{"id":95888,"date":"2017-01-23T08:18:11","date_gmt":"2017-01-23T10:18:11","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95888"},"modified":"2017-01-23T08:18:11","modified_gmt":"2017-01-23T10:18:11","slug":"ficcoes-do-interludio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/ficcoes-do-interludio","title":{"rendered":"Fic\u00e7\u00f5es do Interl\u00fadio"},"content":{"rendered":"<h2>Para Al\u00e9m do Outro Oceano de Coelho Pacheco &#8211; Fernando Pessoa<\/h2>\n<h4> ANOTA&Ccedil;&Otilde;ES<\/h4>\n<p> 1<\/p>\n<p> Destinado, igualmente a Orpheu 3, consta dos textos que chegaram a ser compostos. <\/p>\n<p>Est&aacute; assinado por Coelho Pacheco e tem a seguinte dedicat&oacute;ria: <\/p>\n<p>&quot;&Agrave; mem&oacute;ria de Alberto Caeiro&quot;. Numa nota do punho <\/p>\n<p>de<\/p>\n<p>Pessoa de um projeto de pagina&ccedil;&atilde;o de Orpheu 3, est&aacute; assinado <\/p>\n<p>Coelho Pacheco.<\/p>\n<p> 2<\/p>\n<p> Pacheco &eacute; um epis&oacute;dio heter&ocirc;nimo de Fernando Pessoa de<br \/>\n    quem se n&atilde;o conhece mais nenhuma produ&ccedil;&atilde;o. Estas notas<br \/>\n    que assina, com uma t&eacute;cnica quase futurista de disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e pontua&ccedil;&atilde;o, seguem estranhamente pr&oacute;ximo o tipo de racioc&iacute;nio,<br \/>\n    for&ccedil;adamente linear e de associa&ccedil;&otilde;es, de Alberto Caeiro.<br \/>\n    O conte&uacute;do &eacute;, no entanto, mais de um gosto, ainda indiscriminado,<br \/>\n    a &Aacute;lvaro de Campos. N&atilde;o &eacute; uma composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de primeiro plano, nem como sentido po&eacute;tico nem como express&atilde;o<br \/>\n    est&eacute;tica.Porque n&atilde;o est&aacute; datado, nada se pode concluir<br \/>\n    da sua feitura. O estar dedicado &agrave; mem&oacute;ria de Alberto Caeiro<br \/>\n    pode apenas querer significar que a tal foi destinado &agrave; altura da publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Orpheu 3. Mais do que uma influ&ecirc;ncia concreta de Alberto Caeiro,<br \/>\n    esta composi&ccedil;&atilde;o parece antes um quase e indistinto proto-Caeiro-Campos.<\/p>\n<p> NUM SENTIMENTO de febre de ser para al&eacute;m doutro oceano <br \/>\n    Houve posi&ccedil;&otilde;es dum viver mais claro e mais l&iacute;mpido <br \/>\n    E apar&ecirc;ncias duma cidade de seres <br \/>\n    N&atilde;o irreais mas l&iacute;vidos de impossibilidade, consagrados em pureza<br \/>\n    e em nudez <br \/>\n    Fui p&oacute;rtico desta vis&atilde;o irrita e os sentimentos eram s&oacute;<br \/>\n    o desejo de os ter <br \/>\n    A no&ccedil;&atilde;o das coisas fora de si, tinha-as cada um adentro <br \/>\n    Todos viviam na vida dos restantes <br \/>\n    E a maneira de sentir estava no modo de se viver <br \/>\n    Mas a forma daqueles rostos tinha a placidez do orvalho <br \/>\n    A nudez era um sil&ecirc;ncio de formas sem modo de ser <br \/>\n    E houve pasmos de toda a realidade ser s&oacute; isto <br \/>\n    Mas a vida era a vida e s&oacute; era a vida.<\/p>\n<p> O meu pensamento muitas vezes trabalha silenciosamente <br \/>\n    Com a mesma do&ccedil;ura duma m&aacute;quina untada que se move sem fazer<br \/>\n    barulho <br \/>\n    Sinto-me bem quando ela assim vai e ponho-me im&oacute;vel <br \/>\n    Para n&atilde;o desmanchar o equil&iacute;brio que me faz t&ecirc;-lo desse<br \/>\n    modo <br \/>\n    Pressinto que &eacute; nesses momentos que o meu pensamento &eacute; claro<br \/>\n    <br \/>\n    Mas eu n&atilde;o o oi&ccedil;o e silencioso ele trabalha sempre de mansinho<br \/>\n    <br \/>\n    Como uma m&aacute;quina untada movida por uma correia <br \/>\n    E n&atilde;o posso ouvir sen&atilde;o o deslizar sereno das pe&ccedil;as que<br \/>\n    trabalham <br \/>\n    Eu lembro-me &agrave;s vezes de que todas as outras pessoas devem sentir isto<br \/>\n    como eu <br \/>\n    Mas dizem que lhes d&oacute;i a cabe&ccedil;a ou sentem tonturas <br \/>\n    Esta lembran&ccedil;a veio-me como me podia vir outra qualquer <br \/>\n    Como por exemplo a de que eles n&atilde;o sentem esse deslizar <br \/>\n    E n&atilde;o pensam em que o n&atilde;o sentem <\/p>\n<p>\n    Neste sal&atilde;o antigo em que as pan&oacute;plias de armas cinzentas <br \/>\n    S&atilde;o a forma dum arcaboi&ccedil;o em que h&aacute; sinais doutras eras<br \/>\n    <br \/>\n    Passeio o meu olhar materializado e destaco de escondido nas armaduras <br \/>\n    Aquele segredo de alma que &eacute; a causa de eu viver <br \/>\n    Se fito na pan&oacute;plia o olhar mortificado em que h&aacute; desejos de<br \/>\n    n&atilde;o ver <br \/>\n    Toda a estrutura f&eacute;rrea desse arcaboi&ccedil;o que eu pressinto n&atilde;o<br \/>\n    sei por qu&ecirc; <br \/>\n    Se apossa do meu senti-la como um clar&atilde;o de lucidez <br \/>\n    H&aacute; som no serem iguais dois elmos que me escutam <br \/>\n    A sombra das lan&ccedil;as de ser n&iacute;tida marca a indecis&atilde;o das<br \/>\n    palavras <br \/>\n    D&iacute;sticos de incerteza bailam incessantemente sobre mim <br \/>\n    Oi&ccedil;o j&aacute; as coroa&ccedil;&otilde;es de her&oacute;is que h&atilde;o<br \/>\n    de celebrar-me <br \/>\n    E sobre este v&iacute;cio de sentir encontro-me nos mesmos espasmos <br \/>\n    Da mesma poeira cinzenta das armas em que h&aacute; sinais doutras eras <\/p>\n<p>\n    Quando entro numa sala grande e nua &agrave; hora do crep&uacute;sculo <br \/>\n    E que tudo &eacute; sil&ecirc;ncio ela tem para mim a estrutura duma alma<br \/>\n    <br \/>\n    &Eacute; vaga e poeirenta e os meus passos t&ecirc;m ecos estranhos <br \/>\n    Como os que ecoam na minha alma quando eu ando <br \/>\n    Por suas janelas tristes entra a luz adormecida de l&aacute; de fora <br \/>\n    E projeta na parede escura em frente as sombras e as penumbras <br \/>\n    Uma sala grande e vazia &eacute; uma alma silenciosa <br \/>\n    E as correntes de ar que levantam p&oacute; s&atilde;o os pensamentos<\/p>\n<p>\n    Um rebanho de ovelhas &eacute; uma coisa triste <br \/>\n    Porque lhe n&atilde;o devemos poder associar outras id&eacute;ias que n&atilde;o<br \/>\n    sejam tristes <br \/>\n    E porque assim &eacute; e s&oacute; porque assim &eacute; porque &eacute;<br \/>\n    verdade <br \/>\n    Que devemos associar id&eacute;ias tristes a um rebanho de ovelhas <br \/>\n    Por esta raz&atilde;o e s&oacute; por esta raz&atilde;o &eacute; que as ovelhas<br \/>\n    s&atilde;o realmente tristes <br \/>\n    Eu roubo por prazer quando me d&atilde;o um objeto de valor <br \/>\n    E eu dou em troca uns bocados de metal. <br \/>\n    Esta id&eacute;ia n&atilde;o &eacute; comum nem banal <br \/>\n    Porque eu encaro-a de modo diferente e n&atilde;o h&aacute; rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre um metal e outro objeto <br \/>\n    Se eu fosse comprar lat&atilde;o e desse alcachofras prendiam-me <br \/>\n    Eu gostava de ouvir qualquer pessoa expor e explicar <br \/>\n    O modo como se pode deixar de pensar em que se pensa que se faz uma coisa<br \/>\n    <br \/>\n    E assim perderia o receio que tenho de que um dia venha a saber <br \/>\n    Que o pensar eu em coisas e no pensar n&atilde;o passa duma coisa material<br \/>\n    e perfeita <\/p>\n<p>\n    A posi&ccedil;&atilde;o dum corpo n&atilde;o &eacute; indiferente para o seu<br \/>\n    equil&iacute;brio <br \/>\n    E a esfera n&atilde;o &eacute; um corpo porque n&atilde;o tem forma <br \/>\n    Se &eacute; assim e se todos ouvimos um som em qualquer posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    <br \/>\n    Infiro que ele n&atilde;o deve ser um corpo <br \/>\n    Mas os que sabem por intui&ccedil;&atilde;o que o som n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    um corpo <br \/>\n    N&atilde;o seguiram o meu racioc&iacute;nio e essa no&ccedil;&atilde;o assim<br \/>\n    n&atilde;o lhes serve para nada <br \/>\n    Quando me lembro que h&aacute; pessoas que jogam as palavras para fazerem<br \/>\n    esp&iacute;rito <br \/>\n    E se riem por isso e contam casos particulares da vida de cada um <br \/>\n    Para assim se desenfastiarem e que acham gra&ccedil;a aos palha&ccedil;os<br \/>\n    de circo <br \/>\n    E se incomodam por lhes cair uma n&oacute;doa de azeite no fato novo <br \/>\n    Sinto-me feliz por haver tanta coisa que eu n&atilde;o compreendo <br \/>\n    Na arte de cada oper&aacute;rio vejo toda uma gera&ccedil;&atilde;o a esbater-se<br \/>\n    <br \/>\n    E por isso eu n&atilde;o compreendo arte nenhuma e vejo essa gera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    <br \/>\n    O oper&aacute;rio n&atilde;o v&ecirc; na sua arte nada duma gera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    <br \/>\n    E por isso ele &eacute; oper&aacute;rio e conhece a sua arte<\/p>\n<p>\n    O meu f&iacute;sico &eacute; muitas vezes causa de eu me amargurar <br \/>\n    Eu sei que sou uma coisa e porque n&atilde;o sou diferente de uma coisa qualquer<br \/>\n    <br \/>\n    Sei que as outras coisas ser&atilde;o como eu e t&ecirc;m de pensar que eu<br \/>\n    sou uma coisa comum <br \/>\n    Se portanto assim &eacute; eu n&atilde;o penso mas julgo que penso <br \/>\n    E esta maneira de me eu acondicionar &eacute; boa e alivia-me <\/p>\n<p>\n    Eu amo as alamedas de &aacute;rvores sombrias e curvas <br \/>\n    E ao caminhar em alamedas extensas que o meu olhar afei&ccedil;oa <br \/>\n    Alamedas que o meu olhar afei&ccedil;oa sem que eu saiba como <br \/>\n    Elas s&atilde;o portas que se abrem no meu ser incoerente <br \/>\n    E s&atilde;o sempre alamedas que eu sinto quando o pasmo de ser assim me distingue<br \/>\n    <br \/>\n    Muitas vezes oculto-me sensa&ccedil;&otilde;es e gostos <br \/>\n    E ent&atilde;o elas variam e est&atilde;o em acordo com as dos outros <br \/>\n    Mas eu n&atilde;o as sinto e tamb&eacute;m n&atilde;o sei que me engano <\/p>\n<p>\n    Sentir a poesia &eacute; a maneira figurada de se viver <br \/>\n    Eu n&atilde;o sinto a poesia n&atilde;o porque n&atilde;o saiba o que ela<br \/>\n    &eacute;<br \/>\n    Mas porque n&atilde;o posso viver figuradamente <br \/>\n    E se o conseguisse tinha de seguir outro modo de me acondicionar <br \/>\n    A condi&ccedil;&atilde;o da poesia &eacute; ignorar como se pode senti-la<br \/>\n    <br \/>\n    H&aacute; coisas belas que s&atilde;o belas em si <br \/>\n    Mas a beleza &iacute;ntima dos sentimentos espelha-se nas coisas <br \/>\n    E se elas s&atilde;o belas n&oacute;s n&atilde;o as sentimos <\/p>\n<p>\n    Na seq&uuml;&ecirc;ncia dos passos n&atilde;o posso ver mais que a seq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    dos passos <br \/>\n    E eles seguem-se como se eu os visse seguirem-se realmente <br \/>\n    Do fato deles serem t&atilde;o iguais a si-mesmo <br \/>\n    E de n&atilde;o haver uma seq&uuml;&ecirc;ncia de passos que o n&atilde;o<br \/>\n    seja <br \/>\n    &Eacute; que eu vejo a necessidade de nos n&atilde;o iludirmos sobre o sentido<br \/>\n    claro das coisas <br \/>\n    Assim hav&iacute;amos de julgar que um corpo inanimado sente e v&ecirc; diferentemente<br \/>\n    de n&oacute;s <br \/>\n    E esta no&ccedil;&atilde;o pode ser admiss&iacute;vel demais seria inc&ocirc;moda<br \/>\n    e f&uacute;til <br \/>\n    Se quando pensamos podemos deixar de fazer movimento e de falar <br \/>\n    Para que &eacute; preciso supor que as coisas n&atilde;o pensam <br \/>\n    Se esta maneira de as ver &eacute; incoerente e f&aacute;cil para o esp&iacute;rito?<br \/>\n    <br \/>\n    Devemos supor e este &eacute; o verdadeiro caminho <br \/>\n    Que n&oacute;s pensamos pelo fato de o podermos fazer sem nos mexermos nem<br \/>\n    falar <\/p>\n<p>\n    Como fazem as coisas inanimadas <br \/>\n    Quando me sinto isolado a necessidade de ser uma pessoa qual- quer surge <br \/>\n    E redemoinha em volta de mim em espirais oscilantes <br \/>\n    Esta maneira de dizer n&atilde;o &eacute; figurada <br \/>\n    E eu sei que ela redemoinha em volta de mim como uma bor- boleta em volta<br \/>\n    de uma luz <br \/>\n    Vejo-lhe sintomas de cansa&ccedil;o e horrorizo-me quando julgo que ela vai<br \/>\n    cair <br \/>\n    Mas de nunca suceder isso acontece eu estar &agrave;s vezes isolado <br \/>\n    H&aacute; pessoas a quem o arranhar das paredes impressiona <br \/>\n    E outras que se n&atilde;o impressionam <br \/>\n    Mas o arranhar das paredes &eacute; sempre igual <br \/>\n    E a diferen&ccedil;a vem das pessoas. <br \/>\n    Mas se h&aacute; diferen&ccedil;a entre este sentir <br \/>\n    Haver&aacute; diferen&ccedil;a pessoal no sentir das outras coisas <br \/>\n    E quando todos pensem igual duma coisa &eacute; porque ela &eacute; diferente<br \/>\n    para cada um <br \/>\n    A mem&oacute;ria &eacute; a faculdade de saber que havemos de viver <br \/>\n    Portanto os amn&eacute;sicos n&atilde;o podem saber que vivem <br \/>\n    Mas eles s&atilde;o como eu infelizes e eu sei que estou vivendo e hei de<br \/>\n    viver <br \/>\n    Um objeto que se atinge um susto que se tem <br \/>\n    S&atilde;o tudo maneiras de se viver para os outros <br \/>\n    Eu desejaria viver ou ser adentro de mim como vivem ou s&atilde;o os espa&ccedil;os<br \/>\n    <br \/>\n    Depois de comer quantas pessoas se sentam em cadeiras de balan&ccedil;o <br \/>\n    Ajeitam-se nas almofadas fecham os olhos e deixam-se viver <br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; luta entre o viver e a vontade de n&atilde;o viver <br \/>\n    Ou ent&atilde;o &#8212; e isto &eacute; horroroso para mim &#8212; se h&aacute;<br \/>\n    realmente essa luta <br \/>\n    Com um tiro de pistola matam-se tendo primeiro escrito cartas <br \/>\n    Deixar-se viver &eacute; absurdo como um falar em segredo <br \/>\n    Os artistas de circo s&atilde;o superiores a mim <br \/>\n    Porque sabem fazer pinos e saltos mortais a cavalo <br \/>\n    E d&atilde;o os saltos s&oacute; por os dar <br \/>\n    E se eu desse um salto havia de querer saber por que o dava &#8212; <br \/>\n    E n&atilde;o os dando entristecia-me <br \/>\n    Eles n&atilde;o s&atilde;o capazes de dizer como &eacute; que os d&atilde;o<br \/>\n    <br \/>\n    Mas saltam como s&oacute; eles sabem saltar <br \/>\n    E nunca perguntaram a si-mesmos se realmente saltam <br \/>\n    Porque eu quando vejo alguma coisa <br \/>\n    N&atilde;o sei se ela se d&aacute; ou n&atilde;o nem posso sab&ecirc;-lo <br \/>\n    S&oacute; sei que para mim &eacute; como se ela acontecesse porque a vejo<br \/>\n    <br \/>\n    Mas n&atilde;o posso saber se vejo coisas que n&atilde;o aconte&ccedil;am<br \/>\n    <br \/>\n    E se as visse tamb&eacute;m podia supor que elas sucediam<\/p>\n<p>\n    Uma ave &eacute; sempre bela porque &eacute; uma ave <br \/>\n    E as aves s&atilde;o sempre belas <br \/>\n    Mas uma ave sem penas &eacute; repugnante como um sapo <br \/>\n    E um mont&atilde;o de penas n&atilde;o &eacute; belo <br \/>\n    Deste fato t&atilde;o nu em si n&atilde;o sei induzir nada <br \/>\n    E sinto que deve haver nele alguma grande verdade <br \/>\n    O que eu penso duma vez nunca pode ser igual ao que eu penso doutra vez <br \/>\n    E deste modo eu vivo para que os outros saibam que vivem <\/p>\n<p>\n    &Agrave;s vezes ao p&eacute; dum muro vejo um pedreiro a trabalhar <br \/>\n    E a sua maneira de existir e de poder ser visto &eacute; sempre diferente<br \/>\n    do que julgo <br \/>\n    Ele trabalha e h&aacute; um incitamento dirigido que move os seus bra&ccedil;os<br \/>\n    <br \/>\n    Como &eacute; que acontece estar ele trabalhando por uma vontade que tem disso<br \/>\n    <br \/>\n    E eu n&atilde;o esteja trabalhando nem tenha vontade disso <br \/>\n    E n&atilde;o possa ter compreens&atilde;o dessa possibilidade? <br \/>\n    Ele n&atilde;o sabe nada destas verdades mas n&atilde;o &eacute; mais feliz<br \/>\n    do que eu com certeza <br \/>\n    Em &aacute;leas doutros parques pisando as folhas secas <br \/>\n    Sonho &agrave;s vezes que sou para mim e que tenho de viver <br \/>\n    Mas nunca passa este ver-me de ilus&atilde;o <br \/>\n    Porque me vejo afinal nas &aacute;leas desse parque <br \/>\n    Pisando as folhas secas que me escutam <br \/>\n    Se pudesse ao menos ouvir estalar as folhas secas <br \/>\n    Sem ser eu que as pisasse ou sem que elas me vissem <br \/>\n    Mas as folhas secas redemoinham e eu tenho de as pisar <br \/>\n    Se ao menos nesta travessia eu tivesse um outro como toda a gente<\/p>\n<p>\n    Uma obra-prima n&atilde;o passa de ser uma obra qualquer <br \/>\n    E portanto uma obra qualquer &eacute; uma obra-prima <br \/>\n    Se este racioc&iacute;nio &eacute; falso n&atilde;o &eacute; falsa a vontade<br \/>\n    <br \/>\n    Que eu tenho de que ele seja de fato verdadeiro <br \/>\n    E para os usos do meu pensar isso me basta <\/p>\n<p>\n    Que importa que uma id&eacute;ia seja obscura se ela &eacute; uma id&eacute;ia<br \/>\n    <br \/>\n    E uma id&eacute;ia n&atilde;o pode ser menos bela do que outra <br \/>\n    Porque n&atilde;o pode haver diferen&ccedil;a entre duas id&eacute;ias <br \/>\n    E isto &eacute; assim porque eu vejo que isto tem de ser assim <\/p>\n<p>\n    Um c&eacute;rebro a sonhar &eacute; o mesmo que pensa <br \/>\n    E os sonhos n&atilde;o podem ser incoerentes porque n&atilde;o passam de pensamentos<br \/>\n    <br \/>\n    Como outros quaisquer. Se vejo algu&eacute;m olhando-me <br \/>\n    Come&ccedil;o sem querer a pensar como toda a gente <br \/>\n    E &eacute; t&atilde;o doloroso isso como se me marcassem a alma a ferro em<br \/>\n    brasa <br \/>\n    Mas como posso eu saber se &eacute; doloroso marcar a alma a ferro em brasa<br \/>\n    <br \/>\n    Se um ferro em brasa &eacute; uma id&eacute;ia que eu n&atilde;o compreendo\n  <\/p>\n<p>\n    O descaminho que levaram as minhas virtudes comove-me <br \/>\n    Compunge-me sentir que posso notar se quiser a falta delas <br \/>\n    Eu gostava de ter as minhas virtudes gostosas que me preenchessem <br \/>\n    Mas s&oacute; para poder gozar e possu&iacute;-las e serem minhas essas virtudes\n  <\/p>\n<p>\n    H&aacute; pessoas que dizem sentir o cora&ccedil;&atilde;o despeda&ccedil;ado<br \/>\n    <br \/>\n    Mas n&atilde;o entrevistam sequer o que seria de bom <br \/>\n    Sentir despeda&ccedil;arem-nos o cora&ccedil;&atilde;o Isso &eacute; uma coisa<br \/>\n    que se n&atilde;o sente nunca <br \/>\n    Mas n&atilde;o &eacute; essa a raz&atilde;o por que seria uma felicidade sentir<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o despeda&ccedil;ado <\/p>\n<p>\n    Num sal&atilde;o nobre de penumbra em que h&aacute; azulejos <br \/>\n    Em que h&aacute; azulejos azuis colorindo as paredes <br \/>\n    E de que o ch&atilde;o &eacute; escuro e pintado e com passadeiras de juta<br \/>\n    <br \/>\n    Dou entrada &agrave;s vezes coerente por demais <br \/>\n    Sou naquele sal&atilde;o como qualquer pessoa <br \/>\n    Mas o sobrado &eacute; c&ocirc;ncavo e as portas n&atilde;o acertam <br \/>\n    A tristeza das bandeiras crucificadas nos entrev&atilde;os das portas <br \/>\n    &Eacute; uma tristeza feita de sil&ecirc;ncio desnivelada <br \/>\n    Pelas janelas reticuladas entre a luz quando &eacute; dia <br \/>\n    Que entorpece os vidros das bandeiras e recolhe a recantos mont&otilde;es<br \/>\n    de negrume <\/p>\n<p>\n    Correm &agrave;s vezes frios ventosos pelos extensos corredores <br \/>\n    Mas h&aacute; cheiro a vernizes velhos e estalados nos recantos dos sal&otilde;es<br \/>\n    <br \/>\n    E tudo &eacute; dolorido neste solar de velharias <\/p>\n<p>\n    Alegra-me &agrave;s vezes passageiramente pensar que hei de morrer <br \/>\n    E serei encerrado num caix&atilde;o de pau cheirando a resina <br \/>\n    O meu corpo h&aacute; de derreter-se para l&iacute;quidos espantosos <br \/>\n    As fei&ccedil;&otilde;es desfar-se-&atilde;o em v&aacute;rios podres coloridos<br \/>\n    <br \/>\n    E ir&aacute; aparecendo a caveira rid&iacute;cula por baixo <br \/>\n    Muito suja e muito cansada a pestanejar<\/p>\n<p> <strong>FIM<\/strong><\/p>\n<p> <strong>DE &quot;PARA AL&Eacute;M DOUTRO OCEANO DE C[OELHO] PACHECO&quot;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Al\u00e9m do Outro Oceano de Coelho Pacheco &#8211; Fernando Pessoa ANOTA&Ccedil;&Otilde;ES 1 Destinado, igualmente a Orpheu 3, consta dos textos que chegaram a ser compostos. 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