{"id":95563,"date":"2017-01-19T11:40:45","date_gmt":"2017-01-19T13:40:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95563"},"modified":"2017-01-19T11:40:45","modified_gmt":"2017-01-19T13:40:45","slug":"sao-cristovao-eca-de-queiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/sao-cristovao-eca-de-queiros","title":{"rendered":"S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o &#8211; E\u00e7a de Queir\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#15\">Cap\u00edtulo XV<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#16\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#17\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#18\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>E\u00e7a de Queiroz<\/h2>\n<h2><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I<\/a><\/h2>\n<p>Um dia, numa floresta, ao entardecer, quando por sob as frondes ressoavam<br \/>\n    as buzinas dos porqueiros, e lentamente na copa alta dos carvalhos se calavam<br \/>\n    as gralhas, um lenhador, um servo, de surr&atilde;o de estamenha, que rijamente<br \/>\n    trabalhara no souto desde o cantar da calhandra, prendeu a machada ao cinto<br \/>\n    de couro, e, com a sua &eacute;gua carregada de lenha, recolheu, pelos caminhos<br \/>\n    da aldeia, ao castelo do seu Senhor.<\/p>\n<p>Diante de cada cruz pregada nos troncos da mata, tirava o seu barrete de<br \/>\n    pele de coelho, rezava uma ave-maria. Ao passar na lagoa, mais reluzente,<br \/>\n    sob a amarelid&atilde;o da tarde entre os seus altos canaviais, que uma moeda<br \/>\n    de ouro nova, deixou um molho de carqueja e de achas para o ermita, que ali<br \/>\n    erguera a sua cho&ccedil;a de rama. E adiante, num pinheiral, apesar de j&aacute;<br \/>\n    luzir no alto a estrelinha da tarde, e o bom trabalhador ter fome, parou at&eacute;<br \/>\n    encher o saco de uma velhinha que, tremendo, e arrimada a um bord&atilde;o,<br \/>\n    apanhava agulhas e pinhas. A velha murmurou: &quot;Deus te d&ecirc; alegria<br \/>\n    em tua casa!&quot;<\/p>\n<p>Longamente ainda, ora por caminhos claros que soavam como lajes, ora sob<br \/>\n    a ramaria alta, por veredas fofas de musgo, tilintavam no sil&ecirc;ncio e<br \/>\n    na penumbra os guizos da &eacute;gua. E a noite cerrava-se, quando para al&eacute;m<br \/>\n    de um ponte de tabuado que tremia sobre uma torrente, seca por aquele lento<br \/>\n    agosto, o povoado apareceu entre o arvoredo do vale, com a capela branca e<br \/>\n    toda nova que o Senhor do castelo andava erguendo a S. Cosme.<\/p>\n<p>O lenhador, com a sua &eacute;gua, meteu por uma longa alameda de faias,<br \/>\n    atr&aacute;s de um carro que chiava lentamente, carregado de mato. A estacada,<br \/>\n    que outrora cercava a aldeia, apodrecera sob os s&oacute;is, sob as chuvas,<br \/>\n    ao abandono durante longos e fartos anos de paz: e as cabanas repousavam entre<br \/>\n    os pomares, em seguran&ccedil;a e fartura. Dos tetos, bem cobertos de colmo,<br \/>\n    seguros por lascas de lousa, subia o fumo lento e cheiroso das pinhas e agulhas<br \/>\n    ardendo com abund&acirc;ncia nas lareiras. Em todas as cortes grunhiam porcos.<br \/>\n    Pelas quelhas mais escuras, as raparigas passavam para os ser&otilde;es, sem<br \/>\n    temor, com a sua roca &agrave; cintura. Por tr&aacute;s dos muros de adobe,<br \/>\n    morria o murm&uacute;rio dormente dos ter&ccedil;os e das coroas realizadas<br \/>\n    em coro, nas contas. Raramente um rafeiro latia por tr&aacute;s da cancela<br \/>\n    ou das sebes. No adro, o forno senhorial ainda ardia, tanta era a fartura<br \/>\n    do p&atilde;o a cozer. E junto da fonte toldada pelas ramagens de um olmeiro,<br \/>\n    no banco de pedra onde aos domingos os velhos vinham julgar os pleitos de<br \/>\n    gados ou de &aacute;guas, os dois arqueiros do castelo, que todas as noites<br \/>\n    rondavam a aldeia, dormiam sem cuidados, como frades, com os seus arcos ca&iacute;dos<br \/>\n    no ch&atilde;o.<\/p>\n<p>Lentamente, ao rumor lento dos guizos, o bom lenhador e sua &eacute;gua passaram,<br \/>\n    ao fim do povoado, a alta taberna do Galo Preto, que estendia atrav&eacute;s<br \/>\n    da estrada a sua comprida vara enfeitada de louro. Dois romeiros, com vieiras<br \/>\n    na mur&ccedil;a de burel, bebiam &agrave; porta por grossos pich&eacute;is<br \/>\n    de estanho. Dentro um pobre menestrel, de longa guedelha ca&iacute;da sobre<br \/>\n    o gib&atilde;o em farrapos, tangia a sua viola de tr&ecirc;s cordas: e um<br \/>\n    frade mendicante com a sacola entre os joelhos, um caldeireiro com os tachos<br \/>\n    de lat&atilde;o e a ferramenta pousada ao lado no ch&atilde;o de terra negra,<br \/>\n    jogavam dados sobre um banco, na penumbra das grossas pipas, que tinham todas<br \/>\n    uma cruz branca, para que os maus esp&iacute;ritos n&atilde;o azedassem o<br \/>\n    vinho.<\/p>\n<p>O bom lenhador apressava sua &eacute;gua: e bem depressa, do alto de um cerro<br \/>\n    coberto de azinheiras, avistou embaixo o rio, o largo rio escuro que corria,<br \/>\n    mudamente, sob os quatro arcos de uma velha ponte romana, que tinha ao meio<br \/>\n    uma capelinha nova, onde palidamente, na n&eacute;voa &uacute;mida, bruxuleava<br \/>\n    uma l&acirc;mpada. Para al&eacute;m, na outra margem, era uma longa colina<br \/>\n    suava, onde se erguia, acompanhado de arvoredos e cercado de muralhas como<br \/>\n    uma cidadela, um mosteiro rico de Dom&iacute;nicos.<\/p>\n<p>Mas, descendo o cerro, o caminho estreito, por onde, sob a estrelada mudez<br \/>\n    da noite, iam tilintando os guizos da &eacute;gua, corria fundo e negro entre<br \/>\n    altos barrancos. E como a&iacute;, por vezes, de noite, aparecia um estranho<br \/>\n    pastor, de cabelos cor de fogo, e seguido por dois lobos familiares, o bom<br \/>\n    lenhador murmurou, voltado para o santo lugar onde nasce a estrelinha d&#8217;alva,<br \/>\n    o nome do anjo Gabriel.<\/p>\n<p>Depois, sem temor, atravessou o pinheiral. J&aacute; ent&atilde;o trilhava<br \/>\n    as terras do solar do seu Senhor. Vastos pastios de gado, campos onde se fizera<br \/>\n    a ceifa, desciam at&eacute; o rio, que um choupal bordava, escuro e cheio<br \/>\n    e rouxin&oacute;is. E sobre um forte outeiro, logo o Castelo apareceu, negro,<br \/>\n    formid&aacute;vel, com altas muralhas, os grandes cata-ventos em forma de<br \/>\n    drag&otilde;es e de aves her&aacute;ldicas no cimo de cada torre, e, na mais<br \/>\n    alta, a chama clara do seu alto farol.<\/p>\n<p>Uma cal&ccedil;ada de grossas lajes, orlada de faias, conduzia ao terreiro,<br \/>\n    para onde abria, sob a torre de menagem, a estreita porta chapeada de ferro<br \/>\n    e a ponte levadi&ccedil;a, que sempre descida, naqueles doces anos de paz,<br \/>\n    tinha as cadeias de ferro enferrujadas. De um lado do terreiro havia um pequeno<br \/>\n    alpendre, coberto de rama, onde se vendia, &agrave; vasilha, o bom vinho branco<br \/>\n    das vinhas senhoriais. Do outro lado, negrejavam os grossos barrotes das forcas<br \/>\n    patibulares. Um velho olmo assombreava o banco de pedra, onde, pelas tardes<br \/>\n    de ver&atilde;o, o Senhor vinha julgar os delitos, receber vassalagens, ou<br \/>\n    marcar as portagens devidas pelos mercadores que, com longas r&eacute;cuas<br \/>\n    de machos carregados, passavam por dentro das suas terras. Nenhuma claridade<br \/>\n    sa&iacute;a das janelas das torres, mais esguias que fendas. As r&atilde;s<br \/>\n    coaxavam na &aacute;gua negra dos fossos.<\/p>\n<p>O bom lenhador costeou as compridas muralhas, onde por vezes uma mancha mais<br \/>\n    clara na pedra negra era como uma cicatriz de batalha numa face requeimada;<br \/>\n    e passando pela alta cancela de uma sebe, que ao longe se perdia nos prados<br \/>\n    escuros, penetrou por uma estreita poterna, aberta na muralha como uma fenda<br \/>\n    abobadada, e guardada por um c&atilde;o enorme, cuja corrente de ferro arrastava<br \/>\n    na lajes.<\/p>\n<p>Dentro, no vasto recinto murado, para al&eacute;m de um po&ccedil;o de bordas<br \/>\n    baixas, encimado por um pombal, a casa senhorial erguia a sua fachada simples<br \/>\n    e severa, de onde sa&iacute;a, atrav&eacute;s dos vidros mi&uacute;dos encaixilhados<br \/>\n    em chumbo, a claridade p&aacute;lida dos brand&otilde;es da sala, ao lado<br \/>\n    da luz mais vermelha das cozinhas. Um torre&atilde;o redondo, com balc&atilde;o,<br \/>\n    erguia a uma esquina o seu agudo teto de escamas de lousa, encimado por um<br \/>\n    vasto cata-vento em forma de bandeira desdobrada. Aos cantos da casa, esguios<br \/>\n    drag&otilde;es alados, voltavam para o p&aacute;tio as goelas escancaradas,<br \/>\n    por onde as chuvas se escoavam nos regueiros da cisterna. E a lanterna de<br \/>\n    um servo, que passava sobre o terra&ccedil;o, alumiava grossas filas de ab&oacute;boras<br \/>\n    pousadas no parapeito, secando ao sol.<\/p>\n<p>O bom lenhador descarregou a &eacute;gua na tercena de lenha. Depois, tirando<br \/>\n    o seu barrete de pele de coelho, empurrou a grossa porta da cozinha, armada<br \/>\n    de puas de ferro. Sob a chamin&eacute;, enfeitada de r&eacute;stias de cebola<br \/>\n    e de ramos de louro seco, t&atilde;o vasta que abrigava, de cada lado da lareira,<br \/>\n    um longo banco de carvalho. Uma chama clara de troncos, ardendo sobre brasido,<br \/>\n    alumiava as paredes caiadas, onde pendiam de ganchos de ferro odres de vinho,<br \/>\n    caldeir&otilde;es reluzentes, e os sacos de especiarias. Com o seu longo avental<br \/>\n    de couro, um barrete de couro na cabe&ccedil;a raspada, o mestre cortava sobre<br \/>\n    um cepo imenso de pau, um anho esfolado. Um servente, de bra&ccedil;os nus,<br \/>\n    regava de molho, com uma longa colher de ferro, as grossas pe&ccedil;as de<br \/>\n    carne que assavam nos espetos, mais longos que lan&ccedil;as de guerra. Dois<br \/>\n    lebr&eacute;us brancos enroscados dormiam diante do lume. E rente do muro,<br \/>\n    sentados em tripe&ccedil;as, j&aacute; os mo&ccedil;os das abegoarias, os<br \/>\n    pastores, os cordoeiros, esperavam a ceia, calados, com os seus gorros na<br \/>\n    m&atilde;o.<\/p>\n<p>Mas um pajem, de longos cabelos encaracolados, e trazendo um jarro lavrado,<br \/>\n    ergueu ao fundo a grossa cortina de estamenha, que tapava uma imensa porta<br \/>\n    em arco, ornada com duas cabe&ccedil;as de lobos. E o bom lenhador dobrou<br \/>\n    humildemente o joelho, entrevendo para al&eacute;m, j&aacute; alumiada para<br \/>\n    a ceia, por tochas de cera, a sala senhorial: a vasta mesa atapetada de ervas<br \/>\n    frescas; as duas lan&ccedil;as transversais por cima, suspensas do teto por<br \/>\n    correntes de ferro, carregadas de grossos p&atilde;es de s&ecirc;mea; a alta<br \/>\n    cadeira de espaldar, no topo, encimada por um alto bras&atilde;o, tendo ao<br \/>\n    lado um poleiro, onde dormiam dois falc&otilde;es; a imensa chamin&eacute;<br \/>\n    de pedra, ao fundo, com figuras em relevo que agitavam armas. Todos os servos<br \/>\n    se tinham erguido. E quase imediatamente, arrastando os seus sapatos de pano<br \/>\n    amarelo, o despenseiro apareceu, calvo e gordo, com o seu molho de chaves.<br \/>\n    Era ele que distribu&iacute;a a ra&ccedil;&atilde;o aos pastores, aos cordoeiros,<br \/>\n    aos tosquiadores, aos forneiros, e aos outros servos do dom&iacute;nio que<br \/>\n    n&atilde;o ceavam na cozinha do solar; e bem depressa o bom lenhador recebeu<br \/>\n    no seu saco de estopa o p&atilde;o de s&ecirc;mea, o pichel de vinho, e a<br \/>\n    posta de carne salgada, devida nos dias de grande corte.<\/p>\n<p>De novo o bom lenhador empurrou, sem ru&iacute;do e humildemente a porta<br \/>\n    da cozinha. Passou a poterna da muralha, que abria para os jardins e para<br \/>\n    o jogo da bola. Atravessou a rua de limoeiros que dividia os jardins e o pomar,<br \/>\n    onde docemente cantavam na sombra os repuxos e a &aacute;gua das regas; ladeou<br \/>\n    a casa do cabanal e a eira, alvejando, toda caiada de fresco, sob a claridade<br \/>\n    das estrelas; e passando entre abegoarias e a li&ccedil;a dos pajens, que<br \/>\n    desenrolava entre mastros enfeitados de bandeirolas a sua pista areada de<br \/>\n    saibro, saiu por uma porta da alta estacada, que circundava a quinta senhorial.<br \/>\n    Para al&eacute;m eram vastos prados, pastagens descendo at&eacute; ao rio,<br \/>\n    onde uma larga avenida de olmos abrigava a cordoaria do castelo. Um outro<br \/>\n    cerrado de sebe espinhosa cercava estas fartas depend&ecirc;ncias rurais,<br \/>\n    defendidas ainda por armadilhas para os lobos, valas erri&ccedil;adas de puas,<br \/>\n    e pequenas torres de adobe onde ardia uma lanterna.<\/p>\n<p>O bom lenhador passou esta sebe, e meteu pelas azinhagas, a caminho da sua<br \/>\n    cabana, aninhada entre pinheiros e faias &agrave; orla da floresta, que, desde<br \/>\n    os coutos onde todo o dia trabalhava, vinha pelo interior das terras vestindo<br \/>\n    vale e monte. Por entre os troncos dos pinheiros mansos, o largo rio alvejava<br \/>\n    embaixo &agrave; claridade das estrelas. Os pirilampos faiscavam na ponta<br \/>\n    das sebes. Um aroma de madressilva ado&ccedil;ava o ar.<\/p>\n<p>O bom lenhador atravessou, sobre uma ponte feita de troncos, um riacho que<br \/>\n    saltava entre rochas, onde os pajens da castelania vinham pescar trutas. Um<br \/>\n    rouxinol cantava embaixo entre a ramaria dos choupos. Adiante havia uma cruz<br \/>\n    de pedra coberta de heras, que tinha um bra&ccedil;o partido. Piedosamente<br \/>\n    o bom lenhador tirou o seu barrete de pele de coelho. O seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    simples, nessa noite, sentia como um contentamento desacostumado. Ouvindo<br \/>\n    o sino do mosteiro, que nas colinas al&eacute;m do rio tocava a V&eacute;speras,<br \/>\n    murmurou uma salve-rainha, com uma devo&ccedil;&atilde;o maior, certo de que<br \/>\n    a Virgem o escutava, debru&ccedil;ada do C&eacute;u, toucada de todas aquelas<br \/>\n    estrelas que rebrilhavam mais que o ouro. J&aacute;, a dist&acirc;ncia, sob<br \/>\n    o c&eacute;u p&aacute;lido, se arredondavam os cimos dos arvoredos, onde se<br \/>\n    escondia a sua cabana. A mulher, a boa companheira, esperava por ele fiando<br \/>\n    &agrave; lareira. Estugou o passo e, subitamente, da sombra de um chor&atilde;o<br \/>\n    debru&ccedil;ado &agrave; beira do caminho, surgiu um mo&ccedil;o de olhos<br \/>\n    brilhantes como lumes, coberto com uma t&uacute;nica branca, encostado a uma<br \/>\n    vara branca, que parou diante dele, e disse sorrindo:<\/p>\n<p>&#8212; Entra contente na tua morada, que teu filho h&aacute; de ser um grande<br \/>\n    santo!<\/p>\n<p>E subitamente desapareceu. Um aroma vivo, como de incenso misturado a cravos,<br \/>\n    passou de leve no ar. E as relvas altas do prado, ondeavam, dobradas, como<br \/>\n    se as ro&ccedil;asse um manto de seda fina.<\/p>\n<p>O bom lenhador ficara im&oacute;vel, tremendo, na sombra que se adensou,<br \/>\n    mais cerrada, sob as ramagens das faias. E mal compreendia a quem t&atilde;o<br \/>\n    docemente falara aquele mo&ccedil;o, de olhos mais claros que lumes de altar.<br \/>\n    A sua boa companheira n&atilde;o lhe dera ainda um filho naqueles longos anos,<br \/>\n    t&atilde;o serenamente passados, desde a manh&atilde; de Natal em que por<br \/>\n    sobre a neve dura brilhando ao sol, ao fino som da rabeca que o menestrel<br \/>\n    tangia, coroada de rosas, ele a trouxera &agrave; cabana constru&iacute;da<br \/>\n    por suas m&atilde;os, com as madeira por suas m&atilde;os rachada. Como poderia<br \/>\n    pois, no seu lar que nenhum riso de crian&ccedil;a alegrava, crescer, para<br \/>\n    sua gl&oacute;ria, um grande santo?&#8230; Arrepiado, penetrou por sob a ramaria,<br \/>\n    espreitando, escutando, na esperan&ccedil;a e no terror de surpreender ainda<br \/>\n    uma claridade, um rumor daquele mensageiro estranho, que vestia de branco<br \/>\n    como os anjos. Todo o bosque estava mudo e ermo. Ent&atilde;o entrou na sua<br \/>\n    alma simples um grande medo de todos os seres invis&iacute;veis que, vindos<br \/>\n    de C&eacute;u, ou vindos do Inferno, de repente surgem nos caminhos escuros.<br \/>\n    Come&ccedil;ou a correr por uma estreita azinhaga at&eacute; aos castanheiros<br \/>\n    que abrigavam a sua cabana. Uma fenda de luz sa&iacute;a da porta, entreaberta<br \/>\n    &agrave; frescura doce da noite. O rafeiro que o aguardava, com sua coleira<br \/>\n    eri&ccedil;ada de pregos, latiu alegremente. Entrou, limpando na face o suor<br \/>\n    que o alagava.<\/p>\n<p>Sentada &agrave; lareira numa tripe&ccedil;a, a sua boa companheira esperava<br \/>\n    fiando. A panela de ferro fervia, suspensa por uma corrente sobre o lume.<br \/>\n    A um canto da arca, as malgas vidradas, as canecas de estanho reluziam bem<br \/>\n    limpas; sobre a palho&ccedil;a do catre, o len&ccedil;ol de estopa era branco<br \/>\n    e fresco. Todo o dia a boa companheira lidara para o asseio do seu lar. O<br \/>\n    lenhador pendurou junto &agrave; chamin&eacute; o seu machado, e, nem &agrave;<br \/>\n    ceia, nem deitado junto dela no catre, revelou &agrave; mulher o encontro<br \/>\n    com aquele mo&ccedil;o de olhos resplandecentes. Receava que ela, t&atilde;o<br \/>\n    s&eacute;ria e justa, repreendesse o seu orgulho. Por que mandaria Deus um<br \/>\n    anjo, com t&atilde;o maravilhoso recado, a um rude servo, de sai&atilde;o<br \/>\n    de estamenha? Decerto n&atilde;o fora a ele que o mo&ccedil;o, brilhante de<br \/>\n    claridade, anunciava a santidade de um filho&#8230;. Se Deus os tivesse escolhido<br \/>\n    para t&atilde;o grande ventura, n&atilde;o seria por ele, rude como os troncos<br \/>\n    da sua mata, mas pela sua boa companheira, t&atilde;o s&eacute;ria, diligente<br \/>\n    no trabalho, clara de alma, compassiva aos mais pobres, sempre alegre e t&atilde;o<br \/>\n    leal! Nela e n&atilde;o nele, estavam decerto os m&eacute;ritos divinos.<\/p>\n<p>E enquanto ela, direita, robusta, e corada como uma ma&ccedil;&atilde;, enchia<br \/>\n    as malgas da ceia, o lenhador sentia abrir-se no seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como uma flor que sob o orvalho reflorescesse, uma ternura doce e melhor por<br \/>\n    aquela que, em tantos anos tornara a sua pobre cabana lugar mais apetec&iacute;vel<br \/>\n    que a casa rica de um senescal ou o castelo do seu Senhor.<\/p>\n<h2><a name=\"2\">Cap&iacute;tulo II<\/a><\/h2>\n<p>Era o tempo das vindimas nas vinhas da castelania. Uma manh&atilde;, cedo,<br \/>\n    ao cantar das calhandras, quando o bom lenhador prendia ao cinto seu machado,<br \/>\n    partindo para o castelo onde ia rachar a lenha mi&uacute;da, a sua companheira,<br \/>\n    que se sentara na arca com os bra&ccedil;os cruzados, disse de repente, toda<br \/>\n    s&eacute;ria e vermelha:<\/p>\n<p>&#8212; Meu homem, vamos ter um filho.<\/p>\n<p>Ele ficou diante dela, mudo, como no espanto de um milagre. Depois balbuciou,<br \/>\n    pediu uma certeza. Ela estava t&atilde;o segura, que j&aacute; na v&eacute;spera,<br \/>\n    enquanto ele andava trabalhando no souto, fora ao Mosteiro comungar, para<br \/>\n    que a Santa H&oacute;stia fosse o primeiro alimento da criancinha que em si<br \/>\n    trazia, e que assim recebia logo o corpo e o sangue de Jesus. O bom lenhador<br \/>\n    tornou a emudecer, como deslumbrado, co&ccedil;ando a barba rude. Ent&atilde;o<br \/>\n    a boa companheira, pensando que ele, assim silencioso, se amargurava na alma<br \/>\n    com aquele filho que vinha para ser, como eles, um servo, preso &agrave;quela<br \/>\n    terra de florestas como qualquer carvalho que s&oacute; serve para render,<br \/>\n    e quando n&atilde;o rende se abate, lembrou quanto a vida servil era f&aacute;cil<br \/>\n    e branda nos dom&iacute;nios do bom castel&atilde;o. J&aacute; t&atilde;o<br \/>\n    velho, paternal, o bom Senhor amava os seus servos, e velava por eles como<br \/>\n    searas dos seus campos. Havia tantos anos que as masmorras estavam vazias,<br \/>\n    que o senescal perdera as chaves. Sempre que os homens eram chamados para<br \/>\n    compor os telhados ou limpar os fossos, voltavam contentes com bom sal&aacute;rio.<br \/>\n    Quando, montado na sua mula, percorria as terras, parava a aconselhar os trabalhadores,<br \/>\n    sem mesmo consentir, nos dias de vento, que eles tirassem os seus barretes.<br \/>\n    O pre&ccedil;o da moagem, e o da fornada, no moinho e no forno senhoriais,<br \/>\n    fora por ele abaixado&#8230; E a boa menina, herdeira daquele dom&iacute;nio,<br \/>\n    onde haveria outra t&atilde;o caridosa e suave? Era ela que ligava, com seus<br \/>\n    dedos mais brancos que os de uma Nossa Senhora, a feridas dos pegureiros.<br \/>\n    Se a ventania levantava o colmo de uma cabana, logo ela o mandava consertar.<br \/>\n    Nos grandes frios, distribu&iacute;a pelos velhos vinho antigo e peles de<br \/>\n    carneiro&#8230; Se a vida era assim f&aacute;cil e branda na castelania, bem podiam<br \/>\n    eles estar contentes com o filhos que lhes nascia, para ser um servo contente<br \/>\n    sob aqueles bom senhores.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; verdade, meu homem?<\/p>\n<p>A face do lenhador resplandecia, como um ouro sem liga sob um raio de sol.<\/p>\n<p>&#8212; Bendito seja Deus por eu ter te conhecido, mulher!<\/p>\n<p>Apertou fortemente nos bra&ccedil;os a companheira valente, e partiu para<br \/>\n    o trabalho. Pelo caminho que levava ao castelo, sorria, vaga e deslumbradamente,<br \/>\n    para o c&eacute;u e para as &aacute;rvores. E a cada instante lhe alvoro&ccedil;ava<br \/>\n    a alma aquela promessa lan&ccedil;ada, sob a escurid&atilde;o das faias, pelo<br \/>\n    mo&ccedil;o de olhos resplandecentes. Era esse, pois, o filho anunciado que<br \/>\n    se devia tornar um grande santo? Quase assustado, n&atilde;o ousava crer num<br \/>\n    t&atilde;o maravilhoso favor de Deus. Um servo gerar um santo! Quando o seu<br \/>\n    Senhor, t&atilde;o poderoso, doador de capelas, acolhedor de peregrinos, que<br \/>\n    fora em mo&ccedil;o libertar Jesus Cristo das maldades dos Turcos, n&atilde;o<br \/>\n    lograva o favor de um filho, para governar as suas terras, seria ele, servo<br \/>\n    rude, de sai&atilde;o de estamenha, rachador de madeira, o escolhido por Deus<br \/>\n    para dar &agrave;quelas gentes o dom maravilhoso de um santo, para as proteger,<br \/>\n    e chamar sobre elas a amizade dos C&eacute;us? Tal n&atilde;o podia ser, e<br \/>\n    mesmo em o pensar, em o esperar, ele sentia confusamente o perigo de um orgulho<br \/>\n    que ofenderia Jesus e os outros santos, e desde logo alhearia a sua prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do menino que lhe ia nascer.<\/p>\n<p>Decidiu ent&atilde;o n&atilde;o pensar mais naquela promessa: mas quando<br \/>\n    ao recolher &agrave; cabana, de noite, passava junto ao bosque de faias, os<br \/>\n    seus passos, a seu pesar, se tornavam mais lentos, e parava, escutava, com<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o a bater t&atilde;o fortemente, que as suas pancadas<br \/>\n    ansiosas eram como as que se d&atilde;o a uma porta fechada sobre um tesouro.<br \/>\n    E a mudez, a negrura impass&iacute;vel do bosque davam uma indefinida, fugitiva<br \/>\n    tristeza ao seu cora&ccedil;&atilde;o, como se uma &aacute;gua fresca, em<br \/>\n    hora de sede, se lhe secasse entre as m&atilde;os.<\/p>\n<p>Entrando, por&eacute;m, na cabana, todo ele sorria contente, vendo a sua<br \/>\n    companheira que fiava j&aacute; a teia do enxoval. Ele tomava a um canto as<br \/>\n    madeiras que escolhera com carinho, as ferramentas que lhe emprestara o carpinteiro<br \/>\n    do castelo, e trabalhava no ber&ccedil;o do menino: &#8211; porque em ambos todas<br \/>\n    as ocupa&ccedil;&otilde;es, todos os pensamentos eram unicamente em servi&ccedil;o<br \/>\n    daquele filho, que lhes parecia milagroso e raro como uma estrela que de repente<br \/>\n    brotasse, e come&ccedil;asse a dardejar os seus raios na ponta de um galho<br \/>\n    seco. Ambos come&ccedil;avam a ter ambi&ccedil;&otilde;es: ela quereria ser,<br \/>\n    depois de criar o menino, a tecedeira do castelo; ele pensava no lugar do<br \/>\n    chefe-mateiro, que estava velho e pedira ao Senhor para repousar. Quando o<br \/>\n    inverno come&ccedil;ou, consideravam mesmo quanto a sua cabana era desabrigada<br \/>\n    e rude; e o bom mateiro come&ccedil;ou todas as manh&atilde;s, mal luzia a<br \/>\n    primeira claridade, a trabalhar nos reparos, pondo colmo novo no teto, tapando<br \/>\n    fendas, preparando um ch&atilde;o de tabuado, onde mais tarde os pezinhos<br \/>\n    nus do menino n&atilde;o sentissem a frialdade da terra negra. Depois limpou,<br \/>\n    areou a horta, que cercou de um silvado, defendendo, isolando mais o seu lar,<br \/>\n    que ia encerrar um tesouro.<\/p>\n<p>Por vezes a sua companheira queria ajud&aacute;-lo nestas tarefas piedosas.<br \/>\n    Ele n&atilde;o consentia, num receio constante que se fatigasse, viesse mal<br \/>\n    &agrave;quele corpo precioso, que a seu pesar, por vezes, imaginava escolhido<br \/>\n    por Deus, e que contemplava ent&atilde;o com pasmo como um relic&aacute;rio<br \/>\n    numa capela. Era sempre para ela a malga maior, a fatia mais larga de p&atilde;o,<br \/>\n    no desejo de a sentir forte, comunicando for&ccedil;a ao seu filho. Procurava<br \/>\n    por toda a floresta mel silvestre, para misturar ao vinho que ela bebia aquecido<br \/>\n    &agrave; lareira; e como a moleira do moinho senhorial, junto ao rio, assistia<br \/>\n    na hora dolorosa a todas as servas da castelania, o pobre mateiro n&atilde;o<br \/>\n    cessava de a servir, de lhe levar sacos de pinha, de lhe rachar a lenha,e<br \/>\n    mesmo arrega&ccedil;ando as mangas da estamenha, pretendia limpar as rodas<br \/>\n    da azenha. A boa comadre, cruzando os bra&ccedil;os sobre o avental enfarinhado,<br \/>\n    dava os seus conselhos; e j&aacute; por ordem dela, o bom mateiro todas as<br \/>\n    noites, com uma longa vara, batia as ramas do arvoredo que abrigava a sua<br \/>\n    cabana, para que n&atilde;o viesse nelas pousar alguma coruja, que, piando<br \/>\n    de noite, faria nascer a crian&ccedil;a medrosa e com os olhos tortos. Mas<br \/>\n    o seu maior cuidado era queimar na lareira galhos de azinho, para que o leite<br \/>\n    da m&atilde;e fosse abundante e forte.<\/p>\n<p>O inverno no entanto viera, tormentoso e negro: e nos longos crep&uacute;sculos,<br \/>\n    sentados na tripe&ccedil;a, ao lume da lareira, estes dois servos simples<br \/>\n    pensavam somente no seu filho. Ele contava, recontava na mem&oacute;ria as<br \/>\n    pe&ccedil;as de ouro poupadas naqueles longos anos e enterradas debaixo da<br \/>\n    arca, e noutras ainda que pouparia, para pagar o padre-mestre que ensinasse<br \/>\n    ao seu filho as letras e o latim&#8230; Por que n&atilde;o? Quantos filhos de<br \/>\n    servo tinham cantado missa nova! E a seu pesar, aterrado sob o orgulho incorrig&iacute;vel,<br \/>\n    via o seu filho com uma mitra cravejada de ouro, em vestes recamadas de ouro,<br \/>\n    atravessar sob um p&aacute;lio os caminhos da aldeia, juncados de rosas e<br \/>\n    de erva-doce. A m&atilde;e, essa, calada, movendo o seu fuso, s&oacute; via<br \/>\n    o seu filho pequenino, muito gordo, com a face cheia, lisa, e corada como<br \/>\n    uma manh&atilde;, rindo sobre o seu colo.<\/p>\n<p>Uma noite, que ela assim pensava, adormeceu, fatigada de ter lidado, j&aacute;<br \/>\n    pesada, todo aquele dia de Abril, quente e longo. E quase imediatamente se<br \/>\n    viu sentada, no adro da capela, na aldeia, um domingo de festa, no primeiro<br \/>\n    dia de maio: em volta as raparigas dan&ccedil;avam, ao som da rabeca que tocava<br \/>\n    um menestrel; os mo&ccedil;os mais fortes lutavam sobre a relva; um servo<br \/>\n    do castelo vendia vinho de uma grande pipa enfeitada de louro; e um cavaleiro,<br \/>\n    todo armado, segurava um cavalo de grandes crinas, t&atilde;o bravo que ningu&eacute;m<br \/>\n    o podia montar&#8230; E eis que, de repente, o seu filho aparece com um gib&atilde;o<br \/>\n    de pano azul, um capuz escarlate como o filho de um mercador, e logo derruba<br \/>\n    na luta os mais fortes, amansa o corcel indom&aacute;vel, faz empalidecer<br \/>\n    de amor todas as raparigas s&oacute; com volver os olhos radiantes, e, tomando<br \/>\n    a rabeca do menestrel, come&ccedil;a t&atilde;o divinamente a tanger, que<br \/>\n    todos os p&aacute;ssaros sa&iacute;am das ramarias, e vinham maravilhados,<br \/>\n    pousar nos seus ombros largos. Ela tremia, num infinito orgulho. E em roda<br \/>\n    todos, erguendo os barretes, gritavam:<\/p>\n<p>&#8212; Eis o mais belo, o mais destro, o mais forte! Seja ele o Rei de Maio!<\/p>\n<p>Acordou ao clamor triunfal. O seu homem areava o seu machado. E quando ela,<br \/>\n    ainda ofegante, lhe contou o seu sonho, ele permaneceu muito tempo pensativo,<br \/>\n    porque os sonhos s&atilde;o como tape&ccedil;arias que os anjos desenrolam<br \/>\n    e em que est&atilde;o bordados, em cores claras, os destinos que h&atilde;o<br \/>\n    de ser.<\/p>\n<p>Ambos acordavam de manh&atilde;, a um grande canto de p&aacute;ssaros t&atilde;o<br \/>\n    alegre e ruidoso como se todas as cotovias e melros, da floresta, estivessem<br \/>\n    celebrando uma festa sobre o colmo da sua cabana: e em torno ao catre flutuava<br \/>\n    estranhamente um fresco cheiro de verduras e flores novas. Mas a mulher do<br \/>\n    lenhador n&atilde;o se podia erguer, num cansa&ccedil;o que a tornava mais<br \/>\n    p&aacute;lida que um linho muito lavado: e bem depressa, gemendo, pediu ao<br \/>\n    seu homem que fosse buscar a moleira caridosa e h&aacute;bil, porque chegava<br \/>\n    a sua hora de gl&oacute;ria e de dor. E, ainda gemendo, a boa mulher come&ccedil;ou<br \/>\n    logo a sua ora&ccedil;&atilde;o a Santa Margarida.<\/p>\n<p>Atirando o machado que apertara ao cinto de couro, o bom lenhador correu<br \/>\n    atrav&eacute;s dos campos, ansiosamente, pisando sem dor os milhos novos,<br \/>\n    saltando as sebes em flor. A moleira carregava um saco cheio sobre o seu jumentinho<br \/>\n    branco. Descarregou logo o saco, saltou sobre o jumento, e atrav&eacute;s<br \/>\n    das azinhagas, a moleira galopando, o lenhador correndo, pararam &agrave;<br \/>\n    porta da cabana, quando do seu beiral se erguia, tomando o v&ocirc;o, um casal<br \/>\n    de pombas brancas. Era um feliz pren&uacute;ncio: &#8211; e enquanto o lenhador<br \/>\n    ia prender o jumentinho no eido, a moleira entrou na cabana depois de riscar<br \/>\n    no ch&atilde;o uma cruz com o p&eacute;, murmurando o nome de Santa Margarida.<br \/>\n    Mas voltou logo, trazendo nas m&atilde;os um largo cinto de couro, com que<br \/>\n    a boa fiandeira apertava as saias, e gritou pelo lenhador, para que ele corresse<br \/>\n    &agrave; capela, atasse o cinto na corda do sino, e repicasse nove repiques,<br \/>\n    rezando nove ave-marias. Eis de novo o bom lenhador correndo, com o cinto<br \/>\n    apertado ao peito, preciosamente: desceu aos choupais, frescos e cheios de<br \/>\n    sombra; correu ao comprido do rio, todo reluzente de sol, que uma grossa barca,<br \/>\n    com armas de um D. Abade e toda carregada de pipas, subia lentamente &agrave;<br \/>\n    sirga; galgou os lameiros, onde os gados pastavam, ao som das flautas dos<br \/>\n    pegureiros; abalou pela estrada, por diante da taberna do Galo Preto, de onde<br \/>\n    os carvoeiros da mata o chamavam, erguendo alegremente os pich&eacute;is de<br \/>\n    estanho&#8230; Ele, sem escutar, seguiu: mas teve de parar, de repente, porque<br \/>\n    dos lados da ponte, com um lampejar de armas e um brilho de sedas claras,<br \/>\n    desembocava um rica cavalgada, a caminho do castelo. Um clarim soava triunfalmente;<br \/>\n    guardas barbudos e graves traziam as lan&ccedil;as erguidas, ao alto; uma<br \/>\n    bandeira, no ar, desdobrava o seu grande bras&atilde;o de cores estridentes;<br \/>\n    os pajens, empoeirados dos caminhos, conduziam &agrave; r&eacute;dea az&ecirc;molas<br \/>\n    carregadas de pesados cofres pintados a escarlate e ouro; &#8211; e um fidalgo,<br \/>\n    mo&ccedil;o, de barba negra, com um falc&atilde;o no punho, ria de cima do<br \/>\n    seu alto corcel, coberto com um xairel de veludo azul, com um frade que cavalgava<br \/>\n    ao lado, numa mula toda branca. Galgos &aacute;geis corriam em roda; e um<br \/>\n    tro&ccedil;o de lan&ccedil;as seguia, erguendo grande poeira.<\/p>\n<p>Curvado, cosido contra a sebe espinhosa, com o seu barrete na m&atilde;o,<br \/>\n    o bom mateiro saudava humildemente, esperava com o cora&ccedil;&atilde;o a<br \/>\n    bater de ansiedade. Ao seu lado, outros vil&otilde;es dobravam o joelho; e<br \/>\n    um velho alto murmurava que aquele era um bar&atilde;o de outras terras, que<br \/>\n    chegava para noivar com a filha do bom castel&atilde;o. Mas de repente alguns<br \/>\n    cavaleiros paravam: uma das az&ecirc;molas, espantada, atirara ao ch&atilde;o<br \/>\n    os cofres de escarlate e ouro: e um senescal, correndo logo, reclamou todos<br \/>\n    os vil&otilde;es ali juntos para virem erguer os cofres, carregar novamente<br \/>\n    a az&ecirc;mola. E o bom mateiro l&aacute; se adiantou, aflito, com os olhos<br \/>\n    quase enevoados de l&aacute;grimas, mal podendo atar as cordas que prendiam<br \/>\n    os cofres nas andilhas da az&ecirc;mola. Tr&ecirc;s vezes o senescal o injuriou.<br \/>\n    E a sua pobre companheira sofrendo por n&atilde;o repicarem os santos sinos<br \/>\n    que amansariam a sua dor!<\/p>\n<p>Mas o animal, carregado de novo, aquietou, levado &agrave; r&eacute;dea pelos<br \/>\n    pajens; e os cavaleiros trotaram na poeira, que o sol dourava. Ent&atilde;o,<br \/>\n    livre, o lenhador correu desesperadamente &agrave; capela que servos do senhor<br \/>\n    andavam caiando de fresco. Ajudado pelo sacrist&atilde;o, um velho corcunda<br \/>\n    a quem ele &agrave;s vezes rachava lenha, atou o cinto de couro &agrave; corda<br \/>\n    grossa do sino: &#8211; e bem depressa, no azul cheio de sol, cantava alegremente<br \/>\n    os novos repiques devotos. Para maior seguran&ccedil;a acendeu ainda, num<br \/>\n    altar duas velas a Santa Margarida. Depois, confiado na miseric&oacute;rdia<br \/>\n    do C&eacute;u, recolheu &agrave; sua cabana.<\/p>\n<p>Os olhos quase se lhe enevoavam de l&aacute;grimas, quando, da azinhaga por<br \/>\n    onde ia arquejando, a avistou, sob as grandes &aacute;rvores. Mas n&atilde;o<br \/>\n    lhe pareceu neste instante t&atilde;o escura e humilde. O Sol, que batia em<br \/>\n    redor nas ramagens, tinha um desacostumado esplendor. A cruz branca, que ele<br \/>\n    pintara na porta para afugentar os dem&ocirc;nios, reluzia, como feita de<br \/>\n    uma luz clara. Das sebes, a seu lado, sa&iacute;a um aroma mais doce que incenso.<br \/>\n    As grandes papoulas entre a erva, as flores silvestres, pareciam maiores,<br \/>\n    com grandes cores de festa. Regatos que n&atilde;o via, borbulhavam alto,<br \/>\n    com um som fresco do riso.<\/p>\n<p>Ele pasmava desta beleza, que nunca vira nestes caminhos familiares. E eis<br \/>\n    que subitamente, do lado do rio, rompem, num repique festivo, os grandes sinos<br \/>\n    do Mosteiro, e do lado do castelo a sineta da capela lan&ccedil;a tamb&eacute;m<br \/>\n    pelo azul um repique argentino. Todo o c&eacute;u tinha um alegria de festa.<br \/>\n    E quando chegou &agrave; porta da sua cabana, os pinheiros em redor, movendo<br \/>\n    as altas ramas, pareciam cantar.<\/p>\n<p>Entrou. Sobre o catre, a sua companheira jazia im&oacute;vel, branca como<br \/>\n    o len&ccedil;ol, j&aacute; composto e liso, que a cobria. E diante do lume<br \/>\n    que estalava, a moleira, abatida sobre uma tripe&ccedil;a, sustentava no colo<br \/>\n    o menino, estendido num pano branco&#8230; Mas o pobre lenhador, que estendera<br \/>\n    os bra&ccedil;as, como se ante ele se abrissem as portas do C&eacute;u &#8212;<br \/>\n    recuou espavorido. O seu filho era um monstro.<\/p>\n<p>Escuro, coberto de uma pela rugosa e &aacute;spera; com uma face vaga, informe,<br \/>\n    onde as fei&ccedil;&otilde;es faziam como vagas protuber&acirc;ncias nodosas,<br \/>\n    as m&atilde;os enormes enclavinhadas sobre o ventre felpudo; torto das pernas<br \/>\n    que findavam em dois p&eacute;s agudos, como os de um fauno, todo ele parecia<br \/>\n    uma raiz sombria, raiz de &aacute;rvore estranha, ainda negra da terra de<br \/>\n    que fora arrancada. E nem gemia. Era como o rudimento de um ser vegetal!<\/p>\n<p>Duas l&aacute;grimas amargas e lentas rolaram pela barba do lenhador. Deu<br \/>\n    um passo para a beira do catre. Na face branca, e como morta, de sua companheira,<br \/>\n    duas l&aacute;grimas corriam tamb&eacute;m, como na amargura de um sonho desfeito.<\/p>\n<h2><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo III<\/a><\/h2>\n<p>Como aquele ser informe decerto ia morrer, o pr&oacute;prio pai, aterrado<br \/>\n    e chorando, o batizou e lhe deu o nome de Crist&oacute;v&atilde;o.<\/p>\n<p>Durante tr&ecirc;s dia, durante tr&ecirc;s noites, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o mamou, n&atilde;o gemeu, im&oacute;vel no ber&ccedil;o, que o lenhador<br \/>\n    e sua companheira constantemente velavam, numa esperan&ccedil;a teimosa. sentindo<br \/>\n    naquela pele rugosa e dura o calor de um sangue forte. Uma tarde que ambos<br \/>\n    cansados tinham adormecido, sentiram subir, de entre os len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    do ber&ccedil;o que rangia, um rumor singular como o lento balar de um anho<br \/>\n    muito robusto. Crist&oacute;v&atilde;o descerrara as p&aacute;lpebras moles,<br \/>\n    e eles viram enfim os seus olhos de um azul-p&aacute;lido, como a flor da<br \/>\n    pervinca. A m&atilde;e, radiante, arrebatou-o contra o seio que a abund&acirc;ncia<br \/>\n    de leite sufocava: &#8211; e em poucos sorvos, largos e fundos, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    esvaziou um dos peitos.<\/p>\n<p>Come&ccedil;ou ent&atilde;o a viver uma vida intensa e r&aacute;pida. Dormindo,<br \/>\n    a sua respira&ccedil;&atilde;o era mais que uma brisa entre ramos; ao acordar<br \/>\n    os seus gritos abalavam a cabana; e na sua voracidade, sem parar, secava o<br \/>\n    leite da m&atilde;e, chupava atrav&eacute;s de um pano largos peda&ccedil;os<br \/>\n    de mel silvestre, e ficava trincando com impaci&ecirc;ncia o dedo que, para<br \/>\n    o consolar, o pai lhe metia entre as gengivas, mais duras que pedras.<\/p>\n<p>E, no entanto, aquela monstruosidade, que o assemelhava a uma grossa e negra<br \/>\n    raiz, compunha em formas familiares de um corpo grosseiro, mas humano. A pele,<br \/>\n    perdida a aspereza negra, era lisa e vermelha como uma casca de ma&ccedil;&atilde;:<br \/>\n    a cabe&ccedil;a emergia dos ombros como uma decis&atilde;o de come&ccedil;ar<br \/>\n    a vida; e as pernas agora direitas, com dois grandes p&eacute;s chatos, eram<br \/>\n    t&atilde;o fortes que, se as agitava, quase fazia tombar o ber&ccedil;o.<\/p>\n<p>E bem depressa, com terror da m&atilde;e, n&atilde;o coube no ber&ccedil;o.<br \/>\n    Como era no calor de maio, o bom lenhador fazia com musgo seco, recoberto<br \/>\n    de um mant&eacute;u, um leito na horta, onde o deitavam sob uma mimosa em<br \/>\n    flor. Mas Crist&oacute;v&atilde;o rolava para fora do mant&eacute;u, procurando<br \/>\n    a terra quente e mole, onde se estendia, se dilatava com del&iacute;cia, como<br \/>\n    num elemento preferido, sorrindo quieto, num sorriso mudo, que deixava j&aacute;<br \/>\n    transparecer o brilho de um dente. Come&ccedil;aram ent&atilde;o a aparecer,<br \/>\n    voando, por sobre os legumes da horta, borboletas de cores prodigiosas, como<br \/>\n    o lenhador nunca vira. Uma roseira seca havia um ano, e que tinha apenas o<br \/>\n    tronco mirrado, rebentou em grandes rosas que perfumavam todo o ar. Os melros<br \/>\n    que ali acudiam, fazendo um canto incessante e festivo, emudeciam quando a<br \/>\n    enorme crian&ccedil;a dormia, com seus grossos punhos fechados. A mimosa,<br \/>\n    todas as &aacute;rvores em redor, vieram estendendo as suas ramarias, como<br \/>\n    toldos de abrigo, para o lado onde se estendia o mant&eacute;u. E um dia a<br \/>\n    m&atilde;e, entreabrindo a porta do eido, avistou, espantada, um enorme veado,<br \/>\n    que por cima da sebe, com os altos paus entre a folhagem, contemplava Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    com a gravidade de um av&ocirc;.<\/p>\n<p>Era ent&atilde;o t&atilde;o pesado que a boa mulher vergava, mal o podia<br \/>\n    transportar da porta para o ber&ccedil;o. E todavia tinha s&oacute; seis meses.<br \/>\n    A moleira que parava, com o seu jumentinho carregado de sacos, diante da cabana,<br \/>\n    para o ver, pasmava das suas cores vermelhas, da sua for&ccedil;a, dos seus<br \/>\n    membros perfeitos e daquele sossego em que permanecia, todo um longo dia de<br \/>\n    ver&atilde;o, sentado, cravando na mesma pedra ou no mesmo ramo os seus olhos<br \/>\n    azulados, sem brilho e sem vida. E ela via nesta transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    um milagre de Santa Ana.<\/p>\n<p>Muito antes do Natal, Crist&oacute;v&atilde;o come&ccedil;ou a andar. J&aacute;<br \/>\n    corria toda a horta, era quase da altura da sebe &#8212; e se, para se segurar,<br \/>\n    atirava a m&atilde;o a um ramo, o ramo rachava como sob o esfor&ccedil;o de<br \/>\n    um homem forte. O pai vivia no encanto e deslumbramento desta for&ccedil;a<br \/>\n    magn&iacute;fica: &#8211; e seu prazer era contemplar a crian&ccedil;a erguendo<br \/>\n    uma grossa panela de ferro, ou caminhar para a lareira abra&ccedil;ado a duas<br \/>\n    imensas achas de lenha. N&atilde;o duvidava que ele viria a ser o homem mais<br \/>\n    valente de toda a castelania, e j&aacute; o imaginava soldado, com uma pesada<br \/>\n    armadura, comandando os ter&ccedil;os da castelania. No cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da m&atilde;e havia uma surda, vaga tristeza, por aquele crescer maravilhoso<br \/>\n    de for&ccedil;a e de formas. J&aacute; o n&atilde;o podia trazer ao colo;<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o tinha apenas um ano, e j&aacute; n&atilde;o era o<br \/>\n    seu menino, o seu pequenino. Os ternos cuidados da sua maternidade eram j&aacute;<br \/>\n    para ele in&uacute;teis. N&atilde;o necessitava amparar-lhe os passos, nem<br \/>\n    meter-lhe na boca a comida. Enorme, t&atilde;o forte como ela, Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    quando tinha fome levantava a tampa da arca e partia ao meio as broas mais<br \/>\n    duras. O lenhador marcara na parede, com um tra&ccedil;o branco, a altura<br \/>\n    do filho, pelo Natal: &#8211; e cada dia os riscos subiam mais alto, quase rente<br \/>\n    &agrave; prateleira da lou&ccedil;a. Aos dois anos a sua cabe&ccedil;a pequenina,<br \/>\n    coberta de uma l&atilde; espessa e loura, j&aacute; dava pelo cinto do lenhador.<br \/>\n    Os saiozinhos de pano que ela cosera com tanto amor, jaziam in&uacute;teis<br \/>\n    no fundo da arca, sem que ele tivesse jamais sido bastante pequenino para<br \/>\n    se mostrar, com eles, pela sua m&atilde;o, aos domingos, no adro da aldeia.<br \/>\n    E quando o via, ainda mudo e inocente como uma crian&ccedil;a de peito, e<br \/>\n    j&aacute; t&atilde;o grande, enchendo quase a porta da cabana, onde costumava<br \/>\n    estar horas, parado, a olhar monotonamente o ar e o sol, a pobre m&atilde;e,<br \/>\n    desconsolada, sentia uma l&aacute;grima umedecer-lhe a face.<\/p>\n<p>O que a consolava era senti-lo t&atilde;o manso e doce. Se ela, assustada,<br \/>\n    lhe tirava o machado do lenhador, que ele gostava de erguer, ou se o afastava<br \/>\n    do lume, que incessantemente o atra&iacute;a, ele n&atilde;o mostrava nem<br \/>\n    resist&ecirc;ncia nem impaci&ecirc;ncia. N&atilde;o era mais inerte um fardo<br \/>\n    de l&atilde;. Permanecia longas horas na tripe&ccedil;a em que o sentava,<br \/>\n    ou &agrave; sombra , debaixo da cerejeira da horta. O seu encanto era ver<br \/>\n    fiar a m&atilde;e, atento profundamente ao rodar, ao cantar do fuso. E a cada<br \/>\n    instante lhe tomava a m&atilde;o, para nela pousar um beijo mudo, sem brilho,<br \/>\n    que n&atilde;o findava. Ela apertava-o ao seu cora&ccedil;&atilde;o, murmurando,<br \/>\n    desolada:<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o &eacute;s tu mais pequenino?<\/p>\n<p>E, no entanto, j&aacute; perto dos quatro anos, n&atilde;o falava. O &uacute;nico<br \/>\n    som que sa&iacute;a, cavo e grosso, dos seus l&aacute;bios cor de aurora,<br \/>\n    era: Han! Han! Se tinha sede apontava com o grande dedo, rosnava: Han! Han!<br \/>\n    Para sair mostrava a porta,e grunhia, com os olhos vagos, para a m&atilde;e:<br \/>\n    Han! Han! A pobre mulher j&aacute; perdera a esperan&ccedil;a de o ouvir chamar<br \/>\n    m&atilde;e e pai. J&aacute; n&atilde;o duvidava de ter concebido um mudo,<br \/>\n    um imbecil. E na sua dor, num resto de orgulho, n&atilde;o permitia que Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    transpusesse a sebe da horta, descesse abaixo, aos caminhos, com receio que<br \/>\n    os trabalhadores da floresta, as vizinhas da aldeia, o encontrassem, descobrissem<br \/>\n    a sua monstruosidade, lamentassem a tristeza do seu lar.<\/p>\n<p>Mas o que sobretudo a aterrava era a insensibilidade de Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    &agrave; dor, como coisa diab&oacute;lica. Uma vespa mordera-o na face, e<br \/>\n    ele nem chorava, nem a pele lhe inchara. Sentava-se indiferentemente sobre<br \/>\n    musgo fresco, ou sobre as selvas espinhosas. E um dia mergulhara a m&atilde;o<br \/>\n    na &aacute;gua a ferver, e retirara-a, quieto, como se ela fosse de pedra.<\/p>\n<p>&#8212; Ai! meu homem &#8212; murmurava a pobre m&atilde;e &#8212; que malogro<br \/>\n    o nosso!<\/p>\n<p>Ele suspirava, sombriamente. Toda a sua alegria, diante daquela robustez<br \/>\n    primeira do filho, t&atilde;o prometedora, se mudara em dor constante, perante<br \/>\n    a sua deformidade &#8212; porque Crist&oacute;v&atilde;o n&atilde;o falava,<br \/>\n    tinha a simplicidade de um serzinho no ber&ccedil;o, e j&aacute; lhe dava<br \/>\n    pelo ombro, forte como ele, com grandes m&uacute;sculos, m&atilde;os formid&aacute;veis<br \/>\n    que brandiam no ar a sua machada t&atilde;o facilmente como uma varinha de<br \/>\n    olmo. J&aacute; n&atilde;o falava do seu filho aos outros servos da castelania,<br \/>\n    carvoeiros, serradores, companheiros da floresta. Se ao menos Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    falasse, tivesse naquela estatura de homem, os modos de um homem&#8230; Iria com<br \/>\n    ele para o trabalho, n&atilde;o revelaria a sua idade &#8212; e seria como<br \/>\n    um companheiro mo&ccedil;o e robusto que habitava no seu lar. Mas, assim,<br \/>\n    imenso, com uma vasta face, os ombros de atleta, ele passava horas, esgaravatando<br \/>\n    a terra, como uma criancinha, contemplando de rastos o caminhar das formigas,<br \/>\n    ou, quieto, chupando um dedo.<\/p>\n<p>J&aacute; na aldeia, entre os servos do castelo. corria que o filho do lenhador<br \/>\n    era um monstro. Decerto fora algum feiticeiro, seu inimigo, que assim lhe<br \/>\n    lan&ccedil;ara uma sorte temerosa. E alguns, mais afoitos, vieram rondar,<br \/>\n    espreitar em torno da cabana de Crist&oacute;v&atilde;o, para ver o enfeiti&ccedil;ado.<br \/>\n    A pobre m&atilde;e, uma tarde, sentira grossas risadas, rente &agrave; sebe<br \/>\n    da horta; adivinhara estas curiosidades que vinham escarnecer a dor do seu<br \/>\n    lar. Tinha agora sempre fechada aquela porta da sua cabana, t&atilde;o limpa,<br \/>\n    t&atilde;o honesta, e por onde at&eacute; a&iacute; ela deixara passar os<br \/>\n    olhares de todos, t&atilde;o livremente como os raios do Sol. Quando alguma<br \/>\n    comadre da aldeia, alguma serva do castelo, a chamava de fora, ela antes de<br \/>\n    abrir, empurrava para fora, para o escuro das &aacute;rvores, o seu pobre<br \/>\n    monstro, que l&aacute; ia movendo os p&eacute;s tardos, com a baba ao canto<br \/>\n    do queixo. O seu desejo seria erguer em torno de sua morada um muro, um alto<br \/>\n    cerrado de t&aacute;buas, que a isolasse de toda a terra. E juntamente sofria<br \/>\n    em ter assim enclausurado o seu pobre Crist&oacute;v&atilde;o, naqueles escassos<br \/>\n    palmos de cabana e de horta, em o trazer escondido como um fruto amaldi&ccedil;oado,<br \/>\n    de que ela se envergonhava. Toda a sua alma simples e reta andava afogada<br \/>\n    em tristeza e sombra. E j&aacute; n&atilde;o duvidava que a monstruosidade<br \/>\n    do seu filho, era o castigo que a Virgem Maria dera ao seu orgulho de m&atilde;e.<br \/>\n    T&atilde;o certa andara de que o seu Crist&oacute;v&atilde;o seria divinamente<br \/>\n    lindo como o Menino Jesus que S. Jos&eacute; erguia nos bra&ccedil;os, que<br \/>\n    a Virgem se escandalizara no fundo dos C&eacute;us. E bem justamente! Como<br \/>\n    poderia o fruto, de um ventre servil, ser igual em beleza ao fruto de um ventre<br \/>\n    divino?<\/p>\n<p>Uma tarde que assim pensava, movendo o seu fuso, sentiu na horta um rumor,<br \/>\n    e como pedras batendo a folhagem da cerejeira. Inquieta, abriu o loquete,<br \/>\n    e viu tr&ecirc;s pajens do castelo que por tr&aacute;s da sebe, joviais e<br \/>\n    cru&eacute;is, escarneciam o seu filho, e lhe atiravam, como a um bicho numa<br \/>\n    toca, pedras e torr&otilde;es secos. E Crist&oacute;v&atilde;o, mais forte<br \/>\n    que os pajens, mas sem compreender, apenas erguia a m&atilde;o ante a face,<br \/>\n    im&oacute;vel no meio da horta assoalhada. Ela arrebatou-o desesperadamente<br \/>\n    para dentro, atirou a porta, enquanto os pajens, ofendidos com a aud&aacute;cia<br \/>\n    da serva, apedrejavam os muros da cabana. Desde esse dia a pobre m&atilde;e<br \/>\n    come&ccedil;ou a definhar. Era uma dor surda, um desconsolo de tudo, que a<br \/>\n    deixava longas tardes im&oacute;vel, com a roca esquecida na cinta, o fuso<br \/>\n    ca&iacute;do no ch&atilde;o, perdida, entorpecida numa melancolia sem fim<br \/>\n    e sem nome. Todo o trabalho lhe pesava como um fardo in&uacute;til. Quase<br \/>\n    lhe custava a vestir Crist&oacute;v&atilde;o, que nem o seu grosso gib&atilde;o<br \/>\n    de estamenha sabia enfiar, e que quase fazia corar a pobre m&atilde;e, com<br \/>\n    o seu enorme corpo nu, grande como o dela, e que lhe parecia a nudez de um<br \/>\n    estranho, de um homem, que invadira o seu lar. &Agrave; noite, silenciosa<br \/>\n    e p&aacute;lida, repelia a sua malga de caldo,que Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    logo devorava em sil&ecirc;ncio. E n&atilde;o queria que o seu homem, assustado,<br \/>\n    chamasse o f&iacute;sico do castelo. Para qu&ecirc;? &quot;O meu mal, murmurava,<br \/>\n    h&aacute; de crescer e crescer&#8230;&quot; As tardes na cabana eram tristes como<br \/>\n    as de um hospital. T&atilde;o fraca que se n&atilde;o podia mover do catre,<br \/>\n    ela contemplava o seu homem, sentado ao lado, com um longo olhar de saudade,<br \/>\n    o olhar umedecido de quem vai partir. Ele, com as m&atilde;os dela entre as<br \/>\n    suas, s&oacute; instava para que ela experimentasse alguns dos rem&eacute;dios,<br \/>\n    que aconselhava a moleira, contra aquela m&iacute;ngua de corpo: e para o<br \/>\n    contentar, ela acedeu a atar ao pesco&ccedil;o um saco onde estava metida<br \/>\n    uma r&atilde; e a comer um caldo de margaridas apanhadas &agrave; lua cheia.<br \/>\n    Mas, sem dor, sem agonia, o seu pobre corpo ia como que desaparecendo, t&atilde;o<br \/>\n    magro e transparente que ela via a vermelhid&atilde;o da lareira atrav&eacute;s<br \/>\n    das m&atilde;os abertas.<\/p>\n<p>Desde que ela adoecera, Crist&oacute;v&atilde;o n&atilde;o abandonara a beira<br \/>\n    do catre, pasmando para a m&atilde;e, ansiosamente, como no esfor&ccedil;o<br \/>\n    de compreender porque ela ficava deitada e de olhos adormecidos, quando sol<br \/>\n    envolvia a cabana, e at&eacute; as &aacute;rvores tinham acordado. Por vezes<br \/>\n    tocava-lhe o bra&ccedil;o, o ombro, com um pequenino gemido triste. Ela murmurava,<br \/>\n    com toda a sua alma: &quot;Meu pobre filho! meu pobre filho!&quot; Mas voltava<br \/>\n    o rosto amargamente, se o via ir, com os seus passos lentos e balan&ccedil;ados<br \/>\n    de urso dom&eacute;stico, erguer com uma s&oacute; m&atilde;o a pesada bilha<br \/>\n    de &aacute;gua, esvazi&aacute;-la de um trago.<\/p>\n<p>Era ent&atilde;o o fim do outono. J&aacute; o lenhador, ao recolher, sacudia<br \/>\n    o sai&atilde;o, todo molhado da umidade da floresta: e um grande vento por<br \/>\n    vezes gemia nos pinheirais. Toda a noite a candeia ficava acesa. Numa enxerga,<br \/>\n    ao lado da lareira, Crist&oacute;v&atilde;o dormia sob peles de cabra, fazendo<br \/>\n    um grande vulto na sombra, ressonando t&atilde;o fortemente como uma forja.<br \/>\n    E a pobre mulher, o homem ao lado, sentado na tripe&ccedil;a, entorpecido<br \/>\n    de fadiga e de sono, n&atilde;o dormia, pensando no abandono e na tristeza<br \/>\n    em que ca&iacute;ra aquela pobre cabana, de que ela fizera um ninho t&atilde;o<br \/>\n    doce! Quem cozinharia a sopa do seu homem, quem trataria daquele pobre monstro,<br \/>\n    que nem sabia enfiar o seu gib&atilde;o? Um grande solu&ccedil;o sacudia o<br \/>\n    seu peito magro: &#8211; e o lenhador despertando, estremunhado, arranjava a manta<br \/>\n    que cobria o catre, ou ia remexer nas brasas da lenha.<\/p>\n<p>Uma noite, em que havia um grande sil&ecirc;ncio no arvoredo e no ar, porque<br \/>\n    ca&iacute;a a neve, ela sentiu um grande frio que lhe passava no rosto, e<br \/>\n    atrav&eacute;s do desmaio que a tomava, estendeu a m&atilde;o, apalpando para<br \/>\n    dizer para sempre adeus ao seu homem. E os seus olhos vagos e lentos encontraram<br \/>\n    ent&atilde;o os olhos do seu Crist&oacute;v&atilde;o, que se erguera, embrulhado<br \/>\n    numa pele de cabra, e estava aos p&eacute;s do catre, atento, e como esperando,<br \/>\n    num espanto. Moveu os l&aacute;bios para lhe pedir que se deitassem se agasalhasse,<br \/>\n    mas s&oacute; p&ocirc;de suspirar, desfalecida&#8230; E pareceu-lhe que, diante,<br \/>\n    o seu filho come&ccedil;ava a crescer visivelmente; j&aacute; os seus cabelos<br \/>\n    ruivos tocavam o teto da cabana; o colmo esgar&ccedil;ou, e, atrav&eacute;s<br \/>\n    da abertura, Crist&oacute;v&atilde;o crescia para o c&eacute;u mais alto que<br \/>\n    os pinheiros, j&aacute; com a face perdida entre os flocos de neve; e t&atilde;o<br \/>\n    feio e monstruoso que as estrelas fugiam pelo ar, como almas assustadas. Deu<br \/>\n    um grito. O pobre lenhador despertou, debru&ccedil;ando logo sobre ela, a<br \/>\n    tremer. A sua companheira parecia adormecida. Ent&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    veio lentamente em torno do catre, e pondo as m&atilde;os, de leve, sobre<br \/>\n    os cabelos que um suor umedecia, gritou:<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; m&atilde;ezinha, m&atilde;ezinha, n&atilde;o durmas!<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o falara! O seu filho falava! Um rubor de infinito<br \/>\n    contentamento subiu-lhe ao rosto macerado, que ficou im&oacute;vel, sorrindo:<br \/>\n    &#8211; e a boa fiandeira partiu desta terra para o al&eacute;m..<\/p>\n<h2><a name=\"4\">Cap&iacute;tulo IV<\/a><\/h2>\n<p>A cerejeira na horta estava coberta de cerejas: o lenhador outra vez trabalhava<br \/>\n    nos soutos, desde o cantar da calhandra: &#8211; e a vi&uacute;va de um carvoeiro<br \/>\n    da mata vinha, todos os dias, cuidar da cabana e guardar Crist&oacute;v&atilde;o.<br \/>\n    Era uma velha muito magra e sombria, que surdia de entre os pinheiros, encostada<br \/>\n    a um bord&atilde;o, acompanhada por um gato negro. Nos primeiros dias, a cada<br \/>\n    passo, agachada sobre o lume, ou fiando &agrave; porta, voltava para os membros<br \/>\n    imensos de Crist&oacute;v&atilde;o com inquieta&ccedil;&atilde;o os seus olhinhos<br \/>\n    luzidios, que os grossos p&ecirc;los das sobrancelhas cobriam. Aquele ser<br \/>\n    disforme, que o pai chamava &quot;o menininho&quot;, e que ela vinha guardar,<br \/>\n    enchia-a de espanto, quando erguia at&eacute; &agrave; boca o enorme c&acirc;ntaro<br \/>\n    cheio de &aacute;gua, ou tapava toda a porta da horta, parado, a chupar o<br \/>\n    dedo, a olhar para o Sol. Debalde o bom lenhador lhe afian&ccedil;ara a sua<br \/>\n    mansid&atilde;o a sua simplicidade: a velha serradeira temia aquela mansid&atilde;o<br \/>\n    muda, como uma toca escura e sem ru&iacute;do, de onde podia surtir uma fera.<br \/>\n    Mas quando, durante longos dias, ela o viu quieto sob a cerejeira, sorrindo<br \/>\n    &agrave;s formigas que lhe trepavam pelas pernas j&aacute; peludas, ou, encruzado<br \/>\n    diante da horta, pasmar, chupando um teto, para o fuso que ela fiava &#8212;<br \/>\n    a velha reconheceu a sua simplicidade, e considerou que ele era como um animal<br \/>\n    caseiro, porco gordo ou borrego, que pertencesse &agrave; choupana. Para n&atilde;o<br \/>\n    sentir mesmo pousados nela aqueles olhos azulados e sem brilho, e aquele corpo<br \/>\n    disforme atravancando a cabana, tapando a luz, empurrava-o para a horta, e<br \/>\n    l&aacute; lhe levava, ao bater do meio dia, a sopa e a ra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de broa, numa grande malga, que pousava no ch&atilde;o: e Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    ali passava os seus dias, sentado, remexendo a terra com os dedos lentos e<br \/>\n    vagos, seguindo o ramalhar das folhas, ou, a passos lentos, rente da sebe,<br \/>\n    alongava para os campos, para os arvoredos de al&eacute;m, o olhar pasmado<br \/>\n    e sem brilho, com a quieta&ccedil;&atilde;o do boi farto. A serradeira, no<br \/>\n    entanto, varria o ch&atilde;o, areava as ferragens do arm&aacute;rio, batia<br \/>\n    o colch&atilde;o do catre, ou sentada &agrave; porta fiava at&eacute; que,<br \/>\n    &agrave;s Trindades, soavam no caminho os guizos da &eacute;gua branca, que<br \/>\n    o bom lenhador trazia &agrave; r&eacute;dea.<\/p>\n<p>Logo &agrave; porta a velha, apertando as m&atilde;os, contava como Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    se conservava quieto, e t&atilde;o bom, brincando na horta ou atento &agrave;s<br \/>\n    hist&oacute;rias, que ela sabia, de fadas e de mouros. O lenhador, co&ccedil;ava<br \/>\n    a barba, contente: &#8211; e Crist&oacute;v&atilde;o, diante da lareira, onde a<br \/>\n    lenha estalava, sorria, pasmadamente, sacudindo as m&atilde;os cheias de terra.<\/p>\n<p>Quando os frios vieram, a serradeira, &agrave;s vezes, ao lidar na cabana,<br \/>\n    gemia, esfregando os joelhos. Crist&oacute;v&atilde;o arregalava para ela<br \/>\n    os olhos compadecidos. E um dia que ela coxeava, gemia mais, saindo para a<br \/>\n    fonte, Crist&oacute;v&atilde;o timidamente tocou na asa do grosso c&acirc;ntaro<br \/>\n    de barro, murmurando, muito vermelho: &quot;Eu vou&quot;. Espantada, ela deixou,<br \/>\n    ficou &agrave; porta vendo Crist&oacute;v&atilde;o desaparecer entre os olmos<br \/>\n    e logo voltar, subindo a vereda, sob a chuva fria, com o c&acirc;ntaro que<br \/>\n    lhe pesava menos no bra&ccedil;o estendido que uma malga ligeira. Todo ele<br \/>\n    sorria, com um contentamento profundo. A velha limpou-lhe os cabelos molhados<br \/>\n    &#8212; e, pela vez primeira, desde que guardava a cabana, tomando Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    como um ser humano, falou das dores dos seus pobres ossos, no seu homem que<br \/>\n    lhe deixara a velhice sem p&atilde;o, na morte que vinha perto com uma grande<br \/>\n    foice. Mas a face que Crist&oacute;v&atilde;o erguia para ela, agachado &agrave;<br \/>\n    lareira, voltara &agrave; imobilidade, sem alma e sem calor, de uma face feita<br \/>\n    de pedra. E foi para o seu velho gato, que tomara no rega&ccedil;o, n&atilde;o<br \/>\n    para Crist&oacute;v&atilde;o, que a serradeira prolongou, no sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    os queixumes da sua velhice. Nessa tarde, por&eacute;m, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    varreu a cabana com a vassoura que a velha, coxeando e gemendo, lhe metera<br \/>\n    nas m&atilde;os.<\/p>\n<p>E, desde ent&atilde;o, ele come&ccedil;ou a fazer pouco a pouco todos os<br \/>\n    trabalhos dom&eacute;sticos. Atrav&eacute;s do longo inverno a serradeira<br \/>\n    n&atilde;o se moveu mais do canto da lareira, fiando na sua roca, com o gato<br \/>\n    agachado aos p&eacute;s. Crist&oacute;v&atilde;o ia encher a bilha &agrave;<br \/>\n    fonte, acendia a lareira, areava as panelas, polia as ferragens do arm&aacute;rio,<br \/>\n    batia os colch&otilde;es dos catres &#8212; e mesmo aos s&aacute;bados, numa<br \/>\n    dorna cheia de &aacute;gua quente e cinza, fazia a barrela da roupa. E, em<br \/>\n    todos estes servi&ccedil;os, punha uma aplica&ccedil;&atilde;o, um interesse<br \/>\n    profundo. Todo o seu imenso corpo se tornava mais &aacute;gil, mais pronto.<br \/>\n    J&aacute; dos seus grossos l&aacute;bios, que s&oacute; se alargavam num sorrir<br \/>\n    pasmado e morto, sa&iacute;am murm&uacute;rios vivos: &quot;Est&aacute; bem!<br \/>\n    Ficou bem&#8230; Crist&oacute;v&atilde;o limpou!&quot;<\/p>\n<p>&Agrave; noite, &agrave; ceia, esfarelando com lentid&atilde;o a broa no<br \/>\n    caldo, o lenhador contemplava com espanto o seu Crist&oacute;v&atilde;o, que<br \/>\n    lhe parecia diferente, mais atento, desentorpecido, conhecendo j&aacute; que<br \/>\n    ele abatia &aacute;rvores numa floresta, que a &eacute;gua branca, e as terras,<br \/>\n    e os gados que pastavam, pertenciam a um Senhor, e que aos domingos se descansava<br \/>\n    para visitar Deus na sua casa, onde os sinos cantavam no ar. Mas o que encantava<br \/>\n    o bom lenhador era o cuidado novo de Crist&oacute;v&atilde;o em o servir &#8212;<br \/>\n    desejo que lhe nascera no cora&ccedil;&atilde;o de repente, sem que ningu&eacute;m<br \/>\n    l&aacute; o semeasse. Mal o sentia subindo das terras, ia, com o seu andar<br \/>\n    embalado e lento, tomas as r&eacute;deas da &eacute;gua, para a levar ao curral,<br \/>\n    onde a palha estava serrotada, e o balde cheio de &aacute;gua; na cabana,<br \/>\n    de joelhos, desapertava-lhe os cord&otilde;es das grossas botas de couro,<br \/>\n    que a lama cobria; e estendia diante do lume, com cuidado o seu surr&atilde;o<br \/>\n    de estamenha, trespassado das umidades da mata. O bom lenhador murmurava,<br \/>\n    radiante, como um bem-aventurado: &quot;Foi Deus que te mandou, filho meu!&quot;<br \/>\n    E nos olhos com que Crist&oacute;v&atilde;o lhe sorria, ele, apesar de rude<br \/>\n    e simples, percebia uma claridade, um brilho desacostumado. O seu inocente<br \/>\n    j&aacute; pensava, j&aacute; compreendia. P&aacute;lida e ainda hesitante,<br \/>\n    mas certa e de todo vis&iacute;vel, uma almazinha despontava naquele corpo<br \/>\n    imenso, como uma pequena luz numa grande torre.<\/p>\n<p>Depois da ceia, aproveitando o resto do candil, o lenhador tinha j&aacute;<br \/>\n    o contentamento inef&aacute;vel de conversar com o seu filho, como outrora<br \/>\n    com a sua boa companheira &#8212; contar o seu duro dia na mata, a &aacute;rvore<br \/>\n    que fora derrubada, as madeiras vendidas para as obras do Mosteiro, as queixas<br \/>\n    dos serradores contra o senhor senescal. O seu pobre lar perdia a frialdade<br \/>\n    e o sil&ecirc;ncio, que at&eacute; a&iacute;, engolido tristemente o caldo,<br \/>\n    o fazia estirar no catre vi&uacute;vo; t&atilde;o triste que at&eacute; o<br \/>\n    ramalhar dos sobreiros lhe parecia como um gemer humano. Agora tinha um companheiro<br \/>\n    humano &#8212; e podia, com felicidade, come&ccedil;ar a envelhecer.<\/p>\n<p>Teve ent&atilde;o orgulho do seu filho, desejou que aldeia o conhecessem.<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o crescia sempre &#8212; e era j&aacute;, antes dos<br \/>\n    dez anos, como um homem de grande corpo e de grande for&ccedil;a, que conservasse,<br \/>\n    na face lisa e sem barba nem penugem, a candidez de uma crian&ccedil;a, alta<br \/>\n    apenas como uma sebe. Um cabelo ruivo e encaracolado, que lhe nascia nas sobrancelhas<br \/>\n    cerradas, cobria-lhe a cabe&ccedil;a pequenina, como um barrete muito justo<br \/>\n    de l&atilde; de carneiro, at&eacute; o pesco&ccedil;o, onde os m&uacute;sculos<br \/>\n    tinham a sali&ecirc;ncia, a rijeza, a amplid&atilde;o dos de um touro. A boca<br \/>\n    larga constantemente se alargava mais num sorrir para tudo, de candidez e<br \/>\n    pasmo. E os seus olhinhos, pequeninos como contas azuis, tinham uma do&ccedil;ura<br \/>\n    que se derramava, em redor, como uma car&iacute;cia vagarosa e compassiva.<br \/>\n    Todos os seus vastos membros se moviam com uma lentid&atilde;o t&iacute;mida:<br \/>\n    e, mesmo para descer &agrave; fonte ou contornar a sebe da horta, se acostumara<br \/>\n    a trazer um bord&atilde;o, a que apoiava, quando parado, as duas m&atilde;os<br \/>\n    enormes, e por cima o queixo pesado, marcado com uma cova funda. De uma pe&ccedil;a<br \/>\n    de camel&atilde;o azul, que o pai h&aacute; muito guardava na arca, o alfaiate<br \/>\n    dos pajens do castelo talhara-lhe um capuz de romeira, e um gib&atilde;o direito<br \/>\n    como um saco que, franzido na cinta por uma tira de couro, ca&iacute;a em<br \/>\n    pregas longas e grossas sobre as botas escarlates, com relevos cosidos de<br \/>\n    cordov&atilde;o amarelo. E, assim enroupado e limpo como um filho de mercador,<br \/>\n    o levava o pai todos os domingos, sorrindo de orgulho, pelos caminhos, &agrave;<br \/>\n    missa na aldeia.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o penetrava na velha igreja, de muros severos como<br \/>\n    os de uma cidadela, com um enleio, um medo vago. Ele sabia que aquela alta<br \/>\n    casa de pedra, com l&acirc;mpadas que rebrilhavam, era de Deus Nosso Senhor,<br \/>\n    que tinha uma assim em cada aldeia, onde, nos dias quietos e silenciosos em<br \/>\n    que n&atilde;o se trabalhava, o povo, vestido de panos novos, o vinha visitar<br \/>\n    e louvar. E desde o domingo de Maio, em que ele descera da cabana, atrav&eacute;s<br \/>\n    dos campos verdes, entre as sebes de madressilvas, para ouvir a sua primeira<br \/>\n    missa, sempre aquela casa de Deus Nosso Senhor deixara, na sua alma simples,<br \/>\n    o terror de um lugar muito rico, muito triste, e todo cheio de mist&eacute;rio.<br \/>\n    Uma grande sombra fria ca&iacute;a das ab&oacute;badas escuras. Todas as imagens,<br \/>\n    sobre os altares, l&iacute;vidas, emaciadas, pareciam sofrer: &#8211; o mo&ccedil;o<br \/>\n    nu que torcia o corpo amarrado a uma &aacute;rvore, e trespassado de flechas;<br \/>\n    a rainha, t&atilde;o triste, sob a sua coroa de ouro, e no seu manto de cetim,<br \/>\n    com o cora&ccedil;&atilde;o varado por sete espadas; o monge, com um resplendor<br \/>\n    de prata, que mostrava as chagas das m&atilde;os abertas. Em tocheiros de<br \/>\n    ouro lavrado ardiam longos lumes de tristeza. Panos de veludo, de seda, com<br \/>\n    recamos rebrilhantes, tapavam recantos de onde por vezes sa&iacute;a como<br \/>\n    o murm&uacute;rio de um gemido. Toda a multid&atilde;o dobrava para as lajes<br \/>\n    as faces cheias de um pensar triste. E a faixa de luz de uma fenda, aberta<br \/>\n    na muralha, alumiava a melancolia maior, o Homem pregado numa cruz com pregos,<br \/>\n    com sangue vivo nos joelhos, no peito, nos p&eacute;s, que erguia a face atormentada<br \/>\n    para o C&eacute;u e parecia chamar, num abandono. E assim, pois, era a casa<br \/>\n    do Senhor, cheia de ouros, de sangue que escorria, de veludos magn&iacute;ficos,<br \/>\n    de tristeza e de mudez!<\/p>\n<p>Diante do altar maior, no entanto, um velho, todo calvo, coberto com uma<br \/>\n    capa resplandecente, alargava os bra&ccedil;os, beijava a toalha bordada da<br \/>\n    ara, voltava as folhas de um grande livro, ofertava para as alturas um bolo<br \/>\n    de farinha muito alva, bebia por um copo onde j&oacute;ias faiscavam. Voltado<br \/>\n    para ele, ao lado do pai, Crist&oacute;v&atilde;o ajoelhava como o pai sobre<br \/>\n    as lajes, tra&ccedil;ava uma cruz sobre a testa, martelava o peito com os<br \/>\n    seus punhos duros: &#8211; mas permanecia t&atilde;o insens&iacute;vel e alheio<br \/>\n    &agrave; adora&ccedil;&atilde;o que ante ele se desenrolava, como o pilar<br \/>\n    de uma pedra escura, a que findava, por se encostar, fatigado daquela melancolia<br \/>\n    da casa de Deus. Os olhos ent&atilde;o embebiam-se numa grande pomba branca,<br \/>\n    que se conservava im&oacute;vel, com as asas abertas, por cima do sacr&aacute;rio,<br \/>\n    e que cada domingo o atra&iacute;a mais, sempre ali, fiel, paciente, sem que<br \/>\n    uma das suas pe&ccedil;as estremecesse: s&oacute; ela era doce, alegre, natural,<br \/>\n    na sua brancura ador&aacute;vel, e macia &agrave; vista: com um bico claro,<br \/>\n    patas rosadas, s&oacute; ela n&atilde;o tinha, no seu corpo de pomba, nem<br \/>\n    ouro, nem sangue: natural, e igual &agrave;s outras pombas, s&oacute; ela<br \/>\n    o n&atilde;o assustava, nem deslumbrava: &#8211; e Crist&oacute;v&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    compreendia porque se conservava ali naquela sombra fria, entre granitos,<br \/>\n    ao lado de agonias e dores, e n&atilde;o vinha voar e arrulhar com as outras,<br \/>\n    sobre os castanheiros do adro.<\/p>\n<p>O seu incerto pensamento ia ent&atilde;o para os prados que atravessara,<br \/>\n    descendo das cabanas, para a verde frescura do choupal, para o sol que aquecia<br \/>\n    os lagartos dormindo nas pedras brancas. Teria decerto gostado de ficar l&aacute;,<br \/>\n    pelos campos, pela beira do rio, todo o longo domingo, sentindo a erva fresca<br \/>\n    entre os joelhos, ro&ccedil;ando a m&atilde;o pela frescura das ramagens baixas.<br \/>\n    Mas nos domingos era necess&aacute;rio visitar, louvar a Deus Nosso Senhor.<br \/>\n    S&oacute; assim, como lhe afirmava o pai, se subia depois ao C&eacute;u. Ele,<br \/>\n    decerto, iria uma dia para o C&eacute;u. E uma inquieta&ccedil;&atilde;o passava<br \/>\n    na sua alma, porque o C&eacute;u, como a Igreja, se lhe afigurava escuro,<br \/>\n    pesado, com ouros, grandes panos de seda. Homens cobertos de sangue, Rainhas<br \/>\n    com o pobre cora&ccedil;&atilde;o varado de espadas &#8212; um s&iacute;tio,<br \/>\n    al&eacute;m, nas alturas, muito rico, e muito triste. Quanto melhor a horta<br \/>\n    em que vivia, com a cerejeira, a sebe de madressilva, e a salsa junto da dorna!<br \/>\n    Um rumor passava entre os pilares de pedra, todas as faces sorriam, mais claras.<br \/>\n    O senescal descia do seu banco, a missa findara. E um contentamento enchia<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o de Crist&oacute;v&atilde;o, tornando a ver os castanheiros<br \/>\n    do adro.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, pouco a pouco, tomou mais familiaridade com florestas e prados.<br \/>\n    J&aacute; corria a sua grossa m&atilde;o sobre a do&ccedil;ura dos musgos;<br \/>\n    trepava aos troncos para espreitar para dentro da densid&atilde;o das folhagens;<br \/>\n    estirava-se no meio das relvas altas, rolando os seus cabelos crespos pela<br \/>\n    brancura das margaridas. E ao mesmo tempo descobria, dentro de toda esta natureza,<br \/>\n    uma vida m&uacute;ltipla, vasta, ativa e maravilhosa. A terra, que ele remexia<br \/>\n    com seus dedos grossos, estava toda mole dos vermes que a habitavam; cada<br \/>\n    hastezinha de relva abrigava um povo de insetos, mais numerosos que a gente<br \/>\n    da aldeia, aos domingos, sob os castanheiros do adro; cada folha cobria uma<br \/>\n    asa; nas espessuras, longos dorsos peludos ro&ccedil;avam as suas pernas lentas;<br \/>\n    olhinhos brilhantes espreitavam de entre a negrura das tocas; o restolhar<br \/>\n    dos matos dizia a passagem das feras. Um confuso, obscuro amor por todos estes<br \/>\n    seres, crescia no seu cora&ccedil;&atilde;o simples. Passava horas encantadas,<br \/>\n    estirado nas ervas &agrave; beira de uma po&ccedil;a clara, admirando os insetos<br \/>\n    de grandes patas que riscam a &aacute;gua lisa; chamava com as m&atilde;os,<br \/>\n    sorrindo, todos os veados que, &agrave; orla das clareiras, subitamente mostravam<br \/>\n    a face majestosa e s&eacute;ria, entre os troncos dos castanheiros; e parava<br \/>\n    nos carreiros verdes de umidade e musgo para acariciar o dorso dos sapos.<\/p>\n<p>Assim a floresta se lhe tornava familiar e &iacute;ntima, e nela passava<br \/>\n    os dias, nos retiros mais densos, enterrado entre as verduras, agachado contra<br \/>\n    uma rocha, de bru&ccedil;os sobre uma po&ccedil;a de &aacute;gua, sem se mover,<br \/>\n    vegetando na do&ccedil;ura infinita de sentir os seus longos cabelos emaranhados<br \/>\n    nas folhas, os ombros aquecidos pelo mesmo sol que batia nas pedras, as r&atilde;s<br \/>\n    saltando sobre os seus p&eacute;s como sobre troncos meio enterrados nas ervas<br \/>\n    &uacute;midas. S&oacute; a fome o fazia recolher &agrave; cabana. Os seus<br \/>\n    passos desprendiam-se a custo, como se j&aacute; tivesse ra&iacute;zes: todo<br \/>\n    ele cheirava a torr&atilde;o e umidade, e era, na penumbra da tarde, como<br \/>\n    um tronco que se separava dos outros troncos. Crescera t&atilde;o prodigiosamente<br \/>\n    que se agachava para transpor a porta da cabana. Como nenhuma tripe&ccedil;a<br \/>\n    sustentava o seu peso, sentava-se no ch&atilde;o diante da lareira aos p&eacute;s<br \/>\n    do pai, embebido no espanto, na admira&ccedil;&atilde;o daquela for&ccedil;a.<\/p>\n<p>O bom lenhador ent&atilde;o j&aacute; lhe n&atilde;o dizia ao partir para<br \/>\n    a mata: &quot;Crist&oacute;v&atilde;o, n&atilde;o saias da nossa horta, que<br \/>\n    te pode vir mal&quot;. E pouco a pouco come&ccedil;ou ent&atilde;o a percorrer,<br \/>\n    maravilhado, os prados, as bordas do rio, os densos arvoredos, para que tantas<br \/>\n    vezes da porta da cabana se tinham alongado os seus olhos pasmados e vagos.<br \/>\n    Lento e incerto, como uma r&ecirc;s tresmalhada, descia pelos caminhos abertos,<br \/>\n    orlados de sebes, parando a cada passo, ficando a pasmar para os trigais altos,<br \/>\n    para os longos prados, macios e doces &agrave; vista como veludo verde, todos<br \/>\n    avivados de margaridas, papoulas e bot&otilde;es-de-ouro; cortando pelos choupais,<br \/>\n    ia admirar, durante longas e mudas horas, o correr e o brilhar do grande rio;<br \/>\n    ou penetrava sob os pinheirais, onde se esquecia at&eacute; o entardecer,<br \/>\n    vago e pensativo, respirando com espanto e amor a frescura, o sil&ecirc;ncio<br \/>\n    e o aroma das resinas. Depois recolhia &agrave; cabana devagar, com os bra&ccedil;os<br \/>\n    ca&iacute;dos, a face no ar, risonha e contente.<\/p>\n<p>De noite sonhava com ramagens tenras que lhe acariciavam a face, com &aacute;guas<br \/>\n    claras e frias que fugiam, cantando, entre os seus p&eacute;s nus, enterrados<br \/>\n    na areia. E quando de manh&atilde; outra vez, fechando o loquete de pau da<br \/>\n    cabana, descia para os campos, era em todo o seu cora&ccedil;&atilde;o como<br \/>\n    um desejo de abra&ccedil;ar, num abra&ccedil;o inteiro, toda a terra que via,<br \/>\n    desde as flores silvestres dos caminhos at&eacute; a vasta floresta que cobria<br \/>\n    as colinas, magn&iacute;fica e sombria. Mas era nele como uma timidez, um<br \/>\n    pudor, que o retinha mesmo de tocar nas amoras&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"5\">Cap&iacute;tulo V<\/a><\/h2>\n<p>Os pajens que pela tarde vinham &agrave; fonte rir com as mo&ccedil;as, tendo<br \/>\n    falado dele, nas veladas do castelo, o castel&atilde;o quis v&ecirc;-lo. E<br \/>\n    uma manh&atilde;, seguido do pai que pusera os seus melhores trajes, subiu<br \/>\n    &agrave; colina, que levava &agrave; ponte levadi&ccedil;a. Dois arqueiros,<br \/>\n    com sai&otilde;es de couro, guardavam a porta; e os molossos no p&aacute;tio<br \/>\n    puxavam furiosamente as correntes que os prendiam, ladrando, com as patas<br \/>\n    erguidas, contra o gigante que passava. A fachada do castelo erguia-se majestosamente,<br \/>\n    com um alto port&atilde;o ogival sobre os degraus de m&aacute;rmore, duas<br \/>\n    torres aos cantos com telhados agudos, cobertos de lousas em escamas; e a<br \/>\n    cada janela havia um vaso de barro amarelo, onde crescia uma craveiro.<\/p>\n<p>Um pajem levou-o pela escada, e tendo erguido uma tape&ccedil;aria, deixou-o<br \/>\n    numa sala, em ab&oacute;bada, onde um tronco de &aacute;rvore ardia sob uma<br \/>\n    alta chamin&eacute;, e lan&ccedil;as agudas brilhavam encostadas &agrave;s<br \/>\n    paredes nuas e frias. Um galgo branco entrou correndo e pulando, e logo atr&aacute;s<br \/>\n    o castel&atilde;o e uma dama apareceram, com pajens que os seguiam. e um padre<br \/>\n    que trazia nas m&atilde;os um brevi&aacute;rio. Uma t&uacute;nica de veludo<br \/>\n    orlada de peles envolvia o corpo magro do Senhor, caindo sobre os sapatos<br \/>\n    pontiagudos, tamb&eacute;m orlado de peles. A barba ruiva avan&ccedil;ava,<br \/>\n    dura e pontiaguda: o nariz era como o de um abutre: e sob o barrete de veludo,<br \/>\n    a grenha crespa, fugia para tr&aacute;s, como uma romeira hirta. O alto beguin<br \/>\n    da dama ro&ccedil;ava quase o alto da porta; o seu vestido escuro arrastava<br \/>\n    nas lajes, e os olhos baixos pareciam contemplar as m&atilde;os ca&iacute;das<br \/>\n    e cruzadas, mais p&aacute;lidas que cera, de onde pendia um ros&aacute;rio.<br \/>\n    Um tru&atilde;o ao cada lado deles, an&atilde;o e corcunda, pousava com um<br \/>\n    orgulho burlesco a m&atilde;o nos grossos copos de uma espada de pau.<\/p>\n<p>O pai de Crist&oacute;v&atilde;o ca&iacute;ra de joelhos, e como Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    permanecia de p&eacute;, com o seu barrete de pele debaixo do bra&ccedil;o,<br \/>\n    ele puxava-o pelo saio para que ajoelhasse tamb&eacute;m. Os seus joelhos<br \/>\n    por fim vergaram, ressoaram nas lajes. E diante do Senhor, puxando entre os<br \/>\n    dedos os p&ecirc;los da barba dura, a dama com um sorriso t&iacute;mido, e<br \/>\n    o capel&atilde;o de m&atilde;os cruzadas no ventre, contemplavam os grossos<br \/>\n    membros de Crist&oacute;v&atilde;o. A uma ordem do Senhor, ele ergueu-se,<br \/>\n    deu um passo. O senhor apalpou-lhe os m&uacute;sculos, puxou-lhe mesmo a carapinha:<br \/>\n    &#8211; depois, a nova ordem sua, tr&ecirc;s homens trouxeram uma enorme espada<br \/>\n    de ferro, enferrujada, que parecia a clava de H&eacute;rcules. Com um movimento<br \/>\n    ligeiro, Crist&oacute;v&atilde;o brandiu-a no ar. Ent&atilde;o o tru&atilde;o,<br \/>\n    arrancando a sua espada de pau, avan&ccedil;ou para Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    com os ademanes de um espadachim: os guizos do seu barrete tilintavam; a sua<br \/>\n    corcunda torcia-se grotescamente; e com uma vozinha esguia, gritava: &quot;Peravante!<br \/>\n    Deus o manda!&quot; Ent&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o baixou a espada de<br \/>\n    ferro; a sua boca fendeu-se, mostrou uma cavidade imensa &#8212; e saiu ela<br \/>\n    uma risada enorme, troante, ressoante. que abalou os vidros nos seus caixilhos<br \/>\n    de chumbo. A dama tapou os ouvidos com as m&atilde;os p&aacute;lidas; os pajens<br \/>\n    por tr&aacute;s abafaram o riso; &#8211; e com um gesto de sua m&atilde;o cabeluda,<br \/>\n    o Senhor mandou que conduzissem Crist&oacute;v&atilde;o &agrave;s cozinhas.<\/p>\n<p>Embaixo, na cozinha, sob a alta chamin&eacute;, grandes pe&ccedil;as de carne,<br \/>\n    em espetos, assavam diante de uma fogueira enorme que estalava &#8212; enquanto<br \/>\n    que, nas ca&ccedil;arolas suspensas de correntes de ferro, a &aacute;gua fervia<br \/>\n    fazendo palpitar as tampas. Os cozinheiros, com rolos de pau muito branco,<br \/>\n    enrolavam as massas; um jorro de &aacute;gua cantava numa bacia de pedra;<br \/>\n    e duas aias muito velhas, sentadas em escabelos, fiavam junto da janela, onde<br \/>\n    cresciam manjeric&otilde;es. Um servo trouxe uma malga enorme, onde uma enorme<br \/>\n    colher de pau vinha espetada na espessura dos legumes e das febras de carne.<br \/>\n    Com a cabe&ccedil;a baixa, Crist&oacute;v&atilde;o devorava: &#8211; mas, junto<br \/>\n    da porta escura, subiam, vindos de baixo, gemidos de homens como no esfor&ccedil;o<br \/>\n    de carregar um fardo muito pesado: Crist&oacute;v&atilde;o deixou a colher,<br \/>\n    limpou a boca com as costas da m&atilde;o, e desapareceu sob o arco escuro:<br \/>\n    e da&iacute; a momentos subia trazendo &agrave;s costas uma vasta pipa de<br \/>\n    arcos de ferro: atr&aacute;s vinham dois homens, limpando ainda o suor, a<br \/>\n    arquejar. Para recompensar Crist&oacute;v&atilde;o, o cozinheiro ofereceu-lhe<br \/>\n    uma terrina cheia de vinho: ele bebia lentamente, segurando-a nas duas m&atilde;os,<br \/>\n    com os olhos cerrados.<\/p>\n<p>Depois, apanhando o seu barrete de pele de coelho, saiu. As aias corriam<br \/>\n    &agrave;s janelas para o ver. De sobre as ameias os homens de armas debru&ccedil;avam-se:<br \/>\n    ele caminhava, confuso, co&ccedil;ando devagar a grenha.<\/p>\n<p>No entanto o Inverno sobreveio. Os caminhos estavam brancos de neve. E sobre<br \/>\n    os ramos descarnados e nus, os p&aacute;ssaros ca&iacute;am mortos. Uma tarde<br \/>\n    o pai de Crist&oacute;v&atilde;o voltou p&aacute;lido da floresta, e sentou-se<br \/>\n    &agrave; porta a olhar o Sol que descia ao fundo do vale. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    estava adiante, sentado, encabando toscamente uma l&acirc;mina de foice. Quando<br \/>\n    o Sol se sumiu sentiu por tr&aacute;s um gemido: voltou-se: &#8211; o pai estava<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a ca&iacute;da contra a parede da casa, a m&atilde;o sobre<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o. De noite, os gritos de Crist&oacute;v&atilde;o atroavam<br \/>\n    na aldeia. Vieram homens com forquilhas, mulheres encolhidas nos mant&eacute;us,<br \/>\n    erguendo, diante da face, uma lanterna. O cad&aacute;ver estava estirado no<br \/>\n    ch&atilde;o sob um len&ccedil;ol. E &agrave; porta, que enchia com seu vasto<br \/>\n    corpo, Crist&oacute;v&atilde;o chorava estridentemente.<\/p>\n<p>Dois dias, duas noites, Crist&oacute;v&atilde;o ficou estendido &agrave;<br \/>\n    porta com a face contra o ch&atilde;o: por vezes um solu&ccedil;o sacudia-o<br \/>\n    todo; depois a sua imensa forma era t&atilde;o im&oacute;vel como os roncos<br \/>\n    em redor, derrubados e r&iacute;gidos. O Inverno e a fome tinham espalhado<br \/>\n    pelos caminhos gente sinistra, que assaltava os casebres. Um bando veio sutilmente<br \/>\n    numa dessas noites: e, penetrando pela janela aberta, roubou tudo dentro,<br \/>\n    os vestidos, as ferramentas, o gr&atilde;o da arca, as roupas do catre &#8212;<br \/>\n    enquanto prostrado, Crist&oacute;v&atilde;o ressonava lentamente, como o ru&iacute;do<br \/>\n    de um rio na escurid&atilde;o.<\/p>\n<p>De manh&atilde;, vendo o casebre vazio, Crist&oacute;v&atilde;o desarraigou<br \/>\n    um choupo novo, limpou-o de todos os ramos, e apoiando-se ao vasto tronco<br \/>\n    subiu pelo monte, desapareceu.<\/p>\n<h2><a name=\"6\">Cap&iacute;tulo VI<\/a><\/h2>\n<p>Durante um ano viveu na serra. E pouco a pouco, naquela solid&atilde;o, longe<br \/>\n    de toda a vida humana, ele quase perdeu a sua humanidade, e foi como um peda&ccedil;o<br \/>\n    da montanha que o cercava. Sentado durante dias, im&oacute;vel, os seus grossos<br \/>\n    membros broncos n&atilde;o se distinguiam das rochas: o mesmo vendaval esguedelhava-lhe<br \/>\n    os cabelos e as ramarias das &aacute;rvores: e a sua voz, quando se erguia,<br \/>\n    confundia-se com rugir das torrentes. As feras n&atilde;o tinham medo dele;<br \/>\n    as aves pousavam sobre os seus bra&ccedil;os como sobre os troncos dobrados.<br \/>\n    A serra era solit&aacute;ria. Outrora vivera l&aacute; um ermita, mas as penit&ecirc;ncia<br \/>\n    tinham-no extenuado. Um anjo descera a busc&aacute;-lo, e a cabana que ele<br \/>\n    habitava desfizera-se, prancha a prancha, sob os chuveiros de Inverno. Durante<br \/>\n    um ano Crist&oacute;v&atilde;o n&atilde;o vira um olhar humano pousar-se nele,<br \/>\n    nem uma voz humana tinha alegrado o seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quase esquecera os homens: e no seu esp&iacute;rito simples apenas muito<br \/>\n    confusamente restava a mem&oacute;ria dos casais, dos lugares e das crian&ccedil;as<br \/>\n    rindo atr&aacute;s da sebe. Os seus dias passava-os im&oacute;vel, olhando:<br \/>\n    por vezes movia um bra&ccedil;o com a lentid&atilde;o de um ramo sacudido<br \/>\n    da aragem: e quando os trov&otilde;es estalavam, erguia um instante a face<br \/>\n    para o c&eacute;u; depois, reca&iacute;a na sua imobilidade.<\/p>\n<p>Um dia, por&eacute;m, sentiu tilintar guizos, e vozes que falavam. E por<br \/>\n    tr&aacute;s de umas rochas surgiu uma fileira de mulas carregadas que homens<br \/>\n    armados conduziam. Como a noite descia, os homens pararam numa clareira: da&iacute;<br \/>\n    a pouco ardia um fogo claro, tapetes juncavam o ch&atilde;o, e os homens sentados<br \/>\n    em roda, passavam de m&atilde;o em m&atilde;o um pichel de vinho. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    toda a noite, de entre a floresta, os espreitou: &#8211; e uma curiosidade infinita<br \/>\n    tomava-o de ouvir de perto as suas falas, beber do pichel, aquecer-se do fogo<br \/>\n    claro. Se eles quisessem , ele conduziria alguns dos fardos.<\/p>\n<p>Um estranho, singular impulso o levara a querer bem &agrave;queles homens<br \/>\n    &#8212; e toda a noite rondou para que as feras n&atilde;o atacassem o rancho.<\/p>\n<p>De manh&atilde;, eles enrolaram os tapetes: a longa fila de machos desceu<br \/>\n    a encosta, e os guizos que tilintavam perderam-se pelas quebradas.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, um frio estranho, um frio que ele n&atilde;o compreendia, que<br \/>\n    n&atilde;o vinha do vento, nem da neve, arrefeceu Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    at&eacute; o cora&ccedil;&atilde;o. E, atrav&eacute;s da sua simplicidade,<br \/>\n    sentia que n&atilde;o teria tanto frio, se ouvisse outras vezes vozes humanas,<br \/>\n    e os passos de animais conduzindo fardos, e uma fogueira acesa por m&atilde;os<br \/>\n    de homens.<\/p>\n<p>Come&ccedil;ou ent&atilde;o a percorrer a serra, os desfiladeiros, os barrancos,<br \/>\n    os vales, os bosques, as rochas que conhecia. E de cada vez aquela sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de frio o mordia tanto, e tanto, que subitamente se sentiu como exausto: a<br \/>\n    cabe&ccedil;a pendeu-lhe entre as m&atilde;os e grandes l&aacute;grimas rolaram-lhe<br \/>\n    pela face. A tarde ca&iacute;a; a noite veio, cheia de estrelas. E Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    im&oacute;vel, sentia, atrav&eacute;s das l&aacute;grimas, surgirem-lhe como<br \/>\n    vis&otilde;es de coisas desvanecidas, uma velha carregada de lenha, e arquejando<br \/>\n    sob o fardo; crian&ccedil;as que n&atilde;o podiam passar um rio; uma junta<br \/>\n    de bois que n&atilde;o podia puxar um carro carregado e pedras. E um desejo<br \/>\n    imenso vinha-lhe de sacudir aquele frio, trabalhando, carregando o fardo da<br \/>\n    velha, ajudando a junta de bois. Tomou o seu cajado e come&ccedil;ou a descer<br \/>\n    a serra.<\/p>\n<h2><a name=\"7\">Cap&iacute;tulo VII<\/a><\/h2>\n<p>Uma tarde, na fonte, as mulheres viram como uma torre que avan&ccedil;ava:<br \/>\n    as mais novas fugiram de medo, mas outras mais velhas erguiam as m&atilde;os<br \/>\n    e diziam: &quot;&Eacute; Crist&oacute;v&atilde;o! &Eacute; Crist&oacute;v&atilde;o!&quot;<\/p>\n<p>O seu vasto corpo crescera ainda, e a sua grenha ruiva ia mais alta que a<br \/>\n    mais alta das &aacute;rvores; lento nos movimentos, cada um dos seus passos<br \/>\n    parecia despregar-se do ch&atilde;o, com dificuldade; todo ele cheirava a<br \/>\n    torr&atilde;o e a arvoredo; uma barba ruiva, como um capim queimado, cobria-lhe<br \/>\n    a face: e os seus olhos azuis conservavam, como os de uma crian&ccedil;a,<br \/>\n    um espanto perp&eacute;tuo.<\/p>\n<p>Ao chegar junto da fonte baixou a cabe&ccedil;a, bebeu com lentid&atilde;o;<br \/>\n    depois, limpando os bei&ccedil;os, olhava, com um bom sorriso, as mulheres,<br \/>\n    que j&aacute; sem medo, reconhecendo o filho do lenhador, se juntavam em torno<br \/>\n    dele, tocando-lhe com as toucas altas pelo joelho, e erguendo os olhos pasmados<br \/>\n    para as alturas de sua face.<\/p>\n<p>Obtuso de esp&iacute;rito, ele n&atilde;o reconhecia ningu&eacute;m &#8212;<br \/>\n    mas sorria sempre. Pouco a pouco, por&eacute;m, na grande penumbra do seu<br \/>\n    esp&iacute;rito, decerto surgiram certas mem&oacute;rias dos tempos, que,<br \/>\n    ainda, pequeno, era o servo da aldeia, e os seus enormes bra&ccedil;os moveram-se<br \/>\n    com lentid&atilde;o como procurando de novo fardos a levantar, fraquezas a<br \/>\n    socorrer. E quase imediatamente, vendo uma velha que passava, vergada sob<br \/>\n    o molho de lenha, tirou-lho e meteu-o, como uma simples acha, sob o bra&ccedil;o;<br \/>\n    depois como um carro de pedra passava, t&atilde;o pesado que os bois n&atilde;o<br \/>\n    o podiam puxar, desatrelou o gado, tomou o tim&atilde;o. Mas avistando ainda<br \/>\n    o moleiro, que picava o seu velho burro carregado de sacos de farinha, com<br \/>\n    os seus cinco enormes dedos ergueu os fardos do jumento; atirou ainda para<br \/>\n    os ombros um pobre velho, manco, que mal se arrastava &#8212; e assim, com<br \/>\n    o molho de lenha debaixo do bra&ccedil;o, o velho pendurado do pesco&ccedil;o,<br \/>\n    os sacos pendentes da m&atilde;o, o pesado carro de pedra preso pelo outro<br \/>\n    bra&ccedil;o, come&ccedil;ou a caminhar para a aldeia, seguido das mulheres,<br \/>\n    que acenavam para o lado, para as portas dos casais, e gritavam&quot; &quot;&Eacute;<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o! &Eacute; Crist&oacute;v&atilde;o!&quot;<\/p>\n<p>Despojado dos fardos, foi-se sentar no cruzeiro &#8212; e a sua cabe&ccedil;a<br \/>\n    chegava ao seios de Jesus crucificado, e parecia repousar sobre ele. No entanto,<br \/>\n    de toda a aldeia, gente corria a ver Crist&oacute;v&atilde;o. Os homens vinham<br \/>\n    da taberna, limpando &agrave; pressa os bei&ccedil;os; as mulheres vinham<br \/>\n    fiando, outras trazendo ainda na m&atilde;o as hortali&ccedil;as dos caldos.<br \/>\n    As crian&ccedil;as, ao princ&iacute;pio assustadas, vendo que ele lhes estendia<br \/>\n    a m&atilde;o, com um bom riso, saltavam-lhe para cima da palma, e ficavam<br \/>\n    de l&aacute; rindo e acenando com os barretes, como do alto de um eirado.<br \/>\n    O regedor das terras veio por fim diante de Crist&oacute;v&atilde;o rolando<br \/>\n    os olhos redondos, co&ccedil;ando o queixo, e falando baixo ao arqueiro que<br \/>\n    o seguia, desconfiado decerto daqueles fortes m&uacute;sculos, que podiam<br \/>\n    arrasar a aldeia, tudo roubar, e vencer os arqueiros; mas decerto todas as<br \/>\n    suas algemas n&atilde;o eram bastante fortes para algemar aqueles enormes<br \/>\n    pulsos, por onde as crian&ccedil;as trepavam, como por troncos de olmeiros:<br \/>\n    e afastou-se com dignidade, co&ccedil;ando sempre o queixo agudo. Mas duas<br \/>\n    mulas zurravam, por tr&aacute;s do caminho &#8212; e apareceram dois guardi&otilde;es<br \/>\n    do convento, que, decerto avisados, desviavam-se do caminho para ver o enorme<br \/>\n    gigante. Todas as mulheres dobraram os joelhos, e os homens, com os barretes<br \/>\n    na m&atilde;o, baixavam os olhos: &#8211; e ent&atilde;o o mais velho espica&ccedil;ou<br \/>\n    a mula com os calcanhares at&eacute; a fazer parar junto de Crist&oacute;v&atilde;o.<br \/>\n    Para experimentar, com receio que em t&atilde;o grande corpo habitasse Satan&aacute;s,<br \/>\n    fez o sinal da cruz, murmurou tr&ecirc;s vezes o nome de Jesus. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    fez tamb&eacute;m uma cruz sobre a testa. Ent&atilde;o, tranq&uuml;ilo, o<br \/>\n    guardi&atilde;o come&ccedil;ou a andar em volta dele, batendo os calcanhares<br \/>\n    nos ilhais da mula, para o, examinar, como um monumento. E a cada grosso m&uacute;sculo,<br \/>\n    a cada detalhe de for&ccedil;a, uma id&eacute;ia surgia nele: e falava baixo<br \/>\n    ao outro, que aprovava, com um sorriso reverente. Por fim o guardi&atilde;o<br \/>\n    gritou: &quot;Crist&oacute;v&atilde;o, se queres ganhar o teu p&atilde;o,<br \/>\n    vai amanh&atilde;, a matinas, &agrave; portaria do convento.&quot;<\/p>\n<p>Os dois frades picaram as mulas, pouco a pouco a gente recolhera &agrave;s<br \/>\n    casas, de onde sa&iacute;a o fumo das lareiras acesas. Uma a uma, as estrelas<br \/>\n    brilhavam. E Crist&oacute;v&atilde;o s&oacute;, cansado, estirou-se junto<br \/>\n    ao cruzeiro, onde o sacrist&atilde;o veio acender uma l&acirc;mpada.<\/p>\n<p>Estirado de costas, Crist&oacute;v&atilde;o olhava as estrelas. Eram as mesmas<br \/>\n    que ele tantas vezes contemplava na serra: &#8211; mas pareciam-lhe mais brilhantes,<br \/>\n    mais pr&oacute;ximas, e derramando um calor como l&acirc;mpadas que alumiam<br \/>\n    uma morada humana. E ele mesmo, enfim, sentia vir daqueles casebres que em<br \/>\n    volta se acendiam e mandavam o seu fumo para o c&eacute;u, um calor que o<br \/>\n    penetrava at&eacute; o cora&ccedil;&atilde;o. Adormeceu sorrindo.<\/p>\n<p>De manh&atilde;, chegou do outro lado do vale, em frente do mosteiro. Uma<br \/>\n    muralha envolvia-o como a um castelo: &#8211; e por tr&aacute;s da porta, de grossa<br \/>\n    pregaria, os c&atilde;es inquietos agitavam as cadeias de ferro. No p&aacute;tio<br \/>\n    enorme uma faia abrigava a roldana de um po&ccedil;o. Altas fachadas com reixas<br \/>\n    nas janelas, erguiam-se em redor: &#8211; e ao fundo, junto &agrave; entrada da<br \/>\n    capela, havia um banco de pedra onde um guardi&atilde;o lia o brevi&aacute;rio.<\/p>\n<p>Ao ver Crist&oacute;v&atilde;o, fechou o brevi&aacute;rio &#8212; e examinou-lhe<br \/>\n    outra vez, com satisfa&ccedil;&atilde;o, os grandes membros servi&ccedil;ais.<br \/>\n    Depois, por um corredor, alto e fresco, levou-o a um claustro que cercava<br \/>\n    um jardim; ruas areadas contornavam os canteiros de flores; ao meio cantava<br \/>\n    um repuxo; e um espa&ccedil;o, entre paredes que a hera revestia, estava lajeado,<br \/>\n    como ch&atilde;o de igreja. A&iacute; quatro frades, de h&aacute;bitos arrega&ccedil;ados,<br \/>\n    jogavam a bola; outros, mais longe, conversavam ao sol; e sob um caramanch&atilde;o<br \/>\n    o abade dormitava, com as m&atilde;os cruzadas no ventre.<\/p>\n<p>Mas quando Crist&oacute;v&atilde;o apareceu, tudo se interrompeu, todos ergueram<br \/>\n    as faces, um rumor correu de espanto: &#8211; e o guardi&atilde;o diante de Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    que hesitava, com o seu barrete na m&atilde;o, fazia-lhe sinais para o levar<br \/>\n    at&eacute; ao abade.<\/p>\n<p>Sua Senhoria deu um salto na cadeira ao encarar com o monstro. Depois ergueu<br \/>\n    as m&atilde;os ao C&eacute;u, com olhos de piedade. Para mostrar a for&ccedil;a<br \/>\n    de Crist&oacute;v&atilde;o, o guardi&atilde;o mandou-lhe erguer uma pilastra<br \/>\n    partida que jazia no ch&atilde;o. Crist&oacute;v&atilde;o brandiu a pilastra,<br \/>\n    como um simples cajado: e todos os frades recuaram com grandes ahs maravilhados.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o fora trazido para servir no convento, fazendo o trabalho<br \/>\n    de muitos serventes. O rancheiro, por&eacute;m, perguntava se era na realidade<br \/>\n    uma economia &#8212; porque ele igualmente comeria a ra&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    muitos homens. Os frades argumentavam com gravidade. O abade, por&eacute;m,<br \/>\n    decidiu. Al&eacute;m da economia, o convento ganhava a gl&oacute;ria de possuir<br \/>\n    o mais forte de todos os homens. E imediatamente Crist&oacute;v&atilde;o foi<br \/>\n    levado &agrave;s cavalari&ccedil;as para as limpar.<\/p>\n<p>Foi o servo da comunidade &#8212; e sobre ele recaiu todo o servi&ccedil;o<br \/>\n    do convento, onde havia oitenta frades, trinta novi&ccedil;os, e depend&ecirc;ncias<br \/>\n    inumer&aacute;veis. Varria os p&aacute;tios, limpava as mulas, cavava as hortas,<br \/>\n    caiava os muros, carregava os sacos de farinha, acarretava os feixes de lenha<br \/>\n    &#8212; e era ele que trazia das pedreira as grandes pedras para as obras<br \/>\n    da lavanderia. Durante longos meses os seus fortes ossos rangeram sob o trabalho<br \/>\n    violento. Substitu&iacute;a as cavalgaduras, puxando os carros pesados, com<br \/>\n    eixos de ferro. Todo o dia, dentro do convento, na cerca, sob o sol ou sob<br \/>\n    a chuva, a sua forte figura se movia no trabalho cont&iacute;nuo: s&oacute;<br \/>\n    por vezes descansava, para tirar do po&ccedil;o um balde de &aacute;gua, que<br \/>\n    punha &agrave; boca, e secava de um trago. &Agrave; noite, estendido sobre<br \/>\n    as lajes do p&aacute;tio, dormia de um sono de animal, entre os c&atilde;es<br \/>\n    soltos, que lhe punham as patas sobre o peito, como sobre um rebordo de muralhas,<br \/>\n    para ladrar contra os ru&iacute;dos da noite.<\/p>\n<p>Todos os anos, na v&eacute;spera da Candel&aacute;ria, o padre-mestre reunia<br \/>\n    os serventes, e interrogava-os sobre a doutrina. Crist&oacute;v&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de responder, nem sequer enfiar o padre-nosso. N&atilde;o sabia quem<br \/>\n    criara o Mundo &#8212; e eram-lhe desconhecidos os casos do Para&iacute;so.<br \/>\n    Aterrado com t&atilde;o negra ignor&acirc;ncia, o abade ordenou que Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    assistisse &agrave; aula de Hist&oacute;ria Sagrada. O seu imenso corpo n&atilde;o<br \/>\n    cabia nos bancos da escola: &#8211; e o padre-mestre disp&ocirc;s que Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    encostando-se ao muro do p&aacute;tio, aplicasse a cabe&ccedil;a &agrave;<br \/>\n    janela aberta da aula.<\/p>\n<p>Quando a sineta de estudo tocava, Crist&oacute;v&atilde;o chegava ao muro:<br \/>\n    &#8211; e a sua imensa grenha surgia no parapeito da janela. Todos os disc&iacute;pulos<br \/>\n    riam &#8212; e os mais inquietos atiravam-lhe aos olhos caro&ccedil;os de<br \/>\n    frutos ou vibravam-lhe, como pequenas lan&ccedil;as, penas de pato que se<br \/>\n    lhe enterravam na grenha. Ele sorria com paciente respeito.<\/p>\n<p>Sentado no estrado o mestre ensinava &#8212; e Crist&oacute;v&atilde;o, como<br \/>\n    atrav&eacute;s de um n&eacute;voa, entrevia as coisas maravilhosas do come&ccedil;o<br \/>\n    do Mundo. Um Deus enorme, grande como ele, alargando os seus bra&ccedil;os<br \/>\n    potentes, separava o Sol e a Lua; a sua voz era o trov&atilde;o que rolava;<br \/>\n    e o seu sopro ora fazia curvar as florestas, ora encapelava as vagas. Mas<br \/>\n    os homens come&ccedil;avam a povoar a terra, e Deus entrava logo em grandes<br \/>\n    c&oacute;leras. Ao seu capricho as cidades tombavam, sepultando sob as ru&iacute;nas<br \/>\n    as criancinhas que sorriam nos ber&ccedil;os; vastos prados secavam, e os<br \/>\n    gados balavam lamentavelmente de fome; um grande terror tomava a terra: &#8211;<br \/>\n    e os homens viviam no terror daquela m&atilde;o imensa, que s&oacute; sa&iacute;a<br \/>\n    das nuvens para os devastar.<\/p>\n<p>De noite, o doce sono fugia de Crist&oacute;v&atilde;o. E encolhido, voltava<br \/>\n    para o C&eacute;u os olhos desconfiados. Se Deus reparando nele, de repente,<br \/>\n    fizesse sobre ele cair o fogo que queimara Gomorra? Todo o barulho o inquietava:<br \/>\n    e numa noite de trovoada os seus gritos acordaram todo o convento.<\/p>\n<p>Mas o padre-mestre bem depressa come&ccedil;ou a explicar os dogmas. E foi<br \/>\n    como se toda a Terra e C&eacute;u perdessem a sua realidade, ficando apenas<br \/>\n    deles baixas n&eacute;voas que flutuavam. Nas alturas j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    governava um homem forte e velho, de longas barbas: &#8211; mas uma trindade, que<br \/>\n    era de tr&ecirc;s, mas que formava um s&oacute;, e era um Pai, um Filho, e<br \/>\n    um Esp&iacute;rito que tinha asas. O pecado n&atilde;o era fazer mal, mas<br \/>\n    nascer, e a &aacute;gua, escorrendo de uma concha, lavava-o como um linho<br \/>\n    sujo. Crist&oacute;v&atilde;o arregalava os olhos desmedidamente &#8212; e<br \/>\n    as pr&eacute;dicas do padre-mestre eram como n&eacute;voas que flutuavam intang&iacute;veis,<br \/>\n    logo, esva&iacute;das apenas formadas. Sentia como uma tristeza diante daquelas<br \/>\n    coisas inacess&iacute;veis: e o suspiro que lhe fugia do peito fazia voltar<br \/>\n    os novi&ccedil;os, que, &agrave;s escondidas do padre, lhe faziam visagens<br \/>\n    como de dem&ocirc;nios.<\/p>\n<p>Um s&oacute; parecia simpatizar com Crist&oacute;v&atilde;o. Era um mo&ccedil;o<br \/>\n    franzino, que tinha a sua banca junto da janela, sobre a qual ca&iacute;am<br \/>\n    os carac&oacute;is dos seus cabelos louros. As suas m&atilde;os p&aacute;lidas<br \/>\n    folheavam de leve um in-f&oacute;lio: &#8211; e havia em todo ele como a gravidade<br \/>\n    de um letrado e a do&ccedil;ura de uma virgem.<\/p>\n<p>Todos os dias Crist&oacute;v&atilde;o o via chegar da aldeia com o seu tinteiro<br \/>\n    metido no cinto, o rolo de papel sob o bra&ccedil;o: e todas as tardes o seguia<br \/>\n    com os olhos quando ele, finda a aula, regressava &agrave; aldeia, folheando<br \/>\n    ainda pelo caminho algum livro onde havia cores brilhantes. Por vezes via-o<br \/>\n    parar, colher as flores silvestres do caminho. Ou alegremente, deitando os<br \/>\n    seus longos cabelos para tr&aacute;s, cantava sob a do&ccedil;ura da tarde.<\/p>\n<p>Sempre que passava junto de Crist&oacute;v&atilde;o, dizia-lhe: &quot;Deus<br \/>\n    te salve!&quot; E Crist&oacute;v&atilde;o sentia como uma car&iacute;cia na<br \/>\n    alma. Muitas vezes pensava nele &#8212; e voltava-lhe &agrave; lembran&ccedil;a<br \/>\n    o que ouvira ao padre-mestre, dos anjos que desciam &agrave; Terra, se misturavam<br \/>\n    &agrave;s ocupa&ccedil;&otilde;es humanas. Ia ent&atilde;o colocar-se no caminho<br \/>\n    em que ele passava. E um dia que os caminhos estavam alagados pela chuva,<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o ofereceu-se para o passar ao colo. Desde ent&atilde;o<br \/>\n    procurava maneiras de o servir. Nos dias de calor, tinha para ele a bilha<br \/>\n    de &aacute;gua mais fresca; e nos dias de frios, fazia depressa no p&aacute;tio<br \/>\n    um fogo de rama, para ele aquecer os p&eacute;s &uacute;midos antes e subir<br \/>\n    aos claustros. Por fim, como o Inverno se avizinhasse, com os crep&uacute;sculos<br \/>\n    mais escuros, Crist&oacute;v&atilde;o seguia-o na sua volta &agrave; aldeia,<br \/>\n    para o proteger dos lobisomens, ou dos maus encontros: e quando vieram as<br \/>\n    chuvas, ofereceu-se para o levar &agrave;s costas, como um macho, at&eacute;<br \/>\n    a porta da sua morada. Ent&atilde;o pelo caminho conversavam baixo: Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    contava os seus trabalhos no convento, o mo&ccedil;o dizia os seus desejos<br \/>\n    de ser militar, conhecer o mundo, percorrer as cidades. Seu pai era o regedor<br \/>\n    das terras e destinava-o para padre; mas ele queria casar com uma prima chamada<br \/>\n    Etelvina, que morava ao p&eacute; do castelo, para al&eacute;m do Pego das<br \/>\n    Dunas. E um dia que assim conversava, o mo&ccedil;o contou a Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    que &agrave;s vezes ia encontrar essa rapariga, longe, &agrave; orla de um<br \/>\n    bosque; mas temia que a surpreendessem os arqueiros do pai, que rondavam os<br \/>\n    campos, ou o servos do castelo mandados pelo pai de Etelvina. Se Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    quisesse, podia ficar &agrave; orla, vigiando os caminhos, como uma torre,<br \/>\n    e se viesse algu&eacute;m chegando, avis&aacute;-los com um grito. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    disse: &quot;Irei para onde me mandares&quot;.<\/p>\n<h2><a name=\"8\">Cap&iacute;tulo VIII<\/a><\/h2>\n<p>O s&iacute;tio onde se encontravam era num claro de &aacute;rvores derrubadas,<br \/>\n    &agrave; orla do bosque. Havia ali uma torre outrora erguida pelo conde da<br \/>\n    Ocit&acirc;nia. O Diabo um dia derrubara-a; e ainda se distinguiam nas pedras<br \/>\n    tisnadas os vest&iacute;gios das garras do Tentador. Um terror afastava dali<br \/>\n    os passos humanos mas a abund&acirc;ncia das flores silvestres, a do&ccedil;ura<br \/>\n    dos musgos, oferecia, aos audazes que l&aacute; chegavam, um asilo fresco<br \/>\n    de paz silvana. Era ali que se encontravam Alfredo e Etelvina. Para chegarem<br \/>\n    mais depressa, Crist&oacute;v&atilde;o tomava Alfredo aos ombros, e com passadas<br \/>\n    de c&ocirc;vados, saltando as ribanceiras, transpondo os lameiros, chegava<br \/>\n    l&aacute; primeiro, ao cair fresco da tarde. Por um caminho que contornava<br \/>\n    a colina, viam descer Etelvina, que levantava o seu vestido cinzento, por<br \/>\n    causa dos espinhos das sebes. Como voltava da igreja, trazia um livro na m&atilde;o.<br \/>\n    As suas duas tran&ccedil;as louras ca&iacute;am-lhe pelos ombros. As longas<br \/>\n    pestanas, dos seus olhos baixos, faziam-lhe uma sombra na face da cor e do&ccedil;ura<br \/>\n    de uma rosa branca. E junto da sua escarcela soavam as tesouras, as chaves,<br \/>\n    o dedal, pendentes da cinta por correntes de prata. O bom estudante dobrava<br \/>\n    diante dela o joelho: e tomando-a pela m&atilde;o delicada, caminhava com<br \/>\n    ela pelo bosque, parando para lhe tirar, da orla do vestido, as silvas que<br \/>\n    se lhe prendiam. Ela tinha sempre para Crist&oacute;v&atilde;o um sorriso,<br \/>\n    a que se misturava o brilho dos seus olhos: e ele de p&eacute;, vigiando o<br \/>\n    caminho, ficava pensando naqueles olhos que lhe pareciam estrelas. No arvoredo<br \/>\n    em torno cantavam as aves: um aroma de verduras, de pinheiros, de madressilvas,<br \/>\n    flutuava no ar: e por vezes os passos de uma cor&ccedil;a ro&ccedil;avam por<br \/>\n    entre a espessura das faias tenras. E Crist&oacute;v&atilde;o, apoiado a um<br \/>\n    forte cajado, lan&ccedil;ava os olhos em redor, pelo vale. Mas ningu&eacute;m<br \/>\n    se aproximava da torre derrocada. E ele, pouco a pouco invadido pela do&ccedil;ura<br \/>\n    da tarde, pensava em do&ccedil;uras que recebera &#8212; na car&iacute;cia<br \/>\n    das m&atilde;os de sua m&atilde;e sobre a grenha crespa, nas festas das crian&ccedil;as<br \/>\n    que por vezes sem medo lhe trepavam aos joelhos. Uma melancolia tomava-lhe<br \/>\n    o peito. E, na sua vaga ternura, desejava apertar contra si todo aquele vale,<br \/>\n    e as nuvens dos c&eacute;us, e a &aacute;gua que fugia cantando.<\/p>\n<p>No entanto Alfredo e sua bem amada vinham repousar, sentados numa pedra.<br \/>\n    Ele olhava a f&iacute;mbria do seu vestido, ou segurava os seus dedos delicados,<br \/>\n    que arrancavam uma a uma as folhas dos malmequeres. Por vezes ele colhia um<br \/>\n    ramo; ou apanhando o livro dela, que ca&iacute;ra a seus p&eacute;s, voltava<br \/>\n    as folhas; ela debru&ccedil;ava-se, e os fios soltos dos seus cabelos ro&ccedil;avam<br \/>\n    os ombros de Alfredo; e muitas vezes assim se esqueciam, com os olhos postos<br \/>\n    na mesma p&aacute;gina que n&atilde;o voltavam, corados, com o peito a arfar.<\/p>\n<p>Mas um dia que ambos passeavam longe, ao fundo dos pinheirais, com os ombros<br \/>\n    juntos, Crist&oacute;v&atilde;o ousou tocar o livro, esquecido sobre uma pedra,<br \/>\n    e com os seus grossos dedos voltar as folhas. Eram linhas negras que n&atilde;o<br \/>\n    compreendia; mas uma emo&ccedil;&atilde;o tomou-o diante das imagens cheias<br \/>\n    de cor. Parecia ser uma hist&oacute;ria &#8212; e come&ccedil;ava por uma<br \/>\n    criancinha, que num curral, entre uma vaca e uma jumenta, sorria, toucada<br \/>\n    de estrelas, nos joelhos de uma mulher p&aacute;lida. Depois a mesma crian&ccedil;a,<br \/>\n    j&aacute; maior, e sempre coroada de estrelas, falava diante de um grupo de<br \/>\n    velhos barbudos, que espalmavam as m&atilde;os com espanto. Quem era esse,<br \/>\n    pois, que, t&atilde;o novo, assombrava a velhice sapiente? Mais longe os dedos<br \/>\n    de Crist&oacute;v&atilde;o, virando as folhas duras, encontravam o mesmo ser,<br \/>\n    que ele reconhecia por seu aro de estrelas, j&aacute; homem, envolto numa<br \/>\n    t&uacute;nica, passeando &agrave; beira de um lago: e n&atilde;o cessava mais<br \/>\n    de aparecer, pondo a suas m&atilde;os sobre os entrevados, estendendo os bra&ccedil;os<br \/>\n    para as crian&ccedil;as, desatando as ligaduras dos mortos, consolando as<br \/>\n    multid&otilde;es. Montado num burro, penetrava as portas de uma cidade, entre<br \/>\n    o povo que o aclamava movendo folhas de palma; sentado sob um sic&ocirc;moro,<br \/>\n    ouvia duas mulheres, que fiavam a seus p&eacute;s; de joelhos, entre oliveiras,<br \/>\n    orava sobre um monte; preso em meio de soldados, com tochas, comparecia ante<br \/>\n    um juiz que erguia o dedo, pensando.<\/p>\n<p>E Crist&oacute;v&atilde;o sentia uma ansiedade de compreender, quando viu<br \/>\n    diante de si os dois noivos com os bra&ccedil;os enla&ccedil;ados, que sorriam.<br \/>\n    Surpreendido, Crist&oacute;v&atilde;o fechou o livro. E como Etelvina, vendo<br \/>\n    a sua larga face perturbada e cheia de piedade, lhe perguntava se ele amava<br \/>\n    o Senhor, Crist&oacute;v&atilde;o moveu a cabe&ccedil;a, sem compreender.<br \/>\n    Pois qu&ecirc;? Ele n&atilde;o conhecia o Senhor e n&atilde;o amava a sua<br \/>\n    do&ccedil;ura? T&atilde;o grande escurid&atilde;o naquela alma encheu-a de<br \/>\n    piedade: e um escr&uacute;pulo rosou-lhe as faces, pensando que, enquanto<br \/>\n    ela se ocupava de amar, algu&eacute;m, ao p&eacute; dela, vivia sem conhecer<br \/>\n    o Senhor. E ent&atilde;o, para que bem merecessem Jesus, e para recompensar<br \/>\n    a prote&ccedil;&atilde;o de Crist&oacute;v&atilde;o, ela pediu a Alfredo que<br \/>\n    lessem o santo livro &agrave;quele homem simples, que o ignorava.<\/p>\n<p>Foi ao outro dia, por uma tarde de Outono. J&aacute; as &aacute;rvores se<br \/>\n    desfolhavam; mais tristemente cantava o regato; e uma palidez banhava o c&eacute;u.<br \/>\n    Para ouvir melhor, Crist&oacute;v&atilde;o sentara-se sobre um alto monte<br \/>\n    de pedras derrocadas. Alfredo, rindo, trepava ao seu vasto joelho &#8212;<br \/>\n    e Etelvina sentou-se no outro joelho, t&atilde;o simplesmente como se fora<br \/>\n    um rocha ou um c&ocirc;moro de relva. Os seus pezinhos cruzaram-se como os<br \/>\n    de um anjo: as suas m&atilde;os pousavam castamente no rega&ccedil;o. Defronte,<br \/>\n    Alfredo abrira o livro: &#8211; e com a vasta face de Crist&oacute;v&atilde;o entre<br \/>\n    eles, era como se estivessem sentados nos membros frios e duros de uma enorme<br \/>\n    est&aacute;tua de pedra.<\/p>\n<p>E toda a tarde, no sil&ecirc;ncio do arvoredo. Alfredo leu a vida do Senhor.<br \/>\n    Disse a estrela brilhando sobre o seu ber&ccedil;o, e os pastores de longe<br \/>\n    vindos para ele, misturados aos Reis que traziam tesouros. Depois homens duros<br \/>\n    chegavam com alfanjes: e o Menino sorria adormecido no colo da m&atilde;e,<br \/>\n    enquanto a burrinha, toque, toque, os levava para o Egito. L&aacute; repousavam<br \/>\n    sob uma palmeira: o sol vermelho descia nas areias do deserto: e o menino,<br \/>\n    rindo, puxava as barbas de seu pai, cujo cajado floria como um ramo de a&ccedil;ucena.<br \/>\n    Mas era tempo que, o longo rolo sobre o joelho, Santa Ana ensinasse a ler<br \/>\n    o Menino: seu pai sorria por tr&aacute;s na sua grande barba: S. Jo&atilde;ozinho,<br \/>\n    ao lado, escutava com a m&atilde;ozinha apoiada &agrave; face; e dois anjos<br \/>\n    no alto erguem a m&atilde;o, param os ventos, para que nenhum ru&iacute;do<br \/>\n    perturbe o Menino que aprende. Depressa o Menino aprendeu, porque eis que<br \/>\n    os velhos barbudos, de mitra, arregalam os olhos espantados do seu saber&#8230;<\/p>\n<p>Cansado de ler, Alfredo parava, com o dedo entre as folhas do livro. E na<br \/>\n    face simples de Crist&oacute;v&atilde;o havia tanto espanto, como nas dos<br \/>\n    doutores: o seu grosso l&aacute;bio tremia. E murmurou humildemente, e j&aacute;<br \/>\n    cheio de amor:<\/p>\n<p>&#8212; Mas que fez o Menino?<\/p>\n<p>Quem sabe? Um doce sil&ecirc;ncio ca&iacute;a sobre a terra. Em Nazar&eacute;<br \/>\n    o carpinteiro aplaina a sua t&aacute;bua, e S. Jo&atilde;o com os cabelos<br \/>\n    ao vento partia para o deserto. Mas j&aacute; ao longe brilham as claras &aacute;guas<br \/>\n    de um lago, com barcos amarrados na areia: Jesus fala devagar, erguendo o<br \/>\n    bra&ccedil;o; e os pescadores deixam as suas redes, os semeadores esquecem<br \/>\n    a sementeira, os publicanos deixam os seus postos, os pobres saem dos cotovelos<br \/>\n    das estradas, e Jesus, seguido de todos, come&ccedil;a a caminhar pela Jud&eacute;ia.<br \/>\n    Uma incompar&aacute;vel do&ccedil;ura enche a vida dos homens. Jesus est&aacute;<br \/>\n    entre eles. Os que n&atilde;o podiam ver, aclamam o esplendor da luz; os que<br \/>\n    n&atilde;o andavam, galgam, cantando, as colinas; todos os dem&ocirc;nios<br \/>\n    se somem; os mortos desatam as suas ligaduras; n&atilde;o h&aacute; dor que<br \/>\n    n&atilde;o espere consola&ccedil;&atilde;o; as crian&ccedil;as t&ecirc;m um<br \/>\n    amigo, e as multid&otilde;es, nas aldeias, v&ecirc;em o p&atilde;o nascer<br \/>\n    do p&atilde;o.<\/p>\n<p>Por que vai ele a Jerusal&eacute;m, terra dura, onde os homens, com as barbas<br \/>\n    agudas, gritam uns contra os outros, brandindo rolos da Lei? Mas, que importa!<br \/>\n    Ele vai para tornar os homens melhores, e o povo vai com ele, cantando. &Eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o que o c&eacute;u se come&ccedil;a a tornar escuro. Os fariseus<br \/>\n    tramam baixo sob as arcadas do templo. E uma ansiedade pesa na terra&#8230;<\/p>\n<p>E uma ansiedade enche tamb&eacute;m a face de Crist&oacute;v&atilde;o. Porque<br \/>\n    n&atilde;o permanecera ele sempre Menino, sobre os joelhos da m&atilde;e,<br \/>\n    quando a Estrela luzia, e ele estendia a m&atilde;ozinha para o focinho da<br \/>\n    vaca? Ou, se devia ser homem, porque deixou ele a beira do lago, e os caminhos<br \/>\n    verdes, onde a cada um dos seus passos a terra se tornava melhor, e melhor<br \/>\n    a alma dos homens?<\/p>\n<p>&#8212; Tens pena, Crist&oacute;v&atilde;o?<\/p>\n<p>Era Etelvina que assim murmurava com os olhos apiedados.<\/p>\n<p>Ele moveu a cabe&ccedil;a, em sil&ecirc;ncio. O seu vasto peito arfava, e<br \/>\n    um terror invadia-o de o ver a ele, t&atilde;o bom, naquela cidade onde os<br \/>\n    homens eram t&atilde;o duros.<\/p>\n<p>&#8212; E depois?<\/p>\n<p>Alfredo disse ent&atilde;o os dias derradeiros. Tristemente, Jesus, sozinho,<br \/>\n    sobe, ao cair da tarde, para o vergel de Bet&acirc;nia. A&iacute; s&atilde;o<br \/>\n    as melancolias de uma felicidade que finda. Madalena, desgrenhada, lava os<br \/>\n    seus p&eacute;s cansados. Marta fia, com um fiar t&atilde;o lento como se<br \/>\n    fiasse um sud&aacute;rio. Mas j&aacute; Jesus se senta para a &uacute;ltima<br \/>\n    ceia. S. Jo&atilde;o inclina a cabe&ccedil;a sobre o seio do Mestre. Judas<br \/>\n    aperta, sob a t&uacute;nica, a sua negra bolsa. Jesus diz: &quot;Em breve<br \/>\n    n&atilde;o estarei mais entre v&oacute;s&quot;. A noite &eacute; escura; Jesus<br \/>\n    sobe devagar o monte, onde h&aacute; oliveiras; e um anjo, todo coberto de<br \/>\n    negro, marcha ao seu lado. Um vento passa no ramo das oliveiras. Um rumor<br \/>\n    de armas vem com o vento que passa&#8230;<\/p>\n<p>Nos olhos de Crist&oacute;v&atilde;o borbulhavam grossas l&aacute;grimas.<br \/>\n    E Alfredo dizia as tochas surgindo na escurid&atilde;o das ramagens, os soldados<br \/>\n    brutais, e a pris&atilde;o do Senhor. Por que o prendiam assim, e levavam<br \/>\n    ele, mais doce do que o anho? Ei-lo que passa! E os seus p&eacute;s, que encontravam<br \/>\n    o caminho do bem, sangram sobre as lajes duras, da casa de Pilatos &agrave;<br \/>\n    casa de Caif&aacute;s. Traz sangue na face, as m&atilde;os arroxeadas pelas<br \/>\n    cordas, os ombros riscados pelas vergas: &#8211; e a sua do&ccedil;ura &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o grande que diz: &quot;Por que me bateis?&quot; A cruz que lhe d&atilde;o<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o pesada, que cai uma vez, outra vez, ferindo os joelhos<br \/>\n    nas pedras, com grandes bagas de suor na face&#8230; Mas eis que em tropel todos<br \/>\n    sobem a colina: cravam com grandes pregos as suas m&atilde;os sobre o madeiro;<br \/>\n    cravam no madeiro os seus p&eacute;s com grandes pregos&#8230; E da &aacute;gua<br \/>\n    com que ele secava a sede das multid&otilde;es pede, sem que ningu&eacute;m<br \/>\n    o escute, um trago que mate a sua sede. Os homens maus atiravam pedras &agrave;<br \/>\n    sua cruz. E todo o mal era feito &Agrave;quele que n&atilde;o fizera sen&atilde;o<br \/>\n    bem!<\/p>\n<p>E ent&atilde;o um grande suspiro abalou o vasto peito de Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    e, na solid&atilde;o do bosque, gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Por que n&atilde;o estava eu l&aacute; com os meus bra&ccedil;os!<\/p>\n<p>Os dois bem-amados estavam de p&eacute; diante dele, e o homem enorme chorava.<br \/>\n    Chorava pela morte d?Aquele que conhecera t&atilde;o tarde. Chorava por todos<br \/>\n    os que, morto ele, perdiam o amigo melhor dos homens. &#8212; Mas por que<br \/>\n    o mataram? por que o mataram? E Crist&oacute;v&atilde;o, deixando os dois<br \/>\n    desceu a colina, chorando.<\/p>\n<p>A noite ca&iacute;a no vale. Um vento triste vergava os canaviais. E Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    seguia e chorava. Os seus vastos p&eacute;s empurravam as rochas como seixos.<br \/>\n    O seu ombro, ao passar, quebrava os ramos tenros. Oh! se ele estivesse ent&atilde;o<br \/>\n    no monte escuro onde o prenderam! O seu bra&ccedil;o sacudiria, como ervas<br \/>\n    secas, as espadas reluzentes. Tomaria sobre o seu ombro o Mestre ador&aacute;vel.<br \/>\n    Fugiria com ele para a paz dos campos; e como um c&atilde;o fiel, junto aos<br \/>\n    seus passos, defenderia dos soldados, dos padres, aquele corpo que era de<br \/>\n    Deus, e espalhava Deus entre os homens.<\/p>\n<p>A noite ca&iacute;ra, Crist&oacute;v&atilde;o parou. E sentado sobre uma<br \/>\n    rocha, com grandes l&aacute;grimas sobre a face, olhava as estrelas que, uma<br \/>\n    a uma, marcavam os pontos do c&eacute;u. Era ali, naquela altura, que ele<br \/>\n    habitava. Oh! se ele pudesse subir l&aacute;, e ver como era a sua face, e<br \/>\n    sentir a do&ccedil;ura da suas m&atilde;os! Por que n&atilde;o voltaria ele<br \/>\n    mais para consolar os pobres, secar as l&aacute;grimas, agasalhar as criancinhas,<br \/>\n    e nutrir as multid&otilde;es? Agora, que todos o amavam, ningu&eacute;m o<br \/>\n    prenderia: o caminho que ele seguisse seria juncado de rosas; os bispos, nas<br \/>\n    suas capas de ouro, cantando e balan&ccedil;ando os incensadores, viriam ao<br \/>\n    seu encontro. E para o defender, os bar&otilde;es correriam, cobertos de ferro<br \/>\n    e com lan&ccedil;as nos seus grandes corc&eacute;is! Por que n&atilde;o voltava?<br \/>\n    Ele seguiria pelo mundo os seus passos ligeiros: a cada instante afastaria<br \/>\n    as silvas, que o n&atilde;o magoassem; com grandes brados espantaria os c&atilde;es,<br \/>\n    que ladram &agrave;s portas dos castelos: fardos que houvesse, com alegria<br \/>\n    ele os levaria; s&oacute; ele, e mais ningu&eacute;m, colheria os frutos para<br \/>\n    o Senhor, ou iria buscar a &aacute;gua &agrave;s nascentes melhores. De noite,<br \/>\n    faria com rama uma cabana para o abrigar do vento mau: &#8211; e estenderia o seu<br \/>\n    bra&ccedil;o, para que nele repousasse a sua cabe&ccedil;a cansada. E assim,<br \/>\n    pensando, um imenso amor erguia-lhe o peito: &#8211; e, de p&eacute; numa rocha,<br \/>\n    os seus bra&ccedil;os estendiam-se para o c&eacute;u, para neles estreitar<br \/>\n    Aquele que, para o salvar, fora pregado na cruz. E tr&ecirc;s vezes chamou:<br \/>\n    &quot;Jesus, Jesus, Jesus.&quot;<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, perto dele, ouviu como um pranto que cortava o sil&ecirc;ncio<br \/>\n    da noite. Vinha de longe, de onde brilhava uma luz de cabana. Os seus passos<br \/>\n    foram para l&aacute;, esmagando a terra fresca. E mais perto reconheceu o<br \/>\n    solu&ccedil;ar de uma mulher que chorava. Decerto, algu&eacute;m sofria muito.<br \/>\n    Havia ali orfandade ou viuvez, uma mis&eacute;ria que erguia os bra&ccedil;os<br \/>\n    para o c&eacute;u. Por que n&atilde;o vinha o Senhor? Se ele habitasse a Terra,<br \/>\n    para aquele casebre iriam os seus passos. Ele iria atr&aacute;s humildemente,<br \/>\n    seguindo-o. Mas Jesus estava al&eacute;m, por tr&aacute;s daquelas estrelas.<br \/>\n    Por que n&atilde;o iria ele, como se seguisse o Senhor? Mais vivo e triste,<br \/>\n    o pranto cortou a noite. E Crist&oacute;v&atilde;o, devagar, e com medo, bateu<br \/>\n    &agrave; porta do casebre.<\/p>\n<h2><a name=\"9\">Cap&iacute;tulo IX<\/a><\/h2>\n<p>Longos dias s&atilde;o passados, e Crist&oacute;v&atilde;o, na aldeia, &eacute;<br \/>\n    o servo de todos. As portas do convento nunca mais as transp&ocirc;s: porque<br \/>\n    l&aacute; habitam a paz e a abund&acirc;ncia, o celeiro est&aacute; cheio<br \/>\n    de trigo, a adega est&aacute; cheia de vinho, uma grande alegria e orgulho<br \/>\n    reinam nos cora&ccedil;&otilde;es &#8212; e para l&aacute; n&atilde;o iriam<br \/>\n    decerto os passos de Jesus, nem os seus a seguir o seu Senhor. Mas na aldeia<br \/>\n    h&aacute; os velhos, os mendigos, os tristes, os &oacute;rf&atilde;os, as<br \/>\n    vi&uacute;vas; e a for&ccedil;a dos seus bra&ccedil;os pertence a esses, como<br \/>\n    o amor do seu cora&ccedil;&atilde;o, porque assim mandava o seu Senhor.<\/p>\n<p>Simples e t&iacute;mido, Crist&oacute;v&atilde;o imp&otilde;e os seus servi&ccedil;os:<br \/>\n    mas toda a fraqueza, que recorre &agrave; sua for&ccedil;a, ganha a gratid&atilde;o<br \/>\n    da sua alma. E pouco a pouco, sentindo nele um amparo, todos os fracos vieram<br \/>\n    a ele &#8211; de sorte que, desde que nasce a estrela de alva at&eacute; que a noite<br \/>\n    cobre o vale, Crist&oacute;v&atilde;o trabalha com tanta alegria, que o pesar<br \/>\n    dos maiores fardos lhe parece uma car&iacute;cia, e nas feridas piores de<br \/>\n    curar sente um perfume inef&aacute;vel. Ele lavra a terra dos velhos; desbasta<br \/>\n    as florestas a grandes golpes de machado; seca os p&acirc;ntanos, com grossas<br \/>\n    pipas que carrega &agrave;s costas; puxa os carros para que os bois n&atilde;o<br \/>\n    se esfalfem; transporta aos ombros os coxos; guia os passos dos que n&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;em; vai ao longe mendigar o p&atilde;o e a lenha dos pobres; embala<br \/>\n    os ber&ccedil;os; cava a sepultura dos mortos: &#8211; e quando n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    vento, ele, retesando os bra&ccedil;os, faz girar a m&oacute; dos moinhos.<br \/>\n    Constantemente o seu nome &eacute; gritado por cima da sebe dos casais. Este<br \/>\n    tem o burro doente, e &eacute; Crist&oacute;v&atilde;o quem transporta os<br \/>\n    fardos; aquele precisa de um ceifeiro, e Crist&oacute;v&atilde;o parte com<br \/>\n    a foice; aquele teto precisa de colmo, e Crist&oacute;v&atilde;o tr&aacute;-lo<br \/>\n    &agrave;s bra&ccedil;adas; para fazer o casebre da vi&uacute;va n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; pedra, e Crist&oacute;v&atilde;o chega de remota pedreira, gemendo<br \/>\n    sob os blocos da rocha. &Eacute; Crist&oacute;v&atilde;o quem sopra o fogo<br \/>\n    do ferreiro; &eacute; Crist&oacute;v&atilde;o quem sacode, a matinas, a corda<br \/>\n    do sino; &eacute; ele que, sozinho, abre nos lameiros a cal&ccedil;ada nova;<br \/>\n    &eacute; ele quem escava os po&ccedil;os nos p&aacute;tios dos casais. &Agrave;<br \/>\n    noite estava prostrado. Quando os grandes invernos alagavam a aldeia, abrigava-se<br \/>\n    num vasto alpendre que mal o cobria de todo: de Ver&atilde;o estendia-se junto<br \/>\n    ao cruzeiro, e os primeiros p&aacute;ssaros, chalrando de madrugada, pousavam<br \/>\n    sobre os seus ombros, como sobre colinas escuras.<\/p>\n<p>Aos domingos repousava, e esse era o seu dia melhor, porque as crian&ccedil;as<br \/>\n    brincavam com ele. Sentindo-o doce e paciente, todas corriam para ele como<br \/>\n    para um grande bicho que os divertia: e trepando por ele, era como o vivo<br \/>\n    prazer de trepar a &aacute;rvores e a torres. Por vezes, com as m&atilde;os<br \/>\n    pousadas na terra, ele oferecia o seu vasto dorso, em que cavalgavam, presos<br \/>\n    pela cinta, uma longa fileira de corpinhos &aacute;geis e vivos: e dando corcovos,<br \/>\n    imitava, entre as risadas alegres, o urro do le&atilde;o ou o her&oacute;ico<br \/>\n    relinchar de um corcel. Al&eacute;m disso sabia fazer, com as suas m&atilde;os<br \/>\n    cabeludas e cheias de terra, todas as sortes de brinquedos &#8212; flechas<br \/>\n    de ca&ccedil;a, pequenos carros que rodavam no p&oacute;, barcos com velas<br \/>\n    para vogar no pego. Para tudo as crian&ccedil;as o tinham pronto &#8212; e<br \/>\n    s&oacute; se recusava quando eles tentavam estragar a fruta verde, ou fazer<br \/>\n    mal aos melros.<\/p>\n<p>Mas, de todas as crian&ccedil;as da aldeia, uma governava superiormente o<br \/>\n    seu cora&ccedil;&atilde;o. Era a filha de uma vi&uacute;va &#8212; daquela<br \/>\n    que Crist&oacute;v&atilde;o ouvira chorar, e &agrave; porta de quem batera,<br \/>\n    como mandado por Jesus, seu amo. O pai morrera nesta noite &#8212; e &agrave;<br \/>\n    pobre mulher n&atilde;o restava ningu&eacute;m no mundo para tratar as terras,<br \/>\n    cuidar das ovelhas. Mas, desde essa noite, uma grande for&ccedil;a &uacute;til<br \/>\n    entrara no casebre. Crist&oacute;v&atilde;o foi o servo fiel: &#8211; e nenhuma<br \/>\n    horta na aldeia andou mais bem regada, nenhum gado apascentado em prados melhores,<br \/>\n    nenhum torr&atilde;o mais fundamente arado. Um riso da crian&ccedil;a (que<br \/>\n    se chamava Joana), o seu jeito de lhe puxar as barbas, recompensava-o de todo<br \/>\n    o trabalho. Mesmo brincando com as outras, era em Joana que pensava. De noite<br \/>\n    rondava a porta do casebre, a escutar se ela chorava no seu ber&ccedil;o.<br \/>\n    Cedo, de manh&atilde;, ia postar-se na horta entre os limoeiros, &agrave;<br \/>\n    espera que ela corresse de dentro com o seus bracinhos abertos: e todo o dia<br \/>\n    ficava sentindo nos cabelos, nas barbas, a do&ccedil;ura das suas m&atilde;ozinhas,<br \/>\n    que o arrepelavam. Ele amava-a por toda a sua pessoa &#8212; a covinha da<br \/>\n    face quando ria, a gra&ccedil;a da sua voz hesitante, os seus p&eacute;s mal<br \/>\n    seguros sobre a terra lavrada. Amava-a sobretudo pela sua fraqueza &#8212;<br \/>\n    e n&atilde;o antevia vida melhor do que passar eternamente a servi-la, e a<br \/>\n    ser alegremente arrepelado. O seu prazer maior era traz&ecirc;-la escarranchada<br \/>\n    aos ombros; ela ria, agarrada aos seus longos cabelos; e ele caminhava grave<br \/>\n    e vaidoso, como se conduzisse a sagrada h&oacute;stia.<\/p>\n<p>Por vezes comparava-o ao Menino, ao Menino divino, que ria no seu curral,<br \/>\n    e aprendia a ler no grande livro de Santa Ana. Os seus olhos claros e largos<br \/>\n    deviam ser como os de Joana. E o seu pesar era n&atilde;o saber ler, para<br \/>\n    abrir sobre os joelhos um livro, onde o seu dedinho espetado fosse seguindo<br \/>\n    as letras grossas. Decerto, Jesus, se conhecesse, Joana, a devia amar. Ela<br \/>\n    era inocentinha como uma flor do valado: e o seu anjo da guarda esperava quieto,<br \/>\n    quando ela parava no caminho, a remexer na terra, &agrave; procura de bichos.<br \/>\n    Por mais longe que andasse trabalhando, sentia a voz de Joana se ela o chamava,<br \/>\n    como se a voz viesse de cima, do C&eacute;u &#8212; e apressava ent&atilde;o<br \/>\n    a obra, &agrave; for&ccedil;a dos bra&ccedil;os, para correr ao seu encontro,<br \/>\n    n&atilde;o se esquecendo de trazer as amoras que ela gostava, ou medronhos,<br \/>\n    menos corados que a sua facezinha. Durante horas ent&atilde;o acamaradavam<br \/>\n    &#8212; e Crist&oacute;v&atilde;o era t&atilde;o simples que, para a entreter,<br \/>\n    s&oacute; sabia repetir a voz dos bichos, dan&ccedil;ar pesadamente como um<br \/>\n    urso. A m&atilde;e dizia:<\/p>\n<p>&#8212; Crist&oacute;v&atilde;o, Crist&oacute;v&atilde;o, muito tempo gastas<br \/>\n    com a menina&#8230; Olha a lenha&#8230; Olha o gado&#8230;<\/p>\n<p>Ele baixava a cabe&ccedil;a, abria a cancela: e ainda se voltava, j&aacute;<br \/>\n    longe, para sorrir, com a sua vasta face iluminada.<\/p>\n<p>Ora no meio desta felicidade, come&ccedil;ou um murmurar na aldeia. O guardi&atilde;o<br \/>\n    do convento n&atilde;o perdoara a Crist&oacute;v&atilde;o por ter ele abandonado<br \/>\n    os seus servi&ccedil;os &agrave; ordem: e os frades que passavam, ou que vinham<br \/>\n    pregar &agrave; tarde no adro, diziam depois que, segundos os livros, todos<br \/>\n    os gigantes tinham pactos com o Satan&aacute;s. Decerto, este era doce e servi&ccedil;al,<br \/>\n    mas assim eram as artes do Dem&ocirc;nio, que durante um tempo se faziam doces<br \/>\n    e af&aacute;veis, para melhor se apoderarem das almas. As mulheres, ouvindo<br \/>\n    isto, ficavam pensativas. Era ent&atilde;o em Maio: j&aacute; as macieiras<br \/>\n    tinham flor, e as primeiras espigas dos trigos sa&iacute;ram da terra, e os<br \/>\n    prados enverdeciam. Mas eis que, uma noite, grandes rel&acirc;mpagos luzem<br \/>\n    sobre o vale, um trov&atilde;o rola sobre as serras &#8212; e subitamente,<br \/>\n    com o estalido de lan&ccedil;as entrechocando-se, caiu o granizo. Longo tempo<br \/>\n    caiu, arrasando o colmo dos casebres, matando os rebentos novos, esmagando<br \/>\n    as frutas, devastando o gado nos apriscos. De manh&atilde; toda a aldeia estava<br \/>\n    pobre: &#8211; e os homens corriam pelos campos, a olhar os destro&ccedil;os, enquanto<br \/>\n    as mulheres, juntas no adro, carpiam como num funeral. Um padre veio logo<br \/>\n    do convento, e estendendo a m&atilde;o, demonstrou que, por causa do endurecimento<br \/>\n    das almas viera aquela visita&ccedil;&atilde;o. Por que persistiam eles em<br \/>\n    acamaradar com um servo do Dem&ocirc;nio? Crist&oacute;v&atilde;o, como todos<br \/>\n    os gigantes, era um emiss&aacute;rio de Belzebu: &#8211; via-se-lhe o Inferno nos<br \/>\n    olhos, nas barbas que o fogo crestara, e na sua fingida humildade. Mas eles<br \/>\n    continuavam a dar-lhe o p&atilde;o e o sal, e a&iacute; estava que o Senhor<br \/>\n    lhes devastara as sementeiras. Toda a tarde assim falou &#8212; enquanto Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    andava no campo, atando os ramos ca&iacute;dos, secando os charcos, compondo<br \/>\n    os tetos dos casebres.<\/p>\n<p>Os homens, no entanto, tomavam os seus cajados. O balio, chamado, tocou a<br \/>\n    trompa para reunir os seus arqueiros. As mulheres escondiam as crian&ccedil;as:<br \/>\n    outras plantavam cruzes &agrave; porta da casa. O abade mandara tocar o sino.<br \/>\n    E era como quando na aldeia aparecia um bando de lobos.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o devia vir por uma azinhaga, onde se postaram os homens<br \/>\n    com os cajados, os arqueiros com os seus arcos retesados, e o padre, atr&aacute;s,<br \/>\n    al&ccedil;ando a cruz com m&atilde;o tr&ecirc;mula. E um bando de mulheres<br \/>\n    da aldeia, at&eacute; as velhas tr&ocirc;pegas, esperavam para ver o feiticeiro<br \/>\n    espancado e expulso. Todos eles tinham recebido os servi&ccedil;os de Crist&oacute;v&atilde;o;<br \/>\n    a todos ele cavara a terra, transportara os carretos, rachara a lenha, tosquiara<br \/>\n    o gado. Mas, em cada um desses servi&ccedil;os, cada um via agora como um<br \/>\n    ardil de Satan&aacute;s. Mil coisas lembravam, que o condenavam. Uma noite<br \/>\n    aparecera um velho desenterrado. Quem o desenterrara sen&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o?<br \/>\n    &Agrave;s vezes, de noite, luziam na treva da aldeia dois grandes olhos vermelhos.<br \/>\n    De quem seriam sen&atilde;o de Satan&aacute;s, que vinha alta noite conversar<br \/>\n    com Crist&oacute;v&atilde;o? Por que n&atilde;o rezava ele nunca no adro?<br \/>\n    Outros acudiam, afirmando que ele tinha, nas costas, pintada uma caveira.<br \/>\n    Era decerto o sinete da Morte. E alguns, que duvidavam, lembrando-se da sua<br \/>\n    do&ccedil;ura, da sua bondade, receavam defend&ecirc;-lo para que n&atilde;o<br \/>\n    parecessem diante do frade, ter inclina&ccedil;&atilde;o pelo Inimigo.<\/p>\n<p>Assim o esperavam, quando, pelo caminho que descia da serra, ele apareceu,<br \/>\n    vergado sob o imenso molho de troncos. O padre imediatamente ergueu alto o<br \/>\n    crucifixo, e os arqueiros retesaram o arco &#8212; e do bando um clamor s&uacute;bito,<br \/>\n    enquanto se abaixavam a apanhar as grossas pedras.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o parara espantado: &#8211; e t&atilde;o certo estava do<br \/>\n    amor de todos, que se virou para tr&aacute;s, para ver que inimigo ruim ou<br \/>\n    homem de temer subia o caminho e despertava assim a c&oacute;lera da aldeia.<br \/>\n    Mas o caminho estava vazio, j&aacute; escuro. E era contra ele que o frade<br \/>\n    erguia a cruz, os besteiros apontavam os dardos, e os punhos tremiam de c&oacute;lera<br \/>\n    no ar!<\/p>\n<p>&#8212; Vade retro! Vade retro! &#8212; gritava o frade.<\/p>\n<p>&#8212; Aos corvos! Aos corvos, o malfazejo! &#8212; exclamava a multid&atilde;o.<\/p>\n<p>Deixando escorregar dos ombros o molho de troncos, que tombou esmigalhando<br \/>\n    a sebe, Crist&oacute;v&atilde;o ergueu a face, alargou os bra&ccedil;os: &#8211;<br \/>\n    e durante um momento o espanto fez t&atilde;o feia a sua face, que o bando<br \/>\n    recuou, as mulheres fugiram al&ccedil;ando os bra&ccedil;os. Mas o frade,<br \/>\n    com o crucifixo tr&ecirc;mulo no ar, acumulava os exorcismos; o balio, com<br \/>\n    a vara, acirrava a multid&atilde;o &#8212; e as pedras partiram, arremessadas<br \/>\n    com tanto medo, que todas se perderam no mato, em redor. Ent&atilde;o, sem<br \/>\n    temor, Crist&oacute;v&atilde;o deu um passo lento. Os seus olhos esbugalhados<br \/>\n    sondavam a turba ruidosa: viu ali, gritando contra ele, todos os que auxiliara:<br \/>\n    o moleiro, a quem servira de alim&aacute;ria, e carregara os fardos, brandia<br \/>\n    contra ele um cajado; a vi&uacute;va do ferreiro, a quem soprara a forja,<br \/>\n    tinha duas pedras nas m&atilde;os; &#8211; e as crian&ccedil;as, que ele acariciara<br \/>\n    no adro, gritavam: &quot;Aos corvos! Aos corvos!&quot; Ent&atilde;o uma grande<br \/>\n    dor varou o seu cora&ccedil;&atilde;o simples. A aldeia n&atilde;o o queria<br \/>\n    mais. Como um bicho malfazejo, como um lobo, ele era escorra&ccedil;ado. Duas<br \/>\n    l&aacute;grimas enevoavam as suas vastas pupilas, que reluziam: e baixando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, com humildade, Crist&oacute;v&atilde;o desceu o caminho.<br \/>\n    Ent&atilde;o a multid&atilde;o ganhou &acirc;nimo. As pedras, voando, bateram<br \/>\n    nas suas esp&aacute;duas, cansadas de todos os fardos; uma seta entranhou-se<br \/>\n    na sua guedelha hirsuta. Crist&oacute;v&atilde;o desapareceu.<\/p>\n<p>Diante dele estava a serra: para a serra subiu lentamente. E uma s&oacute;<br \/>\n    d&uacute;vida tumultuava seu cora&ccedil;&atilde;o: &#8211; por que o tinham perseguido?<br \/>\n    que fizera ele? Amava a todos, servia a todos. Era o que o seu trabalho n&atilde;o<br \/>\n    parecia bastante &uacute;til? Ele n&atilde;o podia tirar mais for&ccedil;a<br \/>\n    dos seus m&uacute;sculos, nem fazer que, para a labuta&ccedil;&atilde;o, os<br \/>\n    dias fossem maiores. Por que o apedrejavam ent&atilde;o? E uma recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entrou na sua alma, a mem&oacute;ria de Jesus, que s&oacute; fizera o bem,<br \/>\n    e que os homens tinham flagelado contra uma coluna de pedra. Ele era, pois,<br \/>\n    como o Senhor, um perseguido. E um amor maior crescia na sua alma por Jesus,<br \/>\n    sentindo confusamente que houvera entre os seus destinos uma igualdade de<br \/>\n    sofrimento&#8230; Os seus bra&ccedil;os erguiam-se para a Lua que subia. Ali,<br \/>\n    nas alturas, estava o Senhor. E mesmo vendo a Lua t&atilde;o brilhante e triste,<br \/>\n    ele pensava se n&atilde;o seria essa a face do Senhor!<\/p>\n<p>Assim pensava, sentado numa rocha. Os olhos de um lobo luziram entre o mato.<br \/>\n    Ele pensou que talvez, esfomeado,o lobo descesse &agrave; aldeia. E erguido,<br \/>\n    deu um bardo, espantou a fera para os altos, para longe dos caminhos que desciam<br \/>\n    &agrave; aldeia. Ele via-os, esses caminhos, por entre os pinheiros. E, em<br \/>\n    baixo, as luzes morti&ccedil;as, mais longe o Pego da Dona, brilhando como<br \/>\n    um disco de prata. A&iacute; era o casebre onde, a essa hora, Joana dormia.<br \/>\n    Nunca mais ele a veria deitada na sua canastra, coberta com o mant&eacute;u<br \/>\n    negro da m&atilde;e. Nunca mais as suas m&atilde;ozinhas lhe arrepelariam<br \/>\n    as barbas. E uma tristeza imensa tomava-o, uma vontade de se deitar para sempre<br \/>\n    na serra, e ficar ali at&eacute; que os seus ossos brancos se n&atilde;o distinguissem<br \/>\n    mais das rochas brancas. Mas quem faria rir Joana, como ele, quando a erguia<br \/>\n    nos bra&ccedil;os at&eacute; a rama dos mais altos pinheiros? E quem lavraria<br \/>\n    o campo da vi&uacute;va? Essa, decerto, lamentava a sua sa&iacute;da da aldeia.<br \/>\n    Nela sempre encontrara do&ccedil;ura, e um rosto que sorria na sua tristeza.<br \/>\n    Se ela o visse, decerto diria: &quot;Crist&oacute;v&atilde;o, olha o gado:<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o olha a lenha!&#8230;&quot; Se os outros o perseguiam,<br \/>\n    ela ao menos o acolheria. E agora Crist&oacute;v&atilde;o esperava a madrugada<br \/>\n    para descer ao casebre de Joana.<\/p>\n<p>T&ecirc;nue e fresca, a madrugada nasceu por fim na serra. Rastejando entre<br \/>\n    os arvoredos, agachado para que a sua cabe&ccedil;a n&atilde;o fosse vista<br \/>\n    acima das &aacute;rvores, rodeou a terra, veio ao casebre da vi&uacute;va.<br \/>\n    A cancela estava fechada. O galo cacarejava, sobre o monte de mato. J&aacute;<br \/>\n    decerto o lume se acendera dentro, porque da telha v&atilde; sa&iacute;a fumo:<br \/>\n    e as cotovias cantavam muito alto no c&eacute;u claro. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    apareceu por tr&aacute;s, defronte da porta do aido. Um grito assustado cortou<br \/>\n    o ar. A vi&uacute;va vira Crist&oacute;v&atilde;o, e arrebatando Joana, que<br \/>\n    brincava no ch&atilde;o, fugiu para dentro do casebre, gritando como o padre:<br \/>\n    Abrenuntio!<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o ficou im&oacute;vel. Tamb&eacute;m ela, pois, o temia,<br \/>\n    n&atilde;o o queria mais! N&atilde;o havia em toda a aldeia j&aacute; um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lembrasse. As crian&ccedil;as fugiam dele. Por qu&ecirc;? Lentamente afastou<br \/>\n    os passos, t&atilde;o triste que o canto das cotovias quase o fazia chorar.<br \/>\n    Ao lado o pego da Dona rebrilhava, como um espelho redondo. Debru&ccedil;ado<br \/>\n    sobre ele, olhou a sua face. Ent&atilde;o, pela primeira vez, sentiu a sua<br \/>\n    fealdade. Decerto o repeliam por ser disforme. Esse era o seu pecado. E carregado<br \/>\n    com o peso da sua fealdade, Crist&oacute;v&atilde;o para sempre deixou os<br \/>\n    lugares onde nascera.<\/p>\n<h2><a name=\"10\">Cap&iacute;tulo X<\/a><\/h2>\n<p>Longos dias caminhou. O pa&iacute;s era deserto, com rochas; grandes despenhadeiros.<br \/>\n    A sede levou-o a um regato, que cantava entre as pedras. Bebeu, e foi seguindo<br \/>\n    aquela &aacute;gua clara que fugia. Ao fim de longas marchas encontrou um<br \/>\n    rio. Colinas suaves, onde branquejavam casas, erguiam-se dos dois lados da<br \/>\n    corrente serena e muda, orlada de salgueiros. Uma ponte antiga ligava as duas<br \/>\n    margens &#8212; e tendo-a passado avistou, erguidos, recortados na manh&atilde;<br \/>\n    clara, os muros de uma cidade. Quase de repente duas portas, sob uma torre<br \/>\n    que encimava a muralha, rodaram: &#8211; e delas irrompeu uma multid&atilde;o que<br \/>\n    fugia. Era gente que trazia &agrave;s costas as enxergas, as bilhas de &aacute;gua.<br \/>\n    As crian&ccedil;as, chorando, agarravam-se &agrave;s saias das m&atilde;es;<br \/>\n    os velhos erguiam os bra&ccedil;os, para que esperassem por eles &#8212; e<br \/>\n    por vezes todos se afastavam de algum cavaleiro, que, embu&ccedil;ado no manto,<br \/>\n    a pluma do chap&eacute;u ao vento, se escapava ao galope de um ginete magro.<br \/>\n    Um fumo, como de fogueiras, subia por tr&aacute;s das muralhas; as ameias<br \/>\n    n&atilde;o tinham sentinelas; e todo o ar estava cheio do dobrar de finados,<br \/>\n    badalado nas torres.<\/p>\n<p>A turba que fugia, vendo Crist&oacute;v&atilde;o, corria mais espantada,<br \/>\n    trope&ccedil;ando, caindo sob o peso dos fardos; ele estendia os bra&ccedil;os<br \/>\n    para amparar os velhos; o terror crescia: &#8211; e em torno de suas pernas, como<br \/>\n    em volta de torres, a multid&atilde;o debandava gritando.<\/p>\n<p>Chegou por fim &agrave; entrada da cidade. Dois soldados at&ocirc;nitos fecharam<br \/>\n    as portas. Crist&oacute;v&atilde;o galgou o fosso, transp&ocirc;s as muralhas.<br \/>\n    Diante dele abria-se uma rua, com trapos ca&iacute;dos nos enxurros, e todas<br \/>\n    as portas fechadas sob as tabuletas, que rangiam na haste de ferro ao vento<br \/>\n    agreste. Um f&eacute;tido terr&iacute;vel tornava o ar pesado: e dois frades,<br \/>\n    erguendo o h&aacute;bito, fugiam de um homem que se espojava no ch&atilde;o,<br \/>\n    com a face toda verde, a boca escancarada, gritando por &aacute;gua! Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    correu para ele, ergueu-o nos bra&ccedil;os, levou-o a um chafariz, onde a<br \/>\n    &aacute;gua jorrava de carrancas. O homem bebeu a largos tragos &#8212; as<br \/>\n    suas pernas inteiri&ccedil;avam-se, e ficou nos joelhos de Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    morto, j&aacute; quase decomposto. Mas, de uma casa pr&oacute;xima, gritos<br \/>\n    soavam; e, erguendo a face, viu uma velha esguedelhada, que da esguia janela,<br \/>\n    onde restava um p&eacute; de flor seca num vaso, chamava por socorro, torcendo<br \/>\n    os bra&ccedil;os. Das janelas vizinhas faces p&aacute;lidas espreitavam. Mais<br \/>\n    longe, prantos novos se ergueram; Crist&oacute;v&atilde;o, tendo posto o cad&aacute;ver<br \/>\n    no ch&atilde;o, olhava espantado sem compreender a dor que parecia pesar na<br \/>\n    cidade. De uma taberna. subitamente, sa&iacute;ram soldados b&ecirc;bados,<br \/>\n    cambaleando, cantando, com as faces l&iacute;vidas de uma noite de vinho e<br \/>\n    orgia. Crist&oacute;v&atilde;o ia interrog&aacute;-los &#8212; quando um de<br \/>\n    repente caiu, torcendo-se num agonia. Os outros, subitamente desembriagados,<br \/>\n    fugiram. E Crist&oacute;v&atilde;o acudia ao agonizante, quando ele ficou<br \/>\n    hirto, morto. Ao fundo da rua passava uma prociss&atilde;o em que um padre,<br \/>\n    de t&uacute;nica branca, erguia um relic&aacute;rio que reluzia, enquanto<br \/>\n    mulheres, atr&aacute;s, descal&ccedil;as, desgrenhadas, torciam os bra&ccedil;os,<br \/>\n    clamando para o C&eacute;u miseric&oacute;rdia. Os sinos n&atilde;o cessavam<br \/>\n    o seu dobre a finados: e homens trazendo barricas de breu, acendiam &agrave;s<br \/>\n    esquinas fogueiras que subiam ao ar, fazendo estalar o vidro das gelosias.<\/p>\n<p>Um padeiro, mais p&aacute;lido que uma tocha, abria a uma esquina as t&aacute;buas<br \/>\n    da sua loja. Crist&oacute;v&atilde;o dirigiu-se a ele, e curvando-se, com<br \/>\n    as m&atilde;os os joelhos, perguntou-lhe que mal corria na cidade, e por que<br \/>\n    soavam tantos prantos. O homem recuara inquieto, perguntando por seu turno<br \/>\n    se ele viera com saltimbancos para se mostrar. Crist&oacute;v&atilde;o disse<br \/>\n    que n&atilde;o, e com um gesto mostrou o horizonte distante de onde vinha.<br \/>\n    Ent&atilde;o o homem aconselhou-lhe que fugisse, porque a cidade morria da<br \/>\n    peste negra.<\/p>\n<p>Quando assim falavam, um ru&iacute;do de correntes arrastadas ressoou no<br \/>\n    lajedo. E dois homens, com cadeias de ferro presas aos p&eacute;s, apareceram,<br \/>\n    trazendo um morto numa padiola. Atr&aacute;s outros homens, de faces sinistras,<br \/>\n    com correntes aos p&eacute;s, traziam outros mortos&#8230; Eram os for&ccedil;ados<br \/>\n    das gal&eacute;s, que iam enterrar os mortos, guardados por soldados, que<br \/>\n    faziam estalar no ar compridos l&aacute;tegos de couro. Ent&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    tomou aos ombros os dois mortos que jaziam junto &agrave; fonte, e come&ccedil;ou<br \/>\n    a seguir os for&ccedil;ados. Assim sa&iacute;ram das portas, at&eacute; chegar<br \/>\n    a um olival, onde estava plantada uma cruz. Uma vala irregular e tortuosa<br \/>\n    atravessava sob a ramaria p&aacute;lida. &Agrave; pressa, os for&ccedil;ados<br \/>\n    atiraram os mortos para dentro, e com as enxadas lan&ccedil;aram sobre eles<br \/>\n    uma ligeira camada de terra. Ao ru&iacute;do, bandos de corvos, que pousavam<br \/>\n    nas oliveiras, bateram o v&ocirc;o, grasnando furiosamente.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o sacudiu as m&atilde;os da terra, e sem atender aos<br \/>\n    brados dos soldados que o chamavam, recolheu &agrave; cidade, ao acaso, por<br \/>\n    outra porta, que estava toda tomada por outro funeral, onde havia frades,<br \/>\n    escudeiros com c&iacute;rios em torno de um caix&atilde;o, cujo pano de veludo<br \/>\n    tinha um bras&atilde;o bordado. Ent&atilde;o, todo o dia percorreu as ruas,<br \/>\n    socorrendo os que ca&iacute;am, desviando os mortos do meio das cal&ccedil;adas<br \/>\n    &#8212; e ao escurecer j&aacute; se tornara t&atilde;o familiar, que das gelosias<br \/>\n    gritavam: &quot;Eh homem!&quot; Ele vinha, carregava os mortos para a vala,<br \/>\n    limpava a imund&iacute;cie dos p&aacute;tios, corria a encher as bilhas de<br \/>\n    &aacute;gua &#8212; e mesmo alimentava as crian&ccedil;as que estavam sozinhas<br \/>\n    nos casebres.<\/p>\n<p>Como em todas as casas havia um morto, e se receava o cont&aacute;gio, a<br \/>\n    multid&atilde;o errava pelas ruas, entregue ao terror e ao del&iacute;rio.<br \/>\n    As mulheres, os velhos, corriam &agrave;s igrejas, a implorar &agrave;s rel&iacute;quias,<br \/>\n    saltavam por cima dos cad&aacute;veres que atulhavam os adros. Estes, julgando<br \/>\n    que o mundo ia findar, corriam &agrave;s tabernas, arrombavam as pipas, e<br \/>\n    as blasf&ecirc;mias dos &eacute;brios juntavam-se ao pranto das mulheres.<br \/>\n    A cada esquina havia rixas &#8212; e por vezes, numa rua deserta, onde todos<br \/>\n    os moradores tinham morrido, Crist&oacute;v&atilde;o tinha que expulsar os<br \/>\n    porcos, que ro&iacute;am ossos humanos. De resto os animais, abandonados,<br \/>\n    percorriam as rua, e por vezes um cavalo espantado, um touro fugido do matadouro,<br \/>\n    corriam, esmagavam a gente, e era Crist&oacute;v&atilde;o que os segurava<br \/>\n    com os seus punhos enormes.<\/p>\n<p>A cada instante os gritos dos doentes abandonados o detinham. De rastos,<br \/>\n    ele introduzia o seu vasto corpo pelas escadas estreitas, e ia dar de beber<br \/>\n    aos doentes, limpar-lhes as imund&iacute;cies, oferecer-lhes o seu vasto peito<br \/>\n    para eles morrerem sobre o calor de um cora&ccedil;&atilde;o humano. Por vezes<br \/>\n    um moribundo queria a extrema-un&ccedil;&atilde;o; mas os padres tinham fugido,<br \/>\n    os raros que ainda haviam n&atilde;o bastavam para tantos moribundos; e Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    tomando um crucifixo, de joelhos, bradava junto do leito f&eacute;tido: &quot;Jesus,<br \/>\n    meu Senhor, s&ecirc; com este infeliz!&quot;<\/p>\n<p>Todas as noites havia grandes penit&ecirc;ncias. Bandos de homens, de mulheres<br \/>\n    seminuas, corriam as ruas, rasgando as carnes, cobrindo a face de lama, cantando<br \/>\n    c&acirc;nticos ferozes em que as invoca&ccedil;&otilde;es ao Senhor se confundiam<br \/>\n    com apelos ao Dem&ocirc;nio. Por vezes, de repente, uma voz gritava: &quot;&Eacute;<br \/>\n    culpa dos judeus!&quot; E a multid&atilde;o, tomando chu&ccedil;os, agarrando<br \/>\n    fachos, corria &agrave;s casas dos judeus, que apareciam oferecendo sacos<br \/>\n    de ouro, e ca&iacute;am sob os golpes, ou ficavam com as barbas queimadas.<\/p>\n<p>Nas ruas ricas os pal&aacute;cios estavam fechados: e atrav&eacute;s das<br \/>\n    janelas sentiam-se m&uacute;sicas e o tinir das baixelas de prata, porque<br \/>\n    alguns pensavam que se devia esperar a morte no seio do prazer. Outros, por&eacute;m,<br \/>\n    iam de casa em casa, em festas seguidas: &#8211; e viam-se cavaleiros, sem manto,<br \/>\n    com gotas de vinho nas barbas agudas, caminharem na rua, entre tocadores de<br \/>\n    bandolim e de flauta, trope&ccedil;ando com os seus imensos sapatos bicudos<br \/>\n    nos cad&aacute;veres abandonados: e, para os ver passar, surgiam aos balc&otilde;es<br \/>\n    mulheres p&aacute;lidas, com o seio descoberto, peles de arminho na orla do<br \/>\n    vestido, e a cabe&ccedil;a coberta de uma mitra aguda de onde pendiam molhos<br \/>\n    de longas fitas, que o vento fazia ondear como fl&acirc;mulas de mastros.<\/p>\n<p>Toda a noite Crist&oacute;v&atilde;o trabalhara. Como os guardas n&atilde;o<br \/>\n    fechavam as portas, por vezes os lobos, atra&iacute;dos pelo cheiro da podrid&atilde;o,<br \/>\n    apareciam nas ruas escuras. E Crist&oacute;v&atilde;o, que juntava os cad&aacute;veres,<br \/>\n    corria contra eles bradando, com uma tocha na m&atilde;o. Os mortos, que assim<br \/>\n    juntava, ia-os de manh&atilde; sepultar nos campos de oliveiras. Depois ia<br \/>\n    colher &agrave; serra ervas arom&aacute;ticas, que salvam da infec&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e pondo-se &agrave;s esquinas oferecia-as &agrave; gente que sa&iacute;a das<br \/>\n    suas moradas e que, tomando um milho, se afastava respirando-o com confian&ccedil;a.<br \/>\n    Como os ladr&otilde;es abundavam, Crist&oacute;v&atilde;o vigiava a casa dos<br \/>\n    cambiadores da moeda, dos joalheiros: e se surpreendia uns homens correndo,<br \/>\n    com alguma coisa escondida sob o sai&atilde;o, tirava-lha e ia deposit&aacute;-la<br \/>\n    numa igreja. Era ele quem distribu&iacute;a a &aacute;gua, varria as imund&iacute;cies,<br \/>\n    acendia as fogueiras para depurar o ar. E pouco a pouco, era t&atilde;o conhecido,<br \/>\n    que as mulheres, vendo a sua sombra passar rente das gelosias, chamavam sobre<br \/>\n    ele a ben&ccedil;&atilde;o do Senhor. Os ricos atiravam-lhe bolsas com que<br \/>\n    ele ia comprar p&atilde;o &agrave;s vi&uacute;vas. Os seus passos eram por<br \/>\n    vezes embara&ccedil;ado pelas crian&ccedil;as, que se prendiam &agrave;s suas<br \/>\n    pernas como a colunas. Os mercadores confiavam-lhe as suas tendas. Quando<br \/>\n    ele se ajoelhava &agrave; porta de uma igreja, dentro as ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    eram mais ardentes. E como ele acarretava as lenhas dos soldados, polia as<br \/>\n    suas armas, rondava por eles as portas &#8212; os soldados gritavam na rua:<br \/>\n    &quot;Viva Crist&oacute;v&atilde;o!&quot;<\/p>\n<p>Uma t&atilde;o grande popularidade inquietou o sobrinho do pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    que, tendo o seu tio fugido da peste, com o seus tesouros e concubinas, governava<br \/>\n    a cidade, e queria, por ambi&ccedil;&atilde;o do poder, ganhar as simpatias<br \/>\n    do povo. Mas a sua face l&iacute;vida e dura, sobre um corpo enfezado e corcunda,<br \/>\n    desagradava &agrave;s mulheres por sua fealdade, aos soldados por sua fraqueza.<br \/>\n    Um dia em que ele seguia uma prociss&atilde;o, com as rel&iacute;quias de<br \/>\n    S. Te&oacute;dulo, o povo, &agrave; sua passagem, permaneceu com o joelho<br \/>\n    apenas dobrado. Logo atr&aacute;s, por&eacute;m, entre o povo, vinha Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    como uma torre entre casebres. Um mercador rico dera-lhe vinte varas de pano<br \/>\n    de Flandres, para um saio: e todo ele sorria na sua simplicidade, agitando<br \/>\n    duas palmas verdes que as confrarias dos Irm&atilde;os Hospitaleiros lhe tinham<br \/>\n    dado, como emblema da sua caridade. Ao v&ecirc;-lo, o povo, que se apertava<br \/>\n    contra as portas fechadas, rompeu a gritar seu nome entre b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os:<br \/>\n    &quot;Bom Crist&oacute;v&atilde;o! Crist&oacute;v&atilde;o grato ao Senhor!&quot;<br \/>\n    Uma dama atirou-lhe a flor que tinha no seio. Os velhos baixavam a cabe&ccedil;a<br \/>\n    como na passagem de um justo.<\/p>\n<p>O conde, adiante, tornara-se mais p&aacute;lido. E nessa noite dizia, sentado<br \/>\n    &agrave; lareira, desapertando o gib&atilde;o: &quot;Quem me livrar&aacute;<br \/>\n    daquele monstro que transvia o povo!&quot; Os guardas, tendo combinado baixo<br \/>\n    a um canto, vieram, cercando a sua alta cadeira de espaldar, animar por adula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o seu secreto pensamento. N&atilde;o era conveniente, na verdade, que um ser<br \/>\n    disforme, dos que se mostram nas feiras, ganhasse assim ra&iacute;zes no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do povo&#8230; De resto, a sua for&ccedil;a seria depressa domada com fortes correntes<br \/>\n    de ferro. E n&atilde;o havia, fora da cidade, um despenhadeiro, onde se poderia<br \/>\n    lan&ccedil;ar o corpo do imenso bruto? E quando, na manh&atilde; seguinte,<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o come&ccedil;ava o seu almo&ccedil;o junto da catedral,<br \/>\n    um pajem veio, sorrindo, e convidou-o a ir &agrave; presen&ccedil;a do pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    que lhe queria dar ouro, e vestidos que conviessem a um homem t&atilde;o servi&ccedil;al.<br \/>\n    Pensando que os vestidos serviriam a cobrir os presos, que a mis&eacute;ria<br \/>\n    trazia nus, Crist&oacute;v&atilde;o sacudira as m&atilde;os, onde a broa se<br \/>\n    esfarelara, e obedeceu ao pajem, que corria para lhe seguir as passadas.<\/p>\n<p>Apenas Crist&oacute;v&atilde;o entrara no pal&aacute;cio, as grossas portas,<br \/>\n    eri&ccedil;adas de ferros, foram fechadas. O conde, que estava num balc&atilde;o,<br \/>\n    gritou agitando o povo emplumado: &quot;Eh Crist&oacute;v&atilde;o!&quot;<br \/>\n    E como ele movia um passo, sorrindo, com a face erguida para o balc&atilde;o,<br \/>\n    de onde pendia um veludo franjado de ouro &#8212; dois soldados meteram-lhe<br \/>\n    bruscamente entre as pernas uma trave, e Crist&oacute;v&atilde;o tombou no<br \/>\n    lajedo. Logo, de todas as portas, romperam homens inumer&aacute;veis, que<br \/>\n    cobriram o imenso corpo deitado, como as formigas cobrem um tronco. Num momento<br \/>\n    foi amarrado com grossas correntes e ferro: e para que nenhum grito dele sa&iacute;sse,<br \/>\n    uma morda&ccedil;a tapou-lhe a boca. Depois todos, recuando vivamente, contemplaram<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio o gigante vencido. O pr&iacute;ncipe desceu para ver, com<br \/>\n    damas, cujas caudas eram como longas tiras de tapete sobre o p&aacute;tio.<br \/>\n    E os pajens cuspiam sobre a sua face barbuda. Ele pensava no Senhor que fora<br \/>\n    flagelado &#8212; e mais nos pobres que ele servia, e que decerto nesse dia<br \/>\n    sentiriam a sua falta. Todo o dia ficou assim cercado de lacaios, de cozinheiros,<br \/>\n    que deixavam o servi&ccedil;o para o vir ver. E no cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    alguns havia compaix&atilde;o.<\/p>\n<p>A noite desceu, escura, sem uma estrela. Ent&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    abriu os olhos. Os c&atilde;es de fila, soltos, rondavam o p&aacute;tio. A<br \/>\n    sentinela dormia, &agrave; porta, encostada &agrave; lan&ccedil;a: e das altas<br \/>\n    ogivas do pal&aacute;cio vinha um clar&atilde;o, e um rumor de violinos. Ent&atilde;o<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o retesou os m&uacute;sculos &#8212; e com grande ru&iacute;do<br \/>\n    todas as correntes estalaram. Diante da grande forma erguida, os molossos<br \/>\n    fugiram, latindo. A sentinela, largando a lan&ccedil;a, fugiu. E Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    de um s&oacute; golpe de ombros fazendo estalar a porta, saltou o fosso, entrou<br \/>\n    nas ruas desertas. Mas de repente parou, pensando que se revelasse a trai&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do conde, o povo, os soldados, que o n&atilde;o amavam, lhe fariam mal, e,<br \/>\n    se a calasse, o conde, decerto o faria matar. Assim se ficasse, ou o seu sangue<br \/>\n    correria, ou correria o sangue dele por sua causa. E ent&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    dirigiu-se &agrave; grande porta da cidade. &Agrave; luz de um ret&aacute;bulo<br \/>\n    da Virgem os soldados jogavam os dados. E vendo Crist&oacute;v&atilde;o, perguntaram-lhe<br \/>\n    se o pr&iacute;ncipe lhe dera uma bolsa, ou panos para um vestido. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    murmurou:<\/p>\n<p>&#8212; O pr&iacute;ncipe deu mais que eu esperava.<\/p>\n<p>E passou, penetrou nos caminhos, deixando para sempre a cidade onde fora<br \/>\n    bom aos aflitos.<\/p>\n<h2><a name=\"11\">Cap&iacute;tulo XI<\/a><\/h2>\n<p>Longos dias Crist&oacute;v&atilde;o errou pelos caminhos &#8212; at&eacute;<br \/>\n    que uma tarde chegou ao sop&eacute; de uma montanha, cujas rochas o Sol poente<br \/>\n    cobria de cor-de-rosa. Um homem, com um h&aacute;bito de frade, um longo capuz<br \/>\n    de onde sa&iacute;a uma braba branca, subia lentamente os c&oacute;rregos<br \/>\n    alcantilados, gemendo, sob um molho de lenha. Crist&oacute;v&atilde;o pedira<br \/>\n    ao velho para carregar ele a lenha. O frade, receando um dem&ocirc;nio, tra&ccedil;ou<br \/>\n    no ar uma cruz, e como Crist&oacute;v&atilde;o repetisse sobre o peito as<br \/>\n    linhas santas, o frade consentiu que ele tirasse o molho dos ombros. E limpando<br \/>\n    o suor com a manga esfarrapada do h&aacute;bito enquanto caminhava ao lado<br \/>\n    de Crist&oacute;v&atilde;o, perguntou-lhe se ele fugira dos homens que o mostravam<br \/>\n    numa feira: e como Crist&oacute;v&atilde;o dissesse que vinha da cidade, de<br \/>\n    al&eacute;m, o frade compreendeu que ele vinha decerto atra&iacute;do pela<br \/>\n    santidade daquela montanha povoada de ermitas. E pensava: &quot;Aqui est&aacute;<br \/>\n    um homem, decerto simples, e de for&ccedil;a imensa, que poderia aliviar dos<br \/>\n    seus trabalhos os santos var&otilde;es que ali habitam, deixando-lhes mais<br \/>\n    tempo para aperfei&ccedil;oar a alma, e dar batalha segura ao Tentador&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Ent&atilde;o foi guiando Crist&oacute;v&atilde;o at&eacute; que chegaram<br \/>\n    a uma choupana feita de ramos, ente pedras alcantiladas. &Agrave; porta da<br \/>\n    cabana, cravada entre duas paredes, erguia-se uma cruz tosca, e ao p&eacute;,<br \/>\n    sob uma caveira, pousava, aberto, um grande in-f&oacute;lio. Dentro da cabana<br \/>\n    havia s&oacute; um leito de folhas secas, e uma bilha com a asa quebrada.<\/p>\n<p>O ermita, tendo indicado a Crist&oacute;v&atilde;o o s&iacute;tio onde devia<br \/>\n    deixar o molho de lenha, tomou de uma buzina pendurada &agrave; porta da cabana,<br \/>\n    e afastando os longos pelos do bigode branco, lan&ccedil;ou tr&ecirc;s sons<br \/>\n    roucos, que ecoaram nas quebradas. Crist&oacute;v&atilde;o, t&iacute;mido,<br \/>\n    considerava cada movimento do ermita como uma a&ccedil;&atilde;o de santidade.<br \/>\n    Ent&atilde;o, das sendas v&aacute;rias do monte come&ccedil;aram a aparecer,<br \/>\n    caminhando devagar, uns apoiados em bord&otilde;es, outros com as m&atilde;os<br \/>\n    escondidas nas mangas, ermitas, a quem um longo capuz escondia a face. O primeiro<br \/>\n    que chegou, dando com Crist&oacute;v&atilde;o, fez o sinal da cruz, e depois,<br \/>\n    com um gesto, chamou os outros, que, assim apressados, sa&iacute;ram de rocha<br \/>\n    em rocha. Quase todos tinham longas barbas, grisalhas e incultas, as t&uacute;nicas<br \/>\n    esfarrapadas, e o lodo dos caminhos seco em crosta nas pernas. Com um gesto<br \/>\n    lento co&ccedil;avam pelo corpo a v&eacute;rmina que os cobria: e, se as pernas<br \/>\n    ou os bra&ccedil;os se lhes tinham chagado, erguiam as t&uacute;nicas como<br \/>\n    tirando contentamento daquelas mis&eacute;rias da carne. Alguns, por&eacute;m,<br \/>\n    eram novos, ainda robustos, mas t&atilde;o p&aacute;lidos j&aacute;, que as<br \/>\n    faces sob o capuz eram como uma cera na sombra. Todos se curvavam diante do<br \/>\n    monge que guiara Crist&oacute;v&atilde;o; e depois ficavam mais calados e<br \/>\n    mudos que imagens sobre um t&uacute;mulo. Mas ent&atilde;o o ermita, que parecia<br \/>\n    ter a autoridade de um prior, explicou que, ao sop&eacute; da montanha, voltando<br \/>\n    de recolher a lenha, encontrara aquele homem de corpo imenso e de imensa for&ccedil;a,<br \/>\n    mas t&atilde;o simples que n&atilde;o sabia de onde viera, nem em que terra<br \/>\n    nascera. E logo lhe acudira, como inspira&ccedil;&atilde;o de cima, a id&eacute;ia<br \/>\n    de o recolher, e de o ocupar no servi&ccedil;o dos santos irm&atilde;os que<br \/>\n    habitavam a serra, &agrave; maneira do que praticara Santo Ant&atilde;o no<br \/>\n    Egito, que, para que os seus irm&atilde;os do ermo, e ele pr&oacute;prio,<br \/>\n    se absorvessem melhor na ora&ccedil;&atilde;o, e mais livres ficassem para<br \/>\n    dar combate ao Dem&ocirc;nio, tomara um negro de muita for&ccedil;a, que conduzia<br \/>\n    a &aacute;gua, rachara a lenha, segurava nas mulas dos peregrinos, transportava<br \/>\n    as coifas das provis&otilde;es. Assim, de ora em diante, tendo quem os servisse,<br \/>\n    nas suas almas n&atilde;o haveria mais cuidados do que a conquista do C&eacute;u.<br \/>\n    Tendo findado, e baixando a face sob o capuz, como recolhido em ora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; os ermitas, sem quebrar a sua mudez, retomaram os caminhos da serra,<br \/>\n    e um a um foram-se sumindo entre as rochas e os robles.<\/p>\n<p>S&oacute; com Crist&oacute;v&atilde;o, o ermita, voltando &agrave; cabana,<br \/>\n    trouxe um peda&ccedil;o grosso de broa, de que deu uma parte a Crist&oacute;v&atilde;o.<br \/>\n    Ambos beberam da bilha: &#8211; e tendo ordenado a Crist&oacute;v&atilde;o que fosse<br \/>\n    com a lenha &agrave;s costas, atrav&eacute;s da serra, para a distribuir pelas<br \/>\n    ermidas esparsas, estendeu-se em frente &agrave; cruz, e, pousando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    sobre uma pedra, ficou mergulhado em ora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o partiu. Cada ermita lhe ensinava, sem falar, com<br \/>\n    um mover lento da m&atilde;o, a ermida mais vizinha. Em todas, a mesma caveira<br \/>\n    alvejava ao p&eacute; da mesma cruz. E &agrave;quela hora da tarde todos estavam<br \/>\n    &agrave; porta da ermida partindo o seu p&atilde;o, e tendo ao lado, interrompido,<br \/>\n    ou o livro que liam, ou o grande ros&aacute;rio que desfiavam, ou algum cesto<br \/>\n    que encanastravam, ou as estrelas que teciam. &Agrave; porta de cada cabana<br \/>\n    pendia uma buzina e um molho de disciplinas, com pontas de ferro. Quando Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    chegava, todos al&ccedil;avam o olhar baixo: nalguns o olhar era sereno, de<br \/>\n    uma serenidade morta; noutros refulgia com um vago clar&atilde;o de terror,<br \/>\n    ou uma viva luz, que parecia alongar-se numa curiosidade sem fim. Humildemente,<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o depunha o molho de lenha com respeito, como junto<br \/>\n    de um altar: e os monges, tendo seguido o seu movimento, baixavam e novo a<br \/>\n    face sob o capuz. Quando Crist&oacute;v&atilde;o voltou &agrave; ermida do<br \/>\n    prior &#8212; ainda o encontrou estendido, com a cabe&ccedil;a pousada na<br \/>\n    pedra, dando por vezes um suspiro. Ent&atilde;o, calado, foi sentar-se a dist&acirc;ncia<br \/>\n    numa pedra.<\/p>\n<p>O Sol descia ao longe, vermelho como uma amora. Nenhum rumor cortava a placidez<br \/>\n    do ar. Os homens pareciam estar muito longe: &#8211; e depois daqueles dias passados<br \/>\n    na cidade empestada, Crist&oacute;v&atilde;o sentiu toda aquela serenidade<br \/>\n    entrar-lhe na alma como uma car&iacute;cia sem fim. Mas lembrava todos aqueles<br \/>\n    que deixara, e mesmo lhe parecia ver certos detalhes &#8212; a casa da esquina<br \/>\n    onde ele ia levar p&atilde;o &agrave;s crian&ccedil;as abandonadas, o velho<br \/>\n    a quem ia chegar a bilha da &aacute;gua. Decerto sentia a falta desses seres<br \/>\n    que socorria: &#8211; mas naqueles ermitas havia tanta fraqueza, tanta necessidade,<br \/>\n    que decerto seria doce ocupar-se desse servi&ccedil;o. O sol desaparecera.<br \/>\n    Todo o vale de rochas estava negro. Por vezes um grande p&aacute;ssaro escuro<br \/>\n    esvoa&ccedil;ava. Uma estrela pequenina luzia, depois outra. O santo prior<br \/>\n    orava, com a face sobre a terra fria. E Crist&oacute;v&atilde;o, cansado,<br \/>\n    estendeu o imenso corpo na terra, adormeceu.<\/p>\n<p>Alta noite acordou: &#8211; um som lento, desolado, de buzina, ca&iacute;a de rocha<br \/>\n    em rocha pelo sil&ecirc;ncio da serra. Era como o apelo de uma cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aflito: &#8211; e imediatamente o prior, correndo de dentro da cabana, se atirou<br \/>\n    de joelhos diante da cruz, rezando, com furor tumultuoso. De certo, longe,<br \/>\n    algum irm&atilde;o estava sofrendo uma tenta&ccedil;&atilde;o do Inimigo,<br \/>\n    e j&aacute; meio vencido, soprava a buzina avisando a todos os ermitas para<br \/>\n    que o ajudassem com as suas ora&ccedil;&otilde;es a recha&ccedil;ar Belzebu.<br \/>\n    Sentado no seu rochedo, Crist&oacute;v&atilde;o olhava, cheio de simplicidade,<br \/>\n    sem compreender, com as m&atilde;os pousadas sobre os joelhos &#8212; quando<br \/>\n    de outro lado da serra, l&aacute; no cimo, outra buzina soou, chamando socorro<br \/>\n    para outra alma atacada. Mais tumultuosas se precipitaram as ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do ermit&atilde;o. Mas a buzina ressoava mais aflita! E ent&atilde;o o santo<br \/>\n    homem, desesperado, gritou a Crist&oacute;v&atilde;o que acendesse uma fogueira<br \/>\n    perto da cruz, para que ela, destacando em negro sobre o vermelho do lume,<br \/>\n    fosse vista pelos dem&ocirc;nios, que nessa noite pareciam dar um ataque terr&iacute;vel<br \/>\n    &agrave; santa montanha.<\/p>\n<p>Ferindo lume com duas pedras, Crist&oacute;v&atilde;o, rapidamente, fez uma<br \/>\n    fogueira, soprando com as faces inchadas: a lenha nova estalou, uma chama<br \/>\n    subiu, outros lumes em breve apareceram na negrura da serra: &#8211; e os sons das<br \/>\n    buzinas decresciam como as &acirc;nsias de um cora&ccedil;&atilde;o que sossega.<br \/>\n    Um sil&ecirc;ncio pesou ent&atilde;o. Crist&oacute;v&atilde;o cerrara as p&aacute;lpebras.<br \/>\n    E o prior, um momento, aqueceu &agrave; chama as suas m&atilde;os tr&ecirc;mulas.<\/p>\n<p>Mas os seus olhos fixavam-se na chama, com uma atra&ccedil;&atilde;o crescente:<br \/>\n    um clar&atilde;o de cobi&ccedil;a iluminava-lhe a face, e a sua l&iacute;ngua<br \/>\n    apareceu &agrave; beira da boca seca, como adiantando-se para uma grande pe&ccedil;a<br \/>\n    de carne tenra, vermelha, chiando ainda no largo prato onde fora assada&#8230;<br \/>\n    Chegou mesmo a estender a m&atilde;o aberta. Mas deu um grito. Onde tinha<br \/>\n    ele os esp&iacute;ritos que n&atilde;o reconhecera uma ilus&atilde;o do Inimigo,<br \/>\n    que o vinha tentar pela gula?! Furioso, ordenou a Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    que apagasse a fogueira.<\/p>\n<p>Com os bra&ccedil;os em cruz, passeou ent&atilde;o no estreito terra&ccedil;o<br \/>\n    bordado de pedras. A sua boca seca mascava com um ru&iacute;do cont&iacute;nuo:<br \/>\n    &#8211; e ia balbuciando ora&ccedil;&otilde;es. Os olhos de Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    fixos no brasido vermelho que restava do fogo, iam-se cerrando. Toda a montanha<br \/>\n    se calara. E como insensivelmente atra&iacute;do, o ermita voltou a olhar<br \/>\n    o brasido, que vermelhava numa brasa viva. O que ele agora via eram mont&otilde;es<br \/>\n    de dinheiro, ducados de ouro, montes de rubis escarlates que se esboroavam,<br \/>\n    numa infinita rutila&ccedil;&atilde;o de tesouros. Bastava baixar a m&atilde;o,<br \/>\n    e teria tesouros para comprar um condado, erguer catedrais, assalariar mercen&aacute;rios,<br \/>\n    comprar j&oacute;ias &agrave;s rainhas, ter todas as satisfa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do poder, e do amor, e do orgulho eclesi&aacute;stico. E todavia o ermita<br \/>\n    sorria, sacudia a barba branca, murmurando: &quot;Bem vejo a tua ilus&atilde;o,<br \/>\n    oh Maldito, que me julgavas desprevenido! Mas a minha alma est&aacute; forte,<br \/>\n    e nela, como o arqueiro na torre, a ora&ccedil;&atilde;o vigia, cheia de for&ccedil;a!&#8230;&quot;<br \/>\n    E com o p&eacute; espalhou os carv&otilde;es ardentes. E Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    pensava na sua simplicidade: &quot;Quantas coisas v&ecirc; este homem, que<br \/>\n    eu n&atilde;o vejo! Decerto &eacute; por causa da sua sabedoria ou da sua<br \/>\n    santidade&quot;.<\/p>\n<p>No entanto, o ermita recolhera &agrave; sua cabana: mas, apenas entrara,<br \/>\n    soltou um grito, e saiu recuando, com os bra&ccedil;os abertos, que pareciam<br \/>\n    sacudir uma vis&atilde;o. Era uma mulher, de espl&ecirc;ndida brancura e toda<br \/>\n    nua, que ele encontrara deitada de costas sobre o seu catre de folhas, com<br \/>\n    bra&ccedil;os abertos que o esperavam e o chamavam. E durante um momento,<br \/>\n    as suas m&atilde;os, como impelidas por for&ccedil;a oculta, tinham-se estendido<br \/>\n    para ela irresistivelmente: mas nos p&eacute;s, t&atilde;o brancos, reconhecera<br \/>\n    um p&eacute; de cabra &#8212; e tendo-se benzido freneticamente, a mulher<br \/>\n    evaporara-se, como um fumo negro, atrav&eacute;s dos ramos da cabana. Mas<br \/>\n    quase cedera &agrave; temerosa ilus&atilde;o &#8212; e se no momento em que<br \/>\n    lhe estendia os bra&ccedil;os tivesse morrido, era o Inferno, a dana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    completa! Ent&atilde;o agarrou violentamente as disciplinas,e arrancando a<br \/>\n    t&uacute;nica, gritou: &quot;&Agrave; obra, &agrave; obra santa!&quot; As<br \/>\n    duas correias de couro de boi, armadas de unhas de ferro, cingiam-lhe a cinta,<br \/>\n    rasgavam-lhe a pele do dorso. A cada golpe, dava um gemido rouco: mas, pouco<br \/>\n    e pouco, de duros e aflitos os gemidos tornaram-se lentos e l&acirc;nguidos:<br \/>\n    &#8211; e o pobre ermita, a cada vergastada, murmurava: &quot;Socorro, meu Senhor,<br \/>\n    socorro, que estes golpes que dou em mim come&ccedil;am a ser com um contato<br \/>\n    delicioso!&#8230; Faz que eu sofra, Senhor! D&aacute; ardor infinito aos verg&otilde;es<br \/>\n    que sulcam a minha carne! Sopra para dentro das feridas a tua c&oacute;lera!<br \/>\n    Que ela me queime e arda, como um pez inflamado!&#8230;&quot; E, de repente, caiu<br \/>\n    como morto, com os bra&ccedil;os estendidos.<\/p>\n<p>Cheio de piedade, Crist&oacute;v&atilde;o ergueu-o do ch&atilde;o, e empurrou-o<br \/>\n    como um corpo morto para dentro da cabana, e onde ele ficou estirado, com<br \/>\n    algum lento gemido que por vezes o sacudia.<\/p>\n<p>A manh&atilde; clareava. Crist&oacute;v&atilde;o adormeceu.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o come&ccedil;ou, desde esse dia, o seu servi&ccedil;o entre os<br \/>\n    ermitas. Todas as manh&atilde;s ia buscar um tonel &agrave; fonte, que brotava<br \/>\n    em cima, de entre rochas, e ia enchendo de ermida em ermida, as bilhas de<br \/>\n    barro. Depois cortava a lenha, amassava o p&atilde;o, que se cozia num forno<br \/>\n    de tijolo, junto de uma capela onde os santos homens ouviam missa e comungavam.<br \/>\n    Era ele quem tocava o sino, punha giesta sobre o altar &#8212; e , por ordem<br \/>\n    do prior, espalhava seixos sobre o ch&atilde;o da capela, para que os joelhos<br \/>\n    dos ermitas se macerassem. Pela tarde, tendo reunido as esteiras, as alpercatas,<br \/>\n    os cestos, que os ermitas fabricavam, descia a uma povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do outro lado da serra, onde trocava aquelas obras das santas m&atilde;os<br \/>\n    pela farinha, por ervas, e pelo vinho das galhetas. Todos estes servi&ccedil;os<br \/>\n    eram f&aacute;ceis e doces. Mas, pouco a pouco, Crist&oacute;v&atilde;o sentia<br \/>\n    como uma melancolia e um desejo das cidades e da vida dos homens. A montanha<br \/>\n    era triste e sem verdura; &#8211; mas a sua tristeza vinha sobretudo do sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    da amargura, da desola&ccedil;&atilde;o dos santos que a povoavam. Todo o<br \/>\n    dia era por eles consumido a gemer, mesmo quando trabalhavam &#8212; e o seu<br \/>\n    esfor&ccedil;o constante era a martiriza&ccedil;&atilde;o dos corpos, onde<br \/>\n    se instalava o Inimigo. Mesmo im&oacute;veis, quietos, se estavam mortificando:<br \/>\n    uns traziam um cinto de pregos, que lhes rasgava a carne; outros introduziam<br \/>\n    debaixo do h&aacute;bito formigas ou vespas que os picavam; outros suspendiam<br \/>\n    do pesco&ccedil;o uma pedra enorme, e caminhavam arquejando e trope&ccedil;ando.<br \/>\n    Toda a do&ccedil;ura humana lhes era alheia. Ao p&atilde;o que coziam misturavam<br \/>\n    terra; a &aacute;gua, s&oacute; a queriam j&aacute; envelhecida e p&uacute;trida.<br \/>\n    Por vezes alguns permaneciam, dias e dias, im&oacute;veis, de p&eacute; sobre<br \/>\n    uma pedra, com as m&atilde;os espalmadas, sob a chuva, e, quando o sono ou<br \/>\n    a fome os iam a vencer, enterravam uma espinha aguda no peito; outros dormiam<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a sobre uma pedra, outra pedra sobre o est&ocirc;mago, outra<br \/>\n    sobre as pernas juntas, e eram como cad&aacute;veres de justos lapidados.<br \/>\n    Por vezes, Crist&oacute;v&atilde;o oferecia-se para lavar as chagas, tirar<br \/>\n    os espinhos dos p&eacute;s, curar com cinzas e &aacute;gua a mordedura dos<br \/>\n    insetos. Mas todos o repeliam, e para tornar as feridas mais irrit&aacute;veis<br \/>\n    expunham-nas ao sol ardente, ou deitavam-lhes areia fina. Um imenso sofrimento<br \/>\n    cobria a montanha; e sobre ela o Sol parecia uma l&acirc;mpada triste, atrav&eacute;s<br \/>\n    dela o vento um gemido angustiado.<\/p>\n<p>Era, por&eacute;m, de noite, que ela se tornava terr&iacute;vel. Animados<br \/>\n    pela escurid&atilde;o, os dem&ocirc;nios subiam por cada caminho, para atacar<br \/>\n    os santos homens. Em cada cabana era uma luta temerosa. Os santos tinham a<br \/>\n    ora&ccedil;&atilde;o, as suas longas disciplinas armadas de unhas de ferro;<br \/>\n    mas os dem&ocirc;nios, por seu lado, tinham as coisas deliciosas a que as<br \/>\n    almas sucumbem. Aos ermitas que vinham esfomeados, os diabos ofereciam longas<br \/>\n    mesas, cobertas de flores, onde os pav&otilde;es assados arqueavam as penas<br \/>\n    entre os montes de frutas e os blocos de gelo; aos que tinham sido cavaleiros,<br \/>\n    mostravam montes de ouro, armas invenc&iacute;veis, longos ex&eacute;rcitos<br \/>\n    para ir conquistar reinos e saquear cidades ricas; aos velhos faziam ofertas<br \/>\n    de mitras, que lhes dariam entre os homens a suprema autoridade das coisas<br \/>\n    santas; &#8211; e a todos a tenta&ccedil;&atilde;o suprema, a Beleza, a Mulher,<br \/>\n    ora magn&iacute;fica, desenrolando as tran&ccedil;as, erguendo uma t&uacute;nica<br \/>\n    de gaze, ora delicada, escondendo com os bra&ccedil;os o peito nu, e sorrindo<br \/>\n    fragilmente.<\/p>\n<p>Mas quando as sedu&ccedil;&otilde;es n&atilde;o bastavam, os dem&ocirc;nios,<br \/>\n    furiosos, tentavam o terror. Ent&atilde;o eram serpentes pavorosas, surgindo<br \/>\n    de entre as rochas; vastas asas moles e f&eacute;tidas que, com um golpe,<br \/>\n    derrubavam; figuras colossais, listradas de branco e negro, que brandiam forquilhas,<br \/>\n    vertendo uma baba de fogo. Os gritos dos ermitas atroavam a serra; as buzinas<br \/>\n    ressoavam; uma furiosa rajada de ora&ccedil;&otilde;es subia para as nuvens;<br \/>\n    as correias das disciplinas voavam no ar, com gotas de sangue: &#8211; e, espantados<br \/>\n    pela grandeza da penit&ecirc;ncia, os dem&ocirc;nios cediam, abalavam, limpando<br \/>\n    o suor, esfalfados.<\/p>\n<p>Uma grande piedade enchia ent&atilde;o o cora&ccedil;&atilde;o de Crist&oacute;v&atilde;o.<br \/>\n    Por que sofriam assim aqueles homens bons, que encanastravam as vergas, caminhavam<br \/>\n    com a face baixa, n&atilde;o faziam nenhuma ofensa e s&oacute; pertenciam<br \/>\n    ao C&eacute;u? O seu desejo era ajud&aacute;-los, recha&ccedil;ar ele s&oacute;,<br \/>\n    com a sua grande for&ccedil;a, as turbas negras do Inferno. Ent&atilde;o,<br \/>\n    ao menor apelo da buzina, corria para o lado do ermita atacado. Arquejando,<br \/>\n    com os imensos punhos fechados de santa c&oacute;lera, avan&ccedil;ava na<br \/>\n    escurid&atilde;o. Mas onde estava o Dem&ocirc;nio? Ele via o santo ermita<br \/>\n    recuar com pavor, via o escuro lugar para onde ele estendia a cruz, como uma<br \/>\n    lan&ccedil;a&#8230; Mas se se arremessava para l&aacute;, os seus bra&ccedil;os<br \/>\n    vingadores s&oacute; encontravam a noite negra. Quantas vezes ele encontrava<br \/>\n    o ermita, que tremia todo, e murmurava: &quot;Oh, como &eacute; branca, e<br \/>\n    doce &agrave; vista, e cheia nas suas formas!&#8230;&quot; Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    compreendia: era decerto uma mulher, a temida Mulher, que arqueava os bra&ccedil;os,<br \/>\n    descobria o peito&#8230; Para a empolgar, a esganar, ele quase rastejava no ch&atilde;o,<br \/>\n    colhendo o h&aacute;bito. Mas as suas m&atilde;os indignadas s&oacute; agarravam<br \/>\n    o tojo, os musgos de uma pedra fria. Ent&atilde;o ele pr&oacute;prio clamava<br \/>\n    para os dem&ocirc;nios: &quot;Vinde para mim, vinde para mim!&quot; E, arrancando<br \/>\n    um tronco, atirava tremendos golpes, ou arrancando uma imensa lasca &agrave;s<br \/>\n    penedias, arremessava-a atrav&eacute;s da noite. Os troncos batiam contra<br \/>\n    os troncos; as rochas, com estridor, quebravam sobre as rochas. E diante dele,<br \/>\n    nada havia, sen&atilde;o a montanha; Pois era imposs&iacute;vel que ele nunca<br \/>\n    ferisse um dos dem&ocirc;nios inumer&aacute;veis, que ali vinham de noite?<br \/>\n    Ia ent&atilde;o, mal clareava a madrugada, procurar, com a cabe&ccedil;a baixa,<br \/>\n    as pegadas dos diabos fugidos, algum chifre que lhes tivesse partido, ou sobre<br \/>\n    a terra chamuscada alguma gota do sangue maldito. Encontrava apenas as violetas<br \/>\n    lustrosas de orvalho. E ent&atilde;o recolhia &agrave; sombra dos seus robles,<br \/>\n    bocejando com lentid&atilde;o.<\/p>\n<p>Pelas festas do ano, o povo da aldeia subia &agrave; montanha, vinha visitar<br \/>\n    os ermitas. Uns, doentes, aflitos com males, amparados pelos parentes, vinham<br \/>\n    implorar a sa&uacute;de &agrave;queles amigos do Senhor. Outros pediam a sua<br \/>\n    interven&ccedil;&atilde;o para obter uma colheita abundante, ou a heran&ccedil;a<br \/>\n    perdida. As mulheres traziam os filhos para que eles, tocando-os na cabe&ccedil;a,<br \/>\n    lhes dessem vida forte e pr&oacute;spera: &#8211; e as que eram est&eacute;reis<br \/>\n    vinham implorar as do&ccedil;uras da maternidade. A montanha era como um arraial<br \/>\n    de peregrinos. As crian&ccedil;as, correndo, trope&ccedil;avam nas muletas<br \/>\n    dos coxos. As raparigas, com uma flor metida na orelha, formavam dan&ccedil;as<br \/>\n    no adro da capela. Os que tinham feito promessas arrastavam-se de joelhos<br \/>\n    sete vezes em torno das cruzes, ou penduravam no altar p&eacute;s de cera,<br \/>\n    la&ccedil;os de fita e cestos de frutas. Como voltariam tarde para a aldeia,<br \/>\n    quase todos traziam provis&otilde;es, e, dependurando os mant&eacute;us nos<br \/>\n    troncos da &aacute;rvores, faziam grande c&iacute;rculo em torno das melancias<br \/>\n    abertas, bebendo dos pich&eacute;is de vinho.<\/p>\n<p>Os ermitas iam por entre a turba, e por vezes, mal podiam mover os passos<br \/>\n    lentos, envolvidos, suplicados pelos feridos que, fartos de ung&uuml;entos,<br \/>\n    pediam que lhes tocassem nas chagas com o ros&aacute;rio, pelos mendigos que<br \/>\n    queriam que lhes sarassem a sarna, pelas velhas hidr&oacute;picas que descobriam<br \/>\n    o ventre, esperando um rem&eacute;dio do C&eacute;u. Outros queriam apenas<br \/>\n    a ben&ccedil;&atilde;o. Havia faces inquietas que pediam uma profecia sobre<br \/>\n    as vindimas. Outros estendiam os ros&aacute;rios para eles os benzerem. E<br \/>\n    os ermitas tocavam as feridas, prometiam boas colheitas, sossegavam as m&atilde;es<br \/>\n    dos endemoninhados.<\/p>\n<p>Depois o prior subia ao p&uacute;lpito r&uacute;stico, feito de pedras, e<br \/>\n    enumerava as obras gloriosas da montanha. Onde houvera, mesmo na Tebalda,<br \/>\n    no tempo sublime dos Ant&atilde;os, dos Pac&oacute;mios, uma penit&ecirc;ncia<br \/>\n    mais alta? E mostrava as suas faces emagrecidas pelos jejuns, as suas carnes<br \/>\n    rasgadas pelas flagela&ccedil;&otilde;es. Uma imensa admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    arrebatava as turbas piedosas. E todos queriam ver nos corpos dos santos a<br \/>\n    evid&ecirc;ncia da sua santidade. E s&oacute; havia ent&atilde;o ermitas mostrando<br \/>\n    as chagas que eles tinham assanhado, as pisaduras que lhes deixavam as pedras<br \/>\n    onde dormiam, os dentes estragados pelo p&atilde;o azedo a que misturavam<br \/>\n    cinza. As mulheres erguiam as m&atilde;os, chorando. As mais ardentes arrancavam<br \/>\n    peda&ccedil;os da t&uacute;nica dos ermitas, que guardavam o seio como rel&iacute;quias.<br \/>\n    Os velhos beijavam a terra onde eles tinham pousado os p&eacute;s. Diante<br \/>\n    das cabanas havia multid&otilde;es a admirar a dureza dos leitos, a bilha<br \/>\n    quebrada, o grande in-f&oacute;lio. Alguns julgavam ver as pegadas dos anjos<br \/>\n    que visitavam os ermitas. Outros queriam provar o p&atilde;o, ou, cheios de<br \/>\n    respeito, tocavam com o dedo nas disciplinas. Crist&oacute;v&atilde;o era<br \/>\n    invejado por viver entre eles. Muitos queriam abandonar os casais, para servir<br \/>\n    os santos: &#8211; e havia sempre algum que, para ficar na montanha, se escondia<br \/>\n    entre as rochas, e que era necess&aacute;rio expulsar quando o Sol descia,<br \/>\n    e a hora chegava da solid&atilde;o e da prece.<\/p>\n<p>Mas nessas noites, depois dos arraiais, as ora&ccedil;&otilde;es n&atilde;o<br \/>\n    eram t&atilde;o profundas, nem as penit&ecirc;ncias t&atilde;o altas. Cansados,<br \/>\n    sentados &agrave; porta da suas cabanas, os ermitas saboreavam, no sil&ecirc;ncio<br \/>\n    do seu cora&ccedil;&atilde;o, a sua imensa santidade. Cada um se sentia famoso,<br \/>\n    falado nas lareiras do vale. Decerto a fama da sua santidade chegaria aos<br \/>\n    castelos. Os bispos falariam deles nos conc&iacute;lios. E mais tarde talvez<br \/>\n    suas imagens se ostentariam sobre os altares. E Crist&oacute;v&atilde;o ent&atilde;o<br \/>\n    via-os olhar complacentemente, acariciar as feridas da penit&ecirc;ncia, escolherem<br \/>\n    uma pedra maior para encostar &agrave; noite a cabe&ccedil;a. O prior vinha<br \/>\n    ent&atilde;o congratular os seus irm&atilde;os. A sua face resplandecia. E<br \/>\n    era ele que relembrava os movimentos da multid&atilde;o, e como a suas chagas<br \/>\n    tinham sido beijadas. E j&aacute; certo do poder da sua voz, falava em descer<br \/>\n    &agrave; plan&iacute;cie, pregar contra a relaxa&ccedil;&atilde;o dos Beneditinos.<br \/>\n    A sua estatura cada vez se erguia mais. Um dia mesmo mostrou em triunfo uma<br \/>\n    carta do conde de Ocit&acirc;nia, que o consultava sobre os d&iacute;zimos.<br \/>\n    E Crist&oacute;v&atilde;o entristecia, era como uma saudade de outros homens<br \/>\n    mais humanos, e do riso das crian&ccedil;as. Era sobretudo como uma impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    de toda aquela inutilidade dos ermit&eacute;rios, os longos e ocos sil&ecirc;ncios,<br \/>\n    as horas passadas com a fronte sobre uma pedra, aquela imobilidade contempladora<br \/>\n    de onde n&atilde;o sa&iacute;a nenhum bem, nada que aquecesse o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Povoada por toda aquela in&eacute;rcia, a montanha ainda lhe parecia mais<br \/>\n    inerte. E vinha-lhe como um desejo de sacudir aquela imobilidade dos homens<br \/>\n    e das coisas, e com as suas m&atilde;os arremessar conjuntamente os ermitas<br \/>\n    e os robles, as caveiras e as rochas. e empurr&aacute;-los para alguma a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &uacute;til, mand&aacute;-los de rold&atilde;o, pela montanha abaixo, a ser<br \/>\n    &uacute;teis aos homens!<\/p>\n<p>O seu cora&ccedil;&atilde;o pouco a pouco se destacava daqueles amores. J&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o corria t&atilde;o alegremente a encher as bilhas; tanta cruz envolta<br \/>\n    por tantos bra&ccedil;os, n&atilde;o lhe causava do&ccedil;ura na alma; e<br \/>\n    aborrecia as caveiras, com seu riso im&oacute;vel, oferecendo ao Sol a sua<br \/>\n    frialdade branca. Quando de noite as buzinas soavam, implorando o aux&iacute;lio<br \/>\n    de ora&ccedil;&otilde;es irm&atilde;s, n&atilde;o se erguia em sobressalto<br \/>\n    apiedado. Toda a flagela&ccedil;&atilde;o o impacientava. E nos dias de festa<br \/>\n    embrenhava-se nos altos da serra, para n&atilde;o presenciar o orgulhos dos<br \/>\n    ermitas, mostrando as feridas das disciplinas.<\/p>\n<p>Um dia o prior mandou-lhe construir, com um madeiro, uma cruz da altura de<br \/>\n    um homem. Tr&ecirc;s dias Crist&oacute;v&atilde;o trabalhou. E quando, enfim,<br \/>\n    cravou a cruz num ponto evidente da serra, onde n&atilde;o havia arvoredos,<br \/>\n    o prior chamou os seus irm&atilde;os de ermit&eacute;rio. Um por um, desceram,<br \/>\n    rezando baixo. O prior encostara-se &agrave; cruz, com o corpo colado ao madeiro,<br \/>\n    e abriu os bra&ccedil;os ao longo da cruz &#8212; cruz humana, colada &agrave;<br \/>\n    cruz da lenha. depois ordenou um c&acirc;ntico. Quando ele cessou:<\/p>\n<p>&#8212; Agora &#8212; disse o prior &#8212; vou ficar aqui, sem comer, sem<br \/>\n    dormir, durante tr&ecirc;s dias, pelas tr&ecirc;s pessoas da Sant&iacute;ssima<br \/>\n    Trindade. Esta obra &eacute; gloriosa!<\/p>\n<p>Todos ergueram as m&atilde;os ao C&eacute;u, edificados. Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    nessa tarde, desceu o c&oacute;rrego at&eacute; vale, e sem sequer volver<br \/>\n    os olhos, abandonou para sempre a montanha.<\/p>\n<h2><a name=\"12\">Cap&iacute;tulo XII<\/a><\/h2>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o tomou o caminho do lado oposto aos povoados &#8212;<br \/>\n    e come&ccedil;ou a caminhar, ao acaso, pela longa ravina que contornava a<br \/>\n    serra. Era como leito de antiga torrente, que seguia funda entre rochas, seca<br \/>\n    e triste infinitamente. Toda a noite caminhou &agrave; luz de uma grande Lua<br \/>\n    cheia. De madrugada dormiu &agrave; boca de uma caverna. A solid&atilde;o<br \/>\n    era como a de um mundo deserto, onde s&oacute; ele habitasse. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    sonhou com prados e regatos muito frios, muito l&iacute;mpidos, que corriam<br \/>\n    entre aloendros em flor. Quando acordou teve sede, e em roda s&oacute; havia<br \/>\n    um torr&atilde;o t&atilde;o est&eacute;ril, que nem nele crescia o tojo.<\/p>\n<p>Todo o dia, marchando sempre, Crist&oacute;v&atilde;o padeceu sede. Ao p&ocirc;r<br \/>\n    do Sol, julgou ver longe uma &aacute;gua que rebrilhava. Eram largas lajes<br \/>\n    de pedra como restos de um terra&ccedil;o, ou do lajedo de um solar. Deitado,<br \/>\n    esperou ali a manh&atilde;: e, atrav&eacute;s de um sono incerto, julgava<br \/>\n    ver como olhos luzidios de lobos, que passavam, se sumiam para al&eacute;m<br \/>\n    de um barranco. De manh&atilde; dirigiu os passos para esse barranco, e a&iacute;<br \/>\n    ao fundo havia como uma &aacute;gua lodosa e p&uacute;trida, que ele bebeu<br \/>\n    como del&iacute;cia.<\/p>\n<p>Durante dois dias mais caminhou; e o deserto n&atilde;o cessava, com vales<br \/>\n    est&eacute;reis, penedias alcantiladas, e um solo pedregoso, negro, gretado,<br \/>\n    que escaldava sob o sol de Agosto. Sentado por vezes contra uma rocha, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    cerrava os olhos sob a fadiga, o ardor da estiagem, e parecia-lhe ver grandes<br \/>\n    peda&ccedil;os de p&atilde;o, e frutos que ca&iacute;am de maduros ao passar<br \/>\n    de um vento fresco. Estendia a m&atilde;o, e s&oacute; encontrava as pedras<br \/>\n    quentes. Retomava a marcha, e, marchando sempre, padecia fome.<\/p>\n<p>Mas uma tarde que caminhava, j&aacute; t&atilde;o fraco que os seus p&eacute;s<br \/>\n    trope&ccedil;avam a cada instante, encontrou-se de repente numa encosta, onde<br \/>\n    uma floresta sombria verdejava. Crist&oacute;v&atilde;o mergulhou na espessura.<br \/>\n    Bem cedo sentiu um murm&uacute;rio de &aacute;gua. Mais longe, uma carvalheira<br \/>\n    estava carregada de bolota. Crist&oacute;v&atilde;o ficou ali dois dias, consolando<br \/>\n    com lentid&atilde;o a fome e a sede. Depois, quando emergiu da floresta, avistou<br \/>\n    diante de si uma regi&atilde;o com &aacute;rvores, um riacho que fugia, muros,<br \/>\n    e uma tranq&uuml;ilidade habitada. Um fumo lento subia, a dist&acirc;ncia,<br \/>\n    para o claro c&eacute;u. Crist&oacute;v&atilde;o alongou para l&aacute; os<br \/>\n    passos. O fumo subia de um casebre queimado; ao lado havia barricas arrombadas;<br \/>\n    o cad&aacute;ver de uma vaca, meio seco, desaparecia sob o zumbido das moscas;<br \/>\n    o pomar estava arrancado e devastado; e em redor todo o solo, a erva, estavam<br \/>\n    espezinhados, como por um tropel de cavaleiros em marcha.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o seguiu, caminhando &agrave; beira do regato. Grandes<br \/>\n    prados verdejavam, cobertos de bot&otilde;es-de-ouro. As ramas dos salgueiros<br \/>\n    mergulhavam na &aacute;gua fugidia e clara. Os p&aacute;ssaros chalravam na<br \/>\n    frescura; E no meio desta paz, um moinho com a porta arrombada, e pendente<br \/>\n    dos gonzos, os grandes paus das velas partidos, as paredes chamuscadas do<br \/>\n    lume, jazia com a tristeza de um cad&aacute;ver num prado de Primavera. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    dirigiu-se para o moinho. De uma &aacute;rvore meio partida, que se erguia<br \/>\n    por tr&aacute;s, junto &agrave;s escadas, pendia um velho enforcado, com uma<br \/>\n    pedra amarrada aos p&eacute;s. Ao lado negrejavam os ti&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    apagados de uma fogueira, e junto dela uma lan&ccedil;a esquecida.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o foi seguindo. Por todo o caminho havia as confusas<br \/>\n    pegadas de cavaleiros em marcha; todas as sebes estavam rotas; uma ponte r&uacute;stica<br \/>\n    fora partida a machadadas; outros casebres apareciam devastados, nus, com<br \/>\n    o colmo queimado: &#8212; e nem uma criatura se via, entre aquelas ru&iacute;nas.<\/p>\n<p>Ao fim de um longo dia, por&eacute;m, tendo-se sentado junto de um casebre<br \/>\n    em ru&iacute;nas, sentiu um ru&iacute;do entre as &aacute;rvores: &#8212;<br \/>\n    e um homem apareceu em farrapos, l&iacute;vido, escaveirado, e logo se sumiu<br \/>\n    entre a espessura das &aacute;rvores. Para o deixar livre de medo, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    ergueu-se e foi mais adiante, onde havia uma colina com rochas. Um grande<br \/>\n    roble crescia &agrave; boca de uma caverna. E ao ru&iacute;do dos seus passos,<br \/>\n    uma cabe&ccedil;a de velha apareceu &agrave; boca da caverna, e logo se sumiu<br \/>\n    assustada. Crist&oacute;v&atilde;o pensava com dor por que se esconderiam<br \/>\n    esses homens. Por que seria aquela terra povoada por gente que se escondia<br \/>\n    nos bosques, nas tocas dos bichos, debaixo das penedias?&#8230; Por qu&ecirc;?<br \/>\n    Uma grande piedade j&aacute; o ia tomando. Se ouvia um rugir de ramagens afastadas,<br \/>\n    gritava: Paz! Paz! para tranq&uuml;ilizar aqueles cora&ccedil;&otilde;es aterrados,<br \/>\n    mas logo as ramagens se fechavam e tudo ficava mudo.<\/p>\n<p>Ia caminhando. Bebia nos regatos, comia a bolota das &aacute;rvores e as<br \/>\n    ervas dos prados. Um dia avistou uma aldeia e casebres de colmo juntos em<br \/>\n    torno de uma igreja, cuja torre estava em obras. Um caminho seguia entre filas<br \/>\n    de pl&aacute;tanos. Ao penetrar nele, uma mulher que, agachada com uma crian&ccedil;a,<br \/>\n    procurava ervas, fugiu t&atilde;o tontamente que deixou a crian&ccedil;a no<br \/>\n    ch&atilde;o. Crist&oacute;v&atilde;o apanhou a crian&ccedil;a, t&atilde;o<br \/>\n    magrinha que se palpavam os seus pobres ossinhos, sob a pele cheia de feridas:<br \/>\n    e nem chorava, com a m&atilde;ozinha sobre a testa, onde as chagas eram maiores.<br \/>\n    Todo o cora&ccedil;&atilde;o de Crist&oacute;v&atilde;o se enchia de dor.<br \/>\n    Lan&ccedil;ou um grande brado pela mulher. Ningu&eacute;m respondeu. Ent&atilde;o,<br \/>\n    tomando a crian&ccedil;a ao colo, seguiu sob os pl&aacute;tanos mas sentia,<br \/>\n    atrav&eacute;s das folhagens, algu&eacute;m que o seguia. Pousou no ch&atilde;o<br \/>\n    a crian&ccedil;a, afastou os passos. E voltando-se bruscamente, viu a mulher<br \/>\n    que saltava entre o tojo, arrebatava a crian&ccedil;a e de novo sumia no mato.<\/p>\n<p>Ao fim do caminho era a aldeia. As primeiras casas, junto de uma pali&ccedil;ada<br \/>\n    de estaca, estavam desertas, nuas por dentro, como saqueadas. Num uma r&ecirc;s<br \/>\n    de gado se via nos aidos. Nem uma foice pendia sobre a lareira. A uma porta,<br \/>\n    uma velha, mais magra que um esqueleto, olhava com os olhos fixos cavados<br \/>\n    no vago, e como deslumbrados de espanto. Um cad&aacute;ver abandonado, que<br \/>\n    ningu&eacute;m enterrara, tinha as m&atilde;os decepadas. Por vezes uma figura<br \/>\n    passava correndo, com os cabelos ao vento. Uma figura de mulher, de bru&ccedil;os,<br \/>\n    com os cabelos soltos, estava agarrada a um ber&ccedil;o vazio.<\/p>\n<p>Mas ao fim da aldeia, junto de um calv&aacute;rio, viu correr gente em magote.<br \/>\n    Um frade meio descal&ccedil;o, sem capuz, de olhos ardentes, erguia uma cruz,<br \/>\n    chamava a justi&ccedil;a de Deus. Como podiam os homens sofrer mais sobre<br \/>\n    a terra? Os senhores andavam em guerra, e da&iacute; vinha o mal dos pobres.<br \/>\n    Os bar&otilde;es corriam as suas terras, e tudo saqueavam. tudo roubavam para<br \/>\n    adestrar soldados, ter hostes brilhantes. Se outros, mais fortes, os faziam<br \/>\n    prisioneiros, de novo voltavam nos seus grandes corc&eacute;is, a saquear,<br \/>\n    roubar, tirar ao pobre a &uacute;ltima acha, a &uacute;ltima m&atilde;o-cheia<br \/>\n    de favas, para reunir o pre&ccedil;o do resgate. Se ficavam vencedores, eis<br \/>\n    que voltavam a saquear os restos, a arrancar a seara ainda mal madura, para<br \/>\n    celebrar festas, e erguer solares ricos. Depois, atr&aacute;s passavam ainda<br \/>\n    as companhias de mercen&aacute;rios, que, nada encontrando, queimavam os muros,<br \/>\n    destru&iacute;am os arvoredos, e matavam as crian&ccedil;as nos ber&ccedil;os.<br \/>\n    Quanto tempo mais consentiria o Senhor este mal que ia na terra? Por toda<br \/>\n    a parte ele andara, s&oacute; vira a fome. As mulheres comiam os cad&aacute;veres<br \/>\n    dos filhos. Os homens em breve seriam como feras. E a&iacute; dos que se encontrassem<br \/>\n    no caminhos da turba esfaimada!<\/p>\n<p>A sua m&atilde;o tremia no ar cheia de amea&ccedil;as. E em torno dele os<br \/>\n    mo&ccedil;os l&iacute;vidos apertavam os punhos, com olhares que procuram<br \/>\n    uma arma. Mas outros baixavam a cabe&ccedil;a. Que podia o pobre, s&oacute;,<br \/>\n    na sua terra est&eacute;ril? A justi&ccedil;a devia vir de Deus. Uma mulher<br \/>\n    gritou: ?Ou antes do Dem&ocirc;nio!&#8230;? Um murm&uacute;rio e terror passou<br \/>\n    entre a gente.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o saiu da aldeia com o cora&ccedil;&atilde;o esmagado.<br \/>\n    Os seus olhos erguiam-se para o C&eacute;u. Ali, por tr&aacute;s do azul,<br \/>\n    estava o Senhor! Decerto ele via tantos sofrimentos, as guerras, as fomes,<br \/>\n    as pestes.<\/p>\n<p>Por que n&atilde;o descia do seu trono de ouro? Uma car&iacute;cia da sua<br \/>\n    m&atilde;o direita daria aos pobres a abund&acirc;ncia, os frutos, as tulhas<br \/>\n    cheias de p&atilde;o; e os bandos negros dos senhores cru&eacute;is desapareceriam<br \/>\n    como nuvens que o Sol desfaz, ao mover sua m&atilde;o esquerda&#8230; Por que<br \/>\n    n&atilde;o vinha o Senhor?<\/p>\n<p>As terras que Crist&oacute;v&atilde;o atravessava estavam desoladas, at&eacute;<br \/>\n    que, penetrando numa regi&atilde;o mais am&aacute;vel e f&eacute;rtil, com<br \/>\n    pradarias, aldeias, viu ao longe longos fumos esguios que se elevavam para<br \/>\n    o c&eacute;u. Um grupo de soldados derrubava &aacute;rvores. E bem depressa<br \/>\n    viu as barracas de um acampamento. Era uma companhia de tunos. As tendas estavam<br \/>\n    alinhadas sem ordem, ao acaso. todos procurando a maior proximidade do rio.<br \/>\n    E como era &agrave; hora do rancho, viam-se os soldados, de bru&ccedil;os,<br \/>\n    mergulharem nas &aacute;guas as grossas panelas de ferro. Por toda a parte,<br \/>\n    sobre as fogueiras acesas, suspensos de varas de ferro ensarilhadas, ferviam<br \/>\n    os caldeir&otilde;es: &#8212; e junto aos carros, onde vinham as barricas<br \/>\n    de vinho roubadas nos casais e nos mosteiros, os homens juntavam-se com os<br \/>\n    seus pich&eacute;is na m&atilde;o. Dois carniceiros esfolavam um boi estirado<br \/>\n    no ch&atilde;o: &#8212; e o trabalho era feito num rumor incessante de pragas<br \/>\n    e cantos.<\/p>\n<p>Todos os homens, de barbas incultas, grandes cicatrizes nos rostos, imundos,<br \/>\n    tinham um curto saio de malha de ferro: e como estavam num pa&iacute;s vencido,<br \/>\n    sem receio de surpresas, os morri&otilde;es e os broqu&eacute;is pendiam &agrave;<br \/>\n    entrada das tendas rotas, umas de lona, outras de peles de carneiro; sobre<br \/>\n    um c&ocirc;moro era a dos chefes, com bandeiras flutuando. Por todo o acampamento<br \/>\n    circulavam mulheres, que seguiam os soldados, umas roubadas nos assaltos das<br \/>\n    aldeias, outras que acompanhavam, por deboche, o bando dos homens; todas tinham<br \/>\n    o ar cansado dos grandes furores que suportavam. Aqui e al&eacute;m, um monge<br \/>\n    descal&ccedil;o, com uma adaga na corda do h&aacute;bito, o olhar ardente,<br \/>\n    ia de tenda em tenda. Alguns homens jogavam os dados. Outros limpavam as armas.<br \/>\n    Os falc&otilde;es gritavam sobre os seus poleiros, feitos de lan&ccedil;as.<\/p>\n<p>Serenamente, na sua simplicidade, Crist&oacute;v&atilde;o atravessou o acampamento.<\/p>\n<p>Como os bandos cada dia recrutavam novos tunos, ou aprisionavam servos, ningu&eacute;m<br \/>\n    estranhava a sua presen&ccedil;a. ?A quem pertences?? perguntavam-lhe. Ele<br \/>\n    atirava um gesto vago para as tendas. E julgando-o idiota, como todos os gigantes,<br \/>\n    deixavam-no ir, ou aproveitavam a sua for&ccedil;a para mover os pipos, rachar<br \/>\n    lenhas, descarregar dos machos os grandes fardos amarrados com cordas. Tendo<br \/>\n    trabalhado, Crist&oacute;v&atilde;o comeu e bebeu. A noite caiu: as estrelas<br \/>\n    luziram. Por toda a parte se acenderam fogos. Em torno deles os homens bebiam,<br \/>\n    jogavam os dados, ou escutavam um monge contando hist&oacute;rias do Diabo.<br \/>\n    Por vezes um grito de mulher espancada cortava o ar. As can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    imundas abafavam o grito das sentinelas. E da colina, onde acampavam os chefes,<br \/>\n    vinha uma m&uacute;sica doce de p&iacute;fanos e atabales.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o, no entanto, ia atrav&eacute;s das tendas. Se via<br \/>\n    um tuno ferido que punha pano nas chagas agachava-se para ajudar. Aos cavalos<br \/>\n    presos,que relinchavam voltando o focinho para &aacute;gua, ia buscar uma<br \/>\n    dorna cheia. E aliviava as mulheres dos fardos de lenha que os homens as obrigavam<br \/>\n    a acarretar. Mas aquela gente era m&aacute;, queimava as aldeias, arrombava<br \/>\n    os sacr&aacute;rios, espancava duramente os animais, deixava as crian&ccedil;as<br \/>\n    morrendo &agrave; mingua nos silvados do caminho &#8212; e Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    alta noite, saiu do acampamento, pensando na sua simplicidade, que Jesus,<br \/>\n    seu amor, n&atilde;o o quereria entre aqueles cora&ccedil;&otilde;es duros.<\/p>\n<p>Tr&ecirc;s dias e tr&ecirc;s noites caminhou, e penetrou por fim numa regi&atilde;o<br \/>\n    de grande pen&uacute;ria. A terra seca, gretada, abandonada, nem produzia<br \/>\n    cardos. Toda a flor secara nas &aacute;rvores. A cada instante, ossos de animais<br \/>\n    branquejavam nos caminhos. As gentes dos campos, que ele encontrava, n&atilde;o<br \/>\n    tinham mais que ossos sob os trapos que os cobriam, e os seus olhos brilhavam<br \/>\n    como os das feras. Por vezes, &agrave; beira de um riacho, viam-se mulheres,<br \/>\n    crian&ccedil;as maceradas, arrastando-se, devorando as ra&iacute;zes das &aacute;rvores.<br \/>\n    Nas terras mais nuas, era a terra mesma que eles comiam &agrave;s m&atilde;os<br \/>\n    cheias, entre l&aacute;grimas que lhes ca&iacute;am nos dedos. Uma noite,<br \/>\n    passando junto de um cemit&eacute;rio, viu figuras sombrias, que, tendo desenterrado<br \/>\n    um morto, o talhavam em postas junto de uma fogueira. Depois foi um mendigo<br \/>\n    que lhe pediu para o proteger, porque a gente daqueles s&iacute;tios atacavam<br \/>\n    os pobres mais fracos, para ter carne humana. Todo um dia Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    caminhou com o mendigo &agrave;s costas. E, batendo os dentes de horror, o<br \/>\n    mendigo contava de pais que comiam os filhos pequenos, de outros que atra&iacute;am<br \/>\n    os viajantes para os matar. Ao fim do dia, tendo posto o pobre coxo no ch&atilde;o<br \/>\n    para descansar, viu-o suspirar e morrer. De noite, por toda a parte luziam<br \/>\n    os olhos dos lobos, esfaimados tamb&eacute;m, correndo a roer os cad&aacute;veres.<br \/>\n    Negros bandos de abutres torneavam o ar.<\/p>\n<p>E a dor de Crist&oacute;v&atilde;o era t&atilde;o grande que erguia os bra&ccedil;os<br \/>\n    ao C&eacute;u, e gritava pelo Senhor. Ele decerto n&atilde;o escutava; &Agrave;<br \/>\n    porta das ermidas, debalde o povo se apinhava, implorando miseric&oacute;rdia:<br \/>\n    os santos n&atilde;o desciam dos seus altares; as rel&iacute;quias dos m&aacute;rtires<br \/>\n    pareciam ter perdido a for&ccedil;a; e, desiludida do C&eacute;u, essa gente<br \/>\n    apedrejava os sacr&aacute;rios.<\/p>\n<p>Quem salvaria os homens? E Crist&oacute;v&atilde;o caminhava cheio de dor,<br \/>\n    por n&atilde;o os poder salvar. De que lhe servia a for&ccedil;a dos seus<br \/>\n    grande bra&ccedil;os, toda a vontade do seu cora&ccedil;&atilde;o!? Alargando<br \/>\n    os passos, atirando os olhos ao longe, ele s&oacute; procurava um meio de<br \/>\n    servir aos homens &#8212; e mesmo por vezes lhe vinha a id&eacute;ia de reunir<br \/>\n    alguns miser&aacute;veis, e dar-lhes a sua pr&oacute;pria carne a comer.<\/p>\n<p>Um dia que assim pensava, chegou a uma terra onde viu homens cavando o torr&atilde;o,<br \/>\n    outros arando, outros semeando. Um tro&ccedil;o de besteiros vigiava aqueles<br \/>\n    homens, que a fome emagrecera: &#8212; e um, monge, com um tinteiro metido<br \/>\n    no cinto de corda, lia um rol de nomes. Eram os abades dos mosteiros, os bispos<br \/>\n    em conc&iacute;lio, que assim arregimentavam os mais fortes das aldeias, e<br \/>\n    por uma ra&ccedil;&atilde;o de p&atilde;o os obrigavam a trabalhar, para que<br \/>\n    as terras n&atilde;o ficassem incultas e n&atilde;o fosse maior o tormento<br \/>\n    da fome. As mulheres, os filhos, vinham com eles para partilhar da magra ra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de p&atilde;o. Crist&oacute;v&atilde;o pediu uma enxada; e tendo admirado<br \/>\n    a for&ccedil;a dos seus bra&ccedil;os, o monge indicou-lhe um campo a limpar<br \/>\n    do pedregulho e do tojo. Com que paix&atilde;o ele se lan&ccedil;ou ao trabalho!<br \/>\n    Era como se j&aacute; estivesse saciando todas as fomes futuras. O tojo arrancado<br \/>\n    fazia montes junto aos seus grossos p&eacute;s nus: &#8212; e ainda por vezes<br \/>\n    acudia a ajudar os mais fracos, que trope&ccedil;avam sob um carreto de pedras,<br \/>\n    ou, exaustos, deixavam fugir a enxada das m&atilde;os. Em torno as mulheres,<br \/>\n    sentadas, im&oacute;veis, com os filhos em redor, esperavam que os homens<br \/>\n    trouxessem ao fim da tarde a ra&ccedil;&atilde;o de p&atilde;o, junta num<br \/>\n    cesto que os besteiros guardavam: mas a sua fome era tanta, que se precipitavam<br \/>\n    sobre os semeadores, quando, mergulhando a m&atilde;o na sacola, atiravam,<br \/>\n    com um gesto lento, um punhado de gr&atilde;os. Os besteiros tinham de correr,<br \/>\n    repelir as crian&ccedil;as que gritavam.<\/p>\n<p>Os olhos de Crist&oacute;v&atilde;o estavam cheios de l&aacute;grimas. Por<br \/>\n    vezes, cavando a terra, dizia baixo: ?Oh terra, d&aacute; depressa o p&atilde;o!<br \/>\n    Oh terra, tem piedade!? E ent&atilde;o os seus golpes de enxada tornavam-se<br \/>\n    mais doces, quase t&iacute;midos, como se receasse magoar aquela que implorava.<br \/>\n    Quando se distribu&iacute;a o p&atilde;o, ele tomava apenas uma c&ocirc;dea,<br \/>\n    e fazia partes iguais que dava &agrave;s escondidas &agrave;s crian&ccedil;as.<br \/>\n    Todos os olhos das m&atilde;es se voltavam para ele. Os homens murmuravam<br \/>\n    pensativamente: ?Tu &eacute;s o melhor&#8230;? De noite ele seguia o bando dos<br \/>\n    cavadores, que iam dormir em largos alpendres, &agrave; orla da floresta.<br \/>\n    Mas raros eram os que se atiravam para cima dos molhos de palha. Uma grande<br \/>\n    velha, descarnada e esguedelhada, cujos olhos rebrilhavam como brasas, vinha<br \/>\n    rondar em torno dos casebres apoiada a uma forte vassoura. Ao encarar a sua<br \/>\n    sombra negra passando no luar, os homens soltavam um suspiro, outros murmuravam:<br \/>\n    ?&Eacute; a sina!? As mulheres, &agrave; pressa, adormentavam as crian&ccedil;as,<br \/>\n    procuravam entre a palha vassouras, ou pequenas caba&ccedil;as, ou um peda&ccedil;o<br \/>\n    de v&eacute;u branco. E todos, uns depois dos outros, em sil&ecirc;ncio, desapareciam<br \/>\n    sob o arvoredo. Uma noite uma forte criatura, de olhos ardentes, disse a Crist&oacute;v&atilde;o:<br \/>\n    ?Vem?. E ele, na sua simplicidade, tomou o bord&atilde;o e partiu. Por toda<br \/>\n    a floresta, por baixo de toda a folha, se sentia o ro&ccedil;ar de gente que<br \/>\n    caminhava em sil&ecirc;ncio. Por vezes um grito prolongado cortava o grande<br \/>\n    sil&ecirc;ncio. E, mais r&aacute;pidas, as formas perpassavam sob a folhagem<br \/>\n    que rumorejava. Assim, Crist&oacute;v&atilde;o chegou a uma clareira, cercada<br \/>\n    de velhos e altos carvalhos, onde a Lua mal penetrava. Uma multid&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; a atulhava, trazendo candeias, ou alguma tocha fumarenta que bailava<br \/>\n    entre os ramos. Uma vasta mesa de pedra alvejava no meio, e um raio de luar,<br \/>\n    caindo em cima, alumiava um alguidar de ferro, junto com uma tripe&ccedil;a,<br \/>\n    coberta por uma pele de chibo. Uma impaci&ecirc;ncia parecia agitar toda aquela<br \/>\n    negra turba, onde por vezes um olhar reluzia, como o de uma fera na espessura.<br \/>\n    Uma voz, ao longe, gania: ?Voa, voa!? E, umas ap&oacute;s outras, vozes lamentosas<br \/>\n    e dolentes murmuravam: ?Voa!?<\/p>\n<p>Ent&atilde;o a grande velha descarnada avan&ccedil;ou, escarranchada sobre<br \/>\n    a vassoura. Outra correu atr&aacute;s dela, com os grossos cabelos ao vento;<br \/>\n    e outra ainda &#8212; at&eacute; que uma longa cauda de mulheres esguedelhadas,<br \/>\n    com o peito nu, grande cendal branco voando ao vento, come&ccedil;ou a girar<br \/>\n    em torno da mesa, lament&aacute;vel com um mover de bra&ccedil;os abertos<br \/>\n    semelhantes a um bater de asas cansadas. Deram assim uma volta lenta &#8212;<br \/>\n    at&eacute; que, parando diante da tripe&ccedil;a vazia, a grande velha estacou,<br \/>\n    e erguendo os bra&ccedil;os lan&ccedil;ou uma invoca&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>S. Marcos te amarque,<br \/>\n    S. Man&ccedil;os te amanse,<br \/>\n    A Gra&ccedil;a te fique,<br \/>\n    A H&oacute;stia te pique!<br \/>\n    Sempre que me vires<br \/>\n    Em mim te remires,<br \/>\n    E quanto me n&atilde;o vires<br \/>\n    Contra mim suspires!<\/p>\n<p>E soturnamente toda a turba gemeu, com a cad&ecirc;ncia de um martelo que<br \/>\n    cai na bigorna:<\/p>\n<p>S. Marcos te amarque,<br \/>\n    S. Man&ccedil;os te amanse!<\/p>\n<p>Subitamente a grande fila de mulheres largou numa correria, onde os cabelos<br \/>\n    se misturavam, as saias meio rotas se espeda&ccedil;avam, clamando, uivando.<br \/>\n    desesperadamente:<\/p>\n<p>Sempre que me vires<br \/>\n    Em mim te remires,<br \/>\n    Quando me n&atilde;o vires<br \/>\n    Contra mim suspires.<\/p>\n<p>Cada vez mais r&aacute;pida girava a grande ronda, com pulos enormes, que<br \/>\n    atiravam as fraldas brancas pela cabe&ccedil;a, misturavam as grenhas, faziam<br \/>\n    entrechocar no ar as vassouras e rocas. J&aacute; de entre a turba, que olhava<br \/>\n    em volta, partiam grandes brados. Aqui e al&eacute;m um bra&ccedil;o erguia-se,<br \/>\n    sacudindo furiosamente uma tocha. Pulos furiosos mostravam uma saia esvoa&ccedil;ando<br \/>\n    no ar. Havia uivos de lobisomens. E entre as pernas de Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    aterrado, grandes figuras, como c&atilde;es, fugiam com as m&atilde;os galopando<br \/>\n    na terra. Mas mais alta que todos os clamores, uma buzina de corno ressoou.<br \/>\n    Ent&atilde;o houve um sil&ecirc;ncio t&atilde;o grande, que se sentia as folhas<br \/>\n    mover-se ao vento lento da noite.<\/p>\n<p>De novo a grande velha estava diante da tripe&ccedil;a, agitando a sua grande<br \/>\n    vassoura. E, lentamente, baixo, numa s&uacute;plica humilde, come&ccedil;ou:<\/p>\n<p>Eu te encanto e recanto<br \/>\n    E ainda te sobrecanto,<br \/>\n    E por um sino-saim&atilde;o<br \/>\n    Metido num cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    E por fel d?excomungado,<br \/>\n    E por bode pintado,<br \/>\n    E pela asa do morcego,<br \/>\n    E pelo seixo do rego<br \/>\n    E pelo sangue do drago,<br \/>\n    E por tudo o que te trago,<br \/>\n    Vem!<\/p>\n<p>Um imenso apelo ressoou: ?Vem!? Todos os bra&ccedil;os se erguiam desesperadamente<br \/>\n    para a tripe&ccedil;a vazia. E a velha, como possu&iacute;da do del&iacute;rio,<br \/>\n    bradava em apelos agudos que varavam o ar:<\/p>\n<p>&#8212; Vem contra o Senhor! Vem contra o Bispo! Vem contra o Letrado! Vem<br \/>\n    contra o Rico!<\/p>\n<p>E cada vez a turba clamava mais ansiosamente: ?Vem! Vem!?<\/p>\n<p>Uma grande restolhada cortou a espessura &#8212; e soprou sobre a mesa, escarranchado,<br \/>\n    apareceu um homem enorme, de longa barba preta, todo coberto de p&ecirc;lo<br \/>\n    preto, que o assemelhava a um bode. Uma aclama&ccedil;&atilde;o soou, um del&iacute;rio<br \/>\n    arrebatou a todos. As mulheres pulavam, os homens sacudiam os barretes &#8212;<br \/>\n    enquanto a criatura negra, im&oacute;vel, dardejava em sil&ecirc;ncio os seus<br \/>\n    olhos coruscantes. Depois, quando se fez de novo um sil&ecirc;ncio, a criatura,<br \/>\n    estendendo o p&eacute;, gritou numa voz rouca:<\/p>\n<p>&#8212; Adorai!<\/p>\n<p>Todos lhe beijaram o p&eacute;, que desaparecia sob os felpos longos do p&ecirc;lo.<\/p>\n<p>Mas ent&atilde;o um homem, envolto num grande len&ccedil;ol branco arranjado<br \/>\n    como uma dalm&aacute;tica de bispo, e com uma mitra negra na cabe&ccedil;a,<br \/>\n    veio caminhando a coxear para o altar, a ler um livro que segurava nas m&atilde;os.<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o conhecia-o. Era o coxo que trabalhava ao lado dele,<br \/>\n    rosnando palavras inintelig&iacute;veis.<\/p>\n<p>Tendo o posto o livro sobre o altar, o homem abriu os bra&ccedil;os, e come&ccedil;ou<br \/>\n    a celebra&ccedil;&atilde;o de um rito, que, com horror, parecia a Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    semelhante &agrave; missa de sua aldeia. Curvado sobre o livro, com a m&atilde;os<br \/>\n    postas, ele resmungava uma leitura; erguendo os bra&ccedil;os, saudava a criatura<br \/>\n    felpuda; e quando, voltando-se para a turba, lan&ccedil;ava uma ben&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    todos se curvavam, e risos bestiais estalavam com amargura. Im&oacute;vel,<br \/>\n    a criatura, com as m&atilde;os pousadas nos joelhos, recebia o culto, Um ac&oacute;lito,<br \/>\n    lindo como um pajem, misturava um l&iacute;quido negro num vaso. E dos grandes<br \/>\n    carvalhos em redor ca&iacute;a uma sombra negra, que a Lua, aqui e ali, cortava<br \/>\n    de manchas l&iacute;vidas.<\/p>\n<p>Como na missa, uma campainha ressoou. O homem mitrado encheu o vaso, fez<br \/>\n    uma invoca&ccedil;&atilde;o, derramou um gota sobre os p&eacute;s juntos da<br \/>\n    criatura negra, bebeu o resto &#8212; e tendo limpado os bei&ccedil;os &agrave;<br \/>\n    ponta de sua dalm&aacute;tica, subiu a uma tripe&ccedil;a, e ficou recolhido,<br \/>\n    como um pregador que vai lan&ccedil;ar o seu texto. Um sil&ecirc;ncio caiu,<br \/>\n    t&atilde;o fundo, que se sentia o rumor das folhas. Um raio de Lua batia a<br \/>\n    face barbuda do coxo, que come&ccedil;ou a pregar.<\/p>\n<p>Erguendo os bra&ccedil;os, perguntou onde se encontraria a felicidade para<br \/>\n    o pobre? A terra era para ele um lugar de desola&ccedil;&atilde;o. E desde<br \/>\n    que nascia at&eacute; que o levavam para a vala, ele n&atilde;o fazia mais<br \/>\n    que gemer na escravid&atilde;o. Da alvorada &agrave; noite, trabalhava. E<br \/>\n    para quem ia todo o fruto do seu trabalho? Para o Senhor, para o Bispo, para<br \/>\n    o Intendente que vinha com os arqueiros. Para que o Senhor tivesse armas,<br \/>\n    ele n&atilde;o tinha lume, e tremia de frio. Para que o Bispo tivesse banquete,<br \/>\n    ele n&atilde;o tinha p&atilde;o, e empalidecia de fome. Para que o Intendente<br \/>\n    vivesse em casas cobertas, ele vivia em tocas que as suas m&atilde;os cavavam<br \/>\n    na terra.<\/p>\n<p>E era s&oacute; necessidades que sofria? N&atilde;o. Era espancado, arremessado<br \/>\n    para o fundo das pris&otilde;es, morria ente os tormentos&#8230; Se a sua mulher<br \/>\n    era bela, vinham homens de armas que a levavam. Se a sua cabra dava bom leite,<br \/>\n    vinha o senescal do convento que a confiscava. Tinha que pagar para nascer,<br \/>\n    tinha de pagar para morrer. Nos homens, para ele, n&atilde;o havia piedade.<br \/>\n    E havia-a porventura no C&eacute;u? O C&eacute;u mandava as fomes, mandava<br \/>\n    as pestes. Quem salvaria o pobre?&#8230; Amo forte, que o protegesse, s&oacute;<br \/>\n    lhe restava Aquele que vive debaixo da terra e que tem todos os poderes. Ele<br \/>\n    reunia os seus filhos, ali, onde eram livres e onde n&atilde;o chegava a lan&ccedil;a<br \/>\n    do Senhor, nem o b&aacute;culo do Abade. Ele ensinava os rem&eacute;dios que<br \/>\n    livram a peste. Ele fazia achar os tesouros. Ele fazia reflorir a terra. Ele<br \/>\n    dava do seu corpo o comer aos que t&ecirc;m fome, do seu sangue a beber aos<br \/>\n    que t&ecirc;m sede. Gl&oacute;ria a ele nas trevas!<\/p>\n<p>E a multid&atilde;o gritava: ?Gl&oacute;ria a ele nas trevas!?<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, saltando da tripe&ccedil;a, o coxo gritou:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; a hora! Vinde comer e beber, amai a quem vos ame, e sede<br \/>\n    homens livres no fundo da noite livre!&#8230;<\/p>\n<p>Subitamente, dois homens apareceram, trazendo um grande carneiro assado que,<br \/>\n    com facas, come&ccedil;aram a retalhar. Outros colocaram na mesa de pedra<br \/>\n    uma pipa de vinho. Com um clamor bestial, toda a turba se arremessou para<br \/>\n    o feiticeiro. A criatura negra bradava; ?Comei do meu corpo, bebei do meu<br \/>\n    sangue!? Os peda&ccedil;os sangrentos da r&ecirc;s desapareciam nas bocas<br \/>\n    vorazes. Em malgas de lou&ccedil;a, em vasos de buxo, o vinho negro espumava.<br \/>\n    Alguns fugiam com sua ra&ccedil;&atilde;o para a devorar em sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    Outros lutavam entre si, como c&atilde;es disputando um osso. As mulheres<br \/>\n    empinavam as malgas de vinho, que lhes escorria nos peitos. Havia outros que,<br \/>\n    na alegria do comer, dan&ccedil;avam, brandindo um osso esburgado. Sob a mesa,<br \/>\n    havia bra&ccedil;os descarnados lutando pelos restos. J&aacute; uma embriaguez<br \/>\n    aquecia as almas. Gritos roucos partiam das bocas das mulheres. E de p&eacute;,<br \/>\n    o grande bruxo, intimava a Lua a que se escondesse, para que os homens fossem<br \/>\n    mais livres, no fundo da noite livre. Crist&oacute;v&atilde;o, im&oacute;vel,<br \/>\n    olhava, encostado a um tronco, a cabe&ccedil;a escondida na ramagem ligeira.<br \/>\n    Por vezes, um pastor, agarrando uma das mulheres, arrebatava-a para a escurid&atilde;o.<br \/>\n    Gemidos de pecado contente soavam na negra espessura. As feiticeiras rasgavam<br \/>\n    os &uacute;ltimos trapos, e nuas, hediondas, galopavam escarranchadas sobre<br \/>\n    as vassouras. A grande mulher trigueira arrebatou e enla&ccedil;ou Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    com olhos que o devoravam, murmurando: ?Vem!?<\/p>\n<p>Ele suavemente empurrou a criatura &#8212; e s&oacute;, triste, de uma tristeza<br \/>\n    infinita, come&ccedil;ou a caminhar atrav&eacute;s do mato espesso. O seu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o sangrava. Aquela gente clamorosa n&atilde;o era amiga<br \/>\n    do Senhor. Perdidas estavam as suas almas. Mas por que sofriam eles tanto?<br \/>\n    O coxo dissera a verdade. Para o pobre s&oacute; havia a mis&eacute;ria. O<br \/>\n    Senhor vinha com sua grande lan&ccedil;a, depois o Bispo com o seu duro b&aacute;culo.<br \/>\n    E quando nada restava ao pobre, uma mulher branca surgia, encostada a uma<br \/>\n    vara branca &#8212; que era a Peste. Pobres homens! Pobres criaturas! Por<br \/>\n    que n&atilde;o vinha o Senhor?<\/p>\n<h2><a name=\"13\">Cap&iacute;tulo XIII<\/a><\/h2>\n<p>Assim pensando, caminhava Crist&oacute;v&atilde;o. Todo o dia caminhou. Desde<br \/>\n    a v&eacute;spera n&atilde;o tivera p&atilde;o, nem &aacute;gua: &#8212; e<br \/>\n    ao fim do dia, sentado numa pedra &agrave; beira do caminho, ele pensava onde<br \/>\n    encontraria o p&atilde;o dessa ceia. O s&iacute;tio em torno era deserto e<br \/>\n    triste. Nenhum caminho conduzia a moradas humanas. Ao lado, estendia-se uma<br \/>\n    grande lagoa dourada. Altos canaviais erguiam as suas ma&ccedil;arocas negras.<br \/>\n    E a &aacute;gua parecia dourada, tocada do sol que descia. Um bando de patos<br \/>\n    bravos voava no alto. E o sil&ecirc;ncio era triste e profundo.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o ia seguir, marchar, quando o rumor de uma cavalgada<br \/>\n    ressoou ao longe, e uma comitiva apareceu, caminhando com lentid&atilde;o.<br \/>\n    Dois besteiros a p&eacute;, marchavam na frente. Um servo trazia molhos de<br \/>\n    archotes, para a primeira escurid&atilde;o da noite. E logo atr&aacute;s caminhava<br \/>\n    uma vasta liteira, com cortinas de couro vermelho e topes de plumas aos cantos.<br \/>\n    Duas damas, ao lado, montavam mulas brancas. Em roda vinham cavaleiros com<br \/>\n    lan&ccedil;as. E as arcas das bagagens carregavam duas fortes mulas, emplumadas<br \/>\n    de vermelho.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o, logo de p&eacute;, tirou humildemente o seu barrete.<br \/>\n    E vendo aquela forma enorme, esguedelhada, negra, na claridade da tarde, os<br \/>\n    dois arqueiros, estacando, retesavam o arco, uma das damas deu um grito. A<br \/>\n    liteira parara, e de entre as cortinas uma dama muito velha, envolta em peles,<br \/>\n    espreitou, pondo ante os olhos a m&atilde;o, coberta com um guante de ca&ccedil;a.<br \/>\n    Mas Crist&oacute;v&atilde;o, humildemente, ca&iacute;ra de joelhos. Ent&atilde;o<br \/>\n    a dama deu uma ordem: &#8212; e um escudeiro, rudemente, mandou aproximar<br \/>\n    o homem enorme. Ele veio por entre os cavaleiros, cujas altas lan&ccedil;as<br \/>\n    direitas, nas selas, n&atilde;o lhe chegavam aos ombros largos. E pelas cortinas<br \/>\n    da liteira, descerradas, a velha dama, outra mais nova e p&aacute;lida, e<br \/>\n    uma crian&ccedil;a loura como um anjo, olhavam com espanto. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    caiu de joelhos junto da liteira. E como lhe perguntassem a que terra senhorial<br \/>\n    pertencia, e porque andava s&oacute; nos caminhos, Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    na sua simplicidade, s&oacute; pode murmurar que vinha de al&eacute;m e tinha<br \/>\n    fome. A dama mais nova palpou a sua escarcela &#8212; e a crian&ccedil;a gritou:<br \/>\n    ?&Eacute; o gigante que servia Rold&atilde;o!? Em roda os cavaleiros riram<br \/>\n    com respeito. E subitamente o pequeno fidalgo, sentado sobre os joelhos da<br \/>\n    velha, pediu, com um lindo mimo, para ter ele tamb&eacute;m um gigante, que<br \/>\n    o seguisse, com uma clava. A velha sorria. E, sem hesitar, deu ordem aos cavaleiros<br \/>\n    para que trouxessem Crist&oacute;v&atilde;o. Com um gesto foi mandado marchar<br \/>\n    ao lado das bagagens. E de novo os guizos dos machos tilintaram, e a comitiva<br \/>\n    seguia lentamente. O Sol descera. Os escudeiros acenderam os archotes. E a<br \/>\n    cada instante, de entre as cortinas da liteira, aparecia a cabe&ccedil;a loura<br \/>\n    da crian&ccedil;a que espreitava, queria ver se vinha o seu gigante. E Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    soube, pelos estribeiros, que aqueles eram os senhores do castelo de Riba<br \/>\n    Dona, que ficava para al&eacute;m das lagoas.<\/p>\n<p>Bem depressa, no alto de uma colina, entre os grandes bosques que desciam<br \/>\n    para o vale, surgiram as altas torres. Na mais alta ardia uma chama, que se<br \/>\n    torcia ao vento. Longas buzinas soaram. E &agrave; entrada da ponte levadi&ccedil;a,<br \/>\n    apareceram tochas inumer&aacute;veis, que os escudeiros erguiam alto.<\/p>\n<p>O intendente, o senescal, dois frades com h&aacute;bito, outros cavaleiros<br \/>\n    esperavam no p&aacute;tio. Nas janelas ogivais brilhavam claridades. E o sino<br \/>\n    da capela repicava alegremente. Um escudeiro, cuja barba branca ca&iacute;a<br \/>\n    sobre um corpete de couro branco, recebeu nos bra&ccedil;os a crian&ccedil;a<br \/>\n    loura, que as damas cortejavam, mergulhando nas suas longas saias de cauda,<br \/>\n    orladas de peles. Um tapete fora desenrolado sobre a vasta escadaria. Os c&atilde;es<br \/>\n    latiam alegremente. E sob a grande porta, que sustentava um escudo de armas,<br \/>\n    uma camareira esperava, com um jarro de prata na m&atilde;o, enquanto outras<br \/>\n    ao lado tinham uma bacia que rebrilhava, e uma branca toalha fina. A cauda<br \/>\n    enorme da velha que levava a crian&ccedil;a pela m&atilde;o, desapareceu sob<br \/>\n    o alto port&atilde;o. Os estribeiros levavam os cavalos &agrave; r&eacute;dea,<br \/>\n    outros recolhiam as lan&ccedil;as. E os cavaleiros, cujas esporas retiniam<br \/>\n    sobre os lajedos do p&aacute;tio, contavam ao intendente e ao padre como a<br \/>\n    jornada fora boa, com a ajuda do Senhor, sem encontro de touros, nem de lobisomens.<\/p>\n<p>Mas, no entanto, todos os criados cercaram Crist&oacute;v&atilde;o, com espanto.<br \/>\n    Ele torcia o seu barrete nas m&atilde;os, humildemente. Os pajens riam da<br \/>\n    sua grenha hirsuta, da imensidade dos seus p&eacute;s cheios de terra. Os<br \/>\n    mesmos cozinheiros tinham corrido, para o admirar. Os c&atilde;es, assustados,<br \/>\n    latiam.<\/p>\n<p>Mas um pajem veio correndo chamar Crist&oacute;v&atilde;o &agrave; sala de<br \/>\n    armas: &#8212; e atrav&eacute;s de um corredor abobadado, por onde ele tinha<br \/>\n    de caminhar todo vergado, e de portas de carvalho que mal podia passar, levou-o<br \/>\n    a uma sala que era grande como a nave de uma igreja. Pelas paredes estavam<br \/>\n    encostados molhos de lan&ccedil;as. Das traves do teto pendiam bandeiras,<br \/>\n    e ao fundo, numa vasta chamin&eacute;, ardiam troncos de &aacute;rvores, a<br \/>\n    que os cavaleiros, de p&eacute;, aqueciam as m&atilde;os. Uma cortina ergueu-se<br \/>\n    e as duas damas apareceram com a crian&ccedil;a no meio delas, e seguidas<br \/>\n    dos pajens, que traziam tochas de cera.<\/p>\n<p>O pequeno Senhor do castelo (porque seu pai morrera, havia dois anos, na<br \/>\n    guerra do rei da Ocit&acirc;nia) tinha feito seis anos pelo Natal, e era t&atilde;o<br \/>\n    delicado e louro, que pareceu a Crist&oacute;v&atilde;o o Menino Jesus que<br \/>\n    havia no altar da capela. Mas, desde crian&ccedil;a, fora educado para ser<br \/>\n    um cavaleiro forte: todas as manh&atilde;s lhe esfregavam os l&aacute;bios<br \/>\n    com um peda&ccedil;o de ouro bento, para que suas falas fossem honestas e<br \/>\n    brilhantes; a sua roupa era secada ao lume sobre o fio de uma grande espada,<br \/>\n    para que crescesse forte e amigo das armas; e trazia ao pesco&ccedil;o uma<br \/>\n    peda&ccedil;o do Santo Lenho, para que o seu cora&ccedil;&atilde;o se enchesse<br \/>\n    de amor do C&eacute;u. O seu encanto fora sempre ouvir as hist&oacute;rias<br \/>\n    dos Paladinos. De noite sonhava com Rold&atilde;o, e estendia os bra&ccedil;os<br \/>\n    para empunhar a grande trompa que soara em Roncesvales. E desejava libertar<br \/>\n    damas presas em torres, domar drag&otilde;es e ser servido por um gigante<br \/>\n    armado de uma clava.<\/p>\n<p>E ali o tinha, o seu gigante, maior de que todos aqueles de que ouvira falar,<br \/>\n    nos ser&otilde;es de Inverno, aos trovadores de passavam esmolando, ou aos<br \/>\n    peregrinos que tinham visto as maravilhas da Terra Santa. Direito, a m&atilde;ozinha<br \/>\n    assente na cinta, o olhar rebrilhante, estava diante de Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    &#8212; que sorria, com a vasta face barbuda toda pendida e enternecida para<br \/>\n    ele. Ent&atilde;o, erguendo o dedo para o alto, onde estava o ombro de Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    disse muito s&eacute;rio:<\/p>\n<p>&#8212; Quero subir l&aacute; cima.<\/p>\n<p>O seu aio ergueu-o nos bra&ccedil;os, mas n&atilde;o chegava &agrave;quela<br \/>\n    altura. As damas riam; os cavaleiros tamb&eacute;m, metendo os dedos entre<br \/>\n    os fios das barbas. Ent&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o agarrou delicadamente<br \/>\n    na crian&ccedil;a, e pousou-a no seu grande ombro. L&aacute; no alto, a crian&ccedil;a<br \/>\n    sorria, vendo todos embaixo, t&atilde;o pequenos, junto dos joelhos do gigante.<br \/>\n    Espica&ccedil;ou o ombro de Crist&oacute;v&atilde;o, gritou: ?Caminha!? E<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o marchou, atrav&eacute;s da sala. Para passar, a crian&ccedil;a<br \/>\n    afastava as bandeiras que pendiam. Os seus olhos, cheios de orgulho, reluziam<br \/>\n    como estrelas, mas a m&atilde;e inquieta erguia as m&atilde;os, chamava: ?Ruperto!<br \/>\n    Ruperto!? &#8212; E o aio, todo erguido na ponta dos p&eacute;s, estendia<br \/>\n    os bra&ccedil;os para as alturas de Crist&oacute;v&atilde;o, para receber<br \/>\n    Ruperto que se atirara de l&aacute;, rindo e sem medo.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o a dama velha deu suas ordens ao senescal. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    foi levado &agrave;s cozinhas &#8212; onde os pajens, os criados, correram<br \/>\n    para ver Crist&oacute;v&atilde;o, sentado no ch&atilde;o, com uma bacia de<br \/>\n    barro nos joelhos, cheia de vinho, esfarelar dentro grandes broas, que um<br \/>\n    criadito lhe trazia, ajoujado.<\/p>\n<p>Deitado, nessa noite, numa velha cavalari&ccedil;a abandonada, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    sentiu uma grande paz, e como um calor que o envolvia, vindo menos da palha<br \/>\n    fresca em que jazia do que do sentimento vago de que algu&eacute;m o estimava,<br \/>\n    o queria, necessitava dele. Era aquela crian&ccedil;a t&atilde;o linda, t&atilde;o<br \/>\n    nobre, com os seus longos cabelos de ouro. E toda a noite sonhou que uma crian&ccedil;a<br \/>\n    assim, cujos cabelos louros caindo sobre a camisa branca o envolviam num brilho<br \/>\n    de ouro, vinha desde a ponta dos seus p&eacute;s, caminhava ao comprido do<br \/>\n    seu corpo, como por uma estrada desigual que galga montes e vales: os seus<br \/>\n    pezinhos mal pousavam; e chegada junto da sua face, a crian&ccedil;a parava,<br \/>\n    e debru&ccedil;ada sobre os seus grandes olhos, parecia contemplar dois lagos<br \/>\n    tranq&uuml;ilos e claros como espelhos. Depois no mesmo sil&ecirc;ncio, e<br \/>\n    caminhando sobre o seu corpo, recuava at&eacute; a ponta dos seus p&eacute;s,<br \/>\n    de onde se elevava para o ar, resvalando num raio obl&iacute;quo da Lua, que<br \/>\n    entrava por uma fenda.<\/p>\n<p>Ao primeiro alvor da madrugada, antes que a buzina das sentinelas anunciasse<br \/>\n    o dia, Crist&oacute;v&atilde;o, saindo por uma porta aberta, foi rondar em<br \/>\n    torno do castelo. Nunca ele vira constru&ccedil;&otilde;es t&atilde;o magn&iacute;ficas.<br \/>\n    Uma longa muralha envolvia toda a colina. Os nen&uacute;fares cresciam na<br \/>\n    &aacute;gua dos fossos. E para al&eacute;m eram arvoredos, terras de cultura,<br \/>\n    por onde um rio, coberto &agrave;quela hora de n&eacute;voa, serpeava por<br \/>\n    entre grandes choupos.<\/p>\n<p>Desde tanto tempo havia paz naqueles feudos senhoriais, que a erva crescia<br \/>\n    nas fendas da ponte levadi&ccedil;a. A forca patibular, sob a clem&ecirc;ncia<br \/>\n    da damas que governavam, tinha as vigas apodrecidas e verdes de musgo. E sobre<br \/>\n    o torre&atilde;o erguia-se uma lan&ccedil;a, com um morri&atilde;o espetado,<br \/>\n    e uma caba&ccedil;a. significando que ali se dava hospitalidade a cavaleiros<br \/>\n    e peregrinos. As torres, de telhados agudos, eram inumer&aacute;veis, tendo<br \/>\n    todas bandeiras ou fl&acirc;mulas, vermelhas e verdes, que esvoa&ccedil;avam<br \/>\n    na brisa. Drag&otilde;es, debru&ccedil;ados das ameias, vomitavam a &aacute;gua<br \/>\n    das chuvas. E em cada janela ogival, com bras&otilde;es nas vidra&ccedil;as,<br \/>\n    havia um vaso escarlate, onde crescia uma a&ccedil;ucena.<\/p>\n<p>Dentro das muralhas, tudo era magn&iacute;fico. Os lajedos dos p&aacute;tios,<br \/>\n    polidos como os de uma igreja, eram cercados de uma bordadura de terra onde<br \/>\n    cresciam roseiras. O po&ccedil;o era encimado por um pombal que terminava<br \/>\n    por uma imagem de S. Marcos, onde as pombas vinham pousar, beijando-se sobre<br \/>\n    o seu grande livro aberto. Por tr&aacute;s da negra torre isolada, que servia<br \/>\n    de tesouro e de arquivo, havia um jardim em flor: e aos lados a um coberto<br \/>\n    para o jogo da bola, uma al&eacute;ia para o jogo da lan&ccedil;a.<\/p>\n<p>E na tranq&uuml;ilidade daquele solar de damas, alheias a coisas de guerra,<br \/>\n    respeitadas nas longas l&eacute;guas dos arredores, as sentinelas, sobre as<br \/>\n    ameias, jogavam os dados, ou dormiam como frades repletos.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o pasmava destas maravilhas, quando um pajem o chamou<br \/>\n    &agrave; presen&ccedil;a de um intendente. Numa sala abobadada, sentado numa<br \/>\n    vasta cadeira de carvalho lavrado, diante de uma mesa coberta de rolos de<br \/>\n    pergaminhos, de in-f&oacute;lios com armas estampadas, o intendente marcou<br \/>\n    a Crist&oacute;v&atilde;o as suas obriga&ccedil;&otilde;es, que consistiriam<br \/>\n    em acompanhar o Senhor sempre que ele sa&iacute;sse, a p&eacute;, ao lado<br \/>\n    do seu ginete, e armado de um clava. Depois um homem, um corcunda entrou,<br \/>\n    e trepando vivamente a uma cadeira mediu Crist&oacute;v&atilde;o com um c&ocirc;vado<br \/>\n    de madeira, desde a cabe&ccedil;a aos p&eacute;s, e saiu, recuando e saudando,<br \/>\n    com um molho de tesouras e de agulheiros tinindo &agrave; cinta.<\/p>\n<p>Quando o fato que ele assim medira ficou pronto, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    recebeu ordem para talhar uma ma&ccedil;a um tronco de &aacute;rvore, e, vestido,<br \/>\n    acompanhar o Senhor, que ia visitar as suas florestas: e enquanto o esperava,<br \/>\n    na clara manh&atilde; de Agosto, Crist&oacute;v&atilde;o n&atilde;o cessava<br \/>\n    de se mirar na &aacute;gua clara da cisterna, pasmado das bragas de pano &agrave;s<br \/>\n    listas azuis e vermelhas, que lhe cobriam as pernas, e do gib&atilde;o vermelho<br \/>\n    e azul, que lhe cobria o peito, tendo bordadas as armas da senhoria.<\/p>\n<p>Bem depressa o Senhor apareceu montado num potro branco, com plumas brancas<br \/>\n    na gorra, sob a qual ca&iacute;am os seus cabelos louros. Um aio, ao seu lado,<br \/>\n    levava o falc&atilde;o no punho. E dois cavaleiros seguiam, de lan&ccedil;a<br \/>\n    alta. Vendo Crist&oacute;v&atilde;o, o menino gritou de alegria: e tr&ecirc;s<br \/>\n    vezes fez correr o potro, que se espantava, em torno de Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    im&oacute;vel, com a sua ma&ccedil;a no ombro. Depois, atravessando a ponte<br \/>\n    levadi&ccedil;a, correu pelo caminho largo, voltando-se na sela, airoso e<br \/>\n    vivo, para ver Crist&oacute;v&atilde;o, que trotava com as suas vastas passadas,<br \/>\n    a longa guedelha ao vento. Pelas portas dos casebres, os vil&otilde;es do<br \/>\n    castelo ajoelhavam &agrave; passagem do Senhor, que lhes atirava moedas de<br \/>\n    cobre, da sua escarcela; depois, em grupo, com os bra&ccedil;os estendidos,<br \/>\n    ficavam a olhar o gigante que corria atr&aacute;s.<\/p>\n<p>Ao fim do passeio, tendo parado numa clareira onde se erguia uma torre, o<br \/>\n    menino n&atilde;o quis montar no potro, mas voltar ao castelo, cavalgando<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o. Debalde o aio, com um joelho em terra, o potro pelas<br \/>\n    r&eacute;deas, lhe pediu para montar. Com o olhar vivo, ele disse s&oacute;:<br \/>\n    ?Mas quero!? E, suspirando, o velho aio ajudou-o a trepar at&eacute; ao pesco&ccedil;o<br \/>\n    de Crist&oacute;v&atilde;o, onde ele montou, com as suas esporas fixadas no<br \/>\n    peito de couro.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o a sua alegria foi extrema. Era como se estivesse no alto de<br \/>\n    uma torre que caminhasse. Ora o fazia parar para apanhar as mais altas flores<br \/>\n    dos medronheiros, que atirava ao ch&atilde;o; ora queria espreitar os ninhos;<br \/>\n    ora, espica&ccedil;ando o peito de Crist&oacute;v&atilde;o, corria agarrado<br \/>\n    aos seus cabelos, como as r&eacute;deas de um ginete. E assim voltou ao castelo,<br \/>\n    onde a m&atilde;e e a av&oacute;, na grande varanda de pedra, apertavam as<br \/>\n    m&atilde;os, entre inquietas e agradadas, ao ver assim o menino cavalgar o<br \/>\n    gigante, como nos contos dos menestr&eacute;is.<\/p>\n<p>E desde esse dia a melhor alegria do menino foi cavalgar Crist&oacute;v&atilde;o.<br \/>\n    Eram ent&atilde;o grandes correrias em torno &agrave;s muralhas, ou em volta<br \/>\n    dos fossos, por vezes mais longe, at&eacute; a floresta, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    sempre trotando, o menino sempre rindo. E assim pouco a pouco o menino se<br \/>\n    afei&ccedil;oara a Crist&oacute;v&atilde;o, como um cavalo que o compreendia,<br \/>\n    o fazia rir, com corcovos violentos, ou passos largos e ondulados, como os<br \/>\n    de um vasto dromed&aacute;rio. Crist&oacute;v&atilde;o tamb&eacute;m, pouco<br \/>\n    a pouco, se dera de todo o cora&ccedil;&atilde;o &agrave; crian&ccedil;a.<br \/>\n    Quando o sentia sobre os ombros, toda a sua face se alumiava. Por mais fortemente<br \/>\n    que lhes puxasse os cabelos, s&oacute; sentia a car&iacute;cia das suas m&atilde;os.<br \/>\n    Para o fazer rir, relinchava como um corcel de guerra; ou fingia medo, n&atilde;o<br \/>\n    queria avan&ccedil;ar, e as esporas do menino rasgavam o couro do seu tabardo.<br \/>\n    Nos dias em que chovia e o menino n&atilde;o sa&iacute;a do castelo, todo<br \/>\n    o dia Crist&oacute;v&atilde;o rondava tristemente pelos p&aacute;tios, com<br \/>\n    a melancolia da sua ociosidade: e de noite n&atilde;o recolhia &agrave; sua<br \/>\n    estrebaria, com os olhos na janela onde luzia a luz que alumiava o menino.<\/p>\n<p>Por vezes, por&eacute;m, o menino queria que Crist&oacute;v&atilde;o viesse<br \/>\n    assistir ao seu jantar: &#8212; e ent&atilde;o dois pajens abriam mais largos<br \/>\n    os grandes reposteiros de tape&ccedil;aria para que Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    penetrasse na vasta sala, onde o teto era pintado de azul, e salpicado de<br \/>\n    flores que brilhavam como recortadas em ouro. Im&oacute;vel a um canto, ele<br \/>\n    contemplava o menino, que se sentava ao lado da av&oacute;, numa cadeira de<br \/>\n    alto espaldar como a dela. Por tr&aacute;s, o seu aio tomava os pratos da<br \/>\n    m&atilde;o do escudeiro. Sobre a mesa, coberta de linho fino, retiniam os<br \/>\n    copos de prata. Os bufetes vergavam ao peso das baixelas. Uma grande fogueira<br \/>\n    bailava na chamin&eacute;, onde estava representado o cerco de Antioquia:<br \/>\n    &#8212; e sobre os poleiros de ferro polido, os falc&otilde;es afiavam o bico.<\/p>\n<p>Mas, por vezes, o menino queria Crist&oacute;v&atilde;o mais perto. Ent&atilde;o<br \/>\n    a m&atilde;e, resignada, fazia um gesto seco: &#8212; e Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    muito humilde, assustado dos esplendores senhoriais, vinha, vergando os ombros,<br \/>\n    com o seu barrete na m&atilde;o. O menino queria-o de joelhos, com as m&atilde;os<br \/>\n    no ch&atilde;o, e batia-lhe nas costas, estendia-lhe peda&ccedil;os de carne,<br \/>\n    que ele comia com ru&iacute;do para o divertir mais.<\/p>\n<p>Outras vezes, &agrave; noite, um pajem vinha buscar Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    &agrave;s cozinhas, e entrava na grande sala, onde ardia uma fogueira na chamin&eacute;.<br \/>\n    Sentada na sua cadeira, a av&oacute; tinha um livro de horas aberto nos joelhos,<br \/>\n    com o menino ao lado. Defronte a m&atilde;e fazia tape&ccedil;aria. E um trovador,<br \/>\n    ao p&eacute;, sentado num escabelo, contava um longo romance de cavalaria<br \/>\n    e de amor. Era sempre um paladino de armas negras, uma dama encerrada nalguma<br \/>\n    alta torre, um gigante guardando a porta de um castelo encantado. O menino<br \/>\n    exclamava:<\/p>\n<p>&#8212; Tamb&eacute;m eu tenho um gigante!<\/p>\n<p>E fazia ent&atilde;o erguer Crist&oacute;v&atilde;o, que parecia monstruoso,<br \/>\n    com os grossos joelhos vivamente alumiados pela chama dos trocos ardendo,<br \/>\n    a cabe&ccedil;a quase perdida na sombra das altas vigas. O frade erguia as<br \/>\n    p&aacute;lpebras dormentes; a dama ficava com a longa agulha suspensa sobre<br \/>\n    a tape&ccedil;aria; e todos, olhando Crist&oacute;v&atilde;o, sentiam mais<br \/>\n    real e viva a longa hist&oacute;ria de fadas e cavaleiros. Depois os escudeiros<br \/>\n    serviam bolos secos, e as grandes canecas do hipocraz.<\/p>\n<p>Assim os dias tranq&uuml;ilos passavam no castelo tranq&uuml;ilo. O vigia,<br \/>\n    invariavelmente, ao anunciar, com um longo toque de buzina, o nascer do Sol,<br \/>\n    i&ccedil;ava no mastro da torre de menagem a grande bandeira de seda com as<br \/>\n    armas do Senhor. As janelas do castelo abriam-se; o sacrist&atilde;o varria<br \/>\n    a capela; o servo dos currais chegava, ajoujado com os seus c&acirc;ntaros<br \/>\n    de leite; e os pajens, cantando como p&aacute;ssaros que acordam, desciam<br \/>\n    correndo para o jogo de bola, ou para a li&ccedil;a coberta, onde o mestre<br \/>\n    de armas j&aacute; experimentava as espadas, vergando as l&acirc;minas, ou<br \/>\n    examinava os ferros das lan&ccedil;as.<\/p>\n<p>Se o tempo era claro, as damas e os meninos davam um passeio pelos altos<br \/>\n    terra&ccedil;os. O menino, por vezes, debru&ccedil;ando-se, gritava por Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    enquanto as damas respiravam o ar fresco, ou seguiam o v&ocirc;o dos falc&otilde;es<br \/>\n    novos, que os falcoeiros adestravam.<\/p>\n<p>Ao meio dia dois trombeteiros anunciavam o jantar dos Senhores; ao port&atilde;o<br \/>\n    do castelo iam-se juntando os pobres das terras senhoriais, pare receberem<br \/>\n    depois nos sal&otilde;es estendidos o resto dos p&atilde;es, ou a carca&ccedil;a<br \/>\n    das aves.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes, pela tarde, um repique de pandeiretas, de guizos, anunciava<br \/>\n    a chegada de uma companhia de menestr&eacute;is e jograis: um deles, com o<br \/>\n    barrete na m&atilde;o, pedia permiss&atilde;o para dar uma representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no p&aacute;tio. As damas vinham ao balc&atilde;o; todos os pajens corriam,<br \/>\n    o arquivista deitava a cabe&ccedil;a fora da janela da torre, os cozinheiros<br \/>\n    espreitavam de entre as reixas de feno: &#8212; e no p&aacute;tio os jograis,<br \/>\n    atirando bolas, dan&ccedil;ando na corda, erguendo pesos, ou representando<br \/>\n    farsas, levantavam grandes ah!, ah! lentos e maravilhados. Quando sa&iacute;am,<br \/>\n    sempre algum deles chamava Crist&oacute;v&atilde;o com um gesto discreto &#8212;<br \/>\n    e fora da ponte levadi&ccedil;a, persuadiam-no a vir com eles, na vida livre<br \/>\n    e alegre, a percorrer castelos, visitar as feiras, entrar nas cidades, ganhar<br \/>\n    dinheiro para a velhice. Ele recusava, com um mover lento da cabe&ccedil;a.<br \/>\n    E eles seguiam voltando-se ainda para o ver, calculando os ganhos que teriam<br \/>\n    com a exibi&ccedil;&atilde;o daquele gigante.<\/p>\n<p>Outras vezes era uma comitiva de fidalgos que chegava em visita. O p&aacute;tio<br \/>\n    estava todo sonoro com o relinchar dos corc&eacute;is. Os pajens corriam azafamados.<br \/>\n    Nas janelas batiam-se as alcatifas: &#8212; e nas cozinhas, o mestre, mais<br \/>\n    afogueado e vermelho que um piment&atilde;o, preparava grandes empad&otilde;es,<br \/>\n    de onde sairiam pombas vivas. Nesses dias o menino tinha orgulho em mostrar<br \/>\n    o seu gigante: e diante dos cavaleiros pasmados, Crist&oacute;v&atilde;o corria<br \/>\n    em torno com o menino a cavalo no ombro. E o capel&atilde;o dos h&oacute;spedes<br \/>\n    tomava sempre as medidas de Crist&oacute;v&atilde;o, para relatar nas hist&oacute;rias.<\/p>\n<p>Outras vezes, j&aacute; por noite escura, ressoava &agrave;s portas do castelo<br \/>\n    um trombeta de guerra. E um cavaleiro entrava, silencioso, coberto de ferro,<br \/>\n    seguido por seu escudeiro. Uma camareira corria com o gomil de &aacute;gua<br \/>\n    perfumada para lhe derramar nas m&atilde;os; um pajem desembara&ccedil;ava-o<br \/>\n    de sua lan&ccedil;a; outro marchava adiante, com uma tocha de cera; &#8212;<br \/>\n    e o cavaleiro, com o seu elmo na m&atilde;o, sacudindo os cabelos, lan&ccedil;ava<br \/>\n    um nome sonoro de paladino, famoso j&aacute; naquelas terras. Ou ent&atilde;o<br \/>\n    era um peregrino, que os escudeiros levavam primeiro &agrave; cozinha, onde<br \/>\n    ele alargava o seu manto diante do lume, para o secar da umidade dos caminhos.<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o segurava com respeito o seu bord&atilde;o, de onde<br \/>\n    pendia uma caba&ccedil;a. Em breve um capel&atilde;o o conduzia &agrave;s<br \/>\n    damas, a quem ele contava as suas jornadas, as maravilhas do Santo Sepulcro:<br \/>\n    &#8212; e Crist&oacute;v&atilde;o esperava, para lhe beijar a orla da sua<br \/>\n    esclavina, que tocara no t&uacute;mulo do Senhor.<\/p>\n<p>Assim os anos passavam. O menino crescia &#8212; e agora come&ccedil;ava<br \/>\n    a ser ensinado em tudo o que respeita &agrave;s coisas da ca&ccedil;a e &agrave;s<br \/>\n    coisas da guerra. Todos os dias o monteador trazia c&atilde;es, para completar<br \/>\n    a matilha do Senhor: e chegavam, &agrave;s costas das mulas, caixas contendo<br \/>\n    armas tauxiadas, para o menino lhes aprender o manejo. Mas, por desejo da<br \/>\n    av&oacute;, que era dada &agrave;s coisas do alegre saber, o menino passava<br \/>\n    longas horas com o capel&atilde;o, que lhe ensinava a conhecer as letras,<br \/>\n    os n&uacute;meros, a tra&ccedil;ar o seu nome num pergaminho. Pouco a pouco,<br \/>\n    o menino perdera a sua curiosidade por Crist&oacute;v&atilde;o. E j&aacute;<br \/>\n    por vezes passava diante dele sem lhe sorrir, ou lhe acenar com a m&atilde;o,<br \/>\n    j&aacute; cal&ccedil;adas com o guantezinho de ca&ccedil;a.<\/p>\n<p>Mas Crist&oacute;v&atilde;o n&atilde;o vivia ocioso. Os pajens davam-lhe<br \/>\n    as armas para limpar. O sacrist&atilde;o, velho e tr&ocirc;pego, pedia-lhe<br \/>\n    para varrer a capela &#8212; e mesmo era ele quem acendia os fornos da cozinha,<br \/>\n    ou lavava a baixela suja. Depois, um dia, a av&oacute;, lendo uma hist&oacute;ria<br \/>\n    em que um gigante guardava um tesouro, quis que Crist&oacute;v&atilde;o guardasse<br \/>\n    a torre onde estavam os arquivos e as arcas de dinheiro. A torre, ent&atilde;o,<br \/>\n    foi o seu cuidado: constantemente vigiava para a limpar dos musgos ou das<br \/>\n    ervas. Todas as manh&atilde;s e todas as tardes batia as reixas das janelas<br \/>\n    esguias, para que nenhum ferro estivesse frouxo ou dessoldado. Era ele que<br \/>\n    levava o jantar, a ceia, ao arquivista, sempre debru&ccedil;ado sobre os seus<br \/>\n    pergaminhos. E agora dormia &agrave; porta da torre, com a grande chave de<br \/>\n    ferro toda fechada na m&atilde;o. Todavia o menino, &agrave;s vezes, ainda<br \/>\n    queria ser seguido por Crist&oacute;v&atilde;o. Eram esses os seus dias alegres.<br \/>\n    Como um c&atilde;o meio abandonado, os seus olhos simples e bons imploravam<br \/>\n    uma car&iacute;cia. Mas em breve, o menino, com um gesto, o despedia: agora<br \/>\n    s&oacute; se interessava por armas, por falc&otilde;es, por ginetes de guerra.<br \/>\n    E Crist&oacute;v&atilde;o, suspirando, com o cora&ccedil;&atilde;o pesado,<br \/>\n    ia estirar-se junto da torre, com a sua grossa chave sobre os joelhos.<\/p>\n<p>Depois, um dia, um parente chegou ao castelo, trazendo de presente ao menino<br \/>\n    um an&atilde;o disforme, pouco mais alto que uma seta, com uma cabe&ccedil;a<br \/>\n    enorme de olhos maus, e um longa barbicha rala, que lhe fazia como o queixo<br \/>\n    de um bode. O menino teve ent&atilde;o a paix&atilde;o do seu an&atilde;o.<br \/>\n    E nunca mais reparou em Crist&oacute;v&atilde;o.<\/p>\n<p>A dor de Crist&oacute;v&atilde;o foi imensa. E o castelo tornou-se-lhe subitamente<br \/>\n    t&atilde;o frio e deserto, como um cerro que as nortadas bate. Todo o dia<br \/>\n    seus olhos espreitavam os terra&ccedil;os onde o menino passeava, a porta<br \/>\n    por onde sa&iacute;a, a li&ccedil;a onde ele vinha jogar a seta. E quando<br \/>\n    ele aparecia, Crist&oacute;v&atilde;o escondia-se por entre os &acirc;ngulos<br \/>\n    das torres &#8212; n&atilde;o se querendo mostrar por sentir que n&atilde;o<br \/>\n    era desejado, ou pelo receio de ver que n&atilde;o era chamado com o riso<br \/>\n    alegre de outrora. E na sua simplicidade pensava: ?Que lhe fiz eu? Por que<br \/>\n    me n&atilde;o quer?? Todas as noites sonhava com ele. Era sempre a mesma crian&ccedil;a,<br \/>\n    com os cabelos louros sobre uma camisa muito branca, que caminhava sobre o<br \/>\n    seu corpo, mas, em lugar de vir espreitar a sua face, s&oacute; vinha para<br \/>\n    lhe enterrar a ponta da sua seta, no s&iacute;tio onde sentia bater o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com um jeito que era seco e cruel.<\/p>\n<p>Sentado &agrave; porta da torre, pensando naquela ingratid&atilde;o, soltava<br \/>\n    grandes suspiros: e o arquivista debru&ccedil;ava a cabe&ccedil;a calva pelo<br \/>\n    postigo, aos ru&iacute;dos daquela dor. Para ao menos estar misturado &agrave;s<br \/>\n    coisas do menino, era ele quem limpava o seu potro favorito: mesmo por vezes<br \/>\n    lhe beijava o focinho; e a sela em que o menino montava, as r&eacute;deas<br \/>\n    cobertas de veludo, os seus estribos de prata, eram como coisas sagradas,<br \/>\n    em que tocava com devo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Por esse tempo, uma manh&atilde;, houve um grande rumor no castelo. O menino<br \/>\n    estava doente. Bem depressa dois pajens partiram galopando &#8212; e n&atilde;o<br \/>\n    tardou a chegar, montado na sua mula, o F&iacute;sico, com a sua caixa de<br \/>\n    drogas. Foram ent&atilde;o dias de inquieta&ccedil;&atilde;o. A capela estava<br \/>\n    todo o dia acesa, e as aias rezando. De um convento vizinho vieram as rel&iacute;quias<br \/>\n    de S. Te&oacute;dulo. Os pajens, sem jogar, sem lutar, cochichavam com medo<br \/>\n    pelos cantos: &#8212; e outros iam procurar pelos caminhos peregrinos, ou<br \/>\n    mercadores ambulantes, que trouxessem de longe alguma receita nova e ignorada.<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o n&atilde;o dormia. Toda a noite, os seus olhos estavam<br \/>\n    cravados na janela dos aposentos do menino. Interrogava, tremendo, as camareiras.<br \/>\n    Ia pelos casais de colmo, dos servos, perguntando por ervas. Foi muito longe<br \/>\n    consultar um pastor feiticeiro. E para que nenhum rumor inquietasse o menino,<br \/>\n    ia de noite, com uma grande vara, bater a &aacute;gua dos fossos, para fazer<br \/>\n    calar as r&atilde;s.<\/p>\n<p>Um dia, por&eacute;m, o menino apareceu no terra&ccedil;o do castelo, apoiado<br \/>\n    &agrave;s duas senhoras, p&aacute;lido ainda, sorrindo ao sol de Inverno.<br \/>\n    Todos os criados, os servos, correram, saudando-o de longe com os barretes.<br \/>\n    A sineta da capela repicava alegremente. E Crist&oacute;v&atilde;o, com as<br \/>\n    m&atilde;os postas, esperava ansiosamente que os olhos do menino se pousassem<br \/>\n    nele. O menino acercou-se da beira do terra&ccedil;o &#8212; e os seus olhos,<br \/>\n    ainda vagos e tristes, pareceram nem reparar no seu gigante. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    foi recolher &agrave; sua torre, com duas grossas l&aacute;grimas rolando-lhe<br \/>\n    por entre as barbas.<\/p>\n<h2><a name=\"14\">Cap&iacute;tulo XIV<\/a><\/h2>\n<p>O castelo perdeu ent&atilde;o para ele todo o seu encanto: &#8212; e como<br \/>\n    que sufocado entre os seus altos muros, voltava os seus pensamentos para os<br \/>\n    campos e para as moradas dos servos, entre quem nascera. Como a paz era t&atilde;o<br \/>\n    grande, nenhum dos servi&ccedil;os de guarda era feito com exatid&atilde;o:<br \/>\n    as sentinelas dormiam nos torre&otilde;es, como frades no locut&oacute;rio;<br \/>\n    os porteiros deixavam os molhos de chaves pendentes das argolas de ferro;<br \/>\n    e a torre dos arquivos n&atilde;o precisava ser guardada. Logo pois que a<br \/>\n    varria, Crist&oacute;v&atilde;o, tomando o bord&atilde;o, ia pelas terras<br \/>\n    do feudo, pelos casebres dos colonos e servos.<\/p>\n<p>Todos o conheciam. Havia sempre para ele um pichel de vinho:- e Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    brincava com as crian&ccedil;as ou ajudava a tosquiar os anhos. Pouco a pouco,<br \/>\n    tornou-se o servi&ccedil;al de todos, e, como outrora na sua aldeia, era ele<br \/>\n    que acarretava os fardos, rachava a lenha, compunha os telhados, lavrava os<br \/>\n    ch&atilde;os mais duros. Mesmo por vezes ia pastorear os rebanhos, ou guardava<br \/>\n    os moinhos. &Agrave; noite ficava entre aquela pobre gente, sem pena do bom<br \/>\n    calor das cozinhas do castelo, do p&atilde;o fresco, e da sua larga por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de carne salgada. Reunidos &agrave; lareira, num dos casebres, eles passavam<br \/>\n    o fim da tarde j&aacute; escuro, olhando o lume, onde as raparigas assavam<br \/>\n    castanhas na cinza. E Crist&oacute;v&atilde;o, no meio deles, escutava o seu<br \/>\n    falar lento e grave. Os mais velhos contavam hist&oacute;rias do velho conde,<br \/>\n    homem cruel, que nos campos impelia o seu corcel contra os lavradores, ou<br \/>\n    talava os verg&eacute;is. Diz-se que tinha pacto com o Dem&ocirc;nio:- e muitos<br \/>\n    o tinham visto ca&ccedil;ar de noite, &agrave; luz de tochas, guiado por um<br \/>\n    ca&ccedil;ador todo escarlate , que tocava uma trompa de onde sa&iacute;am<br \/>\n    chispas de lume. Outros tempos mais doces tinham vindo com o outro conde,<br \/>\n    o que morrera nas guerras, e com as damas, t&atilde;o clementes, que as forcas<br \/>\n    patibulares estavam apodrecendo. Mas quanto lhes pesava ainda aquele alto<br \/>\n    castelo, de bras&otilde;es e de fl&acirc;mulas! Que dura era ainda a vida,<br \/>\n    sempre sujeita, toda de duro trabalho! E cada um contava a sua mis&eacute;ria,<br \/>\n    o labutar incessante, o p&atilde;o escasso, os filhos rotos pelos grandes<br \/>\n    frios, a fome por vezes vindo com os seus dentes de loba&#8230; As vozes iam-se<br \/>\n    tornando mais tristes. O vento entrava pelas frestas dos casais. As m&atilde;es,<br \/>\n    com um suspiro, embalavam os ber&ccedil;os, onde dormiam inocentes, votados<br \/>\n    &agrave; mesma servid&atilde;o e &agrave; mesma mis&eacute;ria. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    sentiu o seu cora&ccedil;&atilde;o doer, com uma compaix&atilde;o infinita.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes um frade mendicante batia ao port&atilde;o, e entrando, deitando<br \/>\n    as b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os, arrumando a um canto o seu alforje, ia aquecer<br \/>\n    &agrave;s lareiras os p&eacute;s doridos dos caminhos, lacerados pelas urzes,<br \/>\n    e o h&aacute;bito de burel que fumegava. Filho de vil&otilde;es, tendo nascido<br \/>\n    nas lavouras, conhecia as mis&eacute;rias da servid&atilde;o: e, frade pobre,<br \/>\n    sofria da opress&atilde;o, do orgulho dos prelados ricos, com castelos e ter&ccedil;os<br \/>\n    armados. Ent&atilde;o sentado na melhor tripe&ccedil;a, com o seu ros&aacute;rio<br \/>\n    ca&iacute;do entre os joelhos, ele falava tamb&eacute;m da mis&eacute;ria<br \/>\n    dos tempos. Certamente Nosso Senhor, cansado de tanta maldade dos grandes,<br \/>\n    n&atilde;o tardaria a voltar &agrave; terra, distribuir melhor o p&atilde;o,<br \/>\n    reformar as ordens, abater o orgulho dos rico-homens. E quem sabe? Incompreens&iacute;veis<br \/>\n    s&atilde;o os caminhos da provid&ecirc;ncia! Talvez, para castigar os castelos,<br \/>\n    Deus revoltasse as cabanas. Um chu&ccedil;o fura melhor a armadura, quando<br \/>\n    &eacute; a m&atilde;o de S. Miguel Arcanjo que o impele. Talvez na Terra se<br \/>\n    repetisse em breve a batalha do Arcanjo e do Dem&ocirc;nio. J&aacute; um fogo<br \/>\n    andara no c&eacute;u, para o lado do oriente. E sobre o mar tinham-se visto,<br \/>\n    erguidas e entrechocando-se, uma foice e uma lan&ccedil;a. E ent&atilde;o,<br \/>\n    baixando a voz, contava como nos condados que atravessava, os homens se juntavam<br \/>\n    de noite numa floresta e tramavam o fim da servid&atilde;o.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o recolhia ao castelo pensativo. E todas aquelas torres,<br \/>\n    aquelas muralhas lhe pareciam de um aspecto cruel e hostil ao pobre. Por que<br \/>\n    n&atilde;o haveria para todos a mesma lareira, o mesmo p&atilde;o? Aqueles<br \/>\n    tesouros, que ele guardava na torre, seriam a abund&acirc;ncia para criancinhas<br \/>\n    sobre toda a terra. Para que eram tantas armas? Os homens n&atilde;o se deviam<br \/>\n    combater, mas somente abra&ccedil;ar, em conc&oacute;rdia.<\/p>\n<p>Um dia que ele assim pensava, sentado &agrave; beira dos fossos, um velho<br \/>\n    veio a passar, um dos servos do castelo, picando o seu burro carregado de<br \/>\n    erva. Parecia ter pressa, e no seu olhar havia como uma inquieta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ao ver Crist&oacute;v&atilde;o, parou dizendo: ?Novas m&aacute;s, novas m&aacute;s!?<br \/>\n    E como Crist&oacute;v&atilde;o arregalava os olhos simples, o servo contou<br \/>\n    que no mercado, de onde viera, corria entre a gente que um bando de servos<br \/>\n    se levantara, num dom&iacute;nio, al&eacute;m, para tr&aacute;s das colinas,<br \/>\n    tendo por brado: ?Morte aos castelos!? Outros servos se tinham juntado, com<br \/>\n    chu&ccedil;os. Toda a terra parecia em revolta. E j&aacute; dois castelos<br \/>\n    tinham sido atacados, as damas mortas, as crian&ccedil;as mortas, e agora<br \/>\n    as duas torres ardiam sobre a colina. E, sem outra palavra, picou o seu burro<br \/>\n    carregado de erva. Mas imediatamente Crist&oacute;v&atilde;o se ergueu e o<br \/>\n    come&ccedil;ou a seguir. Quando chegou, atr&aacute;s dele, &agrave; aldeia,<br \/>\n    j&aacute; havia grupos no adro, j&aacute; se falava baixo &agrave; porta dos<br \/>\n    casais. A nova viera no vento, e a todos espantava. Nas faces dos homens mo&ccedil;os<br \/>\n    havia como uma emo&ccedil;&atilde;o, uma d&uacute;vida, se n&atilde;o seria<br \/>\n    o dever de todos os homens tomar as foices, as enxadas, fazer armas com o<br \/>\n    ferro dos arados, ir juntar-se aos irm&atilde;os de servid&atilde;o, vingar<br \/>\n    os pobres. Os velhos abanavam a cabe&ccedil;a, numa grande prud&ecirc;ncia.<br \/>\n    De que serviria? Sempre os bar&otilde;es venceriam, descendo dos seus grandes<br \/>\n    corc&eacute;is. E as mulheres, inquietas, lembravam a bondade das donas do<br \/>\n    castelo, as suas esmolas, os peda&ccedil;os de anho que pelo Natal mandavam<br \/>\n    a todas os casais. Que seria se o bando viesse atacar o castelo? N&atilde;o<br \/>\n    havia soldados para o defender, nem armas. Pobres senhoras, t&atilde;o s&oacute;s<br \/>\n    e fracas. Pobre condezinho, t&atilde;o fraco e s&oacute;!<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o escutara em sil&ecirc;ncio. E em sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    tamb&eacute;m, recolheu ao castelo. Toda essa tarde rondou as muralhas, como<br \/>\n    para lhes estudar a solidez e a resist&ecirc;ncia. Depois, com os seus punhos<br \/>\n    fortes, palpou as portas. E como nesse momento o intendente passava, seguido<br \/>\n    do seu grande c&atilde;o, perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Que fazes, Crist&oacute;v&atilde;o?<\/p>\n<p>Ele respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Anda gente m&aacute; pelos campos: &eacute; necess&aacute;rio levantar<br \/>\n    a ponte.<\/p>\n<p>O intendente sorriu, encolheu os ombros &#8212; e nessa noite fez rir as<br \/>\n    damas, contando os terrores do gigante. Crist&oacute;v&atilde;o, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o dormia. No alto da torre da almenara, toda a noite espreitou as<br \/>\n    terras em redor. Ao longe, sobre uma colina, havia como fogos de um acampamento,<br \/>\n    mas nenhum rumor se ouvia, sen&atilde;o o cantar dos sapos na plan&iacute;cie.<br \/>\n    Quando a alvorada veio, Crist&oacute;v&atilde;o desceu: &#8212; e indo &agrave;s<br \/>\n    abegoarias, escolheu duas trancas enormes de ferro, que serviam para trancar<br \/>\n    as portas, agora desusadas. Depois a sineta tocou &agrave; missa no ar fino.<br \/>\n    O arquivista veio sentar-se entre os in-f&oacute;lios, e as damas distribu&iacute;am<br \/>\n    o trabalho &agrave;s fiandeiras e &agrave;s servas. E todo o castelo repousava<br \/>\n    na santa paz do domingo &#8212; quando um pajem, que nas ameias fazia uma<br \/>\n    armadilha aos p&aacute;ssaros, soltou um grito que acordou os arqueiros, adormecidos<br \/>\n    na sua guarita de pedra. Logo um som de buzina, um grande apelo de alarme<br \/>\n    ressoou. Todos os pajens correram &agrave;s ameias. As damas apareceram por<br \/>\n    tr&aacute;s das vidra&ccedil;as do balc&atilde;o. E os cozinheiros sa&iacute;am<br \/>\n    aos p&aacute;tios, com as suas ca&ccedil;arolas na m&atilde;o.<\/p>\n<p>Bem depressa correu o grito que um bando armado avan&ccedil;ava sobre o castelo.<br \/>\n    Os pajens correram, em confus&atilde;o, &agrave; sala de armas, a tomar espadas,<br \/>\n    lan&ccedil;as. Os guardas trancavam as portas, desesperadamente. E o intendente,<br \/>\n    com os cabelos ao vento, gritava que se aquecesse o pez, o alcatr&atilde;o,<br \/>\n    para despejar sobre o bando se ele quisesse escalar as muralhas, Mas ningu&eacute;m<br \/>\n    escutava, na desordem. A longa paz desabituara os habitantes do castelo da<br \/>\n    disciplina, da prontid&atilde;o. N&atilde;o havia um cavaleiro para comandar.<br \/>\n    E as mulheres, correndo para a capela, e chorando, amoleciam os cora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Subitamente um grande alarido ressoou sob os muros. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    subiu &agrave;s ameias: &#8212; viu um bando imenso e homens, servos em farrapos,<br \/>\n    brandindo foices, chu&ccedil;os, tochas, amontoando-se na ponte levadi&ccedil;a,<br \/>\n    que ningu&eacute;m se lembrara de erguer, enquanto outros em redor, a grandes<br \/>\n    machadadas, abatiam as forcas patibulares e o banco de pedra a justi&ccedil;a,<br \/>\n    que o musgo cobria, sob o olmo senhorial. J&aacute; golpes de machado ressoavam<br \/>\n    contra a porta, fazendo saltar fa&iacute;scas. Um tronco enorme, que m&atilde;os<br \/>\n    inumer&aacute;veis sustentavam, foi trazido, arremessado, como um ar&iacute;ete,<br \/>\n    contra a porta, em que ele marrava como um carneiro. De cima, os arqueiros<br \/>\n    despediam flechas com m&atilde;o mal segura. Cada grito de ferido mais excitava<br \/>\n    a turba, as machadadas redobravam &#8212; e a velha porta bem depressa foi<br \/>\n    aberta em lascas. Ent&atilde;o os arqueiros, os pajens, desceram para se refugiar<br \/>\n    na torre &#8212; e Crist&oacute;v&atilde;o, tomando nas m&atilde;os as trancas<br \/>\n    de ferro, correu para o torre senhorial. Dentro, na grande sala abobadada,<br \/>\n    estavam as damas p&aacute;lidas, uma junto da outra, com o condezinho entre<br \/>\n    elas, quase escondido nos seus vestidos. O velho senescal rezava de joelhos.<br \/>\n    E, em torno, amontoavam-se os in-f&oacute;lios, os arquivos da casa, as grandes<br \/>\n    &aacute;rvores geneal&oacute;gicas, tudo o que fazia o orgulho daquela fam&iacute;lia.<br \/>\n    Era como uma cidadela do feudalismo, onde tudo se achava resumido, a esperan&ccedil;a<br \/>\n    de uma casa, os seus t&iacute;tulos, os seus tesouros, todo o seu orgulho.<br \/>\n    E tudo aquilo era amea&ccedil;ado por uma plebe revolta!<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o fora humildemente postar-se ao funda da sala abobadada.<br \/>\n    E t&atilde;o grande era o seu terror, t&atilde;o arraigado o desd&eacute;m<br \/>\n    pelos servos que n&atilde;o era nele que os Senhores pensavam, nem no poderoso<br \/>\n    socorro de sua for&ccedil;a indom&aacute;vel, mas nas espadas dos pajens,<br \/>\n    a quem elas gritavam que defendessem a porta.<\/p>\n<p>Atrav&eacute;s dos p&aacute;tios, no entanto, j&aacute; os gritos dos feridos<br \/>\n    ressoavam por entre o clamor da turba de Jacques, que vinha como uma onda<br \/>\n    que arrebentou os diques. E mal a porta da torre fora fechada, que sobre ela<br \/>\n    ca&iacute;ram enormes machadadas, entre uivos de furor, o ru&iacute;do dos<br \/>\n    vidros que se partiam, os gritos dos servos assassinados. Dentro ningu&eacute;m<br \/>\n    falava, todos com olhos cravados naquela porta atacada &#8212; velhas pranchas<br \/>\n    de carvalho e ferrugentas chapas de ferro, que eram a &uacute;nica defesa<br \/>\n    contra a morte. Os pajens, mas p&aacute;lidos que a cera, amolecidos pelos<br \/>\n    anos de paz, sem educa&ccedil;&atilde;o guerreira, faziam diante das mulheres<br \/>\n    uma sebe de espadas &#8212; espadas cujas pontas tremiam. O capel&atilde;o<br \/>\n    rezava de bru&ccedil;os. E o arquivista estendia os bra&ccedil;os por cima<br \/>\n    dos seus in-f&oacute;lios, como para os proteger, com os olhos cravados na<br \/>\n    porta, e estremecendo a cada machadada. S&oacute; a av&oacute; parecia serena,<br \/>\n    sustentada pelo seu orgulho, com o peito direito, preparado para a morte,<br \/>\n    enquanto a nora sucumbia agarrada ao filho, banhando-o de l&aacute;grimas.<br \/>\n    E pela escada de caracol, que subia ao pavimento superior, apinhava-se a criadagem,<br \/>\n    as aias &#8212; algumas ainda com a sua roca na m&atilde;o.<\/p>\n<p>Sob os golpes desesperados a porta cedia! Pelas fendas da muralha entrava<br \/>\n    o fumo das fogueiras, que os Jacques acendiam no p&aacute;tio para pegar o<br \/>\n    fogo ao castelo, com os m&oacute;veis que arrastavam das salas, cadeiras brasonadas,<br \/>\n    arcas cheias de estofos. J&aacute; ningu&eacute;m contava com a vida. Duas<br \/>\n    aias velhas, de ros&aacute;rio na m&atilde;o, pediam a absolvi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ao padre, que as n&atilde;o escutava, de joelhos, batendo os queixos, entre<br \/>\n    os gritos de misereres.<\/p>\n<p>De repente a porta cedeu, tombou sob os seus grandes gonzos estalados &#8212;<br \/>\n    e pontas de chu&ccedil;os, de foices, faces l&iacute;vidas, bra&ccedil;os<br \/>\n    descarnados. irromperam numa f&uacute;ria de matan&ccedil;a. As damas tinham<br \/>\n    fugido. J&aacute; um grande velho, em farrapos, pulava por sobre a porta,<br \/>\n    com uma foice em cada m&atilde;o &#8212; quando, do fundo da ab&oacute;bada,<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o surgiu, enorme, com a face ardente, uma barra de ferro<br \/>\n    em cada m&atilde;o.<\/p>\n<p>Foi como uma apari&ccedil;&atilde;o &#8212; e a turba furiosa recuou com<br \/>\n    terror. Era como se surgisse ante ela, vis&iacute;vel, real, esse gigante<br \/>\n    monstruoso, guardador de torres, de que eles tinham ouvido falar, p&aacute;lidos<br \/>\n    de espanto, nas hist&oacute;rias contadas &agrave; lareira. E nesse momento<br \/>\n    de espanto, Crist&oacute;v&atilde;o, com um grande brado, carregou sobre a<br \/>\n    turba, que recuou em tropel, recolhendo os chu&ccedil;os e as foices. Baixando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, Crist&oacute;v&atilde;o rompeu da porta como uma grande torre,<br \/>\n    e no grande ar do p&aacute;tio a sua figura escura, coberta de uma pele de<br \/>\n    lobo, com duas chamas brilhando sob a hirsuta sebe das sobrancelhas, pareceu<br \/>\n    sa&iacute;da do Inferno, e como cheia de for&ccedil;a invenc&iacute;vel. Os<br \/>\n    seus brados faziam tremer os muros: &#8212; e as duas barras de ferro furiosamente<br \/>\n    cortavam o ar, silvando. A cada um dos seus largos passos, a turba recuava,<br \/>\n    com um rouco murm&uacute;rio de terror. Alguns tinham fugido por entre as<br \/>\n    fogueiras, onde ardiam os grandes m&oacute;veis de carvalho lavrado. As mulheres<br \/>\n    do bando gritavam que era o Dem&ocirc;nio: &#8212; e um ou outro chu&ccedil;o<br \/>\n    que se erguia, voava em lascas sob os golpes da barra de ferro.<\/p>\n<p>Para tr&aacute;s, para tr&aacute;s, sempre para tr&aacute;s, ia a turba,<br \/>\n    reatravessando os p&aacute;tios, trope&ccedil;ando nos servos que matara,<br \/>\n    caindo por sobre os lumes que acendera. J&aacute; estavam contra a muralha.<br \/>\n    J&aacute; as costas se voltavam para fugir. Ent&atilde;o, com um &uacute;ltimo<br \/>\n    urro, que atroou toda a colina. carregou sobre a turba &#8212; que, num s&uacute;bito<br \/>\n    pavor, varou a porta aberta, galgou a ponte levadi&ccedil;a. desceu de rold&atilde;o<br \/>\n    a colina, at&eacute; parar no vale, onde os carros esperavam. E Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    passando tamb&eacute;m a ponte, ficou no meio da colina im&oacute;vel, grande<br \/>\n    como uma torre, apoiado &agrave; sua barra de ferro e limpando o suor. Mas<br \/>\n    ent&atilde;o, de entre a multid&atilde;o que embaixo se agitava, um velho<br \/>\n    avan&ccedil;ou, sem armas, com um ramo de oliveira na m&atilde;o &#8212; e<br \/>\n    caminhou para Crist&oacute;v&atilde;o. A meio da colina parou, e erguendo<br \/>\n    os bra&ccedil;os perguntou a Crist&oacute;v&atilde;o, porque os atacava ele,<br \/>\n    servo, que decerto sofria da servid&atilde;o, a eles, servos tamb&eacute;m,<br \/>\n    que no fim de tantos tempos de sofrimento, s&oacute; queriam partilhar de<br \/>\n    algumas do&ccedil;uras da terra? N&atilde;o era s&oacute; pelo mal de destruir<br \/>\n    que eles atacavam os castelos. &Eacute; que ali, entre as suas muralhas, estava<br \/>\n    a gente orgulhosa que os escravizava, causava a fome dos seus filhos, o frio<br \/>\n    das suas moradas, as fadigas sem nome &#8212; e eles vinham simplesmente matar<br \/>\n    o mal da terra. Ele, velho, que lhe falava, trabalhara cinq&uuml;enta anos<br \/>\n    a gleba, tivera o corpo vincado pelos azorragues, vira a sua choupana queimada<br \/>\n    pelo Senhor: em torno dele, longos tempos seus filhos tinham gritado de fome,<br \/>\n    tremendo de frio &#8212; e, escorra&ccedil;ado, esmagado, pisado, espremido<br \/>\n    pela for&ccedil;a com um trapo vil, tomara uma faca, e partira a fazer justi&ccedil;a<br \/>\n    no mundo. De todos os seus, s&oacute; lhe restava um neto, um neto pequenino,<br \/>\n    de seis anos, inocente e simples como um anho. E porque ele tirara uma ma&ccedil;&atilde;<br \/>\n    das macieiras do pomar do castelo, onde era servo, o Senhor fizera-o dependurar<br \/>\n    pelas m&atilde;os de uma &aacute;rvore, acirrara contra ele os c&atilde;es,<br \/>\n    e toda uma noite de inverno o deixara nuzinho sob a neve. Quando o despregaram<br \/>\n    da &aacute;rvore estava moribundo. E a voz do velho tremia. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    deixara cair a barra de ferro, e com as m&atilde;os vazias e vagas, e abertas<br \/>\n    no ar, a cabe&ccedil;a ca&iacute;da, parecia pensar, no fundo da sua simplicidade.<br \/>\n    E o velho, avan&ccedil;ando, perguntava-lhe por que n&atilde;o viria com eles<br \/>\n    abater os monstros que matam crian&ccedil;as nos seus negros castelos, acabar<br \/>\n    com os amos cru&eacute;is, para que sob o c&eacute;u, um momento, os humildes<br \/>\n    respirem e limpem as l&aacute;grimas. E o velho limpava as suas l&aacute;grimas,<br \/>\n    com as suas pobres m&atilde;os que tremiam. Ent&atilde;o, lentamente, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    apanhou a sua barra. Pouco a pouco desceu a colina. E o velho adiante gritava<br \/>\n    agitando o ramo, trope&ccedil;ando nos pedregulhos.<\/p>\n<p>&#8212; Este &eacute; o grande gigante que nos vem libertar!<\/p>\n<p>Os Jacques mal compreendiam. Alguns, vendo descer Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    fugiam saltando os valados. Outros, furiosos, enristavam os chu&ccedil;os.<br \/>\n    Mas Crist&oacute;v&atilde;o, brandindo a barra, gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Vinde!<\/p>\n<p>E num impulso irresist&iacute;vel, todo o bando o seguiu numa aclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; enquanto das muralhas do castelo o intendente, entre os homens de<br \/>\n    armas, de p&eacute; nas ameias, estendia o bra&ccedil;o, mostrando Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    que se bandeava com os Jacques, e partia atrav&eacute;s das campinas.<\/p>\n<h2><a name=\"15\">Cap&iacute;tulo XV<\/a><\/h2>\n<p>Todas as manh&atilde;s marchavam atrav&eacute;s de terras, duramente. Era<br \/>\n    o velho que os guiava &#8212; e Crist&oacute;v&atilde;o, em sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    caminhava ao seu lado, com a sua barra de ferro ao ombro. Atr&aacute;s era<br \/>\n    a longa fila dos maltrapilhos em farrapos, com velhas cotas de armas, cuja<br \/>\n    malha se desfazia, morri&#038;otildotilde;es amolgados, onde alguns tinham espetado<br \/>\n    plumas, as pernas nuas, as m&atilde;os erguendo foices, chu&ccedil;os, fueiros.<br \/>\n    As mulheres vinham depois, umas com filhos magros pendurados das saias, outras<br \/>\n    trazendo os mais pequeninos ao colo, e as mais velhas vergando sob fardos,<br \/>\n    onde se tinha reunido o que restava nas arcas, algum escasso alqueire de p&atilde;o,<br \/>\n    uma almotolia de azeite, um peda&ccedil;o de carne salgada; e atr&aacute;s<br \/>\n    ainda era outra fila de homens, velhos, pastores com o seu cajado e o seu<br \/>\n    molosso, ceifeiros erguendo ao alto a foice, servos fugidos, mendigos, longas<br \/>\n    filas de miser&aacute;veis que de esfomeados n&atilde;o podiam marchar depressa,<br \/>\n    e deixavam uma longa nuvem de poeira, que ficava suspensa no ar.<\/p>\n<p>Pelo come&ccedil;o da tarde, guiados pelo velho, acharam-se subitamente,<br \/>\n    depois de terem costeado um pinheiral, diante de um castelo que duas torres<br \/>\n    flanqueavam: e nesse momento, vinha saindo da ponte levadi&ccedil;a, a cavalo,<br \/>\n    um Senhor de longas brabas brancas, sem armas; ao seu lado, montada numa hacan&eacute;ia<br \/>\n    branca, uma aia sustentava no colo uma menina, e atr&aacute;s seguiam quatro<br \/>\n    escudeiros armados de lan&ccedil;as. Ao ver subitamente aquela turba que avan&ccedil;ava,<br \/>\n    o Senhor estacou, um dos escudeiros tocou desesperadamente a buzina, enquanto<br \/>\n    outros toques respondiam sobre as ameias. E, voltando a &eacute;gua, a aia<br \/>\n    galopou para dentro do castelo. J&aacute; as muralhas se cobriam de soldados.<br \/>\n    Mas o Senhor, desarmado, fixara, sem se mover, os seus olhos de &aacute;guia<br \/>\n    sobre a turba imensa de maltrapilhos, que numa fila, sobre o caminho tortuoso,<br \/>\n    soltava grandes gritos de ataque, brandindo os ferros. Ent&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    com um grande gesto de sua barra de ferro deteve a turba que parou. E, arrojando<br \/>\n    a barra, avan&ccedil;ou s&oacute; com os bra&ccedil;os abertos para o Senhor,<br \/>\n    im&oacute;vel no seu grande corcel. Toda a muralha em cima estava coberta<br \/>\n    de arqueiros, de homens de armas. Todo o caminho embaixo estava negro da multid&atilde;o<br \/>\n    dos maltrapilhos. E na ponte levadi&ccedil;a, o cavaleiro e o gigante ficaram<br \/>\n    s&oacute;s, face a face.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, arrancando uma grande voz do peito, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Vimos em paz. Trazemos as mulheres e as crian&ccedil;as. Nada temos<br \/>\n    contra ti&#8230; Mas todos os que me seguem t&ecirc;m fome. Detr&aacute;s das<br \/>\n    tuas muralhas, h&aacute; tesouros, arcas cheias de p&atilde;o, grandes pe&ccedil;as<br \/>\n    de carne diante da lareira&#8230; Estes, que v&ecirc;m comigo, n&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n    uma moeda de cobre, trabalham toda a vida, sofrem da fome, v&ecirc;em as criancinhas<br \/>\n    devorar as ra&iacute;zes, morrem pelos cantos dos bosques como um lobo, e<br \/>\n    a vida toda para eles &eacute; um tormento&#8230; D&aacute; uma esmola da tua<br \/>\n    abund&acirc;ncia a toda essa pobreza que passa. Se queres, vem, n&atilde;o<br \/>\n    receies, passa atrav&eacute;s dessa multid&atilde;o, olha para esses corpos<br \/>\n    magros, v&ecirc; as criancinhas chorando com fome, as velhas trope&ccedil;ando<br \/>\n    sob os fardos, toda uma mis&eacute;ria que j&aacute; n&atilde;o pode sofrer<br \/>\n    mais&#8230; Tem piedade!<\/p>\n<p>E tendo assim falado, Crist&oacute;v&atilde;o recaiu na sua simplicidade,<br \/>\n    ficou mudo, est&uacute;pido, com os seus grandes olhos de boi de trabalho<br \/>\n    pregados nos castelo. Devagar, o Senhor voltou as r&eacute;deas, e a passo,<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a baixa e pensativa, sumiu-se sob a porta do castelo. Mas<br \/>\n    as portas n&atilde;o se fecharam &#8212; e dentro em pouco, um servo saiu<br \/>\n    arrastando uma vaca; outros trouxeram carneiros; outros fortes gigos com p&atilde;o,<br \/>\n    sacos de fava; outros uma arca, que vinha cheia de dinheiro; e tendo juntado<br \/>\n    tudo num monte diante da ponte levadi&ccedil;a, uma dos servos gritou, retirando:<\/p>\n<p>&#8212; Este &eacute; o dom do meu Senhor aos pobres que passam!<\/p>\n<p>E a ponte levadi&ccedil;a subiu com um forte ranger de correntes de ferro.<\/p>\n<p>Comandada pelo velho, sem desordem, os Jacques carregaram &agrave;s costas,<br \/>\n    nos carros, o dom do Senhor, e de novo se meteram ao caminho, levando na frente<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o, que parecia mudo e como espantado, com sua grande<br \/>\n    barra de ferro.<\/p>\n<p>Um regato corria, na falda da colina. E a&iacute; ficaram os Jacques, para<br \/>\n    passar a noite. Em breve se acenderam fogos. O velho p&ocirc;s sentinelas<br \/>\n    em todos os cantos. E nessa noite as crian&ccedil;as n&atilde;o choraram com<br \/>\n    fome, e houve uma gratid&atilde;o no cora&ccedil;&atilde;o dos homens. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o quis mais que um peda&ccedil;o de p&atilde;o. Bebeu da &aacute;gua<br \/>\n    pura do regato &#8212; e toda a noite, sentado numa pedra, enquanto estirados<br \/>\n    no ch&atilde;o, sob as &aacute;rvores, os Jacques dormiam, ele olhou as estrelas,<br \/>\n    e pensou em Jesus, que estava por tr&aacute;s, e &agrave;quela claridade das<br \/>\n    suas l&acirc;mpadas, o via talvez entre esses desgra&ccedil;ados, como um<br \/>\n    pai entre os seus filhos.<\/p>\n<p>De madrugada, os Jacques levantaram o campo, e guiados sempre pelo velho<br \/>\n    e pelo frade, partiram ao longo do regato, at&eacute; que chegando aos primeiros<br \/>\n    carvalhos de um grande bosque, sentiram um cheiro nauseabundo, e viram um<br \/>\n    homem, um servo, enforcado num ramo de &aacute;rvore, e j&aacute; meio ro&iacute;do<br \/>\n    pelos corvos. Uma indigna&ccedil;&atilde;o correu entre os Jacques, quando<br \/>\n    alguns que se tinham adiantado descobriram outros corpos pendentes das &aacute;rvores.<br \/>\n    Ao rumor da turba, os corvos fugiam de entre as ramagens: e sob os p&eacute;s<br \/>\n    dos mortos, suspenso no alto, o ch&atilde;o estava todo espezinhado das patas<br \/>\n    dos lobos. L&aacute; em cima, numa colina, negras na luz clara, apareciam<br \/>\n    as torres de um castelo. E aquilo era decerto a justi&ccedil;a do Senhor!<\/p>\n<p>Ent&atilde;o um clamor de c&oacute;lera correu entre os Jacques. Uns queriam<br \/>\n    lan&ccedil;ar fogo &agrave; floresta, para envolver o castelo. Outros falavam<br \/>\n    em abater as &aacute;rvores, para fazer ar&iacute;etes com que bater as muralhas.<br \/>\n    E Crist&oacute;v&atilde;o, impelido pela multid&atilde;o, que atr&aacute;s<br \/>\n    dele brandia as foices e os chu&ccedil;os, come&ccedil;ou a subir um caminho<br \/>\n    que levava ao castelo, entre as rochas que o musgo cobria.<\/p>\n<p>Avistaram, por fim, ladeando uma torre de menagem, altas muralhas negras<br \/>\n    e sombrias, com grandes manchas brancas de pedra nova, que eram como cicatrizes<br \/>\n    de ass&eacute;dios. A ponte levadi&ccedil;a estava fechada, o gradil de ferro<br \/>\n    descido. E uma estacada de vigas cercava o fosso, de &aacute;gua esverdeada.<br \/>\n    Nem um rumor sa&iacute;a das muralhas. Tudo parecia abandonado. De um dos<br \/>\n    lados, grandes rochas rolavam em desordem, para um precip&iacute;cio. Uma<br \/>\n    &aacute;guia voava nas alturas.<\/p>\n<p>Uma inquieta&ccedil;&atilde;o deteve os Jacques ante aquele sil&ecirc;ncio<br \/>\n    sinistro. Alguns, pensando o castelo abandonado, gritavam que se seguisse.<br \/>\n    Outros falavam de o escalar. E Crist&oacute;v&atilde;o, ao acaso, caminhou<br \/>\n    para a ponte levadi&ccedil;a. Mas, subitamente, as correntes rangeram, a ponte<br \/>\n    abateu, e das portas que se escancararam, um tro&ccedil;o de cavaleiros saiu,<br \/>\n    de viseira baixa, a lan&ccedil;a em riste, num grande galope e estridor de<br \/>\n    armaduras. Os Jacques recuaram em massa. Crist&oacute;v&atilde;o estava s&oacute;<br \/>\n    no planalto.<\/p>\n<p>&Agrave; frente dos cavaleiros, um, de grandes plumas brancas no elmo, a<br \/>\n    lan&ccedil;a enristada, correu sobre ele. Crist&oacute;v&atilde;o j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o tinha a sua barra de ferro.<\/p>\n<p>Mas correu a um pinheiro, agarrou-o &agrave;s m&atilde;os ambas, arrancou-o<br \/>\n    da terra, e tomando-o como uma monstruosa vassoura, atirou-o num gesto de<br \/>\n    servo que varre, contra o cavaleiro e o cavalo, que rolaram, com um estampido<br \/>\n    de armas, embrulhados na rama densa. Num pulo Crist&oacute;v&atilde;o empolgou<br \/>\n    o cavaleiro, e segurando-o entre os joelhos como uma crian&ccedil;a d&eacute;bil,<br \/>\n    partiu-lhe as fivelas do elmo, descobriu uma cabe&ccedil;a l&iacute;vida,<br \/>\n    uma espessa barba ruiva. Depois, erguendo-o ao ar como um broquel contra os<br \/>\n    outros cavaleiros, que tinham estacado num espanto mudo, gritou desesperadamente:<br \/>\n    ?resgate, resgate!? Os Jacques cercavam Crist&oacute;v&atilde;o, querendo<br \/>\n    despeda&ccedil;ar o Senhor prisioneiro. E ele erguia mais alto o miser&aacute;vel,<br \/>\n    que nem se movia, seguro nas m&atilde;os de ferro, e gritava: ?Resgate, resgate!?<\/p>\n<p>Os outros cavaleiros, num furor s&uacute;bito, correram sobre ele. Mas Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    saltando para a beira do precip&iacute;cio, debru&ccedil;ou sobre ele o prisioneiro,<br \/>\n    como se fosse despenhar na corrente e nas penedias, gritando sempre: ?Resgate!?<br \/>\n    Ent&atilde;o os cavaleiros pararam, e rapidamente consultaram-se, com grandes<br \/>\n    gestos dos seus guantes de ferro at&eacute; que um, avan&ccedil;ando, bradou:<br \/>\n    ?Est&aacute; resgatado!?<\/p>\n<p>O velho avan&ccedil;ou tamb&eacute;m, e exp&ocirc;s o resgate. Queria dinheiro,<br \/>\n    vinte sacos de p&atilde;o, vacas, vinho, para sustentar a sua gente, um juramento<br \/>\n    sobre a cruz que n&atilde;o seriam perseguidos, e dois carros para levar os<br \/>\n    mantimentos. O cavaleiro estendeu a m&atilde;o sobre a cruz do frade, e jurou.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o os Jacques, abaixando as armas, esperaram &#8212; enquanto Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    sentado na rocha, tinha o cavaleiro atravessado sobre os joelhos, com a m&atilde;o<br \/>\n    direita agarrando-lhe as pernas, com a esquerda a garganta. Pouco a pouco<br \/>\n    os servos sa&iacute;ram da castelo trazendo o resgate &#8212; e os Jacques<br \/>\n    desceram o caminho, rodeando os animais e os dois carros com os sacos, o ouro<br \/>\n    e os odres de vinho; Crist&oacute;v&atilde;o ficara s&oacute; com o cavaleiro.<br \/>\n    Quando o &uacute;ltimo homem desapareceu para al&eacute;m da colina, ele pousou<br \/>\n    o cavaleiro no ch&atilde;o com cuidado, e murmurou simplesmente: ?Vai?.<\/p>\n<p>E, sem se voltar, passo a passo, foi-se juntar aos Jacques.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o come&ccedil;ou, de castelo em castelo, atrav&eacute;s das prov&iacute;ncias,<br \/>\n    a marcha dos Jacques. Das aldeias por onde eles passavam corriam a juntar-se-lhes<br \/>\n    miser&aacute;veis, servos revoltados, mendigos. Agora era uma multid&atilde;o<br \/>\n    imensa que enchia os caminhos. Mas n&atilde;o havia neles nem viol&ecirc;ncia,<br \/>\n    nem c&oacute;lera. Iam mostrando, atrav&eacute;s das baronias ricas, a sua<br \/>\n    mis&eacute;ria de servos, e sem viol&ecirc;ncia pediam esmolas. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    era como um grande pai, que mendigava junto com os seus filhos, pelos caminhos.<br \/>\n    Ao chegar diante dos castelos, mostravam os seus andrajos, as faces maceradas,<br \/>\n    as cicatrizes da servid&atilde;o, e gritavam por p&atilde;o. As portas abriam-se<br \/>\n    com fragor, e uns por piedade, outros por temor, davam dos seus cofres e dos<br \/>\n    seus celeiros. Dia e noite, Crist&oacute;v&atilde;o mantinha a ordem na turba<br \/>\n    imensa. N&atilde;o permitiam que despojassem as &aacute;rvores dos frutos,<br \/>\n    que se tomasse o gado nas pastagens. S&oacute; era aceite o que a caridade<br \/>\n    dava. Se encontrava mendigos, histri&otilde;es famintos, gritava com um grande<br \/>\n    gesto: ?Vinde tamb&eacute;m?. O seu cora&ccedil;&atilde;o queria abrigar toda<br \/>\n    a mis&eacute;ria humana, lev&aacute;-la a esmolar pelas estradas do mundo.<br \/>\n    Do dinheiro recebido, repartia com as aldeias pobres. As crian&ccedil;as corriam,<br \/>\n    estendendo os saios, que ele &agrave;s m&atilde;os-cheias enchia de gr&atilde;o,<br \/>\n    de fava. Uma do&ccedil;ura ia tomando aqueles cora&ccedil;&otilde;es da turba<br \/>\n    miser&aacute;vel. Alguns tinham arrojado a foice. Outros, ao passar pelas<br \/>\n    ermidas ou pelos cruzeiros, ca&iacute;am de joelhos chorando.<\/p>\n<p>E sempre adiante, Crist&oacute;v&atilde;o ia como uma torre que marchava.<br \/>\n    Uma adora&ccedil;&atilde;o subia para ele. ?Santo &eacute; o nosso gigante?<br \/>\n    &#8212; diziam. E, na sua confian&ccedil;a, julgavam que a vida seria assim,<br \/>\n    eternamente, uma marcha pelos caminhos, recolhendo os bens que os nobres repartiam<br \/>\n    com os pobres. Decerto Jesus voltara &agrave; Terra. Em breve todos os castelos<br \/>\n    se abririam, e partilhadas as riquezas, quebradas as armas, n&atilde;o haveria<br \/>\n    fomes nem guerras, e apenas, na paz dos campos doces, irm&atilde;os abastados.<br \/>\n    O acampamento, quando paravam, era como aldeia em festa, onde a carne abunda<br \/>\n    no espeto, e todas as m&atilde;os t&ecirc;m uma fatia de p&atilde;o. J&aacute;<br \/>\n    a marcha se abrandava, e por vezes ficavam num vale, ou &agrave; beira de<br \/>\n    um ribeiro, num repouso feliz, esquecidos de todas as mis&eacute;rias . Dos<br \/>\n    filhos, das mulheres que tinham ficado nas aldeias, ningu&eacute;m se inquietava<br \/>\n    &#8212; porque, cada dia, partiam mensageiros a levar aos casebres dinheiro<br \/>\n    e provis&otilde;es. Mas alguns, tendo feito o seu pec&uacute;lio, recolhiam<br \/>\n    &agrave;s suas moradas distantes, sem receio, tanta era a confian&ccedil;a<br \/>\n    em Jesus.<\/p>\n<p>E Crist&oacute;v&atilde;o sentia uma alegria imensa. De dia e de noite vigiava<br \/>\n    a turba enorme, para que nela nada houvesse de violento ou de brutal. As quest&otilde;es<br \/>\n    que surgissem, aplacava-as estendendo os bra&ccedil;os. Se algu&eacute;m roubava<br \/>\n    as frutas dos caminhos, expulsava-o da turba. A todos distribu&iacute;a a<br \/>\n    sua justi&ccedil;a. A todos dava a sua caridade. E era ele, n&atilde;o outro,<br \/>\n    que tirava os espinhos dos p&eacute;s feridos, ou amparava os velhos fatigados<br \/>\n    das marchas.<\/p>\n<p>Assim vagueavam, quando uma tarde, chegando a uma grande lagoa, que, orlada<br \/>\n    de canaviais, brilhava ao sol do Outono, viram do outro lado um longo tro&ccedil;o<br \/>\n    de cavaleiros, cujos pend&otilde;es tremulavam no ar. Costeando a lagoa, decerto<br \/>\n    se encontrariam: e os Jacques e os cavaleiros pararam, um momento surpresos.<\/p>\n<p>Uma grande plan&iacute;cie estendia-se entre eles, toda cheia e coberta da<br \/>\n    erva amarelada do Outono, desenrolando-se at&eacute; a uma fileira de colinas,<br \/>\n    que grandes pinheirais vestiam. O sol brilhava sobre as &aacute;guas das lagoa<br \/>\n    &#8212; e havia um vasto sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&Agrave; frente dos Jacques inquietos, Crist&oacute;v&atilde;o ficara pensativo,<br \/>\n    um instante: &#8212; e ia marchar para os cavaleiros, pedir a caridade para<br \/>\n    os seus pobres, quando por tr&aacute;s a turba gritou: ?Para! para!? Os homens<br \/>\n    de armas, desenrolando uma longa linha de batalha, galopavam com as lan&ccedil;as<br \/>\n    enristadas contra a turba miser&aacute;vel. Com um brado, o velho mandou-os<br \/>\n    erguer os chu&ccedil;os, as foices, as lan&ccedil;as, fazendo uma sebe de<br \/>\n    ferro contra aquela pesada cavalaria, toda negra e de ferro, que fazia tremer<br \/>\n    o ch&atilde;o. J&aacute; chegavam, j&aacute; Crist&oacute;v&atilde;o sentia<br \/>\n    o arquejar dos cavalos &#8212; quando um grande, imenso clamor soou, e a confusa<br \/>\n    massa de ferro abateu sobre os Jacques, com um grande ru&iacute;do de armas,<br \/>\n    furiosos golpes de montantes, cavando, com o peitoral em espor&atilde;o dos<br \/>\n    cavalos, grandes sulcos entre os Jacques, que tombavam varados pelas lan&ccedil;as,<br \/>\n    decepados pelos espad&otilde;es vibrados &agrave;s duas m&atilde;os. A legi&atilde;o<br \/>\n    dos Jacques ficou separada em dois peda&ccedil;os &#8212; com uma grande fenda<br \/>\n    no meio, toda cheia de cad&aacute;veres , espezinhados pelas patas dos grandes<br \/>\n    corc&eacute;is. E j&aacute; esses dois peda&ccedil;os corriam sobre o tro&ccedil;o<br \/>\n    dos cavaleiros, quando este se separou em dois, fazendo face &agrave;s duas<br \/>\n    alas dos Jacques e enchendo a plan&iacute;cie com o clamor de duas batalhas.<br \/>\n    Pe&otilde;es, cavaleiros, misturados, faziam duas massas clamorosas, onde<br \/>\n    os chu&ccedil;os dos Jacques se quebravam contra as armaduras, a as longas<br \/>\n    clavas com puas dos cavaleiros esmagavam cr&acirc;nios, que apenas algum velho<br \/>\n    morri&atilde;o de ferro protegia. Os clarins dos cavaleiros tocavam furiosamente.<br \/>\n    Um relampejar de ferro enchia o ar, por entre o esvoa&ccedil;ar dos grandes<br \/>\n    penachos.<\/p>\n<p>Os Jacques, tendo bem depressa quebrado o seu pobre armamento, arremessavam-se<br \/>\n    sobre os pesco&ccedil;os e garupas dos cavalos e derrubavam a bra&ccedil;o<br \/>\n    o cavaleiro que, tombando com um grande ru&iacute;do de armas, desaparecia,<br \/>\n    sob os bra&ccedil;os armados de facas. Outros, com foices, abriam o ventre<br \/>\n    aos cavalos. Alguns cavaleiros combatiam a p&eacute;, fazendo largos c&iacute;rculos<br \/>\n    com as espadas: &#8212; e as pedras, que os Jacques lhes arremessavam, soavam<br \/>\n    furiosamente sobre o metal das coura&ccedil;as. Quatro grandes ceifeiros,<br \/>\n    caminhando a passo como num milharal maduro, iam, com um movimento regular,<br \/>\n    lan&ccedil;ando as suas foices, que apanhavam os jarretes dos cavalos, levavam<br \/>\n    bra&ccedil;os de onde se tinham desprendido as braceiras de ferro, apanhavam<br \/>\n    pelas gorjas guerreiros sem capacete. E no meio do combate, sem armas, como<br \/>\n    n&atilde;o querendo derrubar sangue, Crist&oacute;v&atilde;o, esguedelhado,<br \/>\n    enorme, ia com os seus bra&ccedil;os enormes arrancando cavaleiros das selas<br \/>\n    e atirando-os para o ch&atilde;o como fardos de ferragens. O sangue j&aacute;<br \/>\n    lhe escorria, da face, do peito, atrav&eacute;s do seu sai&atilde;o de couro,<br \/>\n    retalhado em longas fendas. Os seus imensos brados faziam empinar os cavalos.<br \/>\n    Lan&ccedil;ando m&atilde;o aos montantes, quebrava-os como palha. As puas<br \/>\n    e os broqu&eacute;is que arrancava iam pelos ares, como folhas que uma rajada<br \/>\n    leva. Por vezes, correndo, com os dois bra&ccedil;os e os punhos fechados,<br \/>\n    mais grossos que cabe&ccedil;as de carneiros, atirava por terra, com um baque<br \/>\n    seco, os cavalos e os seus cavaleiros. Tendo dado com o p&eacute; num mont&atilde;o<br \/>\n    de cordas, apanhou-o, e quando agarrava algum passava-lhe um n&oacute; nas<br \/>\n    pernas e assim o deixava deitado no ch&atilde;o, como uma r&ecirc;s num mercado.<br \/>\n    Pouco a pouco, todos os guerreiros se tinham voltado contra ele. E sem armas,<br \/>\n    tendo apanhado pelos p&eacute;s um cad&aacute;ver coberto de armadura, que<br \/>\n    usava como uma ma&ccedil;a, ele ia recuando, at&eacute; a alta colina coberta<br \/>\n    de pinheiros. Sobre ele ca&iacute;am as flechas, sobre ele ressoavam as pedras<br \/>\n    dos fundeiros. O gigante recuava mais &#8212; e subitamente, correndo contra<br \/>\n    os assaltantes, derribava um, prostrava outro, com grandes pancadas do cad&aacute;ver,<br \/>\n    que j&aacute; perdera o capacete. O c&iacute;rculo dos cavaleiros crescia<br \/>\n    todavia sobre ele, gritando-lhe inj&uacute;rias, arremessando-lhe de longe<br \/>\n    as ma&ccedil;as. E cada vez mais esse c&iacute;rculo era mais estreito, e<br \/>\n    todo eri&ccedil;ado de ferros que rebrilhavam. Ele, sereno, fazia girar em<br \/>\n    torno o cad&aacute;ver, cuja armadura se quebrara pouco a pouco, n&atilde;o<br \/>\n    tendo mais que os coxotes das pernas por onde o segurava Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    e mostrando j&aacute; a carne branca, os cabelos duros do peito. Mas de tanto<br \/>\n    bater, por fim, foi pouco a pouco perdendo a for&ccedil;a da ossatura, tinha<br \/>\n    o cr&acirc;nio quebrado, os bra&ccedil;os moles como trapos, a arca do peito<br \/>\n    esmigalhada &#8212; e aquela arma terr&iacute;vel n&atilde;o era j&aacute;<br \/>\n    nas m&atilde;os de Crist&oacute;v&atilde;o, mais que uma tira de carne mole.<br \/>\n    Mas chegara &agrave; colina. A&iacute;, em cada pinheiro tinha uma arma. E<br \/>\n    j&aacute; se voltara, atirava as m&atilde;os a um tronco enorme para o desarraigar,<br \/>\n    quando uma flecha, varando-lhe o joelho, o abateu um momento, fazendo-o escorregar<br \/>\n    no declive &uacute;mido da colina. Ent&atilde;o, num instante, um grande corcel<br \/>\n    negro veio sobre ele, uma lan&ccedil;a faiscou &#8212; e Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    ficou prostrado, im&oacute;vel, com uma espuma de sangue na boca.<\/p>\n<p>Todos se tinham precipitado sobre ele, quando um clamor surgiu por tr&aacute;s.<br \/>\n    Eram os Jacques que se tinham reunido, e, guiados pelo frade, vinham contra<br \/>\n    aquele grupo de cavaleiros, entalados contra a colina, nas terras moles onde<br \/>\n    os p&eacute;s dos cavalos se enterravam. Ent&atilde;o os homens de lan&ccedil;a<br \/>\n    voltaram r&eacute;deas, e fugiram entre a colina e os Jacques, de novo diretos<br \/>\n    &agrave; plan&iacute;cie, juncada de mortos. Os Jacques bradavam vendo fugir<br \/>\n    os cavaleiros, e come&ccedil;aram a correr atr&aacute;s deles, atirando as<br \/>\n    &uacute;ltimas flechas &#8212; arremessando mesmo por esc&aacute;rnios grossos<br \/>\n    torr&otilde;es de terra lamacenta. Mas, vendo os pe&otilde;es assim expostos<br \/>\n    na plan&iacute;cie, os cavaleiros deram um volta brusca, e abaterem-se contra<br \/>\n    os miser&aacute;veis. Foi uma grande matan&ccedil;a, o frade ca&iacute;ra<br \/>\n    logo com o cr&acirc;nio aberto, a sua cruz apertada na m&atilde;o. E os que<br \/>\n    fugiam eram perseguidos por toda a parte, at&eacute; que, atirando-se para<br \/>\n    a lagoa, as grandes lan&ccedil;as por tr&aacute;s os faziam arremessar &agrave;<br \/>\n    &aacute;gua.<\/p>\n<p>Agora, na vasta plan&iacute;cie, s&oacute; havia homens de armas. Os Jacques<br \/>\n    juncavam a terra em negras po&ccedil;as de sangue. Lentamente, trotando, os<br \/>\n    cavaleiros acabavam os feridos, que gritavam de sede. Outros, parados, tirando<br \/>\n    os morri&otilde;es, limpavam as grossas gotas de suor. Os f&iacute;sicos amarravam<br \/>\n    os bra&ccedil;os feridos. E os pajens passavam com grandes pich&eacute;is<br \/>\n    de vinho. O sol desaparecia, e toda a lagoa era como de ouro, por tr&aacute;s<br \/>\n    dos seus grandes canaviais negros. Uma revoada de patos passou no c&eacute;u,<br \/>\n    j&aacute; p&aacute;lido. E ao toque de clarim os Senhores, ainda esparsos,<br \/>\n    vieram-se juntando, retomando a fila. Os feridos foram postos sobre as carretas.<br \/>\n    E, a passo, o tro&ccedil;o dos cavaleiros retomou o caminho em torno &agrave;<br \/>\n    lagoa, onde o brilho de ouro se apagara, deixando-a agora negra e triste.<\/p>\n<p>Na vasta plan&iacute;cie, jazem os Jacques mortos. Findou a grande marcha,<br \/>\n    que levava aos castelos e abadias a vis&atilde;o estranha das grandes mis&eacute;rias<br \/>\n    da terra. Nenhum mais voltar&aacute; &agrave;s cabanas da aldeia, onde os<br \/>\n    filhos esperam at&eacute; tarde na lareira apagada. Os Jacques est&atilde;o<br \/>\n    mortos, a terra limpa dos seus andrajos.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o jaz estendido na colina, entre os pinheiros. Um vento<br \/>\n    passa, frio e triste. Ele abre os olhos, e a custo, erguendo-se sobre a m&atilde;o,<br \/>\n    olha a plan&iacute;cie. E em toda a sua extens&atilde;o, v&ecirc; mont&otilde;es<br \/>\n    de corpos mortos, entre os quais reluzem j&aacute; os olhos dos lobos. A grande<br \/>\n    lagoa est&aacute; im&oacute;vel. Por cima passa a lua cheia. Uma dor imensa<br \/>\n    arrefece o seu cora&ccedil;&atilde;o. De novo os seus olhos se fecharam &#8212;<br \/>\n    e caiu inanimado.<\/p>\n<p>Toda a noite, no entanto, ele reviu a batalha. De mont&otilde;es de Jacques<br \/>\n    mortos outros Jacques se levantavam com outros trajes, outras armas, impelidos<br \/>\n    &agrave; revolta pela mesma mis&eacute;ria que os oprimia. E sempre do fundo<br \/>\n    do horizonte, dos altos montes, dos cimos, desciam cavaleiros, que tinham<br \/>\n    armas diversas, gritos de guerra diversos, que carregavam, esmagavam os Jacques,<br \/>\n    os deixavam mortos, sob a grande lua cheia. mas desses, pouco a pouco, mais<br \/>\n    p&aacute;lidos, outros se erguiam, brandindo picaretas de mineiros, ferramentas<br \/>\n    de oficina, mostrando os seus andrajos, os filhos esfaimados, clamando justi&ccedil;a.<br \/>\n    E logo, a um brado do alto, fortes esquadr&otilde;es desciam, trazendo &agrave;<br \/>\n    frente magistrados, togados, homens carregados de sacos de ouro, e essa massa,<br \/>\n    caindo sobre os Jacques, de novo os prostrava, os deixava num mont&atilde;o,<br \/>\n    que a Lua, mais p&aacute;lida e mais desmaiada, cobria de alvura e sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    E assim, indefinidamente, os Jacques renasciam, dos ossos dos Jacques mortos,<br \/>\n    cada vez mais numerosos, at&eacute; que a plan&iacute;cie toda era uma sar&ccedil;a<br \/>\n    de bra&ccedil;os magros, clamando, pedindo igualdade. E imediatamente outros<br \/>\n    esquadr&otilde;es desciam, mais diminu&iacute;dos, com um arranque menos vivo,<br \/>\n    hesitando, lan&ccedil;ando golpes mais frouxos. At&eacute; que. por fim, os<br \/>\n    Jacques eram t&atilde;o inumer&aacute;veis, que da plan&iacute;cie se estendiam<br \/>\n    aos montes, e a Lua, que j&aacute; desmaiara de todo, alumiava multid&otilde;es<br \/>\n    disciplinadas, armadas, conscientes, que avan&ccedil;avam com ordem e ritmo.<br \/>\n    Os esquadr&otilde;es, mandados contra estas coortes, fundiam-se como cera<br \/>\n    numa chama; Os Jacques ocupavam a terra. Um &uacute;ltimo cavaleiro veio ainda,<br \/>\n    e, derrubado, largou as armas, desapareceu. E sobre a terra s&oacute; ficavam<br \/>\n    Jacques, que cantavam em triunfo na frescura da manh&atilde; clara.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, sentindo na face esta frescura, Crist&oacute;v&atilde;o entreabriu<br \/>\n    os olhos, ainda vago, meio dormente, como num sonho. A luz fria e pura da<br \/>\n    manh&atilde; penetrava sob as ramagens que o cobriam. As aves cantavam finamente<br \/>\n    nos ninhos, com frufrus de asas, de ramo em ramo. Um doce cheiro de rosmaninho<br \/>\n    e verduras novas perfumava o ar. E na relva toda &uacute;mida, lustrosa de<br \/>\n    orvalho, havia em redor flores silvestres, bot&otilde;es de ouro, papoulas<br \/>\n    frescas, um fio de &aacute;gua cantava friamente de pedra em pedra.<\/p>\n<p>E ent&atilde;o pareceu a Crist&oacute;v&atilde;o que via um mo&ccedil;o,<br \/>\n    de longos cabelos louros, com uma t&uacute;nica branca, onde se cruzavam as<br \/>\n    pregas de um manto branco, surgir entre as ramas dos pinheiros, ao longe,<br \/>\n    vir para ele encostado a uma vara branca. Os seus passos eram t&atilde;o leves,<br \/>\n    t&atilde;o leve decerto o linho do seu vestido, que as papoulas n&atilde;o<br \/>\n    se dobravam, quando ele sobre elas passava, ligeiro e branco. E na penumbra<br \/>\n    dos arvoredos, um sulco branco ficava, por onde ele passava, com um aroma<br \/>\n    t&atilde;o doce como se desabrochassem naquela terra flores que n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o da terra. Pouco a pouco se aproximou: &#8212; e Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    podia ver os seus olhos pousados sobre ele, como duas estrelas da tarde. Docemente<br \/>\n    ajoelhou ao lado de Crist&oacute;v&atilde;o, pousando o seu bast&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o levemente que nem vergou as pontas finas das ervas. Com os dedos<br \/>\n    mais macios que veludo, percorreu as feridas de Crist&oacute;v&atilde;o, que<br \/>\n    sentia as dores desaparecerem e como uma for&ccedil;a nova que lhe voltava.<br \/>\n    Depois rasgou uma tira do seu manto, pousou-a sobre as feridas,a da perna,<br \/>\n    a do peito; e aquela tira de linho parecia a Crist&oacute;v&atilde;o leve<br \/>\n    como o ar e perfumada como um jasmim. Depois, apanhando os eu bast&atilde;o<br \/>\n    branco, em sil&ecirc;ncio, partiu, penetrou no bosque, e pouco a pouco se<br \/>\n    perdeu entre os troncos negros, que um momento conservaram como a claridade<br \/>\n    daquela passagem branca. Os p&aacute;ssaros recome&ccedil;aram a cantar. De<br \/>\n    novo as ramagens se moveram brandamente. Ent&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    moveu os bra&ccedil;os &#8212; depois ergueu o seu imenso corpo. Todas as<br \/>\n    suas feridas estavam fechadas. E sentindo uma for&ccedil;a nova, aquele bom<br \/>\n    gigante cortou atrav&eacute;s do pinheiral, e recome&ccedil;ou a correr mundo.<\/p>\n<h2><a name=\"16\">Cap&iacute;tulo XVI<\/a><\/h2>\n<p>Percorreu ent&atilde;o longas terras. E por cidades e campos s&oacute; buscou<br \/>\n    na simplicidade do seu cora&ccedil;&atilde;o ser &uacute;til e bom. Batia<br \/>\n    &agrave; porta das cabanas, perguntava se eram necess&aacute;rios ali dois<br \/>\n    bra&ccedil;os fortes, para todos os trabalhos. N&atilde;o pedia sal&aacute;rio.<br \/>\n    A c&ocirc;dea menor de p&atilde;o era a que lhe bastava. E a &aacute;gua tinha-a<br \/>\n    nos regatos mais frescos. Nenhum servi&ccedil;o por mais forte, ou vil, lhe<br \/>\n    custava. Limpava todas as imund&iacute;cies, com um cuidado piedoso: e pedia<br \/>\n    sempre para si o maior fardo. Tirava a machada das m&atilde;os dos lenhadores,<br \/>\n    para abater as florestas. Puxava os barcos &agrave; sirga. Atrelava-se aos<br \/>\n    varais dos carros. E se um campon&ecirc;s queria mandar o seu burro &agrave;<br \/>\n    igreja, para ser benzido e liberado de todo o mal, ele carregava o burro &agrave;s<br \/>\n    costas, com tanto cuidado como se fosse uma donzela. Se o injuriavam, baixava<br \/>\n    a face humildemente. Se o espancavam, ficava im&oacute;vel e quieto sob os<br \/>\n    golpes. Se o despediam, apanhava o seu bord&atilde;o e sa&iacute;a suspirando.<\/p>\n<p>Nos caminhos, sentava-se nas encruzilhadas para guiar os peregrinos ou histri&otilde;es.<br \/>\n    Se havia algum grande lama&ccedil;al, ficava &agrave; beira dele para passar<br \/>\n    aos ombros os homens e os animais. Era ele que partia as rochas, para se constru&iacute;rem<br \/>\n    caminhos. E nas florestas onde sabia que deviam passar caravanas de mercadores,<br \/>\n    acendia grandes fogueiras para afugentar os javalis.<\/p>\n<p>Por vezes aceitava servir s&oacute; um amo. Foi assim o servo de um curandeiro<br \/>\n    e puxava, como um macho, a grande carriola, onde tilintavam os boi&otilde;es<br \/>\n    das ervas simples e dos ung&uuml;entos, e que parava nos adros das igrejas<br \/>\n    &agrave; tarde, depois das missas. Mas sentindo que o f&iacute;sico era interesseiro<br \/>\n    e duro &#8212; deixou o servi&ccedil;o. Foi depois o escudeiro de um cavaleiro<br \/>\n    errante, que encontrou banhando a ferida de uma perna &agrave; beira de uma<br \/>\n    fonte. Crist&oacute;v&atilde;o sarou-lhe a ferida, e come&ccedil;ou a segu&iacute;-lo<br \/>\n    nas suas aventuras, caminhando, atr&aacute;s do seu corcel, com uma ma&ccedil;a<br \/>\n    feita de um pinheiro. Com o cavaleiro fez grandes proezas. Libertou servos<br \/>\n    que um Senhor duro levara a enforcar por eles n&atilde;o lhe terem tirado<br \/>\n    o barrete na estrada; desbaratou salteadores que infestavam os bosques; restituiu<br \/>\n    a um &oacute;rf&atilde;o o condado que lhe haviam roubado parentes avaros:<br \/>\n    &#8212; mas, como o cavaleiro tivesse ajudado a salvar uma dama, veio a casar<br \/>\n    com ela, teve um solar, abandonou os caminhos, e Crist&oacute;v&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    querendo ficar naquela ociosidade, deixou o bom cavaleiro, levando, como paga,<br \/>\n    uma bolsa farta de ouro, bons vestidos quentes, que ele logo distribuiu aos<br \/>\n    pobres.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, seguindo o exemplo do cavaleiro, passou a socorrer os oprimidos.<br \/>\n    De noite, ao passar pelos castelos, derrubava as forcas patibulares. Se sabia<br \/>\n    de um campo que fora roubado, for&ccedil;ava o ladr&atilde;o &agrave; restitui&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Salvou os bandos de mercadores que os Senhores, com grandes lan&ccedil;as,<br \/>\n    assaltavam nos caminhos para os roubar. Onde soubesse que o Senhor tinha imposto<br \/>\n    um trabalho excessivo aos servos, ia ele, n&atilde;o outro, fazer o trabalho.<br \/>\n    Nunca diante dele deixava castigar uma crian&ccedil;a. Se, passando num casal,<br \/>\n    ouvia uma mulher chorar, e rumor de pancadas, quebrava a porta, tirava o pau<br \/>\n    das m&atilde;os do marido. Quando soldados deviam passar numa aldeia, ele<br \/>\n    ficava de guarda, para impedir as crueldades da tropa. E ningu&eacute;m ousava<br \/>\n    afront&aacute;-lo. J&aacute; ia, ent&atilde;o, envelhecendo. Os seus cabelos<br \/>\n    tinham se tornado mais crespos, hirsutos: trazia sobre o corpo farrapos, e<br \/>\n    a barba era rude e forte como um mato. Sob a barba, e sob as sobrancelhas<br \/>\n    ficava invis&iacute;vel a do&ccedil;ura incompar&aacute;vel do seu olhar,<br \/>\n    do seu sorrir &#8212; e para os que o viam, na verdade o seu aspecto era horrendo<br \/>\n    e temeroso.<\/p>\n<p>Quando entrava nas cidades, as crian&ccedil;as fugiam, todas as portas se<br \/>\n    fechavam &#8212; e os homens de guarda acudiam a saber de onde viera, a que<br \/>\n    baronia pertencia, e se tinha licen&ccedil;a de vaguear nos caminhos. Ele<br \/>\n    respondia que s&oacute; queria trabalhar: e t&atilde;o humilde e quieto ficava,<br \/>\n    junto de uma fonte ou ao canto de uma pra&ccedil;a, que bem depressa as portas<br \/>\n    se abriam, e, j&aacute; sorrindo, as crian&ccedil;as voltavam. Todas faziam<br \/>\n    lembrar a Crist&oacute;v&atilde;o a Joana da sua aldeia. A essa hora ela devia<br \/>\n    ser mulher, e talvez, por seu turno, trouxesse pendurada das saias uma crian&ccedil;a<br \/>\n    loura e graciosa como ela fora. Chamava algumas das crian&ccedil;as espantadas,<br \/>\n    fazia-as saltar sobre os joelhos. Das gelosias as m&atilde;es sorriam. J&aacute;<br \/>\n    ningu&eacute;m receava o gigante &#8212; e ele sentido-se aceite, come&ccedil;ava<br \/>\n    logo a ajudar as trolhas que erguiam uma casa, ou a um empurrar um carro atolado<br \/>\n    nas lamas. Bem depressa, todos queriam os servi&ccedil;os daquela for&ccedil;a<br \/>\n    imensa. E era ele que limpava os mercados, caiava as torres de fresco, transportava<br \/>\n    os fardos, apanhava a neve dos rios no Inverno, regava o p&oacute; das ruas<br \/>\n    no Ver&atilde;o, consertava os telhados, apagava os inc&ecirc;ndios &#8212;<br \/>\n    e, sentado &agrave; porta dos hospitais, ia enterrar os mortos pobres. Colando<br \/>\n    a face &agrave;s altas grades das pris&otilde;es, consolava os presos, ajudava<br \/>\n    nos seus trabalhos os for&ccedil;ados, e tendo reunido o seu sal&aacute;rio<br \/>\n    em p&atilde;o ou em dinheiro, sentava-se num adro, e distribu&iacute;a-o pelos<br \/>\n    mendigos.<\/p>\n<p>Ora um dia, saindo de uma cidade, encontrou no caminho um pobre histri&atilde;o,<br \/>\n    com uma perna de pau, e acompanhado pela mulher doente, que amamentava o filhinho.<br \/>\n    Eram t&atilde;o miser&aacute;veis e tristes, ele com uma espada debaixo do<br \/>\n    bra&ccedil;o, ela suspendendo aos ombros um saco de bolas e peloticas, que<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o come&ccedil;ou a caminhar ao seu lado. Assim soube<br \/>\n    que outrora percorriam os caminhos e as feiras, ganhando amplamente a sua<br \/>\n    vida, e (desde que ele, numa queda, perdera a perna) mostrando c&atilde;es<br \/>\n    s&aacute;bios e um macaco, que faziam sortes maravilhosas. Havia dias, por&eacute;m,<br \/>\n    estando numa taberna, numa estrada, a repousar, tinham chegado os escudeiros<br \/>\n    e homens de armas de um Senhor, que, embriagados, e numa rixa, lhe tinham,<br \/>\n    a grandes cutiladas, morto o macaco e os pobres c&atilde;es. Com eles se fora<br \/>\n    a sua fortuna. Trabalhar n&atilde;o podia, assim manco. E agora s&oacute;<br \/>\n    lhes restava mendigarem, at&eacute; que o frio, a fome, os prostrassem uma<br \/>\n    noite, a eles e &agrave; crian&ccedil;a, mortos &agrave; beira de um caminho.<br \/>\n    E o saltimbanco acrescentava: ?Bem feliz &eacute;s tu, que te fez Deus t&atilde;o<br \/>\n    grande, e te podes mostrar nas feiras ganhando mais que um letrado a escrever!?<br \/>\n    &#8212; Decerto, o saltimbanco o tomava a ele, Crist&oacute;v&atilde;o por<br \/>\n    um desses gigantes que se mostram nas feiras. E apenas assim pensara, Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    com simplicidade, prop&ocirc;s ao saltimbanco que a troco do p&atilde;o, e<br \/>\n    da metade do ganho, o levasse a uma feira, para o mostrar numa barraca. O<br \/>\n    pobre saltimbanco quase chorou de alegria &#8212; e logo dali partiram para<br \/>\n    uma grande feira, que todos os anos, pelo S. Miguel, se fazia junto de uma<br \/>\n    grande cidade murada.<\/p>\n<p>Chegaram l&aacute; de noite, e tendo obtido licen&ccedil;a dos guardas para<br \/>\n    entrar, o saltimbanco foi logo a um desses judeus que trocam dinheiro, pediu<br \/>\n    emprestado o que era necess&aacute;rio para construir uma barraca, erguer<br \/>\n    os estrados, lonas vermelhas, e possuir um tambor que anunciasse o gigante.<br \/>\n    O judeu, tendo examinado Crist&oacute;v&atilde;o e certo que era um monstro<br \/>\n    de boa mostra e de boa renda, contou, uma a uma, dez pe&ccedil;as de prata<br \/>\n    na palma do saltimbanco: &#8212; e tendo assinado o papel diante do corregedor<br \/>\n    da feira, o saltimbanco partiu com Crist&oacute;v&atilde;o, a construir a<br \/>\n    barraca. Toda a noite trabalharam, pregando, martelando, enquanto a mulher<br \/>\n    do palha&ccedil;o cosia &agrave; pressa uma t&uacute;nica escarlate para Crist&oacute;v&atilde;o.<\/p>\n<p>Ao outro dia tudo estava pronto, e posta sobre dois postes a grande pe&ccedil;a<br \/>\n    de paninho branco, em que se anunciava o maior gigante e o maior atleta de<br \/>\n    Navarra e dos Mundos. Crist&oacute;v&atilde;o, sentado numa vasta caixa que<br \/>\n    um tapete recobria, esperava, enquanto fora o saltimbanco, tocando o tambor,<br \/>\n    anunciava a maravilha, e a mulher, com cequins de metal nas tran&ccedil;as<br \/>\n    ca&iacute;das, como uma moura, esperava diante de um prato de cobre, onde<br \/>\n    deviam cair as entradas.<\/p>\n<p>A feira era enorme, num vasto prado que defrontava com os muros da cidade.<br \/>\n    As barracas de lona, de madeira, de tapetes, de ramagens, alinhavam-se em<br \/>\n    grandes ruas. No topo dos mastros flutuavam bandeirolas. E homens enfardelados<br \/>\n    como orientais, mulheres com plumas nas cabe&ccedil;as, outras com trajes<br \/>\n    de na&ccedil;&otilde;es estranhas, conservavam-se por tr&aacute;s dos balc&otilde;es,<br \/>\n    onde, segundo a rua, e os mesteres, se desdobravam panos, reluziam j&oacute;ias<br \/>\n    em caixas gradeadas, se perfilavam os frascos de ess&ecirc;ncias, se amontoavam<br \/>\n    as peles, se confundiam as armas tauxiadas. Noutras ruas, sob tendas de lona,<br \/>\n    havia cozinhas, grandes barricas de cerveja ou e vinho. E os saltimbancos<br \/>\n    ocupavam um lugar perto do rio, que longos olmeiros assombreavam. Em volta,<br \/>\n    por toda a vasta plan&iacute;cie, era uma confus&atilde;o de carros descarregados,<br \/>\n    de pilhas de madeira, de cavalgaduras presas pelas patas, de grandes gigos<br \/>\n    onde se debatiam aves&#8230;<\/p>\n<p>Apenas as portas da cidade se abriram, a multid&atilde;o come&ccedil;ou a<br \/>\n    encher as ruas da feira, onde a erva desaparecera sob os p&eacute;s. E bem<br \/>\n    depressa come&ccedil;ou o vozear dos preg&otilde;es, os brados dos que chamavam<br \/>\n    fregueses, os atabales tocando &agrave; porta das tabernas, as sinetas repicando.<\/p>\n<p>Mas ningu&eacute;m fazia maior barulho que o saltimbanco coxo, rufando desesperadamente<br \/>\n    o tambor, diante da tenda onde aquele bom gigante esperava, pensativo. Bem<br \/>\n    depressa, homens do burgo, mulheres com crian&ccedil;as pela m&atilde;o, os<br \/>\n    feirantes, come&ccedil;aram a entrar, deixando cair uma moeda de prata no<br \/>\n    vasto prato de cobre. E apenas se levantava a cortina, era em todos os l&aacute;bios<br \/>\n    um longo ah! lento e maravilhado. A barraca era alta, em forma de torre: &#8212;<br \/>\n    e, vestido com uma longa t&uacute;nica escarlate, bordada a lantejoulas e<br \/>\n    ourop&eacute;is, com um turbante onde ondeavam enormes plumas verdes, um colossal<br \/>\n    alfanje de pau passado na cinta amarela, Crist&oacute;v&atilde;o era, na verdade,<br \/>\n    um assombro, e como um ogro disforme dos contos de fadas. Cheio de timidez,<br \/>\n    n&atilde;o movia os bra&ccedil;os: e um grande rubor invadia-o todo diante<br \/>\n    daquelas faces at&ocirc;nitas, onde havia terror da sua for&ccedil;a, e como<br \/>\n    uma piedade da sua deformidade. As crian&ccedil;as escondiam-se nas saias<br \/>\n    das m&atilde;es: &#8212; e os homens espantados, queriam apalpar a rijeza<br \/>\n    dos seus m&uacute;sculos. Cada grupo que sa&iacute;a ia contar nas tabernas,<br \/>\n    espalhar por toda a feira a maravilha daquele gigante. J&aacute; uma lenda<br \/>\n    circulava &#8212; e era ele, n&atilde;o outro, que derrotara o imperador da<br \/>\n    Ocit&acirc;nia, matara um grande drag&atilde;o que infestara os Algarves,<br \/>\n    e, s&oacute; com a empurra, derrubara a torre constru&iacute;da pelo Diabo<br \/>\n    para o Roberto de Normandia. Todo dia uma grande fila esperou &agrave; porta<br \/>\n    da barraca &#8212; e &agrave; noite sobre o prato de cobre havia um monte<br \/>\n    de dinheiro esboroado.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, Crist&oacute;v&atilde;o habituara-se &agrave; multid&atilde;o<br \/>\n    &#8212; e mesmo, para fazer rir as crian&ccedil;as, fazia esgares, ou agarrava<br \/>\n    um homem pelas pernas e erguia-o como uma palha ligeira. Depois levantou com<br \/>\n    dois dedos uma barrica cheia de pedras, torceu com os dentes grossas barras<br \/>\n    de ferro, e de uma s&oacute; pancada, com o punho fechado, fendeu uma m&oacute;<br \/>\n    de moinho.<\/p>\n<p>&Agrave; noite estava coberto de suor: &#8212; e enquanto o saltimbanco e<br \/>\n    a mulher, com a face radiante, faziam as pilhas do dinheiro, ele tomava ao<br \/>\n    colo e embalava a criancinha, que nos seus bra&ccedil;os tinha um sono mais<br \/>\n    doce.<\/p>\n<p>A sua fama correra no burgo &#8212; e o pr&oacute;prio pr&iacute;ncipe que<br \/>\n    ali reinava, e o bispo, vieram em grande comitiva, com cavaleiros e pajens,<br \/>\n    ver o gigante. Foi grande neles a maravilha. E o pr&iacute;ncipe, homem de<br \/>\n    grandes m&uacute;sculos, queria media as for&ccedil;as com Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    jogando a qual deles vergaria a m&atilde;o do outro. E diante daqueles cavaleiros,<br \/>\n    por humildade, Crist&oacute;v&atilde;o cedeu, e deixou que a m&atilde;o cabeluda<br \/>\n    do pr&iacute;ncipe vergasse a sua. Os cavaleiros aclamavam o Senhor. E o pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    radiante, despejou a sua bolsa cheia de ouro nas m&atilde;os de Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    isentou a barraca do saltimbanco de todos os impostos ao corregedor, e mandou,<br \/>\n    de noite, mo&ccedil;os da cozinha com tochas, trazer uma perna de veado e<br \/>\n    empad&otilde;es de sua mesa.<\/p>\n<p>Toda a noite, os saltimbancos, partindo o dinheiro, dava a sua metade a Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    &#8212; que ele guardava numa cova, a um canto da barraca, coberto com uma<br \/>\n    m&oacute; de moinho. Depois ia pela feira solit&aacute;rio, e todo o servi&ccedil;o<br \/>\n    era ele que o fazia. Carregava as barricas de vinho, descarregava os fardos,<br \/>\n    limpava o ch&atilde;o das barracas, e, &agrave; porta das cozinhas, fazia<br \/>\n    a lavagem dos pratos de estanho.<\/p>\n<p>Mas o fim da feira chegara, e uma noite, em que sentia o barulho das barracas<br \/>\n    que se desmanchavam, o saltimbanco contou os seus ganhos &#8212; e as l&aacute;grimas<br \/>\n    bailaram-lhe na face, porque para sempre estava ao abrigo da mis&eacute;ria.<br \/>\n    Ent&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o desenterrou o seu tesouro e, em sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    veio junt&aacute;-lo ao dinheiro do saltimbanco, murmurando: ?&Eacute; para<br \/>\n    a crian&ccedil;a?. Duas moedas de cobre tinham rolado no ch&atilde;o. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    apanhou-as, beijou-as como uma esmola que lhe atirassem, beijou a crian&ccedil;a,<br \/>\n    saiu da barraca. E, tendo comprado uma broa e um pichel de vinho, deixou a<br \/>\n    feira que se desmanchava.<\/p>\n<h2><a name=\"17\">Cap&iacute;tulo XVII<\/a><\/h2>\n<p>De novo Crist&oacute;v&atilde;o correu o mundo, servindo os homens. Pelos<br \/>\n    descampados e pelos povoados, por longos Invernos, por longas Primaveras,<br \/>\n    correu o mundo, oferecendo os seus bra&ccedil;os. Os anos tinham passado,<br \/>\n    e Crist&oacute;v&atilde;o era mais velho que os mais velhos carvalhos. Os<br \/>\n    seus longos cabelos tinham embranquecido, e a sua for&ccedil;a j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    era t&atilde;o forte. Mas cada dia o seu cora&ccedil;&atilde;o se enchia de<br \/>\n    uma ternura maior e mais vaga. Por vezes, sentado numa pedra, &agrave; beira<br \/>\n    de um caminho, olhava as &aacute;rvores, os campos, os montes, e as simples<br \/>\n    flores silvestres, e sentia ent&atilde;o como o desejo de apertar toda a terra<br \/>\n    contra o seu peito. Depois pensava que sobre ela viviam tantos miser&aacute;veis,<br \/>\n    tantos humildes, tantos enfermos &#8212; e era um desejo de sondar at&eacute;<br \/>\n    aos &uacute;ltimos recantos aquele mundo, e de curar cada dor, matar cada<br \/>\n    fome, tornar o mundo alegre, s&atilde;o, perfeito. Partia ent&atilde;o &#8212;<br \/>\n    e atrav&eacute;s das estradas mendigava para dar aos mendigos. Colocava-se<br \/>\n    &agrave; entrada das pontes, como um socorro sempre pronto &#8212; a ajudar<br \/>\n    um velho ou a carregar um fardo. O seu desejo seria sofrer ele s&oacute; todas<br \/>\n    as opress&otilde;es, carregar ele s&oacute; todos os fardos humanos. E por<br \/>\n    vezes parava, olhava em redor, como procurando, nos vastos horizontes, servi&ccedil;os<br \/>\n    a prestar, fraquezas a socorrer. Depois pensava que eles, inumer&aacute;veis<br \/>\n    decerto se apresentariam cedo aos seus olhos; e partia, ficando triste, quando<br \/>\n    durante o da&iacute; os seus bra&ccedil;os tinham permanecido ociosos. Para<br \/>\n    que lhos dera ent&atilde;o Jesus t&atilde;o grosso e fortes? Ia ent&atilde;o<br \/>\n    sentar-se &agrave; entrada das pontes, onde a passagem era maior, como uma<br \/>\n    for&ccedil;a pronta a trabalhar, pronta a socorrer. Se era um cavaleiro que<br \/>\n    passava, corria a buscar &aacute;gua para dar ao cavalo. Se era um carreteiro,<br \/>\n    ajudava as mulas a empurrar o carro. Se era um mendigo, mendigava para ele.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, a sua bondade ocupou-se dos animais. Tamb&eacute;m eles sofriam<br \/>\n    e tinham sobre a Terra o seu quinh&atilde;o de mis&eacute;ria e de dor. Quando<br \/>\n    via ent&atilde;o um animal carregado, tomava sobre os seus ombros o fardo.<br \/>\n    Recolhia ossos, pelas esquinas dos mercados, para distribuir aos c&atilde;es<br \/>\n    famintos. era o enfermeiro dos animais feridos, a quem lavava as chagas, onde<br \/>\n    as moscas se prendiam. Um passarinho, voando, enchia-lhe o peito de ternura.<br \/>\n    E penetrava nas florestas, na esperan&ccedil;a de cuidar dos velhos lobos<br \/>\n    doentes, ou dos veados que morrem de fome pelos tempos de neve.<\/p>\n<p>Depois, pouco a pouco, na sua alma densa e simples veio a nascer lentamente<br \/>\n    a id&eacute;ia de que as &aacute;rvores tamb&eacute;m sofriam, bem como as<br \/>\n    florinhas dos campos. E desde ent&atilde;o nunca mais cortou um tronco, para<br \/>\n    dele fazer um cajado. Todo o ramo, partido e seco no ch&atilde;o, o compadecia.<br \/>\n    Arredava-se para n&atilde;o pisar a erva. E pelos tempos de seca fazia longas<br \/>\n    caminhadas ao rio para trazer &aacute;gua, e dar de beber &agrave;s plantas<br \/>\n    sufocadas pelo p&oacute; dos caminhos. Nas pedras mesmo, veio por fim a suspeitar<br \/>\n    que havia algum sofrimento. A picareta que as cortava, as duras rodas que<br \/>\n    as vincavam, o sol que as escaldava, a neve que as cobria, n&atilde;o lhes<br \/>\n    fariam uma dor, que elas guardavam na profundidade da sua mudez? E muitas<br \/>\n    vezes, com o seu vasto corpo, fez sombra &agrave;s rochas: com as suas m&atilde;os,<br \/>\n    &agrave; maneira de longas p&aacute;s, livrava as pedras da frialdade do gelo.<\/p>\n<p>A sua ternura abrangia o Universo. Por vezes, de noite, olhando o c&eacute;u,<br \/>\n    vinha-lhe como um grande amor pelas estrelas. Elas eram claras e puras. Um<br \/>\n    momento brilhavam, depois partiam. E a Lua que chegava ent&atilde;o era t&atilde;o<br \/>\n    triste, que um suspiro, sem som, levantava o cora&ccedil;&atilde;o de Crist&oacute;v&atilde;o.<br \/>\n    Para onde iam assim todos aqueles astros, correndo, correndo? E viera a pensar<br \/>\n    que seriam almas subindo, subindo nos espa&ccedil;os, mais altas &agrave;<br \/>\n    medida que eram mais puras, ganhando uma l&eacute;gua por cada bondade que<br \/>\n    realizavam, e tendendo assim &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o, at&eacute;<br \/>\n    se tornaram dignas de se abismar no seio sublime de Jesus.<\/p>\n<h2><a name=\"18\">Cap&iacute;tulo XVIII<\/a><\/h2>\n<p>Assim envelhecia aquele bom gigante. Ora, um dia que caminhava por uma colina<br \/>\n    ente rochedos, ouviu um rumor de vozes que parecia vir do fundo do despenhadeiro.<br \/>\n    Desceu, agarrando-se &agrave; ponta das rochas. E viu um largo rio, negro<br \/>\n    e tumultuoso, que corria espumando sobre as rochas que o cortavam, com um<br \/>\n    mugido sombrio. &Agrave; beira dele, estava um grupo de mercadores com os<br \/>\n    seus machos carregados. E do outro lado, eram rochas, a pique, um monte que<br \/>\n    se elevava, coroado de negros pinheiros.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o desceu, apareceu diante dos homens. Todos se juntaram,<br \/>\n    tirando facalh&otilde;es do cinto, no terror daquela for&ccedil;a e daquela<br \/>\n    deformidade. Depois, como ele de longe lhes falou com humildade, todos, pouco<br \/>\n    a pouco, o cercaram, perguntando o que acontecera &agrave; ponte que ali havia.<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o n&atilde;o sabia. E ent&atilde;o disseram-lhe que<br \/>\n    aquele era um caminho curto e f&aacute;cil que havia naquelas terras. Mas<br \/>\n    tinha aquela passagem l&aacute;, o rio tumultuoso. Outrora houvera ali uma<br \/>\n    ponte de barcas amarradas com correntes. Mas o rio quebrara as correntes,<br \/>\n    levara as barcas, como palhas secas. Depois tinham lan&ccedil;ado uma ponte<br \/>\n    de madeira e o rio outra vez levara a ponte. No entanto o Senhor daquelas<br \/>\n    terra morrera, e tendo elas passado a um outro que vivia nas cidades, ningu&eacute;m<br \/>\n    mais se ocupara de fazer uma ponte aos viandantes. E agora ali estavam eles,<br \/>\n    sem poderem passar, e as mulheres e os filhos esperavam-nos, debalde, nas<br \/>\n    suas moradas para al&eacute;m dos montes.<\/p>\n<p>Crist&oacute;v&atilde;o, no entanto, olhava a &aacute;guia. E em sil&ecirc;ncio<br \/>\n    mergulhou no rio, e come&ccedil;ou a atravess&aacute;-lo. A &aacute;gua cobriu<br \/>\n    seus joelhos, subiu at&eacute; a &agrave; cintura, por fim bateu furiosamente<br \/>\n    sobre o seu peito, como sobre o pilar de uma ponte. E Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    caminhava. Depois a cinta de Crist&oacute;v&atilde;o saiu da &aacute;gua,<br \/>\n    depois apareceram os seus joelhos, e a escorrer, ele p&ocirc;s p&eacute;,<br \/>\n    enfim, nas rochas duras da outra margem, onde um caminho &iacute;ngreme subia<br \/>\n    entre as fragas. Crist&oacute;v&atilde;o passara o rio.<\/p>\n<p>Voltou, e abrindo os bra&ccedil;os para os mercadores espantados, gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Quem quer passar?<\/p>\n<p>Um mais novo logo se ofereceu. Crist&oacute;v&atilde;o tomou-o sobre os seus<br \/>\n    largos ombros, em cada bra&ccedil;o carregou um fardo, enquanto os outros<br \/>\n    ansiosos, rezavam &agrave; Virgem. Crist&oacute;v&atilde;o passou &#8212;<br \/>\n    e do outro lado, o mercador radiante, fazia grandes gestos aos companheiros,<br \/>\n    gritava que o gigante era seguro. Ent&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o passou<br \/>\n    os homens, depois os fardos. E por fim agarrando as mulas, que zurravam espantadas,<br \/>\n    conduziu para o lado de l&aacute; toda a caravana, sem que um p&ecirc;lo dos<br \/>\n    animais, ou uma corda dos fardos, ou um sapato dos homens se tivesse molhado.<br \/>\n    Tendo combinado baixo, os homens puseram-lhe na m&atilde;o um punhado de dinheiro,<br \/>\n    deram-lhe um rolo de cordas, e deixaram-lhe p&atilde;o para uma semana.<\/p>\n<p>Logo nesta tarde Crist&oacute;v&atilde;o, examinando aquele lugar agreste,<br \/>\n    recolheu troncos quebrados, ramarias secas, e calando a madeira na fenda das<br \/>\n    rochas, arranjou com a corda um longo, estreito telheiro, onde o seu corpo<br \/>\n    se abrigasse das chuvas e das neves. Depois, tendo desembara&ccedil;ado dos<br \/>\n    pedregulhos o caminho, esperou, sentado na grande solid&atilde;o, que aparecessem<br \/>\n    viandantes. N&atilde;o tardaram a aparecer na outra margem um grupo de frades,<br \/>\n    que viajavam com o abade, montado numa mula. Apenas os viu, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    atravessou &#8212; enquanto os frades aterrados, lhe faziam acenos, para que<br \/>\n    se n&atilde;o arriscasse naquelas &aacute;guas da torrente. Mas quando o viram<br \/>\n    chegar, enorme, a escorrer &aacute;gua, e com os bra&ccedil;os abertos para<br \/>\n    os receber, hesitam, pensando ser uma cilada do Dem&ocirc;nio. A cruz que<br \/>\n    o abade tra&ccedil;ou no ar, e que Crist&oacute;v&atilde;o repetiu sobre peito,<br \/>\n    logo os tranq&uuml;ilizou &#8212; murmurando entre si que ent&atilde;o, certamente,<br \/>\n    era um aux&iacute;lio do Senhor. Um por um, arrega&ccedil;ando o h&aacute;bito,<br \/>\n    cavalgaram Crist&oacute;v&atilde;o, e no meio do rio, sentindo a &aacute;gua<br \/>\n    furiosa bater a cinta do gigante, gritavam o nome da Virgem, estrela dos N&aacute;ufragos.<br \/>\n    Depois, quando Crist&oacute;v&atilde;o os pousava na outra margem, enxutos,<br \/>\n    era um espanto, e baixando os h&aacute;bitos, reapertando as sand&aacute;lias,<br \/>\n    riam daquela ponte viva que trabalhava nas &aacute;guas. O abade passou, passou<br \/>\n    a sua mula. E os frades deixaram a sua ben&ccedil;&atilde;o ao gigante e um<br \/>\n    ramo de buxo benzido.<\/p>\n<p>Come&ccedil;ou ent&atilde;o para Crist&oacute;v&atilde;o uma vida est&aacute;vel,<br \/>\n    quieta, junto daquele rio. Nas horas em que n&atilde;o havia gente, esperava<br \/>\n    sentado numa pedra, olhando correr a &aacute;gua, ou ent&atilde;o alargava<br \/>\n    o caminho e constru&iacute;a &agrave; beira da &aacute;gua, com pedras, como<br \/>\n    um cais onde a gente lhe subia para as costas. A cada instante, por&eacute;m,<br \/>\n    havia algu&eacute;m a passar &#8212; e como Crist&oacute;v&atilde;o era j&aacute;<br \/>\n    conhecido, os viandantes, do alto da colina, vinham logo gritando: ?Eh gigante!?<br \/>\n    Alguns, mais brutais, se ele se demorava, rompiam em inj&uacute;rias. Outros,<br \/>\n    que o vinho bebido nas tabernas da estrada excitava, arrepelavam-lhe os cabelos.<br \/>\n    Ele, quieto e humilde, fendia as &aacute;guas. Por vezes era um cavaleiro<br \/>\n    que, com a sua pesada armadura, lhe esmagava os ombros, e rindo o espica&ccedil;ava<br \/>\n    com os acicates. Outras vezes era uma dama que se horrorizava com a fealdade<br \/>\n    de Crist&oacute;v&atilde;o, tapava a face, e apenas passada para a outra margem<br \/>\n    lhe fugia das m&atilde;os, mostrando o seu nojo. O maior trabalho era com<br \/>\n    os animais. Havia rebanhos que levavam todo um dia a passar. Os ginetes de<br \/>\n    guerra, furiosos, mordiam-lhe os bra&ccedil;os. E os galgos, latindo, queriam<br \/>\n    saltar para o rio, entre a indigna&ccedil;&atilde;o dos fidalgos, que atiravam<br \/>\n    pedras a Crist&oacute;v&atilde;o. Nenhum esfor&ccedil;o custava ao bom gigante.<br \/>\n    Passava os fardos mais duros, grossas barricas de vinho. pedras enormes para<br \/>\n    a constru&ccedil;&atilde;o das abadias. Passou touros, que iam para um curro<br \/>\n    de fidalgos. E passou um bando de leprosos, que fugiam de uma cidade, e lhe<br \/>\n    deixavam sobre a pele o pus das duas f&iacute;stulas.<\/p>\n<p>Se lhe n&atilde;o pagavam, baixava a cabe&ccedil;a, saudando com humildade.<br \/>\n    Se lhe pagavam, beijava a escassa moeda de cobre: &#8212; e guardava debaixo<br \/>\n    de uma pedra esse dinheiro, para o repartir com os mendigos.<\/p>\n<p>Assim vivia desde longos anos. A sua cabe&ccedil;a j&aacute; se vergava,<br \/>\n    os seus bra&ccedil;os j&aacute; n&atilde;o eram t&atilde;o fortes. Por vezes,<br \/>\n    sob os grandes fardos, gemia lamentavelmente. Todos os seus membros estavam<br \/>\n    como troncos nodosos, inchados pela umidade constante. De todo ele sa&iacute;a<br \/>\n    um cheiro a vasa e a limo. E as suas pernas, sempre na &aacute;gua, tinham<br \/>\n    um tom verde, como as estacas de uma levada.<\/p>\n<p>O seu leito de folhas secas era-lhe doce, e quando sentia vozes que o chamavam,<br \/>\n    era com um gemido que se erguia. J&aacute; lhe levava o dobro do tempo a cortar<br \/>\n    a corrente &#8212; e por isto eram constante as inj&uacute;rias que recebia.<br \/>\n    Para se apoiar na &aacute;gua, sentindo que suas for&ccedil;as diminu&iacute;am,<br \/>\n    teve de fazer um grande bast&atilde;o agu&ccedil;ado, com um tronco. E cada<br \/>\n    Inverno pensava, com inquieta&ccedil;&atilde;o, se a for&ccedil;a lhe sobraria<br \/>\n    para fender a corrente furiosa do rio mais cheio.<\/p>\n<p>Agora, apenas passava os viajantes, logo se vinha deitar. E chegou mesmo<br \/>\n    a pedir, por caridade, que lhe deixassem um pouco de vinho, para tomar nas<br \/>\n    noites mais duras, como um cordial que o amparasse. Oh! muito pouco, um pichel<br \/>\n    somente&#8230; Ele, cautelosamente, o pouparia.<\/p>\n<p>Ora uma noite de grande Inverno, em que ventava, nevava, e o rio muito cheio<br \/>\n    mugia furiosamente, Crist&oacute;v&atilde;o, j&aacute; muito velho, tr&ocirc;pego,<br \/>\n    com feridas nas pernas, dormia no seu ch&atilde;o molhado &#8212; quando fora,<br \/>\n    na noite agreste, uma voz pequenina e dolorida gritou: ?Crist&oacute;v&atilde;o!<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o!?<\/p>\n<p>Com um gemido, logo se ergueu aquele bom gigante. Abriu o loquete da sua<br \/>\n    cho&ccedil;a. E viu diante de si uma criancinha, pisando descal&ccedil;a a<br \/>\n    relva, com os cabelos a esvoa&ccedil;ar no vento e na chuva, e apertando sobre<br \/>\n    o peito, com as m&atilde;ozinhas, a camisa muito branca que o cobria. Espantado,<br \/>\n    com l&aacute;grimas, Crist&oacute;v&atilde;o abriu os bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8212; Oh meu menino, quem te trouxe?<\/p>\n<p>E tremendo toda, no frio e na neve, a criancinha murmurou:<\/p>\n<p>&#8212; Crist&oacute;v&atilde;o, Crist&oacute;v&atilde;o, estou sozinho e<br \/>\n    perdido, e por quem &eacute;s te pe&ccedil;o que me leves para a casa do meu<br \/>\n    pai!<\/p>\n<p>J&aacute; Crist&oacute;v&atilde;o arrancara dos ombros a pele em que se agasalhava,<br \/>\n    e envolvia nela o corpinho tenro que tremia.<\/p>\n<p>&#8212; Oh meu menino, onde &eacute; a casa do teu pai?<\/p>\n<p>A criancinha estendeu o bra&ccedil;o para o outro lado, onde os montes negros<br \/>\n    se erguiam. E murmurou muito baixo:<\/p>\n<p>&#8212; Al&eacute;m, para al&eacute;m, muito longe&#8230;<\/p>\n<p>Mas um espanto tomava Crist&oacute;v&atilde;o. Porque debaixo da pele negra<br \/>\n    de cabra, de novo a camisinha da crian&ccedil;a aparecia rebrilhando na noite<br \/>\n    negra, toda branca de linho. Muito humilde, baixando para ele a face, o bom<br \/>\n    gigante disse, muito humilde:<\/p>\n<p>&#8212; Oh meu menino, vem que eu te levo ao colo.<\/p>\n<p>A crian&ccedil;a estendeu os bra&ccedil;os pequeninos. Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    com cuidado e docemente a foi pondo ao ombro. Mas, bruscamente, os seus joelhos<br \/>\n    vergaram, tocaram a rocha, sob o imenso peso que o esmagava, Ah! quanto pesava<br \/>\n    o menino! Com custo, se firmou nas suas velhas pernas doridas. Desceu, arrimado<br \/>\n    ao seu bast&atilde;o, o caminho escorregadio, mergulhou na &aacute;gua os<br \/>\n    p&eacute;s &#8212; e logo a corrente mugiu furiosamente em redor, atirando<br \/>\n    a espuma at&eacute; os p&eacute;s da crian&ccedil;a. Arquejando, Crist&oacute;v&atilde;o<br \/>\n    rompeu a &aacute;gua. O vento imenso silvava, e atirava-lhe sobre os olhos,<br \/>\n    que a umidade embaciava, os seus longos cabelos grisalhos. Ele disse: ?Ah!<br \/>\n    meu menino, meu menino!? A cada passo sentia que o leito limoso do rio lhe<br \/>\n    fugia sob os p&eacute;s. Todo ele tremia, firmado no bord&atilde;o. E a &aacute;gua,<br \/>\n    toda branca de espuma, empurrava-o furiosamente, com um marulho medonho. Na<br \/>\n    densa escurid&atilde;o, nada distinguia, nem sabia onde estava a outra margem.<br \/>\n    Grossas pedras de granizo de repente ca&iacute;ram, e o menino, arrepiado,<br \/>\n    todo se aconchegava &agrave; sua face. J&aacute; a &aacute;gua temerosa lhe<br \/>\n    chegava ao peito. Trope&ccedil;ou numa rocha, e, quando se susteve, sentiu<br \/>\n    a &aacute;gua, furiosa, gelada, correndo a ro&ccedil;ar-lhe as barbas. Arrojou<br \/>\n    o bord&atilde;o, e com as m&atilde;os ambas ergueu o menino ao ar. Mas mal<br \/>\n    o podia sustentar, grandes vagas j&aacute; lhe batiam a face. Arquejando,<br \/>\n    parava para respirar fora da &aacute;gua, e bebia a espuma turva e amarga.<br \/>\n    Grossas traves que a corrente acarretava, batiam-lhe o corpo. Os seus p&eacute;s<br \/>\n    rasgavam-se em pedras agudas. E ele, num esfor&ccedil;o enorme, os bra&ccedil;os<br \/>\n    esticados ao alto e todo a tremer, sustentando o menino, arrojava o peito<br \/>\n    para a frente, com gemidos que eram mais fortes que o vento. Duas vezes os<br \/>\n    seus joelhos fraquejaram, ia cair sob a for&ccedil;a da torrente; duas vezes,<br \/>\n    com esfor&ccedil;o sobre-humano, se manteve firme, erguendo ao alto o menino.<br \/>\n    A &aacute;gua j&aacute; lhe chegava pela barba, e a espuma das vagas umedecia-lhe<br \/>\n    os olhos. E, sempre arquejando, rompia, com as m&atilde;os a tremer todas<br \/>\n    do peso imenso do menino. Mas os seus p&eacute;s encontraram uma rocha firme,<br \/>\n    e a &aacute;gua desceu outra vez at&eacute; ao peito. Na rocha resvaladi&ccedil;a,<br \/>\n    por&eacute;m, os seus passos mal se podiam sustentar. E era por um esfor&ccedil;o<br \/>\n    da alma, que se empinava arquejando. Mas ia saindo do rio. A &aacute;gua j&aacute;<br \/>\n    lhe descera &agrave; cintura. E o fragor da corrente parecia abrandado e como<br \/>\n    remoto. Grandes pedras emergiam da &aacute;gua. J&aacute; apenas tinha mergulhado<br \/>\n    os p&eacute;s, que ele sentia dilacerados. Um esfor&ccedil;o mais, e estava<br \/>\n    na margem, salvo, apertando contra o peito o menino.<\/p>\n<p>Mas, naquele esfor&ccedil;o supremo toda sua vida se fora. N&atilde;o podia<br \/>\n    mais. E j&aacute; se sentava, exausto, numa rocha, quando o menino lhe murmurou<br \/>\n    que n&atilde;o parasse, que marchasse ainda, o conduzisse &agrave; casa de<br \/>\n    seu pai. E Crist&oacute;v&atilde;o, arquejando, come&ccedil;ou a trepar o<br \/>\n    &iacute;ngreme caminho da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as<br \/>\n    rochas, os abetos, emergiam da treva densa, que os afogara. Uma frialdade<br \/>\n    trespassava o ar &#8212; e Crist&oacute;v&atilde;o tiritava, com o seu pobre<br \/>\n    sai&atilde;o de estamenha encharcado, que ia pingando na terra mole. E mais<br \/>\n    baixo murmurava: ?Ah! meu menino! meu menino!?<\/p>\n<p>Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o todo curvado, com os seus cabelos ca&iacute;dos sobe<br \/>\n    a face e pingando, arquejava a cada passo. Subiria ele jamais at&eacute; a<br \/>\n    morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o cora&ccedil;&atilde;o, no terror<br \/>\n    de cair sem for&ccedil;a, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre<br \/>\n    as feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a m&atilde;o a<br \/>\n    uma rocha, desfalecido, de se pender &agrave; ramagem de um abeto. E a claridade<br \/>\n    crescia; j&aacute;, no alto dos montes, ele via palidamente alvejar a neve.<\/p>\n<p>&#8212; Oh meu menino, onde &eacute; a casa de teu pai?<\/p>\n<p>&#8212; Mais longe, Crist&oacute;v&atilde;o, mais longe&#8230;<\/p>\n<p>E aquele bom gigante, agasalhando os p&eacute;s do menino na dobra da pele<br \/>\n    de cabra, que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infind&aacute;vel,<br \/>\n    que mais apertava entre rochas, eri&ccedil;adas de silvas enormes. Por fim,<br \/>\n    mal podia passar: as pontas das rochas rasgavam-lhe os bra&ccedil;os, os longos<br \/>\n    espinhos atravessados, levavam-lhe a pele rude da face. E seguia! J&aacute;<br \/>\n    das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos embaciados mal distinguiam o<br \/>\n    caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor de terra. Uma luz,<br \/>\n    no entanto, mais viva, cor-de-rosa, j&aacute; subia por tr&aacute;s das linhas<br \/>\n    dos cerros.<\/p>\n<p>Mas Crist&oacute;v&atilde;o parou, sem poder mais. Com o menino agarrado<br \/>\n    nos bra&ccedil;os, ficou encostado a uma pedra, arquejando.<\/p>\n<p>&#8212; Onde &eacute; a casa de teu pai?<\/p>\n<p>&#8212; Muito longe, Crist&oacute;v&atilde;o, mais longe&#8230;<\/p>\n<p>Ent&atilde;o o bom gigante fez um prodigiosos esfor&ccedil;o, e a cada passo,<br \/>\n    meio desfalecido, os olhos turvos, a cada instante lan&ccedil;ando a m&atilde;o<br \/>\n    para se arrimar, trope&ccedil;ando, com grossas gotas de suor que se misturavam<br \/>\n    a grossa gotas de sangue, rompeu a caminhar, sempre para cima, sempre para<br \/>\n    cima. Os seus p&eacute;s iam ao acaso, no desfalecimento que o tomava. Uma<br \/>\n    grande frialdade invadia todos os seus membros. J&aacute; se sentia t&atilde;o<br \/>\n    fraco como a crian&ccedil;a que levava aos ombros. E parou, sem poder, no<br \/>\n    topo do monte. Era o fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz.<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o pousou o menino no ch&atilde;o, e caiu ao lado, estendendo<br \/>\n    as m&atilde;os. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas m&atilde;os presas nas<br \/>\n    do menino &#8212; e a terra faltou-lhe debaixo dos p&eacute;s. Ent&atilde;o<br \/>\n    entreabriu os olhos, e no esplendor incompar&aacute;vel reconheceu Jesus,<br \/>\n    Nosso Senhor, pequenino, como quando nasceu no curral, que docemente, atrav&eacute;s<br \/>\n    da manh&atilde; clara, o ia levando para o C&eacute;u.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII E\u00e7a de Queiroz Cap&iacute;tulo I Um dia, numa floresta, ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95563","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Livro S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Livro, Obra Liter\u00e1ria, Lenhador, Literatura, S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Livro S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s, Livro, Obra Liter\u00e1ria, Lenhador, Literatura, S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o - E\u00e7a de Queir\u00f3s\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/sao-cristovao-eca-de-queiros\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-19T13:40:45+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"270 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/sao-cristovao-eca-de-queiros#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/sao-cristovao-eca-de-queiros\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o &#8211; 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