{"id":95739,"date":"2017-01-20T10:37:25","date_gmt":"2017-01-20T12:37:25","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95739"},"modified":"2018-02-01T14:31:38","modified_gmt":"2018-02-01T16:31:38","slug":"a-margem-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-margem-da-historia","title":{"rendered":"\u00c0 Margem da Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Na Amaz\u00f4nia, Terra Sem<br \/>\nHist\u00f3ria<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Rios em Abandono<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Um clima caluniado<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Os Caucheiros<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">Judas-Ahsverus<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#7\">&#8220;Brasileiros&#8221;<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#8\">Transacreana<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h4>Euclides da Cunha<\/h4>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Foi Coelho Neto, grande amigo de Euclides, que o induziu a editar seus livros\u00a0na Edit\u00f4ra Lello, de Portugal. O \u00eaxito editorial do autor de Livro\u00a0de Prata (pelo assunto e pelo estilo) o animou a aconselhar seu colega da<br \/>\nAcademia \u00e0 prestigiosa casa do P\u00f4rto.<\/p>\n<p>A morte inesperada de Euclides, por\u00e9m, as naturais dificuldades para\u00a0os necess\u00e1rios contactos com edit\u00f4res e a falta de afinidade\u00a0dos portugu\u00eases com a tem\u00e1tica euclidiana fizeram com que as\u00a0seguintes edi\u00e7\u00f5es de Contrastes e Confrontos e \u00c0 Margem\u00a0da Hist\u00f3ria se epa\u00e7assem cada vez mais e n\u00e3o tivessem\u00a0a indispens\u00e1vel assist\u00eancia direta do Autor, ou de revisores<br \/>\nafetios \u00e0 mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u00c0 Margem da Hist\u00f3ria (obra p\u00f3stuma que s\u00f3 saiu\u00a0um m\u00eas ap\u00f3s a morte do escritor) vem em sua 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&#8211; provavelmente pela falta de uma revis\u00e3o final de Euclides<br \/>\n&#8211; eivada de erros e descuidos. Gra\u00e7as ao z\u00ealo de seus edit\u00f4res,<br \/>\nas edi\u00e7\u00f2es seguintes se apresentam mais corretas e melhor revistas.<br \/>\nSendo crescente entre n\u00f3s o inter\u00easse pela obra euclidiana e<br \/>\ndada a import\u00e2ncia dos livros para a perfeita compreens\u00e3o da<br \/>\nproblem\u00e1tica do Autor, impunha-se f\u00f4ssem eles editados entre<br \/>\nn\u00f3s, na nossa ortografia e sob nosso cuidados revis\u00f3rios.<br \/>\nGra\u00e7as aos entendimentos da Edit\u00f4ra Lello Brasileira, de S\u00e3o<br \/>\nPaulo, conseguindo autoriza\u00e7\u00e3o da Edit\u00f4ra Lello, do P\u00f4rto,<br \/>\ne com o estabelecimento de textos feito pelo Sr. Dermal Monfr\u00e9, temos<br \/>\nagora (como iniciativa da edit\u00f4ra nacional em comemora\u00e7\u00e3o<br \/>\nao Ano Euclidiano) os dois livros editados no Brasil.<br \/>\n\u00c0 Margem da Hist\u00f3ria comp\u00f5e-se de quatro partes: Na Amaz\u00f4nia,<br \/>\nTerra Sem Hist\u00f3ria (7 cap\u00edtulos, s\u00f4bre essa regi\u00e3o),<br \/>\nV\u00e1rios Estudos (3 cap\u00edtulos, assuntos americanos), Da Independ\u00eancia<br \/>\n\u00e0 Rep\u00fablica (ensaio hist\u00f3rico) e Estr\u00ealas Indecifr\u00e1veis<br \/>\n(cr\u00f4nica).<br \/>\nO livro apresenta, bem n\u00edtidas, quatro constantes da personalidade<br \/>\ncultural de Euclides: o cultor da l\u00edngua e verdadeiro esteta da linguagem,<br \/>\no ensa\u00edsta e o humanista brasileiro.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 preciosismo no falar euclidiano; h\u00e1, sim, o rigorismo<br \/>\nda palavra exata. Seu vocabul\u00e1rio riqu\u00edssimo, t\u00e9cnico<br \/>\ne profissional quando necess\u00e1rio, era-lhe o instrumento pr\u00f3prio<br \/>\npara captar t\u00f4das as sutilezas da realidade e expor o logicismo de seu<br \/>\nracioc\u00ednio de investigador e a lucidez do int\u00e9rprete.<br \/>\nNas palavras densas, carregadas de emo\u00e7\u00f5es e evoca\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndispostas numa estrutura\u00e7\u00e3o sint\u00e1tica de ritmo veemente,<br \/>\nque se torna fr\u00eamito de vida e poesia, temos a pr\u00f3pria autenticidade<br \/>\nde Euclides, numa linguagem que \u00e9 bem tropicalmente brasileira, no<br \/>\ntransbordamento fenomenol\u00f3gico de formas, sons, calor e luz. Se n\u2019Os<br \/>\nSert\u00f5es \u00eale foi mais improvisado e por isso mais grandiloq\u00fcente<br \/>\ne espetacular, agora ei-lo mais equil\u00edbrio e maturidade. O cap\u00edtulo<br \/>\nJudas Ahsverus (que nasceu inteiri\u00e7o como um bloco de beleza) continua<br \/>\nsendo uma das melhores p\u00e1ginas da l\u00edngua portugu\u00easa.<br \/>\nO esp\u00edrito cient\u00edfico de Euclides, sempre estudando e sumariando<br \/>\nos assuntos (formado na juventude conforme o esp\u00edrito da \u00e9poca),<br \/>\ndado a hip\u00f3teses e prefigura\u00e7\u00f5es muitas v\u00eazes discut\u00edveis,<br \/>\nextravasa-se na insopit\u00e1vel voca\u00e7\u00e3o ao ensa\u00edsmo,<br \/>\nexigindo-lhe conhecimentos e pesquisas, para que se torne mais l\u00facido,<br \/>\nmais penetrante, melhor int\u00e9rprete. Por isso achamos que h\u00e1<br \/>\nnecessidade de uma inicia\u00e7\u00e3o cultural para se sentir e compreender<br \/>\nEuclides. N\u00e3o estranhamos ser \u00eale um escritor pouco popular.<br \/>\nSua irrefre\u00e1vel tend\u00eancia \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o<br \/>\nfisiol\u00f3gica dos fen\u00f4menos naturais mostra-se atrav\u00e9s de<br \/>\numa vibra\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica e ideal\u00edstica, fazendo surgir,<br \/>\ndos algarismos e teorias, sua figura inigual\u00e1vel de artista.<br \/>\nEuclides \u00e9 inesgot\u00e1vel. Por mais que se queira defini-lo e caracteriz\u00e1-lo,<br \/>\nainda se descobrem novas veredas e magn\u00edficas perspectivas que escaparam<br \/>\n\u00e0 delimita\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nSeu tema central \u00e9 a p\u00e1tria e a gente brasileira. N\u2019Os<br \/>\nSert\u00f5es o objetivo \u00faltimo \u00e9 o homem; n&#8221;Amazonia,<br \/>\no tema principal \u00e9 a terra.<br \/>\nSeu nacionalismo mais se prende \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o do bem<br \/>\ncomum e da den\u00fancia das estruturas desequilibradas de nossa sociedade.<br \/>\nJ\u00e1 de algum tempo era sua inten\u00e7\u00e3o escrever um &#8220;segundo<br \/>\nlivro vingador&#8221;. Deveria referir-se \u00e0 Amaz\u00f4nia, acusando<br \/>\nos descasos pela terra e o despr\u00eazo pelo homem.<br \/>\nDeveria chamar-se Para\u00edso Perdido.<br \/>\nN\u00e3o o completou, por\u00e9m, e alguns de seus cap\u00edtulos constituem<br \/>\na Terra Sem Hist\u00f3ria, que abre \u00easte volume.<br \/>\nS\u00e3o, no entender de alguns euclidianos, as mais expressivas e belas<br \/>\np\u00e1ginas de Euclides.<br \/>\nQuando, em 1904, escreveu a Jos\u00e9 Ver\u00edssimo s\u00f4bre sua ida<br \/>\nao Acre (como Chefe da Comiss\u00e3o de Reconhecimento das Nascentes do<br \/>\nRio Purus) confessa o intento: &#8220;Aquelas paragens, hoje, depois dos \u00faltimos<br \/>\nmovimentos diplom\u00e1ticos, est\u00e3o como o Amazonas antes de Tavares<br \/>\nBastos; se eu n\u00e3o tenho a vis\u00e3o admir\u00e1vel d\u00easte,<br \/>\ntenho o seu mesmo anelo de revelar os prod\u00edgios da nossa terra&#8221;.<br \/>\nSeu desejo era mostrar os aspectos f\u00edsicos e as riquezas essenciais<br \/>\nda exuberante regi\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Al\u00e9m disso, se as na\u00e7\u00f5es estrangeiras mandam cientistas<br \/>\nao Brasil, que absurdo haver\u00e1 no encarregar-se de id\u00eantico objetivo<br \/>\num brasileiro?&#8221;<br \/>\nO grande rio teve o int\u00e9rprete \u00e0 altura.<br \/>\nConhecer\u00e1 melhor a Amaz\u00f4nia aqu\u00eale que ler as p\u00e1ginas<br \/>\nde Terra Sem Hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 s\u00f2mente a geografia<br \/>\ndescritiva que o empolga; s\u00e3o suas transfigura\u00e7\u00f5es no<br \/>\ntempo.<br \/>\nO mesmo cr\u00edtico da caatinga, d\u2019Os Sert\u00f5es, \u00e9 aqui<br \/>\no arrebatado revelador do sistema hidrogr\u00e1fico da (ainda hoje) desordenada<br \/>\nregi\u00e3o. E se o sertanejo \u00e9 antes de tudo um forte, o seringueiro,<br \/>\n\u00e9 um tipo de lutador excepcional. Devido, por\u00e9m, ao ego\u00edsmo<br \/>\ndesenfreado dos patr\u00f5es opulentos, o homem ali &#8220;trabalha para<br \/>\nescravizar-se&#8221;.<br \/>\nSe n\u2019Os Sert\u00f5es a den\u00fancia fica mais como um alerta, aqui<br \/>\nEuclides \u00e9 mais objetivo e recomenda leis trabalhistas (isso em 1906&#8230;)<br \/>\npara que &#8220;salvemos aquela sociedade obscura e abandonada&#8221;.<br \/>\nEnquanto Contrastes e Confrontos est\u00e1 recheado de estudos e ensaios<br \/>\nque s\u00e3o o desdobramento ou a complementa\u00e7\u00e3o d\u2019Os<br \/>\nSert\u00f5es, \u00easte outro em nada a \u00eales se assemelha, a n\u00e3o<br \/>\nser pelo mesmo tema da integra\u00e7\u00e3o nacional &#8211; atrav\u00e9s<br \/>\nda penetra\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia &#8211; e o mesmo desv\u00ealo pelo<br \/>\nsofrido homem de nossa p\u00e1tria, o que faz de Euclides da Cunha um dos<br \/>\nprimeiros e mais ardorosos cultores do humanismo brasileiro.<br \/>\nContinuam aqui suas preocupa\u00e7\u00f5es e seus inter\u00easses pelos<br \/>\nproblemas americanos, principalmente os referentes \u00e0 Am\u00e9rica<br \/>\ndo Sul. Isso em 1904. Se os tiv\u00e9ssemos acompanhado e estudado com igual<br \/>\ndedica\u00e7\u00e3o e cuidado, hoje ter\u00edamos uma alina\u00e7a<br \/>\nlatino-americana melhor e mais eficientemente estruturada e, conseq\u00fcentemente,<br \/>\numa vida econ\u00f4mica e social mais condinzente com nossas possibilidades<br \/>\ne riquezas.<br \/>\nO historiador Euclides tem, no esb\u00f4\u00e7o Da Independ\u00eancia<br \/>\n\u00e0 Rep\u00fablica, um ensaio cuja leitura deve ser obrigat\u00f3ria<br \/>\nmesmo para os especialistas no assunto. \u00c9 l\u00facido e original<br \/>\nna interpreta\u00e7\u00e3o do evoluir de nosso processo hist\u00f3rico-social.<br \/>\nO livro termina com um cap\u00edtulo que parece chamar a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\npara os c\u00e9us indecifr\u00e1veis, assunto que hoje seria o ponto alto<br \/>\ndas pesquisas cient\u00edficas, nas penetra\u00e7\u00f5es espaciais.<br \/>\n\u00c9 poesia, ci\u00eancia e confiss\u00e3o do agn\u00f3stico diante<br \/>\ndo infinito desconhecido e sua \u00e2nsia de decifr\u00e1-lo&#8230;<br \/>\nOs euclidianos brasileiros, exultantes, muito t\u00eam a agradecer \u00e0<br \/>\nLello Brasileira S.A., pelo ret\u00f4rno d\u00eastes dois filhos pr\u00f3digos&#8230;<br \/>\nOswaldo Galotti<br \/>\nGr\u00eamio Euclides da Cunha, de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Pardo<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Na Amaz\u00f4nia, Terra Sem Hist\u00f3ria<\/h2>\n<h4>Impress\u00f5es Gerais<\/h4>\n<p>Ao rev\u00e9s da admira\u00e7\u00e3o ou do entusiasmo, o que nos sobressalteia<br \/>\ngeralmente, diante do Amazonas, no desembocar do d\u00e9dalo florido do<br \/>\nTajapuru, aberto em cheio para o grande rio, \u00e9 antes um desapontamento.<br \/>\nA massa de \u00e1guas \u00e9, certo, sem par, capaz daquele terror a que<br \/>\nse refere Wallace; mas como todos n\u00f3s desde mui cedo gizamos um Amazonas<br \/>\nideal, merc\u00ea das p\u00e1ginas singularmente l\u00edricas dos n\u00e3o<br \/>\nsei quantos viajantes que desde Humboldt at\u00e9 hoje contemplaram a hil\u00e9ia<br \/>\nprodigiosa, com um espanto quase religioso &#8211; sucede um caso vulgar de psicologia:<br \/>\nao defrontarmos o Amazonas real, vemo-lo inferior \u00e0 imagem subjetiva<br \/>\nh\u00e1 longo tempo prefigurada. Al\u00e9m disto, sob o conceito estritamente<br \/>\nart\u00edstico, isto \u00e9, como um trecho da terra desabrochando em<br \/>\nimagens capazes de se fundirem harmoniosamente na s\u00edntese de uma impress\u00e3o<br \/>\nempolgante, \u00e9 de todo em todo inferior a um sem n\u00famero de outros<br \/>\nlugares do nosso pa\u00eds. T\u00f4da a Amaz\u00f4nia, sob \u00easte<br \/>\naspecto, n\u00e3o vale o segmento do litoral que vai de Cabo Frio \u00e0<br \/>\nPonta do Munduba.<\/p>\n<p>\u00c9 sem d\u00favida, o maior quadro da Terra; por\u00e9m chatamente<br \/>\nrebatido num plano horizontal que mal alevantam de uma banda, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde restos de uma enorme moldura que se quebrou, as serranias de arenito de<br \/>\nMonte Alegre e as serras gran\u00edticas das Guianas. E como lhe falta a<br \/>\nlinha vertical, preexcelente na movimenta\u00e7\u00e3o da paisagem, em<br \/>\npoucas horas o observador cede \u00e0s fadigas de monotonia inatur\u00e1vel<br \/>\ne sente que o seu olhar, inexplic\u00e0velmente, se abrevia nos sem-fins<br \/>\ndaqueles horizontes vazios e indefinidos como o dos mares.<br \/>\n***<br \/>\nA impress\u00e3o dominante que tive, e talvez correspondente a uma verdade<br \/>\npositiva, \u00e9 esta: o homem, ali, \u00e9 ainda um intruso impertinente.<br \/>\nChegou sem ser esperado nem querido &#8211; quando a natureza ainda estava arrumando<br \/>\no seu mais vasto e luxuoso sal\u00e3o. E encontrou uma opulenta desordem&#8230;<br \/>\nOs mesmos rios ainda n\u00e3o se firmaram nos leitos; parecem tatear uma<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio derivando, divagantes, em meandros<br \/>\ninst\u00e1veis, contorcidos sem &#8220;sacados&#8221;, cujos istmos a reveses<br \/>\nse rompem e se soldam numa desesperadora forma\u00e7\u00e3o de ilhas e<br \/>\nde lagos de seis meses, e at\u00e9 criando formas topogr\u00e1ficas novas<br \/>\nem que \u00eastes dois aspectos se confundem; ou expandindo-se em &#8220;furos&#8221;<br \/>\nque se anastomosam, reticulados e de todo incaracter\u00edsticos, sem que<br \/>\nse saiba se tudo aquilo \u00e9 bem uma bacia fluvial ou um mar profusamente<br \/>\nretalhado de estreitos.<br \/>\nDepois de uma \u00fanica enchente se desmancham os trabalhos de um hidr\u00f3grafo.<br \/>\nA flora ostenta a mesma imperfeita grandeza. Nos meios-dias silenciosos &#8211;<br \/>\nporque as noites s\u00e3o fant\u00e0sticamente ruidosas -, quem segue<br \/>\npela mata, vai com a vista embotada no verde-negro das f\u00f4lhas; e ao<br \/>\ndeparar, de instante em instante, os fetos arborescentes emparelhando na altura<br \/>\ncom as palmeiras, e as \u00e1rvores de troncos reil\u00edneos e paup\u00e9rrimos<br \/>\nde fl\u00f4res, tem a sensa\u00e7\u00e3o angustiosa de um recuo \u00e0s<br \/>\nmais remotas idades, como se rompesse os recessos de uma daquelas mudas florestas<br \/>\ncarbon\u00edferas desvendadas pela vis\u00e3o retrospectiva dos ge\u00f3logos.<br \/>\nCompleta-a, ainda sob esta forma antiga, a fauna singular e monstruosa, onde<br \/>\nimperam, pela corpul\u00eancia, os anf\u00edbios, o que \u00e9 ainda<br \/>\numa impress\u00e3o paleoz\u00f3ica. E quem segue pelos longos rios, n\u00e3o<br \/>\nraro encontra as formas animais que existem, imperfeitamente, como tipos abstratos<br \/>\nou simples elos da escala evolutiva. A &#8220;cigana&#8221; desprez\u00edvel,<br \/>\npor ex., que se empoleira nos galhos flex\u00edveis das oiranas, trazendo<br \/>\nainda na asa de v\u00f4o curto a garra do r\u00e9ptil&#8230;<br \/>\nDestarte a natureza \u00e9 portentosa, mas incompleta. \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nestupenda a que falta t\u00f4da a decora\u00e7\u00e3o interior. Compreende-se<br \/>\nbem isto: a Amaz\u00f4nia \u00e9 talvez a terra mais nova do mundo, consoante<br \/>\nas conhecidas indu\u00e7\u00f5es de Wallace e Frederico Hartt. Nasceu<br \/>\nda \u00faltima convuls\u00e3o geog\u00eanica que sublevou os Andes, e<br \/>\nmal ultimou o seu processo evolutivo com as v\u00e1rzes quatern\u00e1rias<br \/>\nque se est\u00e3o formando e lhe preponderam na topografia inst\u00e1vel.<br \/>\nTem tudo e falta-lhe tudo, porque lhe falta \u00easse encadeamento de fen\u00f4menos<br \/>\ndesdobrados num ritmo vigoroso, de onde ressaltam, n\u00edtidas, as verdades<br \/>\nda arte e da ci\u00eancia &#8211; e que \u00e9 como que a grande l\u00f3gica<br \/>\ninconsciente das coisas.<br \/>\nDa\u00ed esta singularidade: \u00e9 de t\u00f4da a Am\u00e9rica a paragem<br \/>\nmais perlustrada dos s\u00e1bios e \u00e9 a menos conhecida. De Humboldt<br \/>\na Em. Goeldi &#8211; do alvorar do s\u00e9culo passado aos nossos dias, perquirem-na,<br \/>\nansiosos, todos os eleitos. Pois bem, l\u00eade-os. Vereis que nenhum deixou<br \/>\na calha principal do grande vale; e que ali mesmo cada um se acolheu, deslumbrado,<br \/>\nno recanto de uma especialidade. Wallace, Mawe, W. Edwards, d\u2019Orbigny,<br \/>\nMartius, Bates, Agassiz, para citar os que me acodem na primeira linha, reduziram-se<br \/>\na geniais escrevedores de monografias.<br \/>\nA literatura cient\u00edfica amaz\u00f4nica, ampl\u00edssima, reflete<br \/>\nbem a fisiografia amaz\u00f4nica: \u00e9 surpreendente, precios\u00edssima,<br \/>\ndesconexa. Quem quer que se abalance a deletre\u00e1-la, ficar\u00e1,<br \/>\nao cabo d\u00easse esfor\u00e7o, bem cpouco al\u00e9m do limiar de um<br \/>\nmundo maravilhoso.<br \/>\nH\u00e1 uma frase do Professor Frederico Hartt que delata bem o del\u00edquio<br \/>\ndos mais robustos esp\u00edritos diante daquela enormidade. \u00cale estudava<br \/>\na geologia do Amazonas quando em dado momento se encontrou t\u00e3o despeado<br \/>\ndas concisas f\u00f3rmulas cient\u00edficas e t\u00e3o alcandorado no<br \/>\nsonho, que teve de colh\u00ear, de s\u00fabito, t\u00f4das as velas \u00e0<br \/>\nfantasia:<br \/>\n&#8211; &#8220;N\u00e3o sou poeta. Falo a prosa da minha ci\u00eancia. Revenons!&#8221;<br \/>\nEscreveu; e encarrilhou-se nas dedu\u00e7\u00f5es rigorosas. Mas decorridas<br \/>\nduas p\u00e1ginas n\u00e3o se forrou a novos arrebatamentos e reincidiu<br \/>\nno enl\u00eavo&#8230; \u00c9 que o grande rio, malgrado a sua monotonia soberana,<br \/>\nevoca em tanta maneira o maravilhoso, que empolga por igual o cronista ing\u00eanuo,<br \/>\no aventureiro rom\u00e2ntico e o s\u00e1bio precavido. As &#8220;amazonas&#8221;<br \/>\nde Orellana, os tit\u00e2nicos curriquer\u00eas de Guillaume de L\u2019Isle<br \/>\ne a Mana del Dorado de Walter Raleigh, formando no passado um t\u00e3o deslumbrante<br \/>\nciclo quase mitol\u00f3gico, acolchetam-se em nossos dias \u00e0s mais<br \/>\nimaginosas hip\u00f3teses da ci\u00eancia. H\u00e1 uma hipertrofia da<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o no ajustar-se ao desconforme da terra, desequilibrando-se<br \/>\na mais s\u00f3lida mentalidade que lhe balanceie a grandeza. Da\u00ed,<br \/>\nno pr\u00f3prio terreno das indaga\u00e7\u00f5es objetivas, as vis\u00f5es<br \/>\nde Humboldt e a s\u00e9rie de conjeturas em que se retravam, ou contrastam,<br \/>\ntodos os conceitos, desde a din\u00e2mica de terremotos de Russell Wallace<br \/>\nao b\u00edblico formid\u00e1vel das galerias pr\u00e9-diluvianas de<br \/>\nAgassiz.<br \/>\nParece que ali a impon\u00eancia dos problemas implica o discurso vagaroso<br \/>\ndas an\u00e1lises: \u00e0s indu\u00e7\u00f5es avantajam-se demasiado<br \/>\nos lances da fantasia. As verdades desfecham em hip\u00e9rboles. E figura-se<br \/>\nalguma vez em idealizar aforrado o que ressai nos elementos tang\u00edveis<br \/>\nda realidade surpreendedora, por maneira que o sonhador mais desensofrido<br \/>\nse encontre bem na parceria dos s\u00e1bios deslumbrados.<br \/>\nVai-se, por ex., com Fred. Katzer a seriar, a escandir e aconfrontar velh\u00edssimos<br \/>\npetrefactos ou grapt\u00f3litos numa longa romaria ideal pelos mais remotos<br \/>\npontos nas mais remotas idades &#8211; largo tempo, a debater-se entre as classifica\u00e7\u00f5es<br \/>\nmaci\u00e7as, a enredar-se na trama das ra\u00edzes gregas das nomenclaturas<br \/>\nbravias &#8211; e de improviso, os dizeres da ci\u00eancia desfecham num quase<br \/>\nidealismo: as an\u00e1lises rematam-nas prod\u00edgios; as vistas abreviadas<br \/>\nnos microsc\u00f3pios desapertam-se no descortino de um passado muitas v\u00eazes<br \/>\nmilen\u00e1rio; e esbo\u00e7ados os contornos estupendos de uma geografia<br \/>\nmorta, alonga-se-lhe aos olhos a perspectiva indefinida daquele extinto oceano<br \/>\nm\u00e9dio-dev\u00f4nico que afogava todo o Mato Grosso e a Bol\u00edvia,<br \/>\ncobrindo quase t\u00f4da a Am\u00e9rica meridional e chofrando no levante<br \/>\nas antiq\u00fc\u00edssimas arribas de Goi\u00e1s, \u00faltimos litorais<br \/>\ndo continente brasilio-eti\u00f3pico que aterrava o Atl\u00e2ntico indo<br \/>\nabranger a \u00c1frica&#8230; Segue-se com os naturalistas da Comiss\u00e3o<br \/>\nMorgan, e a hist\u00f3ria geol\u00f3gica, a despeito de linhas mais seguras,<br \/>\nn\u00e3o perde o tra\u00e7o grandioso, desenvolvendo-se \u00e0s duas<br \/>\nmargens do largo canal terci\u00e1rio que por longo tempo separou os planaltos<br \/>\nbrasileiros e os das Guianas, at\u00e9 que o vagaroso sublevar dos Andes,<br \/>\nno Ocidente, serrando-lhe um dos extremos, o transmudasse em golfo, em estu\u00e1rio,<br \/>\nem rio.<br \/>\nAo cabo, ainda atendo-se aos fatos atuais da fisiografia amaz\u00f4nica,<br \/>\nrestam outros agentes n\u00edmio perturbadores da fria serenidade das observa\u00e7\u00f5es<br \/>\ncient\u00edficas.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Basta mostrar-se de relance que, ainda nos casos mais simples, h\u00e1<br \/>\nno Amazonas um flagrante desvio do processo ordin\u00e1rio da evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas formas topogr\u00e1ficas.<br \/>\nEm t\u00f4da a parte a terra \u00e9 um bloco onde se exercita a molduragem<br \/>\ndos agentes externos entre os quais os grandes rios se erigem como principais<br \/>\nfat\u00f4res, no lhe remodelarem os acidentes naturais, suavizando-lhos.<br \/>\nCompensando a degrada\u00e7\u00e3o das vertentes com o alteamento dos<br \/>\nvales, correndo montanhas e edificando planuras, \u00eales v\u00e3o em<br \/>\ngeral entrela\u00e7ando as a\u00e7\u00f2es destrutivas e reconstrutoras,<br \/>\nde modo que as paisagens, lento e lento transfiguradas, reflitam os efeitos<br \/>\nde uma estatu\u00e1ria portentosa.<br \/>\nAssim o Hoang-Ho aumentou a China com um delta, que \u00e9 uma prov\u00edncia<br \/>\nnova; e, ainda mais expressivo, o Mississipi assombra o naturalista, com a<br \/>\nexpans\u00e3o secular do at\u00earro desmedido que em breve chegar\u00e1<br \/>\n\u00e0s bordas da profundura onde se encaixa o Gulf-Stream. Nas suas \u00e1guas<br \/>\nbarrentas andam os continentes dissolvidos. Mudam-se pa\u00edses. Deconstituem-se<br \/>\nterrit\u00f3rios. E h\u00e1 um encadeamento t\u00e3o l\u00f3gico nos<br \/>\nseus esfor\u00e7os cont\u00ednuos, onde incidem as grandes energias naturais,<br \/>\nque o acompanh\u00e1-los implica algumas v\u00eazes o acompanhar-se o pr\u00f3prio<br \/>\nrumo de um aspecto qualquer da atividade humana: das p\u00e1ginas de Her\u00f4doto<br \/>\n\u00e0s de Masp\u00e9ro, contempla-se a g\u00eanese de uma civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde par com a de um delta; e o paralelismo \u00e9 t\u00e3o exato, que se<br \/>\njustificam os exageros dos que, a exemplo de Metchnikoff, v\u00eaem nos grandes<br \/>\nrios a causa preeminente do desenvolvimento das na\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAo passo que no Amazonas, o contr\u00e1rio. O que n\u00eale se destaca<br \/>\n\u00e9 a fun\u00e7\u00e3o destruidora, exclusiva. A enorme caudal est\u00e1<br \/>\ndestruindo a terra. O Professor Hartt, impressionado ante as suas \u00e1guas<br \/>\nsempre barrentas, calculou que &#8220;se s\u00f4bre uma linha f\u00e9rrea<br \/>\ncorresse dia e noite, sem parar, um trem cont\u00ednuo carregado de tijuco<br \/>\ne areias, esta enorme quantidade de materiais seria ainda menor do que a de<br \/>\nfato \u00e9 transportada pelas \u00e1guas&#8230;&#8221;<br \/>\nMas t\u00f4da esta massa de terras dilu\u00eddas n\u00e3o se regenera.<br \/>\nO maior dos rios n\u00e3o tem delta. A Ilha de Maraj\u00f3, constitu\u00edda<br \/>\npor uma flora seletiva, de vegetais afeitos ao meio marem\u00e1tico e ao<br \/>\ninconsistente da vasa, \u00e9 uma miragem de territ\u00f3rio. Se a despissem,<br \/>\nficariam s\u00f3 as superf\u00edcies rasadas dos &#8220;mondongos&#8221;<br \/>\nempantanados, apagando-se no nivelamento das \u00e1guas; ou, salteadamente,<br \/>\nalgumas pontas de fragueados de arenito endurecido, esparsas, a \u00easmo,<br \/>\nna amplid\u00e3o de uma ba\u00eda. \u00c0 luz das dedu\u00e7\u00f5es<br \/>\nrigorosas de Walter Bates, comprovando as conjeturas anteriores de Martius,<br \/>\no que ali est\u00e1 sob o disfarce das matas, \u00e9 uma ru\u00edna:<br \/>\nrestos desmantelados do continente, que outrora se estirava, unido, das costas<br \/>\nde Bel\u00e9m \u00e0s de Macap\u00e1 &#8211; e que se tem de restaurar, hipot\u00e8ticamente,<br \/>\nem passado long\u00ednquo, para explicar-se a identidade das faunas terrestres,<br \/>\nhoje separadas pelo rio, do Norte do Brasil e das Guianas.<br \/>\nO Amazonas, entretanto, poderia reconstru\u00ed-lo em pouco tempo, com os<br \/>\ns\u00f3 3.000.000 de metros c\u00fabicos de sedimentos, que carrega em<br \/>\nvinte e quatro horas. Mas dissipa-os. A sua corrente t\u00farbida, adensada<br \/>\nnos \u00faltimos lances de seu itiner\u00e1rio de 6.000 milhas, com os<br \/>\ndesmontes dos litorais, que dia a dia se desbarrancam, fazendo recuar a costa<br \/>\nque se desenrola desde o Paru ao Araguari, decanta-se t\u00f4da no Atl\u00e2ntico.<br \/>\nE os res\u00edduos das ilhas demolidas &#8211; entre as quais a de Caviana que<br \/>\nlhe foi antiga barragem e se bipartiu no correr de nossa vida hist\u00f3rica<br \/>\n&#8211; v\u00e3o cada vez mais delindo-se e desaparecendo, no permanente assalto<br \/>\ndaquelas correntezas poderosas. Destarte, desafoga-se mais e mais a desembocadura<br \/>\nprincipal da grande art\u00e9ria e acentua-se o seu desvio para o norte,<br \/>\ncom o abandono cont\u00ednuo das paragens que lhe demoram a leste e s\u00f4bre<br \/>\nas quais \u00eale passou outrora, deixando ainda, nas \u00e1reas rec\u00e9m-desvendadas<br \/>\ndos brejos marajoaras, um atestado tang\u00edvel daquele deslocamento lateral<br \/>\ndo leito, que tem dado aos ge\u00f3logos inexpertos a ilus\u00e3o de um<br \/>\nlevantamento ou de uma reconstru\u00e7\u00e3o da terra.<br \/>\nPorque, na realidade, esta se reconstitui mui longe das nossas plagas. Neste<br \/>\nponto, o rio, que s\u00f4bre todos desafia o nosso lirismo patri\u00f3tico,<br \/>\n\u00e9 o menos brasileiro dos rios. \u00c9 um estranho advers\u00e1rio,<br \/>\nentregue dia e noite \u00e0 faina de solapar a sua pr\u00f3pria terra.<br \/>\nHerbert Smith, iludido ante a poderosa massa de \u00e1guas barrentas, que<br \/>\no viajente v\u00ea em pleno Oceano antes de ver o Brasil, imaginou-lhe uma<br \/>\ntarefa portentosa: a constru\u00e7\u00e3o de um continente. Explicou:<br \/>\ndepondo-se aqu\u00eales sedimentos do fundo tranq\u00fcilo do Atl\u00e2ntico,<br \/>\nnovas terras aflorariam nas vagas e ao cabo de um esf\u00f4r\u00e7o milen\u00e1rio<br \/>\nencher-se-ia o golf\u00e3o aberto, que se arqueia do Cabo Orange \u00e0<br \/>\nPonta do Gurupi, dilatando-se desta sorte, consider\u00e0velmente, para<br \/>\nnordeste, as terras paraenses.<br \/>\nThe king is building his monument! bradou o naturalista encantado e acomodando<br \/>\n\u00e0s \u00e1speras s\u00edlabas brit\u00e2nicas um rapto fantasista<br \/>\ncapaz de surpreender \u00e0 mais ensofregada alma latina. Esqueceu-lhe,<br \/>\npor\u00e9m, que aqu\u00eale original\u00edssimo sistema hidrogr\u00e1fico<br \/>\nn\u00e3o acaba com a terra, ao transpor o Cabo Norte; sen\u00e3o que vai,<br \/>\nsem margens, pelo mar dentro, em busca da corrente equatorial, onde aflui,<br \/>\nentregando-lhe todo aqu\u00eale plasma gerador de territ\u00f3rio. Os seus<br \/>\nmateriais, distribu\u00eddos pelo imenso rio pel\u00e1sgico que se prolonga<br \/>\ncom o Gulf-Stream, v\u00e3o concentrando-se e surgindo a flux, espa\u00e7adamente,<br \/>\nnas mais long\u00ednquas zonas: a partir das costas das Guianas, cujas lagunas,<br \/>\na come\u00e7ar no Amap\u00e1, a mais e mais se dessecam avan\u00e7ando<br \/>\nem planuras de estepes pelo mar em fora, at\u00e9 aos litorais norte-americanos,<br \/>\nda Ge\u00f3rgia e das Carolinas, que se dilatam sem que lhes expliquem o<br \/>\ncrescer cont\u00ednuo os breves cursos d\u2019\u00e1gua das vertentes<br \/>\norientais dos Aleganis.<br \/>\nNaqueles lugares, o brasileiro salta: \u00e9 estrangeiro, e est\u00e1<br \/>\npisando em terras brasileiras. Antolha-se-lhe um contra-senso pasmoso: \u00e0<br \/>\nfic\u00e7\u00e3o de direito estabelecendo por v\u00eazes a extraterritorialidade,<br \/>\nque \u00e9 a p\u00e1tria sem a terra, contrap\u00f5e-se uma outra, rudemente<br \/>\nf\u00edsica: a terra sem a p\u00e1tria. \u00c9 o efeito maravilhoso<br \/>\nde uma esp\u00e9cie de imigra\u00e7\u00e3o tel\u00farica. A terra<br \/>\nabandona o homem. Vai em busca de outras latitudes. E o Amazonas, nesse construir<br \/>\no seu verdadeiro delta em zonas t\u00e3o remotas do outro hemisf\u00e9rio,<br \/>\ntraduz, de fato, a viagem inc\u00f3gnita de um territ\u00f3rio em marcha,<br \/>\nmudando-se pelos tempos adiante, sem parar um segundo, e tornando cada vez<br \/>\nmenores, num desgastamento ininterrupto, as largas superf\u00edcies que<br \/>\natravessa.<br \/>\nN\u00e3o se lhe apontam forma\u00e7\u00f5es duradouras, ou fixas. Por<br \/>\nv\u00eazes, nas arqueaduras de seus canais remansam-se as \u00e1guas fazendo<br \/>\nque se deponham os sedimentos conduzidos e as sementes que acarretam. Ent\u00e3o<br \/>\nas faculdades criadoras do rio despontam supreendedoramente. O baixio prestes<br \/>\nrec\u00e9m-formado e aflorando \u00e0 superf\u00edcie, delineia-se,<br \/>\nem contornos indecisos; define-se logo, vivamente; dilata-se e ascende, bombeando<br \/>\nlevemente nas \u00e1guas; e na ilha que se gera, crescendo e articulando-se<br \/>\na olhos vistos, apontoada de cabuchos, que se alongam e se retorcem \u00e0<br \/>\nsuperf\u00edcie \u00e0 maneira de tent\u00e1culos de um prodigioso organismo<br \/>\n&#8211; desencadeia-se para logo a luta das esp\u00e9cies vegetais t\u00e3o<br \/>\nviva e t\u00e3o dram\u00e1tica que nem lhe faltam no baralhamento dos<br \/>\ncolmos, das hastes ou das ramagens rev\u00f4ltas, estirando-se, enredando<br \/>\ne confundindo-se, todos os movimentos convulsivos de uma enorme batalha sem<br \/>\nru\u00eddos: dos aningais, que consolidam o tijuco inconsistente com a infibratura<br \/>\ndos risomas estirados; aos mangues, que os suplantam e repelem para as bordas,<br \/>\nem violentos e tumultu\u00e1rios bracejos; aos javaris altaneiros, que por<br \/>\nsua vez recalcam os \u00faltimos expelindo-os para as margens apauladas,<br \/>\ne senhoreando os tesos consistentes&#8230;<br \/>\nAssim se erigiu recentemente a Ilha de Cururu, com dois km&amp;sup2; de \u00e1rea;<br \/>\ne se reconstr\u00f3em t\u00f4das as que se observam acima dos canais de<br \/>\nBreves.<br \/>\nMas formam-se para se destru\u00edrem, ou desocarem-se incessantemente.<br \/>\nAs ilhas trabalhadas pelas mesmas correntes que as geraram, desbarrancam-se<br \/>\na montante e restauram-se a jusante, e v\u00e3o lento e lento derivando<br \/>\nrio abaixo, ao modo de monstruosos pont\u00f5es desmastreados, de longas<br \/>\nproas abatidas e p\u00f4pas altas, a navegarem dia e noite com velocidade<br \/>\ninsens\u00edvel. Por fim, desgastam-se e acabam. A de Urucurituba durou<br \/>\ndez anos (1840-1850) merc\u00ea da superf\u00edcie vast\u00edssima; e<br \/>\napagou-se numa enchente&#8230;<br \/>\nO mesmo fato, nas margens. Os litorais do Amazonas mal lhe definem a calha<br \/>\ndesmedida. S\u00e3o margens que evitam o rio. Ficam-lhe, normalmente, fora<br \/>\ndas \u00e1guas, para al\u00e9m das vastas planuras salpintadas de &#8220;lagos<br \/>\nde terra firme&#8221;, que atenuam, feito compensadores, a viol\u00eancia<br \/>\ndas caudais, nas cheias. A\u00ed, num cen\u00e1rio mais amplo, se desdobra<br \/>\npor v\u00eazes a apar\u00eancia de uma constru\u00e7\u00e3o, em larga<br \/>\nescala, de solo. O rio, mult\u00edfluo nas grandes enchentes, vinga as ribanceiras<br \/>\ne desafoga-se nos plainos desimpedidos. Desarra\u00edga florestas inteiras,<br \/>\natulhando de troncos e esgalhos as depress\u00f5es numerosas da v\u00e1rzes;<br \/>\ne nos remansos das plan\u00edcies inundadas, decantam-se-lhe as \u00e1guas<br \/>\ncarregadas de detritos, numa colmatagem plenamente generalizada. Baixam as<br \/>\n\u00e1guas e nota-se que o terreno cresceu; e alteia-se de cheia em cheia,<br \/>\naprumando-se as &#8220;barreiras&#8221; altas, exsicando-se os pantanais e &#8220;igap\u00f3s&#8221;,<br \/>\nesbo\u00e7ando-se os &#8220;firmes&#8221; ondeantes, para logo invadidos da<br \/>\nflora triunfal&#8230; at\u00e9 que num s\u00f3 assalto, de enchente, todo<br \/>\n\u00easse delta lateral se abata.<br \/>\nNuma s\u00f3 noite (29 de julho de 1866) as &#8220;terras ca\u00eddas&#8221;<br \/>\nda margem esquerda do Amazonas desmoronaram numa linha cont\u00ednua de<br \/>\ncinq\u00fcenta l\u00e9guas.<br \/>\n\u00c9 o processo antigo, invari\u00e1vel &#8211; patenteando-se ainda no diminuto<br \/>\nraio da nossa hist\u00f3ria. As ribanceiras a pique da antiga costa do Paru,<br \/>\nonde apareceram aos condut\u00edcios de Orellana as amazonas lend\u00e1rias,<br \/>\nreduzem-se hoje a um baixio degredado, vis\u00edvel apenas nas vazantes<br \/>\nexcessivas.<br \/>\nA inconst\u00e2ncia tumultu\u00e1ria do rio retrata-se ademais nas suas<br \/>\ncurvas infind\u00e1veis, desesperadoramente enleadas, recordando o roteiro<br \/>\nindeciso de um caminhante perdido, a esmar horizontes, volvendo-se a todos<br \/>\nos rumos ou arrojando-se \u00e0 ventura em repentinos atalhos. Assim \u00eale<br \/>\nse precipitou pela angustura afogante de \u00d3bidos num abandono completo<br \/>\ndo antigo leito, que ainda hoje se adivinha no enorme plaino marem\u00e1tico<br \/>\nganglionado de lagoas, de Vila Franca; ou vai, noutros pontos, em &#8220;furos&#8221;<br \/>\ninopinados, afluir nos seus grandes afluentes, tornando-se il\u00f2gicamente<br \/>\ntribut\u00e1rio dos pr\u00f3prios tribut\u00e1rios; sempre desordenado,<br \/>\ne rev\u00f4lto, e vacilante, destruindo e construindo, reconstruindo e devastando,<br \/>\napagando numa hora o que erigiu em dec\u00eanios &#8211; com a \u00e2nsia, com<br \/>\na tortura, com o exasp\u00earo de monstruoso artista incontent\u00e1vel<br \/>\na retocar, a refazer e a recome\u00e7ar perp\u00e8tuamente um quadro indefinido&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Tal \u00e9 o rio; tal, a sua hist\u00f3ria: rev\u00f4lta, desordenada,<br \/>\nincompleta.<br \/>\nA Amaz\u00f4nia selvagem sempre teve o dom de impressionar a civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndistante. Desde os primeiros tempos da col\u00f4nia, as mais imponentes expedi\u00e7\u00f5es<br \/>\ne solenes visitas pastorais rumavam de prefer\u00eancia \u00e0s suas plagas<br \/>\ndesconhecidas. Para l\u00e1 os mais vener\u00e1veis bispos, os mais garbosos<br \/>\ncapit\u00e3es-generais, os mais l\u00facidos cientistas. E do amanho do<br \/>\nsolo que se tentou afei\u00e7oar a ex\u00f3ticas especiarias, \u00e0<br \/>\ncultura do abor\u00edgine que se procurou erguer aos mais altos destinos,<br \/>\na Matr\u00f3pole long\u00ednqua demasiara-se em desvelos \u00e0 terra<br \/>\nque s\u00f4bre t\u00f4das lhe compensaria o perdimento da \u00cdndia portentosa.<br \/>\nEsfor\u00e7os v\u00e3os. As partidas demarcadoras, as miss\u00f5es apost\u00f3licas,<br \/>\nas viagens governamentais, com as suas frotas de centenares de canoas, e os<br \/>\nseus astr\u00f4nomos comiss\u00e1rios apercebidos de luxuosos instrumentos,<br \/>\ne os seus prelados, e os seus guerreiros, chegavam, intermitentemente, \u00e0queles<br \/>\nrinc\u00f5es solit\u00e1rios, e armavam r\u00e0pidamente no altiplano<br \/>\ndas &#8220;barreiras&#8221; as tendas suntuosas da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nem viagem. Regulavam as culturas; puliam as gentes; aformoseavam a terra.<br \/>\nProsseguiam a outros pontos, ou voltavam &#8211; e as malocas, num momento transfiguradas,<br \/>\ndeca\u00edam de ch\u00f4fre, volvendo \u00e0 bruteza original.<br \/>\nJ\u00e1 nos fins do s\u00e9culo XVIII, Alexandre Rodrigues Ferreira, ao<br \/>\nrealizar a sua &#8220;viagem filos\u00f3fica&#8221;, pela calha principal<br \/>\ndo grande rio, andara entre ru\u00ednas. Na Vila de Barcelos, capital da<br \/>\ncircunscri\u00e7\u00e3o long\u00ednqua, antolhara-se-lhe, tang\u00edvel,<br \/>\na imagem do progresso t\u00ecpicamente amaz\u00f4nico, naquele presuntuoso<br \/>\nPal\u00e1cio das Demarca\u00e7\u00f5es &#8211; ampl\u00edssimo, monumental,<br \/>\nimponente &#8211; e coberto de sap\u00e9! Era um s\u00edmbolo. Tudo vacilante,<br \/>\nef\u00eamero, antin\u00f4mico, na paragem estranha onde as pr\u00f3prias<br \/>\ncidades s\u00e3o errantes, como os homens, perp\u00e8tuamente a mudarem<br \/>\nde s\u00edtio, deslocando-se \u00e0 medida que o ch\u00e3o lhes foge<br \/>\nro\u00eddo das correntezas, ou tombando nas &#8220;terras ca\u00eddas&#8221;<br \/>\ndas barreiras&#8230;<br \/>\nVai-se de um a outro s\u00e9culo na inatur\u00e1vel mesmice de renitentes<br \/>\ntentativas abortadas. As impress\u00f5es dos mais l\u00facidos observadores<br \/>\nn\u00e3o se alteram, perp\u00e8tuamente desenflu\u00eddas pelo espet\u00e1culo<br \/>\nde um presente lastim\u00e1vel contraposto \u00e0 ilus\u00e3o de um<br \/>\npassado grandioso.<br \/>\nTenreiro Aranha em 1852, ao erigir-se a prov\u00edncia do Amazonas, assumiu<br \/>\na sua dire\u00e7\u00e3o, e numa resenha retrospectiva diz-nos do extraordin\u00e1rio<br \/>\nprogresso que se perdera, referindo-se a &#8220;manufaturas primorosas&#8221;,<br \/>\na uma ind\u00fastria extinta em que &#8220;o algod\u00e3o, o anil, a mandioca<br \/>\ne o caf\u00e9 tiveram cultura tal que dava para o consumo sobrando para<br \/>\na exporta\u00e7\u00e3o; e assim as f\u00e1bricas de anil, as cordoarias<br \/>\nde piassaba, de fia\u00e7\u00e3o, tecidos e r\u00eades de algod\u00e3o,<br \/>\nde palhinha ou de penas; as telhas e alvenaria; as de constru\u00e7\u00e3o<br \/>\ncivil e naval, com h\u00e1beis artistas, fazendo aparecer templos, pal\u00e1cios,<br \/>\nou possantes embarca\u00e7\u00f5es&#8230;&#8221;<br \/>\nRecua-se, por\u00e9m, exatamente um s\u00e9culo, a buscar o per\u00edodo<br \/>\ndecantado &#8211; e num grande desapontamento observa-se, \u00e0 luz do relat\u00f3rio<br \/>\nfeito em 1752 por outro insigne governador, o Capit\u00e3o-General Furtado<br \/>\nde Mendon\u00e7a, que a &#8220;capitania estava reduzida \u00e0 \u00faltima<br \/>\nru\u00edna&#8230;&#8221; Assim se desconchavam os pareceres, agitando id\u00eanticos<br \/>\ndes\u00e2nimos. Ou ent\u00e3o se harmonizavam de modo impressionador no<br \/>\nfirmarem a mesma decad\u00eancia das gentes singulares. Em 1762 o Bispo do<br \/>\nGr\u00e3o-Par\u00e1, aqu\u00eale extraordin\u00e1rio Fr. Jo\u00e3o<br \/>\nde S. Jos\u00e9 &#8211; ser\u00e1fico voltaireano que tinha no estilo os lampejos<br \/>\nda pena de Ant\u00f4nio Vieira &#8211; depois de resenhar os homens e as coisas,<br \/>\n&#8220;assentando que a ra\u00edz dos v\u00edcios da terra \u00e9 a pregui\u00e7a&#8221;,<br \/>\nresumiu os tra\u00e7os caracter\u00edsticos dos habitantes, d\u00easte<br \/>\nmodo desalentador: &#8211; &#8220;lasc\u00edvia, bebedice e furto.&#8221; Passam-se<br \/>\ncem anos justos. Procura-se saber se tudo aquilo melhorou; abrem-se as p\u00e1ginas<br \/>\nausteras de Russel Wallace, e v\u00ea-se que alguma vez elas parecem traduzir,<br \/>\nao p\u00e9 da letra, os dizeres do arguto beneditino, porque a sociedade<br \/>\nindisciplinada passa diante das vistas surpreendidas do s\u00e1bio &#8211; drinking,<br \/>\ngambling and lying &#8211; bebendo, dan\u00e7ando, zombando &#8211; na mesma doloros\u00edssima<br \/>\ninconsci\u00eancia da vida&#8230;<br \/>\nAssim, essa indiferen\u00e7a pecaminosa dos atributos superiores, \u00easse<br \/>\nsistem\u00e1tico renunciar de escr\u00fapulos e \u00easse cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nleve para o \u00earro, s\u00e3o seculares; e surgem de um doloroso tiroc\u00ednio<br \/>\nhist\u00f3rico, que vem da&#8221;Casa do Paric\u00e1&#8221; \u00e0 &#8220;barraca&#8221;<br \/>\ndos seringueiros. Compulsai os nossos velhos cronistas, com especialidade<br \/>\no imaginoso Padre Jo\u00e3o Daniel, e avaliareis o travamento de motivos<br \/>\nf\u00edsicos e morais que h\u00e1 muito, ali, entibiam os caracteres.<br \/>\nE l\u00eade Tenreiro Aranha, Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, dezenas de outros.<br \/>\nNestes livros se espalham, fracionadas, t\u00f4das as cenas de um dos maiores<br \/>\ndramas da impiedade na Hist\u00f3ria.<br \/>\nDepois h\u00e1 o incoerc\u00edvel da fatalidade f\u00edsica. Aquela<br \/>\nnatureza soberana e brutal, em pleno expandir das suas energias, \u00e9<br \/>\numa advers\u00e1ria do homem. No perp\u00e9tuo banho de vapor, de que<br \/>\nnos fala Bates, compreende-se sem d\u00favida a vida vegetativa sem riscos<br \/>\ne folgada, mas n\u00e3o a delicada vibra\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito<br \/>\nna din\u00e2mica das id\u00e9ias, nem a tens\u00e3o superior da vontade<br \/>\nnos atos que se alheiem dos impulsos meramente ego\u00edsticos. N\u00e3o<br \/>\nexagero. Um m\u00e9dico italiano &#8211; bel\u00edssimo talento &#8211; o Dr. Luigi<br \/>\nBuscalione, que por ali andou h\u00e1 pouco tempo, caracterizou as duas<br \/>\nprimeiras fases da influ\u00eancia climat\u00e9rica &#8211; s\u00f4bre o forasteiro<br \/>\n&#8211; a princ\u00edpio sob a forma de uma superexcita\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es<br \/>\nps\u00edquicas e sensuais, acompanhada, depois, de um lento enfraquecer-se<br \/>\nde t\u00f4das as faculdades, a come\u00e7ar pelas mais nobres&#8230;<br \/>\nMas neste apelar para o cl\u00e1ssico conceito da influ\u00eancia clim\u00e1tica<br \/>\nesqueceu-lhe, como a tantos outros, influxo porventura secund\u00e1rio,<br \/>\nmas apreci\u00e1vel, da pr\u00f3pria inconst\u00e2ncia da base f\u00edsica<br \/>\nonde se agita a sociedade.<br \/>\nA volubilidade do rio contagia o homem. No Amazonas, em geral, sucede isto:<br \/>\no observador errante que lhe percorre a bacia em busca de variados aspectos,<br \/>\nsente, ao cabo de centenares de milhas, a impress\u00e3o de circular num<br \/>\nitiner\u00e1rio fechado, onde se lhe deparam as mesmas praias ou barreiras<br \/>\nou ilhas, e as mesmas florestas e igap\u00f3s estirando-se a perder de vista<br \/>\npelos horizontes vacios; &#8211; o observador im\u00f3vel que lhe estacione \u00e0s<br \/>\nmargens, sobressalteia-se, intermitentemente, diante de transfigura\u00e7\u00f5es<br \/>\ninopinadas. Os cen\u00e1rios, invari\u00e1veis no espa\u00e7o, transmudam-se<br \/>\nno tempo. Diante do homem errante, a natureza \u00e9 est\u00e1vel; e aos<br \/>\nolhos do homem sedent\u00e1rio que planeie submet\u00ea-la \u00e0 estabilidade<br \/>\ndas culturas, aparece espantosamente rev\u00f4lta e vol\u00favel, surpreendendo-o,<br \/>\nassaltando-o por v\u00eazes, quase sempre afugentando-o e espavorindo-o.<br \/>\nA adapta\u00e7\u00e3o exercita-se pelo nomadismo.<br \/>\nDa\u00ed, em grande parte, a paralisia completa das gentes que ali vagam,<br \/>\nh\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos, numa agita\u00e7\u00e3o tumultu\u00e1ria<br \/>\ne est\u00e9ril.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Como quer que seja, para a Amaz\u00f4nia de agora devera restaurar-se integralmente,<br \/>\nna defini\u00e7\u00e3o da sua psicologia coletiva, o mesmo doloroso apotegma<br \/>\n&#8211; ultra equinotialem non peccavi &#8211; que Barlaeus engenhou para os desmandos<br \/>\nda \u00e9poca colonial.<br \/>\nOs mesmos amazonenses, espirituosamente, o perceberam. \u00c0 entrada de<br \/>\nManaus existe a bel\u00edssima Ilha de Marapat\u00e1 &#8211; e essa ilha tem<br \/>\numa fun\u00e7\u00e3o alarmante. \u00c9 o mais original dos lazaretos<br \/>\n&#8211; um lazareto de almas! Ali, dizem, o rec\u00e9m-vindo deixa a consci\u00eancia&#8230;<br \/>\nMe\u00e7a-se o alcance d\u00easte prod\u00edgio da fantasia popular.<br \/>\nA ilha que existe fronteira \u00e0 b\u00f4ca do Purus, perdeu o antigo<br \/>\nnome geogr\u00e1fico e chama-se &#8220;Ilha da Consci\u00eancia&#8221;; e<br \/>\no mesmo acontece a uma outra, semelhante, na foz do Juru\u00e1. \u00c9<br \/>\numa preocupa\u00e7\u00e3o: o homem, ao penetrar as duas portas que levam<br \/>\nao para\u00edso diab\u00f3lico dos seringais, abdica \u00e0s melhores<br \/>\nqualidades nativas e fulmina-se a si pr\u00f3prio, a rir, com aquela ironia<br \/>\nformid\u00e1vel.<br \/>\n\u00c9 que, realmente, nas paragens exuberantes das heveas e castilloas,<br \/>\no aguarda a mais criminosa organiza\u00e7\u00e3o do trabalho que ainda<br \/>\nengenhou o mais desa\u00e7amado ego\u00edsmo.<br \/>\nDe feito, o seringueiro &#8211; e n\u00e3o designamos o patr\u00e3o opulento,<br \/>\nsen\u00e3o o fregu\u00eas jungido \u00e0 gleba das &#8220;estradas&#8221;<br \/>\n-, o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: \u00e9 o homem que trabalha<br \/>\npara escravizar-se.<br \/>\nDemonstra-se esta enormidade precitando-a com alguns cifr\u00f5es secamente<br \/>\npositivos e seguros.<br \/>\nV\u00eade esta conta de venda de um homem:<br \/>\nNo pr\u00f3prio dia em que parte do Cear\u00e1, o seringueiro principia<br \/>\na dever: deve a passagem de proa at\u00e9 ao Par\u00e1 (35$000), e o dinheiro<br \/>\nque recebeu para preparar-se (150$000). Depois vem a import\u00e2ncia do<br \/>\ntransporte, num &#8220;gaiola&#8221; qualquer de Bel\u00e9m ao barrac\u00e3o<br \/>\nlong\u00ednquo a que se destina, e que \u00e9, na m\u00e9dia, de 150$000.<br \/>\nAditem-se c\u00earca de 800$000 para os seguintes utens\u00edlios invari\u00e1veis:<br \/>\num boi\u00e3o de furo, uma bacia, mil tigelinhas, uma machadinha de ferro,<br \/>\num machado, um ter\u00e7ado, um refle (carabina Winchester) e duzentas balas,<br \/>\ndois pratos, duas colheres, duas x\u00edcaras, duas panelas, uma cafeteira,<br \/>\ndois carret\u00e9is de linha e um agulheiro. Nada mais. A\u00ed temos<br \/>\no nosso homem no &#8220;barrac\u00e3o&#8221; senhoril, antes de seguir para<br \/>\na barraca, no centro, que o patr\u00e3o lhe designar\u00e1. Ainda \u00e9<br \/>\num &#8220;brabo&#8221;, isto \u00e9, ainda n\u00e3o aprendeu o &#8220;corte<br \/>\nda madeira&#8221; e j\u00e1 deve 1:135$000. Segue para o p\u00f4sto solit\u00e1rio<br \/>\nencal\u00e7ado de um comboio levando-lhe a bagagem e v\u00edveres, rigorosamente<br \/>\nmarcados, que lhe bastem para tr\u00eas meses: 3 paneiros de farinha de \u00e1gua,<br \/>\n1 saco de feij\u00e3o, outro, pequeno, de sal, 20 quilos de arroz, 30 de<br \/>\nxarque, 21 de caf\u00e9, 30 de a\u00e7\u00facar, 6 latas de banha, 8<br \/>\nlibras de fumo e 20 gramas de quinino. Tudo isto lhe custa c\u00earca de<br \/>\n750$000. Ainda n\u00e3o deu um talho de machadinha, ainda \u00e9 o &#8220;brabo&#8221;<br \/>\ncanhestro, de quem chasqueia o &#8220;manso&#8221; experimentado, e j\u00e1<br \/>\ntem o compromisso s\u00e9rio de 2:090$000.<br \/>\nAdmitamos agora uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis,<br \/>\nque jamais concorrem: a) que seja solteiro; b) que chegue \u00e0 barraca<br \/>\nem maio, quando come\u00e7a o &#8220;corte&#8221;; c) que n\u00e3o adoe\u00e7a<br \/>\ne seja conduzido ao barrac\u00e3o, subordinado a uma despesa de 10$000 di\u00e1rios;<br \/>\nd) que nada compre al\u00e9m daqueles v\u00edveres &#8211; e que seja s\u00f3brio,<br \/>\ntenaz, incorrupt\u00edvel; um est\u00f3ico firmemente lan\u00e7ado no<br \/>\ncaminho da fortuna arrostando uma penit\u00eancia dolorosa e longa. Vamos<br \/>\nal\u00e9m &#8211; admitamos que, malgrado a sua inexperi\u00eancia, consiga tirar<br \/>\nlogo 350 quilos de borracha fina e 100 de sernambi, por ano, o que \u00e9<br \/>\ndif\u00edcil, ao menos no Purus.<br \/>\nPois bem, ultimada a safra, \u00easte tenaz, \u00easte est\u00f3ico, \u00easte<br \/>\nindiv\u00edduo raro ali, ainda deve. O patr\u00e3o \u00e9, conforme<br \/>\no contrato mais geral, quem lhe diz o pre\u00e7o da fazenda e lhe escritura<br \/>\nas contas. Os 350 quilos remunerados hoje a 5$000 rendem-lhe 1:750$000; os<br \/>\n100 de sernambi, a 2$500, 250$000. Total 2:000$000.<br \/>\n\u00c9 ainda devedor e raro deixa de o ser. No ano seguinte j\u00e1 \u00e9<br \/>\n&#8220;manso&#8221;: conhece os segredos do servi\u00e7o e pode tirar de 600<br \/>\na 700 quilos. Mas considere-se que permaneceu inativo durante todo o per\u00edodo<br \/>\nda enchente, de novembro a maio _ sete meses em que a simples subsist\u00eancia<br \/>\nlhe acarreta um excesso superior ao duplo do que trouxe em v\u00edveres,<br \/>\nou seja, em n\u00fameros redondos, 1:500$000 &#8211; admitindo-se ainda que n\u00e3o<br \/>\nprecise renovar uma s\u00f3 pe\u00e7a de ferramenta ou de roupa e que<br \/>\nn\u00e3o teve a mais passageira enfermidade. \u00c9 evidente que, mesmo<br \/>\nn\u00easte caso especial\u00edssimo, raro \u00e9 o seringueiro capaz<br \/>\nde emancipar-se pela fortuna.<br \/>\nAgora v\u00eade o quadro real. Aqu\u00eale tipo de lutador \u00e9 excepcional.<br \/>\nO homem de ordin\u00e1rio leva \u00e0queles lugares a imprevid\u00eancia<br \/>\ncaracter\u00edstica da nossa ra\u00e7a; muitas v\u00eazes carrega a fam\u00edlia,<br \/>\nque lhe multiplica os encargos; e quase sempre adoece, merc\u00ea da incontin\u00eancia<br \/>\ngeneralizada.<br \/>\nAdicionai a isto o desastroso contrato unilateral, que lhe imp\u00f5e o<br \/>\npatr\u00e3o. Os &#8220;regulamentos&#8221; dos seringais s\u00e3o a \u00easte<br \/>\nprop\u00f3sito dolorosamente expressivos. Lendo-os, v\u00ea-se o renascer<br \/>\nde um feudalismo acalcanhado e bronco. O patr\u00e3o inflex\u00edvel decreta,<br \/>\nnum emperramento gramatical estupendo, coisas assombrosas.<\/p>\n<p>Por exemplo: a pesada multa de 100$000 comina-se a \u00eastes crimes abomin\u00e1veis:<br \/>\na) \u2018fazer na \u00e1rvore um corte inferior ao gume do machado&#8221;;<br \/>\nb) &#8220;levantar o tampo da madeira na ocasi\u00e3o de ser cortada&#8221;;<br \/>\nc) &#8220;sangrar com machacinhas de cabo maior de quatro palmos&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto o trabalhador s\u00f3 pode comprar no armaz\u00e9m<br \/>\ndo barrac\u00e3o, &#8220;n\u00e3o podendo comprar a qualquer outro, sob<br \/>\npena de passar pela multa de 50% s\u00f4bre a import\u00e2ncia comprada&#8221;.<br \/>\nFarpeiem-se de aspas \u00eastes dizeres brutos. Ante \u00eales \u00e9<br \/>\nquase harmoniosa a gagueira terr\u00edvel de Caliban.<br \/>\n\u00c9 natural que ao fim de alguns anos o &#8220;fregu\u00eas&#8221; esteja<br \/>\nirremedi\u00e0velmente perdido. A sua d\u00edvida avulta amea\u00e7adoramente:<br \/>\ntr\u00eas, quatro, cinco, dez contos, \u00e0s v\u00eazes, que n\u00e3o<br \/>\npagar\u00e1 nunca. Queda, ent\u00e3o, na m\u00f3rbida impassibilidade<br \/>\nde um fel\u00e1 desprotegido dobrando t\u00f4da a cerviz \u00e0 servid\u00e3o<br \/>\ncompleta. O &#8220;regulamento&#8221; \u00e9 impiedoso: &#8220;Qualquer &#8220;fregu\u00eas&#8221;<br \/>\nou &#8220;aviado&#8221; n\u00e3o poder\u00e1 retirar-se sem que liq\u00fcide<br \/>\nt\u00f4das as suas transa\u00e7\u00f5es comerciais&#8230;&#8221; Fugir? Nem<br \/>\ncuida em tal. Aterra-o o desmarcado da dist\u00e2ncia a percorrer. Buscar<br \/>\noutro barrac\u00e3o? H\u00e1 entre os patr\u00f5es ac\u00f4rdo de n\u00e3o<br \/>\naceitarem, uns os empregados de outros, antes de saldadas as d\u00edvidas,<br \/>\ne ainda h\u00e1 pouco tempo houve no Acre numerosa reuni\u00e3o para sistematizar-se<br \/>\nessa alian\u00e7a, criando-se pesadas multas aos patr\u00f5es recalcitrantes.<br \/>\nAgora, dizei-me, que resta, no fim de um q\u00fcinq\u00fc\u00eanio, do aventuroso<br \/>\nsertanejo que demanda aquelas paragens, ferretoado da \u00e2nsia de riquezas?<br \/>\nN\u00e3o o ligam sequer \u00e0 terra. Um artigo do famoso &#8220;regulamento&#8221;<br \/>\ntorna-o eterno h\u00f3spede dentro da pr\u00f3pria casa. Citemo-lo com<br \/>\ntodo o brutesco de sua express\u00e3o imbecil e feroz: &#8220;T\u00f4das<br \/>\nas benfeitorias que o liq\u00fcidado tiver feito nesta propriedade perder\u00e1<br \/>\ntotalmente o direito uma vez que retire-se.&#8221;<br \/>\nDa\u00ed o quadro doloroso que patenteiam, de ordin\u00e1rio, as pequenas<br \/>\nbarracas. O viajante procura-as e mal descobre, entre as sororocas, a estreit\u00edssima<br \/>\ntrilha que conduz \u00e0 vivenda, meio afogada no mato. \u00c9 que o morador<br \/>\nn\u00e3o despende o mais ligeiro esf\u00f4r\u00e7o em melhorar o s\u00edtio<br \/>\nde onde pode ser expelido em uma hora, sem direito \u00e0 reclama\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais breve.<br \/>\nEsta resenha comportaria alguns exemplos bem dolorosos. F\u00f4ra in\u00fatil<br \/>\napont\u00e1-los. Dela ressalta impressionadoramente a urg\u00eancia de<br \/>\nmedidas que salvem a sociedade obscura e abandonada: uma lei do trabalho que<br \/>\nnobilite o esf\u00f4r\u00e7o do homem; uma justi\u00e7a austera que lhe<br \/>\ncerceie os desmandos; e uma forma qualquer do homestead que o consorcie definitivamente<br \/>\n\u00e0 terra.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Rios em Abandono<\/h2>\n<p>O ge\u00f3grafo norte-americano Morris Davis revelou o &#8220;ciclo vital&#8221;<br \/>\ndos rios. Era uma concep\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria; e n\u00e3o<br \/>\nhouve cientista jungido \u00e0 enfezada geografia descritiva, dominante<br \/>\nainda entre n\u00f3s, que se n\u00e3o escandalizasse ante o conceito desassombrado<br \/>\ndo yankee. Mas o antagonismo foi passageiro e fr\u00e1gil. Uma simples monografia,<br \/>\nRivers and Valleys of Pennsylvania, deslocou, de golpe, desde 1889, t\u00f4da<br \/>\na fortaleza inerte da rotina; e firmou um n\u00f4vo rumo ao crit\u00e9rio<br \/>\ngeogr\u00e1fico, n\u00e3o j\u00e1 apenas pelo associar \u00e0 forma<br \/>\na estrutura dos terrenos, completando os facies inexpressivos das superf\u00edcies<br \/>\ncom os elementos geol\u00f3gicos, sen\u00e3o tamb\u00e9m esclarecendo<br \/>\na g\u00eanese dos mais breves acidentes e descobrindo nas linhas pinturescas<br \/>\nda m\u00f3vel fisionomia da terra a express\u00e3o eloq\u00fcente das<br \/>\nenergias naturais que a modelaram e sem cessar a transfiguram. Por fim ningu\u00e9m<br \/>\nmais estranhou que Morris Davis, impelido aos \u00faltimos corol\u00e1rios<br \/>\nda nova doutrina, se abalan\u00e7asse a uma esp\u00e9cie de fisiologia<br \/>\nmonstruosa e descrevesse dram\u00e0ticamente as complexas vicissitudes da<br \/>\nexist\u00eancia milen\u00e1ria dos fartos cursos de \u00e1guas, mostrando-no-los<br \/>\ncom uma inf\u00e2ncia irrequieta, uma adolesc\u00eancia rev\u00f4lta, uma<br \/>\nvirilidade equilibrada e uma velhice ou uma decrepitude melanc\u00f3lica,<br \/>\ncomo se \u00eales f\u00f4ssem estupendos organismos sujeitos \u00e0 concorr\u00eancia<br \/>\ne \u00e0 sele\u00e7\u00e3o, destinados ao triunfo, ou ao aniquilamento,<br \/>\nconsoante mais ou menos se adaptam \u00e0s condi\u00e7\u00f5es exteriores.<br \/>\nN\u00e3o acompanharemos o genial bi\u00f3grafo dos rios pensilv\u00e2nicos<br \/>\nno explanar a teoria admir\u00e1vel, que \u00e9 o caso impressionador<br \/>\nde uma entrada triunfante &#8211; ou de uma rush atrevida &#8211; da imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da fantasia nos remansos da ci\u00eancia. Baasta-nos notar que ela foi<br \/>\naceita em t\u00f4da a linha e \u00e9 infrang\u00edvel, esteando-se em<br \/>\ndados indutivos e seguros.<br \/>\nT\u00f4das as caudais, de feito, atravessam per\u00edodos inevit\u00e1veis,<br \/>\nde ritmos uniformes e constantes, malgrado a variabilidade do teatro em que<br \/>\nse operam: a princ\u00edpio indecisas, errantes e fr\u00e1geis, derivando<br \/>\nao acaso, ao vi\u00e9s dos pendores, como \u00e0 procura de um ber\u00e7o<br \/>\nem cada dobra do ch\u00e3o, e acumulando-se nos numerosos lagos, incoerentemente<br \/>\nesparsos, onde repousam; depois, definidas nas primeiras linhas de drenagem<br \/>\nmais est\u00e1veis e fundas para onde convergem, adensadas, as chuvas, formando-se<br \/>\no aparelho das correntes, reprofundando-se os leitos esbo\u00e7ados e iniciando-se<br \/>\ncom a energia tumultu\u00e1ria das cachoeiras o choque secular com as asperezas<br \/>\nda terra, longo tempo; at\u00e9 que, extintos os empe\u00e7os estruturais,<br \/>\nestabelecido um leito e definido um tra\u00e7ado, o rio se constitua, com<br \/>\nos seus afluentes fixos, um declive cont\u00ednuo em curvaturas regulares,<br \/>\num talvegue ajustado \u00e0 contextura do solo e \u00e0 diferencia\u00e7\u00e3o<br \/>\nmorfol\u00f3gica que lhe reflete a um tempo os seus v\u00e1rios est\u00e1dios<br \/>\n&#8211; das cabeceiras onde perduram as \u00e1guas selvagens do antigo regime<br \/>\ntorrencial, ao curso m\u00e9dio que lhe caracteriza a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\npresente, e ao trecho inferior, prefigurando-lhe a decrepitude, onde \u00eale<br \/>\nse espraia repousadamente e constr\u00f3i pela colmatagem das vasas que<br \/>\nacarreta com velocidade insens\u00edvel, a pr\u00f3pria plan\u00edcie<br \/>\naluvial em que descansa.<br \/>\n\u00c9 a fase de madureza. O rio est\u00e1 na plenitude da vida, depois<br \/>\nda molduragem complexa de todos os relevos. Atinge-a rematando um esf\u00f4r\u00e7o<br \/>\npertinaz, que \u00e9 por v\u00eazes t\u00f4da a hist\u00f3ria geol\u00f3gica<br \/>\nda regi\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o houve um ponto em todo o percurso de centenares ou de milhares<br \/>\nde quil\u00f4metros que \u00eale n\u00e3o atacasse, um gr\u00e3o de<br \/>\nareia que n\u00e3o removesse, balanceando as escava\u00e7\u00f5es a<br \/>\nmontante com os aterros a jusante &#8211; construindo-se a si mesmo &#8211; obediente<br \/>\n\u00e0 tend\u00eancia universal para as situa\u00e7\u00f5es est\u00e1veis.<br \/>\nAdquiriu, por fim, o seu perfil longitudinal de equil\u00edbrio, e \u00easte,<br \/>\nainda abrupto nas vertentes, onde a correnteza \u00e9 m\u00e1xima e o<br \/>\nvolume m\u00ednimo, vem cont\u00ecnuamente amortecendo-se, em sucessivo<br \/>\ndecair de declive, at\u00e9 ao quase horizontalismo no n\u00edvel de base,<br \/>\nda foz, onde aqu\u00eales elementos se invertem, resultando o equil\u00edbrio<br \/>\ndin\u00e2mico do sistema da rela\u00e7\u00e3o inversa entre as massas<br \/>\nliq\u00fcidas e as velocidades que se arrastam.<br \/>\nComo quer que seja, desde que alcan\u00e7a \u00easte per\u00edodo, todos<br \/>\nos elementos do seu talvegue, projetados em plano vertical, desenham-se com<br \/>\na forma aproximada de um ramo de desmedida par\u00e1bola, de concavidade<br \/>\nvolvida para as alturas.<br \/>\nAssim se traduz geom\u00e8tricamente um fato mec\u00e2nico complexo. E<br \/>\nbem que a tend\u00eancia para aquela figura seja em geral perturbada ou extinta<br \/>\nnas camadas de resist\u00eancia vari\u00e1vel, onde as rochas desvendadas<br \/>\noriginam o antagonismo das cachoeiras, \u00e9 ineg\u00e1vel que a curva<br \/>\nparab\u00f3lica se delineia nos terrenos homog\u00eaneos como sendo a forma<br \/>\ndefinitiva da sec\u00e7\u00e3o longitudinal de todos os rios no remate<br \/>\nde suas vicissitudes evolutivas.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O Purus \u00e9 um dos melhores exemplos.<br \/>\nDesenhando-se-lhe o perfil em t\u00f4da a extens\u00e3o itiner\u00e1ria<br \/>\nde 3210 quil\u00f4metros que vai da embocadura no Solim\u00f5es aos \u00faltimos<br \/>\nmanadeiros do Ribeir\u00e3o Pucani, na serrania deprimida e sem nome que<br \/>\nsepara as maiores bacias hidrogr\u00e1ficas da Terra, chega-se muito aproximadamente<br \/>\n\u00e0quele ramo de par\u00e1bola.<br \/>\nPelo menos nenhuma outra curva o definir\u00e1 melhor.<br \/>\nDemonstra-o \u00easte quadro onde os v\u00e1rios trechos se sucedem de<br \/>\nmodo a acompanhar-se em todo o seu percurso a queda regular\u00edssima das<br \/>\n\u00e1guas:<\/p>\n<p>SEC\u00c7\u00d5ES Dist\u00e2ncias Diferen\u00e7as Declividade Declive<\/p>\n<p>itiner\u00e1rias de n\u00edvel geral quilom\u00e9trico<br \/>\n(Km) (metros) (metros)<br \/>\nDas nascentes ao Curiuja 117 189 1\/619 1,60<br \/>\nDo Curiuja a Curanja 278 60 1\/4500 0,22<br \/>\nDe curanja \u00e0 foz do Chandless 304 49 1\/6500 0,16<br \/>\nDo Chandless \u00e0 foz do Iaco 300 39 1\/7700 0,13<br \/>\nDo Iaco ao Acre 237 27 1\/8700 0,115<br \/>\nDo Acre ao Pani 233 20 1\/11000 0,085<br \/>\nDo Pani ao Mucu\u00edm 740 58 1\/12900 0,077<br \/>\nDo Mucu\u00edm ao Solim\u00f5es 990 15 1\/66700 0,015<\/p>\n<p>A\u00ed s\u00f3 h\u00e1 um dado vacilante: o que resulta da diferen\u00e7a<br \/>\nde n\u00edvel nos pontos extremos do \u00faltimo trecho. Deduzimo-lo adotando<br \/>\num m\u00ednimo de 18 metros para altura da foz do Purus, s\u00f4bre o n\u00edvel<br \/>\ndo mar, quando ela \u00e9 certamente maior e mais favor\u00e1vel, portanto,<br \/>\n\u00e0s nossas conclus\u00f5es. Os demais elementos, devemo-los aos trabalhos<br \/>\nde William Chandless e \u00e0s nossas observa\u00e7\u00f5es recentes.<br \/>\nOra, ao mais r\u00e1pido lance de vistas, e sem que se exija um desenho<br \/>\nfac\u00edlimo, verifica-se que o grande rio, atravessando um terreno homog\u00eaneo<br \/>\ne mais ou menos imperme\u00e1vel, subordinado a um declive que, apesar de<br \/>\ndiminuto, \u00e9 dominante na vasta planura, onde as chuvas se distribuem<br \/>\ncom regularidade incompar\u00e1vel &#8211; \u00e9 dos que mais se adaptam \u00e0s<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas indicadas por Morris Davis; e no ultimar<br \/>\na sua evolu\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica retrata-se admir\u00e0velmente<br \/>\nna par\u00e1bola majestosa de que tratamos h\u00e1 pouco.<br \/>\nNo estudar o seu regime geral vamos, portanto, com a firmeza de quem discute<br \/>\na equa\u00e7\u00e3o de uma curva.<br \/>\nAssim, considerando o primeiro trecho, aquela declividade de 1,60m por quil\u00f4metro,<br \/>\nt\u00e3o diversa da que se lhe sucede, de 0,22m, diz-nos para logo, dispensando<br \/>\no exame local, que o verdadeiro Alto-Purus &#8211; demarcado oficialmente a partir<br \/>\nda b\u00f4ca do Acre, e estendido por alguns ge\u00f3grafos ainda mais<br \/>\npara jusante &#8211; principia de fato muito al\u00e9m, a 3079 quil\u00f4metros<br \/>\nda foz, na conflu\u00eancia do Cujar e do Curiuja, os dois tribut\u00e1rios<br \/>\nem que \u00eale se reparte numa dicotomia perfeita, perdendo o nome e esgalhando-se<br \/>\nlargamente fracionado pelos mais remotos pontos da sua vasta bacia de capta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor outro lado, o declive real de mal se aproxima da conhecida rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nfirmada como o limite m\u00ednimo das vertentes torrenciais.<br \/>\nConclui-se, ent\u00e3o, de pronto, que o rio, at\u00e9 no seu \u00faltimo<br \/>\nsegmento, onde \u00e9 sempre mais dif\u00edcil e remorada a regulariza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos leitos, est\u00e1 numa fase avan\u00e7ad\u00edssima de desenvolvimento.<br \/>\n\u00c9 o caso excepcional de uma grande art\u00e9ria, entre as maiores<br \/>\nexistentes, capaz de ser navegada nas mais extremas nascentes, durante as<br \/>\ncheias que lhe encubram os numerosos degraus das corredeiras &#8211; porque em tal<br \/>\nquadra, admitindo que as \u00e1guas subam de tr\u00eas metros numa calha<br \/>\nde dez, com aqu\u00eale declive, que corresponde a 0,0015m por metro, o simples<br \/>\nempr\u00eago da f\u00f3rmula de D\u2019Aubuisson, nos diz que as corrrentes<br \/>\nderivar\u00e3o com a velocidade m\u00e1xima de apenas 2,20m, f\u00e0cilmente<br \/>\nbalanceada por uma lancha veloz.<br \/>\nOra, estas dedu\u00e7\u00f5es resultantes de breve contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um quadro t\u00e3o expressivo que dispensa o diagrama correspondente,<br \/>\nressaltam, vivamente, \u00e0s mais incuriosas vistas de observador escoteiro,<br \/>\nque ali passe depois de varar a planura amaz\u00f4nica num itiner\u00e1rio<br \/>\nde quinhentas l\u00e9guas.<br \/>\nDe fato, o que sobremaneira o impressiona \u00e9 o espet\u00e1culo da<br \/>\nterra profundamente trabalhada pelo indefinido e incomensur\u00e1vel esf\u00f4r\u00e7o<br \/>\ndos formadores do rio. Chega, depois de trilhar o canyon coleante do Pucani,<br \/>\nao sop\u00e9 das \u00faltimas vertentes; defronta a clivosa escarpa de<br \/>\numa corda insignificante de cerros deprimidos; vinga-lhe em tr\u00eas minutos<br \/>\na altura relativa de sessenta metros escassos &#8211; e n\u00e3o acredita que<br \/>\nesteja na fronteira hidrogr\u00e1fica mais extraordin\u00e1ria do globo,<br \/>\npodendo ir de uma passada \u00fanica do Vale do Amazonas ao Vale do Ucai\u00e1li&#8230;<br \/>\nA altura em que se v\u00ea n\u00e3o lhe basta a desapertar os horizontes,<br \/>\nou a atalaiar as dist\u00e2ncias. \u00c9 inapreci\u00e1vel. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 abrang\u00ea-la com a escala mais favor\u00e1vel dos mapas. E<br \/>\nsem d\u00favida jamais compreenderia t\u00e3o indeciso divortium aquarum<br \/>\na t\u00e3o opulentas art\u00e9rias, se ao buscar aqu\u00eales rinc\u00f5es,<br \/>\nvarando, ao arrepio das itaipavas, por dentro das calhas reprofundadas do<br \/>\nCujar, do Cavaljane e do Pucani, o observador se n\u00e3o habituasse a contemplar,<br \/>\nlongos dias, os mais en\u00e9rgicos efeitos da din\u00e2mica poderosa das<br \/>\n\u00e1guas que transmudaram a paragem outrora mais em rel\u00eavo e dominante.<br \/>\nN\u00e3o lhe importa a in\u00f3pia de conhecimentos paleontol\u00f3gicos<br \/>\nou a car\u00eancia de f\u00f3sseis norteadores. Est\u00e1, evidentemente,<br \/>\ns\u00f4bre a ruinaria de uma subleva\u00e7\u00e3o quase extinta, cujo<br \/>\nsinclinal \u00eale p\u00f4de reconstruir, prolongando as linhas dos estratos<br \/>\nque afloram nos sulcos onde se encaixam aqu\u00eales \u00faltimos tribut\u00e1rios,<br \/>\ndenunciando todos na tranq\u00fcilidade relativa, quase remansados nos intervalos<br \/>\nde suas corredeiras (restos de velh\u00edssimas catadupas destru\u00eddas),<br \/>\na derradeira fase de uma luta em que o Purus, para alongar a sua se\u00e7\u00e3o<br \/>\nde estabilidade, teve que derruir montanhas. Pelo menos a atividade erosiva<br \/>\ne o volume de materiais arrebatados de todos aqu\u00eales pendores, foram<br \/>\nincalcul\u00e1veis, para que as linhas de drenagem se abatessem at\u00e9<br \/>\naos substrato rochoso e declinasse, como vimos, aos graus apropriados aos<br \/>\ncursos naveg\u00e1veis.<br \/>\nApesar disto, a transi\u00e7\u00e3o para o trecho seguinte ainda \u00e9<br \/>\nrepentina. Passa-se da declividade quilom\u00e9trica de 4,60m, para a de<br \/>\n0,22m.<br \/>\nMas \u00e9 o \u00fanico salto. Da\u00ed por diante, como o revela o<br \/>\nquadro anterior, at\u00e9 ao \u00faltimo segmento extremado pela foz,<br \/>\nonde para descer-se um metro se tem de caminhar 66,700, a atenua\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos declives prossegue com uma regularidade perfeita, incluindo o Purus entre<br \/>\nas caudais de todo regularizadas, cujo &#8220;ciclo vital&#8221; progressivo<br \/>\nvai cerrrando-se.<br \/>\nN\u00e3o aprofunda mais o leito. Os pr\u00f3prios afloramentos de gr\u00e9s<br \/>\n(Parasandstein) aparecendo nas vazantes, dispersos entre Huitana\u00e3 e<br \/>\na embocadura do Acre, e dali para cima ainda mais raros at\u00e9 pouco al\u00e9m<br \/>\ndo Iaco, refor\u00e7am a afirmativa, bem que na apar\u00eancia a invalidem.<br \/>\nRestos de antigas corredeiras desmanteladas surgem como testemunhos das eros\u00f5es<br \/>\nprimitivas e n\u00e3o provocam, em geral, o m\u00ednimo desnivelamento.<br \/>\nO pequeno povoado da Cachoeira, que se erige defrontando um trecho tranq\u00fcilo<br \/>\ndo rio, tem o mais impr\u00f3prio dos nomes, expressivo apenas no recordar<br \/>\num acidente perdido em remoto passado geol\u00f3gico e do qual perduram<br \/>\napenas alguns blocos desordenadamente acumulados em min\u00fasculos recifes,<br \/>\ne breves &#8220;travess\u00f5es&#8221;. Ali, como nos outros trechos, o mesmo<br \/>\nquadro da terra estirando-se, complanada, pelos quadrantes, ou docemente ondulada<br \/>\ndenunciando a mais completa molduragem, associa-se aos demais caracteres no<br \/>\nsugerir a derradeira fase do processo evolutivo do vale.<br \/>\nUm elemento apenas falta: a regularidade na sucess\u00e3o das curvas de<br \/>\nn\u00edvel das vertentes imediatas \u00e0s margens, que se fronteiam.<br \/>\nQualquer se\u00e7\u00e3o transversal do Purus representa as mais das v\u00eazes<br \/>\numa praia deprimida que mal se alteia vagarosamente at\u00e9 ao rebordo<br \/>\nlong\u00ednquo da plan\u00edcie pouco elevada, contraposta a uma barranca<br \/>\ndespenhada, como a da margem oposta \u00e0 b\u00f4ca do Chandless, ou caindo<br \/>\n\u00e0s v\u00eazes a prumo, feito uma muralha, como na situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nadmir\u00e1vel do Catai.<br \/>\n\u00c9 que \u00e0 imutabilidade daquele perfil de equil\u00edbrio se<br \/>\nantep\u00f5es a variabilidade da sua planta, em escala capaz de justificar<br \/>\nos que o incluem entre os rios &#8220;cujos leitos e margens n\u00e3o est\u00e3o<br \/>\nsequer delineados em seus perfis de estrutura definida a assente&#8221;.<br \/>\nRealmente, o Purus, um dos mais tortuosos cursos d\u2019\u00e1gua que se<br \/>\nregistram, \u00e9 tamb\u00e9m dos que mais variam de leito. Divaga, consoante<br \/>\no dizer dos modernos ge\u00f3grafos. A pr\u00f3pria velocidade diminuta,<br \/>\nque adquiriu e vai decrescendo sempre at\u00e9 ao quase rebalsamento, nas<br \/>\ncercanias da foz, aliada \u00e0 inconsist\u00eancia dos terrenos aluvianos,<br \/>\nformados por \u00eale mesmo com os materiais conduzidos das nascentes, determina-lhe<br \/>\n\u00easte car\u00e1ter vol\u00favel. \u00c0s suas \u00e1guas, derivando<br \/>\nem correntezas fracas, falta a quantidade de movimento necess\u00e1ria \u00e0s<br \/>\ndire\u00e7\u00f5es intorc\u00edveis. O m\u00ednimo obst\u00e1culo<br \/>\ndesloca-as. Um tronco de sama\u00fama que tombe de uma das margens, abarreirando-se<br \/>\nligeiramente, desvia o empuxo da massa l\u00edq\u00fcida contra a outra,<br \/>\nonde de pronto se exercita, menos em virtude da f\u00f4r\u00e7a viva da<br \/>\ncorrente que da incoer\u00eancia das terras, intens\u00edssima eros\u00e3o<br \/>\nde efeitos precipitados.<br \/>\nA indecisa arqueadura, que logo se forma, circularmente, se acentua, e, \u00e0<br \/>\nmedida que aumenta, vai tornando mais violentos os ataques da componente centr\u00edfuga<br \/>\nda correnteza que lhe solapa a concavidade crescente, fazendo que em poucos<br \/>\nanos todo o rio se afaste, lateralmente, do primitivo rumo. Mas como \u00easte<br \/>\nse tra\u00e7ou adscrito aos pontos determinantes de um perfil de equil\u00edbrio<br \/>\ninviol\u00e1vel, aqu\u00eale desvio nunca \u00e9 uma bifurca\u00e7\u00e3o,<br \/>\nou definitiva mudan\u00e7a. O rio, depois de rasgar o amplo c\u00edrculo<br \/>\nde eros\u00e3o, procura volver ao antigo canal, como quem contorneou apenas<br \/>\num obst\u00e1culo encontrado em caminho.<br \/>\nO c\u00edrculo por onde \u00eale se alonga tende a fechar-se. De sorte<br \/>\nque t\u00f4da a \u00e1rea de terrenos abrangidos se transmuda em verdadeira<br \/>\npen\u00edncula, ligada por um istmo t\u00e3o delgado, \u00e0s v\u00eazes,<br \/>\nque o caminhante o atravessa em minutos, enquanto gasta um dia inteiro de<br \/>\nviagem, embarcado, para perlongar o cont\u00f4rno da terra quase insulada.<br \/>\nPor fim esta se destaca, ilhando-se de todo. No sobrevir de uma enchente o<br \/>\nPurus despeda\u00e7a a fr\u00e1gil barreira do istmo; e retoma, de golpe,<br \/>\no primitivo curso, deixando \u00e0 margem, a relembrar o desvio por onde<br \/>\ndivagou, um lago anular, n\u00e3o raro ampl\u00edssimo. Prossegue. Reproduz<br \/>\nadiante outros meandros caprichosos, completados sempre pela cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos mesmos lagos, ou &#8220;sacados&#8221;. E assim vai &#8211; perp\u00e8tuamente<br \/>\noscilante aos lados de seu eixo invari\u00e1vel &#8211; num ritmo perfeito, refletindo<br \/>\no jogar de leis mec\u00e2nicas capazes de se sintetizarem numa f\u00f3rmula,<br \/>\nque seria a tradu\u00e7\u00e3o anal\u00edtica de curioso movimento pendular<br \/>\ns\u00f4bre um plano de n\u00edvel.<br \/>\nDesta maneira, ali se resolve naturalmente um dos mais s\u00e9rios problemas<br \/>\nde hidr\u00e1ulica fluvial. De fato, aqu\u00eales lagos s\u00e3o verdadeiros<br \/>\ndiques, funcionando com um duplo efeito: de um lado impedem as inunda\u00e7\u00f5es<br \/>\ndevastadoras, absorvendo os excessos das cheias transbordantes; de outro lado,<br \/>\nregulam o regime das \u00e1guas, durante as grandes estiagens, em que se<br \/>\nabrem por si mesmos, autom\u00e0ticamente, &#8220;estourando&#8221;, para<br \/>\nusar uma express\u00e3o local, e restituindo ao rio empobrecido da vazante<br \/>\nparte das massas l\u00edq\u00fcidas que economizaram.<br \/>\nN\u00e3o se calcula o valor d\u00eastes trabalhos colossais da natureza.<br \/>\nRevela-no-los bem um confronto expressivo. Os hidr\u00e1ulicos franceses<br \/>\nque averbaram em 1856, como pormenor inveross\u00edmil, uma subida de 10,90m,<br \/>\ndas \u00e1guas do Garona, originando uma das inunda\u00e7\u00f5es mais<br \/>\nfunestas que t\u00eam ocorrido na Europa, &#8211; certo n\u00e3o compreenderiam<br \/>\na pr\u00f3pria exist\u00eancia do vasto territ\u00f3rio amaz\u00f4nico<br \/>\nconvizinho ao Purus (que vale c\u00earca de cinq\u00fcenta Garonas cheios)<br \/>\nse soubessem que \u00eale se alteia 15 metros na foz, onde tem uma milha<br \/>\nde largo, e que dali a montante as \u00e1guas tufam num crescendo espantoso<br \/>\nat\u00e9 23 metros s\u00f4bre as estiagens, na conflu\u00eancia do Acre.<br \/>\nNo entanto estas enchentes s\u00e3o in\u00f3cuas.<br \/>\nA massa l\u00edq\u00fcida, inflada logo \u00e0s primeiras chuvas, sobe,<br \/>\ngalgando velozmente as barrancas, e em poucos dias vai bater nos esteios dos<br \/>\nbarrac\u00f5es eretos nos &#8220;firmes&#8221; mais altos do terreno&#8230; e<br \/>\ntodo \u00easte dil\u00favio em marcha n\u00e3o acachoa, n\u00e3o tumultua,<br \/>\nn\u00e3o se arremessa em correntezas vertiginosas, n\u00e3o enleia as<br \/>\nembarca\u00e7\u00f5es torcendo-as nas espirais vibrantes dos remoinhos<br \/>\ne n\u00e3o devasta a terra. Difunde-se; extingue-se silenciosamente; perde-se<br \/>\ninofensivo naqueles milhares de v\u00e1lvulas de seguran\u00e7a; e espraiando-se,<br \/>\nraso, pelo ch\u00e3o das matas, ou espalmando-se, desafogadamente, em desmarcadas<br \/>\nsuperf\u00edcies onde repontam, salteadas, as \u00faltimas ramas floridas<br \/>\ndos igap\u00f3s afogados, vai, ao contr\u00e1rio, regenerando aquela mesma<br \/>\nterra, e reconstruindo-a porque a torna de ano em ano mais elevada com a colmatagem<br \/>\nperfeita de t\u00f4da a vasa que acarreta.<br \/>\nAssim, em t\u00f4da aquela planura, o not\u00e1vel afluente amaz\u00f4nico,<br \/>\nserpenteando nas inumer\u00e1veis sinuosas que lhe tornam as dist\u00e2ncias<br \/>\nitiner\u00e1rias duplas das geogr\u00e1ficas, inclui-se entre os mais<br \/>\ninteressantes &#8220;rios trabalhadores&#8221;, construindo os diques submers\u00edveis<br \/>\nque o aliviam nas enchentes &#8211; e lhe repontam, intermitentemente \u00e0s<br \/>\nduas bandas, ora pr\u00f3ximos, ora afastados, salpintando t\u00f4das as<br \/>\nv\u00e1rzeas ribeirinhas, e avultando maiores e mais numerosos \u00e0<br \/>\nmedida que se desce, e se amortecem os declives, at\u00e9 a larga baixada<br \/>\ncentralizada em Canutama onde as grandes \u00e1guas tranq\u00fcilas derivam<br \/>\nmajestosamente, equilibradas, sulcando de meio a meio a vastid\u00e3o de<br \/>\nn\u00edvel de um mediterr\u00e2neo esparso.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas esta forma\u00e7\u00e3o de lagos ou reservat\u00f3rios naturais,<br \/>\ncuja fun\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica vimos de relance, acarreta inconvenientes<br \/>\nde tal porte, que tornam, por v\u00eazes, em alguns pontos, quase impenetr\u00e1vel<br \/>\numa art\u00e9ria fluvial que pelos elementos privilegiados de seu perfil<br \/>\nconcorre com as mais acess\u00edveis \u00e0 navega\u00e7\u00e3o regular.<br \/>\nRealmente nesse afanoso derruir de barrancas, para torcer-se em seus incont\u00e1veis<br \/>\nmeandros, o Purus entope-se com as ra\u00edzes e troncos das \u00e1rvores<br \/>\nque o marginam.<br \/>\n\u00c0s v\u00eazes \u00e9 um lan\u00e7o unido, de quil\u00f4metros,<br \/>\nde &#8220;barreira&#8221;, que lhe cai de uma vez e de s\u00fabito em cima,<br \/>\natirando-lhe, desarraigada, s\u00f4bre o leito, uma floresta inteira.<br \/>\nO fato \u00e9 vulgar\u00edssimo. Conhecem-no todos os que por ali andam.<br \/>\nN\u00e3o raro o viajante, \u00e0 noite, desperta sacudido por uma vibra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde terremoto, e aturde-se apavorado ouvindo logo ap\u00f3s o fragor indescrit\u00edvel<br \/>\nde mir\u00edades de frondes, de troncos, de galhos, entrebatendo-se, rangendo,<br \/>\nestalando e caindo todos a um tempo, num baque surdo e prolongado, lembrando<br \/>\no assalto fulminante de um cataclismo e um desabamento da terra.<br \/>\nS\u00e3o, de fato, &#8220;as terras ca\u00eddas&#8221;, das quais resultam<br \/>\nsempre duas sortes de obst\u00e1culos: de um lado o inextric\u00e1vel<br \/>\nacervo de galhadas e troncos, que se entrecruzam \u00e0 superf\u00edcie<br \/>\nd\u2019\u00e1gua, ou irrompem em pontas amea\u00e7adoras, do fundo; e<br \/>\nde outro as massas argilosas, ou argilo-arenosas que a corrente pouco veloz<br \/>\nn\u00e3o dissolve, permitindo-lhes acumularem-se nas min\u00fasculas ilhotas<br \/>\ndos &#8220;torr\u00f5es&#8221;, ou, mais prejudiciais, nos rasos bancos compactos<br \/>\ndos &#8220;sal\u00f5es&#8221;, impropriando a passagem aos mais diminutos<br \/>\ncalados.<br \/>\nN\u00e3o precisamos insistir neste fato.<br \/>\nA sua gravidade \u00e9 intuitiva. E considerando-se que \u00eale se reproduz<br \/>\nem t\u00f4da a extens\u00e3o de 480 quil\u00f4metros, que vai da embocadura<br \/>\nao Iaco \u00e0 do Curiuja, onde se acumulam cada vez mais aqu\u00eales<br \/>\nentraves, indefinidamente crescentes, chega-se a concluir que o Purus, depois<br \/>\nde haver conseguido um dos mais regulares perfis de t\u00f4da a hidrografia<br \/>\ne de aparelhar-se com os melhores elementos predispostos a uma rara fixidez<br \/>\nde regime, erigindo-se mod\u00ealo admir\u00e1vel entre as caudais mais<br \/>\nbem talhadas \u00e0 grande navega\u00e7\u00e3o &#8211; est\u00e1, agora,<br \/>\na pouco e pouco perdendo a maior parte dos seus resquisitos superiores, com<br \/>\no progredir de um atravancamento em larga escala, que o tornar\u00e1 mais<br \/>\ntarde inteiramente impenetr\u00e1vel.<br \/>\nDizemo-lo baseando-nos em penosa experi\u00eancia culminada por um naufr\u00e1gio.<br \/>\nSobretudo al\u00e9m da embocadura do Chandless, multiplicam-se tanto \u00eastes<br \/>\nempecilhos de todo estranhos \u00e0 &#8220;tect\u00f4nica&#8221; especial<br \/>\ndo rio, que em longos &#8220;estir\u00f5es&#8221;, com a profundidade m\u00e9dia<br \/>\nde cinco a seis p\u00e9s, nas vazantes, onde passariam carregadas as mais<br \/>\npoderosas lanchas, mal pode deslizar uma montaria ligeira. Escusamo-nos de<br \/>\nexemplificar alongando estas considera\u00e7\u00f5es ligeiras. Notemos<br \/>\napenas que a partir do tribut\u00e1rio precitado at\u00e9 a bifurca\u00e7\u00e3o<br \/>\nCujar-Curiuja, o Purus em v\u00e1rios lugares parece correr por cima de<br \/>\numa antiga derrubada. Vai-se como entre os galhos estonados e revoltos de<br \/>\numa floresta morta. E se observarmos que, al\u00e9m dos empe\u00e7os em<br \/>\nsi mesmas encerrados, estas tranqueiras, rebalsando as \u00e1guas que se<br \/>\nfiltram entre os ramos unidos, facilitam a forma\u00e7\u00e3o de t\u00f4da<br \/>\na sorte de baixios, compreender-se-\u00e1 em t\u00f4da a sua latitude o<br \/>\nprogredimento cont\u00ednuo dessa obstru\u00e7\u00e3o prejudicial\u00edssima.<br \/>\nPorque os homens que ali mourejam &#8211; o caucheiro peruano com as suas tanganas<br \/>\nrijas, nas montarias velozes, o nosso seringueiro, com os varej\u00f5es<br \/>\nque lhe impulsionam as ub\u00e1s, ou o regat\u00e3o de t\u00f4das as<br \/>\np\u00e1trias que por ali mercadeja nas ronceiras alvarengas arrastadas \u00e0<br \/>\nsirga &#8211; nunca interv\u00eam para melhorar a sua \u00fanica e magn\u00edfica<br \/>\nestrada; passam e repassam nas paragens perigosas; esbarram mil v\u00eazes<br \/>\na canoa num tronco ca\u00eddo h\u00e1 dez anos junto \u00e0 beira de<br \/>\num canal; insinuam-se mil v\u00eazes com as maiores dificuldades numa ramagem<br \/>\nrev\u00f4lta barrando-lhes de lado a lado o caminho, encalham e arrastam<br \/>\npenosamente as canoas s\u00f4bre os mesmos &#8220;sal\u00f5es&#8221; de argila<br \/>\nendurecida; v\u00eazes sem conta arriscam-se ao naufr\u00e1gio, precipitando,<br \/>\nao som das \u00e1guas, as ub\u00e1s contra as pontas dur\u00edssimas<br \/>\ndos troncos que se enristam invis\u00edveis, submersos de um palmo &#8211; mas<br \/>\nn\u00e3o despendem o m\u00ednimo esf\u00f4r\u00e7o e n\u00e3o despedem<br \/>\num golpe \u00fanico de fac\u00e3o ou de machado num s\u00f3 daqueles<br \/>\npaus, para desafogar a travessia.<br \/>\nAs lanchas, e at\u00e9 os vapores, que ali v\u00e3o aparecendo mais a<br \/>\nmi\u00fado, \u00e0 medida que avultam as safras dos cento e vinte opulentos<br \/>\nseringais que j\u00e1 se abriram acima da conflu\u00eancia do Iaco, viajam,<br \/>\ninvari\u00e0velmente, nas quadras favor\u00e1veis das cheias, quando aqu\u00eales<br \/>\nentraves se afogam em alguns metros de fundo.<br \/>\nSobem, velozes, o rio; descarregam, precipitadamente, em v\u00e1rios pontos<br \/>\nas mercadorias consignadas; carregam-se de borracha; e tornam logo, prec\u00edpites,<br \/>\n\u00e1guas abaixo, fugindo. Apesar disto, algumas n\u00e3o se forram a<br \/>\nrepentinas descidas de n\u00edvel, prendendo-as. E l\u00e1 se ficam, longos<br \/>\nmeses &#8211; esperando a outra enchente, ou o inesperado de um &#8220;repiquete&#8221;<br \/>\nprop\u00edcio, invernando paradoxalmente sob as soalheiras caniculares &#8211;<br \/>\nnas mais curiosas situa\u00e7\u00f5es: ora em pleno rio, agarradas pelos<br \/>\ncentenares de bra\u00e7os das \u00e1rvores s\u00eacas, que as imobilizam;<br \/>\nora a meio da barranca, onde as surpreendeu a vazante, grosseiramente especadas,<br \/>\nencombentes, com as proas afocinhando, inclinadas, em riscos permanentes de<br \/>\nqueda; ora no alto de uma barreira, como aut\u00eanticos navios-fantasmas,<br \/>\naparecendo, de improviso e surpreendedoramente, em plena entrada da mata majestosa.<br \/>\nO contraste desta navega\u00e7\u00e3o com as admir\u00e1veis condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nt\u00e9cnicas imanentes ao rio \u00e9 flagrante. O Purus &#8211; e como \u00eale<br \/>\ntodos os tribut\u00e1rios meridionais do Amazonas, \u00e0 parte o Madeira<br \/>\n&#8211; est\u00e1 inteiramente abandonado.<br \/>\nEntretanto o simples enunciado d\u00eastes inconvenientes, evidentemente<br \/>\nalheios \u00e0s suas admir\u00e1veis condi\u00f5es estruturais, delata<br \/>\nque a remo\u00e7\u00e3o d\u00eales, embora demorada, n\u00e3o demanda<br \/>\ntrabalhos excepcionais de engenharia e excepcionais disp\u00eandios.<br \/>\nO que resta fazer, ao homem, \u00e9 rudimentar e simples.<br \/>\nOs grandes, os s\u00e9rios problemas de hidr\u00e1ulica fluvial que ali<br \/>\nhouve, resolveu-os o pr\u00f3prio rio agindo no j\u00f4go harmonioso das<br \/>\nfor\u00e7as naturais que o modelaram.<br \/>\nE \u00eales representam um trabalho incalcul\u00e1vel. O Purus \u00e9<br \/>\numa das maiores d\u00e1divas entre tantas com que nos esmaga uma natureza<br \/>\nescandalosamente perdul\u00e1ria.<br \/>\nVejamo-lo, de relance.<br \/>\nT\u00f4da a hidr\u00e1ulica fluvial parece ter nascido entre os leitos<br \/>\ndo Garona e do Loire, tais e tantos os monumentos que ali levantou a engenharia<br \/>\nfrancesa. Nunca o homem arremeteu com tamanha pertin\u00e1cia o brilho com<br \/>\na brutalidade dos elementos. Os romanos transfigurando a Arg\u00e9lia e<br \/>\nos holand\u00eases construindo a Holanda, emparelham-se bem com os abnegados<br \/>\nprofissionais que durante um s\u00e9culo, impass\u00edveis ante sucessivos<br \/>\nreveses, se devotaram \u00e0 empr\u00easa exaustiva de paralisar torrentes,<br \/>\nde atenuar inunda\u00e7\u00f5es e de encadear avalanchas, na dupla tentativa<br \/>\nde facilitar a navega\u00e7\u00e3o e de proteger os territ\u00f3rios<br \/>\nribeirinhos.. E todo \u00easse magn\u00edfico esf\u00f4r\u00e7o em que<br \/>\nse imortalizaram Deschamps, Dieulafoy e Belgrand, resuktou em grande parte<br \/>\nin\u00fatil. In\u00fatil ou contraproducente. Os primores da engenharia<br \/>\nestragaram o Loire.<br \/>\nOs diques submers\u00edveis ou insubmers\u00edveis destinados a salvarem<br \/>\nas povoa\u00e7\u00f5es, os canais de socorro que se lhes anexavam, as<br \/>\nmargens artificiais ladeando em dezenas de quil\u00f4metros o leito menor<br \/>\ndas caudais, os enrocamentos antepostos \u00e0s eros\u00f5es, as barragens<br \/>\nantepostas \u00e0s correntezas &#8211; tinham em geral a dura\u00e7\u00e3o<br \/>\nef\u00eamera dos seis meses da estiagem, tal a inconst\u00e2ncia irrepar\u00e1vel<br \/>\ndaquelas art\u00e9rias.<br \/>\nPor fim engenharam-se estupendos reservat\u00f3rios alcandorados nos Pireneus,<br \/>\nescalonando-se por todos os pendores, para armazenar as inunda\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE armazenavam cat\u00e1strofes &#8211; rompendo-se-ljes os muros, de onde saltavvam<br \/>\nas ondas despenhadas varrendo povoados inteiros&#8230;<br \/>\nMas ainda quando estas ruturas dos reservat\u00f3rios compensadores n\u00e3o<br \/>\nformassem os epis\u00f3dios mais dram\u00e1ticos da hist\u00f3ria da<br \/>\nengenharia, e \u00eales pudessem erigir-se est\u00e1veis e sem riscos,<br \/>\nn\u00f3s, quaisquer que f\u00f4ssem os nossos esfor\u00e7os e os nossos<br \/>\ndisp\u00eandios, jamais os construir\u00edamos como no-los construiu o<br \/>\nPurus.<br \/>\nConsidere-se, para isto, \u00easte exemplo. Duponchel, para dar ao Neste<br \/>\n&#8211; um pequeno rio com a despesa m\u00e9dia de 25 metros c\u00fabicos &#8211;<br \/>\num mod\u00ealo constante, que lhe amortecesse as inunda\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncalculou um reservat\u00f3rio de 300.000.000.000 de litros e recuou antte<br \/>\no algarismo colossal.<br \/>\nOra, o Neste \u00e9 tr\u00eas v\u00eazes menor que o Iaco, que, entretanto,<br \/>\nn\u00e3o se inclui entre os maiores afluentes do Purus.<br \/>\nDiante d\u00eastes dados formid\u00e1veis p\u00f5e-se de manifesto que<br \/>\na constru\u00e7\u00e3o de reservat\u00f3rios compensadores no grande<br \/>\nrio seria o mesmo que fazer um mar; e conclui-se que os existentes, numeros\u00edssimos,<br \/>\n\u00e0s suas margens, representam um capital inestim\u00e1vel e acima<br \/>\ndos mais ousados or\u00e7amentos.<br \/>\nPrecisamos ao menos conserv\u00e1-lo. Aproveitemos uma li\u00e7\u00e3o<br \/>\nvelha de um s\u00e9culo. O Mississipi, que no seu curso inferior retrata<br \/>\no tra\u00e7ado do Purus com a exa\u00e7\u00e3o de um decalque, era,<br \/>\npelas mesmas causas, ainda mais in\u00e7ado de empecilhos, tornando-o quase<br \/>\nimpenetr\u00e1vel e em muitos lugares de todo intranspon\u00edvel. Alguns<br \/>\ndos seus tribut\u00e1rios n\u00e3o estavam apenas trancados: desapareciam,<br \/>\nliteralmente, sob os abatises.<br \/>\nNo entanto o grande rio, hoje transfigurado, desenha-se como um dos tra\u00e7os<br \/>\nmais vivos da pertin\u00e1cia norte-americana.<br \/>\nL\u00e1 est\u00e1, por\u00e9m, no seu vale, em um de seus afluentes,<br \/>\no Rio Vermelho, um caso desalentador. \u00c9 um rio perdido. O yankee descobriu-o<br \/>\ntarde demais. A desmedida tranqueira, the great raft, exatamente formada como<br \/>\nas que est\u00e3o formando-se no Purus, estira o labirinto de seus madeiros<br \/>\ne das suas frondes mortas por 630 quil\u00f4metros &#8211; e l\u00e1 est\u00e1,<br \/>\nindestrut\u00edvel, depois de desafiar durante vinte e dois anos os maiores<br \/>\nesfor\u00e7os para uma desobstru\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel.<br \/>\nEstabelecida a propor\u00e7\u00e3o entre aqu\u00eale rio min\u00fasculo<br \/>\ne o Purus, entre n\u00f3s e os norte-americanos, aquilatam-se as dificuldades<br \/>\nque nos aguardar\u00e3o, se progredirem os obst\u00e1culos apontados,<br \/>\ne cuja remo\u00e7\u00e3o atual, completando-se com a defesa, embora rudimentar,<br \/>\ndas margens mais amea\u00e7adas pelas eros\u00f5es, \u00e9 ainda de<br \/>\nrelativa facilidade. Ao mesmo passo se atenuar\u00e3o consider\u00e0velmente<br \/>\nas &#8220;divaga\u00e7\u00f5es&#8221; precitadas, que constituem verdadeira<br \/>\nanomalia num rio aparelhado de um perfil de estabilidade demonstr\u00e1vel<br \/>\nat\u00e9 geom\u00e8tricamente, como vimos.<br \/>\nDe qualquer modo urge iniciar-se desde j\u00e1 modest\u00edssimo, mais<br \/>\nininterrupto, passando de gov\u00earno a gov\u00earno, numa tentativa persistente<br \/>\ne inquebrant\u00e1vel, que seja uma esp\u00e9cie de compromisso de honra<br \/>\ncom o futuro, um servi\u00e7o organizado de melhoramentos, pequeno embora<br \/>\nem com\u00ea\u00e7o, mas crescente com os nossos recursos &#8211; que nos salve<br \/>\no majestoso rio.<br \/>\nVon den Stein, com a agudeza irrivaliz\u00e1vel de seu belo esp\u00edrito,<br \/>\ncomparou, algures, pinturescamente, o Xingu a um &#8220;enteado&#8221; da nossa<br \/>\ngeografia.<br \/>\nEstiremos o paralelo.<br \/>\nO Purus \u00e9 um enjeitado.<br \/>\nPrecisamos incorpor\u00e1-lo ao nosso progresso, do qual \u00eale ser\u00e1,<br \/>\nao cabo, um dos maiores fat\u00f4res, porque \u00e9 pelo seu leito desmedido<br \/>\nem fora que se tra\u00e7a, nestes dias, uma das mais arrojadas linhas da<br \/>\nnossa expans\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Um clima caluniado<\/h2>\n<p>Na defini\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica das circunscri\u00e7\u00f5es<br \/>\nterritoriais criadas pelo Tratado de Petr\u00f3polis tem-se inclu\u00eddo<br \/>\nsempre um elemento curios\u00edssimo, ante o qual o psic\u00f3logo mais<br \/>\nrombo suplanta a compet\u00eancia do Professor Hann, ou qualquer outro mestre<br \/>\nem coisas meteorol\u00f3gicas: o desfafflecimento moral dos que para l\u00e1<br \/>\nseguem e levam desde o dia da partida a preocupa\u00e7\u00e3o absorvente<br \/>\nda volta no mais breve prazo poss\u00edvel. Cria-se uma nova sorte de exilados<br \/>\n&#8211; o exilado que pede o ex\u00edlio, lutando por v\u00eazes para o conseguir,<br \/>\nrepelindo outros concorrentes, ao mesmo passo que vai adensando na fantasia<br \/>\nalarmada as mais lutuosas imagens no prefigurar o para\u00edso tenebroso<br \/>\nque o atrai.<br \/>\nParte, e leva no pr\u00f3prio estado emotivo a receptividade a t\u00f4das<br \/>\nas mol\u00e9stias.<br \/>\nAtravessa quinze dias infind\u00e1veis a contornear a nossa costa. Entra<br \/>\nno Amazonas. Reanima-se um momento ante a fisionomia singular da terra; mas<br \/>\npara logo acabrunha-o a imensidade deprimida &#8211; onde o olhar lhe morre no pr\u00f3prio<br \/>\nquadro que contempla, certo enorme, mas em branco e reduzido \u00e0s molduras<br \/>\nindecisas das margens afastadas. Sobe o grande rio; e v\u00e3o-se-lhe os<br \/>\ndias in\u00fateis ante a imobilidade estranha das paisagens de uma s\u00f3<br \/>\nc\u00f4r, de uma s\u00f3 altura e de um s\u00f3 mod\u00ealo, com a sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nangustiosa de uma parada na vida: at\u00f4nicas t\u00f4das as impress\u00f5es,<br \/>\nextinta a id\u00e9ia do tempo, que a sucess\u00e3o das apar\u00eancias<br \/>\nexteriores, uniformes, n\u00e3o revela &#8211; e retra\u00edda a alma numa nostalgia<br \/>\nque n\u00e3o \u00e9 apenas a saudade da terra nativa, mas da Terra, das<br \/>\nformas naturais tradicionalmente vinculadas \u00e0s nossas contempla\u00e7\u00f5es,<br \/>\nque ali se n\u00e3o v\u00eaem, ou se n\u00e3o destacam na uniformidade<br \/>\ndas planuras&#8230;<br \/>\nEntra por um dos grandes tribut\u00e1rios, o Juru\u00e1 ou o Purus. Atinge<br \/>\nao seu objetivo remoto; e todos os desalentos se lhe agravam. A terra \u00e9,<br \/>\nnaturalmente, desgraciosa e triste, porque \u00e9 nova. Est\u00e1 em ser.<br \/>\nFaltam-lhe \u00e0 vestimenta de matas os recortes art\u00edsticos do trabalho.<br \/>\nH\u00e1 paisagens curtas que vemos por v\u00eazes, subjetivamente, como<br \/>\num reflexo subconsciente de velhas contempla\u00e7\u00f5es ancestrais.<br \/>\nOs cerros ondulantes, os vales, os litorais que se recortam de angras, e os<br \/>\npr\u00f3prios desertos recrestados, afei\u00e7oam-se-nos \u00e0s vistas<br \/>\npor maneira a admitirmos um modo qualquer de reminisc\u00eancia at\u00e1vica.<br \/>\nVendo-os pela primeira vez, temos o encanto de equipararmos o que imaginamos<br \/>\ncom o que se nos antolha, numa exterioriza\u00e7\u00e3o tang\u00edvel<br \/>\nde contornos anteriormente idealizados.<br \/>\nAli, n\u00e3o. Desaparecem as formas topogr\u00e1ficas mais associadas<br \/>\n\u00e0 exist\u00eancia humana. H\u00e1 alguma coisa extraterrestre naquela<br \/>\nnatureza anf\u00edbia, misto de \u00e1guas e de terras, que se oculta,<br \/>\ncompletamente nivelada, na sua pr\u00f3pria grandeza. E sente-se bem que<br \/>\nela permaneceria para sempre impenetr\u00e1vel se n\u00e3o se desentranhasse<br \/>\nem preciosos produtos adquiridos de pronto sem a const\u00e2ncia e a continuidade<br \/>\ndas culturas. As gentes que a povoam talham-se-lhe pela braveza. N\u00e3o<br \/>\na cultivam, aformoseando-a: domam-na. O cearense, o paraibano, os sertanejos<br \/>\nnortistas, em geral, ali estacionam, cumprindo, sem o saberem, uma das maiores<br \/>\nempr\u00easas d\u00eastes tempos. Est\u00e3o amansando o deserto. E as<br \/>\nsuas almas simples, a um tempo ing\u00eanuas e her\u00f3icas, disciplinadas<br \/>\npelos reveses, garantem-lhes, mais que os organismos robustos, o triunfo na<br \/>\ncampanha formid\u00e1vel.<br \/>\nO rec\u00e9m-vindo do Sul chega em pleno desdobrar-se daquela az\u00e1fama<br \/>\ntumultu\u00e1ria, e, de ordin\u00e1rio, sucumbe. Assombram-no, do mesmo<br \/>\nlance, a face desconhecida da paisagem e o quadro daquela sociedade de caboclos<br \/>\ntit\u00e2nicos que ali est\u00e3o construindo um territ\u00f3rio. Sente-se<br \/>\ndeslocado no espa\u00e7o e no tempo; n\u00e3o j\u00e1 fora da p\u00e1tria,<br \/>\nsen\u00e3o arredio da cultura humana, extraviado num recanto da floresta<br \/>\ne num desv\u00e3o obscurecido da Hist\u00f3ria.<br \/>\nN\u00e3o resiste. Concentra todos os alentos que lhe restam para o s\u00f3<br \/>\nefeito de permanecer algum tempo, in\u00fatil e inerte, no p\u00f4sto que<br \/>\nlhe marcaram; mal desempenhando os mais simples deveres; indo-se-lhe os olhos<br \/>\nem todos os vap\u00f4res que descem &#8211; e o esp\u00edrito ausente nos lares<br \/>\nafastados, longo tempo, em um exaustivo agitar de apreens\u00f5es e conjeturas<br \/>\n&#8211; at\u00e9 que o sacuda, inesperadamente,, em pleno dia canicular, um s\u00fabito<br \/>\nestreme\u00e7\u00e3o de frio, delatando-lhe a vinda salvadora, e por v\u00eazes<br \/>\nrec\u00f4nditamente anelada, da febre. E \u00e9 uma surpr\u00easa grat\u00edssima.<br \/>\nA vida desperta-se-lhe de golpe, naquela cotovelada da morte que passou por<br \/>\nperto. O impaludismo significa-lhe, antes de tudo, a carta de alforria de<br \/>\num atestado m\u00e9dico. \u00c9 a volta. A volta sem temores, a fuga justific\u00e1vel,<br \/>\na deser\u00e7\u00e3o que se legaliza, e o m\u00eado sobredoirado de hero\u00edsmo,<br \/>\ndesafiando o espanto dos que lhe ouvem o romance alarmante das mol\u00e9stias<br \/>\nque devastam a paragem maldita.<br \/>\nPorque \u00e9 preciso coonestar o recuo. Ent\u00e3o cada igarap\u00e9<br \/>\nsem nome \u00e9 um Ganges pestilento e l\u00fagubre; e os igap\u00f3s,<br \/>\nou os lagos, espalmam-se nas v\u00e1rzeas empantanadas como lagunas Pontinas<br \/>\nincont\u00e1veis. Tra\u00e7a-se um quadro nosol\u00f3gico arrepiador<br \/>\ne tr\u00e1gico, num imaginoso fabular de agruras; e, dia a dia, a natureza<br \/>\ncaluniada prlo homem vai aparecendo naquelas bandas, ante as imagina\u00e7\u00f5es<br \/>\niludidas, como se l\u00e1 se demarcasse a paragem cl\u00e1ssica da mis\u00e9ria<br \/>\ne da morte&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O exag\u00earo \u00e9 palmar. O Acre, ou, em geral, as planuras amaz\u00f4nicas<br \/>\ncindidas a meio pelo longo sulco do Purus, t\u00eam talvez a letalidade vulgar\u00edssima<br \/>\nem todos os lugares rec\u00e9m-abertos ao povoamento. Mas consider\u00e0velmente<br \/>\nreduzida.<br \/>\nDemonstra-no-lo um ligeiro confronto.<br \/>\nAs Escolas de Medicina Colonial da Inglaterra e da Fran\u00e7a, revelam-nos,<br \/>\npelos simples t\u00edtulos, os resguardos com que se rodeia sempre o transplante<br \/>\ndos povos para os novos habitats. H\u00e1 esta linha de nobreza no moderno<br \/>\nimperialismo expansionista capaz de absolver-lhe os m\u00e1ximos atentados:<br \/>\nos seus brilhantes generais transmudam-se em batedores an\u00f4nimos dos<br \/>\nm\u00e9dicos e dos engenheiros; as maiores batalhas fazem-se-lhe simples<br \/>\nreconhecimento da campanha ulterior, contra o clima; e o dom\u00ednio das<br \/>\nra\u00e7as incompetentes \u00e9 o com\u00ea\u00e7o da reden\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos territ\u00f3rios, num giro magn\u00edfico que do Tonquim \u00e0<br \/>\n\u00cdndia, ao Egito, \u00e0 Tun\u00edsia, ao Sud\u00e3o, \u00e0<br \/>\nIlha de Cuba, e \u00e0s Filipinas, vai generalizando em todos os meridianos<br \/>\na empr\u00easa maravilhosa do saneamento da terra.<br \/>\nDa terra e do homem. A tarefa \u00e9 d\u00faplice. Aos conquistadores<br \/>\ntranq\u00fcilos n\u00e3o lhes basta o perquirir as causas meteorol\u00f3gicas<br \/>\nou tel\u00faricas das mol\u00e9stias imanentes aos trechos rec\u00e9m-consquitados,<br \/>\nna escala indefinida que vai das anemias estivais \u00e0s febres polimorfas.<br \/>\nResta-lhes o encargo maior de justapor os novos organismos aos novos meios,<br \/>\ncorrigindo-lhes os temperamentos, destruindo-lhes velhos h\u00e1bitos incompat\u00edveis,<br \/>\nou criando-lhes outros at\u00e9 se construir, por um processo a um tempo<br \/>\ncompensador e estimulante, o indiv\u00edduo inteiramente aclimado, t\u00e3o<br \/>\noutro por v\u00eazes nos seus caracteres f\u00edsicos e ps\u00edquicos<br \/>\nque \u00e9, verdadeiramente, um ind\u00edgena artificial transfigurado<br \/>\npela higiene. Para isto o colono, ou o emigrante, torna-se em t\u00f4da a<br \/>\nparte um pupilo do Estado. Todos os seus atos, desde o dia da partida, prefixo<br \/>\nnas esta\u00e7\u00f5es mais convenientes, aos \u00faltimos pormenores<br \/>\nde alimenta\u00e7\u00e3o, ou de vestir, predeterminam-se em regulamentos<br \/>\nrigorosos. Dentro dos lineamentos largos das caracter\u00edsticas fundamentais<br \/>\ndo clima quente para onde \u00eale se desloca, urde-se a trama de uma higiene<br \/>\nindividual, onde se prev\u00eaem t\u00f4das as necessidades, todos os acidentes<br \/>\ne at\u00e9 os perigos da instabilidadde org\u00e2nica inevit\u00e1vel<br \/>\n\u00e0 fase fisiol\u00f3gica da adapta\u00e7\u00e3o a um meio c\u00f3smico,<br \/>\ncujo influxo deprimente s\u00f4bre o europeu vai da musculatura, que se desfibra,<br \/>\n\u00e0 pr\u00f3pria fortaleza de esp\u00edrito, que se deprime. Assim<br \/>\nas medidas profil\u00e1ticas, que come\u00e7am inspirando-se no estudo<br \/>\ndos fat\u00f4res f\u00edsicos acabam, n\u00e3o raro, prolongando-se em<br \/>\nbel\u00edssimo c\u00f3digo de moral demonstrada. De permeio com os preceitos<br \/>\nvulgares para o reagir contra a temperatura alta, e a umidade excessiva que<br \/>\nlhe abatem a tens\u00e3o arteerial e a atividade, lhe trancam as v\u00e1lvulas<br \/>\nde seguran\u00e7a dos poros e lhe fatigam o cora\u00e7\u00e3o e os nervos,<br \/>\ncriando-lhe, ao cabo, a imin\u00eancia m\u00f3rbida para os males que se<br \/>\ndesdobram do impaludismo que lhe solapa a vida, \u00e0s dermatoses que lhe<br \/>\ndevastam a pele &#8211; despontam, mais eficazes e decisivos, os que o aparelham<br \/>\npara reagir aos des\u00e2nimos, \u00e0 melancolia da exist\u00eancia mon\u00f3tona<br \/>\ne primitiva; \u00e0s amarguras crescentes da saudade; \u00e0 irritabilidade<br \/>\nprovinda dos ares intensamente eletrizados e refulgentes; ao isolamento &#8211;<br \/>\ne, sobretudo, ao quebrantar-se da vontade numa decad\u00eancia espiritual<br \/>\nsubit\u00e2nea e profunda, que se afigura a mol\u00e9stia \u00fanida<br \/>\nde tais paragens, de onde as demais se derivam como exclusivos sintomas.<br \/>\nAbra-se qualquer regulamento de higiene colonial. Ressaltam \u00e0 mais<br \/>\nbreve leitura os esfor\u00e7os incompar\u00e1veis das modernas miss\u00f5es<br \/>\ne o seu apostolado complexo que, ao rev\u00e9s das antigas, n\u00e3o visam<br \/>\narrebatar para a civiliza\u00e7\u00e3o a barbaria transfigurada, sen\u00e3o<br \/>\ntransplantar, integralmente, a pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o para<br \/>\no seio adverso e rude dos territ\u00f3rios b\u00e1rbaros.<br \/>\nNas suas p\u00e1ginas, o que por v\u00eazes nos maravilha maos do que os<br \/>\nprod\u00edgios da previd\u00eancia e do saber, desenvolvidos para afei\u00e7oar<br \/>\no forasteiro ao meio, \u00e9 o curso sobremaneira lento, sen\u00e3o o<br \/>\nmal\u00f4gro dos mais pertinazes esfor\u00e7os.<br \/>\nA Fran\u00e7a na Indochina, de clima quase temperado, despendeu quinze anos<br \/>\nde trabalhos cont\u00ednuos para que sobrestivesse a mortalidade; e, obedecendo<br \/>\naos pareceres dos seus melhores cientistas, renunciou, depois de longas tentativas,<br \/>\nao povoamento sistem\u00e1tico da \u00c1frica equatorial. O mesmo sucede<br \/>\nno geral das col\u00f4nias ingl\u00easas, alem\u00e3s ou belgas. Basate-nos<br \/>\nnotar que a estadia regulamentar dos seus agentes oficiais tem o per\u00edodo<br \/>\nm\u00e1ximo de tr\u00eas anos. A volta aos lares nativos \u00e9 uma medida<br \/>\nde seguran\u00e7a indispens\u00e1vel a restaurar-lhes os organismos combalidos.<br \/>\nD\u00easte modo, a despeito de t\u00e3o grandes sacrif\u00edcios e disp\u00eancdios,<br \/>\ne dos prod\u00edgios de engenharia sanit\u00e1ria que transformam a rudeza<br \/>\ntopogr\u00e1fica dos lugares novos, formando-se uma verdadeira geografia<br \/>\nart\u00edstica, o que n\u00eales se forma, por fim, s\u00e3o umas sociedades<br \/>\nprec\u00e1rias de perp\u00e9tuos convalescentes jungidos a dietas inflex\u00edveis<br \/>\ne vivendo atrav\u00e9s das f\u00f3rmulas inatur\u00e1veis dos receitu\u00e1rios<br \/>\ncomplexos.<br \/>\nOra, comparando-se estas coloniza\u00e7\u00f5es adstritas \u00e0s cl\u00e1usulas<br \/>\nde rigorosos estatutos &#8211; e de efeitos t\u00e3o escassos &#8211; com o povoamento<br \/>\ntumultu\u00e1rio, com a coloniza\u00e7\u00e3o \u00e0 gandaia do Acre<br \/>\n&#8211; de resultados surpreendentes &#8211; certo n\u00e3o se faz mister registrar<br \/>\num s\u00f3 elemento para o asserto de que o regime da regi\u00e3o malsinada<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 apenas sobradamente superior ao da maioria dos trechos<br \/>\nrec\u00e9m-abertos \u00e0 expans\u00e3o colonizadora, sen\u00e3o tamb\u00e9m<br \/>\nao da grande maioria dos pa\u00edses normalmente habitados.<br \/>\nDe fato &#8211; \u00e0 parte o favor\u00e1vel deslocamento paralelo ao equador,<br \/>\ndemandando as mesmas latitudes &#8211; n\u00e3o se conhece na Hist\u00f3ria<br \/>\nexemplo mais golpeante de emigra\u00e7\u00e3o t\u00e3o an\u00e1rquica,<br \/>\nt\u00e3o precipitada e t\u00e3o violadora dos mais vulgares preceitos<br \/>\nde aclimamento, quanto o da que desde 1879 at\u00e9 hoje atirou, em sucessivas<br \/>\nlevas, as popula\u00e7\u00f5es sertanejas do territ\u00f3rio entre a<br \/>\nPara\u00edba e o Cear\u00e1, para aqu\u00eale recanto da Amaz\u00f4nia.<br \/>\nAcompanhando-a, mesmo de relance, p\u00f5e-se de manifesto que lhe faltou<br \/>\ndesde o princ\u00edpio, n\u00e3o s\u00f3 a marcha lenta e progressiva<br \/>\ndas migra\u00e7\u00f5es seguras, como os mais ordin\u00e1rios resguardos<br \/>\nadministrativos.<br \/>\nO povoamento do Acre \u00e9 um caso hist\u00f3rico inteiramente fortuito,<br \/>\nfora da diretriz do nosso progresso.<br \/>\nTem um reverso tormentoso que ningu\u00e9m ignora: as s\u00eacas peri\u00f3dicas<br \/>\ndos nossos sert\u00f5es do Norte, ocasionando o \u00eaxodo em massa das<br \/>\nmultid\u00f5es flageladas. N\u00e3o o determinou uma crise de crescimento,<br \/>\nou excesso de vida desbordante, capaz de reanimar outras paragens, dilatando-se<br \/>\nem itiner\u00e1rios que s\u00e3o o diagrama vis\u00edvel da marcha triunfante<br \/>\ndas ra\u00e7as; mas a escassez da vida e a derrota completa ante as calamidades<br \/>\nnaturais. As suas linhas baralham-se nos tra\u00e7ados revoltos de uma fuga.<br \/>\nAgravou-o sempre uma sele\u00e7\u00e3o natural invertida: todos os fracos,<br \/>\ntodos os in\u00fateis, todos os doentes e todos os sacrificados expedidos<br \/>\na \u00easmo, como o rebotalho das gentes, para o deserrto. Quando as grandes<br \/>\ns\u00eacas de 1879-1880, 1889-1890, 1900-1901 flamejavam s\u00f4bre os sert\u00f5es<br \/>\nadustos, e as cidades do litoral se enchiam em poucas semanas de uma popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nadvent\u00edcia de famintos assombrosos, devorados das febres e das bexigas<br \/>\n&#8211; a preocupa\u00e7\u00e3o exclusiva dos pod\u00eares p\u00fablicos<br \/>\nconsistia no libert\u00e1-las quanto antes daquelas invas\u00f5es de b\u00e1rbaros<br \/>\nmoribundos que infestavam o Brasil. Abarrotavam-se, \u00e0s carreiras, os<br \/>\nvap\u00f4res, com aqu\u00eales fardos agitantes consignados \u00e0 morte.<br \/>\nMandavam-nos para a Amaz\u00f4nia &#8211; vast\u00edssima, despovoada, quase<br \/>\nignota &#8211; o que eq\u00fcivalia a expatri\u00e1-los dentro da pr\u00f3pria<br \/>\np\u00e1tria. A multid\u00e3o martirizada, perdidos todos os direitos,<br \/>\nrotos os la\u00e7os de fam\u00edlia, que se fracionava no tumulto dos<br \/>\nembarques acelerados, partia para aquelas bandas levando uma carta de prego<br \/>\npara o desconhecido; e ia, com os seus famintos, os seus febrentos e os seus<br \/>\nvariolosos, em condi\u00e7\u00f5es de malignar e corromper as localidades<br \/>\nmais salubres do mundo. Mas feita a tarefa expurgat\u00f3ria, n\u00e3o<br \/>\nse curava mais dela. Cessava a interven\u00e7\u00e3o governamental. Nunca,<br \/>\nat\u00e9 aos nossos dias, a acompanhou um s\u00f3 agente oficial, ou um<br \/>\nm\u00e9dico. Os banidos levavam a miss\u00e3o doloros\u00edssima e \u00fanica<br \/>\nde desaparecerem&#8230;<br \/>\nE n\u00e3o desapareceram. Ao contr\u00e1rio, em menos de trinta anos,<br \/>\no Estado que era uma vaga express\u00e3o geogr\u00e1fica, um deserto empantanado,<br \/>\na estirar-se, sem lindes, para sudoeste, definiu-se de ch\u00f4fre, avantajando-se<br \/>\naos primeiros pontos do nosso desenvolvimento econ\u00f4mico<br \/>\nA sua capital &#8211; uma cidade de dez anos s\u00f4bre uma tapera de dois s\u00e9culos<br \/>\n&#8211; transformou-se na metr\u00f3pole da maior navega\u00e7\u00e3o fluvial<br \/>\nda Am\u00e9rica do Sul. E naquele extremo sudoeste amaz\u00f4nico, quase<br \/>\nmisterioso, onde um homem admir\u00e1vel, William Chandless, penetrara 3.200<br \/>\nquil\u00f4metros sem lhe encontrar o fim &#8211; cem mil sertanejos, ou cem mil<br \/>\nressuscitados,, apareciam inesperadamente e repatriavam-se de um modo original<br \/>\ne her\u00f3ico: dilatando a p\u00e1tria at\u00e9 aos terrenos novos<br \/>\nque tinham desvendado.<br \/>\nAbram-se os \u00faltimos relat\u00f3rios das prefeituras do Acre. Nas<br \/>\nsuas p\u00e1ginas maravilha-nos mais do que as transforma\u00e7\u00f2es<br \/>\nsem par que ali se verificam, o absoluto abandono e o completo relaxo com<br \/>\nque ainda se efetua o seu povoamento. Hoje, como h\u00e1 trinta anos, mesmo<br \/>\nfora das aperturas e dos tumultos das s\u00eacas, os imigrantes avan\u00e7am<br \/>\nsem o m\u00ednimo resquardo, ou assist\u00eancia oficial.<br \/>\nNo entanto, as popula\u00e7\u00f5es transplantadas se fixam, vinculadas<br \/>\nao solo; o progresso demogr\u00e1fico \u00e9 surpreendente &#8211; e das cabeceiras<br \/>\ndo Juru\u00e1 \u00e0 conflu\u00eancia do Abun\u00e3 alonga-se, cada<br \/>\nvez mais procurada, a terra da promiss\u00e3o do Norte do Brasil.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O paralelo \u00e9 expressivo. N\u00e3o se compreende a reputa\u00e7\u00e0o<br \/>\nde insalubridade de um tal clima. Evidentemente o que se realizou e se realiza<br \/>\nainda, embora em menor escala no Acre, foi a &#8220;sele\u00e7\u00e3o tel\u00farica&#8221;,<br \/>\nde que nos fala Kirchoff: uma sorte de magistratura natural, ou revista severa<br \/>\nexercida pela natureza nos indiv\u00edduos que a procuram, para s\u00f3<br \/>\nconceder o direito da exist\u00eancia aos que se lhe afei\u00e7oam.<br \/>\nMas o processo \u00e9 geral.<br \/>\nEm t\u00f4das as latitudes foi sempre grav\u00edssima nos seus prim\u00f3rdios<br \/>\na afinidade eletiva entre a terra e o homem. salvam-se os que melhor balanceiam<br \/>\nos fat\u00f4res do clima e os atributos pessoais. O aclimado surge de um<br \/>\nbin\u00e1rio de f\u00f4r\u00e7as f\u00edsicas e morais que v\u00e3o,<br \/>\nde um lado, dos elementos mais sens\u00edveis, t\u00e9rmicos ou higrom\u00e9tricos,<br \/>\nou barom\u00e9tricos, \u00e0s mais subjetivas impress\u00f5es oriundas<br \/>\ndos aspectos da paisagem; e de outro, da resist\u00eancia vital da c\u00e9lula<br \/>\nou do tonus muscular, \u00e0s energias mais complexas e refinadas do car\u00e1ter.<br \/>\nDurante os primeiros tempos, antes que a transmiss\u00e3o heredit\u00e1ria<br \/>\ndas qualidades de resist\u00eancia, adquiridas, garanta a integridade individual<br \/>\ncom a pr\u00f3pria adapta\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a, a letalidade<br \/>\ninevit\u00e1vel, e at\u00e9 necess\u00e1ria, apenas denuncia os efeitos<br \/>\nde um processo seletivo. T\u00f4da a aclima\u00e7\u00e3o \u00e9 d\u00easse<br \/>\nmodo um plebiscito permanente em que o estrangeiro se elege para a vida. Nos<br \/>\ntr\u00f3picos, \u00e9 natural que o escrut\u00ednio biol\u00f3gico<br \/>\ntenha um car\u00e1ter grav\u00edssimo.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 fraudes que lhe minorem as exig\u00eancias. Caem-lhe<br \/>\nsob o exame incorrupt\u00edvel, por igual, &#8211; o tuberculoso inapto \u00e0<br \/>\nmaior atividade respirat\u00f3ria nos ares adurentes, pobres de oxig\u00eanio,<br \/>\ne o lascivo desmandado; o card\u00edaco sucumbido pela queda da tens\u00e3o<br \/>\narterial, e o alco\u00f3lico candidato contumaz a t\u00f4das as endemias;<br \/>\no inf\u00e1tico colhido de pronto pela anemia e o glut\u00e3o; o noct\u00edvago<br \/>\ndesfibrado nas vig\u00edlias, ou o indolente estagnado nas sestas enervantes;<br \/>\ne o col\u00e9rico, o neurast\u00eanico de nervos a vibrarem nos ares eletrizados,<br \/>\ndescompassadamente, sob o influxo misterioso dos firmamentos deslumbrantes,<br \/>\nat\u00e9 aos paroxismos da dem\u00eancia tropical que o fulmina, de pancada,<br \/>\ncomo uma esp\u00e9cie de insola\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito.<br \/>\nA cada deslize fisiol\u00f3gico ou moral antep\u00f5e-se o coretivo da<br \/>\nrea\u00e7\u00e3o f\u00edsica. E chama-se insalubridade o que \u00e9<br \/>\num apuramento, a elimina\u00e7\u00e3o generalizada dos incompetentes.<br \/>\nAo cabo verifica-se algumas v\u00eazes que n\u00e3o \u00e9 o clima que<br \/>\n\u00e9 mau; \u00e9 o homem.<br \/>\nFoi o que suedeu em grande parte no Acre. As turmas povoadoras que para l\u00e1<br \/>\nseguiram, sem o exame pr\u00e9vio dos que as formavam e nas mais deplor\u00e1veis<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es de transporte, deparavam, al\u00e9m de tudo isto,<br \/>\ncom um estado social que ainda mais lhes engravescia a instabilidade e a fraqueza.<br \/>\nAguardava-as e ainda as aguarda, bem que numa escala menor, a mais imperfeita<br \/>\norganiza\u00e7\u00e3o do trabalho que ainda engenhou o ego\u00edsmo<br \/>\nhumano.<br \/>\nRepitamos. O sertanejo emigrante realiza, ali, uma anomalia s\u00f4bre a<br \/>\nqual nunca \u00e9 demasiado insistir: \u00e9 o homem que trabalha para<br \/>\nescravizar-se.<br \/>\nEnquanto o colono italiano se desloca de G\u00eanova \u00e0 mais remota<br \/>\nfazenda de S. Paulo, paternalmente assistido pelos nossos pod\u00eares p\u00fablicos,<br \/>\no cearense efetua, \u00e0 sua custa e de todo em todo desamparado, uma viagem<br \/>\nmais dif\u00edcil, em que os adiantamentos feitos pelos contratadores insaci\u00e1veis,<br \/>\nin\u00e7ados de parcelas fant\u00e1sticas e de pre\u00e7os inauditos,<br \/>\no transformam as mais das v\u00eazes em devedor para sempre insolvente.<br \/>\nA sua atividade, desde o primeiro golpe de machadinha, constringe-se para<br \/>\nlogo num c\u00edrculo vicioso inatur\u00e1vel: o debater-se exaustivo<br \/>\npara saldar uma d\u00edvida que se avoluma, amea\u00e7adoramente, acompanhando-lhe<br \/>\nos esfor\u00e7os e as fadigas para sald\u00e1-la.<br \/>\nE v\u00ea-se completamente s\u00f3 na faina dolorosa. A explora\u00e7\u00e3o<br \/>\nda seringa, neste ponto pior que a do caucho, imp\u00f5e o isolamento. H\u00e1<br \/>\num laivo siberiano naquele trabalho. Dosto\u00efewski sombrearia as suas p\u00e1ginas<br \/>\nmais l\u00fagubres com esta tortura: a do homem constrangido a calcar durante<br \/>\na vida inteira a mesma &#8220;estrada&#8221;, de que \u00eale \u00e9 o \u00fanico<br \/>\ntranseunte, trilha obscurecida, estreit\u00edssima e circulante, que o leva,<br \/>\nintermitentemente e desesperadamente, ao mesmo ponto de partida. Nesta empr\u00easa<br \/>\nde S\u00edsifo, a rolar em vez de um bloco o seu pr\u00f3prio corpo &#8211;<br \/>\npartindo, chegando e partindo &#8211; nas voltas constritoras de um c\u00edrculo<br \/>\ndemon\u00edaco, no seu eterno giro de encarcerado numa pris\u00e3o sem<br \/>\nmuros, agravada por um of\u00edcio rudimentar que \u00eale aprende em uma<br \/>\nhora para exerc\u00ea-lo t\u00f4da a vida, autom\u00e0ticamente, por simples<br \/>\nmovimentos reflexos &#8211; se n\u00e3o o enrija uma s\u00f3lida estrutura moral,<br \/>\nv\u00e3o-se-lhe, com a intelig\u00eancia atrofiada, t\u00f4das as esperan\u00e7as,<br \/>\ne as ilus\u00f5es ing\u00eanuas, e a tonificante alacridade que o arrebataram<br \/>\n\u00e0quele lance, \u00e0 aventura, em busca da fortuna.<br \/>\nParalelamente, a decad\u00eancia org\u00e2nica.<br \/>\nA alimenta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a base mais firme da higiene tropical,<br \/>\nn\u00e3o lha fornece, durante largos anos, a mais rudimentar cultura. Constitui-se,<br \/>\nao rev\u00e9s de todos os preceitos, adstrita aos fornecimentos escassos<br \/>\nde t\u00f4das as conservas suspeitas e nocivas, com o derivativo aleat\u00f3rio<br \/>\ndas ca\u00e7adas.<br \/>\nSobretudo isto, o abandono. O seringueiro \u00e9, obrigat\u00f2riamente,<br \/>\nprofissionalmente, um solit\u00e1rio.<br \/>\nMesmo no Acre pr\u00f2priamente dito, onde a densidade maior das \u00e1rvores<br \/>\nde borracha permite a abertura de 16 &#8220;estradas&#8221; numa l\u00e9gua<br \/>\nquadrada, t\u00f4da esta \u00e1rea capaz de sustentar, de ac\u00f4rdo<br \/>\ncom a unidade agr\u00edcola corrente, cinq\u00fcenta fam\u00edlias de<br \/>\npequenos lavradores, requer a atividade de oito homens apenas, que l\u00e1<br \/>\nse espalham e raramente se v\u00eaem. Calcule-se um seringal m\u00e9dio,<br \/>\nde duzentas &#8220;estradas&#8221;: tem c\u00earca de 15 l\u00e9guas quadradas;<br \/>\ne \u00easte latif\u00fandio, que se povoaria \u00e0 larga com 3.000 habitantes<br \/>\nativos, comporta apenas a popula\u00e7\u00e3o invis\u00edvel de 100<br \/>\ntrabalhadores, exageradamente dispersos.<br \/>\n\u00c9 a conserva\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do deserto, e a pris\u00e3o<br \/>\ncelular do homem na amplitude desafogada da terra.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ante \u00eastes lineamentos de um quadro social t\u00e3o an\u00f4malo,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 apenas opin\u00e1vel a letalidade do Acre. O que ressalta,<br \/>\nirreprim\u00edvel, \u00e9 o conceito de uma salubridade capaz de garantir<br \/>\ntantas exist\u00eancias submetidas a t\u00e3o imperfeito regime. Acredita-se<br \/>\nat\u00e9 que as caracter\u00edsticas tropicais meramente te\u00f3ricas,<br \/>\nse reduzem aos paralelos de baixas latitudes, de 8&amp;ordm; a 11&amp;ordm;,<br \/>\nque interferem a regi\u00e3o; e aquilatando-se a influ\u00eancia moderadora<br \/>\nsem d\u00favida exercida pela estupenda massa de florestas, que a circulam<br \/>\ne a invadem, chega-se a concluir que ulteriores observa\u00e7\u00f5es<br \/>\nmeteorol\u00f3gicas, mal iniciadas agora, talvez lhe apaguem nos mapas a<br \/>\nisoterma de 25 graus que a \u00easmo lhe tra\u00e7aram.<br \/>\nPorque a despeito do incorreto e do vicioso do povoamento e da vida, a sociedade<br \/>\nrec\u00e9m-chegada aclima-se e progride.<br \/>\nAo mais incurioso viajante que perlustre o Purus n\u00e3o escapa a transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nlenta e cont\u00ednua.<\/p>\n<p>O primitivo explorador vai, afinal, ajustando-se ao solo, s\u00f4bre o qual<br \/>\npisou durante tanto tempo indiferente. As suas barracas desafogam-se nas derrubadas;<br \/>\ne j\u00e1 nas praias, que as vazantes desvendam, j\u00e1 nos &#8220;firmes&#8221;,<br \/>\na cavaleiro das cheias, se delineiam as primeiras \u00e1reas de cultura.<br \/>\nOs tristonhos barrac\u00f5es cobertos de f\u00f4lhas de ubu\u00e7u, transmudam-se<br \/>\nem vivendas regulares, ou amplos sobrados de pedrra e cal. Sebastopol, Canacori,<br \/>\nS. Lu\u00eds de Cassian\u00e3, Itatuba, Realeza, e dezenas de outros s\u00edtios<br \/>\ndo Baixo-Purus; Liberdade e Conc\u00f3rdia, nos mais long\u00ednquos trechos,<br \/>\ncom as suas casas numerosas, que se arruam \u00e0s v\u00eazes ao lado de<br \/>\npequenas igrejas, ampliam-se em verdadeiras vilas. S\u00e3o a imagem material<br \/>\ndo dom\u00ednio e da posse definitiva.<br \/>\nA evolu\u00e7\u00e3o \u00e9, d\u00easte modo, tang\u00edvel.<br \/>\nDelatam-na at\u00e9 os nomes originais, extravagantes alguns, mas eloq\u00fcentes<br \/>\ntodos, das primitivas e das recentes funda\u00e7\u00f5es. Na terra sem<br \/>\nhist\u00f3ria os primeiros fatos escrevem-se, esparsos e desunidos, nas<br \/>\ndenomina\u00e7\u00f5es dos s\u00edtios. De um lado est\u00e1 a fase<br \/>\ninicial e tormentosa da adapta\u00e7\u00e3o, evocando tristezas, mart\u00edrios,<br \/>\nat\u00e9 gritos de desalento ou de socorro; e o viajante l\u00ea nas grandes<br \/>\ntabuletas suspensas \u00e0s paredes das casas, de chapa para o rio: Valha-nos<br \/>\nDeus, Saudades, S. Jo\u00e3o da Mis\u00e9ria, Escondido, Inferno&#8230; De<br \/>\noutro um forte renascimento de esperan\u00e7as e a jovialidade desbordante<br \/>\ndas gentes redimidas: Bom Princ\u00edpio, N\u00f4vo Encanto, Triunfo, Quero<br \/>\nver!, Liberdade, Conc\u00f3rdia, Para\u00edso&#8230;<br \/>\n\u00c0 medida que se sobe o rio a renascen\u00e7a se acentua. Passada<br \/>\na conflu\u00eancia do Acre vai-se, em v\u00e1rios trechos, entre as est\u00e2ncias<br \/>\nque se defrontam ou se ligam \u00e0s margens, como se se percorresse cult\u00edssima<br \/>\nparagem h\u00e1 muito descoberta. Nada mais do t\u00f4sco e do brutesco<br \/>\ndos primitivos abarracamentos.<br \/>\nEm Catiana, em Macap\u00e1, como nas demais a montante, at\u00e9 \u00e0<br \/>\n\u00faltima, Sobral, com a min\u00fascula planta\u00e7\u00e3o de cafeeiros<br \/>\nque lhe bastam ao consumo, nota-se em tudo, da pequena cultura que se generaliza,<br \/>\naos pomares bem cuidados, o esf\u00f4r\u00e7o carinhoso do povoador que<br \/>\naformoseia a terra para n\u00e3o mais a abandonar.<br \/>\nE os homens s\u00e3o admir\u00e1veis.<br \/>\nVimo-los de perto; conversamo-los.<br \/>\nGuardamos-lhes os nomes e os apelidos bizarros &#8211; do opulento Caboclo-Real,<br \/>\nda Cachoeira, ao g\u00e1rrulo Cai N\u2019\u00e1gua das cercanias do Chandless;<br \/>\ndo velho Jo\u00e3o Amarelo, que fundou Catai, e leva ainda, sem titubear,<br \/>\npelos torcicolos das &#8220;estradas&#8221;, os seus setenta anos trabalhosos,<br \/>\nao destemeroso Ant\u00f4nio Dourado, da Terra Alta, impec\u00e1vel atirador<br \/>\nde rifle, cujos lances de ousadia nas arrancadas de 1903, com os caucheiros,<br \/>\ns\u00e3o uma p\u00e1gina vibrante de bravura.<br \/>\nConsiderando-os, ou revendo-lhes a integridade org\u00e2nica a ressaltar-lhes<br \/>\ndas musculaturas interi\u00e7as, ou a beleza moral das almas varonis que<br \/>\nderrotaram o deserto &#8211; e recordando as circunst\u00e2ncias lastim\u00e1veis,<br \/>\nque os rodearam nos primeiros dias do povoamento ou que ainda os rodeiam,<br \/>\nporventura minoradas &#8211; n\u00e3o se lhes explicam as exist\u00eancias vigorosas<br \/>\nsob regime climatol\u00f3gico t\u00e3o maligno e bruto como o que se fantasiou<br \/>\nno Acre.<br \/>\nN\u00e3o vinga, ademais, o argumento de que o sertanejo nortista, ou mais<br \/>\nincisivamente, o jagun\u00e7o, dotado da abstin\u00eancia pastoral e guerreira<br \/>\ndo \u00e1rabe, se tenha apercebido para o n\u00f4vo habitat, sob a disciplina<br \/>\ninexor\u00e1vel das s\u00eacas, al\u00e9m de haver-se deslocado seguindo<br \/>\nmais ou menos os paralelos do torr\u00e3o nativo<br \/>\nO Purus e o Juru\u00e1 abriram-se h\u00e1 muito \u00e0 entrada dos mais<br \/>\nd\u00edspares forasteiros &#8211; do s\u00edrio, que chega de Beirute, e vai<br \/>\npouco a pouco suplantando o portugu\u00eas no com\u00e9rcio do &#8220;regat\u00e3o&#8221;;<br \/>\nao italiano aventuroso e artista que lhes bate as margens, longos meses, com<br \/>\na sua m\u00e1quina fotogr\u00e1fica a colecionar os mais t\u00edpicos<br \/>\nrostos de silv\u00edcolas e aspectos bravios de paisagens; ao sax\u00f4nio<br \/>\nfleum\u00e1tico, trocando as suas brumas pelos esplendores dos ares equatoriais.<br \/>\nE, na grande maioria, l\u00e1 vivem todos; agitam-se, prosperam e acabam<br \/>\nlongevos.<br \/>\nRegistre-se \u00easte caso. Em 1872, Barrington Brown e William Lidstone<br \/>\npercorreram o Baixo-Purus, at\u00e9 Huitana\u00e3, embarcados na lancha<br \/>\nGuajar\u00e1, sob o comando do Capit\u00e3o Hoefner, a german speaking<br \/>\nboth english and portuguese in addition, consoante explicam os dois viajantes<br \/>\nno interessante livro que escreveram.<br \/>\nH\u00e1 trinta e cinco anos&#8230;<br \/>\nE o Capit\u00e3o Hoefner l\u00e1 est\u00e1, eterno comandante de lancha,<br \/>\na mourejar sem descanso s\u00f4bre aquelas \u00e1guas malditas, onde fervilham<br \/>\nos piuns sugadores, os carapan\u00e3s emiss\u00e1rios das febres, e se<br \/>\nespalmam, derivando \u00e0 fei\u00e7\u00e3o da correnteza insens\u00edvel,<br \/>\nos murur\u00e9s boiantes, de fl\u00f4res viol\u00e1ceas recordando as<br \/>\ngrinaldas tristonhas dos enterros. Mas n\u00e3o agourentaram o germano.<br \/>\nVimo-lo, em fins de 1905, na conflu\u00eancia do Acre. \u00c9 um velho<br \/>\nvivaz e prestadio, diligente e ativo, de rosto aberto e rosado, emoldurado<br \/>\nde cabelos inteiramente brancos. Se aparecesse em Berlim, mal lhe descobririam<br \/>\nna pele, de leve amorenada, o sombrio estigma dos tr\u00f3picos.<br \/>\nMultiplicam-se os casos d\u00easte teor, acordes todos na extin\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma lenda.<br \/>\nResta, talvez, \u00e0 teimosia no propag\u00e1-la, um derradeiro argumento:<br \/>\naqu\u00eales caboclos rijos e \u00easse sax\u00f4nico excepcional n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o efeitos do meio; surgem a despeito do meio; triunfam num final<br \/>\nde luta, em que sucumbiram, em maior n\u00famero, os que se n\u00e3o aparelhavam<br \/>\ndos mesmos requisitos de robustez, energia e abstin\u00eancia.<br \/>\nNeste caso atiremos de lado, de uma vez, um est\u00e9ril sentimentalismo<br \/>\ne reconhe\u00e7amos naquele clima um fun\u00e7\u00e3o superior. Ante<br \/>\nas circunst\u00e2ncias nocivas que originaram e impulsionaram o povoamento<br \/>\ndo Acre, largos anos aberto \u00e0 intrus\u00e3o de t\u00f4das as mol\u00e9stias<br \/>\ne de todos os v\u00edcios favorecidos pela indiferen\u00e7a dos pod\u00eares<br \/>\np\u00fablicos, \u00eale exercitou uma fiscaliza\u00e7\u00e3o incorrupt\u00edvel,<br \/>\nlibertando aqu\u00eale territ\u00f3rio de calamidades e desmandos, que<br \/>\nseriam al\u00e9m de t\u00f4da a propor\u00e7\u00e3o, muito maiores<br \/>\ndo que os que ainda hoje l\u00e1 se observam.<br \/>\nPoliciou, saneou, moralizou. Elegeu e elege para a vida os mais dignos. Eliminou<br \/>\ne elimina os incapazes, pela fuga ou pela morte.<br \/>\nE \u00e9 por certo um clima admir\u00e1vel o que prepara as paragens novas<br \/>\npara os fortes, para os perseverantes e para os bons.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>Os Caucheiros<\/h2>\n<p>Aqu\u00e9m da margem direita do Ucai\u00e1li e das terras onduladas,<br \/>\nonde se formam os manadeiros do Javari, do Juru\u00e1 e do Purus, apareceu<br \/>\nh\u00e1 c\u00earca de cinq\u00fcenta anos uma sociedade nova. Formara-se<br \/>\nobscuramente. Perdida longo tempo no afogado das selvas, apenas a conheciam<br \/>\nraros comerciantes do Par\u00e1, onde, desde 1862, come\u00e7aram a chegar,<br \/>\nprovindas daqueles pontos remotos, as pranchas pardo-escuras de uma outra<br \/>\ngoma el\u00e1stica concorrente com a seringa \u00e0s exig\u00eancias<br \/>\nda ind\u00fastria.<br \/>\nEra o caucho. E caucheiros apelidaram-se para logo os aventurosos sertanistas<br \/>\nque batiam atrevidamente aqu\u00eales rinc\u00f5es ignorados.<br \/>\nVinham do ocidente, transpondo os Andes e suportando todos os climas da Terra,<br \/>\ndos litorais adustos do Pac\u00edfico \u00e0s punas enregeladas das cordilheiras.<br \/>\nEntre \u00eales e o torr\u00e3o nativo ficavam duas muralhas altas de seis<br \/>\nmil metros e um longo valo escancelado em abismos. Adiante os plainos amaz\u00f4nicos:<br \/>\num estiramento de centenares de milhas para NE, a perder-se, indefinido, na<br \/>\nprolonga\u00e7\u00e3o atl\u00e2ntica, sem a ajuda de um c\u00earro balizando<br \/>\na imensidade.<br \/>\nNunca se armou t\u00e3o imponente cen\u00e1rio a t\u00e3o pequeninos<br \/>\nat\u00f4res.<br \/>\n\u00c9 natural que os sertanistas pervagassem largos anos, esparsos, diminutos,<br \/>\ninvis\u00edveis, tateantes no perp\u00e9tuo crep\u00fasculo daquelas<br \/>\nmatas long\u00ednquas, onde, mais s\u00e9rias que o desmedido das dist\u00e2ncias<br \/>\ne os bravios da espessura, outras dificuldades lhes renteavam ou perturbavam<br \/>\nos passos vacilantes.<br \/>\nRealmente, t\u00f4da a zona em que se tra\u00e7a, ainda pontuada, a linha<br \/>\nlim\u00edtrofe bras\u00edlio-peruana, e irradiam para os quadrantes os<br \/>\nformadores do Purus e do Juru\u00e1, as vertentes mais setentrionais do<br \/>\nUrubamba e os \u00faltimos esgalhos do Madre de Di\u00f3s, figurava entre<br \/>\nas mais desconhecidas da Am\u00e9rica, menos em virtude de suas condi\u00e7\u00f2es<br \/>\nf\u00edsicas excepcionais, vencidas em 1844 por F. Castelnau, que pelo renome<br \/>\ntemeroso das tribos que a povoam e se tornaram, sob o nome gen\u00e9rico<br \/>\nde chunchos, o m\u00e1ximo pavor dos mais destemerosos pioneiros.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nome\u00e1-las t\u00f4das. Quem sobe o Purus, contemplando<br \/>\nde longe em longe, at\u00e9 \u00e0s cercanias da Cachoeira, os paumaris<br \/>\nrarescentes, mal recordando os antigos donos daquelas v\u00e1rzeas; e dali<br \/>\npara montante os ipurin\u00e1s inofensivos; ou a partir do Iaco, os tucunas<br \/>\nque j\u00e1 nascem velhos, tanto se lhes reflete na complei\u00e7\u00e3o<br \/>\ntolhi\u00e7a a decrepitude da ra\u00e7a &#8211; tem a maior das surpr\u00easas<br \/>\nao deparar nas cabeceiras do rio com os silv\u00edcolas singulares que as<br \/>\nanimam. Discordes nos h\u00e1bitos e na proced\u00eancia, l\u00e1 se<br \/>\ncomprimem em ajuntamento for\u00e7ado; os amauacas mansos que se agregam<br \/>\naos puestos dos extratores do caucho; os coronauas indom\u00e1veis, senhores<br \/>\ndas cabeceiras do Curanja; os piros acobreados, de rebrilhantes dentes tintos<br \/>\nde resina escura que lhes d\u00e3o aos rostos, quando sorriem, indefin\u00edveis<br \/>\ntra\u00e7os de amea\u00e7as sombrias; os barbudos caxibos afeitos ao exterm\u00ednio<br \/>\nem correrias de duzentos anos s\u00f4bre os destro\u00e7os das miss\u00f5es<br \/>\ndo Pachit\u00e9a; os conibos de cr\u00e2nios deformados e bustos espantadamente<br \/>\nlistrados de vermelho e azul; os setebos, sipibos e iurimauas; os mashcos<br \/>\ncorpulentos, do Mano, evocando no desconforme da estatura os gigantes fabulados<br \/>\npelos primeiros cart\u00f3grafos da Amaz\u00f4nia; e, s\u00f4bre todos,<br \/>\nsuplantando-os na fama e no valor, os campas aguerridos do Urubamba&#8230;<br \/>\nA variedade das cabildas em \u00e1rea t\u00e3o reduzida trai a press\u00e3o<br \/>\nestranha que as sonstringe. O ajuntamento \u00e9 for\u00e7ado.<br \/>\nElas est\u00e3o, evidentemente, nos \u00faltimos redutos para onde reflu\u00edram<br \/>\nno desfecho de uma campanha secular, que vem do apostolado das Maynas \u00e0s<br \/>\nexpedi\u00e7\u00f5es modernas e cujos epis\u00f3dios culminantes se<br \/>\nperderam para a Hist\u00f3ria.<br \/>\nO narrados d\u00eastes dias chega no final de um drama, e contempla supreendido<br \/>\no seu \u00faltimo quadro prestes a cerrar-se.<br \/>\nA civiliza\u00e7\u00e3o, b\u00e0rbaramente armada de rifles fulminantes,<br \/>\nassedia completamente ali a barbaria encantoada: os peruanos pelo ocidente<br \/>\ne pelo sul; os brasileiros em todo o quadrante de NE; no de SE, trancando<br \/>\no vale do Madre de Di\u00f3s, os bolivianos.<br \/>\nE os caucheiros aparecem como os mais avantajados batedores da sinistra catequese<br \/>\na ferro e fogo, que vai exterminando naqueles sert\u00f5es remot\u00edssimos<br \/>\nos mais interessantes abor\u00edgenes sul-americanos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Esta miss\u00e3o hist\u00f3rica adv\u00e9m-lhes da fragilidade de uma<br \/>\n\u00e1rvore. O caucheiro \u00e9 for\u00e7adamente um n\u00f4made votado<br \/>\nao combate, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e a uma vida errante ou tumultur\u00e1ria,<br \/>\nporque a castilloa el\u00e1stica que lhe fornece a borracha apetecida, n\u00e3o<br \/>\npermite, como as heveas brasileiras, uma explora\u00e7\u00e3o est\u00e1vel,<br \/>\npelo renovar peri\u00f2dicamente o suco vital que lhe retiram. \u00c9<br \/>\nexecepcionalmente sens\u00edvel. Desde que a golpeiem, morre, ou definha<br \/>\ndurante largo tempo, in\u00fatil. Assim o extrator derruba-a de uma vez<br \/>\npara aproveit\u00e1-la t\u00f4da. Atora-a, depois, de metro em metro, desde<br \/>\nas sapopembas aos \u00faltimos galhos das frondes; e abrindo no ch\u00e3o,<br \/>\nao longo do madeiro derrubado, rasas cavidades retangulares correspondentes<br \/>\n\u00e0s sec\u00e7\u00f5es dos toros, delas retira, ao fim de uma semana,<br \/>\nas pranchas valiosas, enquanto os restos aderidos \u00e0 casca, nos rebordos<br \/>\ndos cortes, ou esparsos a \u00easmo pelo solo, constituem, reunidos, o sernambi<br \/>\nde qualidade inferior.<br \/>\nO processo, como se v\u00ea, \u00e9 rudimentar e r\u00e1pido. Esgota-se<br \/>\nem pouco tempo o cauchal mais exuberante; e como as castilloas n\u00e3o<br \/>\nse distribuem regularmente pelas matas, vi\u00e7ando em grupos por v\u00eazes<br \/>\nbastante separados, os exploradores deslocam-se a outros rumos, reeditando<br \/>\nquase sem variantes t\u00f4das as perip\u00e9cias daquela vida aleat\u00f3ria<br \/>\nde ca\u00e7adores de \u00e1rvores.<br \/>\nD\u00easte modo o nomadismo imp\u00f5e-se-lhes. \u00c9-lhes condi\u00e7\u00e3o<br \/>\ninviol\u00e1vel de \u00eaxito. Afundam temer\u00e0riamente no deserto;<br \/>\ninsulam-se em sucessivos s\u00edtios e n\u00e3o rev\u00eaem nunca os<br \/>\ncaminhos percorridos. Condenados ao desconhecido, afei\u00e7oam-se \u00e0s<br \/>\nparagens \u00ednvias e inteiramente novas. Alcan\u00e7am-nas: abandonam-nas.<br \/>\nProsseguem e n\u00e3o se restribam nas posi\u00e7\u00f5es \u00e0s<br \/>\nv\u00eazes \u00e0rduamente conquistadas.<br \/>\nAtingindo qualquer trecho onde os p\u00e9s de caucho se descubram, levantam<br \/>\n\u00e0 beira de uma quebrada o primeiro tambo de paxi\u00faba, e atiram-se<br \/>\n\u00e0 tarefa agitad\u00edssima. Os seus primeiros instrumentos de trabalho<br \/>\ns\u00e3o a carabina Winchestewr &#8211; o rifle curto adrede disposto aos recontros<br \/>\nno tran\u00e7ado das ramarias -, o machete cortante que lhes destrana os<br \/>\ncipoais, e a b\u00fassola port\u00e1til, norteando-se no embaralhado das<br \/>\nveredas. Tomam-nos e lan\u00e7am-se a uma revista cautelosa das cercanias.<br \/>\nV\u00e3o em busca do selvagem que devem combater e exterminar ou escravizar,<br \/>\npara que do mesmo lance tenham t\u00f4da a seguran\u00e7a no n\u00f4vo<br \/>\np\u00f4sto de trabalhos e bra\u00e7os que lhos impulsionem.<br \/>\nS\u00e3o bem poucos \u00e0s v\u00eazes os que se abalan\u00e7am a esta<br \/>\npreliminar obrigat\u00f3ria e temer\u00e1ria: meia d\u00fazia de homens,<br \/>\ndispersando-se e mergulhando silenciosamente na espessura. E l\u00e1 se<br \/>\nv\u00e3o, perquirindo e sondando todos os recessos; batendo palmo a palmo<br \/>\ntodos os recantos suspeitos; anotando de cor, num exaustivo levantamento topogr\u00e1fico,<br \/>\nde mem\u00f3ria, os mais variados acidentes; ao mesmo passo que com os olhos<br \/>\ne ouvidos armados aos mais fugitivos aspectos e aos mais vagos rum\u00f4res<br \/>\ndos ares murmurantes da floresta, v\u00e3o premunindo-se dos resguardos<br \/>\ne ardilezas que se exigem naquele assombroso duelo sevilhano com o deserto.<br \/>\nAlguns n\u00e3o tornam mais. Outros, volvem indenes aos pousos, depois da<br \/>\nperquiri\u00e7\u00e3o in\u00fatil. Algum, por\u00e9m, ao cabo da pesquisa<br \/>\nfatigante, lobriga ao longe, meio indistintas nas folhagens, as primeiras<br \/>\ncabanas do selvagem.<br \/>\nMal refreia um grito de triunfo, e n\u00e3o volve logo a comunicar aos companheiros<br \/>\no achado.<br \/>\nRefina a sua ast\u00facia extraordin\u00e1ria. Cose-se com o ch\u00e3o,<br \/>\ne, de rastros, fareando el peligro, aproxima-se quando pode do inimigo descuidado.<br \/>\nH\u00e1, realmente, neste lance, um tra\u00e7o comovente de hero\u00edsmo.<br \/>\nO homem perdido na solid\u00e3o absoluta vai procurar o b\u00e1rbaro,<br \/>\nlevando a escolta \u00fanica das dezoito balas de seu rifle carregado.<br \/>\n\u00c9 um rastejamento longo, tortuoso e lento, em que \u00eale aproveita<br \/>\ntodos os acidentes, encobrindo-se por detr\u00e1s dos troncos ou entaliscando-se<br \/>\nnos \u00e2ngulos das sapopembas, deslizando sem ru\u00eddo s\u00f4bre<br \/>\nas camadas das ramas decompostas, ou insinuando-se entre as hastes unidas<br \/>\ndas helic\u00f4nias de largas f\u00f4lhas protetoras, at\u00e9 que possa,<br \/>\nno t\u00earmo da investida surda e angustiosa, contemplar e ouvir de perto,<br \/>\nquase \u00e0 orla do terreiro claro, os advers\u00e1rios inexpertos, e<br \/>\ninscientes do civilizado sinistro que os espia e os conta e lhes observa as<br \/>\nmaneiras e lhes avalia os recursos &#8211; e volta depois do exame minucioso, levando<br \/>\naos companheiros, que o aguardam, todos os informes necess\u00e1rios \u00e0<br \/>\n&#8220;conquista&#8221;.<br \/>\nConquita \u00e9 o t\u00earmo predileto, usado por uma esp\u00e9cie de<br \/>\nreminisc\u00eancia at\u00e1vica das antiq\u00fc\u00edssimas algaras dos<br \/>\ncondut\u00edcios de Pizarro. Mas n\u00e3o a efetuam pelas armas sem esgotarem<br \/>\nos efeitos da diplomacia rudimentar dos presentes mais apetecidos do selvagem.<br \/>\nA um ouvimos certa vez o processo seguido: &#8220;Se los atrae al tambo por<br \/>\nmedio de regalos: ropa, rifles, machetes, etc.; y sin hacerlos trabajar, se<br \/>\nles deja que vayan al tolderio a decir a sus compa\u00f1eros el como son<br \/>\ntratados por los caucheros, que nos los obligan a trabajar, sino que les aconsejan<br \/>\nque trabajen un poco y a voluntad, para pagar aquello que les dieron&#8230;&#8221;<br \/>\n\u00castes meios pac\u00edficos, por\u00e9m, s\u00e3o em geral fal\u00edveis.<br \/>\nA regra \u00e9 a ca\u00e7ada impiedosa, \u00e0 bala. \u00c9 o lado<br \/>\nher\u00f3ico da empr\u00easa: um grupo inapreci\u00e1vel arrojando-se<br \/>\n\u00e0 montaria de uma multid\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o se lhe pormenorizam os epis\u00f3dios.<br \/>\nSubordina-se a uma t\u00e1tica invari\u00e1vel: a m\u00e1xima rapidez<br \/>\ndo tiro e a m\u00e1xima temeridade. S\u00e3o garantias certas do triunfo.<br \/>\n\u00c9 incalcul\u00e1vel o n\u00famero de min\u00fasculas batalhas<br \/>\ntravadas naqueles sert\u00f5es onde reduzidos grupos bem armados suplantam<br \/>\ntribos inteiras, sacrificadas a um tempo pelas suas armas grosseiras e pela<br \/>\nafoiteza no arremeterem com as descargas rolantes das carabinas.<br \/>\nCitemos um exemplo \u00fanico. Quando Carlos Fiscarrald chegou em 1892 \u00e0s<br \/>\ncabeceiras do Madre de Di\u00f3s, vindo do Ucai\u00e1li pelo varadouro<br \/>\naberto no istmo que lhe conserva o nome, procurou captar do melhor modo os<br \/>\nmashcos indom\u00e1veis que as senhoreavam. Trazia entre os piros que conquistara<br \/>\num int\u00e9rprete inteligente e leal. Conseguiu sem dificuldades ver e<br \/>\nconservar o curaca selvagem.<br \/>\nA confer\u00eancia foi r\u00e1pida e curios\u00edssima.<br \/>\nO not\u00e1vel explorador, depois de apresentar ao &#8220;infiel&#8221; os<br \/>\nrecursos que trazia e o seu pequeno ex\u00e9rcito, onde se misturavam as<br \/>\nfisionomias d\u00edspares das tribos que subjugara, tentou demonstrar-lhe<br \/>\nas vantagens da alian\u00e7a que lhe oferecia contrapostas aos inconvenientes<br \/>\nde uma luta desastrosa. Por \u00fanica resposta o mashco perguntou-lhe pelas<br \/>\nflexas que trazia. E Fiscarrald entregou-lhe, sorrindo, uma c\u00e1psula<br \/>\nde Winchester.<br \/>\nO selvagem examinou-a, longo tempo, absorto ante a pequenez do proj\u00e9til.<br \/>\nProcurou, debalde, ferir-se, ro\u00e7ando rijamente a bala contra o peito.<br \/>\nN\u00e3o o conseguindo, tomou uma de suas flexas; cravou-a, de golpe, no<br \/>\noutro bra\u00e7o, varando-o. Sorriu, por sua vez, indiferente \u00e0 dor,<br \/>\ncontemplando com orgulho o seu pr\u00f3prio sangue que esguichava&#8230; e sem<br \/>\ndizer palavra deu as costas ao sertanista surpreendido, voltando para o seu<br \/>\ntolder\u00edo com a ilus\u00e3o de uma superioridade que a breve trecho<br \/>\nseria inteiramente desfeita. De fatom meia hora depois, c\u00earca de cem<br \/>\nmashcos, inclusive o chefe recalcitrante e ing\u00eanuo, jaziam trucidados<br \/>\ns\u00f4bre a margem, cujo nome, Playa Mashcos, ainda hoje relembra \u00easte<br \/>\nsanguinolento epis\u00f3dio&#8230;<br \/>\nAssim vai desbravando-se a regi\u00e3o bravia. Varejadas as redondezas,<br \/>\nmortos ou escravizados num raio de poucas l\u00e9guas os abor\u00edgenes,<br \/>\nos caucheiros agitam-se febrilmente na az\u00e1fama estonteadora. Em alguns<br \/>\nmeses ao lado do primitivo tambo multiplicam-se outros; a casucha solit\u00e1ria<br \/>\ntransmuda-se em amplo barrac\u00f3n ou embarcadero ruidos; e adensam-se<br \/>\npor v\u00eazes as vivendas em caser\u00edos, a exemplo de Cocama e Curanja,<br \/>\n\u00e0 margem do Purus, a espelharem, repentinamente, no deserto, a miragem<br \/>\nde um progresso que surge, se desenvolve e acaba num dec\u00eanio. Os caucheiros<br \/>\nali estacionam at\u00e9 que caia o \u00faltimo p\u00e9 de caucho. Chegam,<br \/>\ndestr\u00f3em, v\u00e3o-se embora. Nada pedem, em geral, \u00e0 terra,<br \/>\n\u00e0 parte ex\u00edguas planta\u00e7\u00f5es de i\u00facas e bananas,<br \/>\na que se dedicam os \u00edndios domesticados. A \u00fanica agricultura<br \/>\nregular, embora diminuta, que se observa no Alto-Purus, para l\u00e1 das<br \/>\n\u00faltimas barracas dos nossos seringueiros, e a do algod\u00e3o, dos<br \/>\ncampas aldeados, que at\u00e9 nisto delatam a independ\u00eancia nativa:<br \/>\ncolhendo, cardando, fiando, tecendo e pintando as cushmas de que se revestem,<br \/>\ne descem-lhes dos ombros at\u00e9 aos p\u00e9s, com o feitio de longas<br \/>\ntogas grosseiras. Assim, entre os estranhos civilizados que ali chegam de<br \/>\narrancada para ferir e matar o homem e a \u00e1rvore, estacionando apenas<br \/>\no tempo necess\u00e1rio a que ambos se extingam, seguindo a outros rumos<br \/>\nonde renovam as mesmas tropelias, passando como uma vaga devastadora e deixando<br \/>\nainda mais selvagem a pr\u00f3pria selvageria &#8211; aqu\u00eales b\u00e1rbaros<br \/>\nsingulares patenteiam o \u00fanico aspecto tranq\u00fcilo das culturas.<br \/>\nO contraste \u00e9 empolgante. Seguindo do povoado campa de Tingoleales<br \/>\npara o s\u00edtio peruano de Shamboyaco, perto da foz do Rio Manuel Urbano,<br \/>\no viajante n\u00e3o passa, como a princ\u00edpio acredita, dos est\u00e1dios<br \/>\nmais primitivos aos mais elevados da evolu\u00e7\u00e3o humana. Tem uma<br \/>\nsurpr\u00easa maior. Vai da barbaria franca a uma sorte de civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ncaduca em que todos os estigmas daquela ressaltam, mais incisivos, dentre<br \/>\nas pr\u00f3prias conquistas do progresso.<br \/>\nAborda a est\u00e2ncia peruana; e nas primeiras horas encanta-o o quadro<br \/>\nde uma exist\u00eancia movimentada e ruidosa. A vivenda principal e as que<br \/>\nse lhe subordinam, arruadas alguma vez \u00e0 maneira de pequenas vilas,<br \/>\nerigem-se sempre num ponto bem escolhido a cavaleiro do rio; e a despeito<br \/>\nde se constru\u00edrem exclusivamente com as f\u00f4lhas e est\u00edpites<br \/>\nda paxi\u00faba &#8211; que \u00e9 a palmeira providencial da Amaz\u00f4nia<br \/>\n&#8211; s\u00e3o em geral de dois andares e t\u00eam na eleg\u00e2ncia das linhas<br \/>\ne nas varandas desafogadas, que as circuitam, uma apar\u00eancia de todo<br \/>\ncontraposta ao aspecto tristonho dos chatos barrac\u00f5es dos nossos seringueiros.<br \/>\nNo terreiro amplo, acabando na crista da baranca caindo em talude vivo s\u00f4bre<br \/>\no rio, uma agita\u00e7\u00e3o animadora e \u00e1lacre; carregadores<br \/>\npossantes passando em longas filas sucessivas arcados sob as pranchas de caucho;<br \/>\nadministradores ativos rompendo das portas do andar t\u00e9rreo e correndo<br \/>\npara t\u00f4da a banda, para os armaz\u00e9ns refertos de conservas ou<br \/>\npara as tendas fulgurantes, onde estridulam malhos e bigornas, reparando as<br \/>\nachas e machetes.<br \/>\nEmbaixo no embarcadero, coalhado das ub\u00e1s velozes, onde as tanganas<br \/>\nfisgam vivamente os ares, vozeia a algazarra dos pr\u00e1ticos e proeiros,<br \/>\ne espalmam-se nas \u00e1guas as balsas feitas exclusivamente de caucho,<br \/>\nformando-se s\u00f4bre o &#8220;caminho que marcha&#8221; a &#8220;mercadoria<br \/>\nque conduz os condutores&#8221;. E em todo o correr da ladeira que dali serpeia<br \/>\nat\u00e9 em cima, as saias vermelhas e os corpinhos brancos das cholas graciosas<br \/>\nde Iquitos, passando e entrecruzando-se, num embandeiramento festivo&#8230;<br \/>\nO viajante atravessa os grupos agitados e as surpr\u00easas n\u00e3o cessam.<br \/>\nGalga a escada que o leva \u00e0 varanda da frente, para onde d\u00e3o<br \/>\nos principais repartimentos da vivenda. No alto o caucheiro &#8211; um triunfador<br \/>\njovial e desempenado s\u00f4bre os rijos tac\u00f5es das suas botas de<br \/>\nmateiro &#8211; recebe-o ruidosamente, abrindo-lhe de par em par as portas numa<br \/>\nhospitalidade espetaculosa e franca. E completa-se o encanto. Extinta a no\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo tempo, ou do longo espa\u00e7o de milhares de quil\u00f4metros gastos<br \/>\nno sulcar os rios solit\u00e1rios para atingir aquela est\u00e2ncia long\u00ednqua,<br \/>\no forasteiro insens\u00ecvelmente se imagina em algum entreposto comercial<br \/>\nde qualquer cidade da costa. Nada lhe falta ao engano: o longo balc\u00e3o<br \/>\nde pinho abarreirando a sala principal e cerrando o recinto, onde se aprumam<br \/>\nas prateleiras atestadas de mercadorias; os empregados sol\u00edcitos obedientes<br \/>\n\u00e0s ordens do guarda-livros corret\u00edssimo, que o cumprimentou<br \/>\nao entrar e volveu logo \u00e0 sua escrita, acurvado s\u00f4bre a secret\u00e1ria<br \/>\ninclinada; o copo de cerveja que lhe oferecem, ao inv\u00e9s da chicha tradicional;<br \/>\na folhinha art\u00edstica a um lado, marcando o dia certo do ano; os jornais<br \/>\nde Manaus e de Lima; e at\u00e9 &#8211; o que \u00e9 inveross\u00edmil &#8211; a<br \/>\ntortura requintada e culta de um fon\u00f3grafo, gaguejando, emperradamente,<br \/>\nnaquele fundo de desertos, uma \u00e1ria predileta de tenor famoso&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas t\u00f4da esta exterioridade surpreendente desaparece ante uma observa\u00e7\u00e3o<br \/>\npermitindo ao visitante ver o que lhe n\u00e3o mostra o seu garboso hospedeiro.<br \/>\nA desilus\u00e3o assalta-o ent\u00e3o de ch\u00f4fre; e \u00e9 impressionadora.<br \/>\nAqu\u00eale reflexo de vida superior n\u00e3o vai al\u00e9m da escassa<br \/>\nnesga de ch\u00e3o, de menos de um hectare, constrita entre a mata amea\u00e7adora<br \/>\ne pr\u00f3xima, ao fundo, e a barranca despenhada rio adiante.<br \/>\nFora d\u00easte falso cen\u00e1rio, o drama real que se desenrola \u00e9<br \/>\nquase inconceb\u00edvel para o nosso tempo.<br \/>\nAbaixo do caucheiro opulento, numa escala deplor\u00e1vel, do mesti\u00e7o<br \/>\nloretqno que ali vai em busca de fortuna ao qu\u00edchua deprimido trazido<br \/>\ndas cordilheiras, h\u00e1 uma s\u00e9rie indefinida de espoliados. Para<br \/>\nv\u00ea-los tem-se que varar os obscuros recessos da mata sem caminhos e<br \/>\nbusc\u00e1-los nas urmanas solit\u00e1rias, onde assistem completamente<br \/>\ns\u00f3s, acompanhados apenas do rifle insepar\u00e1vel, que lhes garante<br \/>\na exist\u00eancia com os recursos aleat\u00f3rios das ca\u00e7adas. Ali<br \/>\nmourejam improf\u00e0icuamente longos anos; enfermam, devorados das mol\u00e9stias;<br \/>\ne extinguem-se no absoluto abandono. Quatrocentos homens \u00e0s v\u00eazes,<br \/>\nque ningu\u00e9m v\u00ea, dispersos por aquelas quebradas, e mal aparecendo<br \/>\nde longe em longe no castelo de palha do acalcanhado bar\u00e3o que os escraviza.<br \/>\nO &#8220;conquistador&#8221; n\u00e3o os vigia. Sabe que lhe n\u00e3o fogem.<br \/>\nEm roda, num raio de seis l\u00e9guas, que \u00e9 todo o seu dom\u00ednio,<br \/>\na regi\u00e3o, in\u00e7ada de outros infieles, \u00e9 intranspon\u00edvel.<br \/>\nO deserto \u00e9 um feitor perp\u00e8tuamente vigilante. Guarda-lhe a<br \/>\nescravatura numerosa. Os mesmos campas altanados, que \u00eale captou esgrimindo<br \/>\numa perf\u00eddia magistral contra a bravura ing\u00eanua do b\u00e1rbaro,<br \/>\nn\u00e3o o deixam mais, temendo os pr\u00f3prios irm\u00e3os bravios,<br \/>\nque nunca lhes perdoam a submiss\u00e3o transit\u00f3ria.<br \/>\nDesta sorte o aventureiro feliz que dois anos antes, em Lima ou Arequipa,<br \/>\nexercitava o trato mais gentil &#8211; sente-se inteiramente livre da press\u00e3o<br \/>\ne dos infinitos corretivos da vida social, e adquirindo a consci\u00eancia<br \/>\ndo mando ilimitado, ao mesmo tempo que o invade o sentimento da impunidade<br \/>\npara todos os caprichos e delitos, cai, de um salto, numa selvageria original\u00edssima,<br \/>\nem que entra sem ter tempo de perder os atributos superiores do meio onde<br \/>\nnasceu.<br \/>\nRealmente, o caucheiro n\u00e3o \u00e9 apenas um tipo in\u00e9dito na<br \/>\nHist\u00f3ria. \u00c9, sobretudo, antin\u00f4mico e paradoxal. No mais<br \/>\npormenorizado quadro etnogr\u00e1fico n\u00e3o h\u00e1 um lugar para<br \/>\n\u00eale. A princ\u00edpio figura-se-nos um caso vulgar de civilizado que<br \/>\nse barbariza, num recuo espantoso em que se lhe apagam os caracteres superiores<br \/>\nnas formas primitivas da atividade.<br \/>\nE \u00e9 um engano. \u00castes est\u00e1dios contrapostos \u00eale n\u00e3o<br \/>\nos combina criando uma atividade h\u00edbrida embora, mas definida e est\u00e1vel.<br \/>\nJunta-os apenas sem os caldear. \u00c9 um caso de mimetismo ps\u00edquico<br \/>\nde homem que se finge b\u00e1rbaro para vencer o b\u00e1rbaro. \u00c9<br \/>\ncaballero e selvagem, consoante as circunst\u00e2ncias. O dualismo curioso<br \/>\nde quem procura manter intactos os melhores ensinamentos morais ao lado de<br \/>\numa moral fundada especialmente para o deserto &#8211; reponta em todos os atos<br \/>\nda sua exist\u00eancia rev\u00f4lta. O mesmo homem que com invej\u00e1vel<br \/>\nretitude esfor\u00e7a-se por satisfazer os seus compromissos, que \u00e0s<br \/>\nv\u00eazes sobem a milhares de contos, com os exportadores de Iquitos ou<br \/>\nManaus, n\u00e3o vacila em iludir o pe\u00f3n miser\u00e1vel que o serve,<br \/>\nem alguns quilos de sernambi ordin\u00e1rio; ou passa por v\u00eazes da<br \/>\nmais refinada galanteria \u00e0 m\u00e1xima brutalidade, deixando em meio<br \/>\num sorriso cativante e uma mesura impec\u00e1vel, para saltar com um rugido,<br \/>\nde cuchillo rebrilhante em punho, s\u00f4bre o cholo desobediente que o afronta.<br \/>\nA selvageria \u00e9 uma m\u00e1scara que \u00eale p\u00f5e e retira<br \/>\n\u00e0 vontade.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 ajust\u00e1-la ao molde incompar\u00e1vel dos nossos<br \/>\nbandeirantes. Ant\u00f4nio Rap\u00f4so, por exemplo, tem um destaque admir\u00e1vel<br \/>\nentre todos os conquistadores sul-americanos. O seu hero\u00edsmo \u00e9<br \/>\nbrutal, maci\u00e7o, sem frinchas, sem dobras, sem disfarces. Avan\u00e7a<br \/>\nininteligentemente, mec\u00e2nicamente, inflex\u00ecvelmente, como uma<br \/>\nf\u00f4r\u00e7a natural desencadeada. A diagonal de mil e quinhentas l\u00e9guas<br \/>\nque tra\u00e7ou de S\u00e3o Paulo at\u00e9 ao Pac\u00edfico, cortando<br \/>\nt\u00f4da a Am\u00e9rica do Sul, por cima de rios, de chapad\u00f5es,<br \/>\nde pantanais, de corixas estagnadas, de desertos, de cordilheiras, de p\u00e1ramos<br \/>\nnevados e de litorais asp\u00e9rrimos, entre o espanto e as ru\u00ednas<br \/>\nde cem trilhos suplantadas, \u00e9 um lance apavorante, de epop\u00e9ia.<br \/>\nMas sente-se bem naquela ousadia individual a concentra\u00e7\u00e0o maravilhosa<br \/>\nde t\u00f4das as ousadias de uma \u00e9poca.<br \/>\nO bandeirante foi brutal, inexor\u00e1vel, mas l\u00f3gico.<br \/>\nFoi o super-homem do deserto.<br \/>\nO caucheiro \u00e9 irritantemente absurdo na sua brutalidade elegante, na<br \/>\nsua galanteria sanguinolenta e no seu hero\u00edsmo \u00e0 gandaia. \u00c9<br \/>\no hom\u00fanculo da civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas compreende-se esta antilogia. O aventureiro ali vai com a preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nexclusiva de enriquecer e voltar; voltar quanto antes, fugindo \u00e0quela<br \/>\nterra melanc\u00f3lica e empantanada que parece n\u00e3o ter solidez para<br \/>\nag\u00fcentar o pr\u00f3prio p\u00easo material de uma sociedade. Acompanha-o,<br \/>\nem t\u00f4das as conjunturas da sua atividade nervosa e precipitada, o espet\u00e1culo<br \/>\ndas cidades vastas, onde brilhar\u00e1 um dia, transformado em esterlinos<br \/>\no oro negro do caucho. Dominado de todo pela nostalgia incur\u00e1vel da<br \/>\nparagem nativa, que \u00eale deixou precisamente para a rever apercebido<br \/>\nde recursos que lhe facultem maiores somas de felicidades &#8211; atira-se \u00e0s<br \/>\nflorestas: enterreira e subjuga os selvagens; resiste ao impaludismo e \u00e0s<br \/>\nfadigas; agita-se, adoidadamente, durante quatro, cinco, seis anos; acumula<br \/>\nalgumas centenas de milhares de soles e desaparece, de repente&#8230;<br \/>\nSurge em Paris. Atravessa em pleno esplendor dos teatros ruidosos e dos sal\u00f5es,<br \/>\nseis meses de vida delirante, sem que lhe descubram, destoando da corre\u00e7\u00e3o<br \/>\nimpec\u00e1vel das vestes e das maneiras, o mais leve resqu\u00edcio do<br \/>\nnomadismo profissional. Arru\u00edna-se galhardamente; e volta&#8230; Reata<br \/>\na faina antiga: novos quatro ou seis anos de trabalhos for\u00e7ados; nova<br \/>\nfortuna prestes adquirida; n\u00f4vo volver ansioso em busca da fortuna perdidi\u00e7a,<br \/>\nnuma oscila\u00e7\u00e3o estupenda das avenidas fulgurantes para as florestas<br \/>\nsolit\u00e1rias.<\/p>\n<p>A \u00easte prop\u00f3sito correm as mais curiosas vers\u00f5es, em<br \/>\nque se destacam famosos caucheiros conhecid\u00edssimos em Manaus.<br \/>\nNeste viver oscilante \u00eale d\u00e1 a tudo quanto pratica, na terra<br \/>\nque devasta e desama, um car\u00e1ter provis\u00f3rio &#8211; desde a casa que<br \/>\nconstr\u00f3i em dez dias para durar cinco anos, \u00e0s mais afetuosas<br \/>\nliga\u00e7\u00f5es que \u00e0s v\u00eazes duram anos e \u00eale destr\u00f3i<br \/>\nnum dia. Neste ponto, sobretudo, desenha-se-lhe a inconst\u00e2ncia irrivaliz\u00e1vel.<br \/>\nUm d\u00eales, como lhe pergunt\u00e1ssemos, em Curanja, onde desposara<br \/>\na amauaca gentil\u00edssima que lhe assistia h\u00e1 dez anos com os desvelos<br \/>\nde uma esp\u00f4sa exemplar, retorquiu-nos, levemente ir\u00f4nico:<br \/>\n&#8211; Me han hecho regalo em Pachit\u00e9a.<br \/>\nUm regalo, um presente, um traste que \u00eale abandonaria \u00e0 primeira<br \/>\neventualidade, sem cuidados.<br \/>\nReportado negociante daquele vilarejo deca\u00eddo, que em Lima ou Iquitos<br \/>\nseria um belo molde de burgu\u00eas pac\u00edfico e abst\u00eamio, ali<br \/>\nhambriento de mujeres, apresenta aos amigos e ao forasteiro advent\u00edcio,<br \/>\no seu har\u00e9m escandaloso, onde se estremam a interessante Mercedes,<br \/>\nde ojillos de venado, que custou uma batalha contra os coronauas, e a encantadora<br \/>\nFacunda de grandes olhos selvagens e cismadores, que lhe custou cem soles.<br \/>\nE narra o tr\u00e1fico criminoso, a rir, absolutamente impune, e sem temores.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 leis. Cada um traz o c\u00f3digo penal no rifle que<br \/>\nsobra\u00e7a, e exercita a justi\u00e7a a seu alvedrio, sem que o chamem<br \/>\na contas. Num dia, de julho de 1905, quando chegava ao \u00faltimo puesto<br \/>\ncaucheiro do Purus uma comiss\u00e3o mi9sta de reconhecimento, todos os<br \/>\nque a compunham, brasileiros e peruanos, viram um corpo desnudo e atrozmente<br \/>\nmutilado, lan\u00e7ado \u00e0 margem esquerda do rio, num claro entre<br \/>\nas frecheiras. Era o cad\u00e1ver de uma amauaca. F\u00f4ra morta por vingan\u00e7a,<br \/>\nexplicou-se vagamente depois. E n\u00e0o se tratou mais do incidente &#8211; coisa<br \/>\nde nonada e trivial\u00edssima na paragem revolvida pelas gentes que a atravessam<br \/>\ne n\u00e3o povoam, e passam deixando-a ainda mais triste com os escombros<br \/>\ndas est\u00e2ncias abandonadas&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Estas l\u00e1 est\u00e3o em t\u00f4das as voltas do Alto-Purus, aparecendo,<br \/>\nentristecedoras, sob os v\u00e1rios aspectos que v\u00e3o das urmanas<br \/>\nhumildes dos pe\u00f5es \u00e0s vivendas outrora senhoris dos caucheiros.<br \/>\nPouco acima do Shamboyaco, uma, s\u00f4bre t\u00f4das, nos impressionou,<br \/>\nquando desc\u00edamos.<br \/>\nF\u00f4ra um p\u00f4sto de primeira ordem. Saltamos para o examinar; e vingando<br \/>\na custo a barranca malgradada, descobrindo em cima o velho caminho invadido<br \/>\nde vassouras bravas, chegamos ao terreiro onde o matagal inextric\u00e1vel<br \/>\nia peneirando e cobrindo os acervos de vasilhas velhas, farragens repugnantes,<br \/>\nrestos de ferramentas, e ciscalhos em montes deixados pelos pr\u00f3fugos<br \/>\nhabitantes. A casa principal, defronte, meio estru\u00edda, tetos abatidos,<br \/>\nparedes encombentes e a tombarem despegando-se dos esteios desaprumados, figurava-se<br \/>\nsustida apenas pelas lianas que lhe irrompiam de todos os pontos, furando-lhe<br \/>\na cobertura, enleando-se-lhe nas vigas vacilantes, amarrando-lhas, e estirando-se<br \/>\n\u00e0 fei\u00e7\u00e3o de cabos at\u00e9 as \u00e1rvores mais pr\u00f3ximas,<br \/>\nonde se enla\u00e7avam impedindo-lhe o desabamento completo; e as vivendas<br \/>\nmenores, anexas, cobertas de trepadeiras exuberando flora\u00e7\u00e3o<br \/>\nridente, apagavam-se, desaparecendo a pouco e pouco na constri\u00e7\u00e3o<br \/>\nirresist\u00edvel da mata que reconquistava o seu terreno primitivo.<br \/>\nMal atentamos, por\u00e9m, no magn\u00edfico lance regenerador, da flora,<br \/>\njuncando de corolas e fest\u00f5es garridos aquela ruinaria deplor\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o estava inteiramente desabitada a tapera.<br \/>\nNum dos casebres mais conservados aguardava-nos o \u00faltimo habitante.<br \/>\nPiro, amauaca ou campa, n\u00e0o se lhe distinguia a origem. Os pr\u00f3prios<br \/>\ntra\u00e7os da esp\u00e9cie humana, transmudava-lhos a apar\u00eancia<br \/>\nrepulsiva: um tronco desconforme, inchado pelo impaludismo, tomando-lhe a<br \/>\nfigura t\u00f4da, em pleno contraste com os bra\u00e7os finos e as pernas<br \/>\nesmirradas e tolhi\u00e7as como as de um feto monstruoso.<br \/>\nAcocorado a um canto, contemplava-nos impass\u00edvel. Tinha a um lado todos<br \/>\nos seus haveres: um cacho de bananas verdes.<br \/>\nEsta coisa indefin\u00edvel que por analogia cruel sugerida pelas circunst\u00e2ncias<br \/>\nse nos figurou menos um homem que uma bola de caucho ali jogada a \u00easmo,<br \/>\nesquecida pelos extratores &#8211; respondeu-nos \u00e0s perguntas num regougo<br \/>\nquase extinto e numa l\u00edngua de todo incompreens\u00edvel. Por fim,<br \/>\ncom enorme esfor\u00e7o levantou um bra\u00e7o; estirou-o, lento, para<br \/>\na frente, como a indicar alguma coisa que houvesse seguido para muito longe,<br \/>\npara al\u00e9m de todos aqu\u00eales matos e rios; e balbuciou, deixando-o<br \/>\ncair pesadamente, como se tivesse erguido um grande p\u00easo:<br \/>\n&#8211; &#8220;Amigos&#8221;.<br \/>\nCompreendia-se: amigos, companheiros, s\u00f3cios dos dias agitados das<br \/>\nsafras, que tinham partido para aquelas bandas, abandonando-o ali, na solid\u00e3o<br \/>\nabsoluta.<br \/>\nDas palavras castelhanas que aprendera restava-lhe aquela \u00fanica; e<br \/>\no desventurado murmurando-a como um tocante gesto de saudade, fulminava sem<br \/>\no saber &#8211; com um sarcasmo pungent\u00edssimo &#8211; os desmandados aventureiros<br \/>\nque \u00e0quela hora prosseguiam na faina devastadora: abrindo a tiros de<br \/>\ncarabinas e a golpes de machetes novas veredas a seus itiner\u00e1rios revoltos,<br \/>\ne desvendando outras paragens ignoradas, onde deixariam, como ali haviam deixado,<br \/>\nno desabamento dos casebres ou na figura lastim\u00e1vel do abor\u00edgene<br \/>\nsacrificado, os \u00fanicos frutos de suas lides tumultu\u00e1rias, de<br \/>\nconstrutores de ru\u00ednas&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>Judas-Ahsverus<\/h2>\n<p>No s\u00e1bado da Aleluia os seringueiros do Alto-Purus desforram-se de<br \/>\nseus dias tristes. \u00c9 um desaf\u00f4go. Ante a concep\u00e7\u00e3o<br \/>\nrudimentar da vida santificam-se-lhes, nesse dia, t\u00f4das as maldades.<br \/>\nAcreditam numa san\u00e7\u00e3o lit\u00fargica aos m\u00e1ximos deslizes.<br \/>\nNas alturas, o Homem-Deus, sob o encanto da vinda do filho ressurreto e despeado<br \/>\ndas ins\u00eddias humanas, sorri, complacentemente, \u00e0 alegria feroz<br \/>\nque arrebenta c\u00e1 embaixo. E os seringueiros vingam-se, ruidosamente,<br \/>\ndos seus dias tristes.<br \/>\nN\u00e3o tiveram missas solenes, nem procis\u00f5es luxuosas, nem lavap\u00e9s<br \/>\ntocantes, nem pr\u00e9dicas comovidas. T\u00f4da a Semana Santa correu-lhes<br \/>\nna mesmice torturante daquela exist\u00eancia im\u00f3vel, feita de id\u00eanticos<br \/>\ndias de pen\u00farias, os meios jejuns permanentes, de tristezas e de pesares,<br \/>\nque lhes parecem uma intermin\u00e1vel Sexta-feira da Paix\u00e3o, a estirar-se,<br \/>\nangustiosamente, indefinida, pelo ano todo afora.<br \/>\nAlguns recordam que nas paragens nativas, durante aquela quadra f\u00fanebre,<br \/>\nse retraem t\u00f4das as atividades &#8211; despovoando-se as ruas, paralisando-se<br \/>\nos neg\u00f3cios, ermando-se os caminhos &#8211; e que as luzes agonizam nos c\u00edrios<br \/>\nbruxuleantes, e as vozes se amortecem nas rezas e nos retiros, caindo um grande<br \/>\nsil\u00eancio misterioso s\u00f4bre as cidades, as vilas e os sert\u00f5es<br \/>\nprofundos onde as gentes entristecidas se associal \u00e0 m\u00e1goa prodigiosa<br \/>\nde Deus. E consideram, absortos, que \u00easses sete sias excepcionais, passageiros<br \/>\nem t\u00f4da a parte e em t\u00f4da a parte adrede estabelecidos a maior<br \/>\nrealce de outros dias mais numerosos, de felicidade &#8211; lhes s\u00e3o, ali,<br \/>\na exist\u00eancia inteira, mon\u00f3tona, obscura, doloris\u00edssima<br \/>\ne an\u00f4nima, a girar acabrunhadoramente na via dolorosa inalter\u00e1vel,<br \/>\nsem princ\u00edpio e sem fim, do c\u00edrculo fechado das &#8220;estradas&#8221;.<br \/>\nEnt\u00e3o pelas almas simples entra-lhes, obscurecendo as miragens mais<br \/>\ndeslumbrantes da f\u00e9, a sombra esp\u00eassa de um conceito singularmente<br \/>\npessimista da vida: certo, o Redentor universal n\u00e3o os redimiu; esqueceu-os<br \/>\npara sempre, ou n\u00e3o os viu talvez, t\u00e3o relegados se acham \u00e0<br \/>\nborda do rio solit\u00e1rio, que no pr\u00f3prio volver das suas \u00e1guas<br \/>\n\u00e9 o primeiro a fugir, eternamente, \u00e0queles tristes e desfreq\u00fcentados<br \/>\nrinc\u00f5es.<br \/>\nMas n\u00e3o se rebelam, ou blasfemam. O seringueiro rude, ao rev\u00e9s<br \/>\ndo italiano artista, n\u00e3o abusa da bondade de seu deus desmandando-se<br \/>\nem conv\u00edcios. \u00c9 mais forte; \u00e9 mais digno. Resignou-se<br \/>\n\u00e0 desdita. N\u00e3o murmura. N\u00e3o reza. As preces ansiosas<br \/>\nsobem por v\u00eazes ao c\u00e9u, levando disfar\u00e7adamente o travo<br \/>\nde um ressentimento contra a divindade; e \u00eale n\u00e3o se queixa.<br \/>\nTem a no\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, tang\u00edvel, sem racioc\u00ednios,<br \/>\nsem dilui\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas, maci\u00e7a e inexor\u00e1vel<br \/>\n&#8211; um grande p\u00easo a esmagar-lhe inteiramente a vida &#8211; da fatalidade;<br \/>\ne submete-se a ela sem subterfugir na covardia de um pedido, com os joelhos<br \/>\ndobrados. Seria um esfor\u00e7o in\u00fatil. Domina-lhe o crit\u00e9rio<br \/>\nrudimentar uma convic\u00e7\u00e3o talvez demasiado objetiva, ou ing\u00eanua,<br \/>\nmas irredut\u00edvel, a entrar-lhe a todo o instante pelos olhos a dist\u00e2ncia<br \/>\nque o afasta dos homens; e os grandes olhos de Deus n\u00e3o podem descer<br \/>\nat\u00e9 \u00e0queles brejais, manchando-se. N\u00e3o lhe vale a pena<br \/>\npenitenciar-se, o que \u00e9 um meio cauteloso de rebelar-se, reclamando<br \/>\numa promo\u00e7\u00e3o na escala indefinida da bem-aventuran\u00e7a.<br \/>\nH\u00e1 concorrentes mais felizes, mais bem protegidos, mais vistos, nas<br \/>\ncapelas, nas igrejas, nas catedrais, e nas cidades ricas onde se estadeia<br \/>\no fausto do sofrimento uniformizado de pr\u00eato, ou fulgindo na irradia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas l\u00e1grimas, e galhardeando tristezas&#8230;<br \/>\nAli &#8211; \u00e9 seguir, impass\u00edvel e mudo, est\u00f3icamente, no grande<br \/>\nisolamento da sua desventura.<br \/>\nAl\u00e9m disto, s\u00f3 lhe \u00e9 l\u00edcito punir-se da ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\nmaldita que o conduziu \u00e0queles lugares para entreg\u00e1-lo, maniatado<br \/>\ne escravo, aos traficantes impunes que o iludem &#8211; e \u00easte pecado \u00e9<br \/>\no seu pr\u00f3prio castigo, transmudando-lhe a vida numa intermin\u00e1vel<br \/>\npenit\u00eancia. O que lhe resta a fazer \u00e9 desvend\u00e1-la e arranc\u00e1-la<br \/>\nda penumbra das matas, mostrando-a, nuamente, na sua forma apavorante, \u00e0<br \/>\nhumanidade long\u00ednqua&#8230;<br \/>\nOra, para isso, a Igreja d\u00e1-lhe um emiss\u00e1rio sinistro: Judas;<br \/>\ne um \u00fanico dia feliz: o s\u00e1bado prefixo aos mais santos atentados,<br \/>\n\u00e0s balb\u00fardias confess\u00e1veis, \u00e0 turbul\u00eancia<br \/>\nm\u00edstica dos eleitos e \u00e0 diviniza\u00e7\u00e0o da vingan\u00e7a.<br \/>\nMas o mostrengo de palha, trivial\u00edssimo, de todos os lugares e de todos<br \/>\nos tempos, n\u00e3o lhe basta \u00e0 miss\u00e3o complexa e grave. Vem<br \/>\nbatido demais pelos s\u00e9culos em fora, t\u00e3o pisoado, t\u00e3o<br \/>\ndeca\u00eddo e t\u00e3o apedrejado que se tornou vulgar na sua infinita<br \/>\nmis\u00e9ria, monopolizando o \u00f3dio universal e apequenando-se, mais<br \/>\ne mais, diante de tantos que o malquerem.<br \/>\nFaz-se-lhe mister, ao menos, acentuar-lhe as linhas mais vivas e cru\u00e9is;<br \/>\ne mascarar-lhe no rosto de pano, a laivos de carv\u00e3o, uma tortura t\u00e3o<br \/>\ntr\u00e1gica, e em tanta maneira pr\u00f3xima da realidade, que o eterno<br \/>\ncondenado pare\u00e7a ressuscitar ao mesmo tempo que a sua divina v\u00edtima,<br \/>\nde modo a desafiar uma repulsa mais espont\u00e2nea e um mais compreens\u00edvel<br \/>\nrevide, satisfazendo \u00e0 saciedade as almas ressentidas dos crentes,<br \/>\ncom a imagem tanto poss\u00edvel perfeita da sua mis\u00e9ria e das suas<br \/>\nagonias terr\u00edveis.<br \/>\nE o seringueiro abalan\u00e7a-se a \u00easse prod\u00edgio de estatu\u00e1ria,<br \/>\nauxiliado pelos filhos pequeninos, que deliram, ruidosos, sem risadas, a correrem<br \/>\npor t\u00f4da a banda, em busca das palhas esparsas e da farragem repulsiva<br \/>\nde velhas roupas imprest\u00e1veis, encantados com a tarefa funambulesca,<br \/>\nque lhes quebra t\u00e3o de golpe a monotonia tristonha de uma exist\u00eancia<br \/>\ninvari\u00e1vel e quieta.<br \/>\nO judas faz-se como se f\u00eaz sempre: um par de cal\u00e7as e uma camisa<br \/>\nvelha, grosseiramente cosidos, cheios de palhi\u00e7as e mulambos; bra\u00e7os<br \/>\nhorizontais, abertos, e pernas em \u00e2ngulo, sem juntas, sem relevos, sem<br \/>\ndobras, aprumando-se, espantadamente, empalado, no centro do terreiro. Por<br \/>\ncima uma bola desgraciosa representando a cabe\u00e7a. \u00c9 o manequim<br \/>\nvulgar, que surge em t\u00f4da a parte e satisfaz \u00e0 maioria das gentes.<br \/>\nN\u00e3o basta ao seringueiro. \u00c9-lhe apenas o bloco de onde vai tirar<br \/>\na est\u00e1tua, que \u00e9 a sua obra-prima, a cria\u00e7\u00e3o espantosa<br \/>\ndo seu g\u00eanio rude longamente trabalhado de reveses; onde outros talvez<br \/>\ndistingam tra\u00e7os admir\u00e1veis de uma ironia sutil\u00edssima,<br \/>\nmas que \u00e9 para \u00eale apenas a express\u00e3o concreta de uma<br \/>\nrealidade dolorosa.<br \/>\nE principia, \u00e0s voltas com a figura disforme: salienta-lhe e afei\u00e7oa-lhe<br \/>\no nariz; reprofunda-lhe as \u00f3rbitas; esbate-lhe a fronte; acentua-lhe<br \/>\nos zigomas; e agu\u00e7a-lhe o queixo, numa massagem cuidadosa e lenta;<br \/>\npinta-lhe as sobrancelhas, e abre-lhe com dois riscos demorados, pacientemente,<br \/>\nos olhos, em geral tristes e cheios de um olhar misterioso; desenha-lhe a<br \/>\nb\u00f4ca, sombreada de um bigode ralo, de guias deca\u00eddas aos cantos.<br \/>\nVeste-lhe, depois, umas cal\u00e7as e uma camisa de algod\u00e3o, ainda<br \/>\nserv\u00edveis; cal\u00e7a-lhe umas botas velhas, cambadas&#8230;<br \/>\nRecua meia d\u00fazia de passos. Contempla-a durante alguns minutos. Estuda-a.<br \/>\nEm t\u00f4rno a filharada, silenciosa agora, queda-se expectante, assistindo<br \/>\nao desdobrar da concep\u00e7\u00e3o, que a maravilha.<br \/>\nVolve ao seu hom\u00fanculo: retoca-lhe uma p\u00e1lpebra; aviva um ricto<br \/>\nexpressivo na arqueadura do l\u00e1bio; sombreia-lhe um pouco mais o rosto,<br \/>\ncavando-o; ajeita-lhe melhor a cabe\u00e7a; arqueia-lhe os bra\u00e7os;<br \/>\nrepuxa e reifica-lhe as vestes&#8230;<br \/>\nN\u00f4vo recuo, compassado, lento, remirando-o, para apanhar de um lance,<br \/>\nnuma vista de conjunto, a impress\u00e3o exata, a s;intese de t\u00f4das<br \/>\naquelas linhas; e renovar a faina com uma pertin\u00e1cia e uma tortura<br \/>\nde artista incontent\u00e1vel. Novos retoques, mais delicados, mais cuidadosos,<br \/>\nmais s\u00e9rios: um tenu\u00edssimo esbatido de sombra, um tra\u00e7o<br \/>\nquase impercept\u00edvel na b\u00f4ca refegada, uma tor\u00e7\u00e3o<br \/>\ninsignificante no pesco\u00e7o engravatado de trapos&#8230;<br \/>\nE o monstro, lento e lento, num transfigurar-se insens\u00edvel, vai-se<br \/>\ntornando em homem. Pelo menos a ilus\u00e3o \u00e9 empolgante&#8230;<br \/>\nRepentinamente o bronco estatu\u00e1rio tem um gesto mais comovedor do que<br \/>\no parla! ansios\u00edssimo, de Miguel-\u00c2ngelo: arranca o seu pr\u00f3prio<br \/>\nsombreiro; atira-o \u00e0 cabe\u00e7a do Judas; e os filhinhos todos recuam,<br \/>\nnum grito, vendo retratar-se na figura desengon\u00e7ada e sinistra o vulto<br \/>\ndo seu pr\u00f3prio pai.<br \/>\n\u00c9 um doloroso triunfo. O sertanejo esculpiu o maldito \u00e0 sua<br \/>\nimagem. Vinga-se de si mesmo: pune-se, afinal, da ambi\u00e7\u00e0o maldita<br \/>\nque o levou \u00e0quela terra; e desafronta-se da fraqueza moral que lhe<br \/>\nparte os \u00edmpetos da rebeldia recalcando-o cada vez mais ao plano inferior<br \/>\nda vida deca\u00edda onde a credulidade infantil o jungiu, escravo, \u00e0<br \/>\ngleba empantanada dos traficantes, que o iludiram.<br \/>\nIsto, por\u00e9m, n\u00e3o lhe satisfaz. A imagem material da sua desdita<br \/>\nn\u00e3o deve permanecer in\u00fatil num ex\u00edguo terreiro de barraca,<br \/>\nafogada na espessura impenetr\u00e1vel, que furta o quadro de suas m\u00e1goas,<br \/>\nperp\u00e8tuamente an\u00f4nimas, aos pr\u00f3prios olhos de Deus. O<br \/>\nrio que lhe passa \u00e0 porta \u00e9 uma estrada para t\u00f4da a Terra.<br \/>\nQue a Terra t\u00f4da contemple o seu infort\u00fanio, o seu exasp\u00earo<br \/>\ncruciante, a sua desvalia, o seu aniquilamento in\u00edquo, exteriorizados,<br \/>\ngolpeantemente, e propalados por um estranho e mudo pregoeiro&#8230;<br \/>\nEmbaixo, adrede constru\u00edda desde a v\u00e9spera, v\u00ea-se uma<br \/>\njangada de quatro paus boiantes, rijamente travejados. Aguarda o viajante<br \/>\nmacabro. Condu-lo, prestes, para l\u00e1, arrastando-o em descida, pelo<br \/>\nvi\u00e9s dos barrancos avergoados de enxurros.<br \/>\nA breve trecho a figura demon\u00edaca apruma-se, especada, \u00e0 p\u00f4pa<br \/>\nda embarca\u00e7\u00e0o ligeira.<br \/>\nFaz-lhe os \u00faltimos reparos: arranja-lhe ainda uma vez as vestes; arruma-lhe<br \/>\n\u00e0s costas um saco cheio de ciscalho e pedras; mete-lhe \u00e0 cintura<br \/>\nalguma in\u00fatil pistola enferrujada, sem fechos, ou um caxerenguengue<br \/>\ngasto; e fazendo-lhe curiosas recomenda\u00e7\u00f2es, ou dando-lhe os<br \/>\nmais singulares conselhos, impele, ao cabo, a jangada fant\u00e1stica para<br \/>\no fio da corrente.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E Judas feito Ahsverus vai avan\u00e7ando vagarosamente para o meio do<br \/>\nrio. Ent\u00e3o os vizinhos mais pr\u00f3ximos, que se adensam, curiosos,<br \/>\nno alto das barrancas, interv\u00eaem ruidosamente, saudando com repetidas<br \/>\ndescargas de rifles aqu\u00eale botafora. As balas chofram a superf\u00edcie<br \/>\nl\u00edq\u00fcida, erri\u00e7ando-a; cravam-se na embarca\u00e7\u00e3o,<br \/>\nlascando-a; atingem o tripulante espantoso; trespassam-no. \u00cale vacila<br \/>\num momento no seu pedestal flutuante, fustigado a tiros, indeciso, como a<br \/>\nesmar um rumo, durante alguns minutos, at\u00e9 se reaviar no sentido geral<br \/>\nda correnteza. E a figura desgraciosa, tr\u00e1gica, arrepiadoramente burlesca,<br \/>\ncom os seus gestos desmanchados, de dem\u00f4nio e tru\u00e3o, desafiando<br \/>\nmaldi\u00e7\u00f5es e risadas, l\u00e1 se vai na l\u00fagubre viagem<br \/>\nsem destino e sem fim, a descer, a descer sempre, desequilibradamente, aos<br \/>\nrodopios, tonteando em t\u00f4das as voltas, \u00e0 merc\u00ea das correntezas,<br \/>\n&#8220;de bubuia&#8221; s\u00f4bre as grandes \u00e1guas.<br \/>\nN\u00e3o p\u00e1ra mais. \u00c0 medida que avan\u00e7a, o espantalho<br \/>\nerrante vai espalhando em roda a desola\u00e7\u00e3o e o terror: as aves,<br \/>\nretransidas de m\u00eado, acolhem-se, mudas, ao recesso das frondes; os pesados<br \/>\nanf\u00edbios mergulham, cautos, nas profunduras, espavoridos por aquela<br \/>\nsombra que ao cair das tardes e ao subir das manh\u00e3s se desata estirando-se,<br \/>\nlutuosamente, pela superf\u00edcie do rio; os homens correm \u00e0s armas<br \/>\ne numa f\u00faria recortada de espantos, fazendo o &#8220;pelo sinal&#8221;<br \/>\ne aperrando os gatilhos, alvejam-no desapiedadamente.<br \/>\nN\u00e3o defronta a mais pobre barraca sem receber uma descarga rolante<br \/>\ne um apedrejamento.<br \/>\nAs balas esfuziam-lhe em t\u00f4rno; varam-no; as \u00e1guas, zimbradas<br \/>\npelas pedras, encrespam-se em c\u00edrculos ondeantes; a jangada balan\u00e7a;<br \/>\ne, acompanhando-lhe os movimentos, agitam-se-lhe os bra\u00e7os e \u00eale<br \/>\nparece agradecer em canhestras mesuras as manifesta\u00e7\u00f5es rancorosas<br \/>\nem que tempesteiam tiros, e gritos, sarcasmos pungentes e esconjuros e sobretudo<br \/>\nmaldi\u00e7\u00f5es que revivem, na palavra descansada dos matutos, \u00easte<br \/>\neco de um an\u00e1tema vibrando h\u00e1 vinte s\u00e9culos:<br \/>\n&#8211; Caminha, desgra\u00e7ado!<br \/>\nCaminha. N\u00e3o p\u00e1ra. Afasta-se no volver das \u00e1guas. Livra-se<br \/>\ndos perseguidores. Desliza, em sil\u00eancio, por um estir\u00e3o retil\u00edneo<br \/>\ne longo; contorneia a arqueadura suav\u00edssima de uma praia deserta. De<br \/>\ns\u00fabito, no vencer uma volta, outra habita\u00e7\u00e3o: mulheres<br \/>\ne crian\u00e7as, que \u00eale surpreende \u00e0 beira do rio, a subirem,<br \/>\ndesabaladamente, pela barranca acima, desandando em prantos e clamores. E<br \/>\nlogo depois, do alto, o espingardeamento, as pedradas, os conv\u00edcios,<br \/>\nos remoques.<br \/>\nDois ou tr\u00eas minutos de alaridos e tumulto, at\u00e9 que o judeu errante<br \/>\nse forre ao alcance m\u00e1ximo da trajet\u00f3ria dos rifles, descendo&#8230;<br \/>\nE vai descendo, descendo&#8230; Por fim n\u00e3o segue mais isolado. Aliam-se-lhe<br \/>\nna estrada dolorosa outros s\u00f3cios de infort\u00fanio; outros aleij\u00f5es<br \/>\napavorantes s\u00f4bre as mesmas jangadas diminuta entregues ao acaso das<br \/>\ncorrentes, surgindo de todos os lados, v\u00e1rios no aspecto e nos gestos:<br \/>\nora muito rijos, amarrados aos postes que os sustentam; ora em desengon\u00e7os,<br \/>\ndesequilibrando-se aos menores balan\u00e7os, atrapalhadamente, como \u00e9brios;<br \/>\nou fat\u00eddicos, bra\u00e7os al\u00e7ados, amea\u00e7adores, amaldi\u00e7oando;<br \/>\noutros hum\u00edlimos, acurvados num acabrunhamento profundo; e por v\u00eazes,<br \/>\nmais deplor\u00e1veis, os que se divisam \u00e0 ponta de uma corda amarrada<br \/>\nno extremo do mastro esguio e recurvo, a balou\u00e7arem, enforcados&#8230;<br \/>\nPassam todos aos pares, ou em filas, descendo, descendo vagarosamente&#8230;<br \/>\n\u00c0s v\u00eazes o rio alarga-se num imenso c\u00edrculo; remansa-se;<br \/>\na sua corrente torce-se e vai em giros muito lentos perlongando as margens,<br \/>\ntra\u00e7ando a espiral ampl\u00edssima de um redemoinho impercept\u00edvel<br \/>\ne trai\u00e7oeiro. Os fantasmas vagabundos penetram nestes amplos recintos<br \/>\nde \u00e1guas mortas, rebalsadas; e estacam por momentos. Ajuntam-se. Rodeiam-se<br \/>\nem lentas e silenciosas revistas. Misturam-se. Cruzam ent\u00e3o pela primera<br \/>\nvez os olhares im\u00f3veis e falsos de seus olhos fingidos; e baralham-se-lhes<br \/>\nnuma agita\u00e7\u00e3o rev\u00f4lta os gestos paralisados e as estaturas<br \/>\nr\u00edgidas. H\u00e1 a ilus\u00e3o de um estupendo tumulto sem ru\u00eddos<br \/>\ne de um estranho concili\u00e1bulo, agitad\u00edssimo, travando-se em<br \/>\nsegredos, num abafamento de vozes inaud\u00edveis.<br \/>\nDepois, a pouco e pouco, debandam. Afastam-se; dispersam-se. E acompanhando<br \/>\na correnteza, que se retifica na \u00faltima espira dos remansos &#8211; l\u00e1<br \/>\nse v\u00e3o, em filas, um a um, vagarosamente, processionalmente, rio abaixo,<br \/>\ndescendo&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>&#8220;Brasileiros&#8221;<\/h2>\n<p>O Peru tem duas hist\u00f3rias fundamentalmente distintas. Uma, a do comum<br \/>\ndos livros, teatral e ruidosa, reduz-se ao romance rocambolesco dos marechais<br \/>\ninstant\u00e2neos dos pronunciamentos. A outra \u00e9 obscura e fecunda.<br \/>\nDesdobra-se no deserto. \u00c9 mais comovente; \u00e9 mais grave; \u00e9<br \/>\nmais ampla. Prolonga, noutros cen\u00e1rios, as tradi\u00e7\u00f5es<br \/>\ngloriosas das lutas da Independ\u00eancia; e veio at\u00e9 aos nossos dias<br \/>\nt\u00e3o impart\u00edvel e sem hiatos, apesar de seus aspectos vari\u00e1veis,<br \/>\nque pode acapitular-se sob o t\u00edtulo \u00fanico, geralmente adotado<br \/>\npelos melhores publicistas daquela Rep\u00fablica: El Problema del oriente.<br \/>\nA designa\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeita. Trata-se de assunto rigorosamente<br \/>\npositivo a resolver.<br \/>\nAo peruano n\u00e3o lho impuseram maci\u00e7os argumentos de soci\u00f3logos<br \/>\nou a intui\u00e7\u00e3o feliz de um estadista, sen\u00e3o o pr\u00f3prio<br \/>\nempuxo material do meio. Constrangida numa fita de terrenos adustos entre<br \/>\nas cordilheiras e o mar, onde acampara durante tr\u00eas s\u00e9culos iludida<br \/>\npelo fausto dos conquistadores e dos vice-reis, a nacionalidade, maior herdeira<br \/>\ndas virtudes e dos v\u00edcios por igual not\u00e1veis da Espanha cavalheiresca<br \/>\ne deca\u00edda do s\u00e9culo XVII, compreendeu afinal, pelo simples instinto<br \/>\nda defesa, a necessidade imperiosa de abandonar a clausura isolante que a<br \/>\nseq\u00fcestrava de todo o resto da Terra.<br \/>\nE come\u00e7ou a transmontar os Andes&#8230;<br \/>\nF\u00f4ra longo recontar a sua h\u00e9gira para o levante, nas investidas<br \/>\nsucessivas por cinco penos\u00edssimas estradas desesperadoramente retorcidas<br \/>\nno boleado das serras, empinando-se em ladeiras altas de milhares de metros,<br \/>\ne unindo os portos do litoral entre Mollendo e Paita \u00e0s paragens apetecidas<br \/>\nda monta\u00f1a na extrema orla amaz\u00f4nica expandida do pongo de Manseriche<br \/>\n\u00e0s urmanas acachoantes do Urubamba.<br \/>\nBaste-nos notar que depois de transposta a \u00faltima cordilheira do Oriente<br \/>\ne atingida a bacia do Ucai\u00e1li, p\u00f4s-se de manifesto aos seus mais<br \/>\nincuriosos pioneiros, a par da exuber\u00e2ncia do vale maravilhoso capaz<br \/>\nde regenerar-lhes a nacionalidade exausta, uma anomalia f\u00edsica oriunda<br \/>\ndos relevos orogr\u00e1ficos ali predominantes: a melhor por\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pa\u00eds entre os que mais se afiguram ribeirinhos do Pac\u00edfico,<br \/>\ntem como \u00fanico e verdadeiro mar, capaz de consorci\u00e1-la pelo<br \/>\ninterc\u00e2mbio comercial \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o long\u00ednque,<br \/>\no Atl\u00e2ntico, que se lhe prende gra\u00e7as aos tr\u00eas longos sulcos<br \/>\ndesimpedidos do Purus, do Juru\u00e1 e do Ucai\u00e1li.<br \/>\nNenhum milagre de engenharia lhos substituir\u00e1 com vantagem. A linha<br \/>\nf\u00e9rrea de Oroya e as que se lhe emparelham nas ousadias do tra\u00e7ado<br \/>\n&#8211; tornejando escarpas a pique, enfiando em t\u00faneis afogados nas nuvens,<br \/>\ne correndo em viadutos alcandorados nos abismos &#8211; n\u00e3o criar\u00e3o<br \/>\nsistemas de comunica\u00e7\u00f5es mais pr\u00e1ticas e seguras.<br \/>\nAs suas condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas excepcionais, industrialmente<br \/>\ndesastrosas, tornam-nas para sempre impropriadas a transportarem, sem fretes<br \/>\nexcessivos, os produtos do Oriente, ainda quando a abertura do Canal de Panam\u00e1<br \/>\ndispense, mais tarde, a longa travessia contorneante do Cabo Horn.<br \/>\nAssim, a sa\u00edda para o Atl\u00e2ntico, pelo Amazonas e seus tribut\u00e1rios<br \/>\nde sudoeste, se tornou a primeira solu\u00e7\u00e3o clar\u00edssima<br \/>\ndo problema. E nas paragens novas, erigidas administrativamente no atual Departamento<br \/>\nde Loreto, come\u00e7ou para logo um intensivo trabalho de dom\u00ednio,<br \/>\nque persiste, crescente, em nossos dias.<br \/>\nAbriram-se caminhos demandando a opulenta zona fluvial; planearam-se, a despeito<br \/>\nde sucessivos malogros, col\u00f4nias militares e agr\u00edcolas, reatou-se,<br \/>\nna revivesc\u00eancia das miss\u00f5es apost\u00f3licas, a tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nadmir\u00e1vel dos jesu\u00edtas de Maynas; engenhou-se uma vasta regulamenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde terras; construiu-se o p\u00f4rto de Iquitos, e, para aviventar-se o povoamento,<br \/>\naboliram-se todos os impostos, agindo o homem aforradamente na terra ferac\u00edssima.<br \/>\nAo mesmo tempo as expedi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas, iniciadas em<br \/>\n1834 por P. Beltran e W. Smith, em que tanto se ilustraram depois F. de Castelnau,<br \/>\nFaustino Maldonado, A. Raimondi, John Tucker e hoje G. Stiglich, rumaram a<br \/>\ntodos os quadrantes, ininterruptas e pertinazes, na tarefa complexa que era<br \/>\numa esp\u00e9cie de levantamento expedito de uma nova p\u00e1tria.<br \/>\nAos caudilhos irrequietos contrapuseram-se os exploradores tranq\u00fcilos.<br \/>\nNo litoral rev\u00f4lto pelas sedi\u00e7\u00f5es e guerrilhas sistematizava-se<br \/>\na incapacidade cr\u00f4nica dos governos revolucion\u00e1rios, e, derrancados<br \/>\nos melhores est\u00edmulos da recente campanha pela liberdade, os bravos<br \/>\nsalteadores do poder desmandavam-se num militarismo pernicioso que ali, como<br \/>\nem t\u00f4da parte, era a fraqueza irrit\u00e1vel da na\u00e7\u00e3o<br \/>\nenf\u00earma. Nos desertos floridos da monta\u00f1a ao arrepio ou \u00e0<br \/>\nfei\u00e7\u00e3o dos rios ignorados, remoinhando nos giros estonteantes<br \/>\ndas muyunas, canoas despedidas, de frecha, nas correntadas c\u00e9leres<br \/>\ndos pongos, ou embatendo nas travancas abruptas das cachoeiras &#8211; os ge\u00f3grafos,<br \/>\nos prefeitos e os mission\u00e1rios demarcavam novos cen\u00e1rios \u00e0<br \/>\np\u00e1tria regenerada e, apurando em tiroc\u00ednio de perigos os mais<br \/>\nnobres atributos da sua ra\u00e7a, reconstru\u00edram o car\u00e1ter<br \/>\nnacional que se abatera, e davam \u00e0queles rumos, secamente definidos<br \/>\npor tra\u00e7ados geom\u00e9tricos, um prolongamento inesperado na Hist\u00f3ria.<br \/>\nPorque o problema do Oriente, afinal, inclu\u00eda nas suas numerosas inc\u00f3gnitas<br \/>\nos destinos do Peru inteiro.<br \/>\nReconheciam-nos os pr\u00f3prios caudilhos esmaniados. N\u00e3o raro no<br \/>\nestavanado e vacilante de seus atos, entre dois fuzilamentos ou entre dois<br \/>\ncombates, acertavam de considerar por momentos as paragens insistentemente<br \/>\naneladas, e muito d\u00eales, de golpe, transfiguravam-se patenteando l\u00facidos<br \/>\ndescortinos de estadistas.<br \/>\nA \u00easte prop\u00f3sito poderiam citar-se numerosos casos delatadores<br \/>\nda pol\u00edtica bifronte, do mesmo passo reconstituinte e demolidora, que<br \/>\ncom o rigorismo de um decalque retrata na ordem moral do Peru o contraste<br \/>\nf\u00edsico entre o Ocidente obscurecido, onde as energias se quebrantam<br \/>\nmalignadas pela hist\u00f3ria emocional epid\u00eamica dos pronunciamentos<br \/>\n&#8211; e o Levante resplandecente, onde alvorecem as esperan\u00e7as renascidas.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Aponte-se um exemplo.<br \/>\nEm 1841 a Rep\u00fablica estava a pique das maiores cat\u00e1strofes.<br \/>\nImperava D. Agust\u00edn Gamarra. Aqu\u00eale zambo cesareano refletia<br \/>\nnos atos tumultu\u00e1rios os desequil\u00edbrios de seu temperamento<br \/>\ninst\u00e1vel, de mesti\u00e7o, ferrotoado dos temores e das impaci\u00eancias<br \/>\nde um prest\u00edgio improvisado, \u00e0 ventura, nos sobressaltos das<br \/>\nguerrilhas.<br \/>\nO seu gov\u00earno &#8211; gov\u00earno de quem inaugurou no Peru o regime das<br \/>\ndeposi\u00e7\u00f5es apeando o virtuodo La Mar &#8211; foi naturalmente agitad\u00edssimo.<br \/>\nO restaurador imp\u00f4sto pelas armas dos chilenos, de Bulnes, s\u00f4bre<br \/>\nos destro\u00e7os da ef\u00eamera confedera\u00e7\u00e3o per\u00favio-boliviana,<br \/>\nassediado pelas ambi\u00e7\u00f5es contrariadas, pelas exig\u00eancias<br \/>\ndos condut\u00edcios incontent\u00e1veis e pelas amea\u00e7as dos conspiradores<br \/>\nrecidivos, tonteava na vertigem daquela emin\u00eancia, onde chegara desprendendo-se<br \/>\nda parceria dos cholos e pisoando todos os melindres aristocr\u00e1ticos<br \/>\nda terra que s\u00f4bre t\u00f4das herdara a sobranceria tradicional da<br \/>\nEspanha. Nas conjunturas prementes dependeu-lhe, por v\u00eazes, a fortuna,<br \/>\nat\u00e9 do gesto de uma mulher &#8211; a sua pr\u00f3pria esp\u00f4sa, amazona<br \/>\ngentilmente her\u00f3ica, que n\u00e3o raro travando de uma espada e precipitando-se,<br \/>\n\u00e0 espora feita, a cavalo, pelo campo das manobras ou no mais aceso<br \/>\ndos combates, ia eletrizar com a presen\u00e7a encantadora os coron\u00e9is<br \/>\nembevecidos e os regimentos vacilantes&#8230;<br \/>\nAssim n\u00e3o se poderiam exigir \u00e0 vida em tanta maneira perturbada<br \/>\ne rom\u00e2ntica, daquele presidente, ponderosas medidas administrativas.<br \/>\nAcompanhamo-la apenas com o inter\u00easse art\u00edstico de quem segue<br \/>\na urdidura de imaginosa novela sulcada de epis\u00f3dios alarmantes, ou<br \/>\ndram\u00e1ticos, at\u00e9 desfechar no sacrif\u00edcio, in\u00fatil<br \/>\ne glorioso, do protagonista, sucumbindo sob uma carga furiosa dos lanceiros<br \/>\nbolivianos nas esplanadas de Viacho&#8230;<br \/>\nMas no volver de uma das p\u00e1ginas salteia-nos esta surpr\u00easa:<br \/>\n&#8220;El ciudadano Agust\u00edn Gamarra &#8211; Gran mariscal restaurador del<br \/>\nPer\u00fa, benem\u00e9rito a la patria in grado heroico y eminente, etc.<br \/>\n&#8220;Considerando que para promover la navigaci\u00f3n por vapor en el<br \/>\nrio de Amazonas y sus confluentes \u00e9s necesario proporcionar facilidades<br \/>\ny ventagens que indemnicen a los empresarios&#8230;<br \/>\n&#8220;Decreta: 1&amp;ordm; Se concebe al ciudadano brasileiro D. Antonio Marcelino<br \/>\nPereira Ribeiro el privilegio exclusivo de navegar por buques de vapor en<br \/>\nel rio Amazonas, en la parte que corresponde al Per\u00fa e todos sus afluentes.<br \/>\n&#8220;&#8230; 3&amp;ordm; Los buques de vapor levar\u00f3n el pabell\u00f3n<br \/>\nbrasileiro&#8230;<br \/>\n&#8220;Dada en la casa de Gobierno de Lima a 6 de Julio de 1841.&#8221;<br \/>\n\u00caste decreto, extratado nos trechos principais, inculca ao mesmo tempo<br \/>\no caudilho, no recacho presuntuoso que lhe emprestam aqu\u00eales adjetivos<br \/>\ne substantivos constrangidos a escoltarem-lhe o nome, e o governante, que<br \/>\nprimeiro tra\u00e7ou aos seus patr\u00edcios a marcha regeneradora para<br \/>\no Oriente. Mas n\u00e3o o reproduzimos apenas para realce dos aspectos contrariantes<br \/>\nda Hist\u00f3ria Peruana; sen\u00e3o tamb\u00e9m para destacar aquela<br \/>\nfigura de brasileiro, que seria inexpressiva se n\u00e3o constitu\u00edsse<br \/>\no primeiro t\u00earmo de uma s\u00e9rie de compatriotas obscuros, erradios<br \/>\ndos nossos fastos e elegendo-se por atos memor\u00e1veis entre os melhores<br \/>\nservidores da na\u00e7\u00e3o vizinha.<br \/>\nDe fato, \u00e0 medida que se rastreia a marcha peruana para o levante,<br \/>\nexposta em todos os seuspormenores, miudeada em regulamentos, em decretos,<br \/>\nem circulares e em of\u00edcios &#8211; porque \u00e9 a suprema preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica, militar e administrativa do Peru &#8211; observa-se nas refer\u00eancias<br \/>\nobrigat\u00f3rias e incisivas ao elemento brasileiro, o intercurso de uma<br \/>\noutra avan\u00e7ada obscura, mas vigorosa, e contrapondo-se-lhe numa expans\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o en\u00e9rgica, para o ocidente, que com os seus efeitos a despontarem<br \/>\nde longe em longe, precisamente nos per\u00edodos mais decisivos da primeira,<br \/>\nse restauraria todo um cap\u00edtulo da nossa Hist\u00f3ria, que se perdeu<br \/>\nou se fracionou despercebido \u00e0 vis\u00e3o embotada dos cronistas,<br \/>\npara ressurgir agora, esparso em fragmentos surpreendentes, nas entrelinhas<br \/>\nda Hist\u00f3ria de outro povo.<br \/>\n\u00c9 o que demonstram outros casos, entre n\u00f3s in\u00e9ditos.<br \/>\nApontemo-los de relance.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>No per\u00edodo abrangido pelos governos do austero Marechal Castilla,<br \/>\nas explora\u00e7\u00f5es prosseguiram. Castelnau desceu das cabeceiras<br \/>\ndo Urubamba \u00e0s ribas do Amazonas; Maldonado imortalizou-se descobrindo,<br \/>\nnuma excurs\u00e3o temer\u00e1ria, a nova estrada para o Atl\u00e2ntico<br \/>\najustada ao sulco desmedido do Madre de Di\u00f3s; e Raimondi desvendou<br \/>\nos tesouros da mesopot\u00e2mia de 16.000 l\u00e9guas quadradas de terras<br \/>\nexuberantes, interferidas pelos cursos do Huallaga e do Ucai\u00e1li. Por<br \/>\nfim Montferrir calculou, rigorosamente, as riquezas da Cana\u00e3 vast\u00edssima:<br \/>\n50.000.000 de hectares, valendo o m\u00ednimo de meio bilh\u00e3o de pesos.<br \/>\nA aritm\u00e9tica tornava-se quase l\u00edrica nesta dilata\u00e7\u00e3o<br \/>\nde n\u00fameros maravilhosos.<br \/>\nAs medidas governamentais do grande Marechal tiveram para logo o alento dos<br \/>\nmais en\u00e9rgicos est\u00edmulos patri\u00f3ticos, a par do anseio<br \/>\nde fortuna dos mais desassombrados aventureiros.<br \/>\nOs peruanos, iludidos durante largo tempo no litoral est\u00e9ril, viam<br \/>\npela primeira vez o n\u00f4vo mundo. E a conquista da terra, numa de suas<br \/>\nfases mais agudas, desenrolou-se em t\u00f4da a plenitude.<br \/>\nEnt\u00e3o, contravindo a tantas esperan\u00e7as sob o amparo das mais<br \/>\nl\u00facidas resolu\u00e7\u00f5es governativas &#8211; leis, regulamentos<br \/>\ne decretos enfeixando-se num volumoso comp\u00eandio de administra\u00e7\u00e3o<br \/>\nfecunda e militante &#8211; principiou uma fase desalentadora de brilhantes tentativas<br \/>\nabort\u00edcias.<br \/>\nAs col\u00f4nias planeadas, e para logo erigidas, espelhavam por algum tempo<br \/>\nnaqueles rinc\u00f5es solit\u00e1rios a fantasmagoria de um progresso<br \/>\nartificial; e extinguiam-se prestes. J\u00e1 em 1854 o governador de Loreto,<br \/>\npueblo obscuro cujo nome irradia hoje abrangendo aqu\u00eales lugares, ao<br \/>\ninformar do estado de duas coloniza\u00e7\u00f5es sucessivas que ali se<br \/>\nestabeleceram, centralizadas em Caballo-Cocha, pr\u00f3ximas \u00e0 fronteira<br \/>\ndo Brasil, indicava-as completamente extintas. E id\u00eanticos malogros<br \/>\ngeneralizavam-se por t\u00f4da a banda.<br \/>\nEram naturais. As vagas humanas nas paragens virgens n\u00e3o se aquietam<br \/>\nde s\u00fabito. Carateriza-as nos primeiros est\u00e1dios a instabilidade<br \/>\ninevit\u00e1vel imposta pela pr\u00f3pria for\u00e7a viva adquirida<br \/>\nno movimento da maarcha. Precedendo ao equil\u00edbrio das culturas, surge<br \/>\na pesquisa dos frutos ou das riquezas imediatas, como a permitir aos rec\u00e9m-vindos,<br \/>\nna vida errante das colheitas, dos garimpos, dos pastoreios ou das ca\u00e7adas,<br \/>\num reconhecimento imprescind\u00edvel do seu n\u00f4vo habitat, antes da<br \/>\nescolha de uma situa\u00e7\u00e3o de descanso.<br \/>\n\u00c9 a eterna fun\u00e7\u00e3o social do nomadismo, que mesmo no Peru<br \/>\nj\u00e1 se manifestara na az\u00e1fama devastadora dos cascarileros, desvendando<br \/>\nas paragens ignotas que v\u00e3o dos cerros de Carabaya \u00e0s vertentes<br \/>\nmais aastadas do Beni.<br \/>\n\u00caste incentivo, por\u00e9m, ali, estava extinto.<br \/>\nPor aqu\u00eale tempo, uma tenaz explorador, Marckam, comissionado pelo gov\u00earno<br \/>\ningl\u00eas, andava nas regi\u00f5es da quina calisaya; e conseguira transplantar<br \/>\nt\u00e3o prontamente para as \u00cdndias aqu\u00eale elemento da fortuna<br \/>\nperuana que, j\u00e1 em 1862, mais de quatro milh\u00f5es de \u00e1rvores,<br \/>\nem Darjeeling, com a produ\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de 370 toneladas<br \/>\nde quinino, iniciavam uma concorr\u00eancia triunfante no primeiro assalto.<br \/>\nD\u00easte modo, as paragens t\u00e3o ansiosamente apetecidas mostravam-se,<br \/>\nante os novos povoadores, desnudas d\u00easses recursos que em t\u00f4da<br \/>\na parte se figuram adrede predispostos a que n\u00e3o se desenfluam as esperan\u00e7as<br \/>\nsempre exageradas dos que emigram.<br \/>\nN\u00e3o lhes bastariam, certo, as bombona\u00e7as para os chap\u00e9us<br \/>\nde palha oriundos da ind\u00fastria graciosa das mulheres do Moyobamba,<br \/>\nou os cascalhos aur\u00edferos das vertentes do Pastaza guardadas pelos<br \/>\nhuambizas feroc\u00edssimos.<br \/>\nAssim, todos os atos, e magn\u00edficos decretos, e l\u00facidos regulamentos,<br \/>\ne generosas concess\u00f5es de terras, do \u00faltimo gov\u00earno de<br \/>\nCastilla, desfechariam nos mais lastim\u00e1veis insucessos se, precisamente<br \/>\nna derradeira quadra da sua presid\u00eancia, e no mesmo ano (1862) em que<br \/>\na cultura indiana da quina arrebatava daqueles desertos o seu maior atrativo<br \/>\n_ um an\u00f4nimo, um outro imortal hum\u00edlimo evadido da nossa Hist\u00f3ria,<br \/>\nn\u00e3o aparecesse, eclipsando de golpe os mais imponentes lances administrativos<br \/>\ne oferecendo aos peruanos o reagente en\u00e9rgico que os alentaria at\u00e9<br \/>\naos nossos dias na rota da Amaz\u00f4nia.<br \/>\nUm brasileiro descobriu o caucho; ou, pelo menos, instituiu ali a ind\u00fastria<br \/>\nextrativa correspondente.<br \/>\nNo reconstruir \u00easte trecho da nossa Hist\u00f3ria, que versado mais<br \/>\ntarde por um historiador merecer\u00e1 o t\u00edtulo de &#8220;Expans\u00e3o<br \/>\nBrasileira na Amaz\u00f4nia&#8221;, n\u00e3o vamos desacompanhados.<br \/>\nDiz-nos um narrador sincero:<br \/>\n&#8220;Antes do ano de 1862, n\u00e3o tinha ainda sido explorada a incalcul\u00e1vel<br \/>\nriqueza da goma el\u00e1stica&#8230; Depois da entrada de alguns brasileiros<br \/>\npara o territ\u00f3rio do Departamento, principalmente do laborioso Jos\u00e9<br \/>\nJoaquim Ribeiro, come\u00e7ou \u00easte rico produto a figurar no cat\u00e1logo<br \/>\ndos que o Departamento exporta para o Brasil. A primeira quantidade exportada<br \/>\nfoi de 2.088 quilogramas, produto dos ensaios daquele brasileiro que muito<br \/>\nteria contribu\u00eddo para o desenvolvimento dessa ind\u00fastria, se<br \/>\nao inici\u00e1-la n\u00e3o encontrasse contrariedades nascidas do cupidismo<br \/>\nde alguns agentes subalternos que contra \u00eale exerceram todos os ardis&#8230;&#8221;<br \/>\nN\u00e3o comentemos o desquerer das autoridades peruanas. Era antigo. Desde<br \/>\n1811 o reportado D. Manoel Ijurra denunciava &#8220;los Brazileros m\u00e1s<br \/>\npr\u00f3ximos al Per\u00fa que tienen la b\u00e1rbara costumbre de armar<br \/>\nexpediciones militares con objeto de haccer correr\u00edas sobre los indios<br \/>\nMaynas, atropelando muchas veces las autoridades&#8230;&#8221;; ou apresentava-os<br \/>\ncomo &#8220;absolutos monopolizadores del comercio de importaci\u00f3n o<br \/>\nexportaci\u00f3n.&#8221; Cinco anos depois, em of\u00edcio alarmante, o<br \/>\nSubprefeito de Maynas solicitava provid\u00eancias urgent\u00edssimas &#8220;al<br \/>\nintuito de que los Brazileros moradores de Caballo-Cocha, salgan fuera de<br \/>\nesta provincia, se buenamente no quieren, por la fuerza&#8221;; e pintava-os<br \/>\nlaivando-os dos mais denegridos estigmas. Por fim o Governador-Geral das Miss\u00f5es<br \/>\n(1849) determinou se exigissem passaportes de todos os brasileiros que l\u00e1<br \/>\nentrassem, gaguejando num castelhano emperrado esta raz\u00e3o curios\u00edssima:<br \/>\n&#8220;que no se experimentaba provecho alguno en estos negociantes del Brazil;<br \/>\nni menos hay bayonetas con que poder conterlos; hacen lo que quieren metiendo-se<br \/>\npor los rios, extraendo zarza, manteca, salado e otras especies&#8230;&#8221;<br \/>\nN\u00e3o prossigamos.<br \/>\nAdivinha-se nestas linhas, que poderiam ser prolongadas, a invas\u00e3o<br \/>\nformid\u00e1vel que se alastrava avassaladora para o ocidente, desafiando<br \/>\nos \u00f3dios do estrangeiro; espraiando-se pelo vale do grande rio, por<br \/>\nLoreto, Caballo-Cocha, Moremote, Perenate, Iquitos, at\u00e9 Nauta, na embocadura<br \/>\ndo Ucai\u00e1li; subindo pelo Ucai\u00e1li em fora at\u00e9 al\u00e9m<br \/>\ndo Pachit\u00e9a: deixando nos mais v\u00e1rios pontos, nos s\u00edtios<br \/>\nnumerosos, nas trilhas coleantes do deserto, e at\u00e9 nos costumes ainda<br \/>\npersistentes, os tra\u00e7os indel\u00e9veis da passagem.<br \/>\nSe a histori\u00e1ssemos contrapor\u00edanos \u00e0s verrinas oficiais<br \/>\ndos subprefeitos apavorados, cujos dizeres se pejoravam \u00e0 medida que<br \/>\nprogredia aquela surda conquista do solo, os pr\u00f3prios conceitos de<br \/>\nAntonio Raimondi. Mas aqu\u00eale belo tipo de Joaquim Ribeiro, que em 1868<br \/>\no maior naturalista peruano foi encontrar nas margens do Itaia possuindo as<br \/>\nmelhores fazendas do Departamento, concretiza uma r\u00e9plica irrefrag\u00e1vel.<br \/>\nN\u00e3o o pearam t\u00e3o pequeninos empe\u00e7os. Criada a ind\u00fastria<br \/>\nextrativa, a exporta\u00e7\u00e3o da borracha a partir de 1871 erigiu-se<br \/>\npreeminente entre as dos demais produtos de Loreto. E as turmas dos extratores,<br \/>\nsem nenhuns amparos oficiais, rompendo espont\u00e2neos de t\u00f4da a parte<br \/>\ne arremetentes com as mais desfreq\u00fcentadas espessuras, ultimaram em pocuo<br \/>\ntempo a empr\u00easa quase secular tantas v\u00eazes cindida de reveses.<br \/>\nDesvendou-se todo o Oriente.<br \/>\nMas h\u00e1 um reverso no quadro.<br \/>\nA explora\u00e7\u00e3o do caucho como a praticam os peruanos, derribando<br \/>\nas \u00e1rvores, e passando sempre \u00e0 cata de novas &#8220;manchas&#8221;<br \/>\nde castilloas ainda n\u00e0o conhecidas, em nomadismo profissional intermin\u00e1vel,<br \/>\nque os leva \u00e0 pr\u00e1tica de todos os atentados nos recontros inevit\u00e1veis<br \/>\ncom os abor\u00edgenes &#8211; acarreta a desorganiza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica<br \/>\nda sociedade. O caucheiro, eterno ca\u00e7ador de territ\u00f3rios, n\u00e3o<br \/>\ntem pega s\u00f4bre a terra. Nessa atividade primitiva apuram-se-lhe, exclusivos,<br \/>\nos atributos da ast\u00facia, da agilidade e da f\u00f4r\u00e7a. Por<br \/>\nfim, um b\u00e1rbaro individualismo. H\u00e1 uma involu\u00e7\u00e3o<br \/>\nlastim\u00e1vel no homem perp\u00e8tuamente arredio dos povoados, errante<br \/>\nde rio em rio, de espessura em espessura, sempre em busca de uma mata virgem<br \/>\nonde se oculte ou se homizie como um foragido da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sua passagem foi nefasta. Ao cabo de 30 anos de povoamento, as margens<br \/>\ndo Ucai\u00e1li, t\u00e3o nobilitadas outrora pela abnega\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos mission\u00e1rios de Sarayaco, patenteiam, hoje, nos seus vilarejos<br \/>\ndiminutos, uma decad\u00eancia moral indescrit\u00edvel.<br \/>\nO Coronel Pedro Portillo, atual Prefeito de Loreto, que as visitou em 1899,<br \/>\ndenunciou-a, indignado: Alli no hay leyes&#8230; El m\u00e1s fuerte que tiene<br \/>\nm\u00e1s rifles, es el due\u00f1o de la justicia&#8221;. Verberou depois<br \/>\no tr\u00e1fico escandaloso de escravos. E, afinados pelo mesmo tom, um sem-n\u00famero<br \/>\nde outros excursionistas, que f\u00f4ra longo citar, delatam, em narativas<br \/>\nexpressivas, o regime de tropelias que se normalizou naquelas terras &#8211; e se<br \/>\namplia seguindo os rastros do homem que passa pelo deserto com o s\u00f3<br \/>\nefeito de barbarizar a pr\u00f3pria barbaria.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ora, na presci\u00eancia dos inconvenientes desta explora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque, entretanto, determinou o pleno desdobramento de seu dom\u00ednio no<br \/>\nOriente, o gov\u00earno peruano nunca renunciou ao seu primitivo prop\u00f3sito<br \/>\nde uma coloniza\u00e7\u00e3o intensiva. E para ao mesmo tempo garantir<br \/>\no tr\u00e1fego do melhor caminho para o Amazonas, pelo Ucai\u00e1li, que<br \/>\nvai da esta\u00e7\u00e3o terminus de Oroya aos tribut\u00e1rios principais<br \/>\ndo Pachit\u00e9a, estabeleceu em 1857, \u00e0 margem de um d\u00eales,<br \/>\no Rio Pozuzo, a col\u00f4nia alem\u00e3, que s\u00f4bre t\u00f4das lhe<br \/>\nmonopolizou os cuidados e uma solicitude nunca interrompida.<br \/>\nRealmente, a situa\u00e7\u00e3o era admir\u00e1vel. \u00c0 m\u00e9dia<br \/>\ndist\u00e2ncia de Iquitos, pr\u00f3xima aos afluentes naveg\u00e1veis<br \/>\ndo Ucai\u00e1li e num solo exuberante, o n\u00facleo estabelecido era,<br \/>\nmilitar e administrativamente, o mais firme ponto estrat\u00e9gico daquele<br \/>\ncombate com o deserto, justificando-se os esfor\u00e7os e extraordin\u00e1rias<br \/>\ndespesas que se fizeram para um r\u00e1pido desenvolvimento, que as melhores<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es naturais favoreciam.<br \/>\nMas n\u00e3o lhe vingou o plano. A exemplo do que acontecera em Loreto,<br \/>\nos novos povoadores, embora mais persistentes, anulavam-se, est\u00e9reis.<br \/>\nA col\u00f4nia paralisara-se, tolhi\u00e7a, entre os esplendores da floresta.<br \/>\nReduziu-se a culturas rudimentares que mal lhe satisfaziam o consumo. E o<br \/>\nprogresso demogr\u00e1fico, quase insens\u00edvel, retratava-se numa prole<br \/>\nlinf\u00e1tica, em que o rijo arcabou\u00e7o prussiano se engelhava na<br \/>\nenvergadura esmirrada do qu\u00edchua. Ao visit\u00e1-la, em 1870, o Prefeito<br \/>\nde Huanuco, Coronel Vizcarra, quedou at\u00f4nito e comovido: os colonos<br \/>\napresentaram-se-lhe andrajosos e famintos, pedindo-lhe p\u00e3o e vestes<br \/>\npara velarem a nudez. O rom\u00e2ntico D. Manoel Pinz\u00e1s, que descreveu<br \/>\na viagem, pinta-nos em longos per\u00edodos solu\u00e7antes os lances<br \/>\ndaquele cuadro desgarrador!, suspendendo-o em dois rijos pontos de admira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nViu-o ainda, passado um lustro, com as mesmas c\u00f4res sombrias, o Dr.<br \/>\nSantiago Tavara, ao descrever a primeira viagem do Almirante Tucker.<br \/>\nPor fim, transcorridos trinta anos, o Coronel P. Portillo na sua rota do Ucai\u00e1li<br \/>\nteve not\u00edcias certas do n\u00facleo povoador: era uma Tebaida aterradora.<br \/>\nL\u00e1 dentro os primitivos colonos e os seus rebentos degenerados agitavam-se<br \/>\nv\u00edtimas de um fanatismo irremedi\u00e1vel, na mandria dolorosa das<br \/>\npenit\u00eancias, a rezarem, a desfiarem ros\u00e1rios e a entoarem umas<br \/>\nladainhas intermin\u00e1veis numa concorr\u00eancia escandalosa com os<br \/>\nguaribas da floresta.<br \/>\nOra, o excursionista, que \u00e9 hoje um dos mais l\u00facidos pol\u00edticos<br \/>\nperuanos, para agravar-lse-lhe o desapontamento ante \u00easte mal\u00f4gro<br \/>\ncompleto da col\u00f4nia predileta da sua terra, tivera dias antes, ao passar<br \/>\nem Puerto Victoria, na conflu\u00eancia do Pichis e do Palcazu, formadores<br \/>\ndo Pachit\u00e9a, um espet\u00e1culo completamente diverso. De fato, Puerto<br \/>\nVictoria surgira e desenvolvera-se, tornando-se a est\u00e2ncia mais animada<br \/>\ne opulenta daquela redondeza, sem que o gov\u00earno peruano soubesse ao<br \/>\nmenos do seu aparecimento.<br \/>\nJamais cogitara em povoar aqu\u00eale trecho.<br \/>\nA paragem era malsinada. Rodeavam-na os mais bravios entre os selvagens sul-americanos:<br \/>\nos campas do Pajonal, ao sul, e ao norte os caxibos indom\u00e1veis, que<br \/>\nem 1866 haviam trucidado em Chonta-Isla, que lhe demora a jusante, os oficiais<br \/>\nde marinha Tavara e West. O Prefeito Benito Arana, que ali andara naquele<br \/>\nmesmo ano, f\u00f4ra, em som de guerra, com dois vap\u00f4res e uma lancha<br \/>\nartilhada, em revide \u00e0quela afronta sanguinolenta. Saltou em terra;<br \/>\nmeteu-se pela mata; travou pequeninos recontros em formid\u00e1veis tiroteios;<br \/>\nvolveu num triunfo singular\u00edssimo, encal\u00e7ado de perto pelos<br \/>\nselvagens, que o frechavam; embarcou no tumulto da sua gente vitoriosa, e<br \/>\nfugindo; canhoneou furiosamente as barrancas; volveu, prec\u00edpite, \u00e1guas<br \/>\nabaixo, deixando na Playa del Castigo um tra\u00e7o romanesco da sua empr\u00easa<br \/>\ntormentosa&#8230;<br \/>\nE durante tr\u00eas dec\u00eanios a regi\u00e3o sinistra permaneceu no<br \/>\nisolamento que lhe criavam as gente apavoradas&#8230;<br \/>\nAt\u00e9 que, provindos do ocidente e vencendo \u00e0 voga arrancada,<br \/>\nnas ub\u00e1s esguias, as correntezas fortes do Pachit\u00e9a, atravessaram-na<br \/>\nde extremo a extremo e foram abordar na conflu\u00eancia do Pichis alguns<br \/>\naventureiros destemerosos.<br \/>\nEram uns caboclos entroncados, de tez morena e ba\u00e7a, e musculatura<br \/>\ns\u00eaca e poderosa. N\u00e3o eram caucheiros. A palavra remorada n\u00e3o<br \/>\nlhes vibrava na fanfarrice ruidosa. Ao inv\u00e9s de um tambo, improvisaram<br \/>\num tejupar mal arranjado. N\u00e3o se armaram do cuchillo, misto de punhal<br \/>\ne de navalha. Pendiam-lhes \u00e0 cintura as facas de arrasto, longas como<br \/>\nas espadas.<br \/>\nAperceberam-se sem ru\u00eddos para a empr\u00easa e penetraram, vagarosamente,<br \/>\nna floresta&#8230;<br \/>\nN\u00e3o se conhecem as perip\u00e9cias da entrada temer\u00e1ria, que<br \/>\nforam sem d\u00favida excepcionalmente dram\u00e1ticas. Os caxibos t\u00eam<br \/>\nno pr\u00f3prio nome a legenda da sua ferocidade. Caxi, morcego; bo, semelhante.<br \/>\nFiguradamente: sugadores de sangue. Ainda nos seus raros momentos de jovialidade<br \/>\naqu\u00eales b\u00e1rbaros assustam, quando o riso lhes descobre os dentes<br \/>\nretintos do sumo negro da palmeira chonta; ou estiram-se de bru\u00e7os,<br \/>\nacaroados com o ch\u00e3o, as b\u00f4cas junto \u00e0 terra, ululando<br \/>\nlongamente as notas demoradas de uma melop\u00e9ia selvagem.<br \/>\nAtravessaram, indenes na bruteza, trezentos anos de catequese; e s\u00e3o<br \/>\nainda a tribo mais bravia do vale do Ucai\u00e1li.<br \/>\nMas ao que se figura n\u00e3o pulsearam com vantagem o vigor nos novos pioneiros.<br \/>\n\u00c9 que o b\u00e1rbaro sanguin\u00e1rio tinha pela frente, enterreirando-o,<br \/>\num advers\u00e1rio mais temeroso, o jagun\u00e7o.<br \/>\nOs rec\u00e9m-vindos eram brasileiros do Norte; e o seu patr\u00e3o, Pedro<br \/>\nC. de Oliveira, mais um mod\u00ealo de lidador obscuro aparecendo em lances<br \/>\nde fecundas iniciativas entre os acontecimentos de uma hist\u00f3ria estranha.<br \/>\nPara aquilatar-se-lhe a valia, observemos de relance que em janeiro de 1900<br \/>\nfoi nomeado, apesar da sua nacionalidade, governador de t\u00f4da a zona<br \/>\nque o seu barrac\u00e3o centralizava.<br \/>\nO Coronel Portillo, que ali deparou agasalho sincero sem o preg\u00e3o de<br \/>\nrasgados oferecimentos, t\u00e3o caracter\u00edstico da nossa gens obscura,<br \/>\ntrai em todos os conceitos que emitiu no seu relat\u00f3rio &#8211; desde o primeiro<br \/>\ndia at\u00e9 desperdir-se da &#8220;muy estimable familia del se\u00f1or<br \/>\nOlivera&#8221;, o encanto que lhe causou a est\u00e2ncia animad\u00edssima<br \/>\nno centro de suas culturas fartas, e inteligentemente locada com as numerosas<br \/>\nvivendas circulantes no alto da barranca, a prumo s\u00f4bre a margem esquerda<br \/>\ndo rio, que se alcan\u00e7ava subindo uma longa escadaria resistente e t\u00f4sca.<br \/>\nCativaram-no, sobretudo, os valentes tranq\u00fcilos que se lhe mostraram<br \/>\nmodest\u00edssimos em pleno triunfo s\u00f4bre a barbaria e a terra. Por<br \/>\nfim, \u00e0 sua vis\u00e3o esclarecida n\u00e3o escapou que aqu\u00eale<br \/>\nforasteiro, sem um decreto e sem uma subven\u00e7\u00e3o, resolvera o<br \/>\nproblema colimado pelo gov\u00earno de seu pa\u00eds, fundando no lugar<br \/>\nmais conveniente a esta\u00e7\u00e3o garantidora da &#8220;via central&#8221;<br \/>\ndemandando a Amaz\u00f4nia. Disse-o nuamente: P\u00f4rto Vit\u00f3ria<br \/>\nera o lugar mais apropriado para a guarni\u00e7\u00e3o militar e alf\u00e2ndega<br \/>\nque protegessem a importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o da col\u00f4nia<br \/>\nde Chanchamayo, norte de Pajonal, Tarma e monta\u00f1as do Palcazu, Matro<br \/>\ne Pozuzo.<br \/>\nConcluiu: &#8220;La casa de Olivera debe ser tomada por el Supremo Gobierno<br \/>\ncomo la m\u00e1s aparente para las oficinas de la capitania, aduana e comandancia<br \/>\nmilitar.&#8221;<br \/>\nFoi aceito o alvitre. Um decreto do Presidente Pierola ordenou a demarca\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Puerto Victoria para estabelecer-se comisar\u00eda destinada a proteger<br \/>\nos colonizadores daquelas terras; e num grande ci\u00fame da situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nvantajosa adquirida revelou o intento de uma posse exclusiva &#8220;no consentiendo,<br \/>\nalli, en el radio de un quil\u00f3metro, poblador alguno&#8221;.<br \/>\nO Peru conseguira realmente uma esta\u00e7\u00e3o fluvial admir\u00e1vel.<br \/>\nE os brasileiros retiraram-se.<br \/>\nPassaram cinco anos.<br \/>\nEm 1905 um touriste parisiense, J. Delebecque, desceu o Pachit\u00e9a, em<br \/>\nviagem para o Amazonas, e n\u00e3o notaria a est\u00e2ncia outrora florescente<br \/>\nse n\u00e3o o acompanhassem alguns \u00edndios mansos conhecedores dos<br \/>\nlugares.<br \/>\nNo alto da barranca, que os enxurros solapavam, viam-se apenas alguns tetos<br \/>\nabatidos e restos de culturas afogadas num carrascal bravio.<br \/>\nO p\u00f4rto era uma ru\u00edna.<br \/>\nO viajante ali permaneceu por algumas horas a fim de secar as suas roupas<br \/>\nencharcadas ao calor de uma fogueira feita com as portas desquiciadas e ombreiras<br \/>\nvacilantes das vivendas, consoante praticam todos os que por ali passam na<br \/>\ntravessia de Iquitos; e considerou, melanc\u00f2licamente, que daquele jeito<br \/>\nPuerto Victoria seria em breve apenas uma recorda\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDepois abalou rio abaixo, a t\u00f4da a voga, fugindo da paragem que se ermana<br \/>\nno mais completo abandono&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>Transacreana<\/h2>\n<p>A carta da Amaz\u00f4nia, no trato que demora ao ocidente do Madeira, \u00e9<br \/>\no diagrama de seu povoamento inicial. A hist\u00f3ria da paragem nova, antes<br \/>\nde escrever-se, desenha-se. N\u00e3o se l\u00ea, v\u00ea-se. Resume-se<br \/>\nnos longos e torturosos riscos do Purus, do Juru\u00e1 e do Javari.<br \/>\nS\u00e3o linhas naturais de comunica\u00e7\u00e3o a que nenhumas se<br \/>\nemparelham no favorecer um dilatado dom\u00ednio. Geom\u00e8tricamente,<br \/>\nos seus talvegues, rumados no sentido geral de SO para NE, num quase paralelismo,<br \/>\nobl\u00edquos aos meridianos, facultam avan\u00e7amentos simult\u00e2neos<br \/>\nem latitude e em longitude; sob o aspecto f\u00edsico, \u00e0 parte os<br \/>\nentraves artificiais oriundos do abandono em que jazem, estiram-se de todo<br \/>\ndesimpedidos. Travam-se-lhes os mais privilegiados requisitos. Na grande maioria<br \/>\ndos rios amaz\u00f4nicos, e sobretudo no Vale do Ucai\u00e1li, os empe\u00e7os<br \/>\nnaturais acumulam-se ao ponto de originarem estranhos t\u00earmos geogr\u00e1ficos.<br \/>\nN\u00eales n\u00e3o h\u00e1 citar-se um s\u00f3. Nem pongos vertiginosos,<br \/>\nnem despenhadas urmanas, nem mui\u00fanas remoinhantes ou vueltas del diablo<br \/>\ndesesperadores&#8230;<br \/>\nDa\u00ed esta expressiva conseq\u00fc\u00eancia hist\u00f3rica: enquanto<br \/>\nno Tocantins, no Tapaj\u00f3s, no Madeira e no Rio Negro, o povoamento,<br \/>\niniciado desde os tempos coloniais, se entorpeceu ou retrogradou, retratando-se<br \/>\nna ruinaria dos vilarejos a ca\u00edrem com as barrancas solapadas, ali,<br \/>\najustando-se-lhes \u00e0s margens, progrediu t\u00e3o de improviso que<br \/>\ndeterminou, em menos de cinq\u00fcenta anos, uma dilata\u00e7\u00e3o de<br \/>\nfronteiras.<br \/>\nEra inevit\u00e1vel. O forasteiro, ao penetrar o Purus ou o Juru\u00e1,<br \/>\nn\u00e3o carecia de excepcionais recursos \u00e0 empr\u00easa. Uma canoa<br \/>\nmaneira e um varej\u00e3o, ou um remo, aparelhavam-no \u00e0s mais espantosas<br \/>\nviagens. O rio carregava-o; guiava-o; alimentando-o; protegendo-o. Restava-lhe<br \/>\no s\u00f3 esf\u00f4r\u00e7o de colh\u00ear \u00e0 ourela das matas<br \/>\nmarginais as especiarias valiosas; atestar com elas os seus barcos primitivos<br \/>\ne volver \u00e1guas abaixo &#8211; dormindo em cima da fortuna adquirida sem trabalho.<br \/>\nA terra farta, merc\u00ea duma armazenagem milen\u00e1ria de riquezas,<br \/>\nexclu\u00eda a cultura. Abria-se-lhe em avenidas fluviais maravilhosas.<br \/>\nImp\u00f4s-lhe a tarefa exclusiva das colheitas. Por fim tornou-lhe l\u00f3gico<br \/>\no nomadismo.<br \/>\nO nome de &#8220;montaria&#8221;, da sua ub\u00e1 aligeirada, \u00e9 extremamente<br \/>\nexpressivo. Ela o ajustou \u00e0quelas solid\u00f5es de n\u00edvel,<br \/>\ncomo o cavalo adaptou o t\u00e1rtaro \u00e0s estepes. Esta diferen\u00e7a<br \/>\napenas: ao passo que o calmuco tem nos infinitos pontos do horizonte infinitos<br \/>\nrumos atraindo-o ao nomadismo irradiante \u00e0 roda da sua iurta, que ao<br \/>\nmudar-se se afigura im\u00f3vel no c\u00edrculo indefinido das planuras<br \/>\n&#8211; o jacuma\u00faba amazonense, subordinado a roteiros lineares, adscrito<br \/>\na dire\u00e7\u00f5es imut\u00e1veis, ficou largo tempo constrangido<br \/>\nentre as barrancas dos rios. Mal poderia libertar-se em desvios de poucas<br \/>\nl\u00e9guas pelos sulcos laterais dos tribut\u00e1rios. Ao inv\u00e9s<br \/>\ndo que se acredita, aquelas r\u00eades hidrogr\u00e1ficas, entretecidas<br \/>\nde malhas t\u00e3o cont\u00ednuas, n\u00e3o misturam as \u00e1guas<br \/>\ndas caudais diversas em largas anastomoses, insinuando-se pelas impercept\u00edveis<br \/>\nlinhas de vertentes abatidas nas plan\u00edcies encharcadas. O paranamirim<br \/>\nvolve sempre ao leito principal de onde se esgalhou; e o igarap\u00e9 acaba<br \/>\nno lago que \u00eale alimentou nas cheias para que o alimente nas vazantes,<br \/>\ncorrendo em sentidos opostos consoante as esta\u00e7\u00f5es; ou extingue-se,<br \/>\nampliando-se nos plainos empantanados escondidos pela fl\u00f3rula anf\u00edbia<br \/>\ndos igap\u00f3s inextric\u00e1veis de lianas. Entre um curso d\u2019\u00e1gua<br \/>\ne outro, a faixa da floresta substitui a montanha que n\u00e3o existe. \u00c9<br \/>\num isolador. Separa. E subdividiu, de fato, em longos caminhos isolados, as<br \/>\nmassas povoadoras que demandavam aquela zona.<br \/>\nViu-se ent\u00e3o, de par com primitivas condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o<br \/>\nfavor\u00e1veis, \u00easte reverso: o homem, em vez de senhorear a terra,<br \/>\nescravizava-se ao rio. O povoamento n\u00e3o se expandia: estirava-se. Progredia<br \/>\nem longas filas, ou volvia s\u00f4bre si mesmo sem deixar os sulcos em que<br \/>\nse encaixa &#8211; tendendo a imobilizar-se na apar\u00eancia de um progresso ilus\u00f3rio,<br \/>\nde recuos e avan\u00e7adas, do aventureiro que parte, penetra fundo a terra,<br \/>\nexplora-a e volta pelas mesmas trilhas &#8211; ou renova, mon\u00f2tonamente,<br \/>\nos mesmos itiner\u00e1rios da sua inambula\u00e7\u00e3o invari\u00e1vel.<br \/>\nAo cabo, a breve, mas agitad\u00edssima hist\u00f3ria das paragens novas,<br \/>\n\u00e0 parte ligeiras variantes, ia imprimindo-se t\u00f4da, secamente,<br \/>\nnaquelas extensas linhas desatadas para SO: tr\u00eas ou quatro riscos, tr\u00eas<br \/>\nou quatro desenhos de rios, coleando, indefinidos, num deserto&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ora, \u00easte aspecto social desalentador, criado sobretudo pelas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nem com\u00ea\u00e7o t\u00e3o favor\u00e1veis, dos rios, corrige-se<br \/>\npela liga\u00e7\u00e3o transversa de seus grandes vales.<br \/>\nA id\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 original, nem nova. H\u00e1 muito tempo,<br \/>\ncom intui\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel, os rudes povoadores daqueles<br \/>\nlong\u00ednquos recantos realizaram-na com a abertura dos primeiros varadouros.<br \/>\nO varadouro &#8211; legado da atividade her\u00f3ica dos paulistas compartido<br \/>\nhoje pelo amazonense, pelo boliviano e pelo peruano &#8211; \u00e9 a vereda atalhadora<br \/>\nque vai por terra de uma vertente fluvial a outra.<br \/>\nA princ\u00edpio tortuoso e breve, apagando-se no afogado da espessura,<br \/>\n\u00eale reflete a pr\u00f3pria marcha indecisa da sociedade nascente e<br \/>\ntitubeante, que abandonou o rega\u00e7o dos rios para caminhar por si. E<br \/>\nfoi crescendo com ela. Hoje nas suas trilhas estreit\u00edssimas, de um<br \/>\nmetro de largura, tiradas a fac\u00e3o, estirando-se por t\u00f4da a parte,<br \/>\nentretecendo-se em voltas inumer\u00e1veis, ou encruzilhadas, e ligando<br \/>\nos afluentes esgalhados de t\u00f4das as cabeceiras, do Acre para o Purus,<br \/>\nd\u00easte para o Juru\u00e1 e da\u00ed para o Ucai\u00e1li, vai tra\u00e7ando-se<br \/>\na hist\u00f3ria contempor\u00e2nea do n\u00f4vo territ\u00f3rio, de<br \/>\num modo de todo contraposto \u00e0 primitiva submiss\u00e3o ao fatalismo<br \/>\nimponente das grandes linhas naturais de comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNos seus torcicolos, impostos pelas linhas mais altas das pequenas vertentes<br \/>\ndeprimidas, sente-se um estranho movimento irrequieto, de revolta. Trilhando-os,<br \/>\no homem \u00e9, de fato, um insubmisso. Insurge-se contra a natureza carinhosa<br \/>\ne trai\u00e7oeira, que o enriquecia e matava. Repele-lhe tanto os amparos<br \/>\nantigos que realiza na maior das mesopot\u00e2mias a anomalia de navegar<br \/>\nem s\u00eaco; ou esta transfigura\u00e7\u00e3o: carrega de um rio para<br \/>\no outro o barco que o carregava outrora. Por fim, numa afirmativa crescente<br \/>\nda vontade, vai estirando de rio em rio, retramada com os infinitos fios dos<br \/>\nigarap\u00e9s, a r\u00eade aprisionadora, de malhas cada vez menores e<br \/>\nmais numerosas, que lhe entregar\u00e1 em breve a terra dominada.<br \/>\nE do Acre para o Iaco, para o Tauamano e para o Orton: do Purus para o Madre<br \/>\nde Di\u00f3s, para o Ucai\u00e1li, para o Javari, trilhando aforradamente<br \/>\no territ\u00f3rio em todos os quadrantes, os acreanos, despeados do antigo<br \/>\ntra\u00e7o de uni\u00e3o do Amazonas long\u00ednquo, que os submetia,<br \/>\ndispersos, ao litoral afastado, v\u00e3o em cada uma daquelas veredas atrevidas,<br \/>\nfirmando um s\u00edmbolo tang\u00edvel de independ\u00eancia e de posse.<br \/>\nTomemos um exemplo de testemunho estrangeiro.<br \/>\nEm 1904 o oficial da marinha peruana, Germano Stiglich, encontrou no Javari<br \/>\nv\u00e1rios brasileiros, que o surpreenderam com a simples narrativa de<br \/>\numa travessia costumeira, ante a qual se apequenavam as suas mais estiradas<br \/>\nrotas de explorador not\u00e1vel. Registrou-a em um de seus relat\u00f3rios:<br \/>\nos sertanistas entram pelo Javar, subindo o Itacoa\u00ed at\u00e9 \u00e0s<br \/>\ncabeceiras; varam dali, por terra a buscarem as vertentes do Ipixuna: alcan\u00e7am-nas;<br \/>\ntransmontam-nas; descem o pequeno tribut\u00e1rio; chegam ao Juru\u00e1;<br \/>\nnavegam at\u00e9 S. Felipe, onde infletem, penetrando o Tarauac\u00e1,<br \/>\no Envira e o Jurupari at\u00e9 onde subam as suas canoas ligeiras; deixam-nas;<br \/>\nrompem outra vez por terra a encontrarem o Purus nas cercanias de Sobral;<br \/>\ndescem, embarcados, 760 km do grande rio at\u00e9 a foz do Ituxi; e enveredando<br \/>\npor \u00easte \u00faltimo, v\u00e3o, depois de uma outra vara\u00e7\u00e3o<br \/>\npor terra, atingir o Abun\u00e3, que baixam, abordando, afinal \u00e0<br \/>\nmargem esquerda do Madeira.<br \/>\nA derrota, com a percentagem de 20% s\u00f4bre as retas da desmedida linha<br \/>\nquebrada que a define, avalia-se em 3.000 km, ou o d\u00f4bro da estrada<br \/>\ntradicional, dos bandeirantes, entre S. Paulo e Cuiab\u00e1. Os obscuros<br \/>\npioneiros prolongam a \u00eastes dias a tradi\u00e7\u00e3o her\u00f3ica<br \/>\ndas entradas, que constituem o \u00fanico aspecto original da nossa Hist\u00f3ria.<br \/>\nAqu\u00eale roteiro, entretanto, alonga-se contorcendo-se em voltas sobremaneira<br \/>\nextensas. Abreviemo-lo, baseando-nos em alguns dados seguros.<br \/>\nPartindo de Remate dos Males, no Javari, nas cercanias de Tabatinga, o viajante,<br \/>\nem qualquer esta\u00e7\u00e3o, pode sulcar num dia o Itacoa\u00ed at\u00e9<br \/>\na conflu\u00eancia do Itu\u00ed, percorrendo 140 km itiner\u00e1rios.<br \/>\nProssegue por terra em terreno firme, no rumo de SE pelo extenso varadouro<br \/>\nde 190 km que corta as cabeceiras do Juta\u00ed e termina em S. Felipe,<br \/>\n\u00e0 margem do Juru\u00e1, empregando apenas cinco dias de marcha. Sobe<br \/>\no Tarauac\u00e1, embarcado, at\u00e9 a foz do Envira; e desta \u00e0<br \/>\ndo Jurupari, prosseguindo a buscar as suas mais altas vertentes, num percurso<br \/>\nm\u00e1ximo de 350 km que vencer\u00e1 em pouco mais de uma semana. Rompe<br \/>\no breve varadouro que o leva ao Furo do Juru\u00e1, e atinge, descendo-o,<br \/>\nao fim de dois dias, de lancha, realizados os ligeiros reparos de que carece<br \/>\no rio. A sede da Prefeitura do Alto-Purus, distante 24 km, alcan\u00e7a-se<br \/>\nem duas horas de navega\u00e7\u00e3o; e dali, pelo varadouro do Oriente,<br \/>\nlongo de 25 l\u00e9guas percorrido normalmente em cinco dias, chega-se ao<br \/>\nseringal Baj\u00e9, &amp;aagrave; margem esquerda do Acre. Transpondo \u00easte<br \/>\nrio e seguindo para leste a cortar os derradeiros tribut\u00e1rios do Iquiri<br \/>\ne os campos do Gavi\u00e3o, o caminhante vai ao Abun\u00e3, a jusante<br \/>\nda embocadura do Tipamanu, e da\u00ed ao Beni, na conflu\u00eancia do Madeira,<br \/>\npercorrendo c\u00earca de 300 km em oito dias, por terra.<br \/>\nD\u00easte modo, em pouco mais de um m\u00eas de travessia, vencendo-se<br \/>\n907 km por \u00e1guas e 660 por terra, pode-se vir de Tabatinga a Vila Bela,<br \/>\ndiagonalmente, de um a outro extremo da Amaz\u00f4nia, naquele itiner\u00e1rio<br \/>\nde 250 l\u00e9guas.<br \/>\nA \u00eastes n\u00fameros falta, sem d\u00favida, o rigorismo das quilometragens<br \/>\nregulares; mas n\u00e3o variam talvez de um d\u00e9cimo s\u00f4bre a<br \/>\nrealidade, \u00e0 parte os dados demasiado fal\u00edveis relativos \u00e0<br \/>\nnavega\u00e7\u00e3o do Tarauac\u00e1 e ao rumo por terra do Jurupari<br \/>\nao Purus.<br \/>\nExcluamo-los nesta variante: partindo do mesmo ponto \u00e0 margem do Javari<br \/>\ne sulcando o Itacoa\u00ed at\u00e9 aos seus derradeiros formadores, o<br \/>\nviajante encontra o antigo varadouro do Ipixuna que o conduz ao Juru\u00e1<br \/>\ne a Cruzeiro do Sul, capital do Departamento, em percurso pouco maior do que<br \/>\no anterior por S. Felipe.<br \/>\nOra, de Cruzeiro do Sul \u00e0s sedes dos departamentos do Purus e do Acre<br \/>\npodem remover-se todos os inconvenientes daquela navega\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria,<br \/>\nsujeita a fatigante roteiro.<br \/>\nDe fato, o extenso segmento retil\u00edneo, de 605 km, da linha Cunha Gomes,<br \/>\n\u00e9 a pr\u00f3pria linha de ensaio de um varadouro not\u00e1vel ligando<br \/>\nas tr\u00eas sedes administrativas. Dando-se-lhe o desenvolvimento exagerado<br \/>\nde 20% s\u00f4bre a dist\u00e2ncia, ter\u00e1 a extens\u00e3o de 726<br \/>\nkm; ou sejam, exatamente, 110 l\u00e9guas, que podem ser transpostas em<br \/>\ngrande parte, a cavalo, em menos de doze dias.<br \/>\nObserve-se, de passagem, que \u00easte projeto n\u00e3o se delineia nos<br \/>\nriscos arbitr\u00e1rios a que se avezam os exploradores de mapas, ou consoante<br \/>\n&#8220;o conhecido processo do Tzar Nicolau I, riscando com a unha do polegar<br \/>\no tra\u00e7ado da estrada de Petersburgo a Moscou&#8221;.<br \/>\nEsteia-se em reconhecimentos, certo despidos de azimutes, ou cotas esclarecedoras<br \/>\nde aner\u00f3ides, mas pr\u00e1ticos e concludentes. O primeiro trecho,<br \/>\nnormal ao vale do Taruac\u00e1, planeado pelo General Taumaturgo de Azevedo,<br \/>\nj\u00e1 se acha em grande parte aberto por um seringueiro de Cocamera &#8211;<br \/>\ne estende-se em terrenos t\u00e3o afei\u00e7oados \u00e0 marcha que,<br \/>\ndepois de conclu\u00eddo o caminho, &#8220;ir-se-\u00e1 do Juru\u00e1<br \/>\nao Tarauac\u00e1, a cavalo, em quatro dias&#8221; conforme afirma o ex-Prefeito<br \/>\nem seu pen\u00faltimo relat\u00f3rio; ao passo que atualmente, para efetuar-se<br \/>\na mesma viagem, &#8220;em vapor, que fa\u00e7a poucas escalas e dobre a foz<br \/>\ndo Tarauac\u00e1, consomem-se 15 dias, no m\u00ednimo&#8221;.<br \/>\nO segmento intermedi\u00e1rio, de Barcelona ou N\u00f4vo Destino \u00e0<br \/>\nconflu\u00eancia do Caet\u00e9, no Iaco, por sua vez estudado pela Prefeitura<br \/>\ndo Alto-Purus, \u00e9 de execu\u00e7\u00e3o fac\u00edlima, todo desatado<br \/>\ns\u00f4bre breve altiplano livre das inunda\u00e7\u00f5es. E o \u00faltimo,<br \/>\ndo Iaco ao Acre, tem h\u00e1 muito tempo um tr\u00e1fego permanente.<br \/>\nD\u00easte modo a grande estrada de 726 km, unindo os tr\u00eas departamentos,<br \/>\ne capaz de prolongar-se de um lado at\u00e9 ao Amazonas, pelo Javari, e<br \/>\nde outro at\u00e9 ao Madeira, pelo Abun\u00e3, est\u00e1 de todo reconhecida,<br \/>\ne na maior parte trilhada.<br \/>\nA interven\u00e7\u00e3o urgent\u00edssima do Gov\u00earno Federal imp\u00f5e-se<br \/>\ncomo dever elementar\u00edssimo de aviventar e reunir tantos esfor\u00e7os<br \/>\nparcelados.<br \/>\nDeve consistir por\u00e9m no estabelecimento de uma via f\u00e9rrea &#8211;<br \/>\na \u00fanica estrada de ferro urgente e indispens\u00e1vel no Territ\u00f3rio<br \/>\ndo Acre.<br \/>\nAtalhemos uma obje\u00e7\u00e3o inicial.<br \/>\nA fisiografia amaz\u00f4nica figura-se sempre obst\u00e1culo indispens\u00e1vel<br \/>\na tais empr\u00easas. Mas os que a agitam, em argumentos que temos por escusado<br \/>\nreproduzir, n\u00e3o podem, certo, compreender as linhas f\u00e9rreas<br \/>\nda \u00cdndia. De fato, no Indust\u00e3o pr\u00f2priamente dito, o nivelamento<br \/>\nsuperficial, o solo aluviano de areias e argilas acumuladas em espessuras<br \/>\nindefinidas, e as caracter\u00edsticas clim\u00e1ticas, patenteiam-se<br \/>\nem condi\u00e7\u00f5es id\u00eanticas. Ali, como na Amaz\u00f4nia, os<br \/>\nrios destacam-se pela grandeza, volumes excessivos nas cheias, amplitudes<br \/>\ndas inunda\u00e7\u00f5es, e volubilidade dos canais nos leitos divagantes.<br \/>\nOs nulla incont\u00e1veis, serpeantes por toda a banda, desenham-se na hidrografia<br \/>\nca\u00f3tica dos igarap\u00e9s; e o Purus, o Juru\u00e1, o Acre e seus<br \/>\ntribut\u00e1rios, n\u00e3o variam tanto de curso e de regime quanto o<br \/>\nGanges e os rios de Punjab, cujas pontes foram o maior problema que resolveu<br \/>\na engenharia ingl\u00easa.<br \/>\nNa \u00cdndia, como entre n\u00f3s, n\u00e3o faltaram profissionais<br \/>\napavorados ante as dificuldades naturais &#8211; esquecidos de que a engenharia<br \/>\nexiste precisamente para venc\u00ea-las. Ao discutir-se o memorandum Kennedy,<br \/>\nonde germinou a via\u00e7\u00e3o indu, o Coronel Grant, do corpo de engenheiros<br \/>\nde Bombaim, pilheriou sisudamente, propondo com a maior seriedade que os trilhos<br \/>\nse suspendessem em todo o correr das linhas por meio de s\u00e9ries regulares<br \/>\nde cadeias, em rijos postes fronteantes, a oito p\u00e9s acima do solo&#8230;<br \/>\nE desafiou o humor magn\u00edfico de seus fleugm\u00e1ticos colegas. Os<br \/>\nr\u00edgidos railroadmen replicaram-lhe tempos depois, esmagadoramente,<br \/>\ncom a West Indian Peninsular, e nobilitaram t\u00f4da a engenharia de estradas<br \/>\nde ferro obedecendo a uma de suas f\u00f3rmulas mais civilizadoras, enunciada<br \/>\npor Mac-George: &#8220;In every country it is necessary that railway should<br \/>\nbe ladi out with references to the distribuition of population and to the<br \/>\nnecessities of people, rather than to the mere physical characteristics of<br \/>\nits geography&#8230;&#8221;<br \/>\nOra, no caso atual, ainda \u00easses caracteres f\u00edsicos e geogr\u00e1ficos<br \/>\nevidenciam-se favor\u00e1veis.<br \/>\nA estrada de Cruzeiro do Sul ao Acre n\u00e3o ir\u00e1, como as do Sul<br \/>\ndo nosso pa\u00eds, justapondo-se \u00e0 diretriz dos grandes vales, porque<br \/>\ntem um destino diverso. Estas \u00faltimas, sobretudo em S. Paulo, s\u00e3o<br \/>\ntipos cl\u00e1ssicos de linhas de penetra\u00e7\u00e3o: levam o povoamento<br \/>\nao \u00e2mago da terra. Naquele recanto amaz\u00f4nico esta fun\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo o vimos, \u00e9 desempenhada pelos cursos d\u2019\u00e1gua. \u00c0<br \/>\nlinha planeada resta o destino de distribuir o povoamento, que j\u00e1 existe.<br \/>\n\u00c9 uma auxiliar dos rios. Corta-lhes, por isto, transversa, os vales.<br \/>\nDa\u00ed esta conseq\u00fc\u00eancia ineg\u00e1vel: adapta-se, naturalmente,<br \/>\nmerc\u00ea da pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o, \u00e0s deprimidas<br \/>\n\u00e1reas divis\u00f3rias dos afluentes laterais, e, acompanhando-os,<br \/>\nforra-se em grande parte aos empecilhos daquela hidrografia embaralhada.<br \/>\nPor outro lado, ao sul do paralelo de 8&amp;ordm; persiste, certo, o facies<br \/>\npredominante da enorme v\u00e1rzea amazonense. Mas atenuado. A inconst\u00e2ncia<br \/>\ntumultu\u00e1ria das \u00e1guas n\u00e3o se retrata em curvas t\u00e3o<br \/>\nnumerosas e vol\u00faveis. Os terrenos, expandindo-se em ondula\u00e7\u00f5es<br \/>\nligeiras com a altitude m\u00e9dia, absoluta, de 200 metros, s\u00e3o,<br \/>\nno geral, firmes e a cavaleiro das enchentes. Trilhamo-los em v\u00e1rios<br \/>\npontos. Est\u00e1-se, vis\u00edvelmente, s\u00f4bre forma\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais antigas, definidas e est\u00e1veis, que as da imensa planura p\u00f3s-quatern\u00e1ria<br \/>\nonde ainda se adivinham as derradeiras transforma\u00e7\u00f5es geol\u00f3gicas<br \/>\ndo Amazonas, no conflito inevit\u00e1vel entre os cursos d\u2019\u00e1gua<br \/>\ninconstantes e a v\u00e1rzea inconsistente.<br \/>\nAl\u00e9m disto, os obst\u00e1culos naturais, reduzem-nos, ou amortecem-nos,<br \/>\nos tra\u00e7ados que se lhes afei\u00e7oes. A via f\u00e9rrea em quest\u00e3o<br \/>\ndeve modelar-se pelas condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas menos dispendiosas<br \/>\na um primeiro estabelecimento &#8211; caracterizando-se, sobretudo, por uma via<br \/>\nsingela, de bitola reduzida, de 0,76 m ou 0,91 m, ou no m\u00e1ximo de 1,0<br \/>\nm entre trilhos, que lhe permita os maiores declives e as menores curvas,<br \/>\ndando-lhe plasticidade para volver-se em busca dos terrenos mais altos e est\u00e1veis,<br \/>\nque lhe alteiem o grado acima das zonas inundadas em tra\u00e7ados quase<br \/>\n\u00e0 flor da terra. Deve nascer como nasceram as maiores estradas atuais:<br \/>\ntrilhos de 18 quilos, no m\u00e1ximo, por metro corrente, capazes de locomotivas<br \/>\nde escasso p\u00easo aderente de 15 a 20 toneladas; curvas que se arqueiem<br \/>\nat\u00e9 aos raios de 50 metros; e declives que se aprumem at\u00e9 5%<br \/>\nsubmetidos a todos os movimentos do solo.<br \/>\nN\u00e3o os tem muito melhores a Central Pacific, de Nevada, com a sua bitola<br \/>\nestreita, sem balastro, serpeando com a mesma levidade de trilhos em curvas<br \/>\nde 90 metros, e tornejando pendores em rampas inclassific\u00e1veis. Ou<br \/>\no Transiberiano, onde locomotivas de 30 toneladas, rebocando 1\/6 de p\u00easo<br \/>\naderente s\u00f4bre trilhos de 19 quilos, andando com a velocidade de 20<br \/>\nkm por hora, n\u00e3o raro recuavam, desandando, constrangidas, se encontravam<br \/>\nde frente, repelindo-as, ponteiras, as ventanias r\u00edspidas das estepes&#8230;<br \/>\nSem d\u00favida, de uma tal superestrutura, a que se liga o imperfeito do<br \/>\nmaterial rodante, de tra\u00e7\u00e3o ou transporte, resultar\u00e1<br \/>\nreduzid\u00edssima capacidade de tr\u00e1fego. Mas a linha acreana, a<br \/>\nexemplo da Union Pacific Railway, n\u00e3o vai satisfazer um tr\u00e1fego,<br \/>\nque n\u00e3o existe, sen\u00e3o criar o que deve existir.<br \/>\nComo as norte-americanas, construir-se-\u00e1 aceleradamente, para reconstruir-se<br \/>\nvagarosamente.<br \/>\n\u00c9 um processo generalizado. T\u00f4das as grandes estradas, no evitarem<br \/>\nos empe\u00e7os que se lhes antolham transpondo as depress\u00f5es e iludindo<br \/>\nos maiores cortes com os mais primitivos recursos que lhes facultem um r\u00e1pido<br \/>\nestiramento dos trilhos, erigem-se nos primeiros tempos como verdadeiros caminhos<br \/>\nde guerra contra o deserto, imperfeitos, selvagens. E como para justificar<br \/>\no asserto, o primeiro engenheiro das suas obras rudimentares &#8211; que hoje se<br \/>\nfazem como h\u00e1 dois mil anos &#8211; de suas estacadas, de suas pontes e pontilh\u00f5es<br \/>\nde madeira mal lavradas, superpostas em linhas s\u00f4bre os styli fixi dos<br \/>\ntanch\u00f5es roli\u00e7os, \u00e9 C\u00e9sar.<br \/>\nDepois evolvem; e crescem, aperfei\u00e7oando os elementos da sua estrutura<br \/>\ncomplexa, como se f\u00f4ssem enormes organismos vivos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Introdu\u00e7\u00e3o Na Amaz\u00f4nia, Terra Sem Hist\u00f3ria Rios em Abandono Um clima caluniado Os Caucheiros Judas-Ahsverus &#8220;Brasileiros&#8221; Transacreana Euclides da Cunha Introdu\u00e7\u00e3o Foi Coelho Neto, grande amigo de Euclides, que o induziu a editar seus livros\u00a0na Edit\u00f4ra Lello, de Portugal. 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