{"id":95552,"date":"2017-01-19T11:09:26","date_gmt":"2017-01-19T13:09:26","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95552"},"modified":"2017-01-19T11:09:26","modified_gmt":"2017-01-19T13:09:26","slug":"o-primo-basilio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-primo-basilio","title":{"rendered":"O Primo Bas\u00edlio"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"750\" cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td height=\"1\" colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique<br \/>\n          nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"158\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#1\">Cap&iacute;tulo I <\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#2\">Cap&iacute;tulo II <\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#3\">Cap&iacute;tulo III <\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"96\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\">\n        <\/td>\n<td width=\"152\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#4\">Cap&iacute;tulo IV <\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#5\">Cap&iacute;tulo V<\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#6\">Cap&iacute;tulo VI <\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"94\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\">\n        <\/td>\n<td width=\"178\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#7\">Cap&iacute;tulo VII<\/a><\/strong><\/font><strong><font size=\"2\"><br \/>\n              <\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2><a name=\"1\">CAP&Iacute;TULO 1<\/a><\/h2>\n<p>Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de<br \/>\n    Lu&iacute;s Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire<br \/>\n    de marroquim escuro, espregui&ccedil;ou-se, bocejou e disse:<br \/>\n    &#8212; Tu n&atilde;o te vais vestir, Lu&iacute;sa? <br \/>\n    &#8212; Logo.<br \/>\n    Ficara sentada &agrave; mesa a ler o Di&aacute;rio de Noticias, no seu roup&atilde;o<br \/>\n    de manh&atilde; de fazenda preta, bordado a soutachet com largos bot&otilde;es<br \/>\n    de madrep&eacute;rola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco<br \/>\n    do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabe&ccedil;a pequenina,<br \/>\n    de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e l&aacute;ctea das louras;<br \/>\n    com o cotovelo encostado &agrave; mesa acariciava a orelha, e, no movimento<br \/>\n    lento e suave dos seus dedos, dois an&eacute;is de rubis miudinhos davam cintila&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    escarlates.<br \/>\n    Tinham acabado de almo&ccedil;ar.<br \/>\n    A sala esteirada, alegrava, com o seu teto de madeira pintado a branco, o<br \/>\n    seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um domingo; fazia um grande<br \/>\n    calor; as duas janelas estavam cerradas, mas sentia-se fora o sol faiscar<br \/>\n    nas vidra&ccedil;as, escaldar a pedra da varanda; havia o sil&ecirc;ncio recolhido<br \/>\n    e sonolento de manh&atilde; de missa; uma vaga quebreira amolentava, trazia<br \/>\n    desejos de sesta, ou de sombras fofas debaixo de arvoredos, no campo, ao p&eacute;<br \/>\n    d&#8217;&aacute;gua; nas duas gaiolas, entre as bambinelas de cretone azulado,<br \/>\n    os can&aacute;rios dormiam; um zumbido mon&oacute;tono de moscas arrastava-se<br \/>\n    por cima da mesa, pousava no fundo das ch&aacute;venas sobre o a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    mal derretido, enchia toda a sala dum rumor dormente.<br \/>\n    Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa de<br \/>\n    chita, sem colete, o jaquet&atilde;o de flanela azul aberto, os olhos no teto,<br \/>\n    p&ocirc;s-se a pensar na sua jornada ao Alentejo. Era engenheiro de minas,<br \/>\n    no dia seguinte devia partir para Beja, para &Eacute;vora, mais para o sul<br \/>\n    at&eacute; S&atilde;o Domingos; e aquela jornada, em julho, contrariava-o<br \/>\n    como uma interrup&ccedil;&atilde;o, afligia-o como uma injusti&ccedil;a. Que<br \/>\n    ma&ccedil;ada por um ver&atilde;o daqueles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto<br \/>\n    dum cavalo de aluguer, por esses descampados do Alentejo que n&atilde;o acabam<br \/>\n    nunca, cobertos dum rastolho escuro, abafados num sol ba&ccedil;o, onde os<br \/>\n    moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo cozido,<br \/>\n    ouvindo em redor, na escurid&atilde;o da noite t&oacute;rrida, grunhir as<br \/>\n    varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janelas, passar no<br \/>\n    ar o bafo quente das queimadas! E s&oacute;!<br \/>\n    Tinha estado at&eacute; ent&atilde;o no minist&eacute;rio, em comiss&atilde;o.<br \/>\n    Era a primeira vez que se separava de Lu&iacute;sa; e perdia-se j&aacute;<br \/>\n    em saudades daquela salinha, que ele mesmo ajudara a forrar de papel novo<br \/>\n    nas v&eacute;speras do seu casamento, e onde, depois das felicidades da noite,<br \/>\n    os seus almo&ccedil;os se prolongavam em t&atilde;o suaves pregui&ccedil;as!<br \/>\n    E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se demorando,<br \/>\n    com uma ternura, naqueles m&oacute;veis &iacute;ntimos, que eram do tempo<br \/>\n    da manh&atilde;; o velho guarda-lou&ccedil;a envidra&ccedil;ado, com as pratas<br \/>\n    muito tratadas a gesso-cr&eacute;, resplandecendo decorativamente; o velho<br \/>\n    painel a &oacute;leo, t&atilde;o querido, que vira desde pequeno, onde apenas<br \/>\n    se percebiam, num fundo lascado, os tons avermelhados de cobre dum bojo de<br \/>\n    ca&ccedil;arola e os rosados desbotados dum molho de rabanetes! Defronte,<br \/>\n    na outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido &agrave; moda de<br \/>\n    1830, tinha a fisionomia redonda, o olho luzidio, o bei&ccedil;o sensual;<br \/>\n    e sobre a sua casaca abotoada reluzia a comenda de Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Fora um antigo empregado do Minist&eacute;rio da Fazenda, muito divertido,<br \/>\n    grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mam&atilde; afirmava-lhe<br \/>\n    &#8220;que o retrato s&oacute; lhe faltava falar&#8221;. Vivera sempre naquela<br \/>\n    casa com sua m&atilde;e. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz<br \/>\n    afilado, muito apreensiva; bebia ao jantar &aacute;gua quente; e ao voltar<br \/>\n    um dia do lausperene da Gra&ccedil;a morrera de repente, sem um ai!<br \/>\n    Fisicamente, Jorge nunca se parecem com ela. Fora sempre robusto, de h&aacute;bitos<br \/>\n    viris. Tinha os dentes admir&aacute;veis de seu pai, os seus ombros fortes.<br \/>\n    De sua m&atilde;e herdara a placidez, o g&ecirc;nio manso. Quando era estudante<br \/>\n    na Polit&eacute;cnica, &agrave;s oito horas recolhia-se, acendia o seu candeeiro<br \/>\n    de lat&atilde;o, abria os seus comp&ecirc;ndios. N&atilde;o freq&uuml;entava<br \/>\n    botequins nem fazia noitadas. S&oacute; duas vezes por semana, regularmente,<br \/>\n    ia ver uma rapariguita costureira, a Eufr&aacute;sia, que vivia ao Borratem,<br \/>\n    e nos dias em que o Brasileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia<br \/>\n    Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era enjeitada te no<br \/>\n    seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado duma pontinha de<br \/>\n    febre. Jorge achava-a romanesca, e censurava-lho. Ele nunca fora sentimental:<br \/>\n    os seus condiscipulos, que liam Alfred de Musset suspirando e desejavam ter<br \/>\n    amado Margarida Gautier, chamavam-lhe proseir&atilde;o, burgu&ecirc;s: Jorge<br \/>\n    ria; n&atilde;o lhe faltava um bot&atilde;o nas camisas, era muito escarolado,<br \/>\n    admirava Luis Figuier, Bastiat e Castilho, tinha horror a d&iacute;vidas,<br \/>\n    e sentia-se feliz.<br \/>\n    Quando sua m&atilde;e morreu, por&eacute;m, come&ccedil;ou a achar-se s&oacute;:<br \/>\n    era no inverno, e o seu quarto nas traseiras da casa, ao sul, um pouco desamparado,<br \/>\n    recebia as rajadas de vento na sua prolonga&ccedil;&atilde;o uivada e triste;<br \/>\n    sobretudo &agrave; noite, quando estava debru&ccedil;ado sobre o comp&ecirc;ndio,<br \/>\n    os p&eacute;s no capacho, vinham-lhe melancolias l&acirc;nguidas: estirava<br \/>\n    os bra&ccedil;os com o peito cheio dum desejo; quereria enla&ccedil;ar uma<br \/>\n    cinta fina e doce, ouvir na casa o frou-frou dum vestido! Decidiu casar. Conheceu<br \/>\n    Lu&iacute;sa, no ver&atilde;o, &agrave; noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos<br \/>\n    seus cabelos louros, pela sua maneira de andar, pelos seus belos olhos castanhos<br \/>\n    muito grandes. No inverno seguinte, foi despachado, e casou. Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    o seu &iacute;ntimo amigo, o bom Sebasti&atilde;o, o Sebastiarr&atilde;o,<br \/>\n    tinha dito, com uma oscila&ccedil;&atilde;o grave da cabe&ccedil;a, esfregando<br \/>\n    vagarosamente as m&atilde;os:<br \/>\n    &#8212; Casou no ar! casou um bocado no ar!<br \/>\n    Mas Lu&iacute;sa, a Luisinha, saiu muito boa dona de casa; tinha cuidados<br \/>\n    muito simp&aacute;ticos nos seus arranjos; era asseada, alegre como um passarinho,<br \/>\n    como um passarinho amiga do ninho e das cadeias do macho: e aquele serzinho<br \/>\n    louro e meigo veio dar &agrave; sua casa um encanto seno.<br \/>\n    &Eacute; um anjinho cheio de dignidade! &#8212; dizia ent&atilde;o Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    o bom Sebasti&atilde;o, com a sua voz profunda de basso.<br \/>\n    &#8211; Estavam casados havia tr&ecirc;s anos. Que bom que tinha sido! Ele<br \/>\n    pr&oacute;prio melhorara; achava-se mais inteligente, mais alegre&#8230; E recordando<br \/>\n    aquela exist&ecirc;ncia f&aacute;cil e doce, soprava o fumo do charuto, a<br \/>\n    perna tra&ccedil;ada, a alma dilatada, sentindo-se t&atilde;o bem na vida<br \/>\n    como no seu jaquet&atilde;o de flanela!<br \/>\n    &#8211; Ah! &#8212; fez Lu&iacute;sa de repente, toda admirada para o jornal,<br \/>\n    sorrindo.<br \/>\n    &#8211; Que &eacute;?<br \/>\n    &#8212; &Eacute; o primo Bas&iacute;lio que chega!<br \/>\n    E leu alto, logo:<\/p>\n<p>&#8220;Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bord&eacute;us, o Sr.<br \/>\n    Bas&iacute;lio de Brito, bem conhecido na nossa sociedade. S. Exa que, como<br \/>\n    &eacute; sabido, tinha partido para o Brasil, onde se diz reconstitu&iacute;ra<br \/>\n    a sua fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o come&ccedil;o<br \/>\n    do ano passado. A sua volta &agrave; capital &eacute; um verdadeiro j&uacute;bilo<br \/>\n    para os amigos de S. Exa que s&atilde;o numerosos&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; E s&atilde;o! &#8212; disse Lu&iacute;sa, muito convencida.<br \/>\n    &#8212; Estimo, coitado! &#8212; fez Jorge, fumando, anediando a barba com<br \/>\n    a palma da m&atilde;o. &#8212; E vem com fortuna, hein?<br \/>\n    &#8211; Parece.<br \/>\n    Olhou os an&uacute;ncios, bebeu um gole de ch&aacute;, levantou-se, foi abrir<br \/>\n    uma das portadas da janela.<br \/>\n    &#8212; Oh Jorge, que calor que vai l&aacute; fora, santo Deus! -. Batia as<br \/>\n    p&aacute;lpebras sob a irradia&ccedil;&atilde;o da luz crua e branca.<br \/>\n    A sala, nas traseiras da casa, dava para um terreno vago cercado dum tabuado<br \/>\n    baixo, cheio de ervas altas e duma vegeta&ccedil;&atilde;o de acaso; aqui,<br \/>\n    ali, naquela verdura crestada do ver&atilde;o, largas pedras faiscavam, batidas<br \/>\n    do sol perpendicular; e uma velha figueira-brava, isolada no meio do terreno,<br \/>\n    estendia a sua grossa folhagem im&oacute;vel, que, na brancura da luz, tinha<br \/>\n    os tons escuros do bronze. Para al&eacute;m eram as traseiras de outras casas,<br \/>\n    com varandas, roupas secando em canas, muros brancos de quintais, &aacute;rvores<br \/>\n    esguias. Uma vaga poeira embaciava, tomava espesso o ar luminoso.<br \/>\n    &#8212; Caem os p&aacute;ssaros! &#8212; disse ela cerrando a janela. &#8212; Olha<br \/>\n    tu pelo Alentejo. agora!<br \/>\n    Veio encostar-se &agrave; voltaire de Jorge, passou-lhe lentamente a m&atilde;o<br \/>\n    sobre o cabelo preto e anelado. Jorge olhou-a, triste j&aacute; da separa&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    os dois primeiros bot&otilde;es do seu roup&atilde;o estavam desapertados;<br \/>\n    via-se o come&ccedil;o do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da<br \/>\n    camisa: muito castamente Jorge abotoou-lhos.<br \/>\n    &#8212; E os meus coletes brancos? &#8212; disse.<br \/>\n    &#8212; Devem estar prontos.<br \/>\n    Para se certificar chamou Juliana.<br \/>\n    Houve um ru&iacute;do domingueiro de saias engomadas. Juliana entrou, arranjando<br \/>\n    nervosamente o colar e o broche. Devia ter quarenta anos e era muit&iacute;ssimo<br \/>\n    magra. As fei&ccedil;&otilde;es, mi&uacute;das, espremidas, tinham a amarelid&atilde;o<br \/>\n    de tons ba&ccedil;os das doen&ccedil;as de cora&ccedil;&atilde;o. Os olhos<br \/>\n    grandes, encovados, rolavam numa inquieta&ccedil;&atilde;o, numa curiosidade,<br \/>\n    raiados de sangue, entre p&aacute;lpebras sempre debruadas de vermelho. Usava<br \/>\n    uma cuia de retr&oacute;s imitando tran&ccedil;as, que lhe fazia a cabe&ccedil;a<br \/>\n    enorme. Tinha um tic nas asas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto<br \/>\n    da roda, rufado pela goma das salas &#8212; mostrava um p&eacute; pequeno,<br \/>\n    bonito, muito apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz.<br \/>\n    Os coletes n&atilde;o estavam prontos, disse com uma voz muito lisboeta, n&atilde;o<br \/>\n    tivera tempo de os meterem goma.<br \/>\n    &#8212; Tanto lhe recomendei, Juliana! &#8212; disse Lu&iacute;sa. &#8212;<br \/>\n    Bem, v&aacute;. Veja como se arranja! Os coletes h&atilde;o de ficar &agrave;<br \/>\n    noite na mala!<br \/>\n    E apenas ela saiu:<br \/>\n    &#8212; Estou a tomar &oacute;dio a esta criatura, Jorge!<br \/>\n    H&aacute; dois meses que a tinha em casa e n&atilde;o se pudera acostumar<br \/>\n    &agrave; sua fealdade, aos seus trejeitos, &agrave; maneira aflautada de dizer<br \/>\n    chapi&eacute;u, tisoiras, de arrastar um pouco os rr, ao ru&iacute;do dos<br \/>\n    seus tac&otilde;es que tinham laminazinhas de metal: ao domingo, a cuia, o<br \/>\n    pretensioso do p&eacute;, as luvas de pelica preta arrepiavam-lhe os nervos.<br \/>\n    &#8212; Que antip&aacute;tica!<br \/>\n    Jorge ria:<br \/>\n    &#8212; Coitada, &eacute; uma pobre de Cristo! &#8212; Depois, que engomadeira<br \/>\n    admir&aacute;vel! No minist&eacute;rio examinavam com espanto os seus peitilhos!<br \/>\n    &#8212; O Juli&atilde;o diz bem: eu n&atilde;o ando engomado, ando esmaltado!<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; simp&aacute;tica, n&atilde;o, mas &eacute; asseada, &eacute;<br \/>\n    apropositada&#8230;<br \/>\n    E levantando-se, com as m&atilde;os nos bolsos das suas largas cal&ccedil;as<br \/>\n    de flanela:<br \/>\n    &#8212; E, enfim, minha filha, a maneira como ela se portou na doen&ccedil;a<br \/>\n    da tia Virg&iacute;nia&#8230; Foi um anjo para ela! &#8212; Repetiu com solenidade:<br \/>\n    De dia, de noite, foi um anjo para ela! Estamos-lhe em d&iacute;vida, minha<br \/>\n    filha! &#8212; E come&ccedil;ou a enrolar um cigarro com a fisionomia muito<br \/>\n    s&eacute;ria.<br \/>\n    Lu&iacute;sa, calada, fazia saltar com a pontinha da chinela a orla do roup&atilde;o;<br \/>\n    e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, p&ocirc;s-se a<br \/>\n    dizer:<br \/>\n    &#8212; Mas enfim, se eu me embirro com ela, n&atilde;o me importa, posso bem mand&aacute;-la<br \/>\n    embora.<br \/>\n    Jorge parou, e raspando um f&oacute;sforo na sola do sapato:<br \/>\n    &#8212; Se eu consentir, minha rica&#8230; &Eacute; que &eacute; uma quest&atilde;o<br \/>\n    de gratid&atilde;o, para mim!<br \/>\n    Ficaram calados. O cuco cantou meio-dia.<br \/>\n    &#8212; Bem, vou &agrave; vida &#8212; disse Jorge. Chegou-se ao p&eacute; dela,<br \/>\n    tomou-lhe a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os.<br \/>\n    &#8212; Viborazinha! &#8212; murmurou, fitando-a muito meigamente.<br \/>\n    Ela riu. Ergueu para ele os seus magn&iacute;ficos olhos castanhos, luminosos<br \/>\n    e meigos. Jorge enterneceu-se, p&ocirc;s-lhe sobre as p&aacute;lpebras dois<br \/>\n    beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho com uma meiguice:<br \/>\n    &#8212; Queres alguma coisa de fora, amor? <br \/>\n    Que n&atilde;o viesse muito tarde.<br \/>\n    Ia deixar uns bilhetes, ia numa tip&oacute;ia, era um pulo&#8230; <br \/>\n    E saiu, feliz, cantando com a sua boa voz de bar&iacute;tono:<\/p>\n<p>Dio dell&#8216;oro, <br \/>\n    Del mondo, Signor <br \/>\n    La la ra, la ra.<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa espregui&ccedil;ou-se. Que seca ter de se ir vestir! Desejaria<br \/>\n    estar numa banheira de m&aacute;rmore cor-de-rosa, em &aacute;gua t&eacute;pida,<br \/>\n    perfumada, e adormecer! Ou numa rede de seda, com as janelas cerradas, embalar-se,<br \/>\n    ouvindo m&uacute;sica! Sacudiu a chinelinha: esteve a olhar muito amorosamente<br \/>\n    o seu p&eacute; pequeno, branco como leite, com veias azuis, pensando numa<br \/>\n    infinidade de coisinhas: &#8212; em meias de seda que queria comprar, no farnel<br \/>\n    que faria a Jorge para a jornada, em tr&ecirc;s guardanapos que a lavadeira<br \/>\n    perdera&#8230;<br \/>\n    Tornou a espregui&ccedil;ar-se. E saltando na ponta do p&eacute; descal&ccedil;o,<br \/>\n    foi buscar ao aparador, por detr&aacute;s duma compota, um livro um pouco<br \/>\n    enxovalhado, veio estender-se na voltaire, quase deitada e, com o gesto acariciador<br \/>\n    e amoroso dos dedos sobre a orelha, come&ccedil;ou a ler, toda interessada.<br \/>\n    Era a Dama das Cam&eacute;lias. Lia muitos romances; tinha uma assinatura,<br \/>\n    na Baixa, ao m&ecirc;s. Em solteira, aos dezoito anos, entusiasmara-se por<br \/>\n    Walter Scott e pela Esc&oacute;cia; desejara ent&atilde;o viver num daqueles<br \/>\n    castelos escoceses, que t&ecirc;m sobre as ogivas os bras&otilde;es do clian,<br \/>\n    mobilados com arcas g&oacute;ticas e trof&eacute;us de armas, forrados de<br \/>\n    largas tape&ccedil;arias, onde est&atilde;o bordadas legendas her&oacute;icas,<br \/>\n    que o vento do lago agita e faz viver: e amara Ervandalo, Morton e lvanho&eacute;,<br \/>\n    temos e graves, tendo sobre o gorro a pena de &aacute;guia presa ao lado pelo<br \/>\n    cardo da Esc&oacute;cia de esmeraldas e diamantes. Mas agora era o moderno<br \/>\n    que a cativava, Paris, as suas mob&iacute;lias, as suas sentimentalidades.<br \/>\n    Ria-se dos trovadores, exaltara-se por Mr. de Camors e os homens ideais apareciam-lhe<br \/>\n    de gravata branca, nas ombreiras das salas de baile, com um magnetismo no<br \/>\n    olhar, devorados de paix&atilde;o, tendo palavras sublimes. Havia uma semana<br \/>\n    que se interessava por Margarida Gautier; o seu amor infeliz dava-lhe uma<br \/>\n    melancolia enevoada; via-a alta e magra, com o seu longo xale de caxemira,<br \/>\n    e os olhos negros cheios de avidez da paix&atilde;o e dos ardores da t&iacute;sica;<br \/>\n    nos nomes mesmo do livro &#8212; J&uacute;lia Duprat, Armando, Prud&ecirc;ncia,<br \/>\n    achava o sabor po&eacute;tico duma vida intensamente amorosa; e todo aquele<br \/>\n    destino se agitava, como numa m&uacute;sica triste, com ceias, noites delirantes,<br \/>\n    afli&ccedil;&otilde;es de dinheiro, e dias de melancolia no findo dum coup&eacute;<br \/>\n    quando nas avenidas do Bois, sob um c&eacute;u pardo e elegante, silenciosamente<br \/>\n    caem as primeiras neves.<br \/>\n    &#8212; At&eacute; logo, Zizi &#8212; gritou Jorge do corredor, ao sair.<br \/>\n    &#8212; Olha!<br \/>\n    Ele veio com a bengala debaixo do bra&ccedil;o, apertando as luvas.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o apare&ccedil;as muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns<br \/>\n    bolos do Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. V&ecirc; se passas pela Madame<br \/>\n    Fran&ccedil;ois que me mande o chap&eacute;u. Escuta.<br \/>\n    &#8212; Que mais, bom Deus?<br \/>\n    &#8212; Ah! n&atilde;o! Era para ires ao livreiro que me mande mais romances&#8230;<br \/>\n    Mas est&aacute; fechado!<br \/>\n    Foi com duas l&aacute;grimas a tremer-lhe nas p&aacute;lpebras que acabou<br \/>\n    as p&aacute;ginas da Dama das Cam&eacute;lias. E estendida na voltaire, com<br \/>\n    o livro ca&iacute;do no rega&ccedil;o fazendo recuar a pel&iacute;cula das<br \/>\n    unhas, p&ocirc;s-se a cantar baixinho, com ternura, a &aacute;ria final da<br \/>\n    Traviata:<\/p>\n<p>Addio, del Passato&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Lembrou-lhe de repente a not&iacute;cia do jornal, a chegada do primo Bas&iacute;lio&#8230;<br \/>\n    Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios. &#8212; Fora<br \/>\n    o seu primeiro namoro, o primo Bas&iacute;lio! Tinha ela ent&atilde;o dezoito<br \/>\n    anos! Ningu&eacute;m o sabia, nem Jorge, nem Sebasti&atilde;o&#8230;<br \/>\n    De resto fora uma criancice: ela mesmo, &agrave;s vezes, ria, recordando as<br \/>\n    pieguices ternas de ent&atilde;o, certas l&aacute;grimas exageradas! Devia<br \/>\n    estar mudado, o primo Bas&iacute;lio. Lembrava-se bem dele &#8212; alto, delgado,<br \/>\n    um ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e um<br \/>\n    jeito de meter as m&atilde;os nos bolsos das cal&ccedil;as fazendo tilintar<br \/>\n    o dinheiro e as chaves! Aquilo come&ccedil;am em Sintra, por grandes partidas<br \/>\n    de bilhar muito alegres, na quinta do tio Jo&atilde;o de Brito, em Colares.<br \/>\n    Bas&iacute;lio tinha chegado ent&atilde;o da Inglaterra: vinha muito bife,<br \/>\n    usava gravatas escarlates passadas num anel de ouro, fatos de flanela branca,<br \/>\n    espantava Sintra! Era na sala debaixo pintada a oca, que tinha um ar antigo<br \/>\n    e morgado; uma grande porta envidra&ccedil;ada abria para o jardim, sobre<br \/>\n    tr&ecirc;s degraus de pedra. Em roda do repuxo havia rom&atilde;zeiras, onde<br \/>\n    ele apanhava flores escarlates. A folhagem verde-escura e polida dos arbustos<br \/>\n    de cam&eacute;lias fazia ruazinhas sombrias; peda&ccedil;os de sol faiscavam,<br \/>\n    tremiam na &aacute;gua do tanque; duas rolas, numa gaiola de vime, arrulhavam<br \/>\n    docemente; &#8212; e no sil&ecirc;ncio alde&atilde;o da quinta, o ru&iacute;do<br \/>\n    seco das bolas de bilhar tinha um tom aristocr&aacute;tico.<br \/>\n    Depois, vieram todos os epis&oacute;dios cl&aacute;ssicos dos amores lisboetas<br \/>\n    passados em Sintra: os passeios em Sitiais ao luar, devagar, sobre a relva<br \/>\n    p&aacute;lida, com grandes descansos calados no Penedo da Saudade, vendo o<br \/>\n    vale, as areias ao longe, cheias duma luz saudosa, idealizadora e branca;<br \/>\n    as sestas quentes, nas sombras da Penha Verde, ouvindo o rumor fresco e gotejante<br \/>\n    das &aacute;guas que v&atilde;o de pedra em pedra; as tardes na v&aacute;rzea<br \/>\n    de Colares, remando num velho bote, sobre a &aacute;gua escura da sombra dos<br \/>\n    freixos, &#8212; e que risadas quando iam encalhar nas ervagens altas, e o<br \/>\n    seu chap&eacute;u de palha se prendia aos ramos baixos dos choupos!<br \/>\n    Sempre gostam muito de Sinta! Logo ao entrar os arvoredos escuros e murmurosos<br \/>\n    do Ramalh&atilde;o lhe davam uma melancolia feliz!<br \/>\n    Tinham muita liberdade, ela e o primo Bas&iacute;lio. A mam&atilde;, coitadinha,<br \/>\n    toda cism&aacute;tica, com reumatismo, ego&iacute;sta, deixava-os, sorria,<br \/>\n    dormitava: Bas&iacute;lio era rico ent&atilde;o, chamava-lhe tia Joj&oacute;,<br \/>\n    trazia-lhe cartuchos de doce&#8230; <br \/>\n    Veio o inverno e aquele amor foi-se abrigar ria velha sala forrada de papel<br \/>\n    sangue-de-boi da Rua da Madalena. Que bons ser&otilde;es ali! A mam&atilde;<br \/>\n    ressonava baixo, com os p&eacute;s embrulhados numa manta, o volume da Biblioteca<br \/>\n    das Damas ca&iacute;do sobre o rega&ccedil;o. E eles, muito chegados, muito<br \/>\n    felizes no sof&aacute;! O sof&aacute;! Quantas recorda&ccedil;&otilde;es!<br \/>\n    era estreito e baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro,<br \/>\n    bordada por ela, amores-perfeitos amarelos e roxos sobre um fundo negro. Um<br \/>\n    dia veio o final. Jo&atilde;o de Brito, que fazia parte da firma Bastos &amp;<br \/>\n    Brito, faliu. A casa de Almada, a quinta de Colares foram vendidas.<br \/>\n    Bas&iacute;lio estava pobre, partiu para o Brasil. Que saudades! Passou os<br \/>\n    primeiros dias sentada no sof&aacute; querido, solu&ccedil;ando baixo, com<br \/>\n    a fotografia dele entre as m&atilde;os. Vieram ent&atilde;o os sobressaltos<br \/>\n    das cartas esperadas, os recados impacientes ao escrit&oacute;rio da Companhia<br \/>\n    quando os paquetes tardavam&#8230;<br \/>\n    Passou um ano. Uma manh&atilde;, depois dum grande sil&ecirc;ncio de Bas&iacute;lio,<br \/>\n    recebeu da Bahia uma longa carta que come&ccedil;ava: &#8220;Tenho pensado<br \/>\n    muito e entendo que devemos considerar a nossa inclina&ccedil;&atilde;o como<br \/>\n    uma criancice&#8230;&#8221;<br \/>\n    Desmaiou logo. Bas&iacute;lio afetava muita dor em duas laudas cheias de explica&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    que estava ainda pobre; que teria que lutar muito antes de ter para dois;<br \/>\n    o clima era horr&iacute;vel; n&atilde;o a queria sacrificar, pobre anjo; chamava-lhe<br \/>\n    minha &#8220;pomba&#8221; e assinava o seu nome todo, com uma firma complicada.<br \/>\n    Viveu triste durante meses. Era no inverno; e sentada &agrave; janela, por<br \/>\n    dentro dos vidros, com o seu bordado de l&atilde;, julgava-se desiludida,<br \/>\n    pensava no convento, seguindo com um olhar melanc&oacute;lico os guarda-chuvas<br \/>\n    gotejantes que passavam sob as cordas de &aacute;gua; ou sentando-se ao plano,<br \/>\n    ao anoitecer, cantava Soares de Passos:<\/p>\n<p>Ai! adeus, acabaram-se os dias<br \/>\n    Que ditoso vivi a teu lado,..<\/p>\n<p>\n    ou o final da Traviata, ou o fado do Vimioso, muito triste, que ele lhe ensinara.<br \/>\n    Mas ent&atilde;o o catarro da mam&atilde; agravou-se; vieram os sustos, as<br \/>\n    noites veladas. Na convalescen&ccedil;a foram para Belas: ligou-se ali muito<br \/>\n    com as Cardosos, duas irm&atilde;s magras, estouvadas e esguias, sempre coladas<br \/>\n    uma &aacute; outra, com um passinho trotado e seco, como um casal de galgos.<br \/>\n    O que riam, Jesus! O que falavam dos homens! Um tenente de artilharia tinha-se<br \/>\n    apaixonado por ela. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, Ao L&iacute;rio de Belas:<\/p>\n<p>Sobre a encosta da colina<br \/>\n    Cresce o l&iacute;rio virginal..<\/p>\n<p>Foi um tempo muito alegre, cheio de consola&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas cores. E um dia, tendo<br \/>\n    achado numa gaveta uma fotografia que logo ao principio Bas&iacute;lio lhe<br \/>\n    mandara da Bahia, de cal&ccedil;a branca e chap&eacute;u panam&aacute;, fitou-a,<br \/>\n    encolhendo os ombros:<br \/>\n    &#8212; E o que eu me ralei por esta figura! Que tola!<br \/>\n    Tinham passado tr&ecirc;s anos quando conheceu Jorge. Ao princ&iacute;pio<br \/>\n    n&atilde;o lhe agradou. N&atilde;o gostava dos homens barbados: depois percebeu<br \/>\n    que era a primeira barba, fina, rente, muito macia decerto; come&ccedil;ou<br \/>\n    a admirar os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao p&eacute;<br \/>\n    dele como uma fraqueza, uma depend&ecirc;ncia e uma quebreira, uma vontade<br \/>\n    de adormecer encostada ao seu ombro, e de ficar assim muitos anos, confort&aacute;vel,<br \/>\n    sem receio de nada. Que sensa&ccedil;&atilde;o quando ele lhe disse: Vamos<br \/>\n    casar, hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios,<br \/>\n    sobre o mesmo travesseiro, ao p&eacute; do seu! Fez-se escarlate, Jorge tinha-lhe<br \/>\n    tomado a m&atilde;o: ela sentia o calor daquela palma larga penetr&aacute;-la,<br \/>\n    tomar posse dela: disse que sim, ficou como idiota e sentia debaixo do vestido<br \/>\n    de merino dilatarem-se docemente os seus seios. Estava noiva, enfim! Que alegria,<br \/>\n    que descanso para a mam&atilde;!<br \/>\n    Casaram &agrave;s oito horas, numa manh&atilde; de nevoeiro. Foi necess&aacute;rio<br \/>\n    acender luz para lhe p&ocirc;r a coroa e o v&eacute;u de tule. Todo aquele<br \/>\n    dia lhe aparecia como enevoado, sem contornos, &aacute; maneira dum sonho<br \/>\n    antigo &#8212;onde destacava a cara balofa e amarelada do padre e a figura<br \/>\n    medonha duma velha, que estendia a m&atilde;o adunca, com uma sofreguid&atilde;o<br \/>\n    col&eacute;rica, empurrando, rogando pragas, quando, &aacute; porta da Igreja,<br \/>\n    Jorge comovido distribu&iacute;a patacos. Os sapatos de cetim apertavam-na.<br \/>\n    Sentira-se enjoada da madrugada, fora necess&aacute;rio fazer-lhe ch&aacute;<br \/>\n    verde muito forte. E t&atilde;o cansada &agrave; noite naquela casa nova,<br \/>\n    depois de desfazer os seus ba&uacute;s! &#8212;Quando Jorge apagou a vela<br \/>\n    com um sopro tr&ecirc;mulo, os luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos<br \/>\n    olhos.<br \/>\n    Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre; p&ocirc;s-se a adora-lo.<br \/>\n    Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas coisas, mexia-lhe<br \/>\n    no cabelo, na roupa, nas pistolas, nos pap&eacute;is. Olhava muito para os<br \/>\n    maridos das outras, comparava, tinha orgulho nele. Jorge envolvia-a em delicadezas<br \/>\n    de amante, ajoelhava-se aos seus p&eacute;s, era muito dengueiro. E sempre<br \/>\n    de bom humor, com muita gra&ccedil;a: mas nas coisas da sua profiss&atilde;o<br \/>\n    ou do seu brio tinha severidades exageradas e punha ent&atilde;o nas palavras,<br \/>\n    nos modos uma solenidade carrancuda. Uma amiga dela, romanesca, que via em<br \/>\n    tudo dramas, tinha-lhe dito: &#8220;&Eacute; homem para te dar uma punhalada&#8221;.<br \/>\n    Ela, que n&atilde;o conhecia ainda o temperamento pl&aacute;cido de Jorge<br \/>\n    acreditou, e isso mesmo criou uma exalta&ccedil;&atilde;o no seu amor por<br \/>\n    ele. Era o seu tudo, &#8211; a sua for&ccedil;a, o seu fim, o seu destino,<br \/>\n    a sua religi&atilde;o, o seu homem! &#8212; P&ocirc;s-se a pensar o que teria<br \/>\n    sucedido se tivesse casado com o primo Bas&iacute;lio. Que desgra&ccedil;a,<br \/>\n    hein! Onde estaria? Perdia-se em suposi&ccedil;&otilde;es de outros destinos,<br \/>\n    que se desenrolavam como panos de teatros: via-se no Brasil, entre coqueiros,<br \/>\n    embalada numa rede, cercada de negrinhos, vendo voar papagaios!<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; ali a Sra D. Leopoldina &#8212; veio dizer Juliana.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ergueu-se surpreendida:<br \/>\n    &#8212; Hein? a Sra D. Leopoldina? para que mandou entrar?<br \/>\n    P&ocirc;s-se a abotoar &agrave; pressa o roup&atilde;o. Jesus! Olha se Jorge<br \/>\n    soubesse! Ele que lhe tinha dito tantas vezes que a n&atilde;o queria em casa!&#8221;<br \/>\n    Mas se j&aacute; estava na sala, agora, coitada!<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; bom, diga-lhe que j&aacute; vou.<br \/>\n    Era sua &iacute;ntima amiga. Tinham sido vizinhas, em solteiras, na Rua da<br \/>\n    Madalena, e estudado no mesmo col&eacute;gio, &agrave; Patriarcal, na Rira<br \/>\n    Pessoa, a coxa. Leopoldina era a filha &uacute;nica do Visconde de Quebrais,<br \/>\n    o devasso, o caqu&eacute;tico, que fora pajem de D. Miguel. Tinha feito um<br \/>\n    casamento infeliz com um Jo&atilde;o de Noronha, empregado da Alf&acirc;ndega.<br \/>\n    Chamavam-lhe a &#8220;Quebrais&#8221;; chamavam-lhe tamb&eacute;m a &#8220;P&atilde;o<br \/>\n    e Queijo&#8221;.<br \/>\n    Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha v&iacute;cios. Jorge odiava-a.<br \/>\n    E dissera muitas vezes a Lu&iacute;sa: tudo, menos a Leopoldina!<br \/>\n    Leopoldina tinha ent&atilde;o vinte e sete anos. N&atilde;o era alta, mas<br \/>\n    passava por ser a mulher mais bem-feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos<br \/>\n    muito colados, com uma justeza que acusava, modelava o corpo como uma pelica,<br \/>\n    sem largueza de roda, apanhados atr&aacute;s. Dizia-se dela com os olhos em<br \/>\n    alvo: &eacute; uma est&aacute;tua, &eacute; uma V&ecirc;nus! Tinha ombros<br \/>\n    de modelo, duma redondeza desca&iacute;da e cheia: sentia-se nos seus selos,<br \/>\n    mesmo atrav&eacute;s do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas belas<br \/>\n    metades de lim&atilde;o; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados<br \/>\n    vibrantes de cintura faziam voltar os olhares acesos dos homens. A cara era<br \/>\n    um pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilata&ccedil;&atilde;o carnuda;<br \/>\n    na pele, muito tina, dum trigueiro quente e corado, havia sinaizinhos desvanecidos<br \/>\n    de antigas bexigas. A sua beleza eram os olhos, duma negrura intensa, afogados<br \/>\n    num fluido, muito quebrados, com grandes pestanas.<br \/>\n    Lu&iacute;sa veio para ela com os bra&ccedil;os abertos, beijaram-se muito.<br \/>\n    E Leopoldina, sentada no sof&aacute;, enrolando devagarinho a seda clara do<br \/>\n    guarda-sol, come&ccedil;ou a queixar-se: tinha estado adoentada, muito secada,<br \/>\n    com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ela feito? Achava-a mais gorda.<br \/>\n    Como era um pouco curta de vista, para se afirmar piscava ligeiramente os<br \/>\n    olhos, descerrando os bei&ccedil;os gordinhos, dum vermelho c&aacute;lido.<br \/>\n    &#8212; A felicidade d&aacute; tudo, at&eacute; boas cores! &#8212; disse,<br \/>\n    sorrindo.<br \/>\n    O que a trazia era perguntar-lhe a morada da francesa que lhe fazia os chap&eacute;us.<br \/>\n    E h&aacute; tanto tempo que a n&atilde;o via, j&aacute; tinha saudades, tamb&eacute;m!<br \/>\n    &#8212; Mas n&atilde;o imaginas! Que calor! Venho morta.<br \/>\n    E deixou-se cair sobre a almofada do sof&aacute;, encalmada, com um sorriso<br \/>\n    aberto, mostrando os dentes brancos e grandes.<br \/>\n    Lu&iacute;sa disse-lhe a morada da francesa, gabou-lha: era barateira e tinha<br \/>\n    bom gosto. Como a sala estava escura, foi entreabrir um pouco as portadas<br \/>\n    da janela. Os estofos das cadeiras e as bambinelas eram de reps verde-escuro;<br \/>\n    o papel e o tapete com desenhos de ramagens tinham o mesmo tom, e naquela<br \/>\n    decora&ccedil;&atilde;o sombria destacavam muito &#8212; as molduras douradas<br \/>\n    e pesadas de duas gravuras (a Med&eacute;ia de Delacroit e a M&aacute;rtir<br \/>\n    de Delaroche), as encaderna&ccedil;&otilde;es escarlates dos dois vastos volumes<br \/>\n    do Dante de G. Dor&eacute;, e entre as janelas o oval dum espelho onde se<br \/>\n    refletia um napolitano de biscuit que, na console, dan&ccedil;ava a tarantela.<br \/>\n    Por cima do sof&aacute; pendia o retrato da m&atilde;e de Jorge, a &oacute;leo.<br \/>\n    Estava sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete espartilhado<br \/>\n    e seco: uma das m&atilde;os, dum l&iacute;vido morto, pousava nos joelhos<br \/>\n    sobrecarregada de an&eacute;is; a outra perdia-se entre as rendas muito trabalhadas<br \/>\n    dum mantelete de cetim; e aquela figura longa, macilenta, com grandes olhos<br \/>\n    carregados de negro, destacava sobre uma cortina escarlate, corrida em pregas<br \/>\n    copiosamente quebradas deixando ver para al&eacute;m c&eacute;us azulados<br \/>\n    e redondezas de arvoredos.<br \/>\n    &#8212; E teu marido? &#8212; perguntou Lu&iacute;sa, vindo sentar-se muito<br \/>\n    junto de Leopoldina.<br \/>\n    &#8212; Como sempre. Pouco divertido &#8212; respondeu, rindo, E, com ar s&eacute;rio,<br \/>\n    a testa um pouco franzida: &#8212; Sabes que acabei com o Mendon&ccedil;a?<br \/>\n    &#8212; Lu&iacute;sa fez-se ligeiramente vermelha.<br \/>\n    &#8212; Sim?<br \/>\n    Leopoldina deu logo detalhes.<br \/>\n    Era muito indiscreta, falava muito de si, das suas sensa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    da sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Lu&iacute;sa; e<br \/>\n    na sua necessidade de fazer confid&ecirc;ncias, de gozar a admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dela, descrevia-lhe os seus amantes, as opini&otilde;es deles, as maneiras<br \/>\n    de amar, os tics, a roupa, com grandes exagera&ccedil;&otilde;es! Aquilo era<br \/>\n    sempre muito picante, cochichado ao canto dum sof&aacute; entre risinhos:<br \/>\n    Lu&iacute;sa costumava escutar, toda interessada, as ma&ccedil;&atilde;s do<br \/>\n    rosto um pouco envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava<br \/>\n    t&atilde;o curioso!<br \/>\n    &#8212; Desta vez &eacute; que bem posso dizer que me enganei, minha rica<br \/>\n    filha! &#8212; exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente.<br \/>\n    Lu&iacute;sa nu.<br \/>\n    &#8212; Tu enganas-te quase sempre!<br \/>\n    Era verdade! Era infeliz!<br \/>\n    &#8212; Que queres tu? De cada vez imagino que &eacute; uma paix&atilde;o, e de<br \/>\n    cada vez me sai uma ma&ccedil;ada.<br \/>\n    E picando o tapete com a ponta da sombrinha:<br \/>\n    &#8212; Mas se um dia aceno!<br \/>\n    &#8212; V&ecirc; se acertas &#8212; disse Lu&iacute;sa. &#8212; J&aacute; &eacute;<br \/>\n    tempo!<br \/>\n    &Agrave;s vezes na sua consci&ecirc;ncia achava Leopoldina &#8220;indecente&#8221;;<br \/>\n    mas tinha um fraco por ela: sempre admirara muito a beleza do seu corpo, que<br \/>\n    quase lhe inspirava uma atra&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica. Depois desculpava-a;<br \/>\n    era t&atilde;o infeliz com o marido! Ia atr&aacute;s da paix&atilde;o, coitada!<br \/>\n    E aquela grande palavra, faiscante e misteriosa, donde a felicidade escorre<br \/>\n    como a &aacute;gua duma ta&ccedil;a muito cheia, satisfazia Lu&iacute;sa como<br \/>\n    uma justifica&ccedil;&atilde;o suficiente: quase lhe parecia unia hero&iacute;na;<br \/>\n    e olhava-a com espanto como se consideram os que chegam de alguma viagem maravilhosa<br \/>\n    e dif&iacute;cil, de epis&oacute;dios excitantes. S&oacute; n&atilde;o gostava<br \/>\n    de certo cheiro de tabaco misturado de feno, que trazia sempre nos vestidos.<br \/>\n    Leopoldina fumava.<br \/>\n    &#8212; E que fez ele, o Mendon&ccedil;a?<br \/>\n    Leopoldina encolheu os ombros, com um, grande t&eacute;dio.<br \/>\n    &#8212; Escreveu-me uma carta muito tola, que afinal bem considerado era melhor<br \/>\n    que acabasse tudo, porque n&atilde;o estava para se meter em camisa de onze<br \/>\n    varas! Que imbecil! At&eacute; devo ter aqui a carta.<br \/>\n    Procurou na algibeira do vestido: tirou o len&ccedil;o, uma cartelinha, chaves,<br \/>\n    uma caixinha de p&oacute;-de-arroz; mas encontrou apenas um programa do Price,<br \/>\n    Falou ent&atilde;o do circo. &#8212; Uma sensaboria. O melhor era um rapaz<br \/>\n    que trabalhava no trap&eacute;zio. Lindo rapaz, bem-feito, uma perfei&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    E de repente:<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o teu primo Bas&iacute;lio chega?<br \/>\n    &#8212; Assim li hoje no Di&aacute;rio de Not&iacute;cias. Fiquei pasmada!<br \/>\n    &#8212; Ah! outra coisa que te queda perguntar antes que me esque&ccedil;a.<br \/>\n    Com que guarneceste tu aquele teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer<br \/>\n    um assim.<br \/>\n    Tinha-o guarnecido de azul tamb&eacute;m, um azul mais escuro. &#8211; Vem ver.<br \/>\n    Vem c&aacute; dentro.<br \/>\n    Entraram no quarto. Lu&iacute;sa foi descerrar a janela, abrir o guarda-vestidos.<br \/>\n    Era um quarto pequeno, muito fresco, com cretones dum azul p&aacute;lido.<br \/>\n    Tinha um tapete barato, de fundo branco, com desenhos azulados. O toucador,<br \/>\n    alto, estava entre as duas janelas, sob um dossel de renda grossa, muito ornado<br \/>\n    de frascos facetados. Entre as bambinelas, em mesas redondas de p&eacute;-de-galo,<br \/>\n    plantas espessas, beg&ocirc;nias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua<br \/>\n    folhagem rica e forte em vasos de barro vermelho vidrado.<br \/>\n    Aqueles arranjos confort&aacute;veis lembraram decerto a Leopoldina felicidades<br \/>\n    tranq&uuml;ilas. P&ocirc;s-se a dizer devagar, olhando em roda:<br \/>\n    &#8212; E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, bem? Fazes bem, filha,<br \/>\n    tu &eacute; que fazes bem!<br \/>\n    Foi defronte do toucador aplicar p&oacute;-de-arroz no pesco&ccedil;o, nas<br \/>\n    faces:<br \/>\n    &#8212; Tu &eacute; que fazes bem! &#8212; repetia. &#8212; Mas v&aacute;<br \/>\n    l&aacute; uma mulher prender-se a um homem como o meu!<br \/>\n    Sentou-se na causeuse com um ar muito abandonado; vieram as queixas habituais<br \/>\n    sobre seu marido: era t&atilde;o grosseiro! era t&atilde;o ego&iacute;sta!<br \/>\n    &#8212; Acreditar&aacute;s que h&aacute; tempos para c&aacute;, sen&atilde;o<br \/>\n    estou em casa &agrave;s quatro horas, n&atilde;o espera, p&otilde;e-se &agrave;<br \/>\n    mesa, janta, deixa-me os restos! E depois desleixado, enxovalhado, sempre<br \/>\n    a cuspir nas esteiras&#8230; O quarto dele &#8211; n&oacute;s temos dois quartos,<br \/>\n    como tu sabes &#8212; &eacute; um chiqueiro!<br \/>\n    Lu&iacute;sa disse com severidade:<br \/>\n    &#8212; Que horror! A culpa tamb&eacute;m &eacute; tua.<br \/>\n    &#8212; Minha! &#8212; e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos,<br \/>\n    mais negros. &#8212; N&atilde;o me faltava mais nada sen&atilde;o ocupar-me<br \/>\n    do quarto do homem!<br \/>\n    Ah! era muito desgra&ccedil;ada, era a mulher mais desgra&ccedil;ada que havia<br \/>\n    no mundo!<br \/>\n    &#8212; Nem ci&uacute;mes tem, o bruto!<br \/>\n    Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o colar e o broche:<br \/>\n    &#8212; A senhora sempre quer que engome os coletes todos?<br \/>\n    &#8212; Todos, j&aacute; lhe disse. H&atilde;o de ficar &agrave; noite na<br \/>\n    inala antes de se ir deitar.<br \/>\n    &#8212; Que mala? Quem parte? &#8212; perguntou Leopoldina.<br \/>\n    &#8212; O Jorge. Vai &agrave;s minas, ao Alentejo.<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o est&aacute;s s&oacute;, posso vir ver-te! Ainda bem!<br \/>\n    E sentou-se logo ao p&eacute; dela, com um olhar que se fizera doce.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; que tenho tanto que contar! Se tu soubesses, filha!<br \/>\n    &#8212; O qu&ecirc;? Outra paix&atilde;o? fez Lu&iacute;sa rindo.<br \/>\n    A face de Leopoldina tornou-se grave.<br \/>\n    N&atilde;o era pra rir. Estava de todo! Era por isso at&eacute; que tinha<br \/>\n    vindo.<br \/>\n    Sentira-se t&atilde;o s&oacute;, t&atilde;o nervosa! &#8211; Vou at&eacute;<br \/>\n    &agrave; Lu&iacute;sa, vou palrar um bocado!<br \/>\n    E com a voz mais baixa, quase solene:<br \/>\n    &#8212; Desta vez &eacute; s&eacute;rio, Lu&iacute;sa! &#8212; Deu os detalhes.<br \/>\n    Era um rapaz alto, louro, lindo! E que talento! &Eacute; poeta! &#8212; Dizia<br \/>\n    apalavra com devo&ccedil;&atilde;o, prolongando o som das s&iacute;labas.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; poeta!<br \/>\n    Desapertou devagar dois bot&otilde;es do comete, tirou do seio um papel dobrado.<br \/>\n    Eram versos.<br \/>\n    E muito chegada para Lu&iacute;sa, com as narinas dilatadas pela del&iacute;cia<br \/>\n    da sensa&ccedil;&atilde;o, leu baixo, com orgulho, com pompa:<\/p>\n<p>A TI<\/p>\n<p>\n    Farol da Guia, 5 de junho.<\/p>\n<p>Quando cismo &agrave; hora do poente<br \/>\n    Sobre os rochedos onde brame o mar.,.<\/p>\n<p>Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contempla&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em que a via a ela, Leopoldina, vis&atilde;o radiosa que deslizas leve, nas<br \/>\n    &aacute;guas dormentes, nas vermelhid&otilde;es do ocaso, na brancura das<br \/>\n    espumas. Era uma composi&ccedil;&atilde;o delambida, dum sentimentalismo reles,<br \/>\n    com um ar t&iacute;sico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E, terminando,<br \/>\n    dizia-lhe que n&atilde;o era &#8220;nos esplendores das salas&#8221; ou nos<br \/>\n    &#8220;bailes febricitantes&#8221; que gostava de a ver: era ali, naqueles<br \/>\n    rochedos,<\/p>\n<p>Onde todos os dias ao sol posto<br \/>\n    Eu vejo adormecer o mar gigante.<\/p>\n<p>&#8212; Que bonito, hein!<br \/>\n    Ficaram caladas, com uma como&ccedil;&atilde;ozinha.<br \/>\n    Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente:<br \/>\n    &#8212; Farol da Guia, 5 de junho!<br \/>\n    Mas o rel&oacute;gio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo,<br \/>\n    atarantada, meteu o poema no seio.<br \/>\n    Tinha de se ir j&aacute;! Fazia-se tarde, sen&atilde;o o outro punha-se &agrave;<br \/>\n    mesa. Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a coisa mais est&uacute;pida!<br \/>\n    &#8212; Adeus. At&eacute; breve, n&atilde;o? &#8212; E agora que Jorge ia para<br \/>\n    fora, havia de vir muito. &#8212; Adeus. Ent&atilde;o a francesa, Rua do Ouro,<br \/>\n    por cima do estanque?<br \/>\n    Lu&iacute;sa foi com ela at&eacute; ao patamar. Leopoldina j&aacute; no fundo<br \/>\n    da escada ainda parou, gritou:<br \/>\n    &#8212; Sempre te parece que guarne&ccedil;a o vestido de azul, hein?<br \/>\n    Lu&iacute;sa debru&ccedil;ou-se sobre o corrim&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Eu assim fiz, &eacute; o melhor&#8230;<br \/>\n    &#8212; Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque?<br \/>\n    &#8212; Sim. Rua do Ouro, Adeus. &#8212; E com um gritinho: Porta direita,<br \/>\n    Madame Fran&ccedil;ois.<\/p>\n<p>Jorge voltou &agrave;s cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala<br \/>\n    a um canto:<br \/>\n    &#8212; J&aacute; sei que tiveste c&aacute; uma visita.<br \/>\n    Lu&iacute;sa voltou-se, um pouco corada. Estava diante do toucador j&aacute;<br \/>\n    penteada com um vestido de linho branco guarnecido de rendas.<br \/>\n    Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandara-a entrar&#8230; Ficara<br \/>\n    mais contrariada! Era por causa da adresse da francesa dos chap&eacute;us.<br \/>\n    Tinha-se demorado dez minutos. &#8212; Quem te disse?<br \/>\n    &#8212; Foi a Juliana: que a Sra D. Leopoldina tinha estado toda a tarde.<br \/>\n    &#8212; Toda a tarde! que tolice! esteve dez minutos, se tanto!<br \/>\n    Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se &agrave; janela, p&ocirc;s-se a sacudir<br \/>\n    as duras folhas duma beg&ocirc;nia malhada dum vermelho doente, com uma baba<br \/>\n    prateada. Assobiava baixo; e parecia todo ocupado em conchegar um bot&atilde;o<br \/>\n    de amar&iacute;lis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um pequenino<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o assustado.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ia passando o seu medalh&atilde;o de ouro numa longa fita de<br \/>\n    veludo preto: tinha uma ternura nas m&atilde;os, estava vermelha.<br \/>\n    &#8212; O calor tem-lhes feito mal&#8230; &#8212; disse,<br \/>\n    Jorge n&atilde;o respondeu. Assobiou mais alto, foi &agrave; outra janela,<br \/>\n    bateu com os dedos nas folhas el&aacute;sticas duma Makoama de tons verdes<br \/>\n    e sang&uuml;&iacute;neos, e, alargando impacientemente o colarinho como um<br \/>\n    homem sufocado:<br \/>\n    &#8212; Ouve l&aacute;, e necess&aacute;rio que deixes por uma vez de receber essa<br \/>\n    criatura. E necess&aacute;rio acabar por uma vez!<br \/>\n    Lu&iacute;sa fez-se escarlate.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; por causa de ti! &eacute; por causa dos vizinhos! &eacute; por<br \/>\n    causa da dec&ecirc;ncia!<br \/>\n    &#8212; Mas foi a Juliana&#8230; &#8212; balbuciou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Mandasse-a sair outra vez. Que estavas fora! Que estavas na China! Que<br \/>\n    estavas doente.<br \/>\n    Parou, com um tom desconsolado, abrindo os bra&ccedil;os:<br \/>\n    &#8212; Minha rica filha, &eacute; que todo o mundo a conhece. &Eacute; a Quebrais!<br \/>\n    E a P&atilde;o e Queijo! &Eacute; uma vergonha!<br \/>\n    Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de bigode<br \/>\n    ca&iacute;do, que escrevia com&eacute;dias para o Gin&aacute;sio! O Santos<br \/>\n    Madeira, o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um ging&atilde;o<br \/>\n    desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar numa boquilha! O<br \/>\n    Pedro C&acirc;mara, o bonito! O Mendon&ccedil;a dos calos! Tutti quanti!<br \/>\n    E encolhendo os ombros, desabrido:<br \/>\n    &#8212; Como se eu n&atilde;o percebesse que ela esteve aqui! S&oacute; pelo cheiro!<br \/>\n    Este horr&iacute;vel cheiro de feno! Voc&ecirc;s foram criadas juntas, etc.,<br \/>\n    tudo isso &eacute; muito bom. H&aacute;s de desculpar, mas se a encontro na<br \/>\n    escada, corro-a! Corro-a!<br \/>\n    Parou um momento, e comovido:<br \/>\n    &#8212; Ora, vamos, Lu&iacute;sa, confessa. Tenho ou n&atilde;o raz&atilde;o? Lu&iacute;sa<br \/>\n    punha os brincos, ao espelho, atarantada:<br \/>\n    &#8212; Tens &#8212; disse.<br \/>\n    &#8212; Ah! bem!<br \/>\n    E saiu, furioso.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ficou im&oacute;vel. Uma lagrimazinha redonda, clara, rolava-lhe<br \/>\n    pela asa do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquela Juliana! Aquela bisbilhoteira!<br \/>\n    De m&aacute;! Para fazer ciz&acirc;nia!?<br \/>\n    Veio-lhe ent&atilde;o uma c&oacute;lera. Foi ao quarto dos engomados, atirou<br \/>\n    com a porta:<br \/>\n    &#8212; Para que foi voc&ecirc; dizer quem esteve ou quem deixou de estar?<br \/>\n    Juliana, muito surpreendida, pousou o ferro:<br \/>\n    &#8212; Pensei que n&atilde;o era segredo, minha senhora.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; claro que n&atilde;o! Tola! quem lhe diz que era segredo? E<br \/>\n    para que mandou entrar? N&atilde;o lhe tenho dito muitas vezes que n&atilde;o<br \/>\n    recebo Sra D. Leopoldina?<br \/>\n    &#8212; A senhora nunca me disse nada &#8212; replicou, toda ofendida, cheia de<br \/>\n    verdade.<br \/>\n    &#8212; Mente! Cale-se!<br \/>\n    Voltou-lhe as costas; veio para o quarto muito nervosa, foi encostar-se &agrave;<br \/>\n    vidra&ccedil;a.<br \/>\n    O sol desapareceu; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde sem vento;<br \/>\n    pelas casas, de uma edifica&ccedil;&atilde;o velha, escuras, estavam abertas<br \/>\n    as varandas onde em vasos vermelhos se minava alguma velha planta miser&aacute;vel,<br \/>\n    manjeric&atilde;o ou cravo; ouvia-se no teclado melanc&oacute;lico dum piano<br \/>\n    a Ora&ccedil;&atilde;o de uma Virgem, tocada por alguma menina, no sentimentalismo<br \/>\n    vadio do domingo; e na sua janela, defronte, as quatro filhas do Teixeira<br \/>\n    Azevedo, magrinhas, com os cabelos muito ri&ccedil;ados, as olheiras pisadas,<br \/>\n    passavam a sua tarde de dia santo olhando para a rua, para o ar, para as janelas<br \/>\n    vizinhas, cochichando se viam passar um homem &#8211; ou debru&ccedil;adas, com<br \/>\n    uma aten&ccedil;&atilde;o idiota, faziam pingar saliva sobre as pedras da<br \/>\n    cal&ccedil;ada.<br \/>\n    Jorge tinha raz&atilde;o, coitado! pensava Lu&iacute;sa. Mas, tamb&eacute;m,<br \/>\n    que podia ela fazer? j&aacute; n&atilde;o ia &aacute; casa de Leopoldina,<br \/>\n    tirara o seu retrato do &aacute;lbum da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe<br \/>\n    a repugn&acirc;ncia de Jorge, tinham chorado ambas, at&eacute;! Coitada! S&oacute;<br \/>\n    a recebia de longe a longe, uma raridade, um momento! E enfim, depois dela<br \/>\n    estar na sala n&atilde;o a havia de ir empurrar pela escada abaixo!<br \/>\n    Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, apareceu ent&atilde;o<br \/>\n    ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; parou, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a voltear a manivela, levantando em redor, para as janelas, um sorriso triste<br \/>\n    de dentes brancos &#8212; e a Casta Diva, com uma sonoridade met&aacute;lica<br \/>\n    e seca, muito tremida, espalhou-se pela rua.<br \/>\n    Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de matem&aacute;tica, veio encostar<br \/>\n    logo aos caixilhos estreitos da janela a sua vasta face trigueira de quarentona<br \/>\n    farta e estabelecida; adiante, na sacada aberta dum segundo andar, debru&ccedil;ou-se<br \/>\n    a figura do Cunha Rosado, magro e chupado, com um bon&eacute; de borla, o<br \/>\n    aspecto desconsolado do doente de intestinos, conchegando com as m&atilde;os<br \/>\n    transparentes o robe de chambre ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se<br \/>\n    entre as bambinelas de cassa.<br \/>\n    Na rua, a estanqueira chegou-se &agrave; porta, vestida de luto, estendendo<br \/>\n    o seu car&atilde;o vi&uacute;vo, os bra&ccedil;os cruzados obre o xale tingido<br \/>\n    de preto, esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo,<br \/>\n    veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabelo esguedelhado em repas<br \/>\n    secas, a cara oleosa e enfarruscada, com tr&ecirc;s pequenos meio nus, quase<br \/>\n    negros, chor&otilde;es e hirsutos, que se lhe penduravam da saia de chita.<br \/>\n    E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se at&eacute; ao meio da rua;<br \/>\n    a pala de verniz do seu bon&eacute; de pano preto nunca se erguia de cima<br \/>\n    dos olhos; escondia sempre as m&atilde;os, como para ser mais reservado, por<br \/>\n    tr&aacute;s das costas, debaixo das abas do seu casaco de cetim branco; o<br \/>\n    calcanhar sujo da meia saia-lhe para fora da chinela bordada a mi&ccedil;anga;<br \/>\n    e fazia roncar o seu pigarro cr&ocirc;nico de um modo despeitado. Detestava<br \/>\n    os reis e os padres. O estado das coisas p&uacute;blicas enfurecia-o. Assobiava<br \/>\n    freq&uuml;entemente a Maria da Fonte, e mostrava-se nas suas palavras, nas<br \/>\n    suas atitudes, um patriota exasperado.<br \/>\n    O homem do realejo tirou o seu largo chap&eacute;u desabado e, tocando sempre,<br \/>\n    ia-o estendendo em redor para as janelas, com um olhar necessitado. As Azevedos<br \/>\n    tinham logo fechado violentamente a vidra&ccedil;a. A carvoeira deu-lhe uma<br \/>\n    moeda de cobre; mas interrogou-o: quis decerto saber de que pa&iacute;s era,<br \/>\n    por que estradas tinha vindo, e quantas pe&ccedil;as tinha o instrumento.<br \/>\n    Gente endomingada come&ccedil;ava a recolher, com um ar derreado do longo<br \/>\n    passeio, as botas empoeiradas: mulheres de xale, vindas da hortas, traziam<br \/>\n    ao colo as crian&ccedil;as adormecidas da caminhada e do calor; velhos pl&aacute;cidos,<br \/>\n    de cal&ccedil;a branca, o chap&eacute;u na m&atilde;o, gozavam a frescura,<br \/>\n    dando um giro no bairro: pelas janelas bocejava-se: o c&eacute;u tomava uma<br \/>\n    cor azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a dist&acirc;ncia<br \/>\n    o fim de alguma festa de igreja, e o domingo terminava, com uma serenidade<br \/>\n    cansada e triste.<br \/>\n    &#8212; Lu&iacute;sa &#8212; disse a voz de Jorge.<br \/>\n    Ela voltou-se com um vago &#8212; hein?<br \/>\n    &#8212; Vamos jantar, filha, s&atilde;o sete horas.<br \/>\n    No meio do quarto tomou-a pela cinta &#8212; e falando-lhe baixo junto &agrave;<br \/>\n    face:<br \/>\n    &#8212; Tu zangaste-te h&aacute; bocado?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o! tu tens raz&atilde;o. Conhe&ccedil;o que tens raz&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Ah! &#8212; fez ele comum tom vitorioso, muito satisfeito. &#8212; Est&aacute;<br \/>\n    claro,<\/p>\n<p>Quem melhor conselheiro e bom amigo<br \/>\n    Que o marido que a alma m&#8217;escolheu?<\/p>\n<p>E com uma ternura grave:<br \/>\n    &#8212; Minha querida filha, esta nossa casinha &eacute; t&atilde;o honesta que<br \/>\n    &eacute; uma dor de alma ver entrar essa mulher aqui, com o cheiro do feno,<br \/>\n    do cigano e do resto&#8230; Ma, di questo non parleremo pi&ugrave;, o donna mia!<br \/>\n    &Agrave; sopa!<\/p>\n<h2> <a name=\"2\">CAP&Iacute;TULO 2<\/a><\/h2>\n<p>Aos domingos &agrave; noite havia em casa de Jorge uma pequena reuni&atilde;o,<br \/>\n    uma cavaqueira, na saia, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa.<br \/>\n    Vinham apenas os &iacute;ntimos. &#8220;O Engenheiro&#8221;, como se dizia<br \/>\n    na rua, vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se ch&aacute;, palrava-se.<br \/>\n    Era um pouco a estudante. Lu&iacute;sa fazia croch&eacute;, Jorge cachimbava.<br \/>\n    O primeiro a chegar era Juii&atilde;o Zuzarte, um parente muito afastado de<br \/>\n    Jorge e seu antigo condisc&iacute;pulo nos primeiros anos da Polit&eacute;cnica.<br \/>\n    Era um homem seco e nervoso, com lunetas azuis, os cabelos compridos ca&iacute;dos<br \/>\n    sobre a gola. Tinha o curso de cirurgi&atilde;o da Escola. Muito inteligente,<br \/>\n    estudava desesperadamente, mas, como ele dizia, era um tumba. Aos trinta anos,<br \/>\n    pobre, com d&iacute;vidas, sem clientela, come&ccedil;ava a estar farto do<br \/>\n    seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares de doze vint&eacute;ns, do seu<br \/>\n    palet&oacute; co&ccedil;ado de alamares; e entalado na sua vida mesquinha,<br \/>\n    via os outros, os med&iacute;ocres, os superficiais, furar, subir, instalar-se<br \/>\n    &agrave; larga na prosperidade! &#8220;Falta de chance&#8221;, dizia. Podia<br \/>\n    ter aceitado um partido da C&acirc;mara numa vila da prov&iacute;ncia, com<br \/>\n    pulso livre, ter uma casa sua, a sua cria&ccedil;&atilde;o no quintal. Mas<br \/>\n    tinha um orgulho resistente, muita f&eacute; nas suas faculdades, na sua ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    e n&atilde;o se queria ir enterrar numa terriola adormecida e l&uacute;gubre,<br \/>\n    com tr&ecirc;s ruas onde os porcos fossam. Toda a prov&iacute;ncia o aterrava:<br \/>\n    via-se l&aacute; obscuro, jogando a manilha na Assembl&eacute;ia, morrendo<br \/>\n    de caquexia. Por isso n&atilde;o &#8220;arredava p&eacute;&#8221;; e esperava,<br \/>\n    com a tenacidade do plebeu s&ocirc;frego, uma clientela rica, uma cadeira<br \/>\n    na Escola, um coup&eacute; para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha<br \/>\n    certeza do seu direito a estas felicidades, e como elas tardavam a chegar<br \/>\n    ia-se tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se<br \/>\n    prolongavam mais os seus sil&ecirc;ncios hostis, roendo as unhas; e, nos dias<br \/>\n    melhores, n&atilde;o cessava de ter ditos secos, tiradas azedas &#8212; em<br \/>\n    que a sua voz desagrad&aacute;vel caia como um gume gelado.<br \/>\n    Lu&iacute;sa n&atilde;o gostava dele: achava-lhe um ar nordeste, detestava<br \/>\n    o seu tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as cal&ccedil;as curtas<br \/>\n    que mostravam o el&aacute;stico roto das botas. Mas disfar&ccedil;ava, sorria-lhe,<br \/>\n    porque Jorge admirava-o, dizia sempre dele: Tem muito esp&iacute;rito! Tem<br \/>\n    muito talento! Grande homem!<br \/>\n    Como vinha mais cedo ia &agrave; sala de jantar, tomava a sua ch&aacute;vena<br \/>\n    de caf&eacute;; e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador<br \/>\n    e para as toilettes frescas de Lu&iacute;sa. Aquele parente, um med&iacute;ocre,<br \/>\n    que vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no<br \/>\n    minist&eacute;rio, com alguns contos de r&eacute;is em inscri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    &#8212; parecia-lhe uma injusti&ccedil;a e pesava-lhe como uma humilha&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas afetava estim&aacute;-lo; ia sempre &agrave;s noites, aos domingos; escondia<br \/>\n    ent&atilde;o as suas preocupa&ccedil;&otilde;es, cavaqueava, tinha pilh&eacute;rias,<br \/>\n    &#8212; metendo a cada momento os dedos pelos seus cabelos compridos, secos<br \/>\n    e cheios de caspa.<br \/>\n    &Aacute;s nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha<br \/>\n    logo da porta com os bra&ccedil;os estendidos, o seu bom sorriso dilatado.<br \/>\n    Tinha cinq&uuml;enta anos, era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia<br \/>\n    e de gases, &agrave;quela hora n&atilde;o se podia espartilhar e as suas formas<br \/>\n    transbordavam. J&aacute; se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente<br \/>\n    anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura ba&ccedil;a<br \/>\n    e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele j&aacute; engelhada em redor,<br \/>\n    luzia uma pupila negra e &uacute;mida, muito m&oacute;bil; e aos cantos da<br \/>\n    boca uns p&ecirc;los de bu&ccedil;o pareciam tra&ccedil;os leves e circunflexos<br \/>\n    de uma pena muito fma. Fora a &iacute;ntima amiga da m&atilde;e de Lu&iacute;sa,<br \/>\n    e tomara aquele h&aacute;bito de vir ver a pequena aos domingos. Era fidalga,<br \/>\n    dos Noronhas de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota,<br \/>\n    muito da Encarna&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mal entrava, ao p&ocirc;r um beijo muito cantado na face de Lu&iacute;sa,<br \/>\n    perguntava-lhe baixo, com inquieta&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Vem?<br \/>\n    &#8212; O Conselheiro? Vem.<br \/>\n    Lu&iacute;sa sabia-o. Porque o Conselheiro, o Conselheiro Ac&aacute;cio, nunca<br \/>\n    vinha aos ch&aacute;s de D. Lu&iacute;sa, como ele dizia, sem ter ido na v&eacute;spera<br \/>\n    ao Minist&eacute;rio das Obras P&uacute;blicas procurar Jorge, declarar-lhe<br \/>\n    com gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura:<br \/>\n    &#8212; Jorge, meu amigo, amanh&atilde; l&aacute; irei pedir &agrave; sua<br \/>\n    boa esposa a minha ch&aacute;vena de ch&aacute;.<br \/>\n    Ordinariamente acrescentava:<br \/>\n    &#8212; E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro,<br \/>\n    os meus respeitos a S. Ex&ordf;. Os meus respeitos a esse formoso talento!<br \/>\n    E sa&iacute;a pisando com solenidade os corredores enxovalhados.<br \/>\n    Havia cinco anos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se um pouco<br \/>\n    com aquela chama. Lu&iacute;sa dizia: Ora! &eacute; uma caturrice dela! Viam-na<br \/>\n    corada e nutrida, e n&atilde;o suspeitavam que aquele sentimento concentrado,<br \/>\n    irritado semanalmente, queimando em sil&ecirc;ncio, a ia devastando como uma<br \/>\n    doen&ccedil;a e desmoralizando como um v&iacute;cio. Todos os seus ardores<br \/>\n    at&eacute; a&iacute; tinham sido inutilizados. Amara um oficial de lanceiros<br \/>\n    que morrera, e apenas conservava o seu daguerre&oacute;tipo. Depois apaixonara-se<br \/>\n    muito ocultamente por um rapaz padeiro, da vizinhan&ccedil;a, e vira-o casar.<br \/>\n    Dera-se ent&atilde;o toda a um c&atilde;o, o Bilro; uma criada despedida deu-lhe<br \/>\n    por vingan&ccedil;a rolha cozida; o Bilro rebentou, e tinha-o agora empalhado<br \/>\n    na sala de jantar. A pessoa do Conselheiro viera de repente, um dia, pegar<br \/>\n    fogo &agrave;queles desejos, sobrepostos como combust&iacute;veis antigos.<br \/>\n    Ac&aacute;cio tornara-se a sua mania: admirava a sua figura e a sua gravidade,<br \/>\n    arregalava grandes olhos para a sua eloq&uuml;&ecirc;ncia, achava-o numa &#8220;linda<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o&#8221;. O Conselheiro era a sua ambi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o seu v&iacute;cio! Havia sobretudo nele uma beleza, cuja contempla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    demorada a estonteava como um vinho forte; era a calva. Sempre tivera o gosto<br \/>\n    perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquele apetite insatisfeito<br \/>\n    inflamara-se com a idade. Quando se punha a olhar para a calva do Conselheiro,<br \/>\n    larga, redonda, polida, brilhante &agrave;s luzes, uma transpira&ccedil;ao<br \/>\n    ansiosa umedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade<br \/>\n    absurda, &aacute;vida de lhe deitar as m&atilde;os, palp&aacute;-la, sentir-lhe<br \/>\n    as formas, amass&aacute;-la, penetrar-se dela! Mas disfar&ccedil;ava, punha-se<br \/>\n    a falar alto com um sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gotejavalhe<br \/>\n    nas roscas anafadas do pesco&ccedil;o. Ia para casa rezar esta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    impunha-se penit&ecirc;ncias de muitas coroas &agrave; Virgem; mas apenas<br \/>\n    as ora&ccedil;&otilde;es findavam, come&ccedil;ava o temperamento a latejar.<br \/>\n    E a boa, a pobre D. Felicidade tinha agora pesadelos lascivos e as melancolias<br \/>\n    do histerismo velho. A indiferen&ccedil;a do Conselheiro irritava-a mais:<br \/>\n    nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revela&ccedil;&atilde;o amorosa o comovia!<br \/>\n    Era para com ela glacial e polido. Tinham-se &agrave;s vezes encontrado a<br \/>\n    s&oacute;s, &agrave; parte, no v&atilde;o favor&aacute;vel de uma janela,<br \/>\n    no isolamento mal alumiado de um canto do sof&aacute;, &#8212; mas apenas<br \/>\n    ela fazia uma demonstra&ccedil;&atilde;o sentimental, ele erguia-se bruscamente,<br \/>\n    afastava-se, severo e pudico. Um dia ela julgara perceber que, por tr&aacute;s<br \/>\n    das suas lunetas escuras, o Conselheiro lhe deitava de rev&eacute;s um olhar<br \/>\n    apreciador para a abund&acirc;ncia do seio; fora mais clara, mais urgente,<br \/>\n    falara em paix&atilde;o, disse-lhe baixo: &#8212; Ac&aacute;cio!&#8230; Mas ele<br \/>\n    com um gesto gelou-a &#8212; e de p&eacute;, grave:<br \/>\n    &#8212; Minha senhora,<\/p>\n<p>As neves que na fronte se acumulam<br \/>\n    Terminam por cair no cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&Eacute; in&uacute;til, minha senhora!<br \/>\n    O mart&iacute;rio de D. Felicidade era muito oculto, muito disfar&ccedil;ado;<br \/>\n    ningu&eacute;m o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, ignoravam-lhe<br \/>\n    as torturas do desejo. E um dia Lu&iacute;sa ficou at&ocirc;nita, sentindo<br \/>\n    D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a m&atilde;o &uacute;mida, e dizer-lhe<br \/>\n    baixo, os olhos cravados no Conselheiro:<br \/>\n    &#8212; Que regalo de homem!<br \/>\n    Falava-se nessa noite do Alentejo, de &Eacute;vora e das suas riquezas, da<br \/>\n    capela dos ossos, quando o Conselheiro entrou com o palet&oacute; no bra&ccedil;o.<br \/>\n    Foi-o dobrar solicitamente numa cadeira a um canto, e no seu passo aprumado<br \/>\n    e oficial veio apertar as m&atilde;os ambas de Lu&iacute;sa, dizendo-lhe com<br \/>\n    uma voz sonora, de papo:<br \/>\n    &#8212; Minha boa Sr. a D. Lu&iacute;sa, de perfeita sa&uacute;de, n&atilde;o?<br \/>\n    O nosso Jorge tinha-mo dito. Ainda bem! Ainda bem!<br \/>\n    Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pesco&ccedil;o entalado num<br \/>\n    colarinho direito. O rosto agu&ccedil;ado no queixo ia-se alargando at&eacute;<br \/>\n    &agrave; calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos<br \/>\n    que de uma orelha &agrave; outra lhe faziam colar por tr&aacute;s da nuca<br \/>\n    &#8212; e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho &agrave;<br \/>\n    calva; mas n&atilde;o tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, ca&iacute;do<br \/>\n    aos cantos da boca. Era muito p&aacute;lido; nunca tirava as lunetas escuras.<br \/>\n    Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do cr&acirc;nio.<br \/>\n    Fora, outrora, diretor-geral do minist&eacute;rio do reino, e sempre que dizia<br \/>\n    &#8212; El-Rei! &#8212; erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram<br \/>\n    medidos, mesmo a tomar rap&eacute;. Nunca usava palavras triviais; n&atilde;o<br \/>\n    dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir. Dizia sempre<br \/>\n    &#8220;o nosso Garrett, o nosso Herculano&#8221;. Citava muito. Era autor.<br \/>\n    E sem fam&iacute;lia, num terceiro andar da Rua do Ferregial, amancebado com<br \/>\n    a criada, ocupava-se de economia pol&iacute;tica: tinha composto os ELEMENTOS<br \/>\n    GEN&Eacute;RICOS DA CI&Ecirc;NCIA DA RIQUEZA E SUA DISTRIBUI&Ccedil;&Atilde;O,<br \/>\n    segundo os melhores autores, e como subt&iacute;tulo: Leituras do ser&atilde;o!<br \/>\n    Havia apenas meses publicara a RELA&Ccedil;&Atilde;O DE TODOS OS MINISTROS<br \/>\n    DE ESTADO DESDE O GRANDE MARQU&Ecirc;S DE POMBAL AT&Eacute; NOSSOS DIAS, COM<br \/>\n    DATAS CUIDADOSAMENTE AVERIGUADAS DE SEUS NASCIMENTOS E &Oacute;BITOS.<br \/>\n    &#8212; J&aacute; esteve no Alentejo, Conselheiro? &#8212; perguntou-lhe Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Nunca, minha senhora &#8212; e curvou-se. &#8212; Nunca! E tenho pena!<br \/>\n    Sempre desejei l&aacute; ir, porque me dizem que as suas curiosidades s&atilde;o<br \/>\n    de primeira ordem.<br \/>\n    Tomou uma pitada de uma caixa dourada, entre os dedos, delicada-mente, e acrescentou<br \/>\n    com pompa:<br \/>\n    &#8212; De resto, pa&iacute;s de grande riqueza suma!<br \/>\n    &#8212; &Oacute; Jorge, averigua quanto &eacute; o partido da C&acirc;mara<br \/>\n    em &Eacute;vora disse Juli&atilde;o do canto do sof&aacute;.<br \/>\n    O Conselheiro acudiu, cheio de informa&ccedil;&otilde;es, com a pitada suspensa:<br \/>\n    &#8212; Devem ser seiscentos mil-r&eacute;is, Sr. Zuzarte, e pulso livre.<br \/>\n    Tenho-o nos meus apontamentos. Por que, Sr. Zuzarte, quer deixar Lisboa?<br \/>\n    &#8212; Talvez!&#8230;<br \/>\n    Todos desaprovaram.<br \/>\n    &#8212; Ah! Lisboa sempre &eacute; Lisboa! &#8212; suspirou D. Felicidade.<br \/>\n    &#8212; Cidade de m&aacute;rmore e de granito, na frase sublime do nosso grande<br \/>\n    historiador! &#8212; disse solenemente o Conselheiro.<br \/>\n    E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.<br \/>\n    D. Felicidade disse ent&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Quem n&atilde;o era capaz de deixar Lisboa nem &agrave; m&atilde;o<br \/>\n    de Deus Padre, era o Conselheiro!<br \/>\n    O Conselheiro, voltando-se vagarosamente para ela, um pouco curvado, replicou:<br \/>\n    &#8212; Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta de alma!<br \/>\n    &#8212; O Conselheiro. &#8212; lembrou Jorge &#8212; nasceu na Rua de S&atilde;o<br \/>\n    Jos&eacute;.<br \/>\n    &#8212; N&uacute;mero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada &agrave;quela<br \/>\n    em que viveu, at&eacute; casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!<br \/>\n    Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Ac&aacute;cio fora o seu<br \/>\n    &iacute;ntimo. Eram vizinhos. Ac&aacute;cio tocava ent&atilde;o rebeca, e,<br \/>\n    como Geraldo tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo &agrave; Filarm&ocirc;nica<br \/>\n    da Rua de S. Jos&eacute;. Depois Ac&aacute;cio, quando entrou nas reparti&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do Estado, por escr&uacute;pulo e por dignidade abandonou a rebeca, os sentimentos<br \/>\n    ternos, os ser&otilde;es joviais da Filarm&ocirc;nica. Entregou-se todo &agrave;<br \/>\n    estat&iacute;stica. Mas conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo<br \/>\n    a Jorge aquela amizade vigilante; fora padrinho do seu casamento, vinha v&ecirc;-lo<br \/>\n    todos os domingos e, no dia dos seus anos, mandava-lhe pontualmente, com uma<br \/>\n    carta de felicita&ccedil;&otilde;es, uma lampreia de ovos.<br \/>\n    &#8212; Aqui nasci &#8212; repetiu, desdobrando o seu belo len&ccedil;o de<br \/>\n    seda da &Iacute;ndia &#8212; e aqui conto morrer.<br \/>\n    E assoou-se discretamente.<br \/>\n    &#8212; Isso ainda vem longe, Conselheiro!<br \/>\n    Ele disse, com uma melancolia grave:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o me arreceio dela, meu Jorge. At&eacute; j&aacute; fiz construir,<br \/>\n    sem vacilar, no Alto de 5. Jo&atilde;o, a minha &uacute;ltima morada. Modesta,<br \/>\n    mas decente. E ao entrar, no arruamento &agrave; direita, num lugar abrigado,<br \/>\n    ao p&eacute; da cho&ccedil;a dos Ver&iacute;ssimos amigos.<br \/>\n    &#8212; E j&aacute; comp&ocirc;s o seu epit&aacute;fio, Sr. Conselheiro? &#8212;<br \/>\n    perguntou Juli&atilde;o, do canto, ir&ocirc;nico.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o o quero, Sr. Zuzarte. Na minha sepultura n&atilde;o quero<br \/>\n    elogios. Se os meus amigos, os meus patr&iacute;cios entenderem que eu fiz<br \/>\n    alguns servi&ccedil;os, t&ecirc;m outros meios para os comemorar: l&aacute;<br \/>\n    t&ecirc;m a imprensa, o comunicado, o necrol&oacute;gio, a poesia mesmo! Por<br \/>\n    minha vontade quero apenas sobre a l&aacute;pide lisa, em letras negras, o<br \/>\n    meu nome &#8212; com a minha designa&ccedil;&atilde;o de Conselheiro &#8212;<br \/>\n    a data do meu nascimento e a data do meu &oacute;bito.<br \/>\n    E com um tom demorado, de reflex&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o me oponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras<br \/>\n    menores: Orai por ele!<br \/>\n    Houve um sil&ecirc;ncio comovido, e &agrave; porta uma voz fina disse:<br \/>\n    &#8212; D&atilde;o licen&ccedil;a?<br \/>\n    &#8212; Oh, Ernestinho! &#8230; &#8212; exclamou Jorge.<br \/>\n    Com um passo miudinho e r&aacute;pido, Ernestinho veio abra&ccedil;&aacute;-lo<br \/>\n    pela cintura:<br \/>\n    &#8212; Eu soube que tu partias, primo Jorge&#8230; Como est&aacute;, prima Lu&iacute;sa?<br \/>\n    Era primo de Jorge. Pequenino, linf&aacute;tico, os seus membros franzinos,<br \/>\n    ainda quase tenros, davam-lhe um aspecto d&eacute;bil de colegial; o bu&ccedil;o,<br \/>\n    delgado, empastado em cera-mostache arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas<br \/>\n    como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos amorteciam-se com<br \/>\n    um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com grandes la&ccedil;os de<br \/>\n    fita; sobre o colete branco, a cadeia do rel&oacute;gio sustentava um medalh&atilde;o<br \/>\n    enorme, de ouro, com frutos e flores esmaltados em relevo. Vivia com uma atrizita<br \/>\n    do Gin&aacute;sio, uma magra, cor de mel&atilde;o, com o cabelo muito ri&ccedil;ado,<br \/>\n    o ar t&iacute;sico, &#8212; e escrevia para o teatro. Tinha tradu&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    dois originais num ato, uma com&eacute;dia, em calembures. Ultimamente trazia<br \/>\n    em ensaios nas Variedades uma obra consider&aacute;vel, um drama em cinco<br \/>\n    atos, a Honra e paix&atilde;o. Era a sua estr&eacute;ia s&eacute;ria. E desde<br \/>\n    ent&atilde;o, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos inchados de manuscritos,<br \/>\n    com localistas, com atores, muito pr&oacute;digo de caf&eacute;s e de conhaques,<br \/>\n    o chap&eacute;u ao lado, descorado e dizendo a todos: Esta vida mata-me! Escrevia<br \/>\n    todavia por paix&atilde;o entranhada pela Arte &#8212; porque era empregado<br \/>\n    na alf&acirc;ndega, com bom vencimento, e tinha quinhentos mil-r&eacute;is<br \/>\n    de renda das suas inscri&ccedil;&otilde;es. A Arte mesma, dizia, obrigava-o<br \/>\n    a desembolsos; para o ato do baile da Honra e paix&atilde;o mandara fazer,<br \/>\n    &agrave; sua custa, botas de verniz para o gal&atilde;, botas de verniz para<br \/>\n    o pai-nobre! O seu nome de fam&iacute;lia era Ledesma.<br \/>\n    Deram-lhe um lugar, e Lu&iacute;sa notou logo, pousando o bordado, que estava<br \/>\n    abatido! Queixou-se ent&atilde;o das suas fadigas: os ensaios arrasavam-no;<br \/>\n    tinha turras com o empres&aacute;rio; na v&eacute;spera vira-se for&ccedil;ado<br \/>\n    a refazer todo o final de um ato! Todo!<br \/>\n    &#8212; E tudo isto &#8212; acrescentou muito exaltado &#8212; porque &eacute;<br \/>\n    um pelintra, um parvo, e quer que se passe numa sala o ato que se passava<br \/>\n    num abismo!<br \/>\n    &#8212; Num qu&ecirc;? &#8212; pergunta surpreendida D. Felicidade.<br \/>\n    O Conselheiro, muito cort&ecirc;s, explicou:<br \/>\n    &#8212; Num abismo, D. Felicidade, num despenhadeiro. Tamb&eacute;m se diz,<br \/>\n    em bom vern&aacute;culo, um v&oacute;rtice. &#8212; Citou: &#8212; Num espumoso<br \/>\n    v&oacute;rtice se arroja&#8230;<br \/>\n    &#8212; Num abismo!? &#8212; perguntaram. &#8212; Por qu&ecirc;?<br \/>\n    O Conselheiro quis conhecer o lance.<br \/>\n    Ernestinho, radioso, esbo&ccedil;ou largamente o enredo: &#8212; Era uma mulher<br \/>\n    casada. Em Sintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o Conde de Monte-Redondo.<br \/>\n    O marido, arruinado, devia cem contos de r&eacute;is ao jogo. Estava desonrado,<br \/>\n    ia-ser preso. A mulher, louca, corre a umas ru&iacute;nas acasteladas, onde<br \/>\n    habita o conde, deixa cair o v&eacute;u, conta-lhe a cat&aacute;strofe. O<br \/>\n    conde lan&ccedil;a o seu manto aos ombros, parte, chega no momento em que<br \/>\n    os beleguins v&atilde;o levar o homem. &#8212; E uma cena muito comovente,<br \/>\n    dizia, &eacute; de noite, ao luar! &#8212; O conde desembu&ccedil;a-se, atira<br \/>\n    uma bolsa de ouro aos p&eacute;s dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos,<br \/>\n    abutres!&#8230;<br \/>\n    &#8212; Belo final! Murmurou o Conselheiro.<br \/>\n    &#8212; Enfim &#8212; acrescentou Ernesto, resumindo &#8212; aqui h&aacute;<br \/>\n    um enredo complicado: o Conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido<br \/>\n    descobre, arremessa todo o seu ouro aos p&eacute;s do conde, e mata a esposa.<br \/>\n    &#8212; Como? &#8212; perguntaram.<br \/>\n    &#8212; Atira-a ao abismo. &Eacute; no quinto ato. O conde v&ecirc;, corre,<br \/>\n    atira-se tamb&eacute;m. O marido cruza os bra&ccedil;os e d&aacute; uma gargalhada<br \/>\n    infernal. Foi assim que eu imaginei a coisa! <br \/>\n    Calou-se, ofegante; e, abanando-se com o len&ccedil;o, rolava em redor os<br \/>\n    seus olhos langorosos, prateados como os de um peixe morto.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; uma obra de cunho, embatem-se grandes paix&otilde;es! &#8212;<br \/>\n    disse o Conselheiro, passando as m&atilde;os sobre a calva. &#8212; Os meus<br \/>\n    parab&eacute;ns, Sr. Ledesma!<br \/>\n    &#8212; Mas que quer o empres&aacute;rio? &#8212; perguntou Juli&atilde;o,<br \/>\n    que escutara de p&eacute;, at&ocirc;nito &#8212; que quer ele? Quer o abismo<br \/>\n    num primeiro andar, mobiliado pelo Gard&eacute;?<br \/>\n    Ernestinho voltou-se, muito afetuosamente:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, Sr. Zuzarte, &#8212; a sua voz era quase meiga &#8212;<br \/>\n    quer o desfecho numa sala. De modo que eu &#8212; e fazia um gesto resignado<br \/>\n    &#8212; a gente tem de condescender, tive de escrever outro final. Passei<br \/>\n    a noite em claro. Tomei tr&ecirc;s ch&aacute;venas de caf&eacute;!&#8230;<br \/>\n    O Conselheiro acudiu, com a m&atilde;o espalmada:<br \/>\n    &#8212; Cuidado, Sr. Ledesma, cuidado! Prud&ecirc;ncia com esses excitantes!<br \/>\n    Por quem &eacute;, prud&ecirc;ncia!<br \/>\n    &#8212; A mim n&atilde;o me faz mal, Sr. Conselheiro &#8212; disse sorrindo.<br \/>\n    &#8212; Escrevi-o em tr&ecirc;s horas! Venho de lho mostrar agora. At&eacute;<br \/>\n    o tenho aqui&#8230;<br \/>\n    &#8212; Leia, Sr. Ernesto, leia! &#8212; exclamou logo D. Felicidade.<br \/>\n    Que lesse! Que lesse! Por que n&atilde;o lia?<br \/>\n    Era uma ma&ccedil;ada!&#8230; Era um rascunho!&#8230; Enfim, como queriam&#8230; E radiante<br \/>\n    desdobrou, no sil&ecirc;ncio, uma grande folha de papel azul pautado.<br \/>\n    &#8212; Eu pe&ccedil;o desculpa. Isto &eacute; um borr&atilde;o. A coisa n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; ainda com todos os ff e rr. &#8212; Fez ent&atilde;o voz teatral:<br \/>\n    &#8212; &Aacute;GATA&#8230; &Eacute; a mulher; isto aqui &eacute; a cena com o<br \/>\n    marido, o marido j&aacute; sabe tudo&#8230;<\/p>\n<p>&Aacute;GATA (caindo de joelhos aos p&eacute;s de J&uacute;lio)<br \/>\n    &#8220;Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que ver, com esses<br \/>\n    desprezos, o cora&ccedil;&atilde;o rasgado fibra a fibra!&#8221;<br \/>\n    J&Uacute;LIO<br \/>\n    &#8220;E n&atilde;o me rasgaste tu tamb&eacute;m o cora&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Tiveste tu piedade? N&atilde;o. Retalhaste-mo! Meu Deus, eu que a julgava<br \/>\n    pura, nessas horas em que arrebatados&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de ch&aacute;venas. Era<br \/>\n    Juliana, de avental branco, com o ch&aacute;.<br \/>\n    &#8212; Que pena! &#8212; exclamou Lu&iacute;sa. &#8212; Depois do ch&aacute;<br \/>\n    se l&ecirc;. Depois do ch&aacute;.<br \/>\n    Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o vale a pena, prima Lu&iacute;sa!<br \/>\n    &#8212; Ora essa! &Eacute; lindo! &#8212; afirmou D. Felicidade.<br \/>\n    Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoitos de Oeiras, os<br \/>\n    bolos do Coc&oacute;.<br \/>\n    &#8212; Aqui tem o seu ch&aacute; fraco, Conselheiro &#8212; dizia Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Sirva-se, Juli&atilde;o. As torradas ao Sr. Juli&atilde;o! Mais a&ccedil;&uacute;car!<br \/>\n    Quem quer? Uma torrada, Conselheiro?<br \/>\n    &#8212; Estou amplamente servido, minha prezada senhora &#8212; replicou,<br \/>\n    curvando-se.<br \/>\n    E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o di&aacute;logo opulento.<br \/>\n    Mas, perguntaram, o que quer o empres&aacute;rio mais agora? J&aacute; tem<br \/>\n    a sala&#8230;<br \/>\n    Ernestinho, de p&eacute;, excitado, com um bolo de ovos na ponta dos dedos,<br \/>\n    explicou:<br \/>\n    &#8212; O que o empres&aacute;rio quer &eacute; que o marido lhe perdoe&#8230;<br \/>\n    Foi um espanto:<br \/>\n    &#8212; Ora essa! &eacute; extraordin&aacute;rio! Por qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o! &#8212; exclamou Ernestinho encolhendo os ombros &#8212;<br \/>\n    diz que o p&uacute;blico que n&atilde;o gosta! Que n&atilde;o s&atilde;o coisas<br \/>\n    c&aacute; para o nosso pais&#8230;<br \/>\n    &#8212; A falar a verdade, &#8212; disse o Conselheiro &#8212; a falar a verdade,<br \/>\n    Sr. Ledesma, o nosso p&uacute;blico n&atilde;o &eacute; geralmente afeto a<br \/>\n    cenas de sangue.<br \/>\n    &#8212; Mas n&atilde;o h&aacute; sangue, Sr. Conselheiro! &#8212; protestava<br \/>\n    Ernestinho erguendo-se sobre os bicos dos sapatos &#8212; mas n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    sangue! E com um tiro! E com um tiro pelas costas, Sr. Conselheiro!<br \/>\n    Lu&iacute;sa fez a D. Felicidade &#8212; psit! e, num aparte, com um sorriso.<br \/>\n    &#8212; Desses bolinhos de ovos. S&atilde;o muito frescos.<br \/>\n    Ela respondeu, com uma voz lamentosa:<br \/>\n    &#8212; Ai, filha, n&atilde;o!<br \/>\n    E indicou o est&ocirc;mago, compungidamente.<br \/>\n    No entanto o Conselheiro aconselhava a Ernestinho a dem&ecirc;ncia; tinha-lhe<br \/>\n    posto a m&atilde;o no ombro paternalmente, e com uma voz persuasiva:<br \/>\n    &#8212; D&aacute; mais alegria &agrave; pe&ccedil;a, Sr. Ledesma. O espectador<br \/>\n    sai mais aliviado! Deixe sair o espectador aliviado!<br \/>\n    &#8212; Mais um bolinho, Conselheiro?<br \/>\n    &#8212; Estou repleto, minha prezada senhora.<br \/>\n    E, ent&atilde;o, invocou a opini&atilde;o de Jorge. N&atilde;o lhe parecia<br \/>\n    que o bom Ernesto devia perdoar?<br \/>\n    &#8212; Eu, Conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente<br \/>\n    pela morte. E exijo que a mates, Ernestinho!<br \/>\n    D. Felicidade acudiu; toda bondosa:<br \/>\n    &#8212; Deixe falar, Sr. Ledesma. Est&aacute; a brincar. E ele ent&atilde;o<br \/>\n    que &eacute; um cora&ccedil;&atilde;o de anjo!<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; enganada, D. Felicidade &#8212; disse Jorge, de p&eacute;<br \/>\n    diante dela.<br \/>\n    &#8212; Falo s&eacute;rio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela morte.<br \/>\n    No abismo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso l&aacute; consentir que,<br \/>\n    num caso desses, um primo meu, uma pessoa da minha fam&iacute;lia, do meu<br \/>\n    sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! N&atilde;o! Mata-a! &Eacute; um<br \/>\n    princ&iacute;pio de fam&iacute;lia. Mata-a quanto antes!<br \/>\n    &#8212; Aqui tem um l&aacute;pis, Sr. Ledesma &#8212; gritou Juli&atilde;o,<br \/>\n    estendendo-lhe uma lapiseira.<br \/>\n    O Conselheiro, ent&atilde;o, interveio grave:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &#8212; disse &#8212; n&atilde;o creio que o nosso Jorge<br \/>\n    fale s&eacute;rio. &Eacute; muito instru&iacute;do para ter id&eacute;ias<br \/>\n    t&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Hesitou, procurou o adjetivo. Juliana p&ocirc;s-se-lhe diante com uma bandeja,<br \/>\n    onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto guarda-sol eri&ccedil;ado<br \/>\n    de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu:<br \/>\n    &#8212; &#8230; t&atilde;o anticivilizadoras.<br \/>\n    &#8212; Pois est&aacute; enganado, Conselheiro, tenho-as &#8212; afirmou Jorge.<br \/>\n    &#8212;<br \/>\n    &#8212; S&atilde;o as minhas id&eacute;ias. E aqui tem, se em lugar de se tratar<br \/>\n    de um final de ato, fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me:<br \/>\n    sabes, encontrei minha mulher&#8230;<br \/>\n    &#8212; Oh, Jorge! &#8212; disseram, repreensivamente.<br \/>\n    &#8212; &#8230; Bem, supdnhamos, se ele mo viesse dizer, eu respondia-lhe o mesmo.<br \/>\n    Dou a minha palavra de honra, que lhe respondia o mesmo: Mata-a!<br \/>\n    Protestaram. Chamaram-lhe tigre, Otelo, Barba-Azul. Ele ria, enchendo. muito<br \/>\n    sossegadamente o seu cachimbo.<br \/>\n    Lu&iacute;sa bordava, calada; a luz do candeeiro, abatida pelo abat-jour,<br \/>\n    dava aos seus cabelos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua testa<br \/>\n    branca como sobre um marfim muito polido.<br \/>\n    &#8212; Que dizes tu a isto? &#8212; disse-lhe D. Felicidade.<br \/>\n    Ela ergueu o rosto, risonha, encolheu os ombros&#8230;<br \/>\n    E o Conselheiro Logo:<br \/>\n    &#8212; A Sr&ordf; D. Lu&iacute;sa diz com orgulho o que dizem as verdadeiras<br \/>\n    m&atilde;es de fam&iacute;lia:<\/p>\n<p>Impurezas do mundo n&atilde;o me ro&ccedil;am<br \/>\n    Nem a f&iacute;mbria da t&uacute;nica sequer.<\/p>\n<p>&#8212; Ora muito boas-noites &#8212; disse, &agrave; porta, uma voz grossa.<br \/>\n    Voltaram-se.<br \/>\n    &Oacute; Sebasti&atilde;o! &Oacute; Sr. Sebasti&atilde;o! &Oacute; Sebastiarr&atilde;o!<br \/>\n    Era ele, Sebasti&atilde;o, o grande Sebasti&atilde;o, o Sebastiarr&atilde;o,<br \/>\n    Sebasti&atilde;o tronco de &aacute;rvore &#8212; o &iacute;ntimo, o camarada,<br \/>\n    o insepar&aacute;vel de Jorge desde o latim, na aula de frei Lib&oacute;rio,<br \/>\n    aos paulistas.<br \/>\n    Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chap&eacute;u mole<br \/>\n    desabado na m&atilde;o. Come&ccedil;ava a perder um pouco na frente os seus<br \/>\n    cabelos castanhos e finos. Tinha a pele muito branca, a barba alourada e curta.<br \/>\n    Veio sentar-se ao p&eacute; de Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o de onde vem, de onde vem?<br \/>\n    Vinha do Price. Rira muito com os palha&ccedil;os. Houvera a brincadeira da<br \/>\n    pipa.<br \/>\n    O seu rosto, em plena luz, tinha uma express&atilde;o honesta, simples, aberta:<br \/>\n    os olhos pequenos, azuis de um azul-claro, de uma suavidade s&eacute;ria,<br \/>\n    ado&ccedil;avam-se muito quando sorria; e os bei&ccedil;os escarlates, sem<br \/>\n    pel&iacute;culas secas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saud&aacute;vel<br \/>\n    e h&aacute;bitos castos. Falava devagar, baixo, como se tivesse medo de se<br \/>\n    manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua ch&aacute;vena, e remexendo<br \/>\n    o a&ccedil;&uacute;car com a colher direita, os olhos ainda a rir, um sorriso<br \/>\n    bom:<br \/>\n    &#8212; A pipa tem muita gra&ccedil;a! Muita gra&ccedil;a!<br \/>\n    Sorveu um gole de ch&aacute; e depois de um momento:<br \/>\n    &#8212; E tu, maroto, sempre partes amanh&atilde;? N&atilde;o h&aacute; umas<br \/>\n    tenta&ccedil;&otilde;ezinhas de ir por a&iacute; fora com ele, minha cara<br \/>\n    amiga?<br \/>\n    Lu&iacute;sa sorriu. Tomara ela! Quem dera! Mas era uma jornada t&atilde;o<br \/>\n    inc&ocirc;moda! Depois a casa n&atilde;o podia ficar s&oacute;, n&atilde;o<br \/>\n    havia que fiar em criados&#8230;<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; claro, est&aacute; claro&#8230; &#8212; disse ele.<br \/>\n    Jorge ent&atilde;o, que abrira a porta do escrit&oacute;rio, chamou-o:<br \/>\n    &#8212; &Oacute; Sebasti&atilde;o! Fazes favor?<br \/>\n    Ele foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado; as abas do seu<br \/>\n    casaco malfeito tinham um comprimento eclesi&aacute;stico.<br \/>\n    Entraram para o escrit&oacute;rio.<br \/>\n    Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidra&ccedil;ada, tendo em<br \/>\n    cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, de uma bacante em del&iacute;rio.<br \/>\n    A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fora de seu av&ocirc;, estava<br \/>\n    ao p&eacute; da janela; uma cole&ccedil;&atilde;o empilhada de Di&aacute;rios<br \/>\n    do Governo branquejava a um canto; por cima da cadeira de marroquim escuro<br \/>\n    pendia, num caixilho preto, uma larga fotografia de Jorge; e sobre o quadro<br \/>\n    duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, coberta com um reposteiro<br \/>\n    de baeta escarlate, abria para o patamar.<br \/>\n    &#8212; Sabes quem esteve a&iacute; de tarde? &#8212; disse logo Jorge acendendo<br \/>\n    o cachimbo. &#8212; Aquela desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein?<br \/>\n    &#8212; E entrou? &#8212; perguntou Sebasti&atilde;o, baixo, correndo por<br \/>\n    dentro o pesado reposteiro de fazenda listrada.<br \/>\n    &#8212; Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quis! A Leopoldina,<br \/>\n    a P&atilde;o-e-queijo!<br \/>\n    E arremessando o f&oacute;sforo violentamente:<br \/>\n    &#8212; Quando penso que aquela desavergonhada vem a minha casa! Uma criatura<br \/>\n    que tem mais amantes que camisas, que anda pelo D&aacute;-fundo em tro&ccedil;as,<br \/>\n    que passeava nos bailes, este ano, de domin&oacute;, com um tenor! A mulher<br \/>\n    do Zagal&atilde;o, um devasso que falsificou uma letra!<br \/>\n    E quase ao ouvido de Sebasti&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Uma mulher que dormiu com o Mendon&ccedil;a dos calos! Aquele sebento<br \/>\n    do Mendon&ccedil;a dos calos!<br \/>\n    Teve um gesto furioso; exclamou:<br \/>\n    &#8212; E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abra&ccedil;a minha mulher,<br \/>\n    respira o meu ar!&#8230; Palavra de honra, Sebasti&atilde;o, se a pilho &#8212;<br \/>\n    procurou mentalmente, com o olhar aceso, um castigo suficiente &#8212; dou-lhe<br \/>\n    a&ccedil;oites!<br \/>\n    Sebasti&atilde;o disse devagar:<br \/>\n    &#8212; E o pior &eacute; a vizinhan&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; claro que &eacute;! &#8212; exclamou Jorge. &#8212; Toda<br \/>\n    essa gente a&iacute; pela rua abaixo sabe quem ela &eacute;! Sabem-lhe os<br \/>\n    amantes, sabem-lhe os s&iacute;tios. &Eacute; a P&atilde;o-e-queijo! Todo<br \/>\n    o mundo conhece a P&atilde;o-e-queijo!<br \/>\n    &#8212; M&aacute; vizinhan&ccedil;a&#8230; &#8212; disse Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; De tremer!<br \/>\n    Mas ent&atilde;o! Estava acostumado &agrave; casa, era sua, tinha-a arranjado,<br \/>\n    era uma economia&#8230;<br \/>\n    &#8212; Se n&atilde;o! N&atilde;o parava aqui um dia!<br \/>\n    Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavalados uns nos outros! Uma vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    a postos, &aacute;vida de mexericos! Qualquer bagatela, o trotar de uma tip&oacute;ia,<br \/>\n    e aparecia por tr&aacute;s de cada vidro um par de olhos repolhudos a cocar!<br \/>\n    E era logo um badalar de l&iacute;nguas por a&iacute; abaixo, e concili&aacute;bulos,<br \/>\n    e opini&otilde;es formadas, e fulano &eacute; indecente e fulana &eacute;<br \/>\n    b&ecirc;bada&#8230;<br \/>\n    &#8212; &Eacute; o diabo! &#8212; disse Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; A Lu&iacute;sa &eacute; um anjo, coitada &#8212; dizia Jorge passeando<br \/>\n    pela saleta &#8212; mas tem coisas em que &eacute; crian&ccedil;a. N&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc; o mal. &Eacute; muito boa, deixa-se ir. Com este caso da Leopoldina,<br \/>\n    por exemplo: foram criadas de pequenas, eram amigas, n&atilde;o tem coragem<br \/>\n    agora para a p&ocirc;r fora! &Eacute; acanhamento, &eacute; bondade. Ele compreende-se!<br \/>\n    Mas enfim as leis da vida t&ecirc;m as suas exig&ecirc;ncias!<br \/>\n    E depois de uma pausa:<br \/>\n    &#8212; Por isso, Sebasti&atilde;o, enquanto eu estiver fora, se te constar<br \/>\n    que a Leopoldina vem por c&aacute;, avisa a Lu&iacute;sa! Porque ela &eacute;<br \/>\n    assim, esquece-se, n&atilde;o reflexiona. &Eacute; necess&aacute;rio algu&eacute;m<br \/>\n    que a advirta, que lhe diga: &#8212; Alto l&aacute;, isso n&atilde;o pode<br \/>\n    ser! Que ent&atilde;o cai logo em si, e &eacute; a primeira!&#8230; Vens por a&iacute;,<br \/>\n    fazes-lhe companhia, fazes-lhe m&uacute;sica, e se vires que a Leopoldina<br \/>\n    aparece ao largo, tu logo: &#8212; Minha rica senhora, cuidado, olhe que isso<br \/>\n    n&atilde;o! Que ela, sentindo-se apoiada, tem decis&atilde;o. Se n&atilde;o,<br \/>\n    acanha-se, deixa-a vir. Sofre com isso, mas n&atilde;o tem coragem de lhe<br \/>\n    dizer: N&atilde;o te quero ver, vai-te! N&atilde;o tem coragem para nada;<br \/>\n    come&ccedil;am as m&atilde;os a tremer-lhe, a secar-se-lhe a boca&#8230; E mulher,<br \/>\n    &eacute; muito mulher!&#8230; N&atilde;o te esque&ccedil;as, hem, Sebasti&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o havia de me esquecer, homem?<br \/>\n    Sentiram ent&atilde;o o piano na sala, e a voz de Lu&iacute;sa ergueu-se,<br \/>\n    fresca e clara, cantando a Mandolinata:<\/p>\n<p>Amici, la notte &eacute; bella,<br \/>\n    La luna va spontari&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Fica t&atilde;o s&oacute;, coitada!&#8230; &#8212; disse Jorge.<br \/>\n    Deu alguns passos pelo escrit&oacute;rio, fumando, com a cabe&ccedil;a baixa:<br \/>\n    &#8212; Todo o casal bem organizado, Sebasti&atilde;o, deve ter dois filhos!<br \/>\n    Deve ter pelo menos um.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o co&ccedil;ou a barba em sil&ecirc;ncio &#8212; e a voz de<br \/>\n    Lu&iacute;sa, elevando-se com um certo esfor&ccedil;o &aacute;spero, nos altos<br \/>\n    da melodia:<\/p>\n<p>Di c&agrave;, di l&agrave;, per la citt&agrave;<br \/>\n    Andiami a transnottari&#8230;<\/p>\n<p>Era uma tristeza secreta de Jorge &#8212; n&atilde;o ter um filho! Desejava-o<br \/>\n    tanto! Ainda em solteiro, nas v&eacute;speras do casamento, j&aacute; sonhava<br \/>\n    aquela felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com<br \/>\n    as suas perninhas vermelhas, cheias de roscas, e os cabelos anelados, finos<br \/>\n    como fios de seda; ou rapaz forte, entrando da escola com os livros, alegre<br \/>\n    e de olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos mestres; ou, melhor, rapariga<br \/>\n    crescida, clara e rosada, com um vestido branco, as duas tran&ccedil;as ca&iacute;das,<br \/>\n    vindo pousar as m&atilde;os nos seus cabelos j&aacute; grisalhos&#8230;<br \/>\n    Vinha-lhe, &agrave;s vezes, um medo de morrer sem ter tido aquela felicidade<br \/>\n    completadora!<br \/>\n    Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava; depois, no piano, Lu&iacute;sa<br \/>\n    recome&ccedil;ou a Mandolinata, com um brio jovial.<br \/>\n    A porta do escrit&oacute;rio abriu-se, Juli&atilde;o entrou:<br \/>\n    &#8212; Que est&atilde;o voc&ecirc;s aqui a conspirar? Vou-me safar, que &eacute;<br \/>\n    tarde! At&eacute; &agrave; volta, meu velho, bem? Tamb&eacute;m ia contigo<br \/>\n    tomar ar, respirar, ver campos, mas&#8230;<br \/>\n    E sorriu com amargura. &#8212; Addio! Addio!<br \/>\n    Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abra&ccedil;&aacute;-lo outra vez. Se quisesse<br \/>\n    alguma coisa do Alentejo&#8230;<br \/>\n    Juli&atilde;o carregou o chap&eacute;u na cabe&ccedil;a:<br \/>\n    &#8212; D&aacute; c&aacute; outro charuto, por despedida! D&aacute; c&aacute;<br \/>\n    dois!<br \/>\n    &#8212; Leva a caixa! Eu em viagem s&oacute; fumo cachimbo. Leva a caixa,<br \/>\n    homem!<br \/>\n    Embrulhou-lha num Di&aacute;rio de Not&iacute;cias; Juli&atilde;o meteu-a<br \/>\n    debaixo do bra&ccedil;o, e descendo os degraus:<br \/>\n    &#8212; Cuidado com as sez&otilde;es, e descobre uma mina de ouro!<br \/>\n    Jorge e Sebasti&atilde;o entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano,<br \/>\n    torcia as guias do bigodinho, e Lu&iacute;sa come&ccedil;ava uma valsa de<br \/>\n    Strauss &#8212; o Dan&uacute;bio azul.<br \/>\n    Jorge disse, rindo, estendendo os bra&ccedil;os:<br \/>\n    &#8212; Uma valsa, D. Felicidade?<br \/>\n    Ela voltou-se, com um sorriso. E por que n&atilde;o? Em nova era falada! Citou<br \/>\n    logo a valsa que dan&ccedil;ara com o Sr. D. Fernando, no tempo da Reg&ecirc;ncia,<br \/>\n    nas Necessidades. Era uma valsa linda, dessa &eacute;poca: A p&eacute;rola<br \/>\n    de Ofir.<br \/>\n    Estava sentada ao p&eacute; do Conselheiro, no sof&aacute;. E como retomando<br \/>\n    um di&aacute;logo mais querido &#8212; continuou, baixo para ele, com uma<br \/>\n    voz meiga:<br \/>\n    &#8212; Pois creia, acho-o com &oacute;timas cores.<br \/>\n    O Conselheiro enrolava vagarosamente o seu len&ccedil;o de seda da &Iacute;ndia.<br \/>\n    &#8212; Na esta&ccedil;&atilde;o calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?<br \/>\n    &#8212; Ai! Estou outra, Conselheiro! Muito boas digest&otilde;es, muito livre<br \/>\n    de gases&#8230; Estou outra!<br \/>\n    &#8212; Deus o queira, minha senhora, Deus o queira &#8212; disse o Conselheiro<br \/>\n    esfregando lentamente as m&atilde;os.<br \/>\n    Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade p&ocirc;s-se a dizer:<br \/>\n    &#8212; Espero que esse interesse seja verdadeiro&#8230;<br \/>\n    Corou. O corpete fl&aacute;cido do vestido de seda preta enchia-se-lhe com<br \/>\n    o arfar do peito.<br \/>\n    O Conselheiro recaiu lentamente no sof&aacute;, &#8212; e com as m&atilde;os<br \/>\n    nos joelhos:<br \/>\n    &#8212; D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero&#8230;<br \/>\n    Ela levantou para ele seus olhos pisados, de onde sa&iacute;am revela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de paix&atilde;o e s&uacute;plicas de felicidade:<br \/>\n    &#8212; E eu, Conselheiro!&#8230;<br \/>\n    Deu um grande suspiro, p&ocirc;s o leque sobre o rosto.<br \/>\n    O Conselheiro ergueu-se secamente. E com a cabe&ccedil;a alta, as m&atilde;os<br \/>\n    atr&aacute;s das costas, foi ao piano, perguntou a Lu&iacute;sa curvando-se:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; alguma can&ccedil;&atilde;o do Tirol, D. Lu&iacute;sa?<br \/>\n    &#8212; Uma valsa de Strauss &#8212; murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de &#8212;<br \/>\n    Ah! Muita fama! Grande autor!<br \/>\n    Tirou ent&atilde;o o rel&oacute;gio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns<br \/>\n    apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solenidade:<br \/>\n    &#8212; Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alentejo! O clima &eacute;<br \/>\n    nocivo, a esta&ccedil;&atilde;o trai&ccedil;oeira!<br \/>\n    E apertou-o nos bra&ccedil;os com uma press&atilde;o comovida.<br \/>\n    D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.<br \/>\n    &#8212; J&aacute;, D. Felicidade? &#8212; disse Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Ela explicou-lhe, ao ouvido:<br \/>\n    &#8212; J&aacute;, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas vagens<br \/>\n    e tenho estado!&#8230; E aquele homem, aquele gelo! O Sr. Ernesto vem para os<br \/>\n    meus s&iacute;tios, hein?<br \/>\n    &#8212; Como um fuso, minha senhora!<br \/>\n    Tinha vestido o seu palet&oacute; de alpaca clara, fumava chupando, com as<br \/>\n    faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma V&ecirc;nus se torcia sobre<br \/>\n    o dorso de um le&atilde;o domado.<br \/>\n    &#8212; Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus! Quando for a<br \/>\n    Honra e paix&atilde;o c&aacute; mando um camarote &agrave; prima Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Adeus! Saudinha!<br \/>\n    Iam a sair. Mas o Conselheiro, &agrave; porta, voltando-se subitamente, com<br \/>\n    as abas do palet&oacute; deitadas para tr&aacute;s, a m&atilde;o pomposamente<br \/>\n    apoiada no cast&atilde;o de prata da bengala que representava uma cabe&ccedil;a<br \/>\n    de mouro, disse com gravidade:<br \/>\n    &#8212; Esquecia-me, Jorge! Tanto em &Eacute;vora, como em Beja, visite os<br \/>\n    governadores civis! E eu lhe digo por qu&ecirc;: deve-lho como primeiros funcion&aacute;rios<br \/>\n    do distrito, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas peregrina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    cient&iacute;ficas!<br \/>\n    E curvando-se profundamente:<br \/>\n    &#8212; Ai rivedere, como se diz em It&aacute;lia.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco, Lu&iacute;sa<br \/>\n    foi abrir as janelas; a noite estava quente e im&oacute;vel, de luar.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o pusera-se ao piano, e com a cabe&ccedil;a curvada, corria<br \/>\n    devagar o teclado.<br \/>\n    Tocava admiravelmente, com uma compreens&atilde;o muito fina da m&uacute;sica.<br \/>\n    Outrora compusera mesmo uma Medita&ccedil;&atilde;o, duas Valsas, uma Balada;<br \/>\n    mas eram estudos muito trabalhados, cheios de reminisc&ecirc;ncias, sem estilo.<br \/>\n    &#8212; Da cachim&ocirc;nia n&atilde;o me sai nada &#8212; costumava ele dizer<br \/>\n    com bonomia, batendo na testa, sorrindo &#8212; mas l&aacute; com os dedos!&#8230;<br \/>\n    P&ocirc;s-se a tocar um Noturno, de Chopin. Jorge sentara-se no sof&aacute;<br \/>\n    ao p&eacute; de Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; J&aacute; tens pronto o teu farnelzinho! &#8230; &#8212; disse-lhe ela.<br \/>\n    &#8212; Bastam umas bolachas, filha. O que quero &eacute; o cantil com conhaque.<br \/>\n    &#8212; E n&atilde;o te esque&ccedil;as de mandar um telegrama logo que chegues!<br \/>\n    &#8212; Pudera!<br \/>\n    &#8212; Tu daqui a quinze dias, vens!<br \/>\n    &#8212; Talvez&#8230;<br \/>\n    Ela teve um gesto amuado.<br \/>\n    &#8212; Ah, bem! Se n&atilde;o vieres vou ter contigo! A culpa &eacute; tua.<br \/>\n    E olhando em redor:<br \/>\n    &#8212; Que s&oacute; que vou ficar!<br \/>\n    Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste.<br \/>\n    &#8212; Psit, Sebasti&atilde;o! A malaguenha, faz favor?<br \/>\n    Sebasti&atilde;o come&ccedil;ou a tocar a malaguenha. Aquela melodia c&aacute;lida,<br \/>\n    muito arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em M&aacute;laga, ou em Granada,<br \/>\n    n&atilde;o sabia; era sob as laranjeiras, mil estrelinhas luzem; a noite &eacute;<br \/>\n    quente, o ar cheira bem; por baixo de um lampi&atilde;o suspenso a um ramo,<br \/>\n    um cantador sentado na tripe&ccedil;a mourisca faz gemer a guitarra; em redor<br \/>\n    as mulheres com os seus corpetes de veludilho encarnado batem as m&atilde;os<br \/>\n    em cad&ecirc;ncia; e ao largo dorme uma andaluza de romance e de zarzuela,<br \/>\n    quente e sensual, onde tudo s&atilde;o bra&ccedil;os brancos que se abrem<br \/>\n    para o amor, capas rom&acirc;nticas que ro&ccedil;am as paredes, sombrias<br \/>\n    vielas onde luz o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam<br \/>\n    a Virgem Sant&iacute;ssima cantando as horas&#8230;<br \/>\n    &#8212; Muito bem, Sebasti&atilde;o! Gradas!<br \/>\n    Ele sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o seu<br \/>\n    chap&eacute;u desabado:<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o amanh&atilde; &agrave;s sete? C&aacute; estou, e vou-te<br \/>\n    acompanhar at&eacute; ao Barreiro.<br \/>\n    Bom Sebasti&atilde;o!<br \/>\n    Foram debru&ccedil;ar-se na varanda para o ver sair. A noite fazia um sil&ecirc;ncio<br \/>\n    alto, de uma melancolia pl&aacute;cida; o g&aacute;s dos candeeiros parecia<br \/>\n    morti&ccedil;o; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca,<br \/>\n    tinha um tom quente e doce; a luz punha nas fachadas brancas claridades vivas,<br \/>\n    e nas pedras da cal&ccedil;ada faisca&ccedil;&otilde;es vidradas; uma clarab&oacute;ia<br \/>\n    reluzia, a dist&acirc;ncia, como uma velha l&acirc;mina de prata; nada se<br \/>\n    movia; e instintivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a<br \/>\n    lua branca, muito s&eacute;ria.<br \/>\n    &#8212; Que linda noite!<br \/>\n    A porta bateu, e Sebasti&atilde;o debaixo, na sombra:<br \/>\n    &#8212; D&aacute; vontade de passear, hein?<br \/>\n    &#8212; Linda!<br \/>\n    Ficaram &agrave; varanda pregui&ccedil;osamente, olhando, detidos pela tranq&uuml;ilidade,<br \/>\n    pela luz. Puseram-se a falar baixo da jornada. &Agrave;quela hora onde estaria<br \/>\n    ele? J&aacute; em &Eacute;vora, num quarto de estalagem, passeando monotonamente<br \/>\n    sobre um ch&atilde;o de tijolo. Mas voltaria breve; esperava fazer um bom<br \/>\n    neg&oacute;cio com o Paco, o espanhol das minas de Portel, trazer talvez alguns<br \/>\n    centos de mil-r&eacute;is, e teriam ent&atilde;o a do&ccedil;ura do m&ecirc;s<br \/>\n    de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, ir ao Bussaco, trepar aos<br \/>\n    altos, beber a &aacute;gua fresca das rochas, sob a espessura &uacute;mida<br \/>\n    das folhagens; irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na areia, no bom<br \/>\n    ar cheio de azote, vendo o mar unido, de um azul met&aacute;lico e faiscante,<br \/>\n    o mar do ver&atilde;o, com algum fumo de paquete que passa para o Sul ao longe<br \/>\n    muito adelga&ccedil;ado. Faziam outros planos com os ombros muito chegados;<br \/>\n    uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E Jorge disse:<br \/>\n    &#8212; Se houvesse um pequerrucho, j&aacute; n&atilde;o ficavas t&atilde;o<br \/>\n    s&oacute;!<br \/>\n    Ela suspirou. Tamb&eacute;m o desejava tanto! Chamar-se-ia Carlos Eduardo.<br \/>\n    E via-o no seu ber&ccedil;o dormindo, ou no rega&ccedil;o, nu, agarrando com<br \/>\n    a m&atilde;ozinha o dedo do p&eacute;, mamando a ponta rosada do seu peito&#8230;<br \/>\n    Um estremecimento de um deleite infinito correu-lhe no como. Passou o bra&ccedil;o<br \/>\n    pela cinta de Jorge. Um dia seria, teria um filho decerto! E n&atilde;o compreendia<br \/>\n    o seu filho homem nem Jorge velho; via-os ambos do mesmo modo: um sempre amante,<br \/>\n    novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, da maminha, ou gatinhando<br \/>\n    e palrando, louro e cor-de-rosa. E a vida aparecia-lhe infind&aacute;vel,<br \/>\n    de uma do&ccedil;ura igual, atravessada do mesmo enternecimento amoroso, quente,<br \/>\n    calma e luminosa como a noite que os cobria.<br \/>\n    &#8212; A que horas quer a senhora que a ve a acordar? &#8212; disse a voz<br \/>\n    seca de Juliana. <br \/>\n    Lu&iacute;sa voltou-se: <br \/>\n    &#8212; &Agrave;s sete, j&aacute; lhe disse h&aacute; pouco, criatura.<br \/>\n    Fecharam a janela. Em torno das velas uma borboleta branca esvoa&ccedil;ava.<br \/>\n    Era bom agouro!<br \/>\n    Jorge prendeu-a nos bra&ccedil;os:<br \/>\n    &#8212; Vai ficar sem o seu maridinho, hein? &#8212; disse tristemente.<br \/>\n    Ela deixou pesar o corpo sobre as m&atilde;os dele cruzadas, olhou-o com um<br \/>\n    longo olhar que se enevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pesco&ccedil;o<br \/>\n    com o gesto lento, harmonioso e solene dos bra&ccedil;os, pousou-lhe na boca<br \/>\n    um beijo grave e profundo. Um vago solu&ccedil;o levantou-lhe o peito.<br \/>\n    &#8212; Jorge! Querido! &#8212; murmurou.<\/p>\n<h2><a name=\"3\">CAP&Iacute;TULO 3<\/a><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, Lu&iacute;sa<br \/>\n    vestia-se para ir &agrave; casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse n&atilde;o<br \/>\n    havia de gostar, n&atilde;o! Mas estava t&atilde;o farta de estar s&oacute;!<br \/>\n    Aborrecia-se tanto! De manh&atilde; ainda tinha os arranjos, a costura, a<br \/>\n    toilette, algum romance&#8230; Mas de tarde!<br \/>\n    &Agrave; hora em que Jorge costumava voltar do minist&eacute;rio, a solid&atilde;o<br \/>\n    parecia alargar-se em tomo dela. Fazia-lhe tanta falta o seu toque de campainha,<br \/>\n    os seus passos no corredor!&#8230;<br \/>\n    Ao crep&uacute;sculo, ao ver cair o dia, entristecia-se sem raz&atilde;o,<br \/>\n    ca&iacute;a numa vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes,<br \/>\n    as cavatinas apaixonadas gemiam instintivamente no teclado, sob os seus dedos<br \/>\n    pregui&ccedil;osos, no movimento abandonado dos seus bra&ccedil;os moles.<br \/>\n    O que pensava em tolices ent&atilde;o! E &agrave; noite, s&oacute;, na larga<br \/>\n    cama francesa, sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores,<br \/>\n    palpites de viuvez.<br \/>\n    N&atilde;o estava acostumada, n&atilde;o podia estar s&oacute;. At&eacute;<br \/>\n    se lembram de chamar a tia Patroc&iacute;nio, uma velha parenta pobre que<br \/>\n    vivia em Bel&eacute;m: ao menos era algu&eacute;m: mas receou aborrecer-se<br \/>\n    mais ao p&eacute; da sua longa figura de vi&uacute;va tacituma, sempre a fazer<br \/>\n    meia, com grandes &oacute;culos de&#8217; tartaruga sobre o nariz de &aacute;guia.<br \/>\n    Naquela manh&atilde; pensam em Leopoldina, toda contente de ir tagarelar,<br \/>\n    rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em colete e saia branca:<br \/>\n    a camisinha decotada descobria os ombros alvos duma redondeza macia, o colo<br \/>\n    branco e tenro, azulado de veiazinhas finas; e os seus bra&ccedil;os redondinhos,<br \/>\n    um pouco vermelhos no cotovelo, descobriam por baixo, quando se erguiam prendendo<br \/>\n    as tran&ccedil;as, fiozinhos louros, frisando e fazendo ninho.<br \/>\n    A sua pele conservava ainda o rosado &uacute;mido da &aacute;gua fria: havia<br \/>\n    no quarto um cheiro agudo de vinagre de toilette: os transparentes de linho<br \/>\n    branco descidos davam uma luz ba&ccedil;a, com tons de leite.<br \/>\n    Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! Que o que<br \/>\n    tinha gra&ccedil;a era ir surpreend&ecirc;-lo a &Eacute;vora, cair-lhe no<br \/>\n    Tabaquinho, um dia, &agrave;s tr&ecirc;s horas! E quando ele entrasse empoeirado<br \/>\n    e encalmado, de lunetas azuis, atirar-se-lhe ao pesco&ccedil;o! E &agrave;<br \/>\n    tardinha, pelo bra&ccedil;o dele, ainda quebrada da jornada, com um vestido<br \/>\n    fresco, ir ver a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito.<br \/>\n    Os homens vinham &agrave;s portas das lojas. Quem seria? &Eacute; de Lisboa.<br \/>\n    &Eacute; a do engenheiro. &#8212; E diante do toucador, apertando o comete<br \/>\n    do vestido, sota &agrave;quelas imagina&ccedil;&otilde;es, e ao seu rosto,<br \/>\n    no espelho.<br \/>\n    A porta do quarto rangeu devagarinho.<br \/>\n    &#8212; Quem &eacute;?<br \/>\n    A voz de Juliana, plangente, disse:<br \/>\n    &#8212; A senhora d&aacute; licen&ccedil;a que eu v&aacute; logo ao m&eacute;dico?<br \/>\n    &#8212; V&aacute;, mas n&atilde;o se demore. Puxe-me essa saia atr&aacute;s.<br \/>\n    Mais. O que &eacute; que voc&ecirc; tem?<br \/>\n    &#8212; Enj&ocirc;os, minha senhora, peso no cora&ccedil;&atilde;o. Passei<br \/>\n    a noite em claro.<br \/>\n    Estava mais amarela, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia um vestido<br \/>\n    de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabelos velhos.<br \/>\n    &#8212; Pois sim, v&aacute; &#8212; disse Lu&iacute;sa. &#8212; Mas arranje<br \/>\n    tudo antes. E n&atilde;o se demore, hein?<br \/>\n    Juliana subiu logo &agrave; cozinha. Era no segundo andar, com duas janelas<br \/>\n    de sacada para as traseiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do fog&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Diz que sim, Sr&ordf; Joana, &#8212; disse &agrave; Cozinheira &#8212;<br \/>\n    que podia ir. Vou-me vestir. Ela tamb&eacute;m est&aacute; quase pronta. Fica<br \/>\n    vossemec&ecirc; com a casa por Sua!<br \/>\n    A cozinheira fez-se vermelha, P&ocirc;s-se a cantar, foi logo sacudir, estender<br \/>\n    na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos n&atilde;o deixavam, defronte,<br \/>\n    uma casa baixa, pintada de amarelo, com um portal largo, &#8212; a loja de<br \/>\n    marceneiro do tio Jo&atilde;o Galho, onde trabalhava o Pedro, o seu amante.<br \/>\n    A pobre Joana &#8220;babava-se&#8221; por ele. Era um rapazola p&aacute;lido<br \/>\n    e afadistado; Joana era minhota, de Avintes, de fam&iacute;lia de lavrador,<br \/>\n    e aquela figura delgada de lisboeta an&ecirc;mico seduzia-a com uma viol&ecirc;ncia<br \/>\n    abrasada. Como n&atilde;o podia sair &agrave; semana, metia-o em casa, pela<br \/>\n    porta de tr&aacute;s, quando estava s&oacute;; estendia ent&atilde;o na varanda,<br \/>\n    para dar sinal, o velho tapete desbotado, onde ainda se percebiam os paus<br \/>\n    de um veado.<br \/>\n    Era uma rapariga muito forte, com peitos de ama, o cabelo como azeviche, todo<br \/>\n    lustroso do &oacute;leo de am&ecirc;ndoas doces. Tinha a testa curta de pleb&eacute;ia<br \/>\n    teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o olhar mais negro.<br \/>\n    &#8212; Ai! &#8212; Suspirou Juliana &#8212; A Sr. a Joana &eacute; que a<br \/>\n    leva!<br \/>\n    A rapariga ficou escarlate.<br \/>\n    Mas Juliana acudiu logo:<br \/>\n    &#8212; Olha o mal! Fosse eu! Boa! Faz muito bem!<br \/>\n    Juliana lisonjeava sempre a cozinheira; dependia dela; Joana dava-lhe caldinhos<br \/>\n    &agrave;s horas de debilidade ou, quando ela estava mais adoentada, fazia-lhe<br \/>\n    um bife &agrave;s escondidas da senhora. Juliana tinha um grande medo de cair<br \/>\n    em fraqueza&#8221;, e a cada momento precisava tomar a &#8220;sust&acirc;ncia&#8221;.<br \/>\n    Decerto como feia e solteirona detestava aquele &#8220;esc&acirc;ndalo do<br \/>\n    carpinteiro&#8221;; mas protegia-o porque ele valia muitos regalos aos seus<br \/>\n    fracos de gulosa.<br \/>\n    &#8212; Fosse eu! &#8212; repetiu &#8212; dava-lhe o melhor da panela! Se<br \/>\n    a gente ia a ter escr&uacute;pulos por causa dos amos, boa! Olha quem! V&ecirc;em<br \/>\n    urna pessoa a morrer, e &eacute; como se fosse um c&atilde;o&#8230;<br \/>\n    E com um risinho amargo:<br \/>\n    Diz que me n&atilde;o demorasse no m&eacute;dico&#8230; E corno quem diz: cura-te<br \/>\n    depressa ou espicha depressa!<br \/>\n    Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:<br \/>\n    &#8212; Todas o mesmo, uma r&eacute;cua!<br \/>\n    Desceu, come&ccedil;ou a varrer o corredor -&#8212; Toda a noite estivera<br \/>\n    doente; o quarto no s&oacute;t&atilde;o, debaixo das telhas, muito abafado,<br \/>\n    com um cheiro de tijolo cozido, dava-lhe enj&ocirc;os, faltas de ar, desde<br \/>\n    o come&ccedil;o do ver&atilde;o; na v&eacute;spera at&eacute; vomitara! E<br \/>\n    j&aacute; levantada &agrave;s seis horas, n&atilde;o descansara, limpando,<br \/>\n    engomando, despejando, com a pontada no lado e todo o est&ocirc;mago embrulhado!<br \/>\n    &#8212; Tinha escancarado a cancela, e com grandes ais, atirava vassouradas<br \/>\n    furiosas contra as grades do corrim&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; A Sr.a D. Lu&iacute;sa est&aacute; em casa?<br \/>\n    Voltou-se. Nos &uacute;ltimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe<br \/>\n    pareceu &#8220;estrangeiro&#8221;. Era trigueiro, alto, tinha um bigode levantado,<br \/>\n    um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos resplandecia.<br \/>\n    &#8212; A senhora vai sair &#8212; disse ela olhando-o muito. &#8212; Faz<br \/>\n    favor de dizer quem &eacute;?<br \/>\n    O indiv&iacute;duo sorriu.<br \/>\n    &#8212; Diga-lhe que &eacute; um sujeito para um neg&oacute;cio. Um neg&oacute;cio<br \/>\n    de minas.<br \/>\n    Lu&iacute;sa diante do toucador, j&aacute; de chap&eacute;u, metia numa casa<br \/>\n    do corpete dois bot&otilde;es de rosa-ch&aacute;.<br \/>\n    &#8212; Um neg&oacute;cio! &#8212; disse muito surpreendida. &#8212; Deve<br \/>\n    ser algum recado para o Sr. Jorge, decerto! Mande entrar. Que esp&eacute;cie<br \/>\n    de homem &eacute;?<br \/>\n    &#8212; Um janota!<br \/>\n    Lu&iacute;sa desceu o v&eacute;u branco, cal&ccedil;ou devagar as luvas de<br \/>\n    peau de su&egrave;de claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata<br \/>\n    de renda, e abriu a porta da sala. Mas quase recuou; fez ah! toda escarlate.<br \/>\n    Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bas&iacute;lio.<br \/>\n    Houve um shake-hands demorado, um pouco tr&ecirc;mulo. Estavam ambos calados:<br \/>\n    &#8212; ela com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; ele fitando-a muito,<br \/>\n    com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas vieram logo, muito precipitadamente:<br \/>\n    &#8212; Quando tinha ele chegado? Se sabia que ele estava em Lisboa? Como<br \/>\n    soubera a morada dela?<br \/>\n    Chegara na v&eacute;spera no paquete de Bord&eacute;us. Perguntara no minist&eacute;rio;<br \/>\n    disseram-lhe que Jorge estava no Alentejo, deram-lhe a adresse&#8230;<br \/>\n    &#8212; Como tu est&aacute;s mudada, Santo Deus!<br \/>\n    &#8212; Velha?<br \/>\n    &#8212; Bonita!<br \/>\n    &#8212; Ora!<br \/>\n    E ele, que tinha feito? Demorava-se?<br \/>\n    Foi abrir uma janela, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Ele no sof&aacute;<br \/>\n    muito languidamente; ela ao p&eacute;, pousada de leve &agrave; beira de uma<br \/>\n    poltrona, toda nervosa.<br \/>\n    Tinha deixado o degredo &#8212; disse ele. &#8212; Viera respirar um pouco<br \/>\n    &agrave; velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma.<br \/>\n    O &uacute;ltimo ano passara-o em Paris. Vinha de l&aacute;, daquela aldeola<br \/>\n    de Paris. &#8212; Falava devagar, recostado, com um ar &iacute;ntimo, estendendo<br \/>\n    sobre o tapete, comodamente, os seus sapatos de verniz.<br \/>\n    Lu&iacute;sa olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabelo preto<br \/>\n    anelado havia agora alguns fios brancos; mas o bigode pequeno tinha o antigo<br \/>\n    ar mo&ccedil;o, orgulhoso e intr&eacute;pido; os olhos, quando ria, a mesma<br \/>\n    do&ccedil;ura amolecida, banhada num fluido. Reparou na ferradura de p&eacute;rola<br \/>\n    da sua gravata de cetim preto, nas pequeninas estrelas brancas bordadas nas<br \/>\n    suas meias de seda. A Bahia n&atilde;o o vulgarizara. Voltava mais interessante!<br \/>\n    &#8212; Mas tu, conta-me de ti! &#8212; dizia ele com um sorriso, inclinado<br \/>\n    para ela. &#8212; &Eacute;s feliz, tens um pequerrucho&#8230;<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &#8212; exclamou Lu&iacute;sa rindo &#8212; n&atilde;o<br \/>\n    tenho! Quem te disse?<br \/>\n    &#8212; Tinham-me dito. E teu marido demora-se?<br \/>\n    &#8212; Tr&ecirc;s, quatro semanas, creio.<br \/>\n    Quatro semanas! Era uma viuvez! Ofereceu-se logo para a vir ver mais vezes,<br \/>\n    palrar uni momento, pela manh&atilde;&#8230;<br \/>\n    &#8212; Pudera n&atilde;o! &Eacute;s o &uacute;nico parente que tenho agora&#8230;<br \/>\n    Era verdade!&#8230; E a conversa&ccedil;&atilde;o tomou uma intimidade melanc&oacute;lica;<br \/>\n    falaram da m&atilde;e de Lu&iacute;sa, a tia Joj&oacute;, como lhe chamava<br \/>\n    Bas&iacute;lio. Lu&iacute;sa contou a sua morte, muito doce, na poltrona,<br \/>\n    sem um ar&#8230;<br \/>\n    &#8212; Onde est&aacute; sepultada? &#8212; perguntou Bas&iacute;lio com uma<br \/>\n    voz grave; e acrescentou, puxando o punho da camisa de chita: &#8212; Est&aacute;<br \/>\n    no nosso jazigo?<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;.<br \/>\n    &#8212; Hei de ir l&aacute;. Pobre tia Joj&oacute;!<br \/>\n    Houve um sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    &#8212; Mas tu ias sair! &#8212; disse Bas&iacute;lio de repente, querendo<br \/>\n    erguer-se.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o! &#8212; exclamou. &#8212; N&atilde;o! Estava aborrecida,<br \/>\n    n&atilde;o tinha nada que fazer. Ia tomar ar. N&atilde;o saio, j&aacute;.<br \/>\n    Ele ainda disse:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o te prendas&#8230;<br \/>\n    &#8212; Que tolice! Ia &agrave; casa de uma amiga passar um momento.<br \/>\n    Tirou logo o chap&eacute;u; naquele movimento, os bra&ccedil;os erguidos repuxaram<br \/>\n    o corpete justo, as formas do seio acusaram-se suavemente.<br \/>\n    Bas&iacute;lio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descal&ccedil;am<br \/>\n    as luvas:<br \/>\n    &#8212; Era eu antigamente quem te cal&ccedil;ava e descal&ccedil;ava as luvas&#8230;<br \/>\n    Lembras-te?&#8230; Ainda tenho esse privil&eacute;gio exclusivo, creio eu&#8230;<br \/>\n    Ela riu.<br \/>\n    &#8212; Decerto que n&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio disse ent&atilde;o, lentamente, fitando o ch&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Ah! Outros tempos!<br \/>\n    E p&ocirc;s-se a falar de Colares: a sua primeira id&eacute;ia, mal chegara,<br \/>\n    tinha sido tomar uma tip&oacute;ia e ir l&aacute;; queria ver a quinta; ainda<br \/>\n    existiria o balou&ccedil;o debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanch&atilde;o<br \/>\n    de rosinhas brancas, ao p&eacute; do Cupido de gesso que tinha uma asa quebrada?&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brasileiro; sobre<br \/>\n    a estrada havia um mirante com um teto chin&ecirc;s, ornado de bolas de vidro;<br \/>\n    e a velha casa morgada fora reconstru&iacute;da e mobilada pelo Gard&eacute;.<br \/>\n    &#8212; A nossa pobre sala de bilhar, cor de oca, com grinaldas de rosas!<br \/>\n    disse Bas&iacute;lio; e fitando-a: &#8212; Lembras-te das nossas partidas<br \/>\n    de bilhar?<br \/>\n    Lu&iacute;sa, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos<br \/>\n    para ele; disse sorrindo:<br \/>\n    &#8212; &Eacute;ramos duas crian&ccedil;as!<br \/>\n    Bas&iacute;lio encolheu tristemente os ombros, fitou as ramagens do tapete;<br \/>\n    parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:<br \/>\n    &#8212; Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!<br \/>\n    Ela via a sua cabe&ccedil;a bem-feita, desca&iacute;da naquela melancolia<br \/>\n    das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabelos brancos &#8212;<br \/>\n    que lhe dera a separa&ccedil;&atilde;o. Sentia tamb&eacute;m uma vaga saudade<br \/>\n    encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janela, como para dissipar<br \/>\n    na luz viva e forte aquela perturba&ccedil;&atilde;o. Perguntou-lhe ent&atilde;o<br \/>\n    pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.<br \/>\n    Fora sempre o seu desejo viajar, &#8212; dizia &#8212; ir ao Oriente. Quereria<br \/>\n    andar em caravanas, balou&ccedil;ada no dorso dos camelos; e n&atilde;o teria<br \/>\n    medo, nem do deserto, nem das feras&#8230;<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;s muito valente! &#8212; disse Bas&iacute;lio. &#8212;<br \/>\n    Tu eras uma maricas, tinhas medo de tudo&#8230; At&eacute; da adega, na casa do<br \/>\n    pap&aacute;, em Almada!<br \/>\n    Ela corou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterr&acirc;nea<br \/>\n    que dava arrepios! A candeia de azeite pendurada na parede alumiava com uma<br \/>\n    luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de teias de aranha, e a<br \/>\n    fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia ali &agrave;s vezes, pelos cantos,<br \/>\n    beijos furtados&#8230;<br \/>\n    Quis saber ent&atilde;o o que tinha feito em Jerusal&eacute;m; se era bonito.<br \/>\n    Era curioso. Ia pela manh&atilde; um bocado ao Santo Sepulcro; depois do almo&ccedil;o<br \/>\n    montava a cavalo&#8230; N&atilde;o se estava mal no hotel; inglesas bonitas&#8230;<br \/>\n    Tinha algumas intimidades ilustres&#8230;<br \/>\n    Falava delas, devagar, tra&ccedil;ando a perna; o seu amigo o patriarca de<br \/>\n    Jerusal&eacute;m, a sua velha amiga a princesa de La Tour d&#8217;Auvergne!<br \/>\n    Mas o melhor do dia era de tarde &#8212; dizia &#8212; no Jardim das Oliveiras,<br \/>\n    vendo defronte as muralhas do templo de Salom&atilde;o, ao p&eacute; a aldeia<br \/>\n    escura de Bet&acirc;aia onde Marta fiava aos p&eacute;s de Jesus, e mais longe,<br \/>\n    faiscando im&oacute;vel sob o sol, o Mar Morto! E ali passava sentado num<br \/>\n    banco, fumando tranq&uuml;ilamente o seu cachimbo!<br \/>\n    Se tinha corrido perigos?<\/p>\n<p>Decerto. Uma tempestade de areia no deserto de Petra! Horr&iacute;vel! Mas<br \/>\n    que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua toilette;<br \/>\n    uma manta de pele de camelo &agrave;s listras vermelhas e pretas, um punhal<br \/>\n    de Damasco numa cinta de Bagd&aacute;, e a lan&ccedil;a comprida dos bedu&iacute;nos.<br \/>\n    &#8212; Devia-te ficar bem!<br \/>\n    &#8212; Muito bem. Tenho fotografias.<br \/>\n    Prometeu-lhe dar-lhe uma, e acrescentou:<br \/>\n    &#8212; Sabes que te trago presentes?<br \/>\n    &#8212; Trazes? &#8212; E os seus olhos brilhavam.<br \/>\n    O melhor era um ros&aacute;rio&#8230;<br \/>\n    &#8212; Um ros&aacute;rio?<br \/>\n    &#8212; Uma rel&iacute;quia! Foi benzido primeiro pelo patriarca de Jerusal&eacute;m<br \/>\n    sobre o t&uacute;mulo de Cristo, depois pelo papa&#8230;<br \/>\n    Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito asseado, j&aacute; todo<br \/>\n    branquinho, vestido de branco, muito am&aacute;vel!<br \/>\n    &#8212; Tu dantes n&atilde;o eras muito devota &#8212; disse.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o sou muito caturra nessas coisas &#8212; respondeu<br \/>\n    rindo.<br \/>\n    &#8212; Lembras-te da capela da nossa casa em Aliada?<br \/>\n    Tinham passado ali lindas tardes! Ao p&eacute; da velha capela morgada havia<br \/>\n    um adro todo cheio de altas ervas floridas, &#8212; e as papoulas, quando<br \/>\n    vinha a aragem, agitavam-se como asas vermelhas de borboletas pousadas&#8230;<br \/>\n    &#8212; E a tua, lembras-te, onde eu fazia gin&aacute;stica?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o falemos no que l&aacute; vai!<br \/>\n    Em que queria ela ent&atilde;o que ele falasse? Era a sua mocidade, o melhor<br \/>\n    que tivera na vida&#8230;<br \/>\n    Ela sorriu, perguntou:<br \/>\n    &#8212; E no Brasil?<br \/>\n    Um horror! At&eacute; fizera a corte a uma mulata.<br \/>\n    &#8212; E por que te n&atilde;o casaste?&#8230;<br \/>\n    Estava a mangar! Uma mulata!<br \/>\n    &#8212; E de resto &#8212; acrescentou com a voz de um arrependimento triste<br \/>\n    &#8212; j&aacute; que me n&atilde;o casei quando devia, &#8212; encolheu os<br \/>\n    ombros melancolicamente &#8212; acabou-se&#8230; Perdi a vez. Ficarei solteiro.<br \/>\n    Lu&iacute;sa fez-se escarlate. Houve um sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    &#8212; E qual &eacute; o outro presente, ent&atilde;o, al&eacute;m do ros&aacute;rio?<br \/>\n    &#8212; Ah! Luvas. Luvas de ver&atilde;o, de peau de su&egrave;de, de oito<br \/>\n    bot&otilde;es. Luvas decentes. Voc&ecirc;s aqui usam umas luvitas de dois<br \/>\n    bot&otilde;es, a ver-se o punho, um horror!<br \/>\n    De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam pior!<br \/>\n    Era atroz! N&atilde;o dizia por ela; at&eacute; aquele vestido tinha chic,<br \/>\n    era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em Paris! Que deliciosas,<br \/>\n    que frescas as toilettes daquele ver&atilde;o! Oh! mas em Paris!&#8230; Tudo &eacute;<br \/>\n    superior! Por exemplo, desde que chegara ainda n&atilde;o pudera comer. Positivamente<br \/>\n    n&atilde;o podia comer! &#8212; S&oacute; em Paris se come &#8212; resumiu.<br \/>\n    Lu&iacute;sa voltava entre os dedos o seu medalh&atilde;o de ouro, preso ao<br \/>\n    pesco&ccedil;o por uma fita de veludo preto.<br \/>\n    &#8212; E estiveste ent&atilde;o um ano em Paris?<br \/>\n    Um ano divino. Tinha um apartamento lind&iacute;ssimo, que pertencera a Lord<br \/>\n    Falmouth, Rue Saint Florentin; tinha tr&ecirc;s cavalos&#8230;<br \/>\n    E recostando-se muito, com as m&atilde;os nos bolsos:<br \/>\n    &#8212; Enfim, fazer este vale de l&aacute;grimas o mais confort&aacute;vel<br \/>\n    poss&iacute;vel!&#8230; Dize c&aacute;, tens algum retrato nesse medalh&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; O retrato de meu marido.<br \/>\n    &#8212; Ah! deixa ver!<br \/>\n    Lu&iacute;sa abriu o medalh&atilde;o. Ele debru&ccedil;ou-se; tinha o rosto<br \/>\n    quase sobre o peito dela. Lu&iacute;sa sentia o aroma fino que vinha de seus<br \/>\n    cabelos.<br \/>\n    &#8212; Muito bem, muito bem! &#8212; fez Bas&iacute;lio.<br \/>\n    Ficaram calados.<br \/>\n    &#8212; Que calor que est&aacute;! &#8212; disse Lu&iacute;sa. &#8212; Abafa-se,<br \/>\n    hein!<br \/>\n    Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidra&ccedil;a. O sol deixara a varanda.<br \/>\n    Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinelas.<br \/>\n    &#8212; E o calor do Brasil &#8212; disse ele. &#8212; Sabes que est&aacute;s<br \/>\n    mais crescida?<br \/>\n    Lu&iacute;sa estava de p&eacute;. O olhar de Bas&iacute;lio corria-lhe as<br \/>\n    linhas do corpo; e com a voz muito &iacute;ntima, os cotovelos sobre os joelhos,<br \/>\n    o rosto erguido para ela:<br \/>\n    &#8212; Mas, francamente, dize c&aacute;, pensaste que eu te viria ver?<br \/>\n    &#8212; Ora essa! Realmente, se n&atilde;o viesses zangava-me. Es o meu &uacute;nico<br \/>\n    parente&#8230; O que tenho pena &eacute; que meu marido n&atilde;o esteja&#8230;<br \/>\n    &#8212; Eu &#8212; acudiu Bas&iacute;lio &#8212; foi justamente por ele n&atilde;o<br \/>\n    estar&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa fez-se escarlate. Bas&iacute;lio emendou logo, um pouco corado<br \/>\n    tamb&eacute;m:<br \/>\n    &#8212; Quero dizer&#8230; Talvez ele saiba que houve entre n&oacute;s&#8230;<br \/>\n    Ela interrompeu:<br \/>\n    &#8212; Tolices! &Eacute;ramos duas crian&ccedil;as. Onde isso vai!<br \/>\n    &#8212; Eu tinha vinte e sete anos &#8212; observou ele, curvando-se.<br \/>\n    Ficaram calados, um pouco embara&ccedil;ados. Bas&iacute;lio cofiava o bigode,<br \/>\n    olhando vagamente em redor.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;s muito bem instalada aqui &#8212; disse.<br \/>\n    N&atilde;o estava mal&#8230; A casa era pequena, mas muito c&ocirc;moda. Pertencia-lhes.<br \/>\n    &#8212; Ah! Est&aacute;s perfeitamente! Quem &eacute; esta senhora, com uma<br \/>\n    luneta de ouro?<br \/>\n    E indicava o retrato por cima do sof&aacute;.<br \/>\n    &#8212; A m&atilde;e de meu marido.<br \/>\n    &#8212; Ah! vive ainda?<br \/>\n    &#8212; Morreu.<br \/>\n    &#8212; E o que uma sogra pode fazer de mais am&aacute;vel&#8230;<br \/>\n    Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito agu&ccedil;ados,<br \/>\n    e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chap&eacute;u.<br \/>\n    &#8212; J&aacute;? Onde est&aacute;s?<br \/>\n    &#8212; No Hotel Central. E at&eacute; quando?<br \/>\n    &#8212; At&eacute; quando quiseres. N&atilde;o disseste que vinhas amanh&atilde;<br \/>\n    com o ros&aacute;rio?<br \/>\n    Ele tomou-lhe a m&atilde;o, curvou-se:<br \/>\n    &#8212; J&aacute; n&atilde;o se pode dar um beijo na m&atilde;o de uma velha<br \/>\n    prima?<br \/>\n    &#8212; Por que n&atilde;o?<br \/>\n    Pousou-lhe um beijo na m&atilde;o, muito longo, com uma press&atilde;o doce.<br \/>\n    &#8212; Adeus! &#8212; disse.<br \/>\n    E a porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se:<br \/>\n    &#8212; Sabes que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo,<br \/>\n    como se vai isto passar?<br \/>\n    &#8212; Isto qu&ecirc;? Vermo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste<br \/>\n    tu?<br \/>\n    Ele hesitou, sorriu:<br \/>\n    &#8212; Imaginei que n&atilde;o eras t&atilde;o boa rapariga. Adeus. Amanh&atilde;,<br \/>\n    hein?<br \/>\n    No fundo da escada acendeu o charuto, devagar.<br \/>\n    &#8212; Que bonita que ela est&aacute;! &#8212; pensou.<br \/>\n    E arremessando o f&oacute;sforo, com for&ccedil;a:<br \/>\n    &#8212; E eu, peda&ccedil;o de asno, que estava quase decidido a n&atilde;o<br \/>\n    a vir ver! Est&aacute; de apetite! Est&aacute; muito melhor! E sozinha em<br \/>\n    casa; aborrecidinha talvez!&#8230;<br \/>\n    Ao p&eacute; da Patriarcal fez parar um coup&eacute; vazio; e estendido, com<br \/>\n    o chap&eacute;u nos joelhos, enquanto a parelha esfalfada trotava:<br \/>\n    &#8212; E tem-me o ar de ser muito asseada, coisa rara na terra! As m&atilde;os<br \/>\n    muito bem tratadas! O p&eacute; muito bonito!<br \/>\n    Revia a pequenez do p&eacute;, p&ocirc;s-se a fazer por ele o desenho mental<br \/>\n    de outras belezas, despindo-a, querendo adivinh&aacute;-la&#8230; A amante que<br \/>\n    deixara em Paris era muito alta e magra, de uma eleg&acirc;ncia de t&iacute;sica;<br \/>\n    quando se decotava viam-se as sali&ecirc;ncias das suas primeiras costelas.<br \/>\n    E as formas redondinhas de Lu&iacute;sa decidiram-no:<br \/>\n    &#8212; A ela! &#8212; exclamou com apetite. &#8212; A ela, como S. Tiago,<br \/>\n    aos mouros!<br \/>\n    Lu&iacute;sa, quando o sentiu embaixo fechar a porta da rua, entrou no quarto,<br \/>\n    atirou o chap&eacute;u para a causeuse, e foi-se logo ver ao espelho. Que<br \/>\n    felicidade estar vestida! Se ele a tivesse apanhado em roup&atilde;o, ou mal<br \/>\n    penteada! &#8230; Achou-se muito afogueada, cobriu-se de p&oacute;-de-arroz. Foi<br \/>\n    &agrave; janela, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda nas casas fronteiras.<br \/>\n    Sentia-se cansada. &Agrave;quelas horas Leopoldina estava a jantar j&aacute;,<br \/>\n    decerto&#8230; Pensou em escrever a Jorge &#8220;para matar o tempo&#8221;, mas<br \/>\n    veio-lhe uma pregui&ccedil;a; estava tanto calor! Depois n&atilde;o tinha<br \/>\n    que lhe dizer! Come&ccedil;ou ent&atilde;o a despir-se devagar diante do espelho,<br \/>\n    olhando-se muito, gostando de se ver branca, acariciando a finura da pele,<br \/>\n    com bocejos l&acirc;nguidos de um cansa&ccedil;o feliz. &#8212; Havia sete<br \/>\n    anos que n&atilde;o via o primo Bas&iacute;lio! Estava mais trigueiro, mais<br \/>\n    queimado; mas ia-lhe bem!<br \/>\n    E depois de jantar ficou junto &agrave; janela, estendida na voltaire, com<br \/>\n    um livro esquecido no rega&ccedil;o. O vento ca&iacute;ra e o ar, de um azul<br \/>\n    forte nas alturas, estava im&oacute;vel; a poeira grossa pousara; a tarde<br \/>\n    tinha uma transpar&ecirc;ncia calma de luz; p&aacute;ssaros chilreavam na<br \/>\n    figueira-brava; da serralheria pr&oacute;xima sa&iacute;a o martelar cont&iacute;nuo<br \/>\n    e sonoro de folhas de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente,<br \/>\n    laivos de cor de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas.<br \/>\n    Depois tudo se cobriu de uma sombra difusa, calada e quente, com uma estrelinha<br \/>\n    muito viva que luzia e tremia. E Lu&iacute;sa deixara-se ficar na votraire<br \/>\n    esquecida, absorvida, sem pedir luz.<br \/>\n    &#8212; Que vida interessante a do primo Bas&iacute;lio! &#8212; pensava.<br \/>\n    &#8212; O que ele tinha visto! Se ela pudesse tamb&eacute;m fazer as suas<br \/>\n    malas, partir, admirar aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes,<br \/>\n    cascatas reluzentes! Como desejaria visitar os paises que conhecia dos romances<br \/>\n    &#8212; a Esc&oacute;cia e os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus pal&aacute;cios<br \/>\n    tr&aacute;gicos; aportar &agrave;s ba&iacute;as, onde um mar luminoso e faiscante<br \/>\n    morre na areia fulva; e das cabanas dos pescadores, de teto chato, onde vivem<br \/>\n    as Grazielas, ver azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris!<br \/>\n    Paris sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria decerto; eram pobres; Jorge era<br \/>\n    caseiro, t&atilde;o lisboeta!<br \/>\n    Como seria o patriarca de Jerusal&eacute;m? Imaginava-o de longas barbas brancas,<br \/>\n    recamado de ouro, entre instrumenta&ccedil;&otilde;es solenes e rolos de incenso!<br \/>\n    E a princesa de La Tour d&#8217;Auv&eacute;rgne? Devia ser bela, de uma estatura<br \/>\n    real, vivia cercada de pajens, namorara-se de Bas&iacute;lio. &#8212; A noite<br \/>\n    escurecia, outras estrelas luziam. &#8212; Mas de que servia viajar, enjoar<br \/>\n    nos paquetes, bocejar nos vag&otilde;es, e, numa dilig&ecirc;ncia muito sacudida,<br \/>\n    cabecear de sono pela serra nas madrugadas frias? N&atilde;o era melhor viver<br \/>\n    num bom conforto, com um marido terno, uma casinha abrigada, colch&otilde;es<br \/>\n    macios, uma noite de teatro &agrave;s vezes, e um bom almo&ccedil;o nas manh&atilde;s<br \/>\n    claras quando os can&aacute;rios chalram? Era o que ela tinha. Era bem feliz!<br \/>\n    Ent&atilde;o veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria abra&ccedil;&aacute;-lo,<br \/>\n    t&ecirc;-lo ali, ou quando descesse ir encontr&aacute;-lo fumando o seu cachimbo<br \/>\n    no escrit&oacute;rio, com o seu jaquet&atilde;o de veludo. Tinha tudo, ele,<br \/>\n    para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era belo, com uns olhos magn&iacute;ficos,<br \/>\n    terno, fiel. N&atilde;o gostaria de um marido com uma vida sedent&aacute;ria<br \/>\n    e caturra; mas a profiss&atilde;o de Jorge era interessante; descia aos po&ccedil;os<br \/>\n    tenebrosos das minas; um dia aperrara as pistolas contra uma malta revoltada;<br \/>\n    era valente; tinha talento! Involuntariamente, por&eacute;m, o primo Bas&iacute;lio<br \/>\n    fazendo flutuar o seu bornous branco pelas plan&iacute;cies da Terra Santa,<br \/>\n    ou em Paris, direito na almofada, governando tranq&uuml;ilamente os seus cavalos<br \/>\n    inquietos &#8212; davam-lhe a id&eacute;ia de uma outra exist&ecirc;ncia mais<br \/>\n    po&amp;ica, mais pr&oacute;pria para os epis&oacute;dios do sentimento.<br \/>\n    Do c&eacute;u estrelado caia uma luz difusa; janelas alumiadas sobressa&iacute;am<br \/>\n    ao longe, abertas &agrave; noite abafada; v&ocirc;os de morcegos passavam<br \/>\n    diante da vidra&ccedil;a.<br \/>\n    &#8212; A senhora n&atilde;o quer luz? &#8212; perguntou &agrave; porta a<br \/>\n    voz fatigada de Juliana.<br \/>\n    &#8212; Ponha-a no quarto.<br \/>\n    Desceu. Bocejava muito; sentia-se quebrada.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; trovoada &#8212; pensou.<br \/>\n    Foi &agrave; sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da L&uacute;cia,<br \/>\n    da Son&acirc;mbula, o Fado; e parando, os dedos pousados de leve sobre o teclado,<br \/>\n    p&ocirc;s-se a pensar que Bas&iacute;lio devia vir no dia seguinte; vestiria<br \/>\n    o roup&atilde;o novo de foulard cor de castanho! Recome&ccedil;ou o Fado,<br \/>\n    mas os olhos cerravam-lhe.<br \/>\n    Foi para o quarto.<br \/>\n    Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinelas, com um casabeque<br \/>\n    pelos ombros, encolhida e l&uacute;gubre. Aquela figura com um<br \/>\n    ar de enfermaria irritou Lu&iacute;sa:<br \/>\n    &#8212; Credo, mulher! Voc&ecirc; parece a imagem da morte! <br \/>\n    Juliana n&atilde;o respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa,<br \/>\n    sobre a c&ocirc;moda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos:<br \/>\n    &#8212; A senhora n&atilde;o precisa mais nada, n&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; V&aacute;-se, mulher, v&aacute;!<br \/>\n    Juliana foi buscar o candeeiro de petr&oacute;leo, subiu ao quarto. Dormia<br \/>\n    em cima, no s&oacute;t&atilde;o, ao p&eacute; da cozinheira.<br \/>\n    &#8212; Pare&ccedil;o-te a imagem da morte! &#8212; resmungava, furiosa.<br \/>\n    O quarto era baixo, muito estreito, com o teto de madeira inclinado; o sol,<br \/>\n    aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado como um forno; havia<br \/>\n    sempre &agrave; noite um cheiro requentado de tijolo escandescido. Dormia<br \/>\n    num leito de ferro, sobre um colch&atilde;o de palha mole coberto de uma colcha<br \/>\n    de chita; da barra da cabeceira pendiam os seus bentinhos e a rede enxovalhada<br \/>\n    que punha na cabe&ccedil;a; ao p&eacute; tinha preciosamente a sua grande<br \/>\n    arca de pau, pintada de azul, com uma grossa fechadura. Sobre a mesa de pinho<br \/>\n    estava o espelho de gaveta, a escova de cabelos enegrecida e despelada, um<br \/>\n    pente de osso, as garrafas de rem&eacute;dio, uma velha pregadeira de cetim<br \/>\n    amarelo, e, embrulhada num jornal, a cuia de retr&oacute;s dos domingos. E<br \/>\n    o &uacute;nico adorno das paredes sujas, riscadas da cabe&ccedil;a de f&oacute;sforos,<br \/>\n    &#8212; era uma litografia de Nossa Senhora das Dores por cima da cama, e<br \/>\n    um daguerre&oacute;tipo onde se percebia vagamente, no reflexo espelhado da<br \/>\n    l&acirc;mina, os bigodes encerados e as divisas de um sargento.<br \/>\n    &#8212; A senhora j&aacute; se deitou, Sr. a Juliana? &#8212; perguntou a<br \/>\n    cozinheira do quarto pegado, de onde sa&iacute;a uma barra de luz viva cortando<br \/>\n    a escurid&atilde;o do corredor.<br \/>\n    &#8212; J&aacute; se deitou, Sr. a Joana, j&aacute;. Est&aacute; hoje com<br \/>\n    os azeites. Falta-lhe o homem!<br \/>\n    Joana, &agrave;s voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. N&atilde;o<br \/>\n    podia dormir! Abafava-se! Ufa!<br \/>\n    &#8212; Ai! E aqui! &#8212; exclamou Juliana.<br \/>\n    Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; cal&ccedil;ou<br \/>\n    as chinelas de tapete; e foi ao quarto de Joana. Mas n&atilde;o entrou, ficou<br \/>\n    &agrave; porta; era criada de dentro, evitava familiaridades. Tinha tirado<br \/>\n    a cuia, e com um Len&ccedil;o preto e amarelo amarrado na cabe&ccedil;a, o<br \/>\n    seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do cr&acirc;nio;<br \/>\n    a camisa decotada descobria as clav&iacute;culas descarnadas; a saia curta<br \/>\n    mostrava as canelas muito brancas, muito secas. E com o casabeque pelos ombros,<br \/>\n    co&ccedil;ando devagarinho os cotovelos agudos:<br \/>\n    &#8212; Diga-me c&aacute;, Sr. a Joana &#8212; disse com a voz discreta &#8212;<br \/>\n    aquele sujeito demorou-se muito? Reparou?<br \/>\n    &#8212; Tinha sa&iacute;do naquele instantinho, quando vossemec&ecirc; entrou.<br \/>\n    Ufa!<br \/>\n    Encalmada, quase descoberta, com as pernas muito abertas, Joana co&ccedil;ava-se<br \/>\n    furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos &agrave; minhota que lhe<br \/>\n    descobria os peitos. N&atilde;o podia parar com os percevejos! O raio do quarto<br \/>\n    tinha ninhos! At&eacute; sentia o est&ocirc;mago embrulhado.<br \/>\n    &#8212; Ai! &Eacute; um inferno! &#8212; disse com l&aacute;stima Juliana.<br \/>\n    &#8212; Eu s&oacute; adorme&ccedil;o com dia. Mas ainda eu agora reparo&#8230;<br \/>\n    Vossemec&ecirc; tem S. Pedro &agrave; cabeceira. &Eacute; devo&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; &Eacute; o santo do meu rapaz &#8212; disse a outra. Sentou-se na<br \/>\n    cama. Ufa! E ent&atilde;o tinha estado toda a noite com uma sede!&#8230;<br \/>\n    Saltou para o ch&atilde;o, com passadas rijas que faziam tremer o soalho,<br \/>\n    foi ao jarro, p&ocirc;-lo &agrave; boca, bebeu uma tarra&ccedil;ada. A camisa<br \/>\n    justa, feita de pouca fazenda, mostrava as formas rijas e valentes.<br \/>\n    &#8212; Pois eu fui ao m&eacute;dico &#8212; disse Juliana. E com um grande<br \/>\n    suspiro: &#8212; Ai! isso s&oacute; Deus, Senhora Joana! Isto s&oacute; Deus!<br \/>\n    Mas por que se n&atilde;o resolvia a Sr. a Juliana a ir &agrave; mulher de<br \/>\n    virtude? Era a sa&uacute;de certa. Morava ao Po&ccedil;o dos Negros; tinha<br \/>\n    ora&ccedil;&otilde;es e ung&uuml;entos para tudo. Levava meia moeda pelo preparo&#8230;<br \/>\n    &#8212; Que isso s&atilde;o humores, Sr.a Juliana. O que vossemec&ecirc; tem,<br \/>\n    s&atilde;o humores.<br \/>\n    Juliana tinha dado dois passos para dentro do quarto. Quando se tratava de<br \/>\n    doen&ccedil;as, de rem&eacute;dios, tornava-se mais familiar.<br \/>\n    &#8212; Eu j&aacute; me tenho lembrado&#8230; eu j&aacute; me tenho Lembrado de<br \/>\n    ir &agrave; mulher. Mas, meia moeda!<br \/>\n    E ficou a olhar, tristemente, refletindo.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; o que eu tenho junto para umas botinas de g&aacute;spea!<br \/>\n    Eram o seu v&iacute;cio, as botinas! Arruinava-se com elas; tinha-as de duraque<br \/>\n    com ponteiras de verniz; de cordov&atilde;o com la&ccedil;o; de pelica com<br \/>\n    pespontos de cor, embrulhadas em pap&eacute;is de seda, na arca, fechadas<br \/>\n    &#8212; guardadas para os domingos.<br \/>\n    Joana censurou-a.<br \/>\n    &#8212; Ai! eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os<br \/>\n    arrebiques!<br \/>\n    Queixou-se tamb&eacute;m da sua mis&eacute;ria. Tinha pedido &agrave; senhora<br \/>\n    um m&ecirc;s adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapo!<br \/>\n    Pelo gosto da que trazia, a desfazerem-se!<br \/>\n    &#8212; Mas, ent&atilde;o! &#8212; suspirou. &#8212; O meu rapaz precisou<br \/>\n    um dinheiro&#8230;<br \/>\n    &#8212; Vossemec&ecirc; tamb&eacute;m, Senhora Joana, deixa-se cardar pelo<br \/>\n    homem!<br \/>\n    Joana sorriu.<br \/>\n    &#8212; Ainda que eu tivesse de roer ossos, Sr&ordf; Juliana, a &uacute;ltima<br \/>\n    migalha havia de ser para ele!<br \/>\n    Juliana teve um risinho seco, e com a voz arrastada:<br \/>\n    &#8212; Vale l&aacute; a pena!<br \/>\n    Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse daquele amor, pelas suas<br \/>\n    delicias. Repetiu, contrafeita:<br \/>\n    &#8212; Vale l&aacute; a pena! Perfeito rapaz &#8212; continuou &#8212; o<br \/>\n    que veio hoje ver a senhora! Melhor que o homem!<br \/>\n    E depois de uma pausa:<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o esteve mais de duas horas?<br \/>\n    &#8212; Tinha saldo quando vossemec&ecirc; entrou.<br \/>\n    Mas o candeeiro de petr&oacute;leo apagava-se, com um cheiro f&eacute;tido<br \/>\n    e uma fumarada negra.<br \/>\n    &#8212; Boa noite, Sr. a Joana. Ainda vou rezar a minha coroa.<br \/>\n    &#8212; &Oacute; Sr&ordf; Juliana! &#8212; disse a outra de entre os len&ccedil;&oacute;is.<br \/>\n    &#8212; Se vossemec&ecirc; quer rezar tr&ecirc;s salve-rainhas pela sa&uacute;de<br \/>\n    do meu rapaz que tem estado adoentado, eu c&aacute; lhe rezava tr&ecirc;s<br \/>\n    pelas melhoras do peito.<br \/>\n    &#8212; Pois sim, Sr.a Joana!<br \/>\n    Mas refletindo:<br \/>\n    &#8212; Olhe. Eu do peito vou melhor; d&ecirc;-mas antes para al&iacute;vio<br \/>\n    das dores de cabe&ccedil;a. A Santa Engr&aacute;cia!<br \/>\n    &#8212; Como vossemec&ecirc; quiser, Sr&ordf; Juliana.<br \/>\n    &#8212; Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe a&iacute; um cheiro! Credo!<br \/>\n    Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor mole e cont&iacute;nuo cala<br \/>\n    do forro; come&ccedil;ou a faltar-lhe o ar; tornou a abrir o postigo, mas<br \/>\n    o bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a: e era assim todas as noites,<br \/>\n    desde o come&ccedil;o do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam de bicharia!<br \/>\n    Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto pior. Nunca!<br \/>\n    A cozinheira come&ccedil;ou a ressonar ao lado. E acordada, &agrave;s voltas,<br \/>\n    com afli&ccedil;&otilde;es no cora&ccedil;&atilde;o, Juliana sentia a vida<br \/>\n    pesar-lhe, com uma amargura maior!<br \/>\n    Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua m&atilde;e<br \/>\n    fora engomadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, a quem<br \/>\n    chamavam na vizinhan&ccedil;a &#8212; o fidalgo, a quem sua m&atilde;e chamava<br \/>\n    &#8212; o senhor D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no ver&atilde;o,<br \/>\n    no inverno de manh&atilde;, para a saleta onde sua m&atilde;e engomava, e<br \/>\n    ali estava horas sentado no poial da janela que dava para um quintalejo, fumando<br \/>\n    cachimbo, cofiando em sil&ecirc;ncio um enorme bigode preto. Como o poial<br \/>\n    era de pedra, punha-lhe em cima, com muito m&eacute;todo, uma almofada de<br \/>\n    vento, que ele mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena<br \/>\n    de veludo castanho e chap&eacute;u alto branco. As seis horas levantava-se,<br \/>\n    esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as cal&ccedil;as para cima,<br \/>\n    e sa&iacute;a, com a sua grossa bengala de cana-da-&iacute;ndia debaixo do<br \/>\n    bra&ccedil;o, gingando da cinta. Ela e sua m&atilde;e iam ent&atilde;o jantar<br \/>\n    na mesinha de pinho da cozinha debaixo de um postigo, diante do qual se balou&ccedil;avam,<br \/>\n    de ver&atilde;o e de inverno, galhos magros de uma &aacute;rvore triste.<br \/>\n    &Agrave; noite o senhor D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua m&atilde;e<br \/>\n    fazia-lhe ch&aacute; e torradas, servia-o, toda enlevada nele. Muitas vezes<br \/>\n    Juliana a vira chorar de ci&uacute;mes.<br \/>\n    Um dia uma vizinha m&aacute;, a quem ela n&atilde;o quisera ajudar a lavar<br \/>\n    a roupa, enfureceu-se, e atirando-lhe inj&uacute;rias dos degraus da porta,<br \/>\n    &#8212; gritou-lhe que sua m&atilde;e era uma desavergonhada, e que seu pai<br \/>\n    estava na &Aacute;frica por ter morto o Rei de Copas!<br \/>\n    Pouco tempo depois foi servir. Sua m&atilde;e morreu da&iacute; a meses, com<br \/>\n    uma doen&ccedil;a de &uacute;tero. Juliana s&oacute; uma vez tornou a ver<br \/>\n    o senhor D. Augusto, &#8212; uma tarde, com uma opa roxa, l&uacute;gubre,<br \/>\n    na prociss&atilde;o de Passos!<br \/>\n    Servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de amos, mas n&atilde;o mudava<br \/>\n    de sorte. Vinte anos a dormir em cacifos, a levantar-se de madrugada, a comer<br \/>\n    os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repel&otilde;es das crian&ccedil;as<br \/>\n    e as m&aacute;s palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital<br \/>\n    quando vinha a doen&ccedil;a, a esfalfar-se quando voltava a sa&uacute;de!&#8230;<br \/>\n    Era demais! Tinha agora dias em que s&oacute; de ver o balde das &aacute;guas<br \/>\n    sujas e o ferro de engomar se lhe embrulhava o est&ocirc;mago. Nunca se acostumara<br \/>\n    a servir. Desde rapariga a sua ambi&ccedil;&atilde;o fora ter um negociozito,<br \/>\n    uma tabacaria, uma loja de capelista ou de quinquilharias, dispor, governar,<br \/>\n    ser patroa; mas, apesar de economias mesquinhas e de c&aacute;lculos s&ocirc;fregos,<br \/>\n    o mais que conseguira juntar foram sete moedas ao fim de anos; tinha ent&atilde;o<br \/>\n    adoecido; com o horror do hospital fora tratar-se para casa de uma parenta;<br \/>\n    e o dinheiro, ai! derretera-se! No dia em que se trocou a &uacute;ltima libra,<br \/>\n    chorou horas com a cabe&ccedil;a debaixo da roupa.<br \/>\n    Ficou sempre adoentada desde ent&atilde;o; perdeu toda a esperan&ccedil;a<br \/>\n    de se estabelecer. Teria de servir at&eacute; ser velha, sempre, de amo em<br \/>\n    amo! Essa certeza dava-lhe uma desconsola&ccedil;&atilde;o constante. Come&ccedil;ou<br \/>\n    a azedar-se.<br \/>\n    E depois n&atilde;o tinha jeito, n&atilde;o sabia tirar partido das casas;<br \/>\n    via companheiras divertir-se, vizinhar, janelar, bisbilhotar, sair aos domingos<br \/>\n    &agrave;s hortas e aos retiros; levar o dia cantando, e quando as patroas<br \/>\n    iam ao teatro, abrir a porta aos derri&ccedil;os &#8212; e patuscar pelos<br \/>\n    quartos! Ela n&atilde;o. Sempre fora embezerrada. Fazia a sua obriga&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando n&atilde;o passeava,<br \/>\n    encostava-se a uma janela, com o len&ccedil;o sobre o peitoril para n&atilde;o<br \/>\n    ro&ccedil;ar as mangas, e ali estava im&oacute;vel, a olhar, com o seu broche<br \/>\n    de filigrana e a cuja dos dias santos! Outras companheiras eram muito das<br \/>\n    amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fora as hist&oacute;rias<br \/>\n    da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e para dentro e para fora, muito<br \/>\n    confidentes, &#8212; muito presenteadas tamb&eacute;m! Ela n&atilde;o podia.<br \/>\n    Era minha senhora isto! Minha senhora aquilo! E cada uma no seu lugar! Era<br \/>\n    g&ecirc;nio!<br \/>\n    Desde que servia, apenas entrava numa casa sentia logo, num relance, a hostilidade,<br \/>\n    a malqueren&ccedil;a; a senhora falava-lhe com secura, de longe; as crian&ccedil;as<br \/>\n    tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam chalrando, calavam-se, mal<br \/>\n    a sua figura esguia aparecia; punham-lhe alcunhas &#8212; a isca seca, a fava<br \/>\n    torrada, o saca-rolhas; imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos,<br \/>\n    cochichos pelos cantos; e s&oacute; tinha encontrado alguma simpatia nos galegos<br \/>\n    taciturnos, cheios de uma saudade morrinhenta, que v&ecirc;m de manh&atilde;<br \/>\n    quando ainda os quartos est&atilde;o escuros, com as suas grossas passadas,<br \/>\n    encher os barris, engraxar o cal&ccedil;ado.<br \/>\n    Lentamente, come&ccedil;ou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste;<br \/>\n    tinha respostadas, quest&otilde;es com as companheiras; n&atilde;o se havia<br \/>\n    de deixar p&ocirc;r o p&eacute; no pesco&ccedil;o!<br \/>\n    As antipatias que a cercavam faziam-na assanhada, como um c&iacute;rculo de<br \/>\n    espingardas enraivece um lobo. Fez-se m&aacute;; beliscava crian&ccedil;as<br \/>\n    at&eacute; lhes enodoar a pele; e se lhe ralhavam, a sua c&oacute;lera rompia<br \/>\n    em rajadas. Come&ccedil;ou a ser despedida. Num s&oacute; ano esteve em tr&ecirc;s<br \/>\n    casas. &#8212; Sa&iacute;a com esc&acirc;ndalo, aos gritos, atirando as portas,<br \/>\n    deixando as amas todas p&aacute;lidas, todas nervosas&#8230;<br \/>\n    A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Vit&oacute;ria, disse-lhe:<br \/>\n    &#8212; Tu acabas por n&atilde;o ter onde te arrumar, e falta-te o bocado<br \/>\n    do p&atilde;o!<br \/>\n    O p&atilde;o! Aquela palavra que &eacute; o terror, o sonho, a dificuldade<br \/>\n    do pobre assustou-a. Era fina, e dominou-se. Come&ccedil;ou a fazer-se &#8220;uma<br \/>\n    pobre mulher&#8221;, com afeta&ccedil;&otilde;es de zelo, um ar de sofrer<br \/>\n    tudo, os olhos no ch&atilde;o. Mas ro&iacute;a-se por dentro; veio-lhe a inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nervosa dos m&uacute;sculos da face, o tique de franzir o nariz; a pele esverdeou-se-lhe<br \/>\n    de b&iacute;lis.<br \/>\n    A necessidade de se constranger trouxe-lhe o h&aacute;bito de odiar; odiou<br \/>\n    sobretudo as patroas, com um &oacute;dio irracional e pueril. Tivera-as ricas,<br \/>\n    com palacetes; e pobres, mulheres de empregados, velhas e raparigas, col&eacute;ricas<br \/>\n    e pacientes; &#8212; odiava-as a todas, sem diferen&ccedil;a. E patroa e basta!<br \/>\n    Pela mais simples palavra, pelo ato mais trivial! Se as via sentadas: &#8212;<br \/>\n    Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via sair: &#8212; Vai-te,<br \/>\n    a negra c&aacute; fica no buraco! Cada riso delas era uma ofensa &agrave;<br \/>\n    sua tristeza doentia; cada vestido novo uma afronta ao seu velho vestido de<br \/>\n    merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos e nas prosperidades da<br \/>\n    casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham um dia de contrariedade, ou via<br \/>\n    as caras tristes, cantarolava todo o dia em voz de falsete a Carta adorada!<br \/>\n    Com que gosto trazia a conta retardada de um credor impaciente, quando pressentia<br \/>\n    embara&ccedil;os na casa! &#8220;Este papel! &#8212; gritava com uma voz estridente<br \/>\n    &#8212; diz que n&atilde;o se vai embora sem uma resposta!&#8221; Todos os<br \/>\n    lutos a deleitavam &#8212; e sob o xale preto, que lhe tinham comprado, tinha<br \/>\n    palpita&ccedil;&otilde;es de regozijo. Tinha visto morrer criancinhas, e nem<br \/>\n    a afli&ccedil;&atilde;o das m&atilde;es a comovera; encolhia os ombros: &#8220;Vai<br \/>\n    dali, vai fazer outro. Cabra!&#8221;<br \/>\n    As boas palavras mesmo, as condescend&ecirc;ncias eram perdidas com ela, como<br \/>\n    gotas de &aacute;gua lan&ccedil;adas no fogo. Resumia as patroas na mesma<br \/>\n    palavra &#8212; uma r&eacute;cua! E detestava as boas pelos vexames que sofrera<br \/>\n    das m&aacute;s. A ama era para ela o Inimigo, o Tirano. Tinha visto morrer<br \/>\n    duas, &#8212; e de cada vez sentira, sem saber por qu&ecirc;, um vago al&iacute;vio,<br \/>\n    como se uma por&ccedil;&atilde;o do vasto peso, que a sufocava na vida, se<br \/>\n    tivesse desprendido e evaporado!<br \/>\n    Sempre fora invejosa; com a idade aquele sentimento exagerou-se de um modo<br \/>\n    &aacute;spero. Invejara tudo na casa: as sobremesas que os amos comiam, a<br \/>\n    roupa-branca que vestiam. As noites de soir&eacute;e, de teatro, exasperavam-na.<br \/>\n    Quando havia passeios projetados, se chovia de repente, que felicidade! O<br \/>\n    aspecto das senhoras vestidas e de chap&eacute;u, olhando por dentro da vidra&ccedil;a<br \/>\n    com um t&eacute;dio infeliz, deliciava-a, fazia-a loquaz:<br \/>\n    &#8212; Ai minha senhora! &Eacute; um temporal desfeito. &Eacute; a c&acirc;ntaros;<br \/>\n    est&aacute; para todo o dia! Olha o ferro!<br \/>\n    E muito curiosa; era f&aacute;cil encontr&aacute;-la, de repente, cosida por<br \/>\n    detr&aacute;s de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar agu&ccedil;ado.<br \/>\n    Qualquer carta que vinha era revirada, cheirada&#8230; Remexia sutilmente em todas<br \/>\n    as gavetas abertas; vasculhava em todos os pap&eacute;is atirados. Tinha um<br \/>\n    modo de andar ligeiro e surpreendedor. Examinava as visitas. Andava &agrave;<br \/>\n    busca de um segredo, de um bom segredo! Se lhe ca&iacute;a um nas m&atilde;os!<br \/>\n    Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de petiscos,<br \/>\n    de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho avermelhado seguia<br \/>\n    avidamente as por&ccedil;&otilde;es cortadas &agrave; mesa; e qualquer bom<br \/>\n    apetite que repetia exasperava-a, como uma diminui&ccedil;&atilde;o da sua<br \/>\n    pane. De comer sempre os restos ganhara o ar aguado, &#8212; o seu cabelo<br \/>\n    tomara tons secos, cor de rato. Era lambareira; gostava de vinho; em certos<br \/>\n    dias comprava uma garrafa de oitenta r&eacute;is, e bebia-a s&oacute;, fechada,<br \/>\n    repimpada, com estalos da l&iacute;ngua, a orla do vestido um pouco erguida,<br \/>\n    revendo-se no p&eacute;.<br \/>\n    E nunca tivera um homem; era virgem. Fora sempre feia, ningu&eacute;m a tentara;<br \/>\n    e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, n&atilde;o se oferecera,<br \/>\n    como vira muitas, claramente, O &uacute;nico homem que a olhara com desejo<br \/>\n    tinha sido um criado de cavalari&ccedil;a, atarracado e imundo, de aspecto<br \/>\n    fac&iacute;nora; a sua magreza, a sua cuia, o seu ar domingueiro tinham excitado<br \/>\n    o bruto. Fitava-a com um ar de buldogue. Causara-lhe horror, &#8212; mas vaidade.<br \/>\n    E o primeiro homem por quem ela sentira, uni criado bonito e alourado, rira-se<br \/>\n    dela, pusera-lhe o nome de Isca seca! N&atilde;o contou mais com os homens,<br \/>\n    por despeito, por desconfian&ccedil;a de si mesma. As rebeli&otilde;es da<br \/>\n    natureza, sufocava-as; eram fogachos, flatos. Passavam. Mas faziam-na mais<br \/>\n    seca e a falta daquela grande consola&ccedil;&atilde;o agravava a mis&eacute;ria<br \/>\n    da sua vida.<br \/>\n    Um dia teve, enfim, uma grande esperan&ccedil;a. Entrara para o servi&ccedil;o<br \/>\n    da Sr&ordf; D. Virg&iacute;nia Lemos, uma vi&uacute;va rica, tia de Jorge,<br \/>\n    muito doente, quase a morrer com um catarro de bexiga. A tia Vit&oacute;ria,<br \/>\n    a inculcadeira, preveniu-a:<br \/>\n    &#8212; Tu trata a velha, apaparica-a, que ela o que quer &eacute; uma enfermeira<br \/>\n    que a sofra. &Eacute; rica, n&atilde;o &eacute; nada apegada ao dinheiro;<br \/>\n    &eacute; capaz de te deixar uma independ&ecirc;ncia!<br \/>\n    Durante um ano Juliana, ro&iacute;da de ambi&ccedil;&atilde;o, foi a enfermeira<br \/>\n    da velha. Que zelos! Que mimos!<br \/>\n    Virg&iacute;nia era muito rabujenta; a id&eacute;ia de morrer enfurecia-a;<br \/>\n    quanto mais ela ralhava com a sua voz gutural, mais Juliana se fazia servi&ccedil;al.<br \/>\n    A velha, por fim, estava enternecida, gabava-a &agrave;s pessoas que a vinham<br \/>\n    ver, chamava-lhe a sua provid&ecirc;ncia. Tinha-a recomendado muito a Jorge.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o h&aacute; outra! N&atilde;o h&aacute; outra! &#8212; exclamava.<br \/>\n    &#8212; Pois apanhaste &#8212; dizia-lhe a tia Vit&oacute;ria. &#8212; Pelo<br \/>\n    menos deixa-te o teu conto de r&eacute;is.<br \/>\n    Um conto de r&eacute;is! Juliana, de noite, enquanto a velha gemia no seu<br \/>\n    antigo leito de pau-santo, via o conto de r&eacute;is &agrave; claridade m&oacute;rbida<br \/>\n    que dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgot&aacute;vel e prodigioso.<br \/>\n    Que faria com o dinheiro? E, &agrave; cabeceira da doente, com um cobertor<br \/>\n    pelos ombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de capelista!<br \/>\n    Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um conto de r&eacute;is<br \/>\n    era um dote, poderia casar, teria um homem!<br \/>\n    Estavam acabadas as canseiras. Ia jantar, enfim, o seu jantar! Mandar, enfim,<br \/>\n    a sua criada! A sua criada! Via-se a cham&aacute;-la, a dizer-lhe, de cima<br \/>\n    para baixo: &#8212; Fa&ccedil;a, v&aacute;, despeje, saia! &#8212; Tinha contra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    no est&ocirc;mago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe andassem<br \/>\n    direitas! Desmazelos, m&aacute;s respostas, n&atilde;o havia de sofrer a criadas!<br \/>\n    &#8212; E, impelida por aquelas imagina&ccedil;&otilde;es, arrastava sutilmente<br \/>\n    as chinelas pelo quarto, falando s&oacute;. N&atilde;o, desmazelos, n&atilde;o<br \/>\n    havia de sofrer! Mant&ecirc;-las bem, decerto, porque quem trabalha precisa<br \/>\n    meter para dentro! Mas havia de lho tirar do corpo. Ah! l&aacute; isso, haviam<br \/>\n    de lhe andar direitas&#8230; &#8212; A velha tinha ent&atilde;o um gemido mais<br \/>\n    aflito.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; agora! &#8212; pensava. &#8212; Morre!<br \/>\n    E o seu olhar ansioso ia logo para a gaveta da c&ocirc;moda, onde estava decerto<br \/>\n    o dinheiro, os pap&eacute;is. Mas n&atilde;o! a velha queria beber, ou voltar-se&#8230;<br \/>\n    <br \/>\n    &#8212; Como se sente? &#8212; perguntava Juliana, com uma voz plangente.<br \/>\n    &#8212; Melhor, Juliana, melhor &#8212; murmurava.<br \/>\n    Supunha-se sempre melhor.<br \/>\n    &#8212; Mas a senhora tem estado desinquieta! &#8212; dizia Juliana, despeitada<br \/>\n    da melhora.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &#8212; suspirava &#8212; dormi bem!<br \/>\n    &#8212; ISSO n&atilde;o tem dormido&#8230; Tehho-a ouvido gemer! Tem estado toda<br \/>\n    a noite a gemer!<br \/>\n    Queria argumentar com ela! Convenc&ecirc;-la que estava pior! Convencer-se<br \/>\n    a si mesma que o al&iacute;vio era ef&ecirc;mero, que ia morrer depressa!<br \/>\n    E todas as manh&atilde;s seguia o Dr. Pinto at&eacute; &agrave; porta, com<br \/>\n    os bra&ccedil;os cruzados, a face triste:<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o, senhor doutor, n&atilde;o h&aacute; esperan&ccedil;a?<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; por dias!<br \/>\n    Queria saber os dias: dois? Cinco?<br \/>\n    &#8212; Sim, Senhora Juliana &#8212; dizia o velho, cal&ccedil;ando as suas<br \/>\n    luvas pretas &#8212; uns dias, sete, oito&#8230;<br \/>\n    &#8212; Oito dias!<br \/>\n    E como a felicidade se aproximava, j&aacute; tinha de olho tr&ecirc;s pares<br \/>\n    de botinas que vira na vidra&ccedil;a do Manuel Louren&ccedil;o!<br \/>\n    A velha, enfim, morreu. Nem a mencionava no testamento!<br \/>\n    Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados dela com a tia Virg&iacute;nia,<br \/>\n    pagou-lhe um quarto no hospital, e prometeu tom&aacute;-la para criada de<br \/>\n    dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar.<br \/>\n    Quando saiu do hospital para casa de Jorge, come&ccedil;ava a queixar-se mais<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o. Vinha desiludida de tudo; tinha &agrave;s vezes<br \/>\n    vontade de morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus ais. Lu&iacute;sa<br \/>\n    achava-a f&uacute;nebre.<br \/>\n    Quis despedi-la ao fim de duas semanas, Jorge n&atilde;o consentiu; estava<br \/>\n    em d&iacute;vida com ela, dizia. Mas Lu&iacute;sa n&atilde;o podia disfar&ccedil;ar<br \/>\n    a sua antipatia; e Juliana come&ccedil;ou a detest&aacute;-la; p&ocirc;s-lhe<br \/>\n    logo um nome: a piorrinha! Depois, da&iacute; a semanas, viu vir os estofadores;<br \/>\n    renovava-se a mob&iacute;lia da sala! A tia Virg&iacute;nia deixara tr&ecirc;s<br \/>\n    contos de r&eacute;is a Jorge, &#8212; e ela, ela que durante um ano fora<br \/>\n    a enfermeira, humilde como um c&atilde;o e fixa como uma sombra, aturando<br \/>\n    o mostrengo, tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas,<br \/>\n    das canseiras! Julgava-se vagamente roubada. Come&ccedil;ou a odiar a casa.<br \/>\n    Tinha para isso muitas raz&otilde;es, dizia; dormia num cub&iacute;culo abafado;<br \/>\n    ao jantar n&atilde;o lhe davam vinho, nem sobremesa; o servi&ccedil;o dos<br \/>\n    engomados era pesado; Jorge e Lu&iacute;sa tomavam banho todos os dias, e<br \/>\n    era um trabalh&atilde;o encher, despejar todas as manh&atilde;s as largas<br \/>\n    bacias de folha; achava despropositada aquela mania de se porem a chafurdar<br \/>\n    todos os dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos e nunca<br \/>\n    vira semelhante desprop&oacute;sito! A &uacute;nica vantagem &#8212; dizia<br \/>\n    ela &agrave; tia Vit&oacute;ria &#8212; era n&atilde;o haver pequenos; tinha<br \/>\n    horror a crian&ccedil;as! Al&eacute;m disso achava que o bairro era saud&aacute;vel;<br \/>\n    e como tinha a cozinheira &#8220;na m&atilde;o&#8221;, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade? Havia aquele regalo dos caldinhos, de algum prato melhor de vez em<br \/>\n    quando! Por isso ficava; se n&atilde;o, n&atilde;o era ela!<br \/>\n    Fazia no entanto o seu servi&ccedil;o; ningu&eacute;m tinha nada que lhe dizer.<br \/>\n    O olho aberto sempre e o ouvido &agrave; escuta, j&aacute; se v&ecirc;! E<br \/>\n    como perdera a esperan&ccedil;a de se estabelecer, n&atilde;o se sujeitava<br \/>\n    ao rigor de economizar; por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas,<br \/>\n    de vez em quando; e satisfazia o seu vicio, &#8212; trazer o p&eacute; catita.<br \/>\n    O p&eacute; era o seu orgulho, a sua mania, a sua despesa. Tinha-o bonito<br \/>\n    e pequenino.<br \/>\n    &#8212; Como poucos &#8212; dizia ela &#8212; n&atilde;o vai Outro ao Passeio!<br \/>\n    E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lan&ccedil;ava-o muito<br \/>\n    para fora. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio P&uacute;blico,<br \/>\n    e ali, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de seda,<br \/>\n    estar a tarde inteira na poeira, no calor, im&oacute;vel, feliz, &#8212; a<br \/>\n    mostrar-se, a expor o p&eacute;!<\/p>\n<h2><a name=\"4\">CAP&Iacute;TULO 4<\/a><\/h2>\n<p>Pelas tr&ecirc;s horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para<br \/>\n    uma cadeira, derreada. N&atilde;o se tinha nas pernas de debilidade! Desde<br \/>\n    as duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta<br \/>\n    na v&eacute;spera at&eacute; deixara cinza de tabaco por cima das mesas! A<br \/>\n    negra &eacute; que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ufa!<br \/>\n    &#8212; O caldinho h&aacute; de estar pronto, hein! &#8212; disse, adocicando<br \/>\n    a voz.<br \/>\n    &#8212; Tira-mo, Senhora Joana, faz favor?<br \/>\n    &#8212; Vossemec&ecirc; hoje est&aacute; com outra cara &#8212; notou a cozinheira.<br \/>\n    &#8212; Ai! Sinto-me outra, Sr. a Joana! Pois olhe que adormeci com dia. J&aacute;<br \/>\n    luzia o dia!<br \/>\n    &#8212; E eu! &#8212; Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma cor de fogo<br \/>\n    a passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na boca do est&ocirc;mago,<br \/>\n    como quem pisava uvas num lagar!<br \/>\n    &#8212; Enfartamento &#8212; disse sentenciosamente Juliana, e repetiu:<br \/>\n    &#8212; Pois eu sinto-me outra. H&aacute; meses que me n&atilde;o sinto t&atilde;o<br \/>\n    bem!<br \/>\n    Sorria com os seus dentes amarelados, O caldo que Joana deitava na malga branca,<br \/>\n    com um vapor cheiroso, cheio de hortali&ccedil;a, dava-lhe uma alegria gulosa.<br \/>\n    Estendeu os p&eacute;s, recostou-se, feliz, na boa sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janelas abertas.<br \/>\n    O sol retirara-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, plantas<br \/>\n    pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor; sobre uma t&aacute;bua a<br \/>\n    um canto, numa velha panela bojuda, verdejava um p&eacute; de salsa muito<br \/>\n    tratado; o gato dormia sobre um esteir&atilde;o; esfreg&otilde;es secavam<br \/>\n    numa corda; e para al&eacute;m alargava-se o azul vivo como um metal candente,<br \/>\n    as &aacute;rvores dos quintais tinham tons ardentes do sol, os telhados pardos<br \/>\n    com as suas vegeta&ccedil;&otilde;es esguias coziam no calor; e peda&ccedil;os<br \/>\n    de paredes caiadas despediam uma rebrilha&ccedil;&atilde;o dura.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; de apetite, Sr. a Joana, est&aacute; de apetite! &#8212;<br \/>\n    dizia Juliana, remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de p&eacute;,<br \/>\n    com os bra&ccedil;os cruzados sobre o seu peito abundante, regozijava-se:<br \/>\n    &#8212; O que se quer &eacute; que esteja a gosto.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; a preceito.<br \/>\n    Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras. &#8212; E a campainha<br \/>\n    da porta que j&aacute; tinha tocado, tornou a tilintar discretamente.<br \/>\n    Juliana n&atilde;o se mexeu. Bafos de aragem quente entravam; ouvia-se ferver<br \/>\n    a panela no fog&atilde;o, e fora o martelar incessante da forja; &agrave;s<br \/>\n    vezes o arrulhar triste de duas rolas que viviam na varanda, numa gaiola de<br \/>\n    vime, punha na tarde abrasada uma sensa&ccedil;&atilde;o de suavidade.<br \/>\n    A campainha retilintou, sacudida com impaci&ecirc;ncia.<br \/>\n    &#8212; Com a cabe&ccedil;a, burro! &#8212; disse Juliana.<br \/>\n    Riram. Joana fora sentar-se &agrave; janela, numa cadeira baixa; estendia<br \/>\n    os seus grossos p&eacute;s, cal&ccedil;ados de chinelas de ourelo; co&ccedil;ava-se<br \/>\n    devagarinho, no sovaco, toda repousada.<br \/>\n    A campainha retiniu violentamente.<br \/>\n    &#8212; Fora, besta! &#8212; rosnou Juliana, muito tranq&uuml;ila.<br \/>\n    Mas a voz irritada de Lu&iacute;sa chamou debaixo:<br \/>\n    &#8212; Juliana!<br \/>\n    &#8212; Que nem uma pessoa pode tomar a sust&acirc;ncia sossegada! Raio de<br \/>\n    casa! Irra!<br \/>\n    &#8212; Juliana! &#8212; gritou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    A cozinheira voltou-se, j&aacute; assustada:<br \/>\n    &#8212; A senhora zanga-se, Sr. a Juliana.<br \/>\n    &#8212; Que a leve o diabo!<br \/>\n    Limpou os bei&ccedil;os gordurosos ao avental, desceu furiosa.<br \/>\n    &#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o ouve, mulher? Est&atilde;o a bater h&aacute;<br \/>\n    uma hora!<br \/>\n    Juliana arregalou os olhos espantada; Lu&iacute;sa tinha vestido O roup&atilde;o<br \/>\n    novo de foulard cor de castanho, com pintinhas amarelas!<br \/>\n    &#8212; Temos novidade! Temo-la grossa! &#8212; pensou Juliana pelo corredor.<br \/>\n    A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao peito,<br \/>\n    um embrulho debaixo do bra&ccedil;o, estava o sujeito do neg&oacute;cio das<br \/>\n    minas!<br \/>\n    &#8212; Aquele sujeito de ontem! &#8212; veio dizer, toda pasmada.<br \/>\n    &#8212; Mande entrar&#8230;<br \/>\n    &#8212; Viva! &#8212; pensou.<br \/>\n    Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de j&uacute;bilo:<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; c&aacute; o peralta de ontem! Est&aacute; c&aacute; outra<br \/>\n    vez! Traz um embrulho! &#8212; Que lhe parece, Senhora Joana? Que lhe parece?<br \/>\n    &#8212; Visitas&#8230; &#8212; disse a cozinheira.<br \/>\n    Juliana teve um risinho seco. Sentou-se, acabou o seu caldo, &agrave; pressa.<br \/>\n    Joana indiferente cantarolava pela cozinha; o arrulhar das rolas continuava<br \/>\n    langoroso e d&eacute;bil.<br \/>\n    &#8212; Pois, senhores, isto vai rico! &#8212; disse Juliana.<br \/>\n    Esteve um momento a limpar os dentes com a l&iacute;ngua, o olhar fixo, refletindo.<br \/>\n    Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Lu&iacute;sa; o seu olhar esquadrinhador<br \/>\n    avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas da despensa; podia subir,<br \/>\n    beber um trago de bom vinho, engolir dois ladrilhos de marmelada&#8230; Mas possu&iacute;a-a<br \/>\n    uma curiosidade urgente, e, em bicos de p&eacute;s, foi agachar-se &agrave;<br \/>\n    porta que dava para a sala, espreitou. O reposteiro estava corrido por dentro;<br \/>\n    podia apenas sentir a voz grossa e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor,<br \/>\n    &agrave; outra porta, ao p&eacute; da escada; p&ocirc;s o olho &agrave; fechadura,<br \/>\n    colou o ouvido &agrave; frincha. O reposteiro dentro estava tamb&eacute;m<br \/>\n    cerrado.<br \/>\n    &#8212; Os diabos calafetaram-se! &#8212; pensou.<br \/>\n    Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma vidra&ccedil;a.<br \/>\n    Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Lu&iacute;sa sobressaiu; em seguida<br \/>\n    um sil&ecirc;ncio; e as vozes recome&ccedil;aram num tom sereno e cont&iacute;nuo.<br \/>\n    De repente o sujeito ergueu a fala, e entre as palavras que dizia, de p&eacute;<br \/>\n    decerto, passeando, Juliana ouviu claramente: Tu, foste tu!<br \/>\n    &#8212; Oh que b&ecirc;bada!<br \/>\n    Um tlintlim t&iacute;mido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era<br \/>\n    Sebasti&atilde;o, muito vermelho do sol, com as botas cheias de p&oacute;.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;? &#8212; perguntou, limpando a testa suada.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; com uma visita, Senhor Sebasti&atilde;o!<br \/>\n    E cerrando a porta sobre si, mas baixo:<br \/>\n    &#8212; Um rapaz novo que j&aacute; esteve ontem, um janota! Quer que v&aacute;<br \/>\n    dizer?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o, obrigado, adeus.<br \/>\n    Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se &agrave; porta, a<br \/>\n    orelha contra a madeira, as m&atilde;os atr&aacute;s das costas; mas a conversa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sem sali&ecirc;ncia de vozes, tinha um rumor tranq&uuml;ilo e indistinto.<br \/>\n    Subiu &agrave; cozinha.<br \/>\n    &#8212; Tratam-se por tu! &#8212; exclamou. &#8212; Tratam-se por tu, Senhora<br \/>\n    Joana!<br \/>\n    E muito excitada:<br \/>\n    &#8212; Isto vai &agrave; vela! C&aacute;spite! Assim &eacute; que eu gosto<br \/>\n    delas!<br \/>\n    O sujeito saiu &agrave;s cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a porta,<br \/>\n    veio a correr; viu Lu&iacute;sa no patamar, debru&ccedil;ada no corrim&atilde;o,<br \/>\n    dizendo para baixo, com muita intimidade:<br \/>\n    &#8212; Bem, n&atilde;o falto. Adeus.<br \/>\n    Ficou ent&atilde;o tomada de uma curiosidade que a alterava como uma febre.<br \/>\n    Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Lu&iacute;sa com<br \/>\n    olhares de lado. Mas Lu&iacute;sa, com um roup&atilde;o de linho mais velho,<br \/>\n    parecia serena, muito indiferente.<br \/>\n    &#8212; Que sonsa!<br \/>\n    Aquela naturalidade despertava a sua bisbilhotice.<br \/>\n    &#8212; Eu hei de te apanhar, desavergonhada; &#8212; calculava.<br \/>\n    Afigurou-se-lhe que Lu&iacute;sa tinha os olhos um pouco pisados. Estudava-lhe<br \/>\n    as posi&ccedil;&otilde;es, os tons de voz. Viu-a repetir o assado, &#8212;<br \/>\n    pensou logo:<br \/>\n    &#8212; Abriu-lhe o apetite!<br \/>\n    E quando Lu&iacute;sa ao fim do jantar se estendeu na voltaire com um ar quebrado:<br \/>\n    &#8212; Ficou derreada.<br \/>\n    Lu&iacute;sa que nunca tomava caf&eacute;, quis nessa tarde &#8220;meia ch&aacute;vena,<br \/>\n    mas forte, muito forte&#8221;.<br \/>\n    &#8212; Quer caf&eacute;! &#8212; veio ela dizer &agrave; cozinheira, toda<br \/>\n    excitada. &#8212; Tudo &agrave; grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo!<br \/>\n    Estava furiosa.<br \/>\n    &#8212; Todas o mesmo! Uma r&eacute;cua de cabras!<br \/>\n    Ao outro dia era domingo. Logo pela manh&atilde; cedo, quando Juliana ia para<br \/>\n    a missa, Lu&iacute;sa chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta para<br \/>\n    levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado; e a curiosidade de<br \/>\n    Juliana acendeu-se logo diante daquele sobrescrito fechado e lacrado com o<br \/>\n    sinete de Lu&iacute;sa, um L g&oacute;tico dentro de uma coroa de rosas.<br \/>\n    &#8212; Tem resposta?<br \/>\n    &#8212; Tem.<br \/>\n    Quando voltou &agrave;s dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Lu&iacute;sa<br \/>\n    quis saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um chap&eacute;u<br \/>\n    de palha escuro, que ela estivera a enfeitar com duas rosas de musgo.<br \/>\n    Fazia um bocadinho de vento, mas para a tarde abrandava, decerto. E pensou<br \/>\n    logo: &#8212; Temos passeata, vai ter com o gajo!<br \/>\n    Mas durante todo o dia, Lu&iacute;sa em roup&atilde;o n&atilde;o saiu do seu<br \/>\n    quarto ou da sala, ora estendida na causeuse lendo aos bocados, ora batendo<br \/>\n    distraidamente no piano peda&ccedil;os de valsas. Jantou &agrave;s quatro<br \/>\n    horas. A cozinheira saiu, e Juliana p&ocirc;s-se a passar a sua tarde &agrave;<br \/>\n    janela da sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de goma,<br \/>\n    a cuia dos dias santos &#8212; e pousava solenemente os cotovelos num len&ccedil;o,<br \/>\n    estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os p&aacute;ssaros chilreavam<br \/>\n    na figueira-brava. Dos dois lados do tabique que cercava o terreno vago, agachavam-se<br \/>\n    os tetos escuros das duas ruazitas paralelas; eram casas pobres onde viviam<br \/>\n    mulheres, que pela tarde, em chambre ou de garib&aacute;ldi, os cabelos muito<br \/>\n    oleosos, faziam meia &agrave; janela, falando aos homens, cantarolando com<br \/>\n    um t&eacute;dio triste. Do outro lado do terreno, verduras de quintais, muros<br \/>\n    brancos davam &agrave;quele s&iacute;tio um ar adormecido de vila pacata.<br \/>\n    Quase ningu&eacute;m passava. Havia um sil&ecirc;ncio fatigado; e s&oacute;<br \/>\n    &agrave;s vezes o som distante de uru realejo, que tocava a Norma ou a L&uacute;cia,<br \/>\n    punha uma melancolia na tarde. &#8212; E Juliana ali estava im&oacute;vel,<br \/>\n    at&eacute; que os tons quentes da tarde empalideciam, e os morcegos come&ccedil;avam<br \/>\n    a voar.<br \/>\n    Pelas oito horas entrou no quarto de Lu&iacute;sa, &#8212; ficou pasmada de<br \/>\n    a ver vestida toda de preto, de chap&eacute;u! Tinha acendido as serpentinas<br \/>\n    na parede, os casti&ccedil;ais no toucador; e sentada &agrave; beira da causeuse<br \/>\n    cal&ccedil;ava as luvas devagar, com a face muito s&eacute;ria, um pouco esbatida<br \/>\n    de p&oacute;-de-arroz, o olhar cheio de brilho.<br \/>\n    &#8212; O vento abrandou? &#8212; disse.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; a noite muito bonita, minha senhora.<br \/>\n    Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou &agrave; porta. Era D. Felicidade,<br \/>\n    muito encalmada. Abafara todo o dia! E &agrave; noite nem uma aragem! At&eacute;<br \/>\n    tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que num coup&eacute;, credo,<br \/>\n    morria-se.<br \/>\n    Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? Onde iriam?<br \/>\n    D. Felicidade, amplamente sentada, de chap&eacute;u, tagarelava; uma indigest&atilde;o<br \/>\n    que tivera na v&eacute;spera com umas vagens; a cozinheira que a tinha querido<br \/>\n    &#8220;comer&#8221; em quatro vint&eacute;ns; uma visita que lhe fizera a<br \/>\n    Condessa de Arruela&#8230;<br \/>\n    Enfim, Lu&iacute;sa disse, baixando seu v&eacute;u branco:<br \/>\n    &#8212; Vamos, filha. Faz-se tarde.<br \/>\n    Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que prop&oacute;sito, irem duas mulheres<br \/>\n    s&oacute;s por ai fora, numa tip&oacute;ia! E se uma criada ent&atilde;o se<br \/>\n    demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas b&ecirc;bedas!<br \/>\n    Foi &agrave; cozinha desabafar com a Joana. Mas a rapariga, estirada numa<br \/>\n    cadeira, dormitava.<br \/>\n    Fora com o seu Pedro ao Alto de S. Jo&atilde;o. E toda a tarde tinham passeado<br \/>\n    no cemit&eacute;rio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os epit&aacute;fios,<br \/>\n    beijocando-se nos recantos que os chor&otilde;es escureciam, e regalando-se<br \/>\n    do ar dos ciprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por casa da Serena,<br \/>\n    entraram a bebericar um quartilho no Espregueira&#8230; Tarde cheia! E estava<br \/>\n    derreada da soalheira, do p&oacute;, da admira&ccedil;&atilde;o de tanto t&uacute;mulo<br \/>\n    rico, do homem, e da pinguita de vinho.<br \/>\n    O que ia, era refestelar-se para a cama!<br \/>\n    &#8212; Credo, Senhora Joana, vossemec&ecirc; est&aacute;-se a fazer uma dorminhoca!<br \/>\n    Olha que mulher! Com pouco arreia! Cruzes!<br \/>\n    Desceu ao quarto de Lu&iacute;sa, apagou as luzes, abriu as janelas, arrastou<br \/>\n    a poltrona para a varanda, &#8212; e, repimpada, os bra&ccedil;os cruzados,<br \/>\n    p&ocirc;s-se a passar a noite.<br \/>\n    O estanque alnda n&atilde;o se fechara, e a sua luzita l&uacute;gubre como<br \/>\n    a estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra mi&uacute;da da rua;<br \/>\n    as janelas ao p&eacute; estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se<br \/>\n    dentro ser&otilde;es melanc&oacute;licos; noutras, onde havia vultos im&oacute;veis,<br \/>\n    luzia &agrave;s vezes a ponta de um cigarro; aqui, al&eacute;m tossia-se,<br \/>\n    e o mo&ccedil;o do padeiro, no sil&ecirc;ncio quente da noite, harpejava baixinho<br \/>\n    a guitarra.<br \/>\n    Juliana pusera um vestido de chita claro; dois sujeitos que estavam &agrave;<br \/>\n    porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a janela, para<br \/>\n    aquele vulto branco de mulher; Juliana, ent&atilde;o, gozou! Tomavam-na decerto<br \/>\n    pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe &#8220;olho&#8221;, diziam brejeirices&#8230;<br \/>\n    Um tinha cal&ccedil;a branca e chap&eacute;u alto, eram janotas&#8230; E com os<br \/>\n    p&eacute;s muito estendidos, os bra&ccedil;os cruzados, a cabe&ccedil;a de<br \/>\n    lado, saboreava, longamente, aquela considera&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Passos fortes que subiam a rua, pararam &agrave; porta; a campainha retiniu<br \/>\n    de leve.<br \/>\n    &#8212; Quem &eacute;? &#8212; perguntou muito impaciente.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;? &#8212; disse a voz grossa de Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Saiu com a O. Felicidade; foram de carruagem.<br \/>\n    &#8212; Ah! &#8212; fez ele.<br \/>\n    E acrescentou:<br \/>\n    &#8212; Muito bonita noite!<br \/>\n    &#8212; De apetite, Senhor Sebasti&atilde;o! De apetite! &#8212; exclamou<br \/>\n    alto.<br \/>\n    E quando o viu descer a rua, gritou, afetadamente:<br \/>\n    &#8212; Recados a Joana! N&atilde;o se esque&ccedil;a! &#8212; mostrando-se<br \/>\n    &iacute;ntima, madama, com olho terno para os homens.<br \/>\n    &Agrave;quela hora D. Felicidade e Lu&iacute;sa chegavam ao Passeio.<br \/>\n    Era benef&iacute;cio; j&aacute; de fora se sentia o brouhaha lento e mon&oacute;tono,<br \/>\n    e via-se uma n&eacute;voa alta de poeira, amarelada e luminosa.<br \/>\n    Entraram. Logo ao p&eacute; do tanque encontraram Bas&iacute;lio. Fez-se muito<br \/>\n    surpreendido, exclamou:<\/p>\n<p>&#8212; Que feliz acaso!<br \/>\n    Lu&iacute;sa corou; apresentou-o a B. Felicidade.<br \/>\n    A excelente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se dele, mas se n&atilde;o<br \/>\n    lhe dissessem talvez o n&atilde;o conhecesse! Estava muito mudado!<br \/>\n    &#8212; Os trabalhos, minha senhora&#8230; &#8212; disse Bas&iacute;lio curvando-se.<br \/>\n    E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque:<br \/>\n    &#8212; E a velhice! Sobretudo a velhice!<br \/>\n    Na &aacute;gua escura e suja as luzes do g&aacute;s torciam-se at&eacute;<br \/>\n    uma grande profundidade. As folhagens em redor estavam im&oacute;veis, no<br \/>\n    ar parado, com tons de um verde l&iacute;vido e artificial. Entre os dois<br \/>\n    longos renques paralelos de &aacute;rvores mesquinhas, entremeadas de candeeiros<br \/>\n    de g&aacute;s, apertava-se, num empoeiramento de macadame, uma multid&atilde;o<br \/>\n    compacta e escura; e atrav&eacute;s do rumor grosso, as sali&ecirc;ncias met&aacute;licas<br \/>\n    da m&uacute;sica faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa.<br \/>\n    Tinham ficado parados, conversando.<br \/>\n    Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! Que enchente!<br \/>\n    E olhavam a gente que entrava: mo&ccedil;os muito frisados, com cal&ccedil;as<br \/>\n    cor de flor de alecrim, fumando cerimoniosamente os charutos do dia santo;<br \/>\n    um aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchuma&ccedil;ado; duas meninas<br \/>\n    de cabelo ri&ccedil;ado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos<br \/>\n    das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um eclesi&aacute;stico<br \/>\n    cor de cidra, o ar mole, o cigarro na boca, e lunetas defumadas; uma espanhola<br \/>\n    com dois metros de saia branca muito rija, fazendo ruge-ruge na poeira; o<br \/>\n    triste Xavier, poeta; uru fidalgo de jaquet&atilde;o e bengal&atilde;o de<br \/>\n    chap&eacute;u na nuca, o olho avinhado; e Bas&iacute;lio ria muito de dois<br \/>\n    pequenos que o pai conduzia com um ar h&iacute;lare e compenetrado &#8212;<br \/>\n    vestidos de azul-claro, a cinta ligada numa faixa escarlate, barretinas de<br \/>\n    lanceiros, botas &agrave; h&uacute;ngara, cretinos e son&acirc;mbulos.<br \/>\n    Um sujeito alto ent&atilde;o passou rente deles, e voltando-se, revirou para<br \/>\n    Lu&iacute;sa dois grandes olhos langorosos e prateados; tinha uma p&ecirc;ra<br \/>\n    longa e agu&ccedil;ada; trazia o colete decotado mostrando um belo peitilho,<br \/>\n    e fumava por uma boquilha enorme que representava um zuavo.<br \/>\n    Lu&iacute;sa quis se sentar.<br \/>\n    Um garoto de blusa, sujo como um esfreg&atilde;o, correu a arranjar cadeiras;<br \/>\n    e acomodaram-se ao p&eacute; de uma fam&iacute;lia acabrunhada e taciturna.<br \/>\n    &#8212; Que fizeste tu hoje, Bas&iacute;lio? &#8212; perguntou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Tinha ido aos touros.<br \/>\n    &#8212; E que tal? Gostaste?<br \/>\n    &#8212; Uma sensaboria. Se n&atilde;o fosse pelo trambolh&atilde;o do Peixinho<br \/>\n    tinha-se morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavaleiros infelizes, nenhuma<br \/>\n    sorte! Touros em Espanha! Isso sim!<br \/>\n    D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, quando estivera<br \/>\n    de visita em Elvas &agrave; tia Francisca de Noronha, e ia desmaiando, O sangue,<br \/>\n    as tripas dos cavalos&#8230; Puf! &Eacute; muito cruel!<br \/>\n    Bas&iacute;lio disse, com um sorriso:<br \/>\n    &#8212; Que faria se visse os combates de galos, minha senhora!<br \/>\n    D. Felicidade tinha ouvido contar, &#8212; mas achava todos esses divertimentos<br \/>\n    b&aacute;rbaros, contra a religi&atilde;o.<br \/>\n    E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda:<br \/>\n    &#8212; Para mim n&atilde;o h&aacute; nada como uma boa noite de teatro! Nada!<br \/>\n    &#8212; Mas aqui representam t&atilde;o mal! &#8212; replicou Bas&iacute;lio<br \/>\n    com uma voz desolada. &#8212; T&atilde;o mal, minha rica senhora!<br \/>\n    D. Felicidade n&atilde;o respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado<br \/>\n    de um brilho &uacute;mido, saudava desesperadamente com a m&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o me viu &#8212; disse desconsolada.<br \/>\n    &#8212; Era o Conselheiro? &#8212; perguntou Lu&iacute;sa. <br \/>\n    &#8212; N&atilde;o. Era a Condessa de Alviela. N&atilde;o me viu! Vai muito<br \/>\n    &agrave; Encarna&ccedil;&atilde;o, sou muito dela. &Eacute; um anjo! N&atilde;o<br \/>\n    me viu. Ia com o sogro.<br \/>\n    Bas&iacute;lio n&atilde;o tirava os olhos de Lu&iacute;sa. Sob o v&eacute;u<br \/>\n    branco, &agrave; luz falsa do g&aacute;s, no ar enevoado da poeira, o seu<br \/>\n    rosto tinha uma forma alva e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham<br \/>\n    uma express&atilde;o apaixonada; os cabelinhos louros, frisados, tornando<br \/>\n    a testa mais pequena, davam-lhe uma gra&ccedil;a ameninada e amorosa; e as<br \/>\n    luvas gris perle faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante<br \/>\n    das m&atilde;os, que ela pousara no rega&ccedil;o, sustentando o leque, com<br \/>\n    uma fofa renda branca em torno dos seus pulsos finos.<br \/>\n    &#8212; E tu, que fizeste hoje? &#8212; perguntou-lhe Bas&iacute;lio.<br \/>\n    Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a ler.<br \/>\n    Tamb&eacute;m ele passara a manh&atilde; deitado no sof&aacute; a ler a Mulher<br \/>\n    de fogo de Belot. Tinha lido, ela?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, que &eacute;?<br \/>\n    &#8212; &Eacute; um romance, uma novidade.<br \/>\n    E acrescentou sorrindo:<br \/>\n    &#8212; Talvez um pouco picante; n&atilde;o to aconselho!<br \/>\n    D. Felicidade andava a ler o Rocambole. Tanto lho tinham apregoado! Mas era<br \/>\n    uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se&#8230; E ia deixar, porque tinha<br \/>\n    percebido que a leitura lhe aumentava a indigest&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Sofre? &#8212; perguntou Bas&iacute;lio, com um interesse bem-educado.<br \/>\n    D. Felicidade contou logo a sua dispepsia. Bas&iacute;lio aconselhou-lhe o<br \/>\n    uso do gelo. &#8212; De resto felicitava-a, porque as doen&ccedil;as de est&ocirc;mago,<br \/>\n    ultimamente, tinham muito chie. Interessou-se pela dela, pediu pormenores.<br \/>\n    D. Felicidade prodigalizou-os; e, falando, via-se-lhe crescer no olhar, na<br \/>\n    voz a sua simpatia por Bas&iacute;lio. Havia de usar o gelo!<br \/>\n    &#8212; Com o vinho, j&aacute; se sabe?<br \/>\n    &#8212; Com o vinho, minha senhora!<br \/>\n    &#8212; E olha que talvez! &#8212; exclamou D. Felicidade, batendo com o leque<br \/>\n    no bra&ccedil;o de Lu&iacute;sa, j&aacute; esperan&ccedil;ada.<br \/>\n    Lu&iacute;sa sorriu, ia responder &#8212; mas viu o sujeito p&aacute;lido<br \/>\n    da p&ecirc;ra longa que fitava nela os seus olhos langorosos, com obstina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Voltou o rosto importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da p&ecirc;ra.<br \/>\n    Lu&iacute;sa sentia-se mole: o movimento rumoroso e mon&oacute;tono, a noite<br \/>\n    c&aacute;lida, a acumula&ccedil;&atilde;o da gente, a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de verdura em redor davam ao seu corpo de mulher caseira um torpor agrad&aacute;vel,<br \/>\n    um bem-estar de in&eacute;rcia, envolviam-na numa do&ccedil;ura emoliente<br \/>\n    de banho morno. Olhava com um vago sorriso, o olhar frouxo; quase tinha pregui&ccedil;a<br \/>\n    de mexer as m&atilde;os, de abrir o leque.<br \/>\n    Bas&iacute;lio notou o sil&ecirc;ncio. &#8212; Tinha sono?<br \/>\n    D. Felicidade sorriu com finura.<br \/>\n    &#8212; Ora, v&ecirc;-se sem o seu maridinho! Desde que o n&atilde;o tem est&aacute;<br \/>\n    esta mona que se v&ecirc;.<br \/>\n    Lu&iacute;sa respondeu, olhando Bas&iacute;lio instintivamente:<br \/>\n    &#8212; Que tolice! At&eacute; estes dias tenho andado bem alegre!<br \/>\n    Mas D. Felicidade insistia:<br \/>\n    &#8212; Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse cora&ccedil;&atilde;ozinho est&aacute;<br \/>\n    no Alentejo!<br \/>\n    Lu&iacute;sa disse, com impaci&ecirc;ncia:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o h&aacute;s de querer que me ponha aos pulos e &agrave;s<br \/>\n    gargalhadas no Passeio.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; bem, n&atilde;o te enfure&ccedil;as! &#8212; exclamou<br \/>\n    D. Felicidade. E para Bas&iacute;lio: &#8212; Que geniozinho, hein!<br \/>\n    Bas&iacute;lio p&ocirc;s-se a rir.<br \/>\n    &#8212; A prima Lu&iacute;sa antigamente era uma v&iacute;bora. Agora n&atilde;o<br \/>\n    sei&#8230;<br \/>\n    D. Felicidade acudia:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; uma pomba, coitada, &eacute; uma pomba! N&atilde;o, l&aacute;<br \/>\n    isso, &eacute; uma pomba.<br \/>\n    E envolvia-a num olhar maternal.<br \/>\n    Mas a fam&iacute;lia taciturna ergueu-se, sem ru&iacute;do, &#8212; e as meninas<br \/>\n    adiante, os pais atr&aacute;s, afastaram-se lugubremente, sucumbidos.<br \/>\n    Bas&iacute;lio imediatamente apossou-se da cadeira ao p&eacute; de Lu&iacute;sa,<br \/>\n    &#8212; e vendo D. Felicidade a olhar distra&iacute;da:<br \/>\n    &#8212; Estive para te ir ver de manh&atilde; &#8212; disse baixinho a Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Ela ergueu a voz, muito naturalmente, com indiferen&ccedil;a:<br \/>\n    &#8212; E por que n&atilde;o foste? T&iacute;nhamos feito m&uacute;sica. Fizeste<br \/>\n    mal. Devias ter ido&#8230;<br \/>\n    D. Felicidade quis ent&atilde;o saber as horas. Come&ccedil;ava a enfastiar-se.<br \/>\n    Tinha esperado encontrar o Conselheiro; por ele, para lhe parecer bem, fizera<br \/>\n    o sacrif&iacute;cio de se apertar; Ac&aacute;cio n&atilde;o vinha, os gases<br \/>\n    come&ccedil;avam a afront&aacute;-la; e o despeito daquela aus&ecirc;ncia<br \/>\n    aumentava-lhe a tortura da digest&atilde;o. Na sua cadeira, com o corpo mole,<br \/>\n    ia seguindo a multid&atilde;o que girava incessantemente, numa n&eacute;voa<br \/>\n    empoeirada.<br \/>\n    Mas a m&uacute;sica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ru&iacute;do<br \/>\n    de cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do Fausto. Aquilo reanimou-a.<br \/>\n    Era um pot-pourri da &oacute;pera, &#8212; e n&atilde;o havia m&uacute;sica<br \/>\n    de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o Senhor Bas&iacute;lio?<br \/>\n    Bas&iacute;lio disse, com uma inten&ccedil;&atilde;o, voltando-se para Lu&iacute;sa:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o sei, minha senhora, depende&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa olhava, calada. A multid&atilde;o crescera. Nas ruas laterais<br \/>\n    mais espa&ccedil;osas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das &aacute;rvores,<br \/>\n    os acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato co&ccedil;ado. Toda<br \/>\n    a burguesia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor formado<br \/>\n    pelas filas cerradas das cadeiras do asilo; e ali se movia entalada, com a<br \/>\n    lentid&atilde;o espessa de uma massa mal derretida, arrastando os p&eacute;s,<br \/>\n    raspando o macadame, num amarfanhamento plebeu, garganta seca, os bra&ccedil;os<br \/>\n    moles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, para cima e para baixo,<br \/>\n    com um bamboleamento relaxado e um rumor grosso, sem alegria e sem bonomia,<br \/>\n    no arrebanhamento passivo que agrada &agrave;s ra&ccedil;as mandrionas; no<br \/>\n    meio da abund&acirc;ncia das luzes e das festividades da m&uacute;sica, um<br \/>\n    t&eacute;dio morno circulava, penetrava como uma n&eacute;voa; a poeirada<br \/>\n    fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e nos rostos que passavam<br \/>\n    sob os candeeiros, nas zonas mais diretas de luz, viam-se desconsola&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de fadiga e aborrecimento de dia santo.<br \/>\n    Defronte as casas da Rua Ocidental tinham na sua fachada o reflexo claro das<br \/>\n    luzes do Passeio; algumas janelas estavam abertas; as cortinas de fazenda<br \/>\n    escura destacavam sobre a claridade interior dos candeeiros. Lu&iacute;sa<br \/>\n    sentia como uma saudade de outras noites de ver&atilde;o, de ser&otilde;es<br \/>\n    recolhidos. Onde? N&atilde;o se lembrava. O movimento ent&atilde;o retra&iacute;a-a;<br \/>\n    e encontrava em face, fitando-a numa atitude l&uacute;gubre, o sujeito de<br \/>\n    p&ecirc;ra longa. Debaixo do v&eacute;u sentia a poeira arder-lhe nos olhos;<br \/>\n    em redor dela gente bocejava.<br \/>\n    D. Felicidade prop&ocirc;s uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar;<br \/>\n    as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de faces<br \/>\n    a que a luz do g&aacute;s dava o mesmo tom amarelado olhavam de um modo fixo<br \/>\n    e cansado, num abatimento de pasmaceira. Aquele aspecto irritou Bas&iacute;lio<br \/>\n    e como era dif&iacute;cil andar lembrou &#8212; &#8220;que se fossem daquela<br \/>\n    sensaboria&#8221;.<br \/>\n    Sa&iacute;ram. Enquanto ele ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, deixando-se<br \/>\n    quase cair num banco sob a folhagem de um chor&atilde;o, exclamou aflita:<br \/>\n    &#8212; Ai, filha! Estou que arrebento!<br \/>\n    Passava a m&atilde;o no est&ocirc;mago; tinha a face envelhecida.<br \/>\n    &#8212; E o Conselheiro, que me dizes? Olha que j&aacute; &eacute; pouca sorte!<br \/>\n    Hoje que eu vim ao Passeio&#8230;<br \/>\n    Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; muito simp&aacute;tico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro<br \/>\n    fidalgo. Que eles conhecem-se, filha!<br \/>\n    Declarou-se muito fatigada, apenas sa&iacute;ram o port&atilde;o. Era melhor<br \/>\n    tomarem um trem.<br \/>\n    Bas&iacute;lio achava prefer&iacute;vel subirem a p&eacute; at&eacute; ao<br \/>\n    Largo do Loreto. A noite estava t&atilde;o agrad&aacute;vel! E o andar fazia<br \/>\n    bem &agrave; senhora D. Felicidade! <br \/>\n    Depois diante do Martinho, falou em irem tomar neve; mas D. Felicidade receava<br \/>\n    a frialdade; Lu&iacute;sa tinha vergonha. Pelas portas do caf&eacute; abertas,<br \/>\n    viam-se sobre as mesas jornais enxovalhados; e algum raro indiv&iacute;duo,<br \/>\n    de cal&ccedil;a branca, tomava placidamente o seu sorvete de morango.<br \/>\n    No Rocio, sob as &aacute;rvores, passeava-se; pelos bancos, gente im&oacute;vel<br \/>\n    parecia dormitar; aqui e al&eacute;m pontas de cigarro o reluziam; sujeitos<br \/>\n    passavam, com o chap&eacute;u na m&atilde;o, abanando-se, o colete desabotoado;<br \/>\n    a cada canto se apregoava &aacute;gua fresca &#8220;do Arsenal&#8221;; em<br \/>\n    torno do largo, carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O c&eacute;u<br \/>\n    abafava, &#8212; e na noite escura, a coluna da est&aacute;tua de D. Pedro<br \/>\n    tinha o tom ba&ccedil;o e p&aacute;lido de uma vela de estearina colossal<br \/>\n    e apagada.<br \/>\n    Bas&iacute;lio, ao p&eacute; de Lu&iacute;sa, ia calado. Que horror de cidade!<br \/>\n    &#8212; pensava. &#8212; Que tristeza! E lembrava-lhe Paris, de ver&atilde;o;<br \/>\n    subia, &agrave; noite, no seu f&aacute;eton, os Campos El&iacute;sios devagar;<br \/>\n    centenares de vit&oacute;rias descem, sobem rapidamente, com um trote discreto<br \/>\n    e alegre; e as lanternas fazem em toda a avenida um movimento jovial de pontos<br \/>\n    de luz; vultos brancos e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balan&ccedil;adas<br \/>\n    nas molas macias; o ar em redor tem uma do&ccedil;ura aveludada, e os castanheiros<br \/>\n    espalham um aroma sutil. Dos dois lados, dentre os arvoredos, saltam as claridades<br \/>\n    violentas dos caf&eacute;s cantantes, cheios do brouhaha das multid&otilde;es<br \/>\n    alegres, dos brios impulsivos das orquestras, os restaurantes flamejam; h&aacute;<br \/>\n    uma intensidade de vida amorosa e feliz; e, para al&eacute;m, sai das janelas<br \/>\n    dos palacetes, atrav&eacute;s dos estores de seda, a luz s&oacute;bria e velada<br \/>\n    das exist&ecirc;ncias ricas. Ah! Se l&aacute; estivesse! &#8212; Mas ao passar<br \/>\n    junto dos candeeiros olhava de lado para Lu&iacute;sa; o seu perfil fino sob<br \/>\n    o v&eacute;u branco tinha uma grande do&ccedil;ura; o vestido prendia bem<br \/>\n    a curva do seu peito; e havia no seu andar uma lassid&atilde;o que lhe quebrava<br \/>\n    a linha da cinta de um modo l&acirc;nguido e prometedor.<br \/>\n    Veio-lhe urna certa id&eacute;ia, come&ccedil;ou a dizer: Que pena que n&atilde;o<br \/>\n    houvesse em toda a Lisboa um restaurante, onde se pudesse ir tomar uma asa<br \/>\n    de perdiz e beber uma garrafa de champagne frapp&eacute;e!<br \/>\n    Lu&iacute;sa n&atilde;o respondeu. Devia ser delicioso &#8212; pensava. &#8212;<br \/>\n    Mas D. Felicidade exclamou:<br \/>\n    &#8212; Perdiz, a esta hora!<br \/>\n    &#8212; Perdiz ou outra qualquer coisa.<br \/>\n    &#8212; Fosse o que fosse, era para estourar! Credo!<br \/>\n    Subiam pela Rua Nova do Carmo. Os candeeiros davam uma luz morti&ccedil;a;<br \/>\n    as altas casas dos dois lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; e<br \/>\n    a patrulha muito armada descia passo a passo, sem ruido, sinistra e sutil.<br \/>\n    Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de loteria;<br \/>\n    a sua voz aguda e chorosa prometia a fortuna, muitos contos de r&eacute;is.<br \/>\n    D. Felicidade ainda parou, com uma tenta&ccedil;&atilde;o&#8230; Mas uma tro&ccedil;a<br \/>\n    de rapazes b&ecirc;bedos que descia de chap&eacute;u na nuca, falando alto,<br \/>\n    aos trope&ccedil;&otilde;es, assustou muito as duas senhoras. Lu&iacute;sa<br \/>\n    encolheu-se logo contra Bas&iacute;lio; D. Felicidade enfiada agarrou-lhe<br \/>\n    ansiosamente o bra&ccedil;o, quis-se meter numa carruagem; e at&eacute; ao<br \/>\n    Loreto foi explicando o seu medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando<br \/>\n    casos, facadas, sem largar o bra&ccedil;o de Bas&iacute;lio. Da fileira de<br \/>\n    tip&oacute;ias, ao lado das grades da Pra&ccedil;a de Cam&otilde;es, um cocheiro<br \/>\n    lan&ccedil;ou logo a sua caleche descoberta, de p&eacute; na almofada, apanhando<br \/>\n    confusamente as r&eacute;deas, com grandes chicotadas na parelha, muito excitado,<br \/>\n    gritando:<br \/>\n    &#8212; Pronto, meu amo, pronto!<br \/>\n    Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem ent&atilde;o passou, rondou,<br \/>\n    &#8212; e Lu&iacute;sa desesperada reconheceu os olhos acarneirados do sujeito<br \/>\n    da p&ecirc;ra.<br \/>\n    Entraram para a caleche. Lu&iacute;sa ainda se voltou para ver Bas&iacute;lio<br \/>\n    im&oacute;vel no largo, com o seu chap&eacute;u na m&atilde;o; depois acomodou-se,<br \/>\n    p&ocirc;s os pezinhos no outro assento e balan&ccedil;ada pelo trote largo<br \/>\n    viu passar, calada, as casas apagadas da Rua de S. Roque, as &aacute;rvores<br \/>\n    de S. Pedro de Alc&acirc;ntara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento,<br \/>\n    os jardins adormecidos da Patriarcal. A noite estava im&oacute;vel, de um<br \/>\n    calor mole; e desejava, sem saber por que, rolar assim sempre, infinitamente,<br \/>\n    entre ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino,<br \/>\n    sem cuidados, para alguma coisa de feliz que n&atilde;o distinguia bem! Um<br \/>\n    grupo defronte da Escola ia tocando o Fado do Vimioso; aqueles sons entraram-lhe<br \/>\n    na alma como um vento doce, que fazia agitar brandamente muitas sensibilidades<br \/>\n    passadas; suspirou baixo.<br \/>\n    &#8212; Um suspirozinho que vai para o Alentejo &#8212; disse D. Felicidade,<br \/>\n    tocando-lhe o bra&ccedil;o.<br \/>\n    Lu&iacute;sa sentiu todo o sangue abrasar-lhe o rosto. Davam onze horas quando<br \/>\n    entrou em casa.<br \/>\n    Juliana veio alumiar. &#8212; O ch&aacute; estava pronto, quando a senhora<br \/>\n    quisesse&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa subiu da&iacute; a pouco com um largo roup&atilde;o branco, muito<br \/>\n    fatigada; estendeu-se na voltaire; sentia vir-lhe uma sonol&ecirc;ncia; a<br \/>\n    cabe&ccedil;a pendia-lhe; cerrava as p&aacute;lpebras&#8230; E Juliana tardava<br \/>\n    tanto com o ch&aacute;! Chamou-a. Onde estava? Credo!<br \/>\n    Tinha descido, p&eacute; ante p&eacute;, ao quarto de Lu&iacute;sa. E a&iacute;<br \/>\n    tomando o vestido, as saias engomadas que ela despira e atirara para cima<br \/>\n    da causeuse, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa id&eacute;ia,<br \/>\n    cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, com uma pontinha<br \/>\n    de suor e de &aacute;gua-de-col&ocirc;nia. Quando a sentiu chamar, impacientar-se<br \/>\n    em cima, subiu, correndo. &#8212; Fora abaixo dar uma arrumadela. Era o ch&aacute;?<br \/>\n    Estava pronto.<br \/>\n    E entrando com as torradas:<br \/>\n    &#8212; Veio a&iacute; o Sr. Sebasti&atilde;o, haviam de ser nove horas&#8230;<br \/>\n    &#8212; Que lhe disse?<br \/>\n    &#8212; Que a senhora tinha sa&iacute;do com a senhora D. Felicidade. Como<br \/>\n    n&atilde;o sabia, n&atilde;o disse para onde.<br \/>\n    E acrescentou:<br \/>\n    &#8212; Esteve a conversar comigo, o Senhor Sebasti&atilde;o&#8230; Esteve a conversar<br \/>\n    mais de meia hora!&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa recebeu, na manh&atilde; seguinte, da parte de Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    um ramo de rosas, magenta-escuro, magn&iacute;ficas. Cultivava-as ele na quinta<br \/>\n    de Aluada, e chamavam-se rosas D. Sebasti&atilde;o. Mandou-as p&ocirc;r nos<br \/>\n    vasos da sala; e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e sufocante:<br \/>\n    &#8212; Olhe &#8212; disse a Juliana &#8212; abra as janelas.<br \/>\n    &#8212; Bem &#8212; pensou Juliana &#8212; temos c&aacute; o melro.<br \/>\n    O melro veio com efeito &agrave;s tr&ecirc;s horas. Lu&iacute;sa estava na<br \/>\n    sala, ao piano.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; ali o sujeito do costume &#8212; foi dizer Juliana.<br \/>\n    Lu&iacute;sa voltou-se corada, escandalizada da express&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Ah! meu primo Bas&iacute;lio? Mande entrar.<br \/>\n    E chamando-a:<br \/>\n    &#8212; Ou&ccedil;a, se vier o Sr. Sebasti&atilde;o, ou algu&eacute;m, que<br \/>\n    entre.<br \/>\n    Era o primo! O sujeito, as suas visitas perderam de repente para ela todo<br \/>\n    o interesse picante. A sua mal&iacute;cia cheia, enfunada at&eacute; a&iacute;,<br \/>\n    caiu, engelhou-se como urna vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!<br \/>\n    Subiu &agrave; cozinha, devagar, &#8212; lograda.<br \/>\n    &#8212; Temos grande novidade, Sr.a Joana! O tal peralta &eacute; primo. Diz<br \/>\n    que &eacute; o primo Bas&iacute;lio.<br \/>\n    E com um risinho:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; o Bas&iacute;lio! Ora o Bas&iacute;lio! Sai-nos primo &agrave;<br \/>\n    &uacute;ltima hora! O diabo tem gra&ccedil;a!<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o que havia de o homem ser se n&atilde;o parente? &#8212;<br \/>\n    observou Joana.<br \/>\n    Juliana n&atilde;o respondeu. Quis saber se estava o ferro pronto, que tinha<br \/>\n    uma carga de roupa para passar! E sentou-se &agrave; janela, esperando. O<br \/>\n    c&eacute;u baixo e pardo pesava, carregado de eletricidade; &agrave;s vezes<br \/>\n    uma aragem s&uacute;bita e fina punha nas folhagens dos quintais um arrepio<br \/>\n    tr&ecirc;mulo.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; o primo! &#8212; refletia ela, &#8212; E s&oacute; vem ent&atilde;o<br \/>\n    quando o marido se vai. Boa! E fica-se toda no ar quando ele sai; e &eacute;<br \/>\n    roupa-branca e mais roupa-branca, e roup&atilde;o novo, e tip&oacute;ia para<br \/>\n    o passeio, e suspiros e olheiras! Boa b&ecirc;beda! Tudo fica na fam&iacute;lia!<br \/>\n    Os olhos luziam-lhe. J&aacute; se n&atilde;o sentia t&atilde;o lograda. Havia<br \/>\n    ali muito &#8220;para ver e para escutar&#8221;. E o ferro estava pronto?<br \/>\n    Mas a campainha, embaixo, tocou.<br \/>\n    &#8212; Boa! Isto agora &eacute; um fad&aacute;rio! Estamos na casa do despacho!<br \/>\n    Desceu; e exclamou logo, vendo Juli&atilde;o com um livro debaixo do bra&ccedil;o:<br \/>\n    &#8212; Faz favor de entrar, Sr. Juli&atilde;o! A senhora est&aacute; com<br \/>\n    o primo mas diz que mandasse entrar!<br \/>\n    Abriu a porta da sala bruscamente, de surpresa.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; aqui o Sr. Juli&atilde;o &#8212; disse com satisfa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Lu&iacute;sa apresentou os dois homens.<br \/>\n    Bas&iacute;lio ergueu-se do sof&aacute; languidamente, e, num relance, percorreu<br \/>\n    Juli&atilde;o desde a cabeleira desleixada at&eacute; &agrave;s botas mal<br \/>\n    engraxadas, com um olhar quase horrorizado.<br \/>\n    &#8212; Que pulha! &#8212; pensou.<br \/>\n    Lu&iacute;sa, muito fina, percebeu, e corou, envergonhada de Juli&atilde;o.<br \/>\n    Aquele homem de colarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano preto<br \/>\n    malfeito &#8212; que id&eacute;ia daria a Bas&iacute;lio das rela&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    dos amigos da casa! Sentia j&aacute; o seu chic diminu&iacute;do. E instintivamente,<br \/>\n    a sua fisionomia tornou-se muito reservada, &#8212; como se semelhante visita<br \/>\n    a surpreendesse! semelhante toilette a indignasse!<br \/>\n    Juli&atilde;o percebeu o constrangimento dela; disse, j&aacute; embara&ccedil;ado,<br \/>\n    ajeitando a luneta:<br \/>\n    &#8212; Passei por aqui por acaso; entrei a saber se h&aacute; algumas not&iacute;cias<br \/>\n    de Jorge&#8230;<br \/>\n    &#8212; Obrigada. Sim, tem escrito. Est&aacute; bem&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio, recostado no sof&aacute;, como um parente &iacute;ntimo, examinava<br \/>\n    a sua meia de seda bordada de estrelinhas escarlates, e cofiava indolentemente<br \/>\n    o bigode, arrebitando um pouco o dedo m&iacute;nimo, &#8212; onde brilhavam,<br \/>\n    em dois grossos an&eacute;is de ouro, uma safira e um rubi.<br \/>\n    A afeta&ccedil;&atilde;o da atitude, o reluzir das j&oacute;ias irritaram<br \/>\n    Juli&atilde;o.<br \/>\n    Quis mostrar tamb&eacute;m a sua intimidade, os seus direitos; disse:<br \/>\n    &#8212; Eu n&atilde;o tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque<br \/>\n    tenho estado muito ocupado&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa acudiu para desautorizar logo aquela familiaridade:<br \/>\n    &#8212; Eu tamb&eacute;m n&atilde;o me tenho achado bem. N&atilde;o tenho<br \/>\n    recebido ningu&eacute;m, &#8212; a n&atilde;o ser meu primo, naturalmente!<br \/>\n    Juli&atilde;o sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpresa, de indigna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ficou a balan&ccedil;ar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como<br \/>\n    a cal&ccedil;a era curta, via-se o el&aacute;stico esfiado das botas velhas.<br \/>\n    Houve um sil&ecirc;ncio dif&iacute;cil.<br \/>\n    &#8212; Bonitas rosas! &#8212; disse enfim Bas&iacute;lio, pregui&ccedil;osamente.<br \/>\n    &#8212; Muito bonitas! &#8212; respondeu Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Estava agora compadecida de Juli&atilde;o; procurava uma palavra; disse-lhe<br \/>\n    enfim muito precipitadamente:<br \/>\n    &#8212; E que calor! &Eacute; de morrer! Tem havido muitas doen&ccedil;as?<br \/>\n    &#8212; Colerinas &#8212; respondeu iuli&atilde;o. &#8212; Por causa das frutas.<br \/>\n    Doen&ccedil;as de ventre.<br \/>\n    Lu&iacute;sa baixou os olhos. Bas&iacute;lio ent&atilde;o come&ccedil;ou a<br \/>\n    falar da viscondessinha de Azeias; tinha-a achado acabada; e que era feito<br \/>\n    da irm&atilde;, da grande?<br \/>\n    Aquela conversa&ccedil;&atilde;o sobre fidalgas que ele n&atilde;o conhecia<br \/>\n    isolava mais Juli&atilde;o; sentia o suor umedecer-lhe o pesco&ccedil;o; procurava<br \/>\n    um dito, uma ironia, uma agudeza; e maquinalmente abria e fechava o seu grosso<br \/>\n    livro de capa amarela.<br \/>\n    &#8212; E algum romance? &#8212; perguntou-lhe Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o. E o tratado do dr. Lee sobre doen&ccedil;as do &uacute;tero.<br \/>\n    Lu&iacute;sa fez-se escarlate; Juli&atilde;o tamb&eacute;m, furioso da palavra<br \/>\n    que lhe escapara. E Bas&iacute;lio, depois de sorrir, perguntou por uma certa<br \/>\n    D. Rafaela Grij&aacute;, que costumava ir &agrave; Rua da Madalena, que usava<br \/>\n    luneta, e tinha um cunhado gago&#8230;<br \/>\n    &#8212; Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.<br \/>\n    &#8212; Com o gago?<br \/>\n    &#8212; Sim. Tem um filhito dele, gago tamb&eacute;m.<br \/>\n    &#8212; Que conversa&ccedil;&atilde;o, em fam&iacute;lia! E a D. Eug&ecirc;nia,<br \/>\n    a de Braga?<br \/>\n    Juli&atilde;o, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta seca:<br \/>\n    &#8212; Estou com pressa, n&atilde;o me posso demorar. Quando escrever a Jorge,<br \/>\n    os meus recados, hein?<br \/>\n    Abaixou bruscamente a cabe&ccedil;a a Bas&iacute;lio. Mas n&atilde;o achava<br \/>\n    o chap&eacute;u; tinha rolado para debaixo de uma cadeira. Embrulhou-se no<br \/>\n    reposteiro, topou violentamente contra a porta fechada, e saiu enfim desesperado,<br \/>\n    desejando vingar-se, odiando Lu&iacute;sa, Jorge, o luxo, a vida, &#8212;<br \/>\n    transbordando agora de ironias, de ditos, de r&eacute;plicas. Devia-os ter<br \/>\n    achatado, o asno e a tola&#8230; E n&atilde;o lhe acudira nada!<br \/>\n    Mas apenas ele tinha fechado a cancela, Bas&iacute;lio p&ocirc;s-se de p&eacute;,<br \/>\n    e cruzando os bra&ccedil;os:<br \/>\n    &#8212; Quem &eacute; este pulha?<br \/>\n    Lu&iacute;sa corou muito; balbuciou:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; um rapaz m&eacute;dico&#8230;<br \/>\n    &#8212; &Eacute; uma criatura imposs&iacute;vel; &eacute; uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de estudante!<br \/>\n    &#8212; Coitado, n&atilde;o tem muitos meios&#8230;<br \/>\n    Mas n&atilde;o era necess&aacute;rio ter meios para escovar o casaco e limpar<br \/>\n    a caspa! N&atilde;o devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se<br \/>\n    seu marido gostava dele, que o recebesse no escrit&oacute;rio!&#8230;<br \/>\n    Passeava pela sala, excitado, com as m&atilde;os nos bolsos, fazendo tilintar<br \/>\n    o dinheiro e as chaves.<br \/>\n    &#8212; S&atilde;o frescos os amigos da casa!&#8230; &#8212; continuou. &#8212;<br \/>\n    Que diabo! Tu n&atilde;o foste educada assim. Nunca tiveste gente deste g&ecirc;nero<br \/>\n    na Rua da Madalena.<br \/>\n    N&atilde;o tivera; e pareceu-lhe que as liga&ccedil;&otilde;es do casamento<br \/>\n    lhe tinham trazido um pouco o plebe&iacute;smo das conviv&ecirc;ncias. Mas<br \/>\n    um respeito pelas opini&otilde;es, pelas simpatias de Jorge fez-lhe dizer:<br \/>\n    &#8212; Diz que tem muito talento&#8230;<br \/>\n    &#8212; Era melhor que tivesse botas.<br \/>\n    Lu&iacute;sa, por cobardia, concordou.<br \/>\n    &#8212; Tamb&eacute;m o acho esquisito! &#8212; disse.<br \/>\n    &#8212; Horr&iacute;vel, minha filha!<br \/>\n    Aquela palavra fez-lhe bater o cora&ccedil;&atilde;o. Era assim que ele lhe<br \/>\n    chamava, outrora! Houve um momento de sil&ecirc;ncio; e a campainha da porta<br \/>\n    retiniu fortemente.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebasti&atilde;o! Bas&iacute;lio<br \/>\n    ach&aacute;-lo-ia ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer:<br \/>\n    &#8212; O Sr. Conselheiro. Mando entrar?<br \/>\n    &#8212; Decerto &#8212; exclamou.<br \/>\n    E a alta figura de Ac&aacute;cio adiantou-se, com as bandas do casaco de alpaca<br \/>\n    deitadas para tr&aacute;s, a cal&ccedil;a branca muito engomada caindo sobre<br \/>\n    os sapatos de entrada baixa, de la&ccedil;o.<br \/>\n    Apenas Lu&iacute;sa lhe apresentou o primo Bas&iacute;lio, disse logo, respeitoso:<br \/>\n    &#8212; J&aacute; sabia que V. Ex. a tinha chegado; vi-o nas interessantes<br \/>\n    not&iacute;cias do nosso high-life. E do nosso Jorge?<br \/>\n    Jorge estava em Beja&#8230; Diz que se aborrece muito&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio, mais am&aacute;vel, deixou cair:<br \/>\n    &#8212; Eu realmente n&atilde;o tenho a menor id&eacute;ia do que se possa<br \/>\n    fazer em Beja. Deve ser horroroso!<br \/>\n    O Conselheiro, passando sobre o bigode a sua m&atilde;o branca onde destacava<br \/>\n    o anel de armas, observou:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; todavia a capital do distrito!<br \/>\n    Mas se j&aacute; em Lisboa se n&atilde;o podia fazer nada, e era a capital<br \/>\n    do reino! &#8212; E Bas&iacute;lio puxava, todo recostado, o punho da camisa.<br \/>\n    &#8212; Morria-se positivamente de pasmaceira!<br \/>\n    Lu&iacute;sa, muito contente da afabilidade de Bas&iacute;lio, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a rir:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o digas isso diante do Conselheiro. E um grande admirador<br \/>\n    de Lisboa.<br \/>\n    Ac&aacute;cio curvou-se:<br \/>\n    &#8212; Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora.<br \/>\n    E com muita bonomia:<br \/>\n    &#8212; Conhe&ccedil;o por&eacute;m que n&atilde;o &eacute; para comparar<br \/>\n    aos Parises, &agrave;s Londres, &agrave;s Madris&#8230;<br \/>\n    &#8212; Decerto &#8212; fez Lu&iacute;sa.<br \/>\n    E o Conselheiro continuou com pompa:<br \/>\n    &#8212; Lisboa por&eacute;m tem belezas sem igual! A entrada, ao que me dizem<br \/>\n    (eu nunca entrei a barra) &eacute; um panorama grandioso, rival das ConstantinopIas<br \/>\n    e das N&aacute;poles. Digno da pena de um Garrett ou de um Lamartine! Pr&oacute;prio<br \/>\n    para inspirar um grande engenho!&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa, receando cita&ccedil;&otilde;es ou aprecia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    liter&aacute;rias, interrompeu-o; perguntou-lhe o que tinha feito. Tinham<br \/>\n    estado domingo no Passeio, ela e D. Felicidade; tinham esperado v&ecirc;-lo,<br \/>\n    e nada!<br \/>\n    Nunca ia ao Passeio, ao domingo &#8212; declarou. &#8212; Reconhecia que era<br \/>\n    muito agrad&aacute;vel, mas a multid&atilde;o entontecia-o. Tinha notado,<br \/>\n    &#8212; e a sua voz tomou o tom espa&ccedil;ado de uma revela&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &#8212; tinha notado que muita gente, num local, causa vertigens aos homens<br \/>\n    de estudo. De resto queixou-se da sua sa&uacute;de e do peso dos seus trabalhos.<br \/>\n    Andava compilando um livro e usando as &aacute;guas de Vichy.<br \/>\n    &#8212; Podes fumar &#8212; disse Lu&iacute;sa de repente, sorrindo, a Bas&iacute;lio.<br \/>\n    &#8212; Queres lume?<br \/>\n    Ela mesma lhe foi buscar um f&oacute;sforo, toda ligeira, feliz. Tinha um<br \/>\n    vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabelos pareciam<br \/>\n    mais louros, a sua pele mais fina.<br \/>\n    Bas&iacute;lio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado:<br \/>\n    &#8212; O Passeio ao domingo &eacute; simplesmente idiota!&#8230;<br \/>\n    O Conselheiro refletiu e respondeu:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o serei t&atilde;o severo, Sr. Brito! &#8212; Mas parecia-lhe<br \/>\n    que com efeito antigamente era uma divers&atilde;o mais agrad&aacute;vel.<br \/>\n    &#8212; Em primeiro lugar &#8212; exclamou com muita convic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    endireitando-se &#8212; nada mas nada, absolutamente nada pode substituir<br \/>\n    a charanga da Armada! &#8212; Al&eacute;m disso havia a quest&atilde;o dos<br \/>\n    pre&ccedil;os&#8230; Ah! tinha estudado muito o assunto! Os pre&ccedil;os diminutos<br \/>\n    favoreciam a aglomera&ccedil;&atilde;o das classes subalternas&#8230; Que longe<br \/>\n    do seu pensamento lan&ccedil;ar desdouro nessa parte da popula&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    As suas id&eacute;ias liberais eram bem conhecidas. &#8212; Apelo para a Sr&ordf;<br \/>\n    D. Lu&iacute;sa! &#8212; disse. &#8212; Mas, enfim, sempre era mais agrad&aacute;vel<br \/>\n    encontrar uma roda escolhida! Quanto a si nunca ia ao Passeio. Talvez n&atilde;o<br \/>\n    acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! Nesses dias, sim,<br \/>\n    ia ver por fora das grades. N&atilde;o por economia! Decerto n&atilde;o. N&atilde;o<br \/>\n    era rico, mas podia fazer face a essa contribui&ccedil;&atilde;o diminuta.<br \/>\n    Mas &eacute; que receava os acidentes! E que os receava muito! Contou a hist&oacute;ria<br \/>\n    de um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana de foguete furara o<br \/>\n    cr&acirc;nio. &#8212; E al&eacute;m disso nada mais f&aacute;cil que cair<br \/>\n    uma fagulha acesa na cara, num palet&oacute; novo&#8230; &#8212; E conveniente<br \/>\n    ter prud&ecirc;ncia &#8212; resumiu, compenetrado, limpando os bei&ccedil;os<br \/>\n    com o len&ccedil;o de seda da &Iacute;ndia muito enrolado.<br \/>\n    Falaram ent&atilde;o da esta&ccedil;&atilde;o; muita gente fora para Sintra;<br \/>\n    de resto, Lisboa no ver&atilde;o era t&atilde;o secante!&#8230; E o Conselheiro<br \/>\n    declarou que Lisboa s&oacute; era imponente, verdadeiramente imponente, quando<br \/>\n    estavam abertas as c&acirc;maras e S. Carlos!<br \/>\n    &#8212; Que estavas tu a tocar quando eu entrei? &#8212; perguntou Bas&iacute;lio.<br \/>\n    O Conselheiro acudiu logo:<br \/>\n    &#8212; Se estavam fazendo m&uacute;sica, por quem s&atilde;o&#8230; Sou um velho<br \/>\n    assinante de S. Carlos, h&aacute; dezoito anos&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio interrompeu-o:<br \/>\n    &#8212; Toca?<br \/>\n    &#8212; Toquei. N&atilde;o o oculto. Em rapaz fui dado &agrave; flauta.<br \/>\n    E acrescentou, com um gesto ben&eacute;volo:<br \/>\n    &#8212; Rapaziadas!&#8230; Alguma novidade, o que estava tocando, D. Lu&iacute;sa?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o! Uma m&uacute;sica muito conhecida, j&aacute; antiga; a<br \/>\n    Filha do pescador, de Meyerbeer! Tenho a letra traduzida.<br \/>\n    Tinha cerrado as vidra&ccedil;as, sentara-se ao plano.<br \/>\n    &#8212; O Sebasti&atilde;o &eacute; que toca isto bem, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade, Conselheiro?<br \/>\n    &#8212; O nosso Sebasti&atilde;o &#8212; disse o Conselheiro com autoridade<br \/>\n    &#8212; &eacute; um rival dos Thalbergs e dos Liszts. Conhece o nosso Sebasti&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; perguntou a Bas&iacute;lio.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o conhe&ccedil;o.<br \/>\n    &#8212; Uma p&eacute;rola!<br \/>\n    Bas&iacute;lio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode.<br \/>\n    &#8212; Tu ainda cantas? &#8212; perguntou-lhe Lu&iacute;sa, sorrindo.<br \/>\n    &#8212; Quando estou s&oacute;.<br \/>\n    Mas o Conselheiro pediu-lhe logo um &#8220;trecho&#8221;. Bas&iacute;lio ria.<br \/>\n    Tinha medo de escandalizar um velho assinante de S. Carlos&#8230;<br \/>\n    O Conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:<br \/>\n    &#8212; Coragem, Sr. Brito, coragem!<br \/>\n    Lu&iacute;sa ent&atilde;o preludiou.<br \/>\n    E Bas&iacute;lio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de bar&iacute;tono;<br \/>\n    as suas notas altas faziam a sala sonora, O Conselheiro, direito na poltrona,<br \/>\n    escutava concentrado; a sua testa, franzida num vinco, parecia curvar-se sob<br \/>\n    uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas destacavam, com reflexos<br \/>\n    escuros, naquela fisionomia de calvo, que o calor tornava mais p&aacute;lida.<br \/>\n    Bas&iacute;lio dizia com uma melancolia grave a primeira frase, t&atilde;o<br \/>\n    larga, da can&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>Igual ao mar sombrio<br \/>\n    Meu cora&ccedil;&atilde;o profundo&#8230;<\/p>\n<p>Um poeta, com uma dedica&ccedil;&atilde;o obscura, traduzira a letra no Almanaque<br \/>\n    das senhoras; Lu&iacute;sa pela sua pr&oacute;pria m&atilde;o a tinha copiado<br \/>\n    nas entrelinhas da m&uacute;sica. E Bas&iacute;lio debru&ccedil;ado sobre<br \/>\n    o papel sempre torcendo as pontas do bigode:<\/p>\n<p>Tem tempestades, c&oacute;leras,<br \/>\n    Mas p&eacute;rolas no fundo!<\/p>\n<p>Os olhos largos de Lu&iacute;sa afirmavam-se para a m&uacute;sica &#8212;<br \/>\n    ou a espa&ccedil;os, com um movimento r&aacute;pido, erguiam-se para Bas&iacute;lio.<br \/>\n    Quando, na nota final, prolongada como a reclama&ccedil;&atilde;o de um amor<br \/>\n    suplicante, Bas&iacute;lio soltou a voz de um modo apelativo:<\/p>\n<p>Vem! Vem<br \/>\n    Pousar, &oacute; doce amada,<br \/>\n    Teu peito contra o meu&#8230;<\/p>\n<p>os seus olhos fixaram-se nela com uma significa&ccedil;&atilde;o de tanto<br \/>\n    desejo, que o peito de Lu&iacute;sa arfou; os seus dedos embrulharam-se no<br \/>\n    teclado.<br \/>\n    O Conselheiro bateu as palmas.<br \/>\n    &#8212; Uma voz admir&aacute;vel! &#8212; exclamava, &#8212; Uma voz admir&aacute;vel!<br \/>\n    Bas&iacute;lio dizia-se envergonhado.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, senhor, n&atilde;o, senhor! &#8212; protestou Ac&aacute;cio,<br \/>\n    levantando-se. &#8212; Um excelente &oacute;rg&atilde;o! Direi, o melhor &oacute;rg&atilde;o<br \/>\n    da nossa sociedade!<br \/>\n    Bas&iacute;lio riu. Uma vez que tinha sucesso, ent&atilde;o ia dizer-lhes<br \/>\n    uma modinha brasileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter preludiado<br \/>\n    uma melodia muito balan&ccedil;ada, de um embalado tropical, cantou:<\/p>\n<p>Sou negrinha, mas meu peito<br \/>\n    Sente mais que um peito branco.<\/p>\n<p>E interrompendo-se:<br \/>\n    &#8212; Isto fazia furor nas reuni&otilde;es da Bahia quando eu parti.<br \/>\n    Era a hist&oacute;ria de uma &#8220;negrinha&#8221;, nascida na ro&ccedil;a,<br \/>\n    e que contava, com lirismos de almanaque, a sua paix&atilde;o por um feitor<br \/>\n    branco.<br \/>\n    Bas&iacute;lio parodiava o tom sentimental de alguma menina baiana: e a sua<br \/>\n    voz tinha uma preciosidade c&ocirc;mica, quando dizia o ritornello choroso:<\/p>\n<p>E a negra pra os mares<br \/>\n    Seus olhos alonga;<br \/>\n    No alto coqueiro<br \/>\n    Cantava a araponga.<\/p>\n<p>O Conselheiro achou &#8220;delicioso&#8221;; e, de p&eacute; na sala, lamentou<br \/>\n    a prop&oacute;sito da cantiga a condi&ccedil;&atilde;o dos escravos. Que lhe<br \/>\n    afirmavam amigos do Brasil que os negros eram muito bem tratados. Mas enfim<br \/>\n    a civiliza&ccedil;&atilde;o era a civiliza&ccedil;&atilde;o! E a escravatura<br \/>\n    era um estigma! Tinha todavia muita confian&ccedil;a no imperador&#8230;<br \/>\n    &#8212; Monarca de rara ilustra&ccedil;&atilde;o&#8230; &#8212; acrescentou respeitosamente.<br \/>\n    Foi buscar o seu chap&eacute;u, e colando-lhe as abas ao peito, curvando-se,<br \/>\n    jurou que &#8212; havia muito tempo n&atilde;o tinha passado uma manh&atilde;<br \/>\n    t&atilde;o completa. De resto para ele nada havia como a boa conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a boa m&uacute;sica&#8230;<br \/>\n    &#8212; Onde est&aacute; V. Ex&ordf; alojado, Sr. Brito?<br \/>\n    Pelo amor de Deus! Que n&atilde;o se incomodasse! Estava no Hotel Central.<br \/>\n    N&atilde;o havia considera&ccedil;&otilde;es que o impedissem de cumprir o<br \/>\n    seu dever &#8212; declarou. &#8212; Cumpri-lo-ia! Ele era uma pessoa in&uacute;til,<br \/>\n    a Sr.a D. Lu&iacute;sa bem o sabia. &#8212; Mas se necessitar alguma coisa,<br \/>\n    uma informa&ccedil;&atilde;o, uma apresenta&ccedil;&atilde;o nas regi&otilde;es<br \/>\n    oficiais, licen&ccedil;as para visitar algum estabelecimento p&uacute;blico,<br \/>\n    creia que me tem &agrave;s suas ordens!<br \/>\n    E conservando na sua m&atilde;o a m&atilde;o de Bas&iacute;lio:<br \/>\n    &#8212; Rua do Ferregial de Cima n&uacute;mero tr&ecirc;s, terceiro. O modesto<br \/>\n    tug&uacute;rio de um eremita.<br \/>\n    Tornou a curvar-se diante de Lu&iacute;sa:<br \/>\n    &#8212; E quando escrever ao nosso viajante, que fa&ccedil;o sinceros votos<br \/>\n    pela prosperidade dos seus empreendimentos. Por quem &eacute;! Criado de V.<br \/>\n    Ex&ordf;!<br \/>\n    E direito, grave, saiu.<br \/>\n    &#8212; Este ao menos &eacute; limpo &#8212; resmungou Bas&iacute;lio, com<br \/>\n    o charuto ao canto da boca.<br \/>\n    Sentara-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Lu&iacute;sa<br \/>\n    aproximou-se:<br \/>\n    &#8212; Canta alguma coisa, Bas&iacute;lio!<br \/>\n    Bas&iacute;lio p&ocirc;s-se ent&atilde;o a olhar muito para ela.<br \/>\n    Lu&iacute;sa corou, sorriu; atrav&eacute;s da fazenda clara e transparente<br \/>\n    do vestido, entrevia-se a brancura macia e l&aacute;ctea do colo e dos bra&ccedil;os;<br \/>\n    e nos seus olhos, na cor quente do rosto havia uma anima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e como uma vitalidade amorosa.<br \/>\n    Bas&iacute;lio disse-lhe, baixo:<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;s hoje nos teus dias felizes, Lu&iacute;sa.<br \/>\n    O olhar dele, t&atilde;o &aacute;vido, perturbava-a; insistiu:<br \/>\n    &#8212; Canta alguma coisa.<br \/>\n    O seu seio arfava.<br \/>\n    &#8212; Canta tu &#8212; murmurou Bas&iacute;lio.<br \/>\n    E devagarinho, tomou-lhe a m&atilde;o. As duas palmas um pouco &uacute;midas,<br \/>\n    um pouco tr&ecirc;mulas, uniram-se.<br \/>\n    A campainha, fora, tocou. Lu&iacute;sa desprendeu a m&atilde;o, bruscamente.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; algu&eacute;m &#8212; disse agitada.<br \/>\n    Vozes baixas falavam &agrave; cancela.<br \/>\n    Bas&iacute;lio teve um movimento de ombros contrariado; foi buscar o chap&eacute;u.<br \/>\n    &#8212; Vais-te? &#8212; exclamou ela toda desconsolada.<br \/>\n    &#8212; Pudera! N&atilde;o posso estar s&oacute; contigo um momento!<br \/>\n    A cancela fechou-se com ru&iacute;do.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &eacute; ningu&eacute;m; foi-se &#8212; disse Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Estavam de p&eacute;, no meio da sala.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o te v&aacute;s! Bas&iacute;lio!<br \/>\n    Os seus olhos profundos tinham uma suplica&ccedil;&atilde;o doce. Bas&iacute;lio<br \/>\n    pousou o chap&eacute;u sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.<br \/>\n    &#8212; E para que queres tu estar s&oacute; comigo? &#8212; disse ela. &#8212;<br \/>\n    Que tem que venha gente? &#8212; E arrependeu-se logo daquelas palavras.<br \/>\n    Mas Bas&iacute;lio, com um movimento brusco, passou-lhe o bra&ccedil;o sobre<br \/>\n    os ombros, prendeu-lhe a cabe&ccedil;a, e beijou-a na testa, nos olhos, nos<br \/>\n    cabelos, vorazmente.<br \/>\n    Ela soltou-se a tremer, escarlate.<br \/>\n    &#8212; Perdoa-me &#8212; exclamou ele logo, com um &iacute;mpeto apaixonado.<br \/>\n    &#8212; Perdoa-me. Foi sem pensar. Mas &eacute; porque te adoro, Lu&iacute;sa!<br \/>\n    Tomou-lhe as m&atilde;os com dom&iacute;nio, quase com direito.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o. H&aacute;s de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei<br \/>\n    a ver estou doido por ti, como dantes, a mesma coisa. Nunca deixei de me morrer<br \/>\n    por ti. Mas n&atilde;o tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te ver rica,<br \/>\n    feliz. N&atilde;o te podia levar para o Brasil. Era matar-te, meu amor! Tu<br \/>\n    imaginas l&aacute; o que aquilo &eacute;! Foi por isso que te escrevi aquela<br \/>\n    carta, mas o que eu sofri, as l&aacute;grimas que chorei!<br \/>\n    Lu&iacute;sa escutava-o im&oacute;vel, a cabe&ccedil;a baixa, o olhar esquecido;<br \/>\n    aquela voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, vencia-a;<br \/>\n    as m&atilde;os de Bas&iacute;lio penetravam com o seu calor febril a subst&acirc;ncia<br \/>\n    das suas; e, tomada de uma lassid&atilde;o, sentia-se como adormecer.<br \/>\n    &#8212; Fala, responde! &#8212; disse ele ansiosamente, sacudindo-lhe as m&atilde;os,<br \/>\n    procurando o seu olhar avidamente.<br \/>\n    &#8212; Que queres que te diga? &#8212; murmurou ela.<br \/>\n    A sua voz tinha um tom abstrato, mal acordado.<br \/>\n    E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:<br \/>\n    &#8212; Falemos noutras coisas!<br \/>\n    Ele balbuciava com os bra&ccedil;os estendidos:<br \/>\n    &#8212; Lu&iacute;sa! Lu&iacute;sa!<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, Bas&iacute;lio, n&atilde;o!<br \/>\n    E na sua voz havia o arrastado de uma lamenta&ccedil;&atilde;o, com a moleza<br \/>\n    de uma car&iacute;cia.<br \/>\n    Ele ent&atilde;o n&atilde;o hesitou, prendeu-a nos bra&ccedil;os.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ficou inerte, os bei&ccedil;os brancos, os olhos cerrados &#8212;<br \/>\n    e Bas&iacute;lio, pousando-lhe a m&atilde;o sobre a testa, inclinou-lhe a<br \/>\n    cabe&ccedil;a para tr&aacute;s, beijou-lhe as p&aacute;lpebras devagar, a<br \/>\n    face, os l&aacute;bios depois muito profundamente; os bei&ccedil;os dela entreabriram-se;<br \/>\n    os seus joelhos dobraram-se.<br \/>\n    Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, afastou<br \/>\n    o rosto, exclamou aflita:<br \/>\n    &#8212; Deixa-me, deixa-me!<br \/>\n    Viera-lhe uma for&ccedil;a nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando<br \/>\n    as m&atilde;os abertas pela testa, pelos cabelos:<br \/>\n    &#8212; Oh meu Deus! &Eacute; horr&iacute;vel! &#8212; murmurou. &#8212; Deixa-me!<br \/>\n    &Eacute; horr&iacute;vel!<br \/>\n    Ele adiantava-se com os dentes cerrados; mas Lu&iacute;sa recuava, dizia:<br \/>\n    &#8212; Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!<br \/>\n    Ele ent&atilde;o tranq&uuml;ilizou-a com a voz subitamente serena e humilde.<br \/>\n    N&atilde;o percebia. Por que zangava? Que tinha um beijo? Ele n&atilde;o pedia<br \/>\n    mais. Que tinha ela imaginado, ent&atilde;o? Adorava-a, decerto, mas puramente.<br \/>\n    &#8212; Juro-te! &#8212; disse com for&ccedil;a, batendo no peito.<br \/>\n    F&ecirc;-la sentar no sof&aacute;, sentou-se ao p&eacute; dela. Falou-lhe<br \/>\n    muito sensatamente: &#8212; Via as circunst&acirc;ncias, e resignar-se-ia.<br \/>\n    Seria como uma amizade de irm&atilde;os, nada mais.<br \/>\n    Ela escutava-o, esquecida.<br \/>\n    Decerto, dizia ele, aquela paix&atilde;o era uma tortura imensa. Mas era forte,<br \/>\n    dominar-se-ia. S&oacute; queria vir v&ecirc;-la, falar-lhe. Seria um sentimento<br \/>\n    ideal. &#8212; E os seus olhos devoravam-na.<br \/>\n    Voltou-lhe a m&atilde;o, curvou-se, p&ocirc;s-lhe um beijo cheio na palma.<br \/>\n    Ela estremeceu, ergueu-se logo:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o! Vai-te!<br \/>\n    &#8212; Bem, adeus.<br \/>\n    Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a seda<br \/>\n    do chap&eacute;u:<br \/>\n    &#8212; Bem, adeus &#8212; repetiu melancolicamente.<br \/>\n    &#8212; Adeus.<br \/>\n    Bas&iacute;lio disse ent&atilde;o com muita ternura:<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;s zangada?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o!<br \/>\n    &#8212; Escuta &#8212; murmurou, adiantando-se.<br \/>\n    Lu&iacute;sa bateu com o p&eacute;.<br \/>\n    &#8212; Oh que homem! Deixa-me! Amanh&atilde;. Adeus. Vai-te! Amanh&atilde;!<br \/>\n    &#8212; Amanh&atilde;! &#8212; disse ele, baixinho.<br \/>\n    E saiu rapidamente.<br \/>\n    Lu&iacute;sa entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho<br \/>\n    ficou surpreendida: nunca se vira t&atilde;o linda! Deu alguns passos calada.<br \/>\n    Juliana arrumava roupa-branca num gavet&atilde;o do guarda-vestidos.<br \/>\n    &#8212; Quem tocou h&aacute; bocado? &#8212; perguntou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Foi o Sr. Sebasti&atilde;o. N&atilde;o quis entrar; disse que voltava.<br \/>\n    Tinha dito, com efeito, &#8220;que voltava&#8221;. Mas come&ccedil;ava quase<br \/>\n    a envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontr&aacute;-la sempre &#8220;com<br \/>\n    uma visita!&#8221;<br \/>\n    Logo no primeiro dia ficara muito surpreendido quando Juliana lhe disse: &#8220;Est&aacute;<br \/>\n    com um sujeito! Um rapaz novo que j&aacute; c&aacute; esteve ontem!&#8221;<br \/>\n    Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa&#8230; Seria algum empregado da secretaria<br \/>\n    ou algum propriet&aacute;rio de minas, o filho do Alonso, talvez; um neg&oacute;cio<br \/>\n    de Jorge decerto&#8230;<br \/>\n    Depois no domingo, &agrave; noite, trazia-lhe a partitura de Romeu e Julieta,<br \/>\n    de Gounod, que ela desejava tanto ouvir, e quando Juliana lhe disse da varanda<br \/>\n    &#8220;que tinha sa&iacute;do com D. Felicidade de carruagem&#8221;, ficou<br \/>\n    muito embara&ccedil;ado com o grosso volume debaixo do bra&ccedil;o, co&ccedil;ando<br \/>\n    devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do entusiasmo de D. Felicidade<br \/>\n    pelo Teatro de D. Maria. Mas irem s&oacute;s, naquele calor de julho, ao teatro!<br \/>\n    Enfim, era poss&iacute;vel. Foi a D. Maria.<br \/>\n    O teatro, quase vazio, estava l&uacute;gubre; aqui e al&eacute;m, nalgum camarote,<br \/>\n    uma fam&iacute;lia feia perfilava-se, com cabelos negr&iacute;ssimos carregados<br \/>\n    de posti&ccedil;os, gozando soturnamente a sua noite de domingo; na plat&eacute;ia,<br \/>\n    &agrave; larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam<br \/>\n    com um ar encalmado e farto, limpando a espa&ccedil;os, com len&ccedil;os<br \/>\n    de seda, o suor dos pesco&ccedil;os; na geral, gente de trabalho arregalava<br \/>\n    olhos negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; bocejava-se.<br \/>\n    E no palco, que representava uma sala de baile amarela, um velhote condecorado<br \/>\n    falava a uma magrita de cabelos ri&ccedil;ados, sem cessar, com o tom dilu&iacute;do<br \/>\n    de uma &aacute;gua gordurosa e morna que escorre.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o saiu. Onde estariam? Soube-o na manh&atilde; seguinte. &#8212;<br \/>\n    Descia o Moinho de Vento, e um vizinho, o Neto, que subia curvado sob o seu<br \/>\n    guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o bruscamente,<br \/>\n    para lhe dizer:<br \/>\n    &#8212; O amigo Sebasti&atilde;o, ou&ccedil;a c&aacute;. Vi ontem &agrave;<br \/>\n    noite no Passeio a D. Lu&iacute;sa com um rapaz que eu conhe&ccedil;o. Mas<br \/>\n    de onde conhe&#038;ccedilccedil;o eu aquela cara? Quem diabo &eacute;?<br \/>\n    Sebasti&atilde;o encolheu os ombros.<br \/>\n    &#8212; Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conhe&ccedil;o-o.<br \/>\n    Noutro dia vi-o entrar para l&aacute;. Voc&ecirc; n&atilde;o sabe?<br \/>\n    N&atilde;o sabia.<br \/>\n    &#8212; Eu conhe&ccedil;o aquela cara. Tenho estado a ver se me recordo&#8230;<br \/>\n    &#8212; Passava a m&atilde;o pela testa. &#8212; Eu conhe&ccedil;o aquela<br \/>\n    cara! Ele &eacute; de Lisboa. De Lisboa &eacute; ele!<br \/>\n    E depois de um sil&ecirc;ncio, fazendo girar o guarda-sol:<br \/>\n    &#8212; E que h&aacute; de novo, Sebasti&atilde;o?<br \/>\n    Tamb&eacute;m n&atilde;o sabia.<br \/>\n    &#8212; Nem eu!<br \/>\n    E bocejando muito:<br \/>\n    &#8212; Isto est&aacute; uma pasmaceira, homem!<br \/>\n    Nessa tarde, &agrave;s quatro horas, Sebasti&atilde;o voltou &agrave; casa<br \/>\n    de Lu&iacute;sa. Estava com &#8220;o sujeito!&#8221; Ficou ent&atilde;o preocupado.<br \/>\n    Decerto era algum neg&oacute;cio de Jorge; porque n&atilde;o compreendia que<br \/>\n    ela falasse, sentisse, vivesse, que n&atilde;o fosse no interesse da casa<br \/>\n    e para maior felicidade de Jorge. Mas devia ser grave ent&atilde;o &#8212;<br \/>\n    para reclamar visitas, encontros, tantas rela&ccedil;&otilde;es. Tinham pois<br \/>\n    interesses importantes que ele n&atilde;o conhecia! E aquilo parecia-lhe uma<br \/>\n    ingratid&atilde;o, e como uma diminui&ccedil;&atilde;o de amizade.<br \/>\n    A tia Joana tinha-o achado &#8220;macamb&uacute;zio&#8221;.<br \/>\n    Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bas&iacute;lio, o Bas&iacute;lio<br \/>\n    de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido veio<br \/>\n    inquiet&aacute;-lo.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o n&atilde;o conhecia Bas&iacute;lio pessoalmente, mas sabia<br \/>\n    a cr&ocirc;nica da sua mocidade. N&atilde;o havia nela certamente, nem esc&acirc;ndalo<br \/>\n    excepcional, nem romance pungente. Bas&iacute;lio tinha sido apenas um p&acirc;ndego<br \/>\n    e, como tal, passara metodicamente por todos os epis&oacute;dios cl&aacute;ssicos<br \/>\n    da estroinice lisboeta: partidas de monte at&eacute; de madrugada com rica&ccedil;os<br \/>\n    do Alentejo; uma tip&oacute;ia despeda&ccedil;ada num s&aacute;bado de touros;<br \/>\n    ceias repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas<br \/>\n    pegas aplaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau e Colares<br \/>\n    nas tabernas fadistas; muita guitarra; socos bem jogados &agrave; face at&ocirc;nita<br \/>\n    de um pol&iacute;cia; e uma profus&atilde;o de gemas de ovos nas gl&oacute;rias<br \/>\n    do entrudo. As &uacute;nicas mulheres mesmo que apareciam na sua hist&oacute;ria,<br \/>\n    al&eacute;m das Lolas e das Carmens usuais, eram a Pistelli, uma dan&ccedil;arina<br \/>\n    alem&atilde; cujas pernas tinham uma musculatura de atleta, e a condessinha<br \/>\n    de Alvim, uma doida, grande cavaleira, que se separara de seu marido depois<br \/>\n    de o ter chicotado, e que se vestia de homem para bater ela mesma em trem<br \/>\n    de pra&ccedil;a do Rocio ao Dafundo. Mas isto bastava para que Sebasti&agrave;o<br \/>\n    o achasse um debochado, um perdido; ouvira que ele tinha ido para o Brasil<br \/>\n    para fugir aos credores; que enriquecera por acaso, numa especula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    no Paraguai; que mesmo na Rabia, com a corda na garganta, nunca fora um trabalhador;<br \/>\n    e supunha que a posse da fortuna para ele, seria apenas um desenvolvimento<br \/>\n    dos v&iacute;cios. E este homem agora vinha ver a Luisinha todos os dias,<br \/>\n    estava horas e horas, seguia-a ao Passeio&#8230;<br \/>\n    Para qu&ecirc;?&#8230; Era claro, para a desinquietar!<br \/>\n    Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsala&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    destas id&eacute;ias, quando uma voz encatarroada disse com respeito:<br \/>\n    &#8212; O Sr. Sebasti&acirc;o!<br \/>\n    Era o Paula dos m&oacute;veis.<br \/>\n    &#8212; Viva, Sr. Jo&atilde;o.<br \/>\n    O Paula atirou para as pedras da rua um jato escuro de saliva, e com as m&atilde;os<br \/>\n    cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom grave:<br \/>\n    &#8212; &Oacute; Sr. Sebasti&atilde;o, h&aacute; doen&ccedil;a c&aacute; por<br \/>\n    causa do Sr. Engenheiro?<br \/>\n    Sebasti&atilde;o todo surpreendido:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o. Por qu&ecirc;?<br \/>\n    O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; que tenho visto entrar para c&aacute; todos os dias um sujeito.<br \/>\n    Imaginei que fosse o m&eacute;dico.<br \/>\n    E puxando o escarro:<br \/>\n    &#8212; Desses novos da homeopatia!<br \/>\n    Sebasti&atilde;o tinha corado.<br \/>\n    &#8212; Nada &#8212; disse. &#8212; &Eacute; o primo de D. Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Ah! &#8212; fez o Paula. &#8212; Pois pensei&#8230; Queira desculpar,<br \/>\n    Sr. Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    E curvou-se respeitosamente.<br \/>\n    &#8212; J&aacute; temos falat&oacute;rio! &#8212; foi pensando Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    E entrou em casa, descontente.<br \/>\n    Morava ao fundo da rua, num pr&eacute;dio seu, de constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    antiga, com quintal.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o era s&oacute;. Tinha uma fortuna pequena em inscri&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    terras de lavoura para o lado do Scixal, e a quinta em Almada, &#8212; o Rozegal.<br \/>\n    As duas criadas eram muito antigas na casa. A Vic&ecirc;ncia, a cozinheira,<br \/>\n    era uma preta de S. Tom&eacute; j&aacute; do tempo da mam&atilde;. A tia Joana,<br \/>\n    a governanta, servia-o havia trinta e cinco anos; chamava ainda a Sebasti&atilde;o<br \/>\n    o &#8220;menino&#8221;; tinha j&aacute; as tontices de uma crian&ccedil;a,<br \/>\n    e recebia sempre os respeitos de uma av&oacute;. Era do Porto, do Po&acirc;rto,<br \/>\n    como ela dizia, porque nunca perdera o seu acento minhoto. Os amigos de Sebasti&atilde;o<br \/>\n    chamavam-lhe uma velha de com&eacute;dia. Era baixinha e gorda, com um sorriso<br \/>\n    muito bondoso; tinha os cabelos alvos como uma estriga, atados no alto num<br \/>\n    rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um vasto len&ccedil;o<br \/>\n    branco muito asseado, tra&ccedil;ado sobre o peito. E todo o dia passarinhava<br \/>\n    pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar os molhos de chaves,<br \/>\n    resmungando prov&eacute;rbios, tomando rap&eacute; de uma caixa redonda, em<br \/>\n    cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte p&ecirc;nsil do Porto.<br \/>\n    Em toda a casa havia um tom caturra e doce; na sala de visitas, quase sempre<br \/>\n    fechada, o vasto canap&eacute;, as poltronas tinham o ar empertigado do tempo<br \/>\n    do Sr. D. Jos&eacute; I, e os estofos de damasco vermelho desbotado lembravam<br \/>\n    a pompa de uma corte decr&eacute;pita; das paredes da casa de jantar pendiam<br \/>\n    as primeiras gravuras das batalhas de Napole&atilde;o, onde se v&ecirc; invariavelmente,<br \/>\n    numa emin&ecirc;ncia, o cavalo branco, para o qual galopa desenfreadamente<br \/>\n    do primeiro plano um hussardo, brandindo um sabre. Sebasti&atilde;o dormia<br \/>\n    os seus sonos de sete horas, sem sonhos, numa velha barra de pau preto torneado;<br \/>\n    e numa saleta escura, sobre uma c&ocirc;moda de fecharias de metal amarelo,<br \/>\n    conservava-se, havia anos, o padroeiro da casa, S. Sebasti&atilde;o &#8212;<br \/>\n    que se torcia, cravado de setas, nas cordas que o atavam ao tronco, &agrave;<br \/>\n    luz de uma l&acirc;mpada, muito cuidada pela tia Joana, sob os ru&iacute;dos<br \/>\n    sutis dos ratos pelo forro.<br \/>\n    A casa condizia com o dono. Sebasti&atilde;o tinha um g&ecirc;nio antiquado.<br \/>\n    Era solit&aacute;rio e acanhado. J&aacute; no latim lhe chamavam o peludo;<br \/>\n    punham-lhe rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    que tinha a for&ccedil;a de um ginasta, oferecia a resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um m&aacute;rtir.<br \/>\n    Foi sempre reprovado nos primeiros exames do liceu. Era inteligente, mas uma<br \/>\n    pergunta, o reluzir dos &oacute;culos de um professor, a grande lousa negra<br \/>\n    imobilizavam-no; ficava muito embezerrado, a face inchada e rubra, a co&ccedil;ar<br \/>\n    os joelhos, o olhar vazio.<br \/>\n    Sua m&atilde;e, que era da aldeia e que fora padeira, muito vaidosa agora<br \/>\n    das suas inscri&ccedil;&otilde;es, da sua quinta, da sua mob&iacute;lia de<br \/>\n    damasco, sempre vestida de seda, carregada de an&eacute;is, costumava dizer:<br \/>\n    &#8212; Ora! Tem que comer e beber! Estar a afligir a crian&ccedil;a com estudos!<br \/>\n    Deixa l&aacute;, deixa l&aacute;!<br \/>\n    A inclina&ccedil;&atilde;o de Sebasti&atilde;o era pela m&uacute;sica. Sua<br \/>\n    m&atilde;e, por conselhos da m&atilde;e de Jorge, sua vizinha e sua intima,<br \/>\n    tomou-lhe um mestre de piano; logo desde as primeiras li&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a que ela assistia com enfeites de veludo vermelho e cheia de j&oacute;ias,<br \/>\n    o velho professor Aquiles Bentes, de &oacute;culos redondos e cara de coruja,<br \/>\n    exclamou excitado com a sua voz nasal:<br \/>\n    &#8212; Minha rica senhora! O seu menino &eacute; um g&ecirc;nio! &Eacute;<br \/>\n    um g&ecirc;nio! H&aacute; de ser um Rossini! &Eacute; puxar por ele! &Eacute;<br \/>\n    puxar por ele!<br \/>\n    Mas era justamente o que ela n&atilde;o queria, era puxar por ele, coitadinho!<br \/>\n    Por isso n&atilde;o foi um Rossini. E todavia o velho Bentes continuava a<br \/>\n    dizer, por h&aacute;bito:<br \/>\n    &#8212; H&aacute; de ser um Rossini! H&aacute; de ser um Rossini!<br \/>\n    Somente em lugar de o gritar, brandindo pap&eacute;is de m&uacute;sica, murmurava-o,<br \/>\n    com bocejos enormes de le&atilde;o enfastiado.<br \/>\n    J&aacute; ent&atilde;o os dois rapazes vizinhos, Jorge e Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    eram &iacute;ntimos. Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal,<br \/>\n    a brincar, Sebasti&atilde;o era sempre o cavalo nas imita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da dilig&ecirc;ncia, o vencido nas guerras. Era Sebasti&atilde;o que carregava<br \/>\n    os pesos, que oferecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo<br \/>\n    o p&atilde;o, deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquela amizade sempre<br \/>\n    igual, sem amuos, tornou-se na vida de ambos um interesse essencial e permanente.<br \/>\n    Quando a m&atilde;e de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos; habitariam<br \/>\n    a casa de Sebasti&atilde;o, mais larga e que tinha quintal; Jorge queria comprar<br \/>\n    um cavalo, mas conheceu Lu&iacute;sa no Passeio, e dai a dois meses passava<br \/>\n    quase todo o seu dia na Rua da Madalena.<br \/>\n    Todo aquele plano jovial da Sociedade Sebasti&atilde;o e Jorge &#8212; chamavam-lhe<br \/>\n    assim, rindo &#8212; desabou, como um castelo de cartas. Sebasti&atilde;o<br \/>\n    teve um grande pesar.<br \/>\n    E era ele, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a Lu&iacute;sa,<br \/>\n    sem espinhos, com cuidados devotos, embrulhados num papel de seda. Era ele<br \/>\n    que tratava dos arranjos do &#8220;ninho&#8221;, ia apressar os estofadores,<br \/>\n    discutir pre&ccedil;os de roupas, vigiar o trabalho dos homens que pregavam<br \/>\n    os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos pap&eacute;is do casamento!<br \/>\n    E &agrave; noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar<br \/>\n    com um sorriso as expans&otilde;es felizes de Jorge, que passeava pelo quarto<br \/>\n    at&eacute; &agrave;s duas horas da noite em mangas de camisa, namorado loquaz,<br \/>\n    brandindo o cachimbo!<br \/>\n    Depois do casamento Sebasti&atilde;o sentiu-se muito s&oacute;. Foi a Portei<br \/>\n    visitar um tio, um velho esquisito, com um olhar de doido, que passava a exist&ecirc;ncia<br \/>\n    combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o Eurico. Quando voltou, passado<br \/>\n    um m&ecirc;s, Jorge disse-lhe radioso:<br \/>\n    &#8212; E sabes, hein? Isto agora &eacute; que &eacute; a tua casa! Aqui &eacute;<br \/>\n    que tu vives!<br \/>\n    Mas nunca obteve de Sebasti&atilde;o que fosse a sua casa com uma inteira<br \/>\n    intimidade. Sebasti&atilde;o batia &agrave; porta, timidamente. Corava diante<br \/>\n    de Lu&iacute;sa; o antigo peludo de latim reaparecia. Jorge lutara para que<br \/>\n    ele cruzasse sem cerim&ocirc;nia as pernas, fumasse cachimbo diante dela,<br \/>\n    n&atilde;o lhe dissesse, a todo o momento: &#8212; V. Ex&ordf;, V. Ex&ordf;<br \/>\n    &#8212; meio erguido na cadeira.<br \/>\n    Nunca vinha jantar sen&atilde;o arrastado. Quando Jorge n&atilde;o estava,<br \/>\n    as suas visitas eram curtas, cheias de sil&ecirc;ncio. Julgava-se gebo, tinha<br \/>\n    medo de ma&ccedil;ar.<br \/>\n    Nessa tarde, quando ele foi para a sala de jantar, a tia Joana veio-lhe perguntar<br \/>\n    pela Luisinha.<br \/>\n    Adorava-a, achava-a um anjinho, uma a&ccedil;ucena.<br \/>\n    &#8212; Como est&aacute; ela? Viu-a?<br \/>\n    Sebasti&atilde;o corou; n&atilde;o quis dizer, como na v&eacute;spera, &#8220;que<br \/>\n    estava gente, que n&atilde;o tinha entrado&#8221;; abaixando-se, pondo-se<br \/>\n    a brincar com as orelhas do Trajano, o seu velho perdigueiro:<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; boa, tia Joana, est&aacute; boa. Ent&atilde;o como h&aacute;<br \/>\n    de estar? Est&aacute; &oacute;tima!<br \/>\n    &Agrave;quela hora Lu&iacute;sa recebia uma carta de Jorge. Era de Portei,<br \/>\n    com muitas queixas sobre o calor, sobre as m&aacute;s estalagens, hist&oacute;rias<br \/>\n    sobre o extraordin&aacute;rio parente de Sebasti&atilde;o, &#8212; saudades<br \/>\n    e mil beijos&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o a esperava, e aquela folha de papel cheia de uma letra miudinha,<br \/>\n    que lhe fazia reaparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar, a sua<br \/>\n    ternura, deu-lhe uma sensa&ccedil;&atilde;o quase dolorosa. Toda a vergonha<br \/>\n    dos seus desfalecimentos cobardes, sob os beijos de Bas&iacute;lio, veio abrasar-lhe<br \/>\n    as faces. Que horror deixar-se abra&ccedil;ar, apertar! No sof&aacute; o que<br \/>\n    ele lhe dissera; com que olhos a devorara!&#8230; Recordava tudo, &#8212; a sua<br \/>\n    atitude, o calor das suas m&atilde;os, a tremura da sua voz&#8230; E maquinalmente,<br \/>\n    pouco e pouco, ia-se esquecendo naquelas recorda&ccedil;&otilde;es, abandonando-se-lhes,<br \/>\n    at&eacute; ficar perdida na deliciosa Lassid&atilde;o que elas lhe davam,<br \/>\n    com o olhar l&acirc;nguido, os bra&ccedil;os frouxos. Mas a id&eacute;ia de<br \/>\n    Jorge vinha ent&atilde;o outra vez fustig&aacute;-la como uma chicotada. Erguia-se<br \/>\n    bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de chorar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah! n&atilde;o! &eacute; horroroso, &eacute; horroroso! &#8212; dizia<br \/>\n    s&oacute;, falando alto. &#8212; &Eacute; necess&aacute;rio acabar!<br \/>\n    Resolveu n&atilde;o receber Bas&iacute;lio, escrever-lhe, pedir-lhe que n&atilde;o<br \/>\n    voltasse, que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria seca e fria; n&atilde;o<br \/>\n    diria meu querido primo, mas simplesmente primo Bas&iacute;lio.<br \/>\n    E que faria ele, quando recebesse a carta? Choraria, coitado!<br \/>\n    Imaginava-o s&oacute;, no seu quarto de hotel, infeliz e p&aacute;lido; e<br \/>\n    daqui, pelos declives da sensibilidade, passava &agrave; recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua pessoa, da sua voz convincente, das turba&ccedil;&otilde;es do seu<br \/>\n    olhar dominante; e a mem&oacute;ria demorava-se naquelas lembran&ccedil;as<br \/>\n    com uma sensa&ccedil;&atilde;o de felicidade, como a m&atilde;o se esquece<br \/>\n    acariciando a plumagem doce de um p&aacute;ssaro raro. Sacudia a cabe&ccedil;a<br \/>\n    com impaci&ecirc;ncia, como se aquelas imagina&ccedil;&otilde;es fossem os<br \/>\n    ferr&otilde;es de insetos importunos; esfor&ccedil;ava-se por pensar s&oacute;<br \/>\n    em Jorge; mas as id&eacute;ias m&aacute;s voltavam, mordiam-na; e achava-se<br \/>\n    desgra&ccedil;ada, sem saber o que queria, com vontades confusas de estar<br \/>\n    com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus,<br \/>\n    que infeliz que era! &#8212; E do fundo da sua natureza de pregui&ccedil;osa<br \/>\n    vinha-lhe uma indefinida indigna&ccedil;&atilde;o contra Jorge, contra Bas&iacute;lio,<br \/>\n    contra os sentimentos, contra os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se<br \/>\n    e sofrer. Que a n&atilde;o secassem, Santo Deus!<br \/>\n    Depois do jantar, &agrave; janela da sala, ficou a reler a carta de Jorge.<br \/>\n    P&ocirc;s-se a recordar de prop&oacute;sito tudo o que a encantava nele, do<br \/>\n    seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns de honra,<br \/>\n    outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo era por ele estar<br \/>\n    fora, na prov&iacute;ncia! Se ele ali estivesse ao p&eacute; dela! Mas t&atilde;o<br \/>\n    longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra sua vontade, a certeza<br \/>\n    daquela aus&ecirc;ncia dava-lhe uma sensa&ccedil;&atilde;o de liberdade; a<br \/>\n    id&eacute;ia de se poder mover &agrave; vontade nos desejos, nas curiosidades,<br \/>\n    enchia-lhe o peito de um contentamento largo, como uma lufada de independ&ecirc;ncia.<br \/>\n    Mas enfim, vamos, de que lhe servia estar livre, s&oacute;? &#8212; E de repente<br \/>\n    tudo o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe aparecia numa perspectiva longa<br \/>\n    que fulgurava; aquilo era como uma porta, subitamente aberta e fechada, que<br \/>\n    deixa entrever, num relance, alguma coisa de indefinido, de maravilhoso, que<br \/>\n    palpita e fa&iacute;sca. &#8212; Oh! estava doida, decerto!<br \/>\n    Escureceu. Foi para a saia, abriu a janela; a noite estava quente e espessa,<br \/>\n    com um ar de eletricidade e de trovoada. Respirava mal; olhava para o c&eacute;u,<br \/>\n    desejando alguma coisa fortemente, sem saber o qu&ecirc;.<br \/>\n    O mo&ccedil;o do padeiro embaixo, como sempre, tocava o fado; aqueles sons<br \/>\n    banais entravam-lhe agora na alma, com a brandura de um bafo quente e a melancolia<br \/>\n    de um gemido.<br \/>\n    Encostou a cabe&ccedil;a &agrave; m&atilde;o com uma lassid&atilde;o. Mil<br \/>\n    pensamentozinhos corriam-lhe no c&eacute;rebro como os pontos de luz que correm<br \/>\n    num papel que se queimou; lembrava-lhe sua m&atilde;e, o chap&eacute;u novo<br \/>\n    que lhe mandara Madame Fran&ccedil;ois, o tempo que faria em Sintra, a do&ccedil;ura<br \/>\n    das noites quentes sob a escurid&atilde;o das ramagens&#8230;<br \/>\n    Fechou a janela, espregui&ccedil;ou-se; e sentada na causeuse, no seu quarto,<br \/>\n    ficou ali, numa imobilidade, pensando em Jorge, em lhe escrever, em lhe pedir<br \/>\n    que viesse. Mas bem depressa aquele cismar come&ccedil;ou a quebrar-se a cada<br \/>\n    momento como uma tela que se esga&ccedil;a em rasg&otilde;es largos, e, por<br \/>\n    tr&aacute;s, aparecia logo com uma intensidade luminosa e forte a id&eacute;ia<br \/>\n    do primo Bas&iacute;lio.<br \/>\n    As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro; a melancolia<br \/>\n    da separa&ccedil;&atilde;o dera-lhe cabelos brancos. Tinha sofrido por ela!<br \/>\n    &#8212;dissera. &#8212; E no fim onde estava o mal? Ele jurara-lhe que aquele<br \/>\n    amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris, o pobre rapaz,<br \/>\n    assim lho jurara, para a ver, uma semana, quinze dias. E havia de dizer-lhe:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o voltes; vai-te?<br \/>\n    &#8212; Quando a senhora quiser o ch&aacute;&#8230; &#8212; disse da porta do<br \/>\n    quarto Juliana.<br \/>\n    Lu&iacute;sa deu um suspiro alto como acordando. N&atilde;o! Que trouxesse<br \/>\n    a lamparina, mais tarde.<br \/>\n    Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu ch&aacute;, &agrave; cozinha. O lume<br \/>\n    ia-se apagando; o candeeiro de petr&oacute;leo estendia nos cobres dos tachos<br \/>\n    reflexos avermelhados.<br \/>\n    &#8212; Hoje houve coisa, Sr.a Joana &#8212; disse Juliana sentando-se. &#8212;<br \/>\n    Est&aacute; toda no ar! E &eacute; cada suspiro! Ali houve-a e grossa.<br \/>\n    Joana, do outro lado, com os cotovelos na mesa e a face sobre os punhos, pestanejava<br \/>\n    de sono.<br \/>\n    &#8212; A Sr.a Juliana, tamb&eacute;m, deita tudo para o mal &#8212; disse.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; que era necess&aacute;rio ser tola, Sr.a Joana!<br \/>\n    Calou-se, cheirou o a&ccedil;&uacute;car; era um dos seus despeitos; gostava<br \/>\n    dele bem refinado &#8212; e aquele a&ccedil;&uacute;car mascavado e grosso,<br \/>\n    que punha no ch&aacute; uni gosto de formigas, exasperava-a.<br \/>\n    &#8212; Este &eacute; pior que o do m&ecirc;s passado! Para uma pobre de Cristo<br \/>\n    tudo &eacute; bom! &#8212; rosnou muito amargamente.<br \/>\n    E depois de uma pausa repetiu:<br \/>\n    &#8212; E que era necess&aacute;rio ser tola, Sr. a Joana!<br \/>\n    A cozinheira disse pregui&ccedil;osamente:<br \/>\n    &#8212; Cada um sabe de si&#8230;<br \/>\n    &#8212; E Deus de todos &#8212; suspirou Juliana.<br \/>\n    E ficaram caladas.<br \/>\n    Lu&iacute;sa tocou a campainha embaixo.<br \/>\n    &#8212; Que teremos n&oacute;s agora? Est&aacute; com as c&oacute;cegas.<br \/>\n    Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada:<br \/>\n    &#8212; Quer mais &aacute;gua! Olha a mania; p&ocirc;6-se agora a chafurdar<br \/>\n    &agrave; meia-noite! Sempre a gente as v&ecirc;&#8230;<br \/>\n    Foi encher o regador, e enquanto a &aacute;gua da torneira cantava no fundo<br \/>\n    da lata:<br \/>\n    &#8212; E diz que lhe fa&ccedil;a amanh&atilde; ao almo&ccedil;o um bocado<br \/>\n    de presunto frito, do salgado. Quer picantes!<br \/>\n    E com muito esc&aacute;rnio:<br \/>\n    &#8212; Sempre a gente v&ecirc; coisas! Quer picantes!<br \/>\n    &Agrave; meia-noite a casa estava adormecida e apagada. Fora, o c&eacute;u<br \/>\n    enegrecera mais: relampejou, e um trov&atilde;o seco estalou, rolou.<br \/>\n    Lu&iacute;sa abriu os olhos estremunhada; come&ccedil;ara a cair uma chuva<br \/>\n    grossa e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento escutando<br \/>\n    as goteiras que cantavam sobre o lajedo; a alcova abafada; descobriu-se; o<br \/>\n    sono tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga claridade que vinha de<br \/>\n    fora da lamparina, seguia o tique-taque do rel&oacute;gio. Espregui&ccedil;ou-se,<br \/>\n    e uma certa id&eacute;ia, uma certa vis&atilde;o foi-se formando no seu c&eacute;rebro,<br \/>\n    completando-se, t&atilde;o n&iacute;tida, quase t&atilde;o vis&iacute;vel,<br \/>\n    que se revirou na cama devagar, estirou os bra&ccedil;os, lan&ccedil;ou-os<br \/>\n    em roda do travesseiro, adiantando os bei&ccedil;os secos &#8212; para beijar<br \/>\n    uns cabelos negros onde reluziam fios brancos.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o tinha dormido mal. Acordou &agrave;s seis horas e desceu<br \/>\n    ao quintal em chinelas. Uma porta envidra&ccedil;ada da sala de jantar abria<br \/>\n    para um terra&ccedil;ozinho, largo apenas para tr&ecirc;s cadeiras de ferro<br \/>\n    pintado e alguns vasos de cravos; dali, quatro degraus de pedra desciam para<br \/>\n    o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de flores,<br \/>\n    saladas muito regadas, p&eacute;s de roseiras junto dos muros, um po&ccedil;o<br \/>\n    e um tanque debaixo de uma parreirita, e &aacute;rvores; terminava por outro<br \/>\n    terra&ccedil;o assombreado de uma t&iacute;lia, com um parapeito para uma<br \/>\n    rua baixa e solit&aacute;ria; defronte corria um muro de quintal muito caiado.<br \/>\n    Era um sitio recolhido, de uma paz alde&atilde;. Muitas vezes Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    de madrugada, ia para ali fumar o seu cigano.<br \/>\n    Era uma manh&atilde; deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o c&eacute;u<br \/>\n    arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas velhas<br \/>\n    e, aqui e al&eacute;m, uma nuvenzinha algodoada, molemente enrolada, cor de<br \/>\n    leite; a folhagem tinha um verde lavado, a &aacute;gua do tanque uma cristalinidade<br \/>\n    fria; p&aacute;ssaros chilreavam de leve com v&ocirc;os r&aacute;pidos.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o estava debru&ccedil;ado para a rua, quando a ponteira de<br \/>\n    uma bengala, passos vagarosos cortaram o sil&ecirc;ncio fresco. Era um vizinho<br \/>\n    de Jorge, o Cunha Rosado, o doente de intestinos; arrastava-se, curvado, abafado<br \/>\n    num cachen&ecirc; e num palet&oacute; cor de pinh&atilde;o, com a barba grisalha<br \/>\n    desmazelada, a crescer.<br \/>\n    &#8212; J&aacute; a p&eacute;, vizinho! &#8212; disse Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    O outro parou, ergueu a cabe&ccedil;a lentamente.<br \/>\n    &#8212; Oh Sebasti&atilde;o! &#8212; disse com uma voz plangente. &#8212;<br \/>\n    Ando a passear os meus leites, homem!<br \/>\n    &#8212; A p&eacute;?<br \/>\n    &#8212; Ao princ&iacute;pio ia na burrita at&eacute; fora de portas, mas diz<br \/>\n    que me fazia bem o passeiozito a p&eacute;&#8230;<br \/>\n    Encolheu os ombros com um gesto triste de d&uacute;vida, de desconsola&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; E como vai isso? &#8212; perguntou Sebasti&atilde;o, muito debru&ccedil;ado<br \/>\n    para a rua, com afeto.<br \/>\n    O Cunha teve um sorriso desolado nos seus bei&ccedil;os brancos:<br \/>\n    &#8212; A desfazer-se!<br \/>\n    Sebasti&atilde;o tossiu, embara&ccedil;ado, sem achar uma consola&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas o doente, com as duas m&atilde;os apoiadas &agrave; bengala, uma s&uacute;bita<br \/>\n    radia&ccedil;&atilde;o de interesse no olhar amortecido:<br \/>\n    &#8212; &Oacute; Sebasti&atilde;o, um rapaz alto, que eu tenho visto todos<br \/>\n    estes dias entrar para casa do Jorge, &eacute; o Bas&iacute;lio de Brito,<br \/>\n    pois n&atilde;o &eacute;? O primo da mulher? O filho do Jo&atilde;o de Brito?<br \/>\n    &#8212; &Eacute;, sim, por qu&ecirc;?<br \/>\n    O Cunha fez: Ah! ah! com uma grande satisfa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Bem dizia eu! &#8212; exclamou. &#8212; Bem dizia eu! E aquela teimosa<br \/>\n    que n&atilde;o! que n&atilde;o&#8230;<br \/>\n    E ent&atilde;o explicou com uma tagarelice s&uacute;bita, e cansa&ccedil;os<br \/>\n    de voz:<br \/>\n    &#8212; O meu quarto &eacute; para a rua, e todos os dias, como eu estou quase<br \/>\n    sempre pela janela para espairecer&#8230; tenho visto aquele rapaz, a modo estrangeirado,<br \/>\n    entrar para l&aacute;&#8230; todos os dias! Este &eacute; o Bas&iacute;lio de<br \/>\n    Brito! disse eu. Mas minha mulher que n&atilde;o! que n&atilde;o!&#8230; Que diabo,<br \/>\n    homem! Eu tinha quase a certeza&#8230; N&atilde;o conhe&ccedil;o eu outra coisa!&#8230;<br \/>\n    At&eacute; ele esteve para casar com a D. Lu&iacute;sa. Oh! Eu sei essa hist&oacute;ria<br \/>\n    na ponta dos dedos&#8230; Morava ela na Rua da Madalena!&#8230;<br \/>\n    Sebasti&atilde;o disse vagamente:<br \/>\n    &#8212; Pois &eacute;, &eacute; o Brito&#8230;<br \/>\n    &#8212; Bem dizia eu!<br \/>\n    Ficou um momento im&oacute;vel, fitando o ch&atilde;o, e refazendo uma voz<br \/>\n    dolente:<br \/>\n    &#8212; Pois, vou-me arrastando at&eacute; casa.<br \/>\n    Suspirou. E arregalando os olhos:<br \/>\n    &#8212; Quem me dera a sua sa&uacute;de, Sebasti&atilde;o!<br \/>\n    E dizendo adeus, com um gesto da m&atilde;o cal&ccedil;ada de luva de casimira<br \/>\n    escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o bra&ccedil;o<br \/>\n    ao ventre, o seu largo palet&oacute; cor de pinh&atilde;o.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o entrou preocupado. Todo o mundo come&ccedil;ava a reparar,<br \/>\n    hein! Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem; estar duas,<br \/>\n    tr&ecirc;s horas! Uma vizinhan&ccedil;a t&atilde;o chegada, t&atilde;o maligna!&#8230;<br \/>\n    Ao come&ccedil;o da tarde saiu. Teve vontade de procurar Lu&iacute;sa; mas<br \/>\n    sem saber por qu&ecirc;, sentia um grande acanhamento; como que receava encontr&aacute;-la<br \/>\n    diferente ou com outra express&atilde;o&#8230; E subia a rua devagar, sob o seu<br \/>\n    guarda-sol, hesitando, quando um coup&eacute; que descia a trote largo veio<br \/>\n    parar &agrave; porta de Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, com um<br \/>\n    bigode levantado, trazia uma flor, no peito; devia ser o primo Bas&iacute;lio,<br \/>\n    pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as pernas, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a enrolar o cigarro.<br \/>\n    Ao ru&iacute;do do trem o Paula postou-se logo &agrave; porta, de bon&eacute;<br \/>\n    carregado, as m&atilde;os enterradas no bolso, com olhares de rev&eacute;s;<br \/>\n    a carvoeira defronte, imunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar<br \/>\n    com um pasmo lorpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente<br \/>\n    a vidra&ccedil;a. Ent&atilde;o o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante<br \/>\n    de sol, entrou no estanque; dai a um momento apareceu &agrave; porta, com<br \/>\n    a estanqueira, de car&atilde;o vi&uacute;vo; e cochichavam, cravavam olhares<br \/>\n    p&eacute;rfidos nas varandas de Lu&iacute;sa, no coup&eacute;! O Paula, dali,<br \/>\n    arrastando as chinelas de tapete, foi segredar com a carvoeira; provocou-lhe<br \/>\n    uma risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi enfim estacar &agrave; sua<br \/>\n    porta entre um retrato de D. Jo&atilde;o VI e duas velhas cadeiras de couro,<br \/>\n    assobiando com j&uacute;bilo. No silencio da rua ouvia-se num piano, a compasso<br \/>\n    de estudo, a Ora&ccedil;&atilde;o de uma virgem.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o ao passar olhou maquinalmente para as janelas de Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Rico calor, Sr. Sebasti&atilde;o! &#8212; observou o Paula curvando-se.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; um regalo estar &agrave; fresca!<br \/>\n    Lu&iacute;sa e Bas&iacute;lio estavam muito tranq&uuml;ilos, muito felizes<br \/>\n    na sala, com as portadas meio cerradas, numa penumbra doce. Lu&iacute;sa tinha<br \/>\n    aparecido de roup&atilde;o branco, muito fresca, com um bom cheiro de &aacute;gua<br \/>\n    de alfazema.<br \/>\n    &#8212; Eu venho assim mesmo &#8212; disse ela. &#8212; N&atilde;o fa&ccedil;o<br \/>\n    cerim&ocirc;nias.<br \/>\n    Mas assim &eacute; que ela estava linda! &#8212; Assim &eacute; que a queria<br \/>\n    sempre! &#8212;exclamava Bas&iacute;lio muito contente, como se aquele roup&atilde;o<br \/>\n    de manh&atilde; fosse j&aacute; uma promessa da sua nudez.<br \/>\n    Vinha muito tranq&uuml;ilo, afetava um tom de parente. N&atilde;o a inquietou<br \/>\n    com palavras veementes, nem com gestos desejosos; falou-lhe do calor, de uma<br \/>\n    zarzuela que vira na v&eacute;spera, de velhos amigos que encontrara, e disse-lhe<br \/>\n    apenas que tinha sonhado com ela.<br \/>\n    O qu&ecirc;? Que estavam longe, numa terra distante, que devia ser a It&aacute;lia,<br \/>\n    tantas as est&aacute;tuas que havia nas pra&ccedil;as, tantas as fontes sonoras<br \/>\n    que cantavam nas bacias de m&aacute;rmore; era num jardim antigo, sobre um<br \/>\n    terra&ccedil;o cl&aacute;ssico; flores raras transbordavam de vasos florentinos;<br \/>\n    pousando sobre as balaustradas esculpidas, pav&otilde;es abriam as caudas;<br \/>\n    e ela arrastava devagar sobre as lajes quadradas a cauda longa do seu vestido<br \/>\n    de veludo azul. De resto, dizia, era um terra&ccedil;o como o de S. Donato,<br \/>\n    a vila do Pr&iacute;ncipe Demidoff, &#8212; porque lembrava sempre as suas<br \/>\n    intimidades ilustres, e n&atilde;o se descuidava de fazer reluzir a gl&oacute;ria<br \/>\n    das suas viagens.<br \/>\n    E ela, tinha sonhado?<br \/>\n    Lu&iacute;sa corou. &#8212; N&atilde;o, tinha tido muito medo da trovoada.<br \/>\n    Tinha ouvido a trovoada, ele?<br \/>\n    &#8212; Estava a cear no Gr&ecirc;mio, quando trovejou.<br \/>\n    &#8212; Costumas cear?<br \/>\n    Ele teve um sorriso infeliz. &#8212; Cear! Se se podia chamar cear ir ao Gr&ecirc;mio<br \/>\n    rilhar um bife c&oacute;rneo e tragar um Colares pe&ccedil;onhento!<br \/>\n    E fitando-a:<br \/>\n    &#8212; Por tua causa, ingrata!<br \/>\n    Por sua causa?<br \/>\n    &#8212; Por quem, ent&atilde;o? Por que vim eu a Lisboa? Por que deixei Paris?<br \/>\n    &#8212; Por causa dos teus neg&oacute;cios&#8230;<br \/>\n    Ele encarou-a severamente:<br \/>\n    &#8212; Obrigado &#8212; disse, curvando-se at&eacute; ao ch&atilde;o.<br \/>\n    E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu charuto.<br \/>\n    Veio sentar-se bruscamente ao p&eacute; dela. &#8212; N&atilde;o, realmente<br \/>\n    era injusta. Se estava em Lisboa, era por ela. S&oacute; por ela!<br \/>\n    Fez uma voz meiga; perguntou-lhe se tinha realmente um bocadinho de amor muito<br \/>\n    pequenino, assim&#8230; &#8212; Mostrava o comprimento da unha.<br \/>\n    Riram.<br \/>\n    &#8212; Assim, talvez.<br \/>\n    E o peito de Lu&iacute;sa arfava.<br \/>\n    Ele ent&atilde;o examinou-lhe as unhas; admirou-lhas e aconselhou-lhe o verniz<br \/>\n    que usam as cocottes, que lhes d&aacute; um lustre polido; ia-se apossando<br \/>\n    da sua m&atilde;o, p&ocirc;s-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o dedo<br \/>\n    m&iacute;nimo, jurou que era muito doce; arranjou-lhe com um contacto muito<br \/>\n    t&iacute;mido uns fios de cabelos que se tinham soltado, &#8212; e, disse,<br \/>\n    tinha um pedido a fazer-lhe!<br \/>\n    Olhava-a com uma suplica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Que &eacute;?<br \/>\n    &#8212; E que venhas comigo ao campo. Deve estar lindo no campo!<br \/>\n    Ela n&atilde;o respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas moles do roup&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; muito simples &#8212; acrescentou ele. &#8212; Tu vais-me<br \/>\n    encontrar a qualquer parte, longe daqui, est&aacute; claro. Eu estou &agrave;<br \/>\n    espera de ti com uma carruagem, tu saltas para dentro e fouette, cocher!<br \/>\n    Lu&iacute;sa hesitava.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o digas que n&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Mas onde?<br \/>\n    &#8212; Onde tu quiseres. A Pa&ccedil;o d&#8217;Arcos, a Loires, a Queluz.<br \/>\n    Dize que sim. <br \/>\n    A sua voz era muito urgente; quase ajoelhara.<br \/>\n    &#8212; Que tem? &Eacute; um passeio de amigos, de irm&atilde;os.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o! Isso n&atilde;o!<br \/>\n    Bas&iacute;lio zangou-se, chamou-lhe beata. Quis sair. Ela veio tirar-lhe<br \/>\n    o chap&eacute;u da m&atilde;o, muito meiga, quase vencida.<br \/>\n    &#8212; Talvez, veremos &#8212; dizia.<br \/>\n    &#8212; Dize que sim! &#8212; insistia. &#8212; S&ecirc; boa rapariga.<br \/>\n    &#8212; Pois sim, amanh&atilde; veremos; amanh&atilde; falaremos.<br \/>\n    Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bas&iacute;lio n&atilde;o falou no<br \/>\n    passeio, nem no campo. N&atilde;o falou tamb&eacute;m do seu amor, nem dos<br \/>\n    seus desejos. Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o<br \/>\n    romance de Belot, A mulher de fogo. E sentando-se ao piano, disse-lhe can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de caf&eacute;-concerto, muito picantes; imitava a rouquid&atilde;o acre e<br \/>\n    canalha das cantoras; f&ecirc;-la rir.<br \/>\n    Depois falou muito de Paris; contou-lhe a moderna cr&ocirc;nica amorosa, anedotas,<br \/>\n    paix&otilde;es chia. Tudo se passava com duquesas, princesas, de um modo dram&aacute;tico<br \/>\n    e sensibilizador, &agrave;s vezes jovial, sempre cheio de delidas. E, de todas<br \/>\n    as mulheres de que falava, dizia recostando-se: Era uma mulher distint&iacute;ssima;<br \/>\n    tinha naturalmente o seu amante&#8230;<br \/>\n    O adult&eacute;rio aparecia assim um dever aristocr&aacute;tico. De resto<br \/>\n    a virtude parecia ser, pelo que ele contava, o defeito de um esp&iacute;rito<br \/>\n    pequeno, ou a ocupa&ccedil;&atilde;o reles de um temperamento burgu&ecirc;s&#8230;<br \/>\n    E quando saiu, disse, como recordando-se:<br \/>\n    &#8212; Sabes que estou com minhas id&eacute;ias de partir?&#8230;<br \/>\n    Ela perguntou, um pouco descorada:<br \/>\n    &#8212; Por qu&ecirc;?<br \/>\n    Bas&iacute;lio disse, muito indiferente:<br \/>\n    &#8212; Que diabo fa&ccedil;o eu aqui?&#8230;<br \/>\n    Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se:<br \/>\n    &#8212; Adeus, meu amor&#8230;<br \/>\n    E saiu.<br \/>\n    Quando nessa tarde Lu&iacute;sa entrou na sala de jantar, levava os olhos<br \/>\n    vermelhos.<br \/>\n    Foi ela no dia seguinte que falou do campo. Queixou-se do cont&iacute;nuo<br \/>\n    calor, da seca de Lisboa. Como devia estar lindo em Sintra!<br \/>\n    &#8212; Es tu que n&atilde;o queres &#8212; acudiu ele. &#8212; Pod&iacute;amos<br \/>\n    fazer um passeio ador&aacute;vel.<br \/>\n    Mas tinha medo, podiam ver&#8230;<br \/>\n    &#8212; O qu&ecirc;! Num coup&eacute; fechado? Com os estores descidos?<br \/>\n    Mas ent&atilde;o era pior que estar numa sala; era abafar numa boceta!<br \/>\n    Mas n&atilde;o! Iam a uma quinta. Podiam ir &agrave;s Alegrias, &agrave; quinta<br \/>\n    de um amigo dele que estava em Londres. S&oacute; viviam l&aacute; os caseiros;<br \/>\n    era ao p&eacute; dos Olivais; era lindo! Belas ruas de loureiros, sombras<br \/>\n    ador&aacute;veis. Podiam levar gelo, champagne&#8230;<br \/>\n    &#8212; Vem! &#8212; disse bruscamente, tomando-lhe as m&atilde;os.<br \/>\n    Ela corou. &#8212; Talvez. No domingo veria.<br \/>\n    Bas&iacute;lio conservava-lhe as m&atilde;os presas. Os seus olhos encontraram-se,<br \/>\n    umedeceram-se. Ela sentiu-se muito perturbada: desprendeu as m&atilde;os;<br \/>\n    foi abrir as vidra&ccedil;as ambas, dar &agrave; sala uma claridade larga<br \/>\n    como uma publicidade; sentou-se numa cadeira ao p&eacute; do piano, receando<br \/>\n    a penumbra, o sof&aacute;, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse<br \/>\n    alguma coisa, porque j&aacute; temia as palavras, tanto como os sil&ecirc;ncios!<br \/>\n    Bas&iacute;lio cantou a Medj&eacute;, a melodia de Gounod, t&atilde;o sensual<br \/>\n    e perturbadora. Aquelas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos de uma<br \/>\n    noite el&eacute;trica. E quando Bas&iacute;lio saiu, ficou sentada, quebrada,<br \/>\n    como depois de um excesso.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o tinha estado nos &uacute;ltimos tr&ecirc;s dias em Almada,<br \/>\n    na quinta do Rozegal, onde trazia obras.<br \/>\n    Voltara na segunda-feira cedo, e, pelas dez horas, sentado no poial da janela<br \/>\n    de jantar que abria para o terra&ccedil;ozinho, esperava o seu almo&ccedil;o,<br \/>\n    brincando com o Rolim &#8212; o seu gato, amigo e confidente da ilustre Vic&ecirc;ncia,<br \/>\n    n&eacute;dio como um prelado, ingrato como um tirano.<br \/>\n    A manh&atilde; come&ccedil;ava a aquecer; o quintal estava j&aacute; cheio<br \/>\n    de sol; na &aacute;gua do tanque sob a parreira, claridades espelhadas e tr&ecirc;mulas<br \/>\n    faiscavam. Nas duas gaiolas os can&aacute;rios cantavam estridentemente. <br \/>\n    A tia Joana, que andava a arranjar a mesa do almo&ccedil;o muito calada, p&ocirc;s-se<br \/>\n    ent&atilde;o a dizer com a sua vozinha arrastada e minhota:<br \/>\n    &#8212; Ora, esteve a&iacute; ontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palrat&oacute;rios,<br \/>\n    com umas tontices!<br \/>\n    &#8212; A respeito de qu&ecirc;, tia Joana? &#8212; perguntou Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; A respeito de um rapaz, que diz que vai agora todos os dias &agrave;<br \/>\n    casa da Luisinha.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o ergueu-se logo:<br \/>\n    &#8212; Que disse ela, tia Joana?<br \/>\n    A velha assentava a toalha devagar com a sua m&atilde;o gorducha espalmada:<br \/>\n    &#8212; Esteve a&iacute; a palrar. Quem seria, quem n&atilde;o seria? Diz<br \/>\n    que &eacute; um perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem&#8230;<br \/>\n    No s&aacute;bado, que estivera at&eacute; quase &agrave; noitinha. E cantou-se<br \/>\n    na sala, diz que uma voz que nem no teatro&#8230;<br \/>\n    Sebasti&atilde;o interrompeu-a, impaciente:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; o primo, tia Joana. Ent&atilde;o quem havia de ser? &Eacute;<br \/>\n    o primo que chegou do Brasil.<br \/>\n    A tia Joana teve um bom sorriso.<br \/>\n    &#8212; Eu logo vi que era coisa de parente. Pois diz que &eacute; um perfeito<br \/>\n    rapaz! E todo janota!<br \/>\n    E saindo para a cozinha, devagar:<br \/>\n    &#8212; Eu logo vi que era parente, logo disse!&#8230;<br \/>\n    Sebasti&atilde;o almo&ccedil;ou inquieto. Positivamente a vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    j&aacute; se punha a mexericar, a comentar! Estava-se a armar um esc&acirc;ndalo!<br \/>\n    &#8212; E, assustado, decidiu-se logo a ir consultar Juli&atilde;o.<br \/>\n    Descia a Rua de S. Roque para casa dele, quando o viu, que subia devagar pela<br \/>\n    sombra, com um rolo de papel debaixo do bra&ccedil;o, uma cal&ccedil;a branca<br \/>\n    enxovalhada, o ar suado.<br \/>\n    &#8212; Ia a tua casa, homem! &#8212; disse Sebasti&atilde;o logo.<br \/>\n    Juli&atilde;o estranhou a excita&ccedil;&atilde;o de sua voz.<br \/>\n    Havia alguma novidade? Que era?<br \/>\n    &#8212; Uma do diabo! &#8212; exclamou, baixo, Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    Estavam parados ao p&eacute; da Confeitaria. Na vidra&ccedil;a, por tr&aacute;s<br \/>\n    deles emprateleirava-se uma exposi&ccedil;&atilde;o de garrafas de malvasia<br \/>\n    com os seus letreiros muito coloridos, transpar&ecirc;ncias avermelhadas de<br \/>\n    gelatinas, amarelid&otilde;es enjoativas de doces de ovos, e queques de um<br \/>\n    castanho-escuro tendo espetados cravos tristes de papel branco ou cor-de-rosa.<br \/>\n    Velhas natas l&iacute;vidas amolentavam-se no oco dos folhados; ladrilhos<br \/>\n    grossos de marmeladas esbei&ccedil;avam-se ao calor; as empadinhas de marisco<br \/>\n    aglomeravam as suas crostas ressequidas. E no centro, muito proeminente numa<br \/>\n    travessa, enroscava-se uma lampreia de ovos, medonha e bojuda, com o ventre<br \/>\n    de um amarelo ascoroso, o dorso malhado de arabescos de a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    a boca escancarada; na sua cabe&ccedil;a grossa esbugalhavam-se dois horr&iacute;veis<br \/>\n    olhos de chocolates; os seus dentes de am&ecirc;ndoa ferravam-se numa tangerina<br \/>\n    de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoa&ccedil;avam.<br \/>\n    &#8212; Vamos ali para o caf&eacute; &#8212; disse Juli&atilde;o. &#8212;<br \/>\n    Aqui na rua arde-se!<br \/>\n    &#8212; Tenho estado apoquentado &#8212; ia dizendo Sebasti&atilde;o. &#8212;<br \/>\n    Muito apoquentado! Quero falar-te.<br \/>\n    No caf&eacute; o papel azul-ferrete e as meias portas fechadas abatiam a &aacute;spera<br \/>\n    intensidade da luz, davam uma frescura calada.<br \/>\n    Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito caiadas brilhavam<br \/>\n    com uma radia&ccedil;&atilde;o faiscante. Por tr&aacute;s do balc&atilde;o,<br \/>\n    onde reluziam garrafas de cristal, um criado de jaquet&atilde;o, estremunhado<br \/>\n    e esguedelhado, cabeceava de sono. Um p&aacute;ssaro chilreava dentro; sentia-se<br \/>\n    o bater espa&ccedil;ado das bolas do bilhar atrav&eacute;s de uma porta de<br \/>\n    baeta verde; &agrave;s vezes o preg&atilde;o de um cangalheiro na rua sobressa&iacute;a,<br \/>\n    e todos estes sons, por momentos, se perdiam no ru&iacute;do forte do descer<br \/>\n    de um trem travado.<br \/>\n    Defronte deles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas melenas grisalhas<br \/>\n    colavam-se a um cr&acirc;nio amarelado; o bigode tinha tons queimados do cigarro;<br \/>\n    e das noitadas ficara-lhe uma vermelhid&atilde;o inflamada nas p&aacute;lpebras.<br \/>\n    De vez em quando erguia pregui&ccedil;osamente a cabe&ccedil;a, atirava para<br \/>\n    o ch&atilde;o areado um jato escuro de saliva, dava uma sacudidela triste<br \/>\n    ao jornal e tornava a fit&aacute;-lo com um olhar infeliz. Quando os dois<br \/>\n    entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente a cabe&ccedil;a.<br \/>\n    &#8212; Mas o que &eacute; ent&atilde;o? &#8212; perguntou logo Juli&atilde;o.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o chegou-se mais para ele:<br \/>\n    &#8212; E por causa l&aacute; da nossa gente. Por causa do primo &#8212; disse<br \/>\n    baixo.<br \/>\n    E acrescentou:<br \/>\n    &#8212; Tu viste-o, hein?<br \/>\n    A lembran&ccedil;a repentina da sua humilha&ccedil;&atilde;o na sala de Lu&iacute;sa<br \/>\n    trouxe um rubor &agrave;s faces de Juli&atilde;o. Mas muito orgulhoso, disse<br \/>\n    secamente:<br \/>\n    &#8212; Vi.<br \/>\n    &#8212; E ent&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; Pareceu-me um asno! &#8212; exclamou, n&atilde;o se contendo.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; um extravagante &#8212; disse com terror Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o te pareceu, hein?<br \/>\n    &#8212; Pareceu-me um asno &#8212; repetiu. &#8212; Umas maneiras, uma afeta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    um alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias rid&iacute;culas de<br \/>\n    mulher&#8230;<br \/>\n    E com um certo sorriso azedado:<br \/>\n    &#8212; Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas, &#8212; disse,<br \/>\n    apontando para os botins mal engraxados &#8212; tenho muita honra nelas; s&atilde;o<br \/>\n    de quem trabalha&#8230;<br \/>\n    Porque publicamente costumava gloriar-se de uma pobreza, que intimamente n&atilde;o<br \/>\n    cessava de o humilhar.<br \/>\n    E remexendo devagar a sua carapinhada:<br \/>\n    &#8212; Uma besta! &#8212; resumiu.<br \/>\n    &#8212; Tu sabes que ele foi namoro da Lu&iacute;sa? &#8212; disse Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    baixo, como assustado da gravidade da confid&ecirc;ncia.<br \/>\n    E respondendo logo ao olhar surpreendido de Juli&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Sim. Ningu&eacute;m o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o h&aacute; pouco,<br \/>\n    h&aacute; meses. Foi. Estiveram para casar. Depois o pai faliu, ele foi para<br \/>\n    o Brasil, e de l&aacute; escreveu a romper o casamento.<br \/>\n    Juli&atilde;o sorriu, e encostando a cabe&ccedil;a &agrave; parede:<br \/>\n    &#8212; Mas isso &eacute; o enredo da Eug&ecirc;nia Grandet, Sebasti&atilde;o!<br \/>\n    Est&aacute;s-me a contar o romance de Balzac! Isso &eacute; a Eug&ecirc;nia<br \/>\n    Grandet!<br \/>\n    Sebasti&atilde;o fitou-o espantado.<br \/>\n    &#8212; Ora! N&atilde;o se pode falar s&eacute;rio contigo. Dou-te a minha<br \/>\n    palavra! -acrescentou vivamente.<br \/>\n    &#8212; V&aacute;, Sebasti&atilde;o, v&aacute;, dize.<br \/>\n    Houve um sil&ecirc;ncio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do<br \/>\n    teto sujo de fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a m&atilde;o<br \/>\n    sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as repas. No bilhar vozes altercavam.<br \/>\n    Sebasfi&atilde;o ent&atilde;o, como tomado de uma resolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    disse bruscamente:<br \/>\n    &#8212; Agora vai l&aacute; todos os dias; n&atilde;o sai de l&aacute;!<br \/>\n    Juli&atilde;o afastou-se na banqueta e encarou-o:<br \/>\n    &#8212; Tu queres-me dar a entender alguma coisa, Sebasti&atilde;o?<br \/>\n    E com uma vivacidade quase jovial:<br \/>\n    &#8212; O primo atira-se?<br \/>\n    Aquela palavra escandalizou Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; &Oacute; Juli&atilde;o! &#8212; E severamente: &#8212; Com essas coisas<br \/>\n    n&atilde;o se brinca!<br \/>\n    Juli&atilde;o encolheu os ombros.<br \/>\n    &#8212; Mas est&aacute; claro que se atira! &#8212; exclamou. &#8212; Es de<br \/>\n    bom tempo ainda! Est&aacute; claro que sim! Namorou-a solteira, agora a quer<br \/>\n    casada!<br \/>\n    &#8212; Fala baixo &#8212; acudiu Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha reca&iacute;do na sua leitura<br \/>\n    f&uacute;nebre.<br \/>\n    Juli&atilde;o baixou a voz:<br \/>\n    &#8212; Mas &eacute; sempre assim, Sebasti&atilde;o. O primo Bas&iacute;lio<br \/>\n    tem raz&atilde;o; quer o prazer sem a responsabilidade!<br \/>\n    E quase ao ouvido dele:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; de gra&ccedil;a, amigo Sebasti&atilde;o! &Eacute; de gra&ccedil;a!<br \/>\n    Tu n&atilde;o imaginas que influencia isto tem no sentimento!<br \/>\n    Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilh&eacute;rias vinham-lhe com abund&acirc;ncia:<br \/>\n    &#8212; H&aacute; um marido que a veste, que a cal&ccedil;a, que a alimenta,<br \/>\n    que a engoma, que a vela se est&aacute; doente; que a atura se ela est&aacute;<br \/>\n    nervos&atilde;; que tem todos os encargos; todos os t&eacute;dios, todos os<br \/>\n    filhos, todos, todos os que vierem, sabes a lei&#8230; Por conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    o primo n&atilde;o tem mais que chegar, bater ao ferrolho, encontra-a asseada,<br \/>\n    fresca, apetitosa &agrave; custa do marido, e&#8230;<br \/>\n    Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfa&ccedil;&atilde;o, enrolando<br \/>\n    deliciosamente o cigarro, regozijando-se no esc&acirc;ndalo.<br \/>\n    &#8212; E &oacute;timo! &#8212; acrescentou. Todos os primos raciocinam assim.<br \/>\n    Bas&iacute;lio &eacute; primo, logo&#8230; Sabes o silogismo, Sebasti&atilde;o!<br \/>\n    Sabes o silogismo, menino! &#8212; gritou, dando-lhe uma palmada na perna.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; o diabo &#8212; murmurou Sebasti&atilde;o cabisbaixo.<br \/>\n    Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:<br \/>\n    &#8212; Mas tu sup&otilde;es que uma rapariga de bem&#8230;<br \/>\n    &#8212; Eu n&atilde;o suponho nada! &#8212; acudiu Juli&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Fala baixo, homem!<br \/>\n    &#8212; Eu n&atilde;o suponho nada &#8212; repetiu Juli&atilde;o baixinho.<br \/>\n    &#8212; Eu afirmo o que ele faz. Agora ela&#8230;<br \/>\n    E acrescentou com secura:<br \/>\n    &#8212; Como &eacute; uma rapariga honesta&#8230;<br \/>\n    &#8212; Se &eacute;! &#8212; exclamou Sebasti&atilde;o, batendo uma punhada<br \/>\n    na pedra da mesa.<br \/>\n    &#8212; Pronto! &#8212; cantou arrastadamente o mo&ccedil;o.<br \/>\n    O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia ao balc&atilde;o<br \/>\n    bocejando, e que os dois continuavam a remexer a sua carapinhada, encostou<br \/>\n    os cotovelos &agrave; mesa, salivou para longe, e puxando o jornal deixou-lhe<br \/>\n    cair em cima um olhar desolado.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o disse, ent&atilde;o, com tristeza:<br \/>\n    &#8212; A quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; por ela. A quest&atilde;o &eacute;<br \/>\n    pela vizinhan&ccedil;a.<br \/>\n    Ficaram um momento calados. A altera&ccedil;&atilde;o de vozes no bilhar crescia.<br \/>\n    &#8212; Mas &#8212; disse Juli&atilde;o, como saindo de uma reflex&atilde;o<br \/>\n    &#8212; a vizinhan&ccedil;a!? Como a vizinhan&ccedil;a?<br \/>\n    &#8212; Sim, homem! V&ecirc;em entrar para l&aacute; o rapaz. Vem de tip&oacute;ia;<br \/>\n    faz um esc&acirc;ndalo na rua. J&aacute; se fala. J&aacute; vieram com mexericos<br \/>\n    &agrave; tia Joana. H&aacute; dias encontrei o Neto que reparou. O Cunha tamb&eacute;m,<br \/>\n    O homem dos trastes, embaixo, n&atilde;o se faz nada que ele n&atilde;o d~<br \/>\n    f&eacute;; s&atilde;o umas l&iacute;nguas de tremer. H&aacute; dias ia eu<br \/>\n    a passar quando o primo se apeou da carruagem para entrar, e foram logo concili&aacute;bulos<br \/>\n    na rua, olhadelas para a janela, o diabo! Vai l&aacute; todos os dias. Sabem<br \/>\n    que o Jorge est&aacute; no Alentejo&#8230; Est&aacute; duas e tr&ecirc;s horas,<br \/>\n    E muito s&eacute;rio, &eacute; muito s&eacute;rio!<br \/>\n    &#8212; Mas ela ent&atilde;o &eacute; tola!<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o v&ecirc; o mal&#8230;<br \/>\n    Juli&atilde;o encolheu os ombros, duvidando.<br \/>\n    Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem herc&uacute;leo, de bigode<br \/>\n    negro, muito escarlate, saiu bruscamente, e parando, segurando a porta aberta,<br \/>\n    gritou para dentro:<br \/>\n    &#8212; E fique sabendo que havia de encontrar homem!<br \/>\n    Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade.<br \/>\n    O sujeito herc&uacute;leo atirou a porta, furioso; atravessou o caf&eacute;<br \/>\n    resfolegando, apopl&eacute;tico; um rapaz chupado, de jaquet&atilde;o de inverno<br \/>\n    e cal&ccedil;a branca, seguia-o, com um ar gingado.<br \/>\n    &#8212; O que eu devia fazer &#8212; exclamava o agigantado, brandindo o punho<br \/>\n    &#8212; era quebrar a cara &agrave;quele pulha!<br \/>\n    O rapaz chupado dizia, com do&ccedil;ura e servilismo, bamboleando-se:<br \/>\n    &#8212; Quest&otilde;es n&atilde;o servem para nada, s&ocirc; Correia!<br \/>\n    &#8212; E que sou muito prudente &#8212; berrou o herc&uacute;leo. &#8212;<br \/>\n    &Eacute; que me lembro que tenho mulher e filhos! Se n&atilde;o bebia-lhe<br \/>\n    o sangue!<br \/>\n    E saindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua.<br \/>\n    O criado muito p&aacute;lido, tremia dentro do balc&atilde;o; e o sujeito<br \/>\n    calvo, que erguera a cabe&ccedil;a, teve um sorriso de t&eacute;dio, e retomou<br \/>\n    tristemente o jornal.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o, ent&atilde;o, disse refletindo:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o te parece que seria bom avis&aacute;-la?<br \/>\n    Juli&atilde;o encolheu os ombros, soltou urna baforada de fumo.<br \/>\n    &#8212; Dize alguma coisa! &#8212; implorou Sebasti&atilde;o. &#8212; Tu n&atilde;o<br \/>\n    ias falar-lhe, hein?<br \/>\n    &#8212; Eu!? &#8212; exclamou Juli&atilde;o com um aspecto que repelia a id&eacute;ia.<br \/>\n    &#8212; Eu!? Est&aacute;s doido!<br \/>\n    &#8212; Mas que te parece, enfim?<br \/>\n    E a voz de Sebasti&atilde;o tinha quase uma ang&uacute;stia.<br \/>\n    Juli&atilde;o hesitou:<br \/>\n    &#8212; Vai, se queres. Diz-lhe que se tem reparado&#8230; Enfim, eu n&atilde;o<br \/>\n    sei, meu amigo!<br \/>\n    E p&ocirc;s-se a chupar o seu cigarro.<br \/>\n    Aquele mutismo afetou Sebasti&atilde;o. Disse com desconsola&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Homem, vim-te pedir um conselho&#8230;<br \/>\n    &#8212; Mas que diabo queres tu? &#8212; E a voz de Juli&atilde;o irritava-se.<br \/>\n    &#8212; A culpa &eacute; dela! &Euml; dela! &#8212; insistiu, vendo o olhar<br \/>\n    de Sebasti&atilde;o. &#8212; E uma mulher de vinte e cinco anos, casada h&aacute;<br \/>\n    quatro; deve saber que se n&atilde;o recebe todos os dias um peralvilho, numa<br \/>\n    rua pequena, com a vizinhan&ccedil;a a postos! Se o faz, &eacute; porque lhe<br \/>\n    agrada.<br \/>\n    &#8212; &Oacute; Juli&atilde;o! &#8212; disse muito severamente Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    E dominando-se, com a voz comovida:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o tens raz&atilde;o, n&atilde;o tens raz&atilde;o!<br \/>\n    Calou-se muito magoado.<br \/>\n    Juli&atilde;o levantou-se.<br \/>\n    &#8212; Amigo Sebastiao, eu digo o que penso; tu fazes o que entendes.<br \/>\n    Chamou o criado.<br \/>\n    &#8212; Deixa &#8212; disse Sebasti&atilde;o precipitadamente, pagando.<br \/>\n    Iam sair. Mas ent&atilde;o o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se<br \/>\n    para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebasti&atilde;o um papel enxovalhado.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o, surpreendido, teu alto, maquinalmente:<br \/>\n    &#8220;O abaixo-assinado, antigo empregado da na&ccedil;&atilde;o, reduzido<br \/>\n    &agrave; mis&eacute;ria&#8230;&#8221;<br \/>\n    &#8212; Fui &iacute;ntimo amigo do nobre duque de Saldanha&#8230; &#8212; gemeu<br \/>\n    chorosamente, com uma rouquid&atilde;o, o sujeito calvo.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o corou, cumprimentou, meteu-lhe na m&atilde;o duas placas<br \/>\n    de cinco tost&otilde;es, discretamente.<br \/>\n    O sujeito dobrou profundamente o espinha&ccedil;o e declamou com uma voz cava:<br \/>\n    &#8212; Mil agradecimentos a V. Ex&ordf;, Sr. conde!<\/p>\n<h2><a name=\"5\">CAP&Iacute;TULO 5<\/a><\/h2>\n<p>A manh&atilde; estava abrasadora. Um pouco depois do meio-dia, Joana, estirada<br \/>\n    numa velha cadeira de vime da Ilha da Madeira que havia na cozinha, dormitava<br \/>\n    a sesta. Como madrugava muito, &agrave;quela hora da calma vinha-lhe sempre<br \/>\n    uma quebreira.<br \/>\n    As janelas estavam cerradas ao sol faiscante; as panelas no lume faziam um<br \/>\n    ronrom dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia amodorrada no amolecimento<br \/>\n    do calor t&oacute;rrido, quando Juliana entrou como uma rajada, atirou para<br \/>\n    o ch&atilde;o, furiosa, uma bra&ccedil;ada de roupa suja, e gritou:<br \/>\n    &#8212; Raios me partam se n&atilde;o h&aacute; um esc&acirc;ndalo nesta casa<br \/>\n    que vai tudo raso!<br \/>\n    Joana deu um salto estremunhada.<br \/>\n    &#8212; Quem quer as coisas em ordem olha por elas! &#8212; berrava a outra<br \/>\n    com os olhos injetados. &#8212; N&atilde;o &eacute; estar todo o dia na sala<br \/>\n    a palrar com as visitas!<br \/>\n    A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, j&aacute; assustada.<br \/>\n    &#8212; Que foi, Sr. a Juliana, que foi?<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! sangrias!<br \/>\n    Tem peguilhado por tudo! N&atilde;o estou para a aturar, n&atilde;o estou!<br \/>\n    E batia o p&eacute; com frenesi.<br \/>\n    &#8212; Mas que foi? Que foi?<br \/>\n    &#8212; Diz que os colarinhos tinham pouca goma; p&ocirc;s-se a despropositar!<br \/>\n    Estou farta de aturar! estou farta! estou at&eacute; aqui! &#8212; bradava,<br \/>\n    puxando a pele engelhada da garganta. &#8212; Pois que me n&atilde;o fa&ccedil;a<br \/>\n    sair de mim! Que me vou, pespego-lhe na cara por qu&ecirc;! Desde que aqui<br \/>\n    temos homem e pouca-vergonha, boas noites!.. &#8211; Quem quiser que se meta em<br \/>\n    alhadas&#8230;<br \/>\n    &#8212; &Oacute; Sr&ordf; Juliana, pelo amor de Deus! Jesus! &#8212; E a Joana<br \/>\n    apertava a cabe&ccedil;a nas m&atilde;os. &#8212; Ai, se a senhora ouve!<br \/>\n    &#8212; Que ou&ccedil;a, digo-lho na cara! Estou farta! Estou farta!<br \/>\n    Mas, de repente, fez-se branca como a cal; caiu sobre a cadeira de vime com<br \/>\n    as duas m&atilde;os contra o cora&ccedil;&atilde;o, os olhos em alvo.<br \/>\n    &#8212; Sr&ordf; Juliana! &#8212; gritou Joana. &#8212; Sr&ordf; Juliana!<br \/>\n    Fale!<br \/>\n    Borrifou-a de &aacute;gua; sacudiu-a, ansiosamente.<br \/>\n    &#8212; Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Est&aacute; melhor?<br \/>\n    Fale!<br \/>\n    Juliana deu um suspiro longo, de al&iacute;vio, cerrou as p&aacute;lpebras.<br \/>\n    E arquejava devagarinho, muito prostrada.<br \/>\n    &#8212; Como se sente? Quer um caldinho? &Eacute; fraqueza; h&aacute; de ser<br \/>\n    fraqueza&#8230;<br \/>\n    &#8212; Foi a pontada &#8212; murmurou Juliana.<br \/>\n    Ai! aqueles frenesis matavam-na! &#8212; dizia a cozinheira, remexendo-lhe<br \/>\n    o caldo, muito p&aacute;lida tamb&eacute;m. &#8212; A gente tinha de aturar<br \/>\n    os amos!<br \/>\n    Que tomasse a sust&acirc;ncia, que sossegasse!&#8230;<br \/>\n    Naquele momento Lu&iacute;sa abriu a porta. Vinha em colete e saia branca.<br \/>\n    Que barulho era aquele?<br \/>\n    &#8212; A Sr&ordf; Juliana, que lhe tinha dado uma coisa, quase desmaiara&#8230;<br \/>\n    &#8212; Foi a pontada &#8212; balbuciou Juliana.<br \/>\n    E erguendo-se, com um esfor&ccedil;o:<br \/>\n    &#8212; Se a senhora n&atilde;o precisa nada, vou ao m&eacute;dico&#8230;<br \/>\n    &#8212; V&aacute;, v&aacute;! &#8212; disse Lu&iacute;sa logo. E desceu.<br \/>\n    Juliana p&ocirc;s-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joana consolava-a<br \/>\n    baixo: &#8212; Tamb&eacute;m, a Sr&ordf; Juliana arrenegava-se por qualquer<br \/>\n    coisa. E quando a gente tem pouca sa&uacute;de n&atilde;o h&aacute; nada pior<br \/>\n    que enfrenesiar-se&#8230;<br \/>\n    &#8212; &Eacute; que n&atilde;o imagina! &#8212; e abafava a voz arregalando<br \/>\n    os olhos. &#8212; Tem estado de n&atilde;o se poder aturar! Est&aacute;-se<br \/>\n    a vestir que nem para uma partida! Amarfanhou uns poucos de colares, atirou-os<br \/>\n    para o ch&atilde;o: que eu engomava que era uma porcaria; que n&atilde;o servia<br \/>\n    pra nada&#8230; Ai! Estou farta! &#8212; repetia. &#8212; Estou farta!<br \/>\n    &#8212; &Eacute; ter paci&ecirc;ncia! Todos t&ecirc;m a sua cruz!<br \/>\n    Juliana teve um sorriso l&iacute;vido, ergueu-se com um grande ai, escabichou<br \/>\n    os dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao s&oacute;t&atilde;o.<br \/>\n    Da&iacute; a pouco, de luvas pretas, muito amarela, saiu.<br \/>\n    Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. At&eacute;<br \/>\n    ao m&eacute;dico era um estir&atilde;o!&#8230; E estava, que lhe tremiam as pernas!&#8230;<br \/>\n    Mas tamb&eacute;m, largar tr&ecirc;s tost&otilde;es para trem!&#8230;<br \/>\n    &#8212; Psit, psit! &#8212; fez do lado uma voz doce.<br \/>\n    Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu sorriso<br \/>\n    desconsolado.<br \/>\n    Que era feito da Sr&ordf; Juliana? a dar o seu passeio, hein?<br \/>\n    Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo de osso. &#8212; De muito gosto, disse.<br \/>\n    &#8212; E como ia de sa&uacute;de?<br \/>\n    Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao m&eacute;dico&#8230;<br \/>\n    Mas a estanqueira n&atilde;o tinha f&eacute; nos m&eacute;dicos. Era dinheiro<br \/>\n    deitado &agrave; rua&#8230; Citou a doen&ccedil;a do seu homem, os gastos, um<br \/>\n    ror de moedas. E para qu&ecirc;? Para o ver penar e morrer como se nada fosse!<br \/>\n    Era um dinheiro que sempre chorava!<br \/>\n    E suspirou. Enfim, fosse feita a vontade de Deus! E l&aacute; por casa do<br \/>\n    Sr. Engenheiro?<br \/>\n    &#8212; Tudo sem novidade.<br \/>\n    &#8212; O Sr. a Juliana, quem &eacute; aquele rapaz que vai agora por l&aacute;<br \/>\n    todos os dias?<br \/>\n    Juliana respondeu logo:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; o primo da senhora.<br \/>\n    &#8212; D&atilde;o-se muito!&#8230;<br \/>\n    &#8212; Parece.<br \/>\n    Tossiu, e com um cumprimentozinho:<br \/>\n    &#8212; Pois, muito boas tardes, Sr. a Helena.<br \/>\n    E foi resmungando:<br \/>\n    &#8212; Ora, fica-te a chuchar no dedo, lesma!<br \/>\n    Juliana detestava a vizinhan&ccedil;a; sabia que a escarneciam, que a imitavam,<br \/>\n    que lhe chamavam a tripa velha!&#8230; &#8212; Pois tamb&eacute;m dela n&atilde;o<br \/>\n    haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de carrinho!<br \/>\n    Boa! Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar guardadinho, l&aacute;<br \/>\n    dentro. &#8212; Para uma ocasi&atilde;o! &#8212; pensava com rancor, sacudindo<br \/>\n    os quadris.<br \/>\n    A estanqueira ficou &agrave; porta, despeitada. E o Paula dos m&oacute;veis,<br \/>\n    que as vira conversar, veio logo, deslizando sutilmente nas suas chinelas<br \/>\n    de tapete:<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o a tripa velha escorregou-se?<br \/>\n    &#8212; Ai! n&atilde;o se lhe tira nada!<br \/>\n    O Paula enterrou as m&atilde;os nos bolsos, com t&eacute;dio:<br \/>\n    &#8212; Aquilo, a do Engenheiro besunta-lhe as m&atilde;os&#8230; &Eacute; ela<br \/>\n    quem leva a cartinha, quem abre a portita de noite&#8230;<br \/>\n    &#8212; Tanto n&atilde;o direi! Credo!<br \/>\n    O Paula fitou-a com superioridade.<br \/>\n    &#8212; A Sr&ordf; Helena est&aacute; a&iacute; ao seu balc&atilde;o&#8230; Mas<br \/>\n    eu &eacute; que as conhe&ccedil;o, as mulheres da alta sociedade! Conhe&ccedil;o-as<br \/>\n    nas pontas dos dedos. &Eacute; uma cambada!<br \/>\n    Citou logo nomes, alguns ilustres; tinham amantes inumer&aacute;veis: at&eacute;<br \/>\n    trintan&aacute;rios! Algumas fumavam, outras entortavam-se. E pior! E pior!<br \/>\n    &#8212; E passeiam por a&iacute;, muito repimpadas de carrinho, &agrave; barba<br \/>\n    da gente de bem!<br \/>\n    &#8212; Falta de religi&atilde;o! &#8212; suspirou a estanqueira.<br \/>\n    O Paula encolheu os ombros:<br \/>\n    &#8212; A religi&atilde;o &eacute; que &eacute;, Sr.a Helena! C&#8217;os padres<br \/>\n    &eacute; que &eacute;!<br \/>\n    E agitando furioso o punho fechado:<br \/>\n    &#8212; C&#8217;os padres &eacute; uma choldra viva!<br \/>\n    &#8212; Credo, senhor Paula, que at&eacute; lhe fica mal!&#8230;<br \/>\n    E o car&atilde;o amarelado da estanqueira tinha uma severidade de devota ofendida.<br \/>\n    &#8212; Ora, hist&oacute;rias, Sr. a Helena! &#8212; exclamou o homem com<br \/>\n    desprezo.<br \/>\n    E bruscamente:<br \/>\n    &#8212; Por que &eacute; que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um<br \/>\n    desaforo l&aacute; dentro!<br \/>\n    &#8212; Oh Sr. Paula! Oh Sr. Paula! &#8212; balbuciava a Helena, recuando,<br \/>\n    encolhendo-se.<br \/>\n    Mas o Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas.<br \/>\n    &#8212; Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterr&acirc;neo ter<br \/>\n    c&#8217;os frades. E era vinha&ccedil;a e mais vinha&ccedil;a. E batiam o<br \/>\n    fandango em camisa! Anda isso por a&iacute; em todos os livros.<br \/>\n    E erguendo-se nas chinelas:<br \/>\n    &#8212; E os jesu&iacute;tas, se vamos a isso! Sim! Diga!<br \/>\n    Mas recuou, e levando a m&atilde;o &agrave; pala do bon&eacute;:<br \/>\n    &#8212; Um criado da senhora -&#8212; disse com respeito.<br \/>\n    Era Lu&iacute;sa que passava, vestida de preto, o v&eacute;u descido. Ficaram<br \/>\n    calados, a olh&aacute;-la.<br \/>\n    &#8212; Que ela &eacute; muito bonita! &#8212; murmurou a estanqueira, com<br \/>\n    admira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O Paula franziu a testa:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &eacute; mau bocado&#8230; &#8212; disse. E acrescentou, com<br \/>\n    desd&eacute;m:<br \/>\n    &#8212; Pra quem gosta daquilo!&#8230;<br \/>\n    Houve um sil&ecirc;ncio. E o Paula rosnou:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o s&atilde;o as saias que me levam o tempo, nem disto!&#8230;<br \/>\n    E bateu no bolso do colete, fazendo tilintar dinheiro.<br \/>\n    Tossiu, pigarreou, e ainda &aacute;spero:<br \/>\n    &#8212; Venha de l&aacute; um pataco de Xabregas.<br \/>\n    Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus olhos<br \/>\n    arregalaram-se indignados; numa das janelas de cima na casa do Engenheiro,<br \/>\n    tinha avistado, por entre as vidra&ccedil;as abertas, a figura enfezada do<br \/>\n    Pedro, o carpinteiro.<br \/>\n    Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os bra&ccedil;os:<br \/>\n    &#8212; E agora, que a patroa vai &agrave; vida, l&aacute; est&aacute; o rapazola<br \/>\n    a entender-se com a criada!<br \/>\n    Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna:<br \/>\n    &#8212; Aquela casa vai-se tornando um prost&iacute;bulo!<br \/>\n    &#8212; Um qu&ecirc;, Sr. Paula?<br \/>\n    &#8212; Um prost&iacute;bulo, Sr&ordf; Helena! &Eacute; como se dissesse um<br \/>\n    alcouce!<br \/>\n    E, com passos escandalizados, o patriota afastou-se.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ia enfim ao campo com Bas&iacute;lio. Consentira na v&eacute;spera,<br \/>\n    declarando logo &#8220;que era s&oacute; um passeio de meia hora, de carruagem,<br \/>\n    sem se apearem&#8221;. Bas&iacute;lio ainda insistiu, falando em &#8220;sombras<br \/>\n    de alamedas, uma merendinha, relvas.,.&#8221;. Mas ela recusou, muito teimosa,<br \/>\n    rindo, dizendo:<br \/>\n    &#8212; Nada de relvas!&#8230;<br \/>\n    E tinham combinado encontrar-se na Pra&ccedil;a da Alegria. Chegou tarde,<br \/>\n    j&aacute; depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre<br \/>\n    o rosto, toda assustada.<br \/>\n    Bas&iacute;lio esperava, fumando, num coup&eacute;, &agrave; esquina, debaixo<br \/>\n    de uma &aacute;rvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Lu&iacute;sa entrou<br \/>\n    fechando atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, esga&ccedil;ou-se<br \/>\n    no rufo de seda; e achou-se ao lado dele, muito nervosa, ofegante, com o rosto<br \/>\n    abrasado, murmurando:<br \/>\n    &#8212; Que tolice, que tolice esta!<br \/>\n    Mal podia falar. O coup&eacute; partiu logo a trote. O cocheiro era o Pint&eacute;us,<br \/>\n    um batedor.<br \/>\n    &#8212; T&atilde;o cansada, coitadinha! &#8212; disse-lhe Bas&iacute;lio muito<br \/>\n    meigo.<br \/>\n    Levantou-lhe o v&eacute;u; estava suada; os seus largos olhos brilharam de<br \/>\n    excita&ccedil;&atilde;o, da pressa, do medo&#8230;<br \/>\n    &#8212; Que calor, Bas&iacute;lio!<br \/>\n    Quis descer um dos vidros do coup&eacute;.<br \/>\n    N&atilde;o, isso n&atilde;o! Podiam v&amp;los! Quando passassem as portas&#8230;<br \/>\n    &#8212; Para onde vamos n&oacute;s?<br \/>\n    E espreitava, levantando o estore.<br \/>\n    &#8212; Vamos para o lado do Lumiar, &eacute; o melhor s&iacute;tio. N&atilde;o<br \/>\n    queres?<br \/>\n    Encolheu os ombros. Que lhe importava? Ia sossegando; tinha tirado o v&eacute;u<br \/>\n    e as luvas; sorria, abanando-se com o len&ccedil;o, de onde sa&iacute;a um<br \/>\n    aroma fresco.<br \/>\n    Bas&iacute;lio prendeu-lhe o pulso, p&ocirc;s-lhe muitos beijos longos, delicados,<br \/>\n    na pele fina, azulada de veiazinhas.<br \/>\n    &#8212; Tu prometeste ter ju&iacute;zo! &#8212; fez ela com um sorriso c&aacute;lido,<br \/>\n    olhando-o de lado.<br \/>\n    Ora! mas um beijo, no bra&ccedil;o! Que mal havia? Tamb&eacute;m era necess&aacute;rio<br \/>\n    n&atilde;o ser beata!<br \/>\n    E olhava-a avidamente.<br \/>\n    Os velhos estores do coup&eacute; corridos eram de seda vermelha, e a luz<br \/>\n    que os atravessava envolvia-a num tom igual, cor-de-rosa e quente. Os seus<br \/>\n    bei&ccedil;os tinham um escarlate molhado, a lisura s&atilde; de uma p&eacute;tala<br \/>\n    de rosa; e ao canto do olho um ponto de luz movia-se num fluido doce.<br \/>\n    N&atilde;o se conteve, passou-lhe os dedos um pouco tr&ecirc;mulos nas fontes,<br \/>\n    nos cabelos, com uma car&iacute;cia fugitiva e assustada, e com a voz humilde:<br \/>\n    &#8212; Nem um beijo na face, um s&oacute;?<br \/>\n    &#8212; Um s&oacute;?&#8230; &#8212; fez ela.<br \/>\n    Pousou-lho delicadamente ao p&eacute; da orelha. Mas aquele contacto exasperou-lhe<br \/>\n    o desejo brutalmente; teve um som de voz solu&ccedil;ado; agarrou-a com sofreguid&atilde;o,<br \/>\n    e atirava-lhe beijos tontos pelo pesco&ccedil;o, pela face, pelo chap&eacute;u&#8230;<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o! N&atilde;o! &#8212; balbuciava ela, resistindo. &#8212;<br \/>\n    Quero descer! Dize que pare!<br \/>\n    Batia nos vidros; esfor&ccedil;ava-se por correr um, desesperada, magoando<br \/>\n    os dedos na dura correia suja.<br \/>\n    Bas&iacute;lio p&ocirc;s-se a suplicar; que lhe perdoasse! Que doidice, zangar-se<br \/>\n    por um beijo! Se ela estava t&atilde;o linda!&#8230; Fazia-o doido. Mas jurava<br \/>\n    ir quieto, muito quieto&#8230;<br \/>\n    A carruagem, ao p&eacute; das portas, rolava sacudida na cal&ccedil;ada mi&uacute;da;<br \/>\n    nas terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam im&oacute;veis<br \/>\n    na luz branca; e sobre a erva crestada o sol batia duramente numa fulgura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cont&iacute;nua.<br \/>\n    Bas&iacute;lio tinha descido um dos vidros; o estore corrido palpitava brandamente;<br \/>\n    p&ocirc;s-se ent&atilde;o a falar-lhe ternamente de si, do seu amor, dos seus<br \/>\n    planos. Estava resolvido a vir estabelecer-se em Lisboa &#8212; dizia. <\/p>\n<p>&#8212; E quando apareces tu, Leopoldina? &#8212; perguntou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Logo que pudesse. Para a semana estava com id&eacute;ias de ir ao Porto ver<br \/>\n    a da Figueiredo, passar quinze dias na Foz&#8230;<br \/>\n    A porta abriu-se.<br \/>\n    &#8212; Quando a senhora quiser&#8230; &#8212; disse Juliana.<br \/>\n    Fizeram grandes adeuses, beijaram-se muito. Lu&iacute;sa disse rindo ao ouvido<br \/>\n    de Leopoldina: &#8212; S&ecirc; feliz!<br \/>\n    Ficou s&oacute;. Fechou as janelas, acendeu as velas, come&ccedil;ou a passear<br \/>\n    pela sala, esfregando devagar as m&atilde;os. E, sem querer, n&atilde;o podia<br \/>\n    desprender a id&eacute;ia de Leopoldina que ia ver o seu amante! O seu amante!&#8230;<br \/>\n    Seguia-a mentalmente: caminhava depressa decerto falando com Juliana; chegava;<br \/>\n    subia a escada, nervosa; atirava com a porta &#8212; e que delicioso, que<br \/>\n    &aacute;vido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Tamb&eacute;m ela amava<br \/>\n    &#8212; e um mais belo, mais fascinante. Por que n&atilde;o tinha vindo?<br \/>\n    Sentou-se ao piano pregui&ccedil;osamente; p&ocirc;s-se a cantar baixo, triste,<br \/>\n    o fado de Leopoldina:<\/p>\n<p>E por mais longe que esteja<br \/>\n    Vejo-o sempre ao p&eacute; de mim!&#8230;<\/p>\n<p>Mas um sentimento de solid&atilde;o, de abandono, veio impacienta-la. Que<br \/>\n    seca, estar ali t&atilde;o sozinha! Aquela noite c&aacute;lida, bela e doce,<br \/>\n    atra&iacute;a-a, chamava-a para fora, para passeios sentimentais, ou para<br \/>\n    contempla&ccedil;&otilde;es do c&eacute;u, num banco de jardim, com as m&atilde;os<br \/>\n    entrela&ccedil;adas. Que vida est&uacute;pida, a dela! Oh! aquele Jorge! Que<br \/>\n    id&eacute;ia ir para o Alentejo!<br \/>\n    As Conversas de Leopoldina e a lembran&ccedil;a das suas felicidades voltavam-lhe<br \/>\n    a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe no sangue. O rel&oacute;gio<br \/>\n    do quarto come&ccedil;ou lentamente a dar nove horas &#8212; e de repente<br \/>\n    a campainha retiniu.<br \/>\n    Teve um sobressalto; n&atilde;o podia ser ainda Juliana! P&ocirc;s-se a escutar,<br \/>\n    assustada. Vozes falavam &agrave; cancela.<br \/>\n    &#8212; Minha senhora &#8212; veio dizer Joana baixo &#8212; &eacute; o primo<br \/>\n    da senhora que diz que se vem despedir&#8230;<br \/>\n    Abafou um grito, balbuciou:<br \/>\n    &#8212; Que entre!<br \/>\n    Os seus olhos dilatados cravaram-se febrilmente na porta. O reposteiro franziu-se;<br \/>\n    Bas&iacute;lio entrou, p&aacute;lido, com um sorriso fixo.<br \/>\n    &#8212; Tu partes! &#8212; exclamou ela surdamente, precipitando-se para ele.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o! &#8212; E prendeu-a nos bra&ccedil;os. &#8212; N&atilde;o!<br \/>\n    Imaginei que me n&atilde;o recebias a esta hora, e tomei este pretexto.<br \/>\n    Apertou-a contra si, beijou-a; ela deixava, toda abandonada; os seus l&aacute;bios<br \/>\n    prendiam-se aos dele. Bas&iacute;lio deitou um olhar r&aacute;pido, em redor,<br \/>\n    pela sala, e foi-a levando abra&ccedil;ado, murmurando: Meu amor! Minha filha!<br \/>\n    Mesmo trope&ccedil;ou na pele de tigre, estendida ao p&eacute; do div&atilde;.<br \/>\n    &#8212; Adoro-te!<br \/>\n    &#8212; Que susto que tive! &#8212; suspirou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Tiveste?<br \/>\n    Ela n&atilde;o respondeu; ia perdendo a percep&ccedil;&atilde;o n&iacute;tida<br \/>\n    das coisas; sentia-se como adormecer; balbuciou: Jesus! N&atilde;o! N&atilde;o!<br \/>\n    Os seus olhos cerraram.<br \/>\n    Quando a campainha retiniu fortemente &agrave;s dez horas, Lu&iacute;sa, havia<br \/>\n    momentos, sentara-se &agrave; beira do div&atilde;. Mal teve for&ccedil;a<br \/>\n    de dizer a Bas&iacute;lio:<br \/>\n    &#8212; H&aacute; de ser a Juliana, tinha ido fora&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi acender um charuto.<br \/>\n    Para quebrar o sil&ecirc;ncio sentou-se ao piano, tocou alguns compassos ao<br \/>\n    acaso, e, erguendo um pouco a voz, come&ccedil;ou a cantarolar a &aacute;ria<br \/>\n    do 3&deg;ato do Fausto:<\/p>\n<p>Al pallido chiarore<br \/>\n    Dei astri d&#8217;oro&#8230;<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa, atrav&eacute;s das &uacute;ltimas vibra&ccedil;&otilde;es dos<br \/>\n    seus nervos, ia entrando na realidade; os seus joelhos tremiam. E ent&atilde;o,<br \/>\n    ouvindo aquela melodia, uma recorda&ccedil;&atilde;o foi-se formando no seu<br \/>\n    esp&iacute;rito, ainda estremunhado: era uma noite, havia anos, em S. Carlos,<br \/>\n    num camarote com Jorge; uma luz el&eacute;trica dava ao jardim, no palco,<br \/>\n    um tom l&iacute;vido de luar legend&aacute;rio; e numa atitude ext&aacute;tica<br \/>\n    e suspirante o tenor invocava as estrelas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe:<br \/>\n    Que lindo! E o seu olhar devorava-a. Era no segundo m&ecirc;s do seu casamento.<br \/>\n    Ela estava com um vestido azul-escuro. E &agrave; volta, na carruagem, Jorge,<br \/>\n    passando-lhe a m&atilde;o pela cinta, repetia:<\/p>\n<p>Al pallido chiarore<br \/>\n    Dei astri d&#8217;oro&#8230;<\/p>\n<p>E apertava-a contra si&#8230;<br \/>\n    Ficara im&oacute;vel &agrave; beira do div&atilde;, quase a escorregar, os<br \/>\n    bra&ccedil;os frouxos, o olhar fixo, a face envelhecida, o cabelo desmanchado.<br \/>\n    Bas&iacute;lio ent&atilde;o veio sentar-se devagarinho junto dela. &#8212;<br \/>\n    Em que estava a pensar?<br \/>\n    &#8212; Nada.<br \/>\n    Ele passou-lhe o bra&ccedil;o pela cinta, come&ccedil;ou a dizer que havia<br \/>\n    de procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais &agrave; vontade;<br \/>\n    n&atilde;o era mesmo prudente ali em casa dela&#8230;<br \/>\n    E falando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo do charuto.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o te parece que vir eu aqui, todos os dias, pode ser reparado?<br \/>\n    Lu&iacute;sa ergueu-se bruscamente; lembrara-lhe Sebasti&atilde;o!&#8230; E com<br \/>\n    uma voz um pouco desvairada:<br \/>\n    &#8212; J&aacute; &eacute; t&atilde;o tarde! &#8212; disse.<br \/>\n    &#8212; Tens raz&atilde;o.<br \/>\n    Foi buscar o chap&eacute;u em bicos de p&eacute;s, veio beij&aacute;-la muito,<br \/>\n    saiu.<br \/>\n    Lu&iacute;sa sentiu-o acender um f&oacute;sforo, fechar devagarinho a cancela.<br \/>\n    Estava s&oacute;; p&ocirc;s-se a olhar em roda, como idiota. O sil&ecirc;ncio<br \/>\n    da sala parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chama avermelhada. Piscava<br \/>\n    os olhos, tinha a boca seca. Uma das almofadas do div&atilde; estava ca&iacute;da;<br \/>\n    apanhou-a.<br \/>\n    E com um ar son&acirc;mbulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol.<br \/>\n    E j&aacute; vinha com a lamparina, estava a arranj&aacute;-la&#8230;<br \/>\n    Tinha tirado a cuja; subiu &agrave; cozinha quase a correr. A Joana, que estivera<br \/>\n    dormitando, espregui&ccedil;ava-se~ com bocejos enormes.<br \/>\n    Juliana p&ocirc;s-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe;<br \/>\n    tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um sorriso<br \/>\n    para Joana:<br \/>\n    &#8212; E ent&atilde;o a que horas veio o primo da senhora?<br \/>\n    &#8212; Veio logo que vossemec&ecirc; saiu; estavam a dar as nove.<br \/>\n    &#8212; Ah!<br \/>\n    Desceu com a lamparina; e sentindo Lu&iacute;sa na alcova despir-se:<br \/>\n    &#8212; A senhora n&atilde;o quer ch&aacute;? &#8212; perguntou, com muito<br \/>\n    interesse.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o.<br \/>\n    Foi &agrave; sala, fechou o piano. Havia uni forte cheiro de charuto. P&ocirc;s-se<br \/>\n    a olhar em redor, devagar, andando com um passo sutil&#8230; De repente agachou-se,<br \/>\n    ansiosamente: ao p&eacute; do div&atilde; uma coisa reluzia. Era uma travessa<br \/>\n    de Lu&iacute;sa, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar no quarto<br \/>\n    em pontas de p&eacute;s, Pousou-a no toucador, entre os rolos de cabelo.<br \/>\n    &#8212; Quem anda a&iacute;? &#8212; perguntou da alcova a voz sonolenta de<br \/>\n    Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Sou eu, minha senhora, sou eu: estive a fechar a sala. Muito boas<br \/>\n    noites, minha senhora!<br \/>\n    &Agrave;quela hora Bas&iacute;lio entrava no Gr&ecirc;mio. Procurou pelas<br \/>\n    salas. Estavam quase desertas. Dois sujeitos, com os rostos entre os punhos,<br \/>\n    curvados em atitudes l&uacute;gubres, ruminavam os jornais; aqui, al&eacute;m,<br \/>\n    junto a mesinhas redondas, pessoas de cal&ccedil;a branca mastigavam torradas<br \/>\n    com uma satisfa&ccedil;&atilde;o pl&aacute;cida; as janelas estavam fechadas,<br \/>\n    a noite quente, e o calor mole do g&aacute;s abafava. Ia descer quando de<br \/>\n    uma saleta de jogo, de repente, saiu o ru&iacute;do irritado de uma alterca&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    trocavam-se inj&uacute;rias, gritava-se:<br \/>\n    &#8212; Mente! O asno &eacute; voc&ecirc;!<br \/>\n    Bas&iacute;lio estacou, escutando. Mas subitamente, fez-se um grande sil&ecirc;ncio;<br \/>\n    uma das vozes disse com brandura:<br \/>\n    &#8212; Paus!<br \/>\n    A outra respondeu com benevol&ecirc;ncia:<br \/>\n    &#8212; E o que devia ter feito h&aacute; pouco.<br \/>\n    E imediatamente a quest&atilde;o rebentou de novo, estridente. Praguejavam,<br \/>\n    diziam obscenidades. <br \/>\n    Bas&iacute;lio foi ao bilhar. O Visconde Reinaldo, de p&eacute;, apoiado ao<br \/>\n    taco, seguia com uma imobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas<br \/>\n    viu Bas&iacute;lio, veio para ele rapidamente, e muito interessado:<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; Agora mesmo &#8212; disse Bas&iacute;lio mordendo o charuto.<br \/>\n    &#8212; Enfim, hein? &#8212; exclamou Reinaldo, arregalando os olhos, com<br \/>\n    uma grande alegria.<br \/>\n    &#8212; Enfim!<br \/>\n    &#8212; Ainda bem, menino! Ainda bem!<br \/>\n    Batia-lhe no ombro, comovido.<br \/>\n    Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma perna<br \/>\n    no ar, para dar com mais seguran&ccedil;a o efeito, dizia com a voz constrangida<br \/>\n    pela atitude:<br \/>\n    &#8212; Estimo, estimo, porque essa coisa come&ccedil;ava a arrastar&#8230;<br \/>\n    Taque! Falhou a carambola.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o dou meia! &#8212; murmurou com rancor,<br \/>\n    E chegando-se a Bas&iacute;lio, a dar giz no taco:<br \/>\n    &#8212; Ouve c&aacute;&#8230;<br \/>\n    Falou-lhe ao ouvido.<br \/>\n    &#8212; Como um anjo, menino! &#8212; suspirou Bas&iacute;lio<\/p>\n<h2><a name=\"6\">CAP&Iacute;TULO 6<\/a><\/h2>\n<p>Juliana que na manh&atilde; seguinte veio acordar Lu&iacute;sa, dizendo &agrave;<br \/>\n    porta da alcova com a voz abafada, em confid&ecirc;ncia:<br \/>\n    &#8212; Minha senhora! Minha senhora! &Eacute; um criado com esta carta; diz<br \/>\n    que vem do hotel.<br \/>\n    Foi abrir uma das janelas, em bicos de p&eacute;s; e voltando &agrave; alcova<br \/>\n    com uma cautela misteriosa:<br \/>\n    &#8212; E est&aacute; &agrave; espera da resposta, est&aacute; &agrave; porta.<br \/>\n    Lu&iacute;sa, estremunhada, abriu o largo envelope azul com um monograma &#8212;dois<br \/>\n    BB, um p&uacute;rpura, outro ouro, sob uma coroa de conde.<br \/>\n    &#8212; Bem, n&atilde;o tem resposta.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o tem resposta &#8212; foi dizer Juliana ao criado, que esperava<br \/>\n    encostado ao corrim&atilde;o, fumando um grande charuto, e cofiando as su&iacute;&ccedil;as<br \/>\n    pretas.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o tem resposta? Bem, muito bom dia. &#8212; Levou o dedo<br \/>\n    secamente &agrave; aba do &#8220;coco&#8221;, e desceu, gingando.<br \/>\n    Perfeito homem, foi pensando Juliana, pela escada da cozinha.<br \/>\n    &#8212; Quem bateu, Sr&ordf; Juliana? &#8212; perguntou-lhe logo a cozinheira.<br \/>\n    Juliana resmungou:<br \/>\n    &#8212; Ningu&eacute;m; um recado da modista.<br \/>\n    Desde pela manh&atilde; a Joana achava-lhe o &#8220;ar esquisito&#8221;. Sentira-a<br \/>\n    desde &agrave;s sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidra&ccedil;as<br \/>\n    da sala de jantar, arrumar as lou&ccedil;as no aparador. E com uma az&aacute;fama!<br \/>\n    Ouvira-a cantar a Carta adorada, ao mesmo tempo que os can&aacute;rios, nas<br \/>\n    varandas abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu<br \/>\n    caf&eacute; &agrave; cozinha n&atilde;o palestrou como de costume; parecia<br \/>\n    preocupada e ausente.<br \/>\n    Joana at&eacute; lhe perguntou:<br \/>\n    &#8212; Sente-se pior, Sr. a Juliana?<br \/>\n    &#8212; Eu? Gra&ccedil;as a Deus, nunca me senti t&atilde;o bem.<br \/>\n    &#8212; Como a vejo t&atilde;o calada&#8230;<br \/>\n    &#8212; A malucar c&aacute; por dentro&#8230; A gente nem sempre est&aacute; para<br \/>\n    grulhar.<br \/>\n    Apesar de serem nove horas n&atilde;o quisera acordar a senhora. Deixa-a descansar,<br \/>\n    coitada! &#8212; disse. Foi em pontas de p&eacute;s encher devagarinho a bacia<br \/>\n    grande do banho, no quarto; para n&atilde;o fazer ru&iacute;do, sacudiu no<br \/>\n    corredor as saias, o vestido da v&eacute;spera; e os seus olhos brilharam<br \/>\n    avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era o bilhete<br \/>\n    que Lu&iacute;sa escrevera a Bas&iacute;lio: &#8220;Por que n&atilde;o vens?&#8230;<br \/>\n    Se soubesses o que me fazes sofrer!&#8230;&#8221; Teve-o um momento na m&atilde;o,<br \/>\n    mordendo o bei&ccedil;o, o olhar fixo num c&aacute;lculo agudo; por flui tornou<br \/>\n    a met&ecirc;-lo na algibeira de Lu&iacute;sa, dobrou o vestido, foi estend&ecirc;-lo<br \/>\n    com muito cuidado na causeuse.<br \/>\n    Enfim, mais tarde, sentindo o cuco dar horas, decidiu-se a ir dizer a Lu&iacute;sa,<br \/>\n    com uma voz meiga:<br \/>\n    &#8212; S&atilde;o dez e meia, minha senhora!<br \/>\n    Lu&iacute;sa, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bas&iacute;lio: &#8220;N&atilde;o<br \/>\n    pudera &#8211; escrevia ele &#8212; estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava.<br \/>\n    Mal dormira! Erguera-se de manh&atilde; muito cedo para lhe jurar que estava<br \/>\n    louco, e que punha a sua vida aos p&eacute;s dela&#8221;. Compusera aquela<br \/>\n    prosa na v&eacute;spera, no Gr&ecirc;mio, &agrave;s tr&ecirc;s horas, depois<br \/>\n    de alguns robbers de whist, um bife, dois copos de cerveja e uma leitura pregui&ccedil;osa<br \/>\n    da Ilustra&ccedil;&atilde;o. E terminava, exclamando: &#8212; &#8220;Que outros<br \/>\n    desejem a fortuna, a gl&oacute;ria, as honras, eu desejo-te a ti! S&oacute;<br \/>\n    a ti, minha pomba, porque tu &eacute;s o &uacute;nico la&ccedil;o que me prende<br \/>\n    &agrave; vida, e se amanh&atilde; perdesse o teu amor, juro-te que punha um<br \/>\n    termo, com uma boa bala, a esta exist&ecirc;ncia in&uacute;til!&#8221; &#8212;<br \/>\n    Pedira mais cerveja, e levara a carta para a fechar em casa, num envelope<br \/>\n    com o seu monograma, porque sempre fazia mais efeito&#8221;.<br \/>\n    E Lu&iacute;sa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira<br \/>\n    vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se<br \/>\n    ao calor amoroso que sa&iacute;a delas, como um corpo ressequido que se estira<br \/>\n    num banho t&eacute;pido; sentia um acr&eacute;scimo de estima por si mesma,<br \/>\n    e parecia-lhe que entrava enfim numa exist&ecirc;ncia superiormente interessante,<br \/>\n    onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um &ecirc;xtase,<br \/>\n    e a alma se cobria de um luxo radioso de sensa&ccedil;&otilde;es!<br \/>\n    Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roup&atilde;o, veio levantar<br \/>\n    os transparentes da janela&#8230; Que linda manh&atilde;! Era um daqueles dias<br \/>\n    do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; h&aacute; prematuramente, no<br \/>\n    calor e na luz, uma certa tranq&uuml;ilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente,<br \/>\n    mas pousa de leve; o ar n&atilde;o tem o embaciado canicular, e o azul muito<br \/>\n    alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e j&aacute;<br \/>\n    se n&atilde;o v&ecirc; na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora.<br \/>\n    Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono<br \/>\n    s&atilde;o, cont&iacute;nuo, e todas as agita&ccedil;&otilde;es, as impaci&ecirc;ncias<br \/>\n    dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao<br \/>\n    espelho; achou a pele mais clara, mais fresca, e um enternecimento &uacute;mido<br \/>\n    no olhar; seria verdade ent&atilde;o o que dizia Leopoldina, que &#8220;n&atilde;o<br \/>\n    havia como uma maldadezinba para fazer a gente bonita?&#8221; Tinha um amante,<br \/>\n    ela!<br \/>\n    E im&oacute;vel no meio do quarto, os bra&ccedil;os cruzados, o olhar fixo,<br \/>\n    repetia: Tenho um amante! Recordava a sala na v&eacute;spera, a chama agu&ccedil;ada<br \/>\n    das velas, e certos sil&ecirc;ncios extraordin&aacute;rios em que lhe parecia<br \/>\n    que a vida parara, enquanto os olhos do retrato da m&atilde;e de Jorge, negros<br \/>\n    na face amarela, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura. Mas<br \/>\n    Juliana entrou com um tabuleiro de roupa passada. Eram horas de se vestir&#8230;<br \/>\n    Que requintes teve nessa manh&atilde;! Perfumou a &aacute;gua com um cheiro<br \/>\n    de Lubin, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava por<br \/>\n    ser rica! Queria as bretanhas e as holandas mais caras, as mob&iacute;lias<br \/>\n    mais aparatosas, grossas j&oacute;ias inglesas, um coup&eacute; forrado de<br \/>\n    cetim&#8230; Porque nos temperamentos sens&iacute;veis as alegrias do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tendem a completar-se com as sensualidades do luxo; o primeiro erro que se<br \/>\n    instala numa alma at&eacute; a&iacute; defendida, facilita logo aos outros<br \/>\n    entradas tortuosas; assim, um ladr&atilde;o que se introduz numa casa vai<br \/>\n    abrindo sutilmente as portas &agrave; sua quadrilha esfomeada.<br \/>\n    Subiu para o almo&ccedil;o, muito fresca, com o cabelo em duas tran&ccedil;as,<br \/>\n    em roup&atilde;o branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janelas, &#8220;porque<br \/>\n    apesar de n&atilde;o estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais frescura!&#8221;<br \/>\n    E, vendo que lhe esquecera o len&ccedil;o, correu a buscar-lhe um, que perfumou<br \/>\n    com &aacute;gua-de-col&ocirc;nia. Servia-a com ternura. Viu-a comer muitos<br \/>\n    figos:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o lhe v&atilde;o fazer mal, minha senhora! &#8212; exclamou<br \/>\n    quase lacrimosamente.<br \/>\n    Andava em redor dela com um sorriso servil, sem ru&iacute;do; ou defronte<br \/>\n    da mesa, com os bra&ccedil;os cruzados, parecia admir&aacute;-la com orgulho,<br \/>\n    como um ser precioso e querido, todo seu, a sua ama! O seu olhar esbugalhado<br \/>\n    apossava-se dela.<br \/>\n    E dizia consigo:<br \/>\n    &#8212; Grande cabra! Grande b&ecirc;beda!<br \/>\n    Lu&iacute;sa, depois do almo&ccedil;o, veio para o quarto estender-se na causeuse<br \/>\n    com o seu Di&aacute;rio de Not&iacute;cias. Mas n&atilde;o podia ler. As recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da v&eacute;spera redemoinhava~n.l1ie na alma a cada momento, como as folhas<br \/>\n    que um vento de Outono levanta a espa&ccedil;os de um ch&atilde;o tranq&uuml;ilo;<br \/>\n    cenas palavras dele, certos &iacute;mpetos, toda a sua maneira de amar&#8230;<br \/>\n    E ficava im&oacute;vel, o olhar afogado num fluido, sentindo aquelas reminisc&ecirc;ncias<br \/>\n    vibrarem-lhe muito tempo, docemente, nos nervos da mem&oacute;ria. Todavia<br \/>\n    a lembran&ccedil;a de Jorge n&atilde;o a deixava; tivera-a sempre no esp&iacute;rito,<br \/>\n    desde a v&eacute;spera; n&atilde;o a assustava, nem a torturava; estava ali,<br \/>\n    im&oacute;vel mas presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era<br \/>\n    como se ele tivesse morrido, ou estivesse t&atilde;o longe que n&atilde;o<br \/>\n    pudesse voltar, ou a tivesse abandonado! Ela mesma se espantava de se sentir<br \/>\n    t&atilde;o tranq&uuml;ila. E todavia impacientava-a ter constantemente aquela<br \/>\n    id&eacute;ia no esp&iacute;rito, impass&iacute;vel, com uma obstina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    espectral; punha-se instintivamente a acumular as justifica&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    N&atilde;o fora culpa sua. N&atilde;o abrira os bra&ccedil;os a Bas&iacute;lio<br \/>\n    voluntariamente!&#8230; Tinha sido uma fatalidade; fora o calor da hora, o crep&uacute;sculo,<br \/>\n    uma pontinha de vinho talvez&#8230; Estava doida, decerto. E repetia consigo as<br \/>\n    atenua&ccedil;&otilde;es tradicionais: n&atilde;o era a primeira que enganara<br \/>\n    seu marido; e muitas era apenas por v&iacute;cio; ela ora por paix&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Quantas mulheres viviam num amor ileg&iacute;timo e eram ilustres, admiradas!<br \/>\n    Rainhas mesmo tinham amantes. E ele amava-a tanto!&#8230; Seria t&atilde;o fiel,<br \/>\n    t&atilde;o discreto! As suas palavras eram t&atilde;o cativantes, os seus<br \/>\n    beijos t&atilde;o estonteadores! E enfim que lhe havia de fazer agora? J&aacute;<br \/>\n    agora!&#8230;<br \/>\n    E resolveu ir responder-he Foi ao escrit&oacute;rio, Logo ao entrar o seu<br \/>\n    olhar deu com a fotografia de Jorge &#8212; a cabe&ccedil;a de tamanho natural,<br \/>\n    &#8212; no seu caixilho envernizado de preto. Uma como&ccedil;&atilde;o comprimiu-lhe<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o; ficou como tolhida &#8212; como uma pessoa encalmada<br \/>\n    de ter corrido, que entra na frieza de um subterr&acirc;neo; e examinava o<br \/>\n    seu cabelo frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas encruzadas<br \/>\n    que reluziam por cima. Se ele soubesse matava-a!&#8230; Fez-se muito p&aacute;lida.<br \/>\n    Olhava vagamente em redor o casaco de veludo de trabalho dependurado num prego;<br \/>\n    a manta em que ele embrulhava os p&eacute;s dobrada a um lado; as grandes<br \/>\n    folhas de papel de desenho na outra mesa ao fundo, e o potezinho do tabaco,<br \/>\n    e a caixa das pistolas!&#8230; Matava-a decerto!<br \/>\n    Aquele quarto estava t&atilde;o penetrado da personalidade de Jorge, que lhe<br \/>\n    parecia que ele ia voltar, entrar dai a bocado&#8230; Se ele viesse de repente!&#8230;<br \/>\n    Havia tr&ecirc;s dias que n&atilde;o recebia carta &#8212; e quando ela estivesse<br \/>\n    ali a escrever ao seu amante, num momento o outro podia aparecer e apanh&aacute;-la!<br \/>\n    Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro s&oacute; chegava &agrave;s<br \/>\n    cinco horas; e depois ele dizia na &uacute;ltima carta que ainda se demorava<br \/>\n    um m&ecirc;s, talvez mais&#8230;<br \/>\n    Sentou-se, escolheu uma folha de papel, come&ccedil;ou a escrever, na sua<br \/>\n    letra um pouco gorda:<\/p>\n<p>Meu adorado Bas&iacute;lio.<\/p>\n<p>Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um palpite de que ele vinha,<br \/>\n    ia entrar&#8230; Era melhor n&atilde;o se p&ocirc;r a escrever, talvez!&#8230; Ergueu-se,<br \/>\n    foi &agrave; sala devagar, sentou-se no div&atilde;; e, como se o contacto<br \/>\n    daquele largo sof&aacute; e o ardor das recorda&ccedil;&otilde;es que ele<br \/>\n    lhe trazia da v&eacute;spera lhe tivesse dado a coragem das a&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    amorosas e culpadas, voltou muito decidida ao escrit&oacute;rio, escreveu<br \/>\n    rapidamente:<\/p>\n<p>N&atilde;o imaginas com que alegria recebi esta manh&atilde; a tua carta&#8230;<\/p>\n<p>A pena velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudi-la, como lhe tremia<br \/>\n    um pouco a m&atilde;o, um borr&atilde;o negro caiu no papel. Ficou toda contrariada;<br \/>\n    pareceu-lhe aquilo um mau agouro. Hesitou um momento &#8212; e co&ccedil;ando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, com os cotovelos sobre a mesa, sentia Juliana varrer fora<br \/>\n    o patamar, cantarolando a Carta adorada. Enfim, impaciente, rasgou a folha<br \/>\n    muitas vezes em pedacinhos mi&uacute;dos &#8212; e atirou-os para um caix&atilde;o<br \/>\n    de pau envernizado com duas argolas de metal, que estava ao canto junto &agrave;<br \/>\n    mesa, onde Jorge deitava os rascunhos velhos e os pap&eacute;is in&uacute;teis;<br \/>\n    chamavam-lhe o sarc&oacute;fago; Juliana, decerto, descuidara-se de o esvaziar<br \/>\n    no lixo, porque transbordava de papelada.<br \/>\n    Escolheu outra folha, recome&ccedil;ou:<\/p>\n<p>Meu adorado Bas&iacute;lio.<br \/>\n    N&atilde;o imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manh&atilde;,<br \/>\n    ao acordar. Cobri-a de beijos&#8230;<\/p>\n<p>Mas o reposteiro franziu-se numa prega mole, a voz de Juliana disse discretamente:<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; ali a costureira, minha senhora.<br \/>\n    Lu&iacute;sa, sobressaltada, tinha tapado a folha de papel com a m&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Que espere.<br \/>\n    E continuou:<\/p>\n<p>&#8230;Que tristeza que fosse a carta e que n&atilde;o fosses tu que ali estivesses!<br \/>\n    Estou pasmada de mim mesma, como em t&atilde;o pouco tempo te apossaste do<br \/>\n    meu cora&ccedil;&atilde;o, mas a verdade &eacute; que nunca deixei de te amar.<br \/>\n    N&atilde;o me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu desejo<br \/>\n    a tua estima, mas &eacute; que nunca deixei de te amar e ao tornar a ver-te,<br \/>\n    depois daquela est&uacute;pida viagem para t&atilde;o longe, n&atilde;o fui<br \/>\n    superior ao sentimento que me impelia para ti meu adorado Bas&iacute;lio.<br \/>\n    Era mais forte que eu, meu Bas&iacute;lio. Ontem, quando aquela maldita criada<br \/>\n    me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bas&iacute;lio, fiquei como morta;<br \/>\n    mas quando vi que n&atilde;o, nem eu sei, adorei-te! E se tu me tivesses pedido<br \/>\n    a vida dava-ia, porque te amo, que eu mesma, me estranho. Mas para que foi<br \/>\n    aquela mentira, e para que vieste tu? Mau! tinha vontade de te dizer adeus<br \/>\n    para sempre, mas n&atilde;o posso, meu adorado Bas&iacute;lio! &Eacute; superior<br \/>\n    a mim. Sempre te amei e agora que sou tua, que te perten&ccedil;o corpo e<br \/>\n    alma, parece-me que te amo mais, se &eacute; poss&iacute;vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Onde est&aacute; ela? Onde est&aacute; ela? &#8212; disse uma voz<br \/>\n    na sala.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ergueu-se, com um salto, l&iacute;vida. Era Jorge! Amarrotou<br \/>\n    convulsivamente a cana, quis escond&ecirc;-la no bolso, &#8212; o roup&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o tinha bolso! E desvairada, sem reflex&atilde;o, arremessou-a para<br \/>\n    o sarc&oacute;fago. Ficou de p&eacute;, esperando, as duas m&atilde;os apoiadas<br \/>\n    &agrave; mesa, a vida suspensa.<br \/>\n    O reposteiro ergueu-se, &#8212; e reconheceu logo o chap&eacute;u de veludo<br \/>\n    azul de D. Felicidade.<br \/>\n    &#8212; Aqui metida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu,<br \/>\n    filha, est&aacute;s como a cal&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa deixou-se cair no fauteuil, branca e fria; disse com um sorriso<br \/>\n    cansado:<br \/>\n    &#8212; Estava a escrever, deu-me uma tontura&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ai! Tonturas, eu! &#8212; acudiu logo D. Felicidade. &#8212; &Eacute;<br \/>\n    uma desgra&ccedil;a, a cada momento a agarrar-me aos m&oacute;veis; at&eacute;<br \/>\n    tenho medo de andar s&oacute;. Falta de purgas!<br \/>\n    &#8212; Vamos para o quarto! &#8212; disse logo Lu&iacute;sa. &#8212; Estamos<br \/>\n    melhor no quarto.<br \/>\n    Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe.<br \/>\n    Atravessaram a sala; Juliana come&ccedil;ava a arrumar. Lu&iacute;sa ao passar,<br \/>\n    viu na pedra da consola, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza; era<br \/>\n    da v&eacute;spera, do charuto dele! Sacudiu-a &#8212; e ao erguer os olhos,<br \/>\n    ficou pasmada de se ver t&atilde;o p&aacute;lida.<br \/>\n    A costureira vestida de preto, com um chap&eacute;u de fitas roxas, esperava<br \/>\n    sentada &agrave; beira da causeuse, com um olhar infeliz e o seu embrulho<br \/>\n    nos joelhos; vinha provar o corpete de um vestido composto; assentou, pregou,<br \/>\n    alinhavou, falando baixo, com uma humildade triste e uma tossinha seca; e<br \/>\n    apenas ela saiu, de leve, com o seu andar de sombra, o xale tinto muito cingido<br \/>\n    &agrave;s omoplatas magras, &#8212; D. Felicidade come&ccedil;ou logo a falar<br \/>\n    dele, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no Moinho de Vento. Pois, senhores,<br \/>\n    nem lhe viera falar! Fizera-lhe uma cortesia muito seca, por demais, e tique-tique<br \/>\n    por ali fora, que se diria que ia fugido! Que te parece? Ai! Aquelas indiferen&ccedil;as<br \/>\n    matavam-na. E n&atilde;o as compreendia, n&atilde;o; realmente n&atilde;o<br \/>\n    as compreendia&#8230;<br \/>\n    &#8212; Porque enfim &#8212; exclamava &#8212; eu bem me conhe&ccedil;o, n&atilde;o<br \/>\n    sou nenhuma crian&ccedil;a, mas tamb&eacute;m n&atilde;o sou nenhum caco!<br \/>\n    Pois n&atilde;o &eacute; verdade?<br \/>\n    &#8212; Certamente &#8212; disse Lu&iacute;sa distra&iacute;da. Lembrava-lhe<br \/>\n    a carta.<br \/>\n    &#8212; Olha que aqui onde me v&ecirc;s com os meus quarenta, decotada, ainda<br \/>\n    valho! O que s&atilde;o ombros e colo &eacute; do melhor!<br \/>\n    Lu&iacute;sa ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu:<br \/>\n    &#8212; Do melhor! Tomaram-no muitas novas!<br \/>\n    &#8212; Creio bem &#8212; concordou Lu&iacute;sa, sorrindo vagamente.<br \/>\n    &#8212; E ele tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; nenhum rapazinho novo&#8230;<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o&#8230;<br \/>\n    &#8212; Mas muito bem conservado! &#8212; E os olhos luziam-lhe. &#8212; Para<br \/>\n    fazer ainda uma mulher muito feliz!<br \/>\n    &#8212; Muito&#8230;<br \/>\n    &#8212; Um homem de apetecer! &#8212; suspirou D. Felicidade.<br \/>\n    E Lu&iacute;sa ent&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Tu esperas um instantinho? Vou l&aacute; dentro e volto j&aacute;.<br \/>\n    &#8212; Vai, filha, vai.<br \/>\n    Lu&iacute;sa correu ao escrit&oacute;rio, direita ao sarc&oacute;fago. Estava<br \/>\n    vazio! E a carta dela, Santo Deus?<br \/>\n    Chamou logo Juliana, aterrada.<br \/>\n    &#8212; Voc&ecirc; despejou o caix&atilde;o dos pap&eacute;is?<br \/>\n    &#8212; Despejei, sim, minha senhora &#8212; respondeu muito tranq&uuml;ilamente.<br \/>\n    E com interesse:<br \/>\n    &#8212; Por qu&ecirc;, perdeu-se algum papel?<br \/>\n    Lu&iacute;sa fazia-se p&aacute;lida.<br \/>\n    &#8212; Foi um papel que eu atirei para o caix&atilde;o. Onde o despejou voc&ecirc;?<br \/>\n    &#8212; No barril do lixo, como &eacute; costume, minha senhora; imaginei<br \/>\n    que nada servia&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ah! deixe ver!<br \/>\n    Subiu rapidamente &agrave; cozinha.<br \/>\n    Juliana, atr&aacute;s, ia dizendo:<br \/>\n    &#8212; Ora esta! Pois ainda n&atilde;o h&aacute; cinco minutos! O caix&atilde;o<br \/>\n    estava mais cheio&#8230; Andei a dar uma arrumadela no escrit&oacute;rio&#8230; Valha-me<br \/>\n    Deus, se a senhora tem dito&#8230;<br \/>\n    Mas o barril do lixo estava vazio. Joana tinha-o ido despejar abaixo naquele<br \/>\n    instantinho; e vendo a inquieta&ccedil;&atilde;o de Lu&iacute;sa:<br \/>\n    &#8212;Por qu&ecirc;, perdeu-se alguma coisa?<br \/>\n    &#8212; Um papel &#8212; disse Lu&iacute;sa, que olhava em redor, pelo ch&atilde;o,<br \/>\n    muito branca.<br \/>\n    &#8212; Iam uns poucos de pap&eacute;is, minha senhora &#8212; disse a rapariga<br \/>\n    &#8212; eu deitei tudo ao despejo.<br \/>\n    &#8212; Podia ter ficado algum ca&iacute;do por fora, Sr&ordf;. Joana &#8212;<br \/>\n    lembrou tinhidamente Juliana.<br \/>\n    &#8212; V&aacute; ver, v&aacute; ver, Joana -&#8212; acudiu Lu&iacute;sa com<br \/>\n    uma esperan&ccedil;a.<br \/>\n    Juliana parecia aflita:<br \/>\n    &#8212; Jesus, senhor! Eu podia l&aacute; adivinhar! Mas para que n&atilde;o<br \/>\n    disse a senhora?&#8230;<br \/>\n    &#8212; Bem, bem, a culpa n&atilde;o &eacute; sua, mulher&#8230;<br \/>\n    &#8212; Credo, que at&eacute; se me est&aacute; a embrulhar o est&ocirc;mago&#8230;<br \/>\n    E &eacute; coisa de import&acirc;ncia, minha senhora?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, &eacute; uma conta&#8230;<br \/>\n    &#8212; Valha-me Deus!&#8230;<br \/>\n    Joana voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Lu&iacute;sa agarrou-o, leu:<br \/>\n    &#8212; &#8220;&#8230;o di&acirc;metro do primeiro po&ccedil;o de explora&ccedil;&atilde;o&#8230;&#8221;<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; isto! &#8212; exclamou toda contrariada.<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o foi pra baixo pra o cano, minha senhora; n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    mais nada.<br \/>\n    &#8212; Viu bem?<br \/>\n    &#8212; Esquadrinhei tudo&#8230;<br \/>\n    E Juliana continuava, desolada:<br \/>\n    &#8212; Antes queria perder dez tost&otilde;es! Uma assim! Eu, minha senhora,<br \/>\n    podia l&aacute; adivinhar&#8230;<br \/>\n    &#8212; Bem, bem! &#8212; murmurou Lu&iacute;sa descendo.<br \/>\n    Mas estava assustada; sentia mesmo uma suspeita indefinida&#8230; Lembrou-lhe<br \/>\n    o bilhete que escrevera na v&eacute;spera a Bas&iacute;lio, e que metera,<br \/>\n    todo amarrotado, no bolso do vestido&#8230; Entrou no quarto, agitada.<br \/>\n    D. Felicidade tirara o chap&eacute;u, acomodara-se na causeuse.<br \/>\n    &#8212; Tu desculpas, hein? &#8212; fez Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Anda, filha, anda! Que &eacute;?<br \/>\n    &#8212; Perdi uma conta &#8212; respondeu.<br \/>\n    Foi ao guarda-vestidos; achou logo o bilhete na algibeira&#8230; Aquilo serenou-a.<br \/>\n    A carta tinha ido para o lixo, decerto. Mas que imprud&ecirc;ncia!<br \/>\n    &#8212; Bem, acabou-se! &#8212; disse, sentando-se resignada.<br \/>\n    E D. Felicidade imediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:<br \/>\n    &#8212; Ora; eu vinha-te falar numa coisa. Mas v&ecirc; l&aacute;! Olha que<br \/>\n    &eacute; segredo.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ficou logo sobressaltada.<br \/>\n    &#8212; Tu sabes &#8212; continuou D. Felicidade, devagar, com pausas &#8212;<br \/>\n    que a minha criada, a Josefa, est&aacute; para casar com o galego&#8230; O homem<br \/>\n    &eacute; de ao p&eacute; de Tu&iacute;, e diz que na terra dele h&aacute;<br \/>\n    uma mulher que tem uma virtude para fazer casamentos que &eacute; uma coisa<br \/>\n    milagrosa&#8230; Diz que &eacute; o mais que h&aacute;&#8230; Em deitando a sorte<br \/>\n    a um homem, &#8212; o homem entra-lhe uma tal paix&atilde;o que se arranja<br \/>\n    logo o casamento, e &eacute; a maior felicidade.<br \/>\n    Lu&iacute;sa tranq&uuml;ilizada, sorriu.<br \/>\n    &#8212; Escuta &#8212; acudiu D. Felicidade &#8212; n&atilde;o te ponhas j&aacute;<br \/>\n    com as tuas coisas&#8230;<br \/>\n    No seu tom grave havia um respeito supersticioso.<br \/>\n    &#8212; Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas,<br \/>\n    outros que n&atilde;o faziam caso delas, maridos que tinham amigas; enfim<br \/>\n    toda a sorte de ingratid&atilde;o&#8230; Em a mulher deitando o encanto, os homens<br \/>\n    come&ccedil;avam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e est&atilde;o<br \/>\n    pelo bei&ccedil;o&#8230; A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo&#8230;<br \/>\n    &#8212; De deitar uma sorte ao Conselheiro! &#8212; exclamou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Que te parece?<br \/>\n    Lu&iacute;sa deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quase se escandalizou.<br \/>\n    Contou outros casos: um fidalgo que desonrara uma lavadeira; um homem que<br \/>\n    abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma b&ecirc;beda&#8230; Em todos a<br \/>\n    sorte operara de um modo fulminante, produzindo um amor s&uacute;bito e fogoso<br \/>\n    pela pessoa desprezada. Apareciam logo rendidos, se estavam perto; se estavam<br \/>\n    longe, voltavam, &aacute;vidos, a p&eacute;, a cavalo, na malaposta, apressando-se,<br \/>\n    ardendo&#8230; E entregavam-se, mansos e humildes como escravos acorrentados&#8230;<br \/>\n    &#8212; Mas o galego &#8212; continuava ela muito excitada &#8212; diz que<br \/>\n    para ir &agrave; terra, falar &agrave; mulher, levar o retrato do Conselheiro,<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio o retrato dele, o meu; &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    o meu; ir falar, voltar &#8212; quer sete moedas!&#8230;<br \/>\n    &#8212; Oh dona Felicidade! &#8212; fez Lu&iacute;sa repreensivamente.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o me digas, n&atilde;o venhas com as tuas! Olha que eu sei<br \/>\n    de casos&#8230;<br \/>\n    E erguendo-se:<br \/>\n    &#8212; Mas s&atilde;o sete moedas! Sete moedas! &#8212; exclamou, arregalando<br \/>\n    os olhos.<br \/>\n    Juliana apareceu &agrave; porta, e muito baixinho, com um sorriso:<br \/>\n    &#8212; A senhora faz favor?<br \/>\n    Chamou-a para o corredor, em segredo:<br \/>\n    &#8212; Esta carta. Que vem do hotel.<br \/>\n    Lu&iacute;sa fez-se escarlate.<br \/>\n    &#8212; Credo, mulher! N&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio fazer mist&eacute;rios!<br \/>\n    Mas n&atilde;o entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a l&aacute;pis,<br \/>\n    escrita &agrave; pressa:<br \/>\n    &#8220;Meu amor &#8212; dizia Bas&iacute;lio &#8212; por um feliz acaso descobri<br \/>\n    o que precis&aacute;vamos: um ninho discreto para nos vermos&#8230;&#8221; E indicava<br \/>\n    a rua, o n&uacute;mero, os sinais, o caminho mais perto. &#8220;&#8230; Quando<br \/>\n    vens, meu amor? Vem amanh&atilde;. Batizei a casa com o nome de Para&iacute;so;<br \/>\n    para mim, minha adorada, &eacute; com efeito o para&iacute;so. Eu espero-te<br \/>\n    l&aacute; desde o meio-dia; logo que te aviste, des&ccedil;o.&#8221;<br \/>\n    Aquela precipita&ccedil;&atilde;o amorosa em arranjar o ninho &#8212; provando<br \/>\n    uma paix&atilde;o impaciente, toda ocupada dela &#8212; produziu-lhe uma dilata&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    doce do orgulho; ao mesmo tempo que aquele para&iacute;so secreto, como num<br \/>\n    romance, lhe dava a esperan&ccedil;a de felicidades excepcionais; e todas<br \/>\n    as suas inquieta&ccedil;&otilde;es os sustos da carta perdida se dissiparam<br \/>\n    de repente sob uma sensa&ccedil;&atilde;o c&aacute;lida, como flocos de n&eacute;voa<br \/>\n    sob o sol que se levanta.<br \/>\n    Voltou ao quarto, com o olhar risonho.<br \/>\n    &#8212; Que te parece, hein? &#8212; perguntou logo D. Felicidade, a quem<br \/>\n    a sua id&eacute;ia ocupava tiranicamente<br \/>\n    &#8212; O qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8212; Achas que mande o homem a Tu&iacute;?<br \/>\n    Lu&iacute;sa encolheu os ombros; veio-lhe um t&eacute;dio de tais enredos<br \/>\n    de bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga rom&acirc;ntica<br \/>\n    achava repugnante aquele sentimentalismo senil.<br \/>\n    &#8212; Tolices! &#8212; disse com muito desd&eacute;m.<br \/>\n    &#8212; Oh filha! N&atilde;o me digas, n&atilde;o me digas! &#8212; acudiu<br \/>\n    desolada D. Felicidade.<br \/>\n    &#8212; Bem, ent&atilde;o manda, manda! &#8212; fez Lu&iacute;sa, j&aacute;<br \/>\n    impaciente<br \/>\n    &#8212; Mas s&atilde;o sete moedas! &#8212; exclamou D. Felicidade, quase<br \/>\n    chorosa.<br \/>\n    Lu&iacute;sa p&ocirc;s-se a rir.<br \/>\n    &#8212; Por um marido? Acho barato&#8230;<br \/>\n    &#8212; E se a sorte falha?<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o &eacute; caro!<br \/>\n    D. Felicidade deu um grande ai! Estava muito infeliz, naquela hesita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre os impulsos da concupisc&ecirc;ncia e as prud&ecirc;ncias da economia.<br \/>\n    Lu&iacute;sa teve pena dela, e, tirando um vestido do guarda-roupa:<br \/>\n    &#8212; Deixa l&aacute;, filha! N&atilde;o h&atilde;o de ser necess&aacute;rias<br \/>\n    bruxarias!&#8230;<br \/>\n    D. Felicidade ergueu os olhos ao c&eacute;u.<br \/>\n    &#8212; Vais sair? &#8212; perguntou melancolicamente<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o.<br \/>\n    D. Felicidade prop&ocirc;s-lhe ent&atilde;o que viesse com ela &agrave; Encarna&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um fur&uacute;nculo! E viam a arma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da igreja para a festa; estreava-se o frontal novo, um primor!<br \/>\n    &#8212; E estou tamb&eacute;m com vontade de ir rezar unia esta&ccedil;&atilde;ozinha<br \/>\n    para aliviar c&aacute; por dentro &#8212; ajuntou, suspirando.<br \/>\n    Lu&iacute;sa aceitou. Apetecia-lhe ir ver altares alumiados ouvir o ciciar<br \/>\n    de rezas no coro, Como se os requintes devotos dissessem bem com as suas disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sentimentais Come&ccedil;ou a vestir-se depressa.<br \/>\n    &#8212; Como tu est&aacute;s gorda, filha! &#8212; exclamou D. Felicidade<br \/>\n    admirada vendo-0lhe os ombros, o colo.<br \/>\n    Lu&iacute;sa diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente,<br \/>\n    contente das suas linhas, acariciando devagarinho voluptuosamente a pele branca<br \/>\n    e fina.<br \/>\n    &#8212; Redondinha &#8212; disse, namorando-se.<br \/>\n    &#8212; Redondinha? Vais-te a fazer uma bola!<br \/>\n    E acrescentou, tristemente:<br \/>\n    &#8212; Tamb&eacute;m com a tua vida; um marido Como o teu, regaladinha, sem<br \/>\n    filhos, sem cuidados&#8230;<br \/>\n    &#8212; Vamos l&aacute;, minha rica &#8212; disse Lu&iacute;sa &#8212; que<br \/>\n    as tristezas n&atilde;o te t&ecirc;m feito emagrecer&#8230;<br \/>\n    &#8212; Pois sim, pois sim! Mas&#8230; &#8212; e parecia desolada, como curvada<br \/>\n    sob as suas pr&oacute;prias ru&iacute;nas &#8212; c&aacute; por dentro &eacute;<br \/>\n    uma desgra&ccedil;a, est&ocirc;mago, f&iacute;gado&#8230;<br \/>\n    &#8212; Se a mulher de Tu&iacute; faz o milagre, p&otilde;e tudo isso como<br \/>\n    novo!<br \/>\n    D. Felicidade sorriu, com uma d&uacute;vida desconsolada.<br \/>\n    &#8212; Sabes que tenho um chap&eacute;u lindo? &#8212; exclamou de repente<br \/>\n    Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o viste? Lindo!<br \/>\n    Foi logo busc&aacute;-lo ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido<br \/>\n    de mios&oacute;tis.<br \/>\n    &#8212; Que te parece?<br \/>\n    &#8212; E um primor!<br \/>\n    Lu&iacute;sa mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas<br \/>\n    azuis.<br \/>\n    &#8212; D&aacute; frescura &#8212; fez D. Felicidade.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &eacute; verdade?<br \/>\n    P&ocirc;-lo com muito cuidado, toda s&eacute;ria. Ficava-lhe bem! Bas&iacute;lio<br \/>\n    se a visse havia de gostar, pensou. Era bem poss&iacute;vel que o encontrassem&#8230;<br \/>\n    Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante; achava t&atilde;o delicioso<br \/>\n    viver, sair, ir &agrave; Encarna&ccedil;&atilde;o, pensar no seu amante!&#8230;<br \/>\n    E toda no ar, procurava pelo quarto as chavinhas do toucador.<br \/>\n    Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia ver! Saiu correndo,<br \/>\n    tontinha, cantarolando:<\/p>\n<p>Amici, la notte &eacute; bella&#8230;<br \/>\n    La ra la la&#8230;<\/p>\n<p>Quase topou com Juliana, que varria o corredor.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o deixe de engomar a saia bordada para amanh&atilde;, Juliana!<br \/>\n    &#8212; Sim, minha senhora. Est&aacute; em goma!<br \/>\n    E seguindo-a com um olhar feroz:<br \/>\n    &#8212; Canta, piorrinha; canta, cabrazinha; canta, bebedazinha!<br \/>\n    E ela mesma, tomada subitamente de um j&uacute;bilo agudo, atirou vassouradas<br \/>\n    r&aacute;pidas, soltando na sua voz rachada:<\/p>\n<p>Al&eacute;m d&#8217;amanh&atilde; termina a campanha,<br \/>\n    P-o-o-or aqui se diz&#8230;<br \/>\n    Se tal for verdade, se n&atilde;o for patranha&#8230;<\/p>\n<p>E com um espremido enf&aacute;tico:<\/p>\n<p>Se-e-rei bem feliz!<\/p>\n<p>Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebasti&atilde;o e Juli&atilde;o<br \/>\n    passeavam em S. Pedro de Alc&acirc;ntara.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o estivera contando a sua &#8220;cena&#8221; com Lu&iacute;sa,<br \/>\n    e como desde ent&atilde;o a sua estima por ela crescera. Ao princ&iacute;pio<br \/>\n    escabreara-se, sim&#8230;<br \/>\n    &#8212; Mas teve raz&atilde;o! Assim de surpresa, ouvir uma daquelas! E eu<br \/>\n    levei a coisa mal, fui muito &agrave; bruta&#8230;<br \/>\n    Depois, coitadinha, concordara logo; mostrara-se muito desgostosa, toda zelosa<br \/>\n    do seu pudor, pedira-lhe conselhos&#8230; At&eacute; tinha as l&aacute;grimas<br \/>\n    nos olhos.<br \/>\n    &#8212; Eu disse-lhe logo que o melhor era falar ao primo, dizer o que se<br \/>\n    passava&#8230; Que te parece?<br \/>\n    &#8212; Sim &#8212; disse vagamente Juli&atilde;o.<br \/>\n    Tinha-o escutado distra&iacute;do, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto<br \/>\n    t&eacute;rreo cavava-se, com uma cor mais biliosa.<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o achas que fiz bem, hein?<br \/>\n    E depois de uma pausa:<br \/>\n    &#8212; Que ela &eacute; uma senhora de bem &agrave;s direitas! &Agrave;s<br \/>\n    direitas, Juli&atilde;o!<br \/>\n    Continuaram calados, O dia estava encoberto e abafado, com um ar de trovoada;<br \/>\n    grossas nuvens pesadas e pardas iam-se acumulando enegrecendo para o lado<br \/>\n    da Gra&ccedil;a por tr&aacute;s das colinas; um vento rasteiro passava por<br \/>\n    vezes, pondo um arrepio nas folhas das &aacute;rvores.<br \/>\n    &#8212; De maneira que agora estou descansado &#8212; resumiu Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o te parece?<br \/>\n    Juli&atilde;o encolheu os ombros com um sorriso triste:<br \/>\n    &#8212; Quem me dera os teus cuidados, homem! &#8212; disse.<br \/>\n    E falou ent&atilde;o com amargura nas suas preocupa&ccedil;&otilde;es &#8212;<br \/>\n    Havia uma semana que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na<br \/>\n    Escola, preparava-se para ele. Era a sua t&aacute;bua de salva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    dizia; se apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientela podia vir, e<br \/>\n    a fortuna&#8230; E, que diabo, sempre era estar de dentro!&#8230; Mas a certeza da<br \/>\n    sua superioridade n&atilde;o o tranq&uuml;ilizava &#8212; porque enfim em<br \/>\n    Portugal, n&atilde;o &eacute; verdade? Nestas quest&otilde;es a ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    o estudo, o talento s&atilde;o uma hist&oacute;ria; o principal s&atilde;o<br \/>\n    os padrinhos! Ele n&atilde;o os tinha &#8212; e o seu concorrente, um sensabor&atilde;o,<br \/>\n    era sobrinho de um diretor-geral, tinha parentes na C&acirc;mara; era um colosso!<br \/>\n    Por isso ele trabalhava a valer, mas parecia-lhe indispens&aacute;vel meter<br \/>\n    tamb&eacute;m as suas cunhas! Mas quem?<br \/>\n    &#8212; Tu n&atilde;o conheces ningu&eacute;m, Sebasti&atilde;o?.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o lembrava-se de um primo seu, deputado pelo Alentejo, um gordo,<br \/>\n    da maioria, um pouco fanhoso. Se Juli&atilde;o queria, falava-lhe&#8230; Mas sempre<br \/>\n    ouvira dizer que a Escola n&atilde;o era gente de empenhos e de intriga&#8230;<br \/>\n    De resto tinham o Conselheiro Ac&aacute;cio&#8230;<br \/>\n    &#8212; Uma besta! &#8212; fez Juli&atilde;o. &#8212; Um parlapat&atilde;o!<br \/>\n    Quem faz l&aacute; caso daquilo? O teu primo, hein! O teu primo parece-me<br \/>\n    bom! &Eacute; necess&aacute;rio algu&eacute;m que fale, que trabalhe&#8230; &#8212;<br \/>\n    Porque acreditava muito nas influ&ecirc;ncias dos empenhos, no dom&iacute;nio<br \/>\n    dos &#8220;personagens&#8221;, nas docilidades da fortuna quando dirigida<br \/>\n    pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado de amea&ccedil;a: &#8212;<br \/>\n    Que eu hei de lhe mostrar o que &eacute; saber as coisas, Sebasti&atilde;o!<br \/>\n    Ia explicar-lhe o assunto da tese, mas Sebasti&atilde;o interrompeu-o:<br \/>\n    &#8212; Ela a&iacute; vem.<br \/>\n    &#8212; Quem?<br \/>\n    &#8212; A Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Passava com efeito, por fora do Passeio, toda vestida de preto, s&oacute;.<br \/>\n    &#8212; Respondeu &agrave; cortesia dos dois homens com um sorriso, adeusinhos<br \/>\n    da m&atilde;o, um pouco corada. <br \/>\n    E Sebasti&atilde;o im&oacute;vel, seguindo-a devotamente com os olhos:<br \/>\n    &#8212; Se aquilo n&atilde;o respira mesmo honestidade! Vai &agrave;s lojas&#8230;<br \/>\n    Santa rapariga!<br \/>\n    Ia encontrar Bas&iacute;lio no Para&iacute;so pela primeira vez. E estava<br \/>\n    muito nervosa; n&atilde;o pudera dominar, desde pela manh&atilde;, um medo<br \/>\n    indefinido que lhe fizera p&ocirc;r um v&eacute;u muito espesso, e bater o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o ao encontrar Sebasti&atilde;o. Mas ao mesmo tempo uma<br \/>\n    curiosidade intensa, m&uacute;ltipla, impelia-a, com um estremecimentozinho<br \/>\n    de prazer. &#8212; Ia, enfim, ter ela pr&oacute;pria aquela aventura que lera<br \/>\n    tantas vezes nos romances amorosos! Era uma forma nova do amor que ia experimentar,<br \/>\n    sensa&ccedil;&otilde;es excepcionais! Havia tudo &#8212; a casinha misteriosa,<br \/>\n    o segredo ileg&iacute;timo, todas as palpita&ccedil;&otilde;es do perigo!<br \/>\n    Porque o aparato impressionava-a mais que o sentimento; e a casa em si interessava-a,<br \/>\n    atra&iacute;a-a mais que Bas&iacute;lio! Como seria? Era para os lados de<br \/>\n    Arroios, adiante do Largo de Santa B&aacute;rbara; lembrava-se vagamente que<br \/>\n    havia ali urna correnteza de casas velhas&#8230; Desejaria antes que fosse no<br \/>\n    campo, numa quinta, com arvoredos murmurosos e relvas fofas; passeariam ent&atilde;o,<br \/>\n    com as m&atilde;os enla&ccedil;adas, num sil&ecirc;ncio po&eacute;tico; e<br \/>\n    depois o som da &aacute;gua que cai nas bacias de pedra daria um ritmo l&acirc;nguido<br \/>\n    aos sonos amorosos&#8230; Mas era num terceiro andar, &#8212; quem sabe como seria<br \/>\n    dentro? Lembrava-lhe um romance de Paulo F&eacute;val em que o her&oacute;i,<br \/>\n    poeta e duque, forra de cetins e tape&ccedil;arias o interior de uma cho&ccedil;a;<br \/>\n    encontra ali a sua amante; os que passam, vendo aquele casebre arruinado,<br \/>\n    d&atilde;o um pensamento compassivo &agrave; mis&eacute;ria que decerto o<br \/>\n    habita &#8212; enquanto dentro, muito secretamente, as flores se esfolham<br \/>\n    nos vasos de S&egrave;vres e os p&eacute;s nus pisam Gobelins vener&aacute;veis!<br \/>\n    Conhecia o gosto de Bas&iacute;lio, &#8212; e o Para&iacute;so decerto era<br \/>\n    como no romance de Paulo F&eacute;val.<br \/>\n    Mas no Largo de Cam&otilde;es reparou que o sujeito de p&ecirc;ra comprida,<br \/>\n    o do Passeio, a vinha seguindo, com uma obstina&ccedil;&atilde;o de galo;<br \/>\n    tomou logo um coup&eacute;. E ao descer o Chiado, sentia uma sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deliciosa em ser assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava<br \/>\n    com certo desd&eacute;m os que passavam, no movimento da vida trivial &#8212;<br \/>\n    enquanto ela ia para uma hora t&atilde;o romanesca da vida amorosa! Todavia<br \/>\n    &agrave; maneira que se aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de acanhamento, como um plebeu que tem de subir, entre alabardeiros solenes,<br \/>\n    a escadaria de um pal&aacute;cio. Imaginava Bas&iacute;lio esperando-a estendido<br \/>\n    num div&atilde; de seda; e quase receava que a sua Simplicidade burguesa,<br \/>\n    pouco experiente, n&atilde;o achasse palavras bastante finas ou car&iacute;cias<br \/>\n    bastante exaltadas. Ele devia ter conhecido mulheres t&atilde;o belas, t&atilde;o<br \/>\n    ricas, t&atilde;o educadas no amor! Desejava chegar num coup&eacute; seu,<br \/>\n    com rendas de centos de mil-r&eacute;is, e ditos t&atilde;o espirituosos como<br \/>\n    um livro&#8230;<br \/>\n    A carruagem parou ao p&eacute; de uma casa amarelada, com uma portinha pequena.<br \/>\n    Logo &agrave; entrada um cheiro mole e salobro enojou-a. A escada, de degraus<br \/>\n    gastos, subia &iacute;ngrememente apertada entre paredes onde a cal ca&iacute;a,<br \/>\n    e a umidade fizera n&oacute;doas. No patamar da sobreloja, uma janela com<br \/>\n    um gradeadozinho de arame, parda do p&oacute; acumulado, coberta de teias<br \/>\n    de aranha, coava a luz suja do sagu&atilde;o. E por tr&aacute;s de uma portinha,<br \/>\n    ao lado, sentia-se o ranger de um ber&ccedil;o, o chorar doloroso de uma crian&ccedil;a.<br \/>\n    Mas Bas&iacute;lio desceu logo, com o charuto na boca, dizendo baixo.<br \/>\n    &#8212; T&atilde;o tarde! Sobe! Pensei que n&atilde;o vinhas. O que foi?<br \/>\n    A escada era t&atilde;o esguia, que n&atilde;o podiam subir juntos. E Bas&iacute;lio,<br \/>\n    caminhando adiante, de esguelha:<br \/>\n    &#8212; Estou aqui desde a uma hora, filha! Imaginei que te tinhas esquecido<br \/>\n    da rua&#8230;<br \/>\n    Empurrou uma cancela, f&ecirc;-la entrar num quarto pequeno, forrado de papel<br \/>\n    &agrave;s listras azuis e brancas.<br \/>\n    Lu&iacute;sa viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarelada,<br \/>\n    feita de remendos juntos de chitas diferentes; e os len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    grossos, de um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente entreabertos&#8230;<br \/>\n    Fez-se escarlate; sentou-se calada, embara&ccedil;ada. E os seus olhos, muito<br \/>\n    abertos, iam-se fixando &#8212; nos riscos ign&oacute;beis da cabe&ccedil;a<br \/>\n    dos f&oacute;sforos, ao p&eacute; da cama; na esteira esfiada, comida, com<br \/>\n    uma n&oacute;doa de tinta entornada; nas bambinelas da janela, de uma fazenda<br \/>\n    vermelha, onde se viam passagens; numa litografia, onde uma figura, coberta<br \/>\n    de uma t&uacute;nica azul flutuante, espalhava flores voando&#8230; Sobretudo<br \/>\n    uma larga fotografia, por cima do velho canap&eacute; de palhinha, fascinava-a:<br \/>\n    era um indiv&iacute;duo atarracado, de aspecto h&iacute;lare e alvar, com<br \/>\n    a barba em colar, o feitio de uni piloto ao domingo; sentado, de cal&ccedil;as<br \/>\n    brancas, com as pernas muito afastadas, pousava uma das m&atilde;os sobre<br \/>\n    um joelho, e a outra muito estendida assentava sobre uma coluna truncada;<br \/>\n    e por baixo do caixilho, como sobre a pedra de um t&uacute;mulo, pendia de<br \/>\n    um prego de cabe&ccedil;a amarela, uma coroa de perp&eacute;tuas!<br \/>\n    &#8212; Foi o que se p&ocirc;de arranjar &#8212; disse-lhe Bas&iacute;lio.<br \/>\n    &#8212; E foi um acaso; &eacute; muito retirado, &eacute; muito discreto&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; muito luxuoso&#8230;<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &#8212; fez ela, baixo. &#8212; Levantou-se, foi &agrave;<br \/>\n    janela, ergueu uma porta da cortininha de cassa fixada &agrave; vidra&ccedil;a:<br \/>\n    defronte eram casas pobres; um sapateiro grisalho batia a sola a uma porta;<br \/>\n    &agrave; entrada de uma lojita balou&ccedil;ava-se um ramo de carqueja ao<br \/>\n    p&eacute; de um ma&ccedil;o de cigarros pendentes de um barbante; e, a uma<br \/>\n    janela, uma rapariga esguedelhada embalava tristemente no colo urna crian&ccedil;a<br \/>\n    doente que tinha crostas grossas de chagas na sua cabecinha cor de mel&atilde;o.<br \/>\n    Lu&iacute;sa mordia os bei&ccedil;os; sentia-se entristecer. Ent&atilde;o<br \/>\n    n&oacute;s de dedos bateram discretamente &agrave; porta. Ela assustou-se,<br \/>\n    desceu rapidamente o v&eacute;u. Bas&iacute;lio foi abrir. Uma voz adocicada,<br \/>\n    cheia de ss mel&iacute;fluos, ciciou baixo. Lu&iacute;sa ouviu vagamente:<br \/>\n    Sossegadinhos; suas chavezinhas&#8230;<br \/>\n    &#8212; Bem, bem! &#8212; disse Bas&iacute;lio apressado, batendo com a porta.<br \/>\n    &#8212; Quem &eacute;?<br \/>\n    &#8212; &Eacute; a patroa.<br \/>\n    O c&eacute;u pusera-se a enegrecer; j&aacute; a espa&ccedil;os grossas gotas<br \/>\n    de chuva se esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto<br \/>\n    mais melanc&oacute;lico.<br \/>\n    &#8212; Como descobriste tu isto? &#8212; perguntou Lu&iacute;sa, triste.<br \/>\n    &#8212; Inculcaram-mo.<br \/>\n    Outra gente, ent&atilde;o, tinha vindo ali, &#8220;amado&#8221; ali? &#8212;<br \/>\n    pensou ela. E a cama pareceu-lhe repugnante.<br \/>\n    &#8212; Tira o chap&eacute;u &#8212;- disse Bas&iacute;lio, quase impaciente<br \/>\n    &#8212; est&aacute;s-me a fazer afli&ccedil;&atilde;o com esse chap&eacute;u<br \/>\n    na cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Ela soltou devagar o el&aacute;stico que o prendia, foi p&ocirc;-lo no canap&eacute;<br \/>\n    de palhinha, desconsoladamente.<br \/>\n    Bas&iacute;lio tomou-lhe as m&atilde;os, e atraindo-a, sentando-se na cama:<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;s t&atilde;o linda! &#8212; Beijou-lhe o pesco&ccedil;o,<br \/>\n    encostou a cabe&ccedil;a ao peito dela. E com a vista muito quebrada:<br \/>\n    &#8212; O que eu sonhei contigo esta noite!<br \/>\n    Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E imediatamente<br \/>\n    bateram &agrave; porta, com pressa.<br \/>\n    &#8212; Que &eacute;? &#8212; bradou Bas&iacute;lio furioso.<br \/>\n    A voz cheia de sr explicou que esquecera um cobertor na varanda que estava<br \/>\n    a secar. Se se encharcasse, que perdi&ccedil;&atilde;o!&#8230;<br \/>\n    &#8212; Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me! &#8212; berrou Bas&iacute;lio.<br \/>\n    &#8212; D&aacute;-lhe o cobertor&#8230;<br \/>\n    &#8212; Que a leve o diabo!<br \/>\n    E Lu&iacute;sa, sentindo um arrepio de frio nos seus ombros nus, abandonava-se<br \/>\n    com uma vaga resigna&ccedil;&atilde;o, entre os joelhos de Bas&iacute;lio<br \/>\n    &#8212; vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto.<br \/>\n    Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar,<br \/>\n    ao partir, nos loda&ccedil;ais do rio baixo; e o mestre aventureiro, que sonhava<br \/>\n    com os incensos e os alm&iacute;scares das florestas arom&aacute;ticas, im&oacute;vel<br \/>\n    sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros dos esgotos.<br \/>\n    Apenas Lu&iacute;sa come&ccedil;ou a sair todos os dias, Juliana pensou logo:<br \/>\n    Bem, vai ter com o gajo!<br \/>\n    E a sua atitude tomou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de baixeza<br \/>\n    que corria a abrir a porta, alvoro&ccedil;ada, quando Lu&iacute;sa voltava<br \/>\n    &agrave;s cinco horas. E que zelo! Que exatid&otilde;es! Um bot&atilde;o que<br \/>\n    faltasse, uma fita que se extraviava, e eram &#8220;mil perd&otilde;es, minha<br \/>\n    senhora&#8221;, &#8220;desculpe por esta vez&#8221;, muitas lamenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    humildes. interessava-se com devo&ccedil;&atilde;o pela sa&uacute;de dela,<br \/>\n    pela sua roupa, pelo que tinha para jantar&#8230;<br \/>\n    Todavia, desde as idas ao Para&iacute;so, o seu trabalho aumentara: todos<br \/>\n    os dias agora tinha de engomar; muitas vezes era preciso ensaboar &agrave;<br \/>\n    noite colares, rendinhas, punhos, numa bacia de lat&atilde;o, at&eacute; &agrave;s<br \/>\n    onze horas. &Agrave;s seis da manh&atilde;, mais cedo, j&aacute; estava com<br \/>\n    o &#8220;ferro &agrave;s voltas&#8221;. E n&atilde;o se queixava; at&eacute;<br \/>\n    dizia a Joana:<br \/>\n    &#8212; Ai! &Eacute; um regalo ver assim uma senhora asseada!,.. Que as h&aacute;!<br \/>\n    credo! N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; por dizer, mas at&eacute; me d&aacute;<br \/>\n    gosto. Depois, gra&ccedil;as a Deus, agora tenho sa&uacute;de; o trabalho<br \/>\n    n&atilde;o me assusta!<br \/>\n    N&atilde;o tornara a resmungar da &#8220;patroa&#8221;. Afirmava mesmo &agrave;<br \/>\n    Joana repetidamente:<br \/>\n    &#8212; A senhora! ai, &eacute; uma santa! Muito boa de aturar&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    a h&aacute; melhor!<br \/>\n    O seu rosto perdera alguma coisa do tom bilioso, da contra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    amarga. As vezes, ao jantar ou &agrave; noite, costurando calada ao p&eacute;<br \/>\n    de Joana, &agrave; luz do petr&oacute;leo, vinham-lhe sorrisos s&uacute;bitos,<br \/>\n    o olhar clareava-se-lhe numa dilata&ccedil;&atilde;o jovial.<br \/>\n    &#8212; A Sr&ordf; Juliana tem o ar de quem est&aacute; a pensar em coisas<br \/>\n    boas&#8230;<br \/>\n    &#8212; A malucar c&aacute; por dentro, Sr. a Joana! &#8212; respondia com<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o. Parecia perder a inveja; ouviu mesmo falar com tranq&uuml;ilidade<br \/>\n    do vestido de seda que estreou num dia de festa, em setembro, a Gertrudes<br \/>\n    do doutor. Disse apenas:<br \/>\n    &#8212; Tamb&eacute;m um dia hei de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista!<br \/>\n    J&aacute; outras vezes revelara por palavras vagas a id&eacute;ia de uma abund&acirc;ncia<br \/>\n    pr&oacute;xima, Joana at&eacute; lhe dissera:<br \/>\n    &#8212; A Sr&ordf; Juliana espera alguma heran&ccedil;a?<br \/>\n    &#8212; Talvez! &#8212; respondeu secamente.<br \/>\n    E cada dia detestava mais Lu&iacute;sa. Quando pela manh&atilde; a via arrebicar-se,<br \/>\n    perfumar-se com &aacute;gua-de-col&ocirc;nia, mirar-se ao toucador cantarolando,<br \/>\n    sa&iacute;a do quarto porque lhe vinham venetas de &oacute;dio, tinha medo<br \/>\n    de estourar! Odiava-a pelas toilettes, pelo ar alegre, pela roupa-branca,<br \/>\n    pelo homem que ia ver, por todos os seus regalos de senhora. &#8220;A cabra!&#8221;<br \/>\n    Quando ela sa&iacute;a ia espreitar, v&ecirc;-la subir a rua, e fechando a<br \/>\n    vidra&ccedil;a com um risinho rancoroso:<br \/>\n    &#8212; Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia h&aacute; de chegar!<br \/>\n    Oh se h&aacute; de!<br \/>\n    Lu&iacute;sa com efeito divertia-se. Sa&iacute;a todos os dias &agrave;s duas<br \/>\n    horas. Na rua j&aacute; se dizia que &#8220;a do Engenheiro tinha o seu S.<br \/>\n    Miguel&#8221;.<br \/>\n    Apenas ela dobrava a esquina o concili&aacute;bulo juntava-se logo a cochichar.<br \/>\n    Tinham a certeza que se ia encontrar com o &#8220;peralta&#8221;. Onde seria?<br \/>\n    &#8212; era a grande curiosidade da carvoeira.<br \/>\n    &#8212; No hotel &#8212; murmurava o Paula. &#8212; Que nos hot&eacute;is<br \/>\n    &eacute; esc&acirc;ndalo bravio. Ou talvez &#8212; acrescentava com t&eacute;dio<br \/>\n    &#8212; nalguma dessas pocilgas da Baixa!<br \/>\n    A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era t&atilde;o apropositada!<br \/>\n    &#8212; Vaca solta lambe-se toda, Sr&ordf; Helena! &#8212; rosnava o Paula.<br \/>\n    &#8212; S&atilde;o todas o mesmo!<br \/>\n    &#8212; Menos isso! &#8212; protestava a estanqueira. &#8212; Que eu sempre<br \/>\n    fui uma mulher honesta!<br \/>\n    &#8212; E ela? &#8212; reclamava a carvoeira &#8212; ningu&eacute;m tinha<br \/>\n    que lhe dizer!<br \/>\n    &#8212; Falo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastani sedas! E uma<br \/>\n    cambada. Eu &eacute; que o sei! &#8212; E acrescentava gravemente: &#8212;<br \/>\n    No povo h&aacute; mais moralidade. O povo &eacute; outra ra&ccedil;a! &#8212;<br \/>\n    E com as m&atilde;os enterradas nos bolsos, as pernas muito abertas, ficava<br \/>\n    absorto, com a cabe&ccedil;a baixa, o olhar cravado no ch&atilde;o. &#8212;<br \/>\n    Se ~ &#8212; murmurava. &#8212; Se &eacute;! &#8212; Como se estivesse positivamente<br \/>\n    achando as pedrinhas da cal&ccedil;ada menos numerosas que as virtudes do<br \/>\n    povo!<br \/>\n    Sebasti&atilde;o, que tinha estado na quinta de Almada quase duas semanas,<br \/>\n    ficou aterrado quando, ao voltai, a Joana lhe deu as grandes &#8220;novidades&#8221;:<br \/>\n    que a Luisinha agora sa&iacute;a todos os dias &agrave;s duas horas; que o<br \/>\n    primo n&atilde;o voltara; a Gertrudes &eacute; que lho dissera; n&atilde;o<br \/>\n    se falava na rua noutra coisa&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o a pobre senhora nem sequer pode ir &agrave;s lojas, aos<br \/>\n    seus arranjos! &#8212; exclamou Sebasti&atilde;o. &#8212; A Gertrudes &eacute;<br \/>\n    uma desavergonhada, e nem sei como a tia Joana consente que ela ponha aqui<br \/>\n    os p&eacute;s. Vir com esses mexericos!&#8230;<br \/>\n    &#8212; Cruzes! Olha o destempero! &#8212; replicou muito escandalizada a<br \/>\n    tia Joana. &#8212; Oh menino, realmente&#8230; A pobre mulher disse o que ouviu<br \/>\n    na rua! Que ela at&eacute; a defende; at&eacute; ela &eacute; que a defende!<br \/>\n    At&eacute; se esteve a queixar que se fala! Que se fala! Boa! &#8212; E a<br \/>\n    tia Joana saiu, resmungando:<br \/>\n    &#8212; Olha o destempero, credo!<br \/>\n    Sebasti&atilde;o chamou-a, aplacou-a:<br \/>\n    &#8212; Mas quem fala, tia Joana?<br \/>\n    &#8212; Quem? &#8212; E muito enfaticamente: &#8212; Toda a rua! Toda a rua!<br \/>\n    Toda a rua!<br \/>\n    Sebasti&atilde;o ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ela agora se punha<br \/>\n    a sair todos os dias; uma senhora, que quando estava Jorge n&atilde;o sa&iacute;a<br \/>\n    do buraco! A vizinhan&ccedil;a que murmurava das visitas do outro, naturalmente<br \/>\n    come&ccedil;ava a comentar as sa&iacute;das dela! Estava-se a desacreditar!<br \/>\n    E ele n&atilde;o podia fazer nada! Ir adverti-la? Ter outra &#8220;cena&#8221;?<br \/>\n    N&atilde;o podia.<br \/>\n    Procurou-a. N&atilde;o lhe queria decerto tocar em nada; ia s&oacute; v&ecirc;-la.<br \/>\n    N&atilde;o estava. Voltou da&iacute; a dois dias. Juliana veio-lhe dizer &agrave;<br \/>\n    cancela, com o seu sorriso amarelado: &#8220;Foi-se agora mesmo, h&aacute;<br \/>\n    um instantinho. Ainda a apanha &agrave; Patriarcal&#8221;. Enfim, um dia encontrou-a<br \/>\n    ao princ&iacute;pio da Rua de S. Roque. Lu&iacute;sa pareceu muito contente<br \/>\n    em o ver: &#8212; Por que se tinha demorado tanto em Almada? Que deser&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Trazia carpinteiros; era necess&aacute;rio vigiar as obras. E ela?<br \/>\n    &#8212; Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho<br \/>\n    estado muito s&oacute;. Nem Juli&atilde;o, nem Conselheiro; ningu&eacute;m.<br \/>\n    A D. Felicidade &eacute; que tem aparecido &agrave;s vezes de fugida. Est&aacute;<br \/>\n    agora sempre metida na Encarna&ccedil;&atilde;o&#8230; Isto gente devota! &#8212;<br \/>\n    E riu.<br \/>\n    Ent&atilde;o onde ia?<br \/>\n    A umas comprazitas; &agrave; modista depois&#8230; &#8212; E apare&ccedil;a agora,<br \/>\n    Sebasti&atilde;o, hein?<br \/>\n    &#8211; Hei de aparecer.<br \/>\n    &Agrave; noite. Estou t&atilde;o s&oacute;! Tenho tocado muito; e o que me<br \/>\n    vale &eacute; o piano!<br \/>\n    Nessa mesma tarde Sebasti&atilde;o recebeu uma carta de Jorge. &#8220;Tens<br \/>\n    visto a Lu&iaiacute;sa? Estive quase com cuidado, porque estive mais de cinco<br \/>\n    dias sem carta dela. De resto est&aacute; pregui&ccedil;osa como uma freira;<br \/>\n    quando escreve s&atilde;o quatro linhas porque est&aacute; o correio a partir.<br \/>\n    Vai dizer ao correio que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de<br \/>\n    estar s&oacute;, que todos a abandonaram; que tem vivido como num deserto.<br \/>\n    V&ecirc; se lhe vais fazer companhia, coitada, etc.&#8221;<br \/>\n    No dia seguinte ao anoitecer foi &agrave; casa dela. Apareceu-lhe muito vermelha,<br \/>\n    com os olhos estremunhados, de roup&atilde;o branco. Tinha chegado muito cansada<br \/>\n    de fora; tinha-lhe dado o sono depois de jantar; adormecera sobre a causeuse&#8230;<br \/>\n    Que havia de novo? E bocejava.<br \/>\n    Falaram das obras de Almada, do Conselheiro, de Juli&atilde;o; e ficaram dados.<br \/>\n    Havia uni constrangimento. Lu&iacute;sa ent&atilde;o acendeu as velas no piano,<br \/>\n    mostrou-lhe a nova m&uacute;sica estudava, a Medj&eacute; de Gounod; mas havia<br \/>\n    uma passagem em que se guiava sempre; pediu a Sebasti&atilde;o que a tocasse,<br \/>\n    e junto do piano, batendo o compasso com o p&eacute;, acompanhava baixo a<br \/>\n    melodia, a que a execu&ccedil;&atilde;o de Sebasti&atilde;o dava um encanto<br \/>\n    penetrante. Quis tentar depois, mas enganou-se, zangou-se; atirou a m&uacute;sica<br \/>\n    para o lado, veio sentar-se no sof&aacute;, dizendo:<br \/>\n    &#8212; Quase nunca toco! Est&atilde;o-se-me a enferrujar os dedos!&#8230;<br \/>\n    Sebasti&atilde;o n&atilde;o se atrevia a perguntar pelo primo Bas&iacute;lio,<br \/>\n    Lu&iacute;sa n&atilde;o lhe pronunciou sequer o nome. E Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    vendo naquela reserva uma diminui&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a ou<br \/>\n    um resto persistente de despeito, disse que tinha de ir &agrave; Associa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Geral da Agricultura; e saiu muito desconsolado.<br \/>\n    Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquieta&ccedil;&atilde;o diferente.<br \/>\n    &Agrave;s vezes era a tia Joana que lhe dizia &agrave; tarde: &#8220;A Luisinha<br \/>\n    l&aacute; saiu hoje outra vez! Por este calor, at&eacute; pode apanhar alguma!<br \/>\n    Credo!&#8221; Outras, era o concili&aacute;bulo dos vizinhos, que avistava<br \/>\n    de longe, e que decerto &#8220;estavam a cortar na pele da pobre senhora!&#8221;<br \/>\n    Parecia-lhe tudo aquilo exatamente a &Aacute;ria da cal&uacute;nia no Barbeiro<br \/>\n    de Sevilha: a cal&uacute;nia ao princ&iacute;pio leve como o fr&ecirc;mito<br \/>\n    das asas de um p&aacute;ssaro, subindo num crescendo aterrador at&eacute;<br \/>\n    estalar como um trov&atilde;o!<br \/>\n    Dava agora voltas para n&atilde;o passar na rua, diante do Paula e da estanqueira;<br \/>\n    tinha vergonha deles! Encontrara o Teixeira Azevedo, que lhe perguntara:<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o o Jorge quando vem? Que diabo! O rapaz fica por l&aacute;!<br \/>\n    E aquela observa&ccedil;&atilde;o trivial aterrou-o.<br \/>\n    Enfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Juli&atilde;o: Encontrou-o no<br \/>\n    quarto andar, em mangas de camisa e em chinelas, enxovalhado e esguedelhado,<br \/>\n    rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de caf&eacute; ao p&eacute;,<br \/>\n    trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarros; ao canto estava<br \/>\n    embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia livros abertos; e um cheiro<br \/>\n    relentado sa&iacute;a do desmazelo das coisas. A janela de peitoril dava para<br \/>\n    o sagu&atilde;o, de onde vinha o cantar estridente de uma criada, e o ru&iacute;do<br \/>\n    arcado do esfregar de tachos.<br \/>\n    Juli&atilde;o, apenas ele entrou, ergueu-se, espregui&ccedil;ou-se, enrolou<br \/>\n    um cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde &agrave;s sete!&#8230; Hein?<br \/>\n    Era bonito! Para que soubesse o Sr. Sebasti&atilde;o!<br \/>\n    &#8212; De resto chegaste a prop&oacute;sito. Estava para mandar &agrave;<br \/>\n    tua casa&#8230;<br \/>\n    Devia receber a&iacute; um dinheiro e n&atilde;o veio. D&aacute; c&aacute;<br \/>\n    uma libra.<br \/>\n    E imediatamente come&ccedil;ou a falar da tese. A coisa sa&iacute;a!<br \/>\n    Leu-lhe par&aacute;grafos do pr&oacute;logo com uma deleita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    paternal, e, muito satisfeito, na abund&acirc;ncia de confian&ccedil;a que<br \/>\n    d&aacute; a excita&ccedil;&atilde;o do trabalho, com grandes passadas pelo<br \/>\n    quarto:<br \/>\n    &#8212; Hei de lhes mostrar que ainda h&aacute; portugueses em Portugal, Sebasti&atilde;o!Hei<br \/>\n    de os deixar de boca aberta! Tu ver&aacute;s!<br \/>\n    Sentou-se; p&ocirc;s-se a numerar as folhas escritas, assobiando. Sebasti&atilde;o,<br \/>\n    ent&atilde;o, com timidez, quase vexado de perturbar com as suas preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dom&eacute;sticas aqueles interesses cient&iacute;ficos, disse baixo:<br \/>\n    &#8211; Pois eu vim-te falar por causa l&aacute; da nossa gente&#8230;<br \/>\n    Mas a porta abriu-se com for&ccedil;a, e um rapaz de barba desleixada, e olhar<br \/>\n    um pouco doido, entrou; era um estudante da Escola, amigo de Juli&atilde;o;<br \/>\n    e quase imediatamente os dois recome&ccedil;aram uma discuss&atilde;o que<br \/>\n    tinham travado de manh&atilde;, e que fora interrompida &agrave;s onze horas,<br \/>\n    quando o rapaz de olhar doido descera a almo&ccedil;ar &agrave; Aurea.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, menino! &#8212; exclamava o estudante, exaltado. &#8212;<br \/>\n    Estou na minha! A medicina &eacute; uma meia ci&ecirc;ncia; a fisiologia &eacute;<br \/>\n    outra meia ci&ecirc;ncia! S&atilde;o ci&ecirc;ncias conjeturais, porque nos<br \/>\n    escapa a base, conhecer o princ&iacute;pio da vida!<br \/>\n    E cruzando os bra&ccedil;os diante de Sebasti&atilde;o, bradou-lhe:<br \/>\n    &#8212; Que sabemos n&oacute;s do princ&iacute;pio da vida?<br \/>\n    Sebasti&atilde;o, humilhado, baixou os olhos.<br \/>\n    Mas Juli&atilde;o indignava-se:<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;s desmoralizado pela doutrina vitalista, miser&aacute;vel!<br \/>\n    Trovejou contra o Vitalismo, que declarou &#8220;contr&aacute;rio ao esp&iacute;rito<br \/>\n    cient&iacute;fico&#8221;. Uma teoria que pretende que as leis que governam<br \/>\n    os corpos brutos n&atilde;o s&atilde;o as mesmas que governam os corpos vivos<br \/>\n    &#8212; &eacute; uma heresia grotesca! &#8212; exclamava. &#8212; E Bichat<br \/>\n    que a proclama &eacute; uma besta!<br \/>\n    O estudante, fora de si, bradou &#8212; que chamar a Bichat uma besta era<br \/>\n    simplesmente de um alarve.<br \/>\n    Mas Juli&atilde;o desprezou a inj&uacute;ria, e continuou, exaltado nas suas<br \/>\n    id&eacute;ias:<br \/>\n    &#8212; Que nos importa a n&oacute;s o principio da vida? Importa-me tanto<br \/>\n    como a primeira camisa que vesti! O princ&iacute;pio da vida &eacute; como<br \/>\n    outro qualquer princ&iacute;pio: um segredo! Havemos de ignor&aacute;-lo eternamente!<br \/>\n    N&atilde;o podemos saber nenhum princ&iacute;pio. A vida, a morte, as origens,<br \/>\n    os fins, mist&eacute;rios! S&atilde;o causas prim&aacute;rias com que n&atilde;o<br \/>\n    temos nada a fazer, nada! Ppodemos batalhar s&eacute;culos, que n&atilde;o<br \/>\n    avan&ccedil;amos uma polegada. O fisiologista, o qu&iacute;mico, n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m nada com os princ&iacute;pios das coisas; o que lhes importa s&atilde;o<br \/>\n    os fen&ocirc;menos! Ora os fen&oacute;menos e as suas causas imediatas, meu<br \/>\n    caro amigo, podem ser determinadas com tanto rigor nos corpos brutos, como<br \/>\n    nos corpos vivos &#8212; numa pedra, como num desembargador! E a fisiologia<br \/>\n    e a medicina s&atilde;o ci&ecirc;ncias t&atilde;o exatas como a qu&iacute;mica!<br \/>\n    Isto j&aacute; vem de Descartes!<br \/>\n    &#8211; Travaram ent&atilde;o um berteiro sobre Descartes. E imediatamente, sem<br \/>\n    que Sebasti&atilde;o at&ocirc;nito tivesse descoberto a transi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    encarni&ccedil;aram-se sobre a id&eacute;ia de Deus.<br \/>\n    O estudante parecia necessitar Deus para explicar o Universo. Mas Juli&atilde;o<br \/>\n    atacava Deus com c&oacute;lera; chamava-lhe &#8220;uma hip&oacute;tese safada&#8221;,<br \/>\n    &#8220;unia velha caturrice do partido miguelista&#8221;! E come&ccedil;aram<br \/>\n    a assaltar-se sobre a quest&atilde;o social, como dois galos inimigos.<br \/>\n    O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre a mesa,<br \/>\n    o princ&iacute;pio da autoridade! Juli&atilde;o berrava pela &#8220;anarquia<br \/>\n    individual&#8221;! E depois de citarem com f&uacute;ria Proudhon, Bastiat,<br \/>\n    Jouffroy romperam em personalidades. Juli&atilde;o, que dominava pela estrid&ecirc;ncia<br \/>\n    da voz, censurou violentamente ao estudante &#8212; as suas inscri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a seis por cento, o rid&iacute;culo de ser filho de um corretor de fundos,<br \/>\n    e o bife de propriet&aacute;rio que vinha de comer na &Aacute;urea!<br \/>\n    Olharam-se, ent&atilde;o, com rancor.<br \/>\n    Mas da&iacute; a momentos o estudante deixou cair com desd&eacute;m algumas<br \/>\n    palavras sobre Claude Bernard, e a quest&atilde;o recome&ccedil;ou, furiosa.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o tomou o chap&eacute;u.<br \/>\n    &#8212; Adeus &#8212; disse baixo.<br \/>\n    Adeus, Sebasti&atilde;o, adeus &#8212; disse prontamente Juli&agrave;o.<br \/>\n    Acompanhou-o ao patamar.<br \/>\n    &#8212; E quando quiseres que eu fale a meu primo&#8230; &#8212; murmurou Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Pois sim, veremos, eu pensarei &#8212; disse Juli&atilde;o com indiferen&ccedil;a,<br \/>\n    como se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o tenor da injusti&ccedil;a.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o foi descendo as escadas, pensando: N&atilde;o se lhe pode<br \/>\n    falar em nada, agora!<br \/>\n    De repente veio-lhe uma id&eacute;ia: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se<br \/>\n    com ela! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era uma mulher<br \/>\n    de idade, intima dc Lu&iacute;sa; tinha mais autoridade, mais habilidade mesmo&#8230;<br \/>\n    Decidiu-se logo; tomou um trem, foi &agrave; Rua de S. Bento.<br \/>\n    A criada de D. Felicidade apareceu-lhe, desolada e lacrimosa:<br \/>\n    &#8212; Pois n&atilde;o sabe?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Ai! At&eacute; admira!<br \/>\n    &#8212; Mas o qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8212; A senhora! Uma desgra&ccedil;a assim! Torceu um p&eacute; na Encarna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    deu uma queda. Tem estado muito mal, muito mal.<br \/>\n    &#8212; Aqui?<br \/>\n    &#8212; Na Encarna&ccedil;&atilde;o. Nem pode sair. Est&aacute; com a senhora<br \/>\n    D. Ana Silveira. Uma desgra&ccedil;a assim! E est&aacute; num frenesi!<br \/>\n    &#8212; Mas quando foi?<br \/>\n    &#8212; Anteontem &agrave; noite.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o saltou para o trem, mandou &#8220;bater&#8221; para casa<br \/>\n    de Lu&iacute;sa.<br \/>\n    A D. Felicidade, doente, na Encarna&ccedil;&atilde;o! Mas ent&atilde;o Lu&iacute;sa<br \/>\n    podia bem sair todos os dias! la v&ecirc;-la, fazer-lhe companhia, tratar<br \/>\n    dela!&#8230;<br \/>\n    A vizinhan&ccedil;a n&atilde;o tinha que rosnar! la ver a pobre doente!&#8230;<br \/>\n    Eram duas horas quando a parelha estacou &agrave; porta de Lu&iacute;sa. Encontrou-a,<br \/>\n    que descia a escada, vestida de preto, de luva g&aacute;s pene com um v&eacute;u<br \/>\n    negro.<br \/>\n    &#8212; Ah! suba, Sebasti&atilde;o, suba! Quer subir?<br \/>\n    Parara nos degraus, com uma corzinha no rosto, um pouco embara&ccedil;ada.<br \/>\n    <br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, obrigado. Vinha dizer-lhe&#8230; N&atilde;o sabe? A D. Felicidade&#8230;<br \/>\n    &#8212; O qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8212; Torceu um p&eacute;. Est&aacute; mal.<br \/>\n    &#8212; Que me diz?<br \/>\n    Sebasti&atilde;o deu os pormenores.<br \/>\n    &#8211; Vou j&aacute; l&aacute;.<br \/>\n    &#8212; Deve ir. Eu n&atilde;o posso ir, n&atilde;o entram homens. Coitada!<br \/>\n    Diz que est&aacute; mal. &#8212; Acompanhou-a at&eacute; &agrave; esquina<br \/>\n    da rua, ofereceu-lhe mesmo a tip&oacute;ia: &#8212; E muitos recados, que<br \/>\n    tenho pena de a n&atilde;o ver!&#8230; Pobre senhora!<br \/>\n    E diz que est&aacute; num frenesi!<br \/>\n    Viu-a afastar-se para a Patriarcal, e, admirando a gra&ccedil;a da sua figura,<br \/>\n    esfregava as m&atilde;os satisfeito.<br \/>\n    Estavam justificadas, santificadas mesmo aquelas passeatas todos os dias!<br \/>\n    Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necess&aacute;rio que todos<br \/>\n    soubessem: o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as Azevedos, todos, de modo<br \/>\n    que quando a vissem de manh&atilde;, subir a rua, dissessem: L&aacute; vai<br \/>\n    fazer companhia &agrave; doente! Santa senhora!<br \/>\n    O Paula estava &agrave; porta da loja &#8212; e Sebasti&atilde;o com uma id&eacute;ia<br \/>\n    s&uacute;bita, entrou. Estava-se estimando de se sentir t&atilde;o fecundo<br \/>\n    em expedientes, t&atilde;o h&aacute;bil.<br \/>\n    Deitou um pouco o chap&eacute;u para a nuca, e mostrando com o guarda-sol<br \/>\n    o painel que representava D. Jo&atilde;o VI:<br \/>\n    &#8212; Quanto quer vossemec&ecirc; por isto, &oacute; Sr. Paula?<br \/>\n    O Paula ficou surpreendido:<br \/>\n    &#8212; O Sr. Sebasti&atilde;o est&aacute; a brincar?<br \/>\n    Sebasti&atilde;o exclamou:<br \/>\n    &#8212; A brincar? &#8212; Falava muito s&eacute;rio! Queria uns quadros para<br \/>\n    a sala de entrada, em Alnada; mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre<br \/>\n    um papel escuro. &#8212; Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem!<br \/>\n    &#8212; Desculpe, Sr. Sebasti&atilde;o&#8230; Pois nesse caso h&aacute; por a&iacute;<br \/>\n    alguns pain&eacute;is a calhar.<br \/>\n    &#8212; Este D. Jo&atilde;o VI agrada-me. Quanto custa isto?<br \/>\n    O Paula disse, sem hesitar:<br \/>\n    &#8212; Sete mil e duzentos. Mas &eacute; obra de mestre.<br \/>\n    Era uma tela desbotada de tom defumado, onde uns restos de face avermelhada,<br \/>\n    com uma cabeleira em cachos, sobressa&iacute;am vagamente sobre um fundo sombrio.<br \/>\n    Um vermelh&atilde;o ba&ccedil;o indicava o veludo de uma casaca de corte:<br \/>\n    a pan&ccedil;a saliente e ostentosa enchia um colete esverdeado. E a parte<br \/>\n    mais conservada da tela era, ao lado sobre um coxim, a coroa real, que o artista<br \/>\n    trabalhara com uma minuciosidade entusiasta, ou por preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de idiota, ou por adula&ccedil;&atilde;o de cortes&atilde;o.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o pre&ccedil;o escrito<br \/>\n    por tr&aacute;s, numa tirinha de papel; espanejou a tela com amor; indicou<br \/>\n    as belezas, falou na sua honestidade; deprirniu outros vendedores de m&oacute;veis,<br \/>\n    &#8220;que tinham a consci&ecirc;ncia nas palmilhas&#8221;; jurou que o retrato<br \/>\n    pertencera ao Pa&ccedil;o de Queluz, e ia atacar as quest&otilde;es p&uacute;blicas<br \/>\n    &#8212; quando Sebasti&atilde;o disse resumindo:<br \/>\n    &#8212; Bem, pois mande-mo logo; fico com ele. E mande a conta.<br \/>\n    &#8212; Leva uma rica obra!<br \/>\n    Sebasti&atilde;o agora olhava em redor. Queria falar do &#8220;p&eacute; torcido<br \/>\n    de D. Felicidade&#8221;, e procurava uma transi&ccedil;&atilde;o. Examinou<br \/>\n    umas jarras da &Iacute;ndia, um trem&oacute;; e avistando uma poltrona de<br \/>\n    doente:<br \/>\n    &#8212; Aquilo &eacute; que era bom para a O. Felicidade! &#8212; exclamou<br \/>\n    logo &#8212; aquela cadeira! Boa cadeira!<br \/>\n    O Paula arregalou os olhos.<br \/>\n    &#8212; Para a D. Felicidade Noronha &#8212; repetiu Sebasti&atilde;o. &#8212;<br \/>\n    Para estar deitada&#8230; Pois n&atilde;o sabia, homem? Partiu um p&eacute;; tem<br \/>\n    estado muito mal.<br \/>\n    &#8212; A D. Felicidade, a amiga de c&aacute;? &#8212; e indicou com o polegar<br \/>\n    a casa do Engenheiro.<br \/>\n    &#8212; Sim, homem! Quebrou um p&eacute; na Encarna&ccedil;&atilde;o. At&eacute;<br \/>\n    l&aacute; ficou. A D. Lu&iacute;sa vai para l&aacute; fazer-lhe companhia<br \/>\n    todos os dias. Agora ia ela para l&aacute;&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ah! &#8212; fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa: &#8212;<br \/>\n    Mas eu ainda a vi entrar para c&aacute; h&aacute; de haver oito dias.<br \/>\n    &#8212; Foi anteontem. &#8212; Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando<br \/>\n    muito umas gravuras: &#8212; De resto a D. Lu&iacute;sa j&aacute; ia todos<br \/>\n    os dias &agrave; Encarna&ccedil;&atilde;o, mas era para ver a Silveira, a<br \/>\n    D. Ana Silveira, que esteve mal, Coitada, h&aacute; tr&ecirc;s semanas que<br \/>\n    tem passado uma vida de enfermeira. N&atilde;o sai da Encarna&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    E agora &eacute; a O. Felicidade. N&atilde;o &eacute; m&aacute; ma&ccedil;ada!<br \/>\n    &#8212; Pois n&atilde;o sabia, n&atilde;o sabia &#8212; murmurava o Paula,<br \/>\n    com as m&atilde;os enterradas nos bolsos.<br \/>\n    &#8212; Mande-me o D. Jo&atilde;o VI, hein?<br \/>\n    &#8212; &Agrave;s ordens, Sr. Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o foi para casa. Subiu &aacute; sala; e atirando o chap&eacute;u<br \/>\n    para o sof&aacute;: &#8220;Bem, pensou, agora ao menos est&atilde;o salvas<br \/>\n    as apar&ecirc;ncias!&#8221; &#8212; Passeou algum tempo com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    baixa; sentia-se triste; porque o ter conseguido, por um acaso, justificar<br \/>\n    aqueles passeios para com a vizinhan&ccedil;a, fazia-lhe parecer mais cruel<br \/>\n    a id&eacute;ia de que, os n&atilde;o podia justificar para consigo. Os coment&aacute;rios<br \/>\n    dos vizinhos iam findar por algum tempo, mas os seus?&#8230; Queria ach&aacute;-los<br \/>\n    falsos, pueris, injustos; e, contra sua vontade, o seu bom-senso e a sua retid&atilde;o<br \/>\n    estavam sempre a revolv&ecirc;-los baixo. Enfim, tinha feito o que devia!<br \/>\n    E com um gesto triste, falando s&oacute;, no sil&ecirc;ncio da sala:<br \/>\n    &#8212; O resto e com a sua consci&ecirc;ncia!<br \/>\n    Nessa tarde, na rua, sabia-se j&aacute; que a D. Felicidade Noronha torcera<br \/>\n    um p&eacute; na Encarna&ccedil;&atilde;o, (outros diziam quebrara uma perna),<br \/>\n    e que a D. Lu&iacute;sa n&atilde;o lhe safa da cabeceira&#8230; O Paula declarara<br \/>\n    com autoridade:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; de boa rapariga, &eacute; de muito boa rapariga!<br \/>\n    A Gertrudes do doutor foi logo, &agrave; noitinha, perguntar &agrave; tia<br \/>\n    Joana, se era verdade da perna quebrada&#8221;. A tia Joana corrigiu: era<br \/>\n    o p&eacute;, torcera o p&eacute;! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao ch&aacute;,<br \/>\n    que a D. Felicidade dera uma queda, que ficara em peda&ccedil;os. &#8212;<br \/>\n    Foi na Encarna&ccedil;&atilde;o, acrescentou. Diz que anda tudo l&aacute;<br \/>\n    numa roda-viva. A Luisinha at&eacute; l&aacute; tem dormido&#8230;<br \/>\n    &#8212; Pieguices de beatas! &#8212; rosnou com t&eacute;dio o doutor.<br \/>\n    Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, da&iacute; a dias, o Teixeira Azevedo<br \/>\n    (que apenas cumprimentava Lu&iacute;sa), tendo-a encontrado na Rua de S. Roque,<br \/>\n    parou, e com uma cortesia profunda:<br \/>\n    &#8212; Desculpe voss&ecirc;ncia. Como vai a sua doente?<br \/>\n    &#8212; Melhor, agradecida.<br \/>\n    &#8212; Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias<br \/>\n    at&eacute; calor &agrave; Encarna&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa corou.<br \/>\n    &#8212; Coitada! N&atilde;o lhe falta companhia, mas&#8230;<br \/>\n    &#8212; &Eacute; de muita caridade, minha senhora &#8212; exclamou com &ecirc;nfase.<br \/>\n    &#8211; Tenho-o dito por toda a parte. E de muita caridade. Um criado de meia!<br \/>\n    E afastou-se comovido.<br \/>\n    Lu&iacute;sa fora logo, com efeito, ver D. Felicidade. Tinha uma luxa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    simples; e deitada nos quartos da Silveira, com o p&eacute; em compressas<br \/>\n    de arnica, cheia de terror de &#8220;perder a perna&#8221;, passava o dia<br \/>\n    rodeada de amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e<br \/>\n    debicando petiscos.<br \/>\n    Apenas algu&eacute;m entrava para a ver, redobrava de exclama&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e de queixas; vinha logo a hist&oacute;ria mi&uacute;da, incidentada, prolixa<br \/>\n    da &#8220;desgra&ccedil;a&#8221;; ia a descer, a p&ocirc;r o p&eacute; no<br \/>\n    degrau; escorregara; sentiu que ia a cair; ainda se sustentou, e p&ocirc;de<br \/>\n    dizer: Ai Nossa Senhora da Sa&uacute;de! Ao princ&iacute;pio a dor n&atilde;o<br \/>\n    foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre!<br \/>\n    Todas as senhoras concordavam &#8220;que era realmente um milagre&#8221;.<br \/>\n    Olhavam-na compungidas, e iam ao coro alternadamente prostrar-se, e pedir<br \/>\n    aos santos especiais o alivio da Noronha!<br \/>\n    A primeira visita de Lu&iacute;sa foi para O. Felicidade uma consola&ccedil;ao;<br \/>\n    &#8220;deu-lhe melhoras&#8221;; porque se ralava de estar ali de cama, sem<br \/>\n    saber not&iacute;cias dele, sem poder falar dele!<br \/>\n    E nos dias seguintes, apenas ficava s&oacute; no quarto com Lu&iacute;sa,<br \/>\n    chamava-a logo para a cabeceira, e num murm&uacute;rio misterioso. Tinha-o<br \/>\n    visto? Sabia dele? &#8212; A sua afli&ccedil;&atilde;o era que o Conselheiro<br \/>\n    n&atilde;o soubesse que ela estava doente, e n&atilde;o lhe pudesse dar aqueles<br \/>\n    pensamentos compassivos &#8211; a que o seu p&eacute; tinha direito, e que seriam<br \/>\n    um conforto para o seu cora&ccedil;&atilde;o! Mas Lu&iacute;sa n&atilde;o<br \/>\n    o vira &#8212; e D. Felicidade, remexendo a charada, exalava suspiros agudos.<br \/>\n    &Agrave;s duas horas Lu&iacute;sa saia da Encarna&ccedil;&atilde;o e ia tomar<br \/>\n    um trem ao Rocio; para n&atilde;o parar &agrave; porta do Para&iacute;so com<br \/>\n    espalhafato de tip&oacute;ia, apeava-se ao Largo de Santa B&aacute;rbara;<br \/>\n    e fazendo-se pequenina, cosida com a sombra das casas, apressava-se com os<br \/>\n    olhos baixos, e um vago sorriso de prazer.<br \/>\n    Bas&iacute;lio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa; para n&atilde;o<br \/>\n    se enfastiar, s&oacute;, tinha trazido para o Para&iacute;so uma garrafa de<br \/>\n    cognac, a&ccedil;&uacute;car, lim&otilde;es &#8212; e com a porta entreaberta<br \/>\n    fumava, fazendo grogues frios. O tempo arrastava-se; via a todo momento as<br \/>\n    horas, e sem querer ia escutando, notando os ru&iacute;dos intimos da familia<br \/>\n    da propriet&aacute;ria que vivia nos quartos interiores: a rabugem de uma<br \/>\n    crian&ccedil;a, uma voz acatarroada que ralhava, e de repente uma cadelinha<br \/>\n    que come&ccedil;ava a ladrar furiosa. Bas&iacute;lio achava aquilo burgu&ecirc;s<br \/>\n    e reles; impacientava-se. Mas um frou-frou de vestido ro&ccedil;ava a escada<br \/>\n    e os t&eacute;dios dele, bem como os receios dela, dissipavam-se logo no calor<br \/>\n    dos primeiros beijos. Lu&iacute;sa vinha sempre com pressa; queria estar em<br \/>\n    casa &agrave;s cinco horas, &#8220;e era um estir&atilde;o depois!&#8221;<br \/>\n    Entrava um pouco suada, e Bas&iacute;lio gostava da transpira&ccedil;&atilde;ozinha<br \/>\n    t&eacute;pida que havia nos seus ombros nus.<br \/>\n    &#8212; E teu marido? &#8212; perguntava ele. &#8212; Quando vem?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o fala em nada. &#8212; Ou ent&atilde;o: &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    recebi cana, n&atilde;o sei nada.<br \/>\n    Parecia ser aquela a preocupa&ccedil;&atilde;o de Bas&iacute;lio, na alegria<br \/>\n    ego&iacute;sta da posse recente. Tinha ent&atilde;o car&iacute;cias muito<br \/>\n    ext&aacute;ticas; ajoelhava-se aos p&eacute;s dela; fazia voz de crian&ccedil;a:<br \/>\n    &#8212; Lili n&atilde;o ama Bibi&#8230;<br \/>\n    Ela ria, meio despida, com um riso cantado e libertino.<br \/>\n    &#8212; Lili adora Bibi!&#8230; &Eacute; doida por Bibi!<br \/>\n    E queria saber se pensava nela; o que tinha feito na v&eacute;spera. Fora<br \/>\n    ao Gr&ecirc;mio; jogara uns robbers; viera para casa cedo; sonhara com ela&#8230;<br \/>\n    &#8212; Vivo para ti, meu amor, acredita!<br \/>\n    E deixava-lhe cair a cabe&ccedil;a no rega&ccedil;o, como sob uma felicidade<br \/>\n    excessiva.<br \/>\n    Outras vezes, mais s&eacute;rio, dava-lhe certos conselhos de gosto, de toilette:<br \/>\n    pedira-lhe que n&atilde;o trouxesse posti&ccedil;os no cabelo, que n&atilde;o<br \/>\n    usasse botinas de el&aacute;stico.<br \/>\n    Lu&iacute;sa admirava muito a sua experi&ecirc;ncia do luxo; obedecia-lhe,<br \/>\n    amoldava-se &agrave;s suas id&eacute;ias: &#8212; at&eacute; afetar, sem o<br \/>\n    sentir, um desd&eacute;m pela gente virtuosa, para imitar as suas opini&otilde;es<br \/>\n    libertinas.<br \/>\n    E lentamente vendo aquela docilidade, Bas&iacute;lio n&atilde;o se dava ao<br \/>\n    inc&ocirc;modo de se constranger; usava dela, como se a pagasse! Acontecera<br \/>\n    uma manh&atilde; escrever-lhe duas palavras a l&aacute;pis que &#8220;n&atilde;o<br \/>\n    podia ir ao Para&iacute;so&#8221;, sem outras explica&ccedil;&otilde;es! Uma<br \/>\n    ocasi&atilde;o mesmo n&atilde;o foi, sem a avisar e Lu&iacute;sa achou a porta<br \/>\n    fechada. Bateu timidamente, olhou pela fechadura, esperou palpitante &#8212;<br \/>\n    e voltou muito desconsolada, quebrada do calor, com a poeirada nos olhos,<br \/>\n    e vontade de chorar.<br \/>\n    N&atilde;o aceitava o menor inc&ocirc;modo, nem para lhe causar um contentamento.<br \/>\n    Lu&iacute;sa tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos &agrave;<br \/>\n    sua casa, passar a noite; viriam Sebasti&atilde;o, o Conselheiro, D. Felicidade<br \/>\n    quando estivesse melhor; era uma alegria para ela, e depois dava &agrave;s<br \/>\n    suas rela&ccedil;&otilde;es uni ar mais parente, mais leg&iacute;timo.<br \/>\n    Mas Bas&iacute;lio pulou:<br \/>\n    &#8212; O qu&ecirc;! Ir cabecear de sono com quatro caturras&#8230; Ah! n&atilde;o!&#8230;<br \/>\n    &#8212; Mas conversa-se, faz-se m&uacute;sica&#8230;<br \/>\n    &#8212; Merci! Conhe&ccedil;o-a, a m&uacute;sica das soir&eacute;es de Lisboa!<br \/>\n    A valsa do Beijo e o Trovador. Safa!<br \/>\n    Depois duas ou tr&ecirc;s vezes falara de Jorge com desd&eacute;m. Aquilo<br \/>\n    ofendera-a.<br \/>\n    Ultimamente mesmo, quando ela entrava no Para&iacute;so, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    tinha a delicadeza amorosa de se levantar alvoro&ccedil;ado; sentava-se apenas<br \/>\n    na cama, e tirando pregui&ccedil;osamente o charuto da boca:<br \/>\n    &#8212; Ora viva a minha flor! &#8212; dizia.<br \/>\n    E um ar de superioridade quando lhe falava! Um modo de encolher os ombros,<br \/>\n    de exclamar: &#8212; Tu n&atilde;o percebes nada disso! Chegava a ter palavras<br \/>\n    cruas, gestos brutais. E Lu&iacute;sa come&ccedil;ou a desconfiar que Bas&iacute;lio<br \/>\n    n&atilde;o a estimava, apenas a desejava!<br \/>\n    Ao princ&iacute;pio chorou. Resolveu explicar-se com ele, romper se fosse<br \/>\n    necess&aacute;rio. Mas adiou, n&atilde;o se atrevia: a figura de Bas&iacute;lio,<br \/>\n    a sua voz, o seu olhar dominavam-na; e acendendo-lhe a paix&atilde;o tiravam-lhe<br \/>\n    a coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida ent&atilde;o<br \/>\n    que o adorava; o que lhe dava tanta exalta&ccedil;&atilde;o no desejo, se<br \/>\n    n&atilde;o era a grandeza do sentimento?&#8230; Gozava tanto, &eacute; porque<br \/>\n    o amava muito!&#8230; E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se<br \/>\n    neste racioc&iacute;nio sutil.<br \/>\n    Ele tinha &agrave;s vezes uma secura &aacute;spera de maneiras, era verdade;<br \/>\n    certos tons de indiferen&ccedil;a, era certo&#8230; Mas noutros momentos, quantas<br \/>\n    denguices, que tremuras na voz, que frenesi nas car&iacute;cias!&#8230; Amava-a<br \/>\n    tamb&eacute;m, n&atilde;o havia d&uacute;vida. Aquela certeza era a sua justifica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E como era o Amor que os produzia, n&atilde;o se envergonhava dos alvoro&ccedil;os<br \/>\n    voluptuosos com que ia todas as manh&atilde;s ao Para&iacute;so!<br \/>\n    Duas ou tr&ecirc;s vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia tamb&eacute;m<br \/>\n    apressada o Moinho de Vento.<br \/>\n    &#8212; De onde vinha voc&ecirc;? &#8212; perguntara-lhe em casa.<br \/>\n    &#8212; Do m&eacute;dico, minha senhora, fui ao m&eacute;dico.<br \/>\n    Queixava-se de pontadas, palpita&ccedil;&otilde;es, faltas de ar.<br \/>\n    &#8212; Flatos! Flatos!<br \/>\n    Com efeito, Juliana agora faria todos os arranjos pela manh&atilde;; depois<br \/>\n    apenas Lu&iacute;sa, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito<br \/>\n    espartilhada no seu vestido de merino, de chap&eacute;u e sombrinha, vinha<br \/>\n    dizer a Joana:<br \/>\n    &#8212; At&eacute; logo, vou ao m&eacute;dico.<br \/>\n    &#8212; At&eacute; logo, Sr&ordf; Juliana &#8212; dizia a cozinheira radiante.<br \/>\n    E ia logo fazer sinal ao carpinteiro.<br \/>\n    Juliana descia por S. Pedro de Alc&acirc;ntara, e tomando para o Largo do<br \/>\n    Carmo ia &agrave; ruazita, defronte do quartel. Ali morava num terceiro andar<br \/>\n    a sua intima amiga, a tia Vit&oacute;ria.<br \/>\n    Era uma velha que fora inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancela, numa placa<br \/>\n    de metal, com letras negras: &#8220;VIT&Oacute;RIA SOARES, INCULCADEIRA&#8221;.<br \/>\n    Mas nos &uacute;ltimos anos a sua ind&uacute;stria tornou-se mais complicada,<br \/>\n    muito tortuosa.<br \/>\n    Exercia-a numa saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes do teto<br \/>\n    encardido, alumiada por duas tristes janelas-de-peito. Um vasto sof&aacute;<br \/>\n    ocupava quase a parede do fundo; fora decerto de repes verde, mas o estofo<br \/>\n    co&ccedil;ado, comido, remendado, tinha agora, sob largas n&oacute;doas, uma<br \/>\n    vaga cor parda; as molas partidas rangiam com estalidos melanc&oacute;licos;<br \/>\n    a um dos cantos, numa cova que o uso cavara, dormia todo o dia um gato; e<br \/>\n    um dos lados da madeira queimada revelava que fora salvo de um inc&ecirc;ndio.<br \/>\n    Sobre o sof&aacute; pendia a litografia do Sr. D. Pedro IV. Entre as duas<br \/>\n    janelas havia uma c&ocirc;moda alta; e em cima, entre um Santo Ant&ocirc;nio<br \/>\n    e um cofre feito de b&uacute;zios, um macaquinho empalhado, com olhos de vidro,<br \/>\n    equilibrava-se sobre um galho de &aacute;rvore. Ao entrar via-se logo, junto<br \/>\n    da janela fronteira &agrave; porta, a uma mesa coberta de oleado, um dorso<br \/>\n    magro e curvado, e um barretinho de seda com uma borla arrebitada. Era o Sr.<br \/>\n    Gouveia, o escritur&aacute;rio!<br \/>\n    O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido &#8212; em que se sentia<br \/>\n    a cavalari&ccedil;a, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas matronas<br \/>\n    de capote e len&ccedil;o, face gordalhufa e bu&ccedil;o; cocheiros com o cabelo<br \/>\n    acamado, muito lustroso de &oacute;leo, e blusa de riscadinho; pesados galegos<br \/>\n    cor de greda, de passadas retumbantes e formas lorpas; criadinhas de dentro,<br \/>\n    amareladas, de olheiras, sombrinha de cabo de osso, e as luvas de pelica com<br \/>\n    passagens nas pontas dos dedos.<br \/>\n    Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o sagu&atilde;o, por<br \/>\n    cuja portinha verde se viam &agrave;s vezes desaparecer dorsos respeit&aacute;veis<br \/>\n    de propriet&aacute;rios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos.<br \/>\n    Em certas ocasi&otilde;es, aos s&aacute;bados, juntavam-se cinco, seis pessoas;<br \/>\n    velhas falavam baixo, com gestos misteriosos; uma alterca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mal abafada roncava no patamar; rapariguitas de repente desatavam a chorar;<br \/>\n    e, impass&iacute;vel, o Sr. Gouveia escrevinhava os seus registros, arremessando<br \/>\n    para o lado jatos melanc&oacute;licos de saliva.<br \/>\n    A tia Vit&oacute;ria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido<br \/>\n    roxo &#8212; ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro,<br \/>\n    tirando a cada momento da algibeira rebu&ccedil;ados de avenca para o catarro.<br \/>\n    A tia Vit&oacute;ria era uma grande utilidade; tornara-se um centro! A criadagem<br \/>\n    reles, mesmo a criadagem fina, tinha ali para tudo o seu despacho. Emprestava<br \/>\n    dinheiro aos desempregados; guardava as economias dos poupados; fazia escrever<br \/>\n    pelo Sr. Gouveia as correspond&ecirc;ncias amorosas ou dom&eacute;sticas dos<br \/>\n    que n&atilde;o tinham ido &agrave; escola; vendia vestidos em segunda m&atilde;o;<br \/>\n    alugava casaca; aconselhava coloca&ccedil;&otilde;es, recebia confid&ecirc;ncias,<br \/>\n    dirigia intrigas, entendia de panos. Nenhum criado era inculcado por ela;<br \/>\n    mas, arranjados ou despedidos nunca deixavam de subir, descer as escadas da<br \/>\n    tia Vit&oacute;ria. Tinha al&eacute;m disso muitas rela&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    infinitas condescend&ecirc;ncias; celibat&aacute;rios maduros iam entender-se<br \/>\n    com ela, para o confortozinho de uma sopeira gordita e nova; era ela quem<br \/>\n    inculcava as serventes &agrave;s mulheres policiadas; sabia de certos agiotas<br \/>\n    discretos. E dizia-se: a tia Vit&oacute;ria tem mais manhas que cabelos!<br \/>\n    Mas, ultimamente, apesar dos seus &#8220;afazeres&#8221;, apenas Juliana entrava,<br \/>\n    levava-a para o quarto nas traseiras, fechava a porta, e &#8220;havia para<br \/>\n    meia hora&#8221;!<br \/>\n    E Juliana sa&iacute;a sempre vermelha, os olhos acesos, feliz! Voltava depressa<br \/>\n    para casa; e mal entrava:<br \/>\n    &#8212; A senhora ainda n&atilde;o voltou, Sr&ordf; Joana?<br \/>\n    &#8212; Ainda n&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; na Encarna&ccedil;&atilde;o. Coitada! N&atilde;o tem m&aacute;<br \/>\n    cruz, ir aturar a velha!<br \/>\n    E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ela muito bem! Espairecer!<br \/>\n    Joana era decerto espessa e obtusa; al&eacute;m disso a paix&atilde;o animal<br \/>\n    pelo rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a Sr&ordf; Juliana andava<br \/>\n    &#8216;&#8216;muito derretida pela senhora&#8217;&#8217;; disse&#8212;lho<br \/>\n    mesmo um dia:<br \/>\n    &#8212; Vossemec&ecirc; agora, Sr&ordf; Juliana, parece mais na bola da senhora!<br \/>\n    &#8212; Na bola?<br \/>\n    &#8212; Sim, quero dizer, mais aquela, mais&#8230;<br \/>\n    &#8212; Mais apegada &agrave; senhora?<br \/>\n    &#8212; Mais apegada.<br \/>\n    &#8212; Sempre o estive. Mas ent&atilde;o! &Aacute;s vezes a gente tem os<br \/>\n    seus repentes&#8230; Que olhe, Sr&ordf; Joana, n&atilde;o se acha melhor que aqui.<br \/>\n    Senhora de muito bom g&ecirc;nio, nada de esquisitices, nenhumas pris&otilde;es&#8230;<br \/>\n    Ai, &eacute; dar louvores ao c&eacute;u de estarmos neste descanso.<br \/>\n    &#8212; E &eacute;!<br \/>\n    A casa com efeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranq&uuml;ila: Lu&iacute;sa<br \/>\n    sa&iacute;a todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava; a sua<br \/>\n    antipatia por Juliana parecia dissipada; considerava-a uma pobre de Cristo!<br \/>\n    Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus passeios, ruminava. Joana,<br \/>\n    muito livre, muito s&oacute; em casa, regalava-se com o carpinteiro. N&atilde;o<br \/>\n    vinham visitas. D. Felicidade, na Encarna&ccedil;&atilde;o, inundava-se de<br \/>\n    arnica. Sebasti&atilde;o fora para Almada vigiar as obras. O Conselheiro partira<br \/>\n    para Sintra, &#8220;dar umas f&eacute;rias ao esp&iacute;rito, tinha ele dito<br \/>\n    a Lu&iacute;sa, e deliciar-se nas maravilhas daquele &Eacute;den&#8221;. O<br \/>\n    Sr. Juli&atilde;o, &#8220;o doutor&#8221;, como dizia a Joana, trabalhava<br \/>\n    a sua tese. As horas eram muito regulares; havia sempre um sil&ecirc;ncio<br \/>\n    pacato. Juliana, um dia, na cozinha, impressionada por aquele recolhimento<br \/>\n    satisfeito de toda a casa, exclamou para Joana:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o se pode estar melhor! A barca vai num mar de rosas!<br \/>\n    E acrescentou, com uma risadinha:<br \/>\n    &#8212; E eu ao leme!<\/p>\n<h2><a name=\"7\">CAP&Iacute;TULO 7<\/a><\/h2>\n<p>Por esse tempo, uma manh&atilde; que Lu&iacute;sa ia para o Para&iacute;so,<br \/>\n    viu de repente sair de um portal, um pouco adiante do Largo de Santa B&aacute;rbara,<br \/>\n    a figura azafamada de Ernestinho.<br \/>\n    &#8212; Por aqui, prima Lu&iacute;sa! &#8212; exclamou ele logo muito surpreendido.<br \/>\n    &#8212; Por estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre!<br \/>\n    Vinha vermelho; trazia as bandas do casaco de alpaca todas deitadas para tr&aacute;s,<br \/>\n    e agitava com excita&ccedil;&atilde;o um rolo grosso de pap&eacute;is.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ficou um pouco embara&ccedil;ada; disse que viera fazer uma visita<br \/>\n    a uma amiga. &#8212; Oh! ele n&atilde;o conhecia; tinha chegado do Porto&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ah, bem! bem! E que &eacute; feito, como tem passado? Quando vem o<br \/>\n    Jorge? &#8212; Desculpou-se logo de a n&atilde;o ter ido ver; mas &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o tinha uma migalha livre! De manh&atilde; a alf&acirc;ndega;<br \/>\n    &agrave; noite os ensaios&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o sempre vai? &#8212; perguntou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212;Vai.<br \/>\n    E entusiasmado:<br \/>\n    &#8212; E como vai! Um primor! Mas que trabalh&atilde;o, que trabalh&atilde;o!<br \/>\n    &#8212; Agora vinha ele de casa do ator Pinto, que fazia o papel de amante,<br \/>\n    de Conde de Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finais do terceiro<br \/>\n    ato: Maldi&ccedil;&atilde;o, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem arcarei bra&ccedil;o<br \/>\n    a bra&ccedil;o com a sorte! &Agrave; luta! Era uma maravilha! Vinha tamb&eacute;m<br \/>\n    de lhe dar parte que alterara o mon&oacute;logo do segundo ato. O empres&aacute;rio<br \/>\n    achava-o longo&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o continua a implicar, o empres&aacute;rio?<br \/>\n    Ernestinho fez uma visagem de hesita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Implica um bocado&#8230; &#8212; E com um rosto radioso: &#8212; Mas est&aacute;<br \/>\n    delirante! Est&atilde;o todos delirantes! Ontem me dizia ele: &#8220;Lesminha&#8221;&#8230;<br \/>\n    &Eacute; o nome que me d&atilde;o por p&acirc;ndega. Tem gra&ccedil;a, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade? Dizia-me ele &#8220;Lesminha, na primeira representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cai a&iacute; Lisboa em peso! Voc&ecirc; enterra-os a todos!&#8221; &Eacute;<br \/>\n    bom homem! E agora vou-me a casa do Bastas, o folhetinista da Verdade. N&atilde;o<br \/>\n    conhece?<br \/>\n    Lu&iacute;sa n&atilde;o se lembrava bem.<br \/>\n    &#8212; O Bastos, o da Verdade! &#8212; insistia ele.<br \/>\n    E vendo que Lu&iacute;sa parecia alheia ao nome, ao indiv&iacute;duo:<br \/>\n    &#8212;Ora n&atilde;o conhece outra coisa! &#8212; Ia descrever-lhe as fei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    citar-lhe as obras&#8230;<br \/>\n    Mas Lu&iacute;sa, impaciente, para findar:<br \/>\n    &#8212; Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente&#8230; Bem sei!<br \/>\n    &#8212; Pois &eacute; verdade, vou &agrave; casa dele. &#8212; Tomou um tom<br \/>\n    compenetrado: &#8212; Somos muito amigos, &eacute; muito bom rapar; e tem<br \/>\n    um pequerrucho lindo!&#8230; &#8212; E apertando-lhe muito a m&atilde;o: &#8212;<br \/>\n    Adeusinho, prima Lu&iacute;sa, que n&atilde;o posso perder um momento. Quer<br \/>\n    que a v&aacute; acompanhar?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, &eacute; aqui perto.<br \/>\n    &#8212; Adeus, recados ao Jorge!<br \/>\n    Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atr&aacute;s<br \/>\n    dela.<br \/>\n    &#8211; Ah! esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei?<br \/>\n    Lu&iacute;sa abriu muito os olhos.<br \/>\n    &#8212; A condessa, &agrave; hero&iacute;na! &#8212; exclamou Ernestinho.<br \/>\n    &#8211; Ah!<br \/>\n    &#8212; Sim, o marido perdoa-lhe, obt&eacute;m uma embaixada, e v&atilde;o<br \/>\n    viver no estrangeiro. &Eacute; mais natural&#8230;<br \/>\n    &#8212; Decerto! &#8212; disse vagamente Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; E a pe&ccedil;a acaba, dizendo o amante, o Conde de Monte Redondo:<br \/>\n    E eu irei para a solid&atilde;o morrer desta paix&atilde;o funesta! E de muito<br \/>\n    efeito!<br \/>\n    &#8212; Esteve um momento a olh&aacute;-la, e bruscamente: &#8212; Adeus,<br \/>\n    prima Lu&iacute;sa, recadinhos ao Jorge!<br \/>\n    E abalou.<br \/>\n    Lu&iacute;sa entrou no Para&iacute;so muito contrariada. Contou o encontro<br \/>\n    a Bas&iacute;lio. Ernestinho era t&atilde;o tolo! Podia mais tarde falar naquilo,<br \/>\n    citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto&#8230;<br \/>\n    E tirando o v&eacute;u, o chap&eacute;u:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o; realmente &eacute; imprudente vir assim tantas vezes.<br \/>\n    Era melhor n&atilde;o vir tanto. Pode-se saber&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio encolheu os ombros, contrariado:<br \/>\n    &#8212; Se queres n&atilde;o venhas.<br \/>\n    Lu&iacute;sa olhou-o um momento, e curvando-se profundamente:<br \/>\n    &#8212; Obrigada!<br \/>\n    Ia a p&ocirc;r o chap&eacute;u, mas ele veio prender-lhe as m&atilde;os; abra&ccedil;ou-a,<br \/>\n    murmurando:<br \/>\n    &#8212; Pois tu falas em n&atilde;o vir! E eu, ent&atilde;o? Eu que estou<br \/>\n    em Lisboa por tua causa&#8230;<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, realmente dizes &agrave;s vezes coisas&#8230; tens certos<br \/>\n    modos&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio abafou-lhe as palavras com beijos.<br \/>\n    &#8212; Ta, ta, ta! Nada de quest&otilde;es! Perdoa. Est&aacute;s t&atilde;o<br \/>\n    linda&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa, ao voltar para casa, veio a refletir naquela &#8220;cena&#8221;.<br \/>\n    N&atilde;o &#8212; pensava &#8212; j&aacute; n&atilde;o era a primeira vez<br \/>\n    que ele mostrava um desprendimento muito seco por ela, pela sua reputa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pela sua sa&uacute;de! Queria-a ali todos os dias, egoistamente. Que as m&aacute;s-l&iacute;nguas<br \/>\n    falassem; que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para qu&ecirc;?&#8230;<br \/>\n    Porque enfim, saltava aos olhos, ele amava-a menos&#8230; As suas palavras, os<br \/>\n    seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!&#8230; J&aacute; n&atilde;o tinha<br \/>\n    aqueles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda numa car&iacute;cia<br \/>\n    palpitante, nem aquela abund&acirc;ncia de sensa&ccedil;&atilde;o que o faria<br \/>\n    cair de joelhos com as m&atilde;os tr&ecirc;mulas como as de um velho!&#8230;<br \/>\n    J&aacute; se n&atilde;o arremessava para ela, mal ela aparecia &agrave; porta,<br \/>\n    como sobre uma presa estremecida!&#8230; J&aacute; n&atilde;o havia aquelas conversas<br \/>\n    pueris, cheias de risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam,<br \/>\n    depois da hora ardente e f&iacute;sica, quando ela ficava numa lassitude doce,<br \/>\n    com o sangue fresco, a cabe&ccedil;a deitada sobre os bra&ccedil;os nus! &#8212;<br \/>\n    Agora! trocado o &uacute;ltimo beijo, acendia o charuto, como num restaurante<br \/>\n    ao fim do jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavat&oacute;rio<br \/>\n    dar uma penteadela no cabelo com um pentezinho de algibeira. (O que ela odiava<br \/>\n    o pentezinho!) &Agrave;s vezes at&eacute; olhava o rel&oacute;gio! &#8230; E enquanto<br \/>\n    ela se arranjava n&atilde;o vinha, como nos primeiros tempos, ajud&aacute;-la,<br \/>\n    p&ocirc;r-lhe o colarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta dela,<br \/>\n    despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus ombros antes que o vestido<br \/>\n    se apertasse. Ia rufar nos vidros, &#8212; ou sentado, com um ar macamb&uacute;zio,<br \/>\n    bamboleava a perna!<br \/>\n    E depois positivamente n&atilde;o a respeitava, n&atilde;o a considerava&#8230;<br \/>\n    Tratava-a por cima do ombro, como uma burguesinha, pouco educada e estreita,<br \/>\n    que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    alta, falando no &#8220;esp&iacute;rito de madame de tal&#8221;, nas toilettes<br \/>\n    da &#8220;condessa de tal&#8221;! Como se ela fosse est&uacute;pida, e os<br \/>\n    seus vestidos fossem trapos! Ah, era secante! E parecia, Deus me perdoe, parecia<br \/>\n    que lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir&#8230; Imediatamente lembrava-lhe<br \/>\n    Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge, para quem ela era decerto<br \/>\n    a mais linda, a mais elegante, a mais inteligente, a mais cativante!&#8230; E<br \/>\n    j&aacute; pensava um pouco que sacrificara a sua tranq&uuml;ilidade t&atilde;o<br \/>\n    feliz a um amor bem incerto!<br \/>\n    Enfim, um dia que o viu distra&iacute;do, mais frio, explicou-se abertamente<br \/>\n    com ele. Direita, sentada no canap&eacute; de palhinha, falou com bom-senso,<br \/>\n    devagar, com um ar digno e preparado: &#8220;Que percebia bem que ele se aborrecia;<br \/>\n    que o seu grande amor tinha passado; que era portanto humilhante para ela<br \/>\n    verem-se nessas condi&ccedil;&otilde;es, e que julgava mais digno acabarem&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio olhava-a, surpreendido da sua solenidade; sentia um estudo,<br \/>\n    uma afeta&ccedil;&atilde;o naquelas frases; disse muito tranq&uuml;ilamente,<br \/>\n    sorrindo:<br \/>\n    &#8212; Trazias isso decorado!<br \/>\n    Lu&iacute;sa ergueu-se bruscamente; encarou-o, teve um movimento desdenhoso<br \/>\n    dos l&aacute;bios.<br \/>\n    &#8212; Tu est&aacute;s doida, Lu&iacute;sa?<br \/>\n    &#8212; Estou farta! Fa&ccedil;o todos os sacrif&iacute;cios por ti; venho<br \/>\n    aqui todos os dias; comprometo-me, e para qu&ecirc;? Para te ver muito indiferente,<br \/>\n    muito secado&#8230;<br \/>\n    &#8212; Mas meu amor&#8230;<br \/>\n    Ela teve um sorriso de esc&aacute;rnio.<br \/>\n    &#8212; Meu amor! Oh! s&atilde;o rid&iacute;culos esses fingimentos!<br \/>\n    Bas&iacute;lio impacientou-se.<br \/>\n    &#8212; J&aacute; isso c&aacute; me faltava, essa cena! &#8212; exclamou impetuosamente.<br \/>\n    E cruzando os bra&ccedil;os diante dela: &#8212; Mas que queres tu? Queres<br \/>\n    que te ame como no teatro, em S. Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre<br \/>\n    diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas n&atilde;o tem gestos de tenor, aqui del-rei que &eacute; frio, que se<br \/>\n    aborrece, &eacute; ingrato&#8230; Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos,<br \/>\n    que declame, que revire os olhos, que fa&ccedil;a juras, outras tolices?&#8230;<br \/>\n    &#8212; S&atilde;o tolices que tu fazias&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ao princ&iacute;pio! &#8212; respondeu ele brutalmente. &#8212; J&aacute;<br \/>\n    nos conhecemos muito para isso, minha rica.<br \/>\n    E havia apenas cinco semanas!<br \/>\n    &#8212; Adeus! &#8212; disse Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Bem. Vais zangada?<br \/>\n    Ela respondeu, com os olhos baixos, cal&ccedil;ando nervosamente as luvas:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o.<br \/>\n    Bas&iacute;lio p&ocirc;s-se diante da porta, e estendendo os bra&ccedil;os:<br \/>\n    &#8212; Mas s&ecirc; razo&aacute;vel, minha querida. Uma liga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como a nossa n&atilde;o &eacute; o dueto do Fausto. Eu amo-te; tu, creio,<br \/>\n    gostas de mim; fazemos os sacrif&iacute;cios necess&aacute;rios; encontramo-nos,<br \/>\n    somos felizes&#8230; Que diabo queres tu mais? Por que te queixas?<br \/>\n    Ela respondeu com um sorriso ir&ocirc;nico e triste:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o me queixo. Tens raz&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Mas n&atilde;o v&aacute;s zangada, ent&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o&#8230;<br \/>\n    &#8212; Palavrinha?<br \/>\n    &#8212; Sim&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio tomou-lhe as m&atilde;os.<br \/>\n    &#8212; D&ecirc; ent&atilde;o um beijinho em Bibi&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa beijou-o de leve na face.<br \/>\n    &#8212; Na boquinha, na boquinha! &#8212; E amea&ccedil;ando-a com o dedo,<br \/>\n    fitando-a muito: &#8212; Ah geniozinho! Tens bem o sangue do Sr. Ant&ocirc;nio<br \/>\n    de Brito, nosso extremoso tio, que arrepelava as criadas pelos cabelos! &#8212;<br \/>\n    E sacudindo-lhe o queixo: &#8212; E vens amanh&atilde;?<br \/>\n    Lu&iacute;sa hesitou um momento:<br \/>\n    &#8212; Venho.<br \/>\n    Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio logo dizer-lhe,<br \/>\n    muito quizilada: que a Joana tinha sa&iacute;do &agrave;s quatro horas; n&atilde;o<br \/>\n    tinha voltado; o jantar estava por acabar&#8230;<br \/>\n    &#8212; Onde foi?<br \/>\n    Juliana encolheu os ombros com um sorrisinho.<br \/>\n    Lu&iacute;sa percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor&#8230; Teve um gesto<br \/>\n    de piedade desdenhosa.<br \/>\n    &#8212; H&aacute; de lucrar muito com isso. Boa tola! &#8212; disse.<br \/>\n    Juliana olhou-a espantada.<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; b&ecirc;beda! &#8212; pensou.<br \/>\n    &#8212; Bem, que se lhe h&aacute; de fazer? &#8212; exclamou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Esperarei&#8230;<br \/>\n    E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito:<br \/>\n    &#8212; Que ego&iacute;sta, que grosseiro, que infame! E &eacute; por um homem<br \/>\n    assim que uma mulher se perde! E est&uacute;pido! <br \/>\n    Como ele suplicava, se fazia pequenino, humilde ao principio! O que s&atilde;o<br \/>\n    os amores dos homens! Como t&ecirc;m a fadiga f&aacute;cil!<br \/>\n    E imediatamente lhe veio a id&eacute;ia de Jorge! Esse n&atilde;o! Vivia com<br \/>\n    ela havia tr&ecirc;s anos &#8212; e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo,<br \/>\n    dedicado. Mas o outro! Que indigno! J&aacute; a conhecia h&aacute; muito!<br \/>\n    Ah! estava bem certa agora, nunca a amara, ele! Quisera-a por vaidade, por<br \/>\n    capricho, por distra&ccedil;&atilde;o, para ter uma mulher em Lisboa! E o<br \/>\n    que era! Mas amor? Qual! <br \/>\n    E ela mesma, por fim? Amava-o, ela? Concentrou-se, interrogou-se&#8230; Imaginou<br \/>\n    casos, circunst&acirc;ncias; se ele a quisesse levar para longe, para Fran&ccedil;a,<br \/>\n    iria? N&atilde;o! Se por um acaso, por uma desgra&ccedil;a enviuvasse, antevia<br \/>\n    alguma felicidade casando com ele? N&atilde;o!<br \/>\n    Mas ent&atilde;o!&#8230; E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado,<br \/>\n    e se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o seu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o vazio. O que a levara ent&atilde;o para ele?&#8230; Nem<br \/>\n    ela sabia; n&atilde;o ter nada que fazer; a curiosidade romanesca e m&oacute;rbida<br \/>\n    de ter um amante; mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo f&iacute;sico&#8230;<br \/>\n    E sentira-a, porventura, essa felicidade, que d&atilde;o os amores ileg&iacute;timos,<br \/>\n    de que tanto se fala nos romances e nas &oacute;peras; que faz esquecer tudo<br \/>\n    na vida, afrontar a morte, quase faz&ecirc;-la amar? Nunca! Todo o prazer<br \/>\n    que sentira ao princ&iacute;pio, que lhe parecera ser o amor &#8212; vinha<br \/>\n    da novidade, do saborzinho delicioso de comer a ma&ccedil;&atilde; proibida,<br \/>\n    das condi&ccedil;&otilde;es do mist&eacute;rio do Para&iacute;so, de outras<br \/>\n    circunst&acirc;ncias talvez, que nem queria confessar a si mesma, que a faziam<br \/>\n    corar por dentro!<br \/>\n    Mas que sentia de extraordin&aacute;rio agora? Bom Deus, come&ccedil;ava a<br \/>\n    estar menos comovida ao p&eacute; do seu amante, do que ao p&eacute; do seu<br \/>\n    marido! Um beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tr&ecirc;s<br \/>\n    anos! Nunca se secara ao p&eacute; de Jorge, nunca! E secava-se positivamente<br \/>\n    ao p&eacute; de Bas&iacute;lio! Bas&iacute;lio, no fim, o que se tornara para<br \/>\n    ela? Era como um marido pouco amado, que ia amar fora de casa! Mas ent&atilde;o,<br \/>\n    valia a pena?&#8230;<br \/>\n    Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque enfim, ela e Bas&iacute;lio<br \/>\n    estavam nas condi&ccedil;&otilde;es melhores para obterem uma felicidade excepcional:<br \/>\n    eram novos, cercava-os o mist&eacute;rio, excitava-os a dificuldade&#8230; Por<br \/>\n    que era ent&atilde;o que quase bocejavam? E que o amor &eacute; essencialnente<br \/>\n    perec&iacute;vel, e na hora em que nasce come&ccedil;a a morrer. S&oacute;<br \/>\n    os come&ccedil;os s&atilde;o bons. H&aacute; ent&atilde;o um del&iacute;rio,<br \/>\n    um entusiasmo, um bocadinho do c&eacute;u. Mas depois!&#8230; Seria pois necess&aacute;rio<br \/>\n    estar sempre a come&ccedil;ar, para poder sempre sentir?&#8230; Era o que fazia<br \/>\n    Leopoldina. E aparecia-lhe ent&atilde;o nitidamente a explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquela exist&ecirc;ncia de Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o<br \/>\n    uma semana, abandonando-o como um lim&atilde;o espremido, e renovando assim<br \/>\n    constantemente a flor da sensa&ccedil;&atilde;o! &#8212; E, pela l&oacute;gica<br \/>\n    tortuosa dos amores ileg&iacute;timos, o seu primeiro amante fazia-a vagamente<br \/>\n    pensar no segundo!<br \/>\n    Logo no dia seguinte p&ocirc;s-se a dizer consigo que era bem longe o Para&iacute;so!<br \/>\n    Que ma&ccedil;ada, por aquele calor, vestir-se, sair! Mandou saber de D. Felicidade<br \/>\n    por Juliana, e ficou em casa, de roup&atilde;o branco, pregui&ccedil;osa,<br \/>\n    saboreando a sua pregui&ccedil;a.<br \/>\n    Nessa tarde recebeu uma carta de Jorge: &#8220;que ainda se demorava, mas<br \/>\n    que a sua viuvez come&ccedil;ava a pesar-lhe. Quando se veria enfim na sua<br \/>\n    casinha, na sua alcovinha?&#8230;&#8221;<br \/>\n    Ficou muito comovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma compaix&atilde;o<br \/>\n    terna por Jorge, t&atilde;o bom, coitado! um indefinido desejo de o ver e<br \/>\n    de o beijar, a recorda&ccedil;&atilde;o de felicidades passadas perturbaram-na<br \/>\n    at&eacute; &agrave;s profundidades do seu ser. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe<br \/>\n    &#8220;que tamb&eacute;m j&aacute; estava farta de estar s&oacute;, que viesse,<br \/>\n    que era est&uacute;pida semelhante separa&ccedil;&atilde;o&#8230;&#8221; E era<br \/>\n    sincera naquele momento.<br \/>\n    Tinha fechado o envelope, quando Juliana lhe veio trazer &#8220;uma carta<br \/>\n    do hotel&#8221;. Bas&iacute;lio mostrava-se desesperado: &#8220;&#8230;Como n&atilde;o<br \/>\n    vieste, vejo que est&aacute;s zangada; mas &eacute; decerto o teu orgulho,<br \/>\n    n&atilde;o o teu amor que te domina; n&atilde;o imaginas o que senti quando<br \/>\n    vi que n&atilde;o vinhas hoje. Esperei at&eacute; &agrave;s cinco horas; que<br \/>\n    supl&iacute;cio! Fui talvez seco, mas tu tamb&eacute;m estavas implicativa.<br \/>\n    Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante do outro, e esquecer todo<br \/>\n    o despeito no mesmo amor,.. Vem amanh&atilde;. Adoro-te tanto! Que outra prova<br \/>\n    queres, que esta que te dou de abandonar os meus interesses, as minhas rela&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    os meus gostos, e enterrar-me aqui em Lisboa, etc.&#8221;.<br \/>\n    Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de querer.<br \/>\n    Aquilo era verdade. Por que estava ele em Lisboa? Por ela. Mas se reconhecia<br \/>\n    agora, &#8212; que o n&atilde;o amava, ou t&atilde;o pouco! E depois era vil<br \/>\n    trair assim Jorge, t&atilde;o bom, t&atilde;o amoroso, vivendo todo para ela.<br \/>\n    Mas se Bas&iacute;lio realmente estivesse t&atilde;o apaixonado!&#8230; As suas<br \/>\n    id&eacute;ias redemoinhavam, como folhas de Outono, violentadas por ventos<br \/>\n    contradit&oacute;rios. Desejava estar tranq&uuml;ila, &#8220;que a n&atilde;o<br \/>\n    perseguissem&#8221;. Para que voltara aquele homem? Jesus! que havia de fazer?<br \/>\n    Tinha os seus pensamentos, os seus sentimentos numa dolorosa trapalhada.<br \/>\n    E na manh&atilde; seguinte estava na mesma hesita&ccedil;&atilde;o. Iria,<br \/>\n    n&atilde;o iria? O calor fora, a poeirada da rua faziam-lhe apetecer mais<br \/>\n    a casa! Mas que desapontamento, o do pobre rapaz tamb&eacute;m! Atirou ao<br \/>\n    ar uma moeda de cinco tost&otilde;es. Era cunho, devia ir. Vestiu-se sem vontade,<br \/>\n    secada, &#8212; tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que<br \/>\n    d&atilde;o as expans&otilde;es da reconcilia&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Mas que surpresa! esperava encontr&aacute;-lo humilde e de joelhos; achou-o<br \/>\n    com a testa franzida e muito &aacute;spero.<br \/>\n    &#8212; Lu&iacute;sa, parece incr&iacute;vel; por que n&atilde;o vieste ontem?<br \/>\n    Na v&eacute;spera, Bas&iacute;lio, quando viu que ela faltava, teve um grande<br \/>\n    despeito e um medo maior; a sua concupisc&ecirc;ncia receou perder aquele<br \/>\n    lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalizou-se de ver libertar-se<br \/>\n    aquela escravazinha d&oacute;cil. Resolveu portanto, a todo o custo, &#8220;cham&aacute;-la<br \/>\n    ao rego&#8221;. Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a atrair, decidiu<br \/>\n    ser severo para a castigar. &#8212; E acrescentou:<br \/>\n    &#8212; E uma criancice rid&iacute;cula. Por que n&atilde;o vieste?<br \/>\n    Aquele modo enraiveceu-a:<br \/>\n    &#8212; Porque n&atilde;o quis.<br \/>\n    Mas emendou logo:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o pude.<br \/>\n    &#8212; Ah! &Eacute; essa a maneira por que respondes &agrave; minha carta,<br \/>\n    Lu&iacute;sa?<br \/>\n    &#8212; E tu, &eacute; esse o modo com que me recebes?<br \/>\n    Olharam-se um momento, detestando-se.<br \/>\n    &#8212; Bem; queres uma quest&atilde;o? &Eacute;s como as outras.<br \/>\n    &#8212; Que outras?<br \/>\n    E toda escandalizada:<br \/>\n    &#8212; Ah! &Eacute; demais! Adeus!<br \/>\n    Ia sair.<br \/>\n    &#8212; Vais-te, Lu&iacute;sa?<br \/>\n    &#8212; Vou. &Eacute; melhor acabarmos por uma vez&#8230;<br \/>\n    Ele segurou o fecho da porta rapidamente.<br \/>\n    &#8212; Falas s&eacute;rio, Lu&iacute;sa?<br \/>\n    &#8212; Decerto. Estou farta!<br \/>\n    &#8212; Bem. Adeus.<br \/>\n    Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente.<br \/>\n    Ela deu um passo, e Bas&iacute;lio com a voz um pouco tr&ecirc;mula:<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o, &eacute; para sempre? Nunca mais?<br \/>\n    Lu&iacute;sa parou, branca. Aquela triste palavra nunca mais deu-lhe uma saudade,<br \/>\n    uma como&ccedil;&atilde;o. Rompeu a chorar.<br \/>\n    As l&aacute;grimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia t&atilde;o dolorida,<br \/>\n    t&atilde;o fr&aacute;gil, t&atilde;o desamparada!&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio caiu-lhe aos p&eacute;s; tinha tamb&eacute;m os olhos &uacute;midos.<br \/>\n    &#8212; Se tu me deixares, morro!<br \/>\n    Os seus l&aacute;bios uniram-se num beijo profundo, longo, penetrante. A excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paix&atilde;o; e foi<br \/>\n    uma manh&atilde; deliciosa.<br \/>\n    Ela prendia-o nos bra&ccedil;os nus, p&aacute;lida como cera, balbuciava:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o me deixes nunca, n&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; Juro-to! Nunca, meu amor!<br \/>\n    Mas fazia-se tarde; era necess&aacute;rio ir-se! E a mesma id&eacute;ia decerto<br \/>\n    acudiu-lhes &#8212; porque se olharam avidamente, e Bas&iacute;lio murmurou:<br \/>\n    &#8212; Se pudesses aqui passar a noite!<br \/>\n    Ela disse aterrada, quase suplicante:<br \/>\n    &#8212; Oh! N&atilde;o me tentes, n&atilde;o me tentes&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio suspirou, disse:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, &eacute; uma tolice. Vai.<br \/>\n    Lu&iacute;sa come&ccedil;ou a arranjar-se, &agrave; pressa. E de repente,<br \/>\n    parando, com um sorriso:<br \/>\n    &#8212; Sabes tu uma coisa?<br \/>\n    &#8212; O qu&ecirc;, meu amor?<br \/>\n    &#8212; Estou a cair com fome! N&atilde;o almocei nada, estou a cair!<br \/>\n    Ele ficou desolado:<br \/>\n    &#8212; Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse&#8230;<br \/>\n    &#8212; Que horas s&atilde;o, filho?<br \/>\n    Bas&iacute;lio viu o rel&oacute;gio; disse quase envergonhado:<br \/>\n    &#8212; Sete!<br \/>\n    &#8212; Ai, Santo Deus!<br \/>\n    Punha o chap&eacute;u, o v&eacute;u, atrapalhadamente:<br \/>\n    &#8212; Que tarde! Jesus! Que tarde!<br \/>\n    &#8212; E amanh&atilde;, quando?<br \/>\n    &#8212; A uma.<br \/>\n    &#8212; Com certeza?<br \/>\n    &#8212; Com certeza.<br \/>\n    Ao outro dia foi muito pontual. Bas&iacute;lio veio esper&aacute;-la ao fundo<br \/>\n    da escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos:<br \/>\n    &#8212; Que me fizeste tu? Desde ontem que estou doido!<br \/>\n    Mas Lu&iacute;sa estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.<br \/>\n    &#8212; Que &eacute; aquilo?<br \/>\n    Ele sorriu, levou-a pela m&atilde;o junto da barra de ferro, e destapando<br \/>\n    o cesto, com uma cortesia grave:<br \/>\n    &#8212; Provis&otilde;es, festins, bacanais! N&atilde;o dir&aacute;s depois<br \/>\n    que tens fome!<br \/>\n    Era um lanche. Havia sandu&iacute;ches, um p&acirc;t&eacute; de foie gras,<br \/>\n    fruta, uma garrafa de champagne, e, envolto em flanela, gelo,<br \/>\n    &#8212; &Eacute; brilhante! &#8212; disse ela, com um sorriso quente, rubra<br \/>\n    de prazer.<br \/>\n    &#8212; Foi o que se p&ocirc;de arranjar, minha querida prima! J&aacute; v&ecirc;<br \/>\n    que pensei em si!<br \/>\n    P&ocirc;s o cesto no ch&atilde;o, e vindo para ela com os bra&ccedil;os abertos:<br \/>\n    &#8212; E tu pensaste em mim, meu amor?<br \/>\n    Os olhos dela responderam &#8212; e a press&atilde;o apaixonada dos seus bra&ccedil;os.<br \/>\n    As tr&ecirc;s horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo<br \/>\n    sobre a cama; a lou&ccedil;a tinha a marca do Hotel Central; aquilo parecia<br \/>\n    a Lu&iacute;sa muito estr&oacute;ina, ador&aacute;vel &#8212; e ria de sensualidade,<br \/>\n    fazendo tilintar os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de champagne.<br \/>\n    Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em beijos,<br \/>\n    em toda a sorte de gestos buli&ccedil;osos. Comia com gula; e eram ador&aacute;veis<br \/>\n    os seus bra&ccedil;os nus movendo-se por cima dos pratos.<br \/>\n    Nunca achara Bas&iacute;lio t&atilde;o bonito; o quarto mesmo parecia-lhe<br \/>\n    muito conchegado para aquelas intimidades da paix&atilde;o; quase julgava<br \/>\n    poss&iacute;vel viver ali, naquele cacifo, anos, feliz com ele, num amor permanente,<br \/>\n    e lanches &agrave;s tr&ecirc;s horas&#8230; Tinham as pieguices cl&aacute;ssicas;<br \/>\n    metiam-se bocadinhos na boca; ela ria com os seus dentinhos brancos; bebiam<br \/>\n    pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos, &#8212; e ele quis-lhe ensinar ent&atilde;o<br \/>\n    a verdadeira maneira de beber champagne. Talvez ela n&atilde;o soubesse!<br \/>\n    &#8212; Como &eacute;? &#8212; perguntou Lu&iacute;sa erguendo o copo.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &eacute; com o copo! Horror! Ningu&eacute;m que se preza<br \/>\n    bebe champagne por um copo. O copo &eacute; bom para o Colares&#8230;<br \/>\n    Tomou um gole de champagne e num beijo passou-o para a boca dela. Lu&iacute;sa<br \/>\n    riu muito, achou &#8220;divino&#8221;; quis beber mais assim. Ia-se fazendo<br \/>\n    vermelha, o olhar luzia-lhe.<br \/>\n    Tinham tirado os pratos da cama; e sentada &agrave; beira do leito, os seus<br \/>\n    pezinhos cal&ccedil;ados numa meia cor-de-rosa pendiam, agitavam-se, enquanto<br \/>\n    um pouco dobrada sobre si, os cotovelos sobre o rega&ccedil;o, a cabecinha<br \/>\n    de lado, tinha em toda a sua pessoa a gra&ccedil;a l&acirc;nguida de uma pomba<br \/>\n    fatigada.<br \/>\n    Bas&iacute;lio achava-a irresist&iacute;vel; quem diria que uma burguesinha<br \/>\n    podia ter tanto chic, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre<br \/>\n    as m&atilde;os, beijou-lhos; depois, dizendo muito mal das ligas &#8220;t&atilde;o<br \/>\n    feias, com fechos de metal&#8221;, beijou-lhe respeitosamente os joelhos;<br \/>\n    e ent&atilde;o fez-lhe baixinho um pedido. Ela corou, sorriu, dizia: n&atilde;o!<br \/>\n    n&atilde;o! &#8212; E quando saiu do seu del&iacute;rio tapou o rosto com<br \/>\n    as m&atilde;os, toda escarlate; murmurou repreensivamente:<br \/>\n    &#8212; Oh Bas&iacute;lio!<br \/>\n    Ele torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinara-lhe uma sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nova; tinha&#8212;a na m&atilde;o!<br \/>\n    S&oacute; &agrave;s seis horas se desprendeu dos seus bra&ccedil;os. Lu&iacute;sa<br \/>\n    fez-lhe jurar que havia de pensar nela toda a noite: &#8212; N&atilde;o queria<br \/>\n    que ele sa&iacute;sse; tinha ci&uacute;me do Gr&ecirc;mio, do ar, de tudo!<br \/>\n    E j&aacute; no patamar voltava, beijava-o, louca, repetia:<br \/>\n    &#8212; E amanh&atilde; mais cedo, sim? Para estarmos todo o dia.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o vais ver a D. Felicidade?<br \/>\n    &#8212; Que me importa a D. Felicidade! N&atilde;o me importa ningu&eacute;m!<br \/>\n    Quero-te a ti! s&oacute; a ti!<br \/>\n    &#8212; Ao meio-dia?<br \/>\n    &#8212; Ao meio-dia!<br \/>\n    Quanto lhe pesou &agrave; noite a solid&atilde;o do seu quarto! Tinha uma<br \/>\n    impaci&ecirc;ncia que a impelia a prolongar a excita&ccedil;&atilde;o da tarde,<br \/>\n    agitar-se. Ainda quis ler, mas bem depressa arremessou o livro; as duas velas<br \/>\n    acesas sobre o toucador pareciam-lhe l&uacute;gubres; foi ver a noite; estava<br \/>\n    t&eacute;pida e serena.<br \/>\n    Chamou Juliana:<br \/>\n    &#8212; V&aacute; p&ocirc;r um xale, vamos &agrave; casa da Sr&ordf; D. Leopoldina.<br \/>\n    Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois de uma grande demora,<br \/>\n    esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada:<br \/>\n    &#8212; A senhora foi pra o Porto!<br \/>\n    &#8212; Pra o Porto!<br \/>\n    Sim. Demorava-se quinze dias.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ficou muito desconsolada. Mas n&atilde;o queria voltar; o seu<br \/>\n    quarto solit&aacute;rio aterrava-a.<br \/>\n    &#8212; Vamos um bocado at&eacute; ali abaixo, Juliana. A noite est&aacute;<br \/>\n    t&atilde;o bonita!<br \/>\n    &#8212; Rica; minha senhora!<br \/>\n    Foram pela Rua de S. Roque. E como guiadas pelas duas linhas de pontos de<br \/>\n    g&aacute;s, que desciam a Rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo foram<br \/>\n    logo para o Hotel Central.<br \/>\n    Estaria em casa? Pensaria nela? Se pudesse ir surpreend&ecirc;-lo de repente,<br \/>\n    atirar-se-lhe aos bra&ccedil;os, ver as suas malas&#8230; Aquela id&eacute;ia<br \/>\n    fazia-a arfar. Entraram na Pra&ccedil;a de Cam&otilde;es. Gente passeava devagar;<br \/>\n    sobre a sombra mais escura que faziam as &aacute;rvores cochichava-se pelos<br \/>\n    bancos; bebia-se &aacute;gua fresca; claridades cruas de vidra&ccedil;as,<br \/>\n    de portas de lojas destacavam em redor no tom escuro da noite; e no rumor<br \/>\n    lento das ruas em redor, sobressa&iacute;am as vozes agudas dos vendedores<br \/>\n    de jornais.<br \/>\n    Ent&atilde;o um sujeito com um chap&eacute;u de palha passou t&atilde;o rente<br \/>\n    dela, t&atilde;o intencionalmente que Lu&iacute;sa teve medo. &#8212; Era<br \/>\n    melhor voltarem &#8212; disse.<br \/>\n    Mas ao meio da Rua de S. Roque o chap&eacute;u de palha reapareceu, ro&ccedil;ou<br \/>\n    quase o ombro de Lu&iacute;sa; dois olhos repolhudos dardejaram sobre ela.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ia desesperada; o tique-taque das suas botinas batia vivamente<br \/>\n    a laje do passeio; de repente, ao p&eacute; de 5. Pedro de Alc&acirc;ntara,<br \/>\n    de sob o chap&eacute;u de palha saiu uma voz adocicada e brasileira, dizendo-lhe<br \/>\n    junto ao pesco&ccedil;o:<br \/>\n    &#8212; Aonde mora, &oacute; menina?<br \/>\n    Agarrou aterrada o bra&ccedil;o de Juliana.<br \/>\n    A voz repetiu:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o se agaste, menina, onde mora?<br \/>\n    &#8212; Seu malcriado! &#8212; rugiu Juliana.<br \/>\n    O chap&eacute;u de palha imediatamente desapareceu entre as &aacute;rvores.<\/p>\n<p>&#8212; E quando apareces tu, Leopoldina? &#8212; perguntou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Logo que pudesse. Para a semana estava com id&eacute;ias de ir ao Porto ver<br \/>\n    a da Figueiredo, passar quinze dias na Foz&#8230;<br \/>\n    A porta abriu-se.<br \/>\n    &#8212; Quando a senhora quiser&#8230; &#8212; disse Juliana.<br \/>\n    Fizeram grandes adeuses, beijaram-se muito. Lu&iacute;sa disse rindo ao ouvido<br \/>\n    de Leopoldina: &#8212; S&ecirc; feliz!<br \/>\n    Ficou s&oacute;. Fechou as janelas, acendeu as velas, come&ccedil;ou a passear<br \/>\n    pela sala, esfregando devagar as m&atilde;os. E, sem querer, n&atilde;o podia<br \/>\n    desprender a id&eacute;ia de Leopoldina que ia ver o seu amante! O seu amante!&#8230;<br \/>\n    Seguia-a mentalmente: caminhava depressa decerto falando com Juliana; chegava;<br \/>\n    subia a escada, nervosa; atirava com a porta &#8212; e que delicioso, que<br \/>\n    &aacute;vido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Tamb&eacute;m ela amava<br \/>\n    &#8212; e um mais belo, mais fascinante. Por que n&atilde;o tinha vindo?<br \/>\n    Sentou-se ao piano pregui&ccedil;osamente; p&ocirc;s-se a cantar baixo, triste,<br \/>\n    o fado de Leopoldina:<\/p>\n<p>E por mais longe que esteja<br \/>\n    Vejo-o sempre ao p&eacute; de mim!&#8230;<\/p>\n<p>Mas um sentimento de solid&atilde;o, de abandono, veio impacienta-la. Que<br \/>\n    seca, estar ali t&atilde;o sozinha! Aquela noite c&aacute;lida, bela e doce,<br \/>\n    atra&iacute;a-a, chamava-a para fora, para passeios sentimentais, ou para<br \/>\n    contempla&ccedil;&otilde;es do c&eacute;u, num banco de jardim, com as m&atilde;os<br \/>\n    entrela&ccedil;adas. Que vida est&uacute;pida, a dela! Oh! aquele Jorge! Que<br \/>\n    id&eacute;ia ir para o Alentejo!<br \/>\n    As Conversas de Leopoldina e a lembran&ccedil;a das suas felicidades voltavam-lhe<br \/>\n    a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe no sangue. O rel&oacute;gio<br \/>\n    do quarto come&ccedil;ou lentamente a dar nove horas &#8212; e de repente<br \/>\n    a campainha retiniu.<br \/>\n    Teve um sobressalto; n&atilde;o podia ser ainda Juliana! P&ocirc;s-se a escutar,<br \/>\n    assustada. Vozes falavam &agrave; cancela.<br \/>\n    &#8212; Minha senhora &#8212; veio dizer Joana baixo &#8212; &eacute; o primo<br \/>\n    da senhora que diz que se vem despedir&#8230;<br \/>\n    Abafou um grito, balbuciou:<br \/>\n    &#8212; Que entre!<br \/>\n    Os seus olhos dilatados cravaram-se febrilmente na porta. O reposteiro franziu-se;<br \/>\n    Bas&iacute;lio entrou, p&aacute;lido, com um sorriso fixo.<br \/>\n    &#8212; Tu partes! &#8212; exclamou ela surdamente, precipitando-se para ele.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o! &#8212; E prendeu-a nos bra&ccedil;os. &#8212; N&atilde;o!<br \/>\n    Imaginei que me n&atilde;o recebias a esta hora, e tomei este pretexto.<br \/>\n    Apertou-a contra si, beijou-a; ela deixava, toda abandonada; os seus l&aacute;bios<br \/>\n    prendiam-se aos dele. Bas&iacute;lio deitou um olhar r&aacute;pido, em redor,<br \/>\n    pela sala, e foi-a levando abra&ccedil;ado, murmurando: Meu amor! Minha filha!<br \/>\n    Mesmo trope&ccedil;ou na pele de tigre, estendida ao p&eacute; do div&atilde;.<br \/>\n    &#8212; Adoro-te!<br \/>\n    &#8212; Que susto que tive! &#8212; suspirou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Tiveste?<br \/>\n    Ela n&atilde;o respondeu; ia perdendo a percep&ccedil;&atilde;o n&iacute;tida<br \/>\n    das coisas; sentia-se como adormecer; balbuciou: Jesus! N&atilde;o! N&atilde;o!<br \/>\n    Os seus olhos cerraram.<br \/>\n    Quando a campainha retiniu fortemente &agrave;s dez horas, Lu&iacute;sa, havia<br \/>\n    momentos, sentara-se &agrave; beira do div&atilde;. Mal teve for&ccedil;a<br \/>\n    de dizer a Bas&iacute;lio:<br \/>\n    &#8212; H&aacute; de ser a Juliana, tinha ido fora&#8230;<br \/>\n    Bas&iacute;lio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi acender um charuto.<br \/>\n    Para quebrar o sil&ecirc;ncio sentou-se ao piano, tocou alguns compassos ao<br \/>\n    acaso, e, erguendo um pouco a voz, come&ccedil;ou a cantarolar a &aacute;ria<br \/>\n    do 3&deg;ato do Fausto:<\/p>\n<p>Al pallido chiarore<br \/>\n    Dei astri d&#8217;oro&#8230;<\/p>\n<p>Lu&iacute;sa, atrav&eacute;s das &uacute;ltimas vibra&ccedil;&otilde;es dos<br \/>\n    seus nervos, ia entrando na realidade; os seus joelhos tremiam. E ent&atilde;o,<br \/>\n    ouvindo aquela melodia, uma recorda&ccedil;&atilde;o foi-se formando no seu<br \/>\n    esp&iacute;rito, ainda estremunhado: era uma noite, havia anos, em S. Carlos,<br \/>\n    num camarote com Jorge; uma luz el&eacute;trica dava ao jardim, no palco,<br \/>\n    um tom l&iacute;vido de luar legend&aacute;rio; e numa atitude ext&aacute;tica<br \/>\n    e suspirante o tenor invocava as estrelas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe:<br \/>\n    Que lindo! E o seu olhar devorava-a. Era no segundo m&ecirc;s do seu casamento.<br \/>\n    Ela estava com um vestido azul-escuro. E &agrave; volta, na carruagem, Jorge,<br \/>\n    passando-lhe a m&atilde;o pela cinta, repetia:<\/p>\n<p>Al pallido chiarore<br \/>\n    Dei astri d&#8217;oro&#8230;<\/p>\n<p>E apertava-a contra si&#8230;<br \/>\n    Ficara im&oacute;vel &agrave; beira do div&atilde;, quase a escorregar, os<br \/>\n    bra&ccedil;os frouxos, o olhar fixo, a face envelhecida, o cabelo desmanchado.<br \/>\n    Bas&iacute;lio ent&atilde;o veio sentar-se devagarinho junto dela. &#8212;<br \/>\n    Em que estava a pensar?<br \/>\n    &#8212; Nada.<br \/>\n    Ele passou-lhe o bra&ccedil;o pela cinta, come&ccedil;ou a dizer que havia<br \/>\n    de procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais &agrave; vontade;<br \/>\n    n&atilde;o era mesmo prudente ali em casa dela&#8230;<br \/>\n    E falando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo do charuto.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o te parece que vir eu aqui, todos os dias, pode ser reparado?<br \/>\n    Lu&iacute;sa ergueu-se bruscamente; lembrara-lhe Sebasti&atilde;o!&#8230; E com<br \/>\n    uma voz um pouco desvairada:<br \/>\n    &#8212; J&aacute; &eacute; t&atilde;o tarde! &#8212; disse.<br \/>\n    &#8212; Tens raz&atilde;o.<br \/>\n    Foi buscar o chap&eacute;u em bicos de p&eacute;s, veio beij&aacute;-la muito,<br \/>\n    saiu.<br \/>\n    Lu&iacute;sa sentiu-o acender um f&oacute;sforo, fechar devagarinho a cancela.<br \/>\n    Estava s&oacute;; p&ocirc;s-se a olhar em roda, como idiota. O sil&ecirc;ncio<br \/>\n    da sala parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chama avermelhada. Piscava<br \/>\n    os olhos, tinha a boca seca. Uma das almofadas do div&atilde; estava ca&iacute;da;<br \/>\n    apanhou-a.<br \/>\n    E com um ar son&acirc;mbulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol.<br \/>\n    E j&aacute; vinha com a lamparina, estava a arranj&aacute;-la&#8230;<br \/>\n    Tinha tirado a cuja; subiu &agrave; cozinha quase a correr. A Joana, que estivera<br \/>\n    dormitando, espregui&ccedil;ava-se~ com bocejos enormes.<br \/>\n    Juliana p&ocirc;s-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe;<br \/>\n    tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um sorriso<br \/>\n    para Joana:<br \/>\n    &#8212; E ent&atilde;o a que horas veio o primo da senhora?<br \/>\n    &#8212; Veio logo que vossemec&ecirc; saiu; estavam a dar as nove.<br \/>\n    &#8212; Ah!<br \/>\n    Desceu com a lamparina; e sentindo Lu&iacute;sa na alcova despir-se:<br \/>\n    &#8212; A senhora n&atilde;o quer ch&aacute;? &#8212; perguntou, com muito<br \/>\n    interesse.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o.<br \/>\n    Foi &agrave; sala, fechou o piano. Havia uni forte cheiro de charuto. P&ocirc;s-se<br \/>\n    a olhar em redor, devagar, andando com um passo sutil&#8230; De repente agachou-se,<br \/>\n    ansiosamente: ao p&eacute; do div&atilde; uma coisa reluzia. Era uma travessa<br \/>\n    de Lu&iacute;sa, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar no quarto<br \/>\n    em pontas de p&eacute;s, Pousou-a no toucador, entre os rolos de cabelo.<br \/>\n    &#8212; Quem anda a&iacute;? &#8212; perguntou da alcova a voz sonolenta de<br \/>\n    Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Sou eu, minha senhora, sou eu: estive a fechar a sala. Muito boas<br \/>\n    noites, minha senhora!<br \/>\n    &Agrave;quela hora Bas&iacute;lio entrava no Gr&ecirc;mio. Procurou pelas<br \/>\n    salas. Estavam quase desertas. Dois sujeitos, com os rostos entre os punhos,<br \/>\n    curvados em atitudes l&uacute;gubres, ruminavam os jornais; aqui, al&eacute;m,<br \/>\n    junto a mesinhas redondas, pessoas de cal&ccedil;a branca mastigavam torradas<br \/>\n    com uma satisfa&ccedil;&atilde;o pl&aacute;cida; as janelas estavam fechadas,<br \/>\n    a noite quente, e o calor mole do g&aacute;s abafava. Ia descer quando de<br \/>\n    uma saleta de jogo, de repente, saiu o ru&iacute;do irritado de uma alterca&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    trocavam-se inj&uacute;rias, gritava-se:<br \/>\n    &#8212; Mente! O asno &eacute; voc&ecirc;!<br \/>\n    Bas&iacute;lio estacou, escutando. Mas subitamente, fez-se um grande sil&ecirc;ncio;<br \/>\n    uma das vozes disse com brandura:<br \/>\n    &#8212; Paus!<br \/>\n    A outra respondeu com benevol&ecirc;ncia:<br \/>\n    &#8212; E o que devia ter feito h&aacute; pouco.<br \/>\n    E imediatamente a quest&atilde;o rebentou de novo, estridente. Praguejavam,<br \/>\n    diziam obscenidades. <br \/>\n    Bas&iacute;lio foi ao bilhar. O Visconde Reinaldo, de p&eacute;, apoiado ao<br \/>\n    taco, seguia com uma imobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas<br \/>\n    viu Bas&iacute;lio, veio para ele rapidamente, e muito interessado:<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; Agora mesmo &#8212; disse Bas&iacute;lio mordendo o charuto.<br \/>\n    &#8212; Enfim, hein? &#8212; exclamou Reinaldo, arregalando os olhos, com<br \/>\n    uma grande alegria.<br \/>\n    &#8212; Enfim!<br \/>\n    &#8212; Ainda bem, menino! Ainda bem!<br \/>\n    Batia-lhe no ombro, comovido.<br \/>\n    Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma perna<br \/>\n    no ar, para dar com mais seguran&ccedil;a o efeito, dizia com a voz constrangida<br \/>\n    pela atitude:<br \/>\n    &#8212; Estimo, estimo, porque essa coisa come&ccedil;ava a arrastar&#8230;<br \/>\n    Taque! Falhou a carambola.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o dou meia! &#8212; murmurou com rancor,<br \/>\n    E chegando-se a Bas&iacute;lio, a dar giz no taco:<br \/>\n    &#8212; Ouve c&aacute;&#8230;<br \/>\n    Falou-lhe ao ouvido.<br \/>\n    &#8212; Como um anjo, menino! &#8212; suspirou Bas&iacute;lio<\/p>\n<p>Juliana que na manh&atilde; seguinte veio acordar Lu&iacute;sa, dizendo &agrave;<br \/>\n    porta da alcova com a voz abafada, em confid&ecirc;ncia:<br \/>\n    &#8212; Minha senhora! Minha senhora! &Eacute; um criado com esta carta; diz<br \/>\n    que vem do hotel.<br \/>\n    Foi abrir uma das janelas, em bicos de p&eacute;s; e voltando &agrave; alcova<br \/>\n    com uma cautela misteriosa:<br \/>\n    &#8212; E est&aacute; &agrave; espera da resposta, est&aacute; &agrave; porta.<br \/>\n    Lu&iacute;sa, estremunhada, abriu o largo envelope azul com um monograma &#8212;dois<br \/>\n    BB, um p&uacute;rpura, outro ouro, sob uma coroa de conde.<br \/>\n    &#8212; Bem, n&atilde;o tem resposta.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o tem resposta &#8212; foi dizer Juliana ao criado, que esperava<br \/>\n    encostado ao corrim&atilde;o, fumando um grande charuto, e cofiando as su&iacute;&ccedil;as<br \/>\n    pretas.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o tem resposta? Bem, muito bom dia. &#8212; Levou o dedo<br \/>\n    secamente &agrave; aba do &#8220;coco&#8221;, e desceu, gingando.<br \/>\n    Perfeito homem, foi pensando Juliana, pela escada da cozinha.<br \/>\n    &#8212; Quem bateu, Sr&ordf; Juliana? &#8212; perguntou-lhe logo a cozinheira.<br \/>\n    Juliana resmungou:<br \/>\n    &#8212; Ningu&eacute;m; um recado da modista.<br \/>\n    Desde pela manh&atilde; a Joana achava-lhe o &#8220;ar esquisito&#8221;. Sentira-a<br \/>\n    desde &agrave;s sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidra&ccedil;as<br \/>\n    da sala de jantar, arrumar as lou&ccedil;as no aparador. E com uma az&aacute;fama!<br \/>\n    Ouvira-a cantar a Carta adorada, ao mesmo tempo que os can&aacute;rios, nas<br \/>\n    varandas abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu<br \/>\n    caf&eacute; &agrave; cozinha n&atilde;o palestrou como de costume; parecia<br \/>\n    preocupada e ausente.<br \/>\n    Joana at&eacute; lhe perguntou:<br \/>\n    &#8212; Sente-se pior, Sr. a Juliana?<br \/>\n    &#8212; Eu? Gra&ccedil;as a Deus, nunca me senti t&atilde;o bem.<br \/>\n    &#8212; Como a vejo t&atilde;o calada&#8230;<br \/>\n    &#8212; A malucar c&aacute; por dentro&#8230; A gente nem sempre est&aacute; para<br \/>\n    grulhar.<br \/>\n    Apesar de serem nove horas n&atilde;o quisera acordar a senhora. Deixa-a descansar,<br \/>\n    coitada! &#8212; disse. Foi em pontas de p&eacute;s encher devagarinho a bacia<br \/>\n    grande do banho, no quarto; para n&atilde;o fazer ru&iacute;do, sacudiu no<br \/>\n    corredor as saias, o vestido da v&eacute;spera; e os seus olhos brilharam<br \/>\n    avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era o bilhete<br \/>\n    que Lu&iacute;sa escrevera a Bas&iacute;lio: &#8220;Por que n&atilde;o vens?&#8230;<br \/>\n    Se soubesses o que me fazes sofrer!&#8230;&#8221; Teve-o um momento na m&atilde;o,<br \/>\n    mordendo o bei&ccedil;o, o olhar fixo num c&aacute;lculo agudo; por flui tornou<br \/>\n    a met&ecirc;-lo na algibeira de Lu&iacute;sa, dobrou o vestido, foi estend&ecirc;-lo<br \/>\n    com muito cuidado na causeuse.<br \/>\n    Enfim, mais tarde, sentindo o cuco dar horas, decidiu-se a ir dizer a Lu&iacute;sa,<br \/>\n    com uma voz meiga:<br \/>\n    &#8212; S&atilde;o dez e meia, minha senhora!<br \/>\n    Lu&iacute;sa, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bas&iacute;lio: &#8220;N&atilde;o<br \/>\n    pudera &#8211; escrevia ele &#8212; estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava.<br \/>\n    Mal dormira! Erguera-se de manh&atilde; muito cedo para lhe jurar que estava<br \/>\n    louco, e que punha a sua vida aos p&eacute;s dela&#8221;. Compusera aquela<br \/>\n    prosa na v&eacute;spera, no Gr&ecirc;mio, &agrave;s tr&ecirc;s horas, depois<br \/>\n    de alguns robbers de whist, um bife, dois copos de cerveja e uma leitura pregui&ccedil;osa<br \/>\n    da Ilustra&ccedil;&atilde;o. E terminava, exclamando: &#8212; &#8220;Que outros<br \/>\n    desejem a fortuna, a gl&oacute;ria, as honras, eu desejo-te a ti! S&oacute;<br \/>\n    a ti, minha pomba, porque tu &eacute;s o &uacute;nico la&ccedil;o que me prende<br \/>\n    &agrave; vida, e se amanh&atilde; perdesse o teu amor, juro-te que punha um<br \/>\n    termo, com uma boa bala, a esta exist&ecirc;ncia in&uacute;til!&#8221; &#8212;<br \/>\n    Pedira mais cerveja, e levara a carta para a fechar em casa, num envelope<br \/>\n    com o seu monograma, porque sempre fazia mais efeito&#8221;.<br \/>\n    E Lu&iacute;sa tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira<br \/>\n    vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se<br \/>\n    ao calor amoroso que sa&iacute;a delas, como um corpo ressequido que se estira<br \/>\n    num banho t&eacute;pido; sentia um acr&eacute;scimo de estima por si mesma,<br \/>\n    e parecia-lhe que entrava enfim numa exist&ecirc;ncia superiormente interessante,<br \/>\n    onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um &ecirc;xtase,<br \/>\n    e a alma se cobria de um luxo radioso de sensa&ccedil;&otilde;es!<br \/>\n    Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roup&atilde;o, veio levantar<br \/>\n    os transparentes da janela&#8230; Que linda manh&atilde;! Era um daqueles dias<br \/>\n    do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; h&aacute; prematuramente, no<br \/>\n    calor e na luz, uma certa tranq&uuml;ilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente,<br \/>\n    mas pousa de leve; o ar n&atilde;o tem o embaciado canicular, e o azul muito<br \/>\n    alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e j&aacute;<br \/>\n    se n&atilde;o v&ecirc; na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora.<br \/>\n    Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono<br \/>\n    s&atilde;o, cont&iacute;nuo, e todas as agita&ccedil;&otilde;es, as impaci&ecirc;ncias<br \/>\n    dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao<br \/>\n    espelho; achou a pele mais clara, mais fresca, e um enternecimento &uacute;mido<br \/>\n    no olhar; seria verdade ent&atilde;o o que dizia Leopoldina, que &#8220;n&atilde;o<br \/>\n    havia como uma maldadezinba para fazer a gente bonita?&#8221; Tinha um amante,<br \/>\n    ela!<br \/>\n    E im&oacute;vel no meio do quarto, os bra&ccedil;os cruzados, o olhar fixo,<br \/>\n    repetia: Tenho um amante! Recordava a sala na v&eacute;spera, a chama agu&ccedil;ada<br \/>\n    das velas, e certos sil&ecirc;ncios extraordin&aacute;rios em que lhe parecia<br \/>\n    que a vida parara, enquanto os olhos do retrato da m&atilde;e de Jorge, negros<br \/>\n    na face amarela, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura. Mas<br \/>\n    Juliana entrou com um tabuleiro de roupa passada. Eram horas de se vestir&#8230;<br \/>\n    Que requintes teve nessa manh&atilde;! Perfumou a &aacute;gua com um cheiro<br \/>\n    de Lubin, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava por<br \/>\n    ser rica! Queria as bretanhas e as holandas mais caras, as mob&iacute;lias<br \/>\n    mais aparatosas, grossas j&oacute;ias inglesas, um coup&eacute; forrado de<br \/>\n    cetim&#8230; Porque nos temperamentos sens&iacute;veis as alegrias do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tendem a completar-se com as sensualidades do luxo; o primeiro erro que se<br \/>\n    instala numa alma at&eacute; a&iacute; defendida, facilita logo aos outros<br \/>\n    entradas tortuosas; assim, um ladr&atilde;o que se introduz numa casa vai<br \/>\n    abrindo sutilmente as portas &agrave; sua quadrilha esfomeada.<br \/>\n    Subiu para o almo&ccedil;o, muito fresca, com o cabelo em duas tran&ccedil;as,<br \/>\n    em roup&atilde;o branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janelas, &#8220;porque<br \/>\n    apesar de n&atilde;o estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais frescura!&#8221;<br \/>\n    E, vendo que lhe esquecera o len&ccedil;o, correu a buscar-lhe um, que perfumou<br \/>\n    com &aacute;gua-de-col&ocirc;nia. Servia-a com ternura. Viu-a comer muitos<br \/>\n    figos:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o lhe v&atilde;o fazer mal, minha senhora! &#8212; exclamou<br \/>\n    quase lacrimosamente.<br \/>\n    Andava em redor dela com um sorriso servil, sem ru&iacute;do; ou defronte<br \/>\n    da mesa, com os bra&ccedil;os cruzados, parecia admir&aacute;-la com orgulho,<br \/>\n    como um ser precioso e querido, todo seu, a sua ama! O seu olhar esbugalhado<br \/>\n    apossava-se dela.<br \/>\n    E dizia consigo:<br \/>\n    &#8212; Grande cabra! Grande b&ecirc;beda!<br \/>\n    Lu&iacute;sa, depois do almo&ccedil;o, veio para o quarto estender-se na causeuse<br \/>\n    com o seu Di&aacute;rio de Not&iacute;cias. Mas n&atilde;o podia ler. As recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da v&eacute;spera redemoinhava~n.l1ie na alma a cada momento, como as folhas<br \/>\n    que um vento de Outono levanta a espa&ccedil;os de um ch&atilde;o tranq&uuml;ilo;<br \/>\n    cenas palavras dele, certos &iacute;mpetos, toda a sua maneira de amar&#8230;<br \/>\n    E ficava im&oacute;vel, o olhar afogado num fluido, sentindo aquelas reminisc&ecirc;ncias<br \/>\n    vibrarem-lhe muito tempo, docemente, nos nervos da mem&oacute;ria. Todavia<br \/>\n    a lembran&ccedil;a de Jorge n&atilde;o a deixava; tivera-a sempre no esp&iacute;rito,<br \/>\n    desde a v&eacute;spera; n&atilde;o a assustava, nem a torturava; estava ali,<br \/>\n    im&oacute;vel mas presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era<br \/>\n    como se ele tivesse morrido, ou estivesse t&atilde;o longe que n&atilde;o<br \/>\n    pudesse voltar, ou a tivesse abandonado! Ela mesma se espantava de se sentir<br \/>\n    t&atilde;o tranq&uuml;ila. E todavia impacientava-a ter constantemente aquela<br \/>\n    id&eacute;ia no esp&iacute;rito, impass&iacute;vel, com uma obstina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    espectral; punha-se instintivamente a acumular as justifica&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    N&atilde;o fora culpa sua. N&atilde;o abrira os bra&ccedil;os a Bas&iacute;lio<br \/>\n    voluntariamente!&#8230; Tinha sido uma fatalidade; fora o calor da hora, o crep&uacute;sculo,<br \/>\n    uma pontinha de vinho talvez&#8230; Estava doida, decerto. E repetia consigo as<br \/>\n    atenua&ccedil;&otilde;es tradicionais: n&atilde;o era a primeira que enganara<br \/>\n    seu marido; e muitas era apenas por v&iacute;cio; ela ora por paix&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Quantas mulheres viviam num amor ileg&iacute;timo e eram ilustres, admiradas!<br \/>\n    Rainhas mesmo tinham amantes. E ele amava-a tanto!&#8230; Seria t&atilde;o fiel,<br \/>\n    t&atilde;o discreto! As suas palavras eram t&atilde;o cativantes, os seus<br \/>\n    beijos t&atilde;o estonteadores! E enfim que lhe havia de fazer agora? J&aacute;<br \/>\n    agora!&#8230;<br \/>\n    E resolveu ir responder-he Foi ao escrit&oacute;rio, Logo ao entrar o seu<br \/>\n    olhar deu com a fotografia de Jorge &#8212; a cabe&ccedil;a de tamanho natural,<br \/>\n    &#8212; no seu caixilho envernizado de preto. Uma como&ccedil;&atilde;o comprimiu-lhe<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o; ficou como tolhida &#8212; como uma pessoa encalmada<br \/>\n    de ter corrido, que entra na frieza de um subterr&acirc;neo; e examinava o<br \/>\n    seu cabelo frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas encruzadas<br \/>\n    que reluziam por cima. Se ele soubesse matava-a!&#8230; Fez-se muito p&aacute;lida.<br \/>\n    Olhava vagamente em redor o casaco de veludo de trabalho dependurado num prego;<br \/>\n    a manta em que ele embrulhava os p&eacute;s dobrada a um lado; as grandes<br \/>\n    folhas de papel de desenho na outra mesa ao fundo, e o potezinho do tabaco,<br \/>\n    e a caixa das pistolas!&#8230; Matava-a decerto!<br \/>\n    Aquele quarto estava t&atilde;o penetrado da personalidade de Jorge, que lhe<br \/>\n    parecia que ele ia voltar, entrar dai a bocado&#8230; Se ele viesse de repente!&#8230;<br \/>\n    Havia tr&ecirc;s dias que n&atilde;o recebia carta &#8212; e quando ela estivesse<br \/>\n    ali a escrever ao seu amante, num momento o outro podia aparecer e apanh&aacute;-la!<br \/>\n    Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro s&oacute; chegava &agrave;s<br \/>\n    cinco horas; e depois ele dizia na &uacute;ltima carta que ainda se demorava<br \/>\n    um m&ecirc;s, talvez mais&#8230;<br \/>\n    Sentou-se, escolheu uma folha de papel, come&ccedil;ou a escrever, na sua<br \/>\n    letra um pouco gorda:<\/p>\n<p>Meu adorado Bas&iacute;lio.<\/p>\n<p>Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um palpite de que ele vinha,<br \/>\n    ia entrar&#8230; Era melhor n&atilde;o se p&ocirc;r a escrever, talvez!&#8230; Ergueu-se,<br \/>\n    foi &agrave; sala devagar, sentou-se no div&atilde;; e, como se o contacto<br \/>\n    daquele largo sof&aacute; e o ardor das recorda&ccedil;&otilde;es que ele<br \/>\n    lhe trazia da v&eacute;spera lhe tivesse dado a coragem das a&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    amorosas e culpadas, voltou muito decidida ao escrit&oacute;rio, escreveu<br \/>\n    rapidamente:<\/p>\n<p>N&atilde;o imaginas com que alegria recebi esta manh&atilde; a tua carta&#8230;<\/p>\n<p>A pena velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudi-la, como lhe tremia<br \/>\n    um pouco a m&atilde;o, um borr&atilde;o negro caiu no papel. Ficou toda contrariada;<br \/>\n    pareceu-lhe aquilo um mau agouro. Hesitou um momento &#8212; e co&ccedil;ando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, com os cotovelos sobre a mesa, sentia Juliana varrer fora<br \/>\n    o patamar, cantarolando a Carta adorada. Enfim, impaciente, rasgou a folha<br \/>\n    muitas vezes em pedacinhos mi&uacute;dos &#8212; e atirou-os para um caix&atilde;o<br \/>\n    de pau envernizado com duas argolas de metal, que estava ao canto junto &agrave;<br \/>\n    mesa, onde Jorge deitava os rascunhos velhos e os pap&eacute;is in&uacute;teis;<br \/>\n    chamavam-lhe o sarc&oacute;fago; Juliana, decerto, descuidara-se de o esvaziar<br \/>\n    no lixo, porque transbordava de papelada.<br \/>\n    Escolheu outra folha, recome&ccedil;ou:<\/p>\n<p>Meu adorado Bas&iacute;lio.<br \/>\n    N&atilde;o imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manh&atilde;,<br \/>\n    ao acordar. Cobri-a de beijos&#8230;<\/p>\n<p>Mas o reposteiro franziu-se numa prega mole, a voz de Juliana disse discretamente:<br \/>\n    &#8212; Est&aacute; ali a costureira, minha senhora.<br \/>\n    Lu&iacute;sa, sobressaltada, tinha tapado a folha de papel com a m&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Que espere.<br \/>\n    E continuou:<\/p>\n<p>&#8230;Que tristeza que fosse a carta e que n&atilde;o fosses tu que ali estivesses!<br \/>\n    Estou pasmada de mim mesma, como em t&atilde;o pouco tempo te apossaste do<br \/>\n    meu cora&ccedil;&atilde;o, mas a verdade &eacute; que nunca deixei de te amar.<br \/>\n    N&atilde;o me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu desejo<br \/>\n    a tua estima, mas &eacute; que nunca deixei de te amar e ao tornar a ver-te,<br \/>\n    depois daquela est&uacute;pida viagem para t&atilde;o longe, n&atilde;o fui<br \/>\n    superior ao sentimento que me impelia para ti meu adorado Bas&iacute;lio.<br \/>\n    Era mais forte que eu, meu Bas&iacute;lio. Ontem, quando aquela maldita criada<br \/>\n    me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bas&iacute;lio, fiquei como morta;<br \/>\n    mas quando vi que n&atilde;o, nem eu sei, adorei-te! E se tu me tivesses pedido<br \/>\n    a vida dava-ia, porque te amo, que eu mesma, me estranho. Mas para que foi<br \/>\n    aquela mentira, e para que vieste tu? Mau! tinha vontade de te dizer adeus<br \/>\n    para sempre, mas n&atilde;o posso, meu adorado Bas&iacute;lio! &Eacute; superior<br \/>\n    a mim. Sempre te amei e agora que sou tua, que te perten&ccedil;o corpo e<br \/>\n    alma, parece-me que te amo mais, se &eacute; poss&iacute;vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Onde est&aacute; ela? Onde est&aacute; ela? &#8212; disse uma voz<br \/>\n    na sala.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ergueu-se, com um salto, l&iacute;vida. Era Jorge! Amarrotou<br \/>\n    convulsivamente a cana, quis escond&ecirc;-la no bolso, &#8212; o roup&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o tinha bolso! E desvairada, sem reflex&atilde;o, arremessou-a para<br \/>\n    o sarc&oacute;fago. Ficou de p&eacute;, esperando, as duas m&atilde;os apoiadas<br \/>\n    &agrave; mesa, a vida suspensa.<br \/>\n    O reposteiro ergueu-se, &#8212; e reconheceu logo o chap&eacute;u de veludo<br \/>\n    azul de D. Felicidade.<br \/>\n    &#8212; Aqui metida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu,<br \/>\n    filha, est&aacute;s como a cal&#8230;<br \/>\n    Lu&iacute;sa deixou-se cair no fauteuil, branca e fria; disse com um sorriso<br \/>\n    cansado:<br \/>\n    &#8212; Estava a escrever, deu-me uma tontura&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ai! Tonturas, eu! &#8212; acudiu logo D. Felicidade. &#8212; &Eacute;<br \/>\n    uma desgra&ccedil;a, a cada momento a agarrar-me aos m&oacute;veis; at&eacute;<br \/>\n    tenho medo de andar s&oacute;. Falta de purgas!<br \/>\n    &#8212; Vamos para o quarto! &#8212; disse logo Lu&iacute;sa. &#8212; Estamos<br \/>\n    melhor no quarto.<br \/>\n    Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe.<br \/>\n    Atravessaram a sala; Juliana come&ccedil;ava a arrumar. Lu&iacute;sa ao passar,<br \/>\n    viu na pedra da consola, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza; era<br \/>\n    da v&eacute;spera, do charuto dele! Sacudiu-a &#8212; e ao erguer os olhos,<br \/>\n    ficou pasmada de se ver t&atilde;o p&aacute;lida.<br \/>\n    A costureira vestida de preto, com um chap&eacute;u de fitas roxas, esperava<br \/>\n    sentada &agrave; beira da causeuse, com um olhar infeliz e o seu embrulho<br \/>\n    nos joelhos; vinha provar o corpete de um vestido composto; assentou, pregou,<br \/>\n    alinhavou, falando baixo, com uma humildade triste e uma tossinha seca; e<br \/>\n    apenas ela saiu, de leve, com o seu andar de sombra, o xale tinto muito cingido<br \/>\n    &agrave;s omoplatas magras, &#8212; D. Felicidade come&ccedil;ou logo a falar<br \/>\n    dele, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no Moinho de Vento. Pois, senhores,<br \/>\n    nem lhe viera falar! Fizera-lhe uma cortesia muito seca, por demais, e tique-tique<br \/>\n    por ali fora, que se diria que ia fugido! Que te parece? Ai! Aquelas indiferen&ccedil;as<br \/>\n    matavam-na. E n&atilde;o as compreendia, n&atilde;o; realmente n&atilde;o<br \/>\n    as compreendia&#8230;<br \/>\n    &#8212; Porque enfim &#8212; exclamava &#8212; eu bem me conhe&ccedil;o, n&atilde;o<br \/>\n    sou nenhuma crian&ccedil;a, mas tamb&eacute;m n&atilde;o sou nenhum caco!<br \/>\n    Pois n&atilde;o &eacute; verdade?<br \/>\n    &#8212; Certamente &#8212; disse Lu&iacute;sa distra&iacute;da. Lembrava-lhe<br \/>\n    a carta.<br \/>\n    &#8212; Olha que aqui onde me v&ecirc;s com os meus quarenta, decotada, ainda<br \/>\n    valho! O que s&atilde;o ombros e colo &eacute; do melhor!<br \/>\n    Lu&iacute;sa ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu:<br \/>\n    &#8212; Do melhor! Tomaram-no muitas novas!<br \/>\n    &#8212; Creio bem &#8212; concordou Lu&iacute;sa, sorrindo vagamente.<br \/>\n    &#8212; E ele tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; nenhum rapazinho novo&#8230;<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o&#8230;<br \/>\n    &#8212; Mas muito bem conservado! &#8212; E os olhos luziam-lhe. &#8212; Para<br \/>\n    fazer ainda uma mulher muito feliz!<br \/>\n    &#8212; Muito&#8230;<br \/>\n    &#8212; Um homem de apetecer! &#8212; suspirou D. Felicidade.<br \/>\n    E Lu&iacute;sa ent&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Tu esperas um instantinho? Vou l&aacute; dentro e volto j&aacute;.<br \/>\n    &#8212; Vai, filha, vai.<br \/>\n    Lu&iacute;sa correu ao escrit&oacute;rio, direita ao sarc&oacute;fago. Estava<br \/>\n    vazio! E a carta dela, Santo Deus?<br \/>\n    Chamou logo Juliana, aterrada.<br \/>\n    &#8212; Voc&ecirc; despejou o caix&atilde;o dos pap&eacute;is?<br \/>\n    &#8212; Despejei, sim, minha senhora &#8212; respondeu muito tranq&uuml;ilamente.<br \/>\n    E com interesse:<br \/>\n    &#8212; Por qu&ecirc;, perdeu-se algum papel?<br \/>\n    Lu&iacute;sa fazia-se p&aacute;lida.<br \/>\n    &#8212; Foi um papel que eu atirei para o caix&atilde;o. Onde o despejou voc&ecirc;?<br \/>\n    &#8212; No barril do lixo, como &eacute; costume, minha senhora; imaginei<br \/>\n    que nada servia&#8230;<br \/>\n    &#8212; Ah! deixe ver!<br \/>\n    Subiu rapidamente &agrave; cozinha.<br \/>\n    Juliana, atr&aacute;s, ia dizendo:<br \/>\n    &#8212; Ora esta! Pois ainda n&atilde;o h&aacute; cinco minutos! O caix&atilde;o<br \/>\n    estava mais cheio&#8230; Andei a dar uma arrumadela no escrit&oacute;rio&#8230; Valha-me<br \/>\n    Deus, se a senhora tem dito&#8230;<br \/>\n    Mas o barril do lixo estava vazio. Joana tinha-o ido despejar abaixo naquele<br \/>\n    instantinho; e vendo a inquieta&ccedil;&atilde;o de Lu&iacute;sa:<br \/>\n    &#8212;Por qu&ecirc;, perdeu-se alguma coisa?<br \/>\n    &#8212; Um papel &#8212; disse Lu&iacute;sa, que olhava em redor, pelo ch&atilde;o,<br \/>\n    muito branca.<br \/>\n    &#8212; Iam uns poucos de pap&eacute;is, minha senhora &#8212; disse a rapariga<br \/>\n    &#8212; eu deitei tudo ao despejo.<br \/>\n    &#8212; Podia ter ficado algum ca&iacute;do por fora, Sr&ordf;. Joana &#8212;<br \/>\n    lembrou tinhidamente Juliana.<br \/>\n    &#8212; V&aacute; ver, v&aacute; ver, Joana -&#8212; acudiu Lu&iacute;sa com<br \/>\n    uma esperan&ccedil;a.<br \/>\n    Juliana parecia aflita:<br \/>\n    &#8212; Jesus, senhor! Eu podia l&aacute; adivinhar! Mas para que n&atilde;o<br \/>\n    disse a senhora?&#8230;<br \/>\n    &#8212; Bem, bem, a culpa n&atilde;o &eacute; sua, mulher&#8230;<br \/>\n    &#8212; Credo, que at&eacute; se me est&aacute; a embrulhar o est&ocirc;mago&#8230;<br \/>\n    E &eacute; coisa de import&acirc;ncia, minha senhora?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, &eacute; uma conta&#8230;<br \/>\n    &#8212; Valha-me Deus!&#8230;<br \/>\n    Joana voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Lu&iacute;sa agarrou-o, leu:<br \/>\n    &#8212; &#8220;&#8230;o di&acirc;metro do primeiro po&ccedil;o de explora&ccedil;&atilde;o&#8230;&#8221;<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; isto! &#8212; exclamou toda contrariada.<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o foi pra baixo pra o cano, minha senhora; n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    mais nada.<br \/>\n    &#8212; Viu bem?<br \/>\n    &#8212; Esquadrinhei tudo&#8230;<br \/>\n    E Juliana continuava, desolada:<br \/>\n    &#8212; Antes queria perder dez tost&otilde;es! Uma assim! Eu, minha senhora,<br \/>\n    podia l&aacute; adivinhar&#8230;<br \/>\n    &#8212; Bem, bem! &#8212; murmurou Lu&iacute;sa descendo.<br \/>\n    Mas estava assustada; sentia mesmo uma suspeita indefinida&#8230; Lembrou-lhe<br \/>\n    o bilhete que escrevera na v&eacute;spera a Bas&iacute;lio, e que metera,<br \/>\n    todo amarrotado, no bolso do vestido&#8230; Entrou no quarto, agitada.<br \/>\n    D. Felicidade tirara o chap&eacute;u, acomodara-se na causeuse.<br \/>\n    &#8212; Tu desculpas, hein? &#8212; fez Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Anda, filha, anda! Que &eacute;?<br \/>\n    &#8212; Perdi uma conta &#8212; respondeu.<br \/>\n    Foi ao guarda-vestidos; achou logo o bilhete na algibeira&#8230; Aquilo serenou-a.<br \/>\n    A carta tinha ido para o lixo, decerto. Mas que imprud&ecirc;ncia!<br \/>\n    &#8212; Bem, acabou-se! &#8212; disse, sentando-se resignada.<br \/>\n    E D. Felicidade imediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:<br \/>\n    &#8212; Ora; eu vinha-te falar numa coisa. Mas v&ecirc; l&aacute;! Olha que<br \/>\n    &eacute; segredo.<br \/>\n    Lu&iacute;sa ficou logo sobressaltada.<br \/>\n    &#8212; Tu sabes &#8212; continuou D. Felicidade, devagar, com pausas &#8212;<br \/>\n    que a minha criada, a Josefa, est&aacute; para casar com o galego&#8230; O homem<br \/>\n    &eacute; de ao p&eacute; de Tu&iacute;, e diz que na terra dele h&aacute;<br \/>\n    uma mulher que tem uma virtude para fazer casamentos que &eacute; uma coisa<br \/>\n    milagrosa&#8230; Diz que &eacute; o mais que h&aacute;&#8230; Em deitando a sorte<br \/>\n    a um homem, &#8212; o homem entra-lhe uma tal paix&atilde;o que se arranja<br \/>\n    logo o casamento, e &eacute; a maior felicidade.<br \/>\n    Lu&iacute;sa tranq&uuml;ilizada, sorriu.<br \/>\n    &#8212; Escuta &#8212; acudiu D. Felicidade &#8212; n&atilde;o te ponhas j&aacute;<br \/>\n    com as tuas coisas&#8230;<br \/>\n    No seu tom grave havia um respeito supersticioso.<br \/>\n    &#8212; Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas,<br \/>\n    outros que n&atilde;o faziam caso delas, maridos que tinham amigas; enfim<br \/>\n    toda a sorte de ingratid&atilde;o&#8230; Em a mulher deitando o encanto, os homens<br \/>\n    come&ccedil;avam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e est&atilde;o<br \/>\n    pelo bei&ccedil;o&#8230; A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo&#8230;<br \/>\n    &#8212; De deitar uma sorte ao Conselheiro! &#8212; exclamou Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; Que te parece?<br \/>\n    Lu&iacute;sa deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quase se escandalizou.<br \/>\n    Contou outros casos: um fidalgo que desonrara uma lavadeira; um homem que<br \/>\n    abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma b&ecirc;beda&#8230; Em todos a<br \/>\n    sorte operara de um modo fulminante, produzindo um amor s&uacute;bito e fogoso<br \/>\n    pela pessoa desprezada. Apareciam logo rendidos, se estavam perto; se estavam<br \/>\n    longe, voltavam, &aacute;vidos, a p&eacute;, a cavalo, na malaposta, apressando-se,<br \/>\n    ardendo&#8230; E entregavam-se, mansos e humildes como escravos acorrentados&#8230;<br \/>\n    &#8212; Mas o galego &#8212; continuava ela muito excitada &#8212; diz que<br \/>\n    para ir &agrave; terra, falar &agrave; mulher, levar o retrato do Conselheiro,<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio o retrato dele, o meu; &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    o meu; ir falar, voltar &#8212; quer sete moedas!&#8230;<br \/>\n    &#8212; Oh dona Felicidade! &#8212; fez Lu&iacute;sa repreensivamente.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o me digas, n&atilde;o venhas com as tuas! Olha que eu sei<br \/>\n    de casos&#8230;<br \/>\n    E erguendo-se:<br \/>\n    &#8212; Mas s&atilde;o sete moedas! Sete moedas! &#8212; exclamou, arregalando<br \/>\n    os olhos.<br \/>\n    Juliana apareceu &agrave; porta, e muito baixinho, com um sorriso:<br \/>\n    &#8212; A senhora faz favor?<br \/>\n    Chamou-a para o corredor, em segredo:<br \/>\n    &#8212; Esta carta. Que vem do hotel.<br \/>\n    Lu&iacute;sa fez-se escarlate.<br \/>\n    &#8212; Credo, mulher! N&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio fazer mist&eacute;rios!<br \/>\n    Mas n&atilde;o entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a l&aacute;pis,<br \/>\n    escrita &agrave; pressa:<br \/>\n    &#8220;Meu amor &#8212; dizia Bas&iacute;lio &#8212; por um feliz acaso descobri<br \/>\n    o que precis&aacute;vamos: um ninho discreto para nos vermos&#8230;&#8221; E indicava<br \/>\n    a rua, o n&uacute;mero, os sinais, o caminho mais perto. &#8220;&#8230; Quando<br \/>\n    vens, meu amor? Vem amanh&atilde;. Batizei a casa com o nome de Para&iacute;so;<br \/>\n    para mim, minha adorada, &eacute; com efeito o para&iacute;so. Eu espero-te<br \/>\n    l&aacute; desde o meio-dia; logo que te aviste, des&ccedil;o.&#8221;<br \/>\n    Aquela precipita&ccedil;&atilde;o amorosa em arranjar o ninho &#8212; provando<br \/>\n    uma paix&atilde;o impaciente, toda ocupada dela &#8212; produziu-lhe uma dilata&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    doce do orgulho; ao mesmo tempo que aquele para&iacute;so secreto, como num<br \/>\n    romance, lhe dava a esperan&ccedil;a de felicidades excepcionais; e todas<br \/>\n    as suas inquieta&ccedil;&otilde;es os sustos da carta perdida se dissiparam<br \/>\n    de repente sob uma sensa&ccedil;&atilde;o c&aacute;lida, como flocos de n&eacute;voa<br \/>\n    sob o sol que se levanta.<br \/>\n    Voltou ao quarto, com o olhar risonho.<br \/>\n    &#8212; Que te parece, hein? &#8212; perguntou logo D. Felicidade, a quem<br \/>\n    a sua id&eacute;ia ocupava tiranicamente<br \/>\n    &#8212; O qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8212; Achas que mande o homem a Tu&iacute;?<br \/>\n    Lu&iacute;sa encolheu os ombros; veio-lhe um t&eacute;dio de tais enredos<br \/>\n    de bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga rom&acirc;ntica<br \/>\n    achava repugnante aquele sentimentalismo senil.<br \/>\n    &#8212; Tolices! &#8212; disse com muito desd&eacute;m.<br \/>\n    &#8212; Oh filha! N&atilde;o me digas, n&atilde;o me digas! &#8212; acudiu<br \/>\n    desolada D. Felicidade.<br \/>\n    &#8212; Bem, ent&atilde;o manda, manda! &#8212; fez Lu&iacute;sa, j&aacute;<br \/>\n    impaciente<br \/>\n    &#8212; Mas s&atilde;o sete moedas! &#8212; exclamou D. Felicidade, quase<br \/>\n    chorosa.<br \/>\n    Lu&iacute;sa p&ocirc;s-se a rir.<br \/>\n    &#8212; Por um marido? Acho barato&#8230;<br \/>\n    &#8212; E se a sorte falha?<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o &eacute; caro!<br \/>\n    D. Felicidade deu um grande ai! Estava muito infeliz, naquela hesita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre os impulsos da concupisc&ecirc;ncia e as prud&ecirc;ncias da economia.<br \/>\n    Lu&iacute;sa teve pena dela, e, tirando um vestido do guarda-roupa:<br \/>\n    &#8212; Deixa l&aacute;, filha! N&atilde;o h&atilde;o de ser necess&aacute;rias<br \/>\n    bruxarias!&#8230;<br \/>\n    D. Felicidade ergueu os olhos ao c&eacute;u.<br \/>\n    &#8212; Vais sair? &#8212; perguntou melancolicamente<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o.<br \/>\n    D. Felicidade prop&ocirc;s-lhe ent&atilde;o que viesse com ela &agrave; Encarna&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um fur&uacute;nculo! E viam a arma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da igreja para a festa; estreava-se o frontal novo, um primor!<br \/>\n    &#8212; E estou tamb&eacute;m com vontade de ir rezar unia esta&ccedil;&atilde;ozinha<br \/>\n    para aliviar c&aacute; por dentro &#8212; ajuntou, suspirando.<br \/>\n    Lu&iacute;sa aceitou. Apetecia-lhe ir ver altares alumiados ouvir o ciciar<br \/>\n    de rezas no coro, Como se os requintes devotos dissessem bem com as suas disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sentimentais Come&ccedil;ou a vestir-se depressa.<br \/>\n    &#8212; Como tu est&aacute;s gorda, filha! &#8212; exclamou D. Felicidade<br \/>\n    admirada vendo-0lhe os ombros, o colo.<br \/>\n    Lu&iacute;sa diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente,<br \/>\n    contente das suas linhas, acariciando devagarinho voluptuosamente a pele branca<br \/>\n    e fina.<br \/>\n    &#8212; Redondinha &#8212; disse, namorando-se.<br \/>\n    &#8212; Redondinha? Vais-te a fazer uma bola!<br \/>\n    E acrescentou, tristemente:<br \/>\n    &#8212; Tamb&eacute;m com a tua vida; um marido Como o teu, regaladinha, sem<br \/>\n    filhos, sem cuidados&#8230;<br \/>\n    &#8212; Vamos l&aacute;, minha rica &#8212; disse Lu&iacute;sa &#8212; que<br \/>\n    as tristezas n&atilde;o te t&ecirc;m feito emagrecer&#8230;<br \/>\n    &#8212; Pois sim, pois sim! Mas&#8230; &#8212; e parecia desolada, como curvada<br \/>\n    sob as suas pr&oacute;prias ru&iacute;nas &#8212; c&aacute; por dentro &eacute;<br \/>\n    uma desgra&ccedil;a, est&ocirc;mago, f&iacute;gado&#8230;<br \/>\n    &#8212; Se a mulher de Tu&iacute; faz o milagre, p&otilde;e tudo isso como<br \/>\n    novo!<br \/>\n    D. Felicidade sorriu, com uma d&uacute;vida desconsolada.<br \/>\n    &#8212; Sabes que tenho um chap&eacute;u lindo? &#8212; exclamou de repente<br \/>\n    Lu&iacute;sa.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o viste? Lindo!<br \/>\n    Foi logo busc&aacute;-lo ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido<br \/>\n    de mios&oacute;tis.<br \/>\n    &#8212; Que te parece?<br \/>\n    &#8212; E um primor!<br \/>\n    Lu&iacute;sa mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas<br \/>\n    azuis.<br \/>\n    &#8212; D&aacute; frescura &#8212; fez D. Felicidade.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &eacute; verdade?<br \/>\n    P&ocirc;-lo com muito cuidado, toda s&eacute;ria. Ficava-lhe bem! Bas&iacute;lio<br \/>\n    se a visse havia de gostar, pensou. Era bem poss&iacute;vel que o encontrassem&#8230;<br \/>\n    Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante; achava t&atilde;o delicioso<br \/>\n    viver, sair, ir &agrave; Encarna&ccedil;&atilde;o, pensar no seu amante!&#8230;<br \/>\n    E toda no ar, procurava pelo quarto as chavinhas do toucador.<br \/>\n    Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia ver! Saiu correndo,<br \/>\n    tontinha, cantarolando:<\/p>\n<p>Amici, la notte &eacute; bella&#8230;<br \/>\n    La ra la la&#8230;<\/p>\n<p>Quase topou com Juliana, que varria o corredor.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o deixe de engomar a saia bordada para amanh&atilde;, Juliana!<br \/>\n    &#8212; Sim, minha senhora. Est&aacute; em goma!<br \/>\n    E seguindo-a com um olhar feroz:<br \/>\n    &#8212; Canta, piorrinha; canta, cabrazinha; canta, bebedazinha!<br \/>\n    E ela mesma, tomada subitamente de um j&uacute;bilo agudo, atirou vassouradas<br \/>\n    r&aacute;pidas, soltando na sua voz rachada:<\/p>\n<p>Al&eacute;m d&#8217;amanh&atilde; termina a campanha,<br \/>\n    P-o-o-or aqui se diz&#8230;<br \/>\n    Se tal for verdade, se n&atilde;o for patranha&#8230;<\/p>\n<p>E com um espremido enf&aacute;tico:<\/p>\n<p>Se-e-rei bem feliz!<\/p>\n<p>Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebasti&atilde;o e Juli&atilde;o<br \/>\n    passeavam em S. Pedro de Alc&acirc;ntara.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o estivera contando a sua &#8220;cena&#8221; com Lu&iacute;sa,<br \/>\n    e como desde ent&atilde;o a sua estima por ela crescera. Ao princ&iacute;pio<br \/>\n    escabreara-se, sim&#8230;<br \/>\n    &#8212; Mas teve raz&atilde;o! Assim de surpresa, ouvir uma daquelas! E eu<br \/>\n    levei a coisa mal, fui muito &agrave; bruta&#8230;<br \/>\n    Depois, coitadinha, concordara logo; mostrara-se muito desgostosa, toda zelosa<br \/>\n    do seu pudor, pedira-lhe conselhos&#8230; At&eacute; tinha as l&aacute;grimas<br \/>\n    nos olhos.<br \/>\n    &#8212; Eu disse-lhe logo que o melhor era falar ao primo, dizer o que se<br \/>\n    passava&#8230; Que te parece?<br \/>\n    &#8212; Sim &#8212; disse vagamente Juli&atilde;o.<br \/>\n    Tinha-o escutado distra&iacute;do, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto<br \/>\n    t&eacute;rreo cavava-se, com uma cor mais biliosa.<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o achas que fiz bem, hein?<br \/>\n    E depois de uma pausa:<br \/>\n    &#8212; Que ela &eacute; uma senhora de bem &agrave;s direitas! &Agrave;s<br \/>\n    direitas, Juli&atilde;o!<br \/>\n    Continuaram calados, O dia estava encoberto e abafado, com um ar de trovoada;<br \/>\n    grossas nuvens pesadas e pardas iam-se acumulando enegrecendo para o lado<br \/>\n    da Gra&ccedil;a por tr&aacute;s das colinas; um vento rasteiro passava por<br \/>\n    vezes, pondo um arrepio nas folhas das &aacute;rvores.<br \/>\n    &#8212; De maneira que agora estou descansado &#8212; resumiu Sebasti&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o te parece?<br \/>\n    Juli&atilde;o encolheu os ombros com um sorriso triste:<br \/>\n    &#8212; Quem me dera os teus cuidados, homem! &#8212; disse.<br \/>\n    E falou ent&atilde;o com amargura nas suas preocupa&ccedil;&otilde;es &#8212;<br \/>\n    Havia uma semana que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na<br \/>\n    Escola, preparava-se para ele. Era a sua t&aacute;bua de salva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    dizia; se apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientela podia vir, e<br \/>\n    a fortuna&#8230; E, que diabo, sempre era estar de dentro!&#8230; Mas a certeza da<br \/>\n    sua superioridade n&atilde;o o tranq&uuml;ilizava &#8212; porque enfim em<br \/>\n    Portugal, n&atilde;o &eacute; verdade? Nestas quest&otilde;es a ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    o estudo, o talento s&atilde;o uma hist&oacute;ria; o principal s&atilde;o<br \/>\n    os padrinhos! Ele n&atilde;o os tinha &#8212; e o seu concorrente, um sensabor&atilde;o,<br \/>\n    era sobrinho de um diretor-geral, tinha parentes na C&acirc;mara; era um colosso!<br \/>\n    Por isso ele trabalhava a valer, mas parecia-lhe indispens&aacute;vel meter<br \/>\n    tamb&eacute;m as suas cunhas! Mas quem?<br \/>\n    &#8212; Tu n&atilde;o conheces ningu&eacute;m, Sebasti&atilde;o?.<br \/>\n    Sebasti&atilde;o lembrava-se de um primo seu, deputado pelo Alentejo, um gordo,<br \/>\n    da maioria, um pouco fanhoso. Se Juli&atilde;o queria, falava-lhe&#8230; Mas sempre<br \/>\n    ouvira dizer que a Escola n&atilde;o era gente de empenhos e de intriga&#8230;<br \/>\n    De resto tinham o Conselheiro Ac&aacute;cio&#8230;<br \/>\n    &#8212; Uma besta! &#8212; fez Juli&atilde;o. &#8212; Um parlapat&atilde;o!<br \/>\n    Quem faz l&aacute; caso daquilo? O teu primo, hein! O teu primo parece-me<br \/>\n    bom! &Eacute; necess&aacute;rio algu&eacute;m que fale, que trabalhe&#8230; &#8212;<br \/>\n    Porque acreditava muito nas influ&ecirc;ncias dos empenhos, no dom&iacute;nio<br \/>\n    dos &#8220;personagens&#8221;, nas docilidades da fortuna quando dirigida<br \/>\n    pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado de amea&ccedil;a: &#8212;<br \/>\n    Que eu hei de lhe mostrar o que &eacute; saber as coisas, Sebasti&atilde;o!<br \/>\n    Ia explicar-lhe o assunto da tese, mas Sebasti&atilde;o interrompeu-o:<br \/>\n    &#8212; Ela a&iacute; vem.<br \/>\n    &#8212; Quem?<br \/>\n    &#8212; A Lu&iacute;sa.<br \/>\n    Passava com efeito, por fora do Passeio, toda vestida de preto, s&oacute;.<br \/>\n    &#8212; Respondeu &agrave; cortesia dos dois homens com um sorriso, adeusinhos<br \/>\n    da m&atilde;o, um pouco corada. <br \/>\n    E Sebasti&atilde;o im&oacute;vel, seguindo-a devotamente com os olhos:<br \/>\n    &#8212; Se aquilo n&atilde;o respira mesmo honestidade! Vai &agrave;s lojas&#8230;<br \/>\n    Santa rapariga!<br \/>\n    Ia encontrar Bas&iacute;lio no Para&iacute;so pela primeira vez. E estava<br \/>\n    muito nervosa; n&atilde;o pudera dominar, desde pela manh&atilde;, um medo<br \/>\n    indefinido que lhe fizera p&ocirc;r um v&eacute;u muito espesso, e bater o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o ao encontrar Sebasti&atilde;o. Mas ao mesmo tempo uma<br \/>\n    curiosidade intensa, m&uacute;ltipla, impelia-a, com um estremecimentozinho<br \/>\n    de prazer. &#8212; Ia, enfim, ter ela pr&oacute;pria aquela aventura que lera<br \/>\n    tantas vezes nos romances amorosos! Era uma forma nova do amor que ia experimentar,<br \/>\n    sensa&ccedil;&otilde;es excepcionais! Havia tudo &#8212; a casinha misteriosa,<br \/>\n    o segredo ileg&iacute;timo, todas as palpita&ccedil;&otilde;es do perigo!<br \/>\n    Porque o aparato impressionava-a mais que o sentimento; e a casa em si interessava-a,<br \/>\n    atra&iacute;a-a mais que Bas&iacute;lio! Como seria? Era para os lados de<br \/>\n    Arroios, adiante do Largo de Santa B&aacute;rbara; lembrava-se vagamente que<br \/>\n    havia ali urna correnteza de casas velhas&#8230; Desejaria antes que fosse no<br \/>\n    campo, numa quinta, com arvoredos murmurosos e relvas fofas; passeariam ent&atilde;o,<br \/>\n    com as m&atilde;os enla&ccedil;adas, num sil&ecirc;ncio po&eacute;tico; e<br \/>\n    depois o som da &aacute;gua que cai nas bacias de pedra daria um ritmo l&acirc;nguido<br \/>\n    aos sonos amorosos&#8230; Mas era num terceiro andar, &#8212; quem sabe como seria<br \/>\n    dentro? Lembrava-lhe um romance de Paulo F&eacute;val em que o her&oacute;i,<br \/>\n    poeta e duque, forra de cetins e tape&ccedil;arias o interior de uma cho&ccedil;a;<br \/>\n    encontra ali a sua amante; os que passam, vendo aquele casebre arruinado,<br \/>\n    d&atilde;o um pensamento compassivo &agrave; mis&eacute;ria que decerto o<br \/>\n    habita &#8212; enquanto dentro, muito secretamente, as flores se esfolham<br \/>\n    nos vasos de S&egrave;vres e os p&eacute;s nus pisam Gobelins vener&aacute;veis!<br \/>\n    Conhecia o gosto de Bas&iacute;lio, &#8212; e o Para&iacute;so decerto era<br \/>\n    como no romance de Paulo F&eacute;val.<br \/>\n    Mas no Largo de Cam&otilde;es reparou que o sujeito de p&ecirc;ra comprida,<br \/>\n    o do Passeio, a vinha seguindo, com uma obstina&ccedil;&atilde;o de galo;<br \/>\n    tomou logo um coup&eacute;. E ao descer o Chiado, sentia uma sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deliciosa em ser assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava<br \/>\n    com certo desd&eacute;m os que passavam, no movimento da vida trivial &#8212;<br \/>\n    enquanto ela ia para uma hora t&atilde;o romanesca da vida amorosa! Todavia<br \/>\n    &agrave; maneira que se aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de acanhamento, como um plebeu que tem de subir, entre alabardeiros solenes,<br \/>\n    a escadaria de um pal&aacute;cio. Imaginava Bas&iacute;lio esperando-a estendido<br \/>\n    num div&atilde; de seda; e quase receava que a sua Simplicidade burguesa,<br \/>\n    pouco experiente, n&atilde;o achasse palavras bastante finas ou car&iacute;cias<br \/>\n    bastante exaltadas. Ele devia ter conhecido mulheres t&atilde;o belas, t&atilde;o<br \/>\n    ricas, t&atilde;o educadas no amor! Desejava chegar num coup&eacute; seu,<br \/>\n    com rendas de centos de mil-r&eacute;is, e ditos t&atilde;o espirituosos como<br \/>\n    um livro&#8230;<br \/>\n    A carruagem parou ao p&eacute; de uma casa amarelada, com uma portinha pequena.<br \/>\n    Logo &agrave; entrada um cheiro mole e salobro enojou-a. A escada, de degraus<br \/>\n    gastos, subia &iacute;ngrememente apertada entre paredes onde a cal ca&iacute;a,<br \/>\n    e a umidade fizera n&oacute;doas. No patamar da sobreloja, uma janela com<br \/>\n    um gradeadozinho de arame, parda do p&oacute; acumulado, coberta de teias<br \/>\n    de aranha, coava a luz suja do sagu&atilde;o. E por tr&aacute;s de uma portinha,<br \/>\n    ao lado, sentia-se o ranger de um ber&ccedil;o, o chorar doloroso de uma crian&ccedil;a.<br \/>\n    Mas Bas&iacute;lio desceu logo, com o charuto na boca, dizendo baixo.<br \/>\n    &#8212; T&atilde;o tarde! Sobe! Pensei que n&atilde;o vinhas. O que foi?<br \/>\n    A escada era t&atilde;o esguia, que n&atilde;o podiam subir juntos. E Bas&iacute;lio,<br \/>\n    caminhando adiante, de esguelha:<br \/>\n    &#8212; Estou aqui desde a uma hora, filha! Imaginei que te tinhas esquecido<br \/>\n    da rua&#8230;<br \/>\n    Empurrou uma cancela, f&ecirc;-la entrar num quarto pequeno, forrado de papel<br \/>\n    &agrave;s listras azuis e brancas.<br \/>\n    Lu&iacute;sa viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarelada,<br \/>\n    feita de remendos juntos de chitas diferentes; e os len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    grossos, de um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente entreabertos&#8230;<br \/>\n    Fez-se escarlate; sentou-se calada, embara&ccedil;ada. E os seus olhos, muito<br \/>\n    abertos, iam-se fixando &#8212; nos riscos ign&oacute;beis da cabe&ccedil;a<br \/>\n    dos f&oacute;sforos, ao p&eacute; da cama; na esteira esfiada, comida, com<br \/>\n    uma n&oacute;doa de tinta entornada; nas bambinelas da janela, de uma fazenda<br \/>\n    vermelha, onde se viam passagens; numa litografia, onde uma figura, coberta<br \/>\n    de uma t&uacute;nica azul flutuante, espalhava flores voando&#8230; Sobretudo<br \/>\n    uma larga fotografia, por cima do velho canap&eacute; de palhinha, fascinava-a:<br \/>\n    era um indiv&iacute;duo atarracado, de aspecto h&iacute;lare e alvar, com<br \/>\n    a barba em colar, o feitio de uni piloto ao domingo; sentado, de cal&ccedil;as<br \/>\n    brancas, com as pernas muito afastadas, pousava uma das m&atilde;os sobre<br \/>\n    um joelho, e a outra muito estendida assentava sobre uma coluna truncada;<br \/>\n    e por baixo do caixilho, como sobre a pedra de um t&uacute;mulo, pendia de<br \/>\n    um prego de cabe&ccedil;a amarela, uma coroa de perp&eacute;tuas!<br \/>\n    &#8212; Foi o que se p&ocirc;de arranjar &#8212; disse-lhe Bas&iacute;lio.<br \/>\n    &#8212; E foi um acaso; &eacute; muito retirado, &eacute; muito discreto&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; muito luxuoso&#8230;<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &#8212; fez ela, baixo. &#8212; Levantou-se, foi &agrave;<br \/>\n    janela, ergueu uma porta da cortininha de cassa fixada &agrave; vidra&ccedil;a:<br \/>\n    defronte eram casas pobres; um sapateiro grisalho batia a sola a uma porta;<br \/>\n    &agrave; entrada de uma lojita balou&ccedil;ava-se um ramo de carqueja ao<br \/>\n    p&eacute; de um ma&ccedil;o de cigarros pendentes de um barbante; e, a uma<br \/>\n    janela, uma rapariga esguedelhada embalava tristemente no colo urna crian&ccedil;a<br \/>\n    doente que tinha crostas grossas de chagas na sua cabecinha cor de mel&atilde;o.<br \/>\n    Lu&iacute;sa mordia os bei&ccedil;os; sentia-se entristecer. Ent&atilde;o<br \/>\n    n&oacute;s de dedos bateram discretamente &agrave; porta. Ela assustou-se,<br \/>\n    desceu rapidamente o v&eacute;u. Bas&iacute;lio foi abrir. Uma voz adocicada,<br \/>\n    cheia de ss mel&iacute;fluos, ciciou baixo. Lu&iacute;sa ouviu vagamente:<br \/>\n    Sossegadinhos; suas chavezinhas&#8230;<br \/>\n    &#8212; Bem, bem! &#8212; disse Bas&iacute;lio apressado, batendo com a porta.<br \/>\n    &#8212; Quem &eacute;?<br \/>\n    &#8212; &Eacute; a patroa.<br \/>\n    O c&eacute;u pusera-se a enegrecer; j&aacute; a espa&ccedil;os grossas gotas<br \/>\n    de chuva se esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto<br \/>\n    mais melanc&oacute;lico.<br \/>\n    &#8212; Como descobriste tu isto? &#8212; perguntou Lu&iacute;sa, triste.<br \/>\n    &#8212; Inculcaram-mo.<br \/>\n    Outra gente, ent&atilde;o, tinha vindo ali, &#8220;amado&#8221; ali? &#8212;<br \/>\n    pensou ela. E a cama pareceu-lhe repugnante.<br \/>\n    &#8212; Tira o chap&eacute;u &#8212;- disse Bas&iacute;lio, quase impaciente<br \/>\n    &#8212; est&aacute;s-me a fazer afli&ccedil;&atilde;o com esse chap&eacute;u<br \/>\n    na cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Ela soltou devagar o el&aacute;stico que o prendia, foi p&ocirc;-lo no canap&eacute;<br \/>\n    de palhinha, desconsoladamente.<br \/>\n    Bas&iacute;lio tomou-lhe as m&atilde;os, e atraindo-a, sentando-se na cama:<br \/>\n    &#8212; Est&aacute;s t&atilde;o linda! &#8212; Beijou-lhe o pesco&ccedil;o,<br \/>\n    encostou a cabe&ccedil;a ao peito dela. E com a vista muito quebrada:<br \/>\n    &#8212; O que eu sonhei contigo esta noite!<br \/>\n    Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E imediatamente<br \/>\n    bateram &agrave; porta, com pressa.<br \/>\n    &#8212; Que &eacute;? &#8212; bradou Bas&iacute;lio furioso.<br \/>\n    A voz cheia de sr explicou que esquecera um cobertor na varanda que estava<br \/>\n    a secar. Se se encharcasse, que perdi&ccedil;&atilde;o!&#8230;<br \/>\n    &#8212; Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me! &#8212; berrou Bas&iacute;lio.<br \/>\n    &#8212; D&aacute;-lhe o cobertor&#8230;<br \/>\n    &#8212; Que a leve o diabo!<br \/>\n    E Lu&iacute;sa, sentindo um arrepio de frio nos seus ombros nus, abandonava-se<br \/>\n    com uma vaga resigna&ccedil;&atilde;o, entre os joelhos de Bas&iacute;lio<br \/>\n    &#8212; vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto.<br \/>\n    Assim um iate que aparelhou nobremente para uma viagem romanesca vai encalhar,<br \/>\n    ao partir, nos loda&ccedil;ais do rio baixo; e o mestre aventureiro, que sonhava<br \/>\n    com os incensos e os alm&iacute;scares das florestas arom&aacute;ticas, im&oacute;vel<br \/>\n    sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros dos esgotos.<br \/>\n    Apenas Lu&iacute;sa come&ccedil;ou a sair todos os dias, Juliana pensou logo:<br \/>\n    Bem, vai ter com o gajo! <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap&iacute;tulo I Cap&iacute;tulo II Cap&iacute;tulo III Cap&iacute;tulo IV Cap&iacute;tulo V Cap&iacute;tulo VI Cap&iacute;tulo VII CAP&Iacute;TULO 1 Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Lu&iacute;s Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire de marroquim escuro, espregui&ccedil;ou-se, bocejou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95552","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Primo Bas\u00edlio, E\u00e7a de Queir\u00f3s O Primo Bas\u00edlio<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Primo Bas\u00edlio, E\u00e7a de Queir\u00f3s, Livro, Obra Liter\u00e1ria, Filme, Romance, Lu\u00edsa, Jorge, Conselheiro Ac\u00e1cio, Juliana, Literatura, O Primo Bas\u00edlio\" \/>\n<meta name=\"robots\" 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