{"id":95876,"date":"2017-01-23T08:01:20","date_gmt":"2017-01-23T10:01:20","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95876"},"modified":"2017-01-23T08:01:20","modified_gmt":"2017-01-23T10:01:20","slug":"correspondencias-fernando-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/correspondencias-fernando-pessoa","title":{"rendered":"Correspond\u00eancias &#8211; Fernando Pessoa"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>\u00c0 Adolfo Casais Monteiro<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">\u00c0 \u00c1lvaro Pinto, de 01\/05\/1912<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">\u00c0 \u00c1lvaro Pinto, de 02\/05\/1912<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#4\">\u00c0 \u00c1lvaro Pinto, de 30\/04\/1912<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">\u00c0 Armando Teixeira Rebelo,<br \/>\nde 24\/08\/1907<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">A Editora Inglesa<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">\u00c0 Entreprise Luvisy, de 19\/06\/1906<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">\u00c0 Fernando Pessoa, 02\/01\/1985<br \/>\n&#8211; Jorge Luis Borges<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#9\">\u00c0 mem\u00f3ria de<br \/>\nFernando Pessoa, 07\/1936<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">Ao Di\u00e1rio de Not\u00edcias,<br \/>\nde 04\/06\/1915<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#11\">Ao Museu-Biblioteca Castro<br \/>\nde Guimar\u00e3es em Cascais, de 16\/09\/1932<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#12\">Ao Natal MercuryDurban, 7th.<br \/>\nJuly, 1905 &#8220;The Man in the Moon&#8221;<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#13\">Ao Punch, de 21\/02\/1906<br \/>\nCarta a Adolfo Casais Monteiro<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#14\">Carta a<br \/>\nAdolfo Casais Monteiro<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#15\">Carta a<br \/>\nArmando Cort\u00eas Rodrigues<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#16\">Carta a J\u00falio Saul<br \/>\nDias<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#17\">Carta a M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#18\">Carta a Miguel Torga<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#19\"><strong><span style=\"font-size: small;\">Carta ao amigo M\u00e1rio Beir\u00e3o<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#20\">De amor, de 01\/03\/1920<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#21\">De amor, de 15\/08\/1920<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#22\">De amor, de 19\/02\/1920<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#23\">De amor, de 23\/03\/1920<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#24\">De amor, de 23\/11\/1920<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2><a name=\"1\">&Agrave; Adolfo Casais Monteiro<\/a><\/h2>\n<p><b>Carta a Adolfo Casais Monteiro <\/b><b>(em 13 de Janeiro de 1935) <\/b><\/p>\n<p>&quot;&#8230;E contudo &#8211; penso-o com tristeza &#8211; pus no Caeiro todo o meu poder<br \/>\n    de despersonaliza&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica, pus em Ricardo Reis toda<br \/>\n    a minha disciplina mental, vestida da m&uacute;sica que lhe &eacute; pr&oacute;pria,<br \/>\n    pus em &Aacute;lvaro de Campos toda a emo&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o<br \/>\n    dou nem a mim nem &agrave; vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que<br \/>\n    todos estes t&ecirc;m que ser, na pr&aacute;tica da publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples!<br \/>\n    Creio que respondi &agrave; sua pergunta. <\/p>\n<p>Se fui omisso, diga em qu&ecirc;. Se puder responder, responderei. Mais planos<br \/>\n    n&atilde;o tenho, por enquanto. E, sabendo eu o que s&atilde;o e em que d&atilde;o<br \/>\n    os meus planos, &eacute; caso para dizer, Gra&ccedil;as a Deus! <\/p>\n<p>Passo agora a responder &agrave; sua pergunta sobre a g&eacute;nese dos meus<br \/>\n    heter&oacute;nimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente. <\/p>\n<p>Come&ccedil;o pela parte psiqui&aacute;trica. A origem dos meus heter&oacute;nimos<br \/>\n    &eacute; o fundo tra&ccedil;o de histeria que existe em mim. N&atilde;o sei<br \/>\n    se sou simplesmente hist&eacute;rico, se sou, mais propriamente, um histeroneurast&eacute;nico.<br \/>\n    Tendo para esta Segunda hip&oacute;tese, porque h&aacute; em mim fen&oacute;menos<br \/>\n    de abulia que a histeria, propriamente dita, n&atilde;o enquadra no registo<br \/>\n    dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heter&oacute;nimos<br \/>\n    est&aacute; na minha tend&ecirc;ncia org&acirc;nica e constante para a despersonaliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e para a simula&ccedil;&atilde;o. Estes fen&oacute;menos &#8211; felizmente para<br \/>\n    mim e para outros &#8211; mentalizaram-se em mim; quero dizer, n&atilde;o se manifestam<br \/>\n    na minha vida pr&aacute;tica, exterior e de contacto com outros; fazem explos&atilde;o<br \/>\n    para dentro e vivo-os eu a s&oacute;s comigo. Se eu fosse mulher &#8211; na mulher<br \/>\n    os fen&oacute;menos hist&eacute;ricos rompem em ataques e coisas parecidas<br \/>\n    &#8211; cada poema de &Aacute;lvaro de Campos (o mais histericamente hist&eacute;rico<br \/>\n    de mim) seria um alarme para a vizinhan&ccedil;a. Mas sou homem &#8211; e nos homens<br \/>\n    a histeria assume principalmente aspectos mentais: assim tudo acaba em sil&ecirc;ncio<br \/>\n    e poesia. <\/p>\n<p>Isto explica, tant bien que mal, a origem org&acirc;nica do meu heteronismo.<br \/>\n    Vou agora fazer-lhe a hist&oacute;ria directa dos meus heter&oacute;nimos.<br \/>\n    Come&ccedil;o por aqueles que morreram, e de alguns dos quais j&aacute; me<br \/>\n    n&atilde;o lembro &#8211; os que jazem perdidos no passado remota da minha inf&acirc;ncia<br \/>\n    quase esquecida. <\/p>\n<p>A&iacute; por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me &agrave;<br \/>\n    ideia escrever uns poemas de &iacute;ndole pag&acirc;. Esbocei umas coisas<br \/>\n    em verso irregular (n&atilde;o no estilo &Aacute;lvaro de Campos, mas num<br \/>\n    estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esbo&ccedil;ara-s-me, contudo,<br \/>\n    numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo<br \/>\n    (tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis). <\/p>\n<p>Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao<br \/>\n    S&aacute;-Carneiro &#8211; de inventar um poeta buc&oacute;lico, de esp&eacute;cie<br \/>\n    complicada, e apresentar-lho, j&aacute; me n&atilde;o lembro como, em qualquer<br \/>\n    esp&eacute;cie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui.<br \/>\n    Num dia em que finalmente desistira &#8211; foi em 8 de Mar&ccedil;o de 1914 &#8211; acerquei-me<br \/>\n    de uma c&oacute;moda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de p&eacute;,<br \/>\n    como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa<br \/>\n    esp&eacute;cie de &ecirc;xtase cuja natureza n&atilde;o conseguirei definir.<br \/>\n    Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com<br \/>\n    o t&iacute;tulo Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento<br \/>\n    de algu&eacute;m em mim, a quem dei desde logo o nome Alberto Caeiro. <\/p>\n<p>Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a<br \/>\n    sensa&ccedil;&atilde;o imediata que tive. E tanto assim que, escrito que foram<br \/>\n    esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi,<br \/>\n    a fio, tamb&eacute;m, os seis poemas que constituem a Chuva Obl&iacute;qua,<br \/>\n    de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente. Foi o regresso de Fernando<br \/>\n    Pessoa &#8211; Alberto Caeiro a Fernando Pessoa &#8211; ele s&oacute;. Ou, melhor, foi<br \/>\n    a reac&ccedil;&atilde;o de Fernando Pessoa contra a sua inexist&ecirc;ncia<br \/>\n    como Alberto Caeiro. <\/p>\n<p>Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir &#8211; instintiva e subconscientemente<br \/>\n    &#8211; uns disc&iacute;pulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente,<br \/>\n    descobri-lhe o nome, e ajustei-me a si mesmo, porque nessa altura j&aacute;<br \/>\n    o via. E, de repente, e em deriva&ccedil;&atilde;o oposta &agrave; de Ricardo<br \/>\n    Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indiv&iacute;duo. Num jacto, e &agrave;<br \/>\n    m&aacute;quina de escrever, sem interrup&ccedil;&atilde;o nem emenda, surgiu<br \/>\n    a Ode Triunfal de &Aacute;lvaro de Campos &#8211; a Ode com esse nome e o homem<br \/>\n    com o nome que tem. <\/p>\n<p>Criei, ent&atilde;o uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes<br \/>\n    de realidade. Graduei as influ&ecirc;ncias, conheci as amizades, ouvi, dentro<br \/>\n    de mim, as discuss&otilde;es e as diverg&ecirc;ncias de crit&eacute;rios,<br \/>\n    e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve.<br \/>\n    Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda<br \/>\n    se passa. Se algum dia eu puder publicar a discuss&atilde;o est&eacute;tica<br \/>\n    entre Ricardo Reis e &Aacute;lvaro de Campos, ver&aacute; como eles s&atilde;o<br \/>\n    diferentes, e como eu n&atilde;o sou nada na mat&eacute;ria. <\/p>\n<p>Quando foi da publica&ccedil;&atilde;o de Orpheu, foi preciso, &agrave; &uacute;ltima<br \/>\n    hora, arranjar qualquer coisa para completar o n&uacute;mero de p&aacute;ginas.<br \/>\n    Sugeri ent&atilde;o ao S&aacute;-Carneiro que eu fizesse um poema &quot;antigo&quot;<br \/>\n    do &Aacute;lvaro de Campos &#8211; um poema de como o &Aacute;lvaro de Campos seria<br \/>\n    antes de ter conhecido Caeiro e ter ca&iacute;do sob a sua influ&ecirc;ncia.<br \/>\n    E assim fiz o Opi&aacute;rio, em que tentei dar todas as tend&ecirc;ncias<br \/>\n    latentes do &Aacute;lvaro de Campos, conforme haveriam de ser depois de reveladas,<br \/>\n    mas sem haver ainda qualquer tra&ccedil;o de contacto com o seu mestre Caeiro.<br \/>\n    Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo<br \/>\n    poder de despersonaliza&ccedil;&atilde;o que tive que desenvolver. Mas, enfim,<br \/>\n    creio que n&atilde;o saiu mau, e que d&aacute; o &Aacute;lvaro em bot&atilde;o&#8230;\n  <\/p>\n<p>Creio que lhe expliquei a origem dos meus heter&oacute;nimos. Se h&aacute;<br \/>\n    por&eacute;m qualquer ponto em que precise de um esclarecimento mais l&uacute;cido<br \/>\n    &#8211; estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa n&atilde;o sou muito<br \/>\n    l&uacute;cido -, diga, que de bom grado lho darei. E, &eacute; verdade, um<br \/>\n    complemento verdadeiro e hist&eacute;rico: ao escrever certos passos das Notas<br \/>\n    para recorda&ccedil;&atilde;o do meu Mestre Caeiro, do &Aacute;lvaro de Campos,<br \/>\n    tenho chorado l&aacute;grimas verdadeiras. &Eacute; para que saiba com quem<br \/>\n    est&aacute; lidando, meu caro Casais Monteiro! <\/p>\n<p>Mais uns apontamentos nesta mat&eacute;ria&#8230; Eu vejo diante da mim, no espa&ccedil;o<br \/>\n    incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e &Aacute;lvaro<br \/>\n    de Campos. Constru&iacute;-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu<br \/>\n    em 1887 n&atilde;o me lembro do dia e m&ecirc;s (mas tenho-os algures), no<br \/>\n    Porto, &eacute; m&eacute;dico e est&aacute; presentemente no Brasil. Alberto<br \/>\n    Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase<br \/>\n    toda a sua vida no campo. N&atilde;o teve profiss&atilde;o nem educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quase alguma. &Aacute;lvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro<br \/>\n    de 1890 (&agrave;s 1,30 horas da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e &eacute;<br \/>\n    verdade, pois, feito o hor&oacute;scopo para essa hora, est&aacute; certo).<br \/>\n    Este, como sabe &eacute; engenheiro naval (por Glasgow), mas agora est&aacute;<br \/>\n    aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura m&eacute;dia, e, embora<br \/>\n    realmente fr&aacute;gil (morreu tuberculoso), n&atilde;o parecia t&atilde;o<br \/>\n    fr&aacute;gil quanto era. Ricardo Reis &eacute; um pouco, mas muito pouco,<br \/>\n    mais baixo, mais forte, mais seco. &Aacute;lvaro de Campos &eacute; alto (1,75m<br \/>\n    de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara<br \/>\n    rapada todos &#8211; o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno<br \/>\n    mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu portugu&ecirc;s,<br \/>\n    cabelo, por&eacute;m, liso e normalmente apartado ao lado, mon&oacute;culo.\n  <\/p>\n<p>Caeiro, como disse, n&atilde;o teve mais educa&ccedil;&atilde;o que quase<br \/>\n    nenhuma &#8211; s&oacute; instru&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria; morreram-lhe<br \/>\n    cedo e pai e a m&atilde;e, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos<br \/>\n    rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-av&oacute;. Ricardo Reis, educado<br \/>\n    num col&eacute;gio de jesu&iacute;tas, &eacute;, como disse, m&eacute;dico:<br \/>\n    vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser mon&aacute;rquico.<br \/>\n    &Eacute; um latinista por educa&ccedil;&atilde;o alheia, e um semi-helenista<br \/>\n    por educa&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria. &Aacute;lvaro de Campos teve uma<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o vulgar de liceu; depois foi mandado para a Esc&oacute;cia<br \/>\n    estudar engenharia, primeiro mec&acirc;nica e depois naval. Numas f&eacute;rias<br \/>\n    fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opi&aacute;rio. Ensinou-lhe latim<br \/>\n    um tio beir&atilde;o que era padre. <\/p>\n<p>(&#8230;) Como escrevo em nome desses tr&ecirc;s?&#8230; Caeiro por pura e inesperada<br \/>\n    inspirac&atilde;o, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo<br \/>\n    Reis, depois de uma deliberac&atilde;o abstracta que subitamente se concretiza<br \/>\n    numa ode. Campos, quando sinto um s&uacute;bito impulso para escrever e n&atilde;o<br \/>\n    sei o qu&ecirc;. O meu semi-heter&oacute;nimo Bernardo Soares que ali&aacute;s<br \/>\n    em muitas coisas se parece com &Aacute;lvaro de Campos, aparece sempre que<br \/>\n    estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades<br \/>\n    de racioc&iacute;nio e de inibic&atilde;o; aquela prosa &eacute; um constante<br \/>\n    devaneio. &Eacute; um semi-heter&oacute;nimo porque, n&atilde;o sendo a personalidade<br \/>\n    a minha, &eacute;, n&atilde;o diferente da minha, mas uma simples mutilac&atilde;o<br \/>\n    dela. Sou eu menos o racioc&iacute;nio e a afectividade. A prosa, salvo o<br \/>\n    que o racioc&iacute;nio d&aacute; de &quot;t&eacute;nue&quot; &agrave; minha,<br \/>\n    &eacute; iqual a esta, e o portugu&ecirc;s perfeitamente igual; ao passo que<br \/>\n    Caeiro escrevia mal o portugu&ecirc;s, Campos razoavelmente mas com lapsos<br \/>\n    como dizer &quot;eu pr&oacute;prio&quot; em vez de &quot;eu mesmo&quot;, etc.,<br \/>\n    Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. (&#8230;) <\/p>\n<h2><a name=\"2\">\u00c0 \u00c1lvaro Pinto 01\/05\/1912<\/a><\/h2>\n<p>Lisboa, 1&ordm; de Maio de 1912 <\/p>\n<p>Sr. &Aacute;lvaro Pinto, <\/p>\n<p>Remeto a V&#8230; mais tr&ecirc;s p&aacute;ginas do meu segundo artigo. As duas<br \/>\n    que faltam &#8211; enviarei amanh&atilde;. No escrit&oacute;rio onde passo &agrave;<br \/>\n    m&aacute;quina os artigos, n&atilde;o me deixaram hoje tempo para completar<br \/>\n    a transcri&ccedil;&atilde;o. &#8211; Como previ, o artigo levar&aacute; umas 10<br \/>\n    p&aacute;ginas de escrita &agrave; m&aacute;quina. Faltam, portanto, umas<br \/>\n    duas. V&atilde;o amanh&atilde;, sem falta. &#8211; Como o meu c&aacute;lculo inicial<br \/>\n    fora para poder receber as provas, como antes, pelo dia 7, creio que, mesmo<br \/>\n    tripartido na remessa, h&aacute; amplo tempo para o artigo ser composto, e<br \/>\n    mesmo ficar j&aacute; revisto, por aquele dia, do actual m&ecirc;s. De V&#8230;\n  <\/p>\n<p align=\"right\">respeitosamente <\/p>\n<p align=\"right\">Fernando Pess&ocirc;a<\/p>\n<h2><a name=\"3\">\u00c0 \u00c1lvaro Pinto, de 02\/05\/1912<\/a><\/h2>\n<p>Lisboa, 2 de Maio de 1912 <\/p>\n<p>Sr. &Aacute;lvaro Pinto, <\/p>\n<p>Remeto as 3 p&aacute;ginas finais do meu artigo. Foi imposs&iacute;vel resumir<br \/>\n    em 2 o resto do artigo sem tornar obscura a parte mais importante do racioc&iacute;nio.<br \/>\n    <br \/>\n    Pedindo a V&#8230; me releve a demora e a acidenta&ccedil;&atilde;o que tem havido<br \/>\n    na remessa do artigo, <\/p>\n<p align=\"right\">sou, de V&#8230; Respeitosamente. <\/p>\n<p align=\"right\">Fernando Pess&ocirc;a<\/p>\n<h2>\u00c0 \u00c1lvaro Pinto, de 25\/04\/1912<\/h2>\n<p>Lisboa, 25 de Abril de 1912 <\/p>\n<p>Sr. &Aacute;lvaro Pinto <\/p>\n<p>N&atilde;o respondi, como cumpria que fizesse, ao postal de V&#8230; de 19,<br \/>\n    porquanto esperava poder entregar a Veiga Sim&otilde;es, que parte amanh&atilde;<br \/>\n    para o Porto, o segundo artigo sobre o aspecto sociol&oacute;gico da actual<br \/>\n    corrente liter&aacute;ria; na entrega do artigo iria, ainda que inconvencionalmente,<br \/>\n    a demorada resposta. Como, por&eacute;m, V&#8230; compreende, a elabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    raciocinativa de um assunto originalmente concebido &eacute; dif&iacute;cil<br \/>\n    quando considera&ccedil;&otilde;es de espa&ccedil;o tipogr&aacute;fico entram<br \/>\n    &#8211; isto &eacute;, t&ecirc;m de ser levadas em conta &#8211; na elabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do racioc&iacute;nio. <\/p>\n<p>Por isto, s&oacute; poderei prometer mandar antes do fim do m&ecirc;s o artigo<br \/>\n    de que se trata; mas, dentro destes 5 dias, com certeza que o mandarei. <\/p>\n<p>Como foi no dia 7 de Abril que recebi as provas do meu primeiro artigo, e<br \/>\n    elas, revistas, chegaram a tempo de n&atilde;o demorar a sa&iacute;da de A<br \/>\n    &Aacute;guia, creio ( a n&atilde;o ser que o n&uacute;mero 5 saia antes do<br \/>\n    habitual dia 15 ) que, dado 7 dias de margem para a composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tipogr&aacute;fica do artigo, dou amplo tempo ao compositor. <\/p>\n<p>N&atilde;o recebendo de V&#8230; aviso em contr&aacute;rio, remeterei o artigo<br \/>\n    como indiquei. De V&#8230; <\/p>\n<p align=\"right\">respeitosamente <\/p>\n<p align=\"right\">Fernando Pess&ocirc;a <\/p>\n<p><b>Notas explicativas carta n&ordm; 7<\/b><\/p>\n<p> &Aacute;lvaro Pinto era dirigente da Renascen&ccedil;a Portuguesa e secret&aacute;rio<br \/>\n    de reda&ccedil;&atilde;o da revista A &Aacute;guia. Pessoa refere-se ao artigo<br \/>\n    &quot; Reincidindo&#8230; &quot;, publicado na revista portuense em maio de 1912<br \/>\n    ( n&ordm; 5, II s&eacute;rie) e que vinha na continua&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    seu artigo de estr&eacute;ia &quot; A nova Poesia Portuguesa sociologicamente<br \/>\n    considerada &quot; inserto no n&uacute;mero anterior. As cartas seguintes<br \/>\n    &#8211; 30 de abril, 1&ordm; de maio e 2 de maio &#8211; d&atilde;o conta do envio, a<br \/>\n    &quot; conta-gotas &quot;, do texto integral. Estas cartas seguem reunidas<br \/>\n    nesta apresenta&ccedil;&atilde;o. O citado portador da encomenda de Pessoa<br \/>\n    &eacute; o diplomata e escritor Veiga Sim&otilde;es (1888-1954 ), autor, entre<br \/>\n    muitos outros trabalhos, sobretudo no dom&iacute;nio hist&oacute;rico, de<br \/>\n    A Nova Gera&ccedil;&atilde;o (Estudos sobre as Tend&ecirc;ncias Actuais da<br \/>\n    Literatura Portuguesa ), 1911. Fernando Pessoa &#8211; Correspond&ecirc;ncia 1905-1922<br \/>\n    Editora Companhia Das Letras.<\/p>\n<h2><a name=\"4\">\u00c0 \u00c1lvaro Pinto, de 30\/04\/1912<\/a><\/h2>\n<p>Lisboa, 30 de Abril de 1912 <\/p>\n<p>Sr. &Aacute;lvaro Pinto, <\/p>\n<p>Tendo prometido enviar, at&eacute; ao fim do m&ecirc;s, o meu segundo artigo,<br \/>\n    remeto, inclusas, 5 p&aacute;ginas dele, escritas &agrave; m&aacute;quina.<br \/>\n    Como n&atilde;o tivesse tempo de passar a limpo, hoje, o resto do artigo,<br \/>\n    julguei prefer&iacute;vel mandar o que j&aacute; estava &#8211; para, sendo preciso,<br \/>\n    se ir j&aacute; compondo &#8211; e enviar o resto amanh&atilde;, a adiar, at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o, a remessa integral. <\/p>\n<p>O artigo fica mais extenso do que eu esperava. Deve levar mais outras 5 p&aacute;ginas<br \/>\n    de escrita de m&aacute;quina, como as que remeto. Talvez, por isso &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    havendo raz&otilde;es em contr&aacute;rio &#8211; fosse prefer&iacute;vel compor<br \/>\n    o artigo em corpo 8, para evitar confus&otilde;es ulteriores. Estou, &eacute;<br \/>\n    claro, supondo que para V&#8230; o artigo tem interesse que, por mim, ainda que<br \/>\n    autor, julgo que deve ter. Pela parte que vai hoje, j&aacute; se pode antever<br \/>\n    a conclus&atilde;o do artigo. Por o julgar &uacute;til e esmiu&ccedil;adamente<br \/>\n    confirmador do primeiro artigo, &eacute; que n&atilde;o me esforcei por o<br \/>\n    resumir excessivamente. <\/p>\n<p align=\"right\">De V&#8230; <\/p>\n<p align=\"right\">respeitosamente <\/p>\n<p align=\"right\">Fernando Pess&ocirc;a <\/p>\n<h2><a name=\"5\">\u00c0 Armando Teixeira Rebelo, de 24\/08\/1907<\/a><\/h2>\n<p>Hotel Brito, Portalegre. <br \/>\n    August 24th 1907.<\/p>\n<p>Venerable portion of earthly existence! <\/p>\n<p>In a few moments of concatenated mental activity, not unassisted by the carnal<br \/>\n    fumes of the alcoholic beverage &#8211; no more and no less than wine &#8211; not exclusive<br \/>\n    to this locality, my soul felt, like a mental sigh, the necessity of giving<br \/>\n    expression to its present state and tendencies to a friendly brain such as<br \/>\n    yours. <\/p>\n<p>Lonely and silent in my transitory place of existence in the hotel mentioned<br \/>\n    in the heading of this explosive epistle of an over-burdened soul, feeling<br \/>\n    the world around me morally cold and materially warm &#8211; below zero towards<br \/>\n    my soul and not far from 40 in relation to my body &#8211; in these distressing<br \/>\n    and inspiring circumstances the though has come upon me that perhaps the indicting<br \/>\n    of this epistolary composition may be subjectively conductive to an alleviation<br \/>\n    of my earthly lot at this moment, may be the &quot; balm in Gilead&quot;,<br \/>\n    dream of Poe, to my unsistered spirit. <\/p>\n<p>Hence this letter. <\/p>\n<p>Portalegre is a place where all a stranger can do is get tired of doing nothing.<br \/>\n    Its component qualities seem to me ( upon deep and cautions analysis) to contain,<br \/>\n    in uncertain relative quantities, heat, cold, semi-Spanishdom and nothingness.<br \/>\n    The wine is good ( though not from here, I think), but it is decidely alcoholic,<br \/>\n    especially when the water-pitcher is at the other end of the table and you<br \/>\n    ( that is I) forget to ask for it. The style of this letter may be &quot;terminal&quot;<br \/>\n    proof thereof. I shall register it that so brilliant and offspring of my mind<br \/>\n    may not be lost in the post. <\/p>\n<p>The taking-to-pieces and packing of the printing office is taking a damned<br \/>\n    long time &#8211; poetically speaking of course. <\/p>\n<p>_ Nevertheless, the men have worked quickly enough and I have looked on (<br \/>\n    and off) with the greatest energy. <\/p>\n<p>I sincerely believe that, if I were to remain here a month, I would have<br \/>\n    to go to Lisbon, afterwards to Bombarda Hotel. You can hardly imagine the<br \/>\n    hyperboredom, the ultra-get-tired-of-everythingness, the absolute what-the-blooming<br \/>\n    hell-is-a-chap-to-do- hereability that reigns in my spirit! I found a book<br \/>\n    to read, but was unable to muster energy to read it. I am anxious to get back<br \/>\n    to Lisbon; yet I think I will have to stay here yet three days more. <\/p>\n<p>Alentejo seen from the train <\/p>\n<p>Nothing with nothing around it<br \/>\n    And a few trees in between<br \/>\n    None of which very clearly green,<br \/>\n    Where no river of flower pays a visit. <br \/>\n    If there be a hell, I&#8217;ve found it,<br \/>\n    For if it ain&#8217; here, where the Devil is it? <\/p>\n<p align=\"right\">Fare thee well. <\/p>\n<p align=\"right\">F. Nogueira Pess&ocirc;a <\/p>\n<p align=\"right\">P.S. Don&#8217;t write to Portalegre, I may not be here. Wait till<br \/>\n    I get to Lisbon! We will converse there. <\/p>\n<h3>Tradu&ccedil;&atilde;o<\/h3>\n<p>A Armando Teixeira Rebelo <\/p>\n<p>Hotel Brito, Portalegre. <br \/>\n    24 de Agosto de 1907 <\/p>\n<p>Vener&aacute;vel por&ccedil;&atilde;o de exist&ecirc;ncia terrena! <\/p>\n<p>Nuns poucos momentos de concatenada actividade mental, n&atilde;o desassistida<br \/>\n    dos fumos carnais da bebida alco&oacute;lica &#8211; nada mais nada menos do que<br \/>\n    vinho &#8211; n&atilde;o exclusivo a esta localidade, a minha alma sentiu, como<br \/>\n    um suspiro mental, a necessidade de dar express&atilde;o do seu presente estado<br \/>\n    e tend&ecirc;ncias a um c&eacute;rebro amig&aacute;vel como o teu. <\/p>\n<p>Solit&aacute;rio e silente no meu transit&oacute;rio lugar de exist&ecirc;ncia<br \/>\n    no hotel mencionado no cabe&ccedil;alho desta explosiva ep&iacute;stola de<br \/>\n    uma sobrecarregada alma, sentindo em redor de mim um mundo moralmente frio<br \/>\n    e materialmente quente &#8211; abaixo de zero quanto &agrave; minha alma e n&atilde;o<br \/>\n    longe dos 40 quanto ao meu corpo- nestas circunst&acirc;ncias angustiosas<br \/>\n    e inspiradoras veio at&eacute; mim a id&eacute;ia de que talvez o processo<br \/>\n    desta composi&ccedil;&atilde;o epistolar possa ser subjectivamente conducente<br \/>\n    a um al&iacute;vio do meu fardo terreno neste momento, possa ser o &quot;<br \/>\n    b&aacute;lsamo em Gilead&quot;, sonhado por Poe, para o meu esp&iacute;rito<br \/>\n    desgarrado. <\/p>\n<p>Da&iacute; esta carta. <\/p>\n<p>Portalegre &eacute; um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer<br \/>\n    &eacute; cansar-se de n&atilde;o fazer nada. As suas qualidades componentes<br \/>\n    parecem-me conter (depois de uma profunda e cuidada an&aacute;lise), em quantidades<br \/>\n    relativas e incertas, calor, frio, semi-espanholismo e nada. O vinho &eacute;<br \/>\n    bom (embora n&atilde;o daqui, creio), mas &eacute; decididamente alco&oacute;lico,<br \/>\n    especialmente quando a jarra de &aacute;gua est&aacute; na outra extremidade<br \/>\n    da mesa e tu te esqueces (quer dizer, eu me esque&ccedil;o) de o pedir. O<br \/>\n    estilo desta carta &eacute; disso uma prova decisiva. Farei dela registro,<br \/>\n    para que uma t&atilde;o brilhante produ&ccedil;&atilde;o do meu esp&iacute;rito<br \/>\n    n&atilde;o se perca no correio. <\/p>\n<p>A desmontagem e embalagem da tipografia est&aacute; a levar um tempo danado<br \/>\n    &#8211; poeticamente falando, &eacute; claro &#8211; Apesar disso, os homens t&ecirc;m<br \/>\n    trabalhado bastante depressa e eu tenho-os olhado e observado com a maior<br \/>\n    das energias. <\/p>\n<p>Acredito sinceramente que, se tivesse que ficar um m&ecirc;s, teria de ir<br \/>\n    para Lisboa e depois para o Hotel Bombarda. Mal podes imaginar o hiper-aborrecimento,<br \/>\n    o ultra-estafan&ccedil;o-de-tudo, a absoluta sensa&ccedil;&atilde;o de o-que-h&aacute;-de-fazer-um-tipo<br \/>\n    num s&iacute;tio destes, que reinam no meu esp&iacute;rito! Encontrei um livro<br \/>\n    para ler. Estou ansioso por voltar para Lisboa; penso contudo que ainda terei<br \/>\n    de ficar aqui mais uns tr&ecirc;s dias. <\/p>\n<p>O Alentejo visto do comboio <\/p>\n<p>Nada com nada em sua volta<br \/>\n    E algumas &aacute;rvores no meio,<br \/>\n    Nenhuma das quais claramente verde,<br \/>\n    Onde n&atilde;o h&aacute; vista de rio ou de flor. <br \/>\n    Se h&aacute; um inferno, eu encontrei-o,<br \/>\n    Pois se n&atilde;o est&aacute; aqui, onde Diabo estar&aacute;? <\/p>\n<p align=\"right\">Passa bem, &oacute; tu <\/p>\n<p align=\"right\">F. Nogueira Pess&ocirc;a <\/p>\n<p align=\"right\">P.S. N&atilde;o me escrevas para Portalegre. Poderei j&aacute;<br \/>\n    aqui n&atilde;o estar. Espera o meu regresso a Lisboa. A&iacute; falaremos<br \/>\n    ent&atilde;o. <\/p>\n<p><b>Notas explicativas carta n&ordm; 5<\/b><\/p>\n<p> A carta &eacute; dirigida a Armando Teixeira Rebelo, um dos primeiros amigos<br \/>\n    que Pessoa teve em Lisboa. Seu condisc&iacute;pulo no Curso Superior de Letras<br \/>\n    e, mais tarde, seu compadre ( Pessoa foi padrinho da filha de Teixeira Rebelo,<br \/>\n    Signa, com quem manteve tamb&eacute;m rela&ccedil;&otilde;es at&eacute; o<br \/>\n    fim da vida), o destinat&aacute;rio acompanhou-o sempre na sua amizade. O<br \/>\n    fato de ter tido tamb&eacute;m uma forma&ccedil;&atilde;o anglo-sax&ocirc;nica<br \/>\n    ( fora educado em Pret&oacute;ria) muito deve ter contribu&iacute;do para<br \/>\n    a aproxima&ccedil;&atilde;o entre os dois. Conforme testemunha D. Signa Os&oacute;rio<br \/>\n    Teixeira Rebelo, o pai, a m&atilde;e (Beatriz Os&oacute;rio, que fora igualmente<br \/>\n    condisc&iacute;pula dos dois amigos no Curso Superior de Letras) e Fernando<br \/>\n    Pessoa conversavam os tr&ecirc;s sempre em ingl&ecirc;s. <\/p>\n<p>A ida a Portalegre e as dilig&ecirc;ncias a&iacute; feitas por Pessoa prendem-se<br \/>\n    com a compra de m&aacute;quinas para a Tipografia &Iacute;bis, que o poeta<br \/>\n    resolvera instalar em Lisboa e na qual investiu o dinheiro da heran&ccedil;a<br \/>\n    da sua av&oacute; Dion&iacute;sia. <\/p>\n<p>Transcrevemos a tradu&ccedil;&atilde;o que acompanha a publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do original ingl&ecirc;s por Jo&atilde;o Gaspar Sim&otilde;es. Fernando Pessoa<br \/>\n    &#8211; Correspond&ecirc;ncia 1905-1922 &#8211; Editora Companhia das Letras <\/p>\n<h2>\u00c0 Augustine Ormond, de 27\/11\/1909<\/h2>\n<p>November 27th 1909. <\/p>\n<p>My dear Ormond, <\/p>\n<p>Having fortunately attained the conclusion of your petulant composition,<br \/>\n    the main intention of wich is to disprove that which has been proved disproved,<br \/>\n    I have thence drawn the felicitous inference that the sooner a termination<br \/>\n    is put to this asinine discussion, the better it will be for the stability<br \/>\n    of our intellects. Most controversies are agreeable and even refreshing to<br \/>\n    the concerned minds, the exertion of striving for the superiority calling<br \/>\n    forth all the unexercised powers of the brain, but when they fall into inanity<br \/>\n    or rise to the most crass obscurity, they are more apt to nebulate the mind<br \/>\n    and procure ridicule on the reasoning powers of the various antagonists. In<br \/>\n    our inapposite strife after a supreme style, to which the subject-matter has<br \/>\n    been entirely sacrified, we have at last reached a point when all sight is<br \/>\n    lost of our original object, as well as of the motives wich prompted us to<br \/>\n    enter the lists of argument in this idiotic garb. In other words, our adverse<br \/>\n    reasons and beliefs, formulated in the most abstruse and unpleasant language,<br \/>\n    glare but do not burn, astonish but do not convince. Henceforth, my dear Ormond,<br \/>\n    be it our laudable aim to exercise our brains in the manner you have suggested,<br \/>\n    rather than dry them by the passing of unauthorized remarks and sarcasms upon<br \/>\n    each other&#8217;s interests and abilities. <\/p>\n<p>Falling in with your valuable suggestion, I yesterday bettok myself to the<br \/>\n    verandah of the London Chambers, and thence sprinkled my gaze on the surrounding<br \/>\n    beauties. Being of a decided aesthetic temperament, I was rather hurt by the<br \/>\n    unbecoming symmetry of the circum ambient structures &#8211; a symmetry so contrary<br \/>\n    to the ordinary rules of Nature that I felt myself compelled to turn elsewhere<br \/>\n    for a satisfactory object on which to settle my wandering glance. There was<br \/>\n    none. The only objects made by nature that my eye could encounter were a black<br \/>\n    sky, 2 blacker kaffirs and a drop of rain blinded me for a good five minutes.<br \/>\n    After I had rejoined my normal sight, wich I did not succeed in doing without<br \/>\n    considerable trouble, since my first apparent treatment for a sore eye was<br \/>\n    to bump my head on the iron pillars that support the verandah ( D [evi] I<br \/>\n    take the architect who put it here), I brought my mind slowly back to the<br \/>\n    fact that I was there for some purpose and no less to the more distressing<br \/>\n    realization that I was drenched to the skin. I beg, therefore, that you would<br \/>\n    again not require me such a difficult undertaking, for, believe me, a sore<br \/>\n    eye, a swelled head and a darned cold are not the exact rewards I expected<br \/>\n    from Nature for my kindest attentions. <\/p>\n<p>In your ensuing epistle, I would solicit your opinions on the above subject,<br \/>\n    in the carrying out of which I have unfortunately experienced the most ungratifying<br \/>\n    checks. <\/p>\n<p align=\"right\">I remain, my dear Ormond, Yours truly ( but very sore ) <\/p>\n<p align=\"right\">F. Pess&ocirc;a <\/p>\n<h3>Tradu&ccedil;&atilde;o<\/h3>\n<p>A Augustine <\/p>\n<p>Ormond 27 de Novembro de 1909. <\/p>\n<p>Meu querido Ormond, <\/p>\n<p>Tendo felizmente chegado ao fim da tua petulante composi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    cuja principal inten&ccedil;&atilde;o &eacute; n&atilde;o provar aquilo que<br \/>\n    tem sido provado como n&atilde;o provado, tirei da&iacute; a apta conclus&atilde;o<br \/>\n    de que quanto mais depressa um ponto final for posto nesta discuss&atilde;o<br \/>\n    asinina, melhor ser&aacute; para a estabilidade dos nossos intelectos. Muitas<br \/>\n    controv&eacute;rsias s&atilde;o agrad&aacute;veis e at&eacute; refrescantes<br \/>\n    para as mentes perturbadas, j&aacute; que o exerc&iacute;cio da luta pela<br \/>\n    superioridade estimula todos os poderes n&atilde;o exercitados do c&eacute;rebro,<br \/>\n    mas quando caem na parvo&iacute;ce e levam &agrave; mais grosseira obscuridade,<br \/>\n    s&atilde;o mais pr&oacute;prias para enevoar a mente e provocar o rid&iacute;culo<br \/>\n    nos poderes racionais dos v&aacute;rios antagonistas. Na nossa despropositada<br \/>\n    contenda segundo um estilo superior, ao qual o tema tem sido inteiramente<br \/>\n    sacrificado, conseguimos pelo menos perder de vista o nosso objecto original,<br \/>\n    bem como os motivos que nos levaram a introduzir as listas de argumentos neste<br \/>\n    traje idiota. Por outras palavras, as nossas raz&otilde;es e opini&otilde;es<br \/>\n    contr&aacute;rias, formuladas na mais abstrusa e desagrad&aacute;vel linguagem,<br \/>\n    brilham mas n&atilde;o queimam, espantam mas n&atilde;o convencem. <\/p>\n<p>Que, daqui para a frente, meu querido Ormond, o nosso louv&aacute;vel objectivo<br \/>\n    seja exercitar os nossos c&eacute;rebros da maneira que sugeriste, em vez<br \/>\n    de os secar com o uso de desautorizadas observa&ccedil;&otilde;es e sarcasmos<br \/>\n    sobre os interesses e capacidades um do outro. <\/p>\n<p>Aceitando a tua preciosa sugest&atilde;o, dirigi-me ontem &agrave; varanda<br \/>\n    da c&acirc;mara de Londres e dei ent&atilde;o uma vista de olhos pelas belezas<br \/>\n    circundantes. Sendo de um temperamento est&eacute;tico decidido, fiquei logo<br \/>\n    chocado com a deficiente simetria das estruturas &agrave; volta &#8211; uma simetria<br \/>\n    t&atilde;o contr&aacute;ria &agrave;s regras usuais da Natureza que me senti<br \/>\n    levado a procurar algures um objecto satisfat&oacute;rio no qual pudesse fixar<br \/>\n    o meu olhar vagabundo. N&atilde;o havia nenhum. Os &uacute;nicos feitos pela<br \/>\n    natureza que os meus olhos puderam encontrar foram um c&eacute;u negro, 2<br \/>\n    kafires ainda mais negros e umas gotas de chuva que me cegaram durante uns<br \/>\n    bons cinco minutos. Depois de recuperar a minha vis&atilde;o normal, o que<br \/>\n    s&oacute; consegui com um esfor&ccedil;o consider&aacute;vel, j&aacute; que<br \/>\n    o meu primeiro aparente tratamento para um olho magoado foi bater com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    num dos pilares de ferro que suportavam a varanda (Diabos levem o arquiteto<br \/>\n    que o l&aacute; p&ocirc;s), consegui lentamente lembrar-me de que estava ali<br \/>\n    com um prop&oacute;sito qualquer e n&atilde;o para verificar penosamente que<br \/>\n    estava encharcado at&eacute; aos ossos. Pe&ccedil;o-te, por isso, que n&atilde;o<br \/>\n    voltes a pedir-me t&atilde;o dif&iacute;cil empresa, pois, acredita, um olho<br \/>\n    magoado, uma cabe&ccedil;a inchada e uma est&uacute;pida constipa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o exactamente as recompensas que eu esperava da Natureza<br \/>\n    para as minhas am&aacute;veis aten&ccedil;&otilde;es. Na tua pr&oacute;xima<br \/>\n    carta, solicito as tuas opini&otilde;es acerca do assunto acima, no cumprimento<br \/>\n    do qual experimentei infelizmente os mais desagrad&aacute;veis reveses. <\/p>\n<p align=\"right\">Sou, meu querido Ormond <\/p>\n<p align=\"right\">Sinceramente teu (mais muito magoado) <\/p>\n<p align=\"right\">F. Pess&ocirc;a <\/p>\n<p><b>Notas explicativas carta n&ordm; 6<\/b><\/p>\n<p> O destinat&aacute;rio, Augustine Ormond, fora antigo condisc&iacute;pulo<br \/>\n    de Pessoa em Durban. Ao seu testemunho muito se deve do (escasso) conhecimento<br \/>\n    da inf&acirc;ncia e adolesc&ecirc;ncia do poeta na &Aacute;frica do Sul. Os<br \/>\n    dois ter-se-&atilde;o correspondido durante cerca de vinte anos, at&eacute;<br \/>\n    a Grande Guerra, e, segundo depoimento da filha de Ormond, a perda do contato<br \/>\n    deveu-se certamente &agrave; ida do pai para a Austr&aacute;lia (Jennings,<br \/>\n    op. cit.) No rascunho da carta, o autor considerou a hip&oacute;tese de alterar<br \/>\n    a palavra &quot;adverse&quot; (linha 15 ) para conflicting (conflituosas)<br \/>\n    e &quot;sarcasms&quot; (linha 20 ) para &quot;ironies&quot; (ironias). <\/p>\n<h2><a name=\"6\">A Editora Inglesa<\/a><\/h2>\n<p>Lisbon, 2nd June, 1906 <br \/>\n    Rua S&atilde;o Bento, 98 2&ordm; andar <\/p>\n<p>Sir, <\/p>\n<p>Having often remarked in the spare pages of the cheap editions you publish,<br \/>\n    a brief statement of the object of your association, and holding that object<br \/>\n    to be meritorious, I should very much desire, if possible, to become a member.<br \/>\n    But, as I Know the conditions of membership only from the earlier of your<br \/>\n    publications, such as Laing&#8217;s exposition of modern science and thought, and<br \/>\n    having moreover not been in connection with England in regard to current literature<br \/>\n    for almost a year, during which, for all I know, you may have made changes<br \/>\n    in your organization. I beg to apply herein for as full particulars as you<br \/>\n    can give me. <\/p>\n<p align=\"right\">Your faithfully <br \/>\n    C. R. Anon <\/p>\n<p align=\"right\">\n    Awaiting your decision<\/p>\n<h2>Tradu&ccedil;&atilde;o<\/h2>\n<p>Exm.&ordm; Senhor, <\/p>\n<p>Tendo v&aacute;rias vezes notado, nas p&aacute;ginas livres das edi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    baratas que publica, uma breve exposi&ccedil;&atilde;o acerca do objecto da<br \/>\n    vossa associa&ccedil;&atilde;o, e considerando esse objecto merit&oacute;rio,<br \/>\n    gostaria muito, se poss&iacute;vel, de me tornar s&oacute;cio. Mas como sei<br \/>\n    as condi&ccedil;&otilde;es para me tornar s&oacute;cio apenas pelas primeiras<br \/>\n    das suas publica&ccedil;&otilde;es, como a obra de Laing sobre a ci&ecirc;ncia<br \/>\n    e pensamento modernos, e n&atilde;o estando, al&eacute;m disso, em contacto<br \/>\n    com a Inglaterra, no que diz respeito &agrave; literatura corrente, h&aacute;<br \/>\n    quase um ano, durante o qual, tanto quanto sei, devem ter sido feitas algumas<br \/>\n    altera&ccedil;&otilde;es na vossa organiza&ccedil;&atilde;o, venho solicitar-lhe<br \/>\n    as informa&ccedil;&otilde;es mais detalhadas que puder dar-me. <\/p>\n<p align=\"right\">Com a maior considera&ccedil;&atilde;o <br \/>\n    C. R. Anon <br \/>\n    Aguardando sua decis&atilde;o <\/p>\n<p><b>Notas explicativas carta n&ordm; 3<\/b><\/p>\n<p> A refer&ecirc;ncia &agrave; falta de contato com a literatura inglesa &quot;<br \/>\n    h&aacute; quase um ano&quot; tem a ver com o fato de Pessoa ter regressado<br \/>\n    a Portugal para estudar no Curso Superior de Letras, deixando o resto da fam&iacute;lia<br \/>\n    na &Aacute;frica do Sul. A assinatura usada, a do seu primeiro duplo ingl&ecirc;s,<br \/>\n    mostra ainda uma &iacute;ntima liga&ccedil;&atilde;o com o mundo anglo-sax&ocirc;nico.<br \/>\n    De resto, as produ&ccedil;&otilde;es de Charles Robert Anon denunciam, como<br \/>\n    se afirma na nota &agrave; sua primeira carta ( n&ordm; 1), uma forte e umbilical<br \/>\n    liga&ccedil;&atilde;o entre esta personalidade liter&aacute;ria e o seu jovem<br \/>\n    criador: o mesmo sentido de humor, a mesma tend&ecirc;ncia para intervir socialmente<br \/>\n    em prol de causas justas, o mesmo gosto pela poesia e pela filosofia. Fernando<br \/>\n    Pessoa &#8211; Correspond&ecirc;ncia 1905-1922 Editora Companhia das Letras Carta<br \/>\n    n&deg; 3 <\/p>\n<h2><a name=\"7\">\u00c0 Entreprise Luvisy, de 19\/06\/1906<\/a><\/h2>\n<p>Lisbonne, le 9 juin,1906. Entreprise G&eacute;n&eacute;rale <\/p>\n<p>Luvisy, <br \/>\n    S. et O. <br \/>\n    France. <br \/>\n    Messieurs, <\/p>\n<p>Ayant vu votre annonce au jornal de Lisbonne &quot; O Di&aacute;rio de Not&iacute;cias&quot;,<br \/>\n    j&#8217;ai l&#8217;honneur de demander des renseignements sur la position que vous offrez.\n  <\/p>\n<p>Je serais tr&egrave;s content de d&eacute;dier mon loisir, qui d&#8217;ailleurs<br \/>\n    n&#8217;est pas petit, &agrave; votre enterprise; mais je ne puis rien dire ni rien<br \/>\n    promettre l&agrave;-dessus, avant de savoir nettement l&#8217;object de votre campagne<br \/>\n    et les conditions s&#8217;il y en a. <\/p>\n<p>J&#8217;esp&egrave;re, n&eacute;anmoins, une r&eacute;ponse favorable. Aussi ne<br \/>\n    faut-il prendre ces expressions pour des doutes sur quelque chose de votre<br \/>\n    part, mais bien autrement sur ma capabilit&eacute; de remplir la position<br \/>\n    offerte par vous. <\/p>\n<p align=\"right\">Veuillez agr&eacute;er, Messieurs, <\/p>\n<p align=\"right\">l&#8217; assurance de sinc&egrave;res <br \/>\n    F. Pess&ocirc;a <\/p>\n<h3>Tradu&ccedil;&atilde;o<\/h3>\n<p>Exmos. Senhores, <\/p>\n<p>Tendo visto o vosso an&uacute;ncio no jornal de Lisboa &quot; O Di&aacute;rio<br \/>\n    de Not&iacute;cias&quot;, tenho a honra de pedir informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre a posi&ccedil;&atilde;o que oferecem. <\/p>\n<p>Ficaria muito satisfeito de dedicar o meu tempo livre, que, ali&aacute;s,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; pouco, &agrave; vossa empresa; mas n&atilde;o posso dizer<br \/>\n    nem prometer nada, antes de saber claramente o objecto da vossa campanha e<br \/>\n    as condi&ccedil;&otilde;es, se as houver. <\/p>\n<p>Espero, no entanto, uma resposta favor&aacute;vel. Neste caso, n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute; preciso tomar estas express&otilde;es como d&uacute;vidas sobre<br \/>\n    algo da vossa parte, mas sim sobre a minha capacidade para preencher a posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por v&oacute;s oferecida. <\/p>\n<p align=\"right\">Queiram aceitar, <\/p>\n<p align=\"right\">Exmos. Senhores, <\/p>\n<p align=\"right\">os meus mais sinceros <br \/>\n    F. Pess&ocirc;a <\/p>\n<p><b>Notas explicativas carta n&ordm; 4<\/b><\/p>\n<p> N&atilde;o foi encontrado o an&uacute;ncio do Di&aacute;rio de Not&iacute;cias<br \/>\n    a que alude a carta. A menos que se trate de uma fic&ccedil;&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel que se reporte a um an&uacute;ncio de uma Ag&ecirc;ncia intermedi&aacute;ria,<br \/>\n    que, depois de contratada, forneceria o nome e a morada do principal anunciante.<\/p>\n<h2><a name=\"8\">&Agrave; Fernando Pessoa, 02\/01\/1985 &#8211; Jorge Luis Borges<\/a><\/h2>\n<p>02-01-1985 <\/p>\n<p>&quot;Nada te costo renunciar a las escuelas y a las dogmas, las vanidosas<br \/>\n    figuras de rotorica y la tarea insistente de representar un pa&iacute;s, una<br \/>\n    clase o una epoca. <\/p>\n<p>Seguro nunca pensaste en tu lugar en la historia de la literatura. tengo<br \/>\n    la seguridad que los homenages sonoros te espantan, que te espantan tanto<br \/>\n    que va directo a tu corazon. <\/p>\n<p>Eres hoy el poeta de Portugal, alguien pronunciara inevitablemente el nombre<br \/>\n    de Camoes.<br \/>\n    Escribiste para ti, no para la gloria&#8230;Dejame ser tu amigo !!!!&quot; <\/p>\n<p>Jorge Luis Borges<\/p>\n<h2>&Agrave; Jo\u00e3o Gaspar Sim\u00f5es (Livro do Desassossego), de 28\/07\/1932<\/h2>\n<p>(em 28 de Julho de 1932) <\/p>\n<p>(&#8230;) <\/p>\n<p>Estou comecando &#8211; lentamente, porque n&atilde;o &eacute; coisa que possa<br \/>\n    fazer-se com rapidez &#8211; a classificar e rever os meus pap&eacute;is; isto com<br \/>\n    o fim de publicar, para fins do ano em que estamos, um ou dois livros. Ser&atilde;o<br \/>\n    provavelmente ambos em verso, pois n&atilde;o conto poder preparar qualquer<br \/>\n    outro t&atilde;o depressa, entendendo-se preparar de modo a ficar como eu<br \/>\n    quero. <\/p>\n<p>Primitivamente, era minha intenc&atilde;o comecar as minhas publica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    por tr&ecirc;s livros, na ordem seguinte: (1) Portugal, que &eacute; um livro<br \/>\n    pequeno de poemas (tem 41 ao todo), de que o Mar Portugu&ecirc;s (Contempor&acirc;nea<br \/>\n    4) &eacute; a segunda parte; (2) Livro do Desassosego (Bernardo Soares, mas<br \/>\n    subsidiariamente, pois que o B. S. n&atilde;o &eacute; um heter&oacute;nimo,<br \/>\n    mas uma personalidade liter&aacute;ria); (3) Poemas Completos de Alberto Caeiro<br \/>\n    (com o pref&aacute;cio de Ricardo Reis, e, em posf&aacute;cio, as Notas para<br \/>\n    a Recordac&atilde;o do &Aacute;lvaro de Campos). Mais tarde, no outro ano,<br \/>\n    seguiria, s&oacute; ou com qualquer livro, Cancioneiro (ou outro t&iacute;tulo<br \/>\n    igualmente inexpressivo), onde reuniria (em Livros I a III ou I a V) v&aacute;rios<br \/>\n    dos muitos poemas soltos que tenho, e que s&atilde;o por natureza inclassific&aacute;veis<br \/>\n    salvo de essa maneira inexpressiva. <\/p>\n<p>Sucede, por&eacute;m, que o Livro do Desassossego tem muita coisa que equilibrar<br \/>\n    e rever, n&atilde;o podendo eu calcular, decentemente, que me leve menos de<br \/>\n    um ano a faz&ecirc;-lo. E, quanto ao Caeiro, estou indeciso. (&#8230;) <\/p>\n<h2><a name=\"9\">&Agrave; mem\u00f3ria de Fernando Pessoa, 07\/1936<\/a><\/h2>\n<p>Carta &agrave; mem&oacute;ria de Fernando Pessoa, Julho de 1936 <\/p>\n<p>(extractos): <\/p>\n<p>Meu querido Fernando: Imagina voc&ecirc; a falta que nos faz? Ainda h&aacute;<br \/>\n    poucos dias, numa rua onde par&aacute;mos a falar de si, o Almada me disse:<br \/>\n    O Fernando faz muita, muita falta! Na m&aacute;goa deste desabafo, pareceu-me<br \/>\n    reconhecer a mesma inconfessada sensa&ccedil;&atilde;o que a sua aus&ecirc;ncia,<br \/>\n    algumas vezes, me d&aacute;: a de ter feito uma partida que os seus amigos<br \/>\n    n&atilde;o mereciam. Quase apetece acus&aacute;-lo, gritar &agrave; sua mem&oacute;ria:<br \/>\n    Voc&ecirc; n&atilde;o tinha o direito de nos deixar t&atilde;o cedo! Mas o<br \/>\n    seu mestre Caeiro &eacute; quem tinha raz&atilde;o: Passa a &aacute;rvore<br \/>\n    e fica dispersa pela Natureza. <\/p>\n<p>Murcha a flor e o seu p&oacute; dura sempre. <br \/>\n    Corre o rio e entra no mar<br \/>\n    e a sua &aacute;gua &eacute; sempre a que foi sua. <br \/>\n    Passo e fico, como o Universo. <\/p>\n<p>Na verdade, a fixa&ccedil;&atilde;o da nossa presen&ccedil;a f&iacute;sica,<br \/>\n    seja em que forma for, &eacute; o que tem menos import&acirc;ncia; e vem da&iacute;,<br \/>\n    por certo, o enorme esfor&ccedil;o que tenho de fazer para recordar a sua.<br \/>\n    N&atilde;o sei que n&eacute;voa me afasta da pr&oacute;xima realidade dela.<br \/>\n    &Eacute; uma imagem embaciada, talvez pela comovida lembran&ccedil;a da sua<br \/>\n    delicad&iacute;ssima discri&ccedil;&atilde;o. O Fernando passou por aqui em<br \/>\n    bicos de p&eacute;s, coerente com o conselho dado &agrave;s companheiras por<br \/>\n    uma das veladoras do seu &quot;Marinheiro&quot;: &#8211; N&atilde;o rocemos pela<br \/>\n    vida nem a orla das nossas vestes. <\/p>\n<p>Em nada do que voc&ecirc; usava se reflectia a f&uacute;til premedita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de exibicionismo. No entanto, toda a sua vulgar&iacute;ssima indument&aacute;ria,<br \/>\n    desde o chap&eacute;u aos sapatos, era, n&atilde;o sei porqu&ecirc;, espantosamente<br \/>\n    diversa da de toda a gente. Sei l&aacute; que tinha? Uma express&atilde;o<br \/>\n    inconfund&iacute;vel, um jeito especial&iacute;ssimo, dado por si, sem querer.\n  <\/p>\n<p>Os seus gestos nervosos, mas pl&aacute;sticos e cheios de correc&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    acompanhavam sempre o ritmo do mon&oacute;logo, como a quererem rimar com<br \/>\n    todas as palavras. De quando em quando, pequenos risos (risinhos, &eacute;<br \/>\n    que diz bem), de crian&ccedil;a triste a quem fazem c&oacute;cegas, vinham<br \/>\n    festejar, alegremente, as descobertas do esp&iacute;rito &#8211; suas ou alheias,<br \/>\n    porque o Fernando n&atilde;o sabia reprimir o prazer que lhe causava a gra&ccedil;a<br \/>\n    ou a simples alegria dos seus amigos. <\/p>\n<p>A sua ironia, tamb&eacute;m de qualidade sui generis, era aguda, intencional,<br \/>\n    oportuna, mas sempre delicada e transparente, sem crueldades felinas. Nunca<br \/>\n    ouvi ningu&eacute;m queixar-se de ter sido atingido por ela, nem assisti a<br \/>\n    que fizesse, na susceptibilidade de quem quer que fosse, a mais leve arranhadura.<br \/>\n    Era como aqueles gatos de boa ra&ccedil;a que metem as unhas para dentro,<br \/>\n    quando brincam&#8230; <\/p>\n<p>No acaso dos di&aacute;logos &#8211; aos quais nunca impunha, ditatorialmente,<br \/>\n    a direc&ccedil;&atilde;o do seu esp&iacute;rito -, esperava que coubesse aos<br \/>\n    outros a sua vez de falarem para os escutar com aten&ccedil;&atilde;o. Por&eacute;m,<br \/>\n    no seu olhar, lia-se qualquer coisa parecido com o receio de que o supusessem<br \/>\n    perscrutador. <\/p>\n<p>O seu discreto temperamento ajudava-nos pouco o desejo de lhe fazermos qualquer<br \/>\n    pergunta mais familiar, mais &iacute;ntima. Como inquirir-lhe da sa&uacute;de,<br \/>\n    sem ter medo de mago&aacute;-lo em qualquer parte da alma? Era dif&iacute;cil,<br \/>\n    sabe? Quanto mais perguntar-lhe: Que faz esta noite? Aparece amanh&atilde;?<br \/>\n    Chegava a ter a impress&atilde;o de devassar-lhe a intimidade, quando o encontrava,<br \/>\n    &agrave;s vezes, na rua&#8230; <\/p>\n<p>Quando ia s&oacute;, ou como se o fosse, apesar de n&atilde;o ser o que se<br \/>\n    chama, em linguagem dom&eacute;stica, um abstracto ou distra&iacute;do (pois<br \/>\n    a sua aten&ccedil;&atilde;o, por mais repartida que estivesse, era sempre<br \/>\n    suficiente para apreender o que se passava &agrave; sua volta), costumava<br \/>\n    aflorar aos seus l&aacute;bios estreitos o sorriso de quem l&ecirc; uma carta<br \/>\n    confidencial, amiga e interessante. <br \/>\n    Nada em si afastava quem o procurasse; antes pelo contr&aacute;rio &#8211; a n&atilde;o<br \/>\n    ser, a alguns dos mais orgulhosos ou t&iacute;midos dos seus amigos, a certeza<br \/>\n    de que voc&ecirc; era incapaz, sem fortes raz&otilde;es justificadas, de procurar<br \/>\n    fosse quem fosse. <\/p>\n<p>O seu sentimento de intimidade n&atilde;o era fruto de ego&iacute;smo nem<br \/>\n    de vulgar misantropia: era-o, sim, do profundo respeito que o Fernando tinha<br \/>\n    por si pr&oacute;prio e pelo que nos outros estimava que tamb&eacute;m fosse<br \/>\n    respeit&aacute;vel. Da&iacute;, a impossibilidade de abrir &agrave; curiosidade<br \/>\n    dos seus mais ass&iacute;duos companheiros uma fresta por onde pudessem espreitar<br \/>\n    a sua vida sentimental: <\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o h&aacute; quem saiba se eu gosto de ti ou n&atilde;o porque<br \/>\n    eu n&atilde;o fiz de ningu&eacute;m confidente sobre o assunto.&raquo; Esta<br \/>\n    frase, cujas palavras sublinhadas o foram por si, &eacute; de uma das primeiras<br \/>\n    cartas que o Fernando dirigiu &agrave;quela a quem escreveu nove anos mais<br \/>\n    tarde: &laquo;&#8230; Se casar, n&atilde;o casarei sen&atilde;o consigo. Resta<br \/>\n    saber se o casamento, o lar (ou o que quer que lhe queiram chamar) s&atilde;o<br \/>\n    coisas que se coadunem com a minha vida de pensamento.&raquo; <br \/>\n    As suas cartas de amor! Porque voc&ecirc; amou, Fernando, deixe-me diz&ecirc;-lo<br \/>\n    a toda a gente. Amou e &#8211; o que &eacute; extraordin&aacute;rio &#8211; como se n&atilde;o<br \/>\n    fosse poeta. Na evidente espontaneidade dessas cartas, que o Destino quis<br \/>\n    p&ocirc;r nas minhas m&atilde;os, n&atilde;o se encontra um vest&iacute;gio<br \/>\n    de premedita&ccedil;&atilde;o formal, de volunt&aacute;ria intelectualidade.\n  <\/p>\n<p>Que admir&aacute;vel exemplo de humana integra&ccedil;&atilde;o no organismo<br \/>\n    da Vida! L&ecirc;-se qualquer delas &#8211; escolhida, ao acaso, entre as dezenas<br \/>\n    que a totalidade constitui &#8211; e logo nos ocorre esta pergunta, forrada de espanto:<br \/>\n    Como teria sido poss&iacute;vel ao mais poeta dos homens e ao mais intelectual<br \/>\n    dos poetas portugueses (e, aqui, a palavra portugueses tem uma import&acirc;ncia<br \/>\n    muito especial) libertar a tal ponto o cora&ccedil;&atilde;o da literatura?!<br \/>\n    (&#8230;) <\/p>\n<p>Boa noite, Fernando. N&atilde;o preciso dizer-lhe que sinto, nem por que<br \/>\n    sinto saudades suas. Mas n&atilde;o lhe pe&ccedil;o que volte. Que temos aqui,<br \/>\n    que possa interess&aacute;-lo ou, o que &eacute; mais triste, merec&ecirc;-lo?<br \/>\n    N&atilde;o temos nada, bem sabe, de que voc&ecirc; n&atilde;o conhe&ccedil;a<br \/>\n    j&aacute; melhor do que n&oacute;s, o vazio sem fundo, a mentira sem rem&eacute;dio,<br \/>\n    a tr&aacute;gica inutilidade&#8230; <\/p>\n<p>O Amigo, de Carlos Queir&oacute;z <\/p>\n<h2><a name=\"10\">Ao Di\u00e1rio de Not\u00edcias, de 04\/06\/1915<\/a><\/h2>\n<p>A.C. Lisboa, 4 de Junho de 1915 <\/p>\n<p>Exmo. Senhor Director do &quot;Di&aacute;rio de Not&iacute;cias&quot;, <\/p>\n<p>E\/V. <\/p>\n<p>Regressado ontem a Lisboa, s&oacute; ent&atilde;o tive ocasi&atilde;o de<br \/>\n    ler uma cr&iacute;tica, h&aacute; poucos dias publicada no jornal que V.Exa<br \/>\n    proficientemente dirige, ao extraordin&aacute;rio livro do sr. M&aacute;rio<br \/>\n    de S&aacute;-Carneiro, meu ilustre camarada do &quot;Orpheu&quot;. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; &agrave; cr&iacute;tica que me quero referir, porque<br \/>\n    ningu&eacute;m pode esperar ser compreendido antes que os outros aprendam<br \/>\n    a l&iacute;ngua em que fala. Repontar com isso seria, al&eacute;m de absurdo,<br \/>\n    ind&iacute;cio de um grave desconhecimento da hist&oacute;ria liter&aacute;ria,<br \/>\n    onde os g&eacute;nios inovadores foram sempre, quando n&atilde;o tratados<br \/>\n    como doidos (como Verlaine e Mallarm&eacute;), tratados como parvos (como<br \/>\n    Wordsworth, Keats e Rossetti) ou como, al&eacute;m de parvos, inimigos da<br \/>\n    p&aacute;tria, da religi&atilde;o e da moralidade, como aconteceu a Antero<br \/>\n    de Quental, sobretudo nos significativos panfletos de Jos&eacute; Feliciano<br \/>\n    de Castilho, que, ali&aacute;s, n&atilde;o era nenhum idiota. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; a isto que me quero referir. O que quero acentuar, acentuar<br \/>\n    bem, acentuar muito bem, &eacute; que &eacute; preciso que cesse a trapalhada,<br \/>\n    que a ignor&acirc;ncia dos nossos cr&iacute;ticos est&aacute; fazendo, com<br \/>\n    a palavra futurismo. Falar em futurismo, quer a prop&oacute;sito do 1&ordm;<br \/>\n    n&ordm; de &quot;Orpheu&quot;, quer a prop&oacute;sito do livro do sr. S&aacute;-Carneiro,<br \/>\n    &eacute; a cousa mais disparatada que se pode imaginar. Nenhum futurista tragaria<br \/>\n    o &quot;Orpheu&quot;. O &quot;Orpheu&quot; seria, para um futurista, uma lament&aacute;vel<br \/>\n    demonstra&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito obscurantista e reaccion&aacute;rio.\n  <\/p>\n<p>A atitude principal do futurismo &eacute; a Objectividade Absoluta, a elimina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    da arte, de tudo quanto &eacute; alma, quanto &eacute; sentimento, emo&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    lirismo, subjectividade em suma. O futurismo &eacute; din&acirc;mico e anal&iacute;tico<br \/>\n    por excel&ecirc;ncia. Ora se h&aacute; cousa que [seja] t&iacute;pica do Interseccionismo<br \/>\n    (tal &eacute; o nome do movimento portugu&ecirc;s) &eacute; a subjectividade<br \/>\n    excessiva, a s&iacute;ntese levada ao m&aacute;ximo, o exagero da atitude<br \/>\n    est&aacute;tica. &quot;Drama est&aacute;tico&quot;, mesmo, se intitula uma<br \/>\n    pe&ccedil;a, inserta no 1&ordm; n&uacute;mero do &quot;Orpheu&quot;, do Sr.<br \/>\n    Fernando Pessoa. E o t&eacute;dio, o sonho, a abstrac&ccedil;&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    as atitudes usuais dos poetas meus colegas naquela brilhante revista. <\/p>\n<p>A C&eacute;sar o que &eacute; de C&eacute;sar. Aos Interseccionistas, chame-se<br \/>\n    interseccionistas. Ou chame-se-lhes pa&uacute;licos, se se quiser. Esse termo,<br \/>\n    ao menos, caracteriza-os, distinguindo-os de outra qualquer escola. Englobar<br \/>\n    os colaboradores do &quot;Orpheu&quot; no futurismo &eacute; nem sequer saber<br \/>\n    dizer disparates, o que &eacute; lamentabil&iacute;ssimo. <\/p>\n<p>No 2&ordm; n&uacute;mero do &quot;Orpheu&quot; vir&aacute; colabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    realmente futurista, &eacute; certo. Ent&atilde;o se poder&aacute; ver a diferen&ccedil;a,<br \/>\n    se bem que seja, n&atilde;o liter&aacute;ria, mas pictural essa colabora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    S&atilde;o quatro quadros que emanam da alta sensibilidade moderna do meu<br \/>\n    amigo Santa Rita Pintor.<br \/>\n    At&eacute; aqui tenho falado em geral, mais pelos meus colegas do que por<br \/>\n    mim. O meu caso &eacute; diferente. Permita-me V.Exa que me refira a ele.\n  <\/p>\n<p>A minha Ode Triunfal, no 1&ordm; n&uacute;mero do &quot;Orpheu&quot;, &eacute;<br \/>\n    a &uacute;nica cousa que se aproxima do futurismo. Mas aproxima-se pelo assunto<br \/>\n    que me inspirou, n&atilde;o pela realiza&ccedil;&atilde;o &#8211; e em arte a forma<br \/>\n    de realizar &eacute; que caracteriza e distingue as correntes e as escolas.\n  <\/p>\n<p>Eu, de resto, nem sou interseccionista (ou pa&uacute;lico) nem futurista.<br \/>\n    Sou eu, apenas eu, preocupado apenas comigo e com as minhas sensa&ccedil;&otilde;es.\n  <\/p>\n<p>Espero da lealdade jornal&iacute;stica de V.Exa a inser&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desta carta em lugar onde pelo menos os jornalistas a leiam. Na impossibilidade<br \/>\n    de fazer os nossos cr&iacute;ticos compreender, tentemos ao menos lev&aacute;-los<br \/>\n    a fingir que compreendem. <\/p>\n<p align=\"center\">De V. Exa<br \/>\n    Cdo. Venr. e Obgdo.<br \/>\n    &Aacute;LVARO DE CAMPOS<br \/>\n    engenheiro e poeta sensacionista <\/p>\n<h2><a name=\"11\">Ao Museu-Biblioteca Castro de Guimar\u00e3es em Cascais, de 16\/09\/1932<\/a><\/h2>\n<p>Trecho da Carta requerendo o lugar de conservador-bibliotec&aacute;rio <\/p>\n<p>Museu-Biblioteca Castro de Guimar&atilde;es em Cascais <\/p>\n<p>Exma. Comiss&atilde;o Administrativa do Museu-Biblioteca Conde de Castro<br \/>\n    Guimar&atilde;es <\/p>\n<p>Fernando Nogueira Pessoa, solteiro, maior, escritor, residente em Lisboa,<br \/>\n    na Rua Coelho da Rocha, n&uacute;mero dezasseis, primeiro andar, e provis&ograve;riamente<br \/>\n    em Cascais, na Rua Oriental do Passeio, porta dois, vem concorrer perante<br \/>\n    V.Exa ao lugar de conservador do Museu-Biblioteca Conde de Castro Guimar&atilde;es,<br \/>\n    com os fundamentos seguintes, expostos no termo do artigo 6&ordm; e seus &sect;&sect;,<br \/>\n    do Regulamento do Museu-Biblioteca, conforme est&atilde;o transcritos no an&uacute;ncio<br \/>\n    inserto em O S&eacute;culo, de Lisboa, do dia 1 do m&ecirc;s corrente. <\/p>\n<p>O requerente tem 44 anos de idade, &eacute; natural de Lisboa, freguesia<br \/>\n    dos M&aacute;rtires, e filho leg&iacute;timo de Joaquim Seabra Pessoa e de<br \/>\n    D. Maria Madalena Nogueira Pessoa, ambos j&aacute; falecidos. N&atilde;o junta<br \/>\n    certid&atilde;o de idade, nem, ali&aacute;s, certid&atilde;o de registo criminal,<br \/>\n    por o citado artigo 6&ordm; e seus &sect;&sect; n&atilde;o exigirem, nem explicita<br \/>\n    nem impl&igrave;citamente, outros documentos que n&atilde;o sejam os rigorosamente<br \/>\n    precisos para apreciar a afirma&ccedil;&atilde;o das habilita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    neles indicadas, como motivos de prefer&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>S&atilde;o as seguintes as habilita&ccedil;&otilde;es do requerente, expostas<br \/>\n    nos termos do citado artigo e seus &sect;&sect;, pela ordem dos mesmos &sect;&sect;,<br \/>\n    e com o apoio documental que ir&aacute; sendo indicado no decurso da presente<br \/>\n    exposi&ccedil;&atilde;o: <\/p>\n<p>&sect; 1 &#8211; O requerente tem o Curso ou Exame Interm&eacute;dio da Universidade<br \/>\n    (inglesa) do Cabo da Boa Esperan&ccedil;a, como prova com a respectiva carta.<br \/>\n    &Agrave; parte isto, foi concedido ao requerente, na mesma Universidade, o<br \/>\n    Pr&eacute;mio Rainha Vit&oacute;ria, de estilo ingl&ecirc;s, como prova com<br \/>\n    a carta oficial assinada pelo secret&aacute;rio arquivista da Universidade,<br \/>\n    em que se comunica ao requerente a concess&atilde;o do pr&eacute;mio. Juntam-se<br \/>\n    os 2 citados documentos. &sect; 3 &#8211; O requerente tem uma j&aacute; extensa<br \/>\n    colabora&ccedil;&atilde;o dispersa por v&aacute;rias revistas portuguesas,<br \/>\n    de onde se lhe adv&eacute;m o ser hoje conhecido no Pa&iacute;s, sobretudo<br \/>\n    entre as novas gera&ccedil;&otilde;es, a um ponto quase injustific&aacute;vel<br \/>\n    para quem se tem abstido de reunir em livros essa colabora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Importa talvez citar as revistas em que essa colabora&ccedil;&atilde;o foi<br \/>\n    ou mais ass&iacute;dua ou mais marcante. A &Aacute;guia (nos anos 1912 a 1914),<br \/>\n    Orpheu, Centauro, Contempor&acirc;nea, Presen&ccedil;a, Athena e Descobrimento.<br \/>\n    Foi o requerente um dos directores do Orpheu, e dirigiu, conjuntamente com<br \/>\n    o pintor Ruy Vaz, a revista de arte Athena. &#8211; &Agrave; absten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do requerente de publicar livros fazem excep&ccedil;&atilde;o os quatro folhetos<br \/>\n    em verso ingl&ecirc;s que, destinados &agrave; Biblioteca do Museu- Biblioteca,<br \/>\n    acompanham o presente requerimento. <\/p>\n<p>Quanto o serem ou n&atilde;o estes escritos &quot;de reconhecido m&eacute;rito&quot;,<br \/>\n    melhor o poder&atilde;o V.Exas averiguar com perguntas casuais nos meios liter&aacute;rios<br \/>\n    e art&iacute;sticos portugueses do que o poder&aacute; demonstar, de modo<br \/>\n    realmente probante, qualquer documenta&ccedil;&atilde;o. O requerente chama,<br \/>\n    por&eacute;m, a aten&ccedil;&atilde;o de V.Exas para os dois estudos que lhe<br \/>\n    foram dedicados pelo jovem &#8211; e n&atilde;o fica mal dizer not&aacute;vel &#8211;<br \/>\n    cr&iacute;tico coimbr&atilde;o Jo&atilde;o Gaspar Sim&otilde;es, a p&aacute;gs,<br \/>\n    171 a 191 do livro Temas (Edi&ccedil;&otilde;es Presen&ccedil;a, Coimbra,<br \/>\n    1929) e a p&aacute;gs, 164 a 193 do livro O Mist&eacute;rio da Poesia (Coimbra,<br \/>\n    Imprensa da Universidade, 1931), assim como para o que do requerente diz Pierre<br \/>\n    Hourcade no artigo Panorama du Modernisme Litt&eacute;raire ao Portugal inserto<br \/>\n    no n&uacute;mero de Janeiro-Maio (n&ordm;1.2) do Bulletin des &Eacute;tudes<br \/>\n    Portugaises, publicados pela Imprensa da Universidade de Coimbra e pelo Institut<br \/>\n    Fran&ccedil;ais au Portugal. Quanto a opini&otilde;es, presumivelmente autorizadas,<br \/>\n    sobre os versos ingleses do requerente juntam-se as cr&iacute;ticas que aos<br \/>\n    dois primeiros folhetos (os dois segundos n&atilde;o foram enviados a jornais)<br \/>\n    foram feitas pelo Suplemento Liter&aacute;rio do Times e pelo Glasgow Herald,<br \/>\n    apresentado assim, em certo modo, opini&otilde;es representativas da cr&iacute;tica<br \/>\n    inglesa e escocesa. <\/p>\n<p>&sect; 4 &#8211; Os documentos citados em refer&ecirc;ncia ao &sect; 1 e a este<br \/>\n    juntos demonstram mais do que o necess&aacute;rio quanto ao conhecimento que<br \/>\n    o requerente tem da l&iacute;ngua inglesa. Quanto ao seu conhecimento da l&iacute;ngua<br \/>\n    francesa, cr&ecirc; o requerente que na aus&ecirc;ncia de prova documental<br \/>\n    realmente v&aacute;lida (como a que tem para o ingl&ecirc;s), o melhor que<br \/>\n    pode fazer &eacute; juntar uma folha de impress&atilde;o da Contempor&acirc;nea,<br \/>\n    n&uacute;mero 7, onde, a p&aacute;gs. 20 e 21, v&ecirc;m tr&ecirc;s can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    (Trois Chansons Mortes) que escreveu em franc&ecirc;s. &#8211; No texto do artigo<br \/>\n    6&ordm; pr&ograve;priamente dito, do Regulamento, diz-se que &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    que o conservador-bibliotec&aacute;rio seja pessoa de &quot;reconhecida compet&ecirc;ncia<br \/>\n    e idoneidade&quot;. Salvo o que de compet&ecirc;ncia e idoneidade est&aacute;<br \/>\n    impl&iacute;cito nas habilita&ccedil;&otilde;es indicadas como motivos de<br \/>\n    prefer&ecirc;ncia nos &sect;&sect; di artigo e portanto se prova documentalmente<br \/>\n    pelos documentos referentes &agrave;s indica&ccedil;&otilde;es de cada &sect;,<br \/>\n    a compet&ecirc;ncia e a idoneidade n&atilde;o s&atilde;o suscept&iacute;veis<br \/>\n    de prova documental. Incluem, at&eacute;, elementos, como o aspecto f&iacute;sico<br \/>\n    e a educa&ccedil;&atilde;o, que s&atilde;o indocument&aacute;veis por natureza.\n  <\/p>\n<p>Cascais, 16 de Setembro de 1932 <\/p>\n<p>Fernando Nogueira Pessoa. <\/p>\n<p>(in VIDA E OBRA DE FERNANDO PESSOA, Jo&atilde;o Gaspar Sim&otilde;es, Libraria<br \/>\n    Bertrand, Lisboa, 3&ordf; edi&ccedil;&atilde;o, 1973) <\/p>\n<h2><a name=\"12\">Ao Natal MercuryDurban, 7th. July, 1905 &#8220;The Man in the Moon&#8221;<\/a><\/h2>\n<p>&quot;Natal Mercury&quot; Office, <\/p>\n<p>Durban. Sir, <\/p>\n<p>I have been somewhat astonished, in the perusal of the &quot;Natal Mercury&quot;,<br \/>\n    and especially of your column, to perceive how meanly, and in what slavish<br \/>\n    way, sarcasm and irony are heaped on the Russians, on their army, and on their<br \/>\n    Emperor. I know too well that it is the nature of men; where are not culture<br \/>\n    and dignity, to laugh at misery and at disaster, so that these be to the harm<br \/>\n    of others, and implicate themselves in no way. Even where some consideration<br \/>\n    exists for the soul-clear bounds of tragedy and of comedy, and nothing but<br \/>\n    that consideration &#8211; no feeling and no thought besides &#8211; laughter is repressed<br \/>\n    at those things wich outlie the bounds of the ridiculous. <\/p>\n<p>Every reserve and disaster of the Russian army or navy is in such a way made<br \/>\n    the subject of a jest among us, that we seem to have nothing more amusing.<br \/>\n    Some of the Russian admirals, even after their death or their capture, have<br \/>\n    caused us outbursts of sniggering. The Czar himself, when dismayed by revolution<br \/>\n    and by war, and when in distress and in grief over his armies, appears to<br \/>\n    be taken by the British people as an animate joke of great value. <\/p>\n<p>To us, Englishmen, of all men the most egotistic, the thought has never occurred<br \/>\n    that misery and grief ennoble, despicable and self-caused thought they be.<br \/>\n    A drunken woman reeling through the streets is a pitiable sight. The same<br \/>\n    woman falling awkwardly in her drunkenness is, mayhap, an amusing spectacle.<br \/>\n    But this very same woman, drunken and awkward though she be, when weeping<br \/>\n    the death of her child is no contemptible nor ridiculous creature, but a tragic<br \/>\n    figure as great as your Hamlets and your King Lears. <br \/>\n    If I may be permitted to make one more consideration, I should like to point<br \/>\n    out that pure shame should restrain us from laughter at the Russian woes,<br \/>\n    and from the making of jokes upon them. It is quite clear, I believe, that<br \/>\n    our hearty amusement may be constructed, not even by one malicious, into a<br \/>\n    joy from the relief we now have from fears of an Indian disturbance. Russia<br \/>\n    does not now threaten our Easter possession; and it is therefore that we laugh?<br \/>\n    Surely this thought is too obvious; it must have occurred to us ere we laughed<br \/>\n    &#8211; the greater shame that we laugh notwithstanding. <\/p>\n<p>As an answer, however meager, to these ridiculings, I send you three sonnets,<br \/>\n    for wich I ask such publicity as has been extended to writers on the other<br \/>\n    side. <\/p>\n<p>On the whole, I am extremely sorry to have such proofs of human ignobleness<br \/>\n    and unfeeling. We should not, where we in truth manly, laugh at the woes of<br \/>\n    others; but we cannot, as it seems, force manliness on ourselves. Yet if misery<br \/>\n    and grief delight us, and the woes of our enemies amuse, let us be so far<br \/>\n    noble as to say no thing, and look within us our joy &#8211; let us not, however<br \/>\n    it may be, burst into laughter, least of all into the unsteady sniggering<br \/>\n    of those whose fears are dispelled, than wich there is nothing more base.\n  <\/p>\n<p align=\"right\"><b>Your faithfully, <\/b><\/p>\n<p align=\"right\"><b>Charles Robert Anon. <\/b><\/p>\n<h3><b>Tradu&ccedil;&atilde;o<\/b><\/h3>\n<p align=\"left\">Exmo. Senhor, <\/p>\n<p>Fiquei algo surpreendido, ao folhear o &quot;Natal Marcury&quot;, e em especial<br \/>\n    a sua coluna, por ver qu&atilde;o mesquinha e servilmente o sarcasmo e a ironia<br \/>\n    s&atilde;o usados contra os russos, o seu ex&eacute;rcito e o seu Imperador.<br \/>\n    Sei muito bem que &eacute; da natureza do homem, quando faltam a cultura e<br \/>\n    a dignidade, rir-se da infelicidade e da desgra&ccedil;a, enquanto tocarem<br \/>\n    os outros mas de forma alguma o pr&oacute;prio. Mesmo onde alguma considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    existe para com os claros limites da trag&eacute;dia e da com&eacute;dia,<br \/>\n    e apenas essa considera&ccedil;&atilde;o &#8211; sem outro sentimento ou pensamento<br \/>\n    &#8211; o riso reprime-se face &agrave;quelas coisas que ultrapassam os limites<br \/>\n    do rid&iacute;culo. <\/p>\n<p>Cada rev&eacute;s e cada derrota do ex&eacute;rcito ou armada russa foram<br \/>\n    de tal modo objecto de chacota entre n&oacute;s que parece que n&atilde;o<br \/>\n    achamos nada mais divertido. Alguns almirantes russos, mesmo depois da sua<br \/>\n    morte ou captura, fizeram-nos explodir em apupos. O pr&oacute;prio czar, quando<br \/>\n    desencorajado pela revolu&ccedil;&atilde;o e pela guerra, e quando em grande<br \/>\n    sofrimento e dor por causa dos seus ex&eacute;rcitos, parece ser tomado pelo<br \/>\n    povo brit&acirc;nico como brinquedo animado de grande valor. <\/p>\n<p>A n&oacute;s, ingleses, os mais egotistas de todos os homens, nunca ocorreu<br \/>\n    a id&eacute;ia de que a infelicidade e a dor enobrecem, por mais desprez&iacute;veis<br \/>\n    e auto-infligidas que sejam. Uma mulher embriagada cambaleando pelas ruas<br \/>\n    &eacute; um espet&aacute;culo que causa pena. A mesma mulher, se cair desajeitadamente<br \/>\n    no seu estado de embriaguez, talvez seja um espet&aacute;culo divertido. Mas<br \/>\n    esta mesma mulher, por mais desajeitada e embriagada que esteja, quando chora<br \/>\n    a morte de um filho, n&atilde;o &eacute; uma criatura desprez&iacute;vel e<br \/>\n    rid&iacute;cula, mas sim uma figura tr&aacute;gica, t&atilde;o grande como<br \/>\n    os vossos Hamlets e os vossos King Lears. <\/p>\n<p>Se me &eacute; permitido fazer mais uma considera&ccedil;&atilde;o, gostaria<br \/>\n    de sublinhar que a pura vergonha deveria impedir-nos de rir das desgra&ccedil;as<br \/>\n    russas e de fazer piadas com elas. &Eacute; bastante claro, creio, que um<br \/>\n    saud&aacute;vel divertimento deve ser alicer&ccedil;ado, ainda que n&atilde;o<br \/>\n    por mal&iacute;cia, numa alegria que venha do al&iacute;vio, que sentimos<br \/>\n    agora, do medo de um dist&uacute;rbio por parte dos indianos. A R&uacute;ssia<br \/>\n    n&atilde;o amea&ccedil;a, hoje, a nossa possess&atilde;o oriental, e ser&aacute;<br \/>\n    por isso que rimos? Esta id&eacute;ia &eacute;, certamente, demasiado &oacute;bvia;<br \/>\n    devia ter-nos ocorrido antes de rirmos &#8211; apesar da grande vergonha de rirmos.\n  <\/p>\n<p>Em resposta, embora breve, a estas ridicularias, envio-lhe tr&ecirc;s sonetos<br \/>\n    para os quais pe&ccedil;o a mesma publicidade que foi dada aos escritores<br \/>\n    do outro lado. <\/p>\n<p>No geral, lamento profundamente testemunhar tais provas de ignom&iacute;nia<br \/>\n    e insensibilidade humanas. N&atilde;o dever&iacute;amos, se f&ocirc;ssemos<br \/>\n    decentes, rir das desgra&ccedil;as dos outros; mas n&atilde;o conseguimos,<br \/>\n    ao que parece, impor a n&oacute;s pr&oacute;prios dec&ecirc;ncia. Contudo,<br \/>\n    se a infelicidade e a dor nos deliciam, e as desgra&ccedil;as dos nossos inimigos<br \/>\n    nos divertem, sejamos suficientemente nobres para n&atilde;o dizer nada e<br \/>\n    guardar para n&oacute;s pr&oacute;prios a satisfa&ccedil;&atilde;o &#8211; de qualquer<br \/>\n    forma, n&atilde;o desatemos a rir e, muito menos, a apupar nervosamente aqueles<br \/>\n    cujos medos est&atilde;o dissipados, pois n&atilde;o h&aacute; nada mais baixo<br \/>\n    do que isso. <\/p>\n<p align=\"right\"><b>Muito Atentamente <\/b><\/p>\n<p align=\"right\"><b>Charles Robert Anon <\/b><\/p>\n<p><b>Notas explicativas carta n&ordm; 1 <\/b><\/p>\n<p> Charles Robert Anon, Que assina esta carta, &eacute; uma personalidade liter&aacute;ria<br \/>\n    criada por Fernando Pessoa, ainda na &Aacute;frica do Sul. Os seus escritos,<br \/>\n    po&eacute;ticos, diar&iacute;sticos e filos&oacute;ficos, situam-se entre<br \/>\n    1904 e 1906. &Eacute;, no entanto, e compreende-se que assim seja, um &quot;ser&quot;<br \/>\n    ainda muito umbilicalmente ligado ao seu jovem criador, traduzindo muito das<br \/>\n    suas preocupa&ccedil;&otilde;es de adolescente. O nome escolhido, abreviatura<br \/>\n    de &quot;anonimous&quot;, remete-nos, tamb&eacute;m, para um estatuto de n&atilde;o-maioridade<br \/>\n    dentro do universo pessoano. Seria em breve substitu&iacute;do pela figura<br \/>\n    de Alexandre Search. Pessoa-Anon refere-se &agrave; guerra russo-japonesa<br \/>\n    que eclodiu em fevereiro de 1904, com um ataque surpresa do Jap&atilde;o &agrave;<br \/>\n    esquadra russa, em Porto Arthur. O tratado de paz viria a ser assinado em<br \/>\n    5 de setembro de 1905. Fernando Pessoa &#8211; Correspond&ecirc;ncia 1905-1922 Editora<br \/>\n    Companhia Das Letras.<\/p>\n<h2><a name=\"13\">Ao Punch, de 21\/02\/1906<\/a><\/h2>\n<p>Ao Punch<br \/>\n    Rua S&atilde;o Bento, 98 , 2&ordm;, Lisbon, Portugal 21st. February, 1906\n  <\/p>\n<p>The Editor &quot;Punch&quot;, <\/p>\n<p>Bonverie Street, <\/p>\n<p>London. Sir, I submit the poem enclosed to your appreciation. In it I have<br \/>\n    tried merely to attain the ridiculous by the union of the serious and of the<br \/>\n    grotesque. I have attempted, moreover, to link the ridiculousness of expression<br \/>\n    thus produced to a lofty, elegiac verse-movement. You will judge how far I<br \/>\n    have succeeded. <\/p>\n<p>I am aware that my manuscript should have been typewritten, but my means<br \/>\n    do not allow it. I am further conscious that I have no literary experience<br \/>\n    ( none can be expected from a boy of sixteen); and that, for this reason,<br \/>\n    in the writing of my manuscript I may have injuried Convention rudely : all<br \/>\n    this with a pseudonym; but when a foreigner writes anything &#8211; especially a<br \/>\n    poem &#8211; is it better not to father is directly. <\/p>\n<p>If my poem refused, I am afraid you must put in the waste-paper basket, inasmuch<br \/>\n    as English stamps are here unobtainable. In hope of success, however, I enclose<br \/>\n    what I can &#8211; an addressed envelope. <\/p>\n<p align=\"right\">Awaiting your decision, <\/p>\n<p align=\"right\">I am, Sir, <br \/>\n    Yours faithfully, <br \/>\n    F. A. N. Pess&ocirc;a. <\/p>\n<h3>Tradu&ccedil;&atilde;o<\/h3>\n<p>Ao Editor Punch <\/p>\n<p>Exm.&ordm; Senhor, <\/p>\n<p>Submeto o poema incluso &agrave; sua aprecia&ccedil;&atilde;o. Nele tentei<br \/>\n    atingir o rid&iacute;culo pela uni&atilde;o do s&eacute;rio e do grotesco.<br \/>\n    Esforcei-me, al&eacute;m disso, por ligar o rid&iacute;culo da express&atilde;o<br \/>\n    assim produzida ao sublime movimento do verso eleg&iacute;aco. O senhor julgar&aacute;<br \/>\n    at&eacute; que ponto o que consegui. <\/p>\n<p>Estou consciente de que o meu manuscrito deveria ter sido escrito &agrave;<br \/>\n    m&aacute;quina, mas os meios de que disponho n&atilde;o o permitem. Sei tamb&eacute;m<br \/>\n    que n&atilde;o tenho experi&ecirc;ncia liter&aacute;ria( nada mais se pode<br \/>\n    esperar de um rapaz de dezesseis anos); e, por essa mesma raz&atilde;o, ao<br \/>\n    escrever o meu manuscrito devo ter transgredido grosseiramente as conven&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    tudo isto espero que me seja desculpado. <\/p>\n<p>Assinei o meu manuscrito com um pseud&ocirc;nimo; mas quando um estrangeiro<br \/>\n    escreve qualquer coisa &#8211; especialmente um poema &#8211; &eacute; melhor n&atilde;o<br \/>\n    lhe atribuir directamente uma autoria. <\/p>\n<p>Se o meu poema for recusado, receio bem que o Senhor tenha de o deitar no<br \/>\n    cesto dos pap&eacute;is, porquanto os selos ingleses s&atilde;o aqui imposs&iacute;veis<br \/>\n    de obter. Na esperan&ccedil;a de sucesso, contudo, envio-lhe juntamente aquilo<br \/>\n    que posso &#8211; um envelope com o meu endere&ccedil;o. <\/p>\n<p align=\"right\">Aguardando a sua decis&atilde;o, <\/p>\n<p align=\"right\">Sou, <br \/>\n    Exmo Senhor, <br \/>\n    Muito atento e venerador <br \/>\n    F. N. Pess&ocirc;a. <\/p>\n<p align=\"left\"><b>Notas explicativas carta n&ordm; 2<\/b><\/p>\n<p align=\"left\"> H. D. Jennings refere uma carta de Fernando Pessoa ao diretor<br \/>\n    do Punch, incluindo o poema humor&iacute;stico &quot; An elegy on the marriage<br \/>\n    of my dear friend Mr. Jinks&quot;, datado de 16 de abril de 1905 (op. cit.<br \/>\n    , p.94) Repare-se na inexatid&atilde;o da idade com que Pessoa se apresenta:<br \/>\n    dezesseis anos, quando, na realidade tinha, nesta altura, quase dezoito. Fernando<br \/>\n    Pessoa &#8211; Correspond&ecirc;ncia 1905-1922 Editora Companhia das Letras. carta<br \/>\n    n&ordm; 2 <\/p>\n<h2><a name=\"14\">Carta a Adolfo Casais Monteiro<\/a><\/h2>\n<p>Caixa Postal 147<\/p>\n<p>Lisboa, 13 de Janeiro de 1935 <\/p>\n<p>Meu prezado Camarada:<\/p>\n<p>Muito agrade&ccedil;o a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente.<br \/>\n    Antes de, propriamente, come&ccedil;ar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever<br \/>\n    neste papel de c&oacute;pia. Acabou-se-me o decente, &eacute; domingo, e n&atilde;o<br \/>\n    posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que nunca eu veria &laquo;outras raz&otilde;es&raquo;<br \/>\n    em qualquer cousa que escrevesse, discordando, a meu respeito. Sou um dos<br \/>\n    poucos poetas portugueses que n&atilde;o decretou a sua pr&oacute;pria infalibilidade,<br \/>\n    nem toma qualquer cr&iacute;tica., que se lhe fa&ccedil;a, como um acto de<br \/>\n    lesa-divindade. Al&eacute;m disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais,<br \/>\n    &eacute; nula em mim a tend&ecirc;ncia para a mania da persegui&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &Agrave; parte isso, conhe&ccedil;o j&aacute; suficientemente a sua independ&ecirc;ncia<br \/>\n    mental, que, se me &eacute; permitido diz&ecirc;-lo, muito aprovo e louvo.<br \/>\n    Nunca me propus ser Mestre ou Chefe-Mestre, porque n&atilde;o sei ensinar,<br \/>\n    nem sei se teria que ensinar; Chefe, porque nem sei estrelar ovos. N&atilde;o<br \/>\n    se preocupe, pois, em qualquer ocasi&atilde;o, com o que tenha que dizer a<br \/>\n    meu respeito. N&atilde;o procuro caves nos andares nobres.<\/p>\n<p>Concordo absolutamente consigo em que n&atilde;o foi feliz a estreia, que<br \/>\n    de mim mesmo fiz com um livro da natureza de &laquo;Mensagem&raquo;. Sou,<br \/>\n    de facto, um nacionalista m&iacute;stico, um sebastianista racional. Mas sou,<br \/>\n    &agrave; parte isso, e at&eacute; em contradi&ccedil;&atilde;o com isso, muitas<br \/>\n    outras cousas. E essas cousas pela mesma natureza do livro, a &laquo;Mensagem&raquo;<br \/>\n    n&atilde;o as inclui.<\/p>\n<p>Comecei por esse livro as minhas publica&ccedil;&otilde;es pela simples raz&atilde;o<br \/>\n    de que foi o primeiro livro que consegui, n&atilde;o sei porqu&ecirc;, ter<br \/>\n    organizado e pronto. Como estava pronto incitaram-me a que o publicasse: acedi.<br \/>\n    Nem o fiz, devo dizer, com os olhos postos no pr&eacute;mio poss&iacute;vel<br \/>\n    do Secretariado, embora nisso n&atilde;o houvesse pecado intelectual de maior.<br \/>\n    O meu livro estava pronto em Setembro, e eu julgava, at&eacute;, que n&atilde;o<br \/>\n    poderia concorrer ao pr&eacute;mio, pois ignorava que o prazo para entrega<br \/>\n    dos livros, que primitivamente fora at&eacute; fim de Julho, fora alargado<br \/>\n    at&eacute; ao fim de Outubro. Como, por&eacute;m, em fim de Outubro j&aacute;<br \/>\n    havia exemplares prontos da &laquo;Mensagem&raquo;, fiz entrega dos que o<br \/>\n    Secretariado exigia. O livro estava exactamente nas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    (nacionalismo) de concorrer. Concorri.<\/p>\n<p>Quando &agrave;s vezes pensava na ordem de uma futura publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de obras minhas, nunca um livro do g&eacute;nero de &laquo;Mensagem&raquo;<br \/>\n    figurava em n&uacute;mero um. Hesitava entre se deveria come&ccedil;ar por<br \/>\n    um livro de versos grande &ndash; um livro de umas 350 p&aacute;ginas &ndash;,<br \/>\n    englobando as v&aacute;rias sub-personalidades de Fernando Pessoa ele mesmo,<br \/>\n    ou se deveria abrir com uma novela polici&aacute;ria, que ainda n&atilde;o<br \/>\n    consegui completar.<\/p>\n<p>Concordo consigo, disse, em que n&atilde;o foi feliz a estreia, que de mim<br \/>\n    mesmo fiz, com a publica&ccedil;&atilde;o de &laquo;Mensagem&raquo;. Mas concordo<br \/>\n    com os factos que foi a melhor estreia que eu poderia fazer. Precisamente<br \/>\n    porque essa faceta &ndash; em certo modo secund&aacute;ria &ndash; da minha<br \/>\n    personalidade n&atilde;o tinha nunca sido suficientemente manifestada nas<br \/>\n    minhas colabora&ccedil;&otilde;es em revistas (excepto no caso do Mar Portugu&ecirc;s,<br \/>\n    parte deste mesmo livro) &ndash; precisamente por isso convinha que ela aparecesse,<br \/>\n    e que aparecesse agora. Coincidiu, sem que eu o planeasse ou o premeditasse<br \/>\n    (sou incapaz de premedita&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica), com um dos momentos<br \/>\n    cr&iacute;ticos (no sentido original da palavra) da remodela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do subconsciente nacional. O que fiz por acaso e se completou por conversa,<br \/>\n    fora exactamente talhado, com Esquadria e Compasso, pelo Grande Arquitecto.<\/p>\n<p>(Interrompo. N&atilde;o estou doido nem b&ecirc;bado. Estou, por&eacute;m,<br \/>\n    escrevendo directamente, t&atilde;o depressa quanto a m&aacute;quina mo permite,<br \/>\n    e vou-me servindo das express&otilde;es que me ocorrem, sem olhar a que literatura<br \/>\n    haja nelas. Suponha &ndash; e far&aacute; bem em supor, porque &eacute; verdade<br \/>\n    &ndash; que estou simplesmente falando consigo.)<\/p>\n<p>Respondo agora directamente &agrave;s suas tr&ecirc;s perguntas: (1) plano<br \/>\n    futuro da publica&ccedil;&atilde;o das minhas obras, (2) g&eacute;nese dos<br \/>\n    meus heter&oacute;nimos, e (3) ocultismo.<\/p>\n<p>Feita, nas condi&ccedil;&otilde;es que lhe indiquei, a publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da &laquo;Mensagem&raquo;, que &eacute; uma manifesta&ccedil;&atilde;o unilateral,<br \/>\n    tenciono prosseguir da seguinte maneira. Estou agora completando uma vers&atilde;o<br \/>\n    inteiramente remodelada do Banqueiro Anarquista; essa deve estar pronta em<br \/>\n    breve e conto, desde que esteja pronta, public&aacute;-la imediatamente. Se<br \/>\n    assim fizer, traduzo imediatamente esse escrito para ingl&ecirc;s, e vou ver<br \/>\n    se o posso publicar em Inglaterra. Tal qual deve ficar, tem probabilidades<br \/>\n    europeias. (N&atilde;o tome esta frase no sentido de Pr&eacute;mio Nobel imanente.)<br \/>\n    Depois &ndash; e agora respondo propriamente &agrave; sua pergunta, que se<br \/>\n    reporta a poesia &ndash; tenciono, durante o ver&atilde;o, reunir o tal grande<br \/>\n    volume dos poemas pequenos do Fernando Pessoa ele mesmo, e ver se o consigo<br \/>\n    publicar em fins do ano em que estamos. Ser&aacute; esse o volume que o Casais<br \/>\n    Monteiro espera, e &eacute; esse que eu mesmo desejo que se fa&ccedil;a. Esse,<br \/>\n    ent&atilde;o, ser&aacute; as facetas todas, excepto a nacionalista, que &laquo;Mensagem&raquo;<br \/>\n    j&aacute; manifestou.<\/p>\n<p>Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa s&oacute;. N&atilde;o penso nada<br \/>\n    do Caeiro, do Ricardo Reis ou do &Aacute;lvaro de Campos. Nada disso poderei<br \/>\n    fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado<br \/>\n    o Pr&eacute;mio Nobel. E contudo &ndash; penso-o com tristeza &ndash; pus<br \/>\n    no Caeiro todo o meu poder de despersonaliza&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica,<br \/>\n    pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da m&uacute;sica<br \/>\n    que lhe &eacute; pr&oacute;pria, pus em &Aacute;lvaro de Campos toda a emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que n&atilde;o dou nem a mim nem &agrave; vida. Pensar, meu querido Casais<br \/>\n    Monteiro, que todos estes t&ecirc;m que ser, na pr&aacute;tica da publica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    preteridos pelo Fernando Pessoa., impuro e simples!<\/p>\n<p>Creio que respondi &agrave; sua primeira pergunta.<\/p>\n<p>Se fui omisso, diga em qu&ecirc;. Se puder responder, responderei. Mais planos<br \/>\n    n&atilde;o tenho, por enquanto. E, sabendo eu o que s&atilde;o e em que d&atilde;o<br \/>\n    os meus planos, &eacute; caso para dizer, Gra&ccedil;as a Deus!<\/p>\n<p>Passo agora a responder &agrave; sua pergunta sobre a g&eacute;nese dos meus<br \/>\n    heter&oacute;nimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.<\/p>\n<p>Come&ccedil;o pela parte psiqui&aacute;trica. A origem dos meus heter&oacute;nimos<br \/>\n    &eacute; o fundo tra&ccedil;o de histeria que existe em mim. N&atilde;o sei<br \/>\n    se sou simplesmente hist&eacute;rico, se sou, mais propriamente, um histero-neurast&eacute;nico.<br \/>\n    Tendo para esta segunda hip&oacute;tese, porque h&aacute; em mim fen&oacute;menos<br \/>\n    de abulia que a histeria, propriamente dita, n&atilde;o enquadra no registo<br \/>\n    dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heter&oacute;nimos<br \/>\n    est&aacute; na minha tend&ecirc;ncia org&acirc;nica e constante para a despersonaliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e para a simula&ccedil;&atilde;o. Estes fen&oacute;menos &ndash; felizmente<br \/>\n    para mim e para os outros &ndash; mentalizaram-se em mim; quero dizer, n&atilde;o<br \/>\n    se manifestam na minha vida pr&aacute;tica, exterior e de contacto com outros;<br \/>\n    fazem explos&atilde;o para dentro e vivo-os eu a s&oacute;s comigo. Se eu<br \/>\n    fosse mulher &ndash; na mulher os fen&oacute;menos hist&eacute;ricos rompem<br \/>\n    em ataques e cousas parecidas &ndash; cada poema de &Aacute;lvaro de Campos<br \/>\n    (o mais histericamente hist&eacute;rico de mim) seria um alarme para a vizinhan&ccedil;a.<br \/>\n    Mas sou homem &ndash; e nos homens a histeria assume principalmente aspectos<br \/>\n    mentais; assim tudo acaba em sil&ecirc;ncio e poesia&#8230;<\/p>\n<p>Isto explica, tant bien que mal, a origem org&acirc;nica do meu heteronimismo.<br \/>\n    Vou agora fazer-lhe a hist&oacute;ria directa dos meus heter&oacute;nimos.<br \/>\n    Come&ccedil;o por aqueles que morreram, e de alguns dos quais j&aacute; me<br \/>\n    n&atilde;o lembro &ndash; os que jazem perdidos no passado remoto da minha<br \/>\n    inf&acirc;ncia quase esquecida.<\/p>\n<p>Desde crian&ccedil;a tive a tend&ecirc;ncia para criar em meu torno um mundo<br \/>\n    fict&iacute;cio, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram.<br \/>\n    (N&atilde;o sei, bem entendido, se realmente n&atilde;o existiram, ou se sou<br \/>\n    eu que n&atilde;o existo. Nestas cousas, como em todas, n&atilde;o devemos<br \/>\n    ser dogm&aacute;ticos.) Desde que me conhe&ccedil;o como sendo aquilo a que<br \/>\n    chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, car&aacute;cter<br \/>\n    e hist&oacute;ria, v&aacute;rias figuras irreais que eram para mim t&atilde;o<br \/>\n    vis&iacute;veis e minhas como as cousas daquilo a que chamamos, porventura<br \/>\n    abusivamente, a vida real. Esta tend&ecirc;ncia, que me vem desde que me lembro<br \/>\n    de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de m&uacute;sica<br \/>\n    com que me encanta, mas n&atilde;o alterando nunca a sua maneira de encantar.<\/p>\n<p>Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heter&oacute;nimo,<br \/>\n    ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente &ndash; um certo Chevalier<br \/>\n    de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja<br \/>\n    figura, n&atilde;o inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha<br \/>\n    afei&ccedil;&atilde;o que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez,<br \/>\n    de uma outra figura, cujo nome j&aacute; me n&atilde;o ocorre mas que o tinha<br \/>\n    estrangeiro tamb&eacute;m, que era, n&atilde;o sei em qu&ecirc;, um rival<br \/>\n    do Chevalier de Pas&#8230; Cousas que acontecem a todas as crian&ccedil;as? Sem<br \/>\n    d&uacute;vida &ndash; ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda,<br \/>\n    pois que as relembro de tal modo que &eacute; mister um esfor&ccedil;o para<br \/>\n    me fazer saber que n&atilde;o foram realidades.<\/p>\n<p>Esta tend&ecirc;ncia para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este<br \/>\n    mas com outra gente, nunca me saiu da imagina&ccedil;&atilde;o. Teve v&aacute;rias<br \/>\n    fases, entre as quais esta, sucedida j&aacute; em maioridade. Ocorria-me um<br \/>\n    dito de esp&iacute;rito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem<br \/>\n    eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente,<br \/>\n    como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja hist&oacute;ria acrescentava,<br \/>\n    e cuja figura &ndash; cara, estatura, traje e gesto &ndash; imediatamente<br \/>\n    eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei, v&aacute;rios amigos<br \/>\n    e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos<br \/>\n    de dist&acirc;ncia, oi&ccedil;o, sinto, vejo. Repito: oi&ccedil;o, sinto,<br \/>\n    vejo&#8230; E tenho saudades deles.<\/p>\n<p>(Em eu come&ccedil;ando a falar &ndash; e escrever &agrave; m&aacute;quina<br \/>\n    &eacute; para mim falar &ndash;, custa-me a encontrar o trav&atilde;o. Basta<br \/>\n    de ma&ccedil;ada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na g&eacute;nese dos<br \/>\n    meus heter&oacute;nimos liter&aacute;rios, que &eacute;, afinal, o que V.<br \/>\n    quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima d&aacute;-lhe a hist&oacute;ria<br \/>\n    da m&atilde;e que os deu &agrave; luz.)<\/p>\n<p>A&iacute; por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me &agrave;<br \/>\n    ideia escrever uns poemas de &iacute;ndole pag&atilde;. Esbocei umas cousas<br \/>\n    em verso irregular (n&atilde;o no estilo &Aacute;lvaro de Campos, mas num<br \/>\n    estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esbo&ccedil;ara-se-me, contudo,<br \/>\n    numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo.<br \/>\n    (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)<\/p>\n<p>Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao<br \/>\n    S&aacute;-Carneiro &ndash; de inventar um poeta buc&oacute;lico, de esp&eacute;cie<br \/>\n    complicada, e apresentar-lho, j&aacute; me n&atilde;o lembro como, em qualquer<br \/>\n    esp&eacute;cie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui.<br \/>\n    Num dia em que finalmente desistira &ndash; foi em 8 de Mar&ccedil;o de 1914<br \/>\n    &ndash; acerquei-me de uma c&oacute;moda alta, e, tomando um papel, comecei<br \/>\n    a escrever, de p&eacute;, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta<br \/>\n    e tantos poemas a fio, numa esp&eacute;cie de &ecirc;xtase cuja natureza n&atilde;o<br \/>\n    conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter<br \/>\n    outro assim. Abri com um t&iacute;tulo, O Guardador de Rebanhos. E o que se<br \/>\n    seguiu foi o aparecimento de algu&eacute;m em mim, a quem dei desde logo o<br \/>\n    nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o<br \/>\n    meu mestre. Foi essa a sensa&ccedil;&atilde;o imediata que tive. E tanto assim<br \/>\n    que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei<br \/>\n    noutro papel e escrevi, a fio, tamb&eacute;m, os seis poemas que constituem<br \/>\n    a Chuva Obl&iacute;qua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente&#8230;<br \/>\n    Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele s&oacute;.<br \/>\n    Ou, melhor, foi a reac&ccedil;&atilde;o de Fernando Pessoa contra a sua inexist&ecirc;ncia<br \/>\n    como Alberto Caeiro.<\/p>\n<p>Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir &ndash; instintiva<br \/>\n    e subconscientemente &ndash; uns disc&iacute;pulos. Arranquei do seu falso<br \/>\n    paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo,<br \/>\n    porque nessa altura j&aacute; o via. E, de repente, e em deriva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    oposta &agrave; de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indiv&iacute;duo.<br \/>\n    Num jacto, e &agrave; m&aacute;quina de escrever, sem interrup&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de &Aacute;lvaro de Campos &ndash; a Ode<br \/>\n    com esse nome e o homem com o nome que tem.<\/p>\n<p>Criei, ent&atilde;o, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes<br \/>\n    de realidade. Graduei as influ&ecirc;ncias, conheci as amizades, ouvi, dentro<br \/>\n    de mim, as discuss&otilde;es e as diverg&ecirc;ncias de crit&eacute;rios,<br \/>\n    e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve.<br \/>\n    Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda<br \/>\n    se passa. Se algum dia eu puder publicar a discuss&atilde;o est&eacute;tica<br \/>\n    entre Ricardo Reis e &Aacute;lvaro de Campos, ver&aacute; como eles s&atilde;o<br \/>\n    diferentes, e como eu n&atilde;o sou nada na mat&eacute;ria.<\/p>\n<p>Quando foi da publica&ccedil;&atilde;o de Orpheu, foi preciso, &agrave; &uacute;ltima<br \/>\n    hora, arranjar qualquer cousa para completar o n&uacute;mero de p&aacute;ginas.<br \/>\n    Sugeri ent&atilde;o ao S&aacute;-Carneiro que eu fizesse um poema &laquo;antigo&raquo;<br \/>\n    do &Aacute;lvaro de Campos &ndash; um poema de como o &Aacute;lvaro de Campos<br \/>\n    seria antes de ter conhecido Caeiro e ter ca&iacute;do sob a sua influ&ecirc;ncia.<br \/>\n    E assim fiz o Opi&aacute;rio, em que tentei dar todas as tend&ecirc;ncias<br \/>\n    latentes do &Aacute;lvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas,<br \/>\n    mas sem haver ainda qualquer tra&ccedil;o de contacto com o seu mestre Caeiro.<br \/>\n    Foi dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo<br \/>\n    poder de despersonaliza&ccedil;&atilde;o que tive que desenvolver. Mas, enfim,<br \/>\n    creio que n&atilde;o saiu mau, e que d&aacute; o &Aacute;lvaro em bot&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>Creio que lhe expliquei a origem dos meus heter&oacute;nimos. Se h&aacute;<br \/>\n    por&eacute;m qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais l&uacute;cido<br \/>\n    &ndash; estou escrevendo depressa, e quando escrevo depressa n&atilde;o sou<br \/>\n    muito l&uacute;cido &ndash;, diga, que de bom grado lho darei. E, &eacute;<br \/>\n    verdade, um complemento verdadeiro e hist&eacute;rico: ao escrever certos<br \/>\n    passos das Notas para recorda&ccedil;&atilde;o do meu Mestre Caeiro, do &Aacute;lvaro<br \/>\n    de Campos, tenho chorado l&aacute;grimas verdadeiras. &Eacute; para que saiba<br \/>\n    com quem est&aacute; lidando, meu caro Casais Monteiro!<\/p>\n<p>Mais uns apontamentos nesta mat&eacute;ria&#8230; Eu vejo diante de mim, no espa&ccedil;o<br \/>\n    incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e &Aacute;lvaro<br \/>\n    de Campos. Constru&iacute;-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu<br \/>\n    em 1887 (n&atilde;o me lembro do dia e m&ecirc;s, mas tenho-os algures), no<br \/>\n    Porto, &eacute; m&eacute;dico e est&aacute; presentemente no Brasil. Alberto<br \/>\n    Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase<br \/>\n    toda a sua vida no campo. N&atilde;o teve profiss&atilde;o nem educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quase alguma. &Aacute;lvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro<br \/>\n    de 1890 (&agrave;s 1,30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e &eacute; verdade,<br \/>\n    pois, feito o hor&oacute;scopo para essa hora, est&aacute; certo). Este, como<br \/>\n    sabe, &eacute; engenheiro naval (por Glasgow), mas agora est&aacute; aqui<br \/>\n    em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura m&eacute;dia, e, embora<br \/>\n    realmente fr&aacute;gil (morreu tuberculoso), n&atilde;o parecia t&atilde;o<br \/>\n    fr&aacute;gil como era. Ricardo Reis &eacute; um pouco, mas muito pouco, mais<br \/>\n    baixo, mais forte, mas seco. &Aacute;lvaro de Campos &eacute; alto (1,75 in<br \/>\n    de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara<br \/>\n    rapada todos &ndash; o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago<br \/>\n    moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu portugu&ecirc;s,<br \/>\n    cabelo, por&eacute;m, liso e normalmente apartado ao lado, mon&oacute;culo.<br \/>\n    Caeiro, como disse, n&atilde;o teve mais educa&ccedil;&atilde;o que quase<br \/>\n    nenhuma &ndash; s&oacute; instru&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria; morreram-lhe<br \/>\n    cedo o pai e a m&atilde;e, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos<br \/>\n    rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-av&oacute;. Ricardo Reis, educado<br \/>\n    num col&eacute;gio de jesu&iacute;tas, &eacute;, como disse, m&eacute;dico;<br \/>\n    vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser mon&aacute;rquico.<br \/>\n    &Eacute;, um latinista por educa&ccedil;&atilde;o alheia, e um semi-helenista<br \/>\n    por educa&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria. &Aacute;lvaro de Campos teve uma<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o vulgar de liceu; depois foi mandado para a Esc&oacute;cia<br \/>\n    estudar engenharia, primeiro mec&acirc;nica e depois naval. Numas f&eacute;rias<br \/>\n    fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opi&aacute;rio. Ensinou-lhe latim<br \/>\n    um tio beir&atilde;o que era padre.<\/p>\n<p>Como escrevo em nome desses tr&ecirc;s?&#8230; Caeiro, por pura e inesperada<br \/>\n    inspira&ccedil;&atilde;o, sem saber ou sequer calcular o que iria escrever.<br \/>\n    Ricardo Reis, depois de uma delibera&ccedil;&atilde;o abstracta, que subitamente<br \/>\n    se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um s&uacute;bito impulso para<br \/>\n    escrever e n&atilde;o sei o qu&ecirc;. (O meu semi-heter&oacute;nimo Bernardo<br \/>\n    Soares, que ali&aacute;s em muitas cousas se parece com &Aacute;lvaro de Campos,<br \/>\n    aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco<br \/>\n    suspensas as qualidades de racioc&iacute;nio e de inibi&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    aquela prosa &eacute; um constante devaneio. &Eacute; um semi-heter&oacute;nimo<br \/>\n    porque, n&atilde;o sendo a personalidade a minha, &eacute;, n&atilde;o diferente<br \/>\n    da minha, mas uma simples mutila&ccedil;&atilde;o dela. Sou eu menos o racioc&iacute;nio<br \/>\n    e a afectividade. A prosa, salvo o que o racioc&iacute;nio d&aacute; de t&eacute;nue<br \/>\n    &agrave; minha, &eacute; igual a esta, e o portugu&ecirc;s perfeitamente igual;<br \/>\n    ao passo que Caeiro escrevia mal o portugu&ecirc;s, Campos razoavelmente mas<br \/>\n    com lapsos como dizer &laquo;eu pr&oacute;prio&raquo; em vez de &laquo;eu<br \/>\n    mesmo&raquo;, etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero<br \/>\n    exagerado. O dif&iacute;cil para mim &eacute; escrever a prosa de Reis &ndash;<br \/>\n    ainda in&eacute;dita &ndash; ou de Campos. A simula&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mais f&aacute;cil, at&eacute; porque &eacute; mais espont&acirc;nea, em verso.)<\/p>\n<p>Nesta altura estar&aacute; o Casais Monteiro pensando que m&aacute; sorte<br \/>\n    o fez cair, por leitura, em meio de um manic&oacute;mio. Em todo o caso, o<br \/>\n    pior de tudo isto &eacute; a incoer&ecirc;ncia com que o tenho escrito. Repito,<br \/>\n    por&eacute;m: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever<br \/>\n    imediatamente. N&atilde;o sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever.<br \/>\n    (1)<\/p>\n<p>Falta responder &agrave; sua pergunta quanto ao ocultismo. Pergunta-me se<br \/>\n    creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta n&atilde;o &eacute; bem clara;<br \/>\n    compreendo por&eacute;m a inten&ccedil;&atilde;o e a ela respondo. Creio na<br \/>\n    exist&ecirc;ncia de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos,<br \/>\n    em experi&ecirc;ncias de diversos graus de espiritualidade, subtilizando-se<br \/>\n    at&eacute; se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo.<br \/>\n    Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros<br \/>\n    universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente<br \/>\n    ou n&atilde;o. Por estas raz&otilde;es, e ainda outras, a Ordem Externa do<br \/>\n    Ocultismo, ou seja, a Ma&ccedil;onaria, evita (excepto a Ma&ccedil;onaria<br \/>\n    anglo-sax&oacute;nica) a express&atilde;o &laquo;Deus&raquo;, dadas as suas<br \/>\n    implica&ccedil;&otilde;es teol&oacute;gicas e populares, e prefere dizer &laquo;Grande<br \/>\n    Arquitecto do Universo&raquo;, express&atilde;o que deixa em branco o problema<br \/>\n    de se Ele &eacute; Criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas<br \/>\n    de seres, n&atilde;o creio na comunica&ccedil;&atilde;o directa com Deus,<br \/>\n    mas, segundo a nossa afina&ccedil;&atilde;o espiritual, poderemos ir comunicando<br \/>\n    com seres cada vez mais altos. H&aacute; tr&ecirc;s caminhos para o oculto:<br \/>\n    o caminho m&aacute;gico (incluindo pr&aacute;ticas como as do espiritismo,<br \/>\n    intelectualmente ao n&iacute;vel da bruxaria, que &eacute; magia tamb&eacute;m),<br \/>\n    caminho esse extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho m&iacute;stico,<br \/>\n    que n&atilde;o tem propriamente perigos, mas &eacute; incerto e lento; e o<br \/>\n    que se chama o caminho alqu&iacute;mico, o mais dif&iacute;cil e o mais perfeito<br \/>\n    de todos, porque envolve uma transmuta&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria<br \/>\n    personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os<br \/>\n    outros caminhos n&atilde;o t&ecirc;m. Quanto a &laquo;inicia&ccedil;&atilde;o&raquo;<br \/>\n    ou n&atilde;o, posso dizer-lhe s&oacute; isto, que n&atilde;o sei se responde<br \/>\n    &agrave; sua pergunta: n&atilde;o perten&ccedil;o a Ordem Inici&aacute;tica<br \/>\n    nenhuma. A cita&ccedil;&atilde;o, ep&iacute;grafe ao meu poema Eros e Psique,<br \/>\n    de um trecho (traduzido, pois o Ritual &eacute; em latim) do Ritual do Terceiro<br \/>\n    Grau da Ordem Templ&aacute;ria de Portugal, indica simplesmente &ndash; o<br \/>\n    que &eacute; facto &ndash; que me foi permitido folhear os Rituais dos tr&ecirc;s<br \/>\n    primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dorm&ecirc;ncia desde cerca de<br \/>\n    1888.(2) Se n&atilde;o estivesse em dorm&ecirc;ncia, eu n&atilde;o citaria<br \/>\n    o trecho do Ritual, pois se n&atilde;o devem citar (indicando a origem) trechos<br \/>\n    de Rituais que est&atilde;o em trabalho.(3)<\/p>\n<p>Creio assim, meu querido camarada, ter respondido, ainda com certas incoer&ecirc;ncias,<br \/>\n    &agrave;s suas perguntas. Se h&aacute; outras que deseja fazer, n&atilde;o<br \/>\n    hesite em faz&ecirc;-las. Responderei conforme puder e o melhor que puder.<br \/>\n    O que poder&aacute; suceder, e isso me desculpar&aacute; desde j&aacute;,<br \/>\n    &eacute; n&atilde;o responder t&atilde;o depressa.<\/p>\n<p>Abra&ccedil;a-o o camarada que muito o estima e admira.<\/p>\n<p>Fernando Pessoa <\/p>\n<p>P. S. (!!!)<\/p>\n<p>14-1-1935<\/p>\n<p>Al&eacute;m da c&oacute;pia que normalmente tiro para mim, quando escrevo<br \/>\n    &agrave; m&aacute;quina, de qualquer carta que envolve explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da ordem das que esta cont&eacute;m, tirei uma c&oacute;pia suplementar, tanto<br \/>\n    para o caso de esta carta se extraviar, como para o de, possivelmente, ser-lhe<br \/>\n    precisa para qualquer outro fim. Essa c&oacute;pia est&aacute; sempre &agrave;s<br \/>\n    suas ordens.<\/p>\n<p>Outra cousa. Pode ser que, para qualquer estudo seu, ou outro fim an&aacute;logo,<br \/>\n    o Casais Monteiro precise, no futuro, de citar qualquer passo desta carta.<br \/>\n    Fica desde j&aacute; autorizado a faz&ecirc;-lo, mas com uma reserva, e pe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    licen&ccedil;a para lha acentuar. O par&aacute;grafo sobre ocultismo, na p&aacute;gina<br \/>\n    7 da minha carta, n&atilde;o pode ser reproduzido em letra impressa. Desejando<br \/>\n    responder o mais claramente poss&iacute;vel &agrave; sua pergunta, sa&iacute;<br \/>\n    propositadamente um pouco fora dos limites que s&atilde;o naturais nesta mat&eacute;ria.<\/p>\n<p>Trata-se de uma carta particular, e por isso n&atilde;o hesitei em faz&ecirc;-lo.<br \/>\n    Nada obsta a que leia esse par&aacute;grafo a quem quiser, desde que essa<br \/>\n    outra pessoa obede&ccedil;a tamb&eacute;m ao crit&eacute;rio de n&atilde;o<br \/>\n    reproduzir em letra impressa o que nesse par&aacute;grafo vai escrito. Creio<br \/>\n    que posso contar consigo para tal fim negativo.<\/p>\n<p>Continuo em d&iacute;vida para consigo da carta ultradevida sobre os seus<br \/>\n    &uacute;ltimos livros. Mantenho o que creio que lhe disse na minha carta anterior:<br \/>\n    quando agora (creio que ser&aacute; s&oacute; em Fevereiro) passar alguns<br \/>\n    dias no Estoril, porei essa correspond&ecirc;ncia em ordem, pois estou em<br \/>\n    d&iacute;vida, nessa mat&eacute;ria, n&atilde;o s&oacute; para consigo, mas<br \/>\n    tamb&eacute;m com v&aacute;rias outras pessoas.<\/p>\n<p>Ocorre-me perguntar de novo uma cousa que j&aacute; lhe perguntei e a que<br \/>\n    me n&atilde;o respondeu: recebeu os meus folhetos de versos em ingl&ecirc;s,<br \/>\n    que h&aacute; tempos lhe enviei?<\/p>\n<p>(Para meu governo&raquo;, como se diz em linguagem comercial, pedia-lhe que<br \/>\n    me indicasse o mais depressa poss&iacute;vel que recebeu esta carta. Obrigado.<\/p>\n<p>Fernando Pessoa <\/p>\n<h2>NOTAS<\/h2>\n<p>(1) &ndash; Esta carta, tal como foi inserida por Adolfo Casais Monteiro<br \/>\n    na revista Presen&ccedil;a, n.&ordm; 9, Junho de 1937, e mais tarde por Jorge<br \/>\n    de Sena nas P&aacute;ginas de Doutrina Est&eacute;tica, obr. cit., terminava<br \/>\n    aqui, em obedi&ecirc;ncia ao Post Scriptum de Fernando Pessoa, que pedia a<br \/>\n    n&atilde;o publica&ccedil;&atilde;o do trecho subsequente devido aos motivos<br \/>\n    que apontava e que se reproduzem. Contudo, com autoriza&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Casais Monteiro, Jo&atilde;o Gaspar Sim&otilde;es incluiu o referido trecho<br \/>\n    ocultista na sua Vida e Obra de Fernando Pessoa, obr. cit., pp. 546 e 547<br \/>\n    (2.&ordf; ed.). Transcreve-se o referido trecho na &iacute;ntegra, bem como<br \/>\n    o P. S., que s&oacute; figurava em Ap&ecirc;ndice da antologia de Sena.<\/p>\n<p>(2) &ndash; A ep&iacute;grafe de Eras e Psique &eacute; como se sabe a seguinte:<br \/>\n    &laquo;&#8230; E assim vedes, meu irm&atilde;o, que as verdades que vos foram<br \/>\n    dadas no Grau de Ne&oacute;fito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de<br \/>\n    Adepto Menor, s&atilde;o, ainda que opostas, a mesma verdade&raquo;.<\/p>\n<p>(3) &ndash; Termina aqui o texto em quest&atilde;o, s&oacute; conhecido depois<br \/>\n    do livro de J. Gaspar Sim&otilde;es.<\/p>\n<h2 align=\"left\"><a name=\"15\">Carta a Armando Cort&ecirc;s Rodrigues<\/a><\/h2>\n<p>Lisboa, 19 de Janeiro de 1915 <\/p>\n<p>Meu querido Amigo:<\/p>\n<p>H&aacute; tempos que lhe ando prometendo uma extensa carta. N&atilde;o sei<br \/>\n    mesmo se, especificando, lhe n&atilde;o falei numa carta de g&eacute;nero<br \/>\n    psicol&oacute;gico, a meu pr&oacute;prio respeito. Em todo o caso, &eacute;<br \/>\n    disso que se trata.<\/p>\n<p>Eu ando h&aacute; muito &ndash; desde que lhe prometi esta carta &ndash;<br \/>\n    com vontade de lhe falar intimamente e fraternalmente do meu &laquo;caso&raquo;,<br \/>\n    da natureza da crise ps&iacute;quica que h&aacute; tempos venho atravessando.<br \/>\n    Apesar da minha reserva, eu sinto a necessidade de falar nisto a algu&eacute;m,<br \/>\n    e n&atilde;o pode ser a outro sen&atilde;o a voc&ecirc; &ndash; isto porque<br \/>\n    s&oacute; voc&ecirc;, de entre todos quantos eu conhe&ccedil;o, possui de<br \/>\n    mim uma no&ccedil;&atilde;o precisamente no n&iacute;vel da minha realidade<br \/>\n    espiritual. D&aacute;-se esta sua capacidade para me compreender porque voc&ecirc;<br \/>\n    &eacute;, como eu, fundamentalmente um esp&iacute;rito religioso; e, dos que<br \/>\n    de perto literariamente me cercam, voc&ecirc; sabe bem que (por superiores<br \/>\n    que sejam como artistas) como almas, propriamente, n&atilde;o contam, n&atilde;o<br \/>\n    tendo nenhum deles a consci&ecirc;ncia (que em mim &eacute; quotidiana) da<br \/>\n    terr&iacute;vel import&acirc;ncia da Vida, essa consci&ecirc;ncia que nos<br \/>\n    impossibilita de fazer arte meramente pela arte, e sem a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de um dever a cumprir para com n&oacute;s pr&oacute;prios e para com a humanidade.<\/p>\n<p>Nesta explica&ccedil;&atilde;o aparentemente preliminar vai j&aacute; exposta<br \/>\n    uma grande parte do problema. N&atilde;o sei como lho hei-de expor ordenadamente,<br \/>\n    de modo perfeitamente l&uacute;cido. Mas, como isto &eacute; uma carta, eu<br \/>\n    irei expondo conforme possa; e voc&ecirc; ordenar&aacute;, em seu esp&iacute;rito,<br \/>\n    depois, os dispersos e alterados elementos.<\/p>\n<p>A minha crise &eacute; do g&eacute;nero das grandes crises ps&iacute;quicas,<br \/>\n    que s&atilde;o sempre crises de incompatibilidade, quando n&atilde;o com os<br \/>\n    outros, por certo com n&oacute;s pr&oacute;prios. A minha, agora, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; de incompatibilidade comigo pr&oacute;prio; a minha, gradualmente<br \/>\n    adquirida, autodisciplina, tem conseguido unificar dentro de mim quantos divergentes<br \/>\n    elementos do meu car&aacute;cter eram suscept&iacute;veis de harmoniza&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ainda tenho muito a empreender dentro do meu esp&iacute;rito; disto ainda<br \/>\n    muito de uma unifica&ccedil;&atilde;o como eu a quero. Mas, como disse, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; dessa banda que sopra o vento do meu desconsolo actual.<\/p>\n<p>A crise de incompatibilidade com os outros &#8211; n&atilde;o, entenda-se desde<br \/>\n    j&aacute;, uma incompatibilidade violenta, como a que resultasse de diverg&ecirc;ncias<br \/>\n    declaradas, n&iacute;tidas, de ambas as partes. Trata-se de outra cousa. A<br \/>\n    incompatibilidade &eacute; sentida por mim, dentro de mim, e &eacute; comigo<br \/>\n    que est&aacute; o peso todo da minha diverg&ecirc;ncia de aqueles que me cercam.<br \/>\n    O facto de eu estar agora vivendo s&oacute;, por n&atilde;o ter aqui fam&iacute;lia<br \/>\n    pr&oacute;xima (minha tia, em cuja casa eu estava, est&aacute; na Su&iacute;&ccedil;a,<br \/>\n    onde foi ficar com a filha, que casou h&aacute; pouco com um rapaz estudante,<br \/>\n    pensionista do Estado) vem agravar este estado de esp&iacute;rito, por me<br \/>\n    deixar a nu com a minha alma, sem afei&ccedil;&otilde;es e interesses familiares<br \/>\n    pr&oacute;ximos a desviar de mim a minha aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Temos pois que vivo h&aacute; meses numa cont&iacute;nua sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de incompatibilidade profunda com as criaturas que me cercam &#8211; mesmo com as<br \/>\n    pr&oacute;ximas, amigos, liter&aacute;rios &eacute; claro, porque os outros<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o indiv&iacute;duos com quem eu tenha que poder ter intimidade<br \/>\n    espiritual e por isso como, em mat&eacute;ria de rela&ccedil;&otilde;es sociais,<br \/>\n    me dou bem com toda a gente, dou-me bem com eles.<\/p>\n<p>Em ningu&eacute;m que me cerca eu encontro uma atitude, para com a vida que<br \/>\n    bata certo com a minha &iacute;ntima sensibilidade, com as minhas aspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e ambi&ccedil;&otilde;es, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial<br \/>\n    do meu &iacute;ntimo ser espiritual. Encontro, sim, quem esteja de acordo<br \/>\n    com actividades liter&aacute;rias que s&atilde;o apenas dos arredores da minha<br \/>\n    sinceridade. E isso n&atilde;o me basta. De modo que, &agrave; minha sensibilidade<br \/>\n    cada vez mais profunda, e &agrave; minha consci&ecirc;ncia cada vez maior<br \/>\n    da terr&iacute;vel e religiosa miss&atilde;o que todo o homem de g&eacute;nio<br \/>\n    recebe de Deus com o seu g&eacute;nio, tudo quanto &eacute; futilidade liter&aacute;ria,<br \/>\n    mera arte, vai gradualmente soando cada vez mais a oco e a repugnante. Pouco<br \/>\n    a pouco, mas seguramente, no divino cumprimento &iacute;ntimo de uma evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cujos fins me s&atilde;o ocultos, tenho vindo erguendo os meus prop&oacute;sitos<br \/>\n    e as minhas ambi&ccedil;&otilde;es cada vez mais &agrave; altura daquelas<br \/>\n    qualidades que recebi. Ter uma ac&ccedil;&atilde;o sobre a humanidade, contribuir<br \/>\n    com todo o poder do meu esfor&ccedil;o para a civiliza&ccedil;&atilde;o v&ecirc;m-se-me<br \/>\n    tornando os graves e pesados fins da minha vida. E, assim, fazer arte parece-me<br \/>\n    cada vez mais importante cousa, mais terr&iacute;vel miss&atilde;o &#8211; dever<br \/>\n    a cumprir arduamente, monasticamente, sem desviar os olhos do fim criador<br \/>\n    de civiliza&ccedil;&atilde;o de toda a obra art&iacute;stica. E por isso o<br \/>\n    meu pr&oacute;prio conceito puramente est&eacute;tico da arte subiu e dificultou-se;<br \/>\n    exijo agora de mim muita mais perfei&ccedil;&atilde;o e elabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cuidada. Fazer arte rapidamente, ainda que bem, parece-me pouco. Devo &agrave;<br \/>\n    miss&atilde;o que me sinto uma perfei&ccedil;&atilde;o absoluta no realizado,<br \/>\n    uma seriedade integral no escrito.<\/p>\n<p>Passou de mim a ambi&ccedil;&atilde;o grosseira de brilhar por brilhar, e<br \/>\n    essa outra, grosseir&iacute;ssima, e de um plebe&iacute;smo art&iacute;stico<br \/>\n    insuport&aacute;vel, de querer &eacute;pater. N&atilde;o me agarro j&aacute;<br \/>\n    &agrave; ideia do lan&ccedil;amento do Interseccionismo com ardor ou entusiasmo<br \/>\n    algum. &Eacute; um ponto que neste momento analiso e reanaliso a s&oacute;s<br \/>\n    comigo. Mas, se decidir lan&ccedil;ar essa quase blague, ser&aacute; j&aacute;,<br \/>\n    n&atilde;o a quase blague que seria, mas outra cousa. N&atilde;o publicarei<br \/>\n    o Manifesto &laquo;escandaloso&raquo;. O outro &ndash; aquele dos gr&aacute;ficos<br \/>\n    &ndash; talvez. A blague s&oacute; um momento, passageiramente, a um m&oacute;rbido<br \/>\n    per&iacute;odo transit&oacute;rio, de grosseria (felizmente incaracter&iacute;stica),<br \/>\n    me pode agradar ou atrair. Ser&aacute; talvez &uacute;til &ndash; penso &ndash;<br \/>\n    lan&ccedil;ar essa corrente como corrente, mas n&atilde;o com fins meramente<br \/>\n    art&iacute;sticos, mas, pensando esse acto a fundo, como uma s&eacute;rie<br \/>\n    de ideias que urge atirar para a publicidade para que possam agir sobre o<br \/>\n    psiquismo nacional, que precisa trabalhado e percorrido em todas as direc&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    por novas correntes de ideias e emo&ccedil;&otilde;es que nos arranquem &agrave;<br \/>\n    nossa estagna&ccedil;&atilde;o. Porque a ideia patri&oacute;tica, sempre mais<br \/>\n    ou menos presente nos meus prop&oacute;sitos, avulta agora em mim; e n&atilde;o<br \/>\n    penso em fazer arte que n&atilde;o medite faz&ecirc;-lo para erguer alto o<br \/>\n    nome portugu&ecirc;s atrav&eacute;s do que eu consiga realizar. &Eacute; uma<br \/>\n    consequ&ecirc;ncia de encarar a s&eacute;rio a arte e a vida. Outra atitude<br \/>\n    n&atilde;o pode ter para com a sua pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o do dever<br \/>\n    quem olha religiosamente para o espect&aacute;culo triste e misterioso do<br \/>\n    Mundo.<\/p>\n<p>Tenho-lhe explicado tudo isto muito mal. Quase que me tenta a ideia de rasgar<br \/>\n    esta carta onde, at&eacute;, pouca justi&ccedil;a fiz a mim pr&oacute;prio.<br \/>\n    Mas voc&ecirc; deve compreender o que eu sinto, e, creio, regozijar comigo,<br \/>\n    atrav&eacute;s da sua amizade, por esta minha evolu&ccedil;&atilde;o ascendente<br \/>\n    dentro de mim.<\/p>\n<p>Regresso a mim. Alguns anos andei viajando a colher maneiras de sentir. Agora,<br \/>\n    tendo visto tudo e sentido tudo, tenho o dever de me fechar em casa no meu<br \/>\n    esp&iacute;rito e trabalhar, quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso<br \/>\n    da civiliza&ccedil;&atilde;o e o alargamento da consci&ecirc;ncia da humanidade.<br \/>\n    Oxal&aacute; me [n&atilde;o] desvie disto o meu perigoso feitio demasiado<br \/>\n    multilateral, adapt&aacute;vel a tudo, sempre alheio a si pr&oacute;prio e<br \/>\n    sem nexo dentro de si.<\/p>\n<p>Mantenho, &eacute; claro, o meu prop&oacute;sito de lan&ccedil;ar pseudonimamente<br \/>\n    a obra Caeiro-Reis-Campos. Isso &eacute; toda uma literatura que eu criei<br \/>\n    e vivi, que &eacute; sincera, porque &eacute; sentida, e que constitui uma<br \/>\n    corrente com influ&ecirc;ncia poss&iacute;vel, ben&eacute;fica incontestavelmente,<br \/>\n    nas almas dos outros. O que eu chamo literatura insincera n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    aquela an&aacute;loga &agrave; do Alberto Caeiro, do Ricardo Reis ou do &Aacute;lvaro<br \/>\n    de Campos (o seu homem, este &uacute;ltimo, o da poesia sobre a tarde e a<br \/>\n    noite). Isso &eacute; sentido na pessoa de outro; &eacute; escrito dramaticamente,<br \/>\n    mas &eacute; sincero (no mais grave sentido da palavra) como &eacute; sincero<br \/>\n    o que diz o Rei Lear, que n&atilde;o &eacute; Shakespeare, mas uma cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dele. Chamo insinceras &agrave;s cousas feitas para fazer pasmar, e &agrave;s<br \/>\n    cousas, tamb&eacute;m &#8211; repare nisto, que &eacute; importante &#8211; que n&atilde;o<br \/>\n    cont&ecirc;m uma fundamental ideia metaf&iacute;sica, isto &eacute;, por onde<br \/>\n    n&atilde;o passa, ainda que como um vento, uma no&ccedil;&atilde;o da gravidade<br \/>\n    e do mist&eacute;rio da Vida. Por isso &eacute; s&eacute;rio tudo o que escrevi<br \/>\n    sob os nomes de Caeiro, Reis, &Aacute;lvaro de Campos. Em qualquer destes<br \/>\n    pus um profundo conceito da vida, diverso em todos tr&ecirc;s, mas em todos<br \/>\n    gravemente atento &agrave; import&acirc;ncia misteriosa de existir. E por<br \/>\n    isso n&atilde;o s&atilde;o s&eacute;rios os Pa&uacute;is, nem o seria o Manifesto<br \/>\n    interseccionista de que uma vez lhe li trechos desconexos. Em qualquer destas<br \/>\n    composi&ccedil;&otilde;es a minha atitude para com o p&uacute;blico &eacute;<br \/>\n    a de um palha&ccedil;o. Hoje sinto-me afastado de achar gra&ccedil;a a esse<br \/>\n    g&eacute;nero de atitude.<\/p>\n<p>Que pouco l&uacute;cido e expl&iacute;cito tudo isto! Mas eu tenho que lhe<br \/>\n    escrever tudo rapidamente; &eacute; hoje o dia 19 e eu n&atilde;o quero deixar<br \/>\n    de conversar com o seu esp&iacute;rito sobre estas cousas. Como j&aacute;<br \/>\n    disse, voc&ecirc; &eacute; o &uacute;nico dos meus amigos que tem, a par daquela<br \/>\n    aprecia&ccedil;&atilde;o das minhas qualidades que lhe permitir&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    julgar esta carta um documento de megal&oacute;mano, a profunda religiosidade,<br \/>\n    e a convic&ccedil;&atilde;o do doloroso enigma da Vida, para simpatizar comigo<br \/>\n    em tudo isto.<\/p>\n<p>Escuso agora de lhe explicar o quanto esta atitude &ndash; que eu, ali&aacute;s,<br \/>\n    n&atilde;o revelo, por v&aacute;rias raz&otilde;es, desde a de ser ela uma<br \/>\n    cousa &iacute;ntima at&eacute; &agrave; de ser incompreens&iacute;vel &agrave;s<br \/>\n    sensibilidades dos que me cercam &#8211; me incompatibiliza surdamente com os que<br \/>\n    est&atilde;o em meu redor. N&atilde;o &eacute; uma incompatibilidade violenta,<br \/>\n    disse; mas &eacute; uma impaci&ecirc;ncia para com todos quantos fazem arte<br \/>\n    para v&aacute;rios fins inferiores, como quem brinca, ou como quem se diverte,<br \/>\n    ou como quem arranja uma sala com gosto &ndash; g&eacute;nero de arte este<br \/>\n    que d&aacute; bem o que eu quero exprimir, porque n&atilde;o tem Al&eacute;m<br \/>\n    nem outro prop&oacute;sito que o, por assim dizer, decorativamente art&iacute;stico.<br \/>\n    E da&iacute; a minha &laquo;crise&raquo; toda. N&atilde;o &eacute; crise para<br \/>\n    eu me lamentar. &Eacute; a de se encontrar s&oacute; quem se adiantou de mais<br \/>\n    aos companheiros de viagem &ndash; desta viagem que os outros fazem para se<br \/>\n    distrair e acho t&atilde;o grave, t&atilde;o cheia de termos de pensar no<br \/>\n    seu fim, de reflectir no que diremos ao Desconhecido para cuja casa a nossa<br \/>\n    inconsci&ecirc;ncia guia os nossos passos&#8230; Viagem essa, meu querido Amigo,<br \/>\n    que &eacute; entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores&#8230; e Deus,<br \/>\n    fim da estrada infinita, &agrave; espera no sil&ecirc;ncio da Sua grandeza&#8230;<\/p>\n<p>Bem ou mal &ndash; mal, por certo &#8211; expus-lhe tudo. Sinto-me contente por<br \/>\n    lhe ter falado assim, e porque sei que o seu esp&iacute;rito acolhe com simpatia<br \/>\n    e amizade estas minhas tristezas de altura. Tudo isto, escuso dizer-lhe, &eacute;<br \/>\n    segredo&#8230; De resto, a quem o poderia voc&ecirc; contar? &#8230;<\/p>\n<p>Termino, a tempo felizmente. Mande-me quando puder, cuidadosamente copiados<br \/>\n    dos originais, os in&eacute;ditos de Antero de que me fala. Pode ser que,<br \/>\n    tendo-os aqui, seja conveniente public&aacute;-los nalguma parte. Haver&aacute;<br \/>\n    autoriza&ccedil;&atilde;o para isso ? &Eacute; bom saber-se.<\/p>\n<p>Mando-lhe alguns versos meus&#8230; Leia-os e guarde-os para si&#8230; A seu Pai,<br \/>\n    se quiser, pode l&ecirc;-los, mas n&atilde;o espalhe, porque s&atilde;o in&eacute;ditos.<br \/>\n    Amo especialmente a &uacute;ltima poesia, a da Ceifeira, onde consegui dar<br \/>\n    a nota pa&uacute;lica em linguagem simples. Amo-me por ter escrito<\/p>\n<p>Ah, poder ser tu, sendo eu!<br \/>\n    Ter a tua alegre inconsci&ecirc;ncia,<br \/>\n    E a consci&ecirc;ncia disso!&#8230;<\/p>\n<p>e, enfim, essa poesia toda.<\/p>\n<p>Tenho escrito mais, mas mando o que est&aacute; completo e &eacute; mais<br \/>\n    f&aacute;cil copiar. &Eacute; pena que v&aacute; tudo em letra de m&aacute;quina,<br \/>\n    que torna a poesia pouco po&eacute;tica, mas assim &eacute; mais r&aacute;pido<br \/>\n    e n&iacute;tido.<\/p>\n<p>Escreva-me sempre, meu caro C&ocirc;rtes-Rodrigues. D&ecirc; cumprimentos<br \/>\n    meus a seu Pai e receba um grande e fraterno abra&ccedil;o do seu<\/p>\n<p>Fernando Pessoa <\/p>\n<p>P.S. &ndash; Vi h&aacute; dias uma espl&ecirc;ndida composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &ndash; &laquo;um t&uacute;mulo de Wagner&raquo; &ndash; do Norberto Correia.<br \/>\n    Bela deveras. Voc&ecirc; gostaria imenso de a conhecer.<\/p>\n<p>F. P. <\/p>\n<p>P.S.2 &ndash; N&atilde;o tenho tempo para reler esta carta. Naturalmente<br \/>\n    faltam palavras aqui e acol&aacute;, dada a rapidez com que eu escrevi. E<br \/>\n    a letra em altura nenhuma ser&aacute; muito leg&iacute;vel. Voc&ecirc; desculpe<\/p>\n<p>F. P. <\/p>\n<h2><a name=\"16\">Carta a J&uacute;lio Saul Dias<\/a><\/h2>\n<p>Caixa Postal 147.<\/p>\n<p>Lisboa, 10 de Fevereiro de 1933.<\/p>\n<p>Meu presado Camarada:<\/p>\n<p>&Eacute; quasi, sen&atilde;o de todo, indesculpavel a demora que tenho dado<br \/>\n    ao agradecimento dos dois livros de desenhos seus, que ha tempos me enviou.<br \/>\n    Venho agradecer-lh&rsquo;os agora, com o meu pedido de desculpa por tanto<br \/>\n    tardar.<\/p>\n<p>Desejaria dizer qualquer coisa sobre os seus desenhos. Succede, por&eacute;m,<br \/>\n    que nada sei, technicamente, criticamente, de qualquer arte que n&atilde;o<br \/>\n    seja a literatura, e ainda d&rsquo;esta muitas vezes me pergunto se saberei<br \/>\n    alguma coisa&#8230; N&atilde;o poderei, pois, dar qualquer opini&atilde;o critica<br \/>\n    sobre os seus desenhos. O que posso dizer &#8211; e sinceramente lh&rsquo;o digo<br \/>\n    &#8211; &eacute; que me agradaram muito. Mas isto &eacute; uma impress&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o uma cr&iacute;tica.<\/p>\n<p>Muito tambem me agradou o ajustamento entre o texto e os desenhos no livro<br \/>\n    que tem texto, isto &agrave;parte o que os versos me agradaram em elles mesmos.<br \/>\n    S&atilde;o, presumo, do Jos&eacute; Regio; se n&atilde;o s&atilde;o, ha alguem<br \/>\n    que o segue espiritualmente tam de perto que lhe toca nos calcanhares.<\/p>\n<p>Acceite, com a reitera&ccedil;&atilde;o dos meus agradecimentos e pedidos<br \/>\n    de desculpa, a expresso do apre&ccedil;o e da camaradagem do<\/p>\n<p>Fernando Pessoa <\/p>\n<h2><a name=\"17\">Carta \u00e0 M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro<\/a><\/h2>\n<p>(em 14 de Mar&ccedil;o de 1916) <\/p>\n<p>Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental &#8211; uma &acirc;nsia aflita<br \/>\n    de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. S&oacute;<br \/>\n    isto &#8211; que estou hoje no fundo de uma depress&atilde;o sem fundo. O absurdo<br \/>\n    da frase falar&aacute; por mim. <\/p>\n<p>Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. H&aacute; s&oacute; um<br \/>\n    presente im&oacute;vel com um muro de ang&uacute;stia em torno. A margem de<br \/>\n    l&aacute; do rio nunca, enquanto &eacute; a de l&aacute;, &eacute; a de c&aacute;;<br \/>\n    e &eacute; esta a raz&atilde;o &iacute;ntima de todo o meu sofrimento. H&aacute;<br \/>\n    barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida n&atilde;o doer, nem h&aacute;<br \/>\n    desembarque onde se esqueca. Tudo isto aconteceu h&aacute; muito tempo, mas<br \/>\n    a minha m&aacute;goa &eacute; mais antiga. <\/p>\n<p>Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consci&ecirc;ncia<br \/>\n    do meu corpo, que sou a crianca triste em quem a vida bateu. Puseram-me a<br \/>\n    um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas m&atilde;os o brinquedo partido<br \/>\n    que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, &agrave;s<br \/>\n    nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto. <\/p>\n<p>No jardim que entrevejo pelas janela caladas do meu sequestro, atiraram com<br \/>\n    todos os baloucos para cima dos ramos de onde pendem; est&atilde;o enrolados<br \/>\n    muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginac&atilde;o,<br \/>\n    ter baloucos para esquecer a hora. <\/p>\n<p>Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, &eacute; o meu estado de alma neste<br \/>\n    momento. Como &agrave; veladora do &quot;Marinheiro&quot; ardem-me os olhos,<br \/>\n    de ter pensado em chorar. D&oacute;i-me a vida aos poucos, a goles, por interst&iacute;cios.<br \/>\n    Tudo isto est&aacute; impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura<br \/>\n    a descoser-se. <\/p>\n<p>Se eu n&atilde;o estivesse escrevendo a voc&ecirc;, teria que lhe jurar que<br \/>\n    esta carta &eacute; sincera, e que as coisas de nexo hist&eacute;rico que<br \/>\n    a&iacute; v&atilde;o sa&iacute;ram espont&acirc;neas do que me sinto. Mas<br \/>\n    voc&ecirc; sentir&aacute; bem que esta trag&eacute;dia irrepresent&aacute;vel<br \/>\n    &eacute; de uma realidade de cabide ou de ch&aacute;vena &#8211; chia de aqui e<br \/>\n    de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas. <\/p>\n<p>Foi por isto que o Pr&iacute;ncipe n&atilde;o reinou. Esta frase &eacute;<br \/>\n    inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas d&atilde;o<br \/>\n    uma grande vontade de chorar. <\/p>\n<p>Pode ser que, se n&atilde;o deitar hoje esta carta no correio amanha, relendo-a,<br \/>\n    me demore a copi&aacute;-la &agrave; m&aacute;quina, para inserir frases e<br \/>\n    esgares dela no &quot;Livro do Desassossego&quot;. Mas isso nada roubar&aacute;<br \/>\n    &agrave; sinceridade com que a escrevo, nem &agrave; dolorosa inevitabilidade<br \/>\n    com que a sinto. <\/p>\n<p>As &uacute;ltimas not&iacute;cias s&atilde;o estas. H&aacute; tamb&eacute;m<br \/>\n    o estado de guerra com a Alemanha, mas j&aacute; antes disso a dor fazia sofrer.<br \/>\n    Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual. <\/p>\n<p>Isto n&atilde;o &eacute; bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono<br \/>\n    ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, n&atilde;o<br \/>\n    muito diferentes destes. <\/p>\n<p>De que cor ser&aacute; sentir? <\/p>\n<p>Milhares de abracos do seu, sempre muito seu, <\/p>\n<p>Fernando Pessoa <\/p>\n<p>P.S. &#8211; Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente,<br \/>\n    a copiarei amanha, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho t&atilde;o completamente<br \/>\n    escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais,<br \/>\n    com toda a sua histero-neurastenia fundamental, com todas aquelas intersec&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e esquinas na consci&ecirc;ncia de si-pr&oacute;prio que dele s&atilde;o tao<br \/>\n    caracter&iacute;sticas&#8230; <\/p>\n<p>Voc&ecirc; acha-me raz&atilde;o, n&atilde;o &eacute; verdade? <\/p>\n<h2><a name=\"18\">Carta a Miguel Torga<\/a><\/h2>\n<p>Lisboa, 6 de Junho de 1930.<\/p>\n<p>Meu presado Camarada:<\/p>\n<p>Muito agrade&ccedil;o o exemplar do seu livro &quot;Rampa&quot;. Recebi-o<br \/>\n    j&aacute; h&aacute; alguns dias. S&oacute; hoje posso escrever para lho agradecer.<br \/>\n    Li-o, por&eacute;m, logo que o recebi.<\/p>\n<p>Li-o e gostei dele. A sua sensibilidade &eacute; de tipo igual &agrave; do<br \/>\n    Jos&eacute; R&eacute;gio &ndash; &eacute; confundida, em si mesma, com a intelig&ecirc;ncia.<br \/>\n    O que em si &eacute; ainda por aperfei&ccedil;oar &eacute; o modo de fazer<br \/>\n    uso dessa sensibilidade. H&aacute; que separar mais os dois elementos, que<br \/>\n    naturalmente a comp&otilde;em; ou que confundi-los ainda mais. Uma an&aacute;lise<br \/>\n    instintiva que coloque a sensibilidade desintelectualizada perante a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    dessensibilizada, em contraste, di&aacute;logo e reparo; ou uma s&iacute;ntese<br \/>\n    em que desapare&ccedil;am os tra&ccedil;os de haver dois.<\/p>\n<p>N&atilde;o creio imposs&iacute;vel que qualquer, ou ambos, destes processos<br \/>\n    sejam por si atingidos num futuro pr&oacute;ximo da sua consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de si mesmo.<\/p>\n<p>Intelectualmente &ndash; e portanto artisticamente &ndash; falando (a arte<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; mais que uma manifesta&ccedil;&atilde;o distra&iacute;da<br \/>\n    da intelig&ecirc;ncia), a sensibilidade &eacute; o inimigo. N&atilde;o o inimigo<br \/>\n    que se nos op&otilde;e, como na guerra, mas o inimigo a quem nos opomos, como<br \/>\n    no amor. H&aacute; que vencer, pois, n&atilde;o por esmagamento, mas por sedu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou dom&iacute;nio. Chamar a sensibilidade para dentro da casa da intelig&ecirc;ncia;<br \/>\n    ou fazer a intelig&ecirc;ncia montar casa externa &agrave; sensibilidade.<br \/>\n    Imagens? Como o universo&#8230; Mas, em suma, gostei do seu livro, e por ele o<br \/>\n    felicito.<\/p>\n<p>Com a melhor camaradagem e apre&ccedil;o<\/p>\n<p>Fernando Pessoa <\/p>\n<h2><a name=\"19\">Carta ao amigo M\u00e1rio Beir\u00e3o<\/a><\/h2>\n<p>Em 01 de Fevereiro de 1913 <\/p>\n<p>&quot;Estou actualmente atravessando uma daquelas crises a que, quando se<br \/>\n    d&atilde;o na agricultura, se costuma chamar &quot;crise de abund&acirc;ncia&quot;.\n  <\/p>\n<p>Tenho a alma num estado de rapidez ideativa t&atilde;o intenso que preciso<br \/>\n    fazer da minha aten&ccedil;&atilde;o um caderno de apontamentos, e, ainda<br \/>\n    assim, tantas s&atilde;o as folhas que tenho a encher que algumas se perdem,<br \/>\n    por elas serem tantas, e outras se n&atilde;o podem ler depois, por com mais<br \/>\n    que muita pressa escritas. As ideias que perco causam-me uma tortura imensa,<br \/>\n    sobrevivem-se nessa tortura escuramente outras. V. dificilmente imaginar&aacute;<br \/>\n    que a Rua do Arsenal, em mat&eacute;ria de movimento, tem sido a minha pobre<br \/>\n    cabe&ccedil;a. Versos ingleses, portugueses, racioc&iacute;nios, temas, projectos,<br \/>\n    fragmentos de coisas que n&atilde;o sei o que s&atilde;o, cartas que n&atilde;o<br \/>\n    sei como come&ccedil;am ou acabam, rel&acirc;mpagos de cr&iacute;ticas, murm&uacute;rios<br \/>\n    de metaf&iacute;sicas&#8230; toda uma literatura, meu caro M&aacute;rio, que vai<br \/>\n    da bruma &#8211; para a bruma &#8211; pela bruma&#8230; <\/p>\n<p>Destaco de coisas ps&iacute;quicas de que tenho sido o lugar o seguinte fen&ocirc;meno<br \/>\n    que julgo curioso. V. sabe, creio, que de v&aacute;rias fobias que tive guardo<br \/>\n    unicamente a assaz infantil mas terrivelmente torturadora fobia das trovoadas.<br \/>\n    O outro dia o c&eacute;u amea&ccedil;ava chuva e eu ia a caminho de casa e<br \/>\n    por tarde n&atilde;o havia carros. Afinal n&atilde;o houve trovoada, mas esteve<br \/>\n    iminente e come&ccedil;ou a chover &#8211; aqueles pingos graves, quentes e espa&ccedil;ados<br \/>\n    &#8211; ia eu ainda a meio caminho entre a Baixa e minha casa. Atirei-me para casa<br \/>\n    com o andar mais pr&oacute;ximo do correr que pude achar, com a tortura mental<br \/>\n    que V. calcula, perturbad&iacute;ssimo, confrangido eu todo. E neste estado<br \/>\n    de esp&iacute;rito encontro-me a compor um soneto* &#8211; acabei-o uns passos antes<br \/>\n    de chegar ao port&atilde;o de minha casa -, a compor um soneto de uma tristeza<br \/>\n    suave, calma, que parece escrito por um crep&uacute;sculo de c&eacute;u limpo.<br \/>\n    E o soneto &eacute; n&atilde;o s&oacute; calmo, mas tamb&eacute;m mais ligado<br \/>\n    e conexo que algumas coisas que eu tenho escrito. O fen&ocirc;meno curioso<br \/>\n    do desdobramento &eacute; a coisa que habitualmente tenho, mas nunca o tinha<br \/>\n    sentido neste grau de intensidade&#8230; &quot; <\/p>\n<p align=\"right\"><b>* O soneto referido intitula-se &quot;Abdica&ccedil;&atilde;o&quot;.<br \/>\n    Carta retirada do livro &quot;P&aacute;ginas &Iacute;ntimas e de Auto-Interpreta&ccedil;&atilde;o&quot;,<br \/>\n    Ed. &Aacute;tica. <\/b><\/p>\n<h2><a name=\"20\">De amor, de 01\/03\/1920<\/a><\/h2>\n<p>01\/03\/1920. <\/p>\n<p>Meu querido Be&laquo;be&raquo;sinho, <\/p>\n<p>Hoje, com a quasi certeza que o Osorio n&atilde;o te poder&aacute; encontrar,<br \/>\n    pois, al&eacute;m de ter que esperar aqui pelo Valladas, tem naturalmente<br \/>\n    que ir levar assucar a casa de meu primo, quasi que de nada me serve escrever-te.<br \/>\n    V&atilde;o, em todo o caso, estas linhas, para o caso de sempre ser possivel<br \/>\n    fazer te chegar a carta &aacute;s m&atilde;os. <\/p>\n<p>Ainda bem que a interrup&ccedil;&atilde;o de ainda agora foi mesmo no fim<br \/>\n    da nossa conversa, quando iamos despedir-nos. Era justamente para evitar interrup&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    d&#8217;essas que eu escolhi o caminho por onde hoje iamos. Amanh&atilde; esperarei<br \/>\n    &agrave; mesma hora, sim B&eacute;b&eacute;? N&atilde;o me conformo com a<br \/>\n    id&eacute;a de escrever; queria fallar-te, ter-te sempre ao p&eacute; de mim,<br \/>\n    n&atilde;o ser necess&aacute;rio mandar-te cartas. As cartas s&atilde;o signais<br \/>\n    de separa&ccedil;&atilde;o &#8211; signais, pelo menos, pela necessidade de as escrevermos,<br \/>\n    de que estamos affastados. <\/p>\n<p>N&atilde;o te admires de certo laconismo nas minhas cartas. As cartas s&atilde;o<br \/>\n    para as pessoas a qu&eacute;m n&atilde;o interessa mais fallar: para essas<br \/>\n    escrevo de boa vontade. A minha m&atilde;e, por exemplo, nunca escrevi de<br \/>\n    boa vontade, exactemente porque gosto muito d&#8217;ella. <\/p>\n<p>Quero que sintas isto, que saibas que eu sinto e penso assim a este respeito,<br \/>\n    para n&atilde;o me achares secco, frio, indifferente. Eu n&atilde;o o sou,<br \/>\n    meu B&eacute;b&eacute;-menininho, minha almofadinha c&ocirc;r-de-rosa para<br \/>\n    pregar beijos (que grande disparate!) <\/p>\n<p>Mando um meiguinho chinez. <br \/>\n    E adeus at&eacute; amanh&atilde;, meu anjo. <\/p>\n<p>Um quarteir&atilde;o de milhares de beijos do teu, sempre teu <\/p>\n<p>Fernando <\/p>\n<h2><a name=\"21\">De amor, de 15\/08\/1920<\/a><\/h2>\n<p>Domingo, 15\/08\/1920 <\/p>\n<p>Vibora: <\/p>\n<p>Recebi a tua carta m&aacute;, e, na verdade, n&atilde;o percebo como foi<br \/>\n    que nos n&atilde;o encontr&aacute;mos nem hontem nem antes de hontem. Differen&ccedil;a<br \/>\n    de relogios? N&atilde;o creio, porque n&atilde;o notei, quer num dia quer<br \/>\n    noutro, ao chegar &aacute; Baixa, que o meu relogio estivesse t&atilde;o errado.\n  <\/p>\n<p>Escrevo-te s&oacute; estas linhas para te dizer que estarei amanh&atilde;<br \/>\n    ao meio-dia em ponto no fim da Av. das Cortes. V&atilde;es ao escriptorio<br \/>\n    da R. da Victoria &aacute; 1. Isto deve dar-te tempo. O peor &eacute; se v&atilde;es<br \/>\n    acompanhada. Em todo o caso esperar-te-hei at&eacute; &aacute;s 12 1\/4. <\/p>\n<p>Oxal&aacute; estejas melhor; mas isso n&atilde;o &eacute; desgosto, &eacute;<br \/>\n    viboridade, ou seja maldade. <\/p>\n<p>Sempre e muito teu <\/p>\n<p>Fernando <\/p>\n<p>Estou escrevendo do Caf&eacute; Arcada ao meio dia e 3 quartos. Porisso escrevo<br \/>\n    pouco (contra o meu costume) para ver se passo na tua rua n&atilde;o muito<br \/>\n    longe da uma hora. <\/p>\n<h2><a name=\"22\">De amor, de 19\/02\/1920<\/a><\/h2>\n<p>19\/02\/1920 <\/p>\n<p>Ophelinha: <\/p>\n<p>Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indifferen&ccedil;a<br \/>\n    real, n&atilde;o era preciso o disfarce transparente de um discurso t&atilde;o<br \/>\n    comprido, nem da serie de &quot;raz&otilde;es&quot; t&atilde;o pouco sinceras<br \/>\n    como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-m&#8217;o. Assim, entendo da mesma<br \/>\n    maneira, mas d&otilde;e-me mais. <\/p>\n<p>Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito,<br \/>\n    como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelinha pode preferir quem quizer:<br \/>\n    n&atilde;o tem obriga&ccedil;&atilde;o &#8211; creio eu &#8211; de amar-me, nem, realmente<br \/>\n    necessidade (a n&atilde;o ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.\n  <\/p>\n<p>Quem ama verdadeiramente n&atilde;o escreve cartas que parecem requerimentos<br \/>\n    de advogado. O amor n&atilde;o estuda tanto as cousas, nem trata os outros<br \/>\n    como r&eacute;us que &eacute; preciso &quot;entalar&quot;. <br \/>\n    Porque n&atilde;o &eacute; franca para commigo? Que empenho tem em fazer soffrer<br \/>\n    quem n&atilde;o lhe fez mal &#8211; nem a si, nem a ningu&eacute;m -, a quem tem<br \/>\n    por peso e dor bastante a propria vida isolada e triste, e n&atilde;o precisa<br \/>\n    de que lh&#8217;a venham accrescentar creando-lhe esperan&ccedil;as falsas, mostrando-lhe<br \/>\n    affei&ccedil;&otilde;es fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse,<br \/>\n    mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de tro&ccedil;a. <\/p>\n<p>Reconhe&ccedil;o que tudo isto &eacute; comico, e que a parte mais comica<br \/>\n    d&#8217;isto tudo sou eu. <br \/>\n    Eu-proprio acharia gra&ccedil;a, se n&atilde;o a amasse tanto, e se tivesse<br \/>\n    tempo para pensar em outra cousa que n&atilde;o fosse no soffrimento que tem<br \/>\n    prazer em causar-me sem que eu, a n&atilde;o ser por am&aacute;l-a, o tenha<br \/>\n    merecido, e creio bem qeu am&aacute;l-a n&atilde;o &eacute; raz&atilde;o bastante<br \/>\n    para o merecer. Enfim&#8230; <\/p>\n<p>Ahi fica o &quot;documento escripto&quot; que me pede. Reconhece a minha<br \/>\n    assignatura o tabelli&atilde;o Eugenio Silva. <\/p>\n<p>Fernando <\/p>\n<h2><a name=\"23\">De amor, de 23\/03\/1920<\/a><\/h2>\n<p>23\/03\/1920 <\/p>\n<p>O Osorio leva o chinez dentro de uma caixa de phosphoros. <\/p>\n<p>Meu Be&laquo;be&raquo;zinho lindo: <\/p>\n<p>N&atilde;o imaginas a gra&ccedil;a que te achei hoje &aacute; janella da<br \/>\n    casa de tua irm&atilde;! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer<br \/>\n    em me ver (Alvaro de Campos). <\/p>\n<p>Tenho estado muito triste, e al&eacute;m d&#8217;isso muito cansado &#8211; triste n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; por te n&atilde;o poder ver, como tambem pelas complica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    constante, insistente, habil d&#8217;essas pessoas; n&atilde;o ralhando contigo,<br \/>\n    n&atilde;o se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o<br \/>\n    teu espirito, venha a levar-te finalmente a n&atilde;o gostar de mim. Sinto-me<br \/>\n    j&aacute; differente; j&aacute; n&atilde;o &eacute;s a mesma que eras no escriptorio.<br \/>\n    N&atilde;o digo que tu propria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo<br \/>\n    menos, julguei dar por isso. Oxal&aacute; me tenha enganado&#8230; <\/p>\n<p>Olha, filhinha: n&atilde;o vejo nada claro no futuro. Quero dizer: n&atilde;o<br \/>\n    vejo o que v&atilde;e haver, ou o que v&atilde;e ser de n&oacute;s, dado,<br \/>\n    de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia,<br \/>\n    e de em tudo seres de uma opini&atilde;o contraria &aacute; minha. No escriptorio<br \/>\n    eras mais docil, mais meiga, mais amoravel. <\/p>\n<p>Enfim&#8230; Amanh&atilde; passo &aacute; mesma hora no Largo de Cam&otilde;es.<br \/>\n    Poder&aacute;s tu apparecer &aacute; janella? <\/p>\n<p>Sempre e muito teu <\/p>\n<p>Fernando <\/p>\n<h2><a name=\"24\">De amor, de 23\/11\/1920<\/a><\/h2>\n<p>Domingo, 29\/11\/1920 <\/p>\n<p>Ophelinha: <\/p>\n<p>Agrade&ccedil;o a sua carta. Ella trouxe-me pena e allivio ao mesmo tempo.<br \/>\n    Pena, porque estas cousas fazem sempre pena; allivio, porque, na verdade,<br \/>\n    a unica solu&ccedil;&atilde;o &eacute; essa &#8211; o n&atilde;o prolongarmos mais<br \/>\n    uma situa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o tem j&aacute; a justifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima<br \/>\n    profunda, uma amisade inalteravel. N&atilde;o me nega a Ophelinha outro tanto,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; verdade? <\/p>\n<p>Nem a Ophelinha, nem eu, temos culpa nisto. S&oacute; o Destino ter&aacute;<br \/>\n    culpa, se o Destino fosse gente, a quem culpas se attribuissem. <\/p>\n<p>O Tempo, que envelhece as faces e os cabellos, envelhece tambem, mas mais<br \/>\n    depressa ainda, as affei&ccedil;&otilde;es violentas. A maioria da gente,<br \/>\n    porque &eacute; estupida, consegue n&atilde;o dar por isso, e julga que ainda<br \/>\n    ama porque contrahiu o habito de se sentir a amar. Se assim n&atilde;o fosse,<br \/>\n    n&atilde;o havia gente feliz no mundo. As creaturas superiores, por&eacute;m,<br \/>\n    s&atilde;o privadas da possibilidade d&#8217;essa illus&atilde;o, porque nem podem<br \/>\n    crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por<br \/>\n    elle a estima, ou a gratid&atilde;o, que elle deixou. <br \/>\n    Estas cousas fazem soffrer, mas o soffrimento passa. Se a vida, que &eacute;<br \/>\n    tudo, passa por fim, como n&atilde;o h&atilde;o de passar o amor e a dor,<br \/>\n    e todas as mais cousas, que n&atilde;o s&atilde;o mais que partes da vida?\n  <\/p>\n<p>Na sua carta &eacute; injusta para commigo, mas comprehendo e desculpo; decerto<br \/>\n    a escreveu com irrita&ccedil;&atilde;o, talvez mesmo com magua, mas a maioria<br \/>\n    da gente &#8211; homens ou mulheres &#8211; escreveria, no seu caso, num tom ainda mais<br \/>\n    acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ophelinha tem um feitio optimo,<br \/>\n    e mesmo a sua irrita&ccedil;&atilde;o n&atilde;o consegue ter maldade. <\/p>\n<p>Quando casar, se n&atilde;o tiver a felicidade que merece, por certo que<br \/>\n    n&atilde;o ser&aacute; sua a culpa. <br \/>\n    Quanto a mim&#8230; <\/p>\n<p>O amor passou. Mas conservo-lhe uma affei&ccedil;&atilde;o inalteravel, e<br \/>\n    n&atilde;o esquecerei nunca &#8211; nunca, creia &#8211; nem a sua figurinha engra&ccedil;ada<br \/>\n    e os seus modos de pequeneina, nem a sua ternura, a sua dedica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a sua indole amoravel. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que<br \/>\n    lhe attrib&uacute;o, fossem uma illus&atilde;o minha; mas nem creio que fossem,<br \/>\n    nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lh&#8217;as attribuisse. <\/p>\n<p>N&atilde;o sei o que quer que lhe devolva &#8211; cartas ou que mais. Eu preferia<br \/>\n    n&atilde;o lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memoria viva<br \/>\n    de uma passado morto, como todos os passados; como alguma cousa de commovedor<br \/>\n    numa vida, como a minha, em que o progresso nos annos &eacute; par do progresso<br \/>\n    na infelicidade e na desillus&atilde;o. <\/p>\n<p>Pe&ccedil;o que n&atilde;o fa&ccedil;a como a gente vulgar, que &eacute;<br \/>\n    sempre reles; que n&atilde;o me volte a cara quando passe por si, nem tenha<br \/>\n    de mim uma recorda&ccedil;&atilde;o em que entre o rancor. Fiquemos, um perante<br \/>\n    o outro, como dois conhecidos desde a infancia, que se amaram um pouco quando<br \/>\n    meninos, e, embora na vida adulta sigam outras affei&ccedil;&otilde;es e outros<br \/>\n    caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memoria profunda do seu<br \/>\n    amor antigo e inutil <br \/>\n    Que isto de &quot;outras affei&ccedil;&otilde;es&quot; e de &quot;outros caminhos&quot;<br \/>\n    &eacute; consigo, Ophelinha, e n&atilde;o commigo. O meu destino pertence<br \/>\n    a outra Lei, de cuja existencia a Ophelinha nem sabe, e est&aacute; subordinado<br \/>\n    cada vez mais &aacute; obedi&ecirc;ncia a Mestres que n&atilde;o permittem<br \/>\n    nem perdoam. <br \/>\n    N&atilde;o &eacute; necessario que comprehenda isto. Basta que me conserve<br \/>\n    com carinho na sua lembran&ccedil;a, como eu, inalteravelmente, a conservarei<br \/>\n    na minha. <\/p>\n<p>Fernando <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: \u00c0 Adolfo Casais Monteiro \u00c0 \u00c1lvaro Pinto, de 01\/05\/1912 \u00c0 \u00c1lvaro Pinto, de 02\/05\/1912 \u00c0 \u00c1lvaro Pinto, de 30\/04\/1912 \u00c0 Armando Teixeira Rebelo, de 24\/08\/1907 A Editora Inglesa \u00c0 Entreprise Luvisy, de 19\/06\/1906 \u00c0 Fernando Pessoa, 02\/01\/1985 &#8211; Jorge Luis Borges \u00c0 mem\u00f3ria de Fernando Pessoa, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95876","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Correspond\u00eancias - Fernando Pessoa, Obra Correspond\u00eancias - Fernando Pessoa<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Correspond\u00eancias - Fernando Pessoa, Obra, S\u00e1-Carneiro, Adolfo Casais, Editora Inglesa, Carta, Literatura, Correspond\u00eancias - Fernando Pessoa\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Correspond\u00eancias - Fernando Pessoa, Obra Correspond\u00eancias - Fernando Pessoa\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Correspond\u00eancias - Fernando Pessoa, Obra, S\u00e1-Carneiro, Adolfo Casais, Editora Inglesa, Carta, Literatura, Correspond\u00eancias - Fernando Pessoa\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/correspondencias-fernando-pessoa\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-23T10:01:20+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"111 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/correspondencias-fernando-pessoa#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/correspondencias-fernando-pessoa\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Correspond\u00eancias &#8211; 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