{"id":95746,"date":"2017-01-20T10:59:17","date_gmt":"2017-01-20T12:59:17","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95746"},"modified":"2018-02-01T14:36:09","modified_gmt":"2018-02-01T16:36:09","slug":"os-sertoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-sertoes","title":{"rendered":"Os Sert\u00f5es"},"content":{"rendered":"<table width=\"100%\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Euclides da Cunha<\/h2>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>Preliminares. A entrada do sert\u00e3o. Terra ignota. Em caminho para Monte\u00a0Santo. Primeiras impress\u00f5es. Um sonho de ge\u00f3logo.<\/p>\n<p>O Planalto Central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiri\u00e7as,\u00a0altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapad\u00f5es nivelados\u00a0pelos visos das cordilheiras mar\u00edtimas, distendidas do Rio Grande a\u00a0Minas. Mas ao derivar para as terras setentrionais diminui gradualmente de\u00a0altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa oriental em andares, ou<br \/>\nrepetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza afastando-o consideravelmente\u00a0para o interior.<\/p>\n<p>De sorte que quem o contorna, seguindo para o norte, observa not\u00e1veis\u00a0mudan\u00e7as de relevos: a principio o tra\u00e7o cont\u00ednuo e dominante\u00a0das montanhas, precintando-o, com destaque saliente, sobre a linha projetante\u00a0das praias; depois, no segmento de orla mar\u00edtima entre o Rio de Janeiro\u00a0e o Esp\u00edrito Santo, um aparelho litoral revolto, feito da envergadura\u00a0desarticulada das serras, ri\u00e7ado de cumeadas e corro\u00eddo de angras,\u00a0e escancelando-se em baias, repartindo-se em ilhas, e desagregando-se em recifes\u00a0desnudos, \u00e0 maneira de escombros do conflito secular que ali se trava\u00a0entre os mares e a terra; em seguida, transposto o 15\u00b0 paralelo, a atenua\u00e7\u00e3o\u00a0de todos os acidentes &#8212; serranias que se arredondam e suavizam as linhas\u00a0dos taludes, fracionadas em morros de encostas indistintas no horizonte que\u00a0se amplia; at\u00e9 que em plena faixa costeira da Bahia, o olhar, livre<br \/>\ndos anteparos de serras que at\u00e9 l\u00e1 o repulsam e abreviam, se\u00a0dilata em cheio para o ocidente, mergulhando no \u00e2mago da terra ampl\u00edssima\u00a0lentamente emergindo num ondear long\u00ednquo de chapadas&#8230;<\/p>\n<p>Este facies geogr\u00e1fico resume a morfogenia do grande maci\u00e7o\u00a0continental.<\/p>\n<p>Demonstra-o an\u00e1lise mais \u00edntima feita por um corte meridiano\u00a0qualquer, acompanhando \u00e0 bacia do S. Francisco.<\/p>\n<p>V\u00ea-se, do fato, que tr\u00eas forma\u00e7\u00f5es geogn\u00f3sticas<br \/>\nd\u00edspares, de idades mal determinadas, a\u00ed se substituem, ou se<br \/>\nentrela\u00e7am, em estratifica\u00e7\u00f5es discordantes, formando<br \/>\no predom\u00ednio exclusivo de umas, ou a combina\u00e7\u00e3o de todas,<br \/>\nos tra\u00e7os vari\u00e1veis da fisionomia da terra. Surgem primeiro<br \/>\nas possantes massas gnaissegran\u00edticas, que a partir do extremo sul<br \/>\nse encurvam em desmedido anfiteatro, alteando as paisagens admir\u00e1veis<br \/>\nque tanto encantam e iludem as vistas inexpertas dos forasteiros. A princ\u00edpio<br \/>\nabeiradas do mar progridem em sucessivas cadeias, sem rebentos laterais, at\u00e9<br \/>\nas raias do litoral paulista, feito dilatado muro de arrimo sustentando as<br \/>\nforma\u00e7\u00f5es sediment\u00e1rias do interior. A terra sobranceia<br \/>\no oceano, dominante, do fast\u00edgio das escarpas; e quem a alcan\u00e7a<br \/>\ncomo quem vinga a rampa de um majestoso palco, justifica todos os exageros<br \/>\ndescritivos &#8212; do gongorismo de Rocha Pita \u00e0s extravag\u00e2ncias<br \/>\ngeniais de Buckle &#8212; que fazem deste pa\u00eds regi\u00e3o privilegiada,<br \/>\nonde a natureza armou a sua mais portentosa oficina.<\/p>\n<p>\u00c9 que, de feito, sob o tr\u00edplice aspecto astron\u00f4mico,<br \/>\ntopogr\u00e1fico e geol\u00f3gico a nenhuma se afigura t\u00e3o afei\u00e7oada<br \/>\n\u00e0 Vida.<\/p>\n<p>Transmontadas as serras, sob a linha fulgurante do tr\u00f3pico, v\u00eaem-se,<br \/>\nestirados para o ocidente e norte, extensos chapad\u00f5es cuja urdidura<br \/>\nde camadas horizontais de gr\u00e9s argiloso, intercaladas de emers\u00f5es<br \/>\ncalc\u00e1rias, ou diques de rochas eruptivas b\u00e1sicas, do mesmo passo<br \/>\nlhes explica a exuber\u00e2ncia sem par e as \u00e1reas complanadas e vastas.<br \/>\nA terra atrai irresistivelmente o homem, arrebatando-o na pr\u00f3pria correnteza<br \/>\ndos rios que, do Igua\u00e7u ao Tiet\u00ea, tra\u00e7ando original\u00edssima<br \/>\nrede hidrogr\u00e1fica, correm da costa para os sert\u00f5es, como se<br \/>\nnascessem nos mares e canalizassem as suas energias eternas para os recessos<br \/>\ndas matas opulentas. Rasgam facilmente aqueles estratos em tra\u00e7ados<br \/>\nuniformes, sem talvegues deprimidos, e d\u00e3o ao conjunto dos terrenos<br \/>\nat\u00e9 al\u00e9m do Paran\u00e1 a fei\u00e7\u00e3o de largos plainos<br \/>\nondulados, desmedidos.<\/p>\n<p>Entretanto, para leste a natureza \u00e9 diversa.<\/p>\n<p>Estereografa-se, duramente, nas placas r\u00edgidas dos afloramentos gn\u00e1issicos;<br \/>\ne o talude dos planaltos dobra-se do socalco da Mantiqueira, onde se encaixa<br \/>\no Para\u00edba, ou desfaz-se em rebentos que, ap\u00f3s apontarem as alturas<br \/>\nde p\u00edncaros centralizados pelo Itatiaia, levam at\u00e9 o \u00e2mago<br \/>\nde Minas as paisagens alpestres do litoral. Mas ao penetrar-se este Estado<br \/>\nnota-se, malgrado o tumultuar das serranias, lenta descens\u00e3o geral<br \/>\npara o norte. Como nos altos chapad\u00f5es de S\u00e3o Paulo e do Paran\u00e1,<br \/>\ntodas as caudais revelam este pendor insens\u00edvel com derivarem em leitos<br \/>\ncontorcidos e vencendo, contrafeitas, o antagonismo permanente das montanhas:<br \/>\no rio Grande rompe, rasgando-a com a for\u00e7a viva da corrente, a serra<br \/>\nda Canastra, e, norteados pela meridiana, abrem-se adiante os fundos vales<br \/>\nde eros\u00e3o do rio das Velhas e do S. Francisco. Ao mesmo tempo, transpostas<br \/>\nas subleva\u00e7\u00f5es que v\u00e3o de Barbacena a Ouro Preto, as<br \/>\nforma\u00e7\u00f5es primitivas desaparecem, mesmo nas maiores emin\u00eancias,<br \/>\ne jazem sotopostas a complexas s\u00e9ries de xistos metam\u00f3rficos,<br \/>\ninfiltrados de veeiros fartos, nas paragens lend\u00e1rias do ouro.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a estrutural origina quadros naturais mais imponentes que<br \/>\nos da borda mar\u00edtima. A regi\u00e3o continua alpestre. O car\u00e1ter<br \/>\ndas rochas, exposto nas abas dos cerros de quartzito, ou nas grimpas em que<br \/>\nse empilham as placas do itacolomito avassalando as alturas, aviva todos os<br \/>\nacidentes, desde os maci\u00e7os que v\u00e3o de Ouro Branco a Sabar\u00e1,<br \/>\n\u00e0 zona diamantina expandindo-se para nordeste nas chapadas que se desenrolam<br \/>\nnivelando-se \u00e0s cimas da serra do Espinha\u00e7o; e esta, apesar<br \/>\nda sugestiva denomina\u00e7\u00e3o de Eschwege, mal sobressai, entre aquelas<br \/>\nlombadas definidoras de uma situa\u00e7\u00e3o dominante. Dali descem,<br \/>\nacachoantes, para o levante, tombando em catadupas ou saltando &#8220;travess\u00f5es&#8221;<br \/>\nsucessivos, todos os rios que do Jequitinhonha ao Doce procuram os terra\u00e7os<br \/>\ninferiores do planalto arrimados \u00e0 serra dos Aimor\u00e9s; e volvem<br \/>\n\u00e1guas remansadas para o poente os que se destinam \u00e0 bacia de<br \/>\ncapta\u00e7\u00e3o do S. Francisco, em cujo vale, depois de percorridas<br \/>\nao sul as interessantes forma\u00e7\u00f5es calc\u00e1rias do rio das<br \/>\nVelhas, salpintadas de lagos, solapadas de sumidouros e ribeir\u00f5es subterr\u00e2neos,<br \/>\nonde se abrem as cavernas d&lt;STRONG&gt;O HOMEM&lt;\/STRONG&gt;pr\u00e9-hist\u00f3rico<br \/>\nde Lund, se acentuam outras transi\u00e7\u00f5es na contextura superficial<br \/>\ndo solo.<\/p>\n<p>De fato, as camadas anteriores, que vimos superpostas \u00e0s rochas gran\u00edticas,<br \/>\ndecaem, por sua vez sotopondo-se a outras, mais modernas de espessos estratos<br \/>\nde gr\u00e9s.<\/p>\n<p>Novo horizonte geol\u00f3gico reponta com um tra\u00e7o original e interessante.<br \/>\nMal estudado embora, caracteriza-o not\u00e1vel significa\u00e7\u00e3o<br \/>\norogr\u00e1fica, porque as cordilheiras dominantes do sul ali se extinguem,<br \/>\nsoterradas, numa inuma\u00e7\u00e3o estupenda, pelos possantes estratos<br \/>\nmais recentes, que as circundam. A terra, por\u00e9m, permanece elevada,<br \/>\nalongando-se em planuras amplas, ou avultando em falsas montanhas de denuda\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndescendo em aclives fortes, mas tendo os dorsos alargados em plainos inscritos<br \/>\nnum horizonte de n\u00edvel, apenas apontoado a leste pelos v\u00e9rtices<br \/>\ndos albard\u00f5es distantes, que perlongam a costa.<\/p>\n<p>Verifica-se. assim, a tend\u00eancia para um aplainamento geral.<\/p>\n<p>Porque, neste coincidir das terras altas do interior e a depress\u00e3o<br \/>\ndas forma\u00e7\u00f5es arqueanas, a regi\u00e3o montanhosa de minas<br \/>\nse vai prendendo, sem ressaltos, \u00e0 extensa zona dos tabuleiros do norte.<\/p>\n<p>A serra do Gr\u00e3o Mogol raiando as lindes da Bahia, \u00e9 o primeiro<br \/>\nesp\u00e9cimen dessas espl\u00eandidas chapadas imitando cordilheiras,<br \/>\nque tanto perturbam aos ge\u00f3grafos descuidados; e as demais que a convizinham,<br \/>\nda do Cabral mais pr\u00f3xima, \u00e0 da Mata da Corda alongando-se para<br \/>\nGoi\u00e1s, modelam-se de maneira id\u00eantica. Os sulcos de eros\u00e3o<br \/>\nque as retalham s\u00e3o cortes geol\u00f3gicos expressivos. Ostentam<br \/>\nem plano vertical, sucedendo-se a partir da base, as mesmas rochas que vimos<br \/>\nsubstitu\u00edrem em alongado roteiro pela superf\u00edcie: embaixo os<br \/>\nrebentos gran\u00edticos deca\u00eddos pelo fundo dos vales, em c\u00f4moros<br \/>\nesparsos; \u00e0 meia encosta, inclinadas, as placas xistosas mais recentes;<br \/>\nno alto, sobrepujando-as, ou circuitando-lhes os flancos em vales monocl\u00ednicos,<br \/>\nos len\u00e7\u00f3is de gr\u00e9s, predominantes e oferecendo aos agentes<br \/>\nmete\u00f3ricos plasticidade admir\u00e1vel aos mais caprichosos modelos.<br \/>\nSem linhas de cumeadas, as maiores serranias nada mais s\u00e3o que planuras<br \/>\naltas, extensas rech\u00e3s terminando de chofre em encostas abruptas, na<br \/>\nmolduragem golpeante do reg\u00edmen torrencial sobre o terreno perme\u00e1vel<br \/>\ne m\u00f3vel. Caindo por ali h\u00e1 s\u00e9culos as fortes enxurradas,<br \/>\nderivando a princ\u00edpio em linhas divagantes de drenagem, foram pouco<br \/>\na pouco reprofundando-as, talhando-as em quebradas que se fizeram ca\u00f1ons,<br \/>\ne se fizeram vales em declive, at\u00e9 orlarem de escarpamentos e despenhadeiros<br \/>\naqueles plainos soerguidos. E consoante a resist\u00eancia dos materiais<br \/>\ntrabalhados variaram nos aspectos: aqui apontam, rijamente, sobre as \u00e1reas<br \/>\nde n\u00edvel, os \u00faltimos fragmentos das rochas enterradas, desvendando-se<br \/>\nem fraguedos que mal relembram, na altura, o antiq\u00fc\u00edssimo &#8220;Himalaia<br \/>\nbrasileiro&#8221;, desbarrancado, em desintegra\u00e7\u00e3o cont\u00ednua,<br \/>\npor todo o curso das idades; adiante, mais caprichosos, se escalonam em alinhamentos<br \/>\nincorretos de menires colossais, ou em c\u00edrculos enormes, recordando<br \/>\nna disposi\u00e7\u00e3o dos grandes blocos superpostos, em rimas, muramentos<br \/>\ndesmantelados de cicl\u00f3picos coliseus em ru\u00ednas ou ent\u00e3o,<br \/>\npelos visos das escarpas, obl\u00edquos e sobreanceando as planuras que,<br \/>\ninteropostos, ladeiam, lembram aduelas desconformes, restos da monstruosa<br \/>\nab\u00f3bada da antiga cordilheira, desabada&#8230;<\/p>\n<p>Mas desaparecem de todo em v\u00e1rios pontos.<\/p>\n<p>Estiram-se ent\u00e3o planuras vastas. Galgando-as pelos taludes, que as<br \/>\nsoerguem dando-lhes a apar\u00eancia exata de tabuleiros suspensos, topam-se,<br \/>\na centenas de metros, extensas \u00e1reas ampliando-se, boleadas, pelos<br \/>\nquadrantes, numa prolonga\u00e7\u00e3o indefinida, de mares. \u00c9<br \/>\na paragem formos\u00edssima dos campos gerais, expandida em chapad\u00f5es<br \/>\nondulantes &#8211;grandes tablados onde campeia a sociedade rude dos vaqueiros&#8230;<\/p>\n<p>Atravess\u00eamo-la.<\/p>\n<p>Adiante, a partir de Monte Alto, estas conforma\u00e7\u00f5es naturais<br \/>\nse bipartem: no rumo firme do norte a s\u00e9rie do gr\u00e9s figura-se<br \/>\nprogredir at\u00e9 ao plateau arenoso do A\u00e7uru\u00e1, associando-se<br \/>\nao calc\u00e1rio que aviva as paisagens na orla do grande rio, prendendo-as<br \/>\n\u00e0s linhas dos cerros talhados em di\u00e1clase, t\u00e3o bem expressos<br \/>\nno perfil fant\u00e1stico do Bom Jesus da Lapa; enquanto para nordeste,<br \/>\ngra\u00e7as a degrada\u00e7\u00f5es intensas (porque a serra Geral segue<br \/>\npor ali como anteparo aos al\u00edsios, condensando-os em diluvianos aguaceiros),<br \/>\nse desvendam, ressurgindo, as forma\u00e7\u00f5es antigas.<\/p>\n<p>Desenterram-se as montanhas.<\/p>\n<p>Reponta a regi\u00e3o diamantina, na Bahia, revivendo inteiramente a de<br \/>\nMinas, como um desdobramento ou antes um prolongamento, porque \u00e9 a<br \/>\nmesma forma\u00e7\u00e3o mineira rasgando, afinal, os len\u00e7\u00f3is<br \/>\nde gr\u00e9s, e alteando-se com os mesmos contornos alpestres e perturbados,<br \/>\nnos alcantis que irradiam da Tromba ou avultam para o norte nos xistos huronianos<br \/>\ndas cadeias paralelas de Sincor\u00e1.<\/p>\n<p>Deste ponto em diante, por\u00e9m, o eixo da serra Geral se fragmenta,<br \/>\nindefinido. Desfaz-se. A cordilheira eri\u00e7a-se de contrafortes e talhados<br \/>\nde onde saltam, acachoando, em despenhos, para o levante, as nascentes do<br \/>\nParagua\u00e7u, e um d\u00e9dalo de serranias tortuosas, pouco elevadas<br \/>\nmas in\u00fameras, cruza-se embaralhadamente sobre o largo dos gerais, cobrindo-os.<br \/>\nTransmuda-se o car\u00e1ter topogr\u00e1fico, retratando o desapoderado<br \/>\nembater dos elementos, que ali reagem h\u00e1 mil\u00eanios entre montanhas<br \/>\nderru\u00eddas, e a queda, at\u00e9 ent\u00e3o gradativa, dos planaltos<br \/>\ncome\u00e7a a derivar em desnivelamentos consider\u00e1veis. Revela-os<br \/>\no S. Francisco, no vivo infletir com que torce para o levante, indicando do<br \/>\nmesmo passo a transforma\u00e7\u00e3o geral da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 mais deprimida e mais revolta.<\/p>\n<p>Cai para os terra\u00e7os inferiores, entre um tumultuar de morros, incoerentemente<br \/>\nesparsos. \u00daltimo rebento da serra principal, a da Iti\u00faba re\u00fane-lhe<br \/>\nalguns galhos indecisos, fundindo as expans\u00f5es setentrionais das da<br \/>\nFurna, Cocais e Sincor\u00e1. Alteia-se um momento, mas descai logo para<br \/>\ntodos os rumos: para o norte, originando a corredeira de quatrocentos quil\u00f4metros<br \/>\n\u00e0 jusante do Sobradinho; para o sul, em segmentos dispersos que v\u00e3o<br \/>\nat\u00e9 al\u00e9m do Monte Santo; e para leste, passando sob as chapadas<br \/>\nde Jeremoabo, at\u00e9 se desvendar no salto prodigioso de Paulo Afonso.<\/p>\n<p>E o observador que seguindo este itiner\u00e1rio deixa as paragens em que<br \/>\nse revezam, em contraste bel\u00edssimo, a amplitude dos gerais e o fast\u00edgio<br \/>\ndas montanhas, ao atingir aquele ponto estaca surpreendido&#8230;<\/p>\n<p>A entrada sert\u00e3o<\/p>\n<p>Est\u00e1 sobre um socalco do maci\u00e7o continental, ao norte.<\/p>\n<p>Demarca-o de uma banda, abrangendo dois quadrantes, em semic\u00edrculo,<br \/>\no rio de S. Francisco: e de outra, encurvando tamb\u00e9m para sudeste,<br \/>\nnuma normal a dire\u00e7\u00e3o primitiva, o curso flexuoso do Itapicuru-a\u00e7u.<br \/>\nSegundo a mediana, correndo quase paralelo entre aqueles, com o mesmo descambar<br \/>\nexpressivo para a costa, v\u00ea-se o tra\u00e7o de um outro rio, o Vaza-Barris,<br \/>\no Irapiranga dos tapuias, cujo trecho de Jeremoabo para as cabeceiras \u00e9<br \/>\numa fantasia de cart\u00f3grafo. De fato, no estupendo degrau, por onde<br \/>\ndescem para o mar ou para jusante de Paulo Afonso as rampas esbarrancadas<br \/>\ndo planalto, n\u00e3o h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es de equil\u00edbrio<br \/>\npara uma rede hidrogr\u00e1fica normal. Ali reina a drenagem ca\u00f3tica<br \/>\ndas torrentes, a naquele da Bahia facies excepcional e selvagem.<\/p>\n<p>Terra ignota<\/p>\n<p>Abordando-o, compreende-se que at\u00e9 hoje escasseiem sobre t\u00e3o<br \/>\ngrande trato de territ\u00f3rio, que quase abarcaria a Holanda (9\u00ba<br \/>\n11&#8242; &#8212; 10\u00ba 20&#8242; de lat. e 4\u00b0 &#8212; 3\u00b0 de long. O.R.J. ), not\u00edcias<br \/>\nexatas ou pormenorizadas. As nossas melhores cartas, enfeixando informes escassos,<br \/>\nl\u00e1 t\u00eam um claro expressivo, um hiato, Terra ignota, em que se<br \/>\naventura o rabisco de um rio problem\u00e1tico ou idealiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma corda de serras.<\/p>\n<p>E. que transpondo o Itapicuru, pelo lado do sul, as mais avan\u00e7adas<br \/>\nturmas de povoadores estacaram em vilarejos min\u00fasculos &#8212; Ma\u00e7acar\u00e1,<br \/>\nCumbe ou Bom Conselho &#8212; entre os quais o deca\u00eddo Monte Santo tem visos<br \/>\nde cidade: transmontada a Iti\u00faba, a sudoeste, disseminaram-se pelos<br \/>\npovoados que a abeiram acompanhando insignificantes cursos de \u00e1gua,<br \/>\nou pelas raras fazendas de gado, estremados todos por uma tapera obscura &#8212;<br \/>\nUau\u00e1, ao norte e a leste pararam \u00e0s margens do S. Francisco,<br \/>\nentre Capim Grosso e Santo Ant\u00f4nio da Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Apenas naquele \u00faltimo rumo se avantajou uma vila secular, Jeremoabo,<br \/>\nbatizando o m\u00e1ximo esfor\u00e7o de penetra\u00e7\u00e3o em tais<br \/>\nlugares, evitados sempre pelas vagas humanas, que vinham do litoral baiano<br \/>\nprocurando o interior.<\/p>\n<p>Uma ou outra o cortou, r\u00e1pida, fugindo, sem deixar tra\u00e7os.<\/p>\n<p>Nenhuma l\u00e1 se fixou. N\u00e3o se podia fixar. O estranho territ\u00f3rio,<br \/>\na menos de quarenta l\u00e9guas da antiga metr\u00f3pole, predestinava-se<br \/>\na atravessar absolutamente esquecido os quatrocentos anos da nossa hist\u00f3ria.<br \/>\nPorque enquanto as bandeiras do sul lhe paravam \u00e0 beira e envesgando,<br \/>\ndepois, pelos flancos da Iti\u00faba, se lan\u00e7avam para Pernambuco<br \/>\ne Piau\u00ed at\u00e9 o Maranh\u00e3o as do levante, repelidas pela<br \/>\nbarreira intranspon\u00edvel de Paulo Afonso, iam procurar, no Paragua\u00e7u<br \/>\ne rios que lhe demoram ao sul, linhas de acesso mais pratic\u00e1veis, Deixavam-no<br \/>\nde permeio, inabord\u00e1vel, ignoto.<\/p>\n<p>\u00c9 que mesmo trilhando o \u00faltimo daqueles rumos, adstritas a<br \/>\nitiner\u00e1rio menos longo, as salteava impressionadoramente o aspecto<br \/>\nestranho da terra repontando em transi\u00e7\u00f5es imprevistas.<\/p>\n<p>Deixando a orla mar\u00edtima e seguindo em cheio para o ocidente, tinham,<br \/>\ntranscorridas poucas l\u00e9guas, amolentada ou desinflu\u00edda a atra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas &#8220;entradas&#8221; aventurosas, e extinta a miragem do litoral opulento.<br \/>\nLogo a partir de Camassari as forma\u00e7\u00f5es antigas cobrem-se de<br \/>\nescassas manchas terci\u00e1rias, alternando com ex\u00edguas bacias cret\u00e1ceas,<br \/>\nrevestidas do terreno arenoso de Alagoinhas que mal esgar\u00e7am, a leste,<br \/>\nas emers\u00f5es calc\u00e1rias de Inhambupe. A vegeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nem roda transmuda-se, copiando estas alternativas com a precis\u00e3o de<br \/>\num decalque. Rarefazem-se as matas, ou empobrecem. Extinguem-se, por fim,<br \/>\ndepois de lan\u00e7arem rebentos esparsos pelo topo das serranias; e estas<br \/>\nmesmo, aqui e ali, cada vez mais raras, ilham-se ou avan\u00e7am em promont\u00f3rio<br \/>\nnas planuras desnudas dos campos, onde uma flora caracter\u00edstica &#8212;<br \/>\narbustos flexuosos entrechassados de brom\u00e9lias rubras &#8212; prepondera<br \/>\nexclusiva em largas \u00e1reas, mal dominada pela vegeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nvigorosa irradiante da Pojuca sobre o massap\u00e9 feraz das camadas cret\u00e1ceas<br \/>\ndecompostas.<\/p>\n<p>Deste lugar em diante, reaparecem os terrenos terci\u00e1rios esterilizadores,<br \/>\nsobre os mais antigos que, entretanto, depois, dominam em toda a zona centralizada<br \/>\nem Serrinha. Os morros do Lopes e do Lajedo aprumam-se, \u00e0 maneira de<br \/>\ndisformes pir\u00e2mides de blocos arredondados e lisos; e os que se sucedem,<br \/>\nbeirando de um e outro lado as abas das serras da Sa\u00fade e da Iti\u00faba,<br \/>\nat\u00e9 Vila Nova da Rainha e Juazeiro, copiam-lhes os mesmos contornos<br \/>\ndas encostas estaladas, exumando a ossatura partida das montanhas.<\/p>\n<p>O observador tem a impress\u00e3o de seguir torneando a truncadura malgradada<br \/>\nda borda de um planalto.<\/p>\n<p>Calca, de fato, estrada tr\u00eas vezes secular, hist\u00f3rica vereda<br \/>\npor onde avan\u00e7avam os rudes sertanistas nas suas excurs\u00f5es para<br \/>\no interior.<\/p>\n<p>N\u00e3o a alteraram nunca.<\/p>\n<p>N\u00e3o a variou, mais tarde, a civiliza\u00e7\u00e3o, justapondo<br \/>\naos rastos do bandeirante os trilhos de uma via f\u00e9rrea.<\/p>\n<p>Porque o caminho em cuja longura de cem l\u00e9guas, da Bahia ao Juazeiro,<br \/>\nse entroncam numeros\u00edssimos desvios para o poente e para o sul, jamais<br \/>\ncomportou, a partir de seu trecho m\u00e9dio, variante apreci\u00e1vel<br \/>\npara leste e para o norte.<\/p>\n<p>Calcando-o, em demanda do Piau\u00ed, Pernambuco, Maranh\u00e3o e Par\u00e1,<br \/>\nos povoadores, consoante v\u00e1rios destinos, dividiam-se em Serrinha.<br \/>\nE progredindo para Juazeiro, ou volvendo \u00e0 direita, pela estrada real<br \/>\ndo Bom Conselho que, desde o s\u00e9culo 17, os levava a Santo Ant\u00f4nio<br \/>\nda Gl\u00f3ria e Pernambuco &#8212; uns e outros contorneavam sempre, evitando-a<br \/>\nsempre, a paragem sinistra e desolada, subtraindo-se a uma travessia torturante.<\/p>\n<p>De sorte que aquelas duas linhas de penetra\u00e7\u00e3o, que v\u00e3o<br \/>\ninterferir o S. Francisco em pontos afastados &#8212; Juazeiro e Santo Ant\u00f4nio<br \/>\nda Gl\u00f3ria &#8211;, formavam, desde aqueles tempos, as lindes de um deserto.<\/p>\n<p>Em caminho para Monte Santo<\/p>\n<p>No entanto quem se abalan\u00e7a a atravess\u00e1-lo, partindo de Queimadas<br \/>\npara nordeste, n\u00e3o se surpreende a princ\u00edpio. Recurvo em meandros,<br \/>\no Itapicuru alenta vegeta\u00e7\u00e3o vivaz; e as barrancas pedregosas<br \/>\ndo Jacurici debruam-se de pequenas matas. O terreno, areento e ch\u00e3o,<br \/>\npermite travessia desafogada e r\u00e1pida. Aos lados do caminho ondulam<br \/>\ntabuleiros rasos. A pedra, aflorando em lajedos horizontais, mal movimenta<br \/>\no solo, esgar\u00e7ando a t\u00eanue capa das areias que o revestem.<\/p>\n<p>V\u00eaem-se, por\u00e9m, depois, lugares que se v\u00e3o tornando crescentemente<br \/>\n\u00e1ridos.<\/p>\n<p>Varada a estreita faixa de cerrados, que perlongam aquele \u00faltimo rio,<br \/>\nest\u00e1-se em pleno agreste, no dizer expressivo dos matutos: arb\u00fasculos<br \/>\nquase sem pega sobre a terra escassa, enredados de esgalhos de onde irrompem,<br \/>\nsolit\u00e1rios, cereus r\u00edgidos e salientes, dando ao conjunto a<br \/>\napar\u00eancia de uma margem de desertos. E o facies daquele sert\u00e3o<br \/>\nin\u00f3spito vai-se esbo\u00e7ando, lenta e impressionadoramente&#8230;<\/p>\n<p>Galga-se uma ondula\u00e7\u00e3o qualquer &#8212; e ele se desvenda ou se<br \/>\ndeixa adivinhar, ao longe, no quadro tristonho de um horizonte mon\u00f3tono<br \/>\nem que se esbate, uniforme, sem um tra\u00e7o diversamente colorido, o pardo<br \/>\nrequeimado das caatingas.<\/p>\n<p>Intercorrem ainda paragens menos est\u00e9reis, e nos trechos em que se<br \/>\noperou a decomposi\u00e7\u00e3o in situ do granito, originando algumas<br \/>\nmanchas argilosas, as copas virentes dos ouricurizeiros circuitam &#8212; par\u00eantesis<br \/>\nbreves abertos na aridez geral &#8212; as bordas das ipueiras. Estas lagoas mortas,<br \/>\nsegundo a bela etimologia ind\u00edgena, demarcam obrigat\u00f3ria escala<br \/>\nao caminhante. Associando-se \u00e0s cacimbas e &#8220;caldeir\u00f5es&#8221;,<br \/>\nem que se abre a pedra, s\u00e3o-lhe recurso \u00fanico na viagem penos\u00edssima.<br \/>\nVerdadeiros o\u00e1sis, t\u00eam contudo, n\u00e3o raro, um aspecto l\u00fagubre:<br \/>\nlocalizadas em depress\u00f5es, entre colinas nuas, envoltas pelos mandacarus<br \/>\ndespidos e tristes, como espectros de \u00e1rvores; ou num colo de chapada,<br \/>\nrecortando-se com destaque no ch\u00e3o poento e pardo, gra\u00e7as \u00e0<br \/>\nplaca verde-negra das algas unicelulares que as revestem.<\/p>\n<p>Algumas denotam um esfor\u00e7o dos filhos do sert\u00e3o. Encontram-se,<br \/>\norlando-as, erguidos como represas entre as encostas, toscos muramentos de<br \/>\npedra seca. Lembram monumentos de uma sociedade obscura. Patrim\u00f4nio<br \/>\ncomum dos que por ali se agitam nas aperturas do clima feroz, v\u00eam em<br \/>\ngeral, de remoto passado. Delinearam-nos os que se afoitaram primeiro com<br \/>\nas vicissitudes de uma entrada naquelas bandas. E persistem indestrut\u00edveis,<br \/>\nporque o sertanejo, por mais escoteiro que siga, jamais deixa de levar uma<br \/>\npedra que calce as suas junturas vacilantes.<\/p>\n<p>Mas transpostos estes pontos &#8212; imperfeita c\u00f3pia das barragens romanas<br \/>\nremanescentes na Tun\u00edsia &#8212; entra-se outra vez nos areais exsicados.<br \/>\nE avan\u00e7ando c\u00e9lere, sobretudo nos trechos em que se sucedem<br \/>\npequenas ondula\u00e7\u00f5es, todas da mesma forma e do mesmo modo dispostas,<br \/>\no viajante mais r\u00e1pido tem a sensa\u00e7\u00e3o da imobilidade.<br \/>\nPatenteiam-se-lhe uniformes, os mesmos quadros, num horizonte invari\u00e1vel<br \/>\nque se afasta \u00e0 medida que ele avan\u00e7a. Raras vezes, como no<br \/>\npovoado min\u00fasculo de Cansan\u00e7\u00e3o, larga emers\u00e3o<br \/>\nde terreno f\u00e9rtil se recama de vegeta\u00e7\u00e3o virente.<\/p>\n<p>Despontam vivendas pobres; algumas desertas pela retirada dos vaqueiros que<br \/>\na seca espavoriu; em ru\u00ednas, outras, agravando todas no aspecto paup\u00e9rrimo<br \/>\no tra\u00e7o melanc\u00f3lico das paisagens&#8230;<\/p>\n<p>Nas cercanias de Quirinquinqu\u00e1, porem, come\u00e7a a movimentar-se<br \/>\no solo. O pequeno s\u00edtio ali ereto alevanta-se j\u00e1 sobre alta<br \/>\nexpans\u00e3o gran\u00edtica, e atentando-se para o norte divisa-se regi\u00e3o<br \/>\ndiversa &#8212; ri\u00e7ada de vales e serranias, perdendo-se ao longe em grimpas<br \/>\nfugitivas. A serra de Monte Santo, com um perfil de todo oposto aos redondos<br \/>\ncontornos que lhe desenhou o ilustre Martins, empina-se, a pique, na frente,<br \/>\nem possante dique de quartzito branco, de azulados tons, em relevo sobre a<br \/>\nmassa gn\u00e1issica que Constitui toda a base do solo. Dominante sobre<br \/>\nseu enorme pared\u00e3o, vincado pelas linhas dos estratos, expostas pela<br \/>\neros\u00e3o e\u00f3lia, afigura-se cortina de muralha monumental. Termina<br \/>\nem crista alt\u00edssima, estremando-lhe o desenvolvimento no rumo de 13\u00b0<br \/>\nNE, a cavaleiro da vila que se lhe erige no sop\u00e9. Centraliza um horizonte<br \/>\nvasto. Observa-se, ent\u00e3o, que atenuados para o sul e leste, os acidentes<br \/>\npredominantes da terra progridem avassalando os quadrantes do norte.<\/p>\n<p>O s\u00edtio do Caldeir\u00e3o, tr\u00eas l\u00e9guas adiante, ergue-se<br \/>\n\u00e0 margem dessa subleva\u00e7\u00e3o metam\u00f3rfica; e alcan\u00e7ando-o,<br \/>\ne transpondo entra-se. afinal, em cheio, no sert\u00e3o adusto&#8230;<\/p>\n<p>Primeiras impress\u00f5es<\/p>\n<p>\u00c9 uma paragem impressionadora<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es estruturais da terra l\u00e1 se vincularam \u00e0<br \/>\nviol\u00eancia m\u00e1xima dos agentes exteriores para o desenho de relevos<br \/>\nestupendos. O reg\u00edmen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo,<br \/>\nde s\u00fabito, depois das insola\u00e7\u00f5es demoradas, e embatendo<br \/>\nnaqueles pendores, exp\u00f4s h\u00e1 muito, arrebatando-lhes para longe<br \/>\ntodos os elementos degradados, as s\u00e9ries mais antigas daqueles \u00faltimos<br \/>\nrebentos das montanhas: todas as variedades cristalinas, e os quartzitos \u00e1speros,<br \/>\ne as filades e calc\u00e1rios, revezando-se ou entrela\u00e7ando-se, repontando<br \/>\nduramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhi\u00e7a &#8212; dispondo-se<br \/>\nem cen\u00e1rios em que ressalta predominante, o aspecto atormentado das<br \/>\npaisagens.<\/p>\n<p>Porque o que estas denunciam &#8212; no enterroado do ch\u00e3o, no desmantelo<br \/>\ndos cerros quase desnudos, no contorcido dos leitos secos dos ribeir\u00f5es<br \/>\nef\u00eameros, no constrito das gargantas e no quase convulsivo de uma flora<br \/>\ndec\u00eddua embaralhada em esgalhos &#8212; \u00e9 de algum modo o mart\u00edrio<br \/>\nda terra, brutalmente golpeada pelos elementos vari\u00e1veis, distribu\u00eddos<br \/>\npor todas as modalidades clim\u00e1ticas. De um lado a extrema secura dos<br \/>\nares, no estio, facilitando pela irradia\u00e7\u00e3o noturna a perda<br \/>\ninstant\u00e2nea do calor absorvido pelas rochas expostas \u00e0s soalheiras,<br \/>\nimp\u00f5e-lhes a alternativa de alturas e quedas termom\u00e9tricas repentinas:<br \/>\ne da\u00ed um jogar de dilata\u00e7\u00f5es e contra\u00e7\u00f5es<br \/>\nque as disjunge, abrindo-as segundo os planos de menor resist\u00eancia.<br \/>\nDe outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas,<br \/>\nprecipitam estas rea\u00e7\u00f5es demoradas.<\/p>\n<p>As for\u00e7as que trabalham a terra atacam-na na contextura \u00edntima<br \/>\ne na superf\u00edcie sem intervalos na a\u00e7\u00e3o demolidora, substituindo-se,<br \/>\ncom intercad\u00eancia invari\u00e1vel, nas duas esta\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00fanicas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Dissociam-na nos ver\u00f5es queimosos; degradam-na nos invernos torrenciais.<br \/>\nV\u00e3o do desequil\u00edbrio molecular, agindo surdamente, \u00e0<br \/>\ndin\u00e2mica portentosa das tormentas. Ligam-se e completam-se. E consoante<br \/>\no preponderar de uma e outra, ou o entrela\u00e7amento de ambas, modificam-se<br \/>\nos aspectos naturais. As mesmas assomadas gn\u00e1issicas caprichosamente<br \/>\ncindidas em planos quase geom\u00e9tricos, \u00e0 maneira de silhares,<br \/>\nque surgem em numerosos pontos, dando, \u00e0s vezes, a ilus\u00e3o de<br \/>\nencontrar-se, de repente, naqueles ermos vazios, majestosas ruinarias de castelos<br \/>\n&#8212; adiante se cercam de fraguedos, em desordem, mal seguros sobre as bases<br \/>\nestreitas, em \u00e2ngulos de queda, incombentes e inst\u00e1veis, feito<br \/>\nloghans oscilantes, ou grandes desmoronamentos de dolmens; e mais longe desaparecem<br \/>\nsob acervos de blocos, com a imagem perfeita desses &#8220;mares de pedra&#8221;<br \/>\nt\u00e3o caracter\u00edsticos dos lugares onde imperam os reg\u00edmens<br \/>\nexcessivos. Pelas abas dos cerros, que tumultuam em roda &#8212; restos de velh\u00edssimas<br \/>\nchapadas corro\u00eddas &#8211;, se derramam, ora em alinhamentos relembrando<br \/>\nvelhos caminhos de geleiras, ora esparsos a esmo, espessos lastros de seixos<br \/>\ne lajens fraturadas, delatando id\u00eanticas viol\u00eancias. As arestas<br \/>\ndos fragmentos, onde persistem ainda cimentados ao quartzo os cristais de<br \/>\nfeldspato, s\u00e3o novos atestados desses eleitos f\u00edsicos e mec\u00e2nicos<br \/>\nque, despeda\u00e7ando as rochas, sem que se decomponham os seus elementos<br \/>\nformadores, se avantajaram ao vagar dos agentes qu\u00edmicos em fun\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos fatos meteorol\u00f3gicos normais.<\/p>\n<p>Deste modo se tem a cada passo, em todos os pontos, um lineamento incisivo<br \/>\nde rudeza extrema. Atenuando-o em parte, deparam-se v\u00e1rzeas deprimidas,<br \/>\nsedes de antigos lagos, extintos agora em ipueiras apauladas, que demarcam<br \/>\nos pousos dos vaqueiros. Recortam-nas, no entanto, abertos em caix\u00e3o,<br \/>\nos leitos as mais das vezes secos de ribeir\u00f5es que s\u00f3 se enchem<br \/>\nnas breves esta\u00e7\u00f5es das chuvas. Obstru\u00eddos, na maioria,<br \/>\nde espessos lastros de blocos entre os quais, fora das enchentes s\u00fabitas,<br \/>\ndefluem t\u00eanues fios de \u00e1gua, s\u00e3o uma reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\ncompleta dos oueds que marginam o Saara. Despontam-lhes em geral, normais<br \/>\n\u00e0s barrancas, estratos de um talcoxisto azul-escuro em placas brunidas<br \/>\nreverberando a luz em fulgurar met\u00e1lico &#8212; e sobre elas, cobrindo extensas<br \/>\n\u00e1reas, camadas menos resistentes de argila vermelha, cindidas de veios<br \/>\nde quartzo, interceptando-lhes, discordantes, os planos estratigr\u00e1ficos.<br \/>\nEstas \u00faltimas forma\u00e7\u00f5es, silurianas talvez, cobrem de<br \/>\ntodo as demais \u00e0 medida que se caminha para NE e apropriam-se a contornos<br \/>\nmais corretos. Esclarecem a g\u00eanese dos tabuleiros rasos, que se desatam,<br \/>\ncobertos de uma vegeta\u00e7\u00e3o resistente, de mangabeiras, at\u00e9<br \/>\nJeremoabo.<\/p>\n<p>Para o norte, por\u00e9m, inclinam-se mais fortemente as camadas. Sucedem-se<br \/>\nc\u00f4moros despidos, de pendores resvalantes, descaindo em quebradas onde<br \/>\nenxurram torrentes peri\u00f3dicas, solapando-os; e pelos seus topos divisam-se,<br \/>\nalinhadas em fileiras, destacadas em l\u00e2minas, as mesmas infiltra\u00e7\u00f5es<br \/>\nquartzosas, expostas pela decomposi\u00e7\u00e3o dos xistos em que se<br \/>\nembebem.<\/p>\n<p>\u00c0 luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros, asp\u00e9rrimos rebrilham,<br \/>\nestonteadoramente &#8212; ofuscante, num irradiar ardent\u00edssimo.<\/p>\n<p>As eros\u00f5es constantes quebram, por\u00e9m, a continuidade destes<br \/>\nestratos que ademais, noutros pontos, desaparecem sob as forma\u00e7\u00f5es<br \/>\ncalc\u00e1rias. Mas o conjunto pouco se transmuda. A fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nruiniforme destas, casa-se bem a dos outros acidentes. E nos trechos em que<br \/>\nelas se estiram, planas, pelo solo, desabrigadas de todo ante a acidez corrosiva<br \/>\ndos aguaceiros tempestuosos, crivam-se, escarificadas, de cavidades circulares<br \/>\ne acanaladuras fundas, diminutas mas in\u00fameras, tangenciando-se em quinas<br \/>\nde rebordos cortantes, em pontas e dur\u00edssimos estrepes que impossibilitam<br \/>\nas marchas.<\/p>\n<p>Deste modo, por qualquer vereda, sucedem-se acidentes pouco elevados mas<br \/>\nabruptos, pelos quais tornejam os caminhos, quando n\u00e3o se justap\u00f5em<br \/>\npor muitas l\u00e9gua aos leitos vazios dos ribeir\u00f5es esgotados.<br \/>\nE por mais inexperto que seja o observador &#8212; ao deixar as perspectivas majestosas,<br \/>\nque se desdobram ao Sul, trocando-as pelos cen\u00e1rios emocionantes daquela<br \/>\nnatureza torturada, tem a impress\u00e3o persistente de calcar o fundo rec\u00e9m-sublevado<br \/>\nde um mar extinto, tendo ainda estereotipada naquelas camadas r\u00edgidas<br \/>\na agita\u00e7\u00e3o das ondas e das voragens&#8230;<\/p>\n<p>Um sonho de ge\u00f3logo<\/p>\n<p>\u00c9 uma sugest\u00e3o empolgante.<\/p>\n<p>Vai-se de boa sombra com um naturalista algo rom\u00e2ntico, imaginando-se<br \/>\nque por ali turbilhonaram, largo tempo, na idade terci\u00e1ria, as vagas<br \/>\ne as correntes.<\/p>\n<p>Porque, a despeito da escassez de dados permitindo uma dessas profecias retrospectivas,<br \/>\nno dizer elegante de Huxley, capaz de esbo\u00e7ar a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquela zona em idades remotas, todos os caracteres que sumariamos refor\u00e7am<br \/>\na concep\u00e7\u00e3o aventurosa.<\/p>\n<p>Alentam-na ainda: o estranho desnudamento da terra; os alinhamentos not\u00e1veis<br \/>\nem que jazem os materiais fraturados, orlando, em verdadeiras curvas de n\u00edvel,<br \/>\nos flancos das serranias; as escarpas dos tabuleiros terminando em taludes<br \/>\na prumo, que recordam falaises; e, at\u00e9 certo ponto, os restos da fauna<br \/>\npliocena, que fazem dos caldeir\u00f5es enormes ossu\u00e1rios de mastodontes,<br \/>\ncheios de v\u00e9rtebras caldeir\u00f5es desconjuntadas e partidas, como<br \/>\nse ali a vida fosse, de chofre, salteada e extinta pelas energias revoltas<br \/>\nde um cataclismo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a presun\u00e7\u00e3o derivada de situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nanterior, exposta em dados positivos. As pesquisas de Fred. Hartt, de fato,<br \/>\nestabelecem, nas terras circunjacentes a Paulo Afonso, a exist\u00eancia<br \/>\nde ineg\u00e1veis bacias cret\u00e1ceas; e sendo os f\u00f3sseis que<br \/>\nas definem id\u00eanticos aos encontrados no Peru e M\u00e9xico, e contempor\u00e2neos<br \/>\ndos que Agassiz descobriu no Panam\u00e1 &#8212; todos estes elementos se acolchetam<br \/>\nno deduzir-se que vasto oceano cret\u00e1ceo rolou as suas ondas sobre as<br \/>\nterras fronteiras das duas Am\u00e9ricas, ligando o Atl\u00e2ntico ao Pac\u00edfico.<br \/>\nCobria, assim, grande parte dos Estados setentrionais brasileiros, indo bater<br \/>\ncontra os terra\u00e7os superiores dos planaltos, onde extensos dep\u00f3sitos<br \/>\nsediment\u00e1rios denunciam idade mais antiga, o paleoz\u00f3ico m\u00e9dio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, destacadas das grandes ilhas emergentes, as grimpas mais altas<br \/>\ndas nossas cordilheiras mal apontavam ao norte, na solid\u00e3o imensa das<br \/>\n\u00e1guas&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o existiam os Andes o Amazonas, largo canal entre altiplanuras das<br \/>\nGuianas e as do continente, separava-as, ilhadas. Para as bandas do sul o<br \/>\nmaci\u00e7o de Goi\u00e1s &#8212; o mais antigo do mundo &#8212; segundo a dedu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndedu\u00e7\u00e3o de Gerber, o de Minas e parte do Planalto Paulista,<br \/>\nonde fulgurava, em plena atividade, o vulc\u00e3o de Caldas, constitu\u00edam<br \/>\no n\u00facleo do continente futuro . . .<\/p>\n<p>Porque se operava lentamente uma subleva\u00e7\u00e3o geral: as Nassas<br \/>\ngran\u00edticas alteavam-se ao norte arrastando o conjunto geral das terras<br \/>\nnuma rota\u00e7\u00e3o vagarosa em torno de um eixo, imaginado por Em.<br \/>\nLiais entre os chapad\u00f5es de Barbacena e a Bol\u00edvia. Simultaneamente<br \/>\n,ao abrir-se a \u00e9poca terci\u00e1ria, se realiza o fato prodigioso<br \/>\ndo alevantamento dos Andes; novas terras afloram nas \u00e1guas: tranca-se,<br \/>\nnum extremo, o canal amaz\u00f4nico, transmudando-se no maior dos rios; ampliam-se<br \/>\nos arquip\u00e9lagos esparsos, e ganglionam-se em istmos, e fundem-se; arredondam-se,<br \/>\nmaiores, os contornos das costas; e integra-se lentamente, a Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os terrenos da extrema setentrional da Bahia, que se resumiam<br \/>\nnos cachopos de quartzito de Monte Santo e visos de Iti\u00faba, esparsos<br \/>\npelas \u00e1guas, avolumaram-se, num ascender cont\u00ednuo. Elas nesse<br \/>\nvagaroso altear-se, enquanto as regi\u00f5es mais altas rec\u00e9m-desvendadas,<br \/>\nse salpintavam de lagos, toda a parte m\u00e9dia daquela escarpa permanecia<br \/>\nimersa. Uma corrente impetuosa, de que \u00e9 forma deca\u00eddo a atual<br \/>\nda nossa costa, enla\u00e7ava-a. E embatendo-a longamente, domina enquanto<br \/>\no resto do pa\u00eds, ao sul, se erigia j\u00e1 constitu\u00eddo, e<br \/>\ncorroendo-a, e triturando-a, remoinhando para oeste e arrebatando todos os<br \/>\nmateriais desagregados, modelava aquele recanto da Bahia at\u00e9 que ele<br \/>\nemergisse de todo, seguindo o movimento geral das terras, feito informe amontoado<br \/>\nde montanhas derru\u00eddas.<\/p>\n<p>O reg\u00edmen des\u00e9rtico ali se firmou, ent\u00e3o, em flagrante<br \/>\nantagonismo com as disposi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas: sobre uma<br \/>\nescarpa, onde nada recorda as depress\u00f5es sem escoamento dos desertos<br \/>\ncl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>Acredita-se que a regi\u00e3o incipiente ainda est\u00e1 preparando-se<br \/>\npara a Vida: o l\u00edquen ainda ataca a pedra, fecundando a terra. E lutando<br \/>\ntenazmente com o flagelar do clima, uma flora de resist\u00eancia rara por<br \/>\nali entretece a trama das ra\u00edzes, obstando, em parte, que as torrentes<br \/>\narrebatem todos os princ\u00edpios exsolvidos &#8212; acumulando-os pouco a pouco<br \/>\nna conquista da paragem desolada cujos contornos suaviza &#8212; sem impedir, contudo,<br \/>\nnos estios longos, as insola\u00e7\u00f5es inclementes e as \u00e1guas<br \/>\nselvagens, degradando o solo.<\/p>\n<p>Da\u00ed a impress\u00e3o dolorosa que nos domina ao atravessarmos aquele<br \/>\nignoto trecho do sert\u00e3o &#8212; quase um deserto &#8212; quer se aperte entre<br \/>\nas dobras de serranias nuas ou se estire, monotonamente, em descampados grandes&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Golpe de vista do alto de Monte Santo. Do alto da Favela.<\/p>\n<p>Do alto da serra de Monte Santo atentando-se para a regi\u00e3o, estendida<br \/>\nem torno num raio de quinze l\u00e9guas, nota-se, como num mapa em relevo,<br \/>\na sua conforma\u00e7\u00e3o orogr\u00e1fica. E v\u00ea-se que as cordas<br \/>\nde serras, ao inv\u00e9s de se alongarem para o nascente, medianas aos tra\u00e7ados<br \/>\ndo Vaza-Barris e Itapicuru, formando-lhes o divortium aquarum, progridem para<br \/>\no norte.<\/p>\n<p>Mostram-no as serras Grande e do Atan\u00e1sio, correndo, e a princ\u00edpio<br \/>\ndistintas, uma para NO e outra para N e fundindo-se na do Acaru, onde abrolham<br \/>\nos mananciais intermitentes do Bendeg\u00f3 e seus tribut\u00e1rios ef\u00eameros.<br \/>\nUnificadas, aliam-se \u00e0s de Cara\u00edbas e do Lopes e nestas de novo<br \/>\nse embebem, formando-se as massas do Cambaio, de onde irradiam as pequenas<br \/>\ncadeias do Coxomong\u00f3 e Calumbi, e para o noroeste os p\u00edncaros<br \/>\ntorreantes do Caip\u00e3. Obediente \u00e0 mesma tend\u00eancia, a do<br \/>\nAracati, lan\u00e7ando-se a NO, \u00e0 borda dos tabuleiros de Jeremoabo,<br \/>\nprogride, descont\u00ednua, naquele rumo e, depois de entalhada pelo Vaza-Barris<br \/>\nem Cocorob\u00f3, inflete para o poente, repartindo-se nas da Canabrava<br \/>\ne Po\u00e7o-de-Cima, que a prolongam. Todas tra\u00e7am, afinal, el\u00edtica<br \/>\ncurva fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura<br \/>\nondeante onde se erigia o arraial de Canudos &#8212; e da\u00ed para o norte,<br \/>\nde novo se dispersam e decaem at\u00e9 acabarem em chapadas altas \u00e0<br \/>\nborda do S. Francisco.<\/p>\n<p>Deste modo, no ascender para o norte, procurando o chapad\u00e3o que o<br \/>\nParna\u00edba escava, aquele talude dos planaltos parece dobrar-se num ressalto,<br \/>\nperturbando toda a \u00e1rea de drenagem do S. Francisco abaixo da conflu\u00eancia<br \/>\ndo Patamut\u00e9, num tra\u00e7ado de torrentes sem nome, inapreci\u00e1veis<br \/>\nna mais favor\u00e1vel escala, e impondo ao Vaza-Barris um curso tortuoso<br \/>\ndo qual ele se liberta em Jeremoabo, ao infletir para a costa.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um rio sem afluentes. Falta-lhe conformidade com o declive<br \/>\nda terra. Os seus pequenas tribut\u00e1rios, o Bendeg\u00f3 e Cara\u00edbas,<br \/>\nvolvendo \u00e1guas transit\u00f3rias, dentro dos leitos rudemente escavados,<br \/>\nn\u00e3o traduzem as depress\u00f5es do solo. T\u00eam a exist\u00eancia<br \/>\nfugitiva das esta\u00e7\u00f5es chuvosas. S\u00e3o, antes, canais de<br \/>\nesgotamento, abertos a esmo pelos enxurros &#8212; ou correntes velozes que, adstritas<br \/>\naos relevos topogr\u00e1ficos mais pr\u00f3ximos, est\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\nraro, em desarmonia com as disposi\u00e7\u00f5es orogr\u00e1ficas gerais.<br \/>\nS\u00e3o rios que sobem. Enchem-se de s\u00fabito; transbordam; reprofundam<br \/>\nos leitos, anulando o obst\u00e1culo do declive geral do solo; rolam por<br \/>\nalguns dias para o rio principal; e desaparecem, volvendo ao primitivo aspecto<br \/>\nde valos em torcicolos, cheios de pedras, e secos.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Vaza-Barris, rio sem nascentes em cujo leito vi\u00e7am<br \/>\ngram\u00edneas e pastam os rebanhos, n\u00e3o teria o tra\u00e7ado atual<br \/>\nse corrente perene lhe assegurasse um perfil de equil\u00edbrio atrav\u00e9s<br \/>\nde esfor\u00e7o cont\u00ednuo e longo. A sua fun\u00e7\u00e3o como<br \/>\nagente geol\u00f3gico \u00e9 revolucion\u00e1ria. As mais vezes cortado,<br \/>\nfracionando-se em g\u00e2nglios estagnados, ou seco, \u00e0 maneira de<br \/>\nlarga estrada poenta e tortuosa, quando cresce, empanzinado, nas cheias, captando<br \/>\nas \u00e1guas selvagens que estrepitam nos pendores, volve por algumas semanas<br \/>\n\u00e1guas barrentas e revoltas, extinguindo-se logo em esgotamento completo,<br \/>\nvazando, como o indica o dizer portugu\u00eas, substituindo-lhe com vantagem<br \/>\na antiga denomina\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. \u00c9 uma onda tombando<br \/>\ndas vertentes da Iti\u00faba, multiplicando a energia da corrente no apertado<br \/>\ndos desfiladeiros, e correndo veloz entre barrancos, ou entalada em serras,<br \/>\nat\u00e9 Jeremoabo.<\/p>\n<p>Vimos como a natureza, em roda, lhe imita o reg\u00edmen brutal &#8212; calcando-o<br \/>\nem terreno agro, sem os cen\u00e1rios opulentos das serras e dos tabuleiros<br \/>\nou dos sem-fins das chapadas &#8212; mas feito um misto em que tais disposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nnaturais se baralham, em confus\u00e3o pasmosa: plan\u00edcies que de<br \/>\nperto revelam s\u00e9ries de c\u00f4moros, retalhados de algares; morros<br \/>\nque o contraste das v\u00e1rzeas faz de grande altura e est\u00e3o poucas<br \/>\ndezenas de metros sobre o solo, e tabuleiros que em sendo percorridos mostram<br \/>\na acidenta\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica de boqueir\u00f5es escancelados<br \/>\ne brutos. Nada mais dos belos efeitos das denuda\u00e7\u00f5es lentas,<br \/>\nno remodelar os pendores, no despertar os horizontes e no desatar &#8212; ampl\u00edssimos<br \/>\n&#8212; os gerais pelo teso das cordilheiras, dando aos quadros naturais a encantadora<br \/>\ngrandeza de perspectivas em que o c\u00e9u e a terra se fundem em difus\u00e3o<br \/>\nlong\u00ednqua e surpreendedora de cores&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, inesperado quadro esperava o viandante que subia, depois desta<br \/>\ntravessia em que sup\u00f5e pisar escombros de terremotos, as ondula\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais pr\u00f3ximas de Canudos.<\/p>\n<p>Do alto da Favela<\/p>\n<p>Galgava o topo da Favela. Volvia em volta o olhar para abranger de um lance<br \/>\no conjunto da terra. E nada mais divisava recordando-lhe os cen\u00e1rios<br \/>\ncontemplados. Tinha na frente a ant\u00edtese do que vira. Ali estavam os<br \/>\nmesmos acidentes e o mesmo ch\u00e3o, embaixo, fundamente revolto, sob o<br \/>\nindumento \u00e1spero dos pedregais e caatingas estonadas&#8230; Mas a reuni\u00e3o<br \/>\nde tantos tra\u00e7os incorretos e duros &#8212; arregoados divagantes de algares,<br \/>\nsulcos de despenhadeiros, socavas de bocainas, criava-lhe perspectiva inteiramente<br \/>\nnova. E quase compreendia que os matutos crendeiros de imaginativa ing\u00eanua,<br \/>\nacreditassem que &#8220;ali era o c\u00e9u&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>O arraial, adiante e embaixo, erigia-se no mesmo solo perturbado. Mas vistos<br \/>\ndaquele ponto, de permeio a dist\u00e2ncia suavizando-lhes as encostas e<br \/>\naplainando-os &#8212; todos os serrotes breves e in\u00fameros, projetando-se<br \/>\nem plano inferior e estendendo-se, uniformes, pelos quadrantes, davam-lhe<br \/>\na ilus\u00e3o de uma plan\u00edcie ondulante e grande.<\/p>\n<p>Em roda uma elipse majestosa de montanhas&#8230;<\/p>\n<p>A Canabrava, a nordeste, de perfil abaulado e simples; a do Po\u00e7o de<br \/>\ncima, pr\u00f3xima, mas \u00edngreme e alta; a de Cocorob\u00f3, no<br \/>\nlevante, ondulando em seladas, dispersa em espor\u00f5es; as vertentes retil\u00edneas<br \/>\ndo Calumbi ao sul; as grimpas do Cambaio, no correr para o poente; e, para<br \/>\no norte, os contornos agitados do Caip\u00e3 &#8211;ligam-se e articulam-se no<br \/>\ninfletir gradual tra\u00e7ando, fechada, a curva desmedida.<\/p>\n<p>Vendo ao longe, quase de n\u00edvel, trancando-lhe o horizonte, aquelas<br \/>\ngrimpas altaneiras, o observador tinha a impress\u00e3o alentadora de se<br \/>\nachar sobre plateau elevad\u00edssimo, p\u00e1ramo incompar\u00e1vel<br \/>\nrepousando sobre as serras.<\/p>\n<p>Na plan\u00edcie rugada, embaixo, mal se lobrigavam os pequenos cursos<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua, divagando, serpeantes&#8230;<\/p>\n<p>Um \u00fanico se distinguia, o Vaza-Barris. Atravessava-a, torcendo-se<br \/>\nem meandros. Presa numa dessas voltas via-se uma depress\u00e3o maior, circundada<br \/>\nde colinas&#8230; E atulhando-a, enchendo-a toda de confusos tetos incont\u00e1veis,<br \/>\num acervo enorme de casebres&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>O clima. Higr\u00f4metros singulares.<\/p>\n<p>Dos breves apontamentos indicados, resulta que os caracteres geol\u00f3gicos<br \/>\ne topogr\u00e1ficos, a par dos demais agentes f\u00edsicos, mutuam naqueles<br \/>\nlugares as influ\u00eancias caracter\u00edsticas de modo a n\u00e3o se<br \/>\npoder afirmar qual o preponderante.<\/p>\n<p>Se, por um lado, as condi\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas reagem fortemente<br \/>\nsobre os \u00faltimos, estes, por sua vez, contribu\u00edram para o agravamento<br \/>\ndaquelas; e todas persistem nas influ\u00eancia rec\u00edprocas. Deste<br \/>\nperene conflito feito num c\u00edrculo vicioso indefinido, ressalta a dignifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nmesol\u00f3gica do local. N\u00e3o h\u00e1 abrang\u00ea-la em todas<br \/>\nmodalidades. Escasseiam-nos as observa\u00e7\u00f5es \u00e0s coisas<br \/>\ndesta terra, com uma in\u00e9rcia c\u00f4moda de mendigos fartos.<\/p>\n<p>Nenhum pioneiro da ci\u00eancia suportou ainda as agruras daquele rinc\u00e3o<br \/>\nsertanejo, em prazo suficiente para o definir.<\/p>\n<p>Martius por l\u00e1 passou, com a mira essencial de observar o aer\u00f3lito,<br \/>\nque tombara \u00e0 margem do Bendeg\u00f3 e era j\u00e1, desde 1810,<br \/>\nconhecido nas academias europ\u00e9ias, gra\u00e7as a F. Mornay e Wollaston.<br \/>\nRompendo, por\u00e9m, a regi\u00e3o selvagem, desertus austral, como a<br \/>\nbatizou, mal atentou para a teria recamada de uma flora extravagante, sylva<br \/>\nhorrida, no seu latim alarmado. Os que o antecederam e sucederam palmilharam,<br \/>\nferretoados da can\u00edcula, as mesmas trilhas r\u00e1pidas, de quem<br \/>\nfoge. De sorte que sempre evitado, aquele sert\u00e3o, at\u00e9 hoje desconhecido,<br \/>\nainda o ser\u00e1 por muito tempo.<\/p>\n<p>O que se segue s\u00e3o vagas conjeturas. Atravessamo-lo no prel\u00fadio<br \/>\nde um estio ardente e, vendo-o apenas nessa quadra, vimo-lo sob o pior aspecto.<br \/>\nO que escrevemos tem o tra\u00e7o defeituoso dessa impress\u00e3o isolada,<br \/>\ndesfavorecida, ademais, por um meio contraposto \u00e0 serenidade do pensamento,<br \/>\ntolhido pelas emo\u00e7\u00f5es da guerra. Al\u00e9m disto os dados<br \/>\nde um term\u00f4metro \u00fanico e de um aner\u00f3ide suspeito, mis\u00e9rrimo<br \/>\narsenal cient\u00edfico com que ali lidamos, nem mesmo vagos lineamentos<br \/>\ndar\u00e3o de climas que divergem segundo as menores disposi\u00e7\u00f5es<br \/>\ntopogr\u00e1ficas, criando aspectos d\u00edspares entre lugares lim\u00edtrofes.<br \/>\nO de Monte Santo, por ex., que \u00e9, ao primeiro comparar, muito superior<br \/>\nao de Queimadas, diverge do dos lugares que lhe demoram ao norte, sem a continuidade<br \/>\nque era l\u00edcito prever de sua situa\u00e7\u00e3o interm\u00e9dia.<br \/>\nA proximidade das massas montanhosas torna-o est\u00e1vel, lembrando um<br \/>\nreg\u00edmen mar\u00edtimo em pleno continente: escala t\u00e9rmica<br \/>\noscilando em amplitudes insignificantes; firmamento onde a transpar\u00eancia<br \/>\ndos ares \u00e9 completa e a limpidez inalter\u00e1vel; e ventos reinantes,<br \/>\no SE no inverno e o NE no estio &#8212; alternando-se com rigorismo raro. Mas est\u00e1<br \/>\ninsulado. Para qualquer das bandas, deixa-o o viajante num dia de viagem.<br \/>\nSe vai para o norte, salteiam-no transi\u00e7\u00f5es fort\u00edssimas:<br \/>\na temperatura aumenta; carrega-se o azul dos c\u00e9us; embaciam-se os ares;<br \/>\ne as ventanias rolam desorientadamente de todos os quadrantes &#8212; ante a tiragem<br \/>\nintensa dos terrenos desabrigados, que dali por diante se estiram. Ao mesmo<br \/>\ntempo espelha-se o reg\u00edmen excessivo: o term\u00f4metro oscila em<br \/>\ngraus disparatados passando, j\u00e1 em outubro, dos dias com 35\u00b0 \u00e0<br \/>\nsombra para as madrugadas frias.<\/p>\n<p>No ascender do ver\u00e3o acentua-se o desequil\u00edbrio. Crescem a<br \/>\num tempo as m\u00e1ximas e as m\u00ednimas, at\u00e9 que no fast\u00edgio<br \/>\ndas secas transcorram as horas num intermitir inatur\u00e1vel de dias queimosos<br \/>\ne noites enregeladas.<\/p>\n<p>A terra desnuda tendo contrapostas, em permanente conflito, as capacidades<br \/>\nemissiva e absorvente dos materiais que a formam, do mesmo passo armazena<br \/>\nos ardores das soalheiras e deles se esgota, de improviso. Insola-se e enregela-se,<br \/>\nem 24 horas. Fere-a o sol e ela absorve-lhe os raios, e multiplica-os e reflete-os,<br \/>\ne refrata-os, num reverberar ofuscante: pelo topo dos cerros, pelo esbarrancado<br \/>\ndas encostas, incendeiam-se as acendalhas da s\u00edlica fraturada, rebrilhantes,<br \/>\nnuma trama vibr\u00e1til de centelhas; a atmosfera junto ao ch\u00e3o<br \/>\nvibra num ondular viv\u00edssimo de bocas de fornalha em que se pressente<br \/>\nvis\u00edvel, no expandir das colunas aquecidas, a efervesc\u00eancia dos<br \/>\nares; e o dia, incompar\u00e1vel no fulgor, fulmina a natureza silenciosa,<br \/>\nem cujo seio se abate, im\u00f3vel, na quietude de um longo espasmo, a galhada<br \/>\nsem folhas da flora sucumbida.<\/p>\n<p>Desce a noite, sem crep\u00fasculo, de chofre &#8212; um salto da treva por<br \/>\ncima de uma franja vermelha do poente &#8212; e todo este calor se perde no espa\u00e7o<br \/>\nnuma irradia\u00e7\u00e3o intens\u00edssima, caindo a temperatura de<br \/>\ns\u00fabito, numa queda \u00fanica, assombrosa . . .<\/p>\n<p>Ocorrem, todavia, variantes cru\u00e9is. Propelidas pelo nordeste, espessas<br \/>\nnuvens, tufando em c\u00famulos, pairam ao entardecer sobre as areias incendidas.<br \/>\nDesaparece o sol e a coluna mercurial permanece im\u00f3vel, ou, de prefer\u00eancia,<br \/>\nsobe. A noite sobrev\u00e9m em fogo; a terra irradia como um sol escuro,<br \/>\nporque se sente uma dolorosa impress\u00e3o de fa\u00falhas invis\u00edveis;<br \/>\nmas toda a ard\u00eancia reflui sobre ela, recambiada pelas nuvens. O bar\u00f4metro<br \/>\ncai, como nas proximidades das tormentas; e mal se respira no bochorno inatur\u00e1vel<br \/>\nem que toda a adust\u00e3o golfada pela soalheira se concentra numa hora<br \/>\n\u00fanica da noite.<\/p>\n<p>Por um contraste explic\u00e1vel, este fato jamais sucede nos paroxismos<br \/>\nestivais das secas, em que prevalece a intercad\u00eancia de dias esbraseados<br \/>\ne noites frigid\u00edssimas, agravando todas as ang\u00fastias dos martirizados<br \/>\nsertanejos.<\/p>\n<p>Copiando o mesmo singular desequil\u00edbrio das for\u00e7as que trabalham<br \/>\na terra, os ventos ali chegam, em geral, turbilhonando revoltos, em rebojos<br \/>\nlargos. E, nos meses em que se acentua, o nordeste grava em tudo sinais que<br \/>\nlhe recordam o rumo.<\/p>\n<p>Estas agita\u00e7\u00f5es dos ares desaparecem, entretanto, por longos<br \/>\nmeses; reinando calmarias pesadas &#8212; ares im\u00f3veis sob a placidez luminosa<br \/>\ndos dias causticantes. Impercept\u00edveis exercem-se, ent\u00e3o, as<br \/>\ncorrentes ascensionais dos vapores aquecidos sugando \u00e0 terra a umidade<br \/>\nex\u00edgua; e quando se prolongam, esbo\u00e7ando o prel\u00fadio entristecedor<br \/>\nda seca, a secura da atmosfera atinge a graus anormal\u00edssimos.<\/p>\n<p>Higr\u00f4metros singulares<\/p>\n<p>N\u00e3o a observamos atrav\u00e9s do rigorismo de processos cl\u00e1ssicos,<br \/>\nmas gra\u00e7as a higr\u00f4metros inesperados e bizarros.<\/p>\n<p>Percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo<br \/>\n\u00e0 monotonia de um canhoneio frouxo de tiros espa\u00e7ados e soturnos,<br \/>\nencontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas<br \/>\nse dispunham circulando a um vale \u00fanico. Pequenos arbustos, icozeiros<br \/>\nvirentes vi\u00e7ando em tufos intermeados de palmat\u00f3rias de flores<br \/>\nrutilantes, davam ao lugar a apar\u00eancia exata de algum velho jardim em<br \/>\nabandono. Ao lado uma \u00e1rvore \u00fanica, uma quixabeira alta, sobranceando<br \/>\na vegeta\u00e7\u00e3o franzina.<\/p>\n<p>O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo ch\u00e3o, e protegido<br \/>\npor ela &#8212; bra\u00e7os largamente abertos, face volvida para os c\u00e9us,<br \/>\n&#8212; um soldado descansava.<\/p>\n<p>Descansava&#8230; havia tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da mannlicher estrondada, o<br \/>\ncintur\u00e3o e o bon\u00e9 jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam<br \/>\nque sucumbira em luta corpo a corpo com advers\u00e1rio possante. Ca\u00edra,<br \/>\ncerto, derreando-se \u00e0 violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada<br \/>\nde uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos, n\u00e3o<br \/>\nfora percebido. N\u00e3o compartira, por isto, \u00e0 vala comum de menos<br \/>\nde um c\u00f4vado de fundo em que eram jogados, formando pela \u00faltima<br \/>\nvez juntos, os companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera<br \/>\ndo lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concess\u00e3o: livrara-o da promiscuidade<br \/>\nl\u00fagubre de um fosso repugnante; e deixara-o ali h\u00e1 tr\u00eas<br \/>\nmeses &#8212; bra\u00e7os largamente abertos, rosto voltado para os c\u00e9us,<br \/>\npara os s\u00f3is ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes&#8230;<\/p>\n<p>E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os tra\u00e7os<br \/>\nfision\u00f4micos, de modo a incutir a ilus\u00e3o exata de um lutador<br \/>\ncansado, retemperando-se em tranq\u00fcilo sono, \u00e0 sombra daquela \u00e1rvore<br \/>\nbenfazeja. Nem um verme &#8212; o mais vulgar dos tr\u00e1gicos analistas da<br \/>\nmat\u00e9ria &#8212; lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilh\u00e3o da vida<br \/>\nsem decomposi\u00e7\u00e3o repugnante, numa exaust\u00e3o impercept\u00edvel.<br \/>\nEra um aparelho revelando de modo absoluto, mas sugestivo, a secura extrema<br \/>\ndos ares.<\/p>\n<p>Os cavalos mortos naquele mesmo dia semelhavam esp\u00e9cimens empalhados,<br \/>\nde museus. O pesco\u00e7o apenas mais alongado e fino, as pernas ressequidas<br \/>\ne o arcabou\u00e7o engelhado e duro.<\/p>\n<p>\u00c0 entrada do acampamento, em Canudos, um deles, sobre todos, se destacava<br \/>\nimpressionadoramente. Fora a montada de um valente, o alferes Wanderley; e<br \/>\nabatera-se, morto juntamente com o cavaleiro. Ao resvalar, por\u00e9m, estrebuchando<br \/>\nmalferido, pela rampa \u00edngreme, quedou, adiante, \u00e0 meia encosta,<br \/>\nentalado entre fraguedos. Ficou quase em p\u00e9, com as patas dianteiras<br \/>\nfirmes num ressalto da pedra&#8230; E ali estacou feito um animal fant\u00e1stico,<br \/>\naprumado sobre a ladeira, num quase curvetear, no \u00faltimo arremesso<br \/>\nda carga paralisada, com todas as apar\u00eancias de vida, sobretudo quando,<br \/>\nao passarem as rajadas r\u00edspidas do nordeste, se lhe agitavam as longas<br \/>\ncrinas ondulantes . . .<\/p>\n<p>Quando aquelas lufadas, caindo a s\u00fabitas, se compunham com as colunas<br \/>\nascendentes, em remoinhos turbilhonantes, \u00e0 maneira de min\u00fasculos<br \/>\nciclones, sentia-se, maior, a exsica\u00e7\u00e3o do ambiente adusto:<br \/>\ncada part\u00edcula de areia suspensa do solo gretado e duro irradiava em<br \/>\ntodos os sentidos, feito um foco calor\u00edfico, a surda combust\u00e3o<br \/>\nda terra.<\/p>\n<p>Fora disto &#8212; nas longas calmarias, fen\u00f4menos \u00f3ticos bizarros.<\/p>\n<p>Do topo da Favela, se a prumo dardejava o sol e a atmosfera estagnada imobilizava<br \/>\na natureza em torno, atentando-se para os descambados, ao longe, n\u00e3o<br \/>\nse distinguia o solo.<\/p>\n<p>O olhar fascinado perturbava-se no desequil\u00edbrio das camadas desigualmente<br \/>\naquecidas, parecendo varar atrav\u00e9s de um prisma desmedido e int\u00e1ctil,<br \/>\ne n\u00e3o distinguia a base das montanhas, como que suspensas. Ent\u00e3o,<br \/>\nao norte da Canabrava, numa enorme expans\u00e3o dos plainos perturbados,<br \/>\nvia-se um ondular estonteador; estranho palpitar de vagas long\u00ednquas;<br \/>\na ilus\u00e3o maravilhosa de um seio de mar, largo, irisado, sobre que ca\u00edsse,<br \/>\ne refrangesse, e ressaltasse a luz esparsa em cintila\u00e7\u00f5es ofuscantes&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>As secas. Hip\u00f3teses sobre a sua g\u00eanese. As caatingas.<\/p>\n<p>O sert\u00e3o de Canudos \u00e9 um \u00edndice sumariando a fisiografia<br \/>\ndos sert\u00f5es do Norte. Resume-os, enfeixa os seus aspectos predominantes<br \/>\nnuma escala reduzida. \u00c9-lhes de algum modo uma zona central comum.<\/p>\n<p>De fato, a inflex\u00e3o peninsular, extremada pelo cabo de S. Roque, faz<br \/>\nque para ele convirjam as lindes interiores de seis Estados &#8212; Sergipe, Alagoas,<br \/>\nPernambuco, Para\u00edba, Cear\u00e1 e Piau\u00ed &#8212; que o tocam ou<br \/>\ndemoram distantes poucas l\u00e9guas.<\/p>\n<p>Desse modo \u00e9 natural que as vicissitudes clim\u00e1ticas daqueles<br \/>\nnele se exercitem com a mesma intensidade, nomeadamente em sua manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais incisiva, definida numa palavra que \u00e9 o terror m\u00e1ximo dos<br \/>\nrudes part\u00edcios que por ali se agitam &#8212; a seca.<\/p>\n<p>Escusamo-nos de longamente a estudar, averbando o desbarate dos mais robustos<br \/>\nesp\u00edritos no aprofundar-lhe a g\u00eanese, tateantes ao trav\u00e9s<br \/>\nde sem n\u00famero de agentes complexos e fugitivos. Indiquemos, por\u00e9m,<br \/>\ninscrita num tra\u00e7ado de n\u00fameros inflex\u00edveis, esta fatalidade<br \/>\ninexor\u00e1vel.<\/p>\n<p>De fato, os seus ciclos &#8212; porque o s\u00e3o no rigorismo t\u00e9cnico<br \/>\ndo termo &#8212; abrem-se e encerram-se com um ritmo t\u00e3o not\u00e1vel<br \/>\nque recordam o desdobramento de uma lei natural, ainda ignorada.<\/p>\n<p>Revelou-o, pela primeira vez, o senador Tom\u00e1s Pompeu, tra\u00e7ando<br \/>\num quadro por si mesmo bastante eloq\u00fcente, em que os aparecimentos das<br \/>\nsecas, no s\u00e9culo passado e atual, se defrontam em paralelismo singular,<br \/>\nsendo de presumir que ligeiras discrep\u00e2ncias indiquem apenas defeitos<br \/>\nde observa\u00e7\u00e3o ou desvios na tradi\u00e7\u00e3o oral que<br \/>\nas registrou.<\/p>\n<p>De qualquer modo ressalta \u00e0 simples contempla\u00e7\u00e3o uma<br \/>\ncoincid\u00eancia repetida bastante para que se remova a intrus\u00e3o<br \/>\ndo acaso.<\/p>\n<p>Assim, para citarmos apenas as maiores, as secas de (1710-1711), (1723-1727),<br \/>\n(1736-1737), (1744-1745), (1777-1778), do s\u00e9culo 18, se justap\u00f5em<br \/>\n\u00e0s de ( 1808-1809 ), ( 1824-1825 ) (1835-1837), (1844-1845), (1877-1879),<br \/>\ndo atual.<\/p>\n<p>Esta coincid\u00eancia, espelhando-se quase invari\u00e1vel, como se surgisse<br \/>\ndo decalque de uma quadra sobre outra, acentua-se ainda na identidade das<br \/>\nquadras remansadas e longas que, em ambas, atreguaram a progress\u00e3o<br \/>\ndos estragos.<\/p>\n<p>De fato, sendo, no s\u00e9culo passado, o maior interregno de 32 anos (1745-1777),<br \/>\nhouve no nosso outro absolutamente igual e, o que \u00e9 sobremaneira not\u00e1vel,<br \/>\ncom a correspond\u00eancia exat\u00edssima das datas (1845-1877).<\/p>\n<p>Continuando num exame mais \u00edntimo do quadro, destacam-se novos dados<br \/>\nfixos e positivos, aparecendo com um rigorismo de inc\u00f3gnitas que se<br \/>\ndesvendam. Observa-se, ent\u00e3o, uma ced\u00eancia raro perturbada na<br \/>\nmarcha do flagelo, intercortado de intervalos pouco d\u00edspares entre<br \/>\nnove e doze anos, e sucedendo-se de maneira a permitirem previs\u00f5es<br \/>\nseguras sobre a sua irrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, apesar desta simplicidade extrema nos resultados imediatos, o<br \/>\nproblema, que se pode traduzir na f\u00f3rmula aritm\u00e9tica mais simples,<br \/>\npermanece insol\u00favel.<\/p>\n<p>Hip\u00f3teses sobre a g\u00eanese das secas<\/p>\n<p>Impressionado pela raz\u00e3o desta progress\u00e3o raro alterada, e<br \/>\nfixando-a um tanto for\u00e7adamente em doze anos, um naturalista, o bar\u00e3o<br \/>\nde Capanema, teve o pensamento de rastrear nos fatos extraterrestres, t\u00e3o<br \/>\ncaracter\u00edsticos pelos per\u00edodos inviol\u00e1veis em que se<br \/>\nsucedem, a sua origem remota. E encontrou na regularidade com que repontam<br \/>\ne se extinguem, intermitentemente, as manchas da fotosfera solar, um s\u00edmile<br \/>\ncompleto.<\/p>\n<p>De fato, aqueles n\u00facleos obscuros, alguns mais vastos que a Terra,<br \/>\nnegrejando dentro da cercadura fulgurante das f\u00e1culas, lentamente derivando<br \/>\n\u00e0 fei\u00e7\u00e3o da rota\u00e7\u00e3o do Sol, t\u00eam entre<br \/>\no m\u00e1ximo e o m\u00ednimo da intensidade, um per\u00edodo que pode<br \/>\nvariar de nove a doze anos. E como desde muito a intui\u00e7\u00e3o genial<br \/>\nde Herschel lhes descobrira o influxo apreci\u00e1vel na dosagem de calor<br \/>\nemitido para a Terra, a correla\u00e7\u00e3o surgia inabal\u00e1vel,<br \/>\nneste estear-se em dados geom\u00e9tricos e f\u00edsicos acolchetando-se<br \/>\nnum efeito \u00fanico.<\/p>\n<p>Restava equiparar o m\u00ednimo das manchas, anteparo \u00e0 irradia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo grande astro, ao fast\u00edgio das secas no planeta torturado &#8212; de modo<br \/>\na patentear, c\u00f4mpares, os per\u00edodos de umas e outras.<\/p>\n<p>Falhou neste ponto, em que pese \u00e0 sua forma atraent\u00edssima,<br \/>\na teoria planeada: raramente coincidem as datas do paroxismo estival, no Norte,<br \/>\ncom as daquele.<\/p>\n<p>O malogro desta tentativa, entretanto, denuncia menos a desvalia de uma aproxima\u00e7\u00e3o<br \/>\nimposta rigorosamente por circunst\u00e2ncias t\u00e3o not\u00e1veis,<br \/>\ndo que o exclusivismo de atentar-se para uma causa \u00fanica. Porque a<br \/>\nquest\u00e3o, com a complexidade imanente aos fatos concretos, se at\u00e9m,<br \/>\nde prefer\u00eancia, a raz\u00f5es secund\u00e1rias, mais pr\u00f3ximas<br \/>\ne en\u00e9rgicas, e estas, em modalidades progredindo, cont\u00ednuas,<br \/>\nda natureza do solo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, s\u00f3<br \/>\nser\u00e3o definitivamente sistematizadas quando extensa s\u00e9rie de<br \/>\nobserva\u00e7\u00f5es permitir a defini\u00e7\u00e3o dos agentes preponderantes<br \/>\ndo clima sertanejo.<\/p>\n<p>Como quer que seja, o penoso reg\u00edmen dos Estados do Norte est\u00e1<br \/>\nem fun\u00e7\u00e3o de agentes desordenados e fugitivos, sem leis ainda<br \/>\ndefinidas, sujeitas \u00e0s perturba\u00e7\u00f5es locais, derivadas<br \/>\nda natureza da terra, e a rea\u00e7\u00f5es mais amplas, promanadas das<br \/>\ndisposi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas. Da\u00ed as correntes a\u00e9reas<br \/>\nque o desequilibram e variam.<\/p>\n<p>Determina-o em grande parte, e talvez de modo preponderante, a mon\u00e7\u00e3o<br \/>\nde nordeste, oriunda da forte aspira\u00e7\u00e3o dos planaltos interiores<br \/>\nque, em vasta superf\u00edcie alargada at\u00e9 ao Mato Grosso, s\u00e3o,<br \/>\ncomo se sabe, sede de grandes depress\u00f5es barom\u00e9tricas, no estio.<br \/>\nAtra\u00eddo por estas, o nordeste vivo, ao entrar, de dezembro a mar\u00e7o,<br \/>\npelas costas setentrionais, \u00e9 singularmente favorecido pela pr\u00f3pria<br \/>\nconforma\u00e7\u00e3o da terra, na passagem c\u00e9lere por sobre os<br \/>\nchapad\u00f5es desnudos que irradiando intensamente lhe alteiam o ponto<br \/>\nde satura\u00e7\u00e3o diminuindo as probabilidades das chuvas, e repelindo-o,<br \/>\nde modo a lhe permitir acarretar para os recessos do continente, intacta,<br \/>\nsobre os mananciais dos grandes rios, toda a umidade absorvida na travessia<br \/>\ndos mares.<\/p>\n<p>De fato, a disposi\u00e7\u00e3o orogr\u00e1fica dos sert\u00f5es,<br \/>\n\u00e0 parte ligeiras variantes &#8212; cordas de serras que se alinham para<br \/>\nnordeste paralelamente \u00e0 mon\u00e7\u00e3o reinante &#8212; , facilita<br \/>\na travessia desta. Canaliza-a. N\u00e3o a contrabate num antagonismo de<br \/>\nencostas, abarreirando-a, alteando-a, provocando-lhe resfriamento e a condensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nem chuvas.<\/p>\n<p>Um dos motivos das secas repousa, assim, na disposi\u00e7\u00e3o topogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Falta \u00e0s terras flageladas do Norte uma alta serrania que, correndo<br \/>\nem dire\u00e7\u00e3o perpendicular \u00e0quele vento, determine a dynamic<br \/>\ncolding, consoante um dizer expressivo.<\/p>\n<p>Um fato natural de ordem mais elevada esclarece esta hip\u00f3tese.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que as secas aparecem sempre entre duas datas fixadas h\u00e1<br \/>\nmuito pela pr\u00e1tica dos sertanejos, de 12 de dezembro a 19 de mar\u00e7o.<br \/>\nFora de tais limites n\u00e3o h\u00e1 um exemplo \u00fanico de extin\u00e7\u00e3o<br \/>\nde secas. Se os atravessam, prolongam-se fatalmente por todo o decorrer do<br \/>\nano, at\u00e9 que se reabra outra vez aquela quadra. Sendo assim e lembrando-nos<br \/>\nque \u00e9 precisamente dentro deste intervalo que a longa faixa das calmas<br \/>\nequatoriais, no seu lento oscilar em torno do equador, paira no z\u00eanite<br \/>\ndaqueles Estados. levando a borda at\u00e9 aos extremos da Bahia, n\u00e3o<br \/>\npoderemos consider\u00e1-la, para o caso, com a fun\u00e7\u00e3o de<br \/>\numa montanha ideal que correndo de leste a oeste corrigindo momentaneamente<br \/>\nlastim\u00e1vel disposi\u00e7\u00e3o orogr\u00e1fica, se anteponha<br \/>\na mon\u00e7\u00e3o e lhe provoque a parada, a ascens\u00e3o das correntes,<br \/>\no resfriamento subseq\u00fcente e a condensa\u00e7\u00e3o imediata nos<br \/>\naguaceiros diluvianos que tombam ent\u00e3o, de s\u00fabito, sobre os<br \/>\nsert\u00f5es ?<\/p>\n<p>Este desfiar de conjeturas tem o valor de indicar quantos fatores remotos<br \/>\npodem incidir numa quest\u00e3o que duplamente nos interessa pelo seu tra\u00e7o<br \/>\nsuperior na ci\u00eancia, e pelo seu significado mais \u00edntimo no envolver<br \/>\no destino de extenso trato do nosso pa\u00eds. Remove, por isto, a segundo<br \/>\nplano o influxo at\u00e9 hoje inutilmente agitado dos al\u00edsios, e<br \/>\n\u00e9 de alguma sorte fortalecido pela intui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio<br \/>\nsertanejo para quem a persist\u00eancia do nordeste &#8212; o vento da seca, como<br \/>\no batiza expressivamente &#8212; equivale \u00e0 perman\u00eancia de uma situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nirremedi\u00e1vel e crudel\u00edssima.<\/p>\n<p>As quadras ben\u00e9ficas chegam de improviso.<\/p>\n<p>Depois de dois ou tr\u00eas anos, como de 1877-1879, em que a insola\u00e7\u00e3o<br \/>\nrescalda intensamente as chapadas desnudas, a sua pr\u00f3pria intensidade<br \/>\norigina um reagente inevit\u00e1vel. Decai afinal, por toda a parte, de<br \/>\nmodo consider\u00e1vel, a press\u00e3o atmosf\u00e9rica. Apruma-se maior<br \/>\ne mais bem definida, a barreira das correntes ascensionais dos ares aquecidos,<br \/>\nantepostas \u00e0s que entram pelo litoral. E entrechocadas umas e outras,<br \/>\nnum desencadear de tuf\u00f5es violentos, alteiam-se, retalhadas de raios,<br \/>\nnublando em minutos o firmamento todo, desfazendo-se logo depois em aguaceiros<br \/>\nfortes sobre os desertos recrestados.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o parece tornar-se vis\u00edvel o anteparo das colunas ascendentes,<br \/>\nque determinam o fen\u00f4meno, na colis\u00e3o formid\u00e1vel com o<br \/>\nnordeste.<\/p>\n<p>Segundo numerosas testemunhas &#8212; as primeiras b\u00e1tegas despenhadas<br \/>\nda altura n\u00e3o atingem a terra. A meio caminho se evaporam entre as<br \/>\ncamadas referventes que sobem, e volvem, repelidas, \u00e0s nuvens, para,<br \/>\noutra vez condensando-se, precipitarem-se de novo e novamente reflu\u00edrem;<br \/>\nat\u00e9 tocarem o solo que a princ\u00edpio n\u00e3o umedecem, tornando<br \/>\nainda aos espa\u00e7os com rapidez maior, numa vaporiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nquase como se houvessem ca\u00eddo sobre chapas incandescentes, para mais<br \/>\numa vez descerem, numa permuta r\u00e1pida e cont\u00ednua, at\u00e9<br \/>\nque se formem, afinal, os primeiros fios de \u00e1gua derivando pelas pedras,<br \/>\nas primeiras torrentes em despenhos pelas encostas, afluindo em regatos j\u00e1<br \/>\navolumados entre as quebradas, concentrando-se tumultuariamente em ribeir\u00f5es<br \/>\ncorrentosos; adensando-se, estes, em rios barrentos tra\u00e7ados ao acaso,<br \/>\n\u00e0 fei\u00e7\u00e3o dos declives, em cujas correntezas passam velozmente<br \/>\nos esgalhos das \u00e1rvores arrancadas, rolando todos e arrebentando na<br \/>\nmesma onda, no mesmo caos de \u00e1guas revoltas e escuras&#8230;<\/p>\n<p>Se ao assalto subit\u00e2neo se sucedem as chuvas regulares, transmudam-se<br \/>\nos sert\u00f5es, revivescendo. Passam, por\u00e9m n\u00e3o raro, num<br \/>\ngiro c\u00e9lere, de ciclone. A drenagem r\u00e1pida do terreno e a evapora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque se estabelece logo mais viva, tornam-nos, outra vez, desolados e \u00e1ridos.<br \/>\nE penetrando-lhes a atmosfera ardente, os ventos duplicam a capacidade higrom\u00e9trica,<br \/>\ne v\u00e3o, dia a dia, absorvendo a umidade ex\u00edgua da terra &#8211;reabrindo<br \/>\no ciclo inflex\u00edvel das secas&#8230;<\/p>\n<p>As caatingas<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a travessia das veredas sertanejas \u00e9 mais exaustiva<br \/>\nque a de uma estepe nua.<\/p>\n<p>Nesta, ao menos, o viajante tem o desafogo de um horizonte largo e a perspectiva<br \/>\ndas planuras francas.<\/p>\n<p>Ao passo que a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o;<br \/>\nenla\u00e7a-o na trama espinescente e n\u00e3o o atrai; repulsa-o com<br \/>\nas folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lan\u00e7as;<br \/>\ne desdobra-se-lhe na frente l\u00e9guas e l\u00e9guas, imut\u00e1vel<br \/>\nno aspecto desolado: \u00e1rvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos,<br \/>\nrevoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espa\u00e7o ou estirando-se<br \/>\nflexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante<br \/>\n. . .<\/p>\n<p>Embora esta n\u00e3o tenha as esp\u00e9cies reduzidas dos desertos &#8212;<br \/>\nmimosas tolhi\u00e7as ou euf\u00f3rbias \u00e1speras sobre o tapete<br \/>\ndas gram\u00edneas murchas &#8212; e se afigure farta de vegetais distintos,<br \/>\nas suas \u00e1rvores, vistas em conjunto, semelham uma s\u00f3 fam\u00edlia<br \/>\nde poucos g\u00eaneros, quase reduzida a uma esp\u00e9cie invari\u00e1vel,<br \/>\ndivergindo apenas no tamanho, tendo todas a mesma conforma\u00e7\u00e3o,<br \/>\na mesma apar\u00eancia de vegetais morrendo, quase sem troncos, em esgalhos<br \/>\nlogo ao irromper do ch\u00e3o. \u00c9 que por um efeito explic\u00e1vel<br \/>\nde adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es estreitas do<br \/>\nmeio ingrato, evolvendo penosamente em c\u00edrculos estreitos, aquelas<br \/>\nmesmo que tanto se diversificam nas matas ali se talham por um molde \u00fanico.<br \/>\nTransmudam-se, e em lenta metamorfose v\u00e3o tendendo para limitad\u00edssimo<br \/>\nn\u00famero de tipos caracterizados pelos atributos dos que possuem maior<br \/>\ncapacidade de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Esta imp\u00f5e-se, tenaz e inflex\u00edvel.<\/p>\n<p>A luta pela vida, que nas florestas se traduz como uma tend\u00eancia irreprim\u00edvel<br \/>\npara a luz, desatando-se os arbustos em cip\u00f3s, el\u00e1sticos, distensos,<br \/>\nfugindo ao afogado das sombras e alteando-se presos mais aos raios do Sol<br \/>\ndo que aos troncos seculares de ali, de todo oposta, \u00e9 mais obscura,<br \/>\n\u00e9 mais original, \u00e9 mais comovedora. O Sol \u00e9 o inimigo<br \/>\nque \u00e9 for\u00e7oso evitar, iludir ou combater. E evitando-o pressente-se<br \/>\nde algum modo, como o indicaremos adiante, a inuma\u00e7\u00e3o da flora<br \/>\nmoribunda, enterrando-se os caules pelo solo. Mas como este, por seu turno,<br \/>\n\u00e9 \u00e1spero e duro, exsicado pelas drenagens dos pendores ou esterilizado<br \/>\npela suc\u00e7\u00e3o dos estratos completando as insola\u00e7\u00f5es,<br \/>\nentre dois meios desfavor\u00e1veis &#8212; espa\u00e7os candentes e terrenos<br \/>\nagros &#8211;as plantas mais robustas trazem no aspecto anormal\u00edssimo, impressos,<br \/>\ntodos os estigmas desta batalha surda.<\/p>\n<p>As leguminosas, altaneiras noutros lugares, ali se tornam an\u00e3s. Ao<br \/>\nmesmo tempo ampliam o \u00e2mbito das frondes, alargando a superf\u00edcie<br \/>\nde contato com o ar, para a absor\u00e7\u00e3o dos escassos elementos<br \/>\nnele difundidos. Atrofiam as ra\u00edzes mestras batendo contra o subsolo<br \/>\nimpenetr\u00e1vel e substituem-nas pela expans\u00e3o irradiante das rad\u00edculas<br \/>\nsecund\u00e1rias, ganglionando-as em tub\u00e9rculos t\u00famidos de<br \/>\nseiva. Ami\u00fadam as folhas. Fitam-nas rijamente, duras como cisalhas,<br \/>\n\u00e0 ponta dos galhos para diminu\u00edrem o campo da insola\u00e7\u00e3o.<br \/>\nRevestem de um indumento protetor os frutos, r\u00edgidos, \u00e0s vezes,<br \/>\ncomo estr\u00f3bilos. D\u00e3o-lhes na deisc\u00eancia perfeita com que<br \/>\nas vagens se abrem, estalando como se houvessem molas de a\u00e7o, admir\u00e1veis<br \/>\naparelhos para propaga\u00e7\u00e3o das sementes, espalhando-as profusamente<br \/>\npelo ch\u00e3o. E t\u00eam, todas, sem excetuar uma \u00fanica, no perfume<br \/>\nsuav\u00edssimo das flores , anteparos int\u00e1cteis que nas noites frias<br \/>\nsobre elas se alevantam e se arqueiam obstando a que sofram de chofre as quedas<br \/>\nde temperatura, tendas invis\u00edveis e encantadoras, resguardando-as&#8230;<\/p>\n<p>Assim disposta, a \u00e1rvore aparelha-se para reagir contra o reg\u00edmen<br \/>\nbruto.<\/p>\n<p>Ajusta-se sobre os sert\u00f5es o caut\u00e9rio das secas; esterilizam-se<br \/>\nos ares urentes; empedra-se o ch\u00e3o, gretando, recrestado; ruge o nordeste<br \/>\nnos ermos; e, como um cil\u00edcio dilacerador, a caatinga estende sobre<br \/>\na terra as ramagens de espinhos&#8230; Mas, reduzidas todas as fun\u00e7\u00f5es,<br \/>\na planta, estivando, em vida latente, alimenta-se das reservas que armazena<br \/>\nnas quadras remansadas e rompe os estios, pronta a transfigurar-se entre os<br \/>\ndeslumbramentos da primavera.<\/p>\n<p>Algumas, em terrenos mais favor\u00e1veis, iludem ainda melhor as intemp\u00e9ries,<br \/>\nem disposi\u00e7\u00e3o singular\u00edssima.<\/p>\n<p>V\u00eaem-se numerosos aglomerados em cap\u00f5es ou salpintando, isolados,<br \/>\nas macegas, arb\u00fasculos de pouco mais de metro de alto, de largas folhas<br \/>\nespessas e luzidias, exuberando flora\u00e7\u00e3o ridente em meio da<br \/>\ndesola\u00e7\u00e3o geral. S\u00e3o os cajueiros an\u00f5es, os t\u00edpicos<br \/>\nanacardia humilis das chapadas \u00e1ridas, os caju\u00eds dos ind\u00edgenas.<br \/>\nEstes vegetais estranhos, quando ablaqueados em roda, mostram ra\u00edzes<br \/>\nque se entranham a surpreendente profundura. N\u00e3o h\u00e1 desenraiz\u00e1-los.<br \/>\nO eixo descendente aumenta-lhes maior \u00e0 medida que se escava. Por fim<br \/>\nse nota que ele vai repartindo-se em divis\u00f5es dicot\u00f4micas. Progride<br \/>\npela terra dentro at\u00e9 a um caule \u00fanico e vigoroso, embaixo.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o ra\u00edzes, s\u00e3o galhos. E os pequeninos arb\u00fasculos,<br \/>\nesparsos, ou repontando em tufos, abrangendo \u00e0s vezes largas \u00e1reas,<br \/>\numa \u00e1rvore \u00fanica e enorme, inteiramente soterrada.<\/p>\n<p>Espancado pelas can\u00edculas, fustigado dos s\u00f3is, ro\u00eddo<br \/>\ndos enxurros, torturado pelos ventos, o vegetal parece derrear-se aos embates<br \/>\ndesses elementos antag\u00f4nicos e abroquelar-se daquele modo, invis\u00edvel,<br \/>\nno solo sobre que alevanta apenas os mais altos renovos da fronde majestosa.<\/p>\n<p>Outros, sem esta conforma\u00e7\u00e3o, se aparelham de outra sorte.<\/p>\n<p>As \u00e1guas que fogem no volver selvagem das torrentes, ou entre as camadas<br \/>\ninclinadas dos xistos, ficam retidas, longo tempo, nas espatas das brom\u00e9lias,<br \/>\naviventando-as. No pino dos ver\u00f5es, um p\u00e9 de macambira \u00e9<br \/>\npara o matuto sequioso um copo d&#8217;\u00e1gua cristalina e pura. Os caro\u00e1s<br \/>\nverdoengos, de flores triunfais e altas; os gravat\u00e1s e ananases bravos,<br \/>\ntran\u00e7ados em touceiras impenetr\u00e1veis, copiam-lhe a mesma forma,<br \/>\nadrede feita \u00e0quelas paragens est\u00e9reis. As suas folhas ensiformes,<br \/>\nlisas e lustrosas, como as da maioria dos vegetais sertanejos, facilitam a<br \/>\ncondensa\u00e7\u00e3o dos vapores escassos trazidos pelos ventos, por<br \/>\nmaneira a debelar-se o perigo m\u00e1ximo \u00e0 vida vegetativa, resultante<br \/>\nde larga evapora\u00e7\u00e3o pelas folhas, esgotando e vencendo a absor\u00e7\u00e3o<br \/>\npelas rad\u00edculas.<\/p>\n<p>Sucedem-se outros, diversamente apercebidos, sob novos aprestos, mas igualmente<br \/>\nresistentes.<\/p>\n<p>As nopaleas e cactus, nativas em toda a parte, entram na categoria das fontes<br \/>\nvegetais, de Saint-Hilaire. Tipos cl\u00e1ssicos da flora des\u00e9rtica,<br \/>\nmais resistentes que os demais, quando decaem a seu lado, fulminadas, as \u00e1rvores<br \/>\ntodas, persistem inalter\u00e1veis ou mais v\u00edvidos talvez. Afei\u00e7oaram-se<br \/>\naos reg\u00edmens b\u00e1rbaros; repelem os climas benignos em que estiolam<br \/>\ne definham. Ao passo que o ambiente em fogo dos desertos parece estimular<br \/>\nmelhor a circula\u00e7\u00e3o da seiva entre os seus clad\u00f3dios<br \/>\nt\u00famidos.<\/p>\n<p>As favelas, an\u00f4nimas ainda na ci\u00eancia &#8212; ignoradas dos s\u00e1bios,<br \/>\nconhecidas demais pelos tabar\u00e9us &#8211;talvez um futuro g\u00eanero cauterium<br \/>\ndas leguminosas, t\u00eam, nas folhas de c\u00e9lulas alongadas em vilosidades,<br \/>\nnot\u00e1veis aprestos de condensa\u00e7\u00e3o, absor\u00e7\u00e3o<br \/>\ne defesa. Por um lado, a sua epiderme ao resfriar-se, \u00e0 noite, muito<br \/>\nabaixo da temperatura do ar, provoca, a despeito da secura deste, breves precipita\u00e7\u00f5es<br \/>\nde orvalho; por outro, a m\u00e3o, que a toca, toca uma chapa incandescente<br \/>\nde ard\u00eancia inatur\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ora, quando ao rev\u00e9s das anteriores as esp\u00e9cies n\u00e3o<br \/>\nse mostram t\u00e3o bem armadas para a rea\u00e7\u00e3o vitoriosa, observam-se<br \/>\ndispositivos porventura mais interessantes: unem-se, intimamente abra\u00e7adas,<br \/>\ntransmudando-se em plantas sociais. N\u00e3o podendo revidar isoladas, disciplinam-se,<br \/>\ncongregam-se, arregimentam-se. S\u00e3o deste n\u00famero todas as cesalpinas<br \/>\ne as catingueiras, constituindo, nos trechos em que aparecem, sessenta por<br \/>\ncento das caatingas; os alecrins-dos-tabuleiros, e os canudos-de-pito, heliotr\u00f3pios<br \/>\narbustivos de caule oco, pintalgado de branco e flores em espiga, destinados<br \/>\na emprestar o nome ao mais lend\u00e1rio dos vilarejos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e3o no quadro das plantas sociais brasileiras, de Humboldt,<br \/>\ne \u00e9 poss\u00edvel que as primeiras vicejem, noutros climas, isoladas.<br \/>\nAli se associam. E, estreitamente solid\u00e1rias as suas ra\u00edzes,<br \/>\nno subsolo, em apertada trama, ret\u00e9m as \u00e1guas, ret\u00eam as<br \/>\nterras que se desagregam, e formam, ao cabo, num longo esfor\u00e7o, o solo<br \/>\nar\u00e1vel em que nascem, vencendo, pela capilaridade do inextric\u00e1vel<br \/>\ntecido de rad\u00edculas enredadas em malhas numerosas, a suc\u00e7\u00e3o<br \/>\ninsaci\u00e1vel dos estratos e das areias. E vivem. Vivem \u00e9 o termo<br \/>\n&#8212; porque h\u00e1, no fato, um tra\u00e7o superior \u00e0 passividade<br \/>\nda evolu\u00e7\u00e3o vegetativa&#8230;<\/p>\n<p>O juazeiro<\/p>\n<p>T\u00eam o mesmo car\u00e1ter os juazeiros, que raro perdem as folhas<br \/>\nde um verde intenso, adrede modeladas \u00e0s rea\u00e7\u00f5es vigorosas<br \/>\nda luz. Sucedem-se meses e anos ardentes. Empobrece-se inteiramente o solo<br \/>\nasp\u00e9rrimo. Mas, nessas quadras cru\u00e9is, em que as soalheiras<br \/>\nse agravam, \u00e0 vezes, com os inc\u00eandios espontaneamente acesos<br \/>\npelas ventanias atritando rijamente os galhos secos e estonados sobre o depauperamento<br \/>\ngeral da vida, em roda, eles agitam as ramagens virentes, alheios \u00e0s<br \/>\nesta\u00e7\u00f5es, floridos sempre, salpintando o deserto com as flores<br \/>\ncor de ouro, \u00e1lacres, esbatidas no pardo dos restolhos &#8212; \u00e0<br \/>\nmaneira de o\u00e1sis verdejantes e festivos.<\/p>\n<p>A dureza dos elementos cresce, entretanto, em certas quadras, ao ponto de<br \/>\nos desnudar: \u00e9 que se enterroaram h\u00e1 muito os fundos das cacimbas,<br \/>\ne os leitos endurecidos das ipueiras mostram, feito enormes carimbos, em moldes,<br \/>\nos rastros velhos das boiadas; e o sert\u00e3o de todo se impropriou \u00e0<br \/>\nvida.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, sobre a natureza morta, apenas se alteiam os cereus esguios<br \/>\ne silentes, aprumando os caules circulares repartidos em colunas poli\u00e9dricas<br \/>\ne uniformes, na simetria impec\u00e1vel de enormes candelabros. E avultando<br \/>\nao descer das tardes breves sobre aqueles ermos, quando os abotoam grandes<br \/>\nfrutos vermelhos destacando-se, n\u00edtidos, \u00e0 meia luz dos crep\u00fasculos,<br \/>\neles d\u00e3o a ilus\u00e3o emocionante de c\u00edrios enormes, fincados<br \/>\na esmo no solo, espalhados pelas chapadas, e acesos&#8230;<\/p>\n<p>Caracterizam a flora caprichosa da plenitude do estio.<\/p>\n<p>Os mandacarus ( cereus jaramacaru ), atingindo not\u00e1vel altura, raro<br \/>\naparecendo em grupos, assomando isolados acima da vegeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nca\u00f3tica, s\u00e3o novidade atraente, a princ\u00edpio. Atuam pelo<br \/>\ncontraste. Aprumam-se tesos triunfalmente, enquanto por toda a banda a flora<br \/>\nse deprime. O olhar, perturbado pelo acomodar-se \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\npenosa dos acervos de ramalhos estorcidos, descansa e retifica-se percorrendo<br \/>\nos seus caules direitos e corretos. No fim de algum tempo, por\u00e9m, s\u00e3o<br \/>\numa obsess\u00e3o acabrunhadora. Gravam em tudo monotonia inatur\u00e1vel,<br \/>\nsucedendo-se constantes, uniformes, id\u00eanticos todos, todos do mesmo<br \/>\nporte, igualmente afastados, distribu\u00eddos com uma ordem singular pelo<br \/>\ndeserto.<\/p>\n<p>Os xiquexiques (cactus peruvianus) s\u00e3o uma variante de propor\u00e7\u00f5es<br \/>\ninferiores, fracionando-se em ramos fervilhantes de espinhos, recurvos e rasteiros,<br \/>\nrecamados de flores alv\u00edssimas. Procuram os lugares \u00e1speros<br \/>\ne ardentes. S\u00e3o os vegetais cl\u00e1ssicos dos areais queimosos.<br \/>\nAprazem-se no leito abrasante das lajens gran\u00edticas feridas pelos s\u00f3is.<\/p>\n<p>T\u00eam como s\u00f3cios insepar\u00e1veis neste habitat, que as pr\u00f3prias<br \/>\norqu\u00eddeas evitam, os cabe\u00e7as-de-frade, deselegantes e monstruosos<br \/>\nmelocactos de forma elipsoidal, acanalada, de gomos espinescentes, convergindo-lhes<br \/>\nno v\u00e9rtice superior formado uma flor \u00fanica intensamente rubra.<br \/>\nAparecem de modo inexplic\u00e1vel, sobre a pedra nua, dando, realmente,<br \/>\nno tamanho, na conforma\u00e7\u00e3o, no modo por que se espalham, a imagem<br \/>\nsingular de cabe\u00e7as decepadas e sanguinolentas jogadas por ali, a esmo,<br \/>\nnuma desordem tr\u00e1gica. \u00c9 que estreit\u00edssima frincha lhes<br \/>\npermitiu insinuar, atrav\u00e9s da rocha, a raiz longa e capilar at\u00e9<br \/>\na parte inferior, onde acaso existam, livres de evapora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nuns restos de umidade.<\/p>\n<p>E a vasta fam\u00edlia, revestindo todos os aspectos, decai, a pouco e<br \/>\npouco, at\u00e9 aos quip\u00e1s reptantes, espinhosos, hum\u00edlimos,<br \/>\ntran\u00e7ados sobre a terra \u00e0 maneira de espartos de um capacho<br \/>\ndilacerador; \u00e0s ripsalides serpeantes, flexuosas, como v\u00edboras<br \/>\nverdes pelos ramos, de parceria com os fr\u00e1geis cactos epifitas, de<br \/>\num glauco empalecido, presos por adligantes aos estipites dos ouricurizeiros,<br \/>\nfugindo do solo b\u00e1rbaro para o remanso da copa da palmeira.<\/p>\n<p>Aqui, ali, outras modalidades: as palmat\u00f3rias-do-inferno op\u00fantias<br \/>\nde palmas diminutas, diabolicamente erri\u00e7adas de espinhos &#8212; com o<br \/>\nvivo carmim das cochonilhas que alimentam; orladas de flores rutilantes, quebrando<br \/>\nalacremente a tristeza solene das paisagens&#8230;<\/p>\n<p>E pouco mais especializa quem anda, pelos dias claros, por aqueles ermos,<br \/>\nentre \u00e1rvores sem folhas e sem flores. Toda a flora, como em uma derrubada,<br \/>\nse mistura em baralhamento indescrit\u00edvel. \u00c9 a catanduva, mato<br \/>\ndoente, da etimologia ind\u00edgena, dolorosamente ca\u00edda sobre o<br \/>\nseu terr\u00edvel leito de espinhos !<\/p>\n<p>Vingado um c\u00f4moro qualquer, postas em torno as vistas, perturba-as<br \/>\no mesmo cen\u00e1rio desolador: a vegeta\u00e7\u00e3o agonizante, doente<br \/>\ne informe, exausta, num espasmo doloroso&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 a sylva oestu aphylla, a sylva borrida, de Martius, abrindo no seio<br \/>\niluminado da natureza tropical um v\u00e1cuo de deserto.<\/p>\n<p>Compreende-se, ent\u00e3o, a verdade da frase paradoxal, de Aug. de Saint-Hilaire:<br \/>\n&#8220;H\u00e1, ali, toda a melancolia dos invernos, com um sol ardente e<br \/>\nos ardores do ver\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>A luz crua dos dias longos flameja sobre a terra im\u00f3vel e n\u00e3o<br \/>\na anima. Reverberam as infiltra\u00e7\u00f5es de quartzo pelos cerros<br \/>\ncalc\u00e1rios, desordenadamente esparsos pelos ermos, num alvejar de banquises;<br \/>\ne, oscilando \u00e0 ponta dos ramos secos das \u00e1rvores inteiri\u00e7adas,<br \/>\ndependuram-se as til\u00e2ndsias alvacentas, lembrando flocos esgar\u00e7ados,<br \/>\nde neve, dando ao conjunto o aspecto de uma paisagem glacial de vegeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nhibernante, nos gelos . . .<\/p>\n<p>A tormenta<\/p>\n<p>Mas no empardecer de uma tarde qualquer, de mar\u00e7o, r\u00e1pidas<br \/>\ntardes sem crep\u00fasculos, prestes afogadas na noite, as estrelas pela<br \/>\nprimeira vez cintilam vivamente.<\/p>\n<p>Nuvens volumosas abarreiram ao longe os horizontes, recortando-os em relevos<br \/>\nimponentes de montanhas negras.<\/p>\n<p>Sobem vagarosamente; incham, bolhando em lentos e desmesurados rebojos, na<br \/>\naltura; enquanto os ventos tumultuam nos plainos, sacudindo e retorcendo as<br \/>\ngalhadas.<\/p>\n<p>Embruscado em minutos, o firmamento golpeia-se de rel\u00e2mpagos prec\u00edpites,<br \/>\nsucessivos, sarjando fundamente a imprimadura negra da tormenta. Reboam ruidosamente<br \/>\nas trovoadas fortes. As b\u00e1tegas de chuva tombam grossas, espa\u00e7adamente,<br \/>\nsobre o ch\u00e3o, adunando-se logo em aguaceiro diluviano&#8230;<\/p>\n<p>Ressurrei\u00e7\u00e3o da flora<\/p>\n<p>E ao tornar da travessia o viajante, pasmo, n\u00e3o v\u00ea mais o deserto.<\/p>\n<p>Sobre o solo, que as amar\u00edlis atapetam, ressurge triunfalmente a flora<br \/>\ntropical.<\/p>\n<p>\u00c9 uma muta\u00e7\u00e3o de apoteose.<\/p>\n<p>Os mulungus rotundos, \u00e0 borda das cacimbas cheias, estafolhas; as<br \/>\ncara\u00edbas e bara\u00fanas altas refrondescem \u00e0 margem dos ribeir\u00f5es<br \/>\nrefertos; ramalham, ressoantes, os marizeiros esgalhados, \u00e0 passagem<br \/>\ndas vira\u00e7\u00f5es suaves; assomam, vivazes, amortecendo as truncaduras<br \/>\ndas quebradas, as quixabeiras de folhas pequeninas e frutos que lembram contas<br \/>\nde \u00f4nix; mais virentes, adensam-se os icozeiros pelas v\u00e1rzeas,<br \/>\nsob o ondular festivo das copas dos ouricuris: ondeiam, m\u00f3veis, avivando<br \/>\na paisagem, acamando-se nos plainos, arredondando as encostas, as moitas floridas<br \/>\ndo alecrim-dos-tabuleiros, de caules finos e flex\u00edveis; as umburanas<br \/>\nperfumam os ares, filtrando-os nas frondes enfolhadas, e &#8212; dominando a revivesc\u00eancia<br \/>\ngeral &#8212; n\u00e3o j\u00e1 pela altura sen\u00e3o pelo gracioso do porte,<br \/>\nos umbuzeiros alevantam dois metros sobre o ch\u00e3o, irradiantes em c\u00edrculo,<br \/>\nos galhos numerosos.<\/p>\n<p>O umbuzeiro<\/p>\n<p>\u00c9 a \u00e1rvore sagrada do sert\u00e3o. S\u00f3cia fiel das<br \/>\nr\u00e1pidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. Representa<br \/>\no mais frisante exemplo de adapta\u00e7\u00e3o da flora sertaneja. Foi,<br \/>\ntalvez, de talhe mais vigoroso e alto &#8212; e veio descaindo, pouco a pouco,<br \/>\nnuma interdecad\u00eancia de estios flam\u00edvomos e invernos torrenciais,<br \/>\nmodificando-se \u00e0 fei\u00e7\u00e3o do meio, desinvoluindo, at\u00e9<br \/>\nse preparar para a resist\u00eancia e reagindo, por fim, desafiando as secas<br \/>\nduradouras, sustentando-se nas quadras miser\u00e1veis merc\u00ea da energia<br \/>\nvital que economiza nas esta\u00e7\u00f5es ben\u00e9ficas das reservas<br \/>\nguardadas em grande c\u00f3pia nas ra\u00edzes.<\/p>\n<p>E reparte-as com o homem. Se n\u00e3o existisse o umbuzeiro aquele trato<br \/>\nde sert\u00e3o, t\u00e3o est\u00e9ril que nele escasseiam os carnaubais<br \/>\nt\u00e3o providencialmente dispersos nos que o convizinham at\u00e9 ao<br \/>\nCear\u00e1, estaria despovoado. O umbu \u00e9 para o infeliz matuto que<br \/>\nali vive o mesmo que a mauritia para os garaunos dos llanos.<\/p>\n<p>Alimenta-o e mitiga-lhe a sede. Abre-lhe o seio acariciador e amigo, onde<br \/>\nos ramos recurvos e entrela\u00e7ados parecem de prop\u00f3sito feitos<br \/>\npara a arma\u00e7\u00e3o das redes bamboantes. E ao chegarem os tempos<br \/>\nfelizes d\u00e1-lhe os frutos de sabor esquisito para o preparo da umbuzada<br \/>\ntradicional.<\/p>\n<p>O gado, mesmo nos dias de abastan\u00e7a, cobi\u00e7a o sumo acidulado<br \/>\ndas suas folhas. Real\u00e7a-se-lhe, ent\u00e3o, o porte, levantada, em<br \/>\nrecorte firme, a copa arredondada, num plano perfeito sobre o ch\u00e3o,<br \/>\n\u00e0 altura atingida pelos bois mais altos, ao modo de plantas ornamentais<br \/>\nentregues \u00e0 solicitude de pr\u00e1ticos jardineiros. Assim decotadas<br \/>\nsemelham grandes calotas esf\u00e9ricas. Dominam a flora sertaneja nos tempos<br \/>\nfelizes, como os cereus melanc\u00f3licos nos paroxismos estivais.<\/p>\n<p>A jurema<\/p>\n<p>As juremas, prediletas dos caboclos &#8212; o seu haxixe capitoso, fornecendo-lhes,<br \/>\ngr\u00e1tis, inestim\u00e1vel beberagem, que os revigora depois das caminhadas<br \/>\nlongas, extinguindo-lhes as fadigas em momentos, feito um filtro m\u00e1gico<br \/>\n&#8212; derramam-se em sebes, impenetr\u00e1veis tranqueiras disfar\u00e7adas<br \/>\nem folhas diminutas; refrondam os marizeiros raros &#8212; misteriosas \u00e1rvores<br \/>\nque pressagiam a volta das chuvas e das \u00e9pocas aneladas do &#8220;verde&#8221;<br \/>\ne o termo da &#8220;magr\u00e9m&#8221; &#8212; quando, em pleno flagelar da seca,<br \/>\nIhes porejam na casca ressequida dos troncos algumas gotas d&#8217;\u00e1gua;<br \/>\nreverdecem os angicos; lourejam os ju\u00e1s em moitas, e as bara\u00fanas<br \/>\nde flores em cachos, e os araticuns \u00e0 ourela dos banhados&#8230; mas, destacando-se,<br \/>\nesparsos pelas chapadas, ou no bolear dos cerros, os umbuzeiros, estrelando<br \/>\nflores alv\u00edssimas, abrolhando em folhas, que passam em fugitivos cambiantes<br \/>\nde um verde p\u00e1lido ao r\u00f3seo vivo dos rebentos novos, atraem<br \/>\nmelhor o olhar, s\u00e3o a nota mais feliz do cen\u00e1rio deslumbrante.<\/p>\n<p>O sert\u00e3o \u00e9 um para\u00edso<\/p>\n<p>E o sert\u00e3o \u00e9 um para\u00edso&#8230;<\/p>\n<p>Ressurge ao mesmo tempo a fauna resistente das caatingas: disparam pelas<br \/>\nbaixadas \u00famidas os caititus esquivos; passam, em varas, pelas tig\u00fceras<br \/>\nnum estr\u00eddulo estrepitar de maxilas percutindo, os queixadas de canela<br \/>\nruiva; correm pelos tabuleiros altos, em bandos, esporeando-se com os ferr\u00f5es<br \/>\nde sob as asas, as emas veloc\u00edssimas; e as seriemas de vozes lamentosas,<br \/>\ne as seric\u00f3ias vibrantes, cantam nos balsedos, \u00e0 fimbria dos<br \/>\nbanhados onde vem beber o tapir estacando um momento no seu trote, brutal,<br \/>\ninflexivelmente retil\u00edneo, pela caatinga, derribando \u00e1rvores;<br \/>\ne as pr\u00f3prias su\u00e7uaranas, aterrando os moc\u00f3s espertos<br \/>\nque se aninham aos pares, nas luras dos fraguedos, pulam, alegres, nas macegas<br \/>\naltas, antes de quedarem nas tocaias trai\u00e7oeiras aos veados ariscos<br \/>\nou novilhos desgarrados&#8230;<\/p>\n<p>Manh\u00e3s sertanejas<\/p>\n<p>Sucedem-se manh\u00e3s sem par, em que o irradiar do levante incendido<br \/>\nretinge a p\u00farpura das eritrinas e destaca melhor, engrinaldando as<br \/>\numburanas de casca arroxeada, os fest\u00f5es multicores das bign\u00f4nias.<br \/>\nAnimam-se os ares numa palpita\u00e7\u00e3o de asas, c\u00e9leres, ruflando.<br \/>\n&#8212; Sulcam-nos as notas de clarins estranhos. Num tumultuar de desencontrados<br \/>\nv\u00f4os passam, em bandos, as pombas bravas que remigram, e rolam as turbas<br \/>\nturbulentas das maritacas estridentes&#8230; enquanto feliz, deslembrado de m\u00e1goas,<br \/>\nsegue o campeiro pelos arrastadores, tangendo a boiada farta, e entoando a<br \/>\ncantiga predileta&#8230;<\/p>\n<p>Assim se v\u00e3o os dias.<\/p>\n<p>Passam-se um, dois, seis meses venturosos, derivados da exuber\u00e2ncia<br \/>\nda terra, at\u00e9 que surdamente, imperceptivelmente, num ritmo maldito,<br \/>\nse despeguem, a pouco e pouco, e caiam, as folhas e as flores, e a seca se<br \/>\ndesenhe outra vez nas ramagens mortas das \u00e1rvores dec\u00edduas&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Uma categoria geogr\u00e1fica que Hegel n\u00e3o citou. Como se faz um<br \/>\ndeserto. Como se extingue o deserto. O mart\u00edrio secular da terra.<\/p>\n<p>Resumamos, enfeixemos estas linhas esparsas.<\/p>\n<p>Hegel delineou tr\u00eas categorias geogr\u00e1ficas como elementos fundamentais<br \/>\ncolaborando com outros no reagi: sobre o homem, criando diferencia\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00e9tnicas:<\/p>\n<p>As estepes de vegeta\u00e7\u00e3o tolhi\u00e7a, ou vastas plan\u00edcies<br \/>\n\u00e1ridas; os vales f\u00e9rteis, profusamente irrigados; os litorais<br \/>\ne as ilhas.<\/p>\n<p>Os llanos da Venezuela; as savanas que alargam o vale do Mississ\u00edpi,<br \/>\nos pampas desmedidos e o pr\u00f3prio Atacama desatado sobre os Andes &#8212;<br \/>\nvasto terra\u00e7o onde vagueiam dunas &#8212; inscrevem-se rigorosamente nos<br \/>\nprimeiros.<\/p>\n<p>Em que pese aos estios longos, as trombas formid\u00e1veis de areia, e<br \/>\nao saltear de s\u00fabitas inunda\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se incompatibilizam<br \/>\ncom a vida.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o fixam o homem \u00e0 terra.<\/p>\n<p>A sua flora rudimentar, de gram\u00edneas e ciper\u00e1ceas, revi\u00e7ando<br \/>\nvigorosa nas quadras pluviosas, \u00e9 um incentivo \u00e0 vida pastoril,<br \/>\n\u00e0s sociedades errantes dos pegureiros, passando m\u00f3veis, num<br \/>\nconstante armar e desarmar de tendas, por aqueles plainas &#8212; r\u00e1pidas,<br \/>\ndispersas aos primeiros fulgores do ver\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o atraem. Patenteiam sempre o mesmo cen\u00e1rio de uma monotonia<br \/>\nacabrunhadora, com a variante \u00fanica da cor: um oceano im\u00f3vel,<br \/>\nsem vagas e sem praias.<\/p>\n<p>T\u00eam a for\u00e7a centr\u00edfuga do deserto: repelem; desunem;<br \/>\ndispersam. N\u00e3o se podem ligar a humanidade pelo vinculo nupcial do<br \/>\nsulco dos arados. S\u00e3o um isolador \u00e9tnico como as cordilheiras<br \/>\ne o mar, ou as estepes da Mong\u00f3lia, varejadas, em corridas doidas,<br \/>\npelas catervas turbulentas dos t\u00e1rtaros errabundos.<\/p>\n<p>Aos sert\u00f5es do Norte, por\u00e9m, que \u00e0 primeira vista se<br \/>\nlhes equiparam, falta um lugar no quadro do pensador germ\u00e2nico.<\/p>\n<p>Ao atravess\u00e1-los no estio, cr\u00ea-se que entram, de molde, naquela<br \/>\nprimeira subdivis\u00e3o; ao atravess\u00e1-los no inverno, acredita-se<br \/>\nque s\u00e3o parte essencial da segunda.<\/p>\n<p>Barbaramente est\u00e9reis; maravilhosamente exuberantes&#8230;<\/p>\n<p>Na plenitude das secas s\u00e3o positivamente o deserto. Mas quando estas<br \/>\nn\u00e3o se prolongam ao ponto de originarem penos\u00edssimos \u00eaxodos,<br \/>\no homem luta como as \u00e1rvores, com as reservas armazenadas nos dias<br \/>\nde abastan\u00e7a e, neste combate feroz, an\u00f4nimo, terrivelmente obscuro,<br \/>\nafogado na solid\u00e3o das chapadas, a natureza n\u00e3o o abandona de<br \/>\ntodo. Ampara-o muito al\u00e9m das horas de desesperan\u00e7a, que acompanham<br \/>\no esgotamento das \u00faltimas cacimbas.<\/p>\n<p>Ao sobrevir das chuvas, a terra, como vimos, transfigura-se em muta\u00e7\u00f5es<br \/>\nfant\u00e1sticas, contrastando com a desola\u00e7\u00e3o anterior. Os<br \/>\nvales secos fazem-se rios. Insulam-se os c\u00f4moros escalvados, repentinamente<br \/>\nverdejantes. A vegeta\u00e7\u00e3o recama de flores, cobrindo-os, os grot\u00f5es<br \/>\nescancelados, e disfar\u00e7a a dureza das barrancas, e arredonda em colinas<br \/>\nos acervos de blocos disjungidos &#8212; de sorte que as chapadas grandes, intermeadas<br \/>\nde convales, se ligam em curvas mais suaves aos tabuleiros altos. Cai a temperatura.<br \/>\nCom o desaparecer das soalheiras anula-se a secura anormal dos ares. Novos<br \/>\ntons na paisagem: a transpar\u00eancia do espa\u00e7o salienta as linhas<br \/>\nmais ligeiras, em todas as variantes da forma e da cor.<\/p>\n<p>Dilatam-se os horizontes. O firmamento sem o azul carregado dos desertos<br \/>\nalteia-se, mais profundo, ante o expandir revivescente da terra.<\/p>\n<p>E o sert\u00e3o \u00e9 um vale f\u00e9rtil. \u00c9 um pomar vast\u00edssimo,<br \/>\nsem dono.<\/p>\n<p>Depois tudo isto se acaba. Voltam os dias torturantes; a atmosfera asfixiadora;<br \/>\no empedramento do solo; a nudez da flora; e nas ocasi\u00f5es em que os<br \/>\nestios se ligam sem a intermit\u00eancia das chuvas &#8212; o espasmo assombrador<br \/>\nda seca.<\/p>\n<p>A natureza compraz-se em um jogo de ant\u00edteses.<\/p>\n<p>Eles imp\u00f5em por isto uma divis\u00e3o especial naquele quadro. A<br \/>\nmais interessante e expressiva de todas &#8212; posta, como mediadora, entre os<br \/>\nvales nimiamente f\u00e9rteis e as estepes mais \u00e1ridas.<\/p>\n<p>Relegando a outras p\u00e1ginas a sua significa\u00e7\u00e3o como fator<br \/>\nde diferencia\u00e7\u00e3o \u00e9tnica, vejamos o seu papel na economia<br \/>\nda terra.<\/p>\n<p>A natureza n\u00e3o cria normalmente os desertos. Combate-os, repulsa-os.<br \/>\nDesdobram-se, lacunas inexplic\u00e1veis, \u00e0s vezes sob as linhas<br \/>\nastron\u00f4micas definidoras da exuber\u00e2ncia m\u00e1xima da vida.<br \/>\nExpressos no tipo cl\u00e1ssico do Saara &#8212; que \u00e9 um termo gen\u00e9rico<br \/>\nda regi\u00e3o maninha dilatada do Atl\u00e2ntico ao Indico, entrando pelo<br \/>\nEgito e pela S\u00edria, assumindo todos os aspectos da enorme depress\u00e3o<br \/>\nafricana ao plateau ar\u00e1bico ardent\u00edssimo de Nedjed e avan\u00e7ando<br \/>\nda\u00ed para as areias dos bejabans, na P\u00e9rsia &#8212; s\u00e3o t\u00e3o<br \/>\nil\u00f3gicos que o maior dos naturalistas lobrigou a g\u00eanese daquele<br \/>\nna a\u00e7\u00e3o tumultuaria de um cataclismo, uma irrup\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Atl\u00e2ntico, precipitando-se, \u00e1guas revoltas, num irresist\u00edvel<br \/>\nremoinhar de correntes, sobre o Norte da- \u00c1frica e desnudando-a furiosamente.<\/p>\n<p>Esta explica\u00e7\u00e3o de Humboldt, embora se erija apenas como hip\u00f3tese<br \/>\nbrilhante, tem um significado superior.<\/p>\n<p>Extinta a preponder\u00e2ncia do calor central e normalizados os climas,<br \/>\ndo extremo norte e do extremo sul, a partir dos p\u00f3los inabit\u00e1veis,<br \/>\na exist\u00eancia vegetativa progride para a linha equinocial. Sob esta ficam<br \/>\nas zonas exuberantes por excel\u00eancia, onde os arbustos de outras se fazem<br \/>\n\u00e1rvores e o reg\u00edmen, oscilando em duas esta\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00fanicas, determina uniformidade favor\u00e1vel \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos organismos simples, presos diretamente \u00e0s varia\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo meio. A fatalidade astron\u00f4mica da inclina\u00e7\u00e3o da ecl\u00e9tica,<br \/>\nque coloca a Terra em condi\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas inferiores<br \/>\n\u00e0s de outros planetas, mal se percebe nas paragens onde uma montanha<br \/>\n\u00fanica sintetiza, do sop\u00e9 \u00e0s cumeadas, todos os climas<br \/>\ndo mundo.<\/p>\n<p>Entretanto, por elas passa, interferindo a fronteira ideal dos hemisf\u00e9rios,<br \/>\no equador termal, de tra\u00e7ado perturbad\u00edssimo de inflex\u00f5es<br \/>\nvivas, partindo-se nos pontos singulares em que a vida \u00e9 imposs\u00edvel;<br \/>\npassando dos desertos \u00e0s florestas, do Saara, que o repuxa para o norte,<br \/>\n\u00e0 \u00cdndia opulent\u00edssima, depois de tangenciar a ponta meridional<br \/>\nda Ar\u00e1bia paup\u00e9rrima; varando o Pac\u00edfico num longo tra\u00e7o<br \/>\n&#8212; rarefeito colar de ilhas desertas e escalvadas &#8212; e abeirando, depois,<br \/>\nem lento descambar para o sul, a Hilae portentosa do Amazonas.<\/p>\n<p>\u00c9 o homem permanentemente fatigado.<\/p>\n<p>Reflete a pregui\u00e7a invenc\u00edvel, a atonia muscular perene, em<br \/>\ntudo: na palavra remorada, no gesto contrafeito, no andar desaprumado, na<br \/>\ncad\u00eancia langorosa das modinhas, na tend\u00eancia constante \u00e0<br \/>\nimobilidade e \u00e0 quietude.<\/p>\n<p>Entretanto, toda esta apar\u00eancia de cansa\u00e7o ilude.<\/p>\n<p>Nada \u00e9 mais surpreendedor do que v\u00ea-la desaparecer de improviso.<br \/>\nNaquela organiza\u00e7\u00e3o combalida operam-se, em segundos, transmuta\u00e7\u00f5es<br \/>\ncompletas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear<br \/>\ndas energias adormecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando<br \/>\nnovos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabe\u00e7a firma-se-lhe,<br \/>\nalta, sobre os ombros possantes aclarada pelo olhar desassombrado e forte;<br \/>\ne corrigem-se-lhe, prestes, numa descarga nervosa instant\u00e2nea, todos<br \/>\nos efeitos do relaxamento habitual dos \u00f3rg\u00e3os; e da figura vulgar<br \/>\ndo tabar\u00e9u canhestro reponta, inesperadamente, o aspecto dominador<br \/>\nde um tit\u00e3 acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de<br \/>\nfor\u00e7a e agilidade extraordin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Este contraste imp\u00f5e-se ao mais leve exame. Revela-se a todo o momento,<br \/>\nem todos os pormenores da vida sertaneja &#8212; caracterizado sempre pela intercad\u00eancia<br \/>\nimpressionadora entre extremos impulsos e apatias longas.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel idear-se cavaleiro mais chucro e deselegante;<br \/>\nsem posi\u00e7\u00e3o, pernas coladas ao bojo da montaria, tronco pendido<br \/>\npara a frente e oscilando \u00e0 fei\u00e7\u00e3o da andadura dos pequenos<br \/>\ncavalos do sert\u00e3o, desferrados e maltratados, resistentes e r\u00e1pidos<br \/>\ncomo poucos. Nesta atitude indolente, acompanhando morosamente, a passo, pelas<br \/>\nchapadas, o passo tardo das boiadas, o vaqueiro pregui\u00e7oso quase transforma<br \/>\no &#8220;campe\u00e3o&#8221; que cavalga na rede amolecedora em que atravessa<br \/>\ndois ter\u00e7os da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas se uma r\u00eas &#8220;alevantada&#8221; envereda, esquiva, adiante, pela<br \/>\ncaatinga garranchenta, ou se uma ponta de gado, ao longe, se trasmalha, ei-lo<br \/>\nem momentos transformado, cravando os acicates de rosetas largas nas ilhargas<br \/>\nda montaria e partindo como um dardo, atufando-se velozmente nos d\u00e9dalos<br \/>\ninextric\u00e1veis das juremas.<\/p>\n<p>Vimo-lo neste steeple-chase b\u00e1rbaro.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 cont\u00ea-lo, ent\u00e3o, no \u00edmpeto. Que<br \/>\nse lhe antolhem quebradas, acervos de pedras, coivaras, moiras de espinhos<br \/>\nou barrancas de ribeir\u00f5es, nada lhe impede encal\u00e7ar o garrote<br \/>\ndesgarrado, porque &#8220;por onde passa o boi passa o vaqueiro com o seu cavalo&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>Colado ao dorso deste, confundindo-se com ele, gra\u00e7as a press\u00e3o<br \/>\ndos jarretes firmes, realiza a cria\u00e7\u00e3o bizarra de um centauro<br \/>\nbronco: emergindo inopinadamente nas clareiras; mergulhando nas macegas altas;<br \/>\nsaltando valos e ipueiras; vingando c\u00f4moros al\u00e7ados; rompendo,<br \/>\nc\u00e9lere, pelos espinheirais mordentes; precipitando-se, a toda brida,<br \/>\nno largo dos tabuleiros . . .<\/p>\n<p>A sua complei\u00e7\u00e3o robusta ostenta-se, nesse momento, em toda<br \/>\na plenitude. Como que \u00e9 o cavaleiro robusto que empresta vigor ao cavalo<br \/>\npequenino e fr\u00e1gil, sustenta-o nas r\u00e9deas improvisadas de caro\u00e1,<br \/>\nsuspendendo-o nas esporas, arrojando-o na carreira -estribando curto, pernas<br \/>\nencolhidas, joelhos fincados para a frente, torso colado no ar\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8212; &#8220;escanchado no rastro&#8221; do novilho esquivo: aqui curvando-se agil\u00edssimo,<br \/>\nsob um ramalho, que lhe ro\u00e7a quase pela sela; al\u00e9m desmontando,<br \/>\nde repente, como um acrobata, agarrado \u00e0s crinas do animal, para fugir<br \/>\nao embate de um tronco percebido no \u00faltimo momento e galgando, logo<br \/>\ndepois, num pulo, o selim; &#8212; e galopando sempre, atrav\u00e9s de todos<br \/>\nos obst\u00e1culos, sopesando \u00e0 destra sem a perder nunca, sem a<br \/>\ndeixar no inextric\u00e1vel dos cipoais, a longa aguilhada de ponta de ferro<br \/>\nencastoada em couro, que por si s\u00f3 constituiria, noutras m\u00e3os,<br \/>\ns\u00e9rios obst\u00e1culos \u00e0 travessia&#8230;<\/p>\n<p>Mas terminada a refrega, restitu\u00edda ao rebanho a r\u00e8s dominada,<br \/>\nei-lo, de novo ca\u00eddo sobre o lombilho retovado, outra vez desgracioso<br \/>\ne inerte, oscilando \u00e0 fei\u00e7\u00e3o da andadura lenta&#8217; com a<br \/>\napar\u00eancia triste de um inv\u00e1lido esmorecido.<\/p>\n<p>Tipos d\u00edspares: o jagun\u00e7o e o ga\u00facho<\/p>\n<p>O ga\u00facho do Sul, ao encontr\u00e1-lo nesse instante, sobreolh\u00e1-lo-ia<br \/>\ncomiserado.<\/p>\n<p>O vaqueiro do Norte \u00e9 a sua ant\u00edtese. Na postura, no gesto,<br \/>\nna palavra, na \u00edndole e nos h\u00e1bitos n\u00e3o h\u00e1 equipar\u00e1-los.<br \/>\nO primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito \u00e0s correrias f\u00e1ceis<br \/>\nnos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta, tem, certo,<br \/>\nfei\u00e7\u00e3o mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida n\u00e3o<br \/>\nlhe assume o car\u00e1ter selvagem da dos sert\u00f5es do Norte. N\u00e3o<br \/>\nconhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra \u00e1rida<br \/>\ne exsicada. N\u00e3o o entristecem as cenas peri\u00f3dicas da devasta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da mis\u00e9ria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado,<br \/>\nexaurido pela adust\u00e3o dos s\u00f3is bravios do Equador. N\u00e3o<br \/>\ntem, no meio das horas tranq\u00fcilas da felicidade, a preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo futuro, que \u00e9 sempre uma amea\u00e7a, tornando aquela inst\u00e1vel<br \/>\ne fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa;<br \/>\ne passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarr\u00e3o,<br \/>\ndespreocupado, tendo o trabalho como uma divers\u00e3o que lhe permite as<br \/>\ndisparadas, domando distancias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando<br \/>\naos ventos o pala insepar\u00e1vel, como uma fl\u00e2mula festivamente<br \/>\ndesdobrada.<\/p>\n<p>As suas vestes s\u00e3o um traje de festa, ante a vestimenta r\u00fastica<br \/>\ndo vaqueiro. As amplas bombachas, adrede talhadas para a movimenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nf\u00e1cil sobre os bagua\u00eds, no galope fechado ou no corcovear raivoso,<br \/>\nn\u00e3o se estragam em espinhos dilaceradores de caatingas. O seu poncho<br \/>\nvistoso jamais fica perdido, embara\u00e7ado nos esgalhos das \u00e1rvores<br \/>\ngarranchentas. E, rompendo pelas coxilhas, arrebatadamente na marcha do redom\u00e3o<br \/>\ndesensofrido, cal\u00e7ando as largas botas russilhonas, em que retinem<br \/>\nas rosetas das esporas de prata; len\u00e7o de seda encarnado, ao pesco\u00e7o;<br \/>\ncoberto pelo sombreiro de enormes abas flex\u00edveis, e tendo \u00e0<br \/>\ncinta, rebrilhando, presas pela guaiaca, a pistola e a faca &#8212; \u00e9 um<br \/>\nvitorioso jovial e forte. O cavalo, s\u00f3cio insepar\u00e1vel desta<br \/>\nexist\u00eancia algo romanesca, \u00e9 quase objeto de luxo. Demonstra-o<br \/>\no arreamento complicado e espetaculoso. O ga\u00facho andrajoso sobre um<br \/>\n&#8220;pingo&#8221; bem aperado est\u00e1 decente, est\u00e1 corret\u00edssimo.<br \/>\nPode atravessar sem vexames os vilarejos em festa.<\/p>\n<p>O vaqueiro<\/p>\n<p>O vaqueiro, por\u00e9m, criou-se em condi\u00e7\u00f5es opostas, em<br \/>\numa intermit\u00eancia, raro perturbada, de horas felizes e horas cru\u00e9is,<br \/>\nde abastan\u00e7a e mis\u00e9rias &#8212; tendo sobre a cabe\u00e7a, como<br \/>\namea\u00e7a perene, o sol, arrastando de envolta, no volver das esta\u00e7\u00f5es,<br \/>\nper\u00edodos sucessivos de devasta\u00e7\u00f5es e desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>Atravessou a mocidade numa intercad\u00eancia de cat\u00e1strofes. Fez-se<br \/>\nhomem, quase sem ter sido crian\u00e7a. Salteou-o, logo, intercalando-lhe<br \/>\nagruras nas horas festivas da inf\u00e2ncia, o espantalho das secas no sert\u00e3o.<br \/>\nCedo encarou a exist\u00eancia pela sua face tormentosa. \u00c9 um condenado<br \/>\n\u00e0 vida. Compreendeu-se envolvido em combate sem tr\u00e9guas, exigindo-lhe<br \/>\nimperiosamente a converg\u00eancia de todas as energias.<\/p>\n<p>Fez-se forte, esperto, resignado e pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Aprestou-se, cedo, para a luta.<\/p>\n<p>O seu aspecto recorda, vagamente, \u00e0 primeira vista, o de guerreiro<br \/>\nantigo exausto da refrega. As vestes s\u00e3o uma armadura. Envolto no gib\u00e3o<br \/>\nde couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete tamb\u00e9m<br \/>\nde couro; cal\u00e7ando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas,<br \/>\ncosidas \u00e0s pernas e subindo at\u00e9 as virilhas, articuladas em<br \/>\njoelheiras de sola; e resguardados os p\u00e9s e as m\u00e3os pelas luvas<br \/>\ne guarda-p\u00e9s de pele de veado &#8212; \u00e9 como a forma grosseira de<br \/>\num campeador medieval desgarrado em nosso tempo.<\/p>\n<p>Esta armadura, por\u00e9m, de um vermelho pardo, como se fosse de bronze<br \/>\nflex\u00edvel, n\u00e3o tem cintila\u00e7\u00f5es, n\u00e3o rebrilha<br \/>\nferida pelo sol. \u00c9 fosca e poenta. Envolve ao combatente de uma batalha<br \/>\nsem vit\u00f3rias.. .<\/p>\n<p>A sela da montaria, feita por ele mesmo, imita o lombilho rio-grandense,<br \/>\nmas \u00e9 mais curta e cavada, sem os apetrechos luxuosos daquele. S\u00e3o<br \/>\nacess\u00f3rios uma manta de pele de bode, um couro resistente, cobrindo<br \/>\nas ancas do animal, peitorais que lhe resguardam o peito, e as joelheiras<br \/>\napresilhadas \u00e0s juntas.<\/p>\n<p>Este equipamento do homem e do cavalo talha-se \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo meio. Vestidos doutro modo n\u00e3o romperiam, inc\u00f3lumes, as caatingas<br \/>\ne os pedregais cortantes.<\/p>\n<p>Nada mais mon\u00f3tono e feio, entretanto, do que esta vestimenta original,<br \/>\nde uma s\u00f3 cor &#8212; o pardo avermelhado do couro curtido &#8212; sem uma variante,<br \/>\nsem uma lista sequer diversamente colorida. Apenas, de longe em longe, nas<br \/>\nraras encamisadas em que aos descantes da viola o matuto deslembra as horas<br \/>\nfatigadas, surge uma novidade &#8212; um colete vistoso de pele de gato do mato<br \/>\nou de su\u00e7uarana, com o pelo mosqueado virado para fora, ou uma brom\u00e9lia<br \/>\nrubra e \u00e1lacre fincada no chap\u00e9u de couro.<\/p>\n<p>Isto, por\u00e9m, \u00e9 incidente passageiro e raro.<\/p>\n<p>Extintas as horas do folguedo, o sertanejo perde o desgarre folgaz\u00e3o<br \/>\n&#8212; largamente expandido nos sapateados, em que o estalo seco das alpercatas<br \/>\nsobre o ch\u00e3o se perde nos tinidos das esporas e soalhas dos pandeiros,<br \/>\nacompanhando a cad\u00eancia das violas vibrando nos rasgados &#8212; e cai na<br \/>\npostura habitual, tosco, deselegante e anguloso, num estranho manifestar de<br \/>\ndesnervamento e cansa\u00e7o extraordin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ora, nada mais explic\u00e1vel do que este permanente contraste entre extremas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es de for\u00e7a e agilidade e longos intervalos<br \/>\nde apatia.<\/p>\n<p>Perfeita tradu\u00e7\u00e3o moral dos agentes f\u00edsicos da sua terra,<br \/>\no sertanejo do norte teve uma \u00e1rdua aprendizagem de reveses. Afez-se,<br \/>\ncedo, a encontr\u00e1-los, de chofre, e a reagir, de pronto.<\/p>\n<p>Atravessa a vida entre ciladas, surpresas repentinas de uma natureza incompreens\u00edvel,<br \/>\ne n\u00e3o perde um minuto de tr\u00e9guas. \u00c9 o batalhador perenemente<br \/>\ncombalido e exausto, perenemente audacioso e forte; preparando-se sempre para<br \/>\num rencontro que n\u00e3o vence e em que se n\u00e3o deixa vencer; passando<br \/>\nda m\u00e1xima quietude \u00e0 m\u00e1xima agita\u00e7\u00e3o; da<br \/>\nrede pregui\u00e7osa e c\u00f4moda para o lombilho duro, que o arrebata<br \/>\ncomo um raio pelos arrastadores estreitos, em busca das malhadas. Reflete,<br \/>\nnestas apar\u00eancias que se contrabatem, a pr\u00f3pria natureza que<br \/>\no rodeia &#8212; passiva ante o jogo dos elementos e passando, sem transi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsens\u00edvel, de uma esta\u00e7\u00e3o \u00e0 outra, da maior exuber\u00e2ncia<br \/>\n\u00e0 pen\u00faria dos desertos incendidos, sob o reverberar dos estios<br \/>\nabrasantes.<\/p>\n<p>\u00c9 inconstante como ela. \u00c9 natural que o seja. Viver \u00e9<br \/>\nadaptar-se. Ela talhou-o \u00e0 sua imagem: b\u00e1rbaro, impetuoso, abrupto.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>O ga\u00facho<\/p>\n<p>O ga\u00facho, o pealador valente, \u00e9, certo, inimit\u00e1vel,<br \/>\nnuma carga guerreira; precipitando-se, ao ressoar estr\u00eddulo dos clarins<br \/>\nvibrantes, pelos pampas, com o conto da lan\u00e7a enristada, firme no estribo;<br \/>\natufando-se loucamente nos entreveros; desaparecendo, com um grito triunfal,<br \/>\nna voragem do combate, onde espadanam cintila\u00e7\u00f5es de espadas;<br \/>\ntransmudando o cavalo em proj\u00e9til e varanda quadrados e levando de<br \/>\nrojo o advers\u00e1rio no romp\u00e3o das ferraduras, ou tombando, prestes,<br \/>\nna luta, em que entra com despreocupa\u00e7\u00e3o soberana pela vida.<\/p>\n<p>O jagun\u00e7o<\/p>\n<p>O jagun\u00e7o \u00e9 menos teatralmente her\u00f3ico; \u00e9 mais<br \/>\ntenaz; \u00e9 mais resistente; \u00e9 mais perigoso; \u00e9 mais forte;<br \/>\n\u00e9 mais duro.<\/p>\n<p>Raro assume esta fei\u00e7\u00e3o romanesca e gloriosa. Procura o advers\u00e1rio<br \/>\ncom o prop\u00f3sito firme de o destruir, seja como for.<\/p>\n<p>Est\u00e1 afei\u00e7oado aos pr\u00e9lios obscuros e longos, sem expans\u00f5es<br \/>\nentusi\u00e1sticas. A sua vida \u00e9 uma conquista arduamente feita,<br \/>\nem faina diuturna. Guarda-a como capital precioso. N\u00e3o esperdi\u00e7a<br \/>\na mais ligeira contra\u00e7\u00e3o muscular, a mais leve vibra\u00e7\u00e3o<br \/>\nnervosa sem a certeza do resultado. Calcula friamente o pugilato. Ao &#8220;riscar<br \/>\nda faca&#8221; n\u00e3o d\u00e1 um golpe em falso. Ao apontar a lazarina<br \/>\nlonga ou o trabuco pesado, dorme na pontaria. . .<\/p>\n<p>Se, ineficaz o arremesso fulminante, contr\u00e1rio enterreirado n\u00e3o<br \/>\nbaqueia, o ga\u00facho, vencido ou pulseado, \u00e9 frag\u00edlimo nas<br \/>\naperturas de uma situa\u00e7\u00e3o inferior ou indecisa.<\/p>\n<p>O jagun\u00e7o, n\u00e3o. Recua. Mas, no recuar \u00e9 mais temeroso<br \/>\nainda. \u00c9 um negacear demon\u00edaco. O advers\u00e1rio tem, daquela<br \/>\nhora em diante, visando-o pelo cano da espingarda, um \u00f3dio inextingu\u00edvel,<br \/>\noculto no sombreado das tocaias&#8230;<\/p>\n<p>Os vaqueiros<\/p>\n<p>Esta oposi\u00e7\u00e3o de caracteres acentua-se nas quadras normais.<\/p>\n<p>Assim todo sertanejo \u00e9 vaqueiro. \u00c0 parte a agricultura rudimentar<br \/>\ndas planta\u00e7\u00f5es da vazante pela beira dos rios, para a aquisi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde cereais de primeira necessidade, a cria\u00e7\u00e3o de gado \u00e9,<br \/>\nali, a sorte de trabalho menos impropriada ao homem e \u00e0 terra.<\/p>\n<p>Entretanto n\u00e3o h\u00e1 vislumbrar nas fazendas do sert\u00e3o<br \/>\na az\u00e1fama festiva das est\u00e2ncias do Sul.<\/p>\n<p>&#8220;Parar o rodeio&#8221; \u00e9 para o ga\u00facho uma festa di\u00e1ria,<br \/>\nde que as cavalhadas espetaculosas s\u00e3o amplia\u00e7\u00f5es apenas.<br \/>\nNo \u00e2mbito estreito das mangueiras ou em pleno campo, ajuntando o gado<br \/>\ncosteado ou encal\u00e7ando os bois esquivos pelas sangas e banhados, os<br \/>\npealadores, capatazes e pe\u00f5es, preando \u00e0 ilhapa dos la\u00e7os<br \/>\no potro bravio, ou fazendo tombar, fulminado pelas bolas silvantes, o touro<br \/>\nal\u00e7ado, nas evolu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas das carreiras, como<br \/>\nse tirassem &#8220;argolinhas&#8221;, seguem no alarido e na alacridade de uma<br \/>\ndivers\u00e3o tumultuosa. Nos trabalhos mais calmos, quando nos rodeios<br \/>\nmarcam o gado, curam-lhe as feridas, apartam os que se destinam \u00e0s<br \/>\ncharqueadas, separam os novilhos tambeiros ou escolhem os baguais condenados<br \/>\n\u00e0s chilenas do domador &#8212; o mesmo fogo, que encandesce as marcas, d\u00e1<br \/>\nas brasas para os \u00e1gapes rudes de assados com couro ou ferve a \u00e1gua<br \/>\npara o chimarr\u00e3o amargo.<\/p>\n<p>Decorre-lhes a vida variada e farta.<\/p>\n<p>Servid\u00e3o<\/p>\n<p>inconsciente<\/p>\n<p>O mesmo n\u00e3o acontece ao Norte. Ao contr\u00e1rio do entancieiro,<br \/>\no fazendeiro dos sert\u00f5es vive no litoral, longe dos dilatados dom\u00ednios<br \/>\nque nunca viu, \u00e0s vezes. Herdaram velho v\u00edcio hist\u00f3rico.<br \/>\nComo os opulentos sesmeiros da col\u00f4nia, usufruem, parasitariamente,<br \/>\nas rendas das suas terras, sem divisas fixas. Os vaqueiros s\u00e3o-lhes<br \/>\nservos submissos.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a um contrato pelo qual percebem certa percentagem dos produtos,<br \/>\nali ficam, an\u00f4nimos &#8212; nascendo, vivendo e morrendo na mesma quadra<br \/>\nde terra &#8212; perdidos nos arrastadores e mocambos; e cuidando, a vida inteira,<br \/>\nfielmente, dos rebanhos que Ihes n\u00e3o pertencem.<\/p>\n<p>O verdadeiro dono, ausente, conhece-lhes a fidelidade sem par. N\u00e3o<br \/>\nos fiscaliza. Sabe-lhes, quando muito, os nomes.<\/p>\n<p>Envoltos, ent\u00e3o, no traje caracter\u00edstico, os sertanejos encourados<br \/>\nerguem a choupana de pau-a-pique &amp;agragrave; borda das cacimbas, rapidamente,<br \/>\ncomo se armassem tendas; e entregam-se, abnegados, \u00e0 servid\u00e3o<br \/>\nque n\u00e3o avaliam.<\/p>\n<p>A primeira coisa que fazem \u00e9 aprender o a b c e, afinal, toda a exig\u00eancia<br \/>\nda arte em que s\u00e3o em\u00e9ritos: conhecer os &#8220;ferros&#8221;<br \/>\ndas suas fazendas e os das circunvizinhas. Chamam-se assim os sinais de todos<br \/>\nos feitios, ou letras, ou desenhos caprichosos como siglas, impressos, por<br \/>\ntatuagem a fogo, nas ancas do animal, completados pelos cortes, em pequenos<br \/>\n\u00e2ngulos, nas orelhas. Ferrado o boi, est\u00e1 garantido. Pode romper<br \/>\ntranqueiras e tresmalhar-se. Leva, indel\u00e9vel, a indica\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o repor\u00e1 na &#8220;solta&#8221; primitiva. Porque o vaqueiro n\u00e3o<br \/>\nse contentando com ter de cor os ferros de sua fazenda, aprende os das demais.<br \/>\nChega, \u00e0s vezes por extraordin\u00e1rio esfor\u00e7o de mem\u00f3ria,<br \/>\na conhecer, uma por uma, n\u00e3o s\u00f3 as reses de que cuida, como<br \/>\nas dos vizinhos, incluindo-lhes a genealogia e h\u00e1bitos caracter\u00edsticos,<br \/>\ne os nomes, e as idades etc. Deste modo, quando surge no seu logrador um animal<br \/>\nalheio, cuja marca conhece, o restitui de pronto. No caso contr\u00e1rio,<br \/>\nconserva o intruso, tratando-o como aos demais. Mas n\u00e3o o leva \u00e0<br \/>\nfeira anual, nem o aplica em trabalho algum; deixa-o morrer de velho. N\u00e3o<br \/>\nlhe pertence.<\/p>\n<p>Se \u00e9 uma vaca e d\u00e1 cria, ferra a esta com o mesmo sinal desconhecido,<br \/>\nque reproduz com perfei\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel; e assim pratica<br \/>\ncom toda a descend\u00eancia daquela. De quatro em quatro bezerros, por\u00e9m,<br \/>\nsepara um, para si. \u00c9 a sua paga. Estabelece com o patr\u00e3o desconhecido<br \/>\no mesmo conv\u00eanio que tem com o outro. E cumpre estritamente, sem ju\u00edzes<br \/>\ne sem testemunhas, o estranho contrato, que ningu\u00e9m escreveu ou sugeriu.<\/p>\n<p>Sucede muitas vezes ser decifrada, afinal, uma marca somente depois de muitos<br \/>\nanos, e o criador feliz receber, ao inv\u00e9s da pe\u00e7a \u00fanica<br \/>\nque lhe fugira e da qual se deslembrara, numa ponta de gado, todos os produtos<br \/>\ndela.<\/p>\n<p>Parece fantasia este fato, vulgar, entretanto, nos sert\u00f5es.<\/p>\n<p>Indicamo-lo como tra\u00e7o encantador da probidade dos matutos. Os grandes<br \/>\npropriet\u00e1rios da terra e dos rebanhos a conhecem. T\u00eam, todos,<br \/>\ncom o vaqueiro o mesmo trato de parceria, resumido na cl\u00e1usula \u00fanica<br \/>\nde lhe darem, em troca dos cuidados que ele despende, um quarto dos produtos<br \/>\nda fazenda. E sabem que nunca se violar\u00e1 a percentagem.<\/p>\n<p>O ajuste de contas faz-se no fim do inverno e realiza-se, ordinariamente,<br \/>\nsem que esteja presente a parte mais interessada. \u00c9 formalidade dispens\u00e1vel.<br \/>\nO vaqueiro separa escrupulosamente a grande maioria de novas cabe\u00e7as<br \/>\npertencentes ao patr\u00e3o (nas quais imprime o sinal da fazenda) das poucas,<br \/>\num quarto, que lhe couberam por sorte. Grava nestas o seu sinal particular;<br \/>\ne conserva-as ou vende-as. Escreve ao patr\u00e3o, dando-lhe conta minuciosa<br \/>\nde todo o movimento do s\u00edtio, alongando-se aos m\u00ednimos pormenores;<br \/>\ne continua na faina ininterrupta.<\/p>\n<p>Esta, ainda que, em dadas ocasi\u00f5es, fatigante, \u00e9 a mais rudimentar<br \/>\nposs\u00edvel. N\u00e3o existe no Norte uma ind\u00fastria pastoril.<br \/>\nO gado vive e multiplica-se \u00e0 gandaia. Ferrados em junho, os garrotes<br \/>\nnovos perdem-se nas caatingas, com o resto das malhadas. Ali os rareiam epizootias<br \/>\nintensas, em que se sobrelevam o &#8220;rengue&#8221; e o &#8220;mal triste&#8221;.<br \/>\nOs vaqueiros mal procuram atenu\u00e1-las. Restinguem a atividade \u00e0s<br \/>\ncorridas desabaladas pelos arrastadores. Se a bicheira devasta a tropa, sabem<br \/>\nde espec\u00edfico mais eficaz que o merc\u00fario: a reza. N\u00e3o<br \/>\nprecisam de ver o animal doente. Voltam-se apenas na dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que ele se acha e rezam, tracejando no ch\u00e3o inextric\u00e1veis<br \/>\nlinhas cabal\u00edsticas. Ou ent\u00e3o, o que \u00e9 ainda mais transcendente,<br \/>\ncuram-no pelo rastro.<\/p>\n<p>E assim passam numa agita\u00e7\u00e3o est\u00e9ril.<\/p>\n<p>Raro, um incidente, uma variante alegre, quebra a sua vida mon\u00f3tona.<\/p>\n<p>Solid\u00e1rios todos, auxiliam-se incondicionalmente em todas as conjunturas.<br \/>\nSe foge a algum boi levantadi\u00e7o, toma da &#8220;guiada&#8221;, p\u00f5e<br \/>\npernas ao campe\u00e3o. e ei-lo escanchado no rastro, jogado pelas veredas<br \/>\ntiradas a fac\u00e3o. Se n\u00e3o pode levar avante a empresa, &#8220;pede<br \/>\ncampo&#8221;, frase caracter\u00edstica daquela cavalaria r\u00fastica,<br \/>\naos companheiros mais vizinhos, e l\u00e1 seguem todos, aos dez, aos vinte,<br \/>\nr\u00e1pidos, ruidosos, amigos &#8212; &#8220;campeando&#8221;, voando pelos tombadores<br \/>\ne esquadrinhando as caatingas at\u00e9 que o bruto, &#8220;desautorizado&#8221;<br \/>\nd\u00ea a venta no termo da corrida, ou tombe, de rijo, mancornado \u00e0s<br \/>\nm\u00e3os possantes que se lhe aferram aos chifres.<\/p>\n<p>A vaquejada<\/p>\n<p>Esta solidariedade de esfor\u00e7os evidencia-se melhor na &#8220;vaquejada&#8221;,<br \/>\ntrabalho consistindo essencialmente no reunir, e discriminar depois, os gados<br \/>\nde diferentes fazendas convizinhas, que por ali vivem em comum, de mistura,<br \/>\nem um comp\u00e1scuo \u00fanico e enorme, sem cercas e sem valos.<\/p>\n<p>Realizam-na de junho a julho.<\/p>\n<p>Escolhido um lugar mais ou menos central, as mais das vezes uma v\u00e1rzea<br \/>\ncomplanada e limpa, o &#8220;rodeador&#8221;, congrega-se a vaqueirama das vizinhan\u00e7as.<br \/>\nConcertam nos dispositivos da empresa. Distribuem-se as fun\u00e7\u00f5es<br \/>\nque a cada um caber\u00e3o na lide. E para logo, irradiantes pela superf\u00edcie<br \/>\nda arena, arremetem com as caatingas que a envolvem os encourados atl\u00e9ticos.<\/p>\n<p>O quadro tem a movimenta\u00e7\u00e3o selvagem e assombrosa de uma corrida<br \/>\nde t\u00e1rtaros.<\/p>\n<p>Desaparecem em minutos os sertanejos, perdendo-se no matagal circundante.<br \/>\nO rodeio permanece por algum tempo deserto. . .<\/p>\n<p>De repente estruge ao lado um estr\u00eddulo tropel de cascos sobre pedras,<br \/>\num estr\u00e9pido de galhos estalando, um estalar de chifres embatendo;<br \/>\ntufa nos ares, em novelos, uma nuvem de p\u00f3; rompe, a s\u00fabitas,<br \/>\nna clareira, embolada, uma ponta de gado; e, logo ap\u00f3s, sobre o cavalo<br \/>\nque estaca esbarrado, o vaqueiro, teso nos estribos&#8230;<\/p>\n<p>Traz apenas ex\u00edgua parte do rebanho. Entrega-a aos companheiros que<br \/>\nali ficam, `&#8217;de esteira&#8221;; e volve em galope desabalado, renovando a pesquisa.<br \/>\nEnquanto outros repontam al\u00e9m, mais outros, sucessivamente, por toda<br \/>\na banda, por todo o \u00e2mbito do rodeio, que se anima, e tumultua em disparos:<br \/>\nbois \u00e0s marradas ou escarvando o ch\u00e3o, cavalos curveteando,<br \/>\nconfundidos e embaralhados sobre os plainos vibrantes num prolongado rumor<br \/>\nde terremoto. Aos lados, na caatinga, os menos felizes se agitam \u00e0s<br \/>\nvoltas com os marru\u00e1s recalcitrantes. O touro largado ou o garrote<br \/>\nvadio em geral refoge \u00e0 revista. Afunda na caatinga. Segue-o o vaqueiro.<br \/>\nCose-se-lhe no rastro. Vai com ele \u00e0s \u00faltimas bibocas. N\u00e3o<br \/>\no larga; at\u00e9 que surja o ensejo para um ato decisivo: alcan\u00e7ar<br \/>\nrepentinamente o fugitivo, de arranco; cair logo para o lado da sela, suspenso<br \/>\nnum estribo e uma das m\u00e3os presa \u00e0s crinas do cavalo; agarrar<br \/>\ncom a outra a cauda do boi em disparada e com um rapel\u00e3o fort\u00edssimo,<br \/>\nde banda, derrib\u00e1-lo pesadamente em terra&#8230; P\u00f5e-lhe depois<br \/>\na pela ou a m\u00e1scara de couro, levando-o jugulado ou vendado para o<br \/>\nrodeador.<\/p>\n<p>Ali o recebem ruidosamente os companheiros. Conta-lhes a fa\u00e7anha.<br \/>\nContam-lhe outras id\u00eanticas, e trocam-se as impress\u00f5es her\u00f3icas<br \/>\nnuma adjetiva\u00e7\u00e3o ad boc, que vai num crescendo do &#8220;destalado&#8221;<br \/>\nr\u00edspido ao &#8220;temero&#8221; pronunciado num tr\u00eamulo enrouquecido<br \/>\ne longo.<\/p>\n<p>Depois, ao findar do dia, a \u00faltima tarefa: contam as cabe\u00e7as<br \/>\nreunidas. Apartam-nas. Separam-se, seguindo cada um para sua fazenda tangendo<br \/>\npor diante as reses respectivas. E pelos ermos ecoam melancolicamente as notas<br \/>\ndo &#8220;aboiado&#8221; . . .<\/p>\n<p>A arribada<\/p>\n<p>Segue a boiada vagarosamente, \u00e0 cad\u00eancia daquele canto triste<br \/>\ne pregui\u00e7oso. Escanchado, desgraciosamente, na sela, o vaqueiro, que<br \/>\na rev\u00ea unida e acrescida de novas crias, rumina os lucros prov\u00e1veis:<br \/>\no que toca ao patr\u00e3o, e o que lhe toca a ele, pelo trato feito. Vai<br \/>\ndali mesmo contando as pe\u00e7as destinadas \u00e0 feira; considera,<br \/>\naqui, um velho boi que ele conhece h\u00e1 dez anos e nunca levou \u00e0<br \/>\nfeira, merc\u00ea de uma amizade antiga; al\u00e9m, um mumbica claudicante,<br \/>\nem cujo flanco se enterra estrepe agudo, que \u00e9 preciso arrancar; mais<br \/>\nlonge, mascarado, cabe\u00e7a alta e desafiadora, seguindo apenas guiado<br \/>\npela compress\u00e3o dos outros, o garrote bravo, que subjugou, pegando-o<br \/>\n&#8220;de saia&#8221;, e derrubando-o, na caatinga; acol\u00e1, soberbo, caminhando<br \/>\nfolgado, porque os demais o respeitam, abrindo-lhe em roda um claro, largo<br \/>\npesco\u00e7o, envergadura de b\u00fafalo, o touro vigoroso, inveja de<br \/>\ntoda a redondeza, cujas armas regidas e curtas relembram, estaladas, rombas<br \/>\ne cheias de terra, guampa\u00e7os formid\u00e1veis, em luta com os rivais<br \/>\npossantes, nos logradouros; al\u00e9m, para toda a banda, outras pe\u00e7as,<br \/>\nconhecidas todas, revivendo-lhe todas, uma a uma, um incidente, um pormenor<br \/>\nqualquer da sua exist\u00eancia primitiva e simples.<\/p>\n<p>E prosseguem, em ordem, lentos, ao toar merenc\u00f3rio da cantiga, que<br \/>\nparece acalent\u00e1-los, embalando-os com o refr\u00e3o mon\u00f3tono:<\/p>\n<p>E cou mans\u00e3o<\/p>\n<p>E cou&#8230;\u00e8 ca\u00f5&#8230;<\/p>\n<p>ecoando saudoso nos descampados mudos&#8230;<\/p>\n<p>Estouro da boiada<\/p>\n<p>De s\u00fabito, por\u00e9m, ondula um fr\u00eamito sulcando, num estreme\u00e7\u00e3o<br \/>\nrepentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. H\u00e1 uma parada instant\u00e2nea<br \/>\n.Entrebatem-se, enredam-se, tran\u00e7am-se e alteiam-se fisgando vivamente<br \/>\no espa\u00e7o, e inclinam-se, embaralham-se milhares ele chifres. Vibra<br \/>\numa trepida\u00e7\u00e3o no solo; e a boiada estoura. . .<\/p>\n<p>A boiada arranca.<\/p>\n<p>Nada explica, \u00e0s vezes, o acontecimento, ali\u00e1s vulgar, que<br \/>\n\u00e9 o desespero dos campeiros.<\/p>\n<p>Origina o incidente mais trivial &#8212; o s\u00fabito v\u00f4o rasteiro de<br \/>\numa araqu\u00e3 ou a corrida de um moc\u00f3 esquivo. Uma r\u00eas se<br \/>\nespanta e o cont\u00e1gio, uma descarga nervosa subit\u00e2nea, transfunde<br \/>\no espanto sobre o rebanho inteiro. \u00c9 um solavanco \u00fanico, assombroso,<br \/>\natirando, de pancada, por diante, revoltos, misturando-os embolados, em vertiginosos<br \/>\ndisparos, aqueles maci\u00e7os corpos t\u00e3o normalmente tardos e morosos.<\/p>\n<p>E l\u00e1 se v\u00e3o: n\u00e3o h\u00e1 mais cont\u00ea-los ou alcan\u00e7\u00e1-los.<br \/>\nAcamam-se as caatingas, \u00e1rvores dobradas, partidas, estalando em lascas<br \/>\ne gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres; estrepitam,<br \/>\nbritando e esfarelando as pedras, torrentes de cascos pelos tombadores; rola<br \/>\nsurdamente pelos tabuleiros ru\u00eddo soturno e longo de trov\u00e3o<br \/>\nlong\u00ednquo&#8230;<\/p>\n<p>Destroem-se em minutos, feito montes de leivas, antigas ro\u00e7as penosamente<br \/>\ncultivadas; extinguem-se, em lameiros revolvidos, as ipueiras rasas; abatem-se,<br \/>\napisoados, os pousos; ou esvaziam-se, deixando-os os habitantes espavoridos,<br \/>\nfugindo para os lados, evitando o rumo retil\u00edneo em que se despenha<br \/>\na &#8220;arribada&#8221; &#8212; milhares de corpos que s\u00e3o um corpo \u00fanico,<br \/>\nmonstruoso, informe, indescrit\u00edvel, de animal fant\u00e1stico, precipitado<br \/>\nna carreira doida. E sobre este tumulto, arrodeando-o, ou arremessando-se<br \/>\nimpetuoso na esteira de destro\u00e7os, que deixa ap\u00f3s si aquela<br \/>\navalancha viva, largado numa disparada estupenda sobre barrancas, e valos,<br \/>\ne cerros, e galhadas &#8212; enristado o ferr\u00e3o, r\u00e9deas soltas, soltos<br \/>\nos estribos, estirado sobre o lombilho, preso \u00e0s crinas do cavalo &#8212;<br \/>\no vaqueiro !<\/p>\n<p>J\u00e1 se lhe tem associado, em caminho, os companheiros, que escutaram,<br \/>\nde longe, o estouro da boiada. Renova-se a lida: novos esfor\u00e7os, novos<br \/>\narremessos, novas fa\u00e7anhas, novos riscos e novos perigos a despender,<br \/>\na atravessar e a vencer, at\u00e9 que o boiad\u00e3o, n\u00e3o j\u00e1<br \/>\npelo trabalho dos que o encal\u00e7am e rebatem pelos flancos sen\u00e3o<br \/>\npelo cansa\u00e7o, a pouco e pouco afrouxe e estaque, inteiramente abombado.<\/p>\n<p>Reaviam-no \u00e0 vereda da fazenda; e ressoam, de novo, pelos ermos, entristecedoramente.<br \/>\nas notas melanc\u00f3licas do aboiado.<\/p>\n<p>Tradi\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Volvem os vaqueiros ao pouso e ali, nas redes bamboantes, relatando as perip\u00e9cias<br \/>\nda vaquejada ou famosas aventuras de feira, passam as horas matando, na significa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncompleta do termo, o tempo, e desalterando-se com a umbuzada saboros\u00edssima,<br \/>\nou merendando a iguaria incompar\u00e1vel de jerimum com leite.<\/p>\n<p>Se a quadra \u00e9 prop\u00edcia, e v\u00e3o bem as planta\u00e7\u00f5es<br \/>\nda vazante, e vi\u00e7a o &#8220;panasco&#8221; e o &#8220;mimoso&#8221; nas<br \/>\nsoltas dilatadas, e nada revela o aparecimento da seca, refinam a ociosidade<br \/>\nnos bra\u00e7os da pregui\u00e7a benfazeja. Seguem para as vilas se por<br \/>\nl\u00e1 se fazem festas de cavalhadas e mouramas, divertimentos anacr\u00f4nicos<br \/>\nque os povoados sertanejos reproduzem, intactos, com os mesmos programas de<br \/>\nh\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos. E entre eles a ex\u00f3tica &#8220;encamisada&#8221;,<br \/>\nque \u00e9 o mais curioso exemplo do aferro \u00e0s mais remotas tradi\u00e7\u00f5es.<br \/>\nVelh\u00edssima c\u00f3pia das vetustas quadras dos fossados ou arrancadas<br \/>\nnoturnas, na Pen\u00ednsula, contra os castelos \u00e1rabes, e de todo<br \/>\nesquecido na terra onde nasceu, onde a sua mesma significa\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 hoje inusitado arca\u00edsmo, esta divers\u00e3o dispendiosa<br \/>\ne interessante, feita \u00e0 luz de lanternas e archotes, com os seus longos<br \/>\ncortejos de homens a p\u00e9, vestidos de branco, ou \u00e0 maneira de<br \/>\nmu\u00e7ulmanos, e outros a cavalo em animais estranhamente ajaezados, desfilando<br \/>\nr\u00e1pidos, em escaramu\u00e7as e simulados recontros, \u00e9 o encanto<br \/>\nm\u00e1ximo dos matutos folgaz\u00e3os.<\/p>\n<p>Dan\u00e7as<\/p>\n<p>Nem todos, por\u00e9m, a compartem. Baldos de recursos para se alongarem<br \/>\ndas rancharias, agitam-se, ent\u00e3o, nos folguedos costumeiros. Encourados<br \/>\nde novo, seguem para os sambas e cateret\u00eas ruidosos, os solteiros, famanazes<br \/>\nno &#8216;desafio, sobra\u00e7ando os machetes, que vibram no &#8220;choradinho&#8221;<br \/>\nou &#8220;bai\u00e3o&#8221;, e os casados levando toda a &#8220;obriga\u00e7\u00e3o&#8221;,<br \/>\na fam\u00edlia. Nas choupanas em festa recebem-se os convivas com estrepitosas<br \/>\nsalvas de ronqueiras e como em geral n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para<br \/>\ntantos, arma-se fora, no terreiro varrido, revestido de ramagens, mobiliado<br \/>\nde cepos e troncos, e raros tamboretes, mas imenso, alumiado pelo luar e pelas<br \/>\nestrelas! o sal\u00e3o de baile. &#8220;Despontam o dia&#8221; com uns largos<br \/>\ntra\u00e7os de aguardente, a &#8220;teimosa&#8221;. E rompem estr\u00eddulamente<br \/>\nos sapateados vivos.<\/p>\n<p>Um cabra destalado ralha na viola. Serenam, em vagarosos meneios, as caboclas<br \/>\nbonitas. Revoluteia,, &#8220;brabo e corado&#8221;, o sertanejo mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Desafios<\/p>\n<p>Nos intervalos travam-se os desafios.<\/p>\n<p>Enterreiram-se, advers\u00e1rios, dois cantores rudes. As rimas saltam<br \/>\ne casam-se em quadras muita vez bel\u00edssimas.<\/p>\n<p>Nas horas de Deus, am\u00e9m,<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 zombaria, n\u00e3o!<\/p>\n<p>Desafio o mundo inteiro<\/p>\n<p>Pra cantar nesta fun\u00e7\u00e3o !<\/p>\n<p>O advers\u00e1rio retruca logo, levantando-lhe o \u00faltimo verso da<br \/>\nquadra:<\/p>\n<p>Pra cantar nesta fun\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>Amigo, meu camarada,<\/p>\n<p>Aceita teu desafio<\/p>\n<p>O &#8220;fama&#8221; deste sert\u00e3o!<\/p>\n<p>\u00c9 o come\u00e7o da luta que s\u00f3 termina quando um dos bardos<br \/>\nse engasga numa rima dif\u00edcil e titubeia, repinicando nervosamente o<br \/>\nmachete, sob uma avalancha de risos saudando-lhe a derrota. E a noite vai<br \/>\ndeslizando r\u00e1pida no folguedo que se generaliza, at\u00e9 que as<br \/>\nbarras venham quebrando e cantem as seric\u00f3ias nas ipueiras, dando o<br \/>\nsinal de debandar ao agrupamento folgaz\u00e3o.<\/p>\n<p>Terminada a festa volvem os vaqueiros \u00e0 tarefa ou \u00e0 rede pregui\u00e7osa.<\/p>\n<p>Alguns, de ano em ano, arrancam dos pousos tranquilos para remotas paragens.<br \/>\nTransp\u00f5em o S. Francisco; mergulham nos gerais enormes do ocidente,<br \/>\nvastos planaltos indefinidos em que se confundem as bacias daquele e do Tocantins<br \/>\nem alagados de onde partem os rios indiferentemente para o levante e para<br \/>\no poente; e penetram em Goi\u00e1s, ou, avantajando-se mais para o norte,<br \/>\nas serras do Piau\u00ed.<\/p>\n<p>V\u00e3o \u00e0 compra de gados. Aqueles lugares long\u00ednquos, pobres<br \/>\ne obscuros vilarejos que o Porto Nacional extrema, animam-se, ent\u00e3o,<br \/>\npassageiramente, com a romaria dos &#8220;baianos&#8221; S\u00e3o os autocratas<br \/>\ndas feiras. Dentro da armadura de couro, galhardos, brandindo a guiada, sobre<br \/>\nos cavalos ariscos, entram naqueles vilarejos com um desgarre atrevido de<br \/>\ntriunfadores felizes. E ao tornarem &#8212; quando n\u00e3o se perdem para todo<br \/>\no sempre, sem tino, na &#8220;travessia&#8221; perigosa dos descampados uniformes<br \/>\n&#8212; reatam a mesma vida mon\u00f3tona e primitiva.<\/p>\n<p>A seca<\/p>\n<p>De repente, uma variante tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>Aproxima-se a seca.<\/p>\n<p>O sertanejo adivinha-a e gra\u00e7as ao ritmo singular com que se desencadeia<br \/>\no flagelo.<\/p>\n<p>Entretanto n\u00e3o foge logo, abandonando a terra a pouco e pouco invadida<br \/>\npelo limbo candente que irradia do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Buckle, em p\u00e1gina not\u00e1vel, assinala a anomalia de se n\u00e3o<br \/>\nafei\u00e7oar nunca, o homem, \u00e0s calamidades naturais que o rodeiam.<br \/>\nNenhum povo tem mais pavor aos terremotos que o peruano; e no Peru as crian\u00e7as<br \/>\nao nascerem tem o ber\u00e7o embalado pelas vibra\u00e7\u00f5es da terra.<\/p>\n<p>Mas o nosso sertanejo faz exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra. A seca n\u00e3o<br \/>\no apavora. \u00c9 um complemento \u00e0 sua vida tormentosa, emoldurando-a<br \/>\nem cen\u00e1rios tremendos. Enfrenta-a, est\u00f3ico. Apesar das dolorosas<br \/>\ntradi\u00e7\u00f5es que conhece atrav\u00e9s de um sem numero de terr\u00edveis<br \/>\nepis\u00f3dios, alimenta a todo o transe esperan\u00e7as de uma resist\u00eancia<br \/>\nimposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Com os escassos recursos das pr\u00f3prias observa\u00e7\u00f5es e<br \/>\ndas dos seus maiores, em que ensinamentos pr\u00e1ticos se misturam a extravagantes<br \/>\ncrendices, tem procurado estudar o mal, para o conhecer, suportar e suplantar.<br \/>\nAparelha-se com singular serenidade para a luta. Dois ou tr\u00eas meses<br \/>\nantes do solst\u00edcio de ver\u00e3o, especa e fortalece os muros dos<br \/>\na\u00e7udes, ou limpa as cacimbas. Faz os ro\u00e7ados e arregoa as estreitas<br \/>\nfaixas de solo ar\u00e1vel \u00e0 orla dos ribeir\u00f5es. Est\u00e1<br \/>\npreparado para as planta\u00e7\u00f5es ligeiras \u00e0 vinda das primeiras<br \/>\nchuvas.<\/p>\n<p>Procura em seguida desvendar o futuro. Volve o olhar para as alturas; atenta<br \/>\nlongamente nos quadrantes; e perquire os tra\u00e7os mais fugitivos das<br \/>\npaisagens.<\/p>\n<p>Os sintomas do flagelo despontam-lhe, ent\u00e3o, encadeados em s\u00e9rie,<br \/>\nsucedendo-se inflex\u00edveis, como sinais comemorativos de uma mol\u00e9stia<br \/>\nc\u00edclica, da sez\u00e3o assombradora da Terra. Passam as &#8220;chuvas<br \/>\ndo caju&#8221; em outubro, r\u00e1pidas, em chuvisqueiros prestes delidos<br \/>\nnos ares ardentes, sem deixarem tra\u00e7os; e &#8220;pintam&#8221; as caatingas,<br \/>\naqui, ali, por toda a parte, mosqueadas de tufos pardos de \u00e1rvores<br \/>\nmarcescentes, cada vez mais numerosos e maiores, lembrando cinzeiros de uma<br \/>\ncombust\u00e3o abafada, sem chamas; e greta-se o ch\u00e3o; e abaixa-se<br \/>\nvagarosamente o n\u00edvel das cacimbas&#8230; Do mesmo passo nota que os dias,<br \/>\nestuando logo ao alvorecer, transcorrem abrasantes, \u00e0 medida que as<br \/>\nnoites se v\u00e3o tornando cada vez mais frias. A atmosfera absorve-lhe,<br \/>\ncom avidez de esponja, o suor na fronte, enquanto a armadura de couro, sem<br \/>\nmais a flexibilidade primitiva, se lhe endurece aos ombros, esturrada, r\u00edgida,<br \/>\nfeito uma coura\u00e7a de bronze. E ao descer das tardes, dia a dia menores<br \/>\ne sem crep\u00fasculos, considera, entristecido, nos ares, em bandos, as<br \/>\nprimeiras aves emigrantes, transvoando a outros climas.<\/p>\n<p>\u00c9 o prel\u00fadio da sua desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>V\u00ea-o acentuar-se num crescendo, at\u00e9 dezembro.<\/p>\n<p>Precautela-se: revista, apreensivo, as malhadas. Percorre os logradouros<br \/>\nlongos. Procura entre as chapadas que se esterilizam v\u00e1rzeas mais benignas<br \/>\npara onde tange os rebanhos. E espera, resignado, o dia 13 daquele m\u00eas<br \/>\nPorque, em tal data, usan\u00e7a avoenga lhe faculta sondar o futuro, interrogando<br \/>\na Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>E a experi\u00eancia tradicional de Santa Luzia. No dia 12 ao anoitecer<br \/>\nexp\u00f5e ao relento, em linha, seis pedrinhas de sal, que representam,<br \/>\nem ordem sucessiva da esquerda para a direita, os seis meses vindouros, de<br \/>\njaneiro a junho. Ao alvorecer de 13 observa-as: se est\u00e3o intactas,<br \/>\npressagiam a seca; se a primeira apenas se deliu, transmudada em alj\u00f4far<br \/>\nl\u00edmpido, \u00e9 certa a chuva em janeiro; se a segunda, em fevereiro;<br \/>\nse a maioria ou todas, \u00e9 inevit\u00e1vel o inverno benfazejo.<\/p>\n<p>Esta experi\u00eancia \u00e9 bel\u00edssima. Em que pese ao estigma<br \/>\nsupersticioso, tem base positiva, e \u00e9 aceit\u00e1vel desde que se<br \/>\nconsidera que dela se colhe a maior ou menor dosagem de vapor d&#8217;\u00e1gua<br \/>\nnos ares, e, dedutivamente, maiores ou menores probabilidades de depress\u00f5es<br \/>\nbarom\u00e9tricas, capazes de atrair o afluxo das chuvas.<\/p>\n<p>Entretanto, embora tradicional, esta prova deixa ainda vacilante o sertanejo.<br \/>\nNem sempre desanima, ante os seus piores vatic\u00ednios. Aguarda, paciente,<br \/>\no equin\u00f3cio da primavera, para definitiva consulta aos elementos. Atravessa<br \/>\ntr\u00eas longos meses de expectativa ansiosa e no dia de S. Jos\u00e9,<br \/>\n19 de mar\u00e7o, procura novo aug\u00fario, o \u00faltimo.<\/p>\n<p>Aquele dia \u00e9 para ele o \u00edndice dos meses subseq\u00fcentes.<br \/>\nRetrata-lhe, abreviadas em doze horas, todas as alternativas clim\u00e1ticas<br \/>\nvindouras. Se durante ele chove, ser\u00e1 chuvoso o inverno: se, ao contr\u00e1rio,<br \/>\no Sol atravessa abrasadoramente o firmamento claro, est\u00e3o por terra<br \/>\ntodas as suas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>A seca \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Insulamento no deserto<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se transfigura. N\u00e3o \u00e9 mais o indolente incorrig\u00edvel<br \/>\nou o impulsivo violento, vivendo \u00e0s disparadas pelos arrastadores.<br \/>\nTranscende a sua situa\u00e7\u00e3o rudimentar. Resignado e tenaz, com<br \/>\na placabilidade superior dos fortes, encara de fito a fatalidade incoerc\u00edvel;<br \/>\ne reage. O hero\u00edsmo tem nos sert\u00f5es, para todo o sempre perdidas,<br \/>\ntrag\u00e9dias espantosas. N\u00e3o h\u00e1 reviv\u00ea-las ou episodi\u00e1-las.<br \/>\nSurgem de uma luta que ningu\u00e9m descreve &#8212; a insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\nda terra contra o homem. A princ\u00edpio este reza, olhos postos na altura.<br \/>\nO seu primeiro amparo \u00e9 a f\u00e9 religiosa. Sobra\u00e7ando os<br \/>\nsantos milagreiros, cruzes al\u00e7adas, andores erguidos, bandeiras do<br \/>\nDivino ruflando, l\u00e1 se v\u00e3o, descampados em fora, fam\u00edlias<br \/>\ninteiras &#8212; n\u00e3o j\u00e1 os fortes e sadios sen\u00e3o os pr\u00f3prios<br \/>\nvelhos combalidos e enfermos claudicantes, carregando aos ombros e \u00e0<br \/>\ncabe\u00e7a as pedras dos caminhos, mudando os santos de uns para outros<br \/>\nlugares. Ecoam largos dias, mon\u00f3tonas, pelos ermos, por onde passam<br \/>\nas lentas prociss\u00f5es propiciat\u00f3rias, as ladainhas tristes. Rebrilham<br \/>\nlongas noites nas chapadas, pervagantes as velas dos penitentes&#8230; Mas os<br \/>\nc\u00e9us persistem sinistramente claros; o Sol fulmina a Terra; progride<br \/>\no espasmo assombrados da seca. O matuto considera a prole apavorada; contempla<br \/>\nentristecido os bois sucumbidos, que se agrupam sobre as fundagens das ipueiras,<br \/>\nou, ao longe, em grupos erradios e lentos, pesco\u00e7os dobrados, acaroados<br \/>\ncom o ch\u00e3o, em mugidos prantivos &#8220;farejando a \u00e1gua&#8221;;<br \/>\n&#8212; e sem que se lhe amorte\u00e7a a cren\u00e7a, sem duvidar da Provid\u00eancia<br \/>\nque o esmaga, murmurando \u00e0s mesmas horas as preces costumeiras, apresta-se<br \/>\nao sacrif\u00edcio. Arremete de alvi\u00e3o a enxada com a terra, buscando<br \/>\nnos estratos inferiores a \u00e1gua que fugiu da superf\u00edcie. Atinge-os<br \/>\n\u00e0s vezes; outras, ap\u00f3s enormes fadigas, esbarra em uma lajem<br \/>\nque lhe anula todo o esfor\u00e7o despendido; e outras vezes, o que \u00e9<br \/>\nmais corrente, depois de desvendar t\u00eanue len\u00e7ol l\u00edquido<br \/>\nsubterr\u00e2neo, o v\u00ea desaparecer um, dois dias passados, evaporando-se,<br \/>\nou sugado pelo solo. Acompanha-o tenazmente, reprofundando a mina, em cata<br \/>\ndo tesouro fugitivo. Volve, por fim, exausto, \u00e0 beira da pr\u00f3pria<br \/>\ncova que abriu, feito um desenterrado. Mas como frugalidade rara lhe permite<br \/>\npassar os dias com alguns manelos de pa\u00e7oca, n\u00e3o se lhe afrouxa,<br \/>\nt\u00e3o de pronto, o \u00e2nimo.<\/p>\n<p>Ali est\u00e1, em torno, a caatinga, o seu celeiro agreste. Esquadrinha-o.<br \/>\nTalha em peda\u00e7os os mandacarus que desalteram, ou as ramas verdoengas<br \/>\ndos juazeiros que alimentam os magros bois famintos; derruba os estipites<br \/>\ndos ouricuris e rala-os, amassa-os, cozinha-os, fazendo um p\u00e3o sinistro,<br \/>\no &#8220;br\u00f3&#8221;, que incha os ventres num enfarte ilus\u00f3rio,<br \/>\nempanzinando o faminto; atesta os jiraus de coquilhos; arranca as ra\u00edzes<br \/>\nt\u00famidas dos umbuzeiros, que lhe dessedentam os filhos, reservando para<br \/>\nsi o sumo adstringente dos clad\u00f3dios do xiquexique, que enrouquece<br \/>\nou extinguem a voz de quem o bebe, e demasia-se em trabalhos, apelando infatig\u00e1vel<br \/>\npara todos os recursos &#8212; forte e carinhoso &#8212; defendendo-se e estendendo<br \/>\n\u00e0 prole abatida e aos rebanhos confiados a energia sobre-humana.<\/p>\n<p>Baldam-se-lhe, por\u00e9m, os esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>A natureza n\u00e3o o combate apenas com o deserto. Povoa-a, contrastando<br \/>\ncom a fuga das seriemas, que emigram para outros &#8220;tabuleiros&#8221;, e<br \/>\njandaias, que fogem para o litoral remoto, uma fauna cruel. Mir\u00edades<br \/>\nde morcegos agravam a &#8220;magr\u00e9m&#8221;, abatendo-se sobre o gado,<br \/>\ndizimando-o. Chocalham as cascav\u00e9is, in\u00fameras, tanto mais numerosas<br \/>\nquanto mais ardente o estio, entre as macegas recrestadas.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, a su\u00e7uarana trai\u00e7oeira e ladra, que lhe rouba<br \/>\nos bezerros e os novilhos, vem beirar a sua lancharia pobre.<\/p>\n<p>\u00c9 mais um inimigo a suplantar.<\/p>\n<p>Afugenta-a e espanta-a, precipitando-se com um ti\u00e7\u00e3o aceso<br \/>\nno terreiro deserto. E se ela n\u00e3o recua, assalta-a. Mas n\u00e3o<br \/>\na tiro, porque sabe que, desviada a mira, ou pouco eficaz o chumbo, a on\u00e7a,<br \/>\n&#8220;vindo em cima da fuma\u00e7a&#8221;, \u00e9 invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>O pugilato \u00e9 mais comovente. O atleta enfraquecido, tendo \u00e0<br \/>\nm\u00e3o esquerda a forquilha e \u00e0 direita a faca, irrita e desafia<br \/>\na fera, provoca-lhe o bote e apara-a no ar, trespassando-a de um golpe.<\/p>\n<p>Nem sempre, por\u00e9m, pode aventurar-se \u00e0 fa\u00e7anha arriscada.<br \/>\nUma mol\u00e9stia extravagante completa a sua desdita &#8212; a hemeralopia.<br \/>\nEsta falsa cegueira \u00e9 paradoxalmente feita pelas rea\u00e7\u00f5es<br \/>\nda luz; nasce dos dias claros e quentes, dos firmamentos fulgurantes, do vivo<br \/>\nondular dos ares em fogo sobre a terra nua. \u00c9 uma pletora do olhar.<br \/>\nMas o Sol se esconde no poente a v\u00edtima nada mais v\u00ea. Est\u00e1<br \/>\ncega. A noite afoga-se de s\u00fabito, antes de envolver a Terra. E na manh\u00e3<br \/>\nseguinte a vista extinta lhe revive, acendendo-se no primeiro lampejo do levante,<br \/>\npara se apagar, de novo, \u00e0 tarde, com intermit\u00eancia dolorosa.<\/p>\n<p>Renasce-lhe com ela a energia. Ainda se n\u00e3o considera vencido. Restam-lhe,<br \/>\npara desalterar e sustentar os filhos, os talos tenros, os mangar\u00e1s<br \/>\ndas brom\u00e9lias selvagens. Ilude-os com essas iguarias b\u00e1rbaras.<\/p>\n<p>Segue, a p\u00e9 agora, porque se Ihe parte o cora\u00e7\u00e3o s\u00f3<br \/>\nde olhar para o cavalo, para os logradouros. Contempla ali a ru\u00edna<br \/>\nda fazenda: bois espectrais, vivos n\u00e3o se sabe como, ca\u00eddos<br \/>\nsob as \u00e1rvores mortas, mal soerguendo o arcabou\u00e7o murcho sobre<br \/>\nas pernas secas, marchando vagarosamente, cambaleantes; bois mortos h\u00e1<br \/>\ndias e intactos, que os pr\u00f3prios urubus rejeitam, porque n\u00e3o<br \/>\nrompem a bicadas as suas peles esturradas; bois jururus, em roda da clareira<br \/>\nde ch\u00e3o entorroado onde foi a aguada predileta; e, o que mais Ihe d\u00f3i,<br \/>\nos que ainda n\u00e3o de todo exaustos o procuram, e o circundam, confiantes,<br \/>\nurrando em longo apelo triste que parece um choro.<\/p>\n<p>E nem um cereus avulta mais em torno; foram ruminadas as \u00faltimas ramas<br \/>\nverdes dos ju\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>Tran\u00e7am-se, por\u00e9m, ao lado, impenetr\u00e1veis renques de<br \/>\nmacambiras. \u00c9 ainda um recurso. Incendeia-os, batendo o isqueiro nas<br \/>\nacendalhas das folhas ressequidas para os despir, em combust\u00e3o r\u00e1pida,<br \/>\ndos espinhos. E quando os rolos de fumo se enovelam e se diluem no ar pur\u00edssimo,<br \/>\nv\u00eaem-se, correndo de todos os lados, em tropel moroso de estropeados,<br \/>\nos magros bois famintos, em busca do \u00faltimo repasto.<\/p>\n<p>Por fim tudo se esgota e a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o muda. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 probabilidade sequer de chuvas. A casca das marizeiras n\u00e3o<br \/>\ntransuda, prenunciando-as. O nordeste persiste intenso, rolando, pelas chapadas,<br \/>\nzunindo em prolonga\u00e7\u00f5es uivadas na galhada estrepitante das<br \/>\ncaatingas e o Sol alastra, reverberando no firmamento claro, os inc\u00eandios<br \/>\ninextingu\u00edveis da can\u00edcula. O sertanejo, assoberbado de reveses,<br \/>\ndobra-se afinal.<\/p>\n<p>Passa certo dia, a sua porta, a primeira turma de &#8220;retirantes&#8221;.<br \/>\nV&amp;ecirecirc;-a, assombrado, atravessar o terreiro, miseranda, desaparecendo adiante<br \/>\nnuma nuvem de poeira, na curva do caminho&#8230; No outro dia, outra. E outras.<br \/>\n\u00c9 o sert\u00e3o que se esvazia.<\/p>\n<p>N\u00e3o resiste mais. Amatula-se num daqueles bandos, que l\u00e1 se<br \/>\nv\u00e3o caminho em fora, debruando de ossadas as veredas, e l\u00e1 se<br \/>\nvai ele no \u00eaxodo penos\u00edssimo para a costa, para as serras distantes,<br \/>\npara quaisquer lugares onde o n\u00e3o mate o elemento primordial da vida.<\/p>\n<p>Atinge-os. Salva-se.<\/p>\n<p>Passam-se meses. Acaba-se o flagelo. Ei-lo de volta. Vence-o saudade do sert\u00e3o.<br \/>\nRemigra. E torna feliz, revigorado, cantando; esquecido de infort\u00fanios,<br \/>\nbuscando as mesmas horas passageiras da ventura perdidi\u00e7a e inst\u00e1vel,<br \/>\nos mesmos dias longos de transes e prova\u00e7\u00f5es demoradas.<\/p>\n<p>Religi\u00e3o mesti\u00e7a<\/p>\n<p>Insulado deste modo no pa\u00eds, que o n\u00e3o conhece, em luta aberta<br \/>\ncom o meio, que lhe parece haver estampado na organiza\u00e7\u00e3o e<br \/>\nno temperamento a sua rudeza extraordin\u00e1ria, n\u00f4made ou mal fixo<br \/>\n\u00e0 terra, o sertanejo n\u00e3o tem, por bem dizer, ainda capacidade<br \/>\norg\u00e2nica para se afei\u00e7oar a situa\u00e7\u00e3o mais alta.<\/p>\n<p>O c\u00edrculo estreito da atividade remorou-lhe o aperfei\u00e7oamento<br \/>\nps\u00edquico. Est\u00e1 na fase religiosa de um monote\u00edsmo incompreendido,<br \/>\neivado de misticismo extravagante, em que se rebate o fetichismo do \u00edndio<br \/>\ne do africano. E o homem primitivo, audacioso e forte, mas ao mesmo tempo<br \/>\ncr\u00e9dulo, deixando-se facilmente arrebatar pelas supersti\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais absurdas. Uma an\u00e1lise destas revelaria a fus\u00e3o de est\u00e1dios<br \/>\nemocionais distintos.<\/p>\n<p>A sua religi\u00e3o \u00e9 como ele &#8212; mesti\u00e7a.<\/p>\n<p>Resumo dos caracteres f\u00edsicos e fisiol\u00f3gicos das ra\u00e7as<br \/>\nde que surge, sumaria-lhes identicamente as qualidades morais. E um \u00edndice<br \/>\nda vida de tr\u00eas povos. E as suas cren\u00e7as singulares traduzem<br \/>\nessa aproxima\u00e7\u00e3o violenta de tend\u00eancias distintas. E desnecess\u00e1rio<br \/>\ndescrev\u00ea-las. As lendas arrepiadoras do caapora travesso e maldoso,<br \/>\natravessando c\u00e9lere, montado em caititu arisco, as chapadas desertas,<br \/>\nnas noites misteriosas de luares claros; os sacis diab\u00f3licos, de barrete<br \/>\nvermelho \u00e0 cabe\u00e7a, assaltando o viandante retardat\u00e1rio,<br \/>\nnas noites aziagas das sextas-feiras, de parceria com os lobisomens e mulas-sem-cabe\u00e7a<br \/>\nnot\u00edvagos; todos os mal-assombramentos, todas as tenta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo maldito ou do diabo &#8212; este tr\u00e1gico emiss\u00e1rio dos rancores<br \/>\ncelestes em comiss\u00e3o na Terra; as rezas dirigidas a S. Campeiro, canonizado<br \/>\nin partibus, ao qual se acendem velas pelos campos, para que favore\u00e7a<br \/>\na descoberta de objetos perdidos; as benzeduras cabal\u00edsticas para curar<br \/>\nos animais, para &#8216;amassar&#8221; e &#8220;vender&#8221; sez\u00f5es; todas<br \/>\nas visualidades, todas apari\u00e7\u00f5es fant\u00e1sticas, todas as<br \/>\nprofecias esdr\u00faxulas de messias insanos; e as romarias piedosas; e<br \/>\nas miss\u00f5es; e as penit\u00eancias&#8230;. todas as manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\ncomplexas de religiosidade indefinida s\u00e3o explic\u00e1veis.<\/p>\n<p>Fatores hist\u00f3ricos da religi\u00e3o mesti\u00e7a<\/p>\n<p>N\u00e3o seria dif\u00edcil caracteriz\u00e1-las como uma mesti\u00e7agem<br \/>\nde cren\u00e7as. Ali est\u00e3o, francos, o antropismo do selvagem, o<br \/>\nanimismo do africano e, o que \u00e9 mais, o pr\u00f3prio aspecto emocional<br \/>\nda ra\u00e7a superior, na \u00e9poca do descobrimento e da coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo \u00e9 um caso not\u00e1vel de atavismo, na Historia.<\/p>\n<p>Considerando as agita\u00e7\u00f5es religiosas do sert\u00e3o e os<br \/>\nevangelizadores e messias singulares, que, intermitentemente, o atravessam,<br \/>\nascetas mortificados de flag\u00edcios, encal\u00e7ados sempre pelos sequazes<br \/>\nnumerosos, que fanatizam, que arrastam, que dominam, que endoidecem &#8212; espontaneamente<br \/>\nrecordamos a fase mais cr\u00edtica da alma portuguesa, a partir do final<br \/>\ndo s\u00e9culo 16, quando, depois de haver por momentos centralizado a Hist\u00f3ria,<br \/>\no mais interessante dos povos caiu, de s\u00fabito, em decomposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nr\u00e1pida, mal disfar\u00e7ada pela corte oriental de d. Manuel.<\/p>\n<p>O povoamento do Brasil fez-se, intenso, com d. Jo\u00e3o III, precisamente<br \/>\nno fast\u00edgio de completo desequil\u00edbrio moral, quando &#8220;todos<br \/>\nos terrores da Idade M\u00e9dia tinham cristalizado no catolicismo peninsular&#8221;.<\/p>\n<p>Uma grande heran\u00e7a de abus\u00f5es extravagantes, extinta na orla<br \/>\nmar\u00edtima pelo influxo modificador de outras cren\u00e7as e de outras<br \/>\nra\u00e7as, no sert\u00e3o ficou intacta. Trouxeram-na as gentes impression\u00e1veis,<br \/>\nque aflu\u00edram para a nossa terra, depois de desfeito no Oriente o sonho<br \/>\nmiraculoso da \u00cdndia. Vinham cheias daquele misticismo feroz, em que<br \/>\no fervor religioso reverberava \u00e0 cad\u00eancia forte das fogueiras<br \/>\ninquisitoriais, lavrando intensas na pen\u00ednsula. Eram parcelas do mesmo<br \/>\npovo que em Lisboa, sob a obsess\u00e3o dolorosa dos milagres e assaltado<br \/>\nde s\u00fabitas alucina\u00e7\u00f5es, via, sobre o pa\u00e7o dos<br \/>\nreis, ata\u00fades agoureiros, l\u00ednguas de flamas misteriosas, catervas<br \/>\nde mouros de albornozes brancos, passando processionalmente; combates de paladinos<br \/>\nnas alturas&#8230; E da mesma gente que ap\u00f3s Alc\u00e1cer-Quibir, em<br \/>\nplena &#8220;caquexia nacional&#8221;, segundo o dizer vigoroso de Oliveira<br \/>\nMartins, procurava, ante a ru\u00edna iminente, como salva\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00fanica, a f\u00f3rmula superior das esperan\u00e7as messi\u00e2nicas.<\/p>\n<p>De feito, considerando as desordens sertanejas, hoje, e os messias insanos<br \/>\nque as provocam, irresistivelmente nos assaltam, empolgantes&#8217; as figuras dos<br \/>\nprofetas peninsulares de outrora&#8211;o rei de Penamacor, o rei da Ericeira, errantes<br \/>\npelas faldas das serras, devotados ao mart\u00edrio, arrebatando na mesma<br \/>\nidealiza\u00e7\u00e3o, na mesma ins\u00e2nia, no mesmo sonho doentio,<br \/>\nas multid\u00f5es crendeiras.<\/p>\n<p>Esta justaposi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica calca-se sobre tr\u00eas<br \/>\ns\u00e9culos. Mas \u00e9 exata, completa, sem dobras. Im\u00f3vel o<br \/>\ntempo sobre a r\u00fastica sociedade sertaneja, despeada do movimento geral<br \/>\nda evolu\u00e7\u00e3o humana, ela respira ainda na mesma atmosfera moral<br \/>\ndos iluminados que encal\u00e7avam, doidos, o Miguelinho ou o Bandarra.<br \/>\nNem lhe falta, para completar o s\u00edmile, o misticismo pol\u00edtico<br \/>\ndo sebastianismo. Extinto em Portugal, ele persiste todo, hoje, de modo singularmente<br \/>\nimpressionador, nos sert\u00f5es do Norte.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o antecipemos.<\/p>\n<p>Car\u00e1ter vari\u00e1vel da religiosidade<\/p>\n<p>sertaneja<\/p>\n<p>Estes estigmas at\u00e1vicos tiveram entre n\u00f3s, favor\u00e1veis,<br \/>\nas rea\u00e7\u00f5es do meio, determinando psicologia especial.<\/p>\n<p>O homem dos sert\u00f5es &#8212; pelo que esbo\u00e7amos &#8212; mais do que qualquer<br \/>\noutro, est\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o imediata da terra. \u00c9 uma<br \/>\nvari\u00e1vel dependente no jogar dos elementos. Da consci\u00eancia da<br \/>\nfraqueza para os debelar resulta, mais forte, este apelar constante para o<br \/>\nmaravilhoso, esta condi\u00e7\u00e3o inferior de pupilo est\u00fapido<br \/>\nda divindade. Em paragens mais ben\u00e9ficas a necessidade de uma tutela<br \/>\nsobrenatural n\u00e3o seria t\u00e3o imperiosa. Ali, por\u00e9m, as<br \/>\ntend\u00eancias pessoais como que se acolchetam \u00e0s vicissitudes externas,<br \/>\ne deste entrela\u00e7amento resulta, copiando o contraste que observamos<br \/>\nentre a exalta\u00e7\u00e3o impulsiva e a apatia enervadora da atividade,<br \/>\na indiferen\u00e7a fatalista pelo futuro e a exalta\u00e7\u00e3o religiosa.<br \/>\nOs ensinamentos dos mission\u00e1rios n\u00e3o poderiam exercitar-se estremes<br \/>\ndas tend\u00eancias gerais da sua \u00e9poca. Por isto, como um palimpsesto,<br \/>\na consci\u00eancia imperfeita dos matutos revela nas quadras agitadas, rompendo<br \/>\ndentre os ideais bel\u00edssimos do catolicismo incompreendido, todos os<br \/>\nestigmas de est\u00e1dio inferior.<\/p>\n<p>\u00c9 que, mesmo em per\u00edodos normais, a sua religi\u00e3o \u00e9<br \/>\nindefinida e v\u00e1ria. Da mesma forma que os negros Ha\u00fa\u00e7as,<br \/>\nadaptando \u00e0 liturgia todo o ritual iorubano, realizam o fato an\u00f4malo,<br \/>\nmas vulgar mesmo na capital da Bahia, de seguirem para as solenidades da Igreja<br \/>\npor ordem dos fetiches, os sertanejos, herdeiros infelizes de v\u00edcios<br \/>\nseculares, saem das missas consagradas para os \u00e1gapes selvagens dos<br \/>\ncandombl\u00e9s africanos ou porac\u00eas do tupi. N\u00e3o espanta que<br \/>\npatenteiem, na religiosidade indefinida, antinomias surpreendentes.<\/p>\n<p>Quem v\u00ea a fam\u00edlia sertaneja, ao cair da noite, ante o orat\u00f3rio<br \/>\ntosco ou registro paup\u00e9rrimo, \u00e0 meia luz das candeias de azeite,<br \/>\norando pelas almas dos mortos queridos, ou procurando alentos \u00e0 vida<br \/>\ntormentosa, encanta-se.<\/p>\n<p>O culto dos mortos \u00e9 impressionador. Nos lugares remotos, longe dos<br \/>\npovoados, inumam-nos \u00e0 beira das estradas, para que n\u00e3o fiquem<br \/>\nde todo em abandono, para que os rodeiem sempre as preces dos viandantes,<br \/>\npara que nos \u00e2ngulos da cruz deponham estes, sempre, uma flor, um ramo,<br \/>\numa recorda\u00e7\u00e3o fugaz mas renovada sempre. E o vaqueiro, que<br \/>\nsegue arrebatadamente, estaca, prestes, o cavalo, ante o humilde monumento<br \/>\n&#8212; uma cruz sobre pedras arrumadas &#8212; e, a cabe\u00e7a descoberta, passa<br \/>\nvagaroso, rezando pela salva\u00e7\u00e3o de quem ele nunca viu talvez,<br \/>\ntalvez de um inimigo.<\/p>\n<p>A terra \u00e9 o ex\u00edlio insuport\u00e1vel, o morto um bem -aventurado<br \/>\nsempre.<\/p>\n<p>O falecimento de uma crian\u00e7a \u00e9 um dia de festa. Ressoam as<br \/>\nviolas na cabana dos pobres pais, jubilosos entre as l\u00e1grimas; referve<br \/>\no samba turbulento; vibram nos ares, fortes, as coplas dos desafios; enquanto,<br \/>\na uma banda, entre duas velas de carna\u00faba, coroado de flores, o anjinho<br \/>\nexposto espelha, no \u00faltimo sorriso paralisado, a felicidade suprema<br \/>\nda volta para os c\u00e9us, para a felicidade eterna &#8212; que \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndominadora daquelas almas ing\u00eanuas e primitivas.<\/p>\n<p>No entanto h\u00e1 tra\u00e7os repulsivos no quadro desta religiosidade<br \/>\nde aspectos t\u00e3o interessantes, aberra\u00e7\u00f5es brutais, que<br \/>\na derrancam ou maculam.<\/p>\n<p>A &#8220;Pedra Bonita&#8221;<\/p>\n<p>As agita\u00e7\u00f5es sertanejas, do Maranh\u00e3o \u00e0 Bahia,<br \/>\nn\u00e3o tiveram ainda um historiador. N\u00e3o as esbo\u00e7aremos<br \/>\nsequer. Tomemos um fato, entre muitos, ao acaso.<\/p>\n<p>No termo de Paje\u00fa, em Pernambuco, os \u00faltimos rebentos das forma\u00e7\u00f5es<br \/>\ngran\u00edticas da costa se alteiam, em formas caprichosas, na serra Talhada,<br \/>\ndominando, majestosos, toda a regi\u00e3o em torno e convergindo em largo<br \/>\nanfiteatro acess\u00edvel apenas por estreita garganta, entre muralhas a<br \/>\npique. No \u00e2mbito daquele, como p\u00falpito gigantesco, ergue-se um<br \/>\nbloco solit\u00e1rio &#8212; a Pedra Bonita.<\/p>\n<p>Este lugar foi, em 1837, teatro de cenas que recordam as sinistras solenidades<br \/>\nreligiosas dos Achantis. Um mamaluco ou cafuz, um iluminado, ali congregou<br \/>\ntoda a popula\u00e7\u00e3o dos s\u00edtios convizinhos e, engrimpando-se<br \/>\n\u00e0 pedra, anunciava, convicto, o pr\u00f3ximo advento do reino encantado<br \/>\ndo rei d. Sebasti\u00e3o. Quebrada a pedra, a que subira, n\u00e3o a pancadas<br \/>\nde marreta, mas pela a\u00e7\u00e3o miraculosa do sangue das crian\u00e7as,<br \/>\nesparzido sobre ela em holocausto, o grande rei irromperia envolto de sua<br \/>\nguarda fulgurante, castigando, inexor\u00e1vel, a humanidade ingrata, mas<br \/>\ncumulando de riquezas os que houvessem contribu\u00eddo para o desencanto.<\/p>\n<p>Passou pelo sert\u00e3o um fr\u00eamito de necrose&#8230;<\/p>\n<p>O transviado encontrara meio prop\u00edcio ao cont\u00e1gio da sua ins\u00e2nia.<br \/>\nEm torno da ara monstruosa comprimiam-se as m\u00e3es erguendo os filhos<br \/>\npequeninos e lutavam, procurando-lhes a primazia no sacrif\u00edcio&#8230; O<br \/>\nsangue espadanava sobre a rocha jorrando, acumulando-se em torno; e, afirmam<br \/>\nos jornais do tempo, em copia tal que, depois de desfeita aquela l\u00fagubre<br \/>\nfarsa, era imposs\u00edvel a perman\u00eancia no lugar infeccionado.<\/p>\n<p>Por outro lado, fatos igualmente impressionadores contrabatem tais aberra\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA alma de um matuto \u00e9 inerte ante as influ\u00eancias que a agitam.<br \/>\nDe acordo com estas pode ir da extrema brutalidade ao m\u00e1ximo devotamento.<\/p>\n<p>Vimo-la, neste instante, pervertida pelo fanatismo. Vejamo-la transfigurada<br \/>\npela f\u00e9.<\/p>\n<p>Monte Santo<\/p>\n<p>Monte Santo \u00e9 um lugar lend\u00e1rio.<\/p>\n<p>Quando, no s\u00e9culo 17, as descobertas das minas determinaram a atra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo interior sobre o litoral, os aventureiros que ao norte investiam com o<br \/>\nsert\u00e3o, demandando as serras da Jacobina, arrebatados pela miragem<br \/>\ndas minas de prata e rastreando o itiner\u00e1rio enigm\u00e1tico de Belchior<br \/>\nDias, ali estacionavam longo tempo. A serra solit\u00e1ria &#8212; a Piquara\u00e7\u00e1<br \/>\ndos roteiros caprichosos &#8212; , dominando os horizontes, norteava-lhes a marcha<br \/>\nvacilante.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto, atra\u00eda-os por si mesma, irresistivelmente.<\/p>\n<p>\u00c9 que em um de seus flancos, escritas em caligrafia cicl\u00f3pica<br \/>\ncom grandes pedras arrumadas, apareciam letras singulares &#8212; um A, um L e<br \/>\num S &#8212; ladeadas por uma cruz, de modo a fazerem crer que estava ali e n\u00e3o<br \/>\navante, para o ocidente ou para o sul, o el-dorado apetecido.<\/p>\n<p>Esquadrinharam-na, por\u00e9m, debalde os \u00eamulos do Muribeca astuto,<br \/>\nseguindo, afinal, para outros rumos, com as suas tropas de potiguaras mansos<br \/>\ne forasteiros armados de biscainhos . . .<\/p>\n<p>A serra desapareceu outra vez entre as chapadas que domina &#8230;<\/p>\n<p>No fim do s\u00e9culo passado, por\u00e9m, descobriu-a um mission\u00e1rio<br \/>\n&#8212; Apol\u00f4nio de Todi. Vindo da miss\u00e3o de Ma\u00e7acar\u00e1,<br \/>\no maior ap\u00f3stolo do Norte impressionou-se tanto com o aspecto da montanha,<br \/>\n&#8220;achando-a semelhante ao calv\u00e1rio de Jerusal\u00e9m&#8221;, que<br \/>\nplaneou logo a ere\u00e7\u00e3o de uma capela. Ia ser a primeira do mais<br \/>\ntosco e do mais imponente templo da f\u00e9 religiosa.<\/p>\n<p>Descreve o sacerdote, longamente, o come\u00e7o e o curso dos trabalhos<br \/>\ne o aux\u00edlio franco que lhe deram os povoadores dos lugares pr\u00f3ximos.<br \/>\nPinta a \u00faltima solenidade, prociss\u00e3o majestosa e lenta ascendendo<br \/>\na montanha, entre as raladas de tuf\u00e3o violento que se alteou das plan\u00edcies<br \/>\napagando as tochas; e, por fim, o serm\u00e3o terminal da penitencia, exortando<br \/>\no povo a &#8220;que nos dias santos viesse visitar os santos lugares, j\u00e1<br \/>\nque vivia em t\u00e3o grande desamparo das coisas espirituais&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;E aqui, termina , sem pensar em mais nada disse que da\u00ed em diante<br \/>\nn\u00e3o chamariam mais serra de Piquara\u00e7\u00e1, mas sim Monte<br \/>\nSanto.&#8221;<\/p>\n<p>E fez-se o templo prodigioso, monumento erguido pela natureza e pela f\u00e9,<br \/>\nmais alto que as mais altas catedrais da Terra.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o sertaneja completou a empresa do mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>Hoje quem sobe a extensa via-sacra de tr\u00eas quil\u00f4metros de comprimento,<br \/>\nem que se origem, a espa\u00e7os, 25 capelas de alvenaria, encerrando pain\u00e9is<br \/>\ndos &#8220;passos&#8221;, avalia a const\u00e2ncia e a tenacidade do esfor\u00e7o<br \/>\ndespendido.<\/p>\n<p>Amparada por muros capeados; cal\u00e7ada em certos trechos; tendo, noutros,<br \/>\ncomo leito, a rocha viva talhada em degraus, ou rampeada, aquela estrada branca,<br \/>\nde quartzolito, onde ressoam, h\u00e1 cem anos, as litanias das prociss\u00f5es<br \/>\nda quaresma e t\u00eam passado legi\u00f5es de penitentes, \u00e9 um<br \/>\nprod\u00edgio de engenharia rude e audaciosa. Come\u00e7a investindo com<br \/>\na montanha, segundo a normal de m\u00e1ximo declive, em rampa de cerca de<br \/>\nvinte graus. Na quarta ou quinta capelinha inflete \u00e0 esquerda e progride<br \/>\nmenos \u00edngreme. Adiante, a partir da capela maior &#8212; ermida interessant\u00edssima<br \/>\nereta num ressalto da pedra a cavaleiro do abismo &#8212; , volta \u00e0 direita,<br \/>\ndiminuindo de declive at\u00e9 a linha de cumeadas. Segue por esta segundo<br \/>\numa selada breve. Depois se alteia, de improviso, retil\u00ednea, em ladeira<br \/>\nforte, arremetendo com o v\u00e9rtice pontiagudo do monte, at\u00e9 o<br \/>\nCalv\u00e1rio no alto !<\/p>\n<p>A medida que ascende, ofegante, estacionando nos &#8220;passos&#8221;, o observador<br \/>\ndepara perspectivas que seguem num crescendo de grandezas soberanas: primeiro,<br \/>\nos planos das chapadas e tabuleiros, esbatidos embaixo em plan\u00edcies<br \/>\nvastas; depois, as serranias remotas, agrupadas, longe, em todos os quadrantes;<br \/>\ne, atingindo o alto, o olhar a cavaleiro das serras &#8212; o espa\u00e7o indefinido,<br \/>\na emo\u00e7\u00e3o estranha de altura imensa, real\u00e7ada pelo aspecto<br \/>\nda pequena vila, embaixo, mal percebida na confus\u00e3o ca\u00f3tica<br \/>\ndos telhados.<\/p>\n<p>E quando, pela Semana Santa, convergem ali as fam\u00edlias da redondeza<br \/>\ne passam os crentes pelos mesmos flancos em que vaguearam outrora, inquietos<br \/>\nde ambi\u00e7\u00e3o, os aventureiros ambiciosos, v\u00ea-se que Apol\u00f4nio<br \/>\nde Todi, mais h\u00e1bil que o Muribeca, decifrou o segredo das grandes<br \/>\nletras de pedra descobrindo o el-dorado maravilhoso, a mina opulent\u00edssima<br \/>\noculta no deserto&#8230;<\/p>\n<p>As miss\u00f5es atuais<\/p>\n<p>Infelizmente o ap\u00f3stolo n\u00e3o teve continuadores. Salvo rar\u00edssimas<br \/>\nexce\u00e7\u00f5es, o mission\u00e1rio moderno \u00e9 um agente prejudicial\u00edssimo<br \/>\nno agravar todos os desequil\u00edbrios do estado emocional dos tabar\u00e9us.<br \/>\nSem a altitude dos que o antecederam, a sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 negativa:<br \/>\ndestr\u00f3i, apaga e perverte o que incutiram de bom naqueles esp\u00edritos<br \/>\ning\u00eanuos os ensinamentos dos primeiros evangelizadores, dos quais n\u00e3o<br \/>\ntem o talento e n\u00e3o tem a arte surpreendente da transfigura\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas almas. Segue vulgarmente processo inverso do daqueles: n\u00e3o aconselha<br \/>\ne consola, aterra e amaldi\u00e7oa; n\u00e3o ora, esbraveja. E brutal<br \/>\ne trai\u00e7oeiro. Surge das dobras do h\u00e1bito escuro como da sombra<br \/>\nde uma emboscada armada \u00e0 credulidade incondicional dos que o escutam.<br \/>\nSobe ao p\u00falpito das igrejas do sert\u00e3o e n\u00e3o alevanta<br \/>\na imagem arrebatadora dos c\u00e9us; descreve o inferno truculento e flam\u00edvomo,<br \/>\nnuma algaravia de frases rebarbativas a que completam gestos de maluco e esgares<br \/>\nde tru\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 rid\u00edculo, e \u00e9 medonho. Tem o privil\u00e9gio estranho<br \/>\ndas bufonerias melodram\u00e1ticas. As parvo\u00edces saem-lhe da boca<br \/>\ntr\u00e1gicas.<\/p>\n<p>N\u00e3o tra\u00e7a ante os matutos simples a fei\u00e7\u00e3o honesta<br \/>\ne superior da vida &#8212; n\u00e3o a conhece; mas brama em todos os tons contra<br \/>\no pecado; esbo\u00e7a grosseiros quadros de torturas; e espalha sobre o<br \/>\naudit\u00f3rio fulminado avalanchas de penitencias, extravagando largo tempo,<br \/>\nem palavrear intermin\u00e1vel, fungando as pitadas habituais e engendrando<br \/>\ncat\u00e1strofes, abrindo alternativamente a caixa de rap\u00e9 e a boceta<br \/>\nde Pandora&#8230;<\/p>\n<p>E alucina o sertanejo cr\u00e9dulo; alucina-o, deprime-o, perverte-o.<\/p>\n<p>Os &#8220;Serenos&#8221;<\/p>\n<p>Busquemos um exemplo \u00fanico, o \u00faltimo.<\/p>\n<p>Em 1850 os sert\u00f5es de Cariri foram alvorotados pelas depreda\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos Serenos, exercitando o roubo em larga escala.<\/p>\n<p>Aquela denomina\u00e7\u00e3o indicava &#8220;companhias de penitentes&#8221;<br \/>\nque \u00e0 noite, nas encruzilhadas ermas, em torno das cruzes misteriosas,<br \/>\nse agrupavam, adoidadamente, numa agita\u00e7\u00e3o macabra de flagelantes,<br \/>\nimpondo-se o cil\u00edcio dos espinhos, das urtigas e outros duros tratos<br \/>\nde penit\u00eancia. Ora, aqueles agitados sa\u00edram certo dia, repentinamente,<br \/>\nda matriz do Crato, dispersos, em desalinho &#8212; mulheres em prantos, homens<br \/>\napreensivos, crian\u00e7as trementes &#8212; em procura dos flag\u00edcios<br \/>\nduramente impostos. Dentro da igreja, mission\u00e1rios rec\u00e9m-vindos<br \/>\nhaviam profetizado pr\u00f3ximo fim do mundo. Deus o dissera &#8212; em mau portugu\u00eas,<br \/>\nem mau italiano e em mau latim &#8212; estava farto dos desmandos da Terra&#8230;<\/p>\n<p>E os derivados foram pelos sert\u00f5es em fora, esmolando, chorando, rezando,<br \/>\nnuma mandria deprimente, e como a caridade p\u00fablica n\u00e3o os podia<br \/>\nsatisfazer a todos, acabaram &#8212; roubando.<\/p>\n<p>Era fatal. Os instrutores do crime foram, afinal, infelicitar outros lugares<br \/>\ne a justi\u00e7a a custo reprimiu o banditismo incipiente.<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p><strong>Ant\u00f4nio Conselheiro<\/strong>, documento vivo de atavismo. Um<br \/>\ngn\u00f3stico bronco. Grande homem pelo avesso, representante natural do<br \/>\nmeio em que nasceu. Antecedentes de fam\u00edlia: os Maci\u00e9is. Uma<br \/>\nvida bem auspiciada. Primeiros reveses; e a queda. Como se faz um monstro.<br \/>\nPeregrina\u00e7\u00f5es e mart\u00edrios. Lendas. As pr\u00e9dicas.<br \/>\nPreceitos de montanista. Profecias. Um heresiarca do s\u00e9culo 2 em plena<br \/>\nidade moderna. Tentativa de rea\u00e7\u00e3o legal. H\u00e9gira para<br \/>\no sert\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 natural que estas camadas profundas da nossa estratifica\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica se sublevassem numa anticlinal extraordin\u00e1ria &#8212; Ant\u00f4nio<br \/>\nConselheiro&#8230;<\/p>\n<p>A imagem \u00e9 corret\u00edssima.<\/p>\n<p>Da mesma forma que o ge\u00f3logo, interpretando a inclina\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a orienta\u00e7\u00e3o dos estratos truncados de antigas forma\u00e7\u00f5es,<br \/>\nesbo\u00e7a o perfil de uma montanha extinta, o historiador s\u00f3 pode<br \/>\navaliar a altitude daquele homem, que por si nada valeu, considerando a psicologia<br \/>\nda sociedade que o criou. Isolado, ele se perde na turba dos nevr\u00f3ticos<br \/>\nvulgares. Pode ser inclu\u00eddo numa modalidade qualquer de psicose progressiva.<br \/>\nMas, posto em fun\u00e7\u00e3o do meio, assombra. \u00c9 uma di\u00e1tese<br \/>\ne \u00e9 uma s\u00edntese. As fases singulares da sua exist\u00eancia<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o, talvez, per\u00edodos sucessivos de uma mol\u00e9stia<br \/>\ngrave, mas s\u00e3o, com certeza, resumo abreviado dos aspectos predominantes<br \/>\nde mal social grav\u00edssimo. Por isto o infeliz, destinado \u00e0 solicitude<br \/>\ndos m\u00e9dicos, veio, impelido por uma pot\u00eancia superior, bater<br \/>\nde encontro a uma civiliza\u00e7\u00e3o, indo para a Hist\u00f3ria como<br \/>\npoderia ter ido para o hosp\u00edcio. Porque ele para o historiador n\u00e3o<br \/>\nfoi um desequilibrado. Apareceu como integra\u00e7\u00e3o de caracteres<br \/>\ndiferenciais &#8212; vagos, indecisos, mal percebidos quando dispersos na multid\u00e3o,<br \/>\nmas en\u00e9rgicos e definidos, quando resumidos numa individualidade.<\/p>\n<p>Todas as cren\u00e7as ing\u00eanuas, do fetichismo b\u00e1rbaro \u00e0s<br \/>\naberra\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas, todas as tend\u00eancias impulsivas<br \/>\ndas ra\u00e7as inferiores, livremente exercitadas na indisciplina da vida<br \/>\nsertaneja, se condensaram no seu misticismo feroz e extravagante. Ele foi,<br \/>\nsimultaneamente, o elemento ativo e passivo da agita\u00e7\u00e3o de que<br \/>\nsurgiu. O temperamento mais impression\u00e1vel apenas f\u00ea-lo absorver<br \/>\nas cren\u00e7as ambientes, a princ\u00edpio numa quase passividade pela<br \/>\npr\u00f3pria receptividade m\u00f3rbida do espirito torturado de reveses,<br \/>\ne elas reflu\u00edram, depois, mais fortemente, sobre o pr\u00f3prio meio<br \/>\nde onde haviam partido, partindo da sua consci\u00eancia delirante.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil tra\u00e7ar no fen\u00f4meno a linha divis\u00f3ria<br \/>\nentre as tend\u00eancias pessoais e as tend\u00eancias coletivas: a vida<br \/>\nresumida do homem \u00e9 um cap\u00edtulo instant\u00e2neo da vida de<br \/>\nsua sociedade&#8230;<\/p>\n<p>Acompanhar a primeira \u00e9 seguir paralelamente e com mais rapidez a<br \/>\nsegunda: acompanh\u00e1-las juntas \u00e9 observar a mais completa mutualidade<br \/>\nde influxos.<\/p>\n<p>Considerando em torno, o falso ap\u00f3stolo, que o pr\u00f3prio excesso<br \/>\nde subjetivismo predispusera \u00e0 revolta contra a ordem natural, como<br \/>\nque observou a f\u00f3rmula do pr\u00f3prio del\u00edrio. N\u00e3o<br \/>\nera um incompreendido. A multid\u00e3o aclamava-o representante natural<br \/>\ndas suas aspira\u00e7\u00f5es mais altas. N\u00e3o foi, por isto, al\u00e9m.<br \/>\nN\u00e3o deslizou para a dem\u00eancia. No gravitar cont\u00ednuo para<br \/>\no m\u00ednimo de uma curva, para o completo obscurecimento da raz\u00e3o,<br \/>\no meio reagindo por sua vez amparou-o, corrigindo-o, fazendo-o estabelecer<br \/>\nencadeamento nunca destru\u00eddo nas mais exageradas concep\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncerta ordem no pr\u00f3prio desvario, coer\u00eancia indestrut\u00edvel<br \/>\nem. todos os atos e disciplina rara em todas as paix\u00f5es, de sorte que<br \/>\nao atravessar, largos anos, nas pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas, o sert\u00e3o<br \/>\nalvorotado, tinha na atitude, na palavra e no gesto, a tranq\u00fcilidade,<br \/>\na altitude e a resigna\u00e7\u00e3o soberana de um ap\u00f3stolo antigo.<\/p>\n<p>Doente grave, s\u00f3 lhe pode ser aplicado o conceito da paran\u00f3ia,<br \/>\nde Tanzi e Riva.<\/p>\n<p>Em seu desvio ideativo vibrou sempre, a bem dizer exclusiva, a nota \u00e9tnica.<br \/>\nFoi um documento raro de atavismo.<\/p>\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida levando-o a interpretar caprichosamente<br \/>\nas condi\u00e7\u00f5es objetivas, e alterando-lhe as rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom o mundo exterior, traduz-se fundamentalmente como uma regress\u00e3o<br \/>\nao est\u00e1dio mental dos tipos ancestrais da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Um gn\u00f3stico bronco<\/p>\n<p>Evitada a intrus\u00e3o dispens\u00e1vel de um m\u00e9dico, um antropologista<br \/>\nencontr\u00e1-lo-ia normal, marcando logicamente certo n\u00edvel da mentalidade<br \/>\nhumana, recuando no tempo, fixando uma fase remota da evolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO que o primeiro caracterizaria como caso franco de del\u00edrio sistematizado,<br \/>\nna fase persecut\u00f3ria ou de grandezas, o segundo indicaria como fen\u00f4meno<br \/>\nde incompatibilidade com as exig\u00eancias superiores da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8212; um anacronismo palmar, a revivesc\u00eancia de atributos ps\u00edquicos<br \/>\nremot\u00edssimos. Os tra\u00e7os mais t\u00edpicos do seu misticismo<br \/>\nestranho, mas natural\u00edssimo para n\u00f3s, j\u00e1 foram, dentro<br \/>\nde nossa era, aspectos religiosos vulgares. Deixando mesmo de lado o influxo<br \/>\ndas ra\u00e7as inferiores, vimo-los h\u00e1 pouco, de relance, em per\u00edodo<br \/>\nangustioso da vida portuguesa.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos apont\u00e1-los em cen\u00e1rio mais amplo. Bastava<br \/>\nque volv\u00eassemos aos primeiros dias da Igreja, quando o gnosticismo universal<br \/>\nse erigia como transi\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria entre o paganismo<br \/>\ne o cristianismo, na \u00faltima fase do mundo romano em que, precedendo<br \/>\no assalto dos b\u00e1rbaros, a literatura latina do ocidente declinou, de<br \/>\ns\u00fabito, mal substitu\u00edda pelos sofistas e letrados tacanhos de<br \/>\nBiz\u00e2ncio.<\/p>\n<p>Com efeito, os montanistas da Fr\u00edgia, os adamitas infames, os ofiolatras,<br \/>\nos maniqueus bifrontes entre o ideal crist\u00e3o emergente e o budismo<br \/>\nantigo, os disc\u00edpulos de Markos, os encratitas abstinentes e macerados<br \/>\nde flag\u00edcios, todas as seitas em que se fracionava a religi\u00e3o<br \/>\nnascente, com os seus doutores hist\u00e9ricos e exegeses hiperb\u00f3licas,<br \/>\nforneceriam hoje casos repugnantes de ins\u00e2nia. E foram normais. Acolchetaram-se<br \/>\nbem a todas as tend\u00eancias da \u00e9poca em que as extravag\u00e2ncias<br \/>\nde Alexandre Abn\u00f3tico abalavam a Roma de Marco Aur\u00e9lio, com<br \/>\nas suas prociss\u00f5es fant\u00e1sticas, os seus mist\u00e9rios e os<br \/>\nseus sacrif\u00edcios tremendos de le\u00f5es lan\u00e7ados vivos ao<br \/>\nDan\u00fabio, com solenidades imponentes presididas pelo imperador fil\u00f3sofo&#8230;<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria repete-se.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Conselheiro foi um gn\u00f3stico bronco.<\/p>\n<p>Veremos mais longe a exa\u00e7\u00e3o do s\u00edmile.<\/p>\n<p>Grande homem pelo avesso<\/p>\n<p>Paran\u00f3ico indiferente, este dizer, talvez, mesmo n\u00e3o lhe possa<br \/>\nser ajustado, inteiro. A regress\u00e3o ideativa que patenteou, caracterizando-lhe<br \/>\no temperamento ves\u00e2nico, \u00e9, certo, um caso not\u00e1vel de<br \/>\ndegeneresc\u00eancia intelectual, mas n\u00e3o o isolou &#8212; incompreendido,<br \/>\ndesequilibrado, retr\u00f3grado, rebelde &#8212; no meio em que agiu.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, este fortaleceu-o. Era o profeta, o emiss\u00e1rio<br \/>\ndas alturas, transfigurado por ilapso estupendo, mas adstrito a todas as conting\u00eancias<br \/>\nhumanas, pass\u00edvel do sofrimento e da morte, e tendo uma fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nexclusiva: apontar aos pecadores o caminho da salva\u00e7\u00e3o. Satisfez-se<br \/>\nsempre com este papel de delegado dos c\u00e9us. N\u00e3o foi al\u00e9m.<br \/>\nEra um servo jungido \u00e0 tarefa dura; e l\u00e1 se foi, caminho dos<br \/>\nsert\u00f5es bravios, largo tempo, arrastando a carca\u00e7a claudicante,<br \/>\narrebatado por aquela id\u00e9ia fixa, mas de algum modo l\u00facido em<br \/>\ntodos os atos, impressionando pela firmeza nunca abalada e seguindo para um<br \/>\nobjetivo fixo com finalidade irresist\u00edvel.<\/p>\n<p>A sua fr\u00e1gil consci\u00eancia oscilava em torno dessa posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nm\u00e9dia, expressa pela linha ideal que Maudsley lamenta n\u00e3o se<br \/>\npoder tra\u00e7ar entre o bom senso e a ins\u00e2nia.<\/p>\n<p>Parou a\u00ed indefinidamente, nas fronteiras oscilantes da loucura, nessa<br \/>\nzona mental onde se confundem fac\u00ednoras e her\u00f3is, reformadores<br \/>\nbrilhantes e aleij\u00f5es tacanhos, e se acotovelam g\u00eanios e degenerados.<br \/>\nN\u00e3o a transp\u00f4s. Recalcado pela disciplina vigorosa de uma sociedade<br \/>\nculta, a sua nevrose explodiria na revolta, o seu misticismo comprimido esmagaria<br \/>\na raz\u00e3o. Ali, vibrando a primeira un\u00edssona com o sentimento<br \/>\nambiente, difundido o segundo pelas almas todas que em torno se congregavam,<br \/>\nse normalizaram.<\/p>\n<p>Representante natural do meio em que nasceu<\/p>\n<p>O fator sociol\u00f3gico, que cultivara a psicose m\u00edstica do indiv\u00edduo,<br \/>\nlimitou-a sem a comprimir, numa harmonia salvadora. De sorte que o esp\u00edrito<br \/>\npredisposto para a rebeldia franca contra a ordem natural cedeu \u00e0 \u00fanica<br \/>\nrea\u00e7\u00e3o de que era pass\u00edvel. Cristalizou num ambiente<br \/>\nprop\u00edcio de erros e supersti\u00e7\u00f5es comuns.<\/p>\n<p>Antecedentes de fam\u00edlia. Os Maci\u00e9is<\/p>\n<p>A sua biografia compendia e resume a exist\u00eancia da sociedade sertaneja.<br \/>\nEsclarece o conceito etiol\u00f3gico da doen\u00e7a que o vitimou. Delineemo-la<br \/>\nde passagem.<\/p>\n<p>&#8220;Os Maci\u00e9is, que formavam, nos sert\u00f5es entre Quixeramobim<br \/>\ne Tamboril, uma fam\u00edlia numerosa de homens v\u00e1lidos, \u00e1geis,<br \/>\ninteligentes e bravos, vivendo de vaqueirice e pequena cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\nvieram, pela lei fatal dos tempos, a fazer parte dos grandes fastos criminais<br \/>\ndo Cear\u00e1, em uma guerra de fam\u00edlia. Seus \u00eamulos foram<br \/>\nos Ara\u00fajos, que formavam uma fam\u00edlia rica, filiada a outras<br \/>\ndas mais antigas do norte da prov\u00edncia.<\/p>\n<p>Viviam na mesma regi\u00e3o, tendo como sede principal a povoa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Boa Viagem, que demora cerca de dez l\u00e9guas de Quixeramobim.<\/p>\n<p>Foi uma das lutas mais sangrentas dos sert\u00f5es do Cear\u00e1, a que<br \/>\nse travou entre estes dois grupos de homens, desiguais na fortuna e posi\u00e7\u00e3o<br \/>\noficial, ambos embravecidos na pr\u00e1tica das viol\u00eancias, e numerosos.&#8221;<\/p>\n<p>Assim come\u00e7a o narrador consciencioso breve not\u00edcia sobre a<br \/>\ngenealogia de Ant\u00f4nio Conselheiro.<\/p>\n<p>Os fatos criminosos a que se refere s\u00e3o um epis\u00f3dio apenas<br \/>\nentre as razias, quase permanentes, da vida turbulenta dos sert\u00f5es.<br \/>\nCopiam mil outros de que ressaltam, evidentes, a prepot\u00eancia sem freios<br \/>\ndos mand\u00f5es de aldeia e a explora\u00e7\u00e3o pecaminosa por eles<br \/>\nexercida sobre a bravura instintiva do sertanejo. Luta de fam\u00edlias<br \/>\n&#8212; \u00e9 uma variante apenas de tantas outras, que ali surgem, intermin\u00e1veis,<br \/>\ncomprometendo as pr\u00f3prias descend\u00eancias que esposam as desaven\u00e7as<br \/>\ndos av\u00f3s, criando uma quase predisposi\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica<br \/>\ne tornando heredit\u00e1rios os rancores e as vingan\u00e7as.<\/p>\n<p>Lutas entre Maci\u00e9is e Ara\u00fajos<\/p>\n<p>Surgiu de incidente m\u00ednimo: pretensos roubos cometidos pelos Maci\u00e9is<br \/>\nem propriedade de fam\u00edlia numerosa, a dos Ara\u00fajos.<\/p>\n<p>Tudo indicava serem aqueles v\u00edtimas de acusa\u00e7\u00e3o descabida.<br \/>\nEram &#8220;homens vigorosos, simp\u00e1ticos, bem apessoados. verdadeiros<br \/>\ne servi\u00e7ais&#8221; gozando em toda a redondeza de reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\ninvej\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ara\u00fajo da Costa e um seu parente, Silvestre Rodrigues Veras, n\u00e3o<br \/>\nviam, por\u00e9m, com bons olhos, a fam\u00edlia pobre que lhes balanceava<br \/>\na influ\u00eancia, sem a justificativa de vastos latif\u00fandios e boiadas<br \/>\ngrandes. Criadores opulentos, senhores de bara\u00e7o e cutelo, vezados<br \/>\na fazer justi\u00e7a por si mesmos, concertaram em dar exemplar castigo<br \/>\naos delinq\u00fcentes. E como estes eram bravos at\u00e9 \u00e0 temeridade,<br \/>\nchamaram a postos a guarda pretoriana dos capangas.<\/p>\n<p>Assim apercebidos abalaram na expedi\u00e7\u00e3o criminosa para Quixeramobim.<\/p>\n<p>Mas volveram logo depois, contra a expectativa geral, em derrota. Os Maci\u00e9is,<br \/>\nreunida toda a parentela, rapazes desempenados e temeros, haviam-se afrontado<br \/>\ncom a malta assalariada, repelindo-a vigorosamente, suplantando-a, espavorindo-a.<\/p>\n<p>O fato passou em 1333.<\/p>\n<p>Batidos, mal sofreando o desapontamento e a c\u00f3lera, os potentados,<br \/>\ncuja imbecilidade triunfante passara por t\u00e3o duro trato, apelaram para<br \/>\nrecursos mais en\u00e9rgicos. N\u00e3o faltavam ent\u00e3o, como n\u00e3o<br \/>\nfaltam hoje, fac\u00ednoras de fama que lhes alugassem a coragem. Conseguiram<br \/>\ndois, dos melhores: Jos\u00e9 Joaquim de Meneses, pernambucano, sanhudo,<br \/>\nc\u00e9lebre pela rivalidade sanguinolenta com os Mour\u00f5es famosos;<br \/>\ne um cangaceiro terr\u00edvel, Vicente Lopes, de Aracatia\u00e7u. Reunida<br \/>\na matula turbulenta, a que se ligaram os filhos e genros de Silvestre, seguiu,<br \/>\nde pronto, para a empreitada criminosa.<\/p>\n<p>Ao acercarem-se, por\u00e9m, da vivenda dos Maci\u00e9is, os sic\u00e1rios<br \/>\n&#8212; embora fossem em maior n\u00famero &#8212; temeram-lhes a resist\u00eancia.<br \/>\nPropuseram-lhes que se entregassem, garantindo-lhes, sob palavra, a vida.<br \/>\nAqueles, certos de n\u00e3o poderem resistir por muito tempo, aquiesceram.<br \/>\nRenderam-se. A palavra de honra dos bandidos teve o valor que poderia ter.<br \/>\nQuando seguiam debaixo de escolta e algemados, para a cadeia de Sobral, logo<br \/>\nno primeiro dia da viagem foram os presos trucidados. Morreram nesta ocasi\u00e3o,<br \/>\nentre outros, o chefe da fam\u00edlia, Ant\u00f4nio Maciel, e um av\u00f4<br \/>\nde Ant\u00f4nio Conselheiro .<\/p>\n<p>Mas um tio deste, Miguel Carlos, logrou escapar. Manietado al\u00e9m disto<br \/>\ncom as pernas amarradas por baixo da barriga do cavalo que montava, a sua<br \/>\nfuga \u00e9 inexplic\u00e1vel. Afirma-a, contudo, a sisudez de cronista<br \/>\nsincero.<\/p>\n<p>Ora, os Ara\u00fajos tinham deixado fugir o seu pior advers\u00e1rio.<br \/>\nPerseguiram-no. Bem armados, bem montados, encal\u00e7aram-no, prestes,<br \/>\nem monteria b\u00e1rbara, como se fossem sobre rastros de su\u00e7uarana<br \/>\nbravia. O foragido, por\u00e9m, em\u00e9rito batedor de matas, seguido<br \/>\nna fuga por uma irm\u00e3, iludiu por algum tempo a escolta perseguidora<br \/>\nchefiada por Pedro Martins Veras; e no s\u00edtio da Passagem, perto de<br \/>\nQuixeramobim, ocultou-se exausto, numa choupana abandonada, coberta de ramos<br \/>\nde oiticica.<\/p>\n<p>Ali chegaram, em breve, rastreando-o, os perseguidores. Eram nove horas da<br \/>\nmanh\u00e3. Houve ent\u00e3o uma refrega desigual e tremenda. O temer\u00e1rio<br \/>\nsertanejo, embora estropiado e doente de um p\u00e9 que luxara, afrontou-se<br \/>\ncom a horda assaltante, estendendo logo em terra a um certo Teot\u00f4nio,<br \/>\ndesordeiro fa\u00e7anhudo, que se avantajara aos demais. Este caiu transversalmente<br \/>\n\u00e0 soleira da porta, impedindo-a que se fechasse. A irm\u00e3 de Miguel<br \/>\nCarlos, quando procurava arrast\u00e1-lo dali, caiu atravessada por uma<br \/>\nbala. Alvejara-a o pr\u00f3prio Pedro Veras, que pagou logo a fa\u00e7anha,<br \/>\nlevando \u00e0 queima-roupa uma carga de chumbo. Morto o cabecilha, os agressores<br \/>\nrecuaram por momentos, o suficiente para que o assaltado trancasse rapidamente<br \/>\na porta.<\/p>\n<p>Isto feito, o casebre fez-se um reduto. Pelas frinchas das paredes estourava<br \/>\nde minuto em minuto um tiro de espingarda. Os bandidos n\u00e3o ousaram<br \/>\ninvesti-lo; mas foram de cobardia feroz. Atearam fogo \u00e0 cobertura de<br \/>\nfolhas.<\/p>\n<p>O efeito foi pronto. Mal podendo respirar no abrigo em chamas, Miguel Carlos<br \/>\nresolve abandon\u00e1-lo. Derrama toda a \u00e1gua de um pote na dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo fundo da choupana, apagando momentaneamente as brasas, e, saltando por<br \/>\nsobre o cad\u00e1ver da irm\u00e3, arroja-se, de clavina sobra\u00e7ada<br \/>\ne parna\u00edba em punho, contra o c\u00edrculo assaltante. Rompe-o e<br \/>\nafunda na caatinga. . .<\/p>\n<p>Tempos depois um dos Ara\u00fajos contratou casamento com a filha de rico<br \/>\ncriador de Tapaiara; e no dia das n\u00fapcias, j\u00e1 perto da igreja,<br \/>\ntombou varado por uma bala, entre o alarma dos convivas e o desespero da noiva<br \/>\ndesditosa.<\/p>\n<p>Velava, inextinguivelmente, a vingan\u00e7a do sertanejo&#8230;<\/p>\n<p>Este tinha, agora, uma s\u00f3cia no rancor justificado e fundo, outra<br \/>\nirm\u00e3, Helena Maciel, a &#8220;N\u00eamesis da fam\u00edlia&#8221;,<br \/>\nconforme o dizer do cronista referido. A sua vida transcorria em lances perigosos,<br \/>\nmuitos dos quais desconhecidos sen\u00e3o fabulados pela imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nfecunda dos matutos. O certo, por\u00e9m, \u00e9 que, desfazendo a urdidura<br \/>\nde todas as tocaias, n\u00e3o raro lhe caiu sob a faca o espi\u00e3o incauto<br \/>\nque o rastreava, em Quixeramobim.<\/p>\n<p>Diz a narrativa a que acima nos reportamos:<\/p>\n<p>&#8220;Parece que Miguel Carlos tinha ali protetores que o garantiam. O que<br \/>\n\u00e9 certo \u00e9 que, n\u00e3o obstante a sorte tivera aquele seu<br \/>\napaniguado, costumava estar na vila.<\/p>\n<p>Uma noite, estando \u00e0 porta da loja de Manuel Proc\u00f3pio de Freitas,<br \/>\nviu entrar um indiv\u00edduo, que procurava comprar aguardente. Dando-o<br \/>\ncomo espi\u00e3o, falou em mat\u00e1-lo ali mesmo, mas, sendo detido pelo<br \/>\ndono da casa, tratou de acompanhar o suspeito, e o matou, \u00e0 faca, ao<br \/>\nsair da vila, no riacho da Palha.<\/p>\n<p>Uma manh\u00e3, finalmente, saiu da casa de Ant\u00f4nio Caetano de Oliveira,<br \/>\ncasado com uma sua parenta, e foi banhar-se no rio, que corre por tr\u00e1s<br \/>\ndessa casa, situada quase no extremo da pra\u00e7a principal da vila, junto<br \/>\na garganta que conduz a pequena pra\u00e7a Cotovelo. Nos fundos da casa<br \/>\nindicada era ent\u00e3o a embocadura do riacho da Palha, que em forma quase<br \/>\ncircular contornava aquela pra\u00e7a, e de inverno constitu\u00eda uma<br \/>\ncinta lind\u00edssima de \u00e1guas represadas. Miguel Carlos estava j\u00e1<br \/>\ndespido, como muitos companheiros, quando surgiu um grupo de inimigos, que<br \/>\no esperavam acocorados por entre o denso &#8220;mata-pasto&#8221;. Estranhos<br \/>\ne parentes de Miguel Carlos, tomando as roupas depostas na areia, e vestindo-as<br \/>\nao mesmo tempo que corriam, puseram-se em fuga. Em ceroulas somente, e com<br \/>\na sua faca em punho, ele correu tamb\u00e9m na dire\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nfundos de uma casa, que quase enfrenta com a embocadura do riacho da Palha;<br \/>\ncasa na qual morava em 1845 Manuel Francisco da Costa. Miguel Carlos chegou<br \/>\na abrir o port\u00e3o do quintal, de varas, da casa indicada; mas, quando<br \/>\nquis fech\u00e1-lo, foi prostrado por um tiro, partido do s\u00e9quito<br \/>\nque o perseguia. Outros dizem que isto se dera quando ele passava pelo buraco<br \/>\nda cerca de uma vazante que havia por ali. Agonizava, ca\u00eddo, com a<br \/>\nsua faca na m\u00e3o, quando Manuel de Ara\u00fajo, chefe do bando, irm\u00e3o<br \/>\ndo noivo outrora assassinado, pegando-o por uma perna, lhe cravou uma faca.<br \/>\nMoribundo, Miguel Carlos lhe respondeu no mesmo instante com outra facada<br \/>\nna car\u00f3tida, morrendo ambos instantaneamente, este por baixo daquele<br \/>\n! Helena Maciel, correndo em f\u00faria ao lugar do conflito, pisou a p\u00e9s<br \/>\na cara do matador de seu irm\u00e3o, dizendo-se satisfeita da perda dele<br \/>\npelo fim que dera ao seu inimigo !&#8221;<\/p>\n<p>Pretendem que os sic\u00e1rios tinham passado a noite em casa de In\u00e1cio<br \/>\nMendes Guerreiro, da fam\u00edlia de Ara\u00fajo, agente do correio da<br \/>\nVila. Vinham a t\u00edtulo de prender os Maci\u00e9is; mas, s\u00f3<br \/>\nno prop\u00f3sito de mat\u00e1-los.<\/p>\n<p>Helena n\u00e3o se abateu com esta desgra\u00e7a. N\u00eamesis da fam\u00edlia<br \/>\nimolou um inimigo aos manes do seu irm\u00e3o. Foi ela, como ousou confessar<br \/>\nmuitos anos depois, quem mandou espancar barbaramente a Andr\u00e9 Jacinto<br \/>\nde Souza Pimentel, mo\u00e7o de fam\u00edlia importante da vila, aparentado<br \/>\ncom os Ara\u00fajos, a quem atribu\u00eda os avisos que estes recebiam<br \/>\nem Boa Viagem, das vindas de Miguel Carlos. Desse espancamento resultou uma<br \/>\nles\u00e3o card\u00edaca, que fez morrer em transes horrorosos o infeliz,<br \/>\nem verdade culpado dessa derradeira agress\u00e3o dos Ara\u00fajos.<\/p>\n<p>O fato de ter sido o crime perpetrado por soldados do destacamento de linha,<br \/>\nao mando do alferes Francisco Greg\u00f3rio Pinto, homem insolente, de baixa<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o e origem, com quem Pimentel andava inimizado, fez acreditar<br \/>\nmuito tempo que fora esse oficial mal reputado o autor do crime.<\/p>\n<p>Helena deixara-se ficar queda e silenciosa.<\/p>\n<p>In\u00fameras v\u00edtimas an\u00f4nimas fez esta lota sertaneja, que<br \/>\ndizimava os sequazes das duas fam\u00edlias, sendo o \u00faltimo dos Maci\u00e9is<br \/>\n&#8212; Ant\u00f4nio Maciel, irm\u00e3o de Miguel Carlos, morto em Boa Viagem.<br \/>\nFicou c\u00e9lebre muito tempo a valentia de Miguel Carlos e era por ele<br \/>\ne seus parentes a estima e respeito dos coevos, testemunhas da energia dessa<br \/>\nfam\u00edlia, dentre a qual surgiram tantos homens de esfor\u00e7o, para<br \/>\numa luta com poderosos tais, como os da Boa Viagem e Tamboril.<\/p>\n<p>Uma vida bem auspiciada<\/p>\n<p>Nada se sabe ao certo sobre o papel que coube a Vicente Mendes Maciel, pai<br \/>\nde Ant\u00f4nio Vicente Mendes Maciel ( o Conselheiro ), nesta luta deplor\u00e1vel.<br \/>\nOs seus contempor\u00e2neos pintam-no como &#8220;homem irasc\u00edvel mas<br \/>\nde excelente car\u00e1ter, meio vision\u00e1rio e desconfiado, mas de<br \/>\ntanta capacidade que, sendo analfabeto, negociava largamente em fazendas,<br \/>\ntrazendo tudo perfeitamente contado e medido de mem\u00f3ria, sem mesmo<br \/>\nter escrita para os devedores&#8221;.<\/p>\n<p>O filho, sob a disciplina de um pai de honradez proverbial e r\u00edspido,<br \/>\nteve educa\u00e7\u00e3o que de algum modo o isolou da turbul\u00eancia<br \/>\nda fam\u00edlia. Indicam-no testemunhas de vista, ainda existentes, como<br \/>\nadolescente tranq\u00fcilo e t\u00edmido, sem o entusiasmo feliz dos que<br \/>\nseguem as primeiras escalas da vida; retra\u00eddo, avesso \u00e0 tro\u00e7a,<br \/>\nraro deixando a casa de neg\u00f3cio do pai, em Quixeramobim, de todo entregue<br \/>\naos misteres de caixeiro consciencioso, deixando passar e desaparecer vazia<br \/>\na quadra triunfal dos vinte anos. Todas as hist\u00f3rias, ou lendas entretecidas<br \/>\nde exageros, segundo o h\u00e1bito dos narradores do sert\u00e3o, em que<br \/>\neram muita vez protagonistas os seus pr\u00f3prios parentes, eram-lhe entoadas<br \/>\nem torno evidenciando-lhes sempre a coragem tradicional e rara. A sugest\u00e3o<br \/>\ndas narrativas, por\u00e9m, tinha o corretivo en\u00e9rgico da r\u00edspida<br \/>\nsisudez do velho Mendes Maciel e n\u00e3o abalava o animo do rapaz. Talvez<br \/>\nficasse latente, pronta a se expandir em condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis.<br \/>\nO certo \u00e9 que falecendo aquele em 1855, vinte anos depois dos tr\u00e1gicos<br \/>\nsucessos que rememoramos, Ant\u00f4nio Maciel prosseguiu na mesma vida corret\u00edssima<br \/>\ne calma.<\/p>\n<p>Arrostando com a tarefa de velar por tr\u00eas irm\u00e3s solteiras revelou<br \/>\nabnega\u00e7\u00e3o rara. Somente depois de as ter casado procurou, por<br \/>\nsua vez, um enlace que lhe foi nefasto.<\/p>\n<p>Primeiros reveses<\/p>\n<p>Data da\u00ed a sua exist\u00eancia dram\u00e1tica. A mulher foi a sobrecarga<br \/>\nadicionada \u00e0 tremenda tara heredit\u00e1ria, que desequilibraria<br \/>\numa vida iniciada sob os melhores ausp\u00edcios.<\/p>\n<p>A partir de 1858 todos os seus atos denotam uma transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde car\u00e1ter. Perde os h\u00e1bitos sedent\u00e1rios. Incompatibilidades<br \/>\nde g\u00eanio com a esposa ou, o que \u00e9 mais veross\u00edmil, a p\u00e9ssima<br \/>\n\u00edndole desta, tornam inst\u00e1vel a sua situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em poucos anos vive em diversas vilas e povoados. Adota diversas profiss\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesta agita\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, percebe-se a luta de um car\u00e1ter<br \/>\nque se n\u00e3o deixa abater. Tendo ficado sem bens de fortuna, Ant\u00f4nio<br \/>\nMaciel, nesta fase preparat\u00f3ria de sua vida, a despeito das desordens<br \/>\ndo lar, ao chegar a qualquer nova sede de resid\u00eancia procura logo um<br \/>\nemprego, um meio qualquer honesto de subsist\u00eancia. Em 1859, mudando-se<br \/>\npara Sobral, emprega-se como caixeiro. Demora-se, por\u00e9m, pouco ali.<br \/>\nSegue para Campo Grande, onde desempenha as fun\u00e7\u00f5es modestas<br \/>\nde escriv\u00e3o do juiz de paz. Da\u00ed, sem grande demora, se desloca<br \/>\npara Ipu. Faz-se solicitador, ou requerente no forum.<\/p>\n<p>Nota-se j\u00e1 em tudo isto um crescendo para profiss\u00f5es menos<br \/>\ntrabalhosas, exigindo cada vez menos a const\u00e2ncia do esfor\u00e7o;<br \/>\no cont\u00ednuo despear-se da disciplina primitiva, a tend\u00eancia acentuada<br \/>\npara a atividade mais irrequieta e mais est\u00e9ril, o descambar para a<br \/>\nvadiagem franca. Ia-se-lhe ao mesmo tempo, na desarmonia do lar, a antiga<br \/>\nserenidade.<\/p>\n<p>Este per\u00edodo de vida mostra-o, todavia, aparelhado de sentimentos<br \/>\ndignos. Ali estavam, em torno, permanentes lutas partid\u00e1rias abrindo-lhe<br \/>\ncarreira aventurosa, em que poderia entrar como tantos outros, ligando-se<br \/>\naos condut\u00edcios de qualquer conquistador de urnas, para o que tinha<br \/>\no prest\u00edgio tradicional da fam\u00edlia. Evitou-as sempre. E na descens\u00e3o<br \/>\ncont\u00ednua, percebe-se algu\u00e9m que perde o terreno, mas lentamente,<br \/>\nreagindo, numa exaust\u00e3o dolorosa.<\/p>\n<p>A queda<\/p>\n<p>De repente, surge-lhe rev\u00e9s violento. O plano inclinado daquela vida<br \/>\nem declive termina, de golpe, em queda formid\u00e1vel. Foge-lhe a mulher,<br \/>\nem Ipu, raptada por um policial. Foi o desfecho. Fulminado de vergonha, o<br \/>\ninfeliz procura o recesso dos sert\u00f5es, paragens desconhecidas, onde<br \/>\nlhe n\u00e3o saibam o nome; o abrigo da absoluta obscuridade.<\/p>\n<p>Desce para o sul do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Ao passar em Paus Brancos, na estrada do Crato, fere com \u00edmpeto de<br \/>\nalucinado, \u00e0 noite, um parente, que o hospedara. Fazem-se breves inquiri\u00e7\u00f5es<br \/>\npoliciais, tolhidas logo pela pr\u00f3pria v\u00edtima reconhecendo a<br \/>\nn\u00e3o culpabilidade do agressor. Salva-se da pris\u00e3o. Prossegue<br \/>\ndepois para o sul, \u00e0 toa, na dire\u00e7\u00e3o do Crato. E desaparece&#8230;<\/p>\n<p>Passam-se dez anos. O mo\u00e7o infeliz de Quixeramobim ficou de todo esquecido.<br \/>\nApenas uma ou outra vez lhe recordavam o nome e o termo escandaloso da exist\u00eancia,<br \/>\nem que era magna pars um Lovelace de coturno re\u00fano, um sargento de<br \/>\npol\u00edcia.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a este incidente, algo rid\u00edculo, ficara nas paragens<br \/>\nnatais breve resqu\u00edcio de sua lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Morrera por assim dizer.<\/p>\n<p>Como se faz um monstro<\/p>\n<p>&#8230; E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos at\u00e9 aos<br \/>\nombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso,<br \/>\ndentro de um h\u00e1bito azul de brim americano; abordoado ao cl\u00e1ssico<br \/>\nbast\u00e3o em que se ap\u00f3ia o passo tardo dos peregrinos&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 desconhecida a sua exist\u00eancia durante t\u00e3o largo per\u00edodo.<br \/>\nUm velho caboclo, preso em Canudos nos \u00faltimos dias da campanha, disse-me<br \/>\nalgo a respeito, mas vagamente, sem precisar datas, sem pormenores caracter\u00edsticos.<br \/>\nConhecera-o nos sert\u00f5es de Pernambuco, um ou dois anos depois da partida<br \/>\ndo Crato. Das palavras desta testemunha, conclu\u00ed que Ant\u00f4nio<br \/>\nMaciel, ainda mo\u00e7o, j\u00e1 impressionava vivamente a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos sertanejos. Aparecia por aqueles lugares sem destino fixo, errante. Nada<br \/>\nreferia sobre o passado. Praticava em frases breves e raros monoss\u00edlabos.<br \/>\nAndava sem rumo certo, de um pouso para outro, indiferente \u00e0 vida e<br \/>\naos perigos, alimentando-se mal e ocasionalmente, dormindo ao relento \u00e0<br \/>\nbeira dos caminhos, numa penit\u00eancia demorada e rude&#8230;<\/p>\n<p>Tornou-se logo alguma coisa de fant\u00e1stico ou mal-assombrado para aquelas<br \/>\ngentes simples. Ao abeirar-se das rancharias dos tropeiros aquele velho singular,<br \/>\nde pouco mais de trinta anos, fazia que cessassem os improvisos e as violas<br \/>\nfestivas.<\/p>\n<p>Era natural. Ele surdia &#8212; esqu\u00e1lido e macerado &#8212; dentro do h\u00e1bito<br \/>\nescorrido, sem relevos, mudo, como uma sombra, das chapadas povoadas de duendes&#8230;<\/p>\n<p>Passava, buscando outros lugares, deixando absortos os matutos supersticiosos.<\/p>\n<p>Dominava-os, por fim, sem o querer.<\/p>\n<p>No seio de uma sociedade primitiva, que pelas qualidades \u00e9tnicas e<br \/>\ninfluxo das santas miss\u00f5es mal\u00e9volas compreendia melhor a vida<br \/>\npelo incompreendido dos milagres, o seu viver misterioso rodeou-o logo de<br \/>\nn\u00e3o vulgar prest\u00edgio, agravando-lhe, talvez, o temperamento<br \/>\ndelirante. A pouco e pouco todo 0 dom\u00ednio que, sem c\u00e1lculo,<br \/>\nderramava em torno, parece haver reflu\u00eddo sobre si mesmo. Todas as<br \/>\nconjeturas ou lendas que para logo o circundaram fizeram o ambiente prop\u00edcio<br \/>\nao germinar do pr\u00f3prio desvario. A sua ins\u00e2nia estava, ali, exteriorizada.<br \/>\nEspelhavam-na a admira\u00e7\u00e3o intensa e o respeito absoluto que<br \/>\no tornaram em pouco tempo \u00e1rbitro incondicional de todas as diverg\u00eancias<br \/>\nou brigas, conselheiro predileto em todas as decis\u00f5es. A multid\u00e3o<br \/>\npoupara-lhe o indagar torturante acerca do pr\u00f3prio estado emotivo,<br \/>\no esfor\u00e7o dessas interrogativas angustiosas e dessa intuspec\u00e7\u00e3o<br \/>\ndelirante, entre os quais envolve a loucura nos c\u00e9rebros abalados.<br \/>\nRemodelava-o \u00e0 sua imagem. Criava-o. Ampliava-lhe, desmesuradamente,<br \/>\na vida, lan\u00e7ando-lhe dentro os erros de 2 mil anos.<\/p>\n<p>Precisava de algu\u00e9m que lhe traduzisse a idealiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nindefinida, e a guiasse nas trilhas misteriosas para os c\u00e9us&#8230;<\/p>\n<p>O evangelizador surgiu, monstruoso, mas aut\u00f4mato.<\/p>\n<p>Aquele dominador foi um t\u00edtere. Agiu passivo, como uma sombra. Mas<br \/>\nesta condensava o obscurantismo de tr\u00eas ra\u00e7as.<\/p>\n<p>E cresceu tanto que se projetou na Hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>Peregrina\u00e7\u00f5es e mart\u00edrios<\/p>\n<p>Dos sert\u00f5es de Pernambuco passou aos de Sergipe, aparecendo na cidade<br \/>\nde Itabaiana em 1874.<\/p>\n<p>Ali chegou, como em toda a parte, desconhecido e suspeito, impressionando<br \/>\npelos trajes esquisitos &#8212; camisol\u00e3o azul, sem cintura; chap\u00e9u<br \/>\nde abas largas derrubadas, e sand\u00e1lias. \u00c0s costas um surr\u00e3o<br \/>\nde couro em que trazia papel, pena e tinta, a Miss\u00e3o Abreviada e as<br \/>\nHoras Marianas.<\/p>\n<p>Vivia de esmolas, das quais recusava qualquer excesso, pedindo apenas o sustento<br \/>\nde cada dia. Procurava os pousos solit\u00e1rios. N\u00e3o aceitava leito<br \/>\nalgum, al\u00e9m de uma t\u00e1bua nua e, na falta desta, o ch\u00e3o<br \/>\nduro.<\/p>\n<p>Assim pervagou largo tempo, at\u00e9 aparecer nos sert\u00f5es, ao norte<br \/>\nda Bahia. Ia-lhe crescendo o prest\u00edgio. J\u00e1 n\u00e3o seguia<br \/>\ns\u00f3. Encal\u00e7avam-no na rota desnorteada os primeiros fi\u00e9is.<br \/>\nN\u00e3o os chamara. Chegavam-lhe espont\u00e2neos, felizes por atravessarem<br \/>\ncom ele os mesmos dias de prova\u00e7\u00f5es e mis\u00e9rias.<\/p>\n<p>Eram, no geral, gente \u00ednfima e suspeita, avessa ao trabalho, far\u00e2ndula<br \/>\nde vencidos da vida, vezada \u00e0 mandria e \u00e0 rapina.<\/p>\n<p>Um dos adeptos carregava o templo \u00fanico, ent\u00e3o, da religi\u00e3o<br \/>\nmin\u00fascula e nascente: um orat\u00f3rio tosco, de cedro, encerrando<br \/>\na imagem do Cristo.<\/p>\n<p>Nas paradas pelos caminhos prendiam-no a um galho de \u00e1rvore; e, genuflexos,<br \/>\nrezavam. Entravam com ele, triunfalmente erguido, pelos vilarejos e povoados,<br \/>\nnum coro de ladainhas.<\/p>\n<p>Assim se apresentou o Conselheiro, em 1816, na vila do Itapicuru-de-Cima.<br \/>\nJ\u00e1 tinha grande renome.<\/p>\n<p>Di-lo documento expressivo publicado aquele ano, na capital do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8220;Apareceu no sert\u00e3o do norte um indiv\u00edduo, que se diz<br \/>\nchamar Ant\u00f4nio Conselheiro, e que exerce grande influencia no esp\u00edrito<br \/>\ndas classes populares servindo-se de seu exterior misterioso e costumes asc\u00e9ticos,<br \/>\ncom que imp\u00f5e \u00e0 ignor\u00e2ncia e \u00e0 simplicidade. Deixou<br \/>\ncrescer a barba e cabelos, veste uma t\u00fanica de algod\u00e3o e alimenta-se<br \/>\ntenuamente, sendo quase uma m\u00famia. Acompanhado de duas professas, vive<br \/>\na rezar ter\u00e7os e ladainhas e a pregar e a dar conselhos \u00e0s multid\u00f5es,<br \/>\nque re\u00fane, onde lhe permitem os p\u00e1rocos; e, movendo sentimentos<br \/>\nreligiosos, vai arrebanhando o povo e guindo-o a seu gosto. Revela ser homem<br \/>\ninteligente, mas sem cultura&#8221;.<\/p>\n<p>Estes dizeres rigorosamente ver\u00eddicos, de um anu\u00e1rio impresso<br \/>\ncentenares de l\u00e9guas de distancia, delatam bem a fama que ele j\u00e1<br \/>\ngranjeara.<\/p>\n<p>Lendas<\/p>\n<p>Entretanto a vila de Itapicuru esteve para ser o fecho da sua carreira extraordin\u00e1ria.<br \/>\nFoi, ali, naquele mesmo ano, entre o espanto dos fi\u00e9is, inopinadamente<br \/>\npreso. Determinara a pris\u00e3o uma falsidade, que o seu modo de vida excepcional<br \/>\ne as antigas desordens dom\u00e9sticas de algum modo justificavam: diziam-no<br \/>\nassassino da esposa e da pr\u00f3pria m\u00e3e.<\/p>\n<p>Era uma lenda arrepiadora.<\/p>\n<p>Contavam que a \u00faltima, desadorando a nora, imaginara perd\u00ea-la.<br \/>\nRevelara, por isto, que era tra\u00eddo; e como este, surpreso, lhe exigisse<br \/>\nprovas do delito, prop\u00f4s-se apresent\u00e1-las sem tardan\u00e7a.<br \/>\nAconselhou-o a que fantasiasse qualquer viagem, permanecendo, por\u00e9m,<br \/>\nnos arredores, porque veria, \u00e0 noite, invadir-lhe o lar o sedutor que<br \/>\no desonrara. Aceito o alvitre, o infeliz, cavalgando e afastando-se cerca<br \/>\nde meia l\u00e9gua, torceu depois de r\u00e9deas, tornando, furtivamente,<br \/>\npor desfreq\u00fcentados desvios, para uma espera adrede escolhida, de onde<br \/>\npudesse observar bem e agir de pronto.<\/p>\n<p>Ali quedou longas horas, at\u00e9 lobrigar, de fato, noite velha, um vulto<br \/>\naproximando-se de sua vivenda. Viu-o achegar-se cautelosamente e galgar uma<br \/>\ndas janelas. E n\u00e3o lhe deu tempo para entrar. Abateu-o com um tiro.<\/p>\n<p>Penetrou, em seguida, de um salto, no lar e fulminou com outra descarga a<br \/>\nesposa infiel, adormecida.<\/p>\n<p>Voltou, depois, para reconhecer o homem que matara&#8230; e viu com horror que<br \/>\nera a sua pr\u00f3pria m\u00e3e, que se disfar\u00e7ara daquele modo<br \/>\npara a consecu\u00e7\u00e3o do plano diab\u00f3lico.<\/p>\n<p>Fugira, ent\u00e3o, na mesma hora apavorado, doido, abandonando tudo, ao<br \/>\nacaso, pelos sert\u00f5es em fora&#8230;<\/p>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o popular, como se v\u00ea, come\u00e7ava a romancear-lhe<br \/>\na vida, com um tra\u00e7o vigoroso de originalidade tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>O asceta<\/p>\n<p>Como quer que fosse, por\u00e9m, o certo \u00e9 que em 1870 a repress\u00e3o<br \/>\nlegal o atingiu quando j\u00e1 se ultimara a evolu\u00e7\u00e3o do seu<br \/>\nesp\u00edrito, imerso de todo no sonho de onde n\u00e3o mais despertaria.<br \/>\nO asceta despontava, inteiri\u00e7o, da rudeza disciplinar de quinze anos<br \/>\nde penit\u00eancia. Requintara nessa aprendizagem de mart\u00edrios, que<br \/>\ntanto preconizam os velhos luminares da Igreja. Vinha do tiroc\u00ednio<br \/>\nbrutal da fome, da sede, das fadigas, das ang\u00fastias recalcadas e das<br \/>\nmis\u00e9rias fundas. N\u00e3o tinha dores desconhecidas. A epiderme seca<br \/>\nrugava-se-lhe como uma coura\u00e7a amolgada e rota sobre a carne morta.<br \/>\nAnestesiara-a com a pr\u00f3pria dor; macerara-a e sarjara-a de cil\u00edcios<br \/>\nmais duros que os bur\u00e9is de esparto; trouxera-a, de rojo, pelas pedras<br \/>\ndos caminhos; esturrara-a nos rescaldos das secas; inteiri\u00e7ara-a nos<br \/>\nrelentos frios; adormecera-a em transit\u00f3rios repousos, nos leitos dilacerantes<br \/>\ndas caatingas&#8230;<\/p>\n<p>Abeirara muitas vezes a morte nos jejuns prolongados, com requinte de ascetismo<br \/>\nque surpreenderia Tertuliano, esse<\/p>\n<p>sombrio propagandista da elimina\u00e7\u00e3o lenta da mat\u00e9ria,<br \/>\n&#8220;descarregando-se do seu sangue, fardo pesado e importuno da alma impaciente<br \/>\npor fugir&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Para quem estava neste tiroc\u00ednio de amarguras, aquela ordem de pris\u00e3o<br \/>\nera incidente m\u00ednimo. Recebeu-a indiferente. Proibiu aos fi\u00e9is<br \/>\nque o defendessem. Entregou-se. Levaram-no \u00e0 capital da Bahia. Ali,<br \/>\na sua fisionomia estranha: face morta, r\u00edgida como uma m\u00e1scara,<br \/>\nsem olhar e sem risos; p\u00e1lpebras descidas dentro de \u00f3rbitas<br \/>\nprofundas; e o seu entrajar singular\u00edssimo; e o seu aspecto repugnante,<br \/>\nde desenterrado, dentro do camisol\u00e3o comprido, feito uma mortalha preta;<br \/>\ne os longos cabelos corredios e poentos caindo pelos ombros, emaranhando-se<br \/>\nnos pelos duros da barba descuidada, que descia at\u00e9 \u00e0 cintura<br \/>\n&#8212; aferroaram a curiosidade geral.<\/p>\n<p>Passou pelas ruas entre ova\u00e7\u00f5es de esconjuros e &#8220;pelos<br \/>\nsinais&#8221; dos crentes assustados e das beatas retransidas de sustos.<\/p>\n<p>Interrogaram-no os ju\u00edzes estupefatos.<\/p>\n<p>Acusavam-no de velhos crimes, cometidos no torr\u00e3o nativo. Ouviu o<br \/>\ninterrogat\u00f3rio e as acusa\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o murmurou<br \/>\nsequer, revestido de impassibilidade marm\u00f3rea.<\/p>\n<p>A escolta que o trouxera, soube-se depois, espancara-o covardemente nas estradas.<br \/>\nN\u00e3o formulou a mais leve queixa.<\/p>\n<p>Quedou na tranq\u00fcila indiferen\u00e7a superior de um est\u00f3ico.<\/p>\n<p>Apenas &#8212; e este pormenor curioso ouvimo-lo a pessoa insuspeita &#8212; no dia<br \/>\ndo embarque para o Cear\u00e1 pediu \u00e0s autoridades que o livrassem<br \/>\nda curiosidade p\u00fablica, a \u00fanica coisa que o vexava.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 terra natal, reconhecida a improced\u00eancia da den\u00fancia,<br \/>\n\u00e9 posto em liberdade. E no mesmo ano reaparece na Bahia entre os disc\u00edpulos,<br \/>\nque o aguardavam sempre.<\/p>\n<p>Esta volta &#8212; coincidindo, segundo afirmam, com o dia que prefixara, no momento<br \/>\nde ser preso&#8211;tomou aspectos de milagre.<\/p>\n<p>Tresdobrou a sua influ\u00eancia.<\/p>\n<p>Vagueia, ent\u00e3o, algum tempo, pelos sert\u00f5es de Cura\u00e7\u00e1,<br \/>\nestacionando ( 1877 ) de prefer\u00eancia em Chorroch\u00f3, lugarejo de<br \/>\npoucas centenas de habitantes, cuja feira movimentada congrega a maioria dos<br \/>\npovoadores daquele trecho do S. Francisco. Uma capela elegante indica-lhe,<br \/>\nainda hoje, a estada. E, mais vener\u00e1vel talvez, pequena \u00e1rvore,<br \/>\n\u00e0 entrada da vila, que foi por muito tempo objeto de uma fitolatria<br \/>\nextraordin\u00e1ria. \u00c0 sua sombra descansara o peregrino. Era um<br \/>\narbusto sagrado. A sua sombra curavam-se os cr\u00e9dulos doentes; as suas<br \/>\nfolhas eram panac\u00e9ia infal\u00edvel.<\/p>\n<p>O povo come\u00e7ava a grande s\u00e9rie de milagres de que n\u00e3o<br \/>\ncogitava talvez o infeliz&#8230;<\/p>\n<p>De 1877 a 1887 erra por aqueles sert\u00f5es, em todos os sentidos, chegando<br \/>\nmesmo at\u00e9 ao litoral, em Vila do Conde ( 1887 ).<\/p>\n<p>Em toda esta \u00e1rea n\u00e3o h\u00e1, talvez, uma cidade ou povoado<br \/>\nonde n\u00e3o tenha aparecido. Alagoinhas, Inhambupe, Bom Conselho, Jeremoabo,<br \/>\nCumbe, Mucambo, Ma\u00e7acar\u00e1, Pombal, Monte Santo, Tucano e outros<br \/>\nviram-no chegar, acompanhado da far\u00e2ndola de fi\u00e9is. Em quase<br \/>\ntodas deixava um tra\u00e7o da passagem: aqui um cemit\u00e9rio arruinado,<br \/>\nde muros reconstru\u00eddos; al\u00e9m uma igreja renovada; adiante uma<br \/>\ncapela que se erguia, elegante sempre.<\/p>\n<p>A sua entrada nos povoados, seguido pela multid\u00e3o contrita, em silencio,<br \/>\nalevantando imagens, cruzes e bandeiras do Divino, era solene e impressionadora.<br \/>\nParalisavam-se as ocupa\u00e7\u00f5es normais. Ermavam-se as oficinas<br \/>\ne as culturas. A popula\u00e7\u00e3o convergia para a vila onde, em compensa\u00e7\u00e3o,<br \/>\navultava o movimento das feiras; e durante alguns dias, eclipsando as autoridades<br \/>\nlocais, o penitente errante e humilde monopolizava o mando, fazia-se autoridade<br \/>\n\u00fanica.<\/p>\n<p>Erguiam-se na pra\u00e7a, revestidas de folhagens, as latadas, onde \u00e0<br \/>\ntarde entoavam, os devotos, ter\u00e7os e ladainhas; e quando era grande<br \/>\na concorr\u00eancia, improvisava-se um palanque ao lado do barrac\u00e3o<br \/>\nda feira, no centro do largo, para que a palavra do profeta pudesse irradiar<br \/>\npara todos os pontos e edificar todos os crentes.<\/p>\n<p>As pr\u00e9dicas<\/p>\n<p>Ele ali subia e pregava. Era assombroso, afirmam testemunhas existentes.<br \/>\nUma orat\u00f3ria b\u00e1rbara e arrepiadora, feita de excertos truncados<br \/>\ndas Horas Marianas, desconexa, abstrusa, agravada, \u00e0s vezes, pela ousadia<br \/>\nextrema das cita\u00e7\u00f5es latinas; transcorrendo em frases sacudidas;<br \/>\nmisto inextric\u00e1vel e confuso de conselhos dogm\u00e1ticos, preceitos<br \/>\nvulgares da moral crist\u00e3 e de profecias esdr\u00faxulas&#8230;<\/p>\n<p>Era truanesco e era pavoroso.<\/p>\n<p>Imagine-se um buf\u00e3o arrebatado numa vis\u00e3o do Apocalise&#8230;<\/p>\n<p>Parco de gestos, falava largo tempo, olhos em terra, sem encarar a multid\u00e3o<br \/>\nabatida sob a algaravia, que derivava demoradamente, ao arrepio do bom senso,<br \/>\nem melop\u00e9ia fatigante.<\/p>\n<p>Tinha, entretanto, ao que parece, a preocupa\u00e7\u00e3o do efeito produzido<br \/>\npor uma ou outra frase mais decisiva. Enunciava-a e emudecia; alevantava a<br \/>\ncabe\u00e7a, descerrava de golpe as p\u00e1lpebras; viam-se-lhe ent\u00e3o<br \/>\nos olhos extremamente negros e vivos, e o olhar &#8212; uma cintila\u00e7\u00e3o<br \/>\nofuscante&#8230; Ningu\u00e9m ousava contempl\u00e1-lo. A multid\u00e3o<br \/>\nsucumbida abaixava, por sua vez, as vistas, fascinada, sob o estranho hipnotismo<br \/>\ndaquela ins\u00e2nia formid\u00e1vel.<\/p>\n<p>E o grande desventurado realizava, nesta ocasi\u00e3o, o seu \u00fanico<br \/>\nmilagre: conseguia n\u00e3o se tornar rid\u00edculo&#8230;<\/p>\n<p>Nestas pr\u00e9dicas, em que fazia vitoriosa concorr\u00eancia aos capuchinhos<br \/>\nvagabundos das miss\u00f5es, estadeava o sistema religioso incongruente<br \/>\ne vago. Ora, quem as ouviu n\u00e3o se forra a aproxima\u00e7\u00f5es<br \/>\nhist\u00f3ricas sugestivas. Relendo as p\u00e1ginas memor\u00e1veis<br \/>\nem que Renan faz ressurgir, pelo galvanismo do seu belo estilo, os adoidados<br \/>\nchefes de seita dos primeiros s\u00e9culos, nota-se a revivesc\u00eancia<br \/>\nintegral de suas aberra\u00e7\u00f5es extintas. N\u00e3o h\u00e1 desejar<br \/>\nmais completa reprodu\u00e7\u00e3o do mesmo sistema, das mesmas imagens,<br \/>\ndas mesmas f\u00f3rmulas hiperb\u00f3licas, das mesmas palavras quase.<br \/>\n\u00c9 um exemplo bel\u00edssimo da identidade dos estados evolutivos<br \/>\nentre os povos. O retr\u00f3grado do sert\u00e3o reproduz o facies dos<br \/>\nm\u00edsticos do passado. Considerando-o, sente-se o efeito maravilhoso<br \/>\nde uma perspectiva atrav\u00e9s dos s\u00e9culos&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00e1 fora do nosso tempo. Est\u00e1 de todo entre esses retardat\u00e1rios<br \/>\nque Fouill\u00e9e compara, em imagem feliz, \u00e0 des coureurs sur le<br \/>\nchamp de la civilisation, de plus en plus en retard.<\/p>\n<p>Preceitos de montanista<\/p>\n<p>\u00c9 um dissidente do molde exato de Themison. Insurge-se contra a Igreja<br \/>\nromana, e vibra-lhe objurgat\u00f3rias, estadeando o mesmo argumento que<br \/>\naquele: ela perdeu a sua gl\u00f3ria e obedece a Satan\u00e1s. Esbo\u00e7a<br \/>\numa moral que \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o justalinear da de Montano:<br \/>\na castidade exagerada ao m\u00e1ximo horror pela mulher, contrastando com<br \/>\na licen\u00e7a absoluta para o amor livre, atingindo quase \u00e0 extin\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo casamento.<\/p>\n<p>O fr\u00edgio pregava-a, talvez como o cearense, pelos ressaibos remanescentes<br \/>\ndas desditas conjugais. Ambos pro\u00edbem severamente que as mo\u00e7as<br \/>\nse ataviem; bramam contra as vestes real\u00e7adoras; insistem do mesmo<br \/>\nmodo, especialmente sobre o luxo dos toucados; e &#8212; o que \u00e9 singular\u00edssimo<br \/>\n&#8212; cominam, ambos, o mesmo castigo a este pecado: o dem\u00f4nio dos cabelos,<br \/>\npunindo as vaidosas com dilaceradores pentes de espinho.<\/p>\n<p>A beleza era-lhes a face tentadora de Sat\u00e3. O Conselheiro extremou-se<br \/>\nmesmo no mostrar por ela invenc\u00edvel horror. Nunca mais olhou para uma<br \/>\nmulher. Falava de costas mesmo \u00e0s beatas velhas, feitas para amansarem<br \/>\ns\u00e1tiros.<\/p>\n<p>Profecias<\/p>\n<p>Ora, esta identidade avulta, mais frisante, quando se comparam com as do<br \/>\npassado as concep\u00e7\u00f5es absurdas do esmaniado ap\u00f3stolo<br \/>\nsertanejo. Como os montanistas, ele surgia no ep\u00edlogo da Terra&#8230; O<br \/>\nmesmo milenarismo extravagante, o mesmo pavor do anti-Cristo despontando na<br \/>\nderrocada universal da vida. O fim do mundo pr\u00f3ximo&#8230;<\/p>\n<p>Que os fi\u00e9is abandonassem todos os haveres, tudo quanto os maculasse<br \/>\ncom um leve tra\u00e7o da vaidade. Todas as fortunas estavam a pique da<br \/>\ncat\u00e1strofe iminente e fora temeridade in\u00fatil conserv\u00e1-las.<\/p>\n<p>Que abdicassem as venturas mais fugazes e fizessem da vida um purgat\u00f3rio<br \/>\nduro; e n\u00e3o a manchassem nunca com o sacril\u00e9gio de um sorriso.<br \/>\nO ju\u00edzo final aproximava-se, inflex\u00edvel.<\/p>\n<p>Prenunciavam-no anos sucessivos de desgra\u00e7as:<\/p>\n<p>&#8220;. . .Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o cert\u00e3o;<br \/>\nent\u00e3o o cert\u00e3o virar\u00e1 praia e a praia virar\u00e1 cert\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8221; Em 1897 haver\u00e1 muito pasto e pouco rasto e um s\u00f3 pastor<br \/>\ne um s\u00f3 rebanho.<\/p>\n<p>&#8221; Em 1898 haver\u00e1 muitos chap\u00e9us e poucas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8221; Em 1899 ficar\u00e3o as \u00e1guas em sangue e o planeta hade<br \/>\napparecer no nascente com o raio do sol que o ramo se confrontar\u00e1 na<br \/>\nterra e a terra em algum lugar se confrontar\u00e1 no c\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>&#8221; Hade chover uma grande chuva de estrellas e ahi ser\u00e1 o fim<br \/>\ndo mundo. Em 1900 se apagar\u00e3o as luzes. Deus disse no Evangelho: eu<br \/>\ntenho um rebanho que anda f\u00f3ra deste aprisco e \u00e9 preciso que<br \/>\nse reunam porque h\u00e1 um s\u00f3 pastor e um s\u00f3 rebanho !&#8221;<\/p>\n<p>Como os antigos, o predestinado atingia a terra pela vontade divina. Fora<br \/>\no pr\u00f3prio Cristo que pressagiara a sua vinda quando<\/p>\n<p>&#8220;na hora nona, descan\u00e7ando no monte das Oliveiras um dos seus<br \/>\nap\u00f3stolos perguntou: Senhor! para o fim desta edade que signaes v\u00f3s<br \/>\ndeixaes ?<\/p>\n<p>&#8220;Elle respondeu: muitos signaes na Lua, no Sol e nas Estrellas. Hade<br \/>\napparecer um Anjo mandado por meu pae terno, pr\u00e9gando serm\u00f5es<br \/>\npelas portas, fazendo povoa\u00e7\u00f5es nos desertos, fazendo egrejas<br \/>\ne capellinhas e dando seus conselhos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E no meio desse extravagar adoidado, rompendo dentre o messianismo religioso,<br \/>\no messianismo da ra\u00e7a levando-o \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\ncontra a forma republicana:<\/p>\n<p>&#8220;Em verdade vos digo, quando as na\u00e7\u00f5es brigam com as na\u00e7\u00f5es,<br \/>\no Brazil com o Brazil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prussia com a Prussia,<br \/>\ndas ondas do mar D. Sebasti\u00e3o sahir\u00e1 com todo o seu exercito.<\/p>\n<p>&#8220;Desde o princ\u00edpio do mundo que encantou com todo seu exercito<br \/>\ne o restituio em guerra.<\/p>\n<p>&#8220;E quando encantou-se afincou a espada na pedra, ella foi at\u00e9<br \/>\nos copos e elle disse: Adeus mundo!<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 mil e tantos a dois mil n\u00e3o chegar\u00e1s !<\/p>\n<p>&#8220;Neste dia quando sahir com o seu exercito tira a todos no fio da espada<br \/>\ndeste papel da Republica. O fim desta guerra se acabar\u00e1 na Santa Casa<br \/>\nde Roma e o sangue hade ir at\u00e9 \u00e1 junta grossa . . . &#8221;<\/p>\n<p>Um heresiarca do s\u00e9culo 2 em plena idade moderna<\/p>\n<p>O profetismo tinha, como se v\u00ea, na sua boca, o mesmo tom com que despontou<br \/>\nna Fr\u00edgia, avan\u00e7ando para 0 Ocidente. Anunciava, id\u00eantico,<br \/>\no ju\u00edzo de Deus, a desgra\u00e7a dos poderosos, o esmagamento do<br \/>\nmundo profano, o reino de mil anos e suas del\u00edcias.<\/p>\n<p>N\u00e3o haver\u00e1, com efeito, nisto, um tra\u00e7o superior do<br \/>\njuda\u00edsmo ?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 encobri-lo. Ademais este voltar-se \u00e0 idade de<br \/>\nouro dos ap\u00f3stolos e sibilistas, revivendo vetustas ilus\u00f5es,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 uma novidade. \u00c9 o permanente refluxo do cristianismo<br \/>\npara o seu ber\u00e7o judaico. Montano reproduz-se em toda a hist\u00f3ria,<br \/>\nmais ou menos alterado consoante o car\u00e1ter dos povos, mas delatando,<br \/>\nna mesma rebeldia contra a jerarquia eclesi\u00e1stica, na mesma explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo sobrenatural, e no mesmo ansiar pelos c\u00e9us, a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nprimitivamente sonhadora da velha religi\u00e3o, antes que a deformassem<br \/>\nos sofistas canonizados dos conc\u00edlios.<\/p>\n<p>A exemplo de seus comparsas do passado, Ant\u00f4nio Conselheiro era um<br \/>\npietista ansiando pelo reino de Deus, prometido, delongado sempre e, ao cabo,<br \/>\nde todo esquecido pela Igreja ortodoxa do s\u00e9culo 2.<\/p>\n<p>Abeirara-se apenas do catolicismo mal compreendido.<\/p>\n<p>Tentativas de rea\u00e7\u00e3o legal<\/p>\n<p>Coerente com a miss\u00e3o a que se devotara, ordenava, depois destas hom\u00edlias,<br \/>\npenit\u00eancias que, de ordin\u00e1rio redundavam em benef\u00edcio<br \/>\ndas localidades. Reconstru\u00edam-se templos abatidos; renovavam-se cemit\u00e9rios<br \/>\nem abandono; erigiam-se constru\u00e7\u00f5es novas e elegantes. Os pedreiros<br \/>\ne carpinteiros trabalhavam de gra\u00e7a; os abastados forneciam, gr\u00e1tis,<br \/>\nos materiais indispens\u00e1veis; o povo carregava pedras. Durante dias<br \/>\nseguidos, na az\u00e1fama piedosa, se agitavam os oper\u00e1rios cujos<br \/>\nsal\u00e1rios se averbavam nos c\u00e9us.<\/p>\n<p>E terminada a empresa o predestinado abalava&#8230; para onde ? Ao acaso, tomando<br \/>\na primeira vereda, pelos sert\u00f5es em fora, pelas chapadas mult\u00edvias,<br \/>\nsem olhar sequer para os que o encal\u00e7avam.<\/p>\n<p>N\u00e3o o contrariava o antagonismo de um advers\u00e1rio perigoso,<br \/>\no padre. A dar-se cr\u00e9dito a testemunho valioso , aquele, em geral,<br \/>\nestimulava-lhe ou permitia-lhe as pr\u00e1ticas pelas quais, sem nada usufruir,<br \/>\npromovia todos os atos de onde saem os rendimentos do clero: batizados, desobrigas,<br \/>\nfestas e novenas.<\/p>\n<p>Os vig\u00e1rios toleravam com boa sombra os desprop\u00f3sitos do Santo<br \/>\nendemoninhado que ao menos lhe acrescia a c\u00f4ngrua reduzida. Percebeu-o<br \/>\nem 1882, o arcebispo da Bahia, procurando por paradeiro a esta transig\u00eancia,<br \/>\nsen\u00e3o mal disfar\u00e7ada prote\u00e7\u00e3o, por uma circular<br \/>\ndirigida a todos os p\u00e1rocos.<\/p>\n<p>&#8220;Chegando ao nosso conhecimento que, pelas freguesias do centro deste<br \/>\narcebispado, anda um indiv\u00edduo denominado Ant\u00f4nio Conselheiro,<br \/>\npregando ao povo, que se re\u00fane para ouvi-lo, doutrinas supersticiosas<br \/>\ne uma moral excessivamente r\u00edgida com que est\u00e1 perturbando as<br \/>\nconsci\u00eancias e enfraquecendo, n\u00e3o pouco, a autoridade dos p\u00e1rocos<br \/>\ndestes lugares, ordenamos a V. Rev.ma, que n\u00e3o consinta em sua freguesia<br \/>\nsemelhante abuso, fazendo saber aos paroquianos que Ihes proibimos, absolutamente,<br \/>\nde se reunirem para ouvir tal prega\u00e7\u00e3o, visto como, competindo<br \/>\nna Igreja cat\u00f3lica, somente aos ministros da religi\u00e3o, a miss\u00e3o<br \/>\nsanta de doutrinar os novos, um secular, quem quer que ele seja, ainda quando<br \/>\nmuito instru\u00eddo e virtuoso. n\u00e3o tem autoridade para exerc\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8220;Entretanto sirva isto para excitar cada vez<\/p>\n<p>mais o zelo que V. Rev.ma, no exerc\u00edcio do minist\u00e9rio da prega\u00e7\u00e3o,<br \/>\na fim de que os seus paroquianos, suficientemente instru\u00eddos, n\u00e3o<br \/>\nse deixem levar por todo o vento de doutrina etc.&#8221;<\/p>\n<p>Foi in\u00fatil a interven\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Conselheiro continuou sem embara\u00e7os a sua marcha de<br \/>\ndesnorteado ap\u00f3stolo, pervagando nos sert\u00f5es. E, como se desejasse<br \/>\nreviver sempre a lembran\u00e7a da primeira persegui\u00e7\u00e3o sofrida,<br \/>\nvolve constantemente ao Itapicuru, cuja autoridade policial, por fim, apelou<br \/>\npara os poderes constitu\u00eddos, em oficio onde, depois de historiar ligeiramente<br \/>\nos antecedentes do agitador, disse:<\/p>\n<p>&#8220;. . . Fez neste termo seu acampamento e presentemente est\u00e1 no<br \/>\nreferido arraial construindo uma capela a expensas do povo.<\/p>\n<p>&#8220;Conquanto esta obra seja de algum melhoramento, ali\u00e1s dispens\u00e1vel,<br \/>\npara o lugar, todavia os excessos e sacrif\u00edcios n\u00e3o compensam<br \/>\neste bem, e, pelo modo por que est\u00e3o os \u00e2nimos, \u00e9 mais<br \/>\njusto e fundado o receio de grandes desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8220;Para que V. S. saiba quem \u00e9 Ant\u00f4nio Conselheiro, basta<br \/>\ndizer que \u00e9 acompanhado por centenas e centenas de pessoas, que ouvem-no<br \/>\ne cumprem suas ordens de prefer\u00eancia \u00e0s do vig\u00e1rio da<br \/>\npar\u00f3quia.<\/p>\n<p>&#8220;O fanatismo n\u00e3o tem limites e assim \u00e9 que, sem medo de<br \/>\nerro, e firmado em fatos, posso afirmar que adoram-no, como se fosse um Deus<br \/>\nvivo.<\/p>\n<p>&#8220;Nos dias de serm\u00f5es, ter\u00e7os e ladainhas, o ajuntamento<br \/>\nsobe a mil pessoas. Na constru\u00e7\u00e3o desta capela, cuja f\u00e9ria<br \/>\nsemanal \u00e9 de quase cem mil-r\u00e9is, d\u00e9cuplo do que devia<br \/>\nser pago, est\u00e3o empregados cearenses, aos quais Ant\u00f4nio Conselheiro<br \/>\npresta a mais cega prote\u00e7\u00e3o, tolerando e dissimulando os atentados<br \/>\nque cometem, e esse dinheiro sai dos cr\u00e9dulos e ignorantes, que, al\u00e9m<br \/>\nde n\u00e3o trabalharem, vendem o pouco que possuem e at\u00e9 furtam<br \/>\npara que n\u00e3o haja a menor falta, sem falar nas quantias arrecadadas<br \/>\nque tem sido remetidas para outras obras do Chorroch\u00f3, termo do Capim<br \/>\nGrosso.&#8221;<\/p>\n<p>E depois de apontar a \u00faltima tropelia dos fan\u00e1ticos:<\/p>\n<p>&#8220;Havendo desintelig\u00eancia entre o grupo de Ant\u00f4nio Conselheiro<br \/>\ne o vig\u00e1rio de Inhambupe, est\u00e1 aquele municiado como se tivesse<br \/>\nde ferir uma batalha campal, e consta que est\u00e3o \u00e0 espera que<br \/>\no vig\u00e1rio v\u00e1 ao lugar denominado Junco para assassin\u00e1-lo.<br \/>\nFaz medo aos transeuntes passar por alto, vendo aqueles malvados munidos de<br \/>\ncacetes, facas, fac\u00f5es, clavinotes; e ai daquele que for suspeito de<br \/>\nser infenso a Ant\u00f4nio Conselheiro.&#8221;<\/p>\n<p>Ao que se figura, este apelo, feito em termos t\u00e3o alarmantes, n\u00e3o<br \/>\nfoi correspondido. Nenhuma providencia se tomou at\u00e9 meados de 1887,<br \/>\nquando a diocese da Bahia interveio de novo, oficiando o arcebispo ao presidente<br \/>\nda prov\u00edncia, pedindo provid\u00eancias que contivessem o &#8220;indiv\u00edduo<br \/>\nAnt\u00f4nio Vicente Mendes Maciel que, pregando doutrinas subversivas, fazia<br \/>\num grande mal \u00e0 religi\u00e3o e ao Estado, distraindo o povo de suas<br \/>\nobriga\u00e7\u00f5es e arrastando-o ap\u00f3s si, procurando convencer<br \/>\nde que era Esp\u00edrito-Santo etc.&#8221;<\/p>\n<p>Ante o reclamo, o presidente daquela prov\u00edncia dirigiu-se ao ministro<br \/>\ndo Imp\u00e9rio, pedindo um lugar para o tresloucado no hosp\u00edcio<br \/>\nde alienados do Rio. O ministro respondeu ao presidente contrapondo o not\u00e1vel<br \/>\nargumento de n\u00e3o haver, naquele estabelecimento, lugar algum vago;<br \/>\ne o presidente oficiou de novo ao prelado, tornando-o ciente da resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nadmir\u00e1vel do governo.<\/p>\n<p>Assim se abriu e se fechou o ciclo das provid\u00eancias legais que se fizeram<br \/>\ndurante o Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Mais lendas<\/p>\n<p>O Conselheiro continuou sem trope\u00e7os na miss\u00e3o pervertedora,<br \/>\navultando na imagina\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Apareciam as primeiras lendas.<\/p>\n<p>N\u00e3o as arquivaremos todas.<\/p>\n<p>Fundou o arraial do Bom Jesus; e contam as gentes assombradas que em certa<br \/>\nocasi\u00e3o, quando se constru\u00eda a bel\u00edssima igreja que l\u00e1<br \/>\nest\u00e1, esfor\u00e7ando-se debalde dez oper\u00e1rios por erguerem<br \/>\npesado baldrame, o predestinado trepou sobre o madeiro e ordenou, em seguida,<br \/>\nque dois homens apenas o levantem; e o que n\u00e3o haviam conseguido tantos,<br \/>\nrealizaram os dois rapidamente, sem esfor\u00e7o algum&#8230;<\/p>\n<p>Outra vez &#8212; ouvi o estranho caso a pessoas que se n\u00e3o haviam deixado<br \/>\nfanatizar! &#8212; chegou a Monte Santo e determinou que se fizesse uma prociss\u00e3o<br \/>\npela montanha acima, at\u00e9 a \u00faltima capela, no alto. Iniciou-se<br \/>\n\u00e0 tarde a cerim\u00f4nia. A multid\u00e3o derivou, lenta, pela encosta<br \/>\nclivosa, entoando benditos, estacionando nos &#8220;passos&#8221;, contrita.<br \/>\nEle seguia na frente &#8212; grave e sinistro &#8212; descoberto, agitada pela ventania<br \/>\nforte a cabeleira longa, arrimando-se ao bord\u00e3o insepar\u00e1vel.<br \/>\nDesceu a noite. Acenderam-se as tochas dos penitentes, e a prociss\u00e3o,<br \/>\nestendida na linha de cumeadas, tra\u00e7ou uma estrada luminosa no dorso<br \/>\nda montanha&#8230;<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 Santa Cruz, no alto, Ant\u00f4nio Conselheiro, ofegante,<br \/>\nsenta-se no primeiro degrau da tosca escada de pedra, e queda-se est\u00e1tico,<br \/>\ncontemplando os c\u00e9us, o olhar imerso nas estrelas&#8230;<\/p>\n<p>A primeira onda de fi\u00e9is enche logo o \u00e2mbito restrito da capela,<br \/>\nenquanto outros permanecem fora ajoelhados sobre a rocha asp\u00e9rrima.<\/p>\n<p>O contemplativo, ent\u00e3o, levanta-se. Mal sofreia o cansa\u00e7o.<br \/>\nEntre alas respeitosas, penetra, por sua vez, na capela, pendida para o ch\u00e3o<br \/>\na cabe\u00e7a, hum\u00edlimo e abatido, arfando.<\/p>\n<p>Ao abeirar-se do alta-mor, por\u00e9m, ergue o rosto p\u00e1lido, emoldurado<br \/>\npelos cabelos em desalinho. E a multid\u00e3o estremece toda, assombrada&#8230;<br \/>\nDuas l\u00e1grimas sangrentas rolam, vagarosamente, no rosto imaculado da<br \/>\nVirgem Sant\u00edssima&#8230;<\/p>\n<p>Estas e outras lendas s\u00e3o ainda correntes no sert\u00e3o. natural.<br \/>\nEsp\u00e9cie de grande homem pelo avesso, Ant\u00f4nio Conselheiro reunia<br \/>\nno misticismo doentio todos os erros e supersti\u00e7\u00f5es que formam<br \/>\no coeficiente de redu\u00e7\u00e3o da nossa nacionalidade. Arrastava o<br \/>\npovo sertanejo n\u00e3o porque o dominasse, mas porque o dominavam as aberra\u00e7\u00f5es<br \/>\ndaquele. Favorecia-o o meio e ele realizava, \u00e0s vezes, como vimos,<br \/>\no absurdo de ser \u00fatil. Obedecia \u00e0 finalidade irresist\u00edvel<br \/>\nde velhos impulsos ancestrais; e jugulado por ela espelhava em todos os atos<br \/>\na placabilidade de um evangelhista incompar\u00e1vel.<\/p>\n<p>De feito, amortecia-lhe a nevrose inexplic\u00e1vel placidez.<\/p>\n<p>Certo dia o vig\u00e1rio de uma freguesia sertaneja v\u00ea chegar \u00e0<br \/>\nsua porta um homem extremamente magro e sucumbido: longos cabelos despenteados<br \/>\npelos ombros, longas barbas descendo pelo peito; uma velha figura de peregrino<br \/>\na que n\u00e3o faltavam o crucifixo tradicional, suspenso a um lado entre<br \/>\nas cam\u00e2ndulas da cintura, e o manto poento e gasto, e a borracha d&#8217;\u00e1gua,<br \/>\ne o bord\u00e3o comprido&#8230;<\/p>\n<p>D\u00e1-lhe o p\u00e1roco com que se alimente, aceita um peda\u00e7o<br \/>\nde p\u00e3o apenas; oferece-lhe um leito, prefere uma t\u00e1bua sobre<br \/>\nque se deita sem cobertas, vestido, sem mesmo desatacar as sand\u00e1lias.<\/p>\n<p>No outro dia o singular\u00edssimo h\u00f3spede, que poucas palavras<br \/>\nat\u00e9 ent\u00e3o pronunciara, pede ao padre lhe conceda pregar por<br \/>\nocasi\u00e3o da festa que ia realizar-se na igreja.<\/p>\n<p>&#8212; Irm\u00e3o n\u00e3o tendes ordens; a Igreja n\u00e3o permite que<br \/>\npregueis.<\/p>\n<p>&#8212; Deixai-me, ent\u00e3o, fazer a via-sacra.<\/p>\n<p>&#8212; Tamb\u00e9m n\u00e3o posso, vou eu faz\u00ea-la, contraveio mais<br \/>\numa vez o sacerdote.<\/p>\n<p>O peregrino, ent\u00e3o, encarou-o fito por algum tempo, e sem dizer palavra<br \/>\ntirou de sob a t\u00fanica um len\u00e7o. Sacudiu o p\u00f3 das alpercatas.<br \/>\nE partiu.<\/p>\n<p>Era o cl\u00e1ssico protesto inofensivo e tranq\u00fcilo dos ap\u00f3stolos<br \/>\n. . .<\/p>\n<p>H\u00e9gira para o sert\u00e3o<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, crescendo, malignou-lhe o animo. Dominador<br \/>\nincondicional, principiou de se irritar ante a menor contrariedade.<\/p>\n<p>Certa vez, em Natuba, estando ausente o vig\u00e1rio, com quem n\u00e3o<br \/>\nestava em boas gra\u00e7as, apareceu e mandou carregar pedras para consertos<br \/>\nda igreja. Chega o padre; v\u00ea a invas\u00e3o dos dom\u00ednios sagrados;<br \/>\nirrita-se e resolve p\u00f4r embargos \u00e0 desordem. Era homem pr\u00e1tico;<br \/>\napelou para o ego\u00edsmo humano.<\/p>\n<p>Tendo a C\u00e2mara, dias antes, imposto aos propriet\u00e1rios o cal\u00e7amento<br \/>\ndos passeios das casas, cedeu ao povo, para tal fim, as pedras j\u00e1 acumuladas.<\/p>\n<p>O Conselheiro n\u00e3o se limitou, desta vez, a sacudir as sand\u00e1lias.<br \/>\nSaiu-lhe da boca a primeira maldi\u00e7\u00e3o, \u00e0s portas da cidade<br \/>\ningrata; e partiu.<\/p>\n<p>Tempos depois, a pedido do mesmo vig\u00e1rio, certa influ\u00eancia pol\u00edtica<br \/>\ndo local o chamou. O templo desabava em ru\u00ednas; o mato invadira todo<br \/>\no cemit\u00e9rio; e a freguesia era pobre. S\u00f3 podia renov\u00e1-los<br \/>\nquem t\u00e3o bem dispunha dos matutos cr\u00e9dulos. O ap\u00f3stolo<br \/>\ndeferiu ao convite. Mas f\u00ea-lo atrav\u00e9s de imposi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndiscricion\u00e1rias, relembrando, com altanaria destoante da pacatez antiga,<br \/>\na afronta recebida.<\/p>\n<p>Iam-no tornando mau.<\/p>\n<p>Viu a Rep\u00fablica com maus olhos e pregou, coerente, a rebeldia contra<br \/>\nas novas leis. Assumiu desde 1893 uma fei\u00e7\u00e3o combatente inteiramente<br \/>\nnova.<\/p>\n<p>Originou-a fato de pouca monta.<\/p>\n<p>Decretada a autonomia dos munic\u00edpios, as C\u00e2maras das localidades<br \/>\ndo interior da Bahia tinham afixado nas t\u00e1buas tradicionais, que substituem<br \/>\na imprensa, editais para a cobran\u00e7a de impostos etc.<\/p>\n<p>Ao surgir esta novidade Ant\u00f4nio Conselheiro estava em Bom Conselho.<br \/>\nIrritou-o a imposi\u00e7\u00e3o; e planeou revide imediato. Reuniu o povo<br \/>\nnum dia de feira e, entre gritos sediciosos e estrepitar de foguetes, mandou<br \/>\nqueimar as t\u00e1buas numa fogueira, no largo. Levantou a voz sobre o &#8220;auto-de-f\u00e9&#8221;,<br \/>\nque a fraqueza das autoridades n\u00e3o impedira, e pregou abertamente a<br \/>\ninsurrei\u00e7\u00e3o contra as leis.<\/p>\n<p>Avaliou, depois, a gravidade do atentado.<\/p>\n<p>Deixou a vila, tomando pela estrada de Monte Santo, para o norte.<\/p>\n<p>O acontecimento repercutira na capital, de onde partiu numerosa for\u00e7a<br \/>\nde pol\u00edcia para prender o rebelde e dissolver os grupos turbulentos.<br \/>\nEstes naquela \u00e9poca n\u00e3o excediam a duzentos homens. A tropa<br \/>\nalcan\u00e7ou-os em Macet\u00e9, lugar desabrigado e est\u00e9ril entre<br \/>\nTucano e Cumbe, nas cercanias d\u00e1s serras do Ov\u00f3. As trinta pra\u00e7as,<br \/>\nbem armadas, atacaram impetuosamente a turba de penitentes depauperados, certas<br \/>\nde os destro\u00e7arem \u00e0 primeira descarga. Deram, por\u00e9m,<br \/>\nde frente, com os jagun\u00e7os destemerosos. Foram inteiramente desbaratadas,<br \/>\nprecipitando-se na fuga, de que fora o primeiro a dar o exemplo o pr\u00f3prio<br \/>\ncomandante.<\/p>\n<p>Esta batalha min\u00fascula teria, infelizmente, mais tarde muitas c\u00f3pias<br \/>\nampliadas.<\/p>\n<p>Realizada a fa\u00e7anha, os crentes acompanharam, reatando a marcha, a<br \/>\nh\u00e9gira do profeta. N\u00e3o procuravam mais os povoados, como dantes.<br \/>\nDemandavam o deserto.<\/p>\n<p>O desbarato da tropa prenunciava-lhes persegui\u00e7\u00f5es mais vigorosas;<br \/>\ne, certos do amparo da natureza selvagem, contavam com a vit\u00f3ria enterreirando<br \/>\nentre as caatingas os novos contendores. Estes partiram, de fato, sem perda<br \/>\nde tempo, da Bahia, em n\u00famero de oitenta pra\u00e7as, de linha. Mas<br \/>\nn\u00e3o prosseguiram al\u00e9m de Serrinha, de onde tornaram sem se aventurarem<br \/>\ncom o sert\u00e3o. Ant\u00f4nio Conselheiro, por\u00e9m, n\u00e3o se<br \/>\niludiu com o inexplic\u00e1vel recuo, que o salvara. Arrastou a matula de<br \/>\nfi\u00e9is, a que se aliavam, dia a dia, dezenas de pros\u00e9litos, pelas<br \/>\ntrilhas sertanejas fora, seguindo prefixado rumo.<\/p>\n<p>Conhecia o sert\u00e3o. Percorrera-o todo numa romaria ininterrupta de<br \/>\nvinte anos. Sabia de paragens ignotas de onde o n\u00e3o arrancariam. Marcara-as<br \/>\nj\u00e1, talvez prevenindo futuras vicissitudes.<\/p>\n<p>Endireitou, rumo firme, em cheio para o norte.<\/p>\n<p>Os crentes acompanharam-no. N\u00e3o inquiriram para onde seguiam. E atravessaram<br \/>\nserranias \u00edngremes, tabuleiros est\u00e9reis e chapadas rasas, longos<br \/>\ndias, vagarosamente, na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas e pelo passo<br \/>\ntardo do profeta. . .<\/p>\n<h2>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Canudos &#8212; antecedentes &#8212; aspecto original &#8212; e crescimento vertiginoso.<br \/>\nRegimen da urbs. Pol\u00edcia de bandidos. Popula\u00e7\u00e3o multiforme.<br \/>\nO templo. Estrada para o c\u00e9u. As rezas. Agrupamentos bizarros. Por<br \/>\nque n\u00e3o pregar contra a Rep\u00fablica ? Uma miss\u00e3o abortada.<br \/>\nMaldi\u00e7\u00e3o sobre a Jerusal\u00e9m de taipa.<\/p>\n<p>Canudos , velha fazenda de gado \u00e0 beira do Vaza-Barris, era, em 1890,<br \/>\numa tapera de cerca de cinq\u00fcenta capuabas de pau-a-pique.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1876, segundo o testemunho de um sacerdote, que ali fora, como<br \/>\ntantos outros, e nomeadamente o vig\u00e1rio de Cumbe, em visita espiritual<br \/>\n\u00e0s gentes de todo despeadas da terra, l\u00e1 se aglomerava, agregada<br \/>\n\u00e0 fazenda ent\u00e3o ainda florescente, popula\u00e7\u00e3o suspeita<br \/>\ne ociosa, &#8220;armada at\u00e9 aos dentes&#8221; e &#8220;cuja ocupa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nquase exclusiva, consistia em beber aguardente e pitar uns esquisitos cachimbos<br \/>\nde barro em canudos de metro de extens\u00e3o&#8221; , de tubos naturalmente<br \/>\nfornecidos pelas solan\u00e1ceas (canudos-de-pito), vicejantes em grande<br \/>\nc\u00f3pia \u00e0 beira do rio.<\/p>\n<p>Assim, antes da vinda do Conselheiro, j\u00e1 o lugarejo obscuro &#8212; e o<br \/>\nseu nome claramente se explica &#8212; tinha, como a maioria dos que jazem desconhecidos<br \/>\npelos nossos sert\u00f5es, muitos germens da desordem e do crime. Estava,<br \/>\npor\u00e9m, em plena decad\u00eancia quando l\u00e1 chegou aquele em<br \/>\n1893: tajupares em abandono; vazios os pousos; e, no alto de um espor\u00e3o<br \/>\nda Favela, destelhada, reduzida \u00e0s paredes exteriores, a antiga vivenda<br \/>\nsenhoril, em ru\u00ednas&#8230;<\/p>\n<p>Data daquele ano a sua revivesc\u00eancia e crescimento r\u00e1pido. O<br \/>\naldeamento ef\u00eamero dos matutos vadios, centralizado pela igreja velha,<br \/>\nque j\u00e1 existia, ia transmudar-se, ampliando-se, em pouco tempo, na<br \/>\nTr\u00f3ia de taipa dos jagun\u00e7os.<\/p>\n<p>Era o lugar sagrado, cingido de montanhas, onde n\u00e3o penetraria a a\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo governo maldito.<\/p>\n<p>A sua topografia interessante modelava-o ante a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquelas gentes simples como o primeiro degrau, ampl\u00edssimo e alto,<br \/>\npara os c\u00e9us&#8230;<\/p>\n<p>Crescimento vertiginoso<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreende que para l\u00e1 convergissem, partindo de todos<br \/>\nos pontos, turmas sucessivas de povoadores convergentes das vilas e povoados<br \/>\nmais remotos.<\/p>\n<p>Diz uma testemunha : &#8220;Alguns lugares desta comarca e de outras circunvizinhas,<br \/>\ne at\u00e9 do Estado de Sergipe, ficaram desabitados, tal a aluvi\u00e3o<br \/>\nde fam\u00edlias que subiam para os Canudos, lugar escolhido por Ant\u00f4nio<br \/>\nConselheiro para o centro de suas opera\u00e7\u00f5es. Causava d\u00f3<br \/>\nverem-se expostos \u00e0 venda, nas feiras, extraordin\u00e1ria quantidade<br \/>\nde gado cavalar, vacum, caprino etc., al\u00e9m de outros objetos, por pre\u00e7os<br \/>\nde nonada, como terrenos, casas etc. O anelo extremo era vender, apurar algum<br \/>\ndinheiro e ir reparti-lo com o Santo Conselheiro.&#8221;<\/p>\n<p>Assim se mudavam os lares.<\/p>\n<p>Inhambupe, Tucano, Cumbe, Itapicuru, Bom Conselho, Natuba, Ma\u00e7acar\u00e1,<br \/>\nMonte Santo, Jeremoabo, Uau\u00e1, e demais lugares pr\u00f3ximos; Entre<br \/>\nRios, Mundo Novo, Jacobina, Itabaiana e outros s\u00edtios remotos, forneciam<br \/>\nconstantes contingentes. Os raros viajantes que se arriscavam a viagens naquele<br \/>\nsert\u00e3o topavam grupos sucessivos de fi\u00e9is que seguiam, ajoujados<br \/>\nde fardos, carregando as mob\u00edlias toscas, as canastras e os orat\u00f3rios,<br \/>\npara o lugar eleito. Isoladas a princ\u00edpio, essas turmas adunavam-se<br \/>\npelos caminhos, aliando-se a outras, chegando, afinal, conjuntas, a Canudos.<\/p>\n<p>O arraial crescia vertiginosamente, coalhando as colinas.<\/p>\n<p>A edifica\u00e7\u00e3o rudimentar permitia \u00e0 multid\u00e3o sem<br \/>\nlares fazer at\u00e9 doze casas por dia; e, \u00e0 medida que se formava,<br \/>\na tapera colossal parecia estereografar a fei\u00e7\u00e3o moral da sociedade<br \/>\nali acoitada. Era a objetiva\u00e7\u00e3o daquela ins\u00e2nia imensa.<\/p>\n<p>Documento inilud\u00edvel permitindo o corpo de delito direto sobre os<br \/>\ndesmandos de um povo.<\/p>\n<p>Aquilo se fazia a esmo, adoidadamente.<\/p>\n<p>Aspecto original<\/p>\n<p>A urbs monstruosa, de barro, definia bem a civitas sinistra do erro. O povoado<br \/>\nnovo surgia, dentro de algumas semanas, j\u00e1 feito ru\u00ednas. Nascia<br \/>\nvelho. Visto de longe, desdobrado pelos c\u00f4moros, atulhando as canhadas,<br \/>\ncobrindo \u00e1rea enorme, truncado nas quebradas, revolto nos pendores<br \/>\n&#8212; tinha o aspecto perfeito de uma cidade cujo solo houvesse sido sacudido<br \/>\ne brutalmente dobrado por um terremoto.<\/p>\n<p>N\u00e3o se distinguiam as ruas. Substitu\u00eda-as d\u00e9dalo desesperador<br \/>\nde becos estreit\u00edssimos, mal separando o baralhamento ca\u00f3tico<br \/>\ndos casebres feitos ao acaso, testadas volvidas para todos os pontos, cumeeiras<br \/>\norientando-se para todos os rumos, como se tudo aquilo fosse constru\u00eddo,<br \/>\nfebrilmente, numa noite, por uma multid\u00e3o de loucos&#8230;<\/p>\n<p>Feitas de pau-a-pique e divididas em tr\u00eas compartimentos min\u00fasculos,<br \/>\nas casas eram par\u00f3dia grosseira da antiga morada romana: um vest\u00edbulo<br \/>\nex\u00edguo, um atrium servindo ao mesmo tempo de cozinha, sala de jantar<br \/>\ne de recep\u00e7\u00e3o; e uma alcova lateral, furna escur\u00edssima<br \/>\nmal revelada por uma porta estreita e baixa. Cobertas de camadas espessas<br \/>\nde vinte cent\u00edmetros, de barro, sobre ramos de ic\u00f3, lembravam<br \/>\nas choupanas dos gauleses de C\u00e9sar. Tra\u00edam a fase transit\u00f3ria<br \/>\nentre a caverna primitiva e a casa. Se as edifica\u00e7\u00f5es em suas<br \/>\nmodalidades evolutivas objetivam a personalidade humana, o casebre de teto<br \/>\nde argila dos jagun\u00e7os equiparado ao wigwan dos peles-vermelhas sugeria<br \/>\nparalelo deplor\u00e1vel. O mesmo desconforto e, sobretudo, a mesma pobreza<br \/>\nrepugnante, traduzindo de certo modo, mais do que a mis\u00e9ria do homem,<br \/>\na decrepitude da ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando o olhar se acomodava \u00e0 penumbra daqueles c\u00f4modos ex\u00edguos,<br \/>\nlobrigava, invariavelmente, trastes raros e grosseiros: um banco tosco; dois<br \/>\nou tr\u00eas banquinhos com a forma de escabelos; igual n\u00famero de<br \/>\ncaixas de cedro, ou canastras; um jirau pendido do teto; e as redes. Eram<br \/>\ntoda a mob\u00edlia. Nem camas, nem mesas. Pendurados aos cantos, viam-se<br \/>\ninsignificantes acess\u00f3rios: o bog\u00f3 ou borracha, esp\u00e9cie<br \/>\nde balde de couro para o transporte de \u00e1gua; pares de ca\u00e7u\u00e1s<br \/>\n( jac\u00e1s de cip\u00f3 ) e os ai\u00f3s, bolsa de ca\u00e7a, feita<br \/>\ndas fibras de caro\u00e1. Ao fundo do \u00fanico quarto, um orat\u00f3rio<br \/>\ntosco. Neste, copiando a mesma fei\u00e7\u00e3o achamboada do conjunto,<br \/>\nsantos mal acabados, imagens de linhas duras, a objetivarem a religi\u00e3o<br \/>\nmesti\u00e7a em tra\u00e7os incisivos de manipansos: Santos Ant\u00f4nios<br \/>\nproteiformes e africanizados, de aspecto bronco, de fetiches; Marias Sant\u00edssimas,<br \/>\nfeias como megeras&#8230;<\/p>\n<p>Por fim as armas &#8212; a mesma revivesc\u00eancia de est\u00e1dios remotos:<br \/>\no fac\u00e3o jacar\u00e9, de folha larga e forte; a parna\u00edba dos<br \/>\ncangaceiros, longa como uma espada; o ferr\u00e3o ou guiada. de tr\u00eas<br \/>\nmetros de comprido, sem a eleg\u00e2ncia das lan\u00e7as, reproduzindo<br \/>\nos piques antigos; os cacetes ocos e cheios pela metade de chumbo, pesados<br \/>\ncomo montantes; as bestas e as espingardas.<\/p>\n<p>Entre estas \u00faltimas, grada\u00e7\u00f5es completas, desde a de<br \/>\ncano fino, carregada com escumilha, at\u00e9 \u00e0 &#8220;leg\u00edtima<br \/>\nde Braga&#8221;, cevada com chumbo grosso, ao trabuco brutal ao modo de uma<br \/>\ncolubrina port\u00e1til, capaz de arremessar calhaus e pontas de chifre,<br \/>\n\u00e0 lazarina ligeira, ou ao bacamarte de boca-de-sino.<\/p>\n<p>Nada mais. De nada mais necessitava aquela gente. Canudos surgia com a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nm\u00e9dia entre a de um acampamento de guerreiros e a de um vasto kraal<br \/>\nafricano. A aus\u00eancia de ruas, as pra\u00e7as que, \u00e0 parte a<br \/>\ndas igrejas, nada mais eram que o fundo comum dos quintais, e os casebres<br \/>\nunidos, tornavam-no como vivenda \u00fanica, ampl\u00edssima, estendida<br \/>\npelas colinas, e destinada a abrigar por pouco tempo o cl\u00e3 tumultu\u00e1rio<br \/>\nde Ant\u00f4nio Conselheiro.<\/p>\n<p>Sem a alvura reveladora das paredes caiadas e telhados encali\u00e7ados,<br \/>\na certa distancia era vis\u00edvel. Confundia-se com o pr\u00f3prio ch\u00e3o.<br \/>\nAparecia, de perto, de chofre, constrito numa volta do Vaza-Barr\u00eds,<br \/>\nque o limitava do levante ao sul abarcando-o.<\/p>\n<p>Emoldurava-o uma natureza morta: paisagens tristes; colinas nuas, uniformes,<br \/>\nprolongando-se, ondeantes, at\u00e9 \u00e0s serranias distantes, sem uma<br \/>\nnesga de mato; rasgadas de lascas de talcoxisto, mal revestidas, em raros<br \/>\npontos, de acervos de brom\u00e9lias, encimadas, noutros, pelos cactos esguios<br \/>\ne solit\u00e1rios. O monte da Favela, ao sul, empolava-se mais alto, tendo<br \/>\nno sop\u00e9, fronteiro \u00e0 pra\u00e7a, alguns p\u00e9s de quixabeiras,<br \/>\nagrupados em horto selvagem. \u00c0 meia encosta via-se solit\u00e1ria,<br \/>\nem ru\u00ednas, a antiga casa da fazenda&#8230;<\/p>\n<p>A uma banda, perto e dominante, um contraforte, o morro dos Pelados, termina<br \/>\nde chofre em barranca a prumo sobre o rio e este, dali por diante progredindo<br \/>\nnuma inflex\u00e3o forte para montante, abarca o povoado em leito escavado<br \/>\ne fundo, como um fosso. Ali v\u00e3o ter quebradas de bordas a pique, abertas<br \/>\npelas eros\u00f5es intensas por onde, no inverno, rolam acachoando afluentes<br \/>\nef\u00eameros tendo os nomes falsos de rios: o Mucuim, o Umburanas, e outro,<br \/>\nque sucessos ulteriores denominariam da Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>Canudos, assim circunvalado quase todo pelo Vaza-Barris, embatia ao sul contra<br \/>\nas vertentes da Favela e dominado no ocidente pelas lombas mais altas de flancos<br \/>\nem escarpa em que se comprimia aquele nas enchentes, desatava-se para o levante<br \/>\nsegundo o expandir dos plainos ondulados. As montanhas long\u00ednquas fechavam-se<br \/>\nem roda, formando, quase cont\u00ednua, uma elipse de eixos dilatados. Feito<br \/>\npostigos em baluarte desmedido, abriam-se, estreitas, as gargantas em que<br \/>\npassavam os caminhos: o do Uau\u00e1, estrangulado entre os pendores fortes<br \/>\ndo Caip\u00e3; o de Jeremoabo, insinuando-se nos desfiladeiros de Cocorob\u00f3;<br \/>\no do Cambaio, em aclives, investindo com as vertentes do Calumbi; e o do Ros\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ora, por estas veredas, prendendo, no se ligarem a outras trilhas, o povoado<br \/>\nnascente ao fundo dos sert\u00f5es do Piau\u00ed, Cear\u00e1, Pernambuco<br \/>\ne Sergipe &#8212; chegavam sucessivas caravanas de fi\u00e9is. Vinham de todos<br \/>\nos pontos, carregando os haveres todos; e, transpostas as \u00faltimas voltas<br \/>\ndo caminho, quando divisavam o campan\u00e1rio humilde da antiga Capela,<br \/>\nca\u00edam genuflexos sobre o ch\u00e3o asp\u00e9rrimo. Estava atingido<br \/>\no termo da romagem. Estavam salvos da pavorosa hecatombe, que vaticinavam<br \/>\nas profecias do evangelizador. Pisavam, afinal, a terra da promiss\u00e3o<br \/>\n&#8212; Cana\u00e3 sagrada, que o Bom Jesus isolara do resto do mundo por uma<br \/>\ncintura de serras&#8230;<\/p>\n<p>Chegavam, estropiados da jornada longa, mas felizes. Acampavam \u00e0 gandaia<br \/>\npelo alto dos c\u00f4moros. A noite acendiam-se as fogueiras nos pousos dos<br \/>\nperegrinos relentados. Uma faixa fulgurante enla\u00e7ava o arraial; e,<br \/>\nun\u00edssonas, entrecruzavam-se, ressoando nos pousos e nas casas, as vozes<br \/>\nda multid\u00e3o penitente, na melop\u00e9ia plangente dos benditos.<\/p>\n<p>Ao clarear da manh\u00e3 entregavam-se \u00e0 az\u00e1fama da constru\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos casebres. Estes, a princ\u00edpio apinhando-se pr\u00f3ximos \u00e0<br \/>\ndepress\u00e3o em que se erigia a primitiva igreja, e descendo desnivelados<br \/>\nao vi\u00e9s das encostas breves at\u00e9 ao rio, come\u00e7aram a salpintar,<br \/>\nesparsos, o terreno rugado, mais longe.<\/p>\n<p>Constru\u00e7\u00f5es ligeiras, distantes do n\u00facleo compacto da<br \/>\ncasaria, pareciam obedecer ao tra\u00e7ado de um plano de defesa. Sucediam-se<br \/>\nescalonadas, ladeando os caminhos. Marginavam o de Jeremoabo, eretas numa<br \/>\ne outra margem do Vaza-Barris, para jusante, at\u00e9 Trabubu e o ribeir\u00e3o<br \/>\nde Macambira. Pontilhavam o do Ros\u00e1rio, transpondo o rio e contornando<br \/>\na Favela. Espalhavam-se pelos cerros que se sucediam in\u00fameros seguindo<br \/>\no rumo de Uau\u00e1. Inscritas em cercas impenter\u00e1veis de gravat\u00e1s,<br \/>\nplantados na borda de um fosso envolvente, cada uma era, do mesmo passo, um<br \/>\nlar e um reduto. Dispunham-se formando linhas irregulares de baluartes.<\/p>\n<p>Porque a cidade selvagem, desde o princ\u00edpio, tinha em torno, acompanhando-a<br \/>\nno crescimento r\u00e1pido, um c\u00edrculo formid\u00e1vel de trincheiras<br \/>\ncavadas em todos os pendores, enfiando todas as veredas, planos de fogo volvidos,<br \/>\nrasantes com o ch\u00e3o, para todos os rumos. Veladas por touceiras inextric\u00e1veis<br \/>\nde macambiras ou lascas de pedra, n\u00e3o se revelavam a distancia. Vindo<br \/>\ndo levante, o viajor que as abeirasse, ao divisar, esparsas sobre os cerros,<br \/>\nas choupanas ex\u00edguas \u00e0 maneira de guaritas, acreditaria topar<br \/>\numa rancharia esparsa de vaqueiros inofensivos. Atingia, de repente, a casaria<br \/>\ncompacta, surpreso, como se ca\u00edsse numa tocaia.<\/p>\n<p>Para quem viesse do sul, por\u00e9m, pelo Ros\u00e1rio ou Calumbi, galgado<br \/>\no alto da Favela, ou as ladeiras fortes que se derivam para o rio Sargento,<br \/>\no casario aparecia a um quil\u00f4metro, ao norte, esbatido num plano inferior,<br \/>\nfrancamente exposto, de modo a se poder num lance \u00fanico de vista aquilatar-lhe<br \/>\nas condi\u00e7\u00f5es de defesa.<\/p>\n<p>Eram na apar\u00eancia deplor\u00e1veis. O arraial parecia disposto para<br \/>\no choque das cargas fulminantes, rolando impetuosas, com a for\u00e7a viva<br \/>\nde uma queda, pelos aclives abruptos. O inimigo, livre de escaladas penosas,<br \/>\nvarej\u00e1-lo-ia em tiros mergulhantes. Podia assedi\u00e1-lo todo, batendo<br \/>\ntodas as estradas, com uma bateria \u00fanica.<\/p>\n<p>Tinha, entretanto, condi\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas preexcelentes.<br \/>\nCompreendera-as algum Vauban inculto&#8230;<\/p>\n<p>Fechado ao sul pelo morro, descendo escancelado de gargantas at\u00e9 ao<br \/>\nrio, fechavam-no, a oeste, uma muralha e um valo. De fato, infletindo naquele<br \/>\nrumo, o Vaza-Barris, comprimido entre as \u00faltimas casas e as escarpas<br \/>\na pique dos morros sobranceiros, torcia para norte feito um ca\u00f1on fundo.<br \/>\nA sua curva forte rodeava, circunvalando-a, a depress\u00e3o em que se erigia<br \/>\no povoado, que se trancava a leste pelas colinas, a oeste e norte pelas ladeiras<br \/>\ndas terras mais altas, que dali se entumescem at\u00e9 aos contrafortes<br \/>\nextremos do Cambaio e do Caip\u00e3; e ao sul pela montanha.<\/p>\n<p>Canudos era uma tapera dentro de uma furna. A pra\u00e7a das igrejas, rente<br \/>\nao rio, demarcava-lhe a \u00e1rea mais baixa. Dali, segundo um eixo orientado<br \/>\nao norte, se expandia alteando-se a. pouco e pouco, em plano inclinado breve,<br \/>\nfeito um valo largo, em declive. L\u00e1 dentro se apertavam os casebres,<br \/>\natulhando toda a baixada, subindo, mais esparsos, pelas encostas de leste,<br \/>\ntransbordando, afinal, nas ex\u00edguas vivendas que vimos salpitando, raras,<br \/>\no alto dos cerros minados de trincheiras. A grei revoltosa &#8212; como se v\u00ea<br \/>\n&#8212; n\u00e3o se ilhava em uma emin\u00eancia, assoberbando os horizontes,<br \/>\na cavaleiro dos assaltos. Entocara-se. Naquela regi\u00e3o bel\u00edssima,<br \/>\nem que as linhas de cumeadas se rebatem no plano alto dos tabuleiros, escolhera<br \/>\nprecisamente o trecho que recorda uma vala comum enorme.. .<\/p>\n<p>Reg\u00edmen da &#8220;urbs&#8221;<\/p>\n<p>L\u00e1 se firmou logo um reg\u00edmen modelado pela religiosidade do<br \/>\nap\u00f3stolo extravagante.<\/p>\n<p>Jugulada pelo seu prest\u00edgio, a popula\u00e7\u00e3o tinha, engravecidas,<br \/>\ntodas as condi\u00e7\u00f5es do est\u00e1dio social inferior. Na falta<br \/>\nda irmandade do sangue, a consang\u00fcinidade moral dera-lhe a forma exata<br \/>\nde um cl\u00e3, em que as leis eram o arb\u00edtrio do chefe e a justi\u00e7a<br \/>\nas suas decis\u00f5es irrevog\u00e1veis. Canudos estereotipava o facies<br \/>\nd\u00fabio dos primeiros agrupamentos b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p>O sertanejo simples transmudava-se, penetrando-o, no fan\u00e1tico destemeroso<br \/>\ne bruto. Absorvia-o a psicose coletiva. E adotava, ao cabo, o nome at\u00e9<br \/>\nent\u00e3o consagrado aos turbulentos de feira, aos valent\u00f5es das<br \/>\nrefregas eleitorais e saqueadores de cidades &#8212; jagun\u00e7os.<\/p>\n<p>Popula\u00e7\u00e3o multiforme<\/p>\n<p>De sorte que ao fim de algum tempo a popula\u00e7\u00e3o constitu\u00edda<br \/>\ndos mais dispares elementos, do crente fervoroso abdicando de si todas as<br \/>\ncomodidades da vida noutras paragens, ao bandido solto, que l\u00e1 chegava<br \/>\nde clavinote ao ombro em busca de novo campo de fa\u00e7anhas, se fez a<br \/>\ncomunidade homog\u00eanea e uniforme, massa inconsciente e bruta, crescendo<br \/>\nsem evolver, sem \u00f3rg\u00e3os e sem fun\u00e7\u00f5es especializadas,<br \/>\npela s\u00f3 justaposi\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica de levas sucessivas<br \/>\n\u00e0 maneira de um polipeiro humano. \u00c9 natural que absorvesse,<br \/>\nintactas, todas as tend\u00eancias do homem extraordin\u00e1rio do qual<br \/>\na apar\u00eancia prot\u00e9ica &#8212; de santo exilado na terra, de fetiche<br \/>\nde carne e osso, e de bonzo claudicante &#8211;estava adrede talhada para reviver<br \/>\nos estigmas degenerativos de tr\u00eas ra\u00e7as.<\/p>\n<p>Aceitando, \u00e0s cegas, tudo quanto lhe ensinara aquele; imersa de todo<br \/>\nno sonho religioso; vivendo sob a preocupa\u00e7\u00e3o doentia da outra<br \/>\nvida, resumia o mundo na linha de serranias que a cingiam. N\u00e3o cogitava<br \/>\nde institui\u00e7\u00f5es garantidoras de um destino na terra.<\/p>\n<p>Eram-lhe in\u00fateis. Canudos era o cosmos.<\/p>\n<p>E este mesmo transit\u00f3rio e breve: um ponto de passagem, uma escala<br \/>\nterminal, de onde decampariam sem demora; o \u00faltimo pouso na travessia<br \/>\nde um deserto &#8212; a Terra. Os jagun\u00e7os errantes ali armavam pela derradeira<br \/>\nvez as tendas, na romaria miraculosa para os c\u00e9us&#8230;<\/p>\n<p>Nada queriam desta vida. Por isto a propriedade tornou-se-lhes uma forma<br \/>\nexagerada do coletivismo tribal dos bedu\u00ednos: a apropria\u00e7\u00e3o<br \/>\npessoal apenas de objetos m\u00f3veis e das casas, comunidade absoluta da<br \/>\nterra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos<br \/>\ndonos recebiam ex\u00edgua quota-parte, revertendo o resto para a &#8220;companhia&#8221;.<br \/>\nOs rec\u00e9m-vindos entregavam ao Conselheiro noventa e nove por cento<br \/>\ndo que traziam, incluindo os santos destinados ao santu\u00e1rio comum.<br \/>\nReputavam-se felizes com a migalha restante. Bastava-lhes de sobra. O profeta<br \/>\nensinara-lhes a temer o pecado mortal do bem-estar mais breve. Volunt\u00e1rios<br \/>\nda mis\u00e9ria e da dor, eram venturosos na medida das prova\u00e7\u00f5es<br \/>\nsofridas. Viam-se bem, vendo-se em andrajos. Este desprendimento levado \u00e0s<br \/>\n\u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias chegava a despi-los das belas qualidades<br \/>\nmorais, longamente apuradas na exist\u00eancia patriarcal dos sert\u00f5es.<br \/>\nPara Ant\u00f4nio Conselheiro &#8212; e neste ponto ele ainda copia velhos modelos<br \/>\nhist\u00f3ricos &#8212; a virtude era como que o reflexo superior da vaidade.<br \/>\nUma quase impiedade. A tentativa de enobrecer a exist\u00eancia na terra<br \/>\nimplicava de certo modo a indiferen\u00e7a pela felicidade sobrenatural<br \/>\niminente, o olvido do al\u00e9m maravilhoso anelado.<\/p>\n<p>O seu senso moral deprimido s\u00f3 compreendia a posse deste pelo contraste<br \/>\ndas agruras suportadas.<\/p>\n<p>De todas as p\u00e1ginas de catecismo que soletrara ficara-lhe preceito<br \/>\n\u00fanico:<\/p>\n<p>Bem-aventurados os que sofrem. . .<\/p>\n<p>A extrema dor era a extrema-un\u00e7\u00e3o. O sofrimento duro a absolvi\u00e7\u00e3o<br \/>\nplen\u00e1ria; e teriaga infal\u00edvel para a pe\u00e7onha dos maiores<br \/>\nv\u00edcios.<\/p>\n<p>Que os homens se desmandassem ou agissem virtuosamente &#8212; era quest\u00e3o<br \/>\nde somenos . Consentia de boa fei\u00e7\u00e3o que errassem, mas que todas<br \/>\nas impurezas e todas as escorralhas de uma vida infame ca\u00edssem, afinal,<br \/>\ngota a gota, nas l\u00e1grimas vertidas.<\/p>\n<p>Ao saber de caso escandaloso em que a lubricidade de um devasso maculara<br \/>\nincauto donzela teve, certa vez, uma frase ferozmente c\u00ednica, que os<br \/>\nsertanejos repetiam depois sem lhe aquilatarem a torpeza:<\/p>\n<p>&#8220;Seguiu o destino de todas; passou por baixo da \u00e1rvore do bem<br \/>\ne do mal !&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 para admirar que se esbo\u00e7asse logo, em Canudos,<br \/>\na promiscuidade de um hetairismo infrene. Os filhos esp\u00farios n\u00e3o<br \/>\ntinham \u00e0 fronte o lab\u00e9u indel\u00e9vel da origem, a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ninfamante dos bancklings entre os germanos. Eram legi\u00e3o.<\/p>\n<p>Porque o dominador, se n\u00e3o estimulava, tolerava o amor livre. Nos<br \/>\nconselhos di\u00e1rios n\u00e3o cogitava da vida conjugal, tra\u00e7ando<br \/>\nnormas aos casais ing\u00eanuos. E era l\u00f3gico. Contados os \u00faltimos<br \/>\ndias do mundo, fora malbarat\u00e1-los agitando preceitos v\u00e3os, quando<br \/>\no cataclismo iminente viria, em breve, apagar para sempre as uni\u00f5es<br \/>\nmais \u00edntimas, dispersar os lares e confundir no mesmo v\u00f3rtice<br \/>\ntodas as virtudes e todas as abomina\u00e7\u00f5es. O que urgia era antecip\u00e1-lo<br \/>\npelas prova\u00e7\u00f5es e pelo mart\u00edrio. Pregava, ent\u00e3o,<br \/>\nos jejuns prolongados, as agonias da fome, a lenta exaust\u00e3o da vida.<br \/>\nDava o exemplo fazendo constar, pelos fi\u00e9is mais \u00edntimos, que<br \/>\natravessava os dias alimentando-se com um pires de farinha. Conta-se que em<br \/>\ncerto dia foi visitado por um crente abastado das cercanias. Repartiu com<br \/>\nele a refei\u00e7\u00e3o escassa; e este &#8212; milagre que abalou o arraial<br \/>\ninteiro ! &#8212; saiu, do banquete min\u00fasculo, repleto, empanzinado, como<br \/>\nse volvesse de festim soberbo.<\/p>\n<p>Este reg\u00edmen severo tinha efeito duplo: tornava, pela pr\u00f3pria<br \/>\ndebilidade, mais vibr\u00e1til a enerva\u00e7\u00e3o enferma dos crentes<br \/>\ne preparava-os para as aperturas dos ass\u00e9dios, talvez previstos. Era,<br \/>\ntalvez, inten\u00e7\u00e3o rec\u00f4ndita de Ant\u00f4nio Conselheiro.<br \/>\nNem de outro modo se compreende que permitisse assistissem no arraial indiv\u00edduos<br \/>\ncuja \u00edndole se contrapunha \u00e0 sua placabilidade humilde.<\/p>\n<p>Canudos era o hom\u00edzio de famigerados fac\u00ednoras. Ali chegavam,<br \/>\nde permeio com os matutos cr\u00e9dulos e vaqueiros iludidos, sinistros<br \/>\nher\u00f3is da faca e da garrucha. E estes foram logo os mais quistos daquele<br \/>\nhomem singular, os seus ajudantes de ordens prediletos, garantindo-lhe a autoridade<br \/>\ninviol\u00e1vel. Eram, por um contraste natural, os seus melhores disc\u00edpulos.<br \/>\nA seita esdr\u00faxula &#8212; caso de simbiose moral em que o belo ideal crist\u00e3o<br \/>\nsurgia mostruoso dentre aberra\u00e7\u00f5es fetichistas &#8212; tinha os seus<br \/>\nnaturais representantes nos Batistas truculentos, capazes de carregar os bacamartes<br \/>\nhomicidas com as contas dos ros\u00e1rios&#8230;<\/p>\n<p>Pol\u00edcia de bandidos<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a seus bra\u00e7os fortes, Ant\u00f4nio Conselheiro dominava<br \/>\no arraial, corrigindo os que sa\u00edam das trilhas demarcadas. Na cadeia<br \/>\nali paradoxalmente institu\u00edda &#8212; a &#8220;poeira&#8221;, no dizer dos<br \/>\njagun\u00e7os &#8212; viam-se diariamente, presos pelos que haviam cometido a<br \/>\nleve falta de alguns homic\u00eddios os que haviam perpetrado o crime abomin\u00e1vel<br \/>\nde faltar \u00e0s rezas.<\/p>\n<p>Inexor\u00e1vel para as pequenas culpas, nul\u00edssima para os grandes<br \/>\natentados, a justi\u00e7a era, como tudo o mais, antin\u00f4mica, no cl\u00e3<br \/>\npoliciado por fac\u00ednoras. Visava uma delinq\u00fc\u00eancia especial,<br \/>\ntraduzindo-se na invers\u00e3o completa do conceito do crime. Exercitava-se,<br \/>\nn\u00e3o raro duramente, cominando penas sever\u00edssimas sobre leves<br \/>\nfaltas.<\/p>\n<p>O uso da aguardente, por exemplo, era delito s\u00e9rio. Ai! dipsoman\u00edaco<br \/>\nincorrig\u00edvel que rompesse o interdito imposto!<\/p>\n<p>Conta-se que de uma feita alguns tropeiros inexpertos, vindos do Juazeiro,<br \/>\nforam ter a Canudos, levando alguns barris do l\u00edquido inconcesso. Atra\u00eda-os<br \/>\no engodo de lucro inevit\u00e1vel. Levavam a eterna c\u00famplice das<br \/>\nhoras ociosas dos matutos. Ao chegarem, por\u00e9m, tiveram, depois de descarregarem<br \/>\nna pra\u00e7a a carga valiosa, desagrad\u00e1vel surpresa. Viram, ali<br \/>\nmesmo, abertos os barris, a machado, e inutilizado o contrabando sacr\u00edlego.<br \/>\nE volveram r\u00e1pidos, desapontados, tendo \u00e0s m\u00e3os, ao inv\u00e9s<br \/>\ndo ganho apetecido, o ardor de muitas d\u00fazias de palmatoadas, amargos<br \/>\nbolos com que os presenteara aquela gente ingrata.<\/p>\n<p>Este caso \u00e9 expressivo. S\u00f3lida experi\u00eancia ensinara ao<br \/>\nConselheiro todos os perigos que adviriam deste haxixe nacional. Interdizia-o<br \/>\nmenos por debelar um v\u00edcio que para prevenir desordens. Mas, fora do<br \/>\npovoado, estas podiam espalhar-se \u00e0 larga. Dali partiam bandos turbulentos<br \/>\narremetendo com os arredores. Toda a sorte de tropelias eram permitidas, desde<br \/>\nque aumentassem o patrim\u00f4nio da grei. Em 1894, as algaras, chefiadas<br \/>\npor valent\u00f5es de nota, tornaram-se alarmantes. Foram em um crescendo<br \/>\ntal, de depreda\u00e7\u00f5es e desacatos, que despertaram a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos poderes constitu\u00eddos, originando mesmo calorosa e in\u00fatil<br \/>\ndiscuss\u00e3o na Assembl\u00e9ia Estadual da Bahia.<\/p>\n<p>Depreda\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Em dilatado raio em torno de Canudos, talavam-se fazendas, saqueavam-se lugarejos,<br \/>\nconquistavam-se cidades ! No Bom Conselho, uma horda atrevida, depois de se<br \/>\napossar da Vila, p\u00f4-la em estado de s\u00edtio, dispersou as autoridades,<br \/>\na come\u00e7ar pelo juiz da comarca e, como entreato hilariante na razia<br \/>\nescandalosa, torturou o escriv\u00e3o dos casamentos que se viu em palpos<br \/>\nde aranhas para impedir que os crentes sarc\u00e1sticos lhe abrissem, tosquiando-o,<br \/>\numa coroa larga, que lhe justificasse o invadir as atribui\u00e7\u00f5es<br \/>\nsagradas do vig\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os desordeiros volviam cheios de despojos para o arraial, onde ningu\u00e9m<br \/>\nIhes tomava conta dos desmandos.<\/p>\n<p>Muitas vezes, diz o testemunho un\u00e2nime da popula\u00e7\u00e3o sertaneja,<br \/>\ntais expedi\u00e7\u00f5es eram sugeridas por intuito diverso. Alguns fi\u00e9is<br \/>\nabastados tinham veleidades pol\u00edticas. Sobrevinha a quadra eleitoral.<br \/>\nOs grandes conquistadores de urnas que, a exemplo de milhares de comparsas<br \/>\ndisseminados neste pa\u00eds, transformam a fantasia do sufr\u00e1gio<br \/>\nuniversal na clava de H\u00e9rcules da nossa dignidade, apelavam para o<br \/>\nConselheiro.<\/p>\n<p>Canudos fazia-se, ent\u00e3o, provisoriamente, o quartel das guardas pretorianas<br \/>\ndos capangas, que de l\u00e1 partiam, trilhando rumos prefixos, para refor\u00e7arem,<br \/>\na pau e a tiro, a soberania popular, expressa na imbecilidade triunfante de<br \/>\num r\u00e9gulo qualquer; e para o estra\u00e7oamento das atas; e para<br \/>\nas mazorcas peri\u00f3dicas que a lei marca, denominando-as &#8220;elei\u00e7\u00f5es&#8221;,<br \/>\neufemismo que \u00e9 entre n\u00f3s o mais vivo tra\u00e7o das ousadias<br \/>\nda linguagem. A nossa civiliza\u00e7\u00e3o de empr\u00e9stimo arregimentava,<br \/>\ncomo sempre o fez, o banditismo sertanejo.<\/p>\n<p>Ora, estas arrancadas eram um ensinamento. Eram \u00fateis. Eram exerc\u00edcios<br \/>\npr\u00e1ticos indispens\u00e1veis ao preparo para recontros mais valentes.<br \/>\nCompreendera-as, talvez, assim, o Conselheiro. Tolerava-as. No arraial, por\u00e9m<br \/>\n, exigia, digamos em falta de outro termo &#8212; porque os l\u00e9xicos n\u00e3o<br \/>\no t\u00eam para exprimir um tumulto disciplinado &#8212; ordem inalter\u00e1vel.<br \/>\nAli permaneciam, inofensivos porque eram inv\u00e1lidos, os seus melhores<br \/>\ncrentes: mulheres, crian\u00e7as, velhos alquebrados, doentes in\u00fateis.<br \/>\nViviam parasitariamente da solicitude do chefe, que Ihes era o Santo protetor,<br \/>\nao qual saudavam entoando versos h\u00e1 vinte e tantos anos correntes nos<br \/>\nsert\u00f5es:<\/p>\n<p>Do c\u00e9u veio uma luz<\/p>\n<p>Que Jesus Cristo mandou<\/p>\n<p>Santo Ant\u00f4nio Aparecido<\/p>\n<p>Dos castigos nos livrou!<\/p>\n<p>Quem ouvir e n\u00e3o aprender<\/p>\n<p>Quem souber e n\u00e3o ensinar<\/p>\n<p>No dia do Ju\u00edzo<\/p>\n<p>A sua alma penara!<\/p>\n<p>Estas velhas quadras, que a tradi\u00e7\u00e3o guardara, lembravam ao<br \/>\ninfeliz os primeiros dias da vida atormentada e avivam-lhe, porventura, os<br \/>\n\u00faltimos tragos da vaidade, no confronto vantajoso com o santo milagreiro<br \/>\npor excel\u00eancia.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que abria aos desventurados os celeiros fartos pelas esmolas<br \/>\ne produtos do trabalho comum. Compreendia que aquela massa, na apar\u00eancia<br \/>\nin\u00fatil, era o cerne vigoroso do arraial. Formavam-na os eleitos, felizes<br \/>\npor terem aos ombros os frangalhos imundos, esfiapados sambenitos de uma penit\u00eancia,<br \/>\nque Ihes fora a pr\u00f3pria vida; bem-aventurados porque o passo tr\u00f4pego,<br \/>\nremorado pelas muletas e pelas anquiloses, Ihes era a celeridade m\u00e1xima,<br \/>\nno avan\u00e7ar para a felicidade eterna.<\/p>\n<p>O templo<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto ali os aguardava, no termo da jornada, a \u00faltima<br \/>\npenit\u00eancia: a constru\u00e7\u00e3o do templo.<\/p>\n<p>A antiga capela n\u00e3o bastava. Era fr\u00e1gil e pequena. Mal sobranceava<br \/>\nos colmos achatados. Retratava por demais, no aspecto modest\u00edssimo,<br \/>\na pureza principal da religi\u00e3o antiga.<\/p>\n<p>Era necess\u00e1rio que se lhe contrapusesse a arx monstruosa, erigida<br \/>\ncomo se fosse o molde monumental da seita combatente.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a erigir-se a igreja nova. Desde antemanh\u00e3, enquanto<br \/>\nuns se entregavam \u00e0s culturas ou tangiam os rebanhos de cabras, ou<br \/>\nabalavam para &#8220;fazer o saco&#8221; nas vilas pr\u00f3ximas, e outros,<br \/>\ndispersando-se em piquetes vigilantes, estacionavam nas cercanias, bombeando<br \/>\nquem chegava, o resto do povo moirejava na miss\u00e3o sagrada.<\/p>\n<p>Defrontando o antigo, o novo templo erguia-se no outro extremo da pra\u00e7a.<br \/>\nEra retangular, e vasto, e pesado. As paredes mestras, espessas, recordavam<br \/>\nmuralhas de reduto. Durante muito tempo teria esta fei\u00e7\u00e3o an\u00f4mala,<br \/>\nantes que as duas torres muito altas, com ousadias de um g\u00f3tico rude<br \/>\ne imperfeito, o transfigurassem.<\/p>\n<p>\u00c9 que a catedral admir\u00e1vel dos jagun\u00e7os tinha essa eloq\u00fc\u00eancia<br \/>\nsilenciosa dos edif\u00edcios, de que nos fala Bossuet&#8230;<\/p>\n<p>Devia ser como foi. Devia surgir, mole, formid\u00e1vel e bruta, da extrema<br \/>\nfraqueza humana, alteada pelos m\u00fasculos gastos dos velhos, pelos bra\u00e7os<br \/>\nd\u00e9beis das mulheres e das crian\u00e7as. Cabia-lhes a forma d\u00fabia<br \/>\nde santu\u00e1rio e de antro, de fortaleza e de templo, irmanando no mesmo<br \/>\n\u00e2mbito, onde ressoariam mais tarde as ladainhas e as balas, a suprema<br \/>\npiedade e os supremos rancores&#8230;<\/p>\n<p>Delineara-a o pr\u00f3prio Conselheiro. Velho arquiteto de igrejas, requintara<br \/>\nno monumento que lhe cerraria a carreira. Levantava, volvida para o levante,<br \/>\naquela fachada estupenda, sem m\u00f3dulos, sem propor\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsem regras; de estilo indecifr\u00e1vel, mascarada de frisos grosseiros<br \/>\ne volutas imposs\u00edveis, cabriolando num del\u00edrio de curvas incorretas;<br \/>\nrasgada de ogivas horrorosas, esburacada de troneiras; informe e brutal, feito<br \/>\na testada de um hipogeu desenterrado; como se tentasse objetivar, a pedra<br \/>\ne cal, a pr\u00f3pria desordem do esp\u00edrito delirante.<\/p>\n<p>Era a sua obra-prima. Ali passava os dias, sobre os andaimes altos e bail\u00e9us<br \/>\nbamboantes. O povo enxameando embaixo, na az\u00e1fama do transporte dos<br \/>\nmateriais, estremecia muita vez ao v\u00ea-lo passar, lentamente, sobre as<br \/>\nt\u00e1buas flexuosas e oscilantes, impass\u00edvel, sem um tremor no<br \/>\nrosto bronzeado e r\u00edgido, feito uma cari\u00e1tide errante sobre<br \/>\no edif\u00edcio monstruoso.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltavam bra\u00e7os para a tarefa. .N\u00e3o cessavam refor\u00e7os<br \/>\ne recursos \u00e0 sociedade acampada no deserto. Metade, por assim dizer,<br \/>\ndas gentes de Tucano e de Itapicuru para l\u00e1 abalou. De Alagoinhas,<br \/>\nFeira de Santana e Santa Luzia, iam toda a sorte de aux\u00edlios. De Jeremoabo,<br \/>\nBom Conselho e Sim\u00e3o Dias, grandes fornecimentos de gados.<\/p>\n<p>N\u00e3o assombravam aos rec\u00e9m-vindos os quadros que se lhes antolhavam.<br \/>\nTinham-nos como obrigat\u00f3ria a prova desafiando-lhes a f\u00e9 inabal\u00e1vel.<\/p>\n<p>Estrada para o c\u00e9u<\/p>\n<p>Os ing\u00eanuos contos sertanejos desde muito Ihes haviam revelado as estradas<br \/>\nfacinadoramente trai\u00e7oeiras que levam ao inferno. Canudos, imunda ante-sala<br \/>\ndo para\u00edso, pobre peristilo dos c\u00e9us, devia ser assim mesmo<br \/>\n&#8212; repugnante, aterrador, horrendo&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, l\u00e1 tinham ido, muitos, alimentando esperan\u00e7as singulares.<br \/>\n&#8220;Os aliciadores da seita se ocupam em persuadir o povo de que todo aquele<br \/>\nque se quiser salvar precisa vir para Canudos, porque nos outros lugares tudo<br \/>\nest\u00e1 contaminado e perdido pela Rep\u00fablica. Ali, por\u00e9m,<br \/>\nnem \u00e9 preciso trabalhar, \u00e9 a terra da promiss\u00e3o, onde<br \/>\ncorre um rio de leite e s\u00e3o de cuscuz de milho as barrancas.&#8221;<\/p>\n<p>Chagavam.<\/p>\n<p>Deparavam o Vaza-Barris seco, ou empanzinado, volvendo apenas \u00e1guas<br \/>\nbarrentas das enchentes, entre os flancos entorroados das colinas&#8230;<\/p>\n<p>Tinham esvaecida a miragem feliz; mas n\u00e3o se despeavam no misticismo<br \/>\nlament\u00e1vel. . .<\/p>\n<p>As rezas<\/p>\n<p>Ao cair da tarde, a voz do sino apelidava os fi\u00e9is para a ora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCessavam os trabalhos. O povo adensava-se sob a latada coberta de folhagens.<br \/>\nDerramava-se pela pra\u00e7a. Ajoelhava-se.<\/p>\n<p>Difundia-se nos ares o coro da primiera reza.<\/p>\n<p>A noite sobrevinha, prestes, mal prenunciada pelo crep\u00fasculo sertanejo,<br \/>\nfugitivo e breve como o dos desertos.<\/p>\n<p>Fulguravam as fogueiras, que era costume acenderem-se acompanhando o per\u00edmetro<br \/>\ndo largo. E os seus clar\u00f5es vacilantes emolduravam a cena meio afogada<br \/>\nnas sombras.<\/p>\n<p>Consoante antiga praxe, ou, melhor, capricho de A. Conselheiro , a multid\u00e3o<br \/>\nrepartia-se, separados os sexos, em dois agrupamentos destacados . E em cada<br \/>\num deles s um baralhamento enorme de contrastes&#8230;<\/p>\n<p>Agrupamentos bizarros<\/p>\n<p>Ali estavam, gafadas de pecados velhos, serodiamente penitenciados, as beatas<br \/>\n&#8212; \u00eamulas das bruxas das igrejas &#8212; revestidas da capona preta lembrando<br \/>\na holandilha f\u00fanebre da Inquisi\u00e7\u00e3o: as &#8220;solteiras&#8221;<br \/>\n, termo que nos sert\u00f5es tem o pior dos significados, desenvoltas e<br \/>\ndespejadas, &#8220;soltas&#8221; na ganda\u00edce sem freios; as &#8220;mo\u00e7as<br \/>\ndonzelas&#8221; ou &#8220;mo\u00e7as damas&#8221;, recatadas e t\u00edmidas;<br \/>\ne honestas m\u00e3es de fam\u00edlias; nivelando-se pelas mesmas rezas<br \/>\n.<\/p>\n<p>Faces murchas de velhas &#8212; esgrouviados viragos em cuja boca deve ser um<br \/>\npecado mortal a prece; rostos austeros de matronas simples; fisionomias ing\u00eanuas<br \/>\nde raparigas cr\u00e9dulas, misturavam-se em conjunto estranho.<\/p>\n<p>Todas as idades, todos os tipos, todas as cores&#8230;<\/p>\n<p>Grenhas maltratadas de crioulas retintas; cabelos corredios e duros, de caboclas,<br \/>\ntrunfas escandalosas, de africanas madeixas castanhas e louras de brancas<br \/>\nleg\u00edtimas embaralhavam-se, sem uma fita, sem um grampo, sem uma flor.<br \/>\no toucado<\/p>\n<p>ou a coifa mais pobre. Nos vestu\u00e1rios singelos, de algod\u00e3o<br \/>\nou de chita, deselegantes e escorridos, n\u00e3o havia lobrigar-se a garridice<br \/>\nmenos pretensiosa: um xale de l\u00e3, uma mantilha ou um len\u00e7o de<br \/>\ncor, atenuando a monotonia das vestes encardidas quase reduzidas a saias e<br \/>\ncamisas estra\u00e7oadas, deixando expostos os peitos cobertos de ros\u00e1rios,<br \/>\nde ver\u00f4nicas, de cruzes, de figas, de amuletos, de dentes de animais,<br \/>\nde bentinhos, ou de n\u00f4minas encerrando &#8220;cartas santas&#8221;, \u00fanicos<br \/>\natavios que perdoava a ascese exigente do evangelizador.<\/p>\n<p>Aqui, ali, extremando-se a relan\u00e7os naqueles acervos de trapos, um<br \/>\nou outro rosto formos\u00edssimo, em que ressurgiam, impressionadoramente<br \/>\nsuplantando impressionadoramente a mis\u00e9ria e o sombreado das outras<br \/>\nfaces rebarbativas, as linhas dessa beleza imortal que o tipo judaico conserva<br \/>\nimut\u00e1vel atrav\u00e9s dos tempos. Madonas emparceiradas a f\u00farias,<br \/>\nbelos olhos profundos, em cujos negrumes afuzila o desvario m\u00edstico;<br \/>\nfrontes ador\u00e1veis, mal escampadas sob os cabelos em desalinho, eram<br \/>\nprofana\u00e7\u00e3o cruel afogando-se naquela matulagem repugnante que<br \/>\nexsudava do mesmo passo o fartum angulhento das carca\u00e7as imundas e<br \/>\no lento salmear dos &#8220;benditos&#8221; l\u00fagubres como respons\u00f3rios&#8230;<\/p>\n<p>As reveses, as fogueiras quase abafadas. vasquejando sob nuvens de fumo,<br \/>\ncrepitam, revivendo ao sopro da vira\u00e7\u00e3o noturna e chofrando<br \/>\nprec\u00edpites clar\u00f5es sobre a turba. Destaca-se, ent\u00e3o,<br \/>\nmais compacto, o grupo varonil dos homens, mostrando id\u00eanticos contrastes:<br \/>\nvaqueiros rudes e fortes, trocando, como her\u00f3is deca\u00eddos, a<br \/>\nbela armadura de couro pelo uniforme reles de brim americano; criadores, ricos<br \/>\nos outrora, felizes pelo abandono das boiadas e dos pousos animados; e menos<br \/>\nnumerosos, porem mais em destaque, gandaieiros de todos os matizes , recidivos<br \/>\nde todos os delitos.<\/p>\n<p>Na claridade amortecida dos braseiros esbatem-se os seus perfis interessantes<br \/>\ne v\u00e1rios. J\u00e1 s\u00e3o famosos alguns. Prestigia-os o renome<br \/>\nde arriscadas aventuras, que a imagina\u00e7\u00e3o popular romanceia<br \/>\ne amplia. Lugar-tenentes do ditador humilde, tomam armados a frente do ajuntamento.<br \/>\nMas na h\u00e1 distinguir-se-lhes neste instante, na atitude e no gesto,<br \/>\no desgarre provocante dos valent\u00f5es incorrig\u00edveis.<\/p>\n<p>De joelhos, m\u00e3os enclavinhadas sobre o peito, o olhar ten\u00e7oeiro<br \/>\ne mau e esvai-se-lhes contemplativo e vago. . .<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Ven\u00e2ncio, o terror da Volta Grande. deslumbra-se das dezoito<br \/>\nmortes cometidas e do espantalho dos processos \u00e0 revelia, dobrando,<br \/>\ncontrito, o fronte para a terra.<\/p>\n<p>Ladeia-o o afoito Paje\u00fa, rosto de bronze vincado de ap\u00f3fises<br \/>\nduras, mal aprumado o arcabou\u00e7o atl\u00e9tico. Est\u00e1tico, m\u00e3os<br \/>\npostas, volve, como as su\u00e7uaranas em noite de luar, olhar absorto para<br \/>\nos c\u00e9us. Logo ap\u00f3s o seu ajudante de ordens insepar\u00e1vel,<br \/>\nLalau, queda-se igualmente hum\u00edlimo, joelhos dobrados sobre o trabuco<br \/>\ncarregado. Chiquinho e Jo\u00e3o da Mota, dois irm\u00e3os aos quais estava<br \/>\nentregue o comando dos piquetes vigilantes nas entradas de Cocorob\u00f3<br \/>\ne Uau\u00e1, aparecem unidos, desfiando, cr\u00e9dulos, as contas do mesmo<br \/>\nros\u00e1rio. Pedr\u00e3o, cafuz entroncado e bruto, que com trinta homens<br \/>\nescolhidos guardava as vertentes da Canabrava, mal se distingue, afastado,<br \/>\npr\u00f3ximo de um digno \u00eamulo de tropelias. Est\u00eav\u00e3o,<br \/>\nnegro refor\u00e7ado, disforme, corpo tatuado \u00e0 bala e \u00e0 faca,<br \/>\nque lograra vingar centenas de conflitos gra\u00e7as \u00e0 disvulnerabilidade<br \/>\nrara. Era o guarda do Cambaio.<\/p>\n<p>Joaquim Tranca-p\u00e9s, outro esp\u00e9cimen de guerrilheiro sanhudo,<br \/>\nque velava no Angico, ombreia com o major Sariema, de estatura mais elegante,<br \/>\nlidador sem posi\u00e7\u00e3o fixa, destemeroso mas irrequieto, talhado<br \/>\npara as arrancadas subit\u00e2neas e atrevidas. Antep\u00f5e-se-lhe, no<br \/>\naspecto, o tragic\u00f4mico Raimundo Boca-torta, do Itapicuru, esp\u00e9cie<br \/>\nde fun\u00e2mbulo patibular, face contorcida em esgar ferino, como um traumatismo<br \/>\nhediondo. O \u00e1gil Chico Ema, a quem se confiara coluna volante de espias,<br \/>\nsurge junto a um cabecilha de primeira linha, Norberto, predestinado \u00e0<br \/>\nchefia suprema nos \u00faltimos dias de Canudos.<\/p>\n<p>Quinquim de Coiqui, um crente abnegado que alcan\u00e7aria a primeira vit\u00f3ria<br \/>\nsobre a tropa legal; Ant\u00f4nio Fogueteiro, do Pau Ferro, incans\u00e1vel<br \/>\naliciador de pros\u00e9litos; Jos\u00e9 Gamo; Fabr\u00edcio de Cocoboc\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>A massa restante dos fi\u00e9is volve-lhes, intermitentes, nos intervalos<br \/>\ndos kyries in\u00e7ados de silabadas incr\u00edveis, olhares carinhosos,<br \/>\nrefertos de esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>O velho Macambira, pouco afei\u00e7oado \u00e0 luta, de &#8220;cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nmole&#8221;, segundo o dizer expressivo dos matutos, mas esp\u00edrito infernal<br \/>\nno gizar tocaias incr\u00edveis; esp\u00e9cie de Imanus decr\u00e9pito,<br \/>\nmas perigoso ainda, tomba de bru\u00e7os no ch\u00e3o, tendo ao lado o<br \/>\nfilho, Joaquim, crian\u00e7a arrojada e imp\u00e1vida, que figuraria em<br \/>\nbelo lance de hero\u00edsmo, mais tarde.<\/p>\n<p>Alheio \u00e0 credulidade geral , um explorador solerte, Vila -Nova, finge<br \/>\nque ora, remascando cifras. E na frente de todos. O comandante da pra\u00e7a,<br \/>\no &#8220;chefe do povo&#8221;, o astuto Jo\u00e3o Abade, abrange no olhar<br \/>\ndominador a turba genuflexa.<\/p>\n<p>No meio destes perfis tr\u00e1gicos uma figura rid\u00edcula, Ant\u00f4nio<br \/>\nBeato, mulato espigado, magr\u00edssimo, adelga\u00e7ado pelos jejuns,<br \/>\nmuito da privan\u00e7a do Conselheiro; meio sacrist\u00e3o, meio soldado,<br \/>\nmisseiro de bacamarte, espiando, observando, indagando, insinuando-se jeitosamente<br \/>\npelas casas, esquadrinhando todos os recantos do arraial, e transmitindo a<br \/>\ntodo instante ao chefe supremo, que raro abandonava o santu\u00e1rio, as<br \/>\nnovidades existentes. Completa-o, como um prolongamento, Jos\u00e9 F\u00e9lix,<br \/>\no Taramela, quinhoneiro da mesma predile\u00e7\u00e3o, guarda das igrejas,<br \/>\nchaveiro e mordomo do Conselheiro, tendo sob as ordens as beatas de vestidos<br \/>\nazuis cingidas de cordas de linho, encarregadas da roupa, da refei\u00e7\u00e3o<br \/>\nex\u00edgua daquele e de acenderem diariamente as fogueiras para as rezas.<\/p>\n<p>E um tipo ador\u00e1vel, Manuel Quadrado, olhando para tudo aquilo com<br \/>\nindiferen\u00e7a nobilitadora. Era o curandeiro; o m\u00e9dico. Na multid\u00e3o<br \/>\nsuspeita a natureza tinha, afinal, um devoto. alheio \u00e0 desordem, vivendo<br \/>\nnum investigar perene pelas drogarias primitivas das matas.<\/p>\n<p>O &#8220;beija&#8221; das imagens<\/p>\n<p>As rezas, em geral, prolongavam-se. Percorridas todas as escalas das ladainhas,<br \/>\ntodas as contas dos ros\u00e1rios, rimados todos os benditos, restava ainda<br \/>\na cerim\u00f4nia final do culto, remate obrigado daquelas.<\/p>\n<p>Era o &#8220;beija&#8221; das imagens.<\/p>\n<p>Institu\u00edra-o o Conselheiro, completando no ritual fetichista a transmuta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo cristianismo incompreendido.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Beatinho, o altareiro, tomava de um crucifixo, contemplava-o<br \/>\ncom o olhar dilu\u00eddo de um faquir em \u00eaxtase; aconchegava-o do<br \/>\npeito, prostrando-se profundamente; imprimia-lhe \u00f3sculo prolongado;<br \/>\ne entregava-o, com gesto amolentado, ao fiel mais pr\u00f3ximo, que lhe<br \/>\ncopiava, sem variantes, a m\u00edmica reverente. Depois erguia uma virgem<br \/>\nsanta, reeditando os mesmos atos; depois o Bom Jesus. E l\u00e1 vinham,<br \/>\nsucessivamente, todos os santos, e registros, e ver\u00f4nicas, e cruzes,<br \/>\nvagarosamente, entregues \u00e0 multid\u00e3o sequiosa, passando, um a<br \/>\num , por todas as m\u00e3os, por todas as bocas e por todos os peitos. Ouviam-se<br \/>\nos beijos chirriantes, in\u00fameros e, num crescendo, extinguindo-lhes<br \/>\na asson\u00e2ncia surda, o vozear indistinto das pr\u00e9dicas balbuciadas<br \/>\n\u00e0 meia voz, dos mea-culpas ansiosamente socados nos peitos arfantes<br \/>\ne das primeiras exclama\u00e7\u00f5es abafadas, reprimidas ainda, para<br \/>\nque se n\u00e3o perturbasse a solenidade.<\/p>\n<p>O misticismo de cada um, por\u00e9m, ia-se a pouco e pouco confundindo<br \/>\nna nevrose coletiva. De espa\u00e7o a espa\u00e7o a agita\u00e7\u00e3o<br \/>\ncrescia, como se o tumulto invadisse a assembl\u00e9ia, adstrito \u00e0s<br \/>\nf\u00f3rmulas de programa preestabelecido, \u00e0 medida que passavam<br \/>\nas sagradas rel\u00edquias. Por fim as \u00faltimas sa\u00edam, entregues<br \/>\npelo Beato, quando as primeiras alcan\u00e7avam as derradeiras filas dos<br \/>\ncrentes. E cumulava-se a ebriez e o estonteamento daquelas almas simples.<br \/>\nDesbordavam as emo\u00e7\u00f5es isoladas, confundindo-se repentinamente,<br \/>\navolumando-se, presas no cont\u00e1gio irreprim\u00edvel da mesma febre;<br \/>\ne, como se as for\u00e7as sobrenaturais, que o animismo ing\u00eanuo emprestava<br \/>\n\u00e0s imagens, penetrassem afinal as consci\u00eancias, desequilibrando-as<br \/>\nem violentos abalos, salteava \u00e0 multid\u00e3o um desvairamento irreprim\u00edvel.<br \/>\nEstrugiam exclama\u00e7\u00f5es entre piedosas e col\u00e9ricas; desatavam-se<br \/>\nmovimentos impulsivos, de iluminados; estalavam gritos lancinantes, de desmaios.<br \/>\nApertando ao peito as imagens babujadas de saliva, mulheres alucinadas tombavam<br \/>\nescabujando nas contor\u00e7\u00f5es violentas da histeria, crian\u00e7as<br \/>\nassustadi\u00e7as desandavam em choros; e, invadido pela mesma aura de loucura,<br \/>\no grupo varonil dos lutadores, dentre o estr\u00e9pito, e os tinidos, e<br \/>\no estardalha\u00e7o das armas entrebatidas, vibrava no mesmo ictus assombroso,<br \/>\nem que explodia, desapoderadamente, o misticismo b\u00e1rbaro&#8230;<\/p>\n<p>Mas de repente o tumulto cessava.<\/p>\n<p>Todos se quedavam ofegantes, olhares presos no extremo da latada junto \u00e0<br \/>\nporta do santu\u00e1rio, aberta e enquadrando a figura singular de Ant\u00f4nio<br \/>\nConselheiro.<\/p>\n<p>Este abeirava-se de uma mesa pequena. E pregava&#8230;<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o pregar contra a Rep\u00fablica ?<\/p>\n<p>Pregava contra a Rep\u00fablica; \u00e9 certo.<\/p>\n<p>O antagonismo era inevit\u00e1vel. Era um derivativo \u00e0 exacerba\u00e7\u00e3o<br \/>\nm\u00edstica; uma variante for\u00e7ada ao del\u00edrio religioso.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o traduzia o mais p\u00e1lido intuito pol\u00edtico; o jagun\u00e7o<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o inapto para apreender a forma republicana como a mon\u00e1rquico-constitucional.<\/p>\n<p>Ambas lhe s\u00e3o abstra\u00e7\u00f5es inacess\u00edveis. \u00c9<br \/>\nespontaneamente advers\u00e1rio de ambas. Est\u00e1 na fase evolutiva<br \/>\nem que s\u00f3 \u00e9 concept\u00edvel o imp\u00e9rio de um chefe<br \/>\nsacerdotal ou guerreiro.<\/p>\n<p>Insistamos sobre esta verdade: a guerra de Canudos foi um refluxo em nossa<br \/>\nhist\u00f3ria. Tivemos, inopinadamente, ressurreta e em armas em nossa frente,<br \/>\numa sociedade velha, uma sociedade morta, galvanizada por um doido. N\u00e3o<br \/>\na conhecemos. N\u00e3o pod\u00edamos conhec\u00ea-la. Os aventureiros<br \/>\ndo s\u00e9culo 17, por\u00e9m, nela topariam rela\u00e7\u00f5es antigas,<br \/>\nda mesma sorte que os iluminados da Idade M\u00e9dia se sentiriam \u00e0<br \/>\nvontade, neste s\u00e9culo, entre os demonopatas de Varzenis ou entre os<br \/>\nStundistas da R\u00fassia. Porque essas psicoses epid\u00eamicas despontam<br \/>\nem todos os tempos e em todos os lugares como anacronismos palmares, contrastes<br \/>\ninevit\u00e1veis na evolu\u00e7\u00e3o desigual dos povos, patentes<br \/>\nsobretudo quando um largo movimento civilizador lhes impele vigorosamente<br \/>\nas camadas superiores.<\/p>\n<p>Os perfectionists exagerados rompem, ent\u00e3o, l\u00f3gicos, dentre<br \/>\no industrialismo triunfante da Am\u00e9rica do Norte, e a sombria Sturmisch,<br \/>\ninexplicavelmente inspirada pelo g\u00eanio de Klopstock, comparte o ber\u00e7o<br \/>\nda renascen\u00e7a alem\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s o fen\u00f4meno foi porventura ainda mais explic\u00e1vel.<\/p>\n<p>Vivendo quatrocentos anos no litoral vast\u00edssimo, em que palejam reflexos<br \/>\nda vida civilizada, tivemos de improviso, como heran\u00e7a inesperada,<br \/>\na Rep\u00fablica. Ascendemos, de chofre, arrebatados na caudal dos ideais<br \/>\nmodernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no \u00e2mago do pa\u00eds,<br \/>\num ter\u00e7o da nossa gente. Iludidos por uma civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde empr\u00e9stimo; respigando, em faina cega de copistas, tudo o que de<br \/>\nmelhor existe nos c\u00f3digos org\u00e2nicos de outras na\u00e7\u00f5es,<br \/>\ntornamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as exig\u00eancias<br \/>\nda nossa pr\u00f3pria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso<br \/>\nmodo de viver e o daqueles rudes patr\u00edcios mais estrangeiros nesta<br \/>\nterra do que os imigrantes da Europa. Porque n\u00e3o no-los separa um mar,<br \/>\nseparam-no-los tr\u00eas s\u00e9culos . . .<\/p>\n<p>E quando pela nossa imprevid\u00eancia ineg\u00e1vel deixamos que entre<br \/>\neles se formasse um n\u00facleo de man\u00edacos, n\u00e3o vimos o tra\u00e7o<br \/>\nsuperior do acontecimento. Abreviamos o esp\u00edrito ao conceito estreito<br \/>\nde uma preocupa\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Tivemos um espanto comprometedor<br \/>\nante aquelas aberra\u00e7\u00f5es monstruosas; e, com arrojo digno de<br \/>\nmelhores causas, batemo-los a carga de baionetas. reeditando por nossa vez<br \/>\no passado, numa &#8220;entrada&#8221; ingl\u00f3ria, reabrindo nas paragens<br \/>\ninfelizes as trilhas apagadas das bandeiras&#8230;<\/p>\n<p>Vimos no agitador sertanejo, do qual a revolta era um aspecto da pr\u00f3pria<br \/>\nrebeldia contra a ordem natural, advers\u00e1rio s\u00e9rio, estr\u00eanuo<br \/>\npaladino do extinto reg\u00edmen, capaz de derruir as institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nnascentes.<\/p>\n<p>E Canudos era a Vend\u00e9ia&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, quando nos \u00faltimos dias do arraial foi permitido o ingresso<br \/>\nnos casebres estra\u00e7oados, salteou o animo dos triunfadores decep\u00e7\u00e3o<br \/>\ndolorosa. A vit\u00f3ria duramente alcan\u00e7ada dera-lhes direito \u00e0<br \/>\ndevassa dos lares em ru\u00ednas. Nada se eximiu \u00e0 curiosidade insaci\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ora, no mais pobre dos saques que registra a Hist\u00f3ria, onde foram<br \/>\ndespojos opimos imagens mutiladas e ros\u00e1rios de coco, o que mais acirrava<br \/>\na cobi\u00e7a dos vitoriosos eram as cartas, quaisquer escritos e, principalmente<br \/>\nos desgraciosos versos encontrados. Pobres pap\u00e9is, em que a ortografia<br \/>\nb\u00e1rbara corria parelhas com os mais ing\u00eanuos absurdos e a escrita<br \/>\nirregular e feia parecia fotografar o pensamento torturado, eles resumiam<br \/>\na psicologia da luta. Valiam tudo porque nada valiam. Registravam as pr\u00e9dicas<br \/>\nde Ant\u00f4nio Conselheiro; e, lendo-as, p\u00f5e-se de manifesto quanto<br \/>\neram elas afinal in\u00f3cuas, refletindo o turvamento intelectual de um<br \/>\ninfeliz. Porque o que nelas vibra em todas as linhas \u00e9 a mesma religiosidade<br \/>\ndifusa e incongruente, bem pouca significa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica,<br \/>\npermitindo emprestar-se \u00e0s tend\u00eancias messi\u00e2nicas expostas.<br \/>\nO rebelado arremetia com a ordem constitu\u00edda porque se lhe afigurava<br \/>\niminente o reino de del\u00edcias prometido. Prenunciava-o a Rep\u00fablica<br \/>\n&#8212; pecado mortal de um povo &#8211;heresia suprema indicadora do triunfo ef\u00eamero<br \/>\ndo anti-Cristo. Os rudes poetas, rimando-lhe os desvairos em quadras incolores,<br \/>\nsem a espontaneidade forte dos improvisos sertanejos, deixaram bem vivos documentos<br \/>\nnos versos disparatados, que deletreamos pensando, como Renan, que h\u00e1,<br \/>\nrude e eloq\u00fcente, a segunda B\u00edblia do g\u00eanero humano, nesse<br \/>\ngaguejar do povo.<\/p>\n<p>Copiemos ao acaso alguns:<\/p>\n<p>&#8220;Sahiu D. Pedro segundo<\/p>\n<p>&#8220;Para o reino de Lisboa<\/p>\n<p>&#8220;Acabosse a monarquia<\/p>\n<p>&#8220;O Brasil ficou at\u00f4a !<\/p>\n<p>A Rep\u00fablica era a impiedade:<\/p>\n<p>&#8220;Garantidos pela lei<\/p>\n<p>&#8220;Aquelles malvados est\u00e3o<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s temos a lei de Deus<\/p>\n<p>&#8220;Elles tem a lei do c\u00e3o !<\/p>\n<p>&#8220;Bem desgra\u00e7ados s\u00e3o elles<\/p>\n<p>&#8220;Pra fazerem a elei\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&#8220;Abatendo a lei de Deus<\/p>\n<p>&#8220;Suspendendo a lei do c\u00e3o !<\/p>\n<p>&#8220;Casamento v\u00e3o fazendo<\/p>\n<p>&#8220;S\u00f3 para o povo iludir<\/p>\n<p>&#8221;V\u00e3o casar o povo todo<\/p>\n<p>&#8220;No casamento civil!<\/p>\n<p>O governo demon\u00edaco, por\u00e9m, desaparecer\u00e1 em breve:<\/p>\n<p>&#8220;D. Sebasti\u00e3o j\u00e1 chegou<\/p>\n<p>&#8220;E traz muito regimento<\/p>\n<p>&#8220;Acabando com o civil<\/p>\n<p>&#8220;E fazendo o casamento !<\/p>\n<p>&#8220;O Anti-Cristo nasceu<\/p>\n<p>&#8220;Para o Brasil governar<\/p>\n<p>&#8220;Mas ahi est\u00e1 o Conselheiro<\/p>\n<p>&#8220;Para delle nos livrar!<\/p>\n<p>&#8221; Visita nos vem fazer<\/p>\n<p>&#8220;Nosso rei D. Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Coitado daquelle pobre<\/p>\n<p>&#8220;Que estiver na lei do c\u00e3o!<\/p>\n<p>A lei do c\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Este era o apotegma mais elevado da seita. Resumia-lhe o programa. Dispensa<br \/>\ntodos os coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>Eram, realmente, frag\u00edlimos aqueles pobres rebelados&#8230;<\/p>\n<p>Requeriam outra rea\u00e7\u00e3o. Obrigavam-nos a outra luta.<\/p>\n<p>Entretanto enviamos-lhes o legislador Comblain; e esse argumento \u00fanico,<br \/>\nincisivo, supremo e moralizador &#8212; a bala.<\/p>\n<p>Mas antes tentou-se empresa mais nobre e mais pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Uma miss\u00e3o abortada<\/p>\n<p>Em 1895, em certa manh\u00e3 de maio, no alto de um contraforte da Favela,<br \/>\napareceu, ladeada de duas outras, figura estranha \u00e0queles lugares.<br \/>\nEra um mission\u00e1rio capuchinho.<\/p>\n<p>Considerou por instantes o arraial imenso, embaixo. Desceu devagar a encosta.<\/p>\n<p>Daniel vai penetrar na furna dos le\u00f5es ..<\/p>\n<p>Acompanhemo-lo.<\/p>\n<p>Seguido de frei Caetano de S. L\u00e9u e do vig\u00e1rio do Cumbe, frei<br \/>\nJo\u00e3o Evangelista de Monte-Marciano passa o rio e abeira-se dos primeiros<br \/>\ncasebres. Alcan\u00e7a a pra\u00e7a desbordante de povo &#8220;perto de<br \/>\nmil homens armados de bacamartes, garrucha, fac\u00e3o etc.&#8221;; e tem<br \/>\na impress\u00e3o de haver ca\u00eddo, de s\u00fabito, no meio de um<br \/>\nacampamento de bedu\u00ednos. N\u00e3o se lhe entibia, por\u00e9m, o<br \/>\n\u00e2nimo blindado pela fortaleza tranq\u00fcila dos ap\u00f3stolos. Passa,<br \/>\nimpass\u00edvel, por diante da capela, em cuja porta se adensam mais compactos<br \/>\nagrupamentos. Envereda logo por um beco tortuoso. Atravessa-o, seguido dos<br \/>\ncompanheiros de apostolado. Enquanto \u00e0s portas os moradores surpreendidos<br \/>\nsaem a v\u00ea-los, &#8220;ar irrequieto e o olhar ao mesmo tempo indagador<br \/>\ne sinistro, denunciando consci\u00eancias perturbadas e inten\u00e7\u00f5es<br \/>\nhostis&#8221;.<\/p>\n<p>Chega por fim \u00e0 casa do velho vig\u00e1rio do Cumbe (que n\u00e3o<br \/>\nse abria h\u00e1 mais de ano, porque a tanto remontava a sua aus\u00eancia,<br \/>\nressentido por desacato que sofrera) e mal se refaz da jornada extenuadora.<br \/>\nComoviam-no o espet\u00e1culo dos infelizes que acabava de encontrar armados<br \/>\nat\u00e9 os dentes, e o quadro emocionante daquela Tebaida turbulenta.<\/p>\n<p>Antolham-se-lhe novas impress\u00f5es desagrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>A breve trecho passam-lhe \u00e0 porta oito defuntos levados sem sinal<br \/>\nalgum religioso para o cemit\u00e9rio ao fundo da igreja velha: oito redes<br \/>\nde caro\u00e1 sob que arcavam carregadores ofegantes passando, r\u00e1pidos,<br \/>\nansiosos por alij\u00e1-las, como se na cidade sinistra o morto fosse um<br \/>\ndesertor do mart\u00edrio, indigno da aten\u00e7\u00e3o mais breve.<\/p>\n<p>Entrementes, correra a nova da chegada, sem que o Conselheiro se abalasse<br \/>\nao encontro dos emiss\u00e1rios da Igreja. Permanecera indiferente, assistindo<br \/>\naos trabalhos de reconstru\u00e7\u00e3o da capela. Procuraram-no, ent\u00e3o,<br \/>\nos padres.<\/p>\n<p>Deixam a casa. Tomam de novo pela viela sinuosa. Entram na pra\u00e7a.<br \/>\nAtravessam-na, sem que o menor brado hostil os perturbe, e ao chegarem \u00e0<br \/>\nsede dos trabalhos &#8220;os magotes de homens cerram fileiras junto \u00e0<br \/>\nporta da capela&#8221; abrindo-lhes extensa ala.<\/p>\n<p>Do ajuntamento temeroso parte animadora sauda\u00e7\u00e3o de paz: &#8220;Louvado<br \/>\nseja Nosso Senhor Jesus Cristal&#8221; \u00e0 qual era de praxe a resposta:<\/p>\n<p>&#8220;Para sempre seja louvado t\u00e3o bom Senhor!&#8221;<\/p>\n<p>Entram no pequeno templo e acham-se diante de Ant\u00f4nio Conselheiro,<br \/>\nque os acolhe com boa sombra; e, com a placabilidade habitual, dirige-lhes<br \/>\na mesma sauda\u00e7\u00e3o pac\u00edfica.<\/p>\n<p>Retrato do Conselheiro<\/p>\n<p>&#8220;Vestia t\u00fanica de azul\u00e3o, tinha a cabe\u00e7a descoberta<br \/>\ne empunhava um bord\u00e3o. Os cabelos crescidos sem nenhum trato, a ca\u00edrem<br \/>\nsobre os ombros; as longas barbas grisalhas mais para brancas; os olhos fundos<br \/>\nraramente levantados para fitar algu\u00e9m; o rosto comprido de uma palidez<br \/>\nquase cadav\u00e9rica; o porte grave e ar penitente&#8221; impressionaram<br \/>\ngrandemente os rec\u00e9m-vindos .<\/p>\n<p>Reanima-os, contudo, recep\u00e7\u00e3o quase cordial. De encontro ao<br \/>\nque previam, o Conselheiro parece aprazer-se da visita. Quebra a habitual<br \/>\nreserva e o obstinado mutismo. Informa-os do andamento dos trabalhos; convida-os<br \/>\na visit\u00e1-los; e presta-se de boa fei\u00e7\u00e3o a servir-lhes<br \/>\nde guia pelos repartimentos do edif\u00edcio. E l\u00e1 seguem todos,<br \/>\nvagarosos, guiados pelo velho solit\u00e1rio que or\u00e7ava nesse tempo<br \/>\ndos sessenta anos, e cujo corpo franzino, arcado sobre o bord\u00e3o, avan\u00e7ava<br \/>\nem andar remorado, sacudido de instante a instante por s\u00fabitos acessos<br \/>\nde tosse&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o se podiam exigir melhores preliminares \u00e0 miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Aquele agasalho era meia vit\u00f3ria. Mas coube ao mission\u00e1rio<br \/>\nanul\u00e1-la, desajeitadamente. Ao atingirem o coro, como se achassem um<br \/>\ntanto afastados do grosso dos fi\u00e9is, que os seguiam a dist\u00e2ncia,<br \/>\npareceu-lhe que a oportunidade era de moldo para interpela\u00e7\u00e3o<br \/>\ndecisiva.<\/p>\n<p>Era uma precipita\u00e7\u00e3o, sobre in\u00fatil, contraproducente.<br \/>\nO insucesso sobreveio, inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>. . . &#8221; aproveitei a ocasi\u00e3o de estarmos quase a s\u00f3s e<br \/>\ndisse-lhe que o fim a que eu ia era todo de paz e que assim muito estranhava<br \/>\ns\u00f3 enxergar ali homens armados e n\u00e3o podia deixar de condenar<br \/>\nque se reunissem em lugar t\u00e3o pobre tantas fam\u00edlias entregues<br \/>\n\u00e0 ociosidade, num abandono e mis\u00e9rias tais que diariamente se<br \/>\ndavam de oito a nove \u00f3bitos. Por isto, de ordem, e em nome do sr. arcebispo,<br \/>\nia abrir uma santa miss\u00e3o e aconselhar o povo a dispersar-se e a voltar<br \/>\naos lares e ao trabalho no interesse de cada um e para o bem geral.&#8221;<\/p>\n<p>Esta intransig\u00eancia, este mal sopitado assomo, partindo a finura diplom\u00e1tica<br \/>\nnas arestas r\u00edgidas do dogma, n\u00e3o teria, certo, o benepl\u00e1cito<br \/>\nde S. Greg\u00f3rio &#8212; o Grande &#8212; a quem n\u00e3o escandalizaram os ritos<br \/>\nb\u00e1rbaros dos sax\u00f4nios; e foi um desafio imprudente.<\/p>\n<p>&#8220;Enquanto isto dizia, a capela e o coro enchiam-se de gente e ainda<br \/>\nn\u00e3o acabara eu de falar e j\u00e1 eles a uma voz clamavam:<\/p>\n<p>N\u00f3s queremos acompanhar o nosso Conselheiro !&#8221;<\/p>\n<p>Era a desordem iminente. Sobresteve-a, por\u00e9m, a placidez admir\u00e1vel,<br \/>\na mansuetude &#8212; por que n\u00e3o dizer crist\u00e3 ? &#8212; de Ant\u00f4nio<br \/>\nConselheiro. Que o pr\u00f3prio mission\u00e1rio fale:<\/p>\n<p>&#8220;Este os fez calar, e voltando-se para mim disse:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 para minha guarda que tenho comigo estes homens armados, porque<br \/>\nV. V.Rev.ma h\u00e1 de saber que a pol\u00edcia atacou-me e quis matar-me<br \/>\nno lugar chamado Macet\u00e9, onde houve mortes de um e outro lado. No tempo<br \/>\nda monarquia deixei-me prender, porque reconhecia o governo, hoje n\u00e3o,<br \/>\nporque n\u00e3o reconhe\u00e7o a Rep\u00fablica.&#8221;<\/p>\n<p>Esta explica\u00e7\u00e3o, de forma respeitosa e clara, n\u00e3o satisfez<br \/>\no capuchinho, que tinha a coragem de um crente mas n\u00e3o o tato fin\u00edssimo<br \/>\nde um ap\u00f3stolo. Contraveio, parafraseando a Prima-Petri:<\/p>\n<p>&#8220;&#8211; Senhor, se \u00e9 cat\u00f3lico, deve considerar que a Igreja<br \/>\ncondena as revoltas e, aceitando todas as formas de governo. ensina que os<br \/>\npoderes constitu\u00eddos regem os povos em nome de Deus.&#8221;<\/p>\n<p>Era quase, sem variantes, a pr\u00f3pria frase de S. Paulo, em pleno reinado<br \/>\nde Nero&#8230;<\/p>\n<p>E continuou:<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 assim em toda parte: a Franca, que \u00e9 uma das principais<br \/>\nna\u00e7\u00f5es da Europa, foi monarquia por muitos s\u00e9culos, mas<br \/>\nh\u00e1 mais de vinte anos \u00e9 Rep\u00fablica; e todo o povo, sem<br \/>\nexce\u00e7\u00e3o dos monarquistas de l\u00e1, obedece \u00e0s autoridades<br \/>\ne \u00e0s leis do governo.&#8221;<\/p>\n<p>Fr. Monte-Marciano, nesse remoer nul\u00edssimas considera\u00e7\u00f5es<br \/>\npol\u00edticas, insciente da significa\u00e7\u00e3o real da desordem<br \/>\nsertaneja, diz por si mesmo as causas do insucesso. Desdobrou, afinal, inteira,<br \/>\na estatura an\u00f4mala de propagandista, faltando apenas ter sob as dobras<br \/>\ndo h\u00e1bito a escopeta do cura de Santa Cruz:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s, mesmo aqui no Brasil, a principiar do bispo at\u00e9<br \/>\no \u00faltimo cat\u00f3lico, reconhecemos o governo atual; somente v\u00f3s<br \/>\nn\u00e3o v\u00f3s quereis sujeitar ?<\/p>\n<p>\u00c9 mau pensar esse, e uma doutrina errada a vossa!&#8217;<\/p>\n<p>A frase final vibrou como uma ap\u00f3strofe. De dentro da multid\u00e3o<br \/>\npartiu pronta, a r\u00e9plica arrogante:<\/p>\n<p>&#8220;V.Rev.ma \u00e9 que tem uma falsa doutrina e n\u00e3o o nosso Conselheiro!&#8221;<\/p>\n<p>Desta vez ainda o tumulto. prestes a explodir, retraiu-se a um gesto lento<br \/>\ndo Conselheiro que. voltando-se para o mission\u00e1rio, disse<\/p>\n<p>&#8221; &#8212; Eu n\u00e3o desarmo a minha gente, mas tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\nestorvo a santa miss\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Esta iniciava-se agora sob maus ausp\u00edcios. Apesar disto correu em<br \/>\npaz at\u00e9 ao quarto dia, e concorrid\u00edssima: cerca de cinco mil<br \/>\nassistentes, entre os quais todos os homens v\u00e1lidos se destacavam :<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; carregando bacamartes, garruchas, espingardas, pistolas c fac\u00f5es,<br \/>\nde cartucheiras \u00e0 cinta e gorro \u00e0 cabe\u00e7a, na atitude<br \/>\nde quem vai \u00e0 guerra.&#8221;<\/p>\n<p>Assistia-a tamb\u00e9m o Conselheiro, ao lado do altar, atento e impass\u00edvel<br \/>\ncomo um fiscal severo, &#8220;deixando escapar alguma vez gestos de desaprova\u00e7\u00e3o<br \/>\nque os maiores da grei confimavam com incisivos protestos.&#8221;<\/p>\n<p>Estes, contudo, ao que parece, n\u00e3o tinham gravidade alguma. Apenas<br \/>\num ou outro exaltado, violando velho privil\u00e9gio, se permitia sulcar<br \/>\nde apartes a orat\u00f3ria sagrada.<\/p>\n<p>Assim que, praticando o pregador sobre o jejum, como meio de mortificar a<br \/>\nmat\u00e9ria e refrear as paix\u00f5es, pela sobriedade, sem entretanto<br \/>\nexigir demoradas ang\u00fastias, porque &#8220;podia-se jejuar muitas vezes<br \/>\ncomendo carne ao jantar e tomando, pela manh\u00e3, uma ch\u00e1vena de<br \/>\ncaf\u00e9&#8221;, tolheu-lhe o serm\u00e3o irreverente e ir\u00f4nica<br \/>\ncontradita:<\/p>\n<p>&#8212; Ora ! isto n\u00e3o \u00e9 jejum, \u00e9 comer a fartar !&#8221;<\/p>\n<p>No quarto dia da miss\u00e3o, por\u00e9m, reincidindo o capuchinho no<br \/>\ndescabido tema pol\u00edtico pioraram as coisas. Come\u00e7ou intensa<br \/>\npropaganda contra a prega\u00e7\u00e3o do padre ma\u00e7on protestante<br \/>\ne republicano&#8221; &#8220;emiss\u00e1rio do governo e que de intelig\u00eancia<br \/>\ncom este ia abrir caminho \u00e0 tropa que viria de surpresa prender o Conselheiro<br \/>\ne exterminar todos eles.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o se temeu aquele da rebeli\u00e3o emergente. Afrontou-se com<br \/>\nela acirrando-a temerariamente. Escolheu como assunto da pr\u00e9dica subsequente<br \/>\no homic\u00eddio, e, sem se furtar aos perigos da arrojada tese, falando<br \/>\nem corda na casa do enforcado espraiou se em alus\u00f5es imprudentes que<br \/>\ntemos por escusado registrar.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o foi imediata. Chefiava-a Jo\u00e3o Abade, cujo apito<br \/>\nvibrando e na pra\u00e7a, congregou todos os fi\u00e9is. O caso passou<br \/>\nem 20 de maio, s\u00e9timo da miss\u00e3o. Reunidos arrancaram dali em<br \/>\nalgazarra estrepitante de vivas ao Bom Jesus e ao Divino Esp\u00edrito Santo,<br \/>\nna dire\u00e7\u00e3o da casa em que se acolhiam os visitantes, fazendo-lhes<br \/>\nsentir que deles n\u00e3o careciam para a salva\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>Estava extinta a miss\u00e3o. Excetuando &#8220;55 casamentos de amancebados,<br \/>\n102 batizados e mais de 400 confiss\u00f5es&#8221; , o resultado fora nulo,<br \/>\nou antes, negativo.<\/p>\n<p>Maldi\u00e7\u00e3o sobre a Jerusal\u00e9m de taipa<\/p>\n<p>O mission\u00e1rio &#8220;como outrora os ap\u00f3stolos \u00e0s portas<br \/>\ndas cidades que os repeliam, sacudiu o p\u00f3 das sand\u00e1lias&#8221;<br \/>\napelando para o veredictum tremendo da Justi\u00e7a Divina&#8230;<\/p>\n<p>E abalou, furtando-se a seguro pelos becos, acompanhado dos dois s\u00f3cios<br \/>\nde reveses&#8230;<\/p>\n<p>Galga a estrada coleante, entre os declives da Favela.<\/p>\n<p>Atinge o alto da montanha. P\u00e1ra um momento&#8230;<\/p>\n<p>Considera pela \u00faltima vez o povoado, embaixo&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 invadido de s\u00fabita onda de tristeza. Equipara-se &#8221; ao<br \/>\nDivino Mestre diante de ,lerusal\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Mas amaldi\u00e7oou&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Euclides da Cunha Cap\u00edtulo I Preliminares. A entrada do sert\u00e3o. Terra ignota. Em caminho para Monte\u00a0Santo. Primeiras impress\u00f5es. Um sonho de ge\u00f3logo. O Planalto Central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiri\u00e7as,\u00a0altas e abruptas. 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