{"id":95555,"date":"2017-01-19T11:22:04","date_gmt":"2017-01-19T13:22:04","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95555"},"modified":"2017-01-19T11:22:04","modified_gmt":"2017-01-19T13:22:04","slug":"prosas-barbaras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/prosas-barbaras","title":{"rendered":"Prosas B\u00e1rbaras"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"middle\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">Na primeira fase da vida liter\u00e1ria<br \/>\nde E\u00e7a de Queir\u00f3s<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#1\">Serenata de Sat\u00e3 \u00e0s<br \/>\nEstrelas<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\"><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2>E\u00e7a de Queiroz<\/h2>\n<p>Na primeira fase da vida liter&aacute;ria de E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br \/>\n    Notas marginais Sinfonia de abertura O Macbeth Poetas do mal A ladainha da<br \/>\n    dor Os mortos As mis&eacute;rias: 1. entre a neve Farsas Ao acaso O Miantonomah<br \/>\n    Misticismo humor&iacute;stico Lisboa Uma carta Da pintura em Portugal O lume<br \/>\n    Mefist&oacute;feles Onf&aacute;lia Benoiton Mem&oacute;rias de uma forca Ap&ecirc;ndice:<br \/>\n    In&ecirc;s de Castro A morte de Jesus.<\/p>\n<h2><a name=\"1\">NA PRIMEIRA FASE DA VIDA LITER&Aacute;RIA DE E&Ccedil;A DE QUEIR&Oacute;S<br \/>\n    I<\/a><\/h2>\n<p>Julgaram os Editores das &laquo;Prosas B&aacute;rbaras&raquo; ser necess&aacute;rio<br \/>\n    explicar como elas se <\/p>\n<p>  escreveram e denominaram.<\/p>\n<p> Fui talvez a testemunha mais pr&oacute;xima da redac&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    escritos agora reunidos em volume, e, por esse tempo, o mais insepar&aacute;vel<br \/>\n    companheiro do autor. Esta &laquo;Introdu&ccedil;&atilde;o&raquo; &eacute;<br \/>\n    pois uma p&aacute;gina da sua biografia. Tento esbo&ccedil;ar nela a figura<br \/>\n    do homem e a do escritor  tais como as conheci, ao formarem-se as cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    deste livro  que circunst&acirc;ncias e que esp&iacute;ritos principalmente<br \/>\n    influenciaram a ali&aacute;s extraordin&aacute;ria originalidade do g&eacute;nio<br \/>\n    de E&ccedil;a de Queir&oacute;s.<\/p>\n<p> Quando nos encontr&aacute;mos, j&aacute; estavam publicados alguns dos seus<br \/>\n    &laquo;Folhetins&raquo; na &laquo;Gazeta de Portugal&raquo;, que fora fundada<br \/>\n    por Ant&oacute;nio Augusto Teixeira de Vasconcelos (em Novembro de 1862),<br \/>\n    4 anos antes da apari&ccedil;&atilde;o do primeiro deles, e terminou (Janeiro<br \/>\n    de 1868), pouco mais de um ano depois da publica&ccedil;&atilde;o do &uacute;ltimo,<br \/>\n    sendo  em rivalidade com a &laquo;Revolu&ccedil;&atilde;o de Setembro&raquo;,<br \/>\n    dirigida por Rodrigues Sampaio  o mais brilhante peri&oacute;dico do<br \/>\n    tempo. A &laquo;Gazeta de Portugal&raquo; publicava, al&eacute;m das do seu<br \/>\n    fundador, frequentes produ&ccedil;&otilde;es de Ant&oacute;nio Feliciano de<br \/>\n    Castilho, Jos&eacute; Castilho, Mendes Leal, Rebelo da Silva, Camilo Castelo<br \/>\n    Branco, J&uacute;lio C&eacute;sar Machado, Tom&aacute;s Ribeiro, Zacarias<br \/>\n    d&rsquo;A&ccedil;a, Gra&ccedil;a Barreto, Silveira da Mota, Cunha Rivara<br \/>\n    quase todos os consagrados de ent&atilde;o. Os &laquo;NOVOS&raquo; que aqui<br \/>\n    escreviam, ficavam, por este facto, para logo consagrados tamb&eacute;m. A&iacute;<br \/>\n    primeiro apareceram no &laquo;Folhetim&raquo;, triunfantemente, Mateus de<br \/>\n    Magalh&atilde;es, Pinheiro Chagas, Os&oacute;rio de Vasconcelos e Xavier da<br \/>\n    Cunha (&laquo;Ol&iacute;mpio de Freitas&raquo;). Todos estes escritores se<br \/>\n    continuavam uns aos outros, sem contrastes nem revolu&ccedil;&otilde;es, apenas<br \/>\n    levemente desenvolvendo f&oacute;rmulas aceites e classificadas pelos aplausos<br \/>\n    de um p&uacute;blico hereditariamente satisfeito.<\/p>\n<p> Em 1866 a &laquo;Gazeta de Portugal&raquo; entrara por&eacute;m em decad&ecirc;ncia;<br \/>\n    come&ccedil;ava a viver de expedientes. Desde Dezembro de 1865 diminuiu o<br \/>\n    formato. A 14 de Julho de 1866, Jos&eacute; da Silva Mendes Leal, poeta, dramaturgo,<br \/>\n    romancista, historiador, estadista, orador, diplomata  para muitos<br \/>\n    &laquo;mestre&raquo; e leg&iacute;timo sucessor de Almeida Garrett<br \/>\n    despedira-se da direc&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria que at&eacute; ent&atilde;o,<br \/>\n    pelo menos nominalmente, exercera. Os colaboradores liter&aacute;rios mais<br \/>\n    ass&iacute;duos, mais genuinamente representantes do gosto geral, eram 16<br \/>\n    ent&atilde;o, no &laquo;Folhetim da &laquo;Gazeta de Portugal&raquo;, Santos<br \/>\n    Nazar&eacute; e Lu&iacute;s Quirino Chaves. Por essa &eacute;poca Teixeira<br \/>\n    de Vasconcelos publicou a&iacute; o seu romance &laquo;A Ermida de Castromino&raquo;,<br \/>\n    seguido por&eacute;m, desde os primeiros dias de 1866, por &laquo;O Diamante<br \/>\n    do Comendador&raquo;  do visconde Ponson du Terrail&#8230;<\/p>\n<p> Repentinamente (em Mar&ccedil;o de 1866), come&ccedil;aram a aparecer uns<br \/>\n    &laquo;Folhetins&raquo; assinados &laquo;E&ccedil;a de Queir&oacute;s&raquo;.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m conhecia a pessoa designada por estes apelidos que, por algum<br \/>\n    tempo, se sup&ocirc;s serem um pseud&oacute;nimo.<\/p>\n<p> Os &laquo;Folhetins&raquo; de E&ccedil;a de Queir&oacute;s foram todavia<br \/>\n    notados:  mas como novidade extravagante e burlesca. Geral hilaridade<br \/>\n    os acolheu desde a pr&oacute;pria Redac&ccedil;&atilde;o da &laquo;Gazeta<br \/>\n    de Portugal&raquo;, at&eacute; aos centros intelectuais reconhecidos do pa&iacute;s,<br \/>\n    e at&eacute; &agrave; parte mais grave, culta e influente do p&uacute;blico.<br \/>\n    Para este, uma ou outra frase os arrumou logo no que ent&atilde;o se chamava<br \/>\n    &laquo;a Escola Coimbra&raquo;  centro liter&aacute;rio e filos&oacute;fico<br \/>\n    que se supunha dedicado a escrever de modo sistematicamente inintelig&iacute;vel.<br \/>\n    Citavam-se, como modelos de c&oacute;mico inconsciente, as cenas, as imagens,<br \/>\n    os ep&iacute;tetos desses &laquo;Folhetins&raquo;,. lidas entre gargalhadas<br \/>\n    no Caf&eacute; Martinho, nas livrarias Silva, Rodrigues e Bertrand, no Gr&eacute;mio<br \/>\n    Liter&aacute;rio, em alguns sal&otilde;es po&eacute;ticos e pol&iacute;ticos<br \/>\n    e noutros centros representativos do tempo. O Severo  o Severo dos<br \/>\n    Anjos  principal e c&eacute;lebre noticiarista da &laquo;Gazeta de<br \/>\n    Portugal&raquo;, entalando o mon&oacute;culo ao canto do olho direito, inventava<br \/>\n    quotidianamente, sobre o E&ccedil;a de Queir&oacute;s e os seus &laquo;Folhetins&raquo;,<br \/>\n    epigramas em geral adoptados; e o Teixeira de Vasconcelos, exagerando, com<br \/>\n    inten&ccedil;&atilde;o mordaz, o seu natural gaguejar, conclu&iacute;a:<br \/>\n    Tem muito talento este rapaz; mas &eacute; pena que estudasse em Coimbra,<br \/>\n    que haja nos seus contos, sempre dois cad&aacute;veres amando-se num banco<br \/>\n    do Rossio, e que s&oacute; escre&#8230;va&#8230;va&#8230;va em franc&ecirc;s[1] .<\/p>\n<p> Pouco tempo depois de publicado o &uacute;ltimo desses &laquo;Folhetins&raquo;<br \/>\n     em Dezembro de 1867  j&aacute; ningu&eacute;m pensava no autor<br \/>\n    deles. Que importava &agrave;s Academias, ao Caf&eacute; Martinho, ao Gr&eacute;mio<br \/>\n    &laquo;suposto&raquo; liter&aacute;rio, e aos centros pol&iacute;ticos, a<br \/>\n    apari&ccedil;&atilde;o de um novo escritor com um novo estilo? Eram ministros&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o sei quem; discutia-se no Parlamento e na imprensa&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    sei qu&ecirc;; os neg&oacute;cios iam andando; os namoriscos e a maledic&ecirc;ncia<br \/>\n    seguiam o seu curso abundante; a arte, serena e comedida, n&atilde;o sacudia<br \/>\n    os que dormitavam.., e nada mais era de interesse, em Portugal, para as classes<br \/>\n    cultas.<\/p>\n<p> II Eu era, por 1866, estudante em Lisboa e muito novo. Circunst&acirc;ncias<br \/>\n    que &eacute; in&uacute;til referir me faziam frequentar a Redac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da &laquo;Gazeta de Portugal&raquo;, no n&ordm; 26 da Travessa da Parreirinha,<br \/>\n    perto do Teatro de S. Carlos.<\/p>\n<p> Uma noite, junto da mesa onde escrevia o Severo, vi uma figura muito magra,<br \/>\n    muito esguia, muito encurvada, de pesco&ccedil;o muita alto, cabe&ccedil;a<br \/>\n    pequena e aguda que se mostrava inteiramente desenhada a preta intenso e amarelo<br \/>\n    desmaiado.<\/p>\n<p> Cobria-a uma sobrecasaca preta abotoada at&eacute; ao mento, uma gravata<br \/>\n    alta e preta, umas cal&ccedil;as pretas. Tinha as faces l&iacute;vidas e magr&iacute;ssimas,<br \/>\n    o cabelo corredio muito preto, de que se destacava uma madeixa triangular,<br \/>\n    ondulante, na testa p&aacute;lida que parecia estreita, sobre olhos cobertos<br \/>\n    por lunetas fumadas, de aros muito grossos e muito negros. Um bigode farto,<br \/>\n    e tamb&eacute;m muito preto, ca&iacute;a aos lados da boca larga e entreaberta<br \/>\n    onde brilhavam dentes brancos. As m&atilde;os longas, de dedos fin&iacute;ssimos<br \/>\n    e cor de marfim velho, na extremidade de dois magros e longu&iacute;ssimos<br \/>\n    bra&ccedil;os, faziam gestos desusados com uma badine muito delgada e um chap&eacute;u<br \/>\n    de copa alta e c&oacute;nica, mas de feltro ba&ccedil;o, como os chap&eacute;us<br \/>\n    do s&eacute;culo XVI nos retratos do duque de Alba, de Filipe II de Espanha,<br \/>\n    ou de Henrique III de Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p> Era o E&ccedil;a de Queir&oacute;s.<\/p>\n<p> Contava o quer que fosse a um tempo tr&aacute;gico e c&oacute;mico, nervosamente,<br \/>\n    dando a espa&ccedil;os gargalhadas  ricanements, como se diria em franc&ecirc;s<br \/>\n     curtas, e sinistras.<\/p>\n<p> O Severo, de mon&oacute;culo fincado no olho direito, a larga m&aacute;scara<br \/>\n    gorda, amarela, ir&oacute;nica, dilatada, escutava-o, rindo em notas agudas.<\/p>\n<p> Sa&iacute; do Escrit&oacute;rio da &laquo;Gazeta de Portugal&raquo; com<br \/>\n    o E&ccedil;a de Queir&oacute;s, jant&aacute;mos, pass&aacute;mos toda a noite<br \/>\n    Juntos, e desde ent&atilde;o, por anos, n&atilde;o nos separ&aacute;mos quase.<\/p>\n<p> O E&ccedil;a de Queir&oacute;s terminava em 1866 o curso de Direito na Universidade<br \/>\n    de Coimbra, e viera para Lisboa onde seu pai era magistrado. Por tradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de fam&iacute;lia, e como consequ&ecirc;ncia natural dos seus estudos, deveria<br \/>\n    seguir, ele tamb&eacute;m, a . magistratura oficial, ou, pelo menos, fazer-se<br \/>\n    advogado. Suponho que neste intuito frequentou algum tempo um escrit&oacute;rio<br \/>\n    em Lisboa.<\/p>\n<p> Mas a Arte tomava-o j&aacute; a esse tempo fundamente, e ia-se-lhe o tempo<br \/>\n    a ler, a cismar, a idear, a cogitar os aspectos subtis das coisas.<\/p>\n<p> E&ccedil;a de Queir&oacute;s morava em casa da fam&iacute;lia, ao Rossio,<br \/>\n    no quarto andar do pr&eacute;dio n&ordm; 26. O seu quarto  pequeno,<br \/>\n    com uma mesa ao centro e uma estante de poucos livros  dava para a<br \/>\n    Rua do Pr&iacute;ncipe. A&iacute; foram, em parte, escritos os &laquo;Folhetins&raquo;<br \/>\n    das &laquo;Prosas B&aacute;rbaras&raquo;.<\/p>\n<p> III Hav&iacute;amo-nos criado um mundo como que &agrave; parte da realidade.<\/p>\n<p> Quando por algum tempo nos separ&aacute;vamos durante o dia, reun&iacute;amo-nos<br \/>\n    logo, &agrave;s horas de jantar, ou depois, num qualquer restaurante pouco<br \/>\n    frequentado, cerca da Rua Larga de S.<\/p>\n<p> Roque ou do Chiado.<\/p>\n<p> &Agrave; sobremesa o caf&eacute; abria-nos as regi&otilde;es vision&aacute;rias<br \/>\n    por onde viaj&aacute;vamos: o E&ccedil;a de Queir&oacute;s bebia-o com aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    concentrada e reverente, curvado de alto sobre a ch&aacute;vena, para onde<br \/>\n    cada fei&ccedil;&atilde;o, principalmente o nariz comprido e adunco, como<br \/>\n    que se pro1ongava agu&ccedil;ada. A uma primeira ch&aacute;vena seguia-se<br \/>\n    uma segunda e uma terceira; e &iacute;amos exaltados para minha casa continuar<br \/>\n    a beber caf&eacute;, &agrave;s vezes at&eacute; madrugada.<\/p>\n<p> Nestas circunst&acirc;ncias foram criados, por E&ccedil;a de Queir&oacute;s,<br \/>\n    muitos dos contas agora reunidos em volume.<\/p>\n<p> Eu morava no primeiro andar da casa n&ordm; 19 da ent&atilde;o Travessa<br \/>\n    do Guarda-Mor, em pleno Bairro Alto.<\/p>\n<p> No meu quarto de estudante[2] havia um grande arm&aacute;rio cheio de livros,<br \/>\n    cavado na espessura da parede, uma mesa central sobre que se escrevia, e uma<br \/>\n    secret&aacute;ria de feitio estranho. dada a meu pai por Almeida Garrett,<br \/>\n    usada por este para escrever de p&eacute;, que sugeriu a E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br \/>\n    a forma da mesa onde, anos depois, em Paris, quase sempre trabalhava. Uma<br \/>\n    larga janela de sacada abria para a Rua dos Calafates[3] em frente a pr&eacute;dios<br \/>\n    baixos que, por isso, n&atilde;o impediam o acesso do ar, da luz, e a vista<br \/>\n    de um espa&ccedil;o largo aberto dando a impress&atilde;o de canto de vila<br \/>\n    provinciana. No mais pr&oacute;ximo desses pr&eacute;dios moravam duas raparigas,<br \/>\n    muito novas e bonitas, a cantar, entre craveiros e manjeric&otilde;es, costurando<br \/>\n    activamente o dia inteiro.<\/p>\n<p> por vezes, para o E&ccedil;a de Queir&oacute;s e outros l&iacute;ricos fantasistas<br \/>\n    que me visitavam, pontos de partida de longas varia&ccedil;&otilde;es, em<br \/>\n    verso e prosa, sobre o que o mesmo Queir&oacute;s, corrigindo Goethe, chamava<br \/>\n    o &laquo;ef&eacute;mero feminino&raquo; [4].<\/p>\n<p> Certas noites, entrava o E&ccedil;a de Queir&oacute;s j&aacute; tarde, no<br \/>\n    meu quarto, com uns rolo de papel na m&atilde;o, dizendo:  Sou eu,<br \/>\n    sim, amigo.<\/p>\n<p> E aludindo aos corvos, milhafres, gavi&otilde;es que, com tanta frequ&ecirc;ncia,<br \/>\n    fantasticamente, apareciam nos seus contos, acrescentava:  Sou eu e<br \/>\n    os meus abutres: vimos cear, devorando cad&aacute;veres! Muitas coisas preocupavam<br \/>\n    o E&ccedil;a de Queir&oacute;s, quando trabalhava: Durante tempos s&oacute;<br \/>\n    p&ocirc;de escrever em certo alma&ccedil;o, que ele pr&oacute;prio ia comprar<br \/>\n    a uma pequena loja de ch&aacute; e papel selado, no n&ordm; 41 da Rua Larga<br \/>\n    de S. Roque.<\/p>\n<p> Havia de sempre entrar no meu quarto com o p&eacute; direito, suspendendo-se<br \/>\n    por isso, no &uacute;ltimo momento, recuando o agourento p&eacute; esquerdo,<br \/>\n    quando j&aacute; este inoportunamente se adiantasse e fazendo hesitante e<br \/>\n    confuso, ao passar enfim a soleira da porta, um ru&iacute;do de inexplic&aacute;vel<br \/>\n    trepida&ccedil;&atilde;o. Aterravam-no correntes de ar, e andava continuamente<br \/>\n    a fechar a janela, ou as portas, a mudar a posi&ccedil;&atilde;o da cadeira<br \/>\n    onde se sentava, murmurando em voz cava:  &Eacute; a pneumonia, a congest&atilde;o<br \/>\n    pulmonar fulminante  a morte, menino! A luz do candeeiro de petr&oacute;leo<br \/>\n    que eu usava, feria-lhe a vista; de modo que, a fim de concentrar a claridade<br \/>\n    sobre o papel em que escrevia, ou sobre o livro em leitura, prolongava, do<br \/>\n    seu lado, o abat-jour, com longas tiras de papel. N&atilde;o podia suportar<br \/>\n    poeira nas m&atilde;os e erguia-se ami&uacute;de da mesa para  interrompendo<br \/>\n    a composi&ccedil;&atilde;o, mas recitando em voz alta as frases j&aacute;<br \/>\n    escritas  vir, cuidadosamente, lavar as pontas dos dedos. Fumava cigarros<br \/>\n    sem cessar, enquanto compunha, inclinado sobre o papel que olhava muito de<br \/>\n    perto. E, uma vez embebido nas suas cria&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o falava,<br \/>\n    n&atilde;o escutava, n&atilde;o atendia a coisa alguma  embrulhando<br \/>\n    o cigarro, indo lavar as m&atilde;os ou fechar a porta, passeando pela casa,<br \/>\n    muito curvo, dando passadas altas e largas, fazendo gestos de dialogar com<br \/>\n    algu&eacute;m invis&iacute;vel, resfolegando ruidosamente, abrindo muito os<br \/>\n    olhos, elevando e baixando nervosamente as sobrancelhas, as p&aacute;lpebras,<br \/>\n    e as rugas horizontais da testa, onde ondulava, convulsa, a sua madeixa corredia,<br \/>\n    negra e triangular.<\/p>\n<p> Escrevia com extrema facilidade e, nesta &eacute;poca, emendava muito pouco:<br \/>\n    as imagens, os ep&iacute;tetos ocorriam-lhe abundantes, tumultuosamente, e<br \/>\n    ele redigia r&aacute;pido, insens&iacute;vel a repeti&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    palavras e rimas ou a desequil&iacute;brio de per&iacute;odos, sem exig&ecirc;n-cias<br \/>\n    criticas de forma, aceitando, comovido o que t&atilde;o espontaneamente, t&atilde;o<br \/>\n    sinceramente lhe ocorria.<\/p>\n<p> Quando, nessas noites, ele me lia alguns dos seus contos, a figura e a voz<br \/>\n    com pletavam4he as fant&aacute;sticas cria&ccedil;&otilde;es: erguia-se quase<br \/>\n    nos bicos dos p&eacute;s, de uma magreza esquel&eacute;tica, l&iacute;vido<br \/>\n     na penumbra das projec&ccedil;&otilde;es do candeeiro  os olhos<br \/>\n    esburacados por sombras ao fundo das &oacute;rbitas, sob as lunetas fumadas<br \/>\n    de aro preto, o pesco&ccedil;o inverosimilmente prolongado, as faces cavadas,<br \/>\n    o nariz afilado, os bra&ccedil;os lineares, intermin&aacute;veis. Ent&atilde;o,<br \/>\n    com gestos de apari&ccedil;&atilde;o e espanto, a voz l&uacute;gubre, sentimental<br \/>\n     enfaticamente pat&eacute;tica, ou gargalhando sinistramente<br \/>\n    declamava.<\/p>\n<p> Alta noite, quando a excita&ccedil;&atilde;o do trabalho e do caf&eacute;<br \/>\n    nos havia quase alucinado, sa&iacute;amos pelas ruas desertas do Bairro Alto<br \/>\n     ou estend&iacute;amos as nossas explora&ccedil;&otilde;es &agrave;<br \/>\n    Mouraria, &agrave; Alfama, em volta da S&eacute; e pelas encostas mouriscas<br \/>\n    e fadistas do Castelo de S.<\/p>\n<p> Jorge, a examinar a fisionomia fant&aacute;stica, e quase humana, das casas<br \/>\n    antigas, algumas ainda ent&atilde;o, nesses bairros, mais ou menos medievais.<\/p>\n<p> &laquo;As casas sem luz  escreveu E&ccedil;a de Queir&oacute;s ent&atilde;o<br \/>\n     t&ecirc;m o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas.&raquo; De<br \/>\n    uma vez, quase de madrugada, seguindo no Bairro Alto a Rua de S. Boaventura,<br \/>\n    divis&aacute;mos ao longe, junto do P&aacute;tio do Conde de Soure, uma fila<br \/>\n    de homens agigantados, segurando como que longas e grossas lan&ccedil;as,<br \/>\n    cujos ferros se perdiam talvez na atmosfera mal alumiada e cujos contos se<br \/>\n    esfumavam na massa confusa do que parecia ser nuvens rasteiras&#8230; Estes homens<br \/>\n    apareciam-nos apenas esbo&ccedil;ados por grandes massas de sombra e luz&#8230;<br \/>\n    De alguns sa&iacute;am barbas hirsutas&#8230; Estavam im&oacute;veis&#8230; Tivemos<br \/>\n    a impress&atilde;o de um quadro sobrenatural..<\/p>\n<p> Aproxim&aacute;mo-nos&#8230; Eram varredores municipais que esperavam, encostados<br \/>\n    &agrave;s vassouras, a hora de se dispersarem pela cidade.<\/p>\n<p> Nas noites mais serenas  nas noites de luar  sa&iacute;amos<br \/>\n    da cidade e &iacute;amos pelos campos e pelos montes, ou ao longo das margens<br \/>\n    do Tejo, conversando, improvisando,. at&eacute; nascer o Sol.<\/p>\n<p> De ordin&aacute;rio, nas noites de composi&ccedil;&atilde;o e conversa mais<br \/>\n    absorventes, ou em seguida &agrave;s nossas divaga&ccedil;&otilde;es pari<br \/>\n    pat&eacute;ticas, o E&ccedil;a de Queir&oacute;s dormia em minha casa.<\/p>\n<p> E havia, para ele, ritos determinados no modo de dispor a roupa que despia,<br \/>\n    antes de se deitar, colocando os punhos sobre uma mesa pela ordem por que<br \/>\n    os tinha usado, no bra&ccedil;o direito e esquerdo respectivamente, e dispondo<br \/>\n    as botas &agrave; porta;  para que o meu criado as limpasse, de manh&atilde;,<br \/>\n    sem nos acordar;  tamb&eacute;m, pelo mesmo m&eacute;todo, ordenadamente<br \/>\n    emparelhadas.<\/p>\n<p> E ao meter-se na cama, para explicar os seus movimentos supersticiosos,<br \/>\n    murmurava, persignando-se:  &Eacute; preciso obedecer com f&eacute;<br \/>\n    e sem exame &agrave;s leis subtis das coisas: ningu&eacute;m sabe exactamente,<br \/>\n    menino, de que possa depender o curso dos acontecimentos; e o mist&eacute;rio<br \/>\n    complicado dos Fados.<\/p>\n<p> Na &eacute;poca em que publicaram os &laquo;Folhetins&raquo; da &laquo;Gazeta<br \/>\n    de Portugal&raquo;, eram poucos os amigos que frequentavam a minha casa. O<br \/>\n    mais ass&iacute;duo era, por esse tempo  al&eacute;m de E&ccedil;a<br \/>\n    de Queir&oacute;s,  o Salom&atilde;o Saragga que, quando aparecia,<br \/>\n    nos explicava com veem&ecirc;ncia, prolixamente, simultaneamente, a constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de carruagens, o livro do Profeta Isa&iacute;as, a fabrica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tecidos com desperd&iacute;cio de l&atilde;, os Historiadores de Israel<br \/>\n    e as origens do Cristianismo.<\/p>\n<p> De tempos a tempos, o E&ccedil;a de Queir&oacute;s dizia-me:  Estamo-nos<br \/>\n    tornando impressos. Basta de ler e imaginar. Precisamos de um banho de vida<br \/>\n    pr&aacute;tica. &Eacute;-nos indispens&aacute;vel o acto humano  inveros&iacute;mil,<br \/>\n    se for pass&iacute;vel,  a aventura, a lenda em ac&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o her&oacute;i palp&aacute;vel: vamos pois cear com o capit&atilde;o Jo&atilde;o<br \/>\n    de S&aacute;  o Jo&atilde;o de S&aacute; Nogueira,  d&rsquo;Artagnan<br \/>\n    de &Aacute;frica em Lisboa com licen&ccedil;a registada.<\/p>\n<p> E &iacute;amos, com efeito, encontrar este nosso amigo, oficial do Ultramar,<br \/>\n    que &agrave; ceia nos contava  durante o bacalhau com batatas, o meio<br \/>\n    bife, e o Colares,  as pitorescas aventuras das suas viagens pelos<br \/>\n    sert&otilde;es de Angola.<\/p>\n<p> IV Havendo eu pertencido &agrave; primeira gera&ccedil;&atilde;o afectada<br \/>\n    pelos escritos de E&ccedil;a de Queir&oacute;s, as recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do meu sentir de ent&atilde;o possuem talvez algum valor hist&oacute;rico.<\/p>\n<p> Os anos de 1866 e 1867 s&atilde;o datas capitais na hist&oacute;ria da educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do meu esp&iacute;rito. A predominante paix&atilde;o pela m&uacute;sica ligara-me<br \/>\n    a Augusto Machado, que estudava ent&atilde;o piano e harmonia com dois dos<br \/>\n    melhores mestres da especialidade em Lisboa.<\/p>\n<p> Nesta cidade floresciam, por esse tempo, a par da &oacute;pera italiana<br \/>\n    e da zarzuela, o &laquo;pot-pourri&raquo; e as &laquo;varia&ccedil;&otilde;es&raquo;.<br \/>\n    A sensibilidade p&uacute;blica alimentava-se de inumer&aacute;veis &laquo;r&ecirc;veries&raquo;<br \/>\n    musicais. O grau supremo do pat&eacute;tico geralmente conhecido atingia-se<br \/>\n    com os &laquo;nocturnos&raquo; de Ravina e D&ouml;hler. Os arranjos oper&aacute;ticos<br \/>\n    de Thalberg e Liszt eram o ideal raras vezes alcan&ccedil;ado. Nas salas cantavam-se<br \/>\n    romanzas de Cara pana e &aacute;rias teatrais. A suprema forma de arte era,<br \/>\n    para Lisboa, a &oacute;pera italiana. Meyerbeer  autor de &oacute;peras<br \/>\n    italianas  passava por ser o mais genial representante da profunda<br \/>\n    mas obscura arte alem&atilde;.<\/p>\n<p> Ora em 1867 Augusto Machado, ao voltar de Paris, onde cursara piano, harmonia<br \/>\n    e composi&ccedil;&atilde;o com Alberto de Lavignac e outros, trazia, como<br \/>\n    repert&oacute;rio de estudo, OS &laquo;prel&uacute;dios&raquo; e &laquo;fugas&raquo;<br \/>\n    de Bach; as &laquo;sonatas&raquo; de Mozart e Beethoven, as obras de Mendelssohn,<br \/>\n    Schumann e Chopin.<\/p>\n<p> Os &laquo;Folhetins&raquo; de E&ccedil;a de Queir&oacute;s fizeram-me uma<br \/>\n    impress&atilde;o s&oacute; compar&aacute;vel, em profundidade e consequ&ecirc;ncias<br \/>\n    subjectivas, &agrave; que justamente pela mesma &eacute;poca, me fazia a descoberta<br \/>\n    das obras dos grandes criadores da m&uacute;sica moderna.<\/p>\n<p> Esses &laquo;Folhetins&raquo; foram-me uma revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o tanto nos assuntos e na inten&ccedil;&atilde;o, como no poder de<br \/>\n    realiza&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica: enfim encontravam formas e cores<br \/>\n    intensas de express&atilde;o, factos, antes, na Literatura Portuguesa, insuficientissimamente<br \/>\n    revelados.<\/p>\n<p> Pelos pontos de vista, pelo estilo, esses folhetins eram, ainda no ano de<br \/>\n    1866, uma quase inteira novidade para os leitores da l&iacute;ngua portuguesa;<br \/>\n     como haviam sido, para todo o Sul da Europa, &agrave; apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Romantismo franc&ecirc;s nos primeiros anos do s&eacute;culo XIX, as mesmas<br \/>\n    ideias e estilos semelhantes.<\/p>\n<p> Nesses primeiros escritos E&ccedil;a de Queir&oacute;s era, na verdade,<br \/>\n    o que geralmente se denomina um &laquo;rom&acirc;ntico&raquo;. Ele pr&oacute;prio<br \/>\n    &#8211; dizia da &eacute;poca imediatamente anterior: &laquo;Naqueles tempos o Romantismo<br \/>\n    estava nas nossas almas. Faz&iacute;amos devotamente ora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    diante do busto de Shakespeare.&raquo; E, ent&atilde;o mesmo, achava ser prefer&iacute;vel,<br \/>\n    &laquo;&agrave; sa&uacute;de vulgar e in&uacute;til que se goza no clima t&eacute;pido<br \/>\n    que habitam Racine e Scribe&#8230; a doen&ccedil;a magn&iacute;fica&raquo; que<br \/>\n    leva ao &laquo;hospital rom&acirc;ntico&#8230;&raquo; [5] Com efeito, por uns<br \/>\n    dois s&eacute;culos, pareceu gozar-se nas regi&otilde;es mais evidentes da<br \/>\n    Literatura, uma inalter&aacute;vel sa&uacute;de: s&oacute; certos factos do<br \/>\n    esp&iacute;rito perfeitamente determinados  s&oacute; as ideias e os<br \/>\n    sentimentos suscept&iacute;veis de clara determina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    eram nessa Literatura expressos. Os meios de express&atilde;o usados, os voc&aacute;bulos<br \/>\n    e os seus grupamentos, os g&eacute;neros liter&aacute;rios  tudo parecia<br \/>\n    claramente, definitivamente assente, segundo normas antigas e, por isso, venerandas,<br \/>\n    num sistema de simetria, de equil&iacute;brio, de ordem, aplic&aacute;vel<br \/>\n    sem hesita&ccedil;&otilde;es, com o m&iacute;nimo esfor&ccedil;o, na mais<br \/>\n    segura tranquilidade. Assim viveu na Europa, em geral, a gente culta, do s&eacute;culo<br \/>\n    XVI ao s&eacute;culo XVIII.<\/p>\n<p> Come&ccedil;aram pelos meadas deste, a mostrar-se nos esp&iacute;ritos sinais<br \/>\n    inquietadores: al&eacute;m das ideias completamente compreens&iacute;veis<br \/>\n    e dos sentimentos inteiramente claros, outras ideias e outros sentimentos<br \/>\n    se impuseram &agrave; express&atilde;o dos Literatos. Entre as grandes formas<br \/>\n    dos afectos, como entre as cores mais vivas, distinguirem-se transi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e meias-tintas. Os homens n&atilde;o pareceram estar sempre, ou exuberantemente<br \/>\n    alegres, ou definitivamente tristes. Havia como&ccedil;&otilde;es, sentimentos<br \/>\n    intermedi&aacute;rios ao amor e ao &oacute;dio. Entre o preto e o branco descobriram-se<br \/>\n    grada&ccedil;&otilde;es infinitas.<\/p>\n<p> Cada ideia classificada, cada sentimento catalogado antes, come&ccedil;ou<br \/>\n    ent&atilde;o, pouco a pouco, a mostrar-se centro de grandes grupos psicol&oacute;gicos,<br \/>\n    de factos espirituais diversamente complexos, suscept&iacute;veis de defini&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    vari&aacute;veis, expressas por s&eacute;ries simb&oacute;licas de clareza<br \/>\n    decrescente: uns que podiam ser nitidamente  como que linearmente<br \/>\n    desenhados, inteiramente descritos, completamente iluminados; outros que s&oacute;<br \/>\n    podiam indeterminadamente sugerir-se, sumariamente indicar-se por vagas massas<br \/>\n    de cor, de sombra e de luz; uns que s&atilde;o as ideias e os sentimentos<br \/>\n    que todos os homens conscientemente reconhecem como a mat&eacute;ria superficial<br \/>\n    da exist&ecirc;ncia; outros mais ou menos inconscientemente dominantes, sem<br \/>\n    nome ou descri&ccedil;&atilde;o que os esgote, prolongando-se pelas profundidades<br \/>\n    insond&aacute;veis e inexpress&iacute;veis das almas.<\/p>\n<p> Do conhecimento destes estados mais subtis e raros do esp&iacute;rito, resultou,<br \/>\n    inevitavelmente, a suo cultura intencional; os sistemas nervosos pareceram<br \/>\n    desenvolver-se em direc&ccedil;&otilde;es anormais; e imprevistas, ou mais<br \/>\n    apreci&aacute;veis vibra&ccedil;&otilde;es vieram impor-se, criar ou tornar<br \/>\n    complexas e mais conscientes as nevroses.<\/p>\n<p> Novas formas de express&atilde;o foram necess&aacute;rias, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    para os novos estados da consci&ecirc;ncia, mas porque cada esp&iacute;rito<br \/>\n    come&ccedil;ou a sentir e a pensar independentemente, reconhecendo dever procurar<br \/>\n    por si  por isso, quanto poss&iacute;vel fora de f&oacute;rmulas e<br \/>\n    regras j&aacute; feitas  os termos que mais exactamente lhe simbolizassem<br \/>\n    as concep&ccedil;&otilde;es pessoais.<\/p>\n<p> Toda esta revela&ccedil;&atilde;o espiritual  este descobrimento<br \/>\n    de regi&otilde;es ignoradas ou indolentes dos esp&iacute;ritos, toda esta<br \/>\n    apari&ccedil;&atilde;o de aspira&ccedil;&otilde;es, de incertezas, de incoer&ecirc;ncias<br \/>\n    novas, toda esta quebra de moldes, todo este desequilibrar de for&ccedil;as<br \/>\n    e simetrias  in&uacute;meras afirma&ccedil;&otilde;es de personalidades<br \/>\n     pareceu &agrave;s gentes cultas, serenas e classicamente imitativas,<br \/>\n    um grande achaque mental, ou variadas doen&ccedil;as nervosas que atacassem<br \/>\n    a humanidade.<\/p>\n<p> A este estado dos esp&iacute;ritos e da consequente Literatura deu-se, como<br \/>\n    &eacute; sabido, o nome de Romantismo  facto est&eacute;tico, ainda<br \/>\n    hoje em busca de suficiente defini&ccedil;&atilde;o, mas que, pelo que deixo<br \/>\n    explicado, me parece poder essencialmente definir-se a &laquo;procura directa&raquo;<br \/>\n    de &laquo;formas de express&atilde;o&raquo;, para todos os sentimentos e todas<br \/>\n    as ideias, por isso, para as &laquo;mais intimas ideias&raquo; e os &laquo;mais<br \/>\n    vagos sentimentos&raquo; do ser humano.<\/p>\n<p> Muitos pretendem tratar-se apenas de uma doen&ccedil;a moral, e que esta<br \/>\n    foi, nos fins do s&eacute;culo XVIII, a reincid&ecirc;ncia da epidemia que<br \/>\n    devastara a Europa durante o per&iacute;odo secular desdenhosamente denominado,<br \/>\n    por os saud&aacute;veis neo-greco-romanos, a Idade M&eacute;dia, idade escura<br \/>\n     dark age dizem os ingleses, &eacute;poca de transi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que em Hist&oacute;ria h&aacute; a considerar entre os dois claros per&iacute;odos<br \/>\n    cl&aacute;ssicos de suposto equil&iacute;brio e sa&uacute;de normal.<\/p>\n<p> O Romantismo pareceu ser, geralmente, a ressurrei&ccedil;&atilde;o idealizada<br \/>\n    dessa hist&oacute;rica m&oacute;rbida Idade M&eacute;dia.<\/p>\n<p> &Eacute; que, durante esta, gradualmente se constitu&iacute;ram as na&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    modernas da Europa na sua &iacute;ntima complexidade sentimental. Nelas as<br \/>\n    for&ccedil;as humanas  como integral resultado de for&ccedil;as naturais<br \/>\n     deram forma aos mais &iacute;ntimos sentimentos do esp&iacute;rito.<br \/>\n    Os povos haviam vivido tradicionalmente mergulhados nas cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    completas das suas artes e das suas religi&otilde;es: haviam amado, adorado,<br \/>\n    temido, trabalhado, lutado, cantado, dan&ccedil;ado, cercados por todas as<br \/>\n    vibra&ccedil;&otilde;es inconscientes das suas fantasias; haviam formado com<br \/>\n    a interpreta&ccedil;&atilde;o dos aspectos naturais, com os encantamentos,<br \/>\n    com os g&eacute;nios, e as fadas de mil religi&otilde;es tradicionais, os<br \/>\n    novos santos milagrosos e crist&atilde;os; haviam sentido em cada ser, org&acirc;nico<br \/>\n    ou mineral, real ou fantasiado, prop&iacute;cio ou hostil, influ&ecirc;ncias<br \/>\n    humanas, e haviam-se suposto indissoluvelmente solid&aacute;rios com uma natureza<br \/>\n    sempre animada, por onde os pr&oacute;prios cad&aacute;veres nunca desvitalizados<br \/>\n    evoluindo se dispersavam em pulveriza&ccedil;&otilde;es de esp&iacute;ritos<br \/>\n    e energias.<\/p>\n<p> Estas manifesta&ccedil;&otilde;es da vida espont&acirc;nea dos povos durante<br \/>\n    a Idade M&eacute;dia, sem d&uacute;vida solicitaram, a interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Rom&acirc;nticos, cuja raz&atilde;o de ser, cuja miss&atilde;o era tamb&eacute;m,<br \/>\n    como j&aacute; mostrei, ir expressando, at&eacute; aos mais profundos e subtis,<br \/>\n    todos os factos espirituais.<\/p>\n<p> Mas o chamado Romantismo deu-se na Europa dos fins do s&eacute;culo XVIII<br \/>\n    aos anos de 1830 ou 1850, modificando, durante esse tempo, a Literatura do<br \/>\n    remoto Portugal.<\/p>\n<p> Que novidades podia pois ainda apresentar o &laquo;rom&acirc;ntico&raquo;<br \/>\n    E&ccedil;a de Queir&oacute;s aos &laquo;rom&acirc;nticos&raquo; portugueses<br \/>\n    de 1866? &Eacute; o que vou tentar explicar: O Romantismo tomou, primeiro,<br \/>\n    corpo saliente, ao Norte da Europa, e s&oacute; depois se estendeu ao Sul.<br \/>\n    Veio dos pa&iacute;ses de luz atenuada e n&eacute;voas vision&aacute;rias,<br \/>\n    indeterminadoras de formos e de cores, para as terras do sol brilhante, atmosfera<br \/>\n    l&iacute;mpida, formas vincadas e cores elementares.[6] Nesta descida atrav&eacute;s<br \/>\n    das latitudes, as ideias foram ganhando nitidez, defini&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    brilho  e correlativamente perdendo meias-tintas, subtil claro-escuro,<br \/>\n    indetermina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Os sentimentos, transportados com simplifica&ccedil;&otilde;es l&uacute;cidas<br \/>\n    &agrave; superf&iacute;cie dos esp&iacute;ritos, pelos artistas das terras<br \/>\n    do Sul, perderam muitos dos nimbos esfumados, muitas das atmosferas de esbatida<br \/>\n    atenuada ilumina&ccedil;&atilde;o, que os rodeiam nas regi&otilde;es profundas<br \/>\n    onde eles nascem completos. Enquanto o Norte expressava tudo o que nas ideias<br \/>\n    &eacute; quase apenas suger&iacute;vel, o Sul t&atilde;o-somente aproveitou<br \/>\n    o que possa nitidamente descrever-se. Os Rom&acirc;nticos das ra&ccedil;as<br \/>\n    do Sul da Europa come&ccedil;aram a fazer assim, mais uma vez, por uma fatalidade<br \/>\n    at&aacute;vica e climat&eacute;rica, o que os antepassados cultos de muitos<br \/>\n    deles haviam completamente consumado s&eacute;culos antes, na constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    equilibrada e n&iacute;tida do Classicismo greco-romano, sobre a atrofia est&eacute;tica<br \/>\n    e religiosa de exuberantes regi&otilde;es da alma humana, pela redu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das misteriosas forma&ccedil;&otilde;es m&iacute;sticas do Oriente, da H&eacute;lade<br \/>\n    e da It&aacute;lia, aos moldes ret&oacute;ricos, &agrave;s esculturas luminosas<br \/>\n    mas frias, e &agrave;s biografias aned&oacute;ticas dos obscuros polite&iacute;smos<br \/>\n    her&oacute;icos.<\/p>\n<p> Eis porque tantos rom&acirc;nticos portugueses  em Portugal, no extremo<br \/>\n    dos pa&iacute;ses claros do Meio-Dia[7]  s&oacute; foram superficialmente<br \/>\n    rom&acirc;nticos.<\/p>\n<p> Nas partes mais profundas, mais obscuras, mais Indetermin&aacute;veis do<br \/>\n    esp&iacute;rito, para al&eacute;m do real, do l&oacute;gico, do coerente,<br \/>\n    do explic&aacute;vel  como que para preencher as lacunas deixadas no<br \/>\n    completo da totalidade ps&iacute;quica, pelas defini&ccedil;&otilde;es fragment&aacute;rias<br \/>\n    do compreens&iacute;vel  existem com efeito, infinitamente, as necessidades<br \/>\n    misteriosas do contradit&oacute;rio, do sobrenatural, do maravilhoso.<\/p>\n<p> &Eacute; para as satisfazer que todos os povos criam, fatalmente, formas<br \/>\n    est&eacute;ticas e religiosas, e &eacute; delas que todo o homem completo<br \/>\n    se sente, por vezes, essencialmente possesso.<\/p>\n<p> Essas formas constituem a &laquo;arte&raquo; e a &laquo;literatura m&iacute;stica<br \/>\n    e fant&aacute;stica&raquo;.<\/p>\n<p> A Fran&ccedil;a  a mais ao norte das na&ccedil;&otilde;es definidoras<br \/>\n     recebeu, em grande parte, a sua &laquo;literatura fant&aacute;stica&raquo;<br \/>\n    da Alemanha. Da Alemanha, por interven&ccedil;&atilde;o da Fran&ccedil;a,<br \/>\n    a recebeu Portugal. Teve ela, de 1866 a 1867, em E&ccedil;a de Queir&oacute;s,<br \/>\n    a seu mais genial representante.<\/p>\n<p> E porque essa Literatura me punha em vibra&ccedil;&atilde;o tantas faculdades<br \/>\n    Intimas e latentes, me comoveu ela a mim e comovendo outros esp&iacute;ritos<br \/>\n    contempor&acirc;neos da minha primeira mocidade, talvez por educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e quem sabe se por atavismo, n&atilde;o inteiramente, ou n&atilde;o exclusivamente<br \/>\n    filhos das ra&ccedil;as e dos climas claros e anal&iacute;ticos do Sul.<\/p>\n<p> V Assim as primeiras influ&ecirc;ncias que actuaram em E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br \/>\n     aquelas que mais evidentemente se reconhecem nas suas primeiras cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    liter&aacute;rias, os escritores de cuja frequenta&ccedil;&atilde;o eu posso<br \/>\n    dar testemunho  foram principalmente, Henrique Heine, Gerardo de Nerval,<br \/>\n    J&uacute;lio Michelet, Carlos Baudelaire mais distantemente, ou mais em segunda<br \/>\n    m&atilde;o, Shakespeare, Goethe, Hoffmann, Arnim, P&otilde;e, e, envolvendo<br \/>\n    tudo poderosamente, V&iacute;tor Hugo.<\/p>\n<p> A maior influ&ecirc;ncia nesse per&iacute;odo sobre E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br \/>\n     a de Heine  foi tamb&eacute;m consider&aacute;vel sobre alguns<br \/>\n    &#8211; dos seus mais ilustres contempor&acirc;neos e amigos: v&ecirc;-se nas poesias,<br \/>\n    mais tarde reunidas por Antero de Quental sob o nome de &laquo;Primaveras<br \/>\n    Rom&acirc;nticas&raquo;, e no que este diz da sua pr&oacute;pria obra, nas<br \/>\n    p&aacute;ginas autobiogr&aacute;ficas que est&atilde;o publicadas[8]; v&ecirc;-se<br \/>\n    tamb&eacute;m nas poesias primeiro- escritas para o &laquo;S&eacute;culo XIX&raquo;,<br \/>\n    de Penafiel, de 1864 a 1865, e depois coligidas, com o t&iacute;tulo de &laquo;Lira<br \/>\n    Meridional&raquo;, por Ant&oacute;nio de Azevedo Castelo Branco.<\/p>\n<p> E&ccedil;a de Queir&oacute;s n&atilde;o sabia alem&atilde;o e as obras de<br \/>\n    Heine adquirem nas tradu&ccedil;&otilde;es francesas  algumas feitas<br \/>\n    pelo pr&oacute;prio autor, outras por este em colabora&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    Gerardo de Nerval  um car&aacute;cter novo.<\/p>\n<p> Heine &eacute; para mim um dos maiores escritores das l&iacute;nguas germ&acirc;nicas.<br \/>\n    Traduzi-lo &eacute;, sem d&uacute;vida, empobrec&ecirc;-lo: foi ele quem disse<br \/>\n    que &laquo;um verso traduzido &eacute; um raio de lua&#8230;<\/p>\n<p> empalhado&raquo;. Mas as qualidades musicais de som e ritmo de vaga indetermina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que as suas obras perdem, ao passar para o franc&ecirc;s, s&atilde;o substitu&iacute;das<br \/>\n    por outras: a singeleza pat&eacute;tica como que se torna mais dolorosa &agrave;<br \/>\n    claridade n&iacute;tida da nova l&iacute;ngua; o humorismo, a um tempo ir&oacute;nico<br \/>\n    e ing&eacute;nuo, como que se faz mais subtil nas formas do esp&iacute;rito<br \/>\n    latino; os versos, passados a prosa de ritmos incertos e sem rima, como que<br \/>\n    adquirem uma indetermina&ccedil;&atilde;o, um vago especial que faz lembrar<br \/>\n    vers&iacute;culos b&iacute;blicos[9]. Recordo-me da impress&atilde;o nova<br \/>\n    que me fizeram as poesias de Heine  que eu decorara no Col&eacute;gio<br \/>\n    Alem&atilde;o[10] , onde fui educado  quando E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br \/>\n    mas deu a conhecer em franc&ecirc;s; e de uma noite em que ele me declamou<br \/>\n    enfaticamente, quase com l&aacute;grimas, traduzindo-as para a sua prosa fant&aacute;stica<br \/>\n    de ent&atilde;o, as p&aacute;ginas dos &laquo;Reisebilder&raquo; onde Heine<br \/>\n     a quem a m&uacute;sica sempre sugeria formas e cores liter&aacute;rias<br \/>\n    definidas  conta as transforma&ccedil;&otilde;es por que a seus olhos<br \/>\n    passara, num concerto, Paganini, tornado, pela evoca&ccedil;&atilde;o do sobrenatural<br \/>\n    rabeca, em gal&atilde; cortejante do s&eacute;culo XVIII, assassino por ci&uacute;mes,<br \/>\n    for&ccedil;ado, monge solit&aacute;rio junto ao mar e sob as ab&oacute;badas<br \/>\n    de catedrais, g&eacute;nio planet&aacute;rio entre as harmonias apote&oacute;ticas<br \/>\n    das esferas, por fim vulto espectral, curvo, humilde e grotesco, agradecendo<br \/>\n    os aplausos dos audit&oacute;rios. Em muitas p&aacute;ginas das &laquo;Prosas<br \/>\n    B&aacute;rbaras&raquo; se encontra a influ&ecirc;ncia desta lenda fant&aacute;stica<br \/>\n    de Paganini. O conto &laquo;A Ladainha da Dor&raquo;, que, em parte, tem o<br \/>\n    pr&oacute;prio Paganini por assunto, &eacute; directamente inspirado por Heine<br \/>\n    e por Berlioz[11]. &laquo;As Notas Marginais&raquo; parecem est&acirc;ncias<br \/>\n    do autor do &laquo;Lyscher Intermezzo&raquo;, do &laquo;Traumbilder&raquo;,<br \/>\n    do &laquo;Nordsee&raquo;.<\/p>\n<p> Gerardo de Nerval foi, como se sabe, um dos iniciadores directos da Fran&ccedil;a<br \/>\n    no Romantismo germ&acirc;nico. Foi ele o primeiro tradutor franc&ecirc;s do<br \/>\n    &laquo;Fausto&raquo; de Goethe, e, como j&aacute; disse, colaborador, na tradu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    francesa, de algumas das obras de Heine.<\/p>\n<p> &Eacute; evidente nas p&aacute;ginas das &laquo;Prosas B&aacute;rbaras&raquo;<br \/>\n    a influ&ecirc;ncia dos pr&oacute;prios escritos originais de Gerardo de Nerval,<br \/>\n    principalmente a dos misteriosos e fant&aacute;sticos sonetos que come&ccedil;am:<br \/>\n    Je suis le t&eacute;nebreux, le veuf, l&rsquo;inconsol&eacute;, Le Prince<br \/>\n    d&rsquo;Aquitaine &agrave; la tour abolie&#8230;<\/p>\n<p> Ma seule &eacute;toile est morte, et mon Luth constell&eacute; Porte le<br \/>\n    soleil noir de la m&eacute;lancolie!&#8230;[12] J&uacute;lio Michelet, pela originalidade,<br \/>\n    pelo poder evocador do seu estilo, pelo dom de criar vida &iacute;ntima e<br \/>\n    fant&aacute;stica, pela ressurrei&ccedil;&atilde;o mitogr&aacute;fica e profunda<br \/>\n    sobretudo, nos 8 primeiros volumes da sua &laquo;Hist&oacute;ria de Fran&ccedil;a&raquo;<br \/>\n     da Idade M&eacute;dia, da Renascen&ccedil;a e da Reforma  e,<br \/>\n    na &laquo;Sorci&egrave;re&raquo;, pela materializa&ccedil;&atilde;o sentimental<br \/>\n    e pela explica&ccedil;&atilde;o, a um tempo natural e vision&aacute;ria, da<br \/>\n    vasta lenda do Diabo  foi um dos pa&iacute;s art&iacute;sticos do primeiro<br \/>\n    E&ccedil;a de Queir&oacute;s.<\/p>\n<p> H. Heine  judeu alem&atilde;o que ali&aacute;s alguns cr&iacute;ticos<br \/>\n    chegam a considerar um esp&iacute;rito franc&ecirc;s Gerardo de Nerval e J&uacute;lio<br \/>\n    Michelet representam, em Fran&ccedil;a, profundas influ&ecirc;ncias germ&acirc;nicas.<br \/>\n    Foi na forma vaga, &iacute;ntima e completa das suas obras, que o &laquo;Romantismo<br \/>\n    fant&aacute;stico&raquo; principalmente impressionou E&ccedil;a de Queir&oacute;s.<\/p>\n<p> Por toda a parte, nos escritos das &laquo;Prosas B&aacute;rbaras&raquo;,<br \/>\n    se encontram os mitos, as cores e formas do maravilhoso popular germ&acirc;nico,<br \/>\n    os aspectos evocadores da natureza teu t&oacute;nica, as personalidades da<br \/>\n    Hist&oacute;ria da Lenda do Norte da Europa localizando, a cada passo, as<br \/>\n    fantasias do rom&acirc;ntico portugu&ecirc;s: s&atilde;o as Nixes, as Willis,<br \/>\n    os Elfos, as Ondinas, &laquo;as velhas mitologias do Reno&raquo;, &laquo;as<br \/>\n    monjas dos conventos da Alemanha a quem o Diabo escreve&raquo;, &laquo;o abade<br \/>\n    de Helenbach&raquo;, &laquo;as abadessas de Vecker a quem o Diabo faz sonetos&raquo;,<br \/>\n    &laquo;as m&atilde;es melodram&aacute;ticas dos Burgraves&raquo;, &laquo;os<br \/>\n    pastores de Helyberg&raquo;, &laquo;o abade de Tritheim vendendo a alma pelo<br \/>\n    segredo da circula&ccedil;&atilde;o do sangue&raquo;,  que passam de<br \/>\n    cont&iacute;nuo nas narra&ccedil;&otilde;es; e &laquo;as encruzilhadas da<br \/>\n    Alemanha&raquo;, &laquo;as encruzilhadas da Floresta Negra&raquo;, &laquo;as<br \/>\n    florestas da Tur&iacute;ngia&raquo;, as alturas de Borxberg, onde a 30 de<br \/>\n    Abril se encanta a assembleia de Valpurgis, as catedrais da Alemanha, o Reno,<br \/>\n    o mar do Norte, que &eacute; o &laquo;Nordsee&raquo; dos ciclos po&eacute;ticos<br \/>\n    de Reine, &laquo;a Alemanha onde nasce a flor do absinto&raquo;, onde se ouvem<br \/>\n    as velhas baladas da Tur&iacute;ngia e a guitarra de Inspruck[13], onde &laquo;a<br \/>\n    poesia popular foi a invis&iacute;vel que levou pela m&atilde;o os trovadores&#8230;.<br \/>\n    &agrave;s lareiras dos senhorios feudais&#8230;&raquo;, &laquo;&agrave;s brancas<br \/>\n    castel&atilde;s onde v&atilde;o os Minnersingers errantes&raquo;, onde se<br \/>\n    celebram as &laquo;quermesses de Leipzig&raquo; e se bebe a &laquo;cerveja<br \/>\n    de Heidelberg&raquo;, onde Alberto D&uuml;rer desenhou a sua &laquo;Melancolia&raquo;.<br \/>\n    onde correm as ca&ccedil;adas fant&aacute;sticas do &laquo;Freisch&uuml;tz&raquo;<br \/>\n    e passam os imperadores do Santo Imp&eacute;rio, Fausto, Mefist&oacute;feles,<br \/>\n    Margarida, Lutero&#8230; Spohr, Weber&#8230;<\/p>\n<p> O conhecimento directo das poesias de Carlos Baudelaire e a sua influ&ecirc;ncia<br \/>\n    consider&aacute;vel em E&ccedil;a de Queir&oacute;s[14], s&oacute; se deu<br \/>\n    de uma maneira importante, depois da dos autores que acabo de mencionar. A<br \/>\n    edi&ccedil;&atilde;o em volume das &laquo;Fleurs du Mal&raquo; s&oacute; tarde<br \/>\n    lhe chegou &agrave;s m&atilde;os.<\/p>\n<p> Recordo-me, na falta dela, de passarmos muitas noites na Biblioteca do Gr&eacute;mio<br \/>\n    Liter&aacute;rio, procurando, em colec&ccedil;&otilde;es antigas de revistas<br \/>\n    francesas, as poesias que Baudelaire a&iacute; havia pela primeira vez publicado.<\/p>\n<p>Carlos Baudeknire foi um escritor essencialmente franc&ecirc;s. Frio, impass&iacute;vel,<br \/>\n    ocorrecto de maneiras e toilettes, preocupado com a realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma certa simetria de forma, o mist&eacute;rio, o fant&aacute;stico, foi,<br \/>\n    por ele, apenas intelectualmente sentido. Penetrou, sem d&uacute;vida, em<br \/>\n    profundas, tenebrosas e inexploradas regi&otilde;es do esp&iacute;rito; mas<br \/>\n    para principalmente revelar o que nelas &eacute; capaz de express&atilde;o<br \/>\n    1ucidameme estranha. Nele o del&iacute;rio &eacute; sempre cr&iacute;tico.<br \/>\n    a nevrose intensa, mas metodizada: as suas poesias, como se sabe, foram primeiro<br \/>\n    substancial mente redigidas em prosa. Cria na arte o frisson nouveau que V&iacute;tor<br \/>\n    Hugo celebra, mas comp&otilde;e-no rigorosamente segundo as melhores formas<br \/>\n    da s&aacute;bia l&iacute;ngua francesa, com sintaxe <\/p>\n<p>  directa e rimas ricas, p&eacute; a p&eacute;. vibra&ccedil;&atilde;o a vibra&ccedil;&atilde;o[15]<br \/>\n  .<\/p>\n<p> S&atilde;o, por&eacute;m, estas qualidades especiais que tornam decisiva<br \/>\n    a influ&ecirc;ncia de Carlos Baudelaire sobre E&ccedil;a de Queir&oacute;s,<br \/>\n    mais tarde, no per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o, quando pouco a pouco<br \/>\n    impressionado pelo Realismo e por Gustavo Flaubert, ele justamente denominou<br \/>\n    j&aacute; ent&atilde;o cr&iacute;tica a colec&ccedil;&atilde;o de escritos<br \/>\n    prosas b&aacute;rbaras.<\/p>\n<p> Exerceu-se no mesmo sentido a influ&ecirc;ncia das obras de Edgar Allan<br \/>\n    P&ouml;e, que E&ccedil;a de Queir&oacute;s  ainda ent&atilde;o ignorante<br \/>\n    de ingl&ecirc;s,  s&oacute; conhecia pelas tradu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    francesas do mesmo Baudelaire. A nitidez fria com que o escritor americano<br \/>\n    determinou o nevrosismo das &laquo;Hist&oacute;rias Extraordin&aacute;rias&raquo;,<br \/>\n    acentua-se ainda mais  privado, em todo o caso, da indetermina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    liter&aacute;ria e flutuante da l&iacute;ngua inglesa  nas formas l&oacute;gicas<br \/>\n    e lapidares de um dos mais claros escritores da Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p> Indico apenas, como j&aacute; disse, as influ&ecirc;ncias dominantes; mas<br \/>\n    o trato &iacute;ntimo com quase todos os grandes rom&acirc;nticos franceses<br \/>\n     Musset, Gautier, Mallefille, Villiers de L&rsquo;lsle Adam<br \/>\n    &eacute; sens&iacute;vel neste primeiro per&iacute;odo da vida liter&aacute;ria<br \/>\n    de E&ccedil;a de Queir&oacute;s.<\/p>\n<p> As influ&ecirc;ncias portuguesas importantes que podem distinguir-se, s&atilde;o<br \/>\n    pouco numerosas e superficiais:  quase somente as da- poesia l&iacute;rica<br \/>\n    popular[16] , e as de alguns seus companheiros de Coimbra  Jo&atilde;o<br \/>\n    de Deus, Antero de Quental, porventura Gomes Leal[17] .<\/p>\n<p> Foi ali&aacute;s o conto de E&ccedil;a de Queir&oacute;s, &laquo;O Milhafre&raquo;,<br \/>\n    que sugeriu a Antero de Quental uma das suas mais interessantes poesias[18]<br \/>\n    .<\/p>\n<p> A linguagem viva, isto &eacute;, falada, dos portugueses que E&ccedil;a<br \/>\n    de Queir&oacute;s encontrou em evolu&ccedil;&atilde;o, era de longa data j&aacute;<br \/>\n    em parte formada por galicismos; por isso a ac&ccedil;&atilde;o reconhec&iacute;vel<br \/>\n    na sua forma liter&aacute;ria &eacute; a l&iacute;ngua francesa. Foi por meio<br \/>\n    de muitas das formas sint&aacute;xicas desta, e quase se pode dizer, do seu<br \/>\n    vocabul&aacute;rio, que ele modelou o que quando a sua obra come&ccedil;ou<br \/>\n    a ser apreciada, deu a impress&atilde;o de uma como que nova l&iacute;ngua<br \/>\n    portuguesa.<\/p>\n<p> Mas esta &laquo;Introdu&ccedil;&atilde;o&raquo; &agrave;s Prosas B&aacute;rbaras<br \/>\n    t&atilde;o-somente tem por fim explic&aacute;-las rapidamente; n&atilde;o<br \/>\n    critic&aacute;-las: n&atilde;o lhe cumpre por isso mostrar que diferen&ccedil;as<br \/>\n    profundas h&aacute; entre o fant&aacute;stico alem&atilde;o e o fant&aacute;stico<br \/>\n    do escritor portugu&ecirc;s, entre o humorismo subtil de Heine e a ironia<br \/>\n    poderosamente vincada de E&ccedil;a de Queir&oacute;s, entre a fantasia ing&eacute;nua,<br \/>\n    tranquila e vaga. dos homens do Norte e a imagina&ccedil;&atilde;o veemente,<br \/>\n    exuberante, e imprevista do criador meridional; n&atilde;o tem enfim que provar<br \/>\n    como todas as influ&ecirc;ncias notadas se sentem apenas &agrave; superf&iacute;cie<br \/>\n    da obra do grande artista, essencialmente original, que escreveu, na sua primeira<br \/>\n    mocidade, as extraordin&aacute;rias p&aacute;ginas reunidas neste livro.<\/p>\n<p> VI Na inten&ccedil;&atilde;o de E&ccedil;a de Queir&oacute;s os &laquo;Folhetim&raquo;<br \/>\n    da &laquo;Gazeta de Portugal&raquo;  apesar da sua desconex&atilde;o<br \/>\n    epis&oacute;dica,  formavam s&eacute;rie, obedeciam a um pensamento,<br \/>\n    constitu&iacute;am um corpo, uma obra sistem&aacute;tica, cujos cap&iacute;tulos,<br \/>\n    separados por lacunas que nunca foram preenchidas, podem, cronologicamente,<br \/>\n    reunir-se nos seguintes dois grupos: A Sinfonia de Abertura(1)&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.1866<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..Outubro 7 Macbeth&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<br \/>\n    1866 &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..Outubro 14 Poetas do Mal (1)&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;1866<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..Outubro 21 A Ladainha da Dor &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;1866&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    Outubro 28 Os Mortos &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..1866<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. Novembro 4 As Mis&eacute;rias: I  Entre a Neve&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<br \/>\n    1866 &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..Novembro 13 Farsas (1)&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;1866&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    Novembro 18 Ao Acaso (2) &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;1866<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..Novembro 27 O &laquo;Miantonomah&raquo; &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;1866<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..Dezembro 2 Misticismo Humor&iacute;stico&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    1866 &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..Dezembro 23 (1) N&atilde;o inclu&iacute;dos na primeira<br \/>\n    edi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> (2) Com o t&iacute;tulo &ldquo;A Pen&iacute;nsula&rdquo; na primeira edi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    B O Milhafre (1)&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;1867 &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..Outubro<br \/>\n    6 Lisboa (2)&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;1867<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;Outubro 13 O Senhor Diabo (3)&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..1867<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..Outubro 20 Uma Carta (a Carlos Mayer) &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.1867&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;Novembro<br \/>\n    3 Da Pintura em Portugal &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;1867&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    Novembro 10 O Lume &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.1867&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    Novembro 17 Mefist&oacute;feles (J. Petit)(4)&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.1867&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    Dezembro 1 Onf&aacute;lia Benoiton (5) &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;1867<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..Dezembro 15 Mem&oacute;rias de uma Forca &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..1867&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    Dezembro 22 (1) Tem uma ep&iacute;grafe e primeira parte omitidas na primeira<br \/>\n    edi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> (2) Tem uma &ldquo;pequena&rdquo; introdu&ccedil;&atilde;o omitida na primeira<br \/>\n    edi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> (3) Tem uma introdu&ccedil;&atilde;o omitida na primeira edi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> (4) Tem uma parte cr&iacute;tica relativa ao baixo J&uacute;lio Petit, ent&atilde;o<br \/>\n    cantando em S, Carlos, de Lisboa, omitida na primeira edi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> (5) N&atilde;o inclu&iacute;do na primeira edi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O primeiro &laquo;Folhetim&raquo; em data  Mar&ccedil;o de 1866<br \/>\n    as &laquo;Notas Marginais&raquo;,  tendo por ep&iacute;grafe as frases<br \/>\n    interrompidas de uma trova &agrave; Bernardim Ribeiro, e influenciado, como<br \/>\n    j&aacute; mostrei, pela tradu&ccedil;&atilde;o francesa das poesias de Heine,<br \/>\n    foi inserido, na &laquo;Gazeta de Portugal&raquo;, fora do seu lugar.<\/p>\n<p> Porque os &laquo;Folhetins&raquo; t&ecirc;m uma introdu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    formal  uma &laquo;Sinfonia de Abertura&raquo;, que se publica a 7<br \/>\n    de Outubro de 1866  e continuam, quase sem interrup&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    semanalmente, aos domingos, at&eacute; 23 de Dezembro do mesmo ano. Uma longa<br \/>\n    aus&ecirc;ncia de Lisboa interrompe a publica&ccedil;&atilde;o: dos primeiros<br \/>\n    dias de Janeiro a 1 de Agosto de 1867, E&ccedil;a de Queir&oacute;s reside<br \/>\n    no Alentejo, onde funda e redige o &laquo;Distrito de &Eacute;vora&raquo;,<br \/>\n    peri&oacute;dico pol&iacute;tico, liter&aacute;rio e noticioso. Os &laquo;Folhetins&raquo;<br \/>\n    da &laquo;Gazeta de Portugal&raquo; recome&ccedil;am no dia 6 de Outubro,<br \/>\n    e prosseguem at&eacute; 22 de Dezembro do mesmo ano de 1867.<\/p>\n<p> A &laquo;Sinfonia de Abertura&raquo;[19] prepara, com efeito, o esp&iacute;rito<br \/>\n    para a ideia que os diferentes trechos depois v&atilde;o desenvolvendo. Neles<br \/>\n    a fantasia  livremente, irregularmente, fragmentariamente  esbo&ccedil;a,<br \/>\n    sugere, deixa entrever, faz sentir essa ideia, em- epis&oacute;dios, em alegorias<br \/>\n    fant&aacute;sticas e como que musicalmente vagas.<\/p>\n<p> Trata-se, na &laquo;Sinfonia de Abertura&raquo;, das imagens dos Deuses,<br \/>\n    &laquo;desde os templos de Elora  onde eles andavam ferozes por entre<br \/>\n    os elefantes  at&eacute; &agrave; cruz de Jesus, onde um rouxinol veio<br \/>\n    pousar cantando de amor&raquo; [&#8230;] &laquo;desde a mat&eacute;ria negra e<br \/>\n    informe, at&eacute; &agrave;s serenidades vivas para al&eacute;m das nuvens,<br \/>\n    das estrelas e dos caminhos l&aacute;cteos&raquo;.<\/p>\n<p> Nestas viagem ideais os Deuses t&ecirc;m uma companheira que Intimam ente<br \/>\n    estabelece a sua comunica&ccedil;&atilde;o com os homens,  a Arte.<\/p>\n<p> Da hist&oacute;ria vision&aacute;ria desta  na longa peregrina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    divina  a &laquo;Sinfonia de Abertura&raquo;, faz-nos ouvir<br \/>\n    adagio ou vivace, piano ou forte  algum trechos maravilhosamente instrumentados&#8230;<\/p>\n<p> &laquo;Quando&raquo; os povos  na Caldeia, no Egipto. na Gr&eacute;cia<br \/>\n     &laquo;plantavam tendas debaixo das estrelas&raquo;&#8230;, e, mais tarde,<br \/>\n    em c&eacute;us de profundo misticismo crist&atilde;o, nas regi&otilde;es transcendentes,<br \/>\n    prodigiosamente luminosas, &laquo;onde as pr&oacute;prias estrelas s&atilde;o&raquo;<br \/>\n    apenas, &laquo;gotas de sombra&#8230;&raquo;[20] 20 Entrev&ecirc;em-se, flutuando<br \/>\n    as imagens, as diferentes Artes: A Arquitectura &laquo;que se abriu em transpar&ecirc;ncia<br \/>\n    e transfigura&ccedil;&otilde;es, como se quisesse ser, no espa&ccedil;o, a<br \/>\n    morada suspensa do esp&iacute;rito&raquo;.<\/p>\n<p> A M&uacute;sica enfim &laquo;liberta dos contornos, dos coloridos, e das<br \/>\n    gravidades, dissipando-se nos amolecimentos divinos&#8230;&raquo; &laquo;&#8230;no<br \/>\n    terror da Natureza, onde o Diabo era vis&iacute;vel&#8230; a alma alem&atilde;<br \/>\n    tinha todo a sorte de penumbras, de desfalecimentos, de p&aacute;lidos sil&ecirc;ncios<br \/>\n    que se exalavam divinamente no canto&#8230;&raquo; Esvai-se &laquo;aquela melopeia<br \/>\n    grega esfarrapada pela aspereza do latim dos vers&iacute;culos&#8230;&raquo; &laquo;Aparece<br \/>\n    Lutero, a alma alem&atilde;&#8230; que desfalecia naquelas melancolias imensas<br \/>\n    que Alberto D&uuml;rer revelou&#8230;&raquo; Mas &laquo;a M&uacute;sica, que &eacute;<br \/>\n    a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte, sumiu-se com a aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Renascen&ccedil;a que vinha cheia das rebeli&otilde;es da carne&#8230;<\/p>\n<p> At&eacute; que outra vez &laquo;se produziu, na nossa &eacute;poca, como<br \/>\n    a Gr&eacute;cia produziu a Escultura, como a Europa g&oacute;tica produziu<br \/>\n    a Arquitectura&#8230;&raquo; Chega-se assim aos tempos modernos: &laquo;A alma<br \/>\n    come&ccedil;ou a entrever cimos luminosos, por entre os astros, que se chamavam<br \/>\n    Homero, &Eacute;squilo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais, Cervantes e Shakespeare.<br \/>\n    A alma queria subir aqueles escarpamentos divinos para colher a flor do ideal.&raquo;[21]<br \/>\n    21 A melancolia d&oacute; cor cio Romantismo&#8230;<\/p>\n<p> &laquo;O tipo em quem se resumem todos os sofrimentos, todas as desesperan&ccedil;as,<br \/>\n    as melancolias, as incertezas, as aspira&ccedil;&otilde;es. os lirismos desta<br \/>\n    &eacute;poca p&aacute;lida e doentia: Fausto, Manfredo, Lara, Antony, Werther,<br \/>\n    Rolla, D. Juan&#8230;&raquo; que saem ent&atilde;o de &laquo;toda umamocidade<br \/>\n    p&aacute;lida e nervosa&raquo;, de &laquo;toda uma Primavera&#8230;.&raquo; &laquo;O<br \/>\n    indefinido da alma de D. Juan revelado pela arte  eis a&iacute; a M&uacute;sica&#8230;&raquo;,<br \/>\n    &laquo;aquela vaga Of&eacute;lia que se chama M&uacute;sica&#8230;&raquo;, &laquo;uma<br \/>\n    voz Inesperada em que se entendem os desconsolados&#8230;&raquo;[22] Constituiu-se<br \/>\n    enfim a m&uacute;sica moderna: &laquo;A Alemanha&#8230; a loura Alemanha de ideal<br \/>\n    seriedade, luminosa, um tanto nuvem, cheia de vapores e de constela&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    A Alemanha que pensa com o doce ru&iacute;do inef&aacute;vel&raquo;, forma<br \/>\n    a sua &laquo;M&uacute;sica que &eacute; o vapor da Arte&#8230;&raquo; E, ao lado<br \/>\n    dela, a &laquo;M&uacute;sica italiana.., tendo o quer que seja de palp&aacute;vel..,<br \/>\n    de ondeante como seda invis&iacute;vel&raquo;.<\/p>\n<p> Tal &eacute;, muito vagamente, a significa&ccedil;&atilde;o sentimental<br \/>\n    da &laquo;Sinfonia de Abertura&raquo;.<\/p>\n<p> Os escritos coligidos neste volume s&atilde;o assim, em prosa, os &laquo;Cantos<br \/>\n    Fragment&aacute;rios&raquo; de um imenso &laquo;Poema Fant&aacute;stico&raquo;:<br \/>\n    O Universo &eacute; um infinito de almas. As coisas t&ecirc;m sentimentos<br \/>\n    humanos que se disseminam, sem se alterarem, com a dissocia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todas as morres. Os que morrem v&atilde;o difundir-se nas coisas sem nas<br \/>\n    decomposi&ccedil;&otilde;es inteiramente aniquilarem a personalidade, passando<br \/>\n    por formas inferiores no homem, e por formas purificadas na Natureza. Na alma<br \/>\n    &eacute; que se concebe, ria, o mal: o corpo, a mat&eacute;ria, essencialmente<br \/>\n    inalter&aacute;vel, volta sempre &agrave; pureza natural. Com sucessivos ideais,<br \/>\n    e sucessivas e profundas como&ccedil;&otilde;es, o homem gera, para rodo o<br \/>\n    sempre, deuses que o dominam, que vivem de uma vida sentimental e independente,<br \/>\n    mas que fogem, uns ante os outros, para desvairados destinos, que se asilam,<br \/>\n    errantes, em todos os grandes centros de vida misteriosa da Cria&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que s&eacute; fazem sedu&ccedil;&atilde;o sob a forma, ainda ang&eacute;lica<br \/>\n    e j&aacute; ir&oacute;nica, do Diabo, que se dispersam na Natureza transformadora.<\/p>\n<p> Com este vago tema geral, o &laquo;Poema&raquo; em prosa de E&ccedil;a de<br \/>\n    Queir&oacute;s propunha-se ser a express&atilde;o das mais profundas regi&otilde;es<br \/>\n    do sonho, da vis&atilde;o, do indetermin&aacute;vel, do substrato fant&aacute;stico<br \/>\n    que se encontra sob a realidade evidente; queria tornar Sonoras as capacidades<br \/>\n    de vibra&ccedil;&atilde;o musical que formam a intimidade de todos os seres<br \/>\n     todas as vibra&ccedil;&otilde;es imposs&iacute;veis de completamente<br \/>\n    reduzir aos sons calculados de uma escala musical;  era a fantasia<br \/>\n    tocando, um momento apenas, o mundo da realidade, para logo se afastar dele,<br \/>\n    voando, exilada pela incompreens&atilde;o, pela insensibilidade, pela determina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&iacute;tida e clara das for&ccedil;as sensatas do esp&iacute;rito. E assim,<br \/>\n    ap&oacute;s os belos deuses de m&aacute;rmore, que se escondem fugitivos nas<br \/>\n    florestas ainda enevoadas dos sonhos de religi&otilde;es anteriores, os anjos<br \/>\n    sublimados ou r&eacute;probos do cristianismo  a pr&oacute;pria ironia<br \/>\n    espiritualista de Satan&aacute;s, o pr&oacute;pria p&aacute;lida e doce figura<br \/>\n    de Jesus  v&atilde;o igualmente perder-se e ser esquecidos: morreu<br \/>\n    a fantasia. S&atilde;o f&uacute;teis todas as ilus&otilde;es.<\/p>\n<p> Reina o c&aacute;lculo demonstr&aacute;vel[23] .<\/p>\n<p> Heine tamb&eacute;m j&aacute; contara o ex&iacute;lio dos antigos Deuses[24],<br \/>\n    e Michelet[25] recorda o brado, &laquo;Le grand Pan est mort!&raquo;[26] que<br \/>\n    se ouviu pelo vasto mundo ao aparecer de novas cren&ccedil;as.<\/p>\n<p> O que caracteriza este momento da vida liter&aacute;ria de E&ccedil;a de<br \/>\n    Queir&oacute;s &eacute; a sincera como&ccedil;&atilde;o do criar fant&aacute;stico,<br \/>\n    sem excluir inteiramente, j&aacute; ent&atilde;o, a ironiaque mais<br \/>\n    tarde &eacute; o insepar&aacute;vel instrumento de trabalho do seu esp&iacute;rito<br \/>\n     fornecedora de t&atilde;o delicadas velaturas, ou de toques t&atilde;o<br \/>\n    vivos e reais a todas as suas obras. Consegue assim idear um inundo imagin&aacute;rio,<br \/>\n    um cen&aacute;rio de alegorias; sabe que esse mundo &eacute; ilus&oacute;rio,<br \/>\n    que s&oacute; parece povoado por met&aacute;foras  e enternece-se,<br \/>\n    e comove-se, e comunica essa ternura e essa como&ccedil;&atilde;o. como se<br \/>\n    as produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo. inexplicavelmente.<br \/>\n    que com efeito existe uma profunda realidade, vagamente simbolizada por todas<br \/>\n    essas imagens [27] .<\/p>\n<p> Como quer que episodicamente fale de assuntos inteiramente reais<br \/>\n    da Am&eacute;rica do Norte, de Lisboa, da vida de estudante de Coimbra<br \/>\n    &eacute; sempre o mesmo substrato vision&aacute;rio da realidade para que<br \/>\n    o seu esp&iacute;rito procura express&atilde;o.<\/p>\n<p> Esta situa&ccedil;&atilde;o especial do esp&iacute;rito de muitos artistas<br \/>\n    n&atilde;o foi ainda, parece-me, suficientemente estudada pela cr&iacute;tica<br \/>\n    e pela filosofia da arte.<\/p>\n<p> VII E&ccedil;a de Queir&oacute;s tinha, por aquele tempo, igual exuber&acirc;ncia<br \/>\n    e originalidade de fantasia em verso; e sentia muitas vezes a necessidade<br \/>\n    de metrificar  quase o mesmo g&eacute;nero de necessidade de som e<br \/>\n    ritmo que o fazia com frequ&ecirc;ncia cantarolar, em voz baixa, pequenas<br \/>\n    frases musicais, sempre erradas, sempre fora de tom, mas sempre impregnadas<br \/>\n    das mais pat&eacute;ticas inflex&otilde;es[28] .<\/p>\n<p> Os versos que compunha eram de um enorme relevo pela originalidade da concep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    dos ep&iacute;tetos e das imagem, e conservavam ainda a flu&ecirc;ncia rom&acirc;ntica,<br \/>\n    apaixonada, fant&aacute;stica, dos primeiros escritos, quando j&aacute; ele<br \/>\n    a havia quase inteiramente eliminado da sua prosa realista.<\/p>\n<p> Mas teve sempre grande dificuldade em compreender e sentir os processos<br \/>\n    t&eacute;cnicos da metrifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Datam exactamente do mesmo per&iacute;odo dos escritos coligidos no presente<br \/>\n    volume as linhas seguintes, que deviam, na inten&ccedil;&atilde;o do autor,<br \/>\n    ser versos alexandrinos[29]:<\/p>\n<p>&Oacute; Sat&atilde; tenebroso, tr&aacute;gico fulminado, Tu vencer&aacute;s<br \/>\n    em mim o &iacute;ntimo Deus bom N&atilde;o com as armas b&iacute;blicas com<br \/>\n    que bateste os astros, Mas vindo unicamente vestido &agrave; Benoiton! Mas<br \/>\n    &eacute; de pouco depois a seguinte admir&aacute;vel poesia, mais tarde publicada<br \/>\n    com a assinatura de C. Fradique Mendes[30] :<\/p>\n<h2><a name=\"2\">SERENATA DE SAT&Atilde; &Agrave;S ESTRELAS<\/a><\/h2>\n<p> Nas noites triviais e desoladas, <\/p>\n<p>  Como vos quero, m&iacute;sticas estrelas!.<\/p>\n<p> L&uacute;cidas, antigas camaradas&#8230;<\/p>\n<p> Gotas de luz no frio ar nevadas, Pudesse a minha boca inda beb&ecirc;-las!<br \/>\n    N&atilde;o vos conhe&ccedil;o j&aacute;. Por onde eu ando!&#8230;<\/p>\n<p> Sois v&oacute;s m&iacute;sticos pregos duma cruz, Que Cristo estais no C&eacute;u<br \/>\n    crucificando? Quem triste pelo ar vos foi soltando Profundos, solu&ccedil;antes<br \/>\n    ais de luz! &Oacute; viagem nas nuvens desmanchadas! Doces ser&otilde;es do<br \/>\n    C&eacute;u entre as estrelas! Hoje s&oacute; ais, ou l&aacute;grimas caladas&#8230;<\/p>\n<p> Ai! sementes de luz mal semeadas, Ave do C&eacute;u, pudesse eu ir com&ecirc;-las!<br \/>\n    Triste, triste loucura, &oacute; flor&rsquo;s da cruz, Quando vos eu dizia<br \/>\n    solu&ccedil;ando:  Afastai-vos de mim cardos de luz!  Pudesse<br \/>\n    eu ter agora os p&eacute;s bem nus, Inda por entre v&oacute;s i-los rasgando.<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p> Hoje estou velho, e s&oacute;, e corcovado; Causa-me espanto a sombra duma<br \/>\n    estola; Enche-me o peito um t&eacute;dio desolado: E corro o mundo todo, esfomeado,<br \/>\n    Aos abutres do c&eacute;u pedindo esmola.<\/p>\n<p> Eu sou Sat&atilde; o triste, o derrubado! Mas v&oacute;s estrelas sois o<br \/>\n    musgo velho Das paredes do C&eacute;u desabitado, E a poeira que se ergue<br \/>\n    ao ar calado, Quando eu bato com o p&eacute; no Evangelho! O C&eacute;u &eacute;<br \/>\n    cemit&eacute;rio trivial: V&oacute;s sois o p&oacute; dos deuses sepultados;<br \/>\n    Deuses, magros esbo&ccedil;os do ideal! S&oacute; com rasgar-se a folha de<br \/>\n    um missal, V&oacute;s ca&iacute;s mortos, hirtos, gangrenados.<\/p>\n<p> Eu sou expulso, roto, escarnecido; Mas a v&oacute;s j&aacute; ningu&eacute;m<br \/>\n    vos quer as leis Oh! velho Deus, oh! Cristo dolorido! Lembrai-vos que sois<br \/>\n    p&oacute; enegrecido E cedo em negro p&oacute; vos tomareis.[31] Dois epis&oacute;dios<br \/>\n    mostrar&atilde;o o seu ent&atilde;o quase permanente desejo de improvisa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    po&eacute;tica.<\/p>\n<p> Uma noite no Ver&atilde;o de 1867 ou 1868, depois de cear&raquo; o E&ccedil;a<br \/>\n    de Queir&oacute;s, o Salom&atilde;o Saragga e eu fomos de passeio, conversando,<br \/>\n    at&eacute; Bel&eacute;m.<\/p>\n<p> A noite estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia.<\/p>\n<p> Seriam umas duas horas de madrugada quando cheg&aacute;mos &agrave; praia<br \/>\n    da Torre.<\/p>\n<p> Quase varado na areia, havia um barco. Metemo-nos dentro. A mar&eacute;<br \/>\n    enchente fez-nos flutuar.<\/p>\n<p> A&iacute; continu&aacute;mos a nossa conversa&ccedil;&atilde;o at&eacute;<br \/>\n    que o dia apareceu e o Sol se levantou por detr&aacute;s da casaria e dos<br \/>\n    altos de Lisboa.<\/p>\n<p> Desembarc&aacute;mos ent&atilde;o e dirigimo-nos para Bel&eacute;m, com<br \/>\n    fome, em busca de uma. taberna ou restaurante. Quer&iacute;amos almo&ccedil;ar<br \/>\n    ali mesmo; continuando, &agrave; beira do rio, a nossa discuss&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas conhec&iacute;amos os nossos tr&ecirc;s apetites, e verific&aacute;mos,<br \/>\n    reunindo todo o dinheiro, que ele apenas pagaria um insuficiente repasto.<\/p>\n<p> Que fazer?  Tenho uma ideia  disse o E&ccedil;a de Queir&oacute;s,<br \/>\n    fazendo o resto consagrado de bater na testa.  Tenho uma ideia venial<br \/>\n     acrescentou, erguendo tremulamente os bra&ccedil;os ao c&eacute;u:<br \/>\n     Sigam-me.<\/p>\n<p> E negro, linear, curvo, agitando a badine na m&atilde;o como se esgrimisse,<br \/>\n    com passos largos e r&iacute;tmicos que pareciam saltar obst&aacute;culos<br \/>\n    invis&iacute;veis, a sombra da figura esguia e imensa projectada pelos raios<br \/>\n    horizontais do sol-nascente, E&ccedil;a de Queir&oacute;s adiantou-se em direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; cal&ccedil;ada que leva de Bel&eacute;m &agrave; Ajuda.<\/p>\n<p> Salom&atilde;o Saragga e eu &iacute;amos atr&aacute;s, fam&eacute;licos,<br \/>\n    murmurando.<\/p>\n<p> Seriam quase 5 horas da manh&atilde;.<\/p>\n<p> Junto da Igreja da Mem&oacute;ria o E&ccedil;a de Queir&oacute;s dirigiu-se<br \/>\n    a uma casa baixa, de janelas cerradas, e bateu.<\/p>\n<p> Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus sonos.<\/p>\n<p> O E&ccedil;a de Queir&oacute;s explicou-nos:  Mora aqui o Manc&iacute;lia,<br \/>\n    a quem vamos &laquo;dar um tiro&raquo;. S&oacute; ele nos pode salvar neste<br \/>\n    deserto.<\/p>\n<p> E continuou a bater durante minutos.<\/p>\n<p> Por fim ouviu-se falar dentro da casa. Algu&eacute;m abriu a porta resmungando,<br \/>\n    e vimos diante de n&oacute;s uma cara larga, um bigode castanho, e uns olhos,<br \/>\n    entre terr&iacute;veis e risonhos, sob uma grande trunfa de carac&oacute;is<br \/>\n    desordenados. Era o Louren&ccedil;o Malheiro.<\/p>\n<p>  Menino  contou o E&ccedil;a de Queir&oacute;s  estamos<br \/>\n    esfomeados ap&oacute;s muitas horas de incalcul&aacute;vel cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rom&acirc;ntica. Jur&aacute;mos n&atilde;o morrer antes de produzirmos tr&ecirc;s<br \/>\n    obras de g&eacute;nio. D&aacute;-nos entretanto dinheiro para almo&ccedil;ar.<br \/>\n    Mas olha l&aacute;&#8230; Comunic&aacute;mos toda a noite, espectralmente, no<br \/>\n    Restelo, com as armadas portuguesas que dali foram ao descobrimento da &Iacute;ndia<br \/>\n    e do Brasil: d&aacute;-nos pois dinheiros antigos e sugestivos  sequins,<br \/>\n    dobr&otilde;es, florins, ducados, escudos, pe&ccedil;as, ou, quando menos,<br \/>\n    pintos&#8230;<\/p>\n<p> O Malheiro foi dentro e trouxe tr&ecirc;s moedas de cinco tost&otilde;es.<\/p>\n<p>  Ouvir&aacute;s falar da tua generosa d&aacute;diva, Manc&iacute;lia<br \/>\n     disse a E&ccedil;a de Queir&oacute;s, apertando-lhe as m&atilde;os<br \/>\n    com como&ccedil;&atilde;o e solenidade.<\/p>\n<p> Volt&aacute;mos a Bel&eacute;m.<\/p>\n<p> E, enquanto na cozinha da taberna, onde bebiam marinheiros e uma guitarra<br \/>\n    gemia frases lancinantes do Fado, se preparava a pescada com batatas e a caldeirada<br \/>\n    que encomend&aacute;ramos, o E&ccedil;a de Queir&oacute;s e eu, num quarto<br \/>\n    do primeiro andar, organiz&aacute;vamos o seguinte problema cuja glosa e solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seria enviada ao providencial Louren&ccedil;o Malheiro: Cristo deu-nos o amor,<br \/>\n    Robespierre a liberdade; Malheiro deu-nos tr&ecirc;s pintos: Qual deles deu<br \/>\n    a verdade? O Salom&atilde;o Saragga fez-nos uma s&aacute;bia disserta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobre a prosa r&iacute;tmica dos livros hebraicos e declarou que, como semita<br \/>\n    puro, n&atilde;o pudera jamais fazer versos  mas comporia, para o caso<br \/>\n    memor&aacute;vel, um salmo penitenci&aacute;rio sobre a vaidade da pescada<br \/>\n    cozida e das caldeiradas humanas.<\/p>\n<p> Almo&ccedil;ando, o E&ccedil;a de Queir&oacute;s e eu glos&aacute;mos e<br \/>\n    resolvemos o problema em quatro quadras e d&eacute;cimas contadas ali logo,<br \/>\n    ao acompanhamento do Fado que continuava a ouvir-se chorar na cozinha do r&eacute;s-do-ch&atilde;o.<\/p>\n<p> Existem as minhas quadras mas perderam-se as d&eacute;cimas de E&ccedil;a<br \/>\n    de Queir&oacute;s, que com efeito sobrescrit&aacute;mos para o Louren&ccedil;o<br \/>\n    Malheiro, d&eacute;cimas cheias de gra&ccedil;a e fantasia.<\/p>\n<p> De outra vez dois dos nossos amigos  o capit&atilde;o Jo&atilde;o<br \/>\n    de S&oacute; e o Zagalo  convenceram-nos a irmos com eles a uma espera<br \/>\n    de touros.<\/p>\n<p> Na volta, pela madrugada, abanc&aacute;mos a cear numa tasca do Arco do<br \/>\n    Cego.<\/p>\n<p> &Eacute;ramos, a esse tempo, um grupo numerosa. Apareciam amigos, conhecidos,<br \/>\n    desconhecidos.<\/p>\n<p> N&oacute;s, expansivamente, &iacute;amos convidando. Eles iam comendo, bebendo,<br \/>\n    desaparecendo.<\/p>\n<p> Quando rompeu o dia e quisemos n&oacute;s mesmos partir, descobrimos que<br \/>\n    hav&iacute;amos gasta, em bacalhau, iscas de f&iacute;gado, azeitonas e Colares,<br \/>\n    um dinheir&atilde;o que n&atilde;o t&iacute;nhamos na algibeira.<\/p>\n<p> Com&ecirc;ramos num p&aacute;tio onde havia galinhas, e uma. horta com couves<br \/>\n    e parreira.<\/p>\n<p> Ao lado, dava para esse p&aacute;tio uma casa estreita, de janelas sem vidra&ccedil;as,<br \/>\n    onde se guardavam frutas, legumes secos e feno. Era madrugada.<\/p>\n<p> O E&ccedil;a de Queir&oacute;s e eu, j&aacute; sonolentos, resolvemos esperar<br \/>\n    ali, at&eacute; &agrave; tarde seguinte, que o Jo&atilde;o de S&aacute; e<br \/>\n    o Zagalo nos viessem desempenhar com o dinheiro necess&aacute;rio a pagar<br \/>\n    as nossas dividas.<\/p>\n<p> Cerca do meio-dia acord&aacute;mos sobre os molhos arom&aacute;ticos do<br \/>\n    feno, rodeados por galinhas e pombos familiares. As paredes da casa onde dorm&iacute;ramos<br \/>\n    eram caiadas.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o  depois de almo&ccedil;armos ainda a cr&eacute;dito<br \/>\n     com dois l&aacute;pis. devorando fruta, principi&aacute;mos a cobrir<br \/>\n    as paredes de um longo poema, difuso, indeterminado, l&iacute;rico,. humor&iacute;stico,<br \/>\n    trist&iacute;ssimo e hilariante, misto, como g&eacute;nero do &laquo;Childe<br \/>\n    Harold&raquo; e &laquo;D. Juan&raquo; de Byron, do &laquo;Mardoche&raquo;<br \/>\n    e &laquo;Namouna&raquo; de Musset, do &laquo;Intermezzo&raquo; de Heine, e<br \/>\n    da &laquo;Fobia&raquo; de Francisco Palha. Este exerc&iacute;cio durou 4 ou<br \/>\n    5 horas. Duas das paredes da casa ficaram, at&eacute; &agrave; altura de homens,<br \/>\n    cinzentas de versos.<\/p>\n<p> Sinto hoje n&atilde;o haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte<br \/>\n    do E&ccedil;a de Queir&oacute;s nesta colabora&ccedil;&atilde;o extravagante:<br \/>\n    lembro-me nitidamente de que havia nessa parte trechos espantosos pelas imagens<br \/>\n    originais, pela fantasia, pela gra&ccedil;a, pelo imprevisto.<\/p>\n<p> VIII Ainda dorm&iacute;amos, um dia que o E&ccedil;a de Queir&oacute;s ficara<br \/>\n    em minha casa, quando &agrave; porta do quarto apareceu uma pequena cabe&ccedil;a<br \/>\n    de cabelo muito curto, faces p&aacute;lidas, fei&ccedil;&otilde;es mi&uacute;das,<br \/>\n    ligeiro bu&ccedil;o sobre os bei&ccedil;os grossos e uns olhos pequenos. piscos,<br \/>\n    risonhos e maliciosos. Por cima desta cabe&ccedil;a via-se outra de longo<br \/>\n    cabelo negro e crespo, nariz aquilino, olhos grandes, bigode audaciosamente<br \/>\n    retorcido, e mais abaixo uma terceira cabe&ccedil;o rosada, de olhos avermelhados,<br \/>\n    cabelos aos caracois louros, bigode lour&iacute;ssimo pendente.<\/p>\n<p> Acord&aacute;mos.<\/p>\n<p>  Lu&iacute;s! Manuel!  exclamou E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br \/>\n    bocejando.<\/p>\n<p>  Chavarro!  conclu&iacute; eu sentando-me na cama.<\/p>\n<p> Eram o conde Lu&iacute;s de Resende, seu irm&atilde;o Manuel[32] , e o Jo&atilde;o<br \/>\n    de Sousa Canavarro.[33]  Cheg&aacute;mos do Pano. Vimos busc&aacute;-los<br \/>\n    para jantar  disse o conde de Resende.<\/p>\n<p> &Agrave; noite jant&aacute;mos com efeito no Jos&eacute; Manuel, ao Cais<br \/>\n    do Sodr&eacute;  um restaurante ent&atilde;o c&eacute;lebre, a pre&ccedil;o<br \/>\n    fixo, onde caus&aacute;vamos devasta&ccedil;&atilde;o e horror, pela quantidade<br \/>\n    inveros&iacute;mil do que com&iacute;amos, discutindo toda a sorte de assuntos<br \/>\n    inintelig&iacute;veis.<\/p>\n<p> Nesse jantar demonstrou-se o vasto rid&iacute;culo do Romantismo; descreveu-se,<br \/>\n    discutiu-se e aprovou-se o Realismo na arte; fez-se a apologia violenta e<br \/>\n    clamorosa da frieza, da impassibilidade, da serenidade cr&iacute;tica, da<br \/>\n    correc&ccedil;&atilde;o nas ideias, nas maneiras, no estilo, na toilette<br \/>\n    a apoteose de todas as correc&ccedil;&otilde;es. Termin&aacute;mos, depois<br \/>\n    da meia-noite, abra&ccedil;ando efusivamente o velho Andrews  o ingl&ecirc;s<br \/>\n    que tinha uma lenda misteriosa, e ali jantou, durante anos, despejando por<br \/>\n    noite, em sil&ecirc;ncio, com m&eacute;todo, lentid&atilde;o e continuidade,<br \/>\n    tr&ecirc;s garrafas de vinho do Porto[34] .<\/p>\n<p> Tempos depois o E&ccedil;a de Queir&oacute;s partia em: viagem com o conde<br \/>\n    de Resende:  &laquo;Le comte de Rezende, grand amiral du Portugal et<br \/>\n    chevalier de Queir&oacute;s&raquo;  diziam os jornais do Cairo.<\/p>\n<p> Assistiram &agrave; inaugura&ccedil;&atilde;o do Canal de Suez, visitaram<br \/>\n    a Egipto e a Palestina.<\/p>\n<p> Na Primavera de 1869, est&aacute;vamos uma tarde  o Antero de Quental<br \/>\n    e eu  na casa que ent&atilde;o habit&aacute;vamos a S. Pedro ele Alc&acirc;ntara,<br \/>\n    quando entrou o E&ccedil;a de Queir&oacute;s, chegado, havia pouco, do Oriente,<br \/>\n    mas que ainda n&atilde;o v&iacute;ramos.<\/p>\n<p> Trajava uma longa sobrecasaca aberta de cuja botoeira sa&iacute;a, com coloridos,<br \/>\n    um enorme ramo de flores; cobria-lhe o em relevo, um plastron que nos pareceu<br \/>\n    imenso, sobre a qual se erguia um colarinho alt&iacute;ssimo, onde a custo<br \/>\n    a cabe&ccedil;a oscilava. Os punhos, que bot&otilde;es uniam pelo centro com<br \/>\n    ama corrente de ouro, encobriam grande parte das m&atilde;os metidas em luvas<br \/>\n    cor de palha. Vestia cal&ccedil;as claras, arrega&ccedil;adas alto, mostrando<br \/>\n    meias de seda preta com largas pintas amarelas como ouro e Sapatas muito compridos,<br \/>\n    ingleses, de polimento. Tinha na cabe&ccedil;a um chap&eacute;u alto, de p&ecirc;lo<br \/>\n    de seda brilhant&iacute;ssimo. E olhava-nos com um mon&oacute;culo que lhe<br \/>\n    estava sempre a cair e que ele, por isso, elevando as sobrancelhas e abrindo<br \/>\n    a boca em esgares sarc&aacute;sticos, ami&uacute;de reentalava junto da lacrimal<br \/>\n    do olho direito.<\/p>\n<p> Abra&ccedil;&aacute;mo-lo com entusiasmo e cobrimo-lo de epigramas.<\/p>\n<p> Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos tipos, cenas nos bazares<br \/>\n    do Cairo, no deserto eg&iacute;pcio  os guias, os sheiks, e &agrave;<br \/>\n    noite, em volta das fogueiras, os camelos, &laquo;de express&atilde;o humor&iacute;stica,<br \/>\n    sorrindo ironicamente&raquo;, e alongando as cabe&ccedil;as como que para<br \/>\n    escutar o narrador, por sobre os ombros dos bedu&iacute;nos atentos, graves<br \/>\n    e de pernas encruzadas. Analisou, minuciosamente, as sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que lhe dera, no Cairo, o uso do haschisch, e as vis&otilde;es fant&aacute;sticas<br \/>\n    que nos preparava  porque de e o conde de Resende haviam-nos trazido<br \/>\n    haschisch misturado a geleia, a bolos, e a pastilhas que se fumavam em cachimbos<br \/>\n    especiais.<\/p>\n<p> Mas pretendia haver voltado doent&iacute;ssimo, de uma extrema debilidade,<br \/>\n    de uma m&oacute;rbida impressionabilidade nervosa, e agitava, de cont&iacute;nuo,<br \/>\n    um grande len&ccedil;o perfumado de seda branca, com que limpava a testa e<br \/>\n    cofiava a barba, que atirava obre a mesa, interrompendo-se para entalar o<br \/>\n    mon&oacute;culo e exclamar em voz desmaiada:  Meu Deus! como me sinto<br \/>\n    mal! Vou ter o meu del&iacute;quio! meu apoplet&eacute;! Meninos, depressa,<br \/>\n    os meus sais&#8230; onde est&atilde;o os meus sais?!&#8230;<\/p>\n<p> E tirava, com efeito, da algibeira, um longo frasco de sais que sofregamente<br \/>\n    aspirava.<\/p>\n<p> Ficar&aacute; para sempre o prazer delicado de ler os livros de E&ccedil;a<br \/>\n    de Queir&oacute;s; mas perdeu-se o prazer, ainda talvez maior, de o ouvir,<br \/>\n    quando ele conversava, quando ele contava, quando ele representava algum personagem<br \/>\n    que quisesse imitar ou a que quisesse dar vida. Parecia, com o seu forte e<br \/>\n    inesperado poder de express&atilde;o, de imagem, de r&eacute;plica, de gra&ccedil;a,<br \/>\n    o representante de uma ra&ccedil;a especial diversa da portuguesa, ou de qualquer<br \/>\n    outra, falando, em Portugal, uma l&iacute;ngua nova.<\/p>\n<p> Ouvimo-lo toda aquela tarde, jant&aacute;mos com ele  n&atilde;o<br \/>\n    o pod&iacute;amos largar.<\/p>\n<p> As ideias est&eacute;ticas de E&ccedil;a de Queir&oacute;s haviam-se, a<br \/>\n    esse tempo, modificado e entrado numa fase de transi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Citava especialmente a &laquo;Salamb&ocirc;&raquo; e a &laquo;Tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Santo Ant&atilde;o&raquo;[35] de Gustavo Flaubert.<\/p>\n<p> Preocupava-se com a perfei&ccedil;&atilde;o da forma, com a realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da cor verbal, segundo este &uacute;ltimo literato. Lia tamb&eacute;m a &laquo;Vida<br \/>\n    de Jesus, o &laquo;S&atilde;o Paulo&raquo;, de Ernesto Renan, e as &laquo;Mem&oacute;rias<br \/>\n    de Judas&raquo;, de F. Petruccelli della Gattina.<\/p>\n<p> Foi sob estas influ&ecirc;ncias que  com as impress&otilde;es locais<br \/>\n    da sua recente viagem &agrave; Palestina  come&ccedil;ou, em Lisboa,<br \/>\n    a escrever a &laquo;Morte de Jesus&raquo;, publicada em folhetins, na &laquo;Revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Setembro&raquo;, de 13 de Abril a 8 de Julho de 1870.<\/p>\n<p> Mas escrevera desta obra, al&eacute;m do que se publicou uns cap&iacute;tulos<br \/>\n    que ele me leu, e depois sem d&uacute;vida destruiu ou se perderam.<\/p>\n<p> IX Entre os &laquo;Folhetins&raquo; da &laquo;Gazeta de Portugal&raquo;<br \/>\n    e a &laquo;Morte de Jesus&raquo; na &laquo;Revolu&ccedil;&atilde;o de Setembro&raquo;,<br \/>\n    medeiam quase 3 anos.<\/p>\n<p> Passou mais tempo ainda. A evolu&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica do esp&iacute;rita<br \/>\n    de E&ccedil;a de Queir&oacute;s continuava.<\/p>\n<p> Um dia veio mostrar-nos, ao Antero de Quental e a mim, o primeiro esbo&ccedil;o,<br \/>\n    muito desenvolvido  t&atilde;o extenso que levou v&aacute;rias noites<br \/>\n    a ler  de um romance intitulado &laquo;Hist&oacute;ria de Um Lindo<br \/>\n    Corpo&raquo;.<\/p>\n<p> Foi, julgo eu, a sua primeira tentativa na chamada Literatura Naturalista<br \/>\n    ou Realista. A ideia fundamental da obra era, at&eacute; certo ponto, se bem<br \/>\n    me recordo, a do &laquo;Affaire Cl&eacute;menceau&raquo;, de Alexandre Dumas<br \/>\n    filho; mas a execu&ccedil;&atilde;o, j&aacute;, em grande parte, devida &agrave;<br \/>\n    influ&ecirc;ncia dos processos da &laquo;Madame Bovary&raquo; e da &laquo;Educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Sentimental&raquo; de Gustavo Flaubert.<\/p>\n<p> Pouco depois  em 1871  E&ccedil;a de Queir&oacute;s descrevia,<br \/>\n    suma das Confer&ecirc;ncias Democr&aacute;ticas do Casino, o Realismo na Arte,<br \/>\n    expondo as ideias praticadas por Flaubert e Courbet, e teoricamente descritas,<br \/>\n    por Proudhon, no livro &laquo;Do Principio da Arte e do Seu Destino Social&raquo;.<\/p>\n<p> O fim da Arte foi, doutrinalmente, desde ent&atilde;o, para E&ccedil;a de<br \/>\n    Queir&oacute;s, a reprodu&ccedil;&atilde;o exacta da Natureza, da realidade,<br \/>\n    impessoal, impass&iacute;vel. A interven&ccedil;&atilde;o da ironia[36] representa<br \/>\n    a forma superior, a &uacute;nica forma admiss&iacute;vel da opini&atilde;o<br \/>\n    do artista se manifestar, e a correc&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria para<br \/>\n    qualquer excesso de sentimento.<\/p>\n<p> Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reuni&atilde;o em volume dos<br \/>\n    antigos &laquo;Contos Fant&aacute;sticos&raquo; da &laquo;Gazeta de Portugal&raquo;<br \/>\n    e lhe reli, se n&atilde;o me engano, &laquo;As Mem&oacute;rias de Uma Forca&raquo;,<br \/>\n    de que se havia quase esquecido[37] .<\/p>\n<p> Ao ouvir a sua obra primitiva, E&ccedil;a de Queir&oacute;s soltava gargalhadas<br \/>\n    sarc&aacute;sticos, gritos de indigna&ccedil;&atilde;o contra as imagens,<br \/>\n    os assuntos, o estilo: n&atilde;o compreendia como pudesse ter escrito assim,<br \/>\n    t&atilde;o pessoalmente, t&atilde;o apaixonadamente, t&atilde;o vagamente,<br \/>\n    com tanto desleixo  berrava ele  na cria&ccedil;&atilde;o das<br \/>\n    imagens. na constru&ccedil;&atilde;o da frase e no emprego dos voc&aacute;bulos.<\/p>\n<p> Mas depois de uma longa discuss&atilde;o concluiu dizendo-me:  Tens<br \/>\n    talvez raz&atilde;o, com eleito  est&aacute; claro, tens raz&atilde;o<br \/>\n    Talvez se deva republicar. isso em livro.  E acrescentou muito grave:<br \/>\n     Mas sob o titulo cr&iacute;tico e severo de &laquo;Prosas B&aacute;rbaras&raquo;.<\/p>\n<p> N&atilde;o pertence a esta &laquo;Introdu&ccedil;&atilde;o&raquo; descrever<br \/>\n    as subsequentes fases do desenvolvimento est&eacute;tico e da obra liter&aacute;ria<br \/>\n    de E&ccedil;a de Queir&oacute;s, e eu devo resistir &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de demonstrar aqui como ele foi um dos artistas mais eminentes da Literatura<br \/>\n    portuguesa de todos os tempos  e de todas as Literaturas, nos &uacute;ltimos<br \/>\n    anos do s&eacute;culo XIX.<\/p>\n<p> Juntarei ainda, apenas, uma &uacute;ltima recorda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Eu lamentara sempre que E&ccedil;a de Queir&oacute;s houvesse abandonado<br \/>\n    o mundo de cria&ccedil;&otilde;es fant&aacute;sticas onde a sua imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o maravilhosamente vivera algum tempo.<\/p>\n<p> Um dia, no Ver&atilde;o de 1891, estava o E&ccedil;a de Queir&oacute;s em<br \/>\n    minha casa  por esse tempo, em Vaucresson, numa clareira da floresta<br \/>\n    de Saint-Cloud, n&atilde;o longe de Paris.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, passeando sob as &aacute;rvores do maci&ccedil;o de alto furte<br \/>\n    que rodeio os lagos rom&acirc;nticos de Saint-Cucufas, contou-me ele: &laquo;Saber&aacute;s,<br \/>\n    porventura com satisfa&ccedil;&atilde;o, que estou seguindo o teu antigo conselho:<br \/>\n    enevoei-me outra vez, totalmente, no fant&aacute;stico  quase naquele<br \/>\n    velho fant&aacute;stico da Gazeta de Portugal, feito agora com menos abutres,<br \/>\n    e em prosa talvez menos barbara que a desses long&iacute;nquos tempos: estou<br \/>\n    escrevendo a vida diab&oacute;lico e milagrosa de S.<\/p>\n<p> Frei Gil. E por sinal  dir-to-ei agora aqui. quando justamente nos<br \/>\n    achamos sob os arvoredos  que a nossa riqu&iacute;ssima l&iacute;ngua<br \/>\n    portuguesa me parece deficiente em cores com que se pintem selvas; e tamb&eacute;m<br \/>\n    te confiarei que. tendo metido, por minhas pr&oacute;prias m&atilde;os, o<br \/>\n    santo bruxo numa floresta, n&atilde;o sei como o hei-de tirar de l&aacute;.&raquo;<br \/>\n    Sintra, Setembro de 1903.<\/p>\n<p> Jaime Batalha Reis.<\/p>\n<p> NOTAS MARGINAIS &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. deste lado do rio &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    o namorado, E a mo&ccedil;a dos olhos pretos &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. do outro<br \/>\n    lado.<\/p>\n<p> Mas o rio era profundo, N&atilde;o se podiam juntar.<\/p>\n<p> Nunca o Sol encontra a Lua.<\/p>\n<p> Tal andava aquele par.<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. flores &#8230; &agrave; &aacute;gua iam dar: &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    os beijos Ficavam todos no ar.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p> Disse adeus ao namorado: E foi &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230; bandas do povoado.<\/p>\n<p> Ele ficou amarelo, Como a vela de um altar.<\/p>\n<p> Mas se o rio &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p> N&atilde;o se podiam juntar.<\/p>\n<p> Anoiteceu &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p> Por ali andou penando.<\/p>\n<p> E por fim lan&ccedil;ou-se ao rio, E o rio &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p> Mas as flores foram prender-se Nas suas m&atilde;os cor de cera.<\/p>\n<p> Na margem do papel marcado, onde se viam ainda estes restos de uma velha<br \/>\n    cantiga, algu&eacute;m escreveu estas notas desordenadas e bizarras.<\/p>\n<p> I &Oacute; doce cantiga dos namorados da beira do rio, tu &eacute;s uma<br \/>\n    verdade sempre nova! Ainda hoje o triste anda penando nas &aacute;guas escuras;<br \/>\n    e os teus olhos, &oacute; serena rapariga, s&atilde;o eternamente falsos!<br \/>\n    N&atilde;o era assim que eu pensava no tempo daqueles nossos amores, &oacute;<br \/>\n    nome que eu n&atilde;o escrevo!, daqueles amores t&atilde;o doces, como a<br \/>\n    suavidade das nossas noites de Outono  t&atilde;o coloridos e vagos<br \/>\n    como aquelas nuvens, que sempre no ar and&aacute;vamos formando e.<\/p>\n<p> desmanchando! II &Oacute; voluptuosidade!, tu &eacute;s a imagem do oceano<br \/>\n    nos teus caprichos. Ora te embalas docemente dourada com os &uacute;ltimos<br \/>\n    raios do Sol; depois dormes tranquila aos calores silenciosos: por fim agitas-te<br \/>\n    cheia de tempestades.<\/p>\n<p> III E quando eu te via, n&atilde;o via mais as flores, nem as pombas, nem<br \/>\n    as estrelas: mas quando pensava em ti, via-te delicada como todas as flores,<br \/>\n    voluptuosa como todas as pombas, luminosa como todas as estrelas.<\/p>\n<p> IV &Aacute;s vezes, solit&aacute;rio e silencioso, via passar na sombra,<br \/>\n    diante de mim, como uma legi&atilde;o de inspira&ccedil;&otilde;es raps&oacute;dicas,<br \/>\n    os teus olhos h&uacute;midos, como violetas debaixo de &aacute;gua<br \/>\n    depois os teus bra&ccedil;os da cor do m&aacute;rmore  depois os teus<br \/>\n    cabelos negros e flutuantes&#8230;<\/p>\n<p> Enfim sobre um fundo maravilhoso tu aparecias superiormente serena, perfeita<br \/>\n    e luminosa! V De cada um dos teus desejos nascia uma flor.<\/p>\n<p> E os meus suspiros, como a aragem serena da tarde, embalavam docemente aquelas<br \/>\n    flores virginais.<\/p>\n<p> E as flores cresciam, cresciam at&eacute; se tornarem magn&oacute;lias grandes<br \/>\n     o vento tomava-as pregui&ccedil;osamente pela haste  e elas,<br \/>\n    inclinando os seus rostos p&aacute;lidos, contavam-lhe os perfumes de mais<br \/>\n    segredo.<\/p>\n<p> E as magn&oacute;lias iam crescendo at&eacute; se tornarem numa &aacute;rvore<br \/>\n    imensa. Ent&atilde;o o vento enroscavase pelo tronco, pendurava-se nos ramos<br \/>\n    e espalmava-se nas folhas sonoras.<\/p>\n<p> E ent&atilde;o a &aacute;rvore estremecia, como num sonho agitado<br \/>\n    depois adormecia  e dava em redor uma sombra serena e Consoladora.<\/p>\n<p> VI Quando te vejo, despertam no meu pobre cora&ccedil;&atilde;o as melodias<br \/>\n    e as doces melancolias de amor, como na Primavera se reanimam as aves e desabrocham<br \/>\n    as violetas.<\/p>\n<p> Quando me falas, tudo se alumia com constela&ccedil;&otilde;es apaixonadas,<br \/>\n    e parece que passam dentro de mim todos os aromas das magn&oacute;lias.<\/p>\n<p> Mas se me dizes que me queres muito, sinto que vem logo um estranho Inverno<br \/>\n    descorar-me as faces, desfolhar-me a alma de todas as emo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e cobrir de geada todos os loucos desejos.<\/p>\n<p> Oh!, nunca me digas que me queres muito! VII Tua irm&atilde; &eacute; carinhosa,<br \/>\n    e doce, e meiga, e casta, e consoladora..<\/p>\n<p> Tu &eacute;s altiva, e inquieta, e desdenhosa.<\/p>\n<p> Tua irm&atilde;!&#8230; Mas se ela n&atilde;o tem o timbre suave da tua voz,<br \/>\n    o luminoso fulgor dos teus olhos, a cor mimosa dos teus cabelos! Mas se ningu&eacute;m<br \/>\n    tem a santa, a purificadora brancura da tua fronte! VIII Os teus olhos negros<br \/>\n    s&atilde;o como duas flores do mal. Os seus olhos azuis s&atilde;o como duas<br \/>\n    doces elegias.<\/p>\n<p> E a flor do loto, a apaixonada e inteligente flor do loto, somente se abre<br \/>\n    &agrave; do&ccedil;ura imensa da Lua! IX Oh!, minha bem-amada!, eu j&aacute;<br \/>\n    vi os teus olhos brilharem dolorosamente, como duas estrelas negras da melancolia:<br \/>\n    tinhas tu ent&atilde;o rasgado um v&eacute;u cor de papoula; que te cobra.<\/p>\n<p> X Tu estavas na igreja, curvada, e perdida nas tuas ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    como uma fidalga espanhola.<\/p>\n<p> Tinhas um olhar velado e piedoso  um olhar que s&oacute; dizia<br \/>\n    Jesus! Mas nos l&aacute;bios tinhas um colorido aveludado e luminoso, como<br \/>\n    o das flores vermelhas metidas na &aacute;gua; e na linha de sombra dos teus<br \/>\n    l&aacute;bios corria um sorriso, que s&oacute; dizia  Amor! Talvez<br \/>\n    um dia ainda te encontre na igreja. Somente, ent&atilde;o. os teus l&aacute;bios<br \/>\n    estar&atilde;o descorados como a fadiga e t&iacute;midos como o arrependimento.<br \/>\n    Somente ent&atilde;o os teus olhos estar&atilde;o fixos como os dos esfomeados;<br \/>\n    e ter&atilde;o aquela luz desejosa e &aacute;vida que t&ecirc;m as estrelas.<\/p>\n<p> XI Foi debaixo das &aacute;rvores. Voavam as pombas brancas. Das l&aacute;grimas<br \/>\n    das folhas nasciam as violetas. Os castanheiros, grandes e concentrados, ouviam<br \/>\n    subir a seiva.<\/p>\n<p> Foi l&aacute; que me disseste aquelas palavras, que me pareceram uma blasf&eacute;mia<br \/>\n    que te vinha do cora&ccedil;&atilde;o. Eu fiquei hirto e nulo. como um sacerdote<br \/>\n    esbofeteado pelo seu Deus! XII Eu tinha todo o corpo coberto de l&aacute;grimas,<br \/>\n    e ela compunha as pregas do seu vestido! As vezes o grande mar embala-se pregui&ccedil;oso,<br \/>\n    enquanto as ondas pequenas  as pobres ondas  solu&ccedil;am<br \/>\n    e choram sobre a areia.<\/p>\n<p> XIII Houve um tempo em que andavam exiladas dos lugares humanos as est&aacute;tuas,<br \/>\n    que tinham feito a legenda da beleza antiga. Eram de m&aacute;rmore p&aacute;lido,<br \/>\n    e a sua nudez era. doce, melodiosa e velada.<\/p>\n<p> Outrora, no tempo dos id&iacute;lios divinos, quando ainda vivia o grande<br \/>\n    P&atilde;, e havia deuses debaixo das estrelas elas viviam entre os jogos,<br \/>\n    as coreias, e todas as flores do bem: brancas, como as espumas i&oacute;nias;<br \/>\n    serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.<\/p>\n<p> Agora andavam perseguidas, e errantes pelas florestas sonoras, e envolvidas<br \/>\n    na consola&ccedil;&atilde;o imensa, que sai do canto das aves e da humidade<br \/>\n    das plantas.<\/p>\n<p> As vezes um cavaleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades de ouro<br \/>\n    e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de languidez e de tristeza, evocada pela m&uacute;sica das ramagens. E se<br \/>\n    ele por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e aveludados<br \/>\n    dos olhos de m&aacute;rmore, ao outro dia os caminheiros, os que v&atilde;o<br \/>\n    de noite cantando &agrave; mole claridade das estrelas, encontravam, junto<br \/>\n    das grandes &aacute;rvores pensadoras, um corpo inanimado e l&iacute;vido,<br \/>\n    como aquelas crian&ccedil;as das legendas, a quem as bruxas chupam o sangue!<br \/>\n    Esta hist&oacute;ria &eacute; de h&aacute; seiscentos anos, e de ontem &agrave;<br \/>\n    noite.<\/p>\n<p> XIV Por fim, tu eras simplesmente uma alma pregui&ccedil;osa e uma pele<br \/>\n    macia.<\/p>\n<p> Todos os teus pensamentos se moviam numa com&eacute;dia bizarra e solta.<\/p>\n<p> Abafavas burguesmente a m&uacute;sica do teu corpo em xales pesados e largas<br \/>\n    saias; e a seda dos teus vestidos tinha um fr&eacute;mito indefinido de sarabanda<br \/>\n    e de cachucha.<\/p>\n<p> XV Eu andava perdido pela floresta escura e sonora. As estrelas, como grandes<br \/>\n    olhos curiosos, espreitavam atrav&eacute;s da folhagem. Eu era o tenebroso,<br \/>\n    o inconsol&aacute;vel, o vi&uacute;vo.<\/p>\n<p> Errava pela floresta e a espa&ccedil;os cantava uma can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    vagamente triste como o sussurro dos ciprestes  depois dizia palavras<br \/>\n    iradas e &aacute;speras como os cardos  e mais adiante uma ora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    indefinida enchia-me todo o cora&ccedil;&atilde;o, e saia-me pelos l&aacute;bios,<br \/>\n    como uma a&ccedil;ucena branca, que se abre dentro de um copo e que o enche.<\/p>\n<p> E por cima de mim, &oacute; meus amigos!, &oacute; minha bem-amada!, os<br \/>\n    ramos estendiam-se para os mil e mil pontos do infinito, como para mostrar<br \/>\n    &agrave;s cantigas, &agrave;s iras e as ora&ccedil;&otilde;es todos os caminhos<br \/>\n    do c&eacute;u.<\/p>\n<p> XVI Tu pensavas que o teu amor me envolvia molemente como um largo vestido<br \/>\n    de seda, todo forrado de arminhos.<\/p>\n<p> E um dia, &oacute; minha bem-amada de cabelos cor de amora., vieste despir-mo<br \/>\n    de golpe, com um rosto colorido de risos.<\/p>\n<p> Mas o vestido estava colado ao corpo  vinte vezes colado ao corpo;<br \/>\n    e t&atilde;o rapidamente o tiraste, que me rasgou peda&ccedil;os de carne,<br \/>\n    e levou-me jorros de sangue, e arrancou-me os cabelos, e deixou-me, &oacute;<br \/>\n    minha bem-amada de bra&ccedil;os de a&ccedil;o!, como uma forma longa, vermelha<br \/>\n    e indefinida! XVII Quando te amava, e pensava em ti, via-te soberba como o<br \/>\n    mundo, e eras para mim a terra, o c&eacute;u e o mar. Agora vejo que tinha<br \/>\n    raz&atilde;o; porque &eacute;s t&atilde;o v&aacute;ria como o c&eacute;u,<br \/>\n    t&atilde;o. fria como o mar, t&atilde;o dissoluta como a terra.<\/p>\n<p> XVIII Eu abri aquele cora&ccedil;&atilde;o, que era delicado, pequeno e<br \/>\n    feminino. Descobri l&aacute; dentro vagamente uma floresta medonha, que se<br \/>\n    debatia e rugia, como uma multid&atilde;o de doidos sinistros, todos vestidos<br \/>\n    de ramos e de folhas; na sombra andavam os olhos redondos e famintos dos lobos:<br \/>\n    por cima da folhagem mugidora esvoa&ccedil;ava, balou&ccedil;ada por ventos<br \/>\n    imensos, uma confus&atilde;o de sombras, que uivavam e se arrepelavam, e rasgavam<br \/>\n    com os ossos dos cotovelos as carnes moles, e lambiam o sangue que escorria<br \/>\n    das &oacute;rbitas sem olhos, e davam beijos selvagens, enroscadas e desfalecidas<br \/>\n    em voluptuosidades mais m&oacute;rbidas do que os orvalhos da Lua.<\/p>\n<p> Depois fixei o cora&ccedil;&atilde;o da minha bem-amada, e vi-o outra vez<br \/>\n    delicado, pequeno e feminino  e t&atilde;o feminino, t&atilde;o pequeno<br \/>\n    e t&atilde;o delicado que lhe dei um beijo! XIX Eu ia para baixo dos arvoredos,<br \/>\n    para junto dos rios, e olhava para as nuvens.<\/p>\n<p> Tudo me parecia despovoado, e apenas como a sombra de uma vida distante.<\/p>\n<p> Outrora, &oacute; lendas de encantos e de amores!, &oacute; rondas a&eacute;reas<br \/>\n    das fixes por entre a m&uacute;sica dos canaviais!, &oacute; ondinas h&uacute;midas!,<br \/>\n    &oacute; dan&ccedil;as nebulosas das willis! &oacute; esp&iacute;ritos gentis<br \/>\n    e vaporosos, que and&aacute;veis nos aromas das violetas!, &oacute; elfos<br \/>\n    pequenos. que adormec&iacute;eis dentro do c&aacute;lice dos l&iacute;rios<br \/>\n    brancos, embalados como num ber&ccedil;o!, &Oacute; doces e enganadoras criaturas<br \/>\n    que povo&aacute;veis e alumi&aacute;veis tudo como estrelas rom&acirc;nticas!<br \/>\n    Os rios, o c&eacute;u e os arvoredos encobriam-vos, &oacute; invis&iacute;veis!,<br \/>\n    mas como um tecido fino, que deixa passar todos os aromas e todas as cores.<\/p>\n<p> E agora os rios, o c&eacute;u e os arvoredos est&atilde;o desertos.<\/p>\n<p> Os arvoredos s&oacute; contam, como velhos palradores, hist&oacute;rias<br \/>\n    de gigantes, loucas legendas de combates, e feiti&ccedil;os, e as aventuras<br \/>\n    das filhas da folhagem.<\/p>\n<p> O c&eacute;u tem apenas nuvens, que eram lentas e pesadas como os pensamentos<br \/>\n    s&eacute;rios de um cr&acirc;nio imenso.<\/p>\n<p> Os rios v&atilde;o sempre cantando, e fugindo, como os amores da mulher.<\/p>\n<p> XX Andamos todos sofrendo. Passamos lentos, desconsolados, e alumiados pelo<br \/>\n    sol negro da melancolia. Nem largos risos, nem b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os<br \/>\n    fecundas. A esperan&ccedil;a fugiu para al&eacute;m das estrelas, das nuvens<br \/>\n    e dos caminhos l&aacute;cteos. Nos cora&ccedil;&otilde;es nascem amores imensos<br \/>\n    e loucos.<\/p>\n<p> E tudo porque um dia nasceu uma crian&ccedil;a estranha, que foi alimentada<br \/>\n    com um leite m&oacute;rbido como a Lua, e envolta numa t&uacute;nica l&iacute;vida<br \/>\n    como a morte! XXI Onde estar&aacute; ela agora  a minha bem-amada,<br \/>\n    aquela Crian&ccedil;a de olhar profundo? Era naquelas almofadas que ela se<br \/>\n    recostava: era por ali que ela passava, e as flores do tapete, sob a press&atilde;o<br \/>\n    dos seus p&eacute;s, viviam e perfumavam.<\/p>\n<p> A p&eacute;!, a p&eacute;!. meus desejos! Acordai, acordai, e ide buscar-ma!<br \/>\n    Acendei todas as estrelas, e ide procur&aacute;-la pelos caminhos escuros!<br \/>\n    Desgrenhai os cabelos verdes das florestas! Assoprai a espuma das ondas! Dispersai<br \/>\n    as multid&otilde;es! Quebrai os encantos!.<\/p>\n<p> Ide procur&aacute;-la pelos astros! Despeda&ccedil;ai as tendas a&eacute;reas,<br \/>\n    onde vivem os sonhos! Ide, ide, &oacute; meus desejos todos! Eu ficarei esperando,<br \/>\n    solit&aacute;rio e silencioso, como um pombal donde fugiram todas as pombas.<\/p>\n<p> XXII &laquo;Perdi a minha bem-amada, e todo o c&eacute;u est&aacute; negro,<br \/>\n    e n&atilde;o h&aacute; estrelas que me consolem! S&oacute; resta morrer.&raquo;<br \/>\n    E o corpo diz &agrave; alma: &laquo;Adeus para sempre! &Oacute; exilada divina,<br \/>\n    tu vais morrer!, &oacute; flor dos sonhos, tu vais desfazer-te com todos os<br \/>\n    teus aromas! Lembras-te, filha, como eu velava por ti! Eu andava p&aacute;lido<br \/>\n    e triste quando tu sofrias; e, quando te alegravas, andava corado e vestido<br \/>\n    de risos. As vezes tu deixavas-me e subias serenamente a torre esguia de marfim,<br \/>\n    onde habita o ideal; e eu, em baixo, esperava sem olhar, sem voz e sem movimento;<br \/>\n    e quando descias iluminada e s&eacute;ria, eu escondia-te voluptuosamente<br \/>\n     tu, santa, tu, purificada! E agora vais morrer; e nunca mais te verei,<br \/>\n    &oacute; minha vaporosa filha! Eu vou andar errante perdido no mundo, por<br \/>\n    entre a mat&eacute;ria enorme. Vou andar nas &aacute;rvores e nos astros,<br \/>\n    nas escamas dos peixes e na luz dos cometas; nas rosas e nos olhos das mulheres<br \/>\n    lascivas.<\/p>\n<p> Vou talvez cobrir as maiores tristezas vivas, ser a folhagem dos ciprestes,<br \/>\n    e o farrapo dos mendigos! E tu vais sumir-te, &oacute; alma doce e dolorosa!.<\/p>\n<p> E a alma diz ao corpo: &laquo;N&atilde;o chores. Devia ser assim. Tu &eacute;s<br \/>\n    s&atilde;o e forte: eu sou delicada, indefinida, dolente. Adeus; e perdoa-me.<br \/>\n    Fui desdenhosa contigo. Queria ver-te frio e mudo. Queria que fugisses daquelas<br \/>\n    molezas, que s&atilde;o feitas da voz perdida das sereias. As vezes queria,<br \/>\n    na minha ideal seriedade, que te desfizesses em orvalho e p&oacute;. para<br \/>\n    eu poder ir fundir-me na minha imensa alma de luz. Mandava todos os meus desejos<br \/>\n    para aquele para&iacute;so de sombras, onde anda a alma de Of&eacute;lia.<\/p>\n<p> E quantas vezes. &oacute; meu corpo bem-amado, eu n&atilde;o seduzi os teus<br \/>\n    olhos a que seguissem as viagens imensas das estrelas! Ent&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    sabia ainda que havia de cair e desfazer-me, como uma gota de &aacute;gua!<br \/>\n    Adeus! Em breve n&atilde;o te lembrar&aacute;s mais de mim.<\/p>\n<p> H&aacute;-de nascer-te uma outra filha, e depois outra, e outra. E tu h&aacute;s-de<br \/>\n    estreit&aacute;-las apertadamente. ou ela se chame alma como eu  ou<br \/>\n    ent&atilde;o se chame aroma  ou ent&atilde;o se chame Som.<\/p>\n<p> Adeus! Escuta. Se nas tuas peregrina&ccedil;&otilde;es atrav&eacute;s da<br \/>\n    mat&eacute;ria encontrares os &aacute;tomos daquela que eu tanto amem, n&atilde;o<br \/>\n    te juntes com eles; porque se vos juntardes no c&aacute;lice de uma flor,<br \/>\n    a flor h&aacute;-de mirrar-se; se for na luz de uma estrela, a estrela h&aacute;-de<br \/>\n    apagar-se: se for nas &aacute;guas, o mar h&aacute;-de gelar-se&#8230;.<\/p>\n<p> SINFONIA DA ABERTURA VIAGENS DOS DEUSES  A SUA COMPANHEIRA LUTERO<br \/>\n     RENASCEN&Ccedil;A  A ALMA GERA&Ccedil;&Atilde;O NERVOSA<br \/>\n    A M&Uacute;SICA  D. JUAN AS &Oacute;PERAS  OS ITALIANOS E OS<br \/>\n    ALEM&Atilde;ES O QUADRIL&Aacute;TERO Eu ontem pensava nas viagens imensas<br \/>\n    que os deuses t&ecirc;m feito desde o tempo de Elora, onde andavam ferozes<br \/>\n    por entre os elefantes sagrados, at&eacute; &agrave; cruz de Jesus, onde um<br \/>\n    rouxinol veio pousar cantando de amor e de ang&uacute;stias de amor. Foram<br \/>\n    desde a mat&eacute;ria negra e enorme at&eacute; &agrave;s serenidades vivas,<br \/>\n    para al&eacute;m das nuvens, das estrelas e dos caminhos l&aacute;cteos.<\/p>\n<p> Esta coorte imensa dos deuses vinda do fim do Oriente teve sempre uma companheira<br \/>\n    cheia de servilidades e de amores  a Arte.<\/p>\n<p> Ao princ&iacute;pio, na &Iacute;ndia, quando eles andavam pesados de mat&eacute;ria<br \/>\n    entre as fatalidades violentas, ela abria-lhes nas montanhas templos onde<br \/>\n    corriam rebanhos de touros. Depois no Egipto, quando eles choravam de desejos<br \/>\n    lascivos, e se desfaziam em &aacute;guas espumantes de fecunda&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ela edificava-lhes arquitecturas l&iacute;vidas e frias como os horizontes<br \/>\n    do Nilo; e por entre as esfinges que dormem com os olhos abertos &agrave;s<br \/>\n    poeiras, pir&acirc;mides onde escrevia num misterioso encruzilhamento de linhas<br \/>\n    os velhos segredos do fatalismo.<\/p>\n<p> Depois na Gr&eacute;cia, quando eles plantaram tendas debaixo das estrelas,<br \/>\n    e fizeram os Olimpos todos sonoros de risos, ela ergueu na luz os templos<br \/>\n    harmoniosos e serenos e formou com os doces esplendores do m&aacute;rmore<br \/>\n    os corpos melodiosos que fizeram a lenda da beleza antiga: e assim, com aquelas<br \/>\n    atitudes ideais, escreveu a &laquo;Il&iacute;ada&raquo; da harmonia, da gra&ccedil;a<br \/>\n    e da luz. Por fim, quando eles subiram para as regi&otilde;es onde as estrelas<br \/>\n    s&atilde;o gotas de sombra, ela fez os templos g&oacute;ticos, deu &agrave;<br \/>\n    pedra todas as aspira&ccedil;&otilde;es do espiritualismo, &agrave; pedra,<br \/>\n    que se abriu em transpar&ecirc;ncias e transfigura&ccedil;&otilde;es, como<br \/>\n    se quisesse ser no espa&ccedil;o a morada suspensa dos esp&iacute;ritos.<\/p>\n<p> Depois na imagem pintada tirava ao seio, aos bra&ccedil;os, &agrave; carne<br \/>\n    toda a vitalidade, para a colocar no olhar, que assim mais forte e mais vivo<br \/>\n    pudesse chegar l&aacute; a cima at&eacute; aos meus deuses queridos.<\/p>\n<p> Por fim, com a sua ideal seriedade, libertou-se dos contornos, e dos coloridos,<br \/>\n    e das gravidades, dissipou-se nos amolecimentos divinos, e apaixonada e l&iacute;rica<br \/>\n     dispersou-se em sons; e assim nasceu a m&uacute;sica.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o p&ocirc;de livremente unir-se l&aacute; em cima aos companheiros<br \/>\n    da sua trabalhosa odisseia.<\/p>\n<p> Esta transfigura&ccedil;&atilde;o da Arte foi na Alemanha. Quando veio Lutero.<br \/>\n    Nesses tempos a alma alem&atilde;, que estava na lei cat&oacute;lica como<br \/>\n    numa solid&atilde;o l&iacute;vida, desfalecia naquelas melancolias imensas<br \/>\n    que Alberto D&uuml;rer revelou.<\/p>\n<p> Nem ao menos se podia refugiar na grande Natureza sonora, e embalar-se nas<br \/>\n    consola&ccedil;&otilde;es vivas, cheias de mel, de frescura e de s&oacute;is.<br \/>\n    A Igreja condenava os arvoredos, as devezas, as efloresc&ecirc;ncias, as verduras<br \/>\n     todas aquelas vidas, verdes, louras e espl&ecirc;ndidas, como as formas<br \/>\n    do mal em que o Diabo era vis&iacute;vel. Naquele tempo de terror, o carvalho<br \/>\n    era um espectro, e a flor uma macula&ccedil;&atilde;o. E a alma, para ficar<br \/>\n    pura, devia passar na vida sem ouvir a voz docemente profunda da velha Natureza<br \/>\n     voz que o catolicismo dizia terr&iacute;vel como a das antigas sereias.<\/p>\n<p> Assim a alma alem&atilde; tinha toda a sorte de penumbras, de desfalecimentos,<br \/>\n    de p&aacute;lidos sil&ecirc;ncios, que se exalaram divinamente no canto..<\/p>\n<p> Lutero concorreu para este al&iacute;vio divino e livre da alma germ&acirc;nica,<br \/>\n    libertando a m&uacute;sica.<\/p>\n<p> A meiga consoladora tivera sempre at&eacute; a&iacute; uma atitude hier&aacute;tica:<br \/>\n    havia s&oacute; salmos, c&acirc;nticos e vers&iacute;culos segundo o rito<br \/>\n    lit&uacute;rgico: era a velha melopeia grega esfarrapada pelas asperezas do<br \/>\n    latim dos vers&iacute;culos.<\/p>\n<p> Palestrina, Allegri, Pergolesi foram apenas reveladores de madrigais ser&aacute;ficos<br \/>\n    e de subtilezas eucar&iacute;sticas. Ela estava envolta no dogma, vestida<br \/>\n    de latim, embara&ccedil;ada de dificuldades, presa, como uma est&aacute;tua,<br \/>\n    nas escuridades do santu&aacute;rio.<\/p>\n<p> Lutero tomou aquela bela e fria est&aacute;tua, despiu-a do latim, desprendeu-a<br \/>\n    das subtilezas, desligou-lhe os bra&ccedil;os descamados, tirou-a do santu&aacute;rio,<br \/>\n    levou-a para o ar livre  para as largas palpita&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    E a est&aacute;tua delicada, rosada, meiga, consoladora, tomou pela m&atilde;o<br \/>\n    a triste Alemanha e levou-a como a Beatriz m&iacute;stica pela orla das moradas<br \/>\n    santas.<\/p>\n<p> Foi o momento de lirismo e de paix&atilde;o da Reforma. Aqueles bra&ccedil;os<br \/>\n    que se tinham erguido por entre as constela&ccedil;&otilde;es ca&iacute;ram<br \/>\n    logo como asas molhadas. A m&uacute;sica teve um momento o rosto aceso nas<br \/>\n    ilumina&ccedil;&otilde;es divinas, mas ficou de novo fria, hier&aacute;tica<br \/>\n     m&aacute;rmore p&aacute;lido.<\/p>\n<p> A m&uacute;sica que &eacute; a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte sumiu-se<br \/>\n    com a aproxima&ccedil;&atilde;o da Renascen&ccedil;a, que vinha cheia de rebeli&otilde;es<br \/>\n    da carne.<\/p>\n<p> A Reforma tinha sido feita em nome do idealismo, em nome da alma escarnecida:<br \/>\n    a Europa tinha-se esquecido da alma, da pureza, das castidades, do olhar da<br \/>\n    Virgem cor de violeta; ela caminhava nas p&uacute;rpuras e nas fulgura&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    seguida das pombas lascivas, com as brancas nudezas cobertas de veludos, escutando<br \/>\n    os contos da rainha de Navana, acompanhando em serenata profana as cantigas<br \/>\n    de Ariosto, entre os m&aacute;rmores frescos e os seios macios, desfalecida<br \/>\n    nas molezas da carne.<\/p>\n<p> O magro Martinho Lutero veio bradar em nome da alma, contra as p&uacute;rpuras<br \/>\n    daquele p&aacute;lido paganismo.<\/p>\n<p> E a Europa assustou-se: os papas tomaram atitudes severas e l&iacute;vidas;<br \/>\n    e voltou-se a Deus como no tempo de Dante. Foi moment&acirc;neo este puritanismo<br \/>\n    da velha Europa. O sensualismo tinha visto pela primeira vez a Igreja, sua<br \/>\n    velha inimiga, tremer, e encaminhou-se feroz com as vingan&ccedil;as da carne.<\/p>\n<p> A Renascen&ccedil;a vinha depois daquelas l&iacute;vidas castidades g&oacute;ticas,<br \/>\n    dos jejuns transparentes, das faces maceradas, daquelas chagas roxas de Cristo.<br \/>\n    Vinha com toda a sorte de livres palpita&ccedil;&otilde;es e de rebeli&otilde;es<br \/>\n    soberbas. Vinha cheia da Natureza e em nome dela; sentiam-se-lhe as sonoridades<br \/>\n    e os acres cheiros das florestas, e as vivas humidades dos mares. A carne<br \/>\n    ia aparecendo, tremenda, Jo&atilde;o de Leyde ressonava de noite, cansado<br \/>\n    de gulas, entre as suas catorze mulheres: come&ccedil;ava a surgir o ventre<br \/>\n    imenso de Garg&acirc;ntua: sentiam-se fumegar as bodas de Gamacho; e para<br \/>\n    as bandas do Norte j&aacute; se ouvia o riso do velho Falstaff.<\/p>\n<p> A atmosfera da Renascen&ccedil;a, pesada de aromas fortes e de sensualidade,<br \/>\n    das vapora&ccedil;&otilde;es da languidez, n&atilde;o podia conservar a vitalidade<br \/>\n    &agrave;quela vaga Of&eacute;lia, que se chama a m&uacute;sica.<\/p>\n<p> A &eacute;poca da m&uacute;sica ainda n&atilde;o tinha vindo: a Arte &eacute;<br \/>\n    como a vegeta&ccedil;&atilde;o  s&oacute; cresce, s&oacute; tem coloridos<br \/>\n    e sombras e repousos dadas certas circunst&acirc;ncias de vitalidade: mas<br \/>\n    dadas essas condi&ccedil;&otilde;es, ela nasce espontaneamente, e vem ent&atilde;o<br \/>\n    cheia da alma dessa &eacute;poca, da sua intelig&ecirc;ncia, da sua f&eacute;,<br \/>\n    das suas tristezas, das suas desesperan&ccedil;as. A m&uacute;sica, toda alma,<br \/>\n    n&atilde;o achou essas condi&ccedil;&otilde;es na Renascen&ccedil;a, toda<br \/>\n    carne. A nossa &eacute;poca &eacute; que devia produzir a m&uacute;sica como<br \/>\n    a Gr&eacute;cia produziu a escultura, como a Europa g&oacute;tica a arquitectura<br \/>\n    e a era das monarquias e das academias a trag&eacute;dia raciniana..<\/p>\n<p> Com efeito, nunca, como neste tempo, as profundidades da alma, cavadas e<br \/>\n    alargadas pelas revolu&ccedil;&otilde;es, estiveram t&atilde;o fundas e t&atilde;o<br \/>\n    ilimitadas. Durante a lei cat&oacute;lica e os embrutecimentos mon&aacute;rquicos,<br \/>\n    a alma movia-se lenta como o mar, unida, calma, pesada, opaca e coberta de<br \/>\n    brumas. De repente as revolu&ccedil;&otilde;es passaram pela noite sacudindo<br \/>\n    os seus fachos severos, donde saltavam constela&ccedil;&otilde;es. A alma<br \/>\n    alumiou-se entre repel&otilde;es brutais: iluminaram-se longes surpreendentes:<br \/>\n    houve um desencadeamento de brados, de vontades, de viol&ecirc;ncias: daquela<br \/>\n    claridade viva sa&iacute;am desejos, sentimentos, paix&otilde;es, amores,<br \/>\n    imagina&ccedil;&otilde;es, epopeias nos livres turbilh&otilde;es. Toda a sombra<br \/>\n    se ia retirando da alma, em amontoa&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas e cobardes,<br \/>\n    com o ru&iacute;do distante de um desabamento de bastilhas. Era uma ressurrei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais cheia de seiva e de viol&ecirc;ncia que a vida flamejante das constela&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que a vida desvairada dos mares. Sa&iacute;am daquelas profundidades santas,<br \/>\n    como evapora&ccedil;&otilde;es de luz, as criticas, as hist&oacute;rias, as<br \/>\n    filosofias, as medicinas, as qu&iacute;micas, as imagina&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    os dramas, toda uma vegeta&ccedil;&atilde;o divina.<\/p>\n<p> A alma come&ccedil;ou a entrever cimos luminosos, erguidos por entre os<br \/>\n    astros, que se chamavam Homero, &Eacute;squilo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais,<br \/>\n    Cervantes e Shakespeare. A alma queria subir &agrave;queles escarpamentos<br \/>\n    divinos, para colher a pequena flor do ideal. Fia via moverem-se ali mil figuras,<br \/>\n    voluptuosas e sinistras. disformes. ir&oacute;nicas, apaixonadas, ciosas e<br \/>\n    l&iacute;vidas: e nas claridades e nos c&iacute;rculos de um vento divino<br \/>\n    subirem por entre as irradia&ccedil;&otilde;es dos astros, os tremores das<br \/>\n    tormentas, os gritos das andorinhas e os luares silenciosos, subirem gritos,<br \/>\n    l&aacute;grimas, solu&ccedil;os, risos, cantos, suspiros, b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os<br \/>\n    e impreca&ccedil;&otilde;es. A alma via aquela vida flamejante acesa no espa&ccedil;o<br \/>\n    Como uma Jerusal&eacute;m humana erguida na luz, ao sopro dos fortes peitos.<br \/>\n    E queria subir &agrave; montanha sagrada e andar por entre aquelas imagina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que sofrem, que sangram, que deliram, que s&atilde;o Romeu, Hamlet, D. Quixote,<br \/>\n    Orestes, Prometeu, Francesca de Rimini e Of&eacute;lia! Era um Patmos estranho<br \/>\n    aquilo, um promont&oacute;rio do pensamento, donde se avistava um mar, ora<br \/>\n    embalando-se sereno nos sil&ecirc;ncios alumiados, ora dando-se lascivo aos<br \/>\n    beijos do vento, ora indolente e melodioso, depois cheio de iras, de esguedelhamentos,<br \/>\n    de farrapos l&iacute;vidos de &aacute;gua, de tr&aacute;gicos solu&ccedil;os<br \/>\n    do abismo.<\/p>\n<p> Os que n&atilde;o se aventuravam naquela passagem ficavam sossegadamente<br \/>\n    na sua f&eacute; ordin&aacute;ria, na sua virtude, na sua sonol&ecirc;ncia;<br \/>\n    mas os que as atravessavam entravam nos sofrimentos infinitos: quase que ficavam<br \/>\n    fora da medida humana: o que quer que fosse de ilimitado entrava neles, com<br \/>\n    bruscos desvairamentos. O homem sente-se como possu&iacute;do pelo dem&oacute;nio<br \/>\n    Legi&atilde;o.<\/p>\n<p> Sente as inquieta&ccedil;&otilde;es descoradas, os abati mentos dolorosos,<br \/>\n    os amores infinitos, as ambi&ccedil;&otilde;es nevr&aacute;lgicas, as imagina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    l&iacute;vidas, toda uma amontoa&ccedil;&atilde;o apocal&iacute;ptica de estranhas<br \/>\n    vitalidades interiores. Vai p&aacute;lido. Quem &eacute; ele? &Eacute; aquele<br \/>\n    que sofre. E o infinito que ele tem em si tortura-o como a presen&ccedil;a<br \/>\n    de Deus torturava as sibilas antigas.<\/p>\n<p> E depois, ao mesmo tempo, viu-se que os prometimentos das revolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tinham mentido.<\/p>\n<p> Tinham-se visto tantos derrubamentos, tantas for&ccedil;as desvanecidas,<br \/>\n    tantos direitos divinos assoprados, tantas fulgura&ccedil;&otilde;es de Sodomas<br \/>\n    apagadas, que n&atilde;o se acreditava que ainda pela sombra pudesse estar<br \/>\n    de p&eacute;. e actuante, alguma antiga fatalidade. Pensava-se que a mis&eacute;ria,<br \/>\n    que a fome, que o erro, que a mentira, que as bruxas e as negruras hist&oacute;ricas<br \/>\n    tinham fugido.<\/p>\n<p> como um fumo: mas aqueles lobos tr&aacute;gicos ainda andavam pela noite<br \/>\n    mordendo as almas.<\/p>\n<p> O mal passava ainda, nas suas fa&ccedil;anhas fulgurantes enredando nos<br \/>\n    v&iacute;cios e nas tenta&ccedil;&otilde;es, fixando no homem o seu olhar<br \/>\n    f&uacute;nebre atrav&eacute;s das transpar&ecirc;ncias doentias da noite,<br \/>\n    batalhando com as almas e fazendo-lhes a chaga incur&aacute;vel do pecado.<br \/>\n    E ent&atilde;o, como que nasceu uma convic&ccedil;&atilde;o tenebrosa: a impossibilidade<br \/>\n    do libertamento..<\/p>\n<p> Erguiam-se os bra&ccedil;os magros e suplicantes: olhava-se pela Terra,<br \/>\n    a ver se n&atilde;o viria algu&eacute;m da parte da Natureza, um monte, uma<br \/>\n    floresta, um mar, um vulc&atilde;o, que tomasse o homem pela m&atilde;o e<br \/>\n    lhe dissesse com a bonomia dos monstros: Vem, eu te protejo.<\/p>\n<p> Nada.<\/p>\n<p> Nasceram ent&atilde;o tristezas vagas como o luar, profundas como a noite.<br \/>\n    A Terra ficou como se o len&ccedil;ol de Cristo tivesse sacudido sobre ela<br \/>\n    os seus suores e as suas frialdades. Luzia um grande Sol, mas negro, o Sol<br \/>\n    da melancolia. Nem largos risos, nem b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os fecundas.<br \/>\n    A mocidade, p&aacute;lida e nervosa, sofria, ajoelhava, torcia os bra&ccedil;os,<br \/>\n    e um dia morria, e ia como uma vaga forma h&uacute;mida errar no c&eacute;u<br \/>\n    dos fracos. Vagavam as coortes dos p&aacute;lidos, dos nocturnos, dos desgrenhados,<br \/>\n    de todos os errantes da melancolia.<\/p>\n<p> Embalde se perdiam nas viol&ecirc;ncias do mal, e entre os bra&ccedil;os<br \/>\n    nus e os reflexos dos vinhos, riam e bebiam, descantavam &agrave; viola, deixando<br \/>\n    os gemidos aos ventos e os solu&ccedil;os &agrave;s ondas: por vezes a alma<br \/>\n    justa passava, como uma &Iacute;sis velada, lan&ccedil;ando-lhes uma olhar<br \/>\n    severo, e toda a repugn&acirc;ncia daquela vida est&eacute;ril e perdida lhes<br \/>\n    reflu&iacute;a aos dentes como um solu&ccedil;o de t&eacute;dio.<\/p>\n<p> Houve um momento em que a Terra moderna foi como o antigo vale de l&aacute;grimas<br \/>\n    da imita&ccedil;&atilde;o: as almas queriam voar para o cimo onde est&aacute;<br \/>\n    o ideal, sereno, branco, consolador e purificador.<\/p>\n<p> Debalde. Como aquele saltimbanco esfarrapado e l&iacute;vido que queria<br \/>\n    fustigar o tecto de lona com os seus cabelos soltos, e que ca&iacute;a sempre<br \/>\n    nas poeiras entre os esgares da popula&ccedil;a. os novos tamb&eacute;m queriam<br \/>\n    soltar-se, em impulsos nervosos, rasgar o azul, rolar pelas estrelas, e ca&iacute;am<br \/>\n    ofegantes, suados, lacrimosos e desolados 38 .<\/p>\n<p> Ent&atilde;o apareceu o tipo soberano, em que se resumem todos os sofrimentos,<br \/>\n    todas as desesperan&ccedil;as, as melancolias, as incertezas, as penumbras,<br \/>\n    as aspira&ccedil;&otilde;es, os lirismos desta &eacute;poca p&aacute;lida<br \/>\n    e doentia. Esse tipo chama-se Fausto, Manfredo, Lara, Antony, Werther, Rolla,<br \/>\n    D. Juan.<\/p>\n<p> Moli&egrave;re e Hoffmann ambos fizeram um D. Juan. O conto de Hoffmann<br \/>\n    &eacute; a revela&ccedil;&atilde;o do poema de Mozart. A maneira diversa por<br \/>\n    que foi concebida a grande figura de D. Juan pelo poeta e pelo m&uacute;sico<br \/>\n    revela os profundos dilaceramentos modernos.<\/p>\n<p> O D. Juan de Moli&egrave;re &eacute; ateu, incr&eacute;dulo, aceita os nervos<br \/>\n    como religi&atilde;o e a devo&ccedil;&atilde;o como uma ironia.<\/p>\n<p> Tem paix&otilde;es e arroubamentos, contanto que n&atilde;o lhe amarrotem<br \/>\n    as rendas do seu colar.<\/p>\n<p> Derrama-se em ast&uacute;cias e respeitos para burlar o Sr. Dimanche, e<br \/>\n    um dia que seu pai lhe vem falar da honra, recomenda-lhe que tome primeiro<br \/>\n    uma atitude de p&uacute;lpito.<\/p>\n<p> Encoleriza-se com Elvira, que quer que ele ame, e com Esganarelo, que quer<br \/>\n    que ele creia.<\/p>\n<p> Convida o comendador por descren&ccedil;a, e quando se ouvem os passos sinistros<br \/>\n    na escadaria, e a est&aacute;tua lhe estende a m&atilde;o, morre nas convuls&otilde;es<br \/>\n    de medo cat&oacute;lico.<\/p>\n<p> O D. Juan de Mozart este tem uma lista de tr&ecirc;s mil namoradas: e todavia<br \/>\n    vai pelo mundo, angustiado e inconsol&aacute;vel, procurando a esperada do<br \/>\n    seu cora&ccedil;&atilde;o, como um sacerdote perdido que anda perguntando<br \/>\n    pelo seu Deus. Vai pelos povoados, por entre as arquitecturas e por entre<br \/>\n    as florestas, pela Espanha, por Floren&ccedil;a e por Berlim, suspendendo<br \/>\n    as escadas de sedas a todos os balc&otilde;es, e os seus desejos divinos aos<br \/>\n    l&aacute;bios da noite.<\/p>\n<p> Ele embala nos seus bra&ccedil;os moles de languidez as trigueiras, as louras,<br \/>\n    as joviais, as melanc&oacute;licas, as castas, as fortes, as impuras, as nocturnas,<br \/>\n    as luminosas e as esfarrapadas.<\/p>\n<p> Depois solu&ccedil;a baixo como numa penit&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Voam em redor dele figuras transparentes mais delicadas do que as virgens<br \/>\n    de 38 No texto da Gazeta de Portugal, &laquo;deslocados&raquo;.. ouro fino<br \/>\n    de um livro de legendas e ele envolve nos bra&ccedil;os aquelas sombras de<br \/>\n    corpos flutuantes, bebe-lhes toda a vida em beijos infinitos. Ele encontra<br \/>\n    Elvira: ama-a, como se as asas com que h&aacute;-de subir ao infinito nascessem<br \/>\n    nos ombros dela. A alcova tem uma sombra augusta e nupcial; as luzes esmorecem;<br \/>\n    da guitarra sai aquela m&uacute;sica mole, e indefinida, e queixosa, semelhante<br \/>\n    a um luar sonoro. Ela, com os cabelos soltos como os raios dispersos de um<br \/>\n    grande Sol negro, com um divino movimento lascivo, como se a embalassem os<br \/>\n    bra&ccedil;os de um deus, deixa, no colo de D. Juan, virem como uma onda,<br \/>\n    sobre os seus seios nus, as suaves pregui&ccedil;as.<\/p>\n<p>E ele sofre e torce os bra&ccedil;os nas suas dores mudas.<\/p>\n<p> L&aacute; fora est&atilde;o os loucos companheiros, que h&atilde;o ir logo<br \/>\n    em cavalgada nocturna, cantando sob a moleza dos astros. E ele solu&ccedil;a<br \/>\n    nas suas dores mudas.<\/p>\n<p> Ao longe est&atilde;o na sombra os seus pal&aacute;cios cheios de fulgura&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de sinfonias, de cantos, de radiosas viol&ecirc;ncias flamejantes, como no<br \/>\n    fundo de uma gl&oacute;ria. E ele foge com as suas dores mudas.<\/p>\n<p> O que tem? N&atilde;o perguntaram? Tem a nostalgia do infinito.<\/p>\n<p> O indefinido daquela alma revelada pela Arte eis ai a m&uacute;sica.<\/p>\n<p> Por isso ela &eacute; a voz espont&acirc;nea de todos aqueles que, como<br \/>\n    D. Juan, andam curvados, esfomeados de ideal, nocturnos, empalidecidos pela<br \/>\n    Lua.<\/p>\n<p> Todas as tristezas deste tempo encontram na m&uacute;sica o respiradouro<br \/>\n    do livre azul ideal e vivo: e nas horas da dor, v&atilde;o ali respirar aquele<br \/>\n    ar, onde derramadas as consola&ccedil;&otilde;es divinas 39 , Assim a m&uacute;sica<br \/>\n    aparece neste s&eacute;culo como uma voz inesperada em que se entendem os<br \/>\n    desconsolados. E os desconsolados foram toda uma mocidade p&aacute;lida e<br \/>\n    nervosa, toda uma Primavera sagrada! Poucos foram os fortes, os serenos, de<br \/>\n    largos risos sonoros e de seios de her&oacute;is.<\/p>\n<p> As almas tinham tomado as qualidades da noite, o vago, o sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    a tristeza e o esvaecimento! A m&uacute;sica sa&iacute;a espontaneamente destas<br \/>\n    dores que se queriam exalar, como outrora saiu do choro r&iacute;tmico de<br \/>\n    Rama todo o divino poema da &Iacute;ndia.<\/p>\n<p> A loura Alemanha de ideal seriedade, luminosa, um tanto nuvem, cheia de<br \/>\n    vapores e de constela&ccedil;&otilde;es, devia sobretudo adoptar a m&uacute;sica<br \/>\n    como a pilha cheia de vozes, h&aacute; tanto tempo esperada pelo seu Cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mudo.<\/p>\n<p> A m&uacute;sica que &eacute; o vapor da arte &eacute; a maneira de pensar<br \/>\n    da alma alem&atilde;, que os seus instintos sagrados levam para as livres<br \/>\n    claridades e para os esvaecimentos.<\/p>\n<p> A Alemanha pensa com um doce ru&iacute;do inef&aacute;vel.<\/p>\n<p> A m&uacute;sica italiana, essa tem o quer que seja de palp&aacute;vel, de<br \/>\n    luminoso, de ondeante, como seda invis&iacute;vel: sente-se que por pouco<br \/>\n    que se condensasse, as m&atilde;os encontrariam como que um tecido de sol,<br \/>\n    uma moleza viva que se poderia vestir.<\/p>\n<p> A m&uacute;sica italiana sai profundamente da Natureza, como a alem&atilde;<br \/>\n    sai profundamente da alma; de resto a alma, a Natureza, s&atilde;o duas maneiras<br \/>\n    de ser de Deus.<\/p>\n<p> A m&uacute;sica dos maestros do Sul &eacute; sobretudo voluptuosa: parece<br \/>\n    sair dos movimentos melodiosos de um corpo feminino e lascivo que estremece<br \/>\n    de desejos surdos sob os veludos, que se torce nas sedas, em desfalecimentos<br \/>\n    e sobressaltos. As hero&iacute;nas dos seus poemas musicais, Lucia, Norma,<br \/>\n    Lucr&eacute;cia, Traviata, s&atilde;o um coro l&iacute;rico que canta todas<br \/>\n    as voluptuosidades ad&uacute;lteras, todos os desvairamentos. Mesmo Bellini,<br \/>\n    o meigo Bellini, contemplativo, dolorosamente queixoso, delicadamente l&acirc;nguido,<br \/>\n    n&atilde;o pode arrancar a sua It&aacute;lia do cora&ccedil;&atilde;o, e derrama<br \/>\n    pela partitura da Norma todas as fulgura&ccedil;&otilde;es do desejo, todas<br \/>\n    as imola&ccedil;&otilde;es apaixonadas, todos os arrependimentos desvairados<br \/>\n    e soberbos.<\/p>\n<p> 39 De acordo com o texto da Gazeta de Portugal..<\/p>\n<p> E agora Mozart encontra D. Juan, o de l&aacute;bios africanos, vindo de<br \/>\n    Espanha, dos calores silenciosos, dos seios rijos, dos beijos flamejantes;<br \/>\n    quem escreve o libreto de D.<\/p>\n<p> Juan e Lorenzo de Ponte, um meigo doido de Veneza, jogador. duelista, neto<br \/>\n    de Lovelace, com largos horizontes e largas cantigas e o peito cheio da religi&atilde;o<br \/>\n    da carne e do Sol.<\/p>\n<p> Mozart mesmo tinha estado na It&aacute;lia e amava a alma luminosa do doce<br \/>\n    Rafael; e apesar de tudo, quando anima D. Juan. n&atilde;o sente o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o talento da sua branca Alemanha? N&atilde;o est&atilde;o naquela cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    todas as esperan&ccedil;as, todas as religi&otilde;es, todos os amores, todos<br \/>\n    os idealismos, todas as desesperan&ccedil;as da p&aacute;tria? &Eacute; isto<br \/>\n    que Goethe, o ol&iacute;mpico, sentiu profundamente, quando disse que Mozart<br \/>\n    era o &uacute;nico m&uacute;sico capaz de compreender Fausto e de sentir Margarida.<\/p>\n<p> E todavia a Alemanha e a It&aacute;lia t&ecirc;m o mesmo delicado sentimento<br \/>\n    do grande tipo, que simbolizava na vida o tempo moderno. &Eacute; por ele<br \/>\n    que se levantam no Norte e no Sul as vozes que o revelam no amor, no ci&uacute;me,<br \/>\n    na severidade, e na melancolia. Em toda a obra musical, sempre aquela figura<br \/>\n    se ergue, tr&aacute;gica e desgrenhada. &Eacute; ele que tem ci&uacute;mes<br \/>\n    em Otelo: que se desespera em Fid&eacute;lio: que quer ser livre em Guilherme<br \/>\n    Tell: que cisma ao luar em Freisch&uuml;tz: s&atilde;o as suas recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que cantam na Lucia, na Traviata, na Son&acirc;mbula: &eacute; ele que cisma<br \/>\n    com o Oriente em Sem&iacute;ramis: que desvaira em Roberto, o Diabo; que sonha<br \/>\n    aventuras no Hern&acirc;ni: e que sofre de amor e de venturas de amor no D.<br \/>\n    Juan, do divino Mozart.<\/p>\n<p> Assim estas escolas outrora hostis v&atilde;o-se fundindo, a Alemanha dando<br \/>\n    o seu iluminismo e a It&aacute;lia a sua paix&atilde;o.<\/p>\n<p> E assim a Arte vai sendo a primeira a unir as p&aacute;trias pela reconcilia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das almas.<\/p>\n<p> Ainda h&aacute; pouco, nos lugares sagrados em que o monge Lorenzo enterrou<br \/>\n    Julieta, se estendia brutalmente o feroz quadril&aacute;tero austr&iacute;aco;<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio que os antigos &oacute;dios hist&oacute;ricos se<br \/>\n    v&atilde;o esvaindo como o fumo das p&oacute;lvoras; que os uivos das batalhas<br \/>\n    expirem nos l&aacute;bios da Alemanha, cheia dei idealismo, que &eacute; a<br \/>\n    formosura da alma, e nos l&aacute;bios da It&aacute;lia, cheia de formosura,<br \/>\n    que &eacute; o idealismo do corpo. Como em Shakespeare o amor reconciliou<br \/>\n    as fam&iacute;lias, possa, no mundo moderno, a Arte reconciliar as p&aacute;trias.<\/p>\n<p> E possamos n&oacute;s todos, os que estamos neste canto da velha terra portuguesa,<br \/>\n    com alma serena sob o c&eacute;u claro, possamos ver, no dia das gl&oacute;rias<br \/>\n    e das fraternidades, o Romeu italiano, apaixonado e melodioso, estender a<br \/>\n    m&atilde;o de irm&atilde;o, por cima dos montes, &agrave;quela eterna e doce<br \/>\n    Margarida que se chama a Alemanha!.<\/p>\n<p> O MACBETH AS DUAS ALMAS TR&Aacute;GICAS  SHAKESPEARE P&Atilde;<br \/>\n    POR QUEM NOS SOFREMOS A VOZ SEM VERBO  VERDI  A IT&Aacute;LIA<br \/>\n    M&Uacute;SICA POL&Iacute;TICA  O PEQUENO MACBETH REY-BALLA OS DEUSES<br \/>\n    E OS TIRANOS Foi no tempo de Filipe II, tr&aacute;gico mocho do Catolicismo,<br \/>\n    que Shakespeare criou o seu drama &eacute;pico de Macbeth.<\/p>\n<p> &Eacute; desde ent&atilde;o, que aquela figura, que exala noite e humidade,<br \/>\n    erra pelo enorme c&eacute;u negro, vivida no meio das tempestades, alumiada<br \/>\n    e crescida por um estranho reflexo de saques e de inc&ecirc;ndios, enquanto<br \/>\n    os abutres, os corvos, os milhafres, os gavi&otilde;es, as corujas voam em<br \/>\n    c&iacute;rculos sobre a sua tr&aacute;gica cabe&ccedil;a esguedelhada.<\/p>\n<p> As outras imagina&ccedil;&otilde;es nocturnas do poeta, que se chamam Hamlet,<br \/>\n    Lear, Otelo e pisam com p&eacute; tr&aacute;gico o solo augusto da epopeia,<br \/>\n    todas t&ecirc;m junto de si o doce corpo de uma mulher para lhes embalar no<br \/>\n    seio as ang&uacute;stias tenebrosas, como num leito misterioso; para lhes<br \/>\n    fazer subir por vezes ao rosto a serenidade augusta do bem.<\/p>\n<p> N&oacute;s vemos hoje essas formas femininas andarem impalpavelmente, nas<br \/>\n    respira&ccedil;&otilde;es de luz, em redor daquelas terr&iacute;veis cari&aacute;tides<br \/>\n    do mal: elas derramam-se sobre aquelas almas nocturnas, como umas auroras<br \/>\n    vivas cheias de meiguices, de orva-lhos, de claridades, de fecundos descansos,<br \/>\n    purificadoras e transfiguradoras.<\/p>\n<p> Assim Of&eacute;lia, h&uacute;mida dos musgos da &aacute;gua, segue o seu<br \/>\n    dolente e lacrimoso Hamlet; Desd&eacute;mona derrama o seu perd&atilde;o,<br \/>\n    como um &oacute;leo santo, sobre a agonia flamejante de Otelo e Cord&eacute;lia<br \/>\n    estira os seus bra&ccedil;os como asas de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o e com<br \/>\n    gestos de coroa&ccedil;&atilde;o, ampara a cabe&ccedil;a desvairada do velho<br \/>\n    rei Lear. Macbeth, esse vai seguido na sombra pelos seus negros vassalos,<br \/>\n    os inc&ecirc;ndios, as pestes, os derrubamentos.<\/p>\n<p> Macbeth &eacute; o mal-fantasma. Ele n&atilde;o &eacute; daqueles lobos<br \/>\n    que andam, pela noite da hist&oacute;ria, dilacerando as liberdades e as p&aacute;trias.<br \/>\n    N&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; uma energia inconsciente e fatal. Um pouco mais mergulhado na sombra,<br \/>\n    seria o igual de Sat&atilde;. Quando a sua coroa reluz na escurid&atilde;o<br \/>\n    parece que ai constela&ccedil;&otilde;es devem seguir aquele reflexo terr&iacute;vel,<br \/>\n    curiosas de saber que sombria aventura vai ele tentar contra o Homem. Porque<br \/>\n    &eacute; certo que ele provoca a aten&ccedil;&atilde;o do infinito, e tem<br \/>\n    misteriosas afinidades na noite.<\/p>\n<p> Ele atravessa todo aquele drama como um espectro.<\/p>\n<p> Quando as ondinas sa&iacute;am fora da &aacute;gua, a namorar os mo&ccedil;os<br \/>\n    formosos debaixo dos pl&aacute;tanos, denunciavam-se, as pobres, porque a<br \/>\n    orla do seu vestido estava sempre ensopada de &aacute;gua.<\/p>\n<p> Macbeth &eacute; assim: debalde se cobre de p&uacute;rpuras; e se assenta<br \/>\n    aos banquetes; e fala de manobras de guerra com os seus capit&atilde;es tenebrosos;<br \/>\n    e se queixa que lhe foge o sono, para parecer humano: os que se aproximam<br \/>\n    dele empalidecem, por-que a extremidade do seu manto tem uma orla sulfurosa.<\/p>\n<p> Ele ouve a predi&ccedil;&atilde;o das soberanias flamejantes da boca esverdeada<br \/>\n    das feiticeiras, que se d&atilde;o lascivas aos beijos do vento, por cima<br \/>\n    das folhagens, e se somem nos esvaecimentos tenebrosos, riscando a noite de<br \/>\n    sangue. Ao atravessar pelas horas negras os seus terra&ccedil;os entrev&ecirc;<br \/>\n    o luzir dos punhais: n&atilde;o pode sentar-se aos banquetes resplandecentes,<br \/>\n    entre os risos sonoros, sem ver diante de si, com a lividez dos que fizeram<br \/>\n    a viagem maldita, o espectro de Banquo donde se exalam os castigos. Por fim,<br \/>\n    quando toda a Esc&oacute;cia sangra, porque passou Macbeth esmagando as cidades,<br \/>\n    assolando os campos, enegrecendo o c&eacute;u com o fumo  luto dos<br \/>\n    inc&ecirc;ndios, n&atilde;o s&atilde;o os ex&eacute;rcitos que o vencem: a<br \/>\n    Natureza ouviu as queixas humanas. os brados de justi&ccedil;a que sa&iacute;am<br \/>\n    dos. postes, das queimadas, das forcas, dos cemit&eacute;rios; ouviu a alegria<br \/>\n    estridente dos abutres, dos corvos e dos milhafres, e destaca ent&atilde;o<br \/>\n    uma floresta, que vai com ru&iacute;do tr&aacute;gico esmagar o homem sinistro.<br \/>\n    Neste castigo Shakespeare &eacute; maior que esquilo. esquilo, quando v&ecirc;<br \/>\n    Prometeu pregado no C&aacute;ucaso, olha desvairado, e vendo l&aacute; em<br \/>\n    cima a serenidade de m&aacute;rmore dos deuses de nomes sonoros, vem, p&aacute;lido,<br \/>\n    ajoelhar junto daquele rochedo ideal e santo torno um altar, e apenas, sufocado,<br \/>\n    pode fazer um gesto suplicante ao velho mar, para que mande as suas oce&acirc;nides<br \/>\n    consolar o vencido enorme.<\/p>\n<p> Shakespeare por&eacute;m quando v&ecirc; Macbeth matar os reis, matar o<br \/>\n    povo, matar os homens hist&oacute;ricos, derrubar os capacetes her&aacute;ldicos,<br \/>\n    matar os instintos, matar os Macduffs, matar as crian&ccedil;as de olhar divino,<br \/>\n    as mulheres de seios fecundos, matar a p&aacute;tria, corre desvairado, toma<br \/>\n    uma floresta e vem esmagar a feroz criatura sob um desabamento da santa Natureza:<br \/>\n    e aquele castigo passa com o ru&iacute;do terr&iacute;vel do carro da justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> Este Ad&atilde;o do mal tem uma Eva monstruosa  Lady Macbeth. Lady<br \/>\n    Macbeth &eacute; a serenidade do mal. Ela, com a sua atitude soberana e b&aacute;rbara,<br \/>\n    tem a vaga semelhan&ccedil;a de uma Juno hom&eacute;rica. Tem em si todas<br \/>\n    as grandiosas rigidezas, todas as frias austeridades da Natureza do Norte.<\/p>\n<p> Ela &eacute; a energia selvagem, que de longe conduz as batalhas. Ela passa<br \/>\n    no drama como sacerdotisa do mal, predestinada e serena: at&eacute; &agrave;s<br \/>\n    vezes parece flutuar, no seu olhar frio, n&atilde;o sei que f&uacute;nebre<br \/>\n    resigna&ccedil;&atilde;o: as c&oacute;leras e os castigos  t&ecirc;m<br \/>\n    quase piedade daquela tr&aacute;gica mulher est&eacute;ril. Ela n&atilde;o<br \/>\n    tem o amor, n&atilde;o tem a compaix&atilde;o. n&atilde;o tem a consola&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o tem a melancolia, n&atilde;o tem a maternidade. Algu&eacute;m,<br \/>\n    feroz e desconhecido, lhe tirou aqueles amolecimentos onde h&aacute; l&aacute;grimas,<br \/>\n    para lhe poder conservar a atitude hirta e r&iacute;gida do mal.<\/p>\n<p> Lady Macbeth &eacute; como unia est&aacute;tua do crime, feita de m&aacute;rmores<br \/>\n    e de bronzes, e erguida ao longe numa lividez silenciosa, tendo por pedestal<br \/>\n    a noite. De vez em quando concebe, com lascivos estremecimentos de alma, as<br \/>\n    opress&otilde;es e as viol&ecirc;ncias, e vem ent&atilde;o lenta, deixa cair<br \/>\n    da sua m&atilde;o estendida as agonias e as destrui&ccedil;&otilde;es, acende<br \/>\n    com um olhar as sinistras queimadas pela plan&iacute;cie, e volta para os<br \/>\n    lados da noite e da humidade e arrastando o seu manto, que faz a cada passo<br \/>\n    como uma onda negra e h&uacute;mida de sangue, que a segue.<\/p>\n<p> E no entanto, quando ela passa, o olhar perde-se na contempla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    perigosa daquele busto forte, daqueles bra&ccedil;os de a&ccedil;o, daquela<br \/>\n    testa que tem reflexos de opala, daqueles cabelos poderosos de um negro flamejante,<br \/>\n    daquele seio de forma b&aacute;rbara. E ent&atilde;o abre-se na alma, como<br \/>\n    uma grande flor do mal, um desejo, negro e reluzente.<\/p>\n<p> Aquele olhar atrai como uma profundidade cheia de ecos, de vapores h&uacute;midos,<br \/>\n    e de mugidos de &aacute;guas. E a alma, esquecida da justi&ccedil;a e do bem<br \/>\n    e dos pudores da piedade, quer atravessar as brumas do mal que cercam aquela<br \/>\n    mulher, e palpar os brocados luzentes e recamados que a vestem, destran&ccedil;ar-lhe<br \/>\n    os cabelos pelas moles sombras e dissolver-se naquele olhar negro como uma<br \/>\n    flor se dissolve num vinho forte. O cora&ccedil;&atilde;o ri-se dos gemidos<br \/>\n    da Esc&oacute;cia e do &uacute;ltimo highlander, que morre contemplativo tocando<br \/>\n    as &aacute;rias da sua montanha na &uacute;ltima cabana, e lastima unicamente<br \/>\n    Macbeth porque tem para matar  s&oacute; um Duncan! Sufoca o peito<br \/>\n    a negra lembran&ccedil;a de um desfalecimento lascivo, naqueles bra&ccedil;os<br \/>\n    de m&aacute;rmore p&aacute;lido, salpicados de sangue. A contempla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquela terr&iacute;vel Lady Macbeth no drama de Shakespeare deixa o corpo<br \/>\n    frouxo e tr&eacute;mulo como se sobre ele se estendesse a nudez de uma deusa.<\/p>\n<p> Foram estas duas figuras tenebrosas que Verdi quis revelar no seu poema<br \/>\n    musical de &laquo;Macbeth&raquo;.<\/p>\n<p> H&aacute;, sem d&uacute;vida, na obra imensa de Shakespeare, cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que devem dar a sua alma, a sua vida, a sua paix&atilde;o, a esta m&uacute;sica<br \/>\n    moderna, vestida de sensualidades pesadas,. coberta com veludos de pregas<br \/>\n    moles e silenciosas. Porque em Shakespeare h&aacute; tudo: h&aacute; os corpos<br \/>\n    disformes feitos de lodo; os corpos transparentes feitos de pulveriza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de luz, os corpos luminosos feitos de argilas ideais: h&aacute; almas tio<br \/>\n    puras como m&uacute;sicas de constela&ccedil;&otilde;es, t&atilde;o terr&iacute;veis<br \/>\n    como as fulgura&ccedil;&otilde;es do desespero, t&atilde;o voluptuosas como<br \/>\n    os beijos vermelhos do sol: ele semeou ali, com mio augusta, as energias,<br \/>\n    o amor, as enerva&ccedil;&otilde;es, os ci&uacute;mes, as ang&uacute;stias,<br \/>\n    as melancolias, a d&uacute;vida, a paternidade, a cobardia  eu sei?&#8230;<br \/>\n    H&aacute; toda a sorte de vestidos, sedas, farrapos, luxos, p&uacute;rpuras,<br \/>\n    sud&aacute;rios; umas cabe&ccedil;as t&ecirc;m coroas flamejantes, outras<br \/>\n    cabe&ccedil;as t&ecirc;m coroas de violetas: aquelas cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    t&ecirc;m nos l&aacute;bios o lirismo, a ode, a impreca&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a s&aacute;tira, a chocarrice: h&aacute; arquitecturas, tormentas aflitas,<br \/>\n    arvoredos sagrados, luares e apari&ccedil;&otilde;es: assim caminha enorme<br \/>\n    aquela obra, tentando a grande aventura da imortalidade! Para dar a vida e<br \/>\n    o sopro ideal a esta cria&ccedil;&atilde;o imensa, &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    que venha a arquitectura, a decora&ccedil;&atilde;o, todos os coloridos, os<br \/>\n    vestu&aacute;rios, o lirismo, e sobretudo, a melodia e a orquestra.<\/p>\n<p> A m&uacute;sica deve ser a voz de tudo aquilo que ali est&aacute; silencioso<br \/>\n    sem ter a faculdade de se exprimir, e n&oacute;s termos a possibilidade de<br \/>\n    o compreender: das estrelas, das pedras, das nuvens, das flores; de tudo o<br \/>\n    que, desde as ervas molhadas at&eacute; &agrave;s vias-l&aacute;cteas, fala<br \/>\n    muito indefinidamente e com vibra&ccedil;&otilde;es muito sobrenaturais, para<br \/>\n    que o nosso &ecirc;xtase as possa escutar. Quando Julieta suspira ao seu balc&atilde;o,<br \/>\n    desejando que o corpo do seu Romeu, depois de morto, seja dividido em pequenas<br \/>\n    estrelinhas, para que todas as mulheres se namorem da noite, em roda dela,<br \/>\n    as flores, as vegeta&ccedil;&otilde;es, aquelas moles divindades fluas, que<br \/>\n    se chamam as nuvens, o arfar brando do seio da noite que cria as aragens,<br \/>\n    a floresta divina de que n&oacute;s apenas vemos as pontas das ra&iacute;zes<br \/>\n    que s&atilde;o as estrelas: tudo se balan&ccedil;a naquela evapora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de amor, que exala a alma da l&acirc;nguida mulher, luminosa na escurid&atilde;o<br \/>\n    do seu jardim, como um diamante no seio de uma negra: e toda a Natureza est&aacute;<br \/>\n    cheia de confid&ecirc;ncias, de murmura&ccedil;&otilde;es e de coros. Diante<br \/>\n    dos pudores, das indefinidas meiguices, das sentimentalidades da alma de Of&eacute;lia;<br \/>\n    diante dos pensamentos de Hamlet, incertos e revoltosos como as ondas, como<br \/>\n    os ventos, como as nuvens que no ar se formam e se desmancham, o lirismo do<br \/>\n    celeste William empalidece como um her&oacute;i derrubado: e ent&atilde;o<br \/>\n    a m&uacute;sica vem, na sua ideal serenidade, dolorosa e branca, revelar todas<br \/>\n    aquelas vibra&ccedil;&otilde;es celestes.<\/p>\n<p> E estas imagina&ccedil;&otilde;es radiosas dos poetas devem entrar antes<br \/>\n    nos poemas musicais, do que as figuras hist&oacute;ricas.<\/p>\n<p> S&atilde;o aquelas cria&ccedil;&otilde;es maravilhosas que nos enlevam,<br \/>\n    que nos fazem sofrer, que nos transfiguram a alma.<\/p>\n<p> Que importa que agonize Maria Stuart, e a doce Maria Antonieta, e Beatriz<br \/>\n    de Cenci, e a id&iacute;lica In&ecirc;s de Castro? N&oacute;s vemos estes<br \/>\n    desaparecimenos de astros, com os olhos enxutos, atentos &agrave; justi&ccedil;a<br \/>\n    de bronze da hist&oacute;ria: e, se nos interrogam sobre aquelas fatalidades,<br \/>\n    mostramos l&aacute; em cima o grande azul constelado.<\/p>\n<p> Mas que Julieta s&eacute; definhe e que lance chorosa o seu amor fulgurante<br \/>\n    pelo espa&ccedil;o, para alumiar a fuga de Romeu at&eacute; M&acirc;ntua;<br \/>\n    que Desd&eacute;mona diga a &laquo;can&ccedil;&atilde;o do salgueiro&raquo;<br \/>\n    onde se morre de amor; que apare&ccedil;a entre os lutos reais o enterro virginal<br \/>\n    de Of&eacute;lia, nos vamos desgrenhados e aflitos, perguntando por que caminhos<br \/>\n    misteriosos sobe l&aacute; cima at&eacute; &agrave; radiosa bondade divina<br \/>\n    o coro suplicante das l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> No entanto parece que as imagina&ccedil;&otilde;es terr&iacute;veis e ferozes<br \/>\n    dos poetas n&atilde;o podem ser nobremente transportadas para a m&uacute;sica:<br \/>\n    e quando os maestros querem subir aqueles escarpamentos divinos, caem sem<br \/>\n    f&ocirc;lego junto da montanha sagrada: e s&oacute; recobram a paix&atilde;o,<br \/>\n    a alma, o lirismo, o sopro divino, diante das cria&ccedil;&otilde;es femininas,<br \/>\n    l&uacute;cidas figuras feitas de cheiros suaves onde habita a alma dos deuses,<br \/>\n    e de p&eacute;talas macias., e de vapores de luz.<\/p>\n<p> Sem falar em Gounod que n&atilde;o compreendeu a grande figura de Fausto,<br \/>\n    mas p&ocirc;s. divinas vibra&ccedil;&otilde;es nos l&aacute;bios de Margarida,<br \/>\n    o grande Rossini n&atilde;o p&ocirc;de erguer-se at&eacute; &agrave; regi&atilde;o<br \/>\n    onde desvaira a alma de Otelo, e ficou-se a chorar um choro celeste com Desd&eacute;mona,<br \/>\n    debaixo do salgueiro.<\/p>\n<p> Assim tamb&eacute;m Verdi, o luminoso Verdi, n&atilde;o compreendeu aquelas<br \/>\n    trevas que Shakespeare derramou na alma de Macbeth.<\/p>\n<p> Verdi, o m&uacute;sico querido dos Mexicanos, dos Americanos, dos Russos<br \/>\n    e de n&oacute;s outros os Portugueses, &eacute; realmente o &uacute;nico compositor<br \/>\n    italiano verdadeiramente s&eacute;rio que ficou, depois do desgra&ccedil;ado<br \/>\n    Donizetti; Rossini retirou-se da arte.<\/p>\n<p> Verdi tem um talento vigoroso, apaixonado mesmo, mas falta-lhe o lume santo,<br \/>\n    o desvairamento ideal, o Deus, aquele sopro de que fala a B&iacute;blia. A<br \/>\n    sua m&uacute;sica &eacute; profundamente materialista: &eacute; uma melopeia<br \/>\n    en&eacute;rgica e estridente: &eacute; uma melodia colorida e pesada: h&aacute;<br \/>\n    mesmo o quer que seja de r&iacute;gido e de met&aacute;lico naquela sonoridade<br \/>\n    sensual: ele sabe excitar as sensibilidades materiais, mas n&atilde;o consegue<br \/>\n    arrancar a alma do seu vestido de carne e lev&aacute;-la, nua e possu&iacute;da<br \/>\n    do infinito, pelas regi&otilde;es das surpresas radiosas.<\/p>\n<p> Todo o entusiasmo que Verdi tem alimentado na It&aacute;lia prov&ecirc;m<br \/>\n    do momento grave em que se revelou.<\/p>\n<p> Nesse tempo a It&aacute;lia revolvia o poema convulsivo da sua reconstitui&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    os Italianos, que tinham adormecido naquela rede tecida com os raios do sol<br \/>\n    que se chama a pregui&ccedil;a, come&ccedil;avam a erguer-se e a experimentar<br \/>\n    os seus m&uacute;sculos frouxos e amolecidos de amor e de sonhos. Nesse momento<br \/>\n    Verdi foi pela It&aacute;lia com um canto poderoso, em que os libertamentos<br \/>\n    batiam as asas. Aquela m&uacute;sica apaixonada, ardente e vermelha, enrijava<br \/>\n    as enerva&ccedil;&otilde;es e coura&ccedil;ava as energias: e a It&aacute;lia<br \/>\n    seguia com idolatria o poeta, que lhe soprava na alma com o amor das epopeias<br \/>\n    o amor das liberdades.<\/p>\n<p> No Norte, quando a Alemanha, no tempo de Napole&atilde;o, come&ccedil;ou<br \/>\n    a pensar no seu passado, como no deus por que havia de bradar no dia das batalhas,<br \/>\n    aparece uma m&uacute;sica nacional, a de Spohr e Weber, que canta as velhas<br \/>\n    poesias da Alemanha, melodias feitas quase dos cantos populares que diziam<br \/>\n    outrora &agrave; tarde, nas encruzilhadas da Floresta Negra, rapsodos errantes:<br \/>\n    e quando a grande p&aacute;tria, ouvindo as ca&ccedil;adas de Samosel pelas<br \/>\n    florestas da Tur&iacute;ngia, os estremecimentos dos elfos vaporosos pelos<br \/>\n    prados hirc&iacute;nios, e todas as velhas mitologias do Rena, vivendo, sofrendo,<br \/>\n    voando, sussurrando num livre canto, ergueu-se terr&iacute;vel; entoou tamb&eacute;m,<br \/>\n    ela, o velho canto de Lutero coura&ccedil;ado de ferro e atirando para longe<br \/>\n    a sua roca de Margarida, ficou, severa e iluminada, esperando junto do Rena,<br \/>\n    tendo a um lado o espectro da honra e a outro lado o fantasma da justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> Verdi ou instintivamente ou intencionalmente fez em. parte, no Sul, o que<br \/>\n    tinham feito os poetas do Norte: nem todos aqueles entusiasmos foram fecundos:<br \/>\n    as duas p&aacute;trias sangram ainda: e as flautas tristes do Norte, e as<br \/>\n    guitarras gemedoras do Sul s&oacute; sabem aquele choro lento e doloroso de<br \/>\n    Roma quando perdeu a esposada da sua alma: e n&atilde;o &eacute; verdade que<br \/>\n    a esposada dos povos &eacute; a liberdade? Pobre It&aacute;lia! Pobre Alemanha!<br \/>\n    Deus as envolva num olhar de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o e de repouso, neste<br \/>\n    tempo em que estamos, que &eacute; a v&eacute;spera das agonias! Mas voltando<br \/>\n    ao &laquo;Macbeth&raquo;, &eacute; certo que Verdi fez daquela figura desvairada<br \/>\n    um her&oacute;i italiano, melodioso e mau. Por toda aquela &oacute;pera anda<br \/>\n    errante um terror transparente e mole. Ser&aacute; porque a m&uacute;sica,<br \/>\n    a meiga errante do espiritualismo, n&atilde;o pode compreender aquelas duas<br \/>\n    almas pavorosas sa&iacute;das da noite e pesadas de mat&eacute;ria? N&atilde;o<br \/>\n    sei. O certo &eacute; que aquela &oacute;pera parece uma transfigura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do velho Macbeth: parece que o velho her&oacute;i l&iacute;vido entrou neste<br \/>\n    tempo moderno, amoleceu-se em voluptuosidades, perdeu-se em melancolias, teve<br \/>\n    as febres silenciosas da alma e assim, frouxo, doente, descorado, vem com<br \/>\n    Lady Macbeth contar a sua velha legenda tr&aacute;gica sobre uma cena. resplandecente.<br \/>\n    Com efeito aquela &oacute;pera faz saudades do drama de Shakespeare: era ali<br \/>\n    que Macbeth erguia o seu rosto eri&ccedil;ado de barbas, e invocava H&eacute;cate<br \/>\n    de tr&ecirc;s cabe&ccedil;as: era por aquele terra&ccedil;o onde mugia o vento<br \/>\n    que eles atravessavam esguedelhados e convulsivos para a c&acirc;mara de Duncan.<\/p>\n<p> E assim enquanto aquelas figuras l&iacute;ricas se adiantam para a orquestra<br \/>\n    de poderosos alentos com as gargantas t&uacute;midas de melodias gemedoras<br \/>\n    e violentas, a alma pode deixar o seu querido corpo, e ir para cima dos mares<br \/>\n    e dos continentes, para os descampados da Esc&oacute;cia, ver passar aquelas<br \/>\n    sombras unidas de Macbeth e de Lady Macbeth, que, segundo as legendas, passam<br \/>\n    de noite nos clar&otilde;es das tempestades uivando manobras de batalha.<\/p>\n<p> E depois pode a alma voltar, para ouvir aquela confus&atilde;o de ru&iacute;dos<br \/>\n    coloridos e apaixonados, de melodias pesadas que murmuram, que estremecem,<br \/>\n    que gemem e que gritam, e que se v&atilde;o desvanecendo em volta do corpo<br \/>\n    e cobrindo-o como uma onda.<\/p>\n<p> Enquanto se canta &laquo;Macbeth&raquo;. a alma pode andar longe pelo pa&iacute;s<br \/>\n    das quimeras.<\/p>\n<p> De resto a cantora Rey-Balla encarna magistralmente a Lady Macbeth italiana<br \/>\n    de Verdi. N&atilde;o &eacute; aquela mulher b&aacute;rbara de tr&aacute;gicos<br \/>\n    sonambulismos. &Eacute; uma hero&iacute;na l&iacute;vida, magra, nervosa,<br \/>\n    viperina, rancorosa, cheia de movimentos met&aacute;licos e &aacute;speros<br \/>\n    e de frequentes iras nevr&aacute;lgicas. &Eacute; a verdadeira Lady que Verdi<br \/>\n    entreviu, semelhante &agrave;s hero&iacute;nas da sua velha It&aacute;lia<br \/>\n    dos mascarados, dos duelos, dos envenenamentos e dos adult&eacute;rios com<br \/>\n    m&aacute;scara de veludo.<\/p>\n<p> As grandes figuras hist&oacute;ricas v&atilde;o-se: os Tiranos v&atilde;o-se:<br \/>\n    os Deuses v&atilde;o-se, vai-se a Arte.<\/p>\n<p> Agora os Deuses e os Tiranos andam l&aacute; em cima pela imensidade negra;<br \/>\n    os Deuses arrastando-se na poeira luminosa; os Tiranos levados serenamente<br \/>\n    por um vento do infinito. serenos com as m&atilde;os sobre a espada. &Agrave;s<br \/>\n    vezes encontram-se l&aacute; em cima, e v&atilde;o,. por entre as t&eacute;nebras<br \/>\n    da noite, contando as suas antigas fa&ccedil;anhas flamejantes; e os olhares<br \/>\n    dos Deuses e os sorrisos dos Tiranos riscam a noite de sangue. Por vezes uivam<br \/>\n    comandos de batalha, e fazem as ilimita&ccedil;&otilde;es todas sonoras e<br \/>\n    oscilantes como unia floresta, e as suas respira&ccedil;&otilde;es cansadas<br \/>\n    dobram os fantasmas do vento. E depois os Reis, conchegando as suas p&uacute;rpuras<br \/>\n    rotas e desbotadas, e os Deuses segurando os seus diademas de falsas estrelas,<br \/>\n    apontam sobre a terra negra, adormecida em baixo, o lugares onde eles passaram<br \/>\n    nas gl&oacute;rias e nos triunfos, e s&oacute; se v&ecirc;em nesses lugares<br \/>\n    cinzas, fumos que sobem, evapora&ccedil;&otilde;es de sangue, virgindades<br \/>\n    perdidas, c&uacute;pulas pesadas de igrejas, vapores de l&aacute;grimas perdidas,<br \/>\n    amontoa&ccedil;&otilde;es tr&aacute;gicas de sombra.<\/p>\n<p> E quando assim est&atilde;o, come&ccedil;a a noite a tornar-se p&aacute;lida<br \/>\n    e triste como uma noiva lasciva que sente vir o dia, e todo o c&eacute;u come&ccedil;a<br \/>\n    a estremecer formid&aacute;vel de auroras: ent&atilde;o aqueles espectros<br \/>\n    passam com olhos dolorosos, e v&atilde;o transfigurados pela dor e feridos<br \/>\n    pela luz, desvanecendo-se nos esvaimentos misteriosos: em baixo nas cidades,<br \/>\n    nas vilas, nos povoados, acorda sereno, cantando a alvorada do trabalho<br \/>\n    o povo imenso!.<\/p>\n<p> POETAS DO MAL OS GRANDES ABORRECIMENTOS  SEM REF&Uacute;GIO T&Eacute;DIO<br \/>\n     P&Ouml;E, FLORES D0 MAL, SALAMB&Ocirc; O EGO&Iacute;SMO Conhecem P&otilde;e,<br \/>\n    Baudelaire e Flaubert? Estes homens s&oacute; v&ecirc;em o mal; os corpos<br \/>\n    magros despeda&ccedil;ados e podres. as vegeta&ccedil;&otilde;es l&iacute;ricas<br \/>\n    que luzem como no fundo de um sonho asi&aacute;tico, as nuvens ferozes onde<br \/>\n    vagueiam os danados do amor, os orvalhos ca&iacute;dos das frias esterilidades<br \/>\n    da lua, os uivos horr&iacute;veis das almas que t&ecirc;m medo, os ventos<br \/>\n    que torcem os corpos dos enforcados, as pestes, as covardias do desespero<br \/>\n     todas as flores do mal espl&ecirc;ndidas e negras.<\/p>\n<p> Na alma humana s&oacute; encontram pecados teimosos e arrependimentos covardes.<\/p>\n<p> Se por acaso contemplam um dia o esvaecimento da luz, sereno e severo como<br \/>\n    a alma de um her&oacute;i, julgam ver, na catedral de vapores acesa sobre<br \/>\n    o mar, um sacerdote  Deus, tomado de tr&aacute;gicas iras, arremessando<br \/>\n    pelo espa&ccedil;o os santos s&iacute;mbolos! V&ecirc;em-no rasgar pelas nuvens<br \/>\n    a sua alba flamejante: v&ecirc;em-no lan&ccedil;ar a h&oacute;stia<br \/>\n    que &eacute; o Sol  &agrave;s &aacute;guas solu&ccedil;antes: pensam<br \/>\n    ver o ar, pesado de lirismo, vergar ao sopro da sua respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    indignada: &eacute; ele que faz a noite com a negra irradia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu olhar: &eacute; ele que dispersa pelo ar, como um milhafre dispersa<br \/>\n    as penas de uma pomba, as folhas rasgadas do missal e &eacute; um peda&ccedil;o<br \/>\n    do livro santo que flutua, onde n&oacute;s julgamos ver um astro.<\/p>\n<p> Estes homens com as suas viol&ecirc;ncias radiosas, com os seus ideais desesperos,<br \/>\n    com as suas ironias, os seus espiritualismos est&atilde;o no meio destes esp&iacute;ritos<br \/>\n    modernos da arte, baixos, alinhados, esbranqui&ccedil;ados e lisos como uma<br \/>\n    catedral g&oacute;tica entre as casas caiadas de uma vila. Eles abafam nestas<br \/>\n    atmosferas pesadas com o fumo das ind&uacute;strias.<\/p>\n<p> A Natureza est&aacute; vazia: as florestas meneiam a sua cabe&ccedil;a louca<br \/>\n    e frouxa; o c&eacute;u tem o calmo olhar dos idiotas; os rios v&atilde;o sempre<br \/>\n    fugindo e cantando como os amores das mulheres. Eles n&atilde;o podem derramar<br \/>\n    a alma nas bondades errantes que a Natureza tem; a Natureza mesmo quase que<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o existe; perdida como est&aacute; entre as edifica&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    as granjas, as ind&uacute;strias, as f&aacute;bricas, os estaleiros, os circos<br \/>\n     parece uma pouca de erva passando esmigalhada entre os dedos de um<br \/>\n    homem! Eles n&atilde;o t&ecirc;m ao menos o grande ref&uacute;gio do amor.<\/p>\n<p> Passam &eacute; verdade junto deles mulheres de seios de &acirc;mbar, s&eacute;rias<br \/>\n    entre os veludos silenciosos: quando elas assim passam a alma dos poetas anda<br \/>\n    humilde e perdida pelas lamas como um fumo que o vento abate: &eacute; o vento<br \/>\n    do materialismo que assim as verga; se a alma se eleva para ir buscar a flor<br \/>\n    de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o ao interior daquele belo corpo feminino, se<br \/>\n    lhe vai pousar nos olhos negros e macios, se entra radiosa, como para um noivado<br \/>\n    santo, se escorrega at&eacute; ao cora&ccedil;&atilde;o, sai logo aflita,<br \/>\n    dizendo: n&atilde;o vale a pena deixar esta lama para subir &agrave;quela<br \/>\n    alma.<\/p>\n<p> Assim o amor n&atilde;o os pode tentar: e a gl&oacute;ria tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o: eles v&ecirc;em que hoje os grandes esp&iacute;ritos sobem sempre<br \/>\n    para os pedestais em que h&atilde;o-de aparecer  est&aacute;tuas do<br \/>\n    futuro  como um tru&atilde;o sobe para o tablado  entre os brados<br \/>\n    inertes, os uivos, as impreca&ccedil;&otilde;es da multid&atilde;o<br \/>\n    que vai passando para os esfriamentos do t&uacute;mulo.<\/p>\n<p> Mas podem refugiar-se na antiga poesia, no doce Virg&iacute;lio, nos &ecirc;xtases<br \/>\n    de Catulo, nas sentimentalidades de Petrarca  em toda aquela do&ccedil;ura<br \/>\n    untuosa, serena, fresca, consoladora: n&atilde;o podem: hoje aquelas santas<br \/>\n    colinas humildes foram invadidas pela multid&atilde;o dos cr&iacute;ticos,<br \/>\n    dos realistas, dos esquadrinhadores  multid&atilde;o esfomeada de materialidades,<br \/>\n    que anda revolvendo o terreno para lhe explicar as camadas, que destr&oacute;i<br \/>\n    todas aquelas meigas flores do bem para lhes contar as p&eacute;talas. que<br \/>\n    descascam as &aacute;rvores sagradas donde ca&iacute;am os versos para Ov&iacute;dio<br \/>\n    para lhes estudar as fibras e os.<\/p>\n<p> filamentos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o aqueles homens s&atilde;o tomados de uma doen&ccedil;a horr&iacute;vel<br \/>\n     que doen&ccedil;a? O t&eacute;dio.<\/p>\n<p> O t&eacute;dio estende silenciosamente a sua rede em volta da alma.<\/p>\n<p> A pobre alma estava cheia de auroras, de frutos, cantando nas madrugadas:<br \/>\n    v&ecirc;m at&eacute; ela as bondades condescendentes do Sol; acendem-se constela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dentro do peito; o interior fecundo e vermelho do cora&ccedil;&atilde;o anda<br \/>\n    cheio de corpos de mulheres: tudo se transfigura: o choro &eacute; um coro<br \/>\n    de rouxin&oacute;is: a ira, a palpita&ccedil;&atilde;o de asas de uma ave<br \/>\n    soberba. Os nossos olhos t&ecirc;m reflexos distantes de para&iacute;sos desconhecidos:<br \/>\n    os bra&ccedil;os t&ecirc;m gestos soberbos que falam aos astros, e se se queixa<br \/>\n    uma planta e se suspira uma onda, n&oacute;s estendemo-los com um gesto de<br \/>\n    consola&ccedil;&atilde;o e de amparo; &agrave;s vezes, nasce tamb&eacute;m<br \/>\n    na alma a melancolia, mas ent&atilde;o a melancolia &eacute; a voluptuosidade<br \/>\n    da tristeza.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o vem o t&eacute;dio passo a passo: escurece. Espalha-se uma<br \/>\n    moleza errante; calam-se os coros interiores: aparecem os desesperos lentos,<br \/>\n    as ang&uacute;stias frias: os bra&ccedil;os caem nos desconsolos como as asas<br \/>\n    de um p&aacute;ssaro ferido: as antigas alegrias, as bondades, as energias,<br \/>\n    as coragens, apodrecem e v&atilde;o-se em p&oacute;, e v&ecirc;-se ent&atilde;o<br \/>\n    a alma, nua, gelada, r&iacute;gida, opaca, m&aacute;, como quando se retiram<br \/>\n    os panos bordados e radiosos de um altar aparece o pau duro, tosco, escuro<br \/>\n    e carunchoso: somente debaixo dessa madeira do altar est&aacute; &agrave;s<br \/>\n    vezes a imagem do Cristo morto: na alma h&aacute; tamb&eacute;m um Cristo<br \/>\n    morto  a f&eacute;.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o aqueles tristes v&atilde;o procurar uma regi&atilde;o nova<br \/>\n    e apaixonada e l&iacute;rica onde n&atilde;o ou&ccedil;am a voz rouca do materialismo.<br \/>\n    Assim outrora os monges iam para os desertos da N&iacute;tria para n&atilde;o<br \/>\n    ouvir suspirar pelo c&eacute;u ainda orvalhado pelo mel do Hibla a alma errante<br \/>\n    do paganismo. Porque eles pensam que, assim como o ocaso do Sol &eacute; feito<br \/>\n    por um Deus terr&iacute;vel que despeda&ccedil;a as rel&iacute;quias santas,<br \/>\n    o ocaso da arte &eacute; feito pelo materialismo que despeda&ccedil;a as sociedades.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o como v&atilde;o para uma ideia nova, desordenada e bizarra,<br \/>\n    aparecem vestidos com uma forma nova, desordenada e bizarra: eles sabem que<br \/>\n    as muta&ccedil;&otilde;es arc&aacute;dicas est&atilde;o gastas: que as velhas<br \/>\n    &aacute;rvores donde se dependuravam liras cl&aacute;ssicas est&atilde;o secas:<br \/>\n    que os caminhos trilhados pelas togas brancas de pregas hier&aacute;ticas<br \/>\n    Levam ao deserto.<\/p>\n<p> Assim esta revolu&ccedil;&atilde;o na arte feita pela banda Baudelaire n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;, como diz a cr&iacute;tica ordi-n&aacute;ria, hemist&iacute;quios,<br \/>\n    prosas, rimas e medi&ccedil;&otilde;es que se alteram: &eacute; todo o poema<br \/>\n    divino das sociedades modernas que se vai aos farrapos. As formas novas s&atilde;o<br \/>\n    &oacute; sintoma da sua dissolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Os esp&iacute;ritos n&atilde;o podem respirar o ar moderno pesado de materialismos:<br \/>\n    sufocam, sofrem, gemem; e ent&atilde;o, como o aborrecido que cantou Henri<br \/>\n    Heine, pedem os ci&uacute;mes., as viol&ecirc;ncias escuras, os rasg&otilde;es<br \/>\n    da carne, os roubos, os beijos entre l&aacute;bios tintos de sangue.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o aparecem estes livros  &laquo;As Novas Hist&oacute;rias<br \/>\n    Extraordin&aacute;rias&raquo;, &laquo;As Piores do Mal&raquo;, &laquo;Salamb&ocirc;&raquo;,<br \/>\n    etc. O primeiro &eacute; de Edgar P&otilde;e; entre aquelas p&aacute;ginas<br \/>\n    passa o dem&oacute;nio da perversidade, ora hirto e l&iacute;vido como os<br \/>\n    ciprestes, ora galhofeiro, jovial, ruidoso, &agrave;s cambalhotas, mostrando<br \/>\n    os rasg&otilde;es do fato, &agrave;s risadas mostrando a podrid&atilde;o dos<br \/>\n    dentes, sinistro e debochado como um palha&ccedil;o das esquinas.<\/p>\n<p> P&ouml;e n&atilde;o tem o vago iluminismo de Hoffmann, nem a fria imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Darwin.<\/p>\n<p> P&otilde;e diz a realidade dos terrores e das vis&otilde;es, a realidade.<br \/>\n    O seu livro &eacute; a epopeia desvairada do sistema nervoso.<\/p>\n<p> O outro &eacute; Baudelalre; Baudelaire &eacute; o viajante terr&iacute;vel<br \/>\n    que vai atrav&eacute;s do mal da carne, como, guardadas as propor&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    Dante vai atrav&eacute;s do mal da alma. Baudelaire vai aos rios e toma os<br \/>\n    cad&aacute;veres dos afogados inchados e roxos que dormem no colch&atilde;o<br \/>\n    da areia, cobertos com os farrapos l&iacute;vidos da &aacute;gua; vai pelos<br \/>\n    t&uacute;mulos erguendo os sud&aacute;rios. e mostrando o mole apodrecimento<br \/>\n    das carnes; vai apanhar o sangue coalhado e pinta o rosto com ele, e vem assim,<br \/>\n    terr&iacute;vel, escancarar a boca entre as rimas e as molezas da forma; vai<br \/>\n    &agrave;s alcovas h&uacute;midas buscar as mulheres descarnadas e l&iacute;vidas<br \/>\n    que roem os cotovelos de desejos e traz aquela coorte medonha, e vem por entre<br \/>\n    as ceias ruidosas, os cristais, as mulheres luminosas, as grandes pregas harmoniosas<br \/>\n    das sedas e atira confusamente aquele feixe de formas soltas, deslocadas,<br \/>\n    rotas e gangrenadas sobre os seios cor de &acirc;mbar e sobre as palidezas<br \/>\n    suaves, sobre os sentimentos t&eacute;pidos, sobre as mios macias.<\/p>\n<p> Flaubert escreveu a &laquo;Salamb&ocirc;&raquo;. Aquela alma, depois de<br \/>\n    ter criado em &laquo;Madame Bovary&raquo; a imagem desoladora de uma harmonia,<br \/>\n    de uma perfei&ccedil;&atilde;o, presa nos bra&ccedil;os gordos e toscos do<br \/>\n    materialismo, refugiou o seu desalento nas sombras do mundo antigo. E toda<br \/>\n    a antiguidade est&aacute; em &laquo;Salamb&ocirc;&raquo;. Math&ocirc; &eacute;<br \/>\n    a carne ardente e feroz, cheia da for&ccedil;a do sol, da terra de &Aacute;frica.<\/p>\n<p> Spendius &eacute; a ast&uacute;cia serena e fria da Gr&eacute;cia. Am&iacute;lcar<br \/>\n    &eacute; a alma austera das antigas rep&uacute;blicas.<\/p>\n<p> Salamb&ocirc; &eacute; a lascividade m&iacute;stica da S&iacute;ria. Schaabarim<br \/>\n    &eacute; a alma desolada dos sacerdotes polite&iacute;stas vergando ao peso<br \/>\n    de seis mil deuses. Hanan &eacute; a f&uacute;nebre corrup&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Cartago. O ex&eacute;rcito de mercen&aacute;rios &eacute; o resto do mundo:<br \/>\n    ali est&atilde;o os lusitanos enormes, os gauleses brancos abundantes de palavras,<br \/>\n    os l&iacute;bios perversos: e todo o mundo b&aacute;rbaro, terr&iacute;vel,<br \/>\n    obscuro, imundo, lento, coberto de lepras.<\/p>\n<p> J&aacute; v&ecirc;em que estes poetas n&atilde;o respeitam o ego&iacute;smo<br \/>\n    humano, o gordo ego&iacute;smo humano, sonolento, entre as almofadas, cercado<br \/>\n    de jornalistas, de cr&iacute;ticos, de poetas que limes esfregam os p&eacute;s<br \/>\n    com os aromas profanos, cantando: &laquo;Tu &eacute;s forte, e s&aacute;bio,<br \/>\n    e previdente, e profundo, e belo, e sereno!&raquo; E entanto ele fl&aacute;cido<br \/>\n    de pregui&ccedil;as v&ecirc; passar as Imagina&ccedil;&otilde;es sa&iacute;das<br \/>\n    dos romances, dos poemas, dos dramas modernos, pequenas, l&iacute;mpidas,<br \/>\n    castas, piegas, viperinas, burguesas. Ent&atilde;o v&ecirc;m aqueles poetas,<br \/>\n    atiram-lhe de encontro &agrave;s paredes do c&eacute;rebro as suas estranhezas,<br \/>\n    as suas ferocidades, as suas viol&ecirc;ncias, d&atilde;o-lhe as frialdades<br \/>\n    do medo, os calores da ang&uacute;stia, os suores do t&uacute;mulo, e ele<br \/>\n    vai-se, pisado, abalado, l&iacute;vido, deslocado e coxeando.<\/p>\n<p> S&atilde;o poetas livres, despeda&ccedil;am as f&oacute;rmulas, amaldi&ccedil;oam<br \/>\n    os industrialismos.<\/p>\n<p> N&atilde;o t&ecirc;m aquela melancolia cheia de l&uacute;cidos reflexos<br \/>\n    de astros, de Byron e de Musset  a menina Byron. Estes, quando se v&ecirc;em<br \/>\n    repelidos pelo materialismo crescente, erguem-se solu&ccedil;antes e bons,<br \/>\n    e mostram a alma coberta de l&aacute;grimas, vergada como se sobre ela ca&iacute;ssem<br \/>\n    as tristezas de um deus. Os outros n&atilde;o: combatem a carne com a carne;<br \/>\n    cantam a podrid&atilde;o; aqueles, Byron, Musset, Vigny, refugiados na B&iacute;blia,<br \/>\n    mostra-vam a beleza daquilo que o ego&iacute;smo humano despreza; estes, P&ouml;e,<br \/>\n    Baudelaire, Flaubert, mostram o horror daquilo que ele adora.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes tamb&eacute;m dizem as adora&ccedil;&otilde;es do materialismo,<br \/>\n    mas do materialismo transfigurado, envolto no vapor subtil como se sobre ele<br \/>\n    se lan&ccedil;asse o vestido claro e l&uacute;cido de um Deus.<\/p>\n<p> Mas a grande verdade, etc..<\/p>\n<p> A LADAINHA DA DOR Ao Sr. A. A. Teixeira de Vasconcelos &laquo;O pintor Lyser<br \/>\n    voltou da Bo&eacute;mia com a sua doidice eleg&iacute;aca. Pedi-lhe o retrato<br \/>\n    de Paganini como tu querias, mas ele disse-me em segredo que fora o Diabo<br \/>\n    que lhe guiara a m&atilde;o naqueles tra&ccedil;os, e que ia conservar uma<br \/>\n    lembran&ccedil;a do Diabo, seu velho amigo. Tem esse cart&atilde;o numa pasta<br \/>\n    entre um desenho do velho Cl&aacute;udio Loreno e um retrato de Dante.<\/p>\n<p> &laquo;Ontem, ao cair da tarde, est&aacute;vamos ambos sentados junto da<br \/>\n    janela. O ar entrava todo emaranhado nos cord&otilde;es verdes das trepadeiras;<br \/>\n    n&oacute;s est&aacute;vamos calados e abandonados &agrave; do&ccedil;ura divina<br \/>\n    das coisas.<\/p>\n<p> &laquo;O pobre Lyser, com os seus grandes cabelos ca&iacute;dos, tomou o<br \/>\n    retrato de Paganini e desenhou em volta toda a sorte de entrela&ccedil;amentos<br \/>\n    de folhagens, de penumbras delicadas, de dissipa&ccedil;&otilde;es de nuvens:<br \/>\n    e entre aquelas efloresc&ecirc;ncias escreveu os nomes de Dante, de Hamlet,<br \/>\n    de Romeu e de Sancho Pan&ccedil;a, dizendo com a sua voz dolente:<br \/>\n    Paganini tinha alguma coisa de todos estes homens.  E derramou-se em<br \/>\n    palavras sobre o esp&iacute;rito do m&uacute;sico onde havia materialismos<br \/>\n    de rei b&aacute;rbaro e do&ccedil;uras de ap&oacute;stolos.<\/p>\n<p> Depois, no cimo do cart&atilde;o, desenhou a figura de Of&eacute;lia levada<br \/>\n    pela corrente, e um morcego; com as asas dobradas, e olhando tristemente,<br \/>\n    de entre as canas debru&ccedil;adas sobre o rio, o corpo branco sumir-se levado<br \/>\n    serenamente como no seu elemento, e os grandes cabelos louros emaranhados<br \/>\n    nos musgos da &aacute;gua: e por baixo escreveu: Duvida Of&eacute;lia do meu<br \/>\n    amor, da verdade luminosa das estrelas, dos coloridos das folhas, da luz branca<br \/>\n    e s&eacute;ria do sol. E depois, com a voz s&eacute;ria:  Paganini<br \/>\n    sobretudo era um morcego.<\/p>\n<p> &laquo;&Eacute; assim aquele pobre Lyser com a sua triste loucura. Sabes<br \/>\n    que lhe morreu a irm&atilde;? No dia do enterro, Lyser acompanhou o corpo<br \/>\n    com a sua rabeca debaixo do bra&ccedil;o e fustigando com o arco as ervas<br \/>\n    molhadas. O dia estava nublado.  Minha pobre irm&atilde;  disse<br \/>\n    ele  que nem pode levar presa no seu lindo vestido uma r&eacute;stia<br \/>\n    de sol.  Sabes a religi&atilde;o que Lyser tem pelo sol.<\/p>\n<p> Passa dias inteiros deitado entre as frescuras dos caminhos, sob a grande<br \/>\n    luz sonora do sol.<\/p>\n<p> Nessa noite em que a irm&atilde; foi enterrada, ele foi sentar-se junto<br \/>\n    da cova tocando as velhas &aacute;rias de Lully, e de vez em quando compunha<br \/>\n    as dobras de um xale que tinha lan&ccedil;ado sobre a sepultura. Assim esteve<br \/>\n    perdido numa saudade mais doce que a lua, e mais profunda que a noite. Como<br \/>\n    o c&eacute;u estava nublado, ele dizia, de vez em quando &agrave; cova:<br \/>\n    N&atilde;o tenhas pena, c&aacute; fora nem estrelas h&aacute;.<\/p>\n<p> &laquo;Foram-no buscar de madrugada, e ele vinha lento, dependurando-se<br \/>\n    do fato do coveiro como uma crian&ccedil;a, para ouvir os uivos dos c&atilde;es<br \/>\n    e o chiar dos carros.<\/p>\n<p> &laquo;Dias depois voltou ao cemit&eacute;rio e o coveiro n&atilde;o o deixou<br \/>\n    entrar o pobre Lyser ficou junto das grades com os olhos cheios de l&aacute;grimas.<br \/>\n     uma coisa de pressa que tenho a dizer a minha irm&atilde;<br \/>\n    dizia ele com a voz passada de suplica&ccedil;&otilde;es. O coveiro estava<br \/>\n    dentro falando com uma mulher de cabelos cor de vinho; e como a quisesse prender<br \/>\n    num abra&ccedil;o b&aacute;rbaro e rijo, a rapariga, ao fugir-lhe, caiu sobre<br \/>\n    uma sepultura toda coberta de violetas; o coveiro ergueu-a, sacudiu-lhe a<br \/>\n    terra dos vestidos, e deu com o p&eacute; rude na terra da sepultura resmungando:<br \/>\n     Malditos trope&ccedil;os! O m&uacute;sico Berlioz ao voltar das bandas<br \/>\n    moles da It&aacute;lia e das ilhas da Gr&eacute;cia de l&iacute;vidos escarpamentos<br \/>\n    sem serenidades id&iacute;licas e sem mirtos  recebeu nas ru&iacute;nas<br \/>\n    das Sorveiras, junto de Nizza, onde trabalhava na sua sinfonia de &laquo;Harold&raquo;<br \/>\n    toda cheia de mar, esta carta vinda de Fran&ccedil;a..<\/p>\n<p> &laquo;Por fim, veio abrir a grade enferrujado ao pobre Lyser e com uma<br \/>\n    grande voz:  V&aacute;, que j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o horas de<br \/>\n    entrar sem licen&ccedil;a.  Lyser sumiu-se entre os ciprestes, debru&ccedil;ou-se<br \/>\n    sobre a cova e escreveu na brancura da pedra: Lu&iacute;sa, se l&aacute; em<br \/>\n    cima encontrares a estrela V&eacute;sper, pergunta-lhe de que tintas se faz<br \/>\n    o cor-de-rosa da tarde e os reflexos de roxo-p&aacute;lido; preciso sab&ecirc;-lo:<br \/>\n    ontem dei o teu xale branco a uma pobre: dize-me se queres que te traga alguns<br \/>\n    dos teus vestidos: olha, se passares de noite por estas alamedas n&atilde;o<br \/>\n    te aproximes da casa do coveiro, vive l&aacute; uma m&aacute; mulher.<\/p>\n<p> &laquo;Dias depois chamou-me e disse-me  Sabe? come&ccedil;o a acreditar<br \/>\n    que minha irm&atilde; morreu. Por isso, pe&ccedil;o-lhe uma coisa, que quando<br \/>\n    tiver alguma cam&eacute;lia n&atilde;o a esmague, talvez seja feita do seio,<br \/>\n    da pobre rapariga.  E afastou-se, arrastando os seus sapatos como se<br \/>\n    estivessem pesados de &aacute;gua: mas de repente voltando-se e com a voz<br \/>\n    cheia de suplica&ccedil;&otilde;es:  Nem as violetas, talvez sejam<br \/>\n    feitas dos olhos dela.  Ent&atilde;o tomou-me pela manga e levou-me<br \/>\n    para entre &aacute;rvores onde havia o sol, o coro das colmeias, os cheiros<br \/>\n    de feno e os coloridos frescos dos frutos: ele ia com a face toda tomada pela<br \/>\n    cor quente e fecunda da vida:  N&atilde;o sabe?  dizia-me o<br \/>\n    pobre Lyser com a sua voz lenta e doce como um escorrer de mel:  n&atilde;o<br \/>\n    sabe? Muita rapariga que dizia as cantigas das eiras e dan&ccedil;ava debaixo<br \/>\n    dos pl&aacute;tanos morre nos frios de Fevereiro. H&aacute;-de ter visto,<br \/>\n    por esse tempo, os pobres namorados que andam chorando sobre &aacute;s covas<br \/>\n    com &agrave;s cabelos caldos. Ent&atilde;o aqueles corpos das raparigas desfazem-se.<\/p>\n<p> Algu&eacute;m que sabe e que v&ecirc; aproveita aquelas formas e aqueles<br \/>\n    coloridos; da pele do seio, fazem-se p&eacute;talas de cam&eacute;lia, dos<br \/>\n    olhos tristes fazem-se violetas, da cor dos l&aacute;bios fazem-se Os rain&uacute;nculos,<br \/>\n    dos h&aacute;litos perdidos fazem-se os cheiros bons, e do olhar, da meiguice,<br \/>\n    do desejo delas faz-se a Primavera, o doce ar das madrugadas de Maio. De modo<br \/>\n    que de noite as flores que est&atilde;o nos vasos na sombra das alcovas conversam<br \/>\n    das suas exist&ecirc;ncias passadas; falam das dan&ccedil;as ruidosas &agrave;<br \/>\n    guitarra; daquela manh&atilde; em que a ponta do seio veio espreitar pela<br \/>\n    abertura do vestido os olhos do namorado; daquela tarde em que a face se vestiu<br \/>\n    de corde- rosa para receber a visita de um bigode louro; daquela noite em<br \/>\n    que as p&aacute;lpebras castas acudiram aos olhos, que estavam perdidos e<br \/>\n    quase a dizer sim; e se uma noite espreitar as flores que est&atilde;o nos<br \/>\n    castos para&iacute;sos das alcovas, h&aacute;-de v&ecirc;-las sair dos vasos,<br \/>\n    entrela&ccedil;arem as formas e os coloridos e fazerem na sombra a vaga semelhan&ccedil;a<br \/>\n    de um corpo feminino.<\/p>\n<p> &laquo;&Eacute; assim o pintor Lyser. Fez-se noite naquela alma, e, por<br \/>\n    isso, ela tem todas as qualidades da noite, o sombrio, o vago, o negro, o<br \/>\n    azul, o l&acirc;nguido, o estrelado.<\/p>\n<p> &laquo;Agora deseja morrer e ser enterrado numa paisagem casta, assoalhada,<br \/>\n    murmurosa,. para se julgar protegido e coberto pela alma errante do seu amigo<br \/>\n    G&aacute;udio Loreno.<\/p>\n<p> &laquo;Quando a luz do sol se retira, prende-se, como um manto de seda que<br \/>\n    se arrasta entre ervas secas e ramagens, ao dorso de uma onda, ao cimo ruidoso<br \/>\n    de uma &aacute;rvore, &agrave; proa de uma barca de pesca; assim aquele esp&iacute;rito<br \/>\n    ao retirar-se daquele corpo se prende ainda a tudo o que na vida &eacute;<br \/>\n    superior, e elevado, e meigo, ao amor, &agrave; melancolia, &agrave; compaix&atilde;o,<br \/>\n    &agrave; arte.<\/p>\n<p> &laquo;Quando cheguei do B&aacute;ltico soube que Paganini se retirara de<br \/>\n    Fran&ccedil;a: tive a respeito dele grandes conversa&ccedil;&otilde;es com<br \/>\n    o rabequista Sica, que pensa em fazer para o Ver&atilde;o unia peregrina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pela S&iacute;ria.<\/p>\n<p> &laquo;Est&aacute;vamos horas debaixo das t&iacute;lias, falando do quim&eacute;rico<br \/>\n    esp&iacute;rito de Paganini, at&eacute; que as estrelas apareciam, contemplativas<br \/>\n    e augustas. Sica contou-me toda a legenda id&iacute;lica e b&aacute;rbara<br \/>\n    de Paganinh os seus amores em Verona, aquela cantora empoada, de m&atilde;os<br \/>\n    macias e sentimentos velados e grandes sedas, e aquele abade de fivelas luzentes,<br \/>\n    com quem ela ia debaixo dos veludos silenciosos, num entrela&ccedil;amento<br \/>\n    de bra&ccedil;os, em doce e azulada viagem pelo pa&iacute;s de Citera. Depois<br \/>\n    contou-me toda a sua trabalhosa. odisseia das pris&otilde;es e dos degredos:<br \/>\n    aquelas noites em que ele, poderoso e solit&aacute;rio, entrava na confid&ecirc;ncia<br \/>\n    dos negros solu&ccedil;os do mar: noites dolorosas das l&aacute;grimas, em<br \/>\n    que aquele tr&aacute;gico homem estava, enroscado nas palhas do seu c&aacute;rcere,<br \/>\n    vendo ao longe o mar Mediterr&acirc;neo amolecido por aquela moleza que escorre<br \/>\n    dos astros, e da voluptuo-sidade da noite desconhecida e fecunda.<\/p>\n<p> &laquo;Dizia-me Sica que Paganini lhe contava, que sempre &agrave;s horas<br \/>\n    escuras via as fivelas do abade luzirem na noite e dizia Paganini:<br \/>\n    &Agrave;s vezes o remorso &eacute; bondoso, encarna-se em coisas que t&ecirc;m<br \/>\n    uma vida, uma carna&ccedil;&atilde;o, um sangue, uma moleza, que se podem<br \/>\n    abrandar, a quem se pode suplicar; mas aquelas fivelas met&aacute;licas, inertes,<br \/>\n    r&iacute;gidas, eram um remorso frio, surdo, inflex&iacute;vel, faziam-me<br \/>\n    subir ao rosto o suor do antigo Josaf&aacute;.<\/p>\n<p> &laquo;Dizia tamb&eacute;m Paganini, que uma das suas grandes torturas no<br \/>\n    c&aacute;rcere fora assistir pela vis&atilde;o &agrave; decomposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fria do corpo da pobre cantora Marietta.<\/p>\n<p> &laquo;Ele via aquele corpo sem &oacute;leos, nem sacramentos, debaixo das<br \/>\n    terras limosas e das cresc&ecirc;ncias t&uacute;midas de seiva, esverdear-se<br \/>\n    entre as ossadas.<\/p>\n<p> &laquo;Via de noite perto de si aquela terr&iacute;vel decomposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das carnes, aquelas brancuras inertes, aquelas moles curvas sugadas pela terra..<br \/>\n    Via, aterrado, os cardos, as papoulas, as gram&iacute;neas, os ciprestes serenos<br \/>\n    comerem a sua bem-amada fria, muda, esverdeada e inchada! &laquo;Ent&atilde;o<br \/>\n    ali tomou o &oacute;dio da Natureza: ele atravessava sempre as frescas fecundidades,<br \/>\n    as searas, todas as verdes formas da vida., os campos e as granjas, com um<br \/>\n    horror judaico e m&iacute;stico. S&oacute; perdoava ao mar: e &agrave;s vezes,<br \/>\n    depois, na Dinamarca, ia para junto das &aacute;guas do mar do Norte, tocar<br \/>\n    na rabeca as velhas cantigas escandinavas e as baladas r&uacute;nicas; e desejava<br \/>\n    muitas vezes que depois de morto o seu corpo pudesse nadar durante a Eternidade<br \/>\n    nos verdes embalos da &aacute;gua.<\/p>\n<p> &laquo;Foram terr&iacute;veis todos aqueles anos de pris&atilde;o.<\/p>\n<p> &laquo;O rabequista Sica contou-me depois todas as viagens de Paganini com<br \/>\n    os estudantes da nova Alemanha, indo pelos burgos, pelos povoados, pelas cabanas<br \/>\n    de lareiras sonolentas, cantando &agrave;s estrelas e dizendo, na sua rabeca,<br \/>\n    sob a lucidez do c&eacute;u do Norte, as velhas baladas da Tur&iacute;ngia.<\/p>\n<p> &laquo;Contou-me o amor da duquesa de Weimar por Paganini; e como uma noite<br \/>\n    de concerto em duas cordas da rabeca ele disse o di&aacute;logo misterioso<br \/>\n    de duas vozes que se falavam debaixo do arvoredo, depois entre as sedas de<br \/>\n    cortinas ao fresco ar de um balc&atilde;o, e depois ainda na terra debaixo<br \/>\n    das ra&iacute;zes dos ciprestes, e, por flui, indefinidas, t&eacute;nues,<br \/>\n    luminosas, entre o encruzamento sagrado dos raios dos astros.<\/p>\n<p> &laquo;Era uma alus&atilde;o desconhecida que encheu de l&aacute;grimas<br \/>\n    a duquesa de Weimar.<\/p>\n<p> &laquo;Aquele homem ultimamente tinha o peito cheio de mortos. Dele retirara-se<br \/>\n    o elemento humano; j&aacute; n&atilde;o tinha a compaix&atilde;o, o riso,<br \/>\n    o amor, a indigna&ccedil;&atilde;o, a paternidade, a emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &laquo;Lento, com os seus cabelos ca&iacute;dos, l&iacute;vido, com as terr&iacute;veis<br \/>\n    rugas da face semelhantes aos ff de uma rabeca, com as mios transparentes,<br \/>\n    cheias de agilidade, e de desloca&ccedil;&otilde;es com os seus grandes casacos<br \/>\n    escuros de pregas hier&aacute;ticas, atravessava os povoados, os sil&ecirc;ncios,<br \/>\n    as cenas resplandecentes, poderoso e solit&aacute;rio, procurando aos p&eacute;s,<br \/>\n    sempre, uma cova onde n&atilde;o se esfolhassem &aacute;rvores, onde n&atilde;o<br \/>\n    nascessem ervas, sem saber que na noite, na humidade, nas cho&ccedil;as, nas<br \/>\n    pedreiras, nas estradas, nas costas, h&aacute; uma ra&ccedil;a que sofre,<br \/>\n    e que h&aacute; bei&ccedil;os l&iacute;vidos da fome, e que h&aacute; febres<br \/>\n    silenciosas, e amores desertos, e suores de ang&uacute;stia, e apodrecimentos<br \/>\n    de honras, e uivos de almas aflitas, e lentos e frios esvaecimentos de pudores<br \/>\n    e de belezas.<\/p>\n<p> &laquo;Sica contou-me tamb&eacute;m o grande poder musical de Paganini e<br \/>\n    a sua atitude nos concertos cheia de abaixamentos e servilidades; e contou-me<br \/>\n    tamb&eacute;m, meu amigo,. aquela noite gloriosa e flamejante em que se tocava<br \/>\n    a tua sinfonia de Romeu e Julieta, e cm que ele veio, entre os aplausos e<br \/>\n    as vozes de coroa&ccedil;&atilde;o, ajoelhar e beijar-te as m&atilde;os, dizendo<br \/>\n    com os olhos cheios de &aacute;gua  Tu ser&aacute;s Beethoven! &laquo;Ultimamente,<br \/>\n    como sabes, tinha uma doen&ccedil;a de garganta que o emudeceu; trazia ent&atilde;o<br \/>\n    um livro branco em que escrevia o que pensava nas conversa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da noite; aquela doen&ccedil;a n&atilde;o o vergou mais; ele tinha j&aacute;<br \/>\n    o sil&ecirc;ncio estoicismo da alma, e refugiou-se na mudez estoicismo do<br \/>\n    corpo.<\/p>\n<p> &laquo;Passava ent&atilde;o com o rabequista Sica horas inteiras tocando<br \/>\n    rabeca ou guitarra.<\/p>\n<p> Ultimamente preocupava-o muito o ter de deixar a sua rabeca s&oacute;, depois<br \/>\n    de morrer; e escrevia no seu livro: Quando eu estiver para morrer pensar que<br \/>\n    a hei-de deixar aqui, entre estas mulheres de a&ccedil;o, estes jornalistas<br \/>\n    l&iacute;vidos e os agiotas calvos, no meio desta multid&atilde;o esfomeada<br \/>\n    de materialidades! que se h&aacute;-de encher de p&oacute; a um canto, ela,<br \/>\n    cheia de alma e de legenda! &laquo;No entanto ele acreditava que no dia em<br \/>\n    que morresse a sua rabeca havia de estalar e os peda&ccedil;os apodrecidos<br \/>\n    na terra ir-se-iam confundir com o corpo dele nos &aacute;tomos das &aacute;rvores,<br \/>\n    ou das estrelas, ou das &aacute;guas; e escrevia ent&atilde;o: Que felicidade<br \/>\n    poder ter a mesma folhagem, dar a mesma luz, lan&ccedil;ar a mesma espuma.<\/p>\n<p> &laquo;Ultimamente, por&eacute;m, olhava para a rabeca com um ar triste<br \/>\n    e descrente; &agrave;s vezes tomava a guitarra e ia tocar nela para junto<br \/>\n    da rabeca, com um gesto de car&iacute;cias brandas, com um lento correr de<br \/>\n    dedos como se estivesse vestindo as cordas com a harmonia viva que tirava<br \/>\n    da alma; ele queria p&ocirc;r todos os seus interiores divinos naquele gemer<br \/>\n    de guitarra, para fazer morrer de ci&uacute;mes a sua velha rabeca abandonada.<\/p>\n<p> &laquo;Por esse tempo, um dia que ele estava com Sica, escreveu assim: J&aacute;<br \/>\n    me n&atilde;o fio na minha rabeca; acredito que ela n&atilde;o h&aacute;-de<br \/>\n    lamentai a minha morte; n&atilde;o morre, n&atilde;o! H&aacute;-de dar-se<br \/>\n    ao primeiro que a tomar nos bra&ccedil;os; h&aacute;-de dar-se com sufoca&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    lascivas, e dizer-lhe os mesmos segredos m&iacute;sticos, voluptuosos e iluminados<br \/>\n    que me dizia a mim: que importa &agrave; rabeca que o pobre m&uacute;sico<br \/>\n    apodre&ccedil;a debaixo da terra? Ele escrevia isto com os olhos molhados<br \/>\n    de &aacute;gua.<\/p>\n<p> &laquo;Ultimamente o m&uacute;sico Sica necessitou ir &agrave; costa nor.<br \/>\n    manda, porque tinha l&aacute; seu pai, velho marinheiro, morrendo junto das<br \/>\n    &aacute;guas; e quando voltou coberto de lutos e solu&ccedil;os, disseramlhe<br \/>\n    que Paganini tinha partido para o Sul e o sr. Georges Harrys todo corado de<br \/>\n    sa&uacute;de para as bandas do Hanover. Adeus, n&atilde;o te demores em Nizza,<br \/>\n    acaba depressa a tua sinfonia do Harold e recomenda-me ao nosso velho amigo<br \/>\n     o Mar.&raquo; Tempo depois o homem que tinha mandado esta carta recebeu<br \/>\n    estoutra de Berlioz.<\/p>\n<p> &laquo;Estou ainda todo frio das vis&otilde;es desta noite. Sabes que moro<br \/>\n    nas Sorveiras, que s&atilde;o umas ru&iacute;nas junto do mar, pedras bem<br \/>\n    conhecidas por toda a popula&ccedil;a do ar: abrigam-se ali, como numa pousada,<br \/>\n    os viajantes sombrios da atmosfera, que s&atilde;o as chuvas esguedelhadas,<br \/>\n    os ventos uivadores, os granizos que escarnecem, as moles brumas e os nevoeiros.<br \/>\n    Em redor est&atilde;o espalhados os casebres dos pescadores todos conchegados<br \/>\n    como as ovelhas quando anda temporal no monte; a costa &eacute; terr&iacute;vel<br \/>\n    e no entanto &agrave;s vezes o mar tem serenidades s&oacute; semelhantes ao<br \/>\n    calmo olhar de um idiota.<\/p>\n<p> &laquo;Este povo trigueiro de pescadores sai logo de madrugada para os embalos<br \/>\n    da &aacute;gua nas suas lanchas esguias, carunchosas, todas cheias de legenda<br \/>\n    e do cheiro das pescas: logo na alvorada se sente em baixo, junto da voz da<br \/>\n    maresia, aquelas cantigas fortes de deitar redes, robustas como calabres,<br \/>\n    e s&atilde;s como o sol. &Eacute; uma bela vida! Durante o Ver&atilde;o, nas<br \/>\n    sestas silenciosas do mar todos andam na pesca, os velhos, as crian&ccedil;as<br \/>\n    rotas, resplandecentes e sujas, e as m&atilde;es de forte seio essas belas<br \/>\n    mulheres da costa da It&aacute;lia que eram t&atilde;o desejadas pelos marinheiros<br \/>\n    gregos e fen&iacute;cios, duros e. calvos, que tinham visto Mileto e Abido<br \/>\n    e Corinto.<\/p>\n<p> &laquo;Agora que o Outono come&ccedil;a, esta pobre gente deixa as redes<br \/>\n    rasgarem-se ao vento, e vai para o interior dos povoados juntar-se nos campos<br \/>\n    &agrave; pobre gente curvada que lavra e que semeia.<\/p>\n<p> &laquo;Ontem fui, numa barca de pescador, at&eacute; ao ponto em que o Var<br \/>\n    desagua. Sabes que &eacute; neste tempo que as pombas emigram para o Sul;<br \/>\n    re&uacute;nem-se em bandos gemedores e v&atilde;o por cima do Mediterr&acirc;neo<br \/>\n    fazendo n&oacute;doas brancas pelo ar azulado. Quando voltei, o Sol descia:<br \/>\n    o barco vinha levado de um modo silencioso e casto pelos serenos embalos ondulosos.<br \/>\n    o mar tinha uma serenidade ol&iacute;mpica.<\/p>\n<p> &laquo;Eu tinha-me abandonado &agrave;s molezas da tarde, e todo estirado<br \/>\n    &agrave; popa via o c&eacute;u cobrir-se de uma cor rosada, como de um rubor<br \/>\n    de castidade. As estrelas come&ccedil;avam a aparecer; donde vinham elas?<br \/>\n    E donde &eacute; que vem a noite de t&atilde;o longe que vem suada de luz?<br \/>\n    Eu via-as tremer e pensava que elas deviam ter frio e medo, l&aacute; em cima,<br \/>\n    nas solid&otilde;es, sem deuses. &Agrave;quelas horas tamb&eacute;m aparecem<br \/>\n    as ondinas na &aacute;gua; quem sabe se as estrelas s&atilde;o mulheres de<br \/>\n    um elemento desconhecido, que v&ecirc;m de noite em sereias sagradas celebrando<br \/>\n    um rito eleg&iacute;aco? Quem sabe se s&atilde;o &aacute;rvores agitadas por<br \/>\n    um vento, que deixam cair estes negros frutos, a melancolia, o amor, a sensualidade?<br \/>\n    &laquo;Depois ri-me destas imagina&ccedil;&otilde;es; mas no meio do Mediterr&acirc;neo,<br \/>\n    ao anoitecer, num barco de pesca, vendo ao longe as linhas moles da costa<br \/>\n    de It&aacute;lia, e sobre os montes os fogos dos pastores, n&atilde;o podia<br \/>\n    ver as estrelas como nas verdades e nos positivismos modernos e esqueci Arago,<br \/>\n    Berthelot e o velho Laplace.<\/p>\n<p> &laquo;E depois pensava como desejava morrer, que era nos bra&ccedil;os<br \/>\n    da bem-amada; sol da minha natureza, sem dores mordentes, sem febres silenciosas,<br \/>\n    e ir assim entre as fulgura&ccedil;&otilde;es do desejo e os deslumbramentos<br \/>\n    da alma e os beijos vermelhos e transfiguradores e os entrela&ccedil;amentos<br \/>\n    divinos sob o seu olhar santo, ir num lento desmaio da carne para a frialdade<br \/>\n    da terra e ali sentir-me lentamente dissipar pelas humidades fecundas, pelas<br \/>\n    seivas brancas, pelas espumas das nascentes, pelas ra&iacute;zes das floresc&ecirc;ncias!<br \/>\n    &laquo;Ora quando assim v&iacute;nhamos, vi na linha escura e &aacute;spera<br \/>\n    da costa uma massa sonora de arvoredo e por entre a sombra uma luz eleg&iacute;aca.<\/p>\n<p> &laquo; Que luz &eacute; aquela, meu velho?  disse eu da popa.<\/p>\n<p> &laquo;O pescador suspendeu as rijas ondula&ccedil;&otilde;es dos remos,<br \/>\n    que ficaram direitos, escorrendo, todos esverdeados dos musgos da &aacute;gua.<\/p>\n<p> &laquo; Aquela luz, senhor, &eacute; da casa das Serenas; a estas<br \/>\n    horas est&aacute; ali abandonado um pobre homem que morreu l&aacute; ontem.<br \/>\n    Tinha chegado aqui h&aacute; pouco, e era mais amarelo que a cera.<\/p>\n<p> do altar; at&eacute; na costa diziam os velhos que ele se vendera ao Diabo;<br \/>\n    Deus me perdoe por falar assim nisto, de noite, em cima das &aacute;guas.<br \/>\n    Ah! senhor, diziam que tocava na sua rabeca maldita que nem o C&eacute;u&#8230;<br \/>\n    Chamavam-lhe Paganini.<\/p>\n<p> &laquo;E o pescador meteu os remos na &aacute;gua, cantando com um embalo<br \/>\n    da voz: Altra volta gieri bele Blanch&rsquo;e rossa com&rsquo;un fiore Ma<br \/>\n    ora n&oacute;. Non san piu biele Consumatc dal&#8217;amore.<\/p>\n<p> &laquo;E depois voltando-se e com a voz ensurdecida pelo clamor das mar&eacute;s:<br \/>\n    &laquo;E os padres agora n&atilde;o lhe querem cantar as suas ladainhas<br \/>\n    e enterr&aacute;-lo em terra santa. Se fosse meu parente e tal sucedesse ia<br \/>\n    para o fundo do mar: debaixo da &aacute;gua anda muito corpo de patr&otilde;es<br \/>\n    e pilotos: eles n&atilde;o morreram, n&atilde;o; andam ainda vivos; e quando<br \/>\n    um pobre homem que tem mulher e filhos deita as suas redes, em dia de vento,.<br \/>\n    quando o peixe anda arredio, eles costumam afugentar a pescaria com ramos<br \/>\n    de coral para as bandas da rede!&#8230;  O pescador falava assim lentamente<br \/>\n    com a voz pesada da religi&atilde;o das legendas.<\/p>\n<p> &laquo;Eu levava os olhos rasos de &aacute;gua e pensava que nunca tinha<br \/>\n    ouvido tocar o triste Paganini: sempre que ele deu os seus concertos, n&atilde;o<br \/>\n    sei que frias necessidades me prendiam longe da Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p> &laquo;Entrei nas Sorveiras com o peito cheio de friezas e de mortalidades.<br \/>\n    Quis trabalhar mas sentia-me dissolvido na pesada materialidade das coisas.<\/p>\n<p> &laquo;Tomaram-me uns moles cansa&ccedil;os e fiquei sem pensamento, sem<br \/>\n    desejos, inerte e silencioso como um pombal donde fugiram todas as pombas.<br \/>\n    Sentia apenas o miar dos gatos lascivos e os uivas dos c&atilde;es que andam<br \/>\n    de noite na praia esfomeados. O mar estava pesado de gemidos sob a noite lenta<br \/>\n    e m&iacute;stica.<\/p>\n<p> &laquo;Ora quando assim estava ouvi distante, como vindo dos lugares hier&aacute;ticos<br \/>\n    das nuvens e das vias-l&aacute;cteas, o gemido de uma rabeca.  Quem<br \/>\n    &eacute; que, &agrave;quelas horas, numa costa &aacute;spera de ventos imensos,<br \/>\n    quando os pescadores dormem nas frialdades da cinza da lareira enrodilhados<br \/>\n    nos farrapos dos mant&eacute;us, tocava assim rabeca junto do mar? &laquo;Fui<br \/>\n    amedrontado ao meu antigo baldo g&oacute;tico e olhei pelas transpar&ecirc;ncias<br \/>\n    doentias da noite.<\/p>\n<p> Nada. As ondas choravam o seu choro m&iacute;stico e as estrelas estavam<br \/>\n    na sua imobilidade donde se exalam religi&otilde;es. Cerrei as portadas e<br \/>\n    voltei com o peito sacudido por um solu&ccedil;o de medo para junto do braseiro:<br \/>\n    ent&atilde;o ouvi de novo aquele som triste da rabeca estender-se lentamente<br \/>\n    pelo mar como uma n&eacute;voa sonora. Fiquei todo tomado de tremores e de<br \/>\n    frios: e ouvi ent&atilde;o distintamente com os ouvidos da carne a m&uacute;sica<br \/>\n    de uma rabeca acompanhada surdamente pelo mar.<\/p>\n<p> &laquo;Ao princ&iacute;pio foi uma melodia de fresca serenata, que a &aacute;gua<br \/>\n    acompanhava com um marulho h&uacute;mido e alegre: e ao mesmo tempo ao longe<br \/>\n    havia o gemer r&iacute;tmico do vento.<\/p>\n<p> &laquo;Ent&atilde;o durante uns momentos eu ouvi unia m&uacute;sica estranha<br \/>\n    da rabeca, acompanhada pelo mar, onde havia gemidos, dilacera&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    e vozes pesadas de l&aacute;grimas, e melodias tr&aacute;gicas com dores da<br \/>\n    Natureza, e sempre por entre os sons alegres e meigos uma tristeza surda e<br \/>\n    lenta corria como a &aacute;gua corre lodosa entre os juncos, os canaviais<br \/>\n    e as efloresc&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> &laquo;Havia vozes de rabeca aflitas e b&aacute;rbaras: e &agrave;s vezes<br \/>\n    dois mugidos sinistros do mar pareciam presos por uma melodia da rabeca, delgada,<br \/>\n    t&eacute;nue, clara, como um fio de som. Eu n&atilde;o te sei dizer o que<br \/>\n    era aquela m&uacute;sica sobrenatural, eleg&iacute;aca, selvagem, tr&aacute;gica,<br \/>\n    suave, e escarnecedora.<\/p>\n<p> &laquo;Por fim de repente toda aquela orquestra poderosa se calou, como<br \/>\n    um bando de abutres e aves de noite gritando aflitas, com tr&aacute;gicas<br \/>\n    palpita&ccedil;&otilde;es de asas, que v&ecirc;m pousar num sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    sobre um rochedo das &aacute;guas. Ent&atilde;o senti, de entre aquela amontoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apocal&iacute;ptica de harmonias, desprender-se solit&aacute;ria a voz da<br \/>\n    rabeca, e vir de leve tocar junto do meu balc&atilde;o com meiguice, com moleza,<br \/>\n    com dissipa&ccedil;&atilde;o de l&aacute;grimas  as varia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do Carnaval de Veneza.<\/p>\n<p> &laquo;Ningu&eacute;m me pode tirar do cora&ccedil;&atilde;o que foi a alma<br \/>\n    de Paganini que deixou o seu corpo na natureza solit&aacute;ria das Serenas,<br \/>\n    e veio dizer o adeus da m&uacute;sica ao seu velho amigo.<\/p>\n<p> &laquo;Adeus, meu meigo artista: sofre e transfigura-te pela dor: eu aqui<br \/>\n    estou cheio de saudade da nossa doce Fran&ccedil;a, junto das &aacute;guas<br \/>\n    tristes do Mediterr&acirc;neo.<\/p>\n<p> &laquo;Creio que depois da noite de ontem, nunca mais terei o riso sonoro<br \/>\n    e s&atilde;o. Adeus: dei os teus recados ao Mar, que te manda como voz de<br \/>\n    sauda&ccedil;&atilde;o o terr&iacute;vel temporal que agora vai na costa.&raquo;.<\/p>\n<p> O homem a quem esta carta foi escrita era um meigo artista, um pintor como<br \/>\n    Lantara, e assim descuidado, vivendo na bo&eacute;mia errante das mis&eacute;rias,<br \/>\n    das jovialidades e das Primaveras: mas a alma n&atilde;o se maculou com os<br \/>\n    contactos do corpo: no meio daquelas loucuras esteve sempre como uma pomba<br \/>\n    adormecida. Aquele pobre rapaz vivia numa trapeira, onde trabalhava sem sol,<br \/>\n    naquelas alturas silenciosas e castas onde vivem e crescem as flores do bem:<br \/>\n    depois enlouqueceu e foi recolhido a um hospital: e ali era sagradamente velado<br \/>\n    por uma enfermeira doce, delicada e branca como uma Virgem de ouro fino de<br \/>\n    uru livro de legendas: o pintor, que, como o seu amigo Lyser, ainda depois<br \/>\n    de doido desenhava, pediu um dia &agrave; enfermeira a sua touca engomada<br \/>\n    e lisa, e com um l&aacute;pis desenhou ali, como um agradecimento de alma,<br \/>\n    toda a sorte de delicadas imagina&ccedil;&otilde;es  asas abertas,<br \/>\n    coroas de folhagens, atidas que vinham beijar um p&eacute; branco, coroa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de caridades.<\/p>\n<p> Uma noite a enfermeira ouviu um gemido, e veio encontrar o pobre pintor<br \/>\n    com as m&atilde;os postas diante de um ret&aacute;bulo alumiado; a doce rapariga<br \/>\n    cuidou no seu cora&ccedil;&atilde;o que ele se encomendava &agrave; Virgem;<br \/>\n    escutou: o pobre rapaz doido estava rezando ao seu velho amigo Cl&aacute;udio<br \/>\n    Loreno; quando sentiu a enfermeira, voltou-se, e disse-lhe quase a chorar:<br \/>\n     Deixo o meu corpo aos rios, &agrave;s &aacute;rvores, &agrave;s abelhas,<br \/>\n    aos montes, &agrave;s searas, a toda a M&atilde;e-Natureza.  Depois<br \/>\n    curvou-se, beijou a orla do vestido da enfermeira e ficou-se enroscado no<br \/>\n    ch&atilde;o, nas &uacute;ltimas frialdades.<\/p>\n<p> A enfermeira pousou a luz do ret&aacute;bulo junto do corpo, tirou a toalha<br \/>\n    da Virgem e estendeu-a sobre a face p&aacute;lida do triste, transfigurada<br \/>\n    nas &uacute;ltimas formosuras.<\/p>\n<p> Ao outro dia de madrugada, quatro homens que riam das farsas da taberna,<br \/>\n    e cantavam m&aacute;s cantigas, levaram aquele branco corpo &agrave; vala<br \/>\n    dos pobres..<\/p>\n<p> OS MORTOS A sua carne sofreu, empalideceu nos medos, coloriu-se com as febres,<br \/>\n    engelhou-se nos frios; mas agora anda, repousada e s&atilde; pelas frescas<br \/>\n    vegeta&ccedil;&otilde;es, pelos frutos coloridos, na luz selvagem e vital<br \/>\n    do sol, nos &aacute;tomos da noite constelada e suave.<\/p>\n<p> Os que morreram nos apodrecimentos das febres desfizeram-se nas terras fecundas<br \/>\n    sob as efloresc&ecirc;ncias limosas, foram sugados pelas ra&iacute;zes e,<br \/>\n    confundidos com a seiva, v&ecirc;m outra vez para o sol, sob forma de frutos,<br \/>\n    de corolas, de ramagens ondulosas.<\/p>\n<p> Os que morrem sobre as &aacute;guas do mar desfazem-se entre os verdes embalos,<br \/>\n    entre as areias, os corais, as conchas, as folia&ccedil;&otilde;es dos rochedos,<br \/>\n    e v&ecirc;m depois, sob a forma de ondas, embalar-se serenos ao sol, ou de<br \/>\n    noite estirarem-se ao peso da moleza que escorre dos astros, ou de madrugada,<br \/>\n    cantando com barbaridades de rainhas e do&ccedil;uras de santas, acalentarem<br \/>\n    o povo dos pescadores silencioso e trigueiro.<\/p>\n<p> Os que morrem sobre os montes, como os pastores contemplativos, s&atilde;o<br \/>\n    consumidos pelo sol; e andam dissipados pela luz hier&aacute;tica das estrelas,<br \/>\n    pelos vapores moles das nuvens, pelas auroras; s&atilde;o os &aacute;tomos<br \/>\n    da luz, serenos, fecundos, consoladores e purificadores.<\/p>\n<p> Assim os mortos s&atilde;o felizes.<\/p>\n<p> N&oacute;s outros. andamos ruidosos e nocturnos, gordos ou empalidecidos,<br \/>\n    esfomeados de materialidades, calcando as Margaridas, perdidos nos deslumbramentos<br \/>\n    da carne; celebramos as religi&otilde;es, esbo&ccedil;amos deuses, riscamos<br \/>\n    sociedades no ar; e, nervosos, desconsolados, derrubadores, no meio desta<br \/>\n    forte vitalidade  como um lavrador que suspende a enxada e se fica,<br \/>\n    todo amarelo, a pensar na velhice sem p&atilde;o e sem lume  n&oacute;s<br \/>\n    estamos sempre a sustar as nossas alegrias alumiadas e sonoras para pensarmos<br \/>\n    aterrados nos esfriamentos l&uacute;gubres do t&uacute;mulo.<\/p>\n<p> E no entretanto, os mortos, que s&atilde;o os pais, as irm&atilde;s, as<br \/>\n    bem-amadas, as m&atilde;es, est&atilde;o pela Natureza, pelos montes, pelas<br \/>\n    &aacute;guas, pelos astros  serenos e imaculados. E porque tememos<br \/>\n    a morte? Que instinto tenebroso ou sagrado nos faz amar tanto esta forma humana,<br \/>\n    estes cabelos, estes olhos, estes bra&ccedil;os enrodilhados de m&uacute;sculos?<br \/>\n    As &aacute;rvores, as efloresc&ecirc;ncias, as ervas, as folhas, s&atilde;o<br \/>\n    tamb&eacute;m formas da vida, santas e cheias de Deus. Por toda a parte, pelas<br \/>\n    fam&iacute;lias das constela&ccedil;&otilde;es, pelos planetas, pelas &aacute;rvores,<br \/>\n    pelos l&iacute;vidos interiores da terra, pelas &aacute;guas, pelos vapores,<br \/>\n    pelas planta&ccedil;&otilde;es fecundas escorre a seiva, o &aacute;tomo santo,<br \/>\n    a alma universal! Por toda a parte h&aacute; atrac&ccedil;&otilde;es, amores,<br \/>\n    antagonismos, fibras, repuls&otilde;es, polariza&ccedil;&otilde;es, alegrias,<br \/>\n    estiola&ccedil;&otilde;es, p&oacute;lenes, alma, movimento  vida. Porque<br \/>\n    h&aacute;-de ent&atilde;o ser esta forma que tem bra&ccedil;os e cabelos,<br \/>\n    e n&atilde;o aquela que tem ramos e folhagens? A vitalidade &eacute; a mesma,<br \/>\n    cheia dos mesmos instintos negros, sagrados, luminosos, bestiais, divinos.<\/p>\n<p>Por isso os mortos s&atilde;o felizes porque andam longe da forma humana,<br \/>\n    onde h&aacute; o mal, pela grande Natureza santa, onde s&oacute; h&aacute;<br \/>\n    o bem, na pureza, na serenidade, na fecundidade, na <\/p>\n<p>  for&ccedil;a.<\/p>\n<p> Bem-aventurados os que v&atilde;o para debaixo do ch&atilde;o, porque v&atilde;o<br \/>\n    para uma transfigura&ccedil;&atilde;o sagrada. Mal caem sobre eles as &uacute;ltimas<br \/>\n    pazadas de terra e o canto dos Ontem foi o dia dos mortos, os mortos s&atilde;o<br \/>\n    felizes. Enquanto nas dolentes celebra&ccedil;&otilde;es da Igreja, ao p&eacute;<br \/>\n    dos altares luzentes, diante de Jesus roxo e descarnado, os tristes e os simples<br \/>\n    rezam pelos seus queridos mortos, eles andam dispersos pela grande Natureza,<br \/>\n    pelas florestas esguedelhadas, pelas espessuras sonoras, pelas uberdades da<br \/>\n    seiva, pelos sulcos fecundos, por todas as verduras de acre cheiro.. padres,<br \/>\n    b&aacute;rbaro e dolente, se perde com o fumo dos c&iacute;rios, o corpo fica<br \/>\n    s&oacute; na plenid&atilde;o da noite e do sil&ecirc;ncio perante a grande<br \/>\n    vegeta&ccedil;&atilde;o esfomeada; ele vai dar-se ali como pasto &agrave;s<br \/>\n    bocas sinistras das ra&iacute;zes: ele amolece entre as humidades da terra<br \/>\n    e desfaz-se em podrid&otilde;es: ent&atilde;o as ra&iacute;zes come&ccedil;am<br \/>\n    a sugar e a. comer: a podrid&atilde;o transforma-se em seiva; a seiva sobe<br \/>\n    pelos troncos, estende-se pelos ramos, palpita selvajamente dentro da &aacute;rvore,<br \/>\n    engrossa, fecunda, arredonda-se nas exuber&acirc;ncias dos gomos, e abre-se<br \/>\n    depois em folhagens, em floresc&ecirc;ncias e em frutos: e o corpo transformado<br \/>\n    v&ecirc; outra vez o sol, as grandes poeiras, e sente os orvalhos, e ouve<br \/>\n    as cantigas dos pastores, e vive sereno, repousado, na floresta imensa.<\/p>\n<p> E no entanto junto daquele corpo, que sofreu a metem. psicose do bem, tinha<br \/>\n    sido enterrado outro, num caix&atilde;o de chumbo, entre pedra e cal, hirto<br \/>\n    e embalsamado: entre a enorme palpita&ccedil;&atilde;o difusa, enquanto em<br \/>\n    redor vai a lenta transforma&ccedil;&atilde;o e fecunda&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    semente onde j&aacute; est&atilde;o no germe as folhas, os troncos, os frutos,<br \/>\n    as flores, os ramos que mais tarde o vento atormentar&aacute;; entre as ra&iacute;zes<br \/>\n    fortes e retorcidas dos arbustos, entre os calores da seiva, entre as uberdades<br \/>\n    e as voluptuosidades da terra desconhecidos, serenos e fecundos, o cad&aacute;ver<br \/>\n    embalsamado ali est&aacute;, inteiro, hirto, rijo, frio, l&iacute;vido. Ele<br \/>\n    inveja os &aacute;tomos livres e soltos, que sobem e v&atilde;o e descem no<br \/>\n    encruzamento das vitalidades, que se deslocam e escorrem, como gr&atilde;os<br \/>\n    de um saco, desde as constela&ccedil;&otilde;es. e os cometas, at&eacute;<br \/>\n    &agrave;s espumas castas das fontes: ali, sequestrado &agrave; Natureza, n&atilde;o<br \/>\n    se pode dissolver na eterna mat&eacute;ria forte: ele n&atilde;o tornar&aacute;<br \/>\n    a ver o sol, as noites amolecidas de orvalho, os solu&ccedil;os lascivos do<br \/>\n    mar: que estranha fatalidade pesava sobre ele que nem a morte o libertou?<br \/>\n    Oh! possamos n&oacute;s todos ter sempre em vida a religi&atilde;o do sol,<br \/>\n    da beleza e da harmonia: movermo-nos na atmosfera serena do bem e da liberdade;<br \/>\n    ter a alma limpa e transparente, sem sombras de deuses e de reis; sentir o<br \/>\n    enla&ccedil;amento divino dos bra&ccedil;os da bem-amada, e depois, &oacute;<br \/>\n    santa Natureza, toma os nossos corpos para fazer deles &aacute;rvores cheias<br \/>\n    de sombra e ramos resplandecentes.<\/p>\n<p> E ao menos durante a vida convivamos com a Natureza; quando entramos numa<br \/>\n    floresta parece que a luz do sol, que escorre abundante e fecunda, nos enche<br \/>\n    todo o interior, despertando ali, como faz nas madrugadas de Maio, os coros<br \/>\n    de p&aacute;ssaros: e depois h&aacute; um repouso sagrado como se todas as<br \/>\n    iras, e as amarguras, e os desalentos, e os terrores, se curvassem na mesma<br \/>\n    humildade, ao elevar-se na alma uma h&oacute;stia misteriosa.<\/p>\n<p> Durante o dia h&aacute; nas florestas uma santa celebra&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    as &aacute;rvores est&atilde;o graves como sacerdotes: as flores incensam:<br \/>\n    a luz do sol &eacute; a alva flamejante e serena que a floresta veste: e ela<br \/>\n    murmura um canto dolente e acre, acompanhado pelos p&aacute;ssaros religiosos,<br \/>\n    e de entre as ramagens eleva-se uma paz viva, fecunda e consoladora, como<br \/>\n    uma vaga h&oacute;stia: e, ao fim da missa, as &aacute;rvores, balan&ccedil;ando<br \/>\n    os ramos, parecem lan&ccedil;ar ao povo curvado das plantas, das ervas, e<br \/>\n    das relvas, a sua b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o soberba.<\/p>\n<p> Ora, quando n&oacute;s passamos entre estas celebra&ccedil;&otilde;es tristes,<br \/>\n    humildes, purificados, de entre a folhagem que se aninha inquieta no seio<br \/>\n    do vento, sai, para n&oacute;s, toda a sorte de vozes, de sauda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e de confid&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> S&atilde;o os nossos queridos mortos que nos falam, e ent&atilde;o toda<br \/>\n    a mat&eacute;ria tende a elevar-se, a desfazer-se em vapores e orvalhos, a<br \/>\n    ir pousar, com suavidade e cansa&ccedil;os, nos seios da folhagem, que j&aacute;<br \/>\n    foram seios amados.<\/p>\n<p> E depois a Natureza tem imensos perd&otilde;es e reconcilia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    formid&aacute;veis; todos os &oacute;dios tr&aacute;gicos, todos os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ferozes se fundem divinamente na promiscuidade dos orvalhos, das seivas e<br \/>\n    das espumas: ela n&atilde;o escolhe; tudo lhe &eacute; bom; as ra&iacute;zes<br \/>\n    das rosas pastam a podrid&atilde;o dos tiranos; e dos homens que na terra<br \/>\n    ensanguentaram, dilaceraram, profanaram, faz carvalhos austeros e cedros religiosos..<\/p>\n<p> Ela &eacute; mais doce que as religi&otilde;es: ainda nas Escrituras Judas<br \/>\n    atrai&ccedil;oa Jesus, e n&oacute; entanto h&aacute; muito tempo que os dois<br \/>\n    corpos  o do homem luminoso e o do homem escuro andam enla&ccedil;ados<br \/>\n    e dissolvidos nas mesmas auroras e nas mesmas corolas.<\/p>\n<p> Ela acolhe indiferente todos os ritos, todas as religi&otilde;es: as mesmas<br \/>\n    oliveiras que na Gr&eacute;cia encobriam, ondulosas, as coreias nuas e os<br \/>\n    ritos de Baco, cheios de sufoca&ccedil;&otilde;es lascivas, encobriram depois;<br \/>\n    agitadas por um vento feroz, sob a luz irada das constela&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    o pobre Jesus, gemendo, arrastando-se na rocha e nas silvas, suando. sangue,<br \/>\n    bradando aflito na noite das Agonias.<\/p>\n<p> As horas em que acabo estas linhas vai o dia a declinar: agora longe daqui,<br \/>\n    nos campos, lembra-me que anda o semeador erguido sobre os sulcos, roto e<br \/>\n    sereno, espalhando o gr&atilde;o com gesto augusto: e parece-me v&ecirc;-lo<br \/>\n    daqui entre as transpar&ecirc;ncias m&oacute;rbidas do anoitecer distribuindo<br \/>\n    a vida: s&atilde;o os corpos dos seus av&oacute;s, que ele assim espalha pelos<br \/>\n    sulcos fecundantes: s&atilde;o eles que se tornaram searas e que lhe h&atilde;o-de<br \/>\n    encher o celeiro; e s&atilde;o eles que lhe d&atilde;o a comer a sua carne<br \/>\n    e a beber o seu sangue.<\/p>\n<p> Sagradas transfigura&ccedil;&otilde;es! Assim, &eacute; na Natureza que<br \/>\n    devemos ir procurar as consola&ccedil;&otilde;es, estremecer com os amores<br \/>\n    mortos, chorar no seio das maternidades passadas. &Eacute; na Natureza que<br \/>\n    se deve procurar a religi&atilde;o: n&atilde;o &eacute; nas h&oacute;stias<br \/>\n    m&iacute;sticas que anda o corpo de Jesus  nas flores das laranjeiras..<\/p>\n<p> AS MIS&Eacute;RIAS 1. ENTRE A NEVE A Anselmo de Andrade O lenhador, pela<br \/>\n    madrugada, ergueu-se da enxerga e acendeu a candeia.<\/p>\n<p> Junto da lareira, engelhado nos frios, cavado de magrezas, dormia um rapaz<br \/>\n    enrodilhado nos farrapos de uma manta. O pobre lenhador desfalecia de febre:<br \/>\n    at&eacute; ao anoitecer da v&eacute;spera andara pelo negro mato, e depois<br \/>\n    nem teve um magro caldo junto das sonol&ecirc;ncias da lareira.<\/p>\n<p> Iam grandes neves pelos montes, e o triste tinha filhos pequenos, que &agrave;<br \/>\n    noite quando rezavam, todos arrepiados e magros, em redor da m&atilde;e, sufocavam<br \/>\n    no choro da fome: por isso &agrave;quelas horas, por entre nevoeiros moles,<br \/>\n    ele ia pelos montes, pelas colinas, pelos pinheirais, rachar, cortar e desramar,<br \/>\n    aos &aacute;speros ventos, na grande neve silenciosa.<\/p>\n<p> O rapaz dormia com os p&eacute;s inteiri&ccedil;ados e todos brancos da<br \/>\n    lama seca; tinha os grandes cabelos espalhados, e branco tinha o peito. A<br \/>\n    um canto sobre esteiras bolorentas, cobertas com o saiote da m&atilde;e, as<br \/>\n    duas crian&ccedil;as dormiam com os cotovelos arroxeados  dissolvidas<br \/>\n    no sono dos frios e das fomes; o lenhador tirou a jaleca que levava para os<br \/>\n    montes, embrulhoulhes os p&eacute;s duros, pesados dos longos esfriamentos,<br \/>\n    e com a candeia foi debru&ccedil;ar-se sobre a enxerga onde dormia a mulher;<br \/>\n    ela tinha o corpo colado ao fraco calor da enxerga como a um seio amado: os<br \/>\n    bra&ccedil;os, ca&iacute;dos e frouxos como os de uma mulher est&eacute;ril;<br \/>\n    os seus cabelos negros espalhavam-se tristemente pela enxerga como um luto;<br \/>\n    e a manta esburacada modelava a forma casta e fecunda dos seus peitos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o o lenhador tomou o machado negro e o feixe rijo das cordas,<br \/>\n    cobriu-se com o capuz de sarago&ccedil;a e foi-se lento, esfomeado e magro,<br \/>\n    pelos grandes caminhos, duros, l&iacute;vidos e cobertos de neve.<\/p>\n<p> O seu casebre ficava perdido ao p&eacute; dos montes, longe dos povoados,<br \/>\n    entre umas poucas de &aacute;rvores que erguiam para o ar os seus bra&ccedil;os<br \/>\n    negros, descamados, nus e suplicantes.<\/p>\n<p> Ali vivia aquela fam&iacute;lia h&uacute;mida dos frios, emagrecida das<br \/>\n    fomes, diante da neve e dos invernos, com os peitos cheios da religi&atilde;o<br \/>\n    do Sol, das searas e das fecundidades sonoras e alumiadas  como coisas<br \/>\n    flamejantes e divinas, que est&atilde;o t&atilde;o longe como Deus, inacess&iacute;veis,<br \/>\n    na poeira da luz, entre os para&iacute;sos. O pai ia todos os dias para os<br \/>\n    grandes montes lidar entre a ramaria; a mulher em casa cosia os farrapos ao<br \/>\n    p&eacute; da lareira sem lume, e ao anoitecer ia para junto da porta desconjuntada<br \/>\n    dos ventos, gretada dos frios, ver se, pelos atalhos enevoados, via chegar<br \/>\n    o marido, lento, curvado sob os grandes feixes de lenha.<\/p>\n<p> O lenhador caminhava para as bandas dos montes.<\/p>\n<p> A madrugada pesava com as n&eacute;voas, as frialdades e as chuvas desfeitas.<\/p>\n<p> A neve ca&iacute;a, leve. A alma aconchegava-se dentro do seu querido corpo<br \/>\n     como num vestido santo, amedrontado pela dureza sobrenatural das coisas.<br \/>\n    Porque toda aquela Natureza tinha estranhas barbaridades.<\/p>\n<p> Os caminhos tinham o ch&atilde;o duro, nevado, opaco.<\/p>\n<p> A manh&atilde; vinha escura, lenta e lacrimosa como uma vi&uacute;va &agrave;<br \/>\n    hora dos enterros: e &agrave; pouca luz t&eacute;nue, os peda&ccedil;os de<br \/>\n    gelo pendurados dos cardos e das urzes tinham o aspecto frio e podre de farrapos<br \/>\n    de mortalha: sobre as &aacute;rvores im&oacute;veis, os p&aacute;ssaros quietos<br \/>\n    e. cheios eri&ccedil;avam as plumagens aos ventos frios.<\/p>\n<p> As nuvens dissolviam-se pelo ar, cheias de orvalhos est&eacute;reis.<\/p>\n<p> O lenhador caminhava frio, rasgando-se nas silvas, cheio da chuva das &aacute;rvores,<br \/>\n    p&aacute;lido como os choupos, roxo, desconsolado e sereno.<\/p>\n<p> Ia lento. Pensava nos lavradores, que &agrave;quelas horas, nas terras quentes,<br \/>\n    saem, assobiando, sob a manh&atilde; religiosa e alumiada, entre as ervas<br \/>\n    claras, ao resplandecimento fecundo dos orvalhos, guiando pelos sulcos, enquanto<br \/>\n    as andorinhas gritam alegres e gloriosas, os bois fortes, lentos e bons. Ele<br \/>\n    tinha a mulher e os filhos esfomeados no casebre; desfazia-se em lides e em<br \/>\n    suores, e em cansa&ccedil;os, e nem sempre aquelas faces amadas se enchiam<br \/>\n    das cores da vida; aquela pobre gente estava sempre amarela; era o frio, era<br \/>\n    a fome; nem uma manta nova, nem uma pouca de l&atilde;: o bom Deus l&aacute;<br \/>\n    em cima parece que est&aacute; t&atilde;o bem agasalhado ao calor dos seus<br \/>\n    para&iacute;sos e das suas estrelas que n&atilde;o se lembra da pobre gente<br \/>\n    dos campos e dos montes que se arrepia de frio. E havia gente que via sempre<br \/>\n    os filhos bem quentes e bem corados! Assim pensava o triste, caminhando, pesado,<br \/>\n    molhado e todo cheio de coisas dolorosas e m&oacute;rbidas. A neve vinha descendo<br \/>\n    como um imenso desprendimento de l&atilde;s.<\/p>\n<p> E ele pensava que podia ser um abastado dos campos, e ver &agrave; noite<br \/>\n    em volta da sua lareira flamejante e serena toda a multid&atilde;o dura dos<br \/>\n    ceifadores e dos semeadores, com os cabelos ca&iacute;dos, entre os bons risos,<br \/>\n    em redor da grande tigela de caldo, ao estalido das castanhas, na atitude<br \/>\n    dos bons e dos simples.<\/p>\n<p> A neve ia caindo direita e vaga: e ouvia-se o rumor indefinido como de um<br \/>\n    mar, laborioso como de uma colmeia  das multid&otilde;es doentias dos<br \/>\n    pinheiros.<\/p>\n<p> O pobre lenhador olhava em redor as grandes neves extensas, enoveladas nas<br \/>\n    pedras, esfarrapadas pelos cardos, opacas e est&eacute;reis: ele olhava; e<br \/>\n    &agrave;s vezes um corvo passando silencioso e nocturno vinha bater o ar em<br \/>\n    redor dele com a selvagem palpita&ccedil;&atilde;o de asas.<\/p>\n<p> Come&ccedil;ava a espalhar-se o dia. Ele sentia-se s&oacute; entre aquela<br \/>\n    Natureza inimiga e b&aacute;rbara; e por vezes o bra&ccedil;o enfraquecido<br \/>\n    da febre vergava sob o machado e as cordas h&uacute;midas.<\/p>\n<p> Ele ia entrando pelo pinheiral indolente. O pinheiral era cerrado, e a noite<br \/>\n    estava ainda no encruzamento das ramagens l&iacute;vidas. A neve que ca&iacute;a<br \/>\n    sobre os ramos desfazia-se em orvalhos ao calor da seiva.<\/p>\n<p> As &aacute;rvores estavam como tomadas de um susto religioso.<\/p>\n<p> Quando saiu do pinheiral, em caminho para os montes, ele ia a recordar quando<br \/>\n    ia para as escamisadas numa aldeia do Sul, e sob a luz apaixonada e mel&oacute;dica<br \/>\n    das constela&ccedil;&otilde;es cantava &agrave; viola junto da doce rapariga<br \/>\n    de testa santa e de cabelos cor de amora; e ele, o perdido, amolecia o olhar<br \/>\n    a esfreg&aacute;-lo, pela abertura do len&ccedil;o. sobre a brancura do colo<br \/>\n    dela! Hoje, &agrave;quelas horas, pensava ele, aquela pobre mulher gemia na<br \/>\n    sua alma vendo os filhos, sem um bocado de p&atilde;o, andarem pelo casebre<br \/>\n    h&uacute;mido, rotos, dependurando-se- lhe das saias gemendo: &laquo;M&atilde;e!,<br \/>\n    m&atilde;e!&raquo; E os olhos do pobre tremiam-lhe nas &aacute;guas do choro.<\/p>\n<p> O lenhador apertou o machado e entrou na floresta.<\/p>\n<p> Os velhos carvalhos violentos e prof&eacute;ticos, os choupos desfalecidos,<br \/>\n    os castanheiros ruidosos, os olmos grotescos, as ramagens e os silvados erri&ccedil;ados<br \/>\n    onde o vento brada aflito, todas aquelas verduras vivas e s&atilde;s que cantam<br \/>\n    ao sol no empoeiramento da luz crua, toda aquela sombria Diana esguedelhada<br \/>\n    que se chama a floresta, dormia sob as opress&otilde;es da neve, triste, silenciosa<br \/>\n     est&oacute;ica e soberba.<\/p>\n<p> O lenhador com o machado erguido ia por entre a floresta; ele conhecia aquelas<br \/>\n    estranhas atitudes, aqueles escarpamentos de neve, as faces pensadoras dos<br \/>\n    rochedos,. todo o emaranhamento de ramos de folhas donde caem gotas como um<br \/>\n    eco de chuvas passadas, e todavia ao endireitar-se contra um velho carvalho<br \/>\n    empalideceu como diante de uma profana&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O seu cora&ccedil;&atilde;o simples e bom n&atilde;o compreendia, mas sentia<br \/>\n    aquelas vidas im&oacute;veis, silenciosas e sonoras que s&atilde;o &aacute;rvores,<br \/>\n    ramagens, arbustos, efloresc&ecirc;ncias; ele tinha compaix&atilde;o dos gemidos<br \/>\n    dos troncos, das cascas esmigalhadas, das fibras dilaceradas, e sentia que<br \/>\n    sacrificava ali &agrave; fome dos filhos vidas imensas de &aacute;rvores.<\/p>\n<p> O lenhador atirou o machado negro contra o tronco do carvalho e toda a &aacute;rvore<br \/>\n    imensa ficou tomada de vibra&ccedil;&otilde;es dolorosas; e as suas ramagens<br \/>\n    estenderam-se ca&iacute;das, sem vida e sem for&ccedil;a, estenderam-se pelo<br \/>\n    tronco como para se verem morrer sem gemidos, num sil&ecirc;ncio soberbo e<br \/>\n    selvagem.<\/p>\n<p> O Sol veio l&iacute;vido, mole, desfalecido. Sem serenidade, sem ascens&atilde;o<br \/>\n    flamejante e sagrada.<\/p>\n<p> N&eacute;voas arrastadas, escurezas, esvaecimentos l&uacute;gubres de nuvens.<\/p>\n<p> Come&ccedil;avam a esvoa&ccedil;ar os p&aacute;ssaros, piando tristemente.<br \/>\n    Toda a floresta chovia abundante e sonora.<\/p>\n<p> E o lenhador, com o peito erguido, os cabelos desmanchados, vermelho, trespassado<br \/>\n    de chuvas, feroz, com o machado erguido nas m&atilde;os, com justos e tr&aacute;gicos<br \/>\n    encarni&ccedil;amentos, lutava contra os troncos, contra os ramos, contra<br \/>\n    a incha&ccedil;&atilde;o das ra&iacute;zes, contra as duras corti&ccedil;as<br \/>\n    e os filamentos tenazes; e enchia o ch&atilde;o de ramagens negras, de bra&ccedil;os<br \/>\n    mortos de &aacute;rvores, ca&iacute;dos e inertes como armaduras vencidas.<\/p>\n<p> Aquelas &aacute;rvores que tanto tempo levaram a formar-se e a enrijar,<br \/>\n    e a acostumar-se aos ventos tumultuosos, e a saber agarrar as clinas da chuva,<br \/>\n    e a enla&ccedil;ar as moles nudezas das n&eacute;voas e dos vapores, aquelas<br \/>\n    &aacute;rvores cheias das mordeduras de Novembro, cheias de legenda e do cheiro<br \/>\n    das tormentas, encolhiam os ramos num estremecimento medroso quando o machado<br \/>\n    reluzia lugubremente no ar.<\/p>\n<p> Ele tinha a camisa solta, a jaleca esfarrapada: os socos imensos faziam<br \/>\n    covas na neve; e, esfomeado, terr&iacute;vel, ia a grandes passos pela floresta,<br \/>\n    rasgando os silvados, com respira&ccedil;&otilde;es imensas, esmigalhando<br \/>\n    as ra&iacute;zes, envolto em estilhas, em fibras partidas, com gestos tr&aacute;gicos,<br \/>\n    afastando com o machado o voo dos corvos; e todo cheio dos filhos, torturava<br \/>\n    as &aacute;rvores com golpes flamejantes, gritando-lhes: &laquo;Covardes!&raquo;<br \/>\n    Assim lidou sob a neve, e o vento, e a chuva, e a humidade, e a febre, e as<br \/>\n    n&eacute;voas, e a dor, at&eacute; ao anoitecer.<\/p>\n<p> Tinha j&aacute; um monte de ramagens e de lenhas: enfeixou-o nas cordas.,<br \/>\n    duras como os seus bra&ccedil;os; encravou no meio o machado: o feixe enorme<br \/>\n    estava encostado a um escarpamento de neve: as duas pontas da corda por onde<br \/>\n    ele o havia de erguer pendiam negras e h&uacute;midas: ele curvou-se todo<br \/>\n    para tomar o feixe sobre as costas largas; mas quando o ia a erguer, lento<br \/>\n    e cansado, sentiu os m&uacute;sculos afrouxarem, as m&atilde;os esfriarem,<br \/>\n    subiu-lhe um desfalecimento, e caiu com os cabelos suados e colados &agrave;<br \/>\n    testa, e os dedos inteiri&ccedil;ados esburacaram a neve.<\/p>\n<p> Assim esteve perdido na moleza do esvaecimento, at&eacute; que abriu os<br \/>\n    olhos vagarosos, e ficouse encostado ao feixe, e cheio de tremuras e de sil&ecirc;ncios.<\/p>\n<p> Vinha-se derramando a noite, desciam as neblinas: todo o ar estava tomado<br \/>\n    de uma palidez opaca e severa: caia uma chuva desfeita e vaporizada: todo<br \/>\n    o ch&atilde;o estava pesado de neve.<\/p>\n<p> Ao p&eacute; do lenhador estava estendido um grande tronco morto, sem ra&iacute;zes,<br \/>\n    sem ramagem, sem seiva, engelhado e mordido da neve; por um lado come&ccedil;avam<br \/>\n    a desfaz&ecirc;-lo os apodrecimentos.<\/p>\n<p> Em redor erguiam-se as multid&otilde;es de &aacute;rvores, cobertas de neve,<br \/>\n    adelga&ccedil;adas entre as transpar&ecirc;ncias do nevoeiro, tristes e nocturnas<br \/>\n    como monges brancos.<\/p>\n<p> Ao fundo abria-se uma clareira que deixava ver ao longe a grande luz, que<br \/>\n    se ia,. serena e t&iacute;mida.<\/p>\n<p> O lenhador tinha o pesco&ccedil;o nu  aos contactos da neve todo<br \/>\n    o peito dolorido e ensopado de chuvas; ele agarrou as cordas do feixe e, enrijando<br \/>\n    os m&uacute;sculos, com a face cheia, as fontes inchadas, as grandes veias<br \/>\n    sa&iacute;das como cordagens, e as pernas hirtas, violentou o corpo para se<br \/>\n    erguer  mas caiu sobre a neve, amolecido, sufocado, e coberto das friezas<br \/>\n    h&uacute;midas da febre.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o ficou-se a olhar o tronco esfolhado, nu, coberto de neve e<br \/>\n    a pensar que o seu corpo ia ali finar-se e dissipar-se entre as podrid&otilde;es<br \/>\n    dos troncos.<\/p>\n<p> E toda a sua carne foi tomada por uma vibra&ccedil;&atilde;o terr&iacute;vel.<br \/>\n    Tinham-lhe lembrado os filhos, e a mulher, e o pobre pastor que lhe sacudia,<br \/>\n    quando ele entrava, a neve dos cabelos e as silvas da jaleca.<\/p>\n<p> A neve caia triste. &Agrave;quelas horas ela esperava junto da porta a ver<br \/>\n    se o via ao longe chegar curvado debaixo dos seus feixes, pelos caminhos brancos<br \/>\n    e limpos.<\/p>\n<p> Ela estaria com uma m&atilde;o sobre a umbreira, e com a outra agasalhando<br \/>\n    as crian&ccedil;as nas dobras da saia contra os frios da noite.<\/p>\n<p> E ele estava ali, s&oacute;, esmagado, sob a neve implac&aacute;vel.<\/p>\n<p> E quando o n&atilde;o vissem vir! E ele procurava na mem&oacute;ria se j&aacute;<br \/>\n    alguma vez teria ficado de noite pelos montes. Nunca.<\/p>\n<p> Se o n&atilde;o vissem chegar iriam todos chorando e bradando, com a candeia<br \/>\n    acobertada do vento, procur&aacute;-lo pelas urzes sinistras.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes tomava-o o desvairamento, e via grandes figuras de sombra<br \/>\n    subirem pelos troncos, como um fumo terr&iacute;vel, e sempre aquele enovelamento<br \/>\n    de semelhan&ccedil;as humanas subia at&eacute; se perder nas transpar&ecirc;ncias<br \/>\n    l&iacute;vidas do ar.<\/p>\n<p> A neve ca&iacute;a como escorrida das nuvens.<\/p>\n<p> E ele pensava, triste, que a mulher e os filhos saberiam a sua morte na<br \/>\n    neve sob o encruzamento irado das folhagens, e todas as mordeduras da ventania,<br \/>\n    silencioso e solit&aacute;rio como um lobo! Ent&atilde;o aquele corpo, pisado<br \/>\n    pela neve, entre as roupas molhadas, enodoado, dissolvido nas molezas da n&eacute;voa,<br \/>\n    inteiri&ccedil;ou-se; com os olhos flamejantes, os dentes irados, tomado de<br \/>\n    risos, esfarrapado dos cardos, endireitou-se, e sufocado, esguedelhado, hirto,<br \/>\n    l&iacute;vido, deu um grito na noite.<\/p>\n<p> Houve um levantamento assustado de p&aacute;ssaros por toda a ramagem escura.<br \/>\n    E veio um vento e levou nas suas espirais violentas um enovelamento de folhas.<br \/>\n    E toda a luz do dia se sumiu na clareira. Ningu&eacute;m havia pelo monte.<br \/>\n    Estava s&oacute;. S&oacute;. Nem pastores, nem vaqueiros, nem caminheiros<br \/>\n    perdidos. S&oacute;. E iam-se os p&aacute;ssaros, iam-se as folhas, ia-se<br \/>\n    a luz. Ele ficava s&oacute; Ent&atilde;o, vendo em redor a floresta solit&aacute;ria<br \/>\n    e negra, a amontoa&ccedil;&atilde;o irada das sombras, o esvaecimento l&iacute;vido<br \/>\n    dos &uacute;ltimos ramos, as atitudes tenebrosas, as corcovas nocturnas das<br \/>\n    ra&iacute;zes, sentindo ao longe o uivo dos lobos e por cima da cabe&ccedil;a<br \/>\n    o esvoa&ccedil;ar dos corvos, estirou-se de bru&ccedil;os e bradou, na noite,<br \/>\n    sob a neve e o ru&iacute;do dos ramos: &laquo;Jesus!&raquo; E toda a floresta<br \/>\n    ficou silenciosa, indiferente, soberba; os corvos voaram gritando; ele caiu<br \/>\n    fraco, desalentado, roto, agonizante, macerado; e de cima o grande c&eacute;u,<br \/>\n    o c&eacute;u justo, o c&eacute;u sereno, o c&eacute;u sagrado, o c&eacute;u<br \/>\n    consolador cuspia neve sobre aquela carne miser&aacute;vel.<\/p>\n<p> E ficou inerte. A neve caia desfeita e branca. Estava estirado. Via por<br \/>\n    cima a grande imobilidade da floresta, os nevoeiros que deixavam cair farrapos<br \/>\n    que lhe vinham ro&ccedil;ar o rosto, e a sombra espectral do feixe de lenha.<\/p>\n<p> Ele sentia o corpo pesado com as dores do frio, e na testa e nos olhos sentia<br \/>\n    abrasamentos mordentes: e nas costas uma chaga imensa, que tivesse terr&iacute;veis<br \/>\n    ardores. ao contacto da neve, sob o peso do corpo.<\/p>\n<p> As vezes solu&ccedil;ava. E quando assim estava viu grandes sombras que<br \/>\n    lhe esvoa&ccedil;avam sobre a cabe&ccedil;a e fugiam bradando aflitas, com<br \/>\n    um terr&iacute;vel ru&iacute;do de asas, esbranqui&ccedil;adas da neve, apavoradas<br \/>\n    e ferozes.<\/p>\n<p> Eram os corvos. Tremeu todo. Ele entrevia-os j&aacute; quando eles viessem<br \/>\n    pousar-lhes sobre o peito, e curvados, batendo as asas, meio suspensos, enterrar-lhe<br \/>\n    os bicos negros na pobre carne.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o moveu dolorosamente o bra&ccedil;o entorpecido e apalpou em<br \/>\n    redor; encontrou um ramo solto, negro, espinhoso; lan&ccedil;ou-o contra as<br \/>\n    sombras negras dos corvos; mas ele tinha a m&atilde;o quase inanimada pelo<br \/>\n    frio, e o ramo debilmente arremessado veio-lhe cair sobre a face, e rasgou-lhe<br \/>\n    a carne com os espinhos: mas ent&atilde;o as m&atilde;os inertes n&atilde;o<br \/>\n    tiveram for&ccedil;a para o tirar.<\/p>\n<p> E p&ocirc;s-se a chorar. Os corvos voavam terr&iacute;veis; ele enterrava<br \/>\n    o p&eacute; na neve e atirava-a para o ar, como para os apedrejar. Os corvos<br \/>\n    desciam.<\/p>\n<p> A neve ca&iacute;a e j&aacute; lhe cobria as pernas hirtas. Ele ent&atilde;o,<br \/>\n    vendo a floresta que o ensopava de &aacute;gua, o ch&atilde;o que lhe coalhava<br \/>\n    a vida, o vento que o transia, a neve que o enterrava, os corvos que vinham<br \/>\n    com&ecirc;-lo, todas as hostilidades selvagens das coisas, encheu-se de c&oacute;leras,<br \/>\n    e, silencioso, feroz, com os olhos luzentes na noite, deitou rijamente a cabe&ccedil;a<br \/>\n    sobre o feixe e p&ocirc;s-se a morrer.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o veio repentinamente um vento tumultuoso: e pareceu ao pobre<br \/>\n    lenhador sentir naquele vento o som de um choro e uma voz bradando aflita.<\/p>\n<p> O vento era imenso e poderoso: dispersou os corvos: eles balan&ccedil;avam-se<br \/>\n    nas asas entre os redemoinhos do sopro feroz.<\/p>\n<p> A neve ca&iacute;a. Os corvos, assustados pelo vento que viera, pairavam<br \/>\n    sobre os &uacute;ltimos ramos.<\/p>\n<p> A neve ca&iacute;a. E os bra&ccedil;os do lenhador j&aacute; estavam cobertos,<br \/>\n    e todo o peito. Os corvos fugiam: e todo o bando aparecia como uma sombra<br \/>\n    indecisa e pesada.<\/p>\n<p> A neve caia. E estava coberta a garganta do homem, e estava coberta a boca.<\/p>\n<p> Os corvos iam-se sumindo nas transpar&ecirc;ncias da noite.<\/p>\n<p> A neve ca&iacute;a, indom&aacute;vel e est&eacute;ril. A testa do pobre<br \/>\n    estava coberta, e apenas se moviam ainda, lentamente, ao vento, os seus grandes<br \/>\n    cabelos escuros.<\/p>\n<p> A neve riscava a noite de branco. Ao longe uivavam os lobos.<\/p>\n<p> E a neve descia. As sombras dos corvos sumiram-se para al&eacute;m das ramas<br \/>\n    negras.<\/p>\n<p> Os cabelos desapareceram. S&oacute; ficou a neve!.<\/p>\n<p> FARSAS A LADRA  OS HOMENS DOS C&Atilde;ES A FILHA DO CARCEREIRO<br \/>\n    O PESCADOR O BECO ONDE MORA O REI LEAR OS DENTES PODRES  A BEBEDEIRA<br \/>\n    DO COVEIRO O POBRE S&Aacute;BIO  A FORMA  O SALTIMBANCO O POETA<br \/>\n    L&Iacute;RICO Aquele pobre mo&ccedil;o tinha uma bem-amada, e nas brancuras<br \/>\n    t&eacute;pidas da tarde passeavam entre os castanheiros enla&ccedil;ados,<br \/>\n    como nas velhas estampas alem&atilde;s.<\/p>\n<p> Quando ele a via  n&atilde;o via as pombas, nem as estrelas, nem<br \/>\n    as ervas: mas quando pensava nela via-a luminosa como todas as estrelas, lasciva<br \/>\n    como todas as pombas, mais fresca que todas as ervas. Ela tinha dois olhos<br \/>\n    negros como duas flores do mal. E ele dizia-lhe &agrave;s vezes: eu queria<br \/>\n    ser a terra em que tu h&aacute;s-de estar morta branca e fria  para<br \/>\n    te envolver toda num beijo fecundo. Ora, uma madrugada, ela ergueu-se do leito<br \/>\n    todo quente dos embalos lascivos, roubou-lhe uma bolsa de dinheiro, o rel&oacute;gio,<br \/>\n    um anel e fugiu.<\/p>\n<p> O pobre mo&ccedil;o foi para um hospital, com uma doidice eleg&iacute;aca.<\/p>\n<p> Um dia foi deitar-se para entre as ervas claras, entre o cheiro dos fenos<br \/>\n    e das seivas, ao sol sonoro, e p&ocirc;s-se a morrer enquanto os p&aacute;ssaros<br \/>\n    cantavam gloriosos, e ao longe uma flauta entre os milhos tocava uma cantiga<br \/>\n    das ceifas.<\/p>\n<p> A mulher morreu na enfermaria da cadeia, no apodrecimento da febre, calva<br \/>\n    e com chagas.<\/p>\n<p> * * * Conheci um rapaz mirrado, engelhado, com grandes olhos profundos,<br \/>\n    que dormia pelos portais, pelos adros, pelas encruzilhadas, e nos pedregulhos<br \/>\n    junto do rio.<\/p>\n<p> No Inverno, nas geadas, nos luares nevados, nas neblinas, o miser&aacute;vel<br \/>\n    dormia com os c&atilde;es sobre os lajedos: os c&atilde;es conheciam a sua<br \/>\n    manta esfarrapada e podre, e quando a n&atilde;o viam nos grandes frios mordentes,<br \/>\n    uivavam.<\/p>\n<p> Ele deitava-se entre os c&atilde;es, punha a nuca sobre os pedregulhos,<br \/>\n    e dissolvia-se num sono mole e doentio: ele conhecia os c&atilde;es mais felpudos,<br \/>\n    os mais gordos, e os que n&atilde;o cheiravam mal. As vezes deixavam-no dormir<br \/>\n    numa estrebaria.<\/p>\n<p> * * * A pobre rapariga tinha seis anos: era filha do carcereiro. Era loura,<br \/>\n    com grandes olhos l&uacute;cidos.<\/p>\n<p> Desde a madrugada ia pelos p&aacute;tios, pelas enxovias, pelas gradarias,<br \/>\n    leve como uma seda e s&atilde; como um sol.<\/p>\n<p> Levava bra&ccedil;adas de ervas aos presos e clematites.<\/p>\n<p> Na cadeia chamavam-lhe a Cotovia. Tinha pombas.<\/p>\n<p> Tinha um riso transparente e bom, e quando os miser&aacute;veis sujos e<br \/>\n    chorosos iam para os degredos  ela cantarolava entre eles, serena e<br \/>\n    gloriosa. Cresceu. A m&atilde;e era lavadeira e morreu no rio, entre os musgos<br \/>\n    e os canaviais. O pai teve um mal e ficou entrevado.<\/p>\n<p> Vieram os Invernos. Ela lidava. Cuidava dos irm&atilde;os pequenos. Lavava<br \/>\n    ao sol..<\/p>\n<p> Costurava &agrave; lareira sonolenta.<\/p>\n<p> De madrugada ia atirar gr&atilde;os e migalhas &agrave;s pombas: depois<br \/>\n    vinha dar ao pai engelhado, triste, doloroso, as sopas e o caldo.<\/p>\n<p> Um dia entrou na cadeia um b&ecirc;bedo, um covarde, um assassino, que tinha<br \/>\n    espancado o pai.<\/p>\n<p> Era um lindo rapaz, branco com um corpo delgado. A rapariga viu-o, e fugiu<br \/>\n    com ele de noite embrulhada num cobertor.<\/p>\n<p> Todo o dia seguinte, as crian&ccedil;as n&atilde;o comeram. O pai gritou,<br \/>\n    chorou e arrastou-se at&eacute; &agrave; lareira.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m. As pombas voavam &agrave; tarde inquietas, fugitivas e medrosas.<br \/>\n    O pai ficou toda a noite ao p&eacute; da lareira a roer um bocado de p&atilde;o<br \/>\n    duro. No outro dia ainda as crian&ccedil;as ficaram sem comer. Todas as pombas<br \/>\n    fugiram. O pai arrastou-se at&eacute; o casebre; e esfomeado, batia de encontro<br \/>\n    &agrave; porta. Por fim vieram. Passados dias. Havia pela vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    um cheiro de podrid&atilde;o.<\/p>\n<p> As crian&ccedil;as tinham morrido; o pai tinha morrido. Tinha sido a fome,<br \/>\n    a mingua, a sede, o frio.<\/p>\n<p> A que fugiu &eacute; hoje velha. Embebeda-se com aguardente: e quando na<br \/>\n    taberna as esfarrapadas e os miser&aacute;veis lhe falam nesta hist&oacute;ria,<br \/>\n    ela diz com voz rouca:  Ai que noite aquela, filhas! Ele tinha um modo<br \/>\n    de dar beijos! * * * Havia um casamento. A noiva era divinamente linda, triste,<br \/>\n    s&eacute;ria, casta, religiosa; tinha a alma delicada e fina como a alma das<br \/>\n    virgens das legendas. Amava um rapaz, novo, forte, s&eacute;rio, inteligente,<br \/>\n    formoso. Ela tinha a religi&atilde;o da beleza, da harmonia e das &aacute;rvores<br \/>\n    cheias de sol: mas o bem-amado era pobre. Velha hist&oacute;ria. Casou com<br \/>\n    um homem rico. A m&atilde;e era pobre e tinha irm&atilde;os. Necessidades<br \/>\n    frias, mordentes. Nessa noite havia pela sala sonora grandes sedas, e cintila&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de pedrarias, e as penas dos leques coloridas e devassas.<\/p>\n<p> Estava ali a gente p&aacute;lida, que anda nos veludos, de m&atilde;os macias<br \/>\n    e sentimentos macios. O marido era gordo. Entre a orquestra poderosa havia<br \/>\n    uma flauta que chorava.<\/p>\n<p> Ela, &agrave;quela hora, sob o peso das luzes e as molezas das respira&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    pensava nas alamedas onde os rouxin&oacute;is d&atilde;o a r&eacute;plica<br \/>\n    aos poetas. A meia-noite o marido levou-a para a alcova. O marido tinha comido<br \/>\n    muito e anotava. Ela tinha uns grandes cabelos negros. Cabelos do Sul.<\/p>\n<p> O Diabo gostava destes cabelos, no tempo dos seus amores.<\/p>\n<p> Mas a rapariga tinha tamb&eacute;m uns olhos azuis de uma serenidade eleg&iacute;aca.<br \/>\n    Ficaram s&oacute;s.<\/p>\n<p> Ela estava encostada &agrave; cama, quase escondida nos cortinados, com<br \/>\n    frio, e uma vibra&ccedil;&atilde;o dolorosa da alma. O marido prendeu-a nos<br \/>\n    bra&ccedil;os e deu-lhe um rijo beijo Ela, triste, deu um grito. Ele tinha<br \/>\n    os dentes podres e a boca com maus cheiros.<\/p>\n<p> * * * Um coveiro tinha amigos a cear. Cearam. Beberam. Havia um vinho mordente<br \/>\n    e duro da taberna.<\/p>\n<p> As estrelas estavam frias. Sa&iacute;ram para o cemit&eacute;rio inconsol&aacute;vel.<br \/>\n    Cambaleavam ferozes.<\/p>\n<p> Amontoaram a ramaria de um cipreste e acenderam uma fogueira. Cantavam &agrave;<br \/>\n    viola e dan&ccedil;avam como saltimbancos.<\/p>\n<p> Um deles gritou:  Mulheres! Venham mulheres!  H&aacute;-de-as<br \/>\n    haver por a&iacute;  disse com largos risos o coveiro.<\/p>\n<p> E todos come&ccedil;aram procurando uma cova onde estivesse fresco e s&atilde;o<br \/>\n    um corpo de. mulher: tinha sido enterrada uma rapariga naquela madrugada.<br \/>\n    Vinha atr&aacute;s do caix&atilde;o um rapaz todo amarelo, com grandes cabelos<br \/>\n    ca&iacute;dos. Tiraram a terra. Apareceu o caix&atilde;o. Ela tinha o vestido<br \/>\n    despregado no seio e via-se a carne branca.<\/p>\n<p>  Archotes! Archotes! Trouxeram ramos acesos.<\/p>\n<p>  Quem h&aacute;-de ser o primeiro? Que ela est&aacute; a preceito!<br \/>\n    Desceu um, b&ecirc;bedo, desapertado, galhofeiro e obsceno. Estendeu a m&atilde;o<br \/>\n    dura e meteu-a pela abertura despregada do vestido entre os seios da morta.<\/p>\n<p> Deu um grito. Tinha sido mordido. Era um bicho das covas. O bicho era o<br \/>\n    &uacute;ltimo amante daquele corpo branco; o bicho das covas tinha ci&uacute;mes.<\/p>\n<p> * * * O velho Jer&oacute;nimo morreu. Era pescador na costa. Um lobo-do-mar.<br \/>\n    Ningu&eacute;m como ele para velejar com temporal e vento de travessia nas<br \/>\n    brumas de Novembro, entre as penedias, esmagando as espumas. Morreu.<\/p>\n<p> Tinha m&atilde;e e dois filhos.<\/p>\n<p> Ela consertava as redes ao sol enquanto os filhos dormiam na areia.<\/p>\n<p> O Jer&oacute;nimo tinha as m&atilde;os duras, o pesco&ccedil;o bestial,<br \/>\n    o peito largo, cheio do Sol e do mar. O Sol era o seu Deus. Deixou dito que<br \/>\n    o n&atilde;o enterrassem em cemit&eacute;rios, debaixo das ervas, entre os<br \/>\n    germes das floresc&ecirc;ncias, as ra&iacute;zes e as terras limosas.<\/p>\n<p> Deixou dito que o atirassem ao mar. Ao outro dia os filhos sa&iacute;ram<br \/>\n    na barca cheirosa dos mares e dos musgos, com o corpo do pai embrulhado em<br \/>\n    redes. Uma grande luz de sol escorria pelo mar. Havia uma calmaria sonora<br \/>\n    e contente. A velha rezava &agrave; popa.<\/p>\n<p> * * * Num beco morava uma mulher perdida. Tinha o pai velho, estonteado<br \/>\n    e comido das magrezas.<\/p>\n<p> Ele &eacute; que abria a porta aos homens nocturnos.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes n&atilde;o o deixava comer. E arrepelava-lhe os cabelos.<br \/>\n    Um dia entrou um homem b&ecirc;bedo; ela estava com os vestidos desmanchados,<br \/>\n    os peitos ca&iacute;dos, sobre a cama, assobiando. O velho aquecia-se &agrave;<br \/>\n    lareira. O homem disse com um grande riso:  Vamos n&oacute;s embebedar<br \/>\n    o velho!  Valeu! E fizeram-no beber aguardente. O velho teve agonias.<\/p>\n<p> Eles torciam-se em obscenidades b&aacute;rbaras. De manh&atilde; o velho,<br \/>\n    com as for&ccedil;as esmigalhadas, os m&uacute;sculos dissolvidos, n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de acender o lume.<\/p>\n<p> Caiu miseravelmente ao p&eacute; da lareira. A filha deu-lhe com umas cordas,<br \/>\n    o homem deu-lhe com o p&eacute; rijo e bestial. O velho solu&ccedil;ava.<\/p>\n<p> A mulher esperou, calada, fria e met&aacute;lica at&eacute; que a noite<br \/>\n    veio.<\/p>\n<p> Mandou-lhe ent&atilde;o buscar azeite a uma venda vizinha.<\/p>\n<p> O velho foi. A filha fechou a porta. O velho, ao voltar, chorou, rezou,<br \/>\n    suplicou de joelhos com as m&atilde;os postas.<\/p>\n<p> Nada. A filha dentro cantava, toda lasciva, com as pernas nuas. O beco era<br \/>\n    solit&aacute;rio e vi&uacute;vo.<\/p>\n<p> Veio o frio, a geada. O velho estirado &agrave; porta gemia. Toda a noite<br \/>\n    a filha na cama bem quente e sonolenta! De madrugada uns carreteiros levantaram<br \/>\n    o velho transido, l&iacute;vido e gangrenado..<\/p>\n<p> Ao sol desse dia, arrastou a mulher pelas poeiras umas grandes sedas contentes<br \/>\n    e soberbas.<\/p>\n<p> * * * Ele caminhava pelas ruas, com os cabelos desmanchados, magro, ang&eacute;lico.<\/p>\n<p> Conhecia todos os livros santos e todas as Escrituras. E os livros s&acirc;nscritos<br \/>\n    e os velhos letrados da China; e os poemas divinos e doces da &Iacute;ndia<br \/>\n    e da luminosa Gr&eacute;cia; e as hist&oacute;rias hier&aacute;ticas e frias<br \/>\n    da P&eacute;rsia. Era pobre, miser&aacute;vel. Andava com um longo casaco<br \/>\n    esfarrapado, ro&iacute;do do frio e o peito cheio de religi&otilde;es e de<br \/>\n    teogonias. N&atilde;o tinha casa. As vezes dormia debaixo dos pinheiros, pelos<br \/>\n    montes. Prenderam-no.<\/p>\n<p>  Mas que mal fiz eu?  dizia ele com a sua voz lenta e olhar<br \/>\n    iluminado.<\/p>\n<p> Condenaram-no por vadio. Ele n&atilde;o sabia nada. Ningu&eacute;m o defendeu.<\/p>\n<p> Uma velha que por vezes lhe dava um bocado de p&atilde;o foi dizer, toda<br \/>\n    triste:  Perdoe-lhe, senhor juiz.<\/p>\n<p> Os sargentos repeliram a velha.<\/p>\n<p> Entre as alocu&ccedil;&otilde;es das leis e as palavras dolentes e as togas<br \/>\n    negras, ele pensava nos pa&iacute;ses sagrados onde nasce a religiosa flor<br \/>\n    do l&oacute;tus.<\/p>\n<p> Levaram-no para uma enxovia. Assim esteve anos. Nos frios, na humidade,<br \/>\n    solit&aacute;rio, sem livros, sem consola&ccedil;&otilde;es, sem vozes. Chorava.<br \/>\n    E tinha uma suave teima.<\/p>\n<p> Queria que todos os dias a velha lhe levasse flores. Um dia morreu, na enxerga,<br \/>\n    ao anoitecer, sem o Sol, sem os ventos, sem o grande ar, na humidade, sereno,<br \/>\n    desfolhando rain&uacute;nculos.<\/p>\n<p> * * * Quando tinha dezoito anos tinha um corpo robusto e mel&oacute;dico.<br \/>\n    Os cabelos eram como os grandes raios quentes de um sol negro. Tinha grandes<br \/>\n    bra&ccedil;os fortes e magn&eacute;ticos. O olhar tinha, como um mar, grandes<br \/>\n    ondas de luz, ou dolorosas, ou iradas, ou lascivas. O pesco&ccedil;o t&uacute;mido<br \/>\n    e forte tinha brancuras soberbas e rijezas c&iacute;nicas. E a voz era como<br \/>\n    sa&iacute;da dos cristais e dos metais sonoros.<\/p>\n<p> E a forma do seio dava o sabor das noites conjugais e a esperan&ccedil;a<br \/>\n    das maternidades. Mas era pobre.<\/p>\n<p> Tinha, ao andar, ondeamentos de sereia, musicais e castos. Mas era pobre.<\/p>\n<p> Quem a acolhesse no leito de noiva teria contentamentos inef&aacute;veis<br \/>\n    e filhos s&atilde;os e belos. Mas era pobre. E ela era casta e religiosa.<\/p>\n<p> Assim esteve virgem, apaixonada, orgulhosa at&eacute; que aquela beleza<br \/>\n    se foi lentamente, como finda um c&acirc;ntico sagrado. E ela era de feito<br \/>\n    o c&acirc;ntico sagrado da forma da carne.<\/p>\n<p> Outrora, quando ela passava, aquela forma escultural e a brancura lilial<br \/>\n    da sua pele arrastavam toda a multid&atilde;o filistina. Mas era pobre. N&atilde;o<br \/>\n    casou. E n&atilde;o se deu.<\/p>\n<p> Agora, velha, engelhada, lenta, com vest&iacute;gios l&uacute;gubres e um<br \/>\n    chap&eacute;u desbotado, passa, virginal, cheia de solit&aacute;rias impurezas,<br \/>\n    arrefecida, oleosa, beata, e com um c&atilde;o felpudo no colo.<\/p>\n<p> * * *.<\/p>\n<p> O saltimbanco era s&atilde;o, forte, com grandes cabelos e uns olhos negros<br \/>\n    eleg&iacute;acos.<\/p>\n<p> Uma velha rica desejou aquele corpo el&aacute;stico, a pele cor de m&aacute;rmore<br \/>\n    e os bei&ccedil;os grossos.<\/p>\n<p> Ora o saltimbanco tinha uma mulher bem-amada e filhos pequenos. De noite,<br \/>\n    eles deitavam-se entre os farrapos reluzentes, com as nucas sobre um velho<br \/>\n    tambor, cobertos de estrelas. A velha sabia que aqueles corpos tinham frio<br \/>\n    e fome: tentou o saltimbanco com cintila&ccedil;&otilde;es de dinheiro. O<br \/>\n    saltimbanco vem todo irado para junto da mulher, e apertam-se, amados, sujos<br \/>\n    e resplandecentes.<\/p>\n<p> Mas o tambor e a flauta dos saltimbacos n&atilde;o chamavam a gente do povoado.<br \/>\n    Veio o frio: sem lume! Veio a fome: sem p&atilde;o! A velha tentou o saltimbanco<br \/>\n    com cintila&ccedil;&otilde;es de dinheiro; o saltimbanco, veio todo curvado,<br \/>\n    abra&ccedil;ar os filhos todos rotos, amarelos, esfomeados e chorosos.<\/p>\n<p> E ent&atilde;o a mulher foi encontrar o saltimbanco a lavar-se, a preparar<br \/>\n    umas roupas brancas e a esfregar o peito com folhas.<\/p>\n<p>  Onde vais? Ele disse, a chorar: via a fome, o frio, a magreza, a<br \/>\n    lareira apagada, os trapos sujos, ia para o leito aveludado e quente da velha.<\/p>\n<p> Ela teve um riso doloroso.<\/p>\n<p>  N&atilde;o v&aacute;s.<\/p>\n<p> Queria ir ela: ir, sob a n&eacute;voa, com os peitos nus, para as encruzilhadas,<br \/>\n    agarrar os homens, os nocturnos, e ali mesmo sobre a erva e o ch&atilde;o<br \/>\n    duro, torcer-se aos beijos sujos  e entre as sufoca&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pedir-lhes um bocado de p&atilde;o.<\/p>\n<p> Ele chorava, arrepelado.<\/p>\n<p>  Tu! E limpava-lhe, com beijos sagrados, a orla das saias: e arrastava-se<br \/>\n    pelo casebre  com os joelhos roxos.<\/p>\n<p> Ela queria ir.<\/p>\n<p>  Sou eu que vou: deixa-me ir  disse o saltimbanco com a carne<br \/>\n    tomada de febres e os olhos reluzentes.<\/p>\n<p> E apertavam-se com um amor ang&eacute;lico. E ela ent&atilde;o, chorando,<br \/>\n    come&ccedil;ou a pente&aacute;-lo, a lav&aacute;-lo, a compor-lhe as pregas,<br \/>\n    a enfeit&aacute;-lo  enquanto Deus dormia.<\/p>\n<p> * * * Ele tinha sido um poeta dos bons tempos, arc&aacute;dico, laureado<br \/>\n    nos outeiros: tinha composto uma trag&eacute;dia cl&aacute;ssica. Depois envelheceu<br \/>\n    e empobreceu. Vivia de fazer versos para anos, de escrever cartas para as<br \/>\n    costureiras e para os lacaios, de redigir cartazes de touros e de fazer cantigas<br \/>\n    impuras.<\/p>\n<p> Tinha um filho.<\/p>\n<p> Ele esperava que o filho o amparasse na velhice. Mas o pobre rapaz teve<br \/>\n    uma febre mordente e ficou idiota. O pai cozinhava, limpava a casa e lidava<br \/>\n    com as rimas e com os sonetos para ganhar o p&atilde;o: e nem sempre havia<br \/>\n    p&atilde;o na trapeira. Passavam semanas comendo favas. As vezes tinha o pobre<br \/>\n    poeta l&iacute;rico encomendas de cantigas obscenas, de epital&acirc;mios<br \/>\n    ou de versos para namoradas: e ent&atilde;o sentado, enquanto, com os olhos<br \/>\n    arregalados, o filho gritava: &laquo;P&atilde;o!, p&atilde;o!, pai&raquo;<br \/>\n     ele dizia: &laquo;Tem paci&ecirc;ncia, filho; amanh&atilde; creio<br \/>\n    que havemos de comer.&raquo; E escrevia, pensando e medindo com os dedos:<br \/>\n    Dizeis, &oacute; bela M&aacute;rcia.<\/p>\n<p> Que deixei de te adorar: Tem asas o Deus Frecheiro: Pois n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    para esvoa&ccedil;ar? * * * Tristes hist&oacute;rias! Sofrer, chorar, ter<br \/>\n    fome e frio, e morrer &agrave; m&iacute;ngua, e ter noites de agonia<br \/>\n    o que &eacute; que isto prova? Nada, nada, meus senhores.<\/p>\n<p> Words! Words! Words!, dizia o nost&aacute;lgico Hamlet..<\/p>\n<p> AO ACASO Ainda ontem eu pensava que n&oacute;s outros os peninsulares nem<br \/>\n    sempre t&iacute;nhamos sido uma na&ccedil;&atilde;o estreita, de pequenas<br \/>\n    tend&ecirc;ncias, sonolenta, chata, fria, burguesa, cheia de espantos e servilidades:<br \/>\n    e que este velho canto da Terra, cheio de &aacute;rvores e de sol, tinha sido<br \/>\n    p&aacute;tria forte, s&atilde;, viva, fecunda, formosa, aventureira, &eacute;pica!<br \/>\n    Ah!, foi h&aacute; muito tempo.<\/p>\n<p> Era naqueles tempos em que a It&aacute;lia rodeava os papas severos; e olhavam<br \/>\n    para o c&eacute;u as Virgens do Dominiquino. Por esse tempo ia pela Europa<br \/>\n    uma transforma&ccedil;&atilde;o social. Na Alemanha, Lutero entrava em Worms,<br \/>\n    com um canto batalhador, em nome do esp&iacute;rito, da alma. O papado ia<br \/>\n    morrer. Era necess&aacute;rio que todo o Sul se aliasse na cruzada cat&oacute;lica.<\/p>\n<p> Toda a revolta de Lutero foi tomada ao principio por um daqueles lentos<br \/>\n    suspiros alem&atilde;es, que se perdiam no coro profano, luminoso, embalador<br \/>\n    e forte do Sul.<\/p>\n<p> Viu-se depois que era a voz imensa da alma do Norte, toda uma humanidade<br \/>\n    austera e vital, que se movia, que vinha falar, pensar, examinar, revelar,<br \/>\n    sob o peso das teocracias romanas, dos papados, dos imperadores, das tiranias,<br \/>\n    dos sacerd&oacute;cios.<\/p>\n<p> Todo o Sul cat&oacute;lico estremeceu; aquela revolta vinha imprevista e<br \/>\n    r&aacute;pida; um dia a impercept&iacute;vel e vasta humanidade, quando fosse<br \/>\n    uma madrugada para as suas adora&ccedil;&otilde;es, podia encontrar a velha<br \/>\n    Roma deserta, e ao longe o catolicismo dissipando-se com um som hier&aacute;tico<br \/>\n    de salmos e um colorido vermelho de fogueiras.<\/p>\n<p> Era necess&aacute;rio salvar o Sul.<\/p>\n<p> A It&aacute;lia tinha-se familiarizado com o cristianismo; tinha-se acostumado<br \/>\n    &agrave;s santas macera&ccedil;&otilde;es de Jesus, &agrave; transpar&ecirc;ncia<br \/>\n    asc&eacute;tica das Virgens; os renunciamentos e os medos cat&oacute;licos<br \/>\n    j&aacute; a n&atilde;o vergavam para o p&oacute;. Ela, cheia de sol e de sons<br \/>\n    e de for&ccedil;as, come&ccedil;ava a olhar a Natureza, as grandes fecundidades.<br \/>\n    as vitalidades poderosas, as melodias moventes da carne.<\/p>\n<p> Os velhos deuses da Gr&eacute;cia tinham-se refugiado na alma italiana;<br \/>\n    ao princ&iacute;pio andavam no fundo, como recorda&ccedil;&atilde;o leve,<br \/>\n    transfigurados pela dor, encolhidos, solu&ccedil;antes, miser&aacute;veis:<br \/>\n    depois lentamente foram aparecendo, espalhou-se um cheiro de ambr&oacute;sia<br \/>\n    e um som de id&iacute;lio; e os seus corpos s&atilde;o como astros, ocuparam<br \/>\n    por fim toda a alma italiana com coreias, derrama&ccedil;&otilde;es de n&eacute;ctares,<br \/>\n    palpita&ccedil;&otilde;es de luz, divinos resplandecimentos de vida.<\/p>\n<p> A It&aacute;lia tinha-se afastado de Dante e das vis&otilde;es devoradoras<br \/>\n    do infinito; e os poucos que se curvavam sobre a Divina Com&eacute;dia, n&atilde;o<br \/>\n    era para ver os castigos e os para&iacute;sos, mas para sentir as palpita&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que l&aacute; tinham ficado, da alma de Floren&ccedil;a.<\/p>\n<p> A It&aacute;lia seguia Petrarca: mas em Petrarca havia ainda uma religi&atilde;o<br \/>\n    e um misticismo  o amor: e a Laura dos Sonetos, como a Virgem m&iacute;stica,<br \/>\n    prendia nas humilha&ccedil;&otilde;es religiosas todos os cavaleiros do Sul.<br \/>\n    A It&aacute;lia ent&atilde;o deixou Petrarca e rodeou Ariosto, o aventureiro,<br \/>\n    o jovial, o descrente, cavaleiro e escarnecedor.<\/p>\n<p> Foi ent&atilde;o que se ouviu aquela voz do Norte.<\/p>\n<p> Todas as coortes cat&oacute;licas andavam dispersas, galhofeiras e namoradas,<br \/>\n    rindo com o Aretino, escarnecendo brutalmente com o poeta Pulei, guiadas por<br \/>\n    Lorenzo de M&eacute;dicis e pelo cardeal Bembo, cantando &agrave;s estrelas,<br \/>\n    adorando as Violantes, rindo de Fra Angelico, aclamando Ticiano, cobertas<br \/>\n    das sedas de Veneza, com o peito cheio da religi&atilde;o do Sol, da m&uacute;sica<br \/>\n    e das noite profanas.<\/p>\n<p> Foi ent&atilde;o que se ouviu a voz do Norte, o canto de Lutero. Todos os<br \/>\n    cat&oacute;licos correram instintivamente, rodearam os papas severos, Adriano<br \/>\n    VI, Clemente VIII, cantaram os salmos e as missas de Marcelo, cheias dos renunciamentos<br \/>\n    asc&eacute;ticos, e. foram seguindo o Tasso, que voltava, apaixonado e religioso,<br \/>\n    para Dante e para Deus.<\/p>\n<p> E o papado continuou caminhando, sereno e terr&iacute;vel, deixando as sombras<br \/>\n    das masmorras de Galileno e de Campanella, e mais longe o fumo das fogueiras<br \/>\n    de Vanini e de Giordano Bruno.<\/p>\n<p> Tal era a luta do Norte e do Sul.<\/p>\n<p> Ora durante essa luta das regi&otilde;es e das p&aacute;trias, a Pen&iacute;nsula,<br \/>\n    encolhida nas suas montanhas, cobertas de sol, violenta, sinistro cavaleiro<br \/>\n    de Deus, armava as caravelas e os gale&otilde;es para as bandas desconhecidas<br \/>\n    das ilhas, dos continentes das &Iacute;ndias, dos cabos temerosos. N&oacute;s<br \/>\n    outros, os peninsulares, aparec&iacute;amos &agrave;s outras na&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    como velhos lobos-do-mar, sempre em viagens, trigueiros, rijos como calabres,<br \/>\n    s&atilde;os como o Sol, ensurdecidos pelo clamor das mar&eacute;s, cheios<br \/>\n    de legendas e do cheiro das viagens, sobre os tombadilhos, e perdidos, ao<br \/>\n    longe, perdidos nas brumas terr&iacute;veis.<\/p>\n<p> De vez em quando desembarcava este povo, bradando que tinha descoberto um<br \/>\n    mundo, que l&aacute; tinham ficado infinitas multid&otilde;es, negras, bestiais<br \/>\n    e nuas sob a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o dos padres: ali mesmo sobre a areia,<br \/>\n    ao rumor das maresias, escrevia a hist&oacute;ria tr&aacute;gica da sua viagem,<br \/>\n    e uma madrugada, tomados das saudades do mar, partiam de novo, radiosos e<br \/>\n    bons, para a banda das &Iacute;ndias.<\/p>\n<p> Era assim. Todos os anos, aquela multid&atilde;o imensa de aventureiros<br \/>\n    embarcava nos gale&otilde;es, entre os salmos e os coros, e eles iam silenciosos<br \/>\n    e flamejantes, por entre as sonoras ilimita&ccedil;&otilde;es, os ventos aflitos<br \/>\n    e os tremores da &aacute;gua  para os nevoeiros inexplorados.<\/p>\n<p> Iam, em demanda de mundos, levando Deus dentro do peito, sob as constela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    augustas, entre as tempestades, os rochedos e as correntes, de p&eacute; nos<br \/>\n    tombadilhos, descobertos &agrave;s temperaturas, rodeando um Cristo, cantando<br \/>\n    os salmos ao coro dos furac&otilde;es, todos reluzentes de armaduras e de<br \/>\n    divisas de amor, com a alma cheia de altivezas de batalhadores e de do&ccedil;uras<br \/>\n    de ap&oacute;stolos.<\/p>\n<p> Iam como numa gl&oacute;ria e em nome de Deus! E quando encontravam as hostilidades<br \/>\n    e os encrespamentos irados do elemento, as opress&otilde;es infinitas dos<br \/>\n    ventos e das &aacute;guas. erguiam as m&atilde;os como para uma excomunh&atilde;o,<br \/>\n    e bradavam soberbos &agrave;queles sopros e &agrave;quelas maresias os vers&iacute;culos<br \/>\n    do Evangelho Segundo S. Jo&atilde;o.<\/p>\n<p> Era assim. Ora aqueles homens marinheiros e batalhadores eram historiadores<br \/>\n    e poetas.<\/p>\n<p>Escreviam os seus feitos.<\/p>\n<p> Escreviam-nos entre os assaltos e as tempestades, no conv&eacute;s das caravelas,<br \/>\n    nos cabos tormentosos, nas florestas sagradas da &Iacute;ndia sob as imobilidades<br \/>\n    cruas da luz: escreviam cobertos das espumas, enegrecidos pelos fumos, tr&eacute;mulos<br \/>\n    das iras das batalhas. Por isso enchiam as suas cr&oacute;nicas e os seus<br \/>\n    poemas de uma estranha prodigalidade de for&ccedil;a e de vida. E os seus<br \/>\n    di&aacute;rios de bordo tinham muitas vezes a simplicidade &eacute;pica de<br \/>\n    Homero.<\/p>\n<p> Mas eles tamb&eacute;m tinham amores, ci&uacute;mes, paternidades, paix&otilde;es,<br \/>\n    lirismos interiores, e as saudades da p&aacute;tria nasciam naquelas almas<br \/>\n    como grandes a&ccedil;ucenas que se abrem dentro de um vaso e que o enchem.<\/p>\n<p> De noite, nos tombadilhos, embrulhados nos seus mantos esburacados, deitados<br \/>\n    entre as cordagens, aos embalos das mar&eacute;s, enquanto os pilotos silenciosos<br \/>\n    seguem com os olhos as viagens imensas das estrelas, e todo o mar enorme se<br \/>\n    amolece como um seio cansado, eles contavam em voz baixa, com as cabe&ccedil;as<br \/>\n    juntas, as hist&oacute;rias de amores, os torneios, as aventuras, as serenatas<br \/>\n    e a vida da p&aacute;tria.<\/p>\n<p> No meio daquela vida tr&aacute;gica da aventura eles tinham a alma cheia<br \/>\n    de amores, de legendas, de saudades, cheia da p&aacute;tria.<\/p>\n<p> E escreviam poemas, cantatas, sonetos, farsas, com&eacute;dias e elegias.<\/p>\n<p> E para vestirem o sentimento fecundo, forte, cheio do Sol e do mar tomavam<br \/>\n    a. forma popular.<\/p>\n<p> Estavam longe da Europa, das pl&aacute;sticas da It&aacute;lia, dos renascimentos<br \/>\n    gregos e romanos, das antigas formas rituais, das educa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    cl&aacute;ssicas.<\/p>\n<p> N&atilde;o conheciam isto.<\/p>\n<p> Mas lembravam-se sempre das cantigas da p&aacute;tria, das endechas her&oacute;icas,<br \/>\n    dos romances populares, que eles tinham ouvido pelos campos, com que os velhos<br \/>\n    embalavam, que se cantam de noite &agrave;s estrelas por Sevilha e por Granada<br \/>\n    e que os mendigos diziam pelas velhas pontes dos Godos e dos &Aacute;rabes.<br \/>\n    Porque o povo na Pen&iacute;nsula tinha uma poesia, sua exclusivamente, que<br \/>\n    cantava nos trabalhos, com que adormecia os filhos, em que escarnecia os alcaides<br \/>\n    e celebrava os her&oacute;is.<\/p>\n<p> Fazia daquela poesia um uso sagrado: era a sua consola&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o grande leito misterioso onde adormecia as tristezas: era ali que procurava<br \/>\n    confortos, recompensas e as ideias da p&aacute;tria.<\/p>\n<p> No Norte, a poesia popular foi a Invis&iacute;vel que levou pela m&atilde;o<br \/>\n    os trovadores, filhos das glebas, at&eacute; &agrave;s lareiras dos senhores<br \/>\n    feudais: foi o primeiro suspiro de amor que os pobres poetas da popula&ccedil;a.<br \/>\n    m&iacute;sticos e sensuais, soltavam para as brancas castel&atilde;s que entreviam<br \/>\n    nos torneios, cobertas de pedrarias: ou passando de noite, brancas, &agrave;s<br \/>\n    estrelas, pelos altos terra&ccedil;os; ou entre as &aacute;rvores, ao entardecer,<br \/>\n    quando as ogivas cheias do sol obl&iacute;quo est&atilde;o flamejantes como<br \/>\n    mitras.<\/p>\n<p> E as castel&atilde;s abriam os bra&ccedil;os para os poetas tristes, indolentes<br \/>\n    e cheios do Para&iacute;so. Admir&aacute;vel influ&ecirc;ncia da poesia, que<br \/>\n    produziu pelo amor um renascimento social! Mas a poesia da Pen&iacute;nsula<br \/>\n    era unicamente do povo: era a epopeia austera do Cid, exterminador de mouros,<br \/>\n    e de Bernardo dei Carpio, exterminador de b&aacute;rbaros. Na Pen&iacute;nsula<br \/>\n    o povo estava sob uma condi&ccedil;&atilde;o especial; tinha uma import&acirc;ncia<br \/>\n    no estado forte, fecunda e soberba: a Pen&iacute;nsula tinha passado os primeiros<br \/>\n    anos da sua constitui&ccedil;&atilde;o nas lutas terr&iacute;veis do forte<br \/>\n    Maomet e do Cristo m&iacute;stico; ora o popular da Pen&iacute;nsula n&atilde;o<br \/>\n    era um servo, era um crist&atilde;o: consagrado pelos baptismos, era uma for&ccedil;a<br \/>\n    individual, que impelia e dissolvia o elemento mourisco, sensual e poderoso.<\/p>\n<p> Ora, foi sob a forma popular que aqueles batalhadores e poetas, que v&atilde;o<br \/>\n    hoje tomando a vaga atitude da legenda, escreveram os seus poemas, as suas<br \/>\n    cantatas, as suas com&eacute;dias e os seus sonetos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o toda a literatura peninsular tem uma originalidade profunda,<br \/>\n    independente de formas e ritos: a arte, o drama, a poesia saem das tradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    populares, do clima, do Sol, de todas as vitalidades meridionais; isto quando<br \/>\n    pelo resto da Europa todas as nacionalidades esqueciam as suas tradi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a sua hist&oacute;ria, a sua velha alma, para se envolverem nas formas antigas.<br \/>\n    Era a Renascen&ccedil;a. Ent&atilde;o aparece o teatro espanhol original,<br \/>\n    cavalheiresco, en&eacute;rgico, apaixonado, cheio de selvagens palpita&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de lances de religi&atilde;o: onde a cruz &eacute; uma personagem; onde falam<br \/>\n    lacaios, her&oacute;is, santos, ventos, gale&otilde;es: todas as formas da<br \/>\n    vida confundidas; o riso, o choro, a ironia, a s&aacute;tira, o madrigal:<br \/>\n    tal &eacute; a impress&atilde;o geral.<\/p>\n<p> Depois uma pintura m&iacute;stica e sensual: n&atilde;o &eacute; a espiritualiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da alma, &eacute; antes a imortaliza&ccedil;&atilde;o da carne: inspirada<br \/>\n    daquele misticismo espanhol, que sob a influ&ecirc;ncia da Natureza, do clima,<br \/>\n    da pol&iacute;tica, da ra&ccedil;a, parece mais cheio das tr&aacute;gicas<br \/>\n    iras de Jeov&aacute; do que das do&ccedil;uras de Jesus.<\/p>\n<p> Depois uma m&uacute;sica, como a do Dies Irae, obra dos terr&iacute;veis<br \/>\n    dominicanos: um poema de morte; uma das maiores agonias da alma: m&uacute;sica<br \/>\n    asc&eacute;tica e flamejante, onde a Natureza aparece, tr&aacute;gica e desgrenhada<br \/>\n    figura.<\/p>\n<p> Uma arte onde se torcem todas as chamas do Inferno e todas as pedrarias<br \/>\n    dos para&iacute;sos cat&oacute;licos, que parece uma luta tr&aacute;gica e<br \/>\n    c&oacute;mica da vida e da morte: uma Igreja. cheia de renunciamentos m&iacute;sticos,<br \/>\n    mas onde o misticismos parece mais um desespero de n&atilde;o poder saciar-se<br \/>\n    dos bens do mundo do que uma aspira&ccedil;&atilde;o a poder fartar a alma<br \/>\n    nas contempla&ccedil;&otilde;es diversas: uma defesa do catolicismo tr&aacute;gica<br \/>\n    e apaixonada: um amor sublime pelos despotismos e pelos sacerd&oacute;cios:<br \/>\n    confus&atilde;o dos imperadores com os santos e das coroas de metal com as<br \/>\n    coroas de luz: uma vida super abundante: ascetismos ferozes e onde o sentimento<br \/>\n    mais aparente e o rancor.<\/p>\n<p> Ao mesmo tempo uma austeridade mon&aacute;stica em tempo de guerra: caravelas<br \/>\n    que partem, sem rumo, sob as indica&ccedil;&otilde;es das estrelas: quase,<br \/>\n    por vezes, uma reconcilia&ccedil;&atilde;o aparente do maometanismo e do cristianismo:<br \/>\n    uma paix&atilde;o avara pelo dinheiro; o elemento da intriga que quer entrar<br \/>\n    na pol&iacute;tica, vindo substituir o elemento da for&ccedil;a: combates<br \/>\n    cavalheirescos com a Europa vizinha: depois um sol ardente: um sangue exigente:<br \/>\n    uma carna&ccedil;&atilde;o soberba: ao longe a Am&eacute;rica e as &Iacute;ndias<br \/>\n    como um para&iacute;so de ouro, de metais e de soberanias.<\/p>\n<p> Tal &eacute; o aspecto mais geral da Espanha. nas v&eacute;speras da Renascen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &Eacute; dram&aacute;tica aquela vida.<\/p>\n<p> N&atilde;o admira por isso que a forma suprema da sua arte fosse<br \/>\n    o drama.<\/p>\n<p> Em Portugal n&atilde;o &eacute; este rigorosamente o fundo do g&eacute;nio:<br \/>\n    h&aacute; mais serenidade na for&ccedil;a: o car&aacute;cter portugu&ecirc;s<br \/>\n    &eacute; mais parecido com o car&aacute;cter italiano: os nossos s&aacute;bios,<br \/>\n    os nossos viajantes, os nossos descobridores tinham mais a lucidez do tempo<br \/>\n    de Dante: as navega&ccedil;&otilde;es s&atilde;o prudentes: por isso Portugal<br \/>\n    n&atilde;o resistiu nada &agrave; influ&ecirc;ncia italiana. O renascimento<br \/>\n    da Antiguidade. a serenidade pl&aacute;stica, a frieza cl&aacute;ssica aclimatam-se<br \/>\n    na Espanha mas com dor e com luta: foi necess&aacute;rio que a Espanha j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o acreditasse na sua epopeia cavalheiresca e que Cervantes come&ccedil;asse<br \/>\n    a fazer trotar pelos caminhos o magro D. Quixote.<\/p>\n<p> Em Portugal n&atilde;o: o g&eacute;nio antigo aclimatou-se: transformou-se<br \/>\n    mesmo: perdeu o elemento vital e fecundo e ficou-lhe o elemento ret&oacute;rico.<\/p>\n<p> &Oacute; Arc&aacute;dia! &Oacute; mo&ccedil;os pastoris e burgueses! &Oacute;<br \/>\n    cl&aacute;ssicos!.<\/p>\n<p> O MIANTONOMAH H&aacute; duzentos anos uns poucos de calvinistas exilados<br \/>\n    fretaram um barco na Holanda h&uacute;mida e &uacute;bere, e sob o equin&oacute;cio<br \/>\n    e os grandes ventos, miser&aacute;veis, austeros, levando uma B&iacute;blia,<br \/>\n    partiram para as bandas da Am&eacute;rica.<\/p>\n<p> Duzentos anos depois, estes homens que tinham ido solit&aacute;rios, num<br \/>\n    barco apodrecido das maresias, derramaram uma esquadra &eacute;pica pelo mediterr&acirc;neo,<br \/>\n    pelo Pac&iacute;fico, pelo mar das &Iacute;ndias, pelo Atl&acirc;ntico, pelos<br \/>\n    mares do Norte.<\/p>\n<p> Aquela col&oacute;nia de desterrados, que choravam de frio, esfomeados,<br \/>\n    rotos, que dormiam &agrave;s humidades do ar numa capa esfarrapada, &eacute;<br \/>\n    hoje a Am&eacute;rica do Norte os Estados Unidos.<\/p>\n<p> Am&eacute;rica do Norte significa trabalho, f&eacute;, hero&iacute;smo,<br \/>\n    ind&uacute;stria, capital, for&ccedil;a e mat&eacute;ria.<\/p>\n<p> Ultimamente via eu o Miantonomah, sinistro e negro ca&ccedil;ador de esquadras:<br \/>\n    &eacute; toda a imagem da Am&eacute;rica frio, sereno, contente, material,<br \/>\n    e cheio de fogos, de estrondos, de maquinismos, de for&ccedil;as e de fulmina&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &Eacute; o que amedronta naquele navio a frieza na for&ccedil;a.<\/p>\n<p> Ele representa a consci&ecirc;ncia soberba da for&ccedil;a e da ind&uacute;stria.<br \/>\n    e os grandes orgulhos do c&aacute;lculo: despreza as iras e as hostilidades<br \/>\n    dos elementos: ele tem de atravessar o Pac&iacute;fico, o oceano &Iacute;ndico,<br \/>\n    o Mediterr&acirc;neo, os grandes desvairamentos da &aacute;gua, os ventos<br \/>\n    imensos, os equin&oacute;cios, as trombas, as correntes, os rochedos bruscamente<br \/>\n    aparecidos, os nevoeiros infames, os magnetismos, as electricidades, toda<br \/>\n    a vil popula&ccedil;a das tempestades: ent&atilde;o todos os navios se preparam<br \/>\n    cordagens, velames, mastrea&ccedil;&otilde;es, complica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e resist&ecirc;ncias de for&ccedil;as, toda a combina&ccedil;&atilde;o astuciosa<br \/>\n    de lonas e calabres que transforma as hostilidades em aux&iacute;lios; ele,<br \/>\n    o Miantonomah, contenta-se com uma t&aacute;bua rasa.<\/p>\n<p> Em tempo de luta precav&ecirc;em-se os almirantes e os cabos de guerra:<br \/>\n    um formigueiro de morteiros, de bombas, de obuses: metralhas, machadas, o<br \/>\n    arsenal reluzente das abordagens; a ele basta-lhe uma muralha de ferro.<\/p>\n<p> O vento &eacute; temido: nas vastas solid&otilde;es azuis ele &eacute; o<br \/>\n    lobo sinistro que anda rondando e uivando, &agrave; ca&ccedil;a dos navios:<br \/>\n    ele acalenta o mar, massa inerte e salgada; ele faz com a &aacute;gua estranhas<br \/>\n    n&uacute;pcias ferozes; extermina, cantando com alegrias b&aacute;rbaras;<br \/>\n    esfarrapa as nuvens, persegue e esguedelha as chuvas, assobiando contente:<br \/>\n    em alguns mares do Norte, quando ele sopra as estrelas t&ecirc;m maior tremor:<br \/>\n    mas o grande horror do vento &eacute; que ataca com o peso, com a viol&ecirc;ncia,<br \/>\n    com a for&ccedil;a, com a compress&atilde;o combinada e defende-se com o esvaecimento.<\/p>\n<p> O Miantonomah &eacute; assim: ataca serenamente, com viol&ecirc;ncias enormes,<br \/>\n    com fulmina&ccedil;&otilde;es tr&aacute;gicas, e defende-se com a impassibilidade<br \/>\n    e quase com o esvaecimento.<\/p>\n<p> Na luta das esquadras, no meio das descargas, das trovoadas flamejantes,<br \/>\n    entre semelhan&ccedil;as abrasadas, os terr&iacute;veis pend&otilde;es do<br \/>\n    fogo, e os fantasmas do fumo, e as efervesc&ecirc;ncias da &aacute;gua ele<br \/>\n    passa, solta a sua fulmina&ccedil;&atilde;o enorme, despeda&ccedil;a, esmigalha,<br \/>\n    dispersa e continua lento, frio, impass&iacute;vel, mudo, tenebroso, coberto<br \/>\n    de ferro.<\/p>\n<p> Ele n&atilde;o receia o mar: os outros navios erguem amuradas imensas para<br \/>\n    conter o encrespamento da onda: forram-nas de cobre, erri&ccedil;am-nas de<br \/>\n    pregaria. O Miantonomah n&atilde;o: ele julga a dem&ecirc;ncia do mar um preju&iacute;zo;<br \/>\n    corta a amurada e fica com o conv&eacute;s raso, ao r&eacute;s da &aacute;gua:<br \/>\n    satisfaz a velha curiosidade da vaga: e por miseric&oacute;rdia d&aacute;-lhe<br \/>\n    hospitalidade: e para que o mar tenha alguma coisa a desfazer, a triturar,<br \/>\n    a roer d&aacute;-lhe por compaix&atilde;o uma varanda de hastes de ferro enferrujado,<br \/>\n    e peda&ccedil;os de corda podre. E o mar entra, desesperado, mugindo.<\/p>\n<p> e lambe o ch&atilde;o do navio americano: em baixo nas. camas, agasalhados<br \/>\n    e pregui&ccedil;osos, os marinheiros dizem: &laquo;L&aacute; anda o mar a<br \/>\n    varrer e a lavar o tombadilho.&raquo; E com efeito o velho oceano dos dil&uacute;vios<br \/>\n    faz humildemente o servi&ccedil;o dos &uacute;ltimos grumetes.<\/p>\n<p> Em cima, na superf&iacute;cie da &aacute;gua, h&aacute; o vento, as espumas,<br \/>\n    os nevoeiros, as chuvas, as trombas; ele, aborrecido, afasta-se deste bando<br \/>\n    miser&aacute;vel e vai investigar o fundo das &aacute;guas, as vegeta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    fant&aacute;sticas, a regi&atilde;o dos corais, as cavernas encel&aacute;dicas,<br \/>\n    as purezas infinitas da transpar&ecirc;ncia, todo aquele antigo ideal feroz<br \/>\n    de que os velhos mareantes falavam benzendo-se com terror religioso: com a<br \/>\n    quilha de ferro enorme ele brutaliza aquelas virgindades do mar: em baixo<br \/>\n    a tripula&ccedil;&atilde;o nada sabe das tempestades: em v&atilde;o ruge o<br \/>\n    mar e torce-se; e desencadeia o jogo fulminante das ondas, e espanca o conv&eacute;s<br \/>\n    do navio com o ru&iacute;do de mil carros de batalha; os marinheiros em baixo<br \/>\n    riem, cantam, baloi&ccedil;am-se, pulem os a&ccedil;os dos maquinismos, cachimbam,<br \/>\n    l&ecirc;em a B&iacute;blia serenos.<\/p>\n<p> Como n&atilde;o h&aacute; mastrea&ccedil;&atilde;o, nem velame, nem cordagens,<br \/>\n    nem toda a amontoa&ccedil;&atilde;o confusa de calabres e de lonas o tombadilho<br \/>\n    aberto &eacute; cheio de ar e de luz: e durante as viagens, &eacute; uma pousada<br \/>\n    das algas, das conchas, das aves do mar e dos granizos.<\/p>\n<p> Dentro s&atilde;o as m&aacute;quinas, as for&ccedil;as, os motores trabalham<br \/>\n    solit&aacute;rios com vozes, impaci&ecirc;ncias, pregui&ccedil;as, friamente;<br \/>\n    como as fatalidades da mat&eacute;ria. Ao atravessar os espa&ccedil;os obscuros<br \/>\n    v&ecirc;se o frio luzir dos a&ccedil;os e os cobres luminosos; depois s&atilde;o<br \/>\n    as fogueiras flamejantes, que d&atilde;o a vida aos maquinismos  vermelhas<br \/>\n    como cora&ccedil;&otilde;es sobrenaturais: o ar &eacute; descido por m&aacute;quinas<br \/>\n    de respira&ccedil;&atilde;o, pulm&otilde;es terr&iacute;veis; e um vento geral,<br \/>\n    fecundo, ben&eacute;fico, escorre constantemente por todo o negro bojo: fazem-se<br \/>\n    assim livremente temperaturas: frios mordentes, calores pesados e frescuras<br \/>\n    das manh&atilde;s do Sul: nas suas viagens pelo mundo aquele navio desmente<br \/>\n    quando quer os climas e as temperaturas: os marinheiros passam silenciosos,<br \/>\n    limpos, rosados, graves: alguns l&ecirc;em.<\/p>\n<p> Ora, sobre aquele negro navio, sobre os maquinismos frios, aquelas for&ccedil;as<br \/>\n    pavorosas, aquelas fogueiras terr&iacute;veis, no conv&eacute;s entre as negras<br \/>\n    torres, ao livre ar, ao livre sol, alegre, glorioso, gordo, esvoa&ccedil;ando<br \/>\n    na sua gaiola  canta um canario.<\/p>\n<p> Tal &eacute; o Miantonomah, navio de guerra da Am&eacute;rica do Norte.<\/p>\n<p> N&oacute;s entrevemos a Am&eacute;rica como uma oficina sombria e resplandecente,<br \/>\n    perdida ao longe nos mares, cheia de vozes, de coloridos, de for&ccedil;as,<br \/>\n    de cintila&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Entrevemo-la assim: movimentos imensos de capital: adora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exclusiva e &uacute;nica do deus D&oacute;lar; superabund&acirc;ncia de vida;<br \/>\n    exagera&ccedil;&atilde;o de meios; violenta predomina&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    individualismo; grande senso pr&aacute;tico; atmosfera pesada de positivismos<br \/>\n    est&eacute;reis; uma febre quase dolorosa do movimento industrial; aproveitamento<br \/>\n    avaro de todas as for&ccedil;as; extremo desprezo pelos territ&oacute;rios;<br \/>\n    preocupa&ccedil;&atilde;o exclusiva do &uacute;til e do econ&oacute;mico;<br \/>\n    doutrinas de uma filosofia e uma moral ego&iacute;sta e mercantil; todo o<br \/>\n    pensamento repassado dessa influ&ecirc;ncia; uma fria liberdade de costumes;<br \/>\n    uma seriedade artificial e brusca; domina&ccedil;&atilde;o terr&iacute;vel<br \/>\n    da burguesia; movimentos, constru&ccedil;&otilde;es, maquinismos, f&aacute;bricas,<br \/>\n    coloniza&ccedil;&otilde;es, exporta&ccedil;&otilde;es colossais, for&ccedil;as<br \/>\n    extremas, acumula&ccedil;&atilde;o imensa de ind&uacute;strias, esquadras<br \/>\n    terr&iacute;veis, uma estranha derrama&ccedil;&atilde;o de jornais, de panfletos,<br \/>\n    de gazetas, de revistas, um luxo excessivo; e por fim um profundo t&eacute;dio<br \/>\n    pelo vazio que deixa na alma as adora&ccedil;&otilde;es do deus D&oacute;lar:<br \/>\n    depois a mesma temperatura e a mesma geologia da Europa. Assim entrevemos<br \/>\n    a Am&eacute;rica, ao longe, como uma esta&ccedil;&atilde;o entre a Europa<br \/>\n    e a &Aacute;sia, aberta ao Atl&acirc;ntico e ao Pac&iacute;fico, com uma bela<br \/>\n    costa de navega&ccedil;&atilde;o cheia de enseadas, molhada de grandes lagos,<br \/>\n    com os seus grandes rios que escorrem entre as terras, as culturas, as f&aacute;bricas,<br \/>\n    as planta&ccedil;&otilde;es, os engenhos, levados pomposamente pelo Mississipi<br \/>\n    para o golfo do M&eacute;xico: e depois uma Natureza vigorosa, fecunda, eleita,<br \/>\n    desaparecendo entre as ind&uacute;strias, os fumos das f&aacute;bricas, as<br \/>\n    constru&ccedil;&otilde;es, os maquinismos, todas as complica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mercantis da Am&eacute;rica  como uma pouca de erva de uma campina<br \/>\n    f&eacute;rtil que desaparece sob uma amontoa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> nervosa de homens.<\/p>\n<p> A vida da Am&eacute;rica do Norte &eacute; quase um paroxismo.<\/p>\n<p> Isto &eacute; decididamente uma grande for&ccedil;a, uma vida enorme, superabundante.<br \/>\n    Mas ser&aacute; vital, fecundo, cheio de futuro? Todos os dias dizem &agrave;<br \/>\n    Europa: &laquo;Olhai para os Estados Unidos, l&aacute; est&aacute; o ideal<br \/>\n    liberal, democr&aacute;tico, e, sobretudo, a grande quest&atilde;o, o ideal<br \/>\n    econ&oacute;mico.&raquo; Mas a Am&eacute;rica consagra a doutrina ego&iacute;sta<br \/>\n    e mercantil de Monroe, pela qual uma nacionalidade se encolhe na sua geografia<br \/>\n    e na sua vitalidade, longe das outras p&aacute;trias; esquece as suas antigas<br \/>\n    tradi&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas e as ideias gerais para se perder<br \/>\n    no movimento das ind&uacute;strias e das mercancias; alia-se com a R&uacute;ssia;<br \/>\n    a ra&ccedil;a sax&oacute;nia vai desconhecendo os grandes lados do seu destino,<br \/>\n    enrodilha-se estreitamente nos ego&iacute;smos pol&iacute;ticos e nas preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mercantis, cisma conquistas e extens&otilde;es de territ&oacute;rios, subordina<br \/>\n    o elemento grandioso e divino ao elemento positivo e ego&iacute;sta, e a grande<br \/>\n    figura sideral do Direito &agrave;s f&aacute;bricas, que fumegam negramente,<br \/>\n    nos arredores de Goetring. Isto dizem muitos.<\/p>\n<p> Uma das inferioridades da Am&eacute;rica &eacute; a falta de ci&ecirc;ncias<br \/>\n    filos&oacute;ficas, de ci&ecirc;ncias hist&oacute;ricas e de ci&ecirc;ncias<br \/>\n    sociais.<\/p>\n<p> A na&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o tem s&aacute;bios, grandes cr&iacute;ticos,<br \/>\n    analisadores, fil&oacute;sofos, reconstruidores, &aacute;speros buscadores<br \/>\n    do ideal, n&atilde;o pode pesar muito no mundo pol&iacute;tico, como n&atilde;o<br \/>\n    pode pesar muito no mundo moral.<\/p>\n<p> Enquanto a superioridade foi daqueles que batalhavam, que lan&ccedil;avam<br \/>\n    grandes massas de cavalarias, que apareciam reluzentes entre as metralhas,<br \/>\n    o Oriente dominou, trigueiro e resplandecente. Quando a superioridade foi<br \/>\n    daqueles que pensavam, que descobriam sistemas, civiliza&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que estudavam a Terra, os astros, o homem, e faziam a geologia, a astronomia,<br \/>\n    a filosofia, o Oriente caiu, miser&aacute;vel e rasteiro.<\/p>\n<p> H&aacute;, sobretudo, na Am&eacute;rica um profundo desleixo nas ci&ecirc;ncias<br \/>\n    hist&oacute;ricas.<\/p>\n<p> Inferioridade. As ci&ecirc;ncias hist&oacute;ricas s&atilde;o a base fecunda<br \/>\n    das ci&ecirc;ncias sociais.<\/p>\n<p> &Eacute; a superioridade da Europa: sob a mesma apar&ecirc;ncia de febre<br \/>\n    industrial h&aacute; uma gera&ccedil;&atilde;o forte, grave, ideal, que est&aacute;<br \/>\n    construindo a nova humanidade sobre o direito, a raz&atilde;o e a justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> O nosso mundo europeu &eacute; tamb&eacute;m uma estranha amontoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de contrastes e de destinos; &eacute; uma &eacute;poca esta anormal em que<br \/>\n    se encontram todas as efloresc&ecirc;ncias fecundas e todas as velhas podrid&otilde;es;<br \/>\n    pol&iacute;ticas superficiais; grandes fanatismos: e ao mesmo tempo um desafogo<br \/>\n    das livres consci&ecirc;ncias, expurga&ccedil;&atilde;o dos velhos ritos,<br \/>\n    e a alma moderna ligada na sua moral e na sua justi&ccedil;a &agrave;s almas<br \/>\n    primitivas com exclus&atilde;o da Idade M&eacute;dia; pol&iacute;ticas pacificas<br \/>\n    e transigentes, e um esp&iacute;rito de guerra surdo, aceso e flamejante:<br \/>\n    territ&oacute;rios violentos e conquistados, e a aniquila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pela pol&iacute;tica, pela hist&oacute;ria e pela filosofia dos conquistadores<br \/>\n    e dos her&oacute;is: nem s&atilde;o as influ&ecirc;ncias mon&aacute;rquicas,<br \/>\n    nem &eacute; o individualismo; nem &eacute; o humanitarismo, nem s&atilde;o<br \/>\n    os pol&iacute;ticos ego&iacute;stas, n&atilde;o &eacute; a import&acirc;ncia<br \/>\n    das individualidades, nem a import&acirc;ncia dos territ&oacute;rios; &eacute;<br \/>\n    uma confus&atilde;o horr&iacute;vel de mundos, e, em cima, triunfal e soberba,<br \/>\n    est&aacute; a ind&uacute;stria, entre as m&uacute;sicas dos metais, as arquitecturas<br \/>\n    das Bolsas, reluzente, cintilante, colorida, sonora, enquanto no vento passa<br \/>\n    o seu sonho eterno que s&atilde;o fortunas, imp&eacute;rios, festas, empresas,<br \/>\n    parques, serralhos.<\/p>\n<p> Ora em baixo, sob a confus&atilde;o, sereno, fecundo, forte, justo, bom,<br \/>\n    livre, move-se em germe um novo mundo econ&oacute;mico.<\/p>\n<p> Este germe &eacute; que a Am&eacute;rica n&atilde;o tem, creio eu. Mas v&ecirc;-se<br \/>\n    que todos a apontam como o ideal econ&oacute;mico que &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    que os pensadores meditem, e todos os que no vazio fecundo das filosofias<br \/>\n    riscam as sociedades.<\/p>\n<p> Ora toda a Am&eacute;rica econ&oacute;mica se explica por esta palavra<br \/>\n    feudalismo industrial..<\/p>\n<p> Diz-se, na Am&eacute;rica h&aacute; um constante aumento de tr&aacute;fico,<br \/>\n    de receitas, de riquezas: n&atilde;o h&aacute; aumento; h&aacute; desloca&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    desloca&ccedil;&atilde;o em proveito da alta finan&ccedil;a  com detrimento<br \/>\n    das pequenas ind&uacute;strias produtoras.<\/p>\n<p> Logo que na ordem econ&oacute;mica n&atilde;o haja um balan&ccedil;o exacto<br \/>\n    de for&ccedil;as, de produ&ccedil;&atilde;o, de sal&aacute;rios, de trabalhos,<br \/>\n    de benef&iacute;cios, de impostos, haver&aacute; uma aristocracia financeira,<br \/>\n    que cresce, reluz, engorda, incha, e ao mesmo tempo uma democracia de produtores<br \/>\n    que emagrece, definha e dissipa-se nos proletariados: e como o equil&iacute;brio<br \/>\n    n&atilde;o cessa, n&atilde;o cessam estas terr&iacute;veis desuniformidades.<\/p>\n<p> Mas o grande mal da predomin&acirc;ncia exclusiva da ind&uacute;stria &eacute;<br \/>\n    este: o trabalho pela repugn&acirc;ncia que excita, pela absor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    completa de toda a vitalidade f&iacute;sica, pela aniquila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e quebrantamento da seiva material, pela liberdade em que deixa as faculdades<br \/>\n    de concep&ccedil;&atilde;o  por isso mesmo sobreexcita o esp&iacute;rito,<br \/>\n    estende os ideais, abre grandes vazios na alma, complica as precis&otilde;es,<br \/>\n    torna insuport&aacute;vel a pobreza: nas grandes democracias industriais onde<br \/>\n    as posi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o obtidas pela perseveran&ccedil;a, conquistadas<br \/>\n    pela habilidade, onde h&aacute; mil motores  a ambi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a inveja, a esperan&ccedil;a, o desejo, o c&eacute;rebro aquece-se, espiritualiza-se,<br \/>\n    cria sonhos, ambi&ccedil;&otilde;es, necessidades imposs&iacute;veis; o querer<br \/>\n    chegar torna-se uma verdadeira doen&ccedil;a de alma: exageram-se os meios:<br \/>\n    e toda a seiva moral se altera e se deforma.<\/p>\n<p> &Eacute; o que vai acontecendo na Am&eacute;rica: debaixo da frieza aparente,<br \/>\n    move-se todo um mundo terr&iacute;vel de desejos, de desesperan&ccedil;as,<br \/>\n    de vontades violentas, de aspira&ccedil;&otilde;es nevr&aacute;lgicas.<\/p>\n<p> Depois, como no meio das ind&uacute;strias ruidosas e absorvedoras muitas<br \/>\n    amarguras ficam por ado&ccedil;ar, muitas ang&uacute;stias por serenar, muitas<br \/>\n    fomes por matar, muitas ignor&acirc;ncias por alumiar, tudo isso se ergue<br \/>\n    terr&iacute;vel no meio da febre da vida social, e toma-a mais perigosa. Londres<br \/>\n    d&aacute; hoje o aspecto desta luta.<\/p>\n<p> De maneira que o trabalho incessante, enorme, irrita e exagera o desejo<br \/>\n    das riquezas; aferventa o c&eacute;rebro, sobreexcita a sensibilidade, a popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cresce, a concorr&ecirc;ncia &eacute; &aacute;spera, as necessidades descomedidas,<br \/>\n    infinitas as complica&ccedil;&otilde;es econ&oacute;micas, e a&iacute; est&aacute;<br \/>\n    sempre entre riscos a vida social. Entre riscos, porque vem a luta dos interesses,<br \/>\n    a guerra das classes, o assalto das propriedades e por fim as revolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pol&iacute;ticas.<\/p>\n<p> E todavia a liberdade da Am&eacute;rica parece t&atilde;o serena, t&atilde;o<br \/>\n    confiada, t&atilde;o assente, t&atilde;o satisfeita! No entanto h&aacute;<br \/>\n    muita for&ccedil;a fecunda nos Estados Unidos! Ainda h&aacute; pouco deram<br \/>\n    o exemplo glorioso de uma na&ccedil;&atilde;o que deixa os seus positivismos,<br \/>\n    a sua ind&uacute;stria, os seus ego&iacute;smos, o seu profundo interesse,<br \/>\n    e arma ex&eacute;rcitos, esquadras, dissipa milh&otilde;es, e vai bater-se<br \/>\n    por uma ideia, por uma abstrac&ccedil;&atilde;o, por um princ&iacute;pio,<br \/>\n    pela justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> O Sul quis corrigir a liberdade pela escravatura; desune-se; o escravo que<br \/>\n    trabalhe, que cultive, que produza, que sue, que morra sob a for&ccedil;a<br \/>\n    met&aacute;lica, ba&ccedil;a e sinistra do clima e do Sol. Pois bem. A Am&eacute;rica<br \/>\n    do Norte quer a liberdade, o amor das ra&ccedil;as, e bate-se pela liberdade,<br \/>\n    pela legalidade, pela uni&atilde;o, pelo princ&iacute;pio, pela metaf&iacute;sica!<br \/>\n    E dispersa os ex&eacute;rcitos da Virg&iacute;nia! Eram estas as coisas que<br \/>\n    me lembravam h&aacute; dias, no Tejo, estando a ver o Miantonomah, navio dos<br \/>\n    Estados Unidos em viagem pelo Sul, comandante Beaumont, fundeado no nosso<br \/>\n    Tejo..<\/p>\n<p> MISTICISMO HUMOR&Iacute;STICO Voltei. &Eacute; agora que as toutinegras<br \/>\n    emigram. Andei pelos campos neste ar desfalecido do Inverno outonal.<\/p>\n<p> Agora o azul est&aacute; indolentemente belo. Tem quase uma ir&oacute;nica<br \/>\n    serenidade. E o azul intenso, frio, triunfante. Tem a luz, a beleza, a for&ccedil;a,<br \/>\n    a inefabilidade. Agora a luz enternecida dos campos arrasta-se pelas grandes<br \/>\n    &aacute;guas quietas e p&aacute;lidas, onde o vento revolve e espalha a agonia<br \/>\n    das folhas.<\/p>\n<p> Quando voltava, vi uma casa pequena, esbranqui&ccedil;ada, escondida entre<br \/>\n    as b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os indolentes das &aacute;rvores. Tinha a serena<br \/>\n    quieta&ccedil;&atilde;o de quem tem ouvido segredos ext&aacute;ticos e era<br \/>\n    triste e religiosa como a entrada amarelecida de um convento cat&oacute;lico.<br \/>\n    Havia uma corrente de &aacute;gua delgada que fazia claras murmura&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e era como o acompanhamento, natural e mel&oacute;dico, de uma &eacute;cloga<br \/>\n    latina. Entre as &aacute;rvores estava um banco solit&aacute;rio onde o musgo<br \/>\n    se dependurava.<\/p>\n<p> Nas plantas, nas clematites, nas trepadeiras que o cercavam, havia um murm&uacute;rio<br \/>\n    como de vozes distantes que contam felicidades perdidas. A pedra escura e<br \/>\n    molhada do banco tinha a tristeza das pedras do cemit&eacute;rio &agrave;<br \/>\n    luz consoladora, purificadora e branca que cai dos c&eacute;us outonais.<\/p>\n<p> Agora, ali sobre aquele banco dorme estirada a grande luz do Sol, e &agrave;<br \/>\n    noite o luar, porque j&aacute; n&atilde;o h&aacute; naquela casa namorados<br \/>\n    contemplativos, que venham de noite ou &agrave; sesta despertar para se poderem<br \/>\n    sentar  aqueles dormentes de luz.<\/p>\n<p> Aquela casa abandonada faz lembrar amores m&iacute;sticos: e quando se v&ecirc;<br \/>\n    &agrave; luz dolente do escurecer, faz subir do cora&ccedil;&atilde;o como<br \/>\n    um sabor de beijos antigos e esquecidos.<\/p>\n<p> As &aacute;rvores erguiam em atitudes violentas e prof&eacute;ticas os seus<br \/>\n    bra&ccedil;os nus, engelhados, suplicantes para o frio azul, esperando no<br \/>\n    entorpecimento a fermenta&ccedil;&atilde;o violenta das seivas.<\/p>\n<p> Os ramos frios e n&iacute;tidos deixavam passar indiferentes, sem as suspender,<br \/>\n    sem as acariciar, as moles nudezas das nuvens.<\/p>\n<p> Toda a Natureza no tempo dos frios est&aacute; impass&iacute;vel e sonolenta.<\/p>\n<p> Passei por um cemit&eacute;rio. Andava um coveiro abrindo covas. Tinha um<br \/>\n    rosto inerte e animal. A luz dissipava-se. E uma estrela, que se chama V&eacute;nus,<br \/>\n    luzia met&aacute;lica, ardende, desejosa, lancinante, num fundo sinistro de<br \/>\n    ramagens.<\/p>\n<p> O coveiro &eacute; um semeador. Semeia corpos. Somente n&atilde;o tem esperan&ccedil;a<br \/>\n    nem o amor das colheitas. Quem ceifar&aacute; aquela planta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    crescida? Quem sabe se os corpos que se atiram a vala, sementes f&uacute;nebres,<br \/>\n    se abrem, l&aacute; em cima, em searas divinas de que n&oacute;s apenas vemos<br \/>\n    a ponta das ra&iacute;zes que s&atilde;o as estrelas? Mas n&atilde;o. A alma<br \/>\n    morre. O corpo revive e dissipa-se na mat&eacute;ria enorme.<\/p>\n<p> E na alma que est&atilde;o as m&aacute;s vontades, os negros remorsos, as<br \/>\n    lacera&ccedil;&otilde;es do mal: o corpo desce livre, novo e s&atilde;o para<br \/>\n    as uberdades limosas das covas.<\/p>\n<p> Quando chega o &uacute;ltimo frio, &oacute;dios, amores, tristezas, invejas,<br \/>\n    melancolias, desejos, todos cansados das lutas e da vida, dizem &agrave; Natureza<br \/>\n    como gladiadores vencidos: &laquo;Os que v&atilde;o morrer sa&uacute;dam-te!&raquo;<br \/>\n    E morrem. A vida e o seu supl&iacute;cio &eacute; absorvida na insensibilidade<br \/>\n    da Natureza, no sil&ecirc;ncio perp&eacute;tuo, na for&ccedil;a fatal e cega.<br \/>\n    E a mat&eacute;ria vai pelos ares, pelas plan&iacute;cies, amolece-se nas<br \/>\n    sombras, vivifica-se nos raios claros, e rochedo, floresta, torrente, fluido,<br \/>\n    vapor, ru&iacute;do, movimento, estremecimento confuso do corpo de C&iacute;bele:<br \/>\n    e a mat&eacute;ria sente a vida universal, a palpita&ccedil;&atilde;o do &aacute;tomo<br \/>\n    debaixo da forma, sente-se banhada pelas claridades suaves e pelos cheiros<br \/>\n    dos fenos, sente-se impelida para a luz magn&eacute;tica dos astros e dilacerada<br \/>\n    nos &aacute;speros movimentos da terra. A mat&eacute;ria tem a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    augusta da sua vitalidade. E assim, sob a tua. impassibilidade, h&aacute;<br \/>\n    uma ang&uacute;stia imensa, uma vida ardente, impiedosa. uma alma terr&iacute;vel,<br \/>\n    &oacute; formid&aacute;vel Natureza! A noite descia: ca&iacute;a de cima uma<br \/>\n    claridade l&aacute;ctea: pesava um austero e lento sil&ecirc;ncio: a larga<br \/>\n    brancura celeste era gloriosa; os pastores desciam com os rebanhos lentos,<br \/>\n    balando; havia pelo ar uma bondade indefinida, uma virtude fluida: eu lembrava-me<br \/>\n    dos El&iacute;sios ol&iacute;mpicos e mitol&oacute;gicos onde, na claridade,<br \/>\n    passam as sombras her&oacute;icas, serenas, brancas, leves, levadas por um<br \/>\n    vento divino. Claridades sem sol! Eu ia, escutando os passos da doce noite<br \/>\n    que vinha caminhando. Ia-me afundando no t&eacute;dio como um navio roto numa<br \/>\n    mar&eacute; do equin&oacute;cio. Enchiam-me a alma crep&uacute;sculos brancos.<br \/>\n    Entrei no grande arvoredo negro. &Agrave;quelas horas, os linf&aacute;ticos,<br \/>\n    os inocentes, os m&iacute;sticos, encontram nos arvoredos languidezas e eleva&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    asc&eacute;ticas. Mas eu tremia entre a ramaria inquieta como um mar, misteriosa<br \/>\n    como um firmamento  tremia como um homem medroso que visse erguer-se<br \/>\n    um mono. Toda aquela negra decora&ccedil;&atilde;o de ramos torcidos, de folhagens<br \/>\n    l&iacute;vidas, de sil&ecirc;ncios, enchia-me de um terror profundo e trivial.<br \/>\n    A luz dissipada e transfiguradora do ocaso dava aos troncos um estranho aspecto<br \/>\n    de lutadores, vindos do sangue e dos inc&ecirc;ndios: os sinos distantes eram<br \/>\n    como vozes indefinidas de mis&eacute;ria e de dor.<\/p>\n<p> Passava um vento incessante e perseguidor. Os mochos voavam, e as aguas<br \/>\n    sonoras eram como vozes vingativas e tr&aacute;gicas. A Lua entorpecida passava<br \/>\n    por detr&aacute;s da estacada de ramos. O vento era rouco e lento como um<br \/>\n    canto cat&oacute;lico de of&iacute;cios. E o grasnar lento e arrastado dos<br \/>\n    corvos parecia uma ladainha b&aacute;rbara de padres. As &aacute;rvores doentias<br \/>\n    rangiam ao vento hibernal, o ar estava di&aacute;fano, l&aacute;cteo e mortu&aacute;rio.<br \/>\n    As estrelas que apareciam tinham o olhar lancinante.<\/p>\n<p> Cheguei &agrave; estalagem. Em baixo na lareira um magro fogo lambia as<br \/>\n    fuligens. A luz do meu quarto tinha a lividez dos c&iacute;rios, e o espelho<br \/>\n    tinha reflexos p&aacute;lidos, como de sombras mitol&oacute;gicas que passassem.<br \/>\n    Ouviam-se os lobos.<\/p>\n<p> Lembravam-me ent&atilde;o as outras noites, claras, doces, lentas, em que<br \/>\n    o c&eacute;u derrama sonol&ecirc;ncias; ent&atilde;o tamb&eacute;m eu ia por<br \/>\n    entre as &aacute;rvores e ouvia ondas sonoras de cantigas, que o vento fazia<br \/>\n    retinir atrav&eacute;s da bruma, entre o acre cheiro das efloresc&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> Aquelas vozes claras eram doces, santas, sa&iacute;das de cristais, como<br \/>\n    veladas por um luar.<\/p>\n<p> Eram como claridades sonoras de estrelas. Era uma multid&atilde;o de formas<br \/>\n    divinas que assim cantavam, divindades fe&eacute;ricas, willis, nixes, peris,<br \/>\n    fadas, que passavam ligeiras sem despertar os ramos adormecidos. Aquelas nudezas<br \/>\n    celestes, filhas do fogo, flores do mal, ondas do ar, entrela&ccedil;avam-se,<br \/>\n    dan&ccedil;ando nas obscuridades, que as cintila&ccedil;&otilde;es estelares<br \/>\n    franjavam de palidezas. No meio dos nevoeiros humanos elas faziam resplandecer<br \/>\n    diante dos olhos as vis&otilde;es paradis&iacute;acas, as criaturas siderais<br \/>\n    de l&acirc;nguidos misticismos. Elas iam naqueles enla&ccedil;amentos, brancas<br \/>\n    e louras, cheias de lirismo, com os p&eacute;s vermelhos e magoados de terem<br \/>\n    pisado auroras, iam, pousando nos jacintos, nos mirtos, nas rosas b&aacute;rbaras<br \/>\n    cheias de sangue radioso, iam rolando sobre a brancura solu&ccedil;ante dos<br \/>\n    l&iacute;rios e a sua voz triste subia por entre o azul l&aacute;cteo para<br \/>\n    a Lua chorosa.<\/p>\n<p> Quando assim estava no quarto da estalagem, inerte como uma m&uacute;mia,<br \/>\n    pensando nestas coisas, vi repentinamente atrav&eacute;s das vidra&ccedil;as<br \/>\n    a Lua aparecer-me.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o era aquela pura e imaculada Lua cor de opala  que<br \/>\n    derrama brancuras, como se atrav&eacute;s do azul ca&iacute;ssem l&iacute;rios.<br \/>\n    Era uma Lua met&aacute;lica, fria, hostil, material como uma moeda de ouro<br \/>\n    nova.<\/p>\n<p> Ela aparecia-me mortu&aacute;ria e l&iacute;vida como uma sombra finada,<br \/>\n    que se ergue &agrave;s grades de um adro. E o seu olhar, lancinante e r&aacute;pido,<br \/>\n    estava cheio das minhas agonias..<\/p>\n<p> Ora nessa estalagem encontrei um amigo, antigo camarada, que se tinha feito<br \/>\n    saltimbanco.<\/p>\n<p> Fez bem. Cansado dos pedantes, dos burgueses, dos ventres mercantis, dos<br \/>\n    imbecis afogados em gordura, fez-se saltimbanco e vive entre os palha&ccedil;os.<br \/>\n    Faz farsas coberto de farrapos luzentes, engole espadas, dan&ccedil;a farto<br \/>\n    de vinho como um Sileno.<\/p>\n<p> Dorme numa capa esfarrapada, com a nuca sobre um tambor, &agrave; frescura<br \/>\n    das estrelas e sob a bondade dos luares.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes tem frio e fome e gela nuns cal&ccedil;&otilde;es feitos<br \/>\n    de veludilho e de gal&otilde;es de ouro. Anda errante de vila em vila e a<br \/>\n    popula&ccedil;a da lama admira-o cingido do seu diadema de metal luzente.<br \/>\n    Dan&ccedil;a sobre a corda, e os seus gestos e as suas musculaturas fazem<br \/>\n    solu&ccedil;ar de desejos as gitanas e as feiticeiras. Que lhe importam as<br \/>\n    grandezas e as materialidades felizes? Ele tem a multid&atilde;o ext&aacute;tica<br \/>\n    e enlevada nos giros dos seus sapatos, e tem uma bem-amada de tran&ccedil;as<br \/>\n    t&atilde;o compridas como os ramos de um chor&atilde;o e aneladas e fortes<br \/>\n    como negros penachos de voluptuosidade, e a sua testa tem um reflexo de luar,<br \/>\n    de m&aacute;rmore e de espelho: e tem um belo seio de formas b&aacute;rbaras.<\/p>\n<p> Ele pula &agrave; noite, no circo aluminado, enquanto as toutinegras cantam<br \/>\n    nos canaviais. Ele faz girar vinte punhais de cobre em volta da cabe&ccedil;a<br \/>\n    num circulo puro e sonoro. E a multid&atilde;o, um dia, vendo aquele diadema<br \/>\n    terr&iacute;vel e faiscante, e o saltibanco impass&iacute;vel, grave, enfarinhado<br \/>\n    sob aquela coroa de luz, tom&aacute;-lo-&aacute; por um &iacute;dolo e f&aacute;-lo-&aacute;<br \/>\n    igual aos deuses! Ele, o meu saltimbaco. tem a alma de ouro e o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de diamante  e ri-se, ri-se, quando o vento soa como flauta do Inverno,<br \/>\n    e ao concerto das corujas e das ondas as estrelas dan&ccedil;am.<\/p>\n<p> A mis&eacute;ria anda-lhe cavando a sepultura. Um dia, abandonado da bem-amada,<br \/>\n    morrer&aacute; sem p&atilde;o, sem luz, sem calor. sem ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e sem sol. E n&atilde;o sofrer&aacute; mais. Viu durante a vida todo um povo<br \/>\n    curvado, aplaudindo, debaixo dos seus borzeguins. Os tambores e os clarinetes<br \/>\n    tocar&atilde;o o dia melhor do saltimbanco, o dia em que morrer: tocar&atilde;o<br \/>\n    o seu melhor dia os ferrinhos, os timbales, os clarinetes e os tambores! Todas<br \/>\n    estas coisas se parecem com sonhos. Mas o que &eacute; o sonho? O que s&atilde;o<br \/>\n    as vis&otilde;es? S&atilde;o as atitudes, fant&aacute;sticas e desmanchadas,<br \/>\n    que a sombra d&aacute; &agrave;s verdades. J&aacute; pensava assim o poeta<br \/>\n    Li Tai-P&eacute;. que escrevia sobre as coisas santas da China, entre porcelanas<br \/>\n    e lacas, ao sopro dos nen&uacute;fares. vestido de sedas amarelas, perfumado<br \/>\n    de char&atilde;o  doce. contemplativo, branco diante de um vaso de<br \/>\n    margaridas!.<\/p>\n<p> O MILHAFRE Meus amigos. A literatura em Portugal est&aacute; a agonizar:<br \/>\n    morre burguesmente e insipidamente: nem ao menos tem os efeitos de luz extravagantes<br \/>\n    de todos os ocasos celestes.<\/p>\n<p> &Eacute; uma doidice o querer pensar, criar e criticar, nesta terra onde<br \/>\n    nascem as laranjeiras, como diz a cantiga de Mignon. Se ainda houvessem cabelos,<br \/>\n    seria muito prefer&iacute;vel ser fabricante de caixinhas de banha.<\/p>\n<p> Seria mesmo talvez melhor a profiss&atilde;o de poeta l&iacute;rico, se<br \/>\n    n&atilde;o fosse uma profiss&atilde;o perigosa.<\/p>\n<p> Ainda h&aacute; pouco, um pediu em casamento n&atilde;o sei que doce a&ccedil;ucena,<br \/>\n    moradora na Baixa; o pai dela interrompeu a hist&oacute;ria dos id&iacute;lios<br \/>\n    sacrossantos e municipais para perguntar ao namorado gentil qual era a sua<br \/>\n    profiss&atilde;o. &laquo;Sou poeta l&iacute;rico, respondeu ele, e vivo do<br \/>\n    meu estado.&raquo; O velho ergueu-se de golpe, tomou uma bengala e espancou<br \/>\n    o poeta l&iacute;rico, laureado em tr&ecirc;s can&ccedil;onetas ex&oacute;ticas.<\/p>\n<p> Todavia, &eacute; com verdadeira alegria que me acho neste canto que a pol&iacute;tica<br \/>\n    me deixa. Fa&ccedil;o deste canto de boa vontade o lugar de espect&aacute;culo<br \/>\n    para assistir &agrave;s &uacute;ltimas agonias do pensamento em Portugal.<br \/>\n    Trata-se de cair bem, meus amigos, como os antigos gladiadores: &laquo;Oh<br \/>\n    ego&iacute;smo mundano, os que v&atilde;o morrer sa&uacute;dam-te!&raquo;<br \/>\n    E depois, meus caros amigos, eu acho admir&aacute;vel a sociedade moderna,<br \/>\n    a sua pol&iacute;tica perfeita, a sua ind&uacute;stria magn&iacute;fica, a<br \/>\n    sua agiotagem providencial, o seu luxo simp&aacute;tico, a sua ret&oacute;rica<br \/>\n    florida, a sua arte econ&oacute;mica, os seus sonhos de oiro, mas persisto<br \/>\n    em invejar aqueles que como o antigo Daniel podem contemplar as estrelas,<br \/>\n    enquanto os bichos sociais se devoram na sombra.<\/p>\n<p> Seja-me permitida uma pequenina f&aacute;bula.<\/p>\n<p> Um dia um homem entrou numa casa arruinada. No portal havia um nicho com<br \/>\n    um santo de pedra, que lia uma B&iacute;blia, tamb&eacute;m de pedra, Em redor,<br \/>\n    na beira dos telhados, nas fendas das pedras, no canto do nicho, havia ervas<br \/>\n    molhadas e verdes, e ninhos de andorinhas. O santo tinha sempre as suas p&aacute;lpebras<br \/>\n    de pedra descidas sobre o livro sagrado, Passavam as cavalgadas, os enterros<br \/>\n    silenciosos, os noivados, os cortejos, a pompa dos regimentos, e o santo lia<br \/>\n    atentamente o seu livro de pedra.<\/p>\n<p> Vinham defronte dan&ccedil;ar saltimbancos, passavam as frescas serenatas,<br \/>\n    vinham dos montes rebanhos e ceifeiras; o santo tinha os seus olhos de pedra<br \/>\n    sobre as p&aacute;ginas inertes. As devotas, lentas e desfalecidas, beijavam-lhe<br \/>\n    os p&eacute;s nus, os homens severos saudavam-no, as crian&ccedil;as olhavam-no<br \/>\n    com os seus grandes olhos inanimados, os c&atilde;es ladravam-lhe &agrave;<br \/>\n    calva: o santo, curvado, seguia o esp&iacute;rito de Deus por entre as letras<br \/>\n    do livro.<\/p>\n<p> Passavam os fardos, os mercadores crestados pela ind&uacute;stria, os poetas<br \/>\n    l&acirc;nguidos que desfalecem nas can&ccedil;onetas, os histri&otilde;es<br \/>\n    que cantam nos tablados, mulheres mais preciosas que o &acirc;mbar, os s&aacute;bios,<br \/>\n    os mendigos, as virtuosas e as melodram&aacute;ticas:  e o santo lia<br \/>\n    o seu livro prof&eacute;tico.<\/p>\n<p> Ora as torres gloriosas, as bandeiras, os ciprestes  ais de folhagem<br \/>\n     os homens, perguntavam entre si:  &laquo;Que l&ecirc; t&atilde;o<br \/>\n    atentamente aquele santo, que nem sequer nos olha?&raquo; E os enxurros, que<br \/>\n    passam rosnando, diziam:  &laquo;Que l&ecirc; t&atilde;o devotamente<br \/>\n    aquele santo, que nem sequer nos escuta?&raquo; Ora o santo lia assim. De<br \/>\n    noite, quando as bandeiras caem de sono, quando os homens est&atilde;o cheios<br \/>\n    de comida e de in&eacute;rcia  a Lua, que ao nascer &eacute; material<br \/>\n    e met&aacute;lica como uma moeda de ouro nova, depois, na suavidade do azul,<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o pura, t&atilde;o imaculada,. t&atilde;o consoladora, como<br \/>\n    uma chaga de Cristo por onde se lhe visse a alma. A essas horas, uma crian&ccedil;a,<br \/>\n    t&atilde;o pobre e t&atilde;o esfarrapada como o antigo pastor S. Jo&atilde;o,<br \/>\n    vinha deitar-se junto do nicho do santo. E ent&atilde;o, o santo afastava<br \/>\n    um pouco o livro, e toda a noite ficava cobrindo, com a grande luz dos seus<br \/>\n    olhos, aquela crian&ccedil;a miser&aacute;vel, adormecida sobre as lajes.<\/p>\n<p> Depois os planetas, a Lua, a noite seguiam a sua viagem imensa para o oeste,<br \/>\n    e a leste come&ccedil;ava uma claridade: eram as hesita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da luz do dia, medrosa por ter de descer &agrave;s mis&eacute;rias dos homens.<\/p>\n<p> As bandeiras ainda estavam desfalecidas, sonhavam as &aacute;rvores, a cidade<br \/>\n    dormia como outrora Sodoma. Acordavam ent&atilde;o as. andorinhas. Esvoa&ccedil;avam<br \/>\n    gloriosas, gritando, e vinham sofregamente, em tumulto, pousar no nicho.<\/p>\n<p> As andorinhas estavam nas intimidades e nas confid&ecirc;ncias do santo.<\/p>\n<p> Ora o vento, que passava pelos campos e pelas eiras, vem cheio de gr&atilde;os<br \/>\n    e de sementes: a chuva cai l&uacute;cida e fresca. O santo aparava a chuva<br \/>\n    nas pregas da capa, e os gr&atilde;os nas p&aacute;ginas do livro. E as andorinhas,<br \/>\n    quando vinham para o nicho, bebiam na capa do santo e comiam sobre a B&iacute;blia<br \/>\n    de Deus. E, enquanto comiam e bebiam, gritavam, batiam com as asas nas barbas<br \/>\n    do santo, beijavam-se na sua boca, aninhavam-se-lhe entre os bra&ccedil;os,<br \/>\n    cobriam-no todo; e o sol, quando chegava, ficava maravilhado de ver aquele<br \/>\n    pobre santo de pedra, que ele n&atilde;o conhecia do Para&iacute;so, com os<br \/>\n    p&eacute;s entre as ervas verdes, rindo, sereno, sob a luz imensa, e todo<br \/>\n    vestido de asas! O homem entrou na casa arruinada e foi, atrav&eacute;s de<br \/>\n    pedras esverdeadas, de grandes humidades que escorriam, de madeiros apodrecidos,<br \/>\n    de muralhas leprosas de musgo, de escadarias miser&aacute;veis, at&eacute;<br \/>\n    uma sala enorme, escura e tr&aacute;gica, e t&atilde;o alta, que involuntariamente<br \/>\n    o olhar procurava as constela&ccedil;&otilde;es naquela sombra.<\/p>\n<p> No fundo da sala havia um grande crucifixo de madeira. Sobre a cabe&ccedil;a<br \/>\n    macerada do Cristo, as traves podres do tecto abriam uma larga fenda. Por<br \/>\n    ali vinha a chuva escorrer-lhe nos cabelos como o antigo suor do Jardim das<br \/>\n    Oliveiras, vinham os granizos mago&aacute;-lo como as pedras da paix&atilde;o,<br \/>\n    vinha o Sol alumi&aacute;-lo como a tocha de Judas, e a Lua vinha, tamb&eacute;m,<br \/>\n    torn&aacute;-lo mais l&iacute;vido, como naquela noite em que ele, depois<br \/>\n    de ter visto a gente solu&ccedil;ante descer para Jerusal&eacute;m, sentiu<br \/>\n    pousar na sua cruz um rouxinol, que toda a noite cantou.<\/p>\n<p> Sobre a cabe&ccedil;a e sobre os bra&ccedil;os do Cristo, havia teias de<br \/>\n    aranha; em baixo os ratos ro&iacute;amlhe a cruz.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o o homem sentiu que aquele seio constelado, e aquela boca donde<br \/>\n    saiu a revela&ccedil;&atilde;o do amor, do perd&atilde;o, e da alma, tinham<br \/>\n    o p&oacute;, a podrid&atilde;o, a cali&ccedil;a e os bichos; e que, se um<br \/>\n    dia Cristo, vendo o homem aflito e miser&aacute;vel, lhe tinha arrancado da<br \/>\n    alma o mal, n&atilde;o era muito que o homem, encontrando Cristo abandonado,<br \/>\n    profanado e ro&iacute;do, lhe limpasse da cabe&ccedil;a as aranhas. Mas, quando<br \/>\n    ia a limpar a imagem, viu, sobre a cruz, junto da m&atilde;o pregada, um milhafre<br \/>\n    enorme. O homem, com as m&atilde;os, quis arredar o milhafre.<\/p>\n<p> E a ave, ent&atilde;o, com a antiga voz dos animais da B&iacute;blia, do<br \/>\n    Apocalipse e dos livros dos profetas, disse surdamente: &laquo;Homem, deixa<br \/>\n    a cruz sossegada!&raquo; Atrav&eacute;s das fendas viam-se os astros sagrados.<br \/>\n    E o milhafre, batendo as asas, dizia: &laquo;Deixa a cruz, deixa! N&atilde;o<br \/>\n    tenhas medo que apodre&ccedil;a. L&aacute; em cima luzem agora estrelas, s&oacute;is,<br \/>\n    planetas, cintila&ccedil;&otilde;es, carb&uacute;nculos. &Eacute; o p&oacute;<br \/>\n    dos Deuses mortos. Todos se finaram, histri&otilde;es ensanguentados, e a<br \/>\n    sua farsa acabou em desterros.<\/p>\n<p> &laquo;Morreram velhos, expulsos, esfomeados e nus..<\/p>\n<p> &laquo;Este ficou, solit&aacute;rio, alumiando. Ele perdoou enquanto os<br \/>\n    outros lutaram, ele amou enquanto os outros choraram: por isso fica enquanto<br \/>\n    os outros passam. Deixa.<\/p>\n<p> Esta cruz, que &eacute; de madeira, vale tanto como as que l&aacute; em<br \/>\n    cima fazem os raios dos astros, ou no sil&ecirc;ncio dos mirtos dois olhares<br \/>\n    bem-amados.<\/p>\n<p> &laquo;Deixa as aranhas, o p&oacute;, a cali&ccedil;a, os bichos, a neve,<br \/>\n    a geada, o apodrecimento. Ele pode bem dar &agrave;s aranhas o seu corpo de<br \/>\n    madeira, pois que vos deu a v&oacute;s o seu corpo de carne  a v&oacute;s,<br \/>\n    que pregais com o mesmo riso e o mesmo esquecimento os morcegos no alto das<br \/>\n    janelas e o Cristo no alto dos montes; a v&oacute;s, que lhe vindes limpar<br \/>\n    os cabelos de madeira, depois de lhe ter arrancado os cabelos vivos; a v&oacute;s,<br \/>\n    que quereis lavar as n&oacute;doas que ele tem no peito, e n&atilde;o vedes<br \/>\n    as imund&iacute;cies que tendes na alma. Tudo o que ele criou, o amor, o ideal,<br \/>\n    o perd&atilde;o, a f&eacute;, o pudor, a religi&atilde;o, Deus, todo aquele<br \/>\n    evangelho da vida nova anda pelo mundo, t&atilde;o degradado, t&atilde;o coberto<br \/>\n    de bichos, t&atilde;o imundo como o seio desta imagem antiga. A mat&eacute;ria,<br \/>\n    o impudor, o apetite rude, o &oacute;dio, o aviltamento, o tr&aacute;fico,<br \/>\n    a mis&eacute;ria e a penalidade, andam sujando a tua alma, &oacute; homem!<br \/>\n    como as aranhas andam sujando a cabe&ccedil;a deste Cristo! E n&atilde;o reparais,<br \/>\n    e n&atilde;o vedes, sobre os esp&iacute;ritos, sobre os cora&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    sobre as consci&ecirc;ncias, o p&oacute;, a cali&ccedil;a, o caruncho, os<br \/>\n    ratos e os vermes! &laquo;Sim, &eacute; verdade: tudo &eacute; magn&iacute;fico<br \/>\n    e s&atilde;o, e banhado de sol. As cidades s&atilde;o cheias e caiadas, s&oacute;<br \/>\n    as consci&ecirc;ncias &eacute; que t&ecirc;m n&oacute;doas; as pra&ccedil;as<br \/>\n    est&atilde;o limpas de ilumina&ccedil;&otilde;es, s&oacute; os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    &eacute; que est&atilde;o escuros; os cais est&atilde;o arejados, s&oacute;<br \/>\n    os esp&iacute;ritos &eacute; que sufocam; os corpos est&atilde;o s&atilde;os,<br \/>\n    cobertos de estofos, frescos e resplandecentes, s&oacute; as almas &eacute;<br \/>\n    que andam nuas, miser&aacute;veis e leprosas. De resto, tendes o riso, a farsa,<br \/>\n    os para&iacute;sos artificiais, as arcas venais, e tamb&eacute;m o esfriamento<br \/>\n    do t&uacute;mulo! Oh! amigos &iacute;ntimos dos vermes, como v&oacute;s cuidais<br \/>\n    do corpo, e o lavais, e o amaciais, e o engordais  para a pastagem<br \/>\n    escura das covas! &laquo;Homem, que fizeste tu da alma? Ao princ&iacute;pio<br \/>\n    n&atilde;o era conhecida, depois foi vendida, depois foi apupada; tu, modernamente,<br \/>\n    julgaste melhor mat&aacute;-la  mas n&atilde;o certamente de cansa&ccedil;o<br \/>\n    com viagens a Deus! Deste-la a despeda&ccedil;ar &agrave; negra matilha do<br \/>\n    mal. Em compensa&ccedil;&atilde;o, guardaste o corpo: para esse uma religi&atilde;o,<br \/>\n    um asilo forte como o Sol, os sete selos da lei e a escolta dos regimentos.<br \/>\n    Esse &eacute; o sagrado, o imaculado, o pontifical, o vitorioso. Proibi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a Deus de lhe tocar. Para ele pal&aacute;cios, cortejos, serralhos, estofos,<br \/>\n    pedrarias, o sol e a ilumina&ccedil;&atilde;o dos astros. Para ele a inviolabilidade:<br \/>\n    N&atilde;o matar&aacute;s! &laquo;Come&ccedil;aram ent&atilde;o as cruzes<br \/>\n    a ficar desertas, os cepos a encher-se de musgo, as forcas a apodrecer nos<br \/>\n    caminhos. N&oacute;s, os milhafres, e os nossos camaradas, os abutres, para<br \/>\n    quem j&aacute; n&atilde;o havia corpos nos despenhadeiros, ladr&otilde;es<br \/>\n    arroxeados pela corda, afogados disformes, deix&aacute;mos os grandes montes<br \/>\n    e os rios, as vastas tradi&ccedil;&otilde;es do sangue, e viemos, para viver,<br \/>\n    aceitar, com os cap&otilde;es, a domesticidade nos parques resplandecentes,<br \/>\n    ou and&aacute;mo-nos mostrando aos imbecis, pelas feiras, numa gaiola! E as<br \/>\n    aves da noite, depois de terem visto a natureza imensa, as afli&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do vento, as n&uacute;pcias do mar, de terem lutado nas tempestades e insultado<br \/>\n    as estrelas, v&ecirc;m, modestamente, comer bichinhos no sagu&atilde;o dos<br \/>\n    burgueses! Eu, que tinha estado entre a for&ccedil;a, quis, ao menos, ficar<br \/>\n    entre a gra&ccedil;a; e, depois de ter vivido na noite de Deus, quis, ao menos,<br \/>\n    morrer na madrugada de Jesus! E, entretanto, a alma morre esmagada e solit&aacute;ria,<br \/>\n    e a grande vida moderna, a vida do sol, da m&uacute;sica, dos metais, vai,<br \/>\n    entre fulgura&ccedil;&otilde;es, pisando e cuspindo naquela coisa miser&aacute;vel.<br \/>\n    E ainda est&aacute; quente o sangue de Jesus! &laquo;Homem, que fizeste tu<br \/>\n    do pensamento? &laquo;Anda expulso, perseguido e sublime, como um Deus antigo.<br \/>\n    Cravaste-lhe no seio as sete dores. Coube-lhe a dor e o esc&aacute;rnio. &Eacute;<br \/>\n    necess&aacute;rio que, nas cidades, os pensadores e os artistas ext&aacute;ticos<br \/>\n    sofram e sangrem: os triunfos dos homens da mat&eacute;ria s&atilde;o como<br \/>\n    os. dos antigos imperadores  s&oacute; s&atilde;o completos, quando<br \/>\n    passam entre torturas. E quem havia de solu&ccedil;ar sobre a cena moderna<br \/>\n    da paix&atilde;o, sen&atilde;o os que t&ecirc;m alma? &laquo;Amam, sufocam,<br \/>\n    caem, agonizam, e, entretanto, vai passando a coorte dos vitoriosos e dos<br \/>\n    reluzentes, e as suas bolsas riem-se daqueles cora&ccedil;&otilde;es, como<br \/>\n    os bot&otilde;es de ouro das suas camisas apupam a luz dos astros.<\/p>\n<p> &laquo;E os que quiserem viver e tiverem a alma grande, bela e her&oacute;ica,<br \/>\n    t&ecirc;m de se baixar &agrave; estatura burguesa e mercantil dos c&eacute;rebros<br \/>\n    modernos. Os deuses ol&iacute;mpicos, se n&atilde;o se deixassem ajuizadamente<br \/>\n    finar nas florestas antigas, teriam de se empregar nas secretarias. O soberbo<br \/>\n    pav&atilde;o de Juno viveria num pomar dos arrabaldes. Homero seria localista.<br \/>\n    Os cavaleiros andantes roubariam len&ccedil;os nos ajuntamentos, e o tr&aacute;gico<br \/>\n    S&atilde;o Jer&oacute;nimo seria presidente duma junta de par&oacute;quia.<br \/>\n    Deste modo tu aceitas a arte, o pensamento, a alma. N&atilde;o, arte, n&atilde;o<br \/>\n    te v&aacute;s; a vida moderna dar-te-&aacute; uma libr&eacute; resplandecente;<br \/>\n    vem, m&uacute;sica, tu que criaste a Alemanha, far-me-&aacute;s uma contradan&ccedil;a;<br \/>\n    vem, arquitectura, tu que deste hospitalidade a Deus, far-me-&aacute;s uma<br \/>\n    estufa; vem, escultura, tu que fizeste o povo dos deuses, o bela escultura!<br \/>\n    vem fazer-me um gavet&atilde;o.<\/p>\n<p> Oh! tristes domesticidades do ideal!&raquo; Houve um sil&ecirc;ncio. Havia<br \/>\n    na sala um ar m&iacute;stico, como para concep&ccedil;&atilde;o dum deus.<\/p>\n<p> O milhafre esvoa&ccedil;ava. Ouvia-se o chorar duma flauta. E o olhar do<br \/>\n    Cristo errava, contemplativo e atento, entre as estrelas inumer&aacute;veis,<br \/>\n    enquanto na escurid&atilde;o, aos seus p&eacute;s, os ratos lhe ro&iacute;am<br \/>\n    a cruz.<\/p>\n<p> &laquo;Vai-te, disse o milhafre. Os ratos roem a cruz, eu estou velho: a<br \/>\n    antiga gera&ccedil;&atilde;o das aves da noite vai-se. Os pregos j&aacute;<br \/>\n    se despregam, a cruz apodrece. E quando ela se desfizer, atirarei o seu p&oacute;<br \/>\n    &agrave; grande natureza, ao elevar da Lua, que vale o elevar da h&oacute;stia.<br \/>\n    Irei, oh meu Deus! para al&eacute;m dos s&oacute;is e dos caminhos l&aacute;cteos,<br \/>\n    onde as constela&ccedil;&otilde;es s&atilde;o gotas de sombra, certo<br \/>\n    eu que sou da vasta terra, o selvagem dos prados, a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos antros, eu que sou a palpita&ccedil;&atilde;o dos montes  certo<br \/>\n    de que, se os homens n&atilde;o deram a cruz aos Cristos, n&atilde;o lha dar&aacute;<br \/>\n    tamb&eacute;m a natureza. E eu, que ro&iacute; as ossadas verdes, tendo visto<br \/>\n    sempre Este que fez o bem, que amou, que perdoou, pregado numa cruz, irei<br \/>\n    tamb&eacute;m, entre os s&oacute;is meio doidos, eu, que devastei, e matei,<br \/>\n    e escorri de sangue, crucificar-me num astro!&raquo; Assim falou, lentamente,<br \/>\n    aquele milhafre filos&oacute;fico e letrado, enquanto as violas gemiam, e<br \/>\n    os pobres tremiam de frio; assim falava, de cima duma cruz, numa sala legend&aacute;ria,<br \/>\n    longe das maravilhas dos Cains burgueses, nestes tempos livres, sensatos,<br \/>\n    verdadeiros, magn&iacute;ficos, em que, como se n&atilde;o podem p&ocirc;r<br \/>\n    certas verdades na boca dos homens, t&ecirc;m de se dependurar do bico dos<br \/>\n    milhafres..<\/p>\n<p> LISBOA Et nunc et semper (Divisa dos pr&iacute;ncipes de Este) As geografias<br \/>\n    antigas, dizem: &laquo;Lisboa, cidade antiga rica e forte: ali o ar &eacute;<br \/>\n    melhor que em qualquer s&iacute;tio da Espanha. Est&aacute; sobre sete montanhas<br \/>\n    &agrave; beira do Tejo. Long.<\/p>\n<p> 9., lat. 38..&raquo; O ar &eacute; na verdade bom. Lisboa tem ainda meiguices<br \/>\n    primitivas de luz e de frescura: apesar dos asfaltos, das f&aacute;bricas,<br \/>\n    dos gas&oacute;metros, dos cais, dos alcatr&otilde;es, ainda aqui as primaveras<br \/>\n    escutam os versos que o vento faz: sobre os seus telhados ainda se beijam<br \/>\n    as pombas: ainda no sil&ecirc;ncio, o ar escorre pelas cantarias, como o sangue<br \/>\n    ideal da melancolia. E Deus ainda n&atilde;o &eacute; um poeta impopular.<\/p>\n<p> Lisboa que faz? Antigamente a cidade, urbs, era o lugar que pensava e que<br \/>\n    falava, que tinha o verbo e a luz.<\/p>\n<p> Roma criou a justi&ccedil;a, Atenas idealizou a carne, Jerusal&eacute;m<br \/>\n    crucificou a alma. Por isso Roma caiu, e os porcos enlameiam os restos de<br \/>\n    Atenas, e os c&atilde;es uivam no sil&ecirc;ncio de Jerusal&eacute;m.<\/p>\n<p> Os seus olhos olharam muito para a verdade e cegaram: os seus ouvidos escutaram<br \/>\n    muito o pensamento e ensurdeceram: as suas m&atilde;os esculpiram muito o<br \/>\n    ideal e tolheram-se.<\/p>\n<p> Pensar &eacute; sofrer; alumiar &eacute; lutar. A noite, ao sucumbir, luta<br \/>\n    com a madrugada, e deixa-lhe a chaga incur&aacute;vel do Sol: dela escorre<br \/>\n    a luz. As supersti&ccedil;&otilde;es, os preconceitos, os erros, os preju&iacute;zos,<br \/>\n    as fatalidades, lutam com a alma e deixam-lhe a ferida insan&aacute;vel do<br \/>\n    ideal: dela escorre a verdade. Esta ferida d&aacute; a febre, o cansa&ccedil;o,<br \/>\n    o desespero, a convuls&atilde;o. Paris tem esta antiga e tr&aacute;gica ferida<br \/>\n    que teve Atenas, Babil&oacute;nia e Jerusal&eacute;m.<\/p>\n<p> Sofre porque pensa. Os p&eacute;s t&ecirc;m a intimidade da lama, as asas<br \/>\n    t&ecirc;m a camaradagem da luz.<\/p>\n<p> Todo o p&eacute; quer ser asa.<\/p>\n<p> Da&iacute; ambi&ccedil;&otilde;es, desalentos, lutas obscuras, perdi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    descren&ccedil;as. fulgura&ccedil;&otilde;es do mal, impurezas, trai&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    invejas, inj&uacute;rias, torturas  a congest&atilde;o do esp&iacute;rito!<br \/>\n    S&atilde;o estas as dores imensas, as n&oacute;doas do pensamento, as manchas<br \/>\n    do Sol.<\/p>\n<p> Lisboa n&atilde;o tem estes defeitos da luz: &eacute; serena, imperturb&aacute;vel,<br \/>\n    silenciosa. Quer a sua inviolabilidade, evita as feridas terr&iacute;veis.<br \/>\n    Tem a sensatez, a prud&ecirc;ncia, a economia, o medo.<\/p>\n<p> N&atilde;o quer alumiar, para n&atilde;o lutar, n&atilde;o quer pensar,<br \/>\n    para n&atilde;o sofrer. N&atilde;o quer criar, pensar, apostolar, criticar.<br \/>\n    Escuta e aplaude toda a voz, ou sejam as impreca&ccedil;&otilde;es sagradas<br \/>\n    de Danton, ou os versos do poeta Nero. As ondas que solucem, as florestas<br \/>\n    que se lamentem, ela tem o riso radioso e sereno.<\/p>\n<p> Sente-se abundante, gorda, coberta de luz. Sente-se protegida, livre, caiada<br \/>\n    e fresca; n&atilde;o tem de catar as suas mis&eacute;rias, nem de amparar<br \/>\n    o pau das forcas, por isso comenta Sancho Pan&ccedil;a.<\/p>\n<p> N&atilde;o tem de construir a catedral de ideias, nem de compor a sinfonia<br \/>\n    da alma, por isso escuta os melros nas v&aacute;rzeas e reza as ave-marias.<br \/>\n    Paris, Londres, Nova Iorque, Berlim, suam e trabalham, em esp&iacute;rito.<br \/>\n    Ela n&atilde;o tem que semear: por isso, ressona ao Sol.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes, por&eacute;m, comete o mal, enterrando ideias. Aonde? Na<br \/>\n    escurid&atilde;o, no sil&ecirc;ncio, no desprezo. Lisboa &eacute; um pouco<br \/>\n    coveiro de almas! Como Roma, ela tem as sete colinas, como Atenas, tem um<br \/>\n    c&eacute;u t&atilde;o transparente que poderia viver nela o povo dos deuses.<br \/>\n    Como Tiro, &eacute; aventureira do mar. Como Jerusal&eacute;m, crucifica os<br \/>\n    que lhe querem dar uma alma. Todavia Lisboa o que faz? Come..<\/p>\n<p> Come, ao cair da tarde, sem testemunhas impiedosas, quando sabe que os astros<br \/>\n    v&ecirc;m longe, que as asas sonham com o vento, que os olhos das flores se<br \/>\n    fecham de sono.<\/p>\n<p> Deus n&atilde;o v&ecirc; da sua varanda de sol, e ent&atilde;o, para esta<br \/>\n    velha cidade, her&oacute;ica e legend&aacute;ria, que nos seus velhos dias<br \/>\n    tomou o pecado da gula, o abd&oacute;men &eacute; uma realidade livre! At&eacute;<br \/>\n    ali, durante o dia, os seus cabelos ca&iacute;am como ramos de salgueiros,<br \/>\n    as suas faces estavam amortalhadas, dos seus olhos chovia dor; ainda n&atilde;o<br \/>\n    tinha comido! Depois, &agrave; noite, quando sai do alimento como de uma vit&oacute;ria,<br \/>\n    os olhares s&atilde;o gritos de luz, os cabelos plumas gloriosas, o peito<br \/>\n    arca de ideias; comeu! Lisboa nem cria, nem inicia; vai.<\/p>\n<p> Em religi&atilde;o nem tem a devo&ccedil;&atilde;o dos monges, nem a impiedade<br \/>\n    ir&oacute;nica: &eacute; simples: antigamente fazia ir um Cristo crucificado,<br \/>\n    erguendo os bra&ccedil;os suplicantes, no pr&eacute;stito dos enforcados:<br \/>\n    hoje choraria pela M&atilde;e Dolorosa, depois de ter erguido uma est&aacute;tua<br \/>\n    a Voltaire: dependuraria ao pesco&ccedil;o singelamente, com as contas de<br \/>\n    um ros&aacute;rio, a sua antiga viola de Alfama.<\/p>\n<p> Em pol&iacute;tica copia Sancho Pan&ccedil;a.<\/p>\n<p> N&atilde;o tem a coragem que se dedica, nem o medo solu&ccedil;ante: parece<br \/>\n    ter justamente o hero&iacute;smo de uma espada embainhada: na campanha da<br \/>\n    Europa, todavia, com os seus uniformes negros, espantava a velha guarda: tem<br \/>\n    a religi&atilde;o sensual do Sol, do calor e do sono: e verdade. No Beresina,<br \/>\n    apupava as neves! Nem tem a febre das especula&ccedil;&otilde;es e das ind&uacute;strias,<br \/>\n    nem o amor das contempla&ccedil;&otilde;es e dos sonhos: tem um trabalho cheio<br \/>\n    de sestas: em Abril suspende a enxada para ver voltar as andorinhas.<\/p>\n<p> No v&iacute;cio &eacute; t&iacute;mida: copia desjeitosamente as babil&oacute;nias<br \/>\n    distantes: aproveita o fogo de Sodoma para aquecer os p&eacute;s; apara as<br \/>\n    unhas ao Diabo; &eacute; o banho t&eacute;pido dos pecados mortais.<\/p>\n<p> Adoradora, em arquitectura, da linha recta dos pal&aacute;cios de cristal,<br \/>\n    sect&aacute;ria, em escultura, dos biscuits de S&egrave;vres, namorada, em<br \/>\n    poesia, do visconde d&rsquo;Arlincourt, no teatro quer a m&aacute;gica: tem<br \/>\n    sede e fome daquele ideal: quer as montanhas transparentes, os pal&aacute;cios<br \/>\n    de missanga, nudezas celestes, noivas de coral, arquitecturas de luz e de<br \/>\n    sons, pap&eacute;is colados, vermelh&atilde;o e ourelo, mulheres despidas,<br \/>\n    pedraria, e ouro, ouro, ouro, e ainda ouro, e mulheres despidas, e mais ouro!<br \/>\n    Lisboa quer sobre uma cena resplandecente ver as formas estranhas que toma<br \/>\n    o sonho de imbecilidade: quer a m&aacute;gica: em verdade, a m&aacute;gica<br \/>\n    &eacute; o espectro solar do idiotismo! Vem a noite. Lisboa toma a impassibilidade<br \/>\n    das penedias.<\/p>\n<p> As casas sem luz t&ecirc;m o aspecto calmo e sinistro dos rostos idiotas.<br \/>\n    A ilumina&ccedil;&atilde;o &eacute; um coro de g&aacute;s, bocejando. Das<br \/>\n    encruzilhadas das ruas solit&aacute;rias, de todo este deserto de cantarias<br \/>\n    e de vidra&ccedil;as, exala-se uma sonol&ecirc;ncia fluida, um h&aacute;lito<br \/>\n    de t&eacute;dio. Lisboa de noite &eacute; t&atilde;o silenciosa que quase<br \/>\n    se sente o crescer da erva que a h&aacute;-de cobrir no dia das ru&iacute;nas.<\/p>\n<p> &Eacute; t&atilde;o triste que a noite parece um arrependimento da vida!<br \/>\n    Nas belas moradas, nos casebres, nas trapeiras, em cambraia, em farrapos,<br \/>\n    em palhas, por toda a parte, h&aacute; um vasto sono inerte e vegetal.<\/p>\n<p> Que fazem entretanto os errantes da noite, a fam&iacute;lia Vicio, a gente<br \/>\n    crepuscular, os herdeiros terr&iacute;veis de Lovelace e de D. Juan Ten&oacute;rio?<br \/>\n    Compram na penumbra dom&eacute;stica o amor fuliginoso das cozinheiras, comem<br \/>\n    melancolicamente mexilh&otilde;es nas tabernas; os mais pobres encostam-se<br \/>\n    &agrave;s esquinas esfarrapados, e doentes, cari&aacute;tides sonolentas do<br \/>\n    t&eacute;dio!.<\/p>\n<p> E nas casas? Ai, nos andares resplandecentes, onde as m&atilde;os s&atilde;o<br \/>\n    macias e macios os sentimentos, est&atilde;o, concentradas e s&eacute;rias,<br \/>\n    formas vestidas de luto, como os vi&uacute;vos, ou vestidas de branco, como<br \/>\n    as monjas. E suaves s&atilde;o as falas e o andar cheio de ondula&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    como o nadar das sereias, e as dan&ccedil;as severas como a celebra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um rito: e suaves s&atilde;o as p&eacute;talas, e as m&uacute;sicas chorosas<br \/>\n    e as luzes, aves de claridade presas, que palpitam e querem o livre azul:<br \/>\n    mas sobre a alma e os cornos, e os adornos, derrama-se a tristeza dos vi&uacute;vos<br \/>\n    e a frialdade das monjas. E isto s&atilde;o as festas! Mas acima, nos andares<br \/>\n    modestos, ressonam aquelas fam&iacute;lias, vulgares e &aacute;speras, que<br \/>\n    nascem com a alma cheia de frio, que vivem entre a beleza, a gra&ccedil;a,<br \/>\n    a paix&atilde;o, como insectos entre os cabelos de uma santa, e morrem solit&aacute;rias,<br \/>\n    invejosas, com os cora&ccedil;&otilde;es cheios de revolta porque n&atilde;o<br \/>\n    amaram, com os p&eacute;s cheios de musgo porque n&atilde;o caminharam! Depois,<br \/>\n    mais em cima, nos &uacute;ltimos andares, &eacute; a gente do trabalho: oper&aacute;rios<br \/>\n    severos, doces raparigas com alma de p&aacute;ssaro, gargantas onde, como<br \/>\n    nas veigas de Israel, todo o dia se canta, e tamb&eacute;m a gente est&uacute;pida<br \/>\n    e met&aacute;lica que tem a brutalidade do trabalho, com a rudeza do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &iacute;ndoles &aacute;speras, olhos invejosos, m&atilde;os avaras, peitos<br \/>\n    vazios, que a essas horas da noite, com os cabelos ca&iacute;dos, v&ecirc;em<br \/>\n    a vida t&atilde;o nua, t&atilde;o apertada.<\/p>\n<p> t&atilde;o brutal, t&atilde;o suja como a sua trapeira! E depois mais acima,<br \/>\n    debaixo dos telhados, os mendigos, os esfomeados, os miser&aacute;veis, a<br \/>\n    essas horas com grandes olhos aterrados, se catam, ou moem as c&ocirc;deas,<br \/>\n    ou gemem de dor, ou morrem entre a cali&ccedil;a e as aranhas, ou se remendam,<br \/>\n    cantando impuramente! E por cima como na jerarquia da dor, das tristezas do<br \/>\n    pobre, s&oacute; est&atilde;o as chagas de Cristo, o grande azul, sereno,<br \/>\n    transparente, cheio de universos, esconde por detr&aacute;s da gradaria dos<br \/>\n    astros o Mist&eacute;rio e a Gra&ccedil;a! A essas horas, &oacute; mis&eacute;ria<br \/>\n    das cidades!, longe dos conservat&oacute;rios e das academias e das m&aacute;gicas,<br \/>\n    pelos prados e pelas v&aacute;rzeas representam-se as verdes com&eacute;dias<br \/>\n    da Natureza: os rouxin&oacute;is d&atilde;o a r&eacute;plica &agrave;s veigas<br \/>\n    melodiosas, as fontes choram pelas desgra&ccedil;as de um melro amoroso, os<br \/>\n    olmos t&ecirc;m atitudes grotescas de palha&ccedil;os, e o c&eacute;u, como<br \/>\n    amante tr&aacute;gico, criva-se de punhaladas de luz! Em Lisboa a vida &eacute;<br \/>\n    lenta. Tem as raras palpita&ccedil;&otilde;es de um peito desmaiado. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; ambi&ccedil;&otilde;es explosivas; n&atilde;o h&aacute; ruas 40<br \/>\n    resplandecentes cheias de trop&eacute;is de cavalgadas, de tempestades de<br \/>\n    ouro, de veludos lascivos: n&atilde;o h&aacute; amores melodram&aacute;ticos:<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; as luminosas efloresc&ecirc;ncias das almas namoradas<br \/>\n    da arte: n&atilde;o h&aacute; as festas fe&eacute;ricas, e as convuls&otilde;es<br \/>\n    dos c&eacute;rebros industriais.<\/p>\n<p> H&aacute; escassez da vida; um frio senso pr&aacute;tico. A preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exclusiva do &uacute;til. Uma seriedade enf&aacute;tica. E a adora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    burguesa e serena da moeda de cinco tost&otilde;es  da moeda de cinco<br \/>\n    tost&otilde;es, branca. perfeita, celeste, pura, imaculada, consoladora, purificadora!<br \/>\n    O luxo dos vestu&aacute;rios &eacute; reflectido. E pausado! E calculado!<br \/>\n    Um outro luxo h&aacute;, mais doido: esse, quando &eacute; novo muge, resplandece,<br \/>\n    deixa-se balan&ccedil;ar em grandes pregas desfalecidas  um pouco baixamente,<br \/>\n    de camaradagem com a lama: mais tarde, depois das ostenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e dos amores, envergonha-se e vai-se mascarar &agrave;s tinturarias: nos seus<br \/>\n    velhos dias anda, miser&aacute;vel, pedindo esmola, por casa das adelas! A<br \/>\n    Lisboa material tem fei&ccedil;&otilde;es morais. H&aacute; s&iacute;tios<br \/>\n    que d&atilde;o, aos que os pisam, uma 40 No texto da Gazeta de Portugal, &laquo;ru&iacute;nas&raquo;..<br \/>\n    individualidade. O lajedo e a cantaria consagram esp&iacute;ritos. Encostar-se<br \/>\n    no Chiado!  isto significa ter a fina flor da gra&ccedil;a, a vivacidade<br \/>\n    conceituosa e costumes despeda&ccedil;ados.<\/p>\n<p> Estar no Martinho  revela inspira&ccedil;&atilde;o, divindade interior,<br \/>\n    lirismo e pol&iacute;tica cr&iacute;tica. &Oacute; Lisboa, tu n&atilde;o tens<br \/>\n    caracteres, tens esquinas! Lisboa tem compaix&otilde;es celestes: agrupa-se<br \/>\n    em coro de l&aacute;grimas para ver a morte de um c&atilde;o: mas afasta-se<br \/>\n    logo, assobiando, se come&ccedil;a a agonia de uma alma. Tem tamb&eacute;m<br \/>\n    uma curiosidade t&iacute;mida e f&aacute;cil: senta-se nos passeios, pelo<br \/>\n    Estio, entre o p&oacute;, olimpicamente, como os deuses entre a luz, e fica<br \/>\n    atenta, concentrada, suspensa, idiota  a ver caminhar seis mil pernas!<br \/>\n    Um dia Paris aborreceu-se e expulsou os reis, outro dia aborreceu-se e acolheu<br \/>\n    os imperadores. As vezes Lisboa aborrece-se e entra na pol&iacute;tica<br \/>\n    como homens que entram no banho s&atilde;o pisados pela maresia, s&atilde;o<br \/>\n    feridos pelas areias, esfriados pela neblina e v&ecirc;m, contentes e transidos,<br \/>\n    enxugar-se ao sol! Lisboa toma atitudes, clama, conjura nas esquinas, e bondosamente<br \/>\n    afastada pela policia, e vem, toda gloriosa e feliz pelas tiranias derrubadas,<br \/>\n    reler a cartilha!<\/p>\n<p>Uma das maiores alegrias de Lisboa &eacute; sujar-se! Nos tempos mitol&oacute;gicos,<br \/>\n    &agrave;s vezes, uma deusa fazia-se mulher, esposa e m&atilde;e, fiava na<br \/>\n    roca de &eacute;bano incrustada de l&aacute;pis e dobrava as l&atilde;s vermelhas<br \/>\n    de Mileto. Vinha por&eacute;m um dia no ano em que a mulher ia no Olimpo ser<br \/>\n    deusa. Deixava esposo, filhos, lares, parentes; debalde lhe pediam que n&atilde;o<br \/>\n    fosse, temendo que ela, mulher e deusa, n&atilde;o se acostumasse na volta<br \/>\n    &agrave;s l&acirc;mpadas de gineceu, ela que ia ser alumiada pelos astros<br \/>\n    do Olimpo. Debalde: chegado o momento, nada impedia a esposa de ser divindade:<br \/>\n    via-se aquele <\/p>\n<p>  corpo casto, argila ideal, azular-se e, transpar&ecirc;ncia viva, perder-se<br \/>\n  na luz.<\/p>\n<p> Lisboa &eacute; assim. Vem um dia em que ela quer voltar ao seu elemento<br \/>\n    primitivo, e ningu&eacute;m a pode impedir de ser lama: &eacute; o Entrudo.<\/p>\n<p> Suja-se ent&atilde;o livremente, faz tempestades nojentas, naqueles dias<br \/>\n    o seu t&eacute;dio &eacute; feito de prod&iacute;gio e de imund&iacute;cie,<br \/>\n    e &eacute; um sol dos escoadouros! Transfigura-se. E como a deusa deixava,<br \/>\n    na Antiguidade, os filhos e os lares, para ir ser luz.<\/p>\n<p> Lisboa esquece as fun&ccedil;&otilde;es do seu t&eacute;dio, a religi&atilde;o<br \/>\n    da moeda de ouro, o sacerd&oacute;cio da economia, as atitudes enf&aacute;ticas<br \/>\n    do seu pudor, para se dar livremente &agrave; lama! Lisboa &eacute; a hospedaria<br \/>\n    do vento. O antigo Euro paga a hospedagem atirando a poeira &agrave;s ruas,<br \/>\n    &agrave;s pra&ccedil;as, &agrave;s avenidas, aos cais, &agrave; cara de Lisboa!<br \/>\n    Sublime adula&ccedil;&atilde;o: suja-a! Lisboa respeita a limpeza, mas adora<br \/>\n    a lama. Colis&atilde;o! Lisboa, cidade inspirada, corta magnificamente o embara&ccedil;o,<br \/>\n    lavando-se no lodo do Tejo! Atenas produziu a escultura, Roma fez o direito,<br \/>\n    Paris inventou a revolu&ccedil;&atilde;o, a Alemanha achou o misticismo. Lisboa<br \/>\n    que criou? O fado.<\/p>\n<p> Fatum era um deus no Olimpo; nestes bairros &eacute; uma com&eacute;dia.<br \/>\n    Tem uma orquestra de guitarras e uma ilumina&ccedil;&atilde;o de cigarros.<br \/>\n    Est&aacute; mobilada com uma enxerga. A cena final &eacute; no hospital e<br \/>\n    na enxovia.<\/p>\n<p> O pano de fundo &eacute; uma mortalha! Todos os dias, quando o Sol se vai<br \/>\n    nas &aacute;guas lavar dos olhares dos homens, quando os corpos est&atilde;o<br \/>\n    em flor, e passam os olhos pretos, de que Deus &eacute; avaro, e a maledici&ecirc;ncia<br \/>\n    se abre como uma t&uacute;lipa, e os risos s&atilde;o clar&otilde;es, e a<br \/>\n    vida se balou&ccedil;a cheia. de sonhos, de lustres de olhares, de beijos<br \/>\n    cor de sol, de cam&eacute;lias e de pomadas, passam na rua umas carruagens<br \/>\n    lentas, com grandes arabescos dourados: s&atilde;o coches; as suas armas s&atilde;o<br \/>\n    caveiras; v&atilde;o ali os mortos. Aqueles v&atilde;o apodrecer e ser ossadas<br \/>\n    verdes.<\/p>\n<p>  Morreu um homem  pensa tristemente a alma.<\/p>\n<p>  Aaah  diz tristemente o coro dos corpos, cobertos de pano,<br \/>\n    de seda, de cassa, de burel, de farrapos,  Morreu  pensa a alma<br \/>\n    , sofreu, comeu. digeriu, pobre corpo! Um corpo bem lavado, bem engordado,<br \/>\n    bem macio!  As saias verdes e curtas s&atilde;o bonitas  diz<br \/>\n    o coro:  os p&eacute;s pequenos, valem os grandes cora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>  Logo a terra encher&aacute; aquela boca que teve risos e beijos,<br \/>\n    e aquelas m&atilde;os que apertavam outras m&atilde;os esfriar&atilde;o na<br \/>\n    humidade.<\/p>\n<p>  H&aacute; olhos que s&atilde;o um mar, tudo t&ecirc;m: tempestades<br \/>\n    e sal. Aben&ccedil;oados os que l&aacute; se afogam.<\/p>\n<p>  Os bichos da cova h&atilde;o-de-lhe roer a cara; os olhos, aqueles<br \/>\n    olhos cheios de luz que vestiram tantas vezes uma alma bem-amada, ser&atilde;o<br \/>\n    comidos: ficar&atilde;o dois buracos: ali aninham-se os bichos: &eacute; uma<br \/>\n    multid&atilde;o: donde caiam l&aacute;grimas para a ternura, nas horas luminosas,<br \/>\n    h&atilde;o-de escorregar umas formas viscosas, negras, que roem e incham<br \/>\n    os vermes!  N&atilde;o s&atilde;o lindos os vestidos que modelam o<br \/>\n    seio? N&atilde;o s&atilde;o lindas as com&eacute;dias em que os maridos velhos<br \/>\n    morrem de ci&uacute;me? N&atilde;o s&atilde;o lindos os cristais que &agrave;s<br \/>\n    luzes parecem flores do Para&iacute;so?  Daqui a um m&ecirc;s aquele<br \/>\n    homem &eacute; uma ossada verde. Quando nasceu bateram-lhe.<\/p>\n<p> O amor emagreceu-o, o vinho secou-o, os agiotas torturaram-no, agora os<br \/>\n    bichos comem-no.<\/p>\n<p> E eis ai um homem!  Que vida! Doces s&atilde;o as violetas, os seios<br \/>\n    s&atilde;o t&eacute;pidos.<\/p>\n<p>  Oh!, goivos debru&ccedil;ai-vos. pombas dos cemit&eacute;rios pousai.<br \/>\n    estrelas descei, Sol alarga-te. erva espessa-te, vinde feitos p&eacute;talas<br \/>\n    mortas; vem com o teu xaile, libertina; com a tua estola. padre; com a tua<br \/>\n    bolsa, agiota; cobri-lhe a cova, cobri-lha bem, resguardai-o, agasalhai-o<br \/>\n     porque faz bem frio, na cova, ao p&eacute; dos bichos! E entretanto<br \/>\n    as carruagens, lentas, passam, com a sua caveira cor de ouro: &laquo;Anda<br \/>\n    cocheiro: &eacute; um fregu&ecirc;s que vai para a cova: a passo! Alto de<br \/>\n    S. Jo&atilde;o! A Eternidade toma-te &agrave; hora!&raquo; E enquanto o pobre<br \/>\n    morto vai, que dizem os que o viram partir, solu&ccedil;ando? Os filhos dizem:<br \/>\n    &laquo;Tinha de ser&#8230;&raquo; A esposa diz: &laquo;Vestida de luto!&#8230;&raquo;<br \/>\n    O agiota: &laquo;N&atilde;o foi mau fregu&ecirc;s.&raquo; Os m&eacute;dicos:<br \/>\n    &laquo;&Eacute; um caso interessante&#8230;&raquo; Os que o levam para a cova:<br \/>\n    &laquo;Era pesado, o maroto!&raquo; O coveiro canta: O preto que vem d&rsquo;Angola<br \/>\n    Traz a bordo fava-rica.<\/p>\n<p> Tu, pobre mulher chorosa, amaste aquele homem: vestiste-o com os teus cabelos,<br \/>\n    alimentaste-o com o teu h&aacute;lito, coroaste-o com o teu olhar, divinizaste-o<br \/>\n    com o teu desejo; ele era formoso, e s&atilde;o, e forte, e apaixonado: mas<br \/>\n    se passares por ao p&eacute; dele agora, &oacute; pobre mulher chorosa, p&otilde;e<br \/>\n    bem a m&atilde;o no nariz! Fica-te em paz, Lisboa! &Eacute;s Baixa e magn&iacute;fica.<br \/>\n    Os que te quiserem aben&ccedil;oar ter&atilde;o. de se curvar um pouco para<br \/>\n    a lama: mas consola-te, se algu&eacute;m te quiser amaldi&ccedil;oar ter&aacute;<br \/>\n    de se aproximar bastante de Deus! Tu dorme, digere, ressona, solu&ccedil;a<br \/>\n    e cachimba. E se algumas l&aacute;grimas em ti ca&iacute;rem, vai-as enxugar<br \/>\n    depressa ao sol! Fica-te em paz! Os que t&ecirc;m alma n&atilde;o querem a<br \/>\n    luz dos teus olhos; podes consumi-la a contemplar o c&eacute;u e os universos;<br \/>\n    por causa do teu olhar sempre erguido para l&aacute;, ningu&eacute;m ter&aacute;<br \/>\n    ci&uacute;mes do c&eacute;u! Os que t&ecirc;m cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    querem as car&iacute;cias das tuas m&atilde;os: podes emagrec&ecirc;-las a<br \/>\n    rezar a Jesus; por causa das tuas m&atilde;os sempre erguidas para ele, ningu&eacute;m<br \/>\n    ter&aacute; ci&uacute;mes de Deus! Tu tens a beleza, a for&ccedil;a, a luz,<br \/>\n    a gra&ccedil;a, a pl&aacute;stica, a &aacute;gua resplandecente. a linha magn&iacute;fica.<\/p>\n<p> resigna-te. &oacute; Lisboa querida. o clara cidade bem-amada. &oacute;<br \/>\n    vasta gra&ccedil;a silenciosa, resigna-te. o doce Lisboa, coroada de c&eacute;u,<br \/>\n    resigna-te  a n&atilde;o ter alma!.<\/p>\n<p> O SENHOR DIABO Conhecem o Diabo? N&atilde;o serei eu quem lhes conte a vida<br \/>\n    dele. E, todavia, sei de cor a sua legenda tr&aacute;gica, luminosa, celeste,<br \/>\n    grotesca e suave! O Diabo &eacute; a figura mais dram&aacute;tica da Hist&oacute;ria<br \/>\n    da Alma. A sua vida &eacute; a grande aventura do Mal.<\/p>\n<p> Foi ele que inventou os enfeites que enlanguescem a alma, e as armas que<br \/>\n    ensanguentam o corpo. E todavia, em certos momentos da hist&oacute;ria, o<br \/>\n    Diabo &eacute; o representante imenso do direito humano. Quer a liberdade,<br \/>\n    a fecundidade, a for&ccedil;a, a lei.<\/p>\n<p> &Eacute; ent&atilde;o uma esp&eacute;cie de P&atilde; sinistro, onde rugem<br \/>\n    as fundas rebeli&otilde;es da Natureza.<\/p>\n<p> Combate o sacerd&oacute;cio e a virgindade; aconselha a Cristo que viva,<br \/>\n    e aos m&iacute;sticos que entrem na humanidade.<\/p>\n<p> &Eacute; incompreens&iacute;vel: tortura os santos e defende a Igreja. No<br \/>\n    s&eacute;culo XVI &eacute; o maior zelador da colheita dos diz&iacute;amos.<\/p>\n<p> &Eacute; envenenador e estrangulador. &Eacute; impostor, tirano, vaidoso<br \/>\n    e traidor. Todavia, conspira contra os imperadores da Alemanha: consulta Arist&oacute;teles<br \/>\n    e Santo Agostinho, e suplicia Judas que vendeu Cristo, e Bruto que apunhalou<br \/>\n    C&eacute;sar.<\/p>\n<p> O Diabo ao mesmo tempo tem uma tristeza imensa e doce. Tem talvez a nostalgia<br \/>\n    do C&eacute;u! Ainda novo, quando os astros lhe chamavam Lucifer, o que leva<br \/>\n    a luz, revolta-se contra Jeov&aacute;, e comanda uma grande batalha entre<br \/>\n    as nuvens.<\/p>\n<p> Depois tenta Eva, engana o profeta Daniel, apupa Job, tortura Sara e em<br \/>\n    Babil&oacute;nia &eacute; jogador, palha&ccedil;o, difamador, libertino e<br \/>\n    carrasco. Quando os deuses foram exilados, ele acampa com eles nas florestas<br \/>\n    h&uacute;midas da G&aacute;lia e embarca expedi&ccedil;&otilde;es ol&iacute;mpicas<br \/>\n    nos navios do imperador Constlncio4 Cheio de medo diante dos olhos tristes<br \/>\n    de Jesus, vem torturar os monges do Ocidente.<\/p>\n<p> Escarnecia S. Mac&aacute;rio, cantava salmos na igreja de Alexandria, oferecia<br \/>\n    ramos de cravos a Santa Pel&aacute;gia, roubava as galinhas do abade de Cluny,<br \/>\n    espica&ccedil;ava os olhos a S.<\/p>\n<p> Sulp&iacute;cio e &agrave; noite vinha, cansado e empoeirado, bater &agrave;<br \/>\n    portaria do convento dos dominicanos em Floren&ccedil;a e ia dormir na cela<br \/>\n    de Savonarola.<\/p>\n<p> Estudava o hebreu, discutia com Lutero, anotava glosas para Calvino, lia<br \/>\n    atentamente a B&iacute;blia e vinha ao anoitecer para as encruzilhadas da<br \/>\n    Alemanha jogar, com os frades mendicantes, sentado na relva, sobre a sela<br \/>\n    do seu cavalo.<\/p>\n<p> Intentava processos contra a Virgem: e era o pont&iacute;fice da missa negra,<br \/>\n    depois de ter inspirado os juizes de S&oacute;crates. Nos seus velhos dias,<br \/>\n    ele que tinha discutido com &Aacute;tila planos de batalha, deu-se ao pecado<br \/>\n    da guia.<\/p>\n<p> E Rabelais, quando o viu assim, fatigado, engelhado, calvo, gordo e sonolento,<br \/>\n    apupou-o.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o o demon&oacute;grafo Wier escreve contra ele panfletos sanguinolentos<br \/>\n    e Voltaire criva-o de epigramas.<\/p>\n<p> O Diabo sorri, olha em roda de si para os calv&aacute;rios desertos, escreve<br \/>\n    as suas mem&oacute;rias, e num dia enevoado, depois de ter dito adeus aos<br \/>\n    seus velhos camaradas, os astros, morre enfastiado e silencioso. Ent&atilde;o<br \/>\n    Ceranger escreve-lhe o epit&aacute;fio.<\/p>\n<p> Como est&aacute; provado que eu sou redondamente inapto para escrever Revistas,<br \/>\n    dizer finamente das Modas, e falar da literatura contempor&acirc;nea herdeira<br \/>\n    honesta do defunto sr. Prudhomme, &eacute; justo, ao menos, que de vez em<br \/>\n    quando conte uma hist&oacute;ria amorosa, uma daquelas hist&oacute;rias femininas<br \/>\n    e macias, que nos ser&otilde;es de Trieste faziam adormecer nas suas cadeiras<br \/>\n    douradas as senhoras arquiduquesas de &Aacute;ustria..<\/p>\n<p> O Diabo foi celebrado, na sua morte, pelos s&aacute;bios e pelos poetas.<br \/>\n    Proclus ensinou a sua subst&acirc;ncia, Presul as suas aventuras da noite,<br \/>\n    S. Tom&aacute;s revelou o seu destino.<\/p>\n<p> Torquemada disse a sua maldade, e Pedro de Lancre a sua inconst&acirc;ncia<br \/>\n    jovial. Jogo Dique escreveu sobre a sua eloqu&ecirc;ncia e Jacques I de Inglaterra<br \/>\n    fez a corografia dos seus estados. Milton disse a sua beleza e Dante a sua<br \/>\n    trag&eacute;dia. Os monges ergueram-lhe est&aacute;tuas.<\/p>\n<p> O seu sepulcro &eacute; a Natureza.<\/p>\n<p> O Diabo amou muito.<\/p>\n<p> Foi namorado gentil, marido, pai de gera&ccedil;&otilde;es sinistras. Foi<br \/>\n    querido, na Antiguidade, da m&atilde;e de C&eacute;sar, e na Meia Idade foi<br \/>\n    amado da bela Ol&iacute;mpia. Casou no Brabante com a filha de um mercador.<br \/>\n    Tinha entrevistas l&acirc;nguidas com Fredegonda, que assassinou duas gera&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Era o namorado das frescas serenatas das mulheres dos mercadores de Veneza.<\/p>\n<p> Escrevia melancolicamente &agrave;s monjas dos conventos da Alemanha.<\/p>\n<p> Feminae in illius amore delectantur, diz tragicamente o abade C&eacute;sar<br \/>\n    de Helenbach. No s&eacute;culo XII, tentava com olhares cheios de sol as mies<br \/>\n    melodram&aacute;ticas dos Burgraves. Na Esc&oacute;cia havia grande mis&eacute;ria<br \/>\n    sobre os montes: o Diabo comprava por 15 shillings o amor das mulheres dos<br \/>\n    highlanders e pagava-lhes com o dinheiro falso que fabricava em companhia<br \/>\n    de Filipe I, de Lu&iacute;s VI, de Lu&iacute;s VII, de Filipe, o Belo, do<br \/>\n    rei Jo&atilde;o, de Lu&iacute;s XI, de Henrique II, com o mesmo cobre de que<br \/>\n    se faziam as caldeiras onde eram cozidos vivos os moedeiros falsos.<\/p>\n<p> Mas eu quero s&oacute; contar a hist&oacute;ria de um amor infeliz do Diabo,<br \/>\n    nas terras do Norte.<\/p>\n<p> &Oacute; mulheres! v&oacute;s todas que tendes dentro do peito o mal que<br \/>\n    nada cura, nem os simples, nem os b&aacute;lsamos, nem os orvalhos, nem as<br \/>\n    rezas, nem o pranto, nem o sol, nem a morte, vinde ouvir esta hist&oacute;ria<br \/>\n    florida! Era na Alemanha, onde nasce a flor do absinto.<\/p>\n<p> A casa era de pau, bordada, rendilhada, cinzelada, como a sobrepeliz do<br \/>\n    senhor arcebispo de Ulm.<\/p>\n<p> Maria, clara e loura, fiava na varanda, cheia de vasos, de trepadeiras,<br \/>\n    de ramagens, de pombas e de sol. No fundo da varanda havia um Cristo de marfim.<br \/>\n    As plantas limpavam piedosamente, com as suas m&atilde;os de folhas, o sangue<br \/>\n    das chagas, as pombas, com o calor do seu colo, aqueciam os p&eacute;s doloridos.<br \/>\n    No fundo da casa, o pai dela, o velho, bebia a cerveja de Heidelberg, os vinhos<br \/>\n    de It&aacute;lia, e as cidras da Dinamarca. Era vaidoso, gordo, sonolento<br \/>\n    e mau.<\/p>\n<p> E sempre a rapariga fiava. Preso &agrave; roca por um fio branco, sempre<br \/>\n    o fuso saltava; preso ao seu cora&ccedil;&atilde;o por uma tristeza, sempre<br \/>\n    pulava um desejo.<\/p>\n<p> E todo o dia fiava.<\/p>\n<p> Ora debaixo da varanda passava um lindo mo&ccedil;o, delicado, melodioso<br \/>\n    e t&iacute;mido.<\/p>\n<p> Vinha e encostava-se ao pilar fronteiro.<\/p>\n<p> Ela, sentada junto do crucifixo, cobria os p&eacute;s de Jesus com os seus<br \/>\n    grandes cabelos louros.<\/p>\n<p> As plantas, as folhagens, em cima, cobriam de frescura e de sombra a cabe&ccedil;a<br \/>\n    da imagem.<\/p>\n<p> Parecia que toda a alma de Cristo ali estava  consolando, em cima,<br \/>\n    sob forma de planta, amando, em baixo, sob forma de mulher.<\/p>\n<p> Ele, o branco mo&ccedil;o, era o peregrino daquela santa. E o seu olhar<br \/>\n    procurava sempre o cora&ccedil;&atilde;o da doce rapariga e o olhar dela,<br \/>\n    s&eacute;ria e branca, ia procurar a alma do caro bem-amado.<\/p>\n<p> Os olhos investigavam as almas. E vinham radiosos, como mensageiros de luz,<br \/>\n    contar o que tinham visto: era um encanto!.<\/p>\n<p>  Se tu soubesses!  dizia um olhar.  A alma dela &eacute;<br \/>\n    imaculada.<\/p>\n<p>  Se tu visses!  dizia o outro.  O cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dele &eacute; sereno, forte. e vermelho.<\/p>\n<p>  &Eacute; consolador, aquele peito onde h&aacute; estrelas!&#8230;<\/p>\n<p>  &Eacute; purificador, aquele seio onde h&aacute; b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os!<br \/>\n    E olhavam ambos, silenciosos, ext&aacute;ticos, perfeitos. E a cidade vivia,<br \/>\n    as &aacute;rvores rosnavam sob o balc&atilde;o dos eleitores, a trompa de<br \/>\n    ca&ccedil;a soava nas torres, os cantos dos peregrinos nas estradas, os santos<br \/>\n    liam nos seus nichos, os diabos escarneciam na grimpa das igrejas, as amendoeiras<br \/>\n    tinham flor, e o Reno cantigas de ceifeiras.<\/p>\n<p> E eles olhavam-se, as folhagens aninhavam os sonhos, e Cristo aninhava as<br \/>\n    almas.<\/p>\n<p> Ora, uma tarde, as ogivas estavam radiosas como mitras de arcebispos, o<br \/>\n    ar estava meigo, o sol descido, os santos de pedra estavam corados, ou dos<br \/>\n    reflexos da luz, ou dos desejos da vida. Maria na varanda fiava a sua estriga.<br \/>\n    Jusel, encostado ao pilar, fiava os seus desejos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, no sil&ecirc;ncio, ao longe, ouviram gemer a guitarra de Inspruck<br \/>\n    que os pastores de Helyberg enroscam de hera, e uma voz robusta cantar: Os<br \/>\n    teus olhos, bem-amada, S&atilde;o duas noites cerradas.<\/p>\n<p> Mas os l&aacute;bios s&atilde;o de luz L&aacute; se cantam alvoradas.<\/p>\n<p> Os teus selos, minha gra&ccedil;a, S&atilde;o duas portas de cera, Fora<br \/>\n    a minha boca um sol Como ele as derretera) Os teus l&aacute;bios, flor de<br \/>\n    carne, S&atilde;o portas do Para&iacute;so: E o banquinho de S. Pedro &Eacute;<br \/>\n    no teu dente do siso.<\/p>\n<p> Queria ter uma camisa De um tecido bem fiado, Feita de todos os ais Que<br \/>\n    o teu peito j&aacute; tem dado.<\/p>\n<p> Quando nos formos casar Canta missa o rouxinol.<\/p>\n<p> E o teu vestido de noiva Ser&aacute; tecido de sol! A b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nos deitar&aacute; Algum antigo carvalho! E por enfeites de boda Teremos gotas<br \/>\n    de orvalhos! E ao cimo da rua apareceu um homem forte, de uma bela palidez<br \/>\n    de m&aacute;rmore.<\/p>\n<p> Tinha os olhos negros como os dois s&oacute;is legend&aacute;rios do pa&iacute;s<br \/>\n    do Mal. Negros eram os cabelos, poderosos e resplandecentes. Tinha presa ao<br \/>\n    peito tio corpete uma flor vermelha de cacto..<\/p>\n<p> Atr&aacute;s vinha um pajem perfeito como uma das antigas est&aacute;tuas<br \/>\n    que fizeram na Gr&eacute;cia a lenda da beleza. Andava convulsivamente como<br \/>\n    se ferisse os p&eacute;s no lajedo.<\/p>\n<p> Tinha os olhos inertes e fixos dos Apolos de m&aacute;rmore. Dos seus vestidos<br \/>\n    sa&iacute;a um cheiro de ambr&oacute;sia. A testa era triste e serena como<br \/>\n    as dos que t&ecirc;m a saudade imortal de uma p&aacute;tria perdida. Trazia<br \/>\n    na m&atilde;o uma &acirc;nfora esculpida em Mileto, onde se sentia a suavidade<br \/>\n    dos n&eacute;ctares ol&iacute;mpicos.<\/p>\n<p> O homem da palidez de m&aacute;rmore veio at&eacute; junto da varanda, e,<br \/>\n    entre as s&uacute;plicas gemidas da guitarra, disse sonoramente:  A<br \/>\n    gentil mo&ccedil;a, a linda Yseult da varanda, deixa que estes bei&ccedil;os<br \/>\n    de homem v&atilde;o, como dois peregrinos corados de sol, em doce romaria<br \/>\n    de amor, das suas m&atilde;os ao seu colo? E olhando para Jusel, que desfolhava<br \/>\n    uma margarida, cantou lentamente, com grandes risadas frias e met&aacute;licas:<br \/>\n    Quem depena um rouxinol E rasga uma triste flor, Mostra que dentro do peito<br \/>\n    S&oacute; tem farrapos de amor.<\/p>\n<p> E ergueu para a varanda os seus olhos terr&iacute;veis e desoladores, como<br \/>\n    blasf&eacute;mias de luz. Maria tinha levado a sua roca e s&oacute; havia<br \/>\n    na varanda as. aves,, as. flores, e Jesus!  A toutinegra voou<br \/>\n    disse jovialmente.<\/p>\n<p> E indo para Jusel:  E que talvez sentisse a vizinhan&ccedil;a do<br \/>\n    abutre. Que diz o Bacharel? Jusel, com os olhos serenos, desfolhava a margarida.<\/p>\n<p>  No meu tempo, senhor Suspiro  disse o homem dos olhos negros,<br \/>\n    cruzando lentamente os bra&ccedil;os  j&aacute; havia aqui duas espadas,<br \/>\n    a fazer rebentar na sombra flores de fa&iacute;scas. Mas os her&oacute;is<br \/>\n    v&atilde;o-se, e os homens nascem cada vez mais da dor das mulheres.<\/p>\n<p> Vejam isto! &Eacute; um cora&ccedil;&atilde;o com gib&atilde;o e gorra.<br \/>\n    Mas cora&ccedil;&atilde;o branco, pardo, alvacento, de todas as cores, menos<br \/>\n    vermelho e s&oacute;lido. Pois bem! Aquela rapariga tem uns cabelos louros<br \/>\n    que dizem bem com os meus cabelos pretos. As cintas delgadas querem os bra&ccedil;os<br \/>\n    fortes. Os l&aacute;bios vermelhos de desejo gostam das armas vermelhas de<br \/>\n    sangue. &Eacute; minha a dama, senhor Bacharel! Jusel tinha descido as suas<br \/>\n    grandes p&aacute;lpebras eleg&iacute;acas e via as p&eacute;talas arrancadas<br \/>\n    da margarida ca&iacute;rem como desejos assassinados, desprendidos do seu<br \/>\n    peito.<\/p>\n<p> O homem dos olhos resplandecentes tomou-lhe rijamente a m&atilde;o.<\/p>\n<p>  Bacharel Ternura  disse  h&aacute; aqui perto um lugar<br \/>\n    onde os goivos nascem expressamente para os inocentes que morrem. Se tens<br \/>\n    alguns bens a deixar, recomendo-te este excelente Rabil.  Era o pajem.<br \/>\n    E necess&aacute;rio proteger as aves da noite. Os abutres bocejam desde<br \/>\n    que findou a guerra. Vou-lhes dar ossos tenros. Se queres deixar o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; bem-amada, &agrave; moda dos trovadores, eu me encarrego de lho trazer,<br \/>\n    bem embalsamado em lama, na ponta da espada! Tu &eacute;s formoso, amado,<br \/>\n    branco, delicado, perfeito. V&ecirc;-me isto, Rabil. E uma farsa bem feita<br \/>\n    ao Compadre l&aacute; de cima dos s&oacute;is, dilacerar-lhe esta beleza!<br \/>\n    Se namoravas alguma estrela, eu lhe mandarei por bom portador os teus &uacute;ltimos<br \/>\n    adeuses. Enquanto aos sacramentos, s&atilde;o in&uacute;teis: eu me encarrego<br \/>\n    de te purificar pelo fogo. Rabil, toca na guitarra o rond&oacute; de defuntos:<br \/>\n    anuncia no Inferno, o Bacharel Suspiro! A caminho, meus filhos! Ah! Mas em<br \/>\n    duelo secreto, armas honradas! E batendo heroicamente nos copos da espada:<br \/>\n     Eu tenho aqui esta debilidade, onde est&aacute; a tua for&ccedil;a?.<\/p>\n<p>  Ali!  respondeu Jusel, mostrando Cristo na varanda das plantas<br \/>\n    e das pombas, alumiado pelo sol que descia, branco entre a folhagem, agonizante<br \/>\n    entre as palpita&ccedil;&otilde;es das asas.<\/p>\n<p>  Ah!  disse cavamente o homem da flor de cacto.  A<br \/>\n    mim, Rabil! Lembras-te de Act&eacute;on, de Apolo, de Derceto, de laco e de<br \/>\n    Marte?  Eram os meus irm&atilde;os  disse lentamente o pajem,<br \/>\n    hirto como uma figura de pedra.<\/p>\n<p>  Pois bem, Rabil, para a frente, atrav&eacute;s da noite! Cheira-me<br \/>\n    aqui &agrave;s terras de Jerusal&eacute;m! E sumiram-se debaixo das arcarias<br \/>\n    e das pilastras, sinistros, solu&ccedil;ando.<\/p>\n<p> Na noite seguinte havia pela Alemanha um grande luar purificador. Maria<br \/>\n    estava debru&ccedil;ada na varanda. Era a hora celeste em que os jasmins concebem.<br \/>\n    Em baixo, o olhar de Jusel, que estava encostado ao pilar, suspirava para<br \/>\n    aquele corpo feminino e branco, como nos jardins a &aacute;gua, que sobe em<br \/>\n    repuxo, suspira murmurosamente para o azul.<\/p>\n<p> Maria disse suspiradamente:  Vem.<\/p>\n<p> Jusel subiu &agrave; varanda, radioso. Sentaram-se ao p&eacute; da imagem.<br \/>\n    O ar estava t&atilde;o sereno como na p&aacute;tria das armas. Os dois corpos<br \/>\n    dobravam-se, um para o outro, como se estivessem aproximando os bra&ccedil;os<br \/>\n    de um Deus.<\/p>\n<p> As folhagens escuras que envolviam o Cristo estendiam-se sobre as duas cabe&ccedil;as<br \/>\n    louras com gestos de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o. Havia na moleza das sombras<br \/>\n    um mist&eacute;rio nupcial. Jusel tinha as m&atilde;os dela presas como p&aacute;ssaros<br \/>\n    cativos e dizia, com a voz humilde dos cora&ccedil;&otilde;es primitivos:<br \/>\n     Queria bem ver-te, assim, ao p&eacute; de mim. Se soubesses! Tenho<br \/>\n    receios infinitos.<\/p>\n<p> &Eacute;s t&atilde;o loura, t&atilde;o branca! Tive um sonho que me assustou.<br \/>\n    Era num campo. Tu estavas de p&eacute;, im&oacute;vel: ouvia-se um coro que<br \/>\n    cantava dentro do teu cora&ccedil;&atilde;o! Em redor andava uma dan&ccedil;a<br \/>\n    nebulosa de esp&iacute;ritos. E diziam uns: &laquo;Aquele coro &eacute; de<br \/>\n    mortos: s&atilde;o os amantes infelizes que choram no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquela mulher.&raquo; Outros diziam: &laquo;S&atilde;o as tristezas dos minnesingers<br \/>\n    errantes que ali solu&ccedil;am.&raquo; Outros diziam: &laquo;Sim, aquele<br \/>\n    coro &eacute; de mortos: s&atilde;o os nossos deuses queridos que choram ali<br \/>\n    do ex&iacute;lio.&raquo; E ent&atilde;o eu adiantei-me e disse: &laquo;Sim,<br \/>\n    sim, aquele coro &eacute; de mortos, s&atilde;o os desejos que ela teve por<br \/>\n    mim, que se lembram e que gemem.&raquo; Que sonho t&atilde;o mau, t&atilde;o<br \/>\n    mau!  Porque est&aacute;s tu  dizia ela  todos os dias<br \/>\n    encostado ao pilar, com as m&atilde;os quase postas?  Estou a ler as<br \/>\n    cartas de luz que os teus olhos me escrevem.<\/p>\n<p> Calaram-se. Eles eram naquele momento alma florida da noite.<\/p>\n<p>  Quais s&atilde;o os meus olhos? quais s&atilde;o os teus olhos?<br \/>\n     dizia Jusel.  Nem eu sei! E ficaram calados. Ela sentia os<br \/>\n    desejos que se desprendiam dos olhos dele, virem, como p&aacute;ssaros feridos<br \/>\n    que gemem, cair no fundo da sua alma, sonoramente.<\/p>\n<p> E inclinando o corpo:  Conheces meu pai?  disse ela.<\/p>\n<p>  N&atilde;o. Que importa?  Ai, se tu soubesses!&#8230;<\/p>\n<p>  Que importa? Estou aqui. Se ele te quer bem, h&aacute;-de gostar<br \/>\n    deste meu amor, sempre aos teus p&eacute;s como um c&atilde;o. Es uma santa.<br \/>\n    Os cabelos de Jesus nascem do teu cora&ccedil;&atilde;o. O que quero eu? Ter<br \/>\n    a tua alma presa, bem presa, como um p&aacute;ssaro esquivo.<\/p>\n<p> Esta paix&atilde;o. toda, deixa-te t&atilde;o imaculada, que se morresses<br \/>\n    podias ser enterrada na transpar&ecirc;ncia do azul. Os desejos s&atilde;o<br \/>\n    uma hera: queres que os arranque? Tu &eacute;s o pretexto da minha alma. Se<br \/>\n    me n&atilde;o quisesses deixava-me andar esfarrapado. Por eu. entrar no teu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o tires nada dela, n&atilde;o? Tens l&aacute;<br \/>\n    a f&eacute; de Jesus, e a saudade de tua m&atilde;e: deixa estar: damo-nos<br \/>\n    todos bem, l&aacute; dentro, contemplando o interior do teu olhar, como um<br \/>\n    c&eacute;u constelado. O que quero eu de ti? As tuas penas. Quando chorares<br \/>\n    vem a mim. Farei a alma em farrapos para tu limpares os olhos. Queres tu?<br \/>\n    Casemo-nos no cora&ccedil;&atilde;o de Jesus. D&aacute;-me essa agulheta,<br \/>\n    que te prende o cabelo. Ser&aacute; a nossa estola.<\/p>\n<p> E com a ponta da agulheta, de p&eacute; junto da imagem, afastando os ramos,<br \/>\n    transfigurado e celeste, gravou sobre o peito de Cristo as letras dos dois<br \/>\n    nomes enla&ccedil;adas  J. e M.<\/p>\n<p>  &Eacute; o nosso noivado  disse ele.  O c&eacute;u<br \/>\n    atira-nos os astros, confeitos de luz.<\/p>\n<p> Cristo n&atilde;o se esquecer&aacute; deste amor que chora aos seus p&eacute;s.<br \/>\n    As exala&ccedil;&otilde;es divinas que sa&iacute;rem do seu peito aparecer&atilde;o,<br \/>\n    l&aacute; em cima, com a forma das nossas letras. Deus saber&aacute; este<br \/>\n    segredo. Que importa? Eu j&aacute; lho tinha dito, a ele, &agrave;s estrelas,<br \/>\n    &agrave;s plantas, aos p&aacute;ssaros, &agrave;s floresc&ecirc;ncias; porque,<br \/>\n    v&ecirc;s tu? as flores, as constela&ccedil;&otilde;es, a gra&ccedil;a, as<br \/>\n    pombas, tudo isso, toda esta efus&atilde;o de bondade, de inoc&ecirc;ncia,<br \/>\n    de gra&ccedil;a, era simplesmente, &oacute; adorada, um eterno bilhete de<br \/>\n    amor que eu te escrevia! E ajoelhados, ext&aacute;ticos, calados, eles sentiam<br \/>\n    misturar-se ao seu cora&ccedil;&atilde;o, &agrave;s suas confid&ecirc;ncias,<br \/>\n    aos seus desejos, toda a vaga e imensa bondade da religi&atilde;o da gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> E as suas almas falavam cheias de mist&eacute;rio.<\/p>\n<p>  V&ecirc;s tu?  dizia a alma dela.  Quando te vejo,<br \/>\n    parece que Deus diminui, e se contrai, e se vem aninhar todo no teu cora&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    quando penso em ti, parece-me que o teu cora&ccedil;&atilde;o se alarga, se<br \/>\n    estende, abrange o c&eacute;u e os universos, e encerra por toda a parte Deus!<br \/>\n     O meu cora&ccedil;&atilde;o  suspirava a alma dele<br \/>\n    &eacute; uma concha. O teu amor &eacute; o mar.<\/p>\n<p> Muito tempo esta concha viver&aacute; afogada e perdida nesse mar. Mas se<br \/>\n    tu me expulsares de ti, como numa concha abandonada se ouve ainda o rumor<br \/>\n    do mar, no meu cora&ccedil;&atilde;o abandonado se escutar&aacute; sempre<br \/>\n    o sussurro do meu amor!  Olha  dizia a alma dela  eu<br \/>\n    sou como um campo. Tenho &aacute;rvores e relvas. O que h&aacute; em mim de<br \/>\n    maternidade &eacute; &aacute;rvore para te cobrir, o que h&aacute; em mim<br \/>\n    de paix&atilde;o &eacute; relva para tu pisares!  Sabes tu?<br \/>\n    dizia a alma dele.  No c&eacute;u h&aacute; uma floresta invis&iacute;vel<br \/>\n    de que apenas se v&ecirc;em as pontas das ra&iacute;zes que s&atilde;o as<br \/>\n    estrelas- Tu eras a toutinegra daqueles arvoredos. Os meus desejos feriram-te.<br \/>\n    Eu, h&aacute; muito que te vejo vir caindo pelo ar, gemendo, resplandecente,<br \/>\n    se o sol te alumia, triste, se a chuva te molha. H&aacute; muito que te vejo<br \/>\n    vir descendo  quando cair&aacute;s tu nos meus bra&ccedil;os?&#8230;<\/p>\n<p> E a alma dela dizia: &laquo;Cala-te.&raquo; N&atilde;o falavam.<\/p>\n<p> E as duas almas, desprendidas dos corpos bem-amados, subiam deslumbradas,<br \/>\n    inef&aacute;veis, ternas; confundidas, tinham o c&eacute;u por elemento, os<br \/>\n    seus risos eram os astros, a sua tristeza a noite, a sua esperan&ccedil;a<br \/>\n    a madrugada, o seu amor a vida, e sempre mais ternas e mais vastas envolviam<br \/>\n    tudo o que do mundo sobe de justo, de perfeito, de casto, as ora&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    os prantos, os ideais, e estendiam-se por todo o c&eacute;u, unidas e imensas<br \/>\n     para Deus passar por cima! E ent&atilde;o &agrave; porta da varanda<br \/>\n    houve uma risada met&aacute;lica. imensa e sonora. Eles ergueram-se resplandecentes,<br \/>\n    puros, vestidos de gra&ccedil;a. &Agrave; porta estava o pai de Maria, hirto,<br \/>\n    gordo, sinistro.<\/p>\n<p> Atr&aacute;s, o homem de palidez de m&aacute;rmore balan&ccedil;ava vaidosamente<br \/>\n    a pluma escarlate da gorra.<\/p>\n<p> O pajem ria, fazendo uma claridade na sombra.<\/p>\n<p> O pai foi lentamente para Jusel e disse, com esc&aacute;rnio:  Onde<br \/>\n    queres ser enforcado, vil&atilde;o?  Pai, pai!  E Maria, aflita,<br \/>\n    com uma convuls&atilde;o de l&aacute;grimas, enla&ccedil;ava o corpo do velho.<br \/>\n     N&atilde;o.<\/p>\n<p> E meu marido, cas&aacute;mos as almas! Olhe, ali est&aacute;. Veja. Ali,<br \/>\n    na imagem!&#8230;<\/p>\n<p>  O qu&ecirc;?&#8230;.<\/p>\n<p>  Ali, no peito; veja. Os nossos nomes enla&ccedil;ados como numa<br \/>\n    escritura. Veja. &Eacute; meu marido.<\/p>\n<p> S&oacute; me quer bem. Mas veja. Sobre o peito de Jesus, no lugar do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mesmo sobre o cora&ccedil;&atilde;o. E ele, o doce Jesus, deixou que lhe<br \/>\n    fizessem mais esta ferida! O velho olhava as letras enla&ccedil;adas como<br \/>\n    uns esponsais divinos que se, tinham refugiado no seio de Cristo.<\/p>\n<p>  Raspa, meu velho, que isso &eacute; marfim!  gritou o homem<br \/>\n    dos olhos negros.<\/p>\n<p> O velho foi para a imagem com a faca do cintur&atilde;o. Tremia. Ia arrancar<br \/>\n    as ra&iacute;zes daquele amor, at&eacute; ao peito imaculado de Jesus! E ent&atilde;o<br \/>\n    a imagem, sob o justo e incorrupt&iacute;vel olhar da luz, despregou uma das<br \/>\n    suas m&atilde;os feridas, e cobriu sobre o peito as letras desposadas.<\/p>\n<p>  E ele, Rabil!  gritou o homem da flor de cacto.<\/p>\n<p> O velho solu&ccedil;ava.<\/p>\n<p> E ent&atilde;o o homem p&aacute;lido, que tocava na guitarra de Inspruck,<br \/>\n    onde os pastores de Helyberg enroscam heras, veio tristemente junto da imagem,<br \/>\n    enla&ccedil;ou os bra&ccedil;os dos namorados, como se v&ecirc; nas velhas<br \/>\n    estampas alem&atilde;s, e disse ao pai:  Aben&ccedil;oa-os, velho!<br \/>\n    E saiu, batendo rijamente nos copos da espada.<\/p>\n<p>  Mas quem &eacute;?&#8230;  disse o velho apavorado.<\/p>\n<p>  Mais baixo!  disse o pajem da &acirc;nfora de Mileto. E<br \/>\n    o Senhor Diabo!&#8230; Mil desejos, meus noivos! Pelas horas da madrugada, na<br \/>\n    estrada de Necker, onde as cerejeiras luzem, o homem dos grandes cabelos negros<br \/>\n    dizia ao pajem branco como os Apolos de m&aacute;rmore:  Estou velho.<br \/>\n    Vai-se-me a vida. Sou o &uacute;ltimo dos que combateram nas estrelas.<\/p>\n<p> Os abutres j&aacute; me apupam. &Eacute; estranho: sinto nascer c&aacute;<br \/>\n    dentro, no peito, um rumor de perd&atilde;o.<\/p>\n<p> Gostava daquela rapariga. Lindos cabelos louros, quem vos dera no tempo<br \/>\n    do c&eacute;u! J&aacute; n&atilde;o estou para aventuras de amor! A bela Imp&eacute;ria<br \/>\n    diz que eu me vendi a Deus!  A bela Imp&eacute;ria!  disse o<br \/>\n    pajem.  As mulheres! vaidades, vaidades! As mulheres belas foram-se<br \/>\n    com os deuses belos. Hoje os homens s&atilde;o m&iacute;sticos, frades, santos,<br \/>\n    namorados, trovadores! As mulheres s&atilde;o feias, avaras, magras, burguesas,<br \/>\n    vestidas de burel, finadas de cil&iacute;cios, com uma pouca de alma inc&oacute;moda,<br \/>\n    e uma carne t&atilde;o di&aacute;fana, que se v&ecirc; atrav&eacute;s o lodo<br \/>\n    primitivo! Mis&eacute;rias! Ai Atenas! Corinto! Mileto! Tenedos! Abidos!<br \/>\n    Vou achando ris&iacute;vel a obra dos Seis Dias. As estrelas tremem de medo,<br \/>\n    e de dor.<\/p>\n<p> A Lua &eacute; um sol fulminado. Come&ccedil;a a escassear o sangue pelo<br \/>\n    mundo e a aparecer muito a tinta. Eu tenho gasto o mal. Fui pr&oacute;digo.<br \/>\n    Se eu no fim da vida tinha de me entreter perdoando e consolando  para<br \/>\n    n&atilde;o morrer de t&eacute;dio! Fica-te em paz, mundo! S&ecirc; infame,<br \/>\n    lamacento, podre, vil e imundo, e s&ecirc;, todavia, um astro no c&eacute;u,<br \/>\n    impostor! E todavia o homem n&atilde;o mudou. &Eacute; o mesmo. N&atilde;o<br \/>\n    viste? Aquele, para amar, feriu com uma agulheta o peito da imagem. Como nos<br \/>\n    antigos tempos, o homem n&atilde;o come&ccedil;a a gozar um bem, sem primeiro<br \/>\n    rasgar a carne a um Deus! E esta a minha &uacute;ltima aventura. Vou para<br \/>\n    o meio da Natureza, para junto do livre mar, p&ocirc;r-me sossegadamente a<br \/>\n    morrer.<\/p>\n<p>  Tamb&eacute;m os diabos se v&atilde;o! Adeus, Sati!  Adeus,<br \/>\n    Ganimedes! E o homem e o pajem separam-se na noite.<\/p>\n<p> A poucos passos o homem encontrou um cruzeiro de pedra.<\/p>\n<p>  Est&aacute;s tamb&eacute;m deserto  disse, olhando para a<br \/>\n    cruz.<\/p>\n<p>  Os infames pregaram-te e voltaram-te as costas! Foste maior que<br \/>\n    eu! Sofreste calado.<\/p>\n<p> E sentando-se nos degraus do cruzeiro, enquanto vinha a madrugada, afinou<br \/>\n    a. guitarra e cantou no sil&ecirc;ncio: Quem vos desfolhou estrelas, Dos arvoredos<br \/>\n    da luz? E com uma grande risada melanc&oacute;lica: Chegar&aacute; o Outono<br \/>\n    ao Diabo? Vir&aacute; o Inverno a Jesus?.<\/p>\n<p> UMA CARTA A Carlos Mayer Meu caro Mayer: naqueles tempos, segundo a f&oacute;rmula<br \/>\n    do Evangelho, o romantismo estava nas nossas almas. Faz&iacute;amos devotamente<br \/>\n    ora&ccedil;&atilde;o diante do busto de Shakespeare.<\/p>\n<p> Lembras-te do teu quarto da Rua do Forno, creio eu, no &uacute;ltimo andar,<br \/>\n    quase nas confid&ecirc;ncias humor&iacute;sticas das estrelas? O busto de<br \/>\n    Shakespeare, que era o nosso calv&aacute;rio da arte, estava ali, ao p&eacute;<br \/>\n    de uma medalha do Dante, e da Inoc&ecirc;ncia de Greuze! Lembra-me tamb&eacute;m<br \/>\n    uma gravura do Ju&iacute;zo Final e dois esbo&ccedil;os holandeses. Sobre<br \/>\n    a estante, por cima de Voltaire, de Diderot, de Rousseau, de Mirabeau e de<br \/>\n    alguns volumes da Enciclop&eacute;nia  num quadro, a figura de Napole&atilde;o,<br \/>\n    sobre uns rochedos enf&aacute;ticos via os prantos do mar e o voo das gaivotas.<br \/>\n    Tinhas tamb&eacute;m uma colec&ccedil;&atilde;o de minerais e duas caveiras<br \/>\n    polidas e lavadas que riam serenamente. O meu quarto, no Salvador, era mais<br \/>\n    austero. Na parede, estava pintada a carv&atilde;o uma grande cruz. Em redor,<br \/>\n    estavam escritos vers&iacute;culos da B&iacute;blia e d&iacute;sticos da Imita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas, como eu andasse nesse tempo constipado, P., um pag&atilde;o, fez raspar<br \/>\n    toda aquela decora&ccedil;&atilde;o asc&eacute;tica, dizendo que o misticismo<br \/>\n    proibia o sol, o calor, os bens t&eacute;pidos, a dilata&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da mol&eacute;cula venturosa, a flanela e os mela&ccedil;os, coisas s&oacute;<br \/>\n    pr&oacute;prias de C&eacute;sar, e que, assim, eu perpetuaria aquela doen&ccedil;a<br \/>\n    que era o ponto de reuni&atilde;o de todos os rad&iacute;culos atmosf&eacute;ricos,<br \/>\n    que o nusticismo em fresca exalava defluxos, e que o ate&iacute;smo era para<br \/>\n    mim uma necessidade higi&eacute;nica. T. aconselhou, ent&atilde;o, que se<br \/>\n    forrassem as paredes com pele humana: um outro achou ostentosa a pele humana<br \/>\n    e disse, beatificamente, que, como mais modesta e mais duradoura, lhe parecia<br \/>\n    prefer&iacute;vel a pele catedr&aacute;tica. Outro instou para que se forrasse<br \/>\n    o quarto com as folhas dos comp&ecirc;ndios: eu opus-me asperamente a isso,<br \/>\n    dando as mesmas dolorosas raz&otilde;es que daria um preso se lhe quisessem<br \/>\n    forrar as paredes da enxovia com um tecido feito dos seus pr&oacute;prios<br \/>\n    remorsos! Tirou-se &agrave; sorte. Destinou a sorte que se forrassem as paredes<br \/>\n    com pele humana.<\/p>\n<p> Dispers&aacute;mo-nos lentos e tristes para ir assassinar gente! Reunia-se<br \/>\n    ali um conc&iacute;lio formid&aacute;vel.<\/p>\n<p> O mais implac&aacute;vel era A. Que ideias e que camisas! Foi ele que, um<br \/>\n    dia, na aula de Direito Can&oacute;nico, profetizou, com gestos tr&aacute;gicos,<br \/>\n    a destrui&ccedil;&atilde;o de Babil&oacute;nia! Vinha tamb&eacute;m S., todo<br \/>\n    armado; entrava ordinariamente pela janela, galhardamente, como Almaviva,<br \/>\n    estendia sobre os t&iacute;midos a grande sombra protectora dos seus bigodes,<br \/>\n    e pela noite alta sa&iacute;a &agrave; ca&ccedil;a dos lobos. Perseguia debalde<br \/>\n    um bando de lobos errantes que, segundo ele, deviam ter acampado na humidade<br \/>\n    melodiosa do Salgueiral. Vinha tamb&eacute;m M., de sinistras ironias: um<br \/>\n    dia, no Bu&ccedil;aco, encontra um homem de su&iacute;&ccedil;as apost&oacute;licas,<br \/>\n    corre para ele e aperta-o entre as m&atilde;os robustas, com o gesto de quem<br \/>\n    esmaga um insecto. &laquo;O que faz?&raquo; bradava o homem. &laquo;Estou<br \/>\n    a cat&aacute;-lo; o senhor, entre esta floresta, faz-me o efeito de uma pulga<br \/>\n    entre as barbas de Mois&eacute;s!&raquo; E continuou a esmag&aacute;-lo.<\/p>\n<p> No teu quarto celebrava-se a arte. Era o Hotel Rambouillet do romantismo.<\/p>\n<p> Ali, muitas vezes, sentado sobre a Mec&acirc;nica Celeste de Laplace, tu<br \/>\n    me mostraste, misteriosamente, um sistema solar que tinhas criado e que tinhas<br \/>\n    fechado dentro de um frasco. Os universos eram gl&oacute;bulos de &aacute;gua.<br \/>\n    Um dia um c&atilde;o entornou aquele firmamento.<\/p>\n<p> Que tardes! Da varanda via-se a serenidade virgiliana dos prados e do rio.<br \/>\n    L&iacute;amos: eu declamava Hamlet, tu tocavas na tua rabeca a m&oacute;rbida<br \/>\n    Lucia! Muitas vezes, entre um. conc&iacute;lio revolucion&aacute;rio, tu lias<br \/>\n    em p&eacute; sobre a mesa, dramaticamente, os lambes de Barbier. Os lambes<br \/>\n     de quem o cl&aacute;ssico A. dizia gravemente terem um defeito: serem<br \/>\n    sublimes! Celebr&aacute;vamos cerim&oacute;nias de um culto desconhecido diante<br \/>\n    do busto de Shakespeare.<\/p>\n<p> D&aacute;vamos grandes batalhas! Combates cru&eacute;is! Ainda a seriedade<br \/>\n    estremece! Eram dois bandos. De um lado os pag&atilde;os, os cl&aacute;ssicos,<br \/>\n    os positivistas; do outro os b&aacute;rbaros, os rom&acirc;nticos, os m&iacute;sticos.<\/p>\n<p> As balas eram nomes: arremess&aacute;veis, de bando a bando, sanguinolentamente,<br \/>\n    os nomes dos grotescos de cada seita. Um rom&acirc;ntico feria um cl&aacute;ssico,<br \/>\n    gritando-lhe com gesto terr&iacute;vel: Domingos dos Reis Quita! O cl&aacute;ssico<br \/>\n    cambaleava, mas respondia vingativo: Gilbert de Pix&eacute;r&eacute;court!<br \/>\n    Deves-te lembrar que uma vez um cl&aacute;ssico trai&ccedil;oeiro atirou desapiedadamente<br \/>\n    ao peito de um advers&aacute;rio rom&acirc;ntico este nome mortal: visconde<br \/>\n    d&rsquo;Arlincourt! O rom&acirc;ntico levou dolorosamente a m&atilde;o ao<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o e caiu inanimado.<\/p>\n<p> Quando o levant&aacute;mos n&atilde;o era um cad&aacute;ver, mas era um<br \/>\n    convertido.<\/p>\n<p> Desertou para as fileiras cl&aacute;ssicas, por n&atilde;o querer pertencer<br \/>\n    a um bando que tinha suspensa eternamente sobre si esta vergonha de D&acirc;mocles:<br \/>\n    o visconde d&rsquo;Arlincourt! Lembras-te decerto que n&oacute;s fomos os<br \/>\n    Sans&otilde;es dos Filisteus cl&aacute;ssicos: n&atilde;o os derrot&aacute;mos<br \/>\n    com a mesma queixada, mas apunhal&aacute;mo-los, um a um, com nomes de cl&aacute;ssicos<br \/>\n    portugueses. Um dia debandaram, atordoados, enquanto que n&oacute;s do topo<br \/>\n    da escada grit&aacute;vamos sem quartel: S&atilde; de Miranda! Gar&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Semedo! Quita! Sep&uacute;lveda! Ruas! J&aacute; cansados, sem armas, atir&aacute;vamos-lhes<br \/>\n    estes nomes como pedras! Lembras-te dos ensaios dos Amigos &Iacute;ntimos?<br \/>\n    Havia uma palavra que eu n&atilde;o conseguia pronunciar bem: era<br \/>\n    solidariedade. Na noite da representa&ccedil;&atilde;o tomei o partido de<br \/>\n    a cantar, separando as s&iacute;labas como notas de m&uacute;sica. Era na<br \/>\n    casa dos adere&ccedil;os do teatro que n&oacute;s discut&iacute;amos com T.<br \/>\n    a superioridade da arte grega. A pregar uma cortina, arredando bastidores,<br \/>\n    proclam&aacute;vamos o Mois&eacute;s e o Pensieroso com grave detrimento da<br \/>\n    V&eacute;nus de Milo  a grande Afrodite. Depois das representa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    havia ceias semelhantes &agrave;s bodas de Gamacho! Uma noite sa&iacute;mos<br \/>\n    todos, de mantos, com coroas de louro, simbolizando a gera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Petrarcas e cantando um coro lacrimoso.<\/p>\n<p> Tinha havido na Rua de&#8230; uma reuni&atilde;o, e as fam&iacute;lias, ao sair,<br \/>\n    dispersavam com gritos de aves assustadas, ao ver aquela multid&atilde;o de<br \/>\n    fantasmas coroados, que recitavam um soneto amoroso, oferecido a Deus em nome<br \/>\n    dos disc&iacute;pulos de Petrarca! Aquela &eacute;poca foi uma pequena Restaura&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tanta era a vida, a seiva espiritual, a vaga convuls&atilde;o melodiosa da<br \/>\n    alma. Ador&aacute;vamos o teatro. O teatro era a paix&atilde;o, a luta, a<br \/>\n    dor, o cora&ccedil;&atilde;o arrancado, e gemendo, sangrando, rolando sobre<br \/>\n    uma cena resplandecente. O nosso teatro  era Shakespeare e Hugo, e<br \/>\n    os c&oacute;micos espanh&oacute;is sombrios e magn&iacute;ficos do s&eacute;culo<br \/>\n    XVI.<\/p>\n<p> Admit&iacute;amos tamb&eacute;m a s&aacute;tira no teatro, mas a s&aacute;tira<br \/>\n    sanguinolenta. Juvenal dialogado, a brutalidade sublime de Rabelais, o largo<br \/>\n    riso gaul&ecirc;s, toda a lama de Marcial, com todo o sangue de T&aacute;cito,<br \/>\n    para pintar a casa macia do ego&iacute;smo humano.<\/p>\n<p> T&iacute;nhamos um hemiciclo de poetas. Colocados sob um ponto de vista<br \/>\n    exclusivo, s&oacute; era admitido &agrave; nossa comunh&atilde;o  o<br \/>\n    que derivasse da for&ccedil;a, do rugido da Natureza, da palpita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    selvagem da vida e da paix&atilde;o.<\/p>\n<p> T&iacute;nhamos, ao mesmo tempo, ocultamente, um idealismo doentio e dissolvente.<br \/>\n    O nosso grande compositor era Beethoven; e, todavia, eu, desgra&ccedil;ado<br \/>\n    de mim, adorava Mozart em segredo. E eu suspeito-te, amigo, de teres nesse<br \/>\n    tempo condescendido com Novalis e Lu&iacute;s Tieck.<\/p>\n<p> Para n&oacute;s, e com grandes pancadas contritas sobre o peito o digo<br \/>\n    Portugal n&atilde;o tinha direito de cidade na regi&atilde;o da arte e da<br \/>\n    alma. Aceit&aacute;vamo-lo como pa&iacute;s de ac&ccedil;&atilde;o..<\/p>\n<p> Um dos maiores poetas de Portugal, para n&oacute;s, era Vasco da Gama! T&iacute;nhamos<br \/>\n    um sistema de na&ccedil;&otilde;es-almas e na&ccedil;&otilde;es-bra&ccedil;os.<br \/>\n    Assim, para nos, a maior epopeia portuguesa era a explora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do mar. As suas rimas eram conquistas. As cenas dos seus dramas escorriam<br \/>\n    de sangue junto das muralhas de Diu.<\/p>\n<p> Literariamente, Portugal, na nossa opini&atilde;o, era simplesmente o pretexto<br \/>\n    para o Bosque\/o Hist&oacute;rico do senhor padre Figueiredo. Do passado apenas<br \/>\n    acredit&aacute;vamos em Jo&atilde;o de Barros e Cam&otilde;es. Garrett tinha-se<br \/>\n    separado de n&oacute;s, tomando pelo atalho que leva a Deus, e legando &agrave;<br \/>\n    gera&ccedil;&atilde;o presente a pouca alma que ela ainda tem.<\/p>\n<p> Os contempor&acirc;neos, ai!, n&atilde;o os conhec&iacute;amos. Hoje eu,<br \/>\n    e creio que tu, conhecemos bem os nobres esp&iacute;ritos que se obstinam<br \/>\n    em pensar no meio deste deserto de almas, uns junto da hist&oacute;ria, outros<br \/>\n    junto do verso, alguns amparando a critica, outros reanimando o drama e o<br \/>\n    romance.<\/p>\n<p> Mas, naquela &eacute;poca de espontaneidade, s&oacute; v&iacute;amos o que<br \/>\n    era verdadeiramente e incontestavelmente sol! Discut&iacute;amos largamente<br \/>\n    a Natureza, e eu lembro-me de te ouvir falar, diante daquela luz que cai desfeita<br \/>\n    em tristeza no Penedo da Saudade, acerca da forma&ccedil;&atilde;o das nebulosas,<br \/>\n    e, partindo dai, descrever o homem e Deus, at&eacute; &agrave; prociss&atilde;o<br \/>\n    da v&eacute;spera.<\/p>\n<p> Havia entre n&oacute;s todas as teorias e todas as seitas: havia republicanos<br \/>\n    b&aacute;rbaros e republicamos po&eacute;ticos; havia m&iacute;sticos que<br \/>\n    praticavam as &eacute;clogas de Virg&iacute;lio; havia materialistas sentimentais<br \/>\n    e melanc&oacute;licos que proclamavam a mat&eacute;ria com uma meiga languidez<br \/>\n    nos olhos, e falavam da for&ccedil;a vital quase de joelhos, com as m&atilde;os<br \/>\n    amorosamente postas; havia pag&atilde;os que lamentavam as suas penas de amor,<br \/>\n    castamente, sob a n&eacute;voa luminosa dos astros. Tudo havia, e tamb&eacute;m<br \/>\n    a serena amizade incorrupt&iacute;vel, o fecundo amor do dever e a ingenuidade<br \/>\n    risonha de tudo o que desperta.<\/p>\n<p> Diante da anatomia das ideias havia uma coragem magn&iacute;fica, e na vida<br \/>\n    real eram todos contemplativos, melanc&oacute;licos e t&iacute;midos. E tu<br \/>\n    sabes qual era o grande esp&iacute;rito, hoje longe de n&oacute;s, que explicava<br \/>\n    Proudhon, com a serena familiaridade dos s&aacute;bios, e nas aulas dizia,<br \/>\n    com voz t&iacute;mida, referindo-se aos jurisconsultos antigos: &laquo;O Senhor<br \/>\n    Pegas&#8230;<\/p>\n<p> Sua Senhoria o digno Paiva e Pona&#8230; O nobre cavalheiro Cuj&aacute;cio&#8230;,<br \/>\n    etc.&raquo; Tremia diante daqueles comentadores como diante de &iacute;dolos<br \/>\n    misteriosos; e imaginava abrand&aacute;-los, dandolhes venera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Tal era aquele conc&iacute;lio. A for&ccedil;a severa do esp&iacute;rito<br \/>\n    precisa destas precursoras explos&otilde;es de vida. Hoje pouco resta desses<br \/>\n    camaradas. Separados ou distantes, todavia, sempre que um levanta o bra&ccedil;o,<br \/>\n    re&uacute;nem-se todos em volta, como os huguenotes em redor do penacho de<br \/>\n    Henrique IV.<\/p>\n<p> Todos se perderam. Uns est&atilde;o bem longe, para al&eacute;m do mar.<br \/>\n    Outros sofrem os t&eacute;dios da vida oficial. Outros vivem nas castas serenidades<br \/>\n    do lar. Outros apodrecem debaixo da erva, e o que nos am&aacute;vamos neles<br \/>\n     a alma  dissipou-se, e o que v&iacute;amos  o corpo<br \/>\n     anda em redor de n&oacute;s, nas metempsicoses, no ar, nas plantas<br \/>\n    e nas pedras; mas n&oacute;s n&atilde;o compreendemos ainda o seu sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    como eles j&aacute; n&atilde;o percebem o nosso ru&iacute;do! Ora quem nesse<br \/>\n    tempo me tivesse falado dos s&eacute;culos cl&aacute;ssicos de Augusto e de<br \/>\n    P&eacute;ricles fazia-me uma inj&uacute;ria pessoal; e hoje em presen&ccedil;a<br \/>\n    desta doen&ccedil;a desoladora dos esp&iacute;ritos, destas chagas luminosas<br \/>\n    e incur&aacute;veis que as almas t&ecirc;m, eu estou quase pronto a ir declarar,<br \/>\n    com a vela na m&atilde;o, como os antigos convertidos, que o pensamento tem<br \/>\n    tido apenas tr&ecirc;s &eacute;pocas: P&eacute;ricles, Augusto e Lu&iacute;s<br \/>\n    XIV. &Eacute; o ciclo dos tr&ecirc;s tiranos! E embora se lastime que as ideias<br \/>\n    nas&ccedil;am com os escravos, eu acho magn&iacute;fico e verdadeiro que aquelas<br \/>\n    datas gloriosas sejam o jazigo de tudo quanto a alma humana tem criado. Contiteor.<br \/>\n    Salve, Arist&oacute;teles! Mas o mal &eacute; que em volta daquelas &eacute;pocas,<br \/>\n    que s&atilde;o cimos luminosos, em baixo,. nos crep&uacute;sculos constelados,<br \/>\n    move-se uma popula&ccedil;&atilde;o infecta, disforme e revolucion&aacute;ria.<br \/>\n    Ali h&aacute; o crime, a paix&atilde;o, a luta, a dor, o sangue, o amor, o<br \/>\n    ci&uacute;me, a morte e a d&uacute;vida  todas as meiastintas do mal!<br \/>\n    Quem desce daqueles cimos, que s&atilde;o gl&oacute;ria, luz e verdade, onde<br \/>\n    habitam as almas nobres de Hor&aacute;cio, de La Harpe, de Boileau, de Reis<br \/>\n    Quita, de Gar&ccedil;&atilde;o, de Caminha e companhia, quem desce &agrave;queles<br \/>\n    fundos perversos topa com figuras gigantescas e horr&iacute;veis, Shakespeare,<br \/>\n    o humano, Dante, o sobrenatural, Rabelais, o escarnecedor, Isa&iacute;as,<br \/>\n    o profeta, Juvenal, o vingador, &Eacute;squilo, o fatal. Aquelas figuras devastam.<\/p>\n<p>E &eacute; um encontro pior que o da Floresta Misteriosa, no come&ccedil;o<br \/>\n    da Divina Com&eacute;dia. Adeus, as serenidades id&iacute;licas dos tempos<br \/>\n    de P&eacute;ricles e de Augusto! Adeus, as claras &aacute;guas da alegria<br \/>\n    nos olhos! Adeus, as t&eacute;pidas branduras e os descansos arc&aacute;dicos!<br \/>\n    Aqueles poetas terr&iacute;veis arrastam-nos, deslumbram-nos de ideal, esmagam-nos<br \/>\n    de paix&atilde;o; d&atilde;o-nos punhaladas de luz! Tudo arremessam sobre<br \/>\n    a pobre alma, o amor, a melancolia, a paix&atilde;o, o ci&uacute;me, o misticismo,<br \/>\n    a ironia, o desespero, a d&uacute;vida! Al&eacute;m disso, n&atilde;o respeitam<br \/>\n    a felicidade corporal do ego&iacute;smo humano: atrevem-se a dar o terr&iacute;vel<br \/>\n    espect&aacute;culo da dor! O rei Lear mostra desapiedadamente os seus olhos<br \/>\n    arrancados e o seu cora&ccedil;&atilde;o ca&iacute;do na lama, pisado pelos<br \/>\n    filhos, cuspido pelos lacaios, apupado pela popula&ccedil;a! Aqueles poetas<br \/>\n    abrem na alma longes surpreendentes. Quem os l&ecirc; sente entrar em si.<\/p>\n<p> bruscamente, o infinito! Sofre, como as sacerdotisas antigas sofriam com<br \/>\n    a presen&ccedil;a de Deus! E entretanto os que se deixaram ficar na luz branda,<br \/>\n    em companhia dos esp&iacute;ritos inofensivos de Racine, de Hor&aacute;cio,<br \/>\n    de Virg&iacute;lio, de todos os cl&aacute;ssicos, vivem contente e sossegadamente<br \/>\n    na sua f&eacute; ordin&aacute;ria, na sua virtude, na sua sonol&ecirc;ncia<br \/>\n    higi&eacute;nica! &Eacute; que esses inofensivos fazem um ru&iacute;do que<br \/>\n    embala, p&otilde;em um abat-jour ao ideal, trazem a paix&atilde;o a&ccedil;aimada<br \/>\n    e p&otilde;em caio na face da dor.<\/p>\n<p> Mas os que desceram para regi&otilde;es rom&acirc;nticas ficaram com a alma<br \/>\n    doente, febril, ansiada, nost&aacute;lgica. Ai est&aacute; como se explica<br \/>\n    toda esta gera&ccedil;&atilde;o moderna, contemplativa e doente! Porque<br \/>\n    digamos a verdade  hoje a vida do pensamento &eacute; um vasto hospital<br \/>\n    de almas. E os gemidos que saem dos leitos s&atilde;o os dramas, os poemas,<br \/>\n    os romances modernos. Hoje, incontestavelmente, pensar &eacute; sofrer. A<br \/>\n    enfermeira, que se chama Democracia, consegue curar a poucos. Os poetas cl&aacute;ssicos,<br \/>\n    esses, n&atilde;o obrigam a pensar: s&atilde;o a simplicidade, a frieza, a<br \/>\n    narrativa, a superf&iacute;cie, a afecta&ccedil;&atilde;o, a conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n     tudo menos a alma, com a sua tragicom&eacute;dia de dores e de d&uacute;vidas!<br \/>\n    N&oacute;s, meu amigo, somos uma gera&ccedil;&atilde;o desiludida por tr&ecirc;s<br \/>\n    revolu&ccedil;&otilde;es, amolecida por uma inven&ccedil;&atilde;o horr&iacute;vel<br \/>\n     a musica, tomada da d&uacute;vida religiosa, gera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que v&ecirc; esvaecer-se Cristo, a quem tanto tempo amou, e n&atilde;o v&ecirc;<br \/>\n    chegar a liberdade, por quem h&aacute; tanto tempo espera.<\/p>\n<p> Quais podem ser as obras desta gera&ccedil;&atilde;o? Cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    febris, convuls&otilde;es cerebrais, idealistas e doentias. todo um pesadelo<br \/>\n    moral. Por isso, temos tido toda a s&eacute;rie de figuras melodram&aacute;ticas,<br \/>\n    desde Fausto  at&eacute; Mr. de Camors.<\/p>\n<p> Qual vale mais, esta doen&ccedil;a magn&iacute;fica, ou a sa&uacute;de vulgar<br \/>\n    e in&uacute;til que se goza no clima t&eacute;pido que vai desde Racine at&eacute;<br \/>\n    Scribe? Eu prefiro corajosamente o hospital, sobretudo quando a primeira febre<br \/>\n    se chama Julieta e a &uacute;ltima Margarida! Os outros, os saud&aacute;veis,<br \/>\n    os doutrin&aacute;rios da arte, os petrificadores da paix&atilde;o, os sacerdotes<br \/>\n    da tradi&ccedil;&atilde;o e do magister dixit, n&atilde;o pertencem &aacute;<br \/>\n    arte pura, pertencem aos arquivos. S&atilde;o documentos hist&oacute;ricos.<br \/>\n    S&atilde;o momentos sociais vistos atrav&eacute;s da arte.<\/p>\n<p> Racine explica Lu&iacute;s XIV. E como na hist&oacute;ria livre e pura se<br \/>\n    n&atilde;o pode conceber Lu&iacute;s XIV, na arte pura e livre n&atilde;o<br \/>\n    se pode admitir Racine. Toda a nossa Arc&aacute;dia explica os remos de D.<br \/>\n    Jo&atilde;o V, e de D. Jos&eacute; I, e de D. Maria I. Por essa literatura<br \/>\n    se podem. conhecer todos os sentimentos mon&aacute;rquicos do tempo, o esp&iacute;rito<br \/>\n    cortes&atilde;o, a influ&ecirc;ncia clerical, a sujei&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    antec&acirc;maras, as subtilezas morais, a serenidade enf&aacute;tica, a majestade<br \/>\n    teatral, toda essa soma de falsos sentimentos e de falsos costumes que era<br \/>\n    o Antigo Regime. E aquela literatura falsa, rid&iacute;cula  sendo<br \/>\n    excelente como documento, &eacute; grotesca como arte.<\/p>\n<p> Na arte s&oacute; t&ecirc;m import&acirc;ncia os que criam almas, e n&atilde;o<br \/>\n    os que reproduzem costumes.<\/p>\n<p> A arte &eacute; a hist&oacute;ria da alma. Queremos ver o homem: n&atilde;o<br \/>\n    o homem dominado pela sociedade, entorpecido pelos costumes, deformado pelas<br \/>\n    institui&ccedil;&otilde;es, transformado pela cidade  mas o homem livre,<br \/>\n    colocado na livre Natureza, entre as livres paix&otilde;es. A arte &eacute;<br \/>\n    simplesmente a representa&ccedil;&atilde;o dos caracteres tais quais eles<br \/>\n    seriam  abandonados &agrave; sua vontade inteligente e livre, sem as<br \/>\n    redes sociais. A&iacute; est&aacute; o que d&aacute; a Shakespeare a supremacia<br \/>\n    na arte. Foi o maior criador de almas. Revelou a Natureza espont&acirc;nea:<br \/>\n    soltou as paix&otilde;es em liberdade e mostrou a sua livre ac&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &Eacute; a&iacute; que se pode estudar o homem. &Eacute; o que faz tamb&eacute;m<br \/>\n    a grandeza de certos tipos capitais de Balzac, o Bar&atilde;o Hulot, Goriot,<br \/>\n    Grandet. Realizam o seu destino, longe da associa&ccedil;&atilde;o humana,<br \/>\n    sob a livre l&oacute;gica das paix&otilde;es.<\/p>\n<p> No entanto, &agrave;s vezes, os que reflectem o seu tempo, criam: e &eacute;<br \/>\n    quando n&atilde;o revelam s&oacute; o car&aacute;cter de um momento, um estado<br \/>\n    convencional e passageiro, mas traduzem e explicam toda a alma de um povo.<br \/>\n    E o que faz a grandeza de Jo&atilde;o de Barros.<\/p>\n<p> Historiador, revelou o g&eacute;nio de Portugal. o esp&iacute;rito aventureiro<br \/>\n    misturado de exalta&ccedil;&atilde;o religiosa, o hero&iacute;smo supersticioso.<br \/>\n    Cam&otilde;es, o filho da Renascen&ccedil;a e das imita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    latinas, n&atilde;o tem este esp&iacute;rito &eacute;pico de Jo&atilde;o de<br \/>\n    Barros, que &agrave;s vezes, numa p&aacute;gina, constr&oacute;i toda a antiga<br \/>\n    alma her&oacute;ica da p&aacute;tria.<\/p>\n<p> Ultimamente, o espiritualismo entrou na sua fase ret&oacute;rica; e os poetas<br \/>\n    modernos de Fran&ccedil;a, Mallarm&eacute;, Dierx. Sully-Prudhomme. Catulle<br \/>\n    Mend&eacute;s. Heredia, Boyier Ricardi, L&rsquo;lsle-Adam. etc., fabricam<br \/>\n    maldi&ccedil;&otilde;es ao mundo e &agrave; mat&eacute;ria, com a mesma s&aacute;bia<br \/>\n    reflex&atilde;o e estudo com que os poetas de 1810 fabricavam madrigais. Uma<br \/>\n    certa escola, sa&iacute;da de Charles Baudelaire, afecta amores pelo mal:<br \/>\n    como os histri&otilde;es medrosos p&otilde;em vermelh&atilde;o na face, para<br \/>\n    encobrir a palidez. eles tingem a alma de perversidade negra para encobrir<br \/>\n    o desfalecimento.<\/p>\n<p> H&aacute; pouco falei de Mr. de Camors. Ainda um livro nost&aacute;lgico.<br \/>\n    Ainda Manfredo e D. Juan sob uma forma remo&ccedil;ada e teatral.<\/p>\n<p> Mr. de Camors &eacute; um m&iacute;stico. Tem todos os desfalecimentos de<br \/>\n    alma, todos os desmaios do desejo dos her&oacute;is po&eacute;ticos de 1830.<\/p>\n<p> Traz s&oacute; de mais  um aparato  o materialismo. Mascara-se<br \/>\n    de impassibilidade: mas quando? Justamente quando. pela posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica, pelo resplandecimento financeiro, pela for&ccedil;a dos h&aacute;bitos<br \/>\n    e das liga&ccedil;&otilde;es ele tem uma vida compassada e material<br \/>\n    em que a alma adormece. E como a alma adormece, calam-se os seus gemidos.<br \/>\n    Mas quando desperta, ou seja pelo amor, ou pela vergonha, ou pela paix&atilde;o,<br \/>\n    ou pelo dever. ou pela paternidade. ou pelo remorso, come&ccedil;a logo, a<br \/>\n    pobre alma, chorando aflita, torturando-se e pedindo com as m&atilde;os postas<br \/>\n    &agrave;s estrelas um ref&uacute;gio sereno.<\/p>\n<p> Aqui. em Portugal. tamb&eacute;m h&aacute; uma grande doen&ccedil;a. Falaria<br \/>\n    nisso agora. se n&atilde;o estivesse fatigado de escrever.<\/p>\n<p> Mas &eacute; a pior das doen&ccedil;as: &eacute; a doen&ccedil;a que afecta<br \/>\n    ares l&acirc;nguidos: que comp&otilde;e, ao morrer, a voluptuosidade do olhar:<br \/>\n    que, quando j&aacute; sente o frio da morte, suspira correctamente: &laquo;Adeus.&raquo;<br \/>\n    O que significa esta carta desordenada, em que me deixei ir. contra os meus<br \/>\n    h&aacute;bitos impassivelmente silenciosos. a falar vagamente em literatura!<br \/>\n    Nada, sen&atilde;o que num dia de tristeza e de frio eu quis fazer uma romaria<br \/>\n    saudosa &agrave;queles tempos distantes. em que n&oacute;s viv&iacute;amos<br \/>\n    numa noite de ideais e de desejos. alumiados pelos astros  Shakespeare,<br \/>\n    Dante, Rabelais, S. Jo&atilde;o, Goethe e Cervantes, e tendo sempre na alma<br \/>\n    aquela ternura luminosa  que vinha de uma aurora serena, clara, imensa,<br \/>\n    purificadora e consoladora: Jesus Cristo! Teu E&ccedil;a de Queir&oacute;s<br \/>\n    DA PINTURA EM PORTUGAL Quando penso na rela&ccedil;&atilde;o da arte pl&aacute;stica<br \/>\n    em Portugal com toda imensa cria&ccedil;&atilde;o das escolas da Alemanha,<br \/>\n    de Fran&ccedil;a, de It&aacute;lia e de Espanha, tenho a recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    instintiva e estranha de um escultor de madeira nos tempos g&oacute;ticos.<br \/>\n    O artista esculpe o pau, cria um entrela&ccedil;amento de figuras, de virgens<br \/>\n    asc&eacute;ticas, de diabos sat&iacute;ricos, de monges grotescos, de ros&aacute;ceas<br \/>\n    e de folhagens, enquanto a obra toma relevo, se destaca, se anima, toda cheia<br \/>\n    de ideias, de sentimentos, de cren&ccedil;as  quase um c&acirc;ntico<br \/>\n    de madeira , as lascas e as aparas de pau caem no ch&atilde;o, impercept&iacute;veis,<br \/>\n    chatas, desprez&iacute;veis e in&uacute;teis. As obras de arte em Portugal<br \/>\n    s&atilde;o estas lascas e estas aparas que restam da constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do pensamento na arte.<\/p>\n<p> Portugal, na hist&oacute;ria, &eacute; sobretudo um pa&iacute;s de luta,<br \/>\n    de for&ccedil;a, de ac&ccedil;&atilde;o material. Na Europa, o Sul representa<br \/>\n    o corpo, a parte animal do homem, a sua maneira de ser exterior, como o Norte<br \/>\n    representa o vago sentimento &iacute;ntimo e espiritual  a alma. O<br \/>\n    corpo tem estas manifesta&ccedil;&otilde;es principais  a percep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelos sentidos, a ac&ccedil;&atilde;o vital, a exalta&ccedil;&atilde;o nervosa<br \/>\n    e o sono.<\/p>\n<p> A alma manifesta-se pela ideia n&iacute;tida e precisa, e pela vaga imagina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    No Norte, que &eacute; a alma, a Fran&ccedil;a representa a ideia n&iacute;tida,<br \/>\n    a raz&atilde;o &aacute;gil, e a Alemanha representa a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o sonho. No Sul, que &eacute; o corpo, a It&aacute;lia e a Gr&eacute;cia<br \/>\n    s&atilde;o a percep&ccedil;&atilde;o exterior pelos sentidos, que se traduz<br \/>\n    sempre. numa ra&ccedil;a inteligente, pelo culto da forma; a Espanha &eacute;<br \/>\n    a exalta&ccedil;&atilde;o nervosa; a Turquia &eacute; o sono animal; Portugal<br \/>\n    &eacute; a vigorosa ac&ccedil;&atilde;o vital, o movimento espont&acirc;neo,<br \/>\n    a decis&atilde;o violenta do sangue.<\/p>\n<p> A Europa &eacute; assim um grande corpo simb&oacute;lico em que cada p&aacute;tria<br \/>\n    &eacute; uma forte qualidade f&iacute;sica ou uma ambi&ccedil;&atilde;o inteligente<br \/>\n    da alma. O desequil&iacute;brio destas for&ccedil;as chama-se na ci&ecirc;ncia<br \/>\n     doen&ccedil;a, e na hist&oacute;ria  guerra.<\/p>\n<p> Todas estas qualidades t&ecirc;m um per&iacute;odo de decad&ecirc;ncia e<br \/>\n    de exagera&ccedil;&atilde;o; assim, h&aacute; um momento na Alemanha em que<br \/>\n    o espiritualismo se converte no iluminismo; h&aacute; um momento em que na<br \/>\n    Fran&ccedil;a o excesso das ideias produz a febre cerebral; a transborda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    doentia de teorias, a precis&atilde;o do racioc&iacute;nio, produz a est&eacute;ril<br \/>\n    escol&aacute;stica, assim o sono da Turquia tem um per&iacute;odo que se torna<br \/>\n    imbecilidade; na It&aacute;lia vem um dia em que o culto da forma se transforma<br \/>\n    num materialismo sem dignidade; a exalta&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica da<br \/>\n    Espanha exagera-se e torna-se epilepsia pol&iacute;tica e revolucion&aacute;ria;<br \/>\n    a ac&ccedil;&atilde;o vital de Portugal come&ccedil;a a ser, por uma exagera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de viol&ecirc;ncia, um espasmo ininteligente, semelhante ao adormecimento<br \/>\n    que toma um bra&ccedil;o robusto depois de um prod&iacute;gio de for&ccedil;a.<br \/>\n    E este o estado a que cheg&aacute;mos hoje entre n&oacute;s.<\/p>\n<p> Ora, no passado, a Fran&ccedil;a, que e a raz&atilde;o, cria as escolas<br \/>\n    filos&oacute;ficas, esbo&ccedil;a informemente o seu esp&iacute;rito critico<br \/>\n    em Rebelais, e resume-o, aperfei&ccedil;oado, em Voltaire.<\/p>\n<p> A Alemanha, que &eacute; a imagina&ccedil;&atilde;o, cria a musica, a arquitectura<br \/>\n    espiritualista, a pintura cheia de como&ccedil;&atilde;o religiosa de Alberto<br \/>\n    D&uuml;rer, e a escola dram&aacute;tica e pungente de Rembrandt. A It&aacute;lia,<br \/>\n    que &eacute; a percep&ccedil;&atilde;o dos sentidos, a forma, produz a magn&iacute;fica<br \/>\n    pintura materialista, que durante quinhentos anos teve por inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a beleza do corpo pressentida por Giotto, imperfeita e desgraciosa com Verrocchio<br \/>\n    e Cailagno e outros, mon&oacute;tona ainda nas figuras de Perugino e de Ghirlandaio,<br \/>\n    aperfei&ccedil;oada por Antonello de Massina, que revela o colorido, e depois<br \/>\n    ainda por Leonardo da Vinci, que d&aacute; o segredo da luz e dos claros-escuros,<br \/>\n    chega gloriosamente a um per&iacute;odo superior com Correggio e com Ticiano,<br \/>\n    cercado dos venezianos. A Espanha nervosa e inquieta produz D. Quixote, os<br \/>\n    poetas dram&aacute;ticos, o Dies Irae, o estranho romance de Lazarillo de<br \/>\n    Tormes, que fez escola, e os pintores torturados, misticamente materialistas.<br \/>\n    A Turquia n&atilde;o podia produzir nada porque dormia. Portugal, que &eacute;<br \/>\n    a ac&ccedil;&atilde;o vital, n&atilde;o podia criar nada porque lutava.<\/p>\n<p> E lutou corajosamente. A sua constitui&ccedil;&atilde;o foi dif&iacute;cil,<br \/>\n    entre a Espanha inquieta e a &Aacute;frica trai&ccedil;oeira. Depois veio<br \/>\n    a &eacute;poca dram&aacute;tica das conquistas. Apertados no seu peda&ccedil;o<br \/>\n    de terra, estes homens iam atrav&eacute;s dos mares inexplorados, em nome<br \/>\n    de Cristo, supersticiosos e her&oacute;icos, terr&iacute;veis como batalhadores,<br \/>\n    serenos como ap&oacute;stolos, desfazendo os temporais com as palavras do<br \/>\n    Evangelho, iam, conquistavam as ilhas, os pa&iacute;ses, os b&aacute;rbaros,<br \/>\n    os continentes, os cabos temerosos, e depois, ensanguentados e miser&aacute;veis,<br \/>\n    rezavam na praia, devotadamente, de joelhos, diante de uma cruz de pau! A<br \/>\n    sua vida era lutar, orar, morrer; n&atilde;o tinham o amor, o riso, o descanso;<br \/>\n    estavam quase fora do elemento humano e das serenas alegrias do pensamento.<\/p>\n<p> As suas epopeias eram os di&aacute;rios de bordo: a sua escultura era a<br \/>\n    arma&ccedil;&atilde;o dos gale&otilde;es. Como pintavam eles? Com sangue:<br \/>\n    nas muralhas. E a sua &uacute;nica m&uacute;sica, deles, her&oacute;is do<br \/>\n    Sul, sem os frescos amores, sem os olhares celestes, era, sob o c&eacute;u,<br \/>\n    o gemido do mar. E por vezes tamb&eacute;m o grito das aves sinistras: e ent&atilde;o<br \/>\n    o piloto, que seguia atento, no gale&atilde;o silencioso, a viagem das estrelas<br \/>\n    dizia: &laquo;De joelhos, companheiros, &eacute; a alma de mestre que passa!&raquo;<br \/>\n    E todos, de joelhos, rezavam tristemente, na noite, pela alma dos pilotos<br \/>\n    mortos na viagem das &Iacute;ndias! Jo&atilde;o de Barros foi o que contou<br \/>\n    estes combates &eacute;picos aos homens, e era digno de os contar a Deus!<br \/>\n    Assim Portugal, no passado, foi est&eacute;ril na arte: n&atilde;o falo de<br \/>\n    arquitectura.<\/p>\n<p> E no presente &eacute; grotesco.<\/p>\n<p> N&atilde;o quero falar no drama de que apenas existe hoje uma apar&ecirc;ncia<br \/>\n    inconsistente e banal, nem da poesia que, ou &eacute; tristemente arc&aacute;dica,<br \/>\n    ou colorida com sentimentalidades ret&oacute;ricas e todas individuais; n&atilde;o<br \/>\n    quero de modo algum falar da arquitectura, que consiste entre n&oacute;s na<br \/>\n    uniforme perfei&ccedil;&atilde;o da linha recta; nem da escultura, que em<br \/>\n    Portugal se limita a ser uma suport&aacute;vel estatu&aacute;ria oficial;<br \/>\n    nem da m&uacute;sica, porque apenas temos as dos rouxin&oacute;is; mas quero<br \/>\n    falar levemente de pintura, que tem um fingimento de vida! A arte estuda o<br \/>\n    homem. N&atilde;o como ele existe sob as transforma&ccedil;&otilde;es de que<br \/>\n    cobre a vida social e moment&acirc;nea, mas como ele deve ser na Natureza,<br \/>\n    na pura verdade do corpo e da alma. A literatura e a m&uacute;sica estudam<br \/>\n    a alma sem a sociedade, com toda a liberdade das paix&otilde;es, toda a fermenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e explos&atilde;o cerebral, toda a tirania do sangue, toda a fatalidade do<br \/>\n    car&aacute;cter.<\/p>\n<p> E todo o livro que n&atilde;o estudar assim o mist&eacute;rio humano, ser&aacute;<br \/>\n    uma c&oacute;pia de um costume, a repercuss&atilde;o de uma influ&ecirc;ncia<br \/>\n    moment&acirc;nea, a express&atilde;o de uma ordem de caracteres superficiais,<br \/>\n    mas n&atilde;o ser&aacute; uma obra ideal. Um exemplo: a epopeia humana de<br \/>\n    Shakespeare. Ali, o que surpreende radiosamente n&atilde;o s&atilde;o os di&aacute;logos<br \/>\n    enf&aacute;ticos dos cavalheiros e das damas, as jovialidades dos jograis,<br \/>\n    os conceitos covardes dos cortes&atilde;os, tudo isso que reflecte magnificamente<br \/>\n    os costumes, as fei&ccedil;&otilde;es, os sentimentos ef&eacute;meros do s&eacute;culo<br \/>\n    XVI.<\/p>\n<p> O que apaixona, o que esmaga o esp&iacute;rito de revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de luz, s&atilde;o as dores do rei Lear, o ci&uacute;me de Otelo, as hesita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nost&aacute;lgicas de Hamlet, a fatalidade do mal em Macbeth, toda essa real<br \/>\n    hist&oacute;ria da alma, essa consci&ecirc;ncia viva da humanidade, com todas<br \/>\n    as suas dores, mis&eacute;rias e magnific&ecirc;ncias, onde aparece sempre<br \/>\n    sofrendo e gemendo a tr&aacute;gica vis&atilde;o da Natureza! Assim, na mesma<br \/>\n    obra, tudo que &eacute; fei&ccedil;&atilde;o momen-t&acirc;nea do tempo fica<br \/>\n    in&uacute;til e impercept&iacute;vel, entre os magn&iacute;ficos estudos do<br \/>\n    homem e as inesperadas revela&ccedil;&otilde;es da Natureza  como uma<br \/>\n    pouca de erva seca entre a forte fermenta&ccedil;&atilde;o da seiva vegetal!<br \/>\n    Ora, se a literatura e a m&uacute;sica estudam a alma, a pintura e a escultura<br \/>\n    estudam o corpo. N&atilde;o o corpo como ele &eacute; na vida moderna, emagrecido<br \/>\n    pelo cansa&ccedil;o, com as. grandes deformidades e curvaturas do trabalho,<br \/>\n    estancado e torturado pela fermenta&ccedil;&atilde;o violenta das ideias,<br \/>\n    com os m&uacute;sculos amolecidos pela vida cerebral, com a pele m&oacute;rbida,<br \/>\n    e deformado pelo vestu&aacute;rio, mas o corpo direito r&iacute;tmico, puro,<br \/>\n    harmonioso e s&atilde;o, perfeito em toda a pureza da forma.<\/p>\n<p> Assim, o que se admira na pintura, o que &eacute; ideal, n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    as figuras da arte bizantina, descamadas, hirtas e mon&oacute;tonas; n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o os quadros primitivos, das catedrais, cheios de uma legi&atilde;o<br \/>\n    de figuras tristes e maceradas, com todas as consump&ccedil;&otilde;es do<br \/>\n    corpo e todos os renunciamentos da vida, n&atilde;o s&atilde;o os corpos di&aacute;fanos<br \/>\n    de Fra Angelico, aparecendo com t&uacute;nicas resplandecentes, num fundo<br \/>\n    tenebroso: n&atilde;o s&atilde;o as formas desproporcionais com que Alberto<br \/>\n    D&uuml;rer veste as almas que dramatizam a sua cria&ccedil;&atilde;o: n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o as atitudes penosas, as fealdades vulgares, a grossura bestial<br \/>\n    dos m&uacute;sculos nos primeiros pintores da Renascen&ccedil;a: o que se<br \/>\n    admira &eacute; a pintura perfeita de Ticiano e dos venezianos, onde a forma<br \/>\n    tem a beleza ideal e serena dos antigos deuses de m&aacute;rmore, mas animada<br \/>\n    por uma voluptuosidade delicada, por uma energia inteligente e por uma fisionomia<br \/>\n    de estrutura que tem o que quer que seja de aristocr&aacute;tico e de crist&atilde;o!<br \/>\n    O que se admira sobretudo &eacute; o tipo da forma ideal da escola de Floren&ccedil;a<br \/>\n    que teve os tr&ecirc;s cimos da arte: Leonardo da Vinci, que dava ao corpo<br \/>\n    uma intelig&ecirc;ncia delicada, Miguel &Acirc;ngelo, que lhe dava uma sublimidade<br \/>\n    violenta, e Rafael, que lhe dava uma do&ccedil;ura infinita, o que quer que<br \/>\n    seja da imortalidade serena do Para&iacute;so pag&atilde;o, aquela suavidade<br \/>\n    luminosa, aquele equil&iacute;brio perfeito de todas as maneiras da alma que<br \/>\n    mais tarde Mozart teve na musica e Goethe na poesia.<\/p>\n<p> Nesta pintura a express&atilde;o moral n&atilde;o tem ascendente: h&aacute;,<br \/>\n    como na arte grega, o equil&iacute;brio perfeito e r&iacute;tmico da alma<br \/>\n    e da forma.<\/p>\n<p> Miguel &Acirc;ngelo, todavia, come&ccedil;a na Capela Sixtina a revelar<br \/>\n    na pintura os dramas da alma que h&atilde;o-de ser o car&aacute;cter da escola<br \/>\n    de Rembrandt e dos flamengos Van Ostade, Gerard Dow, etc., e depois. mais<br \/>\n    tarde, ser&atilde;o a pintura francesa de 1830, de Delacroix, de Delaroche<br \/>\n    e de Ary Scheffer.<\/p>\n<p> Por consequ&ecirc;ncia o ideal na pintura &eacute; o corpo perfeito e a<br \/>\n    bela nudez animal. Foi esse durante quinhentos anos o estudo das escolas da<br \/>\n    It&aacute;lia! Foi esse o mist&eacute;rio religioso da Gr&eacute;cia! &Eacute;<br \/>\n    essa tamb&eacute;m a beleza da escola de Flandres, pequeno pa&iacute;s cat&oacute;lico<br \/>\n    do Sul, perdido nos nevoeiros espiritualistas da Alemanha. A&iacute;, as escolas<br \/>\n    de que sa&iacute;ram Tarberg e Metzu fazem o estudo do corpo; mas, como pintavam<br \/>\n    a exist&ecirc;ncia do seu tempo, n&atilde;o o puderam nunca libertar das deforma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da vida mec&acirc;nica e pr&aacute;tica. A perfei&ccedil;&atilde;o foi alcan&ccedil;ada<br \/>\n    pela escola de Rubens, apesar da viol&ecirc;ncia bestial, da sensualidade<br \/>\n    monstruosa, do esplendor brutal da carna&ccedil;&atilde;o, das decora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do vestu&aacute;rio, das atitudes sangu&iacute;neas e carnais dos seus tipos,<br \/>\n    que parecem representar uma gera&ccedil;&atilde;o nascida para engordar e<br \/>\n    para roncar! Murillo, mesmo, cat&oacute;lico e exaltado, d&aacute; &agrave;s<br \/>\n    suas Virgens a forma s&atilde; e melodiosa, o olhar vital, os cabelos deslumbrantes,<br \/>\n    os l&aacute;bios sangu&iacute;neos, e todo aquele c&acirc;ntico de carne que<br \/>\n    &eacute; o ideal italiano. O seu S&atilde;o Jo&atilde;o &eacute; uma crian&ccedil;a<br \/>\n    robusta e perfeita, que um dia, se crescer, poder&aacute; ser Apoio! Em presen&ccedil;a<br \/>\n    deste ideal da arte, realizado na It&aacute;lia, com a serenidade inteligente<br \/>\n    daquela ra&ccedil;a, e em Flandres, com a animalidade daquele pa&iacute;s<br \/>\n    de pastagens, v&ecirc;-se que import&acirc;ncia poder&atilde;o ter na arte<br \/>\n    a pintura dos costumes, os quadros dom&eacute;sticos, a representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por meio de formas das pequenas com&eacute;dias ou dramas da vida real, os<br \/>\n    desenhos de g&eacute;nero, as aguarelas, a estatu&aacute;ria oficial e a paisagem.<br \/>\n    A mesma impor-t&acirc;ncia que tem a imagem colorida de um figurino diante<br \/>\n    da Jocunda de Leonardo da Vinci ou uma figura grotesca de biscuit em presen&ccedil;a<br \/>\n    do Antinous.<\/p>\n<p> Em 1830, em Fran&ccedil;a, a pintura tornou-se dram&aacute;tica. Delacroix,<br \/>\n    Delaroche, Ary.<\/p>\n<p> Scheffer, Ingres, abandonaram a idealiza&ccedil;&atilde;o do homem material,<br \/>\n    pela pintura do homem espiritual. Representaram com formas, com atitudes e<br \/>\n    com coloridos todos os dramas interiores do esp&iacute;rito, todos os fragmentos<br \/>\n    do homem ideal. Foi a pintura da alma. Os quadros s&atilde;o epopeias, s&aacute;tiras,<br \/>\n    id&iacute;lios ou dramas. N&atilde;o se compreendiam ent&atilde;o, quase,<br \/>\n    os pintores anatomistas da Renascen&ccedil;a, admiradores pag&atilde;os dos<br \/>\n    m&uacute;sculos e da energia animal. O seu fim era, como o das antigas escolas<br \/>\n    germ&acirc;nicas, o estudo da pessoa espiritual, com as profundidades do car&aacute;cter,<br \/>\n    com os sonhos intensos, com a poesia pungente do sentimento.<\/p>\n<p> Isto era o tempo em que o tipo dominante na arte, e na poesia sobretudo,<br \/>\n    era o homem de paix&otilde;es espiritualistas, nost&aacute;lgico, nervoso,<br \/>\n    cheio de lirismo, lacrimoso pelas dores humanas, fraco, com todas as revoltas<br \/>\n    do esp&iacute;rito e do cora&ccedil;&atilde;o  no meio de uma gera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pr&aacute;tica. Este tipo, que aparece em todo o teatro de Victor Hugo, em<br \/>\n    Alexandre Dumas, nas elegias de Musset, nos livros m&oacute;rbidos de Vigny,<br \/>\n    de Mallefille, de Morice, de Sand, &eacute; simplesmente o filho popular da<br \/>\n    revolu&ccedil;&atilde;o, que, vendo-se livre das servilidades e tendo pela<br \/>\n    primeira vez, no mundo real, o direito de falar e de pensar, faz a hist&oacute;ria<br \/>\n    pomposa e declamat&oacute;ria das suas pequenas tristezas do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da carne. Este tipo &eacute; uma degenera&ccedil;&atilde;o de Fausto, o<br \/>\n    verdadeiro idealista, o homem desiludido da ci&ecirc;ncia, da vida, da arte,<br \/>\n    da filosofia e at&eacute; da mat&eacute;ria, que no fim se refugia num estoicismo<br \/>\n    melanc&oacute;lico, tendo todavia sempre vivo no fundo do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o mundo incorporal das curiosidades infinitas e dos desejos nevr&aacute;lgicos.<\/p>\n<p> Era este tipo que os pintores franceses de 1830 tinham em vista, ainda mesmo<br \/>\n    nas obras religiosas e nas cria&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas. Os Cristos<br \/>\n    de Delaroche e de Ary Scheffer t&ecirc;m a alma de Fausto, no olhar e na express&atilde;o.<br \/>\n    Imagine-se por isto quanto se estava longe do centro luminoso da arte italiana,<br \/>\n    do sentimento da vida f&iacute;sica, da contempla&ccedil;&atilde;o harmoniosa<br \/>\n    da beleza corporal, activa, viva e s&atilde;! Este espiritualismo ainda n&atilde;o<br \/>\n    cessou de ser inspira&ccedil;&atilde;o doentia e &iacute;ntima da arte moderna.<\/p>\n<p> Na &eacute;poca gloriosa da Renascen&ccedil;a n&atilde;o se conhecia a paisagem:<br \/>\n    era ela, simplesmente, uma decora&ccedil;&atilde;o, um fundo onde se perdia<br \/>\n    a degrada&ccedil;&atilde;o da luz. A arte &eacute; a verdade natural da alma<br \/>\n    e do corpo, sem a influ&ecirc;ncia da vida real. A Natureza &eacute; verdadeira<br \/>\n    por si, existe na pureza da sua for&ccedil;a e apenas pode ser copiada radiosamente.<\/p>\n<p> Mas em quest&otilde;es de c&oacute;pia, a fotografia &eacute; sempre prefer&iacute;vel<br \/>\n    &agrave; pintura, pelo realismo correcto e pela verdade geom&eacute;trica.<br \/>\n    A idealiza&ccedil;&atilde;o da Natureza, ou como vegeta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ou como atmosfera, ou como &aacute;gua, seria uma transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    grotesca. Demais, o processo do colorido n&atilde;o pode reproduzir toda a<br \/>\n    cor vital, animada, luminosa da Natureza org&acirc;nica. A paisagem hoje &eacute;<br \/>\n    ainda um resultado da pintura espiritualista. Cl&aacute;udio Loreno, Lantara<br \/>\n    e os paisagistas modernos revelam, por meio de perspectivas e de horizontes,<br \/>\n    todo o estado ideal do seu pequenino cora&ccedil;&atilde;o: querem que as<br \/>\n    arvores digam as suas contempla&ccedil;&otilde;es, e a &aacute;gua o seu choro<br \/>\n    interior. Quando Lantara pintava os grandes luares silenciosos alumiando as<br \/>\n    clareiras, queria revelar a sua tristeza vasta e feliz, todo o indefinido<br \/>\n    da alma.<\/p>\n<p> Esta pintura, assim, aceita-se junto da grande arte pl&aacute;stica como<br \/>\n    os id&iacute;lios vegetais de La Fontaine se admitem, por condescend&ecirc;ncia,<br \/>\n    ao p&eacute; das fortes almas da epopeia shakespeariana.<\/p>\n<p> Estou fatigado de escrever, sen&atilde;o dizia o motivo por que hoje temos<br \/>\n    o culto da pintura dram&aacute;tica e n&atilde;o compreendemos a pintura pl&aacute;stica<br \/>\n    da Renascen&ccedil;a: mas eu quero dizer ainda como a pintura portuguesa &eacute;<br \/>\n    a apara in&uacute;til de toda a imensa cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica.<\/p>\n<p> A pintura portuguesa n&atilde;o tem o grande fim ideal da arte, o estudo<br \/>\n    da beleza nua; n&atilde;o tem sequer o sentimento dram&aacute;tico; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; mesmo imitativa: nem mesmo &eacute; c&oacute;pia est&eacute;ril!<br \/>\n    A pintura portuguesa, quando pinta o corpo, faz-lhe a caricatura; quando quer<br \/>\n    reproduzir a vida, desentranha-lhe a farsa idiota; quando quer imitar a Natureza,<br \/>\n    f&aacute;-la. grotesca e absurda.<\/p>\n<p> N&atilde;o pertence ao numero de tentativas inexperientes, em que se pressente<br \/>\n    todavia uma futura atitude art&iacute;stica, cheia de poder e de vida; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; tamb&eacute;m uma decad&ecirc;ncia onde atrav&eacute;s das degrada&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e dos defeitos do gosto, da verdade, da beleza, se descobrem ainda os caracteres<br \/>\n    superiores que fizeram o per&iacute;odo de floresc&ecirc;ncia. O que &eacute;,<br \/>\n    n&atilde;o tem nome.<\/p>\n<p> Nas outras escolas, quando a arte se transvia nos maus caminhos e se afasta<br \/>\n    da idealiza&ccedil;&atilde;o do corpo e do culto da verdade transfigurada<br \/>\n    em beleza, ao menos compensam os seus erros pela correc&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    desenho e da forma, pela delicadeza, transpar&ecirc;ncia e realidade do colorido<br \/>\n    e pela escolha inteligente e original das ideias.<\/p>\n<p> Em Portugal, o desenho &eacute; grotesco. n&atilde;o tem o elemento natural<br \/>\n    e verdadeiro; &eacute; flutuante, tem a confus&atilde;o obscura da linha,<br \/>\n    &eacute; aproximativo, n&atilde;o e real, na pintura portuguesa um rosto &eacute;<br \/>\n    quase um rosto! O colorido &eacute; fant&aacute;stico e gratuito. n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; a luz, a meia-tinta, a transpar&ecirc;ncia, a claridade difusa,<br \/>\n    a opacidade forte e colorido na sombra  h&aacute; grandes estendais<br \/>\n    de tinta! A carna&ccedil;&atilde;o de uma face costuma ser um medalh&atilde;o<br \/>\n    de escarlate, quando a fisionomia &eacute; sangu&iacute;nea, de amarelo, quando<br \/>\n    &eacute; linf&aacute;tica, h&aacute; a confus&atilde;o das cores desmentindo<br \/>\n    as realidades e as reses, h&aacute; animais nestes quadros que t&ecirc;m os<br \/>\n    coloridos vision&aacute;rios de flores de legenda; o colorido, nesta arte,<br \/>\n    &eacute; sempre opaco, morto, pesado e ba&ccedil;o; os quadros s&atilde;o<br \/>\n    apenas produ&ccedil;&otilde;es da paleta suja.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; ideias, h&aacute; c&oacute;pias est&eacute;reis que<br \/>\n    o desenho torna desconhecidas e o colorido fant&aacute;sticas; estuda-se a<br \/>\n    imobilidade da natureza-morta, desenha-se a atitude banal de um boi a pastar<br \/>\n    ou uma mulher arrastando grandes folhos, no asfalto de uma rua, e julga-se<br \/>\n    ser isto uma cria&ccedil;&atilde;o e uma ideia! Desconhecem o Belo, estragam<br \/>\n    o Suport&aacute;vel, s&atilde;o p&eacute;ssimos no P&eacute;ssimo! Termino.<br \/>\n    Possa esta gera&ccedil;&atilde;o moderna de artistas, compenetrando-se da<br \/>\n    religi&atilde;o da Arte, estudar, pensar, viver da grande vida espiritual<br \/>\n    no ref&uacute;gio e na concep&ccedil;&atilde;o do Belo.<\/p>\n<p> N&oacute;s, os que criticamos, temos por &uacute;nica recompensa destes<br \/>\n    &aacute;speros e dolorosos sacrif&iacute;cios &agrave; verdade a glorifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos que criam: e quem estas linhas escreve quereria bem, &oacute; meus amigos,<br \/>\n    artistas e pensadores, apertar-vos a m&atilde;o, no dia dos triunfos, lembrando-vos<br \/>\n    que se j&aacute; houve uma ra&ccedil;a de homens que deram a este pa&iacute;s<br \/>\n    a for&ccedil;a, que &eacute; o ideal do corpo, haja agora uma gera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nova que lhe d&ecirc; o ideal, que &eacute; a for&ccedil;a da alma..<\/p>\n<p> O LUME Agora, no Inverno, no campo, as noites s&atilde;o &aacute;speras<br \/>\n    e hostis. Toda a Natureza est&aacute; impass&iacute;vel e entorpecida, esperando<br \/>\n    a fermenta&ccedil;&atilde;o violenta das seivas. As &aacute;rvores erguem<br \/>\n    os bra&ccedil;os nus, miser&aacute;veis e suplicantes. E as &aacute;guas,<br \/>\n    que no Outono estavam quietas e p&aacute;lidas, e que em Maio faziam claras<br \/>\n    murmura&ccedil;&otilde;es, t&atilde;o mel&oacute;dicas como o ritmo de um<br \/>\n    id&iacute;lio latino, t&ecirc;m agora vozes vingativas e m&aacute;s. O vento<br \/>\n    &eacute; rouco e lento como um canto cat&oacute;lico de of&iacute;cios: as<br \/>\n    chuvas caem de cima, como esc&aacute;rnios triunfantes e ruidosos.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes vem a Lua  n&atilde;o aquela imaculada Lua cor de<br \/>\n    opala, donde se exala um nevoeiro magn&eacute;tico que faz a alma docemente<br \/>\n    doente, mas uma Lua met&aacute;lica, fria e l&iacute;vida, como a face dos<br \/>\n    corpos finados nas legendas cat&oacute;licas.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o o homem sente a sua pequenina e in&uacute;til alma afundar-se<br \/>\n    no t&eacute;dio, silenciosamente, como um navio roto numa calmaria, e vai<br \/>\n    por instinto dar-se &agrave; intimidade consoladora da lareira, das brasas<br \/>\n    e do fogo. E enquanto a for&ccedil;a vital se dissolve numa sonol&ecirc;ncia<br \/>\n    fluida, ele sente aos seus p&eacute;s uma pequena voz, alegre, inquieta, clara,<br \/>\n    que lhe fala como num &ecirc;xtase profano: &laquo;Sou eu&raquo;, diz a voz,<br \/>\n    &laquo;eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o teu velho Deus misterioso.<br \/>\n    Eu que te quero bem, e que te dei o que h&aacute; em ti de grande e justo<br \/>\n     a fam&iacute;lia e o trabalho. A minha hist&oacute;ria &eacute; triste,<br \/>\n    luminosa e terr&iacute;vel, imunda e meiga. Eu fui o teu companheiro das noites<br \/>\n    da &Iacute;ndia, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch das regi&otilde;es<br \/>\n    da velha &Aacute;frica, ensanguentado e tr&aacute;gico: e sou agora o escravo<br \/>\n    a quem tu mandas mover as m&aacute;quinas.<\/p>\n<p> Sempre escondido e silencioso, ocupando a um canto o mais pequeno espa&ccedil;o<br \/>\n    da casa, eu venho todo jovial e radioso quando tu me chamas, e fico, nas tuas<br \/>\n    horas negras de dor e de mis&eacute;ria, calado ao p&eacute; de ti, lambendo-te<br \/>\n    os p&eacute;s como um c&atilde;o. Na &Iacute;ndia, lembras-te?, durante noites<br \/>\n    primitivas, eu fui o teu bom Agni que te alumiava, que espantava os chacais<br \/>\n    e as on&ccedil;as, e protegia, como um templo, os teus amores religiosos e<br \/>\n    simples. Escondia-me nas pedras e nos paus secos: assim para onde tu fosses,<br \/>\n    ou solit&aacute;rio ou em bando, encontravas-me sempre aos teus p&eacute;s,<br \/>\n    bom e humilde. Foi ao p&eacute; de mim que tu criaste a trindade humana da<br \/>\n    fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Era ao p&eacute; de mim que tu descansavas dos teus b&aacute;rbaros trabalhos,<br \/>\n    no princ&iacute;pio, quando a vasta Natureza te combatia. E eu era o amigo<br \/>\n    &uacute;nico, o aliado radioso. Eu tive a confid&ecirc;ncia dos teus primeiros<br \/>\n    beijos. E eu sabia as tuas dores e os teus medos.<\/p>\n<p> Tinhas em redor de ti a hostilidade dispersa: a grande floresta tenebrosa,<br \/>\n    que depois foi para ti ber&ccedil;o, lenha, morada, navio, defesa e forca,<br \/>\n    era ent&atilde;o a tua sepultura iminente. Quando sa&iacute;as de ao p&eacute;<br \/>\n    de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te s&oacute;, entre os<br \/>\n    seres implac&aacute;veis, o mar que te ladrava, a vegeta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    espinhosa que te mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sud&aacute;rios.<br \/>\n    Tudo, sob a press&atilde;o doentia do Sol, era para ti for&ccedil;a inimiga<br \/>\n    ou forma resplandecente do mal. E s&oacute; quando voltavas, encontravas o<br \/>\n    teu bom lume que te enxugava, que te alumiava, que te dava o p&atilde;o, a<br \/>\n    for&ccedil;a e a f&eacute;. Eu e a mulher, a minha companheira celeste e silenciosa,<br \/>\n    fic&aacute;vamos em casa, esperando os teus cansa&ccedil;os. Ela fiava, limpava<br \/>\n    o ch&atilde;o da cabana, tirava a &aacute;gua fresca e adormecia o filho no<br \/>\n    seio branco como num leito espiritual: eu estava quieto e atento, combatendo<br \/>\n    a sombra e a noite, vencendo a humidade trai&ccedil;oeira, fazendo um dossel<br \/>\n    de vida e de luz para o teu sono, dando &agrave; cabana a serenidade t&eacute;pida,<br \/>\n    e &agrave;s tuas fadigas um para&iacute;so de sossego, de sil&ecirc;ncio e<br \/>\n    de calor.<\/p>\n<p> Em volta de mim, criou-se a fam&iacute;lia. Eu era o purificador da tua<br \/>\n    natureza. Era o.<\/p>\n<p> Deus presente e bom, que fecunda as almas, fortalece os bra&ccedil;os e<br \/>\n    ampara na hora das dores.<\/p>\n<p> Eu tenho ainda por ti aquele amor servil e adulador, que se glorifica quando<br \/>\n    abdica, que tem um &ecirc;xtase quando se d&aacute; a uma humilha&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Quando te afastas, quando me deixas, fico triste, amorte&ccedil;o-me, toda<br \/>\n    esta grande alma de chama, que te quer t&atilde;o bem, se definha, e apenas<br \/>\n    ficam as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas j&aacute; inertes e cheias<br \/>\n    de negro  justamente como o corpo de um amor abandonado.<\/p>\n<p> &lsquo;Mas quando vens para mim, quando me estendes a m&atilde;o, como para<br \/>\n    um afago, quando me revolves, desperto, revivo, canto salmos de luz, requebro-me<br \/>\n    como uma mulher que se abandona, tenho vivacidades que s&atilde;o gritos de<br \/>\n    fogo, tenho cintila&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o beijos; e como numa rapariga<br \/>\n    para quem o inconstante bem-amado volta, toda a tristeza se desfaz em rir,<br \/>\n    eu mais infeliz, que n&atilde;o tenho o riso, aurora sonora dos l&aacute;bios,<br \/>\n    toda a minha dor e o meu abatimento se vai somente em fumo! Por ti tenho feito<br \/>\n    mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, Jo&atilde;o Huss, tantos santos, e tantos<br \/>\n    m&aacute;rtires, e tantos alucinados de Deus! Fui eu que queimei, nas cidades<br \/>\n    misteriosas de &Aacute;frica, as crian&ccedil;as e as virgens no altar de<br \/>\n    Moloch.<\/p>\n<p> Por ti, eu que sou a paz, fui a devasta&ccedil;&atilde;o. Estou fatigado.<br \/>\n    Durante os tempos tenho sido o camarada, o amigo, o servo, o vigia, o c&atilde;o,<br \/>\n    o confidente, o p&atilde;o, o calor, a vida  n&atilde;o queiras que<br \/>\n    eu seja o carrasco! Podia ir contigo, insensivelmente, lareira, se era o teu<br \/>\n    amor que me assoprava, inc&ecirc;ndio, se era a tua c&oacute;lera<br \/>\n    no tempo em que tu eras uma for&ccedil;a inconsciente e fatal. Mas hoje &eacute;s<br \/>\n    uma consci&ecirc;ncia. Contigo s&oacute; me aliarei para ser f&eacute;, consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e paz.<\/p>\n<p> Sendo paz e f&eacute;, &eacute; que eu te tenho consolado das servid&otilde;es<br \/>\n    dolorosas.<\/p>\n<p> No tempo das catedrais, quando tu nada tinhas, nem o amor, nem o p&atilde;o<br \/>\n    livre, nem a voz, nem o sono, nem a esperan&ccedil;a, eu dei-te o que mais<br \/>\n    agrada ao escravo  o direito de mandar. Em volta de mim, a fam&iacute;lia<br \/>\n    ajoelhava &agrave; tua voz, rezava ao teu olhar, erguia a h&oacute;stia do<br \/>\n    amor 41  ao teu cora&ccedil;&atilde;o. Eras servo e tinhas estas grandezas:<br \/>\n    era eu que tas dava: como? Pela f&eacute;, pela paz, pela consola&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pela uni&atilde;o. Para ti, eu tenho representado a ess&ecirc;ncia humana.<br \/>\n    Eu tenho advogado a causa da vida.<\/p>\n<p> A minha irradia&ccedil;&atilde;o lenta e amorosa dissipou o misticismo.<br \/>\n    Eu sou o bem. A fam&iacute;lia e o trabalho, a educa&ccedil;&atilde;o, esta<br \/>\n    trindade misteriosa da vida, tudo est&aacute; em mim.<\/p>\n<p> Toda a felicidade humana canta, ama, ora, no c&iacute;rculo da minha luz.<br \/>\n    Tudo para al&eacute;m &eacute; sombra  sombra na parede, e sombra na<br \/>\n    alma. Procuras o ideal na religi&atilde;o, na conquista, na arte; debalde:<br \/>\n    trabalhas, adoeces, morres, apodreces: vida in&uacute;til! Os &uacute;nicos<br \/>\n    momentos verdadeiros e s&atilde;os foram aqueles em que estiveste ao p&eacute;<br \/>\n    de mim, olhando castamente a mulher, ensinando a ler a crian&ccedil;a. Ent&atilde;o<br \/>\n    realizaste o ideal, o s&iacute;mbolo Deus, que as religi&otilde;es<br \/>\n    esbo&ccedil;am e as criticas dissipam.<\/p>\n<p> Lembras-te da &Iacute;ndia? Ali tinhas uma cabana, a tua mulher, branca<br \/>\n    e mais doce que a l&atilde; dos novilhos, e o filho, encarna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    misteriosa do amor das almas, e a minha doce presen&ccedil;a. Trabalhavas,<br \/>\n    aqueciaste, amavas, dormias. A alma vivia em ti no estado de pressentimento.<br \/>\n    Tinhas apenas do ser interior o bastante para um dia, mais tarde, dirigires<br \/>\n    a bela e serena educa&ccedil;&atilde;o do teu filho.<\/p>\n<p> Depois disso, tens tido uma vida lengend&aacute;ria de lutas, de cria&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de religi&otilde;es, de conquistas, de descobertas, de ideais.<\/p>\n<p> O que aumentaste em ti? Nada: apenas a tristeza, o desfalecimento, a dor<br \/>\n    e o mal.<\/p>\n<p> 41 No texto da Gazeta de Not&iacute;cias, &laquo;amo&raquo;..<\/p>\n<p> Eras puro e s&atilde;o, est&aacute;s m&oacute;rbido e enfraquecido. Eras<br \/>\n    forte, est&aacute;s raqu&iacute;tico. Eras sereno, est&aacute;s torturado.<br \/>\n    O teu bom riso &eacute; uma triste ironia: o teu largo olhar &eacute; uma<br \/>\n    &aacute;spera desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Tinhas por inimiga a Natureza. Venceste-la? N&atilde;o. Absorveste-la. E<br \/>\n    tudo o que ela tinha de terr&iacute;vel e de doloroso, tudo hoje tu tens:<br \/>\n    a independ&ecirc;ncia desesperada do mar, o mist&eacute;rio doentio da floresta,<br \/>\n    o choro aflito das &aacute;guas, a inquieta&ccedil;&atilde;o do vento, a barbaridade<br \/>\n    das feras, a escurid&atilde;o supersticiosa dos astros, tudo hoje est&aacute;<br \/>\n    em ti, com surdas irrita&ccedil;&otilde;es, com rebeli&otilde;es formid&aacute;veis.<br \/>\n    A&iacute; est&aacute;. De cada vez que te afastaste de mim, do sossego do<br \/>\n    meu calor, voltaste trazendo uma chaga.<\/p>\n<p> Foste criar o misticismo, vieste com a nostalgia incur&aacute;vel. Quiseste<br \/>\n    criar os Direitos do Homem, trouxeste um mal divino chamado Liberdade, que<br \/>\n    vai sempre fugindo de ti, e s&oacute; &agrave;s vezes se volta de repente,<br \/>\n    para te borrifar de sangue! Quiseste ir construir a adora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do corpo e da mat&eacute;ria exclusiva, trouxeste o elemento dissolvente da<br \/>\n    for&ccedil;a e o ego&iacute;smo brutal.<\/p>\n<p> N&atilde;o tens dado um passo de mais para o bem. As tuas obras ai est&atilde;o<br \/>\n    imensas, acumuladas, contradit&oacute;rias e in&uacute;teis. Tens uma complica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    infinita de asas que te impede o voo.<\/p>\n<p> A mim, abandonaste-me.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o me apaguei. Durante as revolu&ccedil;&otilde;es e as lutas,<br \/>\n    andei errante, miser&aacute;vel, sobrecarregado de inf&acirc;mias, e, para<br \/>\n    viver, vendendo-me ao carrasco! Mas conservei sempre a minha chama, casta<br \/>\n    e familiar, para o dia em que quisesses vir, tristemente, enxugar-te ao meu<br \/>\n    calor do sangue dos teus irm&atilde;os.<\/p>\n<p> Vem para junto de mim. Eu sou completo. Correspondo a todos os teus instintos<br \/>\n    luminosos, ou sagrados, ou materiais, ou lascivos. Eu dou-te o p&atilde;o,<br \/>\n    o calor, a fortaleza, dou-te as vis&otilde;es que s&atilde;o a poesia do movimento<br \/>\n    na alma, dou-te a sensualidade sonolenta que exala amor, dou-te a serenidade<br \/>\n    que disp&otilde;e para a contempla&ccedil;&atilde;o e a for&ccedil;a que prepara<br \/>\n    para o trabalho. Eu sou a cura, inteligente e boa, do mal natural. Eu alumio-te<br \/>\n    nas vig&iacute;lias dolorosas. Quando est&aacute;s entorpecido na doen&ccedil;a,<br \/>\n    eu, pequenino e encolhido, tremo ao p&eacute; de ti. Quando morres e a tua<br \/>\n    alma vai partir, eu alumio-lhe o caminho de Deus. Eu cerco Cristo nos altares,<br \/>\n    para que tu o vejas bem. Quando andas no mar, eu sou junto das praias o grito<br \/>\n    de luz que te chama.<\/p>\n<p> E o que fazes tu em paga deste amor que se d&aacute;, que cria e que purifica?<br \/>\n    Esmagas-me.<\/p>\n<p> Fazes-me o escravo das m&aacute;quinas. A mim que embalava as almas, fazes-me<br \/>\n    mover os a&ccedil;os.<\/p>\n<p> Embalo que era amor, movimento que &eacute; for&ccedil;a: os dois termos<br \/>\n    da tua vida  pureza e putrefac&ccedil;&atilde;o! Eu que vivia, alumiava,<br \/>\n    criava em liberdade, estou encadeado e martirizado na tarefa brutal das ind&uacute;strias.<br \/>\n    Fazes-me o motor da tua mis&eacute;ria. Nas f&aacute;bricas, as criaturas<br \/>\n    doentias, as crian&ccedil;as estioladas, as mulheres definhadas e solu&ccedil;antes.<br \/>\n    Fazes-me mover a vapor estas mis&eacute;rias. Sou o colaborador dos teus mart&iacute;rios.<br \/>\n    Tu, homem, tomas o fogo. o ser sagrado, por ajudante de execu&ccedil;&otilde;es!<br \/>\n    D&aacute;s-me por sal&aacute;rio a inf&acirc;mia. Fazes de mim explos&atilde;o.<\/p>\n<p> Obrigas-me a devastar na guerra! Eu que sou a pureza, o trabalho, a fam&iacute;lia,<br \/>\n    a paix&atilde;o casta: levas-me a ser o mal, a viuvez, o pranto e a dor! Tenho<br \/>\n    um cortejo de ambul&acirc;ncias e de macas, eu que era o firmamento dos ber&ccedil;os!<br \/>\n    N&atilde;o! Maldita seja a &aacute;rvore que consentir em ser forca e o fogo<br \/>\n    que consentir em ser explos&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o quero que na minha vegeta&ccedil;&atilde;o de luz haja um orvalho<br \/>\n    de sangue. N&atilde;o quero que o vento, ao embalar-me, fa&ccedil;a soltar<br \/>\n    os gritos e os choros que se tivessem aninhado em mim. Tu, homem, s&ecirc;<br \/>\n    piedoso e justo. Eu alumio o mais que posso as igrejas, mas parece-me que<br \/>\n    tu n&atilde;o v&ecirc;s bem a Cristo. N&atilde;o, deixa-me ser a pureza, a<br \/>\n    gra&ccedil;a, a fam&iacute;lia, a intimidade casta e o bem.<\/p>\n<p> Pe&ccedil;o-te. rojando-me como um mendigo. Oh!, homem. oh!. meu velho camarada<br \/>\n    das choupanas da &Iacute;ndia!, n&atilde;o me fa&ccedil;as ser explos&atilde;o,<br \/>\n    morte e devasta&ccedil;&atilde;o, para que eu no dia de pureza e de castidade,<br \/>\n    quando estiver alumiando e. aquecendo os beijos. as ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e os ber&ccedil;os  n&atilde;o sinta entre as minhas chamas bailarem<br \/>\n    espectros!&raquo;.<\/p>\n<p> MEFIST&Oacute;FELES No Fausto de Charles Gounod a figura dram&aacute;tica<br \/>\n    e sint&eacute;tica &eacute; Mefist&oacute;feles.<\/p>\n<p> Em volta dele, Fausto canta artificialmente como um l&iacute;rico histri&atilde;o<br \/>\n    de &oacute;peras; Margarida sente as primeiras rebeli&otilde;es nervosas do<br \/>\n    desejo; Siebel estremece com a nascente seiva do amor, como o antigo Querubim;<br \/>\n    os batalh&otilde;es g&oacute;ticos t&ecirc;m instrumenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    triunfantes; a alma legend&aacute;ria do rei de Tule canta na sua torre que<br \/>\n    molha a espuma do mar; o povo celebra as quermesses, e os judeus dizem a m&uacute;sica<br \/>\n    da avareza: mas s&oacute; Mefist&oacute;feles vive! E a sua grande figura<br \/>\n    angulosa, nervosa, el&aacute;stica, incisiva, atravessa o drama com os seus<br \/>\n    lirismos nost&aacute;lgicos, as suas sensualidades tristes, os seus misticismos<br \/>\n    artificiais  glorificando a for&ccedil;a brutal do dinheiro, escarne-cendo<br \/>\n    as castidades expirantes, empurrando o Fausto espiritualista para a viol&ecirc;ncia<br \/>\n    lasciva, combatendo a serena inspira&ccedil;&atilde;o do Cristo, negociando<br \/>\n    em almas, e abatendo toda a penosa constru&ccedil;&atilde;o da honra, do dever,<br \/>\n    do perd&atilde;o, do amor, da purifica&ccedil;&atilde;o  com o riso<br \/>\n    tr&aacute;gico do mal! Aquela &oacute;pera &eacute; uma simples aventura do<br \/>\n    antigo Diabo.<\/p>\n<p> Nela, o Fausto n&atilde;o &eacute; o s&aacute;bio que penetrou a medicina,<br \/>\n    a f&iacute;sica, a l&oacute;gica, a dial&eacute;ctica, a dogm&aacute;tica,<br \/>\n    a teologia, a metaf&iacute;sica, para quem os seis mil anos do passado s&atilde;o<br \/>\n    apenas o pref&aacute;cio do saber humano, que procura o X terr&iacute;vel<br \/>\n    da equa&ccedil;&atilde;o dos. astros, e que ao ru&iacute;do que faz a sua<br \/>\n    alma buscando atrav&eacute;s da Natureza o Deus fugitivo, o Mist&eacute;rio,<br \/>\n    s&oacute; consegue despertar os dormentes do seu cora&ccedil;&atilde;o, os<br \/>\n    desejos, os beijos luminosos, e as languidezas silenciosas: n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o homem que se enoja das vazias realidades da vida e da paix&atilde;o, e que<br \/>\n    se recolhe num estoicismo tr&aacute;gico, tendo todavia, sempre, dentro do<br \/>\n    peito, o coro solu&ccedil;ante e rebelde dos desejos infinitos e das &aacute;speras<br \/>\n    curiosidades, at&eacute; que enfim, mais sereno e transfigurado, vai ao fundo<br \/>\n    do mundo antigo buscar o corpo sublime de Helena e tem dela, que &eacute;<br \/>\n    o ideal da forma antiga, um filho, Euf&oacute;rion, que &eacute; o ideal do<br \/>\n    esp&iacute;rito moderno.<\/p>\n<p> N&atilde;o. Na &oacute;pera, Fausto &eacute; simplesmente um daqueles ambiciosos<br \/>\n    grotescos, que contratavam por escrito com o velho Diabo, nos claustros malditos,<br \/>\n    e lhe compravam a realiza&ccedil;&atilde;o de um desejo por uma pequena coisa<br \/>\n    desprez&iacute;vel, menos valiosa que o dinheiro e que os estofos, uma coisa<br \/>\n    in&uacute;til e est&eacute;ril, que se lhe atirava desabridamente<br \/>\n    e que era simplesmente a alma! As legendas est&atilde;o cheias destas negocia&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Corn&eacute;lio Agripa vende a alma pelos segredos da filosofia; o abade<br \/>\n    de Tritheim, pelo segredo da circula&ccedil;&atilde;o do sangue; Falstaff<br \/>\n    vende a alma, numa Sexta-Feira Santa, &agrave; noite, quando estavam fechadas<br \/>\n    as tabernas de Londres, por uma garrafa de vinho de Espanha e uma perna de<br \/>\n    cap&atilde;o. Lu&iacute;s Gaufridi, pelo poder de exaltar nervosamente as<br \/>\n    mulheres. Um lacaio do Marais, pela felicidade aos dados. Ricardo Dugdale,<br \/>\n    um namorador do condado de Landshire, por uma li&ccedil;&atilde;o de dan&ccedil;a!<br \/>\n    Todos estes! Fausto vende desprendidamente a alma pelo amor vulgar de uma<br \/>\n    rapariga clara e loura, que tinha um modo celeste de fiar, cantando! O Diabo<br \/>\n    cumpria escrupulosamente o contrato: havia para estas negocia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    uma jurisprud&ecirc;ncia dogm&aacute;tica. Sujeitava-se mesmo a acompanhar<br \/>\n    o contratador, como uma inspira&ccedil;&atilde;o vis&iacute;vel, como um camarada<br \/>\n    de perigos, para lhe facilitar a ampla realiza&ccedil;&atilde;o do desejo.<br \/>\n    Seguia Agripa sob a forma de um escudeiro, vestido de negro, com o nome de<br \/>\n    &laquo;Sujeito&raquo;. Seguia Fausto, vestido de escarlate, com o nome de<br \/>\n    &laquo;Mefist&oacute;feles&raquo;. Nada mais.<\/p>\n<p> Margarida n&atilde;o &eacute;, na &oacute;pera de Gounod, como em Goethe,<br \/>\n    o s&iacute;mbolo da alma alem&atilde;, simples, casta, sofredora, daquela<br \/>\n    alma alem&atilde; que, como na Melancolia de Alberto D&uuml;rer, quando a<br \/>\n    mat&eacute;ria, a tirania, a desesperan&ccedil;a a oprimem, s&oacute; sabe,<br \/>\n    resignadamente, dobrar as suas asas; aquela alma alem&atilde; que exala toda<br \/>\n    a sua imensa dor em frescas cantigas religiosamente humanas, que tem todas<br \/>\n    as simplicidades, todas as intelig&ecirc;ncias, todos os deveres, que quando<br \/>\n    olha para a terra &eacute; para amar, quando olha para o c&eacute;u &eacute;<br \/>\n    para orar, quando olha para si &eacute; para morrer. N&atilde;o. A Margarida<br \/>\n    da m&uacute;sica s&aacute;bia de Gounod &eacute; uma alma l&iacute;rica, nebulosa,<br \/>\n    nost&aacute;lgica, sensual, para quem o amor &eacute; um magnetismo suave,<br \/>\n    a ora&ccedil;&atilde;o uma luta com o mal, a morte um libertamento rom&acirc;ntico<br \/>\n    da vida  insuficiente e vazia. Este Fausto tem na alma um lirismo teatral,<br \/>\n    esta Margarida um para&iacute;so artificial.<\/p>\n<p> Mas ele, o bom Mefist&oacute;feles, tem uma vida real e poderosa. E ele<br \/>\n     a antiga criatura terr&iacute;vel e grotesca, vaidosa, infame e tr&aacute;gica.<br \/>\n    &Eacute; o antigo Satan&aacute;s das legendas. E ele  o mesmo a quem<br \/>\n    os Sev&eacute;rios ouviram dizer que antes queria devorar uma alma do que<br \/>\n    voltar, entre purifica&ccedil;&otilde;es, para os seus antigos camaradas,<br \/>\n    os astros, sidera lucida! E ele, o eterno inspirador dos her&eacute;ticos<br \/>\n    e dos impostores, ele que ensinava os or&aacute;culos aos crocodilos de Arsino&eacute;,<br \/>\n    e aos carvalhos prof&eacute;ticos de Dodona, e que dava a Man&eacute;s, o<br \/>\n    homem &iacute;mpio, a asc&eacute;tica palidez dos monges, como d&aacute; a<br \/>\n    Fausto, velho e t&eacute;pido, o resplandecente magnetismo do olhar. Ele,<br \/>\n    que segundo as tradi&ccedil;&otilde;es judaicas, inventou os enfeites e as<br \/>\n    j&oacute;ias para ferir os castos instintos da mulher  e que atirava<br \/>\n    os corais ao rega&ccedil;o das mulheres de Brabante, como mostra a Margarida<br \/>\n    a cor trai&ccedil;oeira e hip&oacute;crita das p&eacute;rolas. E ele o mesmo<br \/>\n    que em Babil&oacute;nia tomava as atitudes hier&aacute;ticas de um Deus, e<br \/>\n    fugia do olhar de Daniel  como na quermesse de Leipzig toma a voz sinistra<br \/>\n    e rouca do dinheiro, e cai torturado e cobarde diante da serena apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das cruzes das espadas.<\/p>\n<p> &Eacute; ele o antigo Diabo que dava aos monges da Tebaida o mal da acedia,<br \/>\n    como d&aacute; &agrave; pobre Margarida o mal do amor. Tortura os monges do<br \/>\n    Ocidente; d&aacute;-lhes as chagas e as dores de Job, envolve-os nas vis&otilde;es<br \/>\n    magn&iacute;ficas do mal.<\/p>\n<p> As virgens di&aacute;fanas fazem, no sil&ecirc;ncio da noite, as mil ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da prostra&ccedil;&atilde;o: os monges passam os anos em jejuns dolorosos.<br \/>\n    Debalde! Se se deitam na neve  a neve toma um calor vital e lascivo<br \/>\n    que os definha: se bebem a &aacute;gua fria e purificadora das fontes<br \/>\n    a &aacute;gua d&aacute;-lhes ao corpo a palpita&ccedil;&atilde;o dos vastos<br \/>\n    apetites. Se querem rezar no sil&ecirc;ncio, ouvem os risos ambros&iacute;acos<br \/>\n    dos deuses sensuais, e o gemer desfalecido dos bandolins. Tamb&eacute;m a<br \/>\n    pobre Margarida, se queria fiar castamente e chorar o velho rei de Tule, sentia<br \/>\n    a melodia da carne cantar-lhe baixo: &laquo;V&ecirc; como Fausto, o cavaleiro<br \/>\n    do veludo, &eacute; branco, e belo, e s&atilde;o, e forte!&raquo; Os monges<br \/>\n    de Alexandria andavam de noite, pelos cor redores solit&aacute;rios e sonoros,<br \/>\n    com as cruzes al&ccedil;adas, cantando, para o afastar, os vers&iacute;culos<br \/>\n    do Evangelho, e regando com &aacute;gua santa as lajes do claustro: assim<br \/>\n    o gentil Siebel asperge, tristemente, as flores maculadas de Maio.<\/p>\n<p> E ao mesmo tempo este Diabo terr&iacute;vel, que andava disperso nos elementos,<br \/>\n    de tal sorte que o vento era a sua tosse, ele que era o carrasco da Inquisi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a fera dram&aacute;tica das almas, ele que redigiu a senten&ccedil;a de Cristo,<br \/>\n    que acendeu as fogueiras das feiticeiras, que celebrava o sabbat, onde &agrave;<br \/>\n    luz de uma l&acirc;mpada sem &oacute;leo pregava o serm&atilde;o dos sete<br \/>\n    pecados, ele que tinha por filhos Menino, Roberto de Normandia, Atila e os<br \/>\n    Hunos, era ao mesmo tempo jovial, grotesco, bailarino, poeta, jogador e palha&ccedil;o.<br \/>\n    Bebia gloriosamente o vinho das missas do Papa. Tinha uma taberna no Inferno,<br \/>\n    onde se comiam, com molho de beata, as almas dos usur&aacute;rios. Dava serenatas<br \/>\n    &agrave;s patr&iacute;cias de Veneza.<\/p>\n<p> Fazia sonetos correctos e acad&eacute;micos &agrave;s abadessas de Vecker.<br \/>\n    Vestia-se de veludos e de sedas, emprestava dinheiro aos estudantes das universidades<br \/>\n    livre se assinava-se &laquo;Belzebu, cozinheiro do Inferno&raquo;. Os trovadores<br \/>\n    cantaram esta legenda faceta das farsas de Sat&atilde;..<\/p>\n<p> Tomou tanta familiaridade com o homem que Lutero sujou-o de tinta, e Rabelais<br \/>\n    deu-lhe piparotes. Na Alemanha, na noite de 30 de Abril, dava um sarau magn&iacute;fico<br \/>\n    nas alturas de Borx- Belg. Era a noite de Walpurgis. Havia a grande dan&ccedil;a<br \/>\n    das nudezas. Nas noites claras as estrelas assistiam, com a impassibilidade<br \/>\n    de vestais.<\/p>\n<p> Assim &eacute; a figura complexa de Mefist&oacute;feles. Durante a &oacute;pera<br \/>\n    de Ch. de Gounod, esta individualidade sinistra deixa escorrer sobre o drama<br \/>\n    dos amores e dos arrependimentos o seu desprezo resplandecente e ruidoso,<br \/>\n    como aquelas figuras de Sat&atilde; que nas catedrais da Alemanha deixam cair<br \/>\n    do &uacute;ltimo coruch&eacute;u uma risada de pedra, que nos nichos, nas<br \/>\n    esculturas, nas ros&aacute;ceas, nos fustes, nos baixos-relevos, em todas<br \/>\n    as figuras de santos, de virgens e de anjos  vai gelar as aspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ideais e os sentimentos do c&eacute;u.<\/p>\n<p> Toda aquela m&uacute;sica da &oacute;pera que envolve Mefist&oacute;feles<br \/>\n    &eacute; a vaga melodia sombria do mal. Tem o esc&aacute;rnio, tem a viol&ecirc;ncia,<br \/>\n    tem as trevas, a jovialidade e o medo. Range, ri, treme, devasta, insulta<br \/>\n    e vence.<\/p>\n<p> J&uacute;lio Petit realiza admiravelmente esta figura que se prende &agrave;<br \/>\n    trag&eacute;dia, &agrave; farsa, &agrave; fatalidade, &agrave; filosofia,<br \/>\n    ao dogma e &agrave; legenda. Nele, o gesto &eacute; a voz, o riso, o terror,<br \/>\n    o aniquilamento, o orgulho. a perversidade  tudo. A sua interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o poema do movimento. A sua figura, imitada da do Mefist&oacute;feles<br \/>\n    de Ary Scheffer, tem o anguloso, o esguio, o hirto, o adunco do Diabo das<br \/>\n    legendas. Cada gesto &eacute; toda a longa hist&oacute;ria de Sat&atilde;,<br \/>\n    durante a sombria aventura que ele tentou contra o esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Quando, no pr&oacute;logo, contrata a venda da alma do Fausto l&iacute;rico<br \/>\n    e idiota  &eacute; cortes&atilde;o, fluente, insinuante, flex&iacute;vel,<br \/>\n    como o antigo Sat&atilde; quando discutia com Alberto Magno as condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da sua venda: e envolve o Fausto fraco e desfalecido de desejos com as vis&otilde;es<br \/>\n    da vida e com as palpita&ccedil;&otilde;es da natureza sensual, como o Sat&atilde;<br \/>\n    prendia as hesita&ccedil;&otilde;es de Alberto com a vis&atilde;o serena e<br \/>\n    luminosa do segredo das coisas.<\/p>\n<p> Na quermesse, no primeiro acto, tem a familiaridade jovial do Diabo no s&eacute;culo<br \/>\n    XVI, quando viajava na Flandres, e dan&ccedil;ava na corda diante da popula&ccedil;a,<br \/>\n    e lia a buena-dicha, com grandes risadas sinistras, &agrave;s damas corpulentas<br \/>\n    de Brabante. Na can&ccedil;&atilde;o do ouro, &eacute; violento, &aacute;spero.<br \/>\n    apaixonado, rancoroso, como as antigas cronicas mon&aacute;sticas contam que<br \/>\n    era o Diabo, quando dizia a Savonarola, na sua cela do convento dos Dominiquinos,<br \/>\n    em Floren&ccedil;a, o poder das suas armaduras e das sua legi&otilde;es flamejantes.<\/p>\n<p> Durante o coro m&iacute;stico, em que os soldados o esmagam com a cruz das<br \/>\n    espadas, J&uacute;lio Petit faz com alguns gestos o drama da vida infeliz<br \/>\n    do Diabo, perante a serena superioridade do cristianismo: ao princ&iacute;pio,<br \/>\n    medroso e trai&ccedil;oeiro, depois, cheio de desespera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mordendo a sua espada de aparato, como o Sat&atilde; de Milton, vencido, arranha<br \/>\n    raivosamente a sua armadura, por fim abatido, esmagado, deixando-se cair no<br \/>\n    ch&atilde;o, inerte, &agrave;s &uacute;ltimas notas triunfantes do coro crist&atilde;o<br \/>\n     como simbolizando o aniquilamento de Sat&atilde; sob a serena legi&atilde;o<br \/>\n    vitoriosa dos esp&iacute;ritos siderais.<\/p>\n<p> No Jardim, J&uacute;lio Petit &eacute; o Diabo cheio de desprezo pelas delicadezas<br \/>\n    femininas, inquieto pela timidez m&iacute;stica e toda alem&atilde; de Fausto,<br \/>\n    guiando asperamente aquela alma, que vai fazendo, passo a passo, a sua entrada<br \/>\n    no mal.<\/p>\n<p> O &uacute;ltimo gesto magn&iacute;fico &eacute; o empurr&atilde;o que atira<br \/>\n    Fausto para o seio de Margarida, gesto cheio de desprezo, como o de um Diabo<br \/>\n    que atira uma coisa, para ele imunda, a alma de um homem, para outra coisa<br \/>\n    imunda tamb&eacute;m, o seio de uma mulher. Dante descreve gestos semelhantes.<br \/>\n    Assim nos quadros m&iacute;sticos do s&eacute;culo XVI se pinta Sat&atilde;,<br \/>\n    atirando as almas para a sombra tenebrosa, onde se perde a esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Defronte da igreja, no quarto acto, na cena magn&eacute;tica da possess&atilde;o,<br \/>\n    J&uacute;lio Petit faz com o canto e com o gesto a hist&oacute;ria terr&iacute;vel<br \/>\n    daquela batalha que durante a Meia Idade a Natureza deu &agrave; religi&atilde;o.<br \/>\n    O Diabo &eacute; o aliado da Natureza; auxilia o pecado, combate o.<\/p>\n<p> arrependimento. Quando ele se coloca defronte da igreja, com a capa ca&iacute;da,<br \/>\n    semelhando duas asas negras dobradas, faz lembrar aquela vis&atilde;o de Santo<br \/>\n    Ant&oacute;nio, que numa noite de tempestade, no deserto da N&iacute;tria,<br \/>\n    viu, atrav&eacute;s do &ecirc;xtase, no infinito apocal&iacute;ptico, os dois<br \/>\n    grandes bra&ccedil;os de Sat&atilde;, abertos diante do c&eacute;u, a impedirem,<br \/>\n    sinistros, a subida solu&ccedil;ante das almas.<\/p>\n<p> Cria&ccedil;&atilde;o magn&iacute;fica esta de Mefist&oacute;feles, que<br \/>\n    ficar&aacute; gravada na hist&oacute;ria da arte, como, guardadas as propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e as condi&ccedil;&otilde;es de dura&ccedil;&atilde;o, ficaram as realidades<br \/>\n    que Rembrandt pressentiu no mundo sobrenatural! E se &eacute; certo que o<br \/>\n    Diabo morreu, e que j&aacute; lhe fizeram o epit&aacute;fio, e que as suas<br \/>\n    imagens s&atilde;o est&aacute;tuas que o homem lhe ergue, e que, depois de<br \/>\n    morto, teve para dizer a sua beleza Milton, e para dizer a sua trag&eacute;dia<br \/>\n    Dante, se &eacute; certo que se foi juntar, no vasto cemit&eacute;rio azul<br \/>\n    onde os sepulcros s&atilde;o astros, aos finados enormes, que foram os deuses<br \/>\n    da &Iacute;ndia, do Egipto e da Gr&eacute;cia, se &eacute; certo que &eacute;<br \/>\n    por ele morto que o mar geme e que as florestas rezam, se &eacute; certo que<br \/>\n    ele se deitou na serenidade eterna, deixando o homem por herdeiro, se &eacute;<br \/>\n    certo que ele morreu, o bom Diabo  &eacute; tamb&eacute;m verdade que<br \/>\n    esta cria&ccedil;&atilde;o de Mefist&oacute;feles, por este artista<br \/>\n    &eacute; uma ressurrei&ccedil;&atilde;o, e que todas as noites o velho Sat&atilde;<br \/>\n    vem, como no tempo dos seus amores vestido de escarlate, contar sobre uma<br \/>\n    cena resplandecente, entre as instrumenta&ccedil;&otilde;es espl&ecirc;ndidas<br \/>\n     a sua velha legenda da tenta&ccedil;&atilde;o! Mas por desgra&ccedil;a<br \/>\n    as cria&ccedil;&otilde;es do canto e do teatro morrem e esquecem, t&atilde;o<br \/>\n    depressa como os diabos das religi&otilde;es. E a condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tudo o que &eacute; forma  desaparecer. S&oacute; ficam as puras<br \/>\n    idealiza&ccedil;&otilde;es da alma e da Natureza.<\/p>\n<p> Quem se lembra hoje da Malibran, da Sontag, de Talma, de Frederick Lemaire<br \/>\n    e da Dorval? E todavia ainda Shakespeane d&aacute; a sua alma, como uma eucaristia<br \/>\n    da arte, a todas as gera&ccedil;&otilde;es mo&ccedil;as, primaveras sagradas<br \/>\n    e fecundas.<\/p>\n<p> Quem se lembra hoje de Siva, de Brama, de Visnu, de Indra, de Typhon, de<br \/>\n    Os&iacute;nis, de Bel, de Moloch e dos Ol&iacute;mpicos gregos, de nomes sonoros,<br \/>\n    e de toda a imensa legi&atilde;o dos esbo&ccedil;os de Deus? E todavia, um<br \/>\n    ficou, o elemento espiritual e ideal, aquele que preside sereno  &agrave;<br \/>\n    tragicom&eacute;dia da alma!.<\/p>\n<p> ONF&Aacute;LIA BENOITON Quem se lembra hoje da hist&oacute;ria de Onf&aacute;lia<br \/>\n    Benoiton, uma mulher nervosa, e de Est&ecirc;v&atilde;o Basco, um homem vencido<br \/>\n    e esquecido, e que todavia foi um homem? As canas que contam essa hist&oacute;ria<br \/>\n    de mart&iacute;rios reais e de falsas glorifica&ccedil;&otilde;es, tenho eu<br \/>\n    a alegria mefistof&eacute;lica e b&aacute;rbara de as copiar aqui.<\/p>\n<p> A primeira carta assinada unicamente por uma letra  Z.  &eacute;<br \/>\n    o documento incisivo e l&uacute;cido da Sr&ordf; Onf&aacute;lia Benoiton.<br \/>\n    &Eacute; assim: &laquo;A Sr&ordf; Onf&aacute;lia Benoiton, meu caro, &eacute;<br \/>\n    descendente das belezas gregas. Mesma materialidade de forma correcta e fria.<br \/>\n    Somente as mulheres gregas eram musas, cantavam nos festins ao modo j&oacute;nio,<br \/>\n    coroadas de mirtos; discutiam com os s&aacute;bios e com os fil&oacute;sofos,<br \/>\n    celebravam com as t&uacute;nicas soltas as El&ecirc;usis de Baco, edificavam<br \/>\n    cidades, eram os modelos da arte e a inspira&ccedil;&atilde;o dos tiranos.<br \/>\n    E a Sr&ordf; Onf&aacute;lia Benoiton, com os seus vestu&aacute;rios onde h&aacute;<br \/>\n    uma provoca&ccedil;&atilde;o especuladora, as suas atitudes masculinas, os<br \/>\n    penteados disformes que lhe d&atilde;o uma apar&ecirc;ncia de animalidade<br \/>\n    audaz, com a sua pele colorida, acumula&ccedil;&otilde;es da sua vida de fadiga<br \/>\n    trivial e de aparato sonolento, lembra uma daquelas V&eacute;nus de corpos<br \/>\n    harm&oacute;nicos, que depois de ter atravessado este ex&iacute;lio moderno,<br \/>\n    a velhice, a mis&eacute;ria, e o v&iacute;cio imbecil  se vestisse<br \/>\n    de roupas b&aacute;rbaras e grotescas, para parecer ainda, de longe, &agrave;<br \/>\n    luz solu&ccedil;ante do g&aacute;s, um &iacute;dolo material  aos idiotas!<br \/>\n    A Sr&ordf; Onf&aacute;lia Benoiton &eacute; um pouco magra e nervosa. E um<br \/>\n    corpo alto, coberto de estofos, pedestal de um cr&acirc;nio vazio. As suas<br \/>\n    formas, dignas talvez do biscuit, sem contorno inteligente e espiritual, n&atilde;o<br \/>\n    conseguem encobrir o lodo primitivo. Nenhuma ideia nas atitudes e nos gestos:<br \/>\n    s&oacute; a ret&oacute;rica da futilidade. Tem uma gra&ccedil;a oficial; comp&otilde;e<br \/>\n    um olhar com o mesmo trabalho compassado e m&eacute;trico com que um poeta<br \/>\n    arc&aacute;dico cinzela um verso. Tem sempre a pele admiravelmente colorida:<br \/>\n    tem o segredo do rosado da face casta e transparente.<\/p>\n<p> Desenha as sobrancelhas com a delicadeza de um artista chin&ecirc;s. P&otilde;e<br \/>\n    em redor do olhar uma cor de s&eacute;pia ligeira semelhando a fadiga, invej&aacute;vel<br \/>\n    para uma imagem de Imp&eacute;ria ou de Vinon.<\/p>\n<p> A sua fisionomia bela e trivial tem a vaga inten&ccedil;&atilde;o das aves<br \/>\n    de rapina. Toma umas atitudes de t&eacute;dio e de indol&ecirc;ncia, semelhantes<br \/>\n    &agrave;s que t&ecirc;m os viciosos de absinto.<\/p>\n<p> Caminha com o seio erguido, com a pompa de quem arrasta atr&aacute;s de<br \/>\n    si toda a atmosfera e o ar de todos os peitos. Dan&ccedil;a com os movimentos<br \/>\n    melodiosos que teria Juno se tivesse passado dois s&eacute;culos a frequentar<br \/>\n    os casinos. Tem uma bela fragilidade muscular, um ap2tite vasto e um amor<br \/>\n    c&aacute;lido das bebidas. As ind&uacute;strias t&ecirc;m maculado aquele<br \/>\n    corpo: o g&aacute;s amoleceu-lhe o olhar, os espartilhos de Birmingham desvaneceram-lhe<br \/>\n    o modo feminino. Pelo materialismo idiota &eacute; muito inferior aos &iacute;dolos<br \/>\n    eg&iacute;pcios, pela originalidade ris&iacute;vel do vestu&aacute;rio superior<br \/>\n    &agrave;s caricaturas chinesas.<\/p>\n<p> &Eacute; toda a s&iacute;ntese do nosso tempo: &eacute; a entrevista grotesca<br \/>\n    dos erros modernos. O olhar met&aacute;lico &eacute; o s&iacute;mbolo do dinheiro.<br \/>\n    A boca &eacute; nervosa e m&oacute;bil, os dentes acerados e de um branco<br \/>\n    morto: &eacute; a difama&ccedil;&atilde;o, a intriga, a palavra f&uacute;til<br \/>\n    que corr&oacute;i as constru&ccedil;&otilde;es da alma.<\/p>\n<p> A m&atilde;o delgada, flex&iacute;vel, magra, adunca, significa a agiotagem,<br \/>\n    o materialismo avaro e covarde.<\/p>\n<p> Onf&aacute;lia Benoiton &eacute; a tragicom&eacute;dia da afecta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da vaidade. Para modelar a sua alma seria necess&aacute;rio inventar uma<br \/>\n    lama. Colocada inferiormente, prende-se a todas as. ideias oficiais, aristocracia,<br \/>\n    realeza, eleg&acirc;ncia, moda, com a mesma insist&ecirc;ncia violenta e vaidosa<br \/>\n    com o que o p&oacute; se prende ao veludo.<\/p>\n<p> Tem uma maneira insultante e v&atilde; de fazer os seus vestu&aacute;rios<br \/>\n     de tal sorte que o seu chignon parece uma carranca feita ao c&eacute;u,<br \/>\n    e as suas caudas beijos dados &agrave; lama. A sua exist&ecirc;ncia &eacute;<br \/>\n    pintar-se, fazer-se, trocar friamente recep&ccedil;&otilde;es e di&aacute;logos,<br \/>\n    transfigurar o vestu&aacute;rio numa celebra&ccedil;&atilde;o misteriosa,<br \/>\n    decorar a com&eacute;dia das modas, passear ostentosamente, errar pelas &oacute;peras,<br \/>\n    pelos casinos, pelos saltimbancos, dan&ccedil;ar, envolver-se no combate da<br \/>\n    beleza e da seda, dar-se &agrave; fadiga dissolvente do lucro. Eu p&ocirc;r-lhe-ia<br \/>\n    por epit&aacute;fio: Aqui jaz o ru&iacute;do de um bocejo.<\/p>\n<p> Tem todos os preju&iacute;zos do seu tempo. Tem o esp&iacute;rito das pequenas<br \/>\n    maquina&ccedil;&otilde;es femininas, das ironias dolorosas, dos esc&aacute;rnios<br \/>\n    inteligentes. Adora os romances dram&aacute;ticos de sangue, pelo mesmo motivo<br \/>\n    por que as damas romanas aplaudiam a morte dos gladiadores. Todos os dias<br \/>\n    as suas belezas lhe dizem: &ldquo;Oh Cesareia, os que v&atilde;o morrer sa&uacute;dam-te!&rdquo;<br \/>\n    Prefere Leotard a Shakespeare  isto cont&eacute;m um car&aacute;cter.<\/p>\n<p> Copia o modo de falar das actrizes. H&aacute; s&oacute; uma coisa que a<br \/>\n    distrai de admirar os saltimbancos, &eacute; ter de pensar na libr&eacute;<br \/>\n    dos lacaios.<\/p>\n<p> Para ela a Natureza &eacute; uma decora&ccedil;&atilde;o; a alma uma impertin&ecirc;ncia<br \/>\n    dos pobres; o cemit&eacute;rio uma inf&acirc;mia de Deus.<\/p>\n<p> Assim vive na com&eacute;dia do luxo, radiosa, contente, idiota, desfolhando<br \/>\n    o corpo, pensando nos vestu&aacute;rios, criando enfeites, at&eacute; que<br \/>\n    Deus, por entre as n&eacute;voas do cemit&eacute;rio, lhe mostre o &uacute;ltimo<br \/>\n    figurino, o supremo adorno sinistro  a mortalha &agrave; Benoiton!&raquo;42<br \/>\n    A segunda carta, escrita por A., o melhor de n&oacute;s todos, esp&iacute;rito<br \/>\n    criador e l&oacute;gico, fala largamente do escritor Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    Basco: &laquo;Estive ontem&raquo;, dizia a carta de A., &laquo;com Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    Basco. &Eacute; uma alma justa e s&atilde;, mas t&iacute;mida e apaixonada,<br \/>\n    forte para o sacrif&iacute;cio, cheia de nobres morais latinas, mas idealista<br \/>\n    e nervosa, tendo assim toda a antiga virtude est&oacute;ica com muitos dos<br \/>\n    dolorosos erros modernos.<\/p>\n<p> Este homem, antes que os seus livros fossem comentados e estudados, antes<br \/>\n    de ser a voz alta e sensata para que correm todos os esp&iacute;ritos novos,<br \/>\n    como para a li&ccedil;&atilde;o vis&iacute;vel das almas, antes de ter o seu<br \/>\n    jornal incisivo, livre, cheio de pensamentos e de revela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n     teve uma exist&ecirc;ncia de mis&eacute;ria, numa trapeira, sem sol,<br \/>\n    sem repouso, sem amizades purificadoras. Sentiu, uma a uma, as sete dores<br \/>\n    que a vida costuma cravar nas almas possu&iacute;das do ideal.<\/p>\n<p>Crian&ccedil;a, tinha sofrido todas as tristezas incisivas da escola, esp&eacute;cie<br \/>\n    de pr&oacute;logo chorado sobre a tragicom&eacute;dia humana: mais tarde,<br \/>\n    nos positivismos da fam&iacute;lia, tinha sentido aquela luta <\/p>\n<p>  &iacute;ntima do ideal e do real, que deixa no esp&iacute;rito eternas feridas,<br \/>\n  que sangram e que alumiam.<\/p>\n<p> Depois, tinha vivido, escuramente, no pequeno jornalismo, caricatura fluida<br \/>\n    da vida cerebral, e ali tinha sofrido a intriga, a difama&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o esc&aacute;rnio e a fome. Muito tempo o seu corpo chorou pelo calor e pelo<br \/>\n    repouso, como a sua alma chorava pelo ideal e pela f&eacute;.<\/p>\n<p> Hoje entre esta gera&ccedil;&atilde;o sonolenta, nocturna, in&uacute;til<br \/>\n    e fraca, homens entorpecidos pela ret&oacute;rica, pelos textos, pelas regras,<br \/>\n    que petrificam as livres palpita&ccedil;&otilde;es do ser, que passam um tra&ccedil;o<br \/>\n    negro sobre o ideal, que s&atilde;o os fechos da B&iacute;blia humana, que<br \/>\n    s&atilde;o os 42 Este tipo, felizmente, n&atilde;o existe em Portugal. Podemos<br \/>\n    aplaudir-nos desta inoc&ecirc;ncia relativa.<\/p>\n<p> Existe sobretudo em Nova Iorque, Paris, Londres e Sampetersburgo. &Eacute;<br \/>\n    o &uacute;ltimo resultado das civiliza&ccedil;&otilde;es violentas. Aqui est&aacute;<br \/>\n    tra&ccedil;ado arrebatadamente, &agrave; maneira das pinturas de Goya. No<br \/>\n    entanto existe, idiota e inofensivo, e sobretudo inofensivo.. sacrist&atilde;es<br \/>\n    da arte e os glorificadores de toda a v&iacute;scera morta  ele, Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    Basco, &eacute; o &uacute;nico que, voltado contemplativamente para as augustas<br \/>\n    claridades da ci&ecirc;ncia da arte, concentrado como um solit&aacute;rio<br \/>\n    antigo, vivendo pelo verdadeiro e pelo belo, vai lentamente, com dores resistentes,<br \/>\n    levando os entendimentos para o &uacute;til, para o justo, para o verdadeiro<br \/>\n    e para o racional.<\/p>\n<p> Leu-me os seus estudos sobre a hist&oacute;ria e sobre a arte. E um livro<br \/>\n    poderoso e cheio de vida.<\/p>\n<p> Combate os petrificadores conservadores da hist&oacute;ria, cujo intento<br \/>\n    &eacute; imobilizar nos arquivos as atitudes superficiais dos reis e das cortes.<br \/>\n    Ele quer que a hist&oacute;ria seja a reconstru&ccedil;&atilde;o da alma do<br \/>\n    passado, uma ressurrei&ccedil;&atilde;o humana. N&atilde;o podem bastar &agrave;<br \/>\n    consci&ecirc;ncia crescente do homem as cr&oacute;nicas escassas e concisas<br \/>\n    de batalhas de diplomacias, de aparatos e de vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o Basco pensa que, h&aacute; muito, na hist&oacute;ria<br \/>\n    se tem afastado sempre para os &uacute;ltimos planos a grande figura do povo:<br \/>\n    e &eacute; ele, a sua alma ambiciosa e progressiva, as suas livres palpita&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    as suas transfigura&ccedil;&otilde;es e as suas mis&eacute;rias, que a hist&oacute;ria<br \/>\n    deve surpreender.<\/p>\n<p> atrav&eacute;s das literaturas e da arte. Sob este ponto de vista ele aceita<br \/>\n    na arte todas as escolas, ou manifesta&ccedil;&otilde;es de uma tend&ecirc;ncia<br \/>\n    espiritual, ou express&atilde;o de um estado de animalidade e de materialismo,<br \/>\n    ou resultado de uma doen&ccedil;a idealista e nervosa (1830)  logo<br \/>\n    que eles representem fielmente a sua &eacute;poca e sejam os documentos das<br \/>\n    almas extintas. Ler&aacute;s em breve este livro eloquente: provam-se as &uacute;ltimas<br \/>\n    folhas.<\/p>\n<p> Mas o que far&aacute; a sua voz, cheia de equidade que lhe enche o peito.<br \/>\n    neste tempo de instintos animais e de consci&ecirc;ncias fluidas? Felizmente,<br \/>\n    a sua alma tem ficado pura. e isolada na torre de marfim do ideal, no meio<br \/>\n    desta vida moderna, e as sacerdotisas do luxo e todos os errantes da ambi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E ele afasta-se sempre de todo este movimento sonoro e coberto de luz, onde<br \/>\n    h&aacute; o vago rir descorado, a ret&oacute;rica da gra&ccedil;a e a largura<br \/>\n    das saias e das consci&ecirc;ncias, para ir pensar, s&oacute;, no sil&ecirc;ncio<br \/>\n    da alma, na fam&iacute;lia, na maternidade, no sossego, e naquela uni&atilde;o<br \/>\n    do homem e da mulher, limitada e divina  em que ambos estendem a alma<br \/>\n    sobre o mundo, para Deus passar por cima! N&atilde;o te lembras daquelas estampas<br \/>\n    alem&atilde;s em que os pares silenciosos. que parecem ter a loucura eleg&iacute;aca<br \/>\n    do amor, enquanto a quermesse ruge nos primeiros planos, se afastam e se perdem<br \/>\n    no fundo indefinido da folhagem  para se irem sentar &agrave; sombra<br \/>\n    do cruzeiro? Assim &eacute; ele. Est&ecirc;v&atilde;o Basco todavia, na sua<br \/>\n    serenidade superior.<\/p>\n<p> n&atilde;o faz a s&aacute;tira do luxo e da meiga farsa dos estofos e das<br \/>\n    pedrarias. Ele, o grande obreiro desperto das ideias, apenas se ri alegremente<br \/>\n    dos dormentes do luxo. S&iacute;baris nunca conseguiu mais do que provocar<br \/>\n    o riso protector de Esparta.<\/p>\n<p> Para ele, n&atilde;o vale nada, como sintoma, este triunfo est&eacute;ril<br \/>\n    e moment&acirc;neo do luxo.<\/p>\n<p> Segundo ele, o luxo audacioso, violento. b&aacute;rbaro, idiota, &eacute;<br \/>\n    apenas um pequeno desmentido grosseiro. dado &agrave; alma, t&atilde;o ris&iacute;vel<br \/>\n    como a vaidade de um sportman que quisesse raspar Deus da B&iacute;blia.<\/p>\n<p> Dizia-me ele que as saias das mulheres n&atilde;o podem. como receiam os<br \/>\n    juvenais da caricatura, ser o pr&oacute;logo de uma decad&ecirc;ncia. Os sintomas<br \/>\n    das transforma&ccedil;&otilde;es espirituais n&atilde;o podem partir dos jornais<br \/>\n    de modas. Gra&ccedil;as a Deus, um figurino ainda n&atilde;o &eacute; o cartaz<br \/>\n    de uma revolu&ccedil;&atilde;o. Existe sim um luxo animal, um apodrecimento<br \/>\n    calculado de tudo o que &eacute; Justi&ccedil;a e Beleza  mas isto<br \/>\n    &eacute; apenas uma doen&ccedil;a da forma. A serenidade justa da alma nada<br \/>\n    tem com as pequenas borbulhas que v&ecirc;m &agrave; pele. S&atilde;o fur&uacute;nculos<br \/>\n    que se curam pela supura&ccedil;&atilde;o. A bela sa&uacute;de vital permanece<br \/>\n    na sua pureza e na sua for&ccedil;a. E segundo Est&ecirc;v&atilde;o Basco<br \/>\n    nada pode haver mais ris&iacute;vel e mais inofensivo do que as tiranias que<br \/>\n    se vestem &agrave; militar, ou as decad&ecirc;ncias que se vestem &agrave;<br \/>\n    Benoiton.<\/p>\n<p> E todavia Est&ecirc;v&atilde;o Basco odeia aquelas mulheres, sem electricidade<br \/>\n    e sem magnetismo, inertes e materiais, pendidas na fadiga trivial do aparato.<br \/>\n    que foram. anuladas pelo luxo, cobertas da cabe&ccedil;a aos p&eacute;s por<br \/>\n    um vestu&aacute;rio  epit&aacute;fio da gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Receio mais as tabuinhas do seu leque, disse-me ele, do que as grandes t&aacute;buas<br \/>\n    do esquife.<\/p>\n<p> Porque enfim, morrer &eacute; dissolver, &eacute; transformar-se: e transformar-se<br \/>\n    &eacute; ainda viver, ter seiva, for&ccedil;a, sol e consci&ecirc;ncia. Mas<br \/>\n    prender-se a uma daquelas mulheres &eacute; assistir em roda de si &agrave;<br \/>\n    queda dolorosa e ao desvanecimento dos nossos sentimentos, das nossas ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    espirituais, das nossas ideias, das nossas cria&ccedil;&otilde;es. O seu amor<br \/>\n    &eacute; como uma mortalha: colada ao corpo, deixa ainda pressentir que a<br \/>\n    forma existe, e manifesta que a alma se dissipou.<\/p>\n<p> Diante destas mulheres, disse ele, sinto que em lugar do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se me vem colocar um peda&ccedil;o de c&eacute;rebro. Evito-as. N&atilde;o<br \/>\n    quero dar aos meus olhos o h&aacute;bito da n&oacute;doa. N&atilde;o quero<br \/>\n    que elas me esfarrapem a alma para fazer mortalhas &agrave;s suas consci&ecirc;ncias.<br \/>\n    Assim diz. Realmente naquele olhar cheio de Natureza n&atilde;o fazem falta<br \/>\n    os rostos pintados. Naquela alma povoada de Deus, n&atilde;o fazem falta os<br \/>\n    figurinos.&raquo;43 A terceira cana que eu abro para copiar, j&aacute; triste,<br \/>\n    &eacute; de Jacques. um pobre artista, escultor med&iacute;ocre, imitador<br \/>\n    dos gregos, que diz descaradamente os factos desta hist&oacute;ria miser&aacute;vel:<br \/>\n    &laquo;Estamos ainda surpreendidos. meu amigo, pelo desenlace desta farsa<br \/>\n    humana.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o Basco tinha conhecido numa igreja Onf&aacute;lia Benoiton.<br \/>\n    Cantava-se o Requiem de Mozart. Era um of&iacute;cio clerical em dia de mortos.<br \/>\n    Tinha sido dominado por aquela beleza escultural e nervosa, toda coberta de<br \/>\n    preto. Depois encontraram-se numa daquelas festas em que sempre me pareceu<br \/>\n    que as cam&eacute;lias. flores do t&eacute;dio, olham idiotamente, sem alma,<br \/>\n    para as inquieta&ccedil;&otilde;es solu&ccedil;antes do g&aacute;s. Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    Basco. numa sala distante da multid&atilde;o magn&eacute;tica das mulheres,<br \/>\n    fazia a s&aacute;tira dos penteados disformes, das caudas e das cintas modernas<br \/>\n    onde pendem argolas. Estava com o escritor S&eacute;rgio, com o antiqu&aacute;rio<br \/>\n    Salinas, com Sar&ccedil;a o cinzelador. Onf&aacute;lia Benoiton. que tinha<br \/>\n    escutado, pediu-lhe que lhe escrevesse uma palavra na vara branca do leque.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o escreveu: Oh, Sat&atilde; tenebroso, tr&aacute;gico<br \/>\n    fulminado, Tu vencer&aacute;s em mim o &iacute;ntimo Deus bom, N&atilde;o<br \/>\n    com as armas b&iacute;blicas com que bateste outros: Mas vindo unicamente<br \/>\n    vestido &agrave; Benoiton! Onf&aacute;lia levou-o pelo bra&ccedil;o para as<br \/>\n    ilumina&ccedil;&otilde;es fe&eacute;ricas. para a ac&ccedil;&atilde;o el&eacute;ctrica<br \/>\n    dos espelhos.<\/p>\n<p> para a claridade magn&eacute;tica dos ombros nus, transformou-o com as suas<br \/>\n    exala&ccedil;&otilde;es l&acirc;nguidas, com as irradia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    doentias do olhar, com aquela ess&ecirc;ncia nervosa dos seus cabelos falsos,<br \/>\n    que deviam ser mais macios ao contacto que a pura plumagem da cabe&ccedil;a<br \/>\n    das rolas. Onf&aacute;lia Benoiton, com aquela voz abafada e velada que ela<br \/>\n    tem &agrave;s vezes, que parece que lhe est&atilde;o dando beijos no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    disse a Est&ecirc;v&atilde;o Basco que lhe limpasse o vestido, enlameado nas<br \/>\n    ruas do jardim. Est&ecirc;v&atilde;o limpou o p&oacute;, a humidade e a lama!<br \/>\n    Desde ent&atilde;o, Estev&atilde;o Basco tirou lentamente da alma, uma a uma,<br \/>\n    as santas ideias castas, a Justi&ccedil;a, a Beleza, a Raz&atilde;o, a Honra,<br \/>\n    para dar lugar &agrave; imagem coberta de sedas e de cabelos mortos de Onf&aacute;lia<br \/>\n    Benoiton.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o, com o seu trabalho severo e robusto, dava o p&atilde;o<br \/>\n    a tr&ecirc;s irm&atilde;s pur&iacute;ssimas e a sua m&atilde;e, velha, doente,<br \/>\n    triste, meia desvanecida em Deus.<\/p>\n<p> As doces raparigas, meigas e delicadas, como as mais lindas virgens de ouro<br \/>\n    fino 43 Este tipo infelizmente n&atilde;o existe em Portugal. Devemos lamentar<br \/>\n    esta inferioridade absoluta.<\/p>\n<p> Existe em Paris, em Berlim, na It&aacute;lia, na Irlanda. &Eacute; a &uacute;ltima<br \/>\n    salva&ccedil;&atilde;o das decad&ecirc;ncias. Aqui est&aacute; tra&ccedil;ado<br \/>\n    transparentemente. &agrave; maneira de Ary Scheffer. No entanto existe, sublime<br \/>\n    e criador  sobretudo criador.. que se pintavam nos livros de legendas,<br \/>\n    tinham vestidos de cassa. e todo o dia trabalhavam nos seus castos para&iacute;sos.<br \/>\n    cheias das vozes dos can&aacute;rios. Ele passeava sempre com elas, nas alamedas<br \/>\n    silenciosas, como os antigos s&aacute;bios das gravuras flamengas. Desde ent&atilde;o<br \/>\n    Est&ecirc;v&atilde;o Basco nunca mais passeou nas alamedas. Desamparou a casa,<br \/>\n    a fam&iacute;lia e a alcova cheia da celebra&ccedil;&atilde;o do estudo. Perdido<br \/>\n    entre as despesas do luxo deixou ao abandono a m&atilde;e e as tr&ecirc;s<br \/>\n    irm&atilde;s. N&atilde;o havia dinheiro em casa.<\/p>\n<p> Elas, as tristes silenciosas, bordavam, costuravam, vendiam ramos aos floristas.<\/p>\n<p> No Inverno n&atilde;o havia lume. Nem sempre havia p&atilde;o. Roxas de<br \/>\n    frio, esfomeadas, cosiam e choravam. Foram viver para uma trapeira, batida<br \/>\n    do vento e da chuva. Ali morreu a m&atilde;e, aquela doce alma dolorosa, numa<br \/>\n    tarde, ao escurecer. O Sol talvez, ao ir-se, levou aquela alma por engano,<br \/>\n    como uma pureza e uma virtude da sua luz. Ningu&eacute;m t&atilde;o amante,<br \/>\n    t&atilde;o triste e t&atilde;o casta. Foi enterrada no cemit&eacute;rio, entre<br \/>\n    a erva comum, com uma cruz. Talvez agora sobre aquela cruz cantem rouxin&oacute;is.<\/p>\n<p> As raparigas tinham cabelos magn&iacute;ficos, indom&aacute;veis e compridos:<br \/>\n    venderam os seus cabelos.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o, com Onf&aacute;lia Benoiton, errava pelas &oacute;peras.<br \/>\n    pelos casinos, pelas salas, entre as sedas, os tules e as festas. Renegou<br \/>\n    as fortes e s&atilde;s amizades do estudo e da ci&ecirc;ncia. O seu jornal<br \/>\n    acabou desamparado e espoliado. Fez contratos terr&iacute;veis com os editores<br \/>\n    para livros futuros de critica e de moral. Mas n&atilde;o escrevia, n&atilde;o<br \/>\n    pensava. n&atilde;o vivia pelo esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Enfim casou com Onf&aacute;lia Benoiton. Tiveram dois anos. carnais e contentes.<br \/>\n    Por fim, ele tinha assinado letras, foi penhorado nas mob&iacute;lias. Voltou<br \/>\n    ao pequeno jornalismo. Criou uma folha de difama&ccedil;&atilde;o. Insultava<br \/>\n    a tanto por linha. Veio-lhe &agrave; alma a esterilidade. Embranqueceram-lhe<br \/>\n    os cabelos. Onf&aacute;lia Benoiton andava de noite com um vestido de chita.<br \/>\n    Est&ecirc;v&atilde;o, esmagado, desesperado, vendeu-se de corpo e de alma<br \/>\n    a um jogador terr&iacute;vel  Mincoso. Roubou.<\/p>\n<p> Voltaram os magnetismos do luxo. Onf&aacute;lia namorou-se do cinzelador<br \/>\n    Sar&ccedil;a, esp&iacute;rito frio e ret&oacute;rico. Depois deu-se ao tenor<br \/>\n    Vidalleti.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o soube. Tinha um materialismo sem dignidade. Comprou-lhe<br \/>\n    a fidelidade com vestidos.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o dava o vestido: ela cedia o homem. Voltou a mis&eacute;ria.<br \/>\n    A casa de jogo foi dispersa pela pol&iacute;cia. Veio a fome. Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    escrevia cantigas obscenas para um editor de almanaques imbecis e infames.<br \/>\n    Um dia encontrou Onf&aacute;lia com um saltimbanco. O saltimbanco atirou-lhe<br \/>\n    dinheiro. Est&ecirc;v&atilde;o contou-o e saiu assobiando.<\/p>\n<p> Um dia encontrou a irm&atilde; que era florista e tinha casado com um homem<br \/>\n    trigueiro do trabalho, alma s&atilde; e vivificadora como o Sol. Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    pediu-lhe para p&atilde;o. &ldquo;Tu n&atilde;o me desprezas ao menos, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade?&rdquo;, disse ele. A irm&atilde; olhou-o tristemente. &ldquo;N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade que me n&atilde;o desprezas?&rdquo;  &ldquo;Muit&iacute;ssimo&rdquo;,<br \/>\n    disse ela. Onf&aacute;lia Benoiton fugiu com o jogador Mincoso. Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    foi viver para uma trapeira, com um coveiro e com um palha&ccedil;o. Adoeceu.<br \/>\n    Durante a febre o coveiro cosia os seus bot&otilde;es, cantando o of&iacute;cio<br \/>\n    dos mortos: o palha&ccedil;o para estudar os saltos pulava por cima da enxerga<br \/>\n    de Est&ecirc;v&atilde;o. Ele tinha ent&atilde;o uma amante, corista de um<br \/>\n    casino.<\/p>\n<p> Ela ia todos os dias dar-lhe um caldo. O coveiro e o saltimbanco &agrave;s<br \/>\n    vezes n&atilde;o vinham &agrave; trapeira durante dias. Uma dessas vezes a<br \/>\n    corista n&atilde;o veio. Est&ecirc;v&atilde;o tinha sede. Chamou. A &aacute;gua<br \/>\n    estava em cima de um v&atilde;o do telhado, numa bilha. Ele chorava de febre,<br \/>\n    de sede e de tristeza. Anoiteceu.<\/p>\n<p> No p&aacute;tio da casa havia uma laranjeira. De noite, no sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    ele ouviu cantar um rouxinol. Teve a vis&atilde;o da sua vida de estudo e<br \/>\n    de serenidade. Chorava de sede. Ergueu-se tremendo e arrastou-se: no primeiro<br \/>\n    degrau da escada do v&atilde;o, caiu. O sangue ca&iacute;a-lhe da testa e<br \/>\n    entravalhe na boca, com as l&aacute;grimas. Ao outro dia estava quase a expirar.<\/p>\n<p> Melhorou todavia. Andou pedindo de porta em porta, com os antigos orgulhos.<br \/>\n    que lhe dessem o p&atilde;o do trabalho. Ningu&eacute;m lhe deu nada.<\/p>\n<p> Um dia encontrou um dos antigos camaradas das festas, a cavalo com outros.<br \/>\n    O. camarada do luxo veio para ele e atirando-lhe o chap&eacute;u ao ch&atilde;o,<br \/>\n    com a ponta do chicote: &ldquo;Est&aacute;s calvo, pobre homem&rdquo;, disse,<br \/>\n    rindo. &ldquo;Tens tu fome?&rdquo;  &ldquo;&Eacute;s bem curioso&rdquo;,<br \/>\n    disse Est&ecirc;v&atilde;o voltando as costas, sereno. E foi-se, assobiando.<\/p>\n<p> A corista levou-o para o teatro. Ganhava ali o p&atilde;o. fazendo de urso<br \/>\n    numa m&aacute;gica.<\/p>\n<p> Ca&iacute;ram-lhe os dentes. Andava roto, com a barba crescida, l&iacute;vido,<br \/>\n    e um casaco preto. di&aacute;fano, lustroso, colado &agrave; magreza do corpo.<\/p>\n<p> Conheceu ent&atilde;o uma linda rapariga. de treze anos, clara e loura,<br \/>\n    que pedia na rua.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o deu-lhe um lugar na trapeira. Tomou-lhe um lugar puro<br \/>\n    e todo paterno. Para se embrutecer come&ccedil;ou a beber aguardente. Tinha<br \/>\n    a vista debilitada, trazia uns &oacute;culos escuros; tinha feridas nos ouvidos<br \/>\n    e trazia-os cheios de algod&atilde;o. Vivia fazendo cantigas grosseiras, para<br \/>\n    o velho editor dos almanaques. A rapariguinha adoeceu. Era a fome, a mis&eacute;ria<br \/>\n    e a febre.<\/p>\n<p> Ele velava junto dela, triste, chorando, e compondo os versos imundos.<\/p>\n<p> &Agrave; rapariga piorava. Tremia de frio na enxerga. Ele procurava aquec&ecirc;-la<br \/>\n    com o h&aacute;lito: a pobre miser&aacute;vel, que tinha ainda a sensibilidade<br \/>\n    e o olfacto, fugia com o rosto, porque o h&aacute;lito era mau. A rapariga<br \/>\n    morreu.<\/p>\n<p> Nesse dia ele tinha bebido longamente na taverna. Quando subiu &agrave;<br \/>\n    trapeira. e viu a triste, inerte, fria e hirta, deu com a ponta do p&eacute;<br \/>\n    no corpo inanimado, gritando: &ldquo;Pouch!, coisa morta!&rdquo; Passado pouco<br \/>\n    tempo voltou-lhe a consci&ecirc;ncia da vida. Caiu numa tristeza dolorosa.<br \/>\n    Veio-lhe uma saudade profunda da rapariga, morta na trapeira. Ia v&ecirc;-la<br \/>\n    ao cemit&eacute;rio, &agrave; vala dos pobres onde ela estava. Como ela n&atilde;o<br \/>\n    gostava que ele bebesse, e ele se lembrava das l&aacute;grimas dela, n&atilde;o<br \/>\n    voltou &agrave;s tavernas de noite.<\/p>\n<p> Ia levar rosas e rain&uacute;nculos ao cemit&eacute;rio, ao lugar onde ela<br \/>\n    apodrecia debaixo da erva. Era necess&aacute;rio tir&aacute;-lo com viol&ecirc;ncia.<br \/>\n    Chorava pela fome que ela tinha tido, pelo frio com que ele tinha estremecido.<\/p>\n<p> Ficava junto do muro do cemit&eacute;rio, de noite, ajoelhado. perdido numa<br \/>\n    saudade imensa como a noite e mais doce que a Lua.<\/p>\n<p> Dormia pelos adros e pelos portais. Tinha um companheiro, um c&atilde;o,<br \/>\n    com quem se embrulhava na mesma manta. O c&atilde;o morreu. Ele adoeceu e<br \/>\n    foi recolhido ao hospital.<\/p>\n<p> Ali n&atilde;o era o escritor Est&ecirc;v&atilde;o Basco, era o n&ordm;<br \/>\n    27 da sala de Santo Amaro. Uma madrugada, teve um estremecimento e morreu.<br \/>\n    Ao outro dia de tarde foi levado para a vala dos pobres.<\/p>\n<p> numa tumba da Miseric&oacute;rdia.&raquo;.<\/p>\n<p> MEM&Oacute;RIAS DE UMA FORCA Foi por um modo sobrenatural que eu tive conhecimento<br \/>\n    deste papel, onde uma pobre forca apodrecida e negra dizia alguma coisa da<br \/>\n    sua hist&oacute;ria. Esta forca intentava escrever as suas tr&aacute;gicas<br \/>\n    Mem&oacute;rias. Deviam ser profundos documentos sobre a vida. &Aacute;rvore,<br \/>\n    ningu&eacute;m sabia t&atilde;o bem o mist&eacute;rio da natureza; forca,<br \/>\n    ningu&eacute;m conhecia melhor o homem. Nenhum t&atilde;o espont&acirc;neo<br \/>\n    e verdadeiro como o homem que se torce na ponta de uma corda  a n&atilde;o<br \/>\n    ser aquele que lhe carrega sobre os ombros! Infelizmente, a pobre forca apodreceu<br \/>\n    e morreu.<\/p>\n<p> Entre os apontamentos que deixou, os menos completos s&atilde;o estes que<br \/>\n    copio  resumo das suas dores, vaga apar&ecirc;ncia de gritos instintivos.<br \/>\n    Pudesse ela ter escrito a sua vida complexa, cheia de sangue e de melancolia!<br \/>\n    &Eacute; tempo de sabermos, enfim, qual &eacute; a opini&atilde;o que a vasta<br \/>\n    natureza, montes, &aacute;rvores e &aacute;guas, fazem do homem impercept&iacute;vel.<br \/>\n    Talvez este sentimento me leve ainda algum dia a publicar pap&eacute;is que<br \/>\n    guardo avaramente, e que s&atilde;o as Mem&oacute;rias de um &Aacute;tomo<br \/>\n    e os Apontamentos de Viagem de Uma Raiz de Cipreste.<\/p>\n<p> F&aacute;-lo-ei se a vasta mat&eacute;ria que reparte a vida do corpo o<br \/>\n    consentir, do que duvido, felizmente.<\/p>\n<p> Diz assim o fragmento que eu copio  e que &eacute; simplesmente o<br \/>\n    pr&oacute;logo das Mem&oacute;rias: &laquo;Sou duma antiga fam&iacute;lia<br \/>\n    de carvalhos, ra&ccedil;a austera e forte  que j&aacute; na Antiguidade<br \/>\n    deixava cair, dos seus ramos, pensamentos para Plat&atilde;o. Era uma fam&iacute;lia<br \/>\n    hospitaleira e hist&oacute;rica: dela tinham sa&iacute;do navios para a derrota<br \/>\n    tenebrosa das &iacute;ndias, contos de lan&ccedil;as para os alucinados das<br \/>\n    Cruzadas, e vigas para os tectos simples e perfumados que abrigaram Savonarola,<br \/>\n    Espinosa e Lutero. Meu pai, esquecido das altas tradi&ccedil;&otilde;es sonoras<br \/>\n    e da sua her&aacute;ldica vegetal, teve uma vida inerte, material e profana.<br \/>\n    N&atilde;o respeitava as nobres morais antigas, nem a ideal tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    religiosa, nem os deveres da hist&oacute;ria. Era uma &aacute;rvore materialista.<br \/>\n    Tinha sido pervertida pelos enciclopedistas da vegeta&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o<br \/>\n    tinha f&eacute;, nem alma, nem Deus! Tinha a religi&atilde;o do Sol, da seiva<br \/>\n    e da &aacute;gua. Era o grande libertino da floresta pensativa. No Ver&atilde;o,<br \/>\n    enquanto sentia a fermenta&ccedil;&atilde;o violenta das seivas, cantava movendo-se<br \/>\n    ao sol, acolhia os grandes concertos de p&aacute;ssaros bo&eacute;mios, cuspia<br \/>\n    a chuva sobre o povo curvado e humilde das ervas e das plantas e, de noite,<br \/>\n    enla&ccedil;ado pelas heras lascivas, ressonava sob o sil&ecirc;ncio sideral.<br \/>\n    Quando vinha o Inverno, com a passividade animal dum mendigo, erguia, para<br \/>\n    a impass&iacute;vel ironia do azul, os seus bra&ccedil;os magros e suplicantes!<br \/>\n    &laquo;Por isso n&oacute;s os seus filhos, n&atilde;o fomos felizes na vida<br \/>\n    vegetal. Um dos meus irm&atilde;os foi levado para ser tablado de palha&ccedil;os:<br \/>\n    ramo contemplativo e rom&acirc;ntico, ia, todas as noites, ser pisado pela<br \/>\n    chufa, pelo esc&aacute;rnio, pela farsa e pela fome! O outro ramo, cheio de<br \/>\n    vida, de sol, de poeira, &aacute;spero solit&aacute;rio da vida, lutador dos<br \/>\n    ventos e das neves, forte e trabalhador, foi arrancado dentre n&oacute;s,<br \/>\n    para ir ser t&aacute;bua de esquife!  Eu, o mais lastim&aacute;vel,<br \/>\n    vim a ser forca! &laquo;Desde pequeno fui triste e compassivo. Tinha grandes<br \/>\n    intimidades na floresta. Eu s&oacute; queria o bem, o riso, a dilata&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    salutar das fibras e das almas. O orvalho de que a noite me banhava, atirava-o<br \/>\n    a umas pobres violetas, que viviam por debaixo de n&oacute;s, doces raparigas<br \/>\n    lutuosas, melancolias condensadas e vivas da grande alma silenciosa da vegeta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Agasalhava todos os p&aacute;ssaros na v&eacute;spera dos temporais. Era eu<br \/>\n    quem asilava a chuva. Ela vinha, com os cabelos esguedelhados, perseguida,<br \/>\n    mordida, retalhada pelo vento! Eu abria-lhe as ramagens e as folhas, e escondia-a<br \/>\n    ali, ao calor da seiva. O vento passava, confundido e imbecil. Ent&atilde;o<br \/>\n    a pobre chuva, que o via longe, assobiando lascivo, deixava-se escorregar<br \/>\n    silenciosamente pelo tronco, gota por gota, para o vento a. n&atilde;o perceber;<br \/>\n    e ia, de rastos, por entre a erva, acolherse &agrave; vasta m&atilde;e &Aacute;gua!<br \/>\n    Tive por esse tempo uma amizade com um rouxinol, que vinha conversar comigo<br \/>\n    durante as longas horas consteladas do sil&ecirc;ncio. O pobre rouxinol tinha<br \/>\n    uma pena de amor! Tinha vivido num pa&iacute;s distante, onde os noivados<br \/>\n    t&ecirc;m mais moles pregui&ccedil;as: l&aacute; se enamorara: comigo chorava<br \/>\n    em suspiros l&iacute;ricos. E t&atilde;o m&iacute;stica pena era que me disseram<br \/>\n    que o triste, de dor e de desesperan&ccedil;a, se deixara cair na &aacute;gua!<br \/>\n    Pobre rouxinol! Ningu&eacute;m t&atilde;o amante, t&atilde;o vi&uacute;vo<br \/>\n    e t&atilde;o casto! Dorme na sepultura errante da &aacute;gua, entre o lodo<br \/>\n    de todos. Eu queria proteger todos os que vivem. E quando as raparigas do<br \/>\n    campo vinham para junto de mim chorar, eu erguia sempre as minhas ramagens,<br \/>\n    como dedos, para apontar &agrave; pobre alma aflita de l&aacute;grimas todos<br \/>\n    os caminhos do C&eacute;u! &laquo;Nunca mais! Nunca mais, verde mocidade distante!<br \/>\n    &laquo;Enfim, eu tinha de entrar na vida da realidade. Um dia, um daqueles<br \/>\n    homens met&aacute;licos que fazem o tr&aacute;fico da vegeta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    veio arrancar-me &agrave; &aacute;rvore. N&atilde;o sabia eu o que me queriam.<\/p>\n<p> Deitaram-me sobre um carro e, ao cair da noite, os bois come&ccedil;aram<br \/>\n    a caminhar, enquanto ao lado um homem cantava no sil&ecirc;ncio da noite.<br \/>\n    Eu ia ferido e desfalecido. Via as estrelas com os seus olhares lancinantes<br \/>\n    e frios. Sentia-me separar da grande floresta. Ouvia o rumor gemente, indefinido<br \/>\n    e arrastado das &aacute;rvores. Eram vozes amigas que me chamavam! &laquo;Por<br \/>\n    cima de mim voavam aves imensas. Eu sentia-me desfalecer, num torpor vegetal,<br \/>\n    como se estivesse sendo dissipado na passividade das coisas. Adormeci. Ao<br \/>\n    amanhecer, &iacute;amos entrando numa cidade. As janelas olhavam-me com olhos<br \/>\n    ensanguentados e cheios dum sol irado. Eu s&oacute; conhecia as cidades pelas<br \/>\n    hist&oacute;rias que delas contavam as andorinhas, nos ser&otilde;es sonoros<br \/>\n    da espessura. Mas como ia deitado e amarrado com cordas, apenas via os fumos<br \/>\n    e um ar opaco. Ouvia o rumor &aacute;spero e desafinado, onde havia solu&ccedil;os,<br \/>\n    risos, bocejos, e mais o surdo ro&ccedil;ar da lama, e o tinido sombrio dos<br \/>\n    metais. Eu sentia enfim o cheiro mortal do homem! Fui arremessado para um<br \/>\n    p&aacute;tio infecto, onde n&atilde;o havia o azul e o ar. Comecei ent&atilde;o<br \/>\n    a compreender que uma grande imund&iacute;cie cobre a alma do homem, porque<br \/>\n    ele se esconde tanto das vistas do Sol! &laquo;Uns homens vieram, que me deram<br \/>\n    desprezivelmente com os p&eacute;s. Eu estava num estado de torpor e de materialidade,<br \/>\n    que nem sentia as saudades da p&aacute;tria vegetal. Ao outro dia, um homem<br \/>\n    veio para mim e deu-me golpes de machado. N&atilde;o senti mais nada. Quando<br \/>\n    voltei a mim, ia outra vez amarrado no carro, e pela noite um homem aguilhoava<br \/>\n    os bois, cantando.<\/p>\n<p> Senti lentamente renascer a consci&ecirc;ncia e a vitalidade. Parecia-me<br \/>\n    que eu estava transformado numa outra vida org&acirc;nica. N&atilde;o sentia<br \/>\n    a magn&eacute;tica fermenta&ccedil;&atilde;o da seiva, a energia vital dos<br \/>\n    filamentos e a superf&iacute;cie viva das cascas. Em redor do carro iam outros<br \/>\n    homens, a p&eacute;. Sob a brancura silenciosa e compassiva da Lua, tive uma<br \/>\n    saudade infinita dos campos, do cheiro dos fenos, das aves, de toda a grande<br \/>\n    alma vivificadora de Deus, que se move entre a ramagem. Eu sentia que ia para<br \/>\n    uma vida real, de servi&ccedil;o e de trabalho. Mas qual? Tinha ouvido falar<br \/>\n    das &aacute;rvores, que v&atilde;o ser lenha, aquecem e criam, e, tomando<br \/>\n    entre a conviv&ecirc;ncia do homem a nostalgia de Deus, lutam com os seus<br \/>\n    bra&ccedil;os de chamas para se desprender da terra: essas dissipam-se na<br \/>\n    augusta transfigura&ccedil;&atilde;o do fumo, v&atilde;o ser nuvens, ter a<br \/>\n    intimidade das estrelas e do azul, viver na serenidade branca e altiva dos<br \/>\n    imortais, e sentir os passos de Deus! &laquo;Eu tinha ouvido falar das que<br \/>\n    v&atilde;o ser vigas da casa do homem: essas, felizes e privilegiadas, sentem<br \/>\n    na penumbra amorosa a doce for&ccedil;a dos beijos e dos risos; s&atilde;o<br \/>\n    amadas, vestidas, lavadas; encostam-se a elas os corpos dolorosos dos Cristos,<br \/>\n    s&atilde;o os pedestais da paix&atilde;o humana, t&ecirc;m a alegria imensa<br \/>\n    e orgulhosa dos que protegem; e risos. das crian&ccedil;as, ais namorados,<br \/>\n    confid&ecirc;ncias, suspiros, elegias da voz, tudo o que lhes faz lembrar<br \/>\n    as murmura&ccedil;&otilde;es da &aacute;gua, o estremecimento das folhas,<br \/>\n    as cantigas dos ventos  toda essa gra&ccedil;a escorre sobre elas,<br \/>\n    que j&aacute; gozaram a luz da mat&eacute;ria, como uma imensa e bondosa luz<br \/>\n    da alma.<\/p>\n<p> &laquo;Eu tinha ouvido falar tamb&eacute;m das &aacute;rvores de bom destino,<br \/>\n    que v&atilde;o ser mastro de navio, sentir o cheiro da maresia e ouvir as<br \/>\n    legendas do temporal, viajar, lutar, viver, levadas pelas &aacute;guas, atrav&eacute;s<br \/>\n    do infinito, entre surpresas radiosas  como almas arrancadas do corpo<br \/>\n    que fazem pela primeira vez a viagem do C&eacute;u! &laquo;Que iria eu ser?&#8230;<br \/>\n     Cheg&aacute;mos. Tive ent&atilde;o a vis&atilde;o real do meu destino.<br \/>\n    Eu ia ser forca! &laquo;Fiquei inerte, dissolvida na afli&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ergueram-me. Deixaram-me s&oacute;, tenebrosa, num campo.<\/p>\n<p> Tinha, enfim, entrado na realidade pungente da vida. O meu destino era matar.<br \/>\n    Os homens, cujas m&atilde;os andam sempre cheias de cadeias, de cordas e de<br \/>\n    pregos, tinham vindo aos carvalhos austeros buscar um c&uacute;mplice! Eu<br \/>\n    ia ser a eterna companheira das agonias. Presos a mim, iam balou&ccedil;ar-se<br \/>\n    os cad&aacute;veres, como outrora as verdes ramagens orvalhadas! &laquo;Eu<br \/>\n    ia dar esses negros frutos: os mortos! &laquo;O meu orvalho seria de sangue.<br \/>\n    Ia escutar para sempre, eu a companheira dos p&aacute;ssaros, doces tenores<br \/>\n    errantes, as agonias solu&ccedil;antes, os gemidos de sufoca&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    As almas ao partir, rasgar-se-iam nos meus pregos. Eu, a &aacute;rvore do<br \/>\n    sil&ecirc;ncio e do mist&eacute;rio religioso, eu, cheia de augusta alegria<br \/>\n    orvalhada e dos salmos sonoros da vida, eu, que Deus conhecia por boa consoladora,<br \/>\n    havia de mostrar-me &agrave;s nuvens, ao vento, aos meus antigos camaradas<br \/>\n    puros e justos, eu, a &aacute;rvore viva dos montes, de intimidade com a podrid&atilde;o,<br \/>\n    de camaradagem com o carrasco, sustentando alegremente um cad&aacute;ver pelo<br \/>\n    pesco&ccedil;o, para os corvos o esfarraparem! &laquo;E isto ia ser! Fiquei<br \/>\n    hirta e impass&iacute;vel como nas nossas florestas os lobos, quando se sentem<br \/>\n    morrer.<\/p>\n<p> &laquo;Era a afli&ccedil;&atilde;o. Eu via ao longe a cidade coberta de<br \/>\n    n&eacute;voa.<\/p>\n<p> &laquo;Veio o sol. Em roda de mim come&ccedil;ou a juntar-se o povo. Depois,<br \/>\n    atrav&eacute;s dum desfalecimento, senti o ru&iacute;do de m&uacute;sicas<br \/>\n    tristes, o rumor pesado dos batalh&otilde;es, e os cantos dolentes dos padres.<br \/>\n    Entre dois c&iacute;rios, vinha um homem l&iacute;vido. Ent&atilde;o, confusamente,<br \/>\n    como nas apar&ecirc;ncias inconscientes do sonho, senti um estremecimento,<br \/>\n    uma grande vibra&ccedil;&atilde;o el&eacute;ctrica, depois a melodia monstruosa<br \/>\n    e arrastada do canto cat&oacute;lico dos mortos! &laquo;Voltou-me a consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &laquo;Estava s&oacute;. O povo dispersava-se e descia para os povoados.<br \/>\n    Ningu&eacute;m! A voz dos padres descia lentamente, como a &uacute;ltima &aacute;gua<br \/>\n    duma mar&eacute;. Era o fim da tarde. Vi. Vi livremente. Vi! Dependurado de<br \/>\n    mim, hirto, esguio, com a cabe&ccedil;a ca&iacute;da e deslocada, estava o<br \/>\n    enforcado! Arrepiei-me! &laquo;Eu sentia o frio e a lenta ascens&atilde;o<br \/>\n    da podrid&atilde;o. Ia ficar ali, de noite, s&oacute;, naquele descampado<br \/>\n    sinistro, tendo nos bra&ccedil;os aquele cad&aacute;ver! Ningu&eacute;m! &laquo;O<br \/>\n    sol ia-se, o sol puro. Onde estava a alma daquele cad&aacute;ver? Tinha passado<br \/>\n    j&aacute;? Tinha-se dissipado na luz, nos vapores, nas vibra&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    Eu sentia os passos tristes da noite, que vinha. O vento empurrava o cad&aacute;ver,<br \/>\n    a corda rangia.<\/p>\n<p> &laquo;Eu tremia, numa febre vegetal, dilacerante e silenciosa. N&atilde;o<br \/>\n    podia ficar ali s&oacute;. O vento levarme- ia, atirando-me, aos peda&ccedil;os,<br \/>\n    para a antiga p&aacute;tria das folhas. N&atilde;o. O vento era brando: quase<br \/>\n    somente a respira&ccedil;&atilde;o da sombra! Tinha vindo ent&atilde;o o tempo<br \/>\n    em que a grande natureza, a natureza religiosa, era abandonada &agrave;s feras<br \/>\n    humanas? Os carvalhos j&aacute; n&atilde;o eram, pois, uma alma? Podiam, com<br \/>\n    justi&ccedil;a, vir o machado e as cordas buscar os ramos criados pela seiva,<br \/>\n    pela &aacute;gua e pelo sol, trabalho suado da natureza,. forma resplandecente<br \/>\n    da inten&ccedil;&atilde;o de Deus, e lev&aacute;-los para as impiedades, para<br \/>\n    os tablados da forca onde apodrecem as almas, para os esquifes onde apodrecem<br \/>\n    os corpos? E as ramagens puras, que foram testemunhas das religi&otilde;es,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o serviam sen&atilde;o para executar as penalidades humanas?<br \/>\n    Serviam s&oacute; para sustentar as cordas, onde os saltimbancos bailam, e<br \/>\n    os condenados se torcem? N&atilde;o podia ser.<\/p>\n<p> &laquo;Pesava sobre a natureza uma fatalidade infame. As almas dos mortos,<br \/>\n    que sabem o segredo e compreendem a vegeta&ccedil;&atilde;o, achariam grotesco<br \/>\n    que as &aacute;rvores, depois de terem sido colocadas por Deus na floresta<br \/>\n    com os bra&ccedil;os estendidos, para aben&ccedil;oar a terra e a &aacute;gua,<br \/>\n    fossem arrastadas para as cidades, e obrigadas, pelo homem, a estender o bra&ccedil;o<br \/>\n    da forca para aben&ccedil;oar os carrascos! &laquo;E depois de sustentarem<br \/>\n    os ramos de verdura que s&atilde;o os fios misteriosos, mergulhados no azul,<br \/>\n    por onde Deus prende a terra fossem sustentar as cordas da forca, que<br \/>\n    s&atilde;o as fitas infames, por onde o homem se prende &agrave; podrid&atilde;o!<br \/>\n    N&atilde;o! se as ra&iacute;zes dos ciprestes contassem isto em casa dos mortos<br \/>\n     faziam estalar de riso a sepultura! &laquo;Assim falava eu na solid&atilde;o.<br \/>\n    A noite vinha lenta e fatal. O cad&aacute;ver balou&ccedil;ava-se ao vento.<\/p>\n<p> Comecei a sentir palpita&ccedil;&otilde;es de asas. Voavam sombras por cima<br \/>\n    de mim.<\/p>\n<p> Eram os corvos. Pousaram. Eu sentia o ro&ccedil;ar das suas penas imundas;<br \/>\n    afiavam os bicos no meu corpo; penduravam-se, ruidosos, cravando-me as garras.<\/p>\n<p> &laquo;Um pousou no cad&aacute;ver e p&ocirc;s-se a roer-lhe a face! Solucei<br \/>\n    dentro de mim. Pedi a Deus que me apodrecesse subitamente. Era uma &aacute;rvore<br \/>\n    das florestas a quem os ventos falavam! Servia agora para afiar os bicos dos<br \/>\n    corvos, e para que os homens dependurassem de mim os cad&aacute;veres, como<br \/>\n    vestidos velhos de carne, esfarrapados! Oh! meu Deus!  solu&ccedil;ava<br \/>\n    eu ainda  eu n&atilde;o quero ser rel&iacute;quia de tortura: eu alimentava,<br \/>\n    n&atilde;o quero aniquilar: era a amiga do semeador, n&atilde;o quero ser<br \/>\n    a aliada do coveiro! Eu n&atilde;o posso e n&atilde;o sei ser a Justi&ccedil;a.<br \/>\n    A vegeta&ccedil;&atilde;o tem uma augusta ignor&acirc;ncia: a ignor&acirc;ncia<br \/>\n    do sol, do orvalho e dos astros. Os bons, os ang&eacute;licos, os maus s&atilde;o<br \/>\n    os mesmos corpos inviol&aacute;veis, para a grande natureza sublime e compassiva.<br \/>\n    &Oacute; meu Deus, liberta-me deste mal humano t&atilde;o agu&ccedil;ado e<br \/>\n    t&atilde;o grande, que se traspassa a si, atravessa de lado a lado a natureza,<br \/>\n    e ainda te vai ferir, a ti, no C&eacute;u! Oh! Deus, o c&eacute;u azul, todas<br \/>\n    as manh&atilde;s, me dava os orvalhos, o calor fecundo, a beleza imaterial<br \/>\n    e fluida da brancura, a transfigura&ccedil;&atilde;o pela luz, toda a bondade,<br \/>\n    toda a gra&ccedil;a, toda a sa&uacute;de:  n&atilde;o queiras que,<br \/>\n    em compensa&ccedil;&atilde;o, eu lhe mostre, amanh&atilde;, ao seu primeiro<br \/>\n    olhar, este cad&aacute;ver esfarrapado! &laquo;Mas Deus dormia, entre os seus<br \/>\n    para&iacute;sos de luz. Vivi tr&ecirc;s anos nestas ang&uacute;stias.<\/p>\n<p> &laquo;Enforquei um homem  um pensador, um pol&iacute;tico, filho<br \/>\n    do Bem e da Verdade, alma formosa cheia das formas do ideal, combatente da<br \/>\n    Luz. Foi vencido, foi enforcado.<\/p>\n<p> &laquo;Enforquei um homem que tinha amado uma mulher e tinha fugido com<br \/>\n    ela. O seu crime era o amor, que Plat&atilde;o chama mist&eacute;rio, e Jesus<br \/>\n    chamou lei. O c&oacute;digo puniu a fatalidade magn&eacute;tica da atrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das almas, e corrigiu Deus com a forca! &laquo;Enforquei tamb&eacute;m um<br \/>\n    ladr&atilde;o. Este homem era tamb&eacute;m oper&aacute;rio. Tinha mulher,<br \/>\n    filhos, irm&atilde;os e m&atilde;e. No Inverno n&atilde;o teve trabalho, nem<br \/>\n    lume, nem p&atilde;o. Tomado dum desespero nervoso, roubou. Foi enforcado<br \/>\n    ao Sol-posto. Os corvos n&atilde;o vieram. O corpo foi para a terra limpo,<br \/>\n    puro e s&atilde;o. Era um pobre corpo que tinha sucumbido por eu o apertar<br \/>\n    de mais, como a alma tinha sucumbido por Deus a alargar e a encher.<\/p>\n<p> &laquo;Enforquei vinte. Os corvos conheciam-me. A natureza via a minha dor<br \/>\n    &iacute;ntima; n&atilde;o me desprezou; o Sol alumiava-me com glorifica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    as nuvens vinham arrastar por mim a sua mole nudez, o vento falava-me e contava<br \/>\n    a vida da floresta, que eu tinha deixado, a vegeta&ccedil;&atilde;o saudava-me<br \/>\n    com meigas inclina&ccedil;&otilde;es da folhagem: Deus mandava-me o orvalho,<br \/>\n    frescura que prometia o perd&atilde;o natural..<\/p>\n<p> &laquo;Envelheci. Vieram as rugas escuras. A grande vegeta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que me sentia esfriar, mandou-me os seus vestidos de hera. Os corvos n&atilde;o<br \/>\n    voltaram: n&atilde;o voltaram os carrascos. Sentia em mim a antiga serenidade<br \/>\n    da natureza divina. As efloresc&ecirc;ncias, que tinham fugido de mim, deixando-me<br \/>\n    s&oacute; no solo &aacute;spero, come&ccedil;aram a voltar, a nascer, em roda<br \/>\n    de mim, como amigas verdes e esperan&ccedil;osas. A natureza parecia consolar-me.<br \/>\n    Eu sentia chegar a podrid&atilde;o. Um dia de n&eacute;voas e de ventos, deixei-me<br \/>\n    cair tristemente no ch&atilde;o, entre a relva e a humidade, e pusme silenciosamente<br \/>\n    a morrer.<\/p>\n<p> &laquo;Os musgos e as relvas cobriam-me, e eu comecei a sentir-me dissolver<br \/>\n    na mat&eacute;ria enorme, com uma do&ccedil;ura inef&aacute;vel.<\/p>\n<p> &laquo;O corpo esfria-me: eu tenho a consci&ecirc;ncia da minha transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lenta de podrid&atilde;o em terra. Vou, vou. &Oacute; terra, adeus! Eu derramo-me<br \/>\n    j&aacute; pelas ra&iacute;zes. Os &aacute;tomos fogem para toda a vasta natureza,<br \/>\n    para a luz, para a verdura. Mal ou&ccedil;o o rumor humano. &Oacute; antiga<br \/>\n    C&iacute;bele, eu vou escorrer na circula&ccedil;&atilde;o material do teu<br \/>\n    corpo! Vejo ainda indistintamente a apar&ecirc;ncia humana, como uma confus&atilde;o<br \/>\n    de ideias, de desejos, de desalentos, entre os quais passam, diafanamente,<br \/>\n    bailando, cad&aacute;veres! Mal te vejo, &oacute; mal humano! No meio da vasta<br \/>\n    felicidade difusa do azul, tu &eacute;s, apenas, como um fio de sangue! As<br \/>\n    efloresc&ecirc;ncias, como vidas esfomeadas, come&ccedil;am a pastar-me! N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade que ainda l&aacute; em baixo, no poente, os abutres fazem<br \/>\n    o invent&aacute;rio do corpo humano? &oacute; mat&eacute;ria, absorve-me!<br \/>\n    Adeus! para nunca mais, terra infame e augusta! Eu vejo j&aacute; os astros<br \/>\n    correrem como l&aacute;grimas pela face do c&eacute;u. Quem chora assim? Eu<br \/>\n    sinto-me desfeita na vida formid&aacute;vel da terra! &oacute; mundo escuro,<br \/>\n    de lama e de ouro, que &eacute;s um astro no infinito  adeus! adeus!<br \/>\n     deixo-te herdeiro da minha corda podre!&raquo; Assim era a hist&oacute;ria<br \/>\n    testament&aacute;ria da forca abandonada e morta! Oh meu Deus, se os seus<br \/>\n    &aacute;tomos fossem agrupar-se e solidificar-se para fazerem o maquinismo<br \/>\n    da arma chassepot?&#8230;.<\/p>\n<p> AP&Ecirc;NDICE IN&Ecirc;S DE CASTRO (fragmentos) D. Pedro Como ela &eacute;<br \/>\n    bela! Que mulher, que olhos! Por ela daria este castelo e a ameia.<\/p>\n<p> Ela &eacute; como um l&iacute;rio entre os abrolhos! Como eu a amo! Que<br \/>\n    mulher! Que meia! Casar com ela? Porque n&atilde;o? In&ecirc;s N&atilde;o<br \/>\n    nasceu no curral de um abeg&atilde;o: O sangue que roseia a sua tez Vem das<br \/>\n    veias do duque de Arag&atilde;o.<\/p>\n<p> Ora afirmam os livros de ju&iacute;zo Que Ad&atilde;o, depois de feito,<br \/>\n    ao acordar Achou l&aacute; nos jardins do Para&iacute;so Os duques de Arag&atilde;o<br \/>\n    a passear.<\/p>\n<p> Mas para o Pap&aacute;, que esc&acirc;ndalo daninho.<\/p>\n<p> Como ele vai arrepelar a pele! E quantos pontap&eacute;s ao escabelo L&aacute;<br \/>\n    nos pa&ccedil;os reais de S&atilde;o Martinho! Pior! Se eu teimo neste meigo<br \/>\n    trilho, O mundo ver&aacute; desastre sem igual: Afonso IV, rei de Portugal,<br \/>\n    Com o ceptro de ouro espancando o filho! (pausa) E se eu deixar que o meu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o rompa Os preconceitos? Se eu fugir com ela E me acolher<br \/>\n    a terras de Castela.<\/p>\n<p> Ganhando a minha vida a ensinar trompa? Perd&ecirc;-la&#8230; n&atilde;o! Que<br \/>\n    pre&ccedil;o tem a vida Sem o sorriso dos seus olhos doces? Sem o seu riso,<br \/>\n    o seu falar de sereia? Dou a coroa real por bem perdida.<\/p>\n<p> S&oacute; por a ver sentada, a fazer meia.<\/p>\n<p> Foi-se. Acabou-se. O meu amor profundo Ser&aacute; fiel &agrave;s juras<br \/>\n    que jur&aacute;mos.<\/p>\n<p> Que me perten&ccedil;a In&ecirc;s, e com mil demos Acabe o Reino e que rebente<br \/>\n    o Mundo!.<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p> D. Pedro Agora, juntos, por detr&aacute;s do velho muro, Dom Pedro e Dona<br \/>\n    In&ecirc;s jantando.<\/p>\n<p> N&atilde;o se v&ecirc;, mas h&aacute; um aio venerando Que os serve em baixela<br \/>\n    de ouro puro.<\/p>\n<p> J&aacute; o cheiro se espalha. n&atilde;o o sentes? De um chorumento caldo<br \/>\n    de galinha.<\/p>\n<p> Que foi cuidado pelas m&atilde;os ingentes Da que depois de morta foi rainha?<br \/>\n    Segue a rica vitela da Laf&otilde;es.<\/p>\n<p> No covilhete v&ecirc;m as azeitonas, Com a batatinha bem assada e loura.<\/p>\n<p> A salada &eacute; de alface e de cenoura; E sobre o arroz negrejam salpic&otilde;es.<\/p>\n<p> L&aacute; vem o peru. Admirai o peru! Surge ao lado a divina cabidela: E<br \/>\n    pela gana com que vai sob&rsquo;ela, Bem se v&ecirc; que Dom Pedro h&aacute;-de<br \/>\n    ser Cru.<\/p>\n<p> Em seguida se ostenta uma lampreia Guisada; e, logo atr&aacute;s, a bela<br \/>\n    lula.<\/p>\n<p> Misturam carne e peixe? Mas o Senhor Infante j&aacute; tem bula.<\/p>\n<p> Depois a a&ccedil;orda de alho. Que del&iacute;cia Quando comida &agrave;<br \/>\n    beira do Mondego! O leit&atilde;ozinho assado com per&iacute;cia E o presunto<br \/>\n    sublime de Lamego.<\/p>\n<p> Mas eis que os doces entram com arranco.<\/p>\n<p> O desejado arroz com a canela; O pastel de Tent&uacute;gal, a morcela, O<br \/>\n    bolo podre e o manjarzinho branco.<\/p>\n<p> Tudo se some na real goela.<\/p>\n<p> Fica limpa a travessa e o covilhete.<\/p>\n<p> Sem que o Infante, ao seu colete, Desaperte a fivela&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o se conta na cr&oacute;nica os vinhos Que se esgotaram no jantar<br \/>\n    real! Corramos sobre o caso honesta venda, Por se tratar de um rei de Portugal..<\/p>\n<p> Depois o Infante, todo recostado, Saboreou com um sorriso farto e aberto,<br \/>\n    Caf&eacute; que ainda n&atilde;o fora descoberto E charuto que depois foi<br \/>\n    inventado&#8230;<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p> Estavam eles dois postos em sossego, Cedendo do amor a doce lei, Quando<br \/>\n    l&aacute; em Lisboa o velho Rei, Soube do que ia c&aacute; pelo Mondego.<\/p>\n<p> Enverga logo o seu real pelote, Manda fazer a mala &agrave; camareira E<br \/>\n    grita: dai-me ca um bom chicote, Que eu vou a Coimbra ver a maroteira! Catrapuz,<br \/>\n    catrapuz, Sobe o seu ginete, Passa por Queluz, Entra em Alcochete.<\/p>\n<p> Pela estrada branca Que no p&eacute; se estira, Chega a Vila Franca, Que<br \/>\n    chamam de Xira.<\/p>\n<p> E o Infante e In&ecirc;s t&atilde;o descuidados, Com os dedos sobre a mesa<br \/>\n    entrela&ccedil;ados.<\/p>\n<p> Num castelo al&eacute;m, Num cerro, O Rei diz contente: C&aacute; est&aacute;<br \/>\n    Santar&eacute;m! E o Infante e In&ecirc;s, com a alma em festa, Trocando beijos<br \/>\n    no calor da sesta.<\/p>\n<p> J&aacute; rompe a manh&atilde;.<\/p>\n<p> Cada um o note, Quando El-Rei a trote, Chega &agrave; Goleg&atilde;.<\/p>\n<p> Numa hospedaria El-Rei se acolheu, Que a noite o colheu Em plena Leiria.<\/p>\n<p> De novo a cavalo.<\/p>\n<p> Depois ele deixa A estrada real; E, adeus Pombal,.<\/p>\n<p> Penetra em Condeixa.<\/p>\n<p> E o Infante e In&ecirc;s, em doce enleio, Rindo, partem ambos a bolacha<br \/>\n    pelo meio.<\/p>\n<p> O termo est&aacute; perto, Avista telha, E erro ou certo, Est&aacute; Formoselha.<\/p>\n<p> Dom Afonso timbra, No seu galopar, Galope fremente, Poeira no ar, Pra frente,<br \/>\n    pra frente, L&aacute; est&aacute; Coimbra! &Agrave; quinta chegou, As r&eacute;deas<br \/>\n    largou; Corcel desmontou.<\/p>\n<p> No pomar parou, Subtil espreitou.<\/p>\n<p> E agora &eacute; que s&atilde;o elas, meus senhores, Que um luto vai cobrir<br \/>\n    esses amores! Dom Afonso entra.<\/p>\n<p> O Infante, In&ecirc;s&#8230;<\/p>\n<p> &Eacute; tempo: vou chamar o assassino.<\/p>\n<p> Rente ao muro, Devagarinho, No manto escuro Todo embu&ccedil;ado, Do colarinho<br \/>\n    T&eacute; ao joelho, Vem o daninho, Vem o malvado, P&ecirc;ro Coelho.<\/p>\n<p> Toma In&ecirc;s, no entanto, um menino.<\/p>\n<p> E outro menino.<\/p>\n<p> T&atilde;o enlevada, Que at&eacute; nem ouve, Sob a latada, A tosse seca,<br \/>\n    Do assassino.<\/p>\n<p> Mas, s&uacute;bito, Coelho,.<\/p>\n<p> Aceso em furor, Arroja a capa, Larga o chap&eacute;u, Ergue o punhal, Despede<br \/>\n    um salto! Horror, horror, horror!&#8230;<\/p>\n<p> Caminhante! Na p&aacute;gina fronteira Tu v&ecirc;s D. Pedro, o Cru, forte<br \/>\n    e sem medos, Ceando! Pedro pra quem o cora&ccedil;&atilde;o humano Depois<br \/>\n    de assado j&aacute; n&atilde;o tem segredos..<\/p>\n<p> A MORTE DE JESUS Por estranhos acasos encontrei este velho manuscrito copiado,<br \/>\n    num latim b&aacute;rbaro, do antigo papiro primitivo. N&atilde;o o traduzo<br \/>\n    textualmente: seria incompreens&iacute;vel, irritaria os nossos h&aacute;bitos<br \/>\n    cr&iacute;ticos, psicol&oacute;gicos! Transporto para a linguagem moderna,<br \/>\n    complexa, d&uacute;ctil, s&aacute;bia, o estreito dizer antigo.<\/p>\n<p> Assim ordenado, este documento, que n&atilde;o encerra coisas novas, p&otilde;e,<br \/>\n    todavia, em relevo muitos estados de esp&iacute;rito, muitas situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    civis de uma pessoa excepcional, que tem notavelmente merecido nestes &uacute;ltimos<br \/>\n    tempos a aten&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria e da cr&iacute;tica 44 Jerusal&eacute;m,<br \/>\n    Mediterranean Hotel, no Acra, 1 de Dezembro de 1869.<\/p>\n<p> Dies irae, dies illa&#8230;<\/p>\n<p> I Eu sou o mais velho da gera&ccedil;&atilde;o desse homem: aqui vivo, afastado<br \/>\n    da cruel Jerusal&eacute;m, em Betlem, junto desse po&ccedil;o que tem uma<br \/>\n    &aacute;gua tio fresca e consoladora que David a lamentava no desterro.<\/p>\n<p> Os outros onde est&atilde;o? Onde estais v&oacute;s. Tom&aacute;s, Mateus,<br \/>\n    Sim&atilde;o, Pedro, Jo&atilde;o? Onde estais v&oacute;s? Judas de Karioth<br \/>\n    sei que morreu obscuro e sossegado no campo de Haceldama; P&ocirc;ncio Pilatos<br \/>\n    esta em Espanha, retirado e pobre, ele o velho amigo de Tib&eacute;rio. Antipas,<br \/>\n    Herod&iacute;ade, andam na afli&ccedil;&atilde;o dos desterros; Hanan morreu,<br \/>\n    mas a sua mem&oacute;ria e a sua doutrina ainda governam o Templo. Onde est&atilde;o<br \/>\n    os mais: Nicodemus, Jos&eacute;, Maria de Cleofas, a santa mulher, Gamaliel,<br \/>\n    o s&aacute;bio doutor? Uns est&atilde;o no vale de Josaf&aacute;, outros no<br \/>\n    vale de Hinon, todos esquecidos. Tanto a mem&oacute;ria do homem &eacute;<br \/>\n    como a onda fugitiva e p&eacute;rfida! &Eacute; por isso, para que se n&atilde;o<br \/>\n    perca a lembran&ccedil;a daquele homem, justo e bom, que eu procuro dizer<br \/>\n    com simplicidade e verdade tudo quanto vi e compreendi da sua vida; t&atilde;o<br \/>\n    breve pelos dias, t&atilde;o longa pelas dores.<\/p>\n<p> Quando o conheci em Jerusal&eacute;m, pela festa da P&aacute;scoa, era eu<br \/>\n    mo&ccedil;o. A minha vida passavase toda no Templo. O Templo, reconstru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Herodes, o Grande, estava ent&atilde;o novo e resplandecente: ainda se<br \/>\n    trabalhava nos p&oacute;rticos exteriores. Ali era o centro de Jerusal&eacute;m:<br \/>\n    ali se orava, se celebrava, se tratavam as quest&otilde;es civis, se julgavam<br \/>\n    os 44 Este trabalho de E&ccedil;a de Queir&oacute;s, escrito por ocasi&atilde;o<br \/>\n    da sua viagem ao Egipto e &agrave; Palestina em 1869, foi publicado em 1870<br \/>\n    na Revolu&ccedil;&atilde;o de Setembro, ficando, todavia, incompleto.<\/p>\n<p> O meu nome &eacute; Eliziel, e fui capit&atilde;o da pol&iacute;cia do Templo:<br \/>\n    estou velho e inclinado para a sepultura: e antes de me deitarem para a Eternidade<br \/>\n    sob uma pedra lisa, em Josaf&aacute;, ou nas mortu&aacute;rias de Siloeh,<br \/>\n    quero contar o que sei e o que vi de um homem excelente, que na minha mocidade<br \/>\n    esteve, pelos acasos providenciais da simpatia, intimamente ligado &agrave;<br \/>\n    minha vida. Nestes &uacute;ltimos tempos, sobretudo, a sua Imagem vive activa<br \/>\n    e poderosa no meu c&eacute;rebro; e quando, pelo findar da tarde, a esta luz<br \/>\n    magoada que ent&atilde;o habita no c&eacute;u da Judeia, eu me vou sentar<br \/>\n    junto ao branco t&uacute;mulo de Raquel olhando as muralhas de Jerusal&eacute;m<br \/>\n    e a velha Suo, cheia de claridade, e as ru&iacute;nas de David, &eacute; nele<br \/>\n    que penso  e nesses tempos distantes em que eu tinha a for&ccedil;a,<br \/>\n    a barba escura, o andar &aacute;gil e firme, e a esperan&ccedil;a f&aacute;cil..<br \/>\n    condenados, se estabeleciam as escolas rab&iacute;nicas da Lei, se discutiam<br \/>\n    os &eacute;ditos de Roma, o procedimento dos legados imperiais e dos procuradores,<br \/>\n    se curavam os doentes, se tramavam as sedi&ccedil;&otilde;es. Os romanos n&atilde;o<br \/>\n    podiam entrar no templo: no &aacute;trio da primeira galeria havia inscri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em grego e em latim que vedavam aos gentios, aos pag&atilde;os e aos samaritanos<br \/>\n    penetrar al&eacute;m. No entanto n&oacute;s v&iacute;amos sempre os romanos<br \/>\n    nos terra&ccedil;os da Torre Ant&oacute;nia, que domina o recinto do Templo,<br \/>\n    observarem, rirem, dormirem ao sol, ou pela tarde jogarem a barra, exercitarem-se<br \/>\n    em lutas.<\/p>\n<p> A mim, como oficial da pol&iacute;cia do Templo, competia-me abrir, fechar<br \/>\n    as portas, impedir que se entrasse no santu&aacute;rio com bast&otilde;es<br \/>\n    ou armas, que se sujassem as lajes dos terra&ccedil;os com lama, que se passasse<br \/>\n    com fardos, ou que viessem orar junto &agrave;s colunas do santu&aacute;rio<br \/>\n    os que estavam tocados de impureza.<\/p>\n<p> Eu era escrupuloso e atento e desgostava-me (e muitas vezes o disse) que<br \/>\n    o servi&ccedil;o do culto autorizasse factos indignos da santidade da Lei,<br \/>\n    e da consagra&ccedil;&atilde;o do lugar, porque, no recinto do Templo, vinham<br \/>\n    estabelecer-se toda a sorte de vendedores e de bazares: vinham ali vender<br \/>\n    os animais para os sacrif&iacute;cios, os estofos, os v&eacute;us, as faixas<br \/>\n    de Tiro, trocava-se a moeda, negociava-se o azeite: e, como o Templo era o<br \/>\n    centro vital de Jerusal&eacute;m, havia ali toda a semelhan&ccedil;a de uma<br \/>\n    feira: preg&otilde;es, fardos, arcas; e mais parecia o mercado pag&atilde;o<br \/>\n    de Cesareia, do que o interior da casa de Deus.<\/p>\n<p> Outra coisa me irritava ali, singularmente: eram os fariseus, os escribas,<br \/>\n    e os doutores da Lei; n&atilde;o os estimo: entre eles s&oacute; vi acrim&oacute;nias,<br \/>\n    &oacute;dios, disputas est&eacute;reis.<\/p>\n<p> Nunca compreendi o orgulho dos doutores nem mesmo o seu desprezo pela sabedoria<br \/>\n    grega: meu pai cultivava as letras hel&eacute;nicas, e tinha-me dado um conhecimento<br \/>\n    daquela ci&ecirc;ncia, incorrendo assim na ira dos doutores fariseus, que<br \/>\n    envolvem na mesma maldi&ccedil;&atilde;o o que cria porcos, e o que ensina<br \/>\n    a seu filho a ci&ecirc;ncia grega. Meu pai tinha viajado no Egipto, em Alexandria,<br \/>\n    e a&iacute; se tinha ligado com um s&aacute;bio, Filou, judeu pela mie, grego<br \/>\n    pela alma, de quem os mestres das sinagogas diziam o maior mal.<\/p>\n<p> Desde ent&atilde;o tinha-se tomado de afei&ccedil;&atilde;o pela ci&ecirc;ncia<br \/>\n    grega, e, velho, entretinha-se a fazer passar ao meu esp&iacute;rito as grandes<br \/>\n    doutrinas daquelas gentes. Ora o &oacute;dio dos escribas pela ci&ecirc;ncia<br \/>\n    hel&eacute;nica indignava-me. Demais, eles s&atilde;o repulsivos e grosseiros.<\/p>\n<p> Os fariseus, especialmente, s&atilde;o &aacute;speros, desdenhosos, maus,<br \/>\n    respeitando mais as minuciosidades do culto, do que o esp&iacute;rito da Lei.<br \/>\n    Em tudo cheios de artif&iacute;cio e de vaidade: se entram na sinagoga, querem<br \/>\n    o melhor lugar, o mais largo, e todos os v&ecirc;em batendo no peito sob a<br \/>\n    amplid&atilde;o do manto: se v&atilde;o pela rua ou pelo campo, prostram-se<br \/>\n    ruidosamente a orar, se v&ecirc;em o olhar do homem: se d&atilde;o uma esmola,<br \/>\n    contam-na como virtude, apregoam-na como exemplo: e sempre argumentando, vociferando,<br \/>\n    enchendo o santu&aacute;rio de disputas e de invectivas! Se numa ceia, algum<br \/>\n    dos convivas faz a ablu&ccedil;&atilde;o sobre a testa, com a m&atilde;o longa,<br \/>\n    em lugar de a fazer s&oacute; com dois dedos, amaldi&ccedil;oam-no, clamam<br \/>\n    pelas iras de Jeov&aacute; e levantam-se escandalizados: nunca ningu&eacute;m<br \/>\n    os v&ecirc; consolar uma vi&uacute;va, ou ajudar um velho a andar: os pobres,<br \/>\n    os abandonados, s&atilde;o para eles como os que est&atilde;o tocados da peste:<br \/>\n    caminham com os olhos fechados para n&atilde;o verem as mulheres, e com os<br \/>\n    p&eacute;s nus para se ferirem nas pedras: mas por baixo do seu zelo, s&atilde;o<br \/>\n    cheios de apetites, como um homem sangu&iacute;neo! Quanto &eacute; melhor<br \/>\n    que estes o alto sacerd&oacute;cio, que &eacute; todo da seita dos saduceus<br \/>\n    e dos boetozins: h&aacute; ai mais sinceridade, e mais elemento humano: s&atilde;o<br \/>\n    homens pacatos e faustosos, que intrigam com Roma, n&atilde;o t&ecirc;m zelos<br \/>\n    nem devo&ccedil;6es irritantes, amam o sossego, as lindas casas de campo junto<br \/>\n    a Silo ou para al&eacute;m de Bezeta, os moles estofos de S&iacute;don, ou<br \/>\n    as belas mulheres de Idumeia.<\/p>\n<p> Mas o que na vida do Templo me indignava superiormente, era o v&ecirc;-lo<br \/>\n    tornado um lugar de com&eacute;rcio, de venda e de troca de moeda. E foi por<br \/>\n    este &oacute;dio aos mercadores do Templo, que al&eacute;m disso me tornavam<br \/>\n    a pol&iacute;cia dif&iacute;cil e fatigante, que eu conheci o. homem inef&aacute;vel,<br \/>\n    por quem os meus olhos ainda se humedecem.<\/p>\n<p> Um dia, entrava eu na Galeria de Salom&atilde;o, que &eacute; a que tem<br \/>\n    tr&ecirc;s ordens de colunas, o tecto de cedro lavrado, e olho para o Monte<br \/>\n    das Oliveiras. Era na festa da P&aacute;scoa e na multid&atilde;o dos peregrinos.<br \/>\n    Um soldado da mil&iacute;cia do Templo tinha-me dito que, contra os avisos,<br \/>\n    dois mercadores de pombas e de carneiros tenros tinham-se vindo encruzar nas<br \/>\n    suas esteiras junto das colunatas, com as reses enfeitadas de escarlate, e<br \/>\n    os cestos de aves brancas. Eu ia, cheio de c&oacute;lera, para os condenar,<br \/>\n    quando vi em redor uma confusa gente dominada pelo forte ru&iacute;do de uma<br \/>\n    voz: defronte dos mercadores, havia um homem de p&eacute;, que lhes falava.<br \/>\n    Era alto, magro, fraco: tinha os cabelos louros, pendentes, separados ao meio,<br \/>\n    cabelos de homem de Galileia: mesmo, percebi logo, pelo acento e pela pron&uacute;ncia,<br \/>\n    que ele era galileu: naquele momento o seu rosto era irritado e severo: tinha<br \/>\n    o gesto largo ao modo dos que pregam nas sinagogas, tinhas as fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inflamadas os olhos cheios de uma luz indignada: a sua estatura erguida pela<br \/>\n    c&oacute;lera, enobrecida pela justi&ccedil;a das suas palavras, cheia do<br \/>\n    seu pensamento, fazia-o parecer mais que um homem.<\/p>\n<p> Os mercadores, assustados, recolhiam os cestos, dobravam as esteiras, arrastavam<br \/>\n    as reses: as pombas esvoa&ccedil;avam.<\/p>\n<p>  Ide!  disse-lhes ele ent&atilde;o  v&oacute;s fazeis<br \/>\n    da casa da ora&ccedil;&atilde;o uma caverna de ladr&otilde;es.<\/p>\n<p> E com a m&atilde;o violenta empurrou-os largamente, para al&eacute;m das<br \/>\n    colunas. Eles iam, tomados de temor. Os homens em redor tinham uma aprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    simp&aacute;tica para o de Galileia: alguns riam, havia crian&ccedil;as assustadas<br \/>\n    que gritavam. Eu olhava, admirado.<\/p>\n<p>  Quem &eacute; este?  perguntei a Jo&atilde;o, um galileu,<br \/>\n    que estava junto dele, e que eu conhecia de o ter encontrado no &aacute;trio<br \/>\n    da casa de Hanan.<\/p>\n<p>  N&atilde;o o conheces tu? &Eacute; Jesus de Nazar&eacute;, profeta<br \/>\n    de Galileia! II Durante a minha vida do Templo eu tinha visto muitos videntes,<br \/>\n    muitos profetas: vinham da Galileia, da Judeia, de todo o pais que vai at&eacute;<br \/>\n    Jop&eacute;. N&atilde;o direi o que penso da inten&ccedil;&atilde;o prof&eacute;tica<br \/>\n    e da cren&ccedil;a messi&acirc;nica. S&oacute; direi que os profetas que no<br \/>\n    meu tempo vieram e eram lapidados &agrave;s portas de Jerusal&eacute;m eram<br \/>\n    bons; eram uma voz colectiva, a esperan&ccedil;a, a consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o al&iacute;vio.<\/p>\n<p> O povo era profundamente infeliz: os saduceus afogados nos seus repousos,<br \/>\n    os fariseus perdidos nas suas devo&ccedil;&otilde;es, os escribas e doutores<br \/>\n    absorvidos nas suas escolas, n&atilde;o viam o estado das almas. Al&eacute;m<br \/>\n    de tudo, estavam longe do povo, numa separa&ccedil;&atilde;o desdenhosa e<br \/>\n    enf&aacute;tica. Eu estava profundamente ligado ao povo pela ra&ccedil;a e<br \/>\n    pelo instinto. J&aacute; na vida estreita e toda comum de Jerusal&eacute;m,<br \/>\n    j&aacute; nas conversa&ccedil;&otilde;es dos &aacute;trios do Templo, j&aacute;<br \/>\n    nas minhas demoras em Bethel, em Efraim, em Galileia, eu via, compreendia,<br \/>\n    sabia o povo. Infeliz, desprezado, eternamente escravo, esmagado pelo tributo<br \/>\n    da domina&ccedil;&atilde;o e pelo d&iacute;zimo, refugiava-se, maltratado<br \/>\n    da terra, na esperan&ccedil;a de um libertador, de um Messias. O Judeu &eacute;<br \/>\n    dado a preocupa&ccedil;&otilde;es divinas e a sua verdadeira p&aacute;tria<br \/>\n    &eacute; em Deus.<\/p>\n<p> Uma s&eacute;rie de homens fortes e piedosos eram os int&eacute;rpretes<br \/>\n    deste desejo ideal, eram a voz daquela melancolia e eram os amigos do pobre,<br \/>\n    os &aacute;speros juizes do rico, os consoladores austeros.<\/p>\n<p> O povo, sufocado pela sua paix&atilde;o interior, sentia-se aliviado e consolado,<br \/>\n    quando um profeta falava. Os profetas confirmavam a vinda do Messias, diziam-lhe<br \/>\n    a figura e as ac&ccedil;&otilde;es, a piedade e a paix&atilde;o, esfarrapavam<br \/>\n    os seus vestidos, iam viver no deserto: da&iacute; a exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tornava-se um estado natural e humano, as almas cresciam em desejo e. vontade.<br \/>\n    De sorte que todos os anos apareciam videntes e inspirados, que o Sanedrim<br \/>\n    mandava lapidar &agrave; Porta Esterquilin&aacute;ria. Mas lamentavam-no,<br \/>\n    porque o povo segue sempre todo o movimento que seja original, amigo do pobre,<br \/>\n    anunciador da boa nova: Schamma&iuml;, Hillel, Jesus de Sirach, que tiveram<br \/>\n    altos pensamentos de pureza e de justi&ccedil;a, viveram ignorados da Judeia<br \/>\n    e da Galileia porque n&atilde;o saiam do meio simples e infeliz, porque n&atilde;o<br \/>\n    pregavam em nome da esperan&ccedil;a religiosa, n&atilde;o tinham a paix&atilde;o<br \/>\n    messi&acirc;nica. Eram esp&iacute;ritos s&aacute;bios e justos, e n&atilde;o<br \/>\n    videntes possu&iacute;dos de f&eacute;.<\/p>\n<p> Ora nesse tempo &agrave; esperan&ccedil;a do Messias era activa. Clamavam<br \/>\n    por ele a Deus, jejuavam, oravam, para n&atilde;o morrerem antes da vinda<br \/>\n    dele; tinham desalentos, esperavam avidamente os sinais m&iacute;sticos, e<br \/>\n    as almas falavam baixo, porque vinha o Senhor! Eu mesmo tinha visto muitos<br \/>\n    profetas, muitos mestres Inovadores; n&atilde;o conhecia Jo&atilde;o Baptista,<br \/>\n    que vivia no deserto do Jord&atilde;o, mas sabia que ele tamb&eacute;m pregava<br \/>\n    um renascimento, e que, tendo escandalizado a ol&iacute;mpica Herod&iacute;ade,<br \/>\n    se definhava numa pris&atilde;o de Antipas.<\/p>\n<p> No entanto nunca nenhum desses homens me dera uma sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    feliz como esse Jesus de Nazar&eacute;. Os seus olhos cheios de infinito,<br \/>\n    a sua voz poderosa e serena, a justi&ccedil;a das suas palavras deixaram-me<br \/>\n    numa vaga e imprevista perturba&ccedil;&atilde;o como quando se olha para<br \/>\n    o c&eacute;u, que se sup&otilde;e escuro, e de repente se v&ecirc; uma estrela<br \/>\n    imortalmente luminosa.<\/p>\n<p> Nessa tarde, como eu caminhasse pela encosta de Suo para o lado do horto<br \/>\n    de Salom&atilde;o, com Simeon, escriba do Templo, perguntei-lhe se conhecia<br \/>\n    Jesus de Nazar&eacute;, que pregava na Galileia. Simeon disse-me, com um riso:<br \/>\n     Que sabes tu que possa vir de bom de Nazar&eacute;? Realmente toda<br \/>\n    a Galileia &eacute; muito desprezada pelos de Jerusal&eacute;m. Fomos conversando<br \/>\n    nesta aprecia&ccedil;&atilde;o; Simeon dizia-me que os galileus eram fracos,<br \/>\n    femininos, imbecis; que eram ignorantes e pouco ortodoxos: que o sangue estava<br \/>\n    neles muito misturado: que tinham muito de Samaritano: que a sua pron&uacute;ncia<br \/>\n    era viciosa: que eram grotescos a falar, insuficientes a pensar: e que idiotismo<br \/>\n    galileu era um prov&eacute;rbio de Jerusal&eacute;m. Eu respondia que a gente<br \/>\n    de Galileia me parecia simples e delicada: que quem vive numa Natureza t&atilde;o<br \/>\n    humana, t&atilde;o cheia de &aacute;guas, t&atilde;o auxiliada das sombras,<br \/>\n    n&atilde;o podia deixar de ter qualidades finas, e harmoniosas; os galileus<br \/>\n    eram trabalhadores e s&oacute;brios: e que Isa&iacute;as tinha dito: &laquo;&Oacute;<br \/>\n    terra de Zabulon, e terra de Neftali, caminho do mar, Galileia dos gentios,<br \/>\n    o povo que caminhava na sombra viu uma grande luz!&raquo;  Ora, Simeon<br \/>\n     dizia eu  estas palavras de Isa&iacute;as indicam que em Galileia<br \/>\n    pode nascer um profeta! &Iacute;amos assim largamente conversando, quando<br \/>\n    cheg&aacute;mos ao horto de Salom&atilde;o: a natural beleza, as &aacute;rvores,<br \/>\n    as vinhas, a perspectiva suave e recolhida dos vales de Jerusal&eacute;m,<br \/>\n    a silenciosa espessura. a fresca serenidade, os bandos de pombas que v&ecirc;m<br \/>\n    beber aos velhos reservat&oacute;rios de Salom&atilde;o, fazem daquele lugar<br \/>\n    um retiro bom para esp&iacute;ritos s&aacute;bios, para aqueles que t&ecirc;m<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o uma ideia, ou que s&atilde;o habitados por uma esperan&ccedil;a:<br \/>\n    ali se re&uacute;nem assimmuitos de Jerusal&eacute;m! Naquele dia andava ali,<br \/>\n    absorvido, grave e vagaroso, o s&aacute;bio Gamaliel. Gamaliel era o maior<br \/>\n    do Templo: se os outros eram o poder, a intriga, a riqueza, a tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n     ele era a ci&ecirc;ncia: se os outros eram a lei  ele era a<br \/>\n    justi&ccedil;a. Eu, preocupado pelo Nazareno, perguntei a Gamaliel se conhecia<br \/>\n    aquele homem severo.<\/p>\n<p>  Pelo que sei dele  disse Gamaliel  penso que &eacute;<br \/>\n    um justo.<\/p>\n<p> Guardei com amor esta palavra: ela correspondia &agrave; atrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    suave e piedosa que eu sentia pelo severo mestre da Galileia. Ao voltar a<br \/>\n    Jerusal&eacute;m pensava nele: via-o Irritado e augusto: imaginei-o cheio<br \/>\n    da c&oacute;lera do justo e da rebeli&atilde;o do oprimido: o que. ele pregava<br \/>\n    decerto era a condena&ccedil;&atilde;o do rico. e a humilha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do fariseu. Era o que tu precisavas, Jerusal&eacute;m, dizia eu, era um profeta<br \/>\n    amado e seguido, que fosse a alma de uma infinita desgra&ccedil;a que se vinga,<br \/>\n    que erguesse o povo, aniquilasse os sacerd&oacute;cios corrompidos, expulsasse<br \/>\n    o Romano, que reconstitu&iacute;sse nas almas a velha Israel, nas institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a velha Judeia, que fosse o homem forte e puro, e o continuador dos Macabeus.<br \/>\n    Produzira a Galileia esta alma terr&iacute;vel?. Ou ser&aacute; Elias ressuscitado<br \/>\n    de entre os mortos? Assim pensava, encaminhando-me, pela noite pesada, para<br \/>\n    a casa de Hanan.<\/p>\n<p> Hanan era o grande-sacerdote, ainda que na realidade e nas coisas do Templo<br \/>\n    o fosse seu genro Caif&aacute;s; mas ele era o esp&iacute;rito, a direc&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o conselho, a iniciativa de toda a vida sacerdotal do Templo, Era velho, sabedor<br \/>\n    das tradi&ccedil;&otilde;es, astuto, possu&iacute;a enormes riquezas, conspirava<br \/>\n    contra Roma, era concentrado e soberbo.<\/p>\n<p> Num dos largos p&aacute;tios cobertos de sua casa em Bezeta era um costume<br \/>\n    reunirem-se em volta de um grande fogo, quando o frio entristecia Jerusal&eacute;m,<br \/>\n    os oficiais do Templo: &agrave;s vezes vinham escribas, doutores, sacerdotes<br \/>\n    af&aacute;veis. Aquele grupo, sempre igual, era como uma consci&ecirc;ncia<br \/>\n    um pouco mordente do Templo. As vezes, quando n&atilde;o estava algum austero<br \/>\n    doutor fariseu, pedia-se a um soldado expedicion&aacute;rio que entrasse para<br \/>\n    junto do lume, dava-se-lhe do vinho de S&iacute;don e das colinas do L&iacute;bano<br \/>\n    e pedia-se-lhe que cantasse alguma das cantigas latinas do bairro de Suburra.<br \/>\n    Alguns velhos sacerdotes riam nas suas barbas brancas. Nessa noite, quando<br \/>\n    eu atravessava o &aacute;trio de Hanan, cruzei-me com aquele galileu, Jo&atilde;o,<br \/>\n    que eu tinha visto junto a Jesus de Nazar&eacute;, na Galeria de Salom&atilde;o.<br \/>\n    Ele costumava vir ali ver uma velha, guardadora dos c&atilde;es, que era de<br \/>\n    Cafarnaum, na Galileia. Chamei-o, tomei-lhe as m&atilde;os, falei-lhe afavelmente<br \/>\n    em Jesus de Nazar&eacute;: eu enfim compreendia bem aquele que, por um imprevisto<br \/>\n    interesse, pela eleva&ccedil;&atilde;o da sua palavra, pela beleza do seu<br \/>\n    aspecto, habitava j&aacute; no meu peito, como um amigo da antiga mocidade!<br \/>\n    III Jo&atilde;o disse-me vagamente todo o passado de Jesus, em palavras simples,<br \/>\n    mas penetradas de f&eacute; e de desejo.<\/p>\n<p> Eu reconstru&iacute; ent&atilde;o em esp&iacute;rito a vida obscura de Jesus;<br \/>\n    vi-o, pela intui&ccedil;&atilde;o, em Nazar&eacute;, educado por aquela doce<br \/>\n    paisagem da Galileia, sob a influ&ecirc;ncia do Carmelo, das serras do Tabor<br \/>\n    e das terras patriarcais.<\/p>\n<p> Eu tinha ali viajado, e muitas vezes me tinha sentado num rochedo nas alturas<br \/>\n    de Nazar&eacute;. Se algum lugar h&aacute; no mundo em que o homem sinta a<br \/>\n    estreiteza da vida civil, a instabilidade dos interesses, o contingente e<br \/>\n    fugitivo das afei&ccedil;&otilde;es e dos desejos, &eacute; ali, naquele vasto<br \/>\n    e sossegado horizonte, em que parece que o c&eacute;u exerce mais profundamente<br \/>\n    a sua atrac&ccedil;&atilde;o infinita sobre a alma cativa.<\/p>\n<p> Que pomares, que prados, que humanas &aacute;guas, que aldeias delicadamente<br \/>\n    adormecidas entre as figueiras e as vinhas! E eu via Jesus, imaginando, esperando<br \/>\n    naquele h&uacute;mido para&iacute;so da Galileia e nas suas montanhas queridas,<br \/>\n    de belas formas amorosas! Via-o com os seus primeiros amigos, j&aacute; possu&iacute;do<br \/>\n    da ideia do seu Deus, entrando a falar nas sinagogas, correndo as aldeias,<br \/>\n    ajudando as pescas, dormindo nos largos terra&ccedil;os sob a luz das estrelas<br \/>\n    t&atilde;o belas, tio expressivas como na velha Caldeia; chamando os que encontrava<br \/>\n    para que o amassem, acariciando os fracos, e dando-se a si e ao Deus interior<br \/>\n    que o habitava, em alimento &agrave;s almas infelizes.<\/p>\n<p> Os de Jerusal&eacute;m, que nunca sa&iacute;ram das suas estreitas e duras<br \/>\n    ruas, e apenas t&ecirc;m visto da Natureza as suas colinas calvas e os seus<br \/>\n    vales cheios de mortos, riem quando se lhes fala na Natureza do Norte, na<br \/>\n    fecundidade da Samaria e da Galileia e na. excel&ecirc;ncia daquela gente.<\/p>\n<p> Pois se Jerusal&eacute;m tem de ser erguida das suas choradas humilha&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ser&aacute; por algu&eacute;m. vindo do lado das aldeias e dos lagos da Galileia!<br \/>\n    Esta Jerusal&eacute;m &aacute;spera, seca, toda de pedra e de indiferen&ccedil;a,<br \/>\n    s&oacute; far&aacute; esp&iacute;ritos estreitos, fariseus argumentadores,<br \/>\n    escribas e lapidadores de homens. O sangue de Judas Galaunete, de Hillel,<br \/>\n    do filho de Sirach, de Gamaliel, de todos os homens justos do nosso tempo<br \/>\n    &eacute; parente da seiva das &aacute;rvores da Galileia. Uma eleva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ideal sai daquelas sombras e do rumor daquelas &aacute;guas. Jerusal&eacute;m<br \/>\n    ser&aacute; a lei, a autoridade, a sabedoria, a habilidade, a ast&uacute;cia;<br \/>\n    mas a Galileia ser&aacute; a virtude e o sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> Ali n&atilde;o h&aacute; cidades: h&aacute; as pequenas aldeias s&iacute;rias<br \/>\n    que eu amo, onde as mulheres t&ecirc;m o seio pac&iacute;fico, os homens a<br \/>\n    for&ccedil;a serena, e at&eacute; os pequenos burros t&ecirc;m um olhar doce,<br \/>\n    em que parece habitar uma resigna&ccedil;&atilde;o humana. Tudo &eacute; fecundo,<br \/>\n    bem cultivado: a abund&acirc;ncia impede a hostilidade ao imposto, a avareza,<br \/>\n    a economia &aacute;spera, qualidades de Jerusal&eacute;m. Ah! l&acirc;minas<br \/>\n    douradas do Templo, t&uacute;mulos gregos dos Herodes, com relevos de folhagens,<br \/>\n    como eu vos dera por um dos pequenos regatos azulados, que dormem e sonham<br \/>\n    na espessura amada das searas de Chorazim! Porque n&atilde;o conhe&ccedil;o<br \/>\n    melhor alegria, do que andar pelas estradas de Galileia v&ecirc;em-se os casais<br \/>\n    escurecidos pela sombra das figueiras, das vinhas; os pomares de nogueiras,<br \/>\n    de rom&atilde;zeiras estreladas de vermelho: vai-se numa fresca espessura<br \/>\n    povoada de aves gloriosas! Quando se est&aacute; fatigado senta-se a gente<br \/>\n    diante de uma porta, &agrave; sombra de um cedro, bebese o vinho de Safed,<br \/>\n    olham-se as formas l&acirc;nguidas das montanhas, conversa-se com as mulheres<br \/>\n    que v&ecirc;m da fonte, todas frescas, cantando os cantos do tempo de Salom&atilde;o!<br \/>\n    E n&atilde;o se encontram fariseus, nem escribas, nem saduceus, nem herodianos!<br \/>\n    Era ali que Jesus vivia, falando pelos campos, pelos casais e nas sinagogas:<br \/>\n    ali devia ser escutado: n&atilde;o tinha s&aacute;bios da Lei para o contradizer<br \/>\n    e para o injuriar, e podia-se penetrar do encanto de dizer a verdade aos simples!<br \/>\n    O que Jo&atilde;o me contava da doce vida do lago de Tiber&iacute;ade enchia-me<br \/>\n    de uma afei&ccedil;&atilde;o inef&aacute;vel pelo doce mestre. Eu conhe&ccedil;o<br \/>\n    bem o lago de Tiber&iacute;ade, todo o pa&iacute;s de Genezareth: muitas alvoradas<br \/>\n    andei pelas suas aldeias e pelos caminhos das suas vilas! Ai! Magdala, Chorazim,<br \/>\n    Betsaida, margens do lago, lugares que eu choro, hoje velho, seco, p&aacute;lido<br \/>\n    das saudades pela for&ccedil;a do meu peito e pela altura da minha esperan&ccedil;a!<br \/>\n    O arvoredos sonoros de Genezareth, todos cortados de &aacute;gua, onde os<br \/>\n    meus p&eacute;s faziam erguer as rolas! O caminho estreito do rochedo, cheio<br \/>\n    de musgos! O rio salgado, que nasces ao p&eacute; do lago e logo no lago cais,<br \/>\n    e que eu tantas vezes comparei ao meu ser fugitivo! O margem do lago, cheia<br \/>\n    de tamarindos, onde a &aacute;gua, t&atilde;o azul como os olhos das mulheres<br \/>\n    de Tiro, vem terminar sem ondas, sem afli&ccedil;&otilde;es, nas ervas verde-negras!<br \/>\n    O Galileia, se as ideias mo&ccedil;as, que trago mortas dentro do meu peito,<br \/>\n    as pudesse sepultar fora de mim, escolheria a tua relva, &oacute; terra de<br \/>\n    Neftali! Jesus e os seus amigos viviam ao p&eacute; do lago, da vida de pescadores:<br \/>\n    aquele clima &eacute; t&atilde;o doce, t&atilde;o af&aacute;vel, que o homem<br \/>\n    pouco pensa no seu corpo: assim, de dia pescavam, de noite dormiam na areia,<br \/>\n    sob as estrelas; ao rumor da &aacute;gua. Jesus pescava, ou falava numa barca,<br \/>\n    no sossegado embalar da &aacute;gua, aos seus companheiros de rede: assentava-se<br \/>\n    &agrave;s. vezes sobre- as colinas, que s&atilde;o de uma viva liberdade de<br \/>\n    ar e de luz, e cercado dos simples pescadores, de mulheres, de crian&ccedil;as,<br \/>\n    pregava-se a si, ensinava o seu cora&ccedil;&atilde;o, falava das esperan&ccedil;as<br \/>\n    do reino de Deus. Ele amava tudo o que era delicado, as mulheres, as crian&ccedil;as,<br \/>\n    os l&iacute;rios, as aves: a sua palavra era assim t&atilde;o suave como os<br \/>\n    olhos das crian&ccedil;as, t&atilde;o pac&iacute;fica como o caminhar dos<br \/>\n    regatos: ele pedia apenas que o amassem, e n&atilde;o tinha raz&otilde;es<br \/>\n    inflamadas de profeta. Ele era o centro de todo o amor na verde Galileia:<br \/>\n    dava a esperan&ccedil;a &agrave;s almas: dizia a vinda do Senhor, o fim das<br \/>\n    l&aacute;grimas, as gl&oacute;rias do pobre..<\/p>\n<p>  O C&eacute;u &eacute; dos simples  dizia ele.  Os<br \/>\n    que choram ser&atilde;o consolados; os miser&aacute;veis possuir&atilde;o<br \/>\n    a Terra; tendes fome e sede de justi&ccedil;a? Vinde a mim, sereis saciados.<br \/>\n    Sede pac&iacute;ficos, sede puros. Se vos perseguirem no reino da Terra, abrir-se-vos&aacute;<br \/>\n    o reino do C&eacute;u. Segui-me, segui-me.<\/p>\n<p>E seguiam-no: abandonavam os campos, as hortas, os barcos, os casais: as<br \/>\n    crian&ccedil;as amavam-no: as mulheres iam presas da luz imortal dos seus<br \/>\n    olhos: todos queriam errar com ele pelo pa&iacute;s de Genezareth, comendo<br \/>\n    os frutos casuais dos pomares, bebendo como as reses <\/p>\n<p>  no fio dos regatos.<\/p>\n<p> Ele explicava Deus de um modo novo: ningu&eacute;m o conhecia melhor: ele<br \/>\n    era a consci&ecirc;ncia viva de Deus. O seu Deus n&atilde;o era Jeov&aacute;,<br \/>\n    amigo de Israel, inimigo dos homens: n&atilde;o era o ser solit&aacute;rio,<br \/>\n    tenebroso, irrit&aacute;vel: o seu Deus era o pai, o consolador, o purificador,<br \/>\n    o eternamente sereno, o eternamente justo.<\/p>\n<p> O Mestre pregava a fraternidade entre os homens, o perd&atilde;o, a caridade,<br \/>\n    a humildade, a grandeza, a poderosa virtude do sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p>  Se vos ferirem, oferecei-vos; se vos odiarem, amai; se vos perseguirem,<br \/>\n    oral! Que m&eacute;rito h&aacute; em amar os que nos amam? Uma coisa que singularmente<br \/>\n    me tocava no ensino que Jo&atilde;o me repetia, era a condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos usos do Templo, dos zelos devotos dos fariseus: com efeito, para que s&atilde;o<br \/>\n    tantas purifica&ccedil;&otilde;es, tantos cil&iacute;cios, tantos usos de<br \/>\n    piedade? Para que h&atilde;o-de os fariseus trazer nas suas t&uacute;nicas<br \/>\n    as tiras de papiro, que s&atilde;o o sinal da devo&ccedil;&atilde;o, e para<br \/>\n    que d&atilde;o a esmola, de p&eacute;, nas escadarias do Templo, gritando<br \/>\n    e elevando a moeda?  Quando tu deres a esmola  dizia o Mestre<br \/>\n    de Nazar&eacute;  que a tua m&atilde;o esquerda n&atilde;o saiba o<br \/>\n    que fez a direita.<\/p>\n<p> E esta palavra enchia-me o cora&ccedil;&atilde;o. E alegrava-me o saber<br \/>\n    que ele n&atilde;o era como os mais profetas, n&atilde;o se retirava para<br \/>\n    o deserto, n&atilde;o se emagrecia em jejuns n&atilde;o rasgava os seus vestidos,<br \/>\n    n&atilde;o se feria nas rochas agudas; vivia como um simples e como um pobre<br \/>\n    e se procurara &agrave;s vezes os lugares retirados, e amava as montanhas<br \/>\n    &eacute; que ai estava mais na fraternidade dos seus, e no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Deus.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o falava-me das mulheres que o seguiam, e eram Joana, mulher de<br \/>\n    Khouza, Salom&eacute;, Maria de Cleofas e Maria de Magdala, que eu conhecia<br \/>\n    do Acra, em Jerusal&eacute;m.<\/p>\n<p> Maria de Magdala, a&iacute; e em Tiber&iacute;ade, tinha tido uma vida apaixonada<br \/>\n    e impura: uma exalta&ccedil;&atilde;o inexplic&aacute;vel era a ess&ecirc;ncia<br \/>\n    daquele ser; tinha espasmos, contrac&ccedil;&otilde;es, entusiasmos perturbados:<br \/>\n    julgava acalmar a impetuosidade da sua natureza febril pelo amor dos homens;<br \/>\n    ligava-se com os doutores not&aacute;veis de ent&atilde;o, penetrava em discuss&otilde;es<br \/>\n    e explica&ccedil;&otilde;es da Lei, depois andava cercada de fariseus e envolta<br \/>\n    em devo&ccedil;&otilde;es; mas tinha o amor dos estofos, e todos os dias chorava.<br \/>\n    Era uma alma inquieta que buscava alguma coisa: tudo o que fazia era com paix&atilde;o:<br \/>\n    a cultura das plantas raras, a cria&ccedil;&atilde;o das moreias em reservat&oacute;rios,<br \/>\n    a composi&ccedil;&atilde;o de arom&aacute;ticos, o estudo das ervas, tudo<br \/>\n    tratava, ardente e enfastiada. Doente, pobre, foi para Magdala. A&iacute;<br \/>\n    viu Jesus. pregando. Seguiu-o. Adorava a doutrina do Mestre, e amava a sua<br \/>\n    figura delicada e bela. Mas tinha fortes impaci&ecirc;ncias, erguia disc&oacute;rdias<br \/>\n    com os disc&iacute;pulos, retirava-se ao deserto. Mas voltava, porque a sua<br \/>\n    dedica&ccedil;&atilde;o suave pelo Mestre era maior, e domava a sua tenebrosa<br \/>\n    e confusa natureza.<\/p>\n<p> Gostava de derramar perfumes no corpo de Jesus, e de lhe coser &agrave;<br \/>\n    t&uacute;nica franjas de Tiro.<\/p>\n<p> Jesus, de resto, aceitava na sua companhia as mulheres transviadas, os publicanos,<br \/>\n    todos os pecadores.<\/p>\n<p> Tal era Jesus, segundo Jo&atilde;o. Eu estava cheio de admira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Demais, dizia eu, aquele homem que eu vi no Templo, com as indigna&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Isa&iacute;as, &eacute; pois suave como o c&eacute;u de Galileia? Realmente,<br \/>\n    uma ra&ccedil;a t&atilde;o humana, t&atilde;o simples, t&atilde;o abundante,<br \/>\n    t&atilde;o. pac&iacute;fica poderia dar um profeta irritado?  O Mestre<br \/>\n    &eacute; a mesma do&ccedil;ura  dizia-me Jo&atilde;o.<\/p>\n<p> Donde vinha ent&atilde;o aquela c&oacute;lera, aquele gesto de Messias vingador?<br \/>\n     Desde quando &eacute; ele assim?  perguntava eu a Jo&atilde;o.<\/p>\n<p>  Dizes bem. O Rabi mudou desde que chegou a Jerusal&eacute;m.<\/p>\n<p> IV Era j&aacute; manh&atilde; e ainda Jo&atilde;o me contava estas coisas<br \/>\n    pacificas, enquanto eu seguia para o Templo. Ia perturbado, sem centro moral,<br \/>\n    Ora me vinham desejos de ir &agrave; Galileia seguir os passos de Jesus de<br \/>\n    Nazar&eacute;, ora o meu velho orgulho estreito de homem do Templo me suscitava<br \/>\n    hostilidades ou desd&eacute;ns.<\/p>\n<p> O Templo abria-se, chegavam os fariseus, os devotos, os doutores aproximavam-se<br \/>\n    nos seus burros, os sacerdotes nas suas liteiras; encruzavam-se nas suas esteiras<br \/>\n    os mercadores; tirava-se a &aacute;gua das piscinas, acendiam-se os purificadores,<br \/>\n    desdobravam-se os vel&aacute;rios; os preg&otilde;es anunciavam os debates<br \/>\n    civis, as vendas de campos; come&ccedil;avam a instalar-se as escolas rabi<br \/>\n    nicas; o ouro tinia nas bancas dos cambiadores; havia risadas; ouvia-se o<br \/>\n    balar das reses.<\/p>\n<p> Quando eu estava vigiando os servi&ccedil;os, veio a mim, todo alegre, um<br \/>\n    velho camarada do Templo, Josu&eacute;, que andava h&aacute; muito pelas vilas<br \/>\n    de Galileia para a organiza&ccedil;&atilde;o dos soforins nas sinagogas. Era<br \/>\n    homem conhecedor das tradi&ccedil;&otilde;es e cheio de experi&ecirc;ncia<br \/>\n    da vida sacerdotal. Perguntei-lhe se conhecia da sua peregrina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Jesus de Nazar&eacute;, filho de Maria de Can&aacute;, e os seus companheiros.<br \/>\n    Ele era douto, sincero, atento, devia saber explicar-me, melhor do que o simples,<br \/>\n    o exaltado Jo&atilde;o, a ess&ecirc;ncia do Rabi da Galileia.<\/p>\n<p> Disse-me, com efeito, que vira Jesus na sinagoga de Chorazim; que conhecia<br \/>\n    a sua vida e a sua doutrina, e que era um homem destinado, mais tarde ou mais<br \/>\n    cedo, a ser lapidado &agrave;s portas de Betel; que pregava toda a sorte de<br \/>\n    impiedades; que combatia a Lei, a tradi&ccedil;&atilde;o e os textos; que<br \/>\n    falava contrariamente &agrave; velha sabedoria judaica, sendo ignorante e<br \/>\n    mo&ccedil;o; que n&atilde;o respeitava nem os ricos, nem os sacerdotes, nem<br \/>\n    os fariseus; que queria distribuir as riquezas pelos pobres; que vivia em<br \/>\n    companhia de mendigos e de mulheres perversas; vivia, dormia ao acaso pelos<br \/>\n    hortos; n&atilde;o tinha casa nem campo; que se associava com o publicano<br \/>\n    e at&eacute; com o pag&atilde;o; que n&atilde;o fazia as ablu&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    nem sacrificava; e que era um vagabundo dos montes da Galileia, sem autoridade<br \/>\n    entre os doutos e entre os ricos.<\/p>\n<p> Eu ouvia calado estas palavras, que eram todo o esp&iacute;rito dos fariseus<br \/>\n    e dos doutores. E quando sa&iacute; do Templo sorri ao &aacute;trio de Hanan.<\/p>\n<p> Jesus de Nazar&eacute; era-me j&aacute; simp&aacute;tico e &iacute;ntimo,<br \/>\n    pelo sentimento e pela raz&atilde;o. Mas o que era aquele homem? Era um simples<br \/>\n    vision&aacute;rio? Era um contemplador, cheio da melancolia que d&atilde;o<br \/>\n    as espessuras de Galileia, e tomado de um desd&eacute;m divino? Era um esp&iacute;rito<br \/>\n    cheio de sabedoria? Era um continuador de Judas Galaunete? Vinha ele pregar<br \/>\n    contra o imposto e contra o d&iacute;zimo? Era ele hostil a C&eacute;sar,<br \/>\n    e cheio da tradi&ccedil;&atilde;o dos Macabeus? Era um simples? Era um crente?<br \/>\n    Era um especulador frio das esperan&ccedil;as messi&acirc;nicas? Vinha ele<br \/>\n    atacar o esp&iacute;rito do Templo? Encontrei Jo&atilde;o, conversando no<br \/>\n    &aacute;trio lajeado com um homem da mil&iacute;cia sacerdotal. Chamei-o para<br \/>\n    uma longa galeria escura vagamente estrelada de. l&acirc;mpadas&#8230;<\/p>\n<p>  Jo&atilde;o  disse eu  diz o que vem fazer a Jerusal&eacute;m<br \/>\n    o s&aacute;bio de Nazar&eacute;! Jo&atilde;o olhou-me:  Vem &agrave;<br \/>\n    festa da P&aacute;scoa  disse ele, lento..<\/p>\n<p>  Jo&atilde;o  insisti  pelo Messias, e pela liberdade<br \/>\n    do Baptista, prisioneiro de Antipas, diz-me a que vem Jesus, a Jerusal&eacute;m<br \/>\n    e ao Templo?  Pregar disse lodo.<\/p>\n<p> Compreendi, rapidamente, todos os resultados daquela luta original.<\/p>\n<p>  Vai!  lhe disse eu exaltado  diz-lhe que parta, que<br \/>\n    volte para o lago de Tiber&iacute;ade! Que viva nas suas montanhas, com o<br \/>\n    seu Deus, com os que o amam, sossegado, no repouso dos campos. Que v&aacute;,<br \/>\n    que evite as portas de Jerusal&eacute;m! Diz-lhe que n&atilde;o venha nunca<br \/>\n    encostar-se como profeta &agrave; coluna do Templo! Que volte para a Galileia,<br \/>\n    que se lembre das pedras que estio &agrave; Porta Esterquilin&aacute;ria e<br \/>\n    que s&atilde;o para lapidar os profetas! Jo&atilde;o tinha o espanto nos olhos,<br \/>\n    na voz.<\/p>\n<p>  Eliziell Eliziel!  Que volte, que volte para a Galileia!<br \/>\n    E subi rapidamente, pela escadaria de granito verde que levava aos interiores<br \/>\n    de Hanan.<\/p>\n<p> O velho sacerdote, debilitado, caduco, dobrado, comia, deitado sobre largas<br \/>\n    peles, arroz e mel.<\/p>\n<p> Ao p&eacute;. uma escrava s&iacute;ria, de Damasco, cantava. Jesus Bar-Abb&aacute;s,<br \/>\n    defronte, fazia momices.<\/p>\n<p> V No outro dia, casualmente, tive ordem de Caif&aacute;s para ir &agrave;<br \/>\n    Galileia, em servi&ccedil;o das sinagogas: a concentra&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    sacerdotes rituais em Jerusal&eacute;m obriga assim os oficiais do Templo<br \/>\n    a sucessivas peregrlna&ccedil;8es; porque as sinagogas estio dominadas pelos<br \/>\n    escribas e pelos soforins, e por isso agitadas em. perp&eacute;tuas. intrigas.<\/p>\n<p> Mas esta viagem agradava-me porque me levava a Betsaida, a Chorazim, a todo<br \/>\n    o pa&iacute;s que fora at&eacute; a&iacute; o centro amado de Jesus.<\/p>\n<p> Em toda a regi&atilde;o do lago achei muitos esp&iacute;ritos ou mais simples,<br \/>\n    ou mais l&uacute;cidos, ou mais amantes, singularmente ocupados na simpatia<br \/>\n    e na raz&atilde;o pela pessoa, pela doutrina do Rabi de Nazar&eacute;.<\/p>\n<p> Falavam-me longamente da sua doutrina nas sinagogas, das suas palavras nas<br \/>\n    colinas: e a figura moral de Jesus acentuava-se, definia-se progressivamente<br \/>\n    no meu esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Diziam-me que a voz do Mestre era doce, untuosa, que s&oacute; o seu som<br \/>\n    cativante fazia esquecer as mulheres da roca, os homens da agulha da rede:<br \/>\n    falava devagar; a sil&ecirc;ncios: as altas verdades, as palavras profundas<br \/>\n    apareciam de repente como uma centelha sai de um diamante tocado de uma luz<br \/>\n    inesperada. Contava par&aacute;bolas, hist&oacute;rias; repetia com paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    sorrindo: uns estavam deitados, pregui&ccedil;osos, atentos, outros remendavam<br \/>\n    as velas, alguns sentados aos seus p&eacute;s olhavam pasmados a &aacute;gua.<\/p>\n<p> Ele falava, sossegado, ou afagava uma crian&ccedil;a, ou, contando as par&aacute;bolas.<br \/>\n    consertava a sua rede.<\/p>\n<p> Vivia como um simples, junto da vida, sem ter as curiosidades da vida. Tinha<br \/>\n    um desd&eacute;m elevado pelas coisas exteriores.<\/p>\n<p>  N&atilde;o vos inquieteis pelo alimento, ou pelo vestu&aacute;rio<br \/>\n     dizia ele.  Olhai as aves do c&eacute;u, n&atilde;o semeiam,<br \/>\n    nem ceifam, e o pai dos C&eacute;us &eacute; quem as alimenta; e n&atilde;o<br \/>\n    sois v&oacute;s mais que as aves que esvoa&ccedil;am nos campos?  Para<br \/>\n    que haveis de cuidar dos vossos vestidos? Vede os l&iacute;rios: n&atilde;o<br \/>\n    trabalham, nem fiam: pois eu vos digo que Salom&atilde;o em toda a sua gl&oacute;ria<br \/>\n    n&atilde;o estava vestido como nenhum deles na sua simples candura. E o que<br \/>\n    Deus faz pelas ervas dos campos que florescem hoje, amanh&atilde; secam, n&atilde;o<br \/>\n    o far&aacute; por v&oacute;s, homens de pouca f&eacute;?.<\/p>\n<p> Por isso os disc&iacute;pulos seguiam-no assim, enlevados naquelas ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ideais, sem roupas, sem provis&otilde;es, sem dinheiro. Naquele pensamento,<br \/>\n    o dinheiro era considerado como um fardo, um inimigo, um traidor, que assim<br \/>\n    como se toma da ferrugem, d&aacute; &agrave; alma a esterilidade.<\/p>\n<p>  Vendei o que possu&iacute;s  dizia ele  dai o dinheiro<br \/>\n    em esmolas! Realmente de que servem na Galileia as riquezas? Ali s&oacute;<br \/>\n    h&aacute; a verde Natureza: o dinheiro n&atilde;o d&aacute; mais infinito<br \/>\n    ao azul, mais repouso &agrave; &aacute;gua; o pobre, o mendigo, &eacute; o<br \/>\n    rei misterioso daquela gl&oacute;ria da folhagem e da luz: para ele se vestem<br \/>\n    as a&ccedil;ucenas de branco, para ele resplandecem os regatos.<\/p>\n<p> Jesus glorificava o pobre: naquele evangelho da Galileia, o rico &eacute;<br \/>\n    considerado o inimigo, o pag&atilde;o, o cruel, o inquieto: ele tem os largos<br \/>\n    vestidos f&aacute;ceis, macios; ele come sobre leitos cobertos de peles; ele<br \/>\n    enterra os bra&ccedil;os nus nas moedas do cofre: o pobre come escassamente<br \/>\n    as ervas mal cozidas dos hortos; remenda, &agrave; candeia, a sua t&uacute;nica,<br \/>\n    traz apertada &agrave; cintura, tendo sobre ela uma pedra, a moeda de cobre<br \/>\n    que &eacute; a sua fortuna.<\/p>\n<p> Bem: Deus tomar&aacute; conta do vestu&aacute;rio do pobre. e da brancura<br \/>\n    do l&iacute;rio, ele velar&aacute; para que ao homem n&atilde;o falte o p&atilde;o<br \/>\n    e &agrave; rola o gr&atilde;o, ele far&aacute; no C&eacute;u, ao pobre, um<br \/>\n    saco, um tesouro de boas obras, de gl&oacute;ria, sem temor da ferrugem e<br \/>\n    dos ladr&otilde;es.<\/p>\n<p> O rico ir&aacute; para a Gena, para o fogo inextingu&iacute;vel: um cuidado<br \/>\n    o emagreceu na vida, uma chama o consumir&aacute; na exist&ecirc;ncia extra-humana.<br \/>\n    O pobre estar&aacute; junto de Deus, e a sua face ser&aacute; imortal e altiva.<\/p>\n<p>  Porque em verdade vos digo  ensinava o Mestre que<br \/>\n    &eacute; mais f&aacute;cil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que<br \/>\n    entrar um rico no reino de Deus.<\/p>\n<p> Assim falava ele &agrave; beira do lago, e, desprendendo os homens dos fatais<br \/>\n    cuidados do mundo, era o criador da paz e o consolador da vida. Os t&eacute;dios<br \/>\n    da exist&ecirc;ncia ordin&aacute;ria, a disc&oacute;rdia dos interesses, as<br \/>\n    humilha&ccedil;&otilde;es da vaidade, as invejas, as avarezas, a melancolia<br \/>\n    da mis&eacute;ria, a apatia da necessidade, as afli&ccedil;&otilde;es da obscuridade,<br \/>\n    as desconsola&ccedil;&otilde;es da doen&ccedil;a, todos estes antigos dem&oacute;nios<br \/>\n    desapareciam, e a velha cabe&ccedil;a humana, obscura, cativa, pesada, podia<br \/>\n    enfim sentir, esperar. repousar, encostada ao mais profundo seio humano, que<br \/>\n    o p&atilde;o da terra tem alimentado.<\/p>\n<p> A alma tinha enfim um lugar, o seu lugar, o seu espa&ccedil;o, que era o<br \/>\n    reino de Deus.<\/p>\n<p> O reino de Deus era o reino das crian&ccedil;as, dos simples, dos deserdados<br \/>\n    da vida, dos que sofrem, e at&eacute; do samaritano, e at&eacute; do pag&atilde;o<br \/>\n    e do publicano, e at&eacute; do que habita S&iacute;don.<\/p>\n<p> Ah! V&oacute;s n&atilde;o quereis esperar nas minhas palavras, amar no meu<br \/>\n    peito, v&oacute;s, os fariseus, os saduceus, os escribas, os ricos, os sacerdotes,<br \/>\n    os pr&iacute;ncipes! vinde v&oacute;s, pois, os humildes, os repelidos, os<br \/>\n    lapidados, os enfermos, os culpados, todos os que eles repelem. todos os que<br \/>\n    eles amaldi&ccedil;oam! Desgra&ccedil;ados de v&oacute;s, &oacute; ricos,<br \/>\n    que estais saciados, porque tereis fome, desgra&ccedil;ados de v&oacute;s<br \/>\n    que rides, porque vos desfareis em l&aacute;grimas! Boas palavras que eu amo,<br \/>\n    eu, que conhe&ccedil;o as ricas exist&ecirc;ncias sacerdotais. Os nossos profetas<br \/>\n    j&aacute; tinham, contra o rico &iacute;mpio e duro, c&oacute;leras terr&iacute;veis<br \/>\n    em vingan&ccedil;a do pobre que &eacute; doce e piedoso. Ora o Rabi feria<br \/>\n    assim violentamente todo o juda&iacute;smo sacerdotal do Templo, porque fazia<br \/>\n    dos que ele despreza e domina os preferidos, os bem-amados do esposo, os amigos<br \/>\n    de Deus! Que significa na verdade que o fariseu n&atilde;o queira comer com<br \/>\n    o samaritano e com o pobre recebedor do imposto? Que quer dizer que os levitas<br \/>\n    de Caifa v&atilde;o lavar &agrave; piscina os seus vestidos, se &agrave; entrada<br \/>\n    do santu&aacute;rio tocaram num mendigo ou num publicano? Mas Jesus, na imortal<br \/>\n    ascens&atilde;o a que obrigava as almas para o ideal divino, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    somente chamava a si o deserdado, mas chamava o culpado.<\/p>\n<p>  O culpado &eacute; infeliz  dizia  merece por isso.<br \/>\n    Mais que o justo, o calor do meu seio. O filho pr&oacute;digo merece mais<br \/>\n    amor do que o filho cuidadoso, porque &eacute; triste na sua. alma, e todo<br \/>\n    em l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>  Havia uma mulher aqui  dizia-me o homem bom de Chorazim que<br \/>\n    me explicava estas coisas imortais  que era repelida, mal vista, amaldi&ccedil;oada;<br \/>\n    as m&atilde;es honestas n&atilde;o a queriam ver: s&oacute; os escribas da<br \/>\n    sinagoga se aproximavam dela, mas de noite, sob as figueiras do cemit&eacute;rio,<br \/>\n    porque de dia, se a viam, tapavam a cara com a t&uacute;nica; e resmungavam<br \/>\n    maldi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Esta mulher ouviu Jesus, sentiu-se inesperadamente perdoada, viu-se solta<br \/>\n    da fatalidade por aquela palavra piedosa, e pela f&eacute; purificou-se. &Eacute;<br \/>\n    Maria de Cleofas. Segue Jesus, serve-o: quanto mais se humilha, mais o ama,<br \/>\n    e quanto mais se sente amante, mais se sente perdoada.<\/p>\n<p> Os pobres galileus, que nunca tinham ouvido uma t&atilde;o doce e elevada<br \/>\n    palavra, julgavam-se j&aacute; no Para&iacute;so imortal. Ele ia seguido dos<br \/>\n    seus, confundido com todas as alegrias, aparecendo nas bodas, e nas noites<br \/>\n    de noivados misturando-se &agrave;s dan&ccedil;as, com a sua l&acirc;mpada<br \/>\n    na m&atilde;o; caminhava pelos campos a p&eacute;, dizendo as boas palavras,<br \/>\n    ou montado num pequeno burro, que os disc&iacute;pulos cobriam com as t&uacute;nicas;<br \/>\n    &agrave;s vezes ajudava a ceifar, ou, assentando-se ao p&eacute; da fonte,<br \/>\n    falava &agrave;s mulheres, escutava os cantares; entrava nos casais, nos hortos;<br \/>\n    as crian&ccedil;as vinham, vinham as mulheres: &laquo;Rabi, Rabi, diz-nos<br \/>\n    a boa nova: &eacute;s tu o Messias?&raquo; Limpavam-lhe os p&eacute;s, iam<br \/>\n    buscar os melhores frutos, os vinhos de Safe, os legumes que nadam em azeite;<br \/>\n    as m&atilde;es mostravam-lhe os filhos de peito que com as suas pequeninas<br \/>\n    m&atilde;os vermelhas e gordas lhe puxavam as barbas: ele ria, agasalhava-os;<br \/>\n    quando ele passava atiravam-lhe ramagens, desejavam-lhe o bom caminho; os<br \/>\n    doentes vinham tocar as suas m&atilde;os, as vi&uacute;vas limpavam as suas<br \/>\n    l&aacute;grimas: ele falava de Deus, endireitava as canas de milho ca&iacute;das<br \/>\n    no caminho. Vinham das aldeias e diziam-lhe:  Mestre, tu &eacute;s<br \/>\n    bom.<\/p>\n<p>  Bom s&oacute; &eacute; Deus  dizia ele, sorrindo.<\/p>\n<p>  Mestre, que havemos de fazer para entrar no Para&iacute;so?<br \/>\n    Amai os outros, dai aos pobres, segui-me.<\/p>\n<p> E seguiam-no todos, enlevados naquele sonho ideal, o mais belo, o mais doce,<br \/>\n    o mais acima da terra que at&eacute; hoje tem feito o homem.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o o c&eacute;u, amigo e compassivo, tocou na lacrimosa terra;<br \/>\n    ent&atilde;o pela primeira vez o olhar do pobre foi seguro e confiado; pela<br \/>\n    primeira vez o estreito sorriso do velho conteve a esperan&ccedil;a! VI Mal<br \/>\n    sei dizer o que o meu pobre esp&iacute;rito, educado na antiga li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do cativeiro, sentia ao suave calor humano e feliz daquelas palavras.<\/p>\n<p> Voltei a Jerusal&eacute;m: passei sobre o Tabor, donde se v&ecirc; a larga<br \/>\n    plan&iacute;cie de Esdrelon, amada dos her&oacute;is, o branco Hermon, Endor,<br \/>\n    e as montanhas de Galaad: descansei em Djeneia, a cidade dos Levitas, toda<br \/>\n    escondida entre oliveiras e palmeiras, depois em Detem, onde Jos&eacute; foi<br \/>\n    vendido por seus irm&atilde;os; depois na velha Bet&uacute;lia, p&aacute;tria<br \/>\n    da forte Judite: vi Shomeron, que foi uma das mais velhas cidades de Israel,<br \/>\n    hoje ca&iacute;da, coberta com muralhas e basti&otilde;es de Herodes: Siqu&eacute;m,<br \/>\n    junto da qual Abra&atilde;o ergueu a sua tenda, debaixo dos carvalhos de Mora:<br \/>\n    Siloeh, onde se fez a partilha do territ&oacute;rio entre as tribos, e onde<br \/>\n    pousou pela primeira vez o tabern&aacute;culo, depois da conquista de Cana&atilde;.<\/p>\n<p> Depois desviei-me para os lados de Jeric&oacute;, que estava ent&atilde;o<br \/>\n    cheio de selvas e de rosas: junto ao Jord&atilde;o andavam ainda alguns disc&iacute;pulos<br \/>\n    de Jo&atilde;o, cheios de saudade e de desejo: atravessei as l&uacute;gubres<br \/>\n    colinas de Jud&aacute;, asilo de profetas, t&uacute;mulo dos her&oacute;is:<br \/>\n    uma madrugada entrei, s&oacute;, em Jerusal&eacute;m.<\/p>\n<p> Nesse dia logo subi ao Templo. Junto dos p&oacute;rticos exteriores, onde<br \/>\n    trabalhavam. ainda cinzeladores de Cesareia, pedreiros de Samaria, vi, entre<br \/>\n    homens da Galileia, a alta figura de Jesus de Nazar&eacute;. Estavam parados,<br \/>\n    esperando: um homem de Karioth, chamado Judas, curvado diante de um cambiador<br \/>\n    de moeda, trocava dracmas, atento.<\/p>\n<p> Parei, comovido, a olhar profundamente o Rabi. Ele estava triste: os bra&ccedil;os<br \/>\n    ca&iacute;dos, sem vontade, sem gesto; a cabe&ccedil;a desanimada. Tinha nas<br \/>\n    fei&ccedil;&otilde;es finas, delicadas, pessoais, uma abstrac&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma transcendente serenidade. Os olhos cheios de infinito, que pareciam olhar<br \/>\n    do uru lugar inacess&iacute;vel, a testa larga, expressiva como a imobilidade<br \/>\n    de um c&eacute;u, assemelhavamse, superficialmente, como o corpo se assemelha<br \/>\n    &agrave; sombra  aos olhos, &agrave; testa de Hillel, de jesus de Sirac<br \/>\n    e de um outro, que era como eles dado &agrave;s contempla&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    &agrave; abstrac&ccedil;&atilde;o, ao ideal. A boca tinha uma forma t&atilde;o<br \/>\n    pura, t&atilde;o leve, uma imobilidade t&atilde;o penetrada de gra&ccedil;a,<br \/>\n    que parecia que dela s&oacute; deviam soltar-se ironias aladas: mas o forte<br \/>\n    contorno dos l&aacute;bios, a linha que era como um arco em descanso, tinham<br \/>\n    uma gravidade, uma beleza austera, que denunciavam a origem das palavras elevadas,<br \/>\n    e faziam sentir o profeta, Parecia-me ver-lhe, na parte inferior do rosto,<br \/>\n    uma firmeza, uma express&atilde;o de energia, que o tornavam um pouco semelhante<br \/>\n    a Judas Galaunete, o poderoso agitador, em quem a ac&ccedil;&atilde;o era<br \/>\n    como um sangue vivo. De resto, um ar simples.<\/p>\n<p> Ele olhava os trabalhos dos p&oacute;rticos, com um desd&eacute;m sereno.<br \/>\n    Nos galileus sentia-se o constrangimento, o isolamento.<\/p>\n<p> Entrei no santu&aacute;rio: nas c&acirc;maras dos servi&ccedil;os dois escribas<br \/>\n    argumentavam junto da arca do tesouro, com exclama&ccedil;&otilde;es abundantes.<br \/>\n    Interroguei-os; disseram-me que o Rabi de Galileia muitas vezes pregara no<br \/>\n    Templo; que curara alguns doentes dos que se lamentam nas galerias da piscina<br \/>\n    prob&aacute;tica; que argumentara com os escribas, e que em casa de Hanan,<br \/>\n    na sala do banho, Gamaliel dissera do Rabi:  Ele &eacute; bom e justo;<br \/>\n    mas n&atilde;o diz coisas novas.<\/p>\n<p> Argumentava-se muito sobre aquela palavra contida e desdenhosa do s&aacute;bio<br \/>\n    Gamaliel, entre os privados de Hanan.<\/p>\n<p>  Mas Gamaliel  dizia soberbamente o escriba  &eacute;<br \/>\n    um homem alheio a n&oacute;s; entret&eacute;m rela&ccedil;&otilde;es com essa<br \/>\n    gente da escola de Alexandria; viaja demoradamente em Siqu&eacute;m onde est&atilde;o<br \/>\n    os her&eacute;ticos, e em Cesareia onde est&atilde;o os romanos, e d&aacute;-se<br \/>\n    &agrave; cultura hel&eacute;nica, desprezando a Lei.<\/p>\n<p>  Homem  disse eu  em que despreza Gamaliel a Lei, estudando<br \/>\n    e sabendo as letras gregas? O escriba riu finamente, como em triunfo:<br \/>\n    Pois n&atilde;o diz o Texto  e a sua voz era compassada e enf&aacute;tica<br \/>\n     &laquo;Estudar&aacute;s a Lei de noite e de dia, e se assim n&atilde;o<br \/>\n    fizeres desagradar&aacute;s ao Eterno?&raquo; Ora  e tra&ccedil;ava<br \/>\n    amplamente a capa, tossindo, vitorioso  ora Gamaliel s&oacute; n&atilde;o<br \/>\n    desagradar&aacute; ao Eterno se estudar a sabedoria grega num tempo que n&atilde;o<br \/>\n    seja nem a noite nem o dia.<\/p>\n<p> O outro escriba, que era Eliel, de Efraim, aprovou ruidosamente, batendo<br \/>\n    no peito.<\/p>\n<p> E sob a sombra pesada do vel&aacute;rio saudaram-se, risonhos.<\/p>\n<p> Sa&iacute; das c&acirc;maras lev&iacute;ticas, &agrave; hora s&eacute;tima,<br \/>\n    quando h&aacute; nos terra&ccedil;os do Templo uma vida poderosa. Uns argumentavam,<br \/>\n    ou estudavam a Lei, com as folhas de metal diante de si, em movimentos r&iacute;tmicos;<br \/>\n    outros vinham comprar ofertas de pombas e cordeiros: alguns consultavam sobre<br \/>\n    quest&otilde;es agr&aacute;rias; muitos vinham trocar moedas; os serventes<br \/>\n    do Templo passavam com as reses a lev&aacute;-las &agrave;s piscinas; tocavam<br \/>\n    as trompas que anunciavam a hora dos sacrif&iacute;cios; os doentes cantavam<br \/>\n    os salmos; as mulheres lev&iacute;ticas lavavam as vestes brancas nos tanques<br \/>\n    exteriores, espertavam as fogueiras purificadoras, ou giravam em volta das<br \/>\n    primeiras colunas, batendo em discos de metal.<\/p>\n<p> Eu entrei na Galeria de Salom&atilde;o. toda sonora de vozes. Jesus, cercado<br \/>\n    de galileus, tinha ensinado. Alguns gritavam: &laquo;Hosana, ao filho de David!&raquo;<br \/>\n    porque os pobres, os. doentes e as crian&ccedil;as, vendo que ele era entre<br \/>\n    os homens o melhor, o mais terno, o mais consolador, chamavam-lhe o filho<br \/>\n    de David; os escribas riam; bocejavam desdenhosos.<\/p>\n<p> Alguns fariseus, tomados de exalta&ccedil;&atilde;o, queriam a convoca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Sanedrim. Um velho herodiano, com gestos desolados, lamentava a decad&ecirc;ncia<br \/>\n    da escola prof&eacute;tica de Israel.<\/p>\n<p>  &Eacute; um ignorante  diziam, com desprezo, vastos doutores.<\/p>\n<p> &Aacute;speros, zelosos, com a cabe&ccedil;a envolvida na ponta do manto,<br \/>\n    as barbas eri&ccedil;adas, insultavamno.<\/p>\n<p> O povo, com o ru&iacute;do de um arvoredo, falava do Mestre alguns velhos<br \/>\n    -diziam:  Sim, sim, irm&atilde;os, este &eacute; um profeta!<br \/>\n    &Eacute; o Cristo! &Eacute; o Messias!  clamavam grandes vozes.<\/p>\n<p> Muitos iam, correndo, prostrar-se diante da Porta da Arca. bradando:<br \/>\n    Gra&ccedil;as, Senhor, o Messias chegou! Os sacerdotes interrogavam, inquietos.<br \/>\n    Os homens espalhavam-se pelo Templo gritando:  &Eacute; o Messias,<br \/>\n    &eacute; o profeta da Galileia! Os escribas andavam entre a multid&atilde;o,<br \/>\n    explicando, convencendo:  Que dizeis? V&oacute;s n&atilde;o conheceis<br \/>\n    a Lei?  A Lei diz que o Messias vir&aacute;, e que Elias ressuscitar&aacute;!<br \/>\n    Calai-vos!  bradavam os escribas.  Sois tamb&eacute;m<br \/>\n    galileus? N&atilde;o sabeis que a Escritura diz que o Messias h&aacute;-de<br \/>\n    ser da gera&ccedil;&atilde;o de David? E n&atilde;o sabeis v&oacute;s que<br \/>\n    este &eacute; o filho do carpinteiro Jos&eacute;, e de uma mulher da aldeia<br \/>\n    de Can&aacute;? N&atilde;o vo-lo t&ecirc;m dito todos os que v&ecirc;m de<br \/>\n    Nazar&eacute;?  &Eacute; verdade, &eacute; verdade  diziam alguns.<\/p>\n<p>  E n&atilde;o sabeis  continuavam  que os Textos dizem<br \/>\n    que o Messias nascer&aacute; em Betlem, e onde nasceu este? Em Nazar&eacute;,<br \/>\n    bem o sabeis.<\/p>\n<p> Uma voz, receosa mas irritada, disse:  Pois ele nasceu em Betlem!<br \/>\n     Em Nazar&eacute;!  bradaram alguns escribas.<\/p>\n<p>  Sim, sim, em Nazar&eacute;  disse &agrave; gente.<\/p>\n<p>  &Eacute;, pois, o Cristo? Ide, homens amaldi&ccedil;oados, que andais<br \/>\n    afastados da Escritura! Os do povo calavam-se, mas desciam rapidamente as<br \/>\n    largas escadarias areadas, porque se dizia que Jesus estava curando e ensinando<br \/>\n    no Tyrepeon.<\/p>\n<p> VII Fui apressado ao Tyrepeon: Jesus tinha sa&iacute;do a Porta dos Rebanhos,<br \/>\n    atravessado o C&eacute;dron, subido a Bet&acirc;nia.<\/p>\n<p> Quando eu voltava para Bezeta, veio a mim um homem muito conhecido em Jerusal&eacute;m,<br \/>\n    que era Jesus Bar-Abb&aacute;s. Era uma figura descamada, torta, arqueada,<br \/>\n    cheia de cicatrizes, imunda, rindo sempre, em farrapos. Era uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de tru&atilde;o de Jerusal&eacute;m. Tinha gracejos, farsas, desloca&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    espancavam-no, ele ria, estendia uma ponta da t&uacute;nica, para aparar os<br \/>\n    dracmas. Encontrava-se com a sua l&acirc;mpada em todos os noivados, gritando<br \/>\n    em todos os enterros, com uma pedra em todas as sedi&ccedil;&otilde;es, em<br \/>\n    todos os supl&iacute;cios com uma c&acirc;ntara de posca, para vender aos<br \/>\n    soldados. Tinha todos os desastres da mis&eacute;ria, do v&iacute;cio, e era<br \/>\n    servil. Os soldados expedicion&aacute;rios espancavam-no, &agrave;s vezes<br \/>\n    prendiam-no, mas o povo cobria-o com uma protec&ccedil;&atilde;o avara. Era<br \/>\n    casado.<\/p>\n<p> Tinha uma voz vibrante, forte para cantar os salmos e imitava os profetas<br \/>\n    pregando.<\/p>\n<p> Cheirava miseravelmente a alho.<\/p>\n<p> Jesus Bar-Abb&aacute;s pediu-me um dracma, e disse-me que nessa noite Simeon,<br \/>\n    um rico do Sanedrim, tinha uma ceia para os oficiais do Templo e sacerdotes,<br \/>\n    fora das. muralhas, em Betfag&eacute;.<\/p>\n<p> Simeon amava as festas, tinha vivido em Roma, era soberbo; contava com o<br \/>\n    orgulho que fora amigo do gladiador Esterius.<\/p>\n<p> Bar-Abb&aacute;s fazia rir Simeon: comia com os seus servos, dormia nos<br \/>\n    seus &aacute;trios.<\/p>\n<p> Nessa noite fui a casa de Hanan. Nos p&aacute;tios, Jo&atilde;o aquecia-se<br \/>\n    ao lume, junto da velha de Cafarnaum.<\/p>\n<p> Caif&aacute;s e Gamaliel estavam com Hanan. Gamaliel dizia versos gregos:<br \/>\n    Hanan, repousado, com os olhos cerrados, grave, escutava; Caif&aacute;s, aquilino,<br \/>\n    duro, &aacute;spero, tinha uma atitude desdenhosa. Dois escribas, encruzados<br \/>\n    no ch&atilde;o, comiam.<\/p>\n<p> Quando o ser&atilde;o ia remoto, repentinamente Caif&aacute;s mandou-me<br \/>\n    a casa de Simeon.<\/p>\n<p> O Sanedrim devia reunir-se ao outro dia pela hora oitava: tinha havido exig&ecirc;ncias<br \/>\n    do legado imperial sobre os vasos do Templo.<\/p>\n<p> Um escravo negro de Hanan seguia-me com uma lanterna; a noite era negra,<br \/>\n    quente, mole: ouviam-se apenas uivar os c&atilde;es.<\/p>\n<p> Em Betfag&eacute;, os servos de Simeon conduziram-me ao pomar onde era a<br \/>\n    ceia, sob um vel&aacute;rio feito &agrave; moda grega, suspenso &agrave;s<br \/>\n    ramagens dos cedros. O ch&atilde;o estava coberto de areia vermelha, luzidia.<br \/>\n    Largas l&acirc;mpadas resplandeciam. Flores de Damasco, rosas de Jeric&oacute;,<br \/>\n    jasmins de Chorazin, e as plantas fortes de Galaad, pendentes dos vasos negros<br \/>\n    da Perea como serpentes verdes, penetravam o ar da mole vitalidade que d&atilde;o<br \/>\n    os aromas. No ch&atilde;o estavam &acirc;nforas, grossos c&acirc;ntaros envoltos<br \/>\n    em palha, jarros cinzelados. Os escravos fr&iacute;gios, com os longos cabelos<br \/>\n    reluzentes de &oacute;leo, giravam apressados.<\/p>\n<p> Havia ali membros do Sanedrim, escribas, sacerdotes, herodianos, saduceus,<br \/>\n    fariseus. Todos eram zelosos devotos, amplos em sacrif&iacute;cios, alguns<br \/>\n    costumavam cobrir-se de cinza. Estavam todos deitados em estrados, cobertos<br \/>\n    com l&atilde;s de Babil&oacute;nia.<\/p>\n<p> Alguns eram gordos, fortes, vermelhos. Quase todos tinham a fisionomia &aacute;spera,<br \/>\n    adunca, eri&ccedil;ada de barbas. Reluziam cabe&ccedil;as calvas.<\/p>\n<p> O vinho dourado, o vinho de Safed, um falerno de Cesareia, o massico dava<br \/>\n    uma ampla respira&ccedil;&atilde;o aos peitos, uma feliz cintila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos agudos olhos negros. Havia largas risadas.<\/p>\n<p> Fariseus austeros, que se ferem nas pedras dos caminhos, curvados sobre<br \/>\n    os discos de a&ccedil;o brunido, devoravam com um ru&iacute;do devoto. Outros<br \/>\n    tinham olhares ansiosos, e despercebidamente esvaziavam as largas ta&ccedil;as<br \/>\n    de bronze. Alguns decr&eacute;pitos, desdentados, tinham sobre a barba fios<br \/>\n    de molho. Velhas m&atilde;os tr&eacute;mulas e l&iacute;vidas levantaram as<br \/>\n    &acirc;nforas! Alguns, estendidos sobre leitos como animais que ruminam, tinham<br \/>\n    as t&uacute;nicas soltas, os bra&ccedil;os nus. Cabe&ccedil;as en&eacute;rgicas,<br \/>\n    duras, mostravam uma express&atilde;o irritada, fixa, vazia; os velhos tinham<br \/>\n    largos risos c&iacute;nicos. Uns dormiam, outro cantava. Um velho curvado,<br \/>\n    frouxo, rouco, lembrava as mulheres, e os fariseus riam. Entre esta multid&atilde;o<br \/>\n    sacerdotal havia um romano. Era Publius Sextus, lugar-tenente do legado imperial;<br \/>\n    falava com palavras abundantes, largos gestos. Era p&aacute;lido, com uma<br \/>\n    pequena cabe&ccedil;a en&eacute;rgica e volunt&aacute;ria; era devasso, servil,<br \/>\n    falso, luxuoso, e vinha de C&aacute;prea. Era ali escutado como um profeta<br \/>\n    na antiga Israel; falava da Via &Aacute;pia, das festas de Roma.<\/p>\n<p> Eu escutava, encostado a uma &aacute;rvore, na escurid&atilde;o, concentrado<br \/>\n    e triste.<\/p>\n<p>  S&oacute; em Roma se vive  dizia ele.  Isto &eacute;<br \/>\n    pior que o bairro das Esqu&iacute;lias. N&atilde;o &eacute; por v&oacute;s,<br \/>\n    Simeon, que tendes a escola do vosso amigo Ventidius, homem que sabe comer;<br \/>\n    mas, na verdade, que nos recebem aqui como Evandro recebeu H&eacute;rcules,<br \/>\n    com farinha cozida e uma esteira espartana.<\/p>\n<p>  Mas v&oacute;s outros, os Romanos, sois glut&otilde;es e amigos<br \/>\n    do vinho!  disse Nathaul, um escriba, homem invejoso, com l&aacute;bios<br \/>\n    carnais.<\/p>\n<p> Mas Publius falava de uma ceia em casa de &Aacute;tico, antes de vir a &Oacute;stia<br \/>\n    embarcar. com o legado da S&iacute;ria.<\/p>\n<p>  Quereis saber?  perguntava.<\/p>\n<p>  Dizei, dizei  gritavam curiosamente pela mesa.<\/p>\n<p>  O ch&atilde;o era de mosaicos gregos. Entre as colunas havia largos<br \/>\n    panos tecidos de a&ccedil;o, pesados, &agrave; moda de Cartago. Um vapor de<br \/>\n    &aacute;gua t&eacute;pida penetrava os m&uacute;sculos, enlanguescia.<\/p>\n<p> T&iacute;nhamos esfregado os bra&ccedil;os, o peito, com peda&ccedil;os<br \/>\n    de pele de tigre humedecida de &oacute;leo. Os membros estavam &aacute;geis,<br \/>\n    f&aacute;ceis para as dan&ccedil;as, para as escravas! Do tecto calam folhas<br \/>\n    de rosas h&uacute;midas! Todos tinham olhos cintilantes; estendiam-se para<br \/>\n    escutar alguns estavam de p&eacute;, junto de Publius.<\/p>\n<p>  O trinchador  dizia ele  o trinchador, meus amigos,<br \/>\n    era o pr&oacute;prio Tripherius! T&iacute;nhamos lebre, gazela, fais&atilde;o<br \/>\n    de Lichtia, cabras da Get&uacute;lia, javalis, cordeiros de Tibur, que nunca<br \/>\n    tinham comido erva, e tartarugas delicadamente preparadas em molhos da Camp&acirc;nia,<br \/>\n    na pr&oacute;pria concha, polida. transparente! Moreias do lago Lustrino,<br \/>\n    lagostas nadando no azeite de Venafre! As ta&ccedil;as eram de &acirc;mbar.<br \/>\n    Que dizeis v&oacute;s? Os austeros doutores, os graves herodianos, os fariseus<br \/>\n    cevados, oleosos, com os bei&ccedil;os luzidios de molhos, a boca riscada<br \/>\n    de vinho, tinham um olhar &aacute;vido, guloso, &iacute;mpio, para as palavras<br \/>\n    de Publius.<\/p>\n<p> Bar-Abb&aacute;s, entre os escravos, tinha os olhos humedecidos pelo desejo.<br \/>\n    Todos admiravam, O romano dizia o fim da ceia e as gaditanas que entravam,<br \/>\n    envoltas em tecidos di&aacute;fanos, correndo em coreias, em volta dos tricl&iacute;nios,<br \/>\n    e aspergiam a cabe&ccedil;a dos saciados com lilases molhados em falerno!<br \/>\n     E falava das mulheres romanas do bairro de Suburra; e com uma voz<br \/>\n    branda, curvando-se:  Que estas mulheres s&iacute;rias  dizia<br \/>\n     t&ecirc;m uns olhos escuros que valem centenares de sest&eacute;rcios.<\/p>\n<p> Os outros riam. Falavam baixo, jovialmente, contavam, lembravam, desejavam.<\/p>\n<p>  Estas mulheres s&atilde;o castas e cuidadosas, as romanas s&atilde;o<br \/>\n    devassas, e tudo ali terminar&aacute;, como em Sodoma e N&iacute;nive! Quem<br \/>\n    assim falava era um fariseu, Essen, homem magro, l&iacute;vido, cavado de<br \/>\n    jejuns, com uns olhos tenebrosos, cheio de barba. N&atilde;o comia, e parecia<br \/>\n    constrangido, isolado.<\/p>\n<p> Tinha vindo para amaldi&ccedil;oar, para lembrar a morte, e o terror de<br \/>\n    Jeov&aacute;!  Devassas, dignas do fogo, para v&oacute;s, devotos e<br \/>\n    zelosos! Mas belezas impec&aacute;veis, imortais, para quem pode desapertar<br \/>\n    a rede de ouro em que elas prendem o seio! S&atilde;o os seus costumes que<br \/>\n    as tornam desejadas, que as fazem mais apetitosas que todas as farinhas molhadas<br \/>\n    em leite que elas p&otilde;em na face, e que todos os unguentos de Poppea.<\/p>\n<p> Publius falava, inflamado. descomposto: tinha gestos lascivos; bradava os<br \/>\n    nomes das damas romanas:  Vede Laupella, uma patr&iacute;cia! E Medulina!<br \/>\n    E Hillia, que se namorou do actor Urbius, e Hippra, que fugiu com o gladiador<br \/>\n    S&eacute;rgio, e Hipulla, que em plenos jogos megal&eacute;sios, diante do<br \/>\n    povo romano e das legi&otilde;es, cuspiu na est&aacute;tua do Pudor! Uma larga<br \/>\n    risada sacudia os peitos. Bradavam:  Contai, contai! Enchiam as &acirc;nforas:<br \/>\n    arrepelavam os escravos. De bru&ccedil;os, sobre a mesa, com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    apoiada nos bra&ccedil;os, esperavam voltados para Publius, com olhos perturbados.<\/p>\n<p> Os velhos abriam largamente uma boca escura, sem dentes. Os olhos reluziam.<br \/>\n    Havia gritos.<\/p>\n<p> Um escriba da arca do tesouro gaguejava uma cantiga siciliana, com voz &aacute;spera,<br \/>\n    arrastada. O c&iacute;rculo de cabe&ccedil;as &aacute;vidas, duras, curiosas,<br \/>\n    destacava violentamente no escuro. Publius exclamava, com palavras tumultuosas:<br \/>\n    tinha a t&uacute;nica clara manchada de vinho; tinha os bra&ccedil;os nus.<br \/>\n    brancos, femininos: e com largos gestos..<\/p>\n<p>  E T&uacute;cia, e T&uacute;cia  gritava  eu vi-a um<br \/>\n    dia no teatro, quando o actor Bactylo fazia com toda a sorte de lasc&iacute;vias<br \/>\n    o papel de Leda, torcer-se no seu lugar, arrancar a rede dos seus selos, e<br \/>\n    com os olhos mortalmente l&acirc;nguidos chamar a altas vozes: &laquo;Bactylo,<br \/>\n    Bactylo, vem!&raquo; Largas risadas. Alguns gritavam, imitando o romano:<br \/>\n    Bactylo, Bactylo! Os velhos torciam-se nos seus tricl&iacute;nios, tomados<br \/>\n    de riso, de esc&acirc;ndalo. Alguns escribas gritavam: &laquo;Viva Roma!&raquo;<br \/>\n    Os fariseus tinham olhos terr&iacute;veis, uma aten&ccedil;&atilde;o &aacute;vida.<\/p>\n<p> Um cortava violentamente o pau do estrado, mordendo os l&aacute;bios! Publius<br \/>\n    pedia falerno, folhas de louro, insultava a indol&ecirc;ncia dos escravos,<br \/>\n    queria lan&ccedil;ar fogo ao vel&aacute;rio e dizia:  Quem conhece<br \/>\n    Cess&eacute;nia? Ningu&eacute;m conhece Cess&eacute;nia? Cess&eacute;nia tinha<br \/>\n    de dote seis milh&otilde;es de sest&eacute;rcios. Casou com Sert&oacute;rio,<br \/>\n    o pobre, com a condi&ccedil;&atilde;o de poder escrever diante do marido os<br \/>\n    bilhetes aos amantes, e poder ir deitar-se uma vez cada m&ecirc;s, para quem<br \/>\n    entrar, no leito alugado de um lupanar de Suburra! Os escribas riam, esvaziavam<br \/>\n    as ta&ccedil;as, desafogavam o pesco&ccedil;o das t&uacute;nicas pesadas,<br \/>\n    lan&ccedil;avam para longe as folhas de metal presas &agrave; cintura, onde<br \/>\n    est&aacute; escrita a Lei.<\/p>\n<p> Um, &eacute;brio, com os olhos riscados de sangue, pedia o culto de Baal.<\/p>\n<p> Alguns sacerdotes tinham adormecido sobre os tricl&iacute;nios, curvados,<br \/>\n    enroscados, im&oacute;veis. Os fariseus torciam o bra&ccedil;os, falavam de<br \/>\n    Tiro.<\/p>\n<p> Publius clamava:  Pois que h&aacute; de melhor que ver uma patr&iacute;cia,<br \/>\n    de longo penteado e saia curta, depois de estar cheia de ostras e lagostas<br \/>\n    irritantes, beber de um trago numa enorme ta&ccedil;a o falerno consular,<br \/>\n    e vir, resvalando sobre o mosaico h&uacute;mido de vinho, cair sobre o nosso<br \/>\n    peito, gritando em grego: &laquo;Minha alma, minha vida, ai!&raquo; E Publius<br \/>\n    arqueava lascivamente os bra&ccedil;os, deixando pender a cabe&ccedil;a, a<br \/>\n    garganta t&uacute;mida de suspiros, arquejando! Os escribas, os fariseus estavam<br \/>\n    cheios de del&iacute;rio e de vinho. Riam animalmente.<\/p>\n<p> Soltavam grandes gritos. Alguns rolavam-se no ch&atilde;o: mordiam as almofadas<br \/>\n    dos tricl&iacute;nios.<\/p>\n<p> Derramavam o vinho sobre os vestidos, abra&ccedil;avam os escravos, quebravam<br \/>\n    as ta&ccedil;as, exaltados. Um jogava a luta com uma &aacute;rvore, depois<br \/>\n    envolvia-a, beijava-a.<\/p>\n<p> Cantavam em grande voz os cantos do tempo de Salom&atilde;o, dando-lhe express&otilde;es<br \/>\n    lascivas.<\/p>\n<p> Feriam a cabe&ccedil;a contra os grandes jarros cinzelados. Corriam, inflamados,<br \/>\n    como num mist&eacute;rio sagrado. Alguns gabavam-se de devassid&otilde;es<br \/>\n    ocultas. Falavam de dinheiro, de banquetes, de mulheres, de prostitui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sagradas no fundo dos bosques! Publius gritava:  N&atilde;o sabeis,<br \/>\n    fariseus, n&atilde;o sabeis a aventura de Lentullus?  N&atilde;o, n&atilde;o!<br \/>\n     bradavam alguns penetrados da alegria, do esc&acirc;ndalo, de curiosidades<br \/>\n    inflamadas.<\/p>\n<p>  Lentullus casa com uma virgem patr&iacute;cia, neta de c&ocirc;nsules:<br \/>\n    nove meses depois prepara, segundo o costume, para o filho que vai nascer,<br \/>\n    o ber&ccedil;o de tartaruga, coberto de estofos e de ramos de loureiro, e<br \/>\n    exp&otilde;e-no &agrave;s boas palavras dos que passam. Mas toda a nobreza<br \/>\n    da Via &Aacute;pia rompe em risadas. O filho de Lentullus era a imagem viva<br \/>\n    do buf&atilde;o Eur&iacute;alo, e tinha, como ele, tr&ecirc;s verrugas no<br \/>\n    queixo.<\/p>\n<p> A risada fazia o ar sonoro. Publius, de p&eacute;, manchado, com a t&uacute;nica<br \/>\n    rota, descomposto, gritava:  Ouvi, ouvi! Escutavam com um riso inquieto.<\/p>\n<p> E Publius enf&aacute;tico:  Os actores  dizia  os gladiadores,<br \/>\n    os buf&otilde;es, os tocadores de flauta, os tru&otilde;es,. s&atilde;o os<br \/>\n    pais de todas as crian&ccedil;as que nascem na nobreza romana! Um velho fariseu,<br \/>\n    elevando sacerdotalmente uma &acirc;nfora, gritou com uma voz terr&iacute;vel:<br \/>\n     Vivam os tru&otilde;es! A multid&atilde;o sacerdotal bradava, uivava,<br \/>\n    cantava, rojava-se pelo ch&atilde;o. Era bestial e imundo.<\/p>\n<p> Aquele ru&iacute;do parecia-me triste como um c&aacute;lice de pedra de<br \/>\n    sepulcros.<\/p>\n<p> Bar-Abb&aacute;s, espancado, cambaleava, blasfemando, imundo e jovial.<\/p>\n<p> O vinho come&ccedil;ava a dom&aacute;-los, alguns escorregavam, calam, agitavam-se<br \/>\n    como agonizantes, e perdiam os esp&iacute;ritos num sono petrificado. Outros<br \/>\n    penetravam na espessura do pomar, buscando as frescuras da erva e da &aacute;gua.<br \/>\n    Uns falavam como num del&iacute;rio grotesco. Dois escribas argumentavam,<br \/>\n    fren&eacute;ticos, hostis. Um forte e vasto fariseu, de bru&ccedil;os sobre<br \/>\n    a mesa, o olhar fixo, bestial, rosa monotonamente uma flor.<\/p>\n<p> Simeon ressonava no seu estrado. Publius no ch&atilde;o h&uacute;mido. Os<br \/>\n    escravos deitavam peles sobre os dormentes. Os lampad&aacute;rios extinguiam-se.<br \/>\n    Vinha um frio h&uacute;mido.<\/p>\n<p> Cantavam os galos.<\/p>\n<p> Eu atravessei o pomar, subi a um terra&ccedil;o.<\/p>\n<p> Uma claridade assustada, abatida, aparecia. Eu via ainda reluzirem l&acirc;mpadas<br \/>\n    nos pequenos bazares que est&atilde;o sob os cedros do Monte das Oliveiras.<br \/>\n    Ouvia-se o rumor grave do C&eacute;dron; por vezes o grito de um chacal. Via<br \/>\n    Bet&acirc;nia; ali Jesus dormia sereno, puro, impec&aacute;vel.<\/p>\n<p> Voltei aos p&oacute;rticos da casa, pela rua areada do pomar. Ali havia<br \/>\n    um rumor; os escravos, agitados, falavam. Alguns da mil&iacute;cia do Templo<br \/>\n    tinham encontrado, no P&oacute;rtico de David, nas lajes, uma mulher nos bra&ccedil;os<br \/>\n    de um homem. Era uma ad&uacute;ltera; a mil&iacute;cia trazia-a a casa de<br \/>\n    Simeon, que naquela semana fazia a condena&ccedil;&atilde;o dos desacatos<br \/>\n    ao Templo, em nome do Sanedrim. A mil&iacute;cia tinha sido diligente, apressada,<br \/>\n    minuciosa, porque a miser&aacute;vel era mulher de Bar-Abb&aacute;s, e todos<br \/>\n    queriam ver as contor&ccedil;&otilde;es joviais, o desgosto grotesco do tru&atilde;o!<br \/>\n    Mas Bar-Abb&aacute;s estava prostrado, im&oacute;vel, enroscado, no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> Fui ao lugar do vel&aacute;rio; os doutores, os fariseus acordavam; era<br \/>\n    j&aacute; manh&atilde; azul; todos se erguiam, fatigados, sombrios, calados,<br \/>\n    hostis; aconchegavam-se nos mantos, l&iacute;vidos, tomados do frio; procuravam<br \/>\n    os cintos das t&uacute;nicas, amarravam as franjas, apanhavam, limpavam as<br \/>\n    l&acirc;minas da Lei; sacudiam-se, penetrados do orvalho. Queriam &aacute;gua<br \/>\n    clara, fria; os escravos traziam largas conchas de jaspe; bebiam, mergulhando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a; enchiam as ta&ccedil;as; alguns iam estirar-se, de rastos,<br \/>\n    junto de um regato, e bebiam com a cabe&ccedil;a entre as ervas. Simeon, absorto,<br \/>\n    sonolento, bocejava.<\/p>\n<p>  Vinde  dizia-lhe eu  tendes servi&ccedil;o; vieram<br \/>\n    uns da pol&iacute;cia, com uma miser&aacute;vel mulher.<\/p>\n<p> Simeon, tr&eacute;mulo de frio, febril, encolhido no manto, caminhava, arrastando<br \/>\n    os coturnos, para o seu p&aacute;tio civil. Fariseus, doutores, membros do<br \/>\n    Sanedrim, seguiam-no.<\/p>\n<p> O p&aacute;tio era largo, em colunas. Uma l&acirc;mpada esmorecia. O c&atilde;o<br \/>\n    acorrentado rosnava.<\/p>\n<p> Os da mil&iacute;cia falavam, riam, partiam um p&atilde;o escuro, bebiam<br \/>\n    em c&acirc;ntaros. A mulher, ca&iacute;da sobre o chio, rota, sonolenta, imbecil,<br \/>\n    solu&ccedil;ava. A t&uacute;nica aberta deixava ver a forma impec&aacute;vel<br \/>\n    do seio.<\/p>\n<p> Simeon interrogava.<\/p>\n<p>  Vem presa  dizia eu, com uma voz forte, que dominava, no<br \/>\n    sil&ecirc;ncio  acharam-na &agrave; porta do Templo, no P&oacute;rtico<br \/>\n    de David. Vede-a. Estava em acto de adult&eacute;rio.<\/p>\n<p>  Oh!  disseram todos, indignados.<\/p>\n<p> E fariseus, escribas, sacerdotes, recuavam, escondiam a cabe&ccedil;a nos<br \/>\n    mantos, estendiam a m&atilde;o espalmada, esconjurando:.<\/p>\n<p>  Lapidada, lapidada  disseram, irritados.<\/p>\n<p> Alguns cuspiam-lhe sobre o seio. E sa&iacute;am apressados,. erguendo os<br \/>\n    mantos, para que n&atilde;o tocassem o ch&atilde;o, impuro pelo contacto da<br \/>\n    mulher ad&uacute;ltera.<\/p>\n<p> Essen afastou-se, e falou junto ao ouvido de Simeon.<\/p>\n<p>  Sim, sim  disse Simeon; e voltando-se para os da mil&iacute;cia:<br \/>\n     Esta mulher que seja aqui guardada at&eacute; &agrave; hora sexta.<\/p>\n<p> Eu sa&iacute;. Os soldados romanos abriam, com estrondo met&aacute;lico,<br \/>\n    as portas de Jerusal&eacute;m. A multid&atilde;o apressava-se: vinham os vendedores<br \/>\n    de legumes das hortas de Betfag&eacute;, da Bet&acirc;nia: os camponeses de<br \/>\n    Betel traziam os sacos de trigo: passavam solenemente as fileiras de camelos.<br \/>\n    Um bedu&iacute;no de Idumeia conduzia rebanhos: as reses balavam. Do alto<br \/>\n    da Torre Ant&oacute;nia vinha um som de trompas: entravam velhos mercadores<br \/>\n    sentados em seus burros: um vidente clamava! VIII Eu ia triste: o amanhecer,<br \/>\n    a apari&ccedil;&atilde;o espiritual da aurora, enche de melancolia depois<br \/>\n    das noites tomadas de vinho, fartas de carne. Demais nunca os tenebrosos devotos<br \/>\n    me tinham despertado, pelo seu artif&iacute;cio, t&atilde;o altivos desprezos.<br \/>\n    Mal dormi, durante o resto da madrugada: &agrave; hora quarta, encaminhei-me,<br \/>\n    obscuro e inconsolado, para os meus mon6-tonos of&iacute;cios do Templo. Alguns<br \/>\n    dos fariseus, dos escribas que se tinham rajado nas relvas de Simeon j&aacute;<br \/>\n    argumentavam, ajustavam reses para os sacrif&iacute;cios.<\/p>\n<p> O dia estava nublado, hostil ao homem. Eu afogava-me na melancolia: pensava<br \/>\n    nos prados da Galileia, nas &aacute;guas do lago, nas espessas folhagens:<br \/>\n    Jerusal&eacute;m, cidade de pedra escura e de negra intriga, pesava-me. Sentia-me<br \/>\n    desligado da vida sacerdotal. E dizia: &laquo;Se eu fosse um pobre cultivador<br \/>\n    das vinhas de Safed, um semeador das plan&iacute;cies de Safed, um semeador<br \/>\n    das plan&iacute;cies de Saron!&raquo; A multid&atilde;o provincial enchia<br \/>\n    o Templo: havia o ru&iacute;do de um mercado: a minha irrita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    crescia: percebia em volta de mim uma influ&ecirc;ncia material, dura, mesquinha,<br \/>\n    sufocante! Ia-me encostar &agrave; balaustrada da Galeria de Salom&atilde;o,<br \/>\n    olhava as verduras, as hortas, os cedros do Monte das Oliveiras: mas tinha<br \/>\n    de entrar nos santu&aacute;rios, de ro&ccedil;ar pelos fariseus, escribas,<br \/>\n    por aquelas hierarquias sacerdotais que me amargavam. As colunas enormes e<br \/>\n    brancas, as portas esculpidas em bronze irritavam-me: invejava a erva que<br \/>\n    cresce junto &agrave;s pedras dos mortos.<\/p>\n<p> Aquela vida sem f&eacute;, sem dignidade, era-me t&atilde;o odiosa como<br \/>\n    me seria odioso o meu corpo se ele se petrificasse, deixando-me a alma livre.<br \/>\n    Para qualquer lado que olhasse daquela organiza&ccedil;&atilde;o sacerdotal,<br \/>\n    s&oacute; via uma hipocrisia ou uma especula&ccedil;&atilde;o, ou uma vaidade<br \/>\n    ou uma humilha&ccedil;&atilde;o: os sacerdotes que se prostram &agrave; entrada<br \/>\n    do santu&aacute;rio, sustentado por dais levitas risonhos, no seu &ecirc;xtase<br \/>\n    enfastiado; os argumentadores v&atilde;os, artificiais, vazios; os doentes<br \/>\n    que cantam os salmos, mendigam, riem, fazem a ostenta&ccedil;&atilde;o ruidosa<br \/>\n    das suas chagas, tudo me dava um t&eacute;dio obscuro e atormentado.<\/p>\n<p> Sentia em mim c&oacute;leras de b&aacute;rbaro: agradava-me a ideia de desprezar<br \/>\n    com um a&ccedil;oute aquele sacerd&oacute;cio aviltado que vive do Templo,<br \/>\n    lhe compreende a vaidade e lhe aceita o lucro.<\/p>\n<p> Quantas vezes eu percebi o sorriso impercept&iacute;vel dos sacerdotes sacrificadores<br \/>\n    diante da piedade simples e crente de pobres galileus e de provinciais ing&eacute;nuos!<br \/>\n    Invejava quase o Romano, o Grego, o mercador de Tiro, que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    de Jerusal&eacute;m, nem do Templo, que n&atilde;o habita neste espa&ccedil;o<br \/>\n    duro, entre o Acra e o Moriah, cativos e gementes! Que temos n&oacute;s em<br \/>\n    Jerusal&eacute;m de bom, de justo?  Temos uma p&aacute;tria? N&atilde;o<br \/>\n     E olhava a Torre Ant&oacute;nia, onde os expedicion&aacute;rios,.<br \/>\n    com grande ru&iacute;do, atiravam &agrave; barra.<\/p>\n<p>  Temos uma religi&atilde;o, uma f&eacute;? N&atilde;o  E via<br \/>\n    os sacrificados vestindo os pertuais, para degolar a pomba da rocha sagrada,<br \/>\n    enfastiados, bocejando das noites mal dormidas na encosta de Si&atilde;o ou<br \/>\n    na rua do Alto Mercado. no leito do cortes&atilde;o de Cesareia!  Temos<br \/>\n    n&oacute;s uma ci&ecirc;ncia, uma lei elevada, forte, justa? N&atilde;o!<br \/>\n    E olhava aqueles est&eacute;reis, consumidos doutores, clamando contra uma<br \/>\n    palavra, e argumentando se os papiros devem ser enrolados ou dobrados para<br \/>\n    agradar ao Senhor! At&eacute; a brancura do Templo, aquelas escadarias novas<br \/>\n    polidas, aqueles frisos p&aacute;lidos e n&iacute;tidos, me faziam o efeito<br \/>\n    do quer que fosse que n&atilde;o tem alma, nem passado, nem legenda! Eu sentia<br \/>\n    que o ideal j&aacute; n&atilde;o habitava Jerusal&eacute;m! Ambicionava ter<br \/>\n    a palavra de Isa&iacute;as, a ci&ecirc;ncia de Gamaliel. a popularidade de<br \/>\n    Judas Galaunete, e &agrave; frente das multid&otilde;es do Norte, Gaileus<br \/>\n    e Samaritanos, gente espont&acirc;nea e forte, derrubar tudo na escura cidade,<br \/>\n    desde o p&oacute;rtico onde ora o fariseu, at&eacute; &agrave; ameia donde<br \/>\n    escarnece o Romano. Estes pensamentos enchiam-me, resultados da noite perturbada.<br \/>\n    ou de um estada elevado de consci&ecirc;ncia, ou enfim da reac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que em toda a alma honesta aparece um dia, contra o que ela julga, o erro<br \/>\n    ou a vaidade.<\/p>\n<p>  Ah! Jesus de Nazar&eacute;  pensava eu  &eacute; o<br \/>\n    &uacute;nico homem que nos poderia salvar, ou como um Messias, ou como um<br \/>\n    Macabeu, ou como um simples, que tem a f&eacute; e a justi&ccedil;a! Mas ter&aacute;<br \/>\n    ele a ac&ccedil;&atilde;o? Aqueles bra&ccedil;os consumidos de se erguerem<br \/>\n    em v&atilde;o para o seu ideal ter&atilde;o o vigor de sustentar a velha espada<br \/>\n    da p&aacute;tria Judeia? Ser&aacute; ele o homem humano, forte, duro? Ou o<br \/>\n    seu corpo &eacute; apenas o c&aacute;rcere de uma alma melanc&oacute;lica<br \/>\n    e transcendente? O Rabi de Nazar&eacute; tem popularidade na Galileia; as<br \/>\n    suas m&aacute;ximas largas, onde cabem o pecador e o pag&atilde;o, chamar-lhe-&atilde;o<br \/>\n    a Samaria; a Perea &eacute; um pa&iacute;s de profetas; o povo de Jerusal&eacute;m<br \/>\n    sofre todos os dias a vexa&ccedil;&atilde;o de Roma; todo o pa&iacute;s cultivado,<br \/>\n    que vai at&eacute; Jop&eacute;, &eacute; infeliz, porque o tributo devora<br \/>\n    a seara. Poder&aacute; Jesus de Nazar&eacute; fazer este movimento popular?<br \/>\n    Porque a ideia de uma p&aacute;tria perseguia-me, como uma voz que pede socorro.<\/p>\n<p>  Porque n&atilde;o?  dizia eu  eu surpreendi j&aacute;<br \/>\n    nos seus olhos uma vontade dura: porque h&aacute;-de ele ser apenas abstrac&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    zomba, s&iacute;mbolo? E pensava em falar a Jesus de Nazar&eacute;. Estas<br \/>\n    ideias aliviaram-me, como inesperadas consola&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> O dia azulava-se, enchia-se de sol imortal. Eu sentia, junto aos p&oacute;rticos,<br \/>\n    onde esperam as reses dos sacrif&iacute;cios, o profundo mugir dos bois: tinha<br \/>\n    a sensa&ccedil;&atilde;o da Natureza verde, de tempos repousados, contentes.<\/p>\n<p> O Templo estava cheio do rumor da multid&atilde;o civil. Eu descia a larga<br \/>\n    escadaria para o P&aacute;tio da Balaustrada: vi Jesus de Nazar&eacute; junto<br \/>\n    do p&oacute;rtico onde est&atilde;o as inscri&ccedil;&otilde;es latinas e<br \/>\n    gregas de entrada defesa, cercado de galileus, de povo. Os de Jerusal&eacute;m<br \/>\n    come&ccedil;avam a atender &agrave;s palavras de Jesus: ainda que penetrados<br \/>\n    da educa&ccedil;&atilde;o farisaica, e limitados num esp&iacute;rito estreito<br \/>\n    e hostil, achavam verdade, do&ccedil;ura, nas par&aacute;bolas do Rabi da<br \/>\n    Galileia: era o povo do baixo mercado, dos arredores de Bet&acirc;nia, de<br \/>\n    Betfag&eacute;, do Monte das Oliveiras. Os mercadores, os ricos, mesmo os<br \/>\n    mais afastados dos zelos farisaicos, tinham para a palavra do Mestre o riso<br \/>\n    &aacute;spero, o desd&eacute;m, ou a indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p> O Rabi de Nazar&eacute; estava triste. Sentia-se decerto Isolado, sufocado,<br \/>\n    naquele mundo hostil, argumentador. Jerusal&eacute;m devia pesar &agrave;<br \/>\n    alma delicada e aspiradora do Mestre. Lamentava decerto os seus campos da<br \/>\n    Galileia. as solid&otilde;es consteladas, os pomares de Chorazim. Naquela<br \/>\n    alma passava-se uma luta dolorosa entre a f&eacute;, a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que o retinham em Jerusal&eacute;m, e os seus instintos todos suaves, id&iacute;licos,<br \/>\n    que, com vozes amantes, o estavam levando para os prados da Galileia! A sua<br \/>\n    vida at&eacute; a&iacute; tinha sido larga, f&aacute;cil como a sua t&uacute;nica,<br \/>\n    toda penetrada do amor, da luz paradis&iacute;aca do. reino de Deus.<\/p>\n<p> Em Jerusal&eacute;m a sua vida seria de luta, de intriga, de hostilidade,<br \/>\n    de desd&eacute;m. E onde tinha tomado o doce Mestre do lago a energia, a resistente<br \/>\n    fibra, para esses dias amargos? Nos embalos da &aacute;gua, no ar doce das<br \/>\n    montanhas da Galileia, na leitura serena da sinagoga de Magdala, no amor humilde<br \/>\n    dos seus companheiros? O homem muito amado pode ser forte? A felicidade simp&aacute;tica,<br \/>\n    as intimidades femininas, a piedade dos velhos, podem dar a dureza, a altivez,<br \/>\n    a atitude indom&aacute;vel? N&atilde;o, n&atilde;o: em presen&ccedil;a daquelas<br \/>\n    poderosas hierarquias sacerdotais, da hostilidade minuciosa dos escribas,<br \/>\n    das oposi&ccedil;&otilde;es farisaicas, da impassibilidade inimiga de Jerusal&eacute;m,<br \/>\n    a sua alma acostumada a ser amada, rogada, devia fechar-se asperamente no<br \/>\n    seu ideal, como em uma concha. O receio da morte era, nele, decerto maior<br \/>\n    do que a repugn&acirc;ncia que devia fazer &agrave; sua alma virginal o esc&aacute;rnio,<br \/>\n    a argumenta&ccedil;&atilde;o vingativa, o opr&oacute;brio. Viver sempre na<br \/>\n    Galileia, pregar o seu cora&ccedil;&atilde;o, dar-se em amor e em verdade<br \/>\n    aos infelizes mal-amados e transviados, ter a eterna serenidade do seu id&iacute;lio<br \/>\n    social, que doce futuro, terno, purificado, coberto de luz! E estava ele bem<br \/>\n    certo de convencer as almas, de converter as hostilidades? Como seria compreendida<br \/>\n    a sua palavra de amor, igualdade. perd&atilde;o, pobreza., neste mundo todo<br \/>\n    ego&iacute;sta, avaro, hier&aacute;rquico, agonizador, pol&iacute;tico? N&atilde;o<br \/>\n    ia ser repelido por um imenso desd&eacute;m? Ele s&oacute; pela sua palavra<br \/>\n    et&eacute;rea, pela promessa do reino de Deus, como lutaria com estes sacerdotes<br \/>\n    que t&ecirc;m liteiras, mil&iacute;cias, escravos fr&iacute;gios, colunas<br \/>\n    de m&aacute;rmore grandes como torres, e um templo edificado como uma eternidade?<br \/>\n    E os seus olhos voltavam-se com amargura para as edifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Herodes, o Grande! Os galileus tomaram, nas suas fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e perfil, da melancolia do Mestre: eles, pobres camponeses ignorantes, sentiam-se<br \/>\n    esmagados no meio de tantos m&aacute;rmores do Templo, de tanta ci&ecirc;ncia<br \/>\n    de doutores, de tantas for&ccedil;as civis! Jesus ia com passos casuais pelos<br \/>\n    terra&ccedil;os do Templo: os seus olhos tinham um vago inef&aacute;vel: os<br \/>\n    disc&iacute;pulos mostravam-lhe ou um sacrificador revestido, resplandecente,<br \/>\n    ou as altas colunas incrustadas de jaspe, ou as l&acirc;minas de ouro do santu&aacute;rio:<br \/>\n    ele olhava, infinitamente triste, com um desd&eacute;m abatido.<\/p>\n<p> Eu estudava junto dele o movimento prov&aacute;vel, l&oacute;gico, das suas<br \/>\n    ideias: mas um grande rumor encheu o Templo.<\/p>\n<p> Jesus de Nazar&eacute; estava nos altos terra&ccedil;os, donde se domina<br \/>\n    todo o baixo recinto do Templo.<\/p>\n<p> Pelos p&aacute;tios, pelas escadarias, aproximava-se uma multid&atilde;o<br \/>\n    cheia de vozes, de gritos penetrantes.<\/p>\n<p> Adiante, entre alguns da mil&iacute;cia sacerdotal, armados de paus, coura&ccedil;ados<br \/>\n    de peles de b&uacute;falo, vinha uma mulher, arrastada; escribas, fariseus,<br \/>\n    herodianos, inflamados de zelo, cheios das vingan&ccedil;as da lei, vinham<br \/>\n    em volta, com largos gestos de c6lera, &aacute;speras impreca&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Os negros olhos irritados reluziam. A mulher a todo o passo ca&iacute;a, abatia-se,<br \/>\n    duramente espancada: tinha fortes cabelos negros desmanchados, os p&eacute;s<br \/>\n    riscados de sangue, a t&uacute;nica despeda&ccedil;ada, o rosto levemente<br \/>\n    aquilino, tomado de afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A multid&atilde;o dura clamava: todos corriam, curiosos: vinham os vendedores<br \/>\n    de pombas, os cambiadores de ouro: os escribas sa&iacute;am do santu&aacute;rio<br \/>\n    vinham os pregoeiros, os demandistas, os que passeiam na rua com fardos, ou<br \/>\n    conduzindo gados; os doentes da piscina arrastavamse, os coxos corriam com<br \/>\n    grandes desloca&ccedil;&otilde;es nas suas muletas.<\/p>\n<p> Todos interrogavam, queriam penetrar at&eacute; aos soldados, aos fariseus,<br \/>\n    havia uma curiosidade b&aacute;rbara: alguns subiam &agrave;s balaustradas,<br \/>\n    e estendendo o manto sobre a cabe&ccedil;a, contra o pesado sol, olhavam avidamente:<br \/>\n    as aves de sacrif&iacute;cio assustadas esvo&ccedil;avam, as reses balavam.<br \/>\n    Os sacerdotes revestidos &agrave; porta do santu&aacute;rio sobre a tripe&ccedil;a<br \/>\n    de bronze olhavam, interrogavam. A multid&atilde;o enchia as escadarias e<br \/>\n    os p&aacute;tios..<\/p>\n<p> O Rabi de Nazar&eacute; estava no terra&ccedil;o, im&oacute;vel, sereno,<br \/>\n    cercado dos seus galileus: defronte dele havia um espa&ccedil;o batido do<br \/>\n    sol: os soldados pararam ali, e a mulher caiu sobre a pedra, sufocada, abandonada,<br \/>\n    torcendo os bra&ccedil;os. Era alta, escultural, de fortes cabelos, com uma<br \/>\n    semelhan&ccedil;a pag&atilde;.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, num grande sil&ecirc;ncio, um escriba, que vinha, caminhou<br \/>\n    para Jesus, e com a voz austera, altiva, disse:  Rabi, sabemos que<br \/>\n    &eacute;s justo e verdadeiro; aqui est&aacute; uma mulher que foi achada em<br \/>\n    adult&eacute;rio nos p&oacute;rticos do Templo.<\/p>\n<p>  Lapidada. lapidada  prorrompeu a multid&atilde;o.<\/p>\n<p> Erguiam-se bra&ccedil;os com paus; apareciam rostos Inflamados; sentiam-se<br \/>\n    os gritos agudos, arrastados, das mulheres.<\/p>\n<p> Jesus tinha o olhar abstracto; aos seus p&eacute;s a mulher solu&ccedil;ava.<br \/>\n    Os soldados riam.<\/p>\n<p> O escriba falava, com gestos abundantes:  Rabi  dizia<br \/>\n    a lei de Mois&eacute;s, a nossa lei, diz que a mulher ad&uacute;ltera deve<br \/>\n    ser lapidada; mas tu, que a comentas, explica a Lei; o que pensas tu, Rabi?<br \/>\n    Jesus olhou o escriba, serenamente.<\/p>\n<p>  O Rabi de Nazar&eacute; perdoa sempre esses pecados  gritou<br \/>\n    algu&eacute;m entre a multid&atilde;o.<\/p>\n<p> Sentiram-se risos. Um velho, &aacute;spero, adunco, gritava:  Ele<br \/>\n    vive com as mulheres possessas; ele vive com os publicanos! E um fariseu bradou:<br \/>\n     &Eacute; o Salom&atilde;o das mulheres perdidas.<\/p>\n<p> Toda a multid&atilde;o riu largamente; mas o escriba mostrava o plilect&eacute;rio<br \/>\n    onde anda escrita a Lei, e exclamava:  Ouve bem, Rabi, a lei de Mois&eacute;s<br \/>\n    manda-a lapidar.<\/p>\n<p> O povo cruel dizia num clamor:  Lapidada, que seja lapidada! Alguns<br \/>\n    fariseus gritavam:  E o Rabi, e o Rabi de Nazar&eacute;! Os sacerdotes,<br \/>\n    escandalizados, faziam ver os centuri&otilde;es da mil&iacute;cia templ&aacute;ria.<br \/>\n    A multid&atilde;o era espessa; os mendigos apregoavam posca; os vendedores<br \/>\n    de Betfag&eacute; mostravam pombas enfeitadas de escarlate; os doentes da<br \/>\n    piscina iam entre a gente, mostrando as chagas, dizendo os salmos, pedindo<br \/>\n    dracmas; da Torre Ant&oacute;nia cabe&ccedil;as de legion&aacute;rios espreitavam.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o uma voz aguda, vibrante, amarga, gritou:  Essa &eacute;<br \/>\n    a mulher de Jesus Bar-Abb&aacute;s.<\/p>\n<p> Uma risada sonora, pesada, tomou o povo os soldados apertavam as costelas;<br \/>\n    os sacerdotes, junto &agrave;s portas da ara, riam nas suas longas barbas,<br \/>\n    fazendo oscilar as pesadas mitras cravejadas. Entretanto os fariseus iam entre<br \/>\n    os homens, contentes de riso, dizendo:  Esse Rabi de Galileia quer<br \/>\n    que seja perdoada; &eacute; um homem impuro, que despreza a Lei.<\/p>\n<p> Alguns queriam levar o Mestre diante do Sin&eacute;drio.<\/p>\n<p> Mas na multid&atilde;o havia uma oscila&ccedil;&atilde;o; sentiam-se gritos,<br \/>\n    risadas joviais, vozes; o povo afastava-se; e de entre a sua escura espessura<br \/>\n    vinha empurrado, repelido, atirado, um homem.<\/p>\n<p> E vozes alegres bradavam:  A&iacute; vai Jesus Bar-Abb&aacute;s,<br \/>\n    a&iacute; vai! O homem esfarrapado, absorto, assustado, veio estacar, olhando,<br \/>\n    nessa &aacute;spera inquieta&ccedil;&atilde;o, como um boi espantado, junto<br \/>\n    de Jesus..<\/p>\n<p> Era Bar-Abb&aacute;s.<\/p>\n<p> Viu a mulher solu&ccedil;ando, ca&iacute;da sobre as largas lajes.<\/p>\n<p> E olhava, com os olhos vibrantes, voltava-se, recuava, e tomando, com ambas<br \/>\n    as m&atilde;os, violentamente, uma ponta da t&uacute;nica, estendeu-a para<br \/>\n    a multid&atilde;o, gritando:  Quem d&aacute; para o luto? O povo ria;<br \/>\n    bradava:  Lapidai-a, lapidai-a! Bar-Abb&aacute;s dizia:  Lapidai-a,<br \/>\n    dai-me para o luto! E ria, com grandes contor&ccedil;&otilde;es, com visagens.<br \/>\n    A mulher chorava.<\/p>\n<p> Havia um clamor; o povo pedia a lapida&ccedil;&atilde;o; os fariseus, os<br \/>\n    escribas diziam que o Rabi queria o perd&atilde;o, o desprezo da Lei.<\/p>\n<p>  Fala, Rabi, fala  gritavam-lhe de entre a multid&atilde;o.<br \/>\n    Mas Jesus olhava sereno, calado.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o um escriba, erguendo os bra&ccedil;os, convulso, com a voz<br \/>\n    mordente, col&eacute;rica, bradou:  Sim, sim, povo de Jerusal&eacute;m,<br \/>\n    o Rabi de Galileia despreza a Lei, quer o perd&atilde;o da mulher ad&uacute;ltera.<\/p>\n<p> Ergueu-se um clamor inimigo; alguns, zelosos, erguiam paus, pediam a morte.<\/p>\n<p> Mas Jo&atilde;o, exaltado, tomando o bra&ccedil;o ao escriba, bradou-lhe<br \/>\n    poderoso, irritado:  Quem te disse que o Rabi de Nazar&eacute; perdoa<br \/>\n    &agrave; mulher ad&uacute;ltera? Ele manda lapid&aacute;-la.<\/p>\n<p> Havia um silencio. E Jesus, adiantando-se, em toda a nobreza da sua estatura,<br \/>\n    para a multid&atilde;o, com um olhar inflamado de luz, disse:  Sim,<br \/>\n    lapidai-a, e aquele de v&oacute;s outros que se julgar sem pecado, que lhe<br \/>\n    atire a primeira pedra! A sua voz era forte, c&ocirc;ncava, misteriosa, assustava.<\/p>\n<p> A imensa multid&atilde;o estava calada, absorta; alguns rumores elevaram-se:<br \/>\n    os fariseus, os escribas afastavam-se, rosnando. Alguns velhos, choravam:<br \/>\n    vozes diziam:  o Messias, &eacute; o Messias!  Todos se dispersavam.<br \/>\n    Os largos p&aacute;tios reluziam ao sol, quase desertos.<\/p>\n<p> Eu afastei os soldados, soltei a mulher: os fariseus, em grupos irritados,<br \/>\n    concertavam, &agrave; porta do santu&aacute;rio, entre os centuri&otilde;es<br \/>\n    da mil&iacute;cia templ&aacute;ria.<\/p>\n<p> Eu que tantas vezes assistira &agrave;s lapida&ccedil;&otilde;es de ad&uacute;lteras,<br \/>\n    estava concentrado, absorto: aquela palavra, calda no meio da minha educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    judaica, perturbava toda a organiza&ccedil;&atilde;o do mundo interior que<br \/>\n    nos habita. Alegrava-me em ver, com uma palavra simples e genial. a hipocrisia<br \/>\n    de uma ra&ccedil;a ferida na sua ess&ecirc;ncia: tinha admira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    Inesperadas pelo esp&iacute;rito harmonioso do Mestre da Galileia.<\/p>\n<p>  Sim, sim  dizia eu  Jesus de Nazar&eacute;, pelo seu<br \/>\n    g&eacute;nio simples e justo. pela delicadeza penetrante da sua palavra, pelo<br \/>\n    seu ensino sobre a riqueza, sobre os pobres, sobre o perd&atilde;o, sobre<br \/>\n    o culto, e pela influ&ecirc;ncia poderosa do seu ser sobre os homens, est&aacute;<br \/>\n    destinado, talvez, a ser a regenera&ccedil;&atilde;o de Israel.<\/p>\n<p> Se ele tem apenas o esp&iacute;rito, eu terei por ele a for&ccedil;a. Ai<br \/>\n    de mim, ignorado. fraco, t&iacute;mido, mais especulativo que activo, como<br \/>\n    poderia eu ser o homem decisivo de uma insurrei&ccedil;&atilde;o? Mas o t&eacute;dio<br \/>\n    da vida presente, uma mocidade &aacute;vida de ac&ccedil;&atilde;o, o desd&eacute;m<br \/>\n    irreconcili&aacute;vel pelo Templo, e pela sua gente, o prestigio que em mim<br \/>\n    tinha a vida do agitador judas Galaunete, tudo isso, e o desejo de me aproximar<br \/>\n    do Mestre da Galileia me levou a procurar Jogo, de Cafarnaum, e a pedir4he.<br \/>\n    simplesmente, rapidamente, que me levasse a Jesus de Nazar&eacute;.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o disse-me que &agrave; noite estivesse junto &agrave; Porta dos.<\/p>\n<p> Rebanhos; viria um homem que me diria esta palavra Shalon. que era a sauda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    usada do Rabi, que o seguisse. e pela noite alta falaria a Jesus.<\/p>\n<p> Uma tr&eacute;mula inquieta&ccedil;&atilde;o me tomou at&eacute; ao anoitecer:<br \/>\n    o contacto com aquele homem, a gravidade das Ideias que eu lhe levava, o perigo,<br \/>\n    tudo me tornava mais perfeito de sentidos, mais abundante de palavras, mais<br \/>\n    pronto de f&eacute;.<\/p>\n<p> IX &Agrave; hora terceira da noite, eu descia por entre os pomares que t&ecirc;m<br \/>\n    a sua raiz na encosta onde assenta o bairro de Bezeta: era num horto, junto<br \/>\n    ao Monte das Oliveiras, que eu ia ver Jesus de Nazar&eacute;.<\/p>\n<p> A noite estava cheia de um luar vivo, profundo: havia sombras suaves sob<br \/>\n    as largas ramagens: um sil&ecirc;ncio doce ocupava a terra. Ouvi apenas um<br \/>\n    canto, triste, arrastado alguma pobre mulher embalava O filho, chorava o marido<br \/>\n    levado para as legi&otilde;es de Roma.<\/p>\n<p> O homem que me guiava abriu uma porta. estreita, de vime: entrei num espa&ccedil;o<br \/>\n    coberto por folhagem de cedro: sentia-se frescura de &aacute;gua. cheiro de<br \/>\n    plantas.<\/p>\n<p> A Lua alumiava, defronte, um espa&ccedil;o aberto, areado, com um banco<br \/>\n    de pedra: a&iacute;, com os bra&ccedil;os cruzados no rega&ccedil;o, a cabe&ccedil;a<br \/>\n    apoiada ao muro, o olhar afogado no espa&ccedil;o alumiado, estava Jesus.<\/p>\n<p> Ergueu-se. lentamente, e disse:  Paz.<\/p>\n<p>  Paz e alegria. Rabi  disse eu.  Velavas?  Velo<br \/>\n    sempre. Bem-aventurado o que vela! Ele &eacute; como o servo diligente, que<br \/>\n    espera acordado &oacute; seu senhor que foi para as bodas: e mal o sente chegar,<br \/>\n    corre logo a abrir.<\/p>\n<p> Jesus calou-se, perdendo o olhar no inef&aacute;vel espa&ccedil;o luminoso.<\/p>\n<p> Eu aproximei-me, e com uma voz profunda. convencida, disse:  Creio<br \/>\n    em ti, Mestre! Jesus olhava, enlevado, transcendente.<\/p>\n<p> Havia um sil&ecirc;ncio; eu estava constrangido, e dizia para o chamar &agrave;s<br \/>\n    nossas comuns imagina&ccedil;&atilde;o:  Rabi, o que &eacute; necess&aacute;rio,<br \/>\n    segundo pensas. para alcan&ccedil;ar feliz a vida eterna? Jesus pousou em<br \/>\n    mim, demoradamente. os seus olhos severos.<\/p>\n<p>  Serves o Templo  disse  serves a Lei, e n&atilde;o<br \/>\n    conheces a Lei; a Lei que diz?  A Lei  disse eu  ensina<br \/>\n    que amemos a Deus sobre tudo, e aos outros como a n&oacute;s.<\/p>\n<p>  E eu digo como a Lei.<\/p>\n<p> E olhava-me, penetrantemente: falava como num sonho, ou a algu&eacute;m<br \/>\n    invis&iacute;vel,  N&atilde;o se pode servir bem a dois amos: um deles<br \/>\n    se h&aacute;-de desprezar, outro servir.<\/p>\n<p> N&atilde;o se adora no mesmo cora&ccedil;&atilde;o a Deus e a Moloch.<\/p>\n<p> Compreendi que o Rabi n&atilde;o tinha confian&ccedil;a em mim: que me julgava<br \/>\n    um emiss&aacute;rio do Templo para lhe escutar a doutrina, e dar testemunho<br \/>\n    Contra ele.<\/p>\n<p> Respondi com uma dignidade dura:  Tens para mim palavras desconfiadas,<br \/>\n    Rabi. Chama Jo&atilde;o. Ele sabe que creio em ti, e que n&atilde;o vou dar-vos<br \/>\n    testemunhos que o Sanedrim p&otilde;e por tr&aacute;s das portas dos blasfemadores<br \/>\n    da Lei. O meu corpo serve e vive no templo, mas muitas vezes o meu esp&iacute;rito<br \/>\n    tem andado contigo, em desejo e em verdade, no teu lago de Tiber&iacute;ade.<br \/>\n    Chama Jo&atilde;o.<\/p>\n<p> O Rabi considerava-me atento..<\/p>\n<p>  O homem  disse ele  d&aacute; testemunho do homem:<br \/>\n    s&oacute; Deus conhece os cora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>  Pois bem: tu, que segundo dizem, &eacute;s hoje o maior vidente<br \/>\n    de Israel, tu julga, ou condena minha alma.<\/p>\n<p> Dizia isto grave, firme, &aacute;spero. Jesus de Nazar&eacute;, com o rosto<br \/>\n    esclarecido, disse-me docemente:  A f&eacute; salva.<\/p>\n<p> E depois de um momento:  E quem dizem ent&atilde;o os de Jerusal&eacute;m<br \/>\n    que eu sou?  Uns, Mestre, dizem que &eacute;s Elias, ou o Baptista<br \/>\n    ressuscitado, outros que &eacute;s o Messias; os fariseus pensam que &eacute;s<br \/>\n    um blasfemador ambicioso, ou um simples sincero, a maior parte ignora-te:<br \/>\n    esta &eacute; a verdade.<\/p>\n<p>  E tu quem dizes que eu sou&rsquo;  Eu, digo que &eacute;s<br \/>\n    um homem justo, e uma elevada consci&ecirc;ncia das coisas divinas.<\/p>\n<p> Digo que &eacute;s um homem mandado providencialmente, num tempo humilhado<br \/>\n    e vil, para erguer as almas, desmascarar as hipocrisias, vingar a p&aacute;tria!<br \/>\n    Penso que se tens de ter uma ac&ccedil;&atilde;o no mundo, essa deve ser insurgires-te<br \/>\n    contra a aristocracia do Templo, contra este esp&iacute;rito estreito de Jerusal&eacute;m,<br \/>\n    contra este culto pag&atilde;o das tradi&ccedil;&otilde;es, contra o fariseu<br \/>\n    e contra o romano, ser o consolador, ser o vingador!  Homem, em que<br \/>\n    esp&iacute;rito est&aacute;s?! Eu vim a salvar as almas, e n&atilde;o a perd&ecirc;-las.<\/p>\n<p>  E &eacute; perd&ecirc;-las. torn&aacute;-las justas? &Eacute; perd&ecirc;-las,<br \/>\n    o combater este sacerd&oacute;cio rico e indiferente, este culto ensanguentado<br \/>\n    e hip&oacute;crita? &Eacute; perd&ecirc;-las o quebrar-lhes este destino que<br \/>\n    as traz escravas, sempre choradas e sempre perdidas, e agora sob o arb&iacute;trio<br \/>\n    dos favoritos imbecis de Tib&eacute;rio?  Essas coisas pequenas n&atilde;o<br \/>\n    me pertencem: s&atilde;o do mundo.<\/p>\n<p>  Perdoa, Rabi: mas a que vieste ent&atilde;o? E tu quem dizes que<br \/>\n    &eacute;s, te pergunto eu agora? Queres ficar eternamente pregando e contemplando<br \/>\n    no lago de Tiber&iacute;ade, e andar errante pelos casais? E pensas que isso<br \/>\n    influir&aacute; sobre os homens, tanto sequer como uma folha seca? Pensas<br \/>\n    fazer uma revolu&ccedil;&atilde;o na Judeia, acariciando as cabe&ccedil;as<br \/>\n    loiras das crian&ccedil;as de Chorazim, e contando par&aacute;bolas, entre<br \/>\n    os campos, aos simples e &agrave;s mulheres? Compreendo que a tua ambi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o seja maior, e que te baste a felicidade de um sonho na fraternidade<br \/>\n    dos simples. Mas ent&atilde;o para que vieste a Jerusal&eacute;m? Para que<br \/>\n    pregas no Templo? Se tu n&atilde;o &eacute;s uma iniciativa revolucion&aacute;ria,<br \/>\n    o que &eacute;s ent&atilde;o? Que &eacute;s tu, se n&atilde;o &eacute;s uma<br \/>\n    forte Intensidade de vontade? As m&aacute;ximas que tu pregas s&atilde;o de<br \/>\n    Hillel. s&atilde;o de Gamaliel, s&atilde;o de Jesus de Sirach: sei que h&aacute;<br \/>\n    coisas novas no teu ensino, mas o que nelas h&aacute; de grande &eacute; a<br \/>\n    tua for&ccedil;a de convic&ccedil;&atilde;o, e a tua f&eacute;, e a tua profunda<br \/>\n    virtude, e o teu amor do sacrif&iacute;cio, e a tua infinita vontade. De que<br \/>\n    te servem ent&atilde;o estas qualidades, para que as guardas? N&atilde;o &eacute;s<br \/>\n    tu judeu? N&atilde;o &eacute; a tua m&atilde;e de Can&aacute;? N&atilde;o<br \/>\n    podia teu pai ser levado legion&aacute;rio para Roma? De que nos servem essas<br \/>\n    par&aacute;bolas, essas ironias, essas respostas excelentes, se elas n&atilde;o<br \/>\n    v&atilde;o ferir a riqueza do saduceu, a hipocrisia do escriba, a vexa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do romano? Queres abster-te da ac&ccedil;&atilde;o? Imaginas que as pr&eacute;dicas<br \/>\n    do Templo e o ensino sobre as montanhas, s&oacute; pela sua verdade abstracta,<br \/>\n    podem combater, vencer um mundo completo, organizado, civil, rico, amado?<br \/>\n    imaginas que se pode repetir o milagre das trompas de Jeric&oacute;? Cr&ecirc;s<br \/>\n    tu que um mundo inteiro, tribunais, templos, of&iacute;cios, mercados, sacerd&oacute;cios,<br \/>\n    escolas, tudo fortemente ligado, se dissipe como uma vis&atilde;o, porque<br \/>\n    um homem simp&aacute;tico se ergue num caminho e diz: &laquo;Amai-vos uns<br \/>\n    aos outros, e sereis amados do vosso Pai celeste!&raquo; N&atilde;o! tal n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute;, Rabi!  Pela vossa incredulidade! que se tiv&eacute;sseis<br \/>\n    a f&eacute; tanto  eu sei?  como um gr&atilde;o de mostarda,<br \/>\n    e diss&eacute;sseis &agrave;quele monte: passa-te da&iacute;!, o monte passaria!<br \/>\n    Oh! gera&ccedil;&atilde;o incr&eacute;dula, gera&ccedil;&atilde;o incr&eacute;dula,<br \/>\n    at&eacute; quando estarei entre ti?.<\/p>\n<p> O Rabi dava largos passos, atormentado, doloroso.<\/p>\n<p>  Rabi, Rabi, escuta-me. Eu tenho a tua f&eacute;, amo o teu reino<br \/>\n    de Deus. Mas o teu Deus consola muito em cima, e n&oacute;s sofremos e choramos<br \/>\n    muito baixo na terra.<\/p>\n<p> Jesus estava tomado de incerteza, de amargura. Eu dizia:  Escuta,<br \/>\n    Rabi: consinto que s&oacute; pela tua palavra, tu possas realizar o teu reino<br \/>\n    de Deus. Mas ent&atilde;o deixa esses galileus simples, liga-te aos homens<br \/>\n    que t&ecirc;m a for&ccedil;a, a ci&ecirc;ncia e o segredo das coisas humanas:<br \/>\n    n&oacute;s seremos a ac&ccedil;&atilde;o, s&ecirc; tu o nosso Messias na Judeia.<br \/>\n    nada se faz sem um profeta! Como tens tu pensado realizar o teu reino de Deus?<br \/>\n    Pela do&ccedil;ura e pela paci&ecirc;ncia. ou pela for&ccedil;a e pela revolta?<br \/>\n    N&atilde;o podes hesitar, se pensas.<\/p>\n<p> Queres fazer um renascimento, com os galileus que te cercam, com os publicanos<br \/>\n    infelizes, com os doentes que curas, com os miser&aacute;veis que consolas,<br \/>\n    com as mulheres que te amam, com as crian&ccedil;as que te sorriem?<br \/>\n    Deus esconde muitas coisas aos s&aacute;bios, que revela &agrave;s crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>  Para que pregas ent&atilde;o no Templo, contra os fariseus e os<br \/>\n    pr&iacute;ncipes?  Deixa pelo esp&iacute;rito dos simples e crian&ccedil;as<br \/>\n    operar-se a regenera&ccedil;&atilde;o!  Na verdade, Rabi, dize-me:<br \/>\n    entendes tu que no mundo nada vale, e que s&oacute; &oslash; teu ideal pode<br \/>\n    dar felicidade e sossego? Professas tu o desd&eacute;m?  S&oacute;<br \/>\n    o desd&eacute;m d&aacute; a paz.<\/p>\n<p>  D&aacute; a in&eacute;rcia, o sacrif&iacute;cio e as virtudes passivas.<br \/>\n    E se amanh&atilde; tu pudesses come&ccedil;ar a ver realizado no mundo esse<br \/>\n    reino dos pobres, dos simples dos pequenos? Se pelo menos visses uma terra<br \/>\n    bem preparada para a tua palavra? Se Visses tudo transformado por uma ac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    en&eacute;rgica, revolucion&aacute;ria, pela nossa ac&ccedil;&atilde;o? Jesus<br \/>\n    caminhava, inquieto, o seu olhar vibrava. As minhas palavras davam-lhe inesperadas<br \/>\n    perturba&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> N&oacute;s v&iacute;amos o Templo luzir na branca polidez da pedra sob o<br \/>\n    Luar: eu dizia-lhe, profundo:  Olha, v&ecirc; o Templo, hoje ali tudo<br \/>\n    &eacute; intriga, artif&iacute;cio, aparato, riqueza, sangue, hipocrisia,<br \/>\n    vaidade: amanh&atilde; seria o lugar mais santo da Terra.<\/p>\n<p> Jesus cobria o Templo com um vasto olhar, cheio da fulgura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu desejo. Eu tinha-lhe tomado as m&atilde;os, dizia-lhe baixo, junto<br \/>\n    &agrave; face:  Ouve: em Jerusal&eacute;m h&aacute; descontentes: alguns<br \/>\n    membros do Sanedrim est&atilde;o irritados com a fam&iacute;lia de Elanan,<br \/>\n    com Beotos; Gamaliel n&atilde;o ama o Templo; o baixo povo do mercado detesta<br \/>\n    fariseus e escribas, &eacute; nosso; a Galileia &eacute; nossa, a Perea &eacute;<br \/>\n    nossa; mandar-se-&atilde;o emiss&aacute;rios a Jop&eacute;: toda a Judeia<br \/>\n    se erguer&aacute;: tu ser&aacute;s o profeta. Queres? O teu sonho do lago<br \/>\n    de Tiber&iacute;ade ser&aacute; ent&atilde;o vivo, real, palp&aacute;vel,<br \/>\n    existente sob as nuvens!  Queres? A noite era imortalmente bela: havia<br \/>\n    uma bondade no ar: o mundo parecia-me possu&iacute;do de um elemento diverso.<\/p>\n<p> Eu falava confusamente, ora contra os fariseus, ora contra os romanos: e<br \/>\n    n&atilde;o conhecia nem a for&ccedil;a de Roma, nem o poder sacerdotal, nem<br \/>\n    a in&eacute;rcia de um povo ego&iacute;sta. Uma grande tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cativava o esp&iacute;rito do Mestre. Eu dizia-lhe, tomando-lhe as m&atilde;os:<br \/>\n     Rabi, Rabi, depois do fariseu, ser&aacute; a vez do romano. Tu ser&aacute;s<br \/>\n    o maior da Judeia: ter&aacute;s glorificado o pobre, ter&aacute;s humilhado<br \/>\n    o rico, ter&aacute;s aniquilado o hip&oacute;crita, ter&aacute;s expulso o<br \/>\n    romano: ser&aacute;s pela justi&ccedil;a igual a Ezequiel, pela for&ccedil;a<br \/>\n    igual aos Macabeus: ser&aacute;s como David, ter&aacute;s a Palestina desde<br \/>\n    o Jord&atilde;o at&eacute; ao mar, e ser&aacute;s o rei de Israel.<\/p>\n<p> Eu falava exaltado: mostrava-lhe Jerusal&eacute;m e dizia-lhe:  Ter&aacute;s<br \/>\n    a Palestina at&eacute; ao mar, ser&aacute;s o rei de Israel!.<\/p>\n<p> Mas Jesus, erguendo a m&atilde;o, mostrando-me com um gesto elevado e transcendente<br \/>\n    o c&eacute;u cheio da Lua serena, o inef&aacute;vel sil&ecirc;ncio, a pura<br \/>\n    beleza do elemento, o profundo mist&eacute;rio onde Deus habita, disse-me:<br \/>\n     Vai-te: o meu reino n&atilde;o &eacute; deste mundo.<\/p>\n<p> Olhei longamente o Rabi, lamentei o seu desd&eacute;m, sorri da sua palavra:<br \/>\n    e calado, concentrado, sa&iacute; pelo caminho de Betfag&eacute;.<\/p>\n<p> Uma claridade aparecia: os galos cantavam. No outro dia, pela hora da tarde,<br \/>\n    Jesus, seguido dos seus, subiu para a Galileia! [1] Quando, em 1875, come&ccedil;ou<br \/>\n    na Revista Ocidental a publica&ccedil;&atilde;o de O Crime do Padre Amaro,<br \/>\n    Teixeira de Vasconcelos escreveu: &laquo;Nasceu na Gazeta de Portugal E&ccedil;a<br \/>\n    de Queir&oacute;s e assustou por diferentes vezes os esp&iacute;ritos serenos<br \/>\n    dos pacificas leitores dela. N&atilde;o passaram sem observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nossas alguns dos seus realismos exagerados&#8230;&raquo; Jornal da Noite, 20<br \/>\n    de Fevereiro, 1875, Lisboa.<\/p>\n<p> [2] Veja-se Antero de Quental, &laquo;In Memoriam&raquo; E&ccedil;a de Queir&oacute;s,<br \/>\n    um G&eacute;nio Que Era Um Santo&raquo;, pp.<\/p>\n<p> 499-502; J. Batalha Reis, &laquo;Anos de Lisboa&raquo;, idem, 442-445, Porto,<br \/>\n    1896.<\/p>\n<p> [3] Hoje, Rua do Di&aacute;rio de Not&iacute;cias.<\/p>\n<p> [4] In A Correspond&ecirc;ncia de Fradique Mendes..<\/p>\n<p> [5] Veja-se a &laquo;Carta a Carlos Mayer&raquo;..<\/p>\n<p> [6] &laquo;Na Europa o Sul representa&#8230; a maneira de ser exterior, como<br \/>\n    o Norte representa o vago sentimento &iacute;ntimo&#8230;&raquo; E&ccedil;a de<br \/>\n    Queir&oacute;s. &laquo;Da Pintura em Portugal&raquo;, Gazeta de Portugal,<br \/>\n    10 de Novembro de 1867.<\/p>\n<p> [7] &laquo;&#8230;N&oacute;s&#8230; os que estamos neste canto da velha terra portuguesa,<br \/>\n    com a alma serena, sob o c&eacute;u claro&#8230;&raquo; E&ccedil;a de Queir&oacute;s,<br \/>\n    &laquo;Sinfonia de Abertura&raquo;, Gazeta de Portugal, 7 de Outubro, 1866.<\/p>\n<p> [8] &laquo;Du Heine de deuxi&egrave;me qualit&eacute;&raquo;, Antero de<br \/>\n    Quental, &laquo;Carta a Wilhelm Storck&raquo;, 14 de Maio, 1887.<\/p>\n<p> [9] H&aacute; como se sabe muitas poesias de Heine em verso solto: &laquo;Das<br \/>\n    Nordsee&raquo;; etc.<\/p>\n<p> [10] Col&eacute;gio do Roeder, na Rua do Prior, Lisboa.<\/p>\n<p> [11] H. Heine, &laquo;Reisebilder&raquo;. &laquo;Les nuits florenthines&raquo;,<br \/>\n    II, pp. 316 e 330 (cito a tradu&ccedil;&atilde;o francesa que E&ccedil;a de<br \/>\n    Queir&oacute;s conheceu); H. Berlioz, &laquo;Les Soir&eacute;es de l&rsquo;Orchestre&raquo;<br \/>\n     16&ordf;, &laquo;Paganini&raquo;, pp. 218-219,2&ordf; ed., Paris,<br \/>\n    1854. Depois de contar o epis&oacute;dio que realmente nada tem de fant&aacute;stico,<br \/>\n    Berlioz escreve:&laquo;Supposez Th&eacute;odore Hoffmann &agrave; ma place:<br \/>\n    quelle touchante et fantastique &eacute;l&eacute;gie il e&ucirc;t ecrit sur<br \/>\n    ce bizarre incident.&raquo; (P. 219.) Foi o que fez E&ccedil;a de Queir&oacute;s..<\/p>\n<p> [12] Veja-se &laquo;Notas Marginais&raquo;.<\/p>\n<p> &laquo;Luzia um grande Sol, mas negro; o Sol da melancolia&#8230;) &laquo;Sinfonia<br \/>\n    de Abertura&raquo;, Gazeta de Portugal, 7 de Outubro de 1866.<\/p>\n<p> &laquo;Un affreux soleil noir d&rsquo;o&ugrave; rayonne la nuit!&raquo;<br \/>\n    A express&atilde;o &laquo;Sol negro&raquo; &eacute; hoje, em parte, cientificamente<br \/>\n    verdadeira: os raios ultraviol&aacute;ceos da luz solar, podem chamar-se negros,<br \/>\n    e n&atilde;o s&atilde;o nem luminosos, nem quentes.<\/p>\n<p> V&iacute;tor Hugo, &laquo;Les Contemplations, (ce qui dit tu bouche d&rsquo;ombre).<\/p>\n<p> [13] &laquo;La guitarre des monts d&#8217;Inspruck&#8230;&raquo; V. Hugo. &laquo;L&eacute;gende<br \/>\n    des Si&egrave;cles&raquo;, Eviradnus.<\/p>\n<p> [14] Veja-se &laquo;O Milhafre&raquo;, &laquo;Misticismo Humor&iacute;stico&raquo;,<br \/>\n    no presente volume, e A Correspond&ecirc;ncia de Fradique Mendes, &laquo;Introdu&ccedil;&atilde;o&raquo;,<br \/>\n    passim..<\/p>\n<p> [15] &laquo;&#8230;Baudelaire, Poeta Ret&oacute;rico&#8230;&raquo; A. Z. (E&ccedil;a<br \/>\n    de Queir&oacute;s), &laquo;Leituras Modernas&raquo;, Distrito de &Eacute;vora,<br \/>\n    6, Janeiro 1876, p. 2. A Correspond&ecirc;ncia de Fradique Mendes.<\/p>\n<p> [16] Veja-se as quadras em &laquo;O Senhor Diabo&raquo;, no presente volume.<br \/>\n    e Bernardim Ribeiro, Livro das Saudades, romance de Avalor: com as &laquo;Notas<br \/>\n    Marginais&raquo;, no presente volume.<\/p>\n<p> [17] Cujas poesias, muito conhecidas desde que foram compostas, s&oacute;<br \/>\n    em 1875 apareceram coligidas em volume.<\/p>\n<p> [18] &laquo;O Monge&raquo;, destru&iacute;da pelo autor e nunca publicada.<\/p>\n<p> &#8230;aux vo&ucirc;tes gothiques Des portiques.<\/p>\n<p> Les vieux de pierre athl&eacute;tiques Priant tout bas pour les vivants!<br \/>\n    A. de Musset, &laquo;Pr&eacute;mi&egrave;res Po&eacute;sies&raquo;, Stances,<br \/>\n    1828..<\/p>\n<p> [19] Gazeta de Portugal, 7 de Outubro de 1866.<\/p>\n<p> [20] &laquo;Constela&ccedil;&otilde;es, gotas de sombra&raquo;, in &laquo;O<br \/>\n    Milhafre&raquo;..<\/p>\n<p> [21] Veja-se V&iacute;tor Hugo, &laquo;William Shakespeare&raquo;: principalmente,<br \/>\n    livre II, &laquo;Les G&eacute;nies.&raquo;, II.<\/p>\n<p> Veja-se tamb&eacute;m &laquo;Macbeth&raquo; no presente volume.<\/p>\n<p> [22] Veja-se uma outra profunda defini&ccedil;&atilde;o de M&uacute;sica<br \/>\n    em &laquo;Macbeth&raquo;, no presente vo1ume.<\/p>\n<p> &laquo;A M&uacute;sica deve ser a voz de tudo aquilo que ali est&aacute;<br \/>\n    silencioso. sem ter a faculdade de se exprimir e n&oacute;s termos a possibilidade<br \/>\n    de o compreender.&raquo; &Eacute; de notar que &laquo;Macbeth&raquo; reproduzido<br \/>\n    nas Prosas B&aacute;rbaras foi escrito em 1866. Entre os compositores de &oacute;pera<br \/>\n    mencionados nesse escrito de E&ccedil;a de Queir&oacute;s, n&atilde;o se acha<br \/>\n    citado o Ricardo Wagner, cujas &oacute;peras, &laquo;Tanhauser&raquo; (1845)<br \/>\n    e &laquo;Lohengrin&raquo; (1850), j&aacute; existiam. &Eacute; que essas obras<br \/>\n    n&atilde;o tinham ainda sido executadas em Lisboa..<\/p>\n<p> [23] &laquo;Oh, ego&iacute;smo humano, os que v&atilde;o morrer sa&uacute;dam-te!&raquo;<br \/>\n    E&ccedil;a de Queir&oacute;s, &laquo;O Milhafre&raquo;, &laquo;Introdu&ccedil;&atilde;o&raquo;,<br \/>\n    Gazeta de Portugal, 6 de Outubro de 1867.<\/p>\n<p> [24] &laquo;De l&rsquo;Allemagne&raquo;. &laquo;Les Dieux en Exil&raquo;,<br \/>\n    IX partie, pp. 181-242. &laquo;La mer du Nord&raquo;, &laquo;Les Dieux de<br \/>\n    la Gr&egrave;ce&raquo; (cito as tradu&ccedil;&otilde;es francesas que E&ccedil;a<br \/>\n    de Queir&oacute;s conheceu).<\/p>\n<p> [25] &laquo;La Sorci&egrave;re&raquo;.<\/p>\n<p> [26] Veja-se XIII de &laquo;Notas Marginais&raquo;.<\/p>\n<p> [27]As vis&otilde;es &laquo;s&atilde;o as atitudes fant&aacute;sticas e<br \/>\n    desmanchadas que a sombra d&aacute; &agrave;s verdades&raquo;: &laquo;Misticismo<br \/>\n    Humor&iacute;stico&raquo;, no presente volume.<\/p>\n<p> &laquo;&#8230;&agrave; ceux qui ont mis leur foi dons les r&ecirc;ves comme<br \/>\n    dans les seulets r&eacute;alit&eacute;s.&raquo; Edgar Allan P&ouml;e, Eureka,<br \/>\n    trad. de Ch. Baudelaire que E&ccedil;a de Queir&oacute;s conheceu: &laquo;&#8230;to<br \/>\n    those who feel rather than to those think  to the dreamers and those<br \/>\n    who put faith in the dreams as in the only realities&#8230;&raquo; Edgar Allan<br \/>\n    P&ouml;e, idem, II, p. 117. 1876, New York.<\/p>\n<p> [28] Quando se deu, em Paris, o Hamlet com m&uacute;sica de Ambroise Thomas,<br \/>\n    Augusto Machado leu-nos ao piano a partitura.<\/p>\n<p> H&aacute; nela uma cantiga fant&aacute;stica popular norueguesa que eu ouvi<br \/>\n    mais tarde a Cristina Neilson, que era escandinava, e impressionou francamente<br \/>\n    E&ccedil;a de Queir&oacute;s.<\/p>\n<p> A poesia dessa can&ccedil;&atilde;o &eacute; uma balada sobre assunto fant&aacute;stico<br \/>\n    do Norte que ent&atilde;o preocupava o esp&iacute;rito de E&ccedil;a de Queir&oacute;s.<\/p>\n<p> Desde ent&atilde;o ouvia-se cantarolar, a meia voz dolorosa e melodram&aacute;tica,<br \/>\n    como seguindo as suas vis&otilde;es: &laquo;Calme et blonde, dort dans l&lsquo;eau<br \/>\n    profonde la Willis, au regard du feu&#8230;&raquo;.<\/p>\n<p> [29] &laquo;Onf&aacute;lia Benoiton&raquo;, Gazeta de Portugal, 15 de Dezembro<br \/>\n    de 1867.<\/p>\n<p> [30] Os versos citados na Revista Moderna (20, Novembro 1897, p. 324) n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o de E&ccedil;a de Queir&oacute;s.<\/p>\n<p> Nunca ele publicou na Revolu&ccedil;&atilde;o de Setembro, em folhetins<br \/>\n     como tamb&eacute;m na Revista Moderna se afirma  os primeiros<br \/>\n    cantos de um poema, &laquo;A Tenta&ccedil;&atilde;o de S. Jer&oacute;nimo&raquo;.<br \/>\n    Existe, com efeito, de E&ccedil;a de Queir&oacute;s, mas in&eacute;dito, um<br \/>\n    poemeto intitulado &laquo;A Morte de S. Jer&oacute;nimo&raquo;..<\/p>\n<p> [31] Revolu&ccedil;&atilde;o de Setembro, 29 de Agosto de 1869..<\/p>\n<p> [32] Depois conde de Resende.<\/p>\n<p> [33] Oficial da marinha portuguesa, e desde 1881 c&ocirc;nsul-geral de Portugal<br \/>\n    nas ilhas Sandwich.<\/p>\n<p> [34] Veja-se o tom em que E&ccedil;a de Queir&oacute;s fala dos seus escritos<br \/>\n    no Gazeta de Portugal, ao tempo da viagem ao Egipto, in A Correspondencia<br \/>\n    de Fradique Mendes..<\/p>\n<p> [35] Uma revista francesa (Artiste) havia, em 1856, publicada alguns fragmentos<br \/>\n    desta obra cuja vers&atilde;o definitiva s&oacute; apareceu em 1875.<\/p>\n<p> [36] 36 Nem o humorismo, nem a ironia, existem no esp&iacute;rito e na literatura<br \/>\n    portuguesa.<\/p>\n<p> Camilo tem a gra&ccedil;a, a chala&ccedil;a, o sarcasmo. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    ir&oacute;nico, nem humorista.<\/p>\n<p> Queir&oacute;s, sim: por isso &eacute; t&atilde;o pouco portugu&ecirc;s<br \/>\n    no estilo e nas formas do seu esp&iacute;rito, se bem que o seja nos assuntos<br \/>\n    dos seus romances de pois das Prosas B&aacute;rbaras.<\/p>\n<p> A ironia, t&atilde;o essencial e t&iacute;pica parte da sua personalidade,<br \/>\n    da sua est&eacute;tica, do seu estilo  de seu mestre, Reine<br \/>\n    n&atilde;o aparece ainda ent&atilde;o (no tempo das Prosas B&aacute;rbaras).<\/p>\n<p> [37] Veja-se no presente volume.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Na primeira fase da vida liter\u00e1ria de E\u00e7a de Queir\u00f3s Serenata de Sat\u00e3 \u00e0s Estrelas E\u00e7a de Queiroz Na primeira fase da vida liter&aacute;ria de E&ccedil;a de Queir&oacute;s Notas marginais Sinfonia de abertura O Macbeth Poetas do mal A ladainha da dor 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