{"id":95566,"date":"2017-01-19T11:55:11","date_gmt":"2017-01-19T13:55:11","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95566"},"modified":"2017-01-19T11:55:11","modified_gmt":"2017-01-19T13:55:11","slug":"os-maias-livro-primeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-maias-livro-primeiro","title":{"rendered":"Os Maias &#8211; Livro Primeiro"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong> <span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo<br \/>\nIV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>E\u00e7a de Queiroz<\/h2>\n<h2><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I<\/a><\/h2>\n<p>A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida<br \/>\n    na visinhan&ccedil;a da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das<br \/>\n    Janellas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete. Apesar<br \/>\n    d&#8217;este fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casar&atilde;o<br \/>\n    de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro<br \/>\n    andar, e por cima uma timida fila de janellinhas abrigadas &agrave; beira<br \/>\n    do telhado, tinha o aspecto tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia<br \/>\n    a uma edifica&ccedil;&atilde;o do reinado da sr.&ordf; D. Maria I: com uma<br \/>\n    sineta e com uma cruz no topo assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas.<br \/>\n    O nome de Ramalhete provinha de certo d&#8217;um revestimento quadrado de azulejos<br \/>\n    fazendo painel no logar heraldico do Escudo d&#8217;Armas, que nunca chegara a ser<br \/>\n    collocado, e representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde<br \/>\n    se distinguiam letras e numeros d&#8217;uma data.<\/p>\n<p> Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d&#8217;aranha pelas<br \/>\n    grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em 1858 Monsenhor<br \/>\n    Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com id&eacute;a d&#8217;installar<br \/>\n    l&aacute; a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do edificio e pela<br \/>\n    paz dormente do bairro: e o interior do casar&atilde;o agradara-lhe tambem,<br \/>\n    com a sua disposi&ccedil;&atilde;o apala&ccedil;ada, os tectos apainelados,<br \/>\n    as paredes cobertas de frescos onde j&aacute; desmaiavam as rosas das grinaldas<br \/>\n    e as faces dos Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os seus habitos de rico prelado<br \/>\n    romano, necessitava na sua vivenda os arvoredos e as agoas d&#8217;um jardim de<br \/>\n    luxo: e o Ramalhete possuia apenas, ao fundo dum terra&ccedil;o de tijolo,<br \/>\n    um pobre quintal inculto, abandonado &aacute;s hervas bravas, com um cypreste,<br \/>\n    um cedro, uma cascatasinha secca, um tanque entulhado, e uma estatua de marmore<br \/>\n    (onde Monsenhor reconheceu logo Venus Cither&ecirc;a) ennegrecendo a um canto<br \/>\n    na lenta humidade das ramagens silvestres. Al&eacute;m d&#8217;isso, a renda que<br \/>\n    pedio o velho Villa&ccedil;a, procurador dos Maias, pareceu t&atilde;o exagerada<br \/>\n    a Monsenhor, que lhe perguntou sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos<br \/>\n    de Le&atilde;o X. Villa&ccedil;a respondeu &#8211; que tambem a nobreza n&atilde;o<br \/>\n    estava nos tempos do sr. D. Jo&atilde;o V. E o Ramalhete, continuou deshabitado.<br \/>\n    Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villa&ccedil;a Junior, agora por morte<br \/>\n    de seu pae administrador dos Maias) s&oacute; veio a servir, nos fins de 1870,<br \/>\n    para l&aacute; se arrecadarem as mobilias e as lou&ccedil;as provenientes<br \/>\n    do palacete de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de<br \/>\n    andar annos em pra&ccedil;a, f&ocirc;ra ent&atilde;o comprada por um commendador<br \/>\n    brazileiro. N&#8217;essa occasi&atilde;o vendera-se outra propriedade dos Maias,<br \/>\n    a Tojeira; e algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias,<br \/>\n    e sabiam que desde a Regenera&ccedil;&atilde;o elles viviam retirados na sua<br \/>\n    quinta de Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado a Villa&ccedil;a<br \/>\n    se essa gente estava atrapalhada.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda teem um peda&ccedil;o de p&atilde;o, disse Villa&ccedil;a sorrindo,<br \/>\n    e a manteiga para lhe barrar por cima. Os Maias eram uma antiga familia da<br \/>\n    Beira, sempre pouco numerosa, sem linhas collateraes, sem parentellas &#8211; e<br \/>\n    agora reduzida a dois var&otilde;es, o senhor da casa, Affonso da Maia, um<br \/>\n    velho j&aacute;, quasi um antepassado, mais edoso que o seculo, e seu neto<br \/>\n    Carlos que estudava medicina em Coimbra. Quando Affonso se retirara definitivamente<br \/>\n    para Santa Olavia, o rendimento da casa excedia j&aacute; cincoenta mil cruzados:<br \/>\n    mas desde ent&atilde;o tinham-se accumulado as economias de vinte annos de<br \/>\n    ald&ecirc;a; viera tambem a heran&ccedil;a d&#8217;um ultimo parente, Sebasti&atilde;o<br \/>\n    da Maia, que desde 1830 vivia em Napoles, s&oacute;, occupando-se de numismatica;<br \/>\n    &#8211; e o procurador podia certamente sorrir com seguran&ccedil;a quando fallava<br \/>\n    dos Maias e da sua fatia de p&atilde;o.<br \/>\n    A venda da Tojeira f&ocirc;ra realmente aconselhada por Villa&ccedil;a: mas<br \/>\n    nunca elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica &#8211; s&oacute; pela<br \/>\n    ras&atilde;o d&#8217;aquelles muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso,<br \/>\n    como dizia Villa&ccedil;a, acontecia a todos os muros. O resultado era que<br \/>\n    os Maias, com o Ramalhete inhabitavel, n&atilde;o possuiam agora uma casa<br \/>\n    em Lisboa; e se Affonso n&#8217;aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu<br \/>\n    neto, rapaz de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, n&atilde;o<br \/>\n    quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E com<br \/>\n    effeito, mezes antes de elle deixar Coimbra, Affonso assombrou Villa&ccedil;a<br \/>\n    annunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O procurador compoz<br \/>\n    logo um relatorio a enumerar os inconvenientes do casar&atilde;o: o maior<br \/>\n    era necessitar tantas obras e tantas despezas; depois, a falta d&#8217;um jardim<br \/>\n    devia ser muito sensivel a quem sahia dos arvoredos de Santa Olavia; e por<br \/>\n    fim alludia mesmo a uma lenda, segundo a qual eram sempre fataes aos Maias<br \/>\n    as paredes do Ramalhete, &laquo;ainda que (acrescentava elle n&#8217;uma phrase<br \/>\n    meditada) at&eacute; me envergonho de mencionar taes frioleiras n&#8217;este seculo<br \/>\n    de Voltaire, Guisot e outros philosophos liberaes &#8230; &raquo;<\/p>\n<p> Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas raz&otilde;es eram<br \/>\n    excellentes &#8211; mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente seus;<br \/>\n    se eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e emquanto a lendas<br \/>\n    e agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e deixar entrar o sol.<\/p>\n<p> S. ex.&ordf; mandava: &#8211; e, como esse inverno ia secco, as obras come&ccedil;aram<br \/>\n    logo, sob a direc&ccedil;&atilde;o d&#8217;um Esteves, architecto, politico, e compadre<br \/>\n    de Villa&ccedil;a. Este artista enthusiasm&aacute;ra o procurador com um projecto<br \/>\n    de escada apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as conquistas<br \/>\n    da Guin&eacute; e da India. E estava ideando tambem uma cascata de lou&ccedil;a<br \/>\n    na sala de jantar &#8211; quando, inesperadamente, Carlos appareceu em Lisboa com<br \/>\n    um architecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com elle &aacute;<br \/>\n    pressa algumas ornamenta&ccedil;&otilde;es e alguns tons de estofos, entregou-lhe<br \/>\n    as quatro paredes do Ramalhete, para elle ali crear, exercendo o seu gosto,<br \/>\n    um interior confortavel, de luxo intelligente e sobrio.<\/p>\n<p> Villa&ccedil;a resentiu amargamente esta desconsidera&ccedil;&atilde;o pelo<br \/>\n    artista nacional; Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um<br \/>\n    paiz perdido. E Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves,<br \/>\n    exigiu mesmo que o encarregassem da construc&ccedil;&atilde;o das cocheiras.<br \/>\n    O artista ia acceitar &#8211; quando foi nomeado governador civil.<\/p>\n<p> Ao fim d&#8217;um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa collaborar<br \/>\n    nos trabalhos, &laquo;dar os seus retoques estheticos&raquo; &#8211; do antigo Ramalhete<br \/>\n    s&oacute; restava a fachada tristonha, que Affonso n&atilde;o quizera alterada<br \/>\n    por constituir a phisionomia da casa. E Villa&ccedil;a n&atilde;o duvidou<br \/>\n    declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem despender despropositadamente,<br \/>\n    aproveitando at&eacute; as antigualhas de Bemfica, fizera do Ramalhete um<br \/>\n    museu.<\/p>\n<p> O que surprehendia logo era o pateo, outr&#8217;ora t&atilde;o lobrego, n&uacute;,<br \/>\n    lageado de pedregulho &#8211; agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado<br \/>\n    de marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e<br \/>\n    dois longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados em<br \/>\n    talha, solemnes como c&oacute;ros de cathedral. Em cima, na antecamara, revestida<br \/>\n    como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos morria: e ornavam-n&#8217;a<br \/>\n    divans cobertos de tapetes persas, largos pratos mouriscos com reflexos metalicos<br \/>\n    de cobre, uma harmonia de tons severos, onde destacava, na brancura immaculada<br \/>\n    do marmore, uma figura de rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter<br \/>\n    o p&eacute;sinho n&#8217;agoa. D&#8217;ahi partia um amplo corredor, ornado com as pe&ccedil;as<br \/>\n    ricas de Bemfica, arcas gothicas, jarr&otilde;es da India, e antigos quadros<br \/>\n    devotos. As melhores salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No sal&atilde;o<br \/>\n    nobre, raramente usado, todo em brocados de velludo c&ocirc;r de musgo d&#8217;outono,<br \/>\n    havia uma bella t&eacute;la de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a<br \/>\n    condessa de Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de ca&ccedil;adora<br \/>\n    ingleza, sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado,<br \/>\n    onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus moveis enramelhetados<br \/>\n    d&#8217;ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas tape&ccedil;arias de Gobelins,<br \/>\n    desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as paredes de pastores e d&#8217;arvoredos.<\/p>\n<p> Defronte era o bilhar, forrado d&#8217;um couro moderno trazido por Jones Bule,<br \/>\n    onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoa&ccedil;avam cegonhas<br \/>\n    prateadas. E, ao lado, achava-se o fumoir, a sala mais commoda do Ramalhete:<br \/>\n    as ottomanas tinham a f&ocirc;fa vastid&atilde;o de leitos; e o conchego quente,<br \/>\n    e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era alegrado pelas cores<br \/>\n    cantantes de velhas faien&ccedil;as hollandezas.<\/p>\n<p> Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de damascos<br \/>\n    vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de pau preto, as<br \/>\n    estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das encaderna&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    tudo tinha ali uma fei&ccedil;&atilde;o austera de paz estudiosa &#8211; real&ccedil;ada<br \/>\n    ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga reliquia da casa, um Christo<br \/>\n    na Cruz, destacando a sua nudez de athleta sobre um ceu de poente revolto<br \/>\n    e rubro. Ao lado do fog&atilde;o Carlos arranjara um canto para o av&ocirc;<br \/>\n    com um biombo japonez bordado a ouro, uma pelle d&#8217;urso branco, e uma veneravel<br \/>\n    cadeira de bra&ccedil;os, cuja tape&ccedil;aria mostrava ainda as armas dos<br \/>\n    Maias no desmaio da trama de s&ecirc;da.<\/p>\n<p> No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de farmlia, estavam<br \/>\n    os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n&#8217;um angulo da casa, com<br \/>\n    uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres gabinetes a seguir,<br \/>\n    sem portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos acolchoados, a s&ecirc;da<br \/>\n    que forrava as paredes, faziam dizer ao Villa&ccedil;a que aquillo n&atilde;o<br \/>\n    eram aposentos de medico &#8211; mas de dan&ccedil;arina!<br \/>\n    A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto Carlos, j&aacute; formado,<br \/>\n    fazia uma longa viagem pela Europa; &#8211; e foi s&oacute; nas vesperas da sua<br \/>\n    chegada, n&#8217;esse lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim a deixar<br \/>\n    Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco annos que<br \/>\n    elle n&atilde;o via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias, confessou ao<br \/>\n    Villa&ccedil;a que estava suspirando outra vez pelas suas sombras de Santa<br \/>\n    Olavia. Mas, que remedio! N&atilde;o queria viver muito separado do neto;<br \/>\n    e Carlos agora, com id&eacute;as s&eacute;rias de carreira activa, devia necessariamente<br \/>\n    habitar Lisboa&#8230; De resto, n&atilde;o desgostava do Ramalhete, apezar de<br \/>\n    Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter prodigalisado de<br \/>\n    mais as tape&ccedil;arias, os pesados reposteiros, e os velludos. Agradava-lhe<br \/>\n    tambem muito a visinhan&ccedil;a, aquela d&ocirc;ce quieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de suburbio adormecido ao sol. E gostava at&eacute; do seu quintalejo. N&atilde;o<br \/>\n    era de certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar sympathico, com os seus<br \/>\n    girasoes perfilados ao p&eacute; dos degraus do terra&ccedil;o, o cypreste<br \/>\n    e o cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Venus Cyther&ecirc;a<br \/>\n    parecendo agora, no seu tom claro de estatua de parque, ter chegado de Versalhes,<br \/>\n    do fundo do grande seculo&#8230; E desde que a agoa abundava, a cascatasinha era<br \/>\n    deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus tres pedregulhos arranjados<br \/>\n    em despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle fundo de quintal soalheiro<br \/>\n    com um pranto de nayade domestica, esfiado gota a gota na bacia de marmore.<\/p>\n<p> O que desconsolara Affonso, ao principio, f&ocirc;ra a vista do terra&ccedil;o<br \/>\n    &#8211; d&#8217;onde outr&#8217;ora, de certo, se abrangia at&eacute; ao mar. Mas as casas edificadas<br \/>\n    em redor, nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte explendido. Agora,<br \/>\n    uma estreita tira de agoa e monte que se avistava entre dois predios de cinco<br \/>\n    andares, separados por um c&oacute;rte de rua, formava toda a paizagem defronte<br \/>\n    do Ramalhete. E, todavia, Affonso terminou por lhe descobrir um encanto intimo.<br \/>\n    Era como uma t&eacute;la marinha, encaixilhada em cantarias brancas, suspensa<br \/>\n    do c&eacute;u azul em face do terra&ccedil;o, mostrando, nas variedades infinitas<br \/>\n    de c&ocirc;r e luz, os episodios fugitivos d&#8217;uma pacata vida de rio: &aacute;s<br \/>\n    vezes uma v&eacute;la de barco da Trafaria fugindo airosamente &aacute; bolina;<br \/>\n    outras vezes uma galera toda em panno, entrando n&#8217;um favor da aragem, vagarosa,<br \/>\n    no vermelho da tarde; ou ent&atilde;o a melancolia d&#8217;um grande paquete, descendo,<br \/>\n    fechado e preparado para a vaga, entrevisto um momento, desapparecendo logo,<br \/>\n    como j&aacute; devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no p&oacute;<br \/>\n    d&#8217;ouro das sestas silenciosas, o vulto negro de um coura&ccedil;ado inglez&#8230;<br \/>\n    E sempre ao fundo o peda&ccedil;o de monte verde-negro, com um moinho parado<br \/>\n    no alto, e duas casas brancas ao rez d&#8217;agoa, cheias de express&atilde;o &#8211;<br \/>\n    ora faiscantes e despedindo raios das vidra&ccedil;as accezas em braza; ora<br \/>\n    tomando aos fins de tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de<br \/>\n    poente, quasi similhantes a um rubor humano; e d&#8217;uma tristeza arripiada nos<br \/>\n    dias de chuva, t&atilde;o s&oacute;s, t&atilde;o brancas, como nuas, sob o<br \/>\n    tempo agreste.<\/p>\n<p> O terra&ccedil;o communicava por tres portas envidra&ccedil;adas com o escriptorio<br \/>\n    &#8211; e foi n&#8217;essa bella camara de prelado que Affonso se acostumou logo a passar<br \/>\n    os seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara ternamente,<br \/>\n    ao lado do fog&atilde;o. A sua longa residencia em Inglaterra dera-lhe o amor<br \/>\n    dos suaves vagares junto do lume. Em Santa Olavia as chamin&eacute;s ficavam<br \/>\n    accezas at&eacute; Abril; depois ornavam-se de bra&ccedil;adas de fl&ocirc;res,<br \/>\n    como um altar domestico; e era ainda ahi, n&#8217;esse aroma e n&#8217;essa frescura,<br \/>\n    que elle gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tacito, ou o seu querido Rabelais.<\/p>\n<p> Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho borralheiro.<br \/>\n    N&#8217;aquella edade, de ver&atilde;o ou de inverno, ao romper do sol, estava a<br \/>\n    p&eacute;, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa ora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da manh&atilde; que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor<br \/>\n    supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o homem<br \/>\n    &#8211; que sabor d&#8217;agoa, som d&#8217;agoa, e vista d&#8217;agoa. O que o prendera mais a Santa<br \/>\n    Olavia f&ocirc;ra a sua grande riqueza d&#8217;agoas vivas, nascentes, repuxos,<br \/>\n    tranquillo espelhar d&#8217;agoas paradas, fresco murmurio de agoas regantes&#8230;<br \/>\n    E a esta viva tonifica&ccedil;&atilde;o da agoa attribuia elle o ter vindo<br \/>\n    assim, desde o come&ccedil;o do seculo, sem uma d&ocirc;r e sem uma doen&ccedil;a,<br \/>\n    mantendo a rica tradi&ccedil;&atilde;o de saude da sua familia, duro, resistente<br \/>\n    aos desgostos e annos &#8211; que passavam por elle, t&atilde;o em v&atilde;o, como<br \/>\n    passavam em v&atilde;o, pelos seus robles de Santa Olavia, annos e vendavaes.<\/p>\n<p> Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros quadrados e fortes: e com<br \/>\n    a sua face larga de nariz aquilino, a pelle c&oacute;rada, quasi vermelha,<br \/>\n    o cabello branco todo cortado &aacute; escovinha, e a barba de neve aguda<br \/>\n    e longa &#8211; lembrava, como dizia Carlos, um var&atilde;o esfor&ccedil;ado das<br \/>\n    edades heroicas, um D. Duarte de Menezes ou um Affonso d&#8217;Albuquerque. E isto<br \/>\n    fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as apparencias<br \/>\n    illudem!<br \/>\n    N&atilde;o, n&atilde;o era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado<br \/>\n    bonacheir&atilde;o que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o<br \/>\n    seu whist ao canto do fog&atilde;o. Elle mesmo costumava dizer, que era simplesmente<br \/>\n    um egoista: &#8211; mas nunca, como agora na velhice, as generosidades do seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinham sido t&atilde;o profundas e largas. Parte do seu rendimento ia-se-lhe<br \/>\n    por entre os dedos, esparsamente, n&#8217;uma caridade enternecida. Cada vez amava<br \/>\n    mais o que &eacute; pobre e o que &eacute; fraco. Em Santa Olavia, as crean&ccedil;as<br \/>\n    corriam para elle, dos portaes, sentindo-o acariciador e paciente. Tudo o<br \/>\n    que vive lhe merecia amor: &#8211; e era dos que n&atilde;o pisam um formigueiro,<br \/>\n    e se compadece da s&ecirc;de d&#8217;uma planta.<\/p>\n<p> Villa&ccedil;a costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos<br \/>\n    patriarchas, quando o vinha encontrar ao canto da chamin&eacute;, na sua co&ccedil;ada<br \/>\n    quinzena de velludilho, sereno, risonho, com um livro na m&atilde;o, o seu<br \/>\n    velho gato aos p&eacute;s. Este pesado e enorme angor&aacute;, branco com<br \/>\n    malhas louras, era agora (desde a morte de Tobias, o soberbo c&atilde;o de<br \/>\n    S. Bernardo) o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olavia,<br \/>\n    e recebera ent&atilde;o o nome de Bonifacio: depois, ao chegar &aacute; edade<br \/>\n    do amor e da ca&ccedil;a fora-lhe dado o appellido mais cavalheiresco de D.<br \/>\n    Bonifacio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente<br \/>\n    no remanso das dignidades ecclesiasticas, e era o Reverendo Bonifacio&#8230;<\/p>\n<p>\n    Esta existencia nem sempre assim correra com a tranquillidade larga e clara<br \/>\n    d&#8217;um bello rio de ver&atilde;o. O antepassado, cujos olhos se enchiam agora<br \/>\n    d&#8217;uma luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume relia com<br \/>\n    gosto o seu Guisot, f&ocirc;ra, na opini&atilde;o de seu pae, algum tempo,<br \/>\n    o mais feroz Jacobino de Portugal! E todavia, o furor revolucionario do pobre<br \/>\n    mo&ccedil;o consistira em l&ecirc;r Rousseau, Volney, Helvetius, e a Encyclopedia;<br \/>\n    em atirar foguetes de lagrimas &aacute; Constitui&ccedil;&atilde;o; e ir,<br \/>\n    de chapeu &aacute; liberal e alta gravata azul, recitando pelas lojas ma&ccedil;onicas<br \/>\n    Odes abominaveis ao Supremo Architecto do Universo. Isto, por&eacute;m, bast&aacute;ra<br \/>\n    para indignar o pae. Caetano da Maia era um portuguez antigo e fiel que se<br \/>\n    benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apathia de fidalgo beato e doente,<br \/>\n    tinha s&oacute; um sentimento vivo &#8211; o horror, o odio ao Jacobino, aquem attribuia<br \/>\n    todos os males, os da patria e os seus, desde a perda das colonias at&eacute;<br \/>\n    &aacute;s crises da sua gota. Para extirpar da na&ccedil;&atilde;o o Jacobino,<br \/>\n    d&eacute;ra elle o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e Restaurador<br \/>\n    providencial&#8230; E ter justamente por filho um Jacobino, parecia-lhe uma prova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    comparavel s&oacute; &aacute;s de Job! <\/p>\n<p> Ao principio, na esperan&ccedil;a que o menino se emendasse, contentou-se<br \/>\n    em lhe mostrar um car&atilde;o severo e chamar-lhe com sarcasmo &#8211; cidad&atilde;o!<br \/>\n    Mas quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara &aacute; turba<br \/>\n    que, n&#8217;uma noite de festa civica e de luminarias, tinha apedrejado as vidra&ccedil;as<br \/>\n    apagadas do sr. Legado d&#8217;&Aacute;ustria, enviado da Santa Allian&ccedil;a<br \/>\n    &#8211; considerou o rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota cruel, cravando-o<br \/>\n    na poltrona, n&atilde;o lhe deixou espancar o ma&ccedil;&atilde;o, com a sua<br \/>\n    bengala da India, &aacute; lei de bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o<br \/>\n    de sua casa, sem mezada e sem ben&ccedil;&atilde;o, renegado como um bastardo!<br \/>\n    Que aquelle pedreiro livre n&atilde;o podia ser do seu sangue!<\/p>\n<p> As lagrimas da mam&atilde; amolleceram-n&#8217;o; sobretudo as raz&otilde;es d&#8217;uma<br \/>\n    cunhada de sua mulher, que vivia com elles em Bemfica, senhora irlandeza de<br \/>\n    alta instruc&ccedil;&atilde;o, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara<br \/>\n    inglez ao menino e o adorava como um b&eacute;b&eacute;. Caetano da Maia limitou-se<br \/>\n    a desterrar o filho para a quinta de Santa Olavia; mas n&atilde;o cessou de<br \/>\n    chorar no seio dos padres, que vinham a Bemfica, a desgra&ccedil;a da sua<br \/>\n    casa. E esses santos l&aacute; o consolavam, affirmando-lhe que Deus, o velho<br \/>\n    Deus d&#8217;Ourique, n&atilde;o permittiria j&aacute;mais que um Maia pactuasse<br \/>\n    com Belzebut e com a Revolu&ccedil;&atilde;o! E, &aacute; falta de Deus Padre,<br \/>\n    l&aacute; estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira da casa e madrinha do<br \/>\n    menino, para fazer o bom milagre.<br \/>\n    E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa Olavia<br \/>\n    um pouco contricto, enfastiado sobretudo d&#8217;aquella solid&atilde;o, onde os<br \/>\n    ch&aacute;s do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o ter&ccedil;o<br \/>\n    das primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a ben&ccedil;&atilde;o, e alguns mil<br \/>\n    cruzados, para ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de cabellos d&#8217;ouro<br \/>\n    de que lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas, accedeu<br \/>\n    a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercess&atilde;o<br \/>\n    de Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da Concei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seu confessor, declarou este milagre &#8211; n&atilde;o inferior ao de Carnaxide.<\/p>\n<p> Affonso partiu. Era na primavera &#8211; e a Inglaterra toda verde, os seus parques<br \/>\n    de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus nobres costumes,<br \/>\n    aquella ra&ccedil;a t&atilde;o s&eacute;ria e t&atilde;o forte &#8211; encantaram-n&#8217;o.<br \/>\n    Bem depressa esqueceu o seu odio aos sorumbaticos padres da Congrega&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    as horas ardentes passadas no caf&eacute; dos Romulares a recitar Mirabeau,<br \/>\n    e a Republica que quizera fundar, classica e voltarianna, com um triumvirato<br \/>\n    de Scipi&otilde;es e festas ao Ente Supremo. Durante os dias da Abrilada estava<br \/>\n    elle nas corridas d&#8217;Epsom, no alto d&#8217;uma sege de posta, com um grande nariz<br \/>\n    posti&ccedil;o, dando hurrahs medonhos &#8211; bem indifferente aos seus irm&atilde;os<br \/>\n    de Ma&ccedil;onaria, que a essas horas o sr. infante espica&ccedil;ava a chu&ccedil;o,<br \/>\n    pelas viellas do Bairro Alto, no seu rijo cavallo d&#8217;Alter.<\/p>\n<p> Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi ent&atilde;o<br \/>\n    que conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda morena,<br \/>\n    mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve um filho,<br \/>\n    desejou outros; e come&ccedil;ou logo, com bellas id&eacute;as de patriarcha<br \/>\n    mo&ccedil;o, a fazer obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor arvoredos,<br \/>\n    preparando tectos e sombras &aacute; descendencia amada que lhe encantaria<br \/>\n    a velhice.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o esquecia a Inglaterra: &#8211; e tornava-lh&#8217;a mais appetecida essa<br \/>\n    Lisboa miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca; essa<br \/>\n    rude conjura&ccedil;&atilde;o apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas<br \/>\n    e capellas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do lausperenne para o<br \/>\n    curro, e anciando tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava t&atilde;o<br \/>\n    bem os vicios e as paix&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do ser&atilde;o,<br \/>\n    entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua alma honesta. J&aacute; n&atilde;o exigia de certo, como em rapaz,<br \/>\n    uma Lisboa de Cat&otilde;es e de Mucios-Scevolas. J&aacute; admittia mesmo<br \/>\n    o esfor&ccedil;o d&#8217;uma nobreza para manter o seu privilegio historico; mas<br \/>\n    ent&atilde;o queria uma nobreza intelligente e digna, como a Aristocracia<br \/>\n    tory (que o seu amor pela Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a<br \/>\n    direc&ccedil;&atilde;o moral, formando os costumes e inspirando a litteratura,<br \/>\n    vivendo com fausto e fallando com gosto, exemplo de id&eacute;as altas e espelho<br \/>\n    de maneiras patricias&#8230; O que n&atilde;o tolerava era o mundo de Queluz,<br \/>\n    bestial e sordido.<\/p>\n<p> Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as c&ocirc;rtes<br \/>\n    geraes, a policia invadiu Bemfica, &laquo;a procurar papeis e almas escondidas.&raquo;<br \/>\n    Affonso da Maia, com o seu filho nos bra&ccedil;os e a mulher tremendo ao<br \/>\n    lado &#8211; viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas arrombadas<br \/>\n    pela coronha das escopetas, as m&atilde;os sujas do malsim rebuscando os colx&otilde;es<br \/>\n    do seu leito. O sr. juiz de f&oacute;ra n&atilde;o descobriu nada: acceitou<br \/>\n    mesmo na copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo &laquo;que os tempos<br \/>\n    iam bem duros&#8230;&raquo; Desde essa manh&atilde; as janellas do palacete conservaram-se<br \/>\n    cerradas; n&atilde;o se abriu mais o port&atilde;o nobre para sahir o coche<br \/>\n    da senhora; e d&#8217;ahi a semanas, com a mulher e com o filho, Affonso da Maia<br \/>\n    partia para Inglaterra e para o exilio.<br \/>\n    Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de Londres,<br \/>\n    junto a Richmond, ao fundo d&#8217;um parque, entre as suaves e calmas paisagens<br \/>\n    de Surrey.<br \/>\n    Os seus bens, gra&ccedil;as ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de<br \/>\n    D. Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, n&atilde;o<br \/>\n    tinham sido confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente.<\/p>\n<p> Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do Belfast, ainda<br \/>\n    o vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta n&atilde;o tardou a protestar<br \/>\n    vendo a separa&ccedil;&atilde;o de castas, de gerarchias, mantidas ali na<br \/>\n    terra estranha entre os vencidos da mesma id&eacute;a &#8211; os fidalgos e os desembargadores<br \/>\n    vivendo no luxo de Londres &aacute; forra, e a plebe, o exercito, depois dos<br \/>\n    padecimentos da Galliza, succumbindo agora &aacute; fome, &aacute; vermina,<br \/>\n    &aacute; febre nos barrac&otilde;es de Plymouth. Teve logo conflictos com<br \/>\n    os chefes liberaes; foi accusado de vintista e demagogo; descreu por fim do<br \/>\n    liberalismo. Isolou-se ent&atilde;o &#8211; sem fechar todavia a sua bolsa, d&#8217;onde<br \/>\n    sahiam &aacute;s cincoenta, &aacute;s cem moedas&#8230; Mas quando a primeira<br \/>\n    expedi&ccedil;&atilde;o partiu, e pouco a pouco se foram vasando os depositos<br \/>\n    de emigrados, respirou emfim &#8211; e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube<br \/>\n    bem o ar d&#8217;Inglaterra!<\/p>\n<p> Mezes depois sua m&atilde;e, que ficara em Bemfica, morria d&#8217;uma apoplexia:<br \/>\n    e a tia Fanny veiu para Richmond completar a felicidade d&#8217;Affonso, com o seu<br \/>\n    claro juizo, os seus carac&oacute;es brancos, os seus modos de discreta Minerva.<br \/>\n    Alli estava elle pois no seu sonho, numa digna resid&ecirc;ncia ingleza, entre<br \/>\n    arvores seculares, vendo em redor nas vastas relvas dormirem ou pastarem os<br \/>\n    gados de luxo, e sentindo em torno de si tudo s&atilde;o, forte, livre e solido,<br \/>\n    &#8211; como o amava o seu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Teve rela&ccedil;&otilde;es; estudou a nobre e rica litteratura ingleza; interessou-se,<br \/>\n    como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura, pela cria dos cavallos,<br \/>\n    pela pratica da caridade; &#8211; e pensava com prazer em ficar ali para sempre<br \/>\n    n&#8217;aquella paz e n&#8217;aquella ordem.<\/p>\n<p> S&oacute;mente Affonso sentia que sua mulher n&atilde;o era feliz. Pensativa<br \/>\n    e triste, tossia sempre pelas salas. &Aacute; noite sentava-se ao fog&atilde;o,<br \/>\n    suspirava e ficava calada&#8230;<br \/>\n    Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a minando.<br \/>\n    Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e sorrindo pallidamente,<br \/>\n    tinha vivido desde que chegara n&#8217;um odio surdo &aacute;quella terra d&#8217;herejes<br \/>\n    e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada, abafada em pelles, olhando com<br \/>\n    pavor os ceus fuscos ou a neve nas arvores, o seu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa, nos adros, nos bairros batidos<br \/>\n    do sol. A sua devo&ccedil;&atilde;o (a devo&ccedil;&atilde;o dos Runas!) sempre<br \/>\n    grande, exaltara-se, exacerbara-se &aacute;quella hostilidade ambiente que<br \/>\n    ella sentia em redor contra os &laquo;papistas&raquo;. E s&oacute; se satisfazia<br \/>\n    &aacute; noite, indo refugiar-se no sot&atilde;o com as creadas portuguezas,<br \/>\n    para resar o ter&ccedil;o agachada n&#8217;uma esteira &#8211; gosando ali, n&#8217;esse murmurio<br \/>\n    d&#8217;ave-marias em paiz protestante, o encanto de uma conjura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    catholica!<br \/>\n    Odiando tudo o que era inglez, n&atilde;o consentira que seu filho, o Pedrinho,<br \/>\n    fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que era<br \/>\n    um collegio catholico! N&atilde;o queria: aquelle catholicismo sem romarias,<br \/>\n    sem fogueiras pelo S. Jo&atilde;o, sem imagens do Senhor dos Passos, sem frades<br \/>\n    nas ruas &#8211; n&atilde;o lhe parecia a religi&atilde;o. A alma do seu Pedrinho<br \/>\n    n&atilde;o abandonaria ella &aacute; heresia; &#8211; e para o educar mandou vir<br \/>\n    de Lisboa o padre Vasques, capell&atilde;o do Conde de Runa.<br \/>\n    O Vasques ensinava-lhe as declina&ccedil;&otilde;es latinas, sobretudo a cartilha:<br \/>\n    e a face d&#8217;Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d&#8217;alguma<br \/>\n    ca&ccedil;ada ou das ruas de Londres, d&#8217;entre o forte rumor da vida livre<br \/>\n    &#8211; ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo, perguntando como<br \/>\n    do fundo d&#8217;uma treva:<br \/>\n    &#8211; Quantos s&atilde;o os inimigos da alma?<br \/>\n    E o pequeno, mais dormente, l&aacute; ia murmurando:<br \/>\n    -Tres. Mundo, Diabo e Carne&#8230;<br \/>\n    Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma s&oacute; havia alli o reverendo Vasques,<br \/>\n    obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o len&ccedil;o do<br \/>\n    rap&eacute; sobre o joelho&#8230;<br \/>\n    &Aacute;s vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina,<br \/>\n    agarrava a m&atilde;o do Pedrinho &#8211; para o levar, correr com elle sob as arvores<br \/>\n    do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da cartilha.<br \/>\n    Mas a mam&atilde; accudia de dentro, em terror, a abafal-o n&#8217;uma grande manta:<br \/>\n    depois l&aacute; f&oacute;ra o menino, acostumado ao collo das creadas e aos<br \/>\n    recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e pouco a pouco, n&#8217;um<br \/>\n    passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as folhas seccas &#8211; o filho<br \/>\n    todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae vergando os hombros pensativo,<br \/>\n    triste d&#8217;aquella fraqueza do filho&#8230;<br \/>\n    Mas o menor esfor&ccedil;o d&#8217;elle para arrancar o rapaz &aacute;quelles bra&ccedil;os<br \/>\n    de m&atilde;e que o amolleciam, &aacute;quella cartilha mortal do padre Vasques<br \/>\n    &#8211; trazia logo &aacute; delicada senhora accessos de febre. E Affonso n&atilde;o<br \/>\n    se atrevia j&aacute; a contrariar a pobre doente, t&atilde;o virtuosa, e que<br \/>\n    o amava tanto! Ia ent&atilde;o lamentar-se para o p&eacute; da tia Fanny:<br \/>\n    a sabia irlandeza mettia os oculos entre as folhas do seu livro, tratado d&#8217;Addisson<br \/>\n    ou poema de Pope, e encolhia melancolicamente os hombros. Que podia ella fazer!&#8230;<br \/>\n    Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando &#8211; como a tristeza das suas<br \/>\n    palavras. J&aacute; fallava da &laquo;sua ambi&ccedil;&atilde;o derradeira&raquo;,<br \/>\n    que era ver o sol uma vez mais! Por que n&atilde;o voltariam a Bemfica, ao<br \/>\n    seu lar, agora que o sr. Infante estava tambem desterrado e que havia uma<br \/>\n    grande paz? Mas a isso Affonso n&atilde;o cedeu: n&atilde;o queria ver outra<br \/>\n    vez as suas gavetas arrombadas a coronhadas &#8211; e os soldados do sr. D. Pedro<br \/>\n    n&atilde;o lhe davam mais garantias que os malsins do sr. D. Miguel.<br \/>\n    Por esse tempo veio um grave desgosto &aacute; casa: a tia Fanny morreu, d&#8217;uma<br \/>\n    pneumonia, nos frios de mar&ccedil;o; e isto ennegreceu mais a melancolia<br \/>\n    de Maria Eduarda, que a amava muito tambem &#8211; por ser irlandeza e catholica.<br \/>\n    Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para uma deliciosa villa<br \/>\n    ao p&eacute; de Roma. Ahi n&atilde;o lhe faltava o sol: tinha-o ponctual e<br \/>\n    generoso todas as manh&atilde;s, banhando largamente os terra&ccedil;os, dourando<br \/>\n    loureiraes e myrtos. E depois, l&aacute; em baixo, entre marmores, estava<br \/>\n    a coisa preciosa e santa, o Papa!<br \/>\n    Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente appetecia era<br \/>\n    Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as prociss&otilde;es<br \/>\n    passando n&#8217;um rumor de pachorrenta penitencia por tardes de sol e de poeira&#8230;<br \/>\n    Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica.<br \/>\n    Ahi come&ccedil;ou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente,<br \/>\n    todos os dias mais pallida, levando semanas immovel sobre um canap&eacute;,<br \/>\n    com as m&atilde;os transparentes cruzadas sobre as suas grossas pelles d&#8217;lnglaterra.<br \/>\n    O padre Vasques, apoderando-se d&#8217;aquella alma aterrada para quem Deus era<br \/>\n    um amo feroz, torn&aacute;ra-se o grande homem da casa. De resto Affonso encontrava<br \/>\n    a cada momento pelos corredores outras figuras canonicas, de capote e solideo,<br \/>\n    em que reconhecia antigos franciscanos, ou algum magro capuchinho parasitando<br \/>\n    no bairro; a casa tinha um bafio de sachristia; e dos quartos da senhora vinha<br \/>\n    constantemente, dolente e vago, um rumor de ladainha.<br \/>\n    Todos aquelles santos var&otilde;es comiam, bebiam o seu vinho do Porto na<br \/>\n    copa. As contas do administrador appareciam sobrecarregadas com as mesadas<br \/>\n    piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripi&aacute;ra-lhe duzentas<br \/>\n    missas de cruzado por alma do Sr. D. Jos&eacute; I&#8230;<br \/>\n    Esta carolice que o cercava ia lan&ccedil;ando Affonso n&#8217;um atheismo rancoroso:<br \/>\n    quereria as egrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a machado,<br \/>\n    uma matan&ccedil;a de reverendos&#8230; Quando sentia na casa a voz de resas,<br \/>\n    fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante, ler o seu<br \/>\n    Voltaire: ou ent&atilde;o partia a desabafar com o seu velho amigo, o coronel<br \/>\n    Sequeira, que vivia n&#8217;uma quinta a Queluz.<br \/>\n    O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso como<br \/>\n    Maria Eduarda, tendo pouco da ra&ccedil;a, da for&ccedil;a dos Maias; a sua<br \/>\n    linda face oval d&#8217;um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e irresistiveis,<br \/>\n    promptos sempre a humedecer-se, faziam-n&#8217;o assemelhar a um bello arabe. Desenvolvera-se<br \/>\n    lentamente, sem curiosidades, indifferente a brinquedos, a animaes, a flores,<br \/>\n    a livros. Nenhum desejo forte parecera j&aacute;mais vibrar n&#8217;aquella alma<br \/>\n    meia adormecida e passiva: s&oacute; &aacute;s vezes dizia que gostaria muito<br \/>\n    de voltar para a Italia. Tom&aacute;ra birra ao Padre Vasques, mas n&atilde;o<br \/>\n    ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um fraco; e esse abatimento continuo de<br \/>\n    todo o seu ser resolvia-se a espa&ccedil;os em crises de melancolia negra,<br \/>\n    que o traziam dias e dias mudo, murcho, amarello, com as olheiras fundas e<br \/>\n    j&aacute; velho. O seu unico sentimento vivo, intenso, at&eacute; ahi, f&ocirc;ra<br \/>\n    a paix&atilde;o pela m&atilde;e.<br \/>\n    Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, &aacute; id&eacute;a de se separar<br \/>\n    do seu Pedro, a pobre senhora cahira de joelhos deante d&#8217;Affonso, balbuciando<br \/>\n    e tremendo: e elle, naturalmente, l&aacute; cedeu perante essas m&atilde;os<br \/>\n    supplicantes, essas lagrimas que cahiam quatro a quatro pela pobre face de<br \/>\n    cera. O menino continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios a cavallo,<br \/>\n    de creado de farda atraz, come&ccedil;ando j&aacute; a ir beber a sua genebra<br \/>\n    aos botequins de Lisboa&#8230; Depois foi despontando n&#8217;aquella organisa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    uma grande tendencia amorosa: aos dezenove annos teve o seu bastardosinho.<br \/>\n    Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de t&atilde;o desgra&ccedil;ados<br \/>\n    mimos, n&atilde;o faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, s&atilde;o,<br \/>\n    e, como todos os Maias, valente: n&atilde;o havia muito que elle s&oacute;,<br \/>\n    com um chicote, dispersara na estrada tres saloios de varapau que lhe tinham<br \/>\n    chamado palmito.<br \/>\n    Quando a m&atilde;e morreu, n&#8217;uma agonia terrivel de devota, debatendo-se<br \/>\n    dias nos pavores do inferno, Pedro teve na sua d&ocirc;r os arrebatamentos<br \/>\n    d&#8217;uma loucura. Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse, de dormir durante<br \/>\n    um anno sobre as lageas do pateo: e levado o caix&atilde;o, sahidos os padres,<br \/>\n    cahio n&#8217;uma angustia soturna, obtusa, sem lagrimas, de que n&atilde;o queria<br \/>\n    emergir, estirado de bru&ccedil;os sobre a cama n&#8217;uma obstina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de penitente. Muitos mezes ainda n&atilde;o o deixou uma tristeza vaga: e<br \/>\n    Affonso da Maia j&aacute; se desesperava de ver aquelle rapaz, seu filho e<br \/>\n    seu herdeiro, sahir todos os dias a passos de monge, lugubre no seu luto pesado,<br \/>\n    para ir visitar a sepultura da mam&atilde;&#8230;<br \/>\n    Esta d&ocirc;r exagerada e morbida cessou por fim; e succedeu-lhe, quasi sem<br \/>\n    transi&ccedil;&atilde;o, um periodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice<br \/>\n    banal, em que Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava affogar em<br \/>\n    lupanares e botequins as saudades da mam&atilde;. Mas essa exhuberancia anciosa<br \/>\n    que se desencadeara t&atilde;o subitamente, t&atilde;o tumultuosamente, na<br \/>\n    sua natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem.<br \/>\n    Ao fim d&#8217;um anno de disturbios no Marrare, de fa&ccedil;anhas nas esperas<br \/>\n    de toiros, de cavallos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, come&ccedil;aram<br \/>\n    a reapparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias<br \/>\n    taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas salas,<br \/>\n    ou sob alguma arvore da quinta todo estirado de bru&ccedil;os, como despenhado<br \/>\n    n&#8217;um fundo de amargura. N&#8217;esses periodos tornava-se tambem devoto: lia Vidas<br \/>\n    de Santos, visitava o Lausperenne: eram d&#8217;esses bruscos abatimentos d&#8217;alma<br \/>\n    que outr&#8217;ora levavam os fracos aos mosteiros.<br \/>\n    Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber que elle recolhera de Lisboa,<br \/>\n    de madrugada, exhausto e bebedo, &#8211; do que vel-o, de ripan&ccedil;o debaixo<br \/>\n    do bra&ccedil;o, com um ar velho, marchando para a Egreja de Bemfica.<br \/>\n    E havia agora uma id&eacute;a que, a seu pesar, &aacute;s vezes o torturava:<br \/>\n    descobrira a grande parecen&ccedil;a de Pedro com um av&ocirc; de sua mulher,<br \/>\n    um Runa, de quem existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario,<br \/>\n    com que na casa se mettia medo &aacute;s crean&ccedil;as,enlouquecera &#8211; e<br \/>\n    julgando-se Judas enforcara-se n&#8217;uma figueira&#8230;<br \/>\n    Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um amor &aacute;<br \/>\n    Romeu, vindo de repente n&#8217;uma troca de olhares fatal e deslumbradora, uma<br \/>\n    d&#8217;essas paix&otilde;es que assaltam uma existencia, a assolam como um furac&atilde;o,<br \/>\n    arrancando a vontade, a ras&atilde;o, os respeitos humanos e empurrando-os<br \/>\n    de rold&atilde;o aos abysmos.<br \/>\n    N&#8217;uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, &aacute; porta de Mme.<br \/>\n    Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chap&eacute;o branco,<br \/>\n    e uma senhora loira, embrulhada num chale de Cashmira. <br \/>\n    O velho, baixote e refor&ccedil;ado, de barba muito grisalha talhada por baixo<br \/>\n    do queixo, uma face tisnada d&#8217;antigo embarcadi&ccedil;o e o ar g&ocirc;che,<br \/>\n    desceu todo encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou<br \/>\n    arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a cabe&ccedil;a<br \/>\n    olhou um momento o Marrare.<br \/>\n    Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d&#8217;um oiro<br \/>\n    fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos maravilhosos<br \/>\n    illuminavam-n&#8217;a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a carna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de marmore: e com o seu perfil grave de estatua, o modelado nobre dos hombros<br \/>\n    e dos bra&ccedil;os que o chale cingia &#8211; pareceu a Pedro n&#8217;eses instantes<br \/>\n    alguma cousa d&#8217;immortal e superior &aacute; terra.<br \/>\n    N&atilde;o a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido<br \/>\n    de negro, que fumava encostado &aacute; outra hombreira, n&#8217;uma pose de tedio<br \/>\n    &#8211; vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado com que<br \/>\n    seguia a caleche trotando Chiado acima, veiu tomar-lhe o bra&ccedil;o, murmurou-lhe<br \/>\n    junto &aacute; face, na sua voz grossa e lenta:<br \/>\n    &#8211; Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e os<br \/>\n    feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso Alencar,<br \/>\n    uma garrafa de Champagne?<br \/>\n    Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos anneis<br \/>\n    da cabelleira e pelas pontas do bigode, come&ccedil;ou, todo recostado e dando<br \/>\n    um puch&atilde;o aos punhos:<br \/>\n    &#8211; Por uma dourada tarde d&#8217;outomno&#8230;<br \/>\n    &#8211; Andr&eacute;, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira<br \/>\n    o Champagne!<br \/>\n    O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio: <br \/>\n    &#8211; O qu&ecirc;! Sem saciar a avidez de meu labio?&#8230;<br \/>\n    Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o poeta<br \/>\n    das Vozes d&#8217;Aurora, explicaria aquella gente da caleche azul n&#8217;uma linguagem<br \/>\n    christ&atilde; e pratica!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ahi vae, meu Pedro, ahi vae!<br \/>\n    Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mam&atilde;, aquelle velho,<br \/>\n    o pap&aacute; Monforte, uma manh&atilde; rompera subitamente pelas ruas e<br \/>\n    pela sociedade de Lisboa n&#8217;aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu<br \/>\n    lado. Ninguem os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no palacete<br \/>\n    dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer em S. Carlos, fazendo uma<br \/>\n    impress&atilde;o &#8211; uma impress&atilde;o de causar aneurismas, dizia o Alencar!<br \/>\n    Quando ella atravessava o sal&atilde;o os hombros vergavam-se no deslumbramento<br \/>\n    de aur&eacute;ola que vinha d&#8217;aquella magnifica creatura, arrastando com um<br \/>\n    passo de Deusa a sua cauda de c&ocirc;rte, sempre decotada como em noites<br \/>\n    de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. O pap&aacute; nunca<br \/>\n    lhe dava o bra&ccedil;o: seguia atraz, entalado n&#8217;uma grande gravata branca<br \/>\n    de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadi&ccedil;o na claridade<br \/>\n    loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado, trazendo nas m&atilde;os<br \/>\n    o oculo, o libretto, um saco de bonbons, o leque e o seu proprio guardachuva.<br \/>\n    Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre o seu collo eburneo e as suas<br \/>\n    tran&ccedil;as de oiro, que ella offerecia verdadeiramente a encarna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    d&#8217;um ideal da Renascen&ccedil;a, um modelo de Ticiano&#8230; Elle, Alencar, na<br \/>\n    primeira noite em que a vira, exclamara, mostrando-a a ella e &aacute;s outras,<br \/>\n    &aacute;s trigueirotas da assignatura:<br \/>\n    &#8211; Rapazes! &eacute; como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo<br \/>\n    do Sr. D. Jo&atilde;o VI!<br \/>\n    O Magalh&atilde;es, esse torpe pirata, pozera o dito n&#8217;um folhetim do Portuguez.<br \/>\n    Mas o dito era d&#8217;elle, Alencar!<br \/>\n    Os rapazes, naturalmente, come&ccedil;aram logo a rondar o palacete de Arroios.<br \/>\n    Mas nunca n&#8217;aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados disseram<br \/>\n    apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava Manoel. Emfim<br \/>\n    uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem era taciturno,<br \/>\n    tremia deante da filha, e dormia n&#8217;uma r&ecirc;de; a senhora, essa, vivia<br \/>\n    n&#8217;um ninho de sedas todo azul-ferr&ecirc;te, e passava o seu dia a ler novellas.<br \/>\n    Isto n&atilde;o podia satisfazer a soffreguid&atilde;o de Lisboa. Fez-se uma<br \/>\n    devassa methodica, habil, paciente&#8230; Elle, Alencar, pertencera &aacute; devassa.<br \/>\n    E souberam-se horrores. O pap&aacute; Monforte era dos A&ccedil;ores: muito<br \/>\n    mo&ccedil;o, uma facada n&#8217;uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n&#8217;o for&ccedil;ado<br \/>\n    a fugir a bordo d&#8217;um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador<br \/>\n    da casa de Taveira, que o conhecera nos A&ccedil;ores, estando na Havana a<br \/>\n    estudar a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas encontr&aacute;ra<br \/>\n    l&aacute; o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando pelo<br \/>\n    caes, de chinellas de esparto, &aacute; procura de embarque para a Nova-Orleans.<br \/>\n    Aqui havia uma treva na historia do Monforte. Parece que servira algum tempo<br \/>\n    de feitor n&#8217;uma planta&ccedil;&atilde;o da Virginia&#8230; Emfim, quando reappareceu<br \/>\n    &aacute; face dos c&eacute;os commandava o brigue Nova Linda, e levava cargas<br \/>\n    de pretos para o Brazil, para a Havana e para a Nova Orleans.<br \/>\n    Escapara aos cruzeiros inglezes, arranc&aacute;ra uma fortuna da pelle do<br \/>\n    africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a S.<br \/>\n    Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar, obscura e mal<br \/>\n    provada, claudicava aqui e al&eacute;m&#8230;<br \/>\n    &#8211; E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido.<br \/>\n    Mas isso n&atilde;o o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim t&atilde;o<br \/>\n    loira e bella? Quem f&ocirc;ra a mam&atilde;? Onde estava? Quem a ensinara<br \/>\n    a embrulhar-se com aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Isso, meu Pedro, s&atilde;o<\/p>\n<p>mysterios que j&aacute;mais poude Lisboa<br \/>\n    astuta devassar e s&oacute; Deus sabe!<\/p>\n<p>Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquella legenda de sangue e negros,<br \/>\n    o enthusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue de assassino,<br \/>\n    a belt&agrave; do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras, deliciando-se<br \/>\n    em villipendiar uma mulher t&atilde;o loira, t&atilde;o linda e com tantas<br \/>\n    joias, chamaram-lhe logo a negreira! Quando ella apparecia agora no theatro,<br \/>\n    D. Maria da Gama affectava esconder a face detraz do leque, porque lhe parecia<br \/>\n    ver na rapariga (sobretudo quando ella usava os seus bellos rubis) o sangue<br \/>\n    das facadas que dera o pap&aacute;zinho! E tinham-n&#8217;a calumniado abominavelmente.<br \/>\n    Assim, depois de passarem em Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes sumiram-se:<br \/>\n    pois disse-se logo, com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia<br \/>\n    o velho, mil perversidades&#8230; O excellente Monforte, que soffre de rheumatismos<br \/>\n    articulares, achava-se tranquillamente, ricamente, tomando as aguas dos Piryneus&#8230;<br \/>\n    Fora l&aacute; que o Mello os conhecera&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ah! o Mello conhece-os? exclamou Pedro.<br \/>\n    &#8211; Sim, meu Pedro, o Mello os conhece.<br \/>\n    Pedro d&#8217;ahi a um momento deixou o Marrare; e n&#8217;essa noite, antes de recolher,<br \/>\n    apesar da chuva fria e miuda, andou rondando uma hora, com a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    toda accesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois, d&#8217;ahi a duas semanas<br \/>\n    o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro acto do Barbeiro, ficou<br \/>\n    assombrado ao ver Pedro da Maia installado na frisa da Monforte, &aacute;<br \/>\n    frente, ao lado de Maria, com uma camelia escarlate na casaca &#8211; egual &aacute;s<br \/>\n    d&#8217;um ramo pousado no rebordo de velludo.<br \/>\n    Nunca Maria Monforte apparecera mais bella: tinha uma d&#8217;essas toilettes excessivas<br \/>\n    e theatraes que offendiam Lisboa, e faziam dizer &aacute;s senhoras que ella<br \/>\n    se vestia &laquo;como uma comica&raquo;. Estava de seda c&ocirc;r de trigo,<br \/>\n    com duas rosas amarellas e uma espiga nas tran&ccedil;as, opalas sobre o collo<br \/>\n    e nos bra&ccedil;os; e estes tons de ceara madura batida do sol, fundindo-se<br \/>\n    com o ouro dos cabellos, illuminando-lhe a carna&ccedil;&atilde;o eburnea,<br \/>\n    banhando as suas f&oacute;rmas de estatua, davam-lhe o esplendor d&#8217;uma Ceres.<br \/>\n    Ao fundo entreviam-se os grandes bigodes loiros do Mello, que conversava de<br \/>\n    p&eacute; com o pap&aacute; Monforte &#8211; escondido como sempre no canto negro<br \/>\n    da frisa.<br \/>\n    O Alencar foi observar &laquo;o caso&raquo; do camarote dos Gamas. Pedro volt&aacute;ra<br \/>\n    &aacute; sua cadeira, e de bra&ccedil;os cruzados contemplava Maria. Ella<br \/>\n    conservou algum tempo a sua attitude de Deusa insensivel; mas, depois, no<br \/>\n    duetto de Rosina e Lindor, duas vezes os seus olhos azues e profundos se fixaram<br \/>\n    n&#8217;elle, gravemente e muito tempo. O Alencar, correu ao Marrare, de bra&ccedil;os<br \/>\n    ao ar, a berrar a novidade.<br \/>\n    N&atilde;o tardou de resto a fallar-se em toda a Lisboa da paix&atilde;o de<br \/>\n    Pedro da Maia pela negreira. Elle tambem namorou-a publicamente, &aacute;<br \/>\n    antiga, plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos<br \/>\n    cravados na janella d&#8217;ella, immovel e pallido d&#8217;extasi.<br \/>\n    Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel &#8211; poemas desordenados<br \/>\n    que ia comp&ocirc;r para o Marrare: e ninguem l&aacute; ignorava o destino<br \/>\n    d&#8217;aquellas paginas de linhas encruzadas que se accumulavam deante d&#8217;elle sobre<br \/>\n    o taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha &aacute; porta do caf&eacute;<br \/>\n    perguntar por Pedro da Maia, os criados j&aacute; respondiam muito naturalmente:<br \/>\n    &#8211; O sr. D. Pedro? Est&aacute; a escrever &aacute; menina.<br \/>\n    E elle mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a m&atilde;o, exclamava<br \/>\n    radiante, com o seu bello e franco sorriso:<br \/>\n    &#8211; Espera ahi um bocado, rapaz, estou a escrever &aacute; Maria!<br \/>\n    Os velhos amigos de Affonso da Maia que vinham fazer o seu whist a Bemfica,<br \/>\n    sobretudo o Villa&ccedil;a, o administrador dos Maias, muito zeloso da dignidade<br \/>\n    da casa, n&atilde;o tardaram em lhe trazer a nova d&#8217;aquelles amores do Pedrinho.<br \/>\n    Affonso j&aacute; os suspeitava: via todos os dias um criado da quinta partir<br \/>\n    com um grande ramo das melhores camelias do jardim; todas as manh&atilde;s<br \/>\n    cedo encontrava no corredor o escudeiro, dirigindo-se ao quarto do menino,<br \/>\n    a cheirar regaladamente o perfume d&#8217;um enveloppe com sinete de lacre dourado;<br \/>\n    &#8211; e n&atilde;o lhe desagradava que um sentimento qualquer, humano e forte,<br \/>\n    lhe fosse arrancando o filho &aacute; estroinice bulhenta, ao jogo, &aacute;s<br \/>\n    melancolias sem ras&atilde;o em que reapparecia o negro ripan&ccedil;o&#8230;<br \/>\n    Mas ignorava o nome, a existencia sequer dos Monfortes; e as particularidades<br \/>\n    que os amigos lhe revelaram, aquella facada nos A&ccedil;ores, o chicote de<br \/>\n    feitor na Virginia, o brigue Nova Linda, toda a sinistra legenda do velho<br \/>\n    contrariou muito Affonso da Maia.<br \/>\n    Uma noite que o coronel Sequeira, &aacute; mesa do whist, contava que vira<br \/>\n    Maria Monforte e Pedro passeando a cavallo, &laquo;ambos muito bem e muito<br \/>\n    distingu&eacute;s&raquo;, Affonso, depois d&#8217;um silencio, disse com um ar enfastiado:<br \/>\n    &#8211; Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes&#8230; Os costumes s&atilde;o assim,<br \/>\n    a vida &eacute; assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa<br \/>\n    mulher, com um pae d&#8217;esses, mesmo para amante acho m&aacute;.<br \/>\n    O Villa&ccedil;a suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d&#8217;ouro<br \/>\n    exclamou com espanto:<br \/>\n    &#8211; Amante! Mas a rapariga &eacute; solteira, meu senhor, &eacute; uma menina<br \/>\n    honesta!&#8230;<br \/>\n    Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as m&atilde;os come&ccedil;aram a tremer-lhe;<br \/>\n    e voltando-se para o administrador, n&#8217;uma voz que tremia um pouco tambem:<br \/>\n    &#8211; O Villa&ccedil;a de certo n&atilde;o supp&otilde;e que meu filho queira<br \/>\n    casar com essa creatura&#8230;<br \/>\n    O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou:<br \/>\n    -Isso n&atilde;o, est&aacute; claro que n&atilde;o&#8230;<br \/>\n    E o jogo continuou algum tempo em silencio.<br \/>\n    Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas que<br \/>\n    Pedro n&atilde;o jantava em Bemfica. De manh&atilde;, se o via, era um momento,<br \/>\n    quando elle descia ao almo&ccedil;o, j&aacute; com uma luva cal&ccedil;ada,<br \/>\n    apressado e radiante, gritando para dentro se estava sellado o cavallo; depois,<br \/>\n    mesmo de p&eacute;, bebia um gole de ch&aacute;, perguntava a correr &laquo;se<br \/>\n    o pap&aacute; queria alguma cousa&raquo;, dava um geito ao bigode deante do<br \/>\n    grande espelho de Veneza sobre o fog&atilde;o, e l&aacute; partia, enlevado.<br \/>\n    Outras vezes todo o dia n&atilde;o sahia do quarto: a tarde descia, accendiam-se<br \/>\n    as luzes; at&eacute; que o pae, inquieto, subia, ia encontral-o estirado sobre<br \/>\n    o leito, com a cabe&ccedil;a enterrada nos bra&ccedil;os.<br \/>\n    &#8211; Que tens tu? &#8211; perguntava-lhe.<br \/>\n    &#8211; Enchaqueca, &#8211; respondia n&#8217;um tom surdo e rouco.<br \/>\n    E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde alguma<br \/>\n    carta que n&atilde;o viera, ou talvez uma rosa offerecida que n&atilde;o f&ocirc;ra<br \/>\n    posta nos cabellos&#8230;<br \/>\n    Depois, por vezes, entre dois robbers ou conversando em volta da bandeja do<br \/>\n    ch&aacute;, os seus amigos tinham observa&ccedil;&otilde;es que o inquietavam,<br \/>\n    partindo d&#8217;aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os rumores<br \/>\n    &#8211; emquanto elle passava alli, inverno e ver&atilde;o, entre os seus livros<br \/>\n    e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava porque n&atilde;o<br \/>\n    faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, &aacute; Allemanha, ao Oriente?<br \/>\n    Ou o velho Luiz Runa, o primo d&#8217;Affonso, que, a proposito de cousas indifferentes,<br \/>\n    rompia lamentando os tempos em que o Intendente da policia podia livremente<br \/>\n    expulsar de Lisboa as pessoas importunas&#8230; Evidentemente alludiam &aacute;<br \/>\n    Monforte, evidentemente julgavam-n&#8217;a perigosa.<br \/>\n    No ver&atilde;o, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes<br \/>\n    tinham l&aacute; alugado uma casa. Dias depois o Villa&ccedil;a appareceu<br \/>\n    em Bemfica, muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pedira-lhe<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar<br \/>\n    dinheiro. Elle l&aacute; lhe dissera que em setembro, chegando &aacute; sua<br \/>\n    maioridade, tinha a legitima da mam&atilde;&#8230;<br \/>\n    &#8211; Mas n&atilde;o gostei d&#8217;isto, meu senhor, n&atilde;o gostei d&#8217;isto&#8230;<br \/>\n    &#8211; E porque, Villa&ccedil;a? O rapaz querer&aacute; dinheiro, querer&aacute;<br \/>\n    dar presentes &aacute; creatura&#8230; O amor &eacute; um luxo caro, Villa&ccedil;a.<br \/>\n    &#8211; Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ou&ccedil;a!<br \/>\n    E aquella confian&ccedil;a t&atilde;o nobre de Affonso da Maia no orgulho<br \/>\n    patricio, nos brios de ra&ccedil;a de seu filho, chegava a tranquillisar Villa&ccedil;a.<br \/>\n    D&#8217;ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado na quinta<br \/>\n    do Sequeira ao p&eacute; de Queluz, e tomavam ambos o seu caf&eacute; no mirante,<br \/>\n    quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche azul com os<br \/>\n    cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma sombrinha escarlate, trazia<br \/>\n    um vestido c&ocirc;r de rosa cuja roda, toda em folhos, quasi cobria os joelhos<br \/>\n    de Pedro sentado ao seu lado: as fitas do seu chap&eacute;o, apertadas n&#8217;um<br \/>\n    grande la&ccedil;o que lhe enchia o peito, eram tambem c&ocirc;r de rosa:<br \/>\n    e a sua face, grave e pura como um marmore grego, apparecia realmente adoravel,<br \/>\n    illuminada pelos olhos d&#8217;um azul sombrio, entre aquelles tons rosados. No<br \/>\n    assento defronte, quasi todo tomado por cart&otilde;es de modista, encolhia-se<br \/>\n    o Monforte, de grande chap&eacute;o panam&aacute;, cal&ccedil;a de ganga,<br \/>\n    o mantelete da filha no bra&ccedil;o, o guarda sol entre os joelhos. Iam callados,<br \/>\n    n&atilde;o viram o mirante; e, no caminho verde e fresco, a caleche passou<br \/>\n    com balan&ccedil;os lentos, sob os ramos que ro&ccedil;avam a sombrinha de<br \/>\n    Maria. O Sequeira ficara com a chavena de caf&eacute; junto aos labios, de<br \/>\n    olho esgazeado, murmurando:<br \/>\n    &#8211; Caramba! &Eacute; bonita!<br \/>\n    Affonso n&atilde;o respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate,<br \/>\n    que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o todo<br \/>\n    &#8211; como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste<br \/>\n    das ramas.<br \/>\n    O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manh&atilde;, Pedro entrou<br \/>\n    na livraria onde o pae estava lendo junto ao fog&atilde;o; recebeu-lhe a ben&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se bruscamente<br \/>\n    para elle:<br \/>\n    &#8211; Meu pae, &#8211; disse, esfor&ccedil;ando-se por ser claro e decidido &#8211; venho<br \/>\n    pedir-lhe licen&ccedil;a para casar com uma senhora que se chama Maria Monforte.<br \/>\n    Affonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e n&#8217;uma voz grave e lenta:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o me tinhas fallado d&#8217;isso&#8230; Creio que &eacute; a filha d&#8217;um assassino,<br \/>\n    d&#8217;um negreiro, a quem chamam tambem a negreira&#8230;<br \/>\n    &#8211; Meu pae!<br \/>\n    Affonso ergueu-se diante d&#8217;elle, rigido e inexoravel como a encarna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mesma da honra domestica.<br \/>\n    &#8211; Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.<br \/>\n    Pedro, mais branco que o len&ccedil;o que tinha na m&atilde;o, exclamou todo<br \/>\n    a tremer, quasi em solu&ccedil;os:<br \/>\n    &#8211; Pois p&oacute;de estar certo, meu pae, que hei de casar! Sahiu, atirando<br \/>\n    furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo escudeiro, muito alto para<br \/>\n    que o pae ouvisse, e deu-lhe ordem para levar as suas malas ao hotel da Europa.<br \/>\n    Dois dias depois Villa&ccedil;a entrou em Bemfica, com as lagrimas nos olhos,<br \/>\n    contando que o menino cas&aacute;ra n&#8217;essa madrugada &#8211; e segundo lhe dissera<br \/>\n    o Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Italia.<br \/>\n    Affonso da Maia sent&aacute;ra-se n&#8217;esse instante &aacute; mesa do almo&ccedil;o,<br \/>\n    posta ao p&eacute; do fog&atilde;o: ao centro, um ramo esfolhava-se n&#8217;um vaso<br \/>\n    do Jap&atilde;o, &aacute; chamma forte da lenha: e junto ao talher de Pedro<br \/>\n    estava o numero da Grinalda, jornal de versos que elle costumava receber&#8230;<br \/>\n    Affonso ouviu o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente<br \/>\n    o seu guardanapo.<br \/>\n    &#8211; J&aacute; almo&ccedil;ou, Villa&ccedil;a?<br \/>\n    O procurador, assombrado d&#8217;aquella serenidade, balbuciou:<br \/>\n    &#8211; J&aacute; almocei, meu senhor&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o Affonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro:<br \/>\n    &#8211; P&oacute;de tirar d&#8217;alli esse talher, Teixeira. D&#8217;aqui por diante ha s&oacute;<br \/>\n    um talher &aacute; mesa&#8230; Sente-se, Villa&ccedil;a, sente-se.<br \/>\n    O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indifferen&ccedil;a o talher<br \/>\n    do menino. Villa&ccedil;a sent&aacute;ra-se. Tudo em redor era correto e calmo<br \/>\n    como nas outras manh&atilde;s em que almo&ccedil;ara em Bemfica. Os passos<br \/>\n    do escudeiro n&atilde;o faziam ruido no tapete fofo; o lume estalava alegremente,<br \/>\n    pondo retoques d&#8217;ouro nas pratas polidas; o sol discreto que brilhava f&oacute;ra<br \/>\n    no azul d&#8217;inverno fazia scintillar crystaes de geada nas ramas seccas; e &aacute;<br \/>\n    janella o papagaio, muito patul&ecirc;a e educado por Pedro, rosnava injurias<br \/>\n    aos Cabraes.<br \/>\n    Por fim Affonso ergueu-se; esteve olhando abstrahidamente a quinta, os pav&otilde;es<br \/>\n    no terrasso; depois ao sahir da sala tomou o bra&ccedil;o de Villa&ccedil;a,<br \/>\n    apoiou-se n&#8217;elle com for&ccedil;a, como se lhe tivesse chegado a primeira<br \/>\n    tremura da velhice, e no seu abandono sentisse alli uma amizade segura. Seguiram<br \/>\n    o corredor, callados. Na livraria Affonso foi occupar a sua poltrona ao p&eacute;<br \/>\n    da janella, come&ccedil;ou a encher de vagar o seu cachimbo. Villa&ccedil;a,<br \/>\n    de cabe&ccedil;a baixa, passeava ao comprido das altas estantes, nas pontas<br \/>\n    dos p&eacute;s, como no quarto d&#8217;um doente. Um bando de pardaes veiu gralhar<br \/>\n    um momento nos ramos d&#8217;uma alta arvore que ro&ccedil;ava a varanda. Depois<br \/>\n    houve um silencio, e Affonso da Maia disse:<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, Villa&ccedil;a, o Saldanha l&aacute; foi demittido do Pa&ccedil;o?&#8230;<br \/>\n    O outro respondeu, vaga e machinalmente:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; verdade, meu senhor, &eacute; verdade&#8230;<br \/>\n    E n&atilde;o se fallou mais de Pedro da Maia. <\/p>\n<h2><a name=\"2\">Cap&iacute;tulo II<\/a><\/h2>\n<p>Pedro e Maria, no entanto, numa felicidade de novella, iam descendo a Italia,<br \/>\n    a pequenas jornadas, de cidade em cidade, n&#8217;essa via sagrada que vae desde<br \/>\n    as flores e das messes da planicie lombarda at&eacute; ao molle paiz de romanza,<br \/>\n    Napoles, branca sob o azul. Era l&aacute; que tencionavam passar o inverno,<br \/>\n    n&#8217;esse ar sempre tepido junto a um mar sempre manso, onde as pregui&ccedil;as<br \/>\n    de noivado teem uma suavidade mais longa&#8230; Mas um dia, em Roma, Maria sentiu<br \/>\n    o appetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar assim, aos balou&ccedil;os<br \/>\n    das cale&ccedil;as, s&oacute; para ir ver lazzaroni engolir fios de macarr&atilde;o.<br \/>\n    Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos Elyseos, e gozarem<br \/>\n    alli um lindo inverno de amor! Paris estava seguro, agora, com o principe<br \/>\n    Luiz Napole&atilde;o&#8230; Al&eacute;m d&#8217;isso, aquella velha Italia classica<br \/>\n    enfastiava-a j&aacute;: tantos marmores eternos, tantas madonas come&ccedil;avam<br \/>\n    (como ella dizia pendurada languidamente do pesco&ccedil;o de Pedro) a dar<br \/>\n    tonturas &aacute; sua pobre cabe&ccedil;a! Suspirava por uma boa loja de modas,<br \/>\n    sob as chammas do gaz, ao rumor do boulevard&#8230; Depois tinha medo da Italia<br \/>\n    onde todo mundo conspirava.<br \/>\n    Foram para Fran&ccedil;a.<br \/>\n    Mas por fim aquelle Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago cheiro<br \/>\n    de polvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de batalha, desagradou<br \/>\n    a Maria. De noite accordava com a Marselheza; achava um ar feroz &aacute;<br \/>\n    policia; tudo permanecia triste; e as duquezas, pobres anjos, ainda n&atilde;o<br \/>\n    ousavam vir ao Bois, com medo dos operarios, corja insaciavel! Emfim demoraram-se<br \/>\n    l&aacute; at&eacute; a primavera, no ninho que ella sonh&aacute;ra, todo de<br \/>\n    velludo azul, abrindo sobre os Campos Elyseos.<br \/>\n    Depois principiou a fallar-se de novo em revolu&ccedil;&atilde;o, em golpe<br \/>\n    d&#8217;estado. A admira&ccedil;&atilde;o absurda de Maria pelos novos uniformes<br \/>\n    da garde-mobile fazia Pedro nervoso. E quando ella appareceu gravida, anciou<br \/>\n    por a tirar d&#8217;aquelle Paris batalhador e fascinante, vir abrigal-a na pacata<br \/>\n    Lisboa adormecida ao sol.<br \/>\n    Antes de partir por&eacute;m escreveu ao pae.<br \/>\n    F&ocirc;ra um conselho, quasi uma exigencia de Maria. A recusa de Affonso<br \/>\n    da Maia ao principio desesperara-a. N&atilde;o a affligia a desuni&atilde;o<br \/>\n    domestica: mas aquelle n&atilde;o affrontoso de fidalgo puritano marcara muito<br \/>\n    publicamente, muito brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e tinha<br \/>\n    apressado o casamento, aquella partida triumphante para Italia, para lhe mostrar<br \/>\n    bem que nada valiam genealogias, av&oacute;s godos, brios de familia &#8211; deante<br \/>\n    dos seus bra&ccedil;os nus&#8230; Agora por&eacute;m que ia voltar a Lisboa, dar<br \/>\n    soir&eacute;es, crear c&ocirc;rte, a reconcilia&ccedil;&atilde;o tornava-se<br \/>\n    indispensavel: aquelle pae retirado em Bemfica, com o rigido orgulho de outras<br \/>\n    edades, faria lembrar constantemente, mesmo entre os seus espelhos e os seus<br \/>\n    estofos, o brigue Nova Linda carregado de negros&#8230; E queria mostrar-se a<br \/>\n    Lisboa pelo bra&ccedil;o d&#8217;esse sogro t&atilde;o nobre e t&atilde;o ornamental,<br \/>\n    com as suas barbas de Viso-rei.<br \/>\n    -Dize-lhe que j&aacute; o adoro, murmurava ella curvada sobre a escrivaninha<br \/>\n    acariciando os cabellos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe hei<br \/>\n    de p&ocirc;r o nome d&#8217;elle&#8230; Escreve-lhe uma carta bonita, hein!<br \/>\n    E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao pap&aacute;. O pobre rapaz amava-o.<br \/>\n    Fallou-lhe commovido da esperan&ccedil;a de ter um filho var&atilde;o; as<br \/>\n    desintelligencias deviam findar em torno do ber&ccedil;o d&#8217;aquelle pequeno<br \/>\n    Maia que alli vinha, morgado e herdeiro do nome&#8230; Contava-lhe a sua felicidade<br \/>\n    com uma effus&atilde;o de namorado indiscreto: a historia da bondade de Maria,<br \/>\n    das suas gra&ccedil;as, da sua instruc&ccedil;&atilde;o, enchia duas paginas:<br \/>\n    e jurava-lhe que apenas chegasse n&atilde;o tardaria uma hora em ir atirar-se<br \/>\n    aos seus p&eacute;s&#8230;<br \/>\n    Com effeito, apenas desembarcou, correu n&#8217;um trem a Bemfica. Dois dias antes<br \/>\n    o pae partira para Santa Olavia: isto pareceu-lhe uma desfeita &#8211; e feriu-o<br \/>\n    acerbamente.<br \/>\n    Fez-se ent&atilde;o entre o pae e o filho uma grande separa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Quando lhe nasceu uma filha Pedro n&atilde;o lh&#8217;o participou &#8211; dizendo dramaticamente<br \/>\n    ao Villa&ccedil;a &laquo;que j&aacute; n&atilde;o tinha pae!&raquo; Era uma<br \/>\n    linda b&eacute;b&eacute;, muito gorda, loira e c&ocirc;r de rosa, com os bellos<br \/>\n    olhos negros dos Maias. Apesar do desejo de Pedro, Maria n&atilde;o a quiz<br \/>\n    crear; mas adorava-a com phrenesi; passava dias de joelhos ao p&eacute; do<br \/>\n    ber&ccedil;o, em extasi, correndo as suas m&atilde;os cheias de pedrarias<br \/>\n    pelas carninhas tenras, pondo-lhe beijos de devota nos p&eacute;sinhos, na<br \/>\n    rosquinha das c&ocirc;xas, balbuciando-lhe n&#8217;um enlevo nomes de grande amor,<br \/>\n    e perfurmando-a j&aacute;, enchendo-a j&aacute; de la&ccedil;arotes.<br \/>\n    E n&#8217;estes delirios pela filha, brotava, mais amarga, a sua colera contra Affonso<br \/>\n    da Maia. Considerava-se ent&atilde;o insultada em si mesma e n&#8217;aquelle cherubim<br \/>\n    que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe o D. Fuas,<br \/>\n    o Barbatanas&#8230;<br \/>\n    Pedro um dia ouviu isto, e escandalisou-se: ella replicou desabridamente:<br \/>\n    e deante d&#8217;aquella face abrazada, onde entre lagrimas os olhos azues pareciam<br \/>\n    negros de colera, elle s&oacute; poude balbuciar timidamente:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; meu pae, Maria&#8230;<br \/>\n    Seu pae! E &aacute; face de toda a Lisboa tratava-a ent&atilde;o como uma<br \/>\n    concubina! Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de vill&atilde;o. Um D.<br \/>\n    Fuas, um Barbatanas, nada mais!&#8230;<br \/>\n    Arrebatou a filha, e abra&ccedil;ada n&#8217;ella, romperam as queixas por entre<br \/>\n    os prantos:<br \/>\n    &#8211; Ninguem nos ama, meu anjo! Ninguem te quer! Tens s&oacute; a tua m&atilde;e!<br \/>\n    Tratam-te como se fosses bastarda!<br \/>\n    A b&eacute;b&eacute;, sacudida nos bra&ccedil;os da m&atilde;e, desatou a<br \/>\n    gritar. Pedro correu, envolveu-as ambas no mesmo abra&ccedil;o, j&aacute;<br \/>\n    enternecido, j&aacute; humilde; e tudo terminou n&#8217;um longo beijo.<br \/>\n    E elle, por fim, no seu cora&ccedil;&atilde;o, justificava aquella colera<br \/>\n    de m&atilde;e que v&ecirc; desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos<br \/>\n    de Pedro, o Alencar, o D. Jo&atilde;o da Cunha, que come&ccedil;avam agora<br \/>\n    a frequentar Arroios, riam d&#8217;aquella obstina&ccedil;&atilde;o de pae gothico,<br \/>\n    amuado na provincia, porque sua nora n&atilde;o tivera av&oacute;s mortos<br \/>\n    em Aljubarrota! E onde havia outra em Lisboa, com aquellas toilettes, aquella<br \/>\n    gra&ccedil;a, recebendo t&atilde;o bem? Que diabo, o mundo marchara, sahira-se<br \/>\n    j&aacute; das attitudes empertigadas do seculo XVI! <br \/>\n    E o proprio Villa&ccedil;a, um dia que Pedro lhe f&ocirc;ra mostrar a pequerruchinha<br \/>\n    adormecida entre as rendas do seu ber&ccedil;o, sensibilisou-se, veio-lhe<br \/>\n    uma da suas faceis lagrimas, declarou, com a m&atilde;o no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que aquillo era uma caturrice do sr. Affonso da Maia! <br \/>\n    &#8211; Pois peior para elle! n&atilde;o querer ver um anjo destes! disse Maria,<br \/>\n    dando deante do espelho um lindo geito &aacute;s flores do cabello. Tambem<br \/>\n    n&atilde;o faz c&aacute; falta&#8230;<br \/>\n    E n&atilde;o fazia falta. N&#8217;esse outubro, quando a pequena completou o seu<br \/>\n    primeiro anno, houve um grande baile na casa de Arroios, que elles agora occupavam<br \/>\n    toda, e que f&ocirc;ra ricamente remobilada. E as senhoras que outr&#8217;ora tinham<br \/>\n    horror &aacute; negreira, a D. Maria da Gama que escondia a face por traz<br \/>\n    do leque, l&aacute; vieram todas, amaveis e decotadas, com o beijinho prompto,<br \/>\n    chamando-lhe &laquo;querida&raquo;, admirando as grinaldas de camelias que<br \/>\n    emmolduravam os espelhos de quatrocentos mil r&eacute;is, e gozando muito<br \/>\n    os gelados.<br \/>\n    Come&ccedil;ara ent&atilde;o uma existencia festiva e luxuosa, que, segundo<br \/>\n    dizia o Alencar, o intimo da casa, o cortes&atilde;o de Madame, &laquo;tinham<br \/>\n    um saborsinho d&#8217;orgia distingu&eacute;e como os poemas de Byron.&raquo; Eram<br \/>\n    realmente as soir&eacute;es mais alegres de Lisboa: ceiava-se &aacute; uma<br \/>\n    hora com Champagne; talhava-se at&eacute; tarde um monte forte; inventavam-se<br \/>\n    quadros vivos, em que Maria se mostrara soberanamente bella sob as roupagens<br \/>\n    classicas de Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites<br \/>\n    mais intimas, ella costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha perfumada.<br \/>\n    Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a bater &aacute;<br \/>\n    carambola franceza D. Jo&atilde;o da Cunha, o grande taco da epoca.<br \/>\n    E no meio d&#8217;esta festan&ccedil;a, atravessada pelo sopro romantico da Regenera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    l&aacute; se via sempre, taciturno e encolhido, o pap&aacute; Monforte, d&#8217;alta<br \/>\n    gravata branca, com as m&atilde;os atraz das costas, rondando pelos cantos,<br \/>\n    refugiado pelos v&atilde;os das janellas, mostrando-se s&oacute; para salvar<br \/>\n    alguma bob&egrave;che que ia estalar &#8211; e n&atilde;o desprendendo nunca da<br \/>\n    filha o olho embevecido e senil.<br \/>\n    Nunca Maria f&ocirc;ra t&atilde;o formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor<br \/>\n    mais copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz &aacute;quellas altas salas<br \/>\n    de Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das tran&ccedil;as,<br \/>\n    o eburneo e o lacteo do collo nu, e o rumor das grandes sedas. Com ras&atilde;o,<br \/>\n    querendo ter, &aacute; maneira das damas da Renascen&ccedil;a, uma fl&ocirc;r<br \/>\n    que a symbolisasse, escolhera a tulipa real opulenta e ardente.<br \/>\n    Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de propriedades!&#8230;<br \/>\n    Podia fazel-o! o marido era rico, e ella sem escrupulo arruinal-o-hia, a elle<br \/>\n    e ao pap&aacute; Monforte&#8230;<br \/>\n    Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse proclamava-se<br \/>\n    com alarido seu &laquo;cavalleiro e seu poeta&raquo;. Estava sempre em Arroios,<br \/>\n    tinha l&aacute; o seu talher: por aquellas salas soltava as suas phrases ressoantes,<br \/>\n    por esses soph&aacute;s arrastava as suas poses de melancolia. Ia dedicar<br \/>\n    a Maria (e nada havia mais extraordinario que o tom langoroso e plangente,<br \/>\n    o olho turvo, fatal, com que elle pronunciava este nome &#8211; MARIA!) ia dedicar-lhe<br \/>\n    o seu poema, t&atilde;o annunciado, t&atilde;o esperado &#8211; FLOR DE MARTYRIO!<br \/>\n    E citavam-se as estrophes que lhe fizera ao gosto cantante do tempo:<\/p>\n<p>\n    Vi-te essa noite no explendor das sallas<br \/>\n    Com as loiras tran&ccedil;as volteando louca&#8230;<\/p>\n<p>\n    A paix&atilde;o do Alencar era innocente: mas, dos outros intimos da casa,<br \/>\n    mais d&#8217;um de certo balbuciara j&aacute; a sua declara&ccedil;&atilde;o no<br \/>\n    boudoir azul em que ella recebia &aacute;s tres horas, entre os seus vasos<br \/>\n    de tulipas; as suas amigas por&eacute;m, mesmo as peiores, affirmavam que<br \/>\n    os seus favores nunca teriam passado de alguma rosa dada n&#8217;um v&atilde;o de<br \/>\n    janella, ou de algum longo e suave olhar por traz do leque. Pedro todavia<br \/>\n    come&ccedil;ava a ter horas sombrias. Sem sentir ciumes, vinha-lhe &aacute;s<br \/>\n    vezes, de repente, um tedio d&#8217;aquella existencia de luxo e de festa, um desejo<br \/>\n    violento de sacudir da sala esses homens, os seus intimos, que se atropellavam<br \/>\n    assim t&atilde;o ardentemente em volta dos hombros decotados de Maria.<br \/>\n    Refugiava-se ent&atilde;o n&#8217;algum canto, trincando com furor o charuto: e<br \/>\n    ahi, era em toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome&#8230;<br \/>\n    Maria sabia perceber bem na face do marido &laquo;estas nuvens&raquo;, como<br \/>\n    ella dizia. Corria para elle, tomava-lhe ambas as m&atilde;os, com for&ccedil;a,<br \/>\n    com dominio:<br \/>\n    &#8211; Que tens tu, amor? Est&aacute;s amuado!<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o estou amuado&#8230;<br \/>\n    &#8211; Olha ent&atilde;o para mim!&#8230;<br \/>\n    Collava o seu bello seio contra o peito d&#8217;elle; as suas m&atilde;os corriam-lhe<br \/>\n    os bra&ccedil;os n&#8217;uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois,<br \/>\n    com um lindo olhar, estendia-lbe os labios. Pedro colhia n&#8217;elles um longo<br \/>\n    beijo, e ficava consolado de tudo.<br \/>\n    Durante esse tempo Affonso da Maia n&atilde;o sahia das sombras de Sta. Olavia,<br \/>\n    t&atilde;o esquecido para l&aacute; como se estivesse no seu jazigo. J&aacute;<br \/>\n    se n&atilde;o fallava d&#8217;&eacute;lle em Arroios, D. Fuas estava roendo a teima.<br \/>\n    S&oacute; Pedro &aacute;s vezes perguntava a Villa&ccedil;a &laquo;como ia<br \/>\n    o pap&aacute;.&raquo; E as noticias do administrador enfureciam sempre Maria:<br \/>\n    o pap&aacute; estava optimo; tinha agora um cosinheiro francez explendido;<br \/>\n    Sta. Olavia enchera-se de hospedes, o Sequeira, Andr&eacute; da Ega, D. Diogo<br \/>\n    Coutinho&#8230;<br \/>\n    &#8211; O Barbatanas trata-se! ia ella dizer ao pae com rancor.<br \/>\n    E o velho negreiro esfregava as m&atilde;os, satisfeito de o saber assim feliz<br \/>\n    em Sta. Olavia; porque nunca cessara de tremer &aacute; id&eacute;a de ver<br \/>\n    em Arroios, deante de si, aquelle fidalgo t&atilde;o severo e de vida t&atilde;o<br \/>\n    pura.<br \/>\n    Quando por&eacute;m Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que ent&atilde;o<br \/>\n    se fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Pedro a imagem do pae abandonado n&#8217;aquella tristeza do Douro. Fallou a<br \/>\n    Maria de reconcilia&ccedil;&atilde;o, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescen&ccedil;a.<br \/>\n    E a sua alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa,<br \/>\n    respondeu:<br \/>\n    &#8211; Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui&#8230;<br \/>\n    Pedro, enthusiasmado com um assentimento t&atilde;o inesperado, pensou em<br \/>\n    abalar para Sta. Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso, segundo<br \/>\n    dizia o Villa&ccedil;a, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem, ella<br \/>\n    iria l&aacute; com o pequeno, toda vestida de preto, e de repente, atirando-se-lhe<br \/>\n    aos p&eacute;s, pedir-lhe-hia a ben&ccedil;&atilde;o para seu neto! N&atilde;o<br \/>\n    podia falhar! N&atilde;o podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de maternidade&#8230;<br \/>\n    Para abrandar desde j&aacute; o pap&aacute;, Pedro quiz dar ao pequeno o nome<br \/>\n    de Affonso. Mas n&#8217;isso Maria n&atilde;o consentiu. Andava lendo uma novella<br \/>\n    de que era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e,<br \/>\n    namorada d&#8217;elle, das suas aventuras e desgra&ccedil;as, queria dar esse nome<br \/>\n    a seu filho&#8230; Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo<br \/>\n    um destino de amores e fa&ccedil;anhas.<br \/>\n    O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi muito<br \/>\n    benigna por&eacute;m; e d&#8217;ahi a duas semanas Pedro podia j&aacute; sahir para<br \/>\n    uma ca&ccedil;ada na sua quinta da Tojeira, adiante d&#8217;Almada. Devia demorar-se<br \/>\n    dois dias. A partida arranjara-se unicamente para obsequiar um italiano, chegado<br \/>\n    por ent&atilde;o a Lisboa, distincto rapaz que lhe f&ocirc;ra apresentado<br \/>\n    pelo secretario da Lega&ccedil;&atilde;o Ingleza, e com quem Pedro sympathisara<br \/>\n    vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e vinha fugido de Napoles,<br \/>\n    onde conspir&aacute;ra contra os Bourbons, e f&ocirc;ra condemnado &aacute;<br \/>\n    morte. O Alencar e D. Jo&atilde;o Coutinho iam tambem &aacute; ca&ccedil;ada<br \/>\n    &#8211; e a partida foi de madrugada.<br \/>\n    N&#8217;essa tarde, Maria jantava s&oacute; no seu quarto, quando sentiu carruagens<br \/>\n    parando &aacute; porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente<br \/>\n    Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado:<br \/>\n    &#8211; Uma grande desgra&ccedil;a, Maria!<br \/>\n    &#8211; Jesus!<br \/>\n    &#8211; Feri o rapaz, feri o napolitano!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Como?<br \/>\n    Um desastre estupido!&#8230; Ao saltar um barranco, a espingarda dispara-se-lhe,<br \/>\n    e a carga, z&aacute;s, vae cravar-se no napolitano! N&atilde;o era possivel<br \/>\n    fazer curativos na Tojeira, e voltaram logo a Lisboa. Elle naturalmente n&atilde;o<br \/>\n    consentira que o homem que tinha ferido recolhesse ao hotel: trouxera-o para<br \/>\n    Arroios, para o quarto verde por cima, mandara chamar o medico, duas enfermeiras<br \/>\n    para o velar, e elle mesmo l&aacute; ia passar a noite&#8230;<br \/>\n    &#8211; E elle?<br \/>\n    &#8211; Um heroe!&#8230; Sorri, diz que n&atilde;o &eacute; nada, mas eu vejo-o pallido<br \/>\n    como um morto. Um rapaz adoravel! Isto s&oacute; a mim, Senhor! E ent&atilde;o<br \/>\n    o Alencar que ia mesmo ao p&eacute; d&#8217;elle&#8230; Podia antes ter ferido o Alencar,<br \/>\n    um rapaz intimo, de confian&ccedil;a! at&eacute; a gente se ria. Mas n&atilde;o,<br \/>\n    z&aacute;s, logo o outro, o de cerimonia &#8230;<br \/>\n    Uma sege, n&#8217;esse instante, entrava o pateo.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; o medico!<br \/>\n    E Pedro abalou.<br \/>\n    Voltou d&#8217;ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d&#8217;aquella bagatella,<br \/>\n    uma chumbada no bra&ccedil;o, e alguns gr&atilde;os perdidos nas costas. Promettera-lhe<br \/>\n    que d&#8217;ahi a duas semanas podia ca&ccedil;ar outra vez na Tojeira; e o principe<br \/>\n    estava j&aacute; fumando o seu charuto. Bello rapaz! Parecia sympathisar com<br \/>\n    o pap&aacute; Monforte&#8230;<br \/>\n    Toda essa noite Maria dormiu mal, na excita&ccedil;&atilde;o vaga que lhe<br \/>\n    dava aquella id&eacute;a d&#8217;um principe enthusiasta, conspirador, condemnado<br \/>\n    &aacute; morte, ferido agora por cima do seu quarto.<br \/>\n    Logo de manh&atilde; cedo &#8211; apenas Pedro sahira a fazer transportar, elle<br \/>\n    mesmo, do hotel, as bagagens do napolitano &#8211; Maria mandou a sua criada franceza<br \/>\n    de quarto, uma bella mo&ccedil;a d&#8217;Arles, acima, saber da parte d&#8217;ella como<br \/>\n    S. Alteza passara, e &laquo;ver que figura tinha&raquo;. A arlesiana appareceu,<br \/>\n    com os olhos brilhantes, a dizer &aacute; senhora, nos seus grandes gestos<br \/>\n    de Proven&ccedil;al, que nunca vira um homem t&atilde;o formoso! Era uma pintura<br \/>\n    de Nosso Senhor Jesus Christo! Que pesco&ccedil;o, que brancura de marmore!<br \/>\n    Estava muito pallido ainda; agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia;<br \/>\n    e ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros&#8230;<br \/>\n    Maria, desde ent&atilde;o, n&atilde;o pareceu interessar-se mais pelo ferido.<br \/>\n    Era Pedro que vinha, a cada instante, fallar-lhe d&#8217;elle, enthusiasmado por<br \/>\n    aquella existencia pathetica de principe conspirador, partilhando j&aacute;<br \/>\n    o seu odio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos que encontrava<br \/>\n    n&#8217;elle, o mesmo amor da ca&ccedil;a, dos cavallos, das armas. Agora logo de<br \/>\n    manh&atilde;, subia para o quarto do Principe, de robe-de-chambre e cachimbo<br \/>\n    na boca, e passava l&aacute; horas n&#8217;uma camaradagem, fazendo grogs quentes<br \/>\n    &#8211; permittidos pelo Dr. Guedes. Levava mesmo para l&aacute; os seus amigos,<br \/>\n    o Alencar, o D. Jo&atilde;o da Cunha. Maria sentia-lhes por cima as risadas.<br \/>\n    &Aacute;s vezes tocava-se viola. E o velho Monforte, pasmado para o heroe,<br \/>\n    n&atilde;o cessava de lhe rondar o leito.<br \/>\n    A Arlesiana, essa, tambem a cada momento apparecia l&aacute; a levar toalhas<br \/>\n    de rendas, um assucareiro que ninguem reclamara, ou algum vaso com flores<br \/>\n    para alegrar a alcova&#8230; Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito seria, se<br \/>\n    al&eacute;m de todos os amigos da casa, duas enfermeiras, dois escudeiros,<br \/>\n    o pap&aacute; e elle Pedro &#8211; era necessaria tambem constantemente a sua propria<br \/>\n    criada no quarto de Sua Alteza!<br \/>\n    N&atilde;o era. Mas Pedro riu muito &aacute; id&eacute;a de que a Arlesiana<br \/>\n    se tivesse namorado do principe. N&#8217;esse caso Venus era-lhe propicia! O napolitano<br \/>\n    tambem a achava<br \/>\n    picante: un tr&egrave;s joli brin de femme, tinha elle dito.<br \/>\n    A bella face de Maria impallideceu de colera. Julgava tudo isso de mau gosto,<br \/>\n    grosseiro, impudente! Pedro f&ocirc;ra realmente um doido em trazer assim<br \/>\n    para a intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um aventureiro! Demais,<br \/>\n    aquella tro&ccedil;a em cima, entre grogs quentes, com guitarra, sem respeito<br \/>\n    por ella ainda toda nervosa, toda fraca da convalescen&ccedil;a, indignava-a!<br \/>\n    Apenas Sua Alteza podesse accommodar-se com almofadas n&#8217;uma sege, queria-o<br \/>\n    f&oacute;ra, na estalagem&#8230;<br \/>\n    &#8211; O que ahi vae! Jesus! o que ahi vae!&#8230; disse Pedro.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; assim.<br \/>\n    E de certo foi muito severa tambem com a Arlesiana, por que n&#8217;essa tarde Pedro<br \/>\n    encontrou a mo&ccedil;a aos ais no corredor, limpando ao avental os olhos<br \/>\n    affogueados.<br \/>\n    D&#8217;ahi a dias, por&eacute;m, o napolitano, j&aacute; convalescente, quiz recolher<br \/>\n    ao seu hotel. N&atilde;o vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade<br \/>\n    mandou-lhe um admiravel ramo, e, com uma galanteria de principe artista da<br \/>\n    Renascen&ccedil;a, um soneto em italiano enrolado entre as flores e t&atilde;o<br \/>\n    perfumado como ellas: comparava-a a uma nobre dama da Syria dando a gota de<br \/>\n    agua da sua bilha ao cavalleiro arabe, ferido na estrada ardente; comparava-a<br \/>\n    &aacute; Beatriz do Dante.<br \/>\n    Isto affigurou-se a todos de uma rara distinc&ccedil;&atilde;o, e, como disse<br \/>\n    o Alencar, um rasgo &aacute; Byron.<br \/>\n    Depois, na soir&eacute;e do baptisado de Carlos Eduardo, dada d&#8217;ahi a uma<br \/>\n    semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem esplendido,<br \/>\n    feito como um Apollo, de uma pallidez de marmore rico: a sua barba curta e<br \/>\n    frisada, os seus longos cabellos castanhos, cabellos de mulher, ondeados e<br \/>\n    com reflexos de ouro, apartados &aacute; nazarena &#8211; davam-lhe realmente, como<br \/>\n    dizia a Arlesiana, uma physionomia de bello Christo.<br \/>\n    Dan&ccedil;ou apenas uma contradan&ccedil;a com Maria, e pareceu, na verdade,<br \/>\n    um pouco taciturno e orgulhoso: mas tudo n&#8217;elle fascinava, a sua figura, o<br \/>\n    seu mysterio, at&eacute; o seu nome de Tancredo. Muitos cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de mulher palpitavam quando elle, encostado a uma hombreira, de claque na<br \/>\n    m&atilde;o, uma melancolia na face, exhalando o encanto pathetico de um condemnado<br \/>\n    &aacute; morte, derramava lentamente pela sala o langor sombrio do seu olhar<br \/>\n    de velludo. A marqueza d&#8217;Alvenga, para o examinar de perto, pediu o bra&ccedil;o<br \/>\n    a Pedro, e foi applicar-lhe, como a um marmore de museo, a sua luneta de ouro.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; de appetite! exclamou ella. &Eacute; uma imagem!&#8230; E s&atilde;o<br \/>\n    amigos, s&atilde;o amigos, Pedro? <br \/>\n    &#8211; Somos como dois irm&atilde;os d&#8217;armas, minha senhora.<br \/>\n    N&#8217;essa mesma soir&eacute;e, o Villa&ccedil;a inform&aacute;ra Pedro que o<br \/>\n    pae era esperado no dia seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram,<br \/>\n    fallou a Maria em &laquo;irem fazer a grande scena ao pap&aacute;.&raquo;<br \/>\n    Ella, por&eacute;m, recusou, e com as raz&otilde;es mais imprevistas, as mais<br \/>\n    sensatas. Tinha cogitado muito! Reconhecia agora que um dos motivos d&#8217;aquella<br \/>\n    teima do pap&aacute; &#8211; ultimamente chamava-lhe sempre o pap&aacute; &#8211; era<br \/>\n    essa extraordinaria existencia de Arroios&#8230;<br \/>\n    &#8211; Mas filha, disse Pedro, escuta, n&oacute;s n&atilde;o vivemos tambem em<br \/>\n    plena orgia&#8230; Alguns amigos que veem&#8230;<br \/>\n    Pois sim, pois sim&#8230; Mas, realmente, estava decidida a ter um interior mais<br \/>\n    calmo e mais domestico. Era mesmo melhor p&#8217;ra os b&eacute;b&eacute;s. Pois<br \/>\n    bem, queria que o pap&aacute; estivesse convencido d&#8217;essa transforma&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    para que as pazes fossem mais faceis e eternas.<br \/>\n    &#8211; Deixa passar dois ou tres mezes&#8230; Quando elle souber como n&oacute;s vivemos<br \/>\n    quietinhos, eu o trarei, socega&#8230; &Eacute; bom tambem que seja quando meu<br \/>\n    pae partir para as aguas, para os Pyrineos. Que o pobre pap&aacute;, coitado,<br \/>\n    tem medo do teu&#8230; Filho, n&atilde;o achas assim melhor?<br \/>\n    &#8211; &Eacute;s um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as m&atilde;os.<br \/>\n    Toda a antiga maneira de Maria pareceu com effeito ir mudando. Suspendera<br \/>\n    as soir&eacute;es. Come&ccedil;ou a passar as noites muito recolhidas, com<br \/>\n    alguns intimos, no seu boudoir azul. J&aacute; n&atilde;o fumava; abandonara<br \/>\n    o bilhar; e vestida de preto, com uma fl&ocirc;r nos cabellos, fazia crochet<br \/>\n    ao p&eacute; do candieiro. Estudava-se musica classica quando vinha o velho<br \/>\n    Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entrara tambem na gravidade,<br \/>\n    recitava traduc&ccedil;&otilde;es de Klopstock. Fallava-se com sisudez de<br \/>\n    politica; Maria era muito regeneradora.<br \/>\n    E todas essas noites, Tancredo l&aacute; estava, indolente e bello, desenhando<br \/>\n    alguma fl&ocirc;r para ella bordar, ou tangendo &aacute; guitarra can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    populares de Napoles. Todos alli o adoravam; mas ninguem mais que o velho<br \/>\n    Monforte, que passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando o<br \/>\n    Principe com enternecimento. Depois, de repente, erguia-se, atravessava a<br \/>\n    sala, ia-se debru&ccedil;ar sobre elle, palpal-o, sentil-o, respiral-o, murmurando<br \/>\n    no seu francez de embarcadi&ccedil;o:<br \/>\n    &#8211; &Ccedil;a aller bien&#8230; Hein? Beaucoup bien&#8230; Ora estimo&#8230;<br \/>\n    E estas correntes bruscas de affecto communicavam-se decerto, porque n&#8217;esse<br \/>\n    momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o pap&aacute;<br \/>\n    ou vinha beijal-o na testa.<br \/>\n    De dia occupava-se de cousas serias. Organisara uma util associa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de caridade, a Obra pia dos cobertores, com o fim de fazer no inverno &aacute;s<br \/>\n    familias necessitadas distribui&ccedil;&otilde;es de agasalhos; e presidia<br \/>\n    no sal&atilde;o de Arroios, com uma campainha, as reuni&otilde;es em que se<br \/>\n    elaboravam os estatutos. Visitava os pobres. Ia tambem amiudadas vezes a uma<br \/>\n    devo&ccedil;&atilde;o &aacute;s Egrejas, toda vestida de preto, a p&eacute;,<br \/>\n    com um v&eacute;o muito espesso no rosto.<br \/>\n    O esplendor da sua belleza apparecia agora velado por uma sombra tocante de<br \/>\n    ternura grave: a Deusa idealisava-se em Madona; e n&atilde;o era raro ouvil-a<br \/>\n    de repente suspirar sem raz&atilde;o.<br \/>\n    Ao mesmo tempo a sua paix&atilde;o pela filha crescia. Tinha ent&atilde;o<br \/>\n    dois annos e estava realmente adoravel; vinha todas as noites um momento &aacute;<br \/>\n    sala, vestida com um luxo de princeza; e as exclama&ccedil;&otilde;es, os<br \/>\n    extasis de Tancredo n&atilde;o findavam! Fizera-lhe o retrato a carv&atilde;o,<br \/>\n    a esfuminho, a aquarella; ajoelhava-se para lhe beijar a m&atilde;osinha c&ocirc;r<br \/>\n    de rosa, como ao bambino sagrado. E Maria, agora, apesar dos protestos de<br \/>\n    Pedro, dormia sempre com ella entre os bra&ccedil;os.<br \/>\n    Ao come&ccedil;o d&#8217;esse setembro o velho Monforte partiu para os Pyrineos.<br \/>\n    Maria chorou, dependurada do pesco&ccedil;o do velho, como se elle largasse<br \/>\n    de novo para as travessias de Africa.<br \/>\n    Ao jantar, por&eacute;m, chegou j&aacute; consolada e radiante; e Pedro voltou<br \/>\n    a fallar da reconcilia&ccedil;&atilde;o, parecendo-lhe bom o momento de ir<br \/>\n    a Bemfica recuperar para sempre aquelle pap&aacute; t&atilde;o teimoso&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ainda n&atilde;o, disse ella reflectindo, olhando o seu calice de Bordeus.<br \/>\n    Teu pae &eacute; uma especie de santo, ainda o n&atilde;o merecemos&#8230; Mais<br \/>\n    para o inverno.<\/p>\n<p>Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Affonso da Maia estava no<br \/>\n    seu escriptorio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e, al&ccedil;ando<br \/>\n    os olhos do livro, viu Pedro deante de si. Vinha todo enlameado, desalinhado,<br \/>\n    e na sua face livida, sob os cabellos revoltos, luzia um olhar de loucura.<br \/>\n    O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra atirou-se aos bra&ccedil;os<br \/>\n    do pae, rompeu a chorar perdidamente.<br \/>\n    &#8211; Pedro! que succedeu, filho?<br \/>\n    Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, &aacute; id&eacute;a do<br \/>\n    filho livre para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo &aacute; sua<br \/>\n    solid&atilde;o os dois netos, toda uma descendencia para amar! E repetia,<br \/>\n    tremulo tambem, desprendendo-o de si com grande amor:<br \/>\n    &#8211; Socega, filho, que foi?<br \/>\n    Pedro ent&atilde;o cahiu para o canap&eacute;, como cae um corpo morto; e<br \/>\n    levantando para o pae um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra,<br \/>\n    n&#8217;uma voz surda:<br \/>\n    &#8211; Estive f&oacute;ra de Lisboa dois dias&#8230; Voltei esta manh&atilde;&#8230; A<br \/>\n    Maria tinha fugido de casa com a pequena&#8230; Partiu com um homem, um italiano&#8230;<br \/>\n    E aqui estou!<br \/>\n    Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de pedra;<br \/>\n    e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a pouco, de<br \/>\n    uma grande colera. Viu, n&#8217;um relance, o escandalo, a cidade galhofando, as<br \/>\n    compaix&otilde;es, o seu nome pela lama. E era aquelle filho que, despresando<br \/>\n    a sua auctoridade, ligando-se a essa creatura, estragara o sangue da ra&ccedil;a,<br \/>\n    cobria agora a sua casa de vexame. E alli estava! alli jazia sem um grito,<br \/>\n    sem um furor, um arranque brutal de homem trahido! Vinha atirar-se para um<br \/>\n    soph&aacute;, chorando miseravelmente! Isto indignou-o, e rompeu a passeiar<br \/>\n    pela sala, rigido e aspero, cerrando os labios para que n&atilde;o lhe escapassem<br \/>\n    as palavras de ira e de injuria que lhe enchiam o peito em tumulto&#8230; &#8211; Mas<br \/>\n    era pae: ouvia, alli ao seu lado, aquelle solu&ccedil;ar de funda d&ocirc;r;<br \/>\n    via tremer aquelle pobre corpo desgra&ccedil;ado que elle outr&#8217;ora emballara<br \/>\n    nos bra&ccedil;os; &#8211; parou junto de Pedro, tomou-lhe gravemente a cabe&ccedil;a<br \/>\n    entre as m&atilde;os, e beijou-o na testa, uma vez, outra vez, como se elle<br \/>\n    fosse ainda crean&ccedil;a, restituindo-lhe alli e para sempre a sua ternura<br \/>\n    inteira.<br \/>\n    &#8211; Tinha raz&atilde;o, meu pae, tinha raz&atilde;o, murmurava Pedro entre lagrimas.<br \/>\n    Depois ficaram callados. F&oacute;ra, as pancadas successivas da chuva batiam<br \/>\n    a casa, a quinta, n&#8217;um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas, ramalhavam<br \/>\n    n&#8217;um vasto vento de inverno.<br \/>\n    Foi Affonso que quebrou o silencio:<br \/>\n    &#8211; Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? N&atilde;o &eacute; s&oacute;<br \/>\n    chorar&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o sei nada, respondeu Pedro n&#8217;um longo esfor&ccedil;o. Sei que<br \/>\n    fugiu. Eu sahi de Lisboa na segunda feira. N&#8217;essa mesma noite, ella partiu<br \/>\n    de casa numa carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana<br \/>\n    que tinha agora, e a pequena. Disse &aacute; governante e &aacute; ama do<br \/>\n    pequeno que ia ter comigo. Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?&#8230;<br \/>\n    Quando voltei, achei esta carta.<br \/>\n    Era um papel j&aacute; sujo, e desde essa manh&atilde; de certo muitas vezes<br \/>\n    relido, amarrotado com furia. Continha estas palavras:<br \/>\n    &laquo;&Eacute; uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me<br \/>\n    que n&atilde;o sou digna de ti, e levo a Maria que me n&atilde;o posso separar<br \/>\n    d&#8217;ella.&raquo;<br \/>\n    &#8211; E o pequeno, onde est&aacute; o pequeno? exclamou Affonso.<br \/>\n    Pedro pareceu recordar-se:<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; l&aacute; dentro com a ama, trouxe-o na sege.<br \/>\n    0 velho correu, logo; e d&#8217;ahi a pouco apparecia, erguendo nos bra&ccedil;os<br \/>\n    o pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas. Era<br \/>\n    gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e c&ocirc;r<br \/>\n    de rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama n&atilde;o<br \/>\n    passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxasinha na m&atilde;o.<br \/>\n    Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no collo.<br \/>\n    Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia esquecer a agonia<br \/>\n    do filho, a vergonha domestica; agora s&oacute; havia alli aquella facesinha<br \/>\n    tenra, que se lhe babava nos bra&ccedil;os&#8230;<br \/>\n    &#8211; Como se chama elle?<br \/>\n    &#8211; Carlos Eduardo, murmurou a ama.<br \/>\n    &#8211; Carlos Eduardo, hein?<br \/>\n    Ficou a olhal-o muito tempo, como procurando n&#8217;elle os signaes da sua ra&ccedil;a:<br \/>\n    depois tomou-lhe na sua as duas m&atilde;osinhas vermelhas que n&atilde;o<br \/>\n    largavam o guiso, e muito grave, como se a crean&ccedil;a o percebesse, disse-lhe:<br \/>\n    &#8211; Olha bem para mim. Eu sou o av&ocirc;. &Eacute; necessario amar o av&ocirc;!<br \/>\n    E &aacute;quella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos<br \/>\n    para elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas grisalhas:<br \/>\n    depois rompeu a pular-lhe nos bra&ccedil;os, desprendeu a m&atilde;osinha,<br \/>\n    e martellou-lhe furiosamente a cabe&ccedil;a com o guiso.<br \/>\n    Toda a face do velho sorria &aacute;quella vi&ccedil;osa alegria; apertou-o<br \/>\n    ao seu largo peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado,<br \/>\n    enternecido, o seu primeiro beijo d&#8217;av&ocirc;; depois, com todo o cuidado,<br \/>\n    foi collocal-o nos bra&ccedil;os da ama.<br \/>\n    &#8211; V&aacute;, ama, v&aacute;&#8230; A Gertrudes j&aacute; l&aacute; anda a arranjar-lhe<br \/>\n    o quarto, v&aacute; v&ecirc;r o que &eacute; necessario.<br \/>\n    Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se n&atilde;o movera do<br \/>\n    canto do soph&aacute;, nem despreg&aacute;ra os olhos do ch&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo&#8230; Olha que nos n&atilde;o vemos ha<br \/>\n    tres annos, filho&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ha mais de tres annos, murmurou Pedro.<br \/>\n    Ergueu-se, allongou a vista &aacute; quinta, t&atilde;o triste sob a chuva;<br \/>\n    depois, derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu<br \/>\n    proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com uma<br \/>\n    rosa na m&atilde;o. E repetia ainda amargamente:<br \/>\n    &#8211; Tinha raz&atilde;o, meu pae, tinha raz&atilde;o&#8230;<br \/>\n    E pouco a pouco, passeiando e suspirando, come&ccedil;ou a fallar d&#8217;aquelles<br \/>\n    ultimos annos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a intimidade<br \/>\n    do italiano na casa, os planos de reconcilia&ccedil;&atilde;o, por fim aquella<br \/>\n    carta infame, sem pudor, invocando a fatalidade, arremessando-lhe o nome do<br \/>\n    outro!&#8230; No primeiro momento tivera s&oacute; id&eacute;as de sangue e quizera<br \/>\n    perseguil-os. Mas conservava um clar&atilde;o de raz&atilde;o. Seria ridiculo,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; verdade? De certo a fuga fora d&#8217;antem&atilde;o preparada,<br \/>\n    e n&atilde;o havia de ir correndo as estalagens da Europa &aacute; busca de<br \/>\n    sua mulher&#8230; Ir lamentar-se &aacute; policia, fazel-os prender? Uma imbecillidade;<br \/>\n    nem impedia que ella fosse j&aacute; por esses caminhos f&oacute;ra dormindo<br \/>\n    com outro&#8230; Restava-lhe s&oacute;mente o desprezo. Era uma bonita amante<br \/>\n    que tivera alguns annos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho,<br \/>\n    sem m&atilde;e, com um mau nome. Paciencia! Necessitava esquecer, partir para<br \/>\n    uma longa viagem, para a America talvez; e o pae veria, havia de voltar consolado<br \/>\n    e forte.<br \/>\n    Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado nos<br \/>\n    dedos, n&#8217;uma voz que se calmava. Mas de repente parou deante do pae, com um<br \/>\n    riso secco, um brilho feroz nos olhos.<br \/>\n    &#8211; Sempre desejei ver a America, e &eacute; boa occasi&atilde;o agora&#8230; &Eacute;<br \/>\n    uma occasi&atilde;o famosa, hein? Posso at&eacute; naturalisar-me, chegar<br \/>\n    a presidente, ou rebentar&#8230; Ah! Ah!<br \/>\n    &#8211; Sim, mais tarde, depois pensar&aacute;s n&#8217;isso, filho, accudiu o velho assustado.<br \/>\n    N&#8217;esse momento a sineta do jantar come&ccedil;ou a tocar lentamente, ao fundo<br \/>\n    do corredor.<br \/>\n    &#8211; Ainda janta cedo, hein? disse Pedro.<br \/>\n    Teve um suspiro can&ccedil;ado e lento, murmurou:<br \/>\n    &#8211; N&oacute;s jantavamos &aacute;s sete&#8230;<br \/>\n    Quiz ent&atilde;o que o pae fosse para a mesa. N&atilde;o havia motivo para<br \/>\n    que se n&atilde;o jantasse. Elle ia um bocado acima, ao seu antigo quarto<br \/>\n    de solteiro&#8230; Ainda l&aacute; tinha a cama, n&atilde;o &eacute; verdade?<br \/>\n    N&atilde;o, n&atilde;o queria tomar nada&#8230;<br \/>\n    &#8211; O Teixeira que me leve um calice de genebra&#8230; Ainda c&aacute; est&aacute;<br \/>\n    o Teixeira, coitado!<br \/>\n    E vendo Affonso sentado, repetiu, j&aacute; impaciente:<br \/>\n    &#8211; V&aacute; jantar meu pae, v&aacute; jantar, pelo amor de Deus&#8230;<br \/>\n    Saiu. O pae ouviu-lhe os passos por cima, e o ruido de janellas desabridamente<br \/>\n    abertas. Foi ent&atilde;o andando para a sala de jantar, onde os criados que<br \/>\n    pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de p&eacute;s, com<br \/>\n    a lentid&atilde;o contristada d&#8217;uma casa onde ha morte. Affonso sentou-se<br \/>\n    &aacute; mesa s&oacute;; mas j&aacute; l&aacute; estava outra vez o talher<br \/>\n    de Pedro; rosas de inverno esfolhavam-se n&#8217;um vaso do Jap&atilde;o; e o velho<br \/>\n    papagaio agitado com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro.<br \/>\n    Affonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto do<br \/>\n    fog&atilde;o; e ali ficou envolvido pouco a pouco n&#8217;aquelle melancolico crepusculo<br \/>\n    de dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste contra as vidra&ccedil;as,<br \/>\n    pensando em todas as cousas terriveis que assim invadiam n&#8217;um tropel pathetico<br \/>\n    a sua paz de velho. Mas no meio da sua d&ocirc;r, funda como era, elle percebia<br \/>\n    um ponto, um recanto do seu cora&ccedil;&atilde;o onde alguma cousa de muito<br \/>\n    doce, de muito novo, palpitava com uma frescura de renascimento, como se algures,<br \/>\n    no seu ser, estivesse rompendo, burbulhando uma nascente rica de alegrias<br \/>\n    futuras; e toda a sua face sorria &aacute; chama alegre, revendo a bochechinha<br \/>\n    rosada, sob as rendas brancas da touca&#8230;<br \/>\n    Pela casa no entanto tinham-se accendido as luzes. J&aacute; inquieto subiu<br \/>\n    ao quarto do filho; estava tudo escuro, t&atilde;o humido e frio, como se<br \/>\n    a chuva caisse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz<br \/>\n    de Pedro veiu do negro da janella: estava l&aacute;, com a vidra&ccedil;a<br \/>\n    aberta, sentado f&oacute;ra na varanda, voltado para a noite brava, para o<br \/>\n    sombrio rumor das ramagens, recebendo na face o vento, a agua, toda a invernia<br \/>\n    agreste.<br \/>\n    &#8211; Pois est&aacute;s aqui filho! exclamou Affonso. Os criados h&atilde;o de<br \/>\n    querer arranjar o quarto, desce um momento&#8230; Est&aacute;s todo molhado, Pedro!<br \/>\n    Apalpava-lhe os joelhos, as m&atilde;os regeladas. Pedro ergueu-se com um<br \/>\n    estreme&ccedil;&atilde;o, desprendeu-se, impaciente d&#8217;aquella ternura do velho.<br \/>\n    &#8211; Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me t&atilde;o bem!<br \/>\n    O Teixeira trouxe luzes, e atraz d&#8217;elle appareceu o criado de Pedro, que cheg&aacute;ra<br \/>\n    n&#8217;esse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem recoberto de oleado.<br \/>\n    As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro viera tambem, como nenhum<br \/>\n    dos senhores estava em casa&#8230;<br \/>\n    &#8211; Bem, bem, interrompeu Affonso. O sr. Villa&ccedil;a l&aacute; ir&aacute;<br \/>\n    amanh&atilde;, e elle dar&aacute; as ordens.<br \/>\n    O criado ent&atilde;o, em bicos de p&eacute;s, foi dep&ocirc;r o estojo sobre<br \/>\n    o marmore da commoda: ainda l&aacute; restavam antigos frascos de toilette<br \/>\n    de Pedro: e os casti&ccedil;aes sobre a meza allumiavam o grande leito triste<br \/>\n    de solteiro com os colx&otilde;es dobrados ao meio.<br \/>\n    A Gertrudes toda atarefada entrara com os bra&ccedil;os carregados de roupa<br \/>\n    de cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d&#8217;Arroios pousando<br \/>\n    o chap&eacute;o a um canto, e sempre em ponta de p&eacute;s, veiu ajudal-os<br \/>\n    tambem. Pedro no entanto, como somnambulo, voltara para a varanda, com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    &aacute; chuva, attraido por aquella treva da quinta que se cavava em baixo<br \/>\n    com um rumor de mar bravo.<br \/>\n    Affonso, ent&atilde;o, puxou-lhe o bra&ccedil;o quasi com aspereza.<br \/>\n    &#8211; Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento.<br \/>\n    Elle seguiu maquinalmente o pae &aacute; livraria, mordendo o charuto apagado<br \/>\n    que desde tarde conservava na m&atilde;o. Sentou-se longe da luz, ao canto<br \/>\n    do soph&aacute;, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo s&oacute; os passos<br \/>\n    lentos do velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silencio em que<br \/>\n    toda a sala ia adormecendo. Uma braza morria no fog&atilde;o. A noite parecia<br \/>\n    mais aspera. Eram de repente vergastadas d&#8217;agua contra as vidra&ccedil;as,<br \/>\n    trazidas n&#8217;uma rajada, que longamente, n&#8217;um clamor teimoso, faziam escoar<br \/>\n    um diluvio dos telhados; depois havia uma calma tenebroza, com uma susurra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    distante de vento fugindo entre ramagens: n&#8217;esse silencio as goteiras punham<br \/>\n    um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria mais furioso, envolvia<br \/>\n    a casa n&#8217;um bater de janellas, redomoinhava, partia com silvos desolados.<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; uma noite de Inglaterra, disse Affonso, debru&ccedil;ando-se<br \/>\n    a espertar o lume.<br \/>\n    Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a id&eacute;a<br \/>\n    de Maria, longe, n&#8217;um quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do adulterio<br \/>\n    entre os bra&ccedil;os do outro. Apertou um instante a cabe&ccedil;a nas m&atilde;os,<br \/>\n    depois veiu junto do pae, com o passo mal firme, mas a voz muito calma.<br \/>\n    &#8211; Estou realmente can&ccedil;ado, meu pae, vou-me deitar. Boa noite&#8230; Amanh&atilde;<br \/>\n    conversaremos mais.<br \/>\n    Beijou-lhe a m&atilde;o e saiu de vagar.<br \/>\n    Affonso demorou-se ainda ali, com um livro na m&atilde;o, sem ler, attento<br \/>\n    s&oacute; a algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silencio.<br \/>\n    Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a cama<br \/>\n    da ama. A Gertrudes, o criado de Arroios, o Teixeira, estavam l&aacute; cochichando<br \/>\n    ao p&eacute; da commoda, na penumbra que dava um folio posto deante do candieiro;<br \/>\n    todos se esquivaram em pontas de p&eacute;s quando lhe sentiram os passos,<br \/>\n    e a ama continuou a arrumar em silencio os gavet&otilde;es. No vasto leito,<br \/>\n    o pequeno dormia como um Menino Jesus can&ccedil;ado, com o seu guiso apertado<br \/>\n    na m&atilde;o. Affonso n&atilde;o ousou beijal-o, para o n&atilde;o acordar<br \/>\n    com as barbas asperas; mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa<br \/>\n    contra a parede, deu um geito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a sua<br \/>\n    d&ocirc;r calmar-se n&#8217;aquella sombra de alcova onde o seu neto dormia.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; necess&aacute;rio alguma cousa, ama? perguntou, abafando a voz.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, meu senhor&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara,<br \/>\n    entreabriu a porta. O filho escrevia, &aacute; luz de duas vellas, com o estojo<br \/>\n    aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu, envelhecida<br \/>\n    e livida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais refulgentes e duros.<br \/>\n    &#8211; Estou a escrever, disse elle.<br \/>\n    Esfregou as m&atilde;os, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou:<br \/>\n    &#8211; Amanh&atilde; cedo &eacute; necessario que o Villa&ccedil;a v&aacute; a<br \/>\n    Arroios&#8230; Est&atilde;o l&aacute; os criados, tenho l&aacute; dois cavallos<br \/>\n    meus, emfim uma por&ccedil;&atilde;o de arranjos. Eu estou-lhe a escrever.<br \/>\n    &Eacute; numero 32 a casa d&#8217;elle, n&atilde;o &eacute;? O Teixeira ha de saber.<br \/>\n    Boas noites, pap&aacute;, boas noites.<br \/>\n    No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso n&atilde;o poude socegar, n&#8217;uma<br \/>\n    oppress&atilde;o, uma inquieta&ccedil;&atilde;o que a cada momento o faziam<br \/>\n    erguer sobre o travesseiro, escutar: agora, no silencio da casa e do vento<br \/>\n    que calmara, ressoavam por cima lentos e continuos os passos de Pedro.<br \/>\n    A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo &#8211; quando de repente um tiro atroou<br \/>\n    a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado acudia tambem<br \/>\n    com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto vinha um cheiro de<br \/>\n    polvora; e aos p&eacute;s da cama, caido de bru&ccedil;os, n&#8217;uma po&ccedil;a<br \/>\n    de sangue que se ensopava no tapete, Affonso encontrou seu filho morto, apertando<br \/>\n    uma pistola na m&atilde;o.<br \/>\n    Entre as duas v&eacute;las que se extinguiam, com fogachos lividos, deix&aacute;ra-lhe<br \/>\n    uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, numa letra firme:<br \/>\n    Para o pap&aacute;.<br \/>\n    D&#8217;ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o neto<br \/>\n    e com todos os criados para a quinta de Sta. Olavia.<\/p>\n<p> Quando Villa&ccedil;a, em fevereiro, foi l&aacute; acompanhar o corpo de<br \/>\n    Pedro, que ia ser depositado no jazigo de familia, n&atilde;o p&ocirc;de conter<br \/>\n    as lagrimas ao avistar aquella vivenda onde pass&aacute;ra t&atilde;o alegres<br \/>\n    nataes. Um baet&atilde;o preto recobria o braz&atilde;o d&#8217;armas, e esse panno<br \/>\n    de esquife parecia ter distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda,<br \/>\n    sobre os castanheiros que ornavam o pateo; dentro os criados abafavam a voz,<br \/>\n    carregados de luto; n&atilde;o havia uma flor nas jarras; o proprio encanto<br \/>\n    de Sta. Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por tanques e repuchos, vinha<br \/>\n    agora com a cadencia saudosa de um choro. E Villa&ccedil;a foi encontrar Affonso<br \/>\n    na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol de inverno, caido para<br \/>\n    uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e brancos, as m&atilde;os<br \/>\n    magras e ociosas sobre os joelhos&#8230;<br \/>\n    O procurador veio dizer para Lisboa que o velho n&atilde;o durava um anno.<\/p>\n<h2><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo III<\/a><\/h2>\n<p>Mas esse anno passou, outros annos passaram.<br \/>\n    Por uma manh&atilde; de abril, nas vesperas de Paschoa, Villa&ccedil;a chegava<br \/>\n    de novo a Sta. Olavia.<br \/>\n    N&atilde;o o esperavam t&atilde;o cedo; e como era o primeiro dia bonito d&#8217;essa<br \/>\n    primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o Teixeira,<br \/>\n    que ia j&aacute; embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o sr. administrador<br \/>\n    com quem &aacute;s vezes se correspondia, e conduziu-o &aacute; sala de jantar<br \/>\n    onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza, deixou cair uma<br \/>\n    pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pesco&ccedil;o.<br \/>\n    As tres portas envidra&ccedil;adas estavam abertas para o terra&ccedil;o,<br \/>\n    que se estendia ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras:<br \/>\n    e Villa&ccedil;a, adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal<br \/>\n    poude reconhecer Affonso da Maia n&#8217;aquelle velho de barba de neve, mas t&atilde;o<br \/>\n    robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu neto pela<br \/>\n    m&atilde;o.<br \/>\n    Carlos, ao avistar no terra&ccedil;o um desconhecido, de chap&eacute;o alto,<br \/>\n    abafado n&#8217;um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso &#8211; e achou-se<br \/>\n    arrebatado nos bra&ccedil;os do bom Villa&ccedil;a, que largara o guarda sol,<br \/>\n    o beijava pelo cabello, pela face, balbuciando:<br \/>\n    &#8211; Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que est&aacute;! que crescido<br \/>\n    que est&aacute;&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, sem avisar, Villa&ccedil;a? exclamava Affonso da Maia, chegando<br \/>\n    de bra&ccedil;os abertos. N&oacute;s s&oacute; o esperavamos para a semana,<br \/>\n    creatura!<br \/>\n    Os dois velhos abra&ccedil;aram-se; depois um momento os seus olhos encontraram-se,<br \/>\n    vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos.<br \/>\n    Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as m&atilde;os enterradas nos<br \/>\n    bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma flanella<br \/>\n    posta de lado sobre os bellos anneis do cabello negro &#8211; continuava a mirar<br \/>\n    o Villa&ccedil;a, que com o bei&ccedil;o tremulo, tendo tirado a luva, limpava<br \/>\n    os olhos por baixo dos oculos.<br \/>\n    &#8211; E ninguem a esperal-o, nem um criado l&aacute; em baixo no rio! dizia Affonso.<br \/>\n    Emfim, c&aacute; o temos, &eacute; o essencial&#8230; E como voc&ecirc; est&aacute;<br \/>\n    rijo, Villa&ccedil;a!<br \/>\n    &#8211; E v. ex.&ordf; meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um solu&ccedil;o.<br \/>\n    Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de mo&ccedil;o&#8230; Eu nem o conhecia!&#8230;<br \/>\n    Quando me lembro, a ultima vez que o vi&#8230; E c&aacute; isto! c&aacute; esta<br \/>\n    linda flor!&#8230;<br \/>\n    Ia abra&ccedil;ar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com<br \/>\n    uma bella risada, saltou do terra&ccedil;o, foi pendurar-se d&#8217;um trapesio<br \/>\n    armado entre as arvores, e ficou l&aacute;, balan&ccedil;ando-se em cadencia,<br \/>\n    forte e airoso, gritando: &laquo;tu &eacute;s o Villa&ccedil;a!&raquo;<br \/>\n    O Villa&ccedil;a, de guarda sol debaixo do bra&ccedil;o, contemplava-o embevecido.<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; uma linda crean&ccedil;a! Faz gosto! E parece-se com o pae.<br \/>\n    Os mesmo olhos, olhos dos Maias, o cabello encaracolado&#8230; Mas ha de ser muito<br \/>\n    mais homem!<br \/>\n    &#8211; &Eacute; s&atilde;o, &eacute; rijo, dizia o velho risonho, anediando as<br \/>\n    barbas. E como ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando &eacute; esse casamento?<br \/>\n    Venha voc&ecirc; c&aacute; para dentro, Villa&ccedil;a, que ha muito que conversar&#8230;<br \/>\n    Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chamin&eacute;<br \/>\n    de azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas resplandeciam<br \/>\n    nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam doudos de alegria.<br \/>\n    A Gertrudes, que fic&aacute;ra a observar, acercou-se, com as m&atilde;os<br \/>\n    cruzadas sob o avental branco, familiar, terna.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, meu senhor, aqui est&aacute; um regalo, v&ecirc;r outra vez<br \/>\n    este ingrato em Sta. Olavia!<br \/>\n    E, com um clar&atilde;o de sympathia na face, alva e redonda como uma velha<br \/>\n    lua, ornada j&aacute; de um bu&ccedil;o branco:<br \/>\n    -Ah! sr. Villa&ccedil;a, isto agora &eacute; outra cousa! At&eacute; os canarios<br \/>\n    cantam! E tambem eu cantava, se ainda podesse.<br \/>\n    E foi saindo, subitamente commovida, j&aacute; com vontade de chorar.<br \/>\n    O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia d&#8217;uma &aacute;<br \/>\n    outra ponta dos seus altos collarinhos de mordomo.<br \/>\n    &#8211; Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. Villa&ccedil;a, hein? disse<br \/>\n    Affonso. No quarto em que voc&ecirc; costumava ficar dorme agora a viscondessa&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o o Villa&ccedil;a apressou-se a perguntar pela sr.&ordf; viscondessa.<br \/>\n    Era uma Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas<br \/>\n    de Caminha a cantavam, cas&aacute;ra com um fidalgote gallego, o sr. visconde<br \/>\n    de Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva<br \/>\n    e pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentella, e para haver uma senhora<br \/>\n    em Sta. Olavia.<br \/>\n    Ultimamente passara mal&#8230; Mas, olhando o relogio, Affonso interrompeu a rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desses achaques.<br \/>\n    &#8211; Villa&ccedil;a, v&aacute;-se arranjar, depressa, que d&#8217;aqui a pouco &eacute;<br \/>\n    o jantar.<br \/>\n    O administrador surprehendido olhou tambem o relogio, depois a mesa j&aacute;<br \/>\n    posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o v. ex.&ordf; agora janta de manh&atilde;? Eu pensei que era<br \/>\n    o almo&ccedil;o&#8230;<br \/>\n    &#8211; Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada est&aacute;<br \/>\n    j&aacute; na quinta; almo&ccedil;a &aacute;s sete; e janta &aacute; uma hora.<br \/>\n    E eu, emfim, para vigiar as maneiras do rapaz&#8230;<br \/>\n    &#8211; E o sr. Affonso da Maia, exclamou Villa&ccedil;a, a mudar de habitos, n&#8217;essa<br \/>\n    edade! O que &eacute; ser av&ocirc;, meu senhor!<br \/>\n    &#8211; Tolice! n&atilde;o &eacute; isso&#8230; &Eacute; que me faz bem. Olhe que me<br \/>\n    faz bem!&#8230; Mas avie-se, Villa&ccedil;a, avie-se que Carlos n&atilde;o gosta<br \/>\n    de esperar&#8230; Talvez tenhamos o abbade.<br \/>\n    &#8211; O Custodio? Rica cousa! Ent&atilde;o, se v. ex.&ordf; me d&aacute; licen&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr. administrador,<br \/>\n    perguntou-lhe, desembara&ccedil;ando-o do guarda sol e do chale-manta:<br \/>\n    &#8211; Com franqueza, como nos acha por c&aacute;, pela quinta sr. Villa&ccedil;a?<br \/>\n    &#8211; Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a Sta. Olavia.<br \/>\n    E, pousando familiarmente a m&atilde;o no hombro do escudeiro, piscando o<br \/>\n    olho ainda humido:<br \/>\n    &#8211; Tudo isto &eacute; o menino. Fez reviver o patr&atilde;o! O Teixeira riu<br \/>\n    respeitosamente. O menino realmente era a alegria da casa&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ol&aacute;! Quem toca por c&aacute;? exclamou Villa&ccedil;a, parando nos<br \/>\n    degraus da escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino&#8230; Muito habilidoso,<br \/>\n    &eacute; um regalo ouvil-o; toca &aacute;s vezes &aacute; noite na sala, o<br \/>\n    sr. juiz de direito acompanha-o na concertina&#8230; Aqui, sr. Villa&ccedil;a,<br \/>\n    o quarto de v. s.&ordf;&#8230;<br \/>\n    &#8211; Muito bonito, sim senhor!<br \/>\n    O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janellas, sobre o tapete<br \/>\n    alvadio semeado de florsinhas azues: e as bambinellas, os reposteiros de cret&oacute;ne,<br \/>\n    repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre fundo claro. Este conforto fresco<br \/>\n    e campestre deleitou o bom Villa&ccedil;a.<br \/>\n    Foi logo apalpar os cret&oacute;nes, esfregou o marmore da commoda, provou<br \/>\n    a solidez das cadeiras. Eram as mobilias compradas no Porto, hein? Pois, elegantes.<br \/>\n    E, realmente, n&atilde;o tinham sido caras. Nem elle fazia id&eacute;a! Ficou<br \/>\n    ainda em bicos de p&eacute;s a examinar duas aguarellas inglezas representando<br \/>\n    vaccas de luxo, deitadas na relva, &aacute; sombra de ruinas romanticas. O<br \/>\n    Teixeira, observou-lhe, com o relogio na m&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; Olhe que v. s.&ordf; tem s&oacute; dez minutos&#8230; O menino n&atilde;o gosta<br \/>\n    de esperar.<br \/>\n    Ent&atilde;o o Villa&ccedil;a decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois<br \/>\n    tirou o seu pesado collete de malha de l&atilde;; e pela camisa entreaberta<br \/>\n    via-se ainda uma flanella escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos<br \/>\n    de seda bordada. O Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do<br \/>\n    corredor, a rebeca atacara o Carnaval de Veneza; e atravez das janellas fechadas<br \/>\n    sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos campos, todo o verde d&#8217;abril.<br \/>\n    Villa&ccedil;a, sem oculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha<br \/>\n    molhada pelo pesco&ccedil;o, por traz da orelha, e ia dizendo:<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, o nosso Carlinhos n&atilde;o gosta de esperar, hein? J&aacute;<br \/>\n    se sabe, &eacute; elle quem governa&#8230; Mimos e mais mimos, naturalmente&#8230;<br \/>\n    Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu o sr. administrador. Mimos<br \/>\n    e mais mimos, dizia s. s.&ordf;? Coitadinho d&#8217;elle, que tinha sido educado<br \/>\n    com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao sr. Villa&ccedil;a! N&atilde;o<br \/>\n    tinha a crean&ccedil;a cinco annos j&aacute; dormia n&#8217;um quarto s&oacute;,<br \/>\n    sem lamparina; e todas as manh&atilde;s, z&aacute;s, para dentro d&#8217;uma tina<br \/>\n    d&#8217;agua fria, &aacute;s vezes a gear l&aacute; f&oacute;ra&#8230; E outras barbaridades.<br \/>\n    Se n&atilde;o se soubesse a grande paix&atilde;o do av&ocirc; pela crean&ccedil;a,<br \/>\n    havia de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, elle, Teixeira, chegara<br \/>\n    a pensal-o&#8230; Mas n&atilde;o, parece que era systema inglez! Deixava-o correr,<br \/>\n    cair, trepar &aacute;s arvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho<br \/>\n    de caseiro. E depois o rigor com as comidas! S&oacute; a certas horas e de<br \/>\n    certas cousas&#8230; E &aacute;s vezes a creancinha, com os olhos abertos, a aguar!<br \/>\n    Muita, muita dureza.<br \/>\n    E o Teixeira accrescentou:<br \/>\n    &#8211; Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que n&oacute;s approvassemos<br \/>\n    a educa&ccedil;&atilde;o que tem levado, isso nunca approv&aacute;mos, nem<br \/>\n    eu, nem a Gertrudes. <br \/>\n    Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra sobre o collete branco,<br \/>\n    deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a cama a sobrecasaca<br \/>\n    do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola, de leve e por amabilidade,<br \/>\n    em quanto dizia, junto ao toucador onde o Villa&ccedil;a acamava as duas longas<br \/>\n    repas sobre a calva:<br \/>\n    &#8211; Sabe v. s.&ordf;, apenas veiu o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar!<br \/>\n    A remar, sr. Villa&ccedil;a, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as<br \/>\n    habilidades de palha&ccedil;o; eu n&#8217;isso nem gosto de fallar&#8230; Que eu sou<br \/>\n    o primeiro a dizel-o: o Brown &eacute; boa pessoa, calado, asseado, excellente<br \/>\n    musico. Mas &eacute; o que eu tenho repetido &aacute; Gertrudes: p&oacute;de<br \/>\n    ser muito bom para inglez, n&atilde;o &eacute; para ensinar um fidalgo portuguez&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o &eacute;. V&aacute; v. s.&ordf; fallar a esse respeito com a sr.&ordf;<br \/>\n    D. Anna Silveira&#8230;<br \/>\n    Bateram de manso &aacute; porta, o Teixeira emmudeceu. Um escudeiro entrou,<br \/>\n    fez um signal ao mordomo, tirou-lhe do bra&ccedil;o respeitosamente a sobrecasaca,<br \/>\n    e ficou com ella junto do toucador, onde o Villa&ccedil;a, vermelho e apressado,<br \/>\n    luctava ainda com as repas rebeldes.<br \/>\n    O Teixeira, da porta, disse com o relogio na m&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; o jantar. Tem v. s.&ordf; dois minutos, sr. Villa&ccedil;a.<br \/>\n    E o administrador d&#8217;ahi a um momento abalava tambem, abotoando ainda o casaco<br \/>\n    pelas escadas.<br \/>\n    Os senhores j&aacute; estavam todos na sala. Junto do fog&atilde;o, onde as<br \/>\n    achas consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o Times. Carlos,<br \/>\n    a cavallo nos joelhos do av&ocirc;, contava-lhe uma grande historia de rapazes<br \/>\n    e de bulhas; e ao p&eacute; o bom abbade Custodio, com o len&ccedil;o de rap&eacute;<br \/>\n    esquecido nas m&atilde;os, escutava, de bocca aberta, n&#8217;um riso paternal e<br \/>\n    terno.<br \/>\n    &#8211; Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso.<br \/>\n    O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na c&ocirc;xa:<br \/>\n    &#8211; Esta &eacute; nova! Ent&atilde;o &eacute; o nosso Villa&ccedil;a? E n&atilde;o<br \/>\n    me tinham dito nada! Venham de l&aacute; esses ossos, homem!&#8230;<br \/>\n    Carlos pulava nos joelhos do av&ocirc;, muito divertido com aquelles longos<br \/>\n    abra&ccedil;os que juntavam as duas cabe&ccedil;as dos velhos &#8211; uma com as<br \/>\n    repas achatadas sobre a calva, outra com uma grande cor&ocirc;a aberta n&#8217;uma<br \/>\n    matta de cabello branco. E como elles, de m&atilde;os dadas, continuavam a<br \/>\n    admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos annos, Affonso disse:<br \/>\n    &#8211; Villa&ccedil;a! a sr.&ordf; viscondessa&#8230;<br \/>\n    O administrador por&eacute;m procurou-a debalde, com os olhos abertos pela<br \/>\n    sala. Carlos ria, batendo as m&atilde;os: &#8211; e Villa&ccedil;a descobriu-a emfim<br \/>\n    a um canto, entre o aparador e a janella, sentada n&#8217;uma cadeirinha baixa,<br \/>\n    vestida de preto, timida e queda, com os bra&ccedil;os rechonchudos pousados<br \/>\n    sobre a obesidade da cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel, as<br \/>\n    roscas do pesco&ccedil;o, cobriram-se-lhe subitamente de rubor; n&atilde;o<br \/>\n    achou uma palavra para dizer ao Villa&ccedil;a, e estendeu-lhe a m&atilde;o<br \/>\n    papuda e pallida, com um dedo embrulhado n&#8217;um peda&ccedil;o de seda negra.<br \/>\n    Depois ficou a abanar-se com um grande leque de lentejoulas, o seio a arfar,<br \/>\n    os olhos no rega&ccedil;o, como exhausta d&#8217;aquelle esfor&ccedil;o.<br \/>\n    Dois escudeiros tinham come&ccedil;ado a servir a sopa, o Teixeira esperava,<br \/>\n    perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso.<br \/>\n    Mas Carlos cavalgava ainda o av&ocirc;, querendo acabar outra historia. Era<br \/>\n    o Manuel, trazia uma pedra na m&atilde;o&#8230; Elle primeiro pens&aacute;ra ir<br \/>\n    &aacute;s boas; mas os dois rapazes come&ccedil;aram a rir&#8230; De maneira que<br \/>\n    os correu a todos&#8230;<br \/>\n    &#8211; E maiores que tu?<br \/>\n    &#8211; Tres rapag&otilde;es, v&ocirc;v&ocirc;, p&oacute;de perguntar &aacute; tia<br \/>\n    Pedra&#8230; Ella viu, que estava na eira. Um d&#8217;elles trazia uma foice&#8230;<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; bom, senhor, est&aacute; bom, ficamos inteirados&#8230; V&aacute;,<br \/>\n    desmonte, que est&aacute; a sopa a esfriar. Upa! upa!<br \/>\n    E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarcha feliz, veiu sentar-se<br \/>\n    ao alto da meza, sorrindo e dizendo:<br \/>\n    &#8211; J&aacute; se vae fazendo pesado, j&aacute; n&atilde;o est&aacute; para collo&#8230;<br \/>\n    Mas reparou ent&atilde;o no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do procurador.<br \/>\n    &#8211; O sr. Brown, o amigo Villa&ccedil;a&#8230; Pe&ccedil;o perd&atilde;o, descuidei-me,<br \/>\n    foi culpa d&#8217;aquelle cavalheiro l&aacute; ao fundo da meza, o sr. D. Carlos<br \/>\n    de mata-sete!<br \/>\n    O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu toda<br \/>\n    a volta &aacute; meza, rigido e teso, para vir sacudir o Villa&ccedil;a n&#8217;um<br \/>\n    tremendo shake-hands; depois, sem uma palavra, reoccupou o seu logar, desdobrou<br \/>\n    o guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi ent&atilde;o que disse<br \/>\n    ao Villa&ccedil;a, com o seu forte accento inglez:<br \/>\n    &#8211; Muito bello dia&#8230; glorioso!<br \/>\n    &#8211; Tempo de rosas, respondeu o Villa&ccedil;a, comprimentando, intimidado diante<br \/>\n    d&#8217;aquelle athleta.<br \/>\n    Naturalmente, n&#8217;esse dia, fallou-se da jornada de Lisboa, do bom servi&ccedil;o<br \/>\n    da malla-posta, do caminho de ferro que se ia abrir&#8230; O Villa&ccedil;a j&aacute;<br \/>\n    viera no comboyo at&eacute; ao Carregado.<br \/>\n    &#8211; De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que ia<br \/>\n    levar &aacute; bocca.<br \/>\n    O excellente homem nunca saira de Resende; e todo o largo mundo, que ficava<br \/>\n    para al&eacute;m da penumbra da sua sachristia e das arvores do seu passal,<br \/>\n    lhe dava o terror d&#8217;uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro, de que tanto<br \/>\n    se fallava&#8230;<br \/>\n    &#8211; Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia Villa&ccedil;a. Digam o<br \/>\n    que disserem, faz arripiar!<br \/>\n    Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgra&ccedil;as d&#8217;essas<br \/>\n    machinas! <br \/>\n    O Villa&ccedil;a ent&atilde;o lembrou os desastres da mala-posta. No de Alcoba&ccedil;a,<br \/>\n    quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irm&atilde;s de caridade! Emfim<br \/>\n    de todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no quarto&#8230;<br \/>\n    O abbade gostava do progresso&#8230; Achava at&eacute; necessario o progresso.<br \/>\n    Mas parecia-lhe que se queria fazer tudo &aacute; lufa-lufa&#8230; O paiz n&atilde;o<br \/>\n    estava para essas inven&ccedil;&otilde;es; o que precisava eram boas estradinhas&#8230;<br \/>\n    &#8211; E economia! disse o Villa&ccedil;a, puxando para si os piment&otilde;es.<br \/>\n    &#8211; Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro.<br \/>\n    O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe &aacute; luz a<br \/>\n    c&ocirc;r rica, provou-o com a ponta do labio, e piscando o olho para Affonso:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; do nosso!<br \/>\n    &#8211; Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown&#8230; Hein, Brown, um bom nectar?<br \/>\n    &#8211; Magnificente! exclamou o perceptor com uma energia fogosa.<br \/>\n    Ent&atilde;o Carlos, estendendo o bra&ccedil;o por cima da meza, reclamou<br \/>\n    tambem Bucellas. E a sua raz&atilde;o era haver festa por ter chegado o Villa&ccedil;a.<br \/>\n    O av&ocirc; n&atilde;o consentiu; o menino teria o seu calice de Collares,<br \/>\n    como de costume, e um s&oacute;. Carlos crusou os bra&ccedil;os sobre o guardanapo<br \/>\n    que lhe pendia do pesco&ccedil;o, espantado de tanta injusti&ccedil;a! Ent&atilde;o<br \/>\n    nem para festejar o Villa&ccedil;a poderia apanhar uma gotinha de Bucellas?<br \/>\n    Ahi estava uma linda maneira de receber os hospedes na quinta&#8230; A Gertrudes<br \/>\n    dissera-lhe que como viera o sr. administrador, havia de p&ocirc;r &aacute;<br \/>\n    noite para o ch&aacute; o fato novo de velludo. Agora observavam-lhe que n&atilde;o<br \/>\n    era festa, nem caso para Bucellas&#8230; Ent&atilde;o n&atilde;o entendia.<br \/>\n    O av&ocirc;, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um car&atilde;o<br \/>\n    severo.<br \/>\n    &#8211; Parece-me que o senhor est&aacute; palrando de mais. As pessoas grandes<br \/>\n    &eacute; que palram &aacute; meza.<br \/>\n    Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; bom, v&ocirc;v&ocirc;, n&atilde;o te zangues. Esperarei para<br \/>\n    quando for grande&#8230;<br \/>\n    Houve um sorriso em volta da meza. A propria viscondessa, deleitada, agitou<br \/>\n    pregui&ccedil;osamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em extasi<br \/>\n    para o menino, apertava as m&atilde;os cabelludas contra o peito, tanto aquillo<br \/>\n    lhe parecia engra&ccedil;ado: e Affonso tossia por traz do guardanapo, como<br \/>\n    limpando as barbas &#8211; a esconder o riso, a admira&ccedil;&atilde;o que lhe<br \/>\n    brilhava nos olhos.<br \/>\n    Tanta vivacidade surprehendeu tambem Villa&ccedil;a. Quiz ouvir mais o menino,<br \/>\n    e pousando o seu talher:<br \/>\n    &#8211; E diga-me, Carlinhos, j&aacute; vae adiantado nos seus estudos?<br \/>\n    O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as m&atilde;os pelo c&oacute;s<br \/>\n    das flanellas, e respondeu com um tom superior:<br \/>\n    &#8211; J&aacute; fa&ccedil;o ladear a Brigida.<br \/>\n    Ent&atilde;o o av&ocirc;, sem se conter, largou a rir, cahido para o espaldar<br \/>\n    da cadeira:<br \/>\n    &#8211; Essa &eacute; boa! Eh ! Eh! J&aacute; faz ladear a Brigida! E &eacute; verdade,<br \/>\n    Villa&ccedil;a, j&aacute; a faz ladear&#8230; Pergunte ao Brown; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade, Brown? E a eguasita &eacute; uma piorrita, mas fina&#8230;<br \/>\n    &#8211; Oh v&ocirc;v&ocirc;, gritou Carlos j&aacute; excitado, dize ao Villa&ccedil;a,<br \/>\n    anda. N&atilde;o &eacute; verdade que eu era capaz de governar o dog-cart?<br \/>\n    Affonso reassumio um ar severo.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o o nego&#8230; Talvez o governasse, se lh&#8217;o consentissem. Mas fa&ccedil;a-me<br \/>\n    favor de se n&atilde;o gabar das suas fa&ccedil;anhas, porque um bom cavalleiro<br \/>\n    deve ser modesto&#8230; E sobre tudo n&atilde;o enterrar assim as m&atilde;os<br \/>\n    pela barriga abaixo&#8230;<br \/>\n    O bom Villa&ccedil;a, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma<br \/>\n    observa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se podia de certo ter melhor prenda que<br \/>\n    montar a cavallo com as regras&#8230; Mas elle queria dizer se o Carlinhos j&aacute;<br \/>\n    entrava com o seu Phedro, o seu Tito Liviosinho&#8230;<br \/>\n    &#8211; Villa&ccedil;a, Villa&ccedil;a, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso<br \/>\n    de santa malicia, n&atilde;o se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o admitte, acha que &eacute; antigo&#8230; Elle, antigo &eacute;&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ora sirva-se d&#8217;esse fricass&eacute;, ande abbade, disse Affonso, que eu<br \/>\n    sei que &eacute; o seu fraco, e deixe l&aacute; o latim&#8230;<br \/>\n    O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons peda&ccedil;os<br \/>\n    de ave, ia murmurando: <br \/>\n    &#8211; Deve-se come&ccedil;ar pelo latimsinho, deve-se come&ccedil;ar por l&aacute;&#8230;<br \/>\n    &Eacute; a base; &eacute; a basesinha!<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante. Prrimeiro<br \/>\n    forr&ccedil;a! Forr&ccedil;a! Musculo&#8230;<br \/>\n    E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos:<br \/>\n    &#8211; Prrimeiro musculo, musculo!&#8230;<br \/>\n    Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era um<br \/>\n    luxo d&#8217;erudito&#8230; Nada mais absurdo que come&ccedil;ar a ensinar a uma crean&ccedil;a<br \/>\n    n&#8217;uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos Grachos, e<br \/>\n    outros negocios d&#8217;uma na&ccedil;&atilde;o extincta, deixando-o ao mesmo tempo<br \/>\n    sem saber o o que &eacute; a chuva que o molha, como se faz o p&atilde;o que<br \/>\n    come, e todas as outras cousas do Universo em que vive&#8230;<br \/>\n    &#8211; Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade.<br \/>\n    &#8211; Qual classicos! O primeiro dever do homem &eacute; viver. E para isso &eacute;<br \/>\n    necessario ser s&atilde;o, e ser forte. Toda a educa&ccedil;&atilde;o sensata<br \/>\n    consiste n&#8217;isto: crear a saude, a for&ccedil;a e os seus habitos, desenvolver<br \/>\n    exclusivamente o animal, armal&#8217;o d&#8217;uma grande superioridade physica. Tal qual<br \/>\n    como se n&atilde;o tivesse alma. A alma vem depois&#8230; A alma &eacute; outro<br \/>\n    luxo. &Eacute; um luxo de gente grande&#8230;<br \/>\n    O abbade co&ccedil;ava a cabe&ccedil;a, com o ar arripiado.<br \/>\n    &#8211; A instruc&ccedil;&atilde;osinha &eacute; necessaria, disse elle. Voc&ecirc;<br \/>\n    n&atilde;o acha, Villa&ccedil;a? Que v. ex.&ordf;, sr. Affonso da Maia, tem<br \/>\n    visto mais mundo do que eu&#8230; Mas emfim a instruc&ccedil;&atilde;osinha&#8230;<br \/>\n    &#8211; A instruc&ccedil;&atilde;o para uma crean&ccedil;a n&atilde;o &eacute; recitar<br \/>\n    Tityre, tu patulae recubans&#8230; &Eacute; saber factos, no&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    cousas uteis, cousas praticas&#8230;<br \/>\n    Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n&#8217;um signal ao Villa&ccedil;a,<br \/>\n    mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos de<br \/>\n    for&ccedil;a, uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava a contar,<br \/>\n    animado e jogando com os punhos. O perceptor approvava, retorcendo os bigodes.<br \/>\n    E &aacute; mesa os senhores com os garfos suspensos, por traz os escudeiros<br \/>\n    de p&eacute; e guardanapo no bra&ccedil;o, todos, n&#8217;um silencio reverente,<br \/>\n    admiravam o menino a fallar inglez.<br \/>\n    &#8211; Grande prenda, grande prenda, murmurou Villa&ccedil;a, inclinando-se para<br \/>\n    a Viscondessa.<br \/>\n    A excellente senhora c&oacute;rou, atravez d&#8217;um sorriso. Parecia assim mais<br \/>\n    gorda, toda aca&ccedil;apada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a<br \/>\n    cada gole de Bucellas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque<br \/>\n    negro e lentejoulado.<br \/>\n    Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma saude ao Villa&ccedil;a.<br \/>\n    Todos os copos se ergueram n&#8217;um rumor de amizade. Carlos quiz gritar Hurrah!<br \/>\n    O av&ocirc;, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na pausa satisfeita<br \/>\n    que se fez, o pequeno disse com uma grande convic&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; Oh av&ocirc;, eu gosto do Villa&ccedil;a. O Villa&ccedil;a &eacute; nosso<br \/>\n    amigo.<br \/>\n    &#8211; Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou o velho procurador, t&atilde;o<br \/>\n    commovido que mal podia erguer o calice na m&atilde;o.<br \/>\n    O jantar findava. F&oacute;ra, o sol deix&aacute;ra o terrasso e a quinta<br \/>\n    verdejava na grande do&ccedil;ura do ar tranquillo, sob o azul ferrete. Na<br \/>\n    chamin&eacute; s&oacute; restava uma cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam<br \/>\n    um aroma vivo, a que se misturava o do creme queimado, tocado de um fio de<br \/>\n    lim&atilde;o: os creados, de colletes brancos, moviam o servi&ccedil;o d&#8217;onde<br \/>\n    se escapava algum som argentino: e toda a alva toalha adamascada desapparecia<br \/>\n    sob a confus&atilde;o da sobremesa onde os tons dourados do vinho do Porto<br \/>\n    brilhavam entre as compoteiras de crystal. A Viscondessa affogueada abanava-se.<br \/>\n    Padre Custodio enrolava devagar o guardanapo, a sua batina co&ccedil;ada luzia<br \/>\n    nas pregas das mangas.<br \/>\n    Ent&atilde;o Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima saude.<br \/>\n    &#8211; Viva v. s.&ordf;, snr. Carlos de Matta-sete!<br \/>\n    &#8211; Sr. V&ocirc;v&ocirc;! dizia o pequeno escorropichando o copo. A cabe&ccedil;inha<br \/>\n    de cabellos negros, a velha face de barbas de neve, saudavam-se das extremidades<br \/>\n    da mesa &#8211; em quanto todos sorriam, no enternecimento d&#8217;aquella cerimonia.<br \/>\n    Depois o abbade, de palito na bocca, murmurou as gra&ccedil;as. A Viscondessa,<br \/>\n    cerrando os olhos, juntou tambem as m&atilde;os. E Villa&ccedil;a que tinha<br \/>\n    cren&ccedil;as religiosas n&atilde;o gostou de v&ecirc;r Carlos, sem se importar<br \/>\n    com as gra&ccedil;as, saltar da cadeira, vir atirar-se ao pesco&ccedil;o do<br \/>\n    av&ocirc;, fallar-lhe ao ouvido.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o senhor! n&atilde;o senhor! dizia o velho.<br \/>\n    Mas o rapaz, abra&ccedil;ando-o mais forte, dava-lhe grandes raz&otilde;es,<br \/>\n    n&#8217;um murmurio de mimo d&ocirc;ce como um beijo, que ia pondo na face do velho<br \/>\n    uma fraqueza indulgente.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas veja l&aacute;, veja<br \/>\n    l&aacute;&#8230;<br \/>\n    O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Villa&ccedil;a pelos bra&ccedil;os,<br \/>\n    f&ecirc;l-o redomoinhar, e foi cantando n&#8217;um rythmo seu:<br \/>\n    &#8211; Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!&#8230; Vou buscar a Therezinha, inha, inha,<br \/>\n    inha!<br \/>\n    &#8211; &Eacute; a noiva, disse o av&ocirc;, erguendo-se da mesa. J&aacute; tem<br \/>\n    amores, &eacute; a pequena das Silveiras&#8230; O caf&eacute; para o terra&ccedil;o,<br \/>\n    Teixeira.<br \/>\n    O dia f&oacute;ra convidava, adoravel, d&#8217;um azul suave, muito puro e muito<br \/>\n    alto, sem uma nuvem. Defronte do terra&ccedil;o os geranios vermelhos estavam<br \/>\n    j&aacute; abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d&#8217;uma delicadeza<br \/>\n    de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um vago cheiro de<br \/>\n    violetas, misturado ao perfume adocicado das fl&ocirc;res do campo; o alto<br \/>\n    repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos baixos, a areia fina<br \/>\n    faiscava de leve &aacute;quelle sol timido de primavera tardia, que ao longe<br \/>\n    envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa hora de sesta n&#8217;uma luz fresca<br \/>\n    e loura.<br \/>\n    Os tres homens sentaram-se &aacute; mesa do caf&eacute;. Defronte do terra&ccedil;o,<br \/>\n    o Brown, de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava<br \/>\n    ao alto a barra do trapezio para Carlos se balou&ccedil;ar. Ent&atilde;o o<br \/>\n    bom Villa&ccedil;a pedio para voltar as costas. N&atilde;o gostava de v&ecirc;r<br \/>\n    gymnasticas; bem sabia que n&atilde;o havia perigo; mas mesmo nos cavallinhos,<br \/>\n    as cabriolas, os arcos, atordoavam-n&#8217;o; sahia sempre com o estomago embrulhado&#8230;<br \/>\n    &#8211; E parece-me imprudente, sobre o jantar&#8230; <br \/>\n    &#8211; Qual! &eacute; s&oacute; balou&ccedil;ar-se&#8230; Olhe para aquillo! <br \/>\n    Mas Villa&ccedil;a n&atilde;o se moveu, com a face sobre a chavena.<br \/>\n    O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos, e o pires cheio de caf&eacute;<br \/>\n    esquecido na m&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Olhe para aquillo Villa&ccedil;a, repetio Affonso. N&atilde;o lhe faz mal,<br \/>\n    homem!<br \/>\n    O bom Villa&ccedil;a voltou-se, com esfor&ccedil;o. O pequeno muito alto no<br \/>\n    ar, com as pernas retesadas contra a barra do trapezio, as m&atilde;os &aacute;s<br \/>\n    cordas, descia sobre o terra&ccedil;o, cavando o espa&ccedil;o largamente,<br \/>\n    com os cabellos ao vento; depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno<br \/>\n    sol; todo elle sorria; a sua blusa, os cal&ccedil;&otilde;es enfunavam-se<br \/>\n    &aacute; aragem; e via-se passar, fugir, o brilho dos seus olhos muito negros<br \/>\n    e muito abertos.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o est&aacute; mais na minha m&atilde;o, n&atilde;o gosto, disse<br \/>\n    o Villa&ccedil;a. Acho imprudente!<br \/>\n    Ent&atilde;o Affonso bateu as palmas, o abbade gritou bravo, bravo. Villa&ccedil;a<br \/>\n    voltou-se para applaudir, mas Carlos tinha j&aacute; desapparecido; o trapezio<br \/>\n    parava, em oscilla&ccedil;&otilde;es lentas; e o Brown, retomando o Times<br \/>\n    que pozera ao lado sobre o pedestal d&#8217;um busto, foi descendo para a quinta<br \/>\n    envolvido n&#8217;uma nuvem de fumo do cachimbo.<br \/>\n    &#8211; Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, accendendo com satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    outro charuto.<br \/>\n    Villa&ccedil;a j&aacute; ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade,<br \/>\n    depois de dar um sorvo ao caf&eacute;, de lamber os bei&ccedil;os, soltou<br \/>\n    a sua bella phrase, arranjada em maxima:<br \/>\n    &#8211; Esta educa&ccedil;&atilde;o faz athletas mas n&atilde;o faz christ&atilde;os.<br \/>\n    J&aacute; o tenho dito..<br \/>\n    &#8211; J&aacute; o tem dito abbade, j&aacute;! exclamou Affonso alegremente. Diz-m&#8217;o<br \/>\n    todas as semanas&#8230; Quer voc&ecirc; saber, Villa&ccedil;a? O nosso Custodio<br \/>\n    matta-me o bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!&#8230;<br \/>\n    Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada e a caixa<br \/>\n    de rap&eacute; aberta na m&atilde;o; a irreligi&atilde;o d&#8217;aquelle velho fidalgo,<br \/>\n    senhor de quasi toda a freguezia, era uma das suas d&ocirc;res:<br \/>\n    &#8211; A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.&ordf; o diga assim com esse<br \/>\n    modo escarnica&#8230; A cartilha. Mas j&aacute; n&atilde;o quero fallar na cartilha&#8230;<br \/>\n    Ha outras cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, &eacute;<br \/>\n    pelo amor que tenho ao menino.<br \/>\n    E recome&ccedil;ou a discuss&atilde;o, que voltava sempre ao caf&eacute;,<br \/>\n    quando Custodio jantava na quinta.<br \/>\n    O bom homem achava horroroso que n&#8217;aquella edade um t&atilde;o lindo mo&ccedil;o,<br \/>\n    herdeiro d&#8217;uma casa t&atilde;o grande, com futuras responsabilidades na sociedade,<br \/>\n    n&atilde;o soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Villa&ccedil;a a historia<br \/>\n    da D. Cecilia Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do escriv&atilde;o, tendo<br \/>\n    passado deante do port&atilde;o da quinta, avistara o Carlinhos, chamara-o,<br \/>\n    carinhosa e amiga de crean&ccedil;as como era, e pedira-lhe que lhe dissesse<br \/>\n    o acto de contric&ccedil;&atilde;o. E que respondeu o menino? Que nunca em<br \/>\n    tal ouvira fallar! Estas cousas entristeciam. E o sr. Affonso da Maia achava-lhe<br \/>\n    gra&ccedil;a, ria-se! Ora alli estava o amigo Villa&ccedil;a que podia dizer<br \/>\n    se era caso para jubilar. N&atilde;o, o sr. Affonso da Maia tinha muito saber,<br \/>\n    e correra muito mundo; mas d&#8217;uma cousa n&atilde;o o podia convencer, a elle<br \/>\n    pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda, &eacute; que houvesse felicidade<br \/>\n    e bom comportamento na vida sem a moral do cathecismo.<br \/>\n    E Affonso da Maia respondia com bom humor:<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o que lhe ensinava voc&ecirc;, abbade, se eu lhe entregasse o<br \/>\n    rapaz? Que se n&atilde;o deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir,<br \/>\n    nem maltratar os inferiores, por que isso &eacute; contra os mandamentos da<br \/>\n    lei de Deus, e leva ao inferno, hein? &Eacute; isso?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ha mais alguma cousa&#8230;<br \/>\n    &#8211; Bem sei. Mas tudo isso que voc&ecirc; lhe ensinaria que se n&atilde;o deve<br \/>\n    fazer, por ser um peccado que offende a Deus, j&aacute; elle sabe que se n&atilde;o<br \/>\n    deve praticar, por que &eacute; indigno d&#8217;um cavalheiro e d&#8217;um homem de bem&#8230;<br \/>\n    &#8211; Mas, meu senhor&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ou&ccedil;a abbade. Toda a differen&ccedil;a &eacute; essa. Eu quero que<br \/>\n    o rapaz seja virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas<br \/>\n    n&atilde;o por medo &aacute;s<br \/>\n    caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino do c&eacute;u&#8230;<br \/>\n    E accrescentou, erguendo-se e sorrindo:<br \/>\n    &#8211; Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, &eacute; quando vem, depois<br \/>\n    de semanas de chuva, um dia d&#8217;estes, ir respirar pelos campos e n&atilde;o<br \/>\n    estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Villa&ccedil;a n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; muito can&ccedil;ado, vamos dar ahi um giro pelas fazendas&#8230;<br \/>\n    O abbade suspirou como um santo que v&ecirc; a negra impiedade dos tempos<br \/>\n    e Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a chavena<br \/>\n    e sorveu com delicias o resto do seu caf&eacute;.<br \/>\n    Quando Affonso da Maia, Villa&ccedil;a e o abbade recolheram do seu passeio<br \/>\n    pela freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado j&aacute;<br \/>\n    as Silveiras, senhoras ricas da quinta da Lagoa&ccedil;a.<br \/>\n    D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da familia,<br \/>\n    e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande auctoridade em Resende.<br \/>\n    A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma excellente e pachorrenta senhora,<br \/>\n    de agradavel nutri&ccedil;&atilde;o, trigueirota e pestanuda; tinha dois filhos,<br \/>\n    a Theresinha, a noiva de Carlos, uma rapariguinha magra e viva com cabellos<br \/>\n    negros como tinta, e o morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada<br \/>\n    n&#8217;aquelles sitios.<br \/>\n    Quasi desde o ber&ccedil;o este notavel menino revelara um edificante amor<br \/>\n    por alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e j&aacute;<br \/>\n    a sua alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n&#8217;um cobertor,<br \/>\n    folheando in-folios, com o craneosinho calvo de sabio curvado sobre as lettras<br \/>\n    garrafaes de boa doutrina: depois de crescidinho tinha tal proposito que permanecia<br \/>\n    horas immovel n&#8217;uma cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca<br \/>\n    appetecera um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o<br \/>\n    precoce letrado, entre o pasmo da mam&atilde; e da titi, passava dias a tra&ccedil;ar<br \/>\n    algarismos, com a lingoasinha de fora.<br \/>\n    Assim na familia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser primeiro<br \/>\n    bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia, a tia Annica<br \/>\n    installava-o logo &aacute; mesa, ao p&eacute; do candieiro, a admirar as pinturas<br \/>\n    d&#8217;um enorme e rico volume, os Costumes de todos os povos do Universo. J&aacute;<br \/>\n    l&aacute; estava essa noite, vestido como sempre de escossez, com o plaid<br \/>\n    de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracollo e preso ao hombro<br \/>\n    por uma dragona; para que conservasse o ar nobre d&#8217;um Stuart, d&#8217;um valoroso<br \/>\n    cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o bonet onde se arqueava com<br \/>\n    heroismo uma rutilante penna de gallo; e nada havia mais melancolico que a<br \/>\n    sua facesinha trombuda, a que o excesso<br \/>\n    de lombrigas dava uma molleza e uma amarellid&atilde;o de manteiga, os seus<br \/>\n    olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lh&#8217;as tivesse j&aacute;<br \/>\n    consummido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e para os<br \/>\n    guerreiros ferozes do Montenegro appoiados a escupetas, em pincaros de serranias.<br \/>\n    Deante do canap&eacute; das senhoras l&aacute; se achava tambem o fiel amigo,<br \/>\n    o dr. delegado, grave e digno homem, que havia cinco annos andava ponderando<br \/>\n    e meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se decidir &#8211; contentando-se<br \/>\n    em comprar todos os annos mais meia duzia de len&ccedil;oes, ou uma pe&ccedil;a<br \/>\n    mais de bretanha, para arredondar o bragal. Estas compras eram discutidas<br \/>\n    em casa das Silveiras, &aacute; brazeira: e as allus&otilde;es recatadas,<br \/>\n    mas inevitaveis, &aacute;s duas fronhasinhas, ao tamanho dos len&ccedil;oes,<br \/>\n    aos cobertores de papa para os conchegos de janeiro &#8211; em logar de inflammar<br \/>\n    o magistrado, inquietavam-n&#8217;o. Nos dias seguintes apparecia preoccupado &#8211;<br \/>\n    como se a perspectiva da santa consumma&ccedil;&atilde;o do matrimonio lhe<br \/>\n    d&eacute;sse o arrepio de uma fa&ccedil;anha a emprehender,o ter de agarrar<br \/>\n    um toiro, ou nadar nos cach&otilde;es do Douro. Ent&atilde;o, por qualquer<br \/>\n    ras&atilde;o especiosa, adiava-se o casamento at&eacute; ao S. Miguel seguinte.<br \/>\n    E alliviado, tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as Silveiras<br \/>\n    a ch&aacute;s, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, affavel, servi&ccedil;al,<br \/>\n    sorrindo a D. Eugenia, n&atilde;o desejando mais prazeres que os d&#8217;essa convivencia<br \/>\n    paternal.<br \/>\n    Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o dr.<br \/>\n    juiz de direito e a senhora n&atilde;o podiam vir, por que o magistrado tivera<br \/>\n    a d&ocirc;r; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se, coitadas,<br \/>\n    que era dia de tristeza em casa, por fazer desesete annos que morrera o mano<br \/>\n    Manuel&#8230;<br \/>\n    &#8211; Bem, disse Affonso, bem. A d&ocirc;r, a tristeza, o mano Manuel&#8230; Fazemos<br \/>\n    n&oacute;s um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado?<br \/>\n    O excellente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que &laquo;estava<br \/>\n    &aacute;s ordens.&raquo;<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as m&atilde;os,<br \/>\n    no ardor j&aacute; da partida.<br \/>\n    Os parceiros dirigiram-se &aacute; saleta do jogo &#8211; que um reposteiro de damasco<br \/>\n    separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos circulos<br \/>\n    de luz que cahiam dos abat-jour os baralhos abertos em leque. D&#8217;ahi a um momento<br \/>\n    o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que &laquo;os deixara para um roquesinho<br \/>\n    de tres&raquo;; e retomou o seu logar ao lado de D. Eugenia, cruzando os p&eacute;s<br \/>\n    debaixo da cadeira e as m&atilde;os em cima do ventre. As senhoras estavam<br \/>\n    fallando da d&ocirc;r do dr. juiz de direito. Costumava dar-lhe todos os tres<br \/>\n    mezes: e era condemnavel a sua teima em n&atilde;o querer consultar medicos.<br \/>\n    Quanto mais que elle andava acabado, ressequindo, amarellando &#8211; e a D. Augusta,<br \/>\n    a mulher, a nutrir &aacute; larga, a ganhar c&ocirc;res!&#8230; A Viscondessa,<br \/>\n    enterrada em toda a sua gordura ao canto do canap&eacute;, com o leque aberto<br \/>\n    sobre o peito, contou que em Hespanha vira um caso egual: o homem chegara<br \/>\n    a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa; e ao principio f&ocirc;ra o contrario;<br \/>\n    at&eacute; sobre isso se tinham feito uns versos&#8230;<br \/>\n    &#8211; Humores, disse com melancolia o dr. delegado.<br \/>\n    Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco, coitadinho,<br \/>\n    na flor de idade! E que perfei&ccedil;&atilde;o de rapaz! E que rapaz de juizo!<br \/>\n    D. Anna Silveira n&atilde;o se esquecera, como todos os annos, de lhe accender<br \/>\n    uma lamparina por alma, e de lhe resar tres padre-nossos. A viscondessa pareceu<br \/>\n    toda afflicta por se n&atilde;o ter lembrado&#8230; E ella que tinha o proposito<br \/>\n    feito!<br \/>\n    &#8211; Pois estive para t&#8217;o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que tanto<br \/>\n    o agradecem, filha!<br \/>\n    &#8211; Ainda est&aacute; a tempo, observou o magistrado.<br \/>\n    D. Eugenia deu uma malha indolente no crochet de que nunca se separava, e<br \/>\n    murmurou com um suspiro:<br \/>\n    &#8211; Cada um tem os seus mortos.<br \/>\n    E no silencio que se fez, saiu do canto do canap&eacute; outro suspiro, o<br \/>\n    da viscondessa, que de certo se record&aacute;ra do fidalgo d&#8217;Urigo de la<br \/>\n    Sierra, e murmurava:<br \/>\n    &#8211; Cada um tem os seus mortos&#8230;<br \/>\n    E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar reflectidamente<br \/>\n    a m&atilde;o pela calva:<br \/>\n    &#8211; Cada um tem os seus mortos!<br \/>\n    Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles, as<br \/>\n    chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava com cautella<br \/>\n    e arte as estampas dos Costumes de todos os Povos. E na saleta de jogo, atravez<br \/>\n    do reposteiro aberto, sentia-se a voz j&aacute; arrenegada do abbade, rosnando<br \/>\n    com um rancor tranquillo, &laquo;passo, que &eacute; o que tenho feito toda<br \/>\n    a santa noite!&raquo;<br \/>\n    N&#8217;esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua noiva,<br \/>\n    a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada das suas<br \/>\n    vozes reanimou o canap&eacute; dormente.<br \/>\n    Os noivos tinham chegado d&#8217;uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos parecia<br \/>\n    descontente de sua mulher; comportara-se d&#8217;uma maneira atroz; quando elle<br \/>\n    ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se ao p&eacute; d&#8217;elle<br \/>\n    na almofada&#8230; Ora senhoras n&atilde;o viajam na almofada.<br \/>\n    &#8211; E elle atirou-me ao ch&atilde;o, titi!<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o &eacute; verdade! De mais a mais &eacute; mentirosa! Foi como<br \/>\n    quando cheg&aacute;mos &aacute; estalagem&#8230; Ella quiz-se deitar, e eu n&atilde;o<br \/>\n    quiz&#8230; A gente, quando se apeia de viagem, a primeira cousa que faz &eacute;<br \/>\n    tratar do gado&#8230; E os cavallos vinham a escorrer&#8230;<br \/>\n    A voz de D. Anna interrompeu, muito severa:<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; bom, est&aacute; bom, basta de tolices! J&aacute; cavallaram<br \/>\n    bastante. Senta-te ahi ao p&eacute; da sr.&ordf; Viscondessa, Thereza&#8230; Olhe<br \/>\n    essa travessa do cabello&#8230; Que desproposito!<br \/>\n    Sempre detest&aacute;ra ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos,<br \/>\n    brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem doutrina<br \/>\n    e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imagina&ccedil;&atilde;o de solteirona<br \/>\n    passavam sem cessar id&eacute;as, suspeitas de ultrages que elle poderia fazer<br \/>\n    &aacute; menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para Sta. Olavia, recommendava-lhe<br \/>\n    com for&ccedil;a que n&atilde;o fosse com o Carlos para os recantos escuros!<br \/>\n    que o n&atilde;o deixasse mecher-lhe nos vestidos!&#8230; A menina, que tinha<br \/>\n    os olhos muito langorosos, dizia: &laquo;Sim, titi.&raquo; Mas, apenas na<br \/>\n    quinta, gostava de abra&ccedil;ar o seu maridinho. Se eram casados, por que<br \/>\n    n&atilde;o haviam de fazer n&eacute;n&eacute;, ou ter uma loja e ganharem<br \/>\n    a sua vida aos beijinhos? Mas o violento rapaz s&oacute; queria guerras, quatro<br \/>\n    cadeiras lan&ccedil;adas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que<br \/>\n    o Brown lhe ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mal comprehendido, chamava-lhe arrieiro; elle amea&ccedil;ava boxal-a, &aacute;<br \/>\n    ingleza; &#8211; e separavam-se sempre arrenegados.<br \/>\n    Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as m&atilde;os<br \/>\n    no rega&ccedil;o &#8211; Carlos veiu logo estirar-se ao p&eacute; d&#8217;ella, meio deitado<br \/>\n    para as costas do canap&eacute;, bamboleando as pernas.<br \/>\n    &#8211; Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna.<br \/>\n    &#8211; Estou can&ccedil;ado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente<br \/>\n    e sem a olhar.<br \/>\n    De repente por&eacute;m, d&#8217;um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho. Queria-o<br \/>\n    levar &aacute; Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o j&aacute; pelo<br \/>\n    seu bello plaid de cavalleiro d&#8217;Escossia, quando a mam&atilde; accudiu atterrada.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, com o Eusebiosinho n&atilde;o, filho! N&atilde;o tem saude para<br \/>\n    essas cavalladas&#8230; Carlinhos, olhe que eu chamo o av&ocirc;!<br \/>\n    Mas o Eusebiosinho, a um repell&atilde;o mais forte, rolara no ch&atilde;o,<br \/>\n    soltando gritos medonhos. Foi um alvoro&ccedil;o, um levantamento. A m&atilde;e,<br \/>\n    tremula, agachada junto d&#8217;elle, punha-o de p&eacute; sobre as perninhas molles,<br \/>\n    limpando-lhe as grossas lagrimas, j&aacute; com o len&ccedil;o, j&aacute;<br \/>\n    com beijos, quasi a chorar tambem. O delegado, consternado, apanhara o bonet<br \/>\n    escossez, e cofiava melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa<br \/>\n    apertava &aacute;s m&atilde;os ambas o enorme seio, como se as palpita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a suffocassem.<br \/>\n    O Eusebiosinho foi ent&atilde;o preciosamente collocado ao lado da titi; e<br \/>\n    a severa senhora, com um fulg&ocirc;r de colera na face magra, apertando o<br \/>\n    leque fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de m&atilde;os<br \/>\n    atraz das costas e aos pulos em roda do canap&eacute;, ria, arreganhando para<br \/>\n    o Eusebiosinho um labio feroz. Mas n&#8217;esse momento davam nove horas, e a desempenada<br \/>\n    figura do Brown appareceu &aacute; porta.<br \/>\n    Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa, gritando:<br \/>\n    &#8211; Ainda &eacute; muito cedo, Brown, hoje &eacute; festa, n&atilde;o me vou<br \/>\n    deitar!<br \/>\n    Ent&atilde;o Affonso da Maia, que se n&atilde;o movera aos uivos lacinantes<br \/>\n    do Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:<br \/>\n    &#8211; Carlos, tenha a bondade de marchar j&aacute; para a cama.<br \/>\n    &#8211; Oh v&ocirc;v&ocirc;, &eacute; festa, que est&aacute; c&aacute; o Villa&ccedil;a!<br \/>\n    <br \/>\n    Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra, agarrou<br \/>\n    o rapaz pelo bra&ccedil;o, e arrastou-o pelo corredor &#8211; em quanto elle, de<br \/>\n    calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; festa, v&ocirc;v&ocirc;&#8230; &Eacute; uma maldade!&#8230; O Villa&ccedil;a<br \/>\n    p&oacute;de-se escandalisar&#8230; Oh vov&ocirc;, eu n&atilde;o tenho somno!<br \/>\n    Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo aquella<br \/>\n    rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o av&ocirc; deixava-lhe fazer<br \/>\n    todos os horrores, e recusava-lhe ent&atilde;o o bocadinho da soir&eacute;e&#8230;<br \/>\n    &#8211; Oh sr. Affonso da Maia, por que n&atilde;o deixou estar a crean&ccedil;a?<br \/>\n    &#8211; &Eacute; necessario methodo, &eacute; necessario methodo, balbuciou elle,<br \/>\n    entrando, todo pallido do seu rigor. <br \/>\n    E &aacute; mesa do voltarete, apanhando as cartas com as m&atilde;os tremulas,<br \/>\n    repetia ainda:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; necessario methodo. Crean&ccedil;as &aacute; noite dormem.<br \/>\n    D. Anna Silveira voltando-se para o Villa&ccedil;a &#8211; que cedera o seu lugar<br \/>\n    ao dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras &#8211; teve aquelle sorriso mudo<br \/>\n    que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em &laquo;methodos.&raquo;<br \/>\n    Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque, declarou,<br \/>\n    a transbordar d&#8217;ironia, que, talvez por ter a intelligencia curta, nunca comprehendera<br \/>\n    a vantagem dos &laquo;methodos&raquo;&#8230; Era &aacute; ingleza, segundo diziam:<br \/>\n    talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava enganada, ou Sta. Olavia<br \/>\n    era no reino de Portugal&#8230;<br \/>\n    E como Villa&ccedil;a inclinava timidamente a cabe&ccedil;a, com a sua pitada<br \/>\n    nos dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro n&atilde;o ouvisse,<br \/>\n    desabafou. O sr. Villa&ccedil;a naturalmente n&atilde;o sabia, mas aquella<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o do Carlinhos nunca f&ocirc;ra approvada pelos amigos<br \/>\n    da casa. J&aacute; a presen&ccedil;a do Brown, um heretico, um protestante,<br \/>\n    como perceptor na familia dos Maias, causara desgosto em Resende. Sobretudo<br \/>\n    quando o sr. Affonso tinha aquelle santo do abbade Custodio, t&atilde;o estimado,<br \/>\n    homem de tanto saber&#8230; N&atilde;o ensinaria &aacute; crean&ccedil;a habilidades<br \/>\n    de acrobata; mas havia de lhe dar uma educa&ccedil;&atilde;o de fidalgo, preparal-o<br \/>\n    para fazer boa figura em Coimbra.<br \/>\n    N&#8217;esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d&#8217;ar, erguera-se da mesa<br \/>\n    de jogo a fechar o reposteiro: ent&atilde;o, como Affonso j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    podia ouvir, D. Anna ergueu a voz:<br \/>\n    &#8211; E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Villa&ccedil;a. Que o Carlinhos,<br \/>\n    coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina&#8230; Sempre lhe quero contar o<br \/>\n    que succedeu com a Macedo.<br \/>\n    Villa&ccedil;a j&aacute; sabia.<br \/>\n    &#8211; Ah j&aacute; sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de contric&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto.<br \/>\n    &#8211; Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou l&aacute; a nossa casa<br \/>\n    embuchada&#8230; E eu fez-me impress&atilde;o. At&eacute; sonhei com aquillo tres<br \/>\n    noites a fio&#8230;<br \/>\n    Calou-se um momento. Villa&ccedil;a, embara&ccedil;ado, acanhado, fazia girar<br \/>\n    a caixa de rap&eacute; nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor<br \/>\n    de somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia<br \/>\n    de vez em quando uma malha molle no crochet; e a noiva de Carlos, estirada<br \/>\n    para o canto do soph&aacute;, j&aacute; dormia, com a boquinha aberta, os<br \/>\n    seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pesco&ccedil;o.<br \/>\n    D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua id&eacute;a:<br \/>\n    &#8211; Sem contar que o pequeno est&aacute; muito atrazado. A n&atilde;o ser um<br \/>\n    bocado de inglez, n&atilde;o sabe nada&#8230; Nem tem prenda nenhuma!<br \/>\n    &#8211; Mas &eacute; muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villa&ccedil;a.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.<br \/>\n    E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d&#8217;ella, quieto<br \/>\n    como se fosse de gesso:<br \/>\n    &#8211; Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villa&ccedil;a aquelles lindos versos que<br \/>\n    sabes&#8230; N&atilde;o sejas atado, anda!&#8230; V&aacute;, Euzebio, filho, s&ecirc;<br \/>\n    bonito&#8230;<br \/>\n    Mas o menino, molleng&atilde;o e tristonho, n&atilde;o se descollava das saias<br \/>\n    da titi: teve ella de o p&ocirc;r de p&eacute;, amparal-o, para que o tenro<br \/>\n    prodigio n&atilde;o alluisse sobre as perninhas flacidas; e a mam&atilde;<br \/>\n    prometteu-lhe que, se dissesse os versinhos, dormia essa noite com ella&#8230;<br \/>\n    Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d&#8217;uma torneira lassa veio de l&aacute;<br \/>\n    escorrendo, n&#8217;um fio de voz, um recitativo lento e babujado:<\/p>\n<p>\n    &Eacute; noite, o astro saudoso<br \/>\n    Rompe a custo um plumbeo c&eacute;u,<br \/>\n    Tolda-lhe o rosto formoso<br \/>\n    Alvacento, humido v&eacute;o&#8230;<\/p>\n<p>Disse-a toda &#8211; sem se mexer, com as m&atilde;osinhas pendentes, os olhos<br \/>\n    morti&ccedil;os pregados na titi. A mam&atilde; fazia o compasso com a agulha<br \/>\n    do crochet; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto, banhada<br \/>\n    no langor da melopea, ia cerrando as palpebras.<br \/>\n    &#8211; Muito bem, muito bem! exclamou o Villa&ccedil;a, impressionado, quando o<br \/>\n    Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memoria! Que memoria! &Eacute; um<br \/>\n    prodigio!&#8230;<br \/>\n    Os creados entravam com o ch&aacute;. Os parceiros tinham findado a partida;<br \/>\n    e o bom Custodio, de p&eacute;, com a sua chavena na m&atilde;o, queixava-se<br \/>\n    amargamente da maneira porque aquelles senhores o tinham esfolado.<br \/>\n    Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras retiraram-se<br \/>\n    &aacute;s nove e meia. O servi&ccedil;al dr. delegado dava o bra&ccedil;o<br \/>\n    a D. Eugenia; um creado da quinta allumiava adiante com o lampe&atilde;o;<br \/>\n    e o mo&ccedil;o das Silveiras levava ao collo o Eusebiosinho que parecia um<br \/>\n    fardo escuro, abafado em mantas, com um chale amarrado na cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>Depois da ceia Villa&ccedil;a acompanhou ainda um momento Affonso da Maia<br \/>\n    &aacute; livraria, onde, antes de recolher, elle tomava sempre &aacute; ingleza<br \/>\n    o seu cognac e soda.<br \/>\n    O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo, estava<br \/>\n    adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem fechadas, um<br \/>\n    resto de lume na chamin&eacute;, e o globo do candieiro pondo a sua claridade<br \/>\n    serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos cantavam alto no silencio<br \/>\n    da noite.<br \/>\n    Emquanto o escudeiro rolava para o p&eacute; da poltrona de Affonso, n&#8217;uma<br \/>\n    mesa baixa, os crystaes e as garrafas de soda, Villa&ccedil;a, com as m&atilde;os<br \/>\n    nos bolsos, de p&eacute; e pensativo, olhava a braza da acha que morria na<br \/>\n    cinza branca. Depois ergueu a cabe&ccedil;a, para murmurar, como ao acaso:<br \/>\n    &#8211; Aquelle rapazito &eacute; esperto&#8230;<br \/>\n    &#8211; Quem? O Euzebiosinho? disse Affonso, que se accomodava junto ao fog&atilde;o,<br \/>\n    enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver c&aacute;, Villa&ccedil;a!<br \/>\n    O Carlos n&atilde;o gosta d&#8217;elle, e tivemos ahi um desgosto horroroso&#8230; Foi<br \/>\n    j&aacute; ha mezes. Havia uma prociss&atilde;o e o Eusebiosinho ia de anjo&#8230;<br \/>\n    As Silveiras, excellentes mulheres, coitadas, mandaram-n&#8217;o c&aacute; para<br \/>\n    o mostrar &aacute; viscondessa, j&aacute; vestido de anjo. Pois senhores,<br \/>\n    distrahimo-nos, e o Carlos que o andava a rondar apodera-se d&#8217;elle, leva-o<br \/>\n    para o sot&atilde;o, e, meu caro Villa&ccedil;a&#8230; Em primeiro logar ia-o<br \/>\n    matando porque embirra com anjos&#8230; Mas o peior n&atilde;o foi isso. Imagine<br \/>\n    voc&ecirc; o nosso terror, quando nos apparece o Eusebiosinho aos berros pela<br \/>\n    titi, todo desfrizado, sem uma aza, com a outra a bater-lhe os calcanhares<br \/>\n    dependurada de um barbante, a cor&ocirc;a de rosas enterrada at&eacute; ao<br \/>\n    pesco&ccedil;o, e os gal&otilde;es de ouro, os tulles, as lentejoulas, toda<br \/>\n    a vestimenta celeste em frangalhos!&#8230; Emfim, um anjo depennado e sovado&#8230;<br \/>\n    Eu ia dando cabo do Carlos.<br \/>\n    Bebeu metade da sua soda, e passando a m&atilde;o pelas barbas, accrescentou,<br \/>\n    com uma satisfa&ccedil;&atilde;o profunda:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; levado do diabo, Villa&ccedil;a!<br \/>\n    O administrador, sentado agora &aacute; borda de uma cadeira, esbo&ccedil;ou<br \/>\n    uma risadinha muda; depois ficou calado, olhando Affonso, com as m&atilde;os<br \/>\n    nos joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os labios, hesitou ainda, tossio<br \/>\n    de leve; e continuou a seguir pensativamente as faiscas que erravam sobre<br \/>\n    as achas.<br \/>\n    Affonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume, recome&ccedil;ara<br \/>\n    a fallar do Silveirinha. Tinha tres ou quatro mezes mais que Carlos, mas estava<br \/>\n    enfesado, estiolado, por uma educa&ccedil;&atilde;o &aacute; portugueza: d&#8217;aquella<br \/>\n    edade ainda dormia no ch&ocirc;co com as criadas, nunca o lavavam para o n&atilde;o<br \/>\n    constiparem, andava coura&ccedil;ado de rolos de flanellas! Passava os dias<br \/>\n    nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do Cathecismo de Perseveran&ccedil;a.<br \/>\n    Elle por curiosidade um dia abrira este livreco e vira l&aacute;, &laquo;que<br \/>\n    o sol &eacute; que anda em volta da terra (como antes de Galileu), e que Nosso<br \/>\n    Senhor todas as manh&atilde;s d&aacute; as ordens ao sol, para onde ha d&#8217;ir<br \/>\n    e onde ha de parar etc., etc.&raquo; E assim lhe estavam arranjando uma almasinha<br \/>\n    de bacharel&#8230;<br \/>\n    Villa&ccedil;a teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente decidido,<br \/>\n    ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras:<br \/>\n    &#8211; V. Ex.&ordf; sabe que appareceu a Monforte?<br \/>\n    Affonso, sem mover a cabe&ccedil;a, reclinado para as costas da poltrona,<br \/>\n    perguntou tranquillamente, envolvido no fumo do cachimbo:<br \/>\n    &#8211; Em Lisboa?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o senhor, em Paris. Viu-a l&aacute; o Alencar, esse rapaz que escreve,<br \/>\n    e que era muito de Arroios&#8230; Esteve at&eacute; em casa d&#8217;ella.<br \/>\n    E ficaram calados. Havia annos que entre elles se n&atilde;o pronunciara o<br \/>\n    nome de Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia,<br \/>\n    a preoccupa&ccedil;&atilde;o ardente de Affonso da Maia f&ocirc;ra tirar-lhe<br \/>\n    a filha que ella levara. Mas a esse tempo ninguem sabia onde Maria se refugiara<br \/>\n    com o seu principe: nem pela influencia das lega&ccedil;&otilde;es, nem pagando<br \/>\n    regiamente a policia secreta de Paris, de Londres, de Madrid, se poude descobrir<br \/>\n    a &laquo;toca da fera&raquo; como disia ent&atilde;o o Villa&ccedil;a. Ambos<br \/>\n    decerto tinham mudado de nome; e, dadas essas naturezas bohemias, quem sabe<br \/>\n    se n&atilde;o errariam agora pela America, pela India, em regi&otilde;es mais<br \/>\n    exoticas? Depois, pouco a pouco, Affonso da Maia descor&ccedil;oado com aquelles<br \/>\n    esfor&ccedil;os v&atilde;os, todo occupado do neto que crescia bello e forte<br \/>\n    ao seu lado, no enternecimento continuo que elle lhe dava foi esquecendo a<br \/>\n    Monforte e a sua outra neta, t&atilde;o distante, t&atilde;o vaga, a quem<br \/>\n    ignorava as fei&ccedil;&otilde;es, de quem mal sabia o nome. E agora de repente<br \/>\n    a Monforte apparecia outra vez em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto!<br \/>\n    e aquella crean&ccedil;a que dormia ao fundo do corredor nunca vira sua m&atilde;e&#8230;<br \/>\n    Erguera-se, passeiava na livraria, pesado e lento, com a cabe&ccedil;a baixa.<br \/>\n    Junto &aacute; mesa, ao p&eacute; do candieiro, o Villa&ccedil;a ia percorrendo<br \/>\n    um a um os papeis da sua carteira.<br \/>\n    &#8211; E est&aacute; em Paris com o italiano? perguntou Affonso do fundo sombrio<br \/>\n    do aposento.<br \/>\n    O Villa&ccedil;a ergueu a cabe&ccedil;a de sobre a carteira, e disse:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o senhor, est&aacute; com quem lhe paga.<br \/>\n    E como Affonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, Villa&ccedil;a, dando-lhe<br \/>\n    um papel dobrado, accrescentou:<br \/>\n    &#8211; Todas estas cousas s&atilde;o muito graves, sr. Affonso da Maia, e eu n&atilde;o<br \/>\n    quiz fiar-me s&oacute; na minha memoria. Por isso pedi ao Allencar, que &eacute;<br \/>\n    um excellente rapaz, que me escrevesse n&#8217;uma carta tudo o que me contou. Assim<br \/>\n    temos um documento. Eu n&atilde;o sei mais do que ahi est&aacute; escripto.<br \/>\n    P&oacute;de V. Ex.&ordf; ler&#8230;<br \/>\n    Affonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que o<br \/>\n    Alencar, o poeta das Vozes d&#8217;Aurora, o estylista de Elvira, orn&aacute;ra<br \/>\n    de flores e de gal&otilde;es dourados como uma capella em dia de festa.<br \/>\n    Uma noite, ao sahir da Maison d&#8217;Or, elle vira a Monforte saltar d&#8217;um coup&eacute;<br \/>\n    com dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido: e um momento<br \/>\n    ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro do gaz, no trottoir.<br \/>\n    Foi ella que, muito decidida, rindo, estendeu a m&atilde;o ao Alencar, pediu-lhe<br \/>\n    que a visitasse, deu-lhe a adresse, o nome por que devia perguntar: Mme. de<br \/>\n    l&#8217;Estorade. E no seu boudoir, na manh&atilde; seguinte a Monforte fallou largamente<br \/>\n    de si: vivera tres annos em Vienna d&#8217;Austria com Tancredo, e com o pap&aacute;<br \/>\n    que se lhes f&ocirc;ra reunir &#8211; e que l&aacute; continuava de certo, como<br \/>\n    em Arroios, refugiando-se pelos cantos das salas, pagando as toilettes da<br \/>\n    filha, e dando palmadinhas ternas no hombro do amante como outr&#8217;ora no hombro<br \/>\n    do marido. Depois tinham estado em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, &laquo;n&#8217;um<br \/>\n    drama sombrio de paix&atilde;o que ella me fez entrever&raquo; o napolitano<br \/>\n    fora morto em duello. O pap&aacute; morrera tambem n&#8217;esse anno, deixando apenas<br \/>\n    da sua fortuna uns magros contos de r&eacute;is, e a mobilia da casa em Vienna:<br \/>\n    o velho arruinara-se com o luxo da filha, com as viagens, com as perdas de<br \/>\n    Tancredo ao baccarat. Pass&aacute;ra ent&atilde;o um tempo em Londres: e d&#8217;ahi<br \/>\n    viera habitar Paris, com Mr. de l&#8217;Estorade, um jogador, um espadachim, que<br \/>\n    acabou de a arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse nome de l&#8217;Estorade,<br \/>\n    que lhe era a elle d&#8217;ora em diante inutil porque passava a adoptar outro mais<br \/>\n    sonoro de Vicomte de Manderville. Emfim, pobre, formosa, doida, excessiva,<br \/>\n    lan&ccedil;ara-se na existencia d&#8217;aquellas mulheres de quem, dizia o Alencar,<br \/>\n    &laquo;a pallida Margarida Gautier, a gentil Dama das Camelias &eacute; o<br \/>\n    typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito ser&aacute; perdoado porque<br \/>\n    muito amaram.&raquo; E o poeta terminava: &laquo;ella est&aacute; ainda no<br \/>\n    esplendor da belleza, mas as rugas vir&atilde;o, e ent&atilde;o que avistar&aacute;<br \/>\n    em redor de si? As rosas seccas e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi<br \/>\n    d&#8217;aquelle boudoir perfumado, com a alma dilacerada, meu Villa&ccedil;a! Pensava<br \/>\n    no meu pobre Pedro, que l&aacute; jaz sob o raio de luar, entre as raizes<br \/>\n    dos cyprestes. E, desilludido d&#8217;esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no<br \/>\n    boulevard, uma hora de esquecimento.&raquo;<br \/>\n    Affonso da Maia deu um repell&atilde;o &aacute; carta, menos enojado das torpezas<br \/>\n    da historia, que d&#8217;aquelles lyrismos relambidos.<br \/>\n    E recome&ccedil;ou a passear, emquanto o Villa&ccedil;a recolhia religiosamente<br \/>\n    o documento que tinha relido muitas vezes, na admira&ccedil;&atilde;o do sentimento,<br \/>\n    do estylo, do ideal d&#8217;aquella pagina.<br \/>\n    &#8211; E a pequena? perguntou Affonso.<br \/>\n    &#8211; Isso n&atilde;o sei. O Alencar n&atilde;o lhe fallaria na filha, nem elle<br \/>\n    mesmo sabe que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que<br \/>\n    passou desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu.<br \/>\n    Sen&atilde;o, siga V. Ex.&ordf; o meu raciocinio&#8230; Se a menina fosse viva,<br \/>\n    a m&atilde;e podia reclamar a legitima que cabe &aacute; crean&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    Ella sabe a casa que V. Ex.&ordf; tem; ha de haver dias, e s&atilde;o frequentes<br \/>\n    na vida d&#8217;essas mulheres, em que lhe falte uma libra&#8230; Com o pretexto da<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o da menina, ou de alimentos, j&aacute; nos tinha importunado&#8230;<br \/>\n    Escrupulos n&atilde;o tem ella. Se o n&atilde;o faz &eacute; que a filha morreu.<br \/>\n    N&atilde;o lhe parece a V. Ex.&ordf;? <br \/>\n    &#8211; Talvez, disse Affonso.<br \/>\n    E accrescentou, parando deante de Villa&ccedil;a &#8211; que olhava outra vez a<br \/>\n    braza morta tirando estalinhos dos dedos:<br \/>\n    &#8211; Talvez&#8230; Sop&ocirc;nhamos que morreram ambas, e n&atilde;o se falle mais<br \/>\n    n&#8217;isso.<br \/>\n    Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias que<br \/>\n    Villa&ccedil;a passou em Sta. Olavia n&atilde;o se proferiu mais o nome de<br \/>\n    Maria Monforte.<br \/>\n    Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio ao<br \/>\n    quarto d&#8217;elle, a entregar-lhe as amendoas da Paschoa que Carlos mandava a<br \/>\n    Villa&ccedil;a Junior, um alfinete de peito com uma magnifica saphira &#8211; e<br \/>\n    disse-lhe em quanto o outro, sensibilisado, balbuciava os agradecimentos:<br \/>\n    &#8211; Agora outra cousa, Villa&ccedil;a. Tenho estado a pensar. Vou escrever a<br \/>\n    meu primo Noronha, ao Andr&eacute; que vive em Paris como voc&ecirc; sabe,<br \/>\n    pedir-lhe que procure essa creatura, e que lhe offere&ccedil;a dez ou quinze<br \/>\n    contos de r&eacute;is, se ella me quizer entregar a filha&#8230; No caso, est&aacute;<br \/>\n    claro, que esteja viva&#8230; E quero que voc&ecirc; saiba d&#8217;esse Alencar a morada<br \/>\n    da mulher em Paris.<br \/>\n    O Villa&ccedil;a n&atilde;o respondeu, occupado a metter entre as camisas,<br \/>\n    bem no fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou<br \/>\n    deante d&#8217;Affonso, a co&ccedil;ar reflectidamente o queixo.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o que lhe parece, Villa&ccedil;a?<br \/>\n    &#8211; Parece-me arriscado.<br \/>\n    E deu as suas raz&otilde;es. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava<br \/>\n    uma mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus<br \/>\n    habitos&#8230; Nem fallaria o portuguez. As saudades da m&atilde;e haviam de ser<br \/>\n    terriveis&#8230; Emfim, o sr. Affonso da Maia trazia uma extranha para casa&#8230;<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; tem ras&atilde;o, Villa&ccedil;a. Mas a mulher &eacute; uma prostituta,<br \/>\n    e a pequena &eacute; do meu sangue.<br \/>\n    N&#8217;esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo v&ocirc;v&ocirc;,<br \/>\n    precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma rom&atilde;. &#8211; O<br \/>\n    Brown tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o v&ocirc;v&ocirc;<br \/>\n    viesse ver, andara a buscal-o por toda a casa&#8230; Era de morrer a rir&#8230; Muito<br \/>\n    pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E sabiam<br \/>\n    onde havia o ninho&#8230;<br \/>\n    &#8211; Vem depressa, &oacute; v&ocirc;v&ocirc;! Depressa, que &eacute; necessario<br \/>\n    ir pol-a no ninho, por causa da coruja velha que se p&oacute;de affligir&#8230;<br \/>\n    O Brown est&aacute;-lhe a dar azeite. Oh Villa&ccedil;a vem ver! &Oacute;<br \/>\n    v&ocirc;v&ocirc;, pelo amor de Deus! Tem uma cara t&atilde;o engra&ccedil;ada!<br \/>\n    Mas depressa, depressa, que a coruja velha p&oacute;de dar pela falta!&#8230;<br \/>\n    E impaciente com a lentid&atilde;o risonha do v&ocirc;v&ocirc;, tanta indifferen&ccedil;a<br \/>\n    pela inquieta&ccedil;&atilde;o da coruja velha, abalou atirando com a porta.<br \/>\n    &#8211; Que bom cora&ccedil;&atilde;o! exclamou o Villa&ccedil;a commovido. A pensar<br \/>\n    nas saudades da coruja&#8230; A m&atilde;e d&#8217;elle &eacute; que n&atilde;o tem<br \/>\n    saudades! Sempre o disse, &eacute; uma fera!<br \/>\n    Affonso encolheu tristemente os hombros. Iam j&aacute; no corredor quando<br \/>\n    elle, parando um momento, baixando a voz:<br \/>\n    &#8211; Tem-me esquecido de lhe contar, Villa&ccedil;a, o Carlos sabe que o pae<br \/>\n    que se matou&#8230;<br \/>\n    Villa&ccedil;a arredondou os olhos d&#8217;espanto. Era verdade. Uma manh&atilde;<br \/>\n    entrara-lhe pela livraria, e dissera-lhe: &#8211; &oacute; v&ocirc;v&ocirc;, o pap&aacute;<br \/>\n    matou-se com uma pistola! &#8211; Naturalmente algum creado que lh&#8217;o contara&#8230;<br \/>\n    &#8211; E vossa excellencia?<br \/>\n    &#8211; Eu&#8230; Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido ao<br \/>\n    que Pedro me pediu, n&#8217;essas quatro ou cinco linhas da carta que me deixou.<br \/>\n    Quiz ser enterrado em Sta. Olavia, ahi est&aacute;. N&atilde;o queria que<br \/>\n    o filho j&aacute;mais soubesse da fuga da m&atilde;e; e por mim, de certo,<br \/>\n    nunca o saber&aacute;. Quiz que dois retratos que havia d&#8217;ella em Arroios<br \/>\n    fossem destruidos; como voc&ecirc; sabe, obtiveram-se e destruiram-se. Mas<br \/>\n    n&atilde;o me pedio que occultasse ao rapaz o seu fim. E por isso, disse ao<br \/>\n    pequeno a verdade: disse-lhe que n&#8217;um momento de loucura, o pap&aacute; tinha<br \/>\n    dado um tiro em si&#8230;<br \/>\n    &#8211; E elle?<br \/>\n    &#8211; E elle, replicou Affonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a pistola,<br \/>\n    e torturou-me toda uma manh&atilde; para lhe dar tambem uma pistola&#8230; E ahi<br \/>\n    est&aacute; o resultado d&#8217;essa revela&ccedil;&atilde;o: &eacute; que tive<br \/>\n    de mandar vir do Porto uma pistola de vento&#8230;<br \/>\n    Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo av&ocirc;, os dois apressaram-se<br \/>\n    a ir admirar a corujazinha.<br \/>\n    Villa&ccedil;a ao outro dia partiu para Lisboa.<br \/>\n    Passadas duas semanas, Affonso recebia uma carta do administrador, trasendo-lhe,<br \/>\n    com a adresse da Monforte, uma revela&ccedil;&atilde;o imprevista. Tinha voltado<br \/>\n    a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes da sua visita a<br \/>\n    Mme. de l&#8217;Estorade, contara-lhe que no boudoir d&#8217;ella havia um adoravel retrato<br \/>\n    de crean&ccedil;a, de olhos negros, cabello d&#8217;azeviche, e uma pallidez de<br \/>\n    nacar. Esta pintura ferira-o, n&atilde;o s&oacute; por ser d&#8217;um grande pintor<br \/>\n    inglez, mas por ter, pendente sob o caixilho como um voto funerario, uma linda<br \/>\n    coroa de flores de cera brancas e roxas. N&atilde;o havia outro quadro no<br \/>\n    boudoir: e elle perguntara &aacute; Monforte se era um retrato ou uma phantasia.<br \/>\n    Ella respondera que era o retrato da filha que lhe morrera em Londres. &laquo;Est&atilde;o<br \/>\n    assim dissipadas todas as duvidas, accrescentava o Villa&ccedil;a. O pobre<br \/>\n    anjinho est&aacute; n&#8217;uma patria melhor. E para ella, bem melhor!&raquo;<br \/>\n    Affonso, todavia, escreveu a Andr&eacute; de Noronha. A resposta tardou. Quando<br \/>\n    o primo Andr&eacute; procurara Mme.de l&#8217;Estorade, havia semanas que ella partira<br \/>\n    para Allemanha, depois de vender mobilia e cavallos. E no Club Imperial, a<br \/>\n    que elle pertencia, um amigo que conhecia bem Mme. de l&#8217;Estorade e a vida<br \/>\n    galante de Paris, contara-lhe que a doida fugira com um certo Catanni, acrobata<br \/>\n    do Circo d&#8217;Inverno nos campos Elyseos, homem de f&oacute;rmas magnificas,<br \/>\n    um Appolo de feira, que todas as cocottes se disputavam e que a Monforte empolg&aacute;ra.<br \/>\n    Naturalmente corria agora a Allemanha com a companhia de cavallinhos.<br \/>\n    Affonso da Maia, enojado, remetteu esta carta ao Villa&ccedil;a sem um commentario.<br \/>\n    E o honrado homem respondeu: &laquo;Tem V. Ex.&ordf; ras&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    atroz: e mais vale suppor que todos morreram, e n&atilde;o gastar mais cera<br \/>\n    com t&atilde;o ruins defuntos&#8230;&raquo; E depois n&#8217;um post-scriptum accrescentava:<br \/>\n    &laquo;Parece certo abrir-se em breve o caminho de ferro at&eacute; ao Porto:<br \/>\n    em tal caso, com permiss&atilde;o de V. Ex.&ordf;, ahi irei e o meu rapaz<br \/>\n    a pedirmos-lhe alguns dias d&#8217;hospitalidade.&raquo; <br \/>\n    Esta carta foi recebida em Sta. Olavia um domingo, ao jantar. Affonso lera<br \/>\n    alto o P.S. Todos se alegraram,na esperan&ccedil;a de ver o bom Villa&ccedil;a<br \/>\n    em breve<br \/>\n    na quinta; e fallou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio acima.<br \/>\n    Mas, ter&ccedil;a feira &aacute; noite, chegava um telegramma de Manuel Villa&ccedil;a<br \/>\n    annunciando que o pae morrera, n&#8217;essa manh&atilde;, d&#8217;uma apoplexia: dois<br \/>\n    dias depois vinham mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almo&ccedil;o<br \/>\n    que, de repente, Villa&ccedil;a se sentira muito suffocado e com tonturas:<br \/>\n    ainda tivera for&ccedil;as d&#8217;ir ao quarto respirar um pouco d&#8217;ether: mas ao<br \/>\n    voltar &aacute; sala cambaleava, queixava-se de v&ecirc;r tudo amarello, e<br \/>\n    caiu de bru&ccedil;os, como um fardo, sobre o canap&eacute;. O seu pensamento,<br \/>\n    que se extinguia para sempre, ainda n&#8217;esse momento se occupou da casa que<br \/>\n    ha trinta annos administrava: balbuciou, a respeito d&#8217;uma venda de corti&ccedil;a,<br \/>\n    recomenda&ccedil;&otilde;es que o filho j&aacute; n&atilde;o poude perceber:<br \/>\n    depois deu um grande ai; e s&oacute; tornou a abrir os olhos, para murmurar<br \/>\n    no derradeiro sopro estas derradeiras palavras: Saudades ao patr&atilde;o!<br \/>\n    Affonso da Maia ficou profundamente affectado, e em Sta. Olavia, mesmo entre<br \/>\n    os creados, a morte de Villa&ccedil;a foi como um lucto domestico. Uma d&#8217;essas<br \/>\n    tardes, o velho, muito melancolico, estava na livraria com um jornal esquecido<br \/>\n    nas m&atilde;os, os olhos cerrados &#8211; quando Carlos, que ao lado rabiscava<br \/>\n    carantonhas num papel, veio passar-lhe um bra&ccedil;o pelo pesco&ccedil;o,<br \/>\n    e como comprehendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o Villa&ccedil;a<br \/>\n    n&atilde;o voltaria a vel-os &aacute; quinta.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a v&ecirc;r.<br \/>\n    O pequeno, entre os joelhos e os bra&ccedil;os do velho, olhava o tapete,<br \/>\n    e, como recordando-se, murmurou tristemente:<br \/>\n    &#8211; O Villa&ccedil;a, coitado&#8230; Dava estalinhos com os dedos&#8230; Oh v&ocirc;v&ocirc;,<br \/>\n    para onde o levaram?<br \/>\n    &#8211; Para o cemiterio, filho, para debaixo da terra.<br \/>\n    Ent&atilde;o Carlos desprendeu-se devagar do abra&ccedil;o do av&ocirc;, e<br \/>\n    muito s&eacute;rio, com os olhos n&#8217;elle:<br \/>\n    &#8211; &Oacute; v&ocirc;v&ocirc;! porque n&atilde;o lhe mandas fazer uma capellinha<br \/>\n    bonita, toda de pedra, com uma figura, como tem o pap&aacute;?<br \/>\n    O velho achegou-o ao peito, beijou-o, commovido:<br \/>\n    &#8211; Tens raz&atilde;o, filho. Tens mais cora&ccedil;&atilde;o que eu!<br \/>\n    Assim o bom Villa&ccedil;a teve no cemiterio dos Prazeres o seu jazigo &#8211; que<br \/>\n    f&ocirc;ra a alta ambi&ccedil;&atilde;o da sua existencia modesta.<\/p>\n<p> Outros annos tranquillos passaram sobre Santa Olavia.<br \/>\n    Depois uma manh&atilde; de julho, em Coimbra, Manuel Villa&ccedil;a (agora<br \/>\n    administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Affonso se<br \/>\n    hosped&aacute;ra com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando, berrando:<br \/>\n    &#8211; Nemin&egrave;! Nemin&egrave;!<br \/>\n    Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha acompanhado<br \/>\n    os senhores de Santa Olavia correu &aacute; porta, abra&ccedil;ou-se quasi<br \/>\n    chorando no menino, agora mais alto que elle, e muito formoso na sua batina<br \/>\n    nova.<br \/>\n    Em cima no quarto, Manuel Villa&ccedil;a, soprando ainda, limpando as bagas<br \/>\n    de suor, exclamava:<br \/>\n    &#8211; Ficou tudo espantado, snr. Affonso da Maia! Os lentes at&eacute; estavam<br \/>\n    commovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, &eacute; o que<br \/>\n    todo o mundo disse&#8230; E que faculdade vai elle seguir, meu senhor?<br \/>\n    Affonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o sei, Villa&ccedil;a&#8230; Talvez nos formemos ambos em Direito.<br \/>\n    Carlos assomou &aacute; porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro escudeiro<br \/>\n    &#8211; que trazia champagne n&#8217;uma salva.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o venha c&aacute;, seu maroto, disse Affonso muito branco, com<br \/>\n    os bra&ccedil;os abertos. Bom exame, hein?&#8230; Eu&#8230;<br \/>\n    Mas n&atilde;o p&ocirc;de proseguir: as lagrimas, duas a duas, corriam-lhe<br \/>\n    pela barba branca.<\/p>\n<h2><a name=\"4\">Cap&iacute;tulo IV<\/a><\/h2>\n<p>Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera sempre<br \/>\n    n&#8217;aquelle menino realmente uma &laquo;voca&ccedil;&atilde;o para Esculapio&raquo;.<br \/>\n    A &laquo;voca&ccedil;&atilde;o&raquo; revel&aacute;ra-se bruscamente um dia<br \/>\n    que elle descobriu no sot&atilde;o, entre rumas de velhos alfarrabios, um<br \/>\n    rolo manchado e antiquado de estampas anatomicas; tinha passado dias a recortal-as,<br \/>\n    pregando pelas paredes do quarto figados, lia&ccedil;as de intestinos, cabe&ccedil;as<br \/>\n    de perfil &laquo;com o recheio &aacute; mostra&raquo;. Uma noite mesmo rompera<br \/>\n    pela sala em triumpho, a mostrar &aacute;s Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa<br \/>\n    lithographia de um feto de seis mezes no utero materno. D. Anna recuou, com<br \/>\n    um grito, collando o leque &aacute; face: e o dr. delegado, escarlate tambem,<br \/>\n    arrebatou prudentemente Euzebiosinho para entre os joelhos, tapou-lhe a face<br \/>\n    com a m&atilde;o. Mas o que escandalisou mais as senhoras foi a indulgencia<br \/>\n    de Affonso.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o que tem, ent&atilde;o que tem? dizia elle sorrindo.<br \/>\n    &#8211; Que tem, snr. Affonso da Maia!? exclamou D. Anna. S&atilde;o indecencias!<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente<br \/>\n    &eacute; a ignorancia&#8230; Deixar l&aacute; o rapaz. Tem curiosidade de saber<br \/>\n    como &eacute; esta pobre machina por dentro, n&atilde;o ha nada mais louvavel&#8230;<br \/>\n    D. Anna abanava-se, suffocada. Consentir taes horrores nas m&atilde;os da<br \/>\n    crian&ccedil;a!&#8230; Carlos come&ccedil;ou a apparecer-lhe como um libertino<br \/>\n    &laquo;que j&aacute; sabia coisas&raquo;; e n&atilde;o consentiu mais que<br \/>\n    a Therezinha brincasse s&oacute; com elle pelos corredores de Santa Olavia.<br \/>\n    As pessoas s&eacute;rias por&eacute;m, o dr. juiz de direito, o proprio abbade,<br \/>\n    lamentando, sim, que n&atilde;o houvesse mais recato, concordavam que aquillo<br \/>\n    mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina.<br \/>\n    &#8211; Se p&eacute;ga, dizia ent&atilde;o com um gesto prophetico o dr. Trigueiros,<br \/>\n    temos d&#8217;alli coisa grande!<br \/>\n    E parecia pegar.<br \/>\n    Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compendios de logica<br \/>\n    e rhetorica para se occupar de anatomia: n&#8217;umas ferias, ao abrir das malas,<br \/>\n    a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras d&#8217;um casaco o riso<br \/>\n    d&#8217;uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia, l&aacute; estava Carlos<br \/>\n    logo revolvendo o caso em velhos livros de medicina da livraria, sem lhe largar<br \/>\n    a beira do catre, fazendo diagnosticos que o bom dr. Trigueiros escutava respeitoso<br \/>\n    e pensativo. Diante do av&ocirc; j&aacute; chamava mesmo ao menino &laquo;o<br \/>\n    seu talentoso collega&raquo;.<br \/>\n    Esta inesperada carreira de Carlos (pens&aacute;ra-se sempre que elle tomaria<br \/>\n    capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa <br \/>\n    Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo t&atilde;o<br \/>\n    formoso, t&atilde;o bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando emplastros,<br \/>\n    e sujando as m&atilde;os no jorro das sangrias. O dr. juiz de direito confessou<br \/>\n    mesmo um dia a sua descren&ccedil;a de que o snr. Carlos da Maia quizesse<br \/>\n    &laquo;ser medico a s&eacute;rio&raquo;.<br \/>\n    &#8211; Ora essa! exclamou Affonso. E porque n&atilde;o ha de ser medico a s&eacute;rio?<br \/>\n    Se escolhe uma profiss&atilde;o &eacute; para a exercer com sinceridade e<br \/>\n    com ambi&ccedil;&atilde;o, como os outros. Eu n&atilde;o o educo para vadio,<br \/>\n    muito menos para amador; educo-o para ser util ao seu paiz&#8230;<br \/>\n    &#8211; Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, n&atilde;o<br \/>\n    lhe parece a v. exc.&ordf; que ha outras coisas, importantes tambem, e mais<br \/>\n    proprias talvez, em que seu neto se poderia tornar util?&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o vejo, replicou Affonso da Maia. N&#8217;um paiz em que a occupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geral &eacute; estar doente, o maior servi&ccedil;o patriotico &eacute; incontestavelmente<br \/>\n    saber curar.<br \/>\n    &#8211; V. exc.&ordf; tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o magistrado.<br \/>\n    E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida &laquo;a s&eacute;rio&raquo;,<br \/>\n    pratica e util, as escadas de doentes galgadas &aacute; pressa no fogo de<br \/>\n    uma vasta clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bistur&iacute;,<br \/>\n    as noites veladas &aacute; beira de um leito, entre o terror de uma familia,<br \/>\n    dando grandes batalhas &aacute; morte. Como em pequeno o tinham encantado<br \/>\n    as f&oacute;rmas pittorescas das visceras &#8211; attrahiam-no agora estes lados<br \/>\n    militantes e heroicos da sciencia.<br \/>\n    Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de quieto<br \/>\n    estudo o av&ocirc; prepar&aacute;ra-lhe uma linda casa em Cellas, isolada,<br \/>\n    com gra&ccedil;as de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca<br \/>\n    entre as arvores. Um amigo de Carlos (um certo Jo&atilde;o da Ega) poz-lhe<br \/>\n    o nome de &laquo;Pa&ccedil;os de Cellas&raquo;, por causa de luxos ent&atilde;o<br \/>\n    raros na Academia, um tapete na sala, poltronas de marroquim, panoplias d&#8217;armas,<br \/>\n    e um escudeiro de libr&eacute;.<br \/>\n    Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas suspeito<br \/>\n    aos democratas; quando se soube por&eacute;m que o dono d&#8217;estes confortos<br \/>\n    lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava tambem o paiz<br \/>\n    uma choldra ignobil &#8211; os mais rigidos revolucionarios come&ccedil;aram a vir<br \/>\n    aos Pa&ccedil;os de Cellas t&atilde;o familiarmente como ao quarto do Trov&atilde;o,<br \/>\n    o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia uma enxerga<br \/>\n    e uma Biblia.<br \/>\n    Ao fim d&#8217;alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, concili&aacute;ra Dandys<br \/>\n    e Philosophos: e trazia muitas vezes no seu break, lado a lado, o Serra Torres,<br \/>\n    um monstro que j&aacute; era addido honorario em Berlim e todas as noites<br \/>\n    punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a Morte de Satanaz, encolhido<br \/>\n    no seu gab&atilde;o d&#8217;Aveiro, com o seu grande barrete de lontra.<br \/>\n    Os Pa&ccedil;os de Cellas, sob a sua apparencia pregui&ccedil;osa e campestre,<br \/>\n    tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma gymnastica<br \/>\n    scientifica. Uma velha cozinha f&ocirc;ra convertida em sala d&#8217;armas &#8211; porque<br \/>\n    n&#8217;aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade social. &Aacute; noite,<br \/>\n    na sala de jantar, mo&ccedil;os s&eacute;rios faziam um whist s&eacute;rio:<br \/>\n    e no sal&atilde;o, sob o lustre de crystal, com o Figaro, o Times e as Revistas<br \/>\n    de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao piano tocando Chopin<br \/>\n    ou Mozart, os litteratos estirados pelas poltronas &#8211; havia ruidosos e ardentes<br \/>\n    cavacos, em que a Democracia, a Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado,<br \/>\n    Bismark, o Amor, Hugo e a Evolu&ccedil;&atilde;o, tudo por seu turno flammejava<br \/>\n    no fumo do tabaco, tudo t&atilde;o ligeiro e vago como o fumo. E as discuss&otilde;es<br \/>\n    metaphysicas, as proprias certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais<br \/>\n    requintado com a presen&ccedil;a do criado de farda desarrolhando a cerveja,<br \/>\n    ou servindo croquettes.<br \/>\n    Carlos, naturalmente, n&atilde;o tardou a deixar pelas mesas, com as folhas<br \/>\n    intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob todas<br \/>\n    as f&oacute;rmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no Instituto<br \/>\n    &#8211; e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n&#8217;um atelier improvisado, a pintura<br \/>\n    a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a influencia da Salammb&ocirc;.<br \/>\n    Al&eacute;m d&#8217;isso todas as tardes passeava os seus dois cavallos. No segundo<br \/>\n    anno levaria um R se n&atilde;o fosse t&atilde;o conhecido e rico. Tremeu,<br \/>\n    pensando no desgosto do av&ocirc;: moderou a dissipa&ccedil;&atilde;o intellectual,<br \/>\n    acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente lhe deram um accessit.<br \/>\n    Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo: e estava destinado, como dizia<br \/>\n    Jo&atilde;o da Ega, a ser um d&#8217;esses medicos litterarios que inventam doen&ccedil;as<br \/>\n    de que a humanidade papalva se presta logo a morrer!<br \/>\n    O av&ocirc;, &aacute;s vezes, vinha passar uma, duas semanas a Cellas. Nos<br \/>\n    primeiros tempos a sua presen&ccedil;a, agradavel aos cavalheiros da partilha<br \/>\n    de whist, desorganisou o cavaco litterario. Os rapazes mal ousavam estender<br \/>\n    o bra&ccedil;o para o copo da cerveja; e os vossa excellencia isto, vossa<br \/>\n    excellencia aquillo, regelavam a sala. Pouco a pouco, por&eacute;m, vendo-o<br \/>\n    apparecer em chinelas e de cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com ares<br \/>\n    sympathicos de patriarcha bohemio, discutir arte e litteratura, contar anecdotas<br \/>\n    do seu tempo d&#8217;Inglaterra e d&#8217;Italia, come&ccedil;aram a consideral-o como<br \/>\n    um camarada de barbas brancas. Diante d&#8217;elle j&aacute; se fallava de mulheres<br \/>\n    e de estroinices. Aquelle velho fidalgo, t&atilde;o rico, que l&ecirc;ra Michelet<br \/>\n    e o admirava &#8211; chegou mesmo a enthusiasmar os democratas. E Affonso gozava<br \/>\n    alli tambem horas felizes, vendo o seu Carlos centro d&#8217;aquelles mo&ccedil;os<br \/>\n    de estudo, de ideal e de veia.<br \/>\n    Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, &aacute;s vezes em Paris ou Londres;<br \/>\n    mas por Nataes e Pascoas vinha sempre a Santa Olavia, que o av&ocirc; mais<br \/>\n    s&oacute; se entretinha a embellezar com amor. As salas tinham agora soberbos<br \/>\n    pannos d&#8217;Arraz, paizagens de Rousseau e Daubigny, alguns moveis de luxo e<br \/>\n    d&#8217;arte. Das janellas a quinta offerecia aspectos nobres de parque inglez:<br \/>\n    atrav&eacute;s dos macios taboleiros de relva, davam curvas airosas as ruas<br \/>\n    areadas: havia marmores entre as verduras; e gordos carneiros de luxo dormiam<br \/>\n    sob os castanheiros. Mas a existencia n&#8217;este meio rico n&atilde;o era agora<br \/>\n    t&atilde;o alegre: a viscondessa, cada dia mais nutrida, cahia em somnos congestivos<br \/>\n    logo depois do jantar; o Teixeira primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido,<br \/>\n    ambos de pleurizes, ambos no entrudo: e j&aacute; se n&atilde;o via tambem<br \/>\n    &aacute; mesa a bondosa face do abbade, que l&aacute; jazia sob uma cruz de<br \/>\n    pedra, entre os goivos e as rosas de todo o anno. O dr. juiz de direito com<br \/>\n    a sua concertina pass&aacute;ra para a Rela&ccedil;&atilde;o do Porto; D.<br \/>\n    Anna Silveira, muito doente, nunca sahia; a Therezinha fizera-se uma rapariguinha<br \/>\n    feia, amarella como uma cidra; o Euzebiosinho, molleng&atilde;o e tristonho,<br \/>\n    j&aacute; sem vestigios sequer do seu primeiro amor aos alfarrabios e &aacute;s<br \/>\n    letras, ia casar na Regoa. S&oacute; o dr. delegado, esquecido n&#8217;aquella comarca,<br \/>\n    estava o mesmo, mais calvo talvez, sempre affavel, amando sempre a pachorrenta<br \/>\n    Eugenia. E quasi todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua egoa<br \/>\n    branca ao port&atilde;o para vir cavaquear com o collega.<br \/>\n    As ferias, realmente, s&oacute; eram divertidas para Carlos quando trazia<br \/>\n    para a quinta o seu intimo, o grande Jo&atilde;o da Ega, a quem Affonso da<br \/>\n    Maia se affei&ccedil;o&aacute;ra muito, por elle e pela sua originalidade,<br \/>\n    e por ser sobrinho d&#8217;Andr&eacute; da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas<br \/>\n    vezes outr&#8217;ora, hospede tambem em Santa Olavia.<br \/>\n    Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente &#8211; ora reprovado,<br \/>\n    ora perdendo o anno. Sua m&atilde;i, rica, viuva e beata, retirada n&#8217;uma quinta<br \/>\n    ao p&eacute; de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e rica tambem,<br \/>\n    tinha apenas uma no&ccedil;&atilde;o vaga do que o Jo&atilde;ozinho fizera,<br \/>\n    todo esse tempo, em Coimbra. O capell&atilde;o affirmava-lhe que tudo havia<br \/>\n    de acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o pap&aacute;<br \/>\n    e como o titi: e esta promessa bastava &aacute; boa senhora, que se occupava<br \/>\n    sobretudo da sua doen&ccedil;a de entranhas e dos confortos d&#8217;esse padre Seraphim.<br \/>\n    Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da quinta,<br \/>\n    que elle escandalisava com a sua irreligi&atilde;o e as suas facecias hereticas.<br \/>\n    Jo&atilde;o da Ega, com effeito, era considerado n&atilde;o s&oacute; em Celorico,<br \/>\n    mas tambem na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como<br \/>\n    o maior atheu, o maior demagogo, que j&aacute;mais apparecera nas sociedades<br \/>\n    humanas. Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio &aacute; Divindade,<br \/>\n    e a toda a Ordem social: queria o massacre das classes-m&eacute;dias, o amor<br \/>\n    livre das fic&ccedil;&otilde;es do matrimonio, a reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das terras, o culto de Satanaz. O esfor&ccedil;o da intelligencia n&#8217;este sentido<br \/>\n    terminou por lhe influenciar as maneiras e a physionomia; e, com a sua figura<br \/>\n    esgrouviada e s&ecirc;cca, os p&ecirc;llos do bigode arrebitados sob o nariz<br \/>\n    adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito &#8211; tinha realmente alguma<br \/>\n    coisa de rebelde e de satanico. Desde a sua entrada na Universidade renov&aacute;ra<br \/>\n    as tradi&ccedil;&otilde;es da antiga Bohemia: trazia os rasg&otilde;es da<br \/>\n    batina cozidos a linha branca; embebedava-se com carrasc&atilde;o; &aacute;<br \/>\n    noite, na Ponte, com o bra&ccedil;o erguido, atirava injurias a Deus. E no<br \/>\n    fundo muito sentimental, enleado sempre em amores por meninas de quinze annos,<br \/>\n    filhas de empregados, com quem &aacute;s vezes ia passar a soir&eacute;e,<br \/>\n    levando-lhes cartuchinhos de d&ocirc;ce. A sua fama de fidalgote rico tornava-o<br \/>\n    appetecido nas familias.<br \/>\n    Carlos escarnecia estes idyllios futricas; mas tambem elle terminou por se<br \/>\n    enredar n&#8217;um episodio romantico com a mulher d&#8217;um empregado do governo civil,<br \/>\n    uma lisboetasinha, que o seduziu pela gra&ccedil;a d&#8217;um corpo de boneca e<br \/>\n    por uns lindos olhos verdes. A ella o que a fantis&aacute;ra f&ocirc;ra o<br \/>\n    luxo, o groom, a egoa ingleza de Carlos. Trocaram-se cartas; e elle viveu<br \/>\n    semanas banhado na poesia aspera e tumultuosa do primeiro amor adultero. Infelizmente<br \/>\n    a rapariga tinha o nome barbaro de Hermengarda; e os amigos de Carlos, descoberto<br \/>\n    o segredo, chamavam-lhe j&aacute; Eurico o presbytero, dirigiam para Cellas<br \/>\n    missivas pelo correio com este nome odioso.<br \/>\n    Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do governo<br \/>\n    civil passou junto d&#8217;elle com o filhinho pela m&atilde;o. Pela primeira vez<br \/>\n    via t&atilde;o de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e macilento.<br \/>\n    Mas o pequerrucho era adoravel, muito gordo, parecendo mais roli&ccedil;o<br \/>\n    por aquelle dia de janeiro sob os agasalhos de l&atilde; azul, tremelicando<br \/>\n    nas pobres perninhas roxas de frio, e rindo na clara luz &#8211; rindo todo elle,<br \/>\n    pelos olhos, pelas covinhas do queixo, pelas duas rosas das faces. O pae amparava-o;<br \/>\n    e o encanto, o cuidado com que o rapaz ia assim guiando os passos do seu filho,<br \/>\n    impressionou Carlos. Era no momento em que elle lia Michelet &#8211; e enchia-lhe<br \/>\n    a alma a venera&ccedil;&atilde;o litteraria da santidade domestica. Sentiu-se<br \/>\n    canalha em andar alli de cima do seu dog-cart, a preparar friamente a vergonha,<br \/>\n    e as lagrimas d&#8217;aquelle pobre pae t&atilde;o inofensivo no seu paletot co&ccedil;ado!<br \/>\n    Nunca mais respondeu &aacute;s cartas em que Hermengarda lhe chamava seu ideal.<br \/>\n    Decerto a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo<br \/>\n    civil, d&#8217;ahi por diante, dardejava sobre elle olhares sangrentos.<br \/>\n    Mas a grande &laquo;topada sentimental de Carlos&raquo;, como disse o Ega,<br \/>\n    foi quando elle, ao fim d&#8217;umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga<br \/>\n    hespanhola, e a installou n&#8217;uma casa ao p&eacute; de Cellas. Chamava-se Encarnacion.<br \/>\n    Carlos alugou-lhe ao mez uma vittoria com um cavallo branco e Encarnacion<br \/>\n    fanatisou Coimbra como a appari&ccedil;&atilde;o d&#8217;uma Dama das Camelias,<br \/>\n    uma fl&ocirc;r de luxo das civilisa&ccedil;&otilde;es superiores. Pela Cal&ccedil;ada,<br \/>\n    pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pallidos de emo&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quando ella passava, reclinada na vittoria, mostrando o sapato de setim, um<br \/>\n    pouco da meia de s&ecirc;da, languida e desdenhosa, com um c&atilde;osinho<br \/>\n    branco no rega&ccedil;o.<br \/>\n    Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada Lirio<br \/>\n    d&#8217;Israel, Pomba da Arca, e Nuvem da Manh&atilde;. Um estudante de theologia,<br \/>\n    rude e sebento transmontano, quiz casar com ella. Apesar das instancias de<br \/>\n    Carlos, Encarnacion recusou; e o theologo come&ccedil;ou a rondar Cellas,<br \/>\n    com um navalh&atilde;o, para &laquo;beber o sangue&raquo; ao Maia. Carlos<br \/>\n    teve de lhe dar bengaladas.<br \/>\n    Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar d&#8217;outras<br \/>\n    paix&otilde;es que inspir&aacute;ra em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe<br \/>\n    dera o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posi&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    sua familia ainda aparentada com os Medina-Coeli: os seus sapatos de setim<br \/>\n    verde eram t&atilde;o antipathicos como a sua voz estridula: e quando tentava<br \/>\n    elevar-se &aacute;s conversa&ccedil;&otilde;es que ouvia, rompia a chamar<br \/>\n    ladr&otilde;es aos republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua<br \/>\n    gracia, o seu salero &#8211; sendo muito conservadora como todas as prostitutas.<br \/>\n    Jo&atilde;o da Ega odiava-a. E Craveiro declarou que n&atilde;o voltava aos<br \/>\n    Pa&ccedil;os de Cellas emquanto por l&aacute; apparecesse aquelle mont&atilde;o<br \/>\n    de carne, pago ao arratel, como a de vacca.<br \/>\n    Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos surprehendeu-a<br \/>\n    com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi estava, emfim, um<br \/>\n    pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos Medina-Coeli, o Lirio d&#8217;Israel,<br \/>\n    a admiradora dos Bourbons, foi recambiada a Lisboa e &aacute; rua de S. Roque,<br \/>\n    seu elemento natural.<br \/>\n    Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em Cellas.<br \/>\n    Affonso viera de Santa Olavia, Villa&ccedil;a de Lisboa; toda a tarde no quintal,<br \/>\n    d&#8217;entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar m&oacute;lhos de foguetes;<br \/>\n    e Jo&atilde;o da Ega, que lev&aacute;ra o seu ultimo R no seu ultimo anno,<br \/>\n    n&atilde;o descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas venezianas<br \/>\n    pelos ramos, no trapesio e em roda do po&ccedil;o, para a illuminac&atilde;o<br \/>\n    da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Villa&ccedil;a, enfiado e tremulo,<br \/>\n    fez um speech; ia citar o nosso immortal Castilho quando sob as janellas rompeu,<br \/>\n    a grande ruido de tambor e pratos, o Hymno Academico. Era uma serenata. &#8211;<br \/>\n    Ega, vermelho, de batina desabotoada, a luneta para traz das costas, correu<br \/>\n    &aacute; sacada, a perorar:<br \/>\n    &#8211; Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, come&ccedil;ando a sua<br \/>\n    gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma &#8211; ou acabar<br \/>\n    de a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d&#8217;estes reinos n&atilde;o<br \/>\n    chegou j&aacute; a fama do seu genio, do seu dog-cart, do sebaceo accessit<br \/>\n    que lhe ennod&ocirc;a o passado, e d&#8217;este vinho do Porto, contemporaneo dos<br \/>\n    heroes de 20, que eu, homem de revolu&ccedil;&atilde;o e homem de carraspana,<br \/>\n    eu, Jo&atilde;o da Ega, Johanes ab Ega&#8230;<br \/>\n    O grupo escuro em baixo desatou aos vivas. A philarmonica, outros estudantes,<br \/>\n    invadiram os Pa&ccedil;os. At&eacute; tarde, sob as arvores do quintal, na<br \/>\n    sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de d&ocirc;ce,<br \/>\n    n&atilde;o cessou d&#8217;estalar o champagne. E Villa&ccedil;a, limpando a testa,<br \/>\n    o pesco&ccedil;o, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem:<br \/>\n    &#8211; Grande coisa, ter um curso!<\/p>\n<p>\n    E ent&atilde;o Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa.<br \/>\n    Um anno passou. Cheg&aacute;ra esse outono de 1875: e o av&ocirc; installado<br \/>\n    emfim no Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos<br \/>\n    viera de Inglaterra, onde andava, dizia elle, a estudar a admiravel organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos hospitaes de crian&ccedil;as. Assim era: mas passeava tambem por Brighton,<br \/>\n    apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idyllio errante pelos lagos da<br \/>\n    Escocia, com uma senhora hollandeza, separada de seu marido, veneravel magistrado<br \/>\n    da Haya, uma Mme. Rughel, soberba creatura de cabellos d&#8217;ouro fulvo, grande<br \/>\n    e branca como uma nympha de Rubens.<br \/>\n    Depois come&ccedil;aram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas<br \/>\n    de livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo<br \/>\n    um laboratorio &#8211; que trazia o Villa&ccedil;a, manh&atilde;s inteiras, aturdido<br \/>\n    pelos armazens da alfandega.<br \/>\n    &#8211; O meu rapaz vem com grandes id&eacute;as de trabalho, dizia Affonso aos<br \/>\n    amigos.<br \/>\n    Havia quatorze mezes que elle o n&atilde;o via, o &laquo;seu rapaz&raquo;,<br \/>\n    a n&atilde;o ser n&#8217;uma photographia mandada de Mil&atilde;o, em que todos<br \/>\n    o acharam magro e triste. E o corac&atilde;o batia-lhe forte, na linda manh&atilde;<br \/>\n    de outono, quando do terra&ccedil;o do Ramalhete, de binoculo na m&atilde;o,<br \/>\n    viu assomar vagarosamente, por traz do alto predio fronteiro, um grande paquete<br \/>\n    do Royal Mail que lhe trazia o seu neto.<br \/>\n    &Aacute; noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o Villa&ccedil;a<br \/>\n    &#8211; n&atilde;o se fartavam d&#8217;admirar &laquo;o bem que a viagem fizera a Carlos&raquo;.<br \/>\n    Que differen&ccedil;a da photographia! Que forte, que saudavel!<br \/>\n    Era decerto um formoso e magnifico mo&ccedil;o, alto, bem feito, de hombros<br \/>\n    largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os olhos<br \/>\n    dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro liquido, ternos<br \/>\n    como os d&#8217;elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina, castanho-escura,<br \/>\n    rente na face, agu&ccedil;ada no queixo &#8211; o que lhe dava, com o bonito bigode<br \/>\n    arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de bello cavalleiro da Renascen&ccedil;a.<br \/>\n    E o av&ocirc;, cujo olhar risonho e humido transbordava d&#8217;emo&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    todo se orgulhava de o v&ecirc;r, de o ouvir, n&#8217;uma larga veia, fallando da<br \/>\n    viagem, dos bellos dias de Roma, do seu mau humor na Prussia, da originalidade<br \/>\n    de Moscow, das paizagens da Hollanda&#8230;<br \/>\n    &#8211; E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em que<br \/>\n    Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu fazer?<br \/>\n    &#8211; Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo. Descan&ccedil;ar<br \/>\n    primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional!<br \/>\n    Ao outro dia, com effeito, Affonso veiu encontral-o na sala de bilhar &#8211; onde<br \/>\n    tinham sido collocados os caixotes &#8211; a despregar, a desempacotar, em mangas<br \/>\n    de camisa e assobiando com enthusiasmo. Pelo ch&atilde;o, pelos soph&aacute;s,<br \/>\n    alastrava-se toda uma litteratura em rumas de volumes graves; e aqui e al&eacute;m,<br \/>\n    por entre a palha, atrav&eacute;s das lonas descozidas, a luz faiscava n&#8217;um<br \/>\n    crystal, ou reluziam os vernizes, os metaes polidos de apparelhos. Affonso<br \/>\n    pasmava em silencio para aquelle pomposo apparato do saber. <br \/>\n    &#8211; E onde vaes tu accommodar este museo? <br \/>\n    Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio alli perto no bairro, com<br \/>\n    fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos anatomicos<br \/>\n    e physiologicos, a sua bibliotheca, os seus apparelhos, uma concentra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    methodica de todos os instrumentos de estudo&#8230;<br \/>\n    Os olhos do av&ocirc; illuminavam-se ouvindo este plano grandioso.<br \/>\n    &#8211; E que n&atilde;o te prendam quest&otilde;es de dinheiro, Carlos! N&oacute;s<br \/>\n    fizemos n&#8217;estes ultimos annos de Santa Olavia algumas economias&#8230;<br \/>\n    &#8211; Boas e grandes palavras, av&ocirc;! Repita-as ao Villa&ccedil;a.<br \/>\n    As semanas foram passando n&#8217;estes planos de installa&ccedil;&atilde;o. Carlos<br \/>\n    trazia realmente resolu&ccedil;&otilde;es sinceras de trabalho: a sciencia<br \/>\n    como mera ornamenta&ccedil;&atilde;o interior do espirito, mais inutil para<br \/>\n    os outros que as proprias tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um<br \/>\n    luxo de solitario: desejava ser util. Mas as suas ambi&ccedil;&otilde;es fluctuavam,<br \/>\n    intensas e vagas; ora pensava n&#8217;uma larga clinica; ora na composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    macissa de um livro iniciador; algumas vezes em experiencias physiologicas,<br \/>\n    pacientes e reveladoras&#8230; Sentia em si, ou suppunha sentir, o tumulto de<br \/>\n    uma for&ccedil;a, sem lhe discernir a linha d&#8217;applica&ccedil;&atilde;o. &laquo;Alguma<br \/>\n    cousa de brilhante,&raquo; como elle dizia: e isto para elle, homem de luxo<br \/>\n    e homem d&#8217;estudo, significava um conjuncto de representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social e de actividade scientifica; o remecher profundo de id&eacute;as entre<br \/>\n    as influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da philosophia entremeados<br \/>\n    com requintes de sport e de gosto; um Claude Bernard que fosse tambem um Morny&#8230;<br \/>\n    No fundo era um dilletante.<br \/>\n    Villa&ccedil;a f&ocirc;ra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio;<br \/>\n    e o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incan&ccedil;avel.<br \/>\n    Primeira cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?&#8230;<br \/>\n    Carlos n&atilde;o decidira fazer exclusivamente clinica: mas desejava de certo<br \/>\n    dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica. Ent&atilde;o<br \/>\n    Villa&ccedil;a suggeriu que o consultorio estivesse separado do laboratorio.<br \/>\n    &#8211; E a minha raz&atilde;o &eacute; esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas,<br \/>\n    faz esmorecer os doentes&#8230;<br \/>\n    &#8211; Tem voc&ecirc; raz&atilde;o, Villa&ccedil;a! exclamou Affonso. J&aacute;<br \/>\n    meu pae dizia: poupe-se ao boi a vista do malho.<br \/>\n    &#8211; Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n&#8217;um tom profundo.<br \/>\n    Carlos concordou. E Villa&ccedil;a bem depressa descobriu, para o laboratorio,<br \/>\n    um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao largo<br \/>\n    das Necessidades.<br \/>\n    &#8211; E o consultorio, meu senhor, n&atilde;o &eacute; aqui, nem acol&aacute;;<br \/>\n    &eacute; no Rocio, alli em pleno Rocio!<br \/>\n    Esta id&eacute;a do Villa&ccedil;a n&atilde;o era desinteressada. Grande enthusiasta<br \/>\n    da Fus&atilde;o, membro do Centro progressista, Villa&ccedil;a Junior aspirava<br \/>\n    a ser vereador da camara, e mesmo em dias de satisfa&ccedil;&atilde;o superior<br \/>\n    (como quando o seu anniversario natalicio vinha annunciado no Illustrado,<br \/>\n    ou quando no Centro citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas<br \/>\n    aptid&otilde;es mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio<br \/>\n    gratuito, no Rocio, o consultorio do dr. Maia, &laquo;do seu Maia&raquo; reluziu-lhe<br \/>\n    logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que d&#8217;ahi<br \/>\n    a dois dias tinha l&aacute; alugado um primeiro andar d&#8217;esquina.<br \/>\n    Carlos mobilou-o com luxo. N&#8217;uma antecamara, guarnecida de banquetas de marroquim,<br \/>\n    devia estacionar, &aacute; franceza, um creado de libr&eacute;. A sala de<br \/>\n    espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas, as<br \/>\n    plantas em vasos de Rouen, quadros de muita c&ocirc;r, e ricas poltronas cercando<br \/>\n    a jardineira coberta de collec&ccedil;&otilde;es do Charivari, de vistas estereoscopicas,<br \/>\n    d&#8217;albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente o ar triste de consultorio<br \/>\n    at&eacute; um piano mostrava o seu teclado branco.<br \/>\n    O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em velludo<br \/>\n    verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que come&ccedil;avam<br \/>\n    a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do Ramalhete,<br \/>\n    o Cruges, o marquez de Souzellas, com quem percorrera a Italia &#8211; vieram v&ecirc;r<br \/>\n    estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano e achou-o abominavel;<br \/>\n    Taveira absorveu-se nas photographias d&#8217;actrizes; e a unica approva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    franca veiu do marquez, que depois de contemplar o divan do gabinete, verdadeiro<br \/>\n    movel de serralho, vasto, voluptuoso, f&ocirc;fo, experimentou-lhe a do&ccedil;ura<br \/>\n    das molas e disse, piscando o olho a Carlos:<br \/>\n    &#8211; A calhar.<br \/>\n    N&atilde;o pareciam acreditar n&#8217;estes preparativos. E todavia eram sinceros.<br \/>\n    Carlos at&eacute; fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem<br \/>\n    o seu nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira &aacute; Boa Hora<br \/>\n    e um reclamo de casa de hospedes, &#8211; encarregou Villa&ccedil;a de retirar o<br \/>\n    annuncio.<br \/>\n    Occupava-se ent&atilde;o mais do laboratorio, que decidira installar no armazem,<br \/>\n    &aacute;s Necessidades. Todas as manh&atilde;s, antes de almo&ccedil;o, ia<br \/>\n    visitar as obras. Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria<br \/>\n    um po&ccedil;o, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam<br \/>\n    ao muro. Carlos j&aacute; decidira transformar aquelle espa&ccedil;o em fresco<br \/>\n    jardinete inglez; e a porta do casar&atilde;o encantava-o, ogival e nobre,<br \/>\n    resto de fachada d&#8217;ermida, fazendo um accesso veneravel para o seu sanctuario<br \/>\n    de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim; sempre um vago<br \/>\n    martellar pregui&ccedil;oso n&#8217;uma poeira alvadia; sempre as mesmas coifas<br \/>\n    de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um carpinteiro esgouroviado<br \/>\n    e triste parecia estar alli, desde seculos, aplainando uma taboa eterna com<br \/>\n    uma fadiga langorosa; e no telhado os trabalhadores que andavam alargando<br \/>\n    a claraboia, n&atilde;o cessavam de assobiar, no sol d&#8217;inverno, alguma lamuria<br \/>\n    de fado.<br \/>\n    Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d&#8217;obras, que lhe asseverava invariavelmente<br \/>\n    &laquo;como d&#8217;ahi a dois dias havia de s. ex.&ordf; v&ecirc;r a differen&ccedil;a.&raquo;<br \/>\n    Era um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito barbeado, muito<br \/>\n    lavado, que morava ao p&eacute; do Ramalhete, e tinha no bairro fama de republicano.<br \/>\n    Carlos, por sympathia, como visinho, apertava-lhe sempre a m&atilde;o: e o<br \/>\n    sr. Vicente, considerando-o por isso um &laquo;avan&ccedil;ado&raquo;, um<br \/>\n    democrata, confiava-lhe as suas esperan&ccedil;as. O que elle desejava primeiro<br \/>\n    que tudo era um 93, como em Fran&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    &#8211; O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada e roli&ccedil;a face<br \/>\n    do demagogo.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, senhor, um navio, um simples navio&#8230;<br \/>\n    &#8211; Um navio?<br \/>\n    &#8211; Sim, senhor, um navio fretado &aacute; custa da na&ccedil;&atilde;o, em<br \/>\n    que se mandasse pela barra f&oacute;ra o rei, a familia real, a cambada dos<br \/>\n    ministros, dos politicos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc.<br \/>\n    Carlos sorria, &aacute;s vezes argumentava com elle.<br \/>\n    &#8211; Mas est&aacute; o sr. Vicente bem certo, que apenas a cambada, como t&atilde;o<br \/>\n    exactamente diz, desapparecesse pela barra f&oacute;ra, ficavam resolvidas<br \/>\n    todas as cousas e tudo atolado em felicidade?<br \/>\n    N&atilde;o, o sr. Vicente n&atilde;o era t&atilde;o &laquo;burro&raquo; que<br \/>\n    assim pensasse. Mas, supprimida a cambada, n&atilde;o via s. ex.&ordf;? Ficava<br \/>\n    o paiz desatravancado; e podiam ent&atilde;o come&ccedil;ar a governar os<br \/>\n    homens de saber e de progresso&#8230;<br \/>\n    &#8211; Sabe v. ex.&ordf; qual &eacute; o nosso mal? N&atilde;o &eacute; m&aacute;<br \/>\n    vontade d&#8217;essa gente; &eacute; muita somma de ignorancia. N&atilde;o sabem.<br \/>\n    N&atilde;o sabem nada. Elles n&atilde;o s&atilde;o maus, mas s&atilde;o umas<br \/>\n    cavalgaduras!<br \/>\n    &#8211; Bem, ent&atilde;o essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando<br \/>\n    o relogio e despedindo-se d&#8217;elle com um valente shakehands, veja se me andam.<br \/>\n    N&atilde;o lh&#8217;o pe&ccedil;o como proprietario, &eacute; como correligionario.<br \/>\n    &#8211; D&#8217;aqui a dois dias ha de v. ex.&ordf; v&ecirc;r a differen&ccedil;a, respondia<br \/>\n    o mestre d&#8217;obras, desbarretando-se.<br \/>\n    No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almo&ccedil;o.<br \/>\n    Carlos encontrava quasi sempre o av&ocirc; j&aacute; na sala de jantar, acabando<br \/>\n    de percorrer algum jornal junto ao fog&atilde;o, onde a tepida suavidade d&#8217;aquelle<br \/>\n    fim de outono n&atilde;o permittia accender lume, mas verdejando todo de plantas<br \/>\n    d&#8217;estufa.<br \/>\n    Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no seu<br \/>\n    luxo macisso e sobrio, as baixellas antigas; pelas tape&ccedil;arias ovaes<br \/>\n    dos muros apainelados corriam scenas de ballada, ca&ccedil;adores medivaes<br \/>\n    soltando o falc&atilde;o, uma dama entre pagens alimentando os cysnes de um<br \/>\n    lago, um cavalleiro de viseira callada seguindo ao longo d&#8217;um rio; e contrastando<br \/>\n    com o tecto escuro de castanho entalhado a meza resplandecia com as fl&ocirc;res<br \/>\n    entre os crystaes.<br \/>\n    O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatario da Egreja comia<br \/>\n    com os senhores, l&aacute; estava j&aacute;, magestosamente sentado sobre<br \/>\n    a alvura nevada da toalha, &aacute; sombra de algum grande ramo. Era alli,<br \/>\n    no aroma das rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar<br \/>\n    estupido, as sopas de leite servidas n&#8217;um covilhete de Strasburgo, depois<br \/>\n    agachava-se, tra&ccedil;ava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda,<br \/>\n    e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo elle uma bola entufada de pello<br \/>\n    branco malhado de ouro, gosava de leve uma sesta macia.<br \/>\n    Affonso, &#8211; como confessava, sorrindo e humilhado &#8211; &iacute;a-se tornando com<br \/>\n    a velhice um gourmet exigente; e acolhia, com uma concentra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de critico, as obras d&#8217;arte do chef francez que tinham agora, um cavalheiro<br \/>\n    de mau genio, todo bonapartista, muito parecido com o imperador, e que se<br \/>\n    chamava Mr. Theodore. Os almo&ccedil;os no Ramalhete eram sempre delicados<br \/>\n    e longos; depois, ao caf&eacute;, ficavam ainda conversando; e passava da<br \/>\n    uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclama&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    precipitando-se sobre o relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um<br \/>\n    calice de Chartreuse, accendia &aacute; pressa um charuto:<br \/>\n    &#8211; Ao trabalho, ao trabalho! exclamava.<br \/>\n    E o av&ocirc;, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella occupa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manh&atilde;&#8230;<br \/>\n    &#8211; Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez v&aacute; para l&aacute;<br \/>\n    passar um bocado, occupar-me de chimica.<br \/>\n    &#8211; E ser talvez um grande chimico. O av&ocirc; tem j&aacute; a feitio.<br \/>\n    O velho sorria.<br \/>\n    &#8211; Esta carcassa j&aacute; n&atilde;o d&aacute; nada, filho. Est&aacute; pedindo<br \/>\n    eternidade!<br \/>\n    &#8211; Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando &aacute;<br \/>\n    pressa as suas luvas de governar.<br \/>\n    &#8211; Bom dia de trabalho.<br \/>\n    &#8211; Pouco provavel&#8230;<br \/>\n    E no dog-cart, com aquella linda egoa, a Tunante ou no phaeton com que maravilhava<br \/>\n    Lisboa, Carlos l&aacute; partia em grande estylo para a Baixa, para &laquo;o<br \/>\n    trabalho.&raquo;<br \/>\n    O seu gabinete, no consultorio, dormia n&#8217;uma paz tepida entre os espessos<br \/>\n    velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda verde corridas.<br \/>\n    Na sala, por&eacute;m, as tres janellas abertas bebiam &aacute; farta a luz;<br \/>\n    tudo alli parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira estendiam os<br \/>\n    seus bra&ccedil;os, amaveis e convidativas; o teclado branco do piano ria<br \/>\n    e esperava, tendo abertas por cima as Can&ccedil;&otilde;es de Gounod; mas<br \/>\n    n&atilde;o apparecia j&aacute;mais um doente. E Carlos, &#8211; exactamente como<br \/>\n    o creado que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o Diario de Noticias,<br \/>\n    aca&ccedil;apado na banqueta &#8211; accendia um cigarro Laferme, tomava uma Revista,<br \/>\n    e estendia-se no divan. A prosa por&eacute;m dos artigos estava como embebida<br \/>\n    do tedio moroso do gabinete: bem depressa bocejava, deixava cair o volume.<br \/>\n    Do Rocio, o ruido das carro&ccedil;as, os gritos errantes de preg&otilde;es,<br \/>\n    o rolar dos americanos, subiam, n&#8217;uma vibra&ccedil;&atilde;o mais clara, por<br \/>\n    aquelle ar fino de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul<br \/>\n    ferrete, vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as c&oacute;pas mesquinhas<br \/>\n    das arvores de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lenta de cidade pregui&ccedil;osa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam<br \/>\n    ir penetrando pouco a pouco n&#8217;aquelle abafado gabinete e resvelando pelos<br \/>\n    velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n&#8217;uma indolencia<br \/>\n    e n&#8217;uma dormencia&#8230; Com a cabe&ccedil;a na almofada, fumando, alli ficava,<br \/>\n    n&#8217;essa quieta&ccedil;&atilde;o de sesta, n&#8217;um scismar que se &iacute;a desprendendo,<br \/>\n    vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva d&#8217;uma brazeira meia apagada;<br \/>\n    at&eacute; que com um esfor&ccedil;o sacudia este torpor, passeiava na sala,<br \/>\n    abria aqui e al&eacute;m pelas estantes um livro, tocava no piano dois compassos<br \/>\n    de walsa, esprigui&ccedil;ava-se &#8211; e, com os olhos nas flores do tapete, terminava<br \/>\n    por decidir que aquellas duas horas de consultorio eram estupidas!<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; ahi o carro? &iacute;a perguntar ao creado.<br \/>\n    Accendia bem depressa outro charuto, cal&ccedil;ava as luvas, descia, bebia<br \/>\n    um largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo:<br \/>\n    &#8211; Dia perdido!<\/p>\n<p>Foi uma d&#8217;essas manh&atilde;s que pregui&ccedil;ando assim no soph&aacute;<br \/>\n    com a Revista dos Dois Mundos na m&atilde;o, elle ouviu um rumor na antecamara,<br \/>\n    e logo uma voz bem conhecida, bem querida, que dizia por tr&aacute;s do reposteiro:<br \/>\n    &#8211; Sua Alteza Real est&aacute; visivel?<br \/>\n    &#8211; Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do soph&aacute;.<br \/>\n    E cahiram nos bra&ccedil;os um do outro, beijando-se na face, enternecidos.<br \/>\n    &#8211; Quando chegaste tu?<br \/>\n    &#8211; Esta manh&atilde;. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos<br \/>\n    hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba! Tu<br \/>\n    vens esplendido d&#8217;esses Londres, d&#8217;essas civilisa&ccedil;&otilde;es superiores.<br \/>\n    Est&aacute;s com um ar Renascen&ccedil;a, um ar Valois&#8230; N&atilde;o ha nada<br \/>\n    como a barba toda! <br \/>\n    Carlos ria, abra&ccedil;ando-o outra vez.<br \/>\n    &#8211; E d&#8217;onde vens tu, de Celorico?<br \/>\n    &#8211; Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente&#8230; O figado, o ba&ccedil;o,<br \/>\n    uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e aguas<br \/>\n    ardentes&#8230;<br \/>\n    Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em Lisboa&#8230;<br \/>\n    Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, &aacute;s varzeas<br \/>\n    de Celorico, o adeus de eternidade.<br \/>\n    &#8211; Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me succede com minha<br \/>\n    m&atilde;e&#8230; Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir<br \/>\n    viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, n&atilde;o<br \/>\n    ca&iacute;u! Fiquei na quinta, fazendo epigrammas ao padre Seraphim e a toda<br \/>\n    a c&ocirc;rte do c&eacute;u. Chega julho, e apparece nos arredores uma epidemia<br \/>\n    de anginas. Um horror, creio que voc&ecirc;s lhe chamam diphtericas&#8230; A mam&atilde;<br \/>\n    salta immediatamente &aacute; conclus&atilde;o que &eacute; a minha presen&ccedil;a,<br \/>\n    a presen&ccedil;a do atheo, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que offendeu<br \/>\n    Nosso Senhor e attrahiu o flagello. Minha irm&atilde; concorda. Consultam<br \/>\n    o padre Seraphim. O homem, que n&atilde;o gosta de me v&ecirc;r na quinta,<br \/>\n    diz que &eacute; possivel que haja indigna&ccedil;&atilde;o do Senhor &#8211; e<br \/>\n    minha m&atilde;e vem pedir-me quasi de joelhos, com a bolsa aberta, que venha<br \/>\n    para Lisboa, que a arruine, mas que n&atilde;o esteja alli chamando a ira<br \/>\n    divina. No dia seguinte bati para a Foz&#8230;<br \/>\n    &#8211; E a epidemia&#8230;<br \/>\n    &#8211; Desappareceu logo, disse o Ega, come&ccedil;ando a puxar devagar dos dedos<br \/>\n    magros uma longa luva cor de can&aacute;rio.<br \/>\n    Carlos mirava aquellas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o cabello<br \/>\n    que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na gravata de setim<br \/>\n    uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandy, vistoso, paramentado,<br \/>\n    artificial e com p&oacute; d&#8217;arroz &#8211; e Carlos deixou emfim escapar a exclama&#038;ccedccedil;&atilde;o<br \/>\n    impaciente que lhe bailava nos labios:<br \/>\n    &#8211; Ega, que extraordinario casaco!<br \/>\n    Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o antigo<br \/>\n    bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelli&ccedil;a, uma sumptuosa pelli&ccedil;a<br \/>\n    de principe russo, agasalho de tren&ograve; e de neve, ampla, longa, com alamares<br \/>\n    trespassados &aacute; Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pesco&ccedil;o<br \/>\n    esgani&ccedil;ado e dos pulsos de thisico uma rica e f&ocirc;fa espessura<br \/>\n    de pelles de marta.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; uma boa pelli&ccedil;a, hein? disse elle logo, erguendo-se, abrindo-a,<br \/>\n    exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss&#8230; Beneficios da<br \/>\n    epidemia.<br \/>\n    &#8211; Como podes tu supportar isso?<br \/>\n    &#8211; &Eacute; um bocado pesada, mas tenho andado constipado.<br \/>\n    Tornou a recostar-se no soph&aacute;, adiantando o sapato de verniz muito<br \/>\n    bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete.<br \/>\n    &#8211; E tu que fazes? conta-me l&aacute;&#8230; Tens isto explendido!<br \/>\n    Carlos fallou dos seus planos, de altas id&eacute;as de trabalho, das obras<br \/>\n    do laboratorio&#8230;<br \/>\n    &#8211; Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega interrompendo-o,<br \/>\n    erguendo-se para ir apalpar o velludo dos reposteiros, mirar os torneados<br \/>\n    da secret&aacute;ria de pau preto.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o sei. O Villa&ccedil;a &eacute; que deve saber&#8230;<br \/>\n    E Ega, com as m&atilde;os enterradas nos vastos bolsos da pelli&ccedil;a,<br \/>\n    inventariando o gabinete, fazia considera&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    &#8211; O velludo d&aacute; seriedade&#8230; E o verde escuro &eacute; a c&ocirc;r suprema,<br \/>\n    &eacute; a c&ocirc;r esthetica&#8230; Tem a sua express&atilde;o propria, enternece<br \/>\n    e faz pensar&#8230; Gosto d&#8217;este divan. Movel de amor&#8230;<br \/>\n    Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho, estudando<br \/>\n    os ornatos.<br \/>\n    &#8211; Tu &eacute;s o grandioso Salom&atilde;o, Carlos! O papel &eacute; bonito&#8230;<br \/>\n    E o cretonesinho agrada-me.<br \/>\n    Apalpou-o tambem. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata, n&#8217;um vaso<br \/>\n    de Rouen, interessou-o. Queria saber o pre&ccedil;o de tudo; e diante do piano,<br \/>\n    olhando o livro de musica aberto, as Can&ccedil;&otilde;es de Gounod, teve<br \/>\n    uma surpreza enternecida:<br \/>\n    &#8211; Homem, &eacute; curioso&#8230; C&aacute; me apparece! A Barcarolla! &Eacute;<br \/>\n    deliciosa, hein?&#8230;<\/p>\n<p>Dites, la jeune belle,<br \/>\n    Ou voulez-vous aller?<br \/>\n    La voile&#8230;<\/p>\n<p>Estou um bocado rouco&#8230; Era a nossa can&ccedil;&atilde;o na Foz!<br \/>\n    Carlos teve outra exclama&ccedil;&atilde;o, e crusando os bra&ccedil;os diante<br \/>\n    d&#8217;elle:<br \/>\n    &#8211; Tu est&aacute;s extraordinario, Ega! Tu &eacute;s outro Ega!&#8230; A proposito<br \/>\n    da Foz&#8230; Quem &eacute; essa Madame Cohen, que estava tambem na Foz, de quem<br \/>\n    tu, em cartas successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na Haia,<br \/>\n    em Londres, me fallavas como os arrobos do Cantico dos Canticos?<br \/>\n    Um leve rubor subiu &aacute;s faces do Ega. E limpando negligentemente o monocolo<br \/>\n    ao len&ccedil;o de seda branca:<br \/>\n    &#8211; Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. &Eacute; a mulher do Cohen,<br \/>\n    has de conhecer, um que &eacute; director do Banco Nacional&#8230; D&eacute;mos-nos<br \/>\n    bastante. &Eacute; sympathica&#8230; Mas o marido &eacute; uma besta&#8230; Foi uma<br \/>\n    flitartion de praia. Voila tout.<br \/>\n    Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e ainda<br \/>\n    c&oacute;rado.<br \/>\n    &#8211; Mas conta-me tu, que diabo, que fazem voc&ecirc;s no Ramalhete? O av&ocirc;<br \/>\n    Affonso? Quem vae por l&aacute;?&#8230;<br \/>\n    No Ramalhete, o av&ocirc; fazia o seu whist com os velhos parceiros. Ia o<br \/>\n    D. Diogo, o decrepito le&atilde;o, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda<br \/>\n    os bigodes&#8230; Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de sangue,<br \/>\n    &aacute; espera da sua apoplexia&#8230; Ia o conde de Steinbroken&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o conhe&ccedil;o. Refugiado?&#8230; Polaco?&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, ministro da Filandia&#8230; Queria-nos alugar umas cocheiras e complicou<br \/>\n    esta simples transac&ccedil;&atilde;o com tantas finuras diplomaticas, tantos<br \/>\n    documentos, tantas cousas com o sello real da Filandia, que o pobre Villa&ccedil;a<br \/>\n    aturdido, para se desembara&ccedil;ar, remetteu-o ao av&ocirc;. O av&ocirc;,<br \/>\n    desnorteado tambem, offereceu-lhe as cocheiras de gra&ccedil;a. Steinbroken<br \/>\n    considera isto um servi&ccedil;o feito ao rei da Filandia, &aacute; Filandia,<br \/>\n    vae visitar o av&ocirc;, em grande estado, com o secretario da lega&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o consul, o vice-cousul&#8230;<br \/>\n    &#8211; Isso &eacute; sublime!<br \/>\n    &#8211; O av&ocirc; convida-o a jantar&#8230; E como o homem &eacute; muito fino, um<br \/>\n    gentleman, enthusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma auctoridade<br \/>\n    no whist, o av&ocirc; adopta-o. N&atilde;o sae do Ramalhete.<br \/>\n    &#8211; E de rapazes?<br \/>\n    De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no Tribunal<br \/>\n    de Contas: um Cruges, que o Ega n&atilde;o conhecia, um diabo adoidado, maestro,<br \/>\n    pianista, com uma pontinha de genio; o marquez de Souzellas&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o ha mulheres?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o ha quem as receba. &Eacute; um covil de solteir&otilde;es. A<br \/>\n    viscondessa, coitada&#8230;<br \/>\n    &#8211; Bem sei. Um apoplet&eacute;&#8230;<br \/>\n    &#8211; Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha, chegou-nos<br \/>\n    ultimamente o Silveirinha&#8230;<br \/>\n    &#8211; O de Resende, o cretino?<br \/>\n    &#8211; O cretino. Euviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo carregado<br \/>\n    de luto&#8230; Um funebre.<br \/>\n    O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que Carlos<br \/>\n    j&aacute; notara, disse puchando lentamente os punhos:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo,<br \/>\n    uma bohemiasinha dourada, umas soir&eacute;es de inverno, com arte, com litteratura&#8230;<br \/>\n    Tu conheces o Craft?<br \/>\n    &#8211; Sim, creio que tenho ouvido fallar&#8230;<br \/>\n    Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft era<br \/>\n    simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal&#8230;<br \/>\n    &#8211; &Eacute; um inglez, uma especie de doido?&#8230;<br \/>\n    Ega encolheu os hombros. Um doido!&#8230; Sim, era essa a opini&atilde;o da rua<br \/>\n    dos Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade t&atilde;o forte como<br \/>\n    a de Craft, n&atilde;o podia explical-a sen&atilde;o pela doidice. O Craft<br \/>\n    era um rapaz extraordinario!&#8230; Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar<br \/>\n    tres mezes com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz&#8230; Uma individualidade<br \/>\n    de primeira ordem!<br \/>\n    &#8211; &Eacute; um negociante do Porto, n&atilde;o &eacute;?<br \/>\n    &#8211; Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a face,<br \/>\n    enojado de tanta ignorancia. O Craft &eacute; filho d&#8217;um clergiman da egreja<br \/>\n    ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcut&aacute; ou d&#8217;Australia,<br \/>\n    um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna. Mas n&atilde;o negoceia,<br \/>\n    nem sabe o que isso &eacute;. D&aacute; largas ao s&eacute;u temperamento<br \/>\n    byroneano, &eacute; o que faz. Tem viajado por todo o universo, collecciona<br \/>\n    obras d&#8217;arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim vive,<br \/>\n    vive na grande, na forte, na heroica accep&ccedil;&atilde;o da palavra. &Eacute;<br \/>\n    necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle&#8230; Tens raz&atilde;o,<br \/>\n    caramba, est&aacute; calor.<br \/>\n    Desembara&ccedil;ou-se da opulenta pelli&ccedil;a, e appareceu em peitilho<br \/>\n    de camisa.<br \/>\n    &#8211; O que! tu n&atilde;o trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o; ent&atilde;o n&atilde;o a podia aguentar&#8230; Isto &eacute; para<br \/>\n    o effeito moral, para impressionar o indigena&#8230; Mas, n&atilde;o ha negal-o,<br \/>\n    &eacute; pesada!<br \/>\n    E immediatamente voltou &aacute; sua id&eacute;a: apenas Craft chegasse do<br \/>\n    Porto relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d&#8217;arte e dilletantismo,<br \/>\n    rapazes e mulheres &#8211; tres ou quatro mulheres para cortarem, com a gra&ccedil;a<br \/>\n    dos decotes, a severidade das philosophias&#8230;<br \/>\n    Carlos ria-se d&#8217;esta id&eacute;a do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo,<br \/>\n    em Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illus&atilde;o de um homem<br \/>\n    de Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez s&oacute;,<br \/>\n    uma cousa bem mais simples &#8211; um jantar no campo com actrizes. Pois f&ocirc;ra<br \/>\n    o escandalo mais engra&ccedil;ado e mais caracteristico: uma n&atilde;o tinha<br \/>\n    creada e queria levar comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia<br \/>\n    que, acceitando, o brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o amante,<br \/>\n    quando soube, deu-lhe uma c&oacute;&ccedil;a. Esta n&atilde;o tinha vestido<br \/>\n    para ir; aquella pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se<br \/>\n    escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os queridos,<br \/>\n    os p&ocirc;lhos, complicaram medonhamente a quest&atilde;o; uns exigiam ser<br \/>\n    convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos, fizeram-se<br \/>\n    intrigas, &#8211; emfim esta cousa banal, um jantar com actrizes, resultou em o<br \/>\n    Tarquinio do Gymnasio levar uma facada&#8230;<br \/>\n    &#8211; E aqui tens tu Lisboa.<br \/>\n    &#8211; Emfim, exclamou o Ega, se n&atilde;o apparecerem mulheres, importam-se,<br \/>\n    que &eacute; em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo.<br \/>\n    Leis, id&eacute;as, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias,<br \/>\n    estylo, industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo<br \/>\n    paquete. A civilisa&ccedil;&atilde;o custa-nos carissima com os direitos da<br \/>\n    alfandega: e &eacute; em segunda m&atilde;o, n&atilde;o foi feita para n&oacute;s,<br \/>\n    fica-nos curta nas mangas&#8230; N&oacute;s julgamo-nos civilisados como os negros<br \/>\n    de S. Thom&eacute; se supp&otilde;em cavalheiros, se supp&otilde;em mesmo<br \/>\n    brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patr&atilde;o&#8230; Isto<br \/>\n    &eacute; uma choldra torpe. Onde puz eu a charuteira?<br \/>\n    Desembara&ccedil;ado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega reapparecia,<br \/>\n    perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em verve, lan&ccedil;ando-se<br \/>\n    pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas grandes phrases, n&#8217;uma lucta<br \/>\n    constante com o monocolo, que lhe ca&iacute;a do olho, que elle procurava<br \/>\n    pelo peito, pelos hombros, pelos rins, retorcendo-se, deslocando-se, como<br \/>\n    mordido por bichos. Carlos animava-se tambem, a fria sala aquecia; discutiam<br \/>\n    o Naturalismo, Gambetta, o Nihilismo; depois, com ferocidade e &aacute; uma,<br \/>\n    malharam sobre o paiz&#8230; <br \/>\n    Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente Ega saltou sobre<br \/>\n    a pelissa, sepultou-se n&#8217;ella, agu&ccedil;ou o bigode ao espelho, verificou<br \/>\n    a pose, e, encoura&ccedil;ado nos seus alamares, sahio com um arsinho de luxo<br \/>\n    e d&#8217;aventura.<br \/>\n    &#8211; John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar, onde<br \/>\n    est&aacute;s tu?<br \/>\n    &#8211; No Universal, esse sanctuario!<br \/>\n    Carlos abominava o Universal, queria que elle viesse para o Ramalhete.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o me conv&eacute;m&#8230;<br \/>\n    &#8211; Em todo o caso vaes hoje l&aacute; jantar, ver o av&ocirc;.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o posso. Estou compromettido com a besta do Cohen&#8230; Mas vou l&aacute;<br \/>\n    &aacute;manh&atilde; almo&ccedil;ar.<br \/>\n    J&aacute; nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para<br \/>\n    cima:<br \/>\n    &#8211; Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro!<br \/>\n    &#8211; O qu&ecirc;! est&aacute; prompto? exclamou Carlos, espantado.<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; esbo&ccedil;ado, &aacute; brocha larga&#8230;<br \/>\n    O Livro do Ega! F&ocirc;ra em Coimbra, nos dois ultimos annos, que elle come&ccedil;&aacute;ra<br \/>\n    a fallar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de capitulos, citando<br \/>\n    pelos caf&eacute;s phrases de grande sonoridade. E entre os amigos do Ega<br \/>\n    discutia-se j&aacute; o livro do Ega como devendo iniciar, pela f&oacute;rma<br \/>\n    e pela id&eacute;a, uma evolu&ccedil;&atilde;o litteraria. Em Lisboa (onde<br \/>\n    elle vinha passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro f&ocirc;ra annunciado<br \/>\n    como um acontecimento. Bachareis, contemporaneos ou seus condiscipulos, tinham<br \/>\n    levado de Coimbra, espalhado pelas provincias e pelas ilhas a fama do livro<br \/>\n    do Ega. J&aacute; de qualquer modo essa noticia cheg&aacute;ra ao Brazil&#8230;<br \/>\n    E sentindo esta ansiosa espectativa em torno do seu livro &#8211; o Ega decidira-se<br \/>\n    emfim a escrevel-o.<br \/>\n    Devia ser uma epop&ecirc;a em prosa, como elle dizia, dando, sob episodios<br \/>\n    symbolicos, a historia das grandes phases do Universo e da Humanidade. Intitulava-se<br \/>\n    Memorias d&#8217;um Atomo, e tinha a f&oacute;rma d&#8217;uma autobiographia. Este atomo<br \/>\n    (o atomo do Ega, como se lhe chamava a serio em Coimbra) apparecia no primeiro<br \/>\n    capitulo, rolando ainda no vago das Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado,<br \/>\n    faisca candente, na massa de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim,<br \/>\n    fazia parte da primeira folha de planta que surgiu da crosta ainda molle do<br \/>\n    globo. Desde ent&atilde;o, viajando nas incessantes transforma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da substancia, o atomo do Ega entrava na rude structura do Orango, pae da<br \/>\n    humanidade &#8211; e mais tarde vivia nos labios de Plat&atilde;o. Negrejava no<br \/>\n    burel dos santos, refulgia na espada dos heroes, palpitava no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos poetas. Gota de agua nos lagos de Galil&eacute;a, ouvira o fallar de Jesus,<br \/>\n    aos fins da tarde, quando os apostolos recolhiam as redes; n&oacute; de madeira<br \/>\n    na tribuna da Conven&ccedil;&atilde;o, sentira o frio da m&atilde;o de Robespierre.<br \/>\n    Errara nos vastos anneis de Saturno; e as madrugadas da terra tinham-n&#8217;o orvalhado,<br \/>\n    petala resplandecente de um dormente e languido lyrio. F&ocirc;ra omnipresente,<br \/>\n    era omnisciente. Achando-se finalmente no bico da penna do Ega, e can&ccedil;ado<br \/>\n    d&#8217;esta jornada atravez do Ser, repousava &#8211; escrevendo as suas Memorias&#8230;<br \/>\n    Tal era este formidavel trabalho &#8211; de que os admiradores do Ega, em Coimbra,<br \/>\n    diziam, pensativos e como esmagados de respeito:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; uma Biblia!<\/p>\n<h2><a name=\"5\">Cap&iacute;tulo V<\/a><\/h2>\n<p>No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a partida<br \/>\n    de whist. A mesa estava ao lado da chamin&eacute;, onde a chamma morria nos<br \/>\n    carv&otilde;es escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo<br \/>\n    japonez, por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar.<br \/>\n    Esse velho dandy, &#8211; a quem as damas de outras eras chamavam o &laquo;Lindo<br \/>\n    Diogo&raquo;, gentil toureiro que dormira n&#8217;um leito real &#8211; acabava justamente<br \/>\n    de ter um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o sacudiam<br \/>\n    como uma ruina, que elle abafava no len&ccedil;o, com as veias inchadas, r&ocirc;xo<br \/>\n    at&eacute; &aacute; raiz dos cabellos.<br \/>\n    Mas pass&aacute;ra. Com a m&atilde;o ainda tremula, o decrepito le&atilde;o<br \/>\n    limpou as lagrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compoz a rosa<br \/>\n    de musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua chasada, e<br \/>\n    perguntou a Affonso, seu parceiro, n&#8217;uma voz rouca e surda:<br \/>\n    &#8211; Paus, hein?<br \/>\n    E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram cahindo n&#8217;um d&#8217;aquelles silencios<br \/>\n    que se seguiam &aacute;s tosses de D. Diogo. Sentia-se s&oacute; a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    assobiada, quasi silvante, do general Sequeira, muito infeliz essa noite,<br \/>\n    desesperado com o Villa&ccedil;a seu parceiro, resing&atilde;o, e com todo<br \/>\n    o sangue na face.<br \/>\n    Um tom fino retiniu, o relogio Luiz XV foi ferindo alegremente, vivamente,<br \/>\n    a meia noite; &#8211; depois a toada argentina do seu minuete vibrou um momento<br \/>\n    e morreu. Houve de novo um silencio. Uma renda vermelha recobria os globos<br \/>\n    de dois grandes candieiros Carcel; e a luz assim coada, cahindo sobre os damascos<br \/>\n    vermelhos das paredes, dos assentos, fazia como uma doce refrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    c&ocirc;r de rosa, um vaporoso de nuvem em que a sala se banhava e dormia:<br \/>\n    s&oacute;, aqui e al&eacute;m, sobre os carvalhos sombrios das estantes, rebrilhava<br \/>\n    em silencio o ouro d&#8217;um S&egrave;vres, uma pallidez de marfim, ou algum tom<br \/>\n    esmaltado de velha majolica.<br \/>\n    &#8211; O que! ainda encarni&ccedil;ados! exclamou Carlos que abrira o reposteiro,<br \/>\n    entrava, e com elle o rumor distante de bolas de bilhar.<br \/>\n    Affonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabe&ccedil;a, a perguntar<br \/>\n    com interesse:<br \/>\n    &#8211; Como vae ella? Est&aacute; socegada?<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; muito melhor!<br \/>\n    Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origem alsacianna,<br \/>\n    casada com o Marcellino padeiro, muito conhecida no bairro pelos seus bellos<br \/>\n    cabellos, loiros, e penteados sempre em tran&ccedil;as soltas. Tinha estado<br \/>\n    &aacute; morte com uma pneumonia; e apesar de melhor, como a padaria ficava<br \/>\n    defronte, Carlos ainda &aacute;s vezes &aacute; noite atravessava a rua para<br \/>\n    a ir v&ecirc;r, tranquillisar o Marcellino, que, defronte do leito e de gab&atilde;o<br \/>\n    pelos hombros, suffocava solu&ccedil;os d&#8217;amante, escrevinhando no livro de<br \/>\n    contas.<br \/>\n    Affonso interessara-se anciosamente por aquella pneumonia; e agora estava<br \/>\n    realmente agradecido &aacute; Marcellina por ter sido salva por Carlos. Fallava<br \/>\n    d&#8217;ella commovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio alsacianno, a prosperidade<br \/>\n    que trouxera &aacute; padaria&#8230; Para a convalescen&ccedil;a, que se approximava,<br \/>\n    j&aacute; lhe mand&aacute;ra at&eacute; seis garrafas de Chateau-Margaux.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o f&oacute;ra de perigo, inteiramente f&oacute;ra de perigo?<br \/>\n    &#8211; perguntou Villa&ccedil;a, com os dedos na caixa do rap&eacute;, sublinhando<br \/>\n    muito a sua sollicitude.<br \/>\n    &#8211; Sim, quasi rija &#8211; disse Carlos, que se approximara da chamin&eacute;, esfregando<br \/>\n    as m&atilde;os, arrepiado.<br \/>\n    &Eacute; que a noite, f&oacute;ra, estava regelada! Desde o anoitecer geava,<br \/>\n    d&#8217;um c&eacute;u fino e duro, transbordando de estrellas que rebrilhavam como<br \/>\n    pontas afiadas d&#8217;a&ccedil;o; e nenhum d&#8217;aquelles cavalheiros, desde que se<br \/>\n    entendia, conhecera j&aacute;mais o thermometro t&atilde;o baixo. Sim, Villa&ccedil;a<br \/>\n    lembrava-se d&#8217;um janeiro peor no inverno de 64&#8230;<br \/>\n    &#8211; &Eacute; necessario carregar no punch, hein, general! &#8211; exclamou Carlos,<br \/>\n    batendo galhofeiramente nos hombros macissos do Sequeira.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o me opponho, rosnou o outro, que fixava com concentra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e rancor um valete de copas sobre a meza.<br \/>\n    Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carv&otilde;es: uma chuva d&#8217;oiro<br \/>\n    cahiu por baixo, uma chamma mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo, avermelhando<br \/>\n    em redor as pelles de urso onde o Reverendo Bonifacio, espapado, torrava ao<br \/>\n    calor, ronronava de g&ocirc;so.<br \/>\n    &#8211; O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os p&eacute;s &aacute; chamma.<br \/>\n    Tem, emfim, justificada a pellissa. A proposito, algum dos senhores tem visto<br \/>\n    o Ega estes ultimos dias?<br \/>\n    Ninguem respondeu, no interesse subito que causava a cartada. A longa m&atilde;o<br \/>\n    de D. Diogo recolhia de vagar a vasa &#8211; e languidamente, no mesmo silencio,<br \/>\n    soltou uma carta de paus.<br \/>\n    &#8211; &Oacute; Diogo! &oacute; Diogo! gritou Affonso, estorcendo-se, como se o<br \/>\n    trespassasse um ferro.<br \/>\n    Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faiscas, collocou o seu valete;<br \/>\n    Affonso, profundamente infeliz, separou-se do rei de paus; Villa&ccedil;a<br \/>\n    bateu de estalo com o az. E immediatamente foi em redor uma discuss&atilde;o<br \/>\n    tremenda sobre a puchada de D. Diogo &#8211; em quanto Carlos, a quem as cartas<br \/>\n    sempre enfastiavam, se debru&ccedil;ava a co&ccedil;ar o ventre fofo do veneravel<br \/>\n    Reverendo.<br \/>\n    &#8211; Que perguntavas tu, filho? disse emfim Affonso erguendo-se, ainda irritado,<br \/>\n    a buscar tabaco para o cachimbo, sua consola&ccedil;&atilde;o nas derrotas.<br \/>\n    O Ega? N&atilde;o, ninguem o viu, n&atilde;o tornou a apparecer! Est&aacute;<br \/>\n    tambem um bom ingrato, esse John&#8230;<br \/>\n    Ao nome do Ega, Villa&ccedil;a, parando de baralhar as cartas, erguera a face<br \/>\n    curiosa:<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o sempre &eacute; certo que elle vae montar casa?<br \/>\n    Foi Affonso que respondeu, sorrindo e accendendo o cachimbo:<br \/>\n    &#8211; Montar casa, comprar coup&eacute;, deitar libr&eacute;, dar soir&eacute;es<br \/>\n    litterarias, publicar um poema, o diabo!<br \/>\n    &#8211; Elle esteve l&aacute; no escriptorio, dizia Villa&ccedil;a recome&ccedil;ando<br \/>\n    a baralhar. Esteve l&aacute; a indagar o que tinha custado o consultorio,<br \/>\n    a mobilia de velludo, etc. O velludo verde deu-lhe no g&ocirc;to&#8230; Eu, como<br \/>\n    &eacute; um amigo da casa, l&aacute; lhe prestei informa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    at&eacute; lhe mostrei as contas. &#8211; E respondendo a uma pergunta do Sequeira:<br \/>\n    &#8211; Sim, a m&atilde;e tem dinheiro, e creio que lhe d&aacute; o bastante. Que<br \/>\n    em quanto a mim, elle vem-se metter na politica. Tem talento, falla bem, o<br \/>\n    pae j&aacute; era muito regenerador&#8230; Alli ha ambi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Alli ha mulher, disse D. Diogo, collocando com peso esta decis&atilde;o<br \/>\n    e accentuando-a com uma caricia languida &aacute; ponta frisada dos bigodes<br \/>\n    brancos. L&ecirc;-se-lhe na cara, basta v&ecirc;r-lhe a cara&#8230; Alli ha mulher.<br \/>\n    Carlos sorria, gabando a penetra&ccedil;&atilde;o de D. Diogo, o seu fino<br \/>\n    olho &aacute; Balzac; e Sequeira, logo, franco como velho soldado, quiz saber<br \/>\n    quem era a Dulcinea. Mas o velho dandy declarou, da profundidade da sua experiencia,<br \/>\n    que essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel n&atilde;o se saberem.<br \/>\n    Depois passando os dedos magros e lentos pela face, deixou cahir d&#8217;alto e<br \/>\n    com condescendencia este juizo: <br \/>\n    &#8211; Eu gosto do Ega, tem apresenta&ccedil;&atilde;o; sobretudo tem degag&egrave;&#8230;<br \/>\n    Tinham recebido as cartas, fez-se um silencio na meza. O general, vendo o<br \/>\n    seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e puxou-lhe<br \/>\n    uma fuma&ccedil;a furiosa.<br \/>\n    &#8211; Os senhores s&atilde;o muito viciosos, vou v&ecirc;r a gente do bilhar,<br \/>\n    disse Carlos. Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquez, a perder j&aacute;<br \/>\n    quatro mil r&eacute;is. Querem o punch aqui?<br \/>\n    Nenhum dos parceiros respondeu.<br \/>\n    E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silencio de solemnidade. O marquez,<br \/>\n    estirado sobre a tabella, com a perna meia no ar, o come&ccedil;o de calva<br \/>\n    alvejando &aacute; luz crua que cahia dos abat-jours de porcelana, preparava<br \/>\n    a carambola decisiva. Cruges, que apost&aacute;ra por elle, deix&aacute;ra<br \/>\n    o divan, o cachimbo turco, e, co&ccedil;ando com um gesto nervoso a grenha<br \/>\n    crespa que lhe ondeava at&eacute; &aacute; gola do jaquet&atilde;o, vigiava<br \/>\n    a bola inquieto, com os olhinhos piscos, o nariz espetado. Do fundo da sala,<br \/>\n    destacando em preto, o Silveirinha, o Eusebiosinho de Sta. Olavia, estendia<br \/>\n    tambem o pesco&ccedil;o, affogado n&#8217;uma gravata de viuvo de merino negro e<br \/>\n    sem collarinho, sempre macambuzio, mais mollengo que outr&#8217;ora, com as m&atilde;os<br \/>\n    enterradas nos bolsos &#8211; t&atilde;o funebre que tudo n&#8217;elle parecia complemento<br \/>\n    do luto pesado, at&eacute; o preto do cabello chato, at&eacute; o preto das<br \/>\n    lunetas de fumo. Junto ao bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken,<br \/>\n    esperava: e apesar do susto, da emo&ccedil;&atilde;o d&#8217;homem do norte aferrado<br \/>\n    ao dinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco, sorrindo, sem desmanchar<br \/>\n    a sua linha britanica, &#8211; vestido como um inglez, inglez tradicional d&#8217;estampa,<br \/>\n    com uma sobrecasaca justa de manga um pouco curta, e largas cal&ccedil;as<br \/>\n    de xadrez sobre sapat&otilde;es de tac&atilde;o raso.<br \/>\n    &#8211; Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tost&otilde;esinbos para c&aacute;,<br \/>\n    Silveirinha!<br \/>\n    O marquez carambol&aacute;ra, ganhando a partida, e triumphava tambem:<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; trouxe-me a sorte, Carlos!<br \/>\n    Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava j&aacute; sobre a tabella, lentamente,<br \/>\n    uma a uma, as quatro placas perdidas.<br \/>\n    Mas o marquez, de giz na m&atilde;o, reclamava-o para outras refregas, esfaimado<br \/>\n    d&#8217;ouro filandez.<br \/>\n    &#8211; Nada mach!&#8230; V&ocirc;c&ecirc; hoje &#8216;st&aacute; t&ecirc;riv&ecirc;l! dizia<br \/>\n    o diplomata, no seu portuguez fluente, mas de accento barbaro.<br \/>\n    O marquez insistia, plantado diante d&#8217;elle, de taco ao hombro como uma vara<br \/>\n    de campino, dominando-o com a sua macissa, desempenada estatura. E amea&ccedil;ava-o<br \/>\n    de destinos medonhos n&#8217;uma voz possante habituada a ressoar nas lezirias;<br \/>\n    queria-o arruinar ao bilhar, for&ccedil;al-o a empenhar aquelles bellos anneis,<br \/>\n    leval-o elle, ministro da Filandia e representante d&#8217;uma ra&ccedil;a de reis<br \/>\n    fortes, a vender senhas &aacute; porta da Rua dos Condes!<br \/>\n    Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um riso franzido e difficil, fixando<br \/>\n    no marquez o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo da sua myopia<br \/>\n    a dureza d&#8217;um metal. Apesar da sua sympathia pela illustre casa de Souzella,<br \/>\n    achava estas familiaridades, estas tremendas chala&ccedil;as, incompativeis<br \/>\n    com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia. O marquez, por&eacute;m,<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o d&#8217;ouro, abra&ccedil;ava-o j&aacute; pela cinta, com<br \/>\n    expans&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o se n&atilde;o quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken<br \/>\n    amigo!<br \/>\n    A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se logo, dando caricias ligeiras<br \/>\n    &aacute;s suissas, e aos anneis do cabello d&#8217;um loiro de espiga desbotada.<br \/>\n    Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como elle dissera a Affonso) eram<br \/>\n    bons barytonos: e isso trouxera &aacute; familia n&atilde;o poucos proventos<br \/>\n    sociaes. Pela voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o fizera<br \/>\n    chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras nos seus quartos, ao piano,<br \/>\n    cantando psalmos lutheranos, coraes escolares, sagas da Dallecarlia &#8211; em quanto<br \/>\n    o taciturno monarcha cachimbava e bebia, at&eacute; que saturado de emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do soph&aacute;, solu&ccedil;ando<br \/>\n    e babando-se. Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da sua carreira ao piano,<br \/>\n    j&aacute; como addido, j&aacute; como segundo secretario. Feito chefe de miss&atilde;o,<br \/>\n    absteve-se: foi s&oacute; quando vio o Figaro celebrar repetidamente as walsas<br \/>\n    do principe Artoff, embaixador da Russia em Paris, e a voz de basso do conde<br \/>\n    de Baspt, embaixador d&#8217;Austria em Londres, que elle, seguindo t&atilde;o altos<br \/>\n    exemplos, arriscou, aqui e alem, em soir&eacute;es mais intimas, algumas melodias<br \/>\n    filandezas. Emfim cantou no Pa&ccedil;o. E desde ent&atilde;o exerceu com<br \/>\n    zelo, com formalidades, com praxes, o seu cargo de &laquo;barytono plenipotenciario,&raquo;<br \/>\n    como dizia o Ega. Entre homens, e com os reposteiros corridos, Steinbroken<br \/>\n    n&atilde;o duvidava todavia cantarolar o que elle chamava &laquo;can&ccedil;onetas<br \/>\n    brej&ecirc;ras&raquo; &#8211; o Amant d&#8217;Amanda, ou uma certa ballada ingleza:<\/p>\n<p> On the Serpentine,<br \/>\n    Oh my Caroline&#8230;<br \/>\n    Oh!<\/p>\n<p>Este oh! como elle o expellia, gemido, bem puxado, n&#8217;um movimento de batuque,<br \/>\n    expressivo e todavia digno&#8230; Isto entre rapazes e com os reposteiros fechados.<br \/>\n    N&#8217;essa noite, por&eacute;m, o marquez, que o conduzia pelo bra&ccedil;o &aacute;<br \/>\n    sala do piano, exigia uma d&#8217;aquellas can&ccedil;&otilde;es da Filandia, de<br \/>\n    tanto sentimento e que lhe faziam t&atilde;o bem &aacute; alma&#8230;<br \/>\n    &#8211; Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, frisk, gluzk&#8230; La ra l&aacute;,<br \/>\n    l&aacute;, l&aacute;!<br \/>\n    &#8211; A Primavera, disse o diplomata sorrindo.<br \/>\n    Mas antes de entrar na sala, o marquez soltou o bra&ccedil;o de Steinbroken,<br \/>\n    fez um signal ao Silveirinha para o fundo do corredor &#8211; e ahi, sob um sombrio<br \/>\n    painel de Santa Magdalena no deserto penitenciando-se e mostrando nudezas<br \/>\n    ricas de nympha lubrica, interpellou-o quasi com aspereza:<br \/>\n    &#8211; Vamos n&oacute;s a saber. Ent&atilde;o, decide-se ou n&atilde;o?<br \/>\n    Era uma negocia&ccedil;&atilde;o que havia semanas se arrastava entre elles,<br \/>\n    a respeito d&#8217;uma parelha d&#8217;egoas. Silveirinha nutria o desejo de montar carruagem;<br \/>\n    e o marquez procurava vender-lhe umas egoas brancas, a que elle dizia &laquo;ter<br \/>\n    tomado engui&ccedil;o, apesar de serem dois nobres animaes&raquo;. Pedia por<br \/>\n    ellas um conto e quinhentos mil r&eacute;is. Silveirinha f&ocirc;ra avisado<br \/>\n    pelo Sequeira, por Travassos, por outros entendedores, que era uma espiga:<br \/>\n    o marquez tinha a sua moral propria para negocios de gado, e exultaria em<br \/>\n    intrujar um pichote. Apesar de advertido, Eusebio cedendo &aacute; influencia<br \/>\n    da grossa voz do marquez, da robustez do seu phisico, da antiguidade do seu<br \/>\n    titulo, n&atilde;o ousava recusar. Mas hesitava; e n&#8217;essa noite deu a resposta<br \/>\n    usual de forreta, co&ccedil;ando o queixo, cosido ao muro:<br \/>\n    &#8211; Eu verei, marquez&#8230; Um conto e quinhentos &eacute; dinheiro&#8230;<br \/>\n    O marquez ergueu dois bra&ccedil;os amea&ccedil;adores como duas trancas:<br \/>\n    &#8211; Homem, sim ou n&atilde;o! Que diabo&#8230; Dois animaes que s&atilde;o duas<br \/>\n    estampas&#8230; Irra ! Sim ou n&atilde;o! <br \/>\n    Eusebio ageitou as lunetas, rosnou:<br \/>\n    &#8211; Eu verei&#8230; Elle &eacute; dinheiro. Sempre &eacute; dinheiro&#8230;<br \/>\n    &#8211; Queria voc&ecirc;, talvez, pagal-as com feij&otilde;es? Voce leva-me a commetter<br \/>\n    um excesso!<br \/>\n    O piano resoou, em dois accordes cheios, sob os dedos do Cruges; e o marquez,<br \/>\n    baboso por musica, immediatamente largou a quest&atilde;o das egoas, recolheu<br \/>\n    em pontas de p&eacute;s. Eusebiosinho ainda ficou a remoer, a co&ccedil;ar<br \/>\n    o queixo; emfim, &aacute;s primeiras notas de Steinbroken, veiu pousar como<br \/>\n    uma sombra silenciosa entre a hombreira e o reposteiro.<br \/>\n    Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabelleira como pousada<br \/>\n    &aacute;s costas, Cruges feria o acompanhamento, d&#8217;olhos cravados no livro<br \/>\n    de Melodias Filandezas. Ao lado, empertigado, quasi official, com o len&ccedil;o<br \/>\n    de seda na m&atilde;o, a m&atilde;o fincada contra o peito, Steinbroken soltava<br \/>\n    um canto festivo, n&#8217;um movimento de tarantella triumphante, em que passavam,<br \/>\n    como um entrechocar de seixos, esses bocados de palavras de que o marquez<br \/>\n    gostava, frisk, sl&eacute;cht, clikst, glukst. Era a Primavera &#8211; fresca e<br \/>\n    silvestre, primavera do norte em paiz de montanhas, quando toda uma ald&ecirc;a<br \/>\n    dan&ccedil;a em c&oacute;ros sob os fuscos abetos, a neve se derrete em cascatas,<br \/>\n    um sol pallido avelluda os musgos, e a brisa traz o aroma das resinas&#8230; Nos<br \/>\n    graves e cheios, as cantoneiras de Steinbroken ruborisavam-se, inchavam. Nos<br \/>\n    tons agudos todo elle se &iacute;a al&ccedil;ando sobre a ponta dos p&eacute;s,<br \/>\n    como levado no compasso vivo; despegava ent&atilde;o a m&atilde;o do peito,<br \/>\n    alargava um gesto, as bellas joias dos seus anneis faiscavam.<br \/>\n    O marquez, com as m&atilde;os esquecidas nos joelhos, parecia beber o canto.<br \/>\n    Na face de Carlos passava um sorriso enternecido pensando em Madame Rughel,<br \/>\n    que viajara na Filandia, e cantava &aacute;s vezes aquella Primavera nas suas<br \/>\n    horas de sentimentalismo flamengo&#8230;<br \/>\n    Steinbroken soltou um stacato agudo, isolado como uma voz n&#8217;um alto, &#8211; e immediatamente,<br \/>\n    afastando-se do piano, passou o len&ccedil;o sobre as fontes, sobre o pesco&ccedil;o,<br \/>\n    rectificou com um puch&atilde;o a linha da sobrecasaca, e agradeceu o acompanhamento<br \/>\n    ao Cruges n&#8217;um silencioso shake-hands.<br \/>\n    &#8211; Bravo! bravo! berrava o marquez, batendo as m&atilde;os como malhos.<br \/>\n    E outros applausos resoaram &aacute; porta, dos parceiros do whist, que tinham<br \/>\n    findado a partida. Quasi immediatamente os escudeiros entravam com um servi&ccedil;o<br \/>\n    frio de croquettes e sandwiches, offerecendo St. Emilion ou Porto; e sobre<br \/>\n    uma meza, entre os renques de calices, a puncheira fumegou n&#8217;um aroma doce<br \/>\n    e quente de cognac e lim&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, meu pobre Steinbroken, exclamou Affonso, vindo-lhe bater amavelmente<br \/>\n    no hombro, ainda d&aacute; d&#8217;esses bellos cantos a estes bandidos, que o maltratam<br \/>\n    assim ao bilhar?<br \/>\n    &#8211; Fui essf&ocirc;ladito, si, essf&ocirc;ladito. Agradecido, n&ocirc;, prefiro<br \/>\n    um copita Porto&#8230;<br \/>\n    &#8211; Hoje fomos n&oacute;s as victimas, disse-lhe o general respirando com delicia<br \/>\n    o seu punch.<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; t&atilde;bem, meu gen&ecirc;ral?<br \/>\n    &#8211; Sim, senhor, tambem me cascaram&#8230; <br \/>\n    E que dizia o amigo Steinbroken &aacute;s noticias da manh&atilde;? perguntava<br \/>\n    Affonso. A queda de Mac-Mahon, a elei&ccedil;&atilde;o de Grevy&#8230; O que o<br \/>\n    alegrava n&#8217;isto, era o desapparecimento definitivo do antipathico senhor de<br \/>\n    Broglie e da sua clique. A impertinencia d&#8217;aquelle academico estreito, querendo<br \/>\n    imp&ocirc;r a opini&atilde;o de dois ou tres sal&otilde;es doutrinarios &aacute;<br \/>\n    Fran&ccedil;a inteira, a toda uma Democracia! Ah, o Times cantava-lh&#8217;as!<br \/>\n    &#8211; E o Punch? N&atilde;o viu o Punch? Oh, delicioso!&#8230;<br \/>\n    O ministro pousara o calice, e esfregando cautelosamente as m&atilde;os disse<br \/>\n    n&#8217;uma meia voz grave a sua phrase, a phrase definitiva com que julgava todos<br \/>\n    os acontecimentos que apparecem em telegrammas :<br \/>\n    &#8211; &Eacute; gr&agrave;ve&#8230; &Eacute; eqsessivemente gr&agrave;ve&#8230;<br \/>\n    Depois fallou-se de Gambetta; e como Affonso lhe attribuia uma dictadura proxima,<br \/>\n    o diplomata tomou mysteriosamente o bra&ccedil;o de Sequeira, murmurou a palavra<br \/>\n    suprema com que definia todas as personalidades superiores, homens d&#8217;estado,<br \/>\n    poetas, viajantes ou tenores.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; um hom&egrave; m&ucirc;to forte. &Eacute; um hom&egrave; eqsessivemente<br \/>\n    forte!<br \/>\n    &#8211; O que elle &eacute;, &eacute; um ronha! exclamou o general, escorropichando<br \/>\n    o seu calice.<br \/>\n    E todos tres deixaram a sala, discutindo ainda a republica &#8211; em quanto Cruges<br \/>\n    continuava ao piano, vagueando por Mendelsshon e por Choppin, depois de ter<br \/>\n    devorado um prato de croquettes.<br \/>\n    O marquez e D. Diogo, sentados no mesmo soph&aacute;, um com a sua chasada<br \/>\n    d&#8217;invalido, outro com um copo de St. Emilion, a que aspirava o bouquet, fallavam<br \/>\n    tambem de Gambetta. O marquez gostava de Gambetta: f&ocirc;ra o unico que<br \/>\n    durante a guerra mostrara ventas de homem; l&aacute; que tivesse &laquo;comido&raquo;<br \/>\n    ou que &laquo;quizesse comer&raquo; como diziam, &#8211; n&atilde;o sabia nem lhe<br \/>\n    importava. Mas era teso! E o sr. Grevy tambem lhe parecia um cidad&atilde;o<br \/>\n    serio, optimo para chefe do Estado&#8230;<br \/>\n    Homem de sala? perguntou languidamente o velho le&atilde;o.<br \/>\n    O marquez s&oacute; o vira na Assembl&eacute;a, presidindo e muito digno&#8230;<br \/>\n    D. Diogo murmurou, com um melancolico desdem na voz, no gesto, no olhar:<br \/>\n    &#8211; O que eu queria a toda essa canalha era a saude, marquez!<br \/>\n    O marquez consolou-o, galhofeiro e amavel. Toda essa gente, parecendo forte<br \/>\n    por se occupar de cousas fortes, no fundo tinha asthma, tinha pedra, tinha<br \/>\n    gota&#8230; E o Dioguinho era um Hercules&#8230;<br \/>\n    &#8211; Um Hercules! O que &eacute;, &eacute; que voc&ecirc; apaparica-se muito&#8230;<br \/>\n    A doen&ccedil;a &eacute; um mau habito em que a gente se p&otilde;e. &Eacute;<br \/>\n    necessario reagir&#8230; Voc&ecirc; devia fazer gymnastica, e muita agua fria<br \/>\n    por essa espinha. Voc&ecirc;, na realidade, &eacute; de ferro!<br \/>\n    &#8211; Enferrujadote, enferrujadote&#8230; &#8211; replicou o outro, sorrindo e desvanecido.<br \/>\n    &#8211; Qual enferrujadote! Se eu fosse cavallo ou mulher, antes o queria a voc&ecirc;<br \/>\n    que a esses badamecos que por ahi andam meio podres&#8230; J&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    ha homens da sua tempera, Dioguinho!<br \/>\n    &#8211; J&aacute; n&atilde;o ha nada, disse o outro grave e convencido, e como o<br \/>\n    derradeiro homem nas ruinas d&#8217;um mundo.<br \/>\n    Mas era tarde, ia-se agasalhar, recolher, depois de acabar a sua chasada.<br \/>\n    O marquez ainda se demorou, pregui&ccedil;ando no soph&aacute;, enchendo lentamente<br \/>\n    o cachimbo, dando um olhar &aacute;quella sala que o encantava com o seu luxo<br \/>\n    Luiz XV, os seus floridos e os seus dourados, as cerimoniosas poltronas de<br \/>\n    Beauvais feitas para a amplid&atilde;o das anquinhas, as tape&ccedil;arias<br \/>\n    de Gobelins de tons desmaiados, cheias de galantes pastoras, longes de parques,<br \/>\n    la&ccedil;os e l&atilde;s de cordeiros, sombras d&#8217;idyllios mortos, transparecendo<br \/>\n    n&#8217;uma trama de seda&#8230; &Aacute;quella hora, no adormecimento que &iacute;a<br \/>\n    pesando, sob a luz suave e quente das velas que findavam, havia ali a harmonia<br \/>\n    e o ar de um outro seculo: e o marquez reclamou do Cruges um minuete, uma<br \/>\n    gavotta, alguma cousa que evocasse Versalhes, Maria Antonietta, o rythmo das<br \/>\n    bellas maneiras e o aroma dos empoados. Cruges deixou morrer sob os dedos<br \/>\n    a melodia vaga que estava diluindo em suspiros, preparou-se, alargou os bra&ccedil;os<br \/>\n    &#8211; e atacou, com um pedal solemne, o Hymno da Carta. O marquez fugiu.<br \/>\n    Villa&ccedil;a e Euzebiozinho conversavam no corredor, sentados n&#8217;uma das<br \/>\n    arcas baixas de carvalho lavrado.<br \/>\n    &#8211; A fazer politica? perguntou-lhes o marquez ao passar.<br \/>\n    Ambos sorriram; Villa&ccedil;a respondeu jocosamente:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; necessario salvar a patria!<br \/>\n    Eusebio pertencia tambem ao centro progressista, aspirava a influencia eleitoral<br \/>\n    no circulo de Resende, e alli &aacute;s noites no Ramalhete faziam conciliabulos.<br \/>\n    N&#8217;esse momento por&eacute;m fallavam dos Maias: Villa&ccedil;a n&atilde;o<br \/>\n    duvidava confiar ao Silveirinha, homem de propriedade, visinho de Sta. Olavia,<br \/>\n    quasi creado com Carlos, certas cousas que lhe desagradavam na casa, onde<br \/>\n    a auctoridade da sua palavra parecia diminuir; assim, por exemplo, n&atilde;o<br \/>\n    podia approvar o ter Carlos tomado uma frisa de assignatura.<br \/>\n    &#8211; Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor? Para<br \/>\n    l&aacute; n&atilde;o p&ocirc;r os p&eacute;s, para passar aqui as noites&#8230;<br \/>\n    Hoje diz que ha enthusiasmo, e elle ahi esteve. Tem ido l&aacute;, eu sei?<br \/>\n    duas ou tres vezes&#8230; E para isto d&aacute; c&aacute; uns poucos de centos<br \/>\n    de mil r&eacute;is. Podia fazer o mesmo com meia duzia de libras! N&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; governo. No fim a frisa &eacute; para o Ega, para o Taveira,<br \/>\n    para o Cruges&#8230; Olhe, eu n&atilde;o me utiliso d&#8217;ella; nem o amigo. &Eacute;<br \/>\n    verdade, que o amigo est&aacute; de luto.<br \/>\n    Eusebio pensou, com despeito, que se podia metter para o fundo da frisa &#8211;<br \/>\n    se tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter um sorriso molle:<br \/>\n    &#8211; Indo assim, at&eacute; se podem encalacrar&#8230;<br \/>\n    Uma tal palavra, t&atilde;o humilhante, applicada aos Maias, &aacute; casa<br \/>\n    que elle administrava, escandalisou Villa&ccedil;a. Encalacrar! Ora essa!<br \/>\n    &#8211; O amigo n&atilde;o me comprehendeu&#8230; Ha despezas inuteis, sim, mas, louvado<br \/>\n    Deus, a casa p&oacute;de bem com ellas! &Eacute; verdade que o rendimento<br \/>\n    gasta-se todo, at&eacute; o ultimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas<br \/>\n    seccas; e at&eacute; aqui o costume da casa foi p&ocirc;r de lado, fazer bolo,<br \/>\n    fazer reserva. Agora o dinheiro derrete-se&#8230;<br \/>\n    Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove cavallos,<br \/>\n    o cocheiro inglez, os grooms&#8230; O procurador acudiu:<br \/>\n    &#8211; Isso, amigo, &eacute; de raz&atilde;o. Uma gente d&#8217;estas deve ter a sua<br \/>\n    representa&ccedil;&atilde;o, as suas cousas bem montadas. Ha deveres na sociedade&#8230;<br \/>\n    &Eacute; como o sr. Affonso&#8230; Gasta muito, sim, come dinheiro. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; com elle, que lhe conhe&ccedil;o aquelle casaco ha vinte annos&#8230;<br \/>\n    Mas s&atilde;o esmolas, s&atilde;o pens&otilde;es, s&atilde;o emprestimos<br \/>\n    que nunca mais v&ecirc;&#8230;<br \/>\n    &#8211; Desperdicios&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o lh&#8217;o censuro&#8230; &Eacute; o costume da casa; nunca da porta dos<br \/>\n    Maias, j&aacute; meu pae dizia, sahiu ninguem descontente&#8230; Mas uma frisa,<br \/>\n    de que ninguem usa! s&oacute; para o Cruges, s&oacute; para o Taveira!&#8230;<br \/>\n    Teve de se callar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira, abafado<br \/>\n    at&eacute; aos olhos na gola d&#8217;uma ulster, d&#8217;onde sahiam as pontas d&#8217;um cachenez<br \/>\n    de seda clara. O escudeiro desembara&ccedil;ou-o dos agasalhos; e elle, de<br \/>\n    casaca e collete branco, limpando o bonito bigode humido da geada, veiu apertar<br \/>\n    a m&atilde;o ao caro Villa&ccedil;a, ao amigo Eusebio, arrepiado, mas achando<br \/>\n    o frio elegante, desejando a neve e o seu chic&#8230;<br \/>\n    &#8211; Nada, nada, dizia Villa&ccedil;a todo amavel, c&aacute; o nosso solzinho<br \/>\n    portuguez sempre &eacute; melhor&#8230;<br \/>\n    E foram entrando no fumoir, onde se ouviam as vozes do marquez, de Carlos,<br \/>\n    n&#8217;uma das suas sabias e prolixas cavaqueiras sobre cavallos e sport.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o? que tal? A mulher? foi a interroga&ccedil;&atilde;o que acolheu<br \/>\n    o Taveira.<br \/>\n    Mas antes de dar noticia da estreia da Morelli, a dama nova, Taveira reclamou<br \/>\n    alguma cousa quente. E enterrado n&#8217;uma poltrona junto do fog&atilde;o, com<br \/>\n    os sapatos de verniz estendidos para as brazas, respirando o aroma do punch,<br \/>\n    saboreando uma cigarette, declarou emfim que n&atilde;o tinha sido um fiasco.<br \/>\n    &#8211; Que ella, a meu v&ecirc;r, &eacute; uma insignificancia, n&atilde;o tem<br \/>\n    nada, nem voz, nem escola. Mas, coitada, estava t&atilde;o atrapalhada, que<br \/>\n    nos fez pena. Houve indulgencia, deram-se-lhe umas palmas&#8230; Quando fui ao<br \/>\n    palco, ella estava contente&#8230;<br \/>\n    &#8211; Vamos a saber, Taveira, que tal &eacute; ella? inquiria o marquez.<br \/>\n    &#8211; Cheia, dizia o Taveira collocando as palavras como pinceladas; alta; muito<br \/>\n    branca; bons olhos; bons dentes&#8230;<br \/>\n    &#8211; E o p&eacute;sinho? &#8211; E o marquez, j&aacute; com os olhos accesos, passava<br \/>\n    de vagar a m&atilde;o pela calva.<br \/>\n    Taveira n&atilde;o reparara no p&eacute;. N&atilde;o era amador de p&eacute;s&#8230;<br \/>\n    &#8211; Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando.<br \/>\n    &#8211; A gente do costume&#8230; &Eacute; verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado<br \/>\n    da tua? Os Gouvarinhos. L&aacute; appareceram hoje&#8230;<br \/>\n    Carlos n&atilde;o conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde<br \/>\n    de Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, poseur&#8230; E a condessa,<br \/>\n    uma senhora inglesada, de cabello c&ocirc;r de cenoura, muito bem feita&#8230;<br \/>\n    Emfim, Carlos n&atilde;o conhecia.<br \/>\n    Villa&ccedil;a encontrava o conde no centro progressista, onde elle era uma<br \/>\n    columna do partido. Rapaz de talento, segundo o Villa&ccedil;a. O que o espantava<br \/>\n    &eacute; que elle podesse ter assim frisa de assignatura, atrapalhado como<br \/>\n    estava: ainda n&atilde;o havia tres mezes lhe tinham protestado uma letra<br \/>\n    de oitocentos mil r&eacute;is, no tribunal do commercio&#8230;<br \/>\n    &#8211; Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo.<br \/>\n    &#8211; Passa-se l&aacute; bem, &aacute;s ter&ccedil;as feiras&#8230; &#8211; disse Taveira,<br \/>\n    mirando a sua meia de seda.<br \/>\n    Depois fallou-se do duello do Azevedo da Opini&atilde;o com o S&aacute; Nunes,<br \/>\n    auctor d&#8217;El-Rei Bolacha, a grande magica da Rua dos Condes, e ultimamente<br \/>\n    ministro da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos jornaes de pulhas<br \/>\n    e de ladr&otilde;es: e havia dez interminaveis dias que estavam desafiados<br \/>\n    e que Lisboa, em pasmaceira, esperava o sangue. Cruges ouvira que S&aacute;<br \/>\n    Nunes n&atilde;o se queria bater, por estar de luto por uma tia; dizia-se<br \/>\n    tambem que o Azevedo partira precipitadamente para o Algarve. Mas a verdade,<br \/>\n    segundo Villa&ccedil;a, era que o ministro do reino, primo do Azevedo, para<br \/>\n    evitar o recontro, conservava a casa dos dois cavalheiros bloqueada pela policia&#8230;<br \/>\n    &#8211; Uma canalha! exclamou o marquez com um dos seus resumos brutaes que varriam<br \/>\n    tudo.<br \/>\n    &#8211; O ministro n&atilde;o deixa de ter raz&atilde;o, observou Villa&ccedil;a.<br \/>\n    Isto &aacute;s vezes, em duellos, p&oacute;de bem succeder uma desgra&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    Houve um curto silencio. Carlos, que ca&iacute;a de somno, perguntou ao Taveira,<br \/>\n    atravez doutro bocejo, se vira o Ega no theatro.<br \/>\n    &#8211; Podera! La estava de servi&ccedil;o, no seu posto, na frisa dos Cohens,<br \/>\n    todo puxado&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o essa cousa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marquez, parece<br \/>\n    clara&#8230;<br \/>\n    &#8211; Transparente, diaphana! um crystal!&#8230;<br \/>\n    Carlos, que se erguera a accender uma cigarette para despertar, lembrou logo<br \/>\n    a grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel<br \/>\n    n&atilde;o se saberem! Mas o marquez, a isto, lan&ccedil;ou-se em considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pesadas. Estimava que o Ega se atirasse; e via ahi um facto de represalia<br \/>\n    social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral n&atilde;o gostava de<br \/>\n    judeus; mas nada lhe ofendia tanto o gosto e a raz&atilde;o como a especie<br \/>\n    banqueiro. Comprehendia o salteador de clavina, n&#8217;um pinheiral; admittia o<br \/>\n    communista, arriscando a pelle sobre uma barricada. Mas os argentarios, os<br \/>\n    Fulanos e Cas. faziam-n&#8217;o encavacar&#8230; E achava que destruir-lhes a paz domestica<br \/>\n    era acto meritorio!<br \/>\n    &#8211; Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relogio. E eu aqui,<br \/>\n    empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo &aacute;s dez horas<br \/>\n    da manh&atilde;.<br \/>\n    &#8211; Que diabo se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se? Cavaquea-se?<br \/>\n    &#8211; Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo&#8230; At&eacute; contas!<br \/>\n    Affonso da Maia j&aacute; estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham<br \/>\n    partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, l&aacute; f&ocirc;ra<br \/>\n    tambem a tomar ainda gemada, a p&ocirc;r ainda o emplastro, sob o olho solicito<br \/>\n    da Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. E os outros n&atilde;o<br \/>\n    tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na ulster, trotou<br \/>\n    at&eacute; casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim. O marquez conseguiu<br \/>\n    levar Cruges no coup&eacute;, para lhe ir fazer musica a casa, no org&atilde;o,<br \/>\n    at&eacute; &aacute;s tres ou quatro horas, musica religiosa e triste, que<br \/>\n    o fazia chorar, pensando nos seus amores e comendo frango frio com fatias<br \/>\n    de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho, esse, batendo o queixo, t&atilde;o morosa<br \/>\n    e soturnamente como se caminhasse para a sua propria sepultura, l&aacute;<br \/>\n    se dirigiu ao lupanar onde tinha uma paix&atilde;o.<\/p>\n<p>O laboratorio de Carlos estava prompto &#8211; e muito convidativo, com o seu soalho<br \/>\n    novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta meza de marmore, um amplo divan de<br \/>\n    clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em redor, por sobre<br \/>\n    peanhas e prateleiras, um rico brilho de metaes e crystaes; mas as semanas<br \/>\n    passavam, e todo esse bello material de experimenta&ccedil;&atilde;o, sob<br \/>\n    a luz branca da claraboia, jazia virgem e ocioso. S&oacute; pela manh&atilde;<br \/>\n    um servente ia ganhar o seu tost&atilde;o diario, dando l&aacute; uma volta<br \/>\n    pregui&ccedil;osa com um espanador na m&atilde;o.<br \/>\n    Carlos realmente n&atilde;o tinha tempo de se occupar do laboratorio; e deixaria<br \/>\n    a Deus mais algumas semanas o privilegio exclusivo de saber o segredo das<br \/>\n    cousas &#8211; como elle dizia rindo ao av&ocirc;. Logo pela manh&atilde; cedo &iacute;a<br \/>\n    fazer as suas duas horas d&#8217;armas com o velho Randon; depois via alguns doentes<br \/>\n    no bairro onde se espalhara, com um brilho de legenda, a cura da Marcellina<br \/>\n    &#8211; e as garrafas de Bordeus que lhe mandara Affonso. Come&ccedil;ava a ser<br \/>\n    conhecido como medico. Tinha visitas no consultorio &#8211; ordinariamente bachareis,<br \/>\n    seus contemporaneos, que sabendo-o rico o consideravam gratuito, e l&aacute;<br \/>\n    entravam, murchos e com m&aacute; cara, a contar a velha e mal disfar&ccedil;ada<br \/>\n    historia de ternuras funestas. Salvara d&#8217;um garrotilho a filha d&#8217;um brazileiro,<br \/>\n    ao Aterro &#8211; e ganhara ahi a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho<br \/>\n    ganhava um homem da sua familia. O dr. Barbedo convidara-o a assistir a uma<br \/>\n    opera&ccedil;&atilde;o ovariotomica. E emfim (mas esta consagra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o a esperava realmente Carlos t&atilde;o cedo) alguns dos seus bons<br \/>\n    collegas, que at&eacute; ahi, vendo-o s&oacute; a governar os seus cavallos<br \/>\n    inglezes, fallavam do &laquo;talento do Maia&raquo; &#8211; agora percebendo-lhe<br \/>\n    estas migalhas de clientella, come&ccedil;avam a dizer &laquo;que o Maia era<br \/>\n    um asno.&raquo; Carlos j&aacute; fallava a serio da sua carreira. Escrevera,<br \/>\n    com laboriosos requintes d&#8217;estylista, dois artigos para a Gazeta Medica; e<br \/>\n    pensava em fazer um livro d&#8217;id&eacute;as geraes, que se devia chamar Medicina<br \/>\n    Antiga e Moderna. De resto occupava-se sempre dos seus cavallos, do seu luxo,<br \/>\n    do seu bric-a-brac. E atravez de tudo isto, em virtude d&#8217;essa fatal dispers&atilde;o<br \/>\n    de curiosidade que, no meio do caso mais interessante de pathologia, lhe fazia<br \/>\n    voltar a cabe&ccedil;a, se ouvia fallar d&#8217;uma estatua ou d&#8217;um poeta, attrahia-o<br \/>\n    singularmente a antiga id&eacute;a do Ega, a crea&ccedil;&atilde;o d&#8217;uma Revista,<br \/>\n    que dirigisse o gosto, pezasse na politica, regulasse a sociedade, fosse a<br \/>\n    for&ccedil;a pensante de Lisboa&#8230;<br \/>\n    Era por&eacute;m inutil lembrar ao Ega este bello plano. Abria um olho vago,<br \/>\n    respondia:<br \/>\n    &#8211; Ah, a Revista&#8230; Sim, est&aacute; claro, pensar n&#8217;isso! Havemos de fallar,<br \/>\n    eu apparecerei&#8230;<br \/>\n    Mas n&atilde;o apparecia no Ramalhete, nem no consultorio; apenas se avistavam,<br \/>\n    &aacute;s vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que n&atilde;o passava<br \/>\n    no camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa<br \/>\n    de Carlos, por tr&aacute;s de Taveira ou do Cruges; d&#8217;onde podesse olhar de<br \/>\n    vez em quando Rachel Cohen &#8211; e ali ficava, silencioso, com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    appoiada ao tabique, repousando e como saturado de felicidade&#8230;<br \/>\n    O dia (dizia elle) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava estudando<br \/>\n    mobilias&#8230; Mas era facil encontral-o pelo Chiado e pelo Loreto, a rondar<br \/>\n    e a farejar &#8211; ou ent&atilde;o no fundo de tipoias de pra&ccedil;a, batendo<br \/>\n    a meio galope, n&#8217;um espalhafato de aventura.<br \/>\n    O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante soberbo d&#8217;um Brummel,<br \/>\n    casaca de bot&otilde;es amarellos sobre collete de setim branco; e Carlos<br \/>\n    entrando uma manh&atilde; cedo no Universal, deu com elle pallido de colera,<br \/>\n    a despropositar com um creado, por causa d&#8217;uns sapatos mal envernisados. Os<br \/>\n    seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso Salcede, amigo do Cohen,<br \/>\n    e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe, d&#8217;olho esperto e duro, j&aacute;<br \/>\n    com ares de emprestar a trinta por cento.<br \/>\n    Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se &aacute;s vezes<br \/>\n    Rachel, e as opini&otilde;es discordavam. Taveira achava-a &laquo;deliciosa!&raquo;<br \/>\n    &#8211; e dizia-o rilhando o dente: ao marquez n&atilde;o deixava de parecer appetitosa,<br \/>\n    para uma vez, aquella carnezinha faisand&eacute;e de mulher de trinta annos:<br \/>\n    Cruges chamava-lhe uma &laquo;lambisgoia relamboria&raquo;. Nos jornaes, na<br \/>\n    sec&ccedil;&atilde;o do High-life, ella era &laquo;uma das nossas primeiras<br \/>\n    elegantes&raquo;: e toda a Lisboa a conhecia, e a sua luneta d&#8217;ouro presa<br \/>\n    por um fio d&#8217;ouro, e a sua caleche azul com cavallos pretos. Era alta, muito<br \/>\n    pallida, sobre tudo &aacute;s luzes, delicada de saude, com um quebranto nos<br \/>\n    olhos pisados, uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance<br \/>\n    e de lyrio meio murcho: a sua maior belleza estava nos cabellos, magnificamente<br \/>\n    negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ella deixava<br \/>\n    habilmente cahir n&#8217;uma massa meia solta sobre as costas, como n&#8217;um desalinho<br \/>\n    de nudez. Dizia-se que tinha litteratura, e fazia phrases. O seu sorriso lasso,<br \/>\n    pallido, constante, dava-lhe um ar de insignificancia. O pobre Ega adorava-a.<br \/>\n    Conhecera-a na Foz, na Assembl&eacute;a; n&#8217;essa noite, cervejando com os rapazes,<br \/>\n    ainda lhe chamou camelia melada; dias depois j&aacute; adulava o marido; e<br \/>\n    agora esse demagogo, que queria o massacre em massa das classes medias, solu&ccedil;ava<br \/>\n    muita vez por causa d&#8217;ella, horas inteiras, cahido para cima da cama.<br \/>\n    Em Lisboa, entre o Gremio o a Casa Havaneza, j&aacute; se come&ccedil;ava<br \/>\n    a fallar &laquo;do arranjinho do Ega&raquo;. Elle todavia procurava p&ocirc;r<br \/>\n    a sua felicidade ao abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas<br \/>\n    precau&ccedil;&otilde;es tanta sinceridade como prazer romantico do mysterio:<br \/>\n    e era nos sitios mais desageitados, f&oacute;ra de portas, para os lados do<br \/>\n    Matadouro, que ia furtivamente encontrar a creada que lhe trazia as cartas<br \/>\n    d&#8217;ella&#8230; Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce affectado com que<br \/>\n    espreitava as horas) transbordava a immensa vaidade d&#8217;aquelle adulterio elegante.<br \/>\n    De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a gloriosa aventura, o sabiam<br \/>\n    em pleno drama: era mesmo talvez por isso, que, diante de Carlos e dos outros,<br \/>\n    nunca at&eacute; ahi mencionara o nome d&#8217;ella, nem deixara j&aacute;mais escapar<br \/>\n    um lampejo de exalta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Uma noite, por&eacute;m, acompanhando Carlos at&eacute; ao Ramalhete, noite<br \/>\n    de lua calma e branca, em que caminhavam ambos callados, Ega, invadido decerto<br \/>\n    por uma onda interior de paix&atilde;o, soltou desabafadamente um suspiro,<br \/>\n    alargou os bra&ccedil;os, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz:<\/p>\n<p>Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l&#8217;amour c&#8217;est la vie!<\/p>\n<p>Isto fugira-lhe dos labios como um come&ccedil;o de confiss&atilde;o; Carlos<br \/>\n    ao lado n&atilde;o disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto.<br \/>\n    Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se immediatamente<br \/>\n    no puro interesse litterario:<br \/>\n    &#8211; No fim de contas, menino, digam l&aacute; o que disserem, n&atilde;o ha<br \/>\n    sen&atilde;o o velho Hugo&#8230;<br \/>\n    Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra Hugo,<br \/>\n    chamando-lhe &laquo;saco-roto de espiritualismo&raquo;, &laquo;boca-aberta<br \/>\n    de sombra&raquo;, &laquo;av&ocirc;sinho lyrico&raquo;, injurias peiores.<br \/>\n    Mas n&#8217;essa noite o grande phraseador continuou:<br \/>\n    &#8211; Ah o velho Hugo! o velho Hugo &eacute; o campe&atilde;o heroico de verdades<br \/>\n    eternas&#8230; &Eacute; necessario um bocado d&#8217;ideal, que diabo!&#8230; De resto o<br \/>\n    ideal p&oacute;de ser real&#8230;<br \/>\n    E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro.<br \/>\n    Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um Viegas,<br \/>\n    que todas as semanas vinha alli fazer a fastidiosa chronica da sua dyspepsia<br \/>\n    &#8211; quando do reposteiro da sala d&#8217;espera lhe surgiu o Ega, de sobrecasaca azul,<br \/>\n    luva gris-perle e um rolo de papel na m&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Tens que fazer, doutor?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, &iacute;a a sahir, janota!<br \/>\n    &#8211; Bem. Venho-te impingir prosa&#8230; Um bocado do Atomo&#8230; Senta-te ahi. Ouve<br \/>\n    l&aacute;.<br \/>\n    Immediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o manuscripto,<br \/>\n    espalmou-o, deu um pux&atilde;o ao collarinho &#8211; e Carlos, que se pousara &aacute;<br \/>\n    borda do divan, com a face espantada e as m&atilde;os nos joelhos, achou-se<br \/>\n    quasi sem transi&ccedil;&atilde;o transportado dos rugidos do ventre do Viegas<br \/>\n    para um rumor de popula&ccedil;a, n&#8217;um bairro de judeus, na velha cidade de<br \/>\n    Heidelberg.<br \/>\n    &#8211; Mas espera l&aacute;! exclamou elle. Deixa-me respirar. Isso n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o come&ccedil;o do livro! Isso n&atilde;o &eacute; o cahos&#8230;<br \/>\n    Ega ent&atilde;o recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambem.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; o primeiro episodio&#8230; N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o cahos. &Eacute; j&aacute; no seculo XV&#8230; Mas n&#8217;um livro d&#8217;estes p&oacute;de-se<br \/>\n    come&ccedil;ar pelo fim&#8230; Conveiu-me fazer este episodio: chama-se a Hebrea.<br \/>\n    A Cohen! pensou Carlos.<br \/>\n    Ega tornou a alargar o collarinho &#8211; e foi lendo, animando-se, ferindo as palavras<br \/>\n    para as fazer viver, soltando grandes cheios de voz nas sonoridades finaes<br \/>\n    dos periodos. Depois da sombria pintura d&#8217;um bairro medival de Heidelberg,<br \/>\n    o famoso Atomo, o Atomo do Ega, apparecia alojado no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do esplendido principe Franck, poeta, cavalleiro, e bastardo do imperador<br \/>\n    Maximiliano. E todo esse cora&ccedil;&atilde;o de heroe palpitava pela judia<br \/>\n    Esther, perola maravilhosa do Oriente, filha do velho rabbino Salom&atilde;o,<br \/>\n    um grande doutor da Lei, perseguido pelo odio theologico do Geral dos Dominicanos.<br \/>\n    Isto contava-o o Atomo n&#8217;um monologo, t&atilde;o recamado d&#8217;imagens como um<br \/>\n    manto da Virgem est&aacute; recamado d&#8217;estrellas &#8211; e que era uma declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    d&#8217;elle, Ega, &aacute; mulher do Cohen. Depois abria-se um intermedio pantheista:<br \/>\n    rompiam coros de flores, coros de astros, cantando na linguagem da luz, ou<br \/>\n    na eloquencia dos perfumes, a belleza, a gra&ccedil;a, a pureza, a alma celeste<br \/>\n    de Esther &#8211; e de Rachel&#8230; Emfim, chegava o negro drama da persegui&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    a fuga da familia hebraica, atrav&eacute;z de bosques de bruxas e brutas ald&ecirc;as<br \/>\n    feudaes; a appari&ccedil;&atilde;o, n&#8217;uma encrusilhada, do principe Franck<br \/>\n    que vem proteger Esther, de lan&ccedil;a alta, no seu grande corcel; o tropel<br \/>\n    da turba fanatica, correndo a queimar o rabbino e os seus livros herejes;<br \/>\n    a batalha, e o principe atravessado pelo chu&ccedil;o d&#8217;um reitre, indo morrer<br \/>\n    no peito d&#8217;Esther, que morre com elle n&#8217;um beijo. Tudo isto se precipitava<br \/>\n    como um sonoro e tumultuoso solu&ccedil;o; e era tratado com as maneiras modernas<br \/>\n    d&#8217;estylo, o esfor&ccedil;o atormentado inchando a express&atilde;o, as camadas<br \/>\n    de c&ocirc;r atiradas &aacute; larga para fazer ressaltar o tom de vida&#8230;<br \/>\n    Ao findar o Atomo exclamava, com a vasta solemnidade d&#8217;um cheio d&#8217;org&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; &laquo;assim arrefeceu, parou, aquelle cora&ccedil;&atilde;o de heroe que<br \/>\n    eu habitava; e evaporado o principio de vida, eu, agora livre, remontei aos<br \/>\n    astros, levando comigo a essencia pura d&#8217;esse amor immortal.&raquo;<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o?&#8230; disse Ega, esfalfado, quasi tremulo. <\/p>\n<h2><a name=\"6\">Cap&iacute;tulo XI<\/a><\/h2>\n<p> Carlos s&oacute; poude responder:<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; ardente.<br \/>\n    Depois elogiou a serio alguns lances, o coro das florestas, a leitura do Ecclesiastes,<br \/>\n    de noite, entre as ruinas da torre d&#8217;Othon, certas imagens d&#8217;um grande v&ocirc;o<br \/>\n    lyrico.<br \/>\n    Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscripto, reabotoou a sobrecasaca,<br \/>\n    e j&aacute; de chap&eacute;u na m&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, parece-te apresentavel?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Vaes publicar?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, mas emfim&#8230; &#8211; e ficou n&#8217;esta reticencia, fazendo-se corado.<br \/>\n    Carlos comprehendeu tudo dias depois, encontrando na Gazeta do Chiado uma<br \/>\n    descrip&ccedil;&atilde;o &laquo;da leitura feita em casa do exmo. sr. Jacob<br \/>\n    Cohen, pelo nosso amigo Jo&atilde;o da Ega, de um dos mais brilhantes episodios<br \/>\n    do seu livro &#8211; As memorias d&#8217;um atomo.&raquo; E o jornalista accrescentava,<br \/>\n    dando a sua impress&atilde;o pessoal: &laquo;&eacute; uma pintura dos soffrimentos<br \/>\n    porque passaram, nos tempos da intolerancia religiosa, aquelles que seguem<br \/>\n    a Lei d&#8217;Israel. Que poder de imagina&ccedil;&atilde;o! Que fluencia d&#8217;estylo!<br \/>\n    O effeito foi extraordinario, e quando o nosso amigo fechou o manuscripto<br \/>\n    ao succumbir da protagonista &#8211; vimos lagrimas em todos os olhos da numerosa<br \/>\n    e estimavel colonia hebraica!&raquo;<br \/>\n    Oh, furor do Ega! Rompeu n&#8217;essa tarde pelo consultorio, pallido, desorientado&#8230;<br \/>\n    &#8211; Estas bestas! Estas bestas d&#8217;estes jornalistas! Leste? Lagrimas em todos<br \/>\n    os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica! Faz cahir a cousa em ridiculo&#8230;<br \/>\n    E depois a fluencia d&#8217;estylo. Que burros! Que idiotas!<br \/>\n    Carlos, que cortava as folhas d&#8217;um livro, consolou-o. Aquella era a maneira<br \/>\n    nacional de fallar d&#8217;obras d&#8217;arte&#8230; N&atilde;o valia a pena bramar&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, palavra, tinha vontade de quebrar a cara &aacute;quelle folliculario!<br \/>\n    &#8211; E porque lh&#8217;a n&atilde;o quebras?<br \/>\n    &#8211; &Eacute; um amigo dos Cohens.<br \/>\n    E foi grunhindo improperios contra a imprensa, a passos de tigre pelo gabinete.<br \/>\n    Por fim irritado com a indifferen&ccedil;a de Carlos:<br \/>\n    &#8211; Que diabo est&aacute;s tu ahi a ler? Nature parasitaire des accidents de<br \/>\n    l&#8217;impaludisme&#8230; Que blague, a medicina! Dize-me uma cousa. Que diabo ser&atilde;o<br \/>\n    umas picadas que me veem aos bra&ccedil;os, sempre que vou a adormecer?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Pulgas, bichos, vermina&#8230; &#8211; murmurou Carlos com os olhos no livro.<br \/>\n    &#8211; Animal! rosnou Ega, arrebatando o chap&eacute;u.<br \/>\n    &#8211; Vaes-te, John?<br \/>\n    &#8211; Vou, tenho que fazer! &#8211; E junto do reposteiro, amea&ccedil;ando o c&eacute;u<br \/>\n    com o guarda-chuva, chorando quasi de raiva: &#8211; Estes burros d&#8217;estes jornalistas!<br \/>\n    S&atilde;o a escoria da sociedade!<br \/>\n    D&#8217;ahi a dez minutos reappareceu, bruscamente: e j&aacute; com outra voz, n&#8217;um<br \/>\n    tom de caso serio:<br \/>\n    &#8211; Ouve c&aacute;. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos Gouvarinhos?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o tenho um interesse especial, respondeu Carlos, erguendo os olhos<br \/>\n    do livro, depois de um silencio. Mas n&atilde;o tenho tambem uma repugnancia<br \/>\n    especial.<br \/>\n    &#8211; Bem, disse Ega. Elles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz empenho&#8230;<br \/>\n    Gente intelligente, passa-se l&aacute; bem&#8230; Ent&atilde;o, decidido.! Ter&ccedil;a<br \/>\n    feira vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos gouvarinhar.<br \/>\n    Carlos ficou pensando n&#8217;aquella proposta do Ega, na maneira como elle sublinh&aacute;ra<br \/>\n    o empenho da condessa. Lembrava-se agora que ella era muito intima da Cohen:<br \/>\n    e ultimamente, em S. Carlos, n&#8217;aquella facil visinhan&ccedil;a de frisa, surprehendera<br \/>\n    certos olhares d&#8217;ella&#8230; Mesmo, segundo o Taveira, ella realmente fazia-lhe<br \/>\n    um olh&atilde;o. E Carlos achava-a picante, com os seus cabellos crespos e<br \/>\n    ruivos, o narizinho petulante, e os olhos escuros, d&#8217;um grande brilho, dizendo<br \/>\n    mil cousas. Era deliciosamente bem feita &#8211; e tinha uma pelle muito clara,<br \/>\n    fina e doce &aacute; vista, a que se sentia mesmo de longe o setim.<br \/>\n    Depois d&#8217;aquelle dia trist&ocirc;nho de aguaceiros, elle resolvera passar<br \/>\n    um bom ser&atilde;o de trabalho, ao canto do fog&atilde;o, no conforto do<br \/>\n    seu robe-de-chambre. Mas, ao caf&eacute;, os olhos da Gouvarinho come&ccedil;aram<br \/>\n    a faiscar-lhe por entre o fumo do charuto, a fazer-lhe um olh&atilde;o, collocando-se<br \/>\n    tentadoramente entre elle a sua noite d&#8217;estudo, pondo-lhe nas veias um vivo<br \/>\n    calor de mocidade&#8230; Tudo culpa do Ega, esse Mephistopheles de Celorico!<br \/>\n    Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se por&eacute;m &aacute; boca da frisa,<br \/>\n    preparado, de collete branco e perola negra na camisa, &#8211; em logar dos cabellos<br \/>\n    crespos e ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, um preto de doze<br \/>\n    annos, trombudo e lusidio, de grande collarinho &aacute; mam&atilde; sobre<br \/>\n    uma jaqueta de bot&otilde;es amarellos; ao lado outro preto, mais pequeno,<br \/>\n    com o mesmo uniforme de collegio, enterrava pela venta aberta o dedo cal&ccedil;ado<br \/>\n    de pellica pranca. Ambos elles lhe relancearam os olhos bogalhudos, c&ocirc;r<br \/>\n    de prata embaciada. A pessoa que os acompanhava, escondida para o fundo, parecia<br \/>\n    ter um catharro ascoroso.<br \/>\n    Dava-se a Lucia em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens n&atilde;o tinham<br \/>\n    vindo &#8211; nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza do<br \/>\n    seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de sudoeste, parecia<br \/>\n    penetrar alli, derramando o seu pesadume, a morna sensa&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    sua humidade. Nas cadeiras, vasias, havia uma mulher solitaria, vestida de<br \/>\n    setim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gaz dormia, e os arcos das rebecas,<br \/>\n    sobre as cordas, pareciam ir adormecendo tambem.<br \/>\n    &#8211; Isto est&aacute; lugubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que occupava o escuro<br \/>\n    da frisa.<br \/>\n    Cruges, amodorroado n&#8217;um accesso de spleen, com o cotovello sobre as costas<br \/>\n    da cadeira, os dedos por entre a cabelleira, todo elle embrulhado em crepes<br \/>\n    sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo d&#8217;um sepulchro:<br \/>\n    &#8211; Pesadote.<br \/>\n    Por indolencia, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquelle preto de que os seus<br \/>\n    olhos se n&atilde;o podiam despegar, alli enthronisado na poltrona de reps<br \/>\n    verde da Gouvarinho, com a manga da jaqueta plantada no rebordo onde costumava<br \/>\n    alvejar um lindo bra&ccedil;o, &#8211; foi-lhe arrastando, a seu pesar, a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para a pessoa d&#8217;ella; relembrou toilettes com que ella alli estivera; e nunca<br \/>\n    lhe pareceram t&atilde;o picantes, como agora que os n&atilde;o via, os seus<br \/>\n    cabellos ruivos, c&ocirc;r de braza &aacute;s luzes, d&#8217;um encrespado forte,<br \/>\n    como crestados da chamma interna. A carapinha do preto, essa, em logar de<br \/>\n    risca tinha um sulco cavado &aacute; thesoura na massa de l&atilde; espessa.<br \/>\n    Quem seriam, por que estavam alli, aquelles africanos de perfil trombudo?<br \/>\n    &#8211; Tu j&aacute; reparaste n&#8217;esta extraordinaria carapinha, Cruges?<br \/>\n    O outro, que se n&atilde;o mexera da sua attitude de estatua tumular, grunhiu<br \/>\n    da sombra um monossyllabo surdo.<br \/>\n    Carlos respeitou-lhe os nervos.<br \/>\n    De repente, ao desafinar mais aspero d&#8217;um coro, Cruges deu um salto.<br \/>\n    &#8211; Isto s&oacute; a pontap&eacute;&#8230; Que empreza esta! rugio elle, envergando<br \/>\n    furiosamente o paletot.<br \/>\n    Carlos foi leval-o no coup&eacute; &aacute; rua das Flores, onde elle morava<br \/>\n    com a m&atilde;e e uma irm&atilde;; e at&eacute; ao Ramalhete n&atilde;o cessou<br \/>\n    de lamentar comsigo o seu ser&atilde;o d&#8217;estudo perdido.<br \/>\n    O creado de Carlos, o Baptista, (familiarmente, o Tista) esperava-o, lendo<br \/>\n    o jornal, na confortavel antecamara dos &laquo;quartos do menino&raquo;, forrada<br \/>\n    de velludo cor de cereja, ornada de retratos de cavallos e panoplias de velhas<br \/>\n    armas, com divans do mesmo velludo, e muito allumiada a essa hora por dois<br \/>\n    candieiros de globo pousados sobre columnas de carvalho, onde se enrolavam<br \/>\n    lavores de ramos de vide.<br \/>\n    Carlos tinha desde os onze annos este creado de quarto, que viera com o Brown<br \/>\n    para Sta. Olavia, depois de ter servido em Lisboa, na Lega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ingleza, e ter acompanhado o ministro, sir Hercules Morrisson, varias vezes<br \/>\n    a Londres. Foi em Coimbra, nos Pa&ccedil;os de Cellas, que Baptista come&ccedil;ou<br \/>\n    a ser um personagem: Affonso correspondia-se com elle de Sta. Olavia. Depois<br \/>\n    viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes, partilharam dos mesmos sandwiches<br \/>\n    no buffete das gares; Tista tornou-se um confidente. Era hoje um homem de<br \/>\n    cincoenta annos, desempenado, robusto, com um collar de barba grisalha por<br \/>\n    baixo do queixo, e o ar excessivamente gentleman. Na rua, muito direito na<br \/>\n    sua sobrecasaca, com o par de luvas amarellas espetado na m&atilde;o, a sua<br \/>\n    bengala de cana da India, os sapatos bem envernisados, tinha a consideravel<br \/>\n    apparencia de um alto funccionario. Mas conservava-se t&atilde;o fino e t&atilde;o<br \/>\n    desembara&ccedil;ado, como quando em Londres aprendera a walsar e a boxar<br \/>\n    na rude balburdia dos sal&otilde;es-dan&ccedil;antes, ou como quando mais<br \/>\n    tarde, durante as ferias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava<br \/>\n    a saltar o muro do quintal do sr. escriv&atilde;o de fazenda &#8211; aquelle que<br \/>\n    tinha uma mulher t&atilde;o garota.<br \/>\n    Carlos foi buscar um livro ao gabinete d&#8217;estudo, entrou no quarto, estendeu-se,<br \/>\n    cansado, n&#8217;uma poltrona. &Aacute; luz opalina dos globos, o leito entre-aberto<br \/>\n    mostrava, sob a seda dos cortinados, um luxo effeminado de bretanhas, bordados<br \/>\n    e rendas.<br \/>\n    &#8211; Que ha hoje no Jornal da Noite? perguntou elle bocejando, em quanto Baptista<br \/>\n    o descal&ccedil;ava.<br \/>\n    &#8211; Eu li-o todo, meu senhor, e n&atilde;o me pareceu que houvesse cousa alguma.<br \/>\n    Em Fran&ccedil;a contin&uacute;a socego&#8230; Mas a gente nunca p&oacute;de saber,<br \/>\n    porque estes jornaes portuguezes imprimem sempre os nomes estrangeiros errados.<br \/>\n    &#8211; S&atilde;o umas bestas. O sr. Ega hoje estava furioso com elles&#8230;<br \/>\n    Depois, em quanto Baptista preparava com esmero um grog quente, Carlos j&aacute;<br \/>\n    deitado, aconchegado, abriu pregui&ccedil;osamente o livro, voltou duas folhas,<br \/>\n    fechou-o, tomou uma cigarette, e ficou fumando com as palpebras cerradas,<br \/>\n    n&#8217;uma immensa beatitude. Atrav&eacute;z das cortinas pesadas sentia-se o sudoeste<br \/>\n    que batia o arvoredo, e os aguaceiros alagando os vidros.<br \/>\n    &#8211; Tu conheces os srs. condes de Gouvarinho, Tista?<br \/>\n    &#8211; Conhe&ccedil;o o Pimenta, meu senhor, que &eacute; creado de quarto do sr.<br \/>\n    conde&#8230; Creado de quarto e serve a meza.<br \/>\n    &#8211; E que diz ent&atilde;o esse Tormenta? perguntou Carlos, n&#8217;uma voz indolente,<br \/>\n    depois d&#8217;um silencio.<br \/>\n    &#8211; Pimenta, meu senhor! O Manuel &eacute; Pimenta. O sr. Gouvarinho chama-lhe<br \/>\n    Rom&atilde;o, por que estava acostumado ao outro creado que era Rom&atilde;o.<br \/>\n    E j&aacute; isto n&atilde;o &eacute; bonito, porque cada um tem o seu nome.<br \/>\n    O Manuel &eacute; Pimenta. O Pimenta n&atilde;o est&aacute; contente&#8230;<br \/>\n    E Baptista, depois de collocar junto da cabeceira a salva com o grog, o assucareiro,<br \/>\n    as cigarettes, transmittiu as revela&ccedil;&otilde;es do Pimenta. O conde<br \/>\n    de Gouvarinho, al&eacute;m de muito massador e muito pequinhento, n&atilde;o<br \/>\n    tinha nada de cavalheiro: dera um fato de cheviot claro ao Rom&atilde;o (ao<br \/>\n    Pimenta), mas t&atilde;o co&ccedil;ado e t&atilde;o cheio de riscas de tinta,<br \/>\n    de limpar a penna &aacute; perna e ao hombro, que o Pimenta deitou o presente<br \/>\n    f&oacute;ra. O conde e a senhora n&atilde;o se davam bem: j&aacute; no tempo<br \/>\n    do Pimenta, uma occasi&atilde;o, &aacute; mesa, tinham-se pegado de tal modo<br \/>\n    que ella agarrou do copo e do prato, e esmigalhou-os no ch&atilde;o. E outra<br \/>\n    qualquer teria feito o mesmo; por que o sr. conde, quando come&ccedil;ava<br \/>\n    a repisar, a remoer, n&atilde;o se podia aturar. As quest&otilde;es eram sempre<br \/>\n    por causa de dinheiro. O Tompson velho estava farto de abrir os cord&otilde;es<br \/>\n    &aacute; bolsa&#8230;<br \/>\n    &#8211; Quem &eacute; esse Tompson velho, que nos apparece agora, a esta hora da<br \/>\n    noite? perguntou Carlos, a seu pesar interessado.<br \/>\n    &#8211; O Tompson velho &eacute; o pae da sr.&ordf; condessa. A sr.&ordf; condessa<br \/>\n    era uma miss Tompson, dos Tompson do Porto&#8230; O sr. Tompson n&atilde;o tem<br \/>\n    querido ultimamente emprestar nem mais um real ao genro: de sorte que, uma<br \/>\n    vez, j&aacute; no tempo do Pimenta tambem, o sr. conde, furioso, disse &aacute;<br \/>\n    senhora que ella e o pae se deviam lembrar que eram gente de commercio e que<br \/>\n    fora elle que fizera d&#8217;ella uma condessa; e com perd&atilde;o de v. ex.&ordf;,<br \/>\n    a senhora condessa ali mesmo &aacute; mesa mandou o condado &aacute; tab&uacute;a&#8230;<br \/>\n    Estas cousas n&atilde;o est&atilde;o no genero do Pimenta.<br \/>\n    Carlos bebeu um gole de grog. Bailava-lhe nos labios uma pergunta, mas hesitava.<br \/>\n    Depois reflectiu na puerilidade de t&atilde;o rigidos escrupulos, a respeito<br \/>\n    d&#8217;uma gente, que ao jantar, diante do escudeiro, quebrava a porcelana, mandava<br \/>\n    &aacute; tabua o titulo dos antepassados. E perguntou:<br \/>\n    &#8211; Que diz o sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Ella diverte-se?<br \/>\n    &#8211; Creio que n&atilde;o, meu senhor. Mas a creada de confian&ccedil;a d&#8217;ella,<br \/>\n    uma escosseza, essa &eacute; desobstinada. E n&atilde;o fica bem &aacute;<br \/>\n    senhora condessa ser assim t&atilde;o intima com ella&#8230;<br \/>\n    Houve um silencio no quarto, a chuva cantou mais forte nos vidros.<br \/>\n    &#8211; Passando a outro assumpto, Baptista. Vamos a saber, ha quanto tempo, n&atilde;o<br \/>\n    escrevo eu a madame Rughel?<br \/>\n    Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apontamentos, aproximou-se<br \/>\n    da luz, encavalou a luneta no nariz, e verificou, com methodo, estas datas:<br \/>\n    &#8211; &laquo;Dia 1 de janeiro, telegramma expedido com felicita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do come&ccedil;o d&#8217;anno a madame Rughel, Hotel d&#8217;Albe, Champs &Eacute;lyse&eacute;s,<br \/>\n    Paris. Dia 3, telegramma recebido de madame Rughel, reciprocando comprimentos,<br \/>\n    exprimindo amizade, annunciando partida para Hamburgo. Dia 15, carta lan&ccedil;ada<br \/>\n    ao correio, para madame Rughel, William-Strasse, Hamburgo, Allemagne. Depois<br \/>\n    &#8211; mais nada. De modo que havia j&aacute; cinco semanas que o menino n&atilde;o<br \/>\n    escrevia a madame Rughel&#8230;<br \/>\n    &#8211; &Eacute; necessario escrever &aacute;manh&atilde;, disse Carlos.<br \/>\n    Baptista tomou uma nota.<br \/>\n    Depois, entre uma fuma&ccedil;a languida, a voz de Carlos ergueu-se de novo<br \/>\n    na paz dormente do quarto:<br \/>\n    &#8211; Madame Rughel era muito bonita, n&atilde;o &eacute; verdade, Baptista? &Eacute;<br \/>\n    a mulher mais bonita que tu tens visto na tua vida!<br \/>\n    O velho creado metteu o livro no bolso da casaca, e respondeu, sem hesitar,<br \/>\n    muito certo de si:<br \/>\n    &#8211; Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas a mulher mais linda em<br \/>\n    que tenho posto os olhos, se o menino d&aacute; licen&ccedil;a, era aquella<br \/>\n    senhora do coronel de hussards que vinha ao quarto do hotel em Vienna.<br \/>\n    Carlos atirou a cigarette para a salva &#8211; e escorregando pela roupa abaixo,<br \/>\n    todo invadido por uma onda de recorda&ccedil;&otilde;es alegres, exclamou<br \/>\n    da profundidade do seu conforto, no antigo tom de emphase bohemia dos Pa&ccedil;os<br \/>\n    de Cellas.<br \/>\n    &#8211; O sr. Baptista n&atilde;o tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma nympha<br \/>\n    de Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o explendor d&#8217;uma deusa da Renascen&ccedil;a,<br \/>\n    senhor! Madame Rughel devia ter dormido no leito imperial de Carlos Quinto&#8230;<br \/>\n    &#8211; Retire-se, senhor!<br \/>\n    Baptista entalou mais o couvre-pieds, relanceou pelo quarto um olhar solicito,<br \/>\n    e, contente da ordem em que as cousas adormeciam, sa&iacute;u, levando o candieiro.<br \/>\n    Carlos n&atilde;o dormia: e n&atilde;o pensava na coronela de hussards, nem<br \/>\n    em madame Rughel. A figura que no escuro dos cortinados lhe apparecia, n&#8217;um<br \/>\n    vago dourado que provinha do reflexo de seus cabellos soltos, era a Gouvarinho<br \/>\n    &#8211; a Gouvarinho que n&atilde;o tinha o explendor d&#8217;uma deusa da Renascen&ccedil;a<br \/>\n    como madame Rughel, nem era a mulher mais linda em que Baptista pozera os<br \/>\n    seus olhos como a coronela de hussards: mas, com o seu nariz petulante e a<br \/>\n    sua boca grande, brilhava mais e melhor que todas na imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Carlos &#8211; porque elle esperara-a essa noite e ella n&atilde;o tinha apparecido.<br \/>\n    Na ter&ccedil;a-feira promettida Ega n&atilde;o veiu buscar Carlos para se<br \/>\n    irem gouvarinhar. E foi Carlos que d&#8217;ahi a dias, entrando como por acaso no<br \/>\n    Universal, perguntou rindo ao Ega:<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o quando nos gouvarinhamos?<br \/>\n    N&#8217;essa noite, em S. Carlos, n&#8217;um entre-acto dos Huguenotes, Ega apresentou-o<br \/>\n    ao Sr. conde de Gouvarinho, no corredor das frizas. O conde, muito amavel,<br \/>\n    lembrou logo que j&aacute; tivera, mais de uma vez, o prazer de passar pela<br \/>\n    porta de Sta. Olavia, quando &iacute;a v&ecirc;r os seus velhos amigos, os<br \/>\n    Tedins, a Entre-Rios &#8211; uma formosa vivenda tambem. Fallaram ent&atilde;o do<br \/>\n    Douro, da Beira, compararam outras paisagens. Para o conde, nada havia, no<br \/>\n    nosso Portugal, como os campos do Mondego: mas a sua parcialidade era perdoavel,<br \/>\n    pois n&#8217;esses ferteis vales nascera e se creara: e fallou um momento de Formozelha,<br \/>\n    onde tinha casa, onde vivia edosa e doente sua m&atilde;e, a sr.&ordf; condessa<br \/>\n    viuva&#8230;<br \/>\n    Ega, que affectara beber as palavras do conde, come&ccedil;ou ent&atilde;o<br \/>\n    uma controversia, sustentando como se se tratasse dos dogmas d&#8217;uma f&eacute;,<br \/>\n    a belleza superior do Minho, &laquo;esse paraiso idillico.&raquo; O conde<br \/>\n    sorria: via ali, como elle observou a Carlos, batendo amavelmente no hombro<br \/>\n    do Ega, a rivalidade das duas provincias. Emula&ccedil;&atilde;o fecunda,<br \/>\n    de resto, no seu pensar&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ahi est&aacute;, por exemplo, dizia elle, o ciume entre Lisboa e Porto.<br \/>\n    &Eacute; uma verdadeira dualidade como a que existe entre a Hungria e a Austria&#8230;<br \/>\n    Ou&ccedil;o por ali lamental-a. Pois bem, eu, se fosse poder, instigal-a-hia,<br \/>\n    acirral-a-hia, se v. exas. me permittem a express&atilde;o. N&#8217;esta lucta das<br \/>\n    duas grandes cidades do reino, podem outros v&ecirc;r despeitos mesquinhos,<br \/>\n    eu vejo elementos de progresso. Vejo civilisa&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Proferia estas cousas como do alto d&#8217;um pedestal, muito acima dos homens,<br \/>\n    deixando-as providamente ca&iacute;r dos thesouros do seu intellecto &aacute;<br \/>\n    maneira de dons inestimaveis. A voz era lenta e rotunda; os cristaes da sua<br \/>\n    luneta d&#8217;ouro faiscavam vistosamente; e no bigode encerado, na pera curta,<br \/>\n    havia ao mesmo tempo alguma cousa de doutoral e de casquilho.<br \/>\n    Carlos dizia: &laquo;Tem v. ex.&ordf; raz&atilde;o, sr. conde.&raquo; O Ega<br \/>\n    dizia: &laquo;Voc&ecirc; v&ecirc; essas cousas d&#8217;alto, Gouvarinho&raquo;.<br \/>\n    Elle cruzara as m&atilde;os por baixo das abas da casaca &#8211; e estavam todos<br \/>\n    tres muito serios.<br \/>\n    Depois o conde abriu a porta da friza, Ega desappareceu. E d&#8217;ahi a um momento,<br \/>\n    Carlos, apresentado como &laquo;visinho de camarote&raquo;, recebia da sr.&ordf;<br \/>\n    condessa um grande shake-hand, em que tilintaram uma infinidade d&#8217;aros de<br \/>\n    prata e de blangles indios sobre a sua luva preta de doze bot&otilde;es.<br \/>\n    A sr.&ordf; condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa, lembrou logo<br \/>\n    a Carlos que o vira no ver&atilde;o passado em Paris, no sal&atilde;o baixo<br \/>\n    do Caf&eacute; Inglez: at&eacute; por signal estava n&#8217;essa noite um velho<br \/>\n    abominavel com duas garrafas vazias diante de si, e contando alto, para uma<br \/>\n    meza defronte, historias horrorosas do sr. Gambetta: um sujeito ao lado protestou;<br \/>\n    o outro n&atilde;o fez caso, era o velho duque de Grammont. O conde passou<br \/>\n    os dedos lentos pela testa, com um ar quasi angustioso: n&atilde;o se lembrava<br \/>\n    de nada d&#8217;isso! Queixou-se logo amargamente da sua falta de memoria. Uma cousa<br \/>\n    t&atilde;o indispensavel em quem segue a vida publica, a memoria! e elle desgra&ccedil;adamente,<br \/>\n    n&atilde;o possuia nem um atomo. Por exemplo, lera (como todo o homem devia<br \/>\n    l&ecirc;r) os vinte volumes da Historia Universal de Cesar Cantu; l&ecirc;ra-os<br \/>\n    com atten&ccedil;&atilde;o, fechado no seu gabinete, absorvendo-se na obra.<br \/>\n    Pois, senhores, escapara-lhe tudo &#8211; e ali estava sem saber historia!<br \/>\n    &#8211; V. ex.&ordf; tem boa memoria, sr. Maia?<br \/>\n    &#8211; Tenho uma rasoavel memoria.<br \/>\n    &#8211; Inapreciavel bem de que goza!<br \/>\n    A condessa voltara-se para a plat&eacute;a, coberta com o leque, com o ar<br \/>\n    constrangido, como se aquellas palavras pueris do marido a diminuissem, a<br \/>\n    desfeiassem&#8230; Carlos ent&atilde;o fallou da opera. Que bello escudeiro huguenote<br \/>\n    fazia o Pandolli! A condessa n&atilde;o aturava o Corcelli, o tenor, com as<br \/>\n    suas notas asperas e aquella obesidade que o tornava buffo. Mas tambem (lembrava<br \/>\n    Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande ra&ccedil;a dos Marios,<br \/>\n    homens de belleza, de inspira&ccedil;&atilde;o, realisando os grandes typos<br \/>\n    lyricos. Nicolini era j&aacute; uma degenera&ccedil;&atilde;o&#8230; Isto fez<br \/>\n    lembrar a Patti. A condessa adorava-a, e a sua gra&ccedil;a de fada, e a sua<br \/>\n    voz semelhante a uma chuva d&#8217;ouro!&#8230;<br \/>\n    Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o cabello<br \/>\n    crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno d&#8217;ella errava,<br \/>\n    no calor do gaz e da enchente, um aroma exagerado de verbena. Estava de preto,<br \/>\n    com uma gargantilha de rendas negras, &aacute; Valois, affogando-lhe o pesco&ccedil;o<br \/>\n    onde pousavam duas rosas escarlates. E toda a sua pessoa tinha um arsinho<br \/>\n    de provoca&ccedil;&atilde;o e de ataque. De p&eacute;, callado, grave, o conde<br \/>\n    batia a coxa com a claque fechada.<br \/>\n    O quarto acto come&ccedil;ara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram<br \/>\n    defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a condessa<br \/>\n    e fallando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar dolente e vago.<br \/>\n    &#8211; N&oacute;s recebemos &aacute;s ter&ccedil;as feiras, disse a condessa a<br \/>\n    Carlos &#8211; e o resto da phrase perdeu-se n&#8217;um murmurio e n&#8217;um sorriso.<br \/>\n    O conde acompanhou-o f&oacute;ra, ao corredor.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; sempre uma honra para mim, dizia elle caminhando ao lado de Carlos,<br \/>\n    fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma cousa n&#8217;este paiz&#8230; V.<br \/>\n    ex.&ordf; &eacute; d&#8217;esse numero, bem raro infelizmente.<br \/>\n    Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o o lisongeio. Eu nunca lisongeio&#8230; Mas a v. ex.&ordf; podem-se<br \/>\n    dizer estas cousas, porque pertence &aacute; elite: a desgra&ccedil;a de Portugal<br \/>\n    &eacute; a falta de gente. Isto &eacute; um paiz sem pessoal. Quer-se um bispo?<br \/>\n    N&atilde;o ha um bispo. Quer-se um economista? N&atilde;o ha um economista.<br \/>\n    Tudo assim! Veja v. ex.&ordf; mesmo nas profiss&otilde;es subalternas. Quer-se<br \/>\n    um bom estofador? N&atilde;o ha um bom estofador&#8230;<br \/>\n    Um cheio de instrumentos e vozes, d&#8217;um tom sublime, passando pela porta da<br \/>\n    frisa entreaberta, cortou-lhe umas ultimas palavras sobre a defficiencia dos<br \/>\n    photographos&#8230; Escutou, com a m&atilde;o no ar: <br \/>\n    &#8211; &Eacute; o coro dos punhaes, n&atilde;o? Ah vamos a ouvir&#8230; Ouve-se sempre<br \/>\n    isto com proveito. Ha philosophia n&#8217;esta musica&#8230; &Eacute; pena que lembre<br \/>\n    t&atilde;o vivamente os tempos da intolerancia religiosa, mas ha alli incontestavelmente<br \/>\n    philosophia!<\/p>\n<h2><a name=\"7\">Cap&iacute;tulo VII<\/a><\/h2>\n<p>No Ramalhete, depois do almo&ccedil;o, com as tres janellas do escriptorio<br \/>\n    abertas bebendo a tepida luz do bello dia de mar&ccedil;o, Affonso da Maia<br \/>\n    e Craft jogavam uma partida de xadrez ao p&eacute; da chamin&eacute; j&aacute;<br \/>\n    sem lume, agora cheia de plantas, fresca e festiva como um altar domestico.<br \/>\n    N&#8217;uma facha obliqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifacio, enorme<br \/>\n    e f&ocirc;fo, dormia de leve a sua sesta.<br \/>\n    Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e elle, tendo<br \/>\n    muitas similitudes de gosto e de id&eacute;as, o mesmo fervor pelo bric-a-brac<br \/>\n    e pelo bibelot, o uso apaixonado da esgrima, egual dillettantismo d&#8217;espirito,<br \/>\n    uniram-se immediatamente em rela&ccedil;&otilde;es de superficie, faceis e<br \/>\n    amaveis. Affonso, por seu lado come&ccedil;ara logo a sentir uma estima elevada<br \/>\n    por aquelle gentleman de boa ra&ccedil;a ingleza, como elle os admirava, cultivado<br \/>\n    e forte, de maneiras graves, de habitos rijos, sentindo finamente e pensando<br \/>\n    com rectid&atilde;o. Tinham-se encontrado ambos enthusiastas de Tacito, de<br \/>\n    Macaulay, de Burke, e at&eacute; dos poetas lakistas; Craft era grande no<br \/>\n    xadrez; o seu carater ganhara nas longas e trabalhadas viagens a rica solidez<br \/>\n    d&#8217;um bronze; para Affonso da Maia &laquo;aquillo era deveras um homem&raquo;.<br \/>\n    Craft, madrugador, sahia cedo dos Olivaes a cavallo, e vinha assim &aacute;s<br \/>\n    vezes almo&ccedil;ar de surpreza com os Maias; por vontade de Affonso jantaria<br \/>\n    l&aacute; sempre; &#8211; mas ao menos as noites passava-as invariavelmente no Ramalhete,<br \/>\n    tendo emfim, como elle dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia<br \/>\n    conversar bem sentado, no meio de id&eacute;as, e com boa educa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de clientella<br \/>\n    que lhe dera esperan&ccedil;as d&#8217;uma carreira cheia, activa, tinha passado<br \/>\n    miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no bairro; e sentia<br \/>\n    agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete, os habitos de luxo,<br \/>\n    o condemnavam irremediavelmente ao dillettantismo. J&aacute; o fino dr. Theodosio<br \/>\n    lhe dissera um dia, francamente: &laquo;voc&ecirc; &eacute; muito elegante<br \/>\n    p&#8217;ra medico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem &eacute; o<br \/>\n    burguez que lhe vae confiar a esposa dentro d&#8217;uma alcova?&#8230; Voc&ecirc; aterra<br \/>\n    o pater-familias!&raquo; O laboratorio mesmo prejudicara-o. Os collegas diziam<br \/>\n    que o Maia, rico, intelligente, avido de innova&ccedil;&otilde;es, de modernismos,<br \/>\n    fazia sobre os doentes experiencias fataes. Tinha-se tro&ccedil;ado muito<br \/>\n    a sua id&eacute;a, apresentada na Gazeta Medica, a preven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das epidemias pela inocula&ccedil;&atilde;o dos virus. Consideravam-no um<br \/>\n    phantasista. E elle, ent&atilde;o, refugiava-se todo n&#8217;esse livro sobre a<br \/>\n    medicina antiga e moderna, o seu livro, trabalhado com vagares d&#8217;artista rico,<br \/>\n    tornando-se o interesse intellectual de um ou dous annos.<br \/>\n    N&#8217;essa manh&atilde;, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida<br \/>\n    de xadrez, Carlos no terrasso, estendido n&#8217;uma vasta cadeira india de bambu,<br \/>\n    &aacute; sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma Revista ingleza,<br \/>\n    banhado pela caricia tepida d&#8217;aquelle bafo de primavera que avelludava o ar,<br \/>\n    fazia j&aacute; desejar arvores e relvas&#8230;<br \/>\n    Ao lado d&#8217;elle, n&#8217;uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca, o<br \/>\n    sr. Damaso Salcede percorria o Figaro. De perna estirada, n&#8217;uma indolencia<br \/>\n    familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao terrasso as rosas<br \/>\n    das roseiras de Affonso, sentindo por tr&aacute;s, atravez das janellas abertas,<br \/>\n    o rico e nobre interior do Ramalhete &#8211; o filho do agiota saboreava alli uma<br \/>\n    d&#8217;essas horas deliciosas que ultimamente encontrava na intimidade dos Maias.<br \/>\n    Logo na manh&atilde; seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede f&ocirc;ra<br \/>\n    ao Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, tendo<br \/>\n    ao angulo, n&#8217;uma dobra simulada, o seu retratosinho em photographia, um capacete<br \/>\n    com plumas por cima do nome &#8211; DAMASO CANDIDO DE SALCEDE, por baixo as suas<br \/>\n    honras &#8211; COMMENDADOR DE CHRISTO, ao fundo a sua adresse &#8211; Rua de S. Domingos,<br \/>\n    &aacute; Lapa; mas esta indica&ccedil;&atilde;o estava riscada, e ao lado,<br \/>\n    a tinta azul, esta outra mais apparatosa &#8211; GRAND HOTEL, BOULEVARD DES CAPUCINES,<br \/>\n    CHAMBRE N.&ordm; l03. Em seguida procurou Carlos no consultorio, confiou ao<br \/>\n    creado outro cart&atilde;o. Emfim, uma tarde, no Aterro, vendo passar Carlos<br \/>\n    a p&eacute;, correu para elle, pendurou-se d&#8217;elle, conseguiu acompanhal-o<br \/>\n    ao Ramalhete.<br \/>\n    Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admira&ccedil;&otilde;es extaticas, como<br \/>\n    dentro d&#8217;um museu, lan&ccedil;ando, diante dos tapetes, das faien&ccedil;as<br \/>\n    e dos quadros, a sua grande phrase &#8211; &laquo;chic a valer!&raquo; Carlos levou-o<br \/>\n    para o fumoir, elle aceitou um charuto; e come&ccedil;ou a explicar, de perna<br \/>\n    tra&ccedil;ada, algumas das suas opini&otilde;es e alguns dos seus gostos.<br \/>\n    Considerava Lisboa chinfrin, e s&oacute; estava bem em Paris &#8211; sobre tudo<br \/>\n    por causa do genero &laquo;femea&raquo; de que em Lisboa se passavam fomes:<br \/>\n    ainda que n&#8217;esse ponto a Providencia n&atilde;o o tratava mal. Gostava tambem<br \/>\n    do bric-a-brac; mas apanhava-se muita espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo,<br \/>\n    n&atilde;o lhe pareciam commodas para a gente se sentar. A leitura entretinha-o,<br \/>\n    e ninguem o pilhava sem livros &aacute; cabeceira da cama; ultimamente andava<br \/>\n    &aacute;s voltas com Daudet, que lhe diziam ser muito chic, mas elle achava-o<br \/>\n    confusote. Em rapaz perdia sempre as noites, at&eacute; &aacute;s quatro ou<br \/>\n    cinco da madrugada, no delirio! Agora n&atilde;o, estava mudado e pacato;<br \/>\n    emfim, n&atilde;o dizia que de vez em quando n&atilde;o se abandonasse a um<br \/>\n    excessozinho; mas s&oacute; em dias duples&#8230; E as suas perguntas foram terriveis.<br \/>\n    O sr. Maia achava chic ter um cab inglez? Qual era mais elegante, assim para<br \/>\n    um rapaz de sociedade que quizesse ir passar o ver&atilde;o l&aacute; f&oacute;ra,<br \/>\n    Nice ou Trouville?&#8230; Depois ao sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou<br \/>\n    ao sr. Maia (se o sr.Maia n&atilde;o fazia segredo) quem era o seu alfaiate.<br \/>\n    E desde esse dia, n&atilde;o o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro,<br \/>\n    Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, &aacute;s vezes na solemnidade<br \/>\n    d&#8217;uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros, amarrotando a compostura<br \/>\n    das damas, abalava, abria d&#8217;estalo a claque, vinha-se installar na frisa,<br \/>\n    ao lado de Carlos, com a bochecha corada, camelia na casaca, exhibindo os<br \/>\n    bot&otilde;es de punho que eram duas enormes bolas. Uma ou duas vezes que<br \/>\n    Carlos entrara casualmente no Gremio, Damaso abandonou logo a partida, indifferente<br \/>\n    &aacute; indigna&ccedil;&atilde;o dos parceiros, para se<br \/>\n    vir collar &aacute; ilharga do Maia, offerecer-lhe marrasquino ou charutos,<br \/>\n    seguil-o de sala em sala como um rafeiro. N&#8217;uma d&#8217;essas occasi&otilde;es,<br \/>\n    tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Damaso rompendo em risadas<br \/>\n    solu&ccedil;antes, rebolando-se pelos soph&aacute;s, com as m&atilde;os nas<br \/>\n    ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle, suffocado, repetia<br \/>\n    a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o; respondia-lhe s&oacute;<br \/>\n    com monossyllabos; dava voltas perigosas com o dog-cart se lhe avistava de<br \/>\n    longe a bochecha, a coxa roli&ccedil;a. Debalde: Damaso Candido Salcede filara-o,<br \/>\n    e para sempre.<br \/>\n    Depois, um dia, Taveira appareceu no Ramalhete com uma extraordinaria historia.<br \/>\n    Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, elle n&atilde;o presenceara) um<br \/>\n    sujeito, um Gomes, n&#8217;um grupo onde se commentavam os Maias, erguera a voz,<br \/>\n    exclamara que Carlos era um asno! Damaso, que estava ao lado mergulhado na<br \/>\n    Illustra&ccedil;&atilde;o, levantou-se, muito pallido, declarou que, tendo<br \/>\n    a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava a cara com a bengala<br \/>\n    ao sr. Gomes se elle ousasse babujar outra vez esse cavalheiro; e o sr. Gomes<br \/>\n    tragou, com os olhos no ch&atilde;o, a affronta, por ser rachitico de nascen&ccedil;a<br \/>\n    &#8211; e porque era inquilino de Damaso e andava muito atrasado na renda. Affonso<br \/>\n    da Maia achou este feito brilhante: e foi por desejo seu que Carlos trouxe<br \/>\n    o sr. Salcede uma tarde a jantar ao Ramalhete.<br \/>\n    Este dia pareceu bello a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas melhor<br \/>\n    ainda foi a manh&atilde; em que Carlos, um pouco incommodado e ainda deitado,<br \/>\n    o recebeu no quarto, como entre rapazes&#8230; D&#8217;ahi datava a sua intimidade:<br \/>\n    come&ccedil;ou a tratar Carlos por voc&ecirc;. Depois, n&#8217;essa semana, revelou<br \/>\n    aptid&otilde;es uteis. Foi despachar &aacute; alfandega (Villa&ccedil;a achava-se<br \/>\n    no Alemtejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo apparecido n&#8217;um momento<br \/>\n    em que Carlos copiava um artigo para a Gazeta Medica offereceu a sua boa letra,<br \/>\n    letra prodigiosa, de uma belleza lithographica; e d&#8217;ahi por diante passava<br \/>\n    horas &aacute; banca de Carlos, applicado e vermelho, com a ponta da lingua<br \/>\n    de f&oacute;ra, o olho redondo, copiando apontamentos, transcrip&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Revistas, materiaes para o livro&#8230; Tanta dedica&ccedil;&atilde;o merecia<br \/>\n    um tu de familiaridade. Carlos deu-lh&#8217;o.<br \/>\n    Damaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde a<br \/>\n    barba que come&ccedil;ava agora a deixar crescer at&eacute; &aacute; forma<br \/>\n    dos sapatos. Lan&ccedil;ara-se no bric-a-brac. Trazia sempre o coup&eacute;<br \/>\n    cheio de lixos archeologicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza<br \/>\n    rachada de um bule&#8230; E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria<br \/>\n    a portinhola como um addito de sacrario, exhibia a preciosidade:<br \/>\n    &#8211; Que te parece? Chic a valer!&#8230; Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto, hein!<br \/>\n    Pura meia edade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vae-se roer de inveja!<br \/>\n    N&#8217;esta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. N&atilde;o<br \/>\n    era divertido assistir em silencio, do fundo d&#8217;uma poltrona, &aacute;s infindaveis<br \/>\n    discuss&otilde;es de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia. E, como<br \/>\n    elle confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o levaram ao laboratorio<br \/>\n    para fazer no seu corpo experiencias de electricidade&#8230; &#8211; &laquo;Pareciam<br \/>\n    dois demonios engalphinhados em mim, disse elle &aacute; sr.&ordf; condessa<br \/>\n    de Gouvarinho; e eu ent&atilde;o que embirro com o spiritismo!&#8230;&raquo;<br \/>\n    Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando &aacute; noite, n&#8217;um soph&aacute;<br \/>\n    do Gremio, ou ao ch&aacute; n&#8217;uma casa amiga, elle podia dizer, correndo a<br \/>\n    m&atilde;o<br \/>\n    pelo cabello:<br \/>\n    &#8211; Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, bric-a-brac, discutimos&#8230;<br \/>\n    Um dia, chic! &Aacute;manh&atilde; tenho uma manh&atilde; de trabalho com<br \/>\n    o Maia&#8230; Vamos &aacute;s colxas.<br \/>\n    N&#8217;esse domingo, justamente, deviam ir &aacute;s colxas, ao Lumiar. Carlos<br \/>\n    concebera um boudoir, todo revestido de colxas antigas de setim, bordadas<br \/>\n    a dous tons especiaes, perola e bot&atilde;o d&#8217;ouro. O tio Abrah&atilde;o<br \/>\n    esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos suburbios; e n&#8217;essa manh&atilde;<br \/>\n    viera annunciar a Carlos a existencia de duas preciosidades, so beautiful!<br \/>\n    oh! so lovely! em casa de umas senhoras Medeiros que esperavam o sr. Maia<br \/>\n    &aacute;s duas horas&#8230;<br \/>\n    J&aacute; tres vezes Damaso tossira, olhara o relogio, &#8211; mas, vendo Carlos<br \/>\n    confortavelmente mergulhado na Revista, recahia tambem na sua indolencia de<br \/>\n    homem chic, investigando o Figaro. Emfim, dentro, o relogio Luiz XV cantou<br \/>\n    argentinamente as duas&#8230;<br \/>\n    &#8211; Esta &eacute; boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa.<br \/>\n    Olha quem aqui me apparece! A Suzanna! A minha Suzanna!<br \/>\n    Carlos n&atilde;o despegara os olhos da pagina.<br \/>\n    &#8211; Oh Carlos, accrescentou elle, fazes favor? Ouve. Ouve esta que &eacute;<br \/>\n    boa. Esta Suzanna &eacute; uma pequena que eu tive em Paris&#8230; Um romance!<br \/>\n    Apaixonou-se por mim, quiz-se envenenar, o diabo!&#8230; Pois diz aqui o Figaro<br \/>\n    que debutou nas Folies-Bergeres. Falla n&#8217;ella&#8230; &Eacute; boa, hein? E era<br \/>\n    rapariguita chic&#8230; E o Figaro diz que ella teve aventuras, naturalmente sabia<br \/>\n    o que se passou comigo&#8230; Todo o mundo sabia em Paris. Ora a Suzanna!&#8230; Tinha<br \/>\n    bonitas pernas. E custou-me a v&ecirc;r livre d&#8217;ella!<br \/>\n    &#8211; Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da Revista.<br \/>\n    Damaso era interminavel, torrencial, inundante a fallar das &laquo;suas conquistas&raquo;,<br \/>\n    n&#8217;aquella solida satisfa&ccedil;&atilde;o em que vivia de que todas as mulheres,<br \/>\n    desgra&ccedil;adas d&#8217;ellas, soffriam a fascina&ccedil;&atilde;o da sua pessoa<br \/>\n    e da sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na sociedade,<br \/>\n    com coup&eacute; e parelha, todas as meninas tinham para elle um olhar doce.<br \/>\n    E no d&eacute;mi-monde, como elle dizia, &laquo;tinha prestigio a valer.&raquo;<br \/>\n    Desde mo&ccedil;o f&ocirc;ra celebre, na capital, por p&ocirc;r casas a hespanholas;<br \/>\n    a uma mesmo dera carruagem ao mez; e este fausto excepcional tornara-o bem<br \/>\n    depressa o D. Jo&atilde;o V dos prostibulos. Conhecia-se tambem a sua liga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com a viscondessa da Gafanha, uma carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta<br \/>\n    por todos os homens validos do paiz: &iacute;a nos cincoenta annos, quando<br \/>\n    chegou a vez do Damaso &#8211; e n&atilde;o era decerto uma delicia ter nos bra&ccedil;os<br \/>\n    aquelle esqueleto rangente e lubrico; mas dizia-se que em nova dormira n&#8217;um<br \/>\n    leito real, e que augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou<br \/>\n    Damaso, e collou-se-lhe &aacute;s saias com uma fidelidade t&atilde;o sabuja,<br \/>\n    que a decrepita creatura, farta, enojada j&aacute;, teve de o enxotar &aacute;<br \/>\n    for&ccedil;a e com desfeitas. Depois gozou uma tragedia: uma actriz do Principe<br \/>\n    Real, uma montanha de carne, apaixonada por elle, n&#8217;uma noite de ciume e de<br \/>\n    genebra, engoliu uma caixa de phosphoros; naturalmente d&#8217;ahi a horas estava<br \/>\n    boa, tendo vomitado abominavelmente sobre o collete do Damaso que chorava<br \/>\n    ao lado &#8211; mas desde ent&atilde;o este homem de amor julgou-se fatal! Como<br \/>\n    elle dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi tremia, tremia<br \/>\n    verdadeiramente de fitar uma mulher&#8230;<br \/>\n    &#8211; Passaram-se scenas com esta Suzanna! mumurou elle depois de um silencio<br \/>\n    em que estivera catando pelliculas nos bei&ccedil;os.<br \/>\n    E, com um suspiro, retomou o Figaro. Houve outra vez um silencio no terrasso.<br \/>\n    Dentro, a partida continuava. Para l&aacute; da sombra do toldo, agora, o<br \/>\n    sol &iacute;a aquecendo, batendo a pedra, os vasos de lou&ccedil;a branca,<br \/>\n    n&#8217;uma refrac&ccedil;&atilde;o d&#8217;ouro claro em que palpitavam as azas das primeiras<br \/>\n    borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim verdejava,<br \/>\n    immovel na luz, sem um bolir de ramo, refrescado pelo cantar do repuxo, pelo<br \/>\n    brilho liquido da agoa do tanque, avivado, aqui e al&eacute;m, pelo vermelho<br \/>\n    ou o amarello das rosas, pela carna&ccedil;&atilde;o das ultimas camelias&#8230;<br \/>\n    O bocado de rio que se avistava entre os predios era azul ferrete como o c&eacute;u:<br \/>\n    e entre rio e c&eacute;u o monte punha uma grossa barra verde-escura, quasi<br \/>\n    negra no resplendor do dia, com os dois moinhos parados no alto, as duas casinhas<br \/>\n    alvejando em baixo, t&atilde;o luminosas e cantantes que pareciam viver. Um<br \/>\n    repouso dormente de domingo envolvia o bairro: e, muito alto, no ar, passava<br \/>\n    o claro repique d&#8217;um sino.<br \/>\n    &#8211; O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso n&#8217;um tom entendido e tra&ccedil;ando<br \/>\n    a perna. O duque de Norfolk &eacute; chic, n&atilde;o &eacute; verdade, &oacute;<br \/>\n    Carlos?<br \/>\n    Carlos, sem erguer os olhos, lan&ccedil;ou para os c&eacute;us um gesto, como<br \/>\n    exprimindo o infinito do chic! <br \/>\n    Damaso largara o Figaro para metter um charuto na boquilha; depois desapertou<br \/>\n    os ultimos bot&otilde;es do collete, deu um puch&atilde;o &aacute; camisa<br \/>\n    para mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma cor&ocirc;a de conde,<br \/>\n    e de palpebra cerrada, com o bei&ccedil;o trombudo, ficou mamando gravemente<br \/>\n    a boquilha&#8230;<br \/>\n    &#8211; Tu est&aacute;s hoje em belleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambem<br \/>\n    a Revista e o contemplava com melancolia.<br \/>\n    Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, &aacute;<br \/>\n    meia c&ocirc;r de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita:<br \/>\n    &#8211; Eu agora ando bem&#8230; Mas, muito blaz&egrave;.<br \/>\n    E foi realmente com um ar blaz&egrave; que se ergueu a ir buscar a uma mesa<br \/>\n    de jardim, ao lado, onde estavam jornaes e charutos, a Gazeta Illustrada,<br \/>\n    &laquo;para v&ecirc;r o que ia pela patria.&raquo; Apenas lhe deitou os olhos<br \/>\n    soltou uma exclama&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Outro debute? perguntou Carlos.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, &eacute; a besta do Castro Gomes!<br \/>\n    A Gazeta Illustrada annunciava que &laquo;o sr. Castro Gomes, o cavalheiro<br \/>\n    brasileiro que no Porto f&ocirc;ra victima da sua dedica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por occasi&atilde;o da desgra&ccedil;a occorrida na Pra&ccedil;a Nova, e de<br \/>\n    que o nosso correspondente J. T. nos deu uma descrip&ccedil;&atilde;o t&atilde;o<br \/>\n    opulenta de colorido realista, acha-se restabelecido e &eacute; hoje esperado<br \/>\n    no Hotel Central. Os nossos parabens ao arrojado gentleman.&raquo;<br \/>\n    &#8211; Ora est&aacute; s. ex.&ordf; restabelecida! exclamou Damaso, atirando para<br \/>\n    o lado o jornal. Pois deixa estar, que agora &eacute; a occasi&atilde;o de<br \/>\n    lhe dizer na cara o que penso&#8230; Aquelle pulha!<br \/>\n    &#8211; Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e relia<br \/>\n    a noticia.<br \/>\n    &#8211; Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria v&ecirc;r, se fosse<br \/>\n    comtigo&#8230; &Eacute; uma besta! &Eacute; um selvagem!<br \/>\n    E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua chegada<br \/>\n    de Bordeus, logo que o Castro Gomes se installara no Hotel Central, elle f&ocirc;ra<br \/>\n    deixar-lhe bilhetes duas vezes &#8211; a ultima na manh&atilde; seguinte ao jantar<br \/>\n    do Ega. Pois bem, s. ex.&ordf; n&atilde;o se dignara agradecer a visita! Depois<br \/>\n    elles tinham partido para o Porto; f&ocirc;ra ahi que, passeiando s&oacute;<br \/>\n    na Pra&ccedil;a Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada, duas senhoras<br \/>\n    em gritos, Castro Gomes se lan&ccedil;&aacute;ra ao freio dos cavallos &#8211; e,<br \/>\n    cuspido contra as grades, tinha deslocado um bra&ccedil;o. Teve de ficar no<br \/>\n    Porto, no Hotel, cinco semanas. E elle immediatamente (sempre com o olho na<br \/>\n    mulher) mandara-lhe dois telegrammas: um de sentimento, lamentando, outro<br \/>\n    de interesse, pedindo noticias. Nem a um, nem a outro, o animal respondeu!<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, isso &#8211; exclamava Salcede, passeiando pelo terra&ccedil;o, e<br \/>\n    recordando estas injurias &#8211; hei de lhe fazer uma desfeita!&#8230; N&atilde;o pensei<br \/>\n    ainda o qu&ecirc;, mas ha de amargar-lhe&#8230; L&aacute; isso, desconsidera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o admitto a ninguem! a ninguem!<br \/>\n    Arredondava o olho, amea&ccedil;ador. Desde o seu feito no Gremio, quando<br \/>\n    o rachitico apavorado emmudecera diante d&#8217;elle, Damaso ia-se tornando feroz.<br \/>\n    Pela menor cousa fallava em &laquo;quebrar caras.&raquo;<br \/>\n    &#8211; A ninguem! repetia elle, com pux&otilde;es ao collete. Desconsidera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a ninguem!<br \/>\n    N&#8217;esse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega &#8211; e quasi<br \/>\n    immediatamente elle appareceu, com um ar de pressa, e atarantado.<br \/>\n    &#8211; Ol&aacute;, Damasosinho!&#8230; Carlos, d&aacute;s-me aqui em baixo uma palavra?<br \/>\n    Desceram do terra&ccedil;o, penetraram no jardim, at&eacute; junto de duas<br \/>\n    olaias em fl&ocirc;r.<br \/>\n    &#8211; Tu tens dinheiro? &#8211; foi ahi logo a exclama&ccedil;&atilde;o anciosa do Ega.<br \/>\n    E contou a sua terrivel atrapalha&ccedil;&atilde;o. Tinha uma letra de noventa<br \/>\n    libras que se vencia no dia seguinte. Al&eacute;m d&#8217;isso, vinte e cinco libras<br \/>\n    que devia ao Eusebiosinho, e que elle lhe reclamara n&#8217;uma carta indecente:<br \/>\n    e era isto que desesperava o Ega&#8230;<br \/>\n    &#8211; Quero pagar a esse canalha, e quando o vir collar-lhe a carta &aacute; cara<br \/>\n    com um escarro. Al&eacute;m d&#8217;isso a letra! E tenho para tudo isto quinze<br \/>\n    tost&otilde;es&#8230;<br \/>\n    &#8211; O Eusebiosinho &eacute; homem de ordem&#8230; Emfim, queres cento e quinze libras,<br \/>\n    disse Carlos.<br \/>\n    Ega hesitou, com uma c&ocirc;r no rosto. J&aacute; devia dinheiro a Carlos.<br \/>\n    Estava-se sempre dirigindo &aacute;quella amisade, como a um cofre inexgotavel&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, bastam-me oitenta. Ponho o relogio no prego, e a pelissa, que<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o faz frio&#8230;<br \/>\n    Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque &#8211; em quanto Ega procurava<br \/>\n    cuidadosamente um bonito bot&atilde;o de rosa para florir a sobrecasaca. Carlos<br \/>\n    n&atilde;o tardou, trazendo na m&atilde;o o cheque, que alargara at&eacute;<br \/>\n    cento e vinte libras, para o Ega ficar armado&#8230;<br \/>\n    &#8211; Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com um<br \/>\n    bello suspiro de allivio.<br \/>\n    Immediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse vill&atilde;o! Mas tinha<br \/>\n    j&aacute; uma vingan&ccedil;a. Ia remetter-lhe a somma toda em cobre, n&#8217;um<br \/>\n    sacco de carv&atilde;o, com um rato morto dentro, e um bilhete, come&ccedil;ando<br \/>\n    assim: &#8211; ascorosa lombriga e immunda osga, ahi te atiro ao focinho, etc&#8230;.<br \/>\n    <br \/>\n    &#8211; Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o teu<br \/>\n    ar, aquelle ser repulsivo!&#8230;<br \/>\n    Mas era at&eacute; sujo mencionar o Eusebiosinho!&#8230; Quiz saber dos trabalhos<br \/>\n    de Carlos, do grande livro. Fallou tambem do seu Atomo: &#8211; e, por fim, n&#8217;uma<br \/>\n    voz diferente, applicando o monocolo a Carlos:<br \/>\n    &#8211; Dize-me outra cousa. Porque n&atilde;o tens tu voltado aos Gouvarinhos?<br \/>\n    Carlos tinha s&oacute; esta ras&atilde;o: n&atilde;o se divertia l&aacute;.<br \/>\n    Ega encolheu os hombros. Parecia-lhe aquillo uma puerilidade&#8230;<br \/>\n    &#8211; Tu n&atilde;o percebeste nada, exclamou elle. Aquella mulher tem uma paix&atilde;o<br \/>\n    por ti&#8230; Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue &aacute;<br \/>\n    cara.<br \/>\n    E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de honra.<br \/>\n    Ainda na vespera, estava-se fallando de Carlos, e elle espreitara-a. Sem ser<br \/>\n    um Balzac, nem uma broca de observa&ccedil;&atilde;o, tinha a vis&atilde;o<br \/>\n    correcta: pois bem, l&aacute; lhe vira na face, nos olhos, toda a express&atilde;o<br \/>\n    de um sentimento sincero&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o estou a fazer romance, menino&#8230; Gosta de ti, palavra! Tenl-a<br \/>\n    quando quiseres.<br \/>\n    Carlos achava deliciosa aquella naturalidade mephistophelica com que Ega o<br \/>\n    induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes, domesticas&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa blague da cartilha e do codigo,<br \/>\n    ent&atilde;o n&atilde;o fallemos mais n&#8217;isso! Se apanhaste a sarna da virtude,<br \/>\n    com comich&otilde;es por qualquer cousa, ent&atilde;o era uma vez um homem,<br \/>\n    vae para a Trappa commentar o Ecclesiastes..<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o &#8211; disse Carlos, sentando-se n&#8217;um banco sob as arvores, ainda<br \/>\n    com uns restos da pregui&ccedil;a do terra&ccedil;o &#8211; o meu motivo n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o nobre. N&atilde;o vou l&aacute;, porque acho o Gouvarinho<br \/>\n    um massador.<br \/>\n    Ega teve um sorriso mudo.<br \/>\n    &#8211; Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores&#8230;<br \/>\n    Sentou-se ao lado de Carlos, come&ccedil;ou a riscar em silencio o ch&atilde;o<br \/>\n    areado; e sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com<br \/>\n    melancolia: <br \/>\n    &#8211; Antes de hontem, toda a noite, a p&eacute; firme, das dez &aacute; uma,<br \/>\n    estive a ouvir a historia da demanda do Banco Nacional!<br \/>\n    Era quasi uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que se<br \/>\n    debatia, n&#8217;aquelle mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista. Carlos<br \/>\n    enterneceu-se.<br \/>\n    &#8211; Meu pobre Ega, ent&atilde;o toda a demanda?<br \/>\n    &#8211; Toda! E a leitura do relatorio da assembl&eacute;a geral! E interessei-me!<br \/>\n    E tive opini&otilde;es!&#8230; A vida &eacute; um inferno.<br \/>\n    Subiram ao terra&ccedil;o. Damaso reoccupara a sua cadeira de vime, e, com<br \/>\n    um canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o decidiu-se? perguntou elle logo ao Ega.<br \/>\n    &#8211; Decidiu-se hontem! N&atilde;o ha cotillon.<br \/>\n    Tratava-se de uma grande soir&eacute;e mascarada que &iacute;am dar os Cohens,<br \/>\n    no dia dos annos de Rachel. A id&eacute;a d&#8217;esta festa sugerira-a o Ega, ao<br \/>\n    principio com grandes propor&ccedil;&otilde;es de gala artistica, a ressurrei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    historica de um sarau no tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa<br \/>\n    era irrealisavel em Lisboa &#8211; e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples<br \/>\n    baile costum&eacute;, a capricho&#8230;<br \/>\n    &#8211; Tu, Carlos, j&aacute; decidiste como vaes?<br \/>\n    &#8211; De domin&oacute;, um severo domin&oacute; preto, como conv&eacute;m a um<br \/>\n    homem de sciencia&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, exclamou Ega se se trata de sciencia, vae de rabona e chinellas<br \/>\n    de ourello!&#8230; A sciencia faz-se em casa e de chinellas&#8230; Nunca ninguem descobriu<br \/>\n    uma lei do Universo mettido dentro de um domin&oacute;&#8230; Que sensaboria,<br \/>\n    um domin&oacute;!&#8230;<br \/>\n    Justamente a sr.&ordf; D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa monotonia<br \/>\n    dos domin&oacute;s. E em Carlos n&atilde;o havia desculpa. N&atilde;o o prendiam<br \/>\n    vinte ou trinta libras; e, com aquelle esplendido physico de cavalleiro da<br \/>\n    Renascen&ccedil;a, devia ornar a sala pelo menos com um soberbo Francisco<br \/>\n    I.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; n&#8217;isto, ajuntava elle com fogo, que est&aacute; a belleza de uma<br \/>\n    soir&eacute;e de mascaras! N&atilde;o lhe parece voc&ecirc;, Damaso? Cada<br \/>\n    um deve aproveitar a sua figura&#8230; Por exemplo, a Gouvarinho vae muito bem.<br \/>\n    Teve uma inspira&ccedil;&atilde;o: com aquelle cabello ruivo, o nariz curto,<br \/>\n    as ma&ccedil;&atilde;s do rosto salientes, &eacute; Margarida de Navarra&#8230;<br \/>\n    &#8211; Quem &eacute; Margarida de Navarra? perguntou Affonso da Maia, apparecendo<br \/>\n    no terra&ccedil;o com Craft.<br \/>\n    &#8211; Margarida, a duqueza d&#8217;Angouleme, a irm&atilde; de Francisco I, a Margarida<br \/>\n    das Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da Renascen&ccedil;a, a sr.&ordf;<br \/>\n    condessa de Gouvarinho!&#8230;<br \/>\n    Rio muito, foi abra&ccedil;ar Affonso, explicou-lhe que se discutia o baile<br \/>\n    dos Cohens. E appellou logo para elle, para o Craft tambem, &aacute;cerca<br \/>\n    do nefando domin&oacute; de Carlos. N&atilde;o estava aquelle mocet&atilde;o,<br \/>\n    com os seus ares de homem d&#8217;armas, talhado para um soberbo Francisco I, em<br \/>\n    toda a gloria de Marignan?<br \/>\n    O velho deu um olhar enternecido &aacute; belleza do neto.<br \/>\n    &#8211; Eu te digo, John, talvez tenhas raz&atilde;o; mas Francisco I, rei de Fran&ccedil;a,<br \/>\n    n&atilde;o se p&oacute;de apear de uma tipoia e entrar n&#8217;uma sala, s&oacute;.<br \/>\n    Precisa c&ocirc;rte, arautos, cavalleiros, damas, bobos, poetas&#8230; Tudo isso<br \/>\n    &eacute; difficil.<br \/>\n    Ega curvou-se. Sim senhor, d&#8217;accordo! Alli estava uma maneira intelligente<br \/>\n    de comprehender o baile dos Cohens!<br \/>\n    &#8211; E tu, de que vaes? perguntou-lhe Affonso.<br \/>\n    Era um segredo. Tinha a theoria de que, n&#8217;aquellas festas, um dos encantos<br \/>\n    consistia na surpreza: dois sujeitos por exemplo que tendo jantado juntos,<br \/>\n    de jaquet&atilde;o, no Bragan&ccedil;a, se encontram &aacute; noite, um na<br \/>\n    purpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandido da Calabria&#8230;<br \/>\n    &#8211; Eu c&aacute; n&atilde;o fa&ccedil;o segredo, disse ruidosamente Damaso.<br \/>\n    Eu c&aacute; vou de selvagem.<br \/>\n    &#8211; N&uacute;?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o. De Nelusko na Africana. Oh sr. Affonso da Maia, que lhe parece?<br \/>\n    Acha chic?<br \/>\n    &#8211; Chic n&atilde;o exprime bem, disse Affonso sorrindo. Mas grandioso, &eacute;,<br \/>\n    decerto.<br \/>\n    Quizeram ent&atilde;o saber como &iacute;a Craft. Craft n&atilde;o &iacute;a<br \/>\n    de cousa nenhuma; Craft ficava nos Olivaes, de robe de chambre.<br \/>\n    Ega encolheu os hombros com tedio, quasi com colera. Aquellas indiferen&ccedil;as<br \/>\n    pelo baile dos Cohens feriam-n&#8217;o como injurias pessoaes. Elle estava dando<br \/>\n    a essa festa o seu tempo, estudos na bibliotheca, um trabalho fumegante de<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o; e pouco a pouco ella tomava aos seus olhos a importancia<br \/>\n    de uma celebra&ccedil;&atilde;o d&#8217;arte, provando o genio de uma cidade. Os<br \/>\n    &laquo;domin&oacute;s&raquo;, as absten&ccedil;&otilde;es, pareciam-lhe evidencias<br \/>\n    de inferioridade de espirito. Citou ent&atilde;o o exemplo do Gouvarinho:<br \/>\n    alli estava um homem de occupa&ccedil;&otilde;es, de posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    politica, nas vesperas de ser ministro, que n&atilde;o s&oacute; &iacute;a<br \/>\n    ao baile, mas estudara o seu costume: estudara, e &iacute;a muito bem, &iacute;a<br \/>\n    de marquez de Pombal!<br \/>\n    &#8211; Reclame para ser ministro, disse Carlos.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para ser ministro: tem voz sonora, leu Mauricio Block, est&aacute; encalacrado,<br \/>\n    e &eacute; um asno!&#8230;<br \/>\n    E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um cavalheiro<br \/>\n    que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:<br \/>\n    &#8211; Mas &eacute; muito bom rapaz, e n&atilde;o se d&aacute; ares nenhuns! &Eacute;<br \/>\n    um anjo!<br \/>\n    Affonso reprehendia-o, risonho e paternal:<br \/>\n    &#8211; Ora tu, John, que n&atilde;o respeitas nada&#8230;<br \/>\n    O desacato &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o do progresso, sr. Affonso da<br \/>\n    Maia. Quem respeita decahe. Come&ccedil;a-se por admirar o Gouvarinho, vae-se<br \/>\n    a gente esquecendo, chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata<br \/>\n    tem descido a venerar o Todo-Poderoso!&#8230; &Eacute; necessario cautela!<br \/>\n    &#8211; Vae-te embora, John, vae-te embora! Tu &eacute;s o proprio Anti-Christo&#8230;<br \/>\n    Ega &iacute;a responder, exhuberante e em veia &#8211; mas dentro o tinir argentino<br \/>\n    do relogio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emmudeceu-o.<br \/>\n    &#8211; O que? quatro horas!<br \/>\n    Ficou aterrado, verificou no seu proprio relogio, deu em redor rapidos, silenciosos<br \/>\n    apertos de m&atilde;o, desappareceu como um sopro.<br \/>\n    Todos de resto estavam pasmados de ser t&atilde;o tarde! E assim passara a<br \/>\n    hora de ir ao Lumiar v&ecirc;r as colxas antigas das senhoras Medeiros&#8230;<br \/>\n    &#8211; Quer voc&ecirc; ent&atilde;o meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos.<br \/>\n    &#8211; Seja: e &eacute; necessario dar a li&ccedil;&atilde;o ao Damaso&#8230;<br \/>\n    &#8211; &Eacute; verdade, a li&ccedil;&atilde;o&#8230; &#8211; murmurou Damaso sem enthusiasmo,<br \/>\n    com um sorriso murcho.<br \/>\n    A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos, com<br \/>\n    janellas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das arvores,<br \/>\n    uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era neccessario accender os quatro<br \/>\n    bicos de gaz. Damaso seguiu, atraz dos dois, com uma lentid&atilde;o de rez<br \/>\n    desconfiada.<br \/>\n    Aquellas li&ccedil;&otilde;es, que elle sollicitara por amor do chic, &iacute;am-se-lhe<br \/>\n    tornando odiosas. E n&#8217;essa tarde como sempre, apenas se enchuma&ccedil;ou<br \/>\n    com o plastr&atilde;o d&#8217;anta, se cobriu com a cara&ccedil;a de arame, come&ccedil;ou<br \/>\n    a transpirar, a fazer-se branco. Diante d&#8217;elle Craft de florete na m&atilde;o,<br \/>\n    parecia-lhe cruel e bestial, com aquelles seus hombros de Hercules sereno,<br \/>\n    o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Damaso estremeceu todo.<br \/>\n    &#8211; Firme, gritou-lhe Carlos.<br \/>\n    O desgra&ccedil;ado equilibrava-se sobre a perna roli&ccedil;a; o florete<br \/>\n    de Craft vibrou, rebrilhou, voou sobre elle; Damaso recuou, suffocado, cambaleando<br \/>\n    e com o bra&ccedil;o frouxo&#8230;<br \/>\n    &#8211; Firme! berrava-lhe Carlos.<br \/>\n    Damaso, exhausto, abaixou a arma.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o que querem voc&ecirc;s, &eacute; nervoso! &Eacute; por ser<br \/>\n    a brincar&#8230; Se fosse a valer, voc&ecirc;s veriam.<br \/>\n    Assim acabava sempre a li&ccedil;&atilde;o; e ficava depois abatido sobre<br \/>\n    uma banqueta de marroquim, arejando-se com o len&ccedil;o, pallido como a<br \/>\n    cal dos muros.<br \/>\n    &#8211; Vou-me at&eacute; casa, disse elle d&#8217;ahi a pouco, fatigado de tanto crusar<br \/>\n    de ferro. Queres alguma cousa, Carlinhos?<br \/>\n    &#8211; Quero que venhas c&aacute; jantar &aacute;manh&atilde;&#8230; Tens o marquez.<br \/>\n    &#8211; Chic a valer&#8230; N&atilde;o faltarei.<br \/>\n    Mas faltou. E, como toda essa semana aquelle mo&ccedil;o ponctual n&atilde;o<br \/>\n    appareceu no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo,<br \/>\n    foi uma manh&atilde; a casa d&#8217;elle, &aacute; Lapa. Mas ahi, o creado (um gallego<br \/>\n    achavascado e triste, que, desde as suas rela&ccedil;&otilde;es com os Maias,<br \/>\n    Damaso trazia entalado n&#8217;uma casaca e mortalmente aperreado em sapatos de<br \/>\n    verniz) affirmou-lhe que o sr. Damasosinho estava de boa saude, e at&eacute;<br \/>\n    sahira a cavallo. Carlos veiu ent&atilde;o ao tio Abrah&atilde;o; o tio Abrah&atilde;o<br \/>\n    tambem n&atilde;o avistara, havia dias, aquelle bom senhor Salcede, that beautiful<br \/>\n    gentleman! A curiosidade de Carlos levou-o ao Gremio: no Gremio nenhum creado<br \/>\n    vira ultimamente o sr. Salcede. &laquo;Est&aacute; por ahi de lua de mel com<br \/>\n    alguma bella andaluza&raquo; pensou Carlos.<br \/>\n    Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que se<br \/>\n    dirigia ao Aterro, a p&eacute;, seguido da sua vittoria a passo. Era a segunda<br \/>\n    vez que o diplomata fazia exercicio depois do seu desgra&ccedil;ado ataque<br \/>\n    de entranhas. Mas n&atilde;o tinha j&aacute; vestigios da doen&ccedil;a: vinha<br \/>\n    todo rosado e loiro, muito solido na sua sobrecasaca, e com uma bella rosa<br \/>\n    de ch&aacute; na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava &laquo;mais<br \/>\n    forrte&raquo;. E n&atilde;o lamentava os soffrimentos, porque elles lhe tinham<br \/>\n    dado o meio de apreciar as sympathias que gosava em Lisboa. Estava enternecido.<br \/>\n    Sobretudo o cuidado de S. M. &#8211; o augusto cuidado de S. M. &#8211; fizera-lhe melhor<br \/>\n    que &laquo;todos os drogues de botique&raquo;! Realmente nunca as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    entre esses dois paizes, t&atilde;o estreitamente alliados, Portugal e Filandia,<br \/>\n    tinham sido &laquo;m&agrave;s firmes, pur assi dizerre m&agrave;s intimes,<br \/>\n    que durrante seu ataque de intestinaes&raquo;!<br \/>\n    Depois, travando do bra&ccedil;o a Carlos, alludiu commovido ao offerecimento<br \/>\n    de Affonso da Maia, que pozera &aacute; sua disposi&ccedil;&atilde;o Sta.<br \/>\n    Olavia, para elle se restabelecer n&#8217;esses ares fortes e limpos do Douro. Oh<br \/>\n    esse convite tocara-o au plus profond de son coeur. Mas, infelizmente, Sta.<br \/>\n    Olavia era longe, t&atilde;o longe!&#8230; Tinha de se contentar com Cintra, d&#8217;onde<br \/>\n    podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Lega&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    C&#8217;&eacute;tait ennuyeux, mais&#8230; A Europa estava n&#8217;um d&#8217;esses momentos de<br \/>\n    crise, em que homens d&#8217;estado, diplomatas, n&atilde;o podiam affastar-se,<br \/>\n    gosar as menores ferias. Precisavam estar alli, na brecha, observando, informando&#8230;<br \/>\n    &#8211; C&#8217;est tr&egrave;s grave, murmurou elle, parando, com um pavor vago no olhar<br \/>\n    azulado&#8230; C&#8217;est excessivement grave!<br \/>\n    Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a parte<br \/>\n    uma confus&atilde;o, um gachis. Aqui a quest&atilde;o do Oriente; alem o socialismo;<br \/>\n    por cima o Papa, a complicar tudo&#8230; Oh, tr&egrave;s grave!<br \/>\n    &#8211; Tenez, la France, par exemple&#8230; D&#8217;abord Gambetta. Oh, je ne dis pas non,<br \/>\n    il est tr&egrave;s fort, il est excessivement fort&#8230; Mais&#8230; Voil&aacute;!<br \/>\n    C&#8217;est tr&egrave;s grave&#8230;<br \/>\n    Por outro lado os radicaes, les nouvelles couches&#8230; Era excessivamente grave&#8230;<br \/>\n    &#8211; Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous!<br \/>\n    Mas Carlos n&atilde;o escutava, nem sorria j&aacute;. Do fim do Aterro approximava-se,<br \/>\n    caminhando depressa, uma senhora &#8211; que elle reconheceu logo, por esse andar<br \/>\n    que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha c&ocirc;r de<br \/>\n    prata que lhe trotava junto &aacute;s saias, e por aquelle corpo maravilhoso,<br \/>\n    onde vibrava, sob linhas ricas de marmore antigo, uma gra&ccedil;a quente,<br \/>\n    ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, n&#8217;uma toilette de serge<br \/>\n    muito simples que era como o complemento natural da sua pessoa, collando-se<br \/>\n    bem sobre ella, dando-lhe, na sua correc&ccedil;&atilde;o, um ar casto e forte;<br \/>\n    trazia na m&atilde;o um guarda-sol inglez, apertado e fino como uma cana;<br \/>\n    e toda ella, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha, n&#8217;aquelle caes<br \/>\n    triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como o requinte raro<br \/>\n    de civilisa&ccedil;&otilde;es superiores. Nenhum v&eacute;o, n&#8217;essa tarde,<br \/>\n    lhe assombreava o rosto. Mas Carlos n&atilde;o poude detalhar-lhe as fei&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    apenas d&#8217;entre o esplendor eburneo da carna&ccedil;&atilde;o sentiu o negro<br \/>\n    profundo de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo<br \/>\n    para a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem v&ecirc;r nada, estava achando<br \/>\n    Bismarch assustador. &Aacute; maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior,<br \/>\n    mais bella: e aquella imagem falsa e litteraria de uma deusa marchando pela<br \/>\n    terra prendia-se-lhe &aacute; imagina&ccedil;&atilde;o. Steinbroken ficara<br \/>\n    aterrado com o discurso do Chanceller no Reichstag&#8230; Sim, era bem uma deusa.<br \/>\n    Sob o chap&eacute;o n&#8217;uma f&oacute;rma de tran&ccedil;a enrolada, apparecia<br \/>\n    o tom do seu cabello castanho, quasi louro &aacute; luz; a cadellinha trotava<br \/>\n    ao lado, com as orelhas direitas.<br \/>\n    &#8211; Evidentemente, disse Carlos, Bismarck &eacute; inquietador&#8230;<br \/>\n    Steinbroken por&eacute;m j&aacute; deixara Bismark. Steinbroken agora atacava<br \/>\n    lord Beaconsfield.<br \/>\n    &#8211; Il est tr&egrave;s fort&#8230; Oui, je vous l&#8217;accorde, il est excessivement<br \/>\n    fort&#8230; Mais voil&agrave;&#8230; O&ugrave; va-t-il?<br \/>\n    Carlos olhava para o caes de Sodr&eacute;. Mas tudo lhe parecia deserto. Steinbroken<br \/>\n    antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos negocios estrangeiros<br \/>\n    aquillo mesmo: lord Beaconsfield &eacute; muito forte, mas para onde vae elle?<br \/>\n    O que queria elle?&#8230; E s. ex.&ordf; tinha encolhido os hombros&#8230; S. ex.&ordf;<br \/>\n    n&atilde;o sabia&#8230;<br \/>\n    &#8211; Eh, oui! Beaconsfield est tr&egrave;s fort&#8230; Vous avez lu son speech chez<br \/>\n    le Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!&#8230; Mais voil&agrave;&#8230; O&ugrave;<br \/>\n    va-t-il?<br \/>\n    &#8211; Steinbroken, n&atilde;o me parece que seja prudente deixar-se estar aqui<br \/>\n    a arrefecer no Aterro&#8230;<br \/>\n    &#8211; Dev&eacute;rras? exclamou o diplomata, passando logo a m&atilde;o rapidamente<br \/>\n    pelo estomago e pelo ventre.<br \/>\n    E n&atilde;o se quiz demorar um instante mais! Como Carlos &iacute;a recolher<br \/>\n    tambem, offereceu-lhe um logar na vittoria at&eacute; ao Ramalhete.<br \/>\n    &#8211; Venha ent&atilde;o jantar comnosco, Steinbroken.<br \/>\n    &#8211; Charm&eacute;, mon cher, charm&eacute;&#8230;<br \/>\n    A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n&#8217;um grande<br \/>\n    plaid escossez:<br \/>\n    &#8211; P&ocirc;s, Maia, fezemos um bello pass&ecirc;o&#8230; Mas este At&ecirc;rro<br \/>\n    no &eacute; deverrtido.<br \/>\n    N&atilde;o era divertido o Aterro!&#8230; Carlos achara-o n&#8217;essa tarde o mais<br \/>\n    delicioso logar da terra!<br \/>\n    Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as arvores,<br \/>\n    viu-a logo. Mas n&atilde;o vinha s&oacute;; ao seu lado o marido, esticado,<br \/>\n    apurado n&#8217;uma jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de diamantes<br \/>\n    no setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e trazia a cadellinha<br \/>\n    debaixo do bra&ccedil;o. Ao passar, deu um olhar surprehendido a Carlos &#8211;<br \/>\n    como descobrindo emfim entre os barbaros um ser de linha civilisada, e disse-lhe<br \/>\n    algumas palavras baixo, a ella.<br \/>\n    Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas n&atilde;o<br \/>\n    lhe parecera t&atilde;o bella; trazia uma outra toilette menos simples, de<br \/>\n    dois tons, c&ocirc;r de chumbo e c&ocirc;r de creme, e no chap&eacute;o, d&#8217;abas<br \/>\n    grandes &aacute; ingleza, vermelhava alguma cousa, fl&ocirc;r ou penna. N&#8217;essa<br \/>\n    tarde n&atilde;o era a deusa descendo das nuvens d&#8217;ouro que se enrolavam alem<br \/>\n    sobre o mar; era uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel.<br \/>\n    Voltou ainda tres vezes ao Aterro, n&atilde;o a tornou a v&ecirc;r; e ent&atilde;o<br \/>\n    envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o trazia<br \/>\n    assim n&#8217;uma inquieta&ccedil;&atilde;o de rafeiro perdido, farejando o Aterro,<br \/>\n    da rampa de Santos ao caes de Sodr&eacute;, &aacute; espera de uns olhos negros<br \/>\n    e de uns cabellos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da Royal<br \/>\n    Mail levaria uma d&#8217;essas manh&atilde;s&#8230;<br \/>\n    E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a meza!<br \/>\n    E que todas as tardes, antes de sahir, se demorava ao espelho, estudando a<br \/>\n    gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza.<\/p>\n<p>\n    Ao fim d&#8217;essa semana, Carlos estava no consultorio, j&aacute; para sahir,<br \/>\n    cal&ccedil;ando as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou<br \/>\n    com alvoro&ccedil;o:<br \/>\n    &#8211; Uma senhora!<br \/>\n    Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de velludo<br \/>\n    preto &#8211; e atraz uma mulher, toda de negro, com um v&eacute;o justo e espesso<br \/>\n    como uma mascara.<br \/>\n    &#8211; Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr. Carlos<br \/>\n    da Maia ia sahir&#8230;<br \/>\n    Carlos reconheceu a Gouvarinho.<br \/>\n    &#8211; Oh senhora condessa!<br \/>\n    Desembara&ccedil;ou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um<br \/>\n    momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho; depois<br \/>\n    sentou-se &aacute; borda e de leve, com o pequeno junto de si.<br \/>\n    &#8211; Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o v&eacute;u, como fallando<br \/>\n    do fundo d&#8217;aquella toilette negra que a dissimulava. N&atilde;o o mandei chamar,<br \/>\n    por que realmente pouco &eacute;, e tinha hoje de passar por aqui&#8230; Al&eacute;m<br \/>\n    d&#8217;isso, o meu pequeno &eacute; muito nervoso; se v&ecirc; entrar o medico,<br \/>\n    parece-lhe que vae morrer. Assim &eacute; como uma visita que se faz&#8230; E<br \/>\n    n&atilde;o tens medo, n&atilde;o &eacute; verdade, Charlie?<br \/>\n    O pequeno n&atilde;o respondeu; de p&eacute;, quedo ao lado da mam&atilde;;<br \/>\n    mimoso e debil sob os caracoes d&#8217;anjo que lhe cahiam at&eacute; aos hombros,<br \/>\n    devorava Carlos com uns grandes olhos tristes.<br \/>\n    Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta:<br \/>\n    &#8211; Que tem elle?<br \/>\n    Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pesco&ccedil;o. Al&eacute;m d&#8217;isso,<br \/>\n    por traz da orelha, tinha como uma dureza de caro&ccedil;o. Aquillo inquietava-a.<br \/>\n    Ella era forte, de uma boa ra&ccedil;a, que dera athletas e velhos de grande<br \/>\n    edade. Mas na familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia<br \/>\n    hereditaria. O conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um achacado.<br \/>\n    E ella, receiando que a influencia debilitante de Lisboa n&atilde;o conviesse<br \/>\n    a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar algum tempo ao<br \/>\n    campo, em Formoselha, a casa da av&oacute;.<br \/>\n    Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os bra&ccedil;os a Charlie:<br \/>\n    &#8211; Ora venha c&aacute; o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico cabello<br \/>\n    elle tem, senhora condessa!&#8230;<br \/>\n    Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do medico<br \/>\n    de que fallara a mam&atilde; veio logo, desapertou delicadamente o seu grande<br \/>\n    collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pesco&ccedil;o macio<br \/>\n    e alvo como um lyrio.<br \/>\n    Carlos vio apenas uma pequena mancha c&ocirc;r de rosa desvanecendo-se; do<br \/>\n    &laquo;caro&ccedil;o&raquo; n&atilde;o havia vestigio; e ent&atilde;o uma<br \/>\n    ligeira vermelhid&atilde;o subiu-lhe ao rosto, procurou vivamente os olhos<br \/>\n    da condessa, como comprehendendo tudo, querendo v&ecirc;r n&#8217;elles a confiss&atilde;o<br \/>\n    do sentimento que a trouxera alli com um pretexto pueril, sob aquella toilette<br \/>\n    negra, aquelles v&eacute;us que a mascaravam&#8230;<br \/>\n    Mas ella permaneceu impenetravel, sentada &aacute; borda do divan, com as<br \/>\n    m&atilde;os crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n&#8217;um vago<br \/>\n    susto de m&atilde;e.<br \/>\n    Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o &eacute; absolutamente nada, minha senhora.<br \/>\n    No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de Charlie.<br \/>\n    A condessa, n&#8217;um tom pesaroso, queixou-se de que a educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da crean&ccedil;a n&atilde;o fosse, como ella desejava, mais forte e mais<br \/>\n    viril; mas o pae oppunha-se ao que elle chamava &laquo;a aberra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ingleza&raquo;, a agua fria, os exercicios a todo o ar, a gymnastica&#8230;<br \/>\n    &#8211; A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que merecem&#8230;<br \/>\n    &Eacute; o seu unico filho, senhora condessa?<br \/>\n    &#8211; &Eacute;, tem os mimos de morgado, disse ella passando a m&atilde;o pelos<br \/>\n    cabellos louros do pequeno. <br \/>\n    Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado, Charlie<br \/>\n    n&atilde;o devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar para os<br \/>\n    ares de Formoselha&#8230; Depois ficaram um momento callados.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando<br \/>\n    um geito ao veu. De mais a mais &eacute; um gosto vir consultal-o&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    ha aqui o menor ar de doen&ccedil;a, nem de remedios&#8230; E realmente tem isto<br \/>\n    muito bonito&#8230; &#8211; accrescentou, dando um olhar lento em redor aos velludos<br \/>\n    do gabinete.<br \/>\n    &#8211; Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. N&atilde;o inspira nenhum<br \/>\n    respeito pela minha sciencia&#8230; Eu estou com id&ecirc;as d&#8217;alterar tudo, p&ocirc;r<br \/>\n    aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas d&#8217;in-folios&#8230;<br \/>\n    &#8211; A cella de Fausto.<br \/>\n    &#8211; Justamente, a cella de Fausto.<br \/>\n    &#8211; Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que brilhou<br \/>\n    sob o v&eacute;o.<br \/>\n    &#8211; O que me falta &eacute; Margarida!<br \/>\n    A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros, como duvidando<br \/>\n    discretamente; depois tomou a m&atilde;o de Charlie, e deu um passo lento<br \/>\n    para a porta, puxando outra vez o v&eacute;o.<br \/>\n    &#8211; Como v. ex.&ordf; se interessa pela minha installa&ccedil;&atilde;o, acudiu<br \/>\n    Carlos querendo retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala.<br \/>\n    Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras, approvando<br \/>\n    a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o piano fel-a<br \/>\n    sorrir.<br \/>\n    &#8211; Os seus doentes dan&ccedil;am quadrilhas?<br \/>\n    &#8211; Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    bastante numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois<br \/>\n    para uma valsa&#8230; O piano est&aacute; simplesmente alli para dar id&ecirc;as<br \/>\n    alegres; &eacute; como uma promessa tacita de saude, de futuras soir&eacute;es,<br \/>\n    de bonitas arias do Trovador, em familia&#8230;<br \/>\n    &#8211; &Eacute; engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala,<br \/>\n    com Charlie collado aos vestidos.<br \/>\n    E Carlos, caminhando ao lado d&#8217;ella:<br \/>\n    &#8211; V. ex.&ordf; n&atilde;o imagina como eu sou engenhoso!<br \/>\n    &#8211; J&aacute; n&#8217;outro dia me disse&#8230; Como foi que disse? Ah! que era muito<br \/>\n    inventivo quando odiava.<br \/>\n    &#8211; Muito mais quando amo, disse elle rindo.<br \/>\n    Mas ella n&atilde;o respondeu: par&aacute;ra junto do piano, remexeu um momento<br \/>\n    as musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; um chocalho.<br \/>\n    &#8211; Oh, senhora condessa!<br \/>\n    Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer &#8211; um focinho<br \/>\n    de c&atilde;o de S. Bernardo, macisso e bonacheir&atilde;o, adormecido sobre<br \/>\n    as patas. Quasi ro&ccedil;ando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume<br \/>\n    de verbena que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons negros<br \/>\n    que a cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce &aacute; vista, e<br \/>\n    attrahindo como um setim.<br \/>\n    &#8211; Este &eacute; um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega<br \/>\n    que ha quadros lindos no Ramalhete&#8230; Fallou-me sobretudo d&#8217;um Greuze e d&#8217;um<br \/>\n    Rubens&#8230; &Eacute; pena que se n&atilde;o possam v&ecirc;r essas maravilhas.<br \/>\n    Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteir&otilde;es lhes impedisse,<br \/>\n    a elle e ao av&ocirc;, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma<br \/>\n    melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que se<br \/>\n    sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer a herva<br \/>\n    pelos tapetes.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o av&ocirc;<br \/>\n    a casar-se.<br \/>\n    A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do v&eacute;o.<br \/>\n    &#8211; Gosto da sua alegria, disse ella.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; uma quest&atilde;o de regimen. V. ex.&ordf; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    alegre?<br \/>\n    Ella encolheu os hombros, sem saber&#8230; Depois, batendo com a ponta do guarda-sol<br \/>\n    na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro, murmurou com os<br \/>\n    olhos baixos, deixando ir as palavras, n&#8217;um tom d&#8217;intimidade e de confidencia:<br \/>\n    &#8211; Dizem que n&atilde;o, que sou triste, que tenho spleen&#8230;<br \/>\n    O olhar de Carlos seguira o d&#8217;ella, pousara-se na botina de verniz que cal&ccedil;ava<br \/>\n    delicadamente um p&eacute; fino e comprido: Charlie, entretido, mexia nas<br \/>\n    teclas do piano &#8211; e elle baixou a voz para lhe dizer:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; que a senhora condessa tem um mau regimen. &Eacute; necessario<br \/>\n    tratar-se, voltar aqui, consultar-me&#8230; Tenho talvez muito que lhe dizer!<br \/>\n    Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d&#8217;onde se escapou<br \/>\n    um clar&atilde;o de ternura e de triumpho:<br \/>\n    &#8211; Venha-m&#8217;o antes dizer um d&#8217;estes dias, tomar ch&aacute; comigo, &aacute;s<br \/>\n    cinco horas&#8230; Charlie!<br \/>\n    O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do bra&ccedil;o.<br \/>\n    Carlos, acompanhando-a abaixo &aacute; rua, lamentava a fealdade da sua escada<br \/>\n    de pedra:<br \/>\n    &#8211; Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a dar-me<br \/>\n    a honra de me vir consultar&#8230;<br \/>\n    Ella gracejou, toda risonha:<br \/>\n    Ah n&atilde;o! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude&#8230; E naturalmente<br \/>\n    n&atilde;o espera que seja eu que venha c&aacute; tomar ch&aacute; comsigo&#8230;<br \/>\n    &#8211; Oh, minha senhora, eu quando come&ccedil;o a esperar, n&atilde;o ponho limites<br \/>\n    nenhuns &aacute;s minhas esperan&ccedil;as&#8230;<br \/>\n    Ella parou, com o pequeno pela m&atilde;o, olhou para elle, como pasmada,<br \/>\n    encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o vae por ahi al&eacute;m, por ahi al&eacute;m&#8230;?<br \/>\n    &#8211; Vou por ahi al&eacute;m, por ahi al&eacute;m, minha senhora!<br \/>\n    Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.<br \/>\n    &#8211; Mande-me chegar um coup&eacute;.<br \/>\n    Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lan&ccedil;ou logo a tipoia.<br \/>\n    &#8211; E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir &aacute; egreja da Gra&ccedil;a.<br \/>\n    &#8211; A senhora condessa vai beijar o p&eacute; do Senhor dos Passos?<br \/>\n    Ella corou de leve, murmurou:<br \/>\n    &#8211; Ando fazendo as minhas devo&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    Depois saltou ligeiramente para o coup&eacute; &#8211; deixando Charlie, que Carlos<br \/>\n    ergueu nos bra&ccedil;os e lhe collocou ao lado, paternalmente.<br \/>\n    &#8211; Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa!<br \/>\n    Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabe&ccedil;a &#8211; ambos t&atilde;o<br \/>\n    doces como caricias.<br \/>\n    Carlos subio: e, sem tirar o chap&eacute;o, ficou ainda enrolando uma cigarrette,<br \/>\n    passeando n&#8217;aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde ella deixara agora<br \/>\n    alguma cousa do seu calor e do seu aroma&#8230;<br \/>\n    Realmente gostava d&#8217;aquella audacia d&#8217;ella &#8211; ter vindo assim ao consultorio,<br \/>\n    toda escondida, quasi mascarada n&#8217;uma grande toilette negra, inventando um<br \/>\n    caro&ccedil;o no pescocinho s&atilde;o de Charlie, para o v&ecirc;r, para<br \/>\n    dar um n&oacute; brusco e mais apertado n&#8217;aquelle leve fio de rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que elle t&atilde;o negligentemente deixara cahir e quebrar&#8230;<br \/>\n    O Ega d&#8217;esta vez n&atilde;o phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se,<br \/>\n    t&atilde;o claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos<br \/>\n    errantes e faceis &#8211; que bella fl&ocirc;r a colher, a respirar, a deitar f&oacute;ra<br \/>\n    depois! Mas n&atilde;o: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se<br \/>\n    tinha divertido. E o que elle n&atilde;o queria era achar-se envolvido n&#8217;uma<br \/>\n    paix&atilde;o ciosa, uma d&#8217;essas ternuras tumultuosas de mulher de trinta<br \/>\n    annos, de que depois se desembara&ccedil;aria difficilmente&#8230; Nos bra&ccedil;os<br \/>\n    d&#8217;ella o seu cora&ccedil;&atilde;o ficaria mudo: e apenas esgotada a primeira<br \/>\n    curiosidade, come&ccedil;aria o tedio dos beijos que se n&atilde;o desejam,<br \/>\n    a horrivel massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa,<br \/>\n    receber pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa distillando<br \/>\n    doutrina&#8230; Tudo isto o assustava&#8230; E, todavia, gostara d&#8217;aquella audacia!<br \/>\n    Havia ali uma pontinha de romantismo, muito irregular, e picante&#8230; E devia<br \/>\n    ser deliciosamente bem feita&#8230; A sua imagina&ccedil;&atilde;o despia-a, enrolava-se-lhe<br \/>\n    no setim das f&oacute;rmas onde sentia ao mesmo tempo alguma cousa de maduro<br \/>\n    e de virginal&#8230; E outra vez, como nas primeiras noites que os vira em S.<br \/>\n    Carlos, aquelles cabellos tentavam-n&#8217;o, assim avermelhados, t&atilde;o crespos<br \/>\n    e quentes&#8230;<br \/>\n    Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou o<br \/>\n    Damaso, n&#8217;um coup&eacute; lan&ccedil;ado a grande trote, que o chamava, mandava<br \/>\n    parar, com a face &aacute; portinhola, vermelho e radiante:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o tenho podido l&aacute; ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da<br \/>\n    m&atilde;o, apenas Carlos se approximou, e apertando-lh&#8217;a com enthusiasmo.<br \/>\n    Tenho andado n&#8217;um turbilh&atilde;o!&#8230; Eu te contarei! Um romance divino&#8230;<br \/>\n    Mas eu te contarei!&#8230; Tem cuidado com a roda! Bate l&aacute;, &oacute; Cal&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    A parelha abalou; elle ainda se debru&ccedil;ou da portinhola, agitou a m&atilde;o,<br \/>\n    gritou no rumor da rua:<br \/>\n    &#8211; Um romance divino, chic a valer!<br \/>\n    Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que acabava<br \/>\n    de &laquo;bater&raquo; o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo<br \/>\n    o cachimbo:<br \/>\n    &#8211; E noticias do nosso Damaso? J&aacute; se esclareceu esse lamentavel desapparecimento?&#8230;<br \/>\n    Carlos ent&atilde;o contou como o encontr&aacute;ra, afogueado e triumphante,<br \/>\n    atirando-lhe da portinhola do coup&eacute;, em plena rua Nova do Almada, a<br \/>\n    noticia de um romance divino!<br \/>\n    &#8211; Bem sei, disse o Taveira.<br \/>\n    &#8211; Como sabes?&#8230; exclamou Carlos.<br \/>\n    Taveira vira-o na vespera, n&#8217;um grande landeau da Companhia, com uma esplendida<br \/>\n    mulher, muito elegante e que parecia estrangeira&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza?<br \/>\n    &#8211; Exactamente, uma cadelinha escoceza, um griffon c&ocirc;r de prata&#8230; Quem<br \/>\n    s&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado?<br \/>\n    &#8211; Justamente&#8230; Muito correcto, um ar sport&#8230; Que gente &eacute;?<br \/>\n    &#8211; Uma gente brazileira, penso eu.<br \/>\n    Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia apenas<br \/>\n    duas semanas que no terra&ccedil;o o Damaso, de punhos fechados, bramara contra<br \/>\n    os Castro Gomes e as suas &laquo;desconsidera&ccedil;&otilde;es&raquo;! Ia<br \/>\n    pedir outros pormenores ao Taveira &#8211; mas o marquez ergueu a voz do fundo da<br \/>\n    poltrona onde se estir&aacute;ra, e quiz saber a opini&atilde;o de Carlos<br \/>\n    sobre o grande acontecimento d&#8217;essa manh&atilde; na Gazeta Illustrada. &#8211; Na<br \/>\n    Gazeta Illustrada?&#8230; Carlos n&atilde;o sabia, essa manh&atilde; n&atilde;o<br \/>\n    vira jornal nenhum.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o n&atilde;o lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza!<br \/>\n    C&aacute; ha a Gazeta? Manda buscar a Gazeta!<br \/>\n    Taveira puxou o cord&atilde;o da campanhia; &#8211; e quando o escudeiro trouxe<br \/>\n    a Gazeta, elle apoderou-se d&#8217;ella, quiz fazer uma leitura solemne.<br \/>\n    &#8211; Deixa-lhe v&ecirc;r primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se.<br \/>\n    &#8211; Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal atraz<br \/>\n    das costas.<br \/>\n    Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como um sudario<br \/>\n    desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen&#8230; E a prosa que se<br \/>\n    alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas retintas, era um<br \/>\n    trabalho de seis columnas, em estylo emplumado e cantante, celebrando at&eacute;<br \/>\n    aos c&eacute;us as virtudes domesticas do Cohen, o genio financeiro do Cohen,<br \/>\n    os ditos d&#8217;espirito do Cohen, a mobilia das salas do Cohen; havia ainda um<br \/>\n    paragrapho alludindo &aacute; festa proxima, ao grande sarau de mascaras do<br \/>\n    Cohen. E tudo isto vinha assignado &#8211; J. da E. &#8211; as iniciaes de Jo&atilde;o<br \/>\n    da Ega!<br \/>\n    &#8211; Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do bilhar.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; mais que tolice, observou Craft; &eacute; uma falta de senso moral.<br \/>\n    O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de velhaco!&#8230;<br \/>\n    E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso moral?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc;, Craft, n&atilde;o conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito<br \/>\n    natural. &Eacute; intimo da casa, celebra os donos. &Eacute; admirador da<br \/>\n    mulher, lisongea o marido. Est&aacute; na logica c&aacute; da terra&#8230; Voc&ecirc;<br \/>\n    ver&aacute; que successo isto vae ter&#8230; E l&aacute; que o artigo est&aacute;<br \/>\n    lindo, isso est&aacute;!<br \/>\n    Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir c&ocirc;r de<br \/>\n    rosa de madame Cohen: &laquo;respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de<br \/>\n    perfumado, intimo e casto, como se todo aquelle c&ocirc;r de rosa exhalasse<br \/>\n    de si o aroma que a rosa tem&raquo;!<br \/>\n    &#8211; Isto, caramba, &eacute; lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito<br \/>\n    talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Nada d&#8217;isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que seja<br \/>\n    uma extraordinaria falta de senso moral.<br \/>\n    &#8211; Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto d&#8217;um<br \/>\n    soph&aacute;, para deixar cahir &aacute;s syllabas esta pesada opini&atilde;o.<br \/>\n    O marquez investiu com elle.<br \/>\n    &#8211; Que entende voc&ecirc; d&#8217;isso, seu maestro? O artigo &eacute; sublime! E<br \/>\n    saiba mais: &eacute; de finorio!<br \/>\n    O maestro, com pregui&ccedil;a de argumentar, foi-se enroscar em silencio<br \/>\n    ao outro canto do soph&aacute;.<br \/>\n    E ent&atilde;o o marquez, de p&eacute; e bracejando, appellou para Carlos,<br \/>\n    e quiz saber o que &eacute; que Craft em principio entendia por senso moral.<br \/>\n    Carlos, que dava pela sala passos impacientes, n&atilde;o respondeu, tomou<br \/>\n    o bra&ccedil;o do Taveira, levou-o para o corredor.<br \/>\n    &#8211; Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que lado<br \/>\n    iam?<br \/>\n    &#8211; Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, &aacute;s duas horas&#8230; Estou convencido<br \/>\n    que iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada n&#8217;um<br \/>\n    coup&eacute; com uma mala maior&#8230; Aquillo cheirava a ida a Cintra. E a mulher<br \/>\n    &eacute; divina! Que toilette, que ar, que chic!.. &Eacute; uma Venus, menino!&#8230;<br \/>\n    Como conheceria elle aquillo?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Em Bordeus, n&#8217;um paquete, n&atilde;o sei onde!<br \/>\n    &#8211; Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia dando por aquelle Chiado! Cumprimento<br \/>\n    para a direita, cumprimento para a esquerda&#8230; A debru&ccedil;ar-se, a fallar<br \/>\n    muito baixo para a mulher, com olho terno, alardeando conquista&#8230;<br \/>\n    &#8211; Que besta! exclamou Carlos, batendo com o p&eacute; no tapete.<br \/>\n    &#8211; Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher civilisada<br \/>\n    e decente, e &eacute; elle que a conhece, e &eacute; elle que vae com ella<br \/>\n    para Cintra! Chama-lhe besta!&#8230; Anda d&#8217;ahi, vamos &aacute; partidinha de<br \/>\n    domin&oacute;.<br \/>\n    Taveira ultimamente introduzira o domin&oacute; no Ramalhete &#8211; e havia agora<br \/>\n    alli, &aacute;s vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apparecia o marquez.<br \/>\n    Porque a paix&atilde;o do Taveira era bater o marquez.<br \/>\n    Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar, de desenrolar o arrazoado<br \/>\n    com que estava acabrunhando o Craft &#8211; que do fundo da poltrona, de cachimbo<br \/>\n    na m&atilde;o e com um ar de somno, respondia por monossyllabos. Era ainda<br \/>\n    a proposito do artigo do Ega, da defini&ccedil;&atilde;o de senso moral. J&aacute;<br \/>\n    tinha fallado de Deus, de Garibaldi, at&eacute; do seu famoso perdigueiro<br \/>\n    Finorio; e agora definia a Consciencia&#8230;. Segundo elle, era o medo da policia.<br \/>\n    Tinha o amigo Craft visto j&aacute; alguem com remorsos? N&atilde;o, a n&atilde;o<br \/>\n    ser no theatro da Rua dos Condes, em dramalh&otilde;es&#8230;<br \/>\n    &#8211; Acredite voc&ecirc; uma cousa, Craft &#8211; terminou elle por dizer, cedendo<br \/>\n    ao Taveira que o puchava para a meza &#8211; isto de consciencia &eacute; uma quest&atilde;o<br \/>\n    de educa&ccedil;&atilde;o. Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em silencio<br \/>\n    por ter trahido um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a n&atilde;o<br \/>\n    metter os dedos no nariz. Quest&atilde;o d&#8217;educa&ccedil;&atilde;o&#8230; No resto<br \/>\n    da gente &eacute; apenas medo da cadeia, ou da bengala&#8230; Ah! voc&ecirc;s<br \/>\n    querem levar outra sova ao domin&oacute; como a de sabbado passado? Perfeitamente,<br \/>\n    sou todo vosso&#8230;<br \/>\n    Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega, approximou-se<br \/>\n    tambem da meza. E estavam sentados, remexiam as pedras &#8211; quando &aacute; porta<br \/>\n    da sala appareceu o conde de Steinbroken, de casaca e crach&aacute;, gran-cruz<br \/>\n    sobre o colete branco, loiro como uma espiga, esticado e resplandecente. Tinha<br \/>\n    jantado no Pa&ccedil;o, e vinha acabar no Ramalhete a sua soir&eacute;e, em<br \/>\n    familia&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o o marquez que o n&atilde;o via desde o famoso ataque de intestinos,<br \/>\n    abandonou o domin&oacute;, correu a abra&ccedil;al-o ruidosamente &#8211; e sem<br \/>\n    o deixar sequer sentar, nem estender a m&atilde;o aos outros, implorou-lhe<br \/>\n    logo uma das suas bellas can&ccedil;&otilde;es filandezas, uma s&oacute;,<br \/>\n    d&#8217;aquellas que lhe faziam t&atilde;o bem &aacute; alma!&#8230;<br \/>\n    &#8211; S&oacute; a Ballada, Steinbroken&#8230; Eu tambem n&atilde;o me posso demorar,<br \/>\n    que tenho aqui a partida &aacute; espera. S&oacute; a Ballada!&#8230; V&aacute;,<br \/>\n    salta l&aacute; para dentro para o piano, Cruges&#8230;<br \/>\n    O diplomata sorria, dizia-se can&ccedil;ado, tendo j&aacute; feito musica<br \/>\n    deliciosa no Pa&ccedil;o com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir &aacute;quelle<br \/>\n    modo folgaz&atilde;o do marquez &#8211; e l&aacute; foram para a sala do piano,<br \/>\n    de bra&ccedil;o dado, seguidos pelo Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se<br \/>\n    do canto do soph&aacute;. E d&#8217;ahi a um momento, atravez dos resposteiros meio<br \/>\n    corridos, a bella voz de barytono do diplomata espalhava pelas salas, entre<br \/>\n    os suspiros do piano, a emballadora melancolia da Ballada, com a sua lettra<br \/>\n    traduzida em francez, que o marquez adorava, e em que se fallava das nevoas<br \/>\n    tristes do Norte, de lagos frios e de fadas loiras&#8230;<br \/>\n    Taveira e Carlos, no entanto, tinham come&ccedil;ado uma grande partida de<br \/>\n    domin&oacute;, a tost&atilde;o o ponto. Mas Carlos n&#8217;essa noite n&atilde;o<br \/>\n    se interessava, jogando distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes<br \/>\n    da Ballada: depois, quando j&aacute; Taveira tinha s&oacute; uma pedra diante<br \/>\n    de si, e elle estava comprando interminavelmente as que restavam, voltou-se<br \/>\n    para o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Cintra,<br \/>\n    estava aberto todo o anno&#8230;<br \/>\n    &#8211; A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente. Anda,<br \/>\n    joga!<br \/>\n    Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra.<br \/>\n    &#8211; Domin&oacute;! gritou Taveira.<br \/>\n    E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos que<br \/>\n    Carlos perdia.<br \/>\n    Justamente o marquez entrava, e a victoria de Taveira indignou-o.<br \/>\n    &#8211; Agora n&oacute;s, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos,<br \/>\n    deixe-me voc&ecirc; dar aqui uma sova n&#8217;este ladr&atilde;o. Depois jogamos<br \/>\n    de tres&#8230; Como queres tu isto, Taveirete? A dous tost&otilde;es o ponto?<br \/>\n    Ah, queres s&oacute; a tost&atilde;o&#8230; Muito bem, eu te ensinarei. Anda,<br \/>\n    desembara&ccedil;a-te j&aacute; d&#8217;esse d&ocirc;ble-seis, miseravel&#8230;<br \/>\n    Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette apagada nos<br \/>\n    dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma decis&atilde;o,<br \/>\n    atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken f&ocirc;ra ao<br \/>\n    escriptorio v&ecirc;r Affonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges s&oacute;,<br \/>\n    entre as duas v&eacute;las do piano, com os olhos errantes pelo tecto, improvisava<br \/>\n    para si, melancolicamente.<br \/>\n    &#8211; Dize c&aacute;, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir &aacute;manh&atilde;<br \/>\n    a Cintra?<br \/>\n    O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado. Carlos nem o deixou<br \/>\n    falar.<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; claro que queres, n&atilde;o te faz sen&atilde;o bem vir a Cintra&#8230;<br \/>\n    &Aacute;manh&atilde; l&aacute; estou &aacute; porta, com o break.<br \/>\n    Mette sempre uma camisa n&#8217;uma maleta, que talvez passemos l&aacute; a noite&#8230;<br \/>\n    &Aacute;s oito em ponto, hein?&#8230; E n&atilde;o digas nada l&aacute; dentro.<br \/>\n    Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de domin&oacute;. Agora<br \/>\n    havia um largo silencio. O marquez e Taveira moviam lentamente as pedras,<br \/>\n    sem uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano verde do bilhar<br \/>\n    as bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que cahia dos abat-jours de porcelana.<br \/>\n    Um som de piano, dolente e vago, passava por vezes. E Craft, com o bra&ccedil;o<br \/>\n    descahido ao longo da poltrona, dormitava, beatificamente.<\/p>\n<h2><a name=\"8\">Cap&iacute;tulo VIII<\/a><\/h2>\n<p>Na manh&atilde; seguinte, &aacute;s oito horas pontualmente, Carlos parava<br \/>\n    o break na rua das Flores, diante do conhecido port&atilde;o da casa do Cruges.<br \/>\n    Mas o trintanario, que elle mandara acima bater &aacute; campainha do terceiro<br \/>\n    andar, desceu com a estranha nova de que o Sr. Cruges j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    morava ali. Onde diabo morava ent&atilde;o o sr. Cruges? A criada dissera<br \/>\n    que o Sr. Cruges vivia agora na rua de S. Francisco, quatro portas adiante<br \/>\n    do Gremio. Durante um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir s&oacute;<br \/>\n    para Cintra. Depois l&aacute; largou para a rua de S. Francisco, amaldi&ccedil;oando<br \/>\n    o maestro, que mudara de casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!&#8230;<br \/>\n    E era em tudo assim. Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das<br \/>\n    suas affei&ccedil;&otilde;es, dos seus habitos. O marquez uma noite levara-o<br \/>\n    ao Ramalhete, dizendo ao ouvido de Carlos que estava alli um genio. Elle encantara<br \/>\n    logo todo o mundo pela modestia das suas maneiras e a sua arte maravilhosa<br \/>\n    ao piano: e todo o mundo no Ramalhete come&ccedil;ou a tratar Cruges por maestro,<br \/>\n    a fallar tambem do Cruges como de um genio, a declarar que Choppin nunca fizera<br \/>\n    obra egual &aacute; Medita&ccedil;&atilde;o de Outono do Cruges. E ninguem<br \/>\n    sabia mais nada. F&ocirc;ra pelo Damaso que Carlos conhecera a casa do Cruges<br \/>\n    e soubera que elle vivia l&aacute; com a m&atilde;e, uma senhora viuva, ainda<br \/>\n    fresca, e dona de predios na Baixa.<br \/>\n    Ao port&atilde;o da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto<br \/>\n    de hora. Primeiro appareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em<br \/>\n    cabello, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos degraus<br \/>\n    acima. Depois veiu um creado em mangas de camisa trazer a maleta do senhor<br \/>\n    e um chaile-manta. Emfim, o maestro desceu, a correr, quasi aos trambulh&otilde;es,<br \/>\n    com um cache-nez de seda na m&atilde;o, o guarda-chuva debaixo do bra&ccedil;o,<br \/>\n    abotoando atarantadamente o paletot.<br \/>\n    Quando vinha pulando os ultimos degraus, uma voz esgani&ccedil;ada de mulher<br \/>\n    gritou-lhe de cima:<br \/>\n    &#8211; Olha n&atilde;o te esque&ccedil;am as queijadas!<br \/>\n    E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos, rosnando<br \/>\n    que, com a preoccupa&ccedil;&atilde;o de se levantar t&atilde;o cedo, tivera<br \/>\n    uma insomnia abominavel&#8230;<br \/>\n    &#8211; Mas que diabo de id&eacute;a &eacute; essa de mudar de casa, sem avisar<br \/>\n    a gente, homem? &#8211; exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado<br \/>\n    do plaid que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; que esta casa tambem &eacute; nossa, disse simplesmente Cruges.<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; claro, ahi est&aacute; uma raz&atilde;o! murmurou Carlos rindo<br \/>\n    e encolhendo os hombros.<br \/>\n    Partiram.<br \/>\n    Era uma manh&atilde; muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com<br \/>\n    um lindo sol que n&atilde;o aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas,<br \/>\n    barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as saloias<br \/>\n    ainda andavam pelas portas com os seus ceir&otilde;es d&#8217;hortali&ccedil;as:<br \/>\n    varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio morria a distancia um<br \/>\n    toque fino de missa.<br \/>\n    Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas, estendeu<br \/>\n    um olhar &aacute; esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob o faiscar<br \/>\n    de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas libr&eacute;s, a todo<br \/>\n    aquelle luxo correcto e rolando em cadencia &#8211; onde fazia mancha o seu paletot:<br \/>\n    mas o que o impressionou foi o aspecto resplandecente de Carlos, o olhar acceso,<br \/>\n    as bellas c&ocirc;res, o bello riso, o quer que fosse de vibrante e de luminoso,<br \/>\n    que, sob o seu simples veston de xadrezinho castanho, n&#8217;aquella almofada burgueza<br \/>\n    de break, lhe dava um arranque<br \/>\n    de heroe jovial, lan&ccedil;ando o seu carro de guerra&#8230; Cruges farejou uma<br \/>\n    aventura, soltou logo a pergunta que desde a vespera lhe ficara nos labios.<br \/>\n    &#8211; Com franqueza, aqui para n&oacute;s, que id&eacute;a foi esta de ir a Cintra?<br \/>\n    Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de Mozart,<br \/>\n    e pelas fugas de Bach? Pois bem, a id&eacute;a era vir a Cintra, respirar<br \/>\n    o ar de Cintra, passar o dia em Cintra&#8230; Mas, pelo amor de Deus, que o n&atilde;o<br \/>\n    revelasse a ninguem!<br \/>\n    E accrescentou, rindo:<br \/>\n    &#8211; Deixa-te levar, que n&atilde;o te has de arrepender&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o, Cruges n&atilde;o se arrependia. At&eacute; achava delicioso o<br \/>\n    passeio, gostara sempre muito de Cintra&#8230; Todavia n&atilde;o se lembrava<br \/>\n    bem, tinha apenas uma vaga id&eacute;a de grandes rochas e de nascentes d&#8217;aguas<br \/>\n    vivas&#8230; E terminou por confessar que desde os nove annos n&atilde;o voltara<br \/>\n    a Cintra.<br \/>\n    O que! o maestro n&atilde;o conhecia Cintra?&#8230; Ent&atilde;o era necessario<br \/>\n    ficarem l&aacute;, fazer as peregrina&ccedil;&otilde;es classicas, subir &aacute;<br \/>\n    Pena, ir beber agua &aacute; Fonte dos Amores, barquejar na varzea&#8230;<br \/>\n    &#8211; A mim o que me est&aacute; a appetecer muito &eacute; Sitiaes; e a manteiga<br \/>\n    fresca.<br \/>\n    &#8211; Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros&#8230; Emfim, uma<br \/>\n    ecloga!<br \/>\n    O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de quintas,<br \/>\n    casar&otilde;es tristonhos de vidra&ccedil;as quebradas, vendas com o seu<br \/>\n    masso de cigarros &aacute; porta dependurado de uma guita: e a menor arvore,<br \/>\n    qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de collina verde,<br \/>\n    encantavam Cruges. Ha que tempos elle n&atilde;o via o campo!<br \/>\n    Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembara&ccedil;ou-se do seu grande<br \/>\n    cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletot &#8211; e declarou-se morto de fome.<br \/>\n    <br \/>\n    Felizmente estavam chegando &aacute; Porcalhota.<br \/>\n    O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado, &#8211; mas, como era cedo<br \/>\n    para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma bella pratada<br \/>\n    de ovos com chouri&ccedil;o. Era uma cousa que n&atilde;o provava havia annos,<br \/>\n    e que lhe daria a sensa&ccedil;&atilde;o de estar na ald&ecirc;a&#8230; Quando<br \/>\n    o patr&atilde;o, com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre<br \/>\n    a meza sem toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as m&atilde;os,<br \/>\n    achando aquillo deliciosamente campestre.<br \/>\n    &#8211; A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle, puxando para o prato uma<br \/>\n    montanha de ovo e chouri&ccedil;o. Tu n&atilde;o tomas nada?&#8230;<br \/>\n    Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena de caf&eacute;.<br \/>\n    D&#8217;ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a bocca cheia:<br \/>\n    &#8211; O Rheno tambem deve ser magnifico!<br \/>\n    Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora alli o Rheno?&#8230; &Eacute;<br \/>\n    que o maestro, desde que sahira as portas, estava cheio de id&eacute;as de<br \/>\n    viagens e de paisagens; queria v&ecirc;r as grandes montanhas onde ha neve,<br \/>\n    os rios de que se falla na Historia. O seu ideal seria ir &aacute; Allemanha,<br \/>\n    percorrer a p&eacute;, com uma mochilla, aquella patria sagrada dos seus deuses,<br \/>\n    de Beethoven, de Mozart, de Wagner&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o te appetecia mais ir &aacute; Italia? perguntou Carlos accendendo<br \/>\n    o charuto.<br \/>\n    O maestro esbo&ccedil;ou um gesto de desdem, teve uma das suas phrases sybillinas:<br \/>\n    &#8211; Tudo contradan&ccedil;as!&#8230;<br \/>\n    Carlos ent&atilde;o fallou de um certo plano de ir &aacute; Italia, com o<br \/>\n    Ega, no inverno. Ir &aacute; Italia, para o Ega, era uma hygiene intellectual:<br \/>\n    precisava calmar aquella imagina&ccedil;&atilde;o tumultuosa de nervoso peninsular<br \/>\n    entre a placida magestade dos marmores&#8230;<br \/>\n    &#8211; O que elle precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges.<br \/>\n    E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo da Gazeta. Achava aquillo,<br \/>\n    como elle dissera, pura e simplesmente insensato, e de uma sabujice indecorosa.<br \/>\n    E o que o affligia &eacute; que o Ega, com aquelle talento, aquella verve<br \/>\n    fumegante, n&atilde;o fizesse nada&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ninguem faz nada, disse Carlos espregui&ccedil;ando-se. Tu, por exemplo,<br \/>\n    que fazes?<br \/>\n    Cruges, depois de um sil&eacute;ncio, rosnou encolhendo os hombros:<br \/>\n    &#8211; Se eu fizesse uma boa opera, quem &eacute; que m&#8217;a representava?<br \/>\n    &#8211; E se o Ega fizesse um bello livro, quem &eacute; que lh&#8217;o lia?<br \/>\n    O maestro terminou por dizer:<br \/>\n    &#8211; Isto &eacute; um paiz impossivel&#8230; Parece-me que tambem vou tomar caf&eacute;.<br \/>\n    Os cavallos tinham descan&ccedil;ado, Cruges pagou a conta, partiram. D&#8217;ahi<br \/>\n    a pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindavel. D&#8217;ambos os lados,<br \/>\n    a perder de vista, era um ch&atilde;o escuro e triste; e por cima um azul<br \/>\n    sem fim, que n&#8217;aquella solid&atilde;o parecia triste tambem. O trote compassado<br \/>\n    dos cavallos batia monotonamente a estrada. N&atilde;o havia um rumor: por<br \/>\n    vezes um passaro cortava o ar, n&#8217;um v&ocirc;o brusco, fugindo do ermo agreste.<br \/>\n    Dentro do break um dos criados dormia; Cruges, pesado dos ovos com chouri&ccedil;o,<br \/>\n    olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas dos cavallos.<br \/>\n    Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Cintra. E realmente n&atilde;o<br \/>\n    sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que elle n&atilde;o avistava<br \/>\n    certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que n&atilde;o<br \/>\n    encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus: agora<br \/>\n    suppunha que ella estava em Cintra, corria a Cintra. N&atilde;o esperava nada,<br \/>\n    n&atilde;o desejava nada. N&atilde;o sabia se a veria, talvez ella tivesse<br \/>\n    j&aacute; partido. Mas vinha: e era j&aacute; delicioso o pensar n&#8217;ella assim<br \/>\n    por aquella estrada f&oacute;ra, penetrar, com essa do&ccedil;ura no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sob as<br \/>\n    bellas arvores de Cintra&#8230; Depois, era possivel que d&#8217;ahi a pouco, na velha<br \/>\n    Lawrence, elle a cruzasse de repente no corredor, ro&ccedil;asse talvez o<br \/>\n    seu vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ella l&aacute; estivesse, decerto<br \/>\n    viria jantar &aacute; sala, aquella sala que elle conhecia t&atilde;o bem,<br \/>\n    que j&aacute; lhe estava appetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas<br \/>\n    de cassa, os ramos toscos sobre a meza, e os dois grandes candieiros de lat&atilde;o<br \/>\n    antigo&#8230; Ella entraria alli, com o seu bello ar claro de Diana loira; o bom<br \/>\n    Damaso, apresentaria o seu amigo Maia; aquelles olhos negros que elle vira<br \/>\n    passar de longe como duas estrellas, pousariam mais de vagar nos seus; e,<br \/>\n    muito simplesmente, &aacute; ingleza, ella estender-lhe-hia a m&atilde;o&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ora at&eacute; que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de allivio<br \/>\n    e respirando melhor.<br \/>\n    Chegavam &aacute;s primeiras casas de Cintra, havia j&aacute; verduras na<br \/>\n    estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.<br \/>\n    E a passo, o break foi penetrando sob as arvores do Ramalh&atilde;o. Com a<br \/>\n    paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e emballadora<br \/>\n    sussurra&ccedil;&atilde;o de ramagens, e como o diffuso e vago murmurio de<br \/>\n    agoas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: atravez da<br \/>\n    folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e avelludado circulava,<br \/>\n    rescendendo &aacute;s verduras novas; aqui e al&eacute;m, nos ramos mais sombrios,<br \/>\n    passaros chilreavam de leve; e n&#8217;aquelle simples bocado de estrada, todo salpicado<br \/>\n    de manchas do sol, sentia-se j&aacute;, sem se v&ecirc;r, a religiosa solemnidade<br \/>\n    dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza<br \/>\n    que cae das penedias e o repouso fidalgo das quintas de ver&atilde;o&#8230; Cruges<br \/>\n    respirava largamente, voluptuosamente.<br \/>\n    &#8211; A Lawrence onde &eacute;? Na serra? &#8211; perguntou elle com a id&eacute;a repentina<br \/>\n    de ficar alli um mez n&#8217;aquelle paraiso.<br \/>\n    &#8211; N&oacute;s n&atilde;o vamos para a Lawrence, disse Carlos sahindo bruscamente<br \/>\n    do seu silencio, e espertando os cavallos. Vamos para o Nunes, estamos l&aacute;<br \/>\n    muito melhor!<br \/>\n    Era uma id&eacute;a que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras<br \/>\n    casas de S. Pedro, e o break come&ccedil;ara a rolar n&#8217;aquellas estradas onde<br \/>\n    a cada momento elle a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se misturava<br \/>\n    um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto, seguindo-a assim<br \/>\n    a Cintra, ainda que ella o n&atilde;o reconhecesse, indo installar-se sob<br \/>\n    as mesmas telhas, apoderando-se de um logar &aacute; mesma meza&#8230; E ao mesmo<br \/>\n    tempo repugnou-lhe a id&eacute;a de lhe ser apresentado pelo Damaso: via-o<br \/>\n    j&aacute;, bochechudo e vestido de campo, a esbo&ccedil;ar um gesto de ceremonia,<br \/>\n    a mostrar o seu amigo Maia, a tratal-o por tu, affectando intimidades com<br \/>\n    ella, cocando-a com um olho terno&#8230; Isto seria intoleravel.<br \/>\n    &#8211; Vamos para o Nunes, que se come melhor!<br \/>\n    Cruges n&atilde;o respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impress&atilde;o<br \/>\n    religiosa de todo aquelle esplendor sombrio de arvoredo, dos altos fragosos<br \/>\n    da serra entrevistos um instante l&aacute; em cima nas nuvens, d&#8217;esse aroma<br \/>\n    que elle sorvia deliciosamente, e do sussurro doce de aguas descendo para<br \/>\n    os valles&#8230;<br \/>\n    S&oacute; ao avistar o Pa&ccedil;o descerrou os labios:<br \/>\n    &#8211; Sim senhor, tem cachet!<br \/>\n    E foi o que mais lhe agradou &#8211; este macisso e silencioso palacio, sem flor&otilde;es<br \/>\n    e sem torres, patriarchalmente assentado entre o casario da villa, com as<br \/>\n    suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o valle<br \/>\n    aos p&eacute;s, frondoso e fresco, e no alto as duas chamin&eacute;s collossaes,<br \/>\n    disformes, resumindo tudo, como se essa residencia fosse toda ella uma cosinha<br \/>\n    talhada &aacute;s propor&ccedil;&otilde;es de uma gula de Rei que cada dia<br \/>\n    come todo um Reino&#8230;<br \/>\n    E apenas o break parou &aacute; porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar,<br \/>\n    timido e de longe &#8211; receiando alguma palavra rude da sentinella.<br \/>\n    Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou &aacute; parte o criado<br \/>\n    do hotel, que descera a recolher as maletas.<br \/>\n    &#8211; Voss&ecirc; conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se elle est&aacute; em Cintra?<br \/>\n    O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera pela manh&atilde;<br \/>\n    o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas pretas&#8230; Devia<br \/>\n    estar na Lawrence, porque s&oacute; com raparigas e em pandiga &eacute; que<br \/>\n    o sr. Damaso vinha para o Nunes.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de<br \/>\n    crean&ccedil;a, certo agora que ella estava em Cintra. E uma sala particular,<br \/>\n    s&oacute; para n&oacute;s, para almo&ccedil;armos!<br \/>\n    Cruges, que se approximava, protestou contra esta sala solitaria. Preferia<br \/>\n    a meza redonda. Ordinariamente na meza redonda encontram-se typos&#8230;<br \/>\n    &#8211; Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as m&atilde;os, p&otilde;e o almo&ccedil;o<br \/>\n    na sala de jantar, p&otilde;e-n&#8217;o at&eacute; na Pra&ccedil;a&#8230; E muita manteiga<br \/>\n    fresca para o sr. Cruges!<br \/>\n    O cocheiro levou o break, o creado sobra&ccedil;ou as maletas. Cruges, enthusiasmado<br \/>\n    com Cintra, rompeu pela escada acima, a assobiar &#8211; conservando aos hombros<br \/>\n    o chaile-manta, de que se n&atilde;o queria separar, porque lh&#8217;o emprestara<br \/>\n    a mam&atilde;. E apenas chegou &aacute; porta da sala de jantar, estacou,<br \/>\n    ergueu os bra&ccedil;os, teve um grito.<br \/>\n    &#8211; Oh Euzebiosinho!<br \/>\n    Carlos correu, olhou&#8230; Era elle, o viuvo, acabando de almo&ccedil;ar, com<br \/>\n    duas raparigas hespanholas.<br \/>\n    Estava no topo da meza, como presidindo, diante de uns restos de pudim e de<br \/>\n    pratos de fructa, amarellado, despenteado, carregado de luto, com a larga<br \/>\n    fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela de taffet&aacute;<br \/>\n    negro sobre o pesco&ccedil;o tapando alguma espinha rebentada.<br \/>\n    Uma das hespanholas era um mulher&atilde;o trigueiro, com sygnaes de bexigas<br \/>\n    na cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de febre,<br \/>\n    que o p&oacute; de arroz n&atilde;o desfar&ccedil;ava. Ambas vestiam de setim<br \/>\n    preto, e fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janella,<br \/>\n    pareciam mais gastas, mais molles, ainda pegajosas da lentura morna dos colx&otilde;es,<br \/>\n    e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo &aacute; sucia havia um outro sujeito,<br \/>\n    gordo, baixo, sem pesco&ccedil;o, com as costas para a porta e a cabe&ccedil;a<br \/>\n    sobre o prato, babujando uma metade de laranja.<br \/>\n    Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito, com o garfo no ar; depois<br \/>\n    l&aacute; se ergueu, de guardanapo na m&atilde;o, veiu apertar os dedos aos<br \/>\n    amigos, balbuciando logo uma justifica&ccedil;&atilde;o embrulhada, a ordem<br \/>\n    do medico para mudar de ares, aquelle rapaz que o acompanhara, e que quizera<br \/>\n    trazer raparigas&#8230; E nunca parecera t&atilde;o funebre, t&atilde;o relles,<br \/>\n    como resmungando estas cousas hypocritas, encolhido &aacute; sombra de Carlos.<br \/>\n    &#8211; Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no hombro.<br \/>\n    Lisboa est&aacute; um horror, e o amor &eacute; cousa doce.<br \/>\n    O outro continuava a justificar-se. Ent&atilde;o a hespanhola magrita, que<br \/>\n    fumava, afastada da meza e com a perna tra&ccedil;ada, elevou a voz, perguntou<br \/>\n    ao Cruges se elle n&atilde;o lhe fallava. O maestro affirmou-se um momento,<br \/>\n    e partiu de bra&ccedil;os abertos para a sua amiga Lolla. E foi, n&#8217;esse canto<br \/>\n    da meza, uma grulhada em hespanhol, grandes apertos de m&atilde;o, e hombre,<br \/>\n    que no se le ha visto! e mira, que me he accordado de ti! e caramba, que reguapa<br \/>\n    estas&#8230; Depois a Lolla, tomando um arsinho espremido, apresentou o outro<br \/>\n    mulher&atilde;o, la se&ntilde;orita Concha&#8230;<br \/>\n    Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade &#8211; o sujeito obeso, que apenas<br \/>\n    levantara um instante a cabe&ccedil;a do prato, decidiu-se a examinar mais<br \/>\n    attentamente os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou com o guardanapo<br \/>\n    a bocca, a testa e o pesco&ccedil;o, encavallou laboriosamente no nariz uma<br \/>\n    grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga, balofa e c&ocirc;r<br \/>\n    de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com uma impudencia<br \/>\n    tranquilla.<br \/>\n    Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma, ouvindo o<br \/>\n    nome conhecido de Carlos da Maia, quiz logo mostrar diante de um gentleman,<br \/>\n    que era um gentleman tambem. Arrojou para longe o guardanapo, arredou para<br \/>\n    f&oacute;ra a cadeira; e de p&eacute;, estendendo a Carlos os dedos molles<br \/>\n    e de unhas roidas, exclamou, com um gesto para os restos da sobremeza:<br \/>\n    &#8211; Se v. ex.&ordf; &eacute; servido, &eacute; sem ceremonia&#8230; Que isto quando<br \/>\n    a gente vem a Cintra, &eacute; para abrir o appetite e fazer bem &aacute;<br \/>\n    barriga&#8230;<br \/>\n    Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e gracejava<br \/>\n    com a Lolla, fez tambem do outro lado da meza a sua apresenta&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; Carlos, quero que conhe&ccedil;as aqui a lindissima Lolla, rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    antigas, e a se&ntilde;orita Concha, que eu tive agora o prazer&#8230;<br \/>\n    Carlos saudou respeitosamente as damas.<br \/>\n    O mulher&atilde;o da Concha rosnou seccamente os buenos dias: parecia de mau<br \/>\n    humor, pesada do almo&ccedil;o, amodorrada para alli, sem dizer uma palavra,<br \/>\n    com os cotovellos fincados na meza, os olhos pestanudos meio cerrados, ora<br \/>\n    fumando, ora palitando os dentes. Mas a Lolla foi amavel, fez de senhora,<br \/>\n    ergueu-se, offereceu a Carlos a m&atilde;osita suada. Depois retomando o cigarro,<br \/>\n    dando um geito &aacute;s pulseiras de ouro, declarou com um requebro d&#8217;olhos,<br \/>\n    que conhecia de ha muito Carlos&#8230;<br \/>\n    &#8211; No ha estado ust&ecirc;d con Encarnacion?<br \/>\n    Sim, Carlos tivera essa honra&#8230; E que era feito d&#8217;ella, d&#8217;essa bella Encarnacion?<br \/>\n    A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do maestro. N&atilde;o acreditava<br \/>\n    que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion&#8230; Emfim, terminou por<br \/>\n    dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha.<br \/>\n    &#8211; Mas olhe que n&atilde;o &eacute; com o duque de Saldanha! exclamou Palma,<br \/>\n    que se conservara de p&eacute;, com a bolsa do tabaco aberta sobre a meza,<br \/>\n    fazendo um<br \/>\n    grande cigarro.<br \/>\n    A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha n&atilde;o seria duque,<br \/>\n    mas era um chico muy decente&#8230;<br \/>\n    &#8211; Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na bocca e tirando a isca da<br \/>\n    algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda n&atilde;o ha tres<br \/>\n    semanas&#8230; Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu&#8230; Foi at&eacute; no Montanha&#8230;<br \/>\n    Duas bofetadas que lhe foi logo o chap&eacute;o parar ao meio da rua&#8230; O<br \/>\n    sr. Maia ha de conhecer o Saldanha&#8230; Ha de conhecer, que elle tambem tem<br \/>\n    um carrito e um cavallo.<br \/>\n    Carlos fez um gesto indicando que n&atilde;o; e despedia-se de novo, saudando<br \/>\n    as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em quanto<br \/>\n    satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d&#8217;aquellas meninas era a esposa<br \/>\n    do amigo Eusebio.<br \/>\n    Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem erguer<br \/>\n    as lunetas da laranja que descascava, que estava alli de passeio, n&atilde;o<br \/>\n    tinha esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo Palma&#8230;<br \/>\n    E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de perna<br \/>\n    estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou um murro<br \/>\n    &aacute; borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou o Eusebio a<br \/>\n    que repetisse aquillo! Queria que elle repetisse! Queria que dissesse se tinha<br \/>\n    vergonha d&#8217;ella, e de dizer que a tinha trazido a Cintra!&#8230; E como o Eusebio,<br \/>\n    j&aacute; enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma festa &#8211; ella despropositou,<br \/>\n    atirou-lhe os peiores nomes, dando sempre punhadas na meza, com uma furia<br \/>\n    que lhe torcia a bocca, lhe punha duas<br \/>\n    manchas de sangue no car&atilde;o trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe<br \/>\n    pelo bra&ccedil;o: a outra deu-lhe um repell&atilde;o; e, mais excitada com<br \/>\n    a estridencia da propria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco,<br \/>\n    accusou-o de forreta, usou-o como um trapo vil.<br \/>\n    Palma afflicto, debru&ccedil;ado sobre a meza, exclamava n&#8217;um tom ancioso:<br \/>\n    &#8211; &Oacute; Concha, escuta l&aacute;!&#8230; Ouve l&aacute;!&#8230; Concha, eu te explico&#8230;<br \/>\n    De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulher&atilde;o<br \/>\n    abalou pela sala f&oacute;ra, a grande cauda de setim varreu desabridamente<br \/>\n    o soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. No ch&atilde;o ficara cahido<br \/>\n    um peda&ccedil;o da mantilha de renda.<br \/>\n    O creado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o olho<br \/>\n    curioso, farejando o escandalo; depois, calado e seccamente, foi servindo<br \/>\n    em roda o caf&eacute;.<br \/>\n    Durante um momento houve um silencio. Apenas por&eacute;m o criado sahiu &#8211;<br \/>\n    a Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho.<br \/>\n    Elle portara-se muito mal! Aquillo n&atilde;o f&ocirc;ra de cavalheiro! Tinha<br \/>\n    trazido a rapariga a Cintra, devia-a respeitar, n&atilde;o a ter renegado<br \/>\n    assim, &aacute; bruta, diante de todos&#8230;<br \/>\n    &#8211; Esto no se hace, dizia a Lolita, de p&eacute;, gesticulando, com os olhos<br \/>\n    brilhantes, voltada para Carlos, ha sido una cosa muy f&ecirc;a!&#8230;<br \/>\n    E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da catastrophe<br \/>\n    &#8211; ella baixou a voz, contou que a Concha era uma furia, viera a Cintra com<br \/>\n    pouca vontade, e desde manh&atilde; estava de muy malo humor&#8230; Pero lo de<br \/>\n    Silbeira habia sido una gran pulhice&#8230;<br \/>\n    Elle, coitado, com a cabe&ccedil;a cahida e as orelhas em braza, remexia desoladamente<br \/>\n    o seu caf&eacute;; n&atilde;o se lhe viam os olhos escondidos pelas lunetas<br \/>\n    pretas, mas percebia-se-lhe o grosso solu&ccedil;o que lhe affogava a garganta.<br \/>\n    Ent&atilde;o Palma pouzou a chavena, lambeu os bei&ccedil;os, e de p&eacute;<br \/>\n    no meio da sala, com a face luzidia, o collete desabotoado, fez n&#8217;um tom entendido<br \/>\n    o resumo d&#8217;aquelle desgosto.<br \/>\n    &#8211; Tudo prov&eacute;m d&#8217;isto, e desculpe-me voc&ecirc; dizel-o, Silveira: &eacute;<br \/>\n    que voc&ecirc; n&atilde;o sabe tratar com hespanholas!<br \/>\n    A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher cahiu-lhe dos dedos. Ergueu-se,<br \/>\n    acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n&#8217;elles, vindo reconfortar-se<br \/>\n    ao calor da sua amizade, &#8211; e desabafou, estas palavras angustiosas escaparam-se-lhe<br \/>\n    dos labios:<br \/>\n    &#8211; Vejam voc&ecirc;s! vem a gente a um sitio d&#8217;estes para gosar um bocado de<br \/>\n    poesia, e no fim &eacute; uma d&#8217;estas!&#8230;<br \/>\n    Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro:<br \/>\n    &#8211; A vida &eacute; assim, Eusebiosinho.<br \/>\n    Cruges fez-lhe uma festa nas costas:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o se p&oacute;de contar com prazeres, Silveirinha.<br \/>\n    Mas Palma, mais pratico, declarou que era for&ccedil;oso arranjarem-se as<br \/>\n    cousas. Virem a Cintra, para quest&otilde;es e amuos, isso n&atilde;o! N&#8217;aquellas<br \/>\n    pandegas queria-se harmonia, chala&ccedil;a, e gosar. Couces, n&atilde;o.<br \/>\n    Ent&atilde;o ficava-se em Lisboa, que era mais barato.<br \/>\n    Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face, com amor:<br \/>\n    &#8211; Anda Lolita, vae tu l&aacute; dentro &aacute; Concha, dize-lhe que se n&atilde;o<br \/>\n    fa&ccedil;a tola, que venha tomar caf&eacute;&#8230; Anda, que tu sabe-l&#8217;a levar&#8230;<br \/>\n    Dize-lhe que pe&ccedil;o eu!<br \/>\n    Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um geito ao<br \/>\n    cabello diante do espelho, apanhou a cauda &#8211; e sahiu, atirando a Carlos, ao<br \/>\n    passar, um olhar e um sorrisinho.<br \/>\n    Apenas ficaram s&oacute;s, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos<br \/>\n    muito serios sobre o systema de tratar hespanholas. Era necessario leval-as<br \/>\n    por bons modos; por isso &eacute; que ellas se pellavam por portuguezes, porque<br \/>\n    l&aacute; em Hespanha era &aacute; bordoada&#8230; Emfim, elle n&atilde;o dizia<br \/>\n    que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de bengaladas, n&atilde;o<br \/>\n    fossem uteis&#8230; Sabiam, por exemplo, os amigos, quando se devia bater? Quando<br \/>\n    ellas n&atilde;o gostavam da gente, e se faziam ariscas. Ent&atilde;o, sim.<br \/>\n    Ent&atilde;o z&aacute;s, tapona, que ellas ficavam logo pelo bei&ccedil;o&#8230;<br \/>\n    Mas depois bons modos, delicadeza, tal qual como com francezas&#8230;<br \/>\n    &#8211; Acredite voc&ecirc; isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr.<br \/>\n    Maia que lhe diga se isto n&atilde;o &eacute; verdade, elle que tem tambem<br \/>\n    experiencia e sabe viver com hespanholas!<br \/>\n    E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito &#8211; que Cruges desatou a rir,<br \/>\n    fez rir Carlos tambem.<br \/>\n    O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para elles:<br \/>\n    &#8211; Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu comecei<br \/>\n    a lidar com hespanholas aos quinze annos! N&atilde;o, escusam de rir, que<br \/>\n    n&#8217;isso ninguem me ganha! L&aacute; o que se chama ter geito para hespanholas,<br \/>\n    c&aacute; o meco! E, vamos l&aacute;, que n&atilde;o &eacute; facil! &Eacute;<br \/>\n    necessario ter um certo talento!&#8230; Olhem, o Herculano &eacute; capaz de fazer<br \/>\n    bellos artigos e estylo catita&#8230; Agora tragam-n&#8217;o c&aacute; para lidar com<br \/>\n    hespanholas e veremos! N&atilde;o d&aacute; meia&#8230;<br \/>\n    Eusebiosinho no entanto f&ocirc;ra duas vezes escutar &aacute; porta. Todo<br \/>\n    o hotel cahira n&#8217;um grande silencio, a Lolita n&atilde;o voltava. Ent&atilde;o<br \/>\n    Palma aconselhou um grande passo:<br \/>\n    &#8211; V&aacute; voc&ecirc; l&aacute; dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim<br \/>\n    sem mais nem menos, chegue-se ao p&eacute; d&#8217;ella&#8230;<br \/>\n    &#8211; E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma.<br \/>\n    &#8211; Qual tapona! Ajoelhe e pe&ccedil;a perd&atilde;o&#8230; N&#8217;este caso &eacute;<br \/>\n    pedir perd&atilde;o&#8230; E como pretexto, Silveira, leve-lhe voc&ecirc; mesmo<br \/>\n    o caf&eacute;.<br \/>\n    Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas o<br \/>\n    seu cora&ccedil;&atilde;o j&aacute; decidira: e d&#8217;ahi a um momento, com o<br \/>\n    peda&ccedil;o de mantilha n&#8217;uma das m&atilde;os, a chavena de caf&eacute;<br \/>\n    na outra, enfiado e commovido, l&aacute; partia a passos lentos pelo corredor<br \/>\n    a pedir perd&atilde;o &aacute; Concha.<br \/>\n    E, logo atraz d&#8217;elle, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem do<br \/>\n    sr. Palma &#8211; que de resto, indifferente tambem, j&aacute; se accommodara &aacute;<br \/>\n    meza a preparar regaladamente o seu grog.<\/p>\n<p>Eram duas horas quando os dous amigos sahiram emfim do hotel, a fazer esse<br \/>\n    passeio a Sitiaes &#8211; que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na pra&ccedil;a,<br \/>\n    por defronte das lojas vasias e silenciosas, c&atilde;es vadios dormiam ao<br \/>\n    sol: atravez das grades da cad&ecirc;a os presos pediam esmola. Crean&ccedil;as,<br \/>\n    enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas tinham<br \/>\n    ainda as janellas fechadas, continuando o seu somno de inverno, entre as arvores<br \/>\n    j&aacute; verdes. De vez em quando apparecia um bocado da serra, com a sua<br \/>\n    muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o castello da Pena,<br \/>\n    solitario, l&aacute; no alto. E por toda a parte o luminoso ar de abril punha<br \/>\n    a do&ccedil;ura do seu velludo.<br \/>\n    Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao Cruges.<br \/>\n    &#8211; Tem o ar mais sympathico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir para<br \/>\n    o Nunes, s&oacute; para v&ecirc;r aquella scena&#8230; E ent&atilde;o com qu&ecirc;<br \/>\n    o sr. Carlos da Maia tem experiencia de hespanholas?<br \/>\n    Carlos n&atilde;o respondeu, os seus olhos n&atilde;o se despegavam d&#8217;aquella<br \/>\n    fachada banal, onde s&oacute; uma janella estava aberta com um par de botinas<br \/>\n    de duraque seccando ao ar. &Aacute; porta, dous rapazes inglezes, ambos de<br \/>\n    knicker-bokers, cachimbavam em silencio; e defronte, sentados sobre um banco<br \/>\n    de pedra, dous burriqueiros ao lado dos burros, n&atilde;o lhes tiravam o<br \/>\n    olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.<br \/>\n    Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancolico, sahindo do<br \/>\n    silencio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as suas<br \/>\n    recorda&ccedil;&otilde;es, quasi certo de Damaso lhe ter dito que a bordo<br \/>\n    Castro Gomes tocava flauta&#8230;<br \/>\n    &#8211; Isto &eacute; sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido.<br \/>\n    Parara diante da grade d&#8217;onde se domina o valle. E d&#8217;ali olhava, enlevadamente,<br \/>\n    a rica vastid&atilde;o de arvoredo cerrado, a que s&oacute; se veem os cimos<br \/>\n    redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, e tendo<br \/>\n    &aacute;quella distancia, n&#8217;o brilho da luz, a suavidade macia de um grande<br \/>\n    musgo escuro. E n&#8217;esta espessura verde-negra havia uma frontaria de casa que<br \/>\n    o interessava, branquejando, affogada entre a folhagem, com um ar de nobre<br \/>\n    repouso, debaixo de sombras seculares&#8230; Um momento teve uma id&eacute;a de<br \/>\n    artista: desejou habital-a com uma mulher, um piano e um c&atilde;o da Terra-nova.<br \/>\n    Mas o que o encantava era o ar. Abria os bra&ccedil;os, respirava a tragos<br \/>\n    deliciosos:<br \/>\n    &#8211; Que ar! Isto d&aacute; saude, menino! Isto faz reviver!&#8230;<br \/>\n    Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante, n&#8217;um bocado de muro baixo,<br \/>\n    defronte de um alto terra&ccedil;o gradeado, onde velhas arvores assombreiam<br \/>\n    bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das suas ramagens,<br \/>\n    cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o relogio, as horas que<br \/>\n    fugiam para ir v&ecirc;r o palacio, a Pena, as outras bellezas de Cintra &#8211;<br \/>\n    o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo correr a agua, a v&ecirc;r<br \/>\n    monumentos caturras&#8230;<br \/>\n    &#8211; Cintra n&atilde;o s&atilde;o pedras velhas, nem cousas gothicas&#8230; Cintra<br \/>\n    &eacute; isto, uma pouca de agua, um bocado de musgo&#8230; Isto &eacute; um paraiso!&#8230;<br \/>\n    E, n&#8217;aquella satisfa&ccedil;&atilde;o que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo<br \/>\n    a sua chala&ccedil;a:<br \/>\n    &#8211; E v. ex.&ordf; deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de hespanholas!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava pensativamente<br \/>\n    o ch&atilde;o com a bengala.<br \/>\n    Ficaram callados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em que<br \/>\n    estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores e arvores,<br \/>\n    suffocando-se n&#8217;uma prodigalidade de bosque silvestre, deixando apenas espa&ccedil;o<br \/>\n    para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de agua, immovel e gelada, com<br \/>\n    dous ou tres nenufares, se esverdinhava sob a sombra d&#8217;aquella ramaria profusa.<br \/>\n    Aqui e alem, entre a bella desordem da folhagem, distinguiam-se arranjos de<br \/>\n    gosto burguez, uma volta de ruasita estreita como uma fita, faiscando ao sol,<br \/>\n    ou a banal palidez de um gesso. N&#8217;outros recantos, aquelle jardim de gente<br \/>\n    rica, exposto &aacute;s vistas, tinha retoques pretenciosos de estufa rara,<br \/>\n    aloes e cactos, bra&ccedil;os<br \/>\n    aguardasolados de auraucarias erguendo-se d&#8217;entre as agulhas negras dos pinheiros<br \/>\n    bravos, laminas de palmeira, com o seu ar triste de planta exilada, ro&ccedil;ando<br \/>\n    a rama leve e perfumada das olaias floridas de c&ocirc;r de rosa. A espa&ccedil;os,<br \/>\n    com uma gra&ccedil;a discreta, branquejava um grande p&eacute; de margaridas;<br \/>\n    ou em torno de uma rosa, solitaria na sua haste, palpitavam borboletas aos<br \/>\n    pares.<br \/>\n    &#8211; Que pena que isto n&atilde;o perten&ccedil;a a um artista! murmurou o maestro.<br \/>\n    S&oacute; um artista saberia amar estas flores, estas arvores, estes rumores&#8230;<br \/>\n    Carlos sorriu. Os artistas, dizia elle, s&oacute; amam na natureza os effeitos<br \/>\n    de linha e c&ocirc;r; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para<br \/>\n    cuidar de que um craveiro n&atilde;o soffra sede, para sentir magoa de que<br \/>\n    a geada tenha queimado os primeiros rebent&otilde;es das acacias &#8211; para isso<br \/>\n    s&oacute; o burguez, o burguez que todas as manh&atilde;s desce ao seu quintal<br \/>\n    com um chap&eacute;o velho e um regador, e v&ecirc; nas arvores e nas plantas<br \/>\n    uma outra familia muda, por que elle &eacute; tambem responsavel&#8230;<br \/>\n    Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou:<br \/>\n    &#8211; Diabo! &Eacute; necessario que n&atilde;o me esque&ccedil;am as queijadas!<br \/>\n    Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a trote<br \/>\n    do lado de Sitiaes. Carlos ergueu-se logo, certo de que era ella, e que elle<br \/>\n    ia v&ecirc;r os seus bellos olhos brilhar e fugir como duas estrellas. A caleche<br \/>\n    passou, levando um anci&atilde;o de barbas de patriarcha, e uma velha ingleza<br \/>\n    com o rega&ccedil;o cheio de flores e o v&eacute;o azul fluctuando ao ar.<br \/>\n    E logo atraz, quasi no p&oacute; que as rodas tinham erguido, appareceu, caminhando<br \/>\n    pensativamente, de m&atilde;os atraz das costas, um homem alto, todo de preto,<br \/>\n    com um grande chap&eacute;o Panam&aacute; sobre os olhos. Foi Cruges que reconheceu<br \/>\n    os longos bigodes romanticos, que gritou:<br \/>\n    &#8211; Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!&#8230;<br \/>\n    Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os bra&ccedil;os abertos,<br \/>\n    no meio da estrada. Depois, com a mesma effus&atilde;o ruidosa, apertou Carlos<br \/>\n    contra o cora&ccedil;&atilde;o, beijou o Cruges na face &#8211; porque conhecia<br \/>\n    Cruges desde pequeno, Cruges era para elle como um filho. Caramba! Eis ahi<br \/>\n    uma surpreza que elle n&atilde;o trocava pelo titulo de duque! Ora o alegr&atilde;o<br \/>\n    de os v&ecirc;r ali! Como diabo tinham elles vindo ali parar?<br \/>\n    E n&atilde;o esperou a resposta, contou elle logo a sua historia. Tivera um<br \/>\n    dos seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Mello, o bom Mello,<br \/>\n    recommendara-lhe mudan&ccedil;a d&#8217;ares. Ora elle, bons ares, s&oacute; comprehendia<br \/>\n    os de Cintra: porque alli n&atilde;o eram s&oacute; os pulm&otilde;es que<br \/>\n    lhe respiravam bem, era tambem o cora&ccedil;&atilde;o, rapazes!&#8230; De sorte<br \/>\n    que viera na vespera, no omnibus.<br \/>\n    &#8211; E onde est&aacute;s tu, Alencar? perguntou logo Carlos.<br \/>\n    &#8211; Pois onde queres tu que eu esteja, filho? L&aacute; estou com a minha velha<br \/>\n    Lawrence. Coitada! est&aacute; bem velha! mas para mim &eacute; sempre uma<br \/>\n    amiga, &eacute; quasi uma irm&atilde;!&#8230; E voc&ecirc;s, que diabo? Para onde<br \/>\n    v&atilde;o voc&ecirc;s com essas flores nas lapellas?<br \/>\n    &#8211; A Sitiaes&#8230; Vou mostrar Sitiaes ao maestro.<br \/>\n    Ent&atilde;o tambem elle voltava a Sitiaes! N&atilde;o tinha nada que fazer<br \/>\n    sen&atilde;o sorver bom ar, e scismar&#8230; Toda a manh&atilde; andara alli,<br \/>\n    vagamente, pendurando sonhos dos ramos das arvores. Mas agora j&aacute; os<br \/>\n    n&atilde;o largava; era mesmo um dever ir elle proprio fazer ao maestro as<br \/>\n    honras de Sitiaes&#8230;<br \/>\n    &#8211; Que aquillo &eacute; sitio muito meu, filhos! N&atilde;o ha alli arvore<br \/>\n    que me n&atilde;o conhe&ccedil;a&#8230; Eu n&atilde;o vos quero come&ccedil;ar<br \/>\n    j&aacute; a impingir versos; mas emfim, voc&ecirc;s lembram-se de uma cousa<br \/>\n    que eu fiz a Sitiaes, e de que por ahi se gostou&#8230;<\/p>\n<p>Quantos luares eu l&aacute; vi!<br \/>\n    Que doces manh&atilde;s d&#8217;abril!<br \/>\n    E os ais que soltei alli<br \/>\n    N&atilde;o foram sete, mas mil!<\/p>\n<p>Pois ent&atilde;o j&aacute; voc&ecirc;s v&ecirc;em, rapazes, que tenho raz&atilde;o<br \/>\n    para conhecer Sitiaes&#8230;<br \/>\n    O poeta lan&ccedil;ou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam<br \/>\n    todos tres callados.<br \/>\n    &#8211; Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando no<br \/>\n    bra&ccedil;o do poeta. O Damaso est&aacute; na Lawrence?<br \/>\n    N&atilde;o, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas<br \/>\n    chegara, f&ocirc;ra-se deitar, fatigado; e n&#8217;essa manh&atilde; almo&ccedil;ara<br \/>\n    s&oacute; com dois rapazes inglezes. O unico animal que avistara f&ocirc;ra<br \/>\n    um lindo c&atilde;osinho de luxo, ladrando no corredor&#8230;<br \/>\n    &#8211; E voc&ecirc;s onde est&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; No Nunes.<br \/>\n    Ent&atilde;o o poeta parando de novo, contemplando Carlos com sympathia:<br \/>\n    &#8211; Que bem que fizeste em arrastar c&aacute; o maestro, filho!&#8230; Quantas vezes<br \/>\n    eu tenho dito &aacute;quelle diabo, que se mettesse no omnibus, viesse passar<br \/>\n    dous dias a Cintra. Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu que<br \/>\n    mesmo para a musica, para compor, para entender um Mozart, um Choppin, &eacute;<br \/>\n    necessario ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia da ramagem&#8230;<br \/>\n    Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado:<br \/>\n    &#8211; Tem muito talento, tem muita id&eacute;a melodica!&#8230; Olha que andei com<br \/>\n    aquillo &aacute;s cabritas&#8230; E a m&atilde;e, menino, foi muitissimo boa mulher.<br \/>\n    &#8211; Vejam voc&ecirc;s isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto &eacute;<br \/>\n    sublime.<br \/>\n    Era apenas um bocadito d&#8217;estrada, apertada entre dous velhos muros cobertos<br \/>\n    d&#8217;hera, assombreada por grandes arvores entrela&ccedil;adas, que lhe faziam<br \/>\n    um toldo de folhagem aberto &aacute; luz como uma renda: no ch&atilde;o tremiam<br \/>\n    manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se n&atilde;o via<br \/>\n    ia fugindo e cantando.<br \/>\n    &#8211; Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, ent&atilde;o tens de subir<br \/>\n    &aacute; serra. Ahi tens o espa&ccedil;o, tens a nuvem, tens a arte&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o sei, talvez goste mais d&#8217;isto, murmurou o maestro.<br \/>\n    A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes humildes recantos, feitos<br \/>\n    de uma pouca de folhagem fresca e de um peda&ccedil;o de muro musgoso, logares<br \/>\n    de quieta&ccedil;&atilde;o e de sombra, onde se aninha com um conforto maior<br \/>\n    o scismar dos indolentes&#8230;<br \/>\n    &#8211; De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra &eacute; divino. N&atilde;o<br \/>\n    ha cantinho que n&atilde;o seja um poema&#8230; Olha, alli tens tu, por exemplo,<br \/>\n    aquella linda florinha azul&#8230; &#8211; e, ternamente, apanhou-a.<br \/>\n    &#8211; Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora, desde<br \/>\n    que o poeta fallara do c&atilde;osinho de luxo, mais certo de que ella estava<br \/>\n    na Lawrence, e que a &iacute;a brevemente encontrar.<br \/>\n    Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desillus&atilde;o diante d&#8217;aquelle<br \/>\n    vasto terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, de<br \/>\n    vidra&ccedil;as partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno ceu,<br \/>\n    o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a id&eacute;a, de pequeno, que Sitiaes<br \/>\n    era um mont&atilde;o pittoresco de rochedos, dominando a profundidade de um<br \/>\n    valle; e a isto misturava-se vagamente uma recorda&ccedil;&atilde;o de luar<br \/>\n    e de guitarras&#8230; Mas aquillo que elle alli via era um desapontamento.<br \/>\n    &#8211; A vida &eacute; feita de desapontamentos, disse Carlos. Anda para diante!<br \/>\n    E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez mais<br \/>\n    animado, lhe gritava a chala&ccedil;a do dia:<br \/>\n    &#8211; E v. ex.&ordf; deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de hespanholas!&#8230;<br \/>\n    Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro, estendeu o ouvido, curioso,<br \/>\n    quiz saber o que era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe o encontro<br \/>\n    no Nunes e os furores da Concha.<br \/>\n    Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de uma<br \/>\n    paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava deserto;<br \/>\n    a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada de bot&otilde;es<br \/>\n    de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos brancos. Nenhuma folha se movia:<br \/>\n    atravez da ramaria ligeira o sol atirava m&oacute;lhos de raios de ouro. O<br \/>\n    azul parecia recuado a uma distancia infinita, repassado de silencio luminoso;<br \/>\n    e s&oacute; se ouvia, &aacute;s vezes, monotona e dormente, a voz de um cuco<br \/>\n    nos castanheiros.<br \/>\n    Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os seus<br \/>\n    flor&otilde;es de pedra ro&iacute;dos da chuva, o pesado braz&atilde;o rococ&oacute;,<br \/>\n    as janellas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia<br \/>\n    estar-se deixando morrer voluntariamente n&#8217;aquella verde solid&atilde;o, &#8211;<br \/>\n    amuada com a vida, desde que d&#8217;alli tinham desapparecido as ultimas gra&ccedil;as<br \/>\n    do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de anquinhas tinham ro&ccedil;ado<br \/>\n    essas relvas&#8230; Agora Cruges &iacute;a descrevendo ao Alencar a figura do<br \/>\n    Eusebiosinho, com a chavena de caf&eacute; na m&atilde;o, a ir pedir perd&atilde;o<br \/>\n    &aacute; Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chap&eacute;o<br \/>\n    panam&aacute;, se agachava a colher florinhas silvestres.<br \/>\n    Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado n&#8217;um dos bancos de pedra,<br \/>\n    fumando pensativamente a sua cigarette. O palacete deitava sobre aquelle bocado<br \/>\n    de terra&ccedil;o a sombra dos seus muros tristes; do valle subia uma frescura<br \/>\n    e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o prantear de um repuxo. Ent&atilde;o<br \/>\n    o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, fallou com nojo do Eusebiosinho.<br \/>\n    &#8211; Ahi est&aacute; uma torpeza que elle nunca commettera, trazer meretrizes<br \/>\n    a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte nenhuma&#8230; Mas muito menos a Cintra! Sempre<br \/>\n    tivera, todo o mundo devia ter, a religi&atilde;o d&#8217;aquellas arvores e o amor<br \/>\n    d&#8217;aquellas sombras&#8230;<br \/>\n    &#8211; E esse Palma, accrescentou elle, &eacute; um traste! Eu conhe&ccedil;o-o;<br \/>\n    elle teve uma especie de jornal, e j&aacute; lhe dei muita bofetada na rua<br \/>\n    do Alecrim. Foi uma historia curiosa&#8230; Ora eu t&#8217;a conto, Carlos&#8230; Aquelle<br \/>\n    canalha! quando me lembro!&#8230; Aquella vil bolinha de materia putrida!&#8230; Aquelle<br \/>\n    chouricinho de pus!<br \/>\n    Levantou-se, passando a m&atilde;o nervosa sobre os bigodes, j&aacute; excitado<br \/>\n    pela lembran&ccedil;a d&#8217;aquella velha desordem, vergastando o Palma com nomes<br \/>\n    ferozes, todo n&#8217;uma d&#8217;essas fervuras de sangue que eram a sua desgra&ccedil;a.<br \/>\n    Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de lavoura<br \/>\n    que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em quadrados verde-claros<br \/>\n    e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um panno feito de remendos assim que<br \/>\n    elle tinha na meza do seu quarto. Tiras brancas de estradas serpeavam pelo<br \/>\n    meio: aqui e al&eacute;m, n&#8217;uma massa de arvoredo, branquejava um casal: e<br \/>\n    a cada passo, n&#8217;aquelle solo onde as aguas abundam, uma fila de pequenos olmos<br \/>\n    revelava algum fresco ribeiro, correndo e reluzindo entre as hervas. O mar<br \/>\n    ficava ao fundo, n&#8217;uma linha unida, esbatida na tenuidade diffusa da bruma<br \/>\n    azulada: e por cima arredondava-se um grande azul lustroso como um bello esmalte,<br \/>\n    tendo apenas, l&aacute; no alto, um farraposinho de nevoa, que ficara alli<br \/>\n    esquecido, e que dormia enovellado e suspenso na luz&#8230;<br \/>\n    &#8211; Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia. Palavra<br \/>\n    que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos p&eacute;s, crusei os bra&ccedil;os<br \/>\n    e disse-lhe: ahi tem voc&ecirc; a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as<br \/>\n    m&atilde;os!<br \/>\n    &#8211; Que diabo, n&atilde;o me h&atilde;o de esquecer as queijadas! murmurou Cruges,<br \/>\n    para si mesmo, affastando-se do parapeito.<br \/>\n    Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas antes de deixar Sitiaes, Cruges<br \/>\n    quiz explorar o outro terra&ccedil;o ao lado: e, apenas subira os dous velhos<br \/>\n    degraus de pedra, soltou de l&aacute; um grito alegre:<br \/>\n    &#8211; Bem dizia eu! c&aacute; est&atilde;o elles&#8230; E voc&ecirc;s a dizer que<br \/>\n    n&atilde;o!<br \/>\n    Foram-n&#8217;o encontrar triumphante, diante de um mont&atilde;o de penedos, polidos<br \/>\n    pelo uso, j&aacute; com um vago feitio de assentos, deixados ali outr&#8217;ora,<br \/>\n    poeticamente, para dar ao terra&ccedil;o uma gra&ccedil;a agreste de selva<br \/>\n    brava. Ent&atilde;o, n&atilde;o dizia elle? Bem dizia elle que em Sitiaes<br \/>\n    havia penedos!<br \/>\n    &#8211; Se eu me lembrava perfeitamente! Penedo da Saudade, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    que se chama, Alencar?<br \/>\n    Mas o poeta n&atilde;o respondeu. Diante d&#8217;aquellas pedras crusara os bra&ccedil;os,<br \/>\n    sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panam&aacute;<br \/>\n    carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n&#8217;um olhar lento e triste.<br \/>\n    Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente:<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc;s lembram-se, rapazes, nas Fl&ocirc;res e Martyrios, de uma das<br \/>\n    cousas melhores que l&aacute; tenho, em rimas livres, chamada 6 de Agosto?<br \/>\n    N&atilde;o se lembram talvez&#8230; Pois eu vol-a digo, rapazes!<br \/>\n    Machinalmente tirara do bolso o len&ccedil;o branco. E com elle fluctuante<br \/>\n    na m&atilde;o, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges,<br \/>\n    baixou a voz como n&#8217;uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor surdo,<br \/>\n    mordendo as syllabas, tremulo, n&#8217;uma paix&atilde;o ephemera de nervoso:<\/p>\n<p>Vieste! Cingi-te ao peito.<br \/>\n    Em redor que noite escura!<br \/>\n    N&atilde;o tinha rendas o leito,<br \/>\n    Nem tinha lavores na barra<br \/>\n    Que era s&oacute; a rocha dura&#8230;<br \/>\n    Muito ao longe uma guitarra<br \/>\n    Gemia vagos harpejos&#8230;<br \/>\n    (V&ecirc; tu que n&atilde;o me esqueceu)&#8230;<br \/>\n    E a rocha dura aqueceu<br \/>\n    Ao calor dos nossos beijos!<\/p>\n<p>Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol, atirou<br \/>\n    para l&aacute; um gesto triste, e murmurou:<br \/>\n    &#8211; Foi alli.<br \/>\n    E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chap&eacute;o panam&aacute;, com<br \/>\n    o len&ccedil;o branco na m&atilde;o. Cruges, que aquelles romantismos impressionavam,<br \/>\n    ficou a olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria.<br \/>\n    E quando ambos deixaram esse recanto do terra&ccedil;o &#8211; o poeta, agachado<br \/>\n    junto do arco, estava apertando o atilho da ceroula.<br \/>\n    Endireitou-se logo, j&aacute; toda a emo&ccedil;&atilde;o o deixara, mostrava<br \/>\n    os maus dentes n&#8217;um sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:<br \/>\n    &#8211; Agora, Cruges, filho, repara tu n&#8217;aquella tela sublime.<br \/>\n    O maestro embasbacou. No v&atilde;o do arco, como dentro de uma pesada moldura<br \/>\n    de pedra, brilhava, &aacute; luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de<br \/>\n    uma composi&ccedil;&atilde;o quasi phantastica, como a illustra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma bella lenda de cavallaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro,<br \/>\n    deserto e verdejando, todo salpicado de bot&otilde;es amarellos; ao fundo,<br \/>\n    o renque cerrado de antigas arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo<br \/>\n    da grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente d&#8217;essa<br \/>\n    copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando<br \/>\n    vigorosamente n&#8217;um relevo nitido sobre o fundo de c&eacute;u azul claro, o<br \/>\n    cume airoso da serra, toda c&ocirc;r de violeta escura, coroada pelo castello<br \/>\n    da Pena, romantico e solitario no alto, com o seu parque sombrio aos p&eacute;s,<br \/>\n    a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas brilhando ao sol como se fossem<br \/>\n    feitas de ouro&#8230;<br \/>\n    Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo Dor&eacute;. Alencar teve uma<br \/>\n    bella phrase sobre a imagina&ccedil;&atilde;o dos arabes. Carlos, impaciente,<br \/>\n    foi-os apressando para diante.<br \/>\n    Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir &aacute; Pena.<br \/>\n    Alencar, por si, &iacute;a tambem com prazer. A Pena para elle era outro ninho<br \/>\n    de recorda&ccedil;&otilde;es. Ninho? Devia antes dizer cemiterio&#8230; Carlos<br \/>\n    hesitava, parado junto da grade. Estaria ella na Pena? E olhava a estrada,<br \/>\n    olhava as arvores, como se podesse adivinhar pelas pegadas no p&oacute;, ou<br \/>\n    pelo mover das folhas, que direc&ccedil;&atilde;o tinham tomado os passos<br \/>\n    que elle seguia&#8230; Por fim teve uma id&eacute;a.<br \/>\n    &#8211; Vamos indo primeiro &aacute; Lawrence. E depois se quizermos ir &aacute;<br \/>\n    Pena, arranjam-se l&aacute; os burros&#8230;<br \/>\n    E nem mesmo quiz escutar o Alencar, que tivera tambem uma id&eacute;a, fallava<br \/>\n    de Collares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; accelerou o passo para<br \/>\n    a Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da ceroula, e o maestro,<br \/>\n    n&#8217;um enthusiasmo bucolico, ornava o chap&eacute;o de folhas de hera.<br \/>\n    Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na bocca, n&atilde;o<br \/>\n    tendo podido apoderar-se dos inglezes, pregui&ccedil;avam ao sol.<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc;s sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma familia, que est&aacute;<br \/>\n    aqui no hotel, foi para a Pena?&#8230;<br \/>\n    Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se.<br \/>\n    &#8211; Sim, senhor, foram para l&aacute; ha bocado, e aqui est&aacute; o burrinho<br \/>\n    tambem para v. ex.&ordf;, meu amo!<br \/>\n    Mas o outro, mais honesto, negou. N&atilde;o senhor, a gente que f&ocirc;ra<br \/>\n    para a Pena estava no Nunes&#8230;<br \/>\n    &#8211; A familia que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palacio&#8230;<br \/>\n    &#8211; Uma senhora alta?<br \/>\n    &#8211; Sim senhor.<br \/>\n    &#8211; Com um sujeito de barba preta?<br \/>\n    &#8211; Sim senhor.<br \/>\n    &#8211; E uma cadellinha?<br \/>\n    &#8211; Sim senhor.<br \/>\n    &#8211; Tu conheces o sr. Damaso Salcede?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o senhor&#8230; &Eacute; o que tira retratos?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o tira retratos&#8230; Tomae l&aacute;.<br \/>\n    Deu-lhes uma placa de cinco tost&otilde;es; e voltou ao encontro dos outros,<br \/>\n    declarando que realmente era tarde para subirem &aacute; Pena.<br \/>\n    &#8211; Agora o que tu deves v&ecirc;r, Cruges, &eacute; o palacio. Isso &eacute;<br \/>\n    que tem originalidade e cachet! N&atilde;o &eacute; verdade, Alencar?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Eu vos digo, filhos, come&ccedil;ou o auctor de Elvira, historicamente fallando&#8230;<br \/>\n    &#8211; E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges.<br \/>\n    &#8211; Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; &eacute; necessario<br \/>\n    n&atilde;o perder tempo; a caminho!<br \/>\n    Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palacio, em quatro largas<br \/>\n    passadas estava l&aacute;. E logo da pra&ccedil;a avistou, saindo j&aacute;<br \/>\n    o port&atilde;o, passando rente da sentinella, a famosa familia hospedada<br \/>\n    na Lawrence e a sua cadellinha de luxo. Era, com effeito, um sujeito de barba<br \/>\n    preta, e de sapatos de lona branca; e, ao lado d&#8217;elle, uma matrona enorme,<br \/>\n    com um mantelete de seda, cousas de ouro pelo pesco&ccedil;o e pelo peito,<br \/>\n    e o c&atilde;osinho felpudo ao collo. Vinham ambos rosnando o quer que fosse,<br \/>\n    com mau modo um para o outro, e em hespanhol.<br \/>\n    Carlos ficou a olhar para aquelle par com a melancolia de quem contempla os<br \/>\n    peda&ccedil;os d&#8217;um bello marmore quebrado. N&atilde;o esperou mais pelos<br \/>\n    outros, nem os quiz encontrar. Correu &aacute; Lawrence por um caminho differente,<br \/>\n    avido de uma certeza: &#8211; e ahi, o criado que lhe appareceu, disse-lhe que o<br \/>\n    sr. Salcede e os srs. Castro Gomes tinham partido na vespera para Mafra&#8230;<br \/>\n    &#8211; E de l&aacute;?&#8230;<br \/>\n    O criado ouvira dizer ao sr. Damaso que de l&aacute; voltavam a Lisboa.<br \/>\n    &#8211; Bem, disse Carlos atirando o chap&eacute;o para cima da meza, traga-me voc&ecirc;<br \/>\n    um calice de cognac, e uma pouca d&#8217;agua fresca.<br \/>\n    Cintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. N&atilde;o<br \/>\n    teve animo de voltar ao palacio, nem quis sahir mais d&#8217;ali; e arrancando as<br \/>\n    luvas, passeiando em volta da meza de jantar, onde murchavam os ramos da vespera,<br \/>\n    sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr ao Hotel Central,<br \/>\n    invadir-lhe o quarto, v&ecirc;l-a, saciar os seus olhos n&#8217;ella!&#8230; Porque,<br \/>\n    o que o irritava agora era n&atilde;o poder encontrar, na pequenez de Lisboa,<br \/>\n    onde toda a gente se acotovella, aquella mulher que elle procurava anciosamente!<br \/>\n    Duas semanas farejara o Aterro como um c&atilde;o perdido: fizera perigrina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ridiculas de theatro em theatro: n&#8217;uma manh&atilde; de domingo percorrera<br \/>\n    as missas! E n&atilde;o a tornara a v&ecirc;r. Agora sabia-a em Cintra, voava<br \/>\n    a Cintra, e n&atilde;o a via tambem. Ella cruzava-o uma tarde, bella como<br \/>\n    uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cahir n&#8217;alma por accaso um dos<br \/>\n    seus olhares negros, e desapparecia, evaporava-se, como se tivesse realmente<br \/>\n    remontado ao c&eacute;o, d&#8217;ora em diante invisivel e sobrenatural: e elle<br \/>\n    ali ficava, com aquelle olhar no cora&ccedil;&atilde;o, perturbando todo o<br \/>\n    seu ser, orientando surdamente os seus pensamentos, desejos, curiosidades,<br \/>\n    toda a sua vida interior, para uma adoravel desconhecida, de quem elle nada<br \/>\n    sabia sen&atilde;o que era alta e loira, e que tinha uma cadellinha escosseza&#8230;<br \/>\n    Assim acontece com as estrellas d&#8217;acaso! Ellas n&atilde;o s&atilde;o d&#8217;uma<br \/>\n    essencia differente, nem cont&eacute;em mais luz que as outras: mas, por isso<br \/>\n    mesmo que passam fugitivamente e se esvaem, parecem despedir um fulgor mais<br \/>\n    divino, e o deslumbramento que deixam nos olhos &eacute; mais perturbador<br \/>\n    e mais longo&#8230; Elle n&atilde;o a tornara a v&ecirc;r. Outros viam-n&#8217;a. O<br \/>\n    Taveira vira-a. No Gremio, ouvira um alferes de lanceiros fallar d&#8217;ella, perguntar<br \/>\n    quem era, porque a encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos<br \/>\n    os dias. Elle n&atilde;o a via, e n&atilde;o socegava&#8230;<br \/>\n    O criado trouxe o cognac. Ent&atilde;o Carlos, preparando vagarosamente o<br \/>\n    seu refresco, conversou com elle, fallou um momento dos dois rapazes inglezes,<br \/>\n    depois da hespanhola obesa&#8230; Emfim, dominando uma timidez, quasi c&oacute;rando,<br \/>\n    fez, atravez de grandes silencios, perguntas sobre os Castro Gomes. E cada<br \/>\n    resposta lhe parecia uma acquisi&ccedil;&atilde;o preciosa. A senhora era<br \/>\n    muito madrugadora, dizia o criado: &aacute;s sete horas tinha tomado banho,<br \/>\n    estava vestida, e sahia s&oacute;. O sr. Castro Gomes, que dormia n&#8217;um quarto<br \/>\n    separado, nunca se mexia antes do meio dia; e, &aacute; noite, ficava uma<br \/>\n    eternidade &aacute; meza, fumando cigarettes e molhando os bei&ccedil;os em<br \/>\n    copinhos de cognac e agua. Elle e o sr. Damaso jogavam o domin&oacute;. A<br \/>\n    senhora tinha mont&otilde;es de fl&ocirc;res no quarto; e tencionavam ficar<br \/>\n    at&eacute; domingo, mas f&ocirc;ra ella que apress&aacute;ra a partida&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ah, disse Carlos depois de um silencio, foi a senhora que apressou a partida?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa&#8230; V. ex.&ordf;<br \/>\n    toma mais cognac?<br \/>\n    Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no terra&ccedil;o. A tarde descia,<br \/>\n    calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de claridade dourada,<br \/>\n    n&#8217;uma larga serenidade que penetrava a alma. Elle tel-a-hia pois encontrado,<br \/>\n    ali mesmo n&#8217;aquelle terra&ccedil;o, vendo tambem cahir a tarde &#8211; se ella n&atilde;o<br \/>\n    estivesse impaciente por tornar a v&ecirc;r a filha, algum b&eacute;b&eacute;sinho<br \/>\n    loiro que fic&aacute;ra s&oacute; com a ama. Assim, a brilhante deusa era<br \/>\n    tambem uma boa mam&atilde;; e isto dava-lhe um encanto mais profundo, era<br \/>\n    assim que elle gostava mais d&#8217;ella, com este terno estremecimento humano nas<br \/>\n    suas bellas f&oacute;rmas de marmore.<br \/>\n    Agora, j&aacute; ella estava em Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu peignoir,<br \/>\n    com o cabello enrolado &aacute; pressa, grande e branca, erguendo ao ar o<br \/>\n    b&eacute;b&eacute; nos seus explendidos bra&ccedil;os de Juno, e fallando-lhe<br \/>\n    com um riso d&#8217;ouro. Achava-a assim adoravel, todo o seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fugia para ella&#8230; Ah! poder ter o direito de estar junto d&#8217;ella, n&#8217;essas<br \/>\n    horas d&#8217;intimidade, bem junto, sentindo o aroma da sua pelle, e sorrindo tambem<br \/>\n    a um b&eacute;b&eacute;. E, pouco a pouco, foi-lhe surgindo na alma um romance,<br \/>\n    radiante e absurdo: um sopro de paix&atilde;o, mais forte que as leis humanas,<br \/>\n    enrolava violentamente, levava juntos o seu destino e o d&#8217;ella; depois, que<br \/>\n    divina existencia, escondida n&#8217;um ninho de fl&ocirc;res e de sol, longe, n&#8217;algum<br \/>\n    canto da Italia&#8230;<br \/>\n    E, toda a sorte de id&eacute;as d&#8217;amor, de devo&ccedil;&atilde;o absoluta,<br \/>\n    de sacrificio, invadiam-n&#8217;o deliciosamente &#8211; emquanto os seus olhos se esqueciam,<br \/>\n    se perdiam, enlevados na religiosa solemnidade d&#8217;aquelle bello fim da tarde.<br \/>\n    Do lado do mar subia uma maravilhosa c&ocirc;r d&#8217;ouro pallido, que ia no alto<br \/>\n    diluir o azul, dava-lhe um branco indeciso e opalino, um tom de desmaio doce;<br \/>\n    e o arvoredo cobria-se todo de uma tinta loura, delicada e dormente. Todos<br \/>\n    os rumores tomavam uma suavidade de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia<br \/>\n    como na immobilidade de um extase. E as casas, voltadas para o poente, com<br \/>\n    uma ou outra janella accesa em braza, os cimos redondos das arvores apinhadas,<br \/>\n    descendo a serra n&#8217;uma espessa debandada para o valle, tudo parecera ficar<br \/>\n    de repente parado n&#8217;um recolhimento melancolico e grave, olhando a partida<br \/>\n    do sol, que mergulhava lentamente no mar&#8230;<br \/>\n    &#8211; Oh Carlos, tu est&aacute;s ahi?<br \/>\n    Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por elle. Carlos<br \/>\n    appareceu &aacute; varanda do terra&ccedil;o.<br \/>\n    &#8211; Que diabo est&aacute;s tu ahi a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando<br \/>\n    alegremente o seu panam&aacute;. N&oacute;s l&aacute; estivemos &aacute; espera,<br \/>\n    no covil real&#8230; Fomos ao Nunes&#8230; Iamos agora procurar-te &aacute; cadeia!<br \/>\n    E o poeta riu largamente da sua pilheria &#8211; emquanto Cruges, ao lado, de m&atilde;os<br \/>\n    atraz das costas, e a face erguida para o terra&ccedil;o, bocejava desconsoladamente.<br \/>\n    &#8211; Vim refrescar, como tu dizes, tomar um pouco de cognac, que estava com s&ecirc;de.<br \/>\n    Cognac? eis ahi o mimo por que o pobre Alencar estivera anciando toda a tarde,<br \/>\n    desde Sitiaes. E galgou logo as escadas do terra&ccedil;o &#8211; depois de ter<br \/>\n    gritado para dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima meia<br \/>\n    da fina.<br \/>\n    &#8211; Viste o Pa&ccedil;o, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando elle<br \/>\n    appareceu, arrastando os passos. Ent&atilde;o, parece-me que o que nos resta<br \/>\n    a fazer &eacute; jantar, e abalar&#8230;<br \/>\n    Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar murcho, fatigado d&#8217;aquelle<br \/>\n    vasto casar&atilde;o historico, da voz monotona do cicerone mostrando a cama<br \/>\n    de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha, &laquo;melhores<br \/>\n    que as de Mafra,&raquo; o tira-botas de S. A.; e trazia de l&aacute; uma pouca<br \/>\n    d&#8217;essa melancolia que erra, como uma atmosphera propria, nas residencias reaes.<br \/>\n    E aquella natureza de Cintra, ao escurecer, dizia elle, come&ccedil;ava a<br \/>\n    entristecel-o.<br \/>\n    Ent&atilde;o concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectaculo<br \/>\n    torpe do Palma e das damas, mandar vir &aacute; porta o break, e partir depois<br \/>\n    ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia tambem a Lisboa.<br \/>\n    &#8211; E, para ser festa completa, exclamou elle, limpando os bigodes do cognac,<br \/>\n    enquanto voc&ecirc;s v&atilde;o ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para<br \/>\n    o break, eu vou-me entender la abaixo &aacute; cosinha com a velha Lawrence,<br \/>\n    e preparar-vos um bacalhau &aacute; Alencar, recipe meu&#8230; E voc&ecirc;s ver&atilde;o<br \/>\n    o que &eacute; um bacalhau! Porque, l&aacute; isso, rapazes, versos os far&atilde;o<br \/>\n    outros melhor; bacalhau, n&atilde;o!<br \/>\n    Atravessando a pra&ccedil;a, Cruges pedia a Deus que n&atilde;o encontrassem<br \/>\n    mais o Eusebiosinho. Mas, apenas pozeram os p&eacute;s nos primeiros degraus<br \/>\n    do Nunes, ouviram em cima o chalrar da sucia. Estavam na ante-sala, j&aacute;<br \/>\n    todos reconciliados, a Concha contente &#8211; e installados aos dois cantos d&#8217;uma<br \/>\n    meza, com cartas. O Palma, munido d&#8217;uma garrafa de genebra, fazia uma batotinha<br \/>\n    para o Eusebio; e as duas hespanholas, de cigarro na bocca, jogavam languidamente<br \/>\n    a bisca.<br \/>\n    O viuvo, enfiado, perdia. No monte, que come&ccedil;&aacute;ra miseravelmente<br \/>\n    com duas cor&ocirc;as, j&aacute; luzia ouro; e Palma triumphava, chalaceiando,<br \/>\n    dando beijocas na sua mo&ccedil;a. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro,<br \/>\n    fallava de dar a desforra, ficar ali, sendo necessario, at&eacute; de madrugada.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o vv. exas. n&atilde;o se tentam? Isto &eacute; para passar o<br \/>\n    tempo&#8230; Em Cintra tudo serve&#8230; Valete! Perdeu voc&ecirc; outro mico no rei.<br \/>\n    Deve a libra mais quinze tost&otilde;es, s&ocirc; Silveira!<br \/>\n    Carlos pass&aacute;ra, sem responder, seguido pelo criado &#8211; no momento em<br \/>\n    que Euzebiosinho, furioso, j&aacute; desconfiado, quiz verificar, com as lunetas<br \/>\n    negras sobre o baralho, se l&aacute; estavam todos os reis.<br \/>\n    Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entre amigos, que diabo,<br \/>\n    tudo se admittia! A sua hespanhola, essa sim, escandalisou-se, defendendo<br \/>\n    a honra do seu homem: ent&atilde;o Palmita havia de ter empalmado o rei? Mas,<br \/>\n    a Concha, zelava o dinheiro do seu viuvo, exclamava que o rei podia estar<br \/>\n    perdido&#8230; Os reis estavam l&aacute;.<br \/>\n    Palma atirou um calice de genebra &aacute;s goelas, e recome&ccedil;ou a baralhar<br \/>\n    magestosamente.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o v. ex.&ordf; n&atilde;o se tenta? repetia elle para o maestro.<br \/>\n    Cruges, com effeito, par&aacute;ra, ro&ccedil;ando-se pela meza, com o olho<br \/>\n    nas cartas e no ouro do monte, j&aacute; sem for&ccedil;a, remexendo o dinheiro<br \/>\n    nas algibeiras. Subitamente um az decidiu-o. Com a m&atilde;o nervosa, escorregou-lhe<br \/>\n    uma libra por baixo, jogando cinco tost&otilde;es, e de porta. Perdeu logo.<br \/>\n    Quando Carlos voltou do quarto com o criado que descia as malas, o maestro<br \/>\n    estava em pleno vicio, com a libra entalada, os olhos accezos, o ar esguedelhado.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o tu?&#8230; exclamou Carlos com severidade.<br \/>\n    &#8211; J&aacute; des&ccedil;o, rosnou o maestro.<br \/>\n    E, &aacute; pressa, foi &aacute; paz da libra, n&#8217;um terno contra o rei. Cartada<br \/>\n    de colicas! como disse o Palma: e foi com emo&ccedil;&atilde;o que elle come&ccedil;ou<br \/>\n    a puxar as cartas, espremendo-as uma a uma, n&#8217;um vagar mortal. A appari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas um duque, Eusebiosinho perdia<br \/>\n    mais uma placa. Palma teve um suspirinho de alivio; e, escondendo com ambas<br \/>\n    as m&atilde;os o baralho, erguendo as lunetas faiscantes para o maestro:<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, sempre contin&uacute;a toda a libra?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Toda.<br \/>\n    Palma teve outro suspiro, d&#8217;anciedade; e, mais pallido, voltou bruscamente<br \/>\n    as cartas.<br \/>\n    &#8211; Rei! gritou elle, empolgando o ouro.<br \/>\n    Era o rei de paus, a sua hespanhola bateu as palmas, o maestro abalou furioso.<br \/>\n    Na Lawrence o jantar prolongou-se at&eacute; &aacute;s oito horas, com luzes;<br \/>\n    &#8211; e o Alencar fallou sempre. Tinha esquecido n&#8217;esse dia as desillus&otilde;es<br \/>\n    da vida, todos os rancores litterarios, estava n&#8217;uma veia excellente; e foram<br \/>\n    historias dos velhos tempos de Cintra, recorda&ccedil;&otilde;es da sua famosa<br \/>\n    ida a Paris, cousas picantes de mulheres, bocados da chronica intima da Regenera&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Tudo isto com estridencias de voz, e filhos isto! e rapazes aquillo! e gestos<br \/>\n    que faziam oscillar as chamas das vellas, e grandes copos de Collares emborcados<br \/>\n    de um trago. Do outro lado da meza, os<br \/>\n    dois inglezes, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos na botoeira,<br \/>\n    pasmavam, com um ar embara&ccedil;ado a que se misturava desdem, para esta<br \/>\n    desordenada exhuberancia de meridional.<br \/>\n    A appari&ccedil;&atilde;o do bacalhau foi um triumpho: &#8211; e a satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do poeta t&atilde;o grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse<br \/>\n    o Ega!<br \/>\n    &#8211; Sempre queria que elle provasse este bacalhau! J&aacute; que me n&atilde;o<br \/>\n    aprecia os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto &eacute; um<br \/>\n    bacalhau de artista em toda a parte!&#8230; N&#8217;outro dia fil-o l&aacute; em casa<br \/>\n    dos meus Cohens; e a Rachel, coitadinha, veiu para mim e abra&ccedil;ou-me&#8230;<br \/>\n    Isto, filhos, a poesia e a cozinha s&atilde;o irm&atilde;s! Vejam voc&ecirc;s<br \/>\n    Alexandre Dumas&#8230; Dir&atilde;o voc&ecirc;s que o pae Dumas n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    um poeta&#8230; E ent&atilde;o d&#8217;Artagnan? D&#8217;Artagnan &eacute; um poema&#8230; &Eacute;<br \/>\n    a faisca, &eacute; a phantasia, &eacute; a inspira&ccedil;&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    o sonho, &eacute; o arrobo! Ent&atilde;o, p&ocirc;&ccedil;o, j&aacute; v&ecirc;em<br \/>\n    voc&ecirc;s, que &eacute; poeta!&#8230; Pois voc&ecirc;s h&atilde;o-de vir um<br \/>\n    dia d&#8217;estes jantar commigo, e ha-de vir o Ega, e hei-de-vos arranjar umas<br \/>\n    perdizes &aacute; hespanhola, que vos h&atilde;o-de nascer castanholas nos<br \/>\n    dedos!&#8230; Eu, palavra, gosto do Ega! L&aacute; essas cousas de realismo e<br \/>\n    romantismo, historias&#8230; Um lyrio &eacute; t&atilde;o natural como um persevejo&#8230;<br \/>\n    Uns preferem fed&ocirc;r de sargeta; perfeitamente, destape-se o cano publico&#8230;<br \/>\n    Eu prefiro p&oacute;s de marechala n&#8217;um seio branco; a mim o seio, e, l&aacute;<br \/>\n    vae &aacute; vossa. O que se quer, &eacute; cora&ccedil;&atilde;o. E o Ega<br \/>\n    tem-n&#8217;o. E tem faisca, tem rasgo, tem estylo&#8230; Pois, assim &eacute; que elles<br \/>\n    se querem, e, l&aacute; vae &aacute; saude do Ega!<br \/>\n    Pousou o copo, passou a m&atilde;o pelos bigodes, e rosnou mais baixo:<br \/>\n    &#8211; E, se aquelles inglezes continuam a embasbacar para mim, vae-lhes um copo<br \/>\n    na cara, e &eacute; aqui um vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar sabendo<br \/>\n    o que &eacute; um poeta portuguez!&#8230;<br \/>\n    Mas n&atilde;o houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que &eacute;<br \/>\n    um poeta portuguez, e o jantar terminou n&#8217;um caf&eacute; tranquillo. Eram<br \/>\n    nove horas, fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break.<br \/>\n    Alencar, embu&ccedil;ado num capote, um verdadeiro capote de padre de ald&ecirc;a,<br \/>\n    levava na m&atilde;o um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panam&aacute;<br \/>\n    na maleta, trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um<br \/>\n    come&ccedil;o de spleen, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado<br \/>\n    na gola do paletot, com a manta da mam&atilde; sobre os joelhos. Partiram.<br \/>\n    Cintra ficava dormindo ao luar.<br \/>\n    Algum tempo o break rodou em silencio, na belleza da noite. A espa&ccedil;os,<br \/>\n    a estrada apparecia banhada d&#8217;uma claridade quente que faiscava. Fachadas<br \/>\n    de casas, caladas e pallidas, surgiam, d&#8217;entre as arvores com um ar de melancolia<br \/>\n    romantica. Murmurios de agoas perdiam-se na sombra; e, junto dos muros enramados,<br \/>\n    o ar estava cheio d&#8217;aroma. Alencar accendera o cachimbo, e olhava a lua.<br \/>\n    Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada, silenciosa<br \/>\n    e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambem para a lua, e murmurou d&#8217;entre<br \/>\n    os seus agasalhos:<br \/>\n    &#8211; Oh Alencar, recita para ahi alguma cousa&#8230;<br \/>\n    O poeta condescendeu logo &#8211; apesar de um dos criados ir ali ao lado d&#8217;elles,<br \/>\n    dentro do break. Mas, que havia elle de recitar, sob o encanto da noite clara?<br \/>\n    Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua! Emfim, &iacute;a dizer-lhe<br \/>\n    uma historia bem verdadeira e bem triste&#8230; Veiu sentar-se ao p&eacute; do<br \/>\n    Cruges, dentro do seu grande capot&atilde;o, esvaziou os restos do cachimbo,<br \/>\n    e, depois de acariciar algum tempo os bigodes, come&ccedil;ou, n&#8217;um tom familiar<br \/>\n    e simples:<\/p>\n<p>Era o jardim d&#8217;uma vivenda antiga,<br \/>\n    Sem arrebiques d&#8217;arte ou fl&ocirc;res de luxo;<br \/>\n    Ruas singellas d&#8217;alfazema e buxo,<br \/>\n    Cravos, roseiras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta,<br \/>\n    com um berro que emmudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou<br \/>\n    o trintanario.<br \/>\n    O break par&aacute;ra, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silencio da<br \/>\n    charneca, sob a paz do luar, Cruges, succumbido, exclamou:<br \/>\n    &#8211; Esqueceram-me as queijadas!<\/p>\n<h2><a name=\"9\">Cap&iacute;tulo IX<\/a><\/h2>\n<p>O dia famoso da soir&eacute;e dos Cohens, ao fim d&#8217;essa semana t&atilde;o<br \/>\n    luminosa e t&atilde;o doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo<br \/>\n    a janella sobre o jardim, vira um c&eacute;u baixo que pesava como se fosse<br \/>\n    feito de algod&atilde;o em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arripiado<br \/>\n    e humido; ao longe o rio estava turvo, e no ar molle errava um halito morno<br \/>\n    de sudoeste. Decidira n&atilde;o sahir &#8211; e desde as nove horas, sentado &aacute;<br \/>\n    banca, embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de velludo azul, que lhe dava<br \/>\n    o bello ar de um principe artista da Renascen&ccedil;a, tentava trabalhar:<br \/>\n    mas, apesar de duas chavenas de caf&eacute;, de cigarettes sem fim, o cerebro,<br \/>\n    como o c&eacute;u f&oacute;ra, conservava-se-lhe n&#8217;essa manh&atilde; afogado<br \/>\n    em nevoas. Tinha d&#8217;estes dias terriveis; julgava-se ent&atilde;o &laquo;uma<br \/>\n    besta&raquo;; e a quantidade de folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas,<br \/>\n    que lhe juncavam o tapete<br \/>\n    aos p&eacute;s, davam-lhe a sensa&ccedil;&atilde;o de ser todo elle uma ruina.<br \/>\n    Foi realmente um allivio, uma tregoa n&#8217;aquella lucta com as id&eacute;as rebeldes,<br \/>\n    quando Baptista annunciou Villa&ccedil;a, que lhe vinha fallar de uma venda<br \/>\n    de montados no Alemtejo, pertencentes &aacute; sua legitima.<br \/>\n    &#8211; Negociosinho, disse o administrador, pousando o chap&eacute;o a um canto<br \/>\n    da mesa e dentro um rolo de papeis, que lhe mette na algibeira para cima de<br \/>\n    dois contos de r&eacute;is&#8230; E n&atilde;o &eacute; mau presente, logo assim<br \/>\n    pela manh&atilde;&#8230;<br \/>\n    Carlos espregui&ccedil;ou-se, crusando fortemente as m&atilde;os por tr&aacute;s<br \/>\n    da cabe&ccedil;a:<br \/>\n    &#8211; Pois olhe, Villa&ccedil;a, preciso bem de dous contos de r&eacute;is, mas<br \/>\n    preferia que me trouxesse ahi alguma lucidez de espirito&#8230; Estou hoje d&#8217;uma<br \/>\n    estupidez!<br \/>\n    Villa&ccedil;a considerou-o um momento, com malicia.<br \/>\n    &#8211; Quer v. ex.&ordf; dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que<br \/>\n    receber assim perto de quinhentas libras? S&atilde;o gostos, meu senhor, s&atilde;o<br \/>\n    gostos&#8230; Elle &eacute; bom sahir-se a gente um Herculano ou um Garrett, mas<br \/>\n    dous contos de r&eacute;is, s&atilde;o dous contos de r&eacute;is&#8230; Olhe<br \/>\n    que sempre valem um folhetim. Emfim, o negocio &eacute; este.<br \/>\n    Explicou-lh&#8217;o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de bra&ccedil;os<br \/>\n    cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que Villa&ccedil;a<br \/>\n    trazia (um macac&atilde;o de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia<br \/>\n    vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde de<br \/>\n    Torral e de porcos&#8230; Quando Villa&ccedil;a lhe apresentou os papeis, assignou-os<br \/>\n    com um ar moribundo.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o n&atilde;o fica para almo&ccedil;ar, Villa&ccedil;a? disse<br \/>\n    elle, vendo o procurador metter o seu rolo de papeis debaixo do bra&ccedil;o.<br \/>\n    &#8211; Muito agradecido a v. exa. Tenho de me encontrar com o nosso amigo Eusebio&#8230;<br \/>\n    Vamos ao ministerio do reino, elle tem l&aacute; uma perten&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Quer a commenda da Concei&ccedil;&atilde;o&#8230; Mas este governo est&aacute;<br \/>\n    desgostoso com elle.<br \/>\n    &#8211; Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez d&#8217;um bocejo, o governo n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; contente com o Eusebiosinho?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o se portou bem nas elei&ccedil;&otilde;es. Ainda ha dias, o ministro<br \/>\n    do reino me dizia, em confidencia: &laquo;O Eusebio &eacute; rapaz de merecimento,<br \/>\n    mas atravessado&#8230;&raquo; V. Ex.&ordf; n&#8217;outro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o<br \/>\n    em Cintra.<br \/>\n    &#8211; Sim, l&aacute; estava a fazer jus &aacute; commenda da Concei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Quando Villa&ccedil;a saiu Carlos retomou lentamente a penna, e ficou um momento,<br \/>\n    com os olhos na pagina meio-escripta, co&ccedil;ando a barba, desanimado e<br \/>\n    esteril. Mas quasi em seguida appareceu Affonso da Maia, ainda de chap&eacute;o,<br \/>\n    &aacute; volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma carta na m&atilde;o,<br \/>\n    que era para Carlos, e que elle achara no escriptorio misturada ao seu correio.<br \/>\n    Al&eacute;m d&#8217;isso, esperava encontrar ali o Villa&ccedil;a.<br \/>\n    &#8211; Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar uma commenda para o Eusebiosinho<br \/>\n    &#8211; disse Carlos, abrindo a carta.<br \/>\n    E teve uma surpreza, vendo no papel &#8211; que cheirava a verbena como a condessa<br \/>\n    de Gouvarinho &#8211; um convite do conde para jantar no sabbado seguinte, feito<br \/>\n    em termos de sympathia t&atilde;o escolhidos que eram quasi poeticos; tinha<br \/>\n    mesmo uma phrase sobre a amisade, fallava dos atomos em gancho de Descartes.<br \/>\n    Carlos desatou a rir, contou ao av&ocirc; que era um par do reino que o convidava<br \/>\n    a jantar, citando Descartes&#8230; <br \/>\n    &#8211; S&atilde;o capazes de tudo, murmurou o velho.<br \/>\n    E dando um olhar risonho aos manuscriptos espalhados sobre a banca:<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, aqui, trabalha-se, hein?<br \/>\n    Carlos encolheu os hombros:<br \/>\n    &#8211; Se &eacute; que se p&oacute;de chamar a isto tabalhar&#8230; Olhe ahi para o<br \/>\n    ch&atilde;o. Veja esses destro&ccedil;os&#8230; Em quanto se trata de tomar notas,<br \/>\n    colligir documentos, reunir materiaes, bem, l&aacute; vou indo. Mas quando<br \/>\n    se trata de p&ocirc;r as id&eacute;as, a observa&ccedil;&atilde;o, n&#8217;uma f&oacute;rma<br \/>\n    de gosto e de symetria, dar-lhe c&ocirc;r, dar-lhe relevo, ent&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o foi-se!<br \/>\n    &#8211; Preoccupa&ccedil;&atilde;o peninsular, filho, disse Affonso, sentando-se<br \/>\n    ao p&eacute; da mesa, com o seu chap&eacute;o desabado na m&atilde;o. Desembara&ccedil;a-te<br \/>\n    d&#8217;ella. &Eacute; o que eu dizia n&#8217;outro dia ao Craft, e elle concordava&#8230;<br \/>\n    O portuguez nunca p&oacute;de ser homem de id&eacute;as, por causa da paix&atilde;o<br \/>\n    da f&oacute;rma. A sua mania &eacute; fazer bellas phrases, v&ecirc;r-lhes<br \/>\n    o brilho, sentir-lhes a musica. Se f&ocirc;r necessario falsear a id&eacute;a,<br \/>\n    deixal-a incompleta, exageral-a, para a phrase ganhar em belleza, o desgra&ccedil;ado<br \/>\n    n&atilde;o hesita&#8230; V&aacute;-se pela agoa abaixo o pensamento, mas salve-se<br \/>\n    a bella phrase.<br \/>\n    &#8211; Quest&atilde;o de temperamento, disse Carlos. Ha s&ecirc;res inferiores,<br \/>\n    para quem a sonoridade de um adjectivo &eacute; mais importante que a exactid&atilde;o<br \/>\n    de um systema&#8230; Eu sou d&#8217;esses monstros.<br \/>\n    &#8211; Diabo! ent&atilde;o &eacute;s um rhetorico&#8230;<br \/>\n    &#8211; Quem o n&atilde;o &eacute;? E resta saber por fim se o estylo n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; uma disciplina do pensamento. Em verso, o av&ocirc; sabe, &eacute;<br \/>\n    muitas vezes a necessidade de uma rima que produz a originalidade de uma imagem&#8230;<br \/>\n    E quantas vezes o esfor&ccedil;o para completar bem a cadencia de uma phrase,<br \/>\n    n&atilde;o poder&aacute; trazer desenvolvimentos novos e inesperados de uma<br \/>\n    id&eacute;a&#8230; Viva a bella phrase!<br \/>\n    &#8211; O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando come&ccedil;ava<br \/>\n    justamente a tocar a sineta do almo&ccedil;o.<br \/>\n    &#8211; Fallae na phrase&#8230; &#8211; disse Affonso, rindo.<br \/>\n    &#8211; Hein? Que phrase? O que?&#8230; &#8211; exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com<br \/>\n    o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por aqui<br \/>\n    a esta hora sr. Affonso da Maia! Como est&aacute; v. ex.&ordf;? Dize-me c&aacute;,<br \/>\n    Carlos, tu &eacute; que me podes tirar d&#8217;uma atrapalha&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Tu ter&aacute;s por acaso uma espada que me sirva?<br \/>\n    E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, j&aacute; impaciente:<br \/>\n    &#8211; Sim, homem, uma espada! N&atilde;o &eacute; para me batter, estou em paz<br \/>\n    com toda a humanidade&#8230; &Eacute; para esta noute, para o fato de mascara.<br \/>\n    O Mattos, aquelle animal, s&oacute; na vespera lhe dera o costume para o baile:<br \/>\n    e, qual &eacute; o seu horror, ao v&ecirc;r que lhe arranjara, em logar de<br \/>\n    uma espada artistica, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lh&#8217;o<br \/>\n    passar atravez das entranhas. Correu ao tio Abrah&atilde;o, que s&oacute;<br \/>\n    tinha espadins de c&ocirc;rte, reles e pelintras como a propria c&ocirc;rte!<br \/>\n    Lembrara-se do Craft e da sua collec&ccedil;&atilde;o; vinha de l&aacute;;<br \/>\n    mas ahi eram uns espad&otilde;es de ferro, catanas pesando arrobas, as durindanas<br \/>\n    tremendas dos brutos que conquistaram a India&#8230; Nada que lhe servisse. F&ocirc;ra<br \/>\n    ent&atilde;o que lhe tinham vindo &aacute; id&eacute;a as pan&oacute;plias<br \/>\n    antigas do Ramalhete.<br \/>\n    &#8211; Tu &eacute; que deves ter&#8230; Eu preciso uma espada longa e fina, com os<br \/>\n    copos em concha, d&#8217;a&ccedil;o rendilhado, forrados de velludo escarlate. E<br \/>\n    sem cruz, sobretudo sem cruz!<br \/>\n    Affonso, tomando logo um interesse paternal por aquella difficuldade do John,<br \/>\n    lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas hespanholas&#8230;<br \/>\n    &#8211; Em cima, no corredor? exclamou Ega, j&aacute; com a m&atilde;o no reposteiro.<br \/>\n    Inutil precipitar-se, o bom John n&atilde;o as poderia encontrar. N&atilde;o<br \/>\n    estavam &aacute; vista, arranjadas em panoplia, conservavam-se ainda nos caix&otilde;es<br \/>\n    em que tinham vindo de Bemfica.<br \/>\n    &#8211; Eu l&aacute; vou, homem fatal, eu l&aacute; vou, disse Carlos, erguendo-se<br \/>\n    com resigna&ccedil;&atilde;o. Mas olha que ellas n&atilde;o t&ecirc;em bainhas.<br \/>\n    Ega ficou succumbido. E foi ainda Affonso que achou uma id&eacute;a, o salvou.<br \/>\n    &#8211; Manda fazer uma simples bainha de velludo negro; isso faz-se n&#8217;uma hora.<br \/>\n    E manda-lhe cozer ao comprido rodellas de velludo escarlate&#8230;<br \/>\n    &#8211; Explendido, gritou Ega: o que &eacute; ter gosto!<br \/>\n    E apenas Carlos sahiu, trovejou contra o Mattos.<br \/>\n    &#8211; Veja v. ex.&ordf; isto, um sabre da guarda municipal! E &eacute; quem faz<br \/>\n    ahi os fatos para todos os theatros! Que idiota!&#8230; E &eacute; tudo assim,<br \/>\n    isto &eacute; um paiz insensato!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Meu bom Ega, tu n&atilde;o queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado,<br \/>\n    sete milh&otilde;es d&#8217;almas, responsaveis por esse comportamento do Mattos?<br \/>\n    &#8211; Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo gabinete, com as m&atilde;os<br \/>\n    enterradas nos bolsos do paletot; sim senhor, tudo isso se prende. O costumier<br \/>\n    com um fato do seculo XIV manda um sabre da guarda municipal; por seu lado<br \/>\n    o ministro, a proposito de impostos, cita as Medita&ccedil;&otilde;es de Lamartine;<br \/>\n    e o litterato, essa besta suprema&#8230;<br \/>\n    Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na m&atilde;o, uma folha do<br \/>\n    seculo XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado como<br \/>\n    uma renda &#8211; e tendo gravado no a&ccedil;o o nome illustre do espadeiro, Francisco<br \/>\n    Ruy de Toledo.<br \/>\n    Embrulhou-a logo n&#8217;um jornal, recusou &aacute; pressa o almo&ccedil;o que<br \/>\n    lhe ofereciam, deu dous vivos shake-hands, atirou o chap&eacute;u para a nuca,<br \/>\n    ia abalar, quando a voz de Affonso o deteve:<br \/>\n    &#8211; Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso &eacute; uma espada c&aacute;<br \/>\n    da casa, que nunca brilhou sem gloria, creio eu&#8230; V&ecirc; como te serves<br \/>\n    d&#8217;ella!<br \/>\n    Ao p&eacute; do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito<br \/>\n    do paletot o ferro, enrolado no Jornal do Commercio:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o a sacarei sem justi&ccedil;a, nem a embainharei sem honra. Au<br \/>\n    revoir!<br \/>\n    &#8211; Que vida, que mocidade! murmurou Affonso. Muito feliz &eacute; este John!&#8230;<br \/>\n    Pois vae-te arranjando filho, que j&aacute; tocou a primeira vez para o almo&ccedil;o.<br \/>\n    Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a apparatosa<br \/>\n    carta do Gouvarinho; e ia emfim chamar o Baptista para se vestir, quando em<br \/>\n    baixo, &aacute; entrada particular, o timbre electrico come&ccedil;ou a vibrar<br \/>\n    violentamente. Um passo ancioso ressoou na ante-camara, o Damaso appareceu<br \/>\n    esbaforido, d&#8217;olho esgazeado, com a face em braza. E, sem dar tempo a que<br \/>\n    Carlos exprimisse a surpreza de o ver emfim no Ramalhete, exclamou, lan&ccedil;ando<br \/>\n    os bra&ccedil;os ao ar:<br \/>\n    &#8211; Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas d&#8217;ahi, que me venhas<br \/>\n    ver um doente&#8230; Eu te explicarei&#8230; &Eacute; aquella gente brazileira. Mas<br \/>\n    pelo amor de Deus, vem depressa, menino!<br \/>\n    Carlos erguera-se, pallido:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; ella?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, &eacute; a pequena, esteve a morrer&#8230; Mas veste-te, Carlinhos,<br \/>\n    veste-te, que a responsabilidade &eacute; minha!<br \/>\n    &#8211; &Eacute; um b&eacute;b&eacute;, n&atilde;o &eacute;?<br \/>\n    &#8211; Qual b&eacute;b&eacute;!&#8230; &Eacute; uma pequena crescida, de seis annos&#8230;<br \/>\n    Anda d&#8217;ahi!<br \/>\n    Carlos, j&aacute; em mangas de camisa, estendia o p&eacute; ao Baptista, que,<br \/>\n    com um joelho em terra, apressado tambem, quasi fez saltar os bot&otilde;es<br \/>\n    da bota. E Damaso, de chap&eacute;u na cabe&ccedil;a, agitava-se, exagerando<br \/>\n    a sua impaciencia, a estalar de importancia.<br \/>\n    &#8211; Sempre a gente se v&ecirc; em coisas!&#8230; Olha que responsabilidade a minha!<br \/>\n    Vou visital-os, como costumo &aacute;s vezes, de manh&atilde;&#8230; E vae, tinham<br \/>\n    partido<br \/>\n    para Queluz.<br \/>\n    Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida:<br \/>\n    &#8211; Mas ent&atilde;o?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a governanta&#8230;<br \/>\n    Depois do almo&ccedil;o deu-lhe uma d&ocirc;r. A governante queria um medico<br \/>\n    inglez, porque n&atilde;o falla sen&atilde;o inglez&#8230; Do hotel foram procurar<br \/>\n    o Smith, que n&atilde;o appareceu&#8230; E a pequena a morrer!&#8230; Felizmente,<br \/>\n    cheguei eu, e lembrei-me logo de ti&#8230; Foi sorte encontrar-te, caramba!<br \/>\n    E acrescentou, dando um olhar ao jardim:<br \/>\n    &#8211; Tambem, irem a Queluz com um dia d&#8217;estes! H&atilde;o-de-se divertir&#8230; Est&aacute;s<br \/>\n    prompto, hein? Eu tenho l&aacute; em baixo o coup&eacute;&#8230; Deixa as luvas,<br \/>\n    vaes muito bem sem luvas!<br \/>\n    &#8211; O av&ocirc; que n&atilde;o me espere para almo&ccedil;ar, gritou Carlos<br \/>\n    ao Baptista, j&aacute; do fundo da escada.<br \/>\n    Dentro do coup&eacute;, um ramo enorme enchia quasi o assento.<br \/>\n    &#8211; Era para ella, disse o Damaso, pondo-o sobre os joelhos. Pela-se por flores.<br \/>\n    Apenas o coup&eacute; partiu, Carlos cerrando a vidra&ccedil;a, fez a pergunta<br \/>\n    que desde a appari&ccedil;&atilde;o do Damaso lhe faiscava nos labios.<br \/>\n    &#8211; Mas ent&atilde;o tu, que querias quebrar a cara a esse Castro Gomes?&#8230;<br \/>\n    O Damaso contou logo tudo, triumphante. F&ocirc;ra tudo um equivoco! Ah, as<br \/>\n    explica&ccedil;&otilde;es do Castro Gomes tinham sido d&#8217;um gentleman. Sen&atilde;o<br \/>\n    quebrava-lhe a cara. Isso n&atilde;o, desconsidera&ccedil;&otilde;es, a ninguem!<br \/>\n    a ninguem! Mas f&ocirc;ra assim: os bilhetes de visita que elle lhe deixara<br \/>\n    conservavam o seu adresse do Grand Hotel em Paris. E o Castro Gomes, suppondo<br \/>\n    que elle vivia l&aacute;, obdecendo &aacute; indica&ccedil;&atilde;o, mandara<br \/>\n    para l&aacute; os seus cart&otilde;es! Curioso, hein? E de estupido&#8230; E a<br \/>\n    falta de resposta aos telegrammas f&ocirc;ra culpa de Madame, descuido, n&#8217;aquelle<br \/>\n    momento de afflic&ccedil;&atilde;o, vendo o marido com o bra&ccedil;o escavacado&#8230;<br \/>\n    Ah, tinham-lhe dado satisfa&ccedil;&otilde;es humildes. E agora eram intimos,<br \/>\n    estava l&aacute; quasi sempre&#8230;<br \/>\n    &#8211; Emfim, menino, um romance&#8230; Mas isso &eacute; para mais tarde!<br \/>\n    O coup&eacute; parara &aacute; porta do Hotel Central. Damaso saltou, correu<br \/>\n    ao guarda port&atilde;o.<br \/>\n    Mandou o telegramma, Antonio?<br \/>\n    &#8211; J&aacute; l&aacute; vae&#8230;<br \/>\n    &#8211; Tu comprehendes, dizia elle a Carlos, galgando as escadas, mandei-lhes logo<br \/>\n    um telegramma para o hotel em Queluz. N&atilde;o estou para ter mais responsabilidades!&#8230;<br \/>\n    No corredor, defronte do escriptorio, um criado passava, com um guardanapo<br \/>\n    debaixo do bra&ccedil;o:<br \/>\n    &#8211; Como est&aacute; a menina? gritou-lhe o Damaso.<br \/>\n    O criado encolheu os hombros, sem comprehender.<br \/>\n    Mas Damaso j&aacute; trepava o outro lan&ccedil;o de escada, soprando, gritando:<br \/>\n    &#8211; Por aqui Carlos, eu conhe&ccedil;o isto a palmos! Numero 26!<br \/>\n    Abriu com estrondo a porta do numero 26. Uma criada, que estava &aacute; janella,<br \/>\n    voltou-se.<br \/>\n    Ah bonjour, Melanie! exclamava Damaso, no seu extraordinario francez. A crean&ccedil;a<br \/>\n    estava melhor? l&#8217;enfant etait meilleur? Ali lhe trazia o doutor, monsieur<br \/>\n    le docteur Maia.<br \/>\n    Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que Mademoiselle estava mais<br \/>\n    socegada, e ella ia avisar miss Sarah, a governanta. Passou o espanador pelo<br \/>\n    marmore d&#8217;uma console, ageitou os livros sobre a meza, e sahiu, dardejando<br \/>\n    a Carlos um olhar vivo como uma faisca.<br \/>\n    A sala era espa&ccedil;osa, com uma mobilia de r&eacute;ps azul, e um grande<br \/>\n    espelho sobre a console dourada, entre as duas janellas: a meza estava coberta<br \/>\n    de jornaes, de caixas de charutos, e de romances de Cappendu; sobre uma cadeira,<br \/>\n    ao lado, fic&aacute;ra enrolado um bordado.<br \/>\n    &#8211; Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o Damaso, fechando a janella com<br \/>\n    um esfor&ccedil;o sobre o feixo perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que<br \/>\n    gente!<br \/>\n    &#8211; Este cavalheiro &eacute; bonapartista, disse Carlos, vendo sobre a meza<br \/>\n    os numeros do Pays.<br \/>\n    &#8211; Isso, temos quest&otilde;es terriveis! exclamou o Damaso. E eu enterro-o<br \/>\n    sempre&#8230; &Eacute; bom rapaz, mas tem pouco fundo.<br \/>\n    Melanie voltou pedindo a Monsieur le Docteur para entrar um instante no gabinete<br \/>\n    de toilette. E ahi, depois de apanhar uma toalha cahida, de dardejar a Carlos<br \/>\n    outro olharsinho petulante, disse que Miss Sarah vinha immediatamente, e retirou-se<br \/>\n    na ponta dos sapatos. F&oacute;ra, na sala, ergueu-se logo a voz do Damaso,<br \/>\n    fallando a Melanie de sa responsabilit&eacute;, et que il etait tr&egrave;s<br \/>\n    afflig&eacute;.<br \/>\n    Carlos ficou s&oacute;, na intimidade d&#8217;aquelle gabinete de toilette, que<br \/>\n    n&#8217;essa manh&atilde; ainda n&atilde;o f&ocirc;ra arrumado. Duas malas, pertencentes<br \/>\n    de certo a Madame, enormes, magnificas, com fecharias e cantos de a&ccedil;o<br \/>\n    polido, estavam abertas: d&#8217;uma trasbordava uma cauda rica, de seda forte c&ocirc;r<br \/>\n    de vinho: e na outra era um delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo<br \/>\n    secreto e raro de rendas e baptistes, d&#8217;um brilho de neve, macio pelo uso<br \/>\n    e cheirando bem. Sobre uma cadeira alastrava-se um monte de meias de seda,<br \/>\n    de todos os tons, unidas, bordadas, abertas em renda, e t&atilde;o leves,<br \/>\n    que uma aragem as faria voar; e, no ch&atilde;o corria uma fila de sapatinhos<br \/>\n    de verniz, todos do mesmo estylo, longos, com o tac&atilde;o baixo, e grandes<br \/>\n    fitas de la&ccedil;ar. A um canto estava um cesto acolchoado de seda c&ocirc;r<br \/>\n    de rosa, onde de certo viajara a cadellinha.<br \/>\n    Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um soph&aacute; onde fic&aacute;ra<br \/>\n    estendido, com as duas mangas abertas, &aacute; maneira de dous bra&ccedil;os<br \/>\n    que se offerecem, o casaco branco de velludo lavrado de Genova com que elle<br \/>\n    a vira, a primeira vez, apear-se &aacute; porta do hotel. O forro, de setim<br \/>\n    branco, n&atilde;o tinha o menor acolxoado, t&atilde;o perfeito devia ser<br \/>\n    o corpo que vestia: e assim, deitado sobre o soph&aacute;, n&#8217;essa attitude<br \/>\n    viva, n&#8217;um desabotoado de semi-nudez, adiantando em vago relevo o cheio de<br \/>\n    dois seios, com os bra&ccedil;os alargando-se, dando-se todos, aquelle estofo<br \/>\n    parecia exhalar um calor humano, e punha ali a f&oacute;rma d&#8217;um corpo amoroso,<br \/>\n    desfallecendo n&#8217;um silencio d&#8217;alcova. Carlos sentiu bater o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Um perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de tanglewood, elevava-se<br \/>\n    de todas aquellas cousas intimas, passava-lhe pela face com um bafo suave<br \/>\n    de caricia&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o desviou os olhos, approximou-se da janella, que tinha por perspectiva<br \/>\n    a fachada enxovalhada do hotel Shneid. Quando se voltou, miss Sarah estava<br \/>\n    diante d&#8217;elle, vestida de preto e muito c&oacute;rada: era uma pessoa sympathica,<br \/>\n    redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os olhos sentimentaes, e uma<br \/>\n    testa de virgem sob band&oacute;s lisos e louros. Balbuciava umas palavras<br \/>\n    em francez, em que Carlos s&oacute; percebeu docteur.<br \/>\n    &#8211; Yes, I am the doctor, disse elle.<br \/>\n    A face da boa ingleza illuminou-se. Oh! era t&atilde;o bom, ter emfim com<br \/>\n    quem se entender! A menina estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livral-<br \/>\n    a d&#8217;uma responsabilidade!&#8230;<br \/>\n    Abriu o reposteiro, f&ecirc;l-o penetrar n&#8217;um quarto com as janellas todas<br \/>\n    cerradas, onde elle apenas distinguiu a f&oacute;rma d&#8217;um grande leito e o<br \/>\n    brilho de cristaes n&#8217;um toucador. Perguntou para que eram aquellas trevas?<br \/>\n    Miss Sarah pensara que a escurid&atilde;o faria bem &aacute; menina, e a adormeceria.<br \/>\n    E trouxera-a ali para o quarto da mam&atilde;, por ser mais largo e mais arejado.<br \/>\n    Carlos fez abrir as janellas: e, quando a grande luz entrou, ao avistar a<br \/>\n    pequena no leito, sob os cortinados abertos, n&atilde;o conteve a sua admira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Que linda crean&ccedil;a!<br \/>\n    E ficou um instante a contemplal-a, n&#8217;um enlevo d&#8217;artista, pensando que os<br \/>\n    brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sabia combina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de luz, n&atilde;o egualariam a pallidez eburnea d&#8217;aquella pelle maravilhosa:<br \/>\n    e esta adoravel brancura era ainda real&ccedil;ada por um cabello negro, tenebroso,<br \/>\n    forte, que reluzia sob a rede. Os seus por dois olhos grandes, d&#8217;um azul profundo<br \/>\n    e liquido, pareciam n&#8217;esse instante maiores, muito serios, e muito abertos<br \/>\n    para elle.<br \/>\n    Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com o susto ainda da<br \/>\n    d&ocirc;r, perdida n&#8217;aquelle vasto leito, e apertando nos bra&ccedil;os uma<br \/>\n    enorme boneca paramentada, de pello ri&ccedil;ado, d&#8217;olhos tambem azues e<br \/>\n    arregalados tambem.<br \/>\n    Carlos tomou-lhe a m&atilde;osinha e beijou-lh&#8217;a, &#8211; perguntando se a boneca<br \/>\n    tambem estava doente.<br \/>\n    &#8211; Cri-cri tambem teve d&ocirc;r, respondeu ella muito s&eacute;ria, sem tirar<br \/>\n    d&#8217;elle os seus magnificos olhos. Eu j&aacute; n&atilde;o tenho&#8230;<br \/>\n    Estava com effeito fresca como uma flor, com a lingoasinha muito rosada, e<br \/>\n    a sua vontade j&aacute; de lunchar.<br \/>\n    Carlos tranquillisou miss Sarah. Oh, ella via bem que mademoiselle estava<br \/>\n    boa. O que a assustara f&ocirc;ra achar-se ali s&oacute;, sem a mam&atilde;,<br \/>\n    com aquella responsabilidade. Por isso a tinha deitado&#8230; Oh se fosse uma<br \/>\n    crean&ccedil;a ingleza sa&iacute;a com ella para o ar&#8230; Mas estas meninas<br \/>\n    estrangeiras, t&atilde;o debeis, t&atilde;o delicadas&#8230; E o labiosinbo gordo<br \/>\n    da ingleza trahia um desdem compassivo por estas ra&ccedil;as inferiores e<br \/>\n    deterioradas.<br \/>\n    &#8211; Mas a mam&atilde; n&atilde;o &eacute; doente?<br \/>\n    Oh, n&atilde;o! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, parecia mais fraco&#8230;<br \/>\n    &#8211; E, como se chama a minha querida amiga? perguntou Carlos, sentado &aacute;<br \/>\n    cabeceira do leito.<br \/>\n    &#8211; Esta &eacute; Cri-cri, disse a pequena, apresentando outra vez a boneca.<br \/>\n    Eu chamo-me Rosa, mas o pap&aacute; diz que eu que sou Rosicler.<br \/>\n    &#8211; Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo d&#8217;aquelle nome de livro de cavallaria,<br \/>\n    rescendente a torneios, e a bosques de fadas.<br \/>\n    Ent&atilde;o, como colhendo simplesmente informa&ccedil;&otilde;es de medico,<br \/>\n    perguntou a miss Sarah se a menina sentira a mudan&ccedil;a de clima. Habitavam<br \/>\n    ordinariamente Paris, n&atilde;o &eacute; verdade?<br \/>\n    Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux; de ver&atilde;o iam para<br \/>\n    uma quinta da Touraine, ao p&eacute; mesmo de Tours, onde ficavam at&eacute;<br \/>\n    ao come&ccedil;o da ca&ccedil;a; e iam sempre passar um mez a Dieppe. Pelo<br \/>\n    menos fora assim, nos ultimos tres annos, desde que ella estava com Madame.<br \/>\n    Emquanto a ingleza fallava, Rosa, com a sua boneca nos bra&ccedil;os, n&atilde;o<br \/>\n    cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Elle, de vez em quando,<br \/>\n    sorria-lhe, ou acariciava-lhe a m&atilde;osinha. Os olhos da m&atilde;e eram<br \/>\n    negros: os do pae d&#8217;azeviche e pequeninos: quem herdara ella aquellas maravilhosas<br \/>\n    pupillas d&#8217;um azul t&atilde;o rico, liquido e doce.<br \/>\n    Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para receitar um calmante. Emquanto<br \/>\n    a ingleza preparava muito cuidadosamente o papel, e experimentava a pena,<br \/>\n    elle examinou um momento o quarto. N&#8217;aquella installa&ccedil;&atilde;o banal<br \/>\n    d&#8217;hotel, certos retoques d&#8217;uma elegancia delicada revelavam a mulher de gosto<br \/>\n    e de luxo: sobre a commoda e sobre a meza havia grandes ramos de flores: os<br \/>\n    travesseiros e os len&ccedil;oes n&atilde;o eram do<br \/>\n    hotel, mas proprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogrammas bordados<br \/>\n    a duas c&ocirc;res. Na poltrona que ella usava uma cachemira de Tarnah disfar&ccedil;ava<br \/>\n    o medonho reps desbotado.<br \/>\n    Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a meza alguns livros<br \/>\n    de encaderna&ccedil;&otilde;es ricas, romances e poetas inglezes: mas destoava<br \/>\n    ali, estranhamente, uma brochura singular &#8211; o Manual de interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos sonhos. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das escovas,<br \/>\n    os cristaes dos frascos, as tartarugas finas, havia outro objecto estravagante,<br \/>\n    uma enorme caixa de p&oacute; de arroz, toda de prata dourada, com uma magnifica<br \/>\n    safira engastada na tampa dentro d&#8217;um circulo de brilhantes miudos, uma joia<br \/>\n    exagerada de cocotte, pondo ali uma dissonancia audaz de explendor brutal.<br \/>\n    Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ella estendeu-lhe<br \/>\n    logo a boquinha fresca como um bot&atilde;o de rosa; elle n&atilde;o ousou<br \/>\n    beijal-a assim n&#8217;aquelle grande leito da m&atilde;e, e tocou-lhe apenas na<br \/>\n    testa.<br \/>\n    &#8211; Quando vens tu outra vez? perguntou ella agarrando-o pela manga do casaco.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o &eacute; necessario vir outra vez, minha querida. Tu est&aacute;s<br \/>\n    boa, e Cri-cri tambem.<br \/>\n    &#8211; Mas eu quero o meu lunch&#8230; Dize a Sarah que eu posso tomar o meu lunch&#8230;<br \/>\n    E Cri-cri tambem.<br \/>\n    &#8211; Sim j&aacute; podeis ambas petiscar alguma cousa&#8230;<br \/>\n    Fez as suas recommenda&ccedil;&otilde;es &aacute; mestra, e depois, apertando<br \/>\n    a m&atilde;osinba da pequena:<br \/>\n    &#8211; E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que &eacute;s Rosicler&#8230;<br \/>\n    E n&atilde;o quiz ser menos amavel com a boneca, deu-lhe tambem um shake-hands.<br \/>\n    Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A ingleza, ao lado, sorria, com duas<br \/>\n    covinhas na face.<br \/>\n    N&atilde;o era necessario, lembrou Carlos, conservar a crean&ccedil;a na cama,<br \/>\n    nem tortural-a com cautellas exageradas&#8230;<br \/>\n    &#8211; Oh, n&ograve;, sir!<br \/>\n    E se a d&ocirc;r reapparecesse, ainda que ligeira, mandal-o logo chamar&#8230;<br \/>\n    &#8211; Oh yes, sir!<br \/>\n    E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse.<br \/>\n    &#8211; Oh thank you, sir!<br \/>\n    Ao voltar &aacute; sala, o Damaso saltou do soph&aacute;, onde percorria um<br \/>\n    jornal, como uma f&eacute;ra a quem se abre a jaula.<br \/>\n    &#8211; Credo, imaginei que ias l&aacute; ficar toda a vida! Que estivestes tu a<br \/>\n    fazer? Irra, que estopada!<br \/>\n    Carlos, cal&ccedil;ando as luvas, sorria, sem responder.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, &eacute; cousa de cuidado?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o tem nada. Tem uns lindos olhos&#8230; E um nome extraordinario.<br \/>\n    &#8211; Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o chap&eacute;o com mau modo; muito<br \/>\n    ridiculo, n&atilde;o &eacute; verdade?<br \/>\n    A creada franceza appareceu outra vez a abrir a porta da sala, &#8211; dardejando<br \/>\n    para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Damaso recommendou-lhe muito que<br \/>\n    dissesse aos senhores, que elle tinha vindo logo com o medico; e que havia<br \/>\n    de voltar &aacute; noite para lhes fazer uma surpreza, e para saber se tinham<br \/>\n    gostado de Queluz &#8211; si ils avaient aim&egrave; Queluz.<br \/>\n    Depois, ao passar diante do escriptorio, metteu a cabe&ccedil;a, para dizer<br \/>\n    ao guarda-livros, que a menina estava boa, tudo ficava em socego.<br \/>\n    O guarda livros sorrio e cortejou.<br \/>\n    &#8211; Queres que te v&aacute; levar a casa? perguntou elle a Carlos, em baixo,<br \/>\n    abrindo a porta do coup&eacute;, ainda com um resto de mau humor.<br \/>\n    Carlos preferia ir a p&eacute;.<br \/>\n    &#8211; E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora n&atilde;o tens que fazer.<br \/>\n    Damaso hesitou, olhando o c&eacute;u aspero, as nuvens pesadas de chuva. Mas<br \/>\n    Carlos tomara-lhe o bra&ccedil;o, arrastava-o, amavel e gracejando.<br \/>\n    &#8211; Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o romance&#8230; Tu disseste<br \/>\n    que tinhas um romance. N&atilde;o te largo. &Eacute;s meu. Venha o romance.<br \/>\n    Eu sei que os tens sempre bons. Quero o romance!<br \/>\n    Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de satisfa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Vae-se fazendo pela vida, disse elle a estoirar de jactancia.<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc;s estiveram em Cintra?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Estivemos, mas isso n&atilde;o foi divertido&#8230; O romance &eacute; outro!<br \/>\n    Desprendeu-se do bra&ccedil;o de Carlos, fez um signal ao cocheiro para que<br \/>\n    os seguisse, e regalou-se pelo Aterro f&oacute;ra de contar o seu romance.<br \/>\n    &#8211; A coisa &eacute; esta&#8230; O marido d&#8217;aqui a dias vai para o Brazil, tem l&aacute;<br \/>\n    negoc&iacute;os. E ella fica! Fica com as criadas e com a pequena, &aacute;<br \/>\n    espera, dois ou tres mezes. Diz que j&aacute; andaram at&eacute; a v&ecirc;r<br \/>\n    casas mobiladas, que ella n&atilde;o quer estar no hotel&#8230; E eu, intimo,<br \/>\n    a unica pessoa que ella conhece, mettido de dentro&#8230; Hein, percebes agora?<br \/>\n    &#8211; Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um gesto<br \/>\n    nervoso. E de certo, a pobre creatura j&aacute; est&aacute; fascinada! J&aacute;<br \/>\n    lhe d&eacute;ste, como costumas, um beijo ardente entre duas portas! J&aacute;<br \/>\n    a desgra&ccedil;ada se surtiu da caixa de phosphoros, para mais tarde quando<br \/>\n    a abandonares!<br \/>\n    Damaso enfiava.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o venhas j&aacute; tu com o espirito e com a chufasinha&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    lhe dei beijos que ainda n&atilde;o houve occasi&atilde;o&#8230; Mas, o que te<br \/>\n    posso dizer, &eacute; que tenho mulher!<br \/>\n    &#8211; Pois j&aacute; era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e<br \/>\n    atirando-lhe as palavras como chicotadas. J&aacute; era tempo! Andavas ahi<br \/>\n    mettido com umas creaturas ignobeis, uma ral&eacute; de lupanar&#8230; Emfim,<br \/>\n    agora ha progresso. E eu gosto que os meus amigos vivam n&#8217;uma ordem de sentimentos<br \/>\n    decentes&#8230; Mas v&ecirc; l&aacute;&#8230; N&atilde;o sejas o costumado Damaso!<br \/>\n    N&atilde;o te v&aacute;s p&ocirc;r a alardear isso pelo Gremio e pela casa<br \/>\n    Havaneza!<br \/>\n    D&#8217;esta vez Damaso estacou, suffocado, sem comprehender aquelle modo, semelhante<br \/>\n    azedume. E terminou por balbuciar, livido:<br \/>\n    &#8211; Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas l&aacute; a respeito<br \/>\n    de mulheres, e da maneira de fazer as cousas, n&atilde;o me d&aacute;s lic&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente, sentio-o<br \/>\n    t&atilde;o innofensivo, t&atilde;o insignificante, com o seu ar bochechudo,<br \/>\n    e molle, que se envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe<br \/>\n    o bra&ccedil;o, teve duas palavras amaveis.<br \/>\n    &#8211; Damaso, tu n&atilde;o me comprehendeste. Eu n&atilde;o te quiz fazer zangar&#8230;<br \/>\n    &Eacute; para teu bem&#8230; O que eu receava &eacute; que tu, imprudente, arrebatado,<br \/>\n    apaixonado, fosses perder essa bella aventura por uma indiscr&iacute;&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    E o outro ficou logo contente, sorrindo j&aacute;, abandonando-se ao bra&ccedil;o<br \/>\n    do seu amigo, certo que o desejo do Maia era que elle tivesse uma amante chic.<br \/>\n    N&atilde;o, elle n&atilde;o se tinha zangado, nunca se zangava com os intimos&#8230;<br \/>\n    Comprehendia bem que o que Carlos dizia era por amisade&#8230;<br \/>\n    &#8211; Mas tu, &aacute;s vezes, tens essa cousa que te pegou o Ega, gostas do teu<br \/>\n    bocadinho de espirito&#8230;<br \/>\n    E ent&atilde;o tranquillisou-o. N&atilde;o, por imprudencia n&atilde;o havia<br \/>\n    elle de &laquo;perder a cousa&raquo;. Aquillo ia com todas as regras. L&aacute;<br \/>\n    n&#8217;isso sobrava-lhe experiencia. A Melanie j&aacute; a tinha na m&atilde;o;<br \/>\n    j&aacute; lhe dera duas libras.<br \/>\n    &#8211; Isto de mais a mais &eacute; uma cousa muito seria&#8230; Ella conhece meu tio,<br \/>\n    &eacute; intima d&#8217;elle desde pequena, tratam-se at&eacute; por tu&#8230;<br \/>\n    &#8211; Que tio?<br \/>\n    &#8211; Meu tio Joaquim&#8230; Meu tio Joaquim Guimar&atilde;es. Mr. de Guimaran, o<br \/>\n    que vive em Paris, o amigo de Gambetta&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ah sim, o communista&#8230;<br \/>\n    &#8211; Qual communista, at&eacute; tem carruagem!<br \/>\n    Subitamente lembrou-lhe outra cousa, um ponto de toilette em que queria consultar<br \/>\n    Carlos.<br \/>\n    &#8211; &Aacute;manh&atilde; vou jantar com elles, e v&atilde;o tambem dois brazileiros,<br \/>\n    amigos d&#8217;elle, que chegaram ahi ha dias, e que partem pelo mesmo paquete&#8230;<br \/>\n    Um &eacute; chic, &eacute; da Lega&ccedil;&atilde;o do Brazil em Londres.<br \/>\n    De maneira que &eacute; jantar de ceremonia. O Castro Gomes n&atilde;o me<br \/>\n    disse nada; mas que te parece, achas que v&aacute; de casaca?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapella.<br \/>\n    O Damaso olhou-o, pensativo.<br \/>\n    &#8211; A mim tinha-me lembrado o habito de Christo.<br \/>\n    &#8211; O habito de Christo&#8230; Sim, p&otilde;e o habito de Christo ao pesco&ccedil;o,<br \/>\n    e p&otilde;e a rosa na botoeira.<br \/>\n    &#8211; Ser&aacute; talvez de mais, Carlos!<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, fica bem ao teu typo.<br \/>\n    Damaso fizera parar o coup&eacute; que os tinha seguido a passo. E no ultimo<br \/>\n    aperto de m&atilde;o a Carlos:<br \/>\n    &#8211; Tu sempre vaes &aacute; noite, aos Cohens, de domin&oacute;? O meu fato<br \/>\n    de selvagem ficou divino. Eu venho mostral-o &aacute; noite &aacute; brazileira&#8230;<br \/>\n    Entro no Hotel embrulhado n&#8217;um capote, e appare&ccedil;o-lhes de repente na<br \/>\n    sala, de selvagem, de Nelusko, a cantar:<\/p>\n<p>\n    Alerta, marinari,<br \/>\n    Il vento cangia&#8230;<\/p>\n<p>Chic a valer!&#8230; Good bye!<\/p>\n<p>\n    &Aacute;s dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. F&oacute;ra,<br \/>\n    a noite fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas d&#8217;agoa, que a<br \/>\n    cada instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilette,<br \/>\n    errava no ar tepido um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre duas<br \/>\n    commodas de pau preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de velho bronze<br \/>\n    erguiam os seus molhos de vellas accezas, pondo largos reflexos doces sobre<br \/>\n    a seda castanha das paredes. Ao lado do alto espelho-psych&eacute; alastrava-se,<br \/>\n    em cima d&#8217;uma poltrona, o domin&oacute; de j&aacute; setim negro com um grande<br \/>\n    la&ccedil;o azul-claro.<br \/>\n    Baptista, com a casaca na m&atilde;o, esperava que Carlos acabasse a chavena<br \/>\n    de ch&aacute; preto que elle estava bebendo aos golos, de p&eacute;, em mangas<br \/>\n    de camisa, e de gravata branca.<br \/>\n    De repente, o timbre electrico da porta particular reteniu, apressado e violento.<br \/>\n    &#8211; Talvez outra surpreza, murmurou Carlos, hoje &eacute; o dia das surprezas&#8230;<br \/>\n    Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir &#8211; quando em baixo vibrou outro<br \/>\n    repique brutal, d&#8217;uma impaciencia phrenetica.<br \/>\n    Ent&atilde;o Carlos, curioso, sahiu &aacute; ante-camara: e ahi, &aacute;<br \/>\n    meia luz das lampadas Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos velludos c&ocirc;r<br \/>\n    de cereja, viu, ao abrir-se a porta por onde entrou um sopro aspero da noite,<br \/>\n    apparecer vivamente uma f&oacute;rma esguia e vermelha, com um confuso tinir<br \/>\n    de ferro. Depois, pela escada acima, duas pennas negras de gallo ondearam,<br \/>\n    um manto escarlate esvoa&ccedil;ou &#8211; e o Ega estava diante d&#8217;elle, caracterisado,<br \/>\n    vestido de Mephistopheles! <br \/>\n    Carlos apenas poude dizer bravo &#8211; o aspecto do Ega emmudeceu-o. Apezar dos<br \/>\n    toques de caracterisa&ccedil;&atilde;o que quasi o mascaravam, sobrancelhas<br \/>\n    de diabo, guias de bigode ferozmente exageradas &#8211; sentia-se bem a afflic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que vinha, com os olhos injectados, perdido, n&#8217;uma terrivel pallidez. Fez<br \/>\n    um gesto a Carlos, arremessou-se pelo gabinete dentro. Baptista, logo, discretamente,<br \/>\n    retirou-se cerrando o reposteiro.<br \/>\n    Estavam s&oacute;s. Ent&atilde;o Ega, apertando desesperadamente as m&atilde;os,<br \/>\n    n&#8217;uma voz rouca e d&#8217;agonia:<br \/>\n    &#8211; Tu sabes o que me succedeu, Carlos?<br \/>\n    Mas n&atilde;o poude dizer mais, suffocado, tremendo todo; e diante d&#8217;elle,<br \/>\n    devorando-o com os olhos, Carlos tremia tambem, enfiado.<br \/>\n    &#8211; Cheguei a casa dos Cohens, continuou Ega por fim com esfor&ccedil;o e quasi<br \/>\n    balbuciando, mais cedo, como tinhamos combinado. Ao entrar na sala, j&aacute;<br \/>\n    estavam duas ou tres pessoas&#8230; Elle vem direito a mim, e diz-me: &laquo;Voc&ecirc;,<br \/>\n    seu infame, ponha-se j&aacute; no meio da rua&#8230; J&aacute; no meio da rua<br \/>\n    sen&atilde;o, diante d&#8217;esta gente, corro-o a pontap&eacute;s!&raquo; E eu,<br \/>\n    Carlos&#8230;<br \/>\n    Mas a colera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momento mordendo os bei&ccedil;os,<br \/>\n    recalcando os solu&ccedil;os, com os olhos reluzentes de lagrimas.<br \/>\n    Quando as palavras voltaram, foi uma explos&atilde;o selvagem:<br \/>\n    &#8211; Quero-me batter em duello com aquelle malvado, a cinco passos, metter-lhe<br \/>\n    uma bala no cora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; e, batendo furiosamente<br \/>\n    o p&eacute;, esmurrando o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se na estridencia<br \/>\n    da propria voz.<br \/>\n    &#8211; Quero matal-o! Quero matal-o! Quero matal-o!<br \/>\n    Depois, allucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabridamente pelo quarto,<br \/>\n    &aacute;s patadas, com o manto deitado para traz, a espada mal afivelada batendo-lhe<br \/>\n    as canellas escarlates.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o descobriu tudo, murmurou Carlos.<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; claro que descobriu tudo! exclamou o Ega, no seu passear arrebatado,<br \/>\n    atirando os bra&ccedil;os ao ar. Como descobriu, n&atilde;o sei. Sei isto,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o &eacute; pouco. Poz-me f&oacute;ra!&#8230; Hei-de-lhe metter<br \/>\n    uma bala no corpo! Pela alma de meu pae, hei-de-lhe varar o cora&ccedil;&atilde;o!&#8230;<br \/>\n    Quero que v&aacute;s l&aacute; logo pela manh&atilde; com o Craft&#8230; E as<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o estas: &aacute; pistolla, a quinze passos!<br \/>\n    Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chavena de ch&aacute;. Depois<br \/>\n    disse muito simplesmente:<br \/>\n    &#8211; Meu querido Ega, tu n&atilde;o podes mandar desafiar o Cohen.<br \/>\n    O outro estacou de repell&atilde;o, atirando pelos olhos dois relampagos d&#8217;ira<br \/>\n    &#8211; a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas pennas de gallo ondeando<br \/>\n    na gorra, davam uma ferocidade theatral e comica.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o o posso mandar desafiar?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o p&otilde;e-me f&oacute;ra de casa&#8230;<br \/>\n    &#8211; Estava no seu direito.<br \/>\n    &#8211; No seu direito!&#8230; Diante de toda a gente?&#8230;<br \/>\n    &#8211; E tu, n&atilde;o eras amante da mulher diante de toda a gente?&#8230;<br \/>\n    O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado. Depois fez um<br \/>\n    grande gesto:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o se trata da mulher!&#8230; n&atilde;o se fallou da mulher!&#8230; &Eacute;<br \/>\n    uma quest&atilde;o d&#8217;honra para mim, quero mandal-o desafiar, quero matal-o&#8230;<br \/>\n    Carlos encolheu os hombros.<br \/>\n    &#8211; Tu n&atilde;o est&aacute;s em ti. Tens s&oacute; uma coisa a fazer; &eacute;<br \/>\n    ficar &aacute;manh&atilde; em casa, a v&ecirc;r se elle te manda desafiar<br \/>\n    a ti&#8230;<br \/>\n    &#8211; O que, o Cohen! exclamou Ega. &Eacute; um covarde, &eacute; um canalha!&#8230;<br \/>\n    Ou o mato, ou lhe rasgo a cara com um chicote. Desafiar-me! Olha quem&#8230; Tu<br \/>\n    est&aacute;s doido&#8230;<br \/>\n    E recome&ccedil;ou o seu passear desabalado do espelho para a janella, soprando,<br \/>\n    rilhando os dentes, com repell&otilde;es para traz ao manto que faziam oscillar,<br \/>\n    nas serpentinas, as chammas altas das vellas.<br \/>\n    Carlos n&atilde;o dizia nada, de p&eacute; junto da meza, enchendo lentamente<br \/>\n    de novo a sua chavena. Tudo aquillo come&ccedil;ava a parecer-lhe pouco serio,<br \/>\n    pouco digno, as amea&ccedil;as de pontap&eacute;s do marido, os furores melodramaticos<br \/>\n    do Ega: &#8211; e mesmo n&atilde;o podia deixar de sorrir diante d&#8217;aquelle Mephistopheles<br \/>\n    esgouroviado, espalhando pelo quarto o brilho escarlate do seu manto de velludo,<br \/>\n    e a fallar furiosamente d&#8217;honra e de morte, com sobrancelhas posti&ccedil;as,<br \/>\n    e escarcella de coiro &aacute; cinta.<br \/>\n    &#8211; Vamos fallar ao Craft! exclamou de repente Ega, parando, com esta brusca<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o. Quero v&ecirc;r o que diz o Craft. Tenho l&aacute;<br \/>\n    em baixo uma tipoia, estamos l&aacute; n&#8217;um instante!<br \/>\n    &#8211; Ir agora &aacute; quinta, aos Olivaes? disse Carlos, olhando o relogio.<br \/>\n    &#8211; Se &eacute;s meu amigo, Carlos!&#8230;<br \/>\n    Carlos immediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de se vestir.<br \/>\n    Ega, no entanto, ia preparando uma chavena de ch&aacute;, deitando-lhe rhum,<br \/>\n    ainda t&atilde;o nervoso, que mal podia segurar a garrafa. Depois, com um<br \/>\n    grande suspiro, accendeu uma cigarrete. Carlos entr&aacute;ra na alcova de<br \/>\n    banho, ao lado, allumiada por um forte jacto de gaz que assobiava. F&oacute;ra,<br \/>\n    a chuva continuava seguida e monotona, as goteiras escoavam-se no ch&atilde;o<br \/>\n    molle do jardim.<br \/>\n    &#8211; Achas que a tipoia aguentar&aacute;? perguntou Carlos de dentro.<br \/>\n    &#8211; Aguenta, &eacute; o Canh&ocirc;to, disse Ega.<br \/>\n    Agora reparara no domin&oacute;, f&ocirc;ra erguel-o, examinava-lhe o setim<br \/>\n    rico, o bello la&ccedil;o azul claro. Depois, tendo encontrado diante de si<br \/>\n    o grande espelho-psych&eacute;, entalou o monoculo no olho, recuou um passo,<br \/>\n    contemplou-se d&#8217;alto a baixo; &#8211; e terminou por pousar uma das m&atilde;os<br \/>\n    na cinta, appoiar a outra, galhardamente, sobre os copos da espada.<br \/>\n    &#8211; Eu n&atilde;o estava mal, oh Carlos, hein?<br \/>\n    &#8211; Estavas explendido, respondeu o outro de dentro da alcova. Foi pena estragar-se<br \/>\n    tudo&#8230; Como estava ella?<br \/>\n    &#8211; Devia estar de Margarida.<br \/>\n    &#8211; E elle?<br \/>\n    &#8211; A besta? De beduino.<br \/>\n    E continuou ao espelho, gosando a sua figura esguia, as pennas da gorra, os<br \/>\n    sapatos bicudos de velludo, e a ponta flamante da espada erguendo o manto<br \/>\n    por traz, n&#8217;uma prega fidalga.<br \/>\n    &#8211; Mas ent&atilde;o, disse Carlos, apparecendo a enxugar as m&atilde;os, tu<br \/>\n    n&atilde;o fazes id&eacute;a do que se passou, o que elle diria &aacute; mulher,<br \/>\n    o escandalo&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o fa&ccedil;o id&eacute;a nenhuma, disse o Ega, agora mais sereno.<br \/>\n    Quando entrei na primeira sala estava elle, de beduino; estava um outro sujeito<br \/>\n    d&#8217;urso, e uma senhora n&atilde;o sei de que, de Tyrollesa creio eu&#8230; Elle<br \/>\n    veiu para mim, e disse-me aquillo: ponha-se f&oacute;ra! N&atilde;o sei mais<br \/>\n    nada&#8230; Nem posso perceber&#8230; O canalha, se descobriu, naturalmente, para<br \/>\n    n&atilde;o estragar a festa, n&atilde;o disse nada a Rachel&#8230; Depois &eacute;<br \/>\n    que ellas s&atilde;o!<br \/>\n    Ergueu as m&atilde;os para o ceu, murmurou:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; horroroso!<br \/>\n    Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois n&#8217;uma outra voz, franzindo a face:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o sei que diabo aquelle Godefroy me deu para collar as sobrancelhas,<br \/>\n    que me picam que tem diabo!<br \/>\n    &#8211; Tira-as&#8230;<br \/>\n    Deante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de Santanaz.<br \/>\n    Mas arrancou-as por fim &#8211; e a gorra emplumada, muito justa, que lhe escaldava<br \/>\n    a cabe&ccedil;a. Ent&atilde;o Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do Craft,<br \/>\n    se desembara&ccedil;asse do manto e da espada, se agasalhasse n&#8217;um paletot<br \/>\n    d&#8217;elle. Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante traje infernal,<br \/>\n    e com um profundo suspiro come&ccedil;ou a desafivelar o talim. Mas o paletot<br \/>\n    era muito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra nas mangas. Depois<br \/>\n    Carlos metteu-lhe um bonet escossez na cabe&ccedil;a. &#8211; E assim arranjado,<br \/>\n    com as canellas vermelhas de diabo apparecendo sob o paletot, a gargantilha<br \/>\n    escarlate &aacute; Carlos IX emergindo da gola, a velha casqueta de viagem<br \/>\n    na nuca, o pobre Ega tinha o ar lamentavel d&#8217;um Satanaz pelintra, agasalhado<br \/>\n    pela caridade d&#8217;um gentleman, e usando-lhe o fato velho.<br \/>\n    Baptista allumiou, grave e discreto. Ega ao passar por elle, murmurou:<br \/>\n    &#8211; Isto vae mal, Baptista, isto vae mal&#8230;<br \/>\n    O velho creado teve um movimento triste d&#8217;hombros, como significando que nada<br \/>\n    no mundo ia bem.<br \/>\n    Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabe&ccedil;a sob a chuva. O Canhoto,<br \/>\n    ao ouvir fallar d&#8217;uma gorgeta de libra, fez um grande espalhafato, rompeu<br \/>\n    &aacute;s chicotadas; e a velha traquitana l&aacute; partiu a galope, a escorrer<br \/>\n    d&#8217;agua, atroando a cal&ccedil;ada.<br \/>\n    Por vezes um coup&eacute; particular crusava-os, os casacos de gutta-perche<br \/>\n    dos criados branquejavam &aacute; luz das lanternas. Ent&atilde;o a id&eacute;a<br \/>\n    da festa que devia agora resplandecer; Margarida ignorando tudo, walsando<br \/>\n    nos bra&ccedil;os d&#8217;outros, anciosa, &aacute; espera d&#8217;elle; a ceia depois,<br \/>\n    o champagne, as cousas brilhantes que elle teria dito &#8211; todas estas delicias<br \/>\n    perdidas se vinham cravar no cora&ccedil;&atilde;o do pobre Ega, arrancavam-lhe<br \/>\n    pragas surdas, Carlos fumava silenciosamente, com o pensamento no Hotel Central.<br \/>\n    Depois de Santa Apolonia a estrada come&ccedil;ou, infindavel, desabrigada,<br \/>\n    batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o seu<br \/>\n    canto, arripiados na friagem que entrava pelas gretas da tipoia. Carlos n&atilde;o<br \/>\n    cessava de v&ecirc;r o casaco branco de velludo, com as duas mangas abertas,<br \/>\n    como dois bra&ccedil;os que se offereciam&#8230;<br \/>\n    Passava da uma hora quando chegaram &aacute; quinta: a sineta do port&atilde;o,<br \/>\n    aos pux&otilde;es do cocheiro encharcado, retumbou lugubre n&#8217;aquelle silencio<br \/>\n    escuro<br \/>\n    de aldeia. Um c&atilde;o ladrou furiosamente: outros latidos ao longe responderam;<br \/>\n    e ainda esperaram muito, antes que um creado, somnolento e resmung&atilde;o,<br \/>\n    apparecesse com uma lanterna. Uma rua d&#8217;acacias conduzia &aacute; casa: o<br \/>\n    Ega praguejava, enterrando os seus bellos sapatos de velludo no ch&atilde;o<br \/>\n    lamacento.<br \/>\n    Craft, surprehendido com aquelle tumulto, veiu-lhes ao encontro no corredor,<br \/>\n    de robe-de-chambre, e a Revista dos Dois Mundos debaixo do bra&ccedil;o. Percebeu<br \/>\n    logo que havia desastre. Levou-os em silencio para o seu gabinete onde um<br \/>\n    bom lume de carv&atilde;o na chamin&eacute; aquecia, alegrava o aposento todo<br \/>\n    estofado de cretones claros. Ambos foram direitos ao lume.<br \/>\n    Ega rompera logo a contar o seu caso &#8211; emquanto Craft, sem espanto nem exclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ia preparando methodicamente sobre a meza tres grogs de cognac e lim&atilde;o.<br \/>\n    Carlos, sentado ao p&eacute; do fog&atilde;o, aquecia os p&eacute;s: e Craft<br \/>\n    veiu acabar de ouvir o Ega, accomodando-se tambem na sua poltrona, do outro<br \/>\n    lado da chamin&eacute;, com o seu cachimbo na bocca.<br \/>\n    &#8211; Emfim, exclamou Ega, de p&eacute;, cruzando os bra&ccedil;os, que me aconselhas<br \/>\n    tu agora?<br \/>\n    &#8211; Tens a fazer s&oacute; isto, disse Craft: esperar &aacute;manh&atilde; em<br \/>\n    casa que elle te mande os seus padrinhos&#8230; Que tenho a certeza que n&atilde;o<br \/>\n    manda&#8230; E depois, se vos baterdes, deixar-te ferir ou matar.<br \/>\n    &#8211; Perfeitamente o que eu disse, murmurou Carlos, provando o seu grog.<br \/>\n    Ega olhou-os a ambos, successivamente, petrificado. E logo, n&#8217;um fluxo de<br \/>\n    palavras desordenadas, queixou-se de n&atilde;o ter amigos. Ali estava, n&#8217;aquella<br \/>\n    crise, a maior da sua vida: e em logar de encontrar, nos seus camaradas de<br \/>\n    infancia e de Coimbra, apoio, solidariedade, lealdade &agrave; tort et &agrave;<br \/>\n    travers, abandonavam-n&#8217;o, pareciam querer enterral-o, e expol-o a irris&otilde;es<br \/>\n    maiores&#8230; Ia-se commovendo; os olhos vermelhejavam-lhe sob as lagrimas. E<br \/>\n    quando algum d&#8217;elles ia interrompel-o, n&#8217;uma palavra de senso, batia o p&eacute;,<br \/>\n    persistia na sua teima &#8211; um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sido<br \/>\n    insultado. N&atilde;o existia outra cousa. N&atilde;o se tinha fallado na<br \/>\n    mulher. Era elle que devia primeiro mandar padrinhos, lavar a sua honra. Havia<br \/>\n    pessoas na sala, quando o outro o insultou. Havia um urso, e uma tyrolesa&#8230;<br \/>\n    E emquanto a deixar-se varar por uma bala, n&atilde;o! Tinha mais direito<br \/>\n    a viver que o Cohen, que era um burguez, e um agiota&#8230; E elle era um homem<br \/>\n    de estudo e de arte! Tinha na cabe&ccedil;a livros, id&eacute;as, cousas grandes.<br \/>\n    Devia-se ao paiz, &aacute; civilisa&ccedil;&atilde;o!&#8230; Se fosse ao campo,<br \/>\n    era para fazer a sua pontaria, e abater o Cohen, ali, como uma besta immunda&#8230;<br \/>\n    &#8211; Mas o que &eacute;, &eacute; que n&atilde;o tenho amigos! gritou elle exhausto<br \/>\n    por fim, cahindo para o canto d&#8217;um soph&aacute;.<br \/>\n    Craft bebia em silencio, e aos golos, o seu cognac.<br \/>\n    Foi Carlos que se ergueu, serio e aspero. Elle n&atilde;o tinha direito de<br \/>\n    duvidar da sua amisade. Quando lhe tinha ella faltado? Mas era necessario<br \/>\n    n&atilde;o ser pueril, nem theatral&#8230; A quest&atilde;o estava simplesmente<br \/>\n    em que o Cohen o surprehendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia matal-o,<br \/>\n    podia entregal-o aos tribunaes, podia escavacal-o na sala a pontap&eacute;s&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ou peor, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho: &laquo;Guarde-a&raquo;.<br \/>\n    &#8211; Ou isso! continuava Carlos. N&atilde;o, senhor: limita-se a prohibir-te<br \/>\n    a entrada em casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de<br \/>\n    ter feito isto, n&atilde;o quer nada mais violento, nem mais dramatico. Teve<br \/>\n    portanto um acto de modera&ccedil;&atilde;o. E tu queres mandal-o desafiar<br \/>\n    por isso?&#8230;<br \/>\n    Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem paletot<br \/>\n    agora, esguedelhado, parecendo mais phantastico n&#8217;aquelle simples gib&atilde;o<br \/>\n    escarlate, com os sapatos de velludo enlameados, as longas pernas de cegonha<br \/>\n    cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se n&atilde;o tratava d&#8217;isso!<br \/>\n    N&atilde;o, n&atilde;o se tratava da mulher! A quest&atilde;o era outra&#8230;<br \/>\n    Carlos ent&atilde;o zangou-se.<br \/>\n    &#8211; Para que diabo te expulsou elle de casa ent&atilde;o? N&atilde;o disparates,<br \/>\n    homem! N&oacute;s estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E &eacute;<br \/>\n    triste, que te custe tanto a perceber o que manda o senso. Trahiste um amigo<br \/>\n    teu&#8230; Nada de equivocos! tu declaravas bem alto a tua amisade pelo Cohen.<br \/>\n    Trahistel-o, tens de acceitar a lei: se elle te quizer matar tens de morrer.<br \/>\n    Se elle n&atilde;o quizer fazer nada, tens de ficar de bra&ccedil;os cruzados.<br \/>\n    Se elle te quizer chamar ahi por essas ruas um infame, tens de baixar a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    e reconhecer-te infame&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o tenho de engolir a affronta?<br \/>\n    Os dois amigos explicaram-lhe que aquelle fato de Satanaz lhe perturbava a<br \/>\n    lucidez do criterio mundano &#8211; e que chegava a ser torpe fallar elle, Ega,<br \/>\n    de affronta.<br \/>\n    Ega, outra vez acabrunhado sobre o soph&aacute;, conservou um momento a cabe&ccedil;a<br \/>\n    enterrada nas m&atilde;os.<br \/>\n    &#8211; Eu j&aacute; nem sei, disse elle por fim. Voc&ecirc;s devem ter ras&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Eu estou-me a sentir idiota&#8230; Ent&atilde;o, vamos, que hei de eu fazer?<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc;s teem a tipoia &aacute; espera? perguntou tranquillamente Craft.<br \/>\n    Carlos mandara desapparelhar, recolher o gado esfalfado.<br \/>\n    &#8211; Excellente! Ent&atilde;o, meu caro Ega, tens outra cousa a fazer, antes<br \/>\n    de morrer &aacute;manh&atilde; talvez, &eacute; cear esta noite. Eu ia ceiar,<br \/>\n    e por motivos longos d&#8217;explicar, ha n&#8217;esta casa um peru frio. E ha-de haver<br \/>\n    uma garrafa de Bourgonhe&#8230;<br \/>\n    D&#8217;ahi a pouco estavam &aacute; mesa &#8211; n&#8217;aquella bella sala de jantar do Craft,<br \/>\n    que encantava sempre Carlos, com as suas tape&ccedil;arias ovaes representando<br \/>\n    bocados solitarios d&#8217;arvoredo, as severas faen&ccedil;as da Persia, e a sua<br \/>\n    original chamin&eacute; flanqueada por duas figuras negras de Nubios com olhos<br \/>\n    rutilantes de crystal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava j&aacute;<br \/>\n    o per&uacute;, emquanto Craft, desarrolhava, com venera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    duas garrafas do seu velho Chambertin, para reconfortar Mephistopheles.<br \/>\n    Mas Mephistopheles, sombrio e com os olhos avermelhados, repelliu o prato,<br \/>\n    desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o Chambertin.<br \/>\n    Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando voc&ecirc;s chegaram, estava<br \/>\n    a l&ecirc;r um artigo interessante sobre a decadencia do protestantismo em<br \/>\n    Inglaterra&#8230;<br \/>\n    &#8211; Que &eacute; aquillo, al&eacute;m, n&#8217;aquella lata? perguntou Ega, com uma<br \/>\n    voz moribunda.<br \/>\n    Um p&acirc;t&eacute; de foie-gras. Mephistopheles escolheu com tedio uma trufa.<br \/>\n    &#8211; Bem bom, este teu Chambertin, suspirou elle.<br \/>\n    &#8211; Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. N&atilde;o te romantises.<br \/>\n    Tu o que tens &eacute; fome. Todas as tuas id&eacute;as esta noite se ressentem<br \/>\n    da debilidade!<br \/>\n    Ent&atilde;o Ega confessou que devia estar fraco. Com aquella excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu trage de Satanaz nem jant&aacute;ra, contando ceiar bem em casa do<br \/>\n    outro&#8230; Sim, com effeito, tinha appetite! Excellente foie-gras&#8230;<br \/>\n    E d&#8217;ahi a pouco devorava: foram talhadas de per&uacute;, uma por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    immensa de lingua d&#8217;Oxford, duas vezes presunto d&#8217;York, todas aquellas boas<br \/>\n    cousas inglezas que havia sempre em casa do Craft. E elle s&oacute; bebeu<br \/>\n    quasi toda uma garrafa de Chambertin.<br \/>\n    O escudeiro f&ocirc;ra preparar o caf&eacute;: e, no entanto, ia-se discutindo,<br \/>\n    em todas as hypotheses, a attitude provavel do Cohen com a mulher. Que faria<br \/>\n    elle? Talvez lhe perdoasse. Ega affirmava que n&atilde;o: era vaidoso, e de<br \/>\n    rancores longos! N&#8217;um convento tambem n&atilde;o a fechava, sendo judia&#8230;<br \/>\n    &#8211; Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade. Ega, j&aacute; com os<br \/>\n    olhos brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que elle ent&atilde;o<br \/>\n    entrava n&#8217;um mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em que mosteiro queria<br \/>\n    elle entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para dominicano era muito magro,<br \/>\n    para trapista muito lascivo, muito palrador para jesuita, e para benedictino<br \/>\n    muito ignorante&#8230; Era necessario crear uma ordem para elle! Craft lembrou<br \/>\n    a Santa Blague!<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc;s n&atilde;o teem cora&ccedil;&atilde;o, exclamou Ega, enchendo<br \/>\n    outro grande copo. Voc&ecirc;s n&atilde;o sabem, eu adorava aquella mulher!<br \/>\n    Ent&atilde;o largou a fallar de Rachel. E teve alli, de certo, os momentos<br \/>\n    melhores de toda aquella paix&atilde;o, &#8211; porque poude, sem escrupulo, fazer<br \/>\n    reluzir a sua aureola de amante, banhar-se no mar de leite das confidencias<br \/>\n    vaidosas. Come&ccedil;ou por contar o encontro com ella na Foz &#8211; emquanto<br \/>\n    Craft, sem perder uma palavra, como quem se instrue, se erguera a abrir uma<br \/>\n    garrafa de Champagne. Disse depois os passeios na Cantareira; as cartinhas<br \/>\n    ainda hesitantes e platonicas, trocadas entre folhas de livros emprestados,<br \/>\n    em que ella se assignava Violetta de Parma; o primeiro beijo, o melhor, surripiado<br \/>\n    entre duas portas, emquanto o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiaes;<br \/>\n    os rendez-vous no Porto, no Cemiterio do Repouso, as press&otilde;es ardentes<br \/>\n    de m&atilde;os &aacute; sombra dos cyprestes, e os planos de voluptuosidade<br \/>\n    combinados entre as lapides funebres&#8230;<br \/>\n    &#8211; Muito curioso! dizia o Craft.<br \/>\n    Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o caf&eacute;. Emquanto se<br \/>\n    enchiam as chavenas, e Craft f&ocirc;ra buscar uma caixa de charutos, elle<br \/>\n    acabou a garrafa de Champagne, j&aacute; pallido, com o nariz afilado.<br \/>\n    O criado sahiu, correndo o reposteiro de tape&ccedil;aria: e logo Ega, com<br \/>\n    o calice de cognac ao lado, recome&ccedil;ou as confidencias, contou a volta<br \/>\n    a Lisboa, a Villa Balzac, as manh&atilde;s deliciosas passadas l&aacute; com<br \/>\n    ella no calor d&#8217;um ninho d&#8217;amor&#8230;<br \/>\n    Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um momento<br \/>\n    a cabe&ccedil;a entre os punhos. Depois l&aacute; vinha outro detalhe, os<br \/>\n    nomes lubricos que ella lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde ella<br \/>\n    brilhava como um jaspe&#8230; Duas lagrimas embaciaram-lhe os olhos, jurou que<br \/>\n    queria morrer!<br \/>\n    &#8211; Se voc&ecirc;s soubessem que corpo de mulher! gritou elle de repente. Oh<br \/>\n    meninos, que corpo de mulher&#8230; Imaginem voc&ecirc;s um peito&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu est&aacute;s bebado,<br \/>\n    miseravel!<br \/>\n    Ega ergueu-se, retezando a perna, arrimado de lado &aacute; meza.<br \/>\n    Bebado! Elle? Ora essa!&#8230; Era cousa que n&atilde;o podia, era empiteirar-se.<br \/>\n    Tinha feito o possivel, bebido tudo, at&eacute; agua raz. Nunca! N&atilde;o<br \/>\n    podia&#8230;<br \/>\n    &#8211; Olha, vou p&ocirc;r aquella garrafa &aacute; boca, tu ver&aacute;s&#8230; E<br \/>\n    fico frio, fico impassivel. A discutir philosophia&#8230; Queres que te diga o<br \/>\n    que penso de Darwin? &Eacute; uma besta&#8230; Ora ahi tens. D&aacute; c&aacute;<br \/>\n    a garrafa.<br \/>\n    Mas Craft recusou-lh&#8217;a; e, um momento Ega ficou oscillando, a olhar para elle,<br \/>\n    com a face livida.<br \/>\n    &#8211; Ou me d&aacute;s a garrafa&#8230; ou me d&aacute;s a garrafa, ou te metto uma<br \/>\n    bala no cora&ccedil;&atilde;o&#8230; N&atilde;o, nem vales a bala&#8230; Vou-te dar<br \/>\n    uma bolacha!<br \/>\n    De repente os olhos cerraram-se-lhe, abatteu-se sobre a cadeira, d&#8217;ahi sobre<br \/>\n    o ch&atilde;o, como um fardo.<br \/>\n    &#8211; Terra! disse tranquillamente Craft.<br \/>\n    Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam Jo&atilde;o da Ega. E emquanto<br \/>\n    o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanaz,<br \/>\n    n&atilde;o cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas m&atilde;os de<br \/>\n    Carlos, balbuciando:<br \/>\n    &#8211; Rachelsinha!&#8230; Racaqu&eacute;, minha Raquesinha! gostas do teu bibichinho?&#8230;<br \/>\n    Quando Carlos partiu na tipoia para Lisboa, n&atilde;o chovia, um vento frio<br \/>\n    ia varrendo o ceu, j&aacute; clareava a alvorada.<br \/>\n    Ao outro dia, &aacute;s dez horas, Carlos voltou aos Olivaes. Achou Craft<br \/>\n    dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janellas tinham ficado abertas, um<br \/>\n    largo raio de sol dourava o leito; e elle ressonava ainda, no meio d&#8217;aquella<br \/>\n    aureola, deitado de lado, com os joelhos contra o estomago, o nariz dentro<br \/>\n    dos len&ccedil;oes.<br \/>\n    Quando Carlos o sacudio, o pobre John abriu um olho triste, e bruscamente<br \/>\n    ergueu-se sobre o cotovello, espantado para o quarto, para os cortinados de<br \/>\n    damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe sorria de dentro da<br \/>\n    sua moldura dourada. De certo as memorias da vespera o assaltaram, porque<br \/>\n    se enterrou para baixo, com os len&ccedil;oes at&eacute; ao queixo; e a sua<br \/>\n    face esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsola&ccedil;&atilde;o de deixar<br \/>\n    aquelles fofos colx&otilde;es, a paz confortavel da quinta &#8211; para ir affrontar<br \/>\n    a Lisboa toda a sorte de cousas amargas.<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; frio l&aacute; f&oacute;ra? perguntou elle melancholicamente.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, est&aacute; um dia adoravel. Mas levanta-te, depressa! Se l&aacute;<br \/>\n    f&ocirc;r alguem da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste&#8230;<br \/>\n    Ega deu immediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado, procurava<br \/>\n    a roupa, com as canellas nuas, trope&ccedil;ando contra os moveis. S&oacute;<br \/>\n    achou o gib&atilde;o de Satanaz. Chamaram o criado, que trouxe umas cal&ccedil;as<br \/>\n    de Craft. Ega enfiou-as &aacute; pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer,<br \/>\n    a gola do paletot erguida, enterrou emfim na cabe&ccedil;a o bonet escossez,<br \/>\n    voltou-se para Carlos, disse com um ar tragico:<br \/>\n    &#8211; Vamos a isso!<br \/>\n    Craft, que se erguera, foi acompanhal-os ao port&atilde;o, onde esperava o<br \/>\n    coup&eacute; de Carlos. Na alameda de acacias, t&atilde;o tenebrosa na vespera<br \/>\n    sob a chuva, cantavam agora os passaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava<br \/>\n    ao sol. O grande Terra-nova do Craft pulava em roda d&#8217;elles.<br \/>\n    &#8211; Doe-te a cabe&ccedil;a, Ega? perguntou Craft.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, respondeu o outro, acabando de abotoar o paletot. Eu hontem<br \/>\n    n&atilde;o estava bebado&#8230; O que estava era fraco.<br \/>\n    Mas, ao entrar para o coup&eacute;, fez, com um ar profundo e philosophico,<br \/>\n    esta reflex&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; O que &eacute; a gente beber bons vinhos&#8230; Estou como se n&atilde;o fosse<br \/>\n    nada!<br \/>\n    Craft recommendou que, se houvesse novidade, lhe mandassem um telegramma;<br \/>\n    fechou a portinhola, o coup&eacute; partiu.<br \/>\n    Durante a manh&atilde; n&atilde;o veiu telegramma &aacute; quinta; e quando<br \/>\n    Craft appareceu na Villa Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava &aacute;<br \/>\n    porta, j&aacute; escurecera, duas v&eacute;las ardiam na triste sala verde.<br \/>\n    Carlos, estirado no soph&aacute;, dormitava, com um livro aberto sobre o estomago:<br \/>\n    e Ega passeiava d&#8217;um lado para outro, todo vestido de preto, pallido, com<br \/>\n    uma rosa na botoeira. Tinham estado alli na sala, n&#8217;aquella s&eacute;cca,<br \/>\n    esperando todo o dia as testemunhas do Cohen.<br \/>\n    &#8211; Que te dizia eu? N&atilde;o ha nada, nem podia haver, murmurou Craft.<br \/>\n    Mas Ega, agora agitado de id&eacute;as negras, temia que elle tivesse assassinado<br \/>\n    a mulher! O sorriso sceptico de Craft indignou-o. Quem conhecia melhor o Cohen<br \/>\n    do que elle? Sob a apparencia burgueza, era um monstro! Tinha-lhe visto matar<br \/>\n    um gato, s&oacute; por capricho de derramar sangue&#8230;<br \/>\n    &#8211; Tenho um presentimento de desgra&ccedil;a, balbuciou elle aterrado.<br \/>\n    E logo n&#8217;esse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente Carlos,<br \/>\n    empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe disse que,<br \/>\n    &aacute;quella hora, n&atilde;o podiam ser os amigos do Cohen. Mas elle queria<br \/>\n    estar s&oacute; na sala: e l&aacute; ficou, mais pallido, rigido, muito abotoado<br \/>\n    na sobrecasaca, com os olhos cravados na porta.<br \/>\n    &#8211; Que massada! dizia Carlos dentro, tenteando a escurid&atilde;o do quarto.<br \/>\n    Craft accendeu no toucador um resto de vella. Uma luz triste espalhou-se,<br \/>\n    tudo appareceu n&#8217;um desarranjo: no meio do ch&atilde;o estava cahida uma camisa<br \/>\n    de dormir; a um canto ficara a bacia de banho com agoa de sab&atilde;o; e,<br \/>\n    no centro, o enorme leito, envolto nas suas cortinas de seda vermelha, conservava<br \/>\n    uma magestade de tabernaculo.<br \/>\n    Um momento estiveram callados. Craft methodico, e como quem se instrue, examinava<br \/>\n    o toucador, onde havia um ma&ccedil;o de ganchos de cabello, uma liga com<br \/>\n    o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o marmore<br \/>\n    da commoda; ahi ficara um prato com ossos de frango, e ao lado uma meia folha<br \/>\n    de papel escripta a lapis, toda emendada, de certo trabalho litterario do<br \/>\n    Ega. Elle achava tudo isto muito curioso.<br \/>\n    Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e intimo. Carlos escutando,<br \/>\n    julgou sentir uma falla abafada de mulher&#8230; Impaciente, foi &aacute; cozinha.<br \/>\n    A criada estava sentada &aacute; meza, com a m&atilde;o mettida pelos cabellos,<br \/>\n    sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado n&#8217;uma cadeira, chupava<br \/>\n    o seu cigarro.<br \/>\n    &#8211; Quem foi que entrou? perguntou Carlos.<br \/>\n    &#8211; Foi a criada do sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atraz das<br \/>\n    costas.<br \/>\n    Carlos voltou ao quarto, annunciando:<br \/>\n    &#8211; &Eacute; a confidente. As cousas terminam amavelmente.<br \/>\n    &#8211; E como queria voc&ecirc; que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu<br \/>\n    Banco, os seus negocios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua respeitabilidade,<br \/>\n    todo um arranjo de cousas a que n&atilde;o conv&eacute;m um escandalo&#8230; &Eacute;<br \/>\n    isto que calma os maridos. Al&eacute;m d&#8217;isso, j&aacute; se satisfez, j&aacute;<br \/>\n    lhe offereceu pontapes&#8230;<br \/>\n    N&#8217;esse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o ha nada, exclamou elle, deu-lhe uma co&ccedil;a, e v&atilde;o<br \/>\n    &aacute;manh&atilde; para Inglaterra!<br \/>\n    Carlos olhou para o Craft &#8211; que movia a cabe&ccedil;a, como vendo todas as<br \/>\n    suas previs&otilde;es realisadas, e approvando plenamente.<br \/>\n    &#8211; Uma co&ccedil;a, dizia o Ega, com os olhos chammejantes e n&#8217;uma voz que<br \/>\n    sibillava. E depois fizeram as pazes&#8230; Vem ainda a ser um menage modelo!<br \/>\n    A<br \/>\n    bengala purifica tudo&#8230; Que canalha!<br \/>\n    Estava furioso. N&#8217;esse momento odiava Rachel &#8211; n&atilde;o perdoando ao seu<br \/>\n    idolo ter-se deixado desfazer &aacute; paulada. Lembrava-se justamente da<br \/>\n    bengala do Cohen, um junco da India, com uma cabe&ccedil;a de galgo por cast&atilde;o.<br \/>\n    E aquillo zurzira as carnes que elle tinha apertado com paix&atilde;o! Aquillo<br \/>\n    pozera verg&otilde;es roxos onde os seus labios tinham avivado signaes c&ocirc;r<br \/>\n    de rosa! E tinham feito as pazes. E assim terminava, relles e chinfrim, o<br \/>\n    romance melhor da sua vida! Preferiria sabel-a morta, a sabel-a espancada.<br \/>\n    Mas n&atilde;o! levava a sova, deitava-se depois com o marido, e elle mesmo,<br \/>\n    decerto arrependido, chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a fazer<br \/>\n    as applica&ccedil;&otilde;es de arnica! Aquillo acabava em arnica!<br \/>\n    &#8211; Entre vocemec&ecirc; para aqui, sr.&ordf; Adelia, gritou elle para a sala,<br \/>\n    entre para aqui! Aqui s&oacute; ha amigos. O segredo acabou, o pudor acabou!<br \/>\n    Isto s&atilde;o amigos! Somos tres, mas somos um! Tem vocemec&ecirc; diante<br \/>\n    de si o grande mysterio da Santissima Trindade. Sente-se, sr.&ordf; Adelia,<br \/>\n    sente-se&#8230; N&atilde;o fa&ccedil;a ceremonia&#8230; E p&oacute;de contar&#8230;. Aqui<br \/>\n    a sr.&ordf; Adelia, meninos, viu tudo, viu a co&ccedil;a!<br \/>\n    A sr.&ordf; Adelia, uma mo&ccedil;a gordinha e baixa, de bonitos olhos, com<br \/>\n    um chap&eacute;o de fl&ocirc;res vermelhas, veiu logo da sala rectificando.<br \/>\n    N&atilde;o, ella n&atilde;o vira&#8230; Ent&atilde;o o sr. Ega n&atilde;o tinha<br \/>\n    percebido bem&#8230; Ella s&oacute; ouvira.<br \/>\n    &#8211; Aqui est&aacute; como foi, meus senhores&#8230; Eu tinha ficado a p&eacute;,<br \/>\n    naturalmente, at&eacute; ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas<br \/>\n    pernas. Era j&aacute; dia claro, quando o senhor, ainda vestido de moiro,<br \/>\n    se fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinha com o Domingos &aacute;<br \/>\n    espera que elles tocassem a campainha. De repente ouvimos gritos!&#8230; Eu fiquei<br \/>\n    estarrecida, pensei at&eacute; que eram ladr&otilde;es. Corremos, eu e o Domingos,<br \/>\n    mas a porta do quarto estava fechada, e os dois estavam por dentro, l&aacute;<br \/>\n    para o fundo da alcova. Eu ainda puz o olho &aacute; fechadura, mas n&atilde;o<br \/>\n    pude v&ecirc;r nada&#8230; L&aacute; o estalar de bofetadas, e trambulh&otilde;es,<br \/>\n    e sons de bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu<br \/>\n    disse logo ao Domingos &laquo;ai que &eacute; uma quest&atilde;o, ai que l&aacute;<br \/>\n    se foi tudo.&raquo; Mas de repente, silencio geral! N&oacute;s volt&aacute;mos<br \/>\n    para a cozinba; d&#8217;ahi a pouco o sr. Cohen appareceu, todo esguedelhado, em<br \/>\n    mangas de camisa, a dizer que nos podiamos deitar, que elles n&atilde;o precisavam<br \/>\n    nada, e que &aacute;manh&atilde; fallariamos!&#8230; Depois l&aacute; ficaram<br \/>\n    toda a noite, e pela manh&atilde; parece que estavam muito amiguinhos&#8230; Que<br \/>\n    eu n&atilde;o puz os olhos na senhora. O sr. Cohen, apenas se levantou, veiu<br \/>\n    &aacute; cozinha, fez-me elle as contas, e p&ocirc;z-me f&oacute;ra; muito<br \/>\n    mal creado, at&eacute; me amea&ccedil;ou com a policia&#8230; Foi pelo Domingos,<br \/>\n    que eu soube agora, quando fui buscar o bah&uacute; com um gallego, que o<br \/>\n    sr. Cohen &iacute;a com a senhora para Inglaterra. Emfim, um chinfrim&#8230; Eu<br \/>\n    at&eacute; tenho estado todo o dia com o estomago embrulhado.<br \/>\n    A sr.&ordf; Adelia com um suspiro, pondo os olhos no ch&atilde;o, calou-se.<br \/>\n    Ega, com os bra&ccedil;os cruzados, olhava amargamente para os seus amigos.<br \/>\n    Que lhes parecia aquillo? Uma co&ccedil;a!&#8230; Se um covarde d&#8217;aquelles n&atilde;o<br \/>\n    merecia uma bala no cora&ccedil;&atilde;o! Mas ella tambem, deixar-se tocar,<br \/>\n    n&atilde;o ter fugido, consentir ainda depois em dormir com elle!&#8230; Tudo<br \/>\n    uma corja!<br \/>\n    &#8211; E a sr.&ordf; Adelia, perguntava Craft, n&atilde;o tem id&eacute;a de como<br \/>\n    elle descobriu?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Isso &eacute; que &eacute; prodigioso! gritou Ega, apertando as m&atilde;os<br \/>\n    na cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Sim, prodigioso! N&atilde;o f&ocirc;ra carta apanhada: elles n&atilde;o se<br \/>\n    escreviam. N&atilde;o podia ter surprehendido as visitas &aacute; Villa Balzac:<br \/>\n    as cousas estavam combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamente impenetraveis.<br \/>\n    Para vir ali, nunca ella commettera a indiscrip&ccedil;&atilde;o de se servir<br \/>\n    da sua carruagem. Nunca ella claramente entrara pela porta. Os criados d&#8217;elle<br \/>\n    nunca a tinham visto, n&atilde;o sabiam quem era a senhora que o visitava&#8230;<br \/>\n    Tantos cuidados, e tudo estragado!<br \/>\n    &#8211; Estranho, estranho! murmurava Craft.<br \/>\n    Houve um silencio. A sr.&ordf; Adelia terminara por descan&ccedil;ar familiarmente<br \/>\n    n&#8217;uma cadeira, com a sua trouxasinha no rega&ccedil;o.<br \/>\n    &#8211; Pois olhe, sr. Ega, disse ella, depois de reflectir, creia ent&atilde;o<br \/>\n    uma cousa, &eacute; que foi em sonhos. J&aacute; tem acontecido&#8230; Foi a senhora<br \/>\n    que sonhou alto com v. ex.&ordf;, disse tudo, o sr. Cohen ouviu, ficou de<br \/>\n    pedra no sapato, espreitou-a, e descobriu a marosca&#8230; E eu sei que ella sonha<br \/>\n    alto.<br \/>\n    Ega, diante da sr.&ordf; Adelia, percorria-a desde as fl&ocirc;res do chap&eacute;o<br \/>\n    at&eacute; &aacute; roda das saias, com os olhos faiscantes.<br \/>\n    &#8211; Como &eacute; possivel que elle ouvisse? Se elles tinham quartos separados!&#8230;<br \/>\n    Eu sei que tinham.<br \/>\n    A sr.&ordf; Adelia baixou as palpebras, acariciou com os dedos cal&ccedil;ados<br \/>\n    de luvas pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas palavras:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o tinham, n&atilde;o senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo&#8230;<br \/>\n    A senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciumes d&#8217;elle.<br \/>\n    Houve um silencio embara&ccedil;ado e desagradavel. Sobre o toucador o resto<br \/>\n    da vella acabava, com uma luz lugubre. E Ega, que affectara sorrir, encolher<br \/>\n    os hombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos, triturando o bigode<br \/>\n    com a m&atilde;o tremula.<br \/>\n    Ent&atilde;o Carlos enojado, can&ccedil;ado d&#8217;aquelle episodio que durava<br \/>\n    desde a vespera, e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era<br \/>\n    necessario findar! Eram oito horas, e elle queria jantar&#8230;<br \/>\n    &#8211; Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e emba&ccedil;ado.<br \/>\n    De repente fez um signal &aacute; sr.&ordf; Adelia, arrastou-a para a sala,<br \/>\n    fechou-se l&aacute; outra vez.<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o est&aacute; farto d&#8217;isto, Craft? exclamou Carlos,<br \/>\n    desesperado.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o. Acho um estudo curioso.<br \/>\n    Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vella extinguiu-se. Carlos, furioso,<br \/>\n    gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um immundo candieiro de petroleo<br \/>\n    &#8211; quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a sr.&ordf; Adelia<br \/>\n    partira.<br \/>\n    &#8211; Vamos l&aacute; jantar, disse elle. Mas aonde, a esta hora?<br \/>\n    E elle mesmo lembrou o Andr&eacute;, ao Chiado. Em baixo, alem do coup&eacute;<br \/>\n    de Carlos, esperava a tipoia do Craft. As duas carruagens partiram. A Villa<br \/>\n    Balzac ficava apagada, muda, d&#8217;ora em diante inutil.<br \/>\n    No Andr&eacute; tiveram de esperar muito tempo, n&#8217;um gabinete triste, com<br \/>\n    um papel de estrellinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas<br \/>\n    de reps azul, e dois bicos de gaz que silvavam. Ega, enterrado no soph&aacute;<br \/>\n    de mollas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exhausto. Carlos &iacute;a<br \/>\n    contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a hespanholas: uma sa&iacute;ndo<br \/>\n    da egreja; outra saltando uma pocinha de agua; outra, de olhos baixos, escutando<br \/>\n    os conselhos de um canonico. Craft, j&aacute; &aacute; meza, com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    entre os punhos, percorria um Diario da Manh&atilde;, que o criado offerecera<br \/>\n    para os senhores se entreterem.<br \/>\n    De repente o Ega deu um murro no soph&aacute;, que rangeu lamentavelmente.<br \/>\n    &#8211; Eu o que n&atilde;o percebo, gritou elle, &eacute; como aquelle malvado<br \/>\n    descobriu!&#8230;<br \/>\n    &#8211; A hypothese da sr.&ordf; Adelia, disse Craft erguendo os olhos do jornal,<br \/>\n    parece provavel. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descahiu-se. Ou<br \/>\n    talvez uma denuncia anonyma. Ou talvez apenas um acaso&#8230; O facto &eacute;<br \/>\n    que o homem desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a.<br \/>\n    Ega erguera-se:<br \/>\n    &#8211; Eu n&atilde;o vos quiz dizer diante da Adelia, que n&atilde;o estava no<br \/>\n    segredo todo. Mas voc&ecirc;s sabem a casa defronte da minha, do outro lado<br \/>\n    da viella, uma casa com um grande quintal? Ahi mora uma tia do Gouvarinho,<br \/>\n    a D. Maria Lima, uma pessoa respeitavel. A Rachel &iacute;a v&ecirc;l-a de<br \/>\n    vez em quando. S&atilde;o intimas, a D. Maria Lima &eacute; intima de todo<br \/>\n    o mundo. Depois sahia por uma portinha do quintal, atravessava a viella, e<br \/>\n    estava &aacute; porta da minha casa, &aacute; porta escusa, &aacute; porta<br \/>\n    da escada que vae ter ao cacifro de banho. J&aacute; voc&ecirc;s v&ecirc;em&#8230;<br \/>\n    Os criados nem a avistavam. Quando ella l&aacute; lunchava, o lunch estava<br \/>\n    j&aacute; posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguem visse,<br \/>\n    era uma senhora com um v&eacute;o preto, que vinha de casa da Lima&#8230; Como<br \/>\n    podia o homem apanhal-a?&#8230; Al&eacute;m d&#8217;isso, em casa da Lima, ella mudava<br \/>\n    de chap&eacute;o, e punha um waterproof&#8230;<br \/>\n    Craft cumprimentou.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; brilhante! Parece de Scribe.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, disse Carlos sorrindo, essa respeitavel fidalga&#8230;<br \/>\n    &#8211; A D. Maria, coitada&#8230; Eu te digo, &eacute; uma excellente velha, recebida<br \/>\n    em toda a parte, mas pobre, e faz d&#8217;estes favores&#8230; &Aacute;s vezes mesmo<br \/>\n    em casa d&#8217;ella.<br \/>\n    &#8211; Leva caro por esses servi&ccedil;os? perguntou tranquillamente Craft, que<br \/>\n    em todo aquelle caso procurava instruir-se.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, coitada, disse o Ega. D&atilde;o-se-lhe de vez em quando cinco<br \/>\n    libras.<br \/>\n    O criado entrava com uma travessa de camar&otilde;es, os tres em silencio<br \/>\n    accommodaram-se &aacute; meza.<br \/>\n    Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega &iacute;a l&aacute; dormir,<br \/>\n    receiando, com os nervos t&atilde;o excitados, a solid&atilde;o da villa Balzac.<br \/>\n    Partiram, de charutos accesos, n&#8217;uma caleche descoberta, sob a noite estrellada<br \/>\n    e doce.<br \/>\n    Felizmente n&atilde;o estava ninguem no Ramalhete; Ega, can&ccedil;ado, poude<br \/>\n    retirar-se logo para o seu quarto, um aposento d&#8217;hospedes no segundo andar,<br \/>\n    onde havia um bello leito antigo de pau preto. Ahi, apenas o criado o deixou,<br \/>\n    Ega approximou-se do trem&oacute; onde ardiam as luzes, e tirou do pesco&ccedil;o,<br \/>\n    de sob a camiza, um medalh&atilde;o de ouro. Tinha dentro uma photographia<br \/>\n    de Rachel: &#8211; e a sua inten&ccedil;&atilde;o agora era queimal-a, deitar ao<br \/>\n    balde das agoas sujas as cinzas d&#8217;aquella paix&atilde;o. Mas, ao abrir o medalh&atilde;o,<br \/>\n    a face bonita, banhada n&#8217;um sorriso, sob o vidro oval, pareceu olhar para<br \/>\n    elle com uma tristeza no velludo das pupillas languidas&#8230; A photographia<br \/>\n    mostrava apenas a cabe&ccedil;a, com uma abertura de decote no come&ccedil;o<br \/>\n    do vestido: e as recorda&ccedil;&otilde;es de Ega alargaram aquelle decote<br \/>\n    uma vez mais, revendo o collo, o extraordinario setim da pelle, o signalsinho<br \/>\n    sobre o seio esquerdo&#8230; O sabor dos seus beijos passou-lhe de novo nos labios,<br \/>\n    sentiu n&#8217;alma outra vez como o ecco dos suspiros can&ccedil;ados que ella<br \/>\n    soltara nos seus bra&ccedil;os. E ella ia-se embora, nunca mais a veria! Esta<br \/>\n    desolada amargura do nunca mais revolveu-o todo &#8211; e com a face enterrada no<br \/>\n    travesseiro, o pobre demagogo, o grande phraseador solu&ccedil;ou muito tempo<br \/>\n    no segredo da noite.<br \/>\n    Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Damaso apparecera<br \/>\n    no Ramalhete, e por elle ouviram os rumores de Lisboa. J&aacute; se sabia<br \/>\n    no Gremio, no Chiado, por toda a parte, que elle f&ocirc;ra expulso da casa<br \/>\n    dos Cohens. O urso, a pastora do Tyrol, testemunhas do episodio, tinham-n&#8217;o<br \/>\n    badallado com enthusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe dera um pontap&eacute;.<br \/>\n    Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, pr&eacute;gavam com fervor<br \/>\n    a innocencia da sr.&ordf; D. Rachel. O Alencar contava publicamente que o<br \/>\n    Ega, provinciano inexperiente e le&atilde;o de Celorico, tendo tomado por<br \/>\n    evidencias de paix&atilde;o os sorrisos de amabilidade de uma senhora que<br \/>\n    recebe, &#8211; escrevera &aacute; sr.&ordf; D. Rachel uma carta quasi obscena,<br \/>\n    que ella, coitadinha, toda em lagrimas, viera mostrar ao marido.<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o d&atilde;o-me para baixo, hein, Damaso? murmurou Ega que, no<br \/>\n    gabinete de Carlos, embrulhado n&#8217;uma velha ulster, e encolhido n&#8217;uma poltrona,<br \/>\n    escutava estas cousas com um ar can&ccedil;ado e doente.<br \/>\n    Damaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo.<br \/>\n    Ah, elle sabia-o bem! Tinha antipathias em Lisboa. Ninguem lhe perdoara ainda<br \/>\n    a pelissa. A sua verve, toda em sarcasmos, offendia. E era desagradavel para<br \/>\n    muita gente que um homem, com esse espirito t&atilde;o perigoso de ferro em<br \/>\n    braza, tivesse uma m&atilde;e rica, e fosse independente.<br \/>\n    Depois, no sabbado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos Gouvarinhos &#8211;<br \/>\n    que f&ocirc;ra excellente &#8211; contou-lhe a conversa que tivera com a sr.&ordf;<br \/>\n    condessa. A condessa fallara-lhe muito livremente, como um homem, d&#8217;aquelle<br \/>\n    desastre do Ega. Tinha-se affligido muito, n&atilde;o s&oacute; pela Rachel,<br \/>\n    coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, que ella apreciava tanto, t&atilde;o<br \/>\n    interessante, t&atilde;o brilhante, e que sahia de tudo aquillo enxovalhado!<br \/>\n    O Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que amea&ccedil;&aacute;ra<br \/>\n    o Ega de pontap&eacute;s, por elle ter escripto a sua mulher uma carta immunda.<br \/>\n    Os que n&atilde;o sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as<br \/>\n    m&atilde;os na cabe&ccedil;a; e os que sabiam, os que havia seis mezes sorriam<br \/>\n    da intimidade do Ega com os Cohens, affectavam tambem acreditar, cerravam<br \/>\n    os punhos de indigna&ccedil;&atilde;o. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa,<br \/>\n    que vive entre o Gremio e a casa Havaneza, folgava em &laquo;enterrar&raquo;<br \/>\n    o Ega.<br \/>\n    Ega, com effeito, sentia-se &laquo;enterrado&raquo;. E n&#8217;essa noite declarou<br \/>\n    a Carlos que decidira recolher-se &aacute; quinta da m&atilde;e, passar l&aacute;<br \/>\n    um anno a acabar as Memorias d&#8217;um Atomo, e reapparecer em Lisboa com o seu<br \/>\n    livro publicado, triumphando sobre a cidade, esmagando os mediocres. Carlos<br \/>\n    n&atilde;o perturbou esta radiante illus&atilde;o.<br \/>\n    Mas quando Ega, antes de partir, foi a recapitular os seus negocios de casa,<br \/>\n    de dinheiro, encontrou-se diante de cousas abominaveis. Devia a todo o mundo,<br \/>\n    desde o estofador at&eacute; ao padeiro; tinha tres letras a vencer; aquellas<br \/>\n    dividas, se as deixasse, soltas e ladrando, juntar-se-iam, na tagarallice<br \/>\n    publica, ao caso dos Cohens &#8211; e elle seria, al&eacute;m do amante amea&ccedil;ado<br \/>\n    de pontap&eacute;s, o pelintra perseguido pelos credores! Que havia de fazer,<br \/>\n    sen&atilde;o valer-se de Carlos? Carlos, para regular tudo, emprestou-lhe<br \/>\n    dois contos de r&eacute;is.<br \/>\n    Depois, tendo despedido os criados da Villa Balzac, surgiram-lhe outras complica&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    A m&atilde;e do pagem veiu d&#8217;ahi a dias ao Ramalhete, muito insolente, gritando<br \/>\n    que o filho lhe desapparecera! E era exacto: o famoso pagem, pervertido pela<br \/>\n    cozinheira, sumira-se com ella para as viellas da Mouraria, a come&ccedil;ar<br \/>\n    ahi uma divertida carreira de faia.<br \/>\n    Ega recusou-se a attender &aacute;s reclama&ccedil;&otilde;es da matrona.<br \/>\n    Que diabo tinha elle com essas torpezas?<br \/>\n    Ent&atilde;o o amante da creatura interveiu, amea&ccedil;adoramente. Era um<br \/>\n    policia, um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria facil provar como<br \/>\n    na Villa Balzac se passavam &laquo;cousas contra a natureza&raquo;, e que<br \/>\n    o pagem n&atilde;o era s&oacute; para servir &aacute; meza&#8230; Nauseado at&eacute;<br \/>\n    &aacute; morte, Ega pacteou com a intrugice, largou cinco libras ao policia.<br \/>\n    Quando n&#8217;essa noite, uma noite triste d&#8217;agoa, Carlos e Craft o acompanharam<br \/>\n    a Santa Apolonia, elle disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo<br \/>\n    d&#8217;um amor romantico:<br \/>\n    &#8211; Sinto-me como se a alma me tivesse cahido a uma latrina! Preciso um banho<br \/>\n    por dentro!<\/p>\n<p>\n    Affonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com tristeza:<br \/>\n    &#8211; M&aacute; estreia, filho, pessima estreia!<br \/>\n    E n&#8217;essa noite, depois de voltar de Santa Apolonia, Carlos pensava n&#8217;estas<br \/>\n    palavras, dizia tambem comsigo: &#8211; Pessima estreia!&#8230; E nem s&oacute; a estreia<br \/>\n    do Ega era pessima; tambem a sua. E talvez, por pensar n&#8217;isso, as palavras<br \/>\n    do av&ocirc; tinham tido aquella tristeza. Pessimas estreias! Havia seis mezes<br \/>\n    que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande pellissa, preparado<br \/>\n    a deslumbrar Lisboa com as Memorias d&#8217;um Atomo,<br \/>\n    a dominal-a com a influencia de uma Revista, a ser uma luz, uma for&ccedil;a,<br \/>\n    mil outras cousas&#8230; E agora, cheio de dividas e cheio de ridiculo, l&aacute;<br \/>\n    voltava para Celorico, escorra&ccedil;ado. Pessima estreia! Elle, por seu<br \/>\n    lado, desembarcara em Lisboa, com id&eacute;as collossaes de trabalho, armado<br \/>\n    como um luctador: era o consultorio, o laboratorio, um livro iniciador, mil<br \/>\n    cousas fortes&#8230; E, que tinha feito? Dois artigos de jornal, uma duzia de<br \/>\n    receitas, e esse melancolico capitulo da Medicina entre os Gregos. Pessima<br \/>\n    estreia!<br \/>\n    N&atilde;o, a vida n&atilde;o lhe parecia promettedora, n&#8217;esse instante, passeiando<br \/>\n    na sala de bilhar com as m&atilde;os nos bolsos, emquanto ao lado os amigos<br \/>\n    conversavam, e f&oacute;ra uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz elle<br \/>\n    iria, encolhido ao canto do seu wagon!&#8230; Mas os outros, ali, n&atilde;o estavam<br \/>\n    mais alegres. Craft e o Marquez tinham come&ccedil;ado uma conversa sobre<br \/>\n    a vida, soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, n&atilde;o<br \/>\n    se sendo um Livingstone ou um Bismark? E o Marquez, com um ar philosophico,<br \/>\n    achava que o mundo se ia tornando estupido. Depois chegou o Taveira com a<br \/>\n    historia horrivel d&#8217;um collega d&#8217;elle, cujo filho cahira pela escada, se despeda&ccedil;ara,<br \/>\n    no momento em que a mulher estava a morrer d&#8217;uma pleurisia. Cruges resmungou<br \/>\n    o quer que fosse sobre suicidio. As palavras arrastavam-se, melancolicas.<br \/>\n    Instinctivamente, Carlos, de vez em quando, ia despertar as lampadas.<br \/>\n    Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando d&#8217;ahi a instantes Damaso chegou,<br \/>\n    e lhe disse que o Castro Gomes estava incommodado, e de cama.<br \/>\n    &#8211; Naturalmente, accrescentou o Damaso, mandam-te chamar, por teres j&aacute;<br \/>\n    visto a pequena&#8230;<br \/>\n    Carlos ao outro dia n&atilde;o sahiu de casa, esperando um recado, faiscando<br \/>\n    d&#8217;impaciencia. Nenhum recado veiu. E, duas tardes depois, ao descer para o<br \/>\n    Aterro &#8211; o primeiro encontro que teve, &aacute;s Janellas Verdes, foi o Castro<br \/>\n    Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadellinha no collo.<br \/>\n    Ella passou, sem o v&ecirc;r. E logo ali Carlos decidiu findar aquella tortura,<br \/>\n    pedir muito simplesmente ao Damaso que o apresentasse ao Castro Gomes, antes<br \/>\n    d&#8217;elle partir para o Brazil&#8230; N&atilde;o podia mais, precisava ouvir a voz<br \/>\n    d&#8217;ella, v&ecirc;r o que os seus olhos diziam quando eram interrogados de perto.<br \/>\n    <br \/>\n    Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na companhia<br \/>\n    dos Gouvarinhos. Come&ccedil;ou por encontrar o conde, que lhe travou do bra&ccedil;o,<br \/>\n    arrastou-o &aacute; rua de S. Mar&ccedil;al, installou-o n&#8217;uma poltrona, no<br \/>\n    seu escriptorio, e leu-lhe um artigo que destinava ao Jornal do Commercio<br \/>\n    sobre a situa&ccedil;&atilde;o dos partidos em Portugal: depois convidou-o<br \/>\n    a jantar. Na tarde seguinte elles tinham uma partida de croquet. Carlos foi.<br \/>\n    E, a uma janella, aberta sobre o jardim, teve um momento de intimidade com<br \/>\n    a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabellos d&#8217;ella o tinham encantado,<br \/>\n    a primeira vez que a vira. N&#8217;essa noite, ella fallou d&#8217;um livro de Tennyson,<br \/>\n    que n&atilde;o lera; Carlos offereceu-lh&#8217;o, foi-lh&#8217;o levar ao outro dia, de<br \/>\n    manh&atilde;. Encontrou-a s&oacute;, toda vestida de branco: e riam, baixavam<br \/>\n    j&aacute; a voz, as duas cadeias estavam mais juntas &#8211; quando o escudeiro<br \/>\n    annunciou a sr.&ordf; D. Maria da Cunha. Era uma cousa t&atilde;o extraordinaria,<br \/>\n    a D. Maria da Cunha &aacute;quella hora! Carlos, de resto, gostava muito da<br \/>\n    D. Maria da Cunha, uma velha engra&ccedil;ada, toda bondade, cheia de sympathia<br \/>\n    por todos os peccados &#8211; e ella mesma muito peccadora quando era a linda Cunha.<br \/>\n    D. Maria era muito falladora, parecia ter que dizer em particular &aacute;<br \/>\n    condessa; e Carlos deixou-as, promettendo voltar uma d&#8217;essas tardes tomar<br \/>\n    ch&aacute;, e fallar de Tennyson.<br \/>\n    Na tarde em que elle se vestia para l&aacute; ir, Damaso appareceu-lhe no<br \/>\n    quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de &laquo;ferro&raquo;.<br \/>\n    O telhudo do Castro Gomes mud&aacute;ra de id&eacute;a, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    ia ao Brazil! Ficava ali, no Central, at&eacute; ao meiado do ver&atilde;o!<br \/>\n    De sorte que estava tudo estragado&#8230;<br \/>\n    Carlos pensou logo em fallar da sua apresenta&ccedil;&atilde;o ao Castro Gomes.<br \/>\n    Mas, como em Cintra, sem saber porqu&ecirc;, veiu-lhe uma repugnancia de a<br \/>\n    conhecer por meio do Damaso. E foi-se vestindo em silencio. <br \/>\n    Damaso no entanto maldizia a sua chance:<br \/>\n    &#8211; E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse occasi&atilde;o. Mas<br \/>\n    que diabo queres tu, assim?&#8230;<br \/>\n    Queixou-se ent&atilde;o do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida<br \/>\n    d&#8217;aquelle homem era mysteriosa&#8230; Que diabo estava elle a fazer em Lisboa?<br \/>\n    Ali havia difficuldades de dinheiro&#8230; E elles n&atilde;o se davam bem. Na<br \/>\n    vespera houvera de certo quest&atilde;o. Quando elle entrara, ella estava<br \/>\n    com os olhos vermelhos, e enfiada; e elle, nervoso, a passeiar pela sala,<br \/>\n    a retorcer a barba&#8230; Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto d&#8217;hora&#8230;<br \/>\n    &#8211; Sabes tu? exclamou elle. Tenho minha vontade de os mandar &aacute; fava.<br \/>\n    Queixou-se tambem d&#8217;ella. Era sobretudo muito desegual. Ora bom modo, ora<br \/>\n    regelada; e, &aacute;s vezes, elle dizia qualquer cousa muito natural, d&#8217;estas<br \/>\n    cousas de conversa de sociedade, e ella punha-se a rir. Era de encavacar,<br \/>\n    hein? Emfim, gente muito exquisita.<br \/>\n    &#8211; Onde vaes tu? disse elle, com um suspiro de aborrecimento, vendo Carlos<br \/>\n    p&ocirc;r o chapeu.<br \/>\n    Ia tomar ch&aacute; com a Gouvarinho.<br \/>\n    &#8211; Pois olha, vou comtigo&#8230; Estou d&#8217;uma secca! Carlos hesitou um instante,<br \/>\n    terminou por dizer:<br \/>\n    &#8211; Vem, fazes-me at&eacute; favor&#8230;<br \/>\n    A tarde estava lindissima, Carlos ia no dog-cart.<br \/>\n    &#8211; Ha que tempos que n&atilde;o damos assim um passeio juntos, disse Damaso.<br \/>\n    &#8211; Tu andas l&aacute; mettido com estrangeiros!&#8230;<br \/>\n    Damaso deu outro suspiro, e n&atilde;o tornou a dizer mais nada. Depois, &aacute;<br \/>\n    porta dos Gouvarinhos, quando soube que a sr.&ordf; condessa recebia, resolveu<br \/>\n    subitamente n&atilde;o entrar. N&atilde;o, n&atilde;o entrava. Estava muito<br \/>\n    estupido, incapaz de achar uma palavra&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ah, e outra cousa que me lembrou agora, exclamou elle, demorando ainda Carlos<br \/>\n    diante do port&atilde;o. O Castro Gomes, hontem, perguntou-me o que te havia<br \/>\n    de mandar pela visita &aacute; pequena&#8230; Eu disse que tu tinhas ido l&aacute;<br \/>\n    por favor, como meu amigo. E elle disse que te havia de vir deixar um bilhete&#8230;<br \/>\n    Naturalmente vens a conhecel-os.<br \/>\n    N&atilde;o era, pois, necessario que Damaso o apresentasse!<br \/>\n    &#8211; Apparece &aacute; noite, Damasosinho, vai l&aacute; jantar &aacute;manh&atilde;!<br \/>\n    exclamou Carlos, subitamente radiante, dando um ardente aperto de m&atilde;o<br \/>\n    ao seu amigo.<br \/>\n    Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir ch&aacute;. A sala,<br \/>\n    forrada d&#8217;um papel severo, verde e ouro, com retratos de familia em caixilhos<br \/>\n    pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim. Em cima das mezas<br \/>\n    havia cestos de fl&ocirc;res. No soph&aacute;, duas senhoras de chapeu, ambas<br \/>\n    de preto, conversavam, com a chavena na m&atilde;o. A condessa, ao estender<br \/>\n    os dedos a Carlos, ficara t&atilde;o c&ocirc;r de rosa &#8211; como a seda acolchoada<br \/>\n    da cadeira em que estava recostada, ao p&eacute; d&#8217;um velador de pau santo.<br \/>\n    Notou logo, sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que<br \/>\n    lhe tinha acontecido de bom? Carlos sorriu tambem, disse que n&atilde;o era<br \/>\n    possivel entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde&#8230;<br \/>\n    O conde ainda n&atilde;o apparecera, detido de certo na camara dos pares,<br \/>\n    onde se discutia o projecto sobre a Reforma da Instruc&ccedil;&atilde;o Publica.<br \/>\n    Uma das senhoras de preto fazia votos para que se alliviassem os estudos.<br \/>\n    As pobres crean&ccedil;as succumbiam verdadeiramente &aacute; quantidade exaggerada<br \/>\n    de materias, de cousas a decorar: o d&#8217;ella, o Jo&atilde;osinho, andava t&atilde;o<br \/>\n    pallido e t&atilde;o desfigurado, que ella &aacute;s vezes tinha vontade de<br \/>\n    o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chavena sobre um<br \/>\n    console ao lado, e passando sobre os labios a renda do len&ccedil;o, queixou-se<br \/>\n    sobretudo dos examinadores. Era um escandalo as exigencias, as difficuldades<br \/>\n    que punham, s&oacute; para poder deitar RR&#8230; Ao pequeno d&#8217;ella tinham feito<br \/>\n    as perguntas mais estupidas, as mais reles; assim, por exemplo, o que era<br \/>\n    o sab&atilde;o, porque lavava o sab&atilde;o?&#8230;<br \/>\n    A outra senhora e a condessa apertaram as m&atilde;os contra o peito, consternadas.<br \/>\n    E Carlos, muito amavel, concordou que era uma abomina&ccedil;&atilde;o. O<br \/>\n    marido d&#8217;ella &#8211; continuava a dama de preto &#8211; ficara t&atilde;o desesperado<br \/>\n    que, encontrando o examinador no Chiado, o amea&ccedil;ou de lhe dar bengaladas.<br \/>\n    Uma imprudencia, de certo; mas, emfim, o homem f&ocirc;ra malvado!&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    havia verdadeiramente sen&atilde;o uma cousa digna de se estudar, eram as<br \/>\n    linguas. Parecia insensato que se torturasse uma crean&ccedil;a com botanica,<br \/>\n    astronomia, physica&#8230; Para que? Cousas inuteis na sociedade. Assim, o pequeno<br \/>\n    d&#8217;ella, agora, tinha li&ccedil;&otilde;es de chimica&#8230; Que absurdo! Era o<br \/>\n    que o pae dizia &#8211; para que, se elle o n&atilde;o queria para boticario?<br \/>\n    Depois d&#8217;um silencio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e houve<br \/>\n    um murmurio de beijos, um frou-frou de sedas.<br \/>\n    Carlos ficou s&oacute; com a sr.&ordf; condessa, que reoccupara a sua cadeira<br \/>\n    c&ocirc;r de rosa.<br \/>\n    Immediatamente ella perguntou pelo Ega.<br \/>\n    &#8211; Coitado, l&aacute; est&aacute; para Celorico.<br \/>\n    Ella protestou, com um lindo riso, contra aquella phrase t&atilde;o feia &laquo;l&aacute;<br \/>\n    est&aacute; para Celorico&raquo; N&atilde;o, n&atilde;o queria&#8230; Coitado<br \/>\n    do Ega! Merecia uma melhor ora&ccedil;&atilde;o funebre. Celorico era horrivel<br \/>\n    para um fim de romance&#8230;<br \/>\n    &#8211; De certo, exclamou Carlos, rindo tambem, era mais bello dizer-se: l&aacute;<br \/>\n    est&aacute; para Jerusalem!<br \/>\n    N&#8217;esse momento o criado annunciou um nome, e appareceu o amigo Telles da Gama,<br \/>\n    um intimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda batalhando sobre<br \/>\n    a Reforma da Instruc&ccedil;&atilde;o, levou as m&atilde;os &aacute; cabe&ccedil;a<br \/>\n    como lamentando um t&atilde;o feio desperdicio de tempo, e n&atilde;o se quiz<br \/>\n    demorar. N&atilde;o, nem mesmo o excellente ch&aacute; da sr.&ordf; condessa<br \/>\n    o tentava. A verdade era que estava t&atilde;o abandonado da gra&ccedil;a<br \/>\n    de Deus, perdera de tal modo o sentimento das cousas bellas, que entrara,<br \/>\n    n&atilde;o para v&ecirc;r a sr.&ordf; condessa &#8211; mas simplesmente fallar ao<br \/>\n    conde. Ent&atilde;o ella teve um bonito ar de princeza offendida, perguntou<br \/>\n    a Carlos se uma t&atilde;o rude sinceridade de montanhez n&atilde;o fazia<br \/>\n    saudades das maneiras polidas do antigo regimen. E Telles da Gama, gingando<br \/>\n    de leve, declarava-se democrata, homem da natureza, com um riso que lhe mostrava<br \/>\n    dentes magnificos. Depois, ao sair, dando um shake-hands ao amigo Maia, quiz<br \/>\n    saber quando o principe de Sta. Olavia lhe dava emfim a honra de vir jantar<br \/>\n    com elle. A sr.&ordf; condessa indignou-se. N&atilde;o, era realmente de mais!<br \/>\n    Fazer convites, na sua sala, diante d&#8217;ella, &#8211; um homem que fallava tanto da<br \/>\n    sua cozinheira allem&atilde;, e nem sequer lhe offerecera j&aacute;mais um<br \/>\n    prato de chou-cr&ocirc;ute!<br \/>\n    Telles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a sua<br \/>\n    sala de jantar para dar &aacute; sr.&ordf; condessa uma festa, que havia de<br \/>\n    ficar nos annaes do reino! Agora com o Maia era differente: jantavam ambos<br \/>\n    na cozinha, com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando sempre, rindo<br \/>\n    ainda da porta, mostrando os dentes magnificos.<br \/>\n    &#8211; Muito alegre, este Gama, n&atilde;o &eacute; verdade? disse a condessa.<br \/>\n    &#8211; Muito alegre, disse Carlos.<br \/>\n    Ent&atilde;o a condessa olhou o relogio. Eram cinco e meia, &aacute;quella<br \/>\n    hora ella j&aacute; n&atilde;o recebia: podiam, emfim, conversar um momento,<br \/>\n    em boa camaradagem. E, o que houve, foi um silencio lento, em que os olhos<br \/>\n    de ambos se encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo<br \/>\n    doente. N&atilde;o estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no passeio da<br \/>\n    Estrella. Ah, aquella crean&ccedil;a nunca deixava de lhe dar o cuidado! Ficou<br \/>\n    callada, com o olhar esquecido no tapete, movendo languidamente o leque: tinha<br \/>\n    n&#8217;essa tarde uma toilette exaggerada, d&#8217;um tom de folha de outono amarellada,<br \/>\n    d&#8217;uma seda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge de folhas seccas.<br \/>\n    &#8211; Que lindo tempo tem feito! exclamou ella de repente, como acordando.<br \/>\n    &#8211; Lindo! disse Carlos. Eu estive ha dias em Cintra, e n&atilde;o imagina&#8230;<br \/>\n    Era d&#8217;uma belleza de idyllio.<br \/>\n    E immediatamente arrependeu-se, quiz-se mal por ter fallado da sua ida a Cintra,<br \/>\n    n&#8217;aquella sala.<br \/>\n    Mas a condessa mal o escut&aacute;ra. Tinha-se erguido, fallando de algumas<br \/>\n    can&ccedil;&otilde;es que essa manh&atilde; recebera de Inglaterra, as novidades<br \/>\n    frescas da season. Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado,<br \/>\n    perguntou a Carlos se conhecia aquella melodia &#8211; The pale star. N&atilde;o,<br \/>\n    Carlos n&atilde;o conhecia. Mas todas essas can&ccedil;&otilde;es inglezas<br \/>\n    se parecem, sempre do mesmo tom dolente, romanesco, e muito miss. E trata-se<br \/>\n    sempre d&#8217;um parque melancolico, um regato lento, um beijo sob os castanheiros&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o a condessa leu alto a letra da Pale star. E era a mesma cousa,<br \/>\n    uma estrellinha de amor palpitando no crepusculo, um lago pallido, um timido<br \/>\n    beijo sob as arvores&#8230;<br \/>\n    &#8211; &Eacute; sempre o mesmo, disse Carlos, e &eacute; sempre delicioso.<br \/>\n    Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquillo estupido. Come&ccedil;ou<br \/>\n    a remexer entre os papeis de musica, nervosa, e com um olhar que escurecia.<br \/>\n    Para quebrar o silencio, Carlos gabou-lhe as suas lindas flores.<br \/>\n    &#8211; Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ella logo, deixando as musicas.<br \/>\n    Mas, a fl&ocirc;r que ella lhe queria dar estava no boudoir, ao lado. Carlos<br \/>\n    seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de outono<br \/>\n    batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito trem&oacute;<br \/>\n    do seculo XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em barro do<br \/>\n    conde, na sua express&atilde;o de orador, a fronte erguida, a gravata desmanchada,<br \/>\n    o labio fremente&#8230;<br \/>\n    A condessa escolheu um bot&atilde;o com duas folhas, e ella mesmo lhe veiu<br \/>\n    florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que subia<br \/>\n    do seu seio arfando com for&ccedil;a. E ella n&atilde;o acabava de prender<br \/>\n    a fl&ocirc;r, com os dedos tremulos, lentos, que pareciam collar-se, deixar-se<br \/>\n    adormecer sobre o panno&#8230; <br \/>\n    &#8211; Voila! murmurou emfim, muito baixo. Ahi est&aacute; o meu bello cavalleiro<br \/>\n    da Rosa Vermelha&#8230; E agora, n&atilde;o me agrade&ccedil;a!<br \/>\n    Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os labios nos labios<br \/>\n    d&#8217;ella. A seda do vestido ro&ccedil;ava-lhe, com um fino ruge-ruge entre os<br \/>\n    bra&ccedil;os; &#8211; e ella pendia para traz a cabe&ccedil;a, branca como uma<br \/>\n    cera, com as palpebras docemente cerradas. Elle deu um passo, tendo-a assim<br \/>\n    enla&ccedil;ada, e como morta; o seu joelho encontrou um soph&aacute; baixo,<br \/>\n    que rolou e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos p&eacute;s, Carlos seguiu,<br \/>\n    trope&ccedil;ando, o largo soph&aacute;, que rolou, fugiu ainda, at&eacute;<br \/>\n    que esbarrou contra o pedestal onde o sr. conde erguia a fronte inspirada.<br \/>\n    E um longo suspiro morreu, n&#8217;um rumor de saias amarrotadas.<br \/>\n    D&#8217;ahi a um momento estavam ambos de p&eacute;: Carlos, junto do busto, co&ccedil;ando<br \/>\n    a barba, com o ar embara&ccedil;ado, e j&aacute; vagamente arrependido: ella,<br \/>\n    diante do trem&oacute; Luiz XV, compondo, com os dedos tremulos, o frisado<br \/>\n    do cabello. De repente, na antecamara, ouviu-se a voz do conde. Ella, bruscamente,<br \/>\n    voltou-se, correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de pedrarias,<br \/>\n    agarrou-lhe o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao cabello e aos olhos.<br \/>\n    Depois, sentou-se largamente no soph&aacute; &#8211; e estava fallando de Cintra,<br \/>\n    rindo alto, quando o conde entrou, seguido de um velho calvo, que se vinha<br \/>\n    a assoar a um enorme len&ccedil;o de seda da India.<br \/>\n    Ao v&ecirc;r Carlos no boudoir, o conde teve uma bella surpreza, esteve-lhe<br \/>\n    apertando as m&atilde;os muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda<br \/>\n    n&#8217;essa manh&atilde;, na camara, se lembrara d&#8217;elle&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, por que vieram t&atilde;o tarde? exclamou a condessa, que<br \/>\n    se apoderara logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amavel.<br \/>\n    &#8211; O nosso conde fallou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de enthusiasmo.<br \/>\n    &#8211; Fallaste? exclamou ella, voltando-se com um interesse encantador.<br \/>\n    &Eacute; verdade, fallara; e desprevenido! Quando ouvira por&eacute;m o Torres<br \/>\n    Valente (homem de litteratuta, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira<br \/>\n    defender a gymnastica obrigatoria nos collegios &#8211; erguera-se. Mas n&atilde;o<br \/>\n    imaginasse o amigo Maia, que elle tinha feito um discurso.<br \/>\n    &#8211; Ora essa! exclamou o velho, agitando o len&ccedil;o. E um dos melhores que<br \/>\n    eu tenho ouvido na camara! Dos de arromba!<br \/>\n    O Conde modestamente protestou. N&atilde;o: tinha simplesmente lan&ccedil;ado<br \/>\n    uma palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu illustre<br \/>\n    amigo, o sr. Torres Valente, se na sua id&eacute;a, os nossos filhos, os herdeiros<br \/>\n    das nossas casas, estavam destinados para palha&ccedil;os!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ah, esta piada, sr.&ordf; condessa! exclamou o velho. Eu s&oacute; queria<br \/>\n    que v. ex.&ordf; ouvisse esta piada&#8230; E como elle a disse! com um chic!<br \/>\n    O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe aquillo.<br \/>\n    E, respondendo a outras reflex&otilde;es do Torres Valente, que n&atilde;o<br \/>\n    queria nos lyceus, nem nos collegios, um ensino &laquo;todo impregnado de<br \/>\n    cathecismo&raquo;, elle lan&ccedil;ara-lhe uma palavra cruel.<br \/>\n    &#8211; Terrivel, exclamou o velho n&#8217;um tom cavo, preparando o len&ccedil;o para<br \/>\n    se assoar outra vez.<br \/>\n    &#8211; Sim, terrivel&#8230; Voltei-me para elle, e disse-lhe isto&#8230; &laquo;Creia o<br \/>\n    digno par, que nunca este paiz retomar&aacute; o seu logar &aacute; testa<br \/>\n    da civilisa&ccedil;&atilde;o, se, nos lyceus, nos collegios, nos estabelecimentos<br \/>\n    de instruc&ccedil;&atilde;o, n&oacute;s outros os legisladores formos, com<br \/>\n    m&atilde;o impia, substituir a cruz pelo trapezio&#8230;<br \/>\n    &#8211; Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do len&ccedil;o.<br \/>\n    Carlos, erguendo-se, declarou aquillo d&#8217;uma ironia adoravel.<br \/>\n    E o conde, quando elle se despediu, n&atilde;o se contentou com um simples<br \/>\n    aperto de m&atilde;o, passou-lhe o bra&ccedil;o pela cinta, chamou-lhe o seu<br \/>\n    querido Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda humido, um resto de pallidez,<br \/>\n    movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do soph&aacute;<br \/>\n    &#8211; debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada.<\/p>\n<h2><a name=\"10\">Cap&iacute;tulo X<\/a><\/h2>\n<p>Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de trovoada,<br \/>\n    e no momento em que estavam cahindo algumas gotas grossas de chuva, &#8211; Carlos<br \/>\n    apeava-se d&#8217;um coup&eacute; de pra&ccedil;a, que viera parar, de vagar, &aacute;<br \/>\n    esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos. Dous<br \/>\n    sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se desgeitosamente<br \/>\n    d&#8217;uma portinha suspeita. E com effeito a velha traquitana de rodas amarellas<br \/>\n    acabava de ser uma alcova d&#8217;amor, perfumada de verbena, durante as duas horas<br \/>\n    que Carlos rolara dentro d&#8217;ella, pela estrada de Queluz, com a sr.&ordf; condessa<br \/>\n    de Gouvarinho.<br \/>\n    A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a solid&atilde;o<br \/>\n    da Patriarchal para se desembara&ccedil;ar do calhambeque d&#8217;assento duro,<br \/>\n    onde durante a ultima hora suffoc&aacute;ra, sem ousar descer as vidra&ccedil;as,<br \/>\n    com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas amarrotadas e dos beijos<br \/>\n    interminaveis que ella lhe dava na barba&#8230;<br \/>\n    At&eacute; ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado n&#8217;uma casa<br \/>\n    da rua de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que f&ocirc;ra para<br \/>\n    o Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A<br \/>\n    boa titi, uma velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma apostola<br \/>\n    militante da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da Propaganda; e todos<br \/>\n    os mezes fazia assim uma viagem de cathechisa&ccedil;&atilde;o &aacute; provincia,<br \/>\n    distribuindo Biblias, arrancando almas &aacute; treva catholica, purificando<br \/>\n    (como ella dizia) o tremedal papista&#8230; J&aacute; na escada havia um cheirinho<br \/>\n    adocicado e triste a devo&ccedil;&atilde;o e a virgem velha: e no patamar<br \/>\n    pendia um largo cart&atilde;o, com um distico em letras de ouro entrela&ccedil;adas<br \/>\n    de lyrios roxos, rogando aos que entravam que preserverassem nas vias do Senhor!<br \/>\n    Carlos entrou, trope&ccedil;ando logo n&#8217;um mont&atilde;o de Biblias. O quarto<br \/>\n    todo era um ninho de Biblias; havia-as &aacute;s pilhas por cima dos moveis,<br \/>\n    transbordando de velhas chapelleiras, misturadas a pares de galochas, cahidas<br \/>\n    para o fundo da bacia d&#8217;assento, todas do mesmo formato, entaladas n&#8217;uma encaderna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    negra como n&#8217;uma armadura de combate, carrancudas e aggressivas! As paredes<br \/>\n    resplandeciam, forradas de cartonagens impressas em lettras de c&ocirc;r,<br \/>\n    irradiando versiculos duros da Biblia, asperos conselhos de moral, gritos<br \/>\n    dos psalmos, amea&ccedil;as insolentes do inferno&#8230; E no meio d&#8217;esta religiosidade<br \/>\n    anglicana, &aacute; cabeceira d&#8217;um leitosinho de ferro, rigido e virginal,<br \/>\n    duas garrafas quasi vasias de cognac e de gin. Carlos bebeu o gin da santa;<br \/>\n    e o leito rigido ficou revolto como um campo de batalha.<br \/>\n    Depois a condessa come&ccedil;ou a ter medo d&#8217;uma visinha, uma Borges, que<br \/>\n    visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos. Uma<br \/>\n    occasi&atilde;o em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam languidamente<br \/>\n    cigarrilhas, tres enormes argoladas &aacute; porta atroaram a casa. A pobre<br \/>\n    condessa quasi desmaiou; Carlos, correndo &aacute; janella, viu um homem que<br \/>\n    se affastava, com uma estatueta de gesso na m&atilde;o, outras dentro d&#8217;um<br \/>\n    cesto. Mas a condessa jurava que f&ocirc;ra a Borges quem mand&aacute;ra o<br \/>\n    italiano das imagens atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como tres<br \/>\n    avisos, tres rebates da Moral&#8230; N&atilde;o quizera voltar mais ao beatifico<br \/>\n    cut&eacute; da titi. E n&#8217;essa tarde, como n&atilde;o havia ainda outro escondrijo,<br \/>\n    tinham abrigado os<br \/>\n    seus amores dentro d&#8217;aquella tipoia de pra&ccedil;a.<br \/>\n    Mas Carlos vinha de l&aacute; enervado, amollecido, sentindo j&aacute; na<br \/>\n    alma os primeiros bocejos da saciedade. Havia tres semanas apenas que aquelles<br \/>\n    bra&ccedil;os perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pesco&ccedil;o,<br \/>\n    &#8211; e agora, pelo passeio de S. Pedro d&#8217;Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que<br \/>\n    batia as folhagens da alameda, elle &iacute;a pensando como se poderia desembara&ccedil;ar<br \/>\n    da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso&#8230; &Eacute; que a condessa &iacute;a-se<br \/>\n    tornando absurda com aquella determina&ccedil;&atilde;o anciosa e audaz de<br \/>\n    invadir toda a sua vida, tomar n&#8217;ella o logar mais largo e mais profundo &#8211;<br \/>\n    como se o primeiro beijo trocado tivesse unido n&atilde;o s&oacute; os labios<br \/>\n    de ambos um momento, mas os seus destinos tambem e para sempre. N&#8217;essa tarde<br \/>\n    l&aacute; tinham voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre o seu<br \/>\n    peito, com os olhos affogados n&#8217;uma ternura supplicante: Se tu quizesses!<br \/>\n    que felizes que seriamos! que vida adoravel! ambos s&oacute;s!&#8230; E isto era<br \/>\n    claro &#8211; a condessa concebera a id&eacute;a extravagante de fugir com elle,<br \/>\n    ir viver n&#8217;um sonho eterno de amor lyrico, n&#8217;algum canto do mundo, o mais<br \/>\n    longe possivel da rua de S. Mar&ccedil;al! Se tu quizesses! N&atilde;o, com<br \/>\n    mil demonios, n&atilde;o queria fugir com a sr.&ordf; condessa de Gouvarinho!&#8230;<br \/>\n    E n&atilde;o era s&oacute; isto &#8211; mas ainda exigencias, egoismos, explos&otilde;es<br \/>\n    tumultuosas d&#8217;um temperamento cioso: j&aacute; mais de uma vez, n&#8217;essas duas<br \/>\n    curtas semanas, por pieguices, ella desproposit&aacute;ra, fallara de morrer,<br \/>\n    debulhada em lagrimas&#8230; Ah! nas lagrimas havia ainda uma voluptuosidade,<br \/>\n    faziam parecer mais tenro o setim do seu collo! O que o inquietava eram certos<br \/>\n    clar&otilde;es que lhe sulcavam o rosto, um dardejar nervoso dos olhos seccos,<br \/>\n    revelando a paix&atilde;o que se accendera n&#8217;aquelles nervos de mulher de<br \/>\n    trinta e tres annos, e a queimava at&eacute; &aacute;s profundidades do seu<br \/>\n    ser&#8230; Certamente este amor punha na sua vida um luxo mais, e um perfume.<br \/>\n    Mas o seu encanto estava em conservar-se facil, sereno, sem penetrar mais<br \/>\n    fundo que a epiderme. Se ella, por qualquer cousa, tinha os olhos turvos d&#8217;agua,<br \/>\n    e fallava em morrer, e torcia os bra&ccedil;os, e queria fugir com elle &#8211;<br \/>\n    ent&atilde;o adeus! Tudo estava estragado; e a sr.&ordf; condessa com a sua<br \/>\n    verbena, os seus cabellos c&ocirc;r de braza, e o seu pranto, era apenas um<br \/>\n    trambolho!<br \/>\n    O chuveiro parara, um bocado d&#8217;azul lavado appareceu entre nuvens. E Carlos<br \/>\n    descia a rua de S. Roque &#8211; quando encontrou o marquez, sahindo d&#8217;uma confeitaria,<br \/>\n    tristonho, com um embrulho na m&atilde;o, e o pesco&ccedil;o abafado n&#8217;um<br \/>\n    enorme cache-nez de seda branca.<br \/>\n    &#8211; Que &eacute; isso? Constipa&ccedil;&atilde;o? perguntou Carlos.<br \/>\n    &#8211; Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao lado d&#8217;elle com uma lentid&atilde;o<br \/>\n    de moribundo. Deitei-me tarde. Can&ccedil;asso. Oppress&atilde;o no peito.<br \/>\n    Pigarreira. D&ocirc;res no lado. Um horror&#8230; Levo j&aacute; aqui rebu&ccedil;ados.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o seja piegas, homem! Voc&ecirc; o que precisa &eacute; roast-beef<br \/>\n    e uma garrafa de Borgonha&#8230; N&atilde;o &eacute; hoje que voc&ecirc; janta<br \/>\n    l&aacute; no Ramalhete?&#8230; &Eacute;, at&eacute; tem l&aacute; o Craft e o<br \/>\n    Damaso&#8230; Ent&atilde;o descemos por essa rua do Alecrim, que j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    chove, depois pelo Aterro f&oacute;ra, a passo gymnastico, e em chegando l&aacute;<br \/>\n    voc&ecirc; est&aacute; curado. <br \/>\n    O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas sentia o menor encommodo, uma<br \/>\n    d&ocirc;r, um arrepio, considerava-se logo, como elle dizia, liquidado. O<br \/>\n    mundo come&ccedil;ava a findar para elle: tomavam-no terrores catholicos,<br \/>\n    uma preoccupa&ccedil;&atilde;o angustiosa da Eternidade. N&#8217;esses dias fechava-se<br \/>\n    no quarto com o padre capell&atilde;o &#8211; com quem &aacute;s vezes, todavia,<br \/>\n    terminava por jogar as damas.<br \/>\n    &#8211; Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente o chapeu ao passar pela<br \/>\n    porta aberta da egreja dos Martyres, deixe-me voc&ecirc; ir primeiro ao Gremio&#8230;<br \/>\n    Quero escrever &aacute; Manoeleta que n&atilde;o conte comigo esta noite&#8230;<br \/>\n    Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias d&#8217;esse devasso do<br \/>\n    Ega. Esse devasso do Ega l&aacute; estava em Celorico, na quinta materna,<br \/>\n    ouvindo arrotar o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo dizia, na grande<br \/>\n    arte: andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia chamar o Loda&ccedil;al<br \/>\n    &#8211; escripta para se vingar de Lisboa.<br \/>\n    &#8211; O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio, e abafando-se mais no<br \/>\n    cache-nez, &eacute; se eu estou assim no domingo para as corridas!<br \/>\n    &#8211; O qu&ecirc;! exclamou Carlos, ent&atilde;o as corridas s&atilde;o j&aacute;<br \/>\n    no domingo?<br \/>\n    O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as corridas<br \/>\n    se tinham apressado a pedido do Clifford, o grande sportman de Cordova, que<br \/>\n    devia trazer dois cavallos inglezes&#8230; Era um bocado humilhante depender do<br \/>\n    Clifford. Mas emfim o Clifford era um gentleman e com os seus cavallos de<br \/>\n    ra&ccedil;a, os seus jockeys inglezes, constituia a unica fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    s&eacute;ria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford aquillo era uma brincadeira<br \/>\n    de pilecas e d&#8217;abas&#8230;<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o conhece o Clifford?&#8230; Bello rapaz! Um pouco poseur,<br \/>\n    mas oiro de lei.<br \/>\n    Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez estendeu o bra&ccedil;o a Carlos.<br \/>\n    &#8211; Veja esse pulso!<br \/>\n    &#8211; O pulso est&aacute; excellente&#8230; V&aacute; voc&ecirc; dar l&aacute; esse<br \/>\n    golpe &aacute; Manoela, que eu fico aqui &aacute; espera.<br \/>\n    No domingo pois, d&#8217;ahi a cinco dias, eram as corridas&#8230; E ella estaria l&aacute;,<br \/>\n    elle ia conhecel-a, emfim! Durante essas tres ultimas semanas vira-a duas<br \/>\n    vezes: uma occasi&atilde;o, estando a conversar com o Taveira &aacute; porta<br \/>\n    do hotel Central, ella chegara a uma das varandas, de chapeu, cal&ccedil;ando<br \/>\n    uma grande luva preta; d&#8217;outra vez, havia dias, por uma tarde de chuva, ella<br \/>\n    viera parar &aacute; porta do Mour&atilde;o, ao Chiado, n&#8217;um coup&eacute;<br \/>\n    da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario levava dentro &aacute;<br \/>\n    loja um embrulho que tinha a f&oacute;rma d&#8217;um cofre, apertado com uma fita<br \/>\n    vermelha. <br \/>\n    D&#8217;ambas as vezes ella vira-o, demorara os olhos n&#8217;elle um momento: e parecera<br \/>\n    a Carlos que o ultimo olhar se prolongara mais, como abandonando-se, humedecendo-se,<br \/>\n    n&#8217;uma leve do&ccedil;ura, ao pousar no seu&#8230; Era talvez uma illus&atilde;o;<br \/>\n    mas isto decidiu-o, na sua impaciencia, a realisar a antiga id&eacute;a (ainda<br \/>\n    que desagradavel) de ser apresentado pelo Damaso ao Castro Gomes. O pobre<br \/>\n    Damaso, ao principio, diante d&#8217;esta exigencia, ficou perturbado; e com um<br \/>\n    ar de c&atilde;o que defende o seu osso, lembrou logo a Carlos o deploravel<br \/>\n    comportamento do Castro Gomes, que n&atilde;o viera como lh&#8217;o annunciara,<br \/>\n    havia tres semanas, deixar o seu cart&atilde;o ao Ramalhete&#8230; Mas Carlos<br \/>\n    desdenhava essas formalidades estreitas entre rapazes: o Castro Gomes parecia-lhe<br \/>\n    um homem de gosto e de sport; nem todos os dias apparecia em Lisboa quem soubesse<br \/>\n    dar com correc&ccedil;&atilde;o o n&oacute; da gravata; e seria agradavel,<br \/>\n    mesmo para elle Damaso, reunirem-se todos de vez em quando, com o Craft, com<br \/>\n    o marquez, a fumar um charuto e a fallar de cavallos. Isto decidiu Damaso,<br \/>\n    que terminou por prop&ocirc;r a Carlos o leval-o uma tarde ao hotel Central.<br \/>\n    Carlos por&eacute;m n&atilde;o queria entrar pelo hotel dentro, de chapeu<br \/>\n    na m&atilde;o, atraz do Damaso. Resolveram ent&atilde;o esperar pelas corridas,<br \/>\n    onde os Castro Gomes tencionavam ir. &laquo;Ahi, no recinto da pesagem, disse<br \/>\n    o Damaso, a apresenta&ccedil;&atilde;o &eacute; mais chic&#8230; &Eacute; mesmo<br \/>\n    p&ocirc;dre de chic.&raquo;<br \/>\n    &#8211; Deus queira com effeito que n&atilde;o chova no domingo, murmurou Carlos<br \/>\n    quando o marquez desceu, mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez.<br \/>\n    Foram seguindo pelo meio da rua, em direc&ccedil;&atilde;o ao Ferregial. Adiante<br \/>\n    do Gremio, encostado ao passeio, estava um coup&eacute; da Companhia, com<br \/>\n    um trintanario de luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos olhou, casualmente;<br \/>\n    e viu, debru&ccedil;ado &aacute; portinhola, um rosto de crean&ccedil;a, d&#8217;uma<br \/>\n    brancura adoravel, sorrindo-lhe, com um bello sorriso que lhe punha duas covinhas<br \/>\n    na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ella n&atilde;o se contentou<br \/>\n    em sorr&iacute;r, com o seu doce olhar azul fugindo todo para elle, &#8211; deitou<br \/>\n    a m&atilde;osinha de f&oacute;ra, atirou-lhe um grande adeus. No fundo do<br \/>\n    coup&eacute;, forrado de negro, destacava um perfil claro d&#8217;estatua, um tom<br \/>\n    ondeado de cabello louro. Carlos tirou profundamente o chapeu, t&atilde;o<br \/>\n    perturbado, que os seu passos hesitaram. Ella abaixou a cabe&ccedil;a, de<br \/>\n    leve; alguma cousa de luminoso, um confuso rubor d&#8217;emo&ccedil;&atilde;o, espalhou-se-lhe<br \/>\n    no rosto. E fugitivamente foi como se, da m&atilde;e e da filha, ao mesmo<br \/>\n    tempo, viesse para elle uma suave e quente emana&ccedil;&atilde;o de sympathia.<br \/>\n    &#8211; Caramba, aquillo pertence-lhe? perguntou o marquez, que notara a impress&atilde;o<br \/>\n    de Madame Gomes.<br \/>\n    Carlos c&oacute;rou.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, &eacute; uma senhora brazileira a quem eu curei aquella pequerrucha&#8230;<br \/>\n    &#8211; Irra! que gratid&atilde;o! rosnou o outro de dentro das dobras do seu cachenez.<br \/>\n    Caminhando em silencio pelo Ferregial, Carlos revolvia uma id&eacute;a que<br \/>\n    lhe viera de repente, ao receber aquelle doce olhar. Por que &eacute; que<br \/>\n    Damaso n&atilde;o levaria uma manh&atilde; o Castro Gomes aos Olivaes, a v&ecirc;r<br \/>\n    as collec&ccedil;&otilde;es do Craft?&#8230; Elle estaria l&aacute;, abria-se<br \/>\n    uma garrafa de Champagne, discutiam bric-&agrave;-brac. Depois, muito naturalmente,<br \/>\n    elle convidava Castro Gomes a almo&ccedil;ar no Ramalhete, para lhe mostrar<br \/>\n    o grande Rubens, e as suas velhas colxas da India. E assim, j&aacute; antes<br \/>\n    das corridas existiria entre elles uma camaradagem, talvez um tratamento de<br \/>\n    voc&ecirc;.<br \/>\n    No Aterro, temendo o ar do rio, o marquez quiz tomar uma tipoia; e, at&eacute;<br \/>\n    ao Ramalhete, continuaram callados. O marquez, outra vez inquieto, apalpava<br \/>\n    a garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo aquella lenta inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de cabe&ccedil;a, o olhar d&#8217;ella, o vivo rubor fugitivo&#8230; Ella at&eacute;<br \/>\n    ahi n&atilde;o o conhecia talvez. Mas, depois de atirar o seu grande adeus,<br \/>\n    Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a m&atilde;e, a dizer-lhe decerto que<br \/>\n    aquelle era o medico que a curara, a ella e &aacute; boneca&#8230; E ent&atilde;o<br \/>\n    a linda c&ocirc;r que lhe enternecera o rosto tomava uma significa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais profunda &#8211; era como a surpreza feliz, o enleio casto, ao saber que o<br \/>\n    homem que ella not&aacute;ra j&aacute; de algum modo tinha penetrado na sua<br \/>\n    intimidade, beijara a sua filha, se tinha mesmo sentado &aacute; beira do<br \/>\n    seu leito&#8230;<br \/>\n    Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora, mais<br \/>\n    brilhante. Porque n&atilde;o iria ella tambem v&ecirc;r as curiosidades do<br \/>\n    Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idyllio! O Craft arranjava<br \/>\n    um lunch delicado no seu velho servi&ccedil;o de Wedgewood. Elle ficava &aacute;<br \/>\n    meza junto d&#8217;ella. Depois iam v&ecirc;r o jardim j&aacute; em fl&ocirc;r;<br \/>\n    ou tomavam ch&aacute; no pavilh&atilde;o japonez, forrado de esteiras. Mas,<br \/>\n    o que mais lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas de Craft, parando<br \/>\n    ambos diante d&#8217;uma bella faien&ccedil;a ou d&#8217;um movel raro, e sentindo, atravez<br \/>\n    da concordancia dos seus gostos, subir, como um perfume, a sympathia dos seus<br \/>\n    cora&ccedil;&otilde;es&#8230; Nunca a vira t&atilde;o formosa como n&#8217;essa tarde,<br \/>\n    dentro do coup&eacute; forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura<br \/>\n    do seu perfil. Sobre o rega&ccedil;o do vestido negro pousava o tom claro<br \/>\n    das suas luvas; e no chap&eacute;o frisava-se a ponta de uma penna cor de<br \/>\n    neve.<br \/>\n    A tipoia parara ao port&atilde;o do Ramalhete, estavam agora entre as silenciosas<br \/>\n    tapessarias da ante-camara.<br \/>\n    &#8211; Como &eacute; que ella conhece os Cruges? perguntou de repente o marquez,<br \/>\n    com um tom desconfiado, desembara&ccedil;ando-se do cache-nez.<br \/>\n    Carlos olhou para elle, como mal acordado.<br \/>\n    &#8211; Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o Cruges?&#8230; Homem, sim, tem voc&ecirc;<br \/>\n    raz&atilde;o!&#8230; Aquella era a casa do Cruges! a carruagem estava parada &aacute;<br \/>\n    porta do Cruges!&#8230; Talvez alguem que m&oacute;re n&#8217;outro andar.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o m&oacute;ra ninguem, disse o marquez, dando um passo para o corredor.<br \/>\n    Em todo o caso, &eacute; um mulher&atilde;o.<br \/>\n    Carlos achou a palavra odiosa.<br \/>\n    Do corredor ouvia-se j&aacute; no escriptorio de Affonso, atravez da porta<br \/>\n    aberta, a voz petulante do Damaso fallando alto d&#8217;handicap e de dead-beat&#8230;<br \/>\n    E foram-n&#8217;o encontrar discursando sobre as corridas, com convic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com auctoridade, como membro do Jockey-Club. Affonso, na sua velha poltrona,<br \/>\n    escutava-o, cortez e risonho, com o reverendo Bonifacio no collo. Ao canto<br \/>\n    do soph&aacute;, Craft folheava um livro.<br \/>\n    E o Damaso appellou logo para o marquez. N&atilde;o era verdade, como elle<br \/>\n    estivera dizendo ao sr. Affonso da Maia, que iam ser as melhores corridas<br \/>\n    que se tinham feito em Lisboa? S&oacute; para o grande premio nacional de<br \/>\n    seiscentos mil r&eacute;is havia oito cavallos inscriptos! E, al&eacute;m<br \/>\n    d&#8217;isso, o Clifford trazia a Mist.<br \/>\n    &#8211; Ah, &eacute; verdade, oh marquez, &eacute; necessario que voc&ecirc; appare&ccedil;a<br \/>\n    sexta-feira &aacute; noite no Jockey-Club, para acabarmos o handicap!<br \/>\n    O marquez arrastara uma cadeira para o p&eacute; de Affonso, para lhe fazer<br \/>\n    a confidencia dos seus achaques; mas como Damazo se mettia entre elles, fallando<br \/>\n    ainda da Mist, decidindo que a Mist era chic, querendo apostar cinco libras<br \/>\n    pela Mist contra o campo &#8211; o marquez terminou por se voltar, enfastiado, dizendo<br \/>\n    que o sr. Damazosinho se estava a dar ares patuscos&#8230; Apostar pela Mist!<br \/>\n    Todo o patriota devia apostar pelos cavallos do visconde de Darque, que era<br \/>\n    o unico criador portuguez!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Pois n&atilde;o &eacute; verdade, sr. Affonso da Maia?<br \/>\n    O velho sorrio, amaciando o seu gato.<br \/>\n    &#8211; O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria, em logar de corridas,<br \/>\n    fazer uma boa tourada.<br \/>\n    Damazo levou as m&atilde;os &aacute; cabe&ccedil;a. Uma tourada! Ent&atilde;o<br \/>\n    o sr. Affonso da Maia preferia touros a corridas de cavallos? O sr. Affonso<br \/>\n    da Maia, um inglez!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Um simples beir&atilde;o, sr. Salcede, um simples beir&atilde;o, e que faz<br \/>\n    gosto n&#8217;isso; se habitei a Inglaterra &eacute; que o meu rei, que era ent&atilde;o,<br \/>\n    me p&ocirc;z f&oacute;ra do meu paiz&#8230; Pois &eacute; verdade, tenho esse<br \/>\n    fraco portuguez, prefiro touros. Cada ra&ccedil;a possue o seu sport proprio,<br \/>\n    e o nosso &eacute; o toiro: o toiro com muito sol, ar de dia santo, agua fresca,<br \/>\n    e foguetes&#8230; Mas sabe o sr. Salcede qual &eacute; a vantagem da toirada?<br \/>\n    &Eacute; ser uma grande escola de for&ccedil;a, de coragem e de destreza&#8230;<br \/>\n    Em Portugal n&atilde;o ha institui&ccedil;&atilde;o que tenha uma importancia<br \/>\n    egual &aacute; tourada de curiosos. E acredite uma cousa: &eacute; que se<br \/>\n    n&#8217;esta triste gera&ccedil;&atilde;o moderna ainda ha em Lisboa uns rapazes<br \/>\n    com certo musculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom socco, deve-se<br \/>\n    isso ao touro e &aacute; tourada de curiosos&#8230;<br \/>\n    O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo &eacute; que era fallar!<br \/>\n    Aquillo &eacute; que era dar a philosophia do toiro! Est&aacute; claro que<br \/>\n    a tourada era uma grande educa&ccedil;&atilde;o phisica! E havia imbecis que<br \/>\n    fallavam em acabar com os touros! Oh, estupidos, acabaes ent&atilde;o com<br \/>\n    a coragem portuguesa!&#8230;<br \/>\n    &#8211; N&oacute;s n&atilde;o temos os jogos de destresa das outras na&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    exclamava elle, bracejando pela sala e esquecido dos seus males. N&atilde;o<br \/>\n    temos o cricket, nem o football, nem o running, como os inglezes; n&atilde;o<br \/>\n    temos a gymnastica como ella se faz em Fran&ccedil;a; n&atilde;o temos o servi&ccedil;o<br \/>\n    militar obrigatorio que &eacute; o que torna o allem&atilde;o solido&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos s&oacute; a tourada&#8230;<br \/>\n    Tirem a tourada, e n&atilde;o ficam sen&atilde;o badamecos derreados da espinha,<br \/>\n    a mellarem-se pelo Chiado! Pois voc&ecirc; n&atilde;o acha, Craft?<br \/>\n    Craft, do canto do soph&aacute;, onde Carlos se f&ocirc;ra sentar e lhe fallava<br \/>\n    baixo, respondeu, convencido:<br \/>\n    &#8211; O que, o touro? Est&aacute; claro! o touro devia ser n&#8217;este paiz como o<br \/>\n    ensino &eacute; l&aacute; f&oacute;ra: gratuito e obrigatorio.<br \/>\n    Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente que gostava tambem muito<br \/>\n    de touros. Ah, l&aacute; n&#8217;essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava<br \/>\n    a palma&#8230; Mas as corridas tinham outro chic! Aquelles Bois de Boulogne, n&#8217;um<br \/>\n    dia de Grand-Prix, hein!&#8230; Era de embatucar!<br \/>\n    &#8211; Sabes o que &eacute; pena? exclamou elle voltando-se de repente para Carlos.<br \/>\n    &Eacute; que tu n&atilde;o tenhas um four-in-hand, um mail coach. Iamos todos<br \/>\n    d&#8217;aqui, cahia tudo de chic!<br \/>\n    Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena n&atilde;o ter um four-in-hand.<br \/>\n    Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da Concei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    irem todos dentro d&#8217;um omnibus.<br \/>\n    Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os bra&ccedil;os, descor&ccedil;oado:<br \/>\n    &#8211; Ahi est&aacute;, sr. Affonso da Maia! Ahi est&aacute; por que em Portugal<br \/>\n    nunca se faz nada em termos! &Eacute; por que ninguem quer concorrer para<br \/>\n    que as cousas saiam bem&#8230; Assim n&atilde;o &eacute; possivel! Eu c&aacute;<br \/>\n    entendo isto: que n&#8217;um paiz, cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para<br \/>\n    a civilisa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia. Eis ahi uma nobre, uma grande<br \/>\n    palavra!<br \/>\n    &#8211; Pois n&atilde;o &eacute; verdade? gritou Damazo, triumphante, a estoirar<br \/>\n    de goso. Assim eu, por exemplo&#8230;<br \/>\n    &#8211; Tu, o qu&ecirc;? exclamaram dos lados. Que fizeste tu pela civilisa&ccedil;&atilde;o?&#8230;<br \/>\n    &#8211; Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca&#8230; E vou de<br \/>\n    v&eacute;o azul no chap&eacute;o!<br \/>\n    Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso, n&#8217;uma salva. O velho, sorrindo<br \/>\n    ainda das id&eacute;as de Damaso sobre a civilisa&ccedil;&atilde;o, puxou<br \/>\n    a luneta, leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se<br \/>\n    logo, tendo depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado Bonifacio.<br \/>\n    &#8211; Isto &eacute; que &eacute; ter gosto, isto &eacute; que &eacute; comprehender<br \/>\n    as cousas! exclamava o Damaso, agitando os bra&ccedil;os para Carlos, quando<br \/>\n    o velho desappareceu<br \/>\n    atravez do reposteiro de damasco. Este teu av&ocirc;, menino, &eacute; podre<br \/>\n    de chic!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Deixa l&aacute; o chic do av&ocirc;&#8230; Anda c&aacute;, que te quero dizer<br \/>\n    uma cousa.<br \/>\n    Abriu uma das janellas do terra&ccedil;o, levou para l&aacute; o Damaso, e<br \/>\n    disse-lhe ahi, &aacute; pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda<br \/>\n    tarde que poderiam passar na quinta com os Castro Gomes&#8230; Elle j&aacute;<br \/>\n    fallara ao Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher tudo<br \/>\n    de flores. E agora s&oacute; restava que Damaso amigo, como amabilidade sua,<br \/>\n    convidasse os Castro Gomes&#8230;<br \/>\n    &#8211; Caramba! murmurou Damaso desconfiado, est&aacute;s com furor de a conhecer!<br \/>\n    Mas emfim concordou que era chic a valer! E via ahi uma bella occasi&atilde;o<br \/>\n    para elle!&#8230; Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as curiosidades<br \/>\n    ao Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, z&aacute;s, ia para a quinta<br \/>\n    passear com ella&#8230; A calhar!<br \/>\n    &#8211; Pois vou &aacute;manh&atilde; j&aacute; fallar-lhes&#8230; Estou convencido<br \/>\n    que aceitam logo. Ella pela-se por bric-a-brac!<br \/>\n    &#8211; E vens dizer-me se acceitaram ou n&atilde;o&#8230;<br \/>\n    &#8211; Venho dizer-te&#8230; Tu vaes gostar d&#8217;ella; tem lido muito, entende tambem<br \/>\n    de litteratura; e olha que &aacute;s vezes a conversar atrapalha&#8230;<br \/>\n    O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a porta<br \/>\n    envidra&ccedil;ada, outra vez preoccupado com a garganta. E desejava antes<br \/>\n    de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal&#8230;<br \/>\n    &#8211; E &eacute; isto um portuguez forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente<br \/>\n    do bra&ccedil;o.<br \/>\n    &#8211; Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez, desprendendo-se d&#8217;elle<br \/>\n    e olhando-o com ferocidade. E voc&ecirc; &eacute;-o no sentimento. E o Craft<br \/>\n    &eacute;-o na respeitabilidade. E o Damasosinho &eacute;-o na tolice. Em Portugal<br \/>\n    &eacute; tudo Pieguice e Companhia!<br \/>\n    Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na ante-camara,<br \/>\n    deram com Affonso fallando a uma mulher, carregada de luto, que lhe beijava<br \/>\n    a m&atilde;o, meia de joelhos, suffocada de lagrimas: e ao lado outra mulher,<br \/>\n    com os olhos turvos d&#8217;agua tambem, embalava dentro do chaile uma criancinha<br \/>\n    que parecia doente e gemia. Carlos parara embara&ccedil;ado; o marquez instinctivamente<br \/>\n    levou a m&atilde;o &aacute; algibeira. Mas o velho, assim surprehendido na<br \/>\n    sua caridade, foi logo empurrando as duas mulheres para a escada: ellas desciam,<br \/>\n    encolhidas, aben&ccedil;oando-o, n&#8217;um murmurio de solu&ccedil;os; e elle voltando-se<br \/>\n    para Carlos, quasi se desculpou n&#8217;uma voz que ainda tremia:<br \/>\n    &#8211; Sempre estes peditorios&#8230; Caso bem triste todavia&#8230; E o que &eacute; peior<br \/>\n    &eacute; que por mais que se d&ecirc; nunca se d&aacute; bastante. Mundo muito<br \/>\n    mal feito, marquez.<br \/>\n    &#8211; Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia, respondeu o marquez commovido.<br \/>\n    No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu phaeton de oito molas,<br \/>\n    levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se installara no<br \/>\n    Ramalhete, parou ao fim do largo de Belem, no momento em que para o lado do<br \/>\n    Hyppodromo estavam j&aacute; estalando foguetes. Um dos criados desceu a comprar<br \/>\n    o bilhete de pesagem para o Craft, n&#8217;uma tosca guarita de madeira, armada<br \/>\n    alli de vespera, onde se mexia um homemsinho de grandes barbas grisalhas.<br \/>\n    Era um dia j&aacute; quente, azul ferrete, com um d&#8217;esses rutilantes soes<br \/>\n    de festa que enflammam as pedras da rua, doiram a poeirada ba&ccedil;a do<br \/>\n    ar, poem fulgores d&#8217;espelho pelas vidra&ccedil;as, d&atilde;o a toda a cidade<br \/>\n    essa branca faisca&ccedil;&atilde;o de cal, d&#8217;um vivo monotono e implacavel,<br \/>\n    que na lentid&atilde;o das horas de ver&atilde;o can&ccedil;a a alma, e vagamente<br \/>\n    entristece. No largo dos Jeronymos silencioso, e a escaldar na luz, um omnibus<br \/>\n    esperava, desatrelado, junto ao portal da Egreja. Um trabalhador com o filho<br \/>\n    ao collo, e a mulher ao lado no seu chaile de ramagens, andava alli, pasmando<br \/>\n    para a estrada, pasmando para o rio, a gosar ociosamente o seu domingo. Um<br \/>\n    garoto ia apregoando desconsoladamente programmas das corridas que ninguem<br \/>\n    comprava. A mulher da agua fresca, sem freguezes, sentara-se com a sua bilha<br \/>\n    &aacute; sombra, a catar um pequeno. Quatro pesados municipaes a cavallo patrulhavam<br \/>\n    a passo aquella solid&atilde;o. E a distancia, sem cessar, o estalar alegre<br \/>\n    de foguetes morria no ar quente.<br \/>\n    No entanto o trintanario continuava debru&ccedil;ado na guarita, sem poder<br \/>\n    arranjar l&aacute; dentro o troco d&#8217;uma libra. Foi necessario Craft saltar<br \/>\n    da almofada, ir l&aacute; parlamentar &#8211; emquanto Carlos, impaciente, raspando<br \/>\n    com o chicote as ancas das egoas, luzidias como um setim castanho, riscava<br \/>\n    no largo uma volta brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim governando,<br \/>\n    irritadamente, sem descerrar os labios. &Eacute; que toda aquella semana,<br \/>\n    desde a tarde em que combinara com o Damaso a visita aos Olivaes, f&ocirc;ra<br \/>\n    desconsoladora. O Damaso tinha desapparecido, sem mandar a resposta dos Castro<br \/>\n    Gomes. Elle, por orgulho, n&atilde;o procurara o Damaso. Os dias tinham passado,<br \/>\n    vazios; n&atilde;o se realisara o alegre idyllio dos Olivaes; ainda n&atilde;o<br \/>\n    conhecia Madame Gomes; n&atilde;o a tornara a ver; n&atilde;o a esperava nas<br \/>\n    corridas. E aquelle domingo de festa, o grande sol, a gente pelas ruas, vestida<br \/>\n    de casimiras e de sedas de missa, enchiam-n&#8217;o de melancolia e de malestar.<br \/>\n    Uma caleche de pra&ccedil;a passou, com dous sujeitos de flores ao peito,<br \/>\n    acabando de cal&ccedil;ar as luvas; depois um dog-cart, governado por um homem<br \/>\n    gordo, de lunetas pretas, quasi foi esbarrar contra o Arco. Emfim, Craft voltou<br \/>\n    com o seu bilhete, tendo sido descomposto pelo homem de barbas propheticas.<br \/>\n    Para al&eacute;m do arco, a poeira suffocava. Pelas janellas havia senhoras<br \/>\n    debru&ccedil;adas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outros municipaes, a<br \/>\n    cavallo, atravancavam a rua.<br \/>\n    &Aacute; entrada para o hyppodromo, abertura escalavrada n&#8217;um muro de quintarola,<br \/>\n    o phaeton teve de parar atr&aacute;z do dog-cart do homem gordo &#8211; que n&atilde;o<br \/>\n    podia tambem avan&ccedil;ar porque a porta estava tomada pela caleche de pra&ccedil;a,<br \/>\n    onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava furiosamente com um policia.<br \/>\n    Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O sr. Savedra, que era do Jockey<br \/>\n    Club, tinha-lhe dito que elle podia entrar sem pagar a carruagem! Ainda lho<br \/>\n    diss&eacute;ra na vespera, na botica do Azevedo! Queria que se fosse chamar<br \/>\n    o sr. Savedra! O policia bracejava, enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas,<br \/>\n    ia abrir a portinhola, esmurrar o homem &#8211; quando, trotando na grande horsa,<br \/>\n    um municipal de punho al&ccedil;ado correu, gritou, injuriou o cavalleiro<br \/>\n    gordo, fez rodar para &oacute;ra a caleche. Outro municipal entrometteu-se,<br \/>\n    brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um portal,<br \/>\n    espavoridas. E atravez do reboli&ccedil;o, da poeira, sentia-se adiante, melancolicamente,<br \/>\n    um realejo tocando a Traviata.<br \/>\n    O phaeton entrou &#8211; atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de furia,<br \/>\n    voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do municipal.<br \/>\n    &#8211; Tudo isto est&aacute; arranjado com decencia, murmurou Craft.<br \/>\n    Diante d&#8217;elles, o hyppodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, depois<br \/>\n    da poeirada quente da cal&ccedil;ada e das cruas reverbera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da cal, mais fresco, mais vasto, com a sua relva j&aacute; um pouco crestada<br \/>\n    pelo sol de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e al&eacute;m.<br \/>\n    Uma aragem larga e repousante chegava vagarosamente do rio.<br \/>\n    No centro, como perdido no largo espa&ccedil;o verde, negrejava, no brilho<br \/>\n    do sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio, d&#8217;onde<br \/>\n    sobresahiam tons claros de sombrinhas, o faiscar d&#8217;um vidro de lanterna, ou<br \/>\n    um casaco branco de cocheiro. Para al&eacute;m, dos dois lados da tribuna<br \/>\n    real forrada de um baet&atilde;o vermelho de mesa de Reparti&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    erguiam-se as duas tribunas publicas, com o feitio de traves mal pregadas,<br \/>\n    como palanques d&#8217;arraial. A da esquerda vasia, por pintar, mostrava &aacute;<br \/>\n    luz as fendas do taboado. Na da direita, bezuntada por f&oacute;ra d&#8217;azul<br \/>\n    claro, havia uma fila de senhoras quasi todas de escuro encostadas ao rebordo,<br \/>\n    outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o resto das bancadas permanecia<br \/>\n    deserto e desconsolado, d&#8217;um tom alvadio de madeira, que abafava as c&ocirc;res<br \/>\n    alegres dos raros vestidos de ver&atilde;o. Por vezes a briza lenta agitava<br \/>\n    no alto dos dois mastros o azul das bandeirolas. Um grande silencio ca&iacute;a<br \/>\n    do ceu faiscante.<br \/>\n    Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia mais<br \/>\n    soldados de infanteria, com as bayonetas lampejando ao sol. E no homem triste<br \/>\n    que estava &aacute; entrada, recebendo os bilhetes, mettido dentro d&#8217;um enorme<br \/>\n    collete branco, reteso de gomma, e que lhe chegava at&eacute; aos joelhos<br \/>\n    &#8211; Carlos reconheceu o servente do seu laboratorio.<br \/>\n    Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira &aacute; porta do buffete<br \/>\n    onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos amarellos<br \/>\n    ao peito, polainas brancas, &#8211; e queria animar as corridas. J&aacute; vira<br \/>\n    a Mist, a egoa de Clifford, e decidira apostar pela Mist. Que cabe&ccedil;a<br \/>\n    d&#8217;animal, meninos, que finura de pernas!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Palavra que me enthusiasmou! E est&aacute; decidido, um dia n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    dias, &eacute; necessario animar isto! Aposto trez mil r&eacute;is. Quer voc&ecirc;<br \/>\n    Craft?<br \/>\n    &#8211; Pois sim, talvez, depois&#8230; Vamos primeiro v&ecirc;r o aspecto geral.<br \/>\n    No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia s&oacute; homens,<br \/>\n    a gente do Gremio, das Secretarias e da Casa Havaneza; a maior parte &aacute;<br \/>\n    vontade, com jaquet&otilde;es claros, e de chap&eacute;o c&ocirc;co; outros<br \/>\n    mais em estilo, de sobrecasaca e binoculo a tiracollo, pareciam embara&ccedil;ados<br \/>\n    e quasi arrependidos do seu chic. Fallava-se baixo, com passos lentos pela<br \/>\n    relva, entre leves fumara&ccedil;as de cigarro. Aqui e al&eacute;m um cavalheiro,<br \/>\n    parado, de m&atilde;os atraz das costas, pasmava languidamente para as senhoras.<br \/>\n    Ao lado de Carlos dois brazileiros queixavam-se do pre&ccedil;o dos bilhetes,<br \/>\n    achando aquillo &laquo;uma semsaboria de rachar.&raquo;<br \/>\n    Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por soldados:<br \/>\n    e junto &aacute; corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente, com<br \/>\n    as carruagens pelo meio, sem um rumor, n&#8217;uma pasmaceira tristonha, sob o peso<br \/>\n    do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava agua fresca.<br \/>\n    L&aacute; ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, t&atilde;o azul como<br \/>\n    o ceu, n&#8217;uma pulverisa&ccedil;&atilde;o fina de luz.<br \/>\n    O visconde de Darque, com o seu ar placido de gentleman louro que come&ccedil;a<br \/>\n    a engordar, veio apertar a m&atilde;o a Carlos e a Craft. E mal elles lhe<br \/>\n    fallaram dos seus cavallos (Rabbino, o favorito, e o outro potro) encolheu<br \/>\n    os hombros, cerrou os olhos, como um homem que se sacrifica. Ent&atilde;o,<br \/>\n    que diabo, os rapazes tinham querido!&#8230; Mas elle, realmente, n&atilde;o podia<br \/>\n    apresentar um cavallo decente, com as suas c&ocirc;res, sen&atilde;o d&#8217;ahi<br \/>\n    a quatro annos. De resto n&atilde;o apurava cavallos para aquella melancolia<br \/>\n    de Belem, n&atilde;o imaginassem os amigos que elle era t&atilde;o patriota:<br \/>\n    o seu fim era ir a Hespanha, bater os cavallos de Caldillo&#8230;<br \/>\n    &#8211; Emfim, vamos a v&ecirc;r&#8230; D&ecirc; voc&ecirc; c&aacute; lume. Isto est&aacute;<br \/>\n    um horror. E depois, que diabo, para corridas &eacute; necessario cocottes<br \/>\n    e Champagne. Com esta gente seria, e agua fresca, n&atilde;o vae!<br \/>\n    N&#8217;esse momento um dos commissarios das corridas, um rapag&atilde;o sem barba,<br \/>\n    vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob o chap&eacute;o branco deitado<br \/>\n    para a nuca, veio arrebatar o Darque, &laquo;que era muito preciso, l&aacute;<br \/>\n    na pesagem, para uma duvidasinha.&raquo;<br \/>\n    &#8211; Eu sou o diccionario, dizia o Darque, tornando a encolher os hombros resignadamente.<br \/>\n    De vez em quando vem um d&#8217;estes senhores do Jockey-Club, e folheia-me&#8230; Veja<br \/>\n    voc&ecirc;, Maia, em que estado eu fico depois das corridas! Ha-de ser necessario<br \/>\n    encadernar-me de novo&#8230;<br \/>\n    E l&aacute; foi, rindo da sua pilheria &#8211; empurrado para diante pelo commissario,<br \/>\n    que lhe dava palmadas familiares nas costas, e lhe chamava catita.<br \/>\n    &#8211; Vamos n&oacute;s v&ecirc;r as mulheres, disse Carlos.<br \/>\n    Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debru&ccedil;adas no rebordo, n&#8217;uma<br \/>\n    fila muda, olhando vagamente, como d&#8217;uma janella em dia de prociss&atilde;o,<br \/>\n    estavam ali todas as senhoras que v&ecirc;em no high-life dos jornaes, as<br \/>\n    dos camarotes de S. Carlos, as das ter&ccedil;as-feiras dos Gouvarinhos. A<br \/>\n    maior parte tinha vestidos serios de missa. Aqui e al&eacute;m um d&#8217;esses<br \/>\n    grandes chap&eacute;os emplumados &aacute; Gainsborough, que ent&atilde;o<br \/>\n    se come&ccedil;avam a usar, carregava d&#8217;uma sombra maior o tom trigueiro d&#8217;uma<br \/>\n    carinha miuda. E na luz franca da tarde, no grande ar da collina descoberta,<br \/>\n    as pelles appareciam murchas, gastas, molles, com um ba&ccedil;o de p&oacute;<br \/>\n    de arroz.<br \/>\n    Carlos cumprimentou as duas irm&atilde;s do Taveira, magrinhas, loirinhas,<br \/>\n    ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa d&#8217;Alvim,<br \/>\n    nedia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos, tendo ao lado<br \/>\n    a sua terna inseparavel, a Joaninha Villar, cada vez mais cheia, com um quebranto<br \/>\n    cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante eram as Pedrosos, as banqueiras,<br \/>\n    de c&ocirc;res claras, interessando-se pelas corridas, uma de programma na<br \/>\n    m&atilde;o, a outra de p&eacute; e de binoculo estudando a pista. Ao lado,<br \/>\n    conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal, desarranjada, com um ar<br \/>\n    de ter lama nas saias. N&#8217;uma bancada isolada, em silencio, Villa&ccedil;a<br \/>\n    com duas damas de preto.<br \/>\n    A condessa de Gouvarinho ainda n&atilde;o viera. E n&atilde;o estava tambem<br \/>\n    aquella que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperan&ccedil;a.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; um canteirinho de camelias meladas, disse o Taveira, repetindo<br \/>\n    um dito do Ega.<br \/>\n    Carlos, no entanto, f&ocirc;ra fallar &aacute; sua velha amiga D. Maria da<br \/>\n    Cunha que, havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso<br \/>\n    de b&ocirc;a mam&atilde;. Era a unica senhora que ousara descer do retiro<br \/>\n    ajanellado da tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como<br \/>\n    ella disse, n&atilde;o aturara a s&eacute;ca de estar l&aacute; em cima perfilada,<br \/>\n    &aacute; espera da passagem do Senhor dos Passos. E, bella ainda sob os seus<br \/>\n    cabellos j&aacute; grisalhos, s&oacute; ella parecia divertir-se alli, muito<br \/>\n    &aacute; vontade, com os p&eacute;s pousados na travessa d&#8217;uma cadeira, o<br \/>\n    binoculo no rega&ccedil;o, cumprimentada a cada instante, tratando os rapazes<br \/>\n    por meninos&#8230; Tinha comsigo uma parenta que apresentou a Carlos, uma senhora<br \/>\n    hespanhola, que seria bonita se n&atilde;o fossem as olheiras negras, cavadas<br \/>\n    at&eacute; ao meio da face. Apenas Carlos se sentou ao p&eacute; d&#8217;ella, D.<br \/>\n    Maria perguntou-lhe logo por esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse<br \/>\n    Carlos, estava em Celorico compondo uma comedia para se vingar de Lisboa,<br \/>\n    chamada o Loda&ccedil;al&#8230;<br \/>\n    &#8211; Entra o Cohen? perguntou ella, rindo.<br \/>\n    &#8211; Entramos todos, sr.&ordf; D. Maria. Todos n&oacute;s somos loda&ccedil;al&#8230;<br \/>\n    N&#8217;esse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan molleng&atilde;o<br \/>\n    de tambores e pratos, o hymno da Carta, a que se misturou uma voz de official<br \/>\n    e o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas, El-rei appareceu na<br \/>\n    tribuna, sorrindo, de quinzena de velludo, e chap&eacute;o branco. Aqui e<br \/>\n    al&eacute;m, raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a senhora hespanhola,<br \/>\n    essa, tomou o oculo do rega&ccedil;o de D. Maria, e de p&eacute;, muito descan&ccedil;adamente,<br \/>\n    poz-se a examinar o rei. D. Maria achava ridicula a musica, dando &aacute;s<br \/>\n    corridas um ar de arraial&#8230; Al&eacute;m d&#8217;isso, que tolice, o hymno, como<br \/>\n    n&#8217;um dia de parada!<br \/>\n    &#8211; E este hymno, ent&atilde;o, que &eacute; medonho, dizia Carlos. A sr.&ordf;<br \/>\n    D. Maria n&atilde;o sabe a defini&ccedil;&atilde;o do Ega, e a sua theoria<br \/>\n    dos hymnos? Maravilhosa!<br \/>\n    &#8211; Aquelle Ega! dizia ella sorrindo, j&aacute; encantada.<br \/>\n    &#8211; O Ega diz que o hymno &eacute; a defini&ccedil;&atilde;o pela musica do<br \/>\n    caracter d&#8217;um povo. Tal &eacute; o compasso do hymno nacional, diz elle, tal<br \/>\n    &eacute; o movimento moral da na&ccedil;&atilde;o. Agora veja a sr.&ordf;<br \/>\n    D. Maria os differentes hymnos, segundo o Ega. A Marselheza avan&ccedil;a<br \/>\n    com uma espada n&uacute;a. O God save the queen adianta-se, arrastando um<br \/>\n    manto real&#8230;<br \/>\n    &#8211; E o hymno da Carta?<br \/>\n    &#8211; O hymno da Carta ginga, de rabona.<br \/>\n    E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se e repousando-lhe tranquillamente<br \/>\n    o binoculo no rega&ccedil;o, murmurou:<br \/>\n    &#8211; Tiene cara de buena persona.<br \/>\n    &#8211; Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excellente!<br \/>\n    No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indicador subiram<br \/>\n    os numeros dos dois cavallos que corriam o primeiro premio dos Productos.<br \/>\n    Eram o n.&ordm;1 e o n.&ordm; 4. D. Maria Telles quiz-lhe saber os nomes,<br \/>\n    com o appetite de apostar e ganhar cinco tost&otilde;es a Carlos. E como Carlos<br \/>\n    se erguia para arranjar um programma:<br \/>\n    &#8211; Deixe estar o menino, disse ella, tocando-lhe no bra&ccedil;o. Ahi vem o<br \/>\n    nosso Alencar, com o programma&#8230; Olhe para aquillo! Veja se ainda hoje os<br \/>\n    ha por ahi com aquelle ar de sentimento e de poesia&#8230;<br \/>\n    Com um fato novo de cheviote claro que o remo&ccedil;ava, de luvas gris-perle,<br \/>\n    o seu bilhete de pezagem na botoeira, o poeta vinha-se abanando com o programma,<br \/>\n    e j&aacute; de longe sorrindo &aacute; sua boa amiga D. Maria. Quando chegou<br \/>\n    junto d&#8217;ella, descoberto, bem penteado n&#8217;esse dia, com um lustre d&#8217;oleo na<br \/>\n    grenha, levou-lhe a m&atilde;o aos labios, fidalgamente.<br \/>\n    D. Maria f&ocirc;ra uma das suas lindas contemporaneas. Tinham dan&ccedil;ado<br \/>\n    muita ardente mazurka nos sal&otilde;es de Arroios. Ella tratava-o por tu.<br \/>\n    Elle dizia sempre boa amiga, e querida Maria.<br \/>\n    &#8211; Deixa v&ecirc;r os nomes d&#8217;esses cavallos, Alencar&#8230; Senta-t&#8217;ahi, anda,<br \/>\n    faze companhia.<br \/>\n    Elle puchou uma cadeira, rindo do interesse que ella tomava pelas corridas.<br \/>\n    E elle que a conhecera sempre uma enthusiasta de toiros!&#8230; Pois os nomes<br \/>\n    dos cavallos eram Jupiter e Escossez&#8230;<br \/>\n    &#8211; Nenhum d&#8217;esses nomes me agrada, n&atilde;o aposto. E ent&atilde;o que te<br \/>\n    parece tudo isto, Alencar?&#8230; A nossa Lisboa vae-se sahindo da concha&#8230;<br \/>\n    Alencar, pousando o chap&eacute;o sobre uma cadeira, e passando a m&atilde;o<br \/>\n    pela sua vasta fronte de bardo, confessou que aquillo tinha realmente um certo<br \/>\n    ar de elegancia, um perfume de c&ocirc;rte&#8230; Depois, l&aacute; em baixo,<br \/>\n    aquelle maravilhoso Tejo&#8230; Sem fallar na importancia do apuramento das ra&ccedil;as<br \/>\n    cavallares&#8230; <br \/>\n    &#8211; Pois n&atilde;o &eacute; verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente<br \/>\n    d&#8217;isso, que &eacute;s um mestre em todos os sports, sabes bem que o apuramento&#8230;<br \/>\n    &#8211; Sim, com effeito, o apuramento, muito importante&#8230; &#8211; disse Carlos, vagamente,<br \/>\n    erguendo-se a olhar outra vez a tribuna.<br \/>\n    Eram quasi tres horas, e agora, de certo, ella j&aacute; n&atilde;o vinha:<br \/>\n    e a condessa de Gouvarinho n&atilde;o apparecia tambem&#8230; Come&ccedil;ava<br \/>\n    a invadil-o uma grande lassitude. Respondendo, com um leve movimento de cabe&ccedil;a,<br \/>\n    ao sorriso doce que lhe dava da tribuna a Joaninha Villar, pensava em voltar<br \/>\n    para o Ramalhete, acabar tranquillamente a tarde dentro do seu robe-de-chambre,<br \/>\n    com um livro, longe de todo aquelle t&eacute;dio.<br \/>\n    No entanto, ainda entravam senhoras. A menina S&aacute; Videira, filha do<br \/>\n    rico negociante de sapatos d&#8217;ourello, passou pelo bra&ccedil;o do irm&atilde;o,<br \/>\n    abonecada, com o arsinho petulante e enojado de tudo, fallando alto inglez.<br \/>\n    Depois foi a ministra da Baviera, a baroneza de Craben, enorme, empavoada,<br \/>\n    com uma face macissa de matrona romana, a pelle cheia de manchas c&ocirc;r<br \/>\n    de tomate, a estalar dentro d&#8217;um vestido de gorgor&atilde;o azul com riscas<br \/>\n    brancas: e atraz o bar&atilde;o, pequenino, amavel, aos pulinhos, com um grande<br \/>\n    chap&eacute;o de palha.<br \/>\n    D. Maria da Cunha erguera-se para lhes fallar: e durante um momento ouviu-se,<br \/>\n    como um glou-glou grosso de per&uacute;, a voz da baroneza achando que c&#8217;&eacute;tait<br \/>\n    charmant, c&#8217;&eacute;tait tr&egrave;s beau. O bar&atilde;o, aos pulinhos, aos<br \/>\n    risinhos, trouvait &ccedil;a ravissant. E o Alencar, diante d&#8217;aquelles estrangeiros<br \/>\n    que o n&atilde;o tinham saudado, apurava a sua attitude de grande homem nacional,<br \/>\n    retorcendo a ponta dos bigodes, al&ccedil;ando mais a fronte n&uacute;a.<br \/>\n    Quando elles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a sentar,<br \/>\n    o poeta, indignado, declarou que abominava allem&atilde;es! O ar de sobranceria<br \/>\n    com que aquella ministra, com feitio de barrica, deixando sahir o cebo por<br \/>\n    todas as costuras do vestido, o olh&aacute;ra, a elle! Ora, a insolente baleia!<br \/>\n    D. Maria sorria, olhando com sympatia o poeta. E voltando-se de repente para<br \/>\n    a senhora hespanhola:<br \/>\n    &#8211; Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de Alencar, nuestro gran poeta lyrico&#8230;<br \/>\n    N&#8217;esse momento, alguns dos rapazes mais amadores, dos que traziam binoculos<br \/>\n    a tiracollo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois cavallos passavam<br \/>\n    n&#8217;um galope sereno, quasi juntos, sob as vergastadas estonteadas de dois jockeys<br \/>\n    de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse que tinha ganhado Escossez. Outros<br \/>\n    affirmavam que f&ocirc;ra Jupiter. E no silencio que se fez, de lassid&atilde;o<br \/>\n    e de desapontamento, ondeou mais viva no ar, lan&ccedil;ada pelos flautins<br \/>\n    da banda, a valsa de madame Angot. Alguns sujeitos tinham-se conservado de<br \/>\n    costas para a pista, fumando, olhando a tribuna &#8211; onde as senhoras continuavam<br \/>\n    debru&ccedil;adas no parapeito, &aacute; espera do Senhor dos Passos. Ao lado<br \/>\n    de Carlos, um cavalheiro resumiu as impress&otilde;es, dizendo que tudo aquillo<br \/>\n    era uma intrujice.<br \/>\n    E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso, Alencar, muito animado<br \/>\n    com a hespanhola, fallava de Sevilha, de malague&ntilde;as e do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    d&#8217;Espronceda.<br \/>\n    O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber porque falhara a visita aos<br \/>\n    Olivaes &#8211; e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquella melancolia<br \/>\n    que o enevoava, estranha e pueril, misturada de irritabilidade, fazendo-lhe<br \/>\n    detestar as vozes que lhe fallavam, os rantatans da musica, at&eacute; a belleza<br \/>\n    calma da tarde&#8230; Mas ao dobrar a esquina da tribuna, topou com Craft, que<br \/>\n    o deteve, o apresentou a um rapaz loiro e forte com quem estava fallando alegremente.<br \/>\n    Era o famoso Clifford, o grande sportman de Cordova. Em redor sujeitos tinham<br \/>\n    parado, embasbacados para aquelle inglez legendario em Lisboa, dono de cavallos<br \/>\n    de corridas, amigo do Rei d&#8217;Hespanha, homem de todos os chics. Elle, muito<br \/>\n    &aacute; vontade, um pouco poseur, com um simples veston de flanella azul<br \/>\n    como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham estado no collegio<br \/>\n    de Rugby. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente. N&atilde;o se<br \/>\n    tinham encontrado havia quasi um anno, em Madrid, n&#8217;um jantar, em casa de<br \/>\n    Pancho Calderon? E assim era. O aperto de m&atilde;o que repetiram foi mais<br \/>\n    intimo &#8211; e Craft quiz que fossem regar aquella flor d&#8217;amisade com uma garrafa<br \/>\n    de mau Champagne. Em roda crescera a pasmaceira.<br \/>\n    O buffete estava installado debaixo da tribuna, sob o taboado n&uacute;, sem<br \/>\n    sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de taberna<br \/>\n    com garrafas e pratos de bolos. E, no balc&atilde;o tosco, dois criados, estonteados<br \/>\n    e sujos, achatavam &aacute; pressa as fatias de sandwiches com as m&atilde;os<br \/>\n    humidas da espuma da cerveja.<br \/>\n    Quando Carlos e os seus amigos entraram, havia junto d&#8217;um dos barrotes que<br \/>\n    especavam os degraus da tribuna, n&#8217;um grupo animado, com copos de champagne<br \/>\n    na m&atilde;o, o marquez, o visconde de Darque, o Taveira, um rapaz pallido<br \/>\n    de barba preta, que tinha debaixo do bra&ccedil;o enrolada a bandeira vermelha<br \/>\n    de Starter, e o commissario imberbe, com o chap&eacute;o branco cada vez mais<br \/>\n    atirado para a nuca, a face mais esbrazeada, o collarinho j&aacute; molle<br \/>\n    de suor. Era elle que offerecia o champagne; e apenas viu entrar Clifford,<br \/>\n    rompeu para elle, de ta&ccedil;a no ar, fez tremer as vigas, soltando o seu<br \/>\n    vozeir&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; &Aacute; saude do amigo Clifford! o primeiro sportman da pen&iacute;nsula,<br \/>\n    e rapaz c&aacute; dos nossos!&#8230; Hip hip, hurrah!<br \/>\n    Os copos ergueram-se, n&#8217;um clamor d&#8217;hurrahs, onde destacou, vibrante e enthusiasta,<br \/>\n    a voz do starter. Clifford agradecia, risonho, tirando lentamente as luvas<br \/>\n    &#8211; em quanto o marquez, puxando Carlos pelo bra&ccedil;o para o lado, lhe apresentava<br \/>\n    rapidamente o commissario, seu primo D. Pedro Vargas.<br \/>\n    &#8211; Muito gosto em conhecer&#8230;<br \/>\n    &#8211; Qual historias! Eu &eacute; que fazia furor! exclamou o commissario. C&aacute;<br \/>\n    a rapaziada do sport deve-se conhecer toda&#8230; Porque isto c&aacute; &eacute;<br \/>\n    a confraria, e todo o resto &eacute; chinfrinada!<br \/>\n    E immediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou com um impeto que lhe trazia<br \/>\n    mais sangue &aacute; face:<br \/>\n    &#8211; &Aacute; saude de Carlos da Maia, o primeiro elegante c&aacute; da patria!<br \/>\n    a melhor m&atilde;o de redea&#8230; Hip, hip, hurrah&#8230;<br \/>\n    &#8211; Hip, hip, hip&#8230; Hurrah!<br \/>\n    E foi ainda a voz do starter que deu o hurrah mais vibrante e mais enthusiasta.<br \/>\n    Um empregado assomou &aacute; porta do buffete, e chamou o sr. commissario.<br \/>\n    O Vargas atirou uma libra para o balc&atilde;o, abalou, gritando j&aacute;<br \/>\n    de f&oacute;ra, com o olho acceso:<br \/>\n    &#8211; Isto vae-se animando, rapazes! Caramba! &Eacute; carregar no liquido! E<br \/>\n    voc&ecirc;, oh l&aacute; de baixo, o patr&atilde;o, s&ocirc; Manuel, mande<br \/>\n    vir esse gelo&#8230; Est&aacute; a gente aqui a tomar a bebida quente&#8230; Despache<br \/>\n    um proprio, v&aacute; voc&ecirc;, rebente! Irra!<br \/>\n    No entanto em quanto se desarrolhava o champagne de Craft, Carlos tinha convidado<br \/>\n    Clifford a jantar n&#8217;essa noite no Ramalhete. O outro acceitou, molhando os<br \/>\n    labios no copo, achando excellente que se continuasse a tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de jantarem juntos, sempre que se encontravam.<br \/>\n    &#8211; Ol&aacute;! o general por aqui! exclamou Craft.<br \/>\n    Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face como um piment&atilde;o,<br \/>\n    entalado n&#8217;uma sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapeu branco<br \/>\n    sobre o olho, e grande chicote debaixo do bra&ccedil;o.<br \/>\n    Acceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer em conhecer o sr. Clifford&#8230;<br \/>\n    &#8211; E que me diz voc&ecirc; a esta semsaboria? exclamou elle logo, voltando-se<br \/>\n    para Carlos.<br \/>\n    Em quanto a si estava contente, pulava&#8230; Aquella corrida insipida, sem cavallos,<br \/>\n    sem jockeys, com meia duzia de pessoas a bocejar em roda, dava-lhe a certeza<br \/>\n    que eram talvez as ultimas, e que o Jockey-Club rebentava&#8230; E ainda bem!<br \/>\n    Via-se a gente livre d&#8217;um divertimento que n&atilde;o estava nos habitos do<br \/>\n    paiz. Corridas era para se apostar. Tinha-se apostado? N&atilde;o, ent&atilde;o<br \/>\n    historias!&#8230; Em Inglaterra e em Fran&ccedil;a, sim! Ahi eram um jogo como<br \/>\n    a roletta, ou como o monte&#8230; At&eacute; havia banqueiros, que eram os bookmakers&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o j&aacute; viam!<br \/>\n    E como o marquez, pousando o copo, e querendo calmar o general, fallava do<br \/>\n    apuramento das ra&ccedil;as, e da remonta, &#8211; o outro ergueu os hombros, com<br \/>\n    indigna&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; Que me est&aacute; voc&ecirc; a cantar! Quer voc&ecirc; dizer que se apura<br \/>\n    a ra&ccedil;a para a remonta da cavallaria?&#8230; Ora v&aacute; l&aacute; montar<br \/>\n    o exercito com cavallos de corridas!&#8230; Em servi&ccedil;o o que se quer n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o cavallo que corra mais, &eacute; o cavallo que aguente mais&#8230;<br \/>\n    O resto &eacute; uma historia&#8230; Cavallos de corridas s&atilde;o phenomenos!<br \/>\n    S&atilde;o como o boi com duas cabe&ccedil;as&#8230; Ent&atilde;o historias!&#8230;<br \/>\n    Em Fran&ccedil;a at&eacute; lhe d&atilde;o Champagne, homem!&#8230; Ent&atilde;o<br \/>\n    veja l&aacute;!&#8230;<br \/>\n    E a cada phrase, sacudia os hombros, furiosamente. Depois, d&#8217;um trago, esvasiou<br \/>\n    o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em conhecer o sr.<br \/>\n    Clifford, rodou sobre os tac&otilde;es, sahiu, bufando, entalando mais debaixo<br \/>\n    do bra&ccedil;o o chicote &#8211; que tremia na ponta como avido de vergastar alguem.<br \/>\n    Craft sorria, batia no hombro de Clifford.<br \/>\n    &#8211; Veja voc&ecirc;! c&aacute; n&oacute;s, velhos portuguezes, n&atilde;o gostamos<br \/>\n    de novidades, e de sports&#8230; Somos pelo toiro&#8230;<br \/>\n    &#8211; Com raz&atilde;o, dizia o outro, serio e aprumando-se sobre o collarinho.<br \/>\n    Ainda ha dias me contava na Granja, o Rei de Hespanha&#8230;<br \/>\n    De repente, f&oacute;ra, houve um reboli&ccedil;o, e vozes sobresaltadas gritando<br \/>\n    ordem! Uma senhora, que atravessava com um pequenito, fugiu para dentro do<br \/>\n    buffete, enfiada. Um policia passou, correndo.<br \/>\n    Era uma desordem!<br \/>\n    Carlos e os outros, sahindo &aacute; pressa, viram ao p&eacute; da tribuna<br \/>\n    real um magote de homens &#8211; onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os<br \/>\n    rapazes corriam com curiosidade, j&aacute; excitados, apinhando-se, al&ccedil;ando-se<br \/>\n    em bicos de p&eacute;s; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando<br \/>\n    as cordas da pista, apesar dos repell&otilde;es dos policias: &#8211; e agora era<br \/>\n    uma massa tumultuosa de chap&eacute;os altos, de fatos claros, empurrando-se<br \/>\n    contra as escadas da tribuna real, onde um ajudante d&#8217;el-rei, reluzente de<br \/>\n    agulhetas e em cabello, olhava tranquillamente.<br \/>\n    E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio do mont&atilde;o um dos sujeitos<br \/>\n    que correra no premio dos Productos, o que montava Jupiter, ainda de botas,<br \/>\n    com um paletot alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso, perdido, injuriando<br \/>\n    o juiz das corridas, o Mendon&ccedil;a, que arregalava os olhos, aturdido<br \/>\n    e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n&#8217;o, queriam que elle fizesse<br \/>\n    um protesto. Mas elle batia o p&eacute;, tremulo, livido, gritando que n&atilde;o<br \/>\n    se importava nada com protestos! Perdera a corrida por uma pouca vergonha!<br \/>\n    O protesto alli era um arrocho! Porque o que havia n&#8217;aquelle hyppodromo era<br \/>\n    compadrice e ladroeira!<br \/>\n    Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade.<br \/>\n    &#8211; F&oacute;ra! F&oacute;ra!<br \/>\n    Alguns tomavam o partido do jockey; j&aacute; aos lados outras quest&otilde;es<br \/>\n    surgiam, desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o Mendon&ccedil;a<br \/>\n    decidira pelo Pinheiro, que montava Escossez, por ser intimo d&#8217;elle; outro<br \/>\n    cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava aquella insinua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    infame; e os dois, frente a frente, com os punhos fechados, tratavam-se furiosamente<br \/>\n    de pulhas.<br \/>\n    E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes collarinhos de pintinhas,<br \/>\n    procurava romper, erguia os bra&ccedil;os, exclamava, n&#8217;uma voz supplicante<br \/>\n    e rouca:<br \/>\n    &#8211; Por quem s&atilde;o, meus senhores&#8230; Um momento&#8230; Eu tenho experiencia&#8230;<br \/>\n    Eu tenho experiencia!<br \/>\n    De repente o vozeir&atilde;o do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro.<br \/>\n    Diante do jockey, sem chap&eacute;o, com a face a estoirar de sangue, gritava-lhe<br \/>\n    que era indigno de estar alli, entre gente decente! Quando um gentleman duvida<br \/>\n    do juiz da corrida, faz um protesto! Mas vir dizer que ha ladr&otilde;es,<br \/>\n    era s&oacute; d&#8217;um canalha e d&#8217;um fadista, como elle, que nunca devia ter<br \/>\n    pertencido ao Jockey-Club! &#8211; O outro, agarrado pelos amigos, esticando o pesco&ccedil;o<br \/>\n    magro como para lhe morder, atirou-lhe um nome sujo. Ent&atilde;o o Vargas,<br \/>\n    com um encontr&atilde;o para os lados, abriu espa&ccedil;o, repuxou<br \/>\n    as mangas, berrou:<br \/>\n    &#8211; Repita l&aacute; isso! repita l&aacute; isso!<br \/>\n    E immediatamente aquella massa de gente oscillou, embateu contra o taboado<br \/>\n    da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de ordem e morra, chap&eacute;os<br \/>\n    pelo ar, baques surdos de murros.<br \/>\n    Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia; senhoras,<br \/>\n    com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando espavoridamente<br \/>\n    as carruagens; &#8211; e um sopro grosseiro de desordem relles passava sobre o hyppodromo,<br \/>\n    desmanchando a linha posti&ccedil;a de civilisa&ccedil;&atilde;o e a attitude<br \/>\n    for&ccedil;ada de decoro&#8230;<br \/>\n    Carlos achou-se ao p&eacute; do marquez, que exclamava, pallido:<br \/>\n    &#8211; Isto &eacute; incrivel, isto &eacute; incrivel!&#8230;<br \/>\n    Carlos, pelo contrario, achava pittoresco.<br \/>\n    &#8211; Qual pittoresco, homem! &Eacute; uma vergonha, com todos esses estrangeiros!<br \/>\n    No entanto a massa de gente dispersava, lentamente, obedecendo ao official<br \/>\n    de guarda, um mo&ccedil;o pequenino mas decidido, que, em bicos de p&eacute;s,<br \/>\n    aconselhava para os lados, n&#8217;uma voz de orador, &laquo;cavalheirismo&raquo;<br \/>\n    e &laquo;prudencia&#8230;&raquo; O jockey de paletot alvadio affastou-se, apoiado<br \/>\n    ao bra&ccedil;o d&#8217;um amigo, cocheando, com o nariz a pingar sangue: e o commissario<br \/>\n    desceu para a pista, com um cortejo atraz, triumphante, sem collarinho, arranjando<br \/>\n    o chap&eacute;o achatado n&#8217;uma pasta. A musica tocava a marcha do Propheta;<br \/>\n    em quanto o desgra&ccedil;ado juiz das corridas, o Mendon&ccedil;a, encostado<br \/>\n    &aacute; tribuna real, com os bra&ccedil;os cahidos, aparvalhado, balbuciava<br \/>\n    n&#8217;um resto d&#8217;assombro:<br \/>\n    &#8211; Isto s&oacute; a mim! Isto s&oacute; a mim!<br \/>\n    O marquez, n&#8217;um grupo a que se junt&aacute;ra o Clifford, Craft, e Taveira,<br \/>\n    continuava a vociferar:<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o, est&atilde;o convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto<br \/>\n    &eacute; um paiz que s&oacute; supporta hortas e arraiaes&#8230; Corridas, como<br \/>\n    muitas outras coisas civilisadas l&aacute; de f&oacute;ra, necessitam primeiro<br \/>\n    gente educada. No fundo todos n&oacute;s somos fadistas! Do que gostamos &eacute;<br \/>\n    de vinha&ccedil;a, e viola, e bordoada, e viva l&aacute; seu compadre! Ahi<br \/>\n    est&aacute; o que &eacute;!<br \/>\n    Ao lado d&#8217;elle Clifford, que no meio d&#8217;aquelle desmancho todo esticava mais<br \/>\n    correctamente a sua linha de gentleman, mordia um sorriso, assegurando, com<br \/>\n    um ar de consola&ccedil;&atilde;o, que conflictos eguaes succedem em toda<br \/>\n    a parte&#8230; Mas no fundo parecia achar tudo aquillo ignobil. Dizia-se mesmo<br \/>\n    que elle ia retirar a Mist. E alguns davam-lhe raz&atilde;o. Que diabo! Era<br \/>\n    aviltante para um bello animal de ra&ccedil;a correr n&#8217;um hyppodromo sem ordem<br \/>\n    e sem decencia, onde a todo o momento podiam reluzir navalhas.<br \/>\n    &#8211; Ouve c&aacute;, tu viste por acaso esse animal do Damaso? perguntou Carlos,<br \/>\n    chamando para o lado o Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o&#8230;<br \/>\n    &#8211; Estava ainda ha pouco do outro lado, no recinto das carruagens, com a Josephina<br \/>\n    do Salazar&#8230; Anda extraordinario, de sobrecasaca branca, e de v&eacute;o<br \/>\n    no chap&eacute;o!<br \/>\n    Mas, quando d&#8217;ahi a pouco, Carlos quiz atravessar, a pista estava fechada.<br \/>\n    Ia-se correr o Grande premio nacional. Os numeros j&aacute; tinham subido<br \/>\n    ao indicador, um tom de sineta morria no ar. Um cavallo do Darque, o Rabbino,<br \/>\n    com o seu jockey de encarnado e branco, descia, trazido &aacute; redea por<br \/>\n    um groom e acompanhado pelo Darque: alguns sujeitos paravam a examinar-lhe<br \/>\n    as pernas, com o olho serio, affectando entender. Carlos demorou-se um momento<br \/>\n    tambem, admirando-o: era d&#8217;um bonito castanho escuro, nervoso e ligeiro, mas<br \/>\n    com o peito estreito.<br \/>\n    Depois, ao voltar-se, viu de repente a Gouvarinho, que acabava de certo de<br \/>\n    chegar, e conversava de p&eacute; com D. Maria da Cunha. Estava com uma toilette<br \/>\n    ingleza, justa e simples, toda de cazimira branca, d&#8217;um branco de creme, onde<br \/>\n    as grandes luvas negras &aacute; mosqueteira punham um contraste audaz: e<br \/>\n    o chap&eacute;o preto tambem desapparecia sob as pregas finas d&#8217;um v&eacute;o<br \/>\n    branco, enrolado em volta da cabe&ccedil;a, cobrindo-lhe metade do rosto,<br \/>\n    com um ar oriental que n&atilde;o &iacute;a bem ao seu narizinho curto, ao<br \/>\n    seu cabello c&ocirc;r de braza. Mas em redor os homens olhavam para ella como<br \/>\n    para um quadro.<br \/>\n    Ao avistar Carlos, a condessa n&atilde;o conteve um sorriso, um brilho de<br \/>\n    olhos que a illuminou. Instinctivamente deu um passo para elle: e ficaram<br \/>\n    um instante isolados, fallando baixo, em quanto D. Maria os observava, sorrindo,<br \/>\n    cheia j&aacute; de benevolencia, prompta j&aacute; a aben&ccedil;oal-os maternalmente.<br \/>\n    &#8211; Estive para n&atilde;o vir, dizia a condessa, que parecia nervosa. O Gast&atilde;o<br \/>\n    fez-se t&atilde;o desagradavel hoje! E naturalmente tenho d&#8217;ir &aacute;manh&atilde;<br \/>\n    para o Porto.<br \/>\n    &#8211; Para o Porto?&#8230;<br \/>\n    &#8211; O pap&aacute; quer que eu l&aacute; v&aacute;, s&atilde;o os annos d&#8217;elle&#8230;<br \/>\n    Coitado, vae-se fazendo velho, escreveu-me uma carta t&atilde;o triste&#8230;<br \/>\n    Ha dois annos que me n&atilde;o v&ecirc;&#8230;<br \/>\n    &#8211; O conde vae?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o.<br \/>\n    E a condessa, depois de dar um sorriso ao ministro da Baviera, que a cumprimentava<br \/>\n    de passagem, aos pulinhos, acrescentou, mergulhando o olhar nos olhos de Carlos:<br \/>\n    &#8211; E quero uma coisa.<br \/>\n    &#8211; O que?<br \/>\n    &#8211; Que venhas tambem.<br \/>\n    Justamente n&#8217;esse instante, Telles da Gama, de programma e lapis na m&atilde;o,<br \/>\n    parou junto d&#8217;elles:<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; quer entrar n&#8217;uma poule monstro, Maia? Quinze bilhetes, dez tost&otilde;es<br \/>\n    cada um&#8230; L&aacute; em cima ao canto da tribuna est&aacute;-se apostando<br \/>\n    ferozmente&#8230; A desordem fez bem, sacudiu os nervos, todo o mundo acordou&#8230;<br \/>\n    Quer v. ex.&ordf; tambem, sr.&ordf; condessa?<br \/>\n    Sim, a condessa tambem entrava na poule. Telles da Gama inscreveu-a, e abalou<br \/>\n    atarefado. Depois foi Steinbroken que se acercou, todo flor&iacute;do, de<br \/>\n    chap&eacute;o branco, ferradura de rubis na gravata, mais esticado, mais loiro,<br \/>\n    mais inglez, n&#8217;este dia solemne de sport official.<br \/>\n    &#8211; Ah, comme vous &ecirc;tes belle, comtesse!&#8230; Voil&aacute; une toilette<br \/>\n    merveilleuse, n&#8217;est ce pas, Maia?&#8230; Est ce que nous n&#8217;allons pas parier quelque<br \/>\n    chose? <br \/>\n    A condessa contrariada, querendo fallar a Carlos, risonha todavia, lamentou-se<br \/>\n    de ter j&aacute; uma fortuna compromettida&#8230; Emfim sempre apostava cinco<br \/>\n    tost&otilde;es com a Filandia. Que cavallo tomava elle?<br \/>\n    &#8211; Ah, je ne sais pas, je ne connais pas les chevaux&#8230; D&#8217;abord, quand on parie&#8230;<br \/>\n    Ella, impaciente, offereceu-lhe Vladimiro. E teve de estender a m&atilde;o<br \/>\n    a outro filandez, o secretario de Steinbroken, um mo&ccedil;o loiro, lento,<br \/>\n    languido, que se curvara em silencio diante d&#8217;ella, deixando escorregar do<br \/>\n    olho claro e vago o seu monoculo d&#8217;ouro. Quasi immediatamente Taveira excitado<br \/>\n    veiu dizer que Clifford retirara a Mist.<br \/>\n    Vendo-a assim cercada, Carlos affastou-se. Justamente o olhar de D. Maria,<br \/>\n    que o n&atilde;o deixara, chamava-o agora, mais carinhoso e vivo. Quando elle<br \/>\n    se chegou, ella puxou-lhe pela manga, fel-o debru&ccedil;ar, para lhe murmurar<br \/>\n    ao ouvido, deliciada:<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; hoje t&atilde;o galante!<br \/>\n    &#8211; Quem?<br \/>\n    D. Maria encolheu os hombros, impaciente.<br \/>\n    &#8211; Ora quem! Quem ha-de ser? O menino sabe.<br \/>\n    &#8211; Muito galante, com effeito, disse Carlos friamente.<br \/>\n    De p&eacute;, junto de D. Maria, tirando de vagar uma cigarrette, elle ruminava,<br \/>\n    quasi com indigna&ccedil;&atilde;o, as palavras da condessa. Ir com ella para<br \/>\n    o Porto!&#8230; E via alli outra exigencia audaz, a mesma tendencia impertinente<br \/>\n    a disp&ocirc;r do seu tempo, dos seus passos, da sua vida! Tinha um desejo<br \/>\n    de voltar junto d&#8217;ella, dizer-lhe que n&atilde;o, seccamente, desabridamente,<br \/>\n    sem motivos, sem explica&ccedil;&otilde;es, como um brutal.<br \/>\n    Acompanhada em silencio pelo esguio secretario de Steinbroken, ella vinha<br \/>\n    agora caminhando lentamente para elle: e o olhar alegre com que o envolvia<br \/>\n    irritou-o mais, sentindo no seu brilho sereno, no sorrir calmo, quanto ella<br \/>\n    estava certa da sua submiss&atilde;o.<br \/>\n    E estava. Apenas o filandez se affastou languidamente &#8211; ella, muito tranquilla,<br \/>\n    alli mesmo junto de D. Maria, fallando em inglez, e apontando para a pista<br \/>\n    como se commentasse os cavallos do Darque, explicou-lhe um plano que imaginara,<br \/>\n    encantador. Em logar de partir na ter&ccedil;a feira para o Porto &#8211; ia na<br \/>\n    segunda &aacute; noite, s&oacute; com a criada escocessa, sua confidente,<br \/>\n    n&#8217;um compartimento reservado. Carlos tomava o mesmo comboio. Em Santarem,<br \/>\n    desciam ambos, muito simplesmente, e iam passar a noite ao hotel. No dia seguinte<br \/>\n    ella seguia para o Porto, elle recolhia a Lisboa&#8230;<br \/>\n    Carlos abria os olhos para ella, assombrado, emmudecido. N&atilde;o esperava<br \/>\n    aquella extravagancia. Suppozera que ella o queria no Porto, escondido no<br \/>\n    Francfort, para passeios romanticos &aacute; Foz, ou visita furtivas a algum<br \/>\n    casebre da Aguardente&#8230; Mas a id&eacute;a d&#8217;uma noite, n&#8217;um hotel, em Santarem!<br \/>\n    Terminou por encolher os hombros, indignado. Como queria ella, n&#8217;uma linha<br \/>\n    de caminho de ferro em que se encontra constantemente gente conhecida, apear-se<br \/>\n    com elle na esta&ccedil;&atilde;o de Santarem, dar-lhe o bra&ccedil;o, maritalmente,<br \/>\n    e enfiarem para uma estalagem? Ella, por&eacute;m, pens&aacute;ra em todos<br \/>\n    os detalhes. Ninguem a conheceria, disfar&ccedil;ada n&#8217;um grande water-proof,<br \/>\n    e com uma cabelleira posti&ccedil;a.<br \/>\n    &#8211; Com uma cabelleira!?<br \/>\n    &#8211; O Gast&atilde;o! murmurou ella de repente.<br \/>\n    Era o conde, por traz d&#8217;elle, abra&ccedil;ando-o ternamente pela cintura.<br \/>\n    E quiz logo saber a opini&atilde;o do amigo Maia sobre as corridas. Bastante<br \/>\n    anima&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; verdade? E bonitas toilettes,<br \/>\n    certo ar de luxo&#8230; Emfim, n&atilde;o envergonhavam. E ahi estava provado<br \/>\n    o que elle sempre dissera, que todos os requintes da civilisa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se aclimatavam bem em Portugal&#8230;<br \/>\n    &#8211; O nosso solo moral, Maia, como o nosso solo physico, &eacute; um solo aben&ccedil;oado!<br \/>\n    A condessa voltara para o p&eacute; de D. Maria. E Telles da Gama, passando<br \/>\n    de novo, n&#8217;aquella faina ruidosa em que o trazia a forma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua poule, chamou Carlos para a tribuna, para elle tirar o seu bilhete,<br \/>\n    e apostar com as senhoras&#8230;<br \/>\n    &#8211; Oh Gouvarinho! venha tambem d&#8217;ahi, homem! exclamou elle. Que diabo! &Eacute;<br \/>\n    necessario animar isto, &eacute; at&eacute; patriotico.<br \/>\n    E o conde condescendeu, por patriotismo.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; bom, dizia elle, travando do bra&ccedil;o de Carlos, fomentar os<br \/>\n    divertimentos elegantes. J&aacute; uma vez o disse na camara: o luxo &eacute;<br \/>\n    conservador.<br \/>\n    Em cima, a um canto, n&#8217;um grupo de senhoras, foram com effeito encontrar uma<br \/>\n    anima&ccedil;&atilde;o &#8211; que quasi fazia escandalo n&#8217;aquella tribuna silenciosa<br \/>\n    e &aacute; espera do Senhor dos Passos. A viscondessa de Alvim dobrava atarefadamente<br \/>\n    os bilhetes da poule: uma secretariasinha da Russia, de bonitos olhos gar&ccedil;os,<br \/>\n    apostava desesperadamente placas de cinco tost&otilde;es, estonteada, j&aacute;<br \/>\n    embrulhada, rabiscando com phrenesi o seu programma. A Pinheiro, a mais magra,<br \/>\n    com um vestido leve de raminhos Pompadour que lhe fazia covas nas claviculas,<br \/>\n    dava opini&otilde;es pretenciosas sobre os cavallos, em inglez: emquanto o<br \/>\n    Taveira, de olhos humidos no meio de todas aquellas saias, fallava de arruinar<br \/>\n    as senhoras, de viver &aacute; custa das senhoras&#8230; E todos os homens, acotovelando-se,<br \/>\n    queriam fazer uma aposta com a Joanninha Villar, que, de costas contra o rebordo<br \/>\n    da tribuna, gordinha e languida, sorrindo, com a cabe&ccedil;a deitada para<br \/>\n    traz, as pestanas mortas, parecia offerecer a todas aquellas m&atilde;os,<br \/>\n    que se estendiam gulosamente para ella, o seu appetitoso peito de rola.<br \/>\n    Telles da Gama, no entanto, ia organisando a confus&atilde;o alegre. Os bilhetes<br \/>\n    estavam dobrados, era necessario um chap&eacute;o&#8230; Ent&atilde;o os cavalheiros<br \/>\n    affectaram um amor desordenado pelos seus chap&eacute;os, n&atilde;o os querendo<br \/>\n    confiar &aacute;s m&atilde;os nervosas das senhoras; um rapaz, todo de luto,<br \/>\n    excedeu-se mesmo, agarrando as abas do seu, com ambas as m&atilde;os, aos<br \/>\n    gritos.<br \/>\n    A secretariasinha da Russia, impaciente, terminou por offerecer o barrete<br \/>\n    de marujo do seu pequeno &#8211; uma crean&ccedil;a obesa, pousada alli para um<br \/>\n    lado como uma trouxa. Foi a Joanninha Villar que levou em roda os bilhetes,<br \/>\n    rindo e chocalhando-os pregui&ccedil;osamente; emquanto o secretario de Steinbroken,<br \/>\n    grave, como exercendo uma func&ccedil;&atilde;o, recolhia no seu grande chap&eacute;o<br \/>\n    as placas cahindo uma a uma com um som argentino. E a tiragem foi o lindo<br \/>\n    divertimento da poule. Como estavam s&oacute; quatro cavallos inscriptos,<br \/>\n    e as entradas eram quinze, havia onze bilhetes brancos que aterravam. Todos<br \/>\n    ambicionavam tirar o numero tres, o de Rabbino, o cavallo de Darque, favorito<br \/>\n    do Premio Nacional. Assim cada m&atilde;osinha soffrega que se demorava no<br \/>\n    fundo do barrete, remexendo, tenteando os papeis, causava uma indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    folgas&atilde;, n&#8217;um exagero de risos.<br \/>\n    &#8211; A sr.&ordf; viscondessa procura de mais!&#8230; E dobrou os numeros, conhece-os&#8230;<br \/>\n    &Eacute; necessario probidade, sr.&ordf; viscondessa!<br \/>\n    &#8211; Oh, mon Dieu, j&#8217;ai Minhoto, cette rosse!<br \/>\n    &#8211; Je vous l&#8217;achette, madame!<br \/>\n    &#8211; &Oacute; sr.&ordf; D. Maria Pinheiro, v. ex.&ordf; leva dous numeros!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ah! je suis perdue&#8230; Blanc!<br \/>\n    &#8211; E eu! &Eacute; necessario fazer outra poule! Vamos fazer outra poule!<br \/>\n    &#8211; Isso! Outra poule, outra poule!<br \/>\n    No entanto a enorme baroneza de Craben, n&#8217;um degrau mais elevado, que ella<br \/>\n    occupava s&oacute;, como um throno, erguera-se, com o seu bilhete na m&atilde;o.<br \/>\n    Tinha tirado Rabbino: e affectava superiormente n&atilde;o comprehender esta<br \/>\n    fortuna, perguntava o que era Rabbino. Quando o conde de Gouvarinho lhe explicou<br \/>\n    muito serio a importancia de Rabbino, e que Rabbino era quasi uma gloria publica,<br \/>\n    ella mostrou a dentu&ccedil;a, condescendeu em rosnar do fundo do papo que<br \/>\n    c&#8217;etait charmant. Todo o mundo a invejava; e a vasta baleia alastrou-se de<br \/>\n    novo sobre o seu throno, abanando-se, com magestade.<br \/>\n    E subitamente houve uma surpreza: em quanto elles tiravam os bilhetes, os<br \/>\n    cavallos tinham partido, passavam juntos diante da tribuna. Todos se ergueram,<br \/>\n    de binoculos na m&atilde;o. O starter ainda estava na pista, com a bandeira<br \/>\n    vermelha inclinada ao ch&atilde;o: e as ancas de cavallos fugiam<br \/>\n    na curva, lustrosos &aacute; luz, sob as jaquetas enfunadas dos jockeys.<br \/>\n    Ent&atilde;o todo o rumor de vozes ca&iacute;u; e no silencio a bella tarde<br \/>\n    pareceu alargar-se em redor, mais suave e mais calma. Atravez do ar sem poeira,<br \/>\n    sem a vibra&ccedil;&atilde;o dos raios fortes, tudo tomava uma nitidez delicada:<br \/>\n    defronte da tribuna, na collina, a relva era d&#8217;um louro quente: no grupo de<br \/>\n    carruagens scintillava por vezes o vidro de uma lanterna, o metal de um arreio,<br \/>\n    ou de p&eacute;, sobre uma almofada, destacava em escuro alguma figura de<br \/>\n    chapeo alto; e pela pista verde, os cavallos corriam, mais pequenos, finamente<br \/>\n    recortados na luz. Ao fundo, a cal das casas cobria-se de uma leve agoada<br \/>\n    c&ocirc;r de rosa: e o distante horizonte resplandecia, com dourados de sol,<br \/>\n    brilhos de po vidrado, fundindo-se n&#8217;uma nevoa luminosa, onde as collinas,<br \/>\n    nos seus tons azulados, tinham quasi transparencia, como feitas d&#8217;uma substancia<br \/>\n    preciosa&#8230; <br \/>\n    &#8211; &Eacute; Rabbino! exclamou por traz de Carlos, um sugeito, de p&eacute;<br \/>\n    n&#8217;um degrau.<br \/>\n    As c&ocirc;res encarnadas e brancas do Darque corriam com effeito na frente.<br \/>\n    Os dous outros cavallos iam juntos; e, o ultimo, n&#8217;um galope que adormecia,<br \/>\n    era Vladimiro, outro potro do Darque, baio-claro, quasi louro &aacute; luz.<br \/>\n    Ent&atilde;o, a secretaria da Russia bateu as palmas, interpellou Carlos,<br \/>\n    que justamente tirara na poule o numero de Vladimiro. A ella coubera Minhoto,<br \/>\n    uma pileca melancolica do Manoel Godinho; e tinham feito sobre os dous cavallos<br \/>\n    uma aposta complicada de uvas e de amendoas. J&aacute; umas poucas de vezes<br \/>\n    os seus lindos olhos gar&ccedil;os tinham procurado os de Carlos; e agora<br \/>\n    tocava-lhe no bra&ccedil;o com o leque, gracejava, triumphava&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ah, vous avez perdu, vous avez perdu! Mais c&#8217;est un vieux cheval de fiacre,<br \/>\n    v&ocirc;tre Vladimir.<br \/>\n    Como um cavallo de fiacre? Vladimiro era o melhor potro do Darque! Talvez<br \/>\n    ainda viesse a ser a unica gloria de Portugal, como outr&#8217;ora o Gladiador era<br \/>\n    a unica gloria da Fran&ccedil;a! Talvez ainda substituisse Cam&otilde;es&#8230;<br \/>\n    &#8211; Ah, vous plaisantez&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o, Carlos n&atilde;o gracejava. Estava at&eacute; prompto a apostar<br \/>\n    tudo por Vladimiro.<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; aposta por Vladimiro? gritou Telles da Gama, voltando-se vivamente.<br \/>\n    Carlos, por divertimento, sem mesmo saber por qu&ecirc;, declarou que tomava<br \/>\n    Vladimiro. Ent&atilde;o, em roda, foi uma surpreza; e todo o mundo quiz apostar,<br \/>\n    aproveitar-se d&#8217;aquella phantasia de homem rico, que sustentava um potro verde,<br \/>\n    de tres quartos de sangue, a que o proprio Darque chamava pileca. Elle sorria,<br \/>\n    aceitava; terminou ate por erguer a voz, proclamar Vladimiro contra o campo.<br \/>\n    E de todos os lados o chamavam, n&#8217;uma sofreguid&atilde;o de saque.<br \/>\n    &#8211; Mr. de Maia, dix tostons.<br \/>\n    &#8211; Parfaitement, madame.<br \/>\n    &#8211; Oh Maia, voc&ecirc; quer meia libra?<br \/>\n    &#8211; &Aacute;s ordens.<br \/>\n    &#8211; Maia, tambem eu! Ou&ccedil;a l&aacute;&#8230; Tambem eu!&#8230; Dous mil r&eacute;is.<br \/>\n    &#8211; &Oacute; sr. Maia, eu vou dez tost&otilde;es&#8230;<br \/>\n    &#8211; Com o maior prazer, minha senhora&#8230;<br \/>\n    Ao longe os cavallos davam a volta, na subida do terreno. Rabbino j&aacute;<br \/>\n    desapparecera, &#8211; e Vladimiro n&#8217;um galope a que se sentia o can&ccedil;asso,<br \/>\n    corria s&oacute; na pista. Uma voz elevou-se, dizendo que elle manquejava.<br \/>\n    Ent&atilde;o Carlos, que continuava a tomar Vladimiro contra o campo, sentiu<br \/>\n    que lhe puxavam de vagar pela manga; voltou-se; era o secretario de Steinbroken,<br \/>\n    chegando subtilmente a tomar tambem parte no saque &aacute; bolsa do Maia,<br \/>\n    propondo dous soberanos, em seu nome e em nome do seu chefe, como uma aposta<br \/>\n    collectiva da lega&ccedil;&atilde;o, a aposta do reino da Filandia.<br \/>\n    &#8211; C&#8217;est fait, monsieur! exclamou Carlos, rindo.<br \/>\n    Agora come&ccedil;ava a divertir-se. Apenas vira de relance Vladimiro, e gostara<br \/>\n    da cabe&ccedil;a ligeira do potro, do seu peito largo e fundo; mas apostava<br \/>\n    sobre tudo para animar mais aquelle recanto da tribuna, ver brilhar gulosamente<br \/>\n    os olhos interesseiros das mulheres. Telles da Gama ao lado approvava-o, achava<br \/>\n    aquillo patriotico e chic.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; Minhoto! gritou de repente Taveira.<br \/>\n    Na volta, com effeito, fizera-se uma mudan&ccedil;a. Subitamente Rabbino perdera<br \/>\n    terreno, resistindo &aacute; subida, com o folego curto. E agora era Minhoto,<br \/>\n    o cavallicoque obscuro de Manuel Godinho, que se arremessava para a frente,<br \/>\n    vinha devorando a pista, n&#8217;um esfor&ccedil;o continuo, admiravelmente montado<br \/>\n    por um jockey hespanhol. E logo atraz vinham as c&ocirc;res escarlates e brancas<br \/>\n    de Darque: ao principio ainda pareceu que era Rabbino: mas, apanhado de repente<br \/>\n    n&#8217;um raio obliquo de sol, o cavallo cobriu-se de tons lustrosos de baio claro,<br \/>\n    e foi uma surpreza ao reconhecer-se que era Vladimiro! A corrida travava-se<br \/>\n    entre elle e Minhoto.<br \/>\n    Os amigos de Godinho, precipitando-se para a pista, bradavam, de chap&eacute;os<br \/>\n    no ar:<br \/>\n    &#8211; Minhoto, Minhoto!<br \/>\n    E, em redor de Carlos, os que tinham apostado pelo campo contra Vladimiro<br \/>\n    faziam tambem votos por Minhoto, em bicos de p&eacute;s, junto do parapeito<br \/>\n    da tribuna, estendendo o bra&ccedil;o para elle, enimando-o:<br \/>\n    &#8211; Anda Minhoto!&#8230; Isso, assim!&#8230;. Aguenta, rapaz!&#8230; Bravo!&#8230; Minhoto!<br \/>\n    Minhoto!<br \/>\n    A russa, toda nervosa, na esperan&ccedil;a de ganhar a poule, batia as palmas.<br \/>\n    At&eacute; a enorme Craben se erguera, dominando a tribuna, enchendo-a com<br \/>\n    os seus gorgor&otilde;es azues e brancos:- em quanto que, ao lado d&#8217;ella,<br \/>\n    o conde de Gouvarinho, tambem de p&eacute;, sorria, contente no seu peito<br \/>\n    de patriota, vendo n&#8217;aquelles jockeys &agrave; desfilada, nos chap&eacute;os<br \/>\n    que se agitavam, brilhar civilisa&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    De repente, de baixo, d&#8217;ao p&egrave; da tribuna, d&#8217;entre os rapazes que cercavam<br \/>\n    o Darque, uma exclama&ccedil;&atilde;o partiu.<br \/>\n    -Vladimiro ! Vladimiro!<br \/>\n    Com um arranque desesperado o potro viera juntar-se a Minhoto: e agora chegavam<br \/>\n    furiosamente, com brilhos vivos de c&ocirc;res claras, os focinhos juntos,<br \/>\n    os olhos esbugalhados, sob uma chuva de vergastas.<br \/>\n    Telles da Gama, esquecido da sua aposta, todo pelo Darque, seu intimo, berrava<br \/>\n    por Vladimiro. A russa, de p&eacute; n&#8217;um degrau, apoiada sobre o hombro de<br \/>\n    Carlos, pallida, excitada, animava Minhoto com gritinhos, com pancadas de<br \/>\n    leque. A agita&ccedil;&atilde;o d&#8217;aquelle canto da tribuna estendera-se em<br \/>\n    baixo ao recinto &#8211; onde se via uma linha de homens, contra a corda da pista,<br \/>\n    bracejando. Do outro lado, era uma fila de rostos pallidos, fixos n&#8217;uma curta<br \/>\n    anciedade. Algumas senhoras tinham-se posto de p&eacute; nas carruagens. E<br \/>\n    atravez da collina, para ver a chegada, dous cavalleiros, segurando com as<br \/>\n    m&atilde;os os chap&eacute;os baixos, corriam &aacute; desfilada.<br \/>\n    &#8211; Vladimiro! Vladimiro! foram de novo os gritos isolados, aqui, al&eacute;m.<br \/>\n    Os dous cavallos approximavam-se, com um som surdo das patas, trazendo um<br \/>\n    ar de rajada.<br \/>\n    &#8211; Minhoto! Minhoto!<br \/>\n    &#8211; Vladimiro! Vladimiro!<br \/>\n    Chegavam&#8230; De repente o jockey inglez de Vladimiro, todo em fogo, levantando<br \/>\n    o potro que lhe parecia fugir d&#8217;entre as pernas, esticado e lustroso, fez<br \/>\n    silvar triumphantemente o chicote, e d&#8217;um arremesso directo lan&ccedil;ou-o<br \/>\n    al&eacute;m da meta, duas cabe&ccedil;as adiante de Minhoto, todo coberto<br \/>\n    d&#8217;espuma.<br \/>\n    Ent&atilde;o em volta de Carlos foi uma desconsola&ccedil;&atilde;o, um longo<br \/>\n    murmurio de lassid&atilde;o. Todos perdiam; elle apanhava a poule, ganhava<br \/>\n    as apostas, empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um addido italiano, thesoureiro<br \/>\n    da poule, empallideceu ao separar-se do len&ccedil;o cheio de prata: e de<br \/>\n    todos os lados m&atilde;osinhas cal&ccedil;adas de gris-perle, ou de castanho,<br \/>\n    atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de placas que elle<br \/>\n    recolhia, rindo, no chap&eacute;o.<br \/>\n    &#8211; Ah, monsieur, exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa, mefiez-vous&#8230;<br \/>\n    Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu&#8230;<br \/>\n    &#8211; Helas! madame! disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chap&eacute;o.<br \/>\n    E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no bra&ccedil;o. Era o secretario de<br \/>\n    Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o dinheiro<br \/>\n    do seu chefe, a aposta do reino da Filandia.<br \/>\n    &#8211; Quanto ganha voc&ecirc;? exclamou Telles da Gama, assombrado.<br \/>\n    Carlos n&atilde;o sabia. No fundo do chap&eacute;o j&aacute; reluzia ouro.<br \/>\n    Telles contou, com o olho brilhante.<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; ganha doze libras! disse elle maravilhado, e olhando Carlos com<br \/>\n    respeito.<br \/>\n    Doze libras! Esta somma espalhou-se em redor, n&#8217;um rumor de espanto. Doze<br \/>\n    libras! Em baixo os amigos de Darque, agitando os chap&eacute;os, davam ainda<br \/>\n    hurrahs. Mas uma indifferen&ccedil;a, um tedio lento, ia pesando outra vez,<br \/>\n    desconsoladoramente. Os rapazes vinham-se deixar cahir nas cadeiras, bocejando,<br \/>\n    com um ar exhausto. A musica, desanimada tambem, tocava cousas plangentes<br \/>\n    da Norma.<br \/>\n    Carlos, no entanto, n&#8217;um degrau da tribuna, com a id&eacute;a de descobrir<br \/>\n    o Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia<br \/>\n    dispersando pela collina. As senhoras tinham retomado a immobilidade melancolica,<br \/>\n    no fundo das caleches, de m&atilde;os no rega&ccedil;o. Aqui e al&eacute;m<br \/>\n    um dog-cart, mal arranjado, dava um trote curto pela relva. N&#8217;uma vittoria<br \/>\n    estavam as duas hespanholas do Eusebiosinho, a Concha e a Carmen, de sombrinhas<br \/>\n    escarlates. E sujeitos, de m&atilde;os atr&aacute;s das costas, pasmavam para<br \/>\n    um char-&agrave;-bancs a quatro attrelado &aacute; Daumont onde, entre uma<br \/>\n    familia triste, uma ama de len&ccedil;o de lavradeira dava de mamar a uma<br \/>\n    crean&ccedil;a cheia de rendas. Dous garotos esgani&ccedil;ados passeavam<br \/>\n    bilhas d&#8217;agua fresca.<br \/>\n    Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o Damaso &#8211; quando deu justamente<br \/>\n    de frente com elle, dirigindo-se para a escada, affogueado, flamante, na sua<br \/>\n    famosa sobrecasaca branca.<br \/>\n    &#8211; Onde diabo tens tu estado, creatura?<br \/>\n    O Damaso agarrou-o pelo bra&ccedil;o, al&ccedil;ou-se em bicos de p&eacute;s,<br \/>\n    para lhe contar ao ouvido que tinha estado do outro lado com uma gaja divina,<br \/>\n    a Josephina do Salazar&#8230; Chic a valer! lindamente vestida! parecia-lhe que<br \/>\n    tinha mulher!<br \/>\n    &#8211; Ah, Sardanapalo!&#8230;<br \/>\n    &#8211; Faz-se pela vida&#8230; Volta c&aacute; acima &aacute; tribuna, anda. Eu ainda<br \/>\n    hoje n&atilde;o pude cavaquear com o high-life!&#8230; Mas estou furioso, sabes?<br \/>\n    Implicaram com o meu veo azul. Isto &eacute; um paiz de bestas! Logo tro&ccedil;a,<br \/>\n    e olhe n&atilde;o creste a pelle, e onde mora, &oacute; catitinha? e chala&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    Uma canalha! Tive de tirar o veo&#8230; Mas j&aacute; resolvi. Para as outras<br \/>\n    corridas venho n&uacute;. Palavra, venho n&uacute;! Isto &eacute; a vergonha<br \/>\n    da civilisa&ccedil;&atilde;o, esta terra! N&atilde;o vens d&#8217;ahi? Ent&atilde;o<br \/>\n    at&eacute; j&aacute;. <br \/>\n    Carlos deteve-o.<br \/>\n    &#8211; Escuta l&aacute; homem, tenho que te dizer&#8230; Ent&atilde;o, essa visita<br \/>\n    aos Olivaes?&#8230; Nunca mais appareceste&#8230; tinhamos combinado que fosses convidar<br \/>\n    o Castro Gomes, que viesses dar a resposta&#8230; N&atilde;o vens, n&atilde;o<br \/>\n    mandas&#8230; O Craft &aacute; espera&#8230; Emfim um procedimento de selvagem.<br \/>\n    Damaso atirou os bra&ccedil;os ao ar. Ent&atilde;o Carlos n&atilde;o sabia?<br \/>\n    Havia grandes novidades! Elle n&atilde;o voltara ao Ramalhete, como estava<br \/>\n    combinado, porque o Carlos Gomes n&atilde;o podia ir aos Olivaes. Ia partir<br \/>\n    para o Brazil. J&aacute; partira mesmo, na quarta feira. A coisa mais extraordinaria&#8230;<br \/>\n    Elle chega l&aacute;, para fazer o convite, e s. ex.&ordf; declara-lhe que<br \/>\n    sente muito, mas que parte no dia seguinte para o Rio&#8230; E j&aacute; de mala<br \/>\n    feita, j&aacute; alugada uma casa para a mulher ficar aqui &aacute; espera<br \/>\n    tres mezes, j&aacute; a passagem no bolso. Tudo de repente, feito de sabbado<br \/>\n    para segunda feira&#8230; Telhudo, aquelle Castro Gomes.<br \/>\n    &#8211; E l&aacute; partiu, exclamou elle, voltando-se a cumprimentar a viscondessa<br \/>\n    d&#8217;Alvim e Joanninha Villar que desciam das tribunas. L&aacute; partiu, e ella<br \/>\n    j&aacute; est&aacute; installada. At&eacute; j&aacute; antes de hontem a fui<br \/>\n    visitar, mas n&atilde;o estava em casa&#8230; Sabes do que tenho medo? &Eacute;<br \/>\n    que ella, n&#8217;estes primeiros tempos, por causa da visinhan&ccedil;a, como est&aacute;<br \/>\n    s&oacute;, n&atilde;o queira que eu l&aacute; v&aacute; muito&#8230; Que te parece?<br \/>\n    &#8211; Talvez&#8230; E onde mora ella?<br \/>\n    Em quatro palavras, Damaso explicou a installa&ccedil;&atilde;o de madame.<br \/>\n    Era muito engra&ccedil;ado, morava no predio do Cruges! A mam&atilde; Cruges,<br \/>\n    havia j&aacute; annos, alugava aquelle primeiro andar mobilado: o inverno<br \/>\n    passado estivera l&aacute; o Bertonni, o tenor, com a familia. Casa bem arranjada,<br \/>\n    o Castro Gomes tinha tido dedo&#8230;<br \/>\n    &#8211; E para mim, muito commodo, alli ao p&eacute; do Gremio&#8230; Ent&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    voltas c&aacute; acima, a cavaquear com o femea&ccedil;o? At&eacute; logo&#8230;<br \/>\n    Est&aacute; hoje chic a valer a Gouvarinho! E est&aacute; a pedir homem! Good-bye.<br \/>\n    Defronte de Carlos a condessa de Gouvarinho, no grupo de D. Maria a que se<br \/>\n    viera juntar a Alvim e Joanninha Villar, n&atilde;o cessava de o chamar com<br \/>\n    o olhar inquieto, turturando o seu grande leque negro. Mas elle n&atilde;o<br \/>\n    obedeceu logo, parado ao p&eacute; dos degraus da tribuna, accendendo vagamente<br \/>\n    uma cigarrette, perturbado por todas aquellas palavras do Damaso que lhe deixavam<br \/>\n    n&#8217;alma um sulco luminoso. Agora que a sabia s&oacute; em Lisboa, vivendo na<br \/>\n    mesma casa do Cruges, parecia-lhe que j&aacute; a conhecia, sentia-se muito<br \/>\n    perto d&#8217;ella &#8211; podendo assim a todo o momento entrar os hombraes da sua porta,<br \/>\n    pisar os degraus que ella pisava. Na sua imagina&ccedil;&atilde;o transluziam<br \/>\n    j&aacute; possibilidades d&#8217;um encontro, alguma palavra trocada, cousas pequeninas,<br \/>\n    subtis como fios, mas por onde os seus destinos se come&ccedil;ariam a prender&#8230;<br \/>\n    E immediatamente veio-lhe a tenta&ccedil;&atilde;o pueril de ir l&aacute;,<br \/>\n    logo n&#8217;essa mesma tarde, n&#8217;esse instante, gosar como amigo do Cruges o direito<br \/>\n    de subir a escada d&#8217;ella, parar diante da porta d&#8217;ella &#8211; e surprehender uma<br \/>\n    voz, um som de piano, um rumor qualquer da sua vida.<br \/>\n    O olhar da condessa n&atilde;o o deixava. Elle approximou-se, emfim, contrariado:<br \/>\n    ella ergueu-se logo, deixou o seu grupo, e dando alguns passos com elle pela<br \/>\n    relva, recome&ccedil;ou a fallar na ida a Santarem. Carlos, ent&atilde;o,<br \/>\n    muito seccamente, declarou toda essa inven&ccedil;&atilde;o insensata.<br \/>\n    &#8211; Porque?&#8230;<br \/>\n    Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos, pelo ridiculo&#8230; Emfim,<br \/>\n    a ella como mulher ficava-lhe bem ter phantasias pittorescas de romance; mas<br \/>\n    a elle competia-lhe ter bom senso.<br \/>\n    Ella mordia o bei&ccedil;o, com todo o sangue na face.E n&atilde;o via alli<br \/>\n    bom senso. Via s&oacute; frieza. Quando ella arriscava tanto, elle podia bem,<br \/>\n    por uma<br \/>\n    noite, affrontar os desconfortos da estalagem&#8230;<br \/>\n    &#8211; Mas n&atilde;o &eacute; isso!&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o que era? Tinha medo? N&atilde;o havia mais perigo do que nas<br \/>\n    idas a casa da titi. Ninguem a podia conhecer, com outra c&ocirc;r de cabello,<br \/>\n    toda a sorte de v&eacute;os, disfar&ccedil;ada n&#8217;um grande water-proof. Chegavam<br \/>\n    de noite, entravam para o quarto, d&#8217;onde n&atilde;o sahiam mais, servidos<br \/>\n    apenas pela escosseza. No dia seguinte, no comboio da noite, ella seguia para<br \/>\n    o Porto, tudo acabava&#8230; E n&#8217;aquella insistencia ella era o homem, o seductor,<br \/>\n    com a sua vehemencia de paix&atilde;o activa, tentando-o, soprando-lhe o desejo;<br \/>\n    emquanto elle parecia a mulher, hesitante e assustada. E Carlos sentia isto.<br \/>\n    A sua resistencia a uma noite de amor, prolongando-se assim, amea&ccedil;ava<br \/>\n    ser grotesca: ao mesmo tempo o calor de voluptuosidade que emanava d&#8217;aquelle<br \/>\n    seio, arfando junto d&#8217;elle e por elle, ia-o amollecendo lentamente. Terminou<br \/>\n    por a olhar de certo modo; e, como se o desejo se lhe accendesse emfim de<br \/>\n    repente &aacute; curta chamma que faiscava nas pupillas d&#8217;ella, negras, humidas,<br \/>\n    avidas, promettendo mil cousas, disse, um pouco pallido:<br \/>\n    &#8211; Pois bem, perfeitamente&#8230; &Aacute;manh&atilde; &aacute; noite, na esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&#8217;esse momento, em redor, romperam exclama&ccedil;&otilde;es de tro&ccedil;a:<br \/>\n    era um cavallo solitario que chegava, n&#8217;um galope pacato, passava a meta sem<br \/>\n    se apressar, como se descesse uma avenida do Campo Grande n&#8217;uma tarde de domingo.<br \/>\n    E em redor perguntava-se que corrida era aquella d&#8217;um cavallo s&oacute; &#8211;<br \/>\n    quando ao longe, como sahindo da claridade loura do sol que descia sobre o<br \/>\n    rio, appareceu uma pobre pileca branca, empurrando-se, arquejando, n&#8217;um esfor&ccedil;o<br \/>\n    doloroso, sob as chicotadas atarantadas d&#8217;um jockey de roxo e preto. Quando<br \/>\n    ella chegou, emfim, j&aacute; o outro gentleman-rider voltara da meta, a passo,<br \/>\n    pachorrentamente, &#8211; e estava conversando com os amigos, encostado &aacute;<br \/>\n    corda da pista.<br \/>\n    Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d&#8217;El-rei terminou assim, grotescamente.<br \/>\n    Ainda havia o Premio de Consola&ccedil;&atilde;o &#8211; mas agora desapparecera<br \/>\n    todo o interesse ficticio pelos cavallos. Perante a calma e radiante belleza<br \/>\n    da tarde, algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a pesagem,<br \/>\n    can&ccedil;adas da immobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais cadeiras: aqui<br \/>\n    e al&eacute;m, sobre a relva pisada, formavam-se grupos alegrados por algum<br \/>\n    vestido claro ou por uma pluma viva de chap&eacute;o: e palrava-se, como n&#8217;uma<br \/>\n    sala de inverno, fumando-se familiarmente. Em redor de D. Maria e da Alvim<br \/>\n    projectava-se um grande pic-nic a Queluz. Alencar e o Gouvarinho discutiam<br \/>\n    a reforma de instruc&ccedil;&atilde;o. A horrivel Craben, entre outros diplomatas<br \/>\n    e mo&ccedil;os de binoculo a tiracolo, dava do fundo grosso do papo, opini&otilde;es<br \/>\n    sobre Daudet, que elle achava tr&egrave;s agreable. E, quando Carlos emfim<br \/>\n    abalou, o recinto, esquecidas as corridas, tomava um tom de soir&eacute;e,<br \/>\n    no ar claro e fresco da collina, com o murmurio de vozes, um mover de leques,<br \/>\n    e ao fundo a musica tocando uma valsa de Strauss.<br \/>\n    Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o no buffete com o Darque,<br \/>\n    com outros, bebendo mais champagne.<br \/>\n    &#8211; Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe elle, e vou no phaeton. Abandono<br \/>\n    torpemente. Voc&ecirc; v&aacute; para o Ramalhete como poder&#8230;<br \/>\n    &#8211; Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha j&aacute; a gravata toda desmanchada.<br \/>\n    Levo-o no dog-cart. Eu me encarrego d&#8217;elle&#8230; O Craft fica por minha conta&#8230;<br \/>\n    &Eacute; necessario recibo? &Aacute; saude do Craft, inglez c&aacute; dos<br \/>\n    meus&#8230; Hurrah!<br \/>\n    &#8211; Hurrah! Hip, hip, hurrah!<br \/>\n    D&#8217;ahi a pouco, a trote largo no phaeton, Carlos descia o Chiado, dava a volta<br \/>\n    para a rua de S. Francisco. Ia n&#8217;uma perturba&ccedil;&atilde;o deliciosa e<br \/>\n    singular, com aquella certeza de que ella estava s&oacute; na casa do Cruges:<br \/>\n    o ultimo olhar que ella lhe d&eacute;ra parecia ir adiante d&#8217;elle, chamando-o:<br \/>\n    e um despertar tumultuoso de esperan&ccedil;as sem nome atirava-lhe a alma<br \/>\n    para o azul.<br \/>\n    Quando parou diante do port&atilde;o &#8211; alguem, por dentro das janellas d&#8217;ella,<br \/>\n    &iacute;a correndo lentamente os stores. Na rua silenciosa cahia j&aacute;<br \/>\n    uma sombra de crepusculo. Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o pateo.<br \/>\n    Nunca viera visitar o Cruges, nunca subira esta escada; e pareceu-lhe horrorosa,<br \/>\n    com os seus frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes nuas e enxovalhadas<br \/>\n    alvejando tristemente no come&ccedil;o de escurid&atilde;o. No patamar do<br \/>\n    primeiro andar parou. Era alli que ella vivia. E ficou olhando, com uma devo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ingenua, para as tres portas pintadas d&#8217;azul: a do centro estava inutilisada<br \/>\n    por um banco comprido de palhinha, e na do lado direito pendia, com uma enorme<br \/>\n    bola, o cord&atilde;o da campainha. De dentro n&atilde;o vinha um rumor: &#8211;<br \/>\n    e este pesado silencio, juntando-se ao movimento de stores que elle vira fechar-se,<br \/>\n    parecia cercar as pessoas que alli viviam de solid&atilde;o e de impenetrabilidade.<br \/>\n    Uma desconsola&ccedil;&atilde;o passou-lhe na alma. Se ella agora, s&oacute;,<br \/>\n    sem o marido, come&ccedil;asse uma vida reclusa e solitaria? Se elle n&atilde;o<br \/>\n    tornasse mais a encontrar os seus olhos?<br \/>\n    Foi subindo de vagar at&eacute; ao andar do Cruges. E mal sabia o que havia<br \/>\n    de dizer ao maestro para explicar aquella visita extranha, deslocada&#8230; Foi<br \/>\n    um allivio quando a criadita lhe veiu dizer que o menino Victorino tinha sahido.<br \/>\n    Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando lentamente o phaeton at&eacute;<br \/>\n    ao largo da Bibliotheca. Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do store<br \/>\n    branco, havia uma vaga claridade de luz. Elle olhou-a como se olha uma estrella.<br \/>\n    Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de p&oacute;, estava-se justamente apeando<br \/>\n    de uma calecha de pra&ccedil;a. Um momento ficaram alli &aacute; porta, em<br \/>\n    quanto Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas.<br \/>\n    No Premio de Consola&ccedil;&atilde;o, um dos cavalleiros tinha cahido, quasi<br \/>\n    ao p&eacute; da meta, sem se magoar: e, por ultimo, j&aacute; &aacute; partida,<br \/>\n    o Vargas, que ia na sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um criado<br \/>\n    do buffete, com ferocidade.<br \/>\n    &#8211; Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas pelo<br \/>\n    velho principe Shakespereano de que tudo &eacute; bom quanto acaba bem.<br \/>\n    &#8211; Um murro, disse Carlos rindo, &eacute; com effeito um bello ponto final.<br \/>\n    No peristillo, o velho guarda-port&atilde;o esperava, descoberto, com uma<br \/>\n    carta na m&atilde;o para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes<br \/>\n    de s. ex.&ordf; chegar.<br \/>\n    Era uma letra ingleza de mulher, n&#8217;um enveloppe largo, lacrado com um sinete<br \/>\n    d&#8217;armas. Carlos alli mesmo abriu-a: e, logo &aacute; primeira linha, teve<br \/>\n    um movimento t&atilde;o vivo, de t&atilde;o bella surpreza, illuminando-se-lhe<br \/>\n    tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo:<br \/>\n    &#8211; Aventura? Heran&ccedil;a?&#8230;<br \/>\n    Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou:<br \/>\n    &#8211; Um bilhete apenas, um doente&#8230;<br \/>\n    Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas come&ccedil;ava assim: &#8211;<br \/>\n    &laquo;Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos da Maia,<br \/>\n    e roga-lhe o obsequio&#8230;&raquo; &#8211; depois, em duas breves palavras, pedia-lhe<br \/>\n    para ir ver na manh&atilde; seguinte, o mais cedo possivel, uma pessoa de<br \/>\n    familia, que se achava incommodada.<br \/>\n    &#8211; Bem, eu vou-me vestir, disse Craft&#8230; Jantar &aacute;s sete e meia, hein?<br \/>\n    &#8211; Sim, o jantar&#8230; &#8211; respondeu Carlos, sem saber o qu&ecirc;, banhado todo<br \/>\n    n&#8217;um sorriso, como em extase.<br \/>\n    Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar o chap&eacute;o,<br \/>\n    leu uma vez mais o bilhete, outra<br \/>\n    vez ainda, contemplando enlevadamente a forma da letra, procurando voluptuosamente<br \/>\n    o perfume do papel.<br \/>\n    Era datada d&#8217;esse mesmo dia &aacute; tarde. Assim, quando elle passara defronte<br \/>\n    da sua porta, j&aacute; ella a escrevera, j&aacute; o seu pensamento se demorara<br \/>\n    n&#8217;elle &#8211; quando mais n&atilde;o fosse sen&atilde;o ao tra&ccedil;ar as lettras<br \/>\n    simples do seu nome. N&atilde;o era ella que estava doente. Se fosse Rosa,<br \/>\n    ella n&atilde;o diria t&atilde;o friamente &laquo;uma pessoa de familia.&raquo;<br \/>\n    Era talvez o esplendido preto de carapinha grisalha. Talvez miss Sarah, aben&ccedil;oada<br \/>\n    fosse ela para sempre, que queria um medico que entendesse inglez&#8230; Emfim<br \/>\n    havia l&aacute; uma pessoa n&#8217;uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria,<br \/>\n    atravez dos corredores interiores d&#8217;aquella casa &#8211; que havia apenas instantes<br \/>\n    sentira t&atilde;o fechada, e como impenetravel para sempre!&#8230; E depois este<br \/>\n    adorado bilhete, este delicioso pedido para ir a sua casa, agora que ella<br \/>\n    o conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus &#8211; tomava uma significa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    profunda, perturbadora&#8230;<br \/>\n    Se ella n&atilde;o quizesse comprehender, nem acceitar o distante amor que<br \/>\n    os seus olhos lhe tinham offerecido claramente, o mais luminosamente que tinham<br \/>\n    podido, n&#8217;esses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os d&#8217;ella &#8211;<br \/>\n    ent&atilde;o poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico qualquer,<br \/>\n    um estranho. Mas n&atilde;o: o seu olhar respondera ao d&#8217;elle, e ella abria-lhe<br \/>\n    a sua porta&#8230; &#8211; E o que sentia a esta id&eacute;a era uma gratid&atilde;o<br \/>\n    ineffavel, um impulso tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos p&eacute;s,<br \/>\n    ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente, eternamente, sem querer<br \/>\n    mais nada, sem pedir mais nada&#8230;<br \/>\n    Quando Craft d&#8217;alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado, correcto<br \/>\n    &#8211; achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chap&eacute;o na cabe&ccedil;a,<br \/>\n    passeando o quarto, n&#8217;esta agita&ccedil;&atilde;o radiante.<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; est&aacute; a faiscar, homem! disse Craft, parando deante d&#8217;elle,<br \/>\n    com as m&atilde;os nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu<br \/>\n    resplandecente collarinho. Voc&ecirc; flameja!&#8230; Voc&ecirc; parece que tem<br \/>\n    uma aur&eacute;ola na nuca!&#8230; Voc&ecirc; succedeu-lhe o quer que seja de<br \/>\n    muito bom!<br \/>\n    Carlos espregui&ccedil;ou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento,<br \/>\n    em silencio, encolheu os hombros, e murmurou:<br \/>\n    &#8211; A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe succede &eacute;, em definitivo,<br \/>\n    bom ou mau.<br \/>\n    &#8211; Ordinariamente &eacute; mau, disse o outro friamente, aproximando-se do<br \/>\n    espelho a retocar com mais correc&ccedil;ccedil;&atilde;o o n&oacute; da gravata<br \/>\n    branca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X E\u00e7a de Queiroz Cap&iacute;tulo I A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era conhecida na visinhan&ccedil;a da rua de S. 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