{"id":95684,"date":"2017-01-20T09:05:10","date_gmt":"2017-01-20T11:05:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95684"},"modified":"2017-01-20T09:05:10","modified_gmt":"2017-01-20T11:05:10","slug":"alceste-euripedes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/alceste-euripedes","title":{"rendered":"Alceste &#8211; Eur\u00edpedes"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Personagens<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Fim<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>Eur\u00edpedes<\/h2>\n<p>TEM esta bela trag&eacute;dia de Eur&iacute;pedes, por principal objetivo,<br \/>\n    a exalta&ccedil;&atilde;o do amor conjugal que atinge o mais sublime hero&iacute;smo.<\/p>\n<p>Alceste, Laod&acirc;mia e Pen&eacute;lope, esposas de Admeto, Protesilau<br \/>\n    e Ulisses, respectivamente, constituem o tr&iacute;ptico das mais nobres figuras<br \/>\n    femininas que a lenda grega nos apresenta. Das tr&ecirc;s, por&eacute;m, coube<br \/>\n    &agrave; incompar&aacute;vel rainha de Feres praticar o rasgo de abnega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe assegura a primazia entre as esposas modelares.<\/p>\n<p>Enumerando, no canto II da Il&iacute;ada, os contingentes hel&ecirc;nicos<br \/>\n    aliados na luta contra a poderosa Tr&oacute;ia, Homero menciona os guerreiros<br \/>\n    de Feres, Glafira e I&oacute;lcos, sob o comando de Eum&eacute;lio, filho<br \/>\n    querido de Admeto e de Alceste, a quem o grande aedo considera &#8220;a gl&oacute;ria<br \/>\n    das mulheres&#8221;, e &#8220;a mais nobre descendente de P&eacute;lias&#8221;.<br \/>\n    Plat&atilde;o vai al&eacute;m, quando assevera que os pr&oacute;prios deuses<br \/>\n    consideraram t&atilde;o belo o auto-sacrif&iacute;cio de Alceste, que lhe<br \/>\n    concederam o privil&eacute;gio excepcional de retornar da sepultura &agrave;<br \/>\n    vida. &#8220;Os numes honraram nela a virtude m&aacute;xima do amor&#8221;,<br \/>\n    &#8212; conclui o fil&oacute;sofo. E &eacute; de crer que a lembran&ccedil;a<br \/>\n    de Alceste houvesse inspirado a Shakespeare esta afirma&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que ele atribui ao infeliz rei Lear:<\/p>\n<p><strong>&#8220;Upon such sacrifices, my Cordelia,<br \/>\n    The Gods themselves throw incense!&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>A trag&eacute;dia de Eur&iacute;pedes, que se inicia por um mon&oacute;logo<br \/>\n    do deus Apolo ao deixar o pal&aacute;cio de Admeto, e pela acrimoniosa discuss&atilde;o<br \/>\n    que essa benfazeja divindade sustenta com o executor implac&aacute;vel da<br \/>\n    Morte, &#8212; n&atilde;o nos proporciona surpresa alguma decorrente de intriga<br \/>\n    ou artif&iacute;cio. A a&ccedil;&atilde;o transcorre natural e logicamente<br \/>\n    at&eacute; o desfecho. O poeta mant&eacute;m sempre alcandorado o estilo,<br \/>\n    sem que as falas das personagens e as odes corais percam o alto teor do sentimento<br \/>\n    e da melancolia. Por isso mesmo, alguns tradutores e escoliastas estranham<br \/>\n    as duas &uacute;nicas passagens em que a aten&ccedil;&atilde;o se desvia,<br \/>\n    por alguns momentos, do epis&oacute;dio capital: tais s&atilde;o a fala do<br \/>\n    servo que descreve os excessos de plutonaria e a intemperan&ccedil;a de H&eacute;rcules,<br \/>\n    &#8212; que cantava aos berros no recesso de um lar ferido pelo luto, &#8212;<br \/>\n    e a cena em que Admeto deblatera com o pai valetudin&aacute;rio, agredindo-se<br \/>\n    ambos com amargas diatribes, quando m&atilde;os piedosas j&aacute; transportam<br \/>\n    ao jazigo o ata&uacute;de que cont&eacute;m o corpo inanimado de Alceste.<\/p>\n<p>Trasladando, para o vern&aacute;culo, a trag&eacute;dia de Eur&iacute;pedes,<br \/>\n    resolvemos adotar, para certos nomes, a forma ou a grafia que mais conveniente<br \/>\n    nos pareceu, ou a que melhor condiz com a &iacute;ndole de nosso idioma. Assim,<br \/>\n    preferimos conservar o nome grego T&acirc;natos para representar a Morte,<br \/>\n    e o de Hades para o sombrio pa&iacute;s de Plut&atilde;o. &Eacute; evidente<br \/>\n    que a palavra inferno, mesmo no plural, que lhe asseguraria o sentido mitol&oacute;gico,<br \/>\n    causa revolta ao leitor, quando se trata de uma alma bon&iacute;ssima, como<br \/>\n    a da desditosa Alceste. Designando o nume horrendo por T&acirc;natos, evitamos<br \/>\n    o nome de Orco, o qual, segundo autorizados mitologistas, se aplica ao pr&oacute;prio<br \/>\n    deus Plut&atilde;o, como se v&ecirc; nesta passagem, em que Hor&aacute;cio<br \/>\n    adverte que a morte atinge, inexoravelmente, a ricos e pobres:<\/p>\n<p><strong>&#8220;&#8230; si metit Orcus<br \/>\n    Grandia cum parvis, non exorabilis auro?&#8221;<br \/>\n    (Ep&iacute;stolas, II, 179)<\/strong><\/p>\n<p>comparada aos versos de Virg&iacute;lio, concernentes &agrave; morte da &#8220;mis&eacute;rrima<br \/>\n    Dido&#8221;:<\/p>\n<p><strong>&#8220;Nondum illi flavum Proserpina vertice crinem<br \/>\n    Abstulerat, stygioque caput damnaverat Orco&#8221;.<br \/>\n    (Ep&iacute;stolas, IV, 699)<\/strong><\/p>\n<p>Evitamos, destarte, o emprego dos voc&aacute;bulos Morte e Inferno, inadequados,<br \/>\n    em numerosos passos da trag&eacute;dia, em conseq&uuml;&ecirc;ncia do sentido<br \/>\n    que comportam na l&iacute;ngua portuguesa, como nos idiomas afins.<\/p>\n<p>Id&ecirc;ntica preocupa&ccedil;&atilde;o nos aconselhou a substituir &#8220;senhora&#8221;<br \/>\n    pela palavra &#8220;rainha&#8221;, sem preju&iacute;zo para o sentido, coarctando<br \/>\n    ambig&uuml;idades decorrentes do emprego daquele voc&aacute;bulo como sin&ocirc;nimo<br \/>\n    de esposa, ou quando precedido do possessivo &#8220;Nossa&#8221;, caso em<br \/>\n    que a bela palavra assume significa&ccedil;&atilde;o especial e querida para<br \/>\n    os crist&atilde;os.<\/p>\n<h2>ALCESTE<\/h2>\n<h2><a name=\"1\" id=\"1\"><strong>PERSONAGENS<\/strong><\/a> <\/h2>\n<p>APOLO<br \/>\n    T&Acirc;NATOS (A Morte)<br \/>\n    ADMETO, rei de Feres<br \/>\n    ALCESTE, sua esposa<br \/>\n    EUM&Eacute;LIO, seu filho<br \/>\n    H&Eacute;RCULES<br \/>\n    FERES, pai de Admeto<br \/>\n    CORO (de anci&atilde;os de Feres)<br \/>\n    UM SERVO<br \/>\n    UMA SERVA<\/p>\n<p>A cena se passa diante do pal&aacute;cio de ADMETO, na cidade de Feres, na<br \/>\n    Tess&aacute;lia<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; pal&aacute;cio de Admeto, onde me vi coagido a trabalhar como servo<br \/>\n    humilde, sendo embora um deus, como sou! J&uacute;piter assim o quis, porque<br \/>\n    tendo fulminado pelo raio meu filho Escul&aacute;pio, eu, justamente irritado,<br \/>\n    matei os Ciclopes, art&iacute;fices do fogo celeste. E meu pai, para me punir,<br \/>\n    imp&ocirc;s-me a obriga&ccedil;&atilde;o de servir a um homem, a um simples<br \/>\n    mortal! Eis por que vim ter a este pa&iacute;s; aqui apascentei os rebanhos<br \/>\n    de meu patr&atilde;o, e me fiz protetor deste solar at&eacute; hoje. Sendo<br \/>\n    eu pr&oacute;prio bondoso, e servindo a um homem bondoso, &#8212; o filho<br \/>\n    de Feres &#8212; eu o livrei da morte, iludindo as Parcas. Estas deusas prometeram-me<br \/>\n    que Admeto seria preservado da morte, que j&aacute; o amea&ccedil;ava, se<br \/>\n    oferecesse algu&eacute;m, que quisesse morrer por ele, e ser conduzido ao<br \/>\n    Hades.<\/p>\n<p>Tendo posto a prova todos os seus amigos, seu pai, e sua velha m&atilde;e,<br \/>\n    que o criou, ele n&atilde;o achou quem consentisse em a dar vida por ele,<br \/>\n    e nunca mais ver a luz do sol! Ningu&eacute;m, sen&atilde;o Alceste, sua dedicada<br \/>\n    esposa; e agora, no pal&aacute;cio, conduzida a seus aposentos nos bra&ccedil;os<br \/>\n    de seu marido, vai desprender-se sua alma, porque &eacute; hoje que o Destino<br \/>\n    exige que ela deixe a vida. Eis por que, para me n&atilde;o macular, eu abandono<br \/>\n    estes tetos queridos. Vejo que j&aacute; se aproxima T&acirc;natos, o odioso<br \/>\n    nume da Morte, para levar consigo Alceste &agrave; merenc&oacute;ria mans&atilde;o<br \/>\n    do Hades. E vem no momento preciso, pois aguardava apenas o dia fatal em que<br \/>\n    a m&iacute;sera Alceste deve perder a vida.<\/p>\n<p><strong>Entra T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Ah! Que procuras tu junto deste pal&aacute;cio? Que fazes aqui, Apolo? Queres<br \/>\n    ainda privar os deuses infernais das honras que lhes s&atilde;o devidas? J&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o te basta haver desviado o destino de Admeto, iludindo as Parcas<br \/>\n    por meio de tuas artimanhas? E agora, com teu arco em m&atilde;os, zelas,<br \/>\n    talvez, pela filha de P&eacute;lias, que prometeu ao esposo morrer em seu<br \/>\n    lugar?<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Tranq&uuml;iliza-te! Nada pretendo, sen&atilde;o o que for justo, e razo&aacute;vel.<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Para qu&ecirc;, ent&atilde;o, esse arco, se a teu favor tens a justi&ccedil;a?<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; meu costume t&ecirc;-lo comigo sempre.<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>E proteger este pal&aacute;cio, desprezando as justas determina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do Destino&#8230;<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Afligem-me, com efeito, as infelicidades daqueles a quem amo.<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>E pretendes roubar-me esta segunda morte?<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o foi pela viol&ecirc;ncia que agi para contigo.<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Como se explica, ent&atilde;o, que Admeto esteja sobre a terra, e n&atilde;o<br \/>\n    sepultado nela?<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Porque deu, por si, a esposa, a quem vieste buscar agora.<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Sim! E hei-de conduzi-la ao Hades subterr&acirc;neo!<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Toma-a, pois, contigo, e vai-te! N&atilde;o sei se conseguiria convencer-te!<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>De qu&ecirc;? De que devo matar aqueles que devem morrer? Pois se &eacute;<br \/>\n    este o meu of&iacute;cio!<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o! mas de preferir aqueles que tanto tardam em morrer![1]<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Compreendo tuas raz&otilde;es; teu zelo &eacute; natural.<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Ainda bem! Dize, pois: haver&aacute;, por acaso, um meio pelo qual a pobre<br \/>\n    Alceste consiga chegar &agrave; velhice?<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Ah! N&atilde;o!&#8230; Fa&ccedil;o empenho em defender minhas prerrogativas!<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Ao menos estou certo de que n&atilde;o arrebatar&aacute;s daqui sen&atilde;o<br \/>\n    uma &uacute;nica alma!<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Quando morre quem est&aacute; na flor da idade, bem maior &eacute; minha<br \/>\n    gl&oacute;ria!<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Mas, se ela morresse quando idosa, teria um funeral mais sumptuoso!&#8230;<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>O que prop&otilde;es, Apolo, favorece aos ricos, t&atilde;o somente.<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Que dizes? Por acaso aprendeste a raciocinar com tanta subtileza, sem que<br \/>\n    o soub&eacute;ssemos?<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Sim! Os abastados comprariam o direito de morrer em ancianidade.<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Tu me recusas, pois, a gra&ccedil;a que solicito?<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Recuso-a, sim. Bem conheces meu regime.<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Que &eacute; funesto aos mortais, e odioso aos pr&oacute;prios deuses!<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Nada conseguir&aacute;s daquilo que n&atilde;o deves conseguir.<\/p>\n<p><strong>APOLO<\/strong><\/p>\n<p>Tu moderar-te-&aacute;s, por muito cruel que sejas, Eis que se aproxima um<br \/>\n    homem do pal&aacute;cio de Feres. &Eacute; um her&oacute;i, que Euristeu envia<br \/>\n    &agrave;s long&iacute;nquas regi&otilde;es da Tr&aacute;cia, para apoderar-se<br \/>\n    dos cavalos de Diomedes; mui breve ser&aacute; recebido, como h&oacute;spede,<br \/>\n    no pal&aacute;cio de Admeto, e pela for&ccedil;a, h&aacute;-de te arrebatar<br \/>\n    a esposa[2]. Assim, nenhuma gratid&atilde;o te deverei; tu n&atilde;o far&aacute;s<br \/>\n    o que eu n&atilde;o quero que fa&ccedil;as, e n&atilde;o menos execrado ser&aacute;s<br \/>\n    por isso.<\/p>\n<p><strong>T&Acirc;NATOS<\/strong><\/p>\n<p>Dize o que quiseres; nada mais ter&aacute;s de mim. Esta mulher descer&aacute;<br \/>\n    &agrave; mans&atilde;o sombria de Plut&atilde;o. Vou j&aacute; preludiar,<br \/>\n    pela espada, o sacrif&iacute;cio; porque &eacute; imediatamente consagrado<br \/>\n    aos deuses infernais aquele de cuja cabe&ccedil;a esta l&acirc;mina cortar<br \/>\n    um s&oacute; fio de cabelo![3]<\/p>\n<p><strong>(Saem)<\/strong><\/p>\n<p><strong>O CORO, em dois grupos compostos de anci&atilde;os de Feres<\/strong><\/p>\n<p><strong>1&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>Por que t&atilde;o profundo sil&ecirc;ncio no vest&iacute;bulo deste pal&aacute;cio?<br \/>\n    Por que t&atilde;o calmo est&aacute; o solar do rei Admeto?<\/p>\n<p><strong>2&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o se v&ecirc; um s&oacute; amigo que nos possa dizer se j&aacute;<br \/>\n    &eacute; tempo de prantear a rainha morta, ou se, ainda em vida, Alceste,<br \/>\n    a filha de P&eacute;lias, v&ecirc; a luz do sol, ela, que se tem revelado<br \/>\n    a melhor esposa, a mais dedicada a seu marido!<\/p>\n<p><strong>1&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>Ouve algu&eacute;m, l&aacute; de dentro, gemidos, prantos ou o angustioso<br \/>\n    atrito das m&atilde;os[4] lamentando o golpe da fatalidade? Nem um s&oacute;<br \/>\n    dos servos se v&ecirc; junto ao p&oacute;rtico. Praza aos deuses que P&atilde;<br \/>\n    nos apare&ccedil;a, para dar um fim a tanta desventura!<\/p>\n<p><strong>2&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>Eles n&atilde;o conservariam tanto sil&ecirc;ncio, se ela estivesse morta.<br \/>\n    N&atilde;o creio que o corpo j&aacute; tenha sido retirado do pal&aacute;cio!<\/p>\n<p><strong>1&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>Por que pensais assim? N&oacute;s nada percebemos! Como estais assim seguros<br \/>\n    do que dizeis?<\/p>\n<p><strong>2&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>Como teria Admeto podido realizar, em segredo, os funerais de uma esposa<br \/>\n    t&atilde;o digna?<\/p>\n<p><strong>1&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o se v&ecirc;, junto &agrave; porta, o vaso de &aacute;gua lustral,<br \/>\n    como &eacute; de costume colocar-se &agrave; entrada da casa onde h&aacute;<br \/>\n    um morto; no vest&iacute;bulo n&atilde;o est&atilde;o suspensos os cabelos,<br \/>\n    que os amigos, possu&iacute;dos de dor, cortam de suas frontes, nem se ouve<br \/>\n    a triste lamenta&ccedil;&atilde;o das carpideiras.<\/p>\n<p><strong>2&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, chegou o dia fatal&#8230;<\/p>\n<p><strong>1&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>Que dizeis?<\/p>\n<p><strong>2&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>O dia em que ela deve descer &agrave; sepultura!<\/p>\n<p><strong>1&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>Comoveste-me o cora&ccedil;&atilde;o, e o &iacute;ntimo de minha alma. Quando<br \/>\n    criaturas bondosas est&atilde;o imersas na dor, quem quer que tenha bons sentimentos<br \/>\n    deve dela compartir.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Para onde quer que se envie uma galera[5] ningu&eacute;m poder&aacute; salvar<br \/>\n    a alma dessa infeliz; quer na L&iacute;cia, quer nas ardentes regi&otilde;es<br \/>\n    de &Aacute;mon: porque o Destino &eacute; inexor&aacute;vel, e n&atilde;o<br \/>\n    tarda! N&atilde;o sabemos a que deuses devemos recorrer, nem a que sacerdote<br \/>\n    pedir aux&iacute;lio neste transe!<\/p>\n<p>Ah! Se vivesse ainda o filho de Apolo, poderia Alceste retornar ainda da<br \/>\n    sombria estrada que conduz &agrave; porta do Hades. S&oacute; ele ressuscitava<br \/>\n    os mortos, enquanto n&atilde;o foi fulminado pelo raio de J&uacute;piter!<br \/>\n    Agora, por&eacute;m, que esperan&ccedil;as de salva&ccedil;&atilde;o poderemos<br \/>\n    conceber? Todos os ritos j&aacute; foram cumpridos por nosso rei; sobre as<br \/>\n    aras de todos os deuses realizam-se sangrentos sacrif&iacute;cios; e n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; rem&eacute;dio para a desgra&ccedil;a que o fere.<\/p>\n<p>Eis, por&eacute;m, que uma das servas de Alceste vai sair do pal&aacute;cio,<br \/>\n    lacrimosa. Que nos dir&aacute; ela? &Eacute; natural sua afli&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    visto que seus senhores est&atilde;o, tamb&eacute;m, sob o peso do infort&uacute;nio.<br \/>\n    Viver&aacute;, ainda, Alceste, ou n&atilde;o? Eis o que ansiosamente desejamos<br \/>\n    saber.<\/p>\n<p><strong>Entra A SERVA<\/strong><\/p>\n<p><strong>A SERVA<\/strong><\/p>\n<p>Bem podeis afirmar que ela est&aacute;, ao mesmo tempo, morta, e viva!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Mas como pode algu&eacute;m estar na morte, e em vida ainda?<\/p>\n<p><strong>A SERVA<\/strong><\/p>\n<p>Porque, j&aacute; com a cabe&ccedil;a pendida, ela vai entregar a alma&#8230;<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; infeliz rei! Que boa esposa perdes tu, que &eacute;s t&atilde;o<br \/>\n    digno dela!<\/p>\n<p><strong>A SERVA<\/strong><\/p>\n<p>O rei n&atilde;o o saber&aacute;, sen&atilde;o depois de a ter perdido.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>E n&atilde;o h&aacute; mais esperan&ccedil;a alguma de lhe salvar a vida?<\/p>\n<p><strong>A SERVA<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, o dia fat&iacute;dico chegou.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>E j&aacute; est&atilde;o preparando as solenidades?<\/p>\n<p><strong>A SERVA<\/strong><\/p>\n<p>As vestes com que o esposo a inumar&aacute; j&aacute; est&atilde;o prontas.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Que ela saiba, pois, que tem morte gloriosa, sendo a melhor de todas as mulheres<br \/>\n    que t&ecirc;m existido sob o sol!<\/p>\n<p><strong>A SERVA<\/strong><\/p>\n<p>E como n&atilde;o seria a melhor das esposas? Quem o negar&aacute;? Que outra<br \/>\n    mulher se lhe poder&aacute; avantajar? Que outra esposa faria mais por seu<br \/>\n    marido, do que oferecer-se para morrer por ele? Toda a cidade disso est&aacute;<br \/>\n    ciente; mas v&oacute;s tereis vossa admira&ccedil;&atilde;o aumentada ao saberdes<br \/>\n    o que ela fez no interior do lar. Quando sentiu que era chegado o dia fatal,<br \/>\n    lavou o seu corpo alv&iacute;ssimo na &aacute;gua do rio, e, retirando dos<br \/>\n    escr&iacute;nios os seus mais belos ornatos, vestiu-se ricamente; depois,<br \/>\n    diante do altar dom&eacute;stico, fez esta prece: &#8220;&Oacute; Deusa! Vou<br \/>\n    para a regi&atilde;o das sombras, mas quero venerar-te, pela &uacute;ltima<br \/>\n    vez em minha vida, rogando-te que tenhas pena de meus filhos &oacute;rf&atilde;os!<br \/>\n    Concede-me que um deles tenha uma boa esposa, e a outra, um digno marido.<br \/>\n    E que eles n&atilde;o morram, como sua infeliz m&atilde;e, antes do tempo<br \/>\n    fixado pelo destino, mas que vivam, felizes e pr&oacute;speros, na terra da<br \/>\n    P&aacute;tria!&#8221; Em seguida, visitando todos os altares que h&aacute;<br \/>\n    no pal&aacute;cio de Admeto, ela depositou sobre eles coroas de flores, esparzindo<br \/>\n    ao redor folhas de murta, e orou, sem um s&oacute; gemido ou lamenta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    porque a imin&ecirc;ncia do trespasse em nada alterou sua fisionomia pl&aacute;cida<br \/>\n    e bela. Depois, voltando &agrave; c&acirc;mara nupcial, deixou-se cair sobre<br \/>\n    o leito; s&oacute; ent&atilde;o, com os olhos lacrimosos, disse: &#8220;&Oacute;<br \/>\n    meu leito, onde perdi minha virgindade pelo amor deste homem, por quem hoje<br \/>\n    vou morrer! N&atilde;o te lamento, porque somente a mim vais perder; e eu<br \/>\n    morro para ser fiel a meu esposo. Uma outra h&aacute;-de te possuir, &#8212;<br \/>\n    quem sabe? &#8212; nunca mais casta do que eu, mas talvez mais feliz!&#8230;&#8221;<br \/>\n    E, agarrando-se ao leito, beijava-o, molhando-o com suas copiosas l&aacute;grimas.<br \/>\n    Assim aliviada pelo pranto, ergue-se, retira-se do aposento, com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    baixa, para voltar v&aacute;rias vezes, e de novo atirar-se sobre o leito.<br \/>\n    Choravam os filhos, agarrados &agrave;s vestes de sua m&atilde;e; e ela, tomando<br \/>\n    nos bra&ccedil;os ora um, ora outro, beijava-os maternalmente, como quem sabe<br \/>\n    que vai morrer. Todos n&oacute;s, servos, chor&aacute;vamos, tamb&eacute;m,<br \/>\n    em nossos aposentos, condo&iacute;dos da sorte da nossa rainha. Ela estendia-nos<br \/>\n    a m&atilde;o, em despedida, tendo uma palavra carinhosa para cada qual, por<br \/>\n    mais humilde que fosse. Tais s&atilde;o os males que afligem a casa de Admeto;<br \/>\n    se ele tivesse de perecer, j&aacute; estaria morto; mas, tendo evitado a morte,<br \/>\n    sofre uma dor tamanha, que nunca mais a poder&aacute; esquecer!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>E Admeto deplora, certamente, a perda de uma esposa t&atilde;o bondosa!<\/p>\n<p><strong>A SERVA<\/strong><\/p>\n<p>Sim, ele chora, tendo nos bra&ccedil;os a companheira querida, e pede-lhe<br \/>\n    que n&atilde;o o abandone, desejo imposs&iacute;vel agora! Sim, porque ela<br \/>\n    j&aacute; se vai consumindo pelo mal, e pesa nos tristes bra&ccedil;os do<br \/>\n    marido. Embora possa apenas respirar ainda, quer contemplar a luz do sol,<br \/>\n    que nunca mais lhe ser&aacute; dado rever, pois &eacute; a &uacute;ltima vez<br \/>\n    em que os raios do astro do dia vir&atilde;o at&eacute; seus olhos. Vou anunciar,<br \/>\n    por&eacute;m, vossa chegada; pois nem todos se mostram t&atilde;o dedicados<br \/>\n    ao seu chefe, para que o visitem na hora do infort&uacute;nio. V&oacute;s<br \/>\n    sois, por&eacute;m, velhos e leais amigos de nosso rei!<\/p>\n<p><strong>1&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; J&uacute;piter! Como fugir a tamanha desgra&ccedil;a? Que rem&eacute;dio<br \/>\n    haver&aacute;, para o golpe que amea&ccedil;a os nossos soberanos? Vir&aacute;<br \/>\n    algu&eacute;m dar-nos not&iacute;cia do que se passa? Deveremos cortar nosso<br \/>\n    cabelo, e vestir trajo de luto? &Eacute; certo que o faremos, amigos! No entanto<br \/>\n    continuemos a invocar os deuses! Imenso &eacute; o poder dos numes imortais!<\/p>\n<p><strong>2&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; Rei Paian![6] imagina um meio para libertar Admeto de tamanha desgra&ccedil;a!<br \/>\n    Vem em seu socorro! Tu j&aacute; o salvaste uma vez; salva, agora, tamb&eacute;m,<br \/>\n    a Alceste! Livra-a do poder homicida de Plut&atilde;o!<\/p>\n<p><strong>1&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>Oh! Oh! Filho de Feres, como te lamentas, privado de tua mulher! N&atilde;o<br \/>\n    seria menor sofrimento a morte pelo gume da espada, ou por um la&ccedil;o<br \/>\n    fatal? Sim, porque ver&aacute;s hoje morrer uma companheira t&atilde;o amada,<br \/>\n    a mais digna esposa que poder&aacute; existir no mundo!<\/p>\n<p><strong>2&ordm; GRUPO<\/strong><\/p>\n<p>Ei-la que sai do pal&aacute;cio, com seu esposo. Terra de Feres, chora, lamenta<br \/>\n    a perda desta excelente matrona, que, consumida pelo mal, vai descer &agrave;<br \/>\n    mans&atilde;o soturna do Hades!<\/p>\n<p>N&atilde;o! Nunca direi que o himeneu d&ecirc; mais venturas do que dores;<br \/>\n    a julgar pelos dramas j&aacute; passados e pelo destino deste rei, que tendo<br \/>\n    perdido a melhor das esposas, arrastar&aacute; doravante um viver que j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; mais vida!<\/p>\n<p><strong>Entram ADMETO e ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; sol, maravilhosa luz do dia! &Oacute; nuvens que os ventos do c&eacute;u<br \/>\n    velozes arrastam!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>O sol te v&ecirc;, e a mim tamb&eacute;m&#8230; Dois infelizes que nada fizeram<br \/>\n    contra os deuses, para que tu morras!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; minha terra, &oacute; meu ditoso lar, &oacute; meu quarto de I&oacute;lcos,<br \/>\n    onde meu pai foi rei!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Reanima-te, infeliz! N&atilde;o te abandones, assim, ao desespero! Roga aos<br \/>\n    deuses poderosos, para que se compade&ccedil;am de ti!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Eu vejo&#8230; eu j&aacute; estou vendo&#8230; o sinistro barco de dois remos. O<br \/>\n    guia dos mortos, Caronte, j&aacute; me chama: &#8220;Por que demoras tu? Caminha,<br \/>\n    pois, que me retardas!&#8221;[7] E assim me for&ccedil;a a apressar-me.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ai de ti, que falas nessa dolorosa travessia! Infeliz Alceste, como sofremos!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Est&atilde;o me arrastando&#8230; Eu o sinto! Algu&eacute;m me oprime&#8230; tu n&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;s? Arrastam-me para a mans&atilde;o dos mortos&#8230; &Eacute; Plut&atilde;o!&#8230;<br \/>\n    ele mesmo!&#8230; Com suas asas&#8230; e seus olhos horrendos, cercados de negras<br \/>\n    sobrancelhas&#8230; Oh! Que fazes? Deixa-me! pobre de mim! Que caminho sombrio<br \/>\n    &eacute; este, por onde me conduzem?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>&#8230; Um caminho doloroso para teus amigos, e mais ainda para mim, e para teus<br \/>\n    filhos, que partilham de meu desespero!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Deixa-me! Deixa-me! Quero deitar-me&#8230; os p&eacute;s j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    me sustentam mais! O Hades est&aacute; pr&oacute;ximo&#8230; uma noite escura<br \/>\n    cai sobre meus olhos. &Oacute; meus pobres filhinhos, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    tendes m&atilde;e!&#8230; Adeus, meus filhos&#8230; gozai a luz&#8230; a luz radiosa do<br \/>\n    dia!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ai de mim! Ou&ccedil;o tristes palavras&#8230; mais dolorosas que a morte! Eu<br \/>\n    te pe&ccedil;o, Alceste! pelos deuses! N&atilde;o me abandones! Pelos filhos<br \/>\n    que vais deixar na orfandade! Levanta-te! Tem esperan&ccedil;a ainda! Se tu<br \/>\n    morreres, tamb&eacute;m eu n&atilde;o viverei mais! Estejas tu viva, ou n&atilde;o,<br \/>\n    eu dependo de ti por tudo, e sempre; o amor que tenho por ti &eacute; sagrado!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Admeto, bem v&ecirc;s a que extremidade cheguei; desejo, antes de morrer,<br \/>\n    que ou&ccedil;as o que te quero revelar. Amando-te sinceramente, e dando minha<br \/>\n    vida para que continues a ver a luz, morrerei por ti quando poderia viver<br \/>\n    por longo tempo ainda, receber por esposo aquele, dos tess&aacute;lios, que<br \/>\n    eu preferisse, e habitar um pal&aacute;cio real. Mas recusei-me a viver privada<br \/>\n    de tua companhia, e a ver meus filhos sem pai; n&atilde;o me poupei, dispondo<br \/>\n    embora dos dons da mocidade e dos meios de os usufruir. Trairam-te teu pai<br \/>\n    e tua m&atilde;e, sim! pois sua avan&ccedil;ada idade lhes permitiria uma<br \/>\n    morte gloriosa, salvando o filho por um rasgo merit&oacute;rio. &Eacute;s,<br \/>\n    com efeito, o filho &uacute;nico que possuem; ap&oacute;s tua morte, nenhuma<br \/>\n    esperan&ccedil;a lhes seria poss&iacute;vel, de ter ainda prole no futuro.<br \/>\n    E eu continuaria a viver, tu n&atilde;o sofrerias, por toda a vida, a falta<br \/>\n    de uma esposa, e n&atilde;o serias for&ccedil;ado a educar filhos &oacute;rf&atilde;os<br \/>\n    de m&atilde;e&#8230; Mas um deus quis que as coisas tomassem este rumo&#8230; Seja!<br \/>\n    De tua parte, e porque sempre te h&aacute;s-de lembrar disto, concede-me uma<br \/>\n    gra&ccedil;a, em troca; n&atilde;o igual &agrave; que te fa&ccedil;o, pois<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; bem mais precioso que a vida; mas justa, como tu mesmo<br \/>\n    reconhecer&aacute;s. Tu amas a nossos filhos tanto quanto eu, se teu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; sincero e honesto. Que sejam eles os donos de nosso lar! N&atilde;o<br \/>\n    os submetas, nunca, &agrave; autoridade de uma madrasta, que seria certamente<br \/>\n    inferior a mim, e que, impelida pelo ci&uacute;me, maltrataria essas pobres<br \/>\n    crian&ccedil;as que s&atilde;o teus filhos, mas tamb&eacute;m s&atilde;o meus!<br \/>\n    Eu te conjuro: n&atilde;o fa&ccedil;as tal coisa! A madrasta que sucede &agrave;<br \/>\n    esposa &eacute; inimiga dos filhos do primeiro matrim&ocirc;nio, e em nada<br \/>\n    inferior a uma v&iacute;bora!<\/p>\n<p>O filho var&atilde;o tem, no pai, um protetor; corre para ele, e o pai o<br \/>\n    protege. Mas quanto a minha filha, como poder&aacute; ser honestamente educada<br \/>\n    durante sua virgindade? &Oacute; minha filha! Que segunda esposa de teu pai<br \/>\n    mandar&aacute; sobre ti? Receio bem que, lan&ccedil;ando sobre tua reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    uma n&oacute;doa infamante, possa ela amargurar tua juventude, e impedir que<br \/>\n    realizes um ditoso casamento. Tua m&atilde;e nada poder&aacute; fazer pelo<br \/>\n    teu cons&oacute;rcio; nem estar&aacute; a teu lado quando vierem ao mundo<br \/>\n    teus filhos, quando n&atilde;o h&aacute; companhia mais querida que a de uma<br \/>\n    boa m&atilde;e. Devo morrer; e este cruel trespasse n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    amanh&atilde;, nem no terceiro dia do m&ecirc;s; mas dentro de alguns momentos<br \/>\n    j&aacute; estarei inclu&iacute;da entre os mortos. Meu esposo, s&ecirc; feliz&#8230;<br \/>\n    Tu bem te podes gloriar de ter possu&iacute;do a mais amorosa das esposas,<br \/>\n    e v&oacute;s, queridos filhos, de terdes tido a mais carinhosa das m&atilde;es!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Tranq&uuml;iliza-te, Alceste; n&atilde;o tememos falar por ele; ele cumprir&aacute;<br \/>\n    teu desejo, a menos que haja perdido a raz&atilde;o!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Sim! Tudo farei como pedes; n&atilde;o tenhas receio! Tendo-te possu&iacute;do<br \/>\n    em vida, continuarei a considerar-te minha esposa depois da morte. Nenhuma<br \/>\n    outra mulher tess&aacute;lia me chamar&aacute; seu marido; nenhuma, por mais<br \/>\n    nobre que seja sua jerarquia, e maior sua beleza! S&oacute; pe&ccedil;o aos<br \/>\n    deuses que me permitam zelar por nossos filhos, visto que n&atilde;o me deram<br \/>\n    a ventura de conservar a ti tamb&eacute;m. Meu luto n&atilde;o durar&aacute;<br \/>\n    um ano, mas toda a vida, &oacute; minha esposa! E doravante detestarei minha<br \/>\n    m&atilde;e e meu pai, visto que se mostram meus amigos s&oacute; no nome,<br \/>\n    mas n&atilde;o de cora&ccedil;&atilde;o. Tu, sim! tu me salvaste, oferecendo<br \/>\n    o que tens de mais caro, &#8212; a vida! &#8212; para poupar a minha! E n&atilde;o<br \/>\n    devo eu chorar a perda de uma esposa como tu? Doravante n&atilde;o quero mais<br \/>\n    banquetes, nem festas animadas pela presen&ccedil;a de amigos, nem coroas<br \/>\n    floridas, nem os cantos de alegria que guarneciam meu pal&aacute;cio. Nunca<br \/>\n    mais tocar&atilde;o meus dedos as cordas da lira, nem minha voz se ouvir&aacute;<br \/>\n    ao som da flauta l&iacute;bia; tu levar&aacute;s contigo todo o encanto de<br \/>\n    minha vida. Mas tua imagem, que farei reproduzir por um artista, h&aacute;-de<br \/>\n    permanecer em minha c&acirc;mara nupcial; e eu estarei a seus p&eacute;s,<br \/>\n    eu a abra&ccedil;arei, invocando teu nome, na ilus&atilde;o de abra&ccedil;ar<br \/>\n    ainda minha querida esposa, embora sabendo que n&atilde;o a verei mais! Triste<br \/>\n    consola&ccedil;&atilde;o, penso eu; mas assim aliviarei minha alma; e, visitando-me<br \/>\n    em sonhos, tu dar&aacute;s algum conforto &agrave; minha viuvez. &Eacute;<br \/>\n    grato, com efeito, rever aqueles a quem amamos, em quaisquer circunst&acirc;ncias,<br \/>\n    inclusive em sonho. Ah! Se eu dispusesse da voz e da inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Orfeu, a fim de acalmar a filha de Ceres, ou seu marido, e retirar-te do<br \/>\n    Hades, eu l&aacute; iria ter, e nem o c&atilde;o de Plut&atilde;o, nem Caronte,<br \/>\n    o timoneiro das almas, com seu remo, poderiam impedir que eu te trouxesse<br \/>\n    de novo &agrave; regi&atilde;o da luz! Ao menos, espera-me l&aacute;, para<br \/>\n    que, quando eu morrer, fa&ccedil;a minha alma companhia &agrave; tua. Ordenarei,<br \/>\n    com efeito, que me sepultem contigo, no mesmo esquife de cedro, onde repousaremos,<br \/>\n    lado a lado! Nem a morte me separar&aacute; de ti, que me foste t&atilde;o<br \/>\n    fiel!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>E n&oacute;s, como amigos que somos, partilharemos da saudade que ela te<br \/>\n    h&aacute;-de inspirar, ela que &eacute; t&atilde;o digna!<\/p>\n<p>Entram os filhos de ADMETO<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Meus filhos, ouvistes vosso pai, que assume o compromisso de n&atilde;o vos<br \/>\n    dar uma segunda m&atilde;e, e de n&atilde;o desonrar nosso leito conjugal!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Eu o juro; e hei-de cumprir minha palavra!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Com essa condi&ccedil;&atilde;o, recebe estes nossos filhos, de minha m&atilde;o!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Recebo uma d&aacute;diva preciosa, de m&atilde;os queridas!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>E doravante, s&ecirc; tamb&eacute;m, em meu lugar, a m&atilde;e destas crian&ccedil;as!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Assim farei, visto que ser&atilde;o destitu&iacute;dos do carinho maternal!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Filhos meus, quando eu mais precisava viver, sou arrastada para a morte!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ai de mim! Que farei sem ti!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>O tempo moderar&aacute; tua dor; os mortos nada mais s&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Leva-me contigo, pelos deuses imortais!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o; basta que eu me sacrifique por ti!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Cruel destino! De que esposa tu me privas!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Sinto que meus olhos se velam de uma nuvem escura&#8230;<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Eu morrerei, Alceste, se me abandonares!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Foge-me a vida&#8230; j&aacute; nada mais sou&#8230;<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Olha! Reergue-te! N&atilde;o abandones teus filhos!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; bem a meu pesar que os deixo&#8230; adeus, meus filhos!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Um &uacute;ltimo olhar para eles! Ai de n&oacute;s!<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Tudo se acabou para mim!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Que dizes? Tu nos vais deixar?<\/p>\n<p><strong>ALCESTE<\/strong><\/p>\n<p>Adeus!<\/p>\n<p><strong>(Morre ALCESTE)<\/strong><\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Estou perdido!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Ela j&aacute; n&atilde;o vive! Admeto n&atilde;o tem mais esposa!<\/p>\n<p><strong>EUM&Eacute;LIO<\/strong><\/p>\n<p>Como sou desgra&ccedil;ado, meu pai! Minha m&atilde;e foi para o Hades! Nunca<br \/>\n    mais ver&aacute; a luz do sol! Infeliz, ela abandonou a vida, e deixou-me<br \/>\n    &oacute;rf&atilde;o! V&ecirc;, meu pai, como suas p&aacute;lpebras est&atilde;o<br \/>\n    im&oacute;veis, e suas m&atilde;os desfalecidas! &Oacute; minha m&atilde;e!<br \/>\n    Minha m&atilde;e! Ouve-me! Ouve-me, eu te pe&ccedil;o! Sou eu, minha m&atilde;e!<br \/>\n    Sou eu, teu filho! Fala! Teu filho &eacute; quem te chama, bem perto de teus<br \/>\n    l&aacute;bios!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Tu chamas, em v&atilde;o, por quem n&atilde;o te v&ecirc;, nem te ouve mais.<br \/>\n    Fomos ambos v&iacute;timas de uma dolorosa desgra&ccedil;a!<\/p>\n<p><strong>EUM&Eacute;LIO<\/strong><\/p>\n<p>T&atilde;o jovem ainda, meu pai, eis-me abandonado por minha m&atilde;e querida!<br \/>\n    Como me sinto infeliz! E tu, minha irm&atilde;zinha, que partilhas de minha<br \/>\n    triste sorte! Ah! meu pai! Em v&atilde;o, em v&atilde;o escolheste uma esposa!<br \/>\n    N&atilde;o atingiste, com ela, a velhice!&#8230; Ela te precedeu na sepultura!<br \/>\n    Contigo, minha pobre m&atilde;e, perece toda a nossa casa!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Admeto, &eacute; mister que te conformes com a desgra&ccedil;a! Tu n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;s o primeiro dos mortais a perder uma esposa virtuosa! Bem sabes que<br \/>\n    a morte &eacute; uma d&iacute;vida que todos n&oacute;s devemos pagar!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Eu sei, eu bem sei! Este golpe n&atilde;o me feriu de surpresa! De h&aacute;<br \/>\n    muito eu o esperava, e j&aacute; sofria por isso! Mas&#8230; urge celebrar os<br \/>\n    funerais da morta. Auxiliai-me, e cantai um canto f&uacute;nebre ao deus subterr&acirc;neo,<br \/>\n    a quem n&atilde;o se oferecem liba&ccedil;&otilde;es! Que todos os tess&aacute;lios<br \/>\n    que vivem no meu reino tomem parte no luto por esta mulher, cortando os cabelos<br \/>\n    da fronte, e trajando de negro. Que tamb&eacute;m se cortem as crinas dos<br \/>\n    cavalos das quadrigas, bem como dos que cavalgam s&oacute;s. Que n&atilde;o<br \/>\n    se ou&ccedil;a, por toda a cidade, o som das flautas e das c&iacute;taras,<br \/>\n    durante doze luas inteiras! Jamais levarei &agrave; sepultura pessoa que me<br \/>\n    tenha sido t&atilde;o querida, e que mais haja merecido de mim! Ela &eacute;<br \/>\n    bem digna de que eu lhe preste todas as honras, visto que morreu, voluntariamente,<br \/>\n    em meu lugar!&#8230;<\/p>\n<p><strong>Saem ADMETO (conduzindo o corpo de Alceste) e os filhos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; filha de P&eacute;lias, descansa em paz na mans&atilde;o do Hades,<br \/>\n    que a luz do sol n&atilde;o atinge! Que o deus de negros cabelos, e o velho<br \/>\n    Caronte, remador e guia, saibam que ela &eacute; a mais nobre de todas as<br \/>\n    mulheres que t&ecirc;m transposto o paul do Aqueronte, no barco de dois remos!<\/p>\n<p>H&atilde;o-de te celebrar os aedos por seus cantares, ao som do heptac&oacute;rdio,<br \/>\n    e por vibrantes hinos n&atilde;o acompanhados pela lira, em Esparta, quando<br \/>\n    a ronda do tempo trouxer a lua cheia do m&ecirc;s Caineano[8], e na f&eacute;rtil<br \/>\n    e opulenta Atenas; porque tua morte dar&aacute; copiosa e comovente mat&eacute;ria<br \/>\n    ao estro dos poetas!<\/p>\n<p>Por que, por que n&atilde;o poderemos n&oacute;s restituir-te &agrave; luz,<br \/>\n    arrancar-te do sombrio reino de Plut&atilde;o, e trazer-te, repassando o Cocito,<br \/>\n    na barca fat&iacute;dica? Por que, &oacute; mulher inigual&aacute;vel e esposa<br \/>\n    querida, s&oacute; tu, s&oacute; tu tiveste coragem de dar tua vida preciosa,<br \/>\n    para resgatar a de teu esposo? A terra te seja leve! Se algum dia teu marido<br \/>\n    convolar segundas n&uacute;pcias, ele tornar-se-&aacute; odioso, a n&oacute;s,<br \/>\n    e a teus filhos! Nem a m&atilde;e de Admeto, nem seu velho pai quiseram dar<br \/>\n    a vida pela do filho; deixaram nas m&atilde;os de Plut&atilde;o aquele a quem<br \/>\n    puseram no mundo; recusaram-se a salv&aacute;-lo, eles, infelizes, cujos cabelos<br \/>\n    j&aacute; branquearam! No entanto, na flor da idade, tu morres por teu jovem<br \/>\n    esposo. Possam os deuses conceder-nos esposas assim, para nossas companheiras!<br \/>\n    Preciosidade tamanha, mui raramente se encontra na vida. Elas seriam felizes<br \/>\n    conosco; e nossa vida transcorreria serena, sem uma nuvem!<\/p>\n<p><strong>Entra H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; habitantes de Feres, encontrarei eu Admeto neste pal&aacute;cio?<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Sim, H&eacute;rcules! &#8212; O filho de Feres est&aacute; em sua casa. Dize-me,<br \/>\n    por&eacute;m: que &eacute; que te conduz ao pa&iacute;s dos Tess&aacute;lios,<br \/>\n    e a nossa cidade?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Tenho a cumprir um dever imposto por Euristeu, de Tirinto.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Qual &eacute; o teu rumo? Que viagem vais realizar?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Vou apoderar-me dos corc&eacute;is de Diomedes, o tr&aacute;cio.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Como, por&eacute;m, conseguir&aacute;s tal coisa? Por acaso ignoras quem<br \/>\n    &eacute; esse estrangeiro?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o o conhe&ccedil;o; nunca estive na terra dos Bist&ocirc;nios.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o te apoderar&aacute;s, sem s&eacute;ria luta, desses terr&iacute;veis<br \/>\n    animais!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Mas n&atilde;o &eacute; l&iacute;cito fugir ao cumprimento dessa obriga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Ter&aacute;s que mat&aacute;-lo, e voltar; ou por l&aacute; cair&aacute;s<br \/>\n    morto.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o ser&aacute; o primeiro combate que eu deva travar.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>E que ganhar&aacute;s tu, depois de vencer a Diomedes?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Levarei os cavalos ao rei de Tirinto.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o ser&aacute; f&aacute;cil impor-lhes o freio!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>S&oacute; se eles expelirem fogo pelas narinas!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Eles despeda&ccedil;am criaturas humanas com seus dentes vorazes!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>A carne humana ser&aacute; alimento de feras, mas n&atilde;o de cavalos.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Pois tu h&aacute;s-de ver as cavalari&ccedil;as inundadas de sangue!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>E, quem assim os sustenta, de que pai &eacute; filho?<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>De Marte! Ele &eacute; rei da Tr&aacute;cia; rico, potente e belicoso,<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Eis a&iacute; uma empresa digna de meu destino! &Eacute; perigosa, mas visa<br \/>\n    um fim merit&oacute;rio. Terei de combater contra os filhos de Marte! Licaonte<br \/>\n    primeiro; depois Cicno; e agora, Diomedes com seus ferozes cavalos. Mas ningu&eacute;m<br \/>\n    ver&aacute; jamais, o filho de Alcmena tremer diante de inimigos!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Eis a&iacute; o rei desta cidade, Admeto, que sai de seu pal&aacute;cio.<\/p>\n<p><strong>Entra ADMETO<\/strong><\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Salve, &oacute; filho de J&uacute;piter, e descendente de Perseu!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Eu te sa&uacute;do, Admeto, rei dos tess&aacute;lios! S&ecirc; feliz!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ah! eu bem o quisera! Sei o quanto &eacute;s benevolente para comigo!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Por que tens os cabelos cortados, e as vestes de luto?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; porque devo, ainda hoje, sepultar um cad&aacute;ver.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Que os deuses afastem a desgra&ccedil;a de teus filhos!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Meus filhos est&atilde;o vivos, em seus aposentos.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Se foi teu pai que morreu, j&aacute; era bem idoso para isso!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Mas vive ainda meu pai, e tamb&eacute;m minha m&atilde;e.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Certamente n&atilde;o &eacute; Alceste, tua esposa, a morta?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Devo dar-te uma resposta d&uacute;bia&#8230;<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Que dizes? Est&aacute; ela viva, ou morta?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ela &eacute;&#8230; e n&atilde;o &eacute; mais&#8230; e isso me enche de dor!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o compreendo o que dizes; tuas palavras s&atilde;o obscuras para<br \/>\n    mim!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o sabes do destino que ela ter&aacute; de sofrer?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Sim; sei que ela resolveu ceder a vida em teu lugar.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Como direi, pois, que ela exista, se consentiu tal coisa?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Oh! N&atilde;o estejas a lamentar prematuramente a morte de tua esposa; espera<br \/>\n    o momento!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Quem deve morrer, j&aacute; est&aacute; morto; e quem est&aacute; morto,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o existe&#8230;<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, ser e n&atilde;o ser s&atilde;o coisas muito diferentes.[9]<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Tu pensas assim, H&eacute;rcules; mas eu de modo muito diferente!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Afinal, por quem choras, tu, ent&atilde;o? Qual de teus amigos morreu?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Uma mulher. &Eacute; numa mulher que penso!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Uma estranha, ou pertence a tua fam&iacute;lia?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Uma estranha&#8230; mas muito ligada a mim, e a minha casa.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Mas como aconteceu que ela tenha vindo morrer em tua casa?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Seu pai morreu, e ela veio viver aqui, j&aacute; &oacute;rf&atilde;.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Oh! Como eu gostaria de n&atilde;o te encontrar assim lacrimoso!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Por que dizes isso, H&eacute;rcules?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Porque sou obrigado a procurar hospitalidade em outra casa.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Isto n&atilde;o &eacute; permitido, H&eacute;rcules! Que nunca me aconte&ccedil;a<br \/>\n    semelhante desgra&ccedil;a!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Um h&oacute;spede que chega inesperadamente &eacute; sempre uma sobrecarga<br \/>\n    para quem sofre uma afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Os mortos, mortos est&atilde;o. Entra em minha casa!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Ser&aacute; uma vergonha que pessoas amarguradas por um desgosto ofere&ccedil;am<br \/>\n    um banquete a amigos.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Os aposentos dos h&oacute;spedes, para onde te conduzirei, ficam afastados.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Deixa-me seguir adiante; eu te ficarei grato.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o! Tu n&atilde;o podes procurar abrigo em casa de outro. Ol&aacute;,<br \/>\n    servo! Caminha na frente; abre os aposentos dos h&oacute;spedes, e avisa aos<br \/>\n    que s&atilde;o encarregados disso, que preparem abundante refei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    V&oacute;s outros: fechai as portas internas: n&atilde;o conv&eacute;m que<br \/>\n    os convivas ou&ccedil;am nossos gemidos, e que nossos h&oacute;spedes se entriste&ccedil;am<br \/>\n    com as nossas dores.<\/p>\n<p><strong>(Saem H&Eacute;RCULES e os servos)<\/strong><\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Que fizeste, Admeto? Como te animas a receber h&oacute;spedes, quando te<br \/>\n    acabrunha tamanha desgra&ccedil;a? N&atilde;o ter&aacute; sido uma insensatez<br \/>\n    de tua parte?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>E se eu o repelisse de meu lar, e da cidade, por acaso aprovar&iacute;eis<br \/>\n    esse meu ato? N&atilde;o, certamente! Minha dor n&atilde;o seria menor, e<br \/>\n    eu teria faltado ao cumprimento das leis da hospitalidade. Ao desgosto que<br \/>\n    j&aacute; sofro, eu veria juntar-se outro, qual fosse o de ver minha casa<br \/>\n    considerada in&oacute;spita. Tenho tido nele um amigo dedicado e acolhedor,<br \/>\n    sempre que visito o &aacute;rido pa&iacute;s da Arg&oacute;lida.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>E por que raz&atilde;o n&atilde;o lhe revelaste a inteira verdade acerca<br \/>\n    de teus males, visto que, como dizes, &eacute; um amigo sincero que se acha<br \/>\n    sob teu teto?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ele n&atilde;o consentiria em aceitar a hospitalidade que lhe ofere&ccedil;o,<br \/>\n    se soubesse de minha desventura. Sei que a muitos causar&aacute; estranheza<br \/>\n    e reprova&ccedil;&atilde;o o meu proceder; mas nunca se dir&aacute; que minha<br \/>\n    casa n&atilde;o se abriu para receber um amigo forasteiro.<\/p>\n<p><strong>(Sai ADMETO)<\/strong><\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; casa hospitaleira de Admeto, casa acolhedora e generosa, o deus<br \/>\n    Apolo, de harmoniosa lira, dignou-se viver sob teu abrigo, e n&atilde;o se<br \/>\n    envergonhou de passar por um modesto pastor, e assim apascentar, por estas<br \/>\n    colinas de ondula&ccedil;&atilde;o suave, os seus rebanhos, modulando doces<br \/>\n    &aacute;rias ao som da avena campestre.<\/p>\n<p>Seduzidos por estas melodias, ali vinha ter o t&iacute;mido lince, de pele<br \/>\n    marchetada; das grotas do &Oacute;tris sa&iacute;am, em grupos, os sanguin&aacute;rios<br \/>\n    le&otilde;es; e o veadinho de listrado dorso ousava sair dos escuros da floresta<br \/>\n    para ouvir, de perto da lira, os deliciosos acordes[10].<\/p>\n<p>Gra&ccedil;as a ti, &oacute; Apolo, Admeto possui numerosos rebanhos que<br \/>\n    vivem ao longo das margens do lago de Bebei, de &aacute;guas cristalinas;<br \/>\n    seus campos cultivados, e seus bosques verdejantes se estendem at&eacute;<br \/>\n    longe no ocidente, e sua autoridade atinge do mar Egeu, &agrave;s plagas inating&iacute;veis<br \/>\n    do P&eacute;lios. Eis que ele se v&ecirc; for&ccedil;ado a receber um h&oacute;spede<br \/>\n    enquanto chora ainda, debulhado em l&aacute;grimas, a morte da esposa muito<br \/>\n    amada, que acaba de exalar o &uacute;ltimo suspiro neste pal&aacute;cio&#8230;<br \/>\n    E isso lhe acontece, porque ele possui um cora&ccedil;&atilde;o nobre, e sabe<br \/>\n    prezar a amizade sagrada. S&atilde;o assim generosos todos quantos se orientam<br \/>\n    pela verdadeira sabedoria. Tenhamos confian&ccedil;a! O mortal piedoso h&aacute;-de<br \/>\n    ter, sempre, o justo pr&ecirc;mio de sua virtude.<\/p>\n<p><strong>Entra ADMETO (Os servos transportam o ata&uacute;de)<\/strong><\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Cidad&atilde;os de Feres! V&oacute;s, que aqui viestes para testemunhar-me<br \/>\n    vossa afei&ccedil;&atilde;o, sabei que meus servidores j&aacute; prepararam<br \/>\n    o cad&aacute;ver conforme prescreve o rito, e agora o transportam at&eacute;<br \/>\n    a pira funer&aacute;ria e ao perp&eacute;tuo jazigo. Saudai tamb&eacute;m<br \/>\n    v&oacute;s, conforme o costume, aquela que ora realiza sua derradeira viagem.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Vejo teu pai, que caminha com o vagaroso passo da velhice, e os servos que<br \/>\n    trazem nas m&atilde;os os f&uacute;nebres ornamentos com que honramos os mortos.<\/p>\n<p>Entra FERES<\/p>\n<p>FERES<\/p>\n<p>Aqui estou eu, meu filho, para partilhar de tua dor. Perdeste uma esposa<br \/>\n    virtuosa; ningu&eacute;m o negar&aacute;! Mas &eacute; preciso que te resignes<br \/>\n    a este golpe, embora seja penoso suport&aacute;-lo. Recebe estes ornatos,<br \/>\n    e deposita-os na sepultura. &Eacute; dever que te incumbe, venerar a quem<br \/>\n    morreu para te salvar a vida, para que eu conservasse meu filho, e n&atilde;o<br \/>\n    consumisse a &uacute;ltima fase da minha vida, ao abandono, e em luto. Com<br \/>\n    este rasgo de generosidade, ela deixou, para o sexo, uma gl&oacute;ria imortal.<br \/>\n    &Oacute; tu, que salvaste meu filho e poupaste minha velhice, adeus! Possas<br \/>\n    tu, mesmo no triste dom&iacute;nio de Plut&atilde;o, gozar de algum conforto.<br \/>\n    S&oacute; as esposas como tu asseguram aos homens a ventura na vida; sem elas,<br \/>\n    o matrim&ocirc;nio seria uma inutilidade!&#8230;<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Tu n&atilde;o foste convidado por mim a este funeral! Eu n&atilde;o te considero<br \/>\n    mais meu amigo, entre tantos que aqui est&atilde;o presentes! Alceste n&atilde;o<br \/>\n    usar&aacute;, nunca! &#8212; os ornatos que lhe trouxeste; ela de ti nada<br \/>\n    precisa para descer &agrave; sepultura. Tu devias chorar, quando eu estava<br \/>\n    prestes a morrer; mas ficaste de longe, deixando que se sacrificasse outra<br \/>\n    mais jovem, velho como &eacute;s! E agora vens carpir junto ao esquife! N&atilde;o!<br \/>\n    Tu n&atilde;o &eacute;s meu pai! E aquela que se diz minha m&atilde;e e que<br \/>\n    usa meu nome, n&atilde;o me concebeu! Talvez, filho de um ventre escravo,<br \/>\n    eu tenha sido furtivamente posto no rega&ccedil;o de tua mulher. Tu provaste<br \/>\n    ser quem realmente &eacute;s! Creio, firmemente, que n&atilde;o sou teu filho!<br \/>\n    Tu sobrepujas a todos os homens pela covardia, visto que, em idade t&atilde;o<br \/>\n    avan&ccedil;ada, j&aacute; no extremo de tua vida, n&atilde;o tiveste a coragem<br \/>\n    de morrer por teu filho, mas deixaste essa honra a uma mulher, a uma estrangeira,<br \/>\n    a quem eu considero minha m&atilde;e e meu pai! No entanto, a morte que terias,<br \/>\n    em lugar de teu filho, equivaleria a um triunfo, sendo curto o tempo que ainda<br \/>\n    te resta a viver! Alceste e eu viver&iacute;amos felizes o resto de nossos<br \/>\n    dias, e eu n&atilde;o lamentaria minha viuvez. No entanto, tudo o que um mortal<br \/>\n    poderia ambicionar, como felicidade, tu conseguiste: tua mocidade, tu a gozaste<br \/>\n    no trono; tinhas em mim um filho e herdeiro de teus estados, n&atilde;o receando<br \/>\n    pois, que por falta de um sucessor, viessem a cair em poder de estranhos.<br \/>\n    Nunca dir&aacute;s, pois, que tendo desprezado a velhice, tu me abandonaste<br \/>\n    &agrave; morte; a mim, que sempre demonstrei tamanho respeito por ti![11]<br \/>\n    E eis a prova de gratid&atilde;o que me destes, tu, e minha m&atilde;e! Trata,<br \/>\n    pois, de descobrir outros filhos que alimentem tua velhice, e que te prestem<br \/>\n    honras f&uacute;nebres, porque, quanto a mim, direi que meus bra&ccedil;os<br \/>\n    nunca te levar&atilde;o &agrave; sepultura; no que dependia de ti, estou morto;<br \/>\n    se encontrei uma pessoa que me salvou, a ela &eacute; que devo ternura filial.<br \/>\n    Mentem os velhos que a cada momento invocam a morte, queixando-se da velhice,<br \/>\n    e da longa dura&ccedil;&atilde;o da vida; pois se a morte se aproxima, ningu&eacute;m<br \/>\n    quer morrer, e a velhice deixa de ser um doloroso fardo!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Cessa! Cessa! J&aacute; n&atilde;o &eacute; bastante a desgra&ccedil;a presente?<br \/>\n    N&atilde;o amargures ainda mais, Admeto, o cora&ccedil;&atilde;o de teu pai.<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>Filho meu, a quem injurias assim? Ser&aacute; por acaso a algum l&iacute;dio,<br \/>\n    ou fr&iacute;gio, comprado por dinheiro? N&atilde;o sabes que sou tess&aacute;lio,<br \/>\n    filho de pai tess&aacute;lio, e livre de nascen&ccedil;a? Tu me ofendes em<br \/>\n    demasia! Mas, depois de me teres lan&ccedil;ado t&atilde;o violentas censuras,<br \/>\n    n&atilde;o ficar&aacute;s impune! Dei-te a vida, e te eduquei, para que fosses,<br \/>\n    depois de mim, o chefe de meu patrim&ocirc;nio; mas nunca me obriguei a morrer<br \/>\n    em teu lugar! N&atilde;o h&aacute; tradi&ccedil;&atilde;o dos antepassados,<br \/>\n    nem leis da H&eacute;lade, determinando que morram os pais pelos filhos. Feliz,<br \/>\n    ou n&atilde;o, que cada qual tenha o seu destino! Tudo o que me cumpria dar-te,<br \/>\n    tu recebeste de mim: reinas sobre numerosos s&uacute;bditos, e eu te deixarei<br \/>\n    amplos dom&iacute;nios, que herdei de meu pai. Que ofensa te fiz eu, portanto?<br \/>\n    De que bem te privei? N&atilde;o quero que morras por mim, mas tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o quero morrer se &eacute; tua a vez. Se te apraz contemplar a luz,<br \/>\n    pensas que o mesmo n&atilde;o se d&ecirc; comigo? Bem sei que longo tempo,<br \/>\n    muito longo tempo mesmo, eu permanecerei sob a terra; o que me resta da vida<br \/>\n    terrena &eacute; pouco, mas &eacute; doce! Tu, que te debateste vergonhosamente<br \/>\n    contra a morte, tu vives, sim; transpuseste o passo fatal, mas a custa de<br \/>\n    tua esposa! E agora censuras minha covardia, tu, infame, suplantado em coragem<br \/>\n    por uma mulher, que se deixou morrer por ti, belo rapaz! Descobriste um meio<br \/>\n    de evitar a morte; caso possas persuadir a todas as mulheres que contigo se<br \/>\n    casem, de que consintam em morrer, sucessivamente, em teu lugar! E insultas<br \/>\n    os amigos que a isso se escusam, quando tu mesmo evidencias tua falta de coragem!<br \/>\n    Cala-te, pois! E sabe que, se tens amor &agrave; vida, os outros o t&ecirc;m,<br \/>\n    igualmente! E se continuas a me ofender, ouvir&aacute;s de mim terr&iacute;veis<br \/>\n    e verdadeiros insultos!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Basta de rec&iacute;procas afrontas! Cessa, &oacute; velho, a repreens&atilde;o<br \/>\n    que t&atilde;o ruidosamente lan&ccedil;as sobre teu filho.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Podes falar, visto que tamb&eacute;m eu falei; mas se n&atilde;o queres ouvir<br \/>\n    a verdade, n&atilde;o devias ter procedido mal para comigo.<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>Maior mal eu faria, se viesse a morrer por ti.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Acreditas, ent&atilde;o, que vem a ser o mesmo, morrer na mocidade, ou na<br \/>\n    velhice?<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>Cada um de n&oacute;s tem uma vida somente; e n&atilde;o duas.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Pretendes, ent&atilde;o, viver mais do que J&uacute;piter?<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>E tu maldizes de teus pais, que nenhum mal te fizeram?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Compreendo que ambicionas uma longa vida.<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>E n&atilde;o est&aacute;s conduzindo &agrave; sepultura um cad&aacute;ver<br \/>\n    que ocupa o teu lugar?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ela prova, homem covarde, ela prova a tua covardia.<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>Ao menos n&atilde;o te atreves a dizer que ela morreu para me poupar.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ah! Tomara que um dia venhas a precisar de mim!<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>Casa-te com uma multid&atilde;o de esposas, para que haja mais gente disposta<br \/>\n    a morrer por ti!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Seria ainda maior a tua vergonha, visto que n&atilde;o queres morrer.<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>Oh! Esta luz divina me &eacute; querida, muito querida!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>S&atilde;o sentimentos vis, indignos de um homem!<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o gozar&aacute;s o prazer de conduzir o meu velho corpo &agrave;<br \/>\n    sepultura!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Mas tu h&aacute;s-de morrer um dia, e morrer&aacute;s desonrado!<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>Depois de morto, pouco me importa que falem mal de mim!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Oh! Mas como a velhice &eacute; desbriada!<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>Esta mulher n&atilde;o foi desbriada, n&atilde;o; mas insensata!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Retira-te! Deixa-me amortalhar este corpo!<\/p>\n<p><strong>FERES<\/strong><\/p>\n<p>Eu me retiro! Amortalha tua esposa, de quem foste o matador. Ter&aacute;s,<br \/>\n    por&eacute;m, que prestar contas aos parentes de tua mulher; Acasto, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    n&atilde;o ser&aacute; um homem se n&atilde;o vingar em ti a morte de sua<br \/>\n    irm&atilde;.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Que tu vivas, &oacute; velho, tu e aquela que habita contigo! Vivereis, como<br \/>\n    mereceis, sem filhos, embora eu viva ainda. Sim, porque n&atilde;o mais permaneceremos<br \/>\n    sob o mesmo teto. Ah! Se eu pudesse anunciar, por arautos, que renunciei ao<br \/>\n    lar paterno, eu o faria! Vamos n&oacute;s, por&eacute;m, levar este corpo<br \/>\n    &agrave; pira funer&aacute;ria!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Ai de ti! &Oacute; v&iacute;tima de tua coragem! &Oacute; tu, a melhor, e<br \/>\n    a mais generosa das esposas, adeus! Que os deuses subterr&acirc;neos te recebam<br \/>\n    com benevol&ecirc;ncia! E se l&aacute;, no Hades, se concedem recompensas<br \/>\n    aos justos, possas tu participar delas, ao lado da esposa de Plut&atilde;o!<\/p>\n<p><strong>(Saem ADMETO e FERES)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Entra O SERVO<\/strong><\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>Tenho visto j&aacute;, na verdade, muitos h&oacute;spedes vindos de diversos<br \/>\n    pa&iacute;ses, na casa de Admeto, e a todos tenho servido as refei&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    mas palavra que nunca recebi h&oacute;spede mais brutal do que este! Apenas<br \/>\n    chegou, embora visse meu senhor em pranto, ele transp&ocirc;s a soleira da<br \/>\n    casa! Em seguida, sabendo que nos aflige um grande desgosto, recebeu, sem<br \/>\n    modera&ccedil;&atilde;o, as aten&ccedil;&otilde;es hospitaleiras; e o que<br \/>\n    n&oacute;s demoramos em trazer, ele exige que lhe seja trazido, em voz &aacute;spera<br \/>\n    de comando. Depois, tomando nas m&atilde;os uma enorme ta&ccedil;a, cheia,<br \/>\n    guarnecida de hera, bebeu, em largos sorvos, do vinho mais puro, at&eacute;<br \/>\n    que os vapores do &aacute;lcool lhe subissem &agrave; cabe&ccedil;a; isso<br \/>\n    feito, p&ocirc;s uma coroa de ramos de murta e aos berros entoou um canto<br \/>\n    grosseiro. Ouviu-se ent&atilde;o, uma dupla &aacute;ria; porque ele cantava<br \/>\n    sem dar nenhuma aten&ccedil;&atilde;o ao desgosto de Admeto, e n&oacute;s,<br \/>\n    os servos, ento&aacute;vamos uma elegia &agrave; mem&oacute;ria de nossa rainha,<br \/>\n    ocultando, por&eacute;m, nossas l&aacute;grimas ao rude visitante, porque<br \/>\n    assim expressamente nos ordenou Admeto. E assim estou eu servindo um banquete<br \/>\n    a um estranho, que mais parece um salteador, ou bandido, ao passo que nossa<br \/>\n    rainha vai sair para sempre do pal&aacute;cio sem que eu possa acompanh&aacute;-la,<br \/>\n    nem estender-lhe a m&atilde;o, chorando a perda de quem era uma boa m&atilde;e<br \/>\n    para todos n&oacute;s, os seus servidores, porque ela nos poupou muitos males,<br \/>\n    acalmando a c&oacute;lera de seu marido. N&atilde;o tenho, pois, o direito<br \/>\n    de detestar esse h&oacute;spede, que surge agora, precisamente quando sofremos<br \/>\n    tamanha afli&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p><strong>Entra H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Ol&aacute;! Por que esse ar t&atilde;o grave e s&eacute;rio? Um servo nunca<br \/>\n    deve mostrar aos h&oacute;spedes uma cara de contrariedade: deve, sim, receb&ecirc;-los<br \/>\n    sempre de maneira af&aacute;vel. Tu, por&eacute;m, vendo neste recinto um<br \/>\n    sincero amigo de teu senhor, tu o recebes com fisionomia triste, e sobrancelhas<br \/>\n    carregadas, preocupado por algum motivo estranho. Vem c&aacute;: quero ensinar-te<br \/>\n    a ser mais delicado. Sabes tu, por acaso, de que natureza s&atilde;o os seres<br \/>\n    humanos? Creio que ignoras; com efeito, como poderias saber tal coisa? Ouve,<br \/>\n    pois: todos os homens s&atilde;o condenados a morrer, e n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    um s&oacute; que possa assegurar um dia que ainda estar&aacute; vivo no dia<br \/>\n    imediato. O que depende da sorte nos &eacute; oculto; nada a tal respeito<br \/>\n    nos pode instruir, e nenhuma ci&ecirc;ncia jamais revelar&aacute;. Portanto,<br \/>\n    convencido dessas verdades, que acabas de ouvir de mim, trata de gozar a alegria,<br \/>\n    de beber &agrave; vontade, de aproveitar a vida que passa; que fique o mais<br \/>\n    a cargo do Destino! Presta homenagem a V&ecirc;nus, a deusa que maiores del&iacute;cias<br \/>\n    concede aos mortais. Que deusa generosa ela &eacute;! N&atilde;o cures do<br \/>\n    resto; segue meus conselhos, porque eu sei que s&atilde;o bons. Deixa essa<br \/>\n    melancolia, homem, e vem beber comigo! Transp&otilde;e esta porta, e coroa-te<br \/>\n    de flores! Estou certo de que o tilintar das ta&ccedil;as afugentando-te a<br \/>\n    tristeza, h&aacute;-de conduzir a um ditoso porto. Visto que somos mortais,<br \/>\n    conv&eacute;m que nos conformemos &agrave; condi&ccedil;&atilde;o das coisas<br \/>\n    mortais. Com efeito, a vida para os homens austeros e tristes, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; a verdadeira vida, mas um supl&iacute;cio, e nada mais!<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>Eu sei! Mas o pesar que sinto n&atilde;o me anima a rir, nem a tomar parte<br \/>\n    em festins.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Ouvi dizer que morreu uma mulher estrangeira; n&atilde;o te aflijas em demasia,<br \/>\n    visto que a gente da casa est&aacute; viva, e com sa&uacute;de!<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>Viva, como? Por acaso n&atilde;o sabes que desgra&ccedil;a caiu sobre esta<br \/>\n    fam&iacute;lia?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Ent&atilde;o o teu senhor ter-me-ia iludido!<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; que ele respeita muito, &#8212; muito mesmo! &#8212; os deveres<br \/>\n    de cortesia para com seus h&oacute;spedes.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Por acaso devia ele receber-me mal, por causa da morte de uma estranha?<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>Ah! Se ela pertencia, &#8212; e demais! &#8212; &agrave; fam&iacute;lia!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Houve, ent&atilde;o, uma desgra&ccedil;a que Admeto n&atilde;o me quis revelar?<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>S&ecirc; feliz&#8230; A n&oacute;s, os da casa, &eacute; que cabe acompanhar<br \/>\n    o nosso chefe em sua dor.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Pelo que dizes, n&atilde;o se trata de um luto de gente estranha&#8230;<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>Ah! N&atilde;o! Se tal acontecesse, eu n&atilde;o estaria triste quando tu<br \/>\n    te entregavas aos prazeres do festim.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Oh! Com que ent&atilde;o me teriam assim magoado os que me receberam?<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>Com efeito, tua visita n&atilde;o foi oportuna; todos n&oacute;s estamos<br \/>\n    de luto: v&ecirc; estes cabelos cortados, e estas roupas escuras.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Mas&#8230; quem morreu? Um de seus filhos? Ou talvez seu pai?<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>Foi a esposa de Admeto que morreu, &oacute; estrangeiro.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Que dizes tu? E apesar disso franquearam-me a hospitalidade?<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>Admeto n&atilde;o quis vedar-te, com essa not&iacute;cia, o ingresso em sua<br \/>\n    casa.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Pobre Admeto! Que esposa tu perdeste!<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>Com ela, &eacute; como se todos n&oacute;s morr&ecirc;ssemos!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Eu bem suspeitei disso, ao v&ecirc;-lo com os olhos cheios de l&aacute;grimas<br \/>\n    e a fronte privada de cabelos; mas ele destruiu minha suspeita declarando<br \/>\n    que ia dar sepultura a uma estrangeira. Bem a meu pesar, pois, entrei nesta<br \/>\n    casa, comi e bebi &agrave; mesa de um homem generoso a quem amargurava uma<br \/>\n    dor profunda. Distra&iacute;-me num festim, e pus sobre a cabe&ccedil;a uma<br \/>\n    coroa de flores. Por que n&atilde;o me disseste que um golpe t&atilde;o doloroso<br \/>\n    caiu sobre esta casa? Onde &eacute; a sepultura? Por onde devo ir, a fim de<br \/>\n    encontr&aacute;-la?<\/p>\n<p><strong>O SERVO<\/strong><\/p>\n<p>&Agrave; margem da estrada que nos conduz a Larissa ver&aacute;s um t&uacute;mulo<br \/>\n    de m&aacute;rmore, fora da cidade.<\/p>\n<p><strong>(Sai O SERVO)<\/strong><\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; meu cora&ccedil;&atilde;o, que tanto j&aacute; tens lutado! &Oacute;<br \/>\n    minha alma! Mostremos hoje que filho a tirintiana Alcmena, filha de Electrion,<br \/>\n    deu a J&uacute;piter! Sim! Eu devo salvar da morte esta mulher que acaba de<br \/>\n    morrer! Urge restituir Alceste a esta fam&iacute;lia, e provar assim minha<br \/>\n    gratid&atilde;o para com Admeto. Irei ter com T&acirc;natos, o negro soberano<br \/>\n    das sombras! Esperarei que ele se aproxime da sepultura, onde vai sugar o<br \/>\n    sangue dos finados! E se, preparando-lhe uma cilada, puder atirar-me sobre<br \/>\n    ele e agarr&aacute;-lo com a cadeia de meus bra&ccedil;os, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    ningu&eacute;m que dali o arranque, mesmo maltratado como estiver, enquanto<br \/>\n    ele n&atilde;o me restituir esta mulher! Mas, se a presa me fugir, se ele<br \/>\n    n&atilde;o vier saciar-se de sangue, ah! &#8212; ent&atilde;o irei eu pr&oacute;prio<br \/>\n    aos Infernos, &agrave; sombria mans&atilde;o de Pros&eacute;rpina e de Plut&atilde;o,<br \/>\n    exigirei Alceste, e estou certo de que a trarei de volta &agrave; terra, e<br \/>\n    a entregarei ao amigo acolhedor que t&atilde;o bondosamente me recebeu em<br \/>\n    sua casa, n&atilde;o me repelindo, embora esmagado ao peso de tamanha desgra&ccedil;a,<br \/>\n    e ocultando conscientemente o seu luto, em considera&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    comigo. Haver&aacute; na Tess&aacute;lia, haver&aacute; em toda a Gr&eacute;cia<br \/>\n    um mortal mais hospitaleiro? Nunca ele dir&aacute; que foi amigo de um ingrato,<br \/>\n    ele que se mostra t&atilde;o generoso!<\/p>\n<p><strong>(Sai H&Eacute;RCULES)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Entra ADMETO<\/strong><\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ai de mim! Que triste regresso a meu lar! Como parece deserto este pal&aacute;cio!<br \/>\n    Ai de mim! Para onde irei? Que farei? Que hei-de dizer? Que devo calar? Oh!<br \/>\n    Se eu pudesse morrer tamb&eacute;m! Sim! Minha m&atilde;e trouxe-me ao mundo<br \/>\n    para sofrer! Como invejo a felicidade dos mortos; eu gostaria de habitar a<br \/>\n    sua triste regi&atilde;o. A luz do sol n&atilde;o mais me encanta a vista,<br \/>\n    nem me agrada pisar na terra, depois que o cruel T&acirc;natos me arrebatou<br \/>\n    um ente t&atilde;o querido, para d&aacute;-lo ao Hades!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Adiante! Adiante! Entra em tua casa!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ai de mim!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Digna de l&aacute;stima &eacute; tua triste sorte!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ai de mim!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Bem sabemos qu&atilde;o pungente &eacute; tua dor!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Pobre de mim!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Teu pranto de nada vale, para aquela que n&atilde;o mais vive!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Pobre de mim!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Desgra&ccedil;a atroz, que nunca mais ver&aacute;s o rosto de tua esposa<br \/>\n    estremecida!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Tu recordas precisamente o que mais me dilacera: n&atilde;o h&aacute; maior<br \/>\n    desgra&ccedil;a para um homem, do que perder uma esposa fiel! Prouvera aos<br \/>\n    c&eacute;us que nunca eu tivesse trazido como esposa, a este pal&aacute;cio,<br \/>\n    a m&iacute;sera Alceste! Invejo a sorte dos que n&atilde;o t&ecirc;m mulher,<br \/>\n    nem filhos&#8230; Possuem uma &uacute;nica alma, e sofrer por ela ser&aacute;<br \/>\n    um fardo suport&aacute;vel. Mas ver o sofrimento dos filhos, e ver devastado<br \/>\n    pela morte o leito nupcial, eis um espet&aacute;culo intoler&aacute;vel, quando<br \/>\n    se poderia ter vivido sem prole, e sem o matrim&ocirc;nio!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Feriu-te o destino, cruel e inexor&aacute;vel!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Pobre de mim!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>E tua dor ser&aacute; eterna&#8230;<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ai de mim!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Seja, embora, um fardo bem dif&iacute;cil&#8230;<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ai de mim!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Deves resignar-te; n&atilde;o &eacute;s tu o primeiro&#8230;.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ai de mim!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o foste o primeiro a perder uma esposa.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Pobre de mim!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>V&aacute;rias s&atilde;o as desgra&ccedil;as que ferem os mortais!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; luto perene! Saudade cruel de um ser querido, que j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    vive! Por que me impediram que me deixasse cair no t&uacute;mulo e descansar,<br \/>\n    de uma vez, ao lado de minha esposa t&atilde;o querida? Plut&atilde;o teria<br \/>\n    tido n&atilde;o uma s&oacute; alma, por&eacute;m duas, atravessando o rio<br \/>\n    infernal.<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Viveu outrora em minha fam&iacute;lia um homem, cujo filho &uacute;nico,<br \/>\n    digno de venera&ccedil;&atilde;o por suas virtudes, morreu. No entanto, ele<br \/>\n    suportou com resigna&ccedil;&atilde;o essa desgra&ccedil;a, que o deixava<br \/>\n    sem o filho, embora fosse ele j&aacute; idoso, tendo a cabe&ccedil;a branca<br \/>\n    pendida, como quem busca a sepultura[12].<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; muralhas de meu pal&aacute;cio! Como poderei eu voltar a teu recinto?<br \/>\n    Como hei-de viver, depois de t&atilde;o rude mudan&ccedil;a na minha vida?<br \/>\n    Oh! Que diferen&ccedil;a! Outrora eu entrava nesta casa, iluminada por archotes<br \/>\n    vindos do P&eacute;lion, e ao som de hinos nupciais, conduzindo pela m&atilde;o<br \/>\n    minha esposa querida. Junto a n&oacute;s caminhava um jovial cortejo de amigos,<br \/>\n    celebrando a feliz uni&atilde;o de dois c&ocirc;njuges de nobre estirpe. Agora,<br \/>\n    ao inv&eacute;s de alegria, ouvem-se l&uacute;gubres lamenta&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    em lugar dos v&eacute;us de alv&iacute;ssimo tecido, &eacute; o luto, com<br \/>\n    suas vestes negras, que me conduz &agrave; minha c&acirc;mara nupcial deserta!&#8230;<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Foste ferido, em plena felicidade, por este rude golpe do destino, quando<br \/>\n    ainda n&atilde;o conhecias o sofrimento; mas tu conservas a vida, ao passo<br \/>\n    que tua esposa jaz, morta, privada de tua ternura. Em verdade, nada de novo<br \/>\n    se v&ecirc; em tudo isso&#8230; A morte j&aacute; tem apartado muitos homens de<br \/>\n    suas esposas&#8230;<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Amigos, em meu parecer, bem melhor do que a minha foi a sorte de minha mulher,<br \/>\n    embora outros pensem diversamente. Doravante, ela est&aacute; isenta de todo<br \/>\n    o sofrimento; e libertou-se, gloriosamente, de muitas prova&ccedil;&otilde;es!<br \/>\n    Eu, por&eacute;m, que j&aacute; n&atilde;o devia viver, transpus o termo fatal,<br \/>\n    e arrastarei uma exist&ecirc;ncia miser&aacute;vel. Eu bem o compreendo agora!<br \/>\n    Como terei &acirc;nimo de reentrar em minha casa? A quem vou falar? Quem me<br \/>\n    falar&aacute;? Onde, e como, obter aquelas doces conversa&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    Para onde devo ir? A solid&atilde;o me afugentar&aacute; daqui, quando eu<br \/>\n    vir vazio o leito da esposa, e o trono que ela ocupava, e a boa ordem do pal&aacute;cio<br \/>\n    descurada&#8230; quando meus filhos vierem, a meus p&eacute;s, lamentar a falta<br \/>\n    de sua m&atilde;e, e os servos a de sua senhora. Eis o que me espera no interior<br \/>\n    de minha casa: l&aacute; fora, a vista das esposas tessalianas, e das numerosas<br \/>\n    reuni&otilde;es femininas, ser&aacute; para mim um motivo de terror, pois<br \/>\n    n&atilde;o terei coragem de contemplar uma s&oacute; das companheiras de Alceste.<br \/>\n    E meus inimigos dir&atilde;o: &#8220;Vede este homem, que arrasta uma exist&ecirc;ncia<br \/>\n    de ignom&iacute;nia, porque n&atilde;o teve &acirc;nimo para morrer! Em seu<br \/>\n    lugar deu a esposa, para livrar-se, covardemente, de Plut&atilde;o! E ele<br \/>\n    se diz &#8220;um homem&#8221;&#8230; Detesta pai e m&atilde;e, mas recusou-se<br \/>\n    a morrer!&#8221; Tal ser&aacute; a reputa&ccedil;&atilde;o que h&aacute;-de<br \/>\n    agravar o meu opr&oacute;brio e minha desgra&ccedil;a. Que valor ter&aacute;,<br \/>\n    para mim, a vida, &oacute; meus amigos, com uma fama t&atilde;o ruim, e t&atilde;o<br \/>\n    adversa fortuna?<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Al&ccedil;ou-me um dia a Musa, em suas asas, &agrave; regi&atilde;o celeste,<br \/>\n    e de l&aacute;, depois de observar todas as coisas que existem, nada vi mais<br \/>\n    poderoso do que a Necessidade! Nem as f&oacute;rmulas sagradas de Orfeu, inscritas<br \/>\n    nos est&eacute;lios da Tr&aacute;cia, nem os violentos rem&eacute;dios que<br \/>\n    Apolo ensinou aos filhos de Escul&aacute;pio, para que minorassem os sofrimentos<br \/>\n    dos mortais!<\/p>\n<p>S&oacute; ela, entre as deusas, n&atilde;o tem altares, nem imagens, a que<br \/>\n    possamos levar nossos tributos: nem recebe v&iacute;timas em holocausto. &Oacute;<br \/>\n    temerosa divindade! N&atilde;o sejas mais cruel para comigo, do que j&aacute;<br \/>\n    tens sido at&eacute; hoje! Tudo o que J&uacute;piter ordena, &eacute;s tu<br \/>\n    que executas sem demora; at&eacute; o ferro dos Cal&iacute;bios tu vergas<br \/>\n    e dominas; e nada conseguir&aacute; abrandar teu cora&ccedil;&atilde;o inflex&iacute;vel!<\/p>\n<p>Tu, Admeto, a quem essa deusa potente oprime com sua for&ccedil;a invenc&iacute;vel,<br \/>\n    tem coragem! N&atilde;o ser&aacute; pelos prantos e l&aacute;grimas que lograr&aacute;s<br \/>\n    trazer &agrave; vida os mortos que j&aacute; l&aacute; v&atilde;o sob a terra.<br \/>\n    Tamb&eacute;m os filhos dos deuses ir&atilde;o ter, um dia, &agrave; tenebrosa<br \/>\n    mans&atilde;o da morte! Alceste era querida por n&oacute;s, quando vivia;<br \/>\n    e ainda a veneramos, depois de morta; porque aquela a quem tomastes por esposa<br \/>\n    era, por certo, a mais nobre das mulheres. Que o t&uacute;mulo de tua esposa<br \/>\n    n&atilde;o se mostre igual a tantos outros; mas sim, que receba honras semelhantes<br \/>\n    &agrave;s que tributamos aos deuses, e preitos de justa venera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos viandantes. Que o peregrino exclame, sustando o seu caminhar: &#8220;Esta,<br \/>\n    que deu a vida pelo esposo, n&atilde;o deixar&aacute; de ser uma divindade<br \/>\n    benfazeja!&#8221; E assim Alceste ser&aacute; saudada!<\/p>\n<p>Parece-nos, Admeto, que a&iacute; vem o filho de Alcmena; e j&aacute; se<br \/>\n    aproxima de tua casa.<\/p>\n<p><strong>Entra H&Eacute;RCULES, acompanhado por uma mulher velada por um manto<\/strong><\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>A um amigo leal, Admeto, devemos sempre falar com franqueza, nenhum ressentimento<br \/>\n    deixando oculto no cora&ccedil;&atilde;o. Eu, que, presente, vi que estavas<br \/>\n    desgostoso, supunha que, em qualquer hip&oacute;tese, saberias p&ocirc;r a<br \/>\n    prova minha amizade. No entanto, n&atilde;o me quiseste dizer claramente que<br \/>\n    o corpo exposto era o de tua esposa; e assim fui induzido a aceitar a hospitalidade<br \/>\n    em teu pal&aacute;cio, crente de que se tratava do trespasse de uma estrangeira.<br \/>\n    Coroei-me de flores, e fiz liba&ccedil;&otilde;es aos deuses, em tua casa,<br \/>\n    quando todos se achavam sob o peso da mais pungente desola&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Agora, sou eu que me queixo de ti; eu, sim, que protesto contra o modo pelo<br \/>\n    qual agiste para comigo! Mas n&atilde;o quero agravar teu desgosto; vou dizer-te<br \/>\n    apenas o motivo que me fez voltar aqui.<\/p>\n<p>Toma sob tua prote&ccedil;&atilde;o esta mulher; guarda-a, eu te pe&ccedil;o,<br \/>\n    at&eacute; que eu volte com os ferozes cavalos tr&aacute;cios, depois de vencer<br \/>\n    o rei dos Bist&ocirc;nios. Se a sorte me for contr&aacute;ria (o que praza<br \/>\n    aos deuses que n&atilde;o me aconte&ccedil;a, pois muito lhes tenho pedido<br \/>\n    um feliz regresso!) ela ser&aacute; tua, e habitar&aacute; tua casa. Foi ao<br \/>\n    cabo de tremendo combate que ela caiu em meu poder. Compareci a perigosos<br \/>\n    jogos p&uacute;blicos, nos quais se ofereceram pr&ecirc;mios de alto valor<br \/>\n    aos vencedores; e eu trouxe esta mulher como recompensa por minha vit&oacute;ria.<br \/>\n    Para as pugnas mais simples, destinavam-se cavalos aos atletas vitoriosos;<br \/>\n    para os combates mais rudes, para os tremendos pugilatos, davam bois; e, como<br \/>\n    pr&ecirc;mio de maior valia, esta mulher. Achando-me ali, por acaso, seria<br \/>\n    vergonhoso, para mim, esquivar-me &agrave; luta, e desprezar uma l&aacute;urea<br \/>\n    t&atilde;o gloriosa! Mas, como te disse, &eacute; mister que trates com todo<br \/>\n    o carinho esta mulher, porque a obtive, n&atilde;o por ast&uacute;cia, mas<br \/>\n    por um esfor&ccedil;o ingente. Talvez um dia tu me agrade&ccedil;as, por tudo<br \/>\n    o que fiz!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o foi por desprezo para contigo, nem por qualquer outro sentimento<br \/>\n    inamistoso, que te ocultei a sorte ingrata de minha esposa; mas seria, para<br \/>\n    mim, um desgosto, aumentando a dor sincera que eu j&aacute; sofria, se tu<br \/>\n    fosses coagido a procurar hospitalidade em outro solar. J&aacute; era bastante<br \/>\n    a m&aacute;goa que nos angustia. Mas, se julgas poss&iacute;vel isso, &oacute;<br \/>\n    H&eacute;rcules, eu te pe&ccedil;o que confies esta mulher a um outro tess&aacute;lio<br \/>\n    que n&atilde;o tenha passado pelo golpe que me feriu; tens muitos amigos entre<br \/>\n    os habitantes desta cidade. N&atilde;o recordes minha desgra&ccedil;a&#8230; Eu<br \/>\n    n&atilde;o poderia conter as l&aacute;grimas, vendo esta mulher em minha casa&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o queiras agravar, com um novo desgosto, o que j&aacute; sinto; minha<br \/>\n    desgra&ccedil;a j&aacute; basta! Onde poderia eu acolher esta criatura? Ela<br \/>\n    parece jovem, a julgar pelas vestes e ornatos que usa. Poderia ela viver entre<br \/>\n    os homens sendo casta como parece? N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil, H&eacute;rcules,<br \/>\n    dominar os impulsos da mocidade: assim advirto, em teu interesse. Dar-lhe-ei<br \/>\n    aposento na c&acirc;mara de Alceste? Ah! N&atilde;o! Eu mereceria uma dupla<br \/>\n    censura: a do povo, que me acusar&aacute; de trair minha esposa, cedendo-lhe<br \/>\n    o leito a outra mulher, &#8212; e a da morta, que merece toda a minha saudade<br \/>\n    e toda a minha venera&ccedil;&atilde;o. E tu, &oacute; mulher, quem quer que<br \/>\n    tu sejas, como te assemelhas a minha querida Alceste pelo porte, pelo aspecto!<br \/>\n    H&eacute;rcules, pelos deuses! Leva-a para longe de mim! N&atilde;o queiras<br \/>\n    acabrunhar ainda mais a quem j&aacute; est&aacute; torturado pela sorte! Ao<br \/>\n    v&ecirc;-la, creio ver minha esposa! Ela perturba meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e faz com que as l&aacute;grimas me rebentem dos olhos! Oh! Que infeliz sou<br \/>\n    eu! Vejo agora como ser&aacute; doloroso o meu luto!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Eu n&atilde;o poderei congratular-me contigo, &oacute; rei, por teu destino,<br \/>\n    mas, seja quem for, deves receber a d&aacute;diva que os deuses te enviam.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Pudesse eu, Admeto, trazer-te de novo a esposa, arrancando-a da regi&atilde;o<br \/>\n    do Hades para a luz do dia!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Bem sei que o farias, se pudesses; nenhuma d&uacute;vida tenho a tal respeito;<br \/>\n    mas&#8230; como realizarias esse intento? N&atilde;o &eacute; l&iacute;cito aos<br \/>\n    mortos voltar &agrave; luz da vida&#8230;<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>J&aacute; te recomendei que n&atilde;o te excedas em teus queixumes. Suporta<br \/>\n    o mal com resigna&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; bem mais f&aacute;cil exortar os outros a que se resignem, do que<br \/>\n    enfrentar o mal que nos aflige.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Que proveito ter&aacute;s tu, se te puseres a gemer pela vida a fora?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Sei que nada lucrarei; mas o pranto &eacute; um al&iacute;vio para o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que se angustia.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Amar a uma morta &eacute; uma fonte perene de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Sua perda me mata, muito mais do que seria poss&iacute;vel.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Tu perdeste uma esposa exemplar; quem o negar&aacute;?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Precisamente por isso j&aacute; n&atilde;o sinto alegria no viver.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>O tempo abrandar&aacute; teu desgosto, que por ora ainda sentes t&atilde;o<br \/>\n    violento!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ah! O tempo&#8230; tu dizes bem: o tempo significa a aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da morte!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Uma mulher, e o desejo de novo himeneu h&atilde;o-de consolar-te um dia.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Cala-te! Que disseste, amigo? De ti eu n&atilde;o esperava tal coisa!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>E por que n&atilde;o? Com que ent&atilde;o n&atilde;o contrair&aacute;s novas<br \/>\n    n&uacute;pcias? Pretendes continuar na viuvez?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Mulher alguma partilhar&aacute; de meu amor.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>E acreditas que assim agradas aos manes de Alceste?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Onde quer que ela esteja, faz jus &agrave; minha imperec&iacute;vel gratid&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Aprovo teus sentimentos, Admeto; mas haver&aacute; quem te acuse de loucura.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Jamais, &oacute; mulher, ter&aacute;s em mim um esposo.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Eu te admiro e louvo, porque te mostras dedicado &agrave; mem&oacute;ria<br \/>\n    de tua esposa.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Que eu morra, se algum dia a trair, mesmo depois de morta!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Est&aacute; bem! Agora podes receber em teu lar esta criatura!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Oh! N&atilde;o! Pelo deus J&uacute;piter, a quem deves a vida!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Cometes grave erro, se a repelires.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Mas&#8230; se a aceitar, o remorso ferir-me-&aacute; o cora&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Ora, aceita-a; vamos! Afirmo-te que esta d&aacute;diva &eacute; oportuna.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Prouvera aos deuses que nunca a houvesses tu recebido como pr&ecirc;mio de<br \/>\n    teu valor!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, tu mereceste, tamb&eacute;m, a vit&oacute;ria que obtive.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Dizes bem; mas conv&eacute;m que se retire essa mulher.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Ela ir&aacute;, se convier que v&aacute;; mas primeiramente quero que me<br \/>\n    digas se ela deve ir.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Sim; assim &eacute; preciso; a menos que isto te desagrade&#8230;<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>S&oacute; eu, realmente, sei a raz&atilde;o por que insisto desta maneira!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Em tais condi&ccedil;&otilde;es, eu cedo; mas fica sabendo que o que fazes,<br \/>\n    n&atilde;o me agrada.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Um dia vir&aacute;, em que h&aacute;s-de bendizer a minha resolu&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Por agora, obedece, e ver&aacute;s.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>(Aos servos) Levai-a ao interior do pal&aacute;cio; visto que nos &eacute;<br \/>\n    for&ccedil;oso receb&ecirc;-la aqui.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o! N&atilde;o confiarei esta mulher a teus servos!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Nesse caso, tu mesmo a conduzir&aacute;s, j&aacute; que assim o queres.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>S&oacute; em tuas m&atilde;os quero e devo entreg&aacute;-la!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o lhe tocarei no corpo; mas ela pode entrar.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>J&aacute; disse que s&oacute; a deixarei em tuas m&atilde;os, amigo!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>H&eacute;rcules: tu me obrigas a assim agir; vou receb&ecirc;-la, contra<br \/>\n    a minha vontade!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Ent&atilde;o, estende a m&atilde;o, e aperta a desta desconhecida.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Eis aqui!&#8230; Estendo-lhe a m&atilde;o, como se estivesse prestes a ver a<br \/>\n    cabe&ccedil;a da Medusa.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>J&aacute; a tens, contigo, pois?<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Sim; tenho-a comigo.<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Pois ent&atilde;o fica certo de que a guardar&aacute;s contigo, e dir&aacute;s<br \/>\n    sempre que o filho de J&uacute;piter sabe ser um h&oacute;spede grato. (Retira<br \/>\n    o v&eacute;u que cobre a mulher) Contempla-a, agora! V&ecirc; se n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;, realmente, muito parecida com Alceste! Eis-te feliz, de novo, Admeto!<br \/>\n    Para longe, o luto e o desespero!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Deuses imortais! Que vejo! Que direi? &Oacute; prod&iacute;gio inesperado!<br \/>\n    Ser&aacute; verdadeiramente Alceste, a quem eu vejo, ou algum deus zomba de<br \/>\n    mim concedendo-me uma alegria ilus&oacute;ria?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o! &Eacute; Alceste, tua esposa, que tens diante de ti!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Cuidado, H&eacute;rcules! N&atilde;o ser&aacute; um fantasma egresso das<br \/>\n    regi&otilde;es infernais?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Admeto, teu h&oacute;spede nunca foi um invocador de almas![13]<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Ent&atilde;o &eacute;, mesmo, minha esposa, aquela a quem eu j&aacute; havia<br \/>\n    dado sepultura?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida! &Eacute; ela pr&oacute;pria! E n&atilde;o me admira que<br \/>\n    tu hesites em acreditar na tua fortuna!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Poderei ent&atilde;o falar-lhe, como falava a minha esposa em vida?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>E por que n&atilde;o? Fala-lhe, homem! Tu readquiriste, na verdade, o tesouro<br \/>\n    por que tanto suspiravas!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>&Oacute; doce olhar de minha esposa amada! Sim, &eacute;s tu, na verdade!<br \/>\n    Contra toda a expectativa, eu te possuo de novo, eu, que supunha nunca mais<br \/>\n    te ver!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Sim; ela &eacute; tua! E fa&ccedil;o votos para que os deuses n&atilde;o<br \/>\n    invejem tamanha felicidade!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Nobre filho de J&uacute;piter, que a felicidade te acompanhe sempre! Que<br \/>\n    teu pai vele por ti! S&oacute; tu pudeste reerguer a minha vida, que a desgra&ccedil;a<br \/>\n    derru&iacute;ra! Mas&#8230; como pudeste traz&ecirc;-la do Hades &agrave; luz<br \/>\n    do dia?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Lutando contra a mal&eacute;fica divindade que se apoderara de sua sorte.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Oh! Onde lutaste contra T&acirc;natos, o nume terr&iacute;fico da morte?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Bem perto da sepultura, onde dela me apoderei, sustendo-a nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>E por que raz&atilde;o Alceste, rediviva, permanece muda e im&oacute;vel?<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o te ser&aacute; poss&iacute;vel ouvir sua voz enquanto ela n&atilde;o<br \/>\n    for purificada de sua consagra&ccedil;&atilde;o &agrave;s divindades infernais,<br \/>\n    e s&oacute; ao romper do terceiro dia. Mas, faze entrar Alceste em tua casa;<br \/>\n    e conserva sempre, Admeto, o religioso respeito que tens pelas leis da hospitalidade.<br \/>\n    Adeus! Eu prossigo minha viagem, a fim de executar o trabalho que me foi imposto<br \/>\n    pelo filho de Est&eacute;nelo!<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>Consente em ser meu h&oacute;spede por mais alguns dias!<\/p>\n<p><strong>H&Eacute;RCULES<\/strong><\/p>\n<p>Por agora &eacute; imposs&iacute;vel. Devo apressar-me.<\/p>\n<p><strong>ADMETO<\/strong><\/p>\n<p>S&ecirc; feliz, H&eacute;rcules! Possas tu retornar mui breve a nosso lar!<br \/>\n    Que os cidad&atilde;os de Feres e todos os habitantes da Tess&aacute;lia celebrem<br \/>\n    este ditoso acontecimento por festas, e dan&ccedil;as; que em todos os altares<br \/>\n    a chama do holocausto se erga, em meio de preces de gratid&atilde;o! Porque<br \/>\n    uma vida melhor se vai seguir a dias t&atilde;o funestos! Adeus, H&eacute;rculesl<br \/>\n    S&ecirc; feliz!<\/p>\n<p><strong>O CORO<\/strong><\/p>\n<p>Os acontecimentos que o c&eacute;u nos proporciona manifestam-se sob as mais<br \/>\n    diversas formas; e muita coisa acontece, para al&eacute;m de nossos temores<br \/>\n    e suposi&ccedil;&otilde;es; muita vez o que se espera, nunca sucede; e o que<br \/>\n    nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses. A volta feliz de Alceste<br \/>\n    &eacute; uma prova!<\/p>\n<h2><strong><a name=\"2\">FIM<\/a><\/strong><\/h2>\n<p>  <strong>Notas <\/strong> <\/p>\n<p> O professor Jo&atilde;o Baptista de Mello e Souza foi, por anos, professor<br \/>\n    de hist&oacute;ria no Col&eacute;gio Mello e Souza e marcou gera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com seus ensinamentos. &Eacute; de Afonso Arinos, em suas Mem&oacute;rias,<br \/>\n    este testemunho sobre a import&acirc;ncia que teve em sua forma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    as aulas por ele dadas: &#8220;A mat&eacute;ria que mais me encantava era<br \/>\n    a Hist&oacute;ria do Brasil, dada pelo mesmo (J.B. Mello e Souza).&#8221;;<br \/>\n    &#8220;Creio que toda a minha inclina&ccedil;&atilde;o posterior pelos estudos<br \/>\n    hist&oacute;ricos data desse fecundo aprendizado inicial.&#8221; (ap. Alberto<br \/>\n    Venancio Filho, A Historiografia Republicana: A contribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Afonso Arinos, in Estudos Hist&oacute;ricos, Rio de Janeiro, vol. 3, n.<br \/>\n    6, 1990, p.151-160.) [NE]<\/p>\n<p>[1] &#8212; Alude Apolo ao pai, e &agrave; m&atilde;e de Admeto, que, em<br \/>\n    avan&ccedil;ada idade, viviam ainda.<\/p>\n<p>[2] &#8212; Esse her&oacute;i, como se sabe, &eacute; H&eacute;rcules; e<br \/>\n    a aventura referida constitui o 2&ordm; dos doze &#8220;trabalhos&#8221;.<br \/>\n    Euristeu, a quem H&eacute;rcules servia, manda-o &agrave; Tr&aacute;cia a<br \/>\n    fim de arrebatar os ferozes animais, que o cruel Diomedes alimentava com carne<br \/>\n    humana.<\/p>\n<p>[3] &#8212; Era costume antigo cortar, pouco antes do holocausto, alguns<br \/>\n    fios de cabelo da v&iacute;tima, os quais eram lan&ccedil;ados ao fogo como<br \/>\n    prim&iacute;cias do sacrif&iacute;cio. Na Electra, antes de ferir o animal,<br \/>\n    Egisto corta-lhe alguns p&ecirc;los.<\/p>\n<p>[4] &#8212; Alus&atilde;o ao rumor que faziam os gregos, batendo com as m&atilde;os<br \/>\n    acima da cabe&ccedil;a, o que era sinal de dor veemente, ou desespero.<\/p>\n<p>[5] &#8212; Naturalmente para consultar um or&aacute;culo &#8212; medida<br \/>\n    extrema que os gregos adotavam em casos tais.<\/p>\n<p>[6] &#8212; Um dos t&iacute;tulos pelos quais era invocado o deus Apolo.<\/p>\n<p>[7] &#8212; Racine aproveitou esta passagem na Ifig&ecirc;nia, dando-lhe<br \/>\n    esta magn&iacute;fica vers&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8220;Je vois d&eacute;j&agrave; la rame, et la barque fatale!<br \/>\n    J&#8217;entends le vieux nocher sur la rive infernale&#8230;<br \/>\n    Impatient, il crie: &#8220;On t&#8217;attend ici-bas!<br \/>\n    Tout est pr&ecirc;t! Descends! Viens! Ne me retarde pas!&#8221;<\/p>\n<p>[8] &#8212; O m&ecirc;s Caineano (ou o &#8220;Mouniki&oacute;n&#8221;) corresponde<br \/>\n    a abril, no calend&aacute;rio romano.<\/p>\n<p>[9] &#8212; Esta fala de Herc&uacute;les teria sugerido o famoso mon&oacute;logo<br \/>\n    de Hamlet.<\/p>\n<p>[10] &#8212; Hor&aacute;cio inspirou-se nesta passagem de Eur&iacute;pedes<br \/>\n    ao escrever, em sua ode II, XIII: &#8220;Prometeu, e o pai de Pelops acham,<br \/>\n    nestas doces harmonias, o esquecimento tempor&aacute;rio de seus males; e<br \/>\n    o pr&oacute;prio Orion j&aacute; n&atilde;o pensa em perseguir o t&iacute;mido<br \/>\n    lince&#8221;.<\/p>\n<p>[11] &#8212; Afigura-se muito confusa esta afirma&ccedil;&atilde;o de Admeto.<\/p>\n<p>[12] &#8212; Supunha-se que esta passagem se referisse a P&eacute;rieles,<br \/>\n    mas os comentadores romanos provaram que tal n&atilde;o se poderia admitir,<br \/>\n    visto que P&eacute;rieles teve dois filhos, Xantipo e P&aacute;ralo. C&iacute;cero<br \/>\n    faz ver que se trata de Anax&aacute;goras que, j&aacute; idoso, ao receber<br \/>\n    a infausta not&iacute;cia da morte de seu filho &uacute;nico, respondeu: &#8220;Eu<br \/>\n    sabia que ele era mortal!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>[13] &#8212; Eis um dos pontos &aacute;rduos na interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Alceste. A palavra grega ?s?a???&oacute;? s&oacute; se poderia traduzir<br \/>\n    por psiquagogo, &#8220;aquele que dirige ou conduz as almas&#8221;, voc&aacute;bulo<br \/>\n    formado ad instar de pedagogo ou demagogo. A fala de H&eacute;rcules vem comprovar<br \/>\n    a antiguidade das pr&aacute;ticas que em todos os povos t&ecirc;m havido,<br \/>\n    com o fim de conseguir o reaparecimento, entre os vivos, das almas que j&aacute;<br \/>\n    deixaram a exist&ecirc;ncia terrena.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Personagens Fim Eur\u00edpedes TEM esta bela trag&eacute;dia de Eur&iacute;pedes, por principal objetivo, a exalta&ccedil;&atilde;o do amor conjugal que atinge o mais sublime hero&iacute;smo. 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