{"id":95878,"date":"2017-01-23T08:02:59","date_gmt":"2017-01-23T10:02:59","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95878"},"modified":"2017-01-23T08:02:59","modified_gmt":"2017-01-23T10:02:59","slug":"poesias-dispersas-fernando-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poesias-dispersas-fernando-pessoa","title":{"rendered":"Poesias Dispersas &#8211; Fernando Pessoa"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>A Fal\u00eancia do Prazer e do Amor<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\"> \u00c0 Mem\u00f3ria do Presidente &#8211;<br \/>\nRei Sin\u00f3dio Pais<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Al\u00e9m-Deus<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>A Fal\u00eancia do Prazer e do Amor<\/h2>\n<h2><b>Extractos<\/b><\/h2>\n<p><b>I<\/b><\/p>\n<p>Beber a vida num trago, e nesse trago<br \/>\nT\u00f4das as sensa\u00e7\u00f5es que a vida d\u00e1<br \/>\nEm t\u00f4das as suas formas [&#8230;]<\/p>\n<h2>Dantes eu queria<\/h2>\n<p>Embeber-me nas \u00e1rvores, nas fl\u00f4res,<br \/>\nSonhar nas rochas, mares, solid\u00f5es.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o, fujo dessa id\u00e9ia louca:<br \/>\nTudo o que me aproxima do mist\u00e9rio<br \/>\nConfrange-me de horror. Quero hoje apenas<br \/>\nSensa\u00e7\u00f5es, muitas, muitas sensa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nDe tudo, de todos neste mundo &#8211; humanas,<br \/>\nN\u00e3o outras de del\u00edrios pante\u00edstas<br \/>\nMas sim perp\u00e9tuos choques de prazer<br \/>\nMudando sempre,<br \/>\nGuardando forte a personalidade<br \/>\nPara sintetiz\u00e1-las num sentir.<\/p>\n<p>Quero<br \/>\nQuero afogar em bul\u00edcio, em luz, em vozes,<br \/>\n&#8211; Tumultu\u00e1rias [cousas] usuais &#8211;<br \/>\nO sentimento da desola\u00e7\u00e3o<br \/>\nQue me enche e me avassala.<\/p>\n<h2>Folgaria<\/h2>\n<p>De encher num dia, [&#8230;] num trago,<br \/>\nA medida dos v\u00edcios, inda mesmo<br \/>\nQue f\u00f4sse condenado eternamente &#8211;<br \/>\nLoucura! &#8211; ao tal inferno,<br \/>\nA um inferno real.<\/p>\n<p><b>II<\/b><\/p>\n<p>Alegres camponeses, raparigas alegres e ditosas,<br \/>\nComo me amarga n&#8217;alma essa alegria!<\/p>\n<p>Nem em crian\u00e7a ser predestinado,<br \/>\nAlegre eu era assim; no meu brincar,<br \/>\nNas minhas ilus\u00f5es da inf\u00e2ncia, eu punha<br \/>\nO mal da minha predestina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acabemos com esta vida assim!<br \/>\nAcabemos! o modo pouco importa!<br \/>\nSofrer mais j\u00e1 n\u00e3o posso. Pois verei &#8211;<br \/>\nEu, Fausto &#8211; aqu\u00eales que n\u00e3o sentem bem<br \/>\nT\u00f4da a extens\u00e3o da felicidade,<br \/>\nGoz\u00e1-la?<\/p>\n<h2>Ferve a revolta em mim<\/h2>\n<p>Contra a causa da vida que me f\u00eaz<br \/>\nQual sou. E morrerei e deixarei<br \/>\nNeste mundo isto apenas: uma vida<br \/>\nS\u00f3 prazer e s\u00f3 gozo, s\u00f3 amor,<br \/>\nS\u00f3 inconsci\u00eancia em est\u00e9ril pensamento<br \/>\nE despr\u00eazo [&#8230;]<br \/>\nMas eu como entrarei naquela vida?<br \/>\nEu n\u00e3o nasci para ela.<\/p>\n<p><b>III<\/b><\/p>\n<p>Melodia vaga<br \/>\nPara ti se eleva<br \/>\nE, chorando, leva<br \/>\nO teu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nJ\u00e1 de dor exausto,<br \/>\nE sonhando o afaga.<\/p>\n<p>Os teus olhos, Fausto,<br \/>\nN\u00e3o mais chorar\u00e3o.<\/p>\n<p><b>IV<\/b><\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o tenho alma. Dei-a \u00e0 luz e ao ru\u00eddo,<br \/>\nS\u00f3 sinto um v\u00e1cuo imenso onde alma tive&#8230;<\/p>\n<p>Sou qualquer cousa de exterior apenas,<br \/>\nConsciente apenas de j\u00e1 nada ser&#8230;<\/p>\n<p>Perten\u00e7o \u00e0 est\u00fardia e \u00e0 cr\u00e1pula da noite<br \/>\nSou s\u00f3 delas, encontro-me disperso<br \/>\nPor cada grito b\u00eabedo, por cada<br \/>\nTom da luz no amplo b\u00f4jo das botelhas.<\/p>\n<p>Participo da n\u00e9voa luminosa<br \/>\nDa orgia e da mentira do prazer.<\/p>\n<p>E uma febre e um v\u00e1cuo que h\u00e1 em mim<br \/>\nConfessa-me j\u00e1 morto&#8230; Palpo, em t\u00f4rno<br \/>\nDa minha alma, os fragmentos do meu ser<br \/>\nCom o h\u00e1bito imortal de perscrutar-me.<\/p>\n<p><b>V<\/b><\/p>\n<h2>Perdido<\/h2>\n<p>No labirinto de mim mesmo, j\u00e1<br \/>\nN\u00e3o sei qual o caminho que me leva<br \/>\nD\u00eale \u00e0 realidade humana e clara<br \/>\nCheia de luz [&#8230;]<br \/>\nPor isso n\u00e3o concebo alegremente<br \/>\nMas com profunda pesadez em mim<br \/>\nEsta alegria, esta felicidade,<\/p>\n<p>Que odeio e que me fere [&#8230;]<\/p>\n<p>Sinto como um insulto esta alegria<br \/>\n&#8211; T\u00f4da a alegria. Quase que sinto<br \/>\nQue rir, \u00e9 rir &#8211; n\u00e3o de mim, mas, talvez,<br \/>\nDo meu ser.<\/p>\n<p><b>XXI<\/b><\/p>\n<p>&#8211; Amo como o amor ama.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei raz\u00e3o pra amar-te mais que amar-te.<\/p>\n<p>Que queres que te diga mais que te amo,<br \/>\nSe o que quero dizer-te \u00e9 que te amo?<\/p>\n<p>Quando te falo, d\u00f5i-me que respondas<br \/>\nAo que te digo e n\u00e3o ao meu amor.<\/p>\n<p>Ah! n\u00e3o perguntes nada; antes me fala<br \/>\nDe tal maneira, que, se eu f\u00f4ra surda,<br \/>\nTe ouvisse todo com o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se te vejo n\u00e3o sei quem sou: eu amo.<\/p>\n<p>Se me faltas [&#8230;]<br \/>\n&#8230;Mas tu fazes, amor, por me faltares<\/p>\n<p>Mesmo estando comigo, pois perguntas &#8211;<br \/>\nQuando \u00e9 amar que deves. Se n\u00e3o amas,<br \/>\nMostra-te indiferente, ou n\u00e3o me queiras,<br \/>\nMas tu \u00e9s como nunca ningu\u00e9m foi,<br \/>\nPois procuras o amor pra n\u00e3o amar,<br \/>\nE, se me buscas, \u00e9 como se eu s\u00f3 f\u00f4sse<br \/>\nAlgu\u00e9m pra te falar de quem tu amas.<\/p>\n<p>Quando te vi amei-te j\u00e1 muito antes.<\/p>\n<p>Tornei a achar-te quando te encontrei.<\/p>\n<p>Nasci pra ti antes de haver o mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 cousa feliz ou hora alegre<br \/>\nQue eu tenha tido pela vida fora,<br \/>\nQue o n\u00e3o f\u00f4sse porque te previa,<br \/>\nPorque dormias nela tu futuro.<\/p>\n<p>E eu soube-o s\u00f3 depois, quando te vi,<br \/>\nE tive para mim melhor sentido,<br \/>\nE o meu passado foi como uma &#8216;strada<br \/>\nIluminada pela frente, quando<br \/>\nO carro com lanternas vira a curva<br \/>\nDo caminho e j\u00e1 a noite \u00e9 t\u00f4da humana.<\/p>\n<p>Quando eu era pequena, sinto que eu<br \/>\nAmava-te j\u00e1 longe, mas de longe&#8230;<\/p>\n<p>Amor, diz qualquer cousa que eu te sinta!<br \/>\n-Compreendo-te tanto que n\u00e3o sinto,<br \/>\nOh cora\u00e7\u00e3o exterior ao meu!<br \/>\nFatalidade, filha do destino<br \/>\nE das leis que h\u00e1 no fundo d\u00easte mundo!<br \/>\nQue \u00e9s tu a mim que eu compreenda ao ponto<br \/>\nDe o sentir&#8230;?<\/p>\n<p><b>XXII<\/b><\/p>\n<p>Pra que te falar? Ningu\u00e9m me irmana<br \/>\nOs pensamentos na compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Sou s\u00f3 por ser supremo, e tudo em mim<br \/>\n\u00c9 maior.<\/p>\n<p><b>XXIII<\/b><\/p>\n<p>Reza por mim! A mais n\u00e3o me enterne\u00e7o.<\/p>\n<p>S\u00f3 por mim mesmo sei enternecer-me,<br \/>\nSob a ilus\u00e3o de amar e de sentir<br \/>\nEm que for\u00e7adamente me detive.<\/p>\n<p>Reza por mim, por mim! Eis a que chega<br \/>\nA minha tentativa [em] querer amar.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>\u00c0 Mem\u00f3ria do Presidente &#8211; Rei Sin\u00f3dio Pais<\/h2>\n<p>LONGE DA FAMA e das espadas,<br \/>\nAlheio \u00e0s turbas ele dorme.<br \/>\nEm torno h\u00e1 claustros ou arcadas?<br \/>\nS\u00f3 a noite enorme.<br \/>\nPorque para ele, j\u00e1 virado<br \/>\nPara o lado onde est\u00e1 s\u00f3 Deus,<br \/>\nS\u00e3o mais que Sombra e que Passado<br \/>\nA terra e os c\u00e9us.<\/p>\n<p>Ali o gesto, a ast\u00facia, a lida,<br \/>\nS\u00e3o j\u00e1 para ele, sem as ver,<br \/>\nV\u00e1cuo de a\u00e7\u00e3o, sombra perdida,<br \/>\nSopro sem ser.<\/p>\n<p>S\u00f3 com sua alma e com a treva,<br \/>\nA alma gentil que nos amou<br \/>\nInda esse amor e ardor conserva?<br \/>\nTudo acabou?<br \/>\nNo mist\u00e9rio onde a Morte some<br \/>\nAquilo a que a alma chama a vida,<br \/>\nQue resta dele a n\u00f3s &#8211; s\u00f3 o nome<br \/>\nE a f\u00e9 perdida?<\/p>\n<p>Se Deus o havia de levar,<br \/>\nPara que foi que no-lo trouxe &#8211;<br \/>\nCavaleiro leal, do olhar<br \/>\nAltivo e doce?<\/p>\n<p>Soldado-rei que oculta sorte<br \/>\nComo em bra\u00e7os da P\u00e1tria ergueu,<br \/>\nE passou como o vento norte<br \/>\nSob o ermo c\u00e9u.<\/p>\n<p>Mas a alma acesa n\u00e3o aceita<br \/>\nEssa morte absoluta, o nada<br \/>\nDe quem foi P\u00e1tria, e f\u00e9 eleita,<br \/>\nE ungida espada.<\/p>\n<p>Se o amor cr\u00ea que a Morte mente<br \/>\nQuando a quem quer leva de novo<br \/>\nQu\u00e3o mais cr\u00ea o Rei ainda existente<br \/>\nO amor de um povo!<br \/>\nQuem ele foi sabe-o a Sorte,<br \/>\nSabe-o o Mist\u00e9rio e a sua lei.<br \/>\nA Vida f\u00ea-lo her\u00f3i, e a Morte<br \/>\nO sagrou Rei!<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 com f\u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o cremos<br \/>\nQue ele n\u00e3o morra inteiramente.<br \/>\nAh, sobrevive! Inda o teremos<br \/>\nEm nossa frente.<\/p>\n<p>No oculto para o nosso olhar,<br \/>\nNo vis\u00edvel \u00e0 nossa alma,<br \/>\nInda sorri com o antigo ar<br \/>\nDe fo\u00e7a calma.<\/p>\n<p>Ainda de longe nos anima,<br \/>\nInda na alma nos conduz &#8211;<br \/>\nGl\u00e1dio de f\u00e9 erguido acima<br \/>\nDa nossa cruz!<\/p>\n<p>Nada sabemos do que oculta<br \/>\nO v\u00e9u igual de noite e dia.<br \/>\nMesmo ante a Morte a F\u00e9 exulta:<br \/>\nChora e confia.<br \/>\nApraz ao que em n\u00f3s quer que seja<br \/>\nQual Deus quis nosso querer tosco,<br \/>\nCrer que ele vela, benfazeja<br \/>\nSombra conosco.<\/p>\n<p>N\u00e3o sai da nossa alma a f\u00e9<br \/>\nDe que, alhures que o mundo e o fado,<br \/>\nEle inda pensa em n\u00f3s e \u00e9<br \/>\nO bem-amado.<\/p>\n<p>Tenhamos f\u00e9, porque ele foi.<br \/>\nDeus n\u00e3o quer mal a quem o deu.<br \/>\nN\u00e3o passa como o vento o her\u00f3i<br \/>\nSob o ermo c\u00e9u.<\/p>\n<p>E amanh\u00e3, quando queira a Sorte,<br \/>\nQuando findar a expia\u00e7\u00e3o,<br \/>\nRessurecto da falsa morte,<br \/>\nEle j\u00e1 n\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a \u00e2nsia nossa que encarnara,<br \/>\nA alma de n\u00f3s de que foi bra\u00e7o,<br \/>\nTornar\u00e1, nova forma clara,<br \/>\nAo tempo e ao espa\u00e7o.<br \/>\nTornar\u00e1 feito qualquer outro,<br \/>\nQualquer cousa de n\u00f3s com ele;<br \/>\nPorque o nome do her\u00f3i morto<br \/>\nInda compele;<\/p>\n<p>Inda comanda, e a armada ida<br \/>\nPara os campos da Reden\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00c0s vezes leva \u00e0 frente, erguida<br \/>\n&#8216;Spada, a Ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>E um raio s\u00f3 do ardente amor,<br \/>\nQue emana s\u00f3 do nome seu,<br \/>\nD\u00ea sangue a um bra\u00e7o vingador,<br \/>\nSe esmoreceu.<\/p>\n<p>Com mais armas que com Verdade<br \/>\nCombate a alma por quem ama.<br \/>\n\u00c9 lenha s\u00f3 a Realidade:<br \/>\nA f\u00e9 \u00e9 a chama.<\/p>\n<p>Mas ai, que a f\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o tem forma<br \/>\nNa mat\u00e9ria e na cor da Vida,<br \/>\nE, pensada, em dor se transforma<br \/>\nE a f\u00e9 perdida!<br \/>\nP&#8217;ra que deu Deus a confian\u00e7a<br \/>\nA quem n\u00e3o ia dar o bem?<br \/>\nMorgado da nossa esperan\u00e7a,<br \/>\nA Morte o tem!<\/p>\n<p>Mas basta o nome e basta a gl\u00f3ria<br \/>\nPara ele estar conosco, e ser<br \/>\nCarnal presen\u00e7a de mem\u00f3ria<br \/>\nA amanhecer;<\/p>\n<p>&#8216;Spectro real feito de n\u00f3s,<br \/>\nda nossa saudade e \u00e2nsia,<br \/>\nQue fala com oculta voz<br \/>\nNa alma, a dist\u00e2ncia;<\/p>\n<p>E a nossa pr\u00f3pria dor se torna<br \/>\nUma vaga \u00e2nsia, &#8216;sperar vago,<br \/>\nComo a erma brisa que transtorna<br \/>\nUm ermo lago.<\/p>\n<p>N\u00e3o mente a alma ao cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe Deus o deu, Deus nos amou.<br \/>\nPorque ele p\u00f4de ser, Deus n\u00e3o<br \/>\nNos desprezou.<br \/>\nRei-nato, a sua realeza,<br \/>\nPor n\u00e3o pod\u00ea-la herdar dos seus<br \/>\nAv\u00f3s, com m\u00edstica inteireza<br \/>\nA herdou de Deus;<\/p>\n<p>E, por direta conson\u00e2ncia<br \/>\nCom a divina interven\u00e7\u00e3o,<br \/>\nUma hora ergueu-nos alta a \u00e2nsia<br \/>\nDe salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Toldou-o a Sorte que o trouxera<br \/>\nOutra vez com noturno v\u00e9u.<br \/>\nDeus pr&#8217;a que no-lo deu, se era<br \/>\nP&#8217;ra o tornar seu?<\/p>\n<p>Ah, tenhamos mais f\u00e9 que a esp&#8217;ran\u00e7a!<br \/>\nMais vivo que n\u00f3s somos, fita<br \/>\nDo Abismo onde n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a<br \/>\nA terra aflita.<\/p>\n<p>E se assim \u00e9; se, desde o Assombro<br \/>\nAonde a Morte as vidas leva,<br \/>\nV\u00ea esta p\u00e1tria, escombro a escombro,<br \/>\nCair na treva;<br \/>\nSe algum poder do que tivera<br \/>\nSua alma, que n\u00e3o vemos, tem,<br \/>\nDe longe ou perto &#8211; por que espera?<br \/>\nPor que n\u00e3o vem?<\/p>\n<p>Em nova forma ou novo alento,<br \/>\nQue alheio pulso ou alma tome,<br \/>\nRegresse como um pensamento,<br \/>\nAlma de um nome!<\/p>\n<p>Regresse sem que a gente o veja,<br \/>\nRegresse s\u00f3 que a gente o sinta &#8211;<br \/>\nImpulso, luz, vis\u00e3o que reja<br \/>\nE a alma pressinta!<\/p>\n<p>E qualquer gl\u00e1dio adormecido,<br \/>\nServo do oculto impulso, acorde,<br \/>\nE um novo her\u00f3i se sinta erguido<br \/>\nPorque o recorde!<\/p>\n<p>Governa o servo e o jogral.<br \/>\nO que \u00edamos a ser morreu.<br \/>\nN\u00e3o teve aurora matinal<br \/>\n&#8216;Strela do c\u00e9u.<br \/>\nVivemos s\u00f3 de recordar.<br \/>\nNa nossa alma entristecida<br \/>\nH\u00e1 um som de reza a invocar<br \/>\nA morta vida;<\/p>\n<p>E um m\u00edstico vislumbre chama<br \/>\nO que, no plaino trespassado,<br \/>\nVive ainda em n\u00f3s, long\u00ednqua chama &#8211;<br \/>\nO DESEJADO.<\/p>\n<p>Sim, s\u00f3 h\u00e1 a esp&#8217;ran\u00e7a, como aquela<br \/>\n&#8211; E quem sabe se a mesma? &#8211; quando<br \/>\nSe foi de Aviz a \u00faltima estrela<br \/>\nNo campo infando.<\/p>\n<p>Novo Alcacer-Kibir na noite!<br \/>\nNovo castigo e mal do Fado!<br \/>\nPor que pecado novo o a\u00e7oite<br \/>\nAssim \u00e9 dado?<\/p>\n<p>S\u00f3 resta a f\u00e9, que a sua mem\u00f3ria<br \/>\nNos nossos cora\u00e7\u00f5es gravou,<br \/>\nQue Deus n\u00e3o d\u00e1 paga ilus\u00f3ria<br \/>\nA quem amou.<br \/>\nFlor alta do paul da grei,<br \/>\nAntemanh\u00e3 da Reden\u00e7\u00e3o,<br \/>\nNele uma hora encarnou o el-rei<br \/>\nDom Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p>O sopro de \u00e2nsia que nos leva<br \/>\nA querer ser o que j\u00e1 fomos,<br \/>\nE em n\u00f3s vem como em uma treva,<br \/>\nEm v\u00e3os assomos,<\/p>\n<p>Bater \u00e0 porta ao nosso gesto,<br \/>\nFazer apelo ao nosso bra\u00e7o,<br \/>\nLembrar ao sangue nosso o doesto<br \/>\nE o vil cansa\u00e7o,<\/p>\n<p>Nele um momento clareou,<br \/>\nA noite antiga se seguiu,<br \/>\nMas que segredo \u00e9 que ficou<br \/>\nNo escuro frio?<\/p>\n<p>Que mem\u00f3ria, que luz passada<br \/>\nProjeta, sombra, no futuro,<br \/>\nD\u00e1 na alma? Que long\u00ednqua espada<br \/>\nBrilha no escuro?<br \/>\nQue nova luz vir\u00e1 raiar<br \/>\nDa noite em que jazemos vis?<br \/>\n\u00d3 sombra amada, vem tornar<br \/>\nA \u00e2nsia feliz.<\/p>\n<p>Quem quer que sejas, l\u00e1 no abismo<br \/>\nOnde a morte vida conduz,<br \/>\nS\u00ea para n\u00f3s um misticismo<br \/>\nA vaga luz<\/p>\n<p>Com que a noite erma inda vazia<br \/>\nNo frio alvor da antemanh\u00e3<br \/>\nSente, da esp&#8217;ran\u00e7a que h\u00e1 no dia,<br \/>\nQue n\u00e3o \u00e9 v\u00e3.<\/p>\n<p>E amanh\u00e3, quando houver Hora,<br \/>\nSendo Deus pago, Deus dir\u00e1<br \/>\nNova palavra redentora<br \/>\nAo mal que h\u00e1,<\/p>\n<p>E um novo verbo ocidental<br \/>\nEncarnado em hero\u00edsmo e gl\u00f3ria,<br \/>\nTraga por seu broquel real<br \/>\nTua mem\u00f3ria!<br \/>\nPrecursor do que n\u00e3o sabemos,<br \/>\nPassado de um futuro abrir<br \/>\nNo assombro de portais extremos<br \/>\nPor descobrir,<\/p>\n<p>S\u00ea estrada, gl\u00e1dio, f\u00e9, fanal,<br \/>\nPend\u00e3o de gl\u00f3ria em gl\u00f3ria erguido!<br \/>\nTornas poss\u00edvel Portugal<br \/>\nPor teres sido!<\/p>\n<p>N\u00e3o era extinta a antiga chama<br \/>\nSe tu e o amor puderam ser.<br \/>\nEntre clarins te a gl\u00f3ria aclama,<br \/>\nMorto a vencer!<\/p>\n<p>E, porque foste, confiando<br \/>\nEm QUEM SER\u00c1 porque tu foste,<br \/>\nErgamos a alma, e com o infando<br \/>\nSorrindo arroste,<\/p>\n<p>At\u00e9 que Deus o la\u00e7o solte<br \/>\nQue prende \u00e0 terra a asa que somos,<br \/>\nE a curva novamente volte<br \/>\nAo que j\u00e1 fomos,<br \/>\nE no ar de bruma que estremece<br \/>\n(Clarim long\u00ednquo matinal!)<br \/>\nO DESEJADO enfim regresse<br \/>\nA Portugal!<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Al\u00e9m-Deus<\/h2>\n<p><b>I<\/b><\/p>\n<h2>ABISMO<\/h2>\n<p>Olho o Tejo, e de tal arte<br \/>\nQue me esquece estar olhando,<br \/>\nE s\u00fabito isto me bate<br \/>\nDe encontro ao devaneando &#8211;<br \/>\nO que \u00e9 ser-rio, e correr?<br \/>\nO que \u00e9 est\u00e1-lo eu a ver?<\/p>\n<p>Sinto de repente pouco,<br \/>\nV\u00e1cuo, o momento, o lugar.<\/p>\n<p>Tudo de repente \u00e9 \u00f4co &#8211;<br \/>\nMesmo o meu estar a pensar.<\/p>\n<p>Tudo &#8211; eu e o mundo em redor &#8211;<br \/>\nFica mais que exterior.<\/p>\n<p>Perde tudo o ser, ficar,<br \/>\nE do pensar se me some.<\/p>\n<p>Fico sem poder ligar<br \/>\nSer, id\u00e9ia, alma de nome<br \/>\nA mim, \u00e0 terra e aos c\u00e9us&#8230;<\/p>\n<p>E s\u00fabito encontro Deus.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<h2>PASSOU<\/h2>\n<p>Passou, fora de Quando,<br \/>\nDe Porqu\u00ea, e de Passando&#8230;,<br \/>\nTurbilh\u00e3o de Ignorado,<br \/>\nSem ser turbilhonado&#8230;,<br \/>\nVasto por fora do Vasto<br \/>\nSem ser, que a si se assombra&#8230;<\/p>\n<p>O universo \u00e9 o seu rasto&#8230;<\/p>\n<p>Deus \u00e9 a sua sombra&#8230;<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<h2>A VOZ DE DEUS<\/h2>\n<p>Brilha uma voz na noute&#8230;<\/p>\n<p>De dentro de Fora ouvi-a..<\/p>\n<p>\u00d3 Universo, eu sou-te&#8230;<\/p>\n<p>Oh, o horror da alegria<br \/>\nD\u00easte pavor, do archote<br \/>\nSe apagar, que me guia!<br \/>\nCinzas de id\u00e9ia e de nome<br \/>\nEm mim, e a voz: \u00d3 mundo,<br \/>\nSermente em ti eu sou-me&#8230;<\/p>\n<p>Mero eco de mim, me inundo<br \/>\nDe ondas de negro lume<br \/>\nEm que pra Deus me afundo.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<h2>A QUEDA<\/h2>\n<p>Da minha id\u00e9ia do mundo<br \/>\nCa\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>V\u00e1cuo al\u00e9m de profundo,<br \/>\nSem ter Eu nem Ali&#8230;<\/p>\n<p>V\u00e1cuo sem si-pr\u00f3prio, caos<br \/>\nDe ser pensado como ser&#8230;<\/p>\n<p>Escada absoluta sem degraus&#8230;<\/p>\n<p>Vis\u00e3o que se n\u00e3o pode ver&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00e9m-Deus! Al\u00e9m-Deus! Negra calma&#8230;<\/p>\n<p>Clar\u00e3o de Desconhecido&#8230;<\/p>\n<p>Tudo tem outro sentido, \u00f3 alma,<br \/>\nMesmo o ter-um-sentido&#8230;<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<h2>BRA\u00c7O SEM CORPO BRANDINDO UM GL\u00c1DIO<\/h2>\n<p>Entre a \u00e1rvore e o v\u00ea-la<br \/>\nOnde est\u00e1 o sonho?<br \/>\nQue arco da ponte mais vela<br \/>\nDeus?&#8230; E eu fico tristonho<br \/>\nPor n\u00e3o saber se a curva da ponte<br \/>\n\u00c9 a curva do horizonte&#8230;<\/p>\n<p>Entre o que vive e a vida<br \/>\nPra que lado corre o rio?<br \/>\n\u00c1rvore de f\u00f4lhas vestida &#8211;<br \/>\nEntre isso e \u00c1rvore h\u00e1 fio?<br \/>\nPombas voando &#8211; o pombal<br \/>\nEst\u00e1-ljes sempre \u00e0 direita, ou \u00e9 real?<br \/>\nDeus \u00e9 um grande Intervalo,<br \/>\nMas entre que e qu\u00ea?<br \/>\nEntre o que digo e o que calo<br \/>\nExisto? Quem \u00e9 que me v\u00ea?<\/p>\n<p>Erro-me&#8230; E o pombal elevado<br \/>\nEst\u00e1 em t\u00f4rno na pomba, ou de lado?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: A Fal\u00eancia do Prazer e do Amor \u00c0 Mem\u00f3ria do Presidente &#8211; Rei Sin\u00f3dio Pais Al\u00e9m-Deus A Fal\u00eancia do Prazer e do Amor Extractos I Beber a vida num trago, e nesse trago T\u00f4das as sensa\u00e7\u00f5es que a vida d\u00e1 Em t\u00f4das as suas formas [&#8230;] [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95878","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Poesias Dispersas - Fernando Pessoa, Obra Poesias Dispersas - Fernando Pessoa<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Poesias Dispersas - Fernando Pessoa, Obra, Al\u00e9m-Deus, A Fal\u00eancia do Prazer e do Amor, \u00c0 Mem\u00f3ria do Presidente, Literatura, Poesias Dispersas - Fernando Pessoa\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Poesias Dispersas - Fernando Pessoa, Obra Poesias Dispersas - Fernando Pessoa\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Poesias Dispersas - Fernando Pessoa, Obra, Al\u00e9m-Deus, A Fal\u00eancia do Prazer e do Amor, \u00c0 Mem\u00f3ria do Presidente, Literatura, Poesias Dispersas - Fernando Pessoa\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poesias-dispersas-fernando-pessoa\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-23T10:02:59+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"13 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/poesias-dispersas-fernando-pessoa#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/poesias-dispersas-fernando-pessoa\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Poesias Dispersas &#8211; 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