{"id":95548,"date":"2017-01-19T10:57:30","date_gmt":"2017-01-19T12:57:30","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95548"},"modified":"2017-01-19T10:58:47","modified_gmt":"2017-01-19T12:58:47","slug":"o-misterio-da-estrada-de-sintra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-misterio-da-estrada-de-sintra","title":{"rendered":"O Mist\u00e9rio da Estrada de Sintra"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"158\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"96\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"152\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"94\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"178\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/strong><\/span><strong><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Ha quatorze annos, n&#8217;uma noite de ver\u00e3o no Passeio Publico, em frente<br \/>\nde duas chavenas de caf\u00e9, penetrados pela tristeza da grande cidade<br \/>\nque em torno de n\u00f3s cabeceava de somno ao som de um solu\u00e7ante<br \/>\n_pot-pourri_ dos _Dois Foscaris_, deliber\u00e1mos reagir sobre n\u00f3s<br \/>\nmesmos e acordar tudo aquilo a berros, n&#8217;um romance tremendo, businado \u00e1<br \/>\nbaixa das alturas do _Diario de Noticias_.<\/p>\n<p>Para esse fim, sem plano, sem methodo, sem escola, sem documentos, sem estylo,<br \/>\nrecolhidos \u00e1 simples \u00abtorre de crystal da Imagina\u00e7\u00e3o\u00bb,<br \/>\ndesfech\u00e1mos a improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa,<br \/>\ncada um de n\u00f3s com com uma resma de papel, a sua alegria e a sua audacia.<\/p>\n<p>Parece que Lisboa effectivamente despertou, pella sympathia ou pela curiosidade,<br \/>\npois que tendo lido na larga tiragem do _Diario de Noticias_ o _Mysterio da<br \/>\nEstrada de Cintra_, o comprou ainda n&#8217;uma edi\u00e7\u00e3o em livro; e<br \/>\nhoje manda-nos V. as provas de uma terceira edi\u00e7\u00e3o, perguntando-nos<br \/>\no que pensamos da obra escripta n&#8217;esses velhos tempos, que recordamos com<br \/>\nsaudade&#8230;<\/p>\n<p>Havia j\u00e1 ent\u00e3o terminado o feliz reinado do senhor D. Jo\u00e3o<br \/>\nVI. Fallecera o sympathico Gar\u00e7\u00e3o, Tolentino o jocundo, e o<br \/>\nsempre chorado Quita. Al\u00e9m do Passeio Publico, j\u00e1 n&#8217;essa epoca<br \/>\nevacuado como o resto do paiz pelas<\/p>\n<p>tropas de Junot, encarregava-se tambem de fallar \u00e1s imagina\u00e7\u00f5es<br \/>\no sr.<\/p>\n<p>Octave Feuillet. O nome de Flaubert n\u00e3o era familiar aos folhetinistas.<\/p>\n<p>Ponson du Terrail trovejava no Sinai dos pequenos jornaes e das bibliothecas<br \/>\neconomicas. O sr. Jules Claretie publicava um livro intitulado&#8230; (ninguem<br \/>\nhoje se lembra do titulo) do qual diziam commovidamente os criticos:&#8211;_Eis<br \/>\nahi uma obra que ha de ficar!_&#8230; N\u00f3s, emfim, eramos novos.<\/p>\n<p>O que pensamos hoje do romance que escrevemos ha quatorze annos?&#8230;<\/p>\n<p>Pensamos simplesmente&#8211;louvores a Deus!&#8211;que elle \u00e9 execravel; e<br \/>\nnenhum de n\u00f3s, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem<br \/>\nao seu peor inimigo, um livro egual. Porque n&#8217;elle ha um pouco de tudo quanto<br \/>\num romancista lhe n\u00e3o deveria p\u00f4r e quasi tudo quanto um critico<br \/>\nlhe deveria tirar.<\/p>\n<p>Poupemol-o&#8211;para o n\u00e3o aggravar fazendo-o em tres volumes&#8211;\u00e1<br \/>\nenumera\u00e7\u00e3o de todas as suas deformidades! Corramos um veu discreto<br \/>\nsobre os seus mascarados de diversas alturas, sobre os seus medicos mysteriosos,<br \/>\nsobre os seus louros capit\u00e3es inglezes, sobre as suas condessas fataes,<br \/>\nsobre os seus tigres, sobre os seus elephantes, sobre os seus hiates em que<br \/>\nse arvoram, como pavilh\u00f5es do ideal, len\u00e7os brancos de cambraia<br \/>\ne renda, sobre os seus sinistros copos d&#8217;opio, sobre os seus cadaveres elegantes,<br \/>\nsobre as suas _toilettes_ romanticas, sobre os seus cavallos esporeados por<br \/>\ncavalleiros de capas alvadias desapparecendo envoltos no p\u00f3 das phantasticas<br \/>\naventuras pella Porcalhota f\u00f3ra!&#8230;<\/p>\n<p>Todas estas cousas, ali\u00e1s sympathicas, commoventes por vezes, sempre<br \/>\nsinceras, desgostam todavia velhos escriptores, que ha muito desviaram os<br \/>\nseus olhos das perspectivas enevoadas da sentimentalidade, para estudarem<br \/>\npacientemente e humildemente as claras realidades da sua rua.<\/p>\n<p>Como permittimos pois que se republique um livro que sendo todo d&#8217;imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nscismando e n\u00e3o observado, desmente toda a campanha que temos feito<br \/>\npella arte de analyse e de certeza objectiva?<\/p>\n<p>Consentimol-o porque entendemos que nenhum trabalhador deve parecer envergonhar-se<br \/>\ndo ser trabalho.<\/p>\n<p>Conta-se que Murat, sendo rei de Napoles, mandara pendurar na sala do throno<br \/>\no seu antigo chicote de postilh\u00e3o, e muitas vezes, apontando para o<\/p>\n<p>sceptro mostrava depois o a\u00e7oite, gostando de repetir: _Comecei por ali_.<\/p>\n<p>Esta gloriosa historia confirma o nosso parecer, sem com isto querermos<br \/>\ndizer que ella se applique \u00e1s nossa pessoas. Como throno temos ainda<br \/>\na mesma velha cadeira em que escreviamos ha quinze annos; n\u00e3o temos<br \/>\ndocel que nos cubra; e as nossas cabe\u00e7as, que embranquecem, n\u00e3o<br \/>\nse cingem por emquanto de cor\u00f4a alguma, nem de louros, nem de Napoles.<\/p>\n<p>Para nossa modesta satisfa\u00e7\u00e3o basta-nos n\u00e3o ter cessado<br \/>\nde trabalhar um s\u00f3 dia desde aquelle em que dat\u00e1mos este livro<br \/>\nat\u00e9 o instante em que elle nos reapparece inesperadamente na sua terceira<br \/>\nedi\u00e7\u00e3o, com um petulante arzinho de triumpho que, \u00e1 f\u00e9<br \/>\nde Deus, n\u00e3o lhe vae mal!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como agora, escreviamos honestamente, isto \u00e9, o melhor<br \/>\nque podiamos: d&#8217;esse amor da perfei\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a honradez<br \/>\ndos artistas, veio talvez a sympathia do publico ao livro da nossa mocidade.<\/p>\n<p>Ha mais duas raz\u00f5es, para auctorizar esta reedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 que a publica\u00e7\u00e3o d&#8217;este livro, f\u00f3ra<br \/>\nde todos os moldes at\u00e9 o seu tempo consagrados, pode conter, para uma<br \/>\ngera\u00e7\u00e3o que precisa de a receber, uma util li\u00e7\u00e3o<br \/>\nde independencia.<\/p>\n<p>A mocidade que nos succedeu, em vez de ser inventiva, audaz, revolucionaria,<br \/>\ndestruidosa d&#8217;idolos, parece-nos servil, imitadora, copista curvada de mais<br \/>\ndeante dos mestres. Os novos escriptores n\u00e3o avan\u00e7am um p\u00e9<br \/>\nque n\u00e3o pousem na p\u00e9gada que deixaram outros. Esta pusilanimidade<br \/>\ntorna todas as obras tropegas, d\u00e1-lhes uma express\u00e3o estafada;<br \/>\ne a n\u00f3s, que partimos, a gera\u00e7\u00e3o que chega faz-nos o<br \/>\neffeito de sahir velha do ber\u00e7o e de entrar na arte de muletas.<\/p>\n<p>Os documentos das nossas primeiras loucuras de cora\u00e7\u00e3o queim\u00e1mol-os<br \/>\nha muito, os das nossas extravagancias de espirito desejamos que fiquem. Aos<br \/>\nvinte annos \u00e9 preciso que alguem seja estroina, nem sempre talvez para<br \/>\nque o mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite, Para ser ponderado,<br \/>\ncorrecto e immovel ha tempo de sobra na velhice.<\/p>\n<p>Na arte, a indisciplina dos novos, a sua rebelde for\u00e7a de resistencia<br \/>\n\u00e1s correntes da tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 indispensavel para<br \/>\na revivescencia da inven\u00e7\u00e3o e do poder criativo, e para a originalidade<br \/>\nartistica. Ai das litteraturas em que n\u00e3o ha mocidade! Como os velhos<br \/>\nque atravessaram a vida sem o sobressalto de uma aventura, n\u00e3o haver\u00e1<br \/>\nn&#8217;ellas que lembrar. Al\u00e9m de que, para os que na edade madura foram<br \/>\narrancados pelo dever \u00e1s facilidades da improvisa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne encontram n&#8217;esta regi\u00e3o dura das coisas exactas, entristecedora e<br \/>\nmesquinha, onde, em logar do esplendor dos heroismos e da belleza das paix\u00f5es,<br \/>\ns\u00f3 ha a pequenez dos caracteres e a miseria dos sentimenos, seria d\u00f4ce<br \/>\ne reconfortante ouvir de longe a longe, nas manh\u00e3s de sol, ao voltar<br \/>\nda primavera, zumbir no azul, como nos bons tempos, a doirada abelha da phantasia.<\/p>\n<p>A ultima raz\u00e3o que nos leva a n\u00e3o repudiar este livro, \u00e9<br \/>\nque elle \u00e9 ainda o testemunho da intima confraternidade de dois antigos<br \/>\nhomens de lettras, resistindo a vinte annos de prova\u00e7\u00e3o nos<br \/>\ncontactos de uma sociedade que por todos os lados se dissolve. E, se isto<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 um triumpho para o nosso esp\u00edrito, \u00e9 para<br \/>\no nosso cora\u00e7\u00e3o uma suave alegria.<\/p>\n<p>Lisboa, 14 de dezembro de 1881<\/p>\n<p>De V.<\/p>\n<p>Antigos amigos<\/p>\n<p>E\u00e7a de Queiroz<\/p>\n<p>Ramalho Ortig\u00e3o<\/p>\n<p>+O MYSTERIO DA ESTRADA DE CINTRA+<\/p>\n<p>+EXPOSI\u00c7\u00c3O DO DOUTOR*** +<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>Sr. redactor do _Diario de Noticias_<\/p>\n<p>Venho p\u00f4r nas suas m\u00e3os a narra\u00e7\u00e3o de um caso<br \/>\nverdadeiramente extraordinario em que intervim como facultativo, pedindo-lhe<br \/>\nque, pelo modo que entender mais adequado, publique na sua folha a substancia,<br \/>\npelo menos, do que vou exp\u00f4r.<\/p>\n<p>Os successos a que me refiro s\u00e3o t\u00e3o graves, cerca-os um tal<br \/>\nmysterio, envolve-os uma tal apparencia de crime que a publicidade do que<br \/>\nse passou por mim torna-se importantissima como chave unica para a desencerra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um drama que supponho terrivel com quanto n\u00e3o conhe\u00e7a d&#8217;elle<br \/>\nsen\u00e3o um s\u00f3 acto e ignore inteiramente quaes foram as scenas<br \/>\nprecedentes e quaes tenham de ser as ultimas.<\/p>\n<p>Ha tres dias que eu vinha dos suburbios de Cintra em companhia de F&#8230;, um<br \/>\namigo meu, em cuja casa tinha ido passar algum tempo.<\/p>\n<p>Montavamos dois cavallos que F&#8230; tem na sua quinta e que deviam ser reconduzidos<br \/>\na Cintra por um criado que viera na vespera para Lisboa.<\/p>\n<p>Era ao fim da tarde quando atravess\u00e1mos a charneca. A mellancolia<br \/>\ndo logar e da hora tinha-se-nos communicado, e vinhamos silenciosos, abstrahidos<br \/>\nna paizagem, caminhando a passo.<\/p>\n<p>A cerca de talvez de meia distancia do caminho entre S. Pedro e o Cacem,<br \/>\nn&#8217;um ponto a que n\u00e3o sei o nome, porque tenho transitado pouco n&#8217;aquella<br \/>\nestrada, sitio deserto como todo o caminho atrav\u00e9s da charneca, estava<br \/>\nparada uma carruagem.<\/p>\n<p>Era um _coup\u00e9_ pintado de escuro, verde e preto, e tirado por uma<br \/>\nparelha c\u00f4r de castanha.<\/p>\n<p>O cocheiro, sem libr\u00e9, estava em p\u00e9, de costas para n\u00f3s,<br \/>\ndiante dos cavallos.<\/p>\n<p>Dois sujeitos achavam-se curvados ao p\u00e9 das rodas que ficavam para<br \/>\na parte da estrada por onde tinhamos de passar, e pareciam occupados em examinar<br \/>\nattentamente o jogo da carruagem.<\/p>\n<p>Um quarto individuo, egualmente de costas para n\u00f3s, estava perto do<br \/>\nvallado do outro lado do caminho, procurando alguma cousa, talvez uma pedra<br \/>\npara cal\u00e7ar o trem.<\/p>\n<p>\u00c9 o resultado das sobrodas que tem a estrada, observou o meu amigo.<\/p>\n<p>Provavelmente o eixo partido ou alguma roda desembuxada.<\/p>\n<p>Passavamos a este tempo pelo meio dos tres vultos a que me referi, e F&#8230;<\/p>\n<p>tinha tido apenas tempo de concluir a phrase que proferira, quando o cavallo<br \/>\nque eu montava deu repentinamente meia volta rapida, violenta, e caiu de chapa.<\/p>\n<p>O homem que estava junto do vallado, ao qual eu n\u00e3o dava atten\u00e7\u00e3o<br \/>\nporque ia voltado a examinar o trem, determinara essa queda, colhendo repentinamente<br \/>\ne com a maxima for\u00e7a as redeas que ficavam para o lado d&#8217;elle e impellindo<br \/>\nao mesmo tempo com um pontap\u00e9 o flanco do animal para o lado oposto.<\/p>\n<p>O cavallo, que era um poldro de pouca for\u00e7a e mal manejado, escorregou<br \/>\ndas pernas e tombou ao dar a volta rapida e precipitada a que o tinham constrangido.<\/p>\n<p>O desconhecido fez levantar o cavallo segurando-lhe as redeas, e, ajudando-me<br \/>\na erguer, indagava com interesse se eu teria molestado a perna que fic\u00e1ra<br \/>\ndebaixo do cavallo.<\/p>\n<p>Este individuo tinha na voz a entoa\u00e7\u00e3o especial dos homens<br \/>\nbem educados. A m\u00e3o que me offereceu era delicada. O rosto tinha-o<br \/>\ncoberto com uma mascara<\/p>\n<p>de setim preto. Entrelembro-me de que trazia um pequeno fumo no chapeu.<\/p>\n<p>Era um homem agil e extremamente forte, segundo denota o modo como fez cair<br \/>\no cavallo.<\/p>\n<p>Ergui-me alvoro\u00e7adamente e, antes de ter tido ocasi\u00e3o de dizer<br \/>\numa palavra, vi que, ao tempo da minha queda, se travara lucta entre o meu<br \/>\ncompanheiro e os outros dois individuos que fingiam examinar o trem e que<br \/>\ntinham a cara coberta como aquelle de que j\u00e1 fallei.<\/p>\n<p>Puro Ponson du Terrail! dir\u00e1 o sr. redactor. Evidentemente. Parece<br \/>\nque a vida, mesmo no caminho de Cintra, pode \u00e0s vezes ter o capricho<br \/>\nde ser mais romanesca do que pede a verosimilhan\u00e7a artistica. Mas eu<br \/>\nn\u00e3o fa\u00e7o arte, narro factos unicamente.<\/p>\n<p>F&#8230;, vendo o seu cavallo subitamente seguro pellas cambas do freio, tinha<br \/>\nobrigado a largal-o um dos desconhecidos, em cuja cabe\u00e7a descarreg\u00e1ra<br \/>\numa pancada com o cabo do chicote, o qual o outro mascarado conseguira logo<br \/>\ndepois arrancar-lhe da m\u00e3o.<\/p>\n<p>Nenhum de n\u00f3s trazia armas. O meu amigo tinha no entanto tirado da<br \/>\nalgibeira a chave de uma porta da casa de Cintra, e esporeava o cavallo estirando-se-lhe<br \/>\nno pesco\u00e7o e procurando alcan\u00e7ar a cabe\u00e7a d&#8217;aquelle que<br \/>\no tinha seguro.<\/p>\n<p>O mascarado, por\u00e9m, que continuava a segurar em uma das m\u00e3os<br \/>\no freio do cavallo empinado, apontou com a outra um rewolver \u00e1 cabe\u00e7a<br \/>\ndo meu amigo e disse-lhe com serenidade:<\/p>\n<p>&#8211;Menos furia! menos furia!<\/p>\n<p>O que lev\u00e1ra com o chicote na cabe\u00e7a e fic\u00e1ra por um<br \/>\nmomento encostado \u00e1 portinhola do trem, visivelmente atordoado mas<br \/>\nn\u00e3o ferido, porque o cabo era de baleia e tinha por cast\u00e3o uma<br \/>\nsimples guarni\u00e7\u00e3o feita com uma tran\u00e7a de clina, havia<br \/>\nj\u00e1 a este tempo levantado do ch\u00e3o e posto na cabe\u00e7a o<br \/>\nchapeu que lhe caira.<\/p>\n<p>A este tempo o que me derribara o cavallo e me ajudara a levantar tinha-me<br \/>\ndeixado ver um par de pequeninas pistolas de coronhas de prata, d&#8217;aquellas<br \/>\na que chamam em Fran\u00e7a _coups de poing_ e que varam uma porta a trinta<br \/>\npassos de distancia. Depois do que, me offereceu delicadamente o bra\u00e7o,<br \/>\ndizendo-me com afabilidade:<\/p>\n<p>&#8211;Parece-me mais commodo acceitar um logar que lhe offere\u00e7o na carruagem<br \/>\ndo que montar outra vez no cavallo ou ter de arrastar a p\u00e9 d&#8217;aqui \u00e1<br \/>\npharmacia da Porcalhota a sua perna magoada.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou dos que se amedrontam mais promptamente com a amea\u00e7a<br \/>\nfeita com armas. Sei que ha um abysmo entre prometter um tiro e desfechal-o.<br \/>\nEu movia bem a perna trilhada, o meu amigo estava montado em um cavallo possante;<br \/>\nsomos ambos robustos; poderiamos talvez resistir por dez minutos, ou por um<br \/>\nquarto de hora, e durante esse tempo nada mais provavel, em estrada t\u00e3o<br \/>\nfrequentada como a de Cintra n&#8217;esta quadra, do que apparecerem passageiros<br \/>\nque nos prestassem aux\u00edlio.<\/p>\n<p>Todavia confesso que me sentia attrahido para o imprevisto de uma t\u00e3o<br \/>\nextranha aventura.<\/p>\n<p>Nenhum caso anterior, nenhuma circumstancia da nossa vida nos permittia suspeitar<br \/>\nque alguem podesse ter interesse em exercer comnosco press\u00e3o ou violencia<br \/>\nalguma.<\/p>\n<p>Sem eu bem poder a esse tempo explicar porqu\u00ea, n\u00e3o me parecia<br \/>\ntambem que as pessoas que nos rodeavam projectassem um roubo, menos ainda<br \/>\num homicidio. N\u00e3o tendo tido tempo de observar miudamente a cada um,<br \/>\ne tendo-lhes ouvido apenas algumas palavras fugitivas, figuravam-se-me pessoas<br \/>\nde bom mundo. Agora que de esp\u00edrito socegado penso no acontecido, vejo<br \/>\nque a minha conjectura se baseava em varias circumstancias dispersas, nas<br \/>\nquaes, ainda que de relance, eu attentara, mesmo sem proposito de analyse.<br \/>\nLembro-me, por exemplo, que era de setim alvadio o forro do<\/p>\n<p>chapeu do que levara a pancada na cabe\u00e7a. O que apont\u00e1ra o rewolver<br \/>\na F&#8230;<\/p>\n<p>trazia cal\u00e7ada uma luva c\u00f4r de chumbo apertada com dois bot\u00f5es.<br \/>\nO que me ajud\u00e1ra a levantar tinha os p\u00e9s finos e botas envernizadas;<br \/>\nas cal\u00e7as, de casimira c\u00f4r de avel\u00e3, eram muito justas<br \/>\ne de presilhas. Tinha esporas.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a disposi\u00e7\u00e3o em que me achava de ceder<br \/>\nda lucta e de entrar no trem, perguntei em allem\u00e3o ao meu amigo se<br \/>\nelle era de opini\u00e3o que resistissemos ou que nos rendessemos.<\/p>\n<p>&#8211;Rendam-se, rendam-se para nos poupar algum tempo que nos \u00e9 precioso!<br \/>\ndisse gravemente um dos desconhecidos. Por quem s\u00e3o, acompanhem-nos!<br \/>\nUm dia saber\u00e3o por que motivo lhes sahimos ao caminho mascarados. Damos-lhes<br \/>\na nossa palavra que \u00e1manh\u00e3 estar\u00e3o nas suas casas, em<br \/>\nLisboa. Os cavallos ficar\u00e3o em Cintra d&#8217;aqui a duas horas.<\/p>\n<p>Depois de uma breve reluctancia, que eu contribu\u00ed para desvanecer,<br \/>\no meu companheiro apeou-se e entrou no _coup\u00e9_. Eu segui-o.<\/p>\n<p>Cederam-nos os melhores logares. O homem que se achava em frente da parelha<br \/>\nsegurou os nossos cavallos; o que fizera cair o poldro subiu para a almofada<br \/>\ne pegou nas guias; ou outros dois entraram comnosco e sentaram-se nos logares<br \/>\nfronteiros aos nossos. Fecharam-se em seguida os stores de madeira dos postigos<br \/>\ne correu-se uma cortina de seda verde que cobria por dentro os vidros fronteiros<br \/>\nda carruagem.<\/p>\n<p>No momento de partirmos, o que ia guiar bateu na vidra\u00e7a e pediu um<br \/>\ncharuto. Passaram-lhe para f\u00f3ra uma charuteira de palha de Java. Pella<br \/>\nfresta por onde recebeu os charutos lan\u00e7ou para dentro do trem a mascara<br \/>\nque tinha no rosto, e partimos a galope.<\/p>\n<p>Quando entrei para a carruagem pareceu-me avistar ao longe, vindo de Lisboa,<br \/>\num omnibus, talvez uma sege. Se me n\u00e3o illudi, a pessoa ou pessoas<br \/>\nque vinham no trem a que me refiro ter\u00e3o visto os nossos cavallos,<br \/>\num dos quaes \u00e9 russo e o outro castanho, e poder\u00e3o talvez dar<br \/>\nnoticia da carruagem em que \u00edamos e da pessoa que nos servia de cocheiro.<br \/>\nO coup\u00e9 era, como j\u00e1 disse, verde e preto. Os stores, de mogno<br \/>\npolido, tinham no alto quatro fendas estreitas e oblongas, dispostas em cruz.<\/p>\n<p>Falta-me tempo para escrever o que ainda me resta por contar a horas de expedir<br \/>\nainda hoje esta carta pela posta interna.<\/p>\n<p>Continuarei. Direi ent\u00e3o, se o n\u00e3o suspeitou j\u00e1, o motivo<br \/>\nporque lhe<\/p>\n<p>occulto o meu nome e o nome do meu amigo.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Julho, 24 de 1870&#8211;Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada integralmente<br \/>\npor v. no logar destinado ao folhetim do seu periodico. Em vista da colloca\u00e7\u00e3o<br \/>\ndada ao meu escripto procurarei nas cartas que houver de lhe dirigir n\u00e3o<br \/>\nultrapassar os limites demarcados a esta sec\u00e7\u00e3o do jornal.<\/p>\n<p>Por esquecimento n\u00e3o datei a carta antecedente, ficando assim duvidoso<br \/>\nqual o dia em que fomos surprehendidos na estrada de Cintra. Foi quarta feira,<br \/>\n20 do corrente mez de julho.<\/p>\n<p>Passo de prompto a contar-lhe o que se passou no trem, especificando minuciosamente<br \/>\ntodos os pormenores e tentando reconstruir o dialogo que trav\u00e1mos,<br \/>\ntanto quanto me seja possivel com as mesmas palavras que n&#8217;elle se empregaram.<\/p>\n<p>A carruagem partiu na direc\u00e7\u00e3o de Cintra. Presumo por\u00e9m<br \/>\nque deu na estrada algumas voltas, muito largas e bem dadas porque se n\u00e3o<br \/>\npresentiram pela intercadencia da velocidade no passo dos cavallos. Levaram-me<br \/>\na suppol-o, em primeiro logar as differen\u00e7as de declive no nivel do<br \/>\nterreno, com quanto estivessemos rodando sempre em uma estrada macadamisada<br \/>\ne lisa; em segundo logar umas leves altera\u00e7\u00f5es na quantidade<br \/>\nde luz que havia dentro do _coup\u00e9_ coada pela cortina de seda verde,<br \/>\no que me indicava que o trem passava por encontradas exposi\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom rella\u00e7\u00e3o ao sol que se escondia no horisonte.<\/p>\n<p>Havia evidentemente o designio de nos desorientar no rumo definitivo que<br \/>\ntomassemos.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que, dois minutos depois de termos principiado a andar, me<br \/>\nseria absolutamente impossivel decidir se ia de Lisboa para Cintra ou se vinha<br \/>\nde Cintra para Lisboa.<\/p>\n<p>Na carruagem havia uma claridade bassa e tenue, que todavia nos permittia<br \/>\ndistinguir os objectos. Pude ver as horas no meu relogio. Eram sete e um quarto.<\/p>\n<p>O desconhecido que ia defronte de mim examinou tambem as horas. O relogio<br \/>\nque elle n\u00e3o introduziu bem na algibeira do collete e que um momento<br \/>\ndepois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente, era<br \/>\num relogio singular que se n\u00e3o confunde facilmente e que n\u00e3o<br \/>\ndeixar\u00e1 de ser reconhecido, depois da noticia que dou d&#8217;elle, pellas<br \/>\npessoas que alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado opposto ao mostrador<br \/>\nera de esmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um<br \/>\nescudo de armas de ouro encobrado e polido.<\/p>\n<p>Havia poucos momentos que caminhavamos quando o individuo sentado defronte<br \/>\nde F&#8230;, o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o acompanhassemos,<br \/>\nnos disse:<\/p>\n<p>&#8211;Eu julgo inutil asseverar-lhes que devem tranquilisar-se inteiramente em<br \/>\nquanto \u00e1 seguran\u00e7a das suas pessoas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 visto que sim, respondeu o meu amigo; n\u00f3s estamos perfeitamente<br \/>\nsocegados a todos os respeitos. Espero que nos fa\u00e7am a justi\u00e7a<br \/>\nde acreditar que nos n\u00e3o t\u00eaem coactos pelo medo. Nenhum de n\u00f3s<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o crean\u00e7a que se apavore com o aspecto das suas mascaras<br \/>\nnegras ou das suas armas de fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos<br \/>\ncertificar de que n\u00e3o querem fazer-nos mal: n\u00f3s devemos pela<br \/>\nnossa parte annunciar-lhes que desde o momento em que a sua companhia principiasse<br \/>\na tornar-se-nos desagradavel, nada nos seria mais facil do que arrancar-lhes<br \/>\nas mascaras, arrombar os stores, convidal-os perante o primeiro trem que passasse<br \/>\npor n\u00f3s a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxal-os em seguida<br \/>\naos<\/p>\n<p>cuidados policiaes do regedor da primeira parochia que atravessassemos.<\/p>\n<p>Parece-me portanto justo que principiemos por prestar o devido culto aos<br \/>\nsentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos.<\/p>\n<p>D&#8217;outro modo ficariamos todos grotescos: os senhores terriveis e n\u00f3s<br \/>\nassustados.<\/p>\n<p>Com quanto estas cousas fossem ditas por F&#8230; com um ar de bondade risonha,<br \/>\no nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao ouvil-o. Movia<br \/>\nconvulsivamente uma perna, firmando o cotovello n&#8217;um joelho, pousando a barba<br \/>\nnos dedos, fitando de perto o meu amigo. Depois, reclinando-se para traz e<br \/>\ncomo se mudasse de resolu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;No fim de contas, a verdade \u00e9 que tem raz\u00e3o e talvez eu fizesse<br \/>\ne dissesse o mesmo no seu logar.<\/p>\n<p>E, tendo meditado um momento, continuou:<\/p>\n<p>&#8211;Que diriam por\u00e9m os senhores se eu lhes provasse que esta mascara<br \/>\nem que querem ver apenas um symptoma burlesco \u00e9 em vez d&#8217;isso a confirma\u00e7\u00e3o<br \/>\nda seriedade do caso que nos trouxe aqui?&#8230; Queiram imaginar por um momento<br \/>\num d&#8217;esses romances como ha muitos: Uma senhora casada, por exemplo, cujo<br \/>\nmarido viaja ha um anno. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa, est\u00e1<br \/>\ngravida. Que delibera\u00e7\u00e3o ha de tomar?<\/p>\n<p>Houve um silencio.<\/p>\n<p>Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude d&#8217;aquelle<br \/>\nproblema e respondi:<\/p>\n<p>&#8211;Enviar ao marido uma escriptura de separa\u00e7\u00e3o em regra. Depois,<br \/>\nse \u00e9 rica, ir com o amante para a America ou para a Suissa; se \u00e9<br \/>\nporbre, comprar uma machina de costura e trabalhar para f\u00f3ra n&#8217;uma<br \/>\nagua furtada. \u00c9 o destino para as pobres e para as ricas. De resto,<br \/>\nem toda a parte se morre depressa n&#8217;essas condi\u00e7\u00f5es, n&#8217;um _cottage_<br \/>\n\u00e1 beira do lago Genebra ou n&#8217;um quarto de oito tost\u00f5es ao mez<br \/>\nna rua dos Vinagres. Morre-se egualmente, de tisica ou de tedio, no esfalfamento<br \/>\ndo trabalho ou no enj\u00f4o do idyllio.<\/p>\n<p>&#8211;E o filho?<\/p>\n<p>&#8211;O filho, desde que est\u00e1 f\u00f3ra da familia e f\u00f3ra da<br \/>\nlei, \u00e9 um desgra\u00e7ado cujo infortunio prov\u00e9m em grande<br \/>\nparte da sociedade que ainda n\u00e3o soube definir a responsabilidade do<br \/>\npae clandestino. Se os paes fazem como a legisla\u00e7\u00e3o, e mandam<br \/>\nbuscar gente \u00e1 estrada de Cintra para perguntar o que se ha de fazer,<br \/>\no melhor para o filho \u00e9 deital-o \u00e1 roda.<\/p>\n<p>&#8211;O doutor discorre muito bem como philosopho distincto. Como puro medico,<br \/>\nesquece-lhe talvez que na conjunctura de que se trata, antes de deitar o filho<br \/>\n\u00e1 roda ha uma pequena formalidade a cumprir, que \u00e9 deital-o<br \/>\nao mundo.<\/p>\n<p>&#8211;Isso \u00e9 com os especialistas. Creio que n\u00e3o \u00e9 n&#8217;essa<br \/>\nqualidade que estou aqui.<\/p>\n<p>&#8211;Engana-se. \u00c9 precisamente como medico, \u00e9 n&#8217;essa qualidade<br \/>\nque aqui est\u00e1 e \u00e9 por esse titulo que viemos busca-lo de surpresa<br \/>\n\u00e1 estrada de Cintra e o levamos a occultas a prestar aux\u00edlio<br \/>\na uma pessoa que precisa d&#8217;elle.<\/p>\n<p>&#8211;Mas eu n\u00e3o fa\u00e7o clinica.<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 o mesmo. N\u00e3o exerce essa profiss\u00e3o; tanto melhor<br \/>\npara o nosso caso: n\u00e3o prejudica os seus doentes abandonando-os por<br \/>\nalgumas horas para nos seguir n&#8217;esta aventura. Mas \u00e9 formado em Paris<br \/>\ne publicou mesmo uma these<\/p>\n<p>de cirurgia que despertou a atten\u00e7\u00e3o e mereceu o elogio da faculdade.<\/p>\n<p>Queira fazer de conta que vae assistir a um parto.<\/p>\n<p>O meu amigo F&#8230; poz-se a rir e observou:<\/p>\n<p>&#8211;Mas eu que n\u00e3o tenho curso medico nem these alguma de que me accuse<br \/>\nna minha vida, n\u00e3o querer\u00e3o dizer-me o que vou fazer?<\/p>\n<p>&#8211;Quer saber o motivo porque se encontra aqui?&#8230; Eu lh&#8217;o digo.<\/p>\n<p>N&#8217;este momento por\u00e9m a carruagem parou repentinamente e os nossos<\/p>\n<p>companheiros sobresaltados ergueram-se.<\/p>\n<h3><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h3>\n<p>Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir successivamente<br \/>\nas duas lanternas e raspar um phosphoro na roda. Senti depois estalir a mola<br \/>\nque comprime a portinha que se fecha depois de accender as velas, e rangerem<br \/>\nnos anneis dos cachimbos os p\u00e9s das lanternas como se as estivessem<br \/>\nendireitando.<\/p>\n<p>N\u00e3o comprehend\u00ed logo a raz\u00e3o porque nos tivessemos detido<br \/>\npara similhante fim, quando n\u00e3o tinha ca\u00eddo a noite e \u00edamos<br \/>\npor bom caminho.<\/p>\n<p>Isto por\u00e9m explica-se por um requinte de precau\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA pessoa que nos servia de cocheiro n\u00e3o quereria parar em logar onde<br \/>\nhouvesse gente. Se tivessemos de atravessar uma povoa\u00e7\u00e3o, as<br \/>\nluzes que principiassem a accender-se e que n\u00f3s veriamos atravez da<br \/>\ncortina ou das fendas dos stores, poderiam dar-nos alguma id\u00e9a do sitio<br \/>\nem que nos achassemos. Por esta f\u00f3rma esse meio de investiga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesapparecia. Ao passarmos entre predios ou muros mais altos, a projec\u00e7\u00e3o<br \/>\nda luz forte das lanternas sobre as paredes e a reflex\u00e3o d&#8217;essa claridade<br \/>\npara dentro do trem impossibilitava-nos de distinguir se atravessavamos uma<br \/>\naldeia ou uma rua illuminada.<\/p>\n<p>Logo que a carruagem come\u00e7ou a rodar depois de accezas as lanternas,<br \/>\naquelle dos nossos companheiros que promettera explicar a F&#8230; a raz\u00e3o<br \/>\nporque elle nos acompanhava, prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211;O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no unicamente<br \/>\nn&#8217;este mundo tres amigos meus, amigos intimos, companheiros de infancia, camaradas<br \/>\nde estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um constantemente prompto<br \/>\na prestar aos outros os derradeiros sacrificios que<\/p>\n<p>p\u00f3de imp\u00f4r a amizade. Entre os nossos companheiros n\u00e3o havia<br \/>\num medico.<\/p>\n<p>Era mister obtel-o e era ao mesmo tempo indispensavel que n\u00e3o passasse<br \/>\na outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que est\u00e3o envoltos<br \/>\no amor de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascer\u00e1 provavelmente<br \/>\nesta noite ou \u00e1manh\u00e3 pela manh\u00e3; n\u00e3o devendo saber<br \/>\nninguem quem \u00e9 sua m\u00e3e, n\u00e3o devendo sequer por algum<br \/>\nindicio vir a suspeitar um dia quem ella seja, \u00e9 preciso que o doutor<br \/>\nignore quem s\u00e3o as pessoas com quem falla, e qual \u00e9 a casa em<br \/>\nque vae entrar. Eis o motivo por que n\u00f3s temos no rosto uma mascara;<br \/>\neis o motivo porque os senhores nos h\u00e3o de permittir que continuemos<br \/>\na ter cerrada esta carruagem, e que lhes vendemos os olhos antes de os apearmos<br \/>\ndefronte do predio a que v\u00e3o subir. Agora comprehende, continuou elle<br \/>\ndirigindo-se a F&#8230;, a raz\u00e3o por que nos acompanha. Era-nos impossivel<br \/>\nevitar que o senhor viesse hoje de Cintra com o seu amigo, era-nos impossivel<br \/>\nadiar esta visita, e era-nos impossivel tambem deixal-o no ponto da estrada<br \/>\nem que tom\u00e1mos o doutor. O senhor acharia facilmente meio de nos seguir<br \/>\ne de descobrir quem somos.<\/p>\n<p>&#8211;A lembran\u00e7a, notei eu, \u00e9 engenhosa mas n\u00e3o lisongeira<br \/>\npara a minha discri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;A confian\u00e7a na discri\u00e7\u00e3o alheia \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o<br \/>\nao segredo que nos n\u00e3o pertence.<\/p>\n<p>F&#8230; achava-se inteiramente d&#8217;accordo com esta maneira de ver, e disse-o<br \/>\nelogiando o esp\u00edrito da aventura romanesca dos mascarados.<\/p>\n<p>As palavras de F&#8230; accentuadas com sinceridade e com affecto, pareceu-me<br \/>\nque perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava discutir<br \/>\nmais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e surprehendia<br \/>\ndesagradavelmente esse c\u00f3rte imprevisto. Elle, que tinha a replica<br \/>\nprompta e a palavra facil, n\u00e3o achou que retorquir \u00e1 confian\u00e7a<br \/>\ncom que o tratavam, e guardou, desde esse momento at\u00e9 que cheg\u00e1mos,<br \/>\num silencio que devia pezar \u00e1s suas tendencias expansivas e discursadoras.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que pouco depois d&#8217;este dialogo o trem deixou a estrada<br \/>\nde macadam em que at\u00e9 ahi rodara e entrou n&#8217;um caminho vicinal ou n&#8217;um<br \/>\natalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que<br \/>\nseguia sempre a galope governada por m\u00e3o de mestre, e o estrepito dos<br \/>\nstores embatendo nos caixilhos mal permittiriam conversar.<\/p>\n<p>Torn\u00e1mos por fim a entrar n&#8217;uma estrada lisa. A carruagem parou ainda<br \/>\numa segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211;L\u00e1 vou!<\/p>\n<p>Voltou pouco depois, e eu ouvi alguem que dizia:<\/p>\n<p>&#8211;V\u00e3o com raparigas para Lisboa.<\/p>\n<p>O trem prosseguiu.<\/p>\n<p>Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto plaus\u00edvel<br \/>\npara que os guardas nos n\u00e3o abrissem a portinhola? Entender-se-hia<br \/>\ncom os meus companheiros a phrase que eu ouvira?<\/p>\n<p>N\u00e3o posso dizel-o com certeza.<\/p>\n<p>A carruagem entrou logo depois n&#8217;um pavimento lageado e d&#8217;ahi a dois ou tres<br \/>\nminutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse:<\/p>\n<p>&#8211;Cheg\u00e1mos.<\/p>\n<p>O mascardo que n\u00e3o tornara a pronunciar uma palavra desde o momento<br \/>\nque acima indiquei, tirou um len\u00e7o da algibeira e disse-nos com alguma<br \/>\ncommo\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;Tenham paciencia! perd\u00f4em-m&#8217;o&#8230; Assim \u00e9 preciso!<\/p>\n<p>F&#8230; approximou o rosto, e elle vendou-lhe os olhos. Eu fui egualmente vendado<br \/>\npelo que estava em frente de mim.<\/p>\n<p>Ape\u00e1mo-nos em seguida e entr\u00e1mos n&#8217;um corredor conduzidos pela<br \/>\nm\u00e3o dos nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude<br \/>\ndeduzir do modo por que nos encontr\u00e1mos e d\u00e9mos passagem a alguem<br \/>\nque sahia. Quem quer que era disse:<\/p>\n<p>&#8211;Levo o trem?<\/p>\n<p>A voz do que nos guiara respondeu:<\/p>\n<p>&#8211;Leva.<\/p>\n<p>Demor\u00e1mo-nos um momento. A porta por onde haviamos entrado foi fechada<br \/>\n\u00e1 chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo:<\/p>\n<p>&#8211;Vamos!<\/p>\n<p>D\u00e9mos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tom\u00e1mos<br \/>\n\u00e1 direita e entr\u00e1mos na escada. Era de madeira, ingreme e velha,<br \/>\ncoberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos p\u00e9s,<br \/>\neram ondeados na superficie e esbatidos e arredondados nas saliencias primitivamente<br \/>\nangulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de<br \/>\ncorrim\u00e3o; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um<br \/>\nar<\/p>\n<p>humido e impregnado das exhala\u00e7\u00f5es interiores dos predios deshabitados.<\/p>\n<p>Subimos oito ou dez degraus, tom\u00e1mos \u00e1 esquerda n&#8217;um patamar,<br \/>\nsubimos ainda outros degraus e par\u00e1mos n&#8217;um primeiro andar.<\/p>\n<p>Ninguem tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lugubre<br \/>\nn&#8217;este silencio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.<\/p>\n<p>Ouvi ent\u00e3o a nossa carruagem que se affastava, e senti uma suppress\u00e3o,<br \/>\numa especie de sobresalto pueril.<\/p>\n<p>Em seguida rangeu uma fechadura e transpozemos o limiar de uma porta, que<br \/>\nfoi outra vez fechada \u00e1 chave depois de havermos entrado.<\/p>\n<p>&#8211;Podem tirar os len\u00e7os, disse-me um dos nossos companheiros.<\/p>\n<p>Descobri os olhos. Era noite.<\/p>\n<p>Um dos mascarados raspou um phosphoro, accendeu cinco velas n&#8217;uma serpentina<br \/>\nde bronze, pegou na serpentina, approximou-se de um movel que estava coberto<br \/>\ncom uma manta de viagem, e levantou a manta.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude conter a commo\u00e7\u00e3o que senti, e soltei um grito<br \/>\nde horror.<\/p>\n<p>O que eu tinha diante de mim era o cadaver de um homem.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Escrevo-lhe hoje fatigado, e nervoso. Todo este obscuro negocio em que me<br \/>\nacho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tens\u00e3o de esp\u00edrito<br \/>\nem que estou para comprehender a secreta verdade d&#8217;esta aventura, os habitos<br \/>\nda minha vida repousada subitamente exaltados,&#8211;tudo isto me d\u00e1 um<br \/>\nestado de irrita\u00e7\u00e3o morbida que me aniquilla.<\/p>\n<p>Logo que vi o cadaver perguntei violentamente:<\/p>\n<p>&#8211;Que quer isto dizer, meus senhores?<\/p>\n<p>Um dos mascarados, o mais alto, respondeu:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o ha tempo para explica\u00e7\u00f5es. Perd\u00f4em ter sido<br \/>\nenganados! Pelo amor de Deus, doutor, veja esse homem. Quem tem? Est\u00e1<br \/>\nmorto? Est\u00e1 adormecido com algum narcotico?<\/p>\n<p>Dizia estas palavras com uma voz t\u00e3o instante, t\u00e3o dolorosamente<br \/>\ninterrogativa que eu, dominado pelo imprevisto d&#8217;aquella situa\u00e7\u00e3o,<br \/>\napproximei-me do cadaver, e examinei-o.<\/p>\n<p>Estava deitado n&#8217;uma _chaise-longue_, com a cabe\u00e7a pousada n&#8217;uma almofada,<br \/>\nas pernas ligeiramente cruzadas, um dos bra\u00e7os curvado descan\u00e7ando<br \/>\nno peito, o outro pendente e a m\u00e3o inerte assente sobre o ch\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o tinha golpe, contus\u00e3o, ferimento, ou extravasamento de sangue;<br \/>\nn\u00e3o tinha signaes de congest\u00e3o, nem vestigios de estrangula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA express\u00e3o da physionomia n\u00e3o denotava soffrimento, contrac\u00e7\u00e3o<br \/>\nou d\u00f4r. Os olhos cerrados frouxamente, eram como n&#8217;um somno leve. Estava<br \/>\nfrio e livido.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero aqui fazer a historia do que encontrei no cadaver. Seria<br \/>\nembara\u00e7ar esta narra\u00e7\u00e3o concisa com explica\u00e7\u00f5es<br \/>\nscientificas. Mesmo sem exames detidos, e sem os elementos de aprecia\u00e7\u00e3o<br \/>\nque s\u00f3 podem fornecer a analyse ou a autopsia, pareceu-me que aquelle<br \/>\nhomem estava sob a influencia j\u00e1 mortal de um narcotico, que n\u00e3o<br \/>\nera tempo de dominar.<\/p>\n<p>&#8211;Que bebeu elle? perguntei, com uma curiosidade exclusivamente medica.<\/p>\n<p>N\u00e3o pensava ent\u00e3o em crime nem na mysteriosa aventura que ali<br \/>\nme prendia; queria s\u00f3 ter uma historia progressiva dos factos que tinham<br \/>\ndeterminado a narcotisa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao p\u00e9 da _chaise-longue_<br \/>\nsobre uma cadeira de estofo.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o sei, disse elle, talvez aquillo.<\/p>\n<p>O que havia no copo era evidentemente opio.<\/p>\n<p>&#8211;Este homem est\u00e1 morto, disse eu.<\/p>\n<p>&#8211;Morto! repetiu um d&#8217;elles, tremendo.<\/p>\n<p>Ergui as palpebras do cadaver, os olhos tinham uma dilata\u00e7\u00e3o<br \/>\nfixa, horrivel.<\/p>\n<p>Eu fitei-os ent\u00e3o um por um e disse-lhes serenamente:<\/p>\n<p>&#8211;Ignoro o motivo porque vim aqui; como medico d&#8217;um doente sou inutil; como<br \/>\ntestemunha posso ser perigoso.<\/p>\n<p>Um dos mascarados veiu para mim e com a voz insinuante, e grave:<\/p>\n<p>&#8211;Escute, cr\u00ea em sua consciencia que esse homem esteja morto?<\/p>\n<p>&#8211;De certo.<\/p>\n<p>&#8211;E qual pensa que fosse a causa da morte?<\/p>\n<p>&#8211;O opio; mas creio que devem sabel-o melhor do que eu os que andam mascarados<br \/>\nsurprehendendo gente pela estrada de Cintra.<\/p>\n<p>Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que cortasse<br \/>\nos embara\u00e7os da minha situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211;Perd\u00e3o, disse um, e ha que tempo supp\u00f5e que esse homem esteja<br \/>\nmorto?<\/p>\n<p>N\u00e3o respondi, puz o chapeu na cabe\u00e7a e comecei a cal\u00e7ar<br \/>\nas luvas. F&#8230;<\/p>\n<p>junto da janella batia o p\u00e9 impaciente. Houve um silencio.<\/p>\n<p>Aquelle quarto pesado de estofos, o cadaver estendido com reflexos lividos<br \/>\nna face, os vultos mascarados, o socego lugubre do logar, as luzes claras,<br \/>\ntudo dava \u00e1quelle momento um aspecto profundamente sinistro.<\/p>\n<p>&#8211;Meus senhores, disse ent\u00e3o lentamente um dos mascarados, o mais<br \/>\nalto, o que tinha guiado a carruagem&#8211;comprehendem perfeitamente, que se n\u00f3s<br \/>\ntivessemos morto este homem sabiamos bem que um medico era inutil, e uma testemunha<br \/>\nimportuna! Desconfiavamos, \u00e9 claro, que estava sob a ac\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um narcotico, mas queriamos adquirir a certeza da morte. Por isso os trouxemos.<br \/>\nA respeito do crime estamos t\u00e3o ignorantes como os senhores. Se n\u00e3o<br \/>\nentregamos este caso \u00e1 policia, se cerc\u00e1mos de mysterio e de<br \/>\nviolencia a sua visita a esta casa, se lhes vend\u00e1mos os olhos, \u00e9<br \/>\nporque receavamos que as indaga\u00e7\u00f5es que se podessem fazer, conduzissem<br \/>\na descobrir, como criminoso ou como cumplice, alguem que n\u00f3s temos<br \/>\nem nossa honra salvar; se lhes damos estas explica\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Essas explica\u00e7\u00f5es s\u00e3o absurdas! gritou F. Aqui ha<br \/>\num crime; este homem est\u00e1 morto, os senhores, mascarados; esta casa<br \/>\nparece solitaria, n\u00f3s achamo-nos aqui violentados, e todas estas circumstancias<br \/>\nteem um mysterio t\u00e3o revoltante, uma fei\u00e7\u00e3o t\u00e3o<br \/>\ncriminosa, que n\u00e3o queremos nem pelo mais leve acto, nem pela mais<br \/>\ninvoluntaria assistencia, ser parte n&#8217;este negocio. N\u00e3o temos aqui<br \/>\nnada que fazer; queiram abrir aquella porta.<\/p>\n<p>Com a violencia dos seus gestos, um dos mascarados riu.<\/p>\n<p>&#8211;Ah! os senhores escarnecem! gritou F&#8230;<\/p>\n<p>E arremessando-se violentamente contra a janella, ia fazer saltar os fechos.<br \/>\nMas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre elle, curvaram-n&#8217;o,<br \/>\narrastaram-n&#8217;o at\u00e9 uma poltrona, e deixaram-n&#8217;o cair, offegante, tremulo<br \/>\nde desespero.<\/p>\n<p>Eu tinha ficado sentado e impassivel.<\/p>\n<p>&#8211;Meus senhores, observei, notem que emquanto o meu amigo protesta pela colera,<br \/>\neu protesto pelo tedio.<\/p>\n<p>E accendi um charuto.<\/p>\n<p>&#8211;Mas com os diabos! tomam-nos por assassinos! gritou um violentamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o se cr\u00ea na honra, na palavra de um homem! Se voc\u00eas<br \/>\nn\u00e3o tiram a mascara, tiro-a eu! \u00c9 necessario que nos vejam!<br \/>\nN\u00e3o quero, nem escondido por um peda\u00e7o de cart\u00e3o, passar<br \/>\npor assassino!&#8230; Senhores! dou-lhes a minha palavra que ignoro quem matou<br \/>\neste homem!<\/p>\n<p>E fez um gesto furioso. N&#8217;este movimento, a mascara desapertou-se,<\/p>\n<p>descahindo. Elle voltou-se rapidamente, levando as m\u00e3os abertas ao rosto.<\/p>\n<p>Foi um movimento instinctivo, irreflectido, de desespera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs outros cercaram-n&#8217;o, olhando rapidamente para F&#8230;, que tinha ficado impassivel.<\/p>\n<p>Um dos mascarados, que n\u00e3o tinha ainda falado, o que na carruagem<br \/>\nviera defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio,<br \/>\ncom suspeita. Houve um longo silencio. Os mascarados, a um canto, fallavam<br \/>\nbaixo. Eu no emtanto examinava a sala.<\/p>\n<p>Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete molle, espesso, bom<br \/>\npara correr com os p\u00e9s n\u00fas. O estofo dos moveis era de seda<br \/>\nvermelha com uma barra verde, unica e transversal, como t\u00eaem na antiga<br \/>\nheraldica os bras\u00f5es dos bastardos. As cortinas das janellas pendiam<br \/>\nem pregas amplas e suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tepido e penetrante,<br \/>\nonde se sentia a verbena e o perfume de _marechala_.<\/p>\n<p>O homem que estava morto era mo\u00e7o, de perfil sympathico e fino, de<br \/>\nbigode louro. Tinha o casaco e collete despidos, e o largo peitilho da camisa<br \/>\nreluzia com bot\u00f5es de perolas; a cal\u00e7a era estreita, bem talhada,<br \/>\nde uma c\u00f4r clara. Tinha apenas cal\u00e7ado um sapato de verniz; as<br \/>\nmeias eram de seda em grandes quadrados brancos e cinzentos.<\/p>\n<p>Pella physionomia, pela construc\u00e7\u00e3o, pelo corte e c\u00f4r<br \/>\ndo cabello, aquelle homem parecia inglez.<\/p>\n<p>Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente corrido.<br \/>\nParecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo luxo, d&#8217;um<br \/>\naroma que andava no ar e uma sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9pida que d\u00e3o<br \/>\ntodos os logares onde ordinariamente se est\u00e1, se falla e se vive, aquelle<br \/>\nquarto n\u00e3o parecia habitado; n\u00e3o havia um livro, um casaco sobre<br \/>\numa cadeira, umas luvas cahidas, alguma d&#8217;estas mil pequenas coisas confusas,<br \/>\nque demonstram a vida e os seus incidentes triviaes.<\/p>\n<p>F&#8230;, tinha-se approximado de mim.<\/p>\n<p>&#8211;Conheceste aquelle a quem caiu a mascara? perguntei.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o. Conheceste?<\/p>\n<p>&#8211;Tambem n\u00e3o. Ha um que ainda n\u00e3o fallou, que est\u00e1 sempre<br \/>\nolhando para ti.<\/p>\n<p>Receia que o conhe\u00e7as, \u00e9 teu amigo talvez, n\u00e3o o percas<br \/>\nde vista.<\/p>\n<p>Um dos mascarados approximou-se, perguntando:<\/p>\n<p>&#8211;Quanto tempo p\u00f3de ficar o corpo assim n&#8217;esta _chaise-longue_?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o respondi. O que me interrogou fez um movimento colerico, mas<br \/>\nconteve-se. N&#8217;este momento o mascarado mais alto, que tinha saido, entrara,<br \/>\ndizendo para os outros:<\/p>\n<p>&#8211;Prompto!&#8230;<\/p>\n<p>Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pendula e os passos de F&#8230;, que passeiava<br \/>\nagitado, com o sobrolho duro, torcendo o bigode.<\/p>\n<p>&#8211;Meus senhores, continuou voltando-se para n\u00f3s o mascarado&#8211;damos-lhe<br \/>\na<\/p>\n<p>nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este successo.<\/p>\n<p>Sobre isto n\u00e3o damos explica\u00e7\u00f5es. Desde este momento<br \/>\nos senhores est\u00e3o retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros<br \/>\nfalsos ou ladr\u00f5es, tudo o que quizerem. Imaginem que est\u00e3o aqui<br \/>\npela violencia, pela corrup\u00e7\u00e3o, pela astucia, ou pela for\u00e7a<br \/>\nda lei&#8230; como entenderem! O facto \u00e9 que ficam at\u00e9 amanh\u00e3.<br \/>\nO seu quarto&#8211;disse-me&#8211;\u00e9 n&#8217;aquella alcova, e o seu&#8211;apontou para F.&#8211;l\u00e1<br \/>\ndentro. Eu fico comsigo, doutor, n&#8217;este sof\u00e1. Um dos meus amigos ser\u00e1<br \/>\nl\u00e1 dentro o criado de quarto do seu amigo. \u00c1manh\u00e3 despedimo-nos<br \/>\namigavelmente e podem dar parte \u00e1 policia ou escrever para os jornaes.<\/p>\n<p>Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquillidade. N\u00e3o<br \/>\nrespondemos.<\/p>\n<p>Os mascarados, em quem se percebia um certo embara\u00e7o, uma evidente<br \/>\nfalta<\/p>\n<p>de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova.<\/p>\n<p>Eu passeava. N&#8217;uma das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto<br \/>\nd&#8217;uma poltrona, uma coisa branca similhante a um len\u00e7o. Passei defronte<br \/>\nda poltrona, deixei voluntariamente cair o meu len\u00e7o, e no movimento<br \/>\nque fiz para o apanhar, lancei despercebidamente m\u00e3o do objecto caido.<br \/>\nEra effectivamente um len\u00e7o. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande<br \/>\ndelicadeza de tacto; era fino, com rendas, um len\u00e7o de mulher. Parecia<br \/>\nter bordadas uma firma e uma cor\u00f4a.<\/p>\n<p>N&#8217;este momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se<br \/>\na F&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas \u00e9 necessario vendar-lhe<br \/>\nos olhos.<\/p>\n<p>F. tomou altivamente o len\u00e7o das m\u00e3os do mascarado, cobriu<br \/>\nelle mesmo os olhos, e sairam.<\/p>\n<p>Fiquei s\u00f3 com o mascarado alto, que tinha a voz sympathica e attrahente.<\/p>\n<p>Perguntou-me se queria jantar. Comquanto lhe respondesse negativamente,<\/p>\n<p>elle abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias.<\/p>\n<p>Bebi apenas um copo d&#8217;agua. Elle comeu.<\/p>\n<p>Lentamente, gradualmente, come\u00e7\u00e1mos a conversar quasi em amizade.<br \/>\nEu sou naturalmente expansivo, o silencio pesava-me. Elle era instruido, tinha<br \/>\nviajado e tinha lido.<\/p>\n<p>De repente, pouco depois da uma hora da noite, sentimos na escada um andar<br \/>\nleve e cauteloso, e logo alguem tocar na porta do quarto onde estavamos. O<\/p>\n<p>mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso.<\/p>\n<p>Erguemo-nos sobresaltados. O cadaver achava-se coberto. O mascarado apagou<br \/>\nas luzes.<\/p>\n<p>Eu estava aterrado. O silencio era profundo; ouvia-se apenas o ruido das<br \/>\nchaves que a pessoa que estava f\u00f3ra \u00e1s escuras procurava introduzir<br \/>\nna fechadura.<\/p>\n<p>N\u00f3s, immoveis, n\u00e3o respiravamos.<\/p>\n<p>Finalmente a porta abriu-se, alguem entrou, fechou-a, accendeu um phosphoro,<br \/>\nolhou. Ent\u00e3o vendo-nos, deu um grito e caiu no ch\u00e3o, immovel,<br \/>\ncom os bra\u00e7os estendidos.<\/p>\n<p>\u00c1manh\u00e3, mais socegado e claro de recorda\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndirei o que se seguiu.<\/p>\n<p>* * * * *<\/p>\n<p>P.S.&#8211;Uma circumstancia que p\u00f3de esclarecer sobre a rua e o sitio<br \/>\nda casa: De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra<br \/>\ncantando o fado. Devia ser meia noite. O que cantava dizia esta quadra:<\/p>\n<p>Escrevi uma carta a Cupido A mandar-lhe perguntar Se um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\noffendido&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando,<br \/>\nlerem esta carta, prestar\u00e3o um notavel esclarecimento dizendo em que<br \/>\nrua passavam, e defronte de que casa, quando cantaram aquellas rymas<\/p>\n<p>populares.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Hoje, mais socegado e sereno, posso contar-lhe com precis\u00e3o e realidade,<br \/>\nreconstruindo-o do modo mais nitido, nos dialogos e nos olhares, o que se<br \/>\nseguiu \u00e1 entrada imprevista d&#8217;aquella pessoa no quarto onde estava<br \/>\no morto.<\/p>\n<p>O homem tinha ficado estendido no ch\u00e3o, sem sentidos: molh\u00e1mos-lhe<br \/>\na testa, demos-lhe a respirar vinagre de _toilette_. Voltou a si, e, ainda<br \/>\ntremulo e pallido, o seu primeiro movimento instinctivo foi correr para a<br \/>\njanella!<\/p>\n<p>O mascarado, por\u00e9m, tinha-o envolvido fortemente com os bra\u00e7os,<br \/>\ne<\/p>\n<p>arremessou-o com violencia para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto.<\/p>\n<p>Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme:<\/p>\n<p>&#8211;Se faz um gesto, se d\u00e1 um grito, se tem um movimento, varo- lhe<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211;V\u00e1, v\u00e1, disse eu, breve! responda&#8230; Que quer? Que veio fazer<br \/>\naqui?<\/p>\n<p>Elle n\u00e3o respondia, e com a cabe\u00e7a tomada entre as m\u00e3os,<br \/>\nrepetia machinalmente:<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 perdido tudo! Est\u00e1 tudo perdido!<\/p>\n<p>&#8211;Falle, disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o bra\u00e7o, que<br \/>\nveiu fazer aqui? Que \u00e9 isto? como soube?&#8230;<\/p>\n<p>A sua agita\u00e7\u00e3o era extrema: luziam-lhe os olhos entre o setim<br \/>\nnegro da mascara.<\/p>\n<p>&#8211;Que veiu fazer aqui? repetiu agarrando-o pelos hombros e sacudindo-o como<br \/>\num vime.<\/p>\n<p>&#8211;Escute&#8230; disse o homem convulsivamente. Vinha saber&#8230; disseram-me&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. Parece que j\u00e1 c\u00e1 estava a policia&#8230; queria&#8230;<br \/>\nsaber a verdade, indagar quem o tinha assassinado&#8230; vinha tomar informa\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Sabe tudo! disse o mascarado, aterrado, deixando pender os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Eu estava surprehendido; aquelle homem conhecia o crime, sabia que havia<br \/>\nali um cadaver! S\u00f3 elle o sabia, porque deviam ser de certo absolutamente<br \/>\nignorados aquelles successos lugubres. Por consequencia quem sabia onde estava<br \/>\no cadaver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao logar do<br \/>\nassassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surprehendido, estava positivamente<br \/>\nenvolvido no crime&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Quem lhe deu a chave? perguntou o mascarado.<\/p>\n<p>O homem calou-se.<\/p>\n<p>&#8211;Quem lhe fallou n&#8217;isto?<\/p>\n<p>Calou-se.<\/p>\n<p>&#8211;Que vinha fazer, de noite, \u00e1s escondidas, a esta casa?<\/p>\n<p>Calou-se.<\/p>\n<p>&#8211;Mas como sabia d&#8217;este absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento<br \/>\nn\u00f3s?&#8230;<\/p>\n<p>E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptivel do expediente<br \/>\nque ia tomar, accrescentou:<\/p>\n<p>&#8212; &#8230; n\u00f3s e o senhor comiss\u00e1rio.<\/p>\n<p>O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletot e examinou-lhe os<br \/>\nbolsos. Encontrou um pequeno martello e um masso de pregos.<\/p>\n<p>&#8211;Para que era isto?<\/p>\n<p>&#8211;Trazia naturalmente isso, queria concertar n\u00e3o sei qu\u00ea, em<br \/>\ncasa&#8230; um caixote&#8230;<\/p>\n<p>O mascarado tomou a luz, approximou-se do morto, e por um movimento rapido,<br \/>\ntirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a livida face<br \/>\ndo cadaver.<\/p>\n<p>&#8211;Conhece este homem?<\/p>\n<p>O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar,<br \/>\ndemorado e attento.<\/p>\n<p>Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistencia implacavel nos olhos<br \/>\nd&#8217;elle, dominei-o, d\u00edsse-lhe baixo, apertando-lhe a m\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;Porque o matou?<\/p>\n<p>&#8211;Eu? gritou elle. Est\u00e1 doido!<\/p>\n<p>Era uma resposta clara, franca, natural, innocente.<\/p>\n<p>&#8211;Mas porque veiu aqui? observou o mascarado, como soube do crime? Como tinha<br \/>\na chave? Para que era este martello? Quem \u00e9 o senhor? Ou d\u00e1<br \/>\nexplica\u00e7\u00f5es claras, ou d&#8217;aqui a uma hora est\u00e1 no segredo,<br \/>\ne d&#8217;aqui a um mez nas gal\u00e9s. Chame os outros, disse elle para mim.<\/p>\n<p>&#8211;Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! gritou o desconhecido.<\/p>\n<p>Esper\u00e1mos; mas retraindo a voz, e com uma intona\u00e7\u00e3o<br \/>\ndemorada, como quem dicta:<\/p>\n<p>&#8211;A verdade, prosseguiu, \u00e9 esta: encontrei hoje de tarde um homem<br \/>\ndesconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que \u00e9 Fulano, que<br \/>\n\u00e9 destemido, v\u00e1 a tal rua, n.\u00ba tantos&#8230;<\/p>\n<p>Eu tive um movimento avido, curioso, interrogador. Ia emfim saber onde estava!<\/p>\n<p>Mas o mascarado com um movimento impetuoso p\u00f4z-lhe a m\u00e3o aberta<br \/>\nsobre a bocca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terr\u00edvel:<\/p>\n<p>&#8211;Se diz onde estamos, mato-o.<\/p>\n<p>O homem fitou-nos: comprehendeu evidentemente que eu tambem estava ali, sem<br \/>\nsaber onde, por um mysterio, que os motivos da nossa presen\u00e7a eram<\/p>\n<p>tambem suspeitos, e que por consequencia n\u00e3o eramos empregados da policia.<\/p>\n<p>Esteve um momento calado e accrescentou:<\/p>\n<p>&#8211;Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem<br \/>\naqui?<\/p>\n<p>&#8211;Est\u00e1 preso, gritou o mascarado. V\u00e1 chamar os outros, doutor.<br \/>\n\u00c9 o assassino.<\/p>\n<p>&#8211;Esperem, esperem, gritou elle, n\u00e3o comprehendo! Quem s\u00e3o<br \/>\nos senhores? Suppuz que eram da policia&#8230; S\u00e3o talvez&#8230; disfar\u00e7am<br \/>\npara me<\/p>\n<p>surprehender! Eu n\u00e3o conhe\u00e7o aquelle homem, nunca o vi. Deixem-me<br \/>\nsair&#8230;<\/p>\n<p>Que desgra\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211;Este miseravel ha de fallar, elle tem o segredo! bradava o mascarado.<\/p>\n<p>Eu tinha-me sentado ao p\u00e9 do homem. Queria tentar a do\u00e7ura,<br \/>\na astucia.<\/p>\n<p>Elle tinha serenado, fallava com intelligencia e com facilidade. Disse-me<br \/>\nque se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Vizeu.<\/p>\n<p>O mascarado escutava-nos, silencioso e attento. Eu fallando baixo com o<br \/>\nhomem, tinha-lhe pousado a m\u00e3o sobre o joelho. Elle pedia-me _que o<br \/>\nsalvasse_, chamava-me seu _amigo_. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado<br \/>\npela imagina\u00e7\u00e3o. Era facil surprehender a verdade dos seus actos.<br \/>\nCom um modo intimo, confidencial, fiz-lhe perguntas apparentemente sinceras<br \/>\ne simples, mas cheias de trai\u00e7\u00e3o e de analyse. Elle, com uma<br \/>\nboa f\u00e9 inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.<\/p>\n<p>&#8211;Ora, disse-lhe eu, uma cousa me admira em tudo isto.<\/p>\n<p>&#8211;Qual?<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 que n\u00e3o tivesse deixado signaes o arsenico&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Foi opio, interrompeu elle, com uma simplicidade infantil.<\/p>\n<p>Ergui-me de salto. Aquelle homem, se n\u00e3o era o assassino, conhecia<br \/>\nprofundamente todos os segredos do crime.<\/p>\n<p>&#8211;Sabe tudo, disse eu ao mascarado.<\/p>\n<p>&#8211;Foi elle, confirmou o mascarado convencido.<\/p>\n<p>Eu tomei-o ent\u00e3o de parte, e com uma franqueza simples:<\/p>\n<p>&#8211;A comedia acabou, meu amigo, tire a sua mascara, apertemo-nos a m\u00e3o,<br \/>\nd\u00eamos parte \u00e1 policia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir,<br \/>\nn\u00e3o tem decerto que v\u00ear n&#8217;este neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>&#8211;De certo que n\u00e3o. Este homem \u00e9 o assassino.<\/p>\n<p>E voltando-se para elle com um olhar terrivel, que flammejava debaixo da<br \/>\nmascara:<\/p>\n<p>&#8211;E porque o matou?<\/p>\n<p>&#8211;Matei-o&#8230; respondeu o homem.<\/p>\n<p>&#8211;Matou-o, disse o mascarado com uma lentid\u00e3o de voz que me aterrou,<br \/>\npara lhe roubar 2:300 libras em _bank-notes_, que aquelle homem tinha no bolso,<br \/>\ndentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas lettras de prata,<br \/>\nque eram as iniciais do seu nome.<\/p>\n<p>&#8211;Eu!&#8230; para o roubar! Que infamia! Mente! Eu n\u00e3o conhe\u00e7o<br \/>\nesse homem, nunca o vi, n\u00e3o o matei!<\/p>\n<p>&#8211;Que malditas contradic\u00e7\u00f5es! gritou o mascarado exaltado.<\/p>\n<p>A.M.C. objectou lentamente:<\/p>\n<p>&#8211;O senhor que est\u00e1 mascarado&#8230; este homem n\u00e3o era seu amigo,<br \/>\no unico amigo que elle conhecia em Lisboa?<\/p>\n<p>&#8211;Como sabe? gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Falle,diga.<\/p>\n<p>&#8211;Por motivos que devo occultar, continuou o homem, sabia que este sujeito,<br \/>\nque \u00e9 extrangeiro, que n\u00e3o tem rela\u00e7\u00f5es em Lisboa,<br \/>\nque chegou ha poucas semanas, vinha a esta casa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 verdade, atalhou o mascarado.<\/p>\n<p>&#8211;Que se encontrava aqui com alguem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 verdade, disse o mascarado.<\/p>\n<p>Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das id\u00e9as perturbada,<br \/>\nvia apparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicavel.<\/p>\n<p>&#8211;Al\u00e9m d&#8217;isso, continuou o homem desconhecido, ha de saber tambem<br \/>\nque um grande segredo occupava a vida d&#8217;este infeliz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 verdade, \u00e9 verdade, dizia o mascarado absorto.<\/p>\n<p>&#8211;Pois bem, hontem uma pessoa, que casualmente n\u00e3o podia sair de casa,<br \/>\npediu-me que viesse ver se o encontrava&#8230;<\/p>\n<p>N\u00f3s esperavamos, petrificados, o fim daquellas confiss\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211;Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na m\u00e3o tinha este papel.<\/p>\n<p>E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada.<\/p>\n<p>&#8211;Leia, disse elle ao mascarado.<\/p>\n<p>Este approximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com<br \/>\nos bra\u00e7os pendentes, os olhos cerrados.<\/p>\n<p>Ergui o papel, li:<\/p>\n<p>_I declare that I have killed myself with opium._<\/p>\n<p>(Declaro que me matei com opio).<\/p>\n<p>Fiquei petrificado.<\/p>\n<p>O mascarado dizia com a voz absorta como n&#8217;um sonho:<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o \u00e9 possivel. Mas \u00e9 a lettra dele, \u00e9! Ah!<br \/>\nque mysterio, que mysterio!<\/p>\n<p>Vinha a amanhecer.<\/p>\n<p>Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recorda\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAt\u00e9<\/p>\n<p>\u00e1manh\u00e3.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>Cap\u00edtulo VI<\/h2>\n<p>Pe\u00e7o-lhe agora toda a sua atten\u00e7\u00e3o para o que tenho<br \/>\nde contar-lhe.<\/p>\n<p>A madrugada vinha. Sentiam-se j\u00e1 os ruidos da povoa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque desperta. A rua<\/p>\n<p>n\u00e3o era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>Tambem n\u00e3o era uma rua larga, porque o echo das carro\u00e7as era<br \/>\nprofundo, cheio e proximo. Ouvia preg\u00f5es. N\u00e3o sentia carruagens.<\/p>\n<p>O mascarado tinha ficado n&#8217;uma prostra\u00e7\u00e3o extrema, sentado,<br \/>\nimmovel, com a cabe\u00e7a apoiada nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sof\u00e1,<br \/>\ncom os olhos cerrados, como adormecido.<\/p>\n<p>Eu abri as portas da janella: era dia. Os transparentes e as persianas<\/p>\n<p>estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candieiros.<\/p>\n<p>Entrava uma luz lugubre, esverdeada.<\/p>\n<p>&#8211;Meu amigo, disse eu ao mascarado, \u00e9 dia. Coragem! \u00e9 necessario<br \/>\nfazer o exame do quarto, movel por movel.<\/p>\n<p>Elle ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma cama,<br \/>\ne \u00e1 cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um panno de velludo<br \/>\nverde. A cama n\u00e3o estava desmanchada, cobria-a um _edredon_ de setim<br \/>\nencarnado. Tinha um s\u00f3 travesseiro largo, alto e f\u00f4fo, como se<br \/>\nn\u00e3o usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vasio e uma jarra<br \/>\ncom flores murchas. Havia um lavatorio, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas<br \/>\ndobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova estava<br \/>\numa bengala grossa com estoque.<\/p>\n<p>Na disposi\u00e7\u00e3o dos objectos na sala n\u00e3o havia nenhuma<br \/>\nparticularidade significativa. O exame d&#8217;ella dava na verdade a persuas\u00e3o<br \/>\nde que se estava n&#8217;uma casa raramente habitada, visitada a espa\u00e7os<br \/>\napenas, sendo um logar de entrevistas, e n\u00e3o um interior regular.<\/p>\n<p>A casaca e o collete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos via-se<br \/>\nno ch\u00e3o, ao p\u00e9 da _chaise-longue_; o chapeu achava-se sobre<br \/>\no tapete, a um canto, como arremessado. O paletot estava caido ao p\u00e9<br \/>\nda cama.<\/p>\n<p>Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: n\u00e3o se encontrou<br \/>\ncarteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do collete estava o<br \/>\nrelogio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha d&#8217;ouro,<br \/>\ncom dinheiro miudo. N\u00e3o se lhe encontrou len\u00e7o. N\u00e3o se<br \/>\np\u00f4de averiguar em que tivesse sido trazido de f\u00f3ra o opio; n\u00e3o<br \/>\nappareceu frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido<br \/>\nou em p\u00f3; e foi a primeira difficuldade que no meu esp\u00edrito<br \/>\nse apresentou contra o suicidio.<\/p>\n<p>Perguntei se n\u00e3o havia na casa outros quartos que communicassem com<br \/>\naquelle aposento e que devessemos visitar.<\/p>\n<p>&#8211;H\u00e1, disse o mascarado, mas este predio tem duas entradas e duas<br \/>\nescadas.<\/p>\n<p>Ora aquella porta, que communica com os demais quartos, encontr\u00e1mol-a<br \/>\nfechada pelo outro lado quando cheg\u00e1mos aqui. Logo este homem n\u00e3o<br \/>\nsaiu d&#8217;esta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto.<\/p>\n<p>Como tinha ent\u00e3o trazido o opio? Ainda quando o tivesse j\u00e1<br \/>\nno quarto, o<\/p>\n<p>frasco, ou qualquer envolucro que contivesse o narcotico devia apparecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara<br \/>\no resto da agua opiada, alli estava. Um indicio mais grave parecia destruir<br \/>\na hypothese do suicidio: n\u00e3o se encontrou a gravata do morto. N\u00e3o<br \/>\nera natural que elle a tivesse tirado, que a tivesse destruido ou lan\u00e7ado<br \/>\nf\u00f3ra. N\u00e3o era tambem racional que tendo vindo \u00e1quelle<br \/>\nquarto, esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, n\u00e3o<br \/>\ntrouxesse gravata. Alguem pois tinha estado n&#8217;aquella casa, ou pouco antes<br \/>\nda morte ou ao tempo d&#8217;ella. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado<br \/>\na gravata do morto.<\/p>\n<p>Ora a presen\u00e7a de alguem n&#8217;aquelle quarto, coincidindo com a estada<br \/>\ndo supposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicidio e dava presump\u00e7\u00f5es<br \/>\nao crime.<\/p>\n<p>Aproxim\u00e1mo-nos da janella, examin\u00e1mos detidamente o papel em<br \/>\nque estava escripta a declara\u00e7\u00e3o do suicida.<\/p>\n<p>&#8211;A lettra \u00e9 d&#8217;ele, parece-me indubitavel que \u00e9&#8211;disse o mascarado&#8211;mas<br \/>\nna verdade, n\u00e3o sei porque, n\u00e3o lhe acho a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nusual da sua escripta!<\/p>\n<p>Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas.<\/p>\n<p>Notei logo no alto da pagina a impress\u00e3o muito apagada, muito indistincta,<br \/>\nd&#8217;uma firma e de uma cor\u00f4a, que devia ter estado gravada na outra meia<br \/>\nfolha. Era portanto papel marcado. Fiz notar esta circumstancia ao mascarado:<br \/>\nelle ficou surprehendido e confuso. No quarto n\u00e3o havia papel, nem<br \/>\ntinteiro, nem pennas. A declara\u00e7\u00e3o pois tinha sido escripta<br \/>\ne preparada f\u00f3ra.<\/p>\n<p>&#8211;Eu conhe\u00e7o o papel de que elle usava em casa, disse o mascarado;<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 d&#8217;este; n\u00e3o tinha firma, n\u00e3o tinha cor\u00f4a.<br \/>\nN\u00e3o podia usar d&#8217;outro.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o da marca n\u00e3o era bastante distincta para que se<br \/>\npercebesse qual fosse a firma e qual a cor\u00f4a. Ficava, por\u00e9m,<br \/>\nclaro que a declara\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha sido escripta nem em<br \/>\ncasa d&#8217;elle, onde n\u00e3o havia d&#8217;aquelle papel, nem n&#8217;aquelle quarto,<br \/>\nonde n\u00e3o havia papel algum, nem tinteiro, nem um livro, um _buvard_,<br \/>\num lapis.<\/p>\n<p>Teria sido escripta f\u00f3ra, na rua, ao acaso? Em casa d&#8217;alguem? N\u00e3o,<br \/>\nporque elle n\u00e3o tinha em Lisboa, nem rela\u00e7\u00f5es intimas,<br \/>\nnem conhecimento de pessoas cujo papel fosse marcado com cor\u00f4a.<\/p>\n<p>Teria sido feita n&#8217;uma loja de papel? N\u00e3o, porque o papel que se vende<br \/>\nvulgarmente nas lojas n\u00e3o tem cor\u00f4as.<\/p>\n<p>Seria a declara\u00e7\u00e3o escripta n&#8217;alguma meia folha branca tirada<br \/>\nde uma velha carta recebida? N\u00e3o parecia tambem natural, porque o papel<br \/>\nestava dobrado ao meio e n\u00e3o tinha os vincos que d\u00e1 o _enveloppe_.<\/p>\n<p>Demais a folha tinha um aroma de p\u00f3s de _marechala_, o mesmo que se<br \/>\nsentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estavamos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m d&#8217;isso, pondo o papel directamente sobre a claridade da luz,<br \/>\ndistingui o vestigio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o papel<br \/>\nno momento de estar suado ou humido, e tinha embaciado a sua brancura lisa<br \/>\ne assetinada, havendo deixado uma impress\u00e3o exacta. Ora este dedo parecia<br \/>\ndelgado, pequeno, feminil. Este indicio era notavelmente vago, mas o mascarado<br \/>\ntinha a esse tempo encontrado um, profundamente efficaz e seguro.<\/p>\n<p>&#8211;Este homem, notou elle, tinha o costume invariavel, mechanico, de escrever,<br \/>\nabreviando-a, a palavra _that_, d&#8217;este modo: dois TT separados<\/p>\n<p>por um tra\u00e7o. Esta abreviatura era s\u00f3 d&#8217;elle, original, desconhecida.<\/p>\n<p>N&#8217;esta declara\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s pouco ingleza, a palavra _that_<br \/>\nacha-se escripta por inteiro.<\/p>\n<p>Voltando-se ent\u00e3o para M. C.:<\/p>\n<p>&#8211;Porque n\u00e3o apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta<br \/>\ndeclara\u00e7\u00e3o foi falsificada.<\/p>\n<p>&#8211;Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobresalto ou com surpreza.<\/p>\n<p>&#8211;Falsificada; feita para encobrir o assassinato: tem todos os indicios d&#8217;isso.<br \/>\nMas o grande, o forte, o positivo indicio \u00e9 este: onde est\u00e3o<br \/>\n2:300 libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso?<\/p>\n<p>M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o apparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este<br \/>\nhomem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete.<\/p>\n<p>&#8211;Senhor, observou gravemente A.M.C., falla-me em 2:300 libras: dou-lhe a<br \/>\nminha palavra de honra que n\u00e3o sei a que se quer referir.<\/p>\n<p>Eu ent\u00e3o disse lentamente pondo os olhos com uma perscruta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndemorada sobre as fei\u00e7\u00f5es do mancebo:<\/p>\n<p>&#8211;Esta declara\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa, evidentemente, n\u00e3o<br \/>\npercebo o que quer dizer este novo negocio das 2:300 libras, de que s\u00f3<br \/>\nagora se falla; o que vejo \u00e9 que este homem foi envenenado: ignoro<br \/>\nse foi o senhor, se foi outro que o matou, o que sei \u00e9 que evidentemente<br \/>\no cumplice \u00e9 uma mulher.<\/p>\n<p>&#8211;N\u00e3o p\u00f3de ser, doutor!, gritou o mascarado. \u00c9 uma supposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nabsurda.<\/p>\n<p>&#8211;Absurda!?&#8230; E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente perfumado,<br \/>\ncarregado de estofos, illuminado por uma claridade ba\u00e7a coada por vidros<br \/>\nfoscos; a escada coberta com um tapete; um corrim\u00e3o engenhado com uma<br \/>\ncorda de seda; ali aos p\u00e9s d&#8217;aquella volteriana aquelle tapete feito<br \/>\nde uma pelle de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o vestigio de<br \/>\num homem prostrado? N\u00e3o v\u00ea em tudo isto a mulher? N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 esta evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;Ou a qualquer outro fim.<\/p>\n<p>&#8211;E este papel? este papel de marca pequenissima, do que as mulheres compram<br \/>\nem Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz?<\/p>\n<p>&#8211;Muitos homens o usam!<\/p>\n<p>&#8211;Mas n\u00e3o o cobrem como este foi coberto, com um _sachet_ em que havia<br \/>\no mesmo aroma que se respira no ambiente d&#8217;esta casa. Este papel pertence<br \/>\na uma mulher, que examinou a falsifica\u00e7\u00e3o que elle encerra,<br \/>\nque assistiu a ella, que se interessava na perfei\u00e7\u00e3o com que<br \/>\na fabricassem, que tinha os dedos humidos, deixando no papel um vestigio t\u00e3o<br \/>\nclaro&#8230;<\/p>\n<p>O mascarado calava-se.<\/p>\n<p>&#8211;E um ramo de fl\u00f4res murchas, que est\u00e1 ali dentro? um ramo<br \/>\nque examinei e que \u00e9 formado por algumas rosas, presas com uma fita<br \/>\nde veludo? A fita est\u00e1 impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe<br \/>\num pequeno vinco, como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade<br \/>\npor um buraquinho&#8230; \u00c9 o vestigio flagrante que deixou no veludo um<br \/>\ngancho de segurar o cabello!<\/p>\n<p>&#8211;Esse ramo podiam ter-lh&#8217;o dado, podia tel-o trazido elle mesmo de f\u00f3ra.<\/p>\n<p>&#8211;E este len\u00e7o que encontrei hontem debaixo de uma cadeira?<\/p>\n<p>E atirei o len\u00e7o para cima da mesa. O mascarado pegou n&#8217;elle avidamente,<br \/>\nexaminou-o e guardou-o.<\/p>\n<p>M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquillado pela dura logica das<br \/>\nminhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois<br \/>\ncom voz humilde, quasi supplicante:<\/p>\n<p>&#8211;Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indicios n\u00e3o provam. Este<br \/>\nlen\u00e7o, de mulher indubitavelmente, estou convencido que \u00e9 o<br \/>\nmesmo que o morto trazia no bolso. \u00c9 verdade: n\u00e3o se lembra<br \/>\nque n\u00e3o lhe encontr\u00e1mos len\u00e7o?<\/p>\n<p>&#8211;E n\u00e3o se lembra tambem que n\u00e3o lhe encontr\u00e1mos gravata?<\/p>\n<p>O mascarado calou-se succumbido.<\/p>\n<p>&#8211;No fim de contas eu n\u00e3o sou aqui juiz, nem parte, exclamei eu. Deploro<br \/>\nvivamente esta morte, e fallo n&#8217;isto unicamente pelo pezar e pelo horror que<br \/>\nella me inspira. Que este mo\u00e7o se matasse ou que fosse morto, que caisse<br \/>\n\u00e1s m\u00e3os de uma mulher ou \u00e1s m\u00e3os de um homem,<br \/>\nimporta-me pouco. O que devo dizer-lhe \u00e9 que o cad\u00e1ver n\u00e3o<br \/>\np\u00f3de ficar por muito mais tempo insepulto: \u00e9 preciso que o enterrem<br \/>\nhoje. Mais nada. \u00c9 dia. O que desejo \u00e9 sair.<\/p>\n<p>&#8211;Tem raz\u00e3o, vae sair j\u00e1, cortou o mascarado.<\/p>\n<p>E em seguida, tomando M. C. pelo bra\u00e7o, disse-me:<\/p>\n<p>&#8211;Um momento! Eu volto j\u00e1!<\/p>\n<p>E sairam ambos pela porta que communicava com o interior da casa, fechando-a<br \/>\n\u00e1 chave pelo outro lado.<\/p>\n<p>Fiquei s\u00f3, passeando agitadamente.<\/p>\n<p>A luz do dia tinha feito surgir no meu esp\u00edrito uma multid\u00e3o<br \/>\nde pensamentos inteiramente novos e diversos d&#8217;aqueles que me haviam occupado<br \/>\ndurante a noite. Ha pensamentos que n\u00e3o vivem sen\u00e3o no silencio<br \/>\ne na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; ha outros que s\u00f3<br \/>\nsurgem ao clar\u00e3o do sol.<\/p>\n<p>Eu sentia no cerebro uma multid\u00e3o de id\u00e9as extremunhadas, que<br \/>\n\u00e1 luz repentina da madrugada voejavam em turbilh\u00e3o como um bando<br \/>\nde pombas amedrontadas pelo estridor de um tiro.<\/p>\n<p>Machinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um bra\u00e7o<br \/>\nno travesseiro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o sei como, olhei, reparei, vi, com extranha commo\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsobre a alvura do travesseiro, preso n&#8217;um bot\u00e3o de madreperola, um<br \/>\nlongo cabello louro, um cabello de mulher.<\/p>\n<p>N\u00e3o me atrevi logo a tocar-lhe. Puz-me a contemplal-o, avida e longamente.<\/p>\n<p>&#8211;Era ent\u00e3o certo! ahi est\u00e1s pois! encontro-te finalmente!&#8230;<br \/>\nPobre cabello! apieda-me a simplicidade innocente com que te ficaste ahi,<br \/>\npatente, descuidado, pregui\u00e7oso, languido! P\u00f3des ter maldade,<br \/>\np\u00f3des ter malvadez, mas n\u00e3o tens malicia, n\u00e3o tens astucia.<br \/>\nTenho-te nas m\u00e3os, fito-te com os meus olhos; n\u00e3o foges, n\u00e3o<br \/>\nestremeces, n\u00e3o c\u00f3ras; d\u00e1s-te, consentes-te, facilitas-te,<br \/>\nmeiga, doce, confiadamente&#8230; E, no emtanto, tenue, exigua, quasi microscopica,<br \/>\n\u00e9s uma parte da mulher que eu adivinhava, que eu antevia, que eu procuro!<br \/>\n\u00c9 ella auctora do crime? \u00e9 inteiramente innocente? \u00e9<br \/>\napenas cumplice? N\u00e3o sei, nem tu m&#8217;o poder\u00e1s dizer?<\/p>\n<p>De repente, tendo continuado a considerar o cabello, por um processo de esp\u00edrito<br \/>\ninexplicavel, pareceu-me reconhecer de subito aquelle fio louro, reconhecel-o<br \/>\nem tudo: na sua c\u00f4r, na sua _nuance_ especial, no seu aspecto! Lembrou-me,<br \/>\nappareceu-me ent\u00e3o a mulher a quem aquelle cabello pertencia! Mas quando<br \/>\no nome d&#8217;ella me veio insensivelmente aos labios,disse commigo:<\/p>\n<p>&#8211;Ora! por um cabello! que loucura!<\/p>\n<p>E n\u00e3o pude deixar de rir.<\/p>\n<p>Esta carta vae j\u00e1 demasiadamente longa. Continuarei \u00e1manh\u00e3.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>Cap\u00edtulo VII<\/h2>\n<p>Contei-lhe hontem como inesperadamente havia encontrado \u00e1 cabeceira<br \/>\nda cama um cabello louro.<\/p>\n<p>Prolongou-se a minha dolorosa surpreza. Aquelle cabello luminoso, languidamente<br \/>\nenrolado, quasi casto, era o indicio d&#8217;um assassinato, d&#8217;uma cumplicidade<br \/>\npelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, immovel, aquelle cabello<br \/>\nperdido.<\/p>\n<p>A pessoa a quem elle pertencia era loura, clara de certo, pequena, _mignonne_,<br \/>\nporque o fio de cabello era delgadissimo, extraordinariamente puro, e a sua<br \/>\nraiz branca parecia prender-se aos tegumentos craneanos por uma liga\u00e7\u00e3o<br \/>\ntenue, delicadamente organisada.<\/p>\n<p>O caracter d&#8217;essa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque<br \/>\no cabello n\u00e3o tinha ao contacto aquella aspereza cortante que offerecem<br \/>\nos cabellos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoista.<\/p>\n<p>Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabello, j\u00e1<br \/>\npelo imperceptivel perfume d&#8217;elle, j\u00e1 porque n\u00e3o tinha vestigios<br \/>\nde ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados phantasiosos.<\/p>\n<p>Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Allemanha, porque o cabello<br \/>\ndenotava na sua extremidade ter sido espontado, habito das mulheres do norte,<br \/>\ncompletamente extranho \u00e1s meridionaes, que abandonam os seus cabelos<br \/>\n\u00e1 abundante espessura natural.<\/p>\n<p>Isto eram apenas conjecturas, deduc\u00e7\u00f5es da phantasia, que nem<br \/>\nconstituem uma verdade scientifica, nem uma prova judicial.<\/p>\n<p>Esta mulher, que eu reconstruia assim pelo exame d&#8217;um cabello, e que me apparecia<br \/>\ndoce, simples, distincta, finamente educada, como poderia ter sido o protagonista<br \/>\ncheio de astucia d&#8217;aquella occulta tragedia? Mas conhecemos n\u00f3s porventura<br \/>\na secreta logica das paix\u00f5es?<\/p>\n<p>Do que eu estava perfeitamente convencido \u00e9 que havia uma mulher como<br \/>\ncumplice. Aquelle homem n\u00e3o se tinha suicidado. N\u00e3o estava decerto<br \/>\ns\u00f3, no momento em que bebera o opio. O narcotico tinha-lhe sido dado,<br \/>\nsem violencia evidentemente, por ardil ou engano, n&#8217;um copo d&#8217;agua. A ausencia<br \/>\ndo len\u00e7o, o desapparecimento da gravata, a colloca\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo fato, aquelle cabello louro, uma cova recentemente feita no travesseiro<br \/>\npela press\u00e3o de uma cabe\u00e7a, tudo indicava a presen\u00e7a<br \/>\nd&#8217;alguem n&#8217;aquella casa durante a noite da catastrophe. Por consequencia:<br \/>\nimpossibilidade de suicidio, verosimilhan\u00e7a de crime.<\/p>\n<p>O len\u00e7o achado, o cabello, a disposi\u00e7\u00e3o da casa, (evidentemente<br \/>\ndestinada a entrevistas intimas) aquelle luxo da sala, aquella escada velha,<\/p>\n<p>devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido&#8230;<\/p>\n<p>tudo isto indicava a presen\u00e7a, a cumplicidade de uma mulher. Qual<br \/>\nera a parte d&#8217;ella n&#8217;aquella aventura? N\u00e3o sei. Qual era a parte de<br \/>\nA. M. C.? Era o assassino, o cumplice, o occultador do cadaver? N\u00e3o<br \/>\nsei. M. C. n\u00e3o podia ser extranho a essa mulher. N\u00e3o era de<br \/>\ncerto um cumplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar opio n&#8217;um copo<br \/>\nde agua n\u00e3o \u00e9 necessario chamar um assassino assalariado. Tinham<br \/>\npor consequencia um interesse commum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladr\u00f5es?<br \/>\nE accudia-me \u00e1 memoria aquella inesperada referencia a 2:300 libras<br \/>\nque de repente me tinha apparecido como um novo mysterio. Tudo isto eram conjecturas<br \/>\nfugitivas. Para que hei de repetir eu todas as id\u00e9as que se formavam<br \/>\ne que se desmanchavam no meu cerebro, como nuvens n&#8217;um ceu varrido pelo vento?<\/p>\n<p>H\u00e1 de certo na minha hypothese ambiguidades, contradic\u00e7\u00f5es<br \/>\ne fraquezas, ha nos indicios que colhi lacunas e incoherencias: muitas cousas<br \/>\nsignificativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores inexpressivos<br \/>\nse me gravaram na memoria, mas eu estava n&#8217;um estado morbido de perturba\u00e7\u00e3o,<br \/>\ninteiramente desorganisado por aquella aventura, que inesperadamente, com<br \/>\no seu cortejo de sustos e mysterios, se installara na minha vida.<\/p>\n<p>O senhor redactor, que julga de animo frio, os leitores, que socegadamente,<br \/>\nem sua casa, l\u00eaem esta carta, poder\u00e3o melhor combinar, estabelecer<br \/>\ndeduc\u00e7\u00f5es mais certas, e melhor approximar-se pela induc\u00e7\u00e3o<br \/>\ne pela logica da verdade occulta.<\/p>\n<p>Eu achava-me s\u00f3 havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo<br \/>\no chapeu na cabe\u00e7a e no bra\u00e7o uma capa de casimira alvadia.<\/p>\n<p>&#8211;Vamos, disse elle.<\/p>\n<p>Tomei calado o meu chap\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211;Uma palavra antes, disse elle. Em primeiro logar d\u00ea-me a sua palavra<br \/>\nde honra que ao subir agora \u00e1 carruagem n\u00e3o ter\u00e1 um gesto,<br \/>\num grito, um movimento que me denuncie.<\/p>\n<p>Dei a minha palavra.<\/p>\n<p>&#8211;Bem! continuou, agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu<br \/>\ncaracter, a sua delicadeza. Ser-me-hia doloroso que entre n\u00f3s houvesse<br \/>\nem qualquer tempo motivos de desdem, ou necessidades de vingan\u00e7a. Por<br \/>\nisso affirmo-lhe: sou perfeitamente extranho a este successo. Mais tarde talvez<br \/>\nentregue este caso \u00e1 policia. Por ora sou eu policia, juiz e talvez<br \/>\ncarrasco. Esta casa \u00e9 um tribunal e um carcere. Vejo que o doutor leva<br \/>\nd&#8217;aqui a desconfian\u00e7a de que uma mulher se envolveu n&#8217;este crime: n\u00e3o<br \/>\no supponha, n\u00e3o podia ser. No emtanto, se alguma vez l\u00e1 f\u00f3ra<br \/>\nfallar, a respeito d&#8217;este caso, em alguma pessoa determinada e conhecida,<br \/>\ndou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnancia,<br \/>\nnaturalmente, como corto as unhas. D\u00ea-me agora o seu bra\u00e7o. Ah!<br \/>\nesquecia-me, meu caro, que os seus olhos est\u00e3o destinados a ter estas<br \/>\nlunetas de cambraia.<\/p>\n<p>E, rindo, apertou-me o len\u00e7o nos olhos.<\/p>\n<p>Descemos a escada, entr\u00e1mos na carruagem, que tinha os stores fechados.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude v\u00ear quem guiava os cavallos porque s\u00f3 dentro<br \/>\ndo coup\u00e9 achei a vista livre. O mascarado sentou-se ao p\u00e9 de<br \/>\nmim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pelle era fina, pallida,<br \/>\no cabello castanho, levemente annelado.<\/p>\n<p>A carruagem seguiu um caminho, que pelos accidentes da estrada, pela differen\u00e7a<br \/>\nde velocidade indicando acclives e declives, pelas alternativas de macadam<br \/>\ne de cal\u00e7ada, me parecia o mesmo que tinhamos seguido na vespera, no<br \/>\ncome\u00e7o da aventura. Rod\u00e1mos finalmente na estrada larga.<\/p>\n<p>&#8211;Ah, doutor!, dizia o mascarado com desenfado, sabe o que me afflige? \u00c9<br \/>\nque o vou deixar na estrada, s\u00f3, a p\u00e9! N\u00e3o se p\u00f3de<br \/>\nremediar isto. Mas n\u00e3o se assuste. O Cacem fica a dois passos, e ahi<br \/>\nencontra facilmente conduc\u00e7\u00e3o para Lisboa.<\/p>\n<p>E offereceu-me charutos.<\/p>\n<p>Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou.<\/p>\n<p>&#8211;Cheg\u00e1mos, disse o mascarado. Adeus, doutor.<\/p>\n<p>E abriu por dentro a portinhola.<\/p>\n<p>&#8211;Obrigado! accrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saber\u00e1 quem<br \/>\nsou.<\/p>\n<p>Permitta Deus que ambos tenhamos no applauso das nossas consciencias e no<br \/>\nprazer que d\u00e1 o cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace<br \/>\nda scena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus!<\/p>\n<p>Apert\u00e1mo-nos a m\u00e3o, eu saltei. Elle fechou a portinhola, abriu<br \/>\nos stores e estendendo-me para f\u00f3ra um pequeno cart\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;Guarde essa lembran\u00e7a, disse, \u00e9 o meu retrato.<\/p>\n<p>Eu, de p\u00e9, na estrada, junto das rodas, tomei a photographia avidamente,<br \/>\nolhei. O retrato estava tambem mascarado!<\/p>\n<p>&#8211;\u00c9 um capricho do anno passado, depois de um baile de mascaras! gritou<br \/>\nelle, estendendo a cabe\u00e7a pela portinhola da carruagem que come\u00e7ava<br \/>\na rodar a trote.<\/p>\n<p>Via-a affastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapeu derrubado, uma<br \/>\ncapa tra\u00e7ada sobre o rosto.<\/p>\n<p>Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquelle trem<br \/>\nlevava comsigo um segredo inexplicavel. Nunca mais veria aquelle homem. A<br \/>\naventura desvanecia-se, tinha findado tudo.<\/p>\n<p>O pobre morto, esse l\u00e1 ficava, estendido no soph\u00e1, que lhe<br \/>\nservia de sarcophago!<\/p>\n<p>Achei-me s\u00f3, na estrada. A manh\u00e3 estava nevoada, serena, melancolica.<br \/>\nAo longe distinguia ainda o trem. Um camponez appareceu vindo do lado opposto<br \/>\n\u00e1quelle por onde elle desapparecia.<\/p>\n<p>&#8211;Onde fica o Cacem?<\/p>\n<p>&#8211;De l\u00e1 venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de legua.<\/p>\n<p>A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Cintra.<\/p>\n<p>Cheguei ao Cacem fatigado. Mandei um homem a Cintra, \u00e1 quinta de F.,<br \/>\nsaber se tinham chegado os cavallos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a<br \/>\na uma janella, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as arvores<br \/>\ne para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda<br \/>\na brida um fogoso cavallo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de p\u00f3<br \/>\no vulto quasi indistincto do cavalleiro. Ia para Lisboa embu\u00e7ado em<br \/>\numa capa alvadia.<\/p>\n<p>Tomei informa\u00e7\u00f5es a respeito da carruagem que passara na vespera<br \/>\ncomnosco.<\/p>\n<p>Havia contradic\u00e7\u00f5es sobre a c\u00f4r dos cavallos.<\/p>\n<p>Voltou de Cintra o homem que eu ali mand\u00e1ra, dizendo que na quinta<br \/>\nde F.<\/p>\n<p>tinham sido entregues os cavallos por um criado do campo, o qual dissera<br \/>\nque os senhores ao p\u00e9 do Cacem, tinham encontrado um amigo que os levara<br \/>\ncomsigo em uma caleche para Lisboa. D&#8217;ahi a momentos chegou a minha carruagem.<br \/>\nVoltei a Lisboa, corri a casa de F. O criado tinha recebido este bilhete a<br \/>\nlapis: _N\u00e3o esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar,<br \/>\nque fui para Madrid._<\/p>\n<p>Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F. estava evidentemente<br \/>\nretido. Receei por mim. Lembraram-me as amea\u00e7as do mascarado, vagas<br \/>\nmas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido.<\/p>\n<p>Entregar \u00e1 policia este negocio, t\u00e3o vago e t\u00e3o incompleto<br \/>\ncomo elle \u00e9, seria tornar-me o denunciante de uma chimera. Sei que,<br \/>\nem resultado das primeiras noticias que lhe dei, o governador civil de Lisboa<br \/>\nofficiou ao administrador de Cintra convidando-o a metter o esfor\u00e7o<br \/>\nda sua policia no descobrimento d&#8217;este crime. Foram inuteis estas providencias.<br \/>\nAssim devia ser. O successo que constitue o assumpto d&#8217;estas cartas est\u00e1<br \/>\npor sua natureza f\u00f3ra da al\u00e7ada das pesquizas policiaes. Nunca<br \/>\nme dirigi \u00e1s authoridades, quiz simplesmente valer-me do publico, escolhendo<br \/>\npara isso as columnas populares do seu periodico. Resolvi homiziar-me, receando<br \/>\nser victima de uma emboscada.<\/p>\n<p>S\u00e3o obvias, depois d&#8217;isto, as ras\u00f5es por que lhe occulto o<br \/>\nmeu nome: assignar estas linhas seria patentear-me; n\u00e3o seria esconder-me,<br \/>\ncomo quero.<\/p>\n<p>Do meu impenetravel retiro lhe dirijo esta carta. \u00c9 manh\u00e3.<br \/>\nVejo a luz do sol nascente atravez das minhas jelozias. Oi\u00e7o os preg\u00f5es<br \/>\ndos vendedores matinaes, os chocalhos das vaccas, o rodar das carruagens,<br \/>\no murmurio alegre da povoa\u00e7\u00e3o que se levanta depois de um somno<br \/>\ndespreoccupado e feliz&#8230; Invejo aquelles que n\u00e3o tendo a fatalidade<br \/>\nde secretas aventuras passeiam, conversam, moirejam na rua. Eu&#8211;pobre de mim!&#8211;estou<br \/>\nencarcerado por um mysterio, guardado por um segredo!<\/p>\n<p>P. S. Acabo de receber uma longa carta de F. Esta carta, escripta ha dias,<br \/>\ns\u00f3 hoje me veiu \u00e1 m\u00e3o. Sendo-me enviada pelo correio,<br \/>\ne tendo-me eu ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava,<br \/>\ns\u00f3 agora pude haver essa interessante missiva. Ahi tem, senhor redactor,<br \/>\ncopiada por mim, a primeira parte d&#8217;essa carta, da qual depois de \u00e1manh\u00e3<br \/>\nlhe enviarei o resto. Publique-a, se quiser. \u00c9 mais do que um importante<\/p>\n<p>esclarecimento n&#8217;este obscuro successo; \u00e9 um vestigio luminoso e profundo.<\/p>\n<p>F&#8230; \u00e9 um escriptor publico, e descobrir pelo estylo um homem \u00e9<br \/>\nmuito mais facil do que reconstruir sobre um cabello a figura de uma mulher.<br \/>\n\u00c9 gravissima a situa\u00e7\u00e3o do meu amigo. Eu, afflicto, cuidadoso,<br \/>\nhesitante, perplexo, n\u00e3o sabendo o que fa\u00e7a, n\u00e3o podendo<br \/>\ndeliberar pela reflex\u00e3o, rendo-me \u00e1 decis\u00e3o do acaso,<br \/>\ne elimino, juntamente com a letra do autographo, as duas palavras que constituem<br \/>\no nome que firma essa longa carta. N\u00e3o posso, n\u00e3o devo, n\u00e3o<br \/>\nme atrevo, n\u00e3o ouso dizer mais. Poupem-me a uma derradeira declara\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque me repugna. Adivinhem&#8230; se poderem.<\/p>\n<p>Adeus!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Ha quatorze annos, n&#8217;uma noite de ver\u00e3o no Passeio Publico, em frente de duas chavenas de caf\u00e9, penetrados pela tristeza da grande cidade que em torno de n\u00f3s cabeceava de somno ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95548","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ 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