{"id":95898,"date":"2017-01-23T08:43:04","date_gmt":"2017-01-23T10:43:04","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95898"},"modified":"2017-01-23T08:43:04","modified_gmt":"2017-01-23T10:43:04","slug":"o-marinheiro-fernando-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-marinheiro-fernando-pessoa","title":{"rendered":"O Marinheiro &#8211; Fernando Pessoa"},"content":{"rendered":"<h2>Fernando Pessoa<\/h2>\n<h2>DRAMA EST\u00c1TICO EM UM QUADRO<\/h2>\n<p><b>A Carlos Franco<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um quarto que \u00e9 sem d\u00favida num castelo antigo. Do quarto v\u00ea-se que \u00e9 circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caix\u00e3o com uma donzela, de branco. Quatro tochas aos cantos. \u00c0 direita, quase em frente a quem imagina o quarto, h\u00e1 uma \u00fanica janela, alta e estreita, dando para onde s\u00f3 se v\u00ea, entre dois montes long\u00ednquos, um pequeno espa\u00e7o de mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do lado da janela velam tr\u00eas donzelas. A primeira est\u00e1 sentada em frente \u00e0 janela, de costas contra a tocha de cima da direita. As outras duas est\u00e3o sentadas uma de cada lado da janela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 noite e h\u00e1 como que um resto vago de luar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA VELADORA &#8211; Ainda n\u00e3o deu hora nenhuma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; N\u00e3o se pode ouvir. N\u00e3o h\u00e1 rel\u00f3gio aqui perto. Dentro em pouco deve ser dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; N\u00e3o: o horizonte \u00e9 negro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o desejais, minha irm\u00e3, que nos entretenhamos contando o que fomos? \u00c9 belo e \u00e9 sempre falso. ..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o falemos nisso. De resto, fomos n\u00f3s alguma cousa? PRIMEIRA &#8211; Talvez. Eu n\u00e3o sei. Mas, ainda assim, sempre \u00e9 belo falar do passado&#8230; As horas t\u00eam ca\u00eddo e n\u00f3s temos guardado sil\u00eancio. Por mim, tenho estado a olhar para a chama daquela vela. \u00c0s vezes treme, outras torna-se mais amarela, outras vezes empalidece. Eu n\u00e3o sei por que \u00e9 que isso se d\u00e1. Mas sabemos n\u00f3s, minhas irm\u00e3s, por que se d\u00e1 qualquer cousa?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(uma pausa)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A MESMA &#8211; Falar do passado &#8211; isso deve ser belo, porque \u00e9 in\u00fatil e faz tanta pena&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Falemos, se quiserdes, de um passado que n\u00e3o tiv\u00e9ssemos tido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; N\u00e3o. Talvez o tiv\u00e9ssemos tido&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o dizeis sen\u00e3o palavras. E t\u00e3o triste falar! \u00c9 um modo t\u00e3o falso de nos esquecermos! &#8230; Se passe\u00e1ssemos?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; Onde? PRIMEIRA &#8211; Aqui, de um lado para o outro. As vezes isso vai buscar sonhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; De qu\u00ea? PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o sei . Porque o havia eu de saber?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(uma pausa)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Todo este pa\u00eds \u00e9 muito triste&#8230; Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada \u00e0 minha janela. A janela dava para o mar e \u00e0s vezes havia uma ilha ao longe&#8230; Muitas vezes eu n\u00e3o fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. N\u00e3o sei se era feliz. J\u00e1 n\u00e3o tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que \u00e9 a \u00fanica de onde o mar se v\u00ea, v\u00ea-se t\u00e3o pouco!&#8230; O mar de outras terras \u00e9 belo? SEGUNDA &#8211; S\u00f3 o mar das outras terras \u00e9 que \u00e9 belo. Aquele que n\u00f3s vemos d\u00e1-nos sempre saudades daquele que n\u00e3o veremos nunca&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(uma pausa)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o diz\u00edamos n\u00f3s que \u00edamos contar o nosso passado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o diz\u00edamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; Por que n\u00e3o haver\u00e1 rel\u00f3gio neste quarto? SEGUNDA &#8211; N\u00e3o sei&#8230; Mas assim, sem o rel\u00f3gio, tudo \u00e9 mais afastado e misterioso. A noite pertence mais a si pr\u00f3pria&#8230; Quem sabe se n\u00f3s poder\u00edamos falar assim se soub\u00e9ssemos a hora que \u00e9? PRIMEIRA &#8211; Minha irm\u00e3, em mim tudo \u00e9 triste. Passo Dezembros na alma&#8230; Estou procurando n\u00e3o olhar para a janela.. Sei que de l\u00e1 se v\u00eaem, ao longe, montes&#8230; Eu fui feliz para al\u00e9m de montes, outrora&#8230; Eu era pequenina. Colhia flores todo o dia e antes de adormecer pedia que n\u00e3o mas tirassem&#8230; N\u00e3o sei o que isto tem de irrepar\u00e1vel que me d\u00e1 vontade de chorar&#8230; Foi longe daqui que isto p\u00f4de ser&#8230; Quando vir\u00e1 o dia?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; Que importa? Ele vem sempre da mesma maneira&#8230; sempre, sempre, sempre&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(uma pausa)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Contemos contos umas \u00e0s outras&#8230; Eu n\u00e3o sei contos nenhuns, mas isso n\u00e3o faz mal&#8230; S\u00f3 viver \u00e9 que faz mal&#8230; N\u00e3o rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o vos levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho&#8230; Neste momento eu n\u00e3o tinha sonho nenhum, mas \u00e9-me suave pensar que o podia estar tendo&#8230; Mas o passado &#8211; por que n\u00e3o falamos n\u00f3s dele?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Decidimos n\u00e3o o fazer&#8230; Breve raiar\u00e1 o dia e arrepender-nos-emos&#8230; Com a luz os sonhos adormecem&#8230; O passado n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um sonho&#8230; De resto, nem sei o que n\u00e3o \u00e9 sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se olho para o presente com muita aten\u00e7\u00e3o, parece-me que ele j\u00e1 passou&#8230; O que \u00e9 qualquer cousa? Como \u00e9 que ela passa? Como \u00e9 por dentro o modo como ela passa?&#8230; Ah, falemos, minhas irm\u00e3s falemos alto, falemos todas juntas&#8230; O sil\u00eancio come\u00e7a a tomar corpo, come\u00e7a a ser cousa&#8230; Sinto-o envolver-me como uma n\u00e9voa&#8230; Ah, falai, falai!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Para qu\u00ea?&#8230; Fito-vos a ambas e n\u00e3o vos vejo logo&#8230; Parece-me que entre n\u00f3s se aumentaram abismos&#8230; Tenho que cansar a ideia de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos&#8230; Este ar quente \u00e9 frio por dentro, naquela parte que toca na alma&#8230; Eu devia agora sentir m\u00e3os imposs\u00edveis passarem-me pelo cabelos &#8211; \u00e9 o gesto com que falam das sereias&#8230; (Cruza as m\u00e3os sobre os joelhos. Pausa). Ainda h\u00e1 pouco, quando eu n\u00e3o pensava em nada, estava pensando no meu passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Eu tamb\u00e9m devia ter estado a pensar no meu&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; Eu j\u00e1 n\u00e3o sabia em que pensava&#8230; No passado dos outros talvez&#8230;, no passado de gente maravilhosa que nunca existiu&#8230; Ao p\u00e9 da casa de minha m\u00e3e corria um riacho&#8230; Por que \u00e9 que correria, e por que \u00e9 que n\u00e3o correria mais longe, ou mais perto?&#8230; H\u00e1 alguma raz\u00e3o para qualquer cousa ser o que \u00e9? H\u00e1 para isso qualquer raz\u00e3o verdadeira e real como as minhas m\u00e3os?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; As m\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o verdadeiras nem reais&#8230; S\u00e3o mist\u00e9rios que habitam na nossa vida&#8230; \u00e0s vezes, quando fito as minhas m\u00e3os, tenho medo de Deus&#8230; N\u00e3o h\u00e1 vento que mova as chamas das velas, e olhai, elas movem-se&#8230; Para onde se inclinam elas?&#8230; Que pena se algu\u00e9m pudesse responder!&#8230; Sinto-me desejosa de ouvir m\u00fasicas b\u00e1rbaras que devem agora estar tocando em pal\u00e1cios de outros continentes&#8230; \u00c9 sempre longe na minha alma&#8230; Talvez porque, quando crian\u00e7a, corri atr\u00e1s das ondas \u00e0 beira-mar. Levei a vida pela m\u00e3o entre rochedos, mar\u00e9-baixa, quando o mar parece ter cruzado as m\u00e3os sobre o peito e ter adormecido como uma est\u00e1tua de anjo para que nunca mais ningu\u00e9m olhasse&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; As vossas frases lembram-me a minha alma&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; \u00c9 talvez por n\u00e3o serem verdadeiras&#8230; Mal sei que as digo&#8230; Repito-as seguindo uma voz que n\u00e3o ou\u00e7o que mas est\u00e1 segredando&#8230; Mas eu devo ter vivido realmente \u00e0 beira-mar&#8230; Sempre que uma cousa ondeia, eu amo-a&#8230; H\u00e1 ondas na minha alma&#8230; Quando ando embalo-me&#8230; Agora eu gostaria de andar&#8230; N\u00e3o o fa\u00e7o porque n\u00e3o vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se quer fazer&#8230; Dos montes \u00e9 que eu tenho medo&#8230; \u00c9 imposs\u00edvel que eles sejam t\u00e3o parados e grandes&#8230; Devem ter um segredo de pedra que se recusam a saber que t\u00eam&#8230; Se desta janela, debru\u00e7ando-me, eu pudesse deixar de ver montes, debru\u00e7ar-se-ia um momento da minha alma algu\u00e9m em quem eu me sentisse feliz&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Por mim, amo os montes&#8230; Do lado de c\u00e1 de todos os montes \u00e9 que a vida \u00e9 sempre feia&#8230; Do lado de l\u00e1, onde mora minha m\u00e3e, costum\u00e1vamos sentarmo-nos \u00e0 sombra dos tamarindos e falar de ir ver outras terras&#8230; Tudo ali era longo e feliz como o canto de duas aves, uma de cada lado do caminho&#8230; A floresta n\u00e3o tinha outras clareiras sen\u00e3o os nossos pensamentos&#8230; E os nossos sonhos eram de que as \u00e1rvores projectassem no ch\u00e3o outra calma que n\u00e3o as suas sombras&#8230; Foi decerto assim que ali vivemos, eu e n\u00e3o sei se mais algu\u00e9m&#8230; Dizei-me que isto foi verdade para que eu n\u00e3o tenha de chorar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar&#8230; A orla da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas&#8230; Eu era pequena e b\u00e1rbara&#8230; Hoje tenho medo de ter sido&#8230; O presente parece-me que durmo&#8230; Falai-me das fadas. Nunca ouvi falar delas a ningu\u00e9m&#8230; O mar era grande de mais para fazer pensar nelas&#8230; Na vida aquece ser pequeno&#8230; \u00c9reis feliz, minha irm\u00e3? PRIMEIRA &#8211; Come\u00e7o neste momento a t\u00ea-lo sido outrora&#8230; De resto, tudo aquilo se passou na sombra&#8230; As \u00e1rvores viveram -no mais do que eu&#8230; Nunca chegou nem eu mal esperava&#8230; E v\u00f3s irm\u00e3, por que n\u00e3o falais? TERCEIRA &#8211; Tenho horror a de aqui a pouco vos ter j\u00e1 dito o que vos vou dizer. As minhas palavras presentes, mal eu as digo, pertencer\u00e3o logo ao passado, ficar\u00e3o fora de mim, n\u00e3o sei onde, r\u00edgidas e fatais&#8230; Falo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente&#8230; Tenho um medo maior do que eu. Sinto na minha m\u00e3o, n\u00e3o sei como, a chave de uma porta desconhecida. E toda eu sou um amuleto ou um sacr\u00e1rio que estivesse com consci\u00eancia de si pr\u00f3prio. \u00c9 por isto que me apavora ir, como por uma floresta escura, atrav\u00e9s do mist\u00e9rio de falar&#8230; E, afinal, quem sabe se eu sou assim e se \u00e9 isto sem d\u00favida que sinto?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em n\u00f3s!&#8230; Mesmo viver sabe a custar tanto quando se d\u00e1 por isso&#8230; Falai, portanto, sem reparardes que existis&#8230; N\u00e3o nos \u00edeis dizer quem \u00e9reis? TERCEIRA &#8211; O que eu era outrora j\u00e1 n\u00e3o se lembra de quem sou&#8230; Pobre da feliz que eu fui !&#8230; Eu vivi entre as sombras dos ramos, e tudo na minha alma \u00e9 folhas que estremecem. Quando ando ao sol a minha sombra \u00e9 fresca. Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes, onde eu molhava, quando sonhava de viver, as pontas tranquilas dos meus dedos&#8230; \u00c0s vezes, \u00e0 beira dos lagos, debru\u00e7ava-me e fitava-me&#8230; Quando eu sorria, os meus dentes eram misteriosos na \u00e1gua&#8230; Tinham um sorriso s\u00f3 deles, independente do meu&#8230; Era sempre sem raz\u00e3o que eu sorria&#8230; Falai-me da morte, do fim de tudo, para que eu sinta uma raz\u00e3o para recordar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o falemos de nada, de nada&#8230; Est\u00e1 mais frio, mas por que \u00e9 que est\u00e1 mais frio? N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para estar mais frio. N\u00e3o \u00e9 bem mais frio que est\u00e1&#8230; Para que \u00e9 que havemos de falar?&#8230; \u00c9 melhor cantar, n\u00e3o sei porqu\u00ea&#8230; O canto, quando a gente canta de noite, \u00e9 uma pessoa alegre e sem medo que entra de repente no quarto e o aquece a consolar-nos&#8230; Eu podia cantar-vos uma can\u00e7\u00e3o que cant\u00e1vamos em casa de meu passado. Por que \u00e9 que n\u00e3o quereis que vo-la cante? TERCEIRA &#8211; N\u00e3o vale a pena, minha irm\u00e3&#8230; quando algu\u00e9m canta, eu n\u00e3o posso estar comigo. Tenho que n\u00e3o poder recordar-me. E depois todo o meu passado torna-se outro e eu choro uma vida morta que trago comigo e que n\u00e3o vivi nunca. \u00c9 sempre tarde de mais para cantar, assim como \u00e9 sempre tarde de mais para n\u00e3o cantar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(uma pausa)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Breve ser\u00e1 dia&#8230; Guardemos sil\u00eancio&#8230; A vida assim o quer. Ao p\u00e9 da minha casa natal havia um lago. Eu ia l\u00e1 e assentava-me \u00e0 beira dele, sobre um tronco de \u00e1rvore que ca\u00edra quase dentro de \u00e1gua&#8230; Sentava-me na ponta e molhava na \u00e1gua os p\u00e9s, esticando para baixo os dedos. Depois olhava excessivamente para as pontas dos p\u00e9s, mas n\u00e3o era para os ver. N\u00e3o sei porqu\u00ea, mas parece-me deste lago que ele nunca existiu&#8230; Lembrar-me dele \u00e9 como n\u00e3o me poder lembrar de nada&#8230; Quem sabe por que \u00e9 que eu digo isto e se fui eu que vivi o que recordo?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; \u00c0 beira-mar somos tristes quando sonhamos&#8230; N\u00e3o podemos ser o que queremos ser, porque o que queremos ser queremo-lo sempre ter sido no passado&#8230; Quando a onda se espalha e a espuma chia, parece que h\u00e1 mil vozes m\u00ednimas a falar. A espuma s\u00f3 parece ser fresca a quem a julga uma&#8230; Tudo \u00e9 muito e n\u00f3s n\u00e3o sabemos nada&#8230; Quereis que vos conte o que eu sonhava \u00e0 beira-mar? PRIMEIRA &#8211; Podeis cont\u00e1-lo, minha irm\u00e3; mas nada em n\u00f3s tem necessidade de que no-lo conteis&#8230; Se \u00e9 belo, tenho j\u00e1 pena de vir a t\u00ea-lo ouvido. E se n\u00e3o \u00e9 belo, esperai&#8230;, contai-o s\u00f3 depois de o alterardes&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Vou dizer-vo-lo. N\u00e3o \u00e9 inteiramente falso, porque sem d\u00favida nada \u00e9 inteiramente falso. Deve ter sido assim&#8230; Um dia que eu dei por mim recostada no cimo frio de um rochedo, e que eu tinha esquecido que tinha pai e m\u00e3e e que houvera em mim inf\u00e2ncia e outros dias &#8211; nesse dia vi ao longe, como uma coisa que eu s\u00f3 pensasse em ver, a passagem vaga de uma vela. Depois ela cessou&#8230; Quando reparei para mim, vi que j\u00e1 tinha esse meu sonho&#8230; N\u00e3o sei onde ele teve princ\u00edpio.. . E nunca tornei a ver outra vela&#8230; Nenhuma das velas dos navios que saem aqui de um porto se parece com aquela, mesmo quando \u00e9 lua e os navios passam longe devagar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Vejo pela janela um navio ao longe. \u00c9 talvez aquele que vistes&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; N\u00e3o, minha irm\u00e3; esse que vedes busca sem d\u00favida um porto qualquer&#8230; N\u00e3o podia ser que aquele que eu vi buscasse qualquer porto&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Por que \u00e9 que me respondestes?&#8230; Pode ser. . Eu n\u00e3o vi navio nenhum pela janela&#8230; Desejava ver um e falei-vos dele para n\u00e3o ter pena&#8230; Contai-nos agora o que foi que sonhastes \u00e0 beira-mar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Sonhava de um marinheiro que se houvesse perdido numa ilha long\u00ednqua. Nessa ilha havia palmeiras hirtas, poucas, e aves vagas passavam por elas&#8230; N\u00e3o vi se alguma vez pousavam&#8230; Desde que, naufragado, se salvara, o marinheiro vivia ali&#8230; Como ele n\u00e3o tinha meio de voltar \u00e0 p\u00e1tria, e cada vez que se lembrava dela sofria, p\u00f4s-se a sonhar uma p\u00e1tria que nunca tivesse tido: p\u00f4s-se a fazer ter sido sua uma outra p\u00e1tria, uma outra esp\u00e9cie de pa\u00eds com outras esp\u00e9cies de paisagens, e outra gente, e outro feitio de passarem pelas ruas e de se debru\u00e7arem das janelas&#8230; Cada hora ele constru\u00eda em sonho esta falsa p\u00e1tria, e ele nunca deixava de sonhar, de dia \u00e0 sombra curta das grandes palmeiras, que se recortava, orlada de bicos, no ch\u00e3o areento e quente; de noite, estendido na praia, de costas e n\u00e3o reparando nas estrelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o ter havido uma \u00e1rvore que mosqueasse sobre as minhas m\u00e3os estendidas a sombra de um sonho como esse!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; Deixai-a falar&#8230; N\u00e3o a interrompais&#8230; Ela conhece palavras que as sereias lhe ensinaram&#8230; Adorme\u00e7o para a poder escutar&#8230; Dizei, minha irm\u00e3, dizei&#8230; Meu cora\u00e7\u00e3o d\u00f3i-me de n\u00e3o ter sido v\u00f3s quando sonh\u00e1veis \u00e0 beira-mar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Durante anos e anos, dia a dia, o marinheiro erguia num sonho cont\u00ednuo a sua nova terra natal&#8230; Todos os dias punha uma pedra de sonho nesse edif\u00edcio imposs\u00edvel&#8230; Breve ele ia tendo um pa\u00eds que j\u00e1 tantas vezes havia percorrido. Milhares de horas lembrava-se j\u00e1 de ter passado ao longo de suas costas. Sabia de que cor so\u00edam ser os crep\u00fasculos numa ba\u00eda do norte, e como era suave entrar, noite alta, e com a alma recostada no murm\u00fario da \u00e1gua que o navio abria, num grande porto do sul onde ele passara outrora, feliz talvez, das suas mocidades a suposta&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(uma pausa)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Minha irm\u00e3, por que \u00e9 que vos calais? SEGUNDA &#8211; N\u00e3o se deve falar demasiado&#8230; A vida espreita-nos sempre&#8230; Toda a hora \u00e9 materna para os sonhos, mas \u00e9 preciso n\u00e3o o saber&#8230; Quando falo de mais come\u00e7o a separar-me de mim e a ouvir-me falar. Isso faz com que me compade\u00e7a de mim pr\u00f3pria e sinta demasiadamente o cora\u00e7\u00e3o. Tenho ent\u00e3o uma vontade lacrimosa de o ter nos bra\u00e7os para o poder embalar como a um filho&#8230; Vede: o horizonte empalideceu&#8230; O dia n\u00e3o pode j\u00e1 tardar&#8230; Ser\u00e1 preciso que eu vos fale ainda mais do meu sonho?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Contai sempre, minha irm\u00e3, contai sempre&#8230; N\u00e3o pareis de contar, nem repareis em que dias raiam&#8230; O dia nunca raia para quem encosta a cabe\u00e7a no seio das horas sonhadas&#8230; N\u00e3o tor\u00e7ais as m\u00e3os. Isso faz um ru\u00eddo como o de uma serpente furtiva&#8230; Falai-nos muito mais do vosso sonho. Ele \u00e9 t\u00e3o verdadeiro que n\u00e3o tem sentido nenhum. S\u00f3 pensar em ouvir-vos me toca m\u00fasica na alma&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8212; Sim, falar-vos-ei mais dele. Mesmo eu preciso de vo-lo contar. \u00c0 medida que o vou contando, \u00e9 a mim tamb\u00e9m que o conto&#8230; S\u00e3o tr\u00eas a escutar&#8230; (De repente, olhando para o caix\u00e3o, e estremecendo). Tr\u00eas n\u00e3o&#8230; N\u00e3o sei&#8230; N\u00e3o sei quantas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; N\u00e3o faleis assim&#8230; Contai depressa, contai outra vez&#8230; N\u00e3o faleis em quantos podem ouvir&#8230; N\u00f3s nunca sabemos quantas coisas realmente vivem e v\u00eaem e escutam&#8230; Voltai ao vosso sonho&#8230; O marinheiro. O que sonhava o marinheiro? SEGUNDA (mais baixo, numa voz muito lenta) &#8211; Ao princ\u00edpio ele criou as paisagens, depois criou as cidades; criou depois as ruas e as travessas, uma a uma, cinzelando-as na mat\u00e9ria da sua alma &#8211; uma a uma as ruas, bairro a bairro, at\u00e9 \u00e0s muralhas dos cais de onde ele criou depois os portos&#8230; Uma a uma as ruas, e a gente que as percorria e que olhava sobre elas das janelas&#8230; Passou a conhecer certa gente, como quem a reconhece apenas&#8230; Ia-lhes conhecendo as vidas passadas e as conversas, e tudo isto era como quem sonha apenas paisagens e as vai vendo&#8230; Depois viajava, recordando, atrav\u00e9s do pa\u00eds que criara&#8230; E assim foi construindo o seu passado&#8230; Breve tinha uma outra vida anterior&#8230; Tinha j\u00e1, nessa nova p\u00e1tria, um lugar onde nascera, os lugares onde passara a juventude, os portos onde embarcara&#8230; Ia tendo tido os companheiros da inf\u00e2ncia e depois os amigos e inimigos da sua idade viril&#8230; Tudo era diferente de como ele o tivera &#8211; nem o pa\u00eds, nem a gente, nem o seu passado pr\u00f3prio se pareciam com o que haviam sido&#8230; Exigis que eu continue?&#8230; Causa-me tanta pena falar disto!&#8230; Agora, porque vos falo disto, aprazia-me mais estar-vos falando de outros sonhos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; Continuai, ainda que n\u00e3o saibais porqu\u00ea&#8230; Quanto mais vos ou\u00e7o, mais me n\u00e3o perten\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Ser\u00e1 bom realmente que continueis? Deve qualquer hist\u00f3ria ter fim? Em todo o caso falai&#8230; Importa t\u00e3o pouco o que dizemos ou n\u00e3o dizemos&#8230; Velamos as horas que passam&#8230; O nosso mister \u00e9 in\u00fatil como a Vida&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Um dia, que chovera muito, e o horizonte estava mais incerto, o marinheiro cansou-se de sonhar&#8230; Quis ent\u00e3o recordar a sua p\u00e1tria verdadeira&#8230;, mas viu que n\u00e3o se lembrava de nada, que ela n\u00e3o existia para ele&#8230; Meninice de que se lembrasse, era a na sua p\u00e1tria de sonho; adolesc\u00eancia que recordasse, era aquela que se criara&#8230; Toda a sua vida tinha sido a sua vida que sonhara&#8230; E ele viu que n\u00e3o podia ser que outra vida tivesse existido&#8230; Se ele nem de uma rua, nem de uma figura, nem de um gesto materno se lembrava&#8230; E da vida que lhe parecia ter sonhado, tudo era real e tinha sido&#8230; Nem sequer podia sonhar outro passado, conceber que tivesse tido outro, como todos, um momento, podem crer&#8230; \u00d3 minhas irm\u00e3s, minhas irm\u00e3s&#8230; H\u00e1 qualquer coisa, que n\u00e3o sei o que \u00e9, que vos n\u00e3o disse&#8230; Qualquer coisa que explicaria isto tudo&#8230; A minha alma esfria-me&#8230; Mal sei se tenho estado a falar&#8230; Falai-me, gritai-me, para que eu acorde, para que eu saiba que estou aqui ante v\u00f3s e que h\u00e1 coisas que s\u00e3o apenas sonhos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA (numa voz muito baixa) &#8211; N\u00e3o sei que vos diga&#8230; N\u00e3o ouso olhar para as cousas&#8230; Esse sonho como continua?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; N\u00e3o sei como era o resto&#8230;. Mal sei como era o resto&#8230; Por que haver\u00e1 mais?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; E o que aconteceu depois? SEGUNDA &#8211; Depois? Depois de qu\u00ea? Depois \u00e9 alguma cousa?&#8230; Veio um dia um barco&#8230; Veio um dia um barco&#8230; &#8211; Sim sim&#8230; s\u00f3 podia ter sido assim&#8230; &#8211; Veio um dia um barco, e passou por essa ilha, e n\u00e3o estava l\u00e1 o marinheiro TERCEIRA &#8211; Talvez tivesse regressado \u00e0 p\u00e1tria&#8230; Mas a qual? PRIMEIRA &#8211; Sim, a qual? E o que teriam feito ao marinheiro? Sab\u00ea-lo-ia algu\u00e9m? SEGUNDA &#8211; Por que \u00e9 que mo perguntais? H\u00e1 resposta para alguma coisa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(uma pausa)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; Ser\u00e1 absolutamente necess\u00e1rio, mesmo dentro do vosso sonho, que tenha havido esse marinheiro e essa ilha?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; N\u00e3o, minha irm\u00e3; nada \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Ao menos, como acabou o sonho? SEGUNDA &#8211; N\u00e3o acabou&#8230; N\u00e3o sei&#8230; Nenhum sonho acaba&#8230; Sei eu ao certo se o n\u00e3o continuo sonhando, se o n\u00e3o sonho sem o saber, se o sonh\u00e1-lo n\u00e3o \u00e9 esta coisa vaga a que eu chamo a minha vida?.. N\u00e3o me faleis mais&#8230; Principio a estar certa de qualquer coisa, que n\u00e3o sei o que \u00e9&#8230; Avan\u00e7am para mim, por uma noite que n\u00e3o \u00e9 esta, os passos de um horror que desconhe\u00e7o&#8230; Quem teria eu ido despertar com o sonho meu que vos contei?&#8230; Tenho um medo disforme de que Deus tivesse proibido o meu sonho&#8230; Ele \u00e9 sem d\u00favida mais real do que Deus permite&#8230; N\u00e3o estejais silenciosas&#8230; Dizei-me ao menos que a noite vai passando, embora eu o saiba&#8230; Vede, come\u00e7a a ir ser dia.. Vede: vai haver o dia real&#8230; Paremos&#8230; N\u00e3o pensemos mais&#8230; N\u00e3o tentemos seguir nesta aventura interior&#8230; Quem sabe o que est\u00e1 no fim dela?&#8230;. Tudo isto, minhas irm\u00e3s, passou-se na noite&#8230; N\u00e3o falemos mais disto, nem a n\u00f3s pr\u00f3prios&#8230; \u00c9 humano e conveniente que tomemos, cada qual, a sua atitude de tristeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; Foi-me t\u00e3o belo escutar-vos&#8230; N\u00e3o digais que n\u00e3o&#8230; Bem sei que n\u00e3o valeu a pena&#8230; \u00c9 por isso que o achei belo&#8230; N\u00e3o foi por isso, mas deixai que eu o diga&#8230; De resto, a m\u00fasica da vossa voz, que escutei ainda mais que as vossas palavras, deixa-me, talvez s\u00f3 por ser m\u00fasica, descontente&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Tudo deixa descontente, minha irm\u00e3&#8230; Os homens que pensam cansam-se de tudo, porque tudo muda. Os homens que passam provam-no, porque mudam com tudo&#8230; De eterno e belo h\u00e1 apenas o sonho&#8230; Por que estamos n\u00f3s falando ainda?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o sei&#8230; (olhando para o caix\u00e3o, em voz mais baixa) &#8211; Por que \u00e9 que se morre? SEGUNDA &#8211; Talvez por n\u00e3o se sonhar bastante&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; \u00c9 poss\u00edvel&#8230; N\u00e3o valeria ent\u00e3o a pena fecharmo-nos no sonho e esquecer a vida, para que a morte nos esquecesse?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; N\u00e3o, minha irm\u00e3, nada vale a pena&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; Minhas irm\u00e3s, \u00e9 j\u00e1 dia&#8230; Vede, a linha dos montes maravilha-se&#8230; Por que n\u00e3o choramos n\u00f3s?&#8230; Aquela que finge estar ali era bela, e nova como n\u00f3s, e sonhava tamb\u00e9m&#8230; Estou certa que o sonho dela era o mais belo de todos&#8230; Ela de que sonharia?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Falai mais baixo. Ela escuta-nos talvez, e j\u00e1 sabe para que servem os sonhos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(uma pausa)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Talvez nada disto seja verdade&#8230; Todo este sil\u00eancio, e esta morta, e este dia que come\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o talvez sen\u00e3o um sonho&#8230; Olhai bem para tudo isto&#8230; Parece-vos que pertence \u00e0 vida?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o sei. N\u00e3o sei como se \u00e9 da vida&#8230; Ah, como v\u00f3s estais parada! E os vossos olhos t\u00e3o tristes, parece que o est\u00e3o inutilmente&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; N\u00e3o vale a pena estar triste de outra maneira&#8230; N\u00e3o desejais que nos calemos? \u00c9 t\u00e3o estranho estar a viver&#8230; Tudo o que acontece \u00e9 inacredit\u00e1vel, tanto na ilha do marinheiro como neste mundo&#8230; Vede, o c\u00e9u \u00e9 j\u00e1 verde&#8230; O horizonte sorri ouro&#8230; Sinto que me ardem os olhos, de eu ter pensado em chorar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Chorastes, com efeito, minha irm\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Talvez&#8230; N\u00e3o importa&#8230; Que frio \u00e9 isto?&#8230; Ah, \u00e9 agora&#8230; \u00e9 agora!&#8230; Dizei-me isto&#8230; Dizei-me uma coisa ainda&#8230; Por que n\u00e3o ser\u00e1 a \u00fanica coisa real nisto tudo o marinheiro, e n\u00f3s e tudo isto aqui apenas um sonho dele?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o faleis mais, n\u00e3o faleis mais&#8230; Isso \u00e9 t\u00e3o estranho que deve ser verdade. N\u00e3o continueis&#8230; O que \u00edeis dizer n\u00e3o sei o que \u00e9, mas deve ser de mais para a alma o poder ouvir&#8230; Tenho medo do que n\u00e3o chegastes a dizer&#8230; Vede, vede, \u00e9 dia j\u00e1&#8230; Vede o dia&#8230; Fazei tudo por reparardes s\u00f3 no dia, no dia real, ali fora&#8230; Vede-o, vede-o&#8230; Ele consola.. N\u00e3o penseis, n\u00e3o olheis para o que pensais&#8230; Vede-o a vir, o dia&#8230; Ele brilha como ouro numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se \u00e0 medida que se coloram.. Se nada existisse, minhas irm\u00e3s?&#8230; Se tudo fosse, qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?&#8230; Porque olhastes assim?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(N\u00e3o lhe respondem. E ningu\u00e9m olhara de nenhuma maneira.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A MESMA &#8211; Que foi que dissestes e que me apavorou?&#8230; Senti-o tanto que mal vi o que era&#8230; Dizei-me o que foi, para que eu, ouvindo-o segunda vez, j\u00e1 n\u00e3o tenha tanto medo como dantes&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o&#8230; N\u00e3o digais nada&#8230; N\u00e3o vos pergunto isto para que me respondais, mas para falar apenas, para me n\u00e3o deixar pensar&#8230; Tenho medo de me poder lembrar do que foi&#8230; Mas foi qualquer coisa de grande e pavoroso como o haver Deus&#8230; Dev\u00edamos j\u00e1 ter acabado de falar&#8230; H\u00e1 tempo j\u00e1 que a nossa conversa perdeu o sentido&#8230; O que \u00e9 entre n\u00f3s que nos faz falar prolonga-se demasiadamente&#8230; H\u00e1 mais presen\u00e7as aqui do que as nossas almas.. O dia devia ter j\u00e1 raiado.. Deviam j\u00e1 ter acordado&#8230; Tarda qualquer coisa&#8230; Tarda tudo&#8230; O que \u00e9 que se est\u00e1 dando nas coisas de acordo com o nosso horror?&#8230; Ah, n\u00e3o me abandoneis&#8230; Falai comigo, falai comigo&#8230; Falai ao mesmo tempo do que eu para n\u00e3o deixardes sozinha a minha voz&#8230; Tenho menos medo \u00e0 minha voz do que \u00e0 ideia da minha voz, dentro de mim, se for reparar que estou falando&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA &#8211; Que voz \u00e9 essa com que falais?&#8230; \u00c9 de outra&#8230; Vem de uma esp\u00e9cie de longe&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o sei&#8230; N\u00e3o me lembreis isso&#8230; Eu devia estar falando com a voz aguda e tremida do medo&#8230; Mas j\u00e1 n\u00e3o sei como \u00e9 que se fala&#8230; Entre mim e a minha voz abriu-se um abismo&#8230; Tudo isto, toda esta conversa e esta noite, e este medo &#8211; tudo isto devia ter acabado, devia ter acabado de repente, depois do horror que nos dissestes&#8230; Come\u00e7o a sentir que o esque\u00e7o, a isso que dissestes, e que me fez pensar que eu devia gritar de uma maneira nova para exprimir um horror de aqueles&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA (para a SEGUNDA) &#8211; Minha irm\u00e3, n\u00e3o nos dev\u00edeis ter contado essa hist\u00f3ria. Agora estranho-me viva com mais horror. Cont\u00e1veis e eu tanto me distra\u00eda que ouvia o sentido das vossas palavras e o seu som separadamente. E parecia-me que v\u00f3s, e a vossa voz, e o sentido do que diz\u00edeis eram tr\u00eas entes diferentes, como tr\u00eas criaturas que falam e andam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; S\u00e3o realmente tr\u00eas entes diferentes, com vida pr\u00f3pria e real. Deus talvez saiba porqu\u00ea&#8230; Ah, mas por que \u00e9 que falamos? Quem \u00e9 que nos faz continuar falando? Por que falo eu sem querer falar? Por que \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o reparamos que \u00e9 dia?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; Quem pudesse gritar para despertarmos! Estou a ouvir-me a gritar dentro de mim, mas j\u00e1 n\u00e3o sei o caminho da minha vontade para a minha garganta. Sinto uma necessidade feroz de ter medo de que algu\u00e9m possa bater \u00e0quela porta. Por que n\u00e3o bate algu\u00e9m \u00e0 porta? Seria imposs\u00edvel e eu tenho necessidade de ter medo disso, de saber de que \u00e9 que tenho medo&#8230; Que estranha que me sinto!&#8230; Parece-me j\u00e1 n\u00e3o ter a minha voz&#8230; Parte de mim adormeceu e ficou a ver&#8230; O meu pavor cresceu mas eu j\u00e1 n\u00e3o sei senti-lo&#8230; J\u00e1 n\u00e3o sei em que parte da alma \u00e9 que se sente&#8230; Puseram ao meu sentimento do meu corpo uma mortalha de chumbo&#8230; Para que foi que nos contastes a vossa hist\u00f3ria? SEGUNDA &#8211; J\u00e1 n\u00e3o me lembro&#8230; J\u00e1 mal me lembro que a contei&#8230; Parece ter sido j\u00e1 h\u00e1 tanto tempo!&#8230; Que sono, que sono absorve o meu modo de olhar para as coisas!&#8230; O que \u00e9 que n\u00f3s queremos fazer? o que \u00e9 que n\u00f3s temos ideia de fazer? &#8211; j\u00e1 n\u00e3o sei se \u00e9 falar ou n\u00e3o falar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA &#8211; N\u00e3o falemos mais. Por mim, cansa-me o esfor\u00e7o que fazeis para falar&#8230; D\u00f3i-me o intervalo que h\u00e1 entre o que pensais e o que dizeis&#8230; A minha consci\u00eancia b\u00f3ia \u00e0 tona da sonol\u00eancia apavorada dos meus sentidos pela minha pele&#8230; N\u00e3o sei o que \u00e9 isto, mas \u00e9 o que sinto&#8230; Preciso de dizer frases confusas um pouco longas, que custem a dizer&#8230; N\u00e3o sentis tudo isto como uma aranha enorme que nos tece de alma a alma uma teia negra que nos prende? SEGUNDA &#8211; N\u00e3o sinto nada&#8230; Sinto as minhas sensa\u00e7\u00f5es como uma coisa que se sente&#8230; Quem \u00e9 que eu estou sendo?&#8230; Quem \u00e9 que est\u00e1 falando com a minha voz?&#8230; Ah, escutai,..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PRIMEIRA e TERCEIRA &#8211; Quem foi? SEGUNDA &#8211; Nada. N\u00e3o ouvi nada&#8230; Quis fingir que ouvia para que v\u00f3s supus\u00e9sseis que ouv\u00edeis e eu pudesse crer que havia alguma coisa a ouvir&#8230; Oh, que horror, que horror \u00edntimo nos desata a voz da alma, e as sensa\u00e7\u00f5es dos pensamentos, e nos faz falar e sentir e pensar quando tudo em n\u00f3s pede sil\u00eancio e o dia e a inconsci\u00eancia da vida&#8230; Quem \u00e9 a quinta pessoa neste quarto que estende o bra\u00e7o e nos interrompe sempre que vamos a sentir? PRIMEIRA &#8211; Para qu\u00ea tentar apavorar-me? N\u00e3o cabe mais terror dentro de mim&#8230; Peso excessivamente ao colo de me sentir. Afundei-me toda no lodo morno do que suponho que sinto. Entra-me por todos os sentidos qualquer coisa que nos pega e nos vela. Pesam as p\u00e1lpebras a todas as minhas sensa\u00e7\u00f5es. Prende-se a l\u00edngua a todos os meus sentimentos. Um sono fundo cola umas \u00e0s outras as ideias de todos as meus gestos. Por que foi que olhastes assim?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TERCEIRA (numa voz muito lenta e apagada) &#8211; Ah, \u00e9 agora, \u00e9 agora&#8230; Sim, acordou algu\u00e9m&#8230; H\u00e1 gente que acorda&#8230; Quando entrar algu\u00e9m tudo isto acabar\u00e1&#8230; At\u00e9 l\u00e1 fa\u00e7amos crer que todo este horror foi um longo sono que fomos dormindo&#8230; \u00c9 dia j\u00e1. Vai acabar tudo&#8230; E de tudo isto fica, minha irm\u00e3, que s\u00f3 v\u00f3s sois feliz, porque acreditais no sonho&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SEGUNDA &#8211; Por que \u00e9 que mo perguntais? Porque eu o disse? N\u00e3o, n\u00e3o acredito ..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um galo canta. A luz, como que subitamente, aumenta. As tr\u00eas veladoras quedam-se silenciosas e sem olharem umas para as outras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o muito longe, por uma estrada, um vago carro geme e chia.<\/p>\n<p>Poemas Dram\u00e1ticos. Fernando Pessoa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Pessoa DRAMA EST\u00c1TICO EM UM QUADRO A Carlos Franco Um quarto que \u00e9 sem d\u00favida num castelo antigo. Do quarto v\u00ea-se que \u00e9 circular. Ao centro ergue-se, sobre uma essa, um caix\u00e3o com uma donzela, de branco. 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