{"id":95893,"date":"2017-01-23T08:39:19","date_gmt":"2017-01-23T10:39:19","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95893"},"modified":"2017-01-23T08:39:19","modified_gmt":"2017-01-23T10:39:19","slug":"o-banqueiro-anarquista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-banqueiro-anarquista","title":{"rendered":"O Banqueiro Anarquista"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Fernando Pessoa<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00ednhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e a\u00e7ambarcador not\u00e1vel, fumava como quem n\u00e3o pensa. A conversa, que fora amortecendo, jazia morta entra n\u00f3s. Procurei reanim\u00e1-la, ao acaso, servindo-me de uma id\u00e9ia que me passou pela medita\u00e7\u00e3o. Voltei-me para ele, sorrindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 verdade: disseram-me h\u00e1 dias que V. em tempos foi anarquista&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fui, n\u00e3o: fui e sou. N\u00e3o mudei a esse respeito. Sou anarquista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Essa \u00e9 boa! V. anarquista! Em que \u00e9 que V. \u00e9 anarquista?&#8230; S\u00f3 se V. d\u00e1 \u00e0 palavra qualquer sentido diferente&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Do vulgar? N\u00e3o; n\u00e3o dou. Emprego a palavra no sentido vulgar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quer V. dizer, ent\u00e3o, que \u00e9 anarquista exatamente no mesmo sentido em que s\u00e3o anarquistas esses tipos das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias? Ent\u00e3o entre V. e esses tipos da bomba e dos sindicatos n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a nenhuma? &#8211; Diferen\u00e7a, diferen\u00e7a, h\u00e1&#8230; Evidentemente que h\u00e1 diferen\u00e7a. Mas n\u00e3o \u00e9 a que V.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">julga. V. duvida talvez que as minhas teorias sociais sejam iguais \u00e0s deles?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ah, j\u00e1 percebo! V., quanto \u00e0s teorias, \u00e9 anarquista; quanto \u00e0 pr\u00e1tica&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quanto \u00e0 pr\u00e1tica sou t\u00e3o anarquista como quanto \u00e0s teorias. E quanto \u00e0 pr\u00e1tica sou mais, sou muito mais, anarquista que esses tipos que V. citou. Toda a minha vida o mostra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Hein?! &#8211; Toda a minha vida o mostra, filho. V. \u00e9 que nunca deu a esta cousas uma aten\u00e7\u00e3o l\u00facida. Por isso lhe parece que estou dizendo uma asneira, ou ent\u00e3o estou brincando consigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00d3 homem, eu n\u00e3o percebo nada!&#8230; A n\u00e3o ser&#8230;, a n\u00e3o ser que V. julgue a sua vida dissolvente e anti-social e d\u00ea esse sentido ao anarquismo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; J\u00e1 lhe disse que n\u00e3o &#8211; isto \u00e9, j\u00e1 lhe disse que n\u00e3o dou \u00e0 palavra anarquismo um sentido diferente do vulgar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Est\u00e1 bem&#8230; Continuo sem perceber&#8230; \u00d3 homem, V. quer-me dizer que n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a entre as suas teorias verdadeiramente anarquistas e a pr\u00e1tica da sua vida &#8211; a pr\u00e1tica da sua vida como ela \u00e9 agora? V. quer que eu acredite que V. tem uma vida exatamente igual \u00e0 dos tipos que vulgarmente s\u00e3o anarquistas? &#8211; N\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 isso. O que eu quero dizer \u00e9 que entre as minhas teorias e a pr\u00e1tica da minha vida n\u00e3o h\u00e1 diverg\u00eancia nenhuma, mas uma conformidade absoluta. L\u00e1 que n\u00e3o tenho uma vida como a dos tipo dos sindicatos e das bombas &#8211; isso \u00e9 verdade. Mas \u00e9 a vida deles que est\u00e1 fora do anarquismo, fora dos ideais deles. A minha n\u00e3o. Em mim &#8211; sim, em mim, banqueiro, grande comerciante, a\u00e7ambarcador se V. quiser -, em mim a teoria e a pr\u00e1tica do anarquismo est\u00e3o conjuntas e ambas certas. V. comparou-me a esses parvos dos sindicatos e das bombas para indicar que sou diferente deles. Sou, mas a diferen\u00e7a \u00e9 esta: eles (sim, eles e n\u00e3o eu) s\u00e3o anarquistas s\u00f3 na teoria; eu souo na teoria e na pr\u00e1tica. Eles s\u00e3o anarquistas e est\u00fapidos, eu anarquista e inteligente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto \u00e9, meu velho, eu \u00e9 que sou o verdadeiro anarquista. Eles &#8211; os dos sindicatos e das bombas (eu tamb\u00e9m l\u00e1 estive e sa\u00ed de l\u00e1 exatamente pelo meu verdadeiro anarquismo) &#8211; eles s\u00e3o o lixo do anarquismo, os f\u00eameas da grande doutrina libert\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Essa nem ao diabo a ouviram! Isso \u00e9 espantoso! Mas como concilia V. a sua vida &#8211; quero dizer a sua vida banc\u00e1ria e comercial &#8211; coma as teorias anarquistas? Como o concilia V., se diz que por teoria anarquista entende exatamente o que os anarquistas vulgares entendem? E V., ainda por cima, me diz que \u00e9 diferente deles por ser mais anarquista do que eles &#8211; n\u00e3o \u00e9 verdade? &#8211; Exatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o percebo nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas V. tem empenho em perceber? &#8211; Todo o empenho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele tirou da boca o charuto, que se apagara; reacendeu-o lentamente; tirou o f\u00f3sforo que se extinguia; dep\u00f4-lo ao de leve no cinzeiro; depois, erguendo a cabe\u00e7a, um momento abaixada, disse: &#8211; Oi\u00e7a. Eu nasci do povo e na classe oper\u00e1ria da cidade. De bom n\u00e3o herdei, como pode imaginar, nem a condi\u00e7\u00e3o, nem as circunst\u00e2ncias. Apenas me aconteceu ter uma intelig\u00eancia naturalmente l\u00facida e uma vontade um tanto ou quanto forte. Mas esses eram doms naturais, que o meu baixo nascimento me n\u00e3o podia tirar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fui oper\u00e1rio, trabalhei, vivi uma vida apertada; fui, em resumo, o que a maioria da gente \u00e9 naquele meio. N\u00e3o digo que absolutamente passasse fome, mas andei l\u00e1 perto. De resto, podia t\u00ea-la passado, que isso n\u00e3o alterava nada do que se seguiu, ou do que lhe vou expor, nem do que foi a minha vida, nem do que ela \u00e9 agora.&#8221; &#8220;Fui um oper\u00e1rio vulgar, em suma; como todos, trabalhava porque tinha que trabalhar, e trabalhava o menos poss\u00edvel. O que eu era, era inteligente. Sempre que podia, lia coisas, discutia coisas, e, como n\u00e3o era tolo, nasceu-me uma grande insatisfa\u00e7\u00e3o e uma grande revolta contra o meu destino e contra as condi\u00e7\u00f5es sociais que o faziam assim. J\u00e1 lhe disse que, em boa verdade, o meu destino podia ter sido pior do que era; mas naquela altura parecia-me a mim que eu era um entre a quem a Sorte tinha feito todas as injusti\u00e7as juntas, e que se tinha servido das conven\u00e7\u00f5es sociais para mas fazer. Isto era a\u00ed pelos meus vinte anos &#8211; vinte e um o m\u00e1ximo &#8211; que foi quando me tornei anarquista.&#8221; Parou um momento. Voltou-se um pouco mais para mim. Continuou, inclinando-se mais um pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fui sempre mais ou menos l\u00facido. Senti-me revoltado. Quis perceber a minha revolta. Tornei-me anarquista consciente e convicto &#8211; o anarquista consciente e convicto que hoje sou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E a teoria, que V. tem hoje, \u00e9 a mesma que tinha nessa altura? &#8211; A mesma. A teoria anarquista, a verdadeira teoria, \u00e9 s\u00f3 uma. Tenho a que sempre tive, desde que me tornei anarquista. V. j\u00e1 vai ver&#8230; Ia eu dizendo que, como era l\u00facido por natureza, me tornei anarquista consciente. Ora o que \u00e9 um anarquista? \u00c9 um revoltado contra a injusti\u00e7a de nascermos desiguais socialmente &#8211; no fundo \u00e9 s\u00f3 isto. E de a\u00ed resulta, como \u00e9 de ver, a revolta contra as conven\u00e7\u00f5es sociais que tornam essa desigualdade poss\u00edvel. O que lhe estou indicando agora \u00e9 o caminho psicol\u00f3gico, isto \u00e9, como \u00e9 que a gente se torna anarquista; j\u00e1 vamos \u00e0 parte te\u00f3rica do assunto. Por agora, compreenda V. bem qual seria a revolta de um tipo inteligente nas minhas circunst\u00e2ncias. O que \u00e9 que ele v\u00ea pelo mundo? Um nasce filho de um milion\u00e1rio, protegido desde o ber\u00e7o contra aqueles infort\u00fanios &#8211; e n\u00e3o s\u00e3o poucos &#8211; que o dinheiro pode evitar ou atenuar; outro nasce miser\u00e1vel, a ser, quando crian\u00e7a, uma boca a mais numa fam\u00edlia onde as bocas s\u00e3o de sobra para o comer que pode haver. Um nasce conde ou marqu\u00eas, e tem por isso a considera\u00e7\u00e3o de toda a gente, fa\u00e7a ele o que fizer; outro nasce assim como eu, e tem que andar direitinho como um prumo para ser ao menos tratado como gente. Uns nascem em tais condi\u00e7\u00f5es que podem estudar, viajar, instruir-se &#8211; tornar -se (pode-se dizer) mais inteligentes que outros que naturalmente o s\u00e3o mais. E assim por a\u00ed adiante, e em tudo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As injusti\u00e7as da Natureza, v\u00e1: n\u00e3o as podemos evitar. Agora as da sociedade e das suas conven\u00e7\u00f5es &#8211; essas, por que n\u00e3o evit\u00e1-las? Aceito &#8211; n\u00e3o tenho mesmo outro rem\u00e9dio &#8211; que um homem seja superior a mim por o que a Natureza lhe deu &#8211; o talento, a for\u00e7a, a energia; n\u00e3o aceito que ele seja meu superior por qualidades posti\u00e7as, com que n\u00e3o saiu do ventre da m\u00e3e, mas que lhe aconteceram por bamb\u00farrio logo que ele apareceu c\u00e1 fora &#8211; a riqueza, a posi\u00e7\u00e3o social, a vida facilitada, etc. Foi da revolta que lhe estou figurando por estas considera\u00e7\u00f5es que nasceu o meu anarquismo de ent\u00e3o &#8211; o anarquismo que, j\u00e1 lhe disse, mantenho hoje sem altera\u00e7\u00e3o nenhuma.&#8221; Parou outra vez um momento, como a pensar como prosseguiria. Fumou e soprou o fumo lentamente, para o lado oposto ao meu. Voltou-se, e ia a prosseguir. Eu, por\u00e9m, interrompi-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Uma pergunta, por curiosidade&#8230; Por que \u00e9 que V. se tornou propriamente anarquista? V. podia ter-se tornado socialista, ou qualquer outra cousa avan\u00e7ada que n\u00e3o fosse t\u00e3o longe. Tudo isso estava dentro da sua revolta&#8230; Deduzo do que V. disse que por anarquismo V. entende (e acho que est\u00e1 bem como defini\u00e7\u00e3o do anarquismo) a revolta contra todas as conven\u00e7\u00f5es e f\u00f3rmulas sociais e o desejo e esfor\u00e7o para a aboli\u00e7\u00e3o de todas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Isso mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Por que escolheu V. essa f\u00f3rmula extrema e n\u00e3o se decidiu por qualquer das outras&#8230; das interm\u00e9dias?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eu lhe digo. Eu meditei tudo isso. \u00c9 claro que nos folhetos que eu lia via todas essas teorias. Escolhi a teoria anarquista &#8211; a teoria extrema, como V. muito bem diz &#8211; pelas raz\u00f5es que vou dizer em duas palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fitou um momento cousa nenhuma. Depois voltou-se para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O mal verdadeiro, o \u00fanico mal, s\u00e3o as conven\u00e7\u00f5es e as fic\u00e7\u00f5es sociais, que se sobrep\u00f5em \u00e0s realidades naturais &#8211; tudo, desce a fam\u00edlia ao dinheiro, desde a religi\u00e3o ao Estado. A gente nasce homem ou mulher &#8211; quero dizer, nasce para ser, em adulto, homem ou mulher; n\u00e3o nasce, em boa justi\u00e7a natural, nem para ser marido, nem para ser rico ou pobre, como tamb\u00e9m n\u00e3o nasce para ser cat\u00f3lico ou protestante, ou portugu\u00eas ou ingl\u00eas. \u00c9 todas estas coisas em virtude das fic\u00e7\u00f5es sociais. Ora essas fic\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o m\u00e1s por qu\u00ea? Porque s\u00e3o fic\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o s\u00e3o naturais. T\u00e3o mau \u00e9 o dinheiro como o Estado, a constitui\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia como as religi\u00f5es. Se houvesse outras, que n\u00e3o fossem estas, seriam igualmente m\u00e1s, porque tamb\u00e9m seriam fic\u00e7\u00f5es, porque tamb\u00e9m se sobreporiam e estorvariam as realidades naturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora qualquer sistema que n\u00e3o seja o puro sistema anarquista, completamente, \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Empregar todo o nosso desejo, todo o nosso esfor\u00e7o, toda a nossa intelig\u00eancia para implantar, ou contribuir para implantar, uma fic\u00e7\u00e3o social em vez de outra, \u00e9 um absurdo, quando n\u00e3o seja mesmo um crime, porque \u00e9 fazer uma perturba\u00e7\u00e3o social com o fim expresso de deixar tudo na mesma. Se achamos injustas as fic\u00e7\u00f5es sociais, porque esmagam e oprimem o que \u00e9 natural no homem, para que empregar o nosso esfor\u00e7o em substituir-lhes outras fic\u00e7\u00f5es, se o podemos empregar para as destruir todas? &#8220;Isto parece-me que \u00e9 concludente. Mas suponhamos que o n\u00e3o \u00e9; suponhamos que nos objetam que isto tudo estar\u00e1 muito certo, mas que o sistema anarquista n\u00e3o \u00e9 realiz\u00e1vel na pr\u00e1tica. Vamos l\u00e1 a examinar essa parte do problema.&#8221; &#8220;Por que \u00e9 que o sistema anarquista n\u00e3o seria realiz\u00e1vel? N\u00f3s partimos, todos os avan\u00e7ados, do princ\u00edpio, n\u00e3o s\u00f3 de que o atual sistema \u00e9 injusto, mas de que h\u00e1 vantagem, porque h\u00e1 injusti\u00e7a, em substitu\u00ed-lo por outro mais justo. Se n\u00e3o pensamos assim, n\u00e3o somos avan\u00e7ados, mas burgueses. Ora de onde vem este crit\u00e9rio de justi\u00e7a? Do que \u00e9 natural e verdadeiro, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s fic\u00e7\u00f5es sociais e \u00e0s mentiras da conven\u00e7\u00e3o. Ora o que \u00e9 natural \u00e9 o que \u00e9 inteiramente natural, n\u00e3o \u00e9 metade, ou um quarto, ou um oitavo de natural. Muito bem. Ora, de duas coisas, uma: ou o natural \u00e9 realiz\u00e1vel socialmente ou n\u00e3o \u00e9; em outras palavras, ou a sociedade pode ser natural, ou a sociedade \u00e9 essencialmente fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pode ser natural de maneira nenhuma. Se a sociedade pode ser natural, ent\u00e3o pode haver a sociedade anarquista, ou livre, e deve haver, porque \u00e9 ela a sociedade inteiramente natural. Se a sociedade n\u00e3o pode ser natural, se (por qualquer raz\u00e3o que n\u00e3o importa) tem por for\u00e7a que ser fic\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o do mal o menos; fa\u00e7amo-la, dentro desse fic\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel, o mais natural poss\u00edvel. Qual \u00e9 a fic\u00e7\u00e3o mais natural? Nenhuma \u00e9 natural em si, porque \u00e9 fic\u00e7\u00e3o; a mais natural, neste nosso caso, ser\u00e1 aquela que pare\u00e7a mais natural, que se sinta como mais natural? \u00c9 aquela que estamos habituados. (V. compreende: o que \u00e9 natural \u00e9 o que \u00e9 do instinto; e o que n\u00e3o sendo instinto, se parece em tudo com o instinto \u00e9 o h\u00e1bito. Fumar n\u00e3o \u00e9 natural, n\u00e3o \u00e9 uma necessidade do instinto). Ora qual \u00e9 a fic\u00e7\u00e3o social que constitui um h\u00e1bito nosso? \u00c9 o atual sistema, o sistema burgu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos pois, em boa l\u00f3gica, que ou achamos a sociedade natural, e seremos defensores do anarquismo; ou n\u00e3o a julgamos poss\u00edvel, e seremos defensores do regime burgu\u00eas. N\u00e3o h\u00e1 hip\u00f3tese interm\u00e9dia. Percebeu?&#8230;&#8221; &#8211; Sim, senhor; isso \u00e9 concludente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ainda n\u00e3o \u00e9 bem concludente&#8230; Ainda h\u00e1 uma outra obje\u00e7\u00e3o, do meu g\u00eanero, a liquidar&#8230; Pode concordar-se que o sistema anarquista \u00e9 realiz\u00e1vel, mas pode duvidarse que ele seja realiz\u00e1vel de chofre &#8211; isto \u00e9, que se possa passar da sociedade burguesa para a sociedade livre sem haver um ou mais estados ou regimes interm\u00e9dios. Quem fizer essa obje\u00e7\u00e3o aceita como boa, e como realiz\u00e1vel, a sociedade anarquista; mas palpita-lhe que tem que haver um estado qualquer de transi\u00e7\u00e3o entre a sociedade burguesa e ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ora muito bem. Suponhamos que assim \u00e9. O que \u00e9 esse estado interm\u00e9dio? O nosso fim \u00e9 a sociedade anarquista, ou livre; esse interm\u00e9dio s\u00f3 pode ser, portanto, um estado de prepara\u00e7\u00e3o da humanidade para a sociedade livre. Essa prepara\u00e7\u00e3o ou \u00e9 material, ou \u00e9 simplesmente mental; isto \u00e9, ou \u00e9 uma s\u00e9rie de realiza\u00e7\u00f5es materiais ou sociais que v\u00e3o adaptando a humanidade \u00e0 sociedade livre, ou \u00e9 uma simples propaganda gradualmente crescente e influente, que vai preparando mentalmente a desej\u00e1-la ou aceit\u00e1-la.&#8221; &#8220;Vamos ao primeiro caso, a adapta\u00e7\u00e3o gradual e material da humanidade \u00e0 sociedade livre. \u00c9 imposs\u00edvel; \u00e9 mais que imposs\u00edvel: \u00e9 absurdo. N\u00e3o h\u00e1 adapta\u00e7\u00e3o material sen\u00e3o uma cousa que j\u00e1 h\u00e1. Nenhum de n\u00f3s se pode adaptar materialmente ao meio social do s\u00e9culo XXIII, mesmo que saiba o que ele ser\u00e1; e n\u00e3o se pode adaptar materialmente porque o s\u00e9culo XXIII e o seu meio social n\u00e3o existem materialmente ainda. Assim, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que, na passagem da sociedade burguesa para a sociedade livre, a \u00fanica parte que pode haver de adapta\u00e7\u00e3o, de evolu\u00e7\u00e3o ou de transi\u00e7\u00e3o \u00e9 mental, \u00e9 a gradual adapta\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos \u00e0 id\u00e9ia da sociedade livre&#8230; Em todo o caso, no campo da adapta\u00e7\u00e3o material, ainda h\u00e1 uma hip\u00f3tese&#8230;&#8221;&#8217; &#8211; Irra com tanta hip\u00f3tese!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00d3 filho, o homem l\u00facido tem que examinar todas as obje\u00e7\u00f5es poss\u00edveis e de as refutar, antes de se poder dizer seguro da sua doutrina. E, de mais a mais, isto tudo \u00e9 em resposta a uma pergunta que V. me fez&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; No campo da adapta\u00e7\u00e3o material, dizia eu, h\u00e1 em todo o caso um outra hip\u00f3tese. \u00c9 a da ditadura revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Da ditadura revolucion\u00e1ria como? &#8211; Como eu lhe expliquei, n\u00e3o pode haver adapta\u00e7\u00e3o material a uma coisa que n\u00e3o existe, materialmente, ainda. Mas se, por um movimento brusco, se fizer a revolu\u00e7\u00e3o social, fica implantada j\u00e1, n\u00e3o a sociedade livre (porque para essa n\u00e3o pode a humanidade ter ainda prepara\u00e7\u00e3o), mas uma ditadura daqueles que querem implantar a sociedade livre. Mas existe j\u00e1 , ainda que em esbo\u00e7o ou em come\u00e7o, existe j\u00e1 materialmente qualquer coisa da sociedade livre. H\u00e1 j\u00e1 portanto uma coisa material, a que a humanidade se adapte. \u00c9 este o argumento com que as bestas que defendem a &#8220;ditadura do proletariado&#8221; a defenderiam se fossem capazes de argumentar ou de pensar. O argumento, \u00e9 claro, n\u00e3o \u00e9 deles: \u00e9 meu. Ponho-o, como obje\u00e7\u00e3o, a mim mesmo. E, como lhe vou mostrar&#8230;, \u00e9 falso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Um regime revolucion\u00e1rio, enquanto existe, e seja qual for o fim a que visa ou a id\u00e9ia que o conduz, \u00e9 materialmente s\u00f3 uma coisa &#8211; um regime revolucion\u00e1rio. Ora um regime revolucion\u00e1rio quer dizer uma ditadura de guerra, ou, nas verdadeira palavras, um regime militar desp\u00f3tico, porque o estado de guerra \u00e9 imposta \u00e0 sociedade por uma parte dela &#8211; aquela parte que assumiu revolucionariamente o poder. O que \u00e9 que resulta? Resulta que quem se adaptar a esse regime, como a \u00fanica coisa que ele \u00e9 materialmente, imediatamente, \u00e9 um regime militar desp\u00f3tico, adapta-se a um regime militar desp\u00f3tico. A id\u00e9ia, que conduziu os revolucion\u00e1rios, o fim, a que visaram, desapareceu por completo da realidade social, que \u00e9 ocupada exclusivamente pelo fen\u00f4meno guerreiro. De modo que o que sai de uma ditadura revolucion\u00e1ria &#8211; e tanto mais completamente sair\u00e1, quanto mais tempo essa ditadura durar &#8211; \u00e9 uma sociedade guerreira do tipo ditatorial, isto \u00e9, um despotismo militar. Nem mesmo podia ser outra coisa. E foi sempre assim. Eu n\u00e3o sei muita hist\u00f3ria, mas o que sei acerta com isto; nem podia deixar de acertar. O que saiu das agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Roma? O Imp\u00e9rio Romano e seu despotismo militar. O que saiu da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa? Napole\u00e3o e seu despotismo militar. E V. ver\u00e1 o que sai da Revolu\u00e7\u00e3o Russa&#8230; Qualquer coisa que vai atrasar dezenas de anos a realiza\u00e7\u00e3o da sociedade livre&#8230; Tamb\u00e9m o que era de se esperar de um povo de analfabetos e de m\u00edsticos?&#8230;&#8221; &#8220;Enfim, isto j\u00e1 est\u00e1 fora de conversa&#8230; V. percebeu o meu argumento?&#8221; &#8211; Percebi perfeitamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; V. compreende portanto que eu cheguei a esta conclus\u00e3o: Fim: a sociedade anarquista, a sociedade livre; meio: a passagem, sem transi\u00e7\u00e3o, da sociedade burguesa para a sociedade livre. Esta passagem seria preparada e tornada poss\u00edvel por uma propaganda intensa, completa, absorvente, de modo a predispor todos os esp\u00edritos e enfraquecer todas as resist\u00eancias. \u00c9 claro que por &#8220;propaganda&#8221; n\u00e3o entendo s\u00f3 a pela palavra escrita e falada: entendo tudo, a\u00e7\u00e3o indireta ou direta, quanto pode predispor para a sociedade livre e enfraquecer a resist\u00eancia \u00e0 sua vinda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, n\u00e3o tendo quase resist\u00eancia nenhuma que vencer, a revolu\u00e7\u00e3o social, quando viesse, seria r\u00e1pida, f\u00e1cil, e n\u00e3o teria que estabelecer nenhuma ditadura revolucion\u00e1ria, por n\u00e3o ter contra quem aplica-la. Se isto n\u00e3o pode ser assim, \u00e9 que o anarquismo \u00e9 irrealiz\u00e1vel; e, se o anarquismo \u00e9 irrealiz\u00e1vel, s\u00f3 \u00e9 defens\u00e1vel e justa, como j\u00e1 lhe provei, a sociedade burguesa.&#8221; &#8220;Ora a\u00ed tem V. por que e como eu me tornei anarquista, e por que e como rejeitei, como falsas e anti-naturais, as outras doutrinas sociais de menor ousadia.&#8221; &#8220;E pronto&#8230; Vamos l\u00e1 continuar a minha hist\u00f3ria.&#8221; Fez explodir um f\u00f3sforo, e acendeu lentamente o charuto. Concentrou-se, e de a\u00ed a pouco prosseguiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia v\u00e1rios outros rapazes com as mesmas opini\u00f5es que eu. A maioria era de oper\u00e1rios, mas havia um ou outro que o n\u00e3o era; o que todos \u00e9ramos era pobres, e, que me lembre, n\u00e3o \u00e9ramos muito est\u00fapidos. A gente tinha uma certa vontade de propaganda, de espalhar as nossas id\u00e9ias. Quer\u00edamos para n\u00f3s e para os outros &#8211; para a humanidade inteira &#8211; uma sociedade nova, livre destes preconceitos todos, que fazem os homens desiguais artificialmente e lhes imp\u00f5em inferioridades, sofrimentos, estreitezas, que a Natureza lhes n\u00e3o tinha imposto. Por mim, o que eu lia confirmavame nestas opini\u00f5es. Em livros libert\u00e1rios baratos &#8211; os que havia ao tempo, e eram j\u00e1 bastantes &#8211; li quase tudo. Fui a confer\u00eancias e com\u00edcios dos propagandistas do tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada livro e cada discurso me convencia mais da certeza e da justi\u00e7a das minhas id\u00e9ias. O que eu pensava ent\u00e3o &#8211; repito-lhe, meu amigo &#8211; \u00e9 o que penso hoje, a \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que ent\u00e3o pensava-o s\u00f3, hoje penso-o e pratico-o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pois sim; isso, at\u00e9 onde vai, est\u00e1 muito bem. Est\u00e1 muito certo que V. se tornasse anarquista assim, e vejo perfeitamente que V. era anarquista. N\u00e3o preciso mais provas disso&#8230;, como \u00e9 que saiu de a\u00ed sem contradi\u00e7\u00e3o&#8230; Isto \u00e9, mais ou menos j\u00e1 calculo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o calcula nada&#8230; Eu sei o que V. quer dizer&#8230; V. baseia-se nos argumentos que acaba de ouvir, e julga que eu achei o anarquismo irrealiz\u00e1vel e por isso, como lhe disse, s\u00f3 defens\u00e1vel e justa a sociedade burguesa &#8211; n\u00e3o \u00e9?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim, calculei que fosse mais ou menos isso&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas como o podia ser, se desde o princ\u00edpio da conversa lhe tenho dito e repetido que sou anarquista, que n\u00e3o s\u00f3 o fui mas o continuo sendo? Se eu me tivesse tornado banqueiro e comerciante pela raz\u00e3o que V. julga, eu n\u00e3o era anarquista, era burgu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim, V. tem raz\u00e3o&#8230; Mas ent\u00e3o como diabo&#8230;? V\u00e1 l\u00e1, v\u00e1 dizendo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Como lhe disse, eu era (fui sempre) mais ou menos l\u00facido, e tamb\u00e9m um homem de a\u00e7\u00e3o. Essas s\u00e3o qualidades naturais; n\u00e3o mas puseram no ber\u00e7o (se \u00e9 que tive ber\u00e7o), eu \u00e9 que as levei para l\u00e1. Pois bem. Sendo anarquista, eu achava insuport\u00e1vel ser anarquista passivamente, s\u00f3 para ir ouvir discursos e falar nisso com os amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o: era preciso fazer qualquer coisa! Era preciso trabalhar e lutar pela causa dos oprimidos e das v\u00edtimas das conven\u00e7\u00f5es sociais! Decidi meter ombros a isso, conforme pudesse. Pus-me a pensar como \u00e9 que eu poderia ser \u00fatil \u00e0 causa libert\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pus-me a tra\u00e7ar o meu plano de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O que quer o anarquista? Liberdade &#8211; a liberdade para si e para os outros, para a humanidade inteira. Quer estar livre da influ\u00eancia ou da press\u00e3o das fic\u00e7\u00f5es sociais; quer ser livre tal qual nasceu e pareceu no mundo, que \u00e9 como em justi\u00e7a deve ser; e quer essa liberdade para si e para todos os mais. Nem todos podem ser iguais perante a Natureza: uns nascem altos, outros baixos; uns fortes, outros fracos; uns mais inteligentes, outros menos&#8230; Mas todos podem ser iguais de a\u00ed em diante; s\u00f3 as fic\u00e7\u00f5es sociais o evitam. Essas fic\u00e7\u00f5es sociais \u00e9 que era preciso destruir.&#8221; &#8220;Era preciso destru\u00ed-las&#8230; Mas n\u00e3o me escapou uma coisa: era preciso destru\u00ed-las&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">mas em proveito da liberdade, e tendo sempre em vista a cria\u00e7\u00e3o da sociedade livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Porque isso de destruir as fic\u00e7\u00f5es sociais tanto pode ser para criar liberdade, ou preparar o caminho da liberdade, como para estabelecer outras fic\u00e7\u00f5es sociais diferentes, igualmente m\u00e1s porque igualmente fic\u00e7\u00f5es. Aqui \u00e9 que era preciso cuidado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era preciso acertar com um processo de a\u00e7\u00e3o, qualquer que fosse a sua viol\u00eancia ou a sua n\u00e3o-viol\u00eancia (porque contra as injusti\u00e7as sociais tudo era leg\u00edtimo), pelo qual se contribuisse para destruir as fic\u00e7\u00f5es sociais sem, ao mesmo tempo, estorvar a cria\u00e7\u00e3o da liberdade futura; criando j\u00e1 mesmo, caso fosse poss\u00edvel, alguma coisa da liberdade futura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 claro que esta liberdade, que deve haver cuidado em n\u00e3o estorvar, \u00e9 a liberdade futura e, no presente, a liberdade dos oprimidos pelas fic\u00e7\u00f5es sociais. Claro est\u00e1 que n\u00e3o temos que olhar a n\u00e3o estorvar a &#8220;liberdade&#8221; dos poderosos, dos bem situados, de todos que representam as fic\u00e7\u00f5es sociais e t\u00eam vantagens delas. Essa n\u00e3o \u00e9 liberdade; \u00e9 a liberdade de tiranizar, que \u00e9 o contr\u00e1rio da liberdade. Essa pelo contr\u00e1rio, \u00e9 o que mais dev\u00edamos pensar em estorvar e em combater. Parece-me que isto est\u00e1 claro&#8230;&#8221; &#8211; Est\u00e1 clar\u00edssimo. Continue&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Para quem quer o anarquismo a liberdade? Para a humanidade inteira. Qual \u00e9 a maneira de se conseguir a liberdade para a humanidade inteira? Destruir por completo todas as fic\u00e7\u00f5es sociais? J\u00e1 lhe antecipei a explica\u00e7\u00e3o, quando, por causa da sua pergunta, discuti os outros sistemas avan\u00e7ados e lhe expliquei como e por que era anarquista&#8230; V. lembra-se da minha conclus\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Lembro&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; &#8230; Uma revolu\u00e7\u00e3o social s\u00fabita, brusca, esmagadora, fazendo a sociedade passar, de um salto, do regime burgu\u00eas para a sociedade livre. Esta revolu\u00e7\u00e3o social preparada por um trabalho intenso e cont\u00ednuo, de a\u00e7\u00e3o direta e indireta, tendente a dispor todos os esp\u00edritos para a vinda da sociedade livre, e a enfraquecer at\u00e9 ao estado comatoso todas as resist\u00eancias da burguesia. Escuso de lhe repetir as raz\u00f5es que levam inevitavelmente a esta conclus\u00e3o, a dentro do anarquismo; j\u00e1 lhe expus e V. j\u00e1 a percebeu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Essa revolu\u00e7\u00e3o seria preferivelmente mundial, simult\u00e2nea em todos os pontos, ou os pontos importantes, do mundo; ou n\u00e3o sendo assim, partindo rapidamente de uns para outros, mas em todo o caso, em cada ponto, isto \u00e9, em cada na\u00e7\u00e3o, fulminante e completa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Muito bem. O que poderia eu fazer para esse fim? S\u00f3 por mim, n\u00e3o a poderia fazer a ela, \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o mundial, nem mesmo poderia fazer a revolu\u00e7\u00e3o completa na parte referente ao pa\u00eds onde estava. O que podia era trabalhar, na inteira medida do meu esfor\u00e7o, para fazer a prepara\u00e7\u00e3o para essa revolu\u00e7\u00e3o. J\u00e1 lhe expliquei como: combatendo, por rodos os meios acess\u00edveis, as fic\u00e7\u00f5es sociais; n\u00e3o estorvando nunca ao fazer esse combate ou a propaganda da sociedade livre, nem a liberdade futura, nem a liberdade presente dos oprimidos; criando j\u00e1, sendo poss\u00edvel, qualquer coisa da futura liberdade.&#8221;&#8217; Puxou fumo; fez uma leve pausa; recome\u00e7ou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ora aqui, meu amigo, pus eu a minha lucidez em a\u00e7\u00e3o. Trabalhar para o futuro, est\u00e1 bem, pensei eu; trabalhar para os outros terem liberdade, est\u00e1 certo. Mas ent\u00e3o eu? Eu n\u00e3o sou ningu\u00e9m? Se eu fosse crist\u00e3o, trabalhava alegre mente pelo futuro dos outros, porque l\u00e1 tinha a minha recompensa no c\u00e9u; mas tamb\u00e9m, se eu fosse crist\u00e3o, n\u00e3o era anarquista, porque ent\u00e3o as tais desigualdades sociais n\u00e3o tinham import\u00e2ncia na nossa curta vida: eram s\u00f3 condi\u00e7\u00f5es da nossa prova\u00e7\u00e3o, e l\u00e1 seriam compensadas na vida eterna. Mas eu n\u00e3o era crist\u00e3o, como n\u00e3o sou, e perguntavame: mas por quem \u00e9 que eu vou me sacrificar nisto tudo? Mais ainda: por que \u00e9 que eu me vou sacrificar? &#8220;Vieram-me momentos de descren\u00e7a; e V. compreende que era justificada&#8230; Sou materialista, pensava eu; n\u00e3o tenho mais vida que esta; para que hei de ralar-me com propagandas e desigualdades sociais, e outras hist\u00f3rias, quando posso gozar e entreter-me muito mais se n\u00e3o me preocupar com isso? Quem tem s\u00f3 esta vida, quem n\u00e3o cr\u00ea na vida eterna, quem n\u00e3o admite lei sen\u00e3o a Natureza, quem se op\u00f5e ao Estado porque ele n\u00e3o \u00e9 natural, ao casamento porque ele n\u00e3o \u00e9 natural, ao dinheiro porque ele n\u00e3o \u00e9 natural, porque cargas-d&#8217;\u00e1gua \u00e9 que defende o altru\u00edsmo e o sacrif\u00edcio pelos outros, ou pela humanidade, se o altru\u00edsmo e o sacrif\u00edcio tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o naturais? Sim, a mesma l\u00f3gica que me mostra que um homem n\u00e3o nasce para ser casado, ou para ser portugu\u00eas, ou para ser rico ou pobre, mostra-me tamb\u00e9m que ele n\u00e3o nasce para ser solid\u00e1rio, que ele n\u00e3o nasce sen\u00e3o para ser ele-pr\u00f3prio, e portanto o contr\u00e1rio de altru\u00edsta e solid\u00e1rio, e portanto exclusivamente ego\u00edsta.&#8221; &#8220;Eu discuti a quest\u00e3o comigo mesmo. Repara tu, dizia eu para mim, que nascemos pertencentes \u00e0 esp\u00e9cie humana, e que temos o dever de ser solid\u00e1rios com todos os homens. Mas a id\u00e9ia de `dever&#8217; era natural? De onde \u00e9 que vinha esta id\u00e9ia de `dever&#8217;? Se esta id\u00e9ia de dever me obrigava a sacrificar o meu bem-estar, a minha comodidade, o meu instinto de conserva\u00e7\u00e3o e outros meus instintos naturais, em que divergia a a\u00e7\u00e3o dessa id\u00e9ia da a\u00e7\u00e3o de qualquer fic\u00e7\u00e3o social, que produz em n\u00f3s exatamente o mesmo efeito?&#8221; &#8220;Esta id\u00e9ia de dever, isto de solidariedade humana; s\u00f3 podia considerar-se natural se trouxesse consigo uma compensa\u00e7\u00e3o ego\u00edsta, porque ent\u00e3o, embora em princ\u00edpio contrariasse o ego\u00edsmo natural, se dava a esse ego\u00edsmo uma compensa\u00e7\u00e3o, sempre, no fim de contas, o n\u00e3o contrariava. Sacrificar um prazer, simplesmente sacrific\u00e1-lo, n\u00e3o \u00e9 natural; sacrificar um prazer a outro, \u00e9 que j\u00e1 est\u00e1 dentro da Natureza: \u00e9, entre duas cousas naturais que se n\u00e3o podem ter ambas, escolher uma, o que est\u00e1 bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora que compensa\u00e7\u00e3o ego\u00edsta, ou natural, podia dar-me a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 causa da sociedade livre e da futura felicidade humana? S\u00f3 a consci\u00eancia de dever cumprido, do esfor\u00e7o para um fim bom; e nenhuma destas coisas \u00e9 uma compensa\u00e7\u00e3o ego\u00edsta, nenhuma destas coisas \u00e9 um prazer em si, mas um prazer, se o \u00e9, nascido de uma fic\u00e7\u00e3o social, como pode ser o prazer de ser imensamente rico, ou o prazer de ter nascido em um boa posi\u00e7\u00e3o social.&#8221; &#8220;Confesso-lhe, meu velho, que me vieram momentos de descren\u00e7a&#8230; Senti-me desleal \u00e0 minha pr\u00f3pria doutrina, traidor a ela&#8230; Mas em breve passei sobre tudo isto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A id\u00e9ia de justi\u00e7a c\u00e1 estava, dentro de mim, pensei eu. Eu sentia-a natural. Eu sentia que havia um dever superior \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o s\u00f3 c\u00e1 do meu destino. E fui para diante na minha inten\u00e7\u00e3o.&#8221; &#8211; N\u00e3o me parece que essa decis\u00e3o revelasse uma grande lucidez da sua parte&#8230; V.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">n\u00e3o resolveu a dificuldade&#8230; V. foi para diante por um impulso absolutamente sentimental&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sem d\u00favida. Mas o que lhe estou contando agora \u00e9 a hist\u00f3ria de como me tornei anarquista, e de como o continuei sendo, e continuo. Vou-lhe expondo lealmente as hesita\u00e7\u00f5es e as dificuldades que tive, e como as venci. Concordo que, naquele momento, venci a dificuldade l\u00f3gica com o sentimento, e n\u00e3o com o racioc\u00ednio. Mas V.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">h\u00e1 de ver que, mais tarde, quando cheguei \u00e0 plena compreens\u00e3o da doutrina anarquista, esta dificuldade, at\u00e9 ent\u00e3o logicamente sem resposta, teve a sua solu\u00e7\u00e3o completa e absoluta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 curioso&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"avancar\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9&#8230; Agora deixe-me continuar na minha hist\u00f3ria. Tive esta dificuldade, e resolvi-a se bem que mal, como lhe disse. Logo a seguir, e na linha dos meus pensamentos, surgiu-me outra dificuldade que tamb\u00e9m me atrapalhou bastante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Estava bem &#8211; vamos l\u00e1 &#8211; que estivesse disposto a sacrificar-me, sem recompensa nenhuma propriamente pessoal, isto \u00e9, sem recompensa nenhuma verdadeiramente natural. Mas suponhamos que a sociedade futura n\u00e3o dava em nada do que eu esperava, que nunca havia a sociedade livre, e que diabo \u00e9 que eu, nesse case, me estava sacrificando? Sacrificar-me a uma id\u00e9ia sem recompensa pessoal, sem eu ganhar nada com o meu esfor\u00e7o por essa id\u00e9ia, v\u00e1; mas sacrificar-me sem ao menos ter a certeza de que aquilo para que eu trabalhava, existiria um dia, sem que a pr\u00f3pria id\u00e9ia ganhasse com o meu esfor\u00e7o &#8211; isso era um pouco mais forte&#8230; Desde j\u00e1 lhe digo que resolvi a dificuldade pelo mesmo processo sentimental por que resolvi a outra; mas advirto-o tamb\u00e9m que, do mesmo modo que a outra, resolvi esta pela l\u00f3gica, automaticamente, quando cheguei ao estado plenamente consciente do meu anarquismo&#8230; V. depois ver\u00e1&#8230; Na altura do que lhe estou contando, sa\u00ed-me do apuro com uma ou duas frases ocas. `Eu fazia o meu dever para com o futuro; o futuro que fizesse o seu para comigo&#8217;&#8230; Isto, ou cousa que o valha&#8230;&#8221; &#8220;Expus esta conclus\u00e3o, ou, antes estas conclus\u00f5es, aos meus camaradas, e eles concordaram todos comigo concordaram todos que era preciso ir para a frente e fazer tudo pela sociedade livre. \u00c9 a verdade que um ou outro, dos mais inteligentes, ficaram um pouco abalados com a exposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o porque n\u00e3o concordassem, mas porque nunca tinham visto as coisas assim claras, nem os bicos que estas coisas t\u00eam&#8230; Mas enfim, concordaram todos&#8230; Ir\u00edamos todos trabalhar pela grande revolu\u00e7\u00e3o social, pela sociedade livre, quer o futuro nos justificasse, quer n\u00e3o! Formamos um grupo, entre gente certa, e come\u00e7amos uma grande propaganda &#8211; grande, \u00e9 claro, dentro dos limites doo que pod\u00edamos fazer. Durante bastante tempo, no meio de dificuldades, embrulhadas, e por vezes persegui\u00e7\u00f5es, l\u00e1 fomos trabalhando pelo ideal anarquista.&#8221; O banqueiro, chegado aqui, fez uma pausa um pouco mais longa. N\u00e3o acendeu o charuto, que estava outra vez apagado. De repente teve um leve sorriso, e, com o ar de quem chega ao ponto importante, fitou-me com mais insist\u00eancia e prosseguiu, clarificando mais a voz e acentuando mais as palavras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Nesta altura, disse ele, apareceu uma coisa nova. &#8220;Nesta altura&#8221; \u00e9 modo de dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero dizer que, depois de alguns meses desta propaganda, comecei a reparar numa nova complica\u00e7\u00e3o, e esta \u00e9 que era a mais s\u00e9ria de todas, esta \u00e9 que era s\u00e9ria a valer&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;V. recorda-se, n\u00e3o \u00e9 verdade? Daquilo em que eu, por um racioc\u00ednio rigoroso, assentei que devia ser o processo de a\u00e7\u00e3o dos anarquistas&#8230; Um processo, ou processos, quaisquer pelo qual se contribuisse para destruir as fic\u00e7\u00f5es sociais sem, ao mesmo tempo, estorvar a cria\u00e7\u00e3o da liberdade futura, sem, portanto, estorvar em coisa nenhuma a pouca liberdade dos atuais oprimidos pelas fic\u00e7\u00f5es sociais; um processo que, sendo poss\u00edvel, criasse j\u00e1 alguma coisa da liberdade futura&#8230;&#8221; &#8220;Pois bem: uma vez assente este crit\u00e9rio, nunca mais deixei de o ter presente&#8230; Ora, na altura da nossa propaganda em que estou falando, descobri uma coisa. No grupo de propaganda &#8211; n\u00e3o \u00e9ramos muitos; \u00e9ramos quarenta, salvo erro &#8211; dava-se este caso: criava-se tirana.&#8221; &#8211; Criava-se tirania?&#8230; Criava-se tirania como? &#8211; Da seguinte maneira&#8230; Uns mandavam em outros e levavam-nos para onde queriam; uns impunham-se a outros e obrigavam-nos a ser o que eles queriam; uns arrastavam outros por manhas e por artes para onde eles queriam. N\u00e3o digo que fizessem isto em coisas graves; mesmo, n\u00e3o havia coisas graves ali em que o fizessem. Mas o fato \u00e9 que isto acontecia sempre e todos os dias, e dava-se n\u00e3o s\u00f3 em assuntos relacionados com a propaganda, como fora deles, em assuntos vulgares da vida. Uns iam insensivelmente para chefes, outros insensivelmente para subordinados. Uns eram chefes por imposi\u00e7\u00e3o; outros eram chefes por manha. No fato mais simples isto se via. Por exemplo: dois dos rapazes iam juntos por uma rua fora; chegavam ao fim da rua, e um tinha que ir para a direita e outro para a esquerda; cada um tinha conveni\u00eancia em ir para o seu lado. Mas o que ia para a esquerda dizia para o outro, &#8220;venha V. comigo por aqui&#8221;; o outro respondia, e era verdade, &#8220;Homem, n\u00e3o posso; tenho que ir por ali&#8221; por esta ou aquela raz\u00e3o&#8230; Mas afinal, contra sua vontade e sua conveni\u00eancia, l\u00e1 ia com o outro para a esquerda&#8230; Isto era uma vez por persuas\u00e3o, outra vez por simples insist\u00eancia, uma terceira vez por um outro motivo qualquer&#8230; Isto \u00e9, nunca era por uma raz\u00e3o l\u00f3gica; havia sempre nesta imposi\u00e7\u00e3o e nesta subordina\u00e7\u00e3o qualquer coisa de espont\u00e2neo, de como que instintivo&#8230; E como neste caso simples, em todos os outros casos; desde os menos at\u00e9 aos mais importantes&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V. v\u00ea bem o caso? &#8211; Vejo. Mas que diabos h\u00e1 de estranho nisso? Isso \u00e9 tudo quanto h\u00e1 de mais natural&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ser\u00e1. J\u00e1 vamos a isso. O que lhe pe\u00e7o que note \u00e9 que \u00e9 exatamente o contr\u00e1rio da doutrina anarquista. Repare bem que isto se passava num grupo pequeno, num grupo sem influ\u00eancia nem import\u00e2ncia, num grupo a quem n\u00e3o estava confiada a solu\u00e7\u00e3o de nenhuma quest\u00e3o grave ou decis\u00e3o sobre qualquer assunto de vulto. E repare que se passava num grupo de gente que se unira especialmente para fazer o que pudesse para o fim anarquista &#8211; isto \u00e9, para combate, tanto quando poss\u00edvel, as fic\u00e7\u00f5es sociais, e criar, tanto quando poss\u00edvel, a liberdade futura. V. reparou bem nestes dois pontos? &#8211; Reparei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Veja agora bem o que isto representa&#8230; Um grupo pequeno, de gente sincera (garanto-lhe que era sincera!), estabelecido e unido expressamente para trabalhar pela causa da liberdade, tinha, no fim de uns meses, conseguido s\u00f3 uma coisa de positivo e concreto &#8211; a cria\u00e7\u00e3o entre si de tirania. E repare que tirania&#8230; N\u00e3o era uma tirania derivada da a\u00e7\u00e3o das fic\u00e7\u00f5es sociais, que, embora lament\u00e1vel, seria desculp\u00e1vel, at\u00e9 certo ponto, ainda que menos em n\u00f3s, que combat\u00edamos essas fic\u00e7\u00f5es, que em outras pessoas; mas enfim, viv\u00edamos em meio de uma sociedade baseada nessas fic\u00e7\u00f5es e n\u00e3o era inteiramente culpa nossa se n\u00e3o pud\u00e9ssemos de todo fugir \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o era isso. Os que mandavam nos outros, ou os levavam para onde queriam, n\u00e3o faziam isso pela for\u00e7a do dinheiro, ou da posi\u00e7\u00e3o social, ou de qualquer autoridade de natureza fict\u00edcia, que se arrogassem; faziam-no por uma a\u00e7\u00e3o de qualquer esp\u00e9cie fora das fic\u00e7\u00f5es sociais, uma tirania nova. E era uma tirania exercida sobre gente essencialmente oprimida j\u00e1 pelas fic\u00e7\u00f5es sociais. Era, ainda por cima, tirania exercida entre si por gente cujo intuido sincero n\u00e3o era sen\u00e3o destruir tirania e criar liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Agora ponha o caso num grupo muito maior, muito mais influente, tratando j\u00e1 de quest\u00f5es importantes e de decis\u00f5es de car\u00e1ter fundamental. Ponha esse grupo a encaminha os seus esfor\u00e7os, como o nosso, para a forma\u00e7\u00e3o de um sociedade livre. E agora diga-me se atrav\u00e9s desse carregamento de tiranias entrecruzadas V. entrev\u00ea qualquer sociedade futura que se pare\u00e7a com uma sociedade livre ou com um humanidade digna de si pr\u00f3pria&#8230;&#8221;&#8217; &#8211; Sim: isso \u00e9 muito curioso&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 curioso, n\u00e3o \u00e9?&#8230;E olhe que h\u00e1 pontos secund\u00e1rios tamb\u00e9m muito curiosos&#8230; Por exemplo: a tirania do aux\u00edlio&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A qu\u00ea? &#8211; A tirania do aux\u00edlio. Havia entre n\u00f3s quem, em vez de mandar nos outros, em vez de se impor aos outros, pelo contr\u00e1rio os auxiliava em tudo quanto podia. Parece o contr\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 verdade? Pois olhe que \u00e9 o mesmo. \u00c9 a mesma tirania nova. \u00c9 do mesmo modo ir contra os princ\u00edpios anarquistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Essa \u00e9 boa? Em qu\u00ea? &#8211; Auxiliar algu\u00e9m, meu amigo, \u00e9 tomar algu\u00e9m por incapaz; se esse algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 incapaz, \u00e9 ou faz\u00ea-lo tal, ou sup\u00f4-lo tal, e isto \u00e9, no primeiro caso uma tirania, e no segundo um desprezo. Num caso cerceia-se a liberdade de outrem; no outro caso parte-se, pelo menos inconscientemente, do princ\u00edpio de que outrem \u00e9 desprez\u00edvel e indigno ou incapaz de liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Voltemos ao nosso caso&#8230; V. v\u00ea bem que este ponto era grav\u00edssimo. V\u00e1 que trabalh\u00e1ssemos pela sociedade futura sem esperarmos que ela nos agradecesse, ou arriscando-nos, mesmo, a que ela nunca viesse. Tudo isso, v\u00e1. Mas o que era demais era estarmos trabalhando para um futuro de liberdade e n\u00e3o fazermos, de positivo, mais que criar tirania, e n\u00e3o s\u00f3 tirania, mas tirania nova, e tirania exercida por n\u00f3s, os oprimidos, uns sobre os outros. Ora isto \u00e9 que n\u00e3o pode ser&#8230;&#8221; &#8220;Pus-me a pensar. Aqui havia um erro, um desvio qualquer. Os nossos intuitos eram bons; as nossas doutrinas pareciam certas; seriam errados os nossos processos? Com certeza que deveriam ser. Mas onde diabo estava o erro? Pus-me a pensar nisso e ia dando em doido. Um dia, de repente, como acontece sempre nestas coisas, dei com a solu\u00e7\u00e3o. Foi o grande dia das minhas teorias anarquistas; o dia em que descobri, por assim dizer, a t\u00e9cnica do anarquismo.&#8221; Olhou-me um momento sem me olhar. Depois continuou, no mesmo tom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pensei assim&#8230; Temos aqui uma tirania nova, uma tirania que n\u00e3o \u00e9 derivada das fic\u00e7\u00f5es sociais. Ent\u00e3o de onde \u00e9 que ela derivada? Ser\u00e1 derivada das qualidades naturais? Se \u00e9, adeus sociedade livre! Se uma sociedade onde est\u00e3o em opera\u00e7\u00e3o apenas as qualidades naturais dos homens &#8211; aquelas qualidades com que eles nascem, que devem s\u00f3 \u00e0 Natureza, e sobre as quais n\u00e3o temos poder nenhum -, se uma sociedade onde est\u00e3o em opera\u00e7\u00e3o apenas essas qualidades \u00e9 um amontoado de tiranias, quem \u00e9 que vai mexer o dedo m\u00ednimo para contribuir para a vinda dessa sociedade? Tirania por tirania, fique a que est\u00e1, que ao menos \u00e9 aquela a que estamos habituados, e que por isso fatalmente sentimos menos que estar\u00edamos uma tirania nova, e com o car\u00e1ter terr\u00edvel de todas as coisas tir\u00e2nicas que s\u00e3o diretamente da Natureza &#8211; o n\u00e3o haver revolta poss\u00edvel contra ela, como n\u00e3o h\u00e1 revolu\u00e7\u00e3o contra ter que morrer, ou contra nascer baixo quando se preferia ter nascido alto. Mesmo, eu j\u00e1 lhe provei que, se por qualquer raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 realiz\u00e1vel a sociedade anarquista, ent\u00e3o deve existir, por ser mais natural que qualquer outra salvo aquela, a sociedade burguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas seria esta tirania, que nascia assim entre n\u00f3s, realmente derivada das qualidades naturais? Ora o que s\u00e3o as qualidades naturais? S\u00e3o o grau de intelig\u00eancia, de imagina\u00e7\u00e3o, de vontade, etc., com que cada um nasce &#8211; isto no campo mental, \u00e9 claro, porque as qualidades naturais f\u00edsicas n\u00e3o v\u00eam para o caso. Ora um tipo que, sem ser por uma raz\u00e3o derivada das fic\u00e7\u00f5es sociais, manda noutro, por for\u00e7a que o faz por lhe ser superior em uma ou outra das qualidades naturais. Domina-o pelo emprego das suas qualidades naturais. Mas h\u00e1 uma coisa a ver: esse emprego das qualidades naturais ser\u00e1 leg\u00edtimos, isto \u00e9, ser\u00e1 natural?&#8221; &#8220;Ora qual \u00e9 o emprego natural das nossas qualidades naturais? O servir os fins naturais da nossa personalidade. Ora dominar algu\u00e9m ser\u00e1 um fim natural da nossa personalidade? Pode s\u00ea-lo; h\u00e1 um caso em que pode s\u00ea-lo: \u00e9 quando esse algu\u00e9m est\u00e1 para n\u00f3s num lugar de inimigo. Para o anarquista, \u00e9 claro, quem est\u00e1 num lugar de inimigo, \u00e9 qualquer representante das fic\u00e7\u00f5es sociais e da sua tirania; mais ningu\u00e9m, porque todos os outros homens s\u00e3o homens como ele e camaradas naturais. Ora, V. bem v\u00ea, o caso da tirania, que t\u00ednhamos estado criando, era exercida sobre homens como n\u00f3s, camaradas naturais, e, mais ainda, sobre homens duas vezes nossos camaradas, porque o eram tamb\u00e9m pela comunh\u00e3o do mesmo ideal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conclus\u00e3o: esta nossa tirania, se n\u00e3o era derivada das fic\u00e7\u00f5es sociais, tamb\u00e9m n\u00e3o era derivada das qualidades naturais; era derivada duma aplica\u00e7\u00e3o errada, duma pervers\u00e3o, das qualidades naturais. E essa pervers\u00e3o, de onde \u00e9 que provinha?&#8221; &#8220;Tinha que provir de uma de duas cousas: ou de o homem ser naturalmente mau, e portanto todas as qualidades naturais serem naturalmente pervertidas; ou de uma pervers\u00e3o resultante da longa perman\u00eancia da humanidade numa atmosfera de fic\u00e7\u00f5es sociais, todas elas criadoras de tirania, e tendente, portanto, a tornar j\u00e1 instintivamente tir\u00e2nico o uso mais natural das qualidades mais naturais. Ora, destas duas hip\u00f3teses, qual \u00e9 que seria a verdadeira? De um modo satisfat\u00f3rio &#8211; isto \u00e9, rigorosamente l\u00f3gico ou cient\u00edfico &#8211; era imposs\u00edvel determinar. O racioc\u00ednio n\u00e3o pode entrar com o problema, porque ele \u00e9 de ordem hist\u00f3rica, ou cient\u00edfica, e depende do conhecimento de fatos. Por seu lado, a ci\u00eancia tamb\u00e9m nos n\u00e3o ajuda, porque, por mais longe que recuemos na hist\u00f3ria, encontramos sempre o homem vivendo sob um ou outro sistema de tirania social, e portanto sempre num estado que nos n\u00e3o permite averiguar como \u00e9 o homem quando vive em circunst\u00e2ncias pura e inteiramente naturais. N\u00e3o havendo maneira de determinar ao certo, temos que pender para o lado da maior probabilidade; e a maior probabilidade est\u00e1 na segunda hip\u00f3tese. \u00c9 mais natural supor que a longu\u00edssima perman\u00eancia da humanidade em fic\u00e7\u00f5es sociais criadoras de tirania fa\u00e7a cada homem nascer j\u00e1 com as suas qualidade naturais pervertidas no sentido de tiranizar, do que supor que qualidades naturais podem ser naturalmente pervertidas, o que, de certo modo, representa una contradi\u00e7\u00e3o. Por isso o pensador decide-se, como eu me decidi, com uma quase absoluta seguran\u00e7a, pela segunda hip\u00f3tese.&#8221; &#8220;Temos, pois, que uma coisa \u00e9 evidente&#8230; No estado social presente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel um grupo de homens, por bem intencionados que estejam todos, por preocupados que estejam todos s\u00f3 em combater as fic\u00e7\u00f5es sociais e em trabalhar pela liberdade, trabalharem juntos sem que espontaneamente criem entre si tirania, sem criar entre si uma tirania nova, suplementar \u00e0 das fic\u00e7\u00f5es sociais, sem destruir na pr\u00e1tica tudo quanto querem na teoria, sem involutariamente estorvar o mais poss\u00edvel o pr\u00f3prio intuito que querem promover. O que h\u00e1 a fazer? \u00c9 muito simples&#8230; \u00c9 trabalharmos todos para o mesmo fim, mas separados.&#8221; &#8211; Separados? &#8211; Sim. V. n\u00e3o seguiu o meu argumento? &#8211; Segui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E n\u00e3o acha l\u00f3gica, n\u00e3o acha fatal esta conclus\u00e3o? &#8211; Acho, sim, claro&#8230; Disse eu: trabalharmos todos para o mesmo fim, mas separados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trabalharmos todos para o mesmo fim anarquista, cada um contribui com o seu esfor\u00e7o para a destrui\u00e7\u00e3o das fic\u00e7\u00f5es sociais, que \u00e9 para onde o dirige, e para a cria\u00e7\u00e3o da sociedade livre do futuro; e trabalhando separados n\u00e3o podemos, de modo nenhum, criar tirania nova, porque nenhum tem a\u00e7\u00e3o sobre o outro, e n\u00e3o pode portanto, nem, dominando-o, diminuir-lhe a liberdade, nem, auxiliando-o, apagar-lha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Trabalhando assim separados e para o mesmo fim anarquista, temos as duas vontades &#8211; a do esfor\u00e7o, e a da n\u00e3o cria\u00e7\u00e3o de tirania nova. Continuamos unidos, porque o estamos moralmente e trabalhamos do mesmo modo para o mesmo fim; continuamos anarquistas, porque cada um trabalha para a sociedade livre; mas deixamos de ser traidores, volunt\u00e1rios ou involunt\u00e1rios, \u00e0 nossa cousa, deixamos mesmo de poder s\u00ea-lo, porque nos colocamos, pelo trabalho anarquista isolado, fora da influ\u00eancia delet\u00e9ria das fic\u00e7\u00f5es sociais, no seu reflexo heredit\u00e1rio sobre as qualidades que a Natureza deu.&#8221; &#8220;\u00c9 claro que toda esta t\u00e1tica se aplica ao que eu chamei de per\u00edodo de prepara\u00e7\u00e3o para a revolu\u00e7\u00e3o social. Arruinadas as defesas burguesas, e reduzida a sociedade inteira ao estado de aceita\u00e7\u00e3o das doutrinas anarquistas, faltando s\u00f3 fazer a revolu\u00e7\u00e3o social, ent\u00e3o, para o golpe final, \u00e9 que n\u00e3o pode continuar a a\u00e7\u00e3o separada. Mas nessa altura, j\u00e1 a sociedade livre estar\u00e1 virtualmente chagada; j\u00e1 as coisas ser\u00e3o de outra maneira. A t\u00e1tica a que me refiro s\u00f3 diz respeito \u00e0 a\u00e7\u00e3o anarquista em meio da sociedade burguesa, como agora, como no grupo a que eu pertencia.&#8221; &#8220;Era esse &#8211; at\u00e9 que enfim! &#8211; o verdadeiro processo anarquista. Juntos, nada val\u00edamos, que importasse, e, ainda por cima, nos tiraniz\u00e1vamos, e nos estorv\u00e1vamos uns aos outros e \u00e0s nossas teorias. Separados, pouco tamb\u00e9m conseguir\u00edamos, mas ao menos n\u00e3o estorv\u00e1vamos a liberdade, n\u00e3o cri\u00e1vamos tirania nova; o que consegu\u00edamos, pouco que fosse, era realmente conseguido, sem desvantagem nem perda. E, de mais a mais, trabalh\u00e1vamos assim separados, aprend\u00edamos a confiar mais em n\u00f3s mesmos, a n\u00e3o nos encostarmos uns aos outros, a tornarmo-nos mais livres j\u00e1, a prepararmo-nos, tanto pessoalmente, como aos outros pelo nosso exemplo, para o futuro.&#8221; &#8220;Fiquei radiante com essa descoberta. Fui logo exp\u00f4-la aos meus camaradas&#8230; Foi uma das poucas vezes em que fui est\u00fapido na minha vida. Imagine V. que eu estava t\u00e3o cheio da minha descoberta que esperava que eles concordassem&#8230;&#8221; &#8211; N\u00e3o concordaram, \u00e9 claro&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Repontaram, meu amigo, repontaram todos! Uns mais, outros menos, tudo protestou!&#8230; N\u00e3o era isso!&#8230; Isso n\u00e3o podia ser!&#8230; Mas ningu\u00e9m dizia o que era ou o que \u00e9 que havia de ser. Argumentei e argumentei, e, em resposta aos meus argumentos, n\u00e3o obtive sen\u00e3o frases, lixo coisas como essas que os ministros respondem nas c\u00e2maras quando n\u00e3o t\u00eam resposta nenhuma&#8230; Ent\u00e3o \u00e9 que eu vi com que bestas e com que covard\u00f5es estava metido! Desmascararam-se. Aquela corja tinha nascido para escravos. Queriam ser anarquistas \u00e0 custa alheia. Queriam a liberdade, logo que fossem os outros que lha arranjassem, logo que lhe fosse dada como um rei d\u00e1 um t\u00edtulo! Quase todos eles s\u00e3o assim, os grandes lacaios! &#8211; E V., escamou-se? &#8211; Se me escamei! Enfureci-me! Pus-me aos coices. Dei por paus e por pedras. Quase que me peguei com dois ou tr\u00eas deles. E acabei por me vir embora. Isolei-me. Veio-me um nojo \u00e0quela carneirada toda, que V. n\u00e3o imagina! Quase que descri no anarquismo. Quase que decidi n\u00e3o me importar mais com tudo aquilo. Mas, passados uns dias, voltei a mim. Pensei que o ideal anarquista estava acima destas quiz\u00edlas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles n\u00e3o queriam s\u00f3 brincar aos libert\u00e1rios? N\u00e3o estava eu para brincar num caso desses. Eles n\u00e3o tinham for\u00e7a para combater sen\u00e3o encostados uns aos outros, e criando, entre si, um simulacro novo da tirania que diziam querer combater? Pois que o fizessem, os parvos, se n\u00e3o serviam para mais. Eu \u00e9 que n\u00e3o ia ser burgu\u00eas por t\u00e3o pouco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Estava estabelecido que, no verdadeiro anarquismo, cada um tem que, por sua pr\u00f3pria for\u00e7as, criar liberdade e combater as fic\u00e7\u00f5es sociais. Pois por minha pr\u00f3pria for\u00e7as eu ia criar liberdade e combater as fic\u00e7\u00f5es sociais. Ningu\u00e9m queria seguir-me no verdadeiro caminho anarquista? Seguiria eu por ele. Iria eu s\u00f3, com os meus recursos, com a minha f\u00e9, desacompanhado at\u00e9 do apoio mental dos que tinham sido meus camaradas, contra as fic\u00e7\u00f5es sociais inteiras. N\u00e3o digo que fosse um belo gesto, nem um gesto her\u00f3ico. Foi simplesmente um gesto natural. Se o caminho tinha que ser seguido por cada um separadamente, eu n\u00e3o precisava de mais ningu\u00e9m para o seguir. Bastava o meu ideal. Foi baseado nestes princ\u00edpios e nestas circunst\u00e2ncias que decidi, por mim s\u00f3, combater as fic\u00e7\u00f5es sociais.&#8221; Suspendeu um pouco o discurso, que se lhe tornara quente e fluido. Retomou-o de ali a pouco, com a voz j\u00e1 mais sossegada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 um estado de guerra, pensei eu, entre mim e as fic\u00e7\u00f5es sociais. Muito bem. O que posso eu fazer contra as fic\u00e7\u00f5es sociais? Trabalho sozinho, para n\u00e3o poder, de modo nenhum, criar qualquer tirania. Como posso eu colaborar sozinho na prepara\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o social, na prepara\u00e7\u00e3o da humanidade para a sociedade livre? Tenho que escolher um de dois processos, dos dois processos que h\u00e1; caso, \u00e9 claro, n\u00e3o possa servir-me de ambos. Os dois processos, s\u00e3o a a\u00e7\u00e3o indireta, isto \u00e9, a propaganda, e a a\u00e7\u00e3o direta, de qualquer esp\u00e9cie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pensei primeiro na a\u00e7\u00e3o indireta, isto \u00e9, na propaganda. Que propaganda poderia eu fazer s\u00f3 por mim? \u00c0 parte esta propaganda que sempre se vai fazendo em conversa, com este ou aquele, ao acaso e servindo-nos de todas as oportunidades, o que eu queria saber era se a a\u00e7\u00e3o indireta era um caminho por onde eu pudesse encaminhar a minha atividade de anarquista energicamente, isto \u00e9, de modo a produzir resultados sens\u00edveis. Vi logo que n\u00e3o podia ser. N\u00e3o sou orador e n\u00e3o sou escritor. Quero dizer, sou capaz de falar em p\u00fablico, se for preciso, e sou capaz de escrever um artigo de jornal; mas o que eu queria averiguar era se o meu feitio natural indicava que, especializando-me na a\u00e7\u00e3o indireta, de qualquer das duas esp\u00e9cies ou em ambas, eu poderia obter resultados mais positivos para a id\u00e9ia anarquista que especializando os meus esfor\u00e7os em qualquer outro sentido. Ora a a\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre mais proveitosa que a propaganda, exceto para os indiv\u00edduos cujo feitio os indica essencialmente como propagandistas &#8211; os grandes oradores, capazes de eletrizar multid\u00f5es e arrast\u00e1-las atr\u00e1s de si, ou os grandes escritores, capazes de fascinar e convencer com os seus livros. N\u00e3o me parece que eu seja muito vaidoso, mas, se o sou, n\u00e3o me d\u00e1, pelo menos, para me envaidecer daquelas qualidades que n\u00e3o tenho. E, como lhe disse, nunca me deu para me julgar orador ou escritor. Por isso abandonei a id\u00e9ia da a\u00e7\u00e3o indireta como caminho a dar \u00e0 minha atividade anarquista. Por exclus\u00e3o de partes, era for\u00e7ado a escolher a a\u00e7\u00e3o direta, isto \u00e9, o esfor\u00e7o aplicado \u00e0 pr\u00e1tica da vida, \u00e0 vida real. N\u00e3o era a intelig\u00eancia, mas a a\u00e7\u00e3o. Muito bem. Assim seria.&#8221; &#8220;Tinha eu pois que aplicar \u00e0 vida pr\u00e1tica o processo fundamental de a\u00e7\u00e3o anarquista que eu j\u00e1 tinha esclarecido &#8211; combater as fic\u00e7\u00f5es sociais sem criar tirania nova, criando j\u00e1, caso fosse poss\u00edvel, qualquer coisa da liberdade futura. Ora como diabo se faz isso na pr\u00e1tica?&#8221; &#8220;Ora o que \u00e9 combater na pr\u00e1tica? Combater na pr\u00e1tica \u00e9 a guerra, \u00e9 uma guerra, pelo menos. Como \u00e9 que se faz guerra \u00e0s fic\u00e7\u00f5es sociais? Antes de mais nada, como \u00e9 que se faz guerra? Como \u00e9 que se vence o inimigo em qualquer guerra? De uma de duas maneiras: ou matando-o isto \u00e9, destruindo-o; ou aprisionando-o, isto \u00e9, subjugando-o, reduzindo-o \u00e0 inatividade. Destruir as fic\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o podia eu fazer; destruir as fic\u00e7\u00f5es sociais s\u00f3 o podia fazer a revolu\u00e7\u00e3o social. At\u00e9 ali, as fic\u00e7\u00f5es sociais podiam estar abaladas, cambaleando, por um fio; mas destru\u00eddas, s\u00f3 o estariam com a vinda da sociedade livre e a queda positiva da sociedade burguesa. O mais que eu poderia fazer nesse sentido era destruir &#8211; destruir no sentido f\u00edsico de matar &#8211; um ou outro membro da classes representativas da sociedade burguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estudei o caso, e vi que era asneira. Suponha V. que eu matava um ou dois, ou uma d\u00fazia de representante da tirania das fic\u00e7\u00f5es sociais&#8230; O resultado? As fic\u00e7\u00f5es sociais ficariam abaladas? N\u00e3o ficariam. As fic\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o s\u00e3o como um situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que pode depender de um pequeno n\u00famero de homens, de um s\u00f3 homem por vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que h\u00e1 de mau nas fic\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o elas, no seu conjunto, e n\u00e3o os indiv\u00edduos que as representam sen\u00e3o por serem representantes delas. Depois, um atentado de ordem social produz sempre uma rea\u00e7\u00e3o; n\u00e3o s\u00f3 tudo fica na mesma, mas, as mais das vezes, piora. E, ainda por cima, suponha, como \u00e9 natural, que, depois de um atentado, eu era ca\u00e7ado; era ca\u00e7ado e liquidado, de uma maneira ou outra. E suponha que eu tinha dado cabo de uma d\u00fazia de capitalistas. Em que vinha isso tudo dar, e resumo? Com a minha liquida\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o por morte, mas por simples pris\u00e3o ou degredo, a causa anarquista pedia um elemento de combate; e os doze capitalistas, que eu teria estendido, n\u00e3o eram doze elementos que a sociedade burguesa tinha perdido, porque os elementos componentes da sociedade burguesa n\u00e3o s\u00e3o elementos de combate, mas elementos puramente passivos, pois o `combate&#8217; est\u00e1, n\u00e3o nos membros da sociedade burguesa, mas no conjunto de fic\u00e7\u00f5es sociais, em que essa sociedade assenta. Ora as fic\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o s\u00e3o gente, em quem se possa dar tiros&#8230; V. compreende bem? N\u00e3o era como o soldado de um exercito que mata doze soldados de um ex\u00e9rcito contr\u00e1rio; era como um soldado que mata doze civis da na\u00e7\u00e3o do outro ex\u00e9rcito. \u00c9 matar estupidamente, porque n\u00e3o se elimina combatente nenhum&#8230; Eu n\u00e3o podia portanto pensar em destruir, nem no todo nem em nenhuma parte, fic\u00e7\u00f5es sociais. Tinha ent\u00e3o que subjug\u00e1-las, que venc\u00ea-las subjugando-as, reduzindo-as \u00e0 inatividade.&#8221; Apontou para mim o indicador direito s\u00fabito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Foi o que eu fiz! Retirou logo o gesto, e continuou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Procurei ver qual era a primeira, a mais importante, das fic\u00e7\u00f5es sociais. Seria a essa que me cumpria, mais que a nenhuma outra, tentar subjugar, tentar reduzir \u00e0 inatividade. A mais importante, da nossa \u00e9poca pelo menos, \u00e9 o dinheiro. Como subjugar o dinheiro, ou, em palavras mais precisas, a for\u00e7a, ou a tirania do dinheiro? Tornando-me livre da sua influ\u00eancia, da sua for\u00e7a, superior portanto \u00e0 influ\u00eancia, reduzindo-o \u00e0 inatividade pelo que me dizia respeito a mim. Pelo que me dizia respeito a mim, compreende V.?, porque eu \u00e9 que o combatia; se fosse reduzi-lo \u00e0 inatividade pelo que respeita a toda a gente, isso n\u00e3o seria j\u00e1 subjug\u00e1-lo, mas destru\u00ed-lo, porque seria acabar de todo com a fic\u00e7\u00e3o do dinheiro. Ora eu j\u00e1 lhe provei que qualquer fic\u00e7\u00e3o social s\u00f3 pode ser &#8220;destru\u00edda&#8221; pela revolu\u00e7\u00e3o social, arrastada com as outras na queda da sociedade burguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como podia eu tornar-me superior \u00e0 for\u00e7a do dinheiro? O processo mais simples era afastar-me da esfera da sua influ\u00eancia, isto \u00e9, da civiliza\u00e7\u00e3o; ir para um campo comer ra\u00edzes e beber \u00e1gua das nascentes; andar nu e viver como animal. Mas isto, mesmo que n\u00e3o houvesse dificuldade em faz\u00ea-lo, n\u00e3o era combater uma fic\u00e7\u00e3o social; n\u00e3o era mesmo combater: era fugir. Realmente, quem se esquiva a travar um combate n\u00e3o \u00e9 derrotado nele. Mas moralmente \u00e9 derrotado, porque n\u00e3o se bateu. O processo tinha que ser outro &#8211; um processo de combate e n\u00e3o de fuga. Como subjugar o dinheiro, combatendo-o? Como furtar-me \u00e0 sua influ\u00eancia e tirania, n\u00e3o evitando o seu encontro? O processo era s\u00f3 um &#8211; adquiri-lo, adquiri-lo em quantidades bastante para lhe n\u00e3o sentir a influ\u00eancia; e em quanto mais quantidade o adquirisse, tanto mais livre eu estaria dessa influ\u00eancia. Foi quando vi isto claramente, com toda a for\u00e7a da minha convic\u00e7\u00e3o de anarquista, e toda a minha l\u00f3gica de homem l\u00facido, que entrei na fase atual &#8211; a comercial e banc\u00e1ria, meu amigo &#8211; do meu anarquismo.&#8221; Descansou um momento da viol\u00eancia, novamente crescente, do seu entusiasmo pela sua exposi\u00e7\u00e3o. Depois continuou, ainda com um certo calor, a sua narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ora V. lembrasse daquelas duas dificuldades l\u00f3gicas que eu lhe disse que me haviam surgido na princ\u00edpio da minha carreira de anarquista consciente?&#8230; E V.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">lembra-se de eu lhe dizer que naquela altura as resolvi artificialmente pelo sentimento e n\u00e3o pela l\u00f3gica? Isto \u00e9, V. mesmo notou e muito bem, que eu n\u00e3o as tinha resolvido pela l\u00f3gica&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Lembro-me, sim&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E V. lembra-se de eu lhe dizer que mais tarde, quando acertei por fim com o verdadeiro processo anarquista, as resolvi ent\u00e3o de vez, isto \u00e9, pela l\u00f3gica? &#8211; Sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ora veja como ficaram resolvidas&#8230; As dificuldades eram estas: n\u00e3o \u00e9 natural trabalhar por qualquer coisa, seja o que for, sem uma compensa\u00e7\u00e3o natural, isto \u00e9, ego\u00edsta; e n\u00e3o \u00e9 natural dar o nosso esfor\u00e7o a qualquer fim sem ter a compensa\u00e7\u00e3o de saber que esse fim se atinge. As duas dificuldades eram estas; ora repare como ficam resolvidas pelo processo de trabalho anarquista que o meu racioc\u00ednio me levou a descobrir como sendo o \u00fanico verdadeiro&#8230; O processo d\u00e1 em resultado eu enriquecer; portanto, compensa\u00e7\u00e3o ego\u00edsta. O processo visa ao conseguimento da liberdade; ora eu, tornando-me superior \u00e0 for\u00e7a do dinheiro, isto \u00e9, libertando-me dela, consigo liberdade. Consigo liberdade s\u00f3 para mim, \u00e9 certo; mas \u00e9 que como j\u00e1 lhe provei, a liberdade para todos s\u00f3 pode vir com a destrui\u00e7\u00e3o das fic\u00e7\u00f5es sociais, pela revolu\u00e7\u00e3o social. O ponto concreto \u00e9 este: viso liberdade, consigo liberdade: consigo a liberdade que posso&#8230; E veja V.: \u00e0 parte o racioc\u00ednio que determina este processo anarquista como o \u00fanico verdadeiro, o fato que ele resolve automaticamente as dificuldades l\u00f3gicas, que se podem opor a qualquer processo anarquista, mais prova que ele \u00e9 o verdadeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros \u00e0 empresa de subjugar a fic\u00e7\u00e3o dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e banc\u00e1ria. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas j\u00e1 n\u00e3o pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. N\u00e3o olhei o processo &#8211; confesso-lhe, meu amigo, que n\u00e3o olhei o processo; empreguei tudo quanto h\u00e1 &#8211; o a\u00e7ambarcamento, o sofisma financeiro, a pr\u00f3pria concorr\u00eancia desleal. O qu\u00ea?! Eu combatia as fic\u00e7\u00f5es sociais, imorais e antinaturais por excel\u00eancia, e havia de olhar a processos?! Eu trabalhava pela liberdade, e havia de olhar as armas com que combatia a tirania?! O anarquista est\u00fapido, que atira bombas e d\u00e1 tiros, bem sabe que mata, e bem sabe que as suas doutrinas n\u00e3o incluem a pena de morte. Ataca uma imoralidade com um crime, porque acha que essa imoralidade pede um crime para se destruir. Ele \u00e9 est\u00fapido quanto ao processo, porque, como j\u00e1 lhe mostrei, esse processo \u00e9 errado e contraproducente como processo anarquista; agora quanto \u00e0 moral do processo ele \u00e9 inteligente. Ora o meu processo estava certo, e eu servia-me legitimamente, como anarquista, de todos os meios para enriquecer. Hoje realizei o meu limitado sonho de anarquista pr\u00e1tico e l\u00facido. Sou livre. Fa\u00e7o o que quero, dentro, \u00e9 claro, do que \u00e9 poss\u00edvel fazer. O meu lema de anarquista era a liberdade; pois bem, tenho a liberdade, a liberdade que, por enquanto, na nossa sociedade imperfeita, \u00e9 poss\u00edvel ter. Quis combater as for\u00e7as sociais; combati-as, e, o que \u00e9 mais, venci-as.&#8221; &#8211; Alto l\u00e1! Alto l\u00e1! disse eu. Isso estar\u00e1 tudo muito bem, mas h\u00e1 uma cousa que V. n\u00e3o viu. As condi\u00e7\u00f5es do seu processo eram, como V. provou, n\u00e3o s\u00f3 criar liberdade, mas tamb\u00e9m n\u00e3o criar tirania. Ora V. criou tirania V. como a\u00e7ambarcador, como banqueiro, como financeiro sem escr\u00fapulos &#8211; V. desculpe, mas V. \u00e9 que disse -, V. criou tirania. V.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">criou tanta tirania como qualquer outro representante das fic\u00e7\u00f5es sociais, que V. diz que combate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o, meu velho, V. engana-se. Eu n\u00e3o criei tirania. A tirania, que pode ter resultado da minha a\u00e7\u00e3o de combate contra as fic\u00e7\u00f5es sociais, \u00e9 uma tirania que n\u00e3o parte de mim, que portanto eu n\u00e3o criei; est\u00e1 nas fic\u00e7\u00f5es sociais, eu n\u00e3o ajuntei a elas. Essa tirania \u00e9 a pr\u00f3pria tirania das fic\u00e7\u00f5es sociais; e eu n\u00e3o podia, nem me propus, destruir as fic\u00e7\u00f5es sociais. Pela cent\u00e9sima vez lhe repito: s\u00f3 a revolu\u00e7\u00e3o social pode destruir as fic\u00e7\u00f5es sociais; antes disso, a a\u00e7\u00e3o anarquista perfeita, como a minha, s\u00f3 pode subjugar as fic\u00e7\u00f5es sociais, subjug\u00e1-las em rela\u00e7\u00e3o s\u00f3 ao anarquista que p\u00f5e esse processo em pr\u00e1tica, porque esse processo n\u00e3o permite uma mais larga sujei\u00e7\u00e3o dessas fic\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 de n\u00e3o criar tirania que se trata: \u00e9 de n\u00e3o criar tirania nova, tirania onde n\u00e3o estava. Os anarquistas, trabalhando em conjunto, influenciando-se uns aos outros como eu lhe disse, criam entre si, fora e \u00e0 parte das fic\u00e7\u00f5es sociais, uma tirania; essa \u00e9 que \u00e9 uma tirania nova. Essa, eu n\u00e3o a criei. N\u00e3o a podia mesmo criar, pelas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es do meu processo. N\u00e3o, meu amigo; eu s\u00f3 criei liberdade. Libertei um. Libertei-me a mim. \u00c9 que o meu processo, que \u00e9, como lhe provei, o \u00fanico verdadeiro processo anarquista, me n\u00e3o permitiu libertar mais. O que pude libertar, libertei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Est\u00e1 bem&#8230; Concordo&#8230; Mas olhe que, por esse argumento, a gente quase que \u00e9 levado a crer que nenhum representante das fic\u00e7\u00f5es sociais exerce a tirania&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E n\u00e3o exerce. A tirania \u00e9 das fic\u00e7\u00f5es sociais e n\u00e3o dos homens que as encarnam; esses s\u00e3o, por assim dizer, os meios de que as fic\u00e7\u00f5es se servem para tiranizar, como a faca \u00e9 o meio que se pode servir o assassino. E V. decerto n\u00e3o julga que abolindo as facas abole os assassinos&#8230; Olhe&#8230; Destrua V. todos os capitalistas do mundo, mas sem destruir o capital&#8230; No dia seguinte o capital, j\u00e1 nas m\u00e3os de outros, continuar\u00e1, por meio desses, a sua tirania. Destrua, n\u00e3o os capitalistas, mas o capital; quantos capitalistas ficam?&#8230; V\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim; V. tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00d3 filho, o m\u00e1ximo, o m\u00e1ximo, o m\u00e1ximo que V. me pode acusar de fazer \u00e9 de aumentar um pouco &#8211; muito muito pouco &#8211; a tirania das fic\u00e7\u00f5es sociais. O argumento \u00e9 absurdo, porque como j\u00e1 lhe disse, a tirania que eu n\u00e3o devia criar, e n\u00e3o criei, \u00e9 outra. Mas tem mais um ponto fraco: \u00e9 que, pelo mesmo racioc\u00ednio, V. pode acusar um general, que trava combate pelo seu pa\u00eds, de causar ao seu pa\u00eds o preju\u00edzo do n\u00famero de homens do seu pr\u00f3prio exercito que teve que sacrificar para vencer. Quem vai \u00e0 guerra, d\u00e1 e leva. Consiga-se o principal; o resto&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Est\u00e1 muito bem&#8230; Mas olhe l\u00e1 outra coisa&#8230; O verdadeiro anarquista quer a liberdade n\u00e3o s\u00f3 para si, mas tamb\u00e9m para os outros&#8230; Parece-me que quer a liberdade para a humanidade inteira&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sem d\u00favida. Mas eu j\u00e1 lhe disse que, pelo processo que descobri que era o \u00fanico processo anarquista, cada um tem de libertar-se a si pr\u00f3prio. Eu libertei-me a mim; fiz o meu dever simultaneamente pra comigo e para com a liberdade. Por que \u00e9 que os outros, os meus camaradas, n\u00e3o fizeram o mesmo? Eu n\u00e3o os impedi. Esse \u00e9 que teria sido o crime, se os tivesse impedido. Mas eu nem sequer os impedi ocultandolhes o verdadeiro processo anarquista; logo que descobri o processo, disse-o claramente a todos. O pr\u00f3prio processo me impedia de fazer mais. Que mais podia fazer? Compeli-los a seguir o caminho? Mesmo que o pudesse fazer, n\u00e3o o faria, porque seria tirar-lhes a liberdade, e isso era contra os meus princ\u00edpios anarquistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Auxili\u00e1-los? Tamb\u00e9m n\u00e3o podia ser, pela mesma raz\u00e3o. Eu nunca ajudei, nem ajudo, ningu\u00e9m, porque isso, sendo diminuir a liberdade alheia, \u00e9 tamb\u00e9m contra os meus princ\u00edpios. V. o que me est\u00e1 censurando \u00e9 eu n\u00e3o ser mais gente que uma pessoa s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que me censura o cumprimento do meu dever de libertar, at\u00e9 onde eu o podia cumprir? Por que n\u00e3o os censura antes a eles por n\u00e3o terem cumprido o deles? &#8211; Pois sim, homem. Mas esses homens n\u00e3o fizeram o que V. fez, naturalmente, porque eram menos inteligentes que V., ou menos fortes de vontade, ou&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ah, meu amigo: essas s\u00e3o j\u00e1 as desigualdades naturais, e n\u00e3o sociais&#8230; Com essas \u00e9 que o anarquismo n\u00e3o tem nada. O grau de intelig\u00eancia ou de vontade de um indiv\u00edduo \u00e9 com ele e com a Natureza; as pr\u00f3prias fic\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o p\u00f5em pra\u00ed nem prego nem estopa. H\u00e1 qualidade naturais, como eu j\u00e1 lhe disse, que se pode presumir que sejam pervertidas pela longa perman\u00eancia da humanidade entre fic\u00e7\u00f5es sociais; mas a pervers\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 no grau da qualidade, que \u00e9 absolutamente dado pela Natureza, mas na aplica\u00e7\u00e3o da qualidade. Ora uma quest\u00e3o de estupidez ou de falta de vontade n\u00e3o tem que ver com a aplica\u00e7\u00e3o dessas qualidade, mas s\u00f3 com o grau delas. Por isso lhe digo: essas s\u00e3o j\u00e1 absolutamente as desigualdades naturais, e sobre essas ningu\u00e9m tem poder nenhum, nem h\u00e1 modifica\u00e7\u00e3o social que a modifique, como n\u00e3o me pode tornar a mim alto ou a V. baixo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A n\u00e3o ser&#8230; A n\u00e3o ser que, no caso desses tipos, a pervers\u00e3o heredit\u00e1ria das qualidades naturais v\u00e1 t\u00e3o longe que atinja o pr\u00f3prio fundo do temperamento&#8230; Sim, que um tipo nas\u00e7a para escravo, nas\u00e7a naturalmente escravo, e portanto incapaz de qualquer esfor\u00e7o no sentido de se libertar&#8230; Mas nesse caso&#8230;, nesse caso&#8230;, que t\u00eam eles que ver com a sociedade livre, ou com a liberdade?&#8230; Se um homem nasceu para escravo, a liberdade, sendo contr\u00e1ria \u00e0 sua \u00edndole, ser\u00e1 para ele uma tirania&#8221;&#8217; Houve uma pequena pausa. De repente ria alto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Realmente, disse eu, V. \u00e9 anarquista. Em todo o caso, d\u00e1 vontade de rir, mesmo depois de o ter ouvido, compara o que V. \u00e9 com o que s\u00e3o os anarquistas que pra\u00ed h\u00e1&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Meu amigo, eu j\u00e1 lho disse, j\u00e1 lho provei, e agora repito-lho&#8230; A diferen\u00e7a \u00e9 s\u00f3 esta: eles s\u00e3o anarquistas s\u00f3 te\u00f3ricos, eu sou te\u00f3rico e pr\u00e1tico; eles s\u00e3o anarquistas m\u00edsticos, e eu cient\u00edfico; eles s\u00e3o anarquistas que se agacham, eu sou um anarquista que combate e liberta&#8230; Em uma palavra: eles s\u00e3o pseudo-anarquistas, e eu sou anarquista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E levantamos-nos da mesa.<\/p>\n<p><b>Lisboa, janeiro de 1922.<\/b><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Pessoa T\u00ednhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e a\u00e7ambarcador not\u00e1vel, fumava como quem n\u00e3o pensa. A conversa, que fora amortecendo, jazia morta entra n\u00f3s. Procurei reanim\u00e1-la, ao acaso, servindo-me de uma id\u00e9ia que me passou pela medita\u00e7\u00e3o. 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