{"id":95741,"date":"2017-01-20T10:41:58","date_gmt":"2017-01-20T12:41:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95741"},"modified":"2018-02-01T14:32:46","modified_gmt":"2018-02-01T16:32:46","slug":"contrastes-e-confrontos-euclides-da-cunha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/contrastes-e-confrontos-euclides-da-cunha","title":{"rendered":"Contrastes e Confrontos &#8211; Euclides da Cunha"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">HER\u00d3IS E BANDIDOS <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">O MARECHAL DE FERRO<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">O KAISER<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">A ARC\u00c1DIA DA ALEMANHA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">A VIDA DAS EST\u00c1TUAS<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">ANCHIETA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">GARIMPEIROS<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">UMA COM\u00c9DIA HIST\u00d3RICA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#9\">PLANO DE UMA CRUZADA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">A MISS\u00c3O DA R\u00daSSIA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#11\">TRANSPONDO O HIMALAIA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#12\">CONJECTURAS<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#13\">CONTRASTES E CONFRONTOS<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#14\">CONFLITO INEVIT\u00c1VEL<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#15\">CONTRA OS CAUCHEIROS<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#116\">A ESFINGE<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#17\">UM VELHO PROBLEMA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#18\">AO LONGO DE UMA ESTRADA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#19\">CIVILIZA\u00c7\u00c3O<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h4>Euclides da Cunha<\/h4>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>HER\u00d3IS E BANDIDOS<\/h2>\n<p>Num dia de setembro de 1820 chegou \u00e0 tristonha Assun\u00e7\u00e3o,\u00a0do Dr. Francia, um prisioneiro ilustre e sexagen\u00e1rio, a quem, entretanto,\u00a0n\u00e3o se concedera o preito da mais diminuta escolta. Vinha s\u00f3;\u00a0passou, a cavalo, pelas longas ruas retil\u00edneas e retangularmente cruzadas,\u00a0entre janelas de grades, \u00e0 maneira de extensos corredores de uma pris\u00e3o\u00a0vast\u00edssima, e descavalgou no largo onde se erige o pal\u00e1cio do\u00a0governo.<\/p>\n<p>Viu-se ent\u00e3o que a idade o n\u00e3o abatia. Num desempeno de rapaz\u00a0atl\u00e9tico aprumava-se-lhe a estatura elegant\u00edssima entre as voltas\u00a0do poncho desbotado que lhe desciam ate. \u00e0s botas de viagem, flex\u00edveis\u00a0e armadas das rosetas largas das esporas retinindo ao compasso de um andar\u00a0seguro.<\/p>\n<p>Grande sombrero de abas derribadas cobria-lhe a meio a face magra; e naquela\u00a0lace r\u00edgida, cindida de linhas incisivas e firmes &#8211; como se um buril\u00a0maravilhoso ali rasgasse a imagem da bravura, num bloco palpitante de m\u00fasculos\u00a0e nervos &#8211; um olhar dominador e duro, velado de tristeza indescrit\u00edvel.<\/p>\n<p>Era Jos\u00e9 Artigas, o motim feito homem, o primeiro molde dos caudilhos,<br \/>\nprimeiro resultado dessa combina\u00e7\u00e3o h\u00edbrida e anacr\u00f4nica<br \/>\nde D. Quixote, do Cid e de Hernani &#8211; a idealiza\u00e7\u00e3o doentia,<br \/>\na coragem esplendorosa e o banditismo rom\u00e2ntico &#8211; indo perpetuar na<br \/>\nAm\u00e9rica a ociosidade turbulenta, a monomania da gl\u00f3ria e o anelo<br \/>\nde combates que sacrificaram a Espanha do s\u00e9culo XVII.<br \/>\nCorrera-lhe a vida aventurosa e tumultuaria. Chefe de contrabandistas arremessado<br \/>\n\u00e0 ventura pelas cochilhas da Banda Oriental e do Rio Grande, transformara-se<br \/>\nlogo depois, com o mais doloroso espanto dos quadrilheiros condut\u00edcios,<br \/>\nem capit\u00e3o de carabineiros da metr\u00f3pole que o captara, impondo-lhe<br \/>\no exercitar sobre os antigos s\u00f3cios de desmandos uma fiscaliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nincorrupt\u00edvel e feroz, at\u00e9 que se voltasse contra a mesma metr\u00f3pole,<br \/>\ntransmudado em tenente-coronel revolucion\u00e1rio, e avantajando-se aos<br \/>\nmaiores demolidores do antigo vice-reinado, ou se transfigurasse de chofre<br \/>\nem general, &#8220;yef de los Orientales y protector de las ciudads libres&#8221;,<br \/>\narremetendo com os irm\u00e3os de armas da v\u00e9spera e destruindo a<br \/>\nsolidariedade platina, com o afastamento do Uruguai.<br \/>\nSalteador, policial, revolucion\u00e1rio, chefe de governo.. &#8211; Por fim,<br \/>\ncaiu. A t\u00e1tica estonteadora quebraram-lha os volunt\u00e1rios reais<br \/>\nde Lecor, endurecidos na disciplina incoerc\u00edvel de Beresford; e tra\u00eddo<br \/>\npelos seus melhores sequazes, sem ex\u00e9rcito e sem lar, errante e perseguido,<br \/>\nviera bater \u00e0s portas do seu mais sinistro advers\u00e1rio, a quem<br \/>\ntanto afrontara nas antigas tropelias.<br \/>\nO ditador n\u00e3o lhe apareceu, mas n\u00e3o o repeliu: mandou-o para<br \/>\num convento.<br \/>\nExtraordin\u00e1rio e enigm\u00e1tico Dr. Francia! Este ato denuncia-lhe<br \/>\ndo mesmo passo a \u00edndole retrincada, a ironia diab\u00f3lica e a r\u00edspida<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que tanto o incompatibilizava com o<br \/>\nhero\u00edsmo criminoso daqueles esmaniados cavaleiros andantes da liberdade.<br \/>\nEntre o borzeguim esmoedor e a estrapada desarticuladora s\u00f3 lhe dependiam<br \/>\nde um gesto todos os requintes das torturas: escolheu uma cela e constringiu<br \/>\nali dentro, entre paredes nuas, sobre alguns metros quadrados de soalho, uma<br \/>\nvida que se agitara desafogadamente nos cen\u00e1rios ampl\u00edssimos<br \/>\ndos pampas.<br \/>\nA vingan\u00e7a era, como se v\u00ea, antes de tudo, uma li\u00e7\u00e3o<br \/>\ndur\u00edssima, mas foi improdutiva.<br \/>\nArtigas deixara no estado Oriental o seu melhor disc\u00edpulo, Fructuoso<br \/>\nRivera, e em torno deste e de seu \u00eamulo e companheiro de armas, Lavalleja,<br \/>\nveio desdobrando-se at\u00e9 ao nosso tempo esta interessant\u00edssima<br \/>\nfrandula de her\u00f3icos degenerados que invadem desabaladamente a hist\u00f3ria,<br \/>\nfugindo da pol\u00edcia correcional, e vem desfilando ante a civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsurpreendida, sob aspectos v\u00e1rios, que v\u00e3o do astucioso Urquiza<br \/>\na esse desassombrado Aparicio, que nesta hora convulsiona to das as paragens<br \/>\nentre o Taqueremb\u00f3 e o Salto.<br \/>\nEm todos, uniformes na disparidade dos tempera mentos, do sanguin\u00e1rio<br \/>\nOribe ao destemeroso Lavalleja, que nos arrebatou a Cisplatina, os mesmos<br \/>\ntra\u00e7os caracter\u00edsticos: a combatividade irrequieta, a bravura<br \/>\nastuciosa e a ferocidade n\u00e3o raro sulcada de inexplic\u00e1veis lances<br \/>\ngenerosos.<br \/>\nTra\u00e7ar-lhes a hist\u00f3ria \u00e9 fazer em grande parte a nossa<br \/>\nmesma hist\u00f3ria militar. Quase toda a nossa atividade guerreira tem<br \/>\nsido uma diretriz predominante naquela fronteira perturbad\u00edssima do<br \/>\nRio Grande, ha cem anos batida a patas de cavalos, e estirando-se como longo<br \/>\ndiafragma por onde nos penetra, numa permanente endosmose, o esp\u00edrito<br \/>\nfebril da caudilhagem, obrigando-nos por vezes a colaborar tamb\u00e9m,<br \/>\na ponta\u00e7os de lan\u00e7as, naquelas revolu\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas<br \/>\ne naquele regime cl\u00e1ssico de tropelias.<br \/>\nAli, na longa faixa que se estira de Jaguar\u00e3o ao Quaraim, o ga\u00facho<br \/>\nresume, na envergadura possante e no \u00e2nimo resoluto e inquieto, os tra\u00e7os<br \/>\nproeminentes de dois povos. N\u00e3o ha destaca-los \u00e0s vezes. O bravo<br \/>\ne vers\u00e1til Rivera copia servilmente o vers\u00e1til e bravo Bento<br \/>\nManoel; Lavalleja, um Bayard vibr\u00e1til e vol\u00favel, afei\u00e7oado<br \/>\na todas as temeridades, se acaso o nobilitasse a disciplina, irromperia na<br \/>\nfigura escultural do primeiro Mena Barreto.<br \/>\nAinda agora o Aparicio oriental tem uma larva, o Jo\u00e3o Francisco rio-grandense:<br \/>\nacorrentai o primeiro num posto sedent\u00e1rio, e terei o molosso feroc\u00edssimo<br \/>\nda fronteira; arremessai o segundo pelo revesso das cochilhas, e vereis o<br \/>\ncaudilho&#8230;<br \/>\nDa\u00ed as surpresas que muitas vezes nos saltearam naquelas bandas. Notemos<br \/>\numa, de relance. A guerra do Paraguai, em que pese aos seus velhos antecedentes,<br \/>\nteve, inegavelmente, um prel\u00fadio muito expressivo nas ruidosas &#8220;californias&#8221;,<br \/>\nque arrebataram os nossos bravos patr\u00edcios aos entreveros entre blancos<br \/>\ne cobrados. A primeira bandeira que ali congregou brasileiros e orientais<br \/>\nfoi o pala do general Flores, desdobrado e ruflando nas correrias vertiginosas.<br \/>\nE quaisquer que fossem depois os milagres de uma diplomacia que desde 1853<br \/>\ne 185S vinha lentamente suplantando o malmequer e a vesania de Lopez, talvez<br \/>\nn\u00e3o n\u00f4-lo impedisse mais, desde a hora em que os pealadores de<br \/>\num e de outro lado, guascas e gringos, mas uniformemente ga\u00fachos, entrela\u00e7assem,<br \/>\nsobre o solo vibrante das campinas, os la\u00e7os e as bolas silvantes,<br \/>\nobjetivando a fraternidade sanguinolenta que os atrai \u00e0queles tr\u00e1gicos<br \/>\ndivertimentos, e \u00e0s arrancadas s\u00fabitas, e \u00e0s batalhas<br \/>\noriginal\u00edssimas e min\u00fasculas dispersas em torneios c\u00e9leres,<br \/>\nfeitas de persegui\u00e7\u00f5es e de fugas, e nas quais raro se queima<br \/>\num \u00fanico cartucho, porque ao lidador selvagem o que sobretudo apraz<br \/>\n\u00e9 desfechar sobre o contr\u00e1rio os golpes simult\u00e2neos de<br \/>\ncinco armas formid\u00e1veis &#8211; a lan\u00e7a e as quatro patas do cavalo&#8230;<br \/>\nOra, esta identidade de est\u00edmulos, efeito de antiqu\u00edssimo contagio,<br \/>\nreveste-nos de import\u00e2ncia consider\u00e1vel a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\natual do Uruguai. Entretanto, atra\u00edda por outros sucessos, toda volvida<br \/>\npara a Amaz\u00f4nia amea\u00e7ada, ou para o enorme duelo do Extremo Oriente,<br \/>\na opini\u00e3o geral mal se impressiona com aquelas desordens. Um ou outro<br \/>\ntelegrama, impertinente e mal lido, entre outros casos de maior monta, nos<br \/>\ndenuncia de longe em longe que o caudilho rebelado ainda respira.<br \/>\nA despeito de n\u00e3o sabermos quantas derrotas para logo corridas com<br \/>\noutras tantas fugas triunfais, rompendo entre as tropas do governo vitoriosas<br \/>\ne desapontadas &#8211; no &#8220;Passo dos Carros&#8221; em Taquaremb\u00f3, em<br \/>\nDaymam, em Salto, em Santa Luzia e em Santa Rosa, na Conc\u00f3rdia, no<br \/>\nAceguai e em toda a parte &#8211; a revolta irradia para todos os lados, intang\u00edvel<br \/>\ne invenc\u00edvel, espalhando alarmas desde Montevid\u00e9u, inopinadamente<br \/>\namea\u00e7ada de um assalto, \u00e0s remotas povoa\u00e7\u00f5es e<br \/>\nest\u00e2ncias do interior, de s\u00fabito despertadas pelo tradicional<br \/>\nahy vienem! que h\u00e1 um s\u00e9culo por ali espalha e atira fora dos<br \/>\nlares as gentes retransidas de espanto ante o estrupido dos cavaleiros errantes<br \/>\ne ferozes&#8230;<br \/>\nVencido pelo general Moniz desde os primeiros dias da luta; acutilado, e algumas<br \/>\nvezes morto a golpes de telegramas; erradio, ou fugindo com os restos de uma<br \/>\ntropa desmoralizada, para o abrigo da nossa fronteira salvadora, Apar\u00edcio<br \/>\nSaraiva recorda uma par\u00f3dia grosseira do her\u00f3i macabro do &#8220;Romancero&#8221;,<br \/>\nmorto e espavorindo os inimigos.<br \/>\nPelo menos a sua revolu\u00e7\u00e3o, tantas vezes destru\u00edda e<br \/>\ntantas vezes renascente, tem a estrutura privilegiada dos polipos: despeda\u00e7\u00e1-la<br \/>\n\u00e9 multiplic\u00e1-la.<br \/>\nAinda neste momento, rijamente repelido do Salto, este combate perdido parece<br \/>\nter tido o efeito \u00fanico de remontar-lhe a cavalhada, permitindo-lhe<br \/>\na divis\u00e3o das for\u00e7as em tr\u00eas corpos que, dirigidos por<br \/>\nele, por Lamas e Mu\u00f1oz, v\u00e3o refluir de novo sobre todo o Uruguai<br \/>\ne reeditar a mesmice inatur\u00e1vel das refregas in\u00fateis e das correrias<br \/>\ne das derrotas e das eternas vit\u00f3rias telegr\u00e1ficas &#8211; enfeixadas<br \/>\ntodas numa anarquia deplor\u00e1vel cujo termo e cujas conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndificilmente se prev\u00eaem.<br \/>\nLutas \u00e0 gandaia, adstritas ao sustento aleat\u00f3rio das est\u00e2ncias<br \/>\nsaqueadas, em que o soldado surge pronto de todos os lados, la\u00e7ando<br \/>\nos advers\u00e1rios como la\u00e7a os touros bravios, combatendo ou &#8220;parando<br \/>\no rodeio&#8221;, sem notar diferen\u00e7as nas az\u00e1famas perigosas,<br \/>\nelas podem prolongar-se indefinidamente.<br \/>\nBastam-lhes como recursos \u00fanicos alguns ginetes ensofregados e a pampa:<br \/>\na disparada violenta e o plaino desimpedido; a velocidade e a amplid\u00e3o&#8230;<br \/>\nDa\u00ed os seus principais inconvenientes. O duradouro dessas desordens<br \/>\n\u00e0 ourela de uma fronteira agitada fez sempre a mais prejudicial dissipa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos nossos esfor\u00e7os e do nosso valor.<br \/>\nQuando se tra\u00e7ar o quadro emocionante das nossas campanhas do sul,<br \/>\nque v\u00eam, desde as arrancadas na col\u00f4nia do Sacramento, desdobrando-se<br \/>\nnuma intermin\u00e1vel s\u00e9rie de conflitos sulcados de armist\u00edcios<br \/>\ne de desfalecimentos, ver-se-\u00e1 que aos nossos melhores generais coube<br \/>\nsempre o arriscad\u00edssimo papel de uns tenazes e brilhantes ca\u00e7adores<br \/>\nde caudilhos e de tiranos irrequietos.<br \/>\nFelizmente, mudaram-se os tempos.<br \/>\nE certo n\u00e3o mais nos atrair\u00e3o a dispendiosas aventuras aqueles<br \/>\nestonteados her\u00f3is, singulares revenants, que nestes tempos de utilitarismo<br \/>\npositivo exigem apenas, prosaicamente, e de acordo com a li\u00e7\u00e3o<br \/>\nmemor\u00e1vel de Francia, um termo de bem viver e uma cadeia.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>O MARECHAL DE FERRO<\/h2>\n<p>No meio em que surgiu, o marechal Floriano Peixoto sobressa\u00eda pelo<br \/>\ncontraste. Era um impass\u00edvel, um desconfiado e um c\u00e9tico, entre<br \/>\nentusiastas ardentes e ef\u00eameros, no inconsistente de uma \u00e9poca<br \/>\nvolvida a todos os ideais, e na credulidade quase infantil com que consideramos<br \/>\nos homens e as coisas. Este antagonismo deu-lhe o destaque de uma gl\u00f3ria<br \/>\nexcepcional\u00edssima. Mais tarde o historiador n\u00e3o poder\u00e1<br \/>\nexplic\u00e1-la.<br \/>\nO her\u00f3i, que foi um enigma para os seus contempor\u00e2neos pela circunst\u00e2ncia<br \/>\nclar\u00edssima de ser um exc\u00eantrico entre eles, ser\u00e1 para<br \/>\na posteridade um problema insol\u00favel pela in\u00f3pia completa de<br \/>\natos que justifiquem t\u00e3o elevado renome. E um dos raros casos de grande<br \/>\nhomem que n\u00e3o subiu, pelo condensar no \u00e2mbito estreito da vida<br \/>\npessoal as energias dispersas de um povo. Na nossa transla\u00e7\u00e3o<br \/>\nacelerada para o novo regime ele n\u00e3o foi uma resultante de for\u00e7as,<br \/>\nfoi uma componente nova e inesperada que torceu por algum tempo os nossos<br \/>\ndestinos.<br \/>\nAssim considerado, \u00e9 expressivo. Traduz de modo admir\u00e1vel, ao<br \/>\ninv\u00e9s da sua robustez, a nossa fraqueza.<br \/>\nO seu valor absoluto e individual reflete na hist\u00f3ria a anomalia alg\u00e9brica<br \/>\ndas quantidades negativas: cresceu, prodigiosamente, \u00e0 medida que prodigiosamente<br \/>\ndiminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar &#8211; porque se lhe operara<br \/>\nem torno uma depress\u00e3o profunda. Destacou-se \u00e0 frente de um<br \/>\npa\u00eds, sem avan\u00e7ar &#8211; porque era o Brasil quem recuava, abandonando<br \/>\no tra\u00e7ado superior das suas tradi\u00e7\u00f5es&#8230;<br \/>\nDiante da sua figura insol\u00favel e d\u00fabia, os revolucion\u00e1rios<br \/>\napreensivos tra\u00e7avam na tarde de 14 de novembro o ponto de interroga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas d\u00favidas mais cru\u00e9is, e ao meio-dia de 15 de novembro os<br \/>\npontos de admira\u00e7\u00e3o dos m\u00e1ximos entusiasmos. N\u00e3o<br \/>\nse conhece transforma\u00e7\u00e3o, ao mesmo passo, t\u00e3o repentina<br \/>\ne t\u00e3o explic\u00e1vel.<br \/>\nSobretudo explic\u00e1vel. O seu prest\u00edgio nascera paradoxalmente<br \/>\nantes da revolu\u00e7\u00e3o. Sabia-se, ou conjecturava-se, que sobre<br \/>\no regime condenado velava, impercept\u00edvel, aquela ast\u00facia silenciosa,<br \/>\nformid\u00e1vel e cauta, contraminando talvez dentro do pr\u00f3prio ex\u00e9rcito<br \/>\no tra\u00e7o subterr\u00e2neo da revolta; ou acompanhando-o talvez, linha<br \/>\npor linha, ponto por ponto, num paralelismo assombroso, e no prod\u00edgio<br \/>\nde conspirar contra a conspira\u00e7\u00e3o, ajustando soturnamente o<br \/>\nrigorismo da lei ao lado cl\u00e3 rebeldia incauta, de modo que, ao estalar,<br \/>\ntivesse de improviso, em cima, irrompendo da sombra, a m\u00e3o possante<br \/>\nque a jugularia.<br \/>\nEsta d\u00favida, ou doloros\u00edssima suspeita &#8211; sabem-no todos os revolucion\u00e1rios,<br \/>\nembora muitos a negassem depois &#8211; era a mais inibit\u00f3ria incerteza entre<br \/>\ntantas outras que nos manietavam.<br \/>\nRevela-o um incidente inapreci\u00e1vel como muitos outros, porque o 15<br \/>\nde novembro foi uma glorifica\u00e7\u00e3o exagerada de min\u00facias:<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera daquele dia, \u00e0s 10 horas da noite, toda a segunda<br \/>\nbrigada, em plena revolta, estava em forma e pronta para a marcha. Mas antes<br \/>\nde a realizar sucedeu o fato il\u00f3gico e inveross\u00edmil de seguir<br \/>\num capit\u00e3o mandado pelos chefes revolucion\u00e1rios, a participar<br \/>\no acontecimento ao pr\u00f3prio ajudante general de ex\u00e9rcito, ao<br \/>\nmarechal Floriano. Por um impulso id\u00eantico ao do criminoso que segue,<br \/>\nnum automatismo doentio, a confessar o crime ao juiz que o apavora, a conspira\u00e7\u00e3o<br \/>\ndenunciava-se. Atirava aquela cartada arriscad\u00edssima; iludia o temor<br \/>\ndo advers\u00e1rio procurando-o; trocava a expectativa do perigo pelo perigo<br \/>\nfranco.<br \/>\nMas nada conseguiu. Diante do oficial rebelde que viera de S. Crist\u00f3v\u00e3o<br \/>\na procur\u00e1-lo, encontrando-o na \u00fanica sala que se destacava iluminada<br \/>\nno vasto quartel do campo de Santana imerso na mais profunda treva &#8211; o marechal<br \/>\nFloriano apareceu ainda mais indecifr\u00e1vel. Determinou com a palavra<br \/>\nindiferente de quem d\u00e1 a mais desvaliosa ordem a uma ordenan\u00e7a,<br \/>\nque se desarmasse a brigada sediciosa. Mas n\u00e3o fez a recrimina\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais breve, ou traiu o mais fugitivo espanto; e n\u00e3o prendeu o parlament\u00e1rio<br \/>\nindisciplinado que ao sair adivinhou adensados no escuro, dentro, no vasto<br \/>\np\u00e1tio interno, todos os batalh\u00f5es de infantaria, com as espingardas<br \/>\nem descanso, e de baionetas caladas onde se joeirava salteadamente, em s\u00fabitos<br \/>\nreflexos, o brilho das estrelas&#8230;<br \/>\nA consulta \u00e0 esfinge complicara o enigma. Como interpretar-se aquela<br \/>\nordem apenas balbuciada pela primeira autoridade militar rodeada da parte<br \/>\nmais numerosa da guarni\u00e7\u00e3o que os regimentos levantados iriam<br \/>\nencontrar vigilante e firme nas formaturas rigorosas?&#8230;<br \/>\nA revolta desencadeou-se nesta indecis\u00e3o angustiosa, e foi quase um<br \/>\narremesso fatalista para a derrota.<br \/>\nPorque a vit\u00f3ria foi uma surpresa; e desfechara-a precisamente o homem<br \/>\nsingular que equilibrara at\u00e9 o \u00faltimo minuto a energia governamental<br \/>\ne a onda revolucion\u00e1ria &#8211; at\u00e9 transmudar a pr\u00f3pria infidelidade<br \/>\nno fiel \u00fanico da situa\u00e7\u00e3o, de s\u00fabito inclinado<br \/>\npara a \u00faltima.<br \/>\nEste golpe teatral, deu-o com a impassibilidade costumeira; mas foi empolgante.<br \/>\nMinutos depois, quando diante do minist\u00e9rio vencido o marechal Deodoro<br \/>\nalteava a palavra imperativa da revolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era sobre<br \/>\nele que convergiam os olhares, nem sobre Benjamin Constant, nem sobre os vencidos-mas<br \/>\nsobre algu\u00e9m que a um lado deselegantemente revestido de uma sobrecasaca<br \/>\nmilitar folgada, cingida de um talim frouxo de onde pendia tristemente urna<br \/>\nespada, olhava para tudo aquilo com uma serenidade imperturb\u00e1vel. E<br \/>\nquando, algum tempo depois, os triunfadores, ansiando pelo aplauso de uma<br \/>\nplat\u00e9ia que n\u00e3o assistira ao drama, sa\u00edram pelas ruas<br \/>\nprincipais do Rio &#8211; quem quer que se retardasse no quartel-general veria sair<br \/>\nde um dos repartimentos, no \u00e2ngulo esquerdo do velho casar\u00e3o,<br \/>\no mesmo homem, vestido \u00e0 paisana, passo tranq\u00fcilo e tardo, apertando<br \/>\nentre o m\u00e9dio e \u00edndex um charuto consumido a meio, e seguindo<br \/>\nisolado para outros rumos, impass\u00edvel, indiferente, esquivo&#8230;<br \/>\nE foi assim &#8211; esquivo, indiferente e impass\u00edvel &#8211; que ele penetrou<br \/>\nna Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Vimo-lo depois, de perto, na conspira\u00e7\u00e3o contra o golpe de<br \/>\nestado de 3 de novembro.<br \/>\nA sua casa no Rio Comprido era o centro principal da resist\u00eancia. Ia-se<br \/>\npara l\u00e1 de dia, em plena luz: nenhuns resguardos, nenhuma dessas cautelas,<br \/>\ne \u00e2nsias, ou sobressaltos, com os quais numa conspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nse romanceiam os perigos. Os conspiradores iam, prosaicamente, de bonde; saltavam<br \/>\nnum port\u00e3o, \u00e0 direita; galgavam uma escada lateral, de pedra;<br \/>\ne viam-se a breve trecho num sal\u00e3o modesto, com a mob\u00edlia exclusiva<br \/>\nde um sof\u00e1, algumas cadeiras e dois aparadores vazios. L\u00e1 dentro,<br \/>\njanelas largamente abertas, como se se tratasse da reuni\u00e3o mais l\u00edcita,<br \/>\nrabeava ferozmente a rebeldia: gisavam-se planos de combate; balanceavam-se<br \/>\nelementos, ou recursos; pesavam-se incidentes m\u00ednimos; trocavam-se<br \/>\nalvitres, denunciavam-se tr\u00e2nsfugas, enumeravam-se adeptos, e nas palestras<br \/>\nesparsas em grupos febricitantes vibrava longamente este entusiasmo despeda\u00e7ado<br \/>\nde temores que trabalha as almas revolucion\u00e1rias.<br \/>\nDe repente, uma ducha enregelada: aparecia o marechal Floriano com o seu aspecto<br \/>\ncaracter\u00edstico de eterno convalescente e o seu olhar perdido caindo<br \/>\nsobre todos sem se fitar em ningu\u00e9m. Sentava-se, vagarosamente; e no<br \/>\nsil\u00eancio, que se formava de s\u00fabito, lan\u00e7ava uma longa<br \/>\ne pormenorizada resenha dos achaques que o vitimavam. Era desalentador.<br \/>\nPassado, por\u00e9m, aquele sobressalto invertido, aquela quietude alarmante<br \/>\ne aquela calma impertinente, mais cruciante do que a ansiedade anterior, renovava-se<br \/>\na agita\u00e7\u00e3o &#8211; e no gisarem-se planos, no balancearem-se recursos,<br \/>\nno pesarem-se todos os incidentes, no contraposto, no revolto, no desordenado,<br \/>\nnos di\u00e1logos esparsos; ou cruzando-se, ou afinal fundidos na palavra<br \/>\n\u00fanica de algu\u00e9m que atirava, de golpe, entre os grupos, uma<br \/>\nnot\u00edcia emocionante, naquele tumulto, o homem que era a nossa esperan\u00e7a<br \/>\nmais alta lan\u00e7ava avaramente um monoss\u00edlabo, um n\u00e3o apagado,<br \/>\num sim impercept\u00edvel no balan\u00e7o fugitivo da cabe\u00e7a, ou<br \/>\nabria a encruzilhada de um talvez&#8230;<br \/>\nSa\u00eda-se jurando que estava na sala um traidor, impossibilitando-lhe<br \/>\no livre curso das id\u00e9ias. Porque, isoladamente, a cada um dos que l\u00e1<br \/>\niam, ele se manifestava com a sua lucidez incompar\u00e1vel.<br \/>\nAceitava-se um a um; repelia-nos unidos. E a pouco e pouco naquele retrair-se<br \/>\ncauteloso, naquele escorregar precavido sobre todas as quest\u00f5es que<br \/>\nse lhe propunham na reuni\u00e3o revolucion\u00e1ria, t\u00e3o diferente<br \/>\ndo firme, do definido e do claro de pensar, que, parceladamente, manifestava<br \/>\na cada um dos que a constitu\u00edam, ele foi infiltrando na conspira\u00e7\u00e3o<br \/>\na sua \u00edndole retr\u00e1til e precatada. Por fim &#8211; confiava-se no<br \/>\nmelhor companheiro da v\u00e9spera&#8230; desconfiando.<br \/>\nE natural que a trama sediciosa se alastrasse durante vinte dias, inteiramente<br \/>\n\u00e0s claras e impercept\u00edvel; e que ao irromper a 23 de novembro<br \/>\no movimento da Armada &#8211; simples remate teatral da mais art\u00edstica das<br \/>\nconspira\u00e7\u00f5es &#8211; o marechal Floriano, imut\u00e1vel na sua placabilidade<br \/>\ntemerosa, seguisse triunfal e tranq\u00fcilo para tomar o governo, &#8220;obedecendo&#8221;<br \/>\na um chamado do Itamarati, espantosamente disciplinado no fast\u00edgio<br \/>\nda rebeldia que alevantara &#8211; e indo depor o marechal Deodoro vencido, com<br \/>\num abra\u00e7o, um longo e carinhoso abra\u00e7o, fraternal e calmo.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Conta-se que ao estalar a revolu\u00e7\u00e3o de 6 de setembro, no meio<br \/>\ndo espanto, e do alarma, e do del\u00edrio de ades\u00f5es e entusiasmos,<br \/>\nque para logo repontaram de todos os lados, gerando aquela angustios\u00edssima<br \/>\ncomo\u00e7\u00e3o nacional culminada pela loucura tr\u00e1gica de Aristides<br \/>\nLobo &#8211; conta-se que o marechal Floriano requintara na proditoria quietude.<\/p>\n<p>Impass\u00edvel naquele estonteamento, superp\u00f4s ao tumulto o seu meio<br \/>\nsorriso mec\u00e2nico e o seu impressionador mutismo.<br \/>\nNum dado momento, por\u00e9m, abeirou-se de uma das janelas do pal\u00e1cio<br \/>\nabertas na dire\u00e7\u00e3o aproximada do mar; e ali quedou um minuto,<br \/>\nmeditativo, na atitude habitual da sua apatia, enganosa e falsa&#8230;<br \/>\nDepois alevantou vagarosamente a m\u00e3o direita, espalmada, vertical e<br \/>\nde chapa para o ponto onde se adivinhavam os navios revoltosos, no gesto trivial<br \/>\ne d\u00fabio de quem atira longe uma esperan\u00e7a ou uma amea\u00e7a&#8230;<br \/>\nTra\u00e7ou naquele momento o molde da sua estatua. Nenhum escultor de g\u00eanio<br \/>\no imaginar\u00e1 melhor, a um tempo amea\u00e7ador e pl\u00e1cido, sem<br \/>\nexpans\u00f5es violentas e sem um tremor no rosto impenetr\u00e1vel, desdobrando<br \/>\nsilenciosamente, diante do assalto das paix&amp;ototilde;es tumultu\u00e1rias<br \/>\ne ruidosas, a sua tenacidade incoerc\u00edvel, tranq\u00fcila e formid\u00e1vel.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>O KAISER<\/h2>\n<p>Bismarck, sempre t\u00e3o penetrante nos conceitos que disparava &#8211; disparava<br \/>\n\u00e9 o termo pr\u00f3prio \u00e0quela sua ironia f\u00e9rrea, que<br \/>\nmatava como as balas &#8211; definiu, certa vez, a pol\u00edtica do segundo imp\u00e9rio,<br \/>\nfantasista e fr\u00edvola, e t\u00e3o estonteada na Europa, ou na Am\u00e9rica,<br \/>\nna It\u00e1lia, ou no M\u00e9xico, entre deslumbrantes frivolidades, em<br \/>\nque se dissipava o hero\u00edsmo tradicional da Fran\u00e7a:<br \/>\n&#8211; &#8220;Era uma pol\u00edtica de gorjetas.&#8221;<br \/>\nDepois, esculpiu com quatro pranchadas de pena o homem que a inspirava:<br \/>\n&#8220;Napole\u00e3o III, com o seu ego\u00edsmo de corretor, incidiu no<br \/>\nv\u00edcio dos antigos diplomatas italianos, que confundiam a diplomacia<br \/>\ne a perf\u00eddia. Tinha uma pol\u00edtica ao mesmo passo bem ponderada<br \/>\ne quim\u00e9rica, complicada e ing\u00eanua. pensando trabalhar para a<br \/>\nFran\u00e7a, abalou-lhe a liberdade e trouxe durante 20 anos a Europa em<br \/>\ncont\u00ednuo alarma, merc\u00ea de suas indefinidas ambi\u00e7\u00f5es.<br \/>\nFaltavam a sua intelig\u00eancia precis\u00e3o e efici\u00eancia, a par<br \/>\nde uma extraordin\u00e1ria f\u00e9 na sua estrela3 levando-o \u00e0s<br \/>\nmais ousadas tentativas com os planos mais quim\u00e9ricos.&#8221;<br \/>\nOra, Bismarck fazia ent\u00e3o, sem o imaginar, o retrato da Alemanha de<br \/>\nagora e do Kaiser.<br \/>\nBem pouco h\u00e1 que alterar naquelas linhas lapid\u00e1rias.<br \/>\nA terra cl\u00e1ssica do bom senso equilibrado, da frieza de prop\u00f3sitos<br \/>\ne da perseveran\u00e7a tranq\u00fcila, h\u00e1 dez anos que sobressalteia<br \/>\na Europa, gra\u00e7as \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o ardente, \u00e0s<br \/>\nfantasias e \u00e0 vaidade feminil, laivada de arreganhos militares de seu<br \/>\nimperador imensamente franc\u00eas, e franc\u00eas antigo, rom\u00e2ntico,<br \/>\nimprevidente e aventureiro.<br \/>\nE um caso not\u00e1vel &#8211; o aspecto transcendental, talvez, dessa revanche<br \/>\nt\u00e3o longamente acariciada pela Fran\u00e7a e que aparece espont\u00e2nea,<br \/>\ntrocadas inteiramente as fisionomias das duas vizinhas irreconcili\u00e1veis.<br \/>\nRealmente, a Alemanha, que acordou tarde para a expans\u00e3o colonizadora<br \/>\n&#8211; longo tempo iludida pela vis\u00e3o errada de Bismarck, preferindo ao<br \/>\nmelhor trato de territ\u00f3rio long\u00ednquo o arcabou\u00e7o do \u00faltimo<br \/>\ngranadeiro pomer\u00e2nio &#8211; a Alemanha agita-se hoje num estonteamento.<br \/>\nA dilata\u00e7\u00e3o territorial imp\u00f5e-se-lhe como uma condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde vida, n\u00e3o j\u00e1 no sentido superior de um primado de id\u00e9ias,<br \/>\nsen\u00e3o tamb\u00e9m no sentido estritamente biol\u00f3gico da pr\u00f3pria<br \/>\nalimenta\u00e7\u00e3o. O seu industrialismo robusto matou-lhe a produ\u00e7\u00e3o<br \/>\nagr\u00edcola, de sorte que a sua vida intens\u00edssima, a mais intensa<br \/>\nda Europa, em grande parte desviada \u00e0 agita\u00e7\u00e3o fecunda<br \/>\ndas f\u00e1bricas, \u00e9 de todo aleat\u00f3ria. N\u00e3o lha garante,<br \/>\nmesmo imperfeitamente, a terra, cada vez mais escassa, \u00e0 medida que<br \/>\nlhe vai crescendo o povoamento constrito entre as fronteiras inteiri\u00e7as.<br \/>\nDai o seu arremesso dos estaleiros de Kiel para o desimpedido dos mares, visando<br \/>\namplificar a p\u00e1tria, insuficiente, com o solo artificial e m\u00f3vel<br \/>\ndos conveses de uma frota mercante, que \u00e9 a segunda do mundo, exigindo,<br \/>\nparalelamente, as garantias de uma marinha de guerra formid\u00e1vel.<br \/>\nMas neste concorrer \u00e0 partilha da terra, com todos os inconvenientes<br \/>\nde quem chega tarde e encontra os melhores bocados noutras m\u00e3os, a<br \/>\npol\u00edtica germ\u00e2nica tem sido, de fato, copiando-se a frase do<br \/>\nlend\u00e1rio chanceler de ferro, uma pol\u00edtica de gorjetas. Nem lhe<br \/>\ndisfar\u00e7a este car\u00e1ter deca\u00eddo a maneira arrojada que<br \/>\na reveste. Em todos os seus atos &#8211; nos arrogantes ultimata contra a fr\u00e1gil<br \/>\nVenezuela, nos assaltos feroc\u00edssimos de Walders\u00e9e, em Pequim,<br \/>\nou nas tortuosidades e perf\u00eddias diplom\u00e1ticas que rodeiam a<br \/>\nlonga hist\u00f3ria da estrada para Bagd\u00e1, ou, ainda, no ganancioso<br \/>\nalongar de olhos para os nossos Estados do Sul, a sua \u00e2nsia alucinada<br \/>\ndo ganho, pela pilhagem dos \u00faltimos restos da fortuna dos pa\u00edses<br \/>\nfracos, pode assumir todas as formas, at\u00e9 mesmo o aspecto her\u00f3ico:<br \/>\nmas destaca-se com aquele tra\u00e7o inferior e irredut\u00edvel.<br \/>\nFalta-lhe um Witte, falta-lhe um Chamberlain, falta-lhe um Roosevelt, e &#8211;<br \/>\nnote-se esta ironia singular da hist\u00f3ria &#8211; falta-lhe um Delcass\u00e9,<br \/>\nou um Combes&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Tem Guilherme II, um grande homem in\u00e9dito.<br \/>\nRealmente, o Kaiser \u00e9 uma promessa cada vez maior e mais irrealiz\u00e1vel.<br \/>\nBismarck esbo\u00e7ou-se sem o saber, de ricochete, pela fisionomia de Napole\u00e3o<br \/>\nIII, mas fez-lhe a caricatura apenas a largos tra\u00e7os, vivos; e os melhores<br \/>\npsic\u00f3logos, ao escandirem os seus atributos caracter\u00edsticos,<br \/>\nn\u00e3o descobrem de onde lhe adv\u00e9m t\u00e3o antigerm\u00e2nicas<br \/>\nqualidades. Perquirem-lhe a linhagem toda, e n\u00e3o lobrigam, nos confins<br \/>\nindecisos do s\u00e9culo XIII, o pr\u00edncipe obscuro, misto de minnesinger<br \/>\ne de soldado, errante, de castelo em castelo, pela Baviera em fora, todo vestido<br \/>\nde ferro, feito um ca\u00e7ador de gl\u00f3rias e de perigos, a cantar<br \/>\no amor e a coragem, que veio, por um milagre de atavismo, surgir t\u00e3o<br \/>\nde pancada e estonteadamente em nossos dias &#8230;<br \/>\n\u00c9 um revenant; e este evadido do passado ao mesmo passo que se isola<br \/>\nna Alemanha, vai isolando a Alemanha do conv\u00edvio das na\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAutocrata sem rebu\u00e7os num imp\u00e9rio constitucional, em que os<br \/>\nseus secret\u00e1rios particulares substituem os ministros respons\u00e1veis,<br \/>\naperta-se no estreit\u00edssimo c\u00edrculo de uma Corte louvaminheira,<br \/>\nque n\u00e3o s\u00f3 o afasta do influxo austero da opini\u00e3o p\u00fablica<br \/>\ngerm\u00e2nica, como o impropria a avaliar os desastrosos efeitos de sua<br \/>\ngarrulice inconveniente sobre todas as na\u00e7\u00f5es. Embalde von Treitschk,<br \/>\no not\u00e1vel sucessor de Mommsen, denuncia &#8220;o exagerado culto teocr\u00e1tico<br \/>\n\u00e0 majestade que macula a monarquia prussiana &#8220;e as formalidades<br \/>\ne .cerim\u00f4nias de uma Corte, onde &#8220;h\u00e1 a abje\u00e7\u00e3o<br \/>\nestagnada do servilismo oriental&#8221;; ou o Dr. Hann, secret\u00e1rio da<br \/>\nLiga Agr\u00e1ria, denuncia nuamente, em p\u00fablico, o acabamento das<br \/>\nqualidades superiores de consist\u00eancia, de continuidade e de firmeza<br \/>\nde inabal\u00e1vel pol\u00edtica bismarckiana. O imperador n\u00e3o<br \/>\nos ouve: repele-os.<br \/>\nEles n\u00e3o lhe embalam a vaidade, n\u00e3o lhe aplaudem os discursos,<br \/>\nn\u00e3o lhe admiram as concep\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se enfileiram<br \/>\nna numerosa claque que lhe proclama o enciclopedismo distenso. Wirchow atravessou<br \/>\no seu reinado, inteiramente desfavorecido, porque era liberal. Hauptmann,<br \/>\no maior dramaturgo da Alemanha, figura-se-lhe um rabiscador inatur\u00e1vel;<br \/>\na sua grande voz n\u00e3o vinga o abafamento dos reposteiros de Potsdam.<br \/>\nHoje o g\u00eanio loureado na terra sonhadora de Goethe \u00e9 o capit\u00e3o<br \/>\nLanff, um l\u00edrico de caserna. Para este todos os requintes dos favores<br \/>\nimperiais, porque os seus dramas, impostos por decreto a todos os teatros<br \/>\nsubsidiados do Imp\u00e9rio &#8211; os seus dramas tremendos, refertos de cutiladas,<br \/>\nde tiros, de urros pavorosos de terribil\u00edssimos her\u00f3is, em que<br \/>\nos entrechos se embaralham pisoados de cargas de cavalaria &#8211; s\u00e3o a<br \/>\napologia sanguinolenta dos Hohenzollerns. Reconhece-se que s\u00e3o maus,<br \/>\nque s\u00e3o positivamente idiotas, nota canhear dos conceitos, na frase<br \/>\ncambeante e perra, nos enredos desconexos e nos desenlaces abstrusos &#8211; mas<br \/>\nlisonjeiam a vaidade imperial.<br \/>\nEsta vaidade \u00e9 tudo, e para a satisfazer tudo se sacrifica.<br \/>\nMostra-o o mesmo ex\u00e9rcito alem\u00e3o, que, durante tanto tempo,<br \/>\nfoi o pavor da Europa. Viu-se-lhe, depois, a imponente fragilidade.<br \/>\nE um ex\u00e9rcito decorativo, adrede instru\u00eddo a que rebrilhe ao<br \/>\nsol dos dias festivos a espada virginalmente inocente do Kaiser, diante da<br \/>\nburguesia assustadi\u00e7a.<br \/>\nRevelou-o, recentemente ainda, Wolf von Schierbraum, e propositadamente escolhemos,<br \/>\nn\u00e3o j\u00e1 um prussiano, mas um r\u00edgido prussiano da guerra<br \/>\nde 70, para que se firme este conceito: &#8220;O imperador, gra\u00e7as \u00e0<br \/>\nsua \u00edndole espetaculosa, preparou o ex\u00e9rcito, n\u00e3o para<br \/>\na luta consoante a t\u00e1tica e as armas atuais, mas como se ainda viv\u00eassemos<br \/>\nnos antigos tempos&#8221;. E logo adiante, textualmente: &#8220;H\u00e1 quinze<br \/>\nanos que o educa para falsas batalhas, arremetendo com imagin\u00e1rios<br \/>\ninimigos, em condi\u00e7\u00f5es tais, que lhe acarretar\u00e3o completo<br \/>\nexterm\u00ednio em qualquer campanha destes dias&#8221;.<br \/>\nE um ex\u00e9rcito de paradas. Guilherme II conserva-o, cheio de desvelos<br \/>\nde artista e de colecionador de raridades &#8211; como um dos seus av\u00f3s,<br \/>\nFrederico Guilherme I, conservava os seus granadeiros de dois metros de altura.<br \/>\ne os seus drag\u00f5es torreantes &#8211; cuidadosamente, fora das intemp\u00e9ries<br \/>\ndanosas das batalhas&#8230;<br \/>\nEle \u00e9 a sua claque favorita e temerosa; e acredita-se, por vezes, que<br \/>\no arma contra a pr\u00f3pria Alemanha.<br \/>\nQuando o imperador escreveu, no Livro de Ouro de Munich, o seu c\u00e9lebre<br \/>\nsuprema lex regi voluntas, ningu\u00e9m aplaudiu a barbaria deste latim<br \/>\ncert\u00edssimo, mas os feld-marechais deliraram, eletrizados.<br \/>\nPouco tempo depois, ao rematar um de seus discursos perigosos com aquele:<br \/>\n&#8220;Todos v\u00f3s deveis ter uma vontade, a Minha vontade, e uma s\u00f3<br \/>\nlei, a Minha lei&#8221; &#8211; houve em toda a Alemanha um doloroso espanto, e o<br \/>\npartido socialista, crescente \u00e0 medida que a vontade imperial imp\u00f5e<br \/>\nao Reichstag sucessivos aumentos de baionetas, replicou-lhe com uma de suas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es ruidosas. O Kaiser assusta-se; mete-se, assombrado,<br \/>\nentre as fileiras adensadas, no campo de manobras de mar\u00e7o de 1900,<br \/>\ne ali, sob a hipnose estonteadora de milhares de espadas rebrilhantes:<br \/>\n&#8220;Se Berlim renovar contra o rei o insolente levante de 1&amp;98, v\u00f3s,<br \/>\nmeus granadeiros, corrigireis os rebeldes a ponta\u00e7os de baionetas!&#8221;<br \/>\nE houve um longo, estripitoso aplauso &#8230;<br \/>\nNada mais l\u00edmpido no delatar o seu antagonismo com a pr\u00f3pria<br \/>\ncapital do imp\u00e9rio, se in\u00fameros outros casos n\u00e3o o atestassem<br \/>\nsob variad\u00edssimas formas.<br \/>\nSumo \u00e1rbitro em tudo, em pol\u00edtica, como em m\u00fasica, em<br \/>\narquitetura, como em poesia, em pintura, como em qualquer ci\u00eancia; estrategista,<br \/>\ndramaturgo, arque\u00f3logo, te\u00f3logo, in\u00e9dito em tudo, poeta<br \/>\nsem um verso, fil\u00f3sofo sem um conceito, m\u00fasico sem uma nota,<br \/>\nguerreiro sem um golpe de sabre, esse dissipar a individualidade irrequieta,<br \/>\nespraiando-a largamente sobre todas as coisas, tem-lhe acarretado sucessivos<br \/>\ndesapontamentos.<br \/>\nAqui, um edif\u00edcio, o novo pal\u00e1cio de Reichstag, \u00e9 o melhor<br \/>\nexemplo, que se lhe afigura monstruoso aleij\u00e3o, na mesma hora em que<br \/>\ntodos os profissionais alem\u00e3es consagravam em verdadeira apoteose o<br \/>\narquiteto feliz que o planejou; al\u00e9m, um m\u00fasico, que se lhe<br \/>\nafigura simplesmente detest\u00e1vel &#8211; e que se imortaliza, e \u00e9 Wagner&#8230;<br \/>\nN\u00e3o raro o antagonismo avulta e enreda-se ao ponto de dirimir-se nos<br \/>\ntribunais. H\u00e1 tempos o imperador, no meio de seus pensares, teve uma<br \/>\nid\u00e9ia surpreendente:<br \/>\nconstruir mais igrejas em Berlim. Uma obsess\u00e3o de artista. Entristecia-o,<br \/>\ntalvez, o belo firmamento berlin\u00eas, arqueado e vazio sobre as casernas<br \/>\naca\u00e7apadas, ou<br \/>\nchatos alpendres de f\u00e1bricas, sem o delicado granito das ros\u00e1ceas,<br \/>\nsem um grande, arrebatador e vivo tumultuar de campan\u00e1rios alterosos&#8230;<br \/>\nE a este prop\u00f3sito fez que ressurgisse uma lei obsoleta, de h\u00e1<br \/>\nquatro s\u00e9culos, pela qual a cidade se obrigava a construir um n\u00famero<br \/>\nde templos proporcional ao de habitantes. O f\u00f3ssil decreto medieval,<br \/>\npor\u00e9m, caiu estrepitosamente sob a condena\u00e7\u00e3o dos juizes&#8230;<br \/>\nAssim por diante.<br \/>\nE natural que a Alemanha se isole, perenemente amea\u00e7adora e amea\u00e7ada.<br \/>\nNada se pode prever na sua pol\u00edtica ferrotoada de caprichos. Rodeia-se<br \/>\na suspeita receosa das na\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE, no momento agudo que vai passando, nesta vasta crise universal apenas come\u00e7ada<br \/>\nnos recantos do Extremo Oriente, quando os m\u00e1ximos resguardos presidem<br \/>\nos atos de todos os governos, devem-se aguardar todas as surpresas da volubilidade<br \/>\nalarmante e das arrancadas rom\u00e2nticas daquele min\u00fasculo deus<br \/>\ndo Edda, desgarrado na terra e errando entre as gentes &#8211; incompreendido, idealista<br \/>\ne temeroso &#8211; como se fosse um neto retardat\u00e1rio das Walkyrias&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>A ARC\u00c1DIA DA ALEMANHA<\/h2>\n<p>Este belo titulo cl\u00e1ssico cabe ao Brasil. E o que nos revela um soci\u00f3logo<br \/>\nqualquer da Contemporary Review, um dos muitos que hoje arremetem, aforradamente,<br \/>\ncom o indefinido das quest\u00f5es sociais. E ingl\u00eas; e o argumento<br \/>\nessencial ressalta-lhe na resvaladura desta cinca: somos um povo sem ju\u00edzo<br \/>\ne a vitalidade germ\u00e2nica, em breve, nos absorver\u00e1. Registe-se-lhe<br \/>\na frase, onde a massuda sisudez brit\u00e2nica aflora o riso da alacridade<br \/>\nib\u00e9rica: the brasilians themselves, as Dom Quixote said of Sancho Pansa,<br \/>\nare people ol &#8220;muy poca sal en la mollera\u00bb.<br \/>\n\u00c9 interessante. Para o fil\u00f3sofo, pintoresco no amenizar de jogralidades<br \/>\ncogita\u00e7\u00f5es t\u00e3o maci\u00e7as, temperando o seu Hegel<br \/>\ncom Cervantes, somos decididamente um povo pr\u00f3digo, doudivanas, que<br \/>\nanda na hist\u00f3ria a esperdi\u00e7ar uma heran\u00e7a. Imp\u00f5e-se-nos<br \/>\na curadoria de um protetorado ou de uma conquista mansa, o carinhoso pux\u00e3o<br \/>\nde orelhas paterno com que se reaviam os pupilos inexperientes. E um caso<br \/>\nem que o direito internacional, cujo elast\u00e9rio vai aumentando \u00e0<br \/>\nmedida que se dilatam as par\u00e1bolas das balas, pode humanizar-se, transmudando-se<br \/>\nno c\u00f3digo civil proeminente das na\u00e7\u00f5es.<br \/>\nDe feito, vai, ao parecer, dando demasiado nas vistas esta nossa vida f\u00e1cil<br \/>\ne perdul\u00e1ria, esta nossa vida \u00e0 gandaia, ociosa e comodista,<br \/>\nsobre a enorme fazenda de uns quatrocentos milh\u00f5es de alqueires de<br \/>\nterras, onde sestiamos, fartos, entre os primores de uma flora que tem tudo,<br \/>\ndesde o mais reles cereal ao l\u00edber e ao l\u00e1tex, para os lavores<br \/>\nda ind\u00fastria &#8211; e que nos da tudo de gra\u00e7a com a sua exuber\u00e2ncia<br \/>\nincompar\u00e1vel, permitindo-nos contemplar, (contemplar apenas como coisas<br \/>\nmeramente decorativas de um vasto parque de recreio), as nossas virgens bacias<br \/>\ncarbon\u00edferas, as nossas montanhas de ferro, as nossas cordilheiras<br \/>\nde quartzito, os nossos litorais dourados pelas areias monaz\u00edticas,<br \/>\ne o estupendo dil\u00favio canalizado dos nossos rios, e os cerros lastrados<br \/>\nde ouro das grupiaras, e os pendores numerosos, onde se desatam perpetuamente<br \/>\nas longas fitas alvinitentes da hulha branca \u00e0 espera das roldanas<br \/>\nque elas mover\u00e3o um dia&#8230; Coisas que mal vemos, pisando distra\u00eddos<br \/>\nsobre o macadame sem pre\u00e7o dos cascalhos diamantinos e errando nos<br \/>\npara\u00edsos vazios dos gerais sem fim &#8230;<br \/>\nEnquanto isto acontece, a vida de outras gentes, intens\u00edssima e a crescer,<br \/>\na crescer dia a dia, mais e mais se agita, constrita \u00e0 for\u00e7a<br \/>\nna clausura das fronteiras. De sorte que a nossa espl\u00eandida mediocridade<br \/>\nse lhes torna em perp\u00e9tuo desafio, repruindo-lhes a riqueza torturada<br \/>\ne a pletora de for\u00e7as que, na ordem econ\u00f4mica, caracteriza o<br \/>\nmoderno imperialismo.<br \/>\nA Alemanha \u00e9 o melhor exemplo. E o caso t\u00edpico de um povo sob<br \/>\na amea\u00e7a permanente de seu mesmo progresso. Passando, com uma rapidez<br \/>\nsem par na hist\u00f3ria, do regime agr\u00edcola em que se aplicavam,<br \/>\nh\u00e1 meio s\u00e9culo, tr\u00eas quartos da sua gente, para o m\u00e1ximo<br \/>\nregime industrial, onde se aplicavam hoje dois ter\u00e7os da sua atividade<br \/>\n&#8211; ficou duplamente adstrita a todas as exig\u00eancias do expansionismo obrigat\u00f3rio.<br \/>\nPara viver e para agir. De um lado, calcula-se que o seu solo, intensamente<br \/>\nexplorado, no m\u00e1ximo, bastar\u00e1 a alimentar trinta milh\u00f5es<br \/>\nde homens, e ela tem quase o dobro. De outro, cerca de metade das mat\u00e9rias-primas,<br \/>\nque lhe alimentam as ind\u00fastrias, vem do exterior. Est\u00e1 numa<br \/>\nalternativa. Ou isolar-se num papel secund\u00e1rio e obscuro, procurando,<br \/>\nna emigra\u00e7\u00e3o pacifica, um desafogo \u00e0 sua sobrecarga humana<br \/>\n&#8211; ou expandir-se, sistematicamente conquistadora, arriscando-se \u00e0s<br \/>\nmaiores lutas.<br \/>\nPreferiu o \u00faltimo caso. N\u00e3o tinha por onde sair.<br \/>\nA atitude entonada, o recacho atrevido, as hip\u00e9rboles pol\u00edticas<br \/>\ne todo o gongorismo guerreiro desse Guilherme II, de fartos bigodes repuxados<br \/>\ne duros olhos verdes resumando cintilar de espadas, e os seus arrancos orat\u00f3rios,<br \/>\nas suas inconveni\u00eancias e os seus exageros, e at\u00e9 as suas temeridades,<br \/>\ntodas essas coisas an\u00f4malas que, h\u00e1 dez anos, sobressalteiam<br \/>\na Europa &#8211; t\u00eam o benepl\u00e1cito dos mais frios pensadores da Germ\u00e2nia.<br \/>\nH\u00e1 quem descubra naquela figura tumultu\u00e1ria algo de medieval.<br \/>\n\u00c9, de fato, um revenant.<br \/>\nMas, por isso mesmo, \u00e9 o melhor tipo representativo desta situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nespecial\u00edssima da Alemanha a idealizar, com os mesmos enlevos dos trovadores<br \/>\nde suas velhas baladas, a sua miss\u00e3o na terra.<br \/>\nApenas a odiss\u00e9ia n\u00e3o tem rimas; tem cifras; reponta de argumentos<br \/>\ninflexivelmente pr\u00e1ticos; e os seus melhores cantores, uns velhinhos<br \/>\nmans\u00edssimos, saem do remanso das academias. Resolvem um problema: e<br \/>\nn\u00e3o indagam se ele requer, ou dispensa, o processo de elimina\u00e7\u00e3o<br \/>\nde algumas batalhas.<br \/>\nPara o Dr. Vosberg-Rekow, todo o corpo pol\u00edtico-industrial alem\u00e3o<br \/>\ndepende do estrangeiro por maneira tal que a s\u00fabita parada na remessa<br \/>\ndas mat\u00e9rias-primas essenciais lhe acarretar\u00e1 desorganiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ncompleta &#8211; verdadeira ru\u00edna que s\u00f3 pode prevenir com uma poderosa<br \/>\nmarinha apta, do mesmo passo, a fiscalizar os caminhos do mar e a facilitar<br \/>\na conquista de col\u00f4nias produtivas.<br \/>\nO professor Schmoeller \u00e9 at\u00e9 alarmante: se a Alemanha se n\u00e3o<br \/>\nrobustecer bastante no mares, ao ponto de garantir, perenemente, a importa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo trigo de que carece, e, em dadas circunst\u00e2ncias, exercer uma press\u00e3o<br \/>\neficaz sobre os pa\u00edses que lho vendem &#8211; a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia<br \/>\nmaterial est\u00e1 em perigo.<br \/>\nSobre todos, Bassenge, abertamente terrorista, agita tr\u00eas espectros<br \/>\ndo futuro: a R\u00fassia a\u00e7ambarcando quase toda a \u00c1sia; a<br \/>\nAm\u00e9rica do Norte, com a sua ilimitada energia econ\u00f4mica, derrotando<br \/>\na Europa dentro dos mercados europeus; e a Inglaterra, monopolizando o com\u00e9rcio<br \/>\nde um quinto da superf\u00edcie terrestre. Apelam para a estat\u00edstica,<br \/>\na serva desleal da sociologia; calculam; perdem-se nas tortuosidades dessa<br \/>\naritm\u00e9tica imagin\u00e1ria, e Schleiden descobre que em 1980 haver\u00e1<br \/>\n1.280 milh\u00f5es de eslavos e anglo-sax\u00f4nios contra 180 milh\u00f5es<br \/>\nde alem\u00e3es, o que equivale \u00e0 morte do pan-germanismo pelo simples<br \/>\npeso material daquela massa humana.<br \/>\nSering n\u00e3o vai t\u00e3o longe. A seu parecer dentro de vinte anos<br \/>\na ind\u00fastria russa atender\u00e1 por si s\u00f3 ao mercado nacional,<br \/>\no que suceder\u00e1 tamb\u00e9m com a norte-americana, &#8211; e se a Inglaterra<br \/>\nrealizar a planejada Imperial Customs Union, o industrialismo alem\u00e3o<br \/>\nruir\u00e1 de todo, restando \u00e0s popula\u00e7\u00f5es o abandono<br \/>\nda p\u00e1tria.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Diante de perspectivas t\u00e3o sombrias, compreendem-se os lances arrojados<br \/>\nda pol\u00edtica teut\u00f4nica, que assumem hoje os mais d\u00edspares<br \/>\naspectos &#8211; desde a anglofobia exposta durante a guerra do Transvaal, disfar\u00e7ando<br \/>\no intento de captar um consumidor na \u00c1frica do Sul, a esta fant\u00e1stica<br \/>\nestrada de ferro de Bagd\u00e1, visando transformar Ormuz num Suez prussiano,<br \/>\nde onde se facilite uma passagem para o oceano \u00cdndico.<br \/>\nMas, sobre todos estes expedientes, a medida que faz delirar a quantos fil\u00f3sofos,<br \/>\ns\u00e1bios, meio-s\u00e1bios e soci\u00f3logos o fetichismo nacional<br \/>\nde Kreisreidee agita entre o reportado von Bulow e o irrequiet\u00edssimo<br \/>\nimperador, o ideal que estonteia os Wagner, Schmoeller, Hartmann, Vosberg,<br \/>\nSchumacher, Voigt, Sering e toda uma legi\u00e3o de folicul\u00e1rios<br \/>\nassanhados &#8211; \u00e9 a posse do Brasil do Sul.<br \/>\nN\u00e3o lhes resta o vacilar mais breve: ca\u00edmos na \u00f3rbita<br \/>\nda Alemanha, como o Egito na da Inglaterra, e na da R\u00fassia a Manch\u00faria.<br \/>\nO Dr. Leyser &#8211; s\u00e3o em geral doutores estes pioneres abnegados &#8211; n\u00e3o<br \/>\no disfar\u00e7a no seu belo livro:<br \/>\n&#8220;Hoje, nestas prov\u00edncias (Paran\u00e1, Santa Catarina e Rio<br \/>\nGrande do Sul) cerca de 30% dos habitantes s\u00e3o germanos ou seus descendentes:<br \/>\ne, por certo, nos pertence o futuro desta parte do mundo. De feito, ali, no<br \/>\nBrasil meridional, h\u00e1 paragens ricas e salubres, onde os alem\u00e3es<br \/>\npodem conservar a nacionalidade, e um glorioso futuro se antolha a tudo que<br \/>\nse compreende na palavra &#8211; germanismus&#8221;.<br \/>\nComo este, id\u00e9iam-se outros projetos imagin\u00e1rios, que fora in\u00fatil<br \/>\nreproduzir, t\u00e3o conhecidos s\u00e3o eles. E intermitentemente, um<br \/>\nnaturalista de nome arrevezado, H. Meyer, von den Stein, ou qualquer outro,<br \/>\nou esse Dr. Valentim, esp\u00e9cie de rep\u00f3rter enciclop\u00e9dico<br \/>\nde um jornal berlin\u00eas, aparece entre n\u00f3s; tra\u00e7a, em alem\u00e3o,<br \/>\no melhor das nossas in\u00e9ditas paisagens, e atira para al\u00e9m-mar,<br \/>\ndentro de um livro curioso, ou nas entrelinhas das correspond\u00eancias<br \/>\nadministrativas, ou nos cifr\u00f5es dos relat\u00f3rios maci\u00e7os,<br \/>\nnovos elementos ao fervor expansionista em que, por igual, ali se abrasam,<br \/>\nunidos pelo mesmo anelo, militares arrogantes, pol\u00edticos solertes e<br \/>\nausteros pensadores&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Ora, tudo isto \u00e9 monstruosamente verdadeiro; tudo isto forma um dos<br \/>\nprediletos assuntos de grande n\u00famero de revistas, e tudo isto \u00e9<br \/>\num exaustivo, um absolutamente est\u00e9ril bracejar entre miragens.<br \/>\nQue n\u00e3o nos assuste este imperialismo plat\u00f4nico&#8230;<br \/>\nUm simples, o mais apagado lance de vista sobre o atual momento hist\u00f3rico,<br \/>\nrevela que a Alemanha n\u00e3o pode balan\u00e7ar-se, t\u00e3o cedo,<br \/>\na empresas de tal porte. A sua pol\u00edtica expansiva gira num c\u00edrculo<br \/>\nvicioso original; precisa de col\u00f4nias e mercados estranhos para viver<br \/>\ne vencer a concorr\u00eancia de outros povos; precisa dominar, sob todas<br \/>\nas formas, esta concorr\u00eancia, para conseguir aquelas col\u00f4nias<br \/>\ne mercados.<br \/>\nDificilmente se forrar\u00e1 aos entraves desta situa\u00e7\u00e3o penosa.<br \/>\nO seu duelo econ\u00f4mico com a Am\u00e9rica do Norte e com a Inglaterra<br \/>\n\u00e9 dos que n\u00e3o terminam nunca; a sua incompatibilidade com a<br \/>\nFran\u00e7a \u00e9 irremedi\u00e1vel; e a alian\u00e7a com a It\u00e1lia<br \/>\nimplica com a solidariedade latina renascente. Guilherme II, com o seu desastrado<br \/>\nansiar pelas simpatias de todo o mundo, s\u00f3 conseguiu um amigo, um deplor\u00e1vel<br \/>\namigo, o seu grande amigo Habdul-Hamid, o sult\u00e3o vermelho, encouchado,<br \/>\ntrai\u00e7oeiramente, nos Dardanellos, na encruzilhada suspeita de dois<br \/>\nmundos&#8230;<br \/>\nResta-lhe o gravitar passivo na \u00f3rbita desmedida da R\u00fassia.<br \/>\nMas esta h\u00e1 de arrebat\u00e1-lo para o Oriente, longe.<br \/>\nAl\u00e9m disto, o pr\u00edncipe de Monroe, interpretemo-lo \u00e0 vontade,<br \/>\ncom ser um reflexo pol\u00edtico dos interesses estritamente comerciais<br \/>\ndo ianque, tem o valor de nos facilitar ao menos uma longa tr\u00e9gua.<br \/>\nPodemos deixar estas batalhas de frases contra fantasmas e voltar \u00e0<br \/>\nluta real, \u00e0 campanha austera do nosso alevantamento pr\u00f3prio.<br \/>\nQue a Alemanha sonhe \u00e0 vontade: \u00e9 a grande terra idealista por<br \/>\nexcel\u00eancia, onde os mesmos matem\u00e1ticos da envergadura de Leibnitz<br \/>\ns\u00e3o poetas.<br \/>\nAli nasceu Schiller, de quem se conhece um verso admir\u00e1vel.<br \/>\nArc\u00e1dia, p\u00e1tria ideal de toda a gente!<br \/>\nSendo assim, errou o min\u00fasculo soci\u00f3logo precipitado, A Arc\u00e1dia<br \/>\nda Alemanha n\u00e3o \u00e9 o Brasil.<br \/>\nL\u00e1 est\u00e1 dentro dela mesmo, no seu melhor retalho, na Pr\u00fassia<br \/>\nliricamente guerreira e fantasista, onde, nesta hora, tumultuam n\u00e3o<br \/>\nsabemos quantos marechais devaneadores e n\u00e3o sabemos quantos fil\u00f3sofos<br \/>\nbelicosos.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>A VIDA DAS EST\u00c1TUAS<\/h2>\n<p>O artista de hoje \u00e9 um vulgarizador das conquistas da intelig\u00eancia<br \/>\ne do sentimento. Extinguiu-se-lhe com a decad\u00eancia das cren\u00e7as<br \/>\nreligiosas a maior de suas fontes inspiradoras. Aparece num tempo em que as<br \/>\nrealidades demonstr\u00e1veis dia a dia se avolumam, \u00e0 medida em<br \/>\nque se desfazem todas as apar\u00eancias enganadoras, todas as quimeras e<br \/>\nmiragens das velhas e novas teogonias, de onde a inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nlhe rompia, lib\u00e9rrima, a se desafogar num majestoso simbolismo. Resta-lhe,<br \/>\npara n\u00e3o desaparecer, uma miss\u00e3o dif\u00edcil: descobrir,<br \/>\nsobre as rela\u00e7\u00f5es positivas cada vez mais numerosas, outras<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es mais altas em que as verdades desvendadas pela analise<br \/>\nobjetiva se concentrem, subjetivamente, numa impress\u00e3o dominante. Aos<br \/>\nfatos capazes das defini\u00e7\u00f5es cient\u00edficas ele tem de superpor<br \/>\na imagem e as sensa\u00e7\u00f5es, e este impressionismo que n\u00e3o<br \/>\nse define, ou que palidamente se define &#8220;como uma nova rela\u00e7\u00e3o,<br \/>\npassiva de bem estar moral, levando-nos a identificar a nossa sinergia pr\u00f3pria<br \/>\ncom a harmonia natural&#8221;.<br \/>\nE a &#8220;verdade extensa&#8221;, de Diderot, ou o v\u00e9u di\u00e1fano<br \/>\nda fantasia, de E\u00e7a de Queiroz, distendido sobre todas as verdades<br \/>\nsem as encobrir e sem as deformar, mas aformoseando-as e retificando-as, como<br \/>\na melodia musical se expande sobre as secas progress\u00f5es harm\u00f4nicas<br \/>\nda ac\u00fastica, e o arremessado maravilhoso das ogivas irrompe das linhas<br \/>\ngeom\u00e9tricas e das for\u00e7as friamente calculadas da mec\u00e2nica.<br \/>\nDa\u00ed as dificuldades crescentes para o artista moderno em ampliar e<br \/>\ntransmitir, ou reproduzir, a sua emo\u00e7\u00e3o pessoal. Entre ele e<br \/>\no espectador, ou leitor, est\u00e3o os elos intang\u00edveis de uma s\u00e9rie<br \/>\ncada vez maior de no\u00e7\u00f5es comuns &#8211; o perpetuum mobile dessa vasta<br \/>\nlegisla\u00e7\u00e3o que resume tudo o que se agita e vive e brilha e<br \/>\ncanta na exist\u00eancia universal. Diminui-se-lhe a primitiva originalidade.<br \/>\nVinculado cada vez mais ao meio, este lhe imp\u00f5e a passividade de um<br \/>\nprisma: refrata os brilhos de um aspecto da natureza, ou da sociedade, ampliando-os<br \/>\napenas e mal emprestando-lhe os cambiantes de um temperamento. J\u00e1 lhe<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 indiferente, nestes dias, a id\u00e9ia ou o assunto<br \/>\nque tenha de concretizar no m\u00e1rmore ou no livro.<br \/>\nO seu trabalho \u00e9 a homogenia da sua afetividade e da consci\u00eancia<br \/>\ncoletiva. E a sua personalidade pode imprimir-se fundamente num assunto, mas<br \/>\nl\u00e1 permanecera in\u00fatil se destoar das id\u00e9ias gerais e<br \/>\ndos sentimentos da sua \u00e9poca&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Tomemos um exemplo.<br \/>\nH\u00e1 uma est\u00e1tua do marechal Ney, em que se t\u00eam partido<br \/>\ntodos os dentes da cr\u00edtica acad\u00eamica e reportada.<br \/>\nDos m\u00faltiplos aspectos da vida dram\u00e1tica e tormentosa do valente,<br \/>\no escultor escolheu o mais fugitivo e revolto: o final de uma carga vitoriosa.<br \/>\nO general, cujo tronco se apruma num desgarre atrevido, mal equilibrado numa<br \/>\ndas pernas, enquanto a outra se alevanta em salto impetuoso, aparece no mais<br \/>\ncompleto desmancho: a farda desabotoada, e a atitude arremetente num arranco<br \/>\nterr\u00edvel, que se denuncia menos na espada rijamente brandida que na<br \/>\nface contorcida, onde os olhos se dilatam exageradamente e exageradissimamente<br \/>\na boca se abre num grito de triunfo.<br \/>\nE um instant\u00e2neo prodigioso. Uma vida que se funde no relance de um<br \/>\ndel\u00edrio e num bloco de metal. Um arremesso que se paralisa na imobilidade<br \/>\nda mat\u00e9ria, mas para a animar, para a transfigurar e para a idealizar<br \/>\nna ilus\u00e3o extraordin\u00e1ria de uma vida subjetiva e eterna, perpetuamente<br \/>\na renascer das emo\u00e7\u00f5es e do entusiasmo admirativo dos que a<br \/>\ncontemplam.<br \/>\nMas para muitos s\u00e3o perfeitamente rid\u00edculos aquela boca aberta<br \/>\ne muda, aquele bra\u00e7o e aquela perna no ar. Em um quadro, sim, conclamam,<br \/>\n\u00e0 frente de um regimento, aquela atitude seria admir\u00e1vel. Ali,<br \/>\nn\u00e3o; n\u00e3o se compreende aquela nevrose, aquela viol\u00eancia,<br \/>\naquela epilepsia her\u00f3ica no isolamento de um pedestal.<br \/>\nEntretanto, o que a miopia da cr\u00edtica at\u00e9 hoje ainda n\u00e3o<br \/>\ndistinguiu, adivinhou-o sempre a alma francesa; e o legitimista, o orleanista,<br \/>\no bonapartista e o republicano, divergentes, ali se irmanam, enleados pelos<br \/>\nmesmos sentimentos, escutando a ressoar para sempre naquela boca met\u00e1lica<br \/>\no brado triunfal que rolou dos Pireneus \u00e0 R\u00fassia, e vendo na<br \/>\nimprimadura transparente e clara daqueles ares n\u00e3o o regimento t\u00e3o<br \/>\ncomplacentemente requisitado, mas todo o grande ex\u00e9rcito &#8230;<br \/>\nE que a escultura, sobretudo a escultura her\u00f3ica, tem por vezes a simultaneidade<br \/>\nrepresentativa da pintura, de par com a sucess\u00e3o r\u00edtmica da<br \/>\npoesia ou da m\u00fasica. Basta-lhe para isto que se n\u00e3o limite a<br \/>\ndestacar um car\u00e1ter dominante e especial, sen\u00e3o que tamb\u00e9m<br \/>\no harmonize com um sentimento dominante e generalizado.<br \/>\nNeste caso, malgrado o restrito de seus recursos e as exig\u00eancias m\u00e1ximas<br \/>\nde uma s\u00edntese art\u00edstica, capaz de reproduzir toda a amplitude<br \/>\ne toda a agita\u00e7\u00e3o de uma vida num bloco limitado e im\u00f3vel<br \/>\neste ideal \u00e9 notavelmente favorecido pelo sentimento coletivo. A mais<br \/>\nest\u00e1tica das artes, se permitem o dizer, vibra ent\u00e3o na din\u00e2mica<br \/>\npoderosa das paix\u00f5es e a est\u00e1tua, um trabalho de colabora\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que entra mais o sentimento popular do que o g\u00eanio do artista, a<br \/>\nest\u00e1tua aparece-nos viva &#8211; positivamente viva, porque \u00e9 toda<br \/>\na exist\u00eancia imortal de uma \u00e9poca, ou de um povo, numa fase qualquer<br \/>\nde sua hist\u00f3ria que para perpetuar-se procura um organismo de bronze.<br \/>\nPorque h\u00e1 at\u00e9 uma gesta\u00e7\u00e3o para estes entes privilegiados,<br \/>\nque renascem maiores sobre os destro\u00e7os da vida objetiva e transit\u00f3ria.<br \/>\nN\u00e3o bastam, \u00e0s vezes, s\u00e9culos. Durante s\u00e9culos,<br \/>\ngera\u00e7\u00f5es sucessivas os modelam e refazem e aprimoram, j\u00e1<br \/>\nexagerando-lhes os atributos superiores, j\u00e1 corrigindo-lhes os deslizes<br \/>\ne v\u00e3o transfigurando-os nas lendas que se transmitem de lar em lar<br \/>\ne de \u00e9poca em \u00e9poca, at\u00e9 que se ultime a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nprofundamente humana e vasta. De sorte que, n\u00e3o raro, a est\u00e1tua<br \/>\nvirtual, a verdadeira est\u00e1tua, esta feita, restando apenas ao artista<br \/>\no trabalho material de um molde.<br \/>\nA de Anchieta, em S. Paulo, \u00e9 expressivo exemplo.<br \/>\nTome-se o mais bisonho artista; e ele a modelara de um lance.<br \/>\nT\u00e3o empolgante, t\u00e3o sugestiva \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\npopular em torno da mem\u00f3ria do evangelizador que o seu esfor\u00e7o<br \/>\nse reduzira ao trabalho reflexo de uma c\u00f3pia.<br \/>\nN\u00e3o pode errar. As linhas ideais do predestinado corrigem-lhe os desvios<br \/>\ndo buril. O elemento passivo, ali, n\u00e3o \u00e9 a pedra ou o bronze,<br \/>\n\u00e9 o seu g\u00eanio. A alma poderosa do her\u00f3i, nascente do culto<br \/>\nde todas as almas, absorve-lhe toda a personalidade, e transfigura-o e imortaliza-o<br \/>\ncom o mais apagado reflexo da sua mesma imortalidade.. &#8211;<br \/>\nMas h\u00e1 ocasi\u00f5es (e aqui se nos antolha uma contraprova desta<br \/>\npsicologia transcendental e ao parecer singularmente imaginosa) em que a est\u00e1tua<br \/>\nnasce prematura.<br \/>\nFalta-lhe a longa elabora\u00e7\u00e3o do elemento popular. Possui talvez<br \/>\nadmir\u00e1veis elementos capazes de a tornarem grande ao cabo de um longo<br \/>\ntempo &#8211; um longo tempo em que se amorte\u00e7am as paix\u00f5es e se apaguem,<br \/>\npelo s\u00f3 efeito de uma dilatada perspectiva hist\u00f3rica, todas<br \/>\nas linhas secund\u00e1rias de uma certa fase da exist\u00eancia nacional&#8230;<br \/>\nMas n\u00e3o se aguarda esse tempo; n\u00e3o se respeita esse interregno,<br \/>\nou essa quarentena ideal, que livra as grandes vidas dos cont\u00e1gios<br \/>\nperniciosos das nossas pequenas vidas; e decreta-se uma est\u00e1tua, como<br \/>\nse fosse poss\u00edvel decretar-se um grande homem.<br \/>\nEnt\u00e3o, neste vir fora de tempo, ela \u00e9 historicamente invi\u00e1vel.<br \/>\nE n\u00e3o h\u00e1 golpes de g\u00eanio que a transfigurem.<br \/>\nE uma est\u00e1tua morta.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>ANCHIETA<\/h2>\n<p>O grande mission\u00e1rio reconcilia-nos com a Companhia de Jesus.<br \/>\n\u00c9 o seu maior milagre.<br \/>\nVotada em parte \u00e9 antipatia de uma forte corrente de s\u00e1bios<br \/>\ne pensadores, como um elemento dispersivo na solidariedade moral dos povos,<br \/>\na institui\u00e7\u00e3o, para eles irrevogavelmente condenada, tem, na<br \/>\nhistoria, na fei\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 de Anchieta, talvez a sua<br \/>\nfei\u00e7\u00e3o mais atraente.<br \/>\nCombatente, na Europa, como centro de resist\u00eancia do catolicismo ante<br \/>\na irrup\u00e7\u00e3o impetuosa da Reforma, combatente no Extremo Oriente<br \/>\nante as regi\u00f5es seculares do paganismo, ela, ante as tribos ing\u00eanuas<br \/>\nda Am\u00e9rica, foi humana, persuasiva, evangelizadora. Incoerente e sombria,<br \/>\npregando no s\u00e9culo XVI, exageradamente, atrav\u00e9s da justifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nsingular da estranha teoria do regic\u00eddio de Mariana, a soberania do<br \/>\npovo, e combatendo, aliada aos tronos, essa mesma soberania quando surgia<br \/>\ntriunfante no s\u00e9culo XVIII; precipitando ora os reis sobre os povos,<br \/>\nora os povos sobre os reis; tra\u00e7ando, atrav\u00e9s da agita\u00e7\u00e3o<br \/>\nde tr\u00eas longos s\u00e9culos atumultuados, os meandros de espantosas<br \/>\nintrigas &#8211; ela foi, na Am\u00e9rica, coerente na miss\u00e3o civilizadora<br \/>\ne pac\u00edfica, seguindo a trajet\u00f3ria retil\u00ednea do bem, her\u00f3ica<br \/>\ne resignada, difundindo nas almas virgens dos selvagens os grandes ensinamentos<br \/>\ndo Evangelho. N\u00e3o dispersou, uniu.<br \/>\nLigou \u00e0 humanidade, emergente da agita\u00e7\u00e3o fecunda da<br \/>\nIdade M\u00e9dia, um povo inteiro &#8211; esp\u00edritos jungidos a um fetichismo<br \/>\ndeprimente, for\u00e7as perdidas nas correrias guerreiras dos sert\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>E para esta empresa imensa teve entre n\u00f3s uma alma simples, sem violentos<br \/>\n\u00edmpetos de heroicidade &#8211; ampl\u00edssima e casta &#8211; iluminada pela<br \/>\nirradia\u00e7\u00e3o serena do ideal.<br \/>\nDa\u00ed todo o encanto que ressalta \u00e0 simples contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\nda bela figura de Anchieta, entregue hoje \u00e0 exist\u00eancia subjetiva<br \/>\nda hist\u00f3ria, e cujo nome tem na nossa terra a propriedade de fundir<br \/>\ntodas as cren\u00e7as e opini\u00f5es numa venera\u00e7\u00e3o comum.<\/p>\n<p>E que em virtude de causas m\u00faltiplas, em que preponderam de um lado<br \/>\nas condi\u00e7\u00f5es do meio e de outro o pr\u00f3prio sentimento<br \/>\ndos mission\u00e1rios, a Companhia de Jesus perdeu, no novo mundo, a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nbatalhadora.<br \/>\nLonge das controv\u00e9rsias irritantes que circulavam a dissolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo regime cat\u00f3lico-feudal, os ap\u00f3stolos que agiram fora da convuls\u00e3o<br \/>\nque abalava a Europa, com S. Francisco Xavier nas \u00cdndias e com Anchieta<br \/>\ne N\u00f3brega no Ocidente, ao desdobrarem, diante do gentio deslumbrado,<br \/>\na significa\u00e7\u00e3o divina da vida, num c\u00e2ndido misticismo,<br \/>\nsouberam fazer da humildade a forma mais nobre do hero\u00edsmo e venceram<br \/>\npelo incutir nas almas obscuras dos b\u00e1rbaros todo o fulgor que lhes<br \/>\nesclarecia as pr\u00f3prias almas.<br \/>\nE foram al\u00e9m na miss\u00e3o evangelizadora.<br \/>\nA nossa hist\u00f3ria o diz: depois do combate incruento \u00e0 idolatria,<br \/>\ndepois da catequese das tribos, atrav\u00e9s de esfor\u00e7os que lembram<br \/>\nos primeiros s\u00e9culos da igreja, animou-os a preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncapital de salv\u00e1-las da escravid\u00e3o. A ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\nextraordin\u00e1ria de audazes aventureiros exigia a for\u00e7a inconsciente<br \/>\ndo selvagem para as longas pesquisas nos sert\u00f5es.<br \/>\nA hist\u00f3ria dolorosa das redu\u00e7\u00f5es jesu\u00edticas terminada<br \/>\npelo sombrio ep\u00edlogo de Gua\u00edra, patenteia uma invers\u00e3o<br \/>\nsingular de pap\u00e9is: o mission\u00e1rio reagia \u00e0 frente dos<br \/>\nb\u00e1rbaros arrancados \u00e0s selvas, contra os b\u00e1rbaros oriundos<br \/>\ndas terras civilizadas.<br \/>\nDesse conflito resulta, em muitos pontos, a fei\u00e7\u00e3o verdadeiramente<br \/>\nher\u00f3ica do nosso passado.<br \/>\nOra, os que arcavam, no Brasil, com esta miss\u00e3o m\u00faltipla e elevada,<br \/>\ndefinem-se admiravelmente em Anchieta &#8211; um nome que \u00e9 a s\u00edntese<br \/>\nde uma \u00e9poca.<br \/>\nGrande homem, segundo a defini\u00e7\u00e3o profunda de Carlyle, a sua<br \/>\nhist\u00f3ria abrange um largo trecho da nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria<br \/>\nnacional.<br \/>\nDesde 1554, ao criar o terceiro col\u00e9gio regular no Brasil, erigindo<br \/>\nPiratininga, gra\u00e7as ao estabelecimento de um melhor sistema de proselitismo,<br \/>\nesse centro diretor da larga movimenta\u00e7\u00e3o das miss\u00f5es<br \/>\nbrasileiras, at\u00e9 1597, ao expirar em Reritib\u00e1, rodeado pelos<br \/>\ndisc\u00edpulos e pelas tribos catequizadas, a sua exist\u00eancia, dia<br \/>\npor dia, hora por hora, constante no devotamento \u00e0 mais sagrada das<br \/>\ncausas, irradia sobre uma \u00e9poca tumultuosa como uma apoteose luminosa<br \/>\ne vasta.<br \/>\nSoberanamente tranq\u00fcilo sobre a revolta das paix\u00f5es, nada o perturbou<br \/>\n&#8211; nem mesmo quando, colaborando diretamente para a organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nfutura da nossa nacionalidade, ele ligou a palavra ardente de ap\u00f3stolos<br \/>\nao cintilar da espada her\u00f3ica de Est\u00e1cio de S\u00e1 ou impelindo<br \/>\nao combate os guaianases leais, repelia as hordas ferozes dos tamoios que<br \/>\ninvestiam contra S. Paulo.<br \/>\nPreso entre esses \u00faltimos, sob a amea\u00e7a persistente do mart\u00edrio<br \/>\ne da morte, a sua alma religiosa expande-se em poema bel\u00edssimo no qual<br \/>\na dic\u00e7\u00e3o aprimorada se alia \u00e0 erudi\u00e7\u00e3o<br \/>\nnot\u00e1vel. Seguindo \u00e1speros itiner\u00e1rios nos sert\u00f5es<br \/>\nem busca do aimor\u00e9 bravio, \u00e0 amplitude do seu esp\u00edrito<br \/>\nn\u00e3o escapa a nossa natureza deslumbrante acerca da qual faz estudos,<br \/>\nlidos mais tarde com surpresa por todos os naturalistas, que o proclamaram,<br \/>\npela pena de Aug. Saint-Hilaire, um dos homens mais extraordin\u00e1rios<br \/>\ndo s\u00e9culo XVI. Por toda a parte, em todas as situa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde uma carreira longa e brilhante, como simples irm\u00e3o ou no fast\u00edgio<br \/>\ndo provincialado, enfeixando nas m\u00e3os poderes extraordin\u00e1rios,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 um salto, um hiato, um acidente ligeiro perturbando a<br \/>\ncontinuidade da sua exist\u00eancia privilegiada de grande homem &#8211; \u00fatil,<br \/>\nsincero e bom.<br \/>\nFora longo e dific\u00edlimo tra\u00e7\u00e1-la, palidamente embora.<\/p>\n<p>Mais alto e com mais eloq\u00fc\u00eancia do que n\u00f3s, fala este sentimento<br \/>\nsagrado de venera\u00e7\u00e3o que pressentimos em torno, amplo, forte<br \/>\ne generoso, inacess\u00edvel \u00e0s diversidades de cren\u00e7as e<br \/>\nsob cujo influxo se opera em nosso tempo a ressurrei\u00e7\u00e3o do grande<br \/>\nmorto de h\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>GARIMPEIROS<\/h2>\n<p>O forasteiro que rio \u00faltimo quartel do s\u00e9culo XVIII demandasse<br \/>\nos povoados de Minas Gerais, erecto da noite para o dia na extensa zona do<br \/>\ndistrito Diamantino, sentia a breve trecho o mais completo contraste entre<br \/>\na apar\u00eancia singela daqueles modestos vilarejos e as gentes que neles<br \/>\nassistiam.<br \/>\nEntrava pelas ruas tortuosas e estreitas, ora marginando as lez\u00edrias<br \/>\ndos c\u00f3rregos em torcicolos, ora envesgando, clivosas, pelo vi\u00e9s<br \/>\ndos pendores, ladeadas de casas deprimidas de beirais desgraciosos e sa\u00eddos;<br \/>\npercorria-as calcando um \u00e1spero cal\u00e7amento de pedras malgradadas;<br \/>\ndesembocava num largo irregular onde avultava a picota do pelourinho, amea\u00e7adora<br \/>\ne solit\u00e1ria; deparava mais longe duas ou tr\u00eas pesadas igrejas<br \/>\nde taipa; e, certo, sentiria crescer a desoladora saudade do torr\u00e3o<br \/>\nnativo se naquele curto trajeto n\u00e3o se lhe antolhassem singular\u00edssimos<br \/>\nquadros.<br \/>\nSurpreendiam-no, empolgantes, o excesso de vida daqueles recantos sertanejos<br \/>\ne o espet\u00e1culo original da Fortuna domiciliada em pardieiros.<br \/>\nE se conseguisse abarcar de um lance a multid\u00e3o doudejante e inquieta,<br \/>\nque atestava as vielas e torvelinhava nas pra\u00e7as, teria a imagem estranha<br \/>\nde uma sociedade artificial, feita de elementos d\u00edspares transplantados<br \/>\nde outros climas e mal unidos sobre a base<br \/>\ninst\u00e1vel, dia a dia destru\u00edda, ruindo solapada pela vertigem<br \/>\nmineradora &#8211; da pr\u00f3pria terra em que pisavam.<br \/>\nAcampado nos cerros, o povo errante levava para aqueles rinc\u00f5es &#8211; escalas<br \/>\ntransit\u00f3rias ocupadas \u00e0 ventura &#8211; todos os h\u00e1bitos avoengos<br \/>\nque n\u00e3o afei\u00e7oavam ao novo meio. E estadeava todos os seus elementos<br \/>\nincompat\u00edveis fortuitamente reunidos, mas repelindo-se pelo contraste<br \/>\ndas puni\u00e7\u00f5es e das ra\u00e7as: &#8211; dos congos tatuados que moirejavam<br \/>\nnas lavras, com a rija envergadura mal velada pelas tangas estreitas ou rebrilhando,<br \/>\nescura, entre os rasgos das roupas de algod\u00e3o; aos contratadores \u00e1vidos<br \/>\ne opulentos, passando por ali como se andassem nas cidades do reino, entrajando<br \/>\nas casacas de veludo, de portinholas e canh\u00f5es dobrados, abertas para<br \/>\nque se visse o colete bordado de lantejoulas, descidas sobre os cal\u00e7\u00f5es<br \/>\nde seda de Macau atacados com fivelas de ouro. A grenha inestric\u00e1vel<br \/>\ndo africano chucro contrastava com a cabeleira de rabicho, empoada e em volta<br \/>\nde um cadar\u00e7o de gorgor\u00e3o rematando numa la\u00e7ada, do peralvilho<br \/>\nrico; a alpercata de couro cru estalava rudemente junto do sapato fino, pontiagudo,<br \/>\ncravejado de p\u00e9rolas, do reinol casquilho, graciosamente bamboleante<br \/>\ncom o andar que ensinavam os &#8220;mestres de civilidade&#8221;; o cacete de<br \/>\nguarda-costas vibrava pr\u00f3ximo do bast\u00e3o de biqueira de ouro,<br \/>\nfinamente encastoado; e o fac\u00e3o de cabo de chifre, do mateiro, fazia<br \/>\nque ressaltassem, mais art\u00edsticos, os brincos de ourivesaria dos floretes<br \/>\nde guarni\u00e7\u00f5es luxuosas dos fidalgos rec\u00e9m-vindos.<br \/>\nIa-se de um salto de uma camada social a outra.<br \/>\nParecia n\u00e3o haver interm\u00e9dios \u00e0quela simbiose da Escravid\u00e3o<br \/>\ncom o Ouro, porque n\u00e3o havia encontr\u00e1-los mesmo no agrupamento<br \/>\nincaracter\u00edstico, e mais separador que unificador, dos solertes capit\u00e3es-do-mato,<br \/>\ndos meirinhos odientos, dos bravateadores oficiais de drag\u00f5es, dos<br \/>\nguarda-mores, dos escriv\u00e3es, dos pedestres e dos exatores, a\u00e7ulados<br \/>\npelas ruas, farejando as estradas e as picadas, perquirindo os c\u00f3rregos<br \/>\ne os desmontes, em busca do escravo; filando-se \u00e0s pernas \u00e1geis<br \/>\ndos contrabandistas; colados no rastro dos contraventores; e espavorindo os<br \/>\nfaiscadores pobres, inquirindo, indagando, prendendo, intimando e, quase sempre,<br \/>\nmatando&#8230;<br \/>\nSobre tudo isto dois tremendos fiscais que a Corte long\u00ednqua despachara<br \/>\napercebidos de faculdades discricion\u00e1rias: o Ouvidor da comarca e o<br \/>\nIntendente dos diamantes.<br \/>\nTinham a tarefa f\u00e1cil de uma justi\u00e7a que por seu turno se exercitava<br \/>\nentre extremos, monstruosa e simples, mal variando nos &#8220;termos de pris\u00e3o,<br \/>\nh\u00e1bito e tonsura&#8221;; oscilando em mesmices torturantes, da devassa<br \/>\nao pelourinho, do confisco \u00e0 morte, dos troncos das cadeias aos dez<br \/>\nanos de degredo em Angola.<br \/>\nE que a terra farta, desentranhando-se nos min\u00e9rios anelados, n\u00e3o<br \/>\nera um lar, sen\u00e3o um campo de explora\u00e7\u00e3o predestinado<br \/>\na pr\u00f3ximo abandono quando as grupiaras ricas se transmudassem nas restingas<br \/>\nsafaras, e fossem avultando, maiores, mais solenes e impressionadoras, sobre<br \/>\na pequenez dos povoados deca\u00eddos, as Catas silenciosas e grandes mont\u00f5es<br \/>\nde argila revolvidos tumultuando nos ermos \u00e0 maneira de ru\u00ednas<br \/>\nbabil\u00f4nicas&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mas fora da minera\u00e7\u00e3o legal adscrita na impertin\u00eancia<br \/>\nb\u00e1rbara dos alvar\u00e1s e cartas r\u00e9gias; trabalhada de fintas,<br \/>\nalternativamente agravada pelo quinto e pela capta\u00e7\u00e3o exaurida<br \/>\na princ\u00edpio pelos contratadores e depois pela extra\u00e7\u00e3o<br \/>\nreal, estendera-se intang\u00edvel, e livre, e criminosa, irradiante pelos<br \/>\nmil tent\u00e1culos dos ribeir\u00f5es e dos rios, desdobrando-se pelos<br \/>\ntabuleiros, ou remontando \u00e0s serras, a faina revolucion\u00e1ria<br \/>\ne atrevida dos garimpos.<br \/>\nDespejados dos arraiais; esquivos pelas matas que varavam premunidos de cautelas<br \/>\nporque n\u00e3o raro no glauco das paisagens coruscavam, de golpe, os talins<br \/>\ndourados e os ter\u00e7ados dos drag\u00f5es girando em sobre-rondas c\u00e9leres;<br \/>\nca\u00e7ados como feras &#8211; os garimpeiros, incorrig\u00edveis devassadores<br \/>\ndas demarca\u00e7\u00f5es interditas, davam o \u00fanico tra\u00e7o<br \/>\nvaronil que enobrece aquela quadra.<br \/>\nVinham de um tiroc\u00ednio bruto de perigos e trabalhos, nas velhas minera\u00e7\u00f5es;<br \/>\ne, \u00fanicos elementos fixos numa sociedade m\u00f3vel, de imigrantes,<br \/>\niam capitalizando as energias despendidas naqueles assaltos feroc\u00edssimos<br \/>\ncontra a terra.<br \/>\nDesde as primitivas buscas pelos leitos dos c\u00f3rregos, dos caldeir\u00f5es<br \/>\ne das itaipavas, com o almocrafe curvo ou a bateia africana, na atividade<br \/>\nerrante das faisqueiras; aos trabalhos nos tabuleiros, arcando sob os carumb\u00e9s<br \/>\nrefertos ou vibrando as cavadeiras chatas at\u00e9 aos lastros \u00e1speros<br \/>\ndos n\u00f3dulos de hematita das tapanhuacangas; \u00e0s catas mais s\u00e9rias,<br \/>\n\u00e0s explora\u00e7\u00f5es intensas das grupiaras pelos recostos<br \/>\ndos morros que broqueados de cavas circulares e sarjados pelas linhas retil\u00edneas<br \/>\ne paralelas das levadas, desmantelados e desnudos, tornavam maiores as tristezas<br \/>\ndo ermo; e, por fim, \u00e0 abertura das primeiras galerias acompanhando<br \/>\nos veios quartzosos, mas sem os resguardos atuais, tendo sobre as cabe\u00e7as<br \/>\no peso amea\u00e7ador de toda a massa das montanhas &#8211; eles percorreram todas<br \/>\nas escalas da escola formid\u00e1vel da for\u00e7a e da coragem.<br \/>\nVibraram contra a natureza recursos estupendos.<br \/>\nAbriram canais de l\u00e9guas ajustados \u00e0s linhas das cumiadas altas;<br \/>\ne adunando a centenas de metros de altura, em vastos reservat\u00f3rios,<br \/>\nas \u00e1guas captadas, rompiam-nos. Ouviam-se sons das trompas e buzinas<br \/>\nprevenindo os eitos de escravos derramados nas encostas, para se desviarem;<br \/>\ne logo ap\u00f3s uma vibra\u00e7\u00e3o de terremoto, um como desabamento<br \/>\nda montanha, a avalancha artificial desencadeada pelos pendores, tempesteando<br \/>\ne rolando &#8211; troncos e galhadas, fraguedos e graieiros, confundidos, embaralhados,<br \/>\nremoendo-se, triturando-se, descendo vertiginosamente e batendo embaixo dentro<br \/>\ndos amplos mund\u00e9us onde acachoava o fervor da vasa avermelhada lampejante<br \/>\ndas palhetas apetecidas&#8230;<br \/>\nDesviavam os rios; invertiam-lhes as nascentes, ou torciam-nos cercando-os;<br \/>\ne, por vezes, alevantavam-nos, inteiros, sobre os mesmos leitos. Todo o Jequitinhonha,<br \/>\nadrede contido e alteado por uma barragem, derivou certa vez por um bicame<br \/>\ncolossal, de grossas pranchas presas de gastalhos, deixando em seco, poucos<br \/>\nmetros abaixo, o cascalho sobre que fluia h\u00e1 mil\u00eanios&#8230;<br \/>\nE ali embaixo, centenares de tit\u00e3es tranq\u00fcilos, compassando as<br \/>\nmodinhas dolentes com o soar dos almocrafes e alavancas, labutavam, cantando<br \/>\ndescuidados, tendo por cima o dil\u00favio canalizado&#8230;<br \/>\nAssim foram crescendo&#8230;<br \/>\nDe sorte que quando a metr\u00f3pole, exagerando a antiga avidez ante a<br \/>\nfama dos novos &#8220;descobertos&#8221;, se demasiou em rigores e prepot\u00eancias<br \/>\npara tornar efetivo o monop\u00f3lio da extra\u00e7\u00e3o, isolando<br \/>\naquela zona de todo o resto do mundo, dificultando as licen\u00e7as de entrada<br \/>\ne os passaportes, multiplicando registos e barreiras, extinguindo os correios,<br \/>\ne tentando mesmo circunvalar as demarca\u00e7\u00f5es, n\u00e3o lhe<br \/>\nbastando o permanente giro das esquadras de pedestres, baldaram-se-lhe em<br \/>\nparte os esfor\u00e7os ante os rudes ca\u00e7adores furtivos da fortuna,<br \/>\ninating\u00edveis \u00e0s fintas, \u00e0s multas, \u00e0s tomadias,<br \/>\naos confiscos, \u00e0s den\u00fancias, \u00e0s derramas; e que aliados<br \/>\naos pechilingueiros vivos, aos tropeiros ardilosos passando entre as patrulhas<br \/>\ncom o contrabando precioso metido entre os forros das cangalhas, aos comboieiros<br \/>\nque enchiam os cabos ocos das facas com as pedras inconcessas, ou aos mascates<br \/>\naventureiros intercalando-as nos remontes dos coturnos grosseiros &#8211; estendiam<br \/>\npor toda a banda, at\u00e9 ao litoral, a agita\u00e7\u00e3o clandestina,<br \/>\nher\u00f3ica e formid\u00e1vel.<br \/>\n&#8220;Desaforados escaladores da terra!&#8230;&#8221; invectivavam as r\u00edspidas<br \/>\ncartas r\u00e9gias, delatando o desapontamento da Corte remota ao pressentir<br \/>\nescoarem-se-lhe as riquezas pelos infinitos golpes que lhe davam nos regimentos<br \/>\naqueles advers\u00e1rios.<br \/>\nE armou contra eles ex\u00e9rcitos.<br \/>\nBateram longamente os caminhos as patas entaloadas dos corpos de drag\u00f5es.<br \/>\nAdensaram-se em batalh\u00f5es as patrulhas errantes e dispersas dos pedestres;<br \/>\ne avan\u00e7aram ao acaso pelas matas em busca dos advers\u00e1rios invis\u00edveis.<br \/>\nOs garimpeiros remontavam \u00e0s serras: espalhavam-se em atalaias; grupavam-se<br \/>\nem guerrilhas diminutas; e por vezes os graves intendentes confessavam aos<br \/>\nconselhos de ultramar a &#8220;vit\u00f3ria de uma emboscada de salteadores&#8221;.<br \/>\nFinalmente se planearam batalhas.<br \/>\nRijos capit\u00e3es-generais, endurados nas refregas da \u00cdndia, largaram<br \/>\ndos povoados ao ressoar das preces propiciat\u00f3rias e serm\u00f5es,<br \/>\nchefiando os ter\u00e7os aguerridos, e arrastando penosamente pelos desfreq\u00fcentados<br \/>\ndesvios as colubrinas longas e os pedreiros brutos.<br \/>\nMas roncearam, inutilmente, pelos ermos.<br \/>\nEnquanto \u00e0 roda, desafiando-os, alcandorados nos itamb\u00e9s a prumo;<br \/>\nrelampeando no s\u00fabito fulgir das descargas, das tocaias; derivando<br \/>\nem escaramu\u00e7as pelos telhados dos montes; arrebentando \u00e0 boca<br \/>\ndas velhas minas em abandono, de repente escancaradas numa explos\u00e3o<br \/>\nde tiros &#8211; os &#8220;desaforados escaladores da terra&#8221;, os an\u00f4nimos<br \/>\nconquistadores de uma p\u00e1tria, zombavam triunfalmente daqueles aparatos<br \/>\nguerreiros, espetaculosos e inofensivos.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>UMA COM\u00c9DIA HIST\u00d3RICA<\/h2>\n<p>Na Europa diplom\u00e1tica do s\u00e9culo XVIII o Portugal de D. Jo\u00e3o<br \/>\nV era urna exce\u00e7\u00e3o desanimadora. Despeara-se no progresso geral<br \/>\ne ia atingir a quadra revolucion\u00e1ria, mal disfar\u00e7ando, com a<br \/>\nexterioridade deslumbrante das minas do Brasil, os m\u00e1ximos desfalecimentos<br \/>\nda originalidade e da vida.<br \/>\nH\u00e1 um atestado expressivo desse fato: a fei\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<br \/>\ndo tempo, incolor e ex\u00f3tica, laivada de per\u00edfrases e trocadilhos,<br \/>\nou sulcada de met\u00e1foras extravagantes, reveladoras dos resaibos corruptores<br \/>\ndas canzoni alambicadas de Mazini ou das agudezas e hip\u00e9rboles assombrosas<br \/>\nde Gongora.<br \/>\nEra um recuo deplor\u00e1vel. O italianismo e o espanholismo, que haviam<br \/>\nsido um caracter\u00edstico geral da literatura europ\u00e9ia, em passado<br \/>\nrecente, desapareciam em toda a banda. Na Inglaterra, o exc\u00eantrico eufu\u00edsmo,<br \/>\nque lembra um assalto de cansa\u00e7o depois da formid\u00e1vel elabora\u00e7\u00e3o<br \/>\nshakespeariana, alastrando-se da fantasia maravilhosa de Milton, as rimas<br \/>\ninfam\u00edssimas de Wicherley &#8211; desaparecia ante a frase lapidaria de Burton;<br \/>\nna Fran\u00e7a, o preciosismo acabava pelo pr\u00f3prio exagero, embora<br \/>\nse abrisse no sal\u00e3o de Luiz XIV o grande molde dourado do classicismo,<br \/>\ncom o recato do pensar e o requintado polido das maneiras e do dizer; e na<br \/>\nmesma It\u00e1lia, de onde surgira o primado ef\u00eamero dos pensieri<br \/>\no lirismo vigoroso de Metastasio iniciava triunfalmente uma era nova. \u00c9<br \/>\nque nestes pa\u00edses se formara a energia de uma renova\u00e7\u00e3o<br \/>\ncient\u00edfica e filos\u00f3fica que, com F. Bacon, Descartes e Galileu,<br \/>\nalevantara sobre a rumaria da escol\u00e1stica os elementos do esp\u00edrito<br \/>\nmoderno. Em todos a arte de escrever era apenas um aspecto, o mais sedutor<br \/>\ntalvez, e nada mais, das intelig\u00eancias que, em breve, encontrariam no<br \/>\nmaior oper\u00e1rio da Enciclop\u00e9dia &#8211; a um tempo romancista, dramaturgo,<br \/>\ncr\u00edtico, cientista e fil\u00f3sofo &#8211; em Diderot, o exemplo vivo do<br \/>\nquanto importam ao mais ousado idealizar est\u00e9tico os mais aparentemente<br \/>\nfrios recursos positivos.<br \/>\n~m Portugal, n\u00e3o. A l\u00edngua forte dos quinhentistas gaguejava<br \/>\nnas silvas e acr\u00f3sticos alambicados, nas maravilhas do falar e no requinte<br \/>\nest\u00e9ril de um culteranismo, onde a fragilidade das id\u00e9ias facultava<br \/>\naos per\u00edodos vazios o caprichoso das formas mais bizarras. A terra<br \/>\nde Bieira dava quase o espet\u00e1culo da desordem da palavra numa esp\u00e9cie<br \/>\nde afasia liter\u00e1ria.<br \/>\nO s\u00e9culo XVIII teve o seu aspecto filos\u00f3fico e o seu aspecto<br \/>\nmundano. Teve Voltaire e teve Crebillon. Portugal copiava o \u00faltimo,<br \/>\nao mesmo tempo que D. Jo\u00e3o V imitava a frivolidade resplandecente do<br \/>\nrei Sol dos minuetes e das etiquetas, olvidando o Luiz XIV dos tratados.<br \/>\nDa\u00ed o burlesco daquela tentativa de transferir para Lisboa um lampejo<br \/>\nde Versalhes, numa grandeza achamboada e informe que era, como todas as par\u00f3dias,<br \/>\num contraste. E o contraposto entre o medido das frases e das id\u00e9ias,<br \/>\nque na corte parisiense transmudavam o classicismo numa sistematiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nda vulgaridade, e o retumbante e amaneirado das glosas e madrigais dos versejadores<br \/>\nportugueses. Comparem-se o Cam\u00f5es do Rocio e Boileau; ou ent\u00e3o<br \/>\na pragm\u00e1tica dos saraus de Rambouillet aos festejos ruidosos de Lisboa<br \/>\nonde se viam, sem esc\u00e2ndalo \u00e0 fradaria inumer\u00e1vel, rompentes<br \/>\nnas prociss\u00f5es ou saracoteando nos sal\u00f5es, ao toar dos ala\u00fades<br \/>\ne guitarras, a Poesia, a Gram\u00e1tica (a gram\u00e1tica!) e a Ret\u00f3rica<br \/>\ncom a sua ninhada de Tropos espalhafatosos, de Met\u00e1foras nervosas,<br \/>\nde Ger\u00fandios rotundos e de supinos desfibrados, materializados todos<br \/>\nnum grande excesso de objetivismo.<br \/>\nEsta literatura refletia uma \u00e9poca.<br \/>\nA terra forte que se sacrificara ao progresso geral, repontando \u00e0 tona<br \/>\nda Renascen\u00e7a para mergulhar numa outra Idade M\u00e9dia e reconstituir<br \/>\nno novo mundo o mundo antigo que acabara &#8211; chegava, surpreendida e deslumbrada,<br \/>\n\u00e0 quadra maravilhosa. Quis encal\u00e7\u00e1-la e s\u00f3 lhe<br \/>\nabsorveu os estigmas remanescentes.<br \/>\nA pr\u00f3pria galanteria, que encontrara no abade Prevost &#8211; e na maioria<br \/>\ndos padres voltairianos, que embarcavam galantemente para C\u00edtera &#8211;<br \/>\nint\u00e9rpretes inimit\u00e1veis, ali se derrancara nas requestas perigosas.<br \/>\nO amor era brutal, liricamente brutal se o quiserem, armado de capa e espada,<br \/>\nde botas e esporas, marchando para as entrevistas como para os fossados arriscados.<br \/>\nAo cair da noite, espessa e impenetr\u00e1vel, sem a fresta \u00fanica<br \/>\nde um lampi\u00e3o morti\u00e7o, as ruas de Lisboa tinham os pavores das<br \/>\nazinhagas solit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Eram o para\u00edso tenebroso dos chichib\u00e9us errantes, e mascarados<br \/>\nnum requinte de resguardos, porque as formas se lhes dilu\u00edam no escuro,<br \/>\napagadas e impercept\u00edveis, num deslizamento silencioso de lemures cautelosos.<br \/>\nE o estrangeiro curioso que os acompanhasse, ou que os apartasse nos duelos<br \/>\nsubitamente travados ao acaso, no volver das esquinas, podia encontrar o faquista<br \/>\ndesclassificado, o pr\u00f3digo doudivanas, o frade corrompido, o fidalgo<br \/>\nmarialva, ou o rei&#8230;<br \/>\nA aventura noturna de D. Jo\u00e3o IV e D. Francisco Manoel n\u00e3o fora<br \/>\ndeslembrada. E embora D. Jo\u00e3o V, mais precavido e pr\u00e1tico, preferisse,<br \/>\nao arriscado destes encontros, os recatados c\u00f4modos do har\u00e9m<br \/>\nser\u00e1fico de Mafra, tinha no irm\u00e3o, o infante D. Francisco, e<br \/>\nno Duque de Cadaval, uns dignos continuadores das mesmas tropelias romanescas.<br \/>\nFelizmente entre estes nobres gandaieiros, um espadachim atrevido, um mesti\u00e7o<br \/>\n\u00e0 volta dos vinte anos, um tal Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 de Carvalho,<br \/>\naparecia \u00e0s vezes, compartindo as desordens que ele mais tarde extinguiria,<br \/>\nporque lhes aquilatara, experimentalmente, os inconvenientes e as torpezas.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mas havia tamb\u00e9m um homem, o mesmo homem que Oliveira Lima, no Secret\u00e1rio<br \/>\nd&#8217;El-Rei nos apresenta sob uma de suas mais interessantes modalidades &#8211; Alexandre<br \/>\nde Gusm\u00e3o.<br \/>\nEra brasileiro; mas nesta circunst\u00e2ncia fortuita n\u00e3o est\u00e1<br \/>\no interesse que ele nos desperta. O que dele nos impressiona \u00e9 o contraste<br \/>\nde uma individualidade original e forte e a decrepitude do meio em que ela<br \/>\nagiu. Aquele escriv\u00e3o da puridade preso pelo contato di\u00e1rio<br \/>\n\u00e0 corte e pelo cargo obrigado a submeter-se a todas as exig\u00eancias<br \/>\nda \u00e9poca e a tacanhear o talento nos escaninhos e nas estreitezas dos<br \/>\nrelat\u00f3rios enfadonhos &#8211; reponta-nos nas suas admir\u00e1veis cartas<br \/>\na D. Luiz da Cunha, com a atitude inesperada de um fiscal incorrupt\u00edvel,<br \/>\nir\u00f4nico e formid\u00e1vel. Nele, sim, enfaixavam-se todos os est\u00edmulos<br \/>\nc\u00e9ticos, agressivos e assombrosamente demolidores que se esbo\u00e7avam<br \/>\nna Fran\u00e7a.<br \/>\nA sociedade pecaminosa de D. Jo\u00e3o V, onde o monstruoso substitu\u00eda<br \/>\na grandeza, com as suas ant\u00edteses clamorosas, com os seus lausperenes<br \/>\ne as suas devassid\u00f5es, com o tr\u00e1gico da inquisi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a glorifica\u00e7\u00e3o de todos os rid\u00edculos, com o idiota<br \/>\ncardeal Mota que acabou com as trovoadas riscando-as da folhinha do ano, com<br \/>\no seu m\u00edstico tenente Santo Antonio, jogralescamente promovido por<br \/>\natos de bravura, e com o c\u00ednico Encerrabodes tolerado em todas as salas<br \/>\n&#8211; o Portugal paraguaio dos Jesu\u00edtas com os seus monges, os seus padres,<br \/>\nos seus rufi\u00f5es, a sua patriarcal, a sua escol\u00e1stica garbosamente<br \/>\nf\u00fatil e a sua literatura desfalecida, teve no seu primeiro ministro<br \/>\no seu mais implac\u00e1vel juiz.<br \/>\nSob este aspecto, a figura ainda n\u00e3o bem estudada de Alexandre de Gusm\u00e3o<br \/>\n\u00e9 impressionadora.<br \/>\nFoi um voltairiano antes de Voltaire: a mesma espiritualidade expansiva, em<br \/>\nque pese uma cultura menor, a mesma mobilidade, os mesmos arrebatamentos,<br \/>\no mesmo sarcasmo diab\u00f3lico e a mesma emancipa\u00e7\u00e3o intelectual,<br \/>\nrevolucion\u00e1ria e brilhante.<br \/>\nN\u00e3o o considerou sob essa fei\u00e7\u00e3o complexa Oliveira Lima,<br \/>\nque dific\u00edlimo fora constrigi-lo nos tr\u00eas atos de uma com\u00e9dia.<br \/>\nFixou-o, por\u00e9m, por uma de suas faces encantadoras: a ador\u00e1vel<br \/>\ncomplec\u00eancia de uma alma sobranceira \u00e0s ru\u00ednas de um amor<br \/>\nn\u00e3o correspondido e verdadeiramente her\u00f3ica no amparar o rival<br \/>\nfeliz que o compartia.<br \/>\nO assunto, como se v\u00ea, \u00e9 profundamente dram\u00e1tico. A \u00edndole<br \/>\ndo protagonista, entretanto, transmudou-o numa com\u00e9dia.<br \/>\nO grande homem pareceu-nos talvez apequenado no tortuoso de uma intriga vulgar,<br \/>\nmas tra\u00e7a, cortando uma situa\u00e7\u00e3o trivial\u00edssima,<br \/>\na linha impressionadora de uma individualidade nova no meio de uma sociedade<br \/>\nenvelhecida. Realmente, o que hoje para n\u00f3s \u00e9 uma vulgaridade<br \/>\n&#8211; este triste humorismo com que na press\u00e3o atual da vida moderna disfar\u00e7amos<br \/>\ncautelosamente as maiores desventuras e este &#8220;levar as coisas a rir mesmo<br \/>\nquando elas s\u00e3o de fazer-nos chorar&#8221; &#8211; eram uma novidade na \u00e9poca<br \/>\nbrutal em que a fraqueza irrit\u00e1vel das gentes supersticiosas e incultas<br \/>\npredispunha ao impulsivo e ao desafogo m\u00e1ximo das paix\u00f5es.<br \/>\nAssim considerado, o Secret\u00e1rio d&#8217;El-Rei \u00e9 um livro bel\u00edssimo.<br \/>\nQue outros, mais vezados \u00e0 t\u00e9cnica teatral, lhe apontem todos<br \/>\nos defeitos. N\u00f3s, n\u00e3o. Satisfez-nos o aprumo impec\u00e1vel,<br \/>\na fidalguia espirituosa com que Alexandre de Gusm\u00e3o, sem destoar da<br \/>\nnota superior de seu car\u00e1ter, destramou o intrincado de um incidente<br \/>\npassional que o colhera de improviso no meio dos seus relat\u00f3rios e<br \/>\ndos seus livros &#8211; sem criar uma situa\u00e7\u00e3o de fraqueza \u00e0s<br \/>\nsuas magn\u00edficas rebeldias do pensar e do sentir.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>PLANO DE UMA CRUZADA<\/h2>\n<p>I<\/p>\n<p>As secas do extremo norte delatam, impressionadoramente, a nossa imprevid\u00eancia,<br \/>\nembora sejam o \u00fanico fato de toda a nossa vida nacional ao qual se<br \/>\npossa aplicar o princ\u00edpio da previs\u00e3o. Habituamo-nos \u00e0quelas<br \/>\ncat\u00e1strofes peri\u00f3dicas. Desde a lancinante odiss\u00e9ia de<br \/>\nPero Coelho, no alvorar do s\u00e9culo XVII, at\u00e9 ao presente, elas<br \/>\nv\u00eam formando, \u00e0 margem da nossa hist\u00f3ria, um trist\u00edssimo<br \/>\nap\u00eandice de indescrit\u00edveis desastres. A princ\u00edpio, merc\u00ea<br \/>\ndo pr\u00f3prio despovoamento do territ\u00f3rio, ningu\u00e9m as percebeu.<br \/>\nNotou-as, apreensivo, o primeiro sertanista que se afoitou, naquelas bandas,<br \/>\ncom o desconhecido: os flagelos revelados mal rebrilham e repontam, fogac\u00edssimos,<br \/>\nrompentes da linguagem perra e nebulosa dos roteiros&#8230; Depois, \u00e0 medida<br \/>\nque se povoava a terra, cresceu-lhes a influ\u00eancia, e desvendaram-se-lhes<br \/>\nos aspectos, deplor\u00e1veis todos.<br \/>\nEm 1692, em 1793 e em 1903 &#8211; para apontarmos apenas as datas seculares entre<br \/>\nas quais se inserem, inflexivelmente, como termos de uma s\u00e9rie, outras,<br \/>\nsucedendo-se numa raz\u00e3o quase invari\u00e1vel &#8211; o seu limbo de fogo<br \/>\nabrangendo toda a expans\u00e3o peninsular que o cabo de S. Roque extrema<br \/>\nabriu, intermitentemente, largos hiatos nas atividades. Outrora, completavam-lhe<br \/>\nos efeitos as depreda\u00e7\u00f5es do tapuia &#8211; tribos errantes precipitando-se,<br \/>\nestonteadas, para o litoral, e para o sul, reflu\u00eddas pelos s\u00f3is<br \/>\nbravios; hoje, as incurs\u00f5es dos jagun\u00e7os destemerosos &#8211; almas<br \/>\nvaronis, que a desventura maligna, derrancando-as nas aventuras brutais dos<br \/>\nquadrilheiros; e sobre umas e outras, em todas as quadras, o ep\u00edlogo<br \/>\nfor\u00e7ado das epidemias devastadoras rematando as espantosas trag\u00e9dias<br \/>\nque mal se denunciam no apagado de imperfeitas not\u00edcias ou inexpressivas<br \/>\nmem\u00f3rias.<br \/>\nH\u00e1 uma est\u00e9tica para as grandes desgra\u00e7as coletivas.<br \/>\nA peste negra na Europa aviventou um renascimento art\u00edstico que veio<br \/>\ndo verso triunfal de Petrarca \u00e0 fantasia tenebrosa de Albert D\u00fcrer<br \/>\ne ao pincel fun\u00e9reo de Rembrandt. A dan\u00e7a de S. Guido, que sacudiu<br \/>\nconvulsivamente as popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas do Reno, criou a idealiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nmaravilhosa da dan\u00e7a Macabra. A morte imortalizou os artistas definidos<br \/>\npelo g\u00eanio misterioso de Holbein, e perdida a apar\u00eancia lutuosa,<br \/>\no seu espectro hilariante, arrebatado na tar\u00e2ntula infernal, percorreu<br \/>\nentre os aplausos de um triunfo doloroso todos os dom\u00ednios da arte,<br \/>\ndas p\u00e1ginas de Manzoni, \u00e0s ros\u00e1ceas rendilhadas das catedrais,<br \/>\n\u00e0s iluminuras dos livros de Horas dos crentes e ao caprichoso cinzelado<br \/>\ndos copos das espadas gloriosas&#8230;<br \/>\nMas entre n\u00f3s estes transes t\u00e3o profundamente dram\u00e1ticos<br \/>\nn\u00e3o deixam tra\u00e7os duradouros. Aparecem, devastam e torturam;<br \/>\nextinguem-se e ficam deslembrados.<br \/>\nEntretanto, sen\u00e3o pelos seus feitos desastrosos, pela sua insist\u00eancia,<br \/>\npela impertin\u00eancia insan\u00e1vel com que se ajustam aos nossos destinos,<br \/>\neles s\u00e3o o mais imperioso desafio \u00e0s for\u00e7as do nosso<br \/>\nesp\u00edrito e do nosso sentimento.<br \/>\nMas criaram sob o ponto de vista art\u00edstico raras p\u00e1ginas incolores<br \/>\nde um ou outro livro, e alguns alexandrinos resplandecentes de Junqueiro;<br \/>\nna ordem administrativa, medidas que apenas paliam os estragos; e no campo<br \/>\ndas investiga\u00e7\u00f5es cientificas o conflito est\u00e9ril da algumas<br \/>\nteorias desfalecidas.<br \/>\nE que o fen\u00f4meno clim\u00e1tico, t\u00e3o prejudicial a um quinto<br \/>\ndo Brasil, s\u00f3 nos impressiona quando aparece; \u00e9 uma eterna e<br \/>\nmon\u00f3tona novidade; estudamo-lo sempre nas aperturas e nos sobressaltos<br \/>\ndos per\u00edodos certos em que ele se desencadeia.<br \/>\nEnt\u00e3o a alma nacional, de chofre comovida, ostenta o seu velho sentimentalismo<br \/>\nincorrig\u00edvel desentranhando-se em subscri\u00e7\u00e3o e em sonetos,<br \/>\nem manifestos liricamente gong\u00f3ricos e em telegramas alarmantes; os<br \/>\npoderes p\u00fablicos compram sacos de farinha e organizam comiss\u00f5es,<br \/>\ne os cientistas apressados &#8211; os nossos ador\u00e1veis s\u00e1bios \u00e0<br \/>\nla minute &#8211; ansiando por salvarem tamb\u00e9m um pouco a pobre terra, imaginam<br \/>\nhip\u00f3teses.<br \/>\nOra, a fei\u00e7\u00e3o proteiforme destas \u00faltimas \u00e9 expressiva.<br \/>\nDos fatos geom\u00e9tricos mais simples (a forma especial do continente<br \/>\nnorte-oriental), \u00e0s circunst\u00e2ncias orogr\u00e1ficas da orienta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas serras, \u00e0 fatalidade astron\u00f4mica da rota\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas manchas solares, \u00e0s considera\u00e7\u00f5es mais s\u00e9rias<br \/>\nrelativas \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o litol\u00f3gica dos terrenos<br \/>\n&#8211; em todos estes pontos, que formam, afinal, toda a psiografia do extremo<br \/>\nnorte, tem doidejado as indaga\u00e7\u00f5es com o efeito \u00fanico<br \/>\nde revelarem o tra\u00e7o caracter\u00edstico do nosso esp\u00edrito<br \/>\nafei\u00e7oado a um generalizar espetaculoso com o sacrif\u00edcio da<br \/>\nespecializa\u00e7\u00e3o tenaz, mais modesta, mais obscura e mais \u00fatil.<\/p>\n<p>Diante da enorme fatalidade cosmol\u00f3gica, temos uma atitude de amadores;<br \/>\ne fazemos f\u00edsica para mo\u00e7as. Da\u00ed a instabilidade e o<br \/>\nbaralhamento dos ju\u00edzos. Acompanhamos o fen\u00f4meno escravizados<br \/>\n\u00e0 sua cad\u00eancia r\u00edtmica; n\u00e3o lhe antepomos \u00e0<br \/>\nintermit\u00eancia a continuidade dos esfor\u00e7os. Entretanto, o pr\u00f3prio<br \/>\nvariar das causas precipitadas nos revela. a sua fei\u00e7\u00e3o complexa,<br \/>\nexigindo longos e pacientes estudos. E evidente que estes ser\u00e3o sempre<br \/>\nest\u00e9reis, adstritos aos paroxismos estivais, desdobrando-se na plenitude<br \/>\ndas cat\u00e1strofes desencadeadas com o objetivo ilus\u00f3rio de as<br \/>\ndebelar, quando uma interven\u00e7\u00e3o realmente eficaz s\u00f3 pode<br \/>\nconsistir no prevenir as secas inevit\u00e1veis, do futuro.<br \/>\nEstabelecido de modo inilud\u00edvel o fatalismo das leis f\u00edsicas,<br \/>\nque est\u00e3o firmando o regime des\u00e9rtico em mais de um milh\u00e3o<br \/>\nde quil\u00f4metros quadrados do territ\u00f3rio e torturando cerca de<br \/>\ntr\u00eas milh\u00f5es de povoadores, imp\u00f5e-se-nos a resist\u00eancia<br \/>\npermanente, constante, inabal\u00e1vel e tenaz &#8211; uma esp\u00e9cie de &#8220;guerra<br \/>\ndos cem anos&#8221; contra o clima &#8211; sem mesmo a tr\u00e9gua dos largos per\u00edodos<br \/>\nbenignos, porque ser\u00e1 exatamente durante eles que nos aperceberemos<br \/>\nde elementos mais positivos para a rea\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAs secas do norte interessam a dez Estados. Irradiantes do Cear\u00e1, v\u00e3o,<br \/>\npelo levante, ao centro do Piau\u00ed, buscando as extremas meridionais<br \/>\ndo Maranh\u00e3o, de onde alcan\u00e7am as do norte de Goi\u00e1s; alongam-se<br \/>\npara o ocidente abarcando com o limbo fulgurante o Rio Grande do Norte, a<br \/>\nPara\u00edba, Pernambuco e Alagoas, lan\u00e7ando as \u00faltimas centelhas<br \/>\npelo mar em fora at\u00e9 Fernando de Noronha; e alastram-se pela Bahia<br \/>\ne Sergipe, para o sul, at\u00e9 \u00e0s raias setentrionais de Minas.<\/p>\n<p>Sendo assim, qualquer que seja o desfalecimento econ\u00f4mico do pa\u00eds,<br \/>\njustifica-se a forma\u00e7\u00e3o de comiss\u00f5es permanentes, de<br \/>\nprofissionais &#8211; modestas embora, mas de uma estrutura inteiri\u00e7a &#8211; que,<br \/>\ndemoradamente, desvendando com firmeza as leis reais dos fatos inorg\u00e2nicos<br \/>\nobservados, possam esclarecer a a\u00e7\u00e3o ulterior e decisiva do<br \/>\ngoverno.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 mais elevada miss\u00e3o \u00e0 nossa engenharia.<br \/>\nSomente ela, ao cabo de uma longa tarefa (que ir\u00e1 das cartas topogr\u00e1ficas,<br \/>\ne hipsom\u00e9tricas, aos dados sobre a natureza do solo, \u00e0s observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nmeteorol\u00f3gicas sistem\u00e1ticas e aos conhecimentos relativos \u00e0<br \/>\nresist\u00eancia e desenvolvimento da flora), poder\u00e1 delinear o plano<br \/>\nestrat\u00e9gico desta campanha formid\u00e1vel contra o deserto.<br \/>\nEnt\u00e3o, podar\u00e3o concorrer, reciprocamente nas suas influ\u00eancias<br \/>\nvari\u00e1veis, os v\u00e1rios recursos que em geral se sugerem isolados:<br \/>\na a\u00e7udada largamente disseminada, j\u00e1 pelo abarreirar dos vales<br \/>\napropriados, j\u00e1 pela reconstru\u00e7\u00e3o dos lan\u00e7os de<br \/>\nmontanhas que a eros\u00e3o secular das torrentes escancelou em boqueir\u00f5es,<br \/>\no que vale por uma restaura\u00e7\u00e3o parcial da terra; a arboriza\u00e7\u00e3o<br \/>\nem vasta escala com os tipos vegetais que, a exemplo do joazeiro, mais se<br \/>\nafei\u00e7oam \u00e0 rudeza clim\u00e1tica das paragens; as estradas<br \/>\nde ferro de tra\u00e7ados adrede dispostos ao deslocamento r\u00e1pido<br \/>\ndas gentes flageladas; os po\u00e7os artesianos, nos pontos em que a estrutura<br \/>\ngran\u00edtica do solo n\u00e3o apresentar dificuldades insuper\u00e1veis;<br \/>\ne at\u00e9 mesmo uma prov\u00e1vel deriva\u00e7\u00e3o das \u00e1guas<br \/>\ndo S. Francisco, para os tribut\u00e1rios superiores do Jaguaribe e do Piau\u00ed,<br \/>\nlevando perpetuamente \u00e0 natureza torturada do norte os alentos e a<br \/>\nvida da natureza maravilhosa do sul&#8230;<br \/>\n\u00c9, por certo, um programa estonteador; mas \u00fanico, improrrog\u00e1vel,<br \/>\nurgente.<br \/>\nH\u00e1 bem pouco tempo, num artigo not\u00e1vel, Barbosa Rodrigues demonstrou<br \/>\no empobrecimento cont\u00ednuo das nossas fontes, dos nossos rios e at\u00e9<br \/>\nmesmo das poderosas art\u00e9rias fluviais da Amaz\u00f4nia.<br \/>\nA palavra austera do naturalista n\u00e3o logrou vingar o reduzido c\u00edrculo<br \/>\nde alguns estudiosos. Vibrou, inutilmente, como o grito de alarma de uma atalaia<br \/>\nlong\u00ednqua, avantajada demais. Entretanto, dela se conclui que, dada<br \/>\na generalidade daquele fato e o seu crescendo desconsolativo, deve engravesc\u00ea-lo<br \/>\nnuma escala maior o regime excessivo dos sert\u00f5es do norte. O deserto<br \/>\ninvoca o deserto. Cada aparecimento de uma seca parece atrair outra, maior<br \/>\ne menos remorada, dando \u00e0 terra crescente receptibilidade para o flagelo.<\/p>\n<p>Os intervalos que as separam estreitam-se, acelerando-lhe o ritmo, agravando-lhe<br \/>\no grau termom\u00e9trico das can\u00edculas que s\u00e3o a febre alta<br \/>\ndaquela sez\u00e3o monstruosa da terra. O interessante paralelismo de datas,<br \/>\nque lhes dava um movimento uniforme nos s\u00e9culos anteriores, parece<br \/>\ndestruir-se a pouco e pouco; e os seus ciclos, outrora ampl\u00edssimos,<br \/>\nreproduzem-se, cada vez mais c\u00e9leres e constritos, como arrastados<br \/>\nnos giros cada vez menores de uma espiral invertida.<br \/>\nDeste modo n\u00e3o h\u00e1 vacilar numa a\u00e7\u00e3o decisiva e,<br \/>\nsobretudo, permanente.<br \/>\nOs holandeses n\u00e3o se limitaram a construir grande parte da Holanda:<br \/>\nainda hoje, quando tufam as mar\u00e9s e a onda ensofregada acachoa ruidosa,<br \/>\nchofrando a antemural dos diques, escuta-a da outra banda uma legi\u00e3o<br \/>\ntranq\u00fcila e vigilante de engenheiros hidr\u00e1ulicos, os primeiros<br \/>\ndo mundo.<br \/>\nA Fran\u00e7a no arrancar, transfigurada, a Tun\u00edsia do Saara, reata<br \/>\na empresa muitas vezes secular dos romanos.<br \/>\nPorque para esses desastrosos desvios da natureza s\u00f3 vale a resist\u00eancia<br \/>\norganizada, permanente e cont\u00ednua.<br \/>\nAl\u00e9m disto, para o nosso caso, trata-se de uma velha d\u00edvida<br \/>\na saldar.<br \/>\nDe efeito, por um contraste impressionador, as soalheiras que requeimam o<br \/>\nnorte, s\u00e3o elementos benfazejos ao resto do Brasil. Por um lado os<br \/>\nal\u00edsios, refertos da umidade captada na travessia do Atl\u00e2ntico,<br \/>\nao tocarem a superf\u00edcie calcinada dos sert\u00f5es superaquecem-se,<br \/>\nconservando, no altear o ponto de satura\u00e7\u00e3o, as chuvas que conduzem;<br \/>\ne repelidos pelas colunas ascencionais dos ares em fogo, que se alevantam<br \/>\ndas chapadas desnudas, refluem \u00e0s alturas e v\u00e3o rolando para<br \/>\no sudoeste, indo condensar, nas vertentes dos rios que derivam para o Amazonas<br \/>\ne para o Prata, as \u00e1guas que originam os seus cursos perenes e a fecundidade<br \/>\ndas terras.<br \/>\nPor outro lado, aqueles tit\u00e2nicos caboclos, que a desventura expulsa<br \/>\ndos lares modest\u00edssimos, t\u00eam levado a todos os recantos desta<br \/>\nterra o hero\u00edsmo de uma atividade incompar\u00e1vel: povoaram a Amaz\u00f4nia;<br \/>\ne do Paraguai ao Acre estadearam triunfalmente a sua robustez e a sua espl\u00eandida<br \/>\ncoragem de rija sub-ra\u00e7a j\u00e1 constitu\u00edda.<br \/>\nAssim, sob um duplo aspecto n\u00f3s devemos, em parte, \u00e0 sua mis\u00e9ria<br \/>\num pouco da nossa opul\u00eancia relativa, e \u00e0s suas desgra\u00e7as<br \/>\na melhor parte da nossa gl\u00f3ria.<br \/>\nE esta d\u00edvida tem mais de quatrocentos anos&#8230;<\/p>\n<p>II<br \/>\nDelineando no artigo anterior um fugitivo esbo\u00e7o da rea\u00e7\u00e3o<br \/>\ncontra o clima singular que vitima todo o norte do Brasil, vimos de relance<br \/>\nos v\u00e1rios recursos que, simultaneamente aplicados, poderiam melhor\u00e1-lo;<br \/>\nmas do mesmo passo verificamos que a a\u00e7\u00e3o governamental seria<br \/>\nilus\u00f3ria se n\u00e3o a esclarecessem os elementos e dados positivos<br \/>\nadquiridos em um aturado estudo daquelas paragens, sistematicamente executados<br \/>\npor um grupo permanente de profissionais que, merc\u00ea de uma longa estada<br \/>\nsobre o territ\u00f3rio, estabelecessem com a sua natureza, ainda em grande<br \/>\nparte desconhecida, uma estreita intimidade, facultando-lhes o conhecimento<br \/>\nde seus variad\u00edssimos aspectos e, ao cabo, a revela\u00e7\u00e3o<br \/>\ncompleta dos agentes nefastos que a malignam e devastam.<br \/>\nN\u00e3o vai nisto a teimosia impertinente de um te\u00f3rico incorrig\u00edvel.<br \/>\nEsta explora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da terra &#8211; coisa vulgar\u00edssima<br \/>\nhoje em todos os pa\u00edses &#8211; \u00e9 uma preliminar obrigat\u00f3ria<br \/>\ndo nosso progresso, da qual nos temos esquecido indesculpavelmente, porque<br \/>\nneste ponto rompemos com algumas das mais belas tradi\u00e7\u00f5es do<br \/>\nnosso passado. Realmente, a simples contempla\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos<br \/>\ndias do regime colonial, nas v\u00e9speras da independ\u00eancia, revela-nos<br \/>\nas figuras esculturais de alguns homens que hoje mal avaliamos, t\u00e3o<br \/>\napequenadas andam as nossas energias, e t\u00e3o grandes o descaso e o desamor<br \/>\ncom que nos voltamos para os interesses reais deste pa\u00eds. Ricardo Franco<br \/>\nde Almeida Serra, Silva Pontes e Lacerda e Almeida s\u00e3o hoje uns quase<br \/>\nan\u00f4nimos. Entretanto, os est\u00f3icos astr\u00f4nomos, que os grosseiros<br \/>\nagulh\u00f5es mal norteavam nas espessuras nunca percorridas, sem o arsenal<br \/>\nsuntuoso dos atuais aparelhos, determinaram as coordenadas dos mais remotos<br \/>\npontos e desvendaram muitos tra\u00e7os proeminentes da nossa natureza.<br \/>\nAo \u00faltimo n\u00e3o lhe bastou o perlustrar o Brasil de extremo a<br \/>\nextremo. Transp\u00f4s o mar, e foi atravessar a \u00c1frica . . .<br \/>\nN\u00e3o se podiam encontrar melhores mestres, nem mais empolgantes exemplos.<br \/>\nMas, precisamente ao adquirirmos a autonomia pol\u00edtica &#8211; talvez porque<br \/>\ncom ela ilogicamente se deslocasse toda a vida nacional para os litorais agitados<br \/>\n&#8211; olvidamos a terra; e os esplendores do c\u00e9u, e os encantos das paisagens,<br \/>\ne os deslumbramentos rec\u00f4nditos das minas, e as energias virtuais do<br \/>\nsolo, e as transfigura\u00e7\u00f5es fant\u00e1sticas da flora, entregamo-los<br \/>\nnuma inconsci\u00eancia de pr\u00f3digos sem tutela, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o,<br \/>\nao estudo, ao entusiasmo, e \u00e0 gl\u00f3ria imperec\u00edvel de alguns<br \/>\nhomens de outros climas. Ao nosso nativismo nascente &#8211; e j\u00e1 ouri\u00e7ado<br \/>\ncom os estilha\u00e7os dilaceradores da noite das garrafadas, n\u00e3o<br \/>\nescandalizaram os ww ensarilhados, os yy sibilantes, e o estalar dos kk, e<br \/>\no ranger emperrado dos rr de alguns nomes arrevesados e estranhos. Koster,<br \/>\nJohn Mawe, Wied-Newied, Langsdorf, Aug. Saint-Hilaire&#8230; primeiros termos<br \/>\nde uma s\u00e9rie, onde aparecem, num constrangimento de intrusos, raros<br \/>\nnomes brasileiros &#8211; e que veio quase interrupto at\u00e9 Frederico Hart,<br \/>\ne que a\u00ed est\u00e1 cont\u00ednua, imperec\u00edvel e fecunda<br \/>\ncom Eugen Hussack, Orville Derby e Emilio Goeldi.<br \/>\nOra, quaisquer que sejam os inestim\u00e1veis servi\u00e7os deste grupo<br \/>\nimortal de abnegados, s\u00e3o desanimadores.<br \/>\nN\u00e3o lhes admiremos o brilho at\u00e9 \u00e0 cegueira. Porque afinal<br \/>\n\u00e9 lastim\u00e1vel que ainda hoje procuremos nas velhas p\u00e1ginas<br \/>\nde Saint-Hilaire&#8230; not\u00edcias do Brasil. Alheamo-nos desta terra. Criamos<br \/>\na extravag\u00e2ncia de um ex\u00edlio subjetivo que dela nos afasta, enquanto<br \/>\nvagueamos como son\u00e2mbulos pelo seu seio desconhecido.<br \/>\nDa\u00ed, em grande parte, os desfalecimentos da nossa<br \/>\natividade e do nosso esp\u00edrito. O verdadeiro Brasil nos aterra; trocamo-lo<br \/>\nde bom grado pela civiliza\u00e7\u00e3o mirrada que nos acotovela na rua<br \/>\ndo Ouvidor; sabemos dos sert\u00f5es pouco mais al\u00e9m da sua etimologia<br \/>\nrebarbativa, desertus; e, a exemplo dos cart\u00f3grafos medievos, ao idealizarem<br \/>\na \u00c1frica portentosa, pod\u00edamos escrever em alguns trechos dos<br \/>\nnossos mapas a nossa ignor\u00e2ncia e o nosso espanto: hic abent liones&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o admiram o incolor, o inexpressivo, o incaracter\u00edstico, o<br \/>\ntolhi\u00e7o e o invi\u00e1vel na nossa arte e das nossas iniciativas:<br \/>\nfalta-lhes a seiva materna. As nossas mesmas descri\u00e7\u00f5es naturais<br \/>\nrecordam art\u00edsticos decalques, em que o alpestre da Su\u00ed\u00e7a<br \/>\nse mistura, baralhado, ao distendido das landes: nada do arremessado impressionador<br \/>\ndos itamb\u00e9s a prumo, do \u00e1spero rebrilhante dos cerros de quartzito,<br \/>\ndo desordenado estonteador das matas, do dil\u00favio tranq\u00fcilo e largamente<br \/>\nesparso dos enormes rios, ou do misterioso quase b\u00edblico das chapadas<br \/>\namplas&#8230; \u00c9 que a nossa hist\u00f3ria natural ainda balbucia em seis<br \/>\nou sete l\u00ednguas estrangeiras, e a nossa geografia f\u00edsica \u00e9<br \/>\num livro in\u00e9dito.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 para o demonstrar esta quest\u00e3o grav\u00edssima<br \/>\ndas secas. Nenhuma outra reclama mais imperativamente conhecimentos positivos<br \/>\nacerca da estrutura dos terrenos.<br \/>\nEntre os recursos sugeridos, que se n\u00e3o excluem e cuja simultaneidade<br \/>\n\u00e9 indispens\u00e1vel a uma solu\u00e7\u00e3o definitiva, aponta-se,<br \/>\npreeminente, a a\u00e7udada em vasta escala.<br \/>\nAs mais ligeiras no\u00e7\u00f5es climatol\u00f3gicas denotam-lhe o<br \/>\nvalor: os numerosos e min\u00fasculos lagos largamente espalhados na regi\u00e3o<br \/>\nter\u00e3o o efeito moderador de um mediterr\u00e2neo subdividido; desaparecer\u00e3o<br \/>\nas colunas ascencionais dos ares adustos, que por ali repulsam vivamente os<br \/>\nal\u00edsios, e com eles a umidade recolhida nos mares; as irriga\u00e7\u00f5es<br \/>\nfecundar\u00e3o a terra e, a breve trecho, despertas as suas energias adormecidas,<br \/>\na renascen\u00e7a da flora ultimar\u00e1 a interven\u00e7\u00e3o humana.<br \/>\nMas este meio, t\u00e3o decisivo pelos efeitos prefigurados, ser\u00e1<br \/>\nilus\u00f3rio sem a preliminar de investiga\u00e7\u00f5es complexas,<br \/>\ndesdobrando-se dos simples trabalhos de nivelamento, aos exames relativos<br \/>\n\u00e0 permeabilidade ou inclina\u00e7\u00e3o dos extratos, at\u00e9<br \/>\naos estudos mais s\u00e9rios e delicados da fisiologia vegetal. Porque mesmo<br \/>\nna passividade inorg\u00e2nica dos fatos naturais se entrela\u00e7am solid\u00e1rios.<br \/>\nVai para meio s\u00e9culo que Elie de Beaumont o demonstrou, num dos lances<br \/>\nde sua intui\u00e7\u00e3o genial. \u00c9 uma alian\u00e7a indestrut\u00edvel<br \/>\nem que os incidentes mais d\u00edspares se acolchetam, e os v\u00e1rios<br \/>\naspectos naturais se desenrolam numa seq\u00fc\u00eancia impec\u00e1vel,<br \/>\nlembrando um enredo firme de onde ressaltam as grandes vicissitudes e, dir\u00edamos<br \/>\nmelhor, o drama comovedor da exist\u00eancia indefinida da terra. Jamais<br \/>\no apreenderemos no afogadilho das empreitadas cient\u00edficas, de todo<br \/>\ninaptas a nos facilitarem, numa s\u00edntese final, a imagem aproximada<br \/>\ndesses misteriosos passados geol\u00f3gicos, que tanto esclarecem, \u00e0s<br \/>\nvezes, a nossa situa\u00e7\u00e3o presente.<br \/>\nAinda hoje quem contempla, na plenitude do estio, a natureza estranha do norte,<br \/>\nsobretudo nos trechos em que se desatam as chapadas intermitentemente cindidas<br \/>\nde serros asp\u00e9rrimos e abruptos &#8211; n\u00e3o sabe bem se est\u00e1<br \/>\nsobre o ch\u00e3o rec\u00e9m-emergido de algum mar terci\u00e1rio, ou<br \/>\nse pisa um velh\u00edssimo afloramento do globo, brutalmente trabalhado<br \/>\npelos elementos; se tudo aquilo \u00e9 a desordem de um cen\u00e1rio em<br \/>\npreparativos para novas maravilhas da cria\u00e7\u00e3o, ou um pa\u00eds<br \/>\nque est\u00e1 morrendo; uma constru\u00e7\u00e3o prodigiosa, em come\u00e7o,<br \/>\nou o desabar de uma ruinaria imensa&#8230;<br \/>\nA drenagem de \u00e1guas selvagens, que por ali se exercita nas quadras<br \/>\ntempestuosas, os seus rios que quando transitoriamente cheios volvem as \u00e1guas<br \/>\nnum \u00edmpeto de torrentes colossais, t\u00e3o c\u00e9leres que mesmo<br \/>\nquando eles cansam, no falar dos matutos, prestes a secarem, n\u00e3o d\u00e3o<br \/>\nvau; e o desmantelo das encostas e os pendores arruinados; e aqueles singulares<br \/>\nboqueir\u00f5es, t\u00e3o lucidamente vistos por I. Joffili, que as \u00e1guas<br \/>\nrasgaram nas montanhas &#8211; tudo isto denuncia a segunda hip\u00f3tese. E para<br \/>\nlogo nos empolga a imagem retrospectiva de uma terra admir\u00e1vel e farta<br \/>\ne ferac\u00edssima &#8211; um vast\u00edssimo jardim \u00e0 margem dos grandes<br \/>\nlagos &#8211; nos velh\u00edssimos tempos fora da \u00f3rbita da nossa hist\u00f3ria,<br \/>\nantes que estourassem os seus diques de montanhas e a natureza viesse lentamente<br \/>\ndefinhando &#8211; ro\u00edda pelas torrentes e calcinada pelos s\u00f3is, at\u00e9<br \/>\nao melanc\u00f3lico aspecto que hoje patenteia&#8230;<br \/>\nOra, se uma s\u00e9rie suficiente de realidades observadas desse algum valor<br \/>\na esta demasiado imaginosa conjectura e pud\u00e9ssemos reconstruir este<br \/>\nepis\u00f3dio assombrosamente dram\u00e1tico dos nossos fastos geol\u00f3gicos,<br \/>\nbastaria, certo, \u00e0 nossa interven\u00e7\u00e3o o acompanhar, numa<br \/>\nmarcha invertida, os rastos indel\u00e9veis dos estragos. Encadeadas as<br \/>\ntorrentes e os rios, e restauradas as velhas represas naturais, ligando-se,<br \/>\nmesmo sem a primitiva impon\u00eancia, os muramentos arruinados das terras<br \/>\n&#8211; todo aquele territ\u00f3rio volveria \u00e0 fisionomia antiga, pelo<br \/>\nsimples jogo equilibrado dos mesmos agentes f\u00edsicos que hoje tumultuariamente<br \/>\no devastam.<br \/>\nMas para que isto suceda, para que nos aparelhemos de uma s\u00e9rie completa<br \/>\nde elementos garantidores de uma a\u00e7\u00e3o decisiva, faz-se mister<br \/>\nque este problema urgent\u00edssimo das secas seja um motivo para que demos<br \/>\nmaior impulso a uma tarefa, que \u00e9 o mais belo ideal da nossa engenharia<br \/>\nneste s\u00e9culo: a defini\u00e7\u00e3o exata e o dom\u00ednio franco<br \/>\nda grande base f\u00edsica da nossa nacionalidade.<br \/>\nA\u00ed est\u00e1 a nossa verdadeira miss\u00e3o.<br \/>\nA outros destinos talvez mais altos: a organiza\u00e7\u00e3o das atividades<br \/>\ne do regime geral da riqueza, o doutrinamento filos\u00f3fico e a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica, a remo\u00e7\u00e3o das dificuldades presentes e o alevantamento<br \/>\ndas tradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas; mas todos esses grandes atos<br \/>\nexigem antes de tudo um cen\u00e1rio ampl\u00edssimo que os abranja e<br \/>\nn\u00e3o se reduza como at\u00e9 hoje \u00e0s bordas alteadas dos planaltos<br \/>\ne \u00e0 estreita faixa de uma costa desmedida. Tudo quanto fizermos fora<br \/>\ndeste tra\u00e7ado ser\u00e1 v\u00e3o ou ef\u00eamero. Ser\u00e1<br \/>\no eterno tatear entre as miragens de um progresso falaz e duvidoso, at\u00e9<br \/>\nagora medido pelos estoques das sacas de caf\u00e9, pelas levas de imigrantes<br \/>\ne por umas combina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que ningu\u00e9m entende.<\/p>\n<p>III<br \/>\nA expans\u00e3o imperialista das grandes pot\u00eancias \u00e9 um fato<br \/>\nde crescimento, o transbordar natural\u00edssimo de um excesso de vidas<br \/>\ne de uma sobra de riquezas em que a conquista dos povos se torna simples variante<br \/>\nda conquista de mercados. As lutas armadas que da\u00ed resultam, perdido<br \/>\no encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nruidosa e acidental da energia pac\u00edfica e formid\u00e1vel das ind\u00fastrias.<br \/>\nNada dos velhos atributos rom\u00e2nticos do passado ou da preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nretr\u00f3grada do hero\u00edsmo. As pr\u00f3prias vit\u00f3rias perderam<br \/>\no significado antigo. S\u00e3o at\u00e9 dispens\u00e1veis. A Inglaterra<br \/>\nsuplantou o Transvaal ao cabo de sucessivas derrotas; amanh\u00e3 a R\u00fassia,<br \/>\nconstantemente batida, talvez esmague o Jap\u00e3o. Est\u00e3o fora dos<br \/>\nlances de g\u00eanio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas<br \/>\nhumanas desencadeadas pelas for\u00e7as acumuladas de longas culturas e<br \/>\ndo pr\u00f3prio g\u00eanio de ra\u00e7a, podem golpe\u00e1-las \u00e0<br \/>\nvontade os advers\u00e1rios que as combatem e batem debatendo-se, e que<br \/>\nse afogam. N\u00e3o param. N\u00e3o podem parar. Impele-as o fatalismo<br \/>\nda pr\u00f3pria for\u00e7a. Diante da fragilidade dos pa\u00edses fracos,<br \/>\nou das ra\u00e7as incompetentes, elas recordam, na hist\u00f3ria, aquele<br \/>\nhorror ao v\u00e1cuo, com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos<br \/>\nirresist\u00edveis da mat\u00e9ria.<br \/>\nRevelam quase um fen\u00f4meno f\u00edsico. Por isso mesmo nesta expans\u00e3o<br \/>\nirreprim\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 do direito, nem da Moral com as mais<br \/>\nimponentes mai\u00fasculas, nem de alguma das maravilhas metaf\u00edsicas<br \/>\nde outrora que lhes despontam obst\u00e1culos.<br \/>\nE da pr\u00f3pria ordem f\u00edsica.<br \/>\nRealmente, \u00e0 parte a R\u00fassia seguindo para o levante entre os<br \/>\nmesmos paralelos, a Europa e os Estados Unidos abandonaram as latitudes onde<br \/>\nse formaram; e como, qualquer que seja a flexibilidade do homem para o clima,<br \/>\nos limites hist\u00f3ricos dos povos se tra\u00e7am pelas zonas terrestres<br \/>\nonde surgiram, o problema capital do imperialismo est\u00e1 menos no adquirir<br \/>\num peda\u00e7o de territ\u00f3rio que na adapta\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio<br \/>\nadquirido. Trata-se de inquirir se a ra\u00e7a branca afei\u00e7oada \u00e0s<br \/>\nzonas temperadas, que s\u00e3o as das civiliza\u00e7\u00f5es duradouras,<br \/>\npoder\u00e1 viver e crescer fora do seu deslumbrante habitat.<br \/>\nPorque as disposi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas imut\u00e1veis lhe<br \/>\noferecem os maiores cen\u00e1rios precisamente na \u00c1frica adusta,<br \/>\nna \u00c1sia meridional ardent\u00edssima ou na Austr\u00e1lia des\u00e9rtica,<br \/>\ndeixando-lhe como \u00fanicas paragens, pr\u00f3prias a uma aclima\u00e7\u00e3o<br \/>\nr\u00e1pida, um trecho do Brasil do Sul, a Argentina, o Chile, uma faixa<br \/>\ndo Canad\u00e1, a ponta da \u00c1frica e algumas ilhas do Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Da\u00ed, seguindo de par com a marcha expansionista, industrial e guerreira,<br \/>\ndas pot\u00eancias, um movimento cient\u00edfico adrede disposto a facilitar<br \/>\nestas mudan\u00e7as de povos.<br \/>\nDesbravados os caminhos pelos ex\u00e9rcitos, estabelecidas as primeiras<br \/>\nlevas de colonos e delineados os primeiros entrepostos &#8211; os governos entregam<br \/>\naos cientistas de todos os matizes a campanha maior e mais longa contra o<br \/>\nclima, e toda a responsabilidade deste transplante das civiliza\u00e7\u00f5es<br \/>\nsem preju\u00edzo do organismo das ra\u00e7as que as representam. Felizmente<br \/>\na empresa coincide com a \u00e9poca em que, dominando a m\u00e1xima especialidade<br \/>\nde of\u00edcios, se entrela\u00e7am, em generaliza\u00e7\u00f5es admir\u00e1veis,<br \/>\ntodos os resultados das ci\u00eancias. Profiss\u00f5es ontem distintas,<br \/>\nfundem-se, vinculadas. A engenharia n\u00e3o lhe bastam os recursos que<br \/>\nv\u00e3o da matem\u00e1tica \u00e0 qu\u00edmica. As pr\u00f3prias<br \/>\nexig\u00eancias da tecnologia sanit\u00e1ria dilatam-se \u00e0 biologia<br \/>\ne \u00e0s mais altas indaga\u00e7\u00f5es sobre a vida; enquanto a medicina,<br \/>\ndeparando na radiologia nascente inesperados elementos, se alonga pela f\u00edsica,<br \/>\nou vai, pela bacteriologia, para a amplitude das ci\u00eancias naturais.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos ou ge\u00f4metras, ou ge\u00f3grafos, todos por igual naturalistas,<br \/>\nconfundem-se, indistintos, numa tarefa inteiramente nova, a do saneamento<br \/>\nda terra. Passam, sem um desvio na profiss\u00e3o complexa, da geologia<br \/>\nmaci\u00e7a \u00e0 f\u00edsica quase espiritualizada, do r\u00e1dio,<br \/>\nou \u00e0s indaga\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas; e inscrita de todo<br \/>\nno quadro dos agentes exteriores, a exist\u00eancia humana vai aparecendo-lhes<br \/>\nfeita um \u00edndice abreviado de toda a vida universal.<br \/>\nPelo menos hoje a amparam leis naturais t\u00e3o rigorosas, que j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o se considera v\u00e3 a tentativa de bater-se vantajosamente a<br \/>\nfatalidade cosmol\u00f3gica dos climas.<br \/>\nEsta empresa bel\u00edssima, por\u00e9m, realiza-se obscuramente. As linhas<br \/>\ntelegr\u00e1ficas n\u00e3o a espalham, s\u00e3o poucas a irradiarem<br \/>\nas not\u00edcias e os m\u00ednimos pormenores das batalhas. Mal se adivinham<br \/>\nno rastro dos ex\u00e9rcitos os agrupamentos pac\u00edficos, armados de<br \/>\ninofensivos aparelhos, dos que observam, e experimentam, e compram, e induzem;<br \/>\nprofissionais e oper\u00e1rios, estudando as modalidades clim\u00e1ticas<br \/>\nou corrigindo-as, lucidamente te\u00f3ricos e maci\u00e7amente pr\u00e1ticos,<br \/>\npassando da an\u00e1lise dos extratos do solos \u00e0 din\u00e2mica das<br \/>\ncorrentes atmosf\u00e9ricas; aqui, redimindo pelas drenagens uma superf\u00edcie<br \/>\ncondenada, mais longe fazendo ressurgir, transfigurado pela irriga\u00e7\u00e3o,<br \/>\num trato morto, de deserto &#8211; e por toda a parte polindo ou afei\u00e7oando<br \/>\no ch\u00e3o maninho, ou os ares perniciosos, \u00e0s novas vidas que os<br \/>\nprocuram.<br \/>\nObedecem a um programa prescrito e inviol\u00e1vel. Na Franca e na Inglaterra<br \/>\nas escolas de &#8220;Medicina Colonial&#8221;, onde se matriculam engenheiros<br \/>\noficiais de marinha, denunciam, pelo simples t\u00edtulo, a carreira nova<br \/>\ndestinada a sistematizar todos os dados e a balancear todos os recursos decisivos<br \/>\npara esta luta contra os novos meios, desdobrada dos mais simples trabalhos<br \/>\nde campo \u00e0 mais dif\u00edcil profilaxia das mol\u00e9stias que<br \/>\nlhes s\u00e3o imanentes, de modo a auxiliar a adapta\u00e7\u00e3o compensadora<br \/>\ndo organismo europeu a ambientes t\u00e3o d\u00edspares dos que lhe s\u00e3o<br \/>\nhabituais.<br \/>\nE assim se transfiguram a Tun\u00edsia e o Egito \u00e0 ourela dos desertos,<br \/>\na ilha de Cuba, recentemente; e v\u00e3o-se transfigurando o Sud\u00e3o,<br \/>\na \u00cdndia e as Filipinas&#8230;<br \/>\nOra, inegavelmente, um tal objetivo basta a nobilitar as invas\u00f5es modernas.<br \/>\nRedime-lhe todas as culpas e as grandes brutalidades da for\u00e7a esta<br \/>\nempresa maravilhosa, que \u00e9 urna esp\u00e9cie de reconstru\u00e7\u00e3o<br \/>\nda terra, aparecendo cada dia maior e oferecendo \u00e0 hist\u00f3ria<br \/>\nnovos cen\u00e1rios no seio das paragens mortas que ressurgem. . .<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mas para n\u00f3s brasileiros, tudo isto \u00e9 um desapontamento.<br \/>\nRealmente, nesta agita\u00e7\u00e3o util\u00edssima, que fazemos n\u00f3s?<\/p>\n<p>A parte os Estados do sul, estamos num pa\u00eds que a aclima\u00e7\u00e3o,<br \/>\napenas favorecida pela mesti\u00e7agem, condena \u00e0s formas med\u00edocres<br \/>\nda humanidade.<br \/>\nA faixa da zona t\u00f3rrida que entra no litoral do Pac\u00edfico ao<br \/>\nnorte do Peru inflete para o sul, abrange Mato Grosso e vem sair perto de<br \/>\nSantos, deixando-se interferir e cortar pela linha tropical. Deste modo o<br \/>\nBrasil, na sua maior \u00e1rea, est\u00e1 vinculado pelas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nf\u00edsicas mais videntes \u00e0 \u00c1frica Central, \u00e0 \u00cdndia,<br \/>\n\u00e0s ilhas que se salteiam de Madagascar a Borneo e \u00e0 Nova Guin\u00e9,<br \/>\ne ao extremo norte calcinado da Austr\u00e1lia &#8211; em plena &#8220;R\u00e9gio<br \/>\nadusta&#8221; fechada \u00e0 aristocracia dos povos. E um fato plenamente<br \/>\nsabido. Ressalta ao mais breve olhar sobre um mapa. N\u00e3o h\u00e1 fantasias<br \/>\npatri\u00f3ticas que no-lo escondam.<br \/>\nE quaisquer que sejam as teorias e hip\u00f3teses e imaginosas teses que<br \/>\ndesde Montesquieu se degladiam, irreconcili\u00e1veis, acerca do valor das<br \/>\ninflu\u00eancias extremas &#8211; n\u00e3o h\u00e1 desconhecer-se que temos<br \/>\naquele perp\u00e9tuo coeficiente de redu\u00e7\u00e3o do nosso desenvolvimento,<br \/>\natirando-nos em plano inferior ao da Argentina e do Chile.<br \/>\nEntretanto, n\u00e3o nos impressionamos. Num tempo em que se demonstra a<br \/>\nefic\u00e1cia da a\u00e7\u00e3o do homem sobre o meio, capaz de deslocar<br \/>\nos climas, quedamos numa indiferen\u00e7a mu\u00e7ulmana sob o clima que<br \/>\nnos fulmina. N\u00e3o o estudamos mesmo rudimentarmente, pela rama, e com<br \/>\nobjetivo de o transfigurar. N\u00e3o temos mesmo esparso, mesmo reduzido<br \/>\nnos pontos principais dos Estados, um servi\u00e7o meteorol\u00f3gico<br \/>\nsistem\u00e1tico e plenamente generalizado de modo a permitir uma compara\u00e7\u00e3o<br \/>\npermanente e cont\u00ednua das modalidades clim\u00e1ticas. Da terra,<br \/>\nsob os infinitos aspectos que v\u00e3o da rocha \u00e0 flor, sabemos apenas<br \/>\no que se colhe em v\u00e1rios livros estrangeiros e raras monografias nacionais;<br \/>\ne ainda hoje, quando se nos antolha uma bacia de carv\u00e3o de pedra, ou<br \/>\num veieiro farto de ouro, faz-se-nos mister a importa\u00e7\u00e3o de<br \/>\num s\u00e1bio.<br \/>\nDeslumbrados pelo litoral opulento e pelas miragens de uma civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque recebemos emalada dentro dos transatl\u00e2nticos, esquecemo-nos do interior<br \/>\nampl\u00edssimo onde se desata a base f\u00edsica real da nossa nacionalidade.<br \/>\nAli se patenteiam dois casos invari\u00e1veis: ou as popula\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsobre o solo est\u00e9ril, vegetam miseravelmente deca\u00eddas pelo impaludismo,<br \/>\nt\u00e3o caracter\u00edstico das regi\u00f5es incultas, e v\u00e3o<br \/>\nformando, pela hereditariedade dos estigmas, uma ra\u00e7a de mesti\u00e7os<br \/>\nlastim\u00e1veis, agitantes num quase deserto; ou as popula\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsobre o solo exuberante, atacam-no ferozmente, a ferro e fogo, nas derribadas<br \/>\ne nas queimadas das largas culturas extensivas, e v\u00e3o fazendo o deserto.<\/p>\n<p>Este caso \u00e9 not\u00e1vel no refletir o c\u00edrculo vicioso da<br \/>\natividade nacional. Numa \u00e9poca em que dominam os milagres da engenharia<br \/>\ne da biologia industrial &#8211; t\u00e3o grandes os ianques em tr\u00eas anos<br \/>\ntransformaram num prado o deserto cl\u00e1ssico de Colorado-a nossa cultura<br \/>\ntem como efeito final o barbarizar a terra.<br \/>\nMalignamo-la, desnudamo-la rudemente, sem a m\u00ednima lei repressiva refreando<br \/>\nestas brutalidades &#8211; e a pouco e pouco, nesta abertura cont\u00ednua de<br \/>\nsucessivas \u00e1reas de insola\u00e7\u00e3o, vamos ampliando em S.<br \/>\nPaulo, em Minas, em todos os trechos, mais apropriados \u00e0 vida, a faixa<br \/>\ntropical que nos malsina.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 exemplo mais t\u00edpico de um progresso \u00e0s<br \/>\nrecuadas. Vamos para o futuro sacrificando o futuro, como se and\u00e1ssemos<br \/>\nnas v\u00e9speras do dil\u00favio.<br \/>\nN\u00e3o nos contentamos em resolver a golpes de subscri\u00e7\u00f5es<br \/>\nintermitentes a fatalidade das secas, que vitimam o norte; vamos al\u00e9m:<br \/>\nalargamo-las criando no sul, sobre as vastas \u00e1reas insoladas, continuadamente<br \/>\ncrescentes, todas as m\u00ednimas barom\u00e9tricas que no-las atrair\u00e3o<br \/>\nmais tarde&#8230;<br \/>\nE tudo isto &#8211; esta indiferen\u00e7a ou esta interven\u00e7\u00e3o, ambas<br \/>\nprejudiciais, se observa numa \u00e9poca em que o \u00fanico significado<br \/>\nverdadeiramente civilizador do movimento expansionista das ra\u00e7as vigorosas<br \/>\nsobre a terra, est\u00e1 todo em afei\u00e7oar os novos cen\u00e1rios<br \/>\nnaturais a uma vida maior e mais alta &#8211; condensando-se o duro esrnagamento<br \/>\ndas ra\u00e7as incompetentes com a reden\u00e7\u00e3o maravilhosa dos<br \/>\nterrit\u00f3rios&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>A MISS\u00c3O DA R\u00daSSIA<\/h2>\n<p>A R\u00fassia \u00e9 b\u00e1rbara.<br \/>\nEntre a sociabilidade cortes, o sentimento da justi\u00e7a e a expansiva<br \/>\nespiritualidade latina, ou sax\u00f4nia, penetrou, vigorosamente, o impulsivo<br \/>\ne a rude selvatiqueza do t\u00e1rtaro, para se criar o tipo hist\u00f3rico<br \/>\ndo eslavo &#8211; isto \u00e9, um intermedi\u00e1rio, um povo de vida transbordante<br \/>\ne forte e incoerente, refletindo aqueles dois est\u00e1dios, sob todas as<br \/>\nsuas formas, da mais tang\u00edvel \u00e0 mais abstrata, desde uma arquitetura<br \/>\noriginal, em que passa do bizantismo pesado para o g\u00f3tico ligeiro e<br \/>\ndeste para a harmonia retil\u00ednea das fachadas gregas &#8211; ao temperamento<br \/>\nemocional e franco, a um tempo infantil e robusto, paciente ensofregado, em<br \/>\nque se misturam uma incompar\u00e1vel ternura e uma assombradora crueldade.<br \/>\nPolida demais para o car\u00e1ter asi\u00e1tico, inculta demais para o<br \/>\ncar\u00e1ter europeu &#8211; funde-os. N\u00e3o \u00e9 a Europa, e n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 a \u00c1sia: \u00e9 a Eur\u00e1sia desmedida, desatando-se,<br \/>\ndo B\u00e1ltico ao Pacifico, sobre um ter\u00e7o da superf\u00edcie<br \/>\nda terra e desenrolando no complanado das estepes o maior palco da hist\u00f3ria.<br \/>\nA R\u00fassia veio ocup\u00e1-la retardat\u00e1ria.<br \/>\nNasceu quando os demais povos renasciam. T\u00e1rtara at\u00e9 o s\u00e9culo<br \/>\nXV, apareceu &#8211; engatinhando para o futuro balbuciante na sua l\u00edngua<br \/>\nsonora e incompreendida &#8211; quando a Europa em peso, num repentino refluxo para<br \/>\no passado, ia transfigurar-se entre os esplendores da Renascen\u00e7a e<br \/>\niniciava os tempos modernos, deixando-a, a iniciar, tateando e tarda, a sua<br \/>\nlonga Idade M\u00e9dia, talvez n\u00e3o terminada.<br \/>\nMas a\u00ed est\u00e1 a sua for\u00e7a e a garantia de seus destinos.<br \/>\nNingu\u00e9m pode prever quanto se avantajar\u00e1 um povo que, sem perder<br \/>\na energia essencial e a coragem f\u00edsica das ra\u00e7as que o constituem,<br \/>\naparelhe a sua personalidade robusta, impetuosa e primitiva, de b\u00e1rbaro,<br \/>\ncom os recursos da vida contempor\u00e2nea.<br \/>\nE nenhum outro, certo, no atual momento hist\u00f3rico, talvez grav\u00edssimo<br \/>\n&#8211; porque devem esperar-se todas as surpresas deste renascer do Oriente, que<br \/>\no Jap\u00e3o comanda &#8211; \u00e9 mais apto a garantir a marcha, o ritmo e<br \/>\na diretriz da pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia.<br \/>\nH\u00e1 quem negue isto. No \u00faltimo n\u00famero, de junho, da North<br \/>\nAmerican Review, Carl Blind, nome que se ajusta bem a um deslumbrado diante<br \/>\ndo grande pl\u00e1gio do Jap\u00e3o &#8211; negando ao imp\u00e9rio moscovita<br \/>\no papel de campe\u00e3o da ra\u00e7a ariana contra o perigo amarelo, esteia-se<br \/>\nnuma sabid\u00edssima novidade: o russo \u00e9 duplamente mong\u00f3lico:<br \/>\n\u00e9-o pela circunst\u00e2ncia inicial de o constitu\u00edrem as tribus<br \/>\nkhazares e turanas, e pelo fato acidental da conquista t\u00e1rtara, no<br \/>\ns\u00e9culo XIII, dos netos de Gengis Khan.<br \/>\nAtra\u00eddo pela simplicidade deste argumento, conclui que n\u00e3o pode<br \/>\nser uma barreira ao pan-mongolismo um povo t\u00e3o essencialmente asi\u00e1tico.<br \/>\nMas se esquece de que o russo \u00e9, antes de tudo, o tipo de uma ra\u00e7a<br \/>\nhist\u00f3rica. Turano pelo sangue, transmudou-se, em quinhentos anos de<br \/>\nadapta\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, sob o permanente influxo do Ocidente.<br \/>\nA sua melhor figura representativa \u00e9 a daquele original e inquieto<br \/>\nPedro, o Grande, perlustrando a Europa toda num perquirir incans\u00e1vel,<br \/>\nque o arrebatava das escolas para os estaleiros, dos estaleiros para as oficinas,<br \/>\ndas oficinas para os sal\u00f5es, entre os fil\u00f3sofos, entre os mestres<br \/>\ne art\u00edfices, entre os cortes\u00e3os e os reis, observando, indagando<br \/>\ne praticando, imperador, aprendiz e disc\u00edpulo, b\u00e1rbaro perdidamente<br \/>\nenamorado da civiliza\u00e7\u00e3o, propelido por uma \u00e2nsia inextingu\u00edvel<br \/>\nde saber e iniciar-se em todos os segredos da exist\u00eancia nova, que anelava<br \/>\ntransplantar ao seu povo ing\u00eanuo, grandioso e robusto&#8230;<br \/>\nSabe-se quanto foi longa a tarefa.<br \/>\nDurante todo este tempo, n\u00e3o rebrilha o mais apagado nome eslavo. Houve<br \/>\nas tormentas sociais do s\u00e9culo XV com a renascen\u00e7a liter\u00e1ria<br \/>\ne a renascen\u00e7a religiosa; houve o deslumbramento do per\u00edodo<br \/>\ncl\u00e1ssico, e a renova\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica subseq\u00fcente,<br \/>\ne o cataclismo revolucion\u00e1rio; por fim, de par com o desafogo franco<br \/>\ndas ci\u00eancias, o alvorecer encantador do romantismo.<br \/>\nA mesma Turquia teve no renascimento a sua idade de ouro, na corte do magn\u00edfico<br \/>\nSolim\u00e3o, onde imperava absolutamente o m\u00edstico Baki, &#8220;o<br \/>\nsult\u00e3o da poesia l\u00edrica&#8221;.<br \/>\nA R\u00fassia, n\u00e3o. Na sua inicia\u00e7\u00e3o demorada, impondo-lhe<br \/>\no abandono da originalidade de pensar e sentir pela imita\u00e7\u00e3o<br \/>\ne pela c\u00f3pia obrigat\u00f3rias, quedou pouco al\u00e9m das rudes<br \/>\nraps\u00f3dias her\u00f3icas dos kalmukos.<br \/>\nApareceu de golpe, j\u00e1 feita, e foi um espanto. Na regi\u00e3o tranq\u00fcila<br \/>\ndas ci\u00eancias e das artes, parecia reproduzir-se a invas\u00e3o da<br \/>\n&#8220;Horda Dourada&#8221; dos mong\u00f3is. De um lado, Wronsky, uma esp\u00e9cie<br \/>\nde \u00c1tila da matem\u00e1tica, convulsionando-a com a sua alucina\u00e7\u00e3o<br \/>\nprodigiosa de g\u00eanio, ora transviado nos maiores absurdos, ora nivelado<br \/>\ncom Lagrange na interpreta\u00e7\u00e3o positiva do c\u00e1lculo; e<br \/>\nde outro lado, Pouchkine, prosador e poeta, imprimindo no verso e na novela<br \/>\no vivo sentimentalismo e a energia e as esperan\u00e7as do seu pa\u00eds.<br \/>\nEnt\u00e3o, o poder assimilador do g\u00eanio eslavo ostentou-se em toda<br \/>\na plenitude; e, pouco depois, a na\u00e7\u00e3o, educada pela Europa,<br \/>\napare-<br \/>\ncia-lhe com uma originalidade inesperada, apresentando-lhe aos olhos surpreendidos<br \/>\ne aos aplausos que rebentaram, espont\u00e2neos, com Turguenieff, com Dostoiewski,<br \/>\ncom Tchkkorf e com Tolstoi, esse naturalismo popular e profundo repassado<br \/>\nde um forte sentimento da ra\u00e7a, que tanto contrasta com a organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial e pol\u00edtica da R\u00fassia.<br \/>\nEstava feita a transforma\u00e7\u00e3o: as gentes, constitu\u00eddas<br \/>\nde fatores t\u00e3o estranhos, surgiram revestidas das melhores conquistas<br \/>\nmorais do nosso tempo. Mostra-o essa mesma literatura, onde vibra uma nota<br \/>\nt\u00e3o impressionadora dram\u00e1tica e humana. Qualquer romance russo<br \/>\n\u00e9 a glorifica\u00e7\u00e3o de um infort\u00fanio. Quem quer que<br \/>\nos deletreie variando vontade de autores e de assuntos, deparara sempre a<br \/>\ndolorosa mesmice da desdita invari\u00e1vel, trocados apenas os nomes aos<br \/>\nprotagonistas: todos humildes, todos doentes, todos os fracos: o mujique,<br \/>\no criminoso impulsivo, o revolucion\u00e1rio, o epil\u00e9ptico incur\u00e1vel,<br \/>\no neurast\u00eanico bizarro e louco. Desenvolvendo este programa singular<br \/>\ne inexplic\u00e1vel, porque, segundo observa Talbot, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\npa\u00eds que possua menor n\u00famero relativo de degenerados, o que<br \/>\ndomina o escritor russo n\u00e3o \u00e9 a tese preconcebida, ou o car\u00e1ter<br \/>\na explanar friamente, sen\u00e3o um largo e generoso sentimento da piedade,<br \/>\ndiante do qual se eclipsam, ou se anulam, o plat\u00f4nico humanitarismo<br \/>\nfranc\u00eas e a art\u00edstica e seca filantropia brit\u00e2nica.<br \/>\nNada mais expressivo no trair a alma nova de uma ra\u00e7a do mesmo passo<br \/>\nem conflito com a retr\u00f3grada organiza\u00e7\u00e3o social, que<br \/>\na comprime, e com o utilitarismo absorvente destes tempos. Conforme um acerto<br \/>\nde F. Loli\u00e9e, o que caracteriza esta mentalidade \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuperior dos fatos morais, o eterno problema altru\u00edsta, para que tendem<br \/>\ntodos os impulsos individuais ou pol\u00edticos, atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise<br \/>\npat\u00e9tica dos menores abalos da natureza humana e visando, essencialmente,<br \/>\nno franco estadear dos males profundos da R\u00fassia, estimular as suas<br \/>\ngrandes aspira\u00e7\u00f5es e a sua marcha para o direito e para a liberdade.<br \/>\nO pr\u00f3prio niilismo, com as suas mulheres varonis, os seus pensadores<br \/>\nseveros, os seus poetas sentimentais e ferozes, e os seus fac\u00ednoras<br \/>\nrom\u00e2nticos &#8211; um desvario dentro de um generoso ideal &#8211; reponta \u00e0s<br \/>\nvezes nesta crise, como a forma tormentosa e assombradora da justi\u00e7a.<br \/>\nNo conflito o que se distingue bem \u00e9 o choque inevit\u00e1vel das<br \/>\nduas R\u00fassias, a nova, dos pensadores e artistas, e a R\u00fassia<br \/>\ntradicional dos czares; o recontro do \u00e1ria e do kalmuko.<br \/>\nDa\u00ed a sua fisionomia b\u00e1rbara, porque \u00e9 incoerente e revolta,<br \/>\nsurgindo numa profus\u00e3o extraordin\u00e1ria de vida, em que os velhos<br \/>\nestigmas ancestrais, cada vez mais apagados, mal se denunciam entre os esplendores<br \/>\nde um belo idealismo cada vez mais intenso e alto &#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mas da\u00ed tamb\u00e9m a sua miss\u00e3o hist\u00f3rica neste s\u00e9culo.<br \/>\nConquistada pelo esp\u00edrito moderno, a R\u00fassia tem, naqueles estigmas<br \/>\nremanescentes, admir\u00e1veis recursos para a luta que nesta hora se desencadeia<br \/>\nno Extremo Oriente. O seu temperamento b\u00e1rbaro ser\u00e1 o guarda<br \/>\ntit\u00e2nico invenc\u00edvel, n\u00e3o j\u00e1 de sua civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas tamb\u00e9m de toda a civiliza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia.<br \/>\nO conceito \u00e9 de Havelock Ellis: o centro da vida universal dos povos<br \/>\ntende a deslocar-se para o Pac\u00edfico circundado pelas na\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais jovens e vigorosas da terra &#8211; a Austr\u00e1lia, o Jap\u00e3o e as<br \/>\nAm\u00e9ricas.<br \/>\nAli a R\u00fassia n\u00e3o tem apenas o privil\u00e9gio de ser a \u00fanica<br \/>\nrepresentante da Europa, sen\u00e3o o de ser a \u00fanica entre as nacionalidades<br \/>\nque, por um longo contacto com a barbaria, pelo h\u00e1bito de vencer e<br \/>\ndominar os imp\u00e9rios orientais tipicamente b\u00e1rbaros e por conservar<br \/>\nainda vivazes os atributos guerreiros do homem primitivo &#8211; est\u00e1 mais<br \/>\nbem aparelhada a constituir-se o n\u00facleo de resist\u00eancia do &#8220;bloc&#8221;<br \/>\nocidental contra a amea\u00e7a asi\u00e1tica.<br \/>\nE inevitavelmente &#8211; quaisquer que sejam os prod\u00edgios dos bravos generais<br \/>\ne dos brav\u00edssimos almirantes japoneses &#8211; a civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nseguir\u00e1 para aquele novo mundo do futuro &#8211; que margear\u00e1 o Pac\u00edfico<br \/>\n&#8211; tomando uma passagem no Transiberiano&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>TRANSPONDO O HIMALAIA<\/h2>\n<p>Um despacho para o War Office transmitiu as informa\u00e7\u00f5es do<br \/>\ncoronel Younghusband, acerca da primeira vit\u00f3ria decisiva das tropas<br \/>\nque constituem a expedi\u00e7\u00e3o do Tibete &#8211; e aquele telegrama mal<br \/>\ndesviou a aten\u00e7\u00e3o geral, toda entregue \u00e0 emocionante<br \/>\nluta russo-japonesa.<br \/>\nEntretanto, ali est\u00e3o as primeiras linhas de um drama menos teatral<br \/>\ne ruidoso, mas, talvez, mais profundo e de mais imprevistas conseq\u00fc\u00eancias.<br \/>\npratica, como sempre, a Inglaterra aproveitou as aberturas atuais da R\u00fassia<br \/>\ne transp\u00f4s a muralha do Himalaia.<br \/>\nQue vai fazer? Adiante, deixada a orla formos\u00edssima do vale de Cachemira,<br \/>\ndesata-se-lhe o planalto, asperamente revolto, que recorda uma dilata\u00e7\u00e3o<br \/>\nlateral de enorme cordilheira. Os terrenos ondulam, ri\u00e7ados de gargantas,<br \/>\ndobrando-se em vales numerosos e empinando-se em contrafortes crespos de fraguedos,<br \/>\nformando-se os pamirs desolados e \u00e1speros, quase despidos, onde uma<br \/>\nflora escassa, mal abrolhando entre pedras, reflete todo o excessivo de um<br \/>\nclima impiedoso: de ver\u00e3o, calcinando no reverbero fulgurante das soalheiras;<br \/>\nde inverno, amortalhando a natureza toda no sud\u00e1rio branco das geadas.<br \/>\nAli n\u00e3o ha firmar-se a mais indecisa continuidade de um esfor\u00e7o.<br \/>\nA vida deriva-se tolhida e incompleta, num permanente mal das montanhas.<br \/>\nDada uma centena de passos, o forasteiro estaca, ofegante, no del\u00edquio<br \/>\nde um repentino assalto de fadiga, sentindo que n\u00e3o lhe basta aos pulm\u00f5es<br \/>\nafei\u00e7oados aos ares nativos, toda a atmosfera rarefeita que o envolve.<br \/>\nFala, e mal percebe a pr\u00f3pria voz. Grita, e o grito extingue-se logo,<br \/>\nsem ecos, num abafamento de segredo. Depara os primeiros habitantes e assombra-se.<br \/>\nEst\u00e1 diante de uns original\u00edssimos colossos-an\u00f5es, que<br \/>\nresumem na estatura me\u00e3 todos os extremos da pl\u00e1stica: amplos<br \/>\ntorsos de atletas sobre pernas bambeantes e finas, de cretinos.<br \/>\nCompreende ent\u00e3o, de pronto, as terr\u00edveis exig\u00eancias de<br \/>\naclima\u00e7\u00e3o deformadora, capaz daquela caricatura horripilante<br \/>\nde tit\u00e3s.<br \/>\nO ingl\u00eas, desempenado e rijo, tem naqueles lugares, na sua impec\u00e1vel<br \/>\nharmonia org\u00e2nica, uma condi\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel e<br \/>\na fraqueza paradoxal da pr\u00f3pria robustez, meio asfixiado num ambiente<br \/>\nque lhe n\u00e3o basta. suplanta-o o ind\u00edgena desfibrado, o chepang,<br \/>\nou o hayn, o monstrengo que vive \u00e0 custa da redu\u00e7\u00e3o da<br \/>\nvida e da mis\u00e9ria org\u00e2nica, largamente satisfeita com uma hematose<br \/>\nimperfeitiss\u00edma.<br \/>\nEste, sim, l\u00e1 se equilibra. N\u00e3o lhe pula o sangue, a escapar-se<br \/>\nno afogueado rubor das arter\u00edolas refertas; n\u00e3o o estonteia<br \/>\na vertigem: e o seu pulm\u00e3o, amplificado \u00e0 custa da atrofia de<br \/>\ntodo o organismo, colhe bem, no espa\u00e7o rarefeito, a ex\u00edgua meia<br \/>\nra\u00e7\u00e3o de ar de que precisa.<br \/>\nChegam-lhe, al\u00e9m disso, a fartar, os aleat\u00f3rios recursos do<br \/>\nsolo esterilizado e pobre. E quando n\u00e3o lhe bastassem, l\u00e1 est\u00e1,<br \/>\npara ampar\u00e1-lo e transmudar-lhe em benef\u00edcios as mis\u00e9rias,<br \/>\na sua religiosidade extraordin\u00e1ria, maior que todas as outras, no sistematizar<br \/>\na renuncia\u00e7\u00e3o e os sacrif\u00edcios.<br \/>\nRealmente, o Tibete &#8211; este &#8220;teto do mundo&#8221;, consoante a hip\u00e9rbole<br \/>\noriental &#8211; tem, na sua maior cidade, Lassa, o Vaticano do budismo.<br \/>\nA filosofia, que \u00e9 um prod\u00edgio de imagina\u00e7\u00e3o e<br \/>\nde incoer\u00eancia &#8211; toda baseada na id\u00e9ia essencial do nada, ao<br \/>\nmesmo passo que v\u00ea na natureza uma infinita s\u00e9rie de decomposi\u00e7\u00f5es<br \/>\ne recomposi\u00e7\u00f5es sem princ\u00edpio e sem fim &#8211; n\u00e3o<br \/>\npodia encontrar melhor cen\u00e1rio, nem mais apropriada gente.<br \/>\nO Tibete \u00e9 uma vasta Teba\u00edda misteriosa. Um ter\u00e7o de<br \/>\nsua popula\u00e7\u00e3o \u00e9 de lamas &#8211; monges miser\u00e1veis e<br \/>\nrepulsivos, vestidos de trapos de mortalhas, meio idiotas e errantes de mosteiro<br \/>\nem mosteiro, de povoado em povoado, ou \u00e0 toa, pelos descampados, a<br \/>\npregarem, alucinadamente, a extin\u00e7\u00e3o da personalidade, o dogma<br \/>\ndo desespero e o t\u00e9dio universal da vida: enquanto os dois ter\u00e7os<br \/>\nrestantes se abatem aniquilados, intelig\u00eancias mortas sob o fardo de<br \/>\ndeuses e de mundos e de kalpas seculares da mitologia formid\u00e1vel, que<br \/>\nas estonteia e que as esmaga&#8230;<br \/>\nToda essa gente ali se agita, num meio sonambulismo. O viajante encontra,<br \/>\npor vezes, em todos os cantos de ruas, \u00e0 entrada das casas, ou dos<br \/>\ntemplos, incont\u00e1veis moinhos, tocados pelos escravos, ou pelos ventos,<br \/>\nou pela \u00e1gua &#8211; e tem a ilus\u00e3o do trabalho. Mas a ilus\u00e3o<br \/>\napenas. A breve trecho, nota que os cilindros gigantes n\u00e3o esmoem o<br \/>\ntrigo, ou separam a l\u00e3; sacodem, esterilmente, as ora\u00e7\u00f5es<br \/>\ne as f\u00f3rmulas consagradas que cont\u00eam.<br \/>\nAs energias escass\u00edssimas das gentes v\u00e3o-se naquele industrialismo<br \/>\nm\u00edstico da reza.<br \/>\nEnt\u00e3o, avalia bem a identidade admir\u00e1vel que no Tibete, associa,<br \/>\nindissoluvelmente, o homem e a terra. Lan\u00e7a o olhar em volta. Contempla<br \/>\nas paragens desoladas e abruptas, tumultuando em p\u00edncaros desnudos,<br \/>\nperdidos no sil\u00eancio misterioso das alturas, e compreende que para aquele<br \/>\nrecanto do planeta, alternadamente trabalhado pelos maiores estios e pelos<br \/>\nmaiores invernos &#8211; s\u00f3 mesmo a quietude eterna e a imensidade vazia<br \/>\ndo Nirvana&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Que vai fazer, ali, o ingl\u00eas?&#8230;<br \/>\nVai defender a \u00cdndia. Lorde Curzon, o atual vice-rei, declara-o formalmente;<br \/>\na \u00cdndia \u00e9 uma enorme fortaleza triangular, tendo o \u00cdndico<br \/>\ncomo um fosso envolvendo-a por dois lados e, pelo outro, o muro do Himalaia.<br \/>\nTransposto este, est\u00e1 uma esplanada, o glacis, que deve jazer na mais<br \/>\nabsoluta neutralidade. E a regi\u00e3o ao sul do Tibete. Este por\u00e9m<br \/>\nabandonando, nos \u00faltimos tempos, o seu isolamento milen\u00e1rio,<br \/>\nmandou emiss\u00e1rios ao tzar, abrindo espontaneamente \u00e0 pol\u00edtica<br \/>\nasi\u00e1tica da R\u00fassia um dilatado campo, que se expande, a partir<br \/>\ndas fronteiras orientais do Turquest\u00e3o. Deste modo, a R\u00fassia,<br \/>\nsobre o glacis, ir\u00e1 ajustar-se, por terra, \u00e0s lindes da mais<br \/>\nimponente das possess\u00f5es inglesas, bloqueando-lhe daquele lado trezentos<br \/>\nmilh\u00f5es de s\u00faditos.<br \/>\nDa\u00ed, esse movimento de contrapol\u00edtica, que o Times resume limpidamente:<br \/>\n&#8220;A resolu\u00e7\u00e3o do governo ingl\u00eas \u00e9 clara. Para<br \/>\no russo dominante no Turquest\u00e3o, o Tibete \u00e9 um pais muito distante,<br \/>\nque tem muito perto, a um passo, a \u00cdndia. E, embora este passo tenha<br \/>\nde dar-se por cima do Himalaia, a grande cordilheira, de modo algum se compara<br \/>\nao imenso planalto enregelado, onde o caminhante opresso, numa altitude de<br \/>\n5.000 metros, calca, durante dois meses, a neve sem ver um homem, sem ver<br \/>\numa \u00fanica \u00e1rvore entre os piamos do Turquest\u00e3o e as primeiras<br \/>\ncabanas dos ca\u00e7adores, a 200 quil\u00f4metros de Lassa. Este planalto,<br \/>\ne n\u00e3o a cordilheira, \u00e9 que forma a fronteira setentrional da<br \/>\n\u00cdndia; e o governo ingl\u00eas n\u00e3o permite que lha ocupem num<br \/>\nmovimento amea\u00e7ador e contorneante.<br \/>\nA Inglaterra n\u00e3o vai conquistar, povoar, ou colonizar aquele trato<br \/>\ndo territ\u00f3rio. O que a Inglaterra n\u00e3o quer, e tenazmente, \u00e9<br \/>\nque lhe extingam aquele deserto &#8211; e que penetre no pa\u00eds, perpetuamente<br \/>\nmalignado pelo clima, pela imbecilidade dos lamas e pela vadiagem aventureira<br \/>\ndos tchandalas, a alma forte e maravilhosa dos russos.&#8221;<br \/>\nRessalta, nesta circunst\u00e2ncia, o significado interessant\u00edssimo<br \/>\ndo caso.<br \/>\nA na\u00e7\u00e3o mais pr\u00e1tica entre todas &#8211; onde a intelig\u00eancia,<br \/>\nconforme a frase de Emerson, est\u00e1 numa esp\u00e9cie de materialismo<br \/>\nmental, porque nada produz sem se basear num fato positivo &#8211; coloca-se, inesperadamente,<br \/>\nao lado da infinita idealiza\u00e7\u00e3o estagnada do budismo&#8230;<br \/>\nPorque, afinal, o que conv\u00e9m \u00e0 pol\u00edtica inglesa na \u00cdndia<br \/>\n\u00e9 a perman\u00eancia da sociedade deca\u00edda e ap\u00e1tica,<br \/>\no vazio da c\u00e9lebre &#8220;esplanada&#8221; &#8211; com tanta seriedade e t\u00e3o<br \/>\ninvolunt\u00e1rio humorismo exposta pelo previdente Lorde Curzon.<br \/>\nE para isso, armou-se uma expedi\u00e7\u00e3o, que l\u00e1 est\u00e1,<br \/>\nh\u00e1 meses, assoberbada de dificuldades de toda a ordem, num solo onde<br \/>\nas armas inglesas, encontrando nos tibetanos uma resist\u00eancia inesperada,<br \/>\nainda n\u00e3o perderam o brilho, somente devido \u00e0 bravura e \u00e0<br \/>\ntenacidade inamolg\u00e1vel dos gurkas e siks do Nepal, os melhores soldados<br \/>\ndo velho mundo.<br \/>\nA tomada de Giants\u00e9, efetuada pelo coronel Younghusband, depois de<br \/>\num rude canhoneio, deu-lhes um ponto estrat\u00e9gico de primeira ordem.<br \/>\nAquela cidade era o primeiro objetivo da campanha. Segundo se colhe de not\u00edcias<br \/>\nanteriores, o governador da \u00cdndia pretendia, expugnando-a, transform\u00e1-la<br \/>\nnum centro de negocia\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com os grandes<br \/>\nlamas e com o Dalai-Lama de Lassa, por maneira a firmar o prest\u00edgio<br \/>\nbrit\u00e2nico, sem maiores disp\u00eandios de sacrif\u00edcios.<br \/>\nA este prop\u00f3sito, citou-se, mesmo, o grande lama de Tashe Lump, &#8220;o<br \/>\ngrande mestre&#8221;, como o denominam, que assiste em Shigts\u00e9, a poucas<br \/>\nl\u00e9guas de Giants\u00e9.<br \/>\nAo que se figura, por\u00e9m, as tentativas neste sentido fracassaram.<br \/>\nOs \u00faltimos despachos noticiam que a expedi\u00e7\u00e3o, agora<br \/>\nsob o mando direto do general MacDonald, segue rumo decisivo para o seu objetivo<br \/>\nl\u00f3gico, para Lassa, para o \u00e2mago do pa\u00eds, para a Roma<br \/>\nintang\u00edvel do budismo&#8230;<br \/>\nVai desenrolar-se um dos mais empolgantes epis\u00f3dios da hist\u00f3ria<br \/>\nuniversal.<br \/>\nRealmente, devem aguardar-se todas as surpresas, e at\u00e9 as revela\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais imprevistas, deste recontro:<br \/>\num conflito entre o povo que melhor equilibra as energias da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nmoderna e a velh\u00edssima ra\u00e7a, onde melhor se conserva o desvairado<br \/>\nmisticismo das sociedades primitivas.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>CONJECTURAS<\/h2>\n<p>Entre os enredos prov\u00e1veis que em breve embaralhar\u00e3o a luta<br \/>\ndo Extremo Oriente avulta, a ressaltar em destaque sobre todas as conjecturas,<br \/>\numa a\u00e7\u00e3o interventiva da Inglaterra.<br \/>\nTudo a sugere. A parte um sem n\u00famero de outras circunst\u00e2ncias,<br \/>\nmostram-na, com toda a clareza de um tra\u00e7ado geom\u00e9trico, os<br \/>\nitiner\u00e1rios seguidos pelas duas grandes nacionalidades no velho mundo.<br \/>\nA princ\u00edpio marcharam paralelamente: o ingl\u00eas pelo Egito, pelo<br \/>\nAfeganist\u00e3o, pela \u00cdndia; o russo pelo norte do Turquest\u00e3o<br \/>\ne pela Sib\u00e9ria em forma a defrontar o Pac\u00edfico; e, certo, teriam<br \/>\nno Tibete e na China propriamente dita uma larga superf\u00edcie isolante,<br \/>\nque devia garantir a imiscibilidade de suas poderosas vagas invasoras, se<br \/>\numa delas, a russa, n\u00e3o houvesse de inflectir for\u00e7adamente para<br \/>\no sul, tendendo para um encontro, que ser\u00e1 um conflito.<br \/>\nDe feito, a rota do eslavo para o Oriente &#8211; a mais lenta e a maior de todas<br \/>\nas invas\u00f5es &#8211; n\u00e3o denuncia, como a do sax\u00f4nio, um excesso<br \/>\nde vida, porem a mesma necessidade inflex\u00edvel de viver. N\u00e3o<br \/>\nobedece a um tra\u00e7ado sistem\u00e1tico e seco; n\u00e3o vai num<br \/>\npercurso de gentes disciplinadas avan\u00e7ando adstritas \u00e0 retitude<br \/>\nde programas prefixos &#8211; e um espraiamento largo a assoberbar fronteiras, o<br \/>\nrefluxo desordenado e em massa de um povo rudemente repelido num final espantoso<br \/>\nde batalhas.<br \/>\nRealmente, a guerra de Crim\u00e9ia fechou o ocidente da Europa \u00e0<br \/>\nR\u00fassia e despenhou-a sobre a \u00c1sia. A t\u00edpica bonomia pol\u00edtica<br \/>\nde Napole\u00e3o III, com servir t\u00e3o complacentemente aos interesses<br \/>\nda Inglaterra, em 1853, afigura-se hoje um lance aquilino de estadista maquiav\u00e9lico,<br \/>\nporque toda aquela campanha recorda um reconhecimento armado preparando meio<br \/>\ns\u00e9culo mais tarde uma luta tit\u00e2nica a&#8217; advers\u00e1ria secular<br \/>\nda Fran\u00e7a.<br \/>\nEra f\u00e1cil prev\u00ea-la. O colosso moscovita, vencido, ficara inteiramente<br \/>\nbloqueado: o B\u00f3sforo interdito seq\u00fcestrava-o nos seus estepes,<br \/>\nsem sa\u00edda; e a ind\u00fastria triunfante das ra\u00e7as vitoriosas<br \/>\nmalsinava-lhe, suplantando-lho, o desenvolvimento econ\u00f4mico incipiente.<br \/>\nA R\u00fassia, com a sua estrutura social variad\u00edssima e imperfeita<br \/>\ne a sua atividade ainda tateante entre a servid\u00e3o e a liberdade, seria<br \/>\npara sempre vencida pelo trabalho organizado e pelas riquezas est\u00e1veis<br \/>\nde todo o resto da Europa.<br \/>\nMas dominou a situa\u00e7\u00e3o grav\u00edssima. Contornou-a; transmudou<br \/>\ntodo aquele recuo num avan\u00e7amento; e abalou para o levante num movimento<br \/>\nde flanco admir\u00e1vel entre amea\u00e7ador e pac\u00edfico, porque<br \/>\nn\u00e3o lho estimulava ou inspirava apenas o velho sonho guerreiro de Pedro,<br \/>\no Grande, a conquista do mar, sen\u00e3o tamb\u00e9m o anelo de deparar<br \/>\nem outras terras novos centros produtivos, de cultura. Ao rev\u00e9s da<br \/>\nexpans\u00e3o brit\u00e2nica na \u00cdndia, n\u00e3o buscava mercados<br \/>\npara o desafogo de ind\u00fastrias que n\u00e3o tinha, mas novas \u00e1reas<br \/>\nde produ\u00e7\u00e3o industrial e agr\u00edcola, onde as caravanas<br \/>\nanuais dos mujiques das Terras Negras &#8211; dois milh\u00f5es de homens periodicamente<br \/>\npostos fora dos lares pela mis\u00e9ria &#8211; encontrassem o abrigo salvador<br \/>\ndos territ\u00f3rios ferozes que demoram al\u00e9m dos plainos est\u00e9reis<br \/>\ndo Turquest\u00e3o ou da Sib\u00e9ria.<br \/>\nPara a sua grande vida vacilante e distensa procurou a base econ\u00f4mica<br \/>\nda China &#8211; uma Cana\u00e3 vast\u00edssima&#8230;<br \/>\nE assim se tra\u00e7ou a &#8220;estrada do imp\u00e9rio&#8221; o transiberiano,<br \/>\nmenos um caminho comercial do que um dreno desmedido canalizando para a R\u00fassia<br \/>\neurop\u00e9ia toda a for\u00e7a vital da \u00c1sia conquistada.<br \/>\nPara isso se demasiou em esfor\u00e7os em que as empresas militares mal<br \/>\nse destacam entre os prod\u00edgios de uma diplomacia incompar\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 resumi-los. Diante dos h\u00e1beis diplomatas, de Mouravieff<br \/>\na Cassini, abria-se o desconhecido: o Imp\u00e9rio do Meio, com a sua contextura<br \/>\npol\u00edtica indecifr\u00e1vel, onde a autoridade periclitante de uma<br \/>\ndinastia intrusa mal se equilibra entre os Kanatos an\u00e1rquicos da Mong\u00f3lia<br \/>\n&#8211; e a for\u00e7a religiosa dos lamas do Tibete. Neste sistema desfalecido,<br \/>\nem que divergem os poderes mal unidos pela identidade das cren\u00e7as difundidas<br \/>\nna amplitude do budismo, penetrou a componente dominante da pol\u00edtica<br \/>\nrussa, que os equilibrou ou os dirigiu, ou os anulou pelo contraste dos interesses<br \/>\nem jogo; de sorte que a breve trecho a nacionalidade, que se perdia na grandeza<br \/>\nin\u00fatil da Sib\u00e9ria, tendo no Pacifico, em Petropavlosky, uma<br \/>\nsa\u00edda \u00fanica obstru\u00edda pelos gelos, se dilatou para o<br \/>\nsul at\u00e9 Vladivostock; firmou-se depois, mais avantajada, em Porto Arthur<br \/>\n&#8211; de onde assoberbando todo o vale do Amur, abrangeu a Manch\u00faria, e<br \/>\nconquistou o protetorado franco da Mong\u00f3lia, onde se estr\u00e9ia<br \/>\na suserania do Tibete&#8230;<br \/>\nEm cinq\u00fcenta anos expandiu-se em superf\u00edcie capaz de cobrir a<br \/>\nde toda a Europa ocidental de onde reflu\u00edra em 1853.<br \/>\nFoi um triunfo e um revide.<br \/>\nCompleta-os &#8211; fato sugestivo, ainda que desvalioso &#8211; uma destas min\u00facias<br \/>\npinturescas t\u00e3o em destaque as vezes entre os maiores acontecimentos.<br \/>\nDe fato, o \u00faltimo aspecto desta estupenda hipertrofia territorial recorda-lhe<br \/>\no ponto de partida. A extremidade peninsular de Liao-Tong &#8211; neste momento<br \/>\no mais ruidoso palco do drama russo-japon\u00eas \u00e9 a miniatura da<br \/>\nCrim\u00e9ia. Ali ainda se retrata, estereotipado no desmantelamento da<br \/>\nterra, o cataclismo geol\u00f3gico que destacou o Jap\u00e3o da Cor\u00e9ia,<br \/>\ndeixando-lhes de permeio a rumaria esparsa das &#8220;Dez mil ilhas&#8221;,<br \/>\nque fervilham entre Fuzan e Nangasaki. A ponte extrema da peninsular Kuang-Tong,<br \/>\na &#8220;espada do regente&#8221;, embebida no mar \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde gl\u00e1dio desmedido, denteia-se de numerosas enseadas ou reentr\u00e2ncias<br \/>\nnos \u00e1speros cost\u00f5es de micaxisto&#8230; Numa delas o acesso se faz<br \/>\npor uma passagem estreita, breve angustura de taludes a pique \u00e0 maneira<br \/>\nde brecha de muralha.<br \/>\nE l\u00e1 dentro, no encerro da ba\u00eda, as fal\u00e9sias a prumo<br \/>\ndesatam-se em cortinas unidas, encimadas de baluartes, desenrolam-se ou entrela\u00e7am-se<br \/>\nentrincheiramentos, acompanhando os sulcos das ravinas, e os cerros torreados<br \/>\ncrivam de fortalezas as alturas &#8230;<br \/>\n\u00c9 Porto Arthur &#8211; a Sebastopol amea\u00e7adora do Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Ora, esta expans\u00e3o vitoriosa contrabate, de um lado, os interesses<br \/>\nimediatos do Jap\u00e3o transfigurado nos \u00faltimos trinta anos, com<br \/>\numa vida intens\u00edssima a desbordar no \u00e2mbito de suas ilhas para<br \/>\no cen\u00e1rio maior do continente fronteiro &#8211; e de outro aos interesses<br \/>\nfuturos da Inglaterra na \u00cdndia, sobre a qual descer\u00e1 direta<br \/>\ne esmagadoramente o peso morto formid\u00e1vel deste antigo mundo restitu\u00eddo<br \/>\n\u00e0 hist\u00f3ria.<br \/>\nDa\u00ed a luta &#8211; a luta \u00e0s claras do Jap\u00e3o, arrojando na<br \/>\nManch\u00faria todo o seu ex\u00e9rcito, e a luta surda da Inglaterra,<br \/>\nmal disfar\u00e7ada sob a forma meio diplom\u00e1tica, meio militar, da<br \/>\nmiss\u00e3o do Tibete, que neste momento chega aos muros de Lassa, a &#8220;impenetr\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>Mas neste investir com a capital interdita do budismo, as armas inglesas<br \/>\nv\u00e3o bater precisamente no centro irradiante das inspira\u00e7\u00f5es<br \/>\nsuperiores da diplomacia moscovita. De fato, toda ela, a despeito da sua complexidade<br \/>\ne das infinitas muralhas em que enleou a metade da \u00c1sia, tem consistido<br \/>\nem destacar o prest\u00edgio eslavo entre a fidelidade prec\u00e1ria dos<br \/>\nchineses \u00e0 dinastia reinante e a avers\u00e3o nacional \u00e0 expans\u00e3o<br \/>\necon\u00f4mica do Ocidente. Teve que harmonizar coisas opostas: captar a<br \/>\nconfian\u00e7a da primeira, protegendo-a ou dirigindo-a, e ao mesmo tempo<br \/>\no apoio da grande maioria do povo, em quem o nacionalismo antidin\u00e1stico<br \/>\n\u00e9 um caso particular de xenofobia, o \u00f3dio ao estrangeiro, que<br \/>\no caracteriza.<br \/>\nOra, o instrumento desta maquina\u00e7\u00e3o &#8211; a maior e mais vasta de<br \/>\nquantas intrigas rememora a hist\u00f3ria foi o mais alto fator da vida<br \/>\noriental, o clero b\u00fadico, a oligarquia teocr\u00e1tica de Lassa,<br \/>\no \u00e1rbitro pr\u00e9-excelente de todas as quest\u00f5es asi\u00e1ticas.<br \/>\nTudo mais est\u00e1 num plano subordinado; os nove mil quil\u00f4metros<br \/>\nde rails que prendem Porto Arthur a Petersburgo; os possantes locom\u00f3veis<br \/>\nque correm hoje pelos plainos da Mong\u00f3lia, arrastando pesad\u00edssimos<br \/>\ntrens e resolvendo o problema da r\u00e1pida via\u00e7\u00e3o sem trilhos;<br \/>\nas cidades russas emergentes com os seus nomes caracteristicamente russos<br \/>\npor toda a Manch\u00faria; as opera\u00e7\u00f5es em vasta escala do<br \/>\nBanco Russo-Chin\u00eas, a\u00e7ambarcando todas as finan\u00e7as do<br \/>\nOriente; e todo o vasto acampamento que perlonga as vias f\u00e9rreas, onde<br \/>\nem cada esta\u00e7\u00e3o se abarraca uma sotnia de cossacos; todas estas<br \/>\nformas materiais e imponentes do dom\u00ednio t\u00eam a garantia maior<br \/>\nda alian\u00e7a habilmente estabelecida, desde 1901, entre o papa ortodoxo<br \/>\ndo Neva e o imperador teocr\u00e1tico de Lassa.<br \/>\nGra\u00e7as a ela, desenvolveu-se o protetorado russo na Mong\u00f3lia<br \/>\ne a suserania virtual do czar sobre toda a China. E quando a corte mandchu,<br \/>\nrudemente molestada pela \u00faltima interven\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia,<br \/>\nse acolheu sob o amparo da R\u00fassia, desvendou-se inteiramente&gt; diante<br \/>\nda Europa surpreendida, a alian\u00e7a singular\u00edssima entreabrindo<br \/>\numa nova fase na hist\u00f3ria do Oriente.<br \/>\nDelatou-a incidente expressivo. O chefe do budismo, o super-homem tibetano,<br \/>\nmodificou a cerim\u00f4nia tradicional com que atrav\u00e9s dos s\u00e9culos<br \/>\nele consagra os poderes supremos da \u00c1sia: o chanceler de Lassa, conduzindo<br \/>\nos presentes simb\u00f3licos do dom\u00ednio, n\u00e3o se dirigiu mais<br \/>\na Pequim. Dirigiu-se para a Livadia.<br \/>\nEra a sagra\u00e7\u00e3o do czar &#8211; logo depois sancionada pela pr\u00f3pria<br \/>\ndinastia mandchu com o tratado confidencial de julho de 1902. E o enorme bloc<br \/>\nrusso-b\u00fadico, descendo esmagadoramente sobre a \u00c1sia meridional,<br \/>\ncerrou todas as passagens \u00e0 expans\u00e3o inglesa.<br \/>\nCompreende-se, ent\u00e3o, a \u00faltima entente cordial\u00edssima<br \/>\nentre a Inglaterra e a Fran\u00e7a, rematando t\u00e3o de improviso uma<br \/>\nrivalidade secular. N\u00e3o no-la explicam as simples tend\u00eancias<br \/>\ngal\u00f3filas do antigo pr\u00edncipe de Gales. A pol\u00edtica inglesa<br \/>\n\u00e9 a menos sentimental das pol\u00edticas, e embora a inquinassem<br \/>\nos nossos belos defeitos latinos, o seu aparelho complexo repele todos os<br \/>\ninfluxos pessoais. A explica\u00e7\u00e3o reponta das linhas anteriores.<br \/>\nA arrog\u00e2ncia brit\u00e2nica, t\u00e3o desafiadora ainda h\u00e1<br \/>\npouco em Fashoda, transmudou-se em d\u00f3cil cortesia, porque se lhe antolhava,<br \/>\ndepois do problema africano resolvido no Transvaal, o problema asi\u00e1tico,<br \/>\nmais s\u00e9rio e quase misterioso no intricado de infinitas inc\u00f3gnitas.<br \/>\nPreviu pr\u00f3xima e inevit\u00e1vel desloca\u00e7\u00e3o da sua<br \/>\nfor\u00e7a para a \u00c1sia, a enterreirar um antagonista que al\u00e9m<br \/>\nda pr\u00f3pria robustez lhe tem \u00e0s portas, separado pelas seis horas<br \/>\nde travessia da Mancha, um aliado respeit\u00e1vel. Era-lhe preciso remover<br \/>\ntodas as interpreta\u00e7\u00f5es inconvenientes da alian\u00e7a franco-russa.<br \/>\nDa\u00ed as suas transig\u00eancias quanto aos pontos controvertidos em<br \/>\nSi\u00e3o, o abandono dos projetos de linhas f\u00e9rreas contrapostos<br \/>\naos interesses franceses no sudoeste chin\u00eas, assim como as suas imprevistas<br \/>\nconcess\u00f5es do norte da \u00c1frica e na Terra Nova &#8211; e sobretudo<br \/>\no afogo, a \u00e2nsia, a vibratibilidade perfeitamente latina com que se<br \/>\nprecipitam os debates do acordo anglo-franc\u00eas, na C\u00e2mara dos Comuns.<br \/>\nDe qualquer modo, deixando o seu espl\u00eandido isolamento, o Reino Unido<br \/>\nenfraquecer\u00e1 os compromissos franceses na dupla alian\u00e7a e poder\u00e1<br \/>\nabalan\u00e7ar-se \u00e0 maior das guerras.<br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o \u00e9 clara.<br \/>\nSe a R\u00fassia for vencida, n\u00e3o ter\u00e1 o apoio do Ocidente<br \/>\nnum trabalho de paz que lhe salve ao menos uns restos de dom\u00ednio. A<br \/>\nconven\u00e7\u00e3o anglo-japonesa de julho de 1902, t\u00e3o denunciativa<br \/>\ndo largo descort\u00ednio de Chamberlain, e destinada sobretudo a fechar<br \/>\nas estradas da \u00cdndia e do Pac\u00edfico \u00e0 R\u00fassia, ter\u00e1<br \/>\ntodos os seus efeitos, e o governo de Mikado ficar\u00e1 largamente compensado<br \/>\ndo amargo desapontamento daquele il\u00f3gico tratado de Simonosaki, em<br \/>\nque as na\u00e7\u00f5es interventoras, entoando um vae victoribus! extravagante,<br \/>\nlhe remataram as vit\u00f3rias sobre a China, obrigando-o a respeitar a<br \/>\nintegridade territorial do vencido. A Cor\u00e9ia, o Imp\u00e9rio da Manh\u00e3<br \/>\nSerena, cair\u00e1 inteiramente na \u00f3rbita do Sol Levante&#8230;<br \/>\nE se a R\u00fassia triunfar &#8211; o historiador futuro ter\u00e1 de narrar<br \/>\numa campanha t\u00e3o anormal, t\u00e3o vasta e cheia de tit\u00e2nicas<br \/>\nbatalhas, que todos os recontros e assaltos desta rude refrega, desencadeada<br \/>\nagora no Oriente, surgir\u00e3o apequenados, feitos simples combates de<br \/>\nvanguardas.<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>CONTRASTES E CONFRONTOS<\/h2>\n<p>Quem vai com Humboldt atrav\u00e9s das serras e das gentes do Peru, observa<br \/>\num paralelismo interessante.<br \/>\nCopiam-se, refletem-se. A hist\u00f3ria, ali, parece um escandaloso pl\u00e1gio<br \/>\nda natureza f\u00edsica. Busquemo-la em todos os tempos e em todas as datas<br \/>\n&#8211; com o arque\u00f3logo nos baixos relevos dos templos desabados, com o<br \/>\nge\u00f3logo nas p\u00e1ginas unidas dos extratos que se dobram nas vertentes<br \/>\nabruptas, ou com os cronistas coloniais nas emocionantes narrativas dos &#8220;conquistadores&#8221;<br \/>\ne veremos um baralhamento de contrastes em que os fatos sociais recordam um<br \/>\ndecalque dos fatos inorg\u00e2nicos, repontando, reproduzindo-se e traduzindo-se<br \/>\nentre dois extremos: os Andes e a civiliza\u00e7\u00e3o dos incas, os<br \/>\nterremotos e o Peru dos &#8220;pronunciamentos&#8221;.<br \/>\nVai-se da terra que se retalha e se esboroa presa nas redes vibrantes das<br \/>\ncurvas sismais que rudemente a sacodem, \u00e0 impot\u00eancia im\u00f3vel<br \/>\nda cordilheira equilibrada numa ossatura r\u00edgida de dolerito; do imp\u00e9rio<br \/>\npatriarcal, e esteado numa teocracia inflex\u00edvel e do regime das castas,<br \/>\n\u00e0 rep\u00fablica revolta e doidejante, intermitentemente abalada<br \/>\npela fraqueza irrit\u00e1vel dos caudilhos.<br \/>\nN\u00e3o se disfar\u00e7am estes contrastes e estas identidades. Eles<br \/>\nl\u00e1 est\u00e3o na faixa litor\u00e2nea amaninhada pelas dunas e na<br \/>\nmontana ferac\u00edssima, que as matas ajardinam. Numa e noutra se fronteiam<br \/>\num passado imemorial quase maravilhoso e um presente indefinido e deplor\u00e1vel.<br \/>\nFronteiam-se e repelem-se. Destacam-se t\u00e3o incompat\u00edveis que<br \/>\no viajante, sem que o perturbem os agrupamentos incaracter\u00edsticos que<br \/>\nhoje ali se agitam, pode reconstruir nos seus aspectos dominantes toda a idade<br \/>\nde ouro dos aimaras.<br \/>\nSegue a princ\u00edpio pelo deserto salpintado de o\u00e1sis, que se desata<br \/>\nde Arica e Tumbez, e encontra para logo, nas huacas subterr\u00e2neas, a<br \/>\npr\u00f3pria sociedade antiga: m\u00famias ressequidas, abertos no escuro<br \/>\ndas col\u00f4nias tumulares os olhos de esmalte, num protesto eloq\u00fcent\u00edssimo<br \/>\ncontra a destrui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMais longe, nas cercanias de Pachacamac, as ru\u00ednas dos primeiros santu\u00e1rios<br \/>\ndo Sol: longas galerias de muros derru\u00eddos culminando as serranias,<br \/>\ne os primeiros baluartes arremessados na altura nos cimos que sobranceiam<br \/>\no Pacifico, denunciando um tino incompar\u00e1vel nos dispositivos para<br \/>\na defesa do territ\u00f3rio.<br \/>\nProssegue at\u00e9 Trujillo e desponta-lhe um tra\u00e7o superior de car\u00e1ter<br \/>\nutilit\u00e1rio da administra\u00e7\u00e3o incaica; as ac\u00e9quias<br \/>\ne os diques que canalizavam ou abarreiravam os rios, alastrando em largas<br \/>\nsuperf\u00edcies as redes irrigadoras, permitindo culturas opulentas em<br \/>\nlugares onde jamais chove, ou um trecho muitas vezes secular, de estrada incompar\u00e1vel,<br \/>\ninvestindo com os primeiros espor\u00f5es da cordilheira&#8230; Subindo-a, vai<br \/>\nnum crescendo a imagem retrospectiva do passado.<br \/>\nA paisagem torturada da serra, em que a luz crua do tr\u00f3pico n\u00e3o<br \/>\nanima as cores apagadas da flora rarefeita, e os horizontes se abreviam no<br \/>\nescarpado dos pendores, n\u00e3o impressiona. Suplanta-a a ruinaria da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nlend\u00e1ria: \u00c9 a princ\u00edpio a mesma estrada que se pisa:<br \/>\numa avenida do Equador ao Chile, torneando as encostas em cortes na rocha<br \/>\nviva, transpondo despenhadeiros em pontes suspensas que precederam de s\u00e9culos<br \/>\n\u00e0s da nossa engenharia pretensiosa, e evocando nos tra\u00e7os remanescentes<br \/>\ndos postos militares, nas esta\u00e7\u00f5es intervaladas, nos parques<br \/>\nescalonados em que se encerravam os lamas veloc\u00edssimos, os tempos gloriosos<br \/>\nem que lhe batiam no cal\u00e7amento de silhares o tropear dos ex\u00e9rcitos,<br \/>\no galope dos correios c\u00e9leres e a marcha das longas caravanas dos mercados<br \/>\ntranq\u00fcilos.<br \/>\nLadeiam-na fortalezas e templos.<br \/>\nDe Cajamarca a Cuzco n\u00e3o h\u00e1 talvez um quil\u00f4metro onde<br \/>\numa pir\u00e2mide truncada, um obelisco, um pilar, um peda\u00e7o de muro,<br \/>\num p\u00f3rtico desabado, um bloco de granito polido com desenhos em relevo,<br \/>\ne um renque de mon\u00f3litos, e uma cari\u00e1tide monstruosa de porfiro<br \/>\nazulado &#8211; n\u00e3o recordem a ra\u00e7a extraordin\u00e1ria que, sem<br \/>\nconhecer o ferro, se afoitou a cinzelar a pedra, e com uma fr\u00e1gil ferramenta<br \/>\nde bronze criou uma escultura monumental em blocos de montanhas.<br \/>\nEm Olaitaitambo os santu\u00e1rios talharam-se na rocha viva.<br \/>\nPisace \u00e9 um contraforte de cordilheira e uma fortaleza; coroam-na sete<br \/>\np\u00edncaros, sete baluartes; ningu\u00e9m lhe marca o ponto em que as<br \/>\nousadias do homem cederam \u00e0s grandezas naturais, porque com lhe derivarem<br \/>\nas encostas em taludes fortes, as plataformas circulantes que lhas dominam<br \/>\nem sucessivos patamares multiplicaram-se, cobrindo-as inteiramente com a imagem<br \/>\nexata de uma assombrosa escadaria de gigantes.<br \/>\nA estas brutalidades da for\u00e7a aliaram-se, maiores, os prod\u00edgios<br \/>\nda intelig\u00eancia. A natureza que lhe negava as chuvas, o inca contrap\u00f4s<br \/>\na preocupa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do estudo persistente do clima,<br \/>\nainda hoje t\u00e3o bem denunciado no aqu\u00e1rio de pedra do observat\u00f3rio<br \/>\nhigrom\u00e9trico de Quenco.<br \/>\nFoi buscar os mananciais eternos dos nevados; captou-os; dirigiu-os em aquedutos,<br \/>\nora ajustados \u00e0s vertentes, ora, subterraneamente, varando serranias;<br \/>\nou ent\u00e3o &#8211; pormenor que \u00e9 um recuo consider\u00e1vel das origens<br \/>\nda hidr\u00e1ulica moderna &#8211; lan\u00e7ados de uma a outra serra em vasos<br \/>\ncomunicantes desmedidos. Por fim, nos lugares onde n\u00e3o encontrou o<br \/>\ncerne rijo da terra para erigir os seus monumentos, inventou os aparelhos<br \/>\npoligonais cicl\u00f3picos: uma arquitetura para desafiar o cataclismo&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o previu o espanhol do s\u00e9culo XVI.<br \/>\nA ra\u00e7a forte e pac\u00edfica, que dava os primeiros lugares aos inspetores<br \/>\nagr\u00edcolas, aos engenheiros, que lhe abriam as estradas e os canais,<br \/>\ne aos arquitetos que lhe alteavam os templos, foi colhida \u00e0 trai\u00e7\u00e3o<br \/>\npela brutalidade militar da Espanha.<br \/>\nFez-se na hist\u00f3ria a c\u00f3pia servil de um daqueles terremotos<br \/>\nque no Peru subvertem cidades em minutos.<br \/>\nA unidade da ra\u00e7a aut\u00f3ctone, disciplinada e integra, marchando<br \/>\ncom um m\u00e9todo t\u00e3o seguro que lhe permitiu t\u00e3o altos cometimentos,<br \/>\ncontrap\u00f4s-se a desordem de uma explora\u00e7\u00e3o em larga escala<br \/>\ne o dispersivo dos caracteres de imigrantes atra\u00eddos de todos os pa\u00edses.<\/p>\n<p>Porque o peruano \u00e9, ainda mais do que n\u00f3s, uma fic\u00e7\u00e3o<br \/>\netnogr\u00e1fica.<br \/>\nEm 1873 Charles Wiener contemplou, numa das ruas de Lima, uma galeria de quase<br \/>\ntodas as ra\u00e7as &#8211; o branco, o negro, o amarelo e o bronzeado e todos<br \/>\nos cambiantes destas cores do bambo ao cholo, do mulato ao chino-cholo &#8211; completada<br \/>\npor uma separa\u00e7\u00e3o absoluta de classes, do cooli, que aluga a<br \/>\nliberdade, substituindo o negro, ao estrangeiro que ali chega, explora adoidamente<br \/>\na terra e vai-se embora, ao qu\u00edchua, espalhando na tristeza incur\u00e1vel<br \/>\na doen\u00e7a de sua gens que est\u00e1 morrendo&#8230; No alto o neto dos<br \/>\nconquistadores, o quase hidalgo, em que pese a mesti\u00e7agem, o condut\u00edcio<br \/>\ndos caudilhos, o irrequieto industrial das revolu\u00e7\u00f5es, o que<br \/>\nse diz peruano, guardando, intacta, a velha altivez espanhola, quer a estadeie<br \/>\nentre as opul\u00eancias das haciendas, ou a levante, mais impressionadora,<br \/>\nrevestido de andrajos, e mendigando intimamente como se fosse um gentil-homem<br \/>\nda mis\u00e9ria&#8230;<br \/>\nOra, toda essa gente &#8211; \u00e0 parte as culturas nos pontos em que se desenterram<br \/>\nas ac\u00e9quias dos antigos &#8211; de um modo geral se aplica aferradamente,<br \/>\nnuma agita\u00e7\u00e3o ansiosa, aos \u00fanicos trabalhos que lhe n\u00e3o<br \/>\nimplicam as disparidades de um temperamento e as diverg\u00eancias de esfor\u00e7os:<br \/>\nsaqueia a terra e o passado. Arrebata-lhes o ouro, e a prata, e os nitratos,<br \/>\ne o guano, e as m\u00famias, e as pedras dos templos.<br \/>\nDesbastam-se as costas e as ilhas, degradam-se os flancos das serranias, profanam-se<br \/>\nas pir\u00e2mides funer\u00e1rias, e revolvem-se as huacas, que, \u00e0s<br \/>\nvezes, valem pelas melhores minas, bastando notar-se que com um quinto de<br \/>\nouro de uma delas se construiu Trujillo&#8230;<br \/>\nN\u00e3o se define o repulsivo dessas pesquisas l\u00fagubres e dessa<br \/>\nind\u00fastria macabra, que tem como mat\u00e9ria-prima arcabou\u00e7os<br \/>\ndisjungidos e profanados, ou velhos sud\u00e1rios em peda\u00e7os.<br \/>\nNada caracteriza melhor o parasitismo, o apego as tradi\u00e7\u00f5es,<br \/>\na falta de solidariedade e o desequil\u00edbrio da energia das gentes que<br \/>\nabarracaram por aquelas bandas.<br \/>\nO passado \u00e9 um despojo.<br \/>\nAproveitam-no na sua forma estreitamente utilit\u00e1ria. E neste apropriar-se<br \/>\na esmo, a sociedade revolucion\u00e1ria e fr\u00e1gil vai dando uma express\u00e3o<br \/>\ntang\u00edvel ao contraste que a apequena ante a sociedade morta: v\u00eaem-se<br \/>\nent\u00e3o mesquinhos pardieiros desequilibradamente erectos sobre embasamentos<br \/>\ncicl\u00f3picos; ou cidades, e citemos apenas o Huamachuco, constru\u00eddas<br \/>\ncom os blocos arrancados dos templos: uma triste proje\u00e7\u00e3o horizontal<br \/>\nde velhas fachadas, um aca\u00e7apado estiramento de grandezas repartidas<br \/>\nem casas de tetos deprimidos e paredes espessas, e uma melanc\u00f3lica<br \/>\narquitetura de ru\u00ednas&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Ora, esta atividade, que um sem-n\u00famero de causas f\u00edsicas e<br \/>\nsociais tornaram impulsiva, agitad\u00edssima e est\u00e9ril, derivando<br \/>\nem desfalecimentos e arrancos, rebate-se na exist\u00eancia pol\u00edtica<br \/>\ndo Peru. Da\u00ed a monotonia irritante dos pronunciamentos, os desastres<br \/>\ndas guerras infelizes e o tumultu\u00e1rio das perigosas sucess\u00f5es<br \/>\npresidenciais, que ora se fazem, progressivamente, \u00e0 americana, a rev\u00f3lver,<br \/>\nora com o requinte feroz daquele supl\u00edcio dos dois usurpadores Gutierres<br \/>\n&#8211; expostos, oscilantes, nas torres da Catedral de Lima, e despenhados depois,<br \/>\ndo alto daquelas duas Trapeas barrocas para as fogueiras vingadoras acesas<br \/>\nna Plaza de Armas&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Confrontados estes contrastes, acredita-se quase que as incurs\u00f5es<br \/>\nperuanas, neste momento exercitadas nas fronteiras remotas do Alto Juru\u00e1,<br \/>\nse traduzam como uma retirada, uma tend\u00eancia para abandonar a estreita<br \/>\ne alongada regi\u00e3o onde uma nacionalidade, cujos antecedentes \u00e9tnicos<br \/>\nprefiguram mais elevados destinos, jaz bloqueada entre o maior dos mares e<br \/>\na maior das cordilheiras, sobre um solo batido pelo desequil\u00edbrio dos<br \/>\nagentes f\u00edsicos e em contacto com um passado que tanto tem influ\u00eddo<br \/>\nna sua desfortuna.<br \/>\nRealmente, no levante, transmontada a segunda cadeia dos Andes, desdobra-se<br \/>\na natureza est\u00e1vel &#8211; sem cat\u00e1strofes e sem ru\u00ednas &#8211; guardando<br \/>\nintactas as for\u00e7as criadoras, \u00e0 espera da componente prodigiosa<br \/>\ndo trabalho, e oferecendo, no remanso das culturas, na disciplina da atividade<br \/>\nadstrita a longos esfor\u00e7os consistentes, e na sugest\u00e3o permanente<br \/>\nda pr\u00f3pria harmonia natural, a situa\u00e7\u00e3o de parada que<br \/>\nsempre faltou aos peruanos para que se lhes despertassem os not\u00e1veis<br \/>\natributos, at\u00e9 hoje suplantados por uma combatividade, que \u00e9<br \/>\numa fraqueza e \u00e9 um anacronismo. Mas esta s\u00f3 poder\u00e1 engravecer,<br \/>\ncriando-lhes maiores desditas, se, ressurgindo sob um novo aspecto, for encontrar<br \/>\nnovos alentos nas arrancadas dos caucheiros que est\u00e3o prolongando na<br \/>\ndevasta\u00e7\u00e3o das grandes matas, um longo, um antiqu\u00edssimo<br \/>\ntiroc\u00ednio de tropelias.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>CONFLITO INEVIT\u00c1VEL<\/h2>\n<p>As incurs\u00f5es peruanas n\u00e3o denunciam apenas a avidez de alguns<br \/>\naventureiros doidamente ferretoados da ambi\u00e7\u00e3o que os arrebata<br \/>\n\u00e0s paragens riqu\u00edssimas dos seringais. S\u00e3o mais s\u00e9rias;<br \/>\ns\u00e3o quase um expressivo movimento hist\u00f3rico, desencadeado com<br \/>\numa finalidade irresist\u00edvel. N\u00e3o as determinam apenas as energias<br \/>\nsociais inst\u00e1veis e dispersivas da rep\u00fablica sul-americana mais<br \/>\nmalignada pela caudilhagem, sen\u00e3o as mesmas leis f\u00edsicas inviol\u00e1veis<br \/>\nde toda aquela zona.<br \/>\nRealmente, quem quer que contemple atrav\u00e9s da vis\u00e3o prodigiosa<br \/>\nde Humboldt, ou da clara intelig\u00eancia de C. Wiener, todo o trato de<br \/>\nterras que vai de Arica a Trujillo, constrito entre o Pac\u00edfico e os<br \/>\nAndes, compreende que os destinos do Peru oscilam entre dois extremos invari\u00e1veis:<br \/>\nou a extin\u00e7\u00e3o completa da nacionalidade suplantada por uma numerosa<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o advent\u00edcia, que assume todas as modalidades<br \/>\ndo alem\u00e3o industrioso ao cooli quase escravo &#8211; ou um desdobra. mento<br \/>\nher\u00f3ico para o futuro, uma entrada atrevida na Amaz\u00f4nia, um rush<br \/>\nsalvador \u00e0s cabeceiras do Purus, visando do mesmo passo uma sa\u00edda<br \/>\npara o Atl\u00e2ntico e um cen\u00e1rio mais e mais fecundo \u00e0s atividades.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 escapar \u00e0s aperturas do dilema.<br \/>\nA posi\u00e7\u00e3o prejudicial dos Andes cria ao Peru, como \u00e0<br \/>\nBol\u00edvia, regimes que se combatem: um litoral est\u00e9ril que mal<br \/>\nse alarga em dunas ondeantes, separado, por uma cordilheira, da por\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais vasta e mais exuberante do pa\u00eds. Na estreita faixa da costa, onde<br \/>\nse adensou o povoamento e se erigiu a capital, e pulsa toda a exist\u00eancia<br \/>\npol\u00edtica da rep\u00fablica, estira-se um esbo\u00e7o de deserto;<br \/>\nna montana alpestre do levante e mais longe nas plan\u00edcies amplas, cobertas<br \/>\nde florestas estupendas, por onde derivam, remansados, os \u00faltimos galhos<br \/>\ndos tribut\u00e1rios do Amazonas &#8211; pervagam, errantes, as tribos dos quichuas<br \/>\nin\u00fateis.<br \/>\nDeste modo a natureza criadora e forte do oriente se desentranha em riquezas<br \/>\nincalcul\u00e1veis diante das vistas incuriosas do selvagem &#8211; enquanto no<br \/>\nocidente as praias e vales areentos mal revestidos de uma flora tolhi\u00e7a<br \/>\nonde rebrilham os cristais nitrosos e se derrama em largas superf\u00edcies<br \/>\na lava endurecida, v\u00e3o a pouco e pouco molificando o temperamento dos<br \/>\ndescendentes diretos dos &#8220;conquistadores&#8221;.<br \/>\nRealmente, ali, naquela tira litor\u00e2nea e primeiros recostos andinos,<br \/>\nque formam, afinal, toda a geografia pol\u00edtica do Peru, a sociedade<br \/>\nn\u00e3o se irmana \u00e0 terra, desatando-lhe as energia rec\u00f4nditas<br \/>\ne nobilitando-a pelas culturas. Faz uma alian\u00e7a com os terremotos:<br \/>\ndevasta-a.<br \/>\nEnquanto estes lhe devoram as cidades, e lhe desviam os rios, e a retalham<br \/>\nde fendas em que se enredam, baralhadas, as curvas sismais dos cataclismos<br \/>\n&#8211; ela despeda\u00e7a os flancos das montanhas em procura de ouro e de prata;<br \/>\nperfura, escava e esquadrinha as dunas onduladas onde repousa h\u00e1 s\u00e9culos,<br \/>\nnas huacas subterr\u00e2neas, a sociedade espectral dos incas mumif\u00edcados<br \/>\ncom as suas incalcul\u00e1veis riquezas, perquire e tala os descampados<br \/>\nna faina estonteadora da explora\u00e7\u00e3o dos nitratos de s\u00f3dio;<br \/>\ne desbasta as costas e as ilhas na pesquisa do guano, que exporta para o estrangeiro<br \/>\nsem notar que a natureza previdente lhe oferece ao lado da esterilidade do<br \/>\nsolo os adubos preexcelentes que a destroem.<br \/>\nMas ainda nesta atividade febril e parasit\u00e1ria, desencadeada \u00e0<br \/>\nventura, o peruano n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3. Em qualquer rua de Lima,<br \/>\nj\u00e1 o notou um observador, se ostenta a mais numerosa galeria etnogr\u00e1fica<br \/>\nda terra: do cauc\u00e1sio puro, ao africano retinto, ou amarelo desfibrado<br \/>\ne ao quichua deca\u00eddo; e entre estes quatro termos principais, as incont\u00e1veis<br \/>\nvariedades de uma mesti\u00e7agem diss\u00edmil do mulato de todos os<br \/>\nsangues, aos zampos e cafuzos, aos cholos que lembram os nossos caboclos,<br \/>\ne aos interessant\u00edssimos chino-cholos em cujos rostos se fundem as<br \/>\nlinhas capitais de quase todas as ra\u00e7as. Assim, ao desordenado das<br \/>\natividades se prende o conflito inevit\u00e1vel dos temperamentos. A vida<br \/>\ndecorre sem continuidade, sem a disciplina resultante de uma harmonia de esfor\u00e7os<br \/>\nque extinga o dispersivo indispens\u00e1vel dos of\u00edcios; e a sociedade<br \/>\nincaracter\u00edstica, sem tradi\u00e7\u00f5es definidas &#8211; porque a<br \/>\ninvade e a perturba, intermitentemente, a grande massa de estrangeiros que<br \/>\na explora e abandona &#8211; parece refletir na ordem pol\u00edtica o desequil\u00edbrio<br \/>\ndas for\u00e7as naturais que lhe convulsionam o territ\u00f3rio, oscilando,<br \/>\ndolorosamente, sacudida pelos terremotos e pelos &#8220;pronunciamentos&#8221;.<br \/>\nNingu\u00e9m lhe lobrigou ainda um aspecto est\u00e1vel, um car\u00e1ter<br \/>\npredominante, um tra\u00e7o nacional incisivo. Perenemente em come\u00e7o,<br \/>\nnesse agremiar os tipos advent\u00edcios de todos os quadrantes, vai absorvendo-lhes<br \/>\ne refletindo-lhes por igual os atributos superiores e os estigmas. Quem lhe<br \/>\ndeletreia os fastos segue atrav\u00e9s de uma vertigem, e sofre o constante<br \/>\nsaltear das emo\u00e7\u00f5es mais opostas emergentes num baralhamento<br \/>\nde sucessos que se entrechocam d\u00edspares. Depois de sentir o mesmo espanto<br \/>\nde Darwin ao ver em 1832, na catedral de Lima, desdobrar-se sobre a tropa<br \/>\ngenuflexa a l\u00fagubre bandeira negra de uma revolta inesperada, completando<br \/>\num Te-Deum &#8211; sente a fr\u00edvola alegria de Offenbach ao divisar a mantilha<br \/>\nrendada da Perichole que tanto justificou a ironia popular (Perra e chola!)<br \/>\npela vida desmandada na corte pretensiosa do antigo Peru dos vice-reis.<br \/>\nPassa do tr\u00e1gico ao repulsivo, do assombroso ao gracil.<br \/>\nOra, este jogar de contrastes oriundos em grande parte do viver aleat\u00f3rio<br \/>\nde uma sociedade que parece estar apenas abarracada no territ\u00f3rio alongado<br \/>\nque prolonga o Pac\u00edfico, n\u00e3o escapou aos estadistas peruanos.<br \/>\nNascem daquela localiza\u00e7\u00e3o prejudicial sobre um ch\u00e3o<br \/>\nmaninho encerrando riquezas ocasionais que dia a dia decrescem, que se n\u00e3o<br \/>\nreproduzem e d\u00e3o ao trabalho improdutivo de as descobrir um triste<br \/>\naspecto de pilhagem &#8211; confundindo na mesma az\u00e1fama tumultu\u00e1ria<br \/>\na aglomera\u00e7\u00e3o irrequieta em que h\u00e1 todos as ra\u00e7as<br \/>\ne n\u00e3o h\u00e1 um povo&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 no vingar e transpor a cordilheira.<br \/>\nAli ao menos h\u00e1 a sugest\u00e3o dominadora da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nsurpreendente dos incas: a estrada de duas milhas distendida de Quito \u00e0s<br \/>\nextremas do Chile, lastrada pelas neves eternas, contorneando encostas abruptas<br \/>\nem releixos de rocha viva, alcandorada em pontes p\u00eanseis sobre abismos,<br \/>\ne estirando nas planuras as cal\u00e7adas eternas de silhares unidos com<br \/>\ncimento betuminoso; e os velh\u00edssimos baluartes pr\u00e9-incaicos<br \/>\nfeitos de montanhas inteiras arremessando-se nas alturas em sucessivos patamares<br \/>\nameados; e a ruinaria dos santu\u00e1rios do Sol com os seus aparelhos cicl\u00f3picos<br \/>\nde blocos poligonais de porfiro brunido; e os longos aquedutos do monte Silva,<br \/>\nem cujos canais subterr\u00e2neos, perfurando as serras, se espelham esfor\u00e7os<br \/>\nde uma engenharia tit\u00e2nica&#8230;<br \/>\nDepois, descidas as vertentes orientais da primeira cadeia dos Andes, transposta<br \/>\na &#8220;monta\u00f1a&#8221; e a segunda cordilheira &#8211; a terra exuberante<br \/>\n\u00e9 de medida, prefigurando nas grandes matas a mesma hiloe amazonense.<br \/>\nNesta regi\u00e3o, t\u00e3o outra, est\u00e1 &#8211; pela implanta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo trabalhador e pelo equil\u00edbrio da exist\u00eancia agr\u00edcola<br \/>\na reden\u00e7\u00e3o daquelas gentes que possuem os melhores fatores para<br \/>\num elevado tiroc\u00ednio hist\u00f3rico.<br \/>\nMas, ao mesmo passo que lhes despontam estas esperan\u00e7as, extingue-lhas<br \/>\na mesma cordilheira com o seu largo tumultuar de p\u00edncaros e de pendores<br \/>\nimpratic\u00e1veis num alude vivo de muralha, que lhes trancam quase por<br \/>\ncompleto as comunica\u00e7\u00f5es com o litoral. De fato, o Pacifico,<br \/>\nainda que se rasgue o canal de Nicar\u00e1gua, parece que pouco influir\u00e1<br \/>\nno progresso do Peru. O seu verdadeiro mar \u00e9 o Atl\u00e2ntico; a sua<br \/>\nsa\u00edda obrigat\u00f3ria o Purus. Sabem-no h\u00e1 muito os seus<br \/>\nmelhores estadistas: a expans\u00e3o para o levante traduz-se-lhes como<br \/>\num dever elementar de luta pela vida. Revelam-no todos os insucessos de numerosas<br \/>\ntentativas buscando libert\u00e1-los das anomalias f\u00edsicas que o<br \/>\ndeprimem. Revelou-as desde 1879 C. Wiener: &#8220;Os peruanos aquilatam bem<br \/>\na import\u00e2ncia enorme que teriam as estradas, ligando os afluentes naveg\u00e1veis<br \/>\ndo Amazonas e do Ucayali \u00e0s cidades do litoral; fizeram todos os esfor\u00e7os<br \/>\npara execut\u00e1-las porque lhas imp\u00f5em a l\u00f3gica e o interesse;<br \/>\nmas parece que a sua for\u00e7a de vontade \u00e9 menor que a constitui\u00e7\u00e3o<br \/>\nf\u00edsica dos aut\u00f3ctones&#8221;.<br \/>\nDe feito, contemplando-se diante de um mapa a faixa costeira entre Pachacamas<br \/>\ne Tumbez, nota-se um como diagrama daquelas tentativas desesperadas e constantes.<br \/>\nFoi a princ\u00edpio, no extremo norte, a linha f\u00e9rrea de Paita e<br \/>\nPiura, procurando os tribut\u00e1rios setentrionais do Solim\u00f5es;<br \/>\ndepois, pr\u00f3xima e ao sul, uma outra, de Lambayaque a Ferenafe: ambas<br \/>\nestacionaram, trilhos imersos nos areais da costa. A terceira, lan\u00e7ada<br \/>\nde Pascamayo \u00e0 esta\u00e7\u00e3o terminus de Cajamarca, e a quarta<br \/>\npartindo de Salavery, pouco ao sul de Truj\u00edllo &#8211; buscavam as linhas<br \/>\nde deriva\u00e7\u00e3o do Ucayali: embateram ambas de encontro \u00e0s<br \/>\nf\u00edlades espessas e aos dolentos e quartzos dur\u00edssimos das cordilheiras.<br \/>\nA quinta, a admir\u00e1vel estrada de Oroya, dominou parte da serrania,<br \/>\nmas ficou bem longe do seu objetivo essencial no transmontar as \u00faltimas<br \/>\ncordas de serras, varar pelas plan\u00edcies do Sacramento e alcan\u00e7ar<br \/>\no Purus.<br \/>\nEsta \u00e9 expressiva: mostra como o tra\u00e7ado do grande tribut\u00e1rio<br \/>\ndo Amazonas, em cujas margens contendem agora os flibusteiros, norteia de<br \/>\nh\u00e1 muito a administra\u00e7\u00e3o daquela rep\u00fablica.<br \/>\nPor outro lado, desde 1859, com Faustino Maldonado e dez anos depois com o<br \/>\ncoronel Latorre, sucessivas expedi\u00e7\u00f5es se lan\u00e7am para<br \/>\no oriente impelidas por alguns abnegados ca\u00eddos todos naqueles lugares<br \/>\nremotos, numa extraordin\u00e1ria intui\u00e7\u00e3o dos interesses<br \/>\nreais. do seu pa\u00eds.<br \/>\nEstes antecedentes delatam nas perturba\u00e7\u00f5es que lavram em toda<br \/>\naquela zona um significado bem diverso do que lhe podem dar algumas correrias<br \/>\nde seringueiros.<br \/>\nA guerra iminente tem uma fei\u00e7\u00e3o grav\u00edssima.<br \/>\nSe contra o Paraguai, num teatro de opera\u00e7\u00f5es. mais pr\u00f3ximo<br \/>\ne acess\u00edvel, aliados \u00e0s rep\u00fablicas platinas, levamos<br \/>\ncinco anos para destruir os caprichos de um homem &#8211; certo n\u00e3o se podem<br \/>\nindividuar e prever os sacrif\u00edcios que nos impor\u00e1 a luta com<br \/>\na expans\u00e3o vigorosa de um povo.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>CONTRA OS CAUCHEIROS<\/h2>\n<p>A remessa de sucessivos batalh\u00f5es para o Alto Purus &#8211; movimento de<br \/>\narmas recordando um come\u00e7o de guerra declarada &#8211; parece uma medida<br \/>\nelementar de previd\u00eancia.<br \/>\n\u00c9 um erro. N\u00e3o implica apenas o desfalecido das nossas finan\u00e7as,<br \/>\nnem se limita a projetar, de golpe, um brilho perturbador de baionetas no<br \/>\nmeio de um debate diplom\u00e1tico; vai al\u00e9m: prejudica de antem\u00e3o<br \/>\na campanha prov\u00e1vel e torna desde j\u00e1 prec\u00e1ria a defesa<br \/>\ndas circunscri\u00e7\u00f5es administrativas criadas pelo tratado de Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>Estas afirmativas parecem paradoxais, e v\u00e3o muito ao arrepio da corrente<br \/>\ngeral da opini\u00e3o revoltad\u00edssima contra esse Peru &#8211; t\u00e3o<br \/>\nfraco diante da nossa pr\u00f3pria fraqueza. Mas s\u00e3o demonstr\u00e1veis.<br \/>\nEst\u00e1 passado o tempo em que a honra e a seguran\u00e7a das nacionalidades<br \/>\nse entregavam, exclusivamente, ao rigor das tropas arregimentadas.<br \/>\nA \u00faltima guerra do Transvaal, \u00e0 parte os efeitos materiais,<br \/>\nteve conseq\u00fc\u00eancias surpreendentes. Est\u00e3o ainda viv\u00edssimos<br \/>\nem todas as mem\u00f3rias os admir\u00e1veis epis\u00f3dios daquela<br \/>\nesgrima magistral dos boers contra as armas pesadas da Inglaterra; e entre<br \/>\neles, um que pelo aparecer constante e invari\u00e1vel nos dois campos adversos,<br \/>\nse reveste quase do car\u00e1ter de uma lei, se \u00e9 que as tem a maneira<br \/>\nher\u00f3ica de brutalidade humana. Indiquemo-lo: em Paardeberg, quando<br \/>\nas tropas regulares inglesas recuaram rudemente repelidas dos entrincheiramentos<br \/>\nde Cronje, ampararam-na os volunt\u00e1rios canadenses num assalto brilhante,<br \/>\nque ultimou no ass\u00e9dio; Kimberley, defendida pelos cidad\u00e3os<br \/>\narmados, reagiu com mais efic\u00e1cia e diante de mais numerosos sitiantes<br \/>\ndo que Ladsmith guarnecida pela tropa de linha; em Magersfontain o p\u00e2nico<br \/>\ndos soldados teve o corretivo instant\u00e2neo de uma ducha, na fria impassibilidade<br \/>\ndos highlanders escoceses&#8230; S\u00e3o fatos expressivos. N\u00e3o escaparam<br \/>\n\u00e0 vis\u00e3o dos modernos profissionais da guerra. O coronel Henderson,<br \/>\nque os testemunhou de perto, no estado-maior de Lorde Roberts, explica-os<br \/>\npelos terr\u00edveis efeitos desmoralizadores do armamento moderno e pelos<br \/>\nembara\u00e7os criados pela p\u00f3lvora sem fuma\u00e7a.<br \/>\nO esp\u00edrito de classe e a alta responsabilidade que lhe adv\u00e9m<br \/>\ndo cargo que ocupou junto ao comandante em chefe, n\u00e3o lhe tolheram<br \/>\no dizer nuamente que toda a luta sul-africana fora a glorifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos lutadores improvisados, e a triumph for the principle of voluntary service.<\/p>\n<p>De Bloch foi ainda mais incisivo: a preemin\u00eancia do civil resulta-lhe,<br \/>\ninilud\u00edvel, das mesmas condi\u00e7\u00f5es do campo das batalhas<br \/>\nmodernas, onde a virul\u00eancia e rapidez do tiro imp\u00f5em uma dispers\u00e3o<br \/>\nde todo oposta aos dispositivos das paradas e das manobras. Em tais circunst\u00e2ncias<br \/>\nos oficiais n\u00e3o podem dirigir efetivamente os soldados, e estes, sem<br \/>\no h\u00e1bito das delibera\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias, estonteiam,<br \/>\ndesunidos e in\u00fateis, porque quanto maior \u00e9 a sua disciplina<br \/>\ne o &#8220;training&#8221; da fileira, tanto menor \u00e9 a aptid\u00e3o<br \/>\nindividual de agir.<br \/>\nO argumento \u00e9 impressionadoramente claro: o civil apanhado a la\u00e7o,<br \/>\no volunt\u00e1rio de pau e corda, o caipira a quem a farda aterroriza-mas<br \/>\ncuja capacidade de a\u00e7\u00e3o se desenvolveu aut\u00f4noma nas ca\u00e7adas,<br \/>\nna faina da lavoura, nos m\u00faltiplos of\u00edcios, nas viagens e nas<br \/>\nv\u00e1rias perip\u00e9cias de uma exist\u00eancia modesta e livre, surge<br \/>\nde improviso desarticulando todas as pe\u00e7as da sinistra entrosagem em<br \/>\nque a arte militar tem triturado os povos.<br \/>\nE para que isto sucedesse bastou que esta \u00faltima se desenvolvesse ao<br \/>\nponto de deslocar todas as velharias da t\u00e1tica, firmando a \u00fanica<br \/>\ngarantia dos combates nas faculdades de iniciativa.<br \/>\nA conclus\u00e3o \u00e9 t\u00e3o arrojada, e deforma tanto os moldes<br \/>\ndo conceito vulgar, que precisamos afast\u00e1-la da nossa responsabilidade<br \/>\nde latinos sentimentais e exagerados. Deixemo-la a\u00ed blindada na rigidez<br \/>\nbrit\u00e2nica: &#8220;It is this quality which makes the superiority of the<br \/>\nboers over the british. And it is this also which accounts for the superiority<br \/>\nof the british civilian over the british regular&#8221;. (De Bloch &#8211; The wars<br \/>\nof the f uture) .<br \/>\nAssim se esclarecem not\u00e1veis anomalias: a gl\u00f3ria napole\u00f4nica,<br \/>\nem que colaborou talvez o precipitado de recrutas colhidos em todos os pontos<br \/>\ne que iam aperrar pela primeira vez as espingardas na frente do inimigo; as<br \/>\nbatalhas estupendas da guerra da Sucess\u00e3o; o esporte ruidoso e \u00e1lacre<br \/>\ndos americanos em Cuba; e, neste momento, os desfalecimentos da formid\u00e1vel<br \/>\ndisciplina russa diante da vibratibilidade japonesa&#8230;<br \/>\nInesperado desfecho: a guerra cresceu para diminuir na guerrilha; e depois<br \/>\nde devorar os povos devora os pr\u00f3prios filhos, extinguindo o soldado.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 Marte, \u00e9 Saturno.<br \/>\nReagiu \u00e0 reprimenda dos fil\u00f3sofos e ao sentimentalismo dos poetas;<br \/>\nevolveu ilogicamente apropriando-se dos recursos da ci\u00eancia, que a repelem,<br \/>\ne dos da ind\u00fastria, que \u00e9 a sua ant\u00edtese; por fim, armou-se<br \/>\ncom uns dez milh\u00f5es de baionetas e transformou-as na arma \u00fanica<br \/>\nque a trespassa. Acaba como os velhos fac\u00ednoras salteados pela fadiga<br \/>\nmoral dos pr\u00f3prios crimes. Suicida-se.<br \/>\nOra, um fato que ressalta t\u00e3o vivo no esmoitado e no desimpedido dos<br \/>\ncampos mais pr\u00f3prios aos combates e aos seus alinhamentos prescritos,<br \/>\nnaturalmente se ampliar\u00e1 no embaralhado e no revolto do Alto Purus<br \/>\ne do Alto Juru\u00e1, onde, at\u00e9 materialmente, s\u00e3o imposs\u00edveis<br \/>\naqueles dispositivos.<br \/>\nAli n\u00e3o nos aguardam tropas alinhadas. Esperam-nos os caucheiros solertes<br \/>\ne escapantes, mal reunidos nos bale\u00f5es de voga, dispersos nas ub\u00e1s<br \/>\nligeiras, ou derivando velozmente, isolados, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas correntes, nos mesmos paus boiantes que os rios acarretam; e repontando,<br \/>\na s\u00fabitas, na orla florida dos igap\u00f3s, e desaparecendo, impalp\u00e1veis,<br \/>\nno afogado dos paranamirins, onde se entran\u00e7am as ramagens das \u00e1rvores<br \/>\nque os escondem; ou girando pelas infinitas curvas e pelos incont\u00e1veis<br \/>\nfuros que formam a interessant\u00edssima anastomose hidrogr\u00e1fica<br \/>\ndos tribut\u00e1rios meridionais do Amazonas.<br \/>\nA imagem material de uma campanha, ali, ser\u00e1 o labirinto inextric\u00e1vel<br \/>\ndos igarap\u00e9s. Aos nossos estrategistas n\u00e3o impender\u00e1<br \/>\na tarefa relativamente f\u00e1cil de bater o inimigo &#8211; mas a empresa, talvez<br \/>\ninsuper\u00e1vel, de lobrigar o inimigo. Iludem-se os que imaginam que o<br \/>\ns\u00f3 aparecimento de alguns corpos de tropas regulares no desmarcado<br \/>\ntrato de terras que demoram entre o Juru\u00e1 e o Acre &#8211; baste a polici\u00e1-las,<br \/>\ne a garantir os povoadores, e a impedir a viola\u00e7\u00e3o de uma fronteira<br \/>\nindeterminada. Os batalh\u00f5es maci\u00e7os, presos a uns tantos preceitos<br \/>\ne ao retil\u00edneo das formaturas, ser\u00e3o tanto mais in\u00fateis<br \/>\nquanto mais disciplinados e feitos \u00e0 solidariedade de movimentos. O<br \/>\nmelhor de sua organiza\u00e7\u00e3o militar impec\u00e1vel culminar\u00e1<br \/>\nno p\u00e9ssimo da mais completa inaptid\u00e3o a se ajustarem ao teatro<br \/>\ndas opera\u00e7\u00f5es, e a enfrentarem o torvelinho dos recontros s\u00fabitos<br \/>\nou a se subtra\u00edrem aos perigos das tocaias. N\u00e3o exemplifiquemos,<br \/>\nrecordando lastim\u00e1veis sucessos da nossa hist\u00f3ria recente.<br \/>\nSobre tudo isto uma considera\u00e7\u00e3o capital. Aqueles long\u00ednquos<br \/>\nlugares do Purus &#8211; mais conhecidos hoje, depois da explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Chandless, do que muitos pontos do nosso far west paulista &#8211; exigem uma<br \/>\naclima\u00e7\u00e3o dific\u00edlima e penosa. Apesar de um r\u00e1pido<br \/>\npovoamento, de cem mil almas em pouco mais de trinta anos, tem ainda o car\u00e1ter<br \/>\nnefasto das paragens virgens onde a copiosa exuber\u00e2ncia da vida vegetal<br \/>\nparece favorecida por um ambiente impr\u00f3prio \u00e0 exist\u00eancia<br \/>\nhumana. O seu quadro nosol\u00f3gico assombra, pela vasta s\u00e9rie de<br \/>\ndoen\u00e7as, que v\u00e3o das maleitas permanentes \u00e0 hipoemia<br \/>\nintertropical entorpecedora e \u00e0quela original\u00edssima &#8220;purupuru&#8221;<br \/>\nque n\u00e3o mata mas desfigura, embaciando a pele do selvagem e dando-lhe<br \/>\num facies de cad\u00e1ver, pondo no rosto do negro, salpintado de manchas<br \/>\nbrancas, uma espantada m\u00e1scara demon\u00edaca, e imprimindo no do<br \/>\nbranco a brancura repulsiva do albinismo . . .<br \/>\nV\u00ea-se bem quantos agentes, dispares nos aspectos mas convergentes nos<br \/>\nefeitos, das conclus\u00f5es mais recentes da t\u00e9cnica guerreira \u00e0s<br \/>\nm\u00ednimas exig\u00eancias clim\u00e1ticas, concorrer\u00e3o no invalidar<br \/>\na ocupa\u00e7\u00e3o estritamente militar daquela zona.<br \/>\nAl\u00e9m disto, as for\u00e7as para repelir a invas\u00e3o j\u00e1<br \/>\nali se acham, destras e aclimadas, nas tropas irregulares do Acre, constitu\u00eddas<br \/>\npelos destemerosos sertanejos dos Estados do norte, que h\u00e1 vinte anos<br \/>\nest\u00e3o transfigurando a Amaz\u00f4nia. Eles formam o verdadeiro ex\u00e9rcito<br \/>\nmoderno como o preconizam, como o desejam, como o proclamam altamente, dentro<br \/>\ndos c\u00edrculos militares da Europa, os luminares da guerra precitados<br \/>\n&#8211; n\u00e3o j\u00e1 para o caso especial das guerrilhas, mas para todas<br \/>\nas formas das campanhas, quer estas se desenrolem nos campos cl\u00e1ssicos<br \/>\nda B\u00e9lgica, quer na topografia revessa do Transvaal. E confiados naqueles<br \/>\nmin\u00fasculos tit\u00e3s de envergadura de a\u00e7o enrijada na t\u00eampera<br \/>\ndas soalheiras calcinantes, a um tempo bravos e joviais, afeitos \u00e0s<br \/>\ndelibera\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e decisivas de uma t\u00e1tica<br \/>\nestonteadora, que improvisam nos combates com a mesma espontaneidade com que<br \/>\nlhes saltam das bocas as rimas ressoantes dos folguedos &#8211; poderemos permanecer<br \/>\ntranq\u00fcilos.<br \/>\nPara o caucheiro &#8211; e diante desta figura nova imaginamos um caso de hibridismo<br \/>\nmoral: a bravura aparatosa do espanhol difundida na ferocidade m\u00f3rbida<br \/>\ndo quichua &#8211; para o caucheiro um domador \u00fanico, que suplantar\u00e1,<br \/>\no jagun\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>ENTRE O MADEIRA E O JAVARI<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 em todo o Brasil regi\u00e3o alguma que tenha tido<br \/>\no vertiginoso progresso daquele remot\u00edssimo trecho da Amaz\u00f4nia,<br \/>\nonde n\u00e3o vingou entrar o devotamento dos carmelitas nem a absorvente<br \/>\natividade, meio evangelizadora, meio comercial, dos jesu\u00edtas. Ha pouco<br \/>\nmais de trinta anos era o deserto. O que dele se conhecia bem pouco adiantava<br \/>\n\u00e0s linhas desanimadoras do padre Jo\u00e3o Daniel no seu imaginoso<br \/>\nTesouro Descoberto: &#8220;Entre o Madeira e o Javari, em dist\u00e2ncia de<br \/>\nmais de 200 l\u00e9guas, n\u00e3o h\u00e1 povoa\u00e7\u00e3o alguma<br \/>\nnem de brancos nem de tapuias mansos ou miss\u00f5es&#8221;. O dizer \u00e9<br \/>\ndo s\u00e9culo XVIII e podia repetir-se em 1866 na frase de Tavares Bastos:<br \/>\n&#8220;O Amazonas \u00e9 uma esperan\u00e7a; deixando as vizinhan\u00e7as<br \/>\ndo Par\u00e1 penetra-se no deserto&#8221;.<br \/>\nEntretanto, nada explicava o olvido daquele territ\u00f3rio.<br \/>\nCompreende-se que os pr\u00f3prios norte-americanos tenham reprimido at\u00e9<br \/>\n1868 a vaga povoadora impetuos\u00edssima que assoberbou a barreira dos<br \/>\nAlleganis e a transmontou, espraiando-se no far west; sopeara-lhe o arremesso<br \/>\na maninhez desalentadora dos terrenos absolutamente est\u00e9reis que se<br \/>\ndesatam a partir das vertentes orientais das Rocky Mountains.<br \/>\nEntre n\u00f3s, n\u00e3o. As nossas duas maiores linhas de penetra\u00e7\u00e1o,<br \/>\na de S. Paulo e a do Par\u00e1, convergentes ambas em Cuiab\u00e1, nortearam-se<br \/>\ndesde o come\u00e7o como a procura de empecilhos de toda a ordem.<br \/>\nOs sertanistas que abalaram de Porto F\u00e9lix \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Tiet\u00ea e do Paran\u00e1, para vencerem as \u00e1guas torrenciais<br \/>\ndo Pardo at\u00e9 alcan\u00e7arem pelo Taquari e pelo S\u00e3o Louren\u00e7o<br \/>\naquele long\u00ednquo objetivo depois de uma navega\u00e7\u00e3o de<br \/>\ncerca de quatro mil quil\u00f4metros &#8211; e os que demandavam, a partir de Bel\u00e9m,<br \/>\nsempre ao arrepio das \u00e1guas do Amazonas, do Madeira e do Guapor\u00e9,<br \/>\nnuma travessia de mais de setecentas l\u00e9guas, iam apostados a luta formid\u00e1vel<br \/>\ncom os baques das catadupas, com o acachoar das itaipavas, com a monotonia<br \/>\ninatur\u00e1vel das vara\u00e7\u00f5es remoradas, com o choque das correntes<br \/>\ne com os torvelinhos dos peraus. Venceram-nos; e o planalto dos Parecis, expressivo<br \/>\ndivortium aquarum, de onde irradiam caudais para todos os quadrantes, teve,<br \/>\nem pleno contraste com este car\u00e1ter f\u00edsico dispersivo, uma fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nhist\u00f3rica unificadora que s\u00f3 ser\u00e1 compreendida quando<br \/>\no esp\u00edrito nacional tiver robustez para escrever a epop\u00e9ia maravilhosa<br \/>\ndas Mon\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEntretanto, demoravam-lhes no ocidente paragens que seriam facilmente percorridas<br \/>\nsem aquela extraordin\u00e1ria dissipa\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os.<br \/>\nA queda do maci\u00e7o brasileiro, irregular e abrupta noutros pontos e<br \/>\noriginando regimes fluviais perturbad\u00edssimos, que alguns rios, como<br \/>\no Tocantins e o S. Francisco, prolongam quase ao litoral, ali se desafoga<br \/>\nna maior expans\u00e3o em longitude da Am\u00e9rica do Sul, precisamente<br \/>\nna zona em que a viva deflex\u00e3o dos Andes para o ocidente propiciou<br \/>\numa \u00e1rea \u00e0 maior bacia hidrogr\u00e1fica da terra. Da\u00ed<br \/>\no remansado e o desimpedido dos seus fartos tribut\u00e1rios. O Purus e<br \/>\no Juru\u00e1 s\u00e3o, depois do Paraguai e do Amazonas, os rios mais<br \/>\nnaveg\u00e1veis do continente. Descidas as vertentes orientais dos \u00faltimos<br \/>\ncontrafortes andinos, onde lhes abrolham as fontes, e repontam as suas \u00fanicas<br \/>\ncachoeiras, volvem as \u00e1guas num declive que o mais rigoroso aparelho<br \/>\n\u00e0s vezes n\u00e3o distingue. Ajustam-se \u00e0 rara uniformidade<br \/>\ndos terrenos. t\u00e3o eloq\u00fcentemente exposta, \u00e0 mais breve<br \/>\ncontempla\u00e7\u00e3o de um mapa, no paralelismo dos grandes cursos de<br \/>\n\u00e1gua que correm entre o Madeira e o Javari, drenando lentamente a regi\u00e3o<br \/>\ndesimpedida que prolonga os piamos bolivianos e onde a natureza equilibrada<br \/>\nesconde as opul\u00eancias de uma flora incompar\u00e1vel nos labirintos.<br \/>\ndos igarap\u00e9s&#8230;<br \/>\nMas ningu\u00e9m a procurou. A metr\u00f3pole que firmara a posse da terra<br \/>\nnas cabeceiras do Rio Branco, do Rio Negro, no Solim\u00f5es e no Guapor\u00e9<br \/>\ncom as pali\u00e7adas e os pedreiros de bronze dos velhos fortes de S. Joaquim,.<br \/>\nMarabitanas, Tabatinga e Pr\u00edncipe da Beira &#8211; quatro, enormes escudos<br \/>\ndesafiando a rivalidade tradicional da. Espanha &#8211; evitara por completo (como<br \/>\nse recuasse ante a ferocidade, t\u00e3o fabulada pelos cronistas, dos muros<br \/>\nirradios) aqueles long\u00ednquos tratos do territ\u00f3rio &#8211; at\u00e9<br \/>\nque no-las desvendassem, em 1851, Castelnau e o tenente da marinha norte-americana<br \/>\nF. Maury.<br \/>\nFoi uma revela\u00e7\u00e3o. O descobrimento coincidia com uma renascen\u00e7a<br \/>\nda atividade nacional. Na imprensa, o robusto esp\u00edrito pr\u00e1tico<br \/>\nde Souza Franco aliara-se \u00e0. intelig\u00eancia fulgurante de Francisco<br \/>\nOtaviano nessa propaganda irresist\u00edvel pela franquia do Amazonas a<br \/>\ntodas as bandeiras, a que tanto ampararam o l\u00facido crit\u00e9rio<br \/>\nde Agassiz, as pesquisas de Bates, as observa\u00e7\u00f5es de Brunet<br \/>\ne os trabalhos de Souza Coutinho, Costa Azevedo (Lad\u00e1rio) e Soares<br \/>\nPinto, at\u00e9 que ela desfechasse no decreto civilizador de 6 de dezembro<br \/>\nde 66.<br \/>\nTavares Bastos, n\u00e3o lhe bastando, \u00e0 alma varonil e rom\u00e2ntica,<br \/>\no t\u00ea-la esclarecido com o fulgor das melhores p\u00e1ginas das Cartas<br \/>\nde um solit\u00e1rio, transmudava-se num sertanista genial: perlustrou o<br \/>\ngrande rio trazendo-nos de l\u00e1 um livro, O Vale do Amazonas, que \u00e9<br \/>\num reflexo virtual da Hiloe portentosa e \u00e9 ainda hoje o programa mais<br \/>\navantajado do nosso desenvolvimento. Ora, neste largo expandir de novos horizontes,<br \/>\num explorador tenaz, Chandless, tra\u00e7ou repentinamente a diretriz de<br \/>\num objetivo definido. Levara-o at\u00e9 l\u00e1, no trecho onde os grandes<br \/>\nrios misturam as suas \u00e1guas na anastomose das nascentes, o intento<br \/>\nde descobrir uma passagem do Acre para o Madre-de-Dios &#8211; o velho problema<br \/>\nda liga\u00e7\u00e3o das bacias do Amazonas e do Paraguai. N\u00e3o<br \/>\no resolveu. Fez mais: sugestionado pelas maravilhas naturais, transformou-se<br \/>\nnum pioneiro salteado de ambi\u00e7\u00f5es e fundou ali o primeiro estabelecimento<br \/>\nque fixou o homem \u00e0 terra; enquanto um mateiro destemeroso, Manoel<br \/>\nUrbano da Concei\u00e7\u00e3o, um quase an\u00f4nimo, como o \u00e9<br \/>\na grande maioria dos nossos verdadeiros her\u00f3is, batia longamente o<br \/>\nreticulado inextric\u00e1vel dos furos e, desvendando as nascentes de todos<br \/>\nos tribut\u00e1rios do Purus, preparava a um outro dominador de desertos,<br \/>\no coronel Rodrigues Labre, grande parte do terreno para um r\u00e1pido e<br \/>\nintens\u00edssimo povoamento.<br \/>\nDe feito, foi uma transfigura\u00e7\u00e3o. Em pouco, sucessivas vagas<br \/>\nde imigrantes reproduziam em nossos dias o tumulto das entradas do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII.<br \/>\nO l\u00e1tex das seringueiras, o cacau, a salsa, a capa\u00edba e toda<br \/>\na esp\u00e9cie de \u00f3leos vegetais, substituindo o ouro e os diamantes,<br \/>\nalimentavam as mesmas ambi\u00e7\u00f5es ensofregadas.<br \/>\nA terra, at\u00e9 ent\u00e3o entregue \u00e0s tribos erradias, teve<br \/>\nem cerca de dez anos (1887) uma popula\u00e7\u00e3o de 60.000 almas, ligando-se<br \/>\nas suas mais remotas paragens de Sepatini e Hintanaam a Manaus, pela Companhia<br \/>\nFluvial de Amazonas, com um primeiro desenvolvimento de 1.014 milhas, logo<br \/>\ndepois de distendidas na navega\u00e7\u00e3o dos tribut\u00e1rios superiores<br \/>\nque v\u00e3o do Ituxi ao Acre. E por fim uma cidade, uma verdadeira cidade.<br \/>\nL\u00e1brea, repontou daquela forte converg\u00eancia de energias trazendo<br \/>\ndesde o nascer um car\u00e1ter destoante do de nossos povoados sertanejos<br \/>\n&#8211; com o requinte progressista de uma imprensa de dois jornais, o Purus e o<br \/>\nLabrense, e o luxo suntu\u00e1rio de um teatro concorrido, e col\u00e9gios,<br \/>\ne as ruas cal\u00e7adas e alinhadas: a mol\u00e9cula integrante da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\naparecendo, repentinamente, nas vastas solid\u00f5es selvagens&#8230;<br \/>\nOra, estes sucessos, que formam um dos melhores cap\u00edtulos da nossa<br \/>\nhist\u00f3ria contempor\u00e2nea, s\u00e3o, tamb\u00e9m, o exemplo<br \/>\nmais empolgante da aplica\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios transformistas<br \/>\n\u00e0s sociedades. Realmente, o que ali se realizou&gt; e est\u00e1 realizando-se,<br \/>\n\u00e9 a sele\u00e7\u00e3o natural dos fortes. Para esse investir com<br \/>\no desconhecido n\u00e3o basta o simples anelo das riquezas: requerem-se,<br \/>\nsobretudo, uma vontade, uma pertin\u00e1cia, um testemor est\u00f3ico<br \/>\ne at\u00e9 uma constitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica privilegiada. Aqueles<br \/>\nlugares s\u00e3o hoje, no meio dos nossos desfalecimentos, o palco agitad\u00edssimo<br \/>\nde um epis\u00f3dio da concorr\u00eancia vital entre os povos. Alfredo<br \/>\nMarc encontrou, nas margens do Juru\u00e1, alguns parisienses, aut\u00eanticos<br \/>\nparisienses, trocando os encantos dos bulevares pela explora\u00e7\u00e3o<br \/>\ntrabalhosa de um seringal fart\u00edssimo; e acredita-se que o viajante<br \/>\nn\u00e3o exagerou. L\u00e1 est\u00e3o todos os destemerosos convergentes<br \/>\nde todos os quadrantes. Mas, sobrepujando-os pelo n\u00famero, pela robustez,<br \/>\npelo melhor equil\u00edbrio org\u00e2nico da aclima\u00e7\u00e3o, e<br \/>\npelo garbo no se afoitarem com os perigos, os admir\u00e1veis caboclos do<br \/>\nnorte que os absorver\u00e3o, que lhes poder\u00e3o impor a nossa l\u00edngua,<br \/>\nos nossos usos e, ao cabo, os nossos destinos, estabelecendo naquela dispers\u00e3o<br \/>\nde for\u00e7as a componente dominante da nossa nacionalidade.<br \/>\nE o que deve acontecer.<br \/>\nVolvendo ao paralelo que, pouco h\u00e1, indicamos, ao notarmos a s\u00fabita<br \/>\nparada da expans\u00e3o norte-americana no far west, levemo-lo \u00e0s<br \/>\n\u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias.<br \/>\nPor uma circunst\u00e2ncia realmente interessante, os ianques, depois de<br \/>\nestacionarem largos anos diante das Rochosas, saltaram-nas, vivamente atra\u00eddos<br \/>\npelas minas descobertas na Calif\u00f3rnia, precisamente no momento em que<br \/>\nnos avantaj\u00e1vamos at\u00e9 ao Acre. O paralelismo. das datas \u00e9<br \/>\nperfeito. No mesmo ano de 1869, em que nos prend\u00edamos por uma companhia<br \/>\nfluvial \u00e0quelas esquecidas fronteiras, eles se ligavam ao Pacifico<br \/>\npela linha f\u00e9rrea do Missouri, audaciosamente locada nas cordilheiras<br \/>\ne nos desertos.<br \/>\nEmparelhamo-nos, neste epis\u00f3dio da vida nacional, com a grande rep\u00fablica.<br \/>\nAceitemos, por isto mesmo, uma li\u00e7\u00e3o de Bryce.. Tra\u00e7ado<br \/>\nmagistralmente o quadro da expans\u00e3o ianque,. o historiador nos demonstra<br \/>\nque, diante do exagerado.. afastamento da costa oriental, as gentes localizadas<br \/>\nnas novas terras do Pac\u00edfico formariam inevitavelmente uma outra nacionalidade,<br \/>\nse os recursos da engenharia atual lhes n\u00e3o houvessem permitido uma<br \/>\nintimidade. permanente com o resto do pa\u00eds.<br \/>\nO nosso caso \u00e9 id\u00eantico, ou mais s\u00e9rio.<br \/>\nAs novas circunscri\u00e7\u00f5es do alto Purus, do alto Juru\u00e1<br \/>\ne do Acre devem refletir a a\u00e7\u00e3o persistente do governo em um<br \/>\ntrabalho de incorpora\u00e7\u00e3o que, na ordem pr\u00e1tica, exige<br \/>\ndesde j\u00e1 a facilidade das comunica\u00e7\u00f5es e a alian\u00e7a<br \/>\ndas id\u00e9ias, de pronto transmitidas e tra\u00e7adas. na inerva\u00e7\u00e3o<br \/>\nvibrante dos tel\u00e9grafos.<br \/>\nSem este objetivo firme e permanente, aquela Amaz\u00f4nia onde se opera<br \/>\nagora uma sele\u00e7\u00e3o natural de energias e diante da qual o esp\u00edrito<br \/>\nde Humboldt foi empolgado pela vis\u00e3o de um deslumbrante palco, onde<br \/>\nmais cedo ou mais tarde se h\u00e1 de concentrar a civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo. globo, a Amaz\u00f4nia, mais cedo ou mais tarde, se destacar\u00e1<br \/>\ndo Brasil, naturalmente e irresistivelmente, como. se despega um mundo de<br \/>\numa nebulosa &#8211; pela expans\u00e3o centr\u00edfuga do seu pr\u00f3prio<br \/>\nmovimento.<\/p>\n<p><strong>SOLIDARIEDADE SUL-AMERICANA<\/strong><\/p>\n<p>A Rep\u00fablica tirou-nos do remanso isolador do imp\u00e9rio para a<br \/>\nperigosa solidariedade sul-americana: ca\u00edmos dentro do campo da vis\u00e3o,<br \/>\nnem sempre l\u00facida, do estrangeiro, insistentemente fixa sobre os povos,<br \/>\nos governos e os &#8220;governos&#8221; (ironicamente sublinhados ou farpeados<br \/>\nde aspas) da Am\u00e9rica do Sul.<br \/>\nO imperador, em que pese \u00e0 sua educa\u00e7\u00e3o imperfeita e<br \/>\n\u00e0s suas sens\u00edveis falhas de estadistas, era o grandes plenipotenci\u00e1rio<br \/>\ndo nosso bom senso equilibrado e da nossa seriedade. A sua bela meia ci\u00eancia,<br \/>\ntoda ornada de excertos hebraicos e das estrelas da astronomia dom\u00e9stica<br \/>\nde Flammarion, mas ansiosamente atra\u00edda para o conv\u00edvio dos<br \/>\ns\u00e1bios e costumaz freq\u00fcentadora de institutos, era a nossa mesma<br \/>\n\u00e2nsia, talvez precipitada, mas nobil\u00edssima, de acertar, e a sua<br \/>\nbonomia, os seus h\u00e1bitos modestos e simples, os mesmos h\u00e1bitos<br \/>\nmodestos, certo sem brilhos, mas em todo o caso decentes, com que and\u00e1vamos<br \/>\nna hist\u00f3ria.<br \/>\nTinha a for\u00e7a sugestiva e dominadora dos s\u00edmbolos, ou das imagens.<br \/>\nEra, para a civiliza\u00e7\u00e3o t\u00e3o distra\u00edda por infinitos<br \/>\nassuntos mais urgentes e mais s\u00e9rios, um \u00edndice abreviado onde<br \/>\nela aprendia de um lance os aspectos capitais da nossa vida: o ep\u00edtome<br \/>\nvivo do Brasil.<br \/>\nTalvez n\u00e3o fosse bem certo e carecesse de uma mondadura severa, ou<br \/>\nrevis\u00e3o acurada, mas tinha a vantagem de nos determinar uma considera\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 parte. Na atividade revolucion\u00e1ria e dispersiva da pol\u00edtica<br \/>\nsul-americana, apisoada e revolta pelas gauchadas dos caudilhos, a nossa placidez,<br \/>\na nossa quietude, digamos de uma vez, o nosso marasmo, delatavam ao olhar<br \/>\ninexperto do estrangeiro o progresso dos que ficam parados quando outros velozmente<br \/>\nrecuam. E, dada a complexidade \u00e9tnica e o apenas esbo\u00e7ado de<br \/>\numa sub-ra\u00e7a onde ainda se caldeiam tantos sangues, aquela placabilidade<br \/>\ne aquele marasmo recordavam-lhe na ordem social e pol\u00edtica a imprescind\u00edvel<br \/>\ntranq\u00fcilidade de ambiente que, por vezes, se exige, na f\u00edsica,<br \/>\npara que se completem as cristaliza\u00e7\u00f5es iniciadas&#8230;<br \/>\nHoje, n\u00e3o. Sem aquele ponto de refer\u00eancia, a opini\u00e3o geral<br \/>\ndesvaira; derranca-se em absurdos e em erros; estonteia num agitar sem sentido,<br \/>\nde maravalhas in\u00fateis; confunde-nos nas desordens tradicionais de caudilhagem;<br \/>\nmistura os nossos quatorze anos de regime novo a mais de um s\u00e9culo<br \/>\nde pronunciamentos; e como, durante esta crise de crescimento, nos saltearam<br \/>\ne salteiam desastres &#8211; que s\u00f3 podem ser atribu\u00eddos \u00e0<br \/>\nRep\u00fablica por quem atribu\u00eda ao firmamento as tempestades que<br \/>\nno-lo escondem &#8211; j\u00e1 n\u00e3o nos distingue nos mesmos conceitos.<br \/>\nE que conceitos &#8230;<br \/>\nDeletreiem-se as revistas norte-americanas, para n\u00e3o citarmos outras,<br \/>\ne vejam-se o desabrido da palavra, o cruciante dos assertos e at\u00e9 o<br \/>\ntemer\u00e1rio de futuros planos de absor\u00e7\u00e3o, sempre que acontece<br \/>\ntratar-se das sister republics, curioso eufemismo com que se designa vulgarmente<br \/>\no vasto e apetecido res nullius, desatado do Panam\u00e1 ao cabo Horn.<br \/>\nPara os r\u00edgidos estadistas que n\u00e3o nos conhecem, e a quem justamente<br \/>\nadmiramos, as Rep\u00fablicas latinas -&#8220;as que se dizem Rep\u00fablicas&#8221;<br \/>\nno dizer doloros\u00edssimo de James Bryce, patenteiam, impressionadoramente,<br \/>\no espet\u00e1culo assombroso de algumas sociedades que est\u00e3o morrendo.<br \/>\nAplicando \u00e0 vida superorg\u00e2nica as conclus\u00f5es positivas<br \/>\ndo transformismo, esta filosofia caracteristicamente sax\u00f4nia, e exercitando<br \/>\ncr\u00edtica formid\u00e1vel a que n\u00e3o escapam os m\u00ednimos<br \/>\nsintomas m\u00f3rbidos de uma pol\u00edtica agitada, expressa no triunfo<br \/>\ndas mediocridades e na prefer\u00eancia dos atributos inferiores, j\u00e1<br \/>\nde exagerado mando, j\u00e1 de subservi\u00eancia revoltante, o que eles<br \/>\nlobrigam nas gentes sul-americanas \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o natural<br \/>\ninvertida: a sobreviv\u00eancia dos menos aptos, a evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nretr\u00f3grada dos aleij\u00f5es, a extin\u00e7\u00e3o em toda a<br \/>\nlinha das belas qualidades do car\u00e1ter, transmudadas numa incompatibilidade<br \/>\n\u00e0 vida, e a vit\u00f3ria estrepitosa dos fracos sobre os fortes incompreendidos&#8230;<br \/>\nImaginai o darwinismo pelo avesso aplicado \u00e0 hist\u00f3ria&#8230;<br \/>\nOra, precisamos anular estes conceitos lastim\u00e1veis, que \u00e0s vezes<br \/>\nnos marcam situa\u00e7\u00f5es bem pouco lisonjeiras. Porque, ainda os<br \/>\nh\u00e1 que excetuam o M\u00e9xico disciplinado por Porfirio D\u00edaz<br \/>\ne enriquecido por Jos\u00e9 Ignez, embora abrangido de todo pela \u00f3rbita<br \/>\ncomercial e industrial da Norte-Am\u00e9rica; e o Chile com a sua r\u00edgida<br \/>\nestrutura aristocr\u00e1tica; e a Argentina, que poucos anos de paz v\u00e3o<br \/>\ntransfigurando, sob o permanente influxo do grande esp\u00edrito de Mitre<br \/>\n&#8211; um homem que \u00e9 o poder espiritual de um povo.<br \/>\nN\u00f3s ficamos alinhados com o Paraguai, convalescente; com a Bol\u00edvia,<br \/>\ndilacerada pelos motins e pelas guerras; com a Col\u00f4mbia e a abort\u00edcia<br \/>\nrep\u00fablica que h\u00e1 meses lhe saiu dos flancos; com o Uruguai,<br \/>\na esta hora abalado pelas cavalarias ga\u00fachas e com o Peru.<br \/>\nN\u00e3o exageramos. Poder\u00edamos fazer numerosas e at\u00e9 mon\u00f3tonas<br \/>\ncita\u00e7\u00f5es, recentes todas, espalhadas em livros e em revistas,<br \/>\nonde se move esta extravagante e crudel\u00edssima guerrilha de descr\u00e9dito.<br \/>\nAqui, um secret\u00e1rio de lega\u00e7\u00e3o &#8211; poupemos o seu nome<br \/>\n&#8211; que na North-American Review patenteia um ador\u00e1vel ci\u00fame ante<br \/>\na expans\u00e3o teut\u00f4nica em Santa Catarina e bate alarmadamente a<br \/>\nafinad\u00edssima tecla do princ\u00edpio de Monroe; e demasia-se depois<br \/>\nno excesso de zelo de denunciar a nossa apatia de filhos de uma terra onde<br \/>\n\u00e9 sempre de tarde &#8211; a land where it is always afternoon! &#8211; e a nossa<br \/>\nmiopia patri\u00f3tica que n\u00e3o percebe em Von den Stein, em Hermann<br \/>\nMeyer, em Landerberg os caixeiros s\u00e1bios de Hansa, os batedores sem<br \/>\narmas do germanismo; al\u00e9m do pretenso soci\u00f3logo &#8211; deixemos tamb\u00e9m<br \/>\nem paz o seu nome e o seu livro, que ambos n\u00e3o valem a escolta dos<br \/>\nmais desarranjados adjetivos &#8211; que pontificando dogmaticamente, genialmente<br \/>\ncanhestro, acerca do imperfeito da instru\u00e7\u00e3o japonesa, aponta-a<br \/>\ncomo inferior a das Rep\u00fablicas sul-americanas, &#8220;exceto o Paraguai<br \/>\ne o Brasil&#8221;, recusando-nos, nesta parceria, a mesma proced\u00eancia<br \/>\nalfab\u00e9tica&#8230;<br \/>\nRealmente, o que surpreende em tais artigos n\u00e3o \u00e9 o extravagante<br \/>\ndas afirmativas; \u00e9 faltar-lhes, subscrevendo-os, a assinatura de Marc<br \/>\nTwain, o mestre encantador da risonha gravidade da ironia ianque.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Ora esta campanha iminente com o Peru pode ser um magn\u00edfico combate<br \/>\ncontra essas guerrilhas extravagantes.<br \/>\nFizemos tudo por evit\u00e1-la, sobrepondo \u00e0 fraqueza belicosa da<br \/>\nna\u00e7\u00e3o vizinha o generoso programa da nossa pol\u00edtica exterior<br \/>\nno \u00faltimos tempos, t\u00e3o elevada no sacrificar interesses transit\u00f3rios<br \/>\naos intuitos mais dignos de seguirmos \u00e0 frente das na\u00e7\u00f5es<br \/>\nsul-americanas como os mais fortes, os mais liberais e os mais pac\u00edficos.<br \/>\nO recente tratado de Petr\u00f3polis &#8211; resolvido h\u00e1 quarenta anos,<br \/>\nquase pormenorizado por Tavares Bastos e Pimenta Bueno &#8211; todo ele resultado<br \/>\nde uma ineg\u00e1vel continuidade hist\u00f3rica &#8211; \u00e9 o melhor atestado<br \/>\ndessa antiga irradia\u00e7\u00e3o superior do nosso esp\u00edrito, destruindo<br \/>\nou dispensando sempre o brilho e a fragilidade das espadas. Nada exprime melhor<br \/>\na nossa atitude desinteressada e original\u00edssima, de povo cavaleiro-andante,<br \/>\nimaginando na Am\u00e9rica do Sul, robustecida pela fraternidade republicana,<br \/>\na garantia suprema e talvez \u00fanica de toda a ra\u00e7a latina diante<br \/>\nda concorr\u00eancia formid\u00e1vel de outros povos.<br \/>\nMas n\u00e3o a compreendeu nunca a opini\u00e3o estrangeira, que um excesso<br \/>\nde objetivismo leva \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o exclusiva do quadro<br \/>\nmaterial das nossas desditas, \u00e0 an\u00e1lise despiedada de tudo quanto<br \/>\ntemos de mau, \u00e0 indiferen\u00e7a sistem\u00e1tica por tudo quanto<br \/>\ntemos de bom: e interpretam-na talvez como um sintoma de fraqueza as pr\u00f3prias<br \/>\nna\u00e7\u00f5es irm\u00e3s do continente.<br \/>\nDesiludamo-las.<br \/>\nAceitemos tranq\u00fcilamente a luta com que nos amea\u00e7am, e que n\u00e3o<br \/>\npodemos temer.<br \/>\nN\u00e3o ser\u00e1 o primeiro caso de uma guerra reconstrutora. Mesmo<br \/>\nquando rematam aparentes desastres, estes conflitos vitais entre os povos,<br \/>\nse os n\u00e3o impelem apenas os caprichos din\u00e1sticos ou diplom\u00e1ticos,<br \/>\ntraduzem-se em grandes e inesperadas vantagens at\u00e9 para os vencidos.<br \/>\nA Fran\u00e7a talvez n\u00e3o monopolizasse hoje as simpatias da Europa<br \/>\nsem a cat\u00e1strofe de 70, que fez a dolorosa glorifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu esp\u00edrito e o ponto de partida de uma regenera\u00e7\u00e3o<br \/>\nincompar\u00e1vel, toda esteada numa experi\u00eancia dur\u00edssima.<br \/>\nEntram muito na gl\u00f3ria imortal da Gambeta os planos estrat\u00e9gicos<br \/>\nde Moltke.<br \/>\nT\u00e3o certo \u00e9 que as artificiosas combina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas,<br \/>\nafei\u00e7oadas ao ego\u00edsmo dos grupos, se despeda\u00e7am nos largos<br \/>\nmovimentos coletivos, que n\u00e3o abrangem. E n\u00f3s, afinal, precisamos<br \/>\nde uma forte arregimenta\u00e7\u00e3o de vontade e de uma s\u00f3lida<br \/>\nconverg\u00eancia de esfor\u00e7os, para grandes transforma\u00e7\u00f5es<br \/>\nindispens\u00e1veis.<br \/>\nSe essa solidariedade sul-americana \u00e9 um bel\u00edssimo ideal absolutamente<br \/>\nirrealiz\u00e1vel, com o efeito \u00fanico de nos prender \u00e0s desordens<br \/>\ntradicionais de dois ou tr\u00eas povos irremediavelmente perdidos, pelo<br \/>\nse incompatibilizarem \u00e0s exig\u00eancias severas do verdadeiro progresso<br \/>\n&#8211; deixemo-la.<br \/>\nSigamos &#8211; no nosso antigo e espl\u00eandido isolamento &#8211; para o futuro; e,<br \/>\nconscientes da nossa robustez, para a desafronta e para a defesa da Amaz\u00f4nia,<br \/>\nonde a vis\u00e3o prof\u00e9tica de Humboldt nos revelou o mais amplo<br \/>\ncen\u00e1rio de toda a civiliza\u00e7\u00e3o da terra.<\/p>\n<p><strong>O IDEAL AMERICANO<\/strong><\/p>\n<p>Roosevelt \u00e9 um estilista med\u00edocre. A frase adelga\u00e7a-se-lhe<br \/>\nno distendido de uns per\u00edodos orat\u00f3rios cheios de incidentes<br \/>\nintermin\u00e1veis e rematados pela simulcad\u00eancia inatur\u00e1vel<br \/>\ndas mesmas id\u00e9ias repisadas, volvidas e revolvidas sob todas as faces,<br \/>\ncom o sacrif\u00edcio absoluto da forma \u00e0 clareza, ou \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesatada em pormenores e min\u00facias exemplificadoras. N\u00e3o escreve,<br \/>\nleciona. N\u00e3o doutrina, demonstra. N\u00e3o generaliza, n\u00e3o<br \/>\nsintetiza e n\u00e3o se compraz com os aspectos brilhantes de uma teoria:<br \/>\nanalisa, disseca, induz friamente, ensina.<br \/>\nMas isto sem o aprumo pretensioso de um lente que pontifica, sen\u00e3o<br \/>\ncom a mod\u00e9stia fecunda de um adjunto que rediz, experimenta e mostra.<br \/>\nE o grande repetidor da filosofia contempor\u00e2nea. Nada diz de novo.<br \/>\nDiz tudo de \u00fatil.<br \/>\nO seu \u00faltimo livro, o Ideal Americano, \u00e9 uma sistematiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde tru\u00edsmos, para adotarmos o anglicismo indispens\u00e1vel \u00e0s<br \/>\ncoisas sabid\u00edssimas e claras. E no primeiro momento, deletreadas as<br \/>\nprimeiras p\u00e1ginas, imaginamo-nos \u00e0s voltas com um exc\u00eantrico<br \/>\nrival de Marc Twain, abalan\u00e7ando-se a ressuscitar velharia e a demonstrar<br \/>\naxiomas.<br \/>\nNo entanto, a pouco e pouco ele nos domina e absorve. H\u00e1 um encanto<br \/>\nirresist\u00edvel naquela rudeza de rough rider e de quaker; e o paladino<br \/>\nrejuvenescido de coisas t\u00e3o antigas &#8211; a energia, a ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\naparente dos destinos de seu pais, vai, realmente, tra\u00e7ando todas as<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es imprescind\u00edveis \u00e0 vida de todos os pa\u00edses.<br \/>\nPara n\u00f3s, sobretudo, a sua leitura \u00e9 imperiosa e urgente.<br \/>\nCopiamos, numa quase agita\u00e7\u00e3o reflexa, com o c\u00e9rebro<br \/>\ninerte, a Constitui\u00e7\u00e3o norte-americana, arremetendo com as mais<br \/>\nelementares no\u00e7\u00f5es do nosso tiroc\u00ednio hist\u00f3rico<br \/>\ne da nossa forma\u00e7\u00e3o, violando do mesmo passo as nossas tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\ne a nossa \u00edndole; \u00e9 natural e obrigat\u00f3rio que lhe vejamos,<br \/>\na par da grandeza, os males, sobretudo quando eles entendem especialmente<br \/>\ncom a nossa situa\u00e7\u00e3o presente e o nosso car\u00e1ter nacional.<br \/>\nDe fato, Roosevelt, ao delatar os &#8220;perigos excepcionais&#8221; que amea\u00e7am<br \/>\na grande Rep\u00fablica, antep\u00f5e-lhes por vezes de relance, mas insistentemente,<br \/>\nfeito uma contraprova expressiva, o quadro da anarquia sul-americana; &#8220;rusguento<br \/>\ngrupo de Estados, premidos pelas revolu\u00e7\u00f5es, onde um \u00fanico<br \/>\nsen\u00e3o destaca mesmo como na\u00e7\u00e3o de segunda&#8221;.<br \/>\nDeste modo, enquanto recuamos espavoridos imaginando o espantalho do perigo<br \/>\nianque, o estr\u00eanuo professor de energia p\u00f5e, na frente da opini\u00e3o<br \/>\nianque, o espantalho do perigo sul-americano. Temos medo daquela for\u00e7a;<br \/>\ne, no entanto, ela \u00e9 quem se assusta e foge apavorada da nossa fraqueza.<br \/>\nOra, infelizmente para n\u00f3s, a covardia paradoxal do colosso \u00e9<br \/>\nmais compreens\u00edvel que a infantilidade dos nossos receios.<br \/>\nFolheiem-se ao acaso as primeiras folhas do Ideal Americano. Depara-se-nos<br \/>\npara logo uma novidade: o homem t\u00e3o representativo do absorvente utilitarismo<br \/>\ne do triunfo industrial da Am\u00e9rica do Norte \u00e9 um idealista,<br \/>\num sonhador, um poeta incompar\u00e1vel de virtudes her\u00f3icas.<br \/>\nPara ele, as garantias de sucesso da sua terra est\u00e3o menos nos prod\u00edgios<br \/>\nda atividade e no assombro de uma riqueza material sem par, do que nas bel\u00edssimas<br \/>\ntradi\u00e7\u00f5es de honra, e efici\u00eancia, traduzidas na ordem<br \/>\npol\u00edtica pelos nomes que se inserem entre os de Washington e Lincoln,<br \/>\ne na ordem social pelo repontar ininterrupto dessas emo\u00e7\u00f5es<br \/>\ngenerosas, que propelem aos verdadeiros estadistas e sem as quais as na\u00e7\u00f5es<br \/>\nse transmudam &#8220;em trambolhos obstrutivos de alguns tratos da superf\u00edcie<br \/>\nterrestre&#8221;. N\u00e3o lhe bastam as virtudes da economia e do trabalho;<br \/>\nsuperp\u00f5e-lhes a glorifica\u00e7\u00e3o permanente da honra nacional,<br \/>\nda coragem e da persist\u00eancia, do altru\u00edsmo, da lealdade e das<br \/>\ngrandes tradi\u00e7\u00f5es provindas das fa\u00e7anhas passadas, formando<br \/>\na capacidade crescente para as empresas maiores do futuro&#8230;<br \/>\nTra\u00e7ado este rumo, \u00e9 inflex\u00edvel. Caem-lhe sob o passo<br \/>\nde carga de uma l\u00f3gica inteiri\u00e7a, confundidos, embolados e ru\u00eddos<br \/>\nno mesmo esmagamento: &#8211; o pol\u00edtico tortuoso e solerte que, malignado<br \/>\npelo obl\u00edquo incur\u00e1vel da vis\u00e3o moral, faz da pol\u00edtica<br \/>\num meio de exist\u00eancia e supre com a esperteza criminosa a superioridade<br \/>\nde pensar; o doutrinador est\u00e9ril que n\u00e3o transforma a vida numa<br \/>\nfor\u00e7a ativa e combatente; o indiferente que resmoneia, agressivo, contra<br \/>\na corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou administrativa, e n\u00e3o<br \/>\ninterv\u00e9m num protesto vigoroso e alto, definito por atos decisivos;<br \/>\no jornalista que n\u00e3o exercita uma critica intr\u00e9pida dos homens<br \/>\ne dos partidos, ou se desfaz em lisonjarias indecorosas&#8230; e sobre todos eles,<br \/>\nos que formam a plat\u00e9ia louvaminheira, n\u00e3o s\u00f3 para lhes<br \/>\nexplorar as a\u00e7\u00f5es como para lhas divinizar e aplaudir, garantindo-lhes<br \/>\nno mesmo lance a impunidade dos crimes e a recompensa das males perpetrados<br \/>\nAo lermos estas p\u00e1ginas impiedosas, pressentimos o dardo de uma alus\u00e3o<br \/>\nferina. Ali est\u00e1, latente, um coment\u00e1rio interlinear, de onde<br \/>\nressalta o pior da nossa desalentadora psicologia.<br \/>\nMas prossigamos. H\u00e1 identidades mais empolgantes. O imp\u00e1vido<br \/>\nmoralista repisa logo adiante uma outra novidade velha: firma de modo inflex\u00edvel<br \/>\na necessidade de um largo americanismo, um forte sentimento. nacional contraposto<br \/>\na um localismo deprimente e dispersivo. Combate \u00e0s claras &#8211; numa l\u00facida<br \/>\ncompreens\u00e3o,. que n\u00e3o possu\u00edmos, do verdadeiro regime<br \/>\nfederal &#8211; o maligno esp\u00edrito de par\u00f3quia e esse estreito patriotismo<br \/>\nde campan\u00e1rio provincial ou estadual, que subordina a nacionalidade<br \/>\nao bairrismo e retrata, em nosso tempo, o federalismo incoerente da antig\u00fcidade<br \/>\ngrega, das Rep\u00fablicas medievais da It\u00e1lia, e dos retr\u00f3grados<br \/>\nEstados da Alemanha antes de Bismarck.<br \/>\nNeste lance, aponta ainda uma vez os fatos &#8220;abjetos e sangrentos&#8221;<br \/>\nda Am\u00e9rica do Sul. E t\u00e3o desanimador se lhe afigura este v\u00edcio<br \/>\ndo regime, que se apressa em lhe denunciar a quase extin\u00e7\u00e3o<br \/>\nna Am\u00e9rica do Norte, gra\u00e7as a uma evolu\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel<br \/>\ne positiva, porque significa, ali, a passagem de uma forma incoerente e dispersiva<br \/>\na uma forma mais coerente e definida, consoante o preceito elementar do maior<br \/>\npensador da sua ra\u00e7a.<br \/>\nTrata-se como se v\u00ea, de um mal que l\u00e1 est\u00e1 em plena decad\u00eancia,<br \/>\npr\u00f3ximo a extinguir-se, mas que ainda atemoriza; ao passo que entre<br \/>\nn\u00f3s ele surge vigoroso, e se desenvolve e irradia para toda a banda,<br \/>\ndelineando umas fronteiras rid\u00edculas, ou ostentando irritantemente<br \/>\numas quest\u00f5es de limites inclassific\u00e1veis, e deixa-nos impass\u00edveis&#8230;<br \/>\nCompleta-o um outro.<br \/>\nAo patriotismo diferenciado alia-se, pior, o cosmopolitismo &#8211; essa esp\u00e9cie<br \/>\nde regime colonial do esp\u00edrito que transforma o filho de um pa\u00eds<br \/>\nnum emigrado virtual vivendo, est\u00e9ril, no ambiente fict\u00edcio<br \/>\nde uma civiliza\u00e7\u00e3o de empr\u00e9stimo. Mas n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nexplicar-se a insist\u00eancia do escritor neste ponto. O americano do norte<br \/>\n\u00e9 um absorvente e um dominador de civiliza\u00e7\u00f5es. Suplanta-as,<br \/>\ntransfigura-as, afei\u00e7oa-as ao seu individualismo robusto e ao seu bom<br \/>\nsenso incompar\u00e1vel; americaniza-as.<br \/>\nPara n\u00f3s, sim, \u00e9 que parecem feitas aquelas p\u00e1ginas severas<br \/>\nri\u00e7adas de repentinos e vivos golpes de ironia &#8211; porque entre n\u00f3s<br \/>\n\u00e9 que se faz mister repetir longamente, e monotonamente mesmo, que<br \/>\nmais vale ser um original do que uma c\u00f3pia, embora esta valha mais<br \/>\ndo que aquele&#8221; e que o ser brasileiro de primeira m\u00e3o, simplesmente<br \/>\nbrasileiro, malgrado a mod\u00e9stia do titulo, &#8220;vale cinq\u00fcenta<br \/>\nvezes mais do que ser a c\u00f3pia de 2\u00aa classe, ou servil oleografia,<br \/>\nde um franc\u00eas ou de um ingl\u00eas&#8221;.<br \/>\nParafraseando, dir\u00edamos: os nossos melhores estadistas, guerreiros,<br \/>\npensadores e dominadores da terra, os que engenharam as melhores leis e as<br \/>\ncumpriram, os homens de energia ativa e de cora\u00e7\u00e3o, que definiram<br \/>\ncom mais brilho a nossa robustez e o nosso esp\u00edrito &#8211; todos sentiram,<br \/>\npensaram e agiram principalmente como brasileiros; destacam-se, como no passado,<br \/>\nde todo destoantes da fisionomia moral de uma \u00e9poca onde o mesmo esbo\u00e7o<br \/>\nde um irrequieto e fr\u00e1gil nativismo foi pedir \u00e0 hist\u00f3ria<br \/>\ndo estrangeiro o pr\u00f3prio nome do batismo.<br \/>\nO Ideal Americano n\u00e3o \u00e9 um livro para os Estados Unidos, \u00e9<br \/>\num livro para o Brasil.<br \/>\nOs nossos homens p\u00fablicos devem &#8211; com diurna e noturna m\u00e3o &#8211;<br \/>\nvers\u00e1-lo e decorar-lhe as linhas mais incisivas, como os arquitetos<br \/>\ndecoram as f\u00f3rmulas emp\u00edricas da resist\u00eancia dos materiais.<br \/>\nE um comp\u00eandio de virilidade social e de honra pol\u00edtica incompar\u00e1vel.<br \/>\nTra\u00e7ou-o o homem que \u00e9 o melhor disc\u00edpulo de Hobbes e<br \/>\nde Gunplowicz &#8211; um fan\u00e1tico da for\u00e7a, um tenaz propagandista<br \/>\ndo valor sobre todos os aspectos, que vai da simples coragem f\u00edsica<br \/>\nao estoicismo mais complexo.<br \/>\nDa\u00ed a sua utilidade, n\u00e3o nos iludamos. Na press\u00e3o atual<br \/>\nda vida contempor\u00e2nea, a expans\u00e3o irresist\u00edvel das nacionalidades<br \/>\nderiva-se, como a de todas as for\u00e7as naturais, segundo as linhas de<br \/>\nmenor resist\u00eancia. A absor\u00e7\u00e3o de Marrocos ou do Egito,<br \/>\nou de qualquer urna outra ra\u00e7a incompetente, \u00e9 antes de tudo<br \/>\num fen\u00f4meno natural, e, diante dele, conforme insinua a ironia aterradora<br \/>\nde Mahan, o falar-se no Direito \u00e9 extravag\u00e2ncia id\u00eantica<br \/>\n\u00e0 quem procura discutir ou indagar sobre a moralidade de um terremoto.<br \/>\n\u00c9 o darwinismo rudemente aplicado \u00e0 vida das na\u00e7\u00f5es.<br \/>\nRoosevelt compara de modo pinturesco essa concorr\u00eancia formid\u00e1vel<br \/>\na um vasto e estupendo football on the green: o jogo deve ser claro, franco,<br \/>\nen\u00e9rgico e decisivo; nada de desvios, nada de tortuosidades, nada de<br \/>\nreceios, porque o triunfo \u00e9 obrigatoriamente do lutador que hits tle<br \/>\nline hard!<br \/>\nAprendamos, enquanto \u00e9 tempo, esta admir\u00e1vel li\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mestre.<\/p>\n<p>TEMORES V\u00c3OS<\/p>\n<p>Numa quase mania coletiva da persegui\u00e7\u00e3o, andamos, por vezes,<br \/>\n\u00e0s arrancadas com alguns espectros: o perigo alem\u00e3o e o perigo<br \/>\nianque. Nunca, em toda a nossa vida hist\u00f3rica, o terror do estrangeiro<br \/>\nassumiu t\u00e3o alarmante aspecto, ou abalou t\u00e3o profundamente as<br \/>\nalmas. Estamos, neste ponto, como os romanos da decad\u00eancia depois dos<br \/>\nrevezes de Varus: escutamos o rumor long\u00ednquo da invas\u00e3o. Uma<br \/>\ndiferen\u00e7a apenas: \u00c1tila n\u00e3o ruge o stella cadi, tellus<br \/>\nfremit! descarregando-nos \u00e0cabe\u00e7a o frankisk pesado, e sobre<br \/>\no ch\u00e3o as patas esterilizadoras do cavalo, \u00e9 Guilherme II, um<br \/>\nsonhador medieval desgarrado no industrialismo da Alemanha; e Genserico, a<br \/>\ndespeito da sua envergadura rija de cowboy dominador das pastagens, \u00e9<br \/>\nRoosevelt, o grande professor da energia, o maior fil\u00f3sofo pr\u00e1tico<br \/>\ndo s\u00e9culo, o r\u00edspido evangelista da vida intensa e proveitosa.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 o b\u00e1rbaro que nos amea\u00e7a, \u00e9 a civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nque nos apavora. Esta \u00faltima considera\u00e7\u00e3o \u00e9 expressiva.<br \/>\nMostra que os receios s\u00e3o v\u00e3os.<br \/>\nDe fato, atentando-se para a maior destas amea\u00e7as, a da absor\u00e7\u00e3o<br \/>\nianque, p\u00f5e-se de manifesto que o imperialismo nos \u00faltimos tempos<br \/>\ndominante na pol\u00edtica norte-americana n\u00e3o significa o fato material<br \/>\nde uma conquista de territ\u00f3rios, ou a expans\u00e3o geogr\u00e1fica<br \/>\n\u00e0 custa do esmagamento das nacionalidades fracas &#8211; sen\u00e3o, numa<br \/>\nesfera superior, o triunfo das atividades, o curso irresist\u00edvel de<br \/>\num movimento industrial incompar\u00e1vel e a expans\u00e3o natural\u00edssima<br \/>\nde um pa\u00eds onde um individualismo esclarecido, suplantando a iniciativa<br \/>\noficial, sempre emperrada ou tardia, permitiu o desdobramento desafogado de<br \/>\ntodas as energias garantidas por um senso pr\u00e1tico incompar\u00e1vel,<br \/>\npor um largo sentimento da justi\u00e7a e at\u00e9 por uma idealiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nmaravilhosa dos mais elevados destinos da exist\u00eancia.<br \/>\nEsta vida prodigiosa alastra-se pela terra com a fatalidade irresist\u00edvel<br \/>\nde uma queda de potenciais. Mas n\u00e3o leva exclusivamente o vigor de<br \/>\numa ind\u00fastria em busca de mercados, ou uma pletora de riquezas que<br \/>\nimp\u00f5e o desafogo de emigra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos capitais<br \/>\nsen\u00e3o tamb\u00e9m as mais belas conquistas morais do nosso tempo,<br \/>\nem que a inviolabilidade dos direitos se ajusta cada vez mais ao respeito<br \/>\ncrescente da liberdade humana.<br \/>\nSendo assim, \u00e9 pelo menos singular que vejamos uma amea\u00e7a naquela<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o. Singular e injustific\u00e1vel. Tomemos um exemplo<br \/>\nrecent\u00edssimo.<br \/>\nQuando o almirante Dewey rematou em Manilha a campanha acelerada que em t\u00e3o<br \/>\npouco tempo se alongara, num teatro de opera\u00e7\u00f5es de 160o de<br \/>\nlongitude, da ilha de Cuba \u00e0s extremas do Pacifico, a conquista das<br \/>\nFilipinas pareceu a toda a gente uma interven\u00e7\u00e3o desassombrada<br \/>\ndo ianque na partilha do continente asi\u00e1tico. Os melhores propagandistas<br \/>\nde uma pol\u00edtica liberal e respeitadora da autonomia de outros povos,<br \/>\nos mesmos antiexpansionistas do North America, justificavam uma posse arduamente<br \/>\nconseguida atrav\u00e9s de uma luta penosa e feroc\u00edssima. Al\u00e9m<br \/>\ndisto, o arquip\u00e9lago n\u00e3o decairia da situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nanterior, permanecendo no sistema subalterno de col\u00f4nia. Melhoraria<br \/>\ncom a troca das metr\u00f3poles; e as suas 114.000 milhas quadradas de terras<br \/>\nfertil\u00edssimas, onde se entranham as mais opulentas minas e pompeiam<br \/>\nos primores de uma flora surpreendente, eram um novo palco que se abria \u00e0s<br \/>\ngrandes maravilhas do trabalho. Realizava-se a profecia de J. Keill: a civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndepois de contornar a terra, volvia ao ber\u00e7o fulgurante do Oriente,<br \/>\nlevando-lhe os tesouros de uma faina secular&#8230;<br \/>\nDeste modo, quando ao termo da campanha seguiu a primeira &#8220;comiss\u00e1o<br \/>\nfilipina&#8221; a manter entre os tagalos o prest\u00edgio americano, consolidar<br \/>\na paz e instituir a justi\u00e7a, viu-se neste aparato pac\u00edfico o<br \/>\nprimeiro sintoma da absor\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel. E era falso.<br \/>\nAquela conquista, fato consumado pelo triunfo militar, pela aquiesc\u00eancia<br \/>\nde todas as na\u00e7\u00f5es, e pela submiss\u00e3o completa dos ind\u00edgenas,<br \/>\nsem nenhum empe\u00e7o material que se lhe oponha, \u00e9, neste momento,<br \/>\nduvidosa, problem\u00e1tica e talvez inexeq\u00fc\u00edvel.<br \/>\nN\u00e3o no-lo diz um sentimental; demonstra-o, friamente, num seco argumentar<br \/>\nincisivo, o homem mais competente para isto &#8211; Gould Shurmann, precisamente<br \/>\no chefe daquela primeira comiss\u00e3o, e o int\u00e9rprete mais veraz,<br \/>\nsen\u00e3o \u00fanico, dos intuitos da pol\u00edtica nos Estados Unidos<br \/>\nnaquele caso.<br \/>\nA sua linguagem \u00e9 franca; n\u00e3o segreda ou coleia. no abafamento<br \/>\ne nas min\u00facias das informa\u00e7\u00f5es oficiais; vibra \u00e0s<br \/>\nclaras e alto numa revista &#8211; The Ethical Record, de mar\u00e7o \u00faltimo,<br \/>\nonde o assunto, a great national question, est\u00e1 sob as vistas de todo<br \/>\no mundo.<br \/>\nAli se discutem os tr\u00eas destinos essenciais das Filipinas: a depend\u00eancia<br \/>\ncolonial, a independ\u00eancia incompleta, a exemplo do que sucede em Cuba,<br \/>\nou a constitui\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio, prefigurando vindouro<br \/>\nEstado confederado. E a conclus\u00e3o \u00e9 surpreendente, sobretudo<br \/>\npara os que tanto armam olhos e ouvidos aos esgares truanescos e \u00e0s<br \/>\nversas extravagantes do Jingoismo ianque, t\u00e3o desmoralizado na pr\u00f3pria<br \/>\nterra onde se agita: Gould Shurmann, embora ressalvando os interesses da sua<br \/>\nterra, declara-se, com um desassombro raro, advogado da independ\u00eancia<br \/>\nFilipina. A seu parecer ela se imp\u00f5e feito um corol\u00e1rio inflex\u00edvel<br \/>\ne insofism\u00e1vel de princ\u00edpios e tradi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<br \/>\nque a grande Rep\u00fablica n\u00e3o poder\u00e1 negar ou iludir sem<br \/>\na ren\u00fancia indesculp\u00e1vel &#8220;da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria<br \/>\ne dos seus pr\u00f3prios ideais.&#8221;<br \/>\nConvenhamos em que estes dizeres, dada a autoridade oficial de quem os emite,<br \/>\ntornam bastante opin\u00e1vel o perigo ianque &#8211; a funambulesca Tarasca que<br \/>\ntanto desafia por a\u00ed o ferretoar dos pontos de admira\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas frases patri\u00f3ticas.<br \/>\nAfinal, ele n\u00e3o existe; como, afinal, n\u00e3o existe o perigo germ\u00e2nico,<br \/>\ninexplic\u00e1vel mesmo diante das nossas tentativas para que se ab-rogue<br \/>\ncompletamente o rescrito de Von der Heydt, que proibiu a emigra\u00e7\u00e3o<br \/>\ngerm\u00e2nica para o Brasil.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Conclu\u00edmos que este pavor e este bracejar entre fantasmas s\u00e3o<br \/>\num simples reflexo subjetivo de fraqueza transit\u00f3ria; e que estes perigos<br \/>\n&#8211; alem\u00e3o, ianque ou italiano ou ainda outros rompentes ao calor das<br \/>\nfantasias, e que se nos figuram estranhos s\u00e3o claros sintomas de um<br \/>\nperigo maior, do perigo real e \u00fanico que est\u00e1 todo dentro das<br \/>\nnossas fronteiras e irrompe&#8217; numa alucina\u00e7\u00e3o da nossa pr\u00f3pria<br \/>\nvida nacional: o perigo brasileiro.<br \/>\nEste, sim; a\u00ed est\u00e1 e se desvenda ao mais incurioso olhar sob<br \/>\ninfinitos aspectos.<br \/>\nMas n\u00e3o os consideramos.<br \/>\nSeria uma tarefa crudel\u00edssima.<br \/>\nTer\u00edamos de contemplar, na ordem superior dos nossos destinos, o dom\u00ednio<br \/>\nimpertinente da velha tolice metaf\u00edsica, consistindo em esperarmos<br \/>\ntudo das artificiosas e est\u00e9reis combina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas,<br \/>\nolvidando que ao rev\u00e9s de causas elas s\u00e3o meros efeitos dos<br \/>\nestados sociais; e aos desastrosos resultados de um c\u00f3digo org\u00e2nico,<br \/>\nque n\u00e3o \u00e9 a sistematiza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nnaturais do nosso progresso, mas uma c\u00f3pia apressad\u00edssima, onde<br \/>\nprepondera um federalismo incompreendido, que \u00e9 o rompimento da solidariedade<br \/>\nnacional<br \/>\nNos recessos mais \u00edntimos da nossa vida, ver\u00edamos desdobrar-se<br \/>\num pecaminoso amor da novidade, que se demasia ao olvido das nossas tradi\u00e7\u00f5es;<br \/>\no afrouxamento em toda a linha da fiscaliza\u00e7\u00e3o moral de uma<br \/>\nopini\u00e3o publica que se desorganiza de dia a dia, e cada dia se torna<br \/>\nmais inapta a conter e corrigir aos que a afrontam, que a escandalizam, e<br \/>\nque triunfam; uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica inexplicavelmente<br \/>\nabatida e tombada sobre as maiores e mais fecundas riquezas naturais; e por<br \/>\ntoda a parte os desfalecimentos das antigas virtudes do trabalho e perseveran\u00e7a<br \/>\nque j\u00e1 foram, e ainda o ser\u00e3o, as melhores garantias do nosso<br \/>\ndestino.<br \/>\nConcluir\u00edamos que os temores s\u00e3o v\u00e3os.<br \/>\nMesmo no balancear com seguran\u00e7a os \u00fanicos perigos reais que<br \/>\nnos assoberbam, n\u00e3o se distinguiriam males insan\u00e1veis &#8211; mas<br \/>\na crise transit\u00f3ria da adapta\u00e7\u00e3o repentina a um sistema<br \/>\nde governo que, mais do que qualquer outro, requer, imperativamente, o influxo<br \/>\nininterrupto e tonificante da moral sobre a pol\u00edtica. Por isso mesmo<br \/>\nele nos salvar\u00e1.<br \/>\nFirmar-se-\u00e1, inevitavelmente, uma harmonia salvadora entre os belos<br \/>\natributos da nossa ra\u00e7a e as f\u00f3rmulas superiores da Rep\u00fablica,<br \/>\nempanados num eclipse moment\u00e2neo; e desta m\u00fatua rea\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndeste equil\u00edbrio din\u00e2mico de sentimentos e de princ\u00edpios,<br \/>\nrepontar\u00e3o do mesmo passo as regenera\u00e7\u00f5es de um povo<br \/>\ne de um regime.<br \/>\nVeremos ent\u00e3o, melhor, todo o infundado de receios ou de imaginosas<br \/>\nconquistas, que s\u00e3o at\u00e9 uma cal\u00fania e uma conden\u00e1vel<br \/>\nafronta a nacionalidades que hoje nos assombram, porque progridem, e que nos<br \/>\namea\u00e7am pelo motivo \u00fanico de avan\u00e7arem triunfante e civilizadoramente<br \/>\npara o futuro.<\/p>\n<h2><a name=\"16\"><\/a>A ESFINGE<\/h2>\n<p>(De um Di\u00e1rio da Revolta)<\/p>\n<p>8 de fevereiro de 1894<\/p>\n<p>&#8230;Determina\u00e7\u00e3o inesperada destacou-me para erigir urna fortifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nligeira ao lado do edif\u00edcio das Docas Nacionais.<br \/>\nAinda bem. Deixei, afinal, aquele tristonho morro da Sa\u00fade, que h\u00e1<br \/>\ndois meses retalho, e mino, e terrapleno, rasgando-lhe em degraus as encostas,<br \/>\ntaludando-o e artilhando-o, numa az\u00e1fama guerreira de que sou o primeiro<br \/>\na me surpreender. Lucro com a mudan\u00e7a. \u00c9 uma variante ao menos.<br \/>\nLivra-me do quadro demasiado visto daquele recanto comercial que a Revolta<br \/>\nparalisou &#8211; circulado de trapiches desertos, atulhado pelo ciscalho bruto<br \/>\nda ferragem velha da Mortona, e banhado pelas \u00e1guas mortas de uma reentr\u00e2ncia<br \/>\nda baia, onde b\u00f3iam, apodrecendo, velhos pont\u00f5es demastreados<br \/>\ne in\u00fateis.<br \/>\nDei, por isto, para logo, r\u00e1pidas ordens de partida, e os sapadores<br \/>\nabalaram em turmas &#8211; incorretos pelot\u00f5es armados de picaretas e enxadas.<br \/>\nAcompanhei-os; e n\u00e3o esqueci um ador\u00e1vel companheiro e mestre,<br \/>\nThomaz Carlyle, em cujas p\u00e1ginas nobremente revolucion\u00e1rias<br \/>\nme penitencio do uso desta espada in\u00fatil, deste hero\u00edsmo \u00e0<br \/>\nfor\u00e7a e desta engenharia malestreada&#8230;<br \/>\nCheguei, em pouco, ao local indicado, encontrando novos trabalhadores. Um<br \/>\napontador da diretoria de obras militares, armado de ordem terminante do comandante<br \/>\nda linha, e seguido de meia d\u00fazia de pra\u00e7as, j\u00e1 havia<br \/>\npercorrido as tavernas e vivendas pobres das cercanias, \u00e0 cata de oper\u00e1rios<br \/>\ncomo quem busca criminosos. Avezado \u00e0quelas ca\u00e7adas, n\u00e3o<br \/>\nse demorara Em breve, algumas dezenas de estivadores, de varias nacionalidades<br \/>\n&#8211; patriotas sob a sugest\u00e3o irresist\u00edvel dos rifles desembainhados<br \/>\ne pranchadas iminentes &#8211; refor\u00e7aram as turmas desfalcadas.<br \/>\nHavia bra\u00e7os de sobra. Podia-se abordar a empresa da constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mais uma Humait\u00e1 de sacos de areia, id\u00eantica \u00e0s que<br \/>\nv\u00eam hoje, debruando todo o litoral, desde o Flamengo \u00e0 Gamboa.<br \/>\nA que se projetava, por\u00e9m, requeria avantajadas propor\u00e7\u00f5es.<br \/>\nDestinava-se a um Withworth 70, desentranhado da Arma\u00e7\u00e3o (onde<br \/>\njazia desde a quest\u00e3o Christie) e vindo por terra, em longo rodeio,<br \/>\nat\u00e9 aqui.<br \/>\nPesado e desgracioso, alongando por sobre o reparo s\u00f3lido, \u00e0<br \/>\nmaneira de um animal fant\u00e1stico, o pesco\u00e7o denegrido e \u00e1spero,<br \/>\nele parecia aguardar, ao lado, que lhe preparassem o estrado onde pudesse<br \/>\nser conteirado \u00e0 vontade, rugindo, temeroso, sobre a rebeldia impenitente&#8230;<br \/>\n\u00c9 o que sucederia, talvez, dentro de poucas horas.<br \/>\nSurdo boato, dos que por a\u00ed irrompem e se alastram, sem que se saiba<br \/>\nde onde partem, lan\u00e7ara nas. fileiras legais, comovidas, a nova de<br \/>\npr\u00f3ximo embarque &#8211; toda a maruja revoltosa em terra, desencadeada.<br \/>\nem lances de desespero e ousadias.<br \/>\nUrgia por m\u00e3os \u00e0 tarefa. Certo n\u00e3o desfaleceria da minha<br \/>\nbanda a defesa da Legalidade &#8211; belo eufemismo destes tempos sem leis.<br \/>\nFoi atacado o trabalho. Cento e tantos homens, agitantes sobre as ordens r\u00edspidas,<br \/>\narcados sob os sacos cheios de areia ou arrastando-os, arrumando-os, superpostos,<br \/>\ncomo grandes adobes de um muramento cicl\u00f3pico, bracejavam durante o<br \/>\ndia todo&#8230;<br \/>\nDe sorte que ao chegar a noite, brusca e varada de chuvisqueiros intermitentes<br \/>\ne frios, pude contemplar o meu prod\u00edgio de baluarte chin\u00eas, uma<br \/>\nduna ensacada, erguida em poucas horas sobre a crista do cais, dominante e<br \/>\ndesafiando assaltos.<br \/>\nProtegidos por ela, e apagados, para maior resguardo, os lampi\u00f5es de<br \/>\ng\u00e1s, da vizinhan\u00e7a, os carpinteiros principiaram a ajeitar os<br \/>\npranch\u00f5es aparelhados, madeirando a plataforma.<br \/>\nEra a fase mais perigosa da empresa. Aquela agita\u00e7\u00e3o, que se<br \/>\nrealizara at\u00e9 ali sem ruidos, ia transmudar-se, pela a\u00e7\u00e3o<br \/>\nestrepitosa dos martelos, precisamente na hora das surpresas, das repentinas<br \/>\nvisitas das torpedeiras traidoras.<br \/>\nSustive-a, por isto, um momento, indeciso.<br \/>\nConsiderei em torno&#8230;<br \/>\nAquele trecho da Prainha esp\u00e9cie de White-Cheapel em miniatura, enredado<br \/>\nde bitesgas tortuosas e estreitas, onde mourejava popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nativa, parecia abandonado. Nem uma voz. Nem uma luz.<br \/>\nEm frente, no mar inteiramente calmo, avultavam, mal percebidos, os navios<br \/>\nde guerra estrangeiros, destacando-se melhor os coura\u00e7ados brancos<br \/>\nda esquadra americana. Ao fundo, um cord\u00e3o de pontos luminosos &#8211; Niter\u00f3i.<br \/>\nAdivinhavam-se ainda uns perfis de ilhas, as da Concei\u00e7\u00e3o e<br \/>\nMocangu\u00ea, vagos, numa difus\u00e3o de sombras; e a silhueta apagada<br \/>\ndo Tamandar\u00e9 junto \u00e0 \u00faltima, im\u00f3vel, calada a<br \/>\nartilharia formid\u00e1vel, mudo na solid\u00e3o das \u00e1guas&#8230; Depois,<br \/>\npara a direita, algumas lanternas bruxoleantes, asfixiadas nas brumas: a do<br \/>\nforte de Gragoat\u00e1, a de Santa Cruz, mais longe, e a da fortaleza da<br \/>\nLage, intermitindo em cintila\u00e7\u00f5es long\u00ednquas, chofradas<br \/>\npelas ventanias r\u00edspidas da barra.<br \/>\nNada mais na tela obscurecida&#8230;<br \/>\nO cen\u00e1rio quadrava bem a um epis\u00f3dio habitual e dram\u00e1tico,<br \/>\nque embora diuturnamente reproduzido n\u00e3o perde o tra\u00e7o emocionante<br \/>\ne b\u00e1rbaro.<br \/>\nAtravessando em sil\u00eancio a ba\u00eda, o Vulcano, a Lucy ou qualquer<br \/>\noutro s\u00f3cio de cat\u00e1strofes &#8211; caldeiras surdas, fogos abafados,<br \/>\navan\u00e7ando em deslizamentos velozes &#8211; abeira-se do litoral. N\u00e3o<br \/>\no percebem as sentinelas, vigilantes no alto dos parapeitos&#8230;<br \/>\nDe repente, arrebenta-lhes adiante, nas \u00e1guas, a explos\u00e3o de<br \/>\numa cratera. Desencadeia-se o alarma. Correm os soldados surpreendidos. Baqueiam<br \/>\nalguns, baleados. A maioria alinha-se nas trincheiras, carabinas estendidas<br \/>\nsobre o plano de fogo. Deflagram na treva os fulgores das descargas. Espingardeia-se<br \/>\npor cinco minutos, o v\u00e1cuo&#8230; e reinam de novo o silencio e as sombras,<br \/>\nenquanto o rebocador, atacante, banhado nos \u00faltimos clar\u00f5es<br \/>\ndo tiroteio, se afasta como uma salamandra enorme, intang\u00edvel, engolfando-se<br \/>\nna noite.<br \/>\nOra, o trabalho a iniciar-se ia atrair, sem d\u00favida, um desses recontros<br \/>\nr\u00e1pidos e ferozes. Era, por\u00e9m, improrrog\u00e1vel.<br \/>\nUm carpinteiro arriscou a primeira pancada, medrosa, vacilando. Depois outra,<br \/>\nmais firme &#8211; um estalo dilacerador na mudez absoluta. Sucederam-se outras;<br \/>\ne em breve, sem cad\u00eancia, sacudidos pelos punhos tr\u00eamulos, vibrando<br \/>\nna psicose convulsiva do medo mal refreado, estrepitavam os martelos sobre<br \/>\nas t\u00e1buas.<br \/>\nTirei O rel\u00f3gio. Uma hora da madrugada. Ia acordar o Rio de Janeiro<br \/>\ntodo com aquele despertador estranho que desandava, de chofre, \u00e0 sua<br \/>\ncabeceira.<br \/>\nAlgu\u00e9m, por\u00e9m, f\u00ea-lo parar. As marteladas chegaram, alarmantes,<br \/>\nao escrit\u00f3rio do L\u00f3ide, onde aquartelava o comandante da linha,<br \/>\ne este veio em pessoa interromp\u00ea-las.<br \/>\nO bravo coronel &#8211; orgulho de Piau\u00ed &#8211; chegou dentro do seu d\u00f3lm\u00e3<br \/>\nvistoso e do estado maior alarmado Tra\u00eda no afogo da respira\u00e7\u00e3o<br \/>\na caminhada feita e a emo\u00e7\u00e3o sagrada dos perigos. Ponderou a<br \/>\ninconveni\u00eancia daquela matinada her\u00f3ica \u00e0quelas horas.<br \/>\nProibiu-a. E voltou marcialmente, seguido do estado maior brilhante num grande<br \/>\nestr\u00e9pito de espadas novas, batendo nas cal\u00e7adas.<br \/>\nA medida era, afinal, prudente. Evitava-se que os revoltosos viessem, por<br \/>\nsua vez, inquirir de tal ru\u00eddo, com as habituais arrancadas e sacrif\u00edcios<br \/>\nin\u00fateis de inofensivos oper\u00e1rios.<br \/>\nSuspensa a tarefa, estes se amontoaram por perto, abrigados pelo beiral sa\u00eddo<br \/>\nde velho armaz\u00e9m aca\u00e7apado, mudos, tiritando sobre a cal\u00e7ada<br \/>\nresvaladia e \u00famida.<br \/>\nE o sil\u00eancio desceu de novo, deixando distinguir-se, ao longo, o crepitar<br \/>\ndo tiroteio escasso duma sortida qualquer, insignificante, como tantas outras<br \/>\nque se fazem todos os dias, pela tend\u00eancia destruidora apenas, avultando,<br \/>\nsomadas, na cr\u00f4nica sombria da Revolta&#8230;<br \/>\nAtravessando, como dardos, \u00e0 noite, os feixes de luz do refletor el\u00e9trico<br \/>\ndo morro da Gl\u00f3ria destacavam-se no espa\u00e7o, divergente e longos,<br \/>\nfazendo surgir no giro ampl\u00edssimo &#8211; de s\u00fabito aclarados e logo<br \/>\ndesaparecendo &#8211; al\u00e9m, os navios de guerra numa passividade traidora;<br \/>\nmais \u00e0 frente Niter\u00f3i, adormecida; a Arma\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsinistra e deserta; e todas as angras, todas as angusturas, todas as ilhas,<br \/>\numa por uma, repontando e extinguindo-se, no volver da paisagem m\u00f3vel<br \/>\ne fant\u00e1stica; distendo, a s\u00fabitas, num coruscar repentino de<br \/>\nareias claras, a fita de uma praia remota; resvalando, logo depois, devagar,<br \/>\npelos pendores dos cerros; estirando-se, por fim, em disten\u00e7\u00e3o<br \/>\nm\u00e1xima, ate Mag\u00e9, ao fundo da ba\u00eda. E dali voltando,<br \/>\nlentos, perquirindo, na marcha fulgurante, um por um todos os pontos fortificados;<br \/>\ndemorando-se um instante sobre a ilha das Cobras, e mostrando uma vis\u00e3o<br \/>\nde Acr\u00f3pole, meio derru\u00edda, naquela ponta de granito arremessada<br \/>\nfora das ondas; deixando-a, e pondo uma nesga de luar errante sobre o conv\u00e9s<br \/>\nrevolto da Guanabara; deslizando dali para o costado arrombado da Trajano;<br \/>\ne passando a outros pontos, banhando-os um a um no fulgor tranq\u00fcilo e<br \/>\nforte &#8211; feito um olhar ol\u00edmpico da Lei, insistente e fixo, sobre os<br \/>\ncombatentes&#8230;<br \/>\nAdmir\u00e1vel quadro. Curvei-me sobre a canhoneira rec\u00e9m-constru\u00edda.<br \/>\nContemplei-a e dei largas a fantasia caprichosa&#8230;<br \/>\nImaginei-me, ent\u00e3o, obscur\u00edssimo comparsa numa dessas trag\u00e9dias<br \/>\nda antig\u00fcidade cl\u00e1ssica, de um realismo estupendo, com os seus<br \/>\npalcos desmedidos, sem tel\u00e3o e sem coberturas, com os seus bastidores<br \/>\nde verdadeiras montanhas em que se despenhavam os her\u00f3is de Esquilo,<br \/>\nou o prosc\u00eanio de um bra\u00e7o de mar, onde uma plat\u00e9ia de<br \/>\ncem mil espectadores pudesse contemplar, singrantes, as frotas dos fen\u00edcios.<br \/>\nA ilus\u00e3o \u00e9 completa.<br \/>\nVai para quatro meses que n\u00e3o fazemos outra coisa sen\u00e3o representar<br \/>\num drama da nossa hist\u00f3ria, de desenlace imprevisto e perip\u00e9cias<br \/>\nque dia a dia se complicam, neste raro cen\u00e1rio que nos rodeia.<br \/>\nA civiliza\u00e7\u00e3o, espectadora incorrupt\u00edvel, observa-nos,<br \/>\ndentro de camarotes cautelosamente blindados: a Fran\u00e7a, na Arethuse<br \/>\nveloz; a Inglaterra, entre as amuradas da Beagle veleira, cujos passeios di\u00e1rios<br \/>\nfora da barra d\u00e3o tanto que pensar; e a Alemanha, e os Estados Unidos,<br \/>\ne o pr\u00f3prio Portugal sobre o conv\u00e9s pequeno da Mindello&#8230;<br \/>\nAplaudem-nos?<br \/>\n\u00c9 duvidoso. Representamos desastradamente. Baralhamos os pap\u00e9is<br \/>\nda pe\u00e7a que deriva num jogar de ant\u00edteses Infelizes, entre senadores<br \/>\narmados at\u00e9 aos dentes, brigando como soldados, e militares plat\u00f4nicos<br \/>\nbradando pela paz &#8211; diante de uma legalidade que vence pela suspens\u00e3o<br \/>\ndas leis e uma constitui\u00e7\u00e3o que estrangulam abra\u00e7os demasiados<br \/>\napertados dos que a adoram.<br \/>\nDa\u00ed as antinomias que aparecem. Neste enredo de Eur\u00edpedes, h\u00e1<br \/>\num contra-regra &#8211; Sardou. Os her\u00f3is desmandam-se em bufonerias tr\u00e1gicas.<br \/>\nMorrem, alguns, com um c\u00f4mico terr\u00edvel nesta epop\u00e9ia pelo<br \/>\navesso. Sublimam-se e acalcanham-se. Se h\u00e1 por a\u00ed Aquiles, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 dif\u00edcil descobrir-lhes no fr\u00eamito da voz imperativa<br \/>\na casquinada hilar de Trimalci\u00e3o.<br \/>\nE a Esfinge&#8230;<br \/>\nMas interrompi este desfiar de conjecturas.<br \/>\nAproximavam-se dois vultos. Nada tinham de alarmantes, porque a guarda, velando<br \/>\n\u00e0 entrada da rua, lhes permitira a passagem. Vinham \u00e0 paisana.<br \/>\nChegaram at\u00e9 \u00e0 borda da plataforma, onde uma lanterna clareava<br \/>\no estrado num raio de dois metros; e pararam.<br \/>\nAproximei-me, saudando-os.<br \/>\nUm (reformado do Paraguai que a Rep\u00fablica retirou de um cart\u00f3rio<br \/>\nde tabeli\u00e3o para o fazer senador e general), com aprumo varonil a despeito<br \/>\nda idade, correspondeu-me britanicamente, corret\u00edssimo e firme. O outro,<br \/>\nmurchou-lhe a m\u00e3o num cumprimento frio&#8230;<br \/>\n\u00c0 meia penumbra da claridade em bruxoleios, lobriguei um rosto im\u00f3vel,<br \/>\nr\u00edgido e embaciado, de bronze: o olhar sem brilho e fixo, coando serenidade<br \/>\ntremenda, e a boca ligeiramente refegada num rictus indefin\u00edvel &#8211; um<br \/>\nbusto de duende em relevo na imprimidura da noite, e diluindo-se no escuro<br \/>\nfeito a vis\u00e3o de um pesadelo.<br \/>\nReconheci-o e emudeci, respeitando-lhe o inc\u00f3gnito.<br \/>\nVi-o logo depois abeirar-se da trincheira; e debru\u00e7ar-se sobre o plano<br \/>\nde fogo, e ali ficar meio minuto, pensativo, a vista cravada entre a afumadura<br \/>\ndas brumas, na outra banda da ba\u00eda.<br \/>\n&#8211; Est\u00e3o tranq\u00fcilos&#8230; murmurou.<br \/>\nFez um gesto breve, despedindo-se, e seguiu acompanhado do companheiro desempenado<br \/>\ne vivo, desaparecendo ambos a breve trecho &#8211; duas silhuetas agitando-se um<br \/>\nmomento, ao longe, ao brilho escasso de um lampi\u00e3o distante e embebendo-se<br \/>\ndepois, inteiramente, na noite&#8230;<br \/>\nCurvei-me, ent\u00e3o, de novo, sobre a canhoneira rec\u00e9m-constru\u00edda<br \/>\ne reatei o meu sonhar acordado no ponto em que o interrompera:<br \/>\n&#8230;e a Esfinge, quebrando a imobilidade da pedra, veste um palet\u00f3 burgu\u00eas<br \/>\ne vem &#8211; desconfiadamente confiante &#8211; rondar os lutadores&#8230;<\/p>\n<p>FAZEDORES DE DESERTOS<\/p>\n<p>\u00c9 natural que todos os dias chegue do interior um telegrama alarmante<br \/>\ndenunciando o recrudescer do ver\u00e3o bravio que se aproxima. Sem mais<br \/>\no antigo ritmo, t\u00e3o prop\u00edcio \u00e0s culturas, o clima de<br \/>\nS. Paulo vai mudando.<br \/>\nN\u00e3o o conhecem mais os velhos sertanejos afei\u00e7oados \u00e0<br \/>\npassada harmonia de uma natureza exuberante, derivando na intercad\u00eancia<br \/>\nfirme das esta\u00e7\u00f5es, de modo a permitir-lhes f\u00e1ceis previs\u00f5es<br \/>\nsobre o tempo.<br \/>\nAs suas regras ing\u00eanuas enfeixadas em alguns ditados que tinham, \u00e0s<br \/>\nvezes, rigorismo de leis, falham-lhes, hoje, em toda a linha: passam-lhes,<br \/>\nest\u00e9reis, as luas novas trovejadas; diluem-se-lhes como fumaradas secas<br \/>\nas nuvens que ao entardecer abarreiram os horizontes; varrem-lhes as ventanias<br \/>\ns\u00fabitas a poeira l\u00edquida das neblinas que se adensam de manh\u00e3,<br \/>\npelo topo dos outeiros; e em plena primavera, agora, sob o alastramento das<br \/>\nsoalheiras fortes, o aspecto de suas planta\u00e7\u00f5es, esfoliadas<br \/>\ne esfloradas, principia a ser desanimador, revelando, antes do estio franco,<br \/>\nesse per\u00edodo m\u00e1ximo \u00e0 vida vegetativa que, nos pa\u00edses<br \/>\nquentes, est\u00e3o no desequil\u00edbrio entre a evapora\u00e7\u00e3o<br \/>\nintensa pelas folhas e a absor\u00e7\u00e3o escassa, e cada vez menor,<br \/>\npelas ra\u00edzes.<br \/>\nToda a vegeta\u00e7\u00e3o estiva, e esgota-se, desfalecida, precisamente<br \/>\nna quadra em que as primeiras chuvas e as primeiras descargas el\u00e9tricas,<br \/>\nj\u00e1 lhe deviam ter, do mesmo passo, dissolvido os princ\u00edpios<br \/>\nnutritivos do solo e desdobrado, na mais interessante das rea\u00e7\u00f5es,<br \/>\nos que se disseminam profusamente pelos ares.<br \/>\nAo inv\u00e9s disto, exaurida dos s\u00f3is, cerra o ciclo vital: morrem-lhe<br \/>\nimprodutivas as primeiras flores; extingue-se-lhe a fun\u00e7\u00e3o assimiladora<br \/>\ndos tecidos superficiais, exsicados; e a poeira, que lhe entope os estomas<br \/>\ne reveste as folhas, asfixia-a e enfraquece-lhe a rea\u00e7\u00e3o tonificante<br \/>\nda luz.<br \/>\nDa\u00ed o quadro lastim\u00e1vel descortinado pelos que se aventuram,<br \/>\nnestes dias, a uma viagem no interior &#8211; varando a monotonia dos campos mal<br \/>\ndebruados de estreitas faixas de matas, ou pelos carreadores longos dos cafezais<br \/>\nrequeimados, desatando-se indefinidos para todos os rumos &#8211; mir\u00edades<br \/>\nde esgalhos estonados quase sem folhas ou em varas, dando em certos trechos,<br \/>\n\u00e0s paisagens, um tom pardacento e uniforme de estepe . . .<br \/>\nMas \u00e9 natural o fen\u00f4meno. Nem \u00e9 admiss\u00edvel que<br \/>\nante ele se surpreendam os nossos lavradores, primeiras v\u00edtimas dessa<br \/>\nanomalia clim\u00e1tica.<br \/>\nPorque h\u00e1 longos anos, com persist\u00eancia que nos faltou para outros<br \/>\nempreendimentos, n\u00f3s mesmos a criamos.<br \/>\nTemos sido um agente geol\u00f3gico nefasto, e um elemento de antagonismo<br \/>\nterrivelmente b\u00e1rbaro da pr\u00f3pria natureza que nos rodeia.<br \/>\n\u00c9 o que nos revela a hist\u00f3ria.<br \/>\nFoi a princ\u00edpio um mau ensinamento do abor\u00edgene. Na agricultura<br \/>\ndo selvagem era instrumento preeminente o fogo. Entalhadas as \u00e1rvores<br \/>\npelos cortantes digis de diorito, e encoivarados os ramos, alastravam-lhes<br \/>\npor cima as caitaras crepitantes e devastadoras. Inscreviam, depois, em cercas<br \/>\nde troncos carbonizados a \u00e1rea em cinzas onde fora a mata vicejante;<br \/>\ne cultivavam-na. Renovavam o mesmo processo na esta\u00e7\u00e3o seguinte,<br \/>\nat\u00e9 que, exaurida, aquela mancha de terra fosse abandonada em caapuera,<br \/>\njazendo dali por diante para todos sempre est\u00e9ril, porque as fam\u00edlias<br \/>\nvegetais, renovadas no terreno calcinado, eram sempre de tipos arbustivos<br \/>\ndiversos das da selva primitiva.<br \/>\nO selvagem prosseguia abrindo novas ro\u00e7as, novas derribadas, novas<br \/>\nqueimas e novos c\u00edrculos de estragos; novas capoeiras maninhas, vegetando<br \/>\ntolhi\u00e7as, inaptas para reagir contra os elementos, agravando cada vez<br \/>\nmais os rigores do pr\u00f3prio clima que as flagelava &#8211; e entretecidas<br \/>\nde carrascais, afogadas em macegas, espelhando, aqui, o facies adoentado da<br \/>\ncaatanduva sinistra, al\u00e9m da braveza convulsiva das caatingas. Veio<br \/>\ndepois o colonizador e copiou o processo. Agravou-o ainda com se aliar ao<br \/>\nsertanista ganancioso e bravo, em busca do silv\u00edcola e do ouro.<br \/>\nAfogada nos recessos de uma flora que lhe abreviava as vistas e sombreava<br \/>\nas tocaias do tapuaia, dilacerou-a, golpeando-a de chamas, para desvendar<br \/>\nos horizontes e destacar, bem percept\u00edveis, tufando nos descampados<br \/>\nlimpos, as montanhas que o norteavam balizando a rota das bandeiras.<br \/>\nAtacaram a terra nas explora\u00e7\u00f5es mineiras a c\u00e9u aberto;<br \/>\nesterilizaram-na com o lastro das grupiaras; retalharam-na a ponta\u00e7os<br \/>\nde alvi\u00e3o; degradaram-na com as torrentes revoltas; e deixaram, ao<br \/>\ncabo, aqui, ali, por toda a banda, para sempre \u00e1ridas, avermelhando<br \/>\nnos ermos com o vivo colorido da argila revolvida, a\u00a3 catas vazias e<br \/>\ntristonhas com o seu aspecto sugestivo de grandes cidades em ru\u00ednas&#8230;<\/p>\n<p>Ora, tais selvatiquezas atravessaram toda a nossa hist\u00f3ria.<br \/>\nMais violentos no norte, onde se firmou o regime pastoril nos sert\u00f5es<br \/>\nabusivamente sesmados, e desbravados a fogo &#8211; inc\u00eandios que duravam<br \/>\nmeses derramando-se pelas chapadas em fora &#8211; ali contribu\u00edram para<br \/>\nque se estabelecesse, em grandes tratos, o regime des\u00e9rtico e a fatalidade<br \/>\ndas secas.<br \/>\nO sul subtraiu-se em parte \u00e0 faina destruidora, que o pr\u00f3prio<br \/>\ngoverno da metr\u00f3pole, em sucessivas cartas-r\u00e9gias, procurou<br \/>\nrefrear, criando mesmo juizes conservadores das matas que impedissem a devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mesmo sistema de culturas largamente extensivas, por\u00e9m, e as lavouras<br \/>\nparasit\u00e1rias arrancando todos os princ\u00edpios vitais da terra<br \/>\nsem lhe restituir um \u00fanico, foram, a pouco e pouco, remodelando-lhe<br \/>\nas paragens mais f\u00e9rteis, transmudando-as e amaninhando-as.<br \/>\nN\u00e3o precisamos acompanhar em todas as fases esse aspecto infeliz da<br \/>\nnossa atividade.<br \/>\nNotemos apenas que pouco a alteraram as belas cria\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria<br \/>\nmoderna, os progressos r\u00e1pidos da biologia e da qu\u00edmica, fornecendo-nos<br \/>\ntodos os recursos para que se multipliquem as energias do solo. Deixamo-los,<br \/>\nde um modo geral, de parte. Persistimos na tend\u00eancia primitiva e b\u00e1rbara,<br \/>\nplantando e talando. E prolongamos ao nosso tempo esse longo tra\u00e7o<br \/>\ndemolidor, que vimos no passado.<br \/>\nDemos-lhe mesmo novas fei\u00e7\u00f5es, consoante novas exig\u00eancias.<\/p>\n<p>E o que observa quem segue, hoje, pelas estradas do oeste paulista? Depara,<br \/>\nde momento em momento, perlongando as linhas f\u00e9rreas, com desmedidas<br \/>\nrumas de madeira em achas ou em toros, aglomeradas em volumes consider\u00e1veis<br \/>\nde centenares de \u00e9steres, progredindo, intervaladas, desde Jundia\u00ed<br \/>\nao extremo de todos os ramais.<br \/>\nS\u00e3o o combust\u00edvel \u00fanico das locomotivas. Iludimos a crise<br \/>\nfinanceira e o pre\u00e7o alto do carv\u00e3o de pedra atacando em cheio<br \/>\na economia da terra, e diluindo cada dia no fumo das caldeiras alguns hectares<br \/>\nda nossa flora. Deste modo &#8211; reincidentes no erro &#8211; a inconveni\u00eancia<br \/>\nprovada das lavouras ultra-extensivas e ao caut\u00e9rio vivo das queimas,<br \/>\naditamos o desnudamento r\u00e1pido das derribadas em grande escala.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>As conseq\u00fc\u00eancias repontam, naturais.<br \/>\nA temperatura altera-se, agravada nesse expandir-se de \u00e1reas de insola\u00e7\u00e3o<br \/>\ncada vez maiores pelo poder absorvente dos nossos terrenos desnudados, cuja<br \/>\nard\u00eancia se transmite por contato aos ares, e determina dois resultados<br \/>\ninevit\u00e1veis: a press\u00e3o que diminui tendendo para um m\u00ednimo<br \/>\ncapaz de perturbar o curso regular dos ventos, desorientando-os pelos quatro<br \/>\nrumos do quadrante, e a umidade relativa que decresce, tornando cada vez mais<br \/>\nproblem\u00e1ticas as precipita\u00e7\u00f5es aquosas.<br \/>\nDe sorte que o sueste &#8211; regulador essencial do nosso clima &#8211; depois de transmontar<br \/>\na Serra do Mar, onde precipita grande c\u00f3pia de vapores, ao estirar-se<br \/>\npelo planalto, vai encontrando atmosfera mais quente do que dantes, cujo efeito<br \/>\n\u00e9 aumentar-lhe a capacidade higrom\u00e9trica, diminuindo na mesma<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o as probabilidades de chuvas.<br \/>\nS\u00e3o fatos positivos, irrefreg\u00e1veis, e bastam para que se explique<br \/>\na altera\u00e7\u00e3o de um clima.<br \/>\nMas apontemos um outro.<br \/>\nNeste entrela\u00e7amento de fatores clim\u00e1ticos, introduzimos um<br \/>\n&#8211; artificial e de todo fora das indaga\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas<br \/>\nnormais &#8211; a queimada.<br \/>\n\u00c9 transit\u00f3ria, mas engravece os perigos.<br \/>\nDe feito, a irradia\u00e7\u00e3o noturna contrabate a insola\u00e7\u00e3o:<br \/>\na terra devolve aos c\u00e9us o excesso de calor acumulado; resfria; e o<br \/>\norvalho decorrente ilude de algum modo a car\u00eancia das chuvas.<br \/>\nOra, as queimadas impedem esse derivativo \u00fanico.<br \/>\nAs colunas de fumo, rompentes de v\u00e1rios lugares, a um tempo, adensam-se<br \/>\nno espa\u00e7o e interceptam a descarga do solo. Desaparece o sol e o term\u00f4metro<br \/>\npermanece im\u00f3vel ou, de prefer\u00eancia, sobe. A noite sobrevem em<br \/>\nfogo: a terra irradia como um sol obscuro, porque se sente uma impress\u00e3o<br \/>\nestranha de fa\u00falhas invis\u00edveis, mas toda a ard\u00eancia reflui<br \/>\nsobre ela recambiada pelo anteparo espesso da fuma\u00e7a; e mal se respira<br \/>\nno bochorno inatur\u00e1vel em que toda a adust\u00e3o golfada pelas soalheiras<br \/>\ne pelos inc\u00eandios, se concentra numa hora \u00fanica da noite.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Tra\u00e7amos estas linhas numa dessas noites, certo, desconhecidas pelos<br \/>\nnossos patr\u00edcios de h\u00e1 cem anos.<br \/>\nEnt\u00e3o a energia solar, descendo, armazenava-se nos ares, criando o<br \/>\ninfluxo moderador de uma atmosfera benigna, e transformava-se em trabalho<br \/>\nno seio das grandes matas, impulsionando a din\u00e2mica maravilhosa das<br \/>\nc\u00e9lulas.<br \/>\nEsse tempo passou.<br \/>\nHoje, Thomaz Buckle n\u00e3o entenderia as p\u00e1ginas que escreveu sobre<br \/>\numa natureza que acreditou incompar\u00e1vel no estadear uma dissipa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde for\u00e7as, wantonness of power, com esplendor sem par.<br \/>\nPorque o homem, a quem o rom\u00e2ntico historiador negou um lugar no meio<br \/>\nde tantas grandezas, n\u00e3o as corrige, nem as domina nobremente, nem<br \/>\nas encadeia num esfor\u00e7o consciente e s\u00e9rio.<br \/>\nExtingue-as.<\/p>\n<p>ENTRE AS RU\u00cdNAS<\/p>\n<p>Quem saltar em qualquer das esta\u00e7\u00f5es da Central no trecho paulista,<br \/>\na partir de Cachoeira, entra quase de improviso em lugares que n\u00e3o<br \/>\nlhe recordam mais as bordas pinturescas do Para\u00edba.<br \/>\nA terra, uma terra antiga cortada pela estrada real tr\u00eas vezes secular<br \/>\nque ia do Rio a S. Paulo, vai tornando-se cada vez mais desabrigada e pobre.<br \/>\nTumultuando em colinas desnudas, de flancos entorroados; afundando em pequenos<br \/>\nvales sem encantos, onde se rebalsam pauis frechados de t\u00e1buas; desatando-se,<br \/>\nplanas arenosas e limpas &#8211; nada mais revela da opul\u00eancia incompar\u00e1vel<br \/>\nque por tr\u00eas s\u00e9culos, da expedi\u00e7\u00e3o de Glimmer aos<br \/>\ndias da Independ\u00eancia, fez do vale do grande rio, alteado num socalco<br \/>\nde cordilheiras e recamado de matas exuberando flora\u00e7\u00e3o ridente,<br \/>\no cen\u00e1rio predileto da nossa hist\u00f3ria.<br \/>\nPor mais incurioso que seja o viajante, ao romper aquelas veredas em torcicolos,<br \/>\nvai sendo invadido pela tristeza daqueles ermos desolados. E deparando de<br \/>\nmomento em momento as cruzes sucessivas que a espa\u00e7os aparecem \u00e0s<br \/>\nmargens do caminho, tem a impress\u00e3o de calcar um antigo ch\u00e3o<br \/>\nde batalhas esterilizado e revolto pela marcha dos ex\u00e9rcitos&#8230;<br \/>\n\u00c9 uma sugest\u00e3o empolgante.<br \/>\nRessaltam, a cada passo, expressivos tra\u00e7os de grandezas deca\u00eddas.<\/p>\n<p>Os morros escalvados, por onde trepa teimosamente uma flora tolhi\u00e7a,<br \/>\nde cafezais de 80 anos, ralos e ressequidos, mas revelando os alinhamentos<br \/>\nprimitivos; cintados ainda pela faixa parda-avermelhada dos carreadores tortuosos,<br \/>\npor onde subiam, outrora, as turmas dos escravos; tendo ainda pelos topos,<br \/>\n\u00e0 ourela dos velhos valos divis\u00f3rios, extensos renques de bambuzais;<br \/>\ne ao vi\u00e9s das encostas, salteadamente, branqueando nas macegas, as<br \/>\nvivendas humildes por ali esparsas, a esmo, d\u00e3o quase um tra\u00e7o<br \/>\nb\u00edblico \u00e0s paisagens. Sem mais a vestidura protetora das matas,<br \/>\ndestru\u00eddas na faina brutal das derribadas, desagregam-se, escoriados<br \/>\ndos enxurros, solapados pelas torrentes, tombando aos peda\u00e7os nas &#8220;corridas<br \/>\nda terra&#8221; depois das chuvas torrenciais, e exp\u00f5em agora, nos barrancos<br \/>\na prumo, em acervos de blocos, a r\u00edgida ossamenta de pedra desvendada,<br \/>\nou alevantam-se despidos e est\u00e9reis, revestidos de restolhos pardos,<br \/>\nno horizonte mon\u00f3tono, que abreviam entre as encostas \u00edngremes&#8230;<\/p>\n<p>Os caminhos tornejam-nos, galgam-nos, vingam-nos, descem-nos. Mas os quadros<br \/>\nn\u00e3o se animam.<br \/>\nSucedem-se choupanas pobres, em ru\u00ednas umas &#8211; tetos de sap\u00e9<br \/>\nca\u00eddos sobre montes de terras e paus, roli\u00e7os &#8211; habitadas, outras,<br \/>\ncentralizando ex\u00edguas ro\u00e7as maltratadas, \u00e0 beira dos<br \/>\nc\u00f3rregos apaulados, onde os l\u00edrios selvagens derramam, no perfume<br \/>\ninsidioso, o filtro das maleitas.<br \/>\nAs estradas s\u00e3o ermas. De longe em longe um caminhante. Mas \u00e9<br \/>\ntamb\u00e9m um deca\u00eddo. N\u00e3o \u00e9 daqueles caboclos rijos<br \/>\ne mateiros, que abriram neste vale as picadas atrevidas das &#8220;bandeiras&#8221;.<br \/>\nO caipira desfibrado, sem o desempeno dos tit\u00e3s bronzeados que lhe<br \/>\nformam a linha obscura e her\u00f3ica, sa\u00fada-nos com uma humildade<br \/>\nrevoltante, esbo\u00e7ando o momo de um sorriso deplor\u00e1vel, deixa-nos<br \/>\nmais apreensivos, como se viv\u00eassemos uma ru\u00edna maior por cima<br \/>\ndaquela enorme ruinaria da terra.<br \/>\nSeguimos.<br \/>\nEm v\u00e1rios trechos cerrad\u00f5es tran\u00e7ados, guardando ainda<br \/>\nno afogado das emba\u00fabas e dos tabocais alguns raros p\u00e9s de caf\u00e9<br \/>\nde remotas culturas em abandono, desdobram-se inextric\u00e1veis na lenta<br \/>\nreconquista do solo, num ressurgimento da floresta primitiva.<br \/>\nA estrada vara-os entre espinheirais e barrancos, tendo, n\u00e3o raro,<br \/>\nladeando-a longo tempo, extensos lan\u00e7os desmoronados de velhos muros<br \/>\nde taipa dos s\u00edtios florescentes noutro tempo.<br \/>\nDestes, alguns permanecem ainda animados. Mas sem a az\u00e1fama antiga,<br \/>\nsem o mourejar febril das colheitas fartas, sem os requinos festivos dos engenhos,<br \/>\nsem o bul\u00edcio \u00e1lacre e estonteador das moendas ruidosas, nos<br \/>\nvelhos tempos, quando por aquelas encostas ondulavam e subiam lentamente \u00e0<br \/>\nmelop\u00e9ia das cantigas africanas &#8211; dezenas de dorsos luzidios rebrilhando<br \/>\nao sol &#8211; os cord\u00f5es desenvolvidos dos eitos.<br \/>\nOs demais, num decair cont\u00ednuo, mal avultam nos terreiros desertos.<br \/>\nV\u00e3o sendo, lento e lento, afogados na constri\u00e7\u00e3o do matagal<br \/>\nque se lhe aperta em roda e cobre-lhes as planta\u00e7\u00f5es, e invade-lhes<br \/>\nas pastagens, at\u00e9 atingi-los e suplant\u00e1-los, penetrando-os pelas<br \/>\nportas e janelas; enraizando-se nas suas paredes de barro e disjungindo-lhas<br \/>\ne derribando-lhas \u00e0 maneira de uma rea\u00e7\u00e3o formid\u00e1vel<br \/>\ne surda da natureza contra os que outrora, ali, aplicaram no seu seio, torturando-a,<br \/>\no c\u00e1ustico fulgurante das queimadas.<br \/>\nOutros ainda surgem, de improviso, no bolear os cerros, \u00e0 meia encosta<br \/>\ndos pendores, com a imagem perfeita de uns desgraciosos castelos, sem barbac\u00e3s<br \/>\ne sem torres, gizados por essa arquitetura terrivelmente chata em que se esmeravam<br \/>\nos nossos av\u00f3s de h\u00e1 dois s\u00e9culos. Entretanto, malgrado<br \/>\no deprimido das linhas, essas vivendas quadrangulares e amplas, sobranceando<br \/>\nas senzalas abatidas, os moinhos estru\u00eddos, os casebres de &#8220;agregados&#8221;,<br \/>\ne alteando de chapa para a estrada os altos muramentos de pedra, que lhe sustentam<br \/>\nos planos unidos dos terreiros, conservam o antigo aspecto senhoril.<br \/>\nMas jazem para todo o sempre vazias, at\u00e9 que as destrua o absoluto<br \/>\nabandono. Porque o caipira crendeiro, por menos c\u00e9lere que siga e por<br \/>\nmais que o fustiguem os aguaceiros e os ventos, n\u00e3o p\u00e1ra \u00e0s<br \/>\nsuas portas.<br \/>\nSegue, desabaladamente, sem desfitar as esporas dos flancos do cavalo, fazendo<br \/>\no &#8220;pelo sinal&#8221;, e fugindo&#8230;<br \/>\nNem um olhar para a vivenda sinistra e mal assombrada, onde imagina coisas<br \/>\npavorosas: constante pervagar de sombras; choros plangentes; ulular golpeante<br \/>\nde espectros merenc\u00f3rios; apari\u00e7\u00f5es macabras; longos<br \/>\narrastamentos de correntes; e adoidados sabbats das almas vagabundas; e cabe\u00e7as,<br \/>\ne pernas, e bra\u00e7os, que despencam dos tetos e rompem das paredes, fundindo-se,<br \/>\nimprovisadamente, em dem\u00f4nios horrorosos&#8230;<br \/>\nE quem, curioso e incr\u00e9dulo, as procura, justifica-lhes os temores.<\/p>\n<p>Aproxima-se do largo port\u00e3o desquiciado, de umbrais vacilantes, ou<br \/>\ntensos; desapeia e avan\u00e7a pelos terreiros de pedra, arruinados; galga<br \/>\na velha escadaria, pulando sobre os degraus que faltam; e estaca no patamar,<br \/>\nem cima, diante da porta, escancarada, da entrada, abrindo para o amplo sal\u00e3o<br \/>\ndeserto. Penetra-o.<br \/>\nContempla, de relance, as molduras esborcinadas das paredes, e o teto onde<br \/>\nadivinha resqu\u00edcios de frisos dourados na cimalha de estuque. Enfia<br \/>\npelo longo corredor afogado no bafio angulhento do ambiente im\u00f3vel,<br \/>\npara o qual se abrem as portas de outros repartimentos desertos, onde chiam<br \/>\ne revoam desequilibradamente centenas de morcegos tontos. Chega \u00e0 sala<br \/>\nde jantar, deserta&#8230;<br \/>\nE naquela quietude sinistra, se n\u00e3o o amedrontam os ecos dos pr\u00f3prios<br \/>\npassos, longos, reboantes, morrendo vagarosamente na habita\u00e7\u00e3o<br \/>\nvazia, comove-os, irresist\u00edvel, a vis\u00e3o retrospectiva dos belos<br \/>\ntempos em que a vivenda senhoril pompeava triunfalmente no centro dos cafezais<br \/>\nfloridos.<br \/>\nEnt\u00e3o era o tropear ruidoso das cavalgadas que chegavam; a longa escadaria<br \/>\nonde rolavam sauda\u00e7\u00f5es joviais, risos felizes, subidas e descidas<br \/>\ntumultuarias entre os estr\u00e9pitos argentinos das esporas; o vasto sal\u00e3o<br \/>\nreferto de convivas; a velha sala ornada para os banquetes ricos; e \u00e0<br \/>\nnoite as janelas resplandecendo, abertas para a escurid\u00e3o e para o<br \/>\nsil\u00eancio, golfando claridades e a cad\u00eancia das dan\u00e7as,<br \/>\nenquanto fora, no terreiro limpo, ao brilho das fogueiras, turbilhonava o<br \/>\nsamba dos cativos ao toar, melanc\u00f3lico e bruto, dos cachambus mon\u00f3tonos.<\/p>\n<p>\u00c9 um contraste comovente.<br \/>\nO viajante deixa a vivenda malsinada com uma emo\u00e7\u00e3o maior que<br \/>\na dos recoveiros: vai como quem foge. Rompe por um matagal bravio, onde adivinha<br \/>\nos restos de um jardim, ou de um pomar; volve ao terreiro orlado de senzalas<br \/>\nque desabam; transp\u00f5e o port\u00e3o encombente; galga o cavalo e<br \/>\nparte, disparando-o&#8230;<br \/>\nN\u00e3o voltar\u00e1 mais: segue pelos caminhos em torcicolos, torneja<br \/>\noutros morros escalvados, atravessa outras fazendas antigas, divisa outras<br \/>\nvivendas desertas. depara outros caminhantes taciturnos; e ao encontrar, de<br \/>\nmomento a momento, intermin\u00e1veis, como se andasse pelas avenidas de<br \/>\num velh\u00edssimo cemit\u00e9rio &#8211; as mesmas &#8220;santas-cruzes&#8221;<br \/>\n\u00e0 orla dos caminhos, sente-se, sem o querer, invadido pelas cren\u00e7as<br \/>\ning\u00eanuas dos caipiras.<br \/>\nJustifica-se, ao menos, como se, de fato, por ali vagassem, na calada dos<br \/>\nermos, todas as sombras de um povo que morreu, errantes, sobre uma natureza<br \/>\nem ru\u00ednas.<\/p>\n<p>NATIVISMO PROVIS\u00d3RIO<\/p>\n<p>O nosso antilocalismo frisa pela parcialidade. N\u00e3o h\u00e1 aplausos<br \/>\nque nos bastem aos forasteiros disciplinados que nos \u00faltimos tempos<br \/>\ntransfiguraram as nossas culturas e se vincularam aos nossos destinos, nobilitando<br \/>\no trabalho e facilitando a maior reforma social do nosso tempo.<br \/>\nSomos advers\u00e1rios do nativismo sentimental e irritante, que \u00e9<br \/>\num erro, uma fraqueza e uma velharia contraposta ao esp\u00edrito liberal<br \/>\nda pol\u00edtica contempor\u00e2nea. A este pseudopatriotismo, para o qual<br \/>\nSpencer, na sua velhice melanc\u00f3lica e desiludida, criou a palavra &#8220;diabolismo&#8221;,<br \/>\ndeve antepor-se um l\u00facido nacionalismo, em que o m\u00ednimo desquerer<br \/>\nao estrangeiro, que nos estende a sua m\u00e3o experimentada, se harmonize<br \/>\ncom os m\u00e1ximos resguardos pela conserva\u00e7\u00e3o dos atributos<br \/>\nessenciais da nossa ra\u00e7a e dos tra\u00e7os definidores da nossa qens<br \/>\ncomplexa, t\u00e3o vacilantes, ou rarescentes na instabilidade de uma forma\u00e7\u00e3o<br \/>\netnol\u00f3gica n\u00e3o ultimada e longa. E ainda quando nos turbasse<br \/>\num esmaniado jacobinismo, todo ele ruiria ao defrontar o quadro da imigra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Brasil: homens de outros climas que aqui se nacionalizam consorciados com<br \/>\na terra pelos v\u00ednculos fecundos das culturas.<br \/>\nMesmo sob o aspecto estritamente econ\u00f4mico, pensamos como Louis Couty<br \/>\n&#8211; este belo esp\u00edrito a um tempo imaginoso e pr\u00e1tico que com<br \/>\nt\u00e3o largo descortino prefigurou o nosso desenvolvimento: n\u00e3o<br \/>\npodemos ainda dispensar a energia europ\u00e9ia mais ativa e apta, para<br \/>\nque se desencadeiem as nossas energias naturais. O colono, entre n\u00f3s,<br \/>\n\u00e9 o primeiro, sen\u00e3o o \u00fanico fator econ\u00f4mico, e,<br \/>\npelo destaque viv\u00edssimo entre a sua per\u00edcia infatig\u00e1vel<br \/>\ne a nossa atividade tateante, ele reponta, transformando a biologia industrial<br \/>\nnum capitulo interessant\u00edssimo de psicologia social.<br \/>\nDeste modo, a simpatia pelo estrangeiro, baseamo-la, at\u00e9 movidos pelo<br \/>\nego\u00edsmo, nos nossos interesses imediatos e mais urgentes.<br \/>\nPodemos apreciar com seguran\u00e7a o lado sombrio deste assunto.<br \/>\nDe fato, esta imigra\u00e7\u00e3o que desejamos, n\u00e3o j\u00e1<br \/>\npelo concurso mec\u00e2nico do bra\u00e7o que trabalha, sen\u00e3o tamb\u00e9m<br \/>\nporque carecemos da colabora\u00e7\u00e3o art\u00edstica e do adiantamento<br \/>\ndos outros povos, aparece diante do vacilante da nossa estrutura pol\u00edtica<br \/>\ne da nossa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica incompleta como um problema,<br \/>\nque n\u00e3o podemos afastar, que n\u00e3o queremos e n\u00e3o devemos<br \/>\nafastar, mas que devemos resolver com infinitas cautelas. N\u00e3o podemos<br \/>\nencar\u00e1-lo com o \u00e2nimo folgado nem com o moderantismo com que<br \/>\no enfrentam os naturais de um pa\u00eds onde o forasteiro, parta de onde<br \/>\npartir, depare, a par de um intenso individualismo de ra\u00e7a constitu\u00edda,<br \/>\na atmosfera virtual de uma civiliza\u00e7\u00e3o onde ele para viver tenha<br \/>\nque se adaptar. A nossa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ainda esta.<br \/>\nO forasteiro de um modo geral &#8211; \u00e0 parte naturalmente o rebotalho das<br \/>\nlevas imigrantes &#8211; aqui depara um meio intelectual e moral facilmente complect\u00edvel,<br \/>\nsen\u00e3o inferior \u00e0quele onde nasceu; a pouco e pouco vai trazendo-nos<br \/>\no seu ambiente moral, destruindo pelo continuo implante dos seus costumes<br \/>\no pr\u00f3prio ex\u00edlio que procurou e criando-nos ao cabo, gra\u00e7as<br \/>\nao nosso desapego \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es, ao cosmopolitismo instintivo<br \/>\ne \u00e0 inseguridade dos nossos est\u00edmulos pr\u00f3prios, um quase<br \/>\nex\u00edlio paradoxal dentro da nossa pr\u00f3pria terra.<br \/>\n\u00c9 nesta circunst\u00e2ncia \u00fanica que se esbo\u00e7am inconvenientes<br \/>\ncapazes das mais exageradas susceptibilidades patri\u00f3ticas esclarecidas<br \/>\npelas mais s\u00f3lidas infer\u00eancias positivas.<br \/>\nFalta-nos integridade \u00e9tnica que nos aparelhe de resist\u00eancia<br \/>\ndiante dos caracteres de outros povos.<br \/>\nO Brasil n\u00e3o \u00e9 como os Estados Unidos ou a Austr\u00e1lia,<br \/>\nonde o ingl\u00eas, o alem\u00e3o ou o franc\u00eas alteram e cambiam<br \/>\nas qualidades nativas ou as refundem e refinam, originando um tipo novo e<br \/>\nmais elevado do que os elementos formadores. Est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nprovis\u00f3ria de fraqueza, na franca instabilidade de uma combina\u00e7\u00e3o<br \/>\nincompleta de efeitos ainda imprevistos, em que a variedade dos sangues, que<br \/>\nse caldeiam, implica o dispersivo das tend\u00eancias d\u00edspares, que<br \/>\nse entrela\u00e7am.<br \/>\nE isto numa quadra excepcional em que parecem perdidas todas as esperan\u00e7as<br \/>\nno influxo nivelador do pensamento moderno, cuja circula\u00e7\u00e3o<br \/>\npoderosa, contravindo a todos os progn\u00f3sticos, n\u00e3o refundiu,<br \/>\nn\u00e3o misturou e n\u00e3o unificou os atributos primitivos dos povos,<br \/>\nnem destruiu, num desafogado internacionalismo, a cl\u00e1usula das fronteiras.<br \/>\nAs \u00faltimas p\u00e1ginas de H. Spencer s\u00e3o um diluente do espl\u00eandido<br \/>\nrigorismo das suas mais s\u00f3lidas teorias. O fil\u00f3sofo que se abalan\u00e7ou<br \/>\na traduzir o desdobramento evolutivo das sociedades numa f\u00f3rmula t\u00e3o<br \/>\nconcisa e fulgurante quanto a f\u00f3rmula anal\u00edtica em que Lagrange<br \/>\nfundiu toda a mec\u00e2nica racional &#8211; acabou num lastim\u00e1vel desalento.<br \/>\nA seu parecer, a civiliza\u00e7\u00e3o desfecha na barbaria.<br \/>\nDepois de presidir ao triunfo das ci\u00eancias e de caracterizar os seus<br \/>\nreflexos criadores nas maiores maravilhas das ind\u00fastrias &#8211; assombrou-o<br \/>\n\u00e0 \u00faltima hora, salteando-o de espantos, o sombrio alvorecer<br \/>\ncrepuscular<br \/>\ndo novo s\u00e9culo. E contemplando em toda a parte, de&#8217; par com a desorienta\u00e7\u00e3o<br \/>\ncient\u00edfica, um extravagante renascimento da atividade militar e um<br \/>\nimperialismo que denuncia a tend\u00eancia das nacionalidades robustas a<br \/>\nfirmarem a hegemonia pol\u00edtica &#8211; rematou uma vida que toda ela foi um<br \/>\nhino ao progresso, confessando que assistia \u00e0 decad\u00eancia universal.<br \/>\nExagerou.<br \/>\nMas h\u00e1 um fato incontest\u00e1vel: o pendor atual e irresist\u00edvel<br \/>\ndas ra\u00e7as fortes para o dom\u00ednio, n\u00e3o pela espada, ef\u00eameras<br \/>\nvit\u00f3rias ou conquistas territoriais &#8211;mas pela infiltra\u00e7\u00e3o<br \/>\npoderosa do seu g\u00eanio e da sua atividade.<br \/>\nPara este conflito \u00e9 que devemos preparar-nos, formulando todas as<br \/>\nmedidas, de car\u00e1ter provis\u00f3rio embora, que nos permitam enfrentar<br \/>\nsem temores as energias dominadoras da vida civilizada, aproveitando-as; cautelosamente,<br \/>\nsem abdicarmos a originalidade das; nossas tend\u00eancias, garantidoras<br \/>\nexclusivas da nossa autonomia entre as na\u00e7\u00f5es. Est\u00e1 visto<br \/>\no significado superior desse anelo quase instintivo de uma revis\u00e3o<br \/>\nconstitucional que tanto vai generalizando-se e em breve ser\u00e1 a plataforma<br \/>\n\u00fanica de um partido, o primeiro digno de tal nome a formar-se neste<br \/>\nregime. Reconhece-se, afinal, que o nosso c\u00f3digo org\u00e2nico n\u00e3o<br \/>\nenfeixa as condi\u00e7\u00f5es naturais do progresso; e que andamos h\u00e1<br \/>\nquinze anos no conv\u00edvio das na\u00e7\u00f5es com a apar\u00eancia<br \/>\npouco apresent\u00e1vel de quem, me\u00e3o na altura, se revestiu desastradamente<br \/>\ncom as vestes de um colosso.<br \/>\nDa\u00ed, a maioria dos males.<br \/>\nFora absurdo atribu\u00ed-los \u00e0 Rep\u00fablica, numa \u00e9poca<br \/>\nem que a preexcel\u00eancia das formas de governo \u00e9 assunto relegado<br \/>\naos donaires da palavra e \u00e0 brilhante frivolidade dos torneios acad\u00eamicos.<br \/>\nAtribu\u00edmo-los ao artificialismo de um aparelho governamental feito<br \/>\nde afogadilho e sem a medida preliminar dos elementos pr\u00f3prios da nossa<br \/>\nvida. Um c\u00f3digo org\u00e2nico, como qualquer outra constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nintelectual, surge naturalmente da observa\u00e7\u00e3o consciente dos<br \/>\nmateriais objetivos do meio que ele procura definir &#8211; e para o caso especial<br \/>\ndo Brasil exige ainda medidas que contrapesem, ou equilibrem, a nossa evidente<br \/>\nfragilidade de ra\u00e7a ainda incompleta, com a integridade absorvente<br \/>\ndas ra\u00e7as j\u00e1 constitu\u00eddas.<br \/>\nA tarefa dos futuros legisladores ser\u00e1 mais social do que pol\u00edtica<br \/>\ne in\u00e7ada de dificuldades, talvez insuper\u00e1veis.<br \/>\nRealmente, este velar pela originalidade ainda vacilante de um povo &#8211; numa<br \/>\nfase hist\u00f3rica em que se universalizam tend\u00eancias e ideais, e<br \/>\nem que fora absurdo inclassific\u00e1vel o seq\u00fcestro do Paraguai de<br \/>\nh\u00e1 cinq\u00fcenta anos, eq\u00fcivale quase a impropriar-se ao ritmo<br \/>\nacelerado da civiliza\u00e7\u00e3o geral&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mas se n\u00e3o podemos engenhar medidas que nos salvaguardem, ou amparem<br \/>\nnesta press\u00e3o formid\u00e1vel imposta pelo conv\u00edvio necess\u00e1rio,<br \/>\ncivilizador e \u00fatil dos demais pa\u00edses, devemos pelo menos evitar<br \/>\nas que de qualquer modo facilitem, ou estimulem, ou abram a mais estreita<br \/>\nfrincha \u00e0 interven\u00e7\u00e3o triunfante do estrangeiro na esfera<br \/>\nsuperior dos nossos destinos.<br \/>\n\u00c9 o que sucede, para citarmos um exemplo, com o projeto de reforma<br \/>\nconstitucional que neste momento se discute no Congresso paulista.<br \/>\nL\u00e1 est\u00e1 um artigo a talho das considera\u00e7\u00f5es que<br \/>\nalinhamos.<br \/>\n\u00c9 o que firma a elegibilidade do estrangeiro, dotado com um ex\u00edguo<br \/>\nq\u00fcinq\u00fc\u00eanio de vida estadual, para o cargo de presidente do<br \/>\nEstado. A reforma, neste ponto, n\u00e3o altera o estatuto antigo.<br \/>\nRenova-a, O naturalizado, revestido de direitos pol\u00edticos de pronto<br \/>\nadquiridos na franquia escancarada da grande naturaliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\npoder\u00e1 dirigir amanh\u00e3 os destinos do Estado mais pr\u00f3spero<br \/>\ndo Brasil.<br \/>\nAssim, ao plagiar a estrutura pol\u00edtica dos ianques, mal cepilhando-lhe<br \/>\nas rebarbas, vamos repeli-la e repudi\u00e1-la precisamente no lance onde<br \/>\nela ostenta um magn\u00edfico ci\u00fame nativista, rodeando de tantas<br \/>\nexig\u00eancias, de tantos impe\u00e7os e de condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o<br \/>\nseveras, at\u00e9 para os mesmos filhos do pa\u00eds, o conseguimento<br \/>\nde um cargo, que \u00e9 a mais alta concretiza\u00e7\u00e3o da vontade<br \/>\npopular, e que se destina a imprimir uma unidade inteiri\u00e7a entre os<br \/>\ndemais \u00f3rg\u00e3os do governo.<br \/>\nTodas as linhas anteriores nos dispensam o coment\u00e1rio mais breve desta<br \/>\ndisposi\u00e7\u00e3o legislativa que ir\u00e1 atrai;, para o ponto mais<br \/>\nalto das agita\u00e7\u00f5es eleitorais a arregimenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nvigorosa dos que t\u00eam a solidariedade espont\u00e2nea e firme determinada<br \/>\npelo pr\u00f3prio afastamento da verdadeira p\u00e1tria. E se considerarmos<br \/>\nbem o quadro desanimador da nossa atual exist\u00eancia pol\u00edtica,<br \/>\npraticamente definida pela mais completa indiferen\u00e7a e em que o abstencionismo<br \/>\nse erigiu em protesto \u00fanico e contraproducente a defrontar os estigmas<br \/>\nque debilitam a organiza\u00e7\u00e3o dos poderes constitu\u00eddos<br \/>\n&#8211; o artigo renovado na Constitui\u00e7\u00e3o do Estado mais cosmopolita<br \/>\ndo Brasil n\u00e3o \u00e9 apenas um erro.<br \/>\n\u00c9 at\u00e9 uma imprud\u00eancia.<\/p>\n<h2><a name=\"17\"><\/a>UM VELHO PROBLEMA<\/h2>\n<p>Li h\u00e1 tempos alentada disserta\u00e7\u00e3o sobre um singular\u00edssimo<br \/>\ndireito expresso em velhas leis consuetudin\u00e1rias da Borgonha. Direito<br \/>\nde roubos&#8230;<br \/>\nRecordo-me que, surpreendido com tal antinomia, t\u00e3o revolucion\u00e1ria,<br \/>\nsobretudo para aquela \u00e9poca, ainda mais alarmado fiquei notando que<br \/>\na patrocinava o maior dos te\u00f3logos, S. Thomaz de Aquino; e com tal<br \/>\nbrilho e c\u00f3pia de argumentos, que a perigosa tese repontava com a estrutura<br \/>\ninteiri\u00e7a de um princ\u00edpio positivo. Realmente a repassava uma<br \/>\nnobre e incompar\u00e1vel piedade, fazendo que aquela extravag\u00e2ncia<br \/>\nresumisse e espelhasse um dos aspectos mais impressionadores da justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Tratava-se, ao parecer, de um c\u00f3digo da indig\u00eancia; e os graves<br \/>\ndoutores, no avantajarem-se tanto, rompendo com nobre rebeldia as barreiras<br \/>\nda moral comum, para advogarem a causa da enorme maioria de espoliados, chegavam<br \/>\n\u00e0 conclus\u00e3o de que a opul\u00eancia dos ricos se traduzia como<br \/>\num delitum legale, um crime legalizado. Impressionava-os o problema formid\u00e1vel<br \/>\nda mis\u00e9ria na sua fei\u00e7\u00e3o dupla &#8211; material e filos\u00f3fica<br \/>\n&#8211; pois \u00e9 talvez menos doloroso refletido nos andrajos das popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nvitimadas, que na triste inopia de elementos da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o resolver.<br \/>\nE como lhes faleciam, mais do que hoje nos falecem, elementos para a extin\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo mal, justificavam aos desvalidos num crudel\u00edssimo t\u00edtulo<br \/>\nde posse a todos os bens &#8211; a fome.<br \/>\nO indigente tornava-se um privilegiado afrontando impune toda a ortodoxia<br \/>\necon\u00f4mica. O roubo transmudava-se, do mesmo passo, num direito natural<br \/>\nde leg\u00edtima defesa contra a Morte e num dever imperioso para com a<br \/>\nVida.<br \/>\nMas n\u00e3o foram al\u00e9m deste expediente, e dessas declama\u00e7\u00f5es,<br \/>\nos piedosos doutores. Tolhia-os, sen\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o mental<br \/>\nda Idade M\u00e9dia impr\u00f3pria a uma aprecia\u00e7\u00e3o exata<br \/>\ndo conjunto do progresso humano, a mesma ditadura espiritual do catolicismo,<br \/>\nna plenitude de for\u00e7a, e para o qual a mis\u00e9ria &#8211; eloq\u00fcent\u00edssima<br \/>\nexpress\u00e3o concreta do dogma do pecado original &#8211; era sempre um horroroso<br \/>\ne necess\u00e1rio capital negativo, avolumando-se com as prova\u00e7\u00f5es<br \/>\ne com os mart\u00edrios para a posse anelada da bem-aventuran\u00e7a,<br \/>\nnos c\u00e9us&#8230;<br \/>\nPor outro lado, os pensadores leigos do tempo, e os que os encal\u00e7aram<br \/>\nat\u00e9 ao s\u00e9culo XVIII, n\u00e3o partiram esta tonalidade sentimental<br \/>\nMais sonhadores que fil\u00f3sofos, o que os atra\u00eda era o lado est\u00e9tico<br \/>\ndo infort\u00fanio, a vis\u00e3o empolgante do sofrimento humano, a que<br \/>\nnos associamos sempre pela piedade. Os seus livros, pelos pr\u00f3prios<br \/>\nt\u00edtulos hiperb\u00f3licos, \u00e0 maneira dos das novelas do tempo,<br \/>\nretratam uma interven\u00e7\u00e3o brilhante e imaginosa, mas in\u00fatil.<br \/>\nS\u00e3o como t\u00edtulos de poemas. De fato, na Utopia de Thomaz Morus,<br \/>\nna Oceana de Hallis, ou na Basilidade de Morelly, a perspectiva de uma exist\u00eancia<br \/>\nmelhor, oriunda da riqueza eq\u00fcitativamente distribu\u00edda e dos privil\u00e9gios<br \/>\nextintos, irrompe :num fervor de ditirambos, aos quais n\u00e3o faltam,<br \/>\npara maior destaque, pr\u00f3logos arrepiadores de agruras e tormentas indescrit\u00edveis&#8230;<\/p>\n<p>As medidas propostas raiam pelos exageros m\u00e1ximos da fantasia: do nivelamento<br \/>\nabsoluto de Jo\u00e3o Libburne, ao platonismo ador\u00e1vel de Fontenelle<br \/>\ne ao niilismo religioso de Diderot; e para lhes n\u00e3o faltar grotesco,<br \/>\nesse cruel e antil\u00f3gico grotesco imanente \u00e0s mais tr\u00e1gicas<br \/>\nsitua\u00e7\u00f5es, culmina-as o desvairado comunismo de Campanella com<br \/>\nos seus trezentos monges, trezentos ascetas barbudos e melanc\u00f3licos,<br \/>\ntentando uma rep\u00fablica igualit\u00e1ria que seria o desabamento de<br \/>\ntodas as conquistas do progresso.<br \/>\nOra, tudo isto caracteriza bem o completo desequil\u00edbrio das almas rudemente<br \/>\ntrabalhadas pelas doutrinas opostas e de todo desapercebidas, ent\u00e3o,<br \/>\nde uma s\u00edntese filos\u00f3fica que ao mesmo passo as emancipasse<br \/>\ndo apego tradicional ao catolicismo, cuja miss\u00e3o findara, e dos impulsos<br \/>\ndemolidores da metaf\u00edsica triunfante.<br \/>\nAssim, ao arrebentar a crise decisiva de 1789, n\u00e3o \u00e9 de estranhar<br \/>\nficasse inapercebido, e talvez sacrificado, o grande problema que desde Pit\u00e1goras<br \/>\ne Plat\u00e3o vinha agitando os esp\u00edritos. E que a grande revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\ninspirada pela filosofia social do s\u00e9culo XVIII, oferece o espet\u00e1culo<br \/>\nsingular de repudiar, desde os seus primeiros atos, os seus pr\u00f3prios<br \/>\ncriadores. A considera\u00e7\u00e3o de Guizot \u00e9 profunda: nunca<br \/>\numa filosofia aspirou tanto ao governo do mundo e nunca foi t\u00e3o despida<br \/>\ndo imp\u00e9rio.<br \/>\nOs fil\u00f3sofos foram, de pronto, suplantados, na agita\u00e7\u00e3o<br \/>\nrevolta dos panfletos e da ret\u00f3rica explosiva dessa literatura pol\u00edtica<br \/>\nsempre ef\u00eamera, com ser modelada pelos desvarios repentinos da multid\u00e3o.<br \/>\nA s\u00f3lida estrutura mental de um d\u2019Alembert antep\u00f4s-se o<br \/>\nesp\u00edrito imaginoso e pueril de um Vergniaud, e aos sonhos desmedidos<br \/>\nde Mably e excesso de objetivismo do tr\u00e1gico casquilho que passeou<br \/>\npelas ruas de Paris :a deusa da Raz\u00e3o&#8230;<br \/>\nDe sorte que a \u00faltima pancada do antigo regime &#8211; j\u00e1 longamente<br \/>\nsolapado e prestes a cair por si mesmo &#8211; se fez com excesso de energias que<br \/>\natirou sobre os destro\u00e7os da ordem antiga as ru\u00ednas da ordem<br \/>\nnova planeada. Exclusivamente atra\u00edda pelo programa, que se lhe afigurava<br \/>\nenorme e pouco valia, de derruir as classes privilegiadas, a Revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nfirmou, nos \u201cdireito:; do homem\u201d, um duro individualismo que na<br \/>\nordem espiritual significava a nega\u00e7\u00e3o dos seus melhores princ\u00edpios<br \/>\ne na ordem pr\u00e1tica equivalia a destruir as corpora\u00e7\u00f5es<br \/>\npopulares, isto \u00e9, a \u00fanica cria\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica<br \/>\nda Idade M\u00e9dia.<br \/>\n\u201cOs direitos do homem&#8230; No entanto, a f\u00f3rmula superior daquela<br \/>\nfilosofia, visava, de prefer\u00eancia, atrav\u00e9s da solidariedade humana<br \/>\ncrescente, exatamentc o contr\u00e1rio &#8211; os deveres do homem\u201d. Mas<br \/>\nera exigir muito \u00e0 loucura pol\u00edtica do momento. Fazia-se mister,<br \/>\nantes de tudo, que as franquias rec\u00e9m-adquiridas tivessem um tra\u00e7o<br \/>\nincisivamente antiaristocr\u00e1tico. Que o campon\u00eas, absolutamente<br \/>\nlivre, fosse absolutamente dono da quadra de terra onde nascera e onde tanto<br \/>\ntempo jazera aguilhoado \u00e0 gleba feudal; enquanto o burgu\u00eas das<br \/>\ncidades pudesse agir lib\u00e9rrimo, dispondo a bel-prazer de todos os seus<br \/>\nbens, despeado do liame das jurandes.<br \/>\nE o trono vazio dos Capetos teve em roda a concorr\u00eancia tumultu\u00e1ria<br \/>\nde n\u00e3o sei quantos milh\u00f5es de liliputinianos reis&#8230;<br \/>\nDespojados o clero e a aristocracia de suas propriedades (n\u00e3o raro<br \/>\nprec\u00e1rias como privil\u00e9gios sujeitos aos caprichos do poder mon\u00e1rquico)<br \/>\nficou em seu lugar &#8211; intang\u00edvel, absoluta e sacrat\u00edssima &#8211; a<br \/>\npropriedade burguesa, para a qual o ilustre Condorcet n\u00e3o encontrara<br \/>\nlimites no texto que forneceu \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor isto, a breve trecho, se patenteou a inanidade das reformas executadas;<br \/>\nao inv\u00e9s de um n\u00famero restrito de privilegiados, nos quais o<br \/>\nego\u00edsmo se atenuava com as tradi\u00e7\u00f5es cavalheirescas da<br \/>\nnobreza, um outro, maior e formado pela burguesia vitoriosa, mais inapta ainda<br \/>\na compreender a miss\u00e3o social da propriedade,. .\u00e1vida por dominar<br \/>\nna arena livre que se lhe abria, e \u00b7tornando maior o contraste entre<br \/>\na sua opul\u00eancia recente e a situa\u00e7\u00e3o inalter\u00e1vel<br \/>\ndo proletariado sem voto -naquele tumulto e destinada apenas a colaborar anonimamente<br \/>\nna epop\u00e9ia napole\u00f4nica, quando em breve, culminando a cat\u00e1strofe<br \/>\nrevolucion\u00e1ria, o mais pequenino dos grandes homens surgisse, concretizando<br \/>\na rea\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada do antigo regime, e fosse restaurar,<br \/>\nentre os -fulgores de uma gl\u00f3ria odiosa, o anacronismo da atividade<br \/>\nmilitar.<br \/>\nDestru\u00edda desta maneira a obra memor\u00e1vel da Conven\u00e7\u00e3o,<br \/>\nv\u00ea-se, contudo, que ela tinha latentes e aguardando apenas um meio prop\u00edcio,<br \/>\nos princ\u00edpios de uma distribui\u00e7\u00e3o mais eq\u00fcitativa<br \/>\nda fortuna. Para o r\u00edgido Camus a propriedade \u201cn\u00e3o era<br \/>\num direito natural, era um direito social\u201d; acompanhava-o neste conceito<br \/>\no rom\u00e2ntico Saint Just; e sobre todos, mais incisivamente, num dizer<br \/>\nclar\u00edssimo que lhe d\u00e1 as honras de um precursor do coletivismo<br \/>\nmoderno, o incompar\u00e1vel Mirabeau atirava na anarquia das assembl\u00e9ias<br \/>\nestas palavras singularmente austeras: \u201cLe proprietarie n\u2019est<br \/>\nlui-m\u00eame que le premier des salari\u00e9s. Ce que nous appelons vulgairement<br \/>\nla propriet\u00e9 n\u2019est autre chose que le prix qui lui paye la societ\u00e9<br \/>\npour les distribuitions qu\u2019il est cherg\u00e9 de faire aux autres<br \/>\nindividus par ses consommations et ses depenses. Les proprietaires sont les<br \/>\nagents, les economes du corps social\u201d.<br \/>\nEstas frases admir\u00e1veis, por\u00e9m, que ainda hoje, transcorridos<br \/>\ncento e tantos anos, s\u00e3o a s\u00edntese de todo o programa econ\u00f4mico<br \/>\nde socialismo, ningu\u00e9m as \u00b7escutou. De modo que \u00e0 massa<br \/>\ninfelic\u00edssima do povo, a quem a revolu\u00e7\u00e3o libertara para<br \/>\na morte despeando-a da gleba para jungi-la ao carro triunfal de um alucinado,<br \/>\nrestavam ainda, como nos velhos tempos, apenas as f\u00f3rmulas en\u00e9rgicas,<br \/>\nmas in\u00f3cuas, de alguns doutores canonizados; e em pleno repontar do<br \/>\ns\u00e9culo XIX &#8211; quando a filosofia natural j\u00e1 aparelhara o homem<br \/>\npara transfigurar a terra -um triste, um repugnante, um deplor\u00e1vel,<br \/>\ne um horroroso direito: o direito do roubo<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mas esta filosofia natural, t\u00e3o crescentemente revigorada e favorecendo<br \/>\ntanto, no s\u00e9culo que passou, o ascendente industrial, era por si mesma<br \/>\n&#8211; isolada no campo das suas investiga\u00e7\u00f5es &#8211; inapta \u00e0<br \/>\nverdadeira solu\u00e7\u00e3o do problema. Dizem-no os insucessos de todos<br \/>\nos que o consideraram esteando-se nela, das estupendas utopias de Saint-Simon<br \/>\ne dos seus extraordin\u00e1rios disc\u00edpulos, \u00e0s aliena\u00e7\u00f5es<br \/>\nde Proudhon, \u00e0s tentativas bizarras de Fourier e ao so\u00e7obro<br \/>\ncompleto da pol\u00edtica de Luiz Blanc.<br \/>\nFora logo acompanh\u00e1-los. Se o fiz\u00e9ssemos, ver\u00edamos que,<br \/>\nmalgrado todos os recursos das ci\u00eancias, eles pouco se avantajaram aos<br \/>\nsonhadores medievais: o mesmo agitar de medidas fant\u00e1sticas, e t\u00e3o<br \/>\nradicais, algumas, abalando tanto os fundamentos da sociedade, a come\u00e7ar<br \/>\npela organiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, que acerretavam ante novos<br \/>\nelementos perturbadores e novas faces \u00e0 quest\u00e3o, dando-lhe um<br \/>\ncar\u00e1ter por igual revolucion\u00e1rio e complexo capaz de a tornar<br \/>\nperpetuamente insol\u00favel.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Assim ela chegou at\u00e9 meados do \u00faltimo s\u00e9culo &#8211; at\u00e9<br \/>\nKarl Marx &#8211; pois foi, realmente, com este inflex\u00edvel advers\u00e1rio<br \/>\nde Proudhon que o socialismo cient\u00edfico come\u00e7ou a usar uma linguagem<br \/>\nfirme, compreens\u00edvel e positiva.<br \/>\nNada de idealiza\u00e7\u00f5es: fatos; e indu\u00e7\u00f5es inabal\u00e1veis<br \/>\nresultantes de uma an\u00e1lise rigorosa dos materiais objetivos; e a experi\u00eancia<br \/>\ne a observa\u00e7\u00e3o, adestradas em l\u00facido tiroc\u00ednio<br \/>\nao trav\u00e9s das ci\u00eancias inferiores; e a l\u00f3gica inflex\u00edvel<br \/>\ndos acontecimentos; e essa terr\u00edvel argumenta\u00e7\u00e3o terra-a-terra,<br \/>\nsem tortuosidades de silogismos, sem o idiotismo transcendental da velha dial\u00e9tica,<br \/>\nmas toda feita de axiomas, de verdadeiros tru\u00edsmos, por maneira a n\u00e3o<br \/>\nexigir dos esp\u00edritos o m\u00ednimo esfor\u00e7o para a alcan\u00e7arem,<br \/>\nporque ela \u00e9 quem os alcan\u00e7a independentemente da vontade, e<br \/>\nos domina e os arrasta com a fortaleza da pr\u00f3pria simplicidade.<br \/>\nA fonte \u00fanica da produ\u00e7\u00e3o e do seu corol\u00e1rio imediato,<br \/>\no valor, \u00e9 o trabalho. Nem a terra, nem as m\u00e1 quinas, nem o<br \/>\ncapital, ainda coligados, as produzem sem o bra\u00e7o do oper\u00e1rio.<br \/>\nDa\u00ed uma conclus\u00e3o irredut\u00edvel: -a riqueza produzida deve<br \/>\npertencer toda aos que trabalham. E um conceito dedutivo: o capital \u00e9<br \/>\numa espolia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o se pode negar a seguran\u00e7a do racioc\u00ednio.<br \/>\nDe efeito, desbancada a lei de Malthus, ante a qual nem se explicaria a civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne demonstrada a que se lhe contrap\u00f5e consistindo em que \u201ccada<br \/>\nhomem produz sempre mais do que consome persistindo os frutos do seu esfor\u00e7o<br \/>\nal\u00e9m do tempo necess\u00e1rio \u00e0 sua reprodu\u00e7\u00e3o\u201d<br \/>\n&#8211; p\u00f5e-se de manifesto o tra\u00e7o injusto da organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\necon\u00f4mica do nosso tempo.<br \/>\nA explora\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 assombrosamente clara, colocando<br \/>\no trabalhador num n\u00edvel inferior ao da m\u00e1quina. De fato, esta,<br \/>\nna permanente passividade da mat\u00e9ria, \u00e9 conservada pelo dono;<br \/>\nimp\u00f5e-lhe constantes resguardos no traz\u00ea-la \u00edntegra e<br \/>\nbrunida, corrigindo-lhe os desarranjos; e quando morre -digamos assim &#8211; fulminada<br \/>\npela pletora de for\u00e7a de uma explos\u00e3o ou debilitada pelas vibra\u00e7\u00f5es<br \/>\nque lhe granulam a musculatura de ferro, origina a m\u00e1goa real de um<br \/>\ndesfalque, a tristeza de um decr\u00e9scimo da fortuna, o luto inconsol\u00e1vel<br \/>\nde um dano. Ao passo que o oper\u00e1rio, adstrito a sal\u00e1rios escassos<br \/>\ndemais \u00e0 sua subsist\u00eancia, \u00e9 a m\u00e1quina que se conserva<br \/>\npor si, e mal; as suas dores recalca-as for\u00e7adamente est\u00f3ico;<br \/>\nas suas mol\u00e9stias, que, por uma cruel ironia, crescem com o desenvolvimento<br \/>\nindustrial &#8211; o fosforismo, o saturnismo, o hidrargirismo, o oxicarborismo<br \/>\n&#8211; cura-as como pode, quando pode; e quando morre, afinal, \u00e0s vezes<br \/>\nsubitamente triturado nas engrenagens da sua sinistra s\u00f3cia mais bem<br \/>\naquinhoada, ou lentamente- esverdinhado pelos sais de cobre e de zinco, paral\u00edtico<br \/>\ndelirante pelo chumbo, inchado pelos compostos de merc\u00fario, asfixiado<br \/>\npelo \u00f3xido de carb\u00f4nico, ulcerado pelos c\u00e1usticos dos<br \/>\np\u00f3s arsenicais, devastado pela terr\u00edvel embriaguez petr\u00f3lica<br \/>\nou fulminado por um coup de plomb &#8211; quando se extingue, ningu\u00e9m lhe<br \/>\nd\u00e1 pela falta na grande massa an\u00f4nima e taciturna, que enxurra<br \/>\ntodas as manh\u00e3s \u00e0 porta das oficinas.<br \/>\nNeste confronto se exp\u00f5e a pecaminosa injusti\u00e7a que o ego\u00edsmo<br \/>\ncapitalista agrava, n\u00e3o permitindo, merc\u00ea do sal\u00e1rio insuficiente,<br \/>\nque se conserve t\u00e3o bem como os seus aparelhos met\u00e1licos, os<br \/>\nseus aparelhos de m\u00fasculos e nervos; e est\u00e1 em grande parte<br \/>\na justificativa dos socialistas no chegarem todos ao duplo princ\u00edpio<br \/>\nfundamental:<br \/>\nSocializa\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>Posse individual somente dos objetos de uso.<br \/>\nEste princ\u00edpio, unanimemente aceito, domina toda a heterodoxia socialista<br \/>\n&#8211; de sorte que as cis\u00f5es, e s\u00e3o numerosas, existentes entre<br \/>\neles, consistem apenas nos meios de atingir-se aquele objetivo. Para alguns,<br \/>\ne citam-se apenas Jo\u00e3o Ligg e Ed. Vaillant, os privil\u00e9gios econ\u00f4micos<br \/>\ne pol\u00edticos devem cair ao choque de uma revolu\u00e7\u00e3o violenta.<br \/>\n\u00c9 o socialismo demolidor que, entretanto, menos aterroriza a sociedade<br \/>\nburguesa. Outros, como Emilio Vendervelde, se colocam numa atitude expectante:<br \/>\nas reformas ser\u00e3o violentas ou n\u00e3o, segundo o grau de resist\u00eancia<br \/>\nda burguesia. Finalmente, outros ainda &#8211; os mais tranq\u00fcilos e mais perigosos<br \/>\n&#8211; como Ferri e Colajanni, corretamente evolucionistas, reconhecendo a car\u00eancia<br \/>\nde um plano j\u00e1 feito de organiza\u00e7\u00e3o social capaz de substituir,<br \/>\nem bloco, num dia, a ordem atual das coisas, relegam a segundo plano as medidas<br \/>\nviolentas, sempre infecundas e s\u00f3 aceit\u00e1veis transitoriamente,<br \/>\nde passagem, num ou noutro ponto, para abrirem caminho \u00e0 pr\u00f3pria<br \/>\nevolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFerri, em bel\u00edssimo paralelo entre o desenvolvimento social e o terrestre,<br \/>\nmostra como os imaginosos cataclismos de Cuvier, perturbaram, sem efeito,<br \/>\na geologia para explicarem transforma\u00e7\u00f5es que se realizam sob<br \/>\no nosso olhar, sendo os grandes resultados, que mal compreendemos no estreito<br \/>\nc\u00edrculo da vida individual, uma soma de efeitos parcelados acumulando-se<br \/>\nna amplitude das idades do globo. Deslocando \u00e0 sociedade este conceito,<br \/>\naponta-nos o processo normal das reformas lentas, operando-se na consci\u00eancia<br \/>\ncoletiva e refletindo-se pouco a pouco na pr\u00e1tica, nos costumes e na<br \/>\nlegisla\u00e7\u00e3o escrita, continuamente melhoradas.<br \/>\nNada mais l\u00edmpido. Realmente, as cat\u00e1strofes sociais s\u00f3<br \/>\npodem provoc\u00e1-las as pr\u00f3prias classes dominantes, as t\u00edmidas<br \/>\nclasses conservadoras, opondo-se a marcha das reformas &#8211; como a barragem contraposta<br \/>\na uma corrente tranq\u00fcila pode gerar a inunda\u00e7\u00e3o. Mesmo<br \/>\nnesse caso, por\u00e9m, a convuls\u00e3o \u00e9 transit\u00f3ria;<br \/>\n\u00e9 um contrachoque ferindo a barreira governamental. Nada mais. Porque<br \/>\no car\u00e1ter revolucion\u00e1rio do socialismo est\u00e1 apenas no<br \/>\nseu programa radical. Revolu\u00e7\u00e3o: transforma\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPara a conseguir, basta-lhe erguer a consci\u00eancia do prolet\u00e1rio,<br \/>\ne &#8211; conforme a norma tra\u00e7ada pelo Congresso Socialista de Paris, em<br \/>\n1900 &#8211; aviventar a arregimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica<br \/>\ndos trabalhadores.<br \/>\nPorque a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um meio, \u00e9 um<br \/>\nfim; embora, \u00e0s vezes, lhe seja mister um meio, a revolta. Mas esta<br \/>\nsem a forma dram\u00e1tica e ruidosa de outrora. As festas do primeiro de<br \/>\nmaio s\u00e3o, quanto a este \u00faltimo ponto, bem expressivas. Para<br \/>\nabalar a terra inteira, basta que a grande legi\u00e3o em marcha pratique<br \/>\num ato simpl\u00edssimo: cruzar os bra\u00e7os&#8230;<br \/>\nPorque o seu triunfo \u00e9 inevit\u00e1vel.<br \/>\nGarantem-no as leis positivas da sociedade que criar\u00e3o o reinado tranq\u00fcilo<br \/>\ndas ci\u00eancias e das artes, fontes de um capital maior, indestrut\u00edvel<br \/>\ne crescente, formado pelas melhores conquistas do esp\u00edrito e do cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"18\"><\/a>AO LONGO DE UMA ESTRADA<\/h2>\n<p>Margem do Turvo Novembro de 901<\/p>\n<p>Considero, \u00e0 porta da capuaba de pau-a-pique e taipa em que abriguei,<br \/>\neste trecho torturante da estrada de Taboado, onde me colheu a noite.<br \/>\nE penso, desapontado, nas tr\u00eas mil l\u00e9guas das quarenta e oito<br \/>\nestradas romanas, estendidas, irradiantes, pela terra feito uma rede aprisionadora<br \/>\ne forte desenrolada em roda da coluna fulgente do miliarum aureum, que centralizava<br \/>\no Forum.<br \/>\nO viajante abalava por uma delas, a Via Flaminia, por exemplo, e contorneava<br \/>\ntodo o norte da It\u00e1lia; entrava na Panonia; varava, adiante, a Moeda<br \/>\ne a Tracia, seguindo por Heracl\u00e9a at\u00e9 Constantinopla; e da\u00ed<br \/>\npara a Bit\u00ednia, para a Capad\u00f3cia, para Anti\u00f3quia, atravessando<br \/>\no Tauros, e para a Sina, a Palestina e o Egito; inflectindo, afinal, vivamente,<br \/>\n\u00e0. direita, perlongando todo o norte da \u00c1frica, de Alexandria<br \/>\na Tanger.<br \/>\nNeste longo percurso &#8211; atravessando pantanais e montanhas sobre pared\u00f5es<br \/>\nde pedra ou galerias subterr\u00e2neas, pisava o ch\u00e3o duro dos stracta<br \/>\nenrijados, a cimento, cobertos pelas glareas de saibro sobre que se estendiam<br \/>\nos ladrilhos largos dos silhares.<br \/>\nPor ali disparavam as quadrigas velozes, como sobre raias unidas, e o pedestre<br \/>\ndesviava-se, a salvo, sobre as cal\u00e7adas laterais de basalto, das margines,<br \/>\nladeadas de bancos intervalados e c\u00f4modos.<br \/>\nA viagens transcorriam r\u00e1pidas naquelas avenidas continentais, animadas<br \/>\ne vibrantes, onde estrepitava a galopada dos correios precipitando-se para<br \/>\nas G\u00e1lias ou para a S\u00edria, e derivavam, vagarosas, as caravanas<br \/>\ndos mercadores, estacando \u00e0s vezes para que de permeio lhe passassem<br \/>\nc\u00e9leres, no ritmo acelerado da estrat\u00e9gia de Cesar, as cortes<br \/>\ndas legi\u00f5es.<br \/>\nH\u00e1 dois mil e tantos anos.<br \/>\n\u00c9 natural que nos entriste\u00e7am hoje, contemplando este trecho<br \/>\nmedonho de estrada, tortuoso e estreito, invadido de mato, rolando em aclives<br \/>\nvivos, afundando em grot\u00f5es, enfiando, feito num t\u00fanel, pelos<br \/>\ntabocais que o cobrem, ou diluindo-se, impratic\u00e1vel, em tremedais extensos;<br \/>\n&#8211; um picad\u00e3o malgradado, de dezenas de l\u00e9guas, atravessando<br \/>\ntodo o Estado de S. Paulo at\u00e9 ao Mato Grosso.<br \/>\nDir-se-\u00e1 que os tempos s\u00e3o outros, outros os nossos recursos,<br \/>\ne que a linhas f\u00e9rreas substituem com vantagem aquelas constru\u00e7\u00f5es<br \/>\nmonumentais da engenharia antiga, com maior economia de esfor\u00e7os e<br \/>\nresultados incomparavelmente maiores.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Mas esta estrada de Taboado que, pelo seu tra\u00e7ado, \u00e9 a mais<br \/>\nimportante n\u00e3o j\u00e1 de S. Paulo mas do Brasil inteiro, merecia<br \/>\ntrabalhos excepcionais. Tem um car\u00e1ter continental t\u00e3o frisante<br \/>\nque dev\u00edamos, tanto quanto poss\u00edvel, aproxim\u00e1-la de uma<br \/>\nestrada romana.<br \/>\nDesenvolvendo-se do Jaboticabal ao porto do Paran\u00e1, que a batiza, o<br \/>\nseu prolongamento lev\u00e1-la-ia, recortando o divortium aquarum do Amazonas<br \/>\ne do Paraguai, a Cuiab\u00e1, quase no centro geom\u00e9trico da Am\u00e9rica<br \/>\ndo Sul. Teria, ent\u00e3o, um comprimento de duzentas l\u00e9guas escassas<br \/>\ne se fosse constru\u00edda &#8211; n\u00e3o diremos com o luxo estupendo dos<br \/>\ncaminhos antigos, nem mesmo como os modernos planck-roads do Canad\u00e1<br \/>\n&#8211; mas larga e abaulada, declives atenuados, atoleiros para sempre desfeitos<br \/>\ncom aterros firmes e drenagem completa, faixas refor\u00e7adas por uma macadamizac\u00e3o<br \/>\npouco espessa embora, pontes que n\u00e3o constringissem a vaz\u00e3o<br \/>\ndo rio nas estreitezas de uma economia extravagante, e tendo, regularmente<br \/>\nespa\u00e7ados, esta\u00e7\u00f5es e postos de seguran\u00e7a garantindo<br \/>\ne policiando o tr\u00e1fego; assim constitu\u00edda, aquela estrada duplicaria<br \/>\nem poucos anos a vitalidade nacional.<br \/>\nN\u00e3o idealizamos.<br \/>\nEntre os coeficientes de redu\u00e7\u00e3o do nosso progresso, avulta<br \/>\numa condi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, que toda a gente conhece.<br \/>\nO Brasil \u00e9 compacto. Falta-lhe penetrabilidade. Falta-lhe esse articulado<br \/>\nfundo das costas, essa diferencia\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o que em<br \/>\ntodos os tempos e lugares da Gr\u00e9cia antiga a Inglaterra de hoje e ao<br \/>\nJap\u00e3o, reage vigorosamente sobre as civiliza\u00e7\u00f5es locais.<br \/>\nPor outro lado, completando os inconvenientes de um aparelho litoral inteiri\u00e7o,<br \/>\na sua estrutura geol\u00f3gica, matriz do facies topogr\u00e1fico &#8211; antemurais<br \/>\ngran\u00edticas precintando planaltos &#8211; impropria-o ainda mais ao dom\u00ednio<br \/>\nfranco.<br \/>\nDai todo o esfor\u00e7o despendido para se modificar esta fatalidade geogr\u00e1fica.<br \/>\nEm torno do problema da via\u00e7\u00e3o geral do Brasil tem-se travado<br \/>\ndiscuss\u00f5es entre as mais interessantes de toda a engenharia.<br \/>\nCome\u00e7aram em 1870. Tiveram a princ\u00edpio, como objetivo exclusivo,<br \/>\no abandono do perigoso desvio pelo Prata que, de 1850 a 1866, atrav\u00e9s<br \/>\nde longa s\u00e9rie de desastres diplom\u00e1ticos enfeixados afinal numa<br \/>\ncampanha feroz, tornava prec\u00e1rias as comunica\u00e7\u00f5es com<br \/>\no Mato Grosso.<br \/>\nApareceram, ent\u00e3o, os tra\u00e7ados de Palm e Lloyd, B. Rohan, Antonio<br \/>\nRebou\u00e7as e outros que variando apenas no escolher os diversos vales<br \/>\ncomo linhas naturais de penetra\u00e7\u00e3o, visavam, estreitamente estrat\u00e9gicos,<br \/>\nalcan\u00e7ar o Paraguai, pelo sul daquele Estado remoto. Apenas Monteiro<br \/>\nTourinho ampliou o problema, sem o melhorar, com a idealiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nousada de uma linha f\u00e9rrea das Sete-Quedas, do Paran\u00e1, ao porto<br \/>\nde Anca, no Pacifico.<br \/>\nDepois a quest\u00e3o se esclareceu melhor. Sem perder o ponto de vista<br \/>\nmilitar, tornou-o apenas incidente de aspira\u00e7\u00e3o mais alta.<br \/>\nSurge o nome de Pimenta Bueno. O grande engenheiro firma, em 76, acompanhando<br \/>\na divis\u00f3ria das \u00e1guas do Tiet\u00ea e do Mogi-Gua\u00e7u,<br \/>\ncom o ponto obrigado de Santa Ana do Parana\u00edba, o rumo realmente pr\u00e1tico<br \/>\ndas nossas comunica\u00e7\u00f5es com a capital de Mato Grosso &#8211;<br \/>\nOs que se sucederam, a pr\u00f3pria comiss\u00e3o de cinco not\u00e1veis<br \/>\n&#8211; Rio Branco, Beaurepaire Rohan, Buarque de Macedo, Raposa e Hon\u00f3rio<br \/>\nBicalho n\u00e3o encararam com maior lucidez o assunto.<br \/>\nA linha planeada, que a Companhia Paulista, infelizmente, acompanhou somente<br \/>\nat\u00e9 Araraquara, permaneceu inteiri\u00e7a, completa, sem comportar<br \/>\na variante mais breve, e cortando mesmo, vitoriosamente, depois, as paralelas<br \/>\ndesse grande tr\u00e2ngulo da via\u00e7\u00e3o geral, que Andr\u00e9<br \/>\nRebou\u00e7as ideou, como um desafio ao nosso progresso m\u00e1ximo, no<br \/>\nfuturo.<br \/>\nN\u00e3o pormenorizaremos estes v\u00e1rios tra\u00e7ados.<br \/>\nNotemos apenas que em todos eles os dignos mestres tiveram a obsess\u00e3o<br \/>\npermanente da locomotiva, r\u00e1pida e triunfante, suplantando t\u00e3o<br \/>\ndesmarcadas dist\u00e2ncias. Agiram num plano superior demais. Foram sobremaneira<br \/>\nte\u00f3ricos, e olvidando o aspecto econ\u00f4mico, dominante na quest\u00e3o,<br \/>\nparece terem imaginado que a simples chegada das vias f\u00e9rreas bastasse<br \/>\npara que surgissem os elementos vitais e a mat\u00e9ria-prima da mais civilizadora<br \/>\ndas ind\u00fastrias: o povoamento, a produ\u00e7\u00e3o intensa e o<br \/>\ntr\u00e1fego continuo.<br \/>\nMas este despertar de energias em regi\u00f5es despovoadas requer um prazo<br \/>\nlongo demais para os capitais que nele se arriscam, jogando contra o futuro.<br \/>\nMostra-o, entre n\u00f3s, uma experi\u00eancia de trinta anos.<br \/>\nAs nossas duas melhores estradas de penetra\u00e7\u00e3o, aparelhadas<br \/>\npelos recursos acumulados de um progresso crescente, a Paulista e a Mogiana,<br \/>\ninauguradas em 72 e 75, no avan\u00e7arem para Mato Grosso e Goi\u00e1s<br \/>\nmal ultrapassam, hoje, um ter\u00e7o e a metade das dist\u00e2ncias.<br \/>\nEntretanto, organizaram-se na quadra certo mais pujante do nosso desenvolvimento<br \/>\necon\u00f4mico, que o g\u00eanio do Visconde do Rio Branco domina, e tiveram,<br \/>\nnos anos subsequentes, o amparo da riqueza crescente de S. Paulo.<br \/>\nA primeira afastou-se do mesmo tra\u00e7ado civilizador de Pimenta Bueno,<br \/>\nseguindo ilogicamente para Barretos, desviando-se de uma rota entregue hoje<br \/>\nao avan\u00e7amento, naturalmente moroso, da estrada de Ribeir\u00e3ozinho.<br \/>\nMas dado que persistisse no primitivo rumo e fosse encontrando sempre nas<br \/>\nnovas paragens atingidas as mesmas condi\u00e7\u00f5es de vida, s\u00f3<br \/>\nalcan\u00e7aria Cuiab\u00e1 num prazo m\u00ednimo de sessenta anos.<br \/>\nE ainda quando, escandalosamente otimistas diante do nosso desfalecimento<br \/>\necon\u00f4mico, reduz\u00edssemos aquele prazo, n\u00e3o pagar\u00edamos<br \/>\no tra\u00e7o bem pouco animador que caracteriza a distens\u00e3o das nossas<br \/>\nredes de estradas de ferro.<br \/>\nDe fato, nenhuma busca o centro do pa\u00eds visando despertar as energias<br \/>\nlatentes que o afastamento do litoral amortece. Progridem arrebatadas npor<br \/>\numa lavoura extensiva que se avantaja no interior \u00e0 custa do esgotamento,<br \/>\nda pobreza, e da esteriliza\u00e7\u00e3o das terras que vai abandonando.<br \/>\nPovoam despovoando. N\u00e3o multiplicam as energias nacionais, deslocam-nas.<br \/>\nFazem avan\u00e7amentos que n\u00e3o s\u00e3o um progresso. E alongando<br \/>\npara a frente os trilhos, \u00e0 medida que novas terras roxas abrolham<br \/>\nem novos cafezais, v\u00e3o, ao acaso, nesse seguir o sulco das derribadas,<br \/>\ndeixando atr\u00e1s um espantalho de civiliza\u00e7\u00e3o tacanha nas<br \/>\ncidades deca\u00eddas circundadas de fazendas velhas &#8230;<br \/>\nEste fato, que ningu\u00e9m contesta, define bem as anomalias de um desenvolvimento<br \/>\ne de um progresso contest\u00e1veis. Reflete o v\u00edcio de uma expans\u00e3o<br \/>\nem que n\u00e3o colaboram as for\u00e7as profundas do pa\u00eds, porque<br \/>\nvai da periferia para o centro, sobre n\u00e3o ter o car\u00e1ter francamente<br \/>\nnacional, a pouco e pouco extinto no vigor das correntes intensivas de imigrantes<br \/>\nque, diante da nossa indiferen\u00e7a fatalista pelo futuro, j\u00e1 v\u00e3o<br \/>\nassumindo o aspecto de uma invas\u00e3o de b\u00e1rbaros pac\u00edficos.<br \/>\nDeste modo uma estrada de rodagem digna de tal nome, para o Mato Grosso, principalmente<br \/>\nagora que o automobilismo libertou a velocidade do trilho, n\u00e3o seria<br \/>\napenas o melhor leito para a futura via f\u00e9rrea e o melhor meio de nos<br \/>\nemanciparmos do Prata, neste fase incandescente da pol\u00edtica sul-americana,<br \/>\nmas ainda, sob aspecto mais grave, um belo la\u00e7o de solidariedade prendendo-nos<br \/>\naos patr\u00edcios dos sert\u00f5es e revigorando uma integra\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9tnica, j\u00e1 consideravelmente comprometida.<br \/>\nE a tarefa \u00e9, relativamente, f\u00e1cil.<br \/>\nTemos um termo de compara\u00e7\u00e3o expressivo na \u00fanica estrada<br \/>\nde rodagem de todo o Brasil, a da &#8220;Uni\u00e3o e Ind\u00fastria&#8221;.<br \/>\nDesenvolvida de Juiz de Fora a Petr\u00f3polis, com um percurso de 147 quil\u00f4metros,<br \/>\nesta admir\u00e1vel avenida, macadamizada de feldspato e quartzo, que outrora<br \/>\nfaria inveja \u00e0s melhores ruas das nossas capitais, \u00e9 uma grande<br \/>\nli\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSurgiu da vontade de ferro de um homem &#8211; Mariano Proc\u00f3pio &#8211; e foi executada<br \/>\nem condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis: de um lado as dificuldades<br \/>\nt\u00e9cnicas decorrentes da fei\u00e7\u00e3o alpestre do Rio de Janeiro<br \/>\ne Minas, de outro a car\u00eancia de aparelhos e maquinismos, que hoje existem,<br \/>\nsendo o pr\u00f3prio britamento das pedras feito desvantajosamente, \u00e0<br \/>\nm\u00e3o, o que encarecia sobremodo os materiais empregados.<br \/>\nMas foi feita &#8211; larga, de oito metros, abaulado o leito resistente e firme<br \/>\nperfeitamente drenado, decorado de obras de arte em que se salienta a ponte<br \/>\ndas Gar\u00e7as sobre o Para\u00edba, e inflectindo em curvas capazes<br \/>\ndos maiores ret\u00e2ngulos de atrelagem, ou atenuando, malgrado o acidentado<br \/>\ndos lugares, os esfor\u00e7os de tra\u00e7\u00e3o, gra\u00e7as a um<br \/>\nm\u00e1ximo de 3% para os declives.<br \/>\nE natural que sobre ela as dilig\u00eancias de cerca de tr\u00eas toneladas,<br \/>\ncorressem, r\u00e1pidas, com a velocidade m\u00e9dia de 17 quil\u00f4metros<br \/>\npor hora, o que permitia o percurso total das suas vinte e duas l\u00e9guas<br \/>\nem muito menos de um dia.<br \/>\nOra, uma estrada identicamente modelada, para Mato Grosso, seria apenas oito<br \/>\nvezes e meia maior.<br \/>\nRealmente, dando-se aos caminhos de Jaboticabal a Cuiab\u00e1, um desenvolvimento<br \/>\nde 0,20 sobre a linha reta, o que n\u00e3o \u00e9 pouco para uma estrada<br \/>\nde rodagem, vemos que a sua extens\u00e3o total importar\u00e1 em 1.250<br \/>\nquil\u00f4metros ou 190 l\u00e9guas.<br \/>\nCom estes dados, confrontadas as duas empresas, verifica-se que todas as vantagens<br \/>\ns\u00e3o pela \u00faltima.<br \/>\nDois Estados, o de Mato Grosso e o de S. Paulo, e a Uni\u00e3o, por igual<br \/>\ninteressados, certo balanceiam numa propor\u00e7\u00e3o maior, a energia<br \/>\n\u00fanica de um homem, sobretudo considerando-se que a interven\u00e7\u00e3o<br \/>\nda \u00faltima acarretar\u00e1 a diminui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra<br \/>\npelo emprego de engenharia militar e contingentes do ex\u00e9rcito. Al\u00e9m<br \/>\ndisso, os tempos mudaram, estando a engenharia aparelhada de elementos incomparavelmente<br \/>\nmais eficazes.<br \/>\nAinda mais, o dilatado do desenvolvimento seria em grande parte compensado<br \/>\npela disposi\u00e7\u00e3o mais acess\u00edvel do terreno.<br \/>\nDe fato, percorridos os 435 quil\u00f4metros que v\u00e3o de Jaboticabal<br \/>\n\u00e0 margem direita do Paran\u00e1, fronteira ao Taboado, merc\u00ea<br \/>\nde uma ponte de 880 metros sobre o grande rio, a \u00fanica obra de arte<br \/>\ndispendiosa a executar, a estrada se desdobrar\u00e1, a partir de Santa<br \/>\nAna, pelo vale do Apor\u00e9; e, deixando-o, ir\u00e1 deparar regi\u00f5es<br \/>\nainda mais pratic\u00e1veis, estendendo-se em cheio sobre esse divortium<br \/>\naquarum do Amazonas e do Paraguai, t\u00e3o pouco acentuado e de relevos<br \/>\nt\u00e3o breves que os tribut\u00e1rios dos dois rios quase se anastomosam<br \/>\nem nascentes comuns. E se considerarmos que em todo este percurso lhe sobejam,<br \/>\nnos seixos rolados de inumer\u00e1veis cursos de \u00e1gua e nos afloramentos<br \/>\nde quartzitos, materiais que suplantam na facilidade do britamento, e na dura\u00e7\u00e3o,<br \/>\no gnaisse gran\u00edtico da &#8220;Uni\u00e3o e Ind\u00fastria&#8221;,<br \/>\nvemos que, de feito, numeros\u00edssimas condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis<br \/>\nrodeiam a abertura desse caminho admir\u00e1vel, imposto por exig\u00eancias<br \/>\nsociais e pol\u00edticas t\u00e3o imprescind\u00edveis e urgentes.<br \/>\nQuando isto suceder &#8211; dando-nos mesmo \u00e0s dilig\u00eancias, numa marcha<br \/>\ndi\u00e1ria de dez horas, uma velocidade m\u00e9dia de doze quil\u00f4metros,<br \/>\na travessia de Jaboticabal a Cuiab\u00e1 ser\u00e1 feita, folgadamente,<br \/>\nem dez dias &#8211; precisamente um ter\u00e7o, portanto, do que hoje se gasta<br \/>\nna volta de quinhentas l\u00e9guas pelo Prata.<br \/>\nAdemais, ficaram por uma vez removidos todos os embara\u00e7os, todos os<br \/>\nempe\u00e7os inesperados da travessia num rio que, pelos atritos perigosos<br \/>\nque tem originado, e despertar\u00e1, \u00e9 o B\u00f3sforo alongado<br \/>\nna Am\u00e9rica do Sul.<br \/>\nE se isto n\u00e3o acontecer &#8211; ent\u00e3o, parafraseando uma frase c\u00e9lebre,<br \/>\n\u00e9 que decididamente nos faltam &#8220;um grande engenheiro, um grande<br \/>\nministro e um grande chefe de Estado&#8221;, para a realiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas grandes obras.<\/p>\n<h2><a name=\"19\"><\/a>CIVILIZA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Convenha-se em que Spencer &#8211; Spencer o da \u00faltima hora, o Spencer valetudin\u00e1rio<br \/>\ne misantropo que chegou aos primeiros dias deste s\u00e9culo para o amaldi\u00e7oar<br \/>\ne morrer &#8211; desgarrou da verdade ao afirmar que h\u00e1 nestes tempos, um<br \/>\nrecuo para a barbaria. Viu a vida universal com a vista cansada dos velhos.<br \/>\nN\u00e3o a compreendeu. N\u00e3o lhe aprendeu os aspectos variad\u00edssimos<br \/>\ne novos. Certo, faltou-lhe \u00e0s c\u00e9lulas cerebrais, exauridas pela<br \/>\nidade, sen\u00e3o pelo mesmo ac\u00famulo das imagens que se refletiram,<br \/>\na primitiva receptividade diante da \u00e9poca indescrit\u00edvel e bizarra<br \/>\nem que as almas se dobram \u00e0 sobrecarga de maravilhas e vacilam, deslumbradas,<br \/>\nora entre prod\u00edgios da ind\u00fastria t\u00e3o delicados, \u00e0s<br \/>\nvezes, que recordam uma materializa\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito criador,<br \/>\nora entre as magias da ci\u00eancia, t\u00e3o poderosas que espiritualizam<br \/>\na mat\u00e9ria dinamizando-a na idealiza\u00e7\u00e3o tang\u00edvel<br \/>\ndo r\u00e1dio&#8230;<br \/>\nOu, ent\u00e3o, afligiu-o um duro ferrotoar da inveja. Ia-se-lhe a vida,<br \/>\npr\u00f3xima a estagnar-se no emperramento das art\u00e9rias &#8211; e ficavam-lhe<br \/>\nna frente, maior e crescente, prefigurando novos encantos, novas revela\u00e7\u00f5es<br \/>\ne novos ideais, o esplendor da civiliza\u00e7\u00e3o vitoriosa. N\u00e3o<br \/>\nse conteve. Partiu-se-lhe o aprumo de fil\u00f3sofo. Vestiu desastradamente<br \/>\na pele da raposa desapontada, e entrou na imortalidade atrav\u00e9s de uma<br \/>\nf\u00e1bula de La Fontaine.<br \/>\nQue mais desejava o s\u00e1bio?&#8230;<br \/>\nMaior amplitude na ci\u00eancia?<br \/>\nMas esta \u00e9, hoje, tal que obriga a intelig\u00eancia a diferenciar-se<br \/>\nnuma especializa\u00e7\u00e3o indefinida. O mais desvalioso, o mais t\u00edbio<br \/>\naspecto particular\u00edssimo de uma exist\u00eancia, exige uma exist\u00eancia<br \/>\ninteira. Em torno da criptogama mais rudimentar arma-se uma biblioteca. A<br \/>\nmais afanosa vida n\u00e3o basta a estudar todas as algas.<br \/>\nBreve se organizar\u00e3o academias para os zo\u00f3ptos. O martelo do<br \/>\nge\u00f3logo bate, nesta hora, na \u00faltima aresta rochosa do \u00faltimo<br \/>\nrecanto perdido na anfratuosidade de um contraforte sem nome de uma montanha<br \/>\nda \u00c1frica central. Aos sism\u00f3grafos, armados em toda a parte,<br \/>\nn\u00e3o escapa o m\u00ednimo tremor, a mais c\u00e9lere crispadura<br \/>\nda terra. A oculta\u00e7\u00e3o da estrela mais impercept\u00edvel,<br \/>\nsem nome ou apequenada nas \u00faltimas letras do alfabeto grego, n\u00e3o<br \/>\nse opera sem que a acompanhe o olhar persp\u00edcuo de um astr\u00f4nomo<br \/>\n&#8211; do astr\u00f4nomo que n\u00e3o induz como Newton, Kepler, nem calcula<br \/>\ncomo Gauss, porque lhe \u00e9 escassa a vida para a infinitas min\u00facias<br \/>\nque repontam e fulguram na poeirada c\u00f3smica dos aster\u00f3ides.<br \/>\nNeste momento, um ocean\u00f3grafo, um NN imortal qualquer, arranca o brilho<br \/>\nde uma revela\u00e7\u00e3o da vasa secular de um dos tenebrosos abismos<br \/>\ndo Atl\u00e2ntico; ou pompeia, vaidoso, o fruto de vinte anos de an\u00e1lises,<br \/>\ndescrevendo rigorosamente o movimento respirat\u00f3rio das nereidas.<br \/>\nE um anatomista, encanecido a estudar o grande zigom\u00e1tico, levanta-se<br \/>\ngravemente numa academia real austera ou num instituto sizudo, e, diante da<br \/>\naustera academia, que se edifica, ou do sizudo instituto, que se deslumbra,<br \/>\nfaz a psicologia do riso e a din\u00e2mica hilariante da alegria&#8230;<br \/>\nMaior idealiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica?<br \/>\nMas Shakespeare imortalizou- se, universalizando-se: foi a grande voz assombradora<br \/>\nda natureza, ressoando com todas as tonalidades, da gagueira terr\u00edvel<br \/>\nde Caliban ao correntio harmonioso do rouxinol do Capuleto &#8211; ao passo que<br \/>\nhoje os poemas irrompem, a granel, de um retalho qualquer da vida mais prosaica<br \/>\n&#8211; e um largo, irresist\u00edvel misticismo baralha na mesma ebriez espiritualista<br \/>\nos cientistas e os poetas.<br \/>\nOs raios n fulminam a positividade das ci\u00eancias. E a cr\u00edtica<br \/>\ninexor\u00e1vel, que espantara os duendes e anulara o milagre, recua, por<br \/>\nsua vez, surpreendida ante a ci\u00eancia imagin\u00e1ria, que surge sobre<br \/>\nos destro\u00e7os da teoria at\u00f4mica &#8211; e mostra-nos, em destaque, num<br \/>\nquase eclipse da lei suprema da conserva\u00e7\u00e3o da energia &#8211; o espiritista<br \/>\nesmaniado ao lado do qu\u00edmico reportado, e a f\u00edsica de Roentgen<br \/>\ndesfechando nos mist\u00e9rios telep\u00e1ticos.<br \/>\nMaior expans\u00e3o industrial?<br \/>\nMas, posto de lado o indescrit\u00edvel das primorosas glorifica\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo trabalho, devia bastar-lhe, para aquilatar o imp\u00e9rio do homem sobre<br \/>\nas coisas, este aproveitamento genial do solen\u00f3ide terrestre na telegrafia<br \/>\nsem fios: a Terra inteira transmudada em serva submissa do pensamento humano,<br \/>\ne toda penetrada dele, e absorvendo-o, irradiando-o, e expandindo-o no cons\u00f3rcio<br \/>\nmaravilhoso da sua for\u00e7a magn\u00e9tica imensur\u00e1vel com as<br \/>\nvibra\u00e7\u00f5es ideais da intelig\u00eancia&#8230;<br \/>\nMaior alevantamento moral?<br \/>\nAqui se nos emperra a pena, a ranger, trada e acobardada. O assunto \u00e9<br \/>\ncomplexo e pregueia-se de inumer\u00e1veis refolhos. N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nabrang\u00ea-lo. O movimento industrial, ou cient\u00edfico, pode ao menos<br \/>\nser imaginado. Pode condensar-se num &#8220;bloc&#8221; resplandecente como<br \/>\nessa Exposi\u00e7\u00e3o de S. Luiz, que inscreve num quadril\u00e1tero<br \/>\nde pal\u00e1cios o melhor de toda a atividade humana. Mas o progresso da<br \/>\nmoral&#8230;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Entre os atrativos da Exposi\u00e7\u00e3o de S. Luiz, um h\u00e1, interessant\u00edssimo.<br \/>\nN\u00e3o se trata de algum novo motor, ou de uma nova aplica\u00e7\u00e3o<br \/>\nel\u00e9trica. Trata-se de uma pantomina her\u00f3ica. Imagine-se o drama<br \/>\nesquiliano da guerra do Transvaal sobre o palco ampl\u00edssimo de um vasto<br \/>\nbarrac\u00e3o de feira. A terra lend\u00e1ria, com o revesso dos seus<br \/>\nalcantis arremessados e a angustura de seus desfiladeiros longos, aparece,<br \/>\n\u00e0 luz das gambiarras, na paisagem morta de lona chapada de largos borr\u00f5es<br \/>\nde tinta variadas e cruas ajustadas sobre pernas de serra e sarrafos.<br \/>\nAli, desenrola-se a luta nos estouros dos cartuchos de festim, no coruscar<br \/>\ndas espadas de papel\u00e3o prateado, nos assaltos aos redutos de papier-mach\u00e9,<br \/>\ne no estavanado, e no tropear tumultu\u00e1rio dos guerreiros de rostos<br \/>\nafogueados de vermelh\u00e3o ou empalecidos de p\u00f3s-de-arroz, e ouvidos<br \/>\narmados dos apitos do contra-regra&#8230;<br \/>\nO ianque aplaude. A ilus\u00e3o \u00e9 completa. V\u00ea-se a celeridade<br \/>\nnervosa de De Wet, a calma patriarcal de Krueger, a tardeza amea\u00e7adora<br \/>\nde Botha&#8230; E, vibrando na distens\u00e3o repentina dos atiradores, ou concentrando-se<br \/>\nem cargas violentas e compactas, dispersas em escaramu\u00e7as ou fundidas,<br \/>\nde golpe, no tumulto convulsivo da batalha, as brigadas impetuos\u00edssimas<br \/>\ndos boers.<br \/>\nDepois Ladsmith, Kimberley, Magersfontain, todos os lugares refertos de reminisc\u00eancia<br \/>\ngloriosa. &#8211; &#8211;<br \/>\nPor fim, o assalto de Paardeberg e a bravura espantosamente tranq\u00fcila<br \/>\nde Cronje.<br \/>\nNesta ocasi\u00e3o a imagem real da campanha \u00e9 absoluta e o protagonista<br \/>\nsurge como o n\u00e3o representaria o Fregoli mais prot\u00e9ico e pl\u00e1stico.<br \/>\nPorque \u00e9 o mesmo Cronje, o Cronje aut\u00eantico, palp\u00e1vel<br \/>\n&#8211; com a sua linha magnifica de her\u00f3i de envergadura atl\u00e9tica,<br \/>\naparecendo<br \/>\naos clar\u00f5es da ribalta, entre explos\u00f5es de palmas e gritos entusi\u00e1sticos<br \/>\nque lhe bisam as fa\u00e7anhas.<br \/>\nUm cronista do Figaro, comentando o caso do \u00fanico modo por que pode<br \/>\nele ser comentado &#8211; com um humorismo laivado de melancolia &#8211; declarou &#8220;que<br \/>\n\u00e9 preciso viver e que desgra\u00e7adamente ainda n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nincompatibilidade entre a gl\u00f3ria e a mis\u00e9ria&#8221;&#8230;<br \/>\nN\u00e3o comentemos, n\u00f3s. Admiremos, absortos, este tra\u00e7o<br \/>\nador\u00e1vel e utilit\u00e1rio dos tempos.<br \/>\nAcabou-se o tipo tradicional do her\u00f3i transfigurado pela desfortuna;<br \/>\ndo her\u00f3i importuno e triste; do her\u00f3i que pede esmola ou morre<br \/>\nescaveirado e tiritante, passando das palhas de uma enxerga para o m\u00e1rmore<br \/>\ndos pante\u00f5es. N\u00e3o mais Cam\u00f5es e Belis\u00e1rios&#8230;<br \/>\nRompe o her\u00f3i pol\u00edtico, esplendidamente burgu\u00eas; o her\u00f3i<br \/>\nque faz o trust do ideal; o her\u00f3i que aluga a gl\u00f3ria e que,<br \/>\nantes de pedir um historiador, reclama um empres\u00e1rio.<br \/>\nAlevantamento moral&#8230;<br \/>\nN\u00e3o prossigamos. Decididamente Spencer viu, pela \u00faltima vez,<br \/>\neste mundo com o olhar bruxoleante de um velho.<br \/>\nO mestre errou; errou palmarmente, desastrosamente, escandalosamente.<br \/>\nOs tempos que v\u00e3o passando s\u00e3o, na verdade, admir\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: HER\u00d3IS E BANDIDOS O MARECHAL DE FERRO O KAISER A ARC\u00c1DIA DA ALEMANHA A VIDA DAS EST\u00c1TUAS ANCHIETA GARIMPEIROS UMA COM\u00c9DIA HIST\u00d3RICA PLANO DE UMA CRUZADA A MISS\u00c3O DA R\u00daSSIA TRANSPONDO O HIMALAIA CONJECTURAS CONTRASTES E CONFRONTOS CONFLITO INEVIT\u00c1VEL CONTRA OS CAUCHEIROS A ESFINGE UM VELHO [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95741","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Contrastes e Confrontos - Euclides da Cunha, Obras Contrastes e Confrontos - Euclides da Cunha<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Contrastes e Confrontos - Euclides da Cunha, Obras, Colet\u00e2nea, Artigos, O Kaiser, A Esfinge, Civiliza\u00e7\u00e3o, Contrastes e Confrontos - Euclides da Cunha\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Contrastes e Confrontos - Euclides da Cunha, Obras Contrastes e Confrontos - Euclides da Cunha\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Contrastes e Confrontos - Euclides da Cunha, Obras, Colet\u00e2nea, Artigos, O Kaiser, A Esfinge, Civiliza\u00e7\u00e3o, Contrastes e Confrontos - Euclides da Cunha\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/contrastes-e-confrontos-euclides-da-cunha\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-20T12:41:58+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2018-02-01T16:32:46+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"237 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/contrastes-e-confrontos-euclides-da-cunha#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/contrastes-e-confrontos-euclides-da-cunha\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Contrastes e Confrontos &#8211; 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