{"id":95884,"date":"2017-01-23T08:12:31","date_gmt":"2017-01-23T10:12:31","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95884"},"modified":"2017-01-23T08:12:31","modified_gmt":"2017-01-23T10:12:31","slug":"livro-do-desassossego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/livro-do-desassossego","title":{"rendered":"Livro do Desassossego"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"269\"><strong><a href=\"#1\">INTERVALO DOLOROSO <\/a><\/strong><\/td>\n<td width=\"100\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"337\"><strong><a href=\"#2\">EST\u00c9TICA DO ARTIF\u00cdCIO<\/a><\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h4>Fernando Pessoa<\/h4>\n<p>1.<\/p>\n<p> &quot;O cora&ccedil;&atilde;o, se pudesse pensar, pararia.&quot; &quot;Considero<br \/>\n    a vida uma estalagem onde tenho que me demorar at&eacute; que chegue a dilig&ecirc;ncia<br \/>\n    do abismo. N&atilde;o sei onde me levar&aacute;, porque n&atilde;o sei nada.<br \/>\n    Poderia considerar esta estalagem uma pris&atilde;o, porque estou compelido<br \/>\n    a aguardar nela; poderia consider&aacute;-la um lugar de soci&aacute;veis,<br \/>\n    porque aqui me encontro com outros. N&atilde;o sou, por&eacute;m, nem impaciente<br \/>\n    nem comum. Deixo ao que s&atilde;o os que se fecham no quarto, deitados moles<br \/>\n    na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas,<br \/>\n    de onde as m&uacute;sicas e as vozes chegam c&oacute;modas at&eacute; mim.<br \/>\n    Sento-me &agrave; porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons<br \/>\n    da paisagem, e canto lento, para mim s&oacute;, vagos cantos que componho<br \/>\n    enquanto espero.<\/p>\n<p> Para todos n&oacute;s descer&aacute; a noite e chegar&aacute; a dilig&ecirc;ncia.<br \/>\n    Gozo a brisa que me d&atilde;o e a alma que me deram para goz&aacute;-la,<br \/>\n    e n&atilde;o interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro<br \/>\n    dos viajantes puder, relido um dia por outros, entret&ecirc;-los tamb&eacute;m<br \/>\n    na passagem, ser&aacute; bem. Se n&atilde;o o lerem, nem se entretiverem,<br \/>\n    ser&aacute; bem tamb&eacute;m.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>6.<\/p>\n<p> &quot;Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido,<br \/>\n    sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente t&atilde;o<br \/>\n    pouca coisa, n&atilde;o encarna a subst&acirc;ncia de milhares de vozes, a<br \/>\n    fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paci&ecirc;ncia de milh&otilde;es<br \/>\n    de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho in&uacute;til,<br \/>\n    &agrave; esperan&ccedil;a sem vest&iacute;gios. Nestes momentos meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pulsa mais alto por minha consci&ecirc;ncia dele. Vivo mais porque vivo maior.&quot;\n  <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>7.<\/p>\n<p> &quot;Prefiro o Vasques homem meu patr&atilde;o, que &eacute; mais trat&aacute;vel,<br \/>\n    nas horas dif&iacute;ceis, que todos os patr&otilde;es abstractos do mundo.&quot;<br \/>\n    &quot;Tenho ternura, ternura at&eacute; &agrave;s l&aacute;grimas, pelos meus<br \/>\n    livros de outros em que escrituro, pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas<br \/>\n    costas dobradas do S&eacute;rgio, que faz guias de remessa um pouco para al&eacute;m<br \/>\n    de mim. Tenho amor a isto, talvez porque n&atilde;o tenha mais nada que amar<br \/>\n    &#8211; ou talvez, tamb&eacute;m, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos<br \/>\n    por sentimento que o dar, tanto vale d&aacute;-lo ao pequeno aspecto do meu<br \/>\n    tinteiro como &agrave; grande indiferen&ccedil;a das estrelas.&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>8.<\/p>\n<p> &quot;Vejo-o [o patr&atilde;o Vasques], vejo os seus gestos de vagar en&eacute;rgico,<br \/>\n    os seus olhos a pensar para dentro coisas de fora, recebo a perturba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua ocasi&atilde;o em que lhe n&atilde;o agrado, e a minha alma alegra-se<br \/>\n    com o seu sorriso, um sorriso amplo e humano, como o aplauso de uma multid&atilde;o.&quot;\n  <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>9.<\/p>\n<p> &quot;Ah, compreendo! O patr&atilde;o Vasques &eacute; a Vida. A Vida, mon&oacute;tona<br \/>\n    e necess&aacute;ria, mandante e desconhecida. Este homem banal representa<br \/>\n    a banalidade da Vida. Ele &eacute; tudo para mim, por fora, porque a Vida<br \/>\n    &eacute; tudo para mim por fora.<\/p>\n<p> E, se o escrit&oacute;rio da Rua dos Douradores representa para mim a vida,<br \/>\n    este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa<br \/>\n    para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, por&eacute;m<br \/>\n    num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o mon&oacute;tona como a mesma vida, mas s&oacute; em lugar diferente.<br \/>\n    Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas,<br \/>\n    a solu&ccedil;&atilde;o de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que<br \/>\n    &eacute; o que n&atilde;o pode ter solu&ccedil;&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>10.<\/p>\n<p> &quot;Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre;<br \/>\n    fixo os m&iacute;nimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    milim&eacute;tricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, n&atilde;o<br \/>\n    o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi<br \/>\n    a no&ccedil;&atilde;o do que nela se disse, da minha parte ou da parte de<br \/>\n    com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a algu&eacute;m o que j&aacute;<br \/>\n    lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele j&aacute; me respondeu;<br \/>\n    mas posso descrever, em quatro palavras fotogr&aacute;ficas, o semblante muscular<br \/>\n    com que ele disse o que me n&atilde;o lembra, ou a inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me n&atilde;o recordava<br \/>\n    ter-lhe feito. Sou dois, e ambos t&ecirc;m a dist&acirc;ncia &#8211; irm&atilde;os<br \/>\n    siameses que n&atilde;o est&atilde;o pegados.&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>12.<\/p>\n<p> &quot;Se escrevo o que sinto &eacute; porque assim diminuo a febre de sentir.<br \/>\n    O que confesso n&atilde;o tem import&acirc;ncia, pois nada tem import&acirc;ncia.<br \/>\n    Fa&ccedil;o paisagens com o que sinto.&quot; &quot;De resto, com que posso<br \/>\n    contar comigo? Uma acuidade horr&iacute;vel das sensa&ccedil;&otilde;es, e<br \/>\n    a compreens&atilde;o profunda de estar sentindo&#8230;Uma intelig&ecirc;ncia aguda<br \/>\n    para me destruir, e um poder de sonho s&ocirc;frego de me entreter&#8230;Uma vontade<br \/>\n    morta e uma reflex&atilde;o que a embala, como a um filho vivo&#8230;&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>14.<\/p>\n<p> &quot;Tenho fome da extens&atilde;o do tempo, e quero ser eu sem condi&ccedil;&otilde;es.&quot;\n  <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>24.<\/p>\n<p> &quot;Uns governam o mundo, outros s&atilde;o o mundo.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 25.<\/p>\n<p> &quot;H&aacute; em olhos humanos, ainda que litogr&aacute;ficos, uma coisa<br \/>\n    terr&iacute;vel: o aviso inevit&aacute;vel da consci&ecirc;ncia, o grito clandestino<br \/>\n    de haver alma.&quot; &quot;Sinto um frio de doen&ccedil;a s&uacute;bita na<br \/>\n    alma&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>29.<\/p>\n<p> &quot;Tinha-me levantado cedo e tardava em preparar-me para existir.&quot;<br \/>\n    &quot;Era a ocasi&atilde;o de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa,<br \/>\n    uma &acirc;nsia desconhecida, um desejo sem defini&ccedil;&atilde;o, nem at&eacute;<br \/>\n    reles. Tardava-me, talvez, a sensa&ccedil;&atilde;o de estar vivo. E quanto<br \/>\n    me debrucei da janela alt&iacute;ssima, sobre a rua para onde olhei sem v&ecirc;-la,<br \/>\n    senti-me de repente um daqueles trapos h&uacute;midos de limpar coisas sujas,<br \/>\n    que se levam para a janela para secar, mas se esquecem, enrodilhados, no parapeito<br \/>\n    que mancham lentamentamente.&quot; <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> 36.<\/p>\n<p> &quot;S&atilde;o as pessoas que habitualmente me cercam, s&atilde;o as almas<br \/>\n    que, desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o conv&iacute;vio e a<br \/>\n    fala, que me p&otilde;em na garganta do esp&iacute;rito o n&oacute; salivar<br \/>\n    do desgosto f&iacute;sico. &Eacute; a sordidez mon&oacute;tona da sua vida,<br \/>\n    paralela &agrave; exterioridade da minha, &eacute; a sua consci&ecirc;ncia<br \/>\n    &iacute;ntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de for&ccedil;ado,<br \/>\n    me d&aacute; a cela de penitenci&aacute;rio, me faz ap&oacute;crifo e mendigo.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 39.<\/p>\n<p> &quot;Pesa-me, realmente me pesa, como uma condena&ccedil;&atilde;o a conhecer,<br \/>\n    esta no&ccedil;&atilde;o repentina da minha individualidade verdadeira, dessa<br \/>\n    que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que v&ecirc;.&quot;<br \/>\n    &quot;E, por fim, tenho sono, porque, n&atilde;o sei porqu&ecirc;, acho que<br \/>\n    o sentido &eacute; dormir.&quot; * * * 40.<\/p>\n<p> &quot;A humanidade tem medo da morte, mas incertamente.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>41.<\/p>\n<p> &quot;E n&atilde;o sei o que sinto, n&atilde;o sei o que quero sentir, n&atilde;o<br \/>\n    sei o que penso nem o que sou.&quot; &quot;Verifico que, tantas vezes alegre,<br \/>\n    tantas vezes contente, estou sempre triste.&quot; &quot;N&atilde;o vejo, sem<br \/>\n    pensar.&quot; &quot;N&atilde;o h&aacute; sossego &#8211; e, ai de mim!, nem sequer<br \/>\n    h&aacute; desejo de o ter.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>42.<\/p>\n<p> &quot;Assim como lavamos o corpo dever&iacute;amos lavar o destino, mudar<br \/>\n    de vida como mudamos de roupa &#8211; n&atilde;o para salvar a vida, como comemos<br \/>\n    e dormimos, mas por aquele respeito alheio por n&oacute;s mesmos, a que propriamente<br \/>\n    chamamos asseio.<\/p>\n<p> H&aacute; muitos em quem o desasseio n&atilde;o &eacute; uma disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vontade, mas um encolher de ombros da intelig&ecirc;ncia. E h&aacute; muitos<br \/>\n    em quem o apagado e o mesmo da vida n&atilde;o &eacute; uma forma de a quererem,<br \/>\n    ou uma natural conforma&ccedil;&atilde;o com o n&atilde;o t&ecirc;-la querido,<br \/>\n    mas um apagamento da intelig&ecirc;ncia de si mesmos, uma ironia autom&aacute;tica<br \/>\n    do conhecimento.<\/p>\n<p> H&aacute; porcos que repugnam a sua pr&oacute;pria porcaria, mas se n&atilde;o<br \/>\n    afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento , pelo qual o apavorado<br \/>\n    se n&atilde;o afasta do perigo. H&aacute; porcos de destino, como eu, que<br \/>\n    se n&atilde;o afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da pr&oacute;pria impot&ecirc;ncia. S&atilde;o aves fascinadas pela aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, at&eacute; chegarem<br \/>\n    ao alcance viscoso da l&iacute;ngua do camale&atilde;o.<\/p>\n<p> Assim passeio lentamente a minha inconsci&ecirc;ncia consciente, no meu<br \/>\n    tronco de &aacute;rvore do usual. Assim passei o meu destino que anda, pois<br \/>\n    eu n&atilde;o ando; o meu tempo que segue, pois eu n&atilde;o sigo.&quot;<br \/>\n    * * * 46.<\/p>\n<p> &quot;Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na refer&ecirc;ncia natural<br \/>\n    do que resulta do pequeno tamanho de sua aldeia. Dali, diz ele, porque &eacute;<br \/>\n    pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia &eacute;<br \/>\n    maior que a cidade&#8230;<\/p>\n<p> &quot;Porque eu sou do tamanho do que vejo E n&atilde;o do tamanho da minha<br \/>\n    altura.&quot; Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse<br \/>\n    dito, limpam-me de toda a metaf&iacute;sica que espontaneamente acrescento<br \/>\n    &agrave; vida. Depois de as ler, chego &agrave; minha janela sobre a rua estreita,<br \/>\n    olho o grande c&eacute;u e os muitos astros, e sou livre com um esplendor<br \/>\n    alado cuja vibra&ccedil;&atilde;o me estremece no corpo todo.<\/p>\n<p> &quot;Sou do tamanho do que vejo!&quot;Cada vez que penso esta frase com<br \/>\n    toda a aten&ccedil;&atilde;o dos meus nervos, ela me parece mais destinada<br \/>\n    a reconstruir consteladamente o universo. &quot;Sou do tamanho do que vejo!&quot;<br \/>\n    Que grande posse mental vai desde o po&ccedil;o das emo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    profundas at&eacute; &agrave;s altas estrelas que se reflectem nele e, assim,<br \/>\n    em certo modo, ali est&atilde;o.<\/p>\n<p> E j&aacute; agora, consciente de saber ver, olho a vasta metaf&iacute;sica<br \/>\n    objectiva dos c&eacute;us todos com uma seguran&ccedil;a que me d&aacute;<br \/>\n    vontade de morrer cantando. &quot;Sou do tamanho do que vejo!&quot; E o vago<br \/>\n    luar, inteiramente meu, come&ccedil;a a estragar de vago o azul meio-negro<br \/>\n    do horizonte.<\/p>\n<p> Tenho vontade de erguer os bra&ccedil;os e gritar coisas de uma selvageria<br \/>\n    ignorada, de dizer palavras aos mist&eacute;rios altos, de afirmar uma nova<br \/>\n    personalidade larga aos grandes espa&ccedil;os da mat&eacute;ria vazia.<\/p>\n<p> Mas recolho-me e abrando-me. &quot;Sou do tamanho do que vejo!&quot; E a<br \/>\n    frase fica sendo-me a alma inteira, encosto a ela todas as emo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz<br \/>\n    indecifr&aacute;vel do luar duro que come&ccedil;a largo com o anoitecer.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 48.<\/p>\n<p> &quot;A solid&atilde;o desola-me; a companhia oprime-me. A presen&ccedil;a<br \/>\n    de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presen&ccedil;a<br \/>\n    com uma distrac&ccedil;&atilde;o especial, que toda a minha aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    anal&iacute;tica n&atilde;o consegue definir.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 49.<\/p>\n<p> &quot;O isolamento talhou-me &agrave; sua imagem e semelhan&ccedil;a. A<br \/>\n    presen&ccedil;a de outra pesoa &#8211; de uma s&oacute; pessoa que seja &#8211; atrasa-me<br \/>\n    imediatamente o pensamento, e, ao passo que no homem normal o contacto com<br \/>\n    outrem &eacute; um est&iacute;mulo para a express&atilde;o e para o dito,<br \/>\n    em mim esse contacto &eacute; um contra-est&iacute;mulo.&quot; &quot;Os meus<br \/>\n    h&aacute;bitos s&atilde;o da solid&atilde;o, que n&atilde;o dos homens&quot;;<br \/>\n    n&atilde;o sei se foi Rousseau, se Senancour, o que disse isto. Mas foi qualquer<br \/>\n    esp&iacute;rito da minha esp&eacute;cie &#8211; n&atilde;o poderia talvez dizer<br \/>\n    da minha ra&ccedil;a.&quot; <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> 52.<\/p>\n<p> &quot;O vento levantou-se&#8230;Primeiro era como a voz de um v&aacute;cuo&#8230;um<br \/>\n    soprar no espa&ccedil;o para dentro de um buraco, uma falta no sil&ecirc;ncio<br \/>\n    do ar. Depois ergueu-se um solu&ccedil;o, um solu&ccedil;o do fundo do mundo,<br \/>\n    o sentir-se que tremiam vidra&ccedil;as e que era realmente vento. Depois<br \/>\n    soou mais alto, urro surdo, um chocar sem ser ante o aumentar nocturno, um<br \/>\n    ranger de coisas, um cair de bocados, um &aacute;tomo de fim do mundo.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 59.<\/p>\n<p> &quot;Os Deuses, se s&atilde;o justos em sua injusti&ccedil;a, nos conservem<br \/>\n    os sonhos ainda quando sejam imposs&iacute;veis, e nos d&ecirc;em bons sonhos,<br \/>\n    ainda que sejam baixos.&quot; <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> 63.<\/p>\n<p> &quot;Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um &eacute; o seu esquecimento<br \/>\n    de que h&aacute; outros com alma igual. A minha vaidade s&atilde;o algumas<br \/>\n    p&aacute;ginas, uns trechos, certas d&uacute;vidas&#8230;<\/p>\n<p> Releio?Menti! N&atilde;o ouso reler. N&atilde;o posso reler. De que me serve<br \/>\n    reler? O que est&aacute; ali &eacute; outro.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o compreendo nada&#8230;&quot; <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> 65.<\/p>\n<p> &quot;Ah, mas como eu desejaria lan&ccedil;ar ao menos numa alma alguma<br \/>\n    coisa de veneno, de desassossego e de inquieta&ccedil;&atilde;o. Isso consolarme-ia<br \/>\n    um pouco da nulidade de ac&ccedil;&atilde;o em que vivo. Perverter seria o<br \/>\n    fim da minha vida. Mas vibra alguma alma com as minhas palavras? Ouve-as algu&eacute;m<br \/>\n    que n&atilde;o s&oacute; eu? * * * 66.<\/p>\n<p> &quot;D&oacute;i-me qualquer sentimento que desconhe&ccedil;o; falta-me<br \/>\n    qualquer argumento n&atilde;o sei sobre o qu&ecirc;; n&atilde;o tenho vontade<br \/>\n    nos nervos. Estou triste abaixo da consci&ecirc;ncia. E escrevo estas linhas,<br \/>\n    realmente mal-notadas, n&atilde;o para dizer isto, nem para dizer qualquer<br \/>\n    coisa, mas para dar um trabalho &agrave; minha desaten&ccedil;&atilde;o. Vou<br \/>\n    enchendo lentamente, a tra&ccedil;os moles de l&aacute;pis rombo &#8211; que n&atilde;o<br \/>\n    tenho sentimentalidade para aparar &#8211; , o papel branco de embrulho de sandu&iacute;ches,<br \/>\n    que me forneceram no caf&eacute;, porque eu n&atilde;o precisava de melhor<br \/>\n    e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito.&quot;<br \/>\n    * * * 68.<\/p>\n<p> &quot;A consci&ecirc;ncia da inconsci&ecirc;ncia da vida &eacute; o mais<br \/>\n    antigo imposto &agrave; intelig&ecirc;ncia.&quot; <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> 71.<\/p>\n<p> &quot;Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo,<br \/>\n    de incongru&ecirc;ncia com os outros, &eacute; que a maioria pensa com a sensibilidade,<br \/>\n    e eu sinto com o pensamento.<\/p>\n<p> Para o homem vulgar, sentir &eacute; viver e pensar &eacute; saber viver.<br \/>\n    Para mim, pensar &eacute; viver e sentir n&atilde;o &eacute; mais que o alimento<br \/>\n    de pensar.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 75.<\/p>\n<p> &quot;Correr riscos reais, al&eacute;m de me apavorar, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    por medo que eu sinta excessivamente &#8211; perturba-me a perfeita aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave;s minhas sensa&ccedil;&otilde;es, o que me incomoda e despersonaliza.<\/p>\n<p> Nunca vou para onde h&aacute; risco. Tenho medo a t&eacute;dio dos perigos.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 79.<\/p>\n<p> &quot;Leve, como uma coisa que come&ccedil;asse, a maresia da brisa pairou<br \/>\n    sobre o Tejo e espalhou-se sujamente pelos princ&iacute;pios da Baixa. Nauseava<br \/>\n    frescamente, num torpor frio de mar morto.<\/p>\n<p> Senti a vida no est&ocirc;mago, e o olfacto tornou-se-me uma coisa por detr&aacute;s<br \/>\n    dos olhos. Altas, pousavam em nada nuvens ralas, rolos, num cinzento a desmoronar-se<br \/>\n    para branco falso. A atmosfera era de uma amea&ccedil;a de c&eacute;u cobarde,<br \/>\n    como a de uma trovoada inaud&iacute;vel, feita de ar somente.<\/p>\n<p> Havia estagna&ccedil;&atilde;o no pr&oacute;prio voo das gaivotas; pareciam<br \/>\n    coisas mais leves que o ar, deixadas nele por algu&eacute;m. Nada abafava.<br \/>\n    A tarde ca&iacute;a num desassossego nosso; o ar refrescava intermitentemente.<\/p>\n<p> Pobres das esperan&ccedil;as que tenho tido, sa&iacute;das da vida que tenho<br \/>\n    tido de ter! S&atilde;o como esta hora e este ar, n&eacute;voas sem n&eacute;voa,<br \/>\n    alinhavos rotos de tormenta falsa. Tenho vontade de gritar, para acabar com<br \/>\n    a paisagem e a medita&ccedil;&atilde;o. Mas h&aacute; maresia no meu prop&oacute;sito,<br \/>\n    e a baixa-mar em mim deixou descoberto o negrume lodoso que est&aacute; ali<br \/>\n    fora e n&atilde;o vejo sen&atilde;o pelo cheiro.<\/p>\n<p> Tanta inconsequ&ecirc;ncia em querer bastar-me! Tanta consci&ecirc;ncia<br \/>\n    sarc&aacute;stica das sensa&ccedil;&otilde;es supostas! Tanto enredo da alma<br \/>\n    com as sensa&ccedil;&otilde;es, dos pensamentos com o ar e o rio, para dizer<br \/>\n    que me d&oacute;i a vida no olfacto e na consci&ecirc;ncia, para n&atilde;o<br \/>\n    saber dizer, como na frase simples e ampla do livro de Job, &quot;Minha alma<br \/>\n    est&aacute; cansada de minha vida!&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>80.<\/p>\n<h2><a name=\"1\">INTERVALO DOLOROSO<\/a><\/h2>\n<p> &quot;Tudo me cansa, mesmo o que n&atilde;o me cansa. A minha alegria &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o dolorosa como a minha dor.<\/p>\n<p> Quem me dera ser uma crian&ccedil;a pondo barcos de papel num tanque de<br \/>\n    quinta, com um dossel r&uacute;stico de entrela&ccedil;amentos de parreira<br \/>\n    pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca &aacute;gua.<\/p>\n<p> Entre mim e a vida h&aacute; um vidro t&eacute;nue. Por mais nitidamente<br \/>\n    que eu veja e compreenda a vida, eu n&atilde;o posso lhe tocar.<\/p>\n<p> Raciocinar a minha tristeza? Para qu&ecirc;, se o racioc&iacute;nio &eacute;<br \/>\n    um esfor&ccedil;o? e quem &eacute; triste n&atilde;o pode esfor&ccedil;ar-se.<br \/>\n    Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar.<br \/>\n    Abdicar &eacute; um esfor&ccedil;o, e eu n&atilde;o possuo o de alma com que<br \/>\n    esfor&ccedil;ar-me.<\/p>\n<p> Quantas vezes me punge o n&atilde;o ser o manobrante daquele carro, o cocheiro<br \/>\n    daquele trem! qualquer banal Outro suposto cuja vida, por n&atilde;o ser minha,<br \/>\n    deliciosamente se me penetra de eu quer&ecirc;-la e se me penetra at&eacute;<br \/>\n    de alheia! Eu n&atilde;o teria o horror &agrave; vida como a uma Coisa. A<br \/>\n    no&ccedil;&atilde;o da vida como um Todo n&atilde;o me esmagaria os ombros<br \/>\n    do pensamento.<\/p>\n<p> Os meus sonhos s&atilde;o um ref&uacute;gio est&uacute;pido, como um guarda<br \/>\n    chuva contra um raio.<\/p>\n<p> Sou t&atilde;o inerte, t&atilde;o pobrezinho, t&atilde;o falho de gestos<br \/>\n    e actos.<\/p>\n<p> Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho v&atilde;o<br \/>\n    dar a clareiras de ang&uacute;stia.<\/p>\n<p> Mesmo eu , o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Ent&atilde;o<br \/>\n    as coisas aparecem-me n&iacute;tidas. Esvai-se a n&eacute;voa de quem me cerco.<br \/>\n    E todas as arestas vis&iacute;veis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas<br \/>\n    olhadas me magoam o conh&ecirc;ce-las durezas. Todos os pesos vis&iacute;veis<br \/>\n    de objectos me pesam por a alma dentro.<\/p>\n<p> A minha vida &eacute; como se me batessem com ela.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 84.<\/p>\n<p> &quot;Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa de que uso.<br \/>\n    Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos t&ecirc;m tido, a vontade pervertida<br \/>\n    de querer ter um sistema e uma norma. &Eacute; certo que escrevi antes da<br \/>\n    norma e do sistema; nisso, por&eacute;m, n&atilde;o sou diferente dos outros.<\/p>\n<p> Analisando-me &agrave; tarde, descubro que o meu sistemade estilo assenta<br \/>\n    em dois princ&iacute;pios, e imediatamente, e &agrave; boa maneira dos bons<br \/>\n    cl&aacute;ssicos, erijo esses dois princ&iacute;pios em fundamentos gerais<br \/>\n    de todo estilo: dizer o que se sente exactamente como se sente &#8211; claramente,<br \/>\n    se &eacute; claro; obscuramente, se &eacute; obscuro; confusamente, se &eacute;<br \/>\n    confuso &#8211; ; compreender que a gram&aacute;tica &eacute; um instrumento, e<br \/>\n    n&atilde;o uma lei.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 85.<\/p>\n<p> &quot;Fazer qualquer coisa completa, inteira, seja boa ou seja m&aacute;<br \/>\n    &#8211; e, se nunca &eacute; inteiramente boa, muitas vezes n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    inteiramente m&aacute; &#8211; , sim, fazer uma coisa completa causa-me, talvez,<br \/>\n    mais inveja do que outro qualquer sentimento. &Eacute; como um filho: &eacute;<br \/>\n    imperfeita como todo o ente humano, mas &eacute; nossa como os filhos s&atilde;o.<\/p>\n<p> E eu, cujo esp&iacute;rito de cr&iacute;tica pr&oacute;pria me n&atilde;o<br \/>\n    permite sen&atilde;o que veja os defeitos, as falhas, eu, que n&atilde;o ouso<br \/>\n    escrever mais que trechos, bocados, excertos do inexistente, eu mesmo, no<br \/>\n    pouco que escrevo, sou imperfeito tamb&eacute;m. Mais valeram pois, ou a obra<br \/>\n    completa, ainda que m&aacute;, que em todo o caso &eacute; obra; ou a aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de palavras, o sil&ecirc;ncio inteiro da alma que se reconhece incapa de agir.&quot;<\/p>\n<p>86.<\/p>\n<p> &quot;Sumir-me-ei entra a n&eacute;voa, como um estrangeiro a tudo, ilha<br \/>\n    humana desprendida do sonho do mar e navio com ser sup&eacute;rfluo &agrave;<br \/>\n    tona de tudo.&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>87.<\/p>\n<p> &quot;Na falta de saber, escrevo; e uso os grandes termos da Verdade alheios<br \/>\n    conforme as exig&ecirc;ncias da emo&ccedil;&atilde;o. Se a emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; clara e fatal, falo, naturalmente, dos deuses e assim a enquadro<br \/>\n    numa consci&ecirc;ncia do mundo m&uacute;ltiplo. Se a emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; profunda, falo, naturalmente, de Deus, e assim a engasto numa consci&ecirc;ncia<br \/>\n    una. Se a emo&ccedil;&atilde;o &eacute; um pensamento, falo, naturalmente,<br \/>\n    do Destino, e assim a encosto &agrave; parede.&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>88.<\/p>\n<p> &quot;Quando ponho de parte os meus artif&iacute;cios e arrumo a um canto,<br \/>\n    com um cuidado cheio de carinho &#8211; com vontade de lhes dar beijos &#8211; os meus<br \/>\n    brinquedos, as palavras, as imagens, as frases &#8211; fico t&atilde;o pequeno e<br \/>\n    inofensivo, t&atilde;o s&oacute; num quarto t&atilde;o grande e t&atilde;o<br \/>\n    triste, t&atilde;o profundamente triste!&#8230;<\/p>\n<p> Afinal eu quem sou, quando n&atilde;o brinco? Um pobre &oacute;rf&atilde;o<br \/>\n    abandonado nas ruas das sensa&ccedil;&otilde;es, tiritando de frio &agrave;s<br \/>\n    esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o<br \/>\n    p&atilde;o dado da Fantasia. De meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava<br \/>\n    Deus, mas o nome n&atilde;o me d&aacute; id&eacute;ia de nada. &Aacute;s vezes,<br \/>\n    na noite, quando me sinto s&oacute;, chamo por ele e choro, e fa&ccedil;o-me<br \/>\n    uma id&eacute;ia dele a que possa amar&#8230;Mas depois penso que o n&atilde;o<br \/>\n    conhe&ccedil;o, que talvez ele n&atilde;o seja assim, que talvez seja nunca<br \/>\n    esse o pai da minha alma&#8230;<\/p>\n<p> Quando acabar&aacute; isso tudo, estas ruas onde arrasto a minha mis&eacute;ria,<br \/>\n    e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as m&atilde;os da noite por<br \/>\n    entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para<br \/>\n    a sua casa e me desse calor e afei&ccedil;&atilde;o&#8230;&Aacute;s vezes penso<br \/>\n    isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar&#8230;Mas o vento arrasta-se<br \/>\n    pela rua fora e as folhas caem no passeio&#8230;Ergo os olhos e vejo as estrelas<br \/>\n    que n&atilde;o t&ecirc;m sentido nenhum&#8230;E de tudo isto fico apenas eu, uma<br \/>\n    pobre crian&ccedil;a abandonada, que nenhum Amor quis par seu filho adoptivo,<br \/>\n    nem nehuma Amizade para seu companheiro de brinquedos.<\/p>\n<p> Tenho frio de mais. Estou t&atilde;o cansado no meu abandono. Vai buscar,<br \/>\n    &oacute; Vento, a minha M&atilde;e.<\/p>\n<p> Leva-me na Noite para a casa que n&atilde;o conheci&#8230;Torna a dar-me, &oacute;<br \/>\n    Sil&ecirc;ncio imenso, a minha ama e o meu ber&ccedil;o e a minha can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com que eu dormia&#8230;&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 91.<\/p>\n<p> &quot;O sonhador n&atilde;o &eacute; superior ao homem activo porque o sonho<br \/>\n    seja superior &agrave; realidade. A superioridade do sonhador consiste em<br \/>\n    que sonhar &eacute; muito mais pr&aacute;tico que viver, e em que o sonhador<br \/>\n    extrai da vidaum prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem<br \/>\n    de ac&ccedil;&atilde;o. Em melhores e muito mais directas palavras, o sonhador<br \/>\n    &eacute; que &eacute; o homem de ac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou<br \/>\n    pensamos, v&aacute;lido para n&oacute;s na propor&ccedil;&atilde;o em que<br \/>\n    o pensamos v&aacute;lido, depende de n&oacute;s a valoriza&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O sonhador &eacute; um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade<br \/>\n    do seu esp&iacute;rito do mesmo modo que as da realidade.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>92.<\/p>\n<p> &quot;Ah, n&atilde;o h&aacute; saudades mais dolorosas do que as das coisas<br \/>\n    que nunca foram!&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>93.<\/p>\n<p> &quot;Em mim foi sempre menor a intensidade das sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que a intensidade da consci&ecirc;ncia delas. Sofri sempre mais com a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de estar sofrendo que com o sofrimento de que tinha consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> A vida das minhas emo&ccedil;&otilde;es mudou-se, de origem, para as salas<br \/>\n    do pensamento, e ali vivi sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da<br \/>\n    vida.<\/p>\n<p> E como o pensamento, quando alberga a emo&ccedil;&atilde;o, se torna mais<br \/>\n    exigente que ela, o regime de consci&ecirc;ncia, em que passei a vive o que<br \/>\n    sentia, tornava-se mais quotidiana, mais epid&eacute;rmica, tornava-se mais<br \/>\n    titilante a maneira como sentia.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 95.<\/p>\n<p> &quot;Somos quem n&atilde;o somos e a vida &eacute; pronta e triste.&quot;<br \/>\n    &quot;Quantos somos! Quantos nos enganamos! Que mares soam em n&oacute;s,<br \/>\n    na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emo&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter querido, aquilo que se obteve<br \/>\n    e satisfez por erro, o que amamamos e perdemos e, depois de perder, vimos,<br \/>\n    amando por t&ecirc;-lo perdido, que o n&atilde;o hav&iacute;amos amado; o<br \/>\n    que julg&aacute;vamos que pens&aacute;vamos quando sent&iacute;amos; o que<br \/>\n    era uma mem&oacute;ria e cr&iacute;amos que era uma emo&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    e o mar todo, vindo l&aacute;, rumoroso e fresco, do grande fundo de toda<br \/>\n    a noite, a estuar fino na praia, no decurso nocturno do meu passeio &agrave;<br \/>\n    beira-mar &#8230;<\/p>\n<p> Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que &eacute; para<br \/>\n    si-mesmo?&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>101.<\/p>\n<p> &quot;T&atilde;o sup&eacute;rfluo tudo! N&oacute;s e o mundo e o mist&eacute;rio<br \/>\n    de ambos.&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>104.<\/p>\n<p> &quot; O pensamento colectivo &eacute; estup&iacute;do porque &eacute; colectivo:<br \/>\n    nada passa as barreiras do colectivo sem deixar nelas, como real de &aacute;gua,<br \/>\n    a maior parte da intelig&ecirc;ncia que traga consigo.<\/p>\n<p> Na mocidade somos dois: h&aacute; em n&oacute;s a coexist&ecirc;ncia da<br \/>\n    nossa intelig&ecirc;ncia pr&oacute;pria, que pode ser grande, e a da estupidez<br \/>\n    da nossa inexperi&ecirc;ncia, que forma uma segunda intelig&ecirc;ncia inferior.<\/p>\n<p> S&oacute; quando chegamos a outra idade se d&aacute; em n&oacute;s a unifica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Da&iacute; a ac&ccedil;&atilde;o sempre fruste da juventude &#8211; devida, n&atilde;o<br \/>\n    &agrave; sua inexperi&ecirc;ncia, mas &agrave; sua n&atilde;o-unidade.&quot;<br \/>\n    * * * 107.<\/p>\n<p> &quot; Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem<br \/>\n    quando encontram, daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim n&atilde;o<br \/>\n    as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais s&atilde;o admirados os<br \/>\n    poeta rom&acirc;nticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se<br \/>\n    &eacute; realmente poeta rom&acirc;ntico. Encontro-me descrito (em parte)<br \/>\n    em v&aacute;rios romances como protagonista de v&aacute;rios enredos; mas<br \/>\n    o essencial da minha vida, como da minha alma, &eacute; n&atilde;o ser nunca<br \/>\n    protagonista.&quot; &quot;O cais, a tarde, a maresia entram todos, e entram<br \/>\n    juntos, na composi&ccedil;&atilde;o da minha ang&uacute;stia.<\/p>\n<p> As flautas dos pastores imposs&iacute;veis n&atilde;o s&atilde;o mais suaves<br \/>\n    que o n&atilde;o haver aqui flautas e isso lembrar-mas.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 110.<\/p>\n<p> &quot; Cada qual tem o seu &aacute;lcool. Tenho &aacute;lcool bastante em<br \/>\n    existir. B&ecirc;bado de me sentir, vagueio e ando certo. Se s&atilde;o horas,<br \/>\n    recolho ao escrit&oacute;rio como qualquer outro. Se n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    horas, vou at&eacute; o rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E<br \/>\n    por detr&aacute;s de isso, c&eacute;u meu, constelome &agrave;s escondidas<br \/>\n    e tenho o meu infinito.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 112.<\/p>\n<p> &quot; Nunca amamos algu&eacute;m. Amamos, t&atilde;o-somente, a ideia que<br \/>\n    fazemos de algu&eacute;m. &Eacute; a um conceito nosso &#8211; em suma, &eacute;<br \/>\n    a n&oacute;s mesmos &#8211; que amamos.<\/p>\n<p> Isto &eacute; verdade em toda a escala do amor. No amos sexual buscamos<br \/>\n    um prazer nosso por interm&eacute;dio de um corpo estranho. No amor diferente<br \/>\n    do sexual, buscamos um prazer nosso dado por interm&eacute;dio de uma ideia<br \/>\n    nossa. O onanista &eacute; objecto, mas, em exacta verdade, o onanista &eacute;<br \/>\n    a perfeita express&atilde;o l&oacute;gica do amoroso. &Eacute; o &uacute;nico<br \/>\n    que n&atilde;o disfar&ccedil;a nem se engana.<\/p>\n<p> As rela&ccedil;&otilde;es entre uma alma e outra, atrav&eacute;s de coisas<br \/>\n    t&atilde;o incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que<br \/>\n    se empreendem, s&atilde;o mat&eacute;ria de estranha complexidade. No pr&oacute;prio<br \/>\n    ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois &laquo;amo-te&raquo;<br \/>\n    ou pensamno e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente,<br \/>\n    uma vida diferente, at&eacute;, porventura, uma cor ou um aroma diferente,<br \/>\n    na soma abstracta de impress&otilde;es que constitui a actividade da alma.&quot;<br \/>\n    &quot;&Eacute; de compreender que sobretudo nos cansamos. Viver &eacute; n&atilde;o<br \/>\n    pensar.&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>113.<\/p>\n<p> &quot;Para o esteta, as trag&eacute;dias s&atilde;o coisas interessantes<br \/>\n    de observar, mas incomodas de sofrer. O pr&oacute;prio cultivo da imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; prejudicado pelo da vida. Reina quem n&atilde;o est&aacute; entre<br \/>\n    os vulgares.<\/p>\n<p> Afinal, isto bem me contentaria se eu conseguissepersuadir-me que esta teoria<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; o que &eacute;, um complexo barulho que fa&ccedil;o aos<br \/>\n    ouvidos da minha intelig&ecirc;ncia, quase para ela n&atilde;o perceber que,<br \/>\n    no fundo, n&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o a minha timidez, a minha incompet&ecirc;ncia<br \/>\n    para a vida.&quot; <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> 114.<\/p>\n<h2><a name=\"2\">EST&Eacute;TICA DO ARTIF&Iacute;CIO<\/a><\/h2>\n<p> &quot; A vida prejudica a express&atilde;o da vida. Se eu tivesse um grande<br \/>\n    amor nunca o poderia contar.<\/p>\n<p> Eu pr&oacute;prio n&atilde;o sei se este eu, que vos exponho, por estas<br \/>\n    coleantes p&aacute;ginas fora, realmente existe ou &eacute; apenas um conceito<br \/>\n    est&eacute;tico e falso que fiz de mim pr&oacute;prio. Sim, &eacute; assim.<br \/>\n    Vivo-me esteticamente em outro. Esculpi a minha vida como a uma est&aacute;tua<br \/>\n    de mat&eacute;ria alheia ao meu ser. &Agrave;s vezes n&atilde;o me reconhe&ccedil;o,<br \/>\n    t&atilde;o exterior me pus a mim, e t&atilde;o de modo puramente art&iacute;stico<br \/>\n    empreguei a minha consci&ecirc;ncia de mim pr&oacute;prio. Quem sou por detr&aacute;s<br \/>\n    desta irrealidade? N&atilde;o sei. Devo ser algu&eacute;m. E se n&atilde;o<br \/>\n    busco viver, agir, sentir, &eacute; &#8211; crede-me bem &#8211; para n&atilde;o perturbar<br \/>\n    as linhas feitas da minha personalidade suposta. Quero ser tal qual quis ser<br \/>\n    e n&atilde;o sou. Se eu cedesse destruir-me-ia. Quero ser uma obra de arte,<br \/>\n    da alma pelo menos, j&aacute; que do corpo n&atilde;o posso ser. Por isso<br \/>\n    me esculpi em calma e alheamento e me pus em estufa, longe dos ares frescos<br \/>\n    e das luzes francas &#8211; onde a minha artificialidade, flor absurda, flores&ccedil;a<br \/>\n    em afastada beleza.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 115.<\/p>\n<p> &quot;Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mist&eacute;rio,<br \/>\n    que quem melhor nos conhe&ccedil;a, apenas nos desconhe&ccedil;a de mais perto<br \/>\n    que os outros. Eu assim talhei a minha vida, quase que sem pensar nisso, mas<br \/>\n    tanta arte institiva pus em faz&ecirc;-lo que para mim pr&oacute;prio me tornei<br \/>\n    uma n&atilde;o de todo clara e n&iacute;tida individualidade minha.&quot;\n  <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> 116.<\/p>\n<p> &quot;A literatura &eacute; a maneira mais agrad&aacute;vel de ignorar a<br \/>\n    vida.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>117.<\/p>\n<p> &quot;A maioria da gente enferma de n&atilde;o saber dizer o que v&ecirc;<br \/>\n    e o que pensa. Dizem que n&atilde;o h&aacute; nada mais dif&iacute;cil do<br \/>\n    que definir em palavras uma espiral: &eacute; preciso, dizem, fazer no ar,<br \/>\n    com a m&atilde;o sem literatura, o gesto, ascendemente enrolado em ordem,<br \/>\n    com que aquela figura abstracta das molas ou de certas escadas se manifesta<br \/>\n    aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer &eacute; renovar, definiremos<br \/>\n    sem dificuldade uma espiral: &eacute; um c&iacute;rculo que sobe sem nunca<br \/>\n    conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, n&atilde;o ousaria definir<br \/>\n    assim, porque sup&otilde;e que definir &eacute; dizer o que os outros querem<br \/>\n    que se diga, que n&atilde;o o que &eacute; preciso dizer para definir. Direi<br \/>\n    melhor: uma espiral &eacute; um circulo virtual que se desdobra a subir sem<br \/>\n    nunca se realizar: Mas n&atilde;o, a defini&ccedil;&atilde;o ainda &eacute;<br \/>\n    abstracta. Buscarei o concreto, e tudo ser&aacute; visto: uma espiral &eacute;<br \/>\n    uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma.<\/p>\n<p> Toda a literatura consiste num esfor&ccedil;o para tornar a vida real. Como<br \/>\n    todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida &eacute; absolutamente irreal,<br \/>\n    na sua realidade directa; os campos, as cidades, as ideias, sao coisas absolutamente<br \/>\n    fict&iacute;cias, filhas da nossa complexa sensa&ccedil;&atilde;o de n&oacute;s<br \/>\n    mesmos. S&acirc;o intransmiss&iacute;veis todas as impress&otilde;es salvo<br \/>\n    se as tornarmos liter&aacute;rias. As crian&ccedil;as s&atilde;o muito liter&aacute;rias<br \/>\n    porque dizem como sentem e n&atilde;o como deve sentir quem sente segundo<br \/>\n    outra pessoa. Uma crian&ccedil;a, que uma vez ouvi, disse, querendo dizer<br \/>\n    que estava &agrave; beira de chorar, n&atilde;o &laquo;Tenho vontade de chorar&raquo;,<br \/>\n    que &eacute; como diria um adulto, isto &eacute;, um est&uacute;pido, sen&atilde;o<br \/>\n    isto: &laquo;Tenho vontade de l&aacute;grimas&raquo;. E esta frase, absolutamente<br \/>\n    liter&aacute;ria, a ponto de que seria afectada num poeta c&eacute;lebre,<br \/>\n    se ele a pudesse dizer, refere absolutamente a presen&ccedil;a quente das<br \/>\n    l&aacute;grimas a romper das p&aacute;lpebras conscientes da amargura l&iacute;quida.<\/p>\n<p> &laquo;Tenho vontade de l&aacute;grimas&raquo;! Aquela crian&ccedil;a pequena<br \/>\n    definiu bem a sua espiral.&quot; <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> 120.<\/p>\n<p> &quot; Sinto perante o rebaixamento dos outros n&atilde;o uma dor, mas um<br \/>\n    desconforto est&eacute;tico e uma irrita&ccedil;&atilde;o sinuosa. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; por bondade que isto acontece, mas sim porque quem se torna rid&iacute;culo<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; s&oacute; para mim que se torna rid&iacute;culo, mas para<br \/>\n    os outros tamb&eacute;m, e irrita-me que algu&eacute;m esteja sendo rid&iacute;culo<br \/>\n    para os outros, d&oacute;i-me que qualquer animal da esp&eacute;cie humana<br \/>\n    ria &agrave; custa de outro, quando n&atilde;o tem direito de o fazer. De<br \/>\n    os outros se rirem &agrave; minha custa n&atilde;o me importo, porque de mim<br \/>\n    para fora h&aacute; um desprezo prof&iacute;cuo e blindado.<\/p>\n<p> Mais terr&iacute;vel de que qualquer muro , pus grades alt&iacute;ssimas<br \/>\n    a demarcas o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros,<br \/>\n    perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.<\/p>\n<p> Escolher modos de n&atilde;o agir foi semrpre a aten&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    o escr&uacute;pulo da minha vida.<\/p>\n<p> N&atilde;o me submeto ao estado nem aos homens; resisto inertemente. O estado<br \/>\n    s&oacute; me pode querer para uma a&ccedil;c&atilde;o qualquer. N&atilde;o<br \/>\n    agindo eu, ele nada de mim consegue. Hoje j&aacute; n&atilde;o se mata, e<br \/>\n    ele apenas me pode incomodar; se isso acontecer, terei que blindar mais o<br \/>\n    meu esp&iacute;rito e viver mais longe adentro dos meus sonhos. Mas isso n&atilde;o<br \/>\n    aconteceu nunca. Nunca me apoquentou o estado. Creio que a sorte soube providenciar.&quot;\n  <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> 122.<\/p>\n<p> &quot; Tenho da vida uma n&aacute;usea vaga, e o movimento acentua-ma.&quot;<br \/>\n    &quot;A vida, para mim, &eacute; uma sonol&ecirc;ncia que n&atilde;o chega<br \/>\n    ao c&eacute;rebro. Esse conservo eu livre para que nele possa ser triste.&quot;\n  <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>123.<\/p>\n<p> &quot;Que me pode dar a China que a minha alma me n&atilde;o tenha j&aacute;<br \/>\n    dado? E, se a minha alma mo n&atilde;o pode dar, como mo dar&aacute; a China,<br \/>\n    se &eacute; com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar<br \/>\n    riqueza ao Oriente, mas n&atilde;o riqueza de alma, porque a riqueza de minha<br \/>\n    alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.&quot; &quot;Somos<br \/>\n    todos m&iacute;opes, excepto para dentro. S&oacute; o sonho v&ecirc; com o<br \/>\n    olhar.&quot; &quot;Transeuntes eternos por n&oacute;s mesmos, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    paisagem sen&atilde;o o que somos. Nada possu&iacute;mos, porque nem a n&oacute;s<br \/>\n    possu&iacute;mos. Nada temos porque nada somos. Que m&atilde;os estenderei<br \/>\n    para que universo? O universo n&atilde;o &eacute; meu: sou eu.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 124.<\/p>\n<p> &quot;A &acirc;nsia de compreender, que para tantas almas nobres substitui<br \/>\n    a de agir, pertence &agrave; esfera da sensibilidade. Substitui a Intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave; energia, quebrar o elo entre a vontade e a emo&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    despindo de interesse todos os gestos da vida material, eis o que, conseguido,<br \/>\n    vale mais que a vida, t&atilde;o dif&iacute;cil de possuir completa, e t&atilde;o<br \/>\n    triste de possuir parcial.<\/p>\n<p> Diziam os argonautas que navegar &eacute; preciso, mas que viver n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; preciso. Argonautas, n&oacute;s, da sensibilidade doentia, digamos<br \/>\n    que sentir &eacute; preciso, mas que n&atilde;o &eacute; preciso viver.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>125.<\/p>\n<p> &quot;Arcaram os vossos argonautas com monstros e medos. Tamb&eacute;m,<br \/>\n    na viagem do meu pensamento, tive monstros e medos com que arcar. No caminho<br \/>\n    para o abismo abstracto, que est&aacute; no fundo das coisas, h&aacute; horrores,<br \/>\n    que passar, que os homens do mundo n&atilde;o imaginam e medos que ter que<br \/>\n    a experi&ecirc;ncia humana n&atilde;o conhece; &eacute; mais humano talvez<br \/>\n    o cabo para o lugar indefinido do mar comum do que a senda abstracta para<br \/>\n    o v&aacute;cuo do mundo.&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>127.<\/p>\n<p> &quot;N&atilde;o me indigno, porque a indigna&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    para os fortes; n&atilde;o me resigno, porque a resigna&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    para os nobres; n&atilde;o me calo, porque o sil&ecirc;ncio &eacute; para<br \/>\n    os grandes. E eu n&atilde;o sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho.<br \/>\n    Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais<br \/>\n    as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha<br \/>\n    ideia de os achar belos.<\/p>\n<p> S&oacute; lamento o n&atilde;o ser crian&ccedil;a, para que pudesse crer<br \/>\n    nos meus sonhos.&quot; &quot;Eu n&atilde;o sou pessimista, sou triste.&quot;<\/p>\n<p> 132.<\/p>\n<p> &quot;Omnia fui, nihil expedit &#8211; fui tudo, nada vale a pena.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>133.<\/p>\n<p> &quot;Para mim, se considero, pestes, tormentas, guerras, s&atilde;o produtos<br \/>\n    da mesma for&ccedil;a cega, operando uma vez atrav&eacute;s de micr&oacute;bios<br \/>\n    inconscientes, outra vez atrav&eacute;s de raios e &aacute;guas inconscientes,<br \/>\n    outra vez atrav&eacute;s de homens inconscientes.&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>138.<\/p>\n<p> &quot;H&aacute; uma erudi&ccedil;&atilde;o do conhecimento, que &eacute;<br \/>\n    propriamente o que se chama erudi&ccedil;&atilde;o, e h&aacute; uma erudi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do entendimento, que &eacute; o que se chama cultura. Mas h&aacute; tamb&eacute;m<br \/>\n    uma erudi&ccedil;&atilde;o da sensibilidade.&quot; &quot;Condillac come&ccedil;a<br \/>\n    o seu livro c&eacute;lebre, &laquo;Por mais alto que subamos e mais baixo<br \/>\n    que des&ccedil;amos, nunca sa&iacute;mos das nossas sensa&ccedil;&otilde;es&raquo;.<br \/>\n    Nunca desembarcamos de n&oacute;s. Nunca chegamos a outrem, sen&atilde;o outrando-nos<br \/>\n    pela imagina&ccedil;&atilde;o sens&iacute;vel de n&oacute;s mesmos. As verdadeiras<br \/>\n    paisagens s&atilde;o as que n&oacute;s mesmos criamos, porque assim, sendo<br \/>\n    deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente s&atilde;o, que &eacute;<br \/>\n    como foram criadas. N&atilde;o &eacute; nenhuma das sete partidas do mundo<br \/>\n    aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava &eacute; a que<br \/>\n    percorro e &eacute; a minha.&quot; <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p> 139.<\/p>\n<p> &quot;H&aacute; muito tempo que n&atilde;o escrevo. T&ecirc;m passado meses<br \/>\n    sem que viva, e vou durando, entre o escrit&oacute;rio e a fisiologia, numa<br \/>\n    estagna&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente,<br \/>\n    n&atilde;o repousa: no apodrecimento h&aacute; fermenta&ccedil;&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>144.<\/p>\n<p> &quot;&Eacute; domingo e n&atilde;o tenho que fazer. Nem sonhar me apetece,<br \/>\n    de t&atilde;o bem que est&aacute; o dia. Gozo-o com uma sinceridade de sentidos<br \/>\n    a que a intelig&ecirc;ncia se abandona. Passeio como um caixeiro liberto.<br \/>\n    Sinto-me velho, s&oacute; para ter o prazer de me sentir rejuvenescer.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>148.<\/p>\n<p> &quot;O homem perfeito do pag&atilde;o era a perfei&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    homem que h&aacute;; o homem perfeito do crist&atilde;o a perfei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do homem que n&atilde;o h&aacute;; o homem perfeito do budista a perfei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de n&atilde;o haver homem.&quot; &quot;Tudo quanto o homem exp&otilde;e ou<br \/>\n    exprime &eacute; uma nota &agrave; margem de um texto apagado de todo. Mais<br \/>\n    ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido de que havia de ser o do<br \/>\n    texto; mas fica sempre uma d&uacute;vida, e os sentidos poss&iacute;veis s&atilde;o<br \/>\n    muitos.&quot;<\/p>\n<p> * * * <\/p>\n<p>149.<\/p>\n<p> &quot;N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil distinguir o homem dos animais, n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; crit&eacute;rio seguro para distinguir o homem dos animais. As vidas<br \/>\n    humanas decorrem da mesma &iacute;ntima inconsci&ecirc;ncia que as vidas dos<br \/>\n    animais. As mesmas leis profundas, que regem de fora os instintos dos animais,<br \/>\n    regem, tamb&eacute;m, de fora, a intelig&ecirc;ncia do homem, que parece n&atilde;o<br \/>\n    ser mais que um instinto em forma&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o inconsciente<br \/>\n    como todo instinto, menos perfeito porque ainda n&atilde;o formado.<\/p>\n<p> &laquo;Tudo vem da sem-raz&atilde;o&raquo;, diz-se na Antologia Grega.&quot;<br \/>\n    &quot;A Ironia &eacute; o primeiro ind&iacute;cio de que a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    se tornou consciente. E a ironia atravessa dois est&aacute;dios: o est&aacute;dio<br \/>\n    marcado por S&oacute;crates, quando disse &laquo;sei s&oacute; que nada sei&raquo;,<br \/>\n    e o est&aacute;dio marcado por Sanches, quando disse &laquo;nem sei se nada<br \/>\n    sei&raquo;. O primeiro passo chega &agrave;quele ponto em que duvidamos de<br \/>\n    n&oacute;s dogmaticamente, e todo o homem superior o d&aacute; e atinge. O<br \/>\n    segundo passo chega &agrave;quele ponto em que duvidamos de n&oacute;s e da<br \/>\n    nossa d&uacute;vida, e poucos homens o t&ecirc;m atingido na curta extens&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; t&atilde;o longa do tempo que, humanidade, temos visto o sol e a<br \/>\n    noite sobre a v&aacute;ria superf&iacute;cie da terra.&quot;<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> 152.<\/p>\n<p> &quot;Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu<br \/>\n    instinto de perfei&ccedil;&atilde;o deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me<br \/>\n    at&eacute; de dar come&ccedil;o. Mas distraio-me e fa&ccedil;o. O que consigo<br \/>\n    &eacute; um produto, em mim, n&atilde;o de uma aplica&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    vontade, mas de uma ced&ecirc;ncia dela. Come&ccedil;o porque n&atilde;o tenho<br \/>\n    for&ccedil;a para pensar; acabo porque n&atilde;o tenho alma para suspender.<br \/>\n    Este livro &eacute; a minha cobardia.&quot; <\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>155.<\/p>\n<p> &quot;Escrevo demorando-me nas palavras, como por montras onde n&atilde;o<br \/>\n    vejo, e s&atilde;o meios-sentidos, quase-express&otilde;es o que me fica,<br \/>\n    como cores de estofos que n&atilde;o vi o que s&atilde;o, harmonias exibidas<br \/>\n    compostas de n&atilde;o sei que objectos. Escrevo embalando-me, como uma m&atilde;e<br \/>\n    louca a um filho morto.&quot;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: INTERVALO DOLOROSO EST\u00c9TICA DO ARTIF\u00cdCIO Fernando Pessoa 1. &quot;O cora&ccedil;&atilde;o, se pudesse pensar, pararia.&quot; &quot;Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar at&eacute; que chegue a dilig&ecirc;ncia do abismo. 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