toda outra mente humana. O que compete, pois, ao artista que<br \/>\nquer exprimir determinado sentimento, por ex., \u00e9 extrair desse sentimento<br \/>\naquilo que ele tenha de comum com os sentimentos an\u00e1logos dos outros<br \/>\nhomens, e n\u00e3o o que tenha de pessoal, de particular, de diferente desses<br \/>\nsentimentos.<\/p>\n<p>A obra de arte, ou qualquer seu elemento, deve produzir uma impress\u00e3o,<br \/>\ne uma s\u00f3; deve ter um sentido, e s\u00f3 um; seja sugestivo o processo,<br \/>\nou expl\u00edcito. Isto se v\u00ea claramente no emprego do ep\u00edteto<br \/>\nem literatura. Muito se tem bradado contra o emprego de adjectivos estranhos,<br \/>\nou juntos a substantivos com os quais n\u00e3o parecem poder ligar-se. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1, por\u00e9m, adjectivos estranhos, nem \u00e9 poss\u00edvel<br \/>\nconstruir uma frase a que se n\u00e3o possa atribuir um sentido qualquer.<br \/>\nO que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 que esse \u00absentido qualquer\u00bb<br \/>\nseja s\u00f3 um, e n\u00e3o possivelmente um de v\u00e1rios. \u00c9squilo,<br \/>\nnuma frase c\u00e9lebre, refere-se ao \u00abriso in\u00famero das ondas\u00bb;<br \/>\no ep\u00edteto \u00e9 daqueles a que \u00e9 uso chamar ousados, pois<br \/>\nque tudo \u00e9 ousado para quem a nada se atreve. Toda a gente, por\u00e9m,<br \/>\ncompreende a frase, nem lhe \u00e9 atribu\u00edvel mais que um sentido.<br \/>\nH\u00e1, por\u00e9m, uma poetisa francesa que deu a um seu livro o t\u00edtulo,<br \/>\nmimado desta frase, de O Cora\u00e7\u00e3o in\u00famero, frase esta<br \/>\nque pode ter v\u00e1rios sentidos, por\u00e9m que n\u00e3o \u00e9<br \/>\ncerto que tenha este ou aquele. A \u00abousadia\u00bb do ep\u00edteto<br \/>\n\u00e9 igual no grego e na francesa; uma, por\u00e9m, \u00e9 a ousadia<br \/>\nda intelig\u00eancia, a outra a do capricho.<\/p>\n<p>Pode ser, no caso de um ep\u00edteto desta \u00faltima ordem, que a sensibilidade<br \/>\nde v\u00e1rias pessoas convenha na mesma interpreta\u00e7\u00e3o, e,<br \/>\nainda, que essa interpreta\u00e7\u00e3o seja &#8211; o que tamb\u00e9m poderia<br \/>\nn\u00e3o acontecer &#8211; aquela mesma que lhe o autor deu. Como, por\u00e9m,<br \/>\na sensibilidade \u00e9 passageira e local, local e passageira \u00e9 tamb\u00e9m<br \/>\na interpreta\u00e7\u00e3o que dela procede.<\/p>\n<p>Estas considera\u00e7\u00f5es t\u00eam que ser interpretadas em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0s diversas artes, diversamente para cada uma, conforme sua mat\u00e9ria<br \/>\ne fim. Aquele trecho musical cuja frescura e alegria me d\u00e1 a mim a<br \/>\nimpress\u00e3o de madrugada, pode dar a outro a impress\u00e3o de Primavera.<br \/>\nComo, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da m\u00fasica<br \/>\ndefinir as cousas, sen\u00e3o a emo\u00e7\u00e3o que geram, o trecho<br \/>\nproduziu, em verdade, a mesma impress\u00e3o em mim e no outro, pois ambos<br \/>\nsentimos nele frescura e alegria; o lembrar-me essa frescura a madrugada,<br \/>\ne a outro a Primavera, \u00e9 apenas a tradu\u00e7\u00e3o pessoal que<br \/>\ncada um de n\u00f3s faz da sensa\u00e7\u00e3o que recebeu, pois a sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nabstracta de alegria e de frescura \u00e9 comum \u00e0 madrugada e \u00e0<br \/>\nPrimavera. A um terceiro esse mesmo trecho poderia evocar, por exemplo, certa<br \/>\ncena de amor, ou certa paisagem, sem que em alguma cousa sa\u00edsse do<br \/>\nseu fim pr\u00f3prio, logo que a essa cena de amor e a essa paisagem estejam<br \/>\nnele ligadas as ideias de frescura e alegria. Do mesmo modo a frase de \u00c9squilo<br \/>\n\u00abriso in\u00famero das ondas\u00bb n\u00e3o \u00e9 diversa em<br \/>\nmim e num veneziano por em mim evocar o Atl\u00e2ntico e nele o Adri\u00e1tico.<\/p>\n<p>14<\/p>\n<p>[dact.] [1916?]<\/p>\n<p>Regresso dos Deuses: Est\u00e9tica (1)<\/p>\n<p>Mas o crit\u00e9rio de perspicuidade n\u00e3o limitar\u00e1 demasiado<br \/>\na arte? N\u00e3o limita, se atendermos a um ponto importante, que \u00e9<br \/>\nque h\u00e1 v\u00e1rias artes, cada uma das quais corresponde a um g\u00e9nero<br \/>\nde perspicuidade. Certos sentimentos vagos e pensamentos nebulosos, que s\u00e3o<br \/>\nnaturais a todos os homens, encontram a sua express\u00e3o em a m\u00fasica.<\/p>\n<p>O crit\u00e9rio de perspicuidade \u00e9, por\u00e9m, derivado na arte<br \/>\nhel\u00e9nica. O grego amava a perspicuidade porque amava a generalidade,<br \/>\na universalidade e a distin\u00e7\u00e3o das artes. Ora, era dif\u00edcil<br \/>\nque uma ideia vaga pudesse ser geral, universal, e caber na arte liter\u00e1ria<br \/>\nou scultural, por muito bem que estivesse em a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Semelhantemente, n\u00e3o \u00e9 a sobriedade um caracter\u00edstico<br \/>\nessencial na est\u00e9tica pag\u00e3, sen\u00e3o tamb\u00e9m um corol\u00e1rio<br \/>\ndela. A arte \u00e9 o aperfei\u00e7oamento do mundo exterior. Ora este<br \/>\naperfei\u00e7oamento (da Realidade) pode fazer-se de tr\u00eas maneiras:<br \/>\npela altera\u00e7\u00e3o do mundo exterior, (&#8230;).<\/p>\n<p>(1) Nos dois fragmentos seguintes respeitamos tra\u00e7os t\u00edpicos<br \/>\nda ortografia de Ricardo R\u00e9is, autor suposto do ensaio Regresso dos<br \/>\nDeuses (cf. P\u00e1ginas intimas e de auto-interpreta\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>15<\/p>\n<p>[dact.] [1916?]<\/p>\n<p>Regresso dos Deuses: Est\u00e9tica<\/p>\n<p>Objectar-se-\u00e1, sem d\u00favida, que, havendo sentimentos que s\u00e3o<br \/>\nvagos, sentimentos que s\u00e3o confusos, impulsos do \u00e2nimo (sp\u00edrito)<br \/>\nque, de confundidos com outros, se nos n\u00e3o apresentam claros, \u00e9<br \/>\nabusivo exigir do artista que os delineie como n\u00edtidos, como qualquer<br \/>\ncousa que eles n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>A resposta a esta observa\u00e7\u00e3o st\u00e1 na pergunta, se esses<br \/>\nstados do \u00e2nimo s\u00e3o legitimamente represent\u00e1veis em arte?<br \/>\nO artista subjectivo parte do princ\u00edpio que o fim da sua arte \u00e9<br \/>\nexprimir as suas pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es. Crit\u00e9rio \u00e9<br \/>\nesse que o artista objectivo n\u00e3o aceita, e com raz\u00e3o absoluta<br \/>\no n\u00e3o aceita, porque a arte objectiva \u00e9 que \u00e9 a arte,<br \/>\npor isso que \u00e9 uma cousa realizada, que passa para fora do artista,<br \/>\ne n\u00e3o fica nele, como a emo\u00e7\u00e3o que a produz.<\/p>\n<p>De feito, perguntemos, porque \u00e9 um pensamento confuso, porque \u00e9<br \/>\num sentimento vago, por que raz\u00e3o n\u00e3o se apresenta n\u00edtido<br \/>\num impulso volitivo? Para todos a raz\u00e3o \u00e9 uma: \u00e9 que<br \/>\no pensamento se n\u00e3o p\u00f4s em contacto com a realidade, \u00e9<br \/>\nque o sentimento se n\u00e3o comparou com a sua realiza\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e9 que a vontade se n\u00e3o mediu com o exterior.<\/p>\n<p>Uma obra de arte \u00e9 um objecto exterior; obedece portanto \u00e0s<br \/>\nleis a que st\u00e3o subordinados os objectos exteriores, no que objectos<br \/>\nexteriores.<\/p>\n<p>O artista n\u00e3o exprime as suas emo\u00e7\u00f5es. O seu mister<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 esse. Exprime, das suas emo\u00e7\u00f5es, aquelas<br \/>\nque s\u00e3o comuns aos outros homens. Falando paradoxalmente, exprime apenas<br \/>\naquelas suas emo\u00e7\u00f5es que s\u00e3o dos outros. Com as emo\u00e7\u00f5es<br \/>\nque lhe s\u00e3o pr\u00f3prias, a humanidade n\u00e3o tem nada. Se um<br \/>\nerro da minha vis\u00e3o me faz ver azul a cor das folhas, que interesse<br \/>\nh\u00e1 em comunicar isso aos outros? Para que eles vejam azul a cor das<br \/>\nfolhas? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, porque \u00e9 falso. Para que<br \/>\neles saibam que eu vejo azuis as folhas? N\u00e3o \u00e9 preciso porque<br \/>\nn\u00e3o tem import\u00e2ncia nenhuma. O mais que o fen\u00f3meno \u00e9<br \/>\ncurioso, e o curioso \u00e9 senti-lo; senti-lo sinto-o eu, n\u00e3o os<br \/>\noutros. O que h\u00e1 de realmente est\u00e9tico, pois, nas sensa\u00e7\u00f5es<br \/>\nestranhas \u00e9 que cada um as guarde para si, gozando-as em sil\u00eancio,<br \/>\nse para tal lhe d\u00e1 o gozo.<\/p>\n<p>Assim, o primeiro princ\u00edpio da arte \u00e9 a generalidade. A sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nexpressa pelo artista deve ser tal que possa ser sentida por todos os homens<br \/>\npor quem possa ser compreendida.<\/p>\n<p>O segundo princ\u00edpio da arte \u00e9 a universalidade. O artista deve<br \/>\nexprimir, n\u00e3o s\u00f3 o que \u00e9 de todos os homens, mas tamb\u00e9m<br \/>\no que \u00e9 de todos os tempos. O subjectivismo cristista, al\u00e9m<br \/>\ndo erro pessoalista, produziu essoutro erro, a preocupa\u00e7\u00e3o de<br \/>\ninterpretar a \u00e9poca. A frase de Goethe, bastas vezes citada sobre o<br \/>\nassunto, \u00e9 de mestre; com efeito, um homem de g\u00e9nio \u00e9<br \/>\nda sua \u00e9poca s\u00f3 pelos seus defeitos. A nossa \u00e9poca deduz-nos<br \/>\nda humanidade. Como o artista deve procurar erguer-se acima da sua personalidade,<br \/>\ndeve procurar levantar-se fora da sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>O terceiro princ\u00edpio da arte \u00e9, finalmente, a limita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIsto \u00e9, a cada arte. corresponde um modo de express\u00e3o, sendo<br \/>\no da m\u00fasica diferente do da literatura, e o da literatura diverso do<br \/>\nda escultura, este do da pintura, e assim com todas as artes. Erro crasso,<br \/>\nmas recentemente vulgar, \u00e9 o de confundir os limites das artes., Foi<br \/>\ncometido por uma \u00e9poca t\u00e3o aparentemente ortodoxa como o s\u00e9culo<br \/>\ndezassete dos franceses. Os poetas como Corneille e Racine aplicaram \u00e0<br \/>\npoesia a secura de express\u00e3o, a nitidez de racioc\u00ednio, que s\u00e3o<br \/>\ncaracter\u00edsticas da prosa. Racine, errou como errou Mallarm\u00e9.<br \/>\nPor um errar por fazer da poesia prosa, e outro por fazer da poesia m\u00fasica,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 menor o erro de um do que o de outro.<\/p>\n<p>Para os sentimentos vagos, que n\u00e3o comportam defini\u00e7\u00e3o,<br \/>\nexiste uma arte &#8211; a m\u00fasica, cujo fim \u00e9 sugerir sem determinar.<br \/>\nPara os sentimentos perfeitamente definidos, de tal modo que \u00e9 dif\u00edcil<br \/>\na emo\u00e7\u00e3o neles, existe a prosa. Para os sentimentos que s\u00e3o<br \/>\nharmoniosos e fluidos, existe a poesia. Em uma \u00e9poca s\u00e3 e robusta,<br \/>\num Verlaine ou um Mallarm\u00e9 escreveriam a m\u00fasica que nasceram<br \/>\npara escrever. N\u00e3o teriam tido nunca a tend\u00eancia para dizer em<br \/>\npalavras aquilo que a palavra n\u00e3o comporta. Pergunto ao maior entusiasta<br \/>\ndos simbolistas franceses se Mallarm\u00e9 os comoveu tanto como uma melodia<br \/>\nvulgar, se a inexpress\u00e3o de Verlaine chegou alguma vez \u00e0 inexpress\u00e3o<br \/>\nleg\u00edtima de uma valsa simples. N\u00e3o chegou, e se me responderem<br \/>\nque preferem para esse fim Verlaine e Mallarm\u00e9 \u00e0 m\u00fasica,<br \/>\no que me est\u00e3o dizendo \u00e9 que preferem a literatura como m\u00fasica<br \/>\n\u00e0 m\u00fasica. St\u00e3o-me dizendo uma cousa que n\u00e3o tem<br \/>\nsentido fora de lament\u00e1-los.<\/p>\n<h2>II<br \/>\nDa Cr\u00edtica e da Hist\u00f3ria Liter\u00e1ria<\/h2>\n<p>1<\/p>\n<p>[ms.] [1917?]<\/p>\n<p>[Formas de cr\u00edtica est\u00e9tica]<\/p>\n<p>Toda a produ\u00e7\u00e3o humana se pode analisar sob 3 pontos de vista:<br \/>\no do seu valor, o da sua produ\u00e7\u00e3o e o da sua significa\u00e7\u00e3o<br \/>\nhumana. Teremos pois que qualquer produ\u00e7\u00e3o do homem se pode<br \/>\napreciar sob os pontos de vista valorista, psicol\u00f3gico e sociol\u00f3gico.<br \/>\nO que significa perante o que produziu? (cr\u00edtica psicol\u00f3gica).<br \/>\nO que significa na sociedade? (cr\u00edtica sociol\u00f3gica). O que significa<br \/>\nperante o ideal? (cr\u00edtica valorista).<\/p>\n<p>A cr\u00edtica valorista divide-se evidentemente segundo as 3 formas do<br \/>\nideal (verdade, bem, beleza) em cr\u00edtica cient\u00edfica, cr\u00edtica<br \/>\nmoral (ou \u00e9tica) e cr\u00edtica est\u00e9tica.<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>[ms.] [1915?]<\/p>\n<p>Balan\u00e7a de Minerva<\/p>\n<p>Falar \u00e9 o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos. E esse<br \/>\nmodo imoral e hip\u00f3crita de falar a que se chama escrever, mais completamente<br \/>\nnos vela aos outros e \u00e0quela esp\u00e9cie de outros a que a nossa<br \/>\ninconsci\u00eancia chama n\u00f3s-pr\u00f3prios. Por isso, se escrever,<br \/>\nno sentido de escrever para dizer qualquer cousa, \u00e9 acto que tem um<br \/>\ncunho de mentira e de v\u00edcio, criticar as cousas escritas n\u00e3o<br \/>\ndeixa de ter um correspondente aspecto de curiosidade m\u00f3rbida ou de<br \/>\nfutilidade perversa. E, quando a cr\u00edtica \u00e9 escrita tamb\u00e9m,<br \/>\nrequinta-se para repugnante a sua imoralidade essencial. Pega-se-lhe a doen\u00e7a<br \/>\ndo criticado &#8211; o facto de existir escrito.<\/p>\n<p>Pr\u00f2priamente, o \u00fanico cr\u00edtico de arte ou de letras deve<br \/>\nser o psiquiatra; porque, ainda que os psiquiatras sejam t\u00e3o ignorantes<br \/>\ne laterais aos assuntos como todos os outros homens daquilo a que eles chamam<br \/>\nci\u00eancia, t\u00eam ainda assim, perante o que vem a ser um caso de doen\u00e7a<br \/>\nmental, aquela compet\u00eancia que consiste em n\u00f3s julgarmos que<br \/>\neles a t\u00eam. Nenhum edif\u00edcio de sabedoria humana pode erguer-se<br \/>\nsobre outros alicerces.<\/p>\n<p>5<\/p>\n<p>[ms.] [1915?]<\/p>\n<p>Balan\u00e7a de Minerva<\/p>\n<p>Aferi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Destina-se esta sec\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica dos maus livros<br \/>\ne especialmente \u00e0 cr\u00edtica daqueles maus livros que toda a gente<br \/>\nconsidera bons. O livro, consagrado por qualidades que n\u00e3o tem, do<br \/>\nhomem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro daquele<br \/>\nque, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou<br \/>\nno pal\u00e1cio das Musas pela janela ou colheu a ma\u00e7\u00e3 da<br \/>\nsabedoria com o aux\u00edlio dum escadote &#8211; tudo isto se pesar\u00e1 na<br \/>\nBalan\u00e7a de Minerva.<\/p>\n<p>Claro que a raz\u00e3o do t\u00edtulo Balan\u00e7a de Minerva \u00e9<br \/>\na circunst\u00e2ncia de Minerva n\u00e3o ter balan\u00e7a nenhuma. Vagamente<br \/>\nabsurdo, leva este t\u00edtulo em si a defini\u00e7\u00e3o dum modo-de-ver<br \/>\nque escolhe o onde opor-se a todos para ter raz\u00e3o in\u00f9tilmente.<br \/>\nA consci\u00eancia do esfor\u00e7o in\u00fatil e do trabalho perdido<br \/>\nainda \u00e9 uma das grandes emo\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas que<br \/>\nrestam a quem se preocupa com as cousas que ainda restam.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica, de resto, \u00e9 apenas a forma suprema e art\u00edstica<br \/>\nda maledic\u00eancia. \u00c9 prefer\u00edvel que seja justa, mas n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 absolutamente necess\u00e1rio que o seja. A injusti\u00e7a, ali\u00e1s,<br \/>\n\u00e9 a justi\u00e7a dos fortes. No fundo isto \u00e9 tudo bondade.<br \/>\nDizer mal dum livro \u00e9 o \u00fanico modo de dizer bem dele. Se \u00e9<br \/>\nmau, faz-se justi\u00e7a; se \u00e9 bom p\u00f5e-o na evid\u00eancia<br \/>\nque os livros bons merecem. E, no fim de tudo, nada disto tem import\u00e2ncia,<br \/>\nporque os livros bons leva-os a Hist\u00f3ria ao colo para casa. E quanto<br \/>\naos maus &#8211; criticar \u00e9 apenas abrir-lhes a cova e rezar-lhes em cima<br \/>\nda \u00faltima descida o latim que falava Juvenal. \u00c0s vezes \u00e9<br \/>\ncom sete p\u00f3s de elogios que esta justi\u00e7a mortal melhor se sela.<\/p>\n<p>A justifica\u00e7\u00e3o \u00faltima da cr\u00edtica assim bem entendida<br \/>\n\u00e9 o satisfazer a fun\u00e7\u00e3o natural de desdenhar &#8211; fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o natural como a de comer e que \u00e9 de boa higiene de esp\u00edrito<br \/>\nsatisfazer cuidadosamente. Quem sente vontade de desdenhar n\u00e3o deve<br \/>\natar-se \u00e0 cobardia de julgar isso feio, nem vender-se \u00e0 inf\u00e2mia<br \/>\nde ir desdenhar o que os outros desdenham, abdicando assim da sua individualidade,<br \/>\ngreg\u00e1rio.<\/p>\n<p>As horas passam devagar e pesa em t\u00e9dio a consci\u00eancia delas.<br \/>\nBuscar o conforto no desprezo \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 o nosso dever<br \/>\npara com o desprezo, mas tamb\u00e9m o nosso dever para com n\u00f3s-pr\u00f3prios.<br \/>\nEspetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que<br \/>\naprazam \u00e0 nossa aten\u00e7\u00e3o f\u00f9tilmente concentrada,<br \/>\npara que o nosso t\u00e9dio se v\u00e1 esvaindo &#8211; eis um passatempo deliciosamente<br \/>\nde cr\u00edtico, e ao qual juramos fidelidade.<\/p>\n<p>Traduzindo isto para a met\u00e1fora que d\u00e1 cor a esta sec\u00e7\u00e3o,<br \/>\npretendemos dar a entender que o nosso uso da Balan\u00e7a de Minerva limitar-se-\u00e1,<br \/>\nna maioria dos casos, a dar com ela &#8211; pesos e tudo &#8211; na cabe\u00e7a do criticado.<br \/>\nIsso, de resto, n\u00e3o deve preocupar ningu\u00e9m. Quem tiver de ser<br \/>\nimortal pode s\u00ea-lo mesmo com a cabe\u00e7a partida. O ser imortal<br \/>\n\u00e9 a \u00fanica das preocupa\u00e7\u00f5es anti-sociais que n\u00e3o<br \/>\nfaz mal a ningu\u00e9m. Visto que o futuro raras vezes d\u00e1 por ela,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 demais que o presente algumas vezes d\u00ea nela.<\/p>\n<h2>III<br \/>\nArte e Moral<\/h2>\n<p>1<\/p>\n<p>[ms.] (domingo, 13 de Outubro de 1914?]<\/p>\n<p>A arte suprema tem por fim libertar &#8211; erguer a alma acima de tudo quanto<br \/>\n\u00e9 estreito, acima dos instintos, das preocupa\u00e7\u00f5es morais<br \/>\nou imorais.<\/p>\n<p>A arte nada tem com a moral, quanto ao fim; tem, quanto ao conte\u00fado.<\/p>\n<p>Toda a arte deve dar prazer &#8211; o tipo de prazer \u00e9 que varia. A arte<br \/>\ninferior d\u00e1 prazer porque distrai, liberdade porque liberta das preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nda vida; a arte superior menor d\u00e1 prazer porque alegra, liberdade porque<br \/>\nliberta da imperfei\u00e7\u00e3o da vida; a arte superior d\u00e1 prazer<br \/>\nporque liberta, liberdade porque liberta da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Um assunto sexual deve ser tratado em arte de modo que n\u00e3o suscite<br \/>\ndesejo. Para suscitar desejos, serve melhor uma fotografia pornogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>[ms.] [1916?]<\/p>\n<p>As artes<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es entre a arte e a moral s\u00e3o an\u00e1logas<br \/>\n\u00e0s entre a arte e a ci\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre a arte e a moral, como a n\u00e3o h\u00e1 entre a arte e a ci\u00eancia;<br \/>\nmas um poema que viola as nossas no\u00e7\u00f5es morais impressiona id\u00eanticamente<br \/>\no homem s\u00e3o como um poema que viola a nossa no\u00e7\u00e3o da<br \/>\nverdade.<\/p>\n<p>Um poeta que canta, elogiando, o roubo, n\u00e3o far\u00e1 com isso um<br \/>\nbom poema; nem o far\u00e1 um poeta moderno a quem lembre cantar o curso<br \/>\ndo sol \u00e1 volta da terra, que \u00e9 uma cousa falsa.<\/p>\n<p>Viola a regra do agrado. Agradar\u00e1 a mais gente um poema que, sobre<br \/>\nser belo, seja moral, que um que, sendo belo, seja imoral. As \u00e9pocas<br \/>\nt\u00eam mais de comum as suas ideias morais que as suas imoralidades. S\u00f3<br \/>\nnas \u00e9pocas de decad\u00eancia \u00e9 que a moralidade deixou de<br \/>\nser um ideal; e, mesmo nessas, reconhece-se o seu valor ideal.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o entre o artista e o moralista, n\u00e3o<br \/>\nentre a arte e a moral. Como \u00e9 improv\u00e1vel que um grande artista,<br \/>\npor isso mesmo que \u00e9 um grande artista, falseie a verdade, \u00e9<br \/>\nimprov\u00e1vel que falseie a moral. N\u00e3o pertence esse caracter\u00edstico<br \/>\naos de um c\u00e9rebro t\u00edpico de criador.<\/p>\n<p>O criador de arte para influenciar tem, em geral, como motivo o interesse<br \/>\nde influenciar; ao qual falha se cria obra com elementos que tendem a limitar<br \/>\na ac\u00e7\u00e3o da obra.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia moral \u00e9 reconhecida pela esp\u00e9cie [?] humana<br \/>\ncomo superior \u00e0 realidade [?] imoral. O poeta imoral corre portanto,<br \/>\nna propor\u00e7\u00e3o em que \u00e9 imoral, o risco de n\u00e3o influenciar<br \/>\nos esp\u00edritos superiores (quando n\u00e3o da sua \u00e9poca, porventura<br \/>\ndecadente), das outras \u00e9pocas pelo menos.<\/p>\n<p>[ms.] [1914?]<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da arte moral ou imoral &#8211; se a arte deve ser \u00abart<br \/>\nfor art&#8217;s sake\u00bb, independentemente da moralidade -, apesar de muito<br \/>\nsimples de solu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem deixado de ocupar desagrad\u00e0velmente<br \/>\nmuito pensador, especialmente dos que desejam provar que a arte deve ser moral.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar d\u00eamos inteira raz\u00e3o &#8211; \u00e9 evidente que<br \/>\na t\u00eam &#8211; aos estetas; a arte tem, em si, por fim s\u00f3 a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nde beleza, \u00e0 parte considera\u00e7\u00f5es de ser moral ou n\u00e3o.<br \/>\nSe isto \u00e9 assim, quem manda pois \u00e0 arte ser moral? A resposta<br \/>\n\u00e9 simples: a moral. Manda-o a moral porque a moral deve reger todos<br \/>\nos actos da nossa vida e a arte \u00e9 uma forma da nossa vida. T\u00eam<br \/>\nerrado aqueles que t\u00eam querido achar uma raz\u00e3o, dentro da pr\u00f3pria<br \/>\nnatureza da arte, para a arte ser moral. N\u00e3o existe essa raz\u00e3o<br \/>\nonde a procuraram. A arte, qu\u00e2 arte, tem por fim apenas a beleza. A<br \/>\nraz\u00e3o que a manda ser moral existe na moral, que \u00e9 exterior<br \/>\n\u00e0 est\u00e9tica; existe na natureza humana.<\/p>\n<p>A arte tem duas fei\u00e7\u00f5es: a fei\u00e7\u00e3o puramente art\u00edstica<br \/>\ne a fei\u00e7\u00e3o social. A fei\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u00e9<br \/>\ncriar a beleza &#8211; nada mais. Como a beleza \u00e9 uma cousa independente<br \/>\ndo consenso humano (apesar de julgada por ele), como a beleza em si, digamos,<br \/>\n\u00e9 independente de opini\u00f5es, a arte na sua (&#8230;) social nenhum<br \/>\noutro fim tem que a cria\u00e7\u00e3o da beleza, sem outra considera\u00e7\u00e3o<br \/>\nmoral ou intelectual.<\/p>\n<p>Mas a arte tem outra fei\u00e7\u00e3o. \u00c9 a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial. O artista \u00e9 um homem e um artista. Puramente artista a sua<br \/>\nobra, j\u00e1 o dissemos, tem s\u00f3 por fim criar a beleza, s\u00f3<br \/>\numa responsabilidade &#8211; perante a Est\u00e9tica. Mas o artista vive em sociedade,<br \/>\npublica as suas obras de arte. Vive em sociedade como artista e vive em sociedade<br \/>\ncomo homem. Como artista o seu fim \u00e9 um s\u00f3: agradar. Como homem<br \/>\no seu fim \u00e9 um s\u00f3: obter gl\u00f3ria. Vemos pois que o artista<br \/>\nmostra-se-nos sob 3 fei\u00e7\u00f5es: como puramente artista (n\u00e3o<br \/>\ntendo outro fim que criar a beleza), como ao mesmo tempo artista e homem (querendo<br \/>\nver essa beleza que criou admirada), e finalmente como homem (desejando a<br \/>\ngl\u00f3ria, no que \u00e9 comum aos outros homens, geralmente a todos).<br \/>\nO primeiro sentimento \u00e9 puramente impessoal; o segundo \u00e9 entre<br \/>\npessoal e impessoal &#8211; o desejar ver admirada uma obra de arte, conquanto sua,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 inteiramente ego\u00edsta; o terceiro \u00e9 inteiramente<br \/>\npessoal.<\/p>\n<p>Cremos ter dado, nestas palavras, a solu\u00e7\u00e3o definitiva do problema.<\/p>\n<p>Ora, segundo estas 3 fei\u00e7\u00f5es do artista, est\u00e1 ele submetido<br \/>\na diversas leis. Como puramente artista nenhuma outra lei tem que n\u00e3o<br \/>\nseguir a est\u00e9tica. Mas j\u00e1 buscando agradar se tem que submeter<br \/>\na outras leis; a natureza da humanidade \u00e9 uma s\u00f3, n\u00e3o<br \/>\nse divide em est\u00e9tica, moral, intelectual, etc. S\u00f3 a Est\u00e9tica<br \/>\npersonalizada \u00e9 que poderia apreciar uma obra de arte sob o ponto de<br \/>\nvista puramente est\u00e9tico. A humanidade n\u00e3o; o amor da beleza<br \/>\n\u00e9 fundamental na sua alma &#8211; \u00e9 arte; mas n\u00e3o s\u00f3<br \/>\nisso reside nela, n\u00e3o s\u00f3 com isso critica e aprecia. Outros<br \/>\nelementos entram inevit\u00e0velmente nessa aprecia\u00e7\u00e3o. Um<br \/>\ngrande poema revolucion\u00e1rio agradar\u00e1 mais a um republicano do<br \/>\nque a um conservador, admitindo em ambos, quanto a qualidades cr\u00edticas,<br \/>\na mesma dose de est\u00e9tica.<\/p>\n<p>Os homens n\u00e3o apreciam s\u00f3 est\u00e8ticamente, apreciam segundo<br \/>\ntoda a sua constitui\u00e7\u00e3o moral. Por isso cousas grosseiras, impuras,<br \/>\nlhes desagradam, n\u00e3o na parte est\u00e9tica neles, mas na parte moral<br \/>\nque n\u00e3o podem mandar embora de si.<\/p>\n<h2>IV<br \/>\nSobre a Poesia<\/h2>\n<p>1<\/p>\n<p>[dact.] [1930?]<\/p>\n<p>[Os graus da poesia l\u00edrica]<\/p>\n<p>O primeiro grau da poesia l\u00edrica \u00e9 aquele em que o poeta, de<br \/>\ntemperamento intenso e emotivo, exprime espont\u00e2nea ou reflectidamente<br \/>\nesse temperamento e essas emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 o tipo mais vulgar<br \/>\ndo poeta l\u00edrico; \u00e9 tamb\u00e9m o de menos m\u00e9rito, como<br \/>\ntipo. A intensidade da emo\u00e7\u00e3o procede, em geral, da unidade<br \/>\ndo temperamento; e assim este tipo de poeta l\u00edrico \u00e9 em geral<br \/>\nmonoc\u00f3rdio, e os seus poemas giram em torno de determinado n\u00famero,<br \/>\nem geral pequeno, de emo\u00e7\u00f5es. Por isso, neste g\u00e9nero<br \/>\nde poetas, \u00e9 vulgar dizer-se, porque com raz\u00e3o se nota, que<br \/>\num \u00e9 \u00abum poeta do amar\u00bb, outro \u00abum poeta da saudade\u00bb,<br \/>\num terceiro \u00abum poeta da tristeza\u00bb.<\/p>\n<p>O segundo grau da poesia l\u00edrica \u00e9 aquele em que o poeta, por<br \/>\nmais intelectual ou imaginativo, pode ser mesmo que s\u00f3 por mais culto,<br \/>\nn\u00e3o tem j\u00e1 a simplicidade de emo\u00e7\u00f5es, ou a limita\u00e7\u00e3o<br \/>\ndelas, que distingue o poeta do primeiro grau. Este ser\u00e1 tamb\u00e9m<br \/>\ntipicamente um poeta l\u00edrico, no sentido vulgar do termo, mas j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o ser\u00e1 um poeta monoc\u00f3rdio. Os seus poemas abranger\u00e3o<br \/>\nassuntos diversos, unificando-os todavia o temperamento e o estilo. Sendo<br \/>\nvariado nos tipos de emo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o ser\u00e1 na maneira<br \/>\nde sentir. Assim um Swinburne, t\u00e3o monoc\u00f3rdio no temperamento<br \/>\ne no estilo, pode contudo escrever com igual relevo um poema de amor, uma<br \/>\nelegia m\u00f3rbida, um poema revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>O terceiro grau da poesia l\u00edrica \u00e9 aquele em que o poeta, ainda<br \/>\nmais intelectual, come\u00e7a a despersonalizar-se, a sentir, n\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 porque sente, mas porque pensa que sente; a sentir estados de alma<br \/>\nque realmente n\u00e3o tem, simplesmente porque os compreende. Estamos na<br \/>\nantec\u00e2mara da poesia dram\u00e1tica, na sua ess\u00eancia \u00edntima.<br \/>\nO temperamento do poeta, seja qual for, est\u00e1 dissolvido pela intelig\u00eancia.<br \/>\nA sua obra ser\u00e1 unificada s\u00f3 pelo estilo, \u00faltimo reduto<br \/>\nda sua unidade espiritual, da sua coexist\u00eancia consigo mesmo. Assim<br \/>\n\u00e9 Tennyson, escrevendo por igual Ulysses e The Lady of Shalott, assim,<br \/>\ne mais, \u00e9 Browning, escrevendo o que chamou \u00abpoemas dram\u00e1ticos\u00bb,<br \/>\nque n\u00e3o s\u00e3o dialogados, mas mon\u00f3logos revelando almas<br \/>\ndiversas, com que o poeta n\u00e3o tem identidade, n\u00e3o a pretende<br \/>\nter e muitas vezes n\u00e3o a quer ter.<\/p>\n<p>O quarto grau da poesia l\u00edrica \u00e9 aquele, muito mais raro, em<br \/>\nque o poeta, mais intelectual ainda mas igualmente imaginativo, entra em plena<br \/>\ndespersonaliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 sente, mas vive, os<br \/>\nestados de alma que n\u00e3o tem directamente. Em grande n\u00famero de<br \/>\ncasos, cair\u00e1 na poesia dram\u00e1tica, propriamente dita, como fez<br \/>\nShakespeare, poeta substancialmente l\u00edrico erguido a dram\u00e1tico<br \/>\npelo espantoso grau de despersonaliza\u00e7\u00e3o que atingiu. Num ou<br \/>\noutro caso continuar\u00e1 sendo, embora dram\u00e0ticamente, poeta l\u00edrico.<br \/>\n\u00c9 esse o caso de Browning, etc. (ut supra). Nem j\u00e1 o estilo<br \/>\ndefine a unidade do homem: s\u00f3 o que no estilo h\u00e1 de intelectual<br \/>\na denota. Assim \u00e9 em Shakespeare, em quem o relevo inesperado da frase,<br \/>\na subtileza e a complexidade do dizer, s\u00e3o a \u00fanica coisa que<br \/>\naproxima o falar de Hamlet do do Rei Lear, o de Falstaff do de Lady Macbeth.<br \/>\nE assim \u00e9 Browning atrav\u00e9s dos Men and Women e dos Dramatic<br \/>\nPoems.<\/p>\n<p>Suponhamos, por\u00e9m, que o poeta, evitando sempre a poesia dram\u00e1tica,<br \/>\nexternamente tal, avan\u00e7a ainda um passo na escala da despersonaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCertos estados de alma, pensados e n\u00e3o sentidos, sentidos imaginativamente<br \/>\ne por isso vividos, tender\u00e3o a definir para ele uma pessoa fict\u00edcia<br \/>\nque os sentisse sinceramente (&#8230;)<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>[dact.] [Junho de 1930]<\/p>\n<p>[Carta a Adolfo Rocha]<\/p>\n<p>Meu prezado camarada:<\/p>\n<p>Recebi a sua carta que agrade\u00e7o, e vou procurar expor em frases sem<br \/>\nimagens o sentido daquilo que lhe havia escrito. Devo explicar, antes de mais<br \/>\nnada, que, tendo tardado j\u00e1 uns dias em agradecer o seu livro, escrevi<br \/>\numa carta r\u00e1pida, para n\u00e3o demorar mais. Sucede que, quando<br \/>\nescrevo r\u00e0pidamente, isto \u00e9, sem ter tempo de desdobrar em raz\u00f5es<br \/>\no que digo, e concisamente, por escrever r\u00e0pidamente, o que escrevo<br \/>\nassume naturalmente uma forma metaf\u00f3rica, e n\u00e3o l\u00f3gica.<br \/>\nIsto lhe explicar\u00e1 a confus\u00e3o, ou a obscuridade, que necess\u00e0riamente<br \/>\nexistiria na minha carta. O que n\u00e3o havia nela era o dogmatismo que<br \/>\nparece supor que continha. Nunca sou dogm\u00e1tico, porque o n\u00e3o<br \/>\npode ser quem de dia para dia muda de opini\u00e3o, e \u00e9, por temperamento,<br \/>\ninst\u00e1vel e flutuante. Vamos, que consigo o caso n\u00e3o foi grave:<br \/>\nj\u00e1 me sucedeu pior, com um poeta espanhol &#8211; ainda que porventura um<br \/>\npouco por imperfeito conhecimento da l\u00edngua &#8211; o ser o conciso tomado<br \/>\npor seco, e o metaf\u00f3rico por ir\u00f3nico.<\/p>\n<p>Em subst\u00e2ncia, e expondo discursivamente, o ponto de vista que lhe<br \/>\nexpus \u00e9 o seguinte:<\/p>\n<p>1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade;<\/p>\n<p>2) A sensibilidade \u00e9 pessoal e intransmiss\u00edvel;<\/p>\n<p>3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e \u00e9 isso que na arte<br \/>\nbuscamos fazer, temos que decompor a sensa\u00e7\u00e3o, rejeitando nela<br \/>\no que \u00e9 puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser<br \/>\nindividual, \u00e9 todavia suscept\u00edvel de generalidade, portanto,<br \/>\ncompreens\u00edvel, n\u00e3o direi j\u00e1 pela intelig\u00eancia,<br \/>\nmas ao menos pela sensibilidade dos outros.<\/p>\n<p>4) Este trabalho intelectual tem dois tempos: a) a intelectualiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndirecta e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmiss\u00edvel<br \/>\n(\u00e9 isto que vulgarmente se chama \u00abinspira\u00e7\u00e3o\u00bb,<br \/>\nquer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 frase intelectual (prim. vers\u00e3o: tirem da sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\no que n\u00e3o pode ser sens\u00edvel aos outros e ao mesmo tempo, para<br \/>\ncompensar, refor\u00e7am o que lhes pode ser sens\u00edvel); b) a reflex\u00e3o<br \/>\ncr\u00edtica sobre essa intelectualiza\u00e7\u00e3o, que sujeita o produto<br \/>\nart\u00edstico elaborado pela \u00abinspira\u00e7\u00e3o\u00bb a um<br \/>\nprocesso inteiramente objectivo &#8211; constru\u00e7\u00e3o, ou ordem l\u00f3gica,<br \/>\nou simplesmente conceito de escola ou corrente.<\/p>\n<p>5) N\u00e3o h\u00e1 arte intelectual, a n\u00e3o ser, \u00e9 claro,<br \/>\na arte de raciocinar. Simplesmente, do trabalho de intelectualiza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nem cuja opera\u00e7\u00e3o consiste a obra de arte como coisa, n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 pensada, mas feita, resultam dois tipos de artista: a) o inspirado<br \/>\nou espont\u00e2neo, em quem o reflexo cr\u00edtico \u00e9 fraco ou nulo,<br \/>\no que n\u00e3o quer dizer nada quanto ao valor da obra; b) o reflexivo e<br \/>\ncritico, que elabora, por necessidade org\u00e2nica, o j\u00e1 elaborado.<\/p>\n<p>Dir-lhe-ei, e estou certo que concordar\u00e1 comigo, que nada h\u00e1<br \/>\nmais raro neste mundo que um artista espont\u00e2neo &#8211; isto \u00e9, um<br \/>\nhomem que intelectualiza a sua sensibilidade s\u00f3 o bastante para ela<br \/>\nser aceit\u00e1vel pela sensibilidade alheia; que n\u00e3o critica o que<br \/>\nfaz, que n\u00e3o submete o que faz a um conceito exterior de escola ou<br \/>\nde moda, ou de \u00abmaneira\u00bb, n\u00e3o de ser, mas de \u00abdever<br \/>\nser\u00bb.<\/p>\n<p>Na sua aplica\u00e7\u00e3o ao seu livro, estas considera\u00e7\u00f5es<br \/>\ntomam para mim a forma seguinte: 1) a sua sensibilidade \u00e9 boa, e, por<br \/>\nnatureza, de tipo intelectual; 2) pode, portanto, ser um poeta espont\u00e2neo,<br \/>\nsem ter que sobreintelectualizar demais ou recorrer a uma atitude reflexiva<br \/>\nou cr\u00edtica; 3) para isso, por\u00e9m, convinha-lhe (a meu ver, bem<br \/>\nentendido-mas era a minha opini\u00e3o, que n\u00e3o a de outrem, que<br \/>\nlhe dava), ou a) focar num ponto n\u00edtido e universalmente transmiss\u00edvel<br \/>\na intelectualiza\u00e7\u00e3o da sensa\u00e7\u00e3o, ou b) distribuir<br \/>\nmais igualmente a intelectualiza\u00e7\u00e3o pela extens\u00e3o da<br \/>\nsensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9, talvez, muito claro; n\u00e3o sei, por\u00e9m,<br \/>\ncomo o diga melhor. Servir-me-ei de exemplos. Um homem que era, e suponho<br \/>\n(embora nada publique, nem talvez escreva) ainda \u00e9, o mais curioso<br \/>\nesp\u00edrito cr\u00edtico portugu\u00eas, Manuel Ant\u00f3nio de Almeida,<br \/>\nescreveu, em 1912, no \u00abInqu\u00e9rito Liter\u00e1rio\u00bb de Boavida<br \/>\nPortugal, esta defini\u00e7\u00e3o da arte moderna: \u00abUma representa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncentral n\u00edtida, em torno da qual b\u00f3ia todo um nimbo de coisas<br \/>\nevocadas.\u00bb Isto representa muito bem o que quero indicar como o primeiro<br \/>\nprocesso que lhe sugeri. O segundo seria, servindo-me de uma express\u00e3o<br \/>\nde igual tipo, \u00abuma representa\u00e7\u00e3o central vaga, em torno<br \/>\nda qual brilham, n\u00edtidas, e para lhe destacar o vago, todas as representa\u00e7\u00f5es<br \/>\nsecund\u00e1rias\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 este, meu Camarada, o desenvolvimento mais claro que, de momento,<br \/>\ne para n\u00e3o tardar em responder-lhe, posso fazer do que na minha primeira<br \/>\ncarta lhe disse translatamente. Pe\u00e7o-lhe que creia no verdadeiro apre\u00e7o<br \/>\nde&#8230;<\/p>\n<p>3<\/p>\n<p>[dact.] [1928?]<\/p>\n<p>Est\u00e9tica<\/p>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o de um poema l\u00edrico deve ser feita n\u00e3o<br \/>\nno momento da emo\u00e7\u00e3o, mas no momento da recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\ndela. Um poema \u00e9 um produto intelectual, e uma emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\npara ser intelectual, tem, evidentemente, porque n\u00e3o \u00e9, de si,<br \/>\nintelectual, que existir intelectualmente. Ora a exist\u00eancia intelectual<br \/>\nde uma emo\u00e7\u00e3o \u00e9 a sua exist\u00eancia na intelig\u00eancia<br \/>\n&#8211; isto \u00e9, na recorda\u00e7\u00e3o, \u00fanica parte da intelig\u00eancia,<br \/>\npr\u00f2priamente tal, que pode conservar uma emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>4<\/p>\n<p>[dact.] [1924?]<\/p>\n<p>\u00c0s tr\u00eas subesp\u00e9cies da poesia l\u00edrica &#8211; a her\u00f3ica,<br \/>\na eleg\u00edaca e a l\u00edrica pr\u00f2priamente dita &#8211; atribu\u00edam<br \/>\nos antigos a protec\u00e7\u00e3o de tr\u00eas musas, Cal\u00edope para<br \/>\na primeira, \u00c9rato para a segunda, e para a terceira Pol\u00edmnia.<\/p>\n<p>Chama-se poesia l\u00edrica, em boa raz\u00e3o est\u00e9tica, a toda<br \/>\naquela que n\u00e3o \u00e9 dram\u00e1tica nem narrativa, e na esp\u00e9cie<br \/>\nda poesia chamada narrativa h\u00e1 por certo que incluir a did\u00e1ctica.<br \/>\nA poesia l\u00edrica pode exprimir directamente os sentimentos e as emo\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo poeta, sem deles querer tirar conclus\u00f5es gerais, ou lhes atribuir<br \/>\nmaior sentido que o de serem simples emo\u00e7\u00f5es e sentimentos:<br \/>\n\u00e9 esta a poesia pr\u00f2priamente, ou simplesmente, l\u00edrica.<br \/>\nA esta \u00e9 que Pol\u00edmnia rege. Pode tamb\u00e9m a poesia l\u00edrica<br \/>\nexprimir n\u00e3o sentimentos ou emo\u00e7\u00f5es do poeta, sen\u00e3o<br \/>\no conceito que forma desses sentimentos, ou dos alheios: \u00e9 esta, pr\u00f2priamente,<br \/>\na poesia eleg\u00edaca, que n\u00e3o h\u00e1 mister que seja triste,<br \/>\ncomo o uso vulgar do nome ordin\u00e0riamente indica. Desta poesia \u00c9rato<br \/>\n\u00e9 a musa. Pode, por fim, a poesia l\u00edrica dedicar-se a exaltar<br \/>\nou a deprimir a pessoa ou os feitos de outrem, n\u00e3o tanto os comentando,<br \/>\nquanto os elevando ou diminuindo: \u00e9 esta, em seus dois ramos, a poesia<br \/>\nher\u00f3ica e a sat\u00edrica. A estas legitimamente rege Cal\u00edope,<br \/>\nse bem que lhe n\u00e3o dessem os antigos a reg\u00eancia da s\u00e1tira.<\/p>\n<p>5<\/p>\n<p>[ms.] [1913?]<\/p>\n<p>[Poesia e M\u00fasica]<\/p>\n<p>A poesia \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o expressa em ritmo atrav\u00e9s<br \/>\ndo pensamento, como a m\u00fasica \u00e9 essa mesma express\u00e3o,<br \/>\nmas directa, sem o interm\u00e9dio da ideia.<\/p>\n<p>Musicar um poema \u00e9 acentuar-lhe a emo\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando-lhe<br \/>\no ritmo.<\/p>\n<p>6<\/p>\n<p>[ms.] [1915?]<\/p>\n<p>Est\u00e9tica<\/p>\n<p>[Poesia e M\u00fasica]<\/p>\n<p>Poesia l\u00edrica primeiro m\u00fasica+poesia, poesia cantada. Depois<br \/>\na poesia tomou para si o ritmo. A m\u00fasica passou a expressar sentimentos<br \/>\npor si, e a poesia l\u00edrica a ter m\u00fasica em si (Cf. as poesias<br \/>\nde Shelley e a sua m\u00e1 musicabilidade). A s\u00e1tira, o epigrama<br \/>\ns\u00e3o duros, mas \u00e9 porque a m\u00fasica do satirizar \u00e9<br \/>\na aspereza e a [&#8230;]<\/p>\n<p>Toda a poesia l\u00edrica tem, ou deve ter, uma m\u00fasica pr\u00f3pria<br \/>\n(como Tennyson tem). &#8211; A arte que poetas l\u00edricos, \u00e0s vezes instintivos<br \/>\nde todo, t\u00eam, \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o musical.<\/p>\n<p>Uma poesia (l\u00edrica ou outra) exige int\u00e9rprete, como uma partitura<br \/>\n(trecho musical); s\u00f3 que na poesia a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\nmais restritamente inindividualiz\u00e1vel por causa do elemento fixador.<\/p>\n<h2>VII<br \/>\nSobre as Escolas Liter\u00e1rias<\/h2>\n<p>1<\/p>\n<p>[ms.] [1915?]<\/p>\n<p>Classicismo<\/p>\n<p>O movimento da ode grega &#8211; estrofe, ant\u00edstrofe, epodo &#8211; n\u00e3o<br \/>\nrepresenta uma inven\u00e7\u00e3o dos Gregos, mas uma descoberta sua.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 um postulado da intelig\u00eancia grega; \u00e9 um<br \/>\naxioma da intelig\u00eancia humana, que aos Gregos foi dado encontrar. A<br \/>\nsua constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a duma teoria art\u00edstica,<br \/>\n\u00e9 a de um facto cient\u00edfico, de uma lei da intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Este triplo movimento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a lei da ode, o fundamento<br \/>\neterno [var.: perene] da poesia l\u00edrica; \u00e9, mais, a lei org\u00e2nica<br \/>\nda disciplina mental, o regulamento eterno da cria\u00e7\u00e3o ps\u00edquica.<br \/>\n\u00c9 a constata\u00e7\u00e3o superior do facto simples de que todas<br \/>\nas cousas t\u00eam um princ\u00edpio, um meio e um fim, de que o princ\u00edpio<br \/>\nconteria j\u00e1 em si o fim, e a indica\u00e7\u00e3o do meio; e de<br \/>\nque o meio \u00e9 o modo como o princ\u00edpio se torna fim.<\/p>\n<p>A tal ponto esta descoberta psicol\u00f3gica dos Gregos &#8211; mais importante,<br \/>\npor certo, que a subvers\u00e3o por Galilei da astronomia Ptolemaica &#8211; \u00e9<br \/>\numa lei do esp\u00edrito, que a vemos reaparecer v\u00e1rias vezes, e<br \/>\nsempre com o mesmo car\u00e1cter de eterna, na hist\u00f3ria do pensamento.<br \/>\nOutra cousa n\u00e3o \u00e9 o triplo movimento &#8211; tese, ant\u00edtese,<br \/>\ns\u00edntese &#8211; da dial\u00e9ctica de Plat\u00e3o. Outra cousa n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 o pensamento substancial de Hegel &#8211; em que o ser em si (Sein) se<br \/>\ntorna outro-ser (Dasein) e volta a si (f\u00fcr sich Sein). Outra base n\u00e3o<br \/>\ntem, no seu exterior filos\u00f3fico, a doutrina crist\u00e3 da Trindade<br \/>\ndivina, que representa Deus como sendo aquele de quem tudo procede, como Pai,<br \/>\npor quem tudo existe, como Filho, e para quem tudo existe, como Esp\u00edrito<br \/>\nSanto; havendo assim, no entender da filosofia crist\u00e3, j\u00e1 uma<br \/>\nprevis\u00e3o da doutrina r\u00edgida de Hegel na doutrina fluida de S.<br \/>\nPaulo.<\/p>\n<p>Perderemos [var.: Erraremos] por completo o sentido do classicismo se n\u00e3o<br \/>\nnos obrigamos a estud\u00e1-lo como deve ser estudado &#8211; na Gr\u00e9cia,<br \/>\nonde nasceu, e segundo a lei do pensamento. Da Gr\u00e9cia para c\u00e1<br \/>\nn\u00e3o tem havido sen\u00e3o aplica\u00e7\u00f5es tortuosas e incertas<br \/>\nda Disciplina hel\u00e9nica.<\/p>\n<p>H\u00e1, depois, que distinguir no classicismo [var.: na arte grega], como<br \/>\nem tudo mais, entre a mat\u00e9ria e a forma. A mat\u00e9ria d\u00e1-a<br \/>\na sensibilidade, o temperamento especial, a vis\u00e3o individual [?] do<br \/>\nartista; a forma sup\u00f5e a intelig\u00eancia. Geral na sua natureza,<br \/>\ncomo a ci\u00eancia, seu produto m\u00e0ximamente caracter\u00edstico,<br \/>\n\u00e9 antiparticular de sua \u00edndole.<\/p>\n<p>O pseudoclassicismo franc\u00eas &#8211; Boileau, Corneille, Racine &#8211; foi na cultura<br \/>\neuropeia o pior inimigo da tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, porque<br \/>\nfoi o seu desvirtuador, e, como disse Tennyson, \u00aba mentira que \u00e9<br \/>\nmeia verdade \u00e9 a pior das mentiras\u00bb. O classicismo franc\u00eas<br \/>\n\u00e9 um classicismo de duas dimens\u00f5es, um classicismo de silhueta<br \/>\nou [var.: e] de papel cortado. A disciplina hel\u00e9nica \u00e9 aplicada,<br \/>\nmas n\u00e3o h\u00e1 sensibilidade a que aplic\u00e1-la. O grego aceitava,<br \/>\na m\u00e3os plenas, a experi\u00eancia integral da vida da emo\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne a essa experi\u00eancia plena impunha a disciplina da sua intelig\u00eancia<br \/>\n(abstracta). O franc\u00eas<\/p>\n<p>castra, limita, arredonda primeiro a experi\u00eancia da vida, depois \u00e9<br \/>\nque disciplina essa sensibilidade que castrou. O classicismo que resulta \u00e9<br \/>\nt\u00e3o natural como a castidade num eunuco. \u00c9 como o escolar que,<br \/>\ntendo que fazer uma soma de parcelas compostas de n\u00fameros inteiros<br \/>\ne de quebrados, come\u00e7asse, para chegar a uma soma perfeita, por apagar<br \/>\ndo quadro os quebrados. O franc\u00eas n\u00e3o tem for\u00e7a mental<br \/>\npara aceitar a experi\u00eancia total da vida; tem que ter dieta na sensibilidade<br \/>\npara a poder digerir com a intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Quando, como no Romantismo, adquiriu a sensibilidade plena, o esp\u00edrito<br \/>\nfranc\u00eas revelou imediatamente a sua debilidade; perdeu o poder da disciplina,<br \/>\nproduziu as monstruosidades construtivas que s\u00e3o os poemas de Hugo,<br \/>\nde Musset e de Lamartine. S\u00f3, e em alguns poemas, a alma triste de<br \/>\nVigny conseguiu filiar-se, em estilo Ch\u00e9nier, na velha, na grande tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Beleza. O esp\u00edrito franc\u00eas \u00e9 a apoteose do secund\u00e1rio.<\/p>\n<p>S\u00f3 em Flaubert [&#8230;]. Mais uma prova da secundariedade intelectual<br \/>\nda Fran\u00e7a. S\u00f3 atingiu o ideal cl\u00e1ssico num g\u00e9nero<br \/>\nsecund\u00e1rio &#8211; no romance. Nem na poesia \u00e9pica, nem na dram\u00e1tica&#8230;<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>[ms.] [1915?]<\/p>\n<p>O Sentido do Classicismo<\/p>\n<p>Entre as tend\u00eancias recentes do esp\u00edrito cr\u00edtico europeu<br \/>\nh\u00e1 uma que acima de todas avulta quer pelo (&#8230;) como est\u00e1 espalhada,<br \/>\nquer pela coes\u00e3o inteira dos v\u00e1rios pontos que representam a<br \/>\ness\u00eancia da sua doutrina. Essa tend\u00eancia &#8211; representada pelo movimento<br \/>\nconservador em pol\u00edtica &#8211; aflora na cr\u00edtica liter\u00e1ria<br \/>\nsob a forma do chamado neoclassicismo.<\/p>\n<p>No nome da doutrina vai j\u00e1 a sua explica\u00e7\u00e3o. Ela inclui<br \/>\numa contraposi\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios rom\u00e2nticos ou<br \/>\np\u00f3s-rom\u00e2nticos &#8211; considerados quer como liter\u00e0riamente<br \/>\nfalsos (Matthew Arnold), quer como a forma liter\u00e1ria de princ\u00edpios<br \/>\npoliticos dissolventes &#8211; dos princ\u00edpios por que ostensivamente se regia<br \/>\na literatura pr\u00e9-revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Como, por\u00e9m, os expositores deste sistema n\u00e3o primem pela originalidade<br \/>\n(cf. Maurras), sucede que, na elabora\u00e7\u00e3o dessa doutrina, caem<br \/>\nem tr\u00eas erros (&#8230;).<\/p>\n<p>Os 3 erros s\u00e3o: 1) errar o ponto de partida desses princ\u00edpios<br \/>\ncl\u00e1ssicos; 2) confundir o conte\u00fado da obra de arte com o seu<br \/>\n(&#8230;), a sua est\u00e1tica com a sua din\u00e2mica; 3) fazer cr\u00edtica<br \/>\nliter\u00e1ria sem refer\u00eancia a condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dias<br \/>\n(?).<\/p>\n<p>O primeiro erro \u00e9 dos conservadores franceses, e, de a\u00ed, dos<br \/>\nque eles influenciam. Consiste em confundir a ess\u00eancia dos princ\u00edpios<br \/>\ncl\u00e1ssicos com a sua aplica\u00e7\u00e3o em determinada \u00e9poca.<br \/>\nAssim, quando defendem os princ\u00edpios cl\u00e1ssicos, defendem, em<br \/>\ngeral, apenas os princ\u00edpios do s\u00e9culo dezassete, e, o que \u00e9<br \/>\npior, do s\u00e9culo XVII em Fran\u00e7a. N\u00e3o reparam, por\u00e9m,<br \/>\nque a mentalidade francesa difere muito da mentalidade grega. O grego aceita<br \/>\nas sensa\u00e7\u00f5es e a vida e subordina-as a uma disciplina intelectual.<br \/>\nO franc\u00eas, incapaz de criar uma disciplina superior, trunca e restringe<br \/>\na vida e o sentimento para os poder disciplinar. \u00c9 como um escolar<br \/>\nque, tendo que somar parcelas (&#8230;) (1).<\/p>\n<p>O papel da intelig\u00eancia, no romantismo, \u00e9 apenas representativo;<br \/>\nserve apenas para exprimir a emo\u00e7\u00e3o que inspirou o poema. Nos<br \/>\npseudocl\u00e1ssicos dos s\u00e9culos anteriores, o papel da intelig\u00eancia<br \/>\n\u00e9 outro &#8211; \u00e9 criar a emo\u00e7\u00e3o; n\u00e3o criar nenhuma,<br \/>\n\u00e9 claro, porque esse papel \u00e9 anti-humano, ao passo que o dos<br \/>\nrom\u00e2nticos \u00e9 apenas inferiormente humano.<\/p>\n<p>(1) Cf. o fragmento anterior.<\/p>\n<p>3<\/p>\n<p>[ms.] [1914?]<\/p>\n<p>[Neoclassicismo e Romantismo]<\/p>\n<p>O que a nossa \u00e9poca sente \u00e9 um desejo de intelig\u00eancia.<br \/>\nO que a desgosta no romantismo \u00e9 a escassez dos elementos intelectuais,<br \/>\nquer directamente pela escassez, quer pela subordina\u00e7\u00e3o deles<br \/>\naos elementos emotivos. O \u00fanico elemento intelectual not\u00e1vel<br \/>\nno romantismo \u00e9 o da especula\u00e7\u00e3o, da reflex\u00e3o,<br \/>\naparecido naturalmente pela ru\u00edna progressiva das influ\u00eancias<br \/>\nreligiosas. Nisto o romantismo \u00e9 forte, porque est\u00e1 na grande<br \/>\ntradi\u00e7\u00e3o civilizacional europeia, que \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nhel\u00e9nica, do individualismo racionalista.<\/p>\n<p>Por outra parte o romantismo \u00e9 o aboutissement de outra tradi\u00e7\u00e3o,<br \/>\na crist\u00e3; \u00e9 isso pelo seu emotivismo e subjectivismo. De novo,<br \/>\no que o romantismo trouxe foi o sentimento, propriamente tal, da Natureza.<br \/>\n(A renova\u00e7\u00e3o da met\u00e1fora e da imagem.)<\/p>\n<p>O \u00abclassicismo\u00bb decadente, a que o romantismo se seguiu e se<br \/>\nop\u00f4s, n\u00e3o tinha pensamento, n\u00e3o tinha emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o tinha alma. Custa-nos hoje a crer num Delille, nos \u00c1rcades.<br \/>\nComo, salvo alguns versos, pesam hoje sobre n\u00f3s tedientamente The Traveller,<br \/>\nThe Deserted Village, Retaliation!<\/p>\n<p>O fim do classicismo teve talento s\u00f3 na s\u00e1tira, na poesia social,<br \/>\nno g\u00e9nero de que os vers de soci\u00e9t\u00e9 s\u00e3o uma esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Quanto maior a subjectividade da Arte, maior tem que ser a sua objectividade,<br \/>\npara que haja equil\u00edbrio, sem o qual n\u00e3o h\u00e1 vida, nem,<br \/>\nportanto, vida ou dura\u00e7\u00e3o da mesma arte. Como o romantismo tinha<br \/>\nmais emo\u00e7\u00e3o, tinha que ter mais pensamento; como tinha mais<br \/>\nsubjectividade, tinha que ter mais objectividade.<\/p>\n<p>[Ao alto deste fragmento, a l\u00e1pis, escreveu F. Pessoa, para confronto:<br \/>\n\u00abA. de Campos: A nossa \u00e9poca est\u00e1 farta de intelig\u00eancia.<br \/>\nA intelig\u00eancia \u00e9 infecunda [&#8230;] As filosofias irracionalistas.]<\/p>\n<p>4<\/p>\n<p>[dact.] [1917?]<\/p>\n<p>[O perigo do Romantismo]<\/p>\n<p>O verdadeiro perigo do romantismo \u00e9 que os princ\u00edpios, por<br \/>\nque se rege ou diz reger, s\u00e3o de natureza a que os possa invocar qualquer,<br \/>\npara conferir a si-pr\u00f3prio a categoria de artista. Tomar a \u00e2nsia<br \/>\nde uma felicidade inating\u00edvel, a ang\u00fastia dos sonhos irrealizados,<br \/>\na inapet\u00eancia ante a ac\u00e7\u00e3o e a vida, como crit\u00e9rio<br \/>\ndefinidor do g\u00e9nio ou do talento, imediatamente facilita a todo o indiv\u00edduo<br \/>\nque sente aquela \u00e2nsia, sofre daquela ang\u00fastia, e \u00e9 presa<br \/>\ndaquela inapet\u00eancia, o convencimento de que \u00e9 uma individualidade<br \/>\ninteressante, que o Destino, fadando-a para aquelas \u00e2nsias, aqueles<br \/>\nsofrimentos, e aquelas impossibilidades, implicitamente fadou para a grandeza<br \/>\nintelectual.<\/p>\n<p>Na teoria cl\u00e1ssica n\u00e3o era assim. O disc\u00edpulo dos antigos<br \/>\napoiava a sua cren\u00e7a em que era poeta em faculdades de constru\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de coordena\u00e7\u00e3o, em uma disciplina interior que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil a qualquer presumir, para si mesmo, que possui.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s<br \/>\npretens\u00f5es que s\u00e3o a base do romantismo, do sentimento rom\u00e2ntico.<br \/>\nH\u00e1 basta gente que pode crer-se, falsamente, dotada de qualidades construtivas<br \/>\nem arte; mas toda a agente, e n\u00e3o alguma, pode julgar-se artista, quando<br \/>\nas qualidades fundamentais exigidas s\u00e3o um sentimento de v\u00e1cuo<br \/>\nnos desejos, um sofrimento sem causa, e uma falta de vontade para trabalhar<br \/>\n&#8211; caracter\u00edsticos que mais ou menos todos possuem, e que nos degenerados<br \/>\ne nos doentes do esp\u00edrito assumem um relevo especial.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 no est\u00edmulo que d\u00e1 ao individualismo que<br \/>\no perigo rom\u00e2ntico consiste; consiste, sim, no est\u00edmulo que d\u00e1<br \/>\na um falso individualismo. O individualismo n\u00e3o \u00e9 necess\u00e0riamente<br \/>\nfalso; quando muito, \u00e9 uma teoria moral e pol\u00edtica. Mas h\u00e1<br \/>\numa certa forma do individualismo &#8211; como h\u00e1 uma certa forma do classicismo<br \/>\n&#8211; que \u00e9 com certeza falsa. \u00c9 a que permite que o primeiro hist\u00e9rico<br \/>\nou o mais reles dos neurast\u00e9nicos se arrogue o direito de ser poeta<br \/>\npelas raz\u00f5es que, de per si, s\u00f3 lhe d\u00e3o o direito de<br \/>\nse considerar hist\u00e9rico ou neurast\u00e9nico.<\/p>\n<p>Quando um poeta rom\u00e2ntico canta, lamentando-se, a eterna imperdurabilidade<br \/>\ndas coisas, faz uso leg\u00edtimo de um sentimento bem humano. Quando, do<br \/>\nfundo da sua dor, sofrendo pelo contacto com a humanidade, apela para a grande<br \/>\nNatureza e para o seu constelado repouso, faz uso leg\u00edtimo de uma emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nque, sendo velha como a humanidade, nem sempre serviu de tema po\u00e9tico.<\/p>\n<p>A ru\u00edna de uma vida simples, ou de uma vida reles, \u00e9 t\u00e3o<br \/>\ntr\u00e1gica como a ru\u00edna de uma vida grande, ou de uma vida nobre;<br \/>\nmas isso \u00e9 vistas de fora, n\u00e3o de dentro. A ru\u00edna de<br \/>\numa alma reles n\u00e3o pode ser grande para a alma reles, porque ela \u00e9<br \/>\numa alma reles.<\/p>\n<p>5<\/p>\n<p>[dact.] [1918?]<\/p>\n<p>[Sobre o Romantismo]<\/p>\n<p>O movimento liter\u00e1rio, a que ordin\u00e0riamente se chama romantismo,<br \/>\ncontrap\u00f4s-se de tr\u00eas maneiras ao classicismo que o precedera.<br \/>\n\u00c0 estreiteza e secura dos processos cl\u00e1ssicos substituiu o uso<br \/>\nda imagina\u00e7\u00e3o, liberta, quanto poss\u00edvel, de outras leis,<br \/>\nque n\u00e3o as suas pr\u00f3prias. \u00c0 mesquinhez especulativa da<br \/>\narte cl\u00e1ssica, onde a intelig\u00eancia aparece apenas como elemento<br \/>\nformativo, e nunca como elemento substancial, substituiu a literatura feita<br \/>\ncom ideias. \u00c0 cl\u00e1ssica subordina\u00e7\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 intelig\u00eancia, substituiu, invertendo-a, a subordina\u00e7\u00e3o<br \/>\nda intelig\u00eancia \u00e0 emo\u00e7\u00e3o, e do geral ao particular.<br \/>\nOs dois primeiros processos representaram uma inova\u00e7\u00e3o, e uma<br \/>\nvigora\u00e7\u00e3o da arte; o terceiro \u00e9 puramente m\u00f3rbido.<\/p>\n<p>Segundo aquele movimento c\u00edclico, que parece ser o de toda a civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\no romantismo, nos seus dois processos verdadeiramente inovadores, n\u00e3o<br \/>\nfez mais que reeditar o helenismo, contra a f\u00f3rmula cl\u00e1ssica,<br \/>\nmais latina que grega. Nestes dois pontos, de resto, ele \u00e9 o continuador<br \/>\ndaquilo que a Renascen\u00e7a trouxe de novo &#8211; mas tamb\u00e9m de hel\u00e9nico<br \/>\n&#8211; \u00e0 literatura da Europa. No que teve de pr\u00f3prio, a substitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nda ordem da intelig\u00eancia e da emo\u00e7\u00e3o, o romantismo foi<br \/>\num simples fen\u00f3meno de decad\u00eancia; e foi porque a Renascen\u00e7a<br \/>\nn\u00e3o mostrou este terceiro caracter\u00edstico que ela p\u00f4de<br \/>\natingir um n\u00edvel po\u00e9tico mais alto, pois que no romantismo n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 Dante nem Milton, tal a fal\u00eancia construtiva de que o novo<br \/>\nsistema vinha inquinado.<\/p>\n<p>No seu desenvolvimento, o romantismo, que nasceu m\u00f3rbido, esfacelou-se.<br \/>\nDesintegrou-se nos seus tr\u00eas elementos componentes, e cada um destes<br \/>\npassou a ter uma vida pr\u00f3pria, a formar uma corrente separada das outras.<br \/>\nDa substitui\u00e7\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o ao escr\u00fapulo<br \/>\nimitativo nasceu toda a literatura da Natureza que distinguiu o s\u00e9culo<br \/>\npassado. Da introdu\u00e7\u00e3o da especula\u00e7\u00e3o na subst\u00e2ncia<br \/>\nda arte nasceu toda a literatura realista. Da invers\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es<br \/>\nmentais da intelig\u00eancia e da emo\u00e7\u00e3o nasceu todo o movimento<br \/>\ndecadente, simbolista, e os seguintes.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que estes elementos, embora criassem correntes que podem dizer-se<br \/>\nseparadas, n\u00e3o est\u00e3o separados; e a maioria dos cultores das<br \/>\nliteraturas nascidas dos dois primeiros est\u00e3o viciados pelo preconceito<br \/>\npersonalista que \u00e9 a base m\u00f3rbida do terceiro.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo vinte encontrou diante de si, herdado do s\u00e9culo que<br \/>\no precedeu, um problema fundamental &#8211; o da concilia\u00e7\u00e3o da Ordem,<br \/>\nque \u00e9 intelectual e impessoal, com as aquisi\u00e7\u00f5es emotivas<br \/>\ne imaginativas dos tempos recentes.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel resolver este problema, como querem os integralistas<br \/>\nfranceses, pela supress\u00e3o de um dos seus termos. \u00c9 igualmente<br \/>\nimposs\u00edvel resolv\u00ea-lo aceitando a predomin\u00e2ncia da emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nsobre a raz\u00e3o, porque, aceite esta predomin\u00e2ncia, desaparece<br \/>\na ordem, e o problema est\u00e1 por resolver. Evidentemente que h\u00e1<br \/>\ns\u00f3 uma solu\u00e7\u00e3o: o levar a personalidade do artista ao<br \/>\nabstracto, para que contenha em si mesma a disciplina e a ordem. Assim a ordem<br \/>\nser\u00e1 subjectiva e n\u00e3o objectiva.<\/p>\n<p>Tornar a imagina\u00e7\u00e3o abstracta, tornar a emo\u00e7\u00e3o<br \/>\nabstracta, \u00e9 o caminho.<\/p>\n<p>[ms.]<\/p>\n<p>Dramatiza\u00e7\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o. Os homens da Renascen\u00e7a<br \/>\nj\u00e1 a tinham; a sua poesia da emo\u00e7\u00e3o \u00e9 impessoal<br \/>\ne humanamente universal.<\/p>\n<p>Emo\u00e7\u00e3o do abstracto.<\/p>\n<p>A literatura de fantasia, que irrompeu com os transcendentalistas alem\u00e3es<br \/>\ne seguidamente nos 2 grandes poemas de Goleridge. Este elemento \u00e9 de<br \/>\norigem medieval.<\/p>\n<p>Por dramatiza\u00e7\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o entendo o despir a<br \/>\nemo\u00e7\u00e3o de tudo quanto \u00e9 acidental e pessoal, tornando-a<br \/>\nabstracta &#8211; humana<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>P\u00e1ginas \u00cdntimas e de Auto-Interpreta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<h2>Notas Autobiogr\u00c1ficas e de Autognose<\/h2>\n<p>1<\/p>\n<p>Jamais houve alma mais amante ou terna do que a minha, alma mais repleta<br \/>\nde bondade, de compaix\u00e3o, de tudo o que \u00e9 ternura e amor. Contudo,<br \/>\nnenhuma alma h\u00e1 t\u00e3o solit\u00e1ria como a minha solit\u00e1ria,<br \/>\nnote-se, n\u00e3o merc\u00ea de circunst\u00e2ncias exteriores, mas sim<br \/>\nde circunst\u00e2ncias interiores. O que quero dizer \u00e9: a par da minha<br \/>\ngrande ternura e bondade, entrou no meu car\u00e1cter um elemento de natureza<br \/>\ninteiramente oposta, um elemento de tristeza, egocentrismo, portanto de ego\u00edsmo,<br \/>\nproduzindo um efeito duplo: deformar e prejudicar o desenvolvimento e a plena<br \/>\nac\u00e7\u00e3o interna daquelas outras qualidades, e prejudicar, deprimindo<br \/>\na vontade, a sua plena ac\u00e7\u00e3o externa, a sua manifesta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHei-de analisar isto; um dia hei-de examinar melhor, destrin\u00e7ar, os<br \/>\nelementos que constituem o meu car\u00e1cter, pois a minha curiosidade acerca<br \/>\nde tudo, aliada \u00e0 minha curiosidade por mim pr\u00f3prio e pelo meu<br \/>\ncar\u00e1cter, conduz a uma tentativa para compreender a minha personalidade.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Foi por causa destas caracter\u00edsticas que eu escrevi acerca de mim<br \/>\npr\u00f3prio, em \u00abThe Writers Day\u00bb(1):<\/p>\n<p>Algu\u00e9m como Rousseau,<\/p>\n<p>Misantr\u00f3pico amante da humanidade.<\/p>\n<p>De facto, tenho muitas, demasiadas, afinidades com Rousseau. Em certas coisas,<br \/>\n\u00e9 id\u00eantico o nosso car\u00e1cter. O caloroso, intenso, inexprim\u00edvel<br \/>\namor da humanidade e a dose de ego\u00edsmo que o contrapesa eis<br \/>\numa caracter\u00edstica fundamental do seu car\u00e1cter, e tamb\u00e9m<br \/>\ndo meu.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>O meu intenso sofrimento patri\u00f3tico, o meu intenso desejo de melhorar<br \/>\no estado de Portugal, provocam em mim como exprimir com que ardor,<br \/>\ncom que intensidade, com que sinceridade! mil projectos que, mesmo<br \/>\nse realiz\u00e1veis por um s\u00f3 homem, exigiriam dele uma caracter\u00edstica<br \/>\npuramente negativa em mim for\u00e7a de vontade. Mas sofro<br \/>\nat\u00e9 aos limites da loucura, juro-o como se tudo eu pudesse<br \/>\nfazer sem, no entanto, o poder realizar, por defici\u00eancia da vontade.<br \/>\n\u00c9 um sofrimento horr\u00edvel que, afirmo-o, me mant\u00e9m constantemente<br \/>\nnos limites da loucura.<\/p>\n<p>E, depois, incompreendido. Ningu\u00e9m suspeita do meu amor patri\u00f3tico,<br \/>\nmais intenso do que o de todos aqueles a quem encontro ou conhe\u00e7o.<br \/>\nN\u00e3o o traio; como sei, ent\u00e3o, que n\u00e3o o possuem? Como<br \/>\nposso dizer que a sua preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o iguala a minha?<br \/>\nPorque, nalguns casos na maior parte, at\u00e9 o seu temperamento<br \/>\n\u00e9 inteiramente diferente; porque, nos outros casos, a sua maneira de<br \/>\nfalar revela a aus\u00eancia de, ao menos, um patriotismo nominal.<\/p>\n<p>O fervor, a intensidade terna, revoltada e ardente do meu,<br \/>\njamais os exprimirei, [&#8230;]<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos meus projectos patri\u00f3ticos escrever \u00abRep\u00fablica<br \/>\nde Portugal\u00bb, provocar aqui uma revolu\u00e7\u00e3o, escrever panfletos<br \/>\nportugueses, dirigir a publica\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias<br \/>\nnacionais mais antigas, fundar um peri\u00f3dico, uma revista cient\u00edfica,<br \/>\netc. outros planos em que me consumo na necessidade de serem em breve<br \/>\npostos em pr\u00e1tica [&#8230;] conjugam-se para produzir um impulso excessivo<br \/>\nque me paralisa a vontade. O sofrimento que isto produz n\u00e3o sei se<br \/>\npoder\u00e1 ser definido como situado aqu\u00e9m da loucura.<\/p>\n<p>A tudo isto acrescentem-se ainda outros motivos de sofrimento, alguns f\u00edsicos,<br \/>\nmentais outros, a susceptibilidade a toda a coisa comezinha que possa ser<br \/>\ndolorosa (ou que o n\u00e3o seria, at\u00e9, para um homem normal), acrescentem-se<br \/>\nainda outras coisas, complica\u00e7\u00f5es, dificuldades de dinheiro<br \/>\n&#8211; junte-se isto tudo ao meu temperamento fundamentalmente desequilibrado e<br \/>\ntalvez se possa suspeitar qual a intensidade do meu sofrimento.<\/p>\n<p>30.10.08<\/p>\n<p>Uma das minhas complica\u00e7\u00f5es mentais mais horr\u00edvel<br \/>\ndo que as palavras podem exprimir \u00e9 o medo da loucura, o qual,<br \/>\nem si, j\u00e1 \u00e9 loucura. Encontro-me em parte no estado que Rollinat<br \/>\ndenuncia como seu no poema inicial (segundo creio) das suas \u00abN\u00e9vroses\u00bb.<br \/>\nImpulsos, alguns deles criminosos, loucos outros, que chegam, por entre o<br \/>\nmeu sofrimento excruciante, a uma tend\u00eancia horr\u00edvel para a ac\u00e7\u00e3o,<br \/>\numa terr\u00edvel muscularidade, sentida nos m\u00fasculos, quero eu dizer<br \/>\neis coisas frequentes em mim, e o seu horror e intensidade<br \/>\nagora maiores do que nunca em n\u00famero como em intensidade s\u00e3o<br \/>\nindescrit\u00edveis.<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>Tenho pensamentos que, pudesse eu traz\u00ea-los \u00e0 luz e dar-lhes<br \/>\nvida, emprestariam nova leveza \u00e0s estrelas, nova beleza ao mundo, e<br \/>\nmaior amor ao cora\u00e7\u00e3o dos homens.<\/p>\n<p>3<\/p>\n<p>Compromisso entre Alexandre Busca, residente no Inferno, Nenhures, e Jacob<br \/>\nSatan\u00e1s, senhor, embora n\u00e3o rei, do mesmo lugar:<\/p>\n<p>1. Nunca esmorecer nem recuar no prop\u00f3sito de fazer bem \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>2. Nunca escrever coisas sensuais, ou m\u00e1s a qualquer outro respeito,<br \/>\nque possam lesar e prejudicar quem as ler.<\/p>\n<p>3. Nunca esquecer, ao atacar a religi\u00e3o em nome da verdade, que a<br \/>\nreligi\u00e3o dificilmente pode ser substitu\u00edda e que o pobre ser<br \/>\nhumano chora nas trevas.<\/p>\n<p>4. Nunca esquecer o sofrimento e o padecimento dos homens.<\/p>\n<p>+ A marca de Satan\u00e1s.<\/p>\n<p>2 de Outubro de 1907<br \/>\nAlexandre Busca<\/p>\n<p>4<\/p>\n<p>A primeira nutri\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da minha meninice foi<br \/>\na que se encontrava em numerosos romances de mist\u00e9rio e de aventuras<br \/>\nhorr\u00edveis. Pouco me interessavam os livros ditos para rapazes e que<br \/>\nrelatam viv\u00eancias emocionantes. N\u00e3o me atra\u00eda a vida saud\u00e1vel<br \/>\ne natural. Anelava, n\u00e3o pelo prov\u00e1vel, mas pelo incr\u00edvel,<br \/>\nnem sequer pelo imposs\u00edvel em grau, mas sim pelo imposs\u00edvel<br \/>\npor natureza.<\/p>\n<p>A minha inf\u00e2ncia decorreu serena (&#8230;), recebi uma boa educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas, desde que tenho consci\u00eancia de mim mesmo, apercebi-me de uma tend\u00eancia<br \/>\nnata em mim para a mistifica\u00e7\u00e3o, para a mentira art\u00edstica.<br \/>\nJunte-se a isto um grande amor pelo espiritual, pelo misterioso, pelo obscuro,<br \/>\nque, ao fim e ao cabo, n\u00e3o era sen\u00e3o uma forma e uma variante<br \/>\ndaquela outra minha caracter\u00edstica, e a minha personalidade ser\u00e1<br \/>\ncompleta para a intui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>5<\/p>\n<p>[ms.][1910?]<\/p>\n<p>Eu era um poeta impulsionado pela filosofia, n\u00e3o um fil\u00f3sofo<br \/>\ndotado de faculdades po\u00e9ticas. Adorava admirar a beleza das coisas,<br \/>\ndescortinar no impercept\u00edvel, atrav\u00e9s do que \u00e9 diminuto,<br \/>\na alma po\u00e9tica do universo.<\/p>\n<p>A poesia da terra nunca morre. \u00c9 poss\u00edvel dizermos que as eras<br \/>\ntransactas foram mais po\u00e9ticas, mas podemos dizer (&#8230;)<\/p>\n<p>H\u00e1 poesia em tudo &#8211; na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos<br \/>\nrios. H\u00e1-a tamb\u00e9m na cidade &#8211; n\u00e3o o neguemos &#8211; facto<br \/>\nevidente para mim enquanto aqui estou sentado: h\u00e1 poesia nesta mesa,<br \/>\nneste papel, neste tinteiro; h\u00e1 poesia na trepida\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos carros nas ruas; em cada movimento \u00ednfimo, vulgar, rid\u00edculo,<br \/>\nde um oper\u00e1rio que, do outro lado da rua, pinta a tabuleta de um talho.<\/p>\n<p>O meu sentido interior de tal modo predomina sobre os meus cinco sentidos<br \/>\nque estou convencido vejo as coisas desta vida de modo diferente<br \/>\ndo dos outros homens. Existe para mim existia um tesouro de<br \/>\nsignificado numa coisa t\u00e3o rid\u00edcula como uma chave, um prego<br \/>\nna parede, os bigodes de um gato. Encontro toda uma plenitude de sugest\u00e3o<br \/>\nespiritual no espect\u00e1culo de uma ave dom\u00e9stica com os seus pintainhos<br \/>\nque, com ar pimp\u00e3o, atravessam a rua. Encontro um significado mais<br \/>\nprofundo do que as l\u00e1grimas humanas no aroma do s\u00e2ndalo, nas<br \/>\nlatas velhas jazendo numa montureira, numa caixa de f\u00f3sforos ca\u00edda<br \/>\nna valeta, em dois pap\u00e9is sujos que, num dia ventoso, rolam e se perseguem<br \/>\nrua abaixo. \u00c9 que poesia \u00e9 espanto, admira\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo de um ser tombado dos c\u00e9us em plena consci\u00eancia da sua queda,<br \/>\nat\u00f3nito com as coisas. Como de algu\u00e9m que conhecesse a alma<br \/>\ndas coisas e se esfor\u00e7asse por rememorar esse conhecimento, lembrando-se<br \/>\nde que n\u00e3o era assim que as conhecia, n\u00e3o com estas formas e<br \/>\nnestas condi\u00e7\u00f5es, mas de nada mais se recordando.<\/p>\n<p>6<\/p>\n<p>[dact.][1910?]<\/p>\n<p>Cumpre-me agora dizer que esp\u00e9cie de homem sou. N\u00e3o importa<br \/>\no meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito.<br \/>\n\u00c9 acerca do meu car\u00e1cter que se imp\u00f5e dizer algo.<\/p>\n<p>Toda a constitui\u00e7\u00e3o do meu esp\u00edrito \u00e9 de hesita\u00e7\u00e3o<br \/>\ne d\u00favida. Para mim, nada \u00e9 nem pode ser positivo; todas as coisas<br \/>\noscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim pr\u00f3prio. Tudo<br \/>\npara mim \u00e9 incoer\u00eancia e muta\u00e7\u00e3o. Tudo \u00e9<br \/>\nmist\u00e9rio, e tudo \u00e9 prenhe de significado. Todas as coisas s\u00e3o<br \/>\n\u00abdesconhecidas\u00bb, s\u00edmbolos do Desconhecido. O resultado<br \/>\n\u00e9 horror, mist\u00e9rio, um medo por de mais inteligente.<\/p>\n<p>Pelas minhas tend\u00eancias naturais, pelas circunst\u00e2ncias que rodearam<br \/>\no alvor da minha vida, pela influ\u00eancia dos estudos feitos sob o seu<br \/>\nimpulso (estas mesmas tend\u00eancias) por tudo isto o meu car\u00e1cter<br \/>\n\u00e9 do g\u00e9nero interior, autoc\u00eantrico, mudo, n\u00e3o auto-suficiente<br \/>\nmas perdido em si pr\u00f3prio. Toda a minha vida tem sido de passividade<br \/>\ne sonho. Todo o meu car\u00e1cter consiste no \u00f3dio, no horror da<br \/>\ne na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, f\u00edsica e mentalmente,<br \/>\npara actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decis\u00e3o<br \/>\nnascida do autodom\u00ednio, jamais tra\u00ed externamente uma vontade<br \/>\nconsciente. Os meus escritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham<br \/>\nnovos pensamentos, extraordin\u00e1rias, inexpuls\u00e1veis associa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde ideias cujo termo era o infinito. N\u00e3o posso evitar o \u00f3dio<br \/>\nque os meus pensamentos t\u00eam a acabar seja o que for; uma coisa simples<br \/>\nsuscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassocia\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne n\u00e3o tenho for\u00e7a de vontade para os eliminar ou deter, nem<br \/>\npara os reunir num s\u00f3 pensamento central em que se percam os pormenores<br \/>\nsem import\u00e2ncia mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam atrav\u00e9s<br \/>\nde mim. N\u00e3o pondero, sonho; n\u00e3o estou inspirado, deliro. Sei<br \/>\npintar mas nunca pintei, sei compor m\u00fasica, mas nunca compus. Estranhas<br \/>\nconcep\u00e7\u00f5es em tr\u00eas artes, belos voos de imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nacariciam-me o c\u00e9rebro; mas deixo-os ali dormitar at\u00e9 que morrem,<br \/>\npois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo<br \/>\nexterno.<\/p>\n<p>O meu car\u00e1cter \u00e9 tal que detesto o come\u00e7o e o fim das<br \/>\ncoisas, pois s\u00e3o pontos definidos. Aflige-me a ideia de se encontrar<br \/>\numa solu\u00e7\u00e3o para os mais altos, mais nobres, problemas da ci\u00eancia,<br \/>\nda filosofia; a ideia que algo possa ser determinado por Deus ou pelo mundo<br \/>\nenche-me de horror. Que as coisas mais momentosas se concretizem, que um dia<br \/>\nos homens venham todos a ser felizes, que se encontre uma solu\u00e7\u00e3o<br \/>\npara os males da sociedade, mesmo na sua concep\u00e7\u00e3o enfurece-me.<br \/>\nE, contudo, n\u00e3o sou mau nem cruel; sou louco, e isso duma forma dif\u00edcil<br \/>\nde conceber.<\/p>\n<p>Embora tenha sido leitor voraz e ardente, n\u00e3o me lembro de qualquer<br \/>\nlivro que haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu pr\u00f3prio<br \/>\nesp\u00edrito, sonhos meus mais, provoca\u00e7\u00f5es de sonhos.<br \/>\nA minha pr\u00f3pria recorda\u00e7\u00e3o de acontecimentos, de coisas<br \/>\nexternas, \u00e9 vaga, mais do que incoerente. Estreme\u00e7o ao pensar<br \/>\nqu\u00e3o pouco resta no meu esp\u00edrito do que foi a minha vida passada.<br \/>\nEu, um homem convicto de que hoje \u00e9 um sonho, sou menos do que uma<br \/>\ncoisa de hoje.<\/p>\n<p>7<\/p>\n<p>Apontamentos pessoais<\/p>\n<p>[ms.][1910?]<\/p>\n<p>Deixei para tr\u00e1s o h\u00e1bito de ler. J\u00e1 nada leio a n\u00e3o<br \/>\nser um ou outro jornal, literatura ligeira e ocasionalmente livros t\u00e9cnicos<br \/>\nrelacionados com o que porventura estudo e em que o simples racioc\u00ednio<br \/>\npossa ser insuficiente.<\/p>\n<p>O g\u00e9nero definido de literatura quase o abandonei. Poderia l\u00ea-lo<br \/>\npara aprender ou por gosto. Mas nada tenho a aprender, e o prazer que se obt\u00e9m<br \/>\ndos livros \u00e9 do g\u00e9nero que pode ser substitu\u00eddo com proveito<br \/>\npelo que me pode proporcionar directamente o contacto com a natureza e a observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda vida.<\/p>\n<p>Encontro-me agora em plena posse das leis fundamentais da arte liter\u00e1ria.<br \/>\nShakespeare j\u00e1 n\u00e3o me pode ensinar a ser subtil, nem Milton<br \/>\na ser completo. O meu intelecto atingiu uma flexibilidade e um alcance tais<br \/>\nque me permitem assumir qualquer emo\u00e7\u00e3o que deseje e penetrar<br \/>\n\u00e0 vontade em qualquer estado de esp\u00edrito. Quanto \u00e0quilo<br \/>\npor que sempre se luta com esfor\u00e7o e ang\u00fastia, ser-se completo,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 livro que valha.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa que eu tenha sacudido a tirania da arte liter\u00e1ria.<br \/>\nAceito-a apenas sujeita a mim pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>H\u00e1 um livro de que ando sempre acompanhado\u00abAs Aventuras de Pickwick\u00bb(2).<br \/>\nLi v\u00e1rias vezes os livros de Mr. W. W. Jacobs. O decl\u00ednio do<br \/>\nromance policial fechou para sempre uma das minhas portas de acesso \u00e0<br \/>\nliteratura moderna.<\/p>\n<p>Deixei de me interessar por pessoas que s\u00e3o apenas inteligentes<br \/>\nWells, Chesterton, Shaw. As ideias desta gente s\u00e3o das que ocorrem<br \/>\na muitos que n\u00e3o s\u00e3o escritores; a constru\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas suas obras \u00e9 inteiramente um valor negativo.<\/p>\n<p>Tempo houve em que eu lia apenas pela utilidade da leitura, mas agora compreendo<br \/>\nque h\u00e1 pouqu\u00edssimos livros \u00fateis, mesmo os que versam<br \/>\nassuntos t\u00e9cnicos que me possam interessar.<\/p>\n<p>A sociologia \u00e9 [&#8230;]; quem pode tolerar tal escol\u00e1stica na<br \/>\nBiz\u00e2ncio de hoje?<\/p>\n<p>Todos os meus livros s\u00e3o de consulta. Leio Shakespeare apenas em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom o \u00abProblema de Shakespeare\u00bb; o resto j\u00e1 o sei.<\/p>\n<p>Descobri que a leitura \u00e9 uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar,<br \/>\nporque n\u00e3o sonhar os meus pr\u00f3prios sonhos? [&#8230;]<\/p>\n<p>8<\/p>\n<p>Plano de Vida<\/p>\n<p>[dact.][1913?]<\/p>\n<p>Um plano geral para a vida deve implicar, antes de mais, alcan\u00e7ar-se<br \/>\nqualquer forma de estabilidade financeira. Marquei como limite para essa coisa<br \/>\nhumilde a que chamo estabilidade financeira cerca de sessenta d\u00f3lares<br \/>\n&#8211; quarenta para o necess\u00e1rio, e vinte para as coisas sup\u00e9rfluas<br \/>\nda vida. A forma de o alcan\u00e7ar \u00e9 adicionar aos trinta e um d\u00f3lares<br \/>\ndos dois escrit\u00f3rios (P &amp; FF) vinte e nove d\u00f3lares de proveni\u00eancia<br \/>\na determinar. Em rigor, para viver apenas, cinquenta d\u00f3lares bastariam,<br \/>\npois, tomando trinta e cinco como base necess\u00e1ria, quinze j\u00e1<br \/>\ndavam para o resto.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>A coisa essencial que vem logo a seguir \u00e9 residir numa casa com bastante<br \/>\nespa\u00e7o, espa\u00e7o quanto a divis\u00f5es e divis\u00f5es com<br \/>\nos requisitos necess\u00e1rios, para arrumar todos os meus pap\u00e9is<br \/>\ne livros na devida ordem; e tudo isto sem grande possibilidade de me mudar<br \/>\ndentro de pouco tempo. Parece que o mais f\u00e1cil seria alugar eu pr\u00f3prio<br \/>\numa casa \u00e0 base de, suponhamos, oito ou, quando muito, nove<br \/>\nd\u00f3lares e viver l\u00e1 \u00e0 vontade, combinando que<br \/>\nme levassem o jantar (e o pequeno-almo\u00e7o) todos os dias, ou coisa parecida.<br \/>\nMas seria este sistema absolutamente conveniente?<\/p>\n<p>Substituir, no tocante \u00e0 ordem dos pap\u00e9is, a minha caixa grande<br \/>\npor caixas mais pequenas contendo os pap\u00e9is por ordem de import\u00e2ncia.<br \/>\nNa caixa grande e na outra em A. S. ficariam s\u00f3 os jornais e revistas<br \/>\nque guardo.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Alugada uma casa, qual o mobili\u00e1rio? N\u00e3o seria melhor combinar<br \/>\nde novo as coisas com S? De modo a alcan\u00e7ar isto de que preciso, mudando-nos<br \/>\nn\u00f3s, se necess\u00e1rio, para tanto?<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Seja como o Destino quiser.<\/p>\n<p>9<\/p>\n<p>[ms.] [1914?]<\/p>\n<p>Cada vez estou mais s\u00f3, mais abandonado. Pouco a pouco quebram-se-me<br \/>\ntodos os la\u00e7os. Em breve ficarei sozinho.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>O meu pior mal \u00e9 que n\u00e3o consigo nunca esquecer a minha presen\u00e7a<br \/>\nmetaf\u00edsica na vida. De a\u00ed a timidez transcendental que me atemoriza<br \/>\ntodos os gestos, que tira a todas as minhas frases o sangue da simplicidade,<br \/>\nda emo\u00e7\u00e3o directa.<\/p>\n<p>10<\/p>\n<p>[ms.] [1915?]<\/p>\n<p>H\u00e1 entre mim e o mundo uma n\u00e9voa que impede que eu veja as<br \/>\ncousas como verdadeiramente s\u00e3o como s\u00e3o para os outros.<\/p>\n<p>Sinto isto.<\/p>\n<p>11<\/p>\n<p>Pref\u00e1cio (aproveitar para o \u00abShakespeare\u00bb?) (3)<\/p>\n<p>N\u00e3o encontro dificuldade em definir-me: sou um temperamento feminino<br \/>\ncom uma intelig\u00eancia masculina. A minha sensibilidade e os movimentos<br \/>\nque dela procedem, e \u00e9 nisso que consistem o temperamento e a sua express\u00e3o,<br \/>\ns\u00e3o de mulher. As minhas faculdades de rela\u00e7\u00e3o<br \/>\na intelig\u00eancia, e a vontade, que \u00e9 a intelig\u00eancia do impulso<br \/>\n&#8211; s\u00e3o de homem.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 sensibilidade, quando digo que sempre gostei de ser amado,<br \/>\ne nunca de amar, tenho dito tudo. Magoava-me sempre o ser obrigado, por um<br \/>\ndever de vulgar reciprocidade uma lealdade do esp\u00edrito<br \/>\na corresponder. Agradava-me a passividade. De actividade, s\u00f3 me aprazia<br \/>\no bastante para estimular, para n\u00e3o deixar esquecer-me, a actividade<br \/>\nem amar daquele que me amava.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o sem ilus\u00e3o a natureza do fen\u00f3meno. \u00c9<br \/>\numa invers\u00e3o sexual fruste. P\u00e1ra no esp\u00edrito. Sempre,<br \/>\npor\u00e9m, nos momentos de medita\u00e7\u00e3o sobre mim, me inquietou,<br \/>\nn\u00e3o tive nunca a certeza, nem a tenho ainda, de que essa disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo temperamento n\u00e3o pudesse um dia descer-me ao corpo. N\u00e3o digo<br \/>\nque praticasse ent\u00e3o a sexualidade correspondente a esse impulso; mas<br \/>\nbastava o desejo para me humilhar. Somos v\u00e1aacute;rios desta esp\u00e9cie,<br \/>\npela hist\u00f3ria abaixo &#8211; pela hist\u00f3ria art\u00edstica sobretudo.<br \/>\nShakespeare e Rousseau s\u00e3o dos exemplos, ou exemplares, mais ilustres.<br \/>\nE o meu receio da descida ao corpo dessa invers\u00e3o do esp\u00edrito<br \/>\n&#8211; radica-mo a contempla\u00e7\u00e3o de como nesses dois desceu &#8211; completamente<br \/>\nno primeiro, e em pederastia; incertamente no segundo, num vago masoquismo.<\/p>\n<p>12<\/p>\n<p>[Carta a M\u00e1rio Beir\u00e3o] (4)<\/p>\n<p>Lisboa, 1 de Fevereiro de 1913.<\/p>\n<p>Meu querido M\u00e1rio Beir\u00e3o:<\/p>\n<p>Deu-me um grande prazer a sua carta de 25, que h\u00e1 dias recebi. Tinha<br \/>\nmuita pena, \u00e9 certo, que v. n\u00e3o me tivesse escrito ainda, mas,<br \/>\ncomo eu tamb\u00e9m lhe n\u00e3o tinha escrito, n\u00e3o me cabia o<br \/>\ndireito objectivo de ter essa pena. O pior para mim \u00e9 que eu, por certo,<br \/>\nsinto mais a falta de correspond\u00eancia que v. Estou, quanto a companhia<br \/>\nespiritual e imediata, quase s\u00f3, se n\u00e3o s\u00f3 em absoluto&#8230;<br \/>\nN\u00e3o sou das pessoas menos acompanh\u00e1veis por si pr\u00f3prias,<br \/>\nmas ainda assim e de vez em quando aborre\u00e7o-me de n\u00e3o<br \/>\nandar sen\u00e3o comigo.<\/p>\n<p>Por isto a sua carta, ainda que breve, me causou uma grande alegria.<\/p>\n<p>Estou actualmente atravessando uma daquelas crises a que, quando se d\u00e3o<br \/>\nna agricultura, se costuma chamar \u00abcrises de abund\u00e2ncia\u00bb.<\/p>\n<p>Tenho a alma num estado de rapidez ideativa t\u00e3o intenso que preciso<br \/>\nfazer da minha aten\u00e7\u00e3o um caderno de apontamentos, e, ainda<br \/>\nassim, tantas s\u00e3o as folhas que tenho a encher, que algumas se perdem,<br \/>\npor elas serem tantas, e outras se n\u00e3o podem ler depois, por com mais<br \/>\nque muita pressa escritas. As ideias que perco causam-me uma tortura imensa,<br \/>\nsobrevivem-se nessa tortura, escuramente outras. V. dificilmente imaginar\u00e1<br \/>\nque Rua do Arsenal, em mat\u00e9ria de movimento, tem sido a minha pobre<br \/>\ncabe\u00e7a. Versos ingleses, portugueses, racioc\u00ednios, temas, projectos,<br \/>\nfragmentos de coisas que n\u00e3o sei o que s\u00e3o, cartas que n\u00e3o<br \/>\nsei como come\u00e7am ou acabam, rel\u00e2mpagos de cr\u00edticas, murm\u00farios<br \/>\nde metaf\u00edsicas&#8230; Toda uma literatura, meu caro M\u00e1rio, que vai<br \/>\nda bruma para a bruma pela bruma&#8230;<\/p>\n<p>Destaco de coisas ps\u00edquicas de que tenho sido o lugar, o seguinte<br \/>\nfen\u00f3meno que julgo curioso. V. sabe, creio, que de v\u00e1rias fobias<br \/>\nque tive guardo unicamente a assaz infantil mas terrivelmente torturadora<br \/>\nfobia das trovoadas. O outro dia o c\u00e9u amea\u00e7ava chuva e eu ia<br \/>\na caminho de casa e por tarde n\u00e3o havia carros. Afinal n\u00e3o houve<br \/>\ntrovoada, mas esteve iminente e come\u00e7ou a chover &#8211; aqueles pingos graves,<br \/>\nquentes e espa\u00e7ados ia eu ainda a meio do caminho entre a Baixa<br \/>\ne minha casa. Atirei-me para casa com o andar mais pr\u00f3ximo do correr<br \/>\nque pude achar, com a tortura mental que v. calcula, perturbad\u00edssimo,<br \/>\nconfrangido eu todo. E neste estado de esp\u00edrito encontro-me a compor<br \/>\num soneto acabei-o uns passos antes de chegar ao port\u00e3o de<br \/>\nminha casa , a compor um soneto de uma tristeza suave, calma, que parece<br \/>\nescrito por um crep\u00fasculo de c\u00e9u limpo. E o soneto \u00e9<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 calmo, mas tamb\u00e9m mais ligado e conexo que algumas<br \/>\ncoisas que eu tenho escrito. O fen\u00f3meno curioso do desdobramento \u00e9<br \/>\ncoisa que habitualmente tenho, mas nunca o tinha sentido neste grau de intensidade.<br \/>\nComo prova do g\u00e9nero calmo do soneto, aqui lho transcrevo:<\/p>\n<p>ABDICA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>Toma-me, \u00f3 Noite Eterna, nos teus bra\u00e7os<br \/>\nE chama-me teu filho&#8230; Eu sou um Rei<br \/>\nQue volunt\u00e0riamente abandonei<br \/>\nO meu trono de sonhos e cansa\u00e7os.<\/p>\n<p>Minha espada, pesada a bra\u00e7os lassos,<br \/>\nEm m\u00e3os viris e calmas entreguei,<br \/>\nE meu ceptro e coroa &#8211; eu os deixei<br \/>\nNa antec\u00e2mara, feitos em peda\u00e7os.<\/p>\n<p>Minha cota de malha, t\u00e3o in\u00fatil,<br \/>\nMinhas esporas dum tinir t\u00e3o f\u00fatil<br \/>\nDeixei-as pela fria escadaria.<\/p>\n<p>Despi a Realeza, corpo e alma,<br \/>\nE regressei \u00e0 Noite antiga e calma<br \/>\nComo a paisagem ao morrer do dia.<\/p>\n<p>D\u00ea saudades minhas ao Vila-Moura e escreva-me breve e o mais extensamente<br \/>\nque puder.<\/p>\n<p>Um grande abra\u00e7o do seu dedicad\u00edssimo<\/p>\n<p>FERNANDO PESSOA<\/p>\n<p>Rua Passos Manuel, 24, 3.\u00ba E.<\/p>\n<p>14<\/p>\n<p>[ms.] [1915?]<\/p>\n<p>Ficarei o Inferno de ser Eu, a Limita\u00e7\u00e3o Absoluta, Expuls\u00e3o-Ser<br \/>\ndo Universo long\u00ednquo! Ficarei nem Deus, nem homem, nem mundo, mero<br \/>\nv\u00e1cuo-pessoa, infinito de Nada consciente, pavor sem nome, exilado<br \/>\ndo pr\u00f3prio mist\u00e9rio, da pr\u00f3pria Vida. Habitarei eternamente<br \/>\no deserto morto de mim, erro abstracto da cria\u00e7\u00e3o que me deixou<br \/>\natr\u00e1s. Arder\u00e1 em mim eternamente, inutilmente, a \u00e2nsia<br \/>\n(est\u00e9ril) do regresso a ser.<\/p>\n<p>N\u00e3o poderei sentir porque n\u00e3o terei mat\u00e9ria com que<br \/>\nsinta, n\u00e3o poderei respirar [?] alegria, ou \u00f3dio, ou horror,<br \/>\nporque n\u00e3o tenho nem a faculdade com que o sinta, consci\u00eancia<br \/>\nabstracta no inferno do n\u00e3o conter nada, n\u00e3o-Conte\u00fado<br \/>\nAbsoluto, [Sufoca\u00e7\u00e3o] absoluta e eterna! Oco de Deus, sem universo,<br \/>\n(&#8230;).<\/p>\n<p>15<\/p>\n<p>[Prece]<\/p>\n<p>[ms.] [1912?]<\/p>\n<p>Senhor, que \u00e9s o c\u00e9u e a terra, que \u00e9s a vida e a morte!<br \/>\nO sol \u00e9s tu e a lua \u00e9s tu e o vento \u00e9s tu! Tu \u00e9s<br \/>\nos nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor \u00e9s tu tamb\u00e9m.<br \/>\nOnde nada est\u00e1 tu habitas e onde tudo est\u00e1 (o teu templo)<br \/>\neis o teu corpo.<\/p>\n<p>D\u00e1-me alma para te servir e alma para te amar. D\u00e1-me vista<br \/>\npara te ver sempre no c\u00e9u e na terra, ouvidos para te ouvir no vento<br \/>\ne no mar, e m\u00e3os para trabalhar em teu nome.<\/p>\n<p>Torna-me puro como a \u00e1gua e alto como o c\u00e9u. Que n\u00e3o<br \/>\nhaja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos<br \/>\nmeus prop\u00f3sitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irm\u00e3os<br \/>\ne servir-te como a um pai.<\/p>\n<p>[&#8230; ]<\/p>\n<p>Minha vida seja digna da tua presen\u00e7a. Meu corpo seja digno da terra,<br \/>\ntua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao<br \/>\nlar.<\/p>\n<p>Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me<br \/>\npuro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como<br \/>\no dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.<\/p>\n<p>Senhor, protege-me e ampara-me. D\u00e1-me que eu me sinta teu. Senhor,<br \/>\nlivra-me de mim.<\/p>\n<p>16<\/p>\n<p>[ms.] [1914?]<\/p>\n<p>Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta<br \/>\nde intelectual na humanidade \u00e9 a leitura de romances policiais. Entre<br \/>\no n\u00famero a\u00fareo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa<br \/>\nque eu passe, conto por do melhor ano aquelas em que a leitura de Conan Doyle<br \/>\nou de Arthur Morrison me pega na consci\u00eancia ao colo.<\/p>\n<p>Um volume de um destes autores, um cigarro de 45 ao pacote, a ideia de uma<br \/>\nch\u00e1vena de caf\u00e9-trindade cujo ser-uma \u00e9 o conjugar a<br \/>\nfelicidade para mim resume-se nisto a minha felicidade. Seria pouco<br \/>\npara muitos, a verdade \u00e9 que n\u00e3o pode aspirar a muito mais uma<br \/>\ncriatura com sentimentos intelectuais e est\u00e9ticos no meio europeu actual.<\/p>\n<p>Talvez seja para os senhores como que causa de pasmo, n\u00e3o o eu ter<br \/>\nestes por meus autores predilectos &#8211; e de quarto de cama, mas o eu confessar<br \/>\nque nesta conta pessoal assim os tenho.<\/p>\n<p>17<\/p>\n<p>Est\u00e9tica da abdica\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>[dact.] [1913?]<\/p>\n<p>Conformar-se \u00e9 submeter-se e vencer \u00e9 conformar-se, ser vencido.<br \/>\nPor isso toda a vit\u00f3ria \u00e9 uma grosseria. Os vencedores perdem<br \/>\nsempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram \u00e0<br \/>\nluta que lhes deu a vit\u00f3ria. Ficam satisfeitos, e satisfeito s\u00f3<br \/>\npode estar aquele que se conforma, que n\u00e3o tem a mentalidade do vencedor.<br \/>\nVence s\u00f3 quem nunca consegue. S\u00f3 \u00e9 forte quem desanima<br \/>\nsempre. O melhor e o mais p\u00farpura \u00e9 abdicar. O imp\u00e9rio<br \/>\nsupremo \u00e9 o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros<br \/>\nhomens, em quem o cuidado da supremacia n\u00e3o pesa como um fardo de j\u00f3ias.<\/p>\n<p>18<\/p>\n<p>[ms.] 21.11.1914<\/p>\n<p>Hoje, ao tomar de vez a decis\u00e3o de ser Eu, de viver \u00e0 altura<br \/>\ndo meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de<br \/>\nimpress\u00f5es pelos outros, na posse plena do meu G\u00e9nio e na divina<br \/>\nconsci\u00eancia da minha Miss\u00e3o. Hoje s\u00f3 me quero tal qual<br \/>\nmeu car\u00e1cter nato quer que eu seja; e meu G\u00e9nio, com ele nascido,<br \/>\nme imp\u00f5e que eu n\u00e3o deixe de ser.<\/p>\n<p>Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose<br \/>\npor pose, a pose de ser o que sou.<\/p>\n<p>Nada de desafios \u00e0 plebe, nada de gir\u00e2ndolas para o risa ou<br \/>\na raiva dos inferiores. A superioridade n\u00e3o se mascara de palha\u00e7o;<br \/>\n\u00e9 de ren\u00fancia e de sil\u00eancio que se veste.<\/p>\n<p>O \u00faltimo rasto de influ\u00eancia dos outros no meu car\u00e1cter<br \/>\ncessou com isto. Reconheci ao sentir que podia e ia dominar o desejo<br \/>\nintenso e infantil de \u00ablan\u00e7ar o Interseccionismo\u00bb<br \/>\na tranquila posse de mim.<\/p>\n<p>Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.<\/p>\n<p>Perten\u00e7o a uma gera\u00e7\u00e3o que ainda est\u00e1 por vir,<br \/>\ncuja alma n\u00e3o conhece j\u00e1, realmente, a sinceridade e os sentimentos<br \/>\nsociais. Por isso n\u00e3o compreendo como \u00e9 que uma criatura fica<br \/>\ndesqualificada, nem como \u00e9 que ela o sente. \u00c9 oca de sentido,<br \/>\npara mim, toda essa (&#8230;) das conveni\u00eancias sociais. N\u00e3o sinto<br \/>\no que \u00e9 honra, vergonha, dignidade. S\u00e3o para mim, como para<br \/>\nos do meu alto n\u00edvel nervoso, palavras de uma l\u00edngua estrangeira,<br \/>\ncomo um som an\u00f3nimo apenas.<\/p>\n<p>Ao dizerem que me desqualificaram, eu n\u00e3o percebo sen\u00e3o que<br \/>\nse fala de mim, mas o sentido da frase escapa-me. Assisto ao que me acontece,<br \/>\nde longe, desprendidamente, sorrindo ligeiramente das cousas que acontecem<br \/>\nna vida. Hoje, ainda ningu\u00e9m sente isto; mas um dia vir\u00e1 quem<br \/>\no possa perceber.<\/p>\n<p>Procurei sempre ser espectador da vida, sem me misturar nela. Assim, a isto<br \/>\nque se passa comigo, eu assisto como um estranho; salvo que tiro dos pobres<br \/>\nacontecimentos que me cercam a vol\u00fapia suave (5) de (&#8230;).<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho rancor nenhum a quem provocou isto. Eu n\u00e3o tenho<br \/>\nrancores nem \u00f3dios. Esses sentimentos pertencem \u00e0queles que<br \/>\nt\u00eam uma opini\u00e3o, ou uma profiss\u00e3o ou um objectivo na vida.<br \/>\nEu n\u00e3o tenho nada dessas cousas. Tenho na vida o interesse de um decifrador<br \/>\nde charadas.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o tenho princ\u00edpios. Hoje defendo uma cousa, amanh\u00e3<br \/>\noutra. Mas n\u00e3o creio no que defendo hoje, nem amanh\u00e3 terei f\u00e9<br \/>\nno que defenderei. Brincar com as ideias e com os sentimentos pareceu-me sempre<br \/>\no destino supremamente belo. Tento realiz\u00e1-lo quanto posso.<\/p>\n<p>Nunca me tinha sentido desqualificado. Como lhe agradecer ter-me ministrado<br \/>\nesse prazer! Ele \u00e9 uma vol\u00fapia suave, como que long\u00ednqua&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o nos entendem, bem sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; Assim como criador de anarquias me pareceu sempre o papel digno de um<br \/>\nintelectual (dado que a intelig\u00eancia desintegra e a an\u00e1lise estiola).<\/p>\n<p>20<\/p>\n<p>Cr\u00f3nica da vida que passa (6)<\/p>\n<p>[dact.]<\/p>\n<p>As vezes, quando penso nos homens c\u00e9lebres, sinto por eles toda a<br \/>\ntristeza da celebridade.<\/p>\n<p>A celebridade \u00e9 um plebe\u00edsmo. Por isso deve ferir uma alma<br \/>\ndelicada. \u00c9 um plebe\u00edsmo porque estar em evid\u00eancia, ser<br \/>\nolhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde parentesco exterior com as criaturas que armam esc\u00e2ndalo nas ruas,<br \/>\nque gesticulam e falam alto nas pra\u00e7as. O homem que se torna c\u00e9lebre<br \/>\nfica sem vida \u00edntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida dom\u00e9stica;<br \/>\n\u00e9 sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas m\u00ednimas<br \/>\nac\u00e7\u00f5es ridiculamente humanas \u00e0s vezes<br \/>\nque ele quereria invis\u00edveis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas<br \/>\npequenezes, com cuja evid\u00eancia a sua alma se estraga ou se enfastia.<br \/>\n\u00c9 preciso ser muito grosseiro para se poder ser c\u00e9lebre \u00e0<br \/>\nvontade.<\/p>\n<p>Depois, al\u00e9m dum plebe\u00edsmo, a celebridade \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nParecendo que d\u00e1 valor e for\u00e7a \u00e0s criaturas, apenas as<br \/>\ndesvaloriza e as enfraquece. Um homem de g\u00e9nio desconhecido pode gozar<br \/>\na vol\u00fapia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu g\u00e9nio;<br \/>\ne pode, pensando que seria c\u00e9lebre se quisesse, medir o seu valor com<br \/>\na sua melhor medida, que \u00e9 ele-pr\u00f3prio. Mas, uma vez conhecido,<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 mais na sua m\u00e3o reverter \u00e0 obscuridade.<br \/>\nA celebridade \u00e9 irrepar\u00e1vel. Dela como do tempo, ningu\u00e9m<br \/>\ntorna atr\u00e1s ou se desdiz.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isto que a celebridade \u00e9 uma fraqueza tamb\u00e9m.<br \/>\nTodo o homem que merece ser c\u00e9lebre sabe que n\u00e3o vale a pena<br \/>\ns\u00ea-lo. Deixar-se ser c\u00e9lebre \u00e9 uma fraqueza, uma concess\u00e3o<br \/>\nao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos.<\/p>\n<p>Penso \u00e0s vezes nisto coloridamente. E aquela frase de que \u00abhomem<br \/>\nde g\u00e9nio desconhecido\u00bb \u00e9 o mais belo de todos os destinos,<br \/>\ntorna-se-me ineg\u00e1vel; parece-me que esse \u00e9 n\u00e3o s\u00f3<br \/>\no mais belo, mas o maior dos destinos.<\/p>\n<p>Diz-se que os herm\u00e9ticos da Rosa-Cruz, seita esot\u00e9rica e magista,<br \/>\ndescobriram, desde o in\u00edcio dos tempos, o segredo da vida-eterna, o<br \/>\nelixir da vida; que, nunca morrendo, passam de \u00e9poca em \u00e9poca,<br \/>\natrav\u00e9s dos ciclos e das civiliza\u00e7\u00f5es, despercebidos,<br \/>\nnenhuns e, contudo, pela grandeza da cousa transcendental que criaram, maiores<br \/>\ndo que os g\u00e9nios todos da evid\u00eancia humana. Da sua seita \u00e9<br \/>\no preceito, que cumprem, de se n\u00e3o darem nunca a conhecer. A sua presen\u00e7a<br \/>\neterna, que vive \u00e0 margem da nossa transi\u00eancia, vive tamb\u00e9m<br \/>\nfora da nossa pequenez.<\/p>\n<p>V\u00e3o-se-me os olhos da alma nessas figuras supostas e quem<br \/>\nsabe a que ponto reais? que, verdadeiramente, realizam o supremo destino<br \/>\ndo homem: o m\u00e1ximo do poder no m\u00ednimo da exibi\u00e7\u00e3o;<br \/>\no m\u00ednimo da exibi\u00e7\u00e3o por certo, por terem o m\u00e1ximo<br \/>\ndo poder. O sentido das suas vidas \u00e9 divino e long\u00ednquo. Apraz-me<br \/>\ncrer que eles existam para que possa pensar nobremente da humanidade.<\/p>\n<p>21<\/p>\n<p>[dact.] [Janeiro de 1917?]<\/p>\n<p>Por mim, o meu ego\u00edsmo \u00e9 a superf\u00edcie da minha dedica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO meu esp\u00edrito vive constantemente no estudo e no cuidado da Verdade,<br \/>\ne no escr\u00fapulo de deixar, quando eu despir a veste que me liga a este<br \/>\nmundo, uma obra que sirva o progresso e o bem da Humanidade. Reconhe\u00e7o<br \/>\nque o sentido intelectual que esse Servi\u00e7o da Humanidade toma em mim,<br \/>\nem virtude do meu temperamento, me afasta, muitas vezes, das pequenas manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nque em geral revelam o esp\u00edrito humanit\u00e1rio. Os actos de caridade,<br \/>\na dedica\u00e7\u00e3o por assim dizer quotidiana s\u00e3o cousas que<br \/>\nraras vezes aparecem em mim, embora nada haja em mim que represente a nega\u00e7\u00e3o<br \/>\ndelas.<\/p>\n<p>Em todo o caso, reconhe\u00e7o, em justi\u00e7a para comigo pr\u00f3prio,<br \/>\nque n\u00e3o sou mais ego\u00edsta que a maioria dos indiv\u00edduos,<br \/>\ne muito menos o sou que a maioria dos meus colegas nas artes e nas letras.<br \/>\nPare\u00e7o ego\u00edsta \u00e0queles que, por um ego\u00edsmo absorvente,<br \/>\nexigem a dedica\u00e7\u00e3o dos outros como um tributo.<\/p>\n<p>25<\/p>\n<p>[ms.] [1934?]<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o publique porque n\u00e3o quero: n\u00e3o<br \/>\npublico porque n\u00e3o posso. N\u00e3o se entendam estas palavras como<br \/>\ndirigidas contra a Comiss\u00e3o de Censura; ningu\u00e9m tem menos raz\u00e3o<br \/>\nde queixa do que eu dessa Comiss\u00e3o. A Censura obedece, por\u00e9m,<br \/>\na directrizes que lhe s\u00e3o superiormente impostas; e todos n\u00f3s<br \/>\nsabemos quais s\u00e3o, mais ou menos, essas directrizes.<\/p>\n<p>Ora sucede que a maioria das coisas que eu pudesse escrever n\u00e3o poderia<br \/>\nser passada pela Censura. Posso n\u00e3o poder coibir o impulso de escrev\u00ea-las:<br \/>\ndomino f\u00e0cilmente, porque n\u00e3o o tenho, o impulso de as publicar<br \/>\nnem vou importunar os Censores com mat\u00e9ria cuja publica\u00e7\u00e3o<br \/>\neles teriam for\u00e7osamente que proibir.<\/p>\n<p>Sendo assim para qu\u00ea publicar? Privado de poder publicar o que deveras<br \/>\ninteressar\u00e1 o p\u00fablico, que empenho tenho eu em levar a um jornal<br \/>\nqualquer o que, por ileg\u00edvel, lhe n\u00e3o serve, ou que (&#8230;)<\/p>\n<p>Posso, \u00e9 certo, dissertar livremente (e, ainda assim, s\u00f3 at\u00e9<br \/>\ncerto ponto e em certos meios) sobre a filosofia de Kant (&#8230;)<\/p>\n<p>III<br \/>\nPara a Explica\u00e7\u00e3o da Heteron\u00edmia<\/p>\n<p>1<\/p>\n<p>[ms.] [1915?]<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quem sou, que alma tenho.<\/p>\n<p>Quando falo com sinceridade n\u00e3o sei com que sinceridade falo. Sou<br \/>\nv\u00e0riamente outro do que um eu que n\u00e3o sei se existe (se \u00e9<br \/>\nesses outros).<\/p>\n<p>Sinto cren\u00e7as que n\u00e3o tenho. Enlevam-me \u00e2nsias que repudio.<br \/>\nA minha perp\u00e9tua aten\u00e7\u00e3o sobre mim perp\u00e8tuamente<br \/>\nme ponta trai\u00e7\u00f5es de alma a um car\u00e1cter que talvez eu<br \/>\nn\u00e3o tenha, nem ela julga que eu tenho.<\/p>\n<p>Sinto-me m\u00faltiplo. Sou como um quarto com in\u00fameros espelhos<br \/>\nfant\u00e1sticos que torcem para reflex\u00f5es falsas uma \u00fanica<br \/>\nanterior realidade que n\u00e3o est\u00e1 em nenhuma e est\u00e1 em<br \/>\ntodas.<\/p>\n<p>Como o pante\u00edsta se sente \u00e1rvore [?] e at\u00e9 a flor, eu<br \/>\nsinto-me v\u00e1rios seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,<br \/>\ncomo se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada<br \/>\n[?], por uma suma de n\u00e3o-eus sintetizados num eu posti\u00e7o.<\/p>\n<p>2<\/p>\n<p>[ms.] [s. d.]<\/p>\n<p>S\u00ea plural como o universo!<\/p>\n<p>3<\/p>\n<p>[dact.] [s. d]<\/p>\n<p>Sendo n\u00f3s portugueses, conv\u00e9m saber o que \u00e9 que somos.<\/p>\n<p>a) adaptabilidade, que no mental d\u00e1 a instabilidade, e portanto a<br \/>\ndiversifica\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo dentro de si mesmo. O bom<br \/>\nportugu\u00eas \u00e9 v\u00e1rias pessoas.<\/p>\n<p>b) a predomin\u00e2ncia da emo\u00e7\u00e3o sobre a paix\u00e3o. Somos<br \/>\nternos e pouco intensos, ao contr\u00e1rio dos espanh\u00f3is &#8211; nossos<br \/>\nabsolutos contr\u00e1rios &#8211; que s\u00e3o apaixonados e frios.<\/p>\n<p>Nunca me sinto t\u00e3o portugu\u00easmente eu como quando me sinto diferente<br \/>\nde mim Alberto Caeiro, Ricardo Reis, \u00c1lvaro de Campos, Fernando<br \/>\nPessoa, e quantos mais haja havidos ou por haver.<\/p>\n<p>4<\/p>\n<p>[dact.] [1930?]<\/p>\n<p>Aspectos [Pref\u00e1cio para a edi\u00e7\u00e3o projectada das suas<br \/>\nobras]<\/p>\n<p>A obra complexa, cujo primeiro volume \u00e9 este, \u00e9 de subst\u00e2ncia<br \/>\ndram\u00e1tica, embora de forma v\u00e1ria aqui de trechos em<br \/>\nprosa, em outros livros de poemas ou de filosofias.<\/p>\n<p>\u00c9, n\u00e3o sei se um privil\u00e9gio se uma doen\u00e7a, a<br \/>\nconstitui\u00e7\u00e3o mental que a produz. O certo, por\u00e9m, \u00e9<br \/>\nque o autor destas linhas n\u00e3o sei bem se o autor destes livros<br \/>\nnunca teve uma s\u00f3 personalidade, nem pensou nunca, nem sentiu,<br \/>\nsen\u00e3o dram\u00e0ticamente, isto \u00e9, numa pessoa, ou personalidade,<br \/>\nsuposta, que mais pr\u00f2priamente do que ele pr\u00f3prio pudesse ter<br \/>\nesses sentimentos.<\/p>\n<p>H\u00e1 autores que escrevem dramas e novelas; e nesses dramas e nessas<br \/>\nnovelas atribuem sentimentos e ideias \u00e0s figuras, que as povoam, que<br \/>\nmuitas vezes se indignam que sejam tomados por sentimentos seus, ou ideias<br \/>\nsuas. Aqui a subst\u00e2ncia \u00e9 a mesma, embora a forma seja diversa.<\/p>\n<p>A cada personalidade mais demorada, que o autor destes livros conseguiu viver<br \/>\ndentro de si, ele deu uma \u00edndole expressiva, e fez dessa personalidade<br \/>\num autor, com um livro, ou livros, com as ideias, as emo\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne a arte dos quais, ele, o autor real (ou porventura aparente, porque n\u00e3o<br \/>\nsabemos o que seja a realidade), nada tem, salvo o ter sido, no escrev\u00ea-las,<br \/>\no m\u00e9dium de figuras que ele pr\u00f3prio criou.<\/p>\n<p>Nem esta obra, nem as que se lhe seguir\u00e3o t\u00eam nada que ver com<br \/>\nquem as escreve. Ele nem concorda com o que nelas vai escrito, nem discorda.<br \/>\nComo se lhe fosse ditado, escreve; e, como se lhe fosse ditado por quem fosse<br \/>\namigo, e portanto com raz\u00e3o lhe pedisse para que escrevesse o que ditava,<br \/>\nacha interessante porventura s\u00f3 por amizade o que,<br \/>\nditado, vai escrevendo.<\/p>\n<p>O autor humano destes livros n\u00e3o conhece em si pr\u00f3prio personalidade<br \/>\nnenhuma. Quando acaso sente uma personalidade emergir dentro de si, cedo v\u00ea<br \/>\nque \u00e9 um ente diferente do que ele \u00e9, embora parecido; filho<br \/>\nmental, talvez, e com qualidades herdadas, mas as diferen\u00e7as de ser<br \/>\noutrem.<\/p>\n<p>Que esta qualidade no escritor seja uma forma da histeria, ou da chamada<br \/>\ndissocia\u00e7\u00e3o da personalidade, o autor destes livros nem o contesta,<br \/>\nnem o apoia. De nada lhe serviriam, escravo como \u00e9 da multiplicidade<br \/>\nde si pr\u00f3prio, que concordasse com esta, ou com aquela, teoria, sobre<br \/>\nos resultados escritos dessa multiplicidade.<\/p>\n<p>Que este processo de fazer arte cause estranheza, n\u00e3o admira; o que<br \/>\nadmira \u00e9 que haja cousa alguma que n\u00e3o cause estranheza.<\/p>\n<p>Algumas teorias, que o autor presentemente tem, foram-lhe inspiradas por<br \/>\numa ou outra destas personalidades que, um momento, uma hora, uns tempos,<br \/>\npassaram consubstancialmente pela sua pr\u00f3pria personalidade, se \u00e9<br \/>\nque esta existe.<\/p>\n<p>Afirmar que estes homens todos diferentes, todos bem definidos, que lhe passaram<br \/>\npela alma incorporadamente, n\u00e3o existem &#8211; n\u00e3o pode faz\u00ea-lo<br \/>\no autor destes livros; porque n\u00e3o sabe o que \u00e9 existir, nem<br \/>\nqual Hamlet ou Shakespeare, \u00e9 que \u00e9 mais real, ou real na verdade.<\/p>\n<p>Estes livros ser\u00e3o os seguintes, por enquanto: Primeiro, este volume,<br \/>\n\u00abLivro do Desassossego\u00bb, escrito por quem diz, de si pr\u00f3prio<br \/>\nchamar-se Vicente Guedes; depois \u00abO Guardador de Rebanhos\u00bb e outros<br \/>\npoemas e fragmentos do (tamb\u00e9m, e do mesmo modo, falecido) Alberto<br \/>\nCaeiro, que nasceu pr\u00f3ximo de Lisboa em 1889 e morreu onde nascera<br \/>\nem 1915. Se me disserem que \u00e9 absurdo falar assim de quem nunca existiu,<br \/>\nrespondo que tamb\u00e9m n\u00e3o tenho provas de que Lisboa tenha alguma<br \/>\nvez existido, ou eu que escrevo, ou qualquer cousa quer que seja.<\/p>\n<p>Este Alberto Caeiro teve dois disc\u00edpulos e um continuador filos\u00f3fico.<br \/>\nOs dois disc\u00edpulos, Ricardo Reis e \u00c1lvaro de Campos, seguiram<br \/>\ncaminhos diferentes; tendo o primeiro intensificado e tornado artisticamente<br \/>\nortodoxo o paganismo descoberto por Caeiro, e o segundo, baseando-se em outra<br \/>\nparte da obra de Caeiro, desenvolvido um sistema inteiramente diferente, e<br \/>\nbaseado inteiramente nas sensa\u00e7\u00f5es. O continuador filos\u00f3fico,<br \/>\nAnt\u00f3nio Mora (os nomes s\u00e3o t\u00e3o inevit\u00e1veis, t\u00e3o<br \/>\nimpostos de fora como as personalidades), tem um ou dois livros a escrever,<br \/>\nonde provar\u00e1 completamente a verdade, metaf\u00edsica e pr\u00e1tica,<br \/>\ndo paganismo. Um segundo fil\u00f3sofo desta escola pag\u00e3, cujo nome,<br \/>\npor\u00e9m, ainda n\u00e3o apareceu na minha vis\u00e3o ou audi\u00e7\u00e3o<br \/>\ninterior, dar\u00e1 uma defesa do paganismo baseada, inteiramente, em outros<br \/>\nargumentos.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que, mais tarde, outros indiv\u00edduos, deste<br \/>\nmesmo g\u00e9nero de verdadeira realidade, apare\u00e7am. N\u00e3o sei;<br \/>\nmas ser\u00e3o sempre bem-vindos \u00e0 minha vida interior, onde convivem<br \/>\nmelhor comigo do que eu consigo viver com a realidade externa. Escuso de dizer<br \/>\nque com parte das teorias deles concordo, e que n\u00e3o concordo com outras<br \/>\npartes. Estas cousas s\u00e3o perfeitamente indiferentes. Se eles escrevem<br \/>\ncousas belas, essas cousas s\u00e3o belas, independentemente de quaisquer<br \/>\nconsidera\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas sobre os autores \u00abreais\u00bb<br \/>\ndelas. Se, nas suas filosofias, dizem quaisquer verdades se verdades<br \/>\nh\u00e1 num mundo que \u00e9 o n\u00e3o haver nada essas cousas<br \/>\ns\u00e3o verdadeiras independentemente da inten\u00e7\u00e3o ou da \u00abrealidade\u00bb<br \/>\nde quem as disse.<\/p>\n<p>Tornando-me assim, pelo menos um louco que sonha alto, pelo mais, n\u00e3o<br \/>\num s\u00f3 escritor, mas toda uma literatura, quando n\u00e3o contribu\u00edsse<br \/>\npara me divertir, o que para mim j\u00e1 era bastante, contribuo talvez<br \/>\npara engrandecer o universo, porque quem, morrendo, deixa escrito um verso<br \/>\nbelo deixou mais ricos os c\u00e9us e a terra e mais emotivamente misteriosa<br \/>\na raz\u00e3o de haver estrelas e gente.<\/p>\n<p>Com uma tal falta de literatura, como h\u00e1 hoje, que pode um homem de<br \/>\ng\u00e9nio fazer sen\u00e3o converter-se, ele s\u00f3, em uma literatura?<br \/>\nCom uma tal falta de gente coexist\u00edvel, como h\u00e1 hoje, que pode<br \/>\num homem de sensibilidade fazer sen\u00e3o inventar os seus amigos, ou,<br \/>\nquando menos, os seus companheiros de esp\u00edrito?<\/p>\n<p>Pensei, primeiro, em publicar an\u00f2nimamente, em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\na mim, estas obras, e, por exemplo, estabelecer um neopaganismo portugu\u00eas,<br \/>\ncom v\u00e1rios autores, todos diferentes, a colaborar nele e a dilat\u00e1-lo.<br \/>\nMas, sobre ser pequeno de mais o meio intelectual portugu\u00eas, para que<br \/>\n(mesmo sem inconfid\u00eancias) a m\u00e1scara se pudesse manter, era in\u00fatil<br \/>\no esfor\u00e7o mental preciso para mant\u00ea-la.<\/p>\n<p>Tenho, na minha vis\u00e3o a que chamo interior apenas porque chamo exterior<br \/>\na determinado \u00abmundo\u00bb, plenamente fixas, n\u00edtidas, conhecidas<br \/>\ne distintas, as linhas fision\u00f3micas, os tra\u00e7os de car\u00e1cter,<br \/>\na vida, a ascend\u00eancia, nalguns casos a morte, destas personagens. Alguns<br \/>\nconheceram-se uns aos outros; outros n\u00e3o. A mim, pessoalmente, nenhum<br \/>\nme conheceu, excepto \u00c1lvaro de Campos. Mas, se amanh\u00e3 eu, viajando<br \/>\nna Am\u00e9rica, encontrasse subitamente a pessoa f\u00edsica de Ricardo<br \/>\nReis, que, a meu ver, l\u00e1 vive, nenhum gesto de pasmo(7) me sairia da<br \/>\nalma para o corpo; estava certo tudo, mas, antes disso, j\u00e1 estava certo.<br \/>\nO que \u00e9 a vida?<\/p>\n<p>5<\/p>\n<p>[ms.] [1930?]<\/p>\n<p>Aspectos<\/p>\n<p>A s\u00e9rie, ou colec\u00e7\u00e3o, de livros, cuja publica\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a destes se inicia, representa, n\u00e3o um processo novo em literatura,<br \/>\nmas uma maneira nova de empregar um processo j\u00e1 antigo.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Desejo ser um criador de mitos, que \u00e9 o mist\u00e9rio mais alto<br \/>\nque pode obrar algu\u00e9m da humanidade.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>A confec\u00e7\u00e3o destas obras n\u00e3o manifesta um qualquer estado<br \/>\nde opini\u00e3o metaf\u00edsica. Quero dizer: com o escrever estes \u00abaspectos\u00bb<br \/>\nda realidade, totalizados em pessoas que os tivessem, n\u00e3o pretendo<br \/>\numa filosofia que insinue que s\u00f3 h\u00e1 de real o haver aspectos<br \/>\nde uma realidade ou ilusiva, ou inexistente. N\u00e3o tenho, nem essa cren\u00e7a<br \/>\nfilos\u00f3fica, nem a cren\u00e7a filos\u00f3fica contr\u00e1ria.<br \/>\nAdentro do meu mester, que \u00e9 liter\u00e1rio, sou um profissional,<br \/>\nno sentido superior que o termo tem; isto \u00e9, sou um trabalhador cient\u00edfico,<br \/>\nque a si n\u00e3o permite que tenha opini\u00f5es estranhas \u00e0 especializa\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria, a que se entrega. E o n\u00e3o ter nem esta, nem aquela,<br \/>\nopini\u00e3o filos\u00f3fica a prop\u00f3sito da confec\u00e7\u00e3o<br \/>\ndestas pessoas-livros, t\u00e3o-pouco deve induzir a crer que sou um c\u00e9ptico.<br \/>\nA quest\u00e3o est\u00e1 num plano onde a especula\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica,<br \/>\nporque n\u00e3o entra legitimamente, escusa de ter estes, ou aqueles caracteres.<br \/>\nComo o f\u00edsico n\u00e3o tem metaf\u00edsica no seu laborat\u00f3rio,<br \/>\ne a n\u00e3o tem o cl\u00ednico nos diagn\u00f3sticos que fa\u00e7a,<br \/>\n[?] n\u00e3o porque a n\u00e3o possa ter, mas porque (&#8230;) assim o problema<br \/>\nmetaf\u00edsico meu n\u00e3o existe, porque n\u00e3o pode, nem tem que<br \/>\nexistir adentro das capas destes meus livros de outros.<\/p>\n<p>6<\/p>\n<p>[Rascunho duma carta a Adolfo Casais Monteiro]<\/p>\n<p>[ms.] [1935]<\/p>\n<p>Tive sempre, desde crian\u00e7a, a necessidade de aumentar o mundo com<br \/>\npersonalidades fict\u00edcias, sonhos meus rigorosamente constru\u00eddos,<br \/>\nvisionados com clareza fotogr\u00e1fica, compreendidos por dentro das suas<br \/>\nalmas. N\u00e3o tinha eu mais que cinco anos, e, crian\u00e7a isolada<br \/>\ne n\u00e3o desejando sen\u00e3o assim estar, j\u00e1 me acompanhavam<br \/>\nalgumas figuras de meu sonho um capit\u00e3o Thibeaut, um Chevalier<br \/>\nde Pas e outros que j\u00e1 me esqueceram, e cujo esquecimento,<br \/>\ncomo a imperfeita lembran\u00e7a daqueles, \u00e9 uma das grandes saudades<br \/>\nda minha vida.<\/p>\n<p>Isto parece simplesmente aquela imagina\u00e7\u00e3o infantil que se<br \/>\nentret\u00e9m com a atribui\u00e7\u00e3o de vida a bonecos ou bonecas.<br \/>\nEra por\u00e9m mais: eu n\u00e3o precisava de bonecas para conceber intensamente<br \/>\nessas figuras. Claras e vis\u00edveis no meu sonho constante, realidades<br \/>\nexactamente humanas para mim, qualquer boneco, por irreal, as estragaria.<br \/>\nEram gente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto, esta tend\u00eancia n\u00e3o passou com a inf\u00e2ncia,<br \/>\ndesenvolveu-se na adolesc\u00eancia, radicou-se com o crescimento dela, tornou-se<br \/>\nfinalmente a forma natural do meu esp\u00edrito. Hoje j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ntenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores<br \/>\nv\u00e1rios de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reuni\u00e3o<br \/>\nde uma pequena humanidade s\u00f3 minha.<\/p>\n<p>Trata-se, contudo, simplesmente do temperamento dram\u00e1tico elevado<br \/>\nao m\u00e1ximo; escrevendo, em vez de dramas em actos e ac\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndramas em almas. T\u00e3o simples \u00e9, na sua subst\u00e2ncia, este<br \/>\nfen\u00f3meno aparentemente t\u00e3o confuso.<\/p>\n<p>N\u00e3o nego, por\u00e9m favore\u00e7o, at\u00e9 ,<br \/>\na explica\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica, mas deve compreender-se que<br \/>\ntoda a actividade superior do esp\u00edrito, porque \u00e9 anormal, \u00e9<br \/>\nigualmente suscept\u00edvel de interpreta\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica.<br \/>\nN\u00e3o me custa admitir que eu seja louco, mas exijo que se compreenda<br \/>\nque n\u00e3o sou louco diferentemente de Shakespeare, qualquer que seja<br \/>\no valor relativo dos produtos do lado s\u00e3o da nossa loucura.<\/p>\n<p>M\u00e9dium, assim, de mim mesmo, todavia subsisto. Sou, por\u00e9m,<br \/>\nmenos real que os outros, menos coeso [?], menos pessoal, eminentemente influenci\u00e1vel<br \/>\npor eles todos. Sou tamb\u00e9m disc\u00edpulo de Caeiro, e ainda me lembro<br \/>\ndo dia-13 de Mar\u00e7o de 1914 quando, tendo \u00abouvido pela<br \/>\nprimeira vez\u00bb (isto \u00e9, tendo acabado de escrever, de um s\u00f3<br \/>\nhausto do esp\u00edrito) grande n\u00famero dos primeiros poemas do \u00abGuardador<br \/>\nde Rebanhos\u00bb, imediatamente escrevi, a fio, os seis poemas-intersec\u00e7\u00f5es<br \/>\nque comp\u00f5em a \u00abChuva Obl\u00edqua\u00bb (\u00abOrpheu\u00bb<br \/>\n2), manifesto e l\u00f3gico resultado da influ\u00eancia de Caeiro sobre<br \/>\no temperamento de Fernando Pessoa.<\/p>\n<p>7<\/p>\n<p>[s. d.]<\/p>\n<p>Umas figuras insiro em contos, ou em subt\u00edtulos de livros, e assino<br \/>\ncom o meu nome o que elas dizem; outras projecto em absoluto e n\u00e3o<br \/>\nassino sen\u00e3o com o dizer que as fiz. Os tipos de figuras distinguem-se<br \/>\ndo seguinte modo: nas que destaco em absoluto, o mesmo estilo, me \u00e9<br \/>\nalheio, e se a figura o pede, contr\u00e1rio, at\u00e9, ao meu; nas figuras<br \/>\nque subscrevo n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a do meu estilo pr\u00f3prio,<br \/>\nsen\u00e3o nos pormenores inevit\u00e1veis, sem os quais elas se n\u00e3o<br \/>\ndistinguiriam entre si.<\/p>\n<p>Compararei algumas destas figuras, para mostrar, pelo exemplo, em que consistem<br \/>\nessas diferen\u00e7as. O ajudante de guarda-livros Bernardo Soares e o Bar\u00e3o<br \/>\nde Teive s\u00e3o ambas figuras minhamente alheias escrevem<br \/>\ncom a mesma subst\u00e2ncia de estilo, a mesma gram\u00e1tica e o mesmo<br \/>\ntipo e forma de propriedade: \u00e9 que escrevem com o estilo que, bom ou<br \/>\nmau, \u00e9 o meu. Comparo as duas porque s\u00e3o casos de um mesmo fen\u00f3meno<br \/>\na inadapta\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade da vida, e, o que \u00e9<br \/>\nmais, a inadapta\u00e7\u00e3o pelos mesmos motivos e raz\u00f5es. Mas,<br \/>\nao passo que o portugu\u00eas \u00e9 igual no Bar\u00e3o de Teive e em<br \/>\nBernardo Soares, o estilo difere em que o do fidalgo \u00e9 intelectual,<br \/>\ndespido de imagens, um pouco como o direi?, hirto e restrito; e o do burgu\u00eas<br \/>\n\u00e9 fluido, participando da m\u00fasica e da pintura, pouco arquitectural.<br \/>\nO fidalgo pensa claro, escreve claro, e domina as suas emo\u00e7\u00f5es,<br \/>\nse bem que n\u00e3o os seus sentimentos: o guarda-livros nem emo\u00e7\u00f5es<br \/>\nnem sentimentos domina, e quando pensa \u00e9 subsidiariamente a sentir.<\/p>\n<p>H\u00e1 not\u00e1veis semelhan\u00e7as, por outra, entre Bernardo Soares<br \/>\ne \u00c1lvaro de Campos. Mas, desde logo, surge em \u00c1lvaro de Campos<br \/>\no desleixo do portugu\u00eas, o desatado das imagens, mais \u00edntimo<br \/>\ne menos propositado que o de Soares.<\/p>\n<p>H\u00e1 acidentes do meu distinguir uns de outros que pesam como grandes<br \/>\nfardos no meu discernimento espiritual. Distinguir tal composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nmusicante de Bernardo Soares de uma composi\u00e7\u00e3o de igual teor<br \/>\nque \u00e9 a minha.<\/p>\n<p>H\u00e1 momentos em que o fa\u00e7o repentinamente, com uma perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que pasmo; e pasmo sem imod\u00e9stia, porque, n\u00e3o crendo em nenhum<br \/>\nfragmento de liberdade humana, pasmo do que se passa em mim como pasmaria<br \/>\ndo que se passasse em outros em dois estranhos.<\/p>\n<p>S\u00f3 uma grande intui\u00e7\u00e3o pode ser b\u00fassola nos descampados<br \/>\nda alma; s\u00f3 com um sentido que usa da intelig\u00eancia, mas se n\u00e3o<br \/>\nassemelha a ela, embora nisto com ela se funda, se pode distinguir estas figuras<br \/>\nde sonho na sua realidade de uma a outra.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Nestes desdobramentos de personalidade ou, antes, inven\u00e7\u00f5es<br \/>\nde personalidades diferentes, h\u00e1 dois graus ou tipos, que estar\u00e3o<br \/>\nrevelados ao leitor, se os seguiu, por caracter\u00edsticas distintivas.<br \/>\nNo primeiro grau, a personalidade distingue-se por ideias e sentimentos pr\u00f3prios,<br \/>\ndistintos dos meus, assim como, em mais baixo n\u00edvel desse grau, se<br \/>\ndistingue por ideias, postas em racioc\u00ednio ou argumento, que n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o minhas, ou, se o s\u00e3o, o n\u00e3o conhe\u00e7o. O Banqueiro<br \/>\nAnarquista \u00e9 um exemplo deste grau inferior; o Livro do Desassossego,<br \/>\ne a personagem Bernardo Soares, s\u00e3o o grau superior.<\/p>\n<p>H\u00e1 o leitor de reparar que, embora eu publique (publicasse) o Livro<br \/>\ndo Desassossego como sendo de um tal Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros<br \/>\nna cidade de Lisboa, o n\u00e3o inclu\u00ed todavia nestas \u00abFic\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Interl\u00fadio\u00bb. \u00c9 que Bernardo Soares, distinguindo-se<br \/>\nde mim por suas ideias, seus sentimentos, seus modos de ver e de compreender,<br \/>\nn\u00e3o se distingue de mim pelo estilo de expor. Dou a personalidade diferente<br \/>\natrav\u00e9s do estilo que me \u00e9 natural, n\u00e3o havendo mais<br \/>\nque a distin\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel do tom especial que a pr\u00f3pria<br \/>\nespecialidade das emo\u00e7\u00f5es necessariamente projecta.<\/p>\n<p>Nos autores das \u00abFic\u00e7\u00f5es do Interl\u00fadio\u00bb<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as ideias e os sentimentos que se distinguem<br \/>\ndos meus: a mesma t\u00e9cnica da composi\u00e7\u00e3o, o mesmo estilo,<br \/>\n\u00e9 diferente do meu. A\u00ed cada personagem \u00e9 criada integralmente<br \/>\ndiferente, e n\u00e3o apenas diferentemente pensada. Por isso nas \u00abFic\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Interl\u00fadio\u00bb predomina o verso. Em prosa \u00e9 mais dif\u00edcil<br \/>\nde se outrar.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Dividiu Arist\u00f3teles a poesia em l\u00edrica, eleg\u00edaca, \u00e9pica<br \/>\ne dram\u00e1tica. Como todas as classifica\u00e7\u00f5es bem pensadas,<br \/>\n\u00e9 esta \u00fatil e clara; como todas as classifica\u00e7\u00f5es,<br \/>\n\u00e9 falsa. Os g\u00e9neros n\u00e3o se separam com tanta facilidade<br \/>\n\u00edntima, e, se analisarmos bem aquilo de que se comp\u00f5em, verificaremos<br \/>\nque da poesia l\u00edrica \u00e0 dram\u00e1tica h\u00e1 uma grada\u00e7\u00e3o<br \/>\ncont\u00ednua. Com efeito, e indo \u00e0s mesmas origens da poesia dram\u00e1tica<br \/>\n\u00c9squilo por exemplo ser\u00e1 mais certo dizer que<br \/>\nencontramos poesia l\u00edrica posta na boca de diversos personagens.<\/p>\n<p>O primeiro grau da poesia l\u00edrica \u00e9 aquele em que o poeta, concentrado<br \/>\nno seu sentimento, exprime esse sentimento. Se ele, por\u00e9m, for uma<br \/>\ncriatura de sentimentos vari\u00e1veis e v\u00e1rios, exprimir\u00e1<br \/>\ncomo que uma multiplicidade de personagens, unificadas somente pelo temperamento<br \/>\ne o estilo. Um passo mais, na escala po\u00e9tica, e temos o poeta que \u00e9<br \/>\numa criatura de sentimentos v\u00e1rios e fict\u00edcios, mais imaginativo<br \/>\ndo que sentimental, e vivendo cada estado de alma antes pela intelig\u00eancia<br \/>\nque pela emo\u00e7\u00e3o. Este poeta exprimir-se-\u00e1 como uma multiplicidade<br \/>\nde personagens, unificadas, n\u00e3o j\u00e1 pelo temperamento e o estilo,<br \/>\npois que o temperamento est\u00e1, substitu\u00eddo pela imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne o sentimento pela intelig\u00eancia, mas t\u00e3o-somente pelo simples<br \/>\nestilo. Outro passo na mesma escala de despersonaliza\u00e7\u00e3o, ou<br \/>\nseja de imagina\u00e7\u00e3o, e temos o poeta que em cada um dos seus<br \/>\nestados mentais v\u00e1rios se integra de tal modo nele que de todo se despersonaliza,<br \/>\nde sorte que, vivendo analiticamente esse estado da alma, faz dele como que<br \/>\na express\u00e3o de um outro personagem, e, sendo assim, o mesmo estilo<br \/>\ntende a variar. D\u00ea-se o passo final, e teremos um poeta que sela v\u00e1rios<br \/>\npoetas, um poeta dram\u00e1tico escrevendo em poesia l\u00edrica. Cada<br \/>\ngrupo de estados de alma mais aproximados insensivelmente se tornar\u00e1<br \/>\numa personagem, com estilo pr\u00f3prio, com sentimentos porventura diferentes,<br \/>\nat\u00e9 opostos, aos t\u00edpicos do poeta na sua pessoa viva. E assim<br \/>\nse ter\u00e1 levado a poesia l\u00edrica ou qualquer forma liter\u00e1ria<br \/>\nan\u00e1loga em sita subst\u00e2ncia \u00e0 poesia l\u00edrica<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 poesia dram\u00e1tica, se todavia se lhe dar a forma<br \/>\nde drama, nem expl\u00edcita nem implicitamente.<\/p>\n<p>Suponhamos que um supremo despersonalizado, como Shakespeare, em vez de criar<br \/>\no personagem de Hamlet como parte de um drama, o criava como simples personagem,<br \/>\nsem drama. Teria escrito, por assim dizer, um drama de uma s\u00f3 personagem,<br \/>\num mon\u00f3logo prolongado e anal\u00edtico. N\u00e3o seria leg\u00edtimo<br \/>\nir buscar a esse personagem uma defini\u00e7\u00e3o dos sentimentos e<br \/>\ndos pensamentos de Shakespeare, a n\u00e3o ser que o personagem fosse falhado,<br \/>\nporque o mau dramaturgo \u00e9 o que se revela.<\/p>\n<p>Por qualquer motivo temperamental que me n\u00e3o proponho analisar, nem<br \/>\nimporta que analise, constru\u00ed dentro de mim v\u00e1rias personagens<br \/>\ndistintas entre si e de mim, personagens essas a que atribu\u00ed poemas<br \/>\nv\u00e1rios que n\u00e3o s\u00e3o como eu, nos meus sentimentos e ideias,<br \/>\nos escreveria.<\/p>\n<p>Assim t\u00eam estes poemas de Caeiro, os de Ricardo Reis e os de \u00c1lvaro<br \/>\nde Campos que ser considerados. N\u00e3o h\u00e1 que buscar em quaisquer<br \/>\ndeles ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem ideias que n\u00e3o<br \/>\naceito, sentimentos que nunca tive. H\u00e1 simplesmente que os ler como<br \/>\nest\u00e3o, que \u00e9 ali\u00e1s como se deve ler.<\/p>\n<p>Um exemplo: escrevi com sobressalto e repugn\u00e2ncia o poema oitavo do<br \/>\n\u00abGuardador de Rebanhos\u00bb, com a sua blasf\u00e9mia infantil e<br \/>\no seu antiespiritualismo absoluto. Na minha pessoa pr\u00f3pria, e aparentemente<br \/>\nreal, com que vivo social e objectivamente, nem uso da blasf\u00e9mia, nem<br \/>\nsou antiespiritualista. Alberto Caeiro, por\u00e9m, como eu o concebi, \u00e9<br \/>\nassim: assim tem pois ele que escrever, quer eu queira, quer n\u00e3o, quer<br \/>\neu pense como ele ou n\u00e3o. Negar-me o direito de fazer isto seria o<br \/>\nmesmo que negar a Shakespeare o direito de dar express\u00e3o \u00e0 alma<br \/>\nde Lady Macbeth, com o fundamento de que ele, poeta, nem era mulher, nem,<br \/>\nque se saiba, histero-epil\u00e9ptico, ou de lhe atribuir uma tend\u00eancia<br \/>\nalucinat\u00f3ria e uma ambi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o recua perante<br \/>\no crime. Se assim \u00e9 das personagens fict\u00edcias de um drama, \u00e9<br \/>\nigualmente l\u00edcito das personagens fict\u00edcias sem drama, pois<br \/>\nque \u00e9 l\u00edcito porque elas s\u00e3o fict\u00edcias e n\u00e3o<br \/>\nporque est\u00e3o num drama.<\/p>\n<p>Parece escusado explicar uma coisa de si t\u00e3o simples e intuitivamente<br \/>\ncompreens\u00edvel. Sucede, por\u00e9m, que a estupidez humana \u00e9<br \/>\ngrande, e a bondade humana n\u00e3o \u00e9 not\u00e1vel.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Para a comprens\u00e3o de Alberto Caeiro<\/p>\n<p>[Ricardo Reis: Alberto Caeiro]<\/p>\n<p>[dact. com anota\u00e7\u00f5es manuscritas] [s. d.]<\/p>\n<p>Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa a (&#8230;) de Abril de 1889, e nessa<br \/>\ncidade faleceu, tuberculoso, em (&#8230;) de (&#8230;) 1915. A sua vida, por\u00e9m,<br \/>\ndecorreu quase toda numa quinta do Ribatejo (?); s\u00f3 os \u00faltimos<br \/>\nmeses dele foram de novo passados na sua cidade natal. Ali foram escritos<br \/>\nquase todos os seus poemas, os do livro intitulado \u00abO Guardador de Rebanhos\u00bb,<br \/>\nos do livro, ou o quer que fosse, incompleto, chamado \u00abO Pastor Amoroso\u00bb,<br \/>\ne alguns, os primeiros, que eu mesmo, herdando-os para publicar, com todos<br \/>\nos outros, reuni sob a designa\u00e7\u00e3o, que \u00c1lvaro de Campos<br \/>\nme sugeriu bem, de \u00abPoemas Inconjuntos\u00bb. Os \u00faltimos poemas,<br \/>\na partir daquele numerado (&#8230;), s\u00e3o por\u00e9m produto do \u00faltimo<br \/>\nper\u00edodo da vida do autor, de novo passado em Lisboa. Julgo de meu dever<br \/>\nestabelecer esta breve distin\u00e7\u00e3o, pois alguns desses \u00faltimos<br \/>\npoemas revelam, pela perturba\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, uma novidade<br \/>\num pouco estranha ao car\u00e1cter geral da obra, assim em natureza como<br \/>\nem direc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A vida de Caeiro n\u00e3o pode narrar-se pois que n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nnela de que narrar. Seus poemas s\u00e3o o que houve nele de vida. Em tudo<br \/>\nmais n\u00e3o houve incidentes, nem h\u00e1 hist\u00f3ria. O mesmo breve<br \/>\nepis\u00f3dio, improf\u00edcuo e absurdo, que deu origem aos poemas de<br \/>\n\u00abO Pastor Amoroso\u00bb, n\u00e3o foi um incidente, sen\u00e3o,<br \/>\npor assim dizer, um esquecimento.<\/p>\n<p>A obra de Caeiro representa a reconstru\u00e7\u00e3o integral do paganismo,<br \/>\nna sua ess\u00eancia absoluta, tal como nem os gregos nem os romanos, que<br \/>\nviveram nele e por isso o n\u00e3o pensaram, o puderam fazer. A obra, por\u00e9m,<br \/>\ne o seu paganismo, n\u00e3o foram nem pensados nem at\u00e9 sentidos:<br \/>\nforam vindos com o que quer que seja que \u00e9 em n\u00f3s mais profundo<br \/>\nque o sentimento ou a raz\u00e3o. Dizer mais fora explicar, o que de nada<br \/>\nserve; afirmar menos fora mentir. Toda obra fala por si, com a voz que lhe<br \/>\n\u00e9 pr\u00f3pria, e naquela linguagem em que se forma na mente; quem<br \/>\nn\u00e3o entende n\u00e3o pode entender, e n\u00e3o h\u00e1 pois que<br \/>\nexplicar-lhe. \u00c9 como fazer compreender a algu\u00e9m um idioma que<br \/>\nele n\u00e3o fala.<\/p>\n<p>Ignorante da vida e quase ignorante das letras, quase sem conv\u00edvio<br \/>\nnem cultura, fez Caeiro a sua obra por um progresso impercept\u00edvel e<br \/>\nprofundo, como aquele que dirige, atrav\u00e9s das consci\u00eancias inconscientes<br \/>\ndos homens, o desenvolvimento l\u00f3gico das civiliza\u00e7\u00f5es.<br \/>\nFoi um progresso de sensa\u00e7\u00f5es, ou, antes, de maneiras de as<br \/>\nter, e uma evolu\u00e7\u00e3o \u00edntima de pensamentos derivados de<br \/>\ntais sensa\u00e7\u00f5es progressivas. Por uma intui\u00e7\u00e3o<br \/>\nsobre-humana, como aquelas que fundam religi\u00f5es, por\u00e9m a que<br \/>\nn\u00e3o assenta o t\u00edtulo de religiosa, por isso que repugna toda<br \/>\na religi\u00e3o e toda a metaf\u00edsica, este homem descreveu [??] o<br \/>\nmundo sem pensar nele, e criou um conceito do universo que n\u00e3o cont\u00e9m<br \/>\numa interpreta\u00e7\u00e3o. [?]<\/p>\n<p>Pensei, quando primeiro me foi entregada a empresa de publicar estes livros,<br \/>\nem fazer um largo estudo cr\u00edtico e excursivo sobre a obra de Caeiro<br \/>\ne a sua natureza e natural destino. Por\u00e9m n\u00e3o pude fazer estudo<br \/>\nalgum que me satisfizesse.<\/p>\n<p>Pesa-me que a raz\u00e3o me compila a dizer estas nenhumas palavras (este<br \/>\npouco de palavras) ante a obra do meu Mestre, de n\u00e3o poder escrever,<br \/>\nde \u00fatil ou de necess\u00e1rio, mais que disse, com o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nna Ode (&#8230;) do Livro I meu, com a qual choro o homem que foi para mim, como<br \/>\nvir\u00e1 a ser para mais que muitos, o revelador da Realidade, ou, como<br \/>\nele mesmo disse, \u00abo Argonauta das sensa\u00e7\u00f5es verdadeiras\u00bb<br \/>\n&#8211; o grande Libertador, que nos restituiu, cantando, ao nada luminoso que somos;<br \/>\nque nos arrancou \u00e0 morte e \u00e0 vida, deixando-nos entre as simples<br \/>\ncoisas, que nada conhecem, em seu decurso, de viver nem de morrer; que nos<br \/>\nlivrou da esperan\u00e7a e da desesperan\u00e7a, para que nos n\u00e3o<br \/>\nconsolemos sem raz\u00e3o nem nos entriste\u00e7amos sem causa; convivas<br \/>\ncom ele, sem pensar, da necessidade objectiva do Universo.<\/p>\n<p>Dou a obra, cuja edi\u00e7\u00e3o me foi cometida, ao acaso fatal do<br \/>\nmundo. Dou-a e digo:<\/p>\n<p>Alegrai-vos, todos v\u00f3s que chorais na maior das doen\u00e7as da<br \/>\nHist\u00f3ria!<\/p>\n<p>O grande P\u00e3 renasceu!<\/p>\n<p>Esta obra inteira \u00e9 dedicada<br \/>\npor desejo do pr\u00f3prio autor<br \/>\n\u00e0 mem\u00f3ria de<br \/>\nCes\u00e1rio Verde.<\/p>\n<h3>NOTAS<\/h3>\n<p>1 T\u00edtulo de um longo poema ingl\u00eas da primeira mocidade.<\/p>\n<p>2 Romance de Charles Dickens.<\/p>\n<p>3 O t\u00edtulo alude a um op\u00fasculo sobre o problema shakesperiano,<br \/>\nde que ficaram fragmentos no esp\u00f3lio.<\/p>\n<p>4 Publicada no \u00abDi\u00e1rio Popular\u00bb de 28-11-1957.<br \/>\nAs cartas restantes de F. Pessoa a M\u00e1rio Beir\u00e3o v\u00e3o ser<br \/>\ninclu\u00eddas noutra colect\u00e2nea de prosas in\u00e9ditas.<\/p>\n<p>5 Var.: acre.<\/p>\n<p>6 Escrita para \u00abO Jornal\u00bb, em 1915, n\u00e3o chegou<br \/>\na ser publicada.<\/p>\n<p>7 No texto vem \u00abmesmo\u00bb, decerto por distrac\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Pessoa ao escrever \u00e0 m\u00e1quina.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Pessoa e o Fado: um depoimento de 1929<\/h2>\n<p>No seu n\u00famero de 14 de Abril de 1929, publicou o \u00abNot\u00edcias<br \/>\nIlustrado\u00bb, revista semanal editada pelo \u00abDi\u00e1rio de Not\u00edcias\u00bb<br \/>\ne dirigida por Leit\u00e3o de Barros, uma vasta recolha de documentos e<br \/>\ndepoimentos sobre o fado. Leite de Vasconcellos, Campos Monteiro, Ant\u00f3nio<br \/>\nBotto, Augusto de Santa Rita, Teixeira de Pascoaes, Stuart Carvalhaes, e muitos<br \/>\noutros (como Almada ou Jorge Barradas que colaboraram com desenhos) vieram<br \/>\nalimentar a j\u00e1 acesa pol\u00e9mica que, por essa altura, envolvia<br \/>\no assunto.<\/p>\n<p>Fernando Pessoa apareceu, tamb\u00e9m, com uma deliciosa declara\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00abmensageira\u00bb que, pairando acima de defensores e de atacantes,<br \/>\np\u00f5e em pr\u00e1tica a sua habitual argumenta\u00e7\u00e3o cortante<br \/>\ne paradoxal. Ei-la:<\/p>\n<p>\u00abToda a poesia &#8211; e a can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma poesia ajudada<br \/>\n&#8211; reflecte o que a alma n\u00e3o tem. Por isso a can\u00e7\u00e3o dos<br \/>\npovos tristes \u00e9 alegre, e a can\u00e7\u00e3o dos povos alegres<br \/>\n\u00e9 triste.<\/p>\n<p>O Fado, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 alegre nem triste. \u00c9 um<br \/>\nepis\u00f3dio de intervalo. Formou-o a alma portuguesa quando n\u00e3o<br \/>\nexistia e desejava tudo sem ter for\u00e7as para o desejar.<\/p>\n<p>As almas fortes atribuem tudo ao Destino; s\u00f3 os fracos confiam na<br \/>\nvontade pr\u00f3pria, porque ela n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>O fado \u00e9 o cansa\u00e7o de alma forte, o olhar de desprezo de Portugal<br \/>\nao Deus em que creu e que tamb\u00e9m o abandonou.<\/p>\n<p>No fado os Deuses regressam, leg\u00edtimos e long\u00ednquos. \u00c9,<br \/>\nesse o segundo sentido da figura de El-Rei D. Sebasti\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: P\u00e1ginas de est\u00e9tica e de teoria e cr\u00edticas liter\u00e1rias P\u00e1ginas \u00cdntimas e de Auto-Interpreta\u00e7\u00e3o Pessoa e o Fado: um depoimento de 1929 P\u00e1ginas de est\u00e9tica e de teoria e cr\u00edticas liter\u00e1rias I &#8211; Aforismos e Fragmentos sobre a Arte 1 [ms.] [1914?] &#8211; S\u00f3 a Arte [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95907","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Prosas - Fernando Pessoa, Obra Prosas - Fernando Pessoa<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Prosas - Fernando Pessoa, Obra, Aforismos e Fragmentos, Cr\u00edtica, Arte, Moral, Poesia, Escolas Liter\u00e1rias, Literatura, Prosas - Fernando Pessoa\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Prosas - Fernando Pessoa, Obra Prosas - Fernando Pessoa\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Prosas - Fernando Pessoa, Obra, Aforismos e Fragmentos, Cr\u00edtica, Arte, Moral, Poesia, Escolas Liter\u00e1rias, Literatura, Prosas - Fernando Pessoa\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/prosas-fernando-pessoa\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-23T11:03:57+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"101 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/prosas-fernando-pessoa#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/prosas-fernando-pessoa\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Prosas &#8211; 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