{"id":95750,"date":"2017-01-20T11:08:55","date_gmt":"2017-01-20T13:08:55","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95750"},"modified":"2018-02-01T14:37:18","modified_gmt":"2018-02-01T16:37:18","slug":"peru-versus-bolivia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/peru-versus-bolivia","title":{"rendered":"Peru Versus Bol\u00edvia"},"content":{"rendered":"<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Euclides da Cunha<\/h2>\n<p align=\"right\"><em>&#8230; mais il est permis, m\u00eame ou plus faible, <\/em><\/p>\n<p><em>d&#8217;avoir une bonne intention et de la dire. <\/em><br \/>\n<strong><em>Victor Hugo<\/em><\/strong><\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a><strong>Cap\u00edtulo I <\/strong><\/h2>\n<p>A quest\u00e3o de limites entre a Bol\u00edvia e o Peru, submetida pelo\u00a0Tratado de arbitragem de 31 de dezembro de 1902 ao ju\u00edzo e decis\u00e3o\u00a0do governo argentino, envolve a maior superf\u00edcie territorial que ainda\u00a0se discutiu entre dous Estados.<br \/>\nA Bol\u00edvia, por comprazer ao desejo expresso da na\u00e7\u00e3o\u00a0colitigante, parte da base de quase mil quil\u00f4metros, estendida entre<br \/>\no Madeira e o Javari, da linha divis\u00f3ria do Tratado preliminar de Santo\u00a0Ildefonso, e reclama todo o territ\u00f3rio que lhe demora ao sul, limitado\u00a0a oeste pelo curso do Ucayali at\u00e9 aos formadores do Urubamba e vertentes\u00a0meridionais do Madre de Dios \u00e0 esquerda do Inambari, reduzindo a m\u00e1xima\u00a0expans\u00e3o oriental dos dom\u00ednios peruanos \u00e0 meridiana do\u00a0rio Suches, e excluindo-os, inteiramente, dos vales amaz\u00f4nicos que se\u00a0sucedem do Juru\u00e1 ao Mamor\u00e9. O Peru, baseando-se, fundamentalmente,\u00a0na mesma linha, exige os mesmos terrenos dilatados, extremando-os no levante\u00a0com os <em>thalwegs <\/em>do Madeira e do Mamor\u00e9 at\u00e9 \u00e0 foz\u00a0do Iruani, e ao sul com os do Madidi e Tambopata, por maneira a incluir no pleito\u00a0largas superf\u00edcies de terras brasileiras, ao mesmo passo que agrava o\u00a0<em>hinterland <\/em>boliviano, recalcando-o nas altas nascentes e cursos m\u00e9dios\u00a0do Mamor\u00e9 e do Beni.<\/p>\n<p>O esbo\u00e7o cartogr\u00e1fico anexo pormenoriza os principais segmentos<br \/>\ndo irregular\u00edssimo quadril\u00e1tero litigioso &#8211; cujas \u00e1reas<br \/>\nse deduzem, com seguran\u00e7a, em n\u00fameros redondos:<\/p>\n<table border=\"0\" cellspacing=\"2\" cellpadding=\"7\" align=\"center\" bgcolor=\"#FFCC00\">\n<tbody>\n<tr class=\"tabela\" bgcolor=\"#FFE3BB\">\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"291\">Regi\u00e3o ao sul do Madre de Dios<\/td>\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#FFFFFF\" width=\"291\">93 000 km<\/td>\n<\/tr>\n<tr class=\"tabela\" bgcolor=\"#FFE3BB\">\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"291\">Regi\u00e3o entre o Madre de Dios, Abun\u00e3,<br \/>\nAcre Meridional e paralelo 11\u00ba<\/td>\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#FFFFFF\" width=\"291\">73000 km<\/td>\n<\/tr>\n<tr class=\"tabela\" bgcolor=\"#FFE3BB\">\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"291\">Regi\u00e3o a oeste da linha Inambari-Javari<\/td>\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#FFFFFF\" width=\"291\">130 000 km<\/td>\n<\/tr>\n<tr class=\"tabela\" bgcolor=\"#FFE3BB\">\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"291\" height=\"53\">Regi\u00e3o ao norte do paralelo<br \/>\n11\u00ba at\u00e9 a linha de Santo Ildefonso, conforme as \u00faltimas<br \/>\npretens\u00f5es peruanas<\/td>\n<td valign=\"top\" bgcolor=\"#FFFFFF\" width=\"291\">424 000 km<\/td>\n<\/tr>\n<tr class=\"tabela\" bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<th valign=\"top\" width=\"291\">TOTAL<\/th>\n<th valign=\"top\" width=\"291\">720000 km<\/th>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Destes algarismos derivam-se paralelos que os tornam ainda mais eloq\u00fcentes.<br \/>\nAssim, a zona controvertida ultrapassa as superf\u00edcies de nossos Estados<br \/>\nde Minas, Rio de Janeiro e Esp\u00edrito Santo, que somadas atingir\u00e3o<br \/>\nno m\u00e1ximo a 690 000 quil\u00f4metros quadrados; avassalaria o bloco<br \/>\ncontinental, que se constitu\u00edsse juntando um ter\u00e7o da Espanha<br \/>\ne toda a Fran\u00e7a; abrange mais do triplo do Uruguai; e corresponde a<br \/>\n25 B\u00e9lgicas &#8211; o que a torna, de acordo com a densidade demogr\u00e1fica<br \/>\nda \u00faltima, capaz de uma popula\u00e7\u00e3o de 180.000.000 de habitantes,<br \/>\nqu\u00e1drupla da atual da Am\u00e9rica do Sul, dupla da atual dos Estados<br \/>\nUnidos da Am\u00e9rica do Norte.<br \/>\nN\u00e3o prolonguemos os confrontos.<br \/>\nRepregamo-los, adrede, de numerosas cifras, por eliminar quaisquer exageros,<br \/>\nque os dispensa a realidade surpreendente. O que se v\u00ea, e se mede e<br \/>\nse calcula, geometricamente, a plan\u00edmetro e a r\u00e9gua, \u00e9<br \/>\na base f\u00edsica capaz de por si s\u00f3 conter uma enorme nacionalidade,<br \/>\ne ao atentar-se que precisamente nos seus recessos, ainda n\u00e3o de todo<br \/>\nconhecidos, se efetua nestes dias um incompar\u00e1vel povoamento intensivo,<br \/>\natra\u00eddo pela privilegiada flora geradora da mat\u00e9ria-prima entre<br \/>\ntodas mais crescentemente exigida pela ind\u00fastria moderna &#8211; p\u00f5e-se<br \/>\nde manifesto que o debate arbitral, em andamento, n\u00e3o entende apenas<br \/>\ndos interesses imediatos das Rep\u00fablicas litigantes, sen\u00e3o tamb\u00e9m<br \/>\ndos que se ligam, sob v\u00e1rias modalidades, \u00e0 economia geral,<br \/>\n\u00e0 pol\u00edtica, e at\u00e9 \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde todo o continente.<br \/>\nDa\u00ed, o interesse que desperta \u00e9 a legitimidade da sua discuss\u00e3o,<br \/>\nao menos durante a litispend\u00eancia, antes da senten\u00e7a do juiz<br \/>\nsoberano e inapel\u00e1vel. Al\u00e9m disto, a este mesmo \u00e1rbitro<br \/>\nn\u00e3o lhe bastar\u00e1 a massa formid\u00e1vel de documentos cartogr\u00e1ficos<br \/>\ne hist\u00f3ricos fornecidos pelos Governos interessados, apequenando-se<br \/>\nna tarefa med\u00edocre e exaustiva de contrastar um sem-n\u00famero de<br \/>\nlinhas embaralhadas, e datas no geral inexpressivas; ou derivando ao pecaminoso<br \/>\nanacronismo de agitar &#8211; inteiri\u00e7os, enrilhados e r\u00edgidos &#8211; alguns<br \/>\nvelhos documentos coloniais, diante das exig\u00eancias mui outras e das<br \/>\nf\u00f3rmulas mais liberais do direito atual entre as na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Embora, adstritas \u00e0 praxe corrente nos deslindamentos hispano-americanos,<br \/>\nas duas partes contratantes acordassem no submeter-lhe ao ju\u00edzo os<br \/>\nterrit\u00f3rios que em 1810 compartiam as jurisdi\u00e7\u00f5es das<br \/>\nAudi\u00eancias de Charcas (Bol\u00edvia) e de Lima (Peru), de modo que<br \/>\na senten\u00e7a se haja de calcar, antes de tudo, sobre as antiqu\u00edssimas<\/p>\n<p>C\u00e9dulas reais, os dizeres emperrados da ca\u00f3tica <em>Recopilaci\u00f3n<br \/>\nde Leys de Indias, <\/em>ou sobre as \u00faltimas Ordenan\u00e7as de intendentes,<br \/>\nde 1792 e 1803, \u00e9 evidente que estas caducas, e n\u00e3o raro contradit\u00f3rias,<br \/>\nresolu\u00e7\u00f5es do mais retr\u00f3grado imperialismo da hist\u00f3ria,<br \/>\nretardat\u00e1rias de s\u00e9culos, no fixarem as raias meramente judici\u00e1rias,<br \/>\nou administrativas, das parcelas dos Vice-reinados do Peru e Buenos Aires, contravir\u00e3o,<br \/>\nem muitos pontos, aos limites pol\u00edticos dos dous Estados constitu\u00eddos<br \/>\nmais tarde com o mais ruidoso rep\u00fadio das antigas institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nque os vitimavam.<br \/>\nBaste considerar-se que desde 1824, remate da independ\u00eancia de ambos,<br \/>\neles n\u00e3o jazeram num seq\u00fcestro marroquino, ou chin\u00eas, pr\u00f3prio<br \/>\na justificar este transplante integral de t\u00e3o remotas velharias para<br \/>\no nosso tempo. Formaram-se; evolveram; expandiram-se; e no discurso deste processo<br \/>\nhist\u00f3rico, que foi o da organiza\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias<br \/>\nnacionalidades, vincularam-se, j\u00e1 expressamente, mediante outras decis\u00f5es<br \/>\ne tratados, j\u00e1 pelo interc\u00e2mbio inevit\u00e1vel dos interesses<br \/>\ne das id\u00e9ias, a exist\u00eancia das na\u00e7\u00f5es lim\u00edtrofes,<br \/>\ndeterminando deveres e direitos mais leg\u00edtimos, entre os quais se destacam<br \/>\nos relativos aos pr\u00f3prios territ\u00f3rios, que se intentam deslindar<br \/>\ncom as vetustas barreiras vice-reais, num grande salto mortal de cem anos, flagrantemente<br \/>\nviolador de toda a continuidade hist\u00f3rica.<br \/>\nAssim, no tocante ao Brasil, ambas as na\u00e7\u00f5es litigantes, desde<br \/>\n1851 e 1867, at\u00e9 1903, pleitearam, \u00e0 saciedade por vezes, a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne grandeza das extremas setentrionais e ocidentais daquelas terras. Em debates,<br \/>\nem conv\u00eanios, em tratados, expl\u00edcitos, solenes, balancearam \u00e0<br \/>\nluz de outros princ\u00edpios os interesses rec\u00edprocos; e no se firmarem,<br \/>\nquer pelos lados do Peru, quer pelos da Bol\u00edvia, novos marcos demarcadores,<br \/>\no que sempre se patenteou em todos os documentos, das notas ministeriais \u00e0s<br \/>\nderradeiras instru\u00e7\u00f5es aos comiss\u00e1rios, foi sobretudo o<br \/>\nabandono daquela mesma divis\u00f3ria de Santo Ildefonso &#8211; linha mais valiosa<br \/>\ndo atual lit\u00edgio &#8211; que as duas Rep\u00fablicas, urna ap\u00f3s outra,<br \/>\nreconheceram de todo impropriada a erigir-se em diretriz predominante das novas<br \/>\nraias divis\u00f3rias.<br \/>\nDestru\u00edram-na, ou alteraram-na. O Peru eliminou-a em 1851; a Bol\u00edvia<br \/>\ntransmudou-a na obl\u00edqua de 1867. A imaginosa fronteira que jamais obtivera<br \/>\nsan\u00e7\u00e3o definitiva das primitivas metr\u00f3poles interessadas<br \/>\n&#8211; conservando-se na hist\u00f3ria merc\u00ea do pr\u00f3prio abandono em<br \/>\nque permaneceu o trato mais desconhecido da Am\u00e9rica do Sul &#8211; extinguiu-se<br \/>\ncom o simples avance dos conhecimentos geogr\u00e1ficos, sancionados pelas<br \/>\nmais inequ\u00edvocas conven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e administrativas.<\/p>\n<p>Entretanto, ressurge, de surpresa, agora. Dizem-no os recentes mapas oficiais<br \/>\nperuanos, sobre os quais cabecear\u00e1, longos dias, o \u00e1rbitro, no<br \/>\ndesenredo da quest\u00e3o mon\u00f3tona.<\/p>\n<p>A barreira colonial renasce num majestoso tra\u00e7o imperialista, espichada,<br \/>\ne deslocando-se para o norte, golpeantemente, em pleno seio da Amaz\u00f4nia.<br \/>\nDepois de tantas resolu\u00e7\u00f5es debatidas, afirmadas e ratificadas<br \/>\nem numerosos atos oficiais, a Rep\u00fablica sonhadora do Pac\u00edfico<br \/>\nabandona, de improviso, os compromissos oriundos da sua exist\u00eancia aut\u00f4noma<br \/>\ne, abdicando a pr\u00f3pria altitude pol\u00edtica, volve, \u00e0s recuadas,<br \/>\naos tempos em que ainda n\u00e3o existia, acolhendo-se \u00e0 placenta<br \/>\nmorta da metr\u00f3pole extinta, e revivendo, entre as singularidades desse<br \/>\nprocesso retrospectivo, as fantasmagorias do Vice-reinado, cujo acabamento<br \/>\nfoi a primeira condi\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria vida.<br \/>\nO caso \u00e9 original nos registros atrapalhados dos deslindes territoriais.<\/p>\n<p>Realiza-se, em ponto grande, o fato vulgar do ge\u00f4metra bisonho, a tontear<br \/>\nentre os riscos perturbadores de um problema errado, apelando para o recurso<br \/>\nextremo de apagar a lousa.<br \/>\nMas n\u00e3o se passam com o mesmo desafogo as esponjas sobre os mapas.<\/p>\n<p>Demonstremo-lo.<br \/>\nContemplemos nos seus v\u00e1rios aspectos, desde o nascedouro abort\u00edcio<br \/>\n\u00e0 caduquice lastim\u00e1vel &#8211; periclitante e v\u00e1ria, \u00e0<br \/>\nmerc\u00ea dos l\u00e1pis arbitr\u00e1rios dos copistas de mapas &#8211; aquela<br \/>\nrisca fant\u00e1stica e curiosa de uma esp\u00e9cie de geografia espectral.<\/p>\n<p>E deduzam-se, depois, alguns corol\u00e1rios firmes.<br \/>\nEncravado nas terras questionadas, v\u00ea-se o territ\u00f3rio brasileiro<br \/>\ndo Acre &#8211; 191 000 quil\u00f4metros quadrados, que s\u00e3o a \u00fanica<br \/>\ncircunscri\u00e7\u00e3o definida e segura na espessa penumbra geogr\u00e1fica<br \/>\nonde em todos os sentidos as fronteiras se diluem.<br \/>\nO nosso interesse \u00e9 manifesto.<br \/>\nDiscutamo-lo.<br \/>\nVejamos como os lados do ampl\u00edssimo quadril\u00e1tero litigioso se<br \/>\npatenteiam bambeantes e incertos, ou desvaliosos, ou falsos, gravados de discord\u00e2ncias<br \/>\ninexplic\u00e1veis entre as posi\u00e7\u00f5es ora sujeitas ao parecer<br \/>\narbitral e as que at\u00e9 bem pouco tempo lhes marcavam todos os documentos<br \/>\noficiais das Rep\u00fablicas contendoras.<br \/>\nE, sobretudo, notemos como a linha geodesia de 1777, assinalada entre o Madeira<br \/>\ne o Javari &#8211; que por largos anos foi o pior embara\u00e7o da nossa diplomacia,<br \/>\ne novamente a amea\u00e7a, pressuposta uma solu\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel<\/p>\n<p>ao Peru &#8211; apareceu desde O Tratado de <em>1750, <\/em>em que pela primeira vez<br \/>\nse delineou, com os mais evidentes estigmas de inviabilidade.<br \/>\nSabe-se como se fez o Tratado de 1750.<br \/>\nAt\u00e9 aquele ano a geografia pol\u00edtica sul-americana desenhara-se,<br \/>\nromanticamente, adscrita ao meridiano de Tordesilhas, que entrava pelo Par\u00e1<br \/>\na sair em Santa Catarina, dilatando a soberania espanhola sobre quatro quintos<br \/>\ndo Novo Mundo. Ainda em pleno s\u00e9culo XVII mapas refletem a ing\u00eanua<br \/>\ne portentosa partilha. Todo o continente mal chega a escrever-se num t\u00edtulo<br \/>\nvago e magn\u00edfico &#8211; <em>Peruvia <\/em>&#8211; em sete mai\u00fasculas dominantes,<br \/>\nalinhadas, em curva apreensora, pelo centro das terras, desde Panam\u00e1<br \/>\nao cabo Hom.<br \/>\nA alguns cart\u00f3grafos n\u00e3o lhes satisfazia a impress\u00e3o gr\u00e1fica<br \/>\na entrar, t\u00e3o viva, pelos olhos espantados ante dom\u00ednios t\u00e3o<br \/>\nvastos. Aditavam, complacentes: <em>&#8220;Peruvia, \u00edd est, novz orbis<br \/>\npars meridionalis.&#8221; <\/em><br \/>\nE a imaginativa desapertava-se-lhes no bosquejarem, pinturescamente, em toda<br \/>\na extens\u00e3o das cartas, forros dos liames inc\u00f4modos das fronteiras,<br \/>\ntudo quanto o idealismo ensofregado da \u00e9poca engenhara a povoar as novas<br \/>\nterras &#8211; da &#8220;Lagoa dourada&#8221;, ao norte, ao <em>Regio gigantum, <\/em>da<br \/>\nPatag\u00f4nia, ao sul, passando pelos monumentos da teocracia incompar\u00e1vel<br \/>\ndos Incas. De sorte que, por vezes, mal lhes sobrava o espa\u00e7o para a<br \/>\ncaricatura de tr\u00eas ou quatro caboclos desfibrados, no extremo oriental,<br \/>\nonde se lia, em caracteres diminutos, inapercebido, ou relegado a expans\u00e3o<br \/>\npeninsular do cabo de S\u00e3o Roque, um outro nome, <em>Bras\u00edlia,<br \/>\n<\/em>tendo, n\u00e3o raro, um subt\u00edtulo arrepiadoramente epigram\u00e1tico:<br \/>\n<em>Psitacorum regio. <\/em><br \/>\nOra, na mesma \u00e9poca em que se romanceavam assuntos t\u00e3o graves,<br \/>\nem narrativas lardeadas de extravagantes devaneios, a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nreal das paragens debuxadas era mui diversa. A linha imaginaria de Alexandre<br \/>\nVI perdera, de fato, a retitude da sua defini\u00e7\u00e3o astron\u00f4mica,<br \/>\ne partira-se, ou torcera-se, deslocando-se para o ocidente.<br \/>\nN\u00e3o nos desviemos na tentativa imposs\u00edvel de enfeixar em poucas<br \/>\nlinhas um movimento hist\u00f3rico, onde incidem os mais complexos motivos<br \/>\ndas energias \u00e9tnicas oriundas do car\u00e1ter excepcional dos nossos<br \/>\nmamalucos, as causas administrativas resultantes dos sistemas coloniais, de<br \/>\ntodo contrapostos, de Portugal e Espanha. O fato \u00e9 que na plenitude da<br \/>\nexpans\u00e3o povoadora, quando a sombria legisla\u00e7\u00e3o castelhana<br \/>\nenclausurava os colonos no c\u00edrculo intranspon\u00edvel dos distritos,<br \/>\nsob a disciplina dos corregedores, vedando-lhes novos descobrimentos, ou entradas,<br \/>\nsob <em>&#8220;pena de muerte y perdimento de todos sus bienes,&#8221;<\/em>(1)<br \/>\nos portugueses avan\u00e7avam mil l\u00e9guas pelo Amazonas acima, e nas<br \/>\nbandas do sul os nossos extraordin\u00e1rios mesti\u00e7os sertanejos iam<br \/>\ndo Igua\u00e7u as extremas do Mato Grosso, perlongando o valo tortuoso e longo<br \/>\ndo rio Paraguai.<br \/>\nOs paulistas desarranjavam toda a geografia pol\u00edtica sul-americana.<br \/>\nDesde o alvorar daquele s\u00e9culo delatavam-nos a metr\u00f3pole castelhana<br \/>\nas vozes alarmadas dos mission\u00e1rios e dos Vice-reis, persistentes, clamantes,<br \/>\nsucessivas, em cartas, em of\u00edcios, em expressivos informes, que adensados<br \/>\nnum livro seriam a mais fiel apologia da ra\u00e7a nova e triunfante, naquele<br \/>\nirromper t\u00e3o de golpe e j\u00e1 apercebida de atributos surpreendedores<br \/>\npara a conquista da terra. Porque naquelas missivas angustiosas, incont\u00e1veis,<br \/>\nrefletindo a preocupa\u00e7\u00e3o exclusiva de todos os delegados coloniais,<br \/>\nmartela, monotonamente, um estribilho \u00fanico. Este: provid\u00eancias<br \/>\ne medidas urgent\u00edssimas &#8220;<em>a contener os portugueses del rio de<br \/>\nS. Pablo <\/em>&#8230;&#8221; E quando cessa \u00e9 para ceder a variantes piores:<br \/>\nem 1638, por exemplo: o licenciado Presidente da Audi\u00eancia de Charcas,<br \/>\ndepois de descrever a marcha da invas\u00e3o, sobrestante no territ\u00f3rio<br \/>\nde Moxos e com energia virtual capaz de a conduzir mais longe, sacudiu, irreverentemente,<br \/>\na sonol\u00eancia respeit\u00e1vel do venerando Conselho das \u00cdndias<br \/>\ncom uma conjectura apavorante:<br \/>\n<em>&#8220;&#8230;puede suceder que ellos se apoderen de las cordilleras del Itatim,<br \/>\ny sean se\u00f1ores de todo el coraz\u00f3n del P\u00edr\u00fa!&#8230;&#8221;<br \/>\n<\/em><br \/>\nSeriam infind\u00e1veis transcri\u00e7\u00f5es deste teor.<br \/>\nAbreviemos.<br \/>\nO Tratado de 1750 surgiu imposto por estas conjunturas prementes, que ele mesmo<br \/>\ndenuncia. Foi a glorifica\u00e7\u00e3o da mais extraordin\u00e1ria marcha<br \/>\ncolonizadora que se conhece, desencadeada para o poente e apisoando os mais<br \/>\nr\u00edgidos conv\u00eanios, que se pactuaram entre Tordesilhas e Utrecht.<br \/>\nSancionou o triunfo de uma ra\u00e7a sobre outra. O que se viu, concretamente,<br \/>\nmaci\u00e7amente, depois da sua assinatura, sob o carimbo esmagador do fato<br \/>\nconsumado, foi que uma crescera, triplicando os primitivos dom\u00ednios,<br \/>\ne que a outra diminu\u00edra, ou recuara, a abrigar-se, assombrada, no espald\u00e3o<br \/>\ndos Andes.<br \/>\nE o seu efeito predominante, O seu significado imperec\u00edvel, consistiu,<br \/>\nessencialmente, em deslocar, pela primeira vez, das rela\u00e7\u00f5es civis<br \/>\npara as internacionais, o princ\u00edpio superior da posse baseado na capacidade<br \/>\npara o dom\u00ednio eficaz e povoamento efetivo das novas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Porque no tocante as linhas lim\u00edtrofes, esbo\u00e7adas, foi vacilante<br \/>\ne d\u00fabio.<br \/>\nA sua exegese est\u00e1 nas minutas, cartas, propostas, contrapropostas e<br \/>\npro\u00eamios, que se cruzaram entre Aranjuez e Lisboa, na esgrima magistral<br \/>\ndo esp\u00edrito vibr\u00e1til de Alexandre de Gusm\u00e3o e a diplomacia<br \/>\ncautelosa de Carvajal y Lancaster. E deletreando-os, o que sobretudo se destaca<br \/>\ns\u00e3o as incertezas de ambas as metr\u00f3poles, na partilha do continente,<br \/>\nsubordinando-o \u00e0s divisas naturais, mal definidas ou confusas, no imperfeito<br \/>\ndos conhecimentos geogr\u00e1ficos.<br \/>\nOra, entre todas elas, pelo correr da extensa orla fronteiri\u00e7a, desde<br \/>\nCastillos Grandes aos contrafortes de Parima, sobrelevava-se, sobremaneira indecisa,<br \/>\nprincipalmente a que se devera rumar da margem esquerda do Madeira em dire\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 direita do Javari.<br \/>\nNos demais segmentos da enorme divisa os pareceres acentuavam-se em tra\u00e7os<br \/>\nmais ou menos firmes. Ali dispartiam, duvidosos. Alexandre de Gusm\u00e3o,<br \/>\ndesde o come\u00e7o das negocia\u00e7\u00f5es, em 1748, ao instruir o<br \/>\nplenipotenci\u00e1rio Visconde de Vila Nova de Cerveira, definiu aquele trecho<br \/>\ncomo &#8220;o mais dif\u00edcil de toda a demarca\u00e7\u00e3o de limites&#8221;;<br \/>\ne confessou que todo o material existente a elucid\u00e1-lo consistia numa<br \/>\npequena carta das miss\u00f5es de Moxos, &#8220;que traz o tomo duod\u00e9cimo<br \/>\n<em>des lettres \u00e9difiantes&#8221;, <\/em>e cm dous roteiros de sertanistas<br \/>\nnossos, que at\u00e9 l\u00e1 se tinha avantajado; concluindo que era for\u00e7oso<br \/>\nse contentassem com t\u00e3o escassos elementos, porque se houvessem de aguardar<br \/>\n&#8220;os que se mandassem formar no mesmo pa\u00eds, ficaria a conclus\u00e3o<br \/>\ndo tratado para as calendas gregas&#8221;.<br \/>\nPor seu turno o Plenipotenci\u00e1rio espanhol, em longo of\u00edcio \u00e0quele<br \/>\ntitular, depois de formular o seu parecer quanto ao melhor rumo da linha na<br \/>\nparagem perturbadora, acrescentou, nuamente, que o alvitre era o mais claro<br \/>\nque se lhe afigurava, <em>&#8220;conveniendo en que de la misi\u00f3n de Santa<br \/>\nRosa (Guapor\u00e9) abajo, hasta ei Mara\u00f1on, todos vamos a ciegas&#8230;&#8221;<br \/>\n<\/em>E, feito um eco, o negociador portugu\u00eas, tempos depois, ao versar<br \/>\no mesmo lance, assentia:<br \/>\n&#8220;quanto ao espa\u00e7o interm\u00e9dio e deserto (entre o Madeira e<br \/>\no Javari) confessamos de ambas as partes que estamos todos \u00e0s cegas.&#8221;(2)<\/p>\n<p>Os ministros, como se v\u00ea, titubeavam em pleno desconhecido; at\u00e9<br \/>\nque, por evitar dilat\u00f3rios pareceres, e sem repararem em algumas l\u00e9guas<br \/>\nde terras desertas, onde sobravam tantas \u00e0s duas coroas, consoante confessaram<br \/>\nimprudentemente &#8211; riscaram, a ventura, para o ocidente, a come\u00e7ar da<br \/>\nm\u00e9dia dist\u00e2ncia entre as conflu\u00eancias do Madeira e do Mamor\u00e9,<br \/>\na controvertida raia, predestinada a t\u00e3o funesta influ\u00eancia no<br \/>\nfuturo, para sempre amb\u00edgua, ou absurda, e malsinada pelos seus pr\u00f3prios<br \/>\ninventores, que de algum modo acenaram \u00e0 toler\u00e2ncia das na\u00e7\u00f5es<br \/>\nvindouras, antecipando um recurso absolut\u00f3rio naquela rec\u00edproca<br \/>\nconfiss\u00e3o de a haverem planeado e discutido inteiramente \u00e0s cegas.<\/p>\n<p>\u00c9 uma g\u00eanese expressiva. Pelo menos clamorosamente contraposta<br \/>\n\u00e0 durabilidade que se pretende emprestar a uma concep\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o fr\u00e1gil, e \u00e0 tentativa dos que hoje procuram reviv\u00ea-la<br \/>\ncom os mesmos tra\u00e7os que a malignaram ao nascer.<br \/>\nPorque o Tratado preliminar, ulterior, de Santo Ildefonso, n\u00e3o a alterou.<br \/>\nReproduziu-a, copiando-a, no mais completo decalque.<br \/>\nA linha de 1777, que agora se restaura, \u00e9 a mesma que se riscou, \u00e0s<br \/>\napalpadelas, em 1750. Persistia a ignor\u00e2ncia total daquela imensa zona;<br \/>\ne os novos plenipotenci\u00e1rios, depois de acentuarem, ou ampliarem, esclarecendo-os,<br \/>\nv\u00e1rios tratos da fronteira, que permaneceu quase inalter\u00e1vel,<br \/>\nao chegarem \u00e0 mesma faixa de terrenos ignotos, lan\u00e7aram-se, com<br \/>\no mesmo salto no escuro, da semidist\u00e2ncia prefixa para o poente desconhecido<br \/>\ne imp\u00e9rvio, percorrendo, <em>a ciegas, <\/em>trezentas l\u00e9guas estiradas,<br \/>\nde ermo.<br \/>\nT\u00e3o conclusivos, por\u00e9m, e de intuitiva previs\u00e3o, se lhes<br \/>\nantolhavam os inconvenientes infirmativos da demarca\u00e7\u00e3o, tateante<br \/>\nem t\u00e3o espessa sombra geogr\u00e1fica, que, malgrado tratar-se de acordo<br \/>\npreliminar, disposto &#8220;a servir de base e fundamento ao definitivo de limites,<br \/>\nque se haveria de estender a seu tempo&#8221;,(3) os negociadores, n\u00e3o<br \/>\nlhes bastando restri\u00e7\u00e3o t\u00e3o expl\u00edcita, encurtando<br \/>\npor si mesmo o alcance de um conv\u00eanio que se pretende blindar de um car\u00e1ter<br \/>\ninviol\u00e1vel ao fim de 130 anos, como se inferissem as grandes diverg\u00eancias<br \/>\nfuturas, e de \u00e2nimo feito a precautel\u00e1-las, anexaram-lhe os &#8220;Artigos<br \/>\nSeparados&#8221;, que o completam e esclarecem.<br \/>\nS\u00e3o curiosos estes artigos, que de ordin\u00e1rio se excluem no citar-se<br \/>\no famoso conchavo internacional. Devendo ficar por algum tempo secretos, por<br \/>\nconveni\u00eancias m\u00fatuas e transit\u00f3rias, eles eram-lhe imanentes,<br \/>\nsendo redigidos e subscritos no mesmo dia.<br \/>\nMostra-no-lo este pre\u00e2mbulo:<br \/>\n<em>&#8220;Por consideraciones de conveniencia rec\u00edproca para las dos<br \/>\ncoronas, han resuelto Sus Majestades Cat\u00f3lica y Fidel\u00eds\u00edma<br \/>\nextender los seguintes art\u00edculos separados, que habr\u00e1n de quedar<br \/>\nsecretos, hasta que los dos soberanos determ\u00ednen otra cosa de com\u00fan<br \/>\nacuerdo, debiendo tener desde ahora estos art\u00edculos separados la misma<br \/>\nfuerza y vigor que los del Tratado Preliminar de Limites que se ha firmado hoy.<br \/>\n<\/em><br \/>\nOs dizeres perimem quaisquer desvios de interpreta\u00e7\u00e3o. E as novas<br \/>\ncl\u00e1usulas contrabalan\u00e7am, se \u00e9 que n\u00e3o superam,<br \/>\nas do acordo principal. Pelo menos a primeira restringe-lhe os efeitos, sobrestando-lhos,<br \/>\ncom o subordin\u00e1-los a condi\u00e7\u00f5es iniludivelmente suspensivas.<\/p>\n<p>Sublinhemos o original castelhano:<br \/>\n<em>&#8220;Art\u00edculo 1\u00ba &#8211; El Tratado preliminar de limites concluido<br \/>\nen este dia servir\u00e1 de base y fundamento a otros tres que los dos altos<br \/>\ncontrayentes han convenido y ajustado en la forma siguiente: primero un Tratado<br \/>\nde perpetua y indisoluble alianza.. . En segundo lugar un Tratado de comercio.<br \/>\n.. y en tercero lugar un Tratado Definitivo de Limites para unos y otros dominios,<br \/>\nluego que hayan venido todas las noticias y pratic\u00e1dose las operaciones<br \/>\nnecesarias para especificarlos.&#8221; <\/em><br \/>\nAssim exinanido e desarticulado, o singular arranjo, que a mais retr\u00f3grada<br \/>\nmetaf\u00edsica pol\u00edtica vem espichando desde os tempos das metr\u00f3poles<br \/>\nat\u00e9 hoje, atrav\u00e9s das mais d\u00edspares fases sociais, reduz-se<br \/>\na simples conven\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria para a forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nulterior, ou pouco remota, de tr\u00eas verdadeiros tratados.<br \/>\nEra o seu efeito \u00fanico, a sua raz\u00e3o, a sua finalidade incontrast\u00e1vel.<\/p>\n<p>De sorte que os demarcadores, em que se salientavam o ilustre Francisco Requena,<br \/>\ne, entre os portugueses, homens da valia de um Lacerda e Almeida, ou Silva Pontes,<br \/>\nn\u00e3o iam, de um modo geral, balizar sobre o terreno as linhas predeterminadas,<br \/>\nsen\u00e3o discutir, consoante as instru\u00e7\u00f5es que os norteavam,<br \/>\ne resolver, esclarecidos pelo exame direto das paragens exploradas, acerca das<br \/>\nque fossem mais convenientes e naturais para os limites a estatu\u00edrem-se<br \/>\nno acordo definitivo.<br \/>\nOra, entre estas, a mais obscura era a que analisamos, com ser a \u00fanica<br \/>\nlinha geod\u00e9sica, planeada a esmo no deserto, de uma demarca\u00e7\u00e3o<br \/>\nque desde 1750 se esteava, fundamentalmente no crit\u00e9rio dos limites arcif\u00ednios<br \/>\najustando-se \u00e0s divis\u00f3rias naturais,<br \/>\nEntretanto, nunca um ge\u00f3grafo espanhol andou pelo Madeira.<br \/>\nViolou-se, desta forma, por parte de Espanha, a obriga\u00e7\u00e3o contra\u00edda.<\/p>\n<p>Fizeram-no os portugueses Silva Pontes e Lacerda e Almeida, aos quais a metr\u00f3pole,<br \/>\nem 1781, deferira o encargo de determinarem a semidist\u00e2ncia precitada,<br \/>\ne informarem se o ponto correspondente poderia ser a origem da linha leste-oeste.<\/p>\n<p>Os abnegados astr\u00f4nomos, depois de lhe deduzirem a latitude rigorosa (7\u00ba<br \/>\n38&#8242; 45&#8243;) patentearam-no impropriado ao objetivo requerido, e alvitraram<br \/>\no da conflu\u00eancia do Beni (10\u00ba 20&#8242; lat. S.), sendo este parecer aceito<br \/>\npelo Governo portugu\u00eas, que o transmitiu ao espanhol, de inteiro acordo<br \/>\ncom a raz\u00e3o expressa do compromisso preliminar.<br \/>\nNotificada a Espanha desta resolu\u00e7\u00e3o, a circunst\u00e2ncia de<br \/>\nn\u00e3o mais cuidarem, as duas coroas, destes deslindamentos, certo n\u00e3o<br \/>\ninvalida o direito da parte contratante que foi a \u00fanica, naquele trecho,<br \/>\na cumprir as cl\u00e1usulas prescritas do que se convencionara. Mas se a despeito<br \/>\ndisto, e por obedecer \u00e0 praxe trivial\u00edssima de que as demarca\u00e7\u00f5es<br \/>\ns\u00f3 se tornam efetivas depois de aprovadas pelos interessados, se consideram<br \/>\nnulos os novos limites propostos pelos \u00fanicos comiss\u00e1rios que<br \/>\nperlustraram a regi\u00e3o &#8211; que valor jur\u00eddico, ou pol\u00edtico,<br \/>\npoder\u00e1 emprestar-se \u00e0 duvidosa divisa que, vagamente referida<br \/>\nnum acordo preliminar e devendo ser fixada mediante estudos <em>in loco, <\/em>n\u00e3o<br \/>\nfoi sequer percorrida pelos comiss\u00e1rios espanh\u00f3is?<br \/>\nS\u00e3o monstruosas estas antilogias: um trecho de fronteira debate-se, planeia-se,<br \/>\ne surge desde a origem com os mais frisantes estigmas de inviabilidade, repudiado<br \/>\npelos pr\u00f3prios negociadores que, engenhando-o, se penitenciaram, sem<br \/>\nrebu\u00e7os, do indesculp\u00e1vel deslize de o haverem concebido completamente<br \/>\n\u00e0s cegas; mais tarde outros plenipotenci\u00e1rios, com as mesmas d\u00favidas,<br \/>\nperdidos nas mesmas obscuridades, salteados dos mesmos escr\u00fapulos, sujeitam<br \/>\nas suas linhas definitivas, a sua exist\u00eancia real e efetiva, \u00e0<br \/>\ncondi\u00e7\u00e3o inviol\u00e1vel do estudo dos terrenos indivisos; nesse<br \/>\npressuposto, um dos contratantes, cumprindo-a, prop\u00f5e a variante indispens\u00e1vel;<br \/>\no outro, infringindo a obriga\u00e7\u00e3o contra\u00edda, o que corresponde<br \/>\na anular-se o conv\u00eanio, queda-se na mais culposa, ou calculada indiferen\u00e7a;<br \/>\npassam os tempos, longos anos, dezenas de anos, um s\u00e9culo inteiro, a<br \/>\nmaior mora que ainda se viu na hist\u00f3ria; realizam-se nesse vasto interregno<br \/>\nmudan\u00e7as e transfigura\u00e7\u00f5es nas circunst\u00e2ncias pol\u00edticas,<br \/>\nsociais e morais, das partes contratantes, que extinguiriam ou quebrantariam<br \/>\na for\u00e7a obrigat\u00f3ria de verdadeiros tratados definitivos e \u00edntegros;<br \/>\n&#8211; e essa monstruosidade, esse caso t\u00edpico de teratologia pol\u00edtico-geogr\u00e1fica,<br \/>\ntolhi\u00e7o e abort\u00edcio, enjeitado a princ\u00edpio pelos seus mesmos<br \/>\nprogenitores, transferido depois a um investigar futuro numa \u00e9poca em<br \/>\nque os caprichos din\u00e1sticos n\u00e3o possu\u00edam barreiras &#8211; ressurge<br \/>\nde uma hiberna\u00e7\u00e3o secular, inteiri\u00e7o, intang\u00edvel,<br \/>\ninviol\u00e1vel, tentando renovar a preexist\u00eancia prec\u00e1ria exatamente<br \/>\nnum tempo em que, desde as noticias geogr\u00e1ficas mais exatas aos princ\u00edpios<br \/>\npol\u00edticos mais liberais, todos os elementos convergem no engravescer-lhe<br \/>\na debilidade cong\u00eanita irremedi\u00e1vel. &#8211;<br \/>\nEvidentemente n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio &#8211; atrav\u00e9s das controv\u00e9rsias<br \/>\nintermin\u00e1veis dos internacionalistas &#8211; apelar-se para a guerra de 1801,<br \/>\nentre as metr\u00f3poles signat\u00e1rias, e para o consecutivo tratado<br \/>\nde Badajoz, que n\u00e3o renovou os compromissos anteriores, para se manifestar<br \/>\na nulidade de um acordo, onde se acumulam \u00e0 maravilha tantas d\u00favidas,<br \/>\ntantos deveres n\u00e3o cumpridos, e tantas infra\u00e7\u00f5es flagrantes.<\/p>\n<p>Uma autoridade cient\u00edfica justamente venerada no Peru, Antonio Raimondi,<br \/>\nreferindo-se ao Tratado definitivo de 1750, mostra-no-lo &#8220;<em>inv\u00e1lido<br \/>\nde hecho por la demora de su ejecuci\u00f3n&#8221;, <\/em>dez anos apenas depois<br \/>\nde haver sido celebrado.(4)<br \/>\nE era um Tratado definitivo.<br \/>\nAdmitida esta rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 escandalosamente<br \/>\nexorbitante um prazo d\u00e9cuplo para que se invalide um outro &#8211; preliminar<br \/>\n&#8211; e adstrito a cl\u00e1usulas que se n\u00e3o satisfizeram?<\/p>\n<p align=\"left\">*<br \/>\nAssim o entenderam os estadistas peruanos em 1851.<br \/>\nAo firmar-se em 23 de outubro daquele ano o Tratado de limites, nas terras<br \/>\nconfinantes do extremo noroeste, pelo art. 7? dele<br \/>\n&#8220;concordaram as altas partes contratantes em que os limites do Imp\u00e9rio<br \/>\ndo Brasil com a Rep\u00fablica do Peru fossem regulados em conformidade<\/p>\n<p>do princ\u00edpio &#8211; <em>uti poss\u00eddetis <\/em>&#8211; e, por conseguinte, reconheciam,<br \/>\nrespectivamente, como fronteira, a povoa\u00e7\u00e3o de Tabatinga e dai<br \/>\npara o norte em linha reta a encontrar o Japur\u00e1, defronte da foz do Apoparis;<br \/>\ne de Tabatinga para o sul o rio Javari, desde a sua conflu\u00eancia no Amazonas.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 tudo quanto h\u00e1 sobre fronteiras; e \u00e9 significativo.<br \/>\nN\u00e3o se rastreia a\u00ed a mais vaga, a mais p\u00e1lida, a mais indireta,<br \/>\nou impl\u00edcita, ou fugitiva refer\u00eancia \u00e0 conven\u00e7\u00e3o<br \/>\nde 1777 &#8211; e menos ainda \u00e0 recalcitrante linha leste-oeste. Entretanto,<br \/>\nse lhe restassem os mais bruxuleantes vislumbres de vigor, ela se imporia, imperiosamente<br \/>\nexpl\u00edcita. Baste observar-se que a malograda linha, concebida a <em>ciegas,<br \/>\n<\/em>teria de ultimar-se, obrigatoriamente, na margem direita do Javari. Nomeado<br \/>\neste, dever-se-ia nome\u00e1-la. N\u00e3o o fizeram, por\u00e9m, os modernos<br \/>\nestadistas. N\u00e3o deviam faz\u00ea-lo. Foram l\u00facidos. Foram l\u00f3gicos.<br \/>\nA base das novas negocia\u00e7\u00f5es era outra. O Tratado preliminar de<br \/>\n1777 estava extinto. O de 1851 surgia exatamente em virtude deste fato; e era<br \/>\nt\u00e3o outro o seu princ\u00edpio norteador, que se lhe n\u00e3o compreenderia<br \/>\na enxertadura no decr\u00e9pito conv\u00eanio afistulado de tantos desacertos<br \/>\noriginais.<br \/>\nAssim acordaram, de um e de outro lado, brasileiros e peruanos.<br \/>\nA demonstra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 casu\u00edstica, nem se alcandora<br \/>\nem transcendentais premissas. \u00c9 geom\u00e9trica, \u00e9 astron\u00f4mica,<br \/>\n\u00e9 massudamente f\u00edsica e positiva.<br \/>\nConhecia-se desde os fins do s\u00e9culo XVIII a m\u00e9dia dist\u00e2ncia<br \/>\nentre a foz do Madeira, no Amazonas, e a do Guapor\u00e9, no Mamor\u00e9,<br \/>\ndeduzida pelos comiss\u00e1rios portugueses. As opera\u00e7\u00f5es astron\u00f4micas<br \/>\ncorrespondentes n\u00e3o emudeceram no abafamento dos arquivos. Publicaram-se.<br \/>\nE delas resultava por um c\u00e1lculo simpl\u00edssimo a latitude meridional<br \/>\nde 7\u00ba 38&#8242; 45&#8243;.(5)<br \/>\nOra, esta determina\u00e7\u00e3o \u00fanica de um ponto bastava a definir-se<br \/>\ntoda a linha, em dire\u00e7\u00e3o e grandeza, atento o seu car\u00e1ter<br \/>\nrigoroso, e expresso, de paralela ao equador, e a circunst\u00e2ncia, tamb\u00e9m<br \/>\nclara, de terminar \u00e0 margem direita de um rio, no ocidente, o Javari.<\/p>\n<p>Assim, em 1851, admitida, <em>ad absurdum, <\/em>a letra do Tratado de 1777,<br \/>\nse sabia que a velh\u00edssima divisa remataria &#8211; inflexivelmente &#8211; \u00e0<br \/>\nmargem daquele tribut\u00e1rio amaz\u00f4nico, aos 6\u00ba 38&#8242; 45&#8243; de<br \/>\nlat. S. Portanto, na vig\u00eancia de t\u00e3o monotonamente referido Tratado,<br \/>\ntinha-se que nomear, por for\u00e7a, aquele ponto, at\u00e9 aonde aquele<br \/>\ncurso de \u00e1gua serviria de divisa natural.<br \/>\n\u00c9 conclusivo.<br \/>\nEntretanto, a Conven\u00e7\u00e3o de 1851 n\u00e3o o fixou. Nem aludiu<br \/>\na tal circunst\u00e2ncia. A fronteira iria at\u00e9 aonde fosse o rio. Os<br \/>\ndizeres s\u00e3o l\u00edmpidos: &#8220;De Tabatinga para o Sul a fronteira<br \/>\n\u00e9 o rio Javari, desde a sua conflu\u00eancia no Amazonas.&#8221; Todo<br \/>\no Javari, fosse aonde fosse. Indefinidamente, o Javari&#8230; E mais tarde, em nota<br \/>\noficial de 20 de dezembro de 1867, dezesseis anos transcorridos, o Ministro<br \/>\ndas Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Peru ainda fortalecia o conceito, confirmando-o,<br \/>\ncom o declarar que, ante o \u00faltimo Tratado,<br \/>\n<em>&#8220;todo el curso del Javary es limite comun para los Estados contratantes&#8221;.<\/em>(6)<\/p>\n<p>Sancionava-se o mais completo olvido do anacronismo de 1777.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 forrar-se ao asserto: a divisa perlongava o grande tribut\u00e1rio<br \/>\ndo Amazonas <em>at\u00e9 o fim, <\/em>sem estacar no paralelo definido pela<br \/>\nlatitude da semidist\u00e2ncia do Madeira.<br \/>\nRelegava-se do ajuste a linha colonial.<br \/>\nPara admitir-se o contr\u00e1rio fora preciso apelar para o maravilhoso, para<br \/>\no caso estupendo de se acharem as nascentes do Javari exatissimamente, sem o<br \/>\ndestoar de um segundo, naquela mesma altura, e que pressumissem t\u00e3o rara<br \/>\ncoincid\u00eancia os dois pa\u00edses contratantes; ou que, por \u00faltimo,<br \/>\nconjecturassem, ao menos, estarem as referidas nascentes ao norte da latitude<br \/>\nnomeada.<br \/>\nMas nem mesmo este recurso resta aos modernos partid\u00e1rios da imaginosa<br \/>\nfronteira.<br \/>\nMostram-no-lo os mais sisudos documentos peruanos.<br \/>\nRegistremos um s\u00f3, por\u00e9m preeminente.<br \/>\nD. Mateo Paz Soldan \u00e9 uma figura tradicional e dominante na invej\u00e1vel<br \/>\ncultura da Rep\u00fablica vizinha. Era uma alma superior, amant\u00edssima<br \/>\nde sua terra e justamente vaidosa de suas grandes tradi\u00e7\u00f5es. Ao<br \/>\nmesmo passo um esp\u00edrito de cultura integral pouco vulgar. Astr\u00f4nomo<br \/>\ne naturalista, humanista profundo e escritor brilhante a par de t\u00e3o privilegiados<br \/>\natributos foi o maior ge\u00f3grafo de seu pa\u00eds. A sua obra \u00e9<br \/>\nainda hoje cl\u00e1ssica. E a sua palavra, no seu tempo, indiscut\u00edvel.<\/p>\n<p>Procuremo-la, extratando-a com a maior fidelidade do trabalho que, por ter sido<br \/>\npublicado em 1863, em Paris, \u00e0 custa do Governo peruano, tem o tr\u00edplice<br \/>\nvalor do nome que o nobilita, do t\u00edtulo oficial que o reveste, e da pr\u00f3pria<br \/>\ndata em que apareceu, no sistematizar, de maneira insofism\u00e1vel, as no\u00e7\u00f5es<br \/>\nque ent\u00e3o havia acerca da geografia da Rep\u00fablica.<br \/>\nOra, no tocante ao desenvolvimento do rio Javari, o pensar do mestre exp\u00f5e-se<br \/>\nsem atavios: considera-o indefinido; prefigura-o dilatad\u00edssimo:<br \/>\n<em>&#8220;On sait seulernent qu&#8217;il entre dans le fleuve des Amazones sous le<br \/>\n4\u00ba 38&#8242; lat. S. et qu&#8217;il para\u00eet \u00e9tre un \u00e9coulement de<br \/>\nl&#8217;Apurimac.&#8221;<\/em>(7)<br \/>\nAtente-se que o Apurimac tem os seus manadeiros al\u00e9m de 15\u00ba de lat.<br \/>\nS.; e avalie-se o desmedido estiramento que em 1863, doze anos depois do Tratado<br \/>\nde 1851, figurava possuir um rio que <em>todo <\/em>ele se erigira, por um compromisso<br \/>\nsolene, em fronteira bras\u00edlio-peruana.<br \/>\n\u00c0 luz desses argumentos, a paralela, que s\u00f3 poderia tra\u00e7ar-se<br \/>\na partir de suas cabeceiras (porque <em>todo <\/em>ele era divisa) em busca do<br \/>\nMadeira, entregar-nos-ia a melhor por\u00e7\u00e3o do genu\u00edno Peru,<br \/>\ndo Peru inc\u00e1sico e legend\u00e1rio, e quase todo o departamento de<br \/>\nCuzco.<\/p>\n<p>O absurdo \u00e9 evidente.<br \/>\nV\u00ea-se bem que o atingimos, como em geometria, pelo havermos partido<\/p>\n<p>de um dado <em>ad absurdum. <\/em>S\u00f3 o remove a tese contr\u00e1ria:<br \/>\nos Governos contratantes exclu\u00edram, de todo em todo, aquela linha dos<br \/>\nefeitos do Tratado de 1831.<br \/>\nApesar disto, prossigamos.<br \/>\nObservemos praticamente confirmada esta dedu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO mesmo Paz Soldan, no mesmo livro &#8211; livro oficial, cristalizando todo o conhecimento<br \/>\ngeogr\u00e1fico do tempo -, tra\u00e7a os limites orientais da Rep\u00fablica.<br \/>\nA linguagem \u00e9 resplandecente. N\u00e3o h\u00e1 miopia intelectual<br \/>\nque se lhe furte. Diz:<br \/>\n<em>&#8220;De Tabatinga vers la Sud, la riv\u00e8re Janary a partir de son<br \/>\nconfluen ce avec le fleuve des Amazones, jusqu&#8217;\u00e0 sa source et de l\u00e0<br \/>\nune ligne parall\u00e8le vers de 10\u00ba de lat. sud &#8220;<\/em>(8)<br \/>\nEsta paralela n\u00e3o \u00e9 mais a de Santo Ildefonso, j\u00e1 pela<br \/>\nsua situa\u00e7\u00e3o, em demasia deslocada para o sul, j\u00e1 pelo<br \/>\nindefinido daquele <em>vers le 10 de lat. sud, <\/em>j\u00e1 pelo preposterar<br \/>\no sentido da demarca\u00e7\u00e3o, delineando-a a partir do Javari, sem<br \/>\nlhe ocorrer uma c\u00e9lebre semidist\u00e2ncia, t\u00e3o fatigantemente<br \/>\nnomeada, que devera marcar-se no Madeira; e, finalmente, porque n\u00e3o<br \/>\nse destinava, no ponderoso parecer do reputado ge\u00f3grafo, a dilatar-se<br \/>\nat\u00e9 ao Madeira, visto como sobre ela,<br \/>\n<em>&#8220;sur la ligne parall\u00e8le tir\u00e9e sous la 10\u00ba de lar.<br \/>\nSud, qu\u00e8 sert de lim\u00ecte au Br\u00e9sil il faut <\/em>abaisser<br \/>\nune perpendiculaire du Nord au Sud. <em>Ensuit on recontre la cordill\u00e8re<br \/>\nque se prolonge do Nord au sud; <\/em>elle sert de limite <em>jusqu&#8217;au 15\u00ba<br \/>\n28&#8242; da lat. <\/em><em>S. e 71\u00ba 45&#8242; da long. O. Paris&#8221;. <\/em><br \/>\nLeia-se um mapa qualquer; balanceiem-se estes elementos claros: a paralela,<br \/>\nassim definida, como se deduz do enunciado acima, e como se gravou na carta<br \/>\ndo pr\u00f3prio Paz Soldan &#8211; ia terminar no Purus&#8230;<br \/>\nDeste modo a linha ab-rogada em 1851, pela raz\u00e3o superior de um Tratado,<br \/>\ndelia-se de todo em 1863, ante o ju\u00edzo austero do cientista de mais<br \/>\nalto renome da Rep\u00fablica peruana.<br \/>\nPor fim o Tratado de 27 de mar\u00e7o de 1867, entre a Bol\u00edvia e<br \/>\no Brasil, removeu-lhe os destro\u00e7os, e, registre-se esta circunst\u00e2ncia<br \/>\nnot\u00e1vel, sancionou o parecer proposto havia 86 anos pelos comiss\u00e1rios<br \/>\nportugueses, o qual se n\u00e3o efetuara pela indiferen\u00e7a criminosa<br \/>\nda Espanha, deslindando as extremas meridionais, naquele trecho, a partir<br \/>\nda foz do Beni (10\u00ba 20&#8242;) para o ocidente, at\u00e9 encontrar o Javari.<\/p>\n<p>Menos se explica ainda que, ap\u00f3s tantos dec\u00eanios, a desenlapasse,<br \/>\ne coonestasse, uma corpora\u00e7\u00e3o de alta responsabilidade pelo<br \/>\nseu car\u00e1ter oficial, e que, baseando-se nela, o chefe do Arquivo Especial<br \/>\nde Limites, do Peru, a arquivasse numa carta, a mesma carta, certo, que se<br \/>\nentregou ao ju\u00edzo austero de um \u00e1rbitro, arrastando o Governo<br \/>\nperuano a sancionar o mais calvo e injustific\u00e1vel erro, que ainda se<br \/>\nperpetrou na simples leitura de um conv\u00eanio.<br \/>\nTemo-la sob os olhos.(11)<br \/>\nL\u00e1 est\u00e1 a claudicante divisa na sua derradeira tortura, rigorosamente<br \/>\nfirmada pelo paralelo de 6\u00ba 52&#8242; 15&#8243;.<br \/>\nIntercepta o Purus em Vista Alegre; o Juru\u00e1, no barrac\u00e3o &#8220;Recife&#8221;;<br \/>\ne separa, ditatorialmente, num garboso rasgo imperialista de tiralinhas napole\u00f4nico,<br \/>\nmais de 500 est\u00e2ncias brasileiras, do resto do pa\u00eds, e entre<br \/>\nelas algumas vilas, Antimari, S\u00e3o Felipe, Cruzeiro do Sul, e uma cidade,<br \/>\nL\u00e1brea.<br \/>\nA carta do Arquivo Especial de Limites, modelada por ela, completa-a, preestabelecendo<br \/>\num esbo\u00e7o de divis\u00e3o administrativa.<br \/>\nNo aforrado anelo de se apossarem de dom\u00ednios t\u00e3o ricos, os<br \/>\nge\u00f3grafos oficiais do Peru n\u00e3o aguardam a senten\u00e7a soberana<br \/>\ndo \u00e1rbitro. Predeterminam; prefixam; prefiguram as futuras barreiras.<br \/>\nPrejulgam a pr\u00f3pria causa. Tudo aquilo j\u00e1 tem um nome &#8211; <em>Provincia<br \/>\ndo Ucayali: <\/em>longa lista de terras, estirando-se, fatidicamente, por treze<br \/>\ngraus de longitude, do Madeira para o ocidente, e apavorando-nos com uma tremenda<br \/>\naquarela de carmim viv\u00edssimo, e fortes tons sang\u00fc\u00edneos,<br \/>\ntragicamente sugestivos&#8230;<br \/>\nA el\u00e1stica fronteira assim se estica, hoje, nas regi\u00f5es exuberantes<br \/>\nda borracha.<br \/>\nPena \u00e9 que uma outra variante destrua o pinturesco desses desenhos<br \/>\nl\u00edrico-cartogr\u00e1ficos.<br \/>\nArquivemo-la.<br \/>\n\u00c9 uma variante sobremodo eloq\u00fcente no delatar que, a cabo de tant\u00edssimas<br \/>\ne velhas garatujas, ainda hoje, em nosso tempo, no mesmo pa\u00eds, na mesma<br \/>\ncidade, talvez na mesma rua, no mesmo ano, talvez no mesmo dia, riscada pelos<br \/>\ndesenhistas oficiais, \u00e0 luz das mesmas preocupa\u00e7\u00f5es,<br \/>\na lastim\u00e1vel linha divis\u00f3ria&#8230; n\u00e3o e a mesma.<br \/>\nDefrontem-se as cartas de S. G. de Lima e Arquivo Especial de Limites, ambas<br \/>\ndo Peru. Desconchavam-se. Na primeira, j\u00e1 o vimos, ela ressurge, amea\u00e7adoramente,<br \/>\nguindada para o norte, com a sua dire\u00e7\u00e3o intorc\u00edvel de<br \/>\nleste para oeste. Na segunda, n\u00e3o \u00e9 sequer a sombra do que foi.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 mais uma paralela. \u00c9 uma obl\u00edqua. Parte<br \/>\nda mesma semidist\u00e2ncia errad\u00edssima, e vai descambando. Incide<br \/>\nno paralelo de 7\u00ba<strong>, <\/strong>ao atravessar o Tarauac\u00e1;<br \/>\ne continua a descambar, a cair. E cai, descendo sempre, a perder-se, ou a<br \/>\nrefugiar-se, nas cabeceiras remotas do Javari&#8230;<br \/>\n\u00c9 o \u00faltimo avatar da singular\u00edssima invencionice. N\u00e3o<br \/>\no qualifiquemos. Nem afirmemos, com o Sr. Manuel Rouaud y Paz Soldan, sobrinho<br \/>\ndo cientista precitado, ao versar o mesmo<br \/>\nassunto em 1869:<br \/>\n<em>&#8220;Enfin como el Tratado de 1851 ha determinado los limites actuales,<br \/>\ntodas estas discusiones no son sino de um inter\u00e9s puramente hist\u00f3rico.&#8221;<\/em>(12)<\/p>\n<p>Digamos: a base principal das pretens\u00f5es peruanas, no vertente lit\u00edgio<br \/>\ncom a Bol\u00edvia, submetida ao exame e ao ju\u00edzo do Governo argentino,<br \/>\nal\u00e9m de ser incaracter\u00edstica e vaga, il\u00f3gica e invi\u00e1vel,<br \/>\nnula de direito e de fato, vol\u00favel ou passiva ante os caprichos de<br \/>\ntodos os cart\u00f3grafos &#8211; est\u00e1 errada, flagrantemente errada &#8211;<br \/>\ngeom\u00e9trica, astron\u00f4mica, geogr\u00e1fica, pol\u00edtica,<br \/>\njur\u00eddica e historicamente errada.<\/p>\n<p>E consideremos outros aspectos deste assunto.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Os antigos mapas sul-americanos t\u00eam \u00e0s vezes a eloq\u00fc\u00eancia<br \/>\nde seus pr\u00f3prios erros.<br \/>\nAbraham Ortelius, Joan Martines, ou Thevet, sendo os mais falsos desenhadores<br \/>\ndo Novo Mundo, foram exatos cronistas de seus primeiros dias. A figura do<br \/>\ncontinente deformado, quase retangular, com as suas cordilheiras de molde<br \/>\ninvari\u00e1vel, rios coleando nas mais regulares sinuosas, e amplas terras<br \/>\nuniformes, ermas de acidentes f\u00edsicos, cheias de seres anormais e extravagantes<br \/>\n&#8211; \u00e9, certo, incorret\u00edssima. Mas tem rigorismos fotogr\u00e1ficos<br \/>\nno retratar uma \u00e9poca. Sem o quererem, os cart\u00f3grafos, t\u00e3o<\/p>\n<p>absorvidos na pintura do novo <em>typus orbis, <\/em>desenhavam-lhe as sociedades<br \/>\nnascentes; e os seus riscos incorretos, gizados \u00e0 ventura, conforme<br \/>\nlhos ditava a fantasia, tornam-se linhas estranhamente descritivas. Num prod\u00edgio<br \/>\nde s\u00edntese, valem livros. A impress\u00e3o que se nos amortece, e<br \/>\nvai partindo-se no volver das p\u00e1ginas mais vigorosas, ali desfecha<br \/>\nnum golpe \u00fanico do olhar. E vemos, como n\u00e3o no-lo mostrariam<br \/>\nos mais l\u00facidos historiadores, os aspectos dominantes do reg\u00edmen<br \/>\ninstitu\u00eddo pela conquista das rec\u00e9m-descobertas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Considere-se o antigo Vice-reinado do Peru.<br \/>\nNingu\u00e9m o compreende, de pronto, sem a sugest\u00e3o de uma daquelas<br \/>\ninformes caricaturas continentais, que lhe resumem, exagerando-os, os tra\u00e7os<br \/>\nincisivos. Sob todas as faces, da administrativa \u00e0 pol\u00edtica,<br \/>\n\u00e0 civil e \u00e0 religiosa, a sua apar\u00eancia mais viva \u00e9<br \/>\na de suas velhas cartas: monstruosa, artificial, extravagante&#8230; O desenhista<br \/>\nque lhe riscou, do Panam\u00e1 \u00e0 Patag\u00f4nia, a costa ocidental,<br \/>\nmaci\u00e7a, inarticulada, quase sem dobras, perlongando. inteiri\u00e7amente,<br \/>\no <em>Mare magelanicum, <\/em>descreveu-lhe ao mesmo tempo, com um tra\u00e7o,<br \/>\na sociedade rudimentar, sem \u00f3rg\u00e3os, duma grande simplicidade<br \/>\ntribal, ou primitiva; e ao figurar-lhe no levante, por vezes com \u00e1ureas<br \/>\niluminuras, as minas numerosas, as serranias aur\u00edferas, as lagoas doiradas,<br \/>\nos pal\u00e1cios arg\u00eanteos guardando os tesouros incalcul\u00e1veis<br \/>\ndos Incas, denunciou o objetivo exclusivo de seus novos povoadores.<br \/>\nDe fato, ali n\u00e3o se fundou uma col\u00f4nia, no significado que, j\u00e1<br \/>\nnaquele tempo, lhe sabiam dar os portugueses. A terra, indivisa e sem fins,<br \/>\nn\u00e3o se abria ao exerc\u00edcio das atividades, firmando-se a correla\u00e7\u00e3o<br \/>\nentre as suas energias desencadeadas pelas culturas e as for\u00e7as sociais<br \/>\nconsecutivas. Era uma inexpressiva e vasta propriedade. N\u00e3o era, ainda,<br \/>\num dom\u00ednio de Espanha, ou o prolongamento ultramarino, onde ela se<br \/>\nrefugiasse naquele amea\u00e7ador entardecer da Idade M\u00e9dia, carregando<br \/>\no seu velho fanatismo cat\u00f3lico, a sua lealdade feroz e a sua ferocidade<br \/>\ncavalheiresca, abalados aos primeiros fulgores da Reforma. Era um feudo. Um<br \/>\ndonativo papal a um rei. O maior dos latif\u00fandios sancionado por uma<br \/>\nbula. Uma sesmaria que se explorava de longe, desastradamente, de dentro do<br \/>\nEscurial; e mandada por um magn\u00edfico feitor, que era a sombra passiva<br \/>\ndo soberano long\u00ednquo, o Vice-rei.<br \/>\nSabe-se no que consistiu a explora\u00e7\u00e3o. Delatam-na, melhor que<br \/>\nos historiadores, os cart\u00f3grafos. No mapa de Descaliers n\u00e3o<br \/>\nse v\u00ea um rio, ou uma serrania, n\u00e3o se lobriga um acidente f\u00edsico;<br \/>\nv\u00eaem-se cidades maravilhosas, v\u00eaem-se minas estupendas, e sobre<br \/>\numas e outras, pisoando-as, uns tremendos batalh\u00f5es de castelhanos<br \/>\nbarbudos, a tropearem em arrancadas violentas.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 concis\u00e3o fulminante, de T\u00e1cito, que valha<br \/>\naqueles riscos lapid\u00e1rios&#8230;<br \/>\nCom efeito, a diretriz intorc\u00edvel da coloniza\u00e7\u00e3o espanhola,<br \/>\ntra\u00e7ou-a a primeira tropa de Pizarro, que entrou pelo Peru e caminhou<br \/>\ncem l\u00e9guas para saquear um templo. O processo n\u00e3o variou. N\u00e3o<br \/>\npodia variar. Ali estavam, diante dos conquistadores, gratuitas, requerendo-lhes<br \/>\no s\u00f3 trabalho de apanh\u00e1-las, as riquezas surpreendentes da imponente<br \/>\nteocracia que ru\u00edra desde o primeiro assalto; e eles volveram, logicamente,<br \/>\nem recuo obrigat\u00f3rio, \u00e0s formas primitivas da atividade militar,<br \/>\nsob o impulso irresist\u00edvel, e at\u00e9 material, do passado milen\u00e1rio<br \/>\nque os estonteava.<br \/>\nAssentou-se, ent\u00e3o, o reg\u00edmen daquela centraliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nest\u00fapida, que lanceiam os pontos de admira\u00e7\u00e3o de todos<br \/>\nos histori\u00f3grafos.<br \/>\nMas era compreens\u00edvel. O Vice-rei, procurador bastante de um propriet\u00e1rio,<br \/>\ndevia, de fato, enfeixar todas as atribui\u00e7\u00f5es, das que entendiam<br \/>\nde simples casos administrativos, aos assuntos da guerra, \u00e0s delicadas<br \/>\nexig\u00eancias da justi\u00e7a. Al\u00e9m disto, o grande ajuntamento<br \/>\nil\u00edcito, de soldados e exatores, adscrito a um esfor\u00e7o \u00fanico,<br \/>\nsem fun\u00e7\u00f5es especializadas, amorfo e inconsistente chegando,<br \/>\nacampando, saqueando, saindo &#8211; n\u00e3o tinha as exig\u00eancias complexas<br \/>\nde uma sociedade, ou, sequer, de um esbo\u00e7o de sociedade.<br \/>\nMostram-no as pr\u00f3prias leis, que os regulavam, vedando-lhes a todos,<br \/>\ndo Vice-rei ao \u00faltimo intendente, o se ligarem \u00e0 paragem nova<br \/>\npelos v\u00ednculos da fam\u00edlia, ou da propriedade. Nem um palmo de<br \/>\nterra os prendia ao Novo Mundo; nem uma afei\u00e7\u00e3o os vinculava<br \/>\na seus destinos.<br \/>\nOs rec\u00e9m-vindos alheavam-se, por sistema, dos h\u00e1bitos e interesses<br \/>\ndo pa\u00eds. Naquele saquear-se uma civiliza\u00e7\u00e3o estranha,<br \/>\nbaqueada, impunha-se-lhes a atividade exclusiva de atestarem os gale\u00f5es<br \/>\nda metr\u00f3pole com todos os seus efeitos. Fora inconveniente qualquer<br \/>\nadapta\u00e7\u00e3o, favorecida pelo cruzamento, aparelhando os povoadores<br \/>\nde outros atributos de resist\u00eancia aos novos cen\u00e1rios que se<br \/>\nlhes abriam. O t\u00edtulo de espanhol, t\u00edtulo \u00fanico a todos<br \/>\nos empregos, devera conservar-se intacto na sua mais \u00e1spera rigidez<br \/>\nnativa, blindado pelo orgulho caracter\u00edstico da ra\u00e7a, como um<br \/>\nprivil\u00e9gio e uma necessidade pol\u00edtica. Embaixo, o filho do pa\u00eds,<br \/>\nembora o aparelhassem qualidades superiores, submetia-se ao pecado original<br \/>\nde ali ter nascido. O forasteiro mais achamboado e bronco fulminava-o com<br \/>\numa frase, que rompeu s\u00e9culos, entre o espanto dos cronistas, concentrando<br \/>\na f\u00f3rmula mais altaneira e pejorativa de um dom\u00ednio:<br \/>\n<em>&#8220;Eres criollo y basta&#8230; <\/em><br \/>\nDeste modo, ia formando-se o agregado absurdo, que era uma esp\u00e9cie<br \/>\nde an\u00f4malo inorganismo social, sem tend\u00eancias pessoais definidas,<br \/>\ncrescendo apenas mecanicamente, como as pedras crescem, pelas superposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nsucessivas das levas que partiam de C\u00e1diz<br \/>\nDa\u00ed, a instabilidade. A m\u00ednima vontade individual rebelde, combalia-o.<br \/>\nA sua hist\u00f3ria, nos primeiros dias, reduzida a mon\u00f3tona resenha<br \/>\nde intermitentes revoltas, traduz-se num c\u00edrculo vicioso fatigante:<br \/>\nqualquer capit\u00e3o feliz, g\u00e9rmen ancestral dos caudilhos futuros,<br \/>\nao voltar de uma campanha vitoriosa, contra os Incas remanescentes, tornava-se<br \/>\num perigo p\u00fablico que era preciso afastar. . . inventando-se outra<br \/>\nexpedi\u00e7\u00e3o, que o distra\u00edsse.<br \/>\nPor exemplo: o primeiro esbo\u00e7o de subdivis\u00e3o pol\u00edtica<br \/>\ndo incomensur\u00e1vel dom\u00ednio, a <em>gobernaci\u00f3n <\/em>de<br \/>\nNueva Toledo, que seria mais tarde o Chile &#8211; n\u00e3o atendeu a um princ\u00edpio<br \/>\nelevado de governo. Foi um recurso de ocasi\u00e3o e um meio desesperado,<br \/>\naventando-se entre pavores, de afastar Diego Almagro, o perigoso s\u00f3cio<br \/>\nde Pizarro, para as solid\u00f5es long\u00ednquas do estreito de Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>Multiplicavam-se sucessos semelhantes. E o dom\u00ednio castelhano, na Am\u00e9rica<br \/>\ndo Sul, consistindo na vasta pilhagem de uma sociedade morta &#8211; difuso, inarticulado,<br \/>\ninforme &#8211; como no-lo desenham os antigos cart\u00f3grafos, antes de organizar-se<br \/>\nia decompondo-se lastimavelmente.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Ent\u00e3o criou-se a Audi\u00eancia e Chancelaria Real de La Plata, ou<br \/>\nde Charcas, que seria mais tarde a Bol\u00edvia, desligando-se daquele conjunto<br \/>\namorfo, como se desliga um mundo de uma nebulosa.<br \/>\nA velh\u00edssima imagem imp\u00f5e-se. Realmente, ali houve, sobretudo,<br \/>\num fato de evolu\u00e7\u00e3o: o primeiro sinal da vida no ajuntamento<br \/>\ngreg\u00e1rio, cuja significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se perdia,<br \/>\nindeterminada, no vago de um conceito geogr\u00e1fico imaginoso. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 mesmo, talvez, nenhum outro em que melhor se comprazam os que se<br \/>\naventuram a estender aos sucessos sociais o princ\u00edpio universal da<br \/>\nredistribui\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria e da for\u00e7a.<br \/>\nMas n\u00e3o nos delongaremos por a\u00ed.<br \/>\nFalam por si mesmos os acontecimentos, no revelarem que a Bol\u00edvia foi,<br \/>\nentre todas as rep\u00fablicas espanholas, a primeira que se delineou em<br \/>\num passado long\u00ednquo, rodeando-se, desde o princ\u00edpio, com os<br \/>\nmais not\u00e1veis elementos de uma organiza\u00e7\u00e3o poderosa.<\/p>\n<p>As C\u00e9dulas Reais que a constitu\u00edram, e entre todas a de 29 de<\/p>\n<p>agosto de <em>1563, <\/em>s\u00e3o o inesperado exemplo de uma resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nda metr\u00f3pole castelhana, na Am\u00e9rica, que se discutiu e se afirmou<br \/>\nsobranceira aos caprichos da vontade real ilimitada. Retratam a primeira medida<br \/>\ngovernamental, digna deste nome, subordinando-se, esclarecidamente, \u00e0s<br \/>\nexig\u00eancias do meio. Os seus motivos resultaram de fatores f\u00edsicos,<br \/>\ntang\u00edveis: a dist\u00e2ncia, e os s\u00e9rios embara\u00e7os de<br \/>\ncomunica\u00e7\u00f5es entre a sede litor\u00e2nea do governo, em Lima,<br \/>\ne as paragens remotas, no levante. Entre estas e aquela, aprumam-se os pared\u00f5es<br \/>\ndas cordilheiras, \u00e1speros, abruptos, n\u00e3o raro impratic\u00e1veis,<br \/>\nalongando os caminhos no torneado das vertentes, agravando-os nos pendores,<br \/>\nestirando-os, monotonamente, pelo desnudo das <em>punas <\/em>enregeladas.<\/p>\n<p>Deste modo, o alvar\u00e1 da metr\u00f3pole sancionava uma condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nimposta pela harmonia natural.<br \/>\nDestaque-se bem este caso: determinou-o a mais imponente fatalidade f\u00edsica<br \/>\nde todo o Novo Mundo.<br \/>\nA Bol\u00edvia \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o dos Andes.<br \/>\nA C\u00e9dula Real, definitiva, de 26 de maio de 1573, rematando a g\u00eanese<br \/>\ndo novo distrito, primeiro esbo\u00e7o de uma articula\u00e7\u00e3o<br \/>\nno organismo inteiri\u00e7o e rudimentar do Vice-reinado, demonstra-o, claramente,<br \/>\nao prescrever-lhe os limites. Considerando-a, observa-se que as suas divisas<br \/>\nocidentais, ajustando-se \u00e0s cordilheiras, s\u00e3o claras. Pormenorizam-se,<br \/>\nnomeiam-se, especificam-se at\u00e9 nas veredas que por ali serpeiam; e<br \/>\na serrania de Vilcanota, \u00faltimo contraforte da cadeia principal, pelo<br \/>\noriente, tornou-se, por isso mesmo, a \u00faltima barreira oriental da antiga<br \/>\nAudi\u00eancia de Los Reyes, ou de Lima, no Departamento de Cuzco, tra\u00e7ando-se,<br \/>\nrigorosamente, como um limite arcif\u00ednio indestrut\u00edvel. Ao passo<br \/>\nque nos quadrantes de N E. e S. E., a entestar os dom\u00ednios portugueses,<br \/>\na nova Audi\u00eancia se expandia em extremas incaracter\u00edsticas: ao<br \/>\nnorte, as regi\u00f5es ainda misteriosas, in\u00e7adas de <em>infietes<br \/>\n<\/em>genericamente designados pelos nomes de <em>chunchos <\/em>e <em>mojos;<br \/>\n<\/em>ao sul, os terrenos do Paraguai, e as prov\u00edncias de Tucuman e<br \/>\nJuries, que hoje se integram na Confedera\u00e7\u00e3o Argentina. E atendendo-se<br \/>\nque estas \u00faltimas se segregaram, naquela ocasi\u00e3o, da <em>gobernaci\u00f3n<br \/>\n<\/em>transandina do Chile, que se j\u00e1 formara, trai-se, ainda neste<br \/>\nincidente, o determinismo natural daquele repartimento pol\u00edtico administrativo<br \/>\n&#8211; no prop\u00f3sito manifesto de inclu\u00edrem-se na nova circunscri\u00e7\u00e3o<br \/>\ntodos os territ\u00f3rios cisandinos.<br \/>\nDe feito, a magistral dos Andes orientais era a \u00fanica divis\u00f3ria<br \/>\ncompreens\u00edvel e est\u00e1vel das duas Audi\u00eancias, de Lima e<br \/>\nde Charcas, uma e outra ilimitadas nos outros rumos defrontando no poente<br \/>\na vastid\u00e3o do Pac\u00edfico, e no levante as terras indivisas dos<br \/>\ndom\u00ednios lusitanos.<br \/>\nOra, esta subdivis\u00e3o, a princ\u00edpio quase apenas judici\u00e1ria,<br \/>\ne resultante imediata do antagonismo entre a centraliza\u00e7\u00e3o antiga<br \/>\ne a estrutura da terra, traduziu-se depois como o primeiro estalo no aparelho<br \/>\ninteiri\u00e7o e patriarcal do Vice-reinado.<br \/>\nRealmente, o tribunal supremo institu\u00eddo em La Plata, destinado a multiplicar-se<br \/>\nem doze outros, ulteriores, desde Buenos Aires at\u00e9 Nova Granada, balanceava,<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 por Ordenan\u00e7a expressa da metr\u00f3pole, como<br \/>\npela autonomia advinda daquele afastamento no \u00e2mago da terra, a influ\u00eancia<br \/>\ndo delegado real.<br \/>\nO governo tornara-se mais complexo; e progrediu, diferenciando-se mais e mais,<br \/>\n\u00e0 medida que o sistema regulador preexiste, sem plasticidade para o<br \/>\nreg\u00edmen que nascia, se quebrantava, ou desaparecia, num decaimento<br \/>\ninevit\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 preciso exemplificar. N\u00e3o h\u00e1, neste lance,<br \/>\na voz dissonante de um s\u00f3 historiador.<br \/>\nToda a evolu\u00e7\u00e3o dos Estados hispano-americanos acentua-se e<br \/>\ndesdobra-se no triunfo gradual e cont\u00ednuo daqueles governantes mais<br \/>\naditos ao povo, sobre o prest\u00edgio tradicional dos Vice-reis, em fases<br \/>\nt\u00e3o golpeantes, nos seus efeitos, que j\u00e1 muito antes de 1810<br \/>\nestes \u00faltimos se reduziam a plat\u00f4nicas figuras, meramente decorativas,<br \/>\nporque o Conselho das \u00cdndias, na Espanha, e as Audi\u00eancias pretoriais,<br \/>\nna Am\u00e9rica atribu\u00edam-se todos os misteres de governo.<br \/>\nAssim germinaram com a Bol\u00edvia os fatores iniciais da independ\u00eancia<br \/>\nhispano-americana.<br \/>\nO pr\u00f3prio internamento favorecia-lhe a marcha gradativa para uma harmonia<br \/>\nsuperior de energias aut\u00f4nomas, ao mesmo passo que a dist\u00e2ncia<br \/>\nda costa a libertava da emigra\u00e7\u00e3o tumultu\u00e1ria, ou atra\u00edda<br \/>\npelo anseio exclusivo da vida aventurosa, em cata da fortuna. A cordilheira<br \/>\nfoi &#8211; materialmente &#8211; um cord\u00e3o sanit\u00e1rio. Ao menos, um desmedido<br \/>\naparelho seletivo: para afront\u00e1-la e transp\u00f4-la, requeriam-se<br \/>\natributos excepcionais de coragem, pertin\u00e1cia, vigor. E transpondo-as<br \/>\nos mais vol\u00faveis forasteiros fixavam-se, for\u00e7adamente, ao solo,<br \/>\ntolhidos pelas pr\u00f3prias dificuldades da volta.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, naquelas terras interiores, os jesu\u00edtas fundaram as<br \/>\nsuas mais not\u00e1veis Miss\u00f5es, resguardando o elemento ind\u00edgena,<br \/>\nque se dizimava no Peru sob o tr\u00edplice assalto simult\u00e2neo das<\/p>\n<p>guerras, dos <em>repartimentos <\/em>e das <em>mitas. <\/em>Viram-se, ent\u00e3o,<br \/>\ndesde logo, fronteirando-se, o melhor das gentes forasteiras e o abor\u00edgine.<br \/>\nO cruzamento entrela\u00e7ou-se como em nenhuma outra possess\u00e3o espanhola.<br \/>\nSurgiu uma gente nova, mais robusta, mais est\u00e1vel, equilibrando-se<br \/>\nao meio, e refletindo, a par dos atributos f\u00edsicos da aclima\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmais firmes tend\u00eancias para o dom\u00ednio e para a luta nos dilatados<br \/>\ncen\u00e1rios que se lhe ofereciam.<br \/>\nOra, por mais d\u00edspares que fossem tais est\u00edmulos, rompentes<br \/>\ndo temperamento impulsivo dos mesti\u00e7os rec\u00e9m-formados -retificou-os,<br \/>\ndepois, harmonizando-os numa admir\u00e1vel solidariedade de esfor\u00e7os<br \/>\ne destinos, uma outra circunst\u00e2ncia positiva incontrast\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 obscurec\u00ea-la: a contig\u00fcidade dos dom\u00ednios<br \/>\nde Portugal, no levante, foi, desde o s\u00e9culo XVII, um reagente en\u00e9rgico<br \/>\npara a organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma da Bol\u00edvia. As for\u00e7as,<br \/>\nque no litoral peruano se dispersavam e dispartiam em tumultos e revoltas<br \/>\nintestinas, ali se compunham num movimento geral e instintivo de defesa. Leiam-se<br \/>\nos cronistas do tempo. Os bolivianos acordaram na hist\u00f3ria aos prolongados<br \/>\nrumores de uma invas\u00e3o. Adestraram-se desde cedo num tiroc\u00ednio<br \/>\nde batalhas. Uniram-se sob o imp\u00e9rio de uma amea\u00e7a, que durou<br \/>\ndois s\u00e9culos. Evolu\u00edram, transfigurando-se, num persistente<br \/>\napelo \u00e0s energias her\u00f3icas do car\u00e1ter. E disciplinaram-se:<br \/>\nos portugueses, no Oriente, eram, sem o saberem, os carregadores incorrupt\u00edveis<br \/>\ndo grande <em>ayuntamiento <\/em>nacional que se formava.<br \/>\nEstudando-se a constitui\u00e7\u00e3o territorial da Bol\u00edvia, ao<br \/>\nchegar-se a C\u00e9dula Real de 2 de novembro de 1661 que lhe segregou as<br \/>\nprov\u00edncias de Tucuman e do Paraguai, para constitu\u00edrem a Audi\u00eancia<br \/>\npretorial de Buenos Aires, nota-se, ainda uma vez, com a ordenan\u00e7a,<br \/>\naparentemente arbitr\u00e1ria, da metr\u00f3pole, obedeceu a motivos externos,<br \/>\nprementes, inadi\u00e1veis.<br \/>\nA Audi\u00eancia de Charcas n\u00e3o diminu\u00eda, mutilada; consolidava-se,<br \/>\nconcentrando-se. Definia-se. Indeterminada, a princ\u00edpio, nos quadrantes<br \/>\nde N. E. e S. E., apenas demarcada no ocidente pelos Andes, lindava-se, agora,<br \/>\nrigorosamente, em toda a banda do sul. Permanecia, certo, indefinida em toda<br \/>\na amplitude das terras setentrionais; mas, neste definido, define-se, eloq\u00fcentemente,<br \/>\na sua miss\u00e3o hist\u00f3rica. Realmente, a invas\u00e3o portuguesa,<br \/>\nestacionando \u00e0 margem esquerda do rio Paraguai, alongava-se de suas<br \/>\ncabeceiras para o norte &#8211; indefinidamente &#8211; assoberbando o Mato Grosso e seguindo<br \/>\nas linhas naturais do Guapor\u00e9 e do Madeira at\u00e9 ao Amazonas.<\/p>\n<p>Ora, a Audi\u00eancia de Charcas foi o bloco continental que lhe contrap\u00f4s<br \/>\na Espanha.<br \/>\nDevia ser, como ela, indefinida na dire\u00e7\u00e3o do norte.<br \/>\nSalientemos bem este fato, preeminente no atual lit\u00edgio: o territ\u00f3rio<br \/>\noriental de Charcas era, no dizer en\u00e9rgico de um de seus mais famosos<br \/>\npresidentes, <em>la barrera de todo el Alto Per\u00fa, <\/em>(1) ante a vaga<br \/>\nassaltante dos invasores, que o amea\u00e7avam na orla extens\u00edssima<br \/>\ndo levante.<br \/>\n\u00c9 natural que as leis do Livro 2\u00ba da <em>Recopilaci\u00f3n <\/em>das<br \/>\n\u00cdndias, de 1680, sistematizando, ou corrigindo, as c\u00e9dulas e<br \/>\nordenan\u00e7as anteriores, no estabelecerem as raias das circunscri\u00e7\u00f5es,<br \/>\nem que, largamente, ia fragmentando-se o Vice-reinado, tra\u00e7assem \u00e0<br \/>\nde Charcas, em pleno contraste com as linhas mais firmes de outros rumos,<br \/>\nas mais distensas e vagas no quadrante de N.E.<br \/>\nOs seus dizeres s\u00e3o significativos:.<br \/>\n<em>&#8220;Partiendo t\u00e9rminos por el septentri\u00f3n con la Real<br \/>\nAudiencia de Lima y Provincias no descubiertas&#8230; por el levante con el mar<br \/>\ndel Norte y l\u00ednea de demarcaci\u00f3n entre las coronas de los reynos<br \/>\nde Castilla y de Portugal por la parte de las provincias de Santa Cruz del<br \/>\nBrasil.&#8221; <\/em><br \/>\nDesta forma, as suas extremas setentrionais, apenas definidas nas terras mais<br \/>\nabeiradas da cordilheira, a defrontarem as do departamento de Cuzco, ampliavam-se<br \/>\nlogo, indeterminadamente, para o norte, no difuso de uma penumbra geogr\u00e1fica,<br \/>\n<em>provincias no descubiertas. <\/em>E o que pode afigurar-se de restritivo<br \/>\nneste rumo desaparece de todo naquele desafogo largo para o levante. A lei<br \/>\n\u00e9 l\u00edmpida: os limites por ali iriam at\u00e9 onde fosse a<br \/>\n<em>linha de demarca\u00e7\u00e3o <\/em>entre Portugal e Espanha.<br \/>\nAs prov\u00edncias ainda n\u00e3o descobertas, mostra-o o pr\u00f3prio<br \/>\nimpreciso desta express\u00e3o crepuscular, predestinavam-se a extinguir-se,<br \/>\nou a recuar, continuadamente, ante o simples desenvolvimento de uma divisa<br \/>\noriental, que se dilataria, margeando a meridiana, sem termos prefixos, at\u00e9<br \/>\naonde se estendessem as terras lusitanas, a extinguir-se no Atl\u00e2ntico<br \/>\nNorte.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o mais l\u00f3gica. Todos<br \/>\nos antecedentes a esteiam, inabal\u00e1vel.<br \/>\nA fatalidade f\u00edsica, tang\u00edvel e rijamente geogn\u00f3stica,<br \/>\nque apontamos, h\u00e1 pouco, como determinante da constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nterritorial da Bol\u00edvia, harmoniza-se, neste caso, com as leis sociais<br \/>\nmais altas.<\/p>\n<p>A sua miss\u00e3o hist\u00f3rica erigindo-a, no levante, em barreira<br \/>\nprotetora dos dom\u00ednios castelhanos, tra\u00e7ou-lhe desde o princ\u00edpio,<\/p>\n<p>naturalmente &#8211; no indeterminado das paragens ainda ignotas, ou <em>no descubiertas,<br \/>\n<\/em>uma diretriz inflex\u00edvel para o norte, acompanhando, num movimento<br \/>\nher\u00f3ico, os rastros da expans\u00e3o lusitana.<br \/>\nEram marchas paralelas, de objetivo dilatado, e cujo termo n\u00e3o poderia<br \/>\nprefixar-se.<br \/>\nA zona de a\u00e7\u00e3o da Audi\u00eancia devotada \u00e0 defesa das<br \/>\npossess\u00f5es espanholas ampliar-se-ia consoante se ampliasse a do advers\u00e1rio<br \/>\npertinaz que ela tinha de defrontar (at\u00e9 por ordem expressa da metr\u00f3pole,<br \/>\ncomo veremos depois) em todo o desmedido de uma fronteira internacional.<br \/>\nDeste modo, a posse virtual daqueles territ\u00f3rios, de que ela se revestiu<br \/>\nhistoricamente, posse perigos\u00edssima e grave, submetida \u00e0s responsabilidades<br \/>\ntremendas de uma campanha perene, destaca-se, sem d\u00favida, superior \u00e0<br \/>\nposse efetiva e pac\u00edfica que, acaso, sobre eles ela exercitasse mais<br \/>\ntarde.<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>Com efeito, n\u00e3o h\u00e1 prod\u00edgios de perquiri\u00e7\u00e3o<br \/>\nsutil e tenaz que nos revelem, por exemplo: at\u00e9 onde se estendiam,<\/p>\n<p>ou sequer, onde se localizavam os pr\u00f3fugos <em>infieles, Chunchos<br \/>\n<\/em>e <em>Mojos, <\/em>cujas terras se inclu\u00edam nas de Charcas, ladeando<br \/>\nas prov\u00edncias n\u00e3o sabidas.<br \/>\nOs recursos cartogr\u00e1ficos s\u00e3o, neste caso, desesperadores.<br \/>\nEntretanto, s\u00e3o aquelas prov\u00edncias n\u00e3o descobertas, constitu\u00eddas<br \/>\ndos terrenos ocidentais do Madeira, em toda a faixa desatada da foz do Mamor\u00e9<br \/>\n\u00e0 semidist\u00e2ncia daquele, que se lhe contestam, e formam a presente<br \/>\nzona litigiosa.<br \/>\nVimos-lhe, no cap\u00edtulo anterior, a superf\u00edcie enorme. E, se<br \/>\nnos along\u00e1ssemos numa exposi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, mostrar\u00edamos<br \/>\nque ela se esbo\u00e7ou quando se lindaram, em 1680, as audi\u00eancias<br \/>\nconvizinhas, em que se tripartiu o Vice-reinado do Peru &#8211; como um territ\u00f3rio<br \/>\nrelegado \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o futura, consoante a capacidade<br \/>\ndelas, e neutro naquela divis\u00e3o audiencial. <em>Provincias no descubiertas<br \/>\n<\/em>s\u00e3o palavras que ressoam, monotonamente, nos deslindes de 1680.<br \/>\nEntre a Audi\u00eancia de Quito, que formaria depois o Equador e se estendia<br \/>\nnaquele tempo para o sul at\u00e9 ao m\u00e9dio Ucayali; a de los Reyes,<br \/>\nancestral do Peru, expandida para leste at\u00e9 as margens do Inambari,<br \/>\nlimitando rigorosamente a diocese de Cuzco; e a de Charcas, express\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rica da Bol\u00edvia, limitada em todos os sentidos, exceto<br \/>\nno que lhe marcava um papel preeminente na evolu\u00e7\u00e3o americana<br \/>\n&#8211; encravava-se a massa continental, ignota, imp\u00e9rvia e misteriosa,<br \/>\nvelada quase at\u00e9 aos nossos dias, em toda a \u00e1rea que se alarga<br \/>\nentre o m\u00e9dio Madeira e o Javari.<br \/>\nPortanto, no ventilarem este ponto, com os decr\u00e9pitos testemunhos coloniais<br \/>\ndos s\u00e9culos XVI e XVII, uniformes apenas no darem uma express\u00e3o<br \/>\nlegal \u00e0 ignor\u00e2ncia absoluta que havia acerca daqueles lugares,<br \/>\nos Estados colitigantes s\u00f3 podem iluminar, ou esclarecer, o assunto,<br \/>\nde uma maneira original\u00edssima:<br \/>\napelando para os dados mais obscuros, d\u00fabios e vacilantes, ou vendando-se<br \/>\ncom aquela espessa noite geogr\u00e1fica, onde, como vimos, tanto se atarantaram,<br \/>\ntontos, &#8220;\u00e0s cegas&#8221;, \u00e0s encontroadas, completamente<br \/>\nperdidos no escuro, os negociantes de <em>1750. <\/em><br \/>\nPrescrevem aos misteriosos abor\u00edgines os mais v\u00e1rios e contrapostos<br \/>\n<em>habitats <\/em>ora \u00e0s ourelas direitas do Ucayali; ora \u00e0s<br \/>\ndo Beni; ou, mais distantes, a estirarem-se pelas ribas do Amazonas.<br \/>\nOs selvagens vagabundos s\u00e3o, evidentemente, os mais erradios dos selvagens,<br \/>\nvagueando ao mesmo tempo pelas selvas e pelos mapas.<br \/>\nPor outro lado, os documentos escritos, mem\u00f3rias, roteiros, ou cr\u00f4nicas,<br \/>\ne at\u00e9 os mais lisamente legais &#8211; c\u00e9dulas, ordenan\u00e7as,<br \/>\nou of\u00edcios &#8211; engravescem e multiplicam sobremaneira todas as d\u00favidas.<\/p>\n<p>Aprende-se a ignorar, lendo-os. Recordam t\u00edpicos comp\u00eandios de<br \/>\nerros. Sistematizam o absurdo. A mentira ressalta-lhes divinizada nos mais<br \/>\nrom\u00e2nticos devaneios. Nas suas linhas faz-se uma filtra\u00e7\u00e3o<br \/>\npelo avesso: a intelig\u00eancia penetra-as, l\u00edmpida; atravessa-as,<br \/>\ntorturada; sai impura. Cada p\u00e1gina \u00e9 um diafragma, por onde<br \/>\nse nos insinuam, por endosmose, todas as sombras do passado. No emperramento<br \/>\nde seus termos duros, descont\u00ednuos a despeito da pobreza de v\u00edrgulas,<br \/>\nonde as id\u00e9ias se desunem, desarticulando-se, deformadas ou decompostas,<br \/>\nretrata-se, irritant\u00edssima, uma esp\u00e9cie de gagueira gr\u00e1fica,<br \/>\nvis\u00edvel; e n\u00e3o h\u00e1 esp\u00edrito que se equilibre nas<br \/>\nsuas vacila\u00e7\u00f5es, nas suas alternativas, no vaiv\u00e9m de<br \/>\nseus repetimentos intermin\u00e1veis, nos seus hiatos distensos, nas suas<br \/>\npasmosas confus\u00f5es origin\u00e1rias. Ali todas as opini\u00f5es<br \/>\nencontram um texto favor\u00e1vel. A verdade \u00e9 bifronte. Firmam-se<br \/>\ntodos os crit\u00e9rios. As dedu\u00e7\u00f5es irradiam. Os conceitos<br \/>\ngeogr\u00e1ficos disparam. Lemos aquelas milhares de p\u00e1ginas; cirandamo-las:<br \/>\nn\u00e3o fica uma part\u00edcula de realidade. Fica uma preocupa\u00e7\u00e3o:<br \/>\nesquec\u00ea-las no menor prazo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Cada um daqueles cronistas, cada um daqueles ge\u00f3grafos, ou mesmo histori\u00f3grafos,<br \/>\ncada um daqueles pequenos propriet\u00e1rios do Caos, como os estigmatizaria<br \/>\nCarlyle, \u00e9 um desordeiro que se faz mister afastar pata que se n\u00e3o<br \/>\nperturbe o pleito.<br \/>\nAfas temo-los.<br \/>\nO deslindamento tem recursos mais positivos, mais l\u00facidos, mais s\u00e9rios.<\/p>\n<p>Esbo\u00e7amos, retil\u00ednea e inquebr\u00e1vel, a diretriz hist\u00f3rica<br \/>\nda Bol\u00edvia.<br \/>\nVejamos como ela se acentua e se ajusta em todos os seus pontos aos elementos<br \/>\nmais rigorosos no refletirem os intuitos da metr\u00f3pole.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a><strong>Cap\u00edtulo III <\/strong><\/h2>\n<p>Nas v\u00e9speras do Tratado de 1750, o dom\u00ednio espanhol, na Am\u00e9rica<br \/>\ndo Sul, repartia-se nos Vice-reinados do Peru e de Nova Granada, subdivididos<br \/>\nem v\u00e1rias audi\u00eancias. O processo evolutivo acentuava-se em uma<br \/>\ndescentraliza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. A express\u00e3o pol\u00edtica<br \/>\n&#8211; Vice-reinado &#8211; empalidecia. Extinguia-se, decompondo-se. Por fim se reduziu<br \/>\n\u00e0 f\u00f3rmula vaga e virtual do dom\u00ednio, ou palavra gen\u00e9rica,<br \/>\nsem nenhum significativo positivo, servindo apenas a record\u00e1-lo, de<br \/>\nmodo geral e impreciso.<br \/>\nUm s\u00e9culo antes de se transformarem em rep\u00fablicas independentes,<br \/>\nas audi\u00eancias patenteavam-se, administrativamente, aut\u00f4nomas.<\/p>\n<p>Assim, no se determinarem os limites atuais daquelas, deve-se atender de modo<br \/>\nexclusivo, e dir\u00edamos melhor, abstrato, aos das \u00faltimas.<br \/>\n\u00c9 o \u00fanico meio racional de resolver-se o problema.<br \/>\nDesde que uma delas, merc\u00ea da circunst\u00e2ncia fortuita de haver<br \/>\nsido a sede do governo geral, atraia para o debate este elemento estranho,<br \/>\nperturba-o e complica-o. Viola, revolucionariamente, do mesmo passo, a evolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque a constitui, e um princ\u00edpio universal de l\u00f3gica. Quem quer<br \/>\nque nos atuais deslindamentos considere a Rep\u00fablica peruana revestida<br \/>\ndo prest\u00edgio extinto de um Vice-reinado, que por igual se estendia<br \/>\n\u00e0s outras circunscri\u00e7\u00f5es, recorda o matem\u00e1tico<br \/>\nobtuso e esmaniado, que intente resolver um problema de mec\u00e2nica, entre<br \/>\nv\u00e1rios corpos, submetendo apenas um deles \u00e0 gravidade, que se<br \/>\nexercita em todos. Vice-reinado, na ordem pol\u00edtica sul-americana, era<br \/>\numa palavra, como a de gravita\u00e7\u00e3o, na ordem f\u00edsica. Tinha<br \/>\nefeitos largamente generalizados.<br \/>\nNo pleito atual, certo, n\u00e3o se defrontam o Vice-reinado do Peru e a<br \/>\nBol\u00edvia. Fora contrapor uma na\u00e7\u00e3o a um fantasma. Enterreiram-se<br \/>\no Peru e a Bol\u00edvia: a Audi\u00eancia de Los Reyes e a de Charcas.<\/p>\n<p>A nenhuma delas pertenciam, de uma maneira expl\u00edcita, naqueles tempos<\/p>\n<p>remotos, as <em>provincias no discubiertas, <\/em>constituintes do atual territ\u00f3rio<br \/>\nlitigioso. Dir\u00edamos melhor: somente naquelas terras, que o desconhecido<br \/>\nconservava, incidiam os \u00faltimos lampejos do valor pol\u00edtico do<br \/>\nVice-reinado. Ele era, neste caso, o elemento conservador, ou a for\u00e7a<br \/>\ncentral que as retinha, de um modo transit\u00f3rio, at\u00e9 que a substitu\u00edssem,<br \/>\ncomo a substitu\u00edram noutros lugares, as energias regionais crescentes.<br \/>\nAs audi\u00eancias convizinhas iriam atra\u00ed-las numa luta de compet\u00eancia.<br \/>\nAli teria de verificar-se a f\u00f3rmula superior do progresso pol\u00edtico<br \/>\nda Am\u00e9rica espanhola, consistindo no permanente triunfo dos governos<br \/>\nlocais sobre a centraliza\u00e7\u00e3o primitiva. N\u00e3o se pode negar<br \/>\no asserto. N\u00e3o se podem queimar todos os livros da hist\u00f3ria<br \/>\nsul-americana.<br \/>\nAssente este ju\u00edzo, inabal\u00e1vel e infrang\u00edvel, repitamos<br \/>\nque, sobre fatigante, seria impertinente e v\u00e1 qualquer tentativa de<br \/>\ndiscriminar, ou definir, aquelas terras long\u00ednquas, numa quadra remota<br \/>\nem que a pr\u00f3pria metr\u00f3pole n\u00e3o as discriminava, ou definia.<\/p>\n<p>O problema racional \u00e9 este: houve na Am\u00e9rica do Sul um vasto<br \/>\nterrit\u00f3rio desconhecido, extremando se, vagamente, com tr\u00eas audi\u00eancias<br \/>\nespanholas &#8211; a de Charcas, a de Los Reyes e a de Quito &#8211; e todo o N E. dos<br \/>\ndom\u00ednios lusitanos; pelo princ\u00edpio regulador do desenvolvimento<br \/>\ndas col\u00f4nias castelhanas, aquele territ\u00f3rio, interjacente, na<br \/>\nfaixa que lhe pertencesse, predestinava-se no gravitar na \u00f3rbita de<br \/>\numa daquelas audi\u00eancias; &#8211; qual a que atraiu?<br \/>\nA de Charcas.<br \/>\nDizem-no-lo decisivos documentos.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 exegese do Tratado de 1750.<br \/>\nVimos, ao versar o embaralhado assunto daquele segmento de fronteira, que<br \/>\nos graves negociadores, perdendo a inteiri\u00e7a compostura diplom\u00e1tica,<br \/>\nse turvaram com uma sombra geogr\u00e1fica e, \u00e0s apalpadelas, esgrimindo<br \/>\nmagistralmente no v\u00e1cuo, procurando-se e afastando-se, debateram-se<br \/>\nnas d\u00favidas ansios\u00edssimas de um verdadeiro duelo sevilhano.<br \/>\nAndaram \u00e0s cegas &#8211; confessaram-no.<br \/>\nMas ressaltam fulgores da controv\u00e9rsia travada em tamanha escuridade.<br \/>\nVejamo-los.<br \/>\nO efeito daquele tratado, ali, consistiu em substituir a divisa de Tordesilhas,<br \/>\nde um lado, pelas linhas naturais do Guapor\u00e9, do Mamor\u00e9 e do<br \/>\nMadeira; e do outro, pela paralela tra\u00e7ada deste \u00faltimo no Javari.<\/p>\n<p>Ora, os debates visando elucid\u00e1-las, as propostas, os anteprojetos<br \/>\ne, sobretudo, as instru\u00e7\u00f5es das duas chancelarias aos seus plenipotenci\u00e1rios,<br \/>\npatenteiam o deslindamento submetido ao crit\u00e9rio essencial de estar<br \/>\na vasta superf\u00edcie entre o Madeira e o Javari inclu\u00edda na jurisdi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Charcas, extremada naqueles rumos pela prov\u00edncia de Santa Cruz de<br \/>\nla Sierra, e, mais ao norte &#8211; indefinidamente &#8211; a apagar-se no desconhecido,<br \/>\npelas das miss\u00f5es de Moxos.<br \/>\nRevelam-no para logo os elementos cartogr\u00e1ficos. Relembre-se que foi<br \/>\numa carta das prov\u00edncias de Moxos, dom\u00ednio daquela audi\u00eancia,<br \/>\no primeiro documento que se deparou a Alexandre de Gusm\u00e3o para ensaiar<br \/>\num ju\u00edzo sobre a mat\u00e9ria.<br \/>\nRegistrem-se, por\u00e9m, outras, mais perfeitas. A geografia norteadora<br \/>\ndo Tratado concretizou-se em dois mapas \u00fanicos: o denominado &#8220;das<br \/>\nCortes&#8221; (decalque do de La Condamine), subscrito pelos plenipotenci\u00e1rios<br \/>\nTom\u00e1s da Silva Teles e Carvajal y Lancaster, e o dos irm\u00e3os<br \/>\nJorge e Ant\u00f4nio Ulloa.<br \/>\nEste \u00faltimo \u00e9 coet\u00e2neo das negocia\u00e7\u00f5es.<br \/>\nTem, ademais, a valia das suas fontes, genuinamente espanholas. Os deslizes<br \/>\ngr\u00e1ficos, elide-lhos o texto explicativo, que se insere na RELACI\u00d3N<br \/>\ndas viagens daqueles dois ge\u00f3grafos, traduzindo, no tocante \u00e0s<br \/>\nterras ultramarinas, o conceito claro da metr\u00f3pole. E deletreando-a,<br \/>\ne ajustando-se-lhe os dizeres ao mapa, verifica-se que a Audi\u00eancia de<br \/>\nCharcas, partindo das linhas naturais, invari\u00e1veis, da cordilheira<br \/>\nde Vilcanota, nas extremas do bispado de Cuzco, pertencente \u00e0 de Los<br \/>\nReyes, e dilatando-se para o sul at\u00e9 \u00e0 de Buenos Aires, estendia-se<\/p>\n<p>pelo oriente <em>&#8220;hasta el Brasil sirvi\u00e9ndole de t\u00e9rminos<br \/>\nel meridiano de demarcaci\u00f3n&#8221;. <\/em><br \/>\nUm meridiano, uma linha astron\u00f4mica indeterminada, a desatar-se para<br \/>\no norte at\u00e9 ao mar, defrontando os pa\u00edses lusitanos.<br \/>\nN\u00e3o se fala no Peru, propriamente dito, malgrado o elast\u00e9rio<br \/>\ndo Vice-reinado. As terras colindantes com os portugueses, no quadrante de<br \/>\nN E., mais uma vez pressupunham-se depender da jurisdi\u00e7\u00e3o de<br \/>\nCharcas. E foi, sem d\u00favida, contemplando aquela carta que Alexandre<br \/>\nde Gusm\u00e3o, em of\u00edcio de 22 de novembro de 1748, ao plenipotenci\u00e1rio<br \/>\nVisconde de Vila de Cerveira, assentava, subordinando-se \u00e0s no\u00e7\u00f5es<br \/>\nda \u00e9poca:<br \/>\n&#8220;&#8230;que o rio Guapor\u00e9 se deve reputar o mesmo que os mission\u00e1rios<br \/>\nde Moxos chamam de S\u00e3o Miguel, <em>e que os navegantes das Amazonas<br \/>\napelidam da Madeira; <\/em>como tamb\u00e9m que <em>todas as aldeias dos<br \/>\nMoxos e Chiquitos est\u00e3o de aquele rio para o ocidente&#8230; <\/em>E, finalmente,<br \/>\nresulta que se n\u00e3o se pode apontar por aquela parte melhor confim do<br \/>\nque o mesmo rio, que j\u00e1 no Mato Grosso <em>\u00e9 <\/em>caudaloso.&#8221;<\/p>\n<p>Por esta forma come\u00e7ou a debuxar-se o Madeira como divisa geral entre<br \/>\nas terras brasileiras e Bol\u00edvianas.<br \/>\nQuanto \u00e0 paralela, que se nomearia mais tarde de Santo Ildefonso, o<br \/>\nmesmo ministro, no mesmo papel, depois de observar que:<br \/>\n&#8220;em todo o espa\u00e7o de terras que medeia entre o Madeira e o Javari<br \/>\nn\u00e3o podia ter lugar a regra de que as vertentes que baixassem para<br \/>\no rio das Amazonas pertencessem a Portugal&#8221;,<br \/>\nporque<br \/>\n&#8220;deve saber-se que o rio dos Purus e outros que continuam at\u00e9<br \/>\nao Javari principiam desde a prov\u00edncia dos Charcas&#8221;, adotou<br \/>\n&#8220;o arb\u00edtrio de seguir s\u00f3 na vizinhan\u00e7a da margem<br \/>\nocidental do Guapor\u00e9, <em>ou <\/em>Madeira, ou cume de montes, que medeiam<br \/>\nentre o Mamor\u00e9 e o rio das Amazonas, escolhendo depois para baliza<br \/>\nos rios que mais se chegarem no seu curso aos rumos de leste e oeste, para<br \/>\nse irem incorporar no dos Purus e nos outros superiores a ele&#8230;&#8221;<br \/>\nAqui rebrilha uma vis\u00e3o, instant\u00e2nea, de g\u00eanio.<br \/>\nResulta destas palavras que os limites se n\u00e3o tra\u00e7aram pelas<br \/>\ndivis\u00f3rias naturais das cabeceiras do Purus, e de outros que baixassem<br \/>\npara o Amazonas, porque a geografia absurda do tempo lhas deslocava, exageradamente,<br \/>\npara o sul. Gastaram-se 153 anos para restaurar-se o pensamento long\u00ednquo<br \/>\ndos antigos negociadores; e corrigir-se um erro.<br \/>\nO Tratado de Petr\u00f3polis, na sua estrutura sem frinchas, representava-se,<br \/>\nem largos lineamentos, no passado. E um exemplo admir\u00e1vel da nossa<br \/>\ncontinuidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Mas reaviemo-nos. Naquelas frases denuncia-se a incerteza geogr\u00e1fica;<br \/>\nmas o pensamento dominante \u00e9 seguro: lindavam-se, naquele trecho, os<br \/>\ndom\u00ednios portugueses e as miss\u00f5es de Moxos, da maneira a mais<br \/>\ngeral, em todo o correr do rio Guapor\u00e9 ou da Madeira. O que se nomeia<br \/>\n\u00e9 a prov\u00edncia de Charcas; o que se especializa, no ocidente,<br \/>\ns\u00e3o as suas c\u00e9lebres redu\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u00c9 um princ\u00edpio invari\u00e1vel.<br \/>\nTranscorridos dois meses reproduzia-o, noutra nota (8 de fevereiro de 1749),<br \/>\no not\u00e1vel Escriv\u00e3o da Puridade, dirigindo-se ao mesmo titular:<\/p>\n<p>&#8220;O pais que medeia <em>entre o rio das Amazonas e a prov\u00edncia<br \/>\ndos Charcas \u00e9 <\/em>ideal e sem mais fundamento do que saber-se que<br \/>\nos rios grandes que des\u00e1guam no das Amazonas vem daquela parte e que<br \/>\n<em>h\u00e1 <\/em>cordas de serras que v\u00e3o acompanhando o Amazonas.&#8221;<\/p>\n<p>E aditava-se que, malgrado isto, &#8220;n\u00e3o seria acertado que por causa<br \/>\nde uns desertos t\u00e3o desvaliosos se suspendesse a conclus\u00e3o de<br \/>\num neg\u00f3cio t\u00e3o importante a ambas as coroas&#8221;.<br \/>\n\u00c9 evidente: entre as paragens lusitanas, do Amazonas, <em>e a prov\u00edncia<br \/>\nde Charcas, <\/em>havia uns desertos t\u00e3o imprest\u00e1veis que n\u00e3o<br \/>\npoderiam ser obst\u00e1culo ao remate das negocia\u00e7\u00f5es: um<br \/>\ndesmedido <em>res nullius, <\/em>onde se riscaria, sem temores, a barreira<br \/>\nimagin\u00e1ria, predestinada a todos os deslizes, a todas as cincas e a<br \/>\ntodas as diabruras de todos os doutores em atrapalha\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas.<br \/>\nRealmente, naqueles dizeres pontilha-se a famosa linha, que seria a de Santo<br \/>\nIldefonso &#8211; a que se apegam, agora, os peruanos, como se fosse poss\u00edvel<br \/>\nagarrar uma sombra &#8211; trazendo desde o princ\u00edpio, como estamos vendo,<br \/>\nos mais expl\u00edcitos sinais de ser uma divis\u00f3ria entre a Audi\u00eancia<br \/>\nde Charcas e as terras amaz\u00f4nicas, entre a Bol\u00edvia e o Brasil.<\/p>\n<p>Continuemos a rastrear as negocia\u00e7\u00f5es. Em 16 de maio de 1749,<br \/>\noutro grande ministro, Marco Ant\u00f4nio de Azeredo Coutinho, interveio<br \/>\nno debate; prolongou o pensamento de Alexandre de Gusm\u00e3o; e no balancear<br \/>\nanterior proposta do governo espanhol, que sugerira o alvitre de lan\u00e7ar-se<br \/>\naquela raia &#8220;a quarenta l\u00e9guas pouco mais ou menos do rio das<br \/>\nAmazonas&#8221;, indicou ao plenipotenci\u00e1rio Cerveira outro meio mais<br \/>\nexpedito:<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; e vem a ser que entre os dois rios da Madeira e Javari corram linha<\/p>\n<p>leste-oeste em tal altura que fique <em>repartido por igual aquelas terras<br \/>\ndesconhecidas, <\/em>de sorte que desta linha \u00e0 cidade, povo ou miss\u00e3o<br \/>\nque se achar mais setentrional no distrito do Governo de Santa Cruz de la<br \/>\nSierra fique tanta distancia como da boca do rio dos Purus.&#8221;<br \/>\nO pensamento, acima exposto, acentua-se. Santa Cruz de la Sierra \u00e9<br \/>\no nome mais tradicionalmente boliviano que se conhece. Deste modo, foi na<br \/>\nAudi\u00eancia de Charcas que se encontrou o primeiro ponto fixo, a primeira<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio em tantas vacila\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os terrenos repartir-se-iam por igual; e, certo, portugueses e espanh\u00f3is,<br \/>\nnaquele tempo, n\u00e3o compreenderiam que, depois de estabelecidos tais<br \/>\nlimites, se insinuasse por ali, ajustando-se-lhes, estreit\u00edssima, pela<br \/>\nparte do sul, a estirar-se por mil e quinhentos quil\u00f4metros at\u00e9<br \/>\nchegar ao Madeira, um tent\u00e1culo apreensor da long\u00ednqua Audi\u00eancia<br \/>\nde Los Reyes. Porque n\u00e3o se lhe contrapunham apenas estes dizeres expressos<br \/>\nna nossa l\u00edngua. Tolhiam-na ju\u00edzos ainda mais precisos, expostos<br \/>\nem l\u00eddimo castelhano. Contravinha-lhe a pr\u00f3pria Majestade Cat\u00f3lica,<br \/>\npelo \u00f3rg\u00e3o de seu mais r\u00edgido ministro.<br \/>\nRealmente, Carvajal y Lancaster, num <em>Largo Proemio de todas las pretensiones,<br \/>\n<\/em>depois de estudar a fronteira at\u00e9 ao Guapor\u00e9, prop\u00f4s:<\/p>\n<p><em>&#8220;Art\u00edculo 12 &#8211; Desde el t\u00e9rmino de la dicha l\u00ednea<br \/>\nen la margen meridional del Guapor\u00e9 continuar\u00e1 la frontera por<br \/>\nel medio de este rio <\/em>hasta los montes que median entre la provincia o<br \/>\ndistrito de las misiones de los Mojos y el rio de las Amazonas&#8230;<br \/>\n<em>Art\u00edculo 13 &#8211; Desde los montes referidos continuar\u00e1 la raya<br \/>\npor lo mas alto de ellos de suerte que las vertientes que desaguaren en el<br \/>\nMamor\u00e9 o eu otros rios que tal vez entren en el Guapor\u00e9, o de<br \/>\nSan Miguel, pertenezcan a la corona de Es pana, y las vertientes que desaguaren<br \/>\nen el rio de las Amazonas, o otros que m\u00e1s abajo de los dichos montes<br \/>\ntal vez entren en el dicho rio San Miguel, pertenezcan a la corona de Portugal.<br \/>\nContinuando por las cumbres de los dichos montes y por los rios que m\u00e1s<br \/>\nse avec\u00edndaren en su curso a los rumbos del Este e Oeste para incorporar-se<br \/>\ncon los rios de los Pur\u00fas, Coary y otros, <\/em>que bajan de la provincia<br \/>\nde Charcas <em>a desaguar en la margen austral deI Amazonas, correr\u00e1<br \/>\nla frontera por el medio de las dichas cumbres y rios hasta el rio Javary..<br \/>\n.&#8221; <\/em><br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 disfar\u00e7ar-se o significado destes artigos, em<br \/>\nque se repetem, \u00e0 saciedade, os nomes, num prop\u00f3sito de clareza<br \/>\nabsoluta.<br \/>\nAntes de consider\u00e1-los, porem, notemos, de novo, que o deslindamento<br \/>\npactuado em Petr\u00f3polis, a 17 de novembro de 1903, mais uma vez se projetou,<br \/>\nem seus contornos gerais, naquele long\u00ednquo passado. Quem quer que<br \/>\nprocure ajustar a uma carta moderna aquela proposta, submetida de um modo<br \/>\ntio frisante \u00e0s linhas naturais dos cerros e rios referidos, pouco<br \/>\nse distanciar\u00e1 dos limites definitivamente estabelecidos, hoje, entre<br \/>\no Brasil e a Bol\u00edvia. Com efeito, se se efetuasse a indica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Lancaster, os comiss\u00e1rios teriam de locar a divisa a partir das<br \/>\ncercanias da conflu\u00eancia do Abun\u00e3. Era inevit\u00e1vel. Dali<br \/>\npara as bandas de N. O. expande-se, nivelada, a Amaz\u00f4nia, sem o ondular<br \/>\nda mais ligeira serrania, at\u00e9 ao grande rio. Deste modo, a divis\u00f3ria<br \/>\nseguiria para oeste, justapondo-se aos terrenos mais altos das vertentes que<br \/>\nderivam para a margem esquerda do Beni; prosseguiria pela corda de pequenos<br \/>\nmontes, que W. Chandless revelou entre o Acre meridional e o Madre de Dios;<br \/>\nalongar-se-ia por ela at\u00e9 \u00e0 s\u00e9rie de colinas, em que<br \/>\nse arqueiam as bacias de capta\u00e7\u00e3o do Puros e do Juru\u00e1;<br \/>\ne dali, infletindo para o norte, pela crista dos cerros encadeados de Contamana,<br \/>\niria rematar, como se remata hoje, nas cabeceiras do Javari. A dedu\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 rigorosa. O alvitre, a princ\u00edpio aventado pelos portugueses,<br \/>\ndepois pelos castelhanos, se n\u00e3o o invalidasse a in\u00f3pia de conhecimentos<br \/>\ngeogr\u00e1ficos, teria removido tio longas controv\u00e9rsias; e o lit\u00edgio<br \/>\natual n\u00e3o existiria.<br \/>\nMas n\u00e3o nos desviemos. Seja como for, resulta daqueles artigos que<br \/>\no pensamento de Carvajal y Lancaster consistiu em dispor a divisa entre o<br \/>\nMadeira e o Javari <em>&#8220;desde los montes que median entre las provincias<br \/>\nde Mojos y el rio de las Amazonas&#8221;. <\/em><br \/>\nNem se refere mais \u00e0s terras n\u00e3o descobertas. Inclu\u00eda-se,<br \/>\nlogicamente, naquelas prov\u00edncias. Eram o seu prolongamento natural,<br \/>\ngeogr\u00e1fico, hist\u00f3rico, como vimos, e, afinal, pol\u00edtico,<br \/>\ncomo veremos.<br \/>\nTais limites, pelos motivos precitados, n\u00e3o se firmaram. Mas o crit\u00e9rio<br \/>\nque os inspirou, firmou-se: a linha leste-oeste projetou-se entre as possess\u00f5es<br \/>\nportuguesas e a Audi\u00eancia de Charcas, pelo seu distrito mais setentrional,<br \/>\nde Moxos.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 fugir-se \u00e0 evid\u00eancia que se avoluma, e se<br \/>\nconsolida, tornando-se, ao cabo, esmagadora.<br \/>\nEm 22 de novembro de 1749, iam adiantadas as negocia\u00e7\u00f5es; e<br \/>\nAlexandre de Gusm\u00e3o, no balancear as \u00faltimas propostas castelhanas,<br \/>\ndepois de considerar v\u00e1rios inconvenientes, que se lhe antolhavam,<br \/>\nrematava com esta alternativa:<br \/>\n&#8220;De qualquer por\u00e7\u00e3o de terra que pretend\u00eassemos em<br \/>\noutra parte resultaria avizinharmo-nos mais <em>ou das prov\u00edncias de<br \/>\nCharcas ou das de Quito<\/em>.&#8221;<br \/>\nA exclus\u00e3o da Audi\u00eancia de Los Reys era, como se evidencia, completa.<\/p>\n<p>O negociador portugu\u00eas apresentou, ao cabo, os \u00faltimos reparos<br \/>\nao projeto espanhol:<br \/>\n&#8220;As palavras <em>&#8211; situado en igual distancia poco m\u00e1s o menos<br \/>\ndel rio Maran\u00f3n y de las misiones de Mojos &#8211; <\/em>deixam este lugar<br \/>\nem muita incerteza <em>porque as miss\u00f5es de Mochos s\u00e3o muitas<br \/>\ne ocupam grande espa\u00e7o de norte a sul. <\/em>Para evitar ambig\u00fcidade<br \/>\nparece que ser\u00e1 mais conveniente estabelecer-se fixamente o ponto do<br \/>\nmeio entre o rio das Amazonas e a boca do Mamor\u00e9, ou a miss\u00e3o<br \/>\nmais setentrional dos Mochos; porque desta sorte ter\u00e3o os comiss\u00e1rios<br \/>\nregra certa para se determinarem. E assim parece que deve dizer o artigo:<br \/>\n<em>Situado en igual distancia del citado rio Maran\u00f3n o Amazonas; y<br \/>\nde la boca del dicho Mamor\u00e9 y desde aquel paraje continuar\u00e1<br \/>\npor una l\u00ednea este-oeste hasta encontrar con la ribera oriental dei<br \/>\nrio Javary&#8230;&#8221; <\/em><br \/>\nAssim se engenhou a linha, que foi a de Santo Ildefonso, e \u00e9 hoje a<br \/>\nmaior base das pretens\u00f5es peruanas. Entretanto, ainda neste ultimar-se<br \/>\ndas delibera\u00e7\u00f5es, ressalta, com evid\u00eancia deslumbrante,<br \/>\no direito da Bol\u00edvia. As suas miss\u00f5es setentrionais, de Moxos,<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o apenas as \u00fanicas que se interessam no debate;<br \/>\nesclarecem-se; s\u00e3o <em>muitas e ocupam grandes superf\u00edcies de<br \/>\nnorte a sul&#8230; <\/em><br \/>\nRessurge a dedu\u00e7\u00e3o que agitamos desde o princ\u00edpio desta<br \/>\nan\u00e1lise. Repitamo-la, inalter\u00e1vel, no termo de um racioc\u00ednio<br \/>\nfirme, em que a volta a considera\u00e7\u00f5es ditas e reditas, insistentes,<br \/>\nesmoedoras, triturantes, imp\u00f5em-se como o pr\u00f3prio volver dos<br \/>\ndentes de uma engrenagem rigorosamente calculada: os limites da Audi\u00eancia<br \/>\nde Charcas, naqueles lados, iriam at\u00e9 aonde fosse a linha demarcadora<br \/>\nde Portugal e Espanha.<br \/>\nA lei do L. 2o da <em>Recopilaci\u00f3n, <\/em>de 1680, reproduzia-se, inviol\u00e1vel,<br \/>\ndecorridos setenta anos, no parecer uniforme dos negociadores do Tratado de<br \/>\n1750. E a admir\u00e1vel diretriz hist\u00f3rica da Bol\u00edvia persistia<br \/>\nsob a san\u00e7\u00e3o de um pacto internacional.<br \/>\n\u00c9 natural que da\u00ed por diante o seu desdobramento se tornasse<br \/>\nainda mais inflex\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>Desde que se realizou o Tratado de 1750, a expans\u00e3o portuguesa, contida<br \/>\nnos rumos do ocidente, derivou com maior \u00edmpeto para o norte, pelas<br \/>\nestradas naturais do Mamor\u00e9 e do Madeira. Desenham-na, os pontos determinantes<br \/>\nde funda\u00e7\u00f5es perfeitamente definidas. Baste recordar-se a de<\/p>\n<p>N. S. da Boa Viagem,(1) onde se aldearam os \u00edndios <em>pamas, <\/em>erecta,<br \/>\nem 1758, nas cercanias da cachoeira do Girau (9\u00ba 20&#8242; 45&#8243; 7 lat.<br \/>\nsul; 65\u00ba 04&#8242; 42&#8243; long. O. Greenwich).<br \/>\nA\u00ed estio duas coordenadas astron\u00f4micas e uma data que, nesta<br \/>\nconcis\u00e3o num\u00e9rica, valem muitas p\u00e1ginas eloq\u00fcentes.<br \/>\nDizem, com o inflex\u00edvel rigorismo destes n\u00fameros a travarem-se,<br \/>\nn\u00edtidos, no tempo e no espa\u00e7o, que a posse portuguesa, efetiva,<br \/>\nnaquelas paragens do Madeira, \u00e9 uma vez e meia secular. Estabeleceu-se<br \/>\nh\u00e1 cento e quarenta e cinco anos. .. e est\u00e1 cento e setenta<br \/>\nquil\u00f4metros ao sul da singular\u00edssima latitude (6\u00ba 52&#8242; 15&#8243;)<br \/>\ndas pretens\u00f5es peruanas&#8217;<br \/>\nOra, neste expandir-se, encal\u00e7ou-a a influ\u00eancia boliviana. Faltou-lhe,<br \/>\nsem d\u00favida, um historiador. N\u00e3o teve, tamb\u00e9m, os decisivos<br \/>\nefeitos de uma posse definida. Mas nos nossos antigos anais repontam as mais<br \/>\ninequ\u00edvocas refer\u00eancias a um largo entrela\u00e7amento entre<br \/>\no trecho encachoeirado do Madeira e as miss\u00f5es de Moxos. N\u00e3o<br \/>\nos citaremos. Por abreviar, continuemos pela magistral dos acontecimentos<br \/>\nque se n\u00e3o iludem, que n\u00e3o podem torcer-se, e imp\u00f5em-se<br \/>\npor si mesmos, sem requintes de linguagem, maci\u00e7amente, com a estrutura<br \/>\ncicl\u00f3pica de seu pr\u00f3prio peso.<br \/>\nO Tratado de 1750, com ser um pacto definitivo, e em parte executado pelo<br \/>\nimplante dos marcos no Paraguai e foz do Jauru, foi ef\u00eamero. Malignou-o<br \/>\na animadvers\u00e3o do Marqu\u00eas de Pombal. Cancelou-o, em 1761, o Tratado<br \/>\ndo Prado. De sorte que, num grande refluxo de trezentos anos, resvalaram as<br \/>\nduas metr\u00f3poles \u00e0 imaginosa constitui\u00e7\u00e3o territorial<br \/>\nde Tordesilhas &#8211; e os limites da Audi\u00eancia de Charcas, de novo indefinidos,<br \/>\ndebuxaram-se, outra vez, consoante \u00e0 <em>Recopilaci\u00f3n <\/em>das<br \/>\n\u00cdndias, marginando, indeterminadamente, o desmedido do meridiano demarcador.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ao rev\u00e9s do movimento expansionista lusitano, que no<br \/>\nseu desencadear-se irrefre\u00e1vel para o ocidente motivara o Tratado de<br \/>\n1750, despontou a vigorosa expans\u00e3o boliviana, desfechando para o norte<br \/>\na buscar o Madre de Dios, pelas trilhas pac\u00edficas dos mission\u00e1rios<br \/>\nde Santo Ant\u00f4nio de los Charcas, e para o levante, militarmente, num<br \/>\nen\u00e9rgico revide contra os antigos advers\u00e1rios.<br \/>\nA hist\u00f3ria inverteu-se. Pela primeira vez, ap\u00f3s tr\u00eas s\u00e9culos<br \/>\nde recuos, a metr\u00f3pole castelhana enterreirava a portuguesa, na Am\u00e9rica.<br \/>\nA Audi\u00eancia de Charcas, sempre invadida, transfigurou-se numa rea\u00e7\u00e3o<br \/>\nvigorosa; e o Mato Grosso, onde durante largo tempo se armaram os arraiais<br \/>\ndos invasores, foi teatro de uma defesa desesperadora contra os que o amea\u00e7avam.<br \/>\nEm toda a lonjura das suas fronteiras ocidentais, intercisas, batia a tropeada<br \/>\ndas guerrilhas, e &#8220;vociferavam ralhos castelhanos&#8221;. Os nossos fastos<br \/>\ns\u00e3o, neste lance, expl\u00edcitos; todos os cronistas, acordes; e<br \/>\nse nos delong\u00e1ssemos, copiando-lhes as p\u00e1ginas comoventes, desenrolar-se-ia<br \/>\no quadro de uma das maiores campanhas dos tempos da col\u00f4nia.<br \/>\n&#8220;Ser\u00e1 memor\u00e1vel o ano de 1763 pelas circunst\u00e2ncias<br \/>\nda guerra que nos quiseram fazer os castelhanos, <em>ali\u00e1s os jesu\u00edtas<br \/>\nda prov\u00edncia de Moxos&#8230;&#8221; <\/em>(2)<br \/>\nAssim inicia um deles a narrativa dos casos extraordin\u00e1rios que se<br \/>\ndesenrolaram at\u00e9 as v\u00e9speras do Tratado de 1777.<br \/>\nN\u00e3o foram algaras violentas e c\u00e9leres, surgindo, devastando,<br \/>\ndesaparecendo; sen\u00e3o uma guerra, que ainda em 1766 exigia socorros<br \/>\nurgent\u00edssimos dos governos remotos, do Rio de Janeiro, Minas Gerais,<br \/>\nS\u00e3o Paulo e at\u00e9 do Par\u00e1, aos reclamos de D. Ant\u00f4nio<br \/>\nRollin de Moura, Governador da capitania amea\u00e7ada.<br \/>\nOs ranchos bolivianos, amea\u00e7adores, armavam-se da foz do Mamor\u00e9<br \/>\na do Itonamas.<br \/>\nMobilizaram-se os corpos de ordenan\u00e7as, de drag\u00f5es, e os pedestres;<br \/>\nparalisaram-se as minas; arregimentaram-se os aventureiros destemerosos; e,<br \/>\nnum galhardo lance de misticismo her\u00f3ico, confiando, solenemente, \u00e0<br \/>\nN. S. da Concei\u00e7\u00e3o, o bast\u00e3o do comando na luta que se<br \/>\nabria, o austero capit\u00e3o-general &#8220;com o mesmo esp\u00edrito<br \/>\ne valor de D. Jo\u00e3o de Castro em Diu&#8221;, como nos diz o edificado<br \/>\ncronista, arremeteu com os inimigos, proclamando que &#8220;os portugueses<br \/>\nnunca eram poucos, porque sempre lhes sobravam os \u00e2nimos, os bra\u00e7os<br \/>\ne as espadas&#8221;.<br \/>\nE feriram-se combates, numerosos, mort\u00edferos, insistentes&#8230;<br \/>\nO arru\u00eddo das batalhas ecoou na Espanha; e mais uma vez, em documento<br \/>\nsolen\u00edssimo, a metr\u00f3pole consagrou o dom\u00ednio da Audi\u00eancia<br \/>\nde Charcas naquelas terras agitadas.<br \/>\nA C\u00e9dula Real de 15 de setembro de 1772 resultou, com efeito, destes<br \/>\nsucessos alarmantes, delatados ao Conselho das \u00cdndias pelo Bispo de<br \/>\nSanta Cruz de la Sierra &#8211; e teve como objetivo essencial o garantir as divisas<br \/>\nespanholas ao longo do Madeira, <em>desde o trecho encachoeirado, <\/em>at\u00e9<br \/>\nas origens do Guapor\u00e9.<br \/>\nRegistre-se-lhe es te per\u00edodo dominante:<br \/>\n<em>&#8220;Con motivo de este expediente se ha discorrido lo mucho que conviene<br \/>\ncelar en el distrito de la Provincia de los Mojos el rio llamado Mamor\u00e9<br \/>\nque desciende de S. C. de la Sierra y Mojos hasta internarse en los establecimientos<br \/>\nde Portugal donde llaman los naturales el rio de la Madera; y formar en esta<br \/>\nconfinaci\u00f3n, <\/em>pasados los saltos grandes, <em>un pueblo de espanoles<br \/>\ncon alg\u00fan pequeno castillo, que sirva para asegurar mis dominios contra<br \/>\nlas frecuentes incursiones. .. que causan los portugueses <\/em>internados<br \/>\npor este rio de la Madera&#8230;&#8221;<br \/>\nAssim, o rio Madeira, ao parecer da metr\u00f3pole, constituia a fronteira<br \/>\ndilatada da prov\u00edncia boliviana, de Moxos; e ao Presidente de Charcas<br \/>\nou, mais especialmente, ao Governador de Santa Cruz de la Sierra, impendia,<br \/>\npor determina\u00e7\u00e3o expressa, o dever de resguardar, ali, o territ\u00f3rio<br \/>\ncastelhano, at\u00e9 al\u00e9m da zona encachoeirada, <em>pasados los<br \/>\nsaltos grandes. <\/em><br \/>\nOra, o \u00faltimo destes, o de Santo Ant\u00f4nio, situa-se na latitude<br \/>\nsul de 8\u00ba 49&#8243; 2&#8243;,6.<br \/>\nE mais uma coordenada rigorosa e significativa.<br \/>\nA metr\u00f3pole submetia, iniludivelmente, \u00e0 influ\u00eancia do<br \/>\ngoverno de Charcas todo o territ\u00f3rio ribeirinho, \u00e0 margem esquerda<br \/>\ndo Madeira, at\u00e9 quase \u00e0 m\u00e9dia dist\u00e2ncia indicada<br \/>\nnos delineamentos anteriores.<br \/>\nVejamos como este pensamento se destaca, avolumando-se, em todos sucessos<br \/>\nulteriores.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a><strong>Cap\u00edtulo IV <\/strong><\/h2>\n<p>Destaque-se um fato capital.<br \/>\nQuando se realizava aquele revide contra os portugueses fronteiri\u00e7os,<br \/>\nde Mato Grosso, a metr\u00f3pole castelhana decretou a expuls\u00e3o dos<br \/>\njesu\u00edtas (1767), epis\u00f3dio culminante do reinado liberal de Carlos<br \/>\nIII, que paliou por alguns dec\u00eanios a decad\u00eancia irremedi\u00e1vel<br \/>\nde Espanha.<br \/>\nMas a medida foi artificial e v\u00e3. Era-lhe de todo estranha a pol\u00edtica<br \/>\ngenuinamente espanhola, desde muito submetida \u00e0 influ\u00eancia estrangeira.<br \/>\nA frente dos neg\u00f3cios, na Pen\u00ednsula, o Marqu\u00eas de Grimaldi<br \/>\nera a sombra de Choiseul. As c\u00e9dulas reais, de Madrid, minutavam-se<br \/>\n\u00e0s vezes em Versailles.<br \/>\nPor isto o ato golpeante, ferindo em cheio as tradi\u00e7\u00f5es nacionais,<br \/>\nfoi violento e ef\u00eamero: um fluxo galv\u00e2nico de pol\u00edtica<\/p>\n<p>artificial; ou uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o <em>par en haut. <\/em>Embaixo,<br \/>\na nacionalidade toda, sucumbida, reagia de uma maneira humilde e formid\u00e1vel:<br \/>\ncom as missas, com as penit\u00eancias e as prociss\u00f5es solenes; com<br \/>\nas atitudes cada vez mais abatidas, ou genuflexas, e as m\u00e3os inermes,<br \/>\nenclavinhando-se nas rezas, ou espalmando-se nos <em>mea culpa <\/em>consagrados&#8230;<br \/>\nAo mesmo tempo que os graves doutores, na terra cl\u00e1ssica das sangrias,<br \/>\ncaturravam negando a circula\u00e7\u00e3o do sangue, mais de um s\u00e9culo<br \/>\ndepois de Harvey; e a Universidade de Salamanca, ab\u00f3bada da cultura<br \/>\ncastelhana, restaurava, platonicamente, o sistema de Arist\u00f3teles, repelindo<br \/>\nem p\u00fablico as teorias de Newton por destoarem da religi\u00e3o revelada.<\/p>\n<p>N\u00e3o maravilha que, apenas transcorridos vinte anos, a rea\u00e7\u00e3o<br \/>\nirrompesse com a beatice furiosa de Carlos IV, e varresse, de pancada, todos<br \/>\nos enfeites de uma emancipa\u00e7\u00e3o prematura e decorativa.<br \/>\nPor\u00e9m n\u00e3o na Am\u00e9rica. A linha superior da pol\u00edtica<br \/>\nde Grimaldi, prolongada depois, at\u00e9 1788, por Florida Branca, manteve-se,<br \/>\ninalter\u00e1vel, na maioria das circunscri\u00e7\u00f5es sul-americanas;<br \/>\ne, principalmente, na de Charcas, que entretanto sobre todas se afigurava<br \/>\numa feitura dos jesu\u00edtas.<br \/>\nDe fato, fora o padre quem lhe aumentara o territ\u00f3rio. Enquanto as<br \/>\ndecis\u00f5es da metr\u00f3pole lho expandiam, como vimos, no levante,<br \/>\nat\u00e9 ao m\u00e9dio Madeira &#8211; ele n\u00e3o s\u00f3 lhe fixava neste<br \/>\nlado o elemento ind\u00edgena, como pelo Outro, no ocidente, lho dilatava<br \/>\nnas campanhas obscuras da catequese, por todo o trato da Amaz\u00f4nia que<br \/>\nse desata para N .O., da margem esquerda do Beni em rumo do Ucayali, onde<br \/>\nse iniciaram as miss\u00f5es Apollobamba, predestinadas a irradiarem sobre<br \/>\nas paragens em que se incluiria mais tarde o Territ\u00f3rio do Acre.<br \/>\nE o batedor pac\u00edfico dos desertos n\u00e3o se limitava a descobri-los.<br \/>\nAssistia em todos os misteres as sociedades nascentes. Era o m\u00e9dico,<br \/>\no confessor, o juiz; o engenheiro que lhes abria as veredas e lhes locava<br \/>\nas cidades. Por fim o t\u00e1tico que as conduzia \u00e0 luta. Viram-no<br \/>\ncair, por vezes, na batalha. Na guerra de 1763-86, contra os portugueses,<br \/>\npor exemplo, tombara o jesu\u00edta Francisco Xavier, &#8220;que era o verdadeiro<br \/>\ncomandante&#8221;, no dizer sincero de um cronista.<br \/>\nEntretanto, em que pese a este car\u00e1ter profundamente religioso, as<br \/>\n&#8220;redu\u00e7\u00f5es&#8221; nasciam com os mais vivazes g\u00e9rmens<br \/>\ndemocr\u00e1ticos. Releve-se a antinomia da frase: as funda\u00e7\u00f5es<br \/>\njesu\u00edticas na Bol\u00edvia foram uma vasta teocracia municipal. Pelo<br \/>\nmenos em nenhum outro ponto o singular\u00edssimo dizer &#8211; Rep\u00fablica<br \/>\nJesu\u00edtica &#8211; foi mais compreens\u00edvel. O mission\u00e1rio afrontava-se<br \/>\ncom o bravio das matas nunca percorridas; reunia os selvagens erradios; catequizava-os;<br \/>\ndisciplinava-os, adestrando-os para a defesa; aparelhava-os para a vida, instruindo-os<br \/>\nnos rudimentos do Governo, ou guiando-os na administra\u00e7\u00e3o de<br \/>\n<em>pueblos; <\/em>e rematava todos esses esfor\u00e7os, deixando-os. A miss\u00e3o<br \/>\ndesaparecia ao fim de um prazo de dez anos, prefixo pelas leis. A redu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nintegrando-se na diocese mais pr\u00f3xima, extinguia-se na amplitude da<br \/>\nexist\u00eancia civil; a tribo transfigurava-se em <em>civitas; <\/em>a maloca<br \/>\ntransmudava-se em vila; o p\u00e1roco substitu\u00eda o ap\u00f3stolo;<br \/>\no corregedor substitu\u00eda o cacique. E o jesu\u00edta reaviava-se \u00e0s<br \/>\ntrilhas dolorosas do deserto, em busca de outras selvas e de outros <em>infieles,<br \/>\n<\/em>retravando, obscuramente, nas solid\u00f5es ignoradas, a sua imensa<br \/>\nbatalha sem ru\u00eddos.<\/p>\n<p>Deste modo, compreende-se que ele desaparecesse e o seu esfor\u00e7o ficasse;<br \/>\ne tamb\u00e9m ficasse, sobretudo na regi\u00e3o que se considera (a partir<br \/>\nda orla povoada que ia de Exaltaci\u00f3n e Cavinas para o norte) uma sociedade<br \/>\nnova e robusta, apta a prolongar-lhe a tarefa secular, transformando as miss\u00f5es<br \/>\nreligiosas numa grande miss\u00e3o pol\u00edtica, obediente ao mesmo rumo<br \/>\nintorc\u00edvel e persistente para o norte.<br \/>\nE o que demonstram os sucessos imediatos \u00e0 C\u00e9dula Real de 15<br \/>\nde setembro de 1772, acima nomeada.<\/p>\n<p align=\"left\">*<br \/>\nInfelizmente \u00e9 preciso ainda citar e transcrever.<br \/>\nOs documentos que revimos, e vamos rever, s\u00e3o mon\u00f3tonos. Volvem<br \/>\ne reviram os assertos; deformam-nos em numerosos incidentes, repisam-nos,<br \/>\nredizendo-no-los na inatur\u00e1vel itera\u00e7\u00e3o do estilo caracter\u00edstico<br \/>\nda \u00e9poca, ou, melhor, da ra\u00e7a. P. Groussac denunciou-o numa<br \/>\ndas suas bel\u00edssimas monografias: a redund\u00e2ncia domina o conceito<br \/>\ndo estilo castelhano. E um defeito origin\u00e1rio, &#8220;an\u00e1logo<\/p>\n<p>ao <em>paralelismo <\/em>dos hebreus&#8221;, que transluz t\u00e3o sobradamente<br \/>\nfatigante nos vers\u00edculos reiterativos da B\u00edblia.<br \/>\nDa\u00ed o exaustivo desta an\u00e1lise, for\u00e7ada a prosseguir ajustando-se<br \/>\naos acidentes da hist\u00f3ria colonial, relatados pelos seus pr\u00f3prios<br \/>\natores.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 outro processo. Para concertarem-se ju\u00edzos n\u00e3o<br \/>\nvalem primores de linguagem, ante os velhos dizeres, cheios de t\u00e3o<br \/>\nespl\u00eandida rudeza. E indispens\u00e1vel ainda uma vez ouvi-los. Escutando-os,<br \/>\nquase sem os comentar, conclu\u00edmos que os debates de 1750, completados<br \/>\npela C\u00e9dula Real de 1772, destacaram, em plena luz, a inger\u00eancia<br \/>\nexclusiva do Governo de Charcas em todo o N . E. dos dom\u00ednios espanh\u00f3is,<br \/>\ndo Guapor\u00e9 ao m\u00e9dio Madeira. A evolu\u00e7\u00e3o da autonomia<br \/>\nboliviana, deduzida a princ\u00edpio no elast\u00e9rio de um racioc\u00ednio<br \/>\nte\u00f3rico, ressaltou, afinal, de observa\u00e7\u00f5es precisas.<br \/>\nInduziu-se. Mas \u00e9 necess\u00e1rio demonstrar que ela foi cont\u00ednua<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 quadra da independ\u00eancia; e, sobretudo, que se ampliou,<br \/>\nem grande parte, pelo outro quadrante de N .O.<br \/>\nArquivam-se, felizmente, not\u00e1veis documentos quanto a este ponto.<br \/>\nEm 1774 um longo memorial, provindo da Audi\u00eancia de Charcas (ou de la<br \/>\nPlata), foi confiado ao parecer do Conselho Extraordin\u00e1rio da metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Subscrevia-o o coronel de cavalaria, D. Bartolom\u00e9 Berdugo, esperto<br \/>\nvaqueano daquelas regi\u00f5es, que ali andara longo tempo e lhe batera<br \/>\nas fronteiras nas \u00faltimas refregas de Mato Grosso. Conhecia a terra.<br \/>\nA sua exposi\u00e7\u00e3o revela, em todo o correr do discurso, extens\u00edssimo<br \/>\ne anal\u00edtico, um intento: mostrar a &#8220;<em>lamentable ruina de las<br \/>\nprovincias de misiones Moios y Chiquitos, que estuvieron a cargo de los regulares<br \/>\njesuitas expulsos&#8221; <\/em>&#8211; um nobre objetivo:<br \/>\n<em>&#8220;Afianzar aquellos terrenos que tanto codician las rayanos porsa<br \/>\ngueses&#8221; (los sagaces portugueses de Cuiab\u00e1!) &#8211; <\/em>e por fim<br \/>\num meio: <em>&#8220;a <\/em>cria\u00e7\u00e3o de governos pol\u00edtico-militares<br \/>\npara regerem as duas prov\u00edncias, <em>&#8220;cada una de cosa de cento<br \/>\ne cincuenta leguas de jurisdici\u00f3n&#8221;, ficando <\/em>os governantes<br \/>\nsujeitos <em>&#8220;al de Santa Cruz en lo militar, y a Charcas en lo politico<br \/>\ny civil&#8221;.<\/em>(1)<br \/>\nEstes extratos surpreendem. N\u00e3o h\u00e1 iludir-se-lhes o significado<br \/>\ndominante: as gentes da circunscri\u00e7\u00e3o long\u00ednqua indicavam,<br \/>\npor si mesmas, \u00e0 monarquia espanhola, os elementos formadores de seu<br \/>\nnovo aparelho pol\u00edtico, e reclamavam uma reorganiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nurgent\u00edssima, em que incidiam imperiosos antecedentes hist\u00f3ricos.<br \/>\nPreposteravam todo o processo administrativo colonial. A Audi\u00eancia superpunha-se<br \/>\n\u00e0 Metr\u00f3pole; e a Metr\u00f3pole, que vimos a princ\u00edpio<br \/>\nsubmeter-se \u00e0 fatalidade f\u00edsica da terra, teria de dobrar-se<br \/>\n\u00e0s energias sociais que ali se congra\u00e7avam.<br \/>\nO memorial de Berdugo come\u00e7ou para logo a penit\u00eancia dos tr\u00e2mites<br \/>\ncomplicad\u00edssimos, em que se apuravam as c\u00e9lulas reais: foi ao<br \/>\nConselho Extraordin\u00e1rio; passou ao exame individual dos ministros;<br \/>\nsaiu para as m\u00e3os dos Fiscais do Peru e de Nova Espanha; discutiu-se<br \/>\nem varias &#8220;salas plenas&#8221; do Conselho das \u00cdndias; e miudeado,<br \/>\nou esclarecido, linha por linha, nos mais \u00edntimos refolhos, subiu,<br \/>\nafinal, ao rei. O debate durou tr\u00eas anos; e foi, relativamente, breve.<br \/>\nPorque ali se ampliou o not\u00e1vel destino pol\u00edtico da Bol\u00edvia<br \/>\ne se descreveu, embora virtualmente em parte, o vasto teatro em que ele se<br \/>\ndesenrolaria.<br \/>\nProclamaram-nos, um e outro, austeras vozes antigas. Procuremo-las. N\u00e3o<br \/>\nse corrompem testemunhas, isoladas das nossas pequeninas vidas, dentro da<br \/>\nHist\u00f3ria.<br \/>\nO primeiro a ajuizar na causa foi D. Pedro Rodriguez Campomanes, o pol\u00edgrafo<br \/>\nsurpreendedor que tentou fazer de um livro, <em>Ap\u00e9ndice a la Educaci\u00f3n,<br \/>\n<\/em>um reagente en\u00e9rgico e admir\u00e1vel para debelar a decad\u00eancia<br \/>\nde seu pa\u00eds. Era, ao mesmo tempo, um estadista. O seu parecer foi breve;<br \/>\naprovou os alvitres de Berdugo; prop\u00f4-lo para Governador de uma das<br \/>\nprov\u00edncias; e caracterizou o reg\u00edmen geral das Miss\u00f5es.<br \/>\nMas o que se lhe desprende, irresistivelmente, das palavras, \u00e9 o pensamento<br \/>\nda autonomia incondicional da Audi\u00eancia, que por uma fic\u00e7\u00e3o,<br \/>\nou fen\u00f4meno t\u00edpico de in\u00e9rcia governamental, continuava<br \/>\nadscrita \u00e0s ordens do Vice-reinado de Lima. De fato, Campomanes sugeriu<br \/>\nque todos os atos concernentes \u00e0 economia e restabelecimento daqueles<br \/>\npovos dependessem, sobretudo, do Presidente e Audi\u00eancia de Charcas,<br \/>\nem virtude de <em>la gran distancia del Virrey deI Per\u00fa. <\/em><br \/>\nOra, esta id\u00e9ia, levemente emitida, avolumou-se, e sobranceou, por<br \/>\nfim, todo o debate.<br \/>\nO memorial saiu-lhe das m\u00e3os para as de dous not\u00e1veis, o Marqu\u00eas<br \/>\nde Val de L\u00edrios e Dom Domingos Orrantia; e estes, divergindo em pormenores,<br \/>\nacordaram nestas afirmativas:<br \/>\n<em>&#8216;La distancia de Lima a Mojos es de cerca de 800 leguas de mal terreno.<br \/>\nAquellas misiones <\/em>siempre han corrido sujeitas inmediatamente <em>al<br \/>\n<\/em>Gobierno de Charcas&#8230; <em>Con esta consideraci\u00f3n aun que se tubo<br \/>\npor conveniente encargar a\u00ed Virrey providencias sobre estos assuntos,<br \/>\n<\/em>se le orden\u00f3 <em>que lo hiciese con prudentes informes de aquel<br \/>\nPresidente&#8230; Pero que podr\u00e1 adelantar su celo con estos informes,<br \/>\nsi no tiene otros conocimientos y livres para acertar en su discernimiento?<br \/>\n<\/em><br \/>\nE remataram, de maneira imperativa:<br \/>\n<em>&#8220;Al presidente, audiencia y obispado de Charcas ha de se fiar todo<br \/>\nel negocio&#8230; El conocimiento de aquellos terrenos y su inmediaci\u00f3n<br \/>\nhace f\u00e1ciles las noticias, prontos los recursos y oportunas las providencias;<br \/>\naun cuando vengan del Virrey las m\u00e1s acertadas, siempre la lentitud<br \/>\nes un inconveniente, que a veces hace irreparables los perjuicios&#8230;<\/em>&#8220;(2)<\/p>\n<p>Assim, a metr\u00f3pole, pela pena de seus mais proeminentes ministros,<br \/>\ndesfechava as derradeiras pancadas na influ\u00eancia combalida do Vice-reinado<br \/>\nperuano.<br \/>\nOs ministros foram al\u00e9m. Previram o desenvolvimento futuro daquelas<br \/>\nparagens. De sorte que, embora n\u00e3o se tratasse de mat\u00e9ria explicitamente<br \/>\ninclu\u00edda no expediente, se voltaram para as terras setentrionais, para<br \/>\nas velhas <em>provincias no descubiertas, <\/em>que se reconheciam de um modo<br \/>\nvago com o nome de Apollobamba confiadas ent\u00e3o aos mission\u00e1rios<br \/>\nda ordem de S\u00e3o Francisco de los Charcas, e que hoje formam, de um<br \/>\nmodo geral, a zona litigiosa.<br \/>\nDefiniram-nas:<br \/>\n<em>&#8220;Estas misiones se hallan situadas en los confines de la de Larecaja,<br \/>\npor donde se entra a \u00e9llas, aun que su primer pueblo distar\u00e1<br \/>\nde ellas m\u00e1s de 400 leguas; por la parte occidental lindan con el rio<br \/>\nBeni cuya opuesta orilla pertenece a las misiones de Mojos.&#8221; <\/em><br \/>\nH\u00e1 vis\u00edvel exagero na dist\u00e2ncia que, a ser exata, estiraria<br \/>\nas terras de Apollobamba at\u00e9 a Col\u00f4mbia. Mas o erro serve a indicar<br \/>\no conceito que se fazia delas. Eram, certo, vast\u00edssimas. Como quer<br \/>\nque seja, a regi\u00e3o desmesurada e vaga, acerca da qual se tem escrito<br \/>\num sem-n\u00famero de p\u00e1ginas, com o efeito \u00fanico de a tornarem<br \/>\nainda mais apagada e d\u00fabia &#8211; mas que se estendia por todo o norte boliviano,<br \/>\nde onde se destacou o Acre &#8211; foi, expressamente, inclu\u00edda na jurisdi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Charcas.<br \/>\n<em>&#8220;El Gobernador de Mojos puede serlo de Apollobamba.&#8221; <\/em><br \/>\nOpinaram, por \u00faltimo, os dous ministros. E tr\u00eas meses depois,<br \/>\na 2 de julho de 1777, o Fiscal do Peru, isto \u00e9, o ministro especial<br \/>\nque entendia diretamente dos neg\u00f3cios sul-americanos, assentia:<br \/>\n<em>&#8220;Y que en orden a lo apuntado por los Senores Marqu\u00e9s de Valdelirios<br \/>\ny Orrantia, relativo a las misiones de Apollobamba, ser\u00e1 muy conveniente<br \/>\nse encargue su examen <\/em>al Presidente y Audiencia de Charcas.&#8221;<br \/>\nConclui-se, positivamente: ao mesmo passo que esta se constitu\u00eda, mais<br \/>\ne mais aut\u00f4noma, investia-se na posse virtual dos amplos territ\u00f3rios<br \/>\nque lhe demoravam ao norte. A import\u00e2ncia do <em>hinterland <\/em>das<br \/>\npossess\u00f5es espanholas, sobrelevou-se, ent\u00e3o, inesperadamente.<br \/>\n\u00c0 medida que transitava de um para outro titular, o memorial de Bartolom\u00e9<br \/>\nBerdugo ia sugerindo novas indica\u00e7\u00f5es e alvitres. Os informes<br \/>\nacumulavam-se, em rimas, e com eles ia crescendo o edif\u00edcio pol\u00edtico<br \/>\nda Bol\u00edvia, acentuando-se os lineamentos gerais que se debuxaram em<br \/>\nt\u00e3o remoto passado.<br \/>\nA 12 de novembro do mesmo ano (como se v\u00ea, vamos marchando cronologicamente,<br \/>\nsem preposterar uma data \u00fanica) o <em>dictamen <\/em>do outro Fiscal,<br \/>\nde Nueva Espa\u00f1a, completou e avivou a id\u00e9ia que se planeara<br \/>\ne se desenvolvera nos anteriores. Depois de descrever as cr\u00edticas circunst\u00e2ncias<br \/>\ndaqueles pa\u00edses, &#8220;<em>circumbalados de enemigos ambiciosos y sagaces&#8221;,<br \/>\n<\/em>tra\u00e7ou um interessante quadro de reformas urgentes: constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nde fortes nos trechos mais apropriados a cobrirem as terras; estabelecimento<br \/>\nde col\u00f4nias nos pontos mais vantajosos; escolas t\u00e1ticas de exerc\u00edcios<br \/>\nmilitares, sistematizando a aprendizagem da guerra e o destemor dos perigos;<br \/>\ne, por \u00faltimo, um Governo pol\u00edtico, no significado mais amplo,<br \/>\n<em>&#8220;con todos sus ramos y dem\u00e1s dependencias de \u00e9l&#8221;,<br \/>\n<\/em>por maneira que com o tempo as mesmas prov\u00edncias pudessem ocorrer<br \/>\n\u00e0s suas pr\u00f3prias necessidades, \u00e0 sua conserva\u00e7\u00e3o,<br \/>\nao seu aumento territorial e ao tr\u00e1fico de suas raras riquezas naturais.<\/p>\n<p>Por fim, enfeixou todas as medidas deste programa, quase revolucion\u00e1rio<br \/>\npara aquela \u00e9poca, propondo:<\/p>\n<p><em>&#8220;&#8230;establecer un Gobierno y Capitania General en aquella frontera<br \/>\nque abrace, no solamente las misiones de Mojos, que hoy se consideran las<br \/>\nm\u00e1s expuestas, sino tambi\u00e9n la de Baures y Chiquitos sin excluir<br \/>\nla ciudad de Santa Cruz de la Sierra&#8230; fijando el <\/em>Gobernador y Capitan<\/p>\n<p>General <em>su domicilio en uno de los pueblos mis a prop\u00f3sito de<br \/>\nla dicha misi\u00f3n de Mojos&#8230;&#8221; <\/em><br \/>\nReleiam-se estas linhas, copiadas sem o discrepar de uma letra. A\u00ed<br \/>\nest\u00e1, visivelmente, a repontar, \u00e0s claras, n\u00e3o j\u00e1<br \/>\numa Audi\u00eancia revestida de excepcional autonomia, sen\u00e3o um verdadeiro<br \/>\nVice-reinado, ou, pelo menos, um governo tendo um chefe condecorado com o<br \/>\nmesmo subt\u00edtulo pomposo dos Vice-reis (D. Pedro Cevallos, ao assumir<br \/>\no Vice-reinado de Buenos Aires, tinha o posto imediato, e inferior, de tenente-general).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o &#8211; evidentemente &#8211; o Governo de tal porte, que ali se devera implantar,<br \/>\nlimitado ao sul pela latitude de Santa Cruz de la Sierra, n\u00e3o poderia<br \/>\nextremar-se ao norte apenas pela de Exaltaci\u00f3n, ou de Reys.<br \/>\nFora incompreens\u00edvel t\u00e3o imponente cria\u00e7\u00e3o em<br \/>\n\u00e1rea t\u00e3o ex\u00edgua. A ila\u00e7\u00e3o \u00e9 rigorosa:<br \/>\no <em>pueblo <\/em>de Moxos, onde se erigisse a sede administrativa, deveria<br \/>\nter, necessariamente, uma posi\u00e7\u00e3o mais ou menos central entre<br \/>\nos limites meridionais indicados e os que se tra\u00e7assem ao norte. E<br \/>\nneste caso, comprova-o o simples olhar sobre qualquer mapa, estes passariam<br \/>\npelas extremas das atuais paragens litigiosas.<br \/>\nSeja como for, por\u00e9m, a dire\u00e7\u00e3o suprema da pol\u00edtica<br \/>\nespanhola, na Am\u00e9rica, deslocara-se, transmontando os Andes, para o<br \/>\nlevante.<br \/>\nO Conselho das \u00cdndias ratificou a suma dos informes apresentados, propondo<br \/>\nque se institu\u00edssem os governos politico&#8211;militares de Moxos e Chiquitos,<br \/>\nsob a autoridade exclusiva da Audi\u00eancia de Charcas. E como esta resolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\npor um requinte de resguardos, fosse ainda uma vez sujeita ao ju\u00edzo<br \/>\nde Campomanes, antes de subir ao benepl\u00e1cito r\u00e9gio &#8211; o not\u00e1vel<br \/>\npensador, em of\u00edcio de 3 de maio de 1777, frisou, corrigiu, ou esclareceu,<br \/>\nos seus trechos principais. Ampliou o teatro da campanha defensiva, desenvolvendo-o<br \/>\npara o sul, at\u00e9 ao Pilcomayo e ao Chaco. Assim, a seu parecer, n\u00e3o<br \/>\nera bastante que os invasores fossem repelidos nas regi\u00f5es lim\u00edtrofes<br \/>\nde todo o norte boliviano:<br \/>\n<em>&#8220;no basta contenerlos por el lado septentrional de Mato Grosso&#8230;<br \/>\n<\/em><br \/>\nNote-se a valia da frase, defrontada com os assertos anteriores. \u00c9<br \/>\nilativo que os governos rec\u00e9m-criados atenderiam, claramente, sem restri\u00e7\u00f5es,<br \/>\nn\u00e3o j\u00e1 somente \u00e0 defesa da faixa oriental das fronteiras,<br \/>\nsen\u00e3o tamb\u00e9m \u00e0 de toda zona setentrional de Mato Grosso,<br \/>\nonde se inclu\u00edam, naturalmente, as terras desconhecidas, que se estiravam<br \/>\nda margem esquerda do Madeira para o poente.<br \/>\nPedro Campomanes, sugerindo a forma\u00e7\u00e3o de id\u00eanticos governos<br \/>\nnos territ\u00f3rios do Chaco, declarava, de maneira explicita, que o problema<br \/>\nestava resolvido em <em>toda a banda do norte, <\/em>onde se firmava o papel<br \/>\npol\u00edtico e militar da Jurisdi\u00e7\u00e3o de Charcas. Destacou-o,<br \/>\nao cabo, revestido da mais completa autonomia. Disse: todas aquelas medidas,<br \/>\nem que se inclu\u00eda at\u00e9 um programa cient\u00edfico de explora\u00e7\u00f5es<br \/>\ngeogr\u00e1ficas, com o levantamento de cartas e plantas das paragens novas<br \/>\n&#8211; ou prov\u00edncias desconhecidas &#8211; deveriam efetuar-se sob a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nexclusiva da nomeada audi\u00eancia, <em>&#8220;&#8216;sin que el Virrey del Per\u00fa<br \/>\ntenga intervenci\u00f3n alguna en estas dos provincias de Mojos y Chiquitos&#8221;.<\/em>(3)<\/p>\n<p>Foi o desfecho. De tudo isto ressalta a pr\u00f3pria impossibilidade material<br \/>\nde subordinar-se os vastos territ\u00f3rios do levante ao governo que assistia<br \/>\nem Lima. Ultimara-se um div\u00f3rcio, imposto, desde o princ\u00edpio,<br \/>\npela fatalidade f\u00edsica, tang\u00edvel, das dist\u00e2ncias e das<br \/>\ncordilheiras. A influ\u00eancia do Vice-reinado peruano, que hoje se pretende<br \/>\ninexplicavelmente restaurar, extinguia-se, sem transpor os Andes para o oriente,<br \/>\nem pleno reg\u00edmen da col\u00f4nia.<br \/>\nAl\u00e9m disto, destas resolu\u00e7\u00f5es, legalizadas logo depois<br \/>\npela C\u00e9dula Real de 5 de agosto de 1777, que as reproduziu, n\u00e3o<br \/>\ndecorre apenas aquela autonomia no gerir as terras fronteiri\u00e7as. Ressalta<br \/>\na capacidade legal para dilat\u00e1-las sobre as demais, desconhecidas,<br \/>\nque demorassem ao norte. Revela-no-lo o mesmo austero Fiscal, em ulterior<br \/>\ncomunica\u00e7\u00e3o ao Presidente do Conselho das \u00cdndias. Referindo-se<br \/>\n\u00e0 urg\u00eancia de estender-se a defesa dos dom\u00ednios castelhanos<br \/>\nat\u00e9 \u00e0s miss\u00f5es de Maynas e Omaguas, no extremo noroeste,<br \/>\npor igual invadidas pelos portugueses, afirmou que aquelas funda\u00e7\u00f5es<br \/>\nremotas, a miss\u00e3o de Maynas e a de Omaguas, \u00e0 margem do Amazonas,<br \/>\n&#8220;se <em>dan las manos con las de Mojos y las que administran los franciscanos<br \/>\nsobre el rio de Ucayali&#8221;. <\/em>(4)<br \/>\nDeste modo, no pensar dos homens mais l\u00facidos da \u00e9poca, as prov\u00edncias<br \/>\nde Moxos, com o seu prolongamento natural, de Apollobamba, dilatavam-se na<br \/>\namplitude das planuras do N .O. at\u00e9 quase \u00e0s ribas de Ucayali.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 cartas mais ou menos art\u00edsticas, e mais ou menos<br \/>\nfalsas, ou inextric\u00e1veis divaga\u00e7\u00f5es engravescidas pelos<br \/>\ndizeres d\u00fabios de velh\u00edssimos documentos, que mascarem a tese<br \/>\nvitoriosa em todo o debate anterior: na \u00f3rbita expansiva da Audi\u00eancia<br \/>\nde Charcas, ou de La Plata, cada vez mais ampla e mais aut\u00f4noma, iam<br \/>\ncaindo e gravitando as terras que se desatam da margem esquerda do Madeira<br \/>\n\u00e0 direita do alto Javari, do territ\u00f3rio em lit\u00edgio, onde<br \/>\nse encravam as prefeituras brasileiras do Acre, do Purus e de Juru\u00e1.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Ultimem-se os argumentos com uma prova pr\u00e1tica, positiva e clara.<br \/>\nLogo depois destes debates celebrou-se o Tratado Preliminar de 1 de outubro<br \/>\nde 1777, que copiou, de um modo geral, os deslindamentos de 1750. E a metr\u00f3pole<br \/>\ncastelhana, para maior acerto nas demarca\u00e7\u00f5es, determinou, por<br \/>\nOrdem de 24 daquele m\u00eas, que, nos v\u00e1rios segmentos da enorm\u00edssima<br \/>\ndivisa, corressem os trabalhos sob a dire\u00e7\u00e3o de <em>&#8220;los<br \/>\nrespectivos gobernadores de las mencionadas fronteras&#8221;. <\/em><br \/>\nConstitu\u00edram-se, ent\u00e3o, quatro partidas, que se modelaram pelas<br \/>\n<em>Instrucciones de la Corte, <\/em>prescrevendo-lhes os deveres.<br \/>\nOra, para a terceira delas, destinada a atender aos deslindes desde a boca<br \/>\ndo Jauru, pelo Guapor\u00e9, Mamor\u00e9 e Madeira, at\u00e9 a margem<br \/>\noriental do alto Javari, foi nomeado segundo comiss\u00e1rio, chefiando-a,<br \/>\no Governador de Moxos e Apollobamba, D. Ignacio Flores.<br \/>\nAs instru\u00e7\u00f5es s\u00e3o precisas:<br \/>\n&#8220;&#8230; <em>estando ya mandado anteriormente se eche mano de los <\/em>gobernadores<br \/>\nrayanos a la frontera, <em>puede el Gobernador de Mojos y dem\u00e1s individuos<br \/>\nque deben componer esta partida reunirse en la cabecera de dicha provincia.<br \/>\n&#8220;<\/em>(5)<br \/>\nMais tarde o Capit\u00e3o-general de Buenos Aires, D. Juan Vertiz, em of\u00edcio<br \/>\nde 18 de setembro de 1778, ao mesmo delegado, insistiu, recordando o encargo<br \/>\nque lhe era imanente, como governador <em>rayano ou fronteiri\u00e7o, <\/em>e<br \/>\nesclarecendo-o em todos os pormenores. Assim, os terrenos de Moxos e Apollobamba,<br \/>\npertencentes ao governo de Audi\u00eancia de Charcas, eram lim\u00edtrofes<br \/>\ncom os portugueses, &#8220;desde a margem esquerda do Madeira at\u00e9 ao<br \/>\nJavari&#8221;.<br \/>\nE indispens\u00e1vel uma \u00faltima cita\u00e7\u00e3o, que, ademais,<br \/>\nter\u00e1 a vantagem de assentar, outra vez, um conceito firme, no tocante<br \/>\n\u00e0 c\u00e9lebre semidist\u00e2ncia do Madeira, t\u00e3o errada<br \/>\npelos modernos ge\u00f3grafos peruanos, no calcul\u00e1-la, como vimos,<br \/>\na partir da conflu\u00eancia do Beni:<br \/>\n&#8220;&#8230;<em>Queda a arbitrio de Vmd. el paraje que juzgue m\u00e1s propio,<br \/>\npara despu\u00e9s unir-se con los portugueses en la confluencia que forman<br \/>\nlos dos rios Itenez y Guapor\u00e9 con el Sarar\u00e9; en donde tiene<br \/>\nprincipio la demarcaci\u00f4n de esta tercera Divisi\u00f3n, <\/em>que debe<br \/>\ncontinuar <em>por el mismo Guapor\u00e9 hasta m\u00e1s abajo de su uni\u00f3n<br \/>\ncon el rio Mamor\u00e9 y despu\u00e9s por las aguas de estos dos rios<br \/>\nya unidos con el nombre de Madera basta el paraje situado em igual distancia<br \/>\ndel rio Amazonas y de la boca del dicho Mamor\u00e9, buscando el punto igualmente<br \/>\ndistante en uno y outro extremo, y de \u00e9ste, <\/em>continuar por una<br \/>\nl\u00ednea del este-oeste hasta igual latitud en la ribera oriental del<br \/>\nrio Javary&#8230;&#8221;<br \/>\nE repete logo adiante, com a inatur\u00e1vel redund\u00e2ncia caracter\u00edstica<br \/>\nda \u00e9poca:<br \/>\n<em>&#8220;De lo expresado se deja percibir que llegando esta Divisi\u00f3n<br \/>\na <\/em>la confluencia del rio Guapor\u00e9 y Mamor\u00e9 debe observar<br \/>\ncon la mayor exactitud la latitud de este punto, <em>y de la misma suerte<br \/>\nse debe practicar en la barra del rio Madera, pues, sabidas las dos latitudes,<br \/>\nes f\u00e1cil saber la media entre ambas para dar el punto que determina<br \/>\nel Trtado. Esta latitud media ser\u00e1 la que se deba buscar subiendo el<br \/>\nr\u00edo Javary&#8230;&#8221;<\/em>(6)<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 preciso prosseguir.<br \/>\nDestes documentos oficiais, aut\u00eanticos, resulta que ao governador fronteiri\u00e7o,<br \/>\nde Moxos, incumbia a dire\u00e7\u00e3o do deslindamento at\u00e9 <em>ao<br \/>\nJavari. <\/em><br \/>\nConsoante as instru\u00e7\u00f5es claras da metr\u00f3pole ele era <em>rayano<br \/>\n<\/em>at\u00e9 aquele rio.<br \/>\n<em>At\u00e9 l\u00e1 <\/em>se dilatavam as prov\u00edncias setentrionais<br \/>\nde Charcas. As conclus\u00f5es resultantes do debate, que analisamos, acolchetam-se,<br \/>\ndesta sorte, com as instru\u00e7\u00f5es categ\u00f3ricas, oriundas<br \/>\nde solen\u00edssimo pacto internacional.<br \/>\nDe um lado, v\u00ea-se que a influ\u00eancia, cada vez maior e mais aut\u00f4noma,<br \/>\nda circunscri\u00e7\u00e3o que seria mais tarde a Bol\u00edvia, se estendeu,<br \/>\nem virtude de determina\u00e7\u00f5es expressas, aos territ\u00f3rios<br \/>\nque se alongam pela margem esquerda do Madeira, at\u00e9 al\u00e9m dos<br \/>\ngrandes saltos, de outro, que toda essa estirada faixa de terras, se desenvolveu<br \/>\ndepois, em vastas superf\u00edcies, para o ocidente.<br \/>\nAo mesmo tempo em todas as resolu\u00e7\u00f5es, quer no reorganizarem-se<br \/>\ngovernos particulares, quer no longo processo dos deslindes internacionais,<br \/>\nficou, sistematicamente, de fora, despojado das mais breves part\u00edculas<br \/>\nde autoridade, o Vice-reinado do Peru.<br \/>\npelo menos singular que ele apare\u00e7a, agora, feito condi\u00e7\u00e3o<br \/>\napta a pesar nas delibera\u00e7\u00f5es de um tribunal supremo, depois<br \/>\nde uma desvalia decretada h\u00e1 mais de um s\u00e9culo.<br \/>\nTrata-se, evidentemente, de um argumento fr\u00e1gil e perigoso.<br \/>\nArrebenta nas m\u00e3os dos que o agitam.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a><strong>Cap\u00edtulo V <\/strong><\/h2>\n<p>Intercorrente com estes sucessos, instituiu-se, por C\u00e9dula Real de<br \/>\n1o de agosto de 1776, o Vice-reinado das prov\u00edncias do Rio da Prata<br \/>\ne de Charcas: ou, como se chamou depois, de Buenos Aires. Atender-se-ia melhor<br \/>\n\u00e0 verdade hist\u00f3rica, dizendo com o Visconde de Porto Seguro:<br \/>\nVice-reinado e capitania geral de todas as prov\u00edncias da Audi\u00eancia<br \/>\nde Charcas.(1) Admita-se, por\u00e9m, que devesse erigir-se, como se erigiu,<br \/>\na sede do novo Governo, naquele antigo porto da jurisdi\u00e7\u00e3o de<br \/>\nTrinidad: ele estava no limiar dos dom\u00ednios castelhanos cisandinos,<br \/>\ne, pela sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o, na foz do grande rio, que<br \/>\nos ladeava pelo oriente em cerca de quatrocentas l\u00e9guas, centralizava<br \/>\ntodas as comunica\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas com a metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto, as contendas, que se renhiam em Mato Grosso e Bol\u00edvia,<br \/>\nvelavam-se, de algum modo, perdendo-se nos recessos de seus long\u00ednquos<br \/>\ncen\u00e1rios sertanejos; ao passo que se distinguiam, mais vivas, \u00e0<br \/>\nourela do continente &#8211; onde assumiram, desde 1762, com a tomada da Col\u00f4nia<br \/>\ndo Sacramento, uma fei\u00e7\u00e3o ruidosa e teatral.<br \/>\nDe fato, nas largas faixas de terrenos fronteiros a Buenos Aires, que debruam<br \/>\na banda oriental do estu\u00e1rio platino e se desatam em plainos desempedidos,<br \/>\nou ondulam em albard\u00f5es pelo revesso das coxilhas, at\u00e9 \u00e0<br \/>\nponta extrema de Maldonado, expande-se o mais concorrido campo de manobras<br \/>\ndas nossas campanhas coloniais.<br \/>\nN\u00e3o as recordaremos. Conhecem-se-lhes as formas v\u00e1rias e revoltas;<br \/>\ne sabe-se como irradiaram, depois, vertiginosamente, para o nordeste. As disparadas<br \/>\ndas cavalarias tumultu\u00e1rias estenderam-nas at\u00e9 ao Rio Grande,<br \/>\nonde se inaugurou o tiroc\u00ednio militar, bravio, dos ga\u00fachos.<br \/>\nOs combates, dispersos em recontros, c\u00e9leres e multiplicados, encantam-nos<br \/>\npor vezes: a coragem e a destreza, a celeridade e a for\u00e7a, harmonizam-se<br \/>\n\u00e0 maravilha naqueles espl\u00eandidos torneios, que se alongam nos<br \/>\narrancos das carreiras impetuosas, ou regiram e tumultuam, entrecruzando-se<br \/>\nnos torcicolos das escaramu\u00e7as, sobre as arenas desafogadas do pampa.<br \/>\nMas, raro um desfecho decisivo ultima-os. A unidade da luta extingue-se, esparsa,<br \/>\nnas fa\u00e7anhas individuais. Em toda aquela agita\u00e7\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nse v\u00ea um soldado: v\u00eaem-se her\u00f3is, centenas de her\u00f3is,<br \/>\ngenerais de si mesmos, exercitando, aforradamente, as suas tend\u00eancias<br \/>\nnum reg\u00edmen de cavalheirescas tropelias, que formaram, desde h\u00e1<br \/>\nmuito, naqueles lados, uma esp\u00e9cie curios\u00edssima do romantismo<br \/>\nda guerra.<br \/>\nA robusta infantaria espanhola, nascida da disciplina de O&#8217;Reily, e os admir\u00e1veis<br \/>\nter\u00e7os portugueses, endurados pelo Conde de Lippe, ali contramarcharam<br \/>\nlongo tempo, vacilantes e in\u00fateis, partindo-se-lhes a retitude militar<\/p>\n<p>nos giros estonteadores dos <em>entreveros. <\/em>A nova t\u00e1tica, nascida<br \/>\nda velocidade e do deserto, anulava-os. Desencadeava-se em cargas impetuosas<br \/>\ne recuos repentinos. Definia-se no choque violento das lan\u00e7as e na<br \/>\nfugacidade das patas dos cavalos. Problematizava todos os triunfos. E veio,<br \/>\ndesde aquela quadra \u00e0 da Independ\u00eancia, invari\u00e1vel, com<br \/>\nos seus desenlaces imprevistos e efeitos \u00e0s vezes paradoxais, dos combates<br \/>\nplat\u00f4nicos de D. Juan Vertiz at\u00e9 \u00e0 nossa inexplic\u00e1vel<br \/>\nvit\u00f3ria perdida de Ituzaingo. Ou at\u00e9 aos nossos dias, na vagabundagem<br \/>\nher\u00f3ica dos caudilhos.<br \/>\nDeixemo-los, livrando-nos \u00e0 fascina\u00e7\u00e3o do quadro. O nosso<br \/>\nassunto tem um tra\u00e7o torturante; \u00e9 tristemente mon\u00f3tono,<br \/>\ne recorta-se de inumer\u00e1veis outros, atraent\u00edssimos. Corre-se<br \/>\na todo instante o perigo de perd\u00ea-lo, ou de abandon\u00e1-lo.<br \/>\nTornemo-nos \u00e0 tarefa obscura, em que se contraminam as mais exageradas<br \/>\npretens\u00f5es que ainda se sujeitaram \u00e0 seriedade de um \u00e1rbitro.<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>Felizmente n\u00e3o precisa rememorar-se o longo conflito da Col\u00f4nia<br \/>\ndo Sacramento, ou os seus antecedentes, para se ver que a nova Capitania Geral<br \/>\nsurgiu para a batalha. Vimo-la, antes, despontar nas fronteiras de Mato Grosso,<br \/>\ne planear-se no Conselho das \u00cdndias, como remate e san\u00e7\u00e3o<br \/>\nreal \u00e0 marcha progressiva da Audi\u00eancia internada, que ia transfigurando-se<br \/>\nno crescente refinamento das mais en\u00e9rgicas qualidades do car\u00e1ter,<br \/>\npara a repulsa do estrangeiro. A diretriz hist\u00f3rica da Bol\u00edvia,<br \/>\na princ\u00edpio uma frase, tra\u00e7ou-se, afinal, com um rigorismo geom\u00e9trico<br \/>\nde resultante numa composi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. Desenharam-na<br \/>\nos pareceres repetidos dos mais altos representantes da metr\u00f3pole.<br \/>\nE, contraprovando-a, viu-se, atrav\u00e9s dos ditames clar\u00edssimos,<br \/>\nque se extrataram, a completa incompet\u00eancia do procurador imperial,<br \/>\nque assistia em Lima, para dirigir, eficazmente, aquelas terras. Condenaram-no<br \/>\ntodas as vozes. Condenou-o a pr\u00f3pria voz do Marqu\u00eas de Valdelirios,<br \/>\nD. Gaspar de Munive Le\u00f3n Garabito Tello y Espinosa, que era peruano.<\/p>\n<p>O novo Vice-reinado formar-se-ia mesmo sem a emerg\u00eancia dos neg\u00f3cios<br \/>\nalarmantes da Col\u00f4nia. Ou melhor: somente eles, e a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmar\u00edtima, mais favor\u00e1vel, de Buenos Aires, obstaram a que a<br \/>\nAudi\u00eancia-metr\u00f3pole se firmasse em La Paz, ou em Santa Cruz de<br \/>\nla Sierra, ou mais para o norte, como opinara o Fiscal de Nueva Espana. Ainda<br \/>\nem 1802, apesar de inteiramente constitu\u00eddo o Governo supremo nas margens<br \/>\ndo Prata, o Conselho das \u00cdndias, &#8220;em pleno de tr\u00eas salas&#8221;,<br \/>\nprop\u00f4s se instaurasse o de Charcas; e o Ministro D. Jorge Escobedo,<br \/>\nque andara na Am\u00e9rica como Visitador Geral dos tribunais de justi\u00e7a<br \/>\ne real fazenda, e era a maior autoridade nas quest\u00f5es hispano-americanas,<br \/>\nafirmava haver:<\/p>\n<p><em>una suma y urgente necesidad de que se declarasen independientes (as<br \/>\nterras bolivianas) de los dos Vireinados, y <\/em>que la provincia de Charcas<br \/>\nse erija en Gobierno y Capitania General para el distrito de <em>su audi\u00eancia<\/em>&#8220;.<br \/>\n(2)<br \/>\nEra uma id\u00e9ia antiga, a impor-se, irresistivelmente, como um remate<br \/>\nde autonomia adquirida.<br \/>\nO Vice-reinado de Buenos Aires, antecipando-se-lhe, obedeceu a motivos certo<br \/>\nmais alarmantes, por\u00e9m menos profundos. A C\u00e9dula Real de 1776<br \/>\nimprovisou-o sob a injun\u00e7\u00e3o de um Estado an\u00f4malo, de guerra.<br \/>\nD. Pedro de Cevallos, antes de tudo, era o comandante das tropas que se apresentaram<br \/>\ne partiram de C\u00e1diz, <em>&#8220;a tomar satisfacci\u00f3n de los portugueses<br \/>\npor los insultos cometidos&#8221;. <\/em><br \/>\nGovernar traduzia-se-lhe noutro verbo: bater-se. Era menos um chefe pol\u00edtico<br \/>\nque um chefe militar. O reg\u00edmen Vice-real, evanescente na orla do Pac\u00edfico,<br \/>\nali revivia, porque os acontecimentos retrogradavam. Volvia-se \u00e0 atividade<br \/>\nmilitar do primeiro s\u00e9culo da conquista. A descentraliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque se realizara, superpunha-se, velando-a, sem a destruir, a unidade obrigat\u00f3ria<br \/>\nde um plano de campanha. E neste plano o organismo pol\u00edtico da Audi\u00eancia<br \/>\nlong\u00ednqua, que at\u00e9 ent\u00e3o reagira isolada contra os inimigos<br \/>\npertinazes, ia ajustar-se admiravelmente. A metr\u00f3pole, embora n\u00e3o<br \/>\na elegesse \u00e0 frente do reg\u00edmen rec\u00e9m-criado, completava-lhe<br \/>\napenas a a\u00e7\u00e3o. Ampliava-lha, engrandecendo-a. Nobilitava-lha,<br \/>\nhierarquicamente, dando-lhe, ao rev\u00e9s de um daqueles rudes lidadores,<br \/>\ncomo Bartolomeu Verdugo, que lhe bombeavam as fronteiras agitadas, um garboso<br \/>\nfidalgo ciumento de suas comendas, de sua linguagem, de sua bravura cuidadosamente<br \/>\nguardada dentro de uma coura\u00e7a rebrilhante; desempenado e altivo, de<br \/>\naltos coturnos e esporas estridentes, corretamente vestido para residir na<br \/>\nHist\u00f3ria. Nada mais. Nada mais al\u00e9m desta imponente figura decorativa.<br \/>\nPorque no sistema rec\u00e9m-estabelecido a velha Audi\u00eancia iria incluir-se,<br \/>\n\u00edntegra, com as terras que arrebatara ao deserto, com a sua autonomia<br \/>\ncada vez maior, com as suas tend\u00eancias origin\u00e1rias apuradas naquele<br \/>\nencerro de montanhas &#8211; e com a sua capacidade adquirida, crescente,e legal<br \/>\ncomo vimos, para o dom\u00ednio amplo das paragens virgens, que ainda lhe<br \/>\ndemoravam ao norte.<br \/>\nE explicita a C\u00e9dula Real:<br \/>\n<em>&#8220;&#8230; he venido a crearos mil Virrey Gobernador y Capit\u00e1n General<br \/>\nde la de Buenos Aires, Paraguay, Tucum\u00e1n, Potosi, Santa <\/em>Cruz <em>de<br \/>\nla Sierra, <\/em>Charcas y todos los corregimientos, pueblos, y territorios<br \/>\na que se extiende la jurisdicci\u00f3n de aquela audiencia&#8230;&#8221;<br \/>\nA enumera\u00e7\u00e3o a\u00ed est\u00e1, sucessiva, sem um hiato,<br \/>\nde sul para norte. Nomeia-se Charcas &#8211; e sucedem-se logo os corregimentos,<br \/>\npovoa\u00e7\u00f5es e territ\u00f3rios que lhe pertenciam. Ora, o <em>corregimiento<br \/>\n<\/em>e o <em>pueblo <\/em>constitu\u00edam a derradeira subdivis\u00e3o,<br \/>\nou mol\u00e9cula integrante, do organismo colonial. Os &#8220;territ\u00f3rios&#8221;,<br \/>\nsem defini\u00e7\u00e3o administrativa clara, eram, geograficamente, sem<br \/>\nlimites: o indeciso, o indeterminado do pa\u00eds meio desconhecido e ermo,<br \/>\nque atrairia os povoadores convizinhos pela pr\u00f3pria for\u00e7a natural,<br \/>\nirresist\u00edvel, do v\u00e1cuo.<br \/>\nPara eles e sobre eles irradiaria, no quadrante de N .O. a influ\u00eancia<br \/>\nboliviana, a avolumar-se aut\u00f4noma.<br \/>\nDemonstramo-la, de relance, em linhas anteriores. V\u00e3o confirm\u00e1-la,<br \/>\nagora, outros ditames, supletivos, da metr\u00f3pole. Extratemo-los, sentindo<br \/>\na impossibilidade da transcri\u00e7\u00e3o integral.<br \/>\nCom efeito, o Vice-rei de Buenos Aires recebeu, datado de 5 de agosto de 1777,<br \/>\num of\u00edcio de ultramar transmitindo-lhe as instru\u00e7\u00f5es<br \/>\ndestinadas aos governadores das miss\u00f5es setentrionais de Charcas &#8211;<br \/>\ne viu para logo como se lhe reduzia a autoridade e o mando, ante determina\u00e7\u00f5es<br \/>\ninviol\u00e1veis.<br \/>\nO famoso Vice-reinado apequenava-se, de fato, impacto na moldura das duas<br \/>\nmargens do Prata, alongando-se no m\u00e1ximo at\u00e9 ao m\u00e9dio<br \/>\nParaguai. O rei decretava estas coisas extraordin\u00e1rias, que sarjamos<br \/>\nde sublinhas nos lances mais golpeantes:<br \/>\n<em>&#8220;Las circunstancias locales de aquellos Pa\u00edses, noticias y<br \/>\nconocimientos que deben presidir a las determinaciones que bajan de ofrecerse<br \/>\nen tan importantes asuntos, han constituido al <\/em>Rey <em>en la necesadad<br \/>\nde <\/em>que dependam estos Gobernadores inmediatamente sujetos del Presidente<br \/>\ny Audi\u00eancia de Charcas, <em>cuyo tribunal podr\u00e1 providenciar<br \/>\nde prontos auxilios o su desempeno, y con m\u00e1s particularidad en punto<br \/>\na Misiones en que lo tiene acreditado&#8230; Por estas tan s\u00f3lidas razones<br \/>\ny por compreender Su Majestad igualmente <\/em>cuanto <em>podr\u00edan <\/em>atrasarse<br \/>\naquellos prontos auxilios de haber de proceder para ellos la intervenci\u00f3n<br \/>\nde Vuestra Excelencia <em>como Virrey de aquel distrito, a que se agrega tambi\u00e9n<br \/>\nla justa consideraci\u00f3n de las circunstancias en que Vuestra Excelencia<br \/>\n<\/em>est\u00e1 constituido para la atenci\u00f3n de otros asuntos <em>.<br \/>\nh\u00e1 resueito Su Majestad, como ha expresado, <\/em>poner al cuidado de<br \/>\naquel Presidente y Audiencia en lo principal aquellos nuevos establecimientos.<\/p>\n<p>Leu o novo Vice-rei as instru\u00e7\u00f5es e avaliou os poderes que lhe<br \/>\ntiravam.<br \/>\nD. Ignacio Flores, Governador do Moxos e Apollobamba, n\u00e3o se aparelhava<br \/>\napenas da maior independ\u00eancia e amplitude de governo para a defesa daqueles<br \/>\nrinc\u00f5es distantes, em todos os trechos das raias lusitanas, consoante<br \/>\no determinado na antiga C\u00e9dula Real de 1772; sen\u00e3o que tamb\u00e9m<br \/>\no revestia a faculdade de alterar as ordens existentes &#8211; as ordens emanadas<br \/>\nda metr\u00f3pole! &#8211; apenas adstrito a condi\u00e7\u00f5es de subordinar,<br \/>\n<em>&#8220;al Presidente y audiencia de Charcas <\/em>cuanto juzgase conveniente<br \/>\nvariar <em>para el mejor gobierno de los puebios <\/em>tanto en lo espiritual<br \/>\ncomo en el temporal, <em>pues este tribunal deber\u00e1 proceder al examen<br \/>\nde los puntos y determinar lo que hallare justo, <\/em>sea por si, <em>d\u00e1ndome<br \/>\ncuenta de lo que necesite mi Real determinaci\u00f3n&#8230;&#8221; <\/em>(3)<br \/>\nEstava, evidentemente, raiando pela independ\u00eancia pol\u00edtica, um<br \/>\ngoverno audiencial, cujas resolu\u00e7\u00f5es, sobranceiras \u00e0s<br \/>\ndo governo geral do Prata, se conjugavam de tal modo, diretamente, com as<br \/>\nde pr\u00f3prio rei.<br \/>\nE como a esclarecer e firmar bem o crit\u00e9rio de que a sua a\u00e7\u00e3o<br \/>\nfosse alargando-se, aforradamente, pelas terras ignotas, &#8211; ainda n\u00e3o<br \/>\ndescobertas, nem discriminadas &#8211; estatu\u00edam as instru\u00e7\u00f5es:<br \/>\ndeixar ao cuidado e esmero do governador, <em>&#8220;v\u00e1rios asuntos<br \/>\nque s\u00f3lo con la experiencia y pr\u00e1ctica de los Pa\u00edses<br \/>\nde su mando pueden prometerse las ventajas que se desean. <\/em><br \/>\nAssim a loca\u00e7\u00e3o das povoa\u00e7\u00f5es e fortalezas ficou<br \/>\nao arb\u00edtrio dele <em>(me parece conveniente dejarla a vuestro arbitrio),<br \/>\n<\/em>e poderia estabelecer-se em toda a extens\u00e3o das divisas portuguesas,<br \/>\nat\u00e9 aonde estas corressem para o norte. N\u00e3o h\u00e1 ilus\u00e3o<br \/>\nposs\u00edvel. A ordem r\u00e9gia \u00e9 terminante. D. Ignacio Flores,<br \/>\ndelegado do Tribunal de Charcas, devia fundar aqueles redutos, com o fim de<br \/>\n<em>&#8220;impedir que los portugueses se apoderen de <\/em>la navegaci\u00f3n<br \/>\ndel rio Madera <em>y de los de Mamor\u00e9 e Itenez con los dem\u00e1s<br \/>\nque entran en \u00e9llos y van a desaguar en el Maran\u00f3n&#8221;. <\/em>(4)<\/p>\n<p>Pormenorizam-se, o Itenez, o Mamor\u00e9, o Madeira. Em qualquer trecho<br \/>\ndos territ\u00f3rios, que se estiram a partir da margem esquerda do \u00faltimo<br \/>\n&#8211; na foz do Mamor\u00e9, na do Beni, na do Abun\u00e3, ou mais para jusante<br \/>\nat\u00e9 Santo Ant\u00f4nio, transpostas as cachoeiras, poderia o Governo<br \/>\nde Charcas erigir os povoados e vilas, que entendesse, e dirigi-los, governando-os,<br \/>\n<em>espiritual e temporalmente, <\/em>sem que pudessem intervir os Capit\u00e3es-generais<br \/>\ndo Peru e de Buenos Aires, ou a pr\u00f3pria metr\u00f3pole, que lhe confiara,<br \/>\nsolenemente, todo o destino daquelas regi\u00f5es.<br \/>\nDeste modo, depois de se desprender, pelo desdobramento natural de suas energias<br \/>\nprofundas, do Vice-reinado peruano, que a abrangera, a Bol\u00edvia crescera<br \/>\nao ponto de n\u00e3o poder ser abrangida pelo de Buenos Aires. Persistiu,<br \/>\nilesa, entre ambos. Criou-se aut\u00f4noma, no seu espl\u00eandido retiro<br \/>\nde montanhas. Manteve, intacta, a evolu\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica<br \/>\n&#8211; \u00e9tnica, social e pol\u00edtica &#8211; que tanto a destaca, feito um<br \/>\norganismo \u00e0 parte, entre todas as na\u00e7\u00f5es sul-americanas,<br \/>\ncomo a ordem f\u00edsica a destaca, nitidamente, dos rebordos das suas altiplan\u00edcies<br \/>\nmajestosas aos vales complanados da <em>monta\u00f1a <\/em>exuberante.<br \/>\nE quando se considera que a independ\u00eancia hispano-americana irrompeu<br \/>\nda rivalidade entre as Audi\u00eancias, \u00f3rg\u00e3os das esperan\u00e7as<br \/>\npopulares, prefigurando as Rep\u00fablicas atuais, e os Vice-reis, s\u00edmbolos<br \/>\nda tradi\u00e7\u00e3o imperial, n\u00e3o maravilha que na Bol\u00edvia,<br \/>\nonde o Governo regional subira tanto, se acendesse, e deflagrasse, e n\u00e3o<br \/>\nse extinguisse mais, o primeiro rastilho da insurrei\u00e7\u00e3o do Equador;<br \/>\nou que <em>&#8220;la primera senal del alzamiento de los criollos americanos<br \/>\nfu\u00e9 dada por ella em 1809 en Chuquisaca y la Paz, um ano antes que<br \/>\nen Buenos Alres&#8221;, <\/em><br \/>\ncomo nos ensina a palavra austera de Bartolomeu Mitre.(5)<br \/>\nMas n\u00e3o nos desviemos.<br \/>\nA cria\u00e7\u00e3o do Vice-reinado platino serve tamb\u00e9m, no caso<br \/>\nvertente, a denunciar a extens\u00e3o territorial a que se reduzira o do<br \/>\nPeru.<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>Os deslindamentos dos dous grandes Governos, determinados pela Ordem de 21<br \/>\nde maio de 1778, sofreram v\u00e1rias modifica\u00e7\u00f5es e delongas,<br \/>\noriundas, de um lado, das mudan\u00e7as realizadas na estrutura das col\u00f4nias,<br \/>\npelas Ordenan\u00e7as de Intendentes de 1782; o de outro, das exig\u00eancias,<br \/>\nprotestos e o mal contido despeito dos Vice-reis peruanos, sentindo escapar-se-lhes<br \/>\no melhor de seus dom\u00ednios, apesar do car\u00e1ter meramente plat\u00f4nico<br \/>\nque eles tinham.<br \/>\nA este prop\u00f3sito ressaltam algumas afirmativas curiosas, que veremos<br \/>\nmais tarde.<br \/>\nConclui-se que o encolhimento geogr\u00e1fico do Vice-reinado refletiu,<br \/>\nrigorosamente e materialmente, a sua consider\u00e1vel retra\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica. Constringiu-se entre as cordilheiras e o Pac\u00edfico:<br \/>\numa lista de terras, de quinhentas l\u00e9guas estiradas, a estender-se<br \/>\nentre as muralhas dos Andes e a solid\u00e3o indefinida das \u00e1guas&#8230;<\/p>\n<p>Os cuidados da metr\u00f3pole, deslocando-se todos para o levante amea\u00e7ado,<br \/>\nevidentemente o abandonavam.<br \/>\nE podiam abandona-lo. Ele estava garantido pela pr\u00f3pria for\u00e7a<br \/>\nformid\u00e1vel da in\u00e9rcia, paralisando todos os est\u00edmulos<br \/>\ne largos movimentos her\u00f3icos que vimos desdobrados no oriente.<br \/>\nA presen\u00e7a dos Vice-reis malsinara a Audi\u00eancia-metr\u00f3pole.<br \/>\nAli, n\u00e3o precisamos redizer-lhe os fastos conhecidos, o v\u00edcio<br \/>\nessencial da coloniza\u00e7\u00e3o espanhola, baseado no princ\u00edpio<br \/>\nexclusivo de aumentar a custa dos pa\u00edses novos a opul\u00eancia parasit\u00e1ria<br \/>\nda Pen\u00ednsula, imobilizara o progresso na sua express\u00e3o geral.<br \/>\nAs atividades amorteciam-se em restri\u00e7\u00f5es de toda a sorte; tolhiam-nas<br \/>\nos monop\u00f3lios r\u00e9gios; e afistulavam-nas as exa\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>degradantes dos <em>d\u00edzimos, <\/em>das <em>taxas, <\/em>das <em>alcavalas<br \/>\n<\/em>deprimentes, que noutros lugares se iludiam e se atenuavam com os contrabandos<br \/>\ne rebeldias favorecidos pelo afastamento e as dist\u00e2ncias. L\u00e1<br \/>\nse exercitavam duramente intactas. Entre os 300 000 exatores que Humboldt,<br \/>\naterrado, calculou nos dom\u00ednios castelhanos, talvez a metade fervilhasse<br \/>\ncentralizada pela magn\u00edfica cidade de Lima.<br \/>\nPor outro lado, a despeito de quinhentas l\u00e9guas de costa, o insulamento<br \/>\nsocial do Peru era completo. A amplitude do oceano, na frente, n\u00e3o<br \/>\no desafogava; comprimia-o.<br \/>\nPermitia uma fiscaliza\u00e7\u00e3o obstando os mais breves tratos do<br \/>\nestrangeiro. A metr\u00f3pole bloqueou durante mais de dois s\u00e9culos<br \/>\na Audi\u00eancia. Em 1789 um navio espanhol acertou de encontrar nos mares<br \/>\nremot\u00edssimos do sul, al\u00e9m de 37o de latitude, um outro, ingl\u00eas,<br \/>\nentregue \u00e0 faina da pesca de baleias; e o caso desvalioso, o fortuito<br \/>\nincidente, abalou em tanta maneira o Vice-rei Teodoro Croix, que durante largo<br \/>\ntempo as caravelas lavraram as ondas entre Guayaquil e Iquique, de sobre-ronda<br \/>\na quaisquer embarca\u00e7\u00f5es que se abeirassem do litoral inconcesso.<br \/>\nO com\u00e9rcio do estrangeiro &#8211; nas v\u00e1rias tentativas feitas pelos<br \/>\ningleses, flamengos, portugueses e franceses &#8211; era um sinistro com\u00e9rcio<br \/>\narmado, de traficantes her\u00f3icos, conquistando mercados a disparos de<br \/>\narcabuzes e colubrinas, derivando em lances romanescos de verdadeiros combates.<\/p>\n<p>Sobre tudo isto o seq\u00fcestro espiritual absoluto.<br \/>\nA Revolu\u00e7\u00e3o despertara os povos, vergando-os logo depois, ilogicamente,<br \/>\nao peso das armas napole\u00f4nicas: a Espanha vibrara de um a outro extremo,<br \/>\nalarmando-se \u00e0 tropeada da invas\u00e3o&#8230; e estas novas estupendas<br \/>\nchegavam aos <em>lime\u00f1os <\/em>dilu\u00eddas nos longos per\u00edodos<br \/>\nabstrusos da Gazeta <em>de Madrid. <\/em>&#8220;As classes baixas, postas logo<br \/>\ndepois das altas, porque n\u00e3o havia interm\u00e9dias, estavam condenadas<br \/>\na n\u00e3o receberem o menor vislumbre destes assuntos, que misteriosa e<br \/>\nenfaticamente se diziam <em>assuntos de estudo.&#8221;<\/em>(6)<br \/>\nPor fim, em 1790, em Lima, o Index Expurgat\u00f3rio relegava \u00e0s<br \/>\nfogueiras purificadoras estas abomina\u00e7\u00f5es: Robertson, Hume,<br \/>\nShakespeare, Corneille, Racine, Voltaire, Boileau e Rousseau&#8230;<br \/>\n\u00c9 natural que a Monarquia, toda volvida \u00e0 defesa das possess\u00f5es<br \/>\ndo oriente, que lhe fugiam, j\u00e1 pelo pr\u00f3prio desenvolvimento,<br \/>\nj\u00e1 pelas amea\u00e7as do estrangeiro, pusesse em plano secund\u00e1rio<br \/>\na vasta circunscri\u00e7\u00e3o que se cristalizara na submiss\u00e3o<br \/>\nabsoluta; e lhe demarcasse, corretamente, esta desvalia, com a diminui\u00e7\u00e3o<br \/>\nterritorial correlativa.<br \/>\nMas os Vice-reis protestaram. S\u00e3o eloq\u00fcentes os protestos.<br \/>\nArquive-se o primeiro, de D. Manuel Guirior, a quem se endere\u00e7ara a<br \/>\nordem r\u00e9gia precitada.<br \/>\nDirigindo-se ao rei, em 20 de maio de 1778, agitando ser\u00f4dios argumentos<br \/>\nrelativos \u00e0 inconveni\u00eancia de dividir-se o Vice-reinado, rematou<br \/>\ndesta maneira frisante:<br \/>\n<em>&#8220;De lo dicho se percibe que el reino del Per\u00fa <\/em>es un terreno<br \/>\nde 500 a 600 leguas de largo <em>(comprimento) y <\/em>de <em>50 <\/em>a 60<br \/>\nde ancho <em>(largura) con el mar por frente. <\/em>La Cordillera o pa\u00edses<br \/>\ndesconocidos a la espalda <em>y con desplobados a uno y otro lado.&#8221;<\/em>(7)<\/p>\n<p><em>\u00c9 <\/em>preciso. Nenhuma refer\u00eancia \u00e0s terras afastadas,<br \/>\nonde se v\u00eaem as do atual lit\u00edgio. A palavra \u00e9 oficial:<br \/>\no reino do Peru internava-se, no m\u00e1ximo, por sessenta l\u00e9guas.<br \/>\n<em>A la espalda, <\/em>as cordilheiras e os desertos.<br \/>\nA afirmativa \u00e9 golpeante, sem atavios. Resume, admiravelmente, os limites<br \/>\nque restavam \u00e0 primitiva Capitania Geral, t\u00e3o grandemente reduzida<br \/>\npela expansibilidade da Audi\u00eancia oriental.<br \/>\nMas o protesto visando corrigi-los, sobre tardio, era flagrantemente absurdo.<\/p>\n<p>Os novos deslindamentos ajustavam-se \u00e0s transfigura\u00e7\u00f5es<br \/>\npol\u00edticas.<br \/>\nO fen\u00f4meno era at\u00e9 expressivamente f\u00edsico, na sua f\u00f3rmula<br \/>\nevolutiva generalizada: as maiores massas deveriam, de feito, consolidar-se<br \/>\nnos pontos em que se haviam despendido maiores movimentos.<br \/>\n\u00c9 o que confirmam os acontecimentos imediatos.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a><strong>Cap\u00edtulo VI <\/strong><\/h2>\n<p>A longa argumenta\u00e7\u00e3o anterior era indispens\u00e1vel.<br \/>\nEra preciso mostrar, \u00e0 luz de documentos claros, que a Bol\u00edvia,<br \/>\nembora intentem transmud\u00e1-la em Pol\u00f4nia sul-americana, construiu<br \/>\num destino mais elevado, que se n\u00e3o violar\u00e1.<br \/>\nQuando se tornou Rep\u00fablica, nobilitando o nome do chefe preeminente<br \/>\ndas campanhas da liberdade, capitalizava esfor\u00e7os seculares. Avan\u00e7ara<br \/>\nisolada, e fundamentalmente distinta das demais na\u00e7\u00f5es neo-espanholas,<br \/>\nna conquista de sua autonomia. Nenhuns v\u00ednculos a ligaram de fato aos<br \/>\ndous imponentes Vice-reinados, que a ladeavam, mas n\u00e3o a comprimiam.<br \/>\nO peso morto, esmagador, destes sistemas retr\u00f3grados e marasmados,<br \/>\nanulava-lhos a Audi\u00eancia quase soberana, com a sua expansibilidade nativa<br \/>\nadmir\u00e1vel, repelindo-os. Era, com efeito, na frase de Bartolomeu Mitre,<\/p>\n<p><em>&#8220;un mundo, una <\/em>raza, <em>un organismo aparte&#8221;, <\/em>que<br \/>\ndentro de si mesmo efetuara a sua evolu\u00e7\u00e3o, pelo caldeamento<br \/>\ndo sangue de outras gentes e equil\u00edbrio de seus elementos constituintes.<br \/>\nCaminhara por si; e esta marcha, conforme no-la descreveram solenes vozes<br \/>\nantigas, atrav\u00e9s dos mais l\u00facidos ditames dos mais austeros<br \/>\nministros, foi para o norte, indefinidamente para o norte, com um determinismo<br \/>\ninviol\u00e1vel, seguindo o itiner\u00e1rio marcado por um meridiano indistinto<br \/>\nnuma penumbra geogr\u00e1fica, que ela deveria romper, arrebatadamente,<br \/>\nna esteira das vagas agitadas das invas\u00f5es portuguesas. Em tal rumo,<br \/>\nque a arrastava para a atual zona litigiosa, a metr\u00f3pole aparelhara-a<br \/>\nde excepcionais franquias. Armara-a para bater, a um tempo, a invas\u00e3o<br \/>\ne o deserto. E nesta empresa os seus mesti\u00e7os destemerosos fundaram<br \/>\na rude nobiliarquia de um verdadeiro marquesado, nas fronteiras.<br \/>\nAli, ela refinou os seus atributos nativos; e chegou \u00e0 independ\u00eancia<br \/>\nadministrativa antes de chegar \u00e0 Rep\u00fablica.<br \/>\nN\u00e3o se iludem estes fatos. Nem maravilha que no desdobramento do per\u00edodo<br \/>\nrevolucion\u00e1rio, de 1809-1823, a Bol\u00edvia centralizasse por vezes<br \/>\nas esperan\u00e7as hispano-americanas.<br \/>\nVinha de uma tremenda escola de batalhas. O General Mitre, num luminoso confronto,<br \/>\nentre o Paraguai, rebento da civiliza\u00e7\u00e3o embrion\u00e1ria<br \/>\nenxertada no tronco ind\u00edgena pelo esp\u00edrito jesu\u00edtico,<br \/>\ne o Peru, onde se alentavam e se refaziam as for\u00e7as realistas &#8211; descreve-a<br \/>\nrevestida de energia est\u00f3ica para a resist\u00eancia e para a morte,<br \/>\npatenteando &#8220;uno <em>de los espect\u00e1culos m\u00e1s her\u00f3icos<br \/>\nde la revoluci\u00f3n sud-americana&#8221;. <\/em><br \/>\nDevem ler-se todas as p\u00e1ginas do not\u00e1vel historiador militar.(1)<\/p>\n<p>A antiga <em>barrera <\/em>dos dom\u00ednios castelhanos tornou-se, nos dias<br \/>\nmais sombrios da luta, a guarda incorrupt\u00edvel e indom\u00e1vel da<br \/>\nliberdade sul-americana. Completou o seu destino hist\u00f3rico. Firmou<br \/>\numa continuidade perfeita na sua exist\u00eancia ativa e combatente.<br \/>\nAssim, esta continuidade de esfor\u00e7os, este incompar\u00e1vel destino,<br \/>\ne aquele determinismo inflex\u00edvel, que vimos desdobrar-se, e aquela<br \/>\ndiretriz superior, que rompeu, retilineamente, tr\u00eas s\u00e9culos atumultuados,<br \/>\nse n\u00e3o podem excluir ao menos em muitos pontos podem retificar os riscos<br \/>\n\u00e0s vezes inextric\u00e1veis dos cart\u00f3grafos, e os dizeres<br \/>\namb\u00edguos, ou incompletos, dos antigos documentos.<br \/>\nDe outro modo, n\u00e3o h\u00e1 interpretar-se, logicamente, o <em>uti<br \/>\npossidetis <\/em>de 1810.<br \/>\nRealmente \u00e9 at\u00e9 um tru\u00edsmo o escrever-se que o princ\u00edpio<br \/>\nb\u00e1sico dos deslindamentos sul-americanos tem um elast\u00e9rio maior<br \/>\nque o velh\u00edssimo <em>uti possidetis, ita possideatis <\/em>da jurisprud\u00eancia<br \/>\nromana, que o transmitiu ao direito internacional. Engrandeceu no transitar<br \/>\ndas rela\u00e7\u00f5es individuais para as dos povos. Quando a Col\u00f4mbia<br \/>\no proclamou em 1819, instituindo a doutrina, aceita logo depois por todas<br \/>\nas Rep\u00fablicas espanholas, de que as bases f\u00edsicas de nacionalidades<br \/>\nemergentes compreendessem as \u00e1reas demarcadas at\u00e9 1810 pelas<br \/>\nleis da metr\u00f3pole, p\u00f4s-se de manifesto que a posse de fato, efetiva<br \/>\ne tang\u00edvel, n\u00e3o bastaria a firmar os deslindes entre elas. Impossibilitava<br \/>\no seu efeito exclusivo a pr\u00f3pria geografia da \u00e9poca. Entre umas<br \/>\ne outras jaziam enormes pa\u00edses desconhecidos. Assim, se lhe aditou<br \/>\no crit\u00e9rio superior, consistindo no <em>direito de possuir, <\/em>ou<br \/>\nmelhor, na imin\u00eancia da posse, demonstrada pelos antecedentes hist\u00f3ricos,<br \/>\nreveladores ~a capacidade para o dom\u00ednio sobre as terras convizinhas.<\/p>\n<p>E o <em>uti possidetis <\/em>americano, ou <em>criollo, <\/em>consoante a adjetiva\u00e7\u00e3o<br \/>\npinturesca de Quijano Otero(2) &#8211; merc\u00ea do qual a Argentina se estendeu,<br \/>\nindefinidamente, pela Patag\u00f4nia em fora, at\u00e9 \u00e0s mais altas<br \/>\nlatitudes austrais; e em virtude do qual, com o mesmo direito, adquirido atrav\u00e9s<br \/>\nde lutas mais penosas, e inabalavelmente garantido pelos documentos insofism\u00e1veis,<br \/>\nque extratamos, a Bol\u00edvia se avantajou, obediente a um roteiro secular,<br \/>\nat\u00e9 ao Acre.<\/p>\n<p>As linhas anteriores eram indispens\u00e1veis. Demonstram, \u00e0 saciedade,<br \/>\na posse boliviana, virtual mas inalien\u00e1vel, sobre as paragens ignotas<br \/>\nque lhe demoravam ao norte; e, ao mesmo passo, o afastamento da influ\u00eancia<br \/>\nperuana, sobejas vezes expresso nos mais solenes documentos oriundos da metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>Mas atalhemos. As p\u00e1ginas mais firmemente blindadas de fatos ineg\u00e1veis<br \/>\nn\u00e3o se forram, \u00e0s vezes, ao subjetivismo dos que as l\u00eaem.<br \/>\nN\u00e3o raro se arg\u00fai de romancear imaginoso a argumenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais s\u00e9na Querem-se datas certas, coordenadas impec\u00e1veis, n\u00fameros,<br \/>\nmuitos n\u00fameros, numerosos n\u00fameros, e medi\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne desenhos incisivos, e dados, e elementos secamente tang\u00edveis, massudamente<br \/>\nconcretos, aca\u00e7apadissimamente positivos.<br \/>\nEnt\u00e3o, continuemos, o mais que pudermos adscritos \u00e0s linhas<br \/>\ninvari\u00e1veis dos antigos mapas, e substituindo a pena pelas r\u00e9guas,<br \/>\nos transferidores e os compassos.<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>De feito, a quest\u00e3o assume, agora, aspectos asperamente geom\u00e9tricos.<\/p>\n<p>A derradeira fase da jurisdi\u00e7\u00e3o territorial dos dom\u00ednios<br \/>\nespanh\u00f3is retrata-se nas Ordenan\u00e7as de Intendentes de 28 de<br \/>\njaneiro de 1782 e 23 de setembro de 1803, que demarcaram novas unidades administrativas,<br \/>\nmodelando-as pelas raias dos bispados existentes. De acordo com elas mantiveram-se<br \/>\nas Audi\u00eancias divididas em Intend\u00eancias, prefigurando os Departamentos<br \/>\natuais; e subdivididos, estes, em Partidos, representadas as antigas Prov\u00edncias.<br \/>\nFoi toda a mudan\u00e7a. A administra\u00e7\u00e3o colonial rotulava-se<br \/>\ncom outras palavras. Pouco se alterou. A carta r\u00e9gia criadora reporta-se<\/p>\n<p>ainda \u00e0s <em>&#8220;sabias leyes de Indias&#8221;, <\/em>cujas <em>&#8220;prudentes<br \/>\ny sabias reglas&#8221;, <\/em>prescreve <em>&#8220;se observen exactamente por<br \/>\nlos Intendentes&#8221;. <\/em><br \/>\nE, de fato, apenas as restringiu, ou ampliou, em pontos acess\u00f3rios<\/p>\n<p>Mas para a geografia geral das possess\u00f5es a sua import\u00e2ncia foi<br \/>\nsens\u00edvel, e avulta, sobretudo, nos deslindamentos dos dous Vice-reinados,<br \/>\nque se modelaram pelas divisas particulares das respectivas Intend\u00eancias,<br \/>\npor maneira a esclarecer completamente o atual lit\u00edgio.<br \/>\nCom efeito, desde ent\u00e3o as <em>Audiencias de los Reyes <\/em>e de Charcas<br \/>\ndesenharam-se com a fisionomia geogr\u00e1fica que mantiveram, imut\u00e1vel,<br \/>\nat\u00e9 1810, data do <em>uti possidetis <\/em>&#8211; que se diz sugerido por<br \/>\nAlexandre Humboldt.<br \/>\nPodem acompanhar-se os limites, preexistentes no princ\u00edpio do s\u00e9culo<br \/>\npassado, contemplando-se qualquer mapa moderno.<br \/>\nO Vice-reinado de Buenos Aires repartia-se nas Intend\u00eancias de Buenos<br \/>\nAires, Assun\u00e7\u00e3o do Paraguai, S\u00e3o Miguel de Tucum\u00e3,<br \/>\nMendoza, Santa Cruz de la Sierra, La Paz, La Plata (arcebispado de Charcas)<br \/>\ne Potosi, correspondendo cada uma \u00e0s \u00e1reas dos respectivos bispados;<br \/>\nal\u00e9m dos territ\u00f3rios de Moxos, Apollobamba, etc. O do Peru,<br \/>\nnas de Lima, Tarma, Huamanga, Huancavelica, Arequipa, Cuzco e Puno, em que<br \/>\nse tinham fracionado as suas cinco dioceses.<br \/>\nS\u00e3o nomes que vieram at\u00e9 aos nossos dias.<br \/>\nV\u00ea-se, para logo, que a Audi\u00eancia de Charcas entrava na constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo primeiro com as quatro sec\u00e7\u00f5es de Santa Cruz, La Paz, La<br \/>\nPlata e Potosi, e as terras de Apollobamba e Moxos. A de Lima, ou <em>de los<br \/>\nReyes, <\/em>formava tudo o segundo. E compreende-se, de pronto, que a discrimina\u00e7\u00e3o<br \/>\nde limites de ambos se reduz, para o nosso caso, no apontar os que separavam<br \/>\nos partidos mais setentrionais daquelas duas audi\u00eancias.<br \/>\nPara isto n\u00e3o se faz mister seguir as v\u00e1rias fases do processo<br \/>\ndemarcador, que foi longo.<br \/>\nNomearam-se a este fim, sucessivamente, dous not\u00e1veis, os Visitadores-Gerais<br \/>\nD. Jos\u00e9 Antonio Areche e D. Jorge Escobedo que, de acordo com os Vice-reis,<br \/>\ndeslindaram o complicado assunto, at\u00e9 ao desfecho, em 1796, ao se desligarem<br \/>\ndo Governo de Charcas as prov\u00edncias de Lampa, Azangaro, Carabaya e<br \/>\noutras, constituindo a Intend\u00eancia de Puno desde ent\u00e3o definitivamente<br \/>\nincorporada ao Peru. Desta sorte a Bol\u00edvia perdeu, naquela banda, vastos<br \/>\nterrit\u00f3rios \u00e0 margem ocidental do lago Titicaca, assim como<br \/>\na divisa secular da cordilheira de Vilcanota, que se desenhara desde o princ\u00edpio<br \/>\nde sua forma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o comentemos o caso. Consumou-se.<br \/>\nMas para concertar-se ju\u00edzo definitivo, considere-se, por momentos,<br \/>\no Vice-reinado peruano pouco antes deste acr\u00e9scimo de superf\u00edcie;<br \/>\ne determine-se, depois, a sua grandeza exata, ao anexar-se-lhe aquela nova<br \/>\nintend\u00eancia. E a marcha mais direta para verificar se de fato, como<br \/>\nhoje se pretende, ele se estendia pela Amaz\u00f4nia em fora at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nmargens do Madeira. Porque a sua \u00e1rea nunca mais variou, ou cresceu,<br \/>\nnaqueles lados, at\u00e9 os nossos dias.<br \/>\nDemonstram-no muitos dados oficiais.<br \/>\nPouco antes daquele desmembramento, no remate dos acidentados deslindes, ap\u00f3s<br \/>\nquatorze anos de estudos, o Capit\u00e3o-general que governou o Peru, de<br \/>\n1790 a 1795, D. Francisco Gil y Lemos, entregou, por obedecer \u00e0 lei,<br \/>\nao seu sucessor, um relat\u00f3rio com o mapa de todos os seus dom\u00ednios.<br \/>\nA valia deste documento \u00e9 intuitiva, n\u00e3o j\u00e1 pelo car\u00e1ter<br \/>\nlegal, sen\u00e3o por aparecer ao cabo de prolongado pleito enfeixando-lhe<br \/>\nas resolu\u00e7\u00f5es finais.<br \/>\nSubscrevia-o D. Andr\u00e9 Baleato, conhecido cosm\u00f3grafo da \u00e9poca.(3)<\/p>\n<p>Temo-lo sob as vistas. Vemos, de um lance, a que se reduziam as terras peruanas,<br \/>\nem 1795. E embora Gil y Lemos, na sua mem\u00f3ria, advirta <em>&#8220;que<br \/>\nel reyno deli Per\u00fa ha perdido mucho de aquela grandeza local que tuvo&#8221;,<br \/>\n<\/em>e tenhamos assistido a sua decad\u00eancia, quer mutilado pela cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo de Buenos Aires, quer retraindo-se ante a expans\u00e3o vigorosa de Charcas<br \/>\n&#8211; surpreendemo-nos.(4)<br \/>\nA \u00e1rea primitiva mal se lhe vislumbra na fita continental desatada<br \/>\nde Tumbez (3o 20&#8242; lat. S.) at\u00e9 as costas de Atacama (21o 25&#8242; lat. S.),<br \/>\ndesenvolvendo-se por 423 l\u00e9guas de vinte ao grau. A enorme extens\u00e3o<br \/>\nmeridiana contrasta, notavelmente, com a largura em demasia estreita. Todo<br \/>\no Vice-reinado \u00e9 uma irregular e longa faixa litor\u00e2nea. Seguindo-se<br \/>\nde perto o ge\u00f3grafo oficial, pormenorizaram-se-lhe em v\u00e1rios<br \/>\npontos, ao longo dos paralelos, as expans\u00f5es m\u00e1ximas para o<br \/>\ncentro das terras:<br \/>\n<em>&#8220;Por el paralelo de Arica desde la costa hasta lo m\u00e1s oriental<br \/>\nde su partido tiene 18 leguas; <\/em>por el de Pisco, hasta lo mas oriental<br \/>\nde la intendencia de Cuzco, <em>120 leguas; por el de Barranca basta lo m\u00e1s<br \/>\noriental deI partido de Tarma, 44 leguas; por el de Sechura desde su enseada<br \/>\nhasta lo m\u00e1s oriental del partido de Chachapoias, 131 leguas.&#8221;<br \/>\n<\/em><br \/>\nPartindo destas normais \u00e0 costa, verdadeiras abscissas de uma longa<br \/>\nordenada de 423 l\u00e9guas, Baleato deduziu-lhes a m\u00e9dia de 79,5<br \/>\nl\u00e9guas; e depois a superf\u00edcie total do Peru = 33628,5 l\u00e9guas<br \/>\nquadradas.<br \/>\nJamais se avaliou com um tal requinte de exa\u00e7\u00e3o a \u00e1rea<br \/>\nde um pa\u00eds. O rigorismo geom\u00e9trico a\u00ed se retrata em perpendiculares<br \/>\ndefinidas; o aritm\u00e9tico se agu\u00e7a nas arestas cortantes das v\u00edrgulas<br \/>\ndas decimais. O Vice-reinado \u00e9 um debrum do Pac\u00edfico. Estira-se,<br \/>\nlongamente, de norte a sul, por dezoito graus de latitude; por\u00e9m, alarga-se<br \/>\napenas de seis, no m\u00e1ximo, de longitude, para o oriente.<br \/>\n\u00c9 positivo. \u00c9 clar\u00edssimo. Contemplando aquele mapa, lendo<br \/>\naqueles n\u00fameros, medindo aquelas linhas, o sucessor de Gil y Lemos<br \/>\ndemarcava o per\u00edmetro imut\u00e1vel de seu governo. Viu-lhe, como<br \/>\nlhe estamos vendo, como todos podem ver-lhe, os limites: ao norte o Vice-reinado<br \/>\nde Nueva Granada, expandindo-se at\u00e9 cerca de 6o de lat. S.; a leste<br \/>\no Pampa del Sacramento, in\u00e7ado dos silv\u00edcolas bravos do Pajonal,<br \/>\nat\u00e9 a ourela esquerda do Ucayali, e mais para o sul a serrania de Vilcanota;<br \/>\nno extremo meridional, o deserto de Atacama e o Chile.<br \/>\nEra tudo. Para N E., a partir do fosso separador do Ucayali &#8211; precisamente<br \/>\nonde se localizam hoje as paragens litigiosas &#8211; l\u00ea-se, num grande espa\u00e7o<br \/>\nem branco: <em>Pa\u00edses inc\u00f3gnitos. <\/em><br \/>\nPa\u00edses inc\u00f3gnitos, antigas terras <em>no descubiertas, <\/em>das<br \/>\nvetustas c\u00e9dulas reais, territ\u00f3rios que prolongavam os de Apollobamba<br \/>\ne de Moxos, postos, de um modo gr\u00e1fico, mensur\u00e1vel, vis\u00edvel,<br \/>\ninteiramente fora da al\u00e7ada do Governo peruano. Ou, mais explicitamente:<br \/>\nem 1795 a <em>Audiencia de Los Reyes <\/em>n\u00e3o se ampliava, abarcando-os,<br \/>\nat\u00e9 alcan\u00e7ar os dom\u00ednios portugueses.<br \/>\nRealmente, a sua intend\u00eancia mais avan\u00e7ada em semelhante rumo,<br \/>\na de Cuzco &#8211; que hoje se intenta espichar at\u00e9 o Madeira &#8211; ficava consideravelmente<br \/>\ndistante deste rio. Qualquer carta revela que s\u00f3 poderia prolong\u00e1-la<br \/>\nat\u00e9 ali o partido norte-oriental de Paucartambo; e este cerrava-se<br \/>\nem raias inextens\u00edveis e fixas. Demarcara-o, desde 1782, legalmente,<br \/>\no Visitador Jorge Escobedo:<br \/>\n<em>&#8220;&#8230;tiene de largo 26 leguas Norte-Sur sobre 5 a 7 de ancho&#8230; <\/em>confina<br \/>\npor el nordeste <em>com los Andes (Vilcanota) <\/em>o monta\u00f1as de indios<br \/>\ninfieles&#8230;&#8221;(5)<br \/>\nDeste modo, em que pese aos erros da carta de Baleato &#8211; onde, por exemplo,<br \/>\no Beni se desenha como tribut\u00e1rio do Ucayali &#8211; a sua express\u00e3o<br \/>\ngeral \u00e9 segura: o Vice-reinado, ou a Audi\u00eancia de Lima, em 1795,<br \/>\nno seu internamento m\u00e1ximo para o levante, estacava nas barrancas esquerdas<br \/>\ndo Ucayali e, mais para o sul, nas cumeadas de Vilcanota.<br \/>\nEstabelecida esta base segura, prossigamos.<br \/>\nA C\u00e9dula Real de 1 de fevereiro de 1796 modificou estes limites, agregando<br \/>\nao Peru a Intend\u00eancia de Puno. O Vice-reinado cresceu, expandindo-se<br \/>\npara o oriente. Vejamos at\u00e9 onde foi.<br \/>\nO lance \u00e9 capital e dominante, porque, definida esta expans\u00e3o,<br \/>\nse define o seu \u00faltimo avance para o oriente. Os seus limites naqueles<br \/>\nlados naquele ano, s\u00e3o os pr\u00f3prios limites atuais. Nenhum outro<br \/>\nato, ou lei, ou ordenan\u00e7a, ou tratado, os alterou at\u00e9 aos nossos<br \/>\ndias. Descrev\u00ea-los em 1796 \u00e9 o mesmo que os descrever em 1810,<br \/>\ne agora.<br \/>\nDescrevamo-los; apelando o mais secamente que pudermos para elementos fixos,<br \/>\ninfrang\u00edveis, num\u00e9ricos e geom\u00e9tricos.<br \/>\nA circunscri\u00e7\u00e3o, que a C\u00e9dula de 1796 integrou no territ\u00f3rio<br \/>\nperuano, compunha-se de cinco partidos &#8211; Chucuito, Puno, Lampa, Azangaro e<br \/>\nCarabaya &#8211; rigorosamente demarcados. O Vice-reinado ampliou-se pela justaposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um bloco territorial definido. Destes partidos, os quatro primeiros, e<br \/>\nmais meridionais, acarretaram-lhe uma dilata\u00e7\u00e3o para o levante,<br \/>\nque n\u00e3o ultrapassou o di\u00e2metro maior do lago Titicaca, entre<br \/>\nos paralelos de 14o 30&#8242; e 16o 30&#8242;. N\u00e3o interessam, portanto, ao lit\u00edgio<br \/>\nvertente. Resta o mais setentrional, de Carabaya, confinante com as terras<br \/>\nde Apollobamba, e, por isto, o \u00fanico por onde poderia entrar e avan\u00e7ar<br \/>\nnos vales do Madre de Dios, do Beni e do Madeira a influ\u00eancia peruana.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o entrou, nem avan\u00e7ou. O Partido de Carabaya, da Intend\u00eancia<br \/>\nde Puno, a exemplo do de Paucartambo, da de Cuzco, encerrava-se todo em linhas<br \/>\nlim\u00edtrofes absolutamente inalter\u00e1veis.<br \/>\nDelimitara-o, desde 1782, por ordem da metr\u00f3pole, e de inteiro acordo<br \/>\ncom o Vice-rei do Peru, o Visitador-Geral Jorge Escobedo:<br \/>\n<em>&#8220;Tiene de largo 40 leguas (dous graus) norte-sud, y en parte 50 (dous<br \/>\ngraus e meio) de ancho&#8230; confina por el Este con la provincia de Larecaja<br \/>\n(Charcas); por el nordeste y norte con las tierras de indios infieles, <\/em>de<br \/>\nque las separa el famoso rio Inambari.&#8221;(6)<br \/>\nAssim surgiu a linha divis\u00f3ria, l\u00facida e nobremente reclamada,<br \/>\nhoje, pela Bol\u00edvia.<br \/>\nConsidere-se um mapa qualquer. Resulta esta evid\u00eancia: a anexa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquelas terras teve o efeito \u00fanico de substituir a vetusta divisa<br \/>\narcif\u00ednia de Vilcanota, por outra, igualmente natural e tang\u00edvel,<br \/>\nmais para leste &#8211; a do <em>thalweg <\/em>do Inambari. Nas barreiras esquerdas<br \/>\ndeste, quedou para sempre o Vice-reinado, ou a <em>Audiencia de los Reyes,<br \/>\n<\/em>no seu m\u00e1ximo alargamento para o levante. As terras n\u00e3o<br \/>\ndescobertas, terras bravias de <em>infieles, <\/em>formadores da atual zona<br \/>\ndisputada, ficavam fora das suas raias, a estirarem-se para N . E., a partir<br \/>\nda margem direita daquele rio. Os esclarecimentos a este respeito apinham-se,<br \/>\nincont\u00e1veis; e o reproduzi-los, sobre fatigante, implicaria p\u00f3stuma<br \/>\ninjusti\u00e7a \u00e0 clareza e \u00e0 retitude do Visitador Escobedo.<br \/>\nAdemais refor\u00e7am-nos todos os mapas do tempo, feitos pelos que perlustraram<br \/>\no pa\u00eds. O j\u00e1 anotado, de Figueroa, \u00e9 francamente confirmativo.<br \/>\nO de D. Joaquim At\u00f3s, figura o Partido de Carabaya n\u00e3o s\u00f3<br \/>\ncircunscrito por uma linha divis\u00f3ria fechada, como abrangido em todo<br \/>\no quadrante de N . E. pelos territ\u00f3rios de Moxos e Apollobamba.(7)<br \/>\nO de Pablo Orycain, elucidado por um breve texto, no qual se refere \u00e0<br \/>\nopulenta prov\u00edncia <em>&#8220;con sus bajos y dem\u00e1s quebradas<br \/>\nllenas de lavaderos de oro&#8221;, <\/em>mostra-no-la a <em>confinar con los<br \/>\nchunchos, <\/em>e localiza os profugos selvagens nas <em>misiones de Apollobamba,<br \/>\n<\/em>al\u00e9m do Inambari, totalmente estranhas, portanto, ao Vice-reinado,<br \/>\ncujas barreiras l\u00e1 se riscam, em destaque vivo, com visibil\u00edssimos<br \/>\ntra\u00e7os amarelos.(8)<br \/>\nElas assim permaneceram at\u00e9 1810, e &#8211; sublinhemos uma afirmativa segura<br \/>\n&#8211; at\u00e9 <em>1851, <\/em>data em que se fixaram os nossos limites definitivos<br \/>\ncom o Peru. N\u00e3o h\u00e1 engenhar-se o mais ligeiro argumento em contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>O Partido do Carabaya &#8211; \u00fanico que permitiria ao Peru estender-se aos<br \/>\nvales do Madre de Dios, propriamente dito, do Beni e do Madeira &#8211; persistiu<br \/>\nsempre com aquela \u00e1rea, e com aquelas raias imut\u00e1veis, at\u00e9<br \/>\naos nossos tempos, nitidamente lindado ao oriente pelo Inambari. As provas<br \/>\na este respeito fervilham. Mas por abreviar, e frisar mais uma vez o tra\u00e7o<br \/>\nde elevada imparcialidade, em que vai versando-se este assunto, apresentemos<br \/>\numa apenas, genuinamente peruana, que por si s\u00f3 supre por muitas. Reclamemos,<br \/>\nainda uma vez, o auxilio de D. Mateo Paz Soldan, o mestre tradicional da fisiografia<br \/>\nda Rep\u00fablica vizinha. E abrindo o seu livro, o seu magn\u00edfico<br \/>\nlivro em boa hora impresso em Paris, \u00e0 custa do Governo de sua terra,<br \/>\nleiamos, aprendamos:<br \/>\n<em>&#8220;La province de Carabaye a <\/em>environ 50 lieus (<em>dous graus<br \/>\ne meio) de l&#8217;Est a Oeste&#8230; <\/em>est born\u00e9e au Nord et au Nord-Est<br \/>\npar le territotre des indiens barbares, <em>appel\u00e9s Crangues et Sumachuanes<br \/>\net d&#8217;autres <\/em>dont la separa la fameuse reviere Ynanvari&#8230; <em>a l&#8217;Est<br \/>\npar celle de Larecaje, de le Republique le Bolivie.&#8221;<\/em>(9)<br \/>\nPrecios\u00edssimo excerto, este. De sorte que em 1863, oitenta anos depois<br \/>\nde primeira Ordenan\u00e7a de Intendentes, doze anos depois do Tratado de<br \/>\nlimites de 1851, do Brasil com o Peru, e quatro anos apenas antes do da Bol\u00edvia<br \/>\ncom o Brasil &#8211; o grande ge\u00f3grafo, gl\u00f3ria da cultura peruana,<br \/>\ndecalcava os dizeres de Jorge Escobedo&#8230; Jamais uma verdade se imp\u00f4s<br \/>\ncom tamanho imp\u00e9rio. H\u00e1, at\u00e9 ali, surpreendentes laivos<br \/>\nde pl\u00e1gio. Paz Soldan tinha, por for\u00e7a, sobre a mesa e aberto,<br \/>\no relat\u00f3rio do Visitador-Geral, de 1782&#8230; N\u00e3o prossigamos.<\/p>\n<p>Seja como for, naquelas linhas, deletreadas em todas as escolas do Peru, se<br \/>\nrenteiam todas as pretens\u00f5es peruanas visando as terras do Madre de<br \/>\nDios, do Beni e do Madeira.<br \/>\nN\u00e3o d\u00e3o pega \u00e0 mais ligeira d\u00favida.<br \/>\nDe feito, como iludir-se o significado de tais palavras, que se renovam atrav\u00e9s<br \/>\nde quase um s\u00e9culo, e o de linhas t\u00e3o indel\u00e9veis, e a<br \/>\nsugest\u00e3o gr\u00e1fica a entrar-nos, fulgurantemente, pelos olhos<br \/>\n&#8211; destes mapas e destes relat\u00f3rios, tra\u00e7ados por ordem da metr\u00f3pole,<br \/>\nsubscritos pelos Visitadores, com a referenda dos Vice-Reis, reproduzidos<br \/>\nem nossos dias pela maior autoridade peruana em tais assuntos, e discriminando<br \/>\ne estereotipando, de modo t\u00e3o evidente, a distribui\u00e7\u00e3o<br \/>\nlegal e geogr\u00e1fica daquelas terras?<br \/>\nAs dedu\u00e7\u00f5es s\u00e3o inabal\u00e1veis: em nenhum dos partidos<br \/>\ndas duas intend\u00eancias, de Puno e de Cuzco, do extremo nordeste do Vice-reinado<br \/>\nou Audi\u00eancia de Lima, inscritos em divisas que n\u00e3o mais se alteraram<br \/>\nat\u00e9 hoje, se inclu\u00edram os territ\u00f3rios ainda n\u00e3o<br \/>\nde todo conhecidos e descobertos, que com o nome vago de Apollobamba, ou qualquer<br \/>\noutro, se desenrolavam pelos vales meridionais da Amaz\u00f4nia. Em 1776<br \/>\no Vice-reinado, cuja capacidade pol\u00edtica para o dom\u00ednio tanto<br \/>\ndiminu\u00edra, n\u00e3o se estendia, nem visava estender-se, at\u00e9<br \/>\n\u00e0s margens do Madeira.<\/p>\n<p>Ora, aquela situa\u00e7\u00e3o prolongou-se aos nossos dias.<br \/>\nNaquele tempo o Vice-reinado de Nova Granada &#8211; incubando, ainda latentes,<br \/>\no Equador, a Col\u00f4mbia e a Venezuela &#8211; dilatava-se para o sul pelo Ucayali<br \/>\nacima at\u00e9 a foz do Pachit\u00e9a, onde desde muito se erigira o aldeamento<br \/>\nde S\u00e3o Miguel de Conibos, fundado pela miss\u00e3o dos Maynas, do<br \/>\nbispado de Quito.<br \/>\nN\u00e3o acompanharemos os grandes mission\u00e1rios entre os quais se<br \/>\nv\u00eaem os tipos esculturais do est\u00f3ico P. Richter, ou daquele incompar\u00e1vel<br \/>\nSamuel Fritz, que foi o precursor de La Condamine e primeiro ge\u00f3grafo<br \/>\ndo Amazonas.<br \/>\nPara o nosso prop\u00f3sito, baste notar-se que desde 1750 as miss\u00f5es<br \/>\nde Maynas dilataram em tanta maneira o Governo de Nova Granada, ao longo do<br \/>\nUcayali, que o do Peru n\u00e3o teve, como ficou repetidamente demonstrado,<br \/>\na inger\u00eancia mais breve nos deslindes internacionais com as terras portuguesas.<br \/>\nEstava de lado, de fora. Entre estas e ele, a partir da margem direita daquele<br \/>\nrio, projetavam-se para leste os terrenos de Apollobamba, que, consoante a<br \/>\nfrase valiosa do Ministro mais ilustre do Conselho das \u00cdndias, Pedro<br \/>\nCampomanes, se extremavam, de um lado, com o territ\u00f3rio de Moxos e<br \/>\nde outro com as miss\u00f5es do grande tribut\u00e1rio do Amazonas.<\/p>\n<p><em>&#8220;Se dan <\/em>las <em>manos con las de mojos y las que administran<br \/>\nlos franciscanos sobre el rio Ucayali.&#8221;<\/em>(10)<br \/>\nAssim se limitavam, exclusivamente, naqueles lados e naqueles tempos, com<br \/>\nos dom\u00ednios portugueses, a Audi\u00eancia de Quito, pelo Governo de<br \/>\nMaynas, e a de Charcas, pelo de Moxos &#8211; delineando-se a divis\u00f3ria Madeira-Javari<br \/>\nna penumbra geogr\u00e1fica das paragens desconhecidas. E do mesmo modo<br \/>\nque o Governador de Moxos e Apollobamba, somente pela circunst\u00e2ncia<br \/>\nde ser <em>rayano, <\/em>foi nomeado comiss\u00e1rio da terceira partida,<br \/>\ndestinada \u00e1 demarca\u00e7\u00e3o em todo o trato que vai do Guapor\u00e9<br \/>\nao Javari, o engenheiro Francisco Requena, que era o chefe da quarta, encarregada<br \/>\ndo mesmo trabalho desde a foz do Javari at\u00e9 ao Orenoco, somente em<br \/>\nvirtude deste cargo se revestiu do de Governador-Geral de Maynas, sujeito<br \/>\nao Capit\u00e3o-General de Nova Granada, D. Silvestre Albarea.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 patentear-se, de modo mais sint\u00e9tico, que somente<br \/>\nas duas jurisdi\u00e7\u00f5es, de Quito e de Charcas, se extremavam naquela<br \/>\n\u00e9poca com o Brasil em todo o \u00e2mbito da bacia amaz\u00f4nica<br \/>\nque vai do Madeira \u00e0 foz do Javari; a primeira, ao longo deste at\u00e9<br \/>\n\u00e0s cabeceiras; a segunda, destas, ou pouco a jusante, at\u00e9 \u00e0<br \/>\nsemidist\u00e2ncia do Tratado de 1777.<br \/>\nMas esta situa\u00e7\u00e3o mudou em 1802.<br \/>\nUrna C\u00e9dula Real de 15 de julho daquele ano, inspirada por Francisco<br \/>\nRequena, desmembrou a prov\u00edncia de Maynas do Vice-reinado granadino,<br \/>\nanexando-a ao Peru, e submetendo as miss\u00f5es ao arcebispado de Lima.<\/p>\n<p>Poderia mostrar-se que a famosa C\u00e9dula &#8211; \u00faltimo titulo territorial<br \/>\ndo Peru &#8211; era invi\u00e1vel.<br \/>\nMalignou-a para sempre a parcialidade, ou a m\u00e1-f\u00e9, comprovada,<br \/>\nde Requena, que a informou pondo-a a talho de uma lei preventiva e moralizadora,<br \/>\nda <em>Recopilaci\u00f3n: <\/em><br \/>\n<em>(Que no se cumplan las c\u00e9dulas eu que hubiere obrepci\u00f3n<br \/>\no subrepci\u00f3n.)<\/em>(11)<br \/>\nEm torno dela h\u00e1 uma literatura pol\u00edtico-geogr\u00e1fica em<br \/>\nque explodem os mais violentos panfletos. Nenhum dos velhos ditames coloniais<br \/>\nfoi ainda mais discutido, ateando mais agitadas controv\u00e9rsias.<br \/>\nMas n\u00e3o desvendemos a g\u00eanese que a invalida. Vamos al\u00e9m:<br \/>\nadmitamos, com Antonio Raimondi &#8211; o europeu mais peruano que ainda se viu<br \/>\nna Am\u00e9rica &#8211; a sua legitimidade e todos os seus efeitos. E mostremos,<br \/>\nmesmo maniatados nesta hip\u00f3tese, sobradamente gratuita, que a carta<br \/>\nr\u00e9gia t\u00e3o ampliadora da influ\u00eancia do Peru, ao ponto de<br \/>\nestir\u00e1-la sobre dois ter\u00e7os do Equador,(12) n\u00e3o a estendeu<br \/>\nde <em>um metro <\/em>sequer para o levante, a partir das margens direitas<br \/>\ndo Ucayali e do Javari.<br \/>\nA suma da C\u00e9dula Real de 1802 \u00e9 esta:<br \/>\n<em>&#8220;He resueito agregar al Virreynato de Lima el Gobierno y Commandancia<br \/>\nGeneral de Maynas no s\u00f3lo por el rio Mara\u00f1on abajo hasta las<br \/>\nfronteras de las colonias portuguesas, sino tambi\u00e9n por todos los dem\u00e1s<br \/>\nrios que entran al mismo Mara\u00f1\u00f3n por sus m\u00e1rgenes meridional<br \/>\ny septentrional, <\/em>que son: Morona, Pastaza, Ucayali, Nopo, Yavary, Putumayo,<br \/>\nYapuri, <em>y otros <\/em>menos considerables, hasta el paraje en que estos<br \/>\nmismos rios por sus saltos y raudales inaccesibles no puedan ser navegables&#8230;&#8221;(13)<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 um documento admir\u00e1vel no mostrar que as divis\u00f3rias<br \/>\nperuanas, naqueles lados, s\u00e3o &#8211; exclusivamente &#8211; as linhas naturais<br \/>\ndo Javari, at\u00e9 perto de seus manadeiros, e o Ucayali at\u00e9 \u00e0<br \/>\nconflu\u00eancia do Tambo e o Urubamba (10o 55&#8242; latitude sul), onde ele perde<br \/>\no nome: divisas lucidamente reclamadas, hoje, pela Bol\u00edvia.<br \/>\nCom efeito, ante demarca\u00e7\u00e3o t\u00e3o expressa, justificam-se<br \/>\nem toda a linha os negociadores peruanos, que pactuaram, em 1851, com o Brasil,<\/p>\n<p>a fronteira arcif\u00ednia de <em>todo o Javari, <\/em>sem cogitarem da<br \/>\nsemidist\u00e2ncia do Madeira; e, ao mesmo passo, os comiss\u00e1rios,<br \/>\nbrasileiro e peruano, Bar\u00e3o de Tef\u00e9 e Guilherme Black:, que<br \/>\nconfirmaram, praticamente, aquele crit\u00e9rio, implantando, em 1874, o<br \/>\nmarco divis\u00f3rio <em>definitivo <\/em>nas cabeceiras do mesmo rio, at\u00e9<br \/>\nonde, conforme declaram, &#8220;os obst\u00e1culos eram tantos que n\u00e3o<br \/>\npermitiam ir al\u00e9m&#8221;, ou seja, traduzindo-se a velha C\u00e9dula<br \/>\nReal, <em>&#8220;hasta el paraje en que este mismo rio por sus saltos <\/em>y<br \/>\n<em>raudales inaccesibles no pudo m\u00e1s ser navegable&#8230;&#8221; <\/em><\/p>\n<p>Realmente, n\u00e3o h\u00e1 turvar-se a limpidez da C\u00e9dula Real<br \/>\nde 1802. Esclarece-a, al\u00e9m disto, o mapa desenhado pelo pr\u00f3prio<br \/>\nFrancisco Requena, em 1779.(14) As terras, que se aditaram ao Vice-reinado<br \/>\nde Lima, v\u00eaem-se, ali, circunscritas por uma curva fechada, n\u00edtida<br \/>\ne cont\u00ednua, perlongando a margem esquerda do Javari, e deixando-a,<br \/>\nnuma deflex\u00e3o para o S.O., a interferir o Ucayali perto da latitude<br \/>\nacima escrita.<br \/>\nOs deslindes, sugeridos pelos Visitadores-Gerais, desde 1782, grafados por<br \/>\nAndr\u00e9 Baleato, em 1796, subscritos pelo Virrey Gil y Lemos, sancionados<br \/>\npela metr\u00f3pole, persistiam, em 1802, inalter\u00e1veis, no tocante<br \/>\n\u00e0quela zona. Os terrenos, ainda n\u00e3o de todo descobertos, de<br \/>\nApollobamba, continuaram fora do influxo peruano, sob o dom\u00ednio iminente<br \/>\nda Audi\u00eancia de Charcas.<br \/>\nE quando ainda restassem d\u00favidas a este respeito, destru\u00ed-las-ia<br \/>\naquele mesmo Francisco Requena, que tanto atrapalhou a geografia hispano-americana<br \/>\ne deu, de gra\u00e7a, ao Peru, o t\u00edtulo primordial de suas mais ousadas<br \/>\npretens\u00f5es.<br \/>\n0 lance \u00e9 inopinado: ao mais solerte advogado da Rep\u00fablica vizinha,<br \/>\ncerto, ainda n\u00e3o se lhe antolhou a conjectura de que o m\u00e1ximo<br \/>\ndador de seus territ\u00f3rios setentrionais &#8211; o homem a quem o Peru deve<br \/>\numa est\u00e1tua na foz do Pachit\u00e9a! &#8211; pudesse erigir-se em juiz,<br \/>\no mais insuspeito dos ju\u00edzes, neste caso, no proibir-lhe a marcha para<br \/>\no oriente, precisamente, na zona que hoje se debate.<br \/>\nRevelemos a inesperada atitude. Requena, em 1799, vingara a posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuperior de membro do Conselho das \u00cdndias, onde o seu parecer preponderava<br \/>\nsempre no tocante \u00e0s coisas da Am\u00e9rica; e nas &#8220;salas&#8221;<br \/>\ndaquela assembl\u00e9ia soberana apresentou o informe, que foi o molde da<br \/>\nC\u00e9dula de 1802.<br \/>\nOra, sobretudo no trecho do longo arrazoado, em que discute o estabelecimento<br \/>\nda prelazia das miss\u00f5es, naquelas terras, o ministro, com a enorme<br \/>\nautoridade advinda do seu t\u00edtulo de engenheiro, sobre todos sabedor<br \/>\ndos pa\u00edses que percorrera e explorara, estabeleceu que a diocese (e<br \/>\nportanto as terras a anexarem-se ao Peru, que as Ordenan\u00e7as marcavam<br \/>\n<em>&#8220;pelas \u00e1reas dos bispados&#8221;) <\/em>n\u00e3o deveria e<br \/>\nn\u00e3o poderia ultrapassar o Ucayali, para o levante.<br \/>\nCriticando v\u00e1rios projetos, formulados no sentido de fixar-se a zona<br \/>\nde influ\u00eancia da nova jurisdi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica,<br \/>\ndeclarou que aos seus autores, se lhes sobravam zelos, <em>&#8220;les faltaba<br \/>\ninteligencia de los Paises&#8221;. <\/em>E ao considerar as terras hoje litigiosas,<br \/>\nque o Peru intenta abranger, como se fosse poss\u00edvel estirar tamb\u00e9m<br \/>\npor aqueles lados a maravilhosa C\u00e9dula, disse:<br \/>\n<em>&#8220;El que representa unir bajo de una mitra <\/em>las misiones de Apollobamba<br \/>\ncon las de Maynas, <em>y todas que entre estas dos hay intermedias, situadas<br \/>\npor las montanas no supo desde luego, <\/em>por falta de <em>geografia; la<br \/>\nimnensa extensi\u00f3n que daba a este Obispado; y <\/em>que el Prelado era<br \/>\nimposible las pudiese visitar&#8221;.(15)<br \/>\nEste parecer, que pela primeira vez se revive, \u00e9 notavelmente expressivo,<br \/>\nsobretudo quando se considera que o princ\u00edpio b\u00e1sico da constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nterritorial, expl\u00edcito nas Ordenan\u00e7as de Intendentes, &#8220;consistia<br \/>\nno firmar as \u00e1reas das novas se\u00e7\u00f5es administrativas pelas<br \/>\ndos bispados respectivos&#8221;, axioma da administra\u00e7\u00e3o colonial<br \/>\nespanhola, que nenhum escritor peruano ser\u00e1 capaz de contestar.<br \/>\nAssim, pela senten\u00e7a do pr\u00f3prio autor intelectual da C\u00e9dula<br \/>\nde 15 de julho de 1802, ficaram inteiramente fora da zona agregada ao Peru,<br \/>\ncom o Governo do Maynas, as terras extens\u00edssimas que, a partir da margem<br \/>\ndireita do Ucayali, abrangem as cabeceiras do Juru\u00e1, do Purus e todo<br \/>\no Acre meridional, at\u00e9 ao Madeira.<br \/>\nSobre elas pairava, de fato, a extremar o rumo de um itiner\u00e1rio hist\u00f3rico<br \/>\nadmir\u00e1vel, o dom\u00ednio iminente e eminente da Bol\u00edvia.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a><strong>Cap\u00edtulo VII <\/strong><\/h2>\n<p>Francisco Requena foi, sem o querer, cruel, na concis\u00e3o golpeante<br \/>\ndos trechos anteriormente extratados, que por si s\u00f3s renteiam, sen\u00e3o<br \/>\ndesarraigam, todas as pretens\u00f5es peruanas a leste do Ucayali, onde<br \/>\nterminavam as Miss\u00f5es de Maynas anexadas ao Peru pela C\u00e9dula<br \/>\nReal de 15 de julho de 1802.<br \/>\nRepitamo-los ainda uma vez. Decoremo-los, destacando-os:<\/p>\n<p>1o) Aos que pretendiam estender o bispado aqu\u00e9m daquele rio, <em>&#8220;les<br \/>\nfalt\u00f3 inteligencia de los pa\u00edses que querian comprender en la<br \/>\nnueva di\u00f3cesis&#8221;. <\/em><br \/>\n2o) Os que planejavam unir, sob uma s\u00f3 jurisdi\u00e7\u00e3o, as<br \/>\nterras de Maynas e as de Apollobamba, n\u00e3o sabiam, <em>&#8220;por falta<br \/>\nde geografia, la inmensa extensi\u00f3n que daban a aquel obispado&#8221;.<br \/>\n<\/em><br \/>\n3o) Se porventura se efetuasse t\u00e3o absurdo projeto, ao prelado ser-lhe-ia<br \/>\n<em>&#8220;imposible que las pudiesse todas visitar&#8221;. <\/em><br \/>\nOra, recordando que as ordenan\u00e7as, ent\u00e3o em vigor, consoante<br \/>\nacordam todos os historiadores, estabeleciam a constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nterritorial sob a norma exclusiva de &#8220;fixar as \u00e1reas dos novos<br \/>\ndistritos administrativos pelas demarca\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas<br \/>\ncorrespondentes&#8221;, conclui-se que o territ\u00f3rio de Maynas, adquirido<br \/>\npelo Peru, era o de seu bispado, rigorosamente definido, no avan\u00e7amento<br \/>\nm\u00e1ximo para o oriente, pelas linhas naturais do Ucayal\u00ed e do<br \/>\nJavari, conforme as desenhou e esclareceu o pr\u00f3prio inspirador da carta<br \/>\nr\u00e9gia precitada.<br \/>\nPoder\u00edamos terminar aqui. As frases do m\u00e1ximo benfeitor da Rep\u00fablica<br \/>\nperuana e as nossas afirmativas mais rigorosas, conchavam-se.<br \/>\nMas insistamos ainda. Aquela carta r\u00e9gia &#8211; mir\u00edfico documento<br \/>\nque j\u00e1 entregou de fato \u00e0 venturosa Rep\u00fablica do Pac\u00edfico<br \/>\ndous ter\u00e7os do Equador &#8211; tem a resist\u00eancia das fantasmagorias<br \/>\ngarantidas pela pr\u00f3pria intangibilidade. Assim, poder\u00edamos mostrar<br \/>\nque desde o nascedouro a condenou uma das figuras mais austeras da cultura<br \/>\nperuana, o l\u00facido D. Ypolito Unanue, antigo Presidente do Conselho,<br \/>\ne autor de um mapa de seu pa\u00eds, que tra\u00e7ou um 1804, sem absolutamente<br \/>\ncogitar dos limites que ela indica. Depois se lhe contraporia a autoridade<br \/>\nformid\u00e1vel de Alexandre Humboldt, com a sua &#8220;Carta Geral da Columbia&#8221;,<br \/>\nde 1824, onde as linhas da singularissima C\u00e9dula n\u00e3o se retratam.<br \/>\nEm seguida &#8211; o que \u00e9 mais surpreendente <em>&#8220;el mapa f\u00edsico<br \/>\ny pol\u00edtico del Alto y Bajo Per\u00fa&#8221;, <\/em>oficial, publicado<br \/>\npelo Governo da Rep\u00fablica de 1826, ermo totalmente de quaisquer tra\u00e7os<br \/>\nreveladores da zona que ela marca. Subsecutivamente, a sepultou um Tratado,<br \/>\num pacto solen\u00edssimo, o de 1829, entre o Peru e a Nova Granada&#8230; E<br \/>\nela renasce, e ressuscita, e desenlapa-se, incoerc\u00edvel, intang\u00edvel,<br \/>\nimpalp\u00e1vel, a espantar, intermitentemente, a pol\u00edtica sul-americana,<br \/>\ncom as suas estranhas visagens de recalcitrante espectro colonial.<br \/>\nTra\u00e7aram-se-lhe, ou escreveram-se-lhe, por cima, outros desenhos de<br \/>\ncartas, outros dizeres de ulteriores conven\u00e7\u00f5es; por\u00e9m<br \/>\nraspam-se estas frases e estes desenhos, e revivem-se-lhe, indel\u00e9veis<br \/>\ncomo estigmas, os dizeres no emperrado castelhano de h\u00e1 cem anos. Lembra<br \/>\num desses velhos palimpsestos medievais, cujos primitivos caracteres, cobertos<br \/>\npor outros, ulteriores, dos escribas, hoje se desvendam na raspadura das letras<br \/>\nmais recentes.<br \/>\nFelizmente para a atual litispend\u00eancia bem \u00e9 que ela reviva.<br \/>\nN\u00e3o repudiaremos, neste passo, a diplomacia do Imp\u00e9rio que a<br \/>\nreconheceu, favorecendo ao Peru. Queremo-la, \u00edntegra, sem<br \/>\nque se lhe desloque uma v\u00edrgula, sem que se lhe mude uma letra, a remascar<br \/>\ne a remoer todas as afirmativas, na torturante gagueira de suas redund\u00e2ncias<br \/>\ninfind\u00e1veis.<br \/>\nEsta carta r\u00e9gia, agitada, imprudentemente, como a prova capital dos<br \/>\ndireitos do Peru, contraproduz. \u00c9 desastrosa para a Rep\u00fablica,<br \/>\nque se proclama herdeira de um reg\u00edmen condenado e extinto. \u00c9<br \/>\na prova preexcelente dos direitos da Bol\u00edvia.<br \/>\nO que ela nos diz, nos seus termos acabrunhadoramente repetidos, e nos diz<br \/>\no ministro, que a sugeriu e engenhou, em frases inequ\u00edvocas, \u00e9<br \/>\nque a regi\u00e3o jacente a leste do Ucayali n\u00e3o devia repartir-se,<br \/>\nn\u00e3o podia repartir-se, e n\u00e3o se repartiu, entre as jurisdi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde Cuzco e de Puno e a de Maynas. As primeiras imobilizaram-se \u00e0 margem<br \/>\nesquerda do Inambari, at\u00e9 onde as estendeu a carta r\u00e9gia de<br \/>\n1796; a segunda permaneceu nitidamente lindada pelo Ucayali, onde a fixou<br \/>\na de 1802. O quadro demarcador do Vice-reinado peruano, em 1810, cerrava-se<br \/>\nnuma inteiri\u00e7a e inextens\u00edvel moldura. Pelo levante acabava<br \/>\nnas extremas dos partidos, demarcados at\u00e9 \u00e0s fra\u00e7\u00f5es<br \/>\nde l\u00e9guas, desde o de Azangaro, ao sul, ao de Carabaya, ao norte, onde<br \/>\nse alonga o <em>thalweg <\/em>de Inambari.<br \/>\nE no largo trato que vai deste \u00faltimo \u00e0s divisas naturais do<br \/>\nUcayali e Javari, correm sucessivamente, as linhas setentrionais do partido<br \/>\nde Paucartambo, pelo leito de Marcapata at\u00e9 \u00e0 conflu\u00eancia<br \/>\nTono-Pinipini, e as de Urubamba que seguem pelo rio do mesmo nome at\u00e9<br \/>\na foz do Tambo, onde come\u00e7a o Ucayali.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 fugir-se a este tra\u00e7ado traduzindo, graficamente,<br \/>\nos mais s\u00e9rios documentos da demarca\u00e7\u00e3o territorial,<br \/>\nque prevaleceu at\u00e9 1810. N\u00e3o se conhecem outros. As Ordenan\u00e7as<br \/>\nde Intendentes de 1782 e 1803, as cartas r\u00e9gias de 1796 e 1802, s\u00e3o<br \/>\nos \u00fanicos, e os mais s\u00e9rios, e os mais firmes e os mais compreens\u00edveis<br \/>\nelementos em que se esteiam as pretens\u00f5es peruanas.<br \/>\nMas n\u00e3o lhes abrem as portas da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>Fora disto resta o duvidoso e o aflitivamente torturante das c\u00e9lebres<br \/>\nprovas cartogr\u00e1ficas. Temo-las por adi\u00e1foras; no geral, suspeitas;<br \/>\nas mais das vezes, incompletas; quase sempre, trai\u00e7oeiras; sempre disparatadas.<\/p>\n<p>O cart\u00f3grafo profissional, afeito a percorrer a maravilha milhares<br \/>\nde milhas, e miri\u00e2metros, montando comodamente um l\u00e1pis bem aparado<br \/>\ne destro, veloc\u00edssimo e \u00e1gil no transpor oceanos e no romper,<br \/>\nem d\u00e9cimos de segundos, continentes inteiros, perde, exausto ao fim<br \/>\ndessas imaginosas viagens, em que n\u00e3o moveu um passo, as pr\u00f3prias<br \/>\nno\u00e7\u00f5es universais da forma e das dist\u00e2ncias.<br \/>\nH\u00e1 deplor\u00e1veis desvios de justeza e boa medida em todos estes<br \/>\nAtlas hom\u00fanculos, que em toda a parte aparecem, carregando cada um<br \/>\no seu pequeno mundo muito bem feito e quase sempre errado.<br \/>\nFalta-lhes, em geral, a intimidade da Terra. Nunca sentiram em torno, entre<br \/>\nas vicissitudes das explora\u00e7\u00f5es long\u00ednquas, o imp\u00e9rio<br \/>\nformid\u00e1vel do desconhecido, a ressaltar nas perspectivas assombradoras<br \/>\ndas paragens ermadas e nunca percorridas. E, sobretudo &#8211; por lhes inspirar<br \/>\nmais respeitoso carinho a face do planeta, que irreverentemente garatujam<br \/>\n&#8211; n\u00e3o avaliam que, n\u00e3o raro, a zona mais restrita, por onde<br \/>\nlhes passa o l\u00e1pis forro e endiabrado, \u00e9 o deserto intermin\u00e1vel,<br \/>\nque o explorador sucumbido, n\u00e3o lhe bastando o norte vacilante da b\u00fassola,<br \/>\ns\u00f3 p\u00f4de dominar amarrando-se, cada noite, com os raios refletidos<br \/>\ndo sextante, \u00e0s \u00e2ncoras das estrelas.<br \/>\nDa\u00ed, em grande parte, o arrojo com que pompeiam os seus riscos rebeldes<br \/>\ne heresias gr\u00e1ficas. Na grande maioria, estes h\u00e1beis caricaturistas<br \/>\nde rios e de montanhas s\u00f3 se tornam in\u00f3cuos quando se at\u00eam<br \/>\n\u00e0 c\u00f3pia, ou ao decalque mec\u00e2nico das linhas e dos erros<br \/>\nde seus antecessores. Se a fantasia se lhes desaperta, a revolver terras e<br \/>\nmares, assiste-se \u00e0 invers\u00e3o do G\u00eanese. Restaura-se a<br \/>\nimagem perturbadora do caos.<br \/>\nE preciso escolh\u00ea-los cautelosamente, quando se n\u00e3o pode evit\u00e1-los.<\/p>\n<p>Com estes resguardos, nos longos racioc\u00ednios anteriores, reportamo-nos<br \/>\napenas aos ge\u00f3grafos que perlustraram aquelas regi\u00f5es. Os demais,<br \/>\ndeixamo-los. Entre os antigos, citando \u00e0 ventura, Sanson d&#8217;Abbeville<br \/>\n(1659) e as suas cordilheiras tiradas a cordel; Guillaume De L&#8217;Isle (1701),<\/p>\n<p><em>et quelques autres messieurs de L&#8217;Academie, <\/em>com as prov\u00edncias<br \/>\ndo rio da Prata a entrarem por Goi\u00e1s adentro, ou o seu rio Purus que<br \/>\nn\u00e3o acaba mais; um certo I. B. Nolin (1704), e o seu Paraguai a terminar,<br \/>\ncuriosamente, no porto de Santos; o m\u00e1gico Homaniam Aeredes, que atirou<br \/>\no Para\u00edba sobre o Tocantins, fazendo que este abandonasse o leito,<br \/>\nmudando-se para a calha estreit\u00edssima do Guam\u00e1; o tateante Conrado<br \/>\nMamnert (1803), que nos seria favor\u00e1vel, porque pintou as miss\u00f5es<br \/>\nde Moxos, estranhas ao Peru, e abrangendo os pampas do Sacramento; e dezenas<br \/>\nde outros, at\u00e9 ao cr\u00e9dulo D&#8217;Anville, com os seus fant\u00e1sticos<br \/>\n<em>plateros &#8211; <\/em>certo constituiriam espl\u00eandidos recursos para espraiar-se<br \/>\nurna erudi\u00e7\u00e3o in\u00fatil. Preferimos, a bem da gravidade<br \/>\ndo assunto, o digno Andr\u00e9 Baleato, malgrado os seus deslizes; os irm\u00e3os<br \/>\nUlloas; o singelo Al\u00f3s; o magn\u00edfico Requena. Entre os modernos,<br \/>\n\u00e9 de todo em todo opin\u00e1vel a valia que possam ter os dois ditosos<br \/>\nLa Pies <em>(Mr. La Pie, geographe du Roy, et Mr. La Pie Fils, geographe du<br \/>\nDauphin), <\/em>que em 1829, do mesmo modo que estenderam o Peru at\u00e9<br \/>\no Madeira, estenderam S\u00e3o Paulo at\u00e9 quase ao Uruguai e esticaram<br \/>\no Uruguai at\u00e9 ao Igua\u00e7u; e o interessante A. Bru\u00e9, que<br \/>\nainda em 1843 n\u00e3o ouvira esta terr\u00edvel palavra &#8211; Bol\u00edvia<br \/>\n&#8211; e punha um ansioso ponto de interroga\u00e7\u00e3o diante do rio Madeira,<br \/>\ne copiava Andr\u00e9 Baleato, lan\u00e7ando o Beni no Ucayali. N\u00e3o<br \/>\nos citamos; como n\u00e3o citamos Arrowsmith (1839), o qual, entretanto,<br \/>\ndesenhou a linha de Santo Ildefonso feita lim\u00edtrofe, exclusiva, entre<br \/>\no Brasil e a Bol\u00edvia; nem Kiepert (1849), que lhe reproduziu a mesma<br \/>\ndemarca\u00e7\u00e3o mais racional; nem um sem-n\u00famero de outros,<br \/>\nfavor\u00e1veis ou desfavor\u00e1veis, que se nos deparariam com o s\u00f3<br \/>\nesfor\u00e7o material da pesquisa; entre os quais ter\u00edamos de alinhar<br \/>\no <em>Sr. Estanislao Zeballos, atual Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores<br \/>\nda Rep\u00fablica Argentina, <\/em>que ao tra\u00e7ar, em 1894, em Washington,<br \/>\num mapa dos territ\u00f3rios adquiridos pelo Brasil, incluiu, de um modo<br \/>\nclaro, inilud\u00edvel, em n\u00edtidos tra\u00e7os cont\u00ednuos,<br \/>\n<em>toda a atual zona litigiosa no territ\u00f3rio boliviano&#8230;<\/em>(1)<\/p>\n<p>Uns e outros, a despeito do renome que tiveram, e tenham, e mere\u00e7am,<br \/>\nn\u00e3o valem o mais modesto ge\u00f3grafo que haja percorrido aqueles<br \/>\nlugares.<br \/>\nPor exemplo, Gibbon. Enfileirem-se de um lado todos os Ebdens, Delarochettes,<br \/>\nDufours, Arrowsmiths, Shliebens, Greanleaves, Lapies, Bru\u00e9s &#8211; e suplant\u00e1-los-\u00e1,<br \/>\nno definir a geografia boliviana, aquele abnegado Tenente Lardner Gibbon,<br \/>\nque fez o que nenhum deles fez: percorreu o pa\u00eds, e, com pleno conhecimento<br \/>\nde causa, estudando as terras, conversando as gentes, tra\u00e7ou o mapa<br \/>\nda Bol\u00edvia e as raias de sua demarca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica,<br \/>\nem 1853.<br \/>\nEntretanto, n\u00e3o relutamos em garantir que nenhum advogado peruano ser\u00e1<br \/>\ncapaz de citar o digno oficial da U. S. Navy, que foi o <em>\u00fanico <\/em>ge\u00f3grafo<br \/>\na contornar em parte a atual zona litigiosa, logo depois do Tratado de 1851,<br \/>\nconstruindo um mapa, <em>\u00fanico <\/em>entre todos os da Bol\u00edvia,<br \/>\nque se modelou sob as observa\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, sem ser copiado<br \/>\nde outros.<br \/>\nGibbon entrou na Bol\u00edvia em 1852, por La Paz; seguiu para o sul, a<br \/>\nalcan\u00e7ar Oruro; infletiu para leste at\u00e9 Cochabamba; ganhou a<br \/>\nourela do Paracta; desceu o Chipar\u00e9; prosseguiu pelo Mamor\u00e9<br \/>\nabaixo at\u00e9 a conflu\u00eancia do Itenez; subiu ao arrepio deste, a<br \/>\nbuscar o forte do Pr\u00edncipe da Beira; voltou; e volveu ao som do Madeira<br \/>\nat\u00e9 ao Amazonas. A sua carta resultou das observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nrealizadas neste itiner\u00e1rio dilatadissimo; e estas foram t\u00e3o<br \/>\ncuidadosas que lhe permitiram, al\u00e9m da planta, tra\u00e7ar v\u00e1rios<br \/>\nperfis do imenso territ\u00f3rio, gra\u00e7as aos elementos hipsom\u00e9tricos<br \/>\nreunidos. (2)<br \/>\num documento precioso, onde n\u00e3o se reflete apenas a responsabilidade<br \/>\ndo ge\u00f3grafo, mas tamb\u00e9m a do militar, a quem se deferira o encargo<br \/>\nde estudar um pa\u00eds novo, e apresentar, oficialmente, um relat\u00f3rio<br \/>\nao Governo de Washington. \u00c9 natural afirmar-se que Lardner Gibbon n\u00e3o<br \/>\nse limitou aos m\u00e1ximos cuidados nas opera\u00e7\u00f5es astron\u00f4micas<br \/>\ne topogr\u00e1ficas, sen\u00e3o tamb\u00e9m que teve as maiores cautelas<br \/>\nno estabelecer os limites pol\u00edticos da Bol\u00edvia, com a mais inteira<br \/>\nseguran\u00e7a.<br \/>\nOra, a sua demarca\u00e7\u00e3o, apresentada em car\u00e1ter oficial<br \/>\nao Governo norte-americano &#8211; por onde, naturalmente, este se guiaria em todas<br \/>\nas suas rela\u00e7\u00f5es com aquela Rep\u00fablica &#8211; reproduz, admiravelmente,<br \/>\nas linhas gerais, lim\u00edtrofes, que apontamos e s\u00e3o hoje requeridas<br \/>\npela Bol\u00edvia. A <em>boundary line, <\/em>desenhada entre ela, o Peru<br \/>\ne Brasil, \u00e9 clara: a partir da margem norte oriental do lago Titicaca,<br \/>\nnas cercanias de Guiacho, vai, por um meridiano, procurar o <em>thalweg <\/em>do<br \/>\nInambari; segue-o; entra no Marcapata, prosseguindo. Por outro lado, no levante,<br \/>\ndepois de acompanhar o Itenez, o Mamor\u00e9 e o Madeira, estaca na foz<br \/>\ndo Beni, e desta \u00faltima estira-se, retil\u00ednea, para o poente,<br \/>\nsegundo um paralelo, a interferir o Purus na latitude aproximada de 100 <em>30&#8242;.<br \/>\n<\/em><br \/>\nNotam-se, desde logo, lacunas inevit\u00e1veis neste deslindamento geral.<br \/>\nMas o seu significado ineg\u00e1vel, fundamental no presente lit\u00edgio,<br \/>\n\u00e9 este: no conceito do ge\u00f3grafo, que tudo nos denuncia timbroso<br \/>\nem n\u00e3o apresentar ao Governo de seu pa\u00eds informa\u00e7\u00f5es<br \/>\nfalsas, ou vacilantes, a linha leste-oeste, do Madeira para o ocidente, em<br \/>\ntoda a Amaz\u00f4nia do sul, separava, exclusivamente, as terras brasileiras<br \/>\ndas Bolivianas.<br \/>\nA carta de Gibbon pode falsear em pormenores, bastando notar-se que desenha<br \/>\no Madre de Dios feito um prolongamento do Purus; mas, evidentemente, n\u00e3o<br \/>\nse compreende que assistindo ele durante tanto tempo naquelas terras, e tendo<br \/>\ncomo companheiro de excurs\u00e3o o distinto peruano Padre Bovo de Revello,<br \/>\npor seu turno um explorador infatig\u00e1vel, se abalan\u00e7asse a tra\u00e7ar<br \/>\naquela linha lim\u00edtrofe, preeminente entre as demais de sua carta, sem<br \/>\nexato e maduro conhecimento do assunto. Al\u00e9m disso, como j\u00e1<br \/>\no vimos, reproduziu-lhe este conceito, mais tarde, em 1863, D. M. Paz Soldan,<br \/>\npr\u00f3-homem da geografia peruana. E ambos ativeram-se ao confirmar as<br \/>\ndeclara\u00e7\u00f5es uniformes, numeros\u00edssimas, de todos os nossos<br \/>\nge\u00f3grafos e cronistas, quer dos tempos da col\u00f4nia, quer dos primeiros<br \/>\ndias da Independ\u00eancia, para os quais, sem destoar de um nome, a capitania<br \/>\nou prov\u00edncia de Mato Grosso, estendendo-se para o norte at\u00e9<br \/>\npouco al\u00e9m da cachoeira de Santo Ant\u00f4nio, confinava no ocidente,<br \/>\nde uma maneira exclusiva, com os Governos de Chiquitos e de Moxos.<br \/>\nOra, entre todos aqueles nossos ge\u00f3grafos, que ali viveram percorrendo<br \/>\ntodas as paragens, dois \u00fanicos s\u00e3o bastantes a demonstrar-se<br \/>\nque a opini\u00e3o brasileira atual, consistindo em considerar boliviano<br \/>\ntodo o territ\u00f3rio \u00e0 margem esquerda do Madeira at\u00e9 as<br \/>\nraias setentrionais de Mato Grosso, \u00e9 antiqu\u00edssima, e n\u00e3o<br \/>\ndesponta agora, mal arranjada, para justificar os Tratados de 1867 e o de<br \/>\nPetr\u00f3polis, de 1903.<br \/>\nReportemo-nos apenas aos oficiais de engenheiros Ricardo Franco de Almeida<br \/>\nSerra e Lu\u00eds d&#8217;Alincourt.<br \/>\nO primeiro a um tempo astr\u00f4nomo experimentado e militar a que nenhum<br \/>\nbatia parelhas na retitude e no hero\u00edsmo, assistiu em Mato Grosso durante<br \/>\nmais de dois dec\u00eanios, desde 1781. Conhecia a terra. Defendera-a contra<br \/>\nos espanh\u00f3is, atrav\u00e9s de atos memor\u00e1veis, que culminaram<br \/>\nnaquela extraordin\u00e1ria defesa do forte de Coimbra, onde com 40 homens<br \/>\nrepeliu os 800 de L\u00e1zaro de Rivera (1801).<br \/>\nPercorrera-a em v\u00e1rios rumos. E definiu as suas paragens ocidentais,<br \/>\nnaquela \u00e9poca, a confinarem com os dom\u00ednios castelhanos, &#8220;pelos<br \/>\nGovernos do Paraguai, Chiquitos e Moxos&#8221;.(3) Isto \u00e9, para Ricardo<br \/>\nFranco, antigo comiss\u00e1rio das demarca\u00e7\u00f5es, a prov\u00edncia<br \/>\nde Moxos, confrontante, estendia-se para o norte at\u00e9 onde se estendia,<br \/>\nneste rumo, o Mato Grosso.<br \/>\nO sargento-mor de engenheiros, Lu\u00eds d&#8217;Alincourt, tamb\u00e9m ali<br \/>\nviveu largo tempo, desde 1824, em comiss\u00e3o do Minist\u00e9rio da<br \/>\nGuerra. S\u00e3o not\u00e1veis os seus estudos estat\u00edsticos e geogr\u00e1ficos<br \/>\nnaquela prov\u00edncia. Ora, em v\u00e1rios t\u00f3picos de seus trabalhos,<br \/>\nquando lhe vem a ponto referir-se \u00e0s suas divisas ocidentais, mostra-no-las<br \/>\na ladearem, invariavelmente, as prov\u00edncias de Chiquitos e Moxos, pertencentes<br \/>\n\u00e0 Rep\u00fablica da Bol\u00edvia. Esclarece-as, por vezes, pormenorizadamente:<\/p>\n<p>&#8220;Quase todo o corpo do rio Mamor\u00e9 existe nos dom\u00ednio da<br \/>\nBol\u00edvia e somente as &#8216;\u00faltimas 34 l\u00e9guas, desde que se<br \/>\nlhe une o Guapor\u00e9 at\u00e9 \u00e0 sua foz no Madeira (refere-se<br \/>\na conflu\u00eancia do Beni), \u00e9 que s\u00e3o por n\u00f3s navegadas,<br \/>\n<em>separando <\/em>em <em>toda aquela extens\u00e3o a nossa prov\u00edncia<br \/>\nde Mato Grosso da de Moxos.&#8221; <\/em><br \/>\nOu ent\u00e3o afirmativas mais amplas, a abrangerem quase toda atual zona<br \/>\nlitigiosa:<br \/>\n&#8220;O rio Purus, que todo ele corre por dom\u00ednios da Bol\u00edvia.&#8221;(4)<\/p>\n<p>Poder\u00edamos prosseguir. Nesta intimidade com os nossos velhos patr\u00edcios,<br \/>\ncerto n\u00e3o nos faltariam elementos, quando tio fartos e em barda os<br \/>\nencontramos nos anais e arquivos estrangeiros. Mas os casos apontados, adrede<br \/>\nescolhidos em dois per\u00edodos imediatamente anteriores e subseq\u00fcentes<br \/>\n\u00e0 quadra da Independ\u00eancia, s\u00e3o bastantes \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que o nosso parecer atual se enra\u00edza, profundamente, na nossa pr\u00f3pria<br \/>\nhist\u00f3ria.<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>Voltando ao mapa de Gibbon, n\u00e3o maravilham as lacunas que nele existem,<br \/>\nrelativas \u00e0 ignota regi\u00e3o abarcante das cabeceiras do Juru\u00e1<br \/>\ne do Purus, at\u00e9 ao Acre meridional. Aqueles lugares, convizinhos das<br \/>\nraias peruanas, predestinavam-se aos \u00faltimos roteiros dos descobrimentos<br \/>\ngeogr\u00e1ficos na Am\u00e9rica do Sul.<br \/>\nEntretanto, \u00e0 volta e longe, desencadeavam-se largos movimentos povoadores,<br \/>\ndominando as zonas desconhecidas. No extremo oriente os bolivianos desvendaram<br \/>\nas terras do baixo Beni, onde, desde 1842, se erigira o Departamento do mesmo<br \/>\nnome; e D. Augustin Palacios, um de seus prefeitos, completara, em 1846, os<br \/>\nesfor\u00e7os dos portugueses e brasileiros na hidrografia completa do Madeira.<\/p>\n<p>Outros grandes tribut\u00e1rios, o Purus e o Javari, desde os tempos coloniais<br \/>\nhaviam sido percorridos em trechos dilatados.<br \/>\nRevelam-no as mais decisivas provas.<br \/>\nConsulte-se a carta geogr\u00e1fica do Dr. Ant\u00f4nio Pires da Silva<br \/>\nPontes, astr\u00f4nomo das reais demarca\u00e7\u00f5es, de 1784. Ver-se-\u00e1<br \/>\no tra\u00e7ado do Purus at\u00e9 perto de 6o de lat. S., com rigorismo<br \/>\ntal que, sem grandes discrep\u00e2ncias, pode ajustar-se aos levantamentos<br \/>\nmodernos; o que denuncia longos e pacientes esfor\u00e7os.(5)<br \/>\nContemplando-se a planta que constru\u00edram, em 1787, os Capit\u00e3es<br \/>\nengenheiros Jos\u00e9 Joaquim Vit\u00f3rio da Costa e Pedro Alexandrino<br \/>\nPinto de Sousa, nota-se que o Javari se desenha at\u00e9 5o 40&#8242; lat. Sul,<br \/>\nou at\u00e9 quase \u00e0s suas cabeceiras, por maneira a justapor-se em<br \/>\nquase todos os pontos \u00e0s cartas modernas, feitas de 1863 a 1901.<br \/>\nEstes exemplos satisfazem. Prolong\u00e1-los seria fazer a longa e bel\u00edssima<br \/>\nhist\u00f3ria, ainda in\u00e9dita, da geografia brasileira na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Apresentamo-los para o s\u00f3 destaque deste conceito: enquanto as pesquisas<br \/>\ngeogr\u00e1ficas irradiavam por toda a banda, na bacia do grande rio, paralisavam-se<br \/>\nde todo nos lugares mais pr\u00f3ximos do Ucayali e ao norte do Madre Dios.<\/p>\n<p>Em 1864, um anos ap\u00f3s publicar-se o livro de Paz Soldan, ainda reinavam,<br \/>\nno tocante \u00e0s nascentes do Juru\u00e1 e do Purus, as id\u00e9ias<br \/>\nd\u00fabias palidamente esbo\u00e7adas em 1818 pelos mission\u00e1rios<br \/>\ndo Col\u00e9gio de Santa Rosa de Ocopa, na planta das miss\u00f5es do<br \/>\nUcayali, publicada em 1833.(6)<br \/>\nAli, o Purus, sob o nome de Cuja, mal se adivinha incorretamente, no levante.<br \/>\nOs pr\u00f3prios mission\u00e1rios nunca o viram. Conforme o confessaram,<\/p>\n<p>e escreveram naquela carta, debuxaram-no <em>seg\u00fan varias relaciones<br \/>\nde los indios. <\/em>E ele assim ficou at\u00e9 \u00e0 viagem not\u00e1vel<br \/>\nde William Chandless, que prolongou os trabalhos do engenheiro Jo\u00e3o<br \/>\nMartins da Silva Coutinho e do abnegado Manoel Urbano, completados em 1905<br \/>\npor uma comiss\u00e3o mista brasileiro-peruana.<br \/>\nO mesmo quanto ao Madre de Dios. Malgrado as tentativas do pertinaz Padre<br \/>\nBovo de Revello, ele n\u00e3o perdera, ainda em 1848, o tra\u00e7ado misterioso<br \/>\ndo lend\u00e1rio Amaru-mayo dos <em>Commentarios reales, <\/em>de Garcilaso.<br \/>\nA famosa explora\u00e7\u00e3o de Faustino Maldonado (1852) que n\u00e3o<br \/>\nera um ge\u00f3grafo, nem um comissionado do Peru, mas um pr\u00f3fugo<br \/>\nviajante, ansioso por salvar-se em terras estrangeiras, fora nula, apesar<br \/>\nda valia que hoje se lhe pretende emprestar. Antonio Raimondi, em 1879, no<br \/>\nseu livro cl\u00e1ssico, garante-nos ter sido ela completamente est\u00e9ril:<br \/>\n<em>&#8220;No nos h\u00e1 dejado dado alguno&#8230;&#8221; <\/em><br \/>\nE aditava, mais longe, que, entre todos os rios daquelas paragens, <em>&#8220;el<br \/>\nMadre de Dios, es todav\u00eda sin duda alguna aquel cuyo curso es menos<br \/>\nconocido&#8221;.<\/em>(7)<br \/>\nPor fim o Inambari, elemento essencial no presente lit\u00edgio ainda em<br \/>\n1863, na poderosa opini\u00e3o do maior ge\u00f3grafo peruano, era:<br \/>\n<em>une rivi\u00e8re tres considerable qui separe la province de Carabaye<br \/>\ndu territoire des barbares&#8230; et un afluent du Maran\u00f3n dans lequel<br \/>\nil va se jeter apres une percours assez \u00eatendu.&#8221;<\/em>(8)<\/p>\n<p>A\u00ed se observa, a ladear o pasmoso erro geogr\u00e1fico, a insist\u00eancia<br \/>\nnaquela demarca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica cert\u00edssima:<br \/>\nN\u00e3o multipliquemos os exemplos.<br \/>\nAnte os que se inserem, n\u00e3o maravilha resultasse imperfeito, naqueles<br \/>\nlados, o belo trabalho de Gibbon. Mas as sombras geogr\u00e1ficas, que o<\/p>\n<p>esfor\u00e7o do <em>yankee <\/em>mal poderia romper, isolado, n\u00e3o<br \/>\nescurecem o crit\u00e9rio, que firmou, conscientemente, de serem, o Inambari<br \/>\ne o seu afluente Marcapata, os limites naturais e hist\u00f3ricos da Bol\u00edvia<br \/>\ncom o Peru; e a linha de Santo Ildefonso, a divis\u00f3ria exclusiva entre<br \/>\na Bol\u00edvia e o Brasil.<br \/>\nDestas linhas, que poder\u00edamos estender em muitas p\u00e1ginas, com<br \/>\no s\u00f3 aux\u00edlio do insuspeito livro de Antonio Raimondi, decorre<br \/>\noutra conseq\u00fc\u00eancia, robusta como um corol\u00e1rio ao fim de<br \/>\num teorema: a posse peruana nas cabeceiras do Juru\u00e1 e do Purus, nula,<br \/>\nde direito, antes de 1810, n\u00e3o se realizou, de fato, nos anos subsequentes<br \/>\nat\u00e9 aos Tratados de 1851 e 1867. Enquanto a Bol\u00edvia prolongava<br \/>\na sua avan\u00e7ada hist\u00f3rica para o norte, e desbravava e povoava<br \/>\nas terras que se desatam para o ocidente a come\u00e7ar da margem direita<br \/>\ndo Madeira, ao ponto de erigir-se, desde 1842, o Departamento do Beni a estirar-se<br \/>\npara o Madre de Dios, transpondo-o, at\u00e9 ao Acre meridional &#8211; no extremo<br \/>\noeste, \u00e0 parte a arremetida in\u00fatil de Maldonado, as explora\u00e7\u00f5es,<br \/>\nfeitas quase exclusivamente pelos mission\u00e1rios, reduziam-se, no seu<br \/>\nm\u00e1ximo avan\u00e7amento em busca dos territ\u00f3rios orientais,<br \/>\n\u00e0 grande expedi\u00e7\u00e3o, do Conde Francisco de Castelnau (1843-1847),<br \/>\nexecutada por ordem do Governo franc\u00eas.(9)<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>N\u00e3o se imp\u00f5e longa explana\u00e7\u00e3o deste assunto,<br \/>\nque est\u00e1 fora do lit\u00edgio, t\u00e3o rigorosamente inscrito<br \/>\nna \u00f3rbita fechada do <em>uti possidetis <\/em>de 1810.<br \/>\nRecordando-nos, por\u00e9m, que h\u00e1 pouco tempo, no contravir a v\u00e1rios<br \/>\nconceitos do professor John Moore, da Columbia University, um internacionalista,<br \/>\nfrancamente devotado \u00e0 causa peruana. Carlos Wiesse, professor da Faculdade<br \/>\nde S\u00e3o Marcos &#8211; aventurou, entre outras afirmativas cambaleantes, que<br \/>\no m\u00e9dio e baixo Purus n\u00e3o estavam na posse efetiva do Brasil<br \/>\nem 1822, aproveitemos o lance para destruir-lhe a obje\u00e7\u00e3o frag\u00edlima.(10)<\/p>\n<p>Com efeito, contrastando com a paralisia das entradas geogr\u00e1ficas no<br \/>\noriente peruano, naqueles tempos, a expans\u00e3o brasileira no Amazonas<br \/>\n(que se desenvolvera, no s\u00e9culo XVIII, linearmente, at\u00e9 Tabatinga)<br \/>\ndefinia-se, vigorosa, em movimentos laterais, que alargavam pelos maiores<br \/>\ntribut\u00e1rios ao sul do grande rio.<br \/>\nSobram-nos a este respeito documentos acordes todos no patentearem desde 1780,<br \/>\nos mais perseverantes esfor\u00e7os para o povoamento daquelas regi\u00f5es.<br \/>\nE no que toca ao Purus, o simples folhear as Revistas do nosso Instituto Hist\u00f3rico<br \/>\nnos revelaria que ele estava em tanta maneira conhecido, explorado em parte<br \/>\nde seu curso, percorrido no trecho inferior pelos extratores de drogas, e<br \/>\ndesafiando tanto o mais decidido \u00e2nimo de uma posse incondicional, e<\/p>\n<p><em>animus domini, <\/em>que determinou uma das mais curiosas extravag\u00e2ncias<br \/>\nda derradeira fase do reg\u00edmen colonial. De feito, o \u00faltimo governador<br \/>\ndo Rio Negro, Manuel Joaquim do Pa\u00e7o, em 1818, trancou-o. Proibiu que<br \/>\no sulcassem os pesquisadores de salsa e outras especiarias &#8211; &#8220;indo-se-lhe<br \/>\nos olhos cegos de sua ambi\u00e7\u00e3o atr\u00e1s dos preciosos frutos&#8221;,<br \/>\nconforme nos delata a palavra insuspeita de um cronista.(11)<br \/>\nDeste modo, muito ao rev\u00e9s do que aventurou o catedr\u00e1tico da<br \/>\nFaculdade de S\u00e3o Marcos, o Purus n\u00e3o estava na mesma condi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo m\u00e9dio e alto Mississipi, quando os disputavam os Estados Unidos<br \/>\ne Espanha. E o mesmo sucedia com o Juru\u00e1 e o Javari.<br \/>\nImobilizada a geografia peruana nas bordas do Ucayali, os descobrimentos dos<br \/>\ntribut\u00e1rios austrais do Amazonas s\u00e3o uma gl\u00f3ria privativa<br \/>\nde geografia brasileira.<br \/>\nAbandonar\u00edamos inteiramente o nosso assunto, mostrando-a.<br \/>\nSirva-nos de remate &#8211; e prova fulminante &#8211; extratar apenas mais um dos trechos<br \/>\ndo livro daquele Antonio Raimondi, que se nacionalizou no Peru gra\u00e7as<br \/>\na trabalhos memor\u00e1veis, e se erige em m\u00e1ximo inspirador das<br \/>\nlinhas mais atrevidas das modernas pretens\u00f5es peruanas.<br \/>\nEscrevia o historiador-ge\u00f3grafo em 1879:<br \/>\n<em>&#8220;Casi no cabe duda alguna, que deben existir comunicadones entre<br \/>\nel Ucayali y alg\u00fan otro tributario del Amazonas situado mas al oriente;<br \/>\npues se tiene noticias de varios casos que en el siglo pasado aparecieron<br \/>\nlos brasileiros en el Ucayali, sin haber entrado por la boca de este rio&#8221;.<br \/>\n<\/em>(12)<br \/>\nAssombrosa e rara antilogia: o Peru discute, reclama, exige; discute profusamente,<br \/>\nreclama insistentemente, exige, quase amea\u00e7adoramente, um territ\u00f3rio<br \/>\nacerca do qual o seu grande ge\u00f3grafo, o \u00fanico de seus ge\u00f3grafos<br \/>\ncapaz de continuar a tradi\u00e7\u00e3o luminosa de Paz Soldan, ainda<br \/>\nem 1879 s\u00f3 possu\u00eda not\u00edcias vagas, esmaecidas, a dilu\u00edrem-se<br \/>\nem conjecturas, por interm\u00e9dio&#8230; . dos brasileiros do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII!<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a><strong>Cap\u00edtulo VIII <\/strong><\/h2>\n<p>O TRATADO de limites de 23 de outubro de 1851, entre a Rep\u00fablica do<br \/>\nPeru e o Imp\u00e9rio do Brasil, foi, antes de tudo, uma troca de excepcionais<br \/>\nfavores.<br \/>\nAli se vendeu a pele do urso equatoriano&#8230;<br \/>\nO Imp\u00e9rio, admitindo a divis\u00f3ria pelo Javari, fortaleceu, com<br \/>\no seu grande prest\u00edgio, as pretens\u00f5es peruanas, que se estendiam<br \/>\nat\u00e9 aquele rio, tendo como s\u00f3 elemento de prova a controvertida<br \/>\nC\u00e9dula de 1802, a que se contrapunham, vitoriosamente: o atlas de Restrepo<br \/>\n(1827); a carta geral da Col\u00f4mbia, de Humboldt (1825); e, saliente-se<\/p>\n<p>este argumento extraordin\u00e1rio, o <em>Mapa f\u00edsico y pol\u00edtico<br \/>\n<\/em>do Peru, impresso em 1826 por ordem do Governo daquele pa\u00eds. Poder\u00edamos<br \/>\nir al\u00e9m: a que se contrapunha um Tratado, o de 1829, pactuado com a<br \/>\nConfedera\u00e7\u00e3o Colombiana e estabelecendo que os limites das terras<br \/>\naustrais, do Equador, abrangiam as prov\u00edncias de Jaens e de Maynas,<br \/>\nisto \u00e9, eram <em>&#8220;los mismos que tenian antes de su independencia<br \/>\nlos antigos Virreinatos de Nueva Granada y del Per\u00fa, seg\u00fan el<br \/>\n<\/em>uti possidetis <em>de 1810&#8243;.<\/em>(1)<br \/>\nComo quer que seja, as vantagens conseguidas pelo Peru foram enormes. Reduzimo-las,<br \/>\nanteriormente, a n\u00fameros: apropriou-se de 503.430 quil\u00f4metros<br \/>\nquadrados, ou sejam dois ter\u00e7os do Equador, conforme os c\u00e1lculos<br \/>\nde Teodoro Wolf.(2)<br \/>\nEm compensa\u00e7\u00e3o a Rep\u00fablica submeteu-se ao Imp\u00e9rio<br \/>\nna retr\u00f3grada tentativa deste para rnonopolizar a navega\u00e7\u00e3o<br \/>\namaz\u00f4nica, excluindo-a do com\u00e9rcio universal.<br \/>\n\u00c9 uma hist\u00f3ria de ontem, que se n\u00e3o precisa rememorar,<br \/>\nt\u00e3o vibrante ela a\u00ed est\u00e1, ao alcance de todos, nas p\u00e1ginas<br \/>\nrevoltadas de F. Maury e de Tavares Bastos.(3)<br \/>\nRegistre-se este \u00fanico incidente: enquanto os enviados extraordin\u00e1rios<br \/>\ne ministros plenipotenci\u00e1rios brasileiros, mandados \u00e0 Bol\u00edvia,<br \/>\nao Equador e \u00e0 Col\u00f4mbia, com o objetivo de firmarem, com estes<br \/>\npa\u00edses, o direito preeminente do Brasil \u00e0 navega\u00e7\u00e3o<br \/>\nde seus tribut\u00e1rios amaz\u00f4nicos, n\u00e3o logravam sequer entabular<br \/>\nas negocia\u00e7\u00f5es, o Peru, sem opor o mais breve embara\u00e7o<br \/>\na este alastramento da pol\u00edtica imperial &#8211; naquele caso realmente imperialista<br \/>\n&#8211; aceitava-o e sancionava-o, solenemente, com o Tratado de 1851. Desta arte<br \/>\nse aliou ao Imp\u00e9rio no prop\u00f3sito obscurantista, que F. Maury<br \/>\ndenunciou \u00e0 humanidade, em frases admir\u00e1veis blindadas de uma<br \/>\nl\u00f3gica irresist\u00edvel: isto \u00e9, na miss\u00e3o de frustrar<br \/>\ntodas as tentativas das rela\u00e7\u00f5es comerciais de outros mercados<br \/>\ncom aquelas Rep\u00fablicas, feitas pelos tribut\u00e1rios do grande rio<br \/>\n&#8211; e destinada a estancar aquela art\u00e9ria maravilhosa, perpetuando, num<br \/>\nmonop\u00f3lio odioso, o marasmo que durante tr\u00eas s\u00e9culos entibiara<br \/>\no desenvolvimento econ\u00f4mico da Amaz\u00f4nia.<br \/>\n&#8220;O Peru deixou-se lograr e fez o Tratado exigido&#8221;,(4) conceituou<br \/>\no esclarecido oficial de marinha.<br \/>\nE iludiu-se. Iludiu-se palmarmente.<br \/>\nVemo-lo agora.<br \/>\nMas n\u00e3o lhe malsinemos a perspic\u00e1cia. Qualquer observador mais<br \/>\nbem apercebido de acurada mal\u00edcia, ou sutil arg\u00facia, subscreveria,<br \/>\nnaquele tempo, aquela frase. Fora preciso gizar-se a mais absurda entre as<br \/>\nmais complexas maranhas internacionais, para conjecturar-se que no Tratado<br \/>\nde 1851, onde os limites bras\u00edlio-peruanos se tra\u00e7am de maneira<br \/>\nt\u00e3o l\u00edmpida, houvesse, latentes, tantos g\u00e9rmens de d\u00favidas<br \/>\ncapazes de justificarem o presente lit\u00edgio &#8211; por maneira a prever-se<br \/>\na invers\u00e3o da frase do <em>yankee, <\/em>ao fim de meio s\u00e9culo:<\/p>\n<p>&#8220;O Brasil deixou-se lograr, no Tratado que firmou&#8230;&#8221;<br \/>\nRealmente, as nossas rela\u00e7\u00f5es eram muito conhecidas, ao celebrarem-se<br \/>\nos Conv\u00eanios de 1851 e de 1867, com o Peru e com a Bol\u00edvia. De<br \/>\num lado, para com o primeiro, em tanta maneira male\u00e1vel aos caprichos<br \/>\nda pol\u00edtica imperial, todas as simpatias; de outro, para com a segunda,<br \/>\nperenemente recalcitrante e rebelde e agressiva, todas as animadvers\u00f5es<br \/>\ne azedumes. Ainda em 1867 um dos luminares da nossa hist\u00f3ria diplom\u00e1tica,<br \/>\nAnt\u00f4nio Pereira Pinto, conceitava que &#8220;na Bol\u00edvia as tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\nadversas ao Brasil passavam em seu Governo de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o&#8221;.(5)<\/p>\n<p>Datavam de 1833 as ciz\u00e2nias entre ela e o Imp\u00e9rio, no tocante<br \/>\n\u00e0s quest\u00f5es de limites; e nunca mais cessaram, engravescendo-se,<br \/>\ncrescentemente, com outras: em 1837 a prop\u00f3sito das sesmarias outorgadas<br \/>\nem territ\u00f3rios brasileiros; em 1844, oriundas das tentativas Bolivianas,<br \/>\nvisando franquear a navega\u00e7\u00e3o para o Amazonas; em <em>1845,<br \/>\n<\/em>1846 e 1847, at\u00e9 <em>1850, <\/em>relativas todas, em \u00faltima<br \/>\nan\u00e1lise, ao dom\u00ednio amplo do Madeira; em 1853-1858, irrompendo<br \/>\ndos decretos declarando livres ao com\u00e9rcio e navega\u00e7\u00e3o<br \/>\nestrangeiros todos os rios que regam o territ\u00f3rio boliviano, fluindo<br \/>\npara o Amazonas e para o Prata; e firmando, expressamente, com os Estados<br \/>\nUnidos, um conv\u00eanio, onde se estatui que todos aqueles cursos d&#8217;\u00e1gua<br \/>\neram caminhos livres, &#8216;&lt;abertos pela natureza ao com\u00e9rcio de todas<br \/>\nas na\u00e7\u00f5es&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Durante esse tempo abortavam as confer\u00eancias e propostas para se resolverem<br \/>\nos deslindes internacionais desde 1841, em que se frustrara a miss\u00e3o<br \/>\nespecial do Conselheiro Ponte Ribeiro. E os malogros, assim como as demais<br \/>\ndisc\u00f3rdias, de relance precitadas, provinham, sobretudo, ao parecer<br \/>\nde Pereira Pinto, &#8220;de n\u00e3o quererem as autoridades supremas da<br \/>\nRep\u00fablica arredar-se das estipula\u00e7\u00f5es do Tratado de 1777,<br \/>\nestipula\u00e7\u00f5es caducas depois da guerra de 1801&#8221;.<br \/>\nDestaquemos bem a raz\u00e3o, que a\u00ed est\u00e1 entre aspas, sob<br \/>\na responsabilidade do l\u00facido internacionalista. O Imp\u00e9rio, esteando-se<br \/>\nno argumento (ali\u00e1s opin\u00e1vel e fr\u00e1gil, porque h\u00e1<br \/>\noutros mais s\u00e9rios, como j\u00e1 o vimos) da guerra de 1801, obstinadamente<br \/>\nrepelia, ou negava, as divisas do Tratado de Santo Ildefonso, para guiar-se<br \/>\nnas demarca\u00e7\u00f5es modernas; e como a Bol\u00edvia<br \/>\n&#8220;era um dos Estados sul-americanos mais pertinazmente interessados na<br \/>\nvig\u00eancia daquele Tratado&#8221;, ensina-nos o publicista nomeado, resultaram<br \/>\ndestes crit\u00e9rios, diametralmente contr\u00e1rios, os empe\u00e7os<br \/>\ndilat\u00f3rios no se pactuarem os limites respectivos.<br \/>\nA considera\u00e7\u00e3o \u00e9 capital, m\u00e1xime se a defrontarmos<br \/>\ncom as docilidades e lhanezas, que favoreceram o Conv\u00eanio de 1851 com<br \/>\no Peru.<br \/>\nCom efeito, deduz-se, lisamente, que o grande empecilho contraposto ao curso<br \/>\nda pol\u00edtica imperial, naqueles deslindamentos &#8211; o pacto de Santo Ildefonso<br \/>\ne a sua famosa divis\u00f3ria e principalmente a sua famosa divis\u00f3ria<br \/>\nMadeira-Javari &#8211; se eliminou de todo no acordo brasileiro-peruano.<br \/>\nE a l\u00f3gica singela e forte dos fatos. Aparece, irresist\u00edvel,<br \/>\nao cabo de antecedentes hist\u00f3ricos, que se n\u00e3o iludem.<br \/>\nO Imp\u00e9rio n\u00e3o celebraria a Conven\u00e7\u00e3o de 1851,<br \/>\ncom a Rep\u00fablica do Pac\u00edfico, se houvesse de respeitar a caduca<br \/>\ndemarca\u00e7\u00e3o que desde 1841 tanto o desarmonizava com a Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>A evid\u00eancia \u00e9 luminosa.<br \/>\nE, se lhe restassem ensombros, delir-lhos-ia este fato sabid\u00edssimo:<br \/>\no fracasso de todas as negocia\u00e7\u00f5es com a Bol\u00edvia subsecutivas<\/p>\n<p>aos Conv\u00eanios bras\u00edlio-peruanos, de 1851 e <em>1858, <\/em>at\u00e9<br \/>\naos reiterados esfor\u00e7os de nosso Ministro Rego Monteiro, em 1863.<br \/>\nEntretanto, este transigira. Ao fim de 20 anos de notas contrariadas, o Imp\u00e9rio<br \/>\ncedera, em parte, \u00e0 pertin\u00e1cia boliviana. Em confer\u00eancia<br \/>\nde 17 de julho daquele ano, o seu plenipotenci\u00e1rio prop\u00f4s a base<br \/>\nque mais tarde, quase sem variantes, se refletiria nos deslindamentos de 1867:<br \/>\na linha lim\u00edtrofe, ap\u00f3s seguir o Paraguai, o Guapor\u00e9<br \/>\ne o Madeira at\u00e9 \u00e0 foz do Beni,<br \/>\n&#8220;seguiria dali para Oeste por uma paralela tirada da margem esquerda,<br \/>\nna latitude de 10&#8242; 20&#8242; ate&#8217; encontrar o rio Javari; e se este tivesse as suas<br \/>\nnascentes ao norte daquela linha, seguiria por uma reta, tirada da mesma latitude,<br \/>\na buscar a nascente principal do mesmo rio&#8221;.<br \/>\nEra, como se est\u00e1 vendo, n\u00e3o j\u00e1 o embri\u00e3o do Tratado<br \/>\nde 1867, sen\u00e3o todo ele, Integro.<br \/>\nA Bol\u00edvia, por\u00e9m, repulsou a proposta. N\u00e3o cedeu um passo<br \/>\nnas antigas exig\u00eancias. Insistiu na sua divis\u00f3ria intang\u00edvel,<br \/>\nde Santo Ildefonso.<br \/>\nAs negocia\u00e7\u00f5es romperam-se.<br \/>\nInterpretem-se, agora, os fatos. Havia doze anos (1851-1863) que se celebrara<br \/>\no pacto com o Peru, \u00e0 luz de um princ\u00edpio novo, removendo os<br \/>\ndeslindes anacr\u00f4nicos das metr\u00f3poles. A pol\u00edtica imperial<br \/>\nvia-os renascer, contrariando-a, nas suas negocia\u00e7\u00f5es com a<br \/>\nBol\u00edvia. Demasiara-se nos maiores esfor\u00e7os, durante dois dec\u00eanios,<br \/>\npor elimin\u00e1-los. N\u00e3o o conseguindo, transigiu, alterando-os<br \/>\nligeiramente, e deslocando a leste-oeste para o ponto indicado pelos antigos<br \/>\ncomiss\u00e1rios portugueses. Apesar disto a Bol\u00edvia n\u00e3o aquiesceu.<br \/>\nManteve, pertinazmente, o que julgava ser-lhe direito claro, exclusivo, inalien\u00e1vel.<br \/>\nAs negocia\u00e7\u00f5es fracassaram ruidosamente. Engravesceram as rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos dois pa\u00edses&#8230; E durante todo esse tempo o Peru mandava os seus<br \/>\ncomiss\u00e1rios, emparceirados aos nossos, a demarcarem as linhas do Javari,<br \/>\nconsoante o acordo de 1851, ratificado em <em>1858. <\/em>N\u00e3o emitiu,<br \/>\nou boquejou, o mais balbuciante ju\u00edzo no debate fervoroso, que se lhe<br \/>\ntravara \u00e0s ilhargas. N\u00e3o insinuou, no decurso de doze anos,<br \/>\nem que coexistiram os seus conv\u00eanios tranq\u00fcilos e as negocia\u00e7\u00f5es<br \/>\nperturbad\u00edssimas da Bol\u00edvia, o mais remoto interesse, prendendo-o<br \/>\naos territ\u00f3rios, onde se abria o campo da disc\u00f3rdia. N\u00e3o<br \/>\ndisse aos contendores que o seu parecer, embora consultivo, era indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Fez isto: naquele mesmo ano, quatro meses apenas depois de baquearem as nossas<br \/>\ntentativas com a Bol\u00edvia, porque a Bol\u00edvia impunha o tra\u00e7ado<br \/>\ncompleto da linha de Santo Ildefonso, por que a Bol\u00edvia recalcitrava,<br \/>\nexigindo todas as terras amaz\u00f4nicas ao sul daquele paralelo, porque<br \/>\na Bol\u00edvia n\u00e3o cedera, obstinadamente, um s\u00f3 hectare <em>da<br \/>\n<\/em>zona <em>hoje litigiosa <\/em>&#8211; o Peru celebrou com a Bol\u00edvia o<br \/>\nTratado de Paz e Amizade de 5 de novembro de 1863, onde n\u00e3o se cogita,<br \/>\nsob nenhum aspecto, dos deslindamentos grav\u00edssimos, cada vez mais insol\u00faveis<br \/>\nao cabo das mais longas, das mais repetidas, das mais demoradas, das mais<br \/>\ninfrut\u00edferas confer\u00eancias, em que surgiam, como elemento \u00fanico<br \/>\nde desarmonia, precisamente os <em>territ\u00f3rios constituintes do atual<br \/>\nlit\u00edgio. <\/em>(6)<br \/>\nComo explicar-se esta atitude?<br \/>\nResta um doloroso dilema: ou o Peru reconhecia, de modo t\u00e1cito, que<br \/>\nse lhe alheavam de todo aquelas terras, sobre as quais n\u00e3o poderia<br \/>\nexercitar o mais apagado direito &#8211; ou aguardava que a Bol\u00edvia, devotando-se<br \/>\nainda uma vez ao seu papel de cavaleira andante da ra\u00e7a espanhola,<br \/>\ne intr\u00e9pida amazona da Amaz\u00f4nia, se esgotasse nos debates diplom\u00e1ticos,<br \/>\ne sucumbisse, ao cabo, dessangrada em uma guerra desigual prestes a romper,<br \/>\npara alevantar um direito tardio, entre as ru\u00ednas.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 fugir \u00e0s proposi\u00e7\u00f5es contrastantes.<br \/>\nEstamos afeitos \u00e0s dedu\u00e7\u00f5es rispidamente matem\u00e1ticas.<br \/>\nPara quebrar-se a ponta que lanceia, a\u00ed, a honra nacional de uma terra<br \/>\ntimbrosa de suas tradi\u00e7\u00f5es cavalheirescas, \u00e9 for\u00e7oso<br \/>\nadmitir-se a infrangibilidade da outra. Admitimo-la de bom grado: o Peru,<br \/>\nem 1863, data em que se infirmaram as nossas rela\u00e7\u00f5es com a<br \/>\nBol\u00edvia, data em que se firmaram as suas rela\u00e7\u00f5es com<br \/>\na Bol\u00edvia, reconhecia o direito exclusivo desta \u00faltima \u00e0<br \/>\nposse das terras hoje controvertidas.<br \/>\nE o reconhecimento acentuou-se. Progrediu. Rotas as negocia\u00e7\u00f5es,<br \/>\no nosso Ministro pediu os passaportes e retirou-se da Rep\u00fablica incontent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Entre os dous pa\u00edses, as rela\u00e7\u00f5es, turvando-se, assumiram<br \/>\nesse sombrio aspecto crepuscular, que n\u00e3o raro se rompe aos repentinos<br \/>\nbrilhos das espadas. Al\u00e9m disto, o micr\u00f3bio da guerra envenenava<br \/>\no ambiente pol\u00edtico, germinando nas sangueiras do Paraguai. A Am\u00e9rica<br \/>\nestremecia na sua maior campanha. Toda a nossa for\u00e7a molificava-se<br \/>\nante a retratibilidade de Solano Lopes e a inconsist\u00eancia dos &#8220;esteros&#8221;<br \/>\nempantanados&#8230;<br \/>\nA ocasi\u00e3o surgia a talho a que a pol\u00edtica imperial resolvesse,<br \/>\nde um lance, dois problemas capitais, na conjuntura apavorante em que se via:<br \/>\ncaptar o bem-querer do Peru, cuja antiga cordialidade resfriara, trocando-se<br \/>\npor simpatias ao Paraguai, ao ponto de ocasionar a retirada, de Lima, do nosso<br \/>\nrepresentante Francisco Varnhagen; e revidar, triunfantemente, \u00e0 tradicional<br \/>\nadvers\u00e1ria, que nos amea\u00e7ava pelos flancos de Mato Grosso. Para<br \/>\nisto um meio infal\u00edvel: atrair o Peru \u00e0 posse das maravilhosas<br \/>\nterras da Amaz\u00f4nia meridional.<br \/>\nMas n\u00e3o se aventou sequer este alvitre.<br \/>\nO Imp\u00e9rio manteve-se, nobremente, no plano superior das nossas tradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Submeteu-se \u00e0 retitude do nosso passado pol\u00edtico. N\u00e3o<br \/>\nrepudiou os ensinamentos austeros dos nossos velhos cronistas e dos melhores<br \/>\nge\u00f3grafos, que estabeleciam, un\u00e2nimes, o direito boliviano naquelas<br \/>\nterras.<br \/>\nAbandonou, galhardamente, o desvio que o favorecia; e firmou o Tratado de<br \/>\nAyacucho, de 27 de mar\u00e7o de 1867, decalcando-o, linha por linha, pelas<br \/>\nbases propostas em julho de<br \/>\n1863.<br \/>\nDecalcando-o, frase por frase, pelas bases propostas em 1863 &#8211; \u00e9 indispens\u00e1vel<br \/>\nrepetir, porque em v\u00e1rias p\u00e1ginas de l\u00eddimo castelhano<br \/>\nse tem garantido, bumoristicamente, que o firmamos urgidos, ou aguilhoados,<br \/>\ndas dificuldades que nos assoberbavam sob o alfinetar das baionetas paraguaias.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que em 1867, a despeito das vicissitudes de uma guerra &#8211; grav\u00edssimas,<br \/>\nembora o nosso Ex\u00e9rcito j\u00e1 se houvesse imortalizado em Tuiuti<br \/>\n&#8211; o Brasil manteve a base oferecida cinco anos antes, quando a sua hegemonia<br \/>\nmilitar no continente era incontest\u00e1vel, aparecendo entre o desmantelo<br \/>\nda ditadura suplantada de Rosas e os triunfos, a passo de carga, da campanha<br \/>\ndo Uruguai.<br \/>\nOra, pactuado aquele conv\u00eanio, pelos plenipotenci\u00e1rios Filipe<br \/>\nLopes Neto e Mariano Du\u00f1oz, os bolivianos, em massa, protestaram. A<br \/>\nconsci\u00eancia nacional rebelou-se contra o governo que deslocara a velha<br \/>\nlinha hist\u00f3rica.<br \/>\nExplodiu em panfletos violent\u00edssimos.<br \/>\nA ditadura de Melgarejo reagiu, discricion\u00e1ria. Lavraram-se proscri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E durante a crise tempestuosa o Peru quedou na mais imperturb\u00e1vel e<br \/>\nc\u00f4moda quietude.<br \/>\nProtestou, afinal, transcorridos nove meses. O protesto, subscrito pelo Ministro<br \/>\ndas Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, J. A. Barrenechea, \u00e9 de 20 de<br \/>\ndezembro de 1867. Nove meses justos, que a no\u00e7\u00e3o relativa do<br \/>\ntempo torna sobremodo longos na precipita\u00e7\u00e3o acelerada dos acontecimentos.<\/p>\n<p>Mas protestou; e no protesto tranluz, notavelmente, a insubsist\u00eancia<br \/>\ndas pretens\u00f5es peruvianas. Raras vezes se encontrar\u00e1 documento<br \/>\npol\u00edtico onde se contrabatam, \u00e0s esbarradas, as maiores antilogias<br \/>\ne se abram, em cada per\u00edodo, t\u00e3o numerosas frinchas \u00e0<br \/>\nmais f\u00e1cil cr\u00edtica demolidora. (7)<br \/>\nO Ministro, ao termo da penosa gesta\u00e7\u00e3o, come\u00e7a ponderando<br \/>\nque sempre<br \/>\n<em>&#8220;havia creido que era conveniente para las Rep\u00fablicas aliadas<br \/>\ndarse conocimiento de sus negociaciones diplom\u00e1ticas&#8221;, <\/em>quando<br \/>\nhavia 25 anos, desde 1841, que as negocia\u00e7\u00f5es bras\u00edlio-bolivianas,<br \/>\nruidosas, alarmantes, cindidas no intermitir de sucessivos fracassos, preocupavam<br \/>\na opini\u00e3o geral sul-americana.<br \/>\nE talvez n\u00e3o demonstrasse que os acordos anteriores, do Peru, houvessem<br \/>\nsatisfeito \u00e0 conveni\u00eancia de uma consulta pr\u00e9via \u00e0<br \/>\nBol\u00edvia. Depois, doutrina professoralmente que o princ\u00edpio do<br \/>\n<em>uti possidetis, <\/em>estabelecido no Tratado de 1867, embora se pudesse<br \/>\ninvocar com justi\u00e7a nas controv\u00e9rsias territoriais das na\u00e7\u00f5es<br \/>\nhispano-americanas oriundas de uma metr\u00f3pole comum, n\u00e3o poderia<br \/>\naplicar-se, tratando-se de pa\u00edses dantes submetidos a metr\u00f3poles<br \/>\ndiversas, entre as quais havia pactos internacionais regulando-lhes os dom\u00ednios<br \/>\n&#8211; deslembrando-se que aquele mesm\u00edssimo princ\u00edpio expressamente<br \/>\naceito pelo Peru fora o \u00fanico em que se baseara o Conv\u00eanio de<br \/>\n1851, ratificado em 1858. Apesar disto preleciona:<br \/>\n<em>&#8220;Asi el <\/em>uti possidetis <em>no podia tener lugar entre Bol\u00edvia<br \/>\ny Brasil&#8230;&#8221; <\/em><br \/>\nProssegue. Refere-se \u00e0 semidist\u00e2ncia do Madeira. Esclarece-lhe<br \/>\na posi\u00e7\u00e3o verdadeira. (8) Arg\u00fai, amargamente, a Bol\u00edvia<br \/>\nde permitir que ela se mudasse tanto para o sul, o que importava na perda<br \/>\nde dez mil l\u00e9guas quadradas de terrenos, incorporados ao Brasil, onde<br \/>\nse deparam:<br \/>\n<em>&#8220;r\u00edos importantisimos, tales como el Purus, ei Yuru\u00e1<br \/>\ny Yutay, cuyo porvenir comercial puede ser inmenso&#8221;; <\/em><br \/>\ne, logo adiante, esquecido da semidist\u00e2ncia, t\u00e3o pecaminosamente<br \/>\ndeslocada pela complacente Bol\u00edvia, que se n\u00e3o devera mudar<br \/>\ntanto para o sul (porque ela deveria interferir o Javari em 6o <em>52&#8242;, <\/em>consoante<br \/>\no ju\u00edzo de Raimondi, restaurado, \u00e0s cegas, nas atuais pretens\u00f5es<br \/>\nperuanas), escreve que, conforme o Pacto de 1851, entre o Brasil e o Peru,<\/p>\n<p>&#8230;. <em>todo el curso del rio Javary es limite com\u00fan entre los Estados<br \/>\ncontratantes. <\/em><br \/>\nE um jogo estonteante de incongru\u00eancias curios\u00edssimas.<br \/>\nPor fim, a ser\u00f4dia impugna\u00e7\u00e3o n\u00e3o afirma, n\u00e3o<br \/>\nprecisa, n\u00e3o acentua um ju\u00edzo claro dos preju\u00edzos peruanos.<br \/>\nN\u00e3o diz o que reclama. O protesto \u00e9 o murm\u00fario vacilante<br \/>\ne medroso de uma conjectura; \u00e9 a express\u00e3o an\u00f3dina de<br \/>\num interesse aleat\u00f3rio: o governo boliviano cedeu ao Brasil territ\u00f3rios<br \/>\n<em>&#8220;que pueden ser de la propriedad del Per\u00fa&#8221;. <\/em><br \/>\nQue <em>pueden ser&#8230; <\/em><br \/>\nA\u00ed est\u00e1 o corpo de delito direto da maior e mais insensata cinca<br \/>\nda pol\u00edtica internacional sul-americana. (9)<br \/>\nEste documento, que n\u00e3o resiste \u00e0 mais romba e desfalecida an\u00e1lise,<br \/>\ndevia ser o que foi e o que \u00e9: contradit\u00f3rio, fr\u00e1gil,<br \/>\nbambeante, sem nenhuma pertin\u00eancia jur\u00eddica, e a destruir-se<br \/>\npor si mesmo na decomposi\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da pr\u00f3pria<br \/>\ninstabilidade, advinda, a um tempo, do contraste e diverg\u00eancia dos seus<br \/>\nconceitos, que ora se anulam, entrechocando-se, ora, disparatando, des agregam-se<br \/>\ne pulverizam-se.<br \/>\nO per\u00edodo gestat\u00f3rio de nove meses, h\u00e1 pouco considerado<br \/>\nlongo, achamo-lo, agora, apertad\u00edssimo. Em nove meses apenas, o mais<br \/>\nprodigioso g\u00eanio n\u00e3o conceberia paralogismo, para iludir tr\u00eas<br \/>\ns\u00e9culos, escrevendo quatro ou cinco p\u00e1ginas capazes de embrulharem<br \/>\ntoda a hist\u00f3ria sul-americana.<br \/>\nN\u00e3o vale a pena prosseguir. Deste lance em diante o assunto decai.<br \/>\nBaste-se dizer que, por paliar, ou rejuntar, superficialmente, estes estalos<br \/>\nna estrutura de seu protesto e das suas exig\u00eancias, apela o Governo<br \/>\nperuano para o adi\u00e1foro, o v\u00e1tio, o insubsistente, dos dizeres<br \/>\nde algumas instru\u00e7\u00f5es aos comiss\u00e1rios demarcadores dos<br \/>\nlimites, entre 1863 e 1874. N\u00e3o nos afadiguemos na tarefa in\u00fatil<br \/>\nde apur\u00e1-las. Satisfaz-nos, a este prop\u00f3sito, uma considera\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00fanica: quaisquer que elas fossem, aquelas instru\u00e7\u00f5es<br \/>\ndebateram-se, balancearam- se, longos anos, por maneira a prevalecer, naturalmente,<br \/>\no crit\u00e9rio das delibera\u00e7\u00f5es finais.<br \/>\nPois bem &#8211; o comiss\u00e1rio brasileiro que, de harmonia com o peruano,<br \/>\nimplantou o &#8220;marco definitivo&#8221; dos nossos deslindamentos com o Peru,<br \/>\nem 1874, nas cabeceiras do Javari, foi o venerando Bar\u00e3o de Tef\u00e9;<br \/>\ne ele, que com o maior brilho repelira as constantes propostas de seu colega,<br \/>\nM. Rouaud y Paz Soldan, para adotar-se a c\u00e9lebre linha m\u00e9dia,<br \/>\ndo Madeira ao Javari, mesmo escandalosamente deslocada para 9o <em>30&#8242; <\/em>de<br \/>\nlatitude sul, conforme, reiteradamente, aquele lhe oferecera em documentos<br \/>\noficiais inequ\u00edvocos e l\u00edmpidos &#8211; o Bar\u00e3o de Tef\u00e9,<br \/>\na quem se pode cortejar desafogadamente, porque na sua quase exist\u00eancia<br \/>\nhist\u00f3rica \u00e9 apenas um rel\u00edquia sagrada do nosso passado,<br \/>\nsem a mais breve influ\u00eancia nos neg\u00f3cios p\u00fablicos &#8211; ao<br \/>\nimplantar o marco definitivo do Javari manteve, integral, o parecer vitorioso<br \/>\nque impusera ao comiss\u00e1rio peruano, consistindo nestes pontos essenciais:<\/p>\n<p>1o &#8211; Que o Peru nenhum direito possu\u00eda \u00e0 margem direita do Madeira;<\/p>\n<p>2o &#8211; Que a Rep\u00fablica do Peru no Tratado solene celebrado com o Imp\u00e9rio<br \/>\ndo Brasil, estabelecera como limite <em>todo <\/em>o <em>curso do rio Javari;<br \/>\n<\/em>por isto considerou nulo o art. 9o do Tratado de Santo Ildefonso, que<br \/>\nfixava o extremo sul da fronteira do Javari no ponto cortado pela linha leste-oeste.<br \/>\ntirada a meia dist\u00e2ncia do Madeira, que \u00e9 o mesmo paralelo dos<br \/>\n7o 40&#8242; dos comiss\u00e1rios de 1781.<br \/>\nNestas palavras ultimaram-se para sempre os nossos neg\u00f3cios territoriais<br \/>\ncom o Peru.<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>O prolongamento natural destas linhas consistiria em desvendar o cen\u00e1rio<br \/>\nda recent\u00edssima expans\u00e3o daquela Rep\u00fablica, a estirar-se<br \/>\npelas cabeceiras do Juru\u00e1 e do Purus &#8211; obscuramente, temerosamente<\/p>\n<p>e criminosamente &#8211; escondida no afogado das <em>selvas oscuras <\/em>das <em>castill\u00f4as,<br \/>\n<\/em>por onde vai alastrando-se a rede, aprisionadora de territ\u00f3rios,<br \/>\nentretecida pelas trilhas tortuosas e fugitivas dos <em>caucheiros. <\/em><br \/>\nMas estes, reclamam-no-los outras p\u00e1ginas.<\/p>\n<p align=\"center\">*<\/p>\n<p>Terminemos.<br \/>\nEstes artigos t\u00eam a valia da pr\u00f3pria celeridade com que se escreveram.<br \/>\nS\u00e3o p\u00e1ginas em flagrante. N\u00e3o houve, materialmente, tempo<br \/>\npara se ataviarem frases, expostas na c\u00e2ndida nudez de uma espl\u00eandida<br \/>\nsinceridade.<br \/>\nFomos apenas eco de maravilhosas vozes antigas. Partimos s\u00f3s, tateantes<br \/>\nna penumbra de uma idade remota. Avan\u00e7amos; e arregimentou-se-nos em<br \/>\ntorno uma legi\u00e3o sagrada, mais e mais numerosa, onde rebrilham os melhores<br \/>\nnomes dos fastos de uma e outra metr\u00f3pole. Chegamos ao fim, malgrado<br \/>\na nossa desvalia, a comandar imortais.<br \/>\nDa\u00ed a absolvi\u00e7\u00e3o desta vaidade: n\u00e3o nos dominaram<br \/>\nsugest\u00f5es. Num grande ci\u00fame de uma responsabilidade exclusiva,<br \/>\nn\u00e3o a repartimos. O que a\u00ed est\u00e1 &#8211; imaculada e \u00edntegra<br \/>\n&#8211; \u00e9 a autonomia plena do escritor.<br \/>\nMuitos talvez n\u00e3o compreendam que, numa \u00e9poca de cerrado utilitarismo,<br \/>\nalgu\u00e9m se demasie em tanto esfor\u00e7o numa advocacia rom\u00e2ntica<br \/>\ne cavalheiresca, sem visar um lucro ou interesse indiretos. Tanto pior para<br \/>\nos que n\u00e3o o compreendam. Falham \u00e0 primeira condi\u00e7\u00e3o<br \/>\npr\u00e1tica, positiva e utilit\u00e1ria da vida, que \u00e9 o aformose\u00e1-la.<\/p>\n<p>De tudo isto nos resultou um pr\u00eamio: nivelamo-nos aos princ\u00edpios<br \/>\nliberais de nosso tempo. Basta-nos. Afei\u00e7oamo-nos, h\u00e1 muito,<br \/>\naos triunfos tranq\u00fcilos, no meio da multid\u00e3o sem voz dos nossos<br \/>\nlivros. Hoje, como ontem, obedecendo \u00e0 finalidade de um ideal, repelimos,<br \/>\ndo mesmo passo, o conv\u00edcio e o aplauso, o castigo e a recompensa, o<br \/>\ndesquerer e a simpatia.<br \/>\nN\u00e3o combatemos as pretens\u00f5es peruanas. Denunciamos um erro.<\/p>\n<p>N\u00e3o defendemos os direitos da Bol\u00edvia.<br \/>\nDefendemos o Direito.<\/p>\n<h2>Notas adicionais indispens\u00c1veis:<\/h2>\n<div align=\"center\">I<\/div>\n<p>Os dizeres dos plenipotenci\u00e1rios portugueses e espanh\u00f3is, extractados<br \/>\nem v\u00e1rias p\u00e1ginas do cap\u00edtulo III, pertencem a documentos<br \/>\nexistentes no Arquivo de Simancas, Legajos 7 403 e<br \/>\n7 406.<\/p>\n<p align=\"center\">II<\/p>\n<p>A Real C\u00e9dula de 15 de setembro de 1772, tantas vezes citada, consta<br \/>\ndo <em>Archivo de \u00cdndias, <\/em>Est. 120. Cap. 7. Leg. 27.<\/p>\n<p align=\"center\">III<\/p>\n<p>O Memorial de Bartolomeu Verdugo, e as informa\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios<\/p>\n<p>ministros expostas no cap\u00edtulo IV &#8211; existem no <em>Archivo de \u00cdndias,<br \/>\n<\/em>Leg. 27.<\/p>\n<p align=\"center\">Ap\u00eandice &#8211; Protesta del Peru<\/p>\n<p>Ministerio de Relaciones Exteriores del Per\u00fa &#8211; Lima, Diciembre 20<br \/>\nde 1867.<br \/>\nSe\u00f1or Ministro: El infrascrito, Ministro de Relaciones Exteriores del<br \/>\nPer\u00fa, tiene el honor de dirigirse \u00e1 S. E. el Se\u00f1or Ministro<br \/>\nde igual clase de la Rep\u00fablica de Bol\u00edvia, con motivo del Tratado<br \/>\nque se ha celebrado en La Paz entre Bol\u00edvia y el Brasil el 27 de Marzo<br \/>\ndel presente a\u00f1o, y a fin de salvar los detechos del Per\u00fa comprometidos<br \/>\nen este acto internacional.<br \/>\nPoco despu\u00e9s de la llegada del Se\u00f1or L\u00f3pez Netto a Bol\u00edvia,<br \/>\ncomenz\u00f3 a hablarse de la negociaci\u00f3n de un Tratado de Limites,<br \/>\ny solo \u00faltimamente se tuvo noticia de la celebraci\u00f3n de un importante<br \/>\npacto entre los dos pa\u00edses. Ele infrascrito que por diferentes motivos<br \/>\ndebia hacerse int\u00e9rprete del inter\u00e9s que tiene el Per\u00fa<br \/>\nen todo lo relativo a Bol\u00edvia, habi\u00f3 sobre el particular al<br \/>\nSe\u00f1or Benavente; pero S. E. no tenia conocimiento alguno del contenido<br \/>\nde aquel Tratado; y el Gobierno del Per\u00fa ha aguardado a que ese notable<br \/>\ndocumento fuese publicado en los periodicos para imponerse de su contenido.<\/p>\n<p>El infrascrito habia creido que era conveniente para las Rep\u00fablicas<br \/>\naliadas, darse conocimiento de sus negociaciones diplom\u00e1ticas m\u00e1s<br \/>\nimportantes: y no s\u00f3lo tenia, sin\u00f3 que conserva a\u00fan el<br \/>\nprop\u00f3sito de no concluir ning\u00fan pacto de alguna gravidad sin<br \/>\ncomunicar su pensamiento a las Rep\u00fablicas hermanas, que est\u00e1n<br \/>\nllamadas a formar entre si una entidad internacional. Por lo mismo habr\u00eda<br \/>\ndeseado encontrar en Bolivia el mismo pensamiento y fortificar la uni\u00f3n<br \/>\npor una reciprocidad de miras y de sentimientos que parece desprenderse de<br \/>\nla situaci\u00f3n actual. En el presente caso, la confianza entre el Per\u00fa<br \/>\ny Bol\u00edvia tenia otros motivos de justificaci\u00f3n, nacidos, por<br \/>\nun lado, del estado en que encuentra las relaciones de limites entre las dos<br \/>\nRep\u00fablicas, no definido a\u00fan, y por otro, de no haliarse todavia<br \/>\nconclu\u00eddas entre el Per\u00fa y el Brasil las negociaciones relativas<br \/>\nal mismo objeto. Por lo mismo la previa inteligencia entre las dos Rep\u00fablicas<br \/>\nno habria sido perjudicial, sin\u00f3 talvez muy \u00fatil al buen resultado<br \/>\nde la negociaci\u00f3n.<br \/>\nNada se halla, sin embargo, m\u00e1s distante del Gobierno del Per\u00fa<br \/>\nque la idea de intervenir en lo menor de las cuestiones que son de la exclusiva<br \/>\ncompetencia del Gobierno boliviano. Asi \u00e9l no entrar\u00e1 en el<br \/>\nexamen del Tratado, en la parte que se refiere \u00fanicamente a Bol\u00edvia.<br \/>\nSin embargo, cree de acuerdo con lo que en otra ocasi\u00f3n manifest\u00f3<\/p>\n<p>el Gabinete de Sucre, que el principio del <em>uti possidetis; <\/em>pactado<br \/>\nen el primer ac\u00e1pite del art\u00edculo 2o<strong>, <\/strong>si bien<br \/>\npuede invocarse con justicia en las controversias territoriales de los Hispanoamericanos,<br \/>\nque depend\u00edan de una metr\u00f3poli com\u00fan y que durante la coloniaje<br \/>\nno eran sino diversas secciones administrativas, no puede tener aplicaci\u00f3n<br \/>\nal tratarse, como al presente, de diversas metr\u00f3polis, entre las cuales<br \/>\nhabia pactos internacionales que regulaban los diferentes dominios, legitimando<br \/>\ny confirmando la posesi\u00f3n que fuese conforme a \u00e9l y condenando<br \/>\nla que le fuese contradictoria u opuesta. Efectivamente, el principio de la<br \/>\nposesi\u00f3n actual no puede servir de regia sino cuando la propiedad no<br \/>\nha sido reconocida. As\u00ed el <em>uti possidetis <\/em>no podia tener lugar<br \/>\nentre Bol\u00edvia y el Brasil por cuanto estos dos pa\u00edses tienen un<br \/>\nderecho escrito sobre la materia. Por razones de diverso g\u00e9nero el <em>uti<br \/>\npossidetis <\/em>entre el Per\u00fa y Bol\u00edvia, aunque puede ser invocado,<br \/>\nen ciertos casos, es insuficiente en otros; porque haciendo ambas Rep\u00fablicas<br \/>\nparte del mismo virreinato, no se puede definir con exactitud la posesi\u00f3n<br \/>\nactual respecto de territorios sobre los que no hay verdadera detenci\u00f3n.<\/p>\n<p>Talvez por no haberse tomado en consideraci\u00f3n estas observaciones se<br \/>\nha llegado a formular un Tratado contra el cual el Per\u00fa se ve en la necesidad<br \/>\nde protestar en cuanto ataca sus derechos territoriales. En el art\u00edculo<br \/>\n2o se estipula &#8220;que la l\u00ednea divisoria del extremo Sur de Corixa<br \/>\ngrande ir\u00e1 en l\u00edneas rectas al morro de Buena Vista y a los Cuatro<br \/>\nHermanos; de estos tambi\u00e9n en l\u00ednea recta hasta las nacientes<br \/>\ndel rio Verde; bajar\u00e1 por este rio hasta su confluencia con el Guapor\u00e9<br \/>\ny por medio de \u00e9ste y del Mamor\u00e9 hasta el Beni, donde principia<br \/>\nel rio Madera&#8221;.<br \/>\n&#8220;De este rio para el Oeste seguir\u00e1 la frontera por una paralela<br \/>\ntirada de su margen izquierda, en la latitud Sur, 10 grados 20 minutos, hasta<br \/>\nencontrar el rio Yavary&#8221;.<br \/>\n&#8220;Si el Yavary tuviese sus nacientes al Norte de aquella l\u00ednea Este-Oeste,<br \/>\nseguir la frontera desde la misma latitud por una recta hasta encontrar el origen<br \/>\nprincipal de dicho Yavary&#8221;.<br \/>\nExaminado el mapa oficial de Bol\u00edvia de 1839, se ve que el rio Madera<br \/>\nno comienza en el Beni sino en la confluencia del Guapor\u00e9 con el Mamor\u00e9.<br \/>\nEsto se halla conforme con los m\u00e1s acreditados mapas. Este error geogr\u00e1fico<br \/>\npuede producir resultados equivocados.<\/p>\n<p>Lo m\u00e1s grave para el Per\u00fa es hacer seguir la frontera entre<br \/>\nBol\u00edvia y Brasil por una paralela tirada de la margen izquierda del<br \/>\nMadera en la latitud Sur 10 grados 20 minutos hasta encontrar el rio Yavary<br \/>\no en caso de no encontrar este hasta su origen.<br \/>\nConforme el Tratado de San Ildefonso de 1777 la l\u00ednea habria debido<br \/>\ntirarse de la semi-distancia del Madera calculada entre la confluencia del<br \/>\nMamor\u00e9 y del Guapor\u00e9 y la desembocadura del primero en el Amazonas.<br \/>\nA si se deduce del art\u00edculo 11 de dicho pacto cuyo teor es el siguiente:<\/p>\n<p>&#8220;Bajar\u00e1 la l\u00ednea por las aguas, de estos dos rios Guapor\u00e9<br \/>\ny Mamor\u00e9, ya unidos con el nombre de Madera, hasta el paraje situado<br \/>\nen igual distancia del rio Mara\u00f1\u00f3n o Amazonas, y de la boca<br \/>\ndel rio Mamor\u00e9; y desde aquel paraje continuar\u00e1 por una l\u00ednea<br \/>\nEste-Oeste hasta encontrar coo la ribera oriental del rio Yavary, que entra<br \/>\nen el Mara\u00f1tin por su ribera austral; y bajando por las aguas del mismo<br \/>\nYavary hasta donde desemboca en el Marafi\u00f3n o Amazonas, seguir\u00e1<br \/>\naguas abalo de este rio, que los espanoles sueien ilamar Oreilana y los indios<br \/>\nGuiena, hasta la boca m\u00e1s occidentai del Yapura, que desagua en &#8220;\u00e9l<br \/>\npor la margem septentrionai&#8221;.<br \/>\nEsta estipuiaci\u00f3n se halla de confornsidad con el art\u00edculo 8.&#8217;<br \/>\ndel Tratado de Madrid de 13 de Enero de 1750, que dice asi:<br \/>\n&#8220;Bajar\u00e1 (la l\u00ednea divisoria) por las aguas de estos dos<br \/>\nrios (el Guapur\u00e9 y el Mariot\u00e9) ya unidos hasta el paraje situado<br \/>\nen igual distancia del citado rio Mara\u00f1\u00fan o Amazonas, y de la<br \/>\nboca del dicho Mamor\u00e9 y desde aquei paraje continuar\u00e1 por una<br \/>\nl\u00ednea Este-Oeste hasta encontrar la ribera oriental del rio Yavary<br \/>\nque entra en el Mara\u00f1\u00f3n por la ribera austral y bajando por<br \/>\nlas aguas del Yavary hasta donde desemboca en el Mara\u00f1\u00f3n o Amazonas,<br \/>\nseguir\u00e1 aguas abajo de este rio hasta la boca m\u00e1s occidental<br \/>\ndel Yapura, que desagua en el por la margen septentrional&#8221;.<br \/>\nEl resultado de no haberse ten\u00eddo en cuenta estas estipulaciones y<br \/>\nde haberlas sustitu\u00eddo con el art\u00edculo 2o del Tratado en cuesti\u00f3n,<br \/>\npuede percibirse por todo el que examine ligeramente una carta de las localidades.<br \/>\nLejos de ser lisonjero para el Per\u00fa y para Bol\u00edvia, importa<br \/>\nla absorci\u00f3n por el Brasil de cerca de diez mil leguas cuadradas, en<br \/>\nlas coales se encuentran rios important\u00edsimos, tales como el Pur\u00fas,<br \/>\nel Yuru\u00e1, el Yutay, cuyo porvenir comercial puede immenso.<br \/>\nSi el Gobierno de Bol\u00edvia no ha temido las consecuencias del Tratado,<br \/>\nel del Per\u00fa se ve en la necesidad de hacer las reservas convenientes<br \/>\nen guarda de los derechos territoriales de la Rep\u00fablica.<br \/>\nLos limites entre Per\u00fa y Bol\u00edvia no est\u00e1n a\u00fan<br \/>\ndefinidos.<br \/>\nEn el art\u00edculo 12 del Tratado de Paz y Amistad entre las dos Rep\u00fablicas,<br \/>\nse estipul\u00f3 lo siguiente: &#8220;Ambas Partes Contratantes, en el prop\u00f3sito<br \/>\nde alejar todo motivo de mala inteligencia entre ellas, se comprometen a arreglar<br \/>\ndefinitivamente los limites de sus respectivos territorios, nombrando, dentro<br \/>\ndel t\u00e9rmino que de com\u00fan acuerdo se designe, despu\u00e9s<br \/>\ndel canje de las ratificaciones del presente Tratado, una Comisi\u00f3n<br \/>\nmixta que levante la carta topogr\u00e1fica de las fronteras y verifique<br \/>\nla demarcaci\u00f3n, etc., etc.<br \/>\nNinguna urgencia ha tenido el Per\u00fa para llevar adelante ese deslinde<br \/>\npero el de Bol\u00edvia desde que ha creido conveniente hacer el suyo con<br \/>\nel Brasil respecto de territorios que por lo menos, debi\u00f3 considerar<br \/>\ncomo lim\u00edtrofes del Per\u00fa, parece que debia ajustar con \u00e9ste<br \/>\nla debida negociaci\u00f3n. Este olvido ha causado la cesi\u00f3n que<br \/>\nel Gobierno de Bol\u00edvia ha hecho al Brasil de territorios que pueden<br \/>\nser de la propiedad del Per\u00fa. Salvarlos es el objeto que se propone<br \/>\nel infrascrito en la presente nota.<br \/>\nVerdad es que el Gobierno del Per\u00fa acept\u00f3 tambi\u00e9n el<\/p>\n<p>principio del <em>uti possidetis <\/em>y sustituy\u00f3 a los Tratados celebrados<br \/>\npor la Metr\u00f3poli la posesi\u00f3n actual y conforme a ella, el Tratado<br \/>\nde 23 de Outubre de 1851 que la Rep\u00fablica se halla en el deber de respetar;<br \/>\nparo el Gobierno peruano hab\u00eda deseado que el de Bol\u00edvia se aprovechase<br \/>\nde la experiencia que el Per\u00fa ha adquirido a costa de algunos sacrificios.<br \/>\nYa que esto no ha tenido lugar, por lo menos el Per\u00fa habria deseado que<br \/>\nel Tratado de 1851 fuese respetado con todas sus consecuencias.<br \/>\nSeg\u00fan ese pacto, ratificado posteriormente por la Convenci\u00f3n de<br \/>\n<em>1858, todo <\/em>el curso del rio Yavary es limite com\u00fan para los<br \/>\nEstados Contratantes; y aunque los Tratados no lo dicen, los Comisarios de limites<br \/>\nsenores Carrasco y Acevedo pactaron que se llegasse hasta la latitud de nueve<br \/>\ngrados treinta minutos Sur \u00f3 hasta el nacinsiento de dicho rio, siempre<br \/>\nque \u00e9ste se encontrase en una latitud inferior. La linea paralela al<br \/>\nEcuador, trazada en una de las referidas situaciones senal\u00f3 la divisi\u00f3n<br \/>\nterritorial entre el Per\u00fa y el Brasil por ese lado, quedando pertenciente<br \/>\nal Per\u00fa todo el terreno comprendido entre el Sur y la enunciada paralela,<br \/>\nque debe terminar en el rio Madera. Tan cierto es esto, que los Gobiernos del<br \/>\nPer\u00fa y del Brasil, al conferir sus instrucciones a los Comisarios respectivos,<br \/>\ntuvieron especial cuidado de consignar en ellas como punto cardinal esta verdad<br \/>\ny en todos las conferencias oficiales de los Comisarios, que existen protocolizadas,<br \/>\nasi como las instruciones dadas a la Comisi\u00f3n espaecial, que se encomend\u00f3<br \/>\na los secretarios para la exploraci\u00f3n del Yavary, se acord\u00f3 prevenir<br \/>\nde una manera expresa lo que queda manifestado.<\/p>\n<p>Resumiendo lo expuesto, resulta que, seg\u00fan el Tratado en cuesti\u00f3n:<\/p>\n<p>1o La frontera debe seguir del Madera para el Oeste por una paralela tirada<br \/>\nde su margen izquierda en la latitud Sur diez grados veinte minutos hasta<br \/>\nencontrar el rio Yavary.<br \/>\n2o Si el Yavary tuviese sus m\u00e1rgenes al Norte de aquella l\u00ednea<br \/>\nEste-Oeste, seguir\u00e1 la frontera desde la misma latitude, por una recta,<br \/>\nhasta encontrar el origen principal de dicho Yavary.<br \/>\nEn el primer caso, el Brasil para fijar por este lado sus limites con Bol\u00edvia,<br \/>\ninvade nuestra propiedad, reconocida por el, en los citados pactos de 1851<br \/>\ny de 1858.<br \/>\nSi los Comisarios de Bol\u00edvia y del Brasil se vieran precisados a ilevar<br \/>\nadelante la segunda soiuci\u00f3n, se tendria como consecuencia necesaria<br \/>\nun resultado imposible: que las nacientes del Yavary servirian de punto com\u00fan<br \/>\nde partida para establecer fronteras respectivas entre el Per\u00fa, Bol\u00edvia<br \/>\ny el Brasil; y que la recta que de all\u00ed partiera hasta encontrar la<br \/>\nmargen izquierda del Madera, vendria \u00e1 ser, poco m\u00e1s \u00f3<br \/>\nmenos, linea divisoria, tambi\u00e9n com\u00fan, para los tres pa\u00edses.<\/p>\n<p>Si Bol\u00edvia (admitiendo esta hip\u00f3tesis) es due\u00f1o del territorio<br \/>\nde que se ocupa el infrascrito \u00e1 quien perteneciera la faja de terreno<br \/>\ncomprendida entre la paralela pactada entre el Per\u00fa y el Brasil y la<br \/>\nque el imperio ha estipulado con Bol\u00edvia?<br \/>\nEl Tratado no lo dice.<br \/>\nEn el caso de que el Gabinete de Sucre hubiera querido escuchar al Per\u00fa<br \/>\nse habria evitado, por lo menos, la divergencia en la manera de apreciar estas<br \/>\nimportantes cuestiones.<br \/>\nYa que este no ha tenido lugar, el infrascrito cumple las \u00f3rdenes de<br \/>\nS. E. el Presidente del Per\u00fa protestando contra el mencionado Tratado<br \/>\nde 27 de Marzo, en cuanto ataca por su art\u00edculo 2o los derechos territoriales<br \/>\ndel Per\u00fa.<br \/>\nEl infrascrito tiene el honor de reiterar \u00e1 S. E. el se\u00f1or Ministro<br \/>\nde Relaciones Exteriores de Bol\u00edvia, las seguridades de alta consideraci\u00f3n<br \/>\ncon que se suscribe de S. E. muy atento y muy obediente servidor.<br \/>\n(Firmado) J. <em>A. Barrenechea. <\/em><br \/>\nExcmo. Se\u00f1or Ministro de Relaciones Exteriores de la Rep\u00fablica<br \/>\nde Bol\u00edvia.<br \/>\n<em>140 141 <\/em><\/p>\n<p align=\"center\">II<br \/>\nContra-protesta de Bol\u00edvia<\/p>\n<p>Ministerio de Relaciones Exteriores da Bol\u00edvia. &#8211; Sucre Febrero 6<br \/>\nde 1868.<br \/>\nSe\u00f1or: He tenido el honor de recibir por el \u00faltimo correo, el<br \/>\ninteresante despacho que V. E. se ha servido dirigirme con fecha 27 de Diciembre<br \/>\n\u00faltimo, en el cual, con motivo del Tratado que Bol\u00edvia ha cele<br \/>\nbrado con el Brasil el 27 de marzo del a\u00f1o pr\u00f3ximo pasado, y<br \/>\n\u00e1 fin de salvar, seg\u00fan se expresa, los derechos del Per\u00fa,<br \/>\ncomprometidos en este acto internacional, V. E. tiene \u00e1 bien protestar<br \/>\ncontra el mencionado Tratado, en cuanto ataca por su articulo 2o los derechos<br \/>\nterritoriales del Per\u00fa.<br \/>\nAntes de recibir el citado despacho de V. E., ya tuve ocasi\u00f3n de<\/p>\n<p>verlo publicado en <em>El Comercio <\/em>de esa Capital, y aguardaba s\u00f3lo<br \/>\nrecibir el ejemplar aut\u00e9ntico para contestar \u00e1 V. E., como paso<br \/>\n\u00e1 hacerlo.<br \/>\nSensible es para el Gobierno de Bol\u00edvia que el ejercicio de un acto internacional<br \/>\nde su exclusiva competencia y que ninguna relaci\u00f3n tenia con los altos<br \/>\nfines de la Alianza del Pac\u00edfico, a la cual adhiri\u00f3 con la mayor<br \/>\nexpontaneidad, haya podido considerarse como objeto de un cargo, desde luego<br \/>\ninmotivado, contra sus prop\u00f3sitos, igualmente perseverantes que los del<br \/>\nPer\u00fa, para fortificar la uni\u00f3n por una reciprocidad de miras y<br \/>\nde sentimientos, de que tiene dadas algunas pruebas.<br \/>\nMenos podia considerarse en la obligaci\u00f3n de buscar una inteligencia<br \/>\nprevia con el Per\u00fa, por mas motivos de fraternidad y estrechez cordial<br \/>\nque lo unam con \u00e9l, desde que se trataba de una negociaci\u00f3n en<br \/>\nla cual s\u00f3lo<\/p>\n<p>Bol\u00edvia debia comprometerse, siendo tambi\u00e9n a ella exclusivamente,<br \/>\na quien debia favorecer \u00f3 perjudicar aquel Tratado, sin que sea parte<br \/>\n\u00e1 inclinaria en el sentido que expresa V. E., la circunstancia de ballarse<br \/>\na\u00fan sin definirse y demarcarse sus limites con el Per\u00fa, puesto<br \/>\nque por el mismo art. 12 del Tratado de Paz y Amistad entre las dos Rep\u00fablicas,<br \/>\ncualquiera de las Altas Partes Contratantes podia y puede tomar la iniciativa<br \/>\npara arreglar definitivamente los limites de sus respectivos territorios,<br \/>\ncomo en \u00e9l se halla estipulado. Extra\u00f1ar que no se haya dado<br \/>\nal Per\u00fa noticia previa en un negocio privativo de Bol\u00edvia, parece<br \/>\nque era innecesario y que lo ser\u00e1 siempre.<br \/>\nEntretanto, el Gobierno de Bol\u00edvia se hace un honor en reconocer la<br \/>\naltura con que el de esa Rep\u00fablica declara: que &#8220;nada se halla,<br \/>\nsin embargo, m\u00e1s distante del Gobierno del Per\u00fa que la idea<br \/>\nde intervenir, en lo menor, en las cuestiones que son de la exclusiva competencia<br \/>\ndel Gobierno boliviano.&#8221; Este profesa igual principio y est\u00e1 resuelto<br \/>\na observalo con lealtad invariable.<br \/>\nPasando al fondo de la cuesti\u00f3n y prescindiendo de que en la relaci\u00f3n<br \/>\n\u00edntima que existe entre ambos pa\u00edses, m\u00e1s natural y obvio<br \/>\nera, acaso, pedir uma expl\u00edcaci\u00f3n pr\u00e9via, (como lo hizo<br \/>\nBol\u00edvia respecto al Tratado de 1o de Mayo de 1865, concluido entre<br \/>\nel Imperio del Brasil y dos Rep\u00fablicas del Plata) reservando la protesta<br \/>\npara despu\u00e9s de conocer el esprito y tendencias de los Estados signatarios;<br \/>\npasando, repito, al fondo de la cuesti\u00f3n, me bastaria declarar a V.<br \/>\nE. que, sin estimar fundada la protesta, el Gobierno de Bol\u00edvia, que<br \/>\nsabe respetar los derechos ajenos, no ha intentado menoscabar los del Per\u00fa<br \/>\nen el Tratado de 27 de Marzo, el cual no compromete ni en un palmo de terreno<br \/>\nlos intereses peruanos, por m\u00e1s que V. E. se esfuerce en atribuir al<br \/>\nBrasil la absorci\u00f3n de cerca de 10 000 leguas cuadradas, que se permite<br \/>\nsuponer cedidas por Bol\u00edvia en prejuicio del Per\u00fa.<br \/>\nMas, como V. E. funda su protesta en varias apreciaciones, igualmente inexactas,<br \/>\nme veo en el deber de refutarlas, rectificando los hechos y manifestando la<br \/>\nverdad de las cosas.<br \/>\nPrincipiar\u00e9 por bacer notar a V. E. que en el mapa oficial de Bol\u00edvia<br \/>\nde 1859, no es exacto que el rio Madera comience en la confluencia del Guapor\u00e9<br \/>\ncon el Mamor\u00e9, a\u00fan cuando esta aserci\u00f3n se halle conforme<br \/>\nseg\u00fan dice V. E., con los m\u00e1s acreditados mapas. Lo que hay<br \/>\nde evidente es que, en el mapa oficial de Bol\u00edvia de 1859, reunidos<br \/>\nel rio Itenez \u00f3 Goapor\u00e9 con el Mamor\u00e9, en la longitud<br \/>\n67o 55&#8242; del meridiano de Paris y a la latitud Sur 11o 22&#8242;, contin\u00faan<br \/>\nsu curso bajo el nombre exclusivo de Mamor\u00e9, el cual unido al rio Beni,<br \/>\nen la longitud 68o 40&#8242; y a la latitud Sur 10o 20&#8242; recibe la denominaci\u00f3n<br \/>\nde Madera, con que signe su curso hasta incorporarse al Amazonas.<br \/>\nPara comprobar lo dicho, hasta la m\u00e1s l\u00edgera inspecci\u00f3n<br \/>\ndel mapa boliviano; inspecci\u00f3n que desvanecer\u00e1 los infundados<br \/>\ntemores de ese error geogr\u00e1fico, que en realidad no existe, y que,<br \/>\npor lo mismo, nunca podr\u00e1 tampoco producir resultados equivocados.<\/p>\n<p>Debo tambi\u00e9n assegurar \u00e1 V. E. que en la negociaci\u00f3n<br \/>\ndel Tratado de 27 de Marzo, el Gabinete de Sucre no olvid\u00e1 que estaba<br \/>\na\u00fan pendiente la definici\u00f3n de los limites entre Bol\u00edvia<br \/>\ny el Per\u00fa; hall\u00e1base, empero persuadido, como lo est\u00e1<br \/>\nhoy mismo, de que esta cuesti\u00f3n en nada afecta a los arreglos que contiene<br \/>\naquel Tratado.<br \/>\nTuvo, adem\u00e1s, en cuenta las estipulaciones de 1750 y de 1777, ajustadas<br \/>\nentre las Coronas de Espa\u00f1a y de Portugal, y para haberlas sustitu\u00eddo<br \/>\ncon el art. 2o del Tratado en cuesti\u00f3n, non perdi\u00f3 de vista<br \/>\nque aquellas quedaron sin ejecucion y jam\u00e1s establecieron una verdadera<br \/>\nposesi\u00f3n para el Gobierno espanol.<br \/>\nNo quedaba, pues, otra base para fundar s\u00f3lidamente los derechos<\/p>\n<p>territoriales de Bol\u00edvia y del Brasil, que el principio del <em>uti possidetis;<br \/>\n<\/em>isto es, la posesi\u00f3n real y efective de Espalia y Portugal, a\u00fan<br \/>\nquando fuese detentaci\u00f3n; no pudiendo tomarse por posesi\u00f3n verdadera<br \/>\naquello que pretendiese tener qualquiera de las dos coronas sin una ocupaci\u00f3n<br \/>\npositiva y actual.<br \/>\nPero el Per\u00fa y el Brasil concluyeron en 23 de Outubre de 1851, como V.<br \/>\nE. mismo lo reconoce?<br \/>\nSu art\u00edculo 7o dice terminantemente. &#8211; &#8220;Para prevenir duda respecto<br \/>\nde la frontera aludida en las estipulaciones a la presente Convenci\u00f3n,<br \/>\nconvienen las Altas Partes Contratantes en que los limites de la Rep\u00fablica<br \/>\ndel Per\u00fa con el Imperio del Brasil sean regulados en conformidad del<br \/>\nprincipio de <em>uti possidetis; <\/em>por consiguiente reconocen respectivamente<br \/>\ncomo frontera la poblaci\u00f3n de Tabatinga; y de ahi para el Norte en linea<br \/>\nrecta a encontrar el rio Yapur\u00e1, frente \u00e1 la hoya del Apaporiz;<br \/>\ny de Tabatinga <em>para <\/em>el <em>Sur el rio Yavary <\/em>desde la confluencia<br \/>\ncon el Amazonas&#8221;.<br \/>\nA\u00fan hay mas y debe tenerse en cuenta que se estipulo tambien lo que sigue<br \/>\n-&#8220;Una Comisi\u00f3n mixta nombrada por ambos Gobiernos reconocer\u00e1,<br \/>\nconforme al principio del <em>uti possidetis <\/em>la frontera y propondr\u00e1<br \/>\nel canje de los territorios que juzgaren a proposito para fijar los limites<br \/>\nque sean mas naturales y convenientes a una y otra Naci\u00f3n&#8221;.<\/p>\n<p>He ahi c\u00f3mo el principio del <em>uti possidetis <\/em>ha sido la base<br \/>\nprimordial y unica que ha regulado el Tratado entre Per\u00fa y el Brasil<br \/>\nen 1851.<br \/>\nFuera de que esa misma frontera a\u00fan no se hallaba retamente definida<br \/>\npor entonces, como no lo est\u00e1 ahora mismo, puesto que se convino en<br \/>\nconferir a una Comisi\u00f3n mixta la faculdad de reconocerla y proponer<br \/>\nel canje de los territorios.<br \/>\nPorqu\u00e9, pues, pretende el Gabinete de Lima, que el de Sucre habiera<br \/>\nrehusado adoptar el mismo principio que a el le servi\u00f3 para el ajuste<br \/>\nde limites con el Brasil?<br \/>\nLo que fu\u00e9 razonoble y justo, \u00f3 cuando menos equitativo, para<br \/>\nla Cancilleria peruana, no debio serlo igualmente para la boliviana, en caso<br \/>\nidentico y en perfecta igualdad de circunstancias?<br \/>\nResurmendo V. E. lo expuesto en su citado despacho form\u00fala las concluziones<br \/>\nsiguientes:<br \/>\n1o &#8220;Si la frontera debe seguir del Madera para el Oeste por una paralela<br \/>\ntirada de su margen izquierda en la latitud Sur 10o 20&#8242; hasta encontrar el<br \/>\nrio Yavary; el Brasil para fijar por ese lado sus limites con Bol\u00edvia,<br \/>\ninvade la propiedad peruana reconocida por el en los citados pactos de 1851<br \/>\ny de 1858&#8221;.<br \/>\n2o &#8220;Si el Yavary tuviere sus margenes al Norte de aquelle l\u00ednea<br \/>\nEste-Oeste, seguir\u00e1 la frontera desde la misma latitud, por una recta<br \/>\nhasta encontrar el origem principal di dicho Yavary; en este caso, si los<br \/>\nComisarios de Bol\u00edvia y del Brasil se vieran precisados a llevar adelante<br \/>\nesta segunda soluci\u00f3n, se tendria como consecuencia necesaria un resultado<br \/>\nimpossible &#8211; que las nacientes del Yavary serviran de punto com\u00fan de<br \/>\npartido para estabelecer fronteras respectivas entre el Per\u00fa, Bol\u00edvia<br \/>\ny el Brasil; y que la recta que de alli partiera hasta encontrar la margen<br \/>\nizquerda del Madera, vendria a ser, poco mas \u00f3 menos, linea divisoria,<br \/>\ntambi\u00e9n com\u00fan para los tres paises, y se Bol\u00edvia (admitiendo<br \/>\nesta hip\u00f3tesis) es dueno del territorio, \u00e1 que se refiere la<br \/>\nprotesto, perguntase: &#8211; a qui\u00e9n perteneceria la faja de terreno comprendida<br \/>\nentre la paralela pactado entre el Per\u00fa y el Brasil y la que el Imperio<br \/>\nha estipulado con Bol\u00edvia, puesto que el Tratado del 27 de Marzo no<br \/>\nlo dice?<br \/>\nRespecto a la primera y dejando al Gabinete del Janeiro la tarea de contestar,<br \/>\nen su caso, por lo tocante al Imperio, me limitar\u00e9 solamente \u00e1<br \/>\nllamar la atenci\u00f3n de V. E. sobre el mismo tenor literal del art\u00edculo<br \/>\n7o antes transcrito, seg\u00fan el cual los limites entre el Per\u00fa<br \/>\ny el Bol\u00edvia, al Sur de Tabatinga, est\u00e1n definidos por el rio<br \/>\nYavary de maneira que los territorios adyacentes a su margen izquerda son<br \/>\nlos \u00faltimos que par esa parte posee el Per\u00fa, correspondiendo<br \/>\nal Brasil los que se hallan situados a su margen derecha.<br \/>\nY como en esta parte asiste tambien \u00e1 Bol\u00edvia un derecho incuestionabie,<\/p>\n<p>que nace del mismo principio del <em>uti possidetis, <\/em>que al Per\u00fa<br \/>\nle ha servido de punto de partida para sus arreglos territoriales con el Imperio,<br \/>\nnada parece mis natural que lo estipulado entre Bol\u00edvia y el Brasil,<br \/>\nque disponian de cosa propria, esto es, de territorios que posuian y donde la<br \/>\nsoberania y jurisdici\u00f3n del Per\u00fa no podian alcanzar por impaderselo<br \/>\nel rio Yavaty, su limite reconocido en el Tratado de 23 de Octubre de 1951.<br \/>\nEn este punto desaparece todo motivo de duda; y cualquer principio de cuestion<br \/>\nentre Bol\u00edvia y el Per\u00fa, queda regulado por el mismo Tratado Peruano-Brasileiro.<\/p>\n<p>Con relaci\u00f3n a la segunda, facil sera manifestar que no tendr\u00e1<br \/>\nlugar el <em>resultado imposible <\/em>que prev\u00e9 V. E. y que en nuingun<br \/>\ncaso quedar\u00e1 aislada una faja de terreno que supone existir entre las<br \/>\nparalelas pactadas respectivamente par Bol\u00edvia y el Brasil, y entre \u00e9ste<br \/>\ny el Per\u00fa.<br \/>\nEl segundo caso previsto en el art\u00edculo 2o del Tratado de 27 de Marzo<br \/>\nconsidera las nacientes del rio Yavary al Norte de aquella l\u00ednea Este-Oeste;<br \/>\ny en tal concepto h\u00e1llase convenido que la frontera entre Bol\u00edvia<br \/>\ny el Brasil, seguir\u00e1 desde la mismo latitud por una recta hasta encontrar<br \/>\nel origen principal de dicho Yavary.<br \/>\nEn esta estipulaci\u00f3n, tan razonable como obvia para ambos paises, nada<br \/>\nhay que pudiera afetar ni remotamente los intereses peruanos, desde que su territorio<br \/>\nqueda limitado por el mismo Yavary, a cuyas m\u00e1rgines convergen las l\u00edneas<br \/>\nBol\u00edviano-brasilera y peruano-brasilera.<br \/>\nEl angulo de convergencia de dichas l\u00edneas viene a ser el ponto de partida<br \/>\npara que Bol\u00edvia y el Per\u00fa definan sus respectivos limites, compartiendo<br \/>\nen este caso el territorio triangular que resultare; siendo em pero, de notar-se<br \/>\nque el <em>uti possidetis <\/em>&#8211; entre la linea Bol\u00edviano-brasilera y<br \/>\nla hoya del rio Beni, favor\u00e9ce sin genero de duda a Bol\u00edvia.<br \/>\nPero a\u00fan aplazando esta ultima cuestion para cuando Bol\u00edvia y<br \/>\nel Per\u00fa traten de ajustar sus limites, me persuado de haber podido demonstrar<br \/>\nclaramente que el articulo 2o del Tratado de 27 de Mar\u00e7o, no es agresivo<br \/>\nde los derechos territoriales del Per\u00fa, \u00e1 que los negociadores<br \/>\nboliviano y brasilero supieron prestar el debido bomenage.<br \/>\nMuy lisongero seria para el Gobierno de Bol\u00edvia, si las explicaciones<br \/>\ningenuas que dejo expuestas y los senc\u00edllos fundamentos en que estriba<br \/>\nel art\u00edculo 2o de diebo Tratado, merecieran la aceptaci\u00f3n del<br \/>\nExm. Gobierno del Per\u00fa, de cuya alta ilustraci\u00f3n y notoria probidad<br \/>\nla guarda tranquilo el de esta Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Al dejar satisfecho el objeto de este despacho, tengo el nonor de renovar<br \/>\nal Exmo. se\u00f1or M\u00ednistro de Relaciones Exteriores del Per\u00fa,<br \/>\nlas seguridades de alta y distinguida consideraci\u00f3n, con que me suscribo<br \/>\nde S. E. el se\u00f1or Barrenechea muy attento y obsecuente servidor.<br \/>\n(Firmado) Mariano Donato Munoz.<br \/>\nAl Exmo. se\u00f1or Ministro de Relaciones Exteriores del Peru.<\/p>\n<p align=\"center\">III<br \/>\nDemarca\u00e7\u00e3o Bras\u00edlio-boliviana no Madeira<\/p>\n<p>Comisi\u00f3n de Limites entre el Imperio del Brasil y la Rep\u00fablica<br \/>\nde Bol\u00edvia.<br \/>\nTerminos de la inauguraci\u00f3n del marco levantado en la margen izquierda<br \/>\ndel rio Madera frente \u00e1 la cachuela del mismo nombre.<br \/>\nA los diez y siete dias del mes de Noviembre del a\u00f1o de nacimiento<br \/>\nde Nuestro Se\u00f1or Jesucristo de mil ochocientos setenta y siete, siendo<br \/>\nEmperador del Brasil el Se\u00f1or Don Pedro II y Presidente de la Repubuca<br \/>\nde Bol\u00edvia en ejercicio de sus poderes p\u00fablicos, Su Excelencia<br \/>\nel Se\u00f1or General Don Hilari\u00f3n Daza se encontraron en la margen<br \/>\nizquierda del rio Madera, arriba de la cachuela del mismo nombre, con el fin<br \/>\nde inaugurar el marco levantado en ese lugar por la Comisi\u00f3n Brasilera,<br \/>\ncompuesta de los Senores: Mayor del Cuerpo de Ingenieros Bachiller Guillermo<br \/>\nCarlos Laisance E. Primero teniente da Armada Frederico Ferreira de Oliveira,<br \/>\nhallandose tambi\u00e9n presente en dicho acto el primer Cirujano del Ejercito,<br \/>\nDoctor Jos\u00e9 Severiano de Fonseca, sirviendo de Secretario el Teniente<br \/>\nprimero Oliveira y desejando de comparecer los Se\u00f1ores Comisario Interino<br \/>\nMayor del Cuerpo de Ingenieros Bachiller Francisco Janer Lopez de Araujo y<br \/>\nCapit\u00e1n de Estado Mayor de primera classe Bachiller Javier de Oliveira<br \/>\nPimentel, que formaban parte de la secci\u00f3n que hab\u00edan explorado<br \/>\nlas nacientes del rio Verde, y el Capit\u00e1n de Estado Mayor de Artilleria<br \/>\nAntonio Joaqum de Costa Guimar\u00e3es, por haberse retirado para la Corte<br \/>\ndel Imperio con licencia por enfermedad.<br \/>\nEste marco hallase constru\u00eddo en la margen izquierda del rio Madera<br \/>\ny frente a la cachuela del mismo nombre, da cuaqueda abajo de la confluencia<br \/>\ndel rio Mamor\u00e9 con el Beni.<br \/>\nDes\u00edgnase da l\u00ednea de limites que parte del puerto del rio Verde,<br \/>\ndonde los miembros de esta secci\u00f3n deben colocar un marco, y seguir<br \/>\npor la secci\u00f3n del rio Guapor\u00e9 por la margen hasta el rio Mamor\u00e9,<br \/>\ncuya posici\u00f3n geogr\u00e1fica es latitud 11o 54&#8242; 12&#8243;, 83 Sur<br \/>\ny longitud 21o 53&#8242; 6&#8243;, 45 Oeste del Imperial Observatorio de Rio de Janeiro<br \/>\ncontinuando de ahi por el curso del rio Mamor\u00e9 hasta este punto. De<br \/>\naqui contin\u00faa la linea geodesica que liga este marco con la naciente<br \/>\ny origen del rio Yavary, corriendo esa l\u00ednea en rumbo verdadero de<br \/>\n69o 51, 13&#8243;, 58 Noroeste en la distancia 1.031k.m44 seg\u00fan los<br \/>\ncalculos hechos con las coordinadas geograficas de esa nascente conforme a<br \/>\nlas indicaciones de la Comisi\u00f3n mixta demarcadora de los hmites entre<br \/>\nel Imperio y la Republica del Per\u00fa, las cuales son: latitud 7o 1&#8242; 17&#8243;<br \/>\n5, longitud 74o 8&#8242; 27&#8243; 07 Oeste de Greenwich, este marco est\u00e1<br \/>\nconstruido de alba\u00f1ileria de piedra y tiene la forma de una pilastra<br \/>\ncon las dimensiones siguientes: altura 1 metro 20 metro por 1 metro 20 por<br \/>\n0,80 cent\u00edmetros; base 1 metro por 1 metro por X por 40 fuste 01,70<br \/>\npor X m, 70 por 1,50 metro al capitel 0m,78 por X por metro 12. Todos estos<br \/>\nantecedentes est\u00e1n orientados seg\u00fan los rumbos verdaderos N.<br \/>\nS. y E. O. no se tom\u00f3 en cuenta que se tome en consideraci\u00f3n<br \/>\nla instrucci\u00f3n para el Norte de: &#8220;Imperio do Brasil 1877&#8221;<br \/>\nni aquella en el Sur &#8220;Republica de Bol\u00edvia 1877&#8221;.<\/p>\n<p>Suposici\u00f3n geografica: latitud 10o 21&#8242; 13&#8243;, <em>63 <\/em>y longitud<br \/>\n22o 14&#8242; 37&#8243;, 65 Oeste del Observatorio Imperial del Rio de Janeiro; la<br \/>\ndeclinaci\u00f3n de la aguja 7o 45&#8242; Noreste.<br \/>\nDel marco designado indicaremos los verdaderos rumbos; en el punto Sur de la<br \/>\nmargen izquierda del Beni, 16o 53&#8242; 53&#8243; Sudoeste 4.439,5 metros hasta el<br \/>\npunto; formado por la margen derecha del Beni e izquierda del Mamor\u00e9<br \/>\n2o 25&#8242; 25<em>&#8221; <\/em>Sudoeste y la distancia de 3575 que queda en la margen<br \/>\nderecha del Madera 49o 13&#8242; 35&#8243; Sudeste a la distancia de <em>2.250 <\/em>metros.<\/p>\n<p>Y para que conste en todo tiempo exp\u00eddese la presente acta por duplicado<br \/>\nen los idiomas portugu\u00e9s y espanol, ambos como fu\u00e9 determinado<br \/>\nen el Ministerio de Relaciones Exteriores con fecha 30 de Noviembre del a\u00f1o<br \/>\nde 1875, firmando los miembros presentes de la Comisi\u00f3n Brasilera. (Firmados).<br \/>\n&#8211; <em>Guillermo Carlos Laisance. &#8211; F. Ferreira de Oliveira. <\/em><br \/>\nOficial de la guarnici\u00f3n &#8211; Teniente de Caballer\u00eda de Ej\u00e9rcito<br \/>\nDon Pedro Romero.<br \/>\nPor parte de Brasil.<br \/>\nComisario de Limites &#8211; Se\u00f1or Bar\u00f3n de Teff\u00e9.<br \/>\nAgrimensor &#8211; Don Carlos Guillermo Von Hoonholtz.<br \/>\nEn vista de los poderes que a dichos se\u00f1ores Comisarios les han sido<br \/>\nconferidos, y despu\u00e9s de haber hecho de antemano todas las observaciones<br \/>\nastron\u00f3micas consiguientes, y haber levantado el plano hidrogr\u00e1fico<br \/>\ndel rio &#8220;Yavary&#8221; desde el punto en que termin\u00f3 sus trabajos<br \/>\nla Comision Mixta nombrada el a\u00f1o de 1866.<br \/>\nAcordaron los dichos se\u00f1ores Comisarios que el marco de limites debia<br \/>\ncolocarse en la margen derecha del rio &#8220;Yavary&#8221; a los seis grados<br \/>\ncincuenta y nueve minutos, veintinueve segundos y cinco d\u00e9cimos latitud<br \/>\nS. y a los setenta y cuatro grados seis minutos, veintiseis segundos y setenta<br \/>\ny siete centesimos Longitud Oeste de Greenwich.<br \/>\nLatitud 6o 59&#8242;, 29&#8243;, 5 S.<br \/>\nLongitud 74o 6&#8242; 20&#8243;, 67 O de Greenwich.<br \/>\nDebiendo tenerse en cuenta que tan pronto como se levanten los planos del rio<br \/>\n&#8220;Yavary&#8221; operacion que se praticar\u00e1 por los dos Comisiones<br \/>\nreunidas en el Puerto de Tabatinga, segun el resultado que dichas cartas geogr\u00e1ficas<br \/>\narrojen, los Se\u00f1ores Comisarios determinaron el verdadero nacimento del<br \/>\nrio Yavary en una distancia que ser\u00e1 la citada anteriormente m\u00e1s<br \/>\nal sudoeste del lugar en que se ha colocado el marco, teniendo en cuenta que<br \/>\nde Outro modo no puede resolverse esta cuesti\u00f3n y que los conocimientos<br \/>\nque la experiencia les ha ense\u00f1ado respecto a este rio, ser\u00e1 su<br \/>\nnorma para que se arregle en justicia.<br \/>\nDe este modo el limite de ambas naciones tomar\u00e1, tomando el centro o<br \/>\nalveo del rio, desde su nacimiento hasta su confluencia con el rio Amazonas.<\/p>\n<p>El marco que se ha colocado es de la madera llamada piqui\u00e1, en forma<br \/>\nde cruces como s\u00edmbolo de redenci\u00f3n para las desgraciadas de salvajes<br \/>\nque pueblan esas regiones, siendo su altura total de veinte pies.<br \/>\nSe halla colocado en tierra firme donde no alcanza el agua. En la cara del Oeste<br \/>\ntiene la seguiente inscripci\u00f3n;<br \/>\nLimite del Per\u00fa<br \/>\nMarzo 14 de 1874<br \/>\nEn la cara del Este:<br \/>\nLimite del Brasil<br \/>\nMarzo 14 de 1874<br \/>\nEn la cara del Norte:<br \/>\nViene de la boca del rio<br \/>\nEn la cara del Sur:<br \/>\nLatitud 6o 59&#8242; 29&#8243;, 5<br \/>\nLongitud 74o 6&#8242; 26&#8243;, 67 Oeste de Greenwich.<br \/>\nEsta respectiva acta ha sido firmada por los se\u00f1ores miembros de las<br \/>\nComisiones ya citadas, con la solemnidad respectiva.<br \/>\nDe este documento que consta en el citado libro se sacaron cuatro copias: dos<br \/>\nen idioma portugu\u00e9s y dos en castellano, las cuales legalizadas con las<br \/>\ncompetentes firmas, ser\u00e1n enviadas por los Jefes de ambas comisiones<br \/>\na sus respectivos Gobiernos.<br \/>\nEn fe de lo cual firmaron la presente en el dia y lugar de la ceremonia a las<br \/>\ncinco horas pasado meridiano &#8211; <em>Guilherme Black &#8211; Baron de Teff\u00e9 &#8211;<br \/>\nFroilan P. Morales &#8211; Frederico Rinc\u00f3n &#8211; Manuel C. de la Hasa &#8211; Pedro<br \/>\nRomero. <\/em><br \/>\nNOTA &#8211; Se consigna en la presente acta dos puntos que pertenecen directamente<br \/>\nal cuerpo de ella: el primeiro es la muerte acaecida en el rio &#8220;Yavary&#8221;<br \/>\ndel Agrimensor de la Comisi\u00f3n brasilera, Don Carlos Guillermo von Hoonholtz<br \/>\nque firm\u00f3 el acta original en el libro brasilero, no habiendolo hecho<br \/>\nen el peruano, por convenio mutuo de ambos comisarios; pues el libro original<br \/>\nqued\u00f3 depositado a bordo del vapor &#8220;Napo&#8221;, para evitar de este<br \/>\nmodo, en caso de un accidente, la perdida de esos dos documentos importantes.<\/p>\n<p>La segunda cuestion se refiere a la verdadera Latitud y iongitud de la naciente<br \/>\ndel rio, seg\u00fan Consta del acta (Latitud 6o 59&#8242; 29&#8243;, 5 Sur y Longitud<br \/>\n74o 6&#8242; 26&#8243; 67 Oeste de Greenwichb). Aumentando tres millas al rumbo S.<br \/>\nO. del mundo nos da: Latitud siete grados un minuto diez y siete segundos, cinco<br \/>\ndecimos Sur; y longitud setenta y Cuatro grados ocho minutos veinte y siete<br \/>\nsegundos y siete centesimos Oeste de Greenwich.<br \/>\nLatitud &#8211; 7o 1&#8242; 17&#8243;, 5 Sur.<br \/>\nLongitud &#8211; 74o 8&#8242; 27&#8243;, 07 Greenwich<br \/>\nDe este modo queda determinado el verdadero ponto del nacimiento del rio &#8220;Yavary&#8221;<br \/>\nen fe de lo cual firmarno la presente las personas de la Comisi\u00f3n que<br \/>\narriba suscriben &#8211; <em>Guillermo Black &#8211; Baron de Teff\u00e9 &#8211; Froilan P.<br \/>\nMorales &#8211; Frederico Rincon &#8211; Manuel C. de la Hasa <\/em><\/p>\n<p align=\"center\">IV<br \/>\nDemarca\u00e7\u00e3o definitiva no Javari Acta<\/p>\n<p>De la fijaci\u00f3n del marco definitivo en la margen derecha del rio &#8220;Yavary&#8221;<br \/>\nlimite entre la Rep\u00fablica del Per\u00fa, y el Imperio del Brasil,<br \/>\npunto m\u00e1s meridional del enunciado rio que es hasta donde ha sido posible<br \/>\nllegar la Comisi\u00f3nn Mixta de Limites; pues los obst\u00e1culos que<br \/>\nse encontraban imped\u00edan seguir mis arriba el curso del rio y provaban<br \/>\nal mismo tiempo que habia llegado a sus cabeceras con diferencia de algunas<br \/>\nmillas que se supone sean ocho mais o menos.<br \/>\nA los catorce dias del mes de Marzo del a\u00f1o del nacimiento de Nuestro<br \/>\nSe\u00f1or Jesuscristo, de mil ochocientos setenta y cuatro, quincuag\u00e9simo<br \/>\ntercero de la Independencia del Per\u00fa y quincuag\u00e9simo tercero<br \/>\nde la Independencia del Brasil; gobernando el Per\u00fa el Excmo. Sr. D.<br \/>\nManuel Pardo y gobernando el Imperio del Brasil Su Magestad el Sr. D. Pedro<br \/>\nII Emperador Constitucional y Defensor Perp\u00e9tuo.<br \/>\nSe reunieror los miembros de la Comisim Mixta nombrados por ambos gobiernos<br \/>\npara demarcar la frontera de las respectivas naciones arriba citadas, en el<br \/>\nnacimiento del rio Yavary y en el lugar que se coloc\u00f3 el marco.<br \/>\nLas comisiones de ambas naciones se compon\u00edan de los siguientes se\u00f1ores:<\/p>\n<p>Por parte del Per\u00fa.<br \/>\nComisario de limites &#8211; Capit\u00e1n de fragarta de la Armada Nacional don<br \/>\nGuillermo Black. &#8211; Secretario accidental, Capit\u00e1n de corbeta graduado<br \/>\nD. Froil\u00e1n P. Morales.<br \/>\nAyudante &#8211; Teniente 2o de la Armada Nacional, D. Frederico Rinc\u00f3n.<\/p>\n<p>Ayudante &#8211; Alf\u00e9res de Fragata de la Armada Nacional, D. Manuel Cosme<br \/>\nde la Haza.<\/p>\n<h2><strong>\u00a0<\/strong> <strong>Notas <\/strong><\/h2>\n<p>I<\/p>\n<p>(1) <em>Recopilaci\u00f3n de Leyes de Ind\u00edas. <\/em>L. IV, tit. 1\u00ba<\/p>\n<p>(2) Archivo de Simancas. Legajo 7406, fol. 21.<\/p>\n<p>(3) <em>Tratado Preliminar de L\u00edmites, <\/em>de 1\u00ba de outubro de<br \/>\n1777.<br \/>\n(4) RAIMONDI, Antonio &#8211; <em>El Per\u00fa, <\/em>t. 2\u00ba, p. 402.<br \/>\n(5) V. <em>Di\u00e1rio da Viagem do Dr. F. de Lacerda e Almeida, <\/em>S\u00e3o<br \/>\nPaulo, 1841.<br \/>\nLacerda e Almeida determinou a latitude da foz do Madeira, no Amazonas, 3\u00ba<br \/>\n22&#8242; 45&#8243; e a da Guapor\u00e9, 11\u00ba 54&#8242; 46&#8243;.<br \/>\nDeduz-se a coordenado da semidist\u00e2ncia:<br \/>\nMais tarde outros observadores pouco divergiram do grande ge\u00f3grafo. &#8220;45&#8217;38\u00ba7&#8243;45&#8217;22\u00ba32&#8243;45&#8217;22\u00ba3&#8243;46&#8217;54\u00ba11=&#8211;<\/p>\n<p>Costa Azevedo (Bar\u00e3o do Lad\u00e1rio) em 1863 determinou, na foz<br \/>\ndo Madeira, a latitude de 3\u00ba 24&#8242; 31&#8243;, discrepante apenas 1&#8242; 45&#8243;;<br \/>\ne a comiss\u00e3o de limites com a Bol\u00edvia, de 1875, encontrou para<br \/>\na da conflu\u00eancia Mamor\u00e9-Guapor\u00e9, l1\u00ba 54&#8242; 12&#8243;<br \/>\n83, discordante pouco mais de meio minuto. Com estes novos elementos a semidist\u00e2ncia<br \/>\nencontra-se a 7\u00ba 39&#8242; 32&#8221; 7, divergindo da que se deduziu h\u00e1<br \/>\nmais de una s\u00e9culo, de menos de um minuto de arco.<br \/>\nO caso \u00e9 verdadeiramente not\u00e1vel, embora se trate de uma determina\u00e7\u00e3o<br \/>\nde latitude.<br \/>\nE, considerando-se os aparelhos imperfeitos do tempo, deve-se convir em que<br \/>\nLacerda e Almeida foi um observador admir\u00e1vel.<br \/>\n(6) &#8220;Nota Protesta&#8221; do Sr. J. A. Barrenechea, de 20 de dezembro<br \/>\nde 1867.<\/p>\n<p>(7) PAZ SOLDAN, Mateo &#8211; <em>Geographie du Perou, etc. <\/em>Publi\u00e9e aux<br \/>\nfrais du gouvernement perouvien. Paris, 1863, p. 3.<br \/>\n(8) <em>Loc. cit<\/em>., p. 2.<br \/>\n<em>(9) El Per\u00fa, <\/em>t. 2\u00ba, pp. 405 e 406.<br \/>\n(10) Para isto, ao rev\u00e9s de conflu\u00eancia Mamor\u00e9-Guapor\u00e9,<br \/>\nconsidera a do Beni (10\u00ba 20&#8242;); deduzindo-se a da semidist\u00e2ncia \u00e0<br \/>\nfoz do Madeira:<br \/>\n&#8220;15&#8217;52\u00ba6&#8243;31&#8217;24\u00ba32&#8243;31&#8217;24\u00ba3&#8217;20\u00ba10=&#8211;<br \/>\n(11) Mapa de la regi\u00f3n Hidrogr\u00e1fica del Amazonas Peruano, mandado<br \/>\ntrazar por la Sociedad Geogr\u00e1fica de Lima.<br \/>\n(12) PAZ SOLDAN, Manuel Rouaud y <em>&#8211; Observaciones Astronomicas y F\u00edsicas,<br \/>\n<\/em>etc. Lima, 1869, p. 26.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Of\u00edcio de Don Lazaro de Rivera, ao Conselho das \u00cdndias, 15<br \/>\nde outubro de 1784.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>(1) <em>Revista do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro.<br \/>\n<\/em>T. XIII, p. 172.<br \/>\n(2) &#8220;Mem\u00f3rias Cronol\u00f3gicas da Capitania de Mato Grosso&#8221;,<\/p>\n<p><em>in Revista do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro,<br \/>\n<\/em>t. XIII.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>(1) <em>Memorial <\/em>de D. Juan Bartolom\u00e9 Berdugo.<br \/>\nNote-se que, conforme as medidas da \u00e9poca, cada um grau valia dezessete<br \/>\nl\u00e9guas e meia. Cento e cinq\u00fcenta l\u00e9guas correspondiam,<br \/>\nportanto, a oito graus e meio. Ora, firmando-se a extrema setentrional do<br \/>\nTerrit\u00f3rio de Chiquitos em 15\u00ba de latitude sul, o de Moxos, que<br \/>\ncome\u00e7a dali para o norte, estender-se-ia, na opini\u00e3o insuspeita<br \/>\nde Berdugo, at\u00e9 15o &#8211; 8o 30&#8242;, isto \u00e9, at\u00e9 6o 30&#8242; de latitude<br \/>\nsul &#8211; ou, mais claro, at\u00e9 al\u00e9m da semidist\u00e2ncia do Madeira.<\/p>\n<p>N\u00e3o ligamos import\u00e2ncia ao caso. Mas cumpria registrar-se a coincid\u00eancia<br \/>\ncuriosa que, dada a fonte onde se originou, vai muito mais do que as fantasias<br \/>\ncartogr\u00e1ficas daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>(2) Archivo de \u00cdndias. <em>Informe del Marquez de Valdel\u00edrios,<br \/>\n<\/em>etc. 24 de abril de 1776.<br \/>\n(3) Archivo de \u00cdndias. <em>Dictamen del Fiscal Campomanes, 3 <\/em>de<br \/>\nmaio de 1777.<br \/>\n(4) Archivo de \u00cdndias. <em>Carta de Pedro R. Campomanes a D. Jos\u00e9<br \/>\nGalv\u00e9s. <\/em><br \/>\n<em>(5) <\/em>Archivo Hist\u00f3rico de Madrid. <em>Instrucciones de la Corte.<br \/>\n<\/em>Legajo, 7 347<br \/>\n(6) Archivo General de la Naci\u00f3n. <em>Comunicaci\u00f3n al Gobernador<br \/>\nde Mojos Sobre Deslinde de Fronteras, <\/em>Buenos Aires.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>(1) PORTO SEGURO, Visconde de. <em>Hist\u00f3ria Geral do Brasil. <\/em>T.<br \/>\nII, <em>p. 953. <\/em><br \/>\nConfirma a express\u00e3o do nosso grande historiador o oficio nomeando<br \/>\nD. Pedro de Cevallos &#8220;Virrey y Capit\u00e1n General y Superior Presidente<\/p>\n<p><em>de la Real Audiencia de la Plata&#8221;. <\/em>Este era o nome legal da de<br \/>\nCharcas. Em 1680, a <em>Recopilaci\u00f3n <\/em>dizia: <em>En la ciudad de<br \/>\nLa Plata, provincia de los Charcas, resida nuestra audiencia y chancellaria<br \/>\nreal. <\/em>O dizer Vice-reinado de Buenos Aires, que prevaleceu, proveio, essencialmente,<br \/>\ncomo veremos, do nome da primeira prov\u00edncia nomeada naquela carta r\u00e9gia.<\/p>\n<p>(2) Archivo de \u00cdndias. <em>Extractos de la Junta Suprema de Estado y<br \/>\ndel Consejo de Indias. <\/em><br \/>\n(3) Archivo de \u00cdndias. Legajo: &#8220;Audiencia de Charcas.&#8221; 1777.<\/p>\n<p>(4) <em>Arcbivo de \u00cdndias. Est. <\/em>120, <em>cai. <\/em>7, <em>ieg. <\/em>27.<\/p>\n<p>(5) <em>Historia de San Martin. <\/em>T. 1.<br \/>\n(6) VALD\u00c9S Y PALACIOS, Jos\u00e9 Manuel. <em>Viagem de Cuzco a Bel\u00e9m<br \/>\ndo Gr\u00e3-Par\u00e1, <\/em>1884.<br \/>\n(7) Archivo de \u00cdndias. Est. 110, cap. 3, leg. 21.<br \/>\n<em>94 <\/em><\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>(1) Quando as tropas libertadoras de Belgrano, batidas no Desaguadero (1813),<\/p>\n<p>reflu\u00edram para a Argentina, a Bol\u00edvia ficou abandonada; <em>mas<br \/>\n<\/em>os <em>criollos <\/em>rebeldes persistiram <em>en armas a espaldar del enemigo<br \/>\ntriunfante; <\/em>e os realistas, donos dos campos de batalha, ficaram num circulo<br \/>\ninfernal de guerrilhas, que sustiveram a crise revolucion\u00e1ria at\u00e9<br \/>\na vinda de Bol\u00edvar.<br \/>\n<em>Las ej\u00e9rcitos del Rey habian derrotado a los patriotas en el alto<br \/>\nPer\u00fa (Bol\u00edvia) pero no habian conseguido domar el esp\u00edrito<br \/>\np\u00fablico&#8230; <\/em><br \/>\n<em>A pesar de tantos y tan severos contrastes, no se pas\u00f3 um s\u00f3lo<br \/>\ndia sin que se pelease y se murise en aquelia regi\u00f3n mediterranea&#8230;<br \/>\n<\/em><br \/>\n<em>&#8230; La insurrecci\u00f3n en Bol\u00edvia cundia a la menor se&#8230;. <\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o extratos ao <em>acaso. H\u00e1 <\/em>centenas de outros id\u00eanticos.<\/p>\n<p><em>(Historia de San Martin.) <\/em><br \/>\n(2) QUIJANO OTERO, Jos\u00e9 Maria. <em>Mem\u00f3ria Hist\u00f3rica sobre<br \/>\nLimites. <\/em><br \/>\nBogot\u00e1, 1900.<br \/>\n<em>(3) <\/em>BALEATO, Andr\u00e9s. <em>Plano Geral del Reyno del Per\u00fa<br \/>\nen la Am\u00e9rica Meridional. \/Hecho por orden del Exmo. Sr. Virrey D. Fr.<br \/>\nGil y Lemos\/, <\/em>1706.<br \/>\n<em>(4) <\/em>Memorial de los Virreyes que han gobernado <em>el <\/em>Per\u00fa.<br \/>\nT. IV, p. 2.<br \/>\n(5) <em>Archivo de \u00cdndias. Est. <\/em>112, <em>cap. <\/em>7, <em>leg. <\/em>16.<br \/>\nO mesmo revela o mapa coevo (1871) de Jos\u00e9 Ramos Figueiroa, <em>secret\u00e1rio<br \/>\ndos <\/em>Visitadores-Gerais.<br \/>\n<em>(6) Archivo de \u00cdndias. Est. <\/em>112, <em>cap. <\/em>7, <em>leg. <\/em>16.<\/p>\n<p>(7) AT\u00d3S, Josquim. <em>Demonstraci\u00f3n Geogr\u00e1fica de las<br \/>\nProvincias que Abrazan Cada Intendencia de la Parte del Per\u00fa. <\/em><br \/>\n(8) <em>Las Provincias del Callao. <\/em>1876.<br \/>\n<em>(9) Geographie du Perou. Paris, 1863, p. <\/em>201.<br \/>\n(10) <em>Carta, <\/em>anteriormente citada, de D. Pedro Campomanes a D. Jos\u00e9<br \/>\nGalv\u00e9s.<br \/>\n(11) <em>Recopilaci\u00f3n de Leys. <\/em>Tit. 1o, 1.2o . Ley XXII. Veja-se,<br \/>\na este prop\u00f3sito, <em>La Integridad Territorial del Ecuador, do <\/em>Padre<br \/>\nEnrique Vacas Gallindo, pp. 176 e seguintes.<br \/>\n(12) <em>\u00c1rea total ocupada o pretendida por el Per\u00fa = 503 430<br \/>\nkm2. Quiero decir mas de las terceras partes de la Rep\u00fablica de Ecuador<br \/>\ncuya tierra firme quedaria reducida a 204 000 km2. <\/em>(TEOI,0RO WOLF, <em>Geografia<br \/>\ny Geologia del Ecuador, <\/em>1892.)<br \/>\n(13) <em>Archivo de \u00cdndias. <\/em>Est. 115, c. 6, l. 23.<br \/>\n(14) <em>Mapa para acompa\u00f1ar a la descripci\u00f3n del nuevo Obispado<br \/>\nque se proyecta en Maynas. Constru\u00eddo por Dom Francisco Requena, Yngeniero<br \/>\nOrdinario Gobernador de Maynas y primer comisario de limites. <\/em>1779.<br \/>\n(15) <em>Informe que hizo al Consejo D. Francisco Requena, sobre el arreglo<br \/>\ntemporal de las Misiones de Maynas. <\/em>Arch. \u00edndias. Est. 115, c. 6,<br \/>\nl. 23.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>(1) ZEBALLOS, Estan\u00edslao. <em>Map Showing the Lands Granted by Spain<br \/>\nto Portugal. <\/em>Washington, 1894.<br \/>\n(2) Cf. o mapa que Lardner Gibbon, oficial da U. S. Navy, anexou ao seu Relat\u00f3rio,<br \/>\n1854.<\/p>\n<p><em>(3) Revista do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro.<br \/>\n<\/em>T. IV, p. 156. Quanto \u00e0 defesa do forte de Coimbra, que se fez gloriosamente,<br \/>\nmalgrado a tremenda intimativa de Rivera: <em>el canon y la espada decidieron<br \/>\nde la suerte de Coimbra! <\/em>veja-se a mesma Revista, T. XIII, p. 47.<br \/>\n(4) <em>Resultados dos Trabalhos na Prov\u00edncia de Mato Grosso, <\/em>etc.<br \/>\nAnais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (1877-1878). Vol. III, fasc.<br \/>\n1o<br \/>\n<em>(5) Carta Geogr\u00e1fica de Proje\u00e7\u00e3o Ortogonal Esf\u00e9rica<br \/>\nda Nova Lusit\u00e2nia, Estado do Brasil, 1798. <\/em><br \/>\n<em>(6) Misiones del Ucayali y Verdadero Curso de \u00caste Rio, en los A\u00f1os<br \/>\nde <\/em>1811, 1815, 1816, 1817,1818, <em>por los Padres Misioneros del Colegio<br \/>\nde Propaganda Fide de Santa Rosa de Ocopa, 1833. <\/em><br \/>\n<em>(7) El Per\u00fa. <\/em>T. 3o p. 297.<br \/>\n(8) Mateo Paz Soldan. <em>G\u00e9ograpbie du Per\u00fa, p. <\/em>261.<br \/>\n(9) O s\u00e1bio viajante <em>foi <\/em>tamb\u00e9m acompanhado, na sua excurs\u00e3o<br \/>\naos rios Santana, Tambo e Ucayali, pelo Capitao-de-Fragata D. Francisco Carrasco,<br \/>\ncomissionado do Governo do Peru. Ora, entre os incidentes do penoso itiner\u00e1rio,<br \/>\nsurgem a todo instante as mais amargas refer\u00eancias de Castelnau ao seu<br \/>\nsingular\u00edssimo auxiliar. D. Francisco Carrasco foi para o tenaz explorador<br \/>\num empe\u00e7o maior do que todos os pongos de Urubamba.<br \/>\nCastelnau denunciou-o nuamente.<br \/>\n<em>Je fus alors convaincu qu&#8217;il n&#8217;avait jamais song\u00e9 \u00e0 executer<br \/>\nle voyage; et qu&#8217;il \u00eatait l&#8217;instigateur des difficult\u00e9s que venaient<br \/>\nnous arreter a chaque instant. (Expedition dans les partes centrales de l&#8217;Amerique<br \/>\ndu Sud. <\/em>Tomo 4o, p. 296.)<br \/>\n(10) <em>Comercio de Lima. Viernes, 20 Julio de 1906. Concepto del profesor<br \/>\nMoore en la questi\u00f3n de frontera peruano-brasilena. <\/em><br \/>\n<em>Carlos Wiesse, Catedr\u00e1tico de la Facultad Mayor de San Marcos. <\/em><\/p>\n<p>(11) SOUSA, Andr\u00e9 Fernandes de. <em>Not\u00edcias Geogr\u00e1ficas,<br \/>\n<\/em>etc. <em>Revista do I.H.G.B., <\/em>tomo X.<br \/>\n(12) <em>El Per\u00fa. <\/em>T. III, p. 108.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>(1) MICHELENA Y ROJAS, F. &#8211; <em>Exploraci\u00f3n Official, <\/em>etc., 1867,<br \/>\np. 575<\/p>\n<p>(2) WOLF, T. &#8211; <em>Geograf\u00eda y Geologia del Ecuador, <\/em>1892, p.<br \/>\n12.<br \/>\n(3) BASTOS, Tavares. <em>Cartas de um Solit\u00e1rio. <\/em><br \/>\n(4) F. Maury, Tenente da U. S. Navy. <em>O Amazonas e as Costas Atl\u00e2nticas,<br \/>\n<\/em>etc. Rio de Janeiro, 1853, p. 35.<br \/>\n(5) PINTO, A. Pereira. <em>Estudo Sobre Algumas Quest\u00f5es Internacionais,<br \/>\n<\/em>S\u00e3o Paulo, 1867, p. 42.<br \/>\n(6) Realmente o Tratado peruvio-boliviano, de 5 de novembro de 1863, quanto<br \/>\na limites, se reduziu a confirmar o <em>statu quo <\/em>firmado no de 3 de<br \/>\nnovembro de 1847, onde ambos os Governos se comprometeram a nomear comiss\u00f5es<br \/>\npara levantarem as cartas topogr\u00e1ficas das fronteiras, <em>com a cl\u00e1usula<br \/>\n<\/em>de <em>que la demarcaci\u00f3n estipulada s\u00f3lo tendr\u00e1<br \/>\npor objecto la restituci\u00f3n de los terrenos comprendidos entre las fronteras<br \/>\nactuales del Per\u00fa y Bol\u00edvia. <\/em>Estavam, certo, longe de cogitarem<br \/>\nna Amaz\u00f4nia, onde seriam rid\u00edculas as plantas topogr\u00e1ficas<br \/>\nantes das linhas geogr\u00e1ficas. Alem disso a mesma cl\u00e1usula, confirmando<br \/>\na limpidez daquelas <em>fronteras actuales, <\/em>adita que a restitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o visa <em>cederse territorio, sino para restabiecer sus antiguos<br \/>\namojonamentos, a fim de evitar dudas&#8230; <\/em><br \/>\n<em>Mojone, <\/em>quer dizer marco divis\u00f3rio, o que certo n\u00e3o<br \/>\nhavia, e sobretudo antigos, naquelas terras ignotas.<br \/>\n(ARANDA, <em>Collecci\u00f3n de Tratados del Per\u00fa. <\/em>Tomo II,<br \/>\npp. 309, 293, 287, etc.)<br \/>\n(7) Veja-se o <em>Ap\u00eandice <\/em>final.<br \/>\n(8) Em flagrante desacordo com o parecer atual da Sociedade Geogr\u00e1fica<br \/>\nde Lima!.<br \/>\n(9) &#8220;Nota-protesta&#8221; do Peru, de 20 de dezembro de 1867, por <em>J.<br \/>\n<\/em>A. Barrenechea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Euclides da Cunha &#8230; mais il est permis, m\u00eame ou plus faible, d&#8217;avoir une bonne intention et de la dire. Victor Hugo Cap\u00edtulo I A quest\u00e3o de limites entre a Bol\u00edvia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95750","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Peru Versus Bol\u00edvia, Euclides da Cunha Peru Versus Bol\u00edvia<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Peru Versus Bol\u00edvia, Euclides da Cunha, Obra, Literatura, Tratado de Arbitragem, Limites, Hist\u00f3ria, Peru Versus Bol\u00edvia\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" 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