{"id":95544,"date":"2017-01-19T10:46:41","date_gmt":"2017-01-19T12:46:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95544"},"modified":"2017-01-19T10:46:41","modified_gmt":"2017-01-19T12:46:41","slug":"o-mandarim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-mandarim","title":{"rendered":"O Mandarim"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"158\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"96\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"152\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"94\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"178\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII <\/a><\/strong><\/span><strong><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>PR\u00d3LOGO<\/h2>\n<p>1\u00ba Amigo (bebendo conhaque e soda, debaixo de \u00e1rvores, num terra\u00e7o,<br \/>\n\u00e0 beira-d&#8217;\u00e1gua)<\/p>\n<p>Camarada, por estes calores do Estio que embotam a ponta da sagacidade, repousemos<br \/>\ndo \u00e1spero estudo da Realidade humana&#8230; Partamos para os campos do<br \/>\nSonho, vaguear por essas azuladas colinas rom\u00e2nticas onde se ergue a<br \/>\ntorre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as ru\u00ednas<br \/>\ndo Idealismo&#8230; Fa\u00e7amos fantasia!&#8230;<\/p>\n<p>2\u00ba Amigo<\/p>\n<p>Mas sobriamente, camarada, parcamente!&#8230; E como nas s\u00e1bias e am\u00e1veis<br \/>\nalegorias da Renascen\u00e7a, misturando-lhe sempre uma Moralidade discreta&#8230;<\/p>\n<p>(Com\u00e9dia in\u00e9dita)<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>Eu chamo-me Teodoro &#8211; e fui amanuense do Minist\u00e9rio do Reino.<\/p>\n<p>Nesse tempo vivia eu \u00e0 Travessa da Concei\u00e7\u00e3o n\u00ba<br \/>\n106, na casa de h\u00f3spedes da D. Augusta, a espl\u00eandida D. Augusta,<br \/>\nvi\u00fava do major Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado<br \/>\nna Administra\u00e7\u00e3o do Bairro Central, esguio e amarelo como uma<br \/>\ntocha de enterro; e o possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador<br \/>\nde viola francesa.<\/p>\n<p>A minha exist\u00eancia era bem equilibrada e suave. Toda a semana, de mangas<br \/>\nde lustrina \u00e0 carteira da minha reparti\u00e7\u00e3o, ia lan\u00e7ando,<br \/>\nnuma formosa letra cursiva, sobre o papel \u00abTojal\u00bb do Estado, estas<br \/>\nfrases f\u00e1ceis: \u00abIl.mo e Ex.mo Sr. &#8211; Tenho a honra de comunicar<br \/>\na V. Ex.a&#8230; Tenho a honra de passar \u00e0s m\u00e3os de V. Ex.a, Il.mo<br \/>\ne Ex.mo Sr&#8230;\u00bb<\/p>\n<p>Aos domingos repousava: instalava-me ent\u00e3o no canap\u00e9 da sala<br \/>\nde jantar, de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de<br \/>\nmissa, costumava limpar com clara de ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta<br \/>\nhora, sobretudo no Ver\u00e3o, era deliciosa: pelas janelas meio cerradas<br \/>\npenetrava o bafa da soalheira, algum repique distante dos sinos da Concei\u00e7\u00e3o<br \/>\nNova e o arrulhar das rolas na varanda; a mon\u00f3tona sussurra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas moscas balan\u00e7ava-se sobre a velha cambraia, antigo v\u00e9u nupcial<br \/>\nda Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas bicais;<br \/>\npouco a pouco o tenente, envolvido, num len\u00e7ol como um \u00eddolo<br \/>\nno seu manto, ia adormecendo, sob a fric\u00e7\u00e3o mole das carinhosas<br \/>\nm\u00e3os da D. Augusta; e ela, arrebitando o dedo m\u00ednimo branquinho<br \/>\ne papudo, sulcava-lhe as repas lustrosas com o pentezinho dos bichos&#8230; Eu<br \/>\nent\u00e3o, enternecido, dizia \u00e0 deleitosa senhora:<\/p>\n<p>&#8211; Ai D. Augusta, que anjo que \u00e9!<\/p>\n<p>Ela ria; chamava-me engui\u00e7o! Eu sorria, sem me escandalizar. \u00abEngui\u00e7o\u00bb<br \/>\nera com efeito o nome que me davam na casa &#8211; por eu ser magro, entrar sempre<br \/>\nas portas com o p\u00e9 direito, tremer de ratos, ter \u00e0 cabeceira<br \/>\nda cama uma litografia de Nossa Senhora das Dores que pertencera \u00e0<br \/>\nmam\u00e3, e corcovar. Infelizmente corcovo &#8211; do muito que verguei n espinha\u00e7o,<br \/>\nna Universidade, recuando como uma pega assustada diante dos senhores lentes;<br \/>\nna reparti\u00e7\u00e3o, dobrando a fronte ao p\u00f3 perante os meus<br \/>\ndirectores-gerais. Esta atitude de resto conv\u00e9m ao bacharel; ela mant\u00e9m<br \/>\na disciplina num Estado bem organizado; e a mim garantia-me a tranquilidade<br \/>\ndos domingos, o uso de alguma roupa branca, e vinte mil r\u00e9is mensais.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso negar, por\u00e9m, que nesse tempo eu era ambicioso &#8211;<br \/>\ncomo o reconheciam sagazmente a Madame Marques e o l\u00e9pido Couceiro.<br \/>\nN\u00e3o que me revolvesse o peito o apetite her\u00f3ico de dirigir,<br \/>\ndo alto de um trono, vastos rebanhos humanos; n\u00e3o que a minha louca<br \/>\nalma jamais aspirasse a rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida de<br \/>\num correio choutando; &#8211; mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central<br \/>\ncom champanhe, apertar a m\u00e3o mimosa de viscondessas, e, pelo menos<br \/>\nduas vezes por semana, adormecer, num \u00eaxtase mudo, sobre o seio fresco<br \/>\nde V\u00e9nus. Oh! mo\u00e7os que vos dirig\u00edeis vivamente a S.<br \/>\nCarlos, atabafados em palet\u00f3s caros onde alvejava a gravata de soir\u00e9e!<br \/>\nOh! tip\u00f3ias, apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os<br \/>\ntouros &#8211; quantas vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus<br \/>\nvinte mil r\u00e9is por m\u00eas e o meu jeito encolhido de engui\u00e7o,<br \/>\nme exclu\u00edam para sempre dessas alegrias sociais, vinha-me ent\u00e3o<br \/>\nferir o peito &#8211; como uma frecha que se crava num tronco, e fica muito tempo<br \/>\nvibrando!<\/p>\n<p>Ainda assim, eu n\u00e3o me considerava sombriamente um \u00abp\u00e1ria\u00bb.<br \/>\nA vida humilde tem do\u00e7uras: \u00e9 grato, numa manh\u00e3 de sol<br \/>\nalegre, com o guardanapo ao pesco\u00e7o, diante do bife de grelha, desdobrar<br \/>\no \u00abDi\u00e1rio de Not\u00edcias\u00bb; pelas tardes de Ver\u00e3o,<br \/>\nnos bancos gratuitos do Passeio, gozam-se suavidades de id\u00edlio; \u00e9<br \/>\nsaboroso \u00e0 noite no Martinho, sorvendo aos goles um caf\u00e9, ouvir<br \/>\nos verbosos injuriar a p\u00e1tria&#8230; Depois, nunca fui excessivamente infeliz<br \/>\n&#8211; porque n\u00e3o tenho imagina\u00e7\u00e3o: n\u00e3o me consumia,<br \/>\nrondando e almejando em torno de para\u00edsos fict\u00edcios, nascidos<br \/>\nda minha pr\u00f3pria alma desejosa como nuvens da evapora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um lago; n\u00e3o suspirava, olhando as l\u00facidas estrelas, por<br \/>\num amor \u00e0 Romeu ou por uma gl\u00f3ria social \u00e0 Camors. Sou<br \/>\num positivo. S\u00f3 aspirava ao racional, ao tang\u00edvel, ao que j\u00e1<br \/>\nfora alcan\u00e7ado por outros no meu bairro, ao que \u00e9 acess\u00edvel<br \/>\nao bacharel. E ia-me resignando, como quem a uma table d&#8217;h\u00f4te mastiga<br \/>\na bucha de p\u00e3o seco \u00e0 espera que lhe chegue o prato rico da<br \/>\ncharlotte russe. As felicidades haviam de vir: e para as apressar eu fazia<br \/>\ntudo o que devia como portugu\u00eas e como constitucional: &#8211; pedia-as todas<br \/>\nas noites a Nossa Senhora das Dores, e comprava d\u00e9cimos da lotaria.<\/p>\n<p>No entanto procurava distrair-me. E como as circunvolu\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo meu c\u00e9rebro me n\u00e3o habilitavam a compor odes, \u00e0 maneira<br \/>\nde tantos outros ao meu lado que se desforravam assim do t\u00e9dio da profiss\u00e3o;<br \/>\ncomo o meu ordenado, paga a casa e o tabaco, me n\u00e3o permitia um v\u00edcio<br \/>\n&#8211; tinha tomado o h\u00e1bito discreto de comprar na Feira da Ladra antigos<br \/>\nvolumes desirmanados, e \u00e0 noite, no meu quarto, repastava-me dessas<br \/>\nleituras curiosas. Eram sempre obras de t\u00edtulos ponderosos: \u00abGalera<br \/>\nda Inoc\u00eancia\u00bb, \u00abEspelho Milagroso\u00bb, \u00abTristeza<br \/>\ndos Mal-Deserdados\u00bb&#8230; O tipo venerando, o papel amarelado com picadas<br \/>\nde tra\u00e7a, a grave encaderna\u00e7\u00e3o freir\u00e1tica, a fitinha<br \/>\nverde marcando a p\u00e1gina &#8211; encantavam-me! Depois, aqueles dizeres ing\u00e9nuos<br \/>\nem letra gorda davam uma pacifica\u00e7\u00e3o a todo o meu ser, sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncompar\u00e1vel \u00e0 paz penetrante de uma velha cerca de mosteiro,<br \/>\nna quebrada de um vale, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr da \u00e1gua<br \/>\ntriste&#8230;<\/p>\n<p>Uma noite, h\u00e1 anos, eu come\u00e7ara a ler, num desses in-f\u00f3lios<br \/>\nvetustos, um cap\u00edtulo intitulado \u00abBrecha das Almas\u00bb; e<br \/>\nia caindo numa sonol\u00eancia grata, quando este per\u00edodo singular<br \/>\nse me destacou do tom neutro e apagado da p\u00e1gina, com o relevo de uma<br \/>\nmedalha de ouro nova brilhando sobre um tapete escuro: copio textualmente:<\/p>\n<p>\u00abNo fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de<br \/>\nque a f\u00e1bula ou a hist\u00f3ria contam. Dele nada conheces, nem o<br \/>\nnome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus<br \/>\ncabedais infind\u00e1veis, basta que toques essa campainha, posta a teu<br \/>\nlado, sobre um livro. Ele soltar\u00e1 apenas um suspiro, nesses confins<br \/>\nda Mong\u00f3lia. Ser\u00e1 ent\u00e3o um cad\u00e1ver: e tu ver\u00e1s<br \/>\na teus p\u00e9s mais ouro do que pode sonhar a ambi\u00e7\u00e3o de<br \/>\num avaro. Tu, que me l\u00eas e \u00e9s um homem mortal, tocar\u00e1s<br \/>\ntu a campainha?\u00bb<\/p>\n<p>Estaquei, assombrado, diante da p\u00e1gina aberta: aquela interroga\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00abhomem mortal, tocar\u00e1s tu a campainha?\u00bb parecia-me faceta,<br \/>\npicaresca, e todavia perturbava-me prodigiosamente. Quis ler mais; mas as<br \/>\nlinhas fugiam, ondeando como cobras assustadas, e no vazio que deixavam, de<br \/>\numa lividez de pergaminho, l\u00e1 ficava, rebrilhando em negro, a interpela\u00e7\u00e3o<br \/>\nestranha &#8211; \u00abtocar\u00e1s tu a campainha?\u00bb<\/p>\n<p>Se o volume fosse de uma honesta edi\u00e7\u00e3o Michel-Levy, de capa<br \/>\namarela, eu, que por fim n\u00e3o me achava perdido numa floresta de balada<br \/>\nalem\u00e3, e podia da minha sacada ver branquejar \u00e0 luz do g\u00e1s<br \/>\no correame da patrulha &#8211; teria simplesmente fechado o livro, e estava dissipada<br \/>\na alucina\u00e7\u00e3o nervosa. Mas aquele sombrio in-f\u00f3lio parecia<br \/>\nexalar magia; cada letra afectava a inquietadora configura\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesses sinais da velha cabala, que encerram um atributo fat\u00eddico; as<br \/>\nv\u00edrgulas tinham o retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos<br \/>\nnuma alvura de luar; no ponto de interroga\u00e7\u00e3o final eu via o<br \/>\npavoroso gancho com que o Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem<br \/>\nse refugiar na inviol\u00e1vel cidadela da Ora\u00e7\u00e3o!&#8230; Uma<br \/>\ninflu\u00eancia sobrenatural apoderando-se de mim, arrebatava-me devagar<br \/>\npara fora da realidade, do racioc\u00ednio: e no meu esp\u00edrito foram-se<br \/>\nformando duas vis\u00f5es &#8211; de um lado um mandarim decr\u00e9pito, morrendo<br \/>\nsem dor, longe, num quiosque chin\u00eas, a um ti-li-tim de campainha; do<br \/>\noutro toda uma montanha de ouro cintilando aos meus p\u00e9s! Isto era t\u00e3o<br \/>\nn\u00edtido, que eu via os olhos obl\u00edquos do velho personagem embaciarem-se,<br \/>\ncomo cobertos de uma t\u00e9nue camada de p\u00f3; e sentia o fino tinir<br \/>\nde libras rolando juntas. E im\u00f3vel, arrepiado, cravava os olhos ardentes<br \/>\nna campainha, pousada pacatamente diante de mim sobre um dicion\u00e1rio<br \/>\nfranc\u00eas &#8211; a campainha prevista, citada no mir\u00edfico in-f\u00f3lio&#8230;<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e met\u00e1lica<br \/>\nme disse, no sil\u00eancio:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, Teodoro, meu Amigo, estenda a m\u00e3o, toque a campainha, seja<br \/>\num forte!<\/p>\n<p>O abat-jour verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a tremer.<br \/>\nE vi, muito pacificamente sentado, um indiv\u00edduo corpulento, todo vestido<br \/>\nde preto, de chap\u00e9u alto, com as duas m\u00e3os cal\u00e7adas de<br \/>\nluvas negras gravemente apoiadas ao cabo de um guarda-chuva. N\u00e3o tinha<br \/>\nnada de fant\u00e1stico. Parecia t\u00e3o contempor\u00e2neo, t\u00e3o<br \/>\nregular, t\u00e3o classe m\u00e9dia como se viesse da minha reparti\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e duras;<br \/>\no nariz brusco, de um aquilino formid\u00e1vel, apresentava a express\u00e3o<br \/>\nrapace e atacante de um bico de \u00e1guia; o corte dos l\u00e1bios, muito<br \/>\nfirme, fazia-lhe como uma boca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam<br \/>\ndois clar\u00f5es de tiro, partindo subitamente de entre as sar\u00e7as<br \/>\ntenebrosas das sobrancelhas unidas; era l\u00edvido &#8211; mas, aqui e al\u00e9m<br \/>\nna pele, corriam-lhe raia\u00e7\u00f5es sangu\u00edneas como num velho<br \/>\nm\u00e1rmore fen\u00edcio.<\/p>\n<p>Veio-me \u00e0 ideia de repente que tinha diante de mim o Diabo: mas logo<br \/>\ntodo o meu racioc\u00ednio se insurgiu resolutamente contra esta imagina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEu nunca acreditei no Diabo &#8211; como nunca acreditei em Deus. Jamais o disse<br \/>\nalto, ou o escrevi nas gazetas, para n\u00e3o descontentar os poderes p\u00fablicos,<br \/>\nencarregados de manter o respeito por tais entidades: mas que existam estes<br \/>\ndois personagens, velhos como a Subst\u00e2ncia, rivais bonacheir\u00f5es,<br \/>\nfazendo-se mutuamente pirra\u00e7as am\u00e1veis, &#8211; um de barbas nevadas<br \/>\ne t\u00fanica azul, na toilette do antigo Jove, habitando os altos luminosos,<br \/>\nentre uma corte mais complicada que a de Lu\u00eds XIV; e o outro enfarruscado<br \/>\ne manhoso, ornado de cornos, vivendo nas chamas inferiores, numa imita\u00e7\u00e3o<br \/>\nburguesa do pitoresco Plut\u00e3o &#8211; n\u00e3o acredito. N\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\nacredito! C\u00e9u e Inferno s\u00e3o concep\u00e7\u00f5es sociais<br \/>\npara uso da plebe &#8211; e eu perten\u00e7o \u00e0 classe m\u00e9dia. Rezo,<br \/>\n\u00e9 verdade, a Nossa Senhora das Dores: porque, assim como pedi o favor<br \/>\ndo senhor doutor para passar no meu acto; assim como, para obter os meus vinte<br \/>\nmil r\u00e9is, implorei a benevol\u00eancia do senhor deputado; igualmente<br \/>\npara me subtrair \u00e0 t\u00edsica, \u00e0 angina, \u00e0 navalha<br \/>\nde ponta, \u00e0 febre que vem da sarjeta, \u00e0 casca da laranja escorregadia<br \/>\nonde se quebra a perna, a outros males p\u00fablicos, necessito ter uma<br \/>\nprotec\u00e7\u00e3o extra-humana. Ou pelo rapap\u00e9 ou pelo incensador,<br \/>\no homem prudente deve ir fazendo assim uma s\u00e9rie de s\u00e1bias adula\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndesde a Arcada at\u00e9 ao Para\u00edso. Com um compadre no bairro, e<br \/>\numa comadre m\u00edstica nas alturas &#8211; o destino do bacharel est\u00e1<br \/>\nseguro.<\/p>\n<p>Por isso, livre de torpes supersti\u00e7\u00f5es, disse familiarmente<br \/>\nao indiv\u00edduo vestido de negro:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, realmente, aconselha-me que toque a campainha?<\/p>\n<p>Ele ergueu um pouco o chap\u00e9u, descobrindo a fronte estreita, enfeitada<br \/>\nde uma gaforinha crespa e negrejante como a do fabuloso Alcides, e respondeu,<br \/>\npalavra a palavra: &#8211; Aqui est\u00e1 o seu caso, estim\u00e1vel Teodoro.<br \/>\nVinte mil r\u00e9is mensais s\u00e3o uma vergonha social! Por outro lado,<br \/>\nh\u00e1 sobre este globo coisas prodigiosas: h\u00e1 vinhos de Borgonha,<br \/>\ncomo por exemplo o Roman\u00e9e-Conti de 58 e o Chambertin, de 61, que custam,<br \/>\ncada garrafa, de dez a onze mil r\u00e9is; e quem bebe o primeiro c\u00e1lice,<br \/>\nn\u00e3o hesitar\u00e1, para beber o segundo, em assassinar seu pai&#8230;<br \/>\nFabricam-se em Paris e em Londres carruagens de t\u00e3o suaves molas, de<br \/>\nt\u00e3o mimosos estofos, que \u00e9 prefer\u00edvel percorrer nelas<br \/>\no Campo Grande, a viajar, como os antigos deuses, pelos c\u00e9us, sobre<br \/>\nos fofos coxins das nuvens&#8230; N\u00e3o farei \u00e0 sua instru\u00e7\u00e3o<br \/>\na ofensa de o informar que se mobilam hoje casas, de um estilo e de um conforto,<br \/>\nque s\u00e3o elas que realizam superiormente esse regalo fict\u00edcio,<br \/>\nchamado outrora a \u00abbem-aventuran\u00e7a\u00bb. N\u00e3o lhe falarei,<br \/>\nTeodoro, de outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Teatro do Palais<br \/>\nRoyal, o baile Laborde, o Caf\u00e9 Anglais&#8230; S\u00f3 chamarei a sua<br \/>\naten\u00e7\u00e3o para este facto: existem seres que se chamam Mulheres<br \/>\n&#8211; diferentes daqueles que conhece, e que se denominam F\u00eameas. Estes<br \/>\nseres, Teodoro, no meu tempo, a p\u00e1ginas 3 da B\u00edblia, apenas<br \/>\nusavam exteriormente uma folha de vinha. Hoje, Teodoro, \u00e9 toda uma<br \/>\nsinfonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, baptistes, cetins,<br \/>\nflores, j\u00f3ias, caxemiras, gazes e veludos&#8230; Compreende a satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\ninenarr\u00e1vel que haver\u00e1, para os cinco dedos de um crist\u00e3o,<br \/>\nem percorrer, palpar estas maravilhas macias; &#8211; mas tamb\u00e9m percebe<br \/>\nque n\u00e3o \u00e9 com o troco de uma placa honesta de cinco tost\u00f5es<br \/>\nque se pagam as contas destes querubins&#8230; Mas elas possuem melhor, Teodoro:<br \/>\ns\u00e3o os cabelos cor do ouro ou cor da treva, tendo assim nas suas tran\u00e7as<br \/>\na apar\u00eancia emblem\u00e1tica das duas grandes tenta\u00e7\u00f5es<br \/>\nhumanas &#8211; a fome do metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente.<br \/>\nE ainda t\u00eam mais: s\u00e3o os bra\u00e7os cor de m\u00e1rmore,<br \/>\nde uma frescura de l\u00edrio orvalhado; s\u00e3o os seios, sobre os quais<br \/>\no grande Prax\u00edteles modelou a sua Ta\u00e7a, que \u00e9 a linha<br \/>\nmais pura e mais ideal da Antiguidade&#8230; Os seios, outrora (na ideia desse<br \/>\ning\u00e9nuo Anci\u00e3o que os formou, que fabricou o mundo, e de quem<br \/>\numa inimizade secular me veda de pronunciar o nome), eram destinados \u00e0<br \/>\nnutri\u00e7\u00e3o augusta da humanidade; sossegue por\u00e9m, Teodoro;<br \/>\nhoje nenhuma mam\u00e3 racional os exp\u00f5e a essa fun\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeterioradora e severa; servem s\u00f3 para resplandecer, aninhados em rendas,<br \/>\nao g\u00e1s das soir\u00e9es, &#8211; e para outros usos secretos. As conveni\u00eancias<br \/>\nimpedem-me de prosseguir nesta exposi\u00e7\u00e3o radiosa das belezas<br \/>\nque constituem o fatal feminino&#8230; De resto as suas pupilas j\u00e1 rebrilham&#8230;<br \/>\nOra todas estas coisas, Teodoro, est\u00e3o para al\u00e9m, infinitamente<br \/>\npara al\u00e9m dos seus vinte mil r\u00e9is por m\u00eas&#8230; Confesse,<br \/>\nao menos, que estas palavras t\u00eam o vener\u00e1vel selo da verdade!&#8230;<\/p>\n<p>Eu murmurei, com as faces abrasadas:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00eam.<\/p>\n<p>E a sua voz prosseguiu, paciente e suave:<\/p>\n<p>&#8211; Que me diz a cento e cinco, ou cento e seis mil contos? Bem sei, \u00e9<br \/>\numa bagatela&#8230; Mas enfim, constituem um come\u00e7o; s\u00e3o uma ligeira<br \/>\nhabilita\u00e7\u00e3o p\u00e1ra conquistar a felicidade. Agora pondere<br \/>\nestes factos: o Mandarim, esse Mandarim do fundo da China, est\u00e1 decr\u00e9pito<br \/>\ne est\u00e1 gotoso: como homem, como funcion\u00e1rio do Celeste Imp\u00e9rio,<br \/>\n\u00e9 mais in\u00fatil em Pequim e na humanidade, que um seixo na boca<br \/>\nde um c\u00e3o esfomeado. Mas a transforma\u00e7\u00e3o da Subst\u00e2ncia<br \/>\nexiste: garanto-lha eu, que sei o segredo das coisas&#8230; Porque a terra \u00e9<br \/>\nassim: recolhe aqui um homem apodrecido, e restitui-o al\u00e9m ao conjunto<br \/>\ndas formas como vegetal vi\u00e7oso. Bem pode ser que ele, in\u00fatil<br \/>\ncomo mandarim no Imp\u00e9rio do Meio, v\u00e1 ser \u00fatil noutra<br \/>\nterra como rosa perfumada ou saboroso repolho. Matar, meu filho, \u00e9<br \/>\nquase sempre equilibrar as necessidades universais. \u00c9 eliminar aqui<br \/>\na excresc\u00eancia para ir al\u00e9m suprir a falta. Penetre-se destas<br \/>\ns\u00f3lidas filosofias. Uma pobre costureira de Londres anseia por ver<br \/>\nflorir, na sua trapeira, um vaso cheio de terra negra: uma flor consolaria<br \/>\naquela deserdada; mas na disposi\u00e7\u00e3o dos seres, infelizmente,<br \/>\nnesse momento, a Subst\u00e2ncia que l\u00e1 devia ser rosa \u00e9 aqui<br \/>\nna Baixa homem de Estado&#8230; Vem ent\u00e3o o fadista de navalha aberta,<br \/>\ne fende o estadista; o enxurro leva lhe os intestinos; enterram-no, com tip\u00f3ias<br \/>\natr\u00e1s; a mat\u00e9ria come\u00e7a a desorganizar-se, mistura-se<br \/>\n\u00e0 vasta evolu\u00e7\u00e3o dos \u00e1tomos &#8211; e o sup\u00e9rfluo<br \/>\nhomem de governo vai alegrar, sob a forma de amor-perfeito, a \u00e1gua-furtada<br \/>\nda loura costureira. O assassino \u00e9 um filantropo! Deixe-me resumir,<br \/>\nTeodoro: a morte desse velho Mandarim idiota traz-lhe \u00e0 algibeira alguns<br \/>\nmilhares de contos. Pode desde esse momento dar pontap\u00e9s nos poderes<br \/>\np\u00fablicos: medite na intensidade deste gozo! &#8211; \u00c9 desde logo citado<br \/>\nnos jornais: reveja-se nesse m\u00e1ximo da gl\u00f3ria humana! E agora<br \/>\nnote: \u00e9 s\u00f3 agarrar a campainha, e fazer ti-li-tim. Eu n\u00e3o<br \/>\nsou um b\u00e1rbaro: compreendo a repugn\u00e2ncia de um gentleman em assassinar<br \/>\num contempor\u00e2neo: o espirrar do sangue suja vergonhosamente os punhos,<br \/>\ne \u00e9 repulsivo o agonizar de um corpo humano. Mas aqui, nenhum desses<br \/>\nespect\u00e1culos torpes&#8230; \u00c9 como quem chama um criado&#8230; E s\u00e3o<br \/>\ncento e cinco ou cento e seis mil contos; n\u00e3o me lembro, mas tenho-o<br \/>\nnos meus apontamentos&#8230; O Teodoro n\u00e3o duvida de mim. Sou um cavalheiro:<br \/>\n&#8211; provei-o, quando, fazendo a guerra a um tirano na primeira insurrei\u00e7\u00e3o<br \/>\nda justi\u00e7a, me vi precipitado de alturas que nem Vossa Senhoria concebe&#8230;<br \/>\nUm trambolh\u00e3o consider\u00e1vel, meu caro senhor! Grandes desgostos!<br \/>\nO que me consola \u00e9 que o outro est\u00e1 tamb\u00e9m muito abalado:<br \/>\nporque, meu Amigo, quando um Jeov\u00e1 tem apenas contra si um Satan\u00e1s,<br \/>\ntira-se bem de dificuldades mandando carregar mais uma legi\u00e3o de arcanjos;<br \/>\nmas quando o inimigo \u00e9 um homem, armado de uma pena de pato e de um<br \/>\ncaderno de papel branco &#8211; est\u00e1 perdido&#8230; Enfim s\u00e3o seis mil<br \/>\ncontos. Vamos, Teodoro, ai tem a campainha, seja um homem.<\/p>\n<p>Eu sei o que deve a si mesmo um crist\u00e3o. Se este personagem me tivesse<br \/>\nlevado ao cume de uma montanha na Palestina, por uma noite de lua cheia, e<br \/>\na\u00ed, mostrando-me cidades, ra\u00e7as e imp\u00e9rios adormecidos,<br \/>\nsombriamente me dissesse: \u00abMata o mandarim, e tudo o que v\u00eas em<br \/>\nvale e colina ser\u00e1 teu\u00bb, eu saberia replicar-lhe, seguindo um<br \/>\nexemplo ilustre, e erguendo o dedo \u00e0s profundidades consteladas: \u00abO<br \/>\nmeu reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo!\u00bb Eu conhe\u00e7o os meus<br \/>\nautores. Mas eram cento e tantos mil contos, oferecidos \u00e0 luz de uma<br \/>\nvela de estearina, na Travessa da Concei\u00e7\u00e3o, por um sujeito<br \/>\nde chap\u00e9u alto, apoiado a um guarda-chuva&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o n\u00e3o hesitei. E, de m\u00e3o firme, repeniquei a campainha.<br \/>\nFoi talvez uma ilus\u00e3o; mas pareceu-me que um sino, de boca t\u00e3o<br \/>\nvasta como o mesmo c\u00e9u, badalava na escurid\u00e3o, atrav\u00e9s<br \/>\ndo universo, num tom temeroso que decerto foi acordar s\u00f3is que faziam<br \/>\nnen\u00e9 e planetas pan\u00e7udos ressonando sobre os seus eixos&#8230;<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo levou um dedo \u00e0 p\u00e1lpebra, e limpando a l\u00e1grima<br \/>\nque enevoara um instante o seu olho rutilante:<\/p>\n<p>&#8211; Pobre Ti Chin-Fu!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Morreu?<\/p>\n<p>&#8211; Estava no seu jardim, sossegado, armando, para o lan\u00e7ar ao ar, um<br \/>\npapagaio de papel, no passatempo honesto de um mandarim retirado, &#8211; quando<br \/>\no surpreendeu este ti-li-tim da campainha. Agora jaz \u00e0 beira de um<br \/>\narroio cantante, todo vestido de seda amarela, morto, de pan\u00e7a ao ar,<br \/>\nsobre a relva verde: e nos bra\u00e7os frios tem o seu papagaio de papel,<br \/>\nque parece t\u00e3o morto como ele. Amanh\u00e3 s\u00e3o os funerais.<br \/>\nQue a sabedoria de Conf\u00facio, penetrando-o, ajude a bem emigrar a sua<br \/>\nalma!<\/p>\n<p>E o sujeito, erguendo-se, tirou respeitosamente o chap\u00e9u, saiu, com<br \/>\no seu guarda-chuva debaixo do bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ao sentir bater a porta, afigurou-se-me que emergia de um pesadelo.<br \/>\nSaltei ao corredor. Uma voz jovial falava com a Madame Marques; e a cancela<br \/>\nda escada cerrou-se subtilmente.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 que saiu agora, \u00f3 D. Augusta? &#8211; perguntei, num suor.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o Cabritinha que vai um bocadinho \u00e0 batota&#8230;<\/p>\n<p>Voltei ao quarto: tudo l\u00e1 repousava tranquilo, id\u00eantico, real.<br \/>\nO in-f\u00f3lio ainda estava aberto na p\u00e1gina temerosa. Reli-a: agora<br \/>\nparecia-me apenas a prosa antiquada de um moralista caturra; cada palavra<br \/>\nse tornara como um carv\u00e3o apagado&#8230;<\/p>\n<p>Deitei-me: &#8211; e sonhei que estava longe, para al\u00e9m de Pequim, nas fronteiras<br \/>\nda Tart\u00e1ria, no quiosque de um convento de lamas, ouvindo m\u00e1ximas<br \/>\nprudentes e suaves que escorriam, com um aroma fino de ch\u00e1, dos l\u00e1bios<br \/>\nde um Buda vivo.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Decorreu um m\u00eas.<\/p>\n<p>Eu, no entanto, rotineiro e triste, l\u00e1 ia pondo o meu cursivo ao servi\u00e7o<br \/>\ndos poderes p\u00fablicos, e admirando aos domingos a per\u00edcia tocante<br \/>\ncom que a D. Augusta lavava a caspa do Couceiro. Era agora evidente para mim<br \/>\nque, nessa noite, eu adormecera sobre o in-f\u00f3lio e sonhara com uma<br \/>\n\u00abTenta\u00e7\u00e3o da Montanha\u00bb sob formas familiares. Instintivamente,<br \/>\npor\u00e9m, comecei a preocupar-me com a China. Ia ler os telegramas \u00e0<br \/>\nHavanesa; e o que o meu interesse l\u00e1 buscava, eram sempre as not\u00edcias<br \/>\ndo Imp\u00e9rio do Meio; parece por\u00e9m que, a esse tempo, nada se<br \/>\npassava na regi\u00e3o das ra\u00e7as amarelas&#8230; A Ag\u00eancia Havas<br \/>\ns\u00f3 tagarelava sobre a Herzegovina, a B\u00f3snia, a Bulg\u00e1ria<br \/>\ne outras curiosidades b\u00e1rbaras&#8230;<\/p>\n<p>Pouco a pouco fui esquecendo o meu epis\u00f3dio fantasmag\u00f3rico:<br \/>\ne ao mesmo tempo, como gradualmente o meu esp\u00edrito resserenava, voltaram<br \/>\nde novo a mover-se as antigas ambi\u00e7\u00f5es que l\u00e1 habitavam<br \/>\n&#8211; um ordenado de director-geral, um seio amoroso de Lola, bifes mais tenros<br \/>\nque os da D. Augusta. Mas tais regalos pareciam-me t\u00e3o inacess\u00edveis,<br \/>\nt\u00e3o nascidos dos sonhos &#8211; como os pr\u00f3prios milh\u00f5es do<br \/>\nMandarim. E pelo mon\u00f3tono deserto da vida, l\u00e1 foi seguindo,<br \/>\nl\u00e1 foi marchando a lenta caravana das minhas melancolias&#8230;<\/p>\n<p>Um domingo de Agosto, de manh\u00e3, estirado na cama em mangas de camisa,<br \/>\neu dormitava, com o cigarro apagado no l\u00e1bio &#8211; quando a porta rangeu<br \/>\ndevagarinho e, entreabrindo a p\u00e1lpebra dormente, vi curvar-se ao meu<br \/>\nlado uma calva respeitosa. E logo uma voz perturbada murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; O sr. Teodoro?&#8230; O sr. Teodoro do Minist\u00e9rio do Reino?<\/p>\n<p>Ergui-me lentamente sobre o cotovelo e respondi num bocejo:<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu, cavalheiro.<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo recurvou o espinha\u00e7o: assim na presen\u00e7a<br \/>\naugusta de el-rei Bobeche se arqueia o cortes\u00e3o&#8230; Era pequenino e<br \/>\nobeso: a ponta das su\u00ed\u00e7as brancas ro\u00e7ava-lhe as lapelas<br \/>\ndo fraque de alpaca: vener\u00e1veis \u00f3culos de ouro reluziam na sua<br \/>\nface bochechuda, que parecia uma pr\u00f3spera personifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Ordem: e todo ele tremia desde a calva lustrosa at\u00e9 aos botins de<br \/>\nbezerro. Pigarreou, cuspilhou, balbuciou:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o not\u00edcias para Vossa Senhoria! Consider\u00e1veis not\u00edcias!<br \/>\nO meu nome \u00e9 Silvestre&#8230; Silvestre, Juliano &amp; C\u00aa&#8230; Um servi\u00e7al<br \/>\ncriado de Vossa Excel\u00eancia&#8230; Chegaram justamente pelo paquete de Southampton&#8230;<br \/>\nN\u00f3s somos correspondentes de Brito, Alves &amp; C\u00aa, de Macau&#8230;<br \/>\nCorrespondentes de Craig and C\u00aa, de Hong-Kong&#8230; As letras v\u00eam<br \/>\nde Hong-Kong&#8230;<\/p>\n<p>O sujeito engasgava-se; e a sua m\u00e3o gordinha agitava em tremuras um<br \/>\nenvelope repleto, com um selo de lacre negro.<\/p>\n<p>&#8211; Vossa Excel\u00eancia &#8211; prosseguiu &#8211; estava decerto prevenido&#8230; N\u00f3s<br \/>\n\u00e9 que o n\u00e3o est\u00e1vamos&#8230; A atrapalha\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 natural&#8230; O que esperamos \u00e9 que Vossa Excel\u00eancia nos<br \/>\nconserve a sua benevol\u00eancia&#8230; N\u00f3s sempre respeit\u00e1mos<br \/>\nmuito o car\u00e1cter de Vossa Excel\u00eancia&#8230; Vossa Excel\u00eancia<br \/>\n\u00e9 nesta terra uma flor de virtude, e espelho de bons! Aqui est\u00e3o<br \/>\nos primeiros saques sobre Bhering and Brothers, de Londres&#8230; Letras a trinta<br \/>\ndias sobre Rothschild&#8230;<\/p>\n<p>A este nome, ressoante como o mesmo ouro, saltei vorazmente do leito:<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 isso, senhor? &#8211; gritei.<\/p>\n<p>E ele, gritando mais, brandindo o envelope, todo al\u00e7ado no bico dos<br \/>\nbotins:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o cento e seis mil contos, senhor! Cento e seis mil contos sobre<br \/>\nLondres, Paris, Hamburgo e Amsterd\u00e3o, sacados a seu favor, excelent\u00edssimo<br \/>\nsenhor!&#8230; A seu favor, excelent\u00edssimo senhor! Pelas casas de Hong-Kong,<br \/>\nde Xangai e de Cant\u00e3o, da heran\u00e7a depositada do mandarim Ti<br \/>\nChin-Fu!<\/p>\n<p>Senti tremer o globo sob os meus p\u00e9s &#8211; e cerrei um momento os olhos..<br \/>\nMas compreendi, num relance, que eu era, desde essa hora, como uma encarna\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Sobrenatural, recebendo dele a minha for\u00e7a e possuindo os seus atributos.<br \/>\nN\u00e3o podia comportar-me como um homem, nem desconsiderar-me em expans\u00f5es<br \/>\nhumanas. At\u00e9, para n\u00e3o quebrar a linha hier\u00e1tica &#8211; abstive-me<br \/>\nde ir solu\u00e7ar, como mo pedia a alma, sobre o vasto seio da Madame Marques&#8230;<\/p>\n<p>De ora em diante cabia-me a impassibilidade de um deus &#8211; ou de um dem\u00f3nio:<br \/>\ndei, com naturalidade, um pux\u00e3o \u00e0s cal\u00e7as, e disse a<br \/>\nSilvestre, Juliano &amp; C\u00aa estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem! O Mandarim&#8230; esse Mandarim que disse, portou-se com cavalheirismo.<br \/>\nEu sei do que se trata: \u00e9 uma quest\u00e3o de fam\u00edlia. Deixe<br \/>\na\u00ed os pap\u00e9is&#8230; Bons dias.<\/p>\n<p>Silvestre, Juliano &amp; C\u00aa retirou-se, \u00e0s arrecuas, de dorso<br \/>\nvergado e fronte voltada ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu ent\u00e3o fui abrir, toda larga, a janela: e, dobrando para tr\u00e1s<br \/>\na cabe\u00e7a, respirei o ar c\u00e1lido, consoladamente, como uma cor\u00e7a<br \/>\ncansada&#8230;<\/p>\n<p>Depois olhei para baixo, para a rua, onde toda uma burguesia se escoava,<br \/>\nnuma pacata sa\u00edda de missa, entre duas filas de trens. Fixei, aqui<br \/>\ne al\u00e9m, inconscientemente, algumas cuias de senhoras, alguns metais<br \/>\nbrilhantes de arreios. E de repente veio-me esta ideia, esta triunfante certeza<br \/>\n&#8211; que todas aquelas tip\u00f3ias as podia eu tomar \u00e0 hora ou ao ano!<br \/>\nQue nenhuma das mulheres que via deixaria de me oferecer o seu seio nu a um<br \/>\naceno do meu desejo! Que todos esses homens, de sobrecasaca de domingo, se<br \/>\nprostrariam diante de mim como diante de um Cristo, de um Maom\u00e9 ou<br \/>\nde um Buda, se eu lhes sacudisse junto \u00e0 face cento e seis mil contos<br \/>\nsobre as pra\u00e7as da Europa!&#8230;<\/p>\n<p>Apoiei-me \u00e0 varanda: e ri, com t\u00e9dio, vendo a agita\u00e7\u00e3o<br \/>\nef\u00e9mera daquela humanidade subalterna &#8211; que se considerava livre e<br \/>\nforte, enquanto por cima, numa sacada de quarto andar, eu tinha na m\u00e3o,<br \/>\nnum envelope lacrado de negro, o princ\u00edpio mesmo da sua fraqueza e<br \/>\nda sua escravid\u00e3o! Ent\u00e3o, satisfa\u00e7\u00f5es do Luxo,<br \/>\nregalos do Amor, orgulhos do Poder, tudo gozei, pela imagina\u00e7\u00e3o;<br \/>\nnum instante, e de um s\u00f3 sorvo. Mas logo uma grande saciedade me foi<br \/>\ninvadindo a alma: e, sentindo o mundo aos meus p\u00e9s &#8211; bocejei como um<br \/>\nle\u00e3o farto.<\/p>\n<p>De que me serviam por fim tantos milh\u00f5es sen\u00e3o para me trazerem,<br \/>\ndia a dia, a afirma\u00e7\u00e3o desoladora da vileza humana?&#8230; E assim,<br \/>\nao choque de tanto ouro, ia desaparecer a meus olhos, como um fumo, a beleza<br \/>\nmoral do universo! Tomou-me uma tristeza m\u00edstica. Abati-me sobre uma<br \/>\ncadeira; e, com a face entre as m\u00e3os, chorei abundantemente.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco Madame Marques abria a porta, toda vistosa nas suas sedas<br \/>\npretas.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1-se \u00e0 sua espera para jantar, engui\u00e7o! Emergi<br \/>\nda minha amargura para lhe responder secamente:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o janto!<\/p>\n<p>&#8211; Mais fica!<\/p>\n<p>Nesse momento estalavam foguetes ao longe. Lembrei-me que era domingo, dia<br \/>\nde touros: de repente uma vis\u00e3o rebrilhou, flamejou, atraindo-me deliciosamente:<br \/>\n&#8211; era a tourada vista de um camarote; depois um jantar com champanhe; \u00e0<br \/>\nnoite a orgia, como uma inicia\u00e7\u00e3o! Corri \u00e0 mesa. Atulhei<br \/>\nas algibeiras de letras sobre Londres. Desci \u00e0 rua com um furor de<br \/>\nabutre fendendo o ar contra a presa. Uma caleche passava, vazia. Detive-a,<br \/>\nberrei:<\/p>\n<p>&#8211; Aos touros!<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o dez tost\u00f5es, meu amo!<\/p>\n<p>Encarei com repuls\u00e3o aquele reles peda\u00e7o de mat\u00e9ria<br \/>\norganizada &#8211; que falava em placas de prata a um colosso de ouro! Enterrei<br \/>\na m\u00e3o na algibeira ajoujada de milh\u00f5es e tirei o meu metal:<br \/>\ntinha setecentos e vinte!<\/p>\n<p>O cocheiro bateu a anca da \u00e9gua e seguiu, resmungando. Eu balbuciei:<\/p>\n<p>&#8211; Mas tenho letras!&#8230; Aqui est\u00e3o! Sobre Londres! Sobre Hamburgo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pega.<\/p>\n<p>Setecentos e vinte!&#8230; E touros, jantar de lorde, andaluzas nuas, todo esse<br \/>\nsonho expirou como uma bola de sab\u00e3o que bate a ponta de um prego.<\/p>\n<p>Odiei a humanidade, abominei o numer\u00e1rio. Outra tip\u00f3ia, lan\u00e7ada<br \/>\na trote, apinhada de gente festiva, quase me atropelou naquela abstrac\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que eu ficara com os meus setecentos e vinte na palma da m\u00e3o suada.<\/p>\n<p>Cabisbaixo, enchuma\u00e7ado de milh\u00f5es sobre Rothschild, voltei<br \/>\nao meu quarto andar: humilhei-me \u00e0 Madame Marques, aceitei-lhe o bife<br \/>\nc\u00f3rneo; e passei essa primeira noite de riqueza bocejando sobre o leito<br \/>\nsolit\u00e1rio &#8211; enquanto fora o alegre Couceiro, o mesquinho tenente de<br \/>\nquinze mil r\u00e9is de soldo, ria com a D. Augusta, repenicando \u00e0<br \/>\nviola o \u00abFado da Cotovia\u00bb.<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 na manh\u00e3 seguinte, ao fazer a barba, que reflecti sobre<br \/>\na origem dos meus milh\u00f5es. Ela era evidentemente sobrenatural e suspeita.<\/p>\n<p>Mas como o meu racionalismo me impedia de atribuir estes tesouros imprevistos<br \/>\n\u00e0 generosidade caprichosa de Deus ou do Diabo, fic\u00e7\u00f5es<br \/>\npuramente escol\u00e1sticas; como os fragmentos de positivismo, que constituem<br \/>\no fundo da minha filosofia, n\u00e3o me permitiam a indaga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas causas prim\u00e1rias, das origens essenciais &#8211; bem depressa me decidi<br \/>\na aceitar serenamente este fen\u00f3meno e a utiliz\u00e1-lo com largueza.<br \/>\nPortanto corri de quinzena ao vento para o London and Brazilian Bank&#8230;<\/p>\n<p>A\u00ed, arremessei para cima do balc\u00e3o um papel sobre o Banco de<br \/>\nInglaterra de mil libras, e soltei esta deliciosa palavra:<\/p>\n<p>&#8211; Ouro!<\/p>\n<p>Um caixeiro sugeriu-me com do\u00e7ura:<\/p>\n<p>&#8211; Talvez lhe fosse mais c\u00f3modo em notas&#8230;<\/p>\n<p>Repeti secamente:<\/p>\n<p>&#8211; Ouro!<\/p>\n<p>Atulhei as algibeiras, devagar, aos punhados: e na rua, ajoujado, icei-me<br \/>\npara uma caleche. Sentia-me gordo, sentia-me obeso; tinha na boca um sabor<br \/>\nde ouro, uma secura de p\u00f3 de ouro na pele das m\u00e3os: as paredes<br \/>\ndas casas pareciam-me faiscar como longas l\u00e2minas de ouro: e dentro<br \/>\ndo c\u00e9rebro ia-me um rumor surdo onde retilintavam metais &#8211; como o movimento<br \/>\nde um oceano que nas vagas rolasse barras de ouro.<\/p>\n<p>Abandonando-me \u00e0 oscila\u00e7\u00e3o das molas, rebolante como<br \/>\num odre mal firme, deixava cair sobre a rua, sobre a gente, o olhar turvo<br \/>\ne tedioso do ser repleto. Enfim, atirando o chap\u00e9u para a nuca, estirando<br \/>\na perna, empinando o ventre, arrotei formidavelmente de flatul\u00eancia<br \/>\nrica\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Muito tempo rolei assim pela cidade, bestializado num gozo de nababo.<\/p>\n<p>Subitamente um brusco apetite de gastar, de dissipar ouro, veio-me enfunar<br \/>\no peito como uma rajada que incha uma vela.<\/p>\n<p>&#8211; P\u00e1ra, animal! &#8211; berrei, ao cocheiro.<\/p>\n<p>A parelha estacou. Procurei em redor com a p\u00e1lpebra meio cerrada alguma<br \/>\ncoisa cara a comprar &#8211; j\u00f3ia de rainha ou consci\u00eancia de estadista:<br \/>\nnada vi; precipitei-me ent\u00e3o para um estanco:<\/p>\n<p>&#8211; Charutos: de tost\u00e3o! de cruzado! Mais caros! de dez tost\u00f5es!<\/p>\n<p>&#8211; Quantos?&#8230; &#8211; perguntou servilmente o homem.<\/p>\n<p>&#8211; Todos! &#8211; respondi com brutalidade.<\/p>\n<p>\u00c0 porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao seio, estendeu-me<br \/>\na m\u00e3o transparente. Incomodava-me procurar os trocos de cobre por entre<br \/>\nos meus punhados de ouro. Repeli-a, impaciente: e, de chap\u00e9u sobre<br \/>\no olho, encarei friamente a turba.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que avistei, adiantando-se, o vulto ponderoso do meu director-geral:<br \/>\nimediatamente achei-me com o dorso curvado em arco e o chap\u00e9u cumprimentador<br \/>\nro\u00e7ando as lajes. Era o h\u00e1bito da depend\u00eancia: os meus<br \/>\nmilh\u00f5es n\u00e3o me tinham dado ainda a verticalidade \u00e0 espinha&#8230;<\/p>\n<p>Em casa despejei o ouro sobre o leito, e rolei-me por cima dele, muito tempo,<br \/>\ngrunhindo num gozo surdo. A torre, ao lado, bateu tr\u00eas horas; e o Sol<br \/>\napressado j\u00e1 descia, levando consigo o meu primeiro dia de opul\u00eancia&#8230;<br \/>\nEnt\u00e3o, coura\u00e7ado de libras, corri a saciar-me!<\/p>\n<p>Ah, que dia! Jantei num gabinete do Hotel Central, solit\u00e1rio e ego\u00edsta,<br \/>\ncom a mesa alastrada de Bord\u00e9us, Borgonha, Champagne, Reno, licores<br \/>\nde todas as comunidades religiosas &#8211; como para matar uma sede de trinta anos!<br \/>\nMas s\u00f3 me fartei de Colares. Depois, cambaleando, arrastei-me para<br \/>\no lupanar! Que noite! A alvorada clareou por tr\u00e1s das persianas; e<br \/>\nachei-me estatelado no tapete, exausto e seminu, sentindo o corpo e a alma<br \/>\ncomo esva\u00edrem-se, dissolverem-se naquele ambiente abafado onde errava<br \/>\num cheiro de p\u00f3 de arroz, de f\u00eamea e de punch&#8230;<\/p>\n<p>Quando voltei \u00e0 Travessa da Concei\u00e7\u00e3o, as janelas do<br \/>\nmeu quarto estavam fechadas, e a vela expirava, com fogachos l\u00edvidos,<br \/>\nno casti\u00e7al de lat\u00e3o. Ent\u00e3o, ao chegar junto \u00e0<br \/>\ncama, vi isto: estirada de trav\u00e9s, sobre a coberta, jazia uma figura<br \/>\nbojuda de mandarim fulminado, vestida de seda amarela, com um grande rabicho<br \/>\nsolto; e entre os bra\u00e7os, como morto tamb\u00e9m, tinha um papagaio<br \/>\nde papel!<\/p>\n<p>Abri desesperadamente a janela; tudo desapareceu;- o que estava agora sobre<br \/>\no leito era um velho palet\u00f3 alvadio.<\/p>\n<h3><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h3>\n<p>Ent\u00e3o come\u00e7ou a minha vida de milion\u00e1rio. Deixei bem<br \/>\ndepressa a casa de Madame Marques &#8211; que, desde que me sabia rico, me tratava<br \/>\ntodos os dias a arroz-doce, e ela mesma me servia, com o seu vestido de seda<br \/>\ndos domingos. Comprei, habitei o palacete amarelo, ao Loreto: as magnific\u00eancias<br \/>\nda minha instala\u00e7\u00e3o s\u00e3o bem conhecidas pelas gravuras<br \/>\nindiscretas da \u00abIlustra\u00e7\u00e3o Francesa\u00bb. Tornou-se<br \/>\nfamoso na Europa o meu leito, de um gosto exuberante e b\u00e1rbaro, com<br \/>\na barra recoberta de l\u00e2minas de ouro lavrado, e cortinados de um raro<br \/>\nbrocado negro onde ondeiam, bordados a p\u00e9rolas, versos er\u00f3ticos<br \/>\nde Catulo; uma l\u00e2mpada, suspensa no interior, derrama ali a claridade<br \/>\nl\u00e1ctea e amorosa de um luar de Ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Os meus primeiros meses ricos, n\u00e3o o oculto, passei-os a amar &#8211; a<br \/>\namar com o sincero bater de cora\u00e7\u00e3o de um pajem inexperiente.<br \/>\nTinha-a visto, como numa p\u00e1gina de novela, regando os seus craveiros<br \/>\n\u00e0 varanda: chamava-se C\u00e2ndida; era pequenina, era loura; morava<br \/>\na Buenos Aires, numa casinha casta recoberta de trepadeiras; e lembrava-me,<br \/>\npela gra\u00e7a e pelo airoso da cinta, tudo o que a Arte tem criado de<br \/>\nmais fino e fr\u00e1gil &#8211; Mimi, Virg\u00ednia, a Joaninha do Vale de Santar\u00e9m.<\/p>\n<p>Todas as noites eu ca\u00eda, em \u00eaxtases de m\u00edstico, aos seus<br \/>\np\u00e9s cor de jaspe. Todas as manh\u00e3s lhe alastrava o rega\u00e7o<br \/>\nde notas de vinte mil reis: ela repelia-as primeiro com um rubor, &#8211; depois,<br \/>\nao guard\u00e1-las na gaveta, chamava-me o seu anjo Tot\u00f3.<\/p>\n<p>Um dia que eu me introduzira, a passos subtis, por sobre o espesso tapete<br \/>\ns\u00edrio, at\u00e9 ao seu boudoir &#8211; ela estava escrevendo, muito enlevada,<br \/>\nde dedinho no ar: ao ver-me, toda tr\u00e9mula, toda p\u00e1lida, escondeu<br \/>\no papel que tinha o seu monograma. Eu arranquei-lho, num ci\u00fame insensato.<br \/>\nEra a carta, a carta costumada, a carta necess\u00e1ria, a carta que desde<br \/>\na velha Antiguidade a mulher sempre escreve; come\u00e7ava por \u00abMeu<br \/>\nidolatrado\u00bb &#8211; e era para um alferes da vizinhan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Desarraiguei logo esse sentimento do meu peito como uma planta venenosa.<br \/>\nDescri para sempre dos anjos louros, que conservam no olhar azul o reflexo<br \/>\ndos c\u00e9us atravessados; de cima do meu ouro deixei cair sobre a Inoc\u00eancia,<br \/>\no Pudor, e outras idealiza\u00e7\u00f5es funestas, a \u00e1cida gargalhada<br \/>\nde Mefist\u00f3feles: e organizei friamente uma exist\u00eancia animal,<br \/>\ngrandiosa e c\u00ednica.<\/p>\n<p>Ao bater do meio-dia, entrava na minha tina de m\u00e1rmore cor-de-rosa,<br \/>\nonde os perfumes derramados davam \u00e0 \u00e1gua um tom opaco de leite:<br \/>\ndepois pajens tenros, de m\u00e3o macia, friccionavam-me com o cerimonial<br \/>\nde quem celebra um culto: e embrulhado num robe-de-chambre de seda da \u00cdndia,<br \/>\natrav\u00e9s da galeria, dando aqui e al\u00e9m um olhar aos meus Fortunys<br \/>\ne aos meus Corots, entre alas silenciosas de lacaios, dirigia-me ao bife \u00e0<br \/>\ninglesa, servido em S\u00e8vres azul e ouro.<\/p>\n<p>O resto da manh\u00e3, se havia calor, passava-o sobre coxins de cetim<br \/>\ncor de p\u00e9rola, num boudoir em que a mob\u00edlia era de porcelana<br \/>\nfina de Dresde e as flores faziam um jardim de Armida; a\u00ed, saboreava<br \/>\no \u00abDi\u00e1rio de Not\u00edcias\u00bb, enquanto lindas raparigas<br \/>\nvestidas \u00e0 japonesa refrescavam o ar, agitando leques de plumas.<\/p>\n<p>De tarde ia dar uma volta a p\u00e9, at\u00e9 ao Pote das Almas: era<br \/>\na hora mais pesada do dia: encostado \u00e0 bengala, arrastando as pernas<br \/>\nmoles, abria bocejos de fera saciada &#8211; e a turba abjecta parava a contemplar,<br \/>\nem \u00eaxtases, o nababo enfastiado!<\/p>\n<p>\u00c0s vezes vinha-me como uma saudade dos meus tempos ocupados da reparti\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEntrava em casa; e encerrado na livraria, onde o Pensamento da Humanidade<br \/>\nrepousava esquecido e encadernado em marroquim, aparava uma pena de pato,<br \/>\ne ficava horas lan\u00e7ando sobre folhas do meu querido \u00abTojal\u00bb<br \/>\nde outrora: \u00abIl.mo e Ex.mo Sr. &#8211; Tenho a honra de participar a V. Ex.a&#8230;<br \/>\nTenho a honra de passar \u00e0s m\u00e3os de V. Ex.a!&#8230;\u00bb<\/p>\n<p>Ao come\u00e7o da noite um, criado, para anunciar o jantar, fazia soar<br \/>\npelos corredores na sua tuba de prata, \u00e0 moda g\u00f3tica, uma harmonia<br \/>\nsolene. Eu erguia-me e ia comer, majestoso e solit\u00e1rio. Uma popula\u00e7a<br \/>\nde lacaios, de libr\u00e9s de seda negra, servia, num sil\u00eancio de<br \/>\nsombras que resvalam, as vitualhas raras, vinhos do pre\u00e7o de j\u00f3ias:<br \/>\ntoda a mesa era um esplendor de flores, luzes, cristais, cintila\u00e7\u00f5es<br \/>\nde ouro: &#8211; e enrolando-se pelas pir\u00e2mides de frutos, misturando-se ao<br \/>\nvapor dos pratos, errava, como uma n\u00e9voa subtil, um t\u00e9dio inenarr\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>Depois, apopl\u00e9ctico, atirava-me para o fundo do coup\u00e9 &#8211; e l\u00e1<br \/>\nia \u00e0s Janelas Verdes, onde nutria, num jardim de serralho, entre requintes<br \/>\nmu\u00e7ulmanos, um viveiro de f\u00eameas: revestiam-me de uma t\u00fanica<br \/>\nde seda fresca e perfumada, &#8211; e eu abandonava-me a del\u00edrios abomin\u00e1veis&#8230;<br \/>\nTraziam-me semimorto para casa, ao primeiro alvor da manh\u00e3: fazia maquinalmente<br \/>\no meu sinal-da-cruz, e da\u00ed a pouco roncava de ventre ao ar, l\u00edvido<br \/>\ne com um suor frio, como um Tib\u00e9rio exausto.<\/p>\n<p>Entretanto Lisboa rojava-se aos meus p\u00e9s. O p\u00e1tio do palacete<br \/>\nestava constantemente invadido por uma turba: olhando-a enfastiado das janelas<br \/>\nda galeria, eu via l\u00e1 branquejar os peitilhos da Aristocracia, negrejar<br \/>\na sotaina do Clero, e luzir o suor da Plebe: todos vinham suplicar, de l\u00e1bio<br \/>\nabjecto, a honra do meu sorriso e uma participa\u00e7\u00e3o no meu ouro.<br \/>\n\u00c0s vezes consentia em receber algum velho de t\u00edtulo hist\u00f3rico:<br \/>\n&#8211; ele adiantava-se pela sala, quase ro\u00e7ando o tapete com os cabelos<br \/>\nbrancos, tartamudeando adula\u00e7\u00f5es; e imediatamente, espalmando<br \/>\nsobre o peito a m\u00e3o de fortes veias onde corria um sangue de tr\u00eas<br \/>\ns\u00e9culos, oferecia-me uma filha bem-amada para esposa ou para concubina.<\/p>\n<p>Todos os cidad\u00e3os me traziam presentes como a um \u00eddolo sobre<br \/>\no altar &#8211; uns odes votivas, outros o meu monograma bordado a cabelo, alguns<br \/>\nchinelas ou boquilhas, cada um a sua consci\u00eancia. Se o meu olhar amortecido<br \/>\nfixava, por acaso, na rua, uma mulher &#8211; era logo ao outro dia uma carta em<br \/>\nque a criatura, esposa ou prostituta, me ofertava a sua nudez, o seu amor,<br \/>\ne todas as complac\u00eancias da lasc\u00edvia.<\/p>\n<p>Os jornalistas esporeavam a imagina\u00e7\u00e3o para achar adjectivos<br \/>\ndignos da minha grandeza; fui o sublime sr. Teodoro, cheguei a ser o celeste<br \/>\nsr. Teodoro; ent\u00e3o, desvairada, a \u00abGazeta das Locais\u00bb chamou-me<br \/>\no extraceleste sr. Teodoro! Diante de mim nenhuma, cabe\u00e7a ficou jamais<br \/>\ncoberta &#8211; ou usasse a coroa ou o coco. Todos os dias me era oferecida uma<br \/>\npresid\u00eancia de Minist\u00e9rio ou uma direc\u00e7\u00e3o de confraria.<br \/>\nRecusei sempre, com nojo.<\/p>\n<p>Pouco a pouco o rumor das minhas riquezas foi passando os confins da Monarquia.<br \/>\nO \u00abFigaro\u00bb, cortes\u00e3o, em cada n\u00famero falou de mim,<br \/>\npreferindo-me a Henrique V; o grotesco imortal que assina \u00abSaint-Genest\u00bb<br \/>\ndirigiu-me ap\u00f3strofes convulsivas, pedindo-me para salvar a Fran\u00e7a;<br \/>\ne foi ent\u00e3o que as \u00abIlustra\u00e7\u00f5es\u00bb estrangeiras<br \/>\npublicaram, a cores, as cenas do meu viver. Recebi de todas as princesas da<br \/>\nEuropa envelopes, com selos her\u00e1ldicos, expondo-me, por fotografias,<br \/>\npor documentos, a forma dos seus corpos e a antiguidade das suas genealogias.<br \/>\nDuas pilh\u00e9rias que soltei durante esse ano foram telegrafadas ao universo<br \/>\npelos fios da Ag\u00eancia Havas; e fui considerado mais espirituoso que<br \/>\nVoltaire, que Rochefort, e que esse fino entendimento que se chama \u00abTodo-o-Mundo\u00bb.<br \/>\nQuando o meu intestino se aliviava com estampido &#8211; a humanidade sabia-o pelas<br \/>\ngazetas. Fiz empr\u00e9stimos aos reis, subsidiei guerras civis &#8211; e fui<br \/>\ncaloteado por todas as rep\u00fablicas latinas que orlam o golfo do M\u00e9xico.<br \/>\nE eu, no entanto, vivia triste&#8230;<\/p>\n<p>Todas as vezes que entrava em casa estacava, arrepiado, diante da mesma vis\u00e3o:<br \/>\nou estirada no limiar da porta, ou atravessada sobre o leito de ouro &#8211; l\u00e1<br \/>\njazia a figura bojuda, de rabicho negro e t\u00fanica amarela, com o seu<br \/>\npapagaio nos bra\u00e7os&#8230; Era o mandarim Ti Chin-Fu! Eu precipitava-me,<br \/>\nde punho erguido: e tudo se dissipava. Ent\u00e3o ca\u00eda aniquilado,<br \/>\ntodo em suor, sobre uma poltrona, e murmurava no sil\u00eancio do quarto,<br \/>\nonde as velas dos candelabros davam tons ensanguentados aos damascos vermelhos:<\/p>\n<p>&#8211; Preciso matar este morto!<\/p>\n<p>E, todavia, n\u00e3o era esta impertin\u00eancia de um velho fantasma<br \/>\npan\u00e7udo, acomodando-se nos meus m\u00f3veis, sobre as minhas colchas,<br \/>\nque me fazia saber mal a vida.<\/p>\n<p>O horror supremo consistia na ideia, que se me cravara ent\u00e3o no esp\u00edrito<br \/>\ncomo um ferro inarranc\u00e1vel &#8211; que eu tinha assassinado um velho!<\/p>\n<p>N\u00e3o fora com uma corda em torno da garganta, \u00e0 moda mu\u00e7ulmana;<br \/>\nnem com veneno num c\u00e1lice de vinho de Siracusa, \u00e0 maneira italiana<br \/>\nda Renascen\u00e7a; nem com algum dos m\u00e9todos cl\u00e1ssicos, que<br \/>\nna hist\u00f3ria das monarquias t\u00eam recebido consagra\u00e7\u00f5es<br \/>\naugustas- a punhal como D. Jo\u00e3o II, \u00e0 clavina como Carlos IX&#8230;<\/p>\n<p>Tinha eliminado a criatura, de longe, com uma campainha. Era absurdo, fant\u00e1stico,<br \/>\nfaceto. Mas n\u00e3o diminu\u00eda a tr\u00e1gica negrura do facto:<br \/>\neu assassinara um velho!<\/p>\n<p>Pouco a pouco esta certeza ergueu-se, petrificou-se na minha alma, e como<br \/>\numa coluna num descampado dominou toda a minha vida interior: de sorte que,<br \/>\npor mais desviado caminho que tomassem, os meus pensamentos viam sempre negrejar<br \/>\nno horizonte aquela mem\u00f3ria acusadora; por mais alto que se levantasse<br \/>\no voo das minhas imagina\u00e7\u00f5es, elas terminavam por ir fatalmente<br \/>\nferir as asas nesse monumento de mis\u00e9ria moral.<\/p>\n<p>Ah! por mais que se considere Vida e Morte como banais transforma\u00e7\u00f5es<br \/>\nda Subst\u00e2ncia, \u00e9 pavoroso o pensamento &#8211; que se fez regelar um<br \/>\nsangue quente, que se imobilizou um m\u00fasculo vivo! Quando, depois de<br \/>\njantar, sentindo ao lado o aroma do caf\u00e9, eu me estirava no sof\u00e1,<br \/>\nenlanguecido, numa sensa\u00e7\u00e3o de plenitude, elevava-se logo dentro<br \/>\nem mim, melanc\u00f3lico como o coro que vem de um erg\u00e1stulo, todo<br \/>\num sussurro de acusa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; E todavia tu fizeste que esse bem-estar em que te regalas, nunca mais fosse<br \/>\ngozado pelo vener\u00e1vel Ti Chin-Fu!&#8230;<\/p>\n<p>Debalde eu replicava \u00e0 Consci\u00eancia, lembrando-lhe a decrepitude<br \/>\ndo Mandarim, a sua gota incur\u00e1vel&#8230; Facunda em argumentos, gulosa<br \/>\nde controv\u00e9rsia, ela retorquia logo com furor:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, ainda na sua actividade mais resumida, a vida \u00e9 um bem supremo:<br \/>\nporque o encanto dela reside no seu princ\u00edpio mesmo, e n\u00e3o na<br \/>\nabund\u00e2ncia das suas manifesta\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>Eu revoltava-me contra este pedantismo ret\u00f3rico de pedagogo r\u00edgido:<br \/>\nerguia alto a fronte, gritava-lhe numa arrog\u00e2ncia desesperada:<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem! Matei-o! Melhor! Que queres tu? O teu grande nome de Consci\u00eancia<br \/>\nn\u00e3o me assusta! \u00c9s apenas uma pervers\u00e3o da sensibilidade<br \/>\nnervosa. Posso eliminar-te com flor de laranja!<\/p>\n<p>E imediatamente sentia passar-me na alma, com uma lentid\u00e3o de brisa,<br \/>\num rumor humilde de murmura\u00e7\u00f5es ir\u00f3nicas:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, ent\u00e3o come, dorme, banha-te e ama&#8230; Eu assim fazia. Mas logo<br \/>\nos pr\u00f3prios len\u00e7\u00f3is de bretanha do meu leito tomavam<br \/>\naos meus olhos apavorados os tons l\u00edvidos de uma mortalha; a \u00e1gua<br \/>\nperfumada em que me mergulhava arrefecia-me sobre a pele, com a sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nespessa de um sangue que coalha: e os peitos nus das minhas amantes entristeciam-me,<br \/>\ncomo l\u00e1pides de m\u00e1rmore que encerram um corpo morto.<\/p>\n<p>Depois assaltou-me uma amargura maior: comecei a pensar que Ti Chin-Fu tinha<br \/>\ndecerto uma vasta fam\u00edlia, netos, bisnetos tenros, que, despojados<br \/>\nda heran\u00e7a que eu comia \u00e0 farta em pratos de S\u00e8vres,<br \/>\nnuma pompa de sult\u00e3o perdul\u00e1rio, iam atravessando na China todos<br \/>\nos infernos tradicionais da mis\u00e9ria humana &#8211; os dias sem arroz, o corpo<br \/>\nsem agasalho, a esmola recusada, a rua lamacenta por morada&#8230;<\/p>\n<p>Compreendi ent\u00e3o porque me perseguia a figura obesa do velho letrado;<br \/>\ne dos seus l\u00e1bios recobertos pelos longos p\u00ealos brancos do seu<br \/>\nbigode de sombra, parecia-me sair agora esta acusa\u00e7\u00e3o desolada:<br \/>\n\u00abEu n\u00e3o me lamento a mim, forma meio morta que era; choro os<br \/>\ntristes que arruinaste, e que a estas horas, quando tu vens do seio fresco<br \/>\ndas tuas amorosas, gemem de fome, regelam na frialdade, apinhados num grupo<br \/>\nexpirante, entre leprosos e ladr\u00f5es, na Ponte dos Mendigos, ao p\u00e9<br \/>\ndos terra\u00e7os do Templo do C\u00e9u!\u00bb<\/p>\n<p>Oh tortura engenhosa! Tortura realmente chinesa! N\u00e3o podia levar \u00e0<br \/>\nboca um peda\u00e7o de p\u00e3o sem imaginar imediatamente o bando faminto<br \/>\nde criancinhas, a descend\u00eancia de Ti Chin-Fu, penando, como passarinhos<br \/>\nimplumes que abrem debalde o bico e piam em ninho abandonado; se me abafava<br \/>\nno meu palet\u00f3, era logo a vis\u00e3o de desgra\u00e7adas senhoras,<br \/>\nmimosas outrora de t\u00e9pido conforto chin\u00eas, hoje roxas de frio,<br \/>\nsob andrajos de velhas sedas, por uma manh\u00e3 de neve; o tecto de \u00e9bano<br \/>\ndo meu palacete lembrava-me a fam\u00edlia do Mandarim, dormindo \u00e0<br \/>\nbeira dos canais, farejada pelos c\u00e3es; e o meu coup\u00e9 bem forrado<br \/>\nfazia-me arrepiar \u00e0 ideia das longas caminhadas errantes, por estradas<br \/>\nencharcadas, sob um duro Inverno asi\u00e1tico&#8230;<\/p>\n<p>O que eu sofria! &#8211; E era o tempo em que a popula\u00e7a invejosa vinha<br \/>\npasmar para o meu palacete, comentando as felicidades inacess\u00edveis<br \/>\nque l\u00e1 deviam habitar!<\/p>\n<p>Enfim, reconhecendo que a Consci\u00eancia era dentro em mim como uma serpente<br \/>\nirritada &#8211; decidi implorar o aux\u00edlio d&#8217;Aquele que dizem ser superior<br \/>\n\u00e0 Consci\u00eancia porque disp\u00f5e da Gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Infelizmente eu n\u00e3o acreditava n&#8217;Ele&#8230; Recorri pois \u00e0 minha<br \/>\nantiga divindade particular, ao meu dilecto \u00eddolo, padroeira da minha<br \/>\nfam\u00edlia, Nossa Senhora das Dores. E, regiamente pago, um povo de curas<br \/>\ne c\u00f3negos, pelas catedrais de cidades e pelas capelas de aldeia, foi<br \/>\npedindo a Nossa Senhora das Dores que voltasse os seus olhos piedosos para<br \/>\no meu mal interior&#8230; Mas nenhum al\u00edvio desceu desses C\u00e9us inclementes,<br \/>\npara onde h\u00e1 milhares de anos debalde sobe o calor da mis\u00e9ria<br \/>\nhumana.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu pr\u00f3prio me abismei em pr\u00e1ticas piedosas &#8211; e<br \/>\nLisboa assistiu a este espect\u00e1culo extraordin\u00e1rio: um rica\u00e7o,<br \/>\num nababo, prostrando-se humildemente ao p\u00e9 dos altares, balbuciando<br \/>\nde m\u00e3os postas frases da salve-rainha, como se visse na Ora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne no Reino do C\u00e9u, que ela conquista, outra coisa mais que uma consola\u00e7\u00e3o<br \/>\nfict\u00edcia que os que possuem tudo inventaram para contentar os que n\u00e3o<br \/>\npossuem nada&#8230; Eu perten\u00e7o \u00e0 burguesia; e sei que se ela mostra<br \/>\n\u00e0 plebe desprovida um Para\u00edso distante, gozos inef\u00e1veis<br \/>\na alcan\u00e7ar &#8211; \u00e9 para lhe afastar a aten\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nseus cofres repletos e da abund\u00e2ncia das suas searas.<\/p>\n<p>Depois, mais inquieto, fiz dizer milhares de missas, simples e cantadas,<br \/>\npara satisfazer a alma errante de Ti Chin-Fu. Pueril desvario de um c\u00e9rebro<br \/>\npeninsular! O velho Mandarim, na sua classe de letrado, de membro da Academia<br \/>\ndos Han-Lin, colaborador prov\u00e1vel do grande tratado \u00abKhu Tsuane-Chu\u00bb,<br \/>\nque j\u00e1 tem setenta e oito mil e setecentos e trinta volumes, era certamente<br \/>\num sect\u00e1rio da doutrina, da moral positiva de Conf\u00facio&#8230; Nunca<br \/>\nele, sequer, queimara mechas perfumadas em honra de Buda: e os cerimoniais<br \/>\ndo sacrif\u00edcio m\u00edstico deviam parecer \u00e0 sua abomin\u00e1vel<br \/>\nalma de gram\u00e1tico e de c\u00e9ptico como as pantomimas dos palha\u00e7os<br \/>\nno teatro de Hong-Tung!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o prelados astutos, com experi\u00eancia cat\u00f3lica, deram-me<br \/>\num conselho subtil &#8211; captar a benevol\u00eancia de Nossa Senhora das Dores<br \/>\ncom presentes, flores, brocados e j\u00f3ias, como se quisesse alcan\u00e7ar<br \/>\nos favores de Asp\u00e1sia: e \u00e0 maneira de um banqueiro obeso, que<br \/>\nobt\u00e9m as complac\u00eancias de uma dan\u00e7arina dando-lhe um cottage<br \/>\nentre \u00e1rvores &#8211; eu, por uma sugest\u00e3o sacerdotal, tentei peitar<br \/>\na doce M\u00e3e dos Homens, erguendo-lhe uma catedral toda de m\u00e1rmore<br \/>\nbranco. A abund\u00e2ncia das flores punha entre os pilares lavrados perspectivas<br \/>\nde para\u00edsos: a multiplicidade dos lumes lembrava uma magnific\u00eancia<br \/>\nsideral&#8230; Despesas v\u00e3s! O fino e erudito cardeal Nani veio de Roma<br \/>\nconsagrar a igreja; mas, quando eu nesse dia entrei a visitar a minha h\u00f3speda<br \/>\ndivina, o que vi, para al\u00e9m das calvas dos celebrantes, entre a m\u00edstica<br \/>\nn\u00e9voa dos incensos, n\u00e3o foi a Rainha da Gra\u00e7a, loira,<br \/>\nna sua t\u00fanica azul &#8211; foi o velho malandro com o seu olho obl\u00edquo<br \/>\ne o seu papagaio nos bra\u00e7os! Era a ele, ao seu branco bigode t\u00e1rtaro,<br \/>\n\u00e0 sua pan\u00e7a cor de oca, que todo um sacerd\u00f3cio recamado<br \/>\nde oiro estava oferecendo, ao roncar do \u00f3rg\u00e3o, a Eternidade<br \/>\ndos louvores!&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, pensando que Lisboa, o meio dormente em que me movia, era favor\u00e1vel<br \/>\nao desenvolvimento destas imagina\u00e7\u00f5es &#8211; parti, viajei sobriamente,<br \/>\nsem pompa, com um ba\u00fa e um lacaio.<\/p>\n<p>Visitei, na sua ordem cl\u00e1ssica, Paris, a banal Su\u00ed\u00e7a,<br \/>\nLondres, os lagos taciturnos da Esc\u00f3cia; ergui a minha tenda diante<br \/>\ndas muralhas evang\u00e9licas de Jerusal\u00e9m; e de Alexandria a Tebas,<br \/>\nfui ao comprido desse longo Egipto monumental e triste como o corredor de<br \/>\num mausol\u00e9u. Conheci o enjoo dos paquetes, a monotonia das ru\u00ednas,<br \/>\na melancolia das multid\u00f5es desconhecidas, as desilus\u00f5es do bulevar:<br \/>\ne o meu mal interior ia crescendo.<\/p>\n<p>Agora j\u00e1 n\u00e3o era s\u00f3 a amargura de ter despojado uma<br \/>\nfam\u00edlia vener\u00e1vel: assaltava-me o remorso mais vasto de ter<br \/>\nprivado toda uma sociedade de um personagem fundamental, um letrado experiente,<br \/>\ncoluna da Ordem, esteio de institui\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se pode<br \/>\narrancar assim a um Estado uma personalidade do valor de cento e seis mil<br \/>\ncontos, sem lhe perturbar o equil\u00edbrio&#8230; Esta ideia pungia-me acerbamente.<br \/>\nAnsiei por saber se na verdade a desapari\u00e7\u00e3o de Ti Chin-Fu fora<br \/>\nfunesta \u00e0 decr\u00e9pita China: li todos os jornais de Hong-Kong<br \/>\ne de Xangai, velei a noite sobre hist\u00f3rias de viagens, consultei s\u00e1bios<br \/>\nmission\u00e1rios: &#8211; e artigos, homens, livros, tudo me falava da decad\u00eancia<br \/>\ndo Imp\u00e9rio do Meio, prov\u00edncias arruinadas, cidades moribundas,<br \/>\nplebes esfomeadas, pestes e rebeli\u00f5es, templos aluindo-se, leis perdendo<br \/>\na autoridade, a decomposi\u00e7\u00e3o de um mundo, como uma nau encalhada<br \/>\nque a vaga desfaz t\u00e1bua a t\u00e1bua!&#8230;<\/p>\n<p>E eu atribu\u00eda-me estas desgra\u00e7as da sociedade chinesa! No meu<br \/>\nesp\u00edrito doente Ti Chin-Fu tomara ent\u00e3o o valor desproporcionado<br \/>\nde um C\u00e9sar, um Mois\u00e9s, um desses seres providenciais que s\u00e3o<br \/>\na for\u00e7a de uma ra\u00e7a. Eu matara-o; e com ele desaparecera a vitalidade<br \/>\nda sua p\u00e1tria! O seu vasto c\u00e9rebro poderia talvez ter salvado,<br \/>\na rasgos geniais, aquela velha monarquia asi\u00e1tica &#8211; e eu imobilizara-lhe<br \/>\na ac\u00e7\u00e3o criadora! A sua fortuna concorreria a refazer a grandeza<br \/>\ndo Er\u00e1rio &#8211; e eu estava-a dissipando a oferecer p\u00eassegos em Janeiro<br \/>\n\u00e0s messalinas do Helder!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Amigos, conheci o remorso colossal de ter arruinado um imp\u00e9rio!<\/p>\n<p>Para esquecer este tormento complicado, entreguei-me \u00e0 orgia. Instalei-me<br \/>\nnum palacete da Avenida dos Campos El\u00edsios &#8211; e foi medonho. Dava festas<br \/>\n\u00e0 Trimalci\u00e3o: e, nas horas mais \u00e1speras de f\u00faria<br \/>\nlibertina, quando das charangas, na estrid\u00eancia brutal dos cobres, rompiam<br \/>\nos canc\u00e3s; quando prostitutas, de seio desbragado, ganiam coplas canalhas;<br \/>\nquando os meus convidados bo\u00e9mios, ateus de cervejaria, injuriavam<br \/>\nDeus, com a ta\u00e7a de champanhe erguida &#8211; eu, tomado subitamente como<br \/>\nHeliog\u00e1balo de um furor de bestialidade, de um \u00f3dio contra o<br \/>\nPensante e o Consciente, atirava-me ao ch\u00e3o a quatro patas e zurrava<br \/>\nformidavelmente de burro&#8230;<\/p>\n<p>Depois quis ir mais baixo, ao deboche da plebe, \u00e0s torpezas alco\u00f3licas<br \/>\ndo \u00abAssommoir\u00bb: e quantas vezes, vestido de blusa, com o casquete<br \/>\npara a nuca, de bra\u00e7o dado com \u00abMes-Bottes\u00bb ou \u00abBibi-la-Gaillarde\u00bb,<br \/>\nnum tropel avinhado, fui cambaleando pelos bulevares exteriores, a uivar,<br \/>\nentre arrotos:<\/p>\n<p>Allons, enfants de la patrie-e-e!&#8230;<\/p>\n<p>Le jour de gloire est arriv\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Foi uma manh\u00e3, depois de um destes excessos, \u00e0 hora em que<br \/>\nnas trevas da alma do debochado se ergue uma vaga aurora espiritual &#8211; que<br \/>\nme nasceu, de repente, a ideia de partir para a China! E, como soldados em<br \/>\nacampamento adormecido, que ao som do clarim se erguem, e um a um se v\u00e3o<br \/>\njuntando e formando coluna &#8211; outras ideias se foram reunindo no meu esp\u00edrito,<br \/>\nalinhando-se, completando um plano formid\u00e1vel&#8230; Partiria para Pequim;<br \/>\ndescobriria a fam\u00edlia de Ti Chin-Fu; esposando uma das senhoras, legitimaria<br \/>\na posse dos meus milh\u00f5es; daria \u00e0quela casa letrada a antiga<br \/>\nprosperidade; celebraria funerais pomposos ao Mandarim, para lhe acalmar o<br \/>\nesp\u00edrito irritado; iria pelas prov\u00edncias miser\u00e1veis fazendo<br \/>\ncolossais distribui\u00e7\u00f5es de arroz; e, obtendo do imperador o<br \/>\nbot\u00e3o de cristal de mandarim, acesso f\u00e1cil a um bacharel, substituir-me-ia<br \/>\n\u00e0 personalidade desaparecida de Ti Chin-Fu &#8211; e poderia assim restituir<br \/>\nlegalmente \u00e0 sua p\u00e1tria, se n\u00e3o a autoridade do seu saber,<br \/>\nao menos a for\u00e7a do seu oiro.<\/p>\n<p>Tudo isto, por vezes, me aparecia como um programa indefinido, nevoento,<br \/>\npueril e idealista. Mas j\u00e1 o desejo desta aventura original e \u00e9pica<br \/>\nme envolvera; e eu ia, arrebatado por ele, como uma folha seca numa rajada.<\/p>\n<p>Anelei, suspirei por pisar a terra da China! &#8211; Depois de altos preparativos,<br \/>\napressados a punhados de ouro, uma noite parti enfim para Marselha. Tinha<br \/>\nalugado todo um paquete, o \u00abCeil\u00e3o\u00bb. E na manh\u00e3<br \/>\nseguinte, por um mar azul-ferrete, sob o voo branco das gaivotas, quando os<br \/>\nprimeiros raios do sol ruborizavam as torres de Nossa Senhora da Guarda, sobre<br \/>\no seu rochedo escuro &#8211; pus a proa ao Oriente.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>O \u00abCeil\u00e3o\u00bb teve uma viagem calma e mon\u00f3tona at\u00e9<br \/>\nXangai.<\/p>\n<p>Da\u00ed subimos pelo rio Azul a Tien-Tsin num pequeno steamer da Companhia<br \/>\nRussel. Eu n\u00e3o vinha visitar a China numa curiosidade ociosa de touriste:<br \/>\ntoda a paisagem dessa prov\u00edncia, que se assemelha \u00e0 dos vasos<br \/>\nde porcelana, de um tom azulado e vaporoso, com colinazinhas calvas e de longe<br \/>\na longe um arbusto bracejante, me deixou sombriamente indiferente.<\/p>\n<p>Quando o capit\u00e3o do steamer, um yunkee impudente de focinho de chibo,<br \/>\nao passarmos \u00e0 altura de Nanquim, me prop\u00f4s parar ir percorrer<br \/>\nas ru\u00ednas monumentais da velha cidade de porcelana, &#8211; eu recusei, com<br \/>\num movimento seco de cabe\u00e7a, sem mesmo desviar os olhos tristes da<br \/>\ncorrente barrenta do rio.<\/p>\n<p>Que pesados e soturnos me pareceram os dias de navega\u00e7\u00e3o de<br \/>\nTien-Tsin a Tung-Chu, em barcos chatos que o cheiro dos remadores chineses<br \/>\nempestava; ora atrav\u00e9s de terras baixas inundadas pelo Pei-H\u00f3,<br \/>\nora ao longo de p\u00e1lidos e infind\u00e1veis arrozais; passando aqui<br \/>\numa l\u00fagubre aldeia de lama negra, al\u00e9m um campo coberto de esquifes<br \/>\namarelos; topando a cada momento com cad\u00e1veres de mendigos, inchados<br \/>\ne esverdeados, que desciam ao fio de \u00e1gua, sob um c\u00e9u fusco<br \/>\ne baixo!<\/p>\n<p>Em Tung-Chu fiquei surpreendido, ao dar com uma escolta de cossacos que mandava<br \/>\nao meu encontro o velho general Camilloff, her\u00f3ico oficial das campanhas<br \/>\nda \u00c1sia Central, e ent\u00e3o embaixador da R\u00fassia em Pequim.<br \/>\nEu vinha-lhe recomendado como um ser precioso e raro: e o verboso int\u00e9rprete<br \/>\nS\u00e1-T\u00f3, que ele punha ao meu servi\u00e7o, explicou-me que<br \/>\nas cartas de selo imperial, avisando-o da minha chegada, recebera-as ele,<br \/>\nhavia semanas, pelos correios da Chancelaria que atravessam a Sib\u00e9ria<br \/>\nem tren\u00f3, descem a dorso de camelo at\u00e9 \u00e0 Grande Muralha<br \/>\nt\u00e1rtara, e entregam a\u00ed a mala a esses corredores mong\u00f3licos,<br \/>\nvestidos de couro escarlate, que dia e noite galopam sobre Pequim.<\/p>\n<p>Camilloff enviava-me um p\u00f3nei da Manch\u00faria, ajaezado de seda,<br \/>\ne um cart\u00e3o de visita, com estas palavras tra\u00e7adas a l\u00e1pis<br \/>\nsob o seu nome: \u00abSa\u00fade! O animal \u00e9 doce de boca!\u00bb<\/p>\n<p>Montei o p\u00f3nei: e a um hurra dos cossacos, num agitar her\u00f3ico<br \/>\nde lan\u00e7as, partimos \u00e0 desfilada pela poeirenta plan\u00edcie<br \/>\n&#8211; porque j\u00e1 a tarde declinava, e as portas de Pequim fecham-se mal<br \/>\no \u00faltimo raio de sol deixa as torres do Templo do C\u00e9u. Ao princ\u00edpio<br \/>\nseguimos uma estrada, caminho batido do tr\u00e2nsito das caravanas, atravancado<br \/>\nde enormes lajes de m\u00e1rmore dessoldadas da antiga Via Imperial. Depois<br \/>\npass\u00e1mos a ponte de Pa Li-Kao, toda de m\u00e1rmore branco, flanqueada<br \/>\nde drag\u00f5es arrogantes. Vamos correndo ent\u00e3o \u00e0 beira de<br \/>\ncanais de \u00e1gua negra: come\u00e7am a aparecer pomares, aqui e al\u00e9m<br \/>\numa aldeia de cor azulada, aninhada ao p\u00e9 de um pagode: &#8211; de repente,<br \/>\na um cotovelo do caminho, paro assombrado&#8230;<\/p>\n<p>Pequim est\u00e1 diante de mim! E uma vasta muralha, monumental e b\u00e1rbara,<br \/>\nde um negro ba\u00e7o, estendendo-se a perder de vista, e destacando, com<br \/>\nas arquitecturas babil\u00f3nicas das suas portas de tectos recurvos, sobre<br \/>\num fundo de poente de p\u00farpura ensanguentada&#8230;<\/p>\n<p>Ao longe, para o norte, num vago de vapor roxo, esbatem-se, como suspensas<br \/>\nno ar, as montanhas da Mong\u00f3lia&#8230;<\/p>\n<p>Uma rica liteira esperava-me \u00e0 Porta de Tung Tsen-Men, para eu atravessar<br \/>\nPequim at\u00e9 \u00e0 resid\u00eancia militar de Camilloff. A Muralha<br \/>\nagora, ao perto, parecia erguer-se at\u00e9 aos c\u00e9us com o horror<br \/>\nde uma constru\u00e7\u00e3o b\u00edblica: \u00e0 sua base apinhava-se<br \/>\numa confus\u00e3o de barracas, feira ex\u00f3tica, onde rumorejava uma<br \/>\nmultid\u00e3o, e a luz de lanternas oscilantes cortava j\u00e1 o crep\u00fasculo<br \/>\nde vagas manchas cor de sangue; os toldos brancos faziam ao p\u00e9 do negro<br \/>\nmuro como um bando de borboletas pousadas.<\/p>\n<p>Senti-me triste; subi \u00e0 liteira, cerrei as cortinas de seda escarlate<br \/>\ntodas bordadas a ouro; e cercado dos cossacos, eis-me entrando a velha Pequim,<br \/>\npor essa porta bab\u00e9lica, na turba tumultuosa, entre carretas, cadeirinhas<br \/>\nde xar\u00e3o, cavaleiros mong\u00f3licos armados de flechas, bonzos de<br \/>\nt\u00fanica alvejante marchando um a um, e longas filas de lentos dromed\u00e1rios<br \/>\nbalan\u00e7ando a sua carga em cad\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco a liteira parou. O respeito S\u00e1-T\u00f3 correu<br \/>\nas cortinas, e vi-me num jardim, escurecido e calado, onde, por entre sic\u00f4moros<br \/>\nseculares, quiosque alumiados brilhavam com uma luz doce, como colossais lanternas<br \/>\npousadas sobre a relva: e toda a sorte de \u00e1guas correntes murmuravam<br \/>\nna sombra. Sob um peristilo feito de madeiros pintados a vermelh\u00e3o,<br \/>\naclarado por fios de l\u00e2mpadas de papel transparente, esperava-me um<br \/>\nmembrudo figur\u00e3o, de bigodes brancos, apoiado a um grosso espad\u00e3o.<br \/>\nEra o general Camilloff. Ao adiantar-me para ele, eu sentia o passo inquieto<br \/>\ndas gazelas fugindo de leve sob as \u00e1rvores&#8230;<\/p>\n<p>O velho her\u00f3i apertou-me um momento ao peito, e conduziu-me logo,<br \/>\nsegundo os usos chineses, ao banho da hospitalidade, uma vasta tina de porcelana<br \/>\nonde entre rodelas finas de lim\u00e3o sobrenadavam esponjas brancas, num<br \/>\nperfume forte de lil\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>Pouco depois a lua banhava deliciosamente os jardins: e eu, muito fresco,<br \/>\nde gravata branca, entrava pelo bra\u00e7o de Camilloff no boudoir da generala.<br \/>\nEra alta e loira; tinha os olhos verdes das sereias de Homero; no decote baixo<br \/>\ndo seu vestido de seda branca pousava uma rosa escarlate; e nos dedos, que<br \/>\nlhe beijei, errava um aroma fino de s\u00e2ndalo e de ch\u00e1.<\/p>\n<p>Convers\u00e1mos muito da Europa, do niilismo, de Zola, de Le\u00e3o<br \/>\nXIII, e da magreza de Sarah Bernhardt&#8230;<\/p>\n<p>Pela galeria aberta penetrava um ar c\u00e1lido que rescendia a heliotr\u00f3pio.<br \/>\nDepois ela sentou-se ao piano &#8211; e a sua voz de contralto quebrou at\u00e9<br \/>\ntarde os sil\u00eancios melanc\u00f3licos da Cidade T\u00e1rtara, com<br \/>\nas picantes \u00e1rias de \u00abMadame Favart\u00bb e com as melodias<br \/>\nafagantes do \u00abRei de Lahore\u00bb.<\/p>\n<p>Ao outro dia cedo, encerrado com o general num dos quiosques do jardim, contei-lhe<br \/>\na minha lament\u00e1vel hist\u00f3ria e os motivos fabulosos que me traziam<br \/>\na Pequim. O her\u00f3i escutava, cofiando sombriamente o seu espesso bigode<br \/>\ncossaco.<\/p>\n<p>&#8211; O meu prezado h\u00f3spede sabe o chin\u00eas? &#8211; perguntou-me de repente,<br \/>\nfixando em mim a pupila sagaz.<\/p>\n<p>&#8211; Sei duas palavras importantes, general: \u00abmandarim\u00bb e \u00abch\u00e1\u00bb.<\/p>\n<p>Ele passou a sua m\u00e3o de fortes cordoveias sobre a medonha cicatriz<br \/>\nque lhe sulcava a calva:<\/p>\n<p>&#8211; \u00abMandarim\u00bb, meu Amigo, n\u00e3o \u00e9 uma palavra chinesa,<br \/>\ne ningu\u00e9m a entende na China. \u00c9 o nome que no s\u00e9culo<br \/>\nXVI os navegadores do seu pa\u00eds, do seu belo pa\u00eds&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quando n\u00f3s t\u00ednhamos navegadores&#8230; murmurei, suspirando.<\/p>\n<p>Ele suspirou tamb\u00e9m, por polidez, e continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Que os seus navegadores deram aos funcion\u00e1rios chineses. Vem do<br \/>\nseu verbo, do seu lindo verbo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quando t\u00ednhamos verbos&#8230; &#8211; rosnei, no h\u00e1bito instintivo<br \/>\nde deprimir a P\u00e1tria. Ele esgazeou um momento o seu olho redondo de<br \/>\nvelho mocho &#8211; e prosseguiu paciente e grave:<\/p>\n<p>&#8211; Do seu lindo verbo \u00abmandar\u00bb&#8230; Resta-lhe portanto \u00abch\u00e1\u00bb.<br \/>\n\u00c9 um voc\u00e1bulo que tem um vasto papel na vida chinesa, mas julgo-o<br \/>\ninsuficiente para servir a todas as rela\u00e7\u00f5es sociais. O meu<br \/>\nestim\u00e1vel h\u00f3spede pretende esposar uma senhora da fam\u00edlia<br \/>\nTi Chin-Fu, continuar a grossa influ\u00eancia que exercia o Mandarim, substituir,<br \/>\ndom\u00e9stica e socialmente, esse chorado defunto&#8230; Para tudo isto disp\u00f5e<br \/>\nda palavra \u00abch\u00e1\u00bb. \u00c9 pouco.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude negar &#8211; que era pouco. O venerando russo, franzindo o seu<br \/>\nnariz adunco de milhafre, p\u00f4s-me ainda outras objec\u00e7\u00f5es<br \/>\nque eu via erguerem-se diante do meu desejo como as muralhas mesmas de Pequim:<br \/>\nnenhuma senhora da fam\u00edlia Ti Chin-Fu consentiria jamais em casar com<br \/>\num b\u00e1rbaro; e seria imposs\u00edvel, terrivelmente imposs\u00edvel<br \/>\nque o imperador, o Filho do Sol, concedesse a um estrangeiro as honras privilegiadas<br \/>\nde um mandarim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas porque mas recusaria? &#8211; exclamei. &#8211; Eu perten\u00e7o a uma boa fam\u00edlia<br \/>\nda prov\u00edncia do Minho. Sou bacharel formado; portanto na China, como<br \/>\nem Coimbra, sou um letrado! J\u00e1 fiz parte de uma reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\np\u00fablica&#8230; Possuo milh\u00f5es&#8230; Tenho a experi\u00eancia do estilo<br \/>\nadministrativo&#8230;<\/p>\n<p>O general ia-se curvando com respeito a esta abund\u00e2ncia dos meus atributos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 &#8211; disse ele enfim &#8211; que o imperador realmente o recusasse:<br \/>\n\u00e9 que o indiv\u00edduo que lho propusesse seria imediatamente decapitado.<br \/>\nA lei chinesa, neste ponto, \u00e9 expl\u00edcita e seca.<\/p>\n<p>Baixei a cabe\u00e7a, acabrunhado.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, general &#8211; murmurei &#8211; eu quero livrar-me da presen\u00e7a odiosa<br \/>\ndo velho Ti Chin-Fu e do seu papagaio!&#8230; Se eu entregasse metade dos meus<br \/>\nmilh\u00f5es ao Tesouro chin\u00eas, j\u00e1 que n\u00e3o me \u00e9<br \/>\ndado pessoalmente aplic\u00e1-los, como mandarim, \u00e0 prosperidade<br \/>\ndo Estado&#8230;? Talvez Ti Chin-Fu se calmasse&#8230;<\/p>\n<p>O general pousou-me paternalmente a vasta m\u00e3o sobre o ombro:<\/p>\n<p>&#8211; Erro, consider\u00e1vel erro, mancebo! Esses milh\u00f5es nunca chegariam<br \/>\nao Tesouro imperial. Ficariam nas algibeiras insond\u00e1veis das classes<br \/>\ndirigentes: seriam dissipados em plantar jardins, coleccionar porcelanas,<br \/>\ntapetar de peles os soalhos, fornecer sedas \u00e0s concubinas: n\u00e3o<br \/>\naliviariam a fome de um s\u00f3 chin\u00eas, nem reparariam uma s\u00f3<br \/>\npedra das estradas p\u00fablicas&#8230; Iriam enriquecer a orgia asi\u00e1tica.<br \/>\nA alma de Ti Chin-Fu deve conhecer bem o Imp\u00e9rio: e isso n\u00e3o<br \/>\na satisfaria.<\/p>\n<p>&#8211; E se eu empregasse parte da fortuna do velho malandro em fazer particularmente,<br \/>\ncomo filantropo, largas distribui\u00e7\u00f5es de arroz \u00e0 popula\u00e7a<br \/>\nfaminta? \u00c9 uma ideia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Funesta &#8211; disse o general, franzindo medonhamente o sobrolho. &#8211; A corte<br \/>\nimperial veria a\u00ed imediatamente uma ambi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica,<br \/>\no tortuoso plano de ganhar os favores da plebe, um perigo para a Dinastia&#8230;<br \/>\nO meu bom Amigo seria decapitado&#8230; \u00c9 grave&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Maldi\u00e7\u00e3o! &#8211; berrei. &#8211; Ent\u00e3o para que vim eu \u00e0<br \/>\nChina?<\/p>\n<p>O diplomata encolheu vagarosamente os ombros; mas logo, mostrando num sorriso<br \/>\nastuto os seus dentes amarelos de cossaco:<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a uma coisa. Procure a fam\u00edlia de Ti Chin-Fu&#8230; Eu indagarei<br \/>\ndo primeiro-ministro, Sua Excel\u00eancia o Pr\u00edncipe Tong, onde p\u00e1ra<br \/>\nessa prole interessante&#8230; Re\u00fana-os, atire-lhes uma ou duas d\u00fazias<br \/>\nde milh\u00f5es&#8230; Depois prepare ao defunto funerais r\u00e9gios. Funerais<br \/>\nde alto cerimonial, com um pr\u00e9stito de uma l\u00e9gua, filas de bonzos,<br \/>\ntodo um mundo de estandartes, palanquins, lan\u00e7as, plumas, andores escarlates,<br \/>\nlegi\u00f5es de carpideiras ululando sinistramente, etc., etc. Se depois<br \/>\nde tudo isto a sua consci\u00eancia n\u00e3o adormecer e o fantasma insistir&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Corte as goelas.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, general.<\/p>\n<p>Uma coisa, por\u00e9m, era evidente, e nela concordaram Camilloff, o respeitoso<br \/>\nS\u00e1-T\u00f3 e a generala: &#8211; que, para frequentar a fam\u00edlia<br \/>\nTi Chin-Fu, seguir os funerais, misturar-me \u00e0 vida de Pequim, eu devia<br \/>\ndesde j\u00e1 vestir-me como um chin\u00eas opulento, da classe letrada,<br \/>\npara me ir habituando ao traje, \u00e0s maneiras, ao cerimonial mandarim&#8230;<\/p>\n<p>A minha face amarelada, o meu longo bigode pendente favoreciam a caracteriza\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; e quando na manh\u00e3 seguinte, depois de arranjado pelos costureiros<br \/>\nengenhosos da Rua Ch\u00e1-Cua, entrei na sala forrada de seda escarlate,<br \/>\nonde j\u00e1 rebrilhavam as porcelanas do almo\u00e7o sobre a mesa de<br \/>\nxar\u00e3o negro, &#8211; a generala recuou como \u00e0 apari\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo pr\u00f3prio Tong-Tch\u00e9, Filho do C\u00e9u!<\/p>\n<p>Eu trazia uma t\u00fanica de brocado azul-escuro abotoada ao lado, com<br \/>\no peitilho ricamente bordado de drag\u00f5es e flores de oiro: por cima<br \/>\num casabeque de seda de um tom azul mais claro, curto, amplo e fofo: as cal\u00e7as<br \/>\nde cetim cor de avel\u00e3 descobriam ricas babouches amarelas pespontadas<br \/>\na p\u00e9rolas, e um pouco da meia picada de estrelinhas negras: e \u00e0<br \/>\ncinta, numa linda faixa franjada de prata, tinha metido um leque de bambu,<br \/>\ndos que t\u00eam o retrato do fil\u00f3sofo Lao-Ts\u00e9 e s\u00e3o<br \/>\nfabricados em Swa-Ton.<\/p>\n<p>E, pelas misteriosas correla\u00e7\u00f5es com que o vestu\u00e1rio<br \/>\ninfluencia o car\u00e1cter, eu sentia j\u00e1 em mim ideias, instintos<br \/>\nchineses: &#8211; o amor dos cerimoniais meticulosos, o respeito burocr\u00e1tico<br \/>\ndas f\u00f3rmulas, uma ponta de cepticismo letrado; e tamb\u00e9m um abjecto<br \/>\nterror do imperador, o \u00f3dio ao estrangeiro, o culto dos antepassados,<br \/>\no fanatismo da tradi\u00e7\u00e3o, o gosto das coisas a\u00e7ucaradas&#8230;<\/p>\n<p>Alma e ventre eram j\u00e1 totalmente um mandarim. N\u00e3o disse \u00e0<br \/>\ngenerala: &#8211; Bonjour, Madame. &#8211; Dobrado ao meio, fazendo girar os punhos fechados<br \/>\nsobre a fronte abaixada, fiz gravemente o chin-chin&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ador\u00e1vel, \u00e9 precioso! &#8211; dizia ela, com o seu lindo<br \/>\nriso, batendo as m\u00e3ozinhas p\u00e1lidas.<\/p>\n<p>Nessa manh\u00e3, em honra da minha nova encarna\u00e7\u00e3o, havia<br \/>\num almo\u00e7o chin\u00eas. Que gentis guardanapos de papel de seda escarlate,<br \/>\ncom monstros fabulosos desenhados a negro! O servi\u00e7o come\u00e7ou<br \/>\npor ostras de Ning-P\u00f3. Ex\u00edmias! Absorvi duas d\u00fazias com<br \/>\num intenso regalo chin\u00eas. Depois vieram deliciosas febras de barbatana<br \/>\nde tubar\u00e3o, olhos de carneiro com picado de alho, um prato de nen\u00fafares<br \/>\nem calda de a\u00e7\u00facar, laranjas de Cant\u00e3o, e enfim o arroz<br \/>\nsacramental, o arroz dos Av\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>Delicado repasto, regado largamente de excelente vinho de Ch\u00e3o-Chigne!<br \/>\nE, por fim, com que gozo recebi a minha ta\u00e7a de \u00e1gua a ferver,<br \/>\nonde deitei uma pitada de folhas de ch\u00e1 imperial, da primeira colheita<br \/>\nde Mar\u00e7o, colheita \u00fanica, que \u00e9 celebrada com um rito<br \/>\nsanto pelas m\u00e3os puras de virgens!&#8230;<\/p>\n<p>Duas cantadeiras entraram, enquanto n\u00f3s fum\u00e1vamos; e muito<br \/>\ntempo, numa modula\u00e7\u00e3o gutural, disseram velhas cantigas dos<br \/>\ntempos da Dinastia Ming, ao som de guitarras recobertas de peles de serpente,<br \/>\nque dois t\u00e1rtaros agachados repenicavam, numa cad\u00eancia melanc\u00f3lica<br \/>\ne b\u00e1rbara. A China tem encantos de um raro gosto&#8230;<\/p>\n<p>Depois a loira generala cantou-nos, com chiste, a \u00abFemme \u00e0 Barbe\u00bb:<br \/>\ne quando o general saiu com a sua escolta cossaca para o yamen do pr\u00edncipe<br \/>\nTong, a informar-se da resid\u00eancia da fam\u00edlia Ti Chin-Fu &#8211; eu,<br \/>\nrepleto e bem disposto, sa\u00ed com S\u00e1-T\u00f3 a ver Pequim.<\/p>\n<p>A habita\u00e7\u00e3o de Camilloff ficava na Cidade T\u00e1rtara, nos<br \/>\nbairros militares e nobres. H\u00e1 aqui uma tranquilidade austera. As ruas<br \/>\nassemelham-se a largos caminhos de aldeia sulcados pelas rodas dos carros;<br \/>\ne quase sempre se caminha ao comprido de um muro, donde saem ramos horizontais<br \/>\nde sic\u00f4moros.<\/p>\n<p>Por vezes uma carreta passa rapidamente, ao trote de um p\u00f3nei mongol,<br \/>\ncom altas rodas cravejadas de pregos dourados; tudo nela oscila: o toldo,<br \/>\nas cortinas pendentes de seda, os ramos de plumas aos \u00e2ngulos; e dentro<br \/>\nentrev\u00ea-se alguma linda dama chinesa, coberta de brocados claros, a<br \/>\ncabe\u00e7a toda cheia de flores, fazendo girar nos pulsos dois aros de<br \/>\nprata, com um ar de t\u00e9dio cerimonioso. Depois \u00e9 alguma aristocr\u00e1tica<br \/>\ncadeirinha de mandarim, que coolies vestidos de azul, de rabicho solto, v\u00e3o<br \/>\nlevando a um trote arquejante para os yamen do Estado; precede-os uma criadagem<br \/>\nmaltrapilha que ergue ao alto rolos de seda com inscri\u00e7\u00f5es bordadas,<br \/>\nins\u00edgnias de autoridade; e dentro o personagem bojudo, com enormes<br \/>\n\u00f3culos redondos, folheia a sua papelada ou dormita de bei\u00e7o<br \/>\nca\u00eddo&#8230;<\/p>\n<p>A cada momento par\u00e1vamos a olhar as lojas ricas, com as suas tabuletas<br \/>\nverticais de letras douradas sobre fundo escarlate: os fregueses, num sil\u00eancio<br \/>\nde igreja, subtis como sombras, v\u00e3o examinando as preciosidades &#8211; porcelanas<br \/>\nda Dinastia Ming, bronzes, esmaltes, marfins, sedas, armas marchetadas, os<br \/>\nleques maravilhosos de Swa-Ton: por vezes, uma fresca rapariga de olho obl\u00edquo,<br \/>\nt\u00fanica azul, e papoulas de papel nas tran\u00e7as, desdobra algum<br \/>\nraro brocado diante de um grosso chin\u00eas que o contempla beatamente,<br \/>\ncom os dedos cruzados na pan\u00e7a: ao fundo o mercador, aparatoso e im\u00f3vel,<br \/>\nescreve com um pincel sobre longas tabuinhas de s\u00e2ndalo: e um perfume<br \/>\nadocicado, que sai das coisas, perturba e entristece&#8230;<\/p>\n<p>Eis aqui a muralha que cerca a Cidade Interdita, morada santa do imperador!<br \/>\nMo\u00e7os nobres v\u00eam descendo do terra\u00e7o de um templo onde<br \/>\nse estiveram adestrando \u00e0 frecha. S\u00e1-T\u00f3 disse-me os seus<br \/>\nnomes: eram da guarda selecta, que nas cerim\u00f3nias escolta o guarda-sol<br \/>\nde seda amarela, com o drag\u00e3o bordado, que \u00e9 o emblema sagrado<br \/>\ndo imperador. Todos eles cumprimentaram profundamente um velho que ia passando,<br \/>\nde barbas venerandas, com o casabeque amarelo que \u00e9 o privil\u00e9gio<br \/>\ndo anci\u00e3o; vinha falando s\u00f3, e trazia na m\u00e3o uma vara<br \/>\nsobre que pousavam cotovias domesticadas&#8230; Era um pr\u00edncipe do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Estranhos bairros! Mas nada me divertia como ver a cada instante, a uma porta<br \/>\nde jardim, dois mandarins pan\u00e7udos que para entrar se trocavam indefinidamente<br \/>\nsalamal\u00e9s, cortesias, recusas, risinhos agudos de etiqueta, todo um<br \/>\ncerimonial dogm\u00e1tico &#8211; que lhes fazia oscilar de um modo picaresco,<br \/>\nsobre as costas, as longas penas de pav\u00e3o. Depois, se erguia os olhos<br \/>\npara o ar, l\u00e1 via sempre pairar enormes papagaios de papel, ora em<br \/>\nforma de drag\u00f5es, ora de cet\u00e1ceos, ora de aves fabulosas &#8211; enchendo<br \/>\no espa\u00e7o de uma inveros\u00edmil legi\u00e3o de monstros transparentes<br \/>\ne ondeantes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e1-T\u00f3, basta de Cidade T\u00e1rtara! Vamos ver os bairros<br \/>\nchineses&#8230;<\/p>\n<p>E l\u00e1 fomos penetrando na Cidade Chinesa, pela porta monstruosa de<br \/>\nTchin-Men. Aqui habita a burguesia, o mercador, a popula\u00e7a. As ruas<br \/>\nalinham-se como uma pauta; e no solo vetusto e lamacento, feito da imund\u00edcie<br \/>\nde gera\u00e7\u00f5es recalcada desde s\u00e9culos, ainda aqui e al\u00e9m<br \/>\njaz alguma das lajes de m\u00e1rmore cor-de-rosa que outrora o cal\u00e7avam,<br \/>\nno tempo da grandeza dos Ming.<\/p>\n<p>Dos dois lados s\u00e3o &#8211; ora terrenos vagos onde uivam manadas de c\u00e3es<br \/>\nfamintos, ora filas de casebres fuscos, ora pobres lojas com as suas tabuletas<br \/>\nesguias e sarapintadas, balou\u00e7ando-se de uma haste de ferro. \u00c0<br \/>\ndist\u00e2ncia erguem-se os arcos triunfais feitos de barrotes cor de p\u00farpura,<br \/>\nligados no alto por um telhado oblongo de telhas azuis envernizadas, que rebrilham<br \/>\ncomo esmaltes. Uma multid\u00e3o rumorosa e espessa, onde domina o tom pardo<br \/>\ne azulado dos trajes, circula sem cessar; a poeira envolve tudo de uma n\u00e9voa<br \/>\namarelada; um fedor acre exala-se dos enxurros negros; e a cada momento uma<br \/>\nlonga caravana de camelos fende lentamente a turba, conduzida por mong\u00f3is<br \/>\nsombrios vestidos de pele de carneiro.<\/p>\n<p>Fomos at\u00e9 \u00e0s entradas das pontes sobre os canais, onde saltimbancos<br \/>\nseminus, com m\u00e1scaras simulando dem\u00f3nios pavorosos, fazem destrezas<br \/>\nde um picaresco b\u00e1rbaro e subtil; e muito tempo estive a admirar os<br \/>\nastr\u00f3logos de longas t\u00fanicas, com drag\u00f5es de papel colados<br \/>\n\u00e0s costas, vendendo ruidosamente hor\u00f3scopos e consultas de astros.<br \/>\nOh cidade fabulosa e singular!<\/p>\n<p>De repente ergue-se uma gritaria! Corremos: era um bando de presos, que um<br \/>\nsoldado, de grandes \u00f3culos, ia impelindo com o guarda-sol, amarrados<br \/>\nuns aos outros pelo rabicho! Foi a\u00ed, nessa avenida, que eu vi o estrepitoso<br \/>\ncortejo de um funeral de mandarim, todo ornado de auriflamas e de bandeirinhas;<br \/>\ngrupos de sujeitos f\u00fanebres vinham queimando pap\u00e9is em fogareiros<br \/>\nport\u00e1teis; mulheres esfarrapadas uivavam de dor espojando-se sobre<br \/>\ntapetes; depois erguiam-se, galhofavam, e um cooly vestido de luto branco<br \/>\nservia-lhes logo ch\u00e1, de um grande bule em forma de ave.<\/p>\n<p>Ao passar junto ao Templo do C\u00e9u, vejo apinhada num largo uma legi\u00e3o<br \/>\nde mendigos; tinham por vestu\u00e1rio um tijolo preso \u00e0 cinta num<br \/>\ncordel; as mulheres, com os cabelos entremeados de velhas flores de papel,<br \/>\nro\u00edam ossos tranquilamente; e cad\u00e1veres de crian\u00e7as apodreciam<br \/>\nao lado, sob o voo dos moscardos. Adiante top\u00e1mos com uma jaula de<br \/>\ntraves, onde um condenado estendia, atrav\u00e9s das grades, as m\u00e3os<br \/>\ndescarnadas, \u00e0 esmola&#8230; Depois S\u00e1-T\u00f3 mostrou-me respeitosamente<br \/>\numa pra\u00e7a estreita: a\u00ed, sobre pilares de pedra, pousavam pequenas<br \/>\ngaiolas contendo cabe\u00e7as de decapitados: e gota a gota ia pingando<br \/>\ndelas um sangue espesso e negro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uf! &#8211; exclamei, fatigado e aturdido. &#8211; S\u00e1-T\u00f3, agora quero<br \/>\no repouso, o sil\u00eancio, e um charuto caro&#8230;<\/p>\n<p>Ele curvou-se: e, por uma escadaria de granito, levou-me \u00e0s altas<br \/>\nmuralhas da cidade, formando uma esplanada que quatro carros de guerra a par<br \/>\npodem percorrer durante l\u00e9guas.<\/p>\n<p>E enquanto S\u00e1-T\u00f3, sentado num v\u00e3o de ameia, bocejava,<br \/>\nnum desafogo de cicerone enfastiado, eu fumando contemplei muito tempo aos<br \/>\nmeus p\u00e9s a vasta Pequim&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 como uma formid\u00e1vel cidade da B\u00edblia, Babel ou N\u00ednive,<br \/>\nque o profeta Jonas levou tr\u00eas dias a atravessar. O grandioso muro quadrado<br \/>\nlimita os quatro pontos do horizonte, com as suas portas de torres monumentais,<br \/>\nque o ar azulado, \u00e0quela dist\u00e2ncia, faz parecer transparentes.<br \/>\nE na imensid\u00e3o do seu recinto aglomeram-se confusamente verduras de<br \/>\nbosques, lagos artificiais, canais cintilantes como a\u00e7o, pontes de<br \/>\nm\u00e1rmore, terrenos alastrados de ru\u00ednas, telhados envernizados<br \/>\nreluzindo ao sol; por toda a parte s\u00e3o pagodes her\u00e1ldicos, brancos<br \/>\nterra\u00e7os de templos, arcos triunfais, milhares de quiosques saindo<br \/>\nde entre as folhagens dos jardins; depois espa\u00e7os que parecem um mont\u00e3o<br \/>\nde porcelanas, outros que se assemelham a monturos de lama; e sempre a intervalos<br \/>\nregulares o olhar encontra algum dos basti\u00f5es, de um aspecto her\u00f3ico<br \/>\ne fabuloso&#8230;<\/p>\n<p>A multid\u00e3o, junto a essas edifica\u00e7\u00f5es grandiosas, \u00e9<br \/>\napenas como gr\u00e3os de areia negra que um vento brando vai trazendo e<br \/>\nlevando&#8230;<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 o vasto pal\u00e1cio imperial, entre arvoredos misteriosos,<br \/>\ncom os seus telhados de um amarelo de oiro vivo! Como eu desejaria penetrar-lhe<br \/>\nos segredos, e ver desenrolar-se pelas galerias sobrepostas, a magnific\u00eancia<br \/>\nb\u00e1rbara dessas dinastias seculares!<\/p>\n<p>Al\u00e9m ergue-se a torre do Templo do C\u00e9u, semelhando tr\u00eas<br \/>\nguarda-s\u00f3is sobrepostos: depois a grande Coluna dos Princ\u00edpios,<br \/>\nhier\u00e1tica e seca como o g\u00e9nio mesmo da ra\u00e7a: e adiante<br \/>\nbranquejam numa meia-tinta sobrenatural os terra\u00e7os de jaspe do Santu\u00e1rio<br \/>\nda Purifica\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o interrogo S\u00e1-T\u00f3: e o seu dedo respeitoso vai-me<br \/>\nmostrando o Templo dos Antepassados, o Pal\u00e1cio da Soberana Conc\u00f3rdia,<br \/>\no Pavilh\u00e3o das Flores das Letras, o Quiosque dos Historiadores, fazendo<br \/>\nbrilhar, entre os bosques sagrados que os cercam, os seus telhados lustrosos<br \/>\nde faian\u00e7as azuis, verdes, escarlates e cor de lim\u00e3o. Eu devorava,<br \/>\nde olho \u00e1vido, esses monumentos da Antiguidade asi\u00e1tica, numa<br \/>\ncuriosidade de conhecer as impenetr\u00e1veis classes que os habitam, o<br \/>\nprinc\u00edpio das institui\u00e7\u00f5es, a significa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos cultos, o esp\u00edrito das suas letras, a gram\u00e1tica, o dogma,<br \/>\na estranha vida interior de um c\u00e9rebro de letrado chin\u00eas&#8230; Mas<br \/>\nesse mundo \u00e9 inviol\u00e1vel como um santu\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela plan\u00edcie arenosa<br \/>\nque se estira para al\u00e9m das portas at\u00e9 aos contrafortes dos<br \/>\nmontes mong\u00f3licos; a\u00ed incessantemente redemoinham ondas infind\u00e1veis<br \/>\nde poeira; a toda a hora negrejam filas vagarosas de caravanas&#8230; Ent\u00e3o<br \/>\ninvadiu-me a alma uma melancolia, que o sil\u00eancio daquelas alturas, envolvendo<br \/>\nPequim, tornava de um vago mais desolado: era como uma saudade de mim mesmo,<br \/>\num longo pesar de me sentir ali isolado, absorvido naquele mundo duro e b\u00e1rbaro:<br \/>\nlembrei-me, com os olhos humedecidos, da minha aldeia do Minho, do seu adro<br \/>\nassombreado de carvalheiras, a venda com um ramo de louro \u00e0 porta,<br \/>\no alpendre do ferrador, e os ribeiros t\u00e3o frescos quando verdejam os<br \/>\nlinhos&#8230;<\/p>\n<p>Aquela era a \u00e9poca em que as pombas emigram de Pequim para o Sul.<br \/>\nEu via-as reunirem-se em bandos por cima de mim, partindo dos bosques dos<br \/>\ntemplos e dos pavilh\u00f5es imperiais; cada uma traz, para a livrar dos<br \/>\nmilhafres, um leve tubo de bambu que o ar faz silvar; e aquelas nuvens brancas<br \/>\npassavam como impelidas de uma aragem mole, deixando no sil\u00eancio um<br \/>\nlento e melanc\u00f3lico suspiro, uma ondula\u00e7\u00e3o e\u00f3lica,<br \/>\nque se perdia nos ares p\u00e1lidos&#8230;<\/p>\n<p>Voltei para casa, pesado e pensativo.<\/p>\n<p>Ao jantar, Camilloff, desdobrando o seu guardanapo, pediu-me com bonomia<br \/>\nas minhas impress\u00f5es de Pequim.<\/p>\n<p>&#8211; Pequim faz-me sentir bem, general, os versos de um poeta nosso:<\/p>\n<p>S\u00f4bolos rios que v\u00e3o<\/p>\n<p>Por Babil\u00f3nia me achei &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pequim \u00e9 um monstro! &#8211; disse Camilloff oscilando reflectidamente<br \/>\na calva. &#8211; E agora considere que a esta capital, \u00e0 classe t\u00e1rtara<br \/>\ne conquistadora que a possui, obedecem trezentos milh\u00f5es de homens,<br \/>\numa ra\u00e7a subtil, laboriosa, sofredora, prol\u00edfica, invasora&#8230;<br \/>\nEstudam as nossas ci\u00eancias&#8230; Um c\u00e1lice de M\u00e9doc, Teodoro!&#8230;<br \/>\nT\u00eam uma marinha formid\u00e1vel! O ex\u00e9rcito, que outrora julgava<br \/>\ndestro\u00e7ar o estrangeiro com drag\u00f5es de papel\u00e3o donde<br \/>\nsa\u00edam bichas de fogo, tem agora t\u00e1ctica prussiana e espingarda<br \/>\nde agulha! Grave!<\/p>\n<p>&#8211; E todavia, general, no meu pa\u00eds, quando, a prop\u00f3sito de Macau,<br \/>\nse fala do Imp\u00e9rio Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha,<br \/>\ne dizem negligentemente: \u00abMandamos l\u00e1 cinquenta homens, e varremos<br \/>\na China&#8230;\u00bb<\/p>\n<p>A esta sandice &#8211; fez-se um sil\u00eancio. E o general, depois de tossir<br \/>\nformidavelmente, murmurou, com condescend\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Portugal \u00e9 um belo pais&#8230;<\/p>\n<p>Eu exclamei com secura e firmeza:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma choldra, general.<\/p>\n<p>A generala, colocando delicadamente \u00e0 borda do prato uma asa de frango,<br \/>\ne limpando o dedinho, disse:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o pa\u00eds da can\u00e7\u00e3o de Mignon. \u00c9 t\u00e1<br \/>\nque floresce a laranjeira&#8230;<\/p>\n<p>O gordo Meriskoff, doutor alem\u00e3o pela Universidade de Bona, chanceler<br \/>\nda Lega\u00e7\u00e3o, homem de poesia e de coment\u00e1rio, observou<br \/>\ncom respeito:<\/p>\n<p>&#8211; Generala, o doce pa\u00eds de Mignon \u00e9 a It\u00e1lia: &#8220;Conheces<br \/>\ntu a terra privilegiada onde a laranjeira d\u00e1 flor?&#8221; O divino Goethe<br \/>\nreferia-se \u00e0 It\u00e1lia, Italia mater&#8230; A It\u00e1lia ser\u00e1<br \/>\no eterno amor da humanidade sens\u00edvel!<\/p>\n<p>&#8211; Eu prefiro a Fran\u00e7a! &#8211; suspirou a esposa do primeiro-secret\u00e1rio,<br \/>\numa bonecazinha sardenta, de cabelo arruivascado.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! a Fran\u00e7a!&#8230; &#8211; murmurou um adido, revirando um bugalho de olho<br \/>\ntern\u00edssimo.<\/p>\n<p>O gordo Meriskoff ajeitou os \u00f3culos de oiro:<\/p>\n<p>&#8211; A Fran\u00e7a tem um mal, que \u00e9 a Quest\u00e3o Social&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! a Quest\u00e3o Social! &#8211; rosnou sombriamente Camilloff.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! a Quest\u00e3o Social! &#8230; &#8211; considerou ponderosamente o adido.<\/p>\n<p>E discreteando com tanta sapi\u00eancia, cheg\u00e1mos por fim ao caf\u00e9.<\/p>\n<p>Au descer ao jardim, a generala, apoiando-se sentimentalmente ao meu bra\u00e7o,<br \/>\nmurmurou-me junto \u00e0 face:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, quem me dera viver nesses pa\u00edses apaixonados, onde verdejam<br \/>\nos laranjais!..<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 l\u00e1 que se ama, generala &#8211; segredei-lhe eu, levando-a docemente<br \/>\npara a escurid\u00e3o dos sic\u00f4moros&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Foi necess\u00e1rio todo um longo Ver\u00e3o para descobrir a prov\u00edncia<br \/>\nonde residira o defunto Ti Chin-Fu!<\/p>\n<p>Que epis\u00f3dio administrativo t\u00e3o pitoresco, t\u00e3o chin\u00eas!<br \/>\nO servi\u00e7al Camilloff, que passava o dia inteiro a percorrer os yamens<br \/>\ndo Estado, teve de provar primeiro que o desejo de conhecer a morada de um<br \/>\nvelho mandarim n\u00e3o encobria uma conspira\u00e7\u00e3o contra a<br \/>\nseguran\u00e7a do Imp\u00e9rio; e depois foi-lhe ainda preciso jurar que<br \/>\nn\u00e3o havia nesta curiosidade um atentado contra os ritos sagrados! Ent\u00e3o,<br \/>\nsatisfeito, o pr\u00edncipe Tong permitiu que se fizesse o inqu\u00e9rito<br \/>\nimperial: centenares de escribas empalideceram noite e dia, de pincel na m\u00e3o,<br \/>\ndesenhando relat\u00f3rios sobre papel de arroz; misteriosas confer\u00eancias<br \/>\nsussurraram incessantemente por todas as reparti\u00e7\u00f5es da cidade<br \/>\nImperial, desde o Tribunal Astron\u00f3mico at\u00e9 ao Pal\u00e1cio<br \/>\nda Bondade Preferida; e uma popula\u00e7\u00e3o de coolies transportava<br \/>\nda Lega\u00e7\u00e3o russa para os quiosques da Cidade Interdita, e da\u00ed<br \/>\npara o P\u00e1tio dos Arquivos, padiolas estalando ao peso de ma\u00e7os<br \/>\nde documentos vetustos&#8230;<\/p>\n<p>Quando Camilloff perguntava pelo resultado, vinha-lhe a resposta satisfat\u00f3ria<br \/>\nque se estavam consultando os Livros Santos de Lao-Ts\u00e9, ou que se iam<br \/>\nexplorar velhos textos do tempo de Nor Ha-Chu. E para calmar a impaci\u00eancia<br \/>\nb\u00e9lica do russo, o pr\u00edncipe Tung remetia, com estes recados<br \/>\nsubtis algum substancial presente de confeitos recheados, ou de gomos de bambu<br \/>\nem calda de a\u00e7\u00facar&#8230;<\/p>\n<p>Ora enquanto o general trabalhava com fervor para encontrar a fam\u00edlia<br \/>\nTi Chin-Fu &#8211; eu ia tecendo horas de seda e oiro (assim diz um poeta japon\u00eas)<br \/>\naos p\u00e9s pequeninos da generala&#8230;<\/p>\n<p>Havia um quiosque no jardim sob os sic\u00f4moros, que se denominava, \u00e0<br \/>\nmaneira chinesa, do Repouso Discreto: &#8211; ao lado um arroio fresco ia cantando<br \/>\ndocemente sob uma pontezinha r\u00fastica pintada de cor-de-rosa. As paredes<br \/>\neram apenas um cadeado de bambu fino forrado de seda cor de ganga: o sol,<br \/>\npassando atrav\u00e9s delas, fazia uma luz sobrenatural de opala desmaiada.<br \/>\nAo centro afofava-se um div\u00e3 de seda branca, de uma poesia de nuvem<br \/>\nmatutina, atraente como um leito nupcial. Aos cantos, em ricas jarras transparentes<br \/>\nda \u00e9poca Yeng, erguiam-se, na sua gentileza aristocr\u00e1tica, l\u00edrios<br \/>\nescarlates do Jap\u00e3o. Todo o soalho estava recoberto de esteiras finas<br \/>\nde Nanquim; e junto \u00e0 janela rendilhada, sobre um airoso pedestal de<br \/>\ns\u00e2ndalo, pousava aberto ao alto um leque formado de l\u00e2minas de<br \/>\ncristal separadas, que a aragem entrando fazia vibrar, numa modula\u00e7\u00e3o<br \/>\nmelanc\u00f3lica e terna.<\/p>\n<p>As manh\u00e3s do fim de Agosto em Pequim s\u00e3o muito suaves; j\u00e1<br \/>\nerra no ar um enternecimento outonal. A essa hora o conselheiro Meriskoff,<br \/>\nos oficiais da Lega\u00e7\u00e3o, estavam sempre na Chancelaria fazendo<br \/>\na mala para S\u00e3o Petersburgo.<\/p>\n<p>Eu ent\u00e3o, de leque na m\u00e3o, pisando subtilmente na ponta das<br \/>\nbabouches de cetim as ruazinhas areadas do jardim, ia entreabrir a porta do<br \/>\nRepouso Discreto:<\/p>\n<p>&#8211; Mimi?<\/p>\n<p>E a voz da generala respondia, suave como um beijo:<\/p>\n<p>&#8211; All right&#8230;<\/p>\n<p>Como ela era linda vestida de dama chinesa! Nos seus cabelos levantados alvejavam<br \/>\nflores de pessegueiro; e as sobrancelhas pareciam mais puras e negras avivadas<br \/>\na tinta de Nanquim. A camisinha de gaze, bordada a soutache de filigrana de<br \/>\noiro, colava-se aos seus seios pequeninos e direitos: vastas, fofas cal\u00e7as<br \/>\nde foulard cor de rosa de ninfa, que lhe davam uma gra\u00e7a de serralho,<br \/>\nreca\u00edam sobre o tornozelo fino, coberto de meia de seda amarela: &#8211;<br \/>\ne apenas tr\u00eas dedos da minha m\u00e3o cabiam na sua chinelinha&#8230;<\/p>\n<p>Chamava-se Vladimira; nascera ao p\u00e9 de Nidji-Novgorod; e fora educada<br \/>\npor uma tia velha que admirava Rousseau, lia Faublas, usava o cabelo empoado,<br \/>\ne parecia a grossa litografia cossaca de uma dama galante de Versalhes&#8230;<\/p>\n<p>O sonho de Vladimira era habitar Paris; e fazendo ferver delicadamente as<br \/>\nfolhas de ch\u00e1, pedia-me hist\u00f3rias ladinas de cocottes, e dizia-me<br \/>\no seu culto por Dumas filho&#8230;<\/p>\n<p>Eu arrega\u00e7ava-lhe a larga manga do casabeque de seda cor de folha<br \/>\nmorta, e ia fazendo viajar os meus l\u00e1bios devotos pela pele fresca<br \/>\ndos seus belos bra\u00e7os; &#8211; e depois sobre o div\u00e3, enla\u00e7ados,<br \/>\npeito contra peito, num \u00eaxtase mudo, sent\u00edamos as l\u00e2minas<br \/>\nde cristal ressoar eolicamente as pegas azuis esvoa\u00e7arem pelos pl\u00e1tanos,<br \/>\no fugitivo ritmo do arroio corrente&#8230;<\/p>\n<p>Os nossos olhos humedecidos encontravam \u00e0s vezes um quadro de cetim<br \/>\npreto, por cima do div\u00e3, onde em caracteres chineses se desenrolavam<br \/>\nsenten\u00e7as do Livro Sagrado de Li-Nun \u00absobre os deveres das esposas\u00bb.<br \/>\nMas nenhum de n\u00f3s percebia o chin\u00eas&#8230; E no sil\u00eancio os<br \/>\nnossos beijos recome\u00e7avam, espa\u00e7ados, soando docemente, e compar\u00e1veis<br \/>\n(na l\u00edngua florida daqueles pa\u00edses) a p\u00e9rolas que caem<br \/>\numa a uma sobre uma bacia de prata&#8230; &#8211; Oh suaves sestas dos jardins de Pequim,<br \/>\nonde estais v\u00f3s? Onde estais, folhas mortas dos l\u00edrios escarlates<br \/>\ndo Jap\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>Uma manh\u00e3, Camilloff, entrando na Chancelaria, onde eu fumava o cachimbo<br \/>\nda amizade de companhia com Meriskoff, atirou o seu enorme sabre para um canap\u00e9,<br \/>\ne contou-nos radiante as not\u00edcias que lhe dera o penetrante pr\u00edncipe<br \/>\nTong. &#8211; Descobrira-se enfim que um opulento mandarim, de nome Ti Chin-Fu,<br \/>\nvivera outrora nos confins da Mong\u00f3lia, na vila de Tien-H\u00f3!<br \/>\nTinha morrido subitamente: e a sua larga descend\u00eancia residia l\u00e1,<br \/>\nem mis\u00e9ria, num casebre vil&#8230;<\/p>\n<p>Esta descoberta, \u00e9 certo, n\u00e3o fora devida \u00e0 sagacidade<br \/>\nda burocracia imperial &#8211; mas fizera-a um astr\u00f3logo do templo de Faqua,<br \/>\nque durante vinte noites folheara no c\u00e9u o luminoso arquivo dos astros&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Teodoro, h\u00e1-de ser o seu homem! &#8211; exclamou Camilloff.<\/p>\n<p>E Meriskoff repetiu, sacudindo a cinza do cachimbo:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1-de ser o seu homem, Teodoro!<\/p>\n<p>&#8211; O meu homem&#8230; &#8211; murmurei sombriamente.<\/p>\n<p>Era talvez o meu homem, sim! Mas n\u00e3o me seduzia ir procurar o meu<br \/>\nhomem ou a sua fam\u00edlia, na monotonia de uma caravana, por essas desoladas<br \/>\nextremidades da China!&#8230; Depois desde que chegara a Pequim, eu n\u00e3o<br \/>\ntornara a avistar a forma odiosa de Ti Chin-Fu e do seu papagaio. A Consci\u00eancia<br \/>\nera dentro em mim como uma pomba adormecida. Certamente, o alto esfor\u00e7o<br \/>\nde me ter arrancado \u00e0s do\u00e7uras do bulevar e do Loreto, de ter<br \/>\nsulcado os mares at\u00e9 ao Imp\u00e9rio do Meio, parecera \u00e0 Eterna<br \/>\nEquidade uma expia\u00e7\u00e3o suficiente e uma peregrina\u00e7\u00e3o<br \/>\nreparadora. Certamente Ti Chin-Fu, acalmado, recolhera-se com o seu papagaio<br \/>\n\u00e0 sempiterna Imobilidade&#8230; Para que iria eu, pois, a Tien-H\u00f3?<br \/>\nPorque n\u00e3o ficaria ali, naquele am\u00e1vel Pequim, comendo nen\u00fafares<br \/>\nem calda de a\u00e7\u00facar, abandonando-me \u00e0s sonol\u00eancias<br \/>\namorosas do Repouso Discreto, e pelas tardes azuladas, dando o meu passeio<br \/>\npelo bra\u00e7o do bom Meriskoff, nos terra\u00e7os de jaspe da Purifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nou sob os cedros da Templo do C\u00e9u?&#8230;<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 o zeloso Camilloff, de l\u00e1pis na m\u00e3o, ia marcando<br \/>\nno mapa o meu itiner\u00e1rio para Tien-H\u00f3! E mostrando-me, num desagrad\u00e1vel<br \/>\nentrela\u00e7amento, sombras de montes, linhas tortuosas de rios, esfumados<br \/>\nde lagoas:<\/p>\n<p>&#8211; Aqui est\u00e1! O meu h\u00f3spede sobe at\u00e9 Ni Ku-H\u00e9,<br \/>\nna margem do Pei-H\u00f3&#8230; Da\u00ed, em barcos chatos, vai a My-Yun.<br \/>\nBoa cidade, h\u00e1 l\u00e1 um Buda vivo&#8230; Da\u00ed, a cavalo, segue<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 fortaleza de Ch\u00e9-Hia. Passa a Grande Muralha, famoso<br \/>\nespect\u00e1culo!&#8230; Descansa no forte de Ku Pi-H\u00f3. Pode l\u00e1<br \/>\nca\u00e7ar a gazela. Soberbas gazelas&#8230; E com dois dias de caminhada est\u00e1<br \/>\nem Tien-H\u00f3&#8230; Brilhante, hem?&#8230; Quando quer partir? Amanh\u00e3?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3 &#8211; rosnei, tristonho.<\/p>\n<p>Pobre generala! Nessa noite, enquanto Meriskoff, ao fundo da sala, fazia<br \/>\ncom tr\u00eas oficiais da Embaixada o seu whist sacramental, e Camilloff,<br \/>\nao canto do sof\u00e1, de bra\u00e7os cruzados, solene como numa poltrona<br \/>\ndo Congresso de Viena, dormia de boca aberta &#8211; ela sentou-se ao piano. Eu<br \/>\nao lado, na atitude de um Lara, devastado pela fatalidade, retorcia lugubremente<br \/>\no bigode. E a doce criatura, entre dois gemidos do teclado, de uma saudade<br \/>\npenetrante, cantou revirando para mim os seus olhos rebrilhantes e h\u00famidos:<\/p>\n<p>L&#8217;oiseau s&#8217;envole,<\/p>\n<p>L\u00e0 bas, l\u00e0 bas!&#8230;<\/p>\n<p>L&#8217;oiseau s&#8217;envole&#8230;<\/p>\n<p>Ne revien pas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A ave h\u00e1-de voltar ao ninho &#8211; murmurei eu enternecido.<\/p>\n<p>E, afastando-me a esconder uma l\u00e1grima, ia resmungando furioso:<\/p>\n<p>&#8211; Canalha de Ti Chin-Fu! Por tua causa! Velho malandro! Velho garoto!&#8230;<\/p>\n<p>Ao outro dia l\u00e1 vou para Tien-H\u00f3 &#8211; com o respeitoso int\u00e9rprete<br \/>\nS\u00e1-T\u00f3, uma longa fila de carretas, dois cossacos, toda uma popula\u00e7a<br \/>\nde coolies.<\/p>\n<p>Ao deixar a muralha da Cidade T\u00e1rtara, seguimos muito tempo ao comprido<br \/>\ndos jardins sagrados que orlam o templo de Conf\u00facio.<\/p>\n<p>Era no fim do Outono; j\u00e1 as folhas tinham amarelecido; uma do\u00e7ura<br \/>\ntocante errava no ar&#8230;<\/p>\n<p>Dos quiosques santos sa\u00eda uma sussurra\u00e7\u00e3o de c\u00e2nticos,<br \/>\nde nota mon\u00f3tona e triste. Pelos terra\u00e7os, enormes serpentes,<br \/>\nvenerandas como deuses, iam-se arrastando, j\u00e1 entorpecidas da friagem.<br \/>\nE aqui e al\u00e9m, ao passar, avist\u00e1vamos budistas decr\u00e9pitos,<br \/>\nsecos como pergaminhos e nodosos como ra\u00edzes, encruzados no ch\u00e3o<br \/>\nsob os sic\u00f4moros, numa imobilidade de \u00eddolos, contemplando incessantemente<br \/>\no umbigo, \u00e0 espera da perfei\u00e7\u00e3o do Nirvana&#8230;<\/p>\n<p>E eu ia pensando, com uma tristeza t\u00e3o p\u00e1lida como aquele mesmo<br \/>\nc\u00e9u de Outubro asi\u00e1tico, nas duas l\u00e1grimas redondinhas<br \/>\nque vira brilhar, \u00e0 despedida, nos olhos verdes da generala!&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>Cap\u00edtulo VI<\/h2>\n<p>J\u00e1 a tarde declinava, e o Sol descia vermelho como um escudo de metal<br \/>\ncandente, quando cheg\u00e1mos a Tien-H\u00f3.<\/p>\n<p>As muralhas negras da vila erguem-se, do lado do sul, ao p\u00e9 de uma<br \/>\ntorrente que ruge entre rochas: para o nascente, a plan\u00edcie l\u00edvida<br \/>\ne poeirenta estende-se at\u00e9 a um grupo escuro de colinas onde branqueja<br \/>\num vasto edif\u00edcio &#8211; que \u00e9 uma miss\u00e3o cat\u00f3lica.<br \/>\nE para al\u00e9m, para o extremo norte, s\u00e3o as eternas montanhas<br \/>\nroxas da Mong\u00f3lia, suspensas sempre no ar como nuvens.<\/p>\n<p>Aloj\u00e1mo-nos num barrac\u00e3o f\u00e9tido, intitulado Estalagem<br \/>\nda Consola\u00e7\u00e3o Terrestre. Foi-me reservado o quarto nobre, que<br \/>\nabria sobre uma galeria fixada em estacas; era ornado estranhamente de drag\u00f5es<br \/>\nde papel recortado, suspensos por cord\u00e9is do travejamento do tecto;<br \/>\n\u00e0 menor aragem aquela legi\u00e3o de monstros fabulosos oscilava<br \/>\nem cad\u00eancia, com um rumor seco de folhagem, como tomada de vida sobrenatural<br \/>\ne grotesca.<\/p>\n<p>Antes que escurecesse fui ver com S\u00e1-T\u00f3 a vila: mas bem depressa<br \/>\nfugi ao fedor abomin\u00e1vel das vielas: tudo se me afigurou ser negro<br \/>\n&#8211; os casebres, o ch\u00e3o barrento, os enxurros, os c\u00e3es famintos,<br \/>\na popula\u00e7a abjecta&#8230; Recolhi ao albergue &#8211; onde arrieiros mong\u00f3is<br \/>\ne crian\u00e7as piolhosas me miravam com assombro.<\/p>\n<p>&#8211; Toda esta gente me parece suspeita, S\u00e1-T\u00f3 &#8211; disse eu, franzindo<br \/>\na testa.<\/p>\n<p>&#8211; Tem Vossa Honra raz\u00e3o. \u00c9 uma ral\u00e9! Mas n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 perigo: eu matei, antes de partirmos, um galo negro, e a deusa Kaonine<br \/>\ndeve estar contente. Pode Vossa Honra dormir ao abrigo dos maus esp\u00edritos&#8230;<br \/>\nQuer Vossa Honra o ch\u00e1?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Traz, S\u00e1-T\u00f3.<\/p>\n<p>Bebido o ch\u00e1, convers\u00e1mos do grande plano: na manh\u00e3<br \/>\nseguinte eu ia levar a alegria \u00e0 triste choupana da vi\u00fava de<br \/>\nTi Chin-Fu, anunciando-lhe os milh\u00f5es que lhe dava, depositados j\u00e1<br \/>\nem Pequim: depois, de acordo com o mandarim governador, far\u00edamos uma<br \/>\ncopiosa distribui\u00e7\u00e3o de arroz pela popula\u00e7a: e \u00e0<br \/>\nnoite ilumina\u00e7\u00f5es, dan\u00e7as, como numa gala p\u00fablica&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que te parece, S\u00e1-T\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; Nos l\u00e1bios de Vossa Honra habita a sabedoria de Conf\u00facio&#8230;<br \/>\nVai ser grande! Vai ser grande!<\/p>\n<p>Como vinha cansado, bem cedo comecei a bocejar, e estirei-me sobre o estrado<br \/>\nde tijolo aquecido que serve de leito nas estalagens da China; enrolado na<br \/>\nminha peli\u00e7a, fiz o sinal-da-cruz, e adormeci pensando nos bra\u00e7os<br \/>\nbrancos da generala, nos seus olhos verdes de sereia&#8230;<\/p>\n<p>Era talvez j\u00e1 meia-noite quando despertei a um rumor lento e surdo<br \/>\nque envolvia o barrac\u00e3o &#8211; como de forte vento num arvoredo, ou uma<br \/>\nmaresia grossa batendo um pared\u00e3o. Pela galeria aberta, o luar entrava<br \/>\nno quarto, um luar triste de Outono asi\u00e1tico, dando aos drag\u00f5es<br \/>\nsuspensos do tecto formas, semelhan\u00e7as quim\u00e9ricas&#8230;<\/p>\n<p>Ergui-me, j\u00e1 nervoso &#8211; quando um vulto, alto e inquieto, apareceu<br \/>\nna faixa luminosa do luar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu, Vossa Honra! &#8211; murmurou a voz apavorada de S\u00e1-T\u00f3.<\/p>\n<p>E logo, agachando-se ao p\u00e9 de mim, contou-me num fluxo de palavras<br \/>\nroucas a sua afli\u00e7\u00e3o: &#8211; enquanto eu dormia, espalhara-se pela<br \/>\nvila que um estrangeiro, o Diabo estrangeiro, chegara com bagagens carregadas<br \/>\nde tesouros&#8230; J\u00e1 desde o come\u00e7o da noite ele tinha entrevisto<br \/>\nfaces agudas, de olho voraz, rondando o barrac\u00e3o, como chacais impacientes&#8230;<br \/>\nE ordenara logo aos coolies que entrincheirassem a porta com os carros das<br \/>\nbagagens, formados em semic\u00edrculo \u00e0 velha maneira t\u00e1rtara&#8230;<br \/>\nMas pouco a pouco a malta crescera&#8230; Agora vinha de espreitar por um postigo:<br \/>\ne era em roda da estalagem toda a popula\u00e7a de Tien-H\u00e1, rosnando<br \/>\nsinistramente&#8230; A deusa Kaonine n\u00e3o se satisfizera com o sangue do<br \/>\ngalo preto!&#8230; Al\u00e9m disso ele vira \u00e0 porta de um pagode uma<br \/>\ncabra negra recuar! &#8230; A noite seria de terrores!&#8230; E a sua pobre mulher,<br \/>\no osso do seu osso; que estava t\u00e3o longe, em Pequim!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E agora, S\u00e1-T\u00f3? &#8211; perguntei eu.<\/p>\n<p>&#8211; Agora&#8230; Vossa Honra! Agora&#8230;<\/p>\n<p>Calou-se: e a sua magra figura tremia, aca\u00e7apada como um c\u00e3o<br \/>\nque se roja sob o a\u00e7oite.<\/p>\n<p>Eu afastei o cobarde, e adiantei-me para a galeria. Em baixo, o muro fronteiro,<br \/>\ncoberto de um alpendre, projectava uma funda sombra. A\u00ed com efeito<br \/>\nestava uma turba negra apinhada. \u00c0s vezes uma figura, rastejando, adiantava-se<br \/>\nno espa\u00e7o alumiado, espreitava, farejava as carretas e, sentindo a<br \/>\nlua sobre a face, recuava vivamente, fundindo-se na escurid\u00e3o: e como<br \/>\no tecto do alpendre era baixo, faiscava um momento \u00e0 luz algum ferro<br \/>\nde lan\u00e7a inclinada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que querem voc\u00eas, canalha? &#8211; bradei eu em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>A esta voz estrangeira um grunhido saiu da treva; imediatamente uma pedra<br \/>\nveio ao meu lado furar o papel encerado da gelosia; depois uma flecha silvou,<br \/>\ncravou-se por cima da minha cabe\u00e7a, num barrote&#8230;<\/p>\n<p>Desci rapidamente \u00e0 cozinha da estalagem. Os meus coolies, acocorados<br \/>\nsobre os calcanhares, batiam o queixo num terror; e os dois cossacos que me<br \/>\nacompanhavam, impass\u00edveis \u00e0 lareira, cachimbavam, com o sabre<br \/>\nnu nos joelhos.<\/p>\n<p>O velho estalajadeiro de \u00f3culos, uma av\u00f3 andrajosa que eu vira<br \/>\nno p\u00e1tio deitando ao ar um papagaio de papel, os arrieiros mong\u00f3is,<br \/>\nas crian\u00e7as piolhosas, esses tinham desaparecido; s\u00f3 ficara<br \/>\num velho, b\u00eabedo de \u00f3pio, ca\u00eddo a um canto como um fardo.<br \/>\nFora ouvia-se j\u00e1 a multid\u00e3o vociferar.<\/p>\n<p>Interpelei ent\u00e3o S\u00e1-T\u00f3, que quase desmaiava, arrimado<br \/>\na uma viga: n\u00f3s est\u00e1vamos sem armas; os dois cossacos, s\u00f3s,<br \/>\nn\u00e3o podiam repelir o assalto: era necess\u00e1rio pois ir acordar<br \/>\no mandarim governador, revelar-lhe que eu era um Amigo de Camilloff, um conviva<br \/>\ndo pr\u00edncipe Tong, intim\u00e1-lo a que viesse dispersar a turba,<br \/>\nmanter a lei santa da hospitalidade!&#8230;<\/p>\n<p>Mas S\u00e1-T\u00f3 confessou-me, numa voz d\u00e9bil como um sopro,<br \/>\nque o governador decerto \u00e9 quem estava dirigindo o assalto! Desde as<br \/>\nautoridades at\u00e9 aos mendigos, a fama da minha riqueza, a legenda das<br \/>\ncarretas carregadas de ouro inflamara todos os apetites!&#8230; A prud\u00eancia<br \/>\nordenava, como um mandamento santo, que abandon\u00e1ssemos parte dos tesouros,<br \/>\nmulas, caixas de comest\u00edveis&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ficar aqui, nesta aldeia maldita, sem camisas, sem dinheiro e sem mantimentos?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas com a rica vida, Vossa Honra!<\/p>\n<p>Cedi. E ordenei a S\u00e1-T\u00f3 que fosse propor \u00e0 turba uma<br \/>\ncopiosa distribui\u00e7\u00e3o de sapeques &#8211; se ela consentisse em recolher<br \/>\naos seus casebres, e respeitar em n\u00f3s os h\u00f3spedes enviados por<br \/>\nBuda&#8230;<\/p>\n<p>S\u00e1-T\u00f3 subiu \u00e0 sacada da galeria, a tremer; e rompeu<br \/>\nlogo a arengar \u00e0 malta, bracejando, atirando as palavras com a viol\u00eancia<br \/>\nde um c\u00e3o que ladra. Eu abrira j\u00e1 uma maleta, e ia-lhe passando<br \/>\ncartuchos, sacos de sapeques &#8211; que ele arremessava aos punhados com um gesto<br \/>\nde semeador&#8230; Em baixo havia por momentos um tumulto furioso ao chover dos<br \/>\nmetais; depois um lento suspiro de gula satisfeita; e logo um sil\u00eancio,<br \/>\nnuma suspens\u00e3o de quem espera mais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mais! &#8211; murmurava S\u00e1-T\u00f3, voltando-se para mim ansioso.<\/p>\n<p>Eu, indignado, l\u00e1 lhe dava outros cartuchos, mais rolos, molhos de<br \/>\nmoedas de meio real enfiadas em cord\u00e9is&#8230; J\u00e1 a maleta estava<br \/>\nvazia. A turba rugia, insaciada.<\/p>\n<p>&#8211; Mais, Vossa Honra! &#8211; suplicou S\u00e1-T\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho mais, criatura! O resto est\u00e1 em Pequim!<\/p>\n<p>&#8211; Oh Buda santo! Perdidos! Perdidos! &#8211; clamou S\u00e1-T\u00f3, abatendo-se<br \/>\nsobre os joelhos.<\/p>\n<p>A popula\u00e7a, calada, esperava ainda. De repente, uma ulula\u00e7\u00e3o<br \/>\nselvagem rasgou o ar. E eu senti aquela massa \u00e1vida arremessar-se sobre<br \/>\nas carretas que defendiam a porta em semic\u00edrculo: ao choque todo o<br \/>\nmadeiramento da Estalagem da Consola\u00e7\u00e3o Terrestre rangeu e oscilou&#8230;<\/p>\n<p>Corri \u00e0 varanda. Em baixo era um tropel desesperado em torno dos carros<br \/>\nderrubados: os machados reluziam caindo sobre a tampa dos caixotes: o coiro<br \/>\ndas malas abria-se fendido \u00e0 faca por m\u00e3os inumer\u00e1veis:<br \/>\nno alpendre, os cossacos debatiam-se, aos urros, sob o cutelo. Apesar da lua,<br \/>\neu via em roda do barrac\u00e3o errarem tochas, numa dispers\u00e3o de<br \/>\nfagulhas: um alarido rouco elevava-se, fazendo ao longe uivar os c\u00e3es;<br \/>\ne de todas as vielas desembocava, corria popula\u00e7a, sombras ligeiras,<br \/>\nagitando chu\u00e7os e foices recurvas&#8230;<\/p>\n<p>Subitamente, na loja t\u00e9rrea, ouvi o tumulto da turba que a invadia<br \/>\npelas portas despeda\u00e7adas: decerto me procuravam, supondo que eu teria<br \/>\ncomigo o melhor do tesouro, pedras preciosas ou oiros&#8230; O terror desvairou-me.<br \/>\nCorri a uma grade de bambus para o lado do p\u00e1tio. Demoli-a, saltei<br \/>\nsobre uma camada de mato grosso, num cheiro acre de imund\u00edcies. O meu<br \/>\np\u00f3nei, preso a uma trave, relinchava, puxando furiosamente o cabresto:<br \/>\narremessei-me sobre ele, empolguei-lhe as crinas&#8230;<\/p>\n<p>Nesse momento, do port\u00e3o da cozinha arrombada rompia uma horda com<br \/>\nlanternas, lan\u00e7as, num clamor de del\u00edrio. O p\u00f3nei, espantado,<br \/>\nsalta um regueiro; uma flecha silva a meu lado; depois um tijolo bate-me no<br \/>\nombro, outro nos rins, outro na anca do p\u00f3nei, outro mais grosso rasga-me<br \/>\na orelha! Agarrado desesperadamente \u00e0s crinas, arquejando, com a l\u00edngua<br \/>\nde fora, o sangue a gotejar da orelha, vou despedido numa desfilada furiosa<br \/>\nao longo de uma rua negra&#8230; De repente vejo diante de mim a muralha, um basti\u00e3o,<br \/>\na porta da vila fechada!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, alucinado, sentindo atr\u00e1s rugir a turba, abandonado<br \/>\nde todo o socorro humano &#8211; precisei de Deus! Acreditei n&#8217;Ele, gritei-Lhe que<br \/>\nme salvasse; e o meu esp\u00edrito ia tumultuosamente arrebatando, para<br \/>\nlhe oferecer, fragmentos de ora\u00e7\u00f5es, de salve-rainhas, que ainda<br \/>\nme jaziam no fundo da mem\u00f3ria&#8230; Voltei-me sobre a anca do potro: de<br \/>\numa esquina ao longe surgiu um fogacho de tochas: era a corja!&#8230; Larguei<br \/>\nde golpe ao comprido da alta muralha que corria ao meu lado como uma vasta<br \/>\nfita negra furiosamente desenrolada: de s\u00fabito avisto uma brecha, um<br \/>\nboqueir\u00e3o eri\u00e7ado de esgalhos de sar\u00e7as, e fora a plan\u00edcie<br \/>\nque sob a lua parecia como uma vasta \u00e1gua dormente! Lancei-me para<br \/>\nl\u00e1, desesperadamente, sacudido aos gal\u00f5es do potro&#8230; E muito<br \/>\ntempo galopei no descampado.<\/p>\n<p>De repente o p\u00f3nei, eu, rol\u00e1mos com um baque surdo. Era uma<br \/>\nlagoa Entrou-me pela boca \u00e1gua p\u00fatrida, e os p\u00e9s enla\u00e7aram-se-me<br \/>\nnas ra\u00edzes moles dos nen\u00fafares&#8230; Quando me ergui, me firmei<br \/>\nno solo, &#8211; vi o p\u00f3nei, correndo, muito longe, como uma sombra, com<br \/>\nos estribos ao vento&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o comecei a caminhar por aquela solid\u00e3o, enterrando-me<br \/>\nnas terras lodosas, cortando atrav\u00e9s do mato espinhoso. O sangue da<br \/>\norelha ia-me pingando sobre o ombro; \u00e0 frialdade agreste, o fato encharcado<br \/>\nregelava-se-me sobre a pele: e por vezes, na sombra, parecia-me ver luzir<br \/>\nolhos de feras.<\/p>\n<p>Enfim, encontrei um recinto de pedras soltas onde jazia, sob um arbusto negro,<br \/>\num daqueles mont\u00f5es de esquifes amarelos que os chineses abandonam<br \/>\nnos campos, e onde apodrecem corpos. Abati-me sobre um caix\u00e3o, prostrado:<br \/>\nmas um cheiro abomin\u00e1vel pesava no ar: e ao apoiar-me senti o viscoso<br \/>\nde um l\u00edquido que escorria pelas fendas das t\u00e1buas&#8230; Quis fugir.<br \/>\nMas os joelhos negavam-se, tremiam-me: e \u00e1rvores, rochas, ervas altas,<br \/>\ntodo o horizonte come\u00e7ou a girar em torno de mim como um disco muito<br \/>\nr\u00e1pido. Fa\u00edscas sangu\u00edneas vibravam-me diante dos olhos:<br \/>\ne senti-me como caindo de muito alto, devagar, \u00e0 maneira de uma pena<br \/>\nque desce&#8230;<\/p>\n<p>Quando recuperei a consci\u00eancia estava estirado num banco de pedra,<br \/>\nno p\u00e1tio de um vasto edif\u00edcio semelhante a um convento, que<br \/>\num alto sil\u00eancio envolvia. Dois padres lazaristas lavavam-me devagar<br \/>\na orelha. Um ar fresco circulava; a roldana de um po\u00e7o rangia lentamente;<br \/>\num sino tocava a matinas: Ergui os olhos, avistei uma fachada branca com janelinhas<br \/>\ngradeadas e uma cruz no topo: ent\u00e3o, vendo naquela paz de claustro<br \/>\ncat\u00f3lico como um recanto da p\u00e1tria recuperada, o abrigo e a<br \/>\nconsola\u00e7\u00e3o, rolaram-me das p\u00e1lpebras duas l\u00e1grimas<br \/>\nmudas.<\/p>\n<h3><a name=\"7\"><\/a>Cap\u00edtulo VII<\/h3>\n<p>De madrugada, dois padres lazaristas, dirigindo-se a Tien-H\u00f3, tinham-me<br \/>\nencontrado desmaiado no caminho. E, como disse o alegre padre Loriot, \u00abera<br \/>\nj\u00e1 tempo\u00bb; porque em redor do meu corpo im\u00f3vel, um negro<br \/>\nsemic\u00edrculo desses grossos e soturnos corvos da Tart\u00e1ria, j\u00e1<br \/>\nme estava contemplando com gula&#8230;<\/p>\n<p>Trouxeram-me sem demora para o convento numa padiola &#8211; e grande foi o regozijo<br \/>\nda comunidade quando soube que eu era um latino, um crist\u00e3o e um s\u00fabdito<br \/>\ndos Reis Fidel\u00edssimos. O convento forma ali o centro de um pequeno<br \/>\nburgo cat\u00f3lico, apinhado em torno da maci\u00e7a resid\u00eancia<br \/>\ncomo uma casaria de servos \u00e0 base de um castelo feudal. Existe desde<br \/>\nos primeiros mission\u00e1rios que percorreram a Manch\u00faria. Porque<br \/>\nn\u00f3s estamos aqui nos confins da China: para al\u00e9m j\u00e1 \u00e9<br \/>\na Mong\u00f3lia, a Terra das Ervas, imenso prado verde-escuro, lez\u00edrias<br \/>\nsem fim, colorido aqui e al\u00e9m do vivo das flores silvestres&#8230;<\/p>\n<p>A\u00ed jaz a vasta plan\u00edcie dos n\u00f3madas. Da minha janela<br \/>\neu via negrejar os c\u00edrculos de tendas cobertas de feltro ou de peles<br \/>\nde carneiro; e por vezes assistia \u00e0 partida de uma tribo, em filas<br \/>\nde longas caravanas, levando os seus rebanhos para o oeste&#8230;<\/p>\n<p>O superior lazarista era o excelente padre Giulio. A longa perman\u00eancia<br \/>\nentre as ra\u00e7as amarelas tornara-o quase um chin\u00eas: quando eu<br \/>\no encontrava no claustro com a sua t\u00fanica roxa, o rabicho longo, a<br \/>\nbarba vener\u00e1vel, agitando devagar um enorme leque &#8211; parecia-me algum<br \/>\ns\u00e1bio letrado mandarim comentando mentalmente, na paz de um templo,<br \/>\no Livro Sacro de Chu. Era um santo: mas o cheiro de alho que exalava &#8211; afastaria<br \/>\nas almas mais doloridas e precisadas de consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Conservo suave a mem\u00f3ria dos dias ali passados! O meu quarto, caiado<br \/>\nde branco, com uma cruz negra, tinha um recolhimento de cela. Acordava sempre<br \/>\nao toque de matinas. Em respeito aos velhos mission\u00e1rios, vinha ouvir<br \/>\na missa \u00e0 capela: e enternecia-me, ali, t\u00e3o longe da p\u00e1tria<br \/>\ncat\u00f3lica, naquelas terras mong\u00f3licas, ver \u00e0 clara luz<br \/>\nda manh\u00e3 a casula do padre, com a sua cruz bordada, curvando-se diante<br \/>\ndo altar, e sentir ciciar no fresco sil\u00eancio os Dominus vobiscum e os<br \/>\nCum spiritu tuo&#8230;<\/p>\n<p>De tarde ia \u00e0 escola, admirar os pequenos chineses declinando hora,<br \/>\nhor\u00e6&#8230; E depois do refeit\u00f3rio, passeando no claustro, escutava<br \/>\nhist\u00f3rias de long\u00ednquas miss\u00f5es, de viagens apost\u00f3licas<br \/>\nao Pa\u00eds das Ervagens, as pris\u00f5es suportadas, as marchas, os<br \/>\nperigos, as cr\u00f3nicas her\u00f3icas da F\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Eu por mim n\u00e3o contei no convento as minhas aventuras fant\u00e1sticas:<br \/>\ndei-me como um touriste curioso, tomando apontamentos pelo universo. E esperando<br \/>\nque a minha orelha cicatrizasse, abandonava-me, numa lassid\u00e3o de alma,<br \/>\n\u00e0quela paz de mosteiro&#8230;<\/p>\n<p>Mas estava decidido a deixar bem depressa a China, esse imp\u00e9rio b\u00e1rbaro<br \/>\nque eu odiava agora prodigiosamente!<\/p>\n<p>Quando me punha a pensar que viera desde os confins do Ocidente para trazer<br \/>\na uma prov\u00edncia chinesa a abund\u00e2ncia dos meus milh\u00f5es,<br \/>\ne que apenas l\u00e1 chegara fora logo saqueado, apedrejado, frechado &#8211;<br \/>\nenchia-me um rancor surdo, gastava horas agitando-me pelo quarto, a revolver<br \/>\ncoisas feras que tentaria para me vingar do Imp\u00e9rio do Meio!<\/p>\n<p>Retirar-me com os meus milh\u00f5es era a desforra mais pr\u00e1tica,<br \/>\nmais f\u00e1cil! Demais, a minha ideia de ressuscitar artificialmente, para<br \/>\nbem da China, a personalidade de Ti Chin-Fu, parecia-me agora absurda, de<br \/>\numa insensatez de sonho. Eu n\u00e3o compreendia a l\u00edngua, nem os<br \/>\ncostumes, nem os ritos, nem as leis, nem os s\u00e1bios daquela ra\u00e7a:<br \/>\nque vinha pois fazer ali sen\u00e3o expor-me, pelo aparato da minha riqueza,<br \/>\naos assaltos de um povo que h\u00e1 quarenta e quatro s\u00e9culos \u00e9<br \/>\npirata nos mares e traz as terras varridas de rapina?&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Ti Chin-Fu e o seu papagaio continuavam invis\u00edveis,<br \/>\nremontados decerto ao C\u00e9u chin\u00eas dos Av\u00f3s: e j\u00e1<br \/>\no aplacamento do remorso vis\u00edvel diminu\u00edra em mim singularmente<br \/>\no desejo da expia\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Sem d\u00favida o velho letrado estava fatigado de deixar essas regi\u00f5es<br \/>\ninef\u00e1veis para se vir estirar pelos meus m\u00f3veis. Vira os meus<br \/>\nesfor\u00e7os, o meu desejo de ser \u00fatil \u00e0 sua prole, \u00e0<br \/>\nsua prov\u00edncia, \u00e0 sua ra\u00e7a &#8211; e, satisfeito, acomodara-se<br \/>\nregaladamente para a sua sesta eterna. Eu nunca mais avistaria a sua pan\u00e7a<br \/>\namarela!&#8230;<\/p>\n<p>E ent\u00e3o mordia-me o apetite de me achar j\u00e1 tranquilo e livre,<br \/>\nno pac\u00edfico gozo do meu oiro, ao Loreto ou no bulevar, sorvendo o mel<br \/>\n\u00e0s flores da Civiliza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Mas a vi\u00fava de Ti Chin-Fu, as mimosas senhoras da sua descend\u00eancia,<br \/>\nos netos pequeninos?&#8230; Iria eu deix\u00e1-los barbaramente, na fome e no<br \/>\nfrio, pelas vielas negras de Tien-H\u00f3? N\u00e3o. Esses n\u00e3o<br \/>\neram culpados das pedradas que me atirara a popula\u00e7a. E eu, crist\u00e3o,<br \/>\nasilado num convento crist\u00e3o, tendo \u00e0 cabeceira da cama o Evangelho,<br \/>\ncercado de exist\u00eancias que eram encarna\u00e7\u00f5es de Caridade<br \/>\n&#8211; n\u00e3o podia partir do Imp\u00e9rio sem restituir \u00e0queles que<br \/>\ndespojara a abund\u00e2ncia, esse conforto honesto que recomenda o Cl\u00e1ssico<br \/>\nda Piedade Filial.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o escrevi a Camilloff. Contava-lhe a minha abjecta fuga, sob as<br \/>\npedras da turba chinesa; o abrigo crist\u00e3o que me dera a miss\u00e3o;<br \/>\no vivaz desejo de partir do Imp\u00e9rio do Meio. Pedia-lhe que remetesse<br \/>\nele \u00e0 vi\u00fava de Ti Chin-Fu os milh\u00f5es depositados por<br \/>\nmim em casa do mercador Tsing-F\u00f3, na Avenida de Ch\u00e1-Cua, ao<br \/>\nlado do arco triunfal de Tong, junto ao templo da deusa Kaonine.<\/p>\n<p>O alegre padre Loriot, que ia a Pequim em miss\u00e3o, levou esta carta,<br \/>\nque eu lacrara com o selo do convento &#8211; uma cruz saindo de um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nem chamas&#8230;<\/p>\n<p>Os dias passaram. As primeiras neves alvejaram nas montanhas setentrionais<br \/>\nda Manch\u00faria: e eu ocupava-me a ca\u00e7ar a gazela pela Terra das<br \/>\nErvas&#8230; Horas en\u00e9rgicas e fortemente vividas, as dessas manh\u00e3s,<br \/>\nquando eu largava \u00e0 desfilada, no grande ar agreste da plan\u00edcie,<br \/>\nentre os monteadores mong\u00f3licos que, com um grito ululado e vibrante,<br \/>\nbatiam o matagal \u00e0 lan\u00e7ada! Por vezes, uma gazela saltava: e,<br \/>\nde orelha baixa, estirada e fina, partia no fio do vento&#8230; Solt\u00e1vamos<br \/>\no falc\u00e3o, que voava sobre ela, de asa serena, dando-lhe a espa\u00e7os<br \/>\nregulares, com toda a for\u00e7a do bico recurvo, uma picada viva no cr\u00e2nio.<br \/>\nE \u00edamo-la abater, por fim, \u00e0 beira de alguma \u00e1gua morta,<br \/>\ncoberta de nen\u00fafares&#8230; Ent\u00e3o os c\u00e3es negros da Tart\u00e1ria<br \/>\namontoavam-se-lhe sobre o ventre, e, com as patas no sangue, iam-lhe, a ponta<br \/>\nde dente, desfiando devagar as entranhas&#8230;<\/p>\n<p>Uma manh\u00e3 o leigo da portaria avistou enfim o alegre padre Loriot,<br \/>\ngalgando \u00e0 lufa-lufa pelo caminho \u00edngreme do burgo, de volta<br \/>\nde Pequim, com a sua mochila ao ombro e uma criancinha nos bra\u00e7os:<br \/>\ntinha-a encontrado abandonada, nuazinha, morrendo \u00e0 beira de um caminho:<br \/>\nbaptizara-a logo num regato com o nome de Bem-Achado: e ali a trazia, todo<br \/>\nenternecido, arquejando de tanto que estugara o passo, para dar depressa \u00e0<br \/>\ncriaturinha esfomeada o bom leite da cabra do convento&#8230;<\/p>\n<p>Depois de abra\u00e7ar os religiosos, de enxugar as grossas bagas de suor,<br \/>\ntirou da algibeira dos cal\u00e7\u00f5es um envelope com o selo da \u00e1guia<br \/>\nrussa:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isto que manda o pap\u00e1 Camilloff, Amigo Teodoro. Ficou \u00f3ptimo.<br \/>\nE a senhora tamb\u00e9m&#8230; Tudo rijo.<\/p>\n<p>Corri a um recanto do claustro a ler as duas folhas de prosa. Meu bom Camilloff,<br \/>\nde calva severa e olho de mocho! Como ele aliava t\u00e3o originalmente<br \/>\nao senso fino de um h\u00e1bil de chancelaria as caturrices picarescas de<br \/>\ndiplomata bufo! A carta dizia assim:<\/p>\n<p>Amigo, h\u00f3spede, e car\u00edssimo Teodoro:<\/p>\n<p>\u00c0s primeiras linhas da sua carta fic\u00e1mos consternados! Mas<br \/>\nlogo as seguintes nos deram um grato al\u00edvio, por nos certificar que<br \/>\nestava com esses santos padres da miss\u00e3o crist\u00e3&#8230;. Eu partia<br \/>\npara o yamen imperial a fazer uma severa reclama\u00e7\u00e3o ao pr\u00edncipe<br \/>\nTong, sobre o esc\u00e2ndalo de Tien-H\u00f3. Sua Excel\u00eancia mostrou<br \/>\num j\u00fabilo desordenado! Porque, se lamenta como particular a ofensa,<br \/>\no roubo e as pedradas que o meu h\u00f3spede sofreu, como ministro do Imp\u00e9rio<br \/>\nv\u00ea a a doce oportunidade de extorquir \u00e0 vila de Tien-H\u00f3,<br \/>\nem multa, em castigo da inj\u00faria feita a um estrangeiro, a vantajosa<br \/>\nsoma de trezentos mil francos, ou, segundo os c\u00e1lculos do nosso sagaz<br \/>\nMeriskoff, cinquenta e quatro contos de r\u00e9is na moeda do seu belo pa\u00eds!<br \/>\n\u00c9, como disse Meriskoff, um excelente resultado para o Er\u00e1rio<br \/>\nimperial, e fica assim a sua orelha copiosamente vingada &#8230; Aqui, come\u00e7am<br \/>\na picar os primeiros frios, e j\u00e1 estamos usando peles. O bom Meriskoff<br \/>\nl\u00e1 vai sofrendo do f\u00edgado, mas a dor n\u00e3o lhe altera o<br \/>\ncrit\u00e9rio filos\u00f3fico nem a s\u00e1bia verbosidade&#8230; Tivemos<br \/>\num grande desgosto: o lindo c\u00e3ozinho da boa Madame Tagarieff, a esposa<br \/>\ndo nosso amado secret\u00e1rio, o ador\u00e1vel \u00abTu-Tu\u00bb, desapareceu<br \/>\nna manh\u00e3 de 15&#8230; Fiz, na pol\u00edcia, inst\u00e2ncias urgentes:<br \/>\nmas o \u00abTu-Tu\u00bb n\u00e3o nos foi restitu\u00eddo &#8211; e o sentimento<br \/>\n\u00e9 tanto maior, quanto \u00e9 sabido que a popula\u00e7a de Pequim<br \/>\naprecia extremamente esses c\u00e3ezinhos, guisados em calda de a\u00e7\u00facar&#8230;<br \/>\nDeu-se aqui um facto abomin\u00e1vel e de consequ\u00eancias funestas:<br \/>\na ministra de Fran\u00e7a, essa petulante Madame Grijon, esse \u00abgalho<br \/>\nseco\u00bb (como diz o nosso Meriskoff), no \u00faltimo jantar da Lega\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndeu, em desprezo de todas as regras internacionais, o bra\u00e7o, o seu<br \/>\ndescarnado bra\u00e7o, e a sua direita \u00e0 mesa a um simples adido<br \/>\ningl\u00eas, Lord Gordon! Que me diz a isto? \u00c9 cr\u00edvel? \u00c9<br \/>\nracional? \u00c9 destruir a ordem social! O bra\u00e7o, a direita, a um<br \/>\nadido, um escoc\u00eas cor de tijolo, de vidro entalado no olho, quando havia<br \/>\npresentes todos os embaixadores, os ministros, e eu! Isto tem causado, no<br \/>\ncorpo diplom\u00e1tico, uma sensa\u00e7\u00e3o inenarr\u00e1vel&#8230;<br \/>\nEsperamos instru\u00e7\u00f5es dos nossos governos. Como diz Meriskoff,<br \/>\noscilando tristemente a cabe\u00e7a &#8211; \u00e9 grave&#8230; \u00e9 muito grave!<br \/>\n&#8211; O que prova (e ningu\u00e9m o duvida) que Lord Gordon \u00e9 o benjamim<br \/>\ndo \u00abgalho seco\u00bb. Que podrid\u00e3o! Que lodo!&#8230; A generala<br \/>\nn\u00e3o tem passado bem, desde a sua partida para a malfadada Tien-H\u00f3;<br \/>\no doutor Pagloff n\u00e3o lhe percebe o mal; \u00e9 uma languidez, um<br \/>\nmurchar, uma saudosa indol\u00eancia que a conserva horas e horas im\u00f3vel<br \/>\nsobre o sof\u00e1, no Pavilh\u00e3o do Repouso Discreto, com o olhar vago<br \/>\ne o l\u00e1bio cheio de suspiros&#8230; Eu n\u00e3o me iludo: sei perfeitamente<br \/>\no que a mina: \u00e9 a desgra\u00e7ada doen\u00e7a de bexiga, que lhe<br \/>\nveio das m\u00e1s \u00e1guas, quando estivemos na Lega\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Madrid&#8230; Seja feita a vontade do Senhor!&#8230; Ela pede-me para lhe mandar<br \/>\nun petit bonjour, e deseja que o meu h\u00f3spede apenas chegue a Paris,<br \/>\nse for a Paris, lhe remeta pela mala da Embaixada para S\u00e3o Petersburgo<br \/>\n(da\u00ed vir\u00e1 a Pequim), duas d\u00fazias de luvas de doze bot\u00f5es,<br \/>\nn\u00famero cinco e tr\u00eas quartos, da marca \u00abSol\u00bb, dos<br \/>\nArmaz\u00e9ns do Louvre; assim como os \u00faltimos romances de Zola,<br \/>\n\u00abMademoiselle de Maupin\u00bb, de Gautier; e uma caixa de frascos de<br \/>\n\u00abOpoponax\u00bb&#8230; Esquecia-me dizer-lhe que mud\u00e1mos de padeiro:<br \/>\nfornecemo-mos agora da padaria da Embaixada inglesa: deix\u00e1mos a da<br \/>\nEmbaixada francesa, para n\u00e3o ter comunica\u00e7\u00f5es com o \u00abgalho<br \/>\nseco\u00bb&#8230; A\u00ed est\u00e3o os inconvenientes de n\u00e3o termos<br \/>\naqui na Embaixada russa uma padaria &#8211; apesar de tantos relat\u00f3rios,<br \/>\ntantas reclama\u00e7\u00f5es que, sobre esse ponto, tenho feito para a<br \/>\nChancelaria de S\u00e3o Petersburgo! Eles sabem bem que em Pequim n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 padarias, que cada lega\u00e7\u00e3o tem a sua pr\u00f3pria,<br \/>\ncomo um elemento de instala\u00e7\u00e3o e de influ\u00eancia. Mas qu\u00ea!<br \/>\nNa corte imperial desatendem-se os mais s\u00e9rios interesses da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\nrussa!&#8230; Creio que \u00e9 tudo o que h\u00e1 de novo em Pequim e nas<br \/>\nlega\u00e7\u00f5es. Meriskoff recomenda-se, e todos desta Embaixada; e<br \/>\ntamb\u00e9m o condezinho Arthur, o Zizi da Lega\u00e7\u00e3o espanhola,<br \/>\no \u00abFocinho Ca\u00eddo\u00bb, e o Lulu; enfim todos; eu mais que ningu\u00e9m,<br \/>\nque me assino com saudade e afei\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>General Camilloff<\/p>\n<p>P. S. &#8211; Enquanto \u00e0 vi\u00fava e fam\u00edlia de Ti Chin-Fu, houve<br \/>\num engano: o astr\u00f3logo do templo de Faqua equivocou-se na interpreta\u00e7\u00e3o<br \/>\nsideral: n\u00e3o \u00e9 realmente em Tien-H\u00f3 que reside essa fam\u00edlia&#8230;<br \/>\n\u00c9 no Sul da China, na prov\u00edncia de Cant\u00e3o. Mas tamb\u00e9m<br \/>\nh\u00e1 uma fam\u00edlia Ti Chin-Fu para al\u00e9m da Grande Muralha,<br \/>\nquase na fronteira russa, no distrito de Kao-Li. A ambas morreu o chefe, a<br \/>\nambas assaltou a pobreza&#8230; Portanto, esperando novas ordens, n\u00e3o levantei<br \/>\nos dinheiros da casa de Tsing-F\u00f3. Esta recente informa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmandou-ma hoje Sua Excel\u00eancia o Pr\u00edncipe Tong, com uma deliciosa<br \/>\ncompota de calombro&#8230; Devo anunciar-lhe que o nosso bom S\u00e1-T\u00f3<br \/>\naqui apareceu, de volta de Tien-H\u00f3, com um bei\u00e7o rachado e leves<br \/>\ncontus\u00f5es no ombro, tendo apenas salvado da bagagem saqueada uma litografia<br \/>\nde Nossa Senhora das Dores, que, pela inscri\u00e7\u00e3o a tinta, vejo<br \/>\nque pertencera a sua respeit\u00e1vel mam\u00e3&#8230; Os meus valentes cossacos,<br \/>\nesses, l\u00e1 ficaram numa po\u00e7a de sangue. Sua Excel\u00eancia<br \/>\no Pr\u00edncipe Tong condescende em mos pagar a dez mil francos cada um,<br \/>\ndas somas extorquidas \u00c0 vila de Tien-H\u00f3&#8230; S\u00e1-T\u00f3<br \/>\ndiz-me que se o meu h\u00f3spede, como \u00e9 natural, recome\u00e7ar<br \/>\nas suas viagens atrav\u00e9s do Imp\u00e9rio em busca dos Ti Chin-Fu &#8211;<br \/>\nele considerar-se-ia honrado e venturoso em o acompanhar, com uma fidelidade<br \/>\ncanina e uma docilidade cossaca&#8230;<\/p>\n<p>Camilloff<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! nunca! &#8211; rugi com furor, amarrotando a carta, monologando a<br \/>\nlargas passadas pelo melanc\u00f3lico claustro. &#8211; N\u00e3o, por Deus ou<br \/>\npelo Dem\u00f3nio! Ir de novo bater as estradas da China? Jamais! Oh sorte<br \/>\ngrotesca e desastrosa! Deixo os meus regalos ao Loreto, o meu ninho amoroso<br \/>\nde Paris, venho rolado pela vaga enjoadora de Marselha a Xangai, sofro as<br \/>\npulgas das bateiras chinesas, o fedor das vielas, a poeirada dos caminhos<br \/>\n\u00e1ridos &#8211; e para qu\u00ea? Tinha um plano, que se erguia at\u00e9<br \/>\naos C\u00e9us, grandioso e ornamentado como um trof\u00e9u: por sobre<br \/>\nele cintilavam, de alto a baixo, toda a sorte de ac\u00e7\u00f5es boas:<br \/>\ne eis que o vejo tombar ao ch\u00e3o, pe\u00e7a a pe\u00e7a, numa ru\u00edna!<br \/>\nQueria dar o meu nome, os meus milh\u00f5es e metade do meu leito de oiro<br \/>\na uma senhora Ti Chin-Fu &#8211; e n\u00e3o mo permitem os preju\u00edzos sociais<br \/>\nde uma ra\u00e7a b\u00e1rbara! Pretendo, com o bot\u00e3o de cristal<br \/>\nde mandarim, remodelar os destinos da China, trazer-lhe a prosperidade civil<br \/>\n&#8211; e veda-mo a lei imperial! Aspiro a derramar uma esmola sem fim por esta<br \/>\npopula\u00e7a faminta &#8211; e corro o perigo ingrato de ser decapitado como<br \/>\ninstigador de rebeli\u00f5es! Venho enriquecer uma vila &#8211; e a turba tumultuosa<br \/>\napedreja-me! Ia enfim dar a abund\u00e2ncia, o conforto que louva Conf\u00facio,<br \/>\n\u00e0 fam\u00edlia Ti Chin-Fu &#8211; e essa fam\u00edlia some-se, evapora-se<br \/>\ncomo um fumo, e outras fam\u00edlias Ti Chin-Fu surgem, aqui e al\u00e9m,<br \/>\nvagamente, ao sul, a oeste, como clar\u00f5es enganadores&#8230; E havia de<br \/>\nir a Cant\u00e3o, a Kao-Li, expor a outra orelha a tijolos brutais, fugir<br \/>\nainda pelos descampados, agarrado \u00e0s crinas de um potro? Jamais!<\/p>\n<p>Parei: e de bra\u00e7os erguidos, falando \u00e0s arcadas do claustro,<br \/>\n\u00e0s \u00e1rvores, ao ar silencioso e fino que me envolvia:<\/p>\n<p>&#8211; Ti Chin-Fu! &#8211; bradei. &#8211; Ti Chin-Fu! Para te aplacar, fiz o que era racional,<br \/>\ngeneroso e l\u00f3gico! Est\u00e1s enfim satisfeito, letrado vener\u00e1vel,<br \/>\ntu, o teu gentil papagaio, a tua pan\u00e7a oficial? Fala-me! Fala-me!&#8230;<\/p>\n<p>Escutei, olhei: a roldana do po\u00e7o, \u00e0quela hora do meio-dia,<br \/>\nrangia devagar, no p\u00e1tio: sob as amoreiras, ao longo da arcaria do<br \/>\nclaustro, secavam em papel de seda as folhas de ch\u00e1 da colheita de<br \/>\nOutubro: da porta meio cerrada da aula vinha um sussurro lento de declina\u00e7\u00f5es<br \/>\nlatinas: era uma paz severa, feita da simplicidade das ocupa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nda honestidade dos estudos, do ar pastoril daquela colina, onde dormia, sob<br \/>\num sol branco de Inverno, o burgo religioso&#8230; E com aquela serenidade ambiente,<br \/>\npareceu-me receber na alma, de repente, uma pacifica\u00e7\u00e3o absoluta!<\/p>\n<p>Acendi com os dedos ainda tr\u00e9mulos um charuto, e disse, limpando na<br \/>\ntesta uma baga de suor, esta palavra, resumo de um destino:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, Ti Chin-Fu est\u00e1 contente.<\/p>\n<p>Fui logo \u00e0 cela do excelente padre Giulio. Ele lia o seu Brevi\u00e1rio<br \/>\n\u00e0 janela, debicando confeitos de a\u00e7\u00facar, com o gato do<br \/>\nconvento no colo.<\/p>\n<p>&#8211; Reverend\u00edssimo, volto \u00e0 Europa&#8230; Algum dos nossos bons padres<br \/>\nvai por acaso em miss\u00e3o, para os lados de Xangai?&#8230;<\/p>\n<p>O vener\u00e1vel superior p\u00f4s os seus \u00f3culos redondos: e folheando<br \/>\ncom un\u00e7\u00e3o um vasto registo em letra chinesa, ia assim murmurando:<\/p>\n<p>&#8211; Quinto dia da d\u00e9cima Lua&#8230; Sim, h\u00e1 o padre Anacleto para<br \/>\nTien-Tsin, para a novena dos Irm\u00e3os da Santa Creche. Duod\u00e9cima<br \/>\nLua, o padre Sanchez para Tien-Tsin tamb\u00e9m, para a obra do Catecismo<br \/>\naos \u00d3rf\u00e3os&#8230; Sim, caro h\u00f3spede, tem companheiros para<br \/>\nleste&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3?<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3. \u00c9 dolorosa a separa\u00e7\u00e3o nestes confins<br \/>\ndo mundo, quando as almas se compreendem bem em Jesus&#8230; O nosso padre Gutierrez<br \/>\nque lhe fa\u00e7a um bom farnel&#8230; N\u00f3s j\u00e1 o am\u00e1vamos<br \/>\ncomo irm\u00e3o, Teodoro&#8230; Coma um confeito, s\u00e3o deliciosos&#8230; As<br \/>\ncoisas est\u00e3o em feliz repouso quando se acham no seu lugar e elemento<br \/>\nnatural: o lugar do cora\u00e7\u00e3o do homem \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Deus: e o seu est\u00e1 nesse asilo seguro&#8230; Coma um confeito&#8230; Que<br \/>\n\u00e9 isso, meu filho, que \u00e9 isso?<\/p>\n<p>Eu estava colocando sobre o seu Brevi\u00e1rio, aberto numa p\u00e1gina<br \/>\ndo Evangelho de Pobreza, um rolo de notas do Banco de Inglaterra; e balbuciei:<\/p>\n<p>&#8211; Meu reverend\u00edssimo, para os seus pobres&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Excelente, excelente&#8230; O nosso bom Gutierrez que lhe fa\u00e7a um farnel<br \/>\ncopioso&#8230; Amen, meu filho&#8230; In Deo omnia spes&#8230;<\/p>\n<p>Ao outro dia, entre o padre Anacleto e o padre Sanchez, montado na mula branca<br \/>\ndo convento, desci o burgo, ao repique dos sinos. E a\u00ed vamos para Hiang-Hiam,<br \/>\nvila negra e murada, onde atracam os barcos que descem a Tien-Tsin. J\u00e1<br \/>\nas terras ao longo do Pei-H\u00f3 estavam todas brancas de neve: nas enseadas<br \/>\nbaixas j\u00e1 a \u00e1gua ia gelando: e embrulhados em peles de carneiro,<br \/>\nem roda do fogareiro, \u00e0 popa do barco, os bons padres e eu \u00edamos<br \/>\nconversando de trabalhos de mission\u00e1rios, de coisas da China, por vezes<br \/>\ndos interesses do C\u00e9u &#8211; passando em redor sem cessar o grosso frasco<br \/>\nda genebra&#8230;<\/p>\n<p>Em Tien-Tsin separei-me daqueles santos camaradas. E da\u00ed a duas semanas,<br \/>\npor um meio-dia de sol t\u00e9pido, passeava, fumando o meu charuto e olhando<br \/>\na az\u00e1fama dos cais de Hong-Kong, no tombadilho do \u00abJava\u00bb,<br \/>\nque ia levantar ferro para a Europa.<\/p>\n<p>Foi um momento comovente para mim, aquele em que vi, \u00e0s primeiras<br \/>\nvoltas do h\u00e9lice, afastar-se a terra da China.<\/p>\n<p>Desde que acordara, nessa manh\u00e3, uma inquieta\u00e7\u00e3o surda<br \/>\nrecome\u00e7ava a pesar-me na alma. Agora, punha-me a pensar que viera \u00e0quele<br \/>\nvasto imp\u00e9rio para acalmar pela expia\u00e7\u00e3o um protesto<br \/>\ntemeroso da Consci\u00eancia: e por fim, impelido por uma impaci\u00eancia<br \/>\nnervosa, a\u00ed partia, sem ter feito mais que desonrar os bigodes brancos<br \/>\nde um general her\u00f3ico, e ter recebido pedradas pela orelha numa vila<br \/>\ndos confins da Mong\u00f3lia.<\/p>\n<p>Estranho destino, o meu!&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 ao anoitecer estive encostado sombriamente \u00e0 borda do paquete,<br \/>\nvendo o mar liso, como uma vasta pe\u00e7a de seda azul, dobrar-se aos lados<br \/>\nem duas pregas moles: pouco a pouco grandes estrelas palpitaram na concavidade<br \/>\nnegra, e o h\u00e9lice na sombra ia trabalhando em ritmo. Ent\u00e3o,<br \/>\ntomado de uma fadiga mole, fui errando pelo paquete, olhando, aqui e al\u00e9m,<br \/>\na b\u00fassola alumiada; os mont\u00f5es de cabrestantes; as pe\u00e7as<br \/>\nda m\u00e1quina, numa claridade ardente, batendo em cad\u00eancia; as fagulhas<br \/>\nque fugiam do cano, num rolo de fumara\u00e7a negra; os marinheiros de barba<br \/>\nruiva, im\u00f3veis \u00e0 roda do leme; e as formas dos pilotos, sobre<br \/>\no pontal, altas e vagas na noite. Na cabina do capit\u00e3o, um ingl\u00eas<br \/>\nde capacete de corti\u00e7a, cercado de damas que bebiam conhaque, ia tocando<br \/>\nmelancolicamente na flauta a \u00e1ria de \u00abBonnie Dundee\u00bb&#8230;<\/p>\n<p>Eram onze horas quando desci ao meu beliche. As luzes j\u00e1 estavam apagadas:<br \/>\nmas a Lua que se erguia ao n\u00edvel da \u00e1gua, redonda e branca,<br \/>\nbatia o vidro da cabina com um raio de claridade: e ent\u00e3o, a essa meia-tinta<br \/>\np\u00e1lida, l\u00e1 vi, estirada sobre a maca, a figura pan\u00e7uda,<br \/>\nvestida de seda amarela, com o seu papagaio nos bra\u00e7os!<\/p>\n<p>Era ele, outra vez!<\/p>\n<p>E foi ele, perpetuamente! Foi ele em Singapura e em Ceil\u00e3o. Foi ele<br \/>\nerguendo-se dos areais do deserto ao passarmos no canal de Suez; adiantando-se<br \/>\n\u00e0 proa de um barco de provis\u00f5es quando par\u00e1mos em Malta;<br \/>\nresvalando sobre as rosadas montanhas da Sic\u00edlia; emergindo dos nevoeiros<br \/>\nque cercam o morro de Gibraltar! Quando desembarquei em Lisboa, no Cais das<br \/>\nColunas, a sua figura bojuda enchia todo o arco da Rua Augusta; o seu olho<br \/>\nobl\u00edquo fixava-me &#8211; e os dois olhos pintados do seu papagaio pareciam<br \/>\nfixar-me tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>Cap\u00edtulo VIII<\/h2>\n<p>Ent\u00e3o, certo que n\u00e3o poderia jamais aplacar Ti Chin-Fu, toda<br \/>\nessa noite no meu quarto ao Loreto, onde como outrora as velas inumer\u00e1veis<br \/>\ndas serpentinas davam aos damascos tons de sangue fresco, meditei sacudir<br \/>\nde mim, como um adorno de pecado, esses milh\u00f5es sobrenaturais. E assim<br \/>\nme libertaria talvez daquela pan\u00e7a e daquele papagaio abomin\u00e1vel!<\/p>\n<p>Abandonei o palacete ao Loreto, a exist\u00eancia de nababo. Fui, com uma<br \/>\nquinzena co\u00e7ada, realugar o meu quarto na casa da Madame Marques: e<br \/>\nvoltei \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o, de espinha\u00e7o curvo, a implorar<br \/>\nos meus vinte mil r\u00e9is mensais, e a minha doce pena de amanuense!&#8230;<\/p>\n<p>Mas um sofrimento maior veio amargurar os meus dias. Julgando-me arruinado<br \/>\n&#8211; todos aqueles que a minha opul\u00eancia humilhara cobriram-me de ofensas,<br \/>\ncomo se alastra de lixo uma est\u00e1tua derrubada de pr\u00edncipe deca\u00eddo.<br \/>\nOs jornais, num triunfo de ironia, achincalharam a minha mis\u00e9ria. A<br \/>\nAristocracia, que balbuciara adula\u00e7\u00f5es aos p\u00e9s do nababo,<br \/>\nordenava agora aos seus cocheiros que atropelassem nas ruas o corpo encolhido<br \/>\ndo plumitivo de secretaria. O Clero, que eu enriquecera, acusava-me de \u00abfeiticeiro\u00bb;<br \/>\no Povo atirou-me pedras; e a Madame Marques, quando eu me queixava humildemente<br \/>\nda dureza gran\u00edtica dos bifes, plantava as duas m\u00e3os \u00e0<br \/>\ncinta, e gritava:<\/p>\n<p>&#8211; Ora o engui\u00e7o! Ent\u00e3o que quer voc\u00ea mais? Aguente! Olha<br \/>\no pelintra!&#8230;<\/p>\n<p>E apesar desta expia\u00e7\u00e3o, o velho Ti Chin-Fu l\u00e1 estava<br \/>\nsempre \u00e0 minha ilharga, obeso e cor de oca &#8211; porque os seus milh\u00f5es,<br \/>\nque jaziam agora est\u00e9reis e intactos nos bancos, ainda de facto eram<br \/>\nmeus! Desgra\u00e7adamente meus!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, indignado, um dia subitamente reentrei com estrondo no meu<br \/>\npalacete e no meu luxo. Nessa noite, de novo o resplendor das minhas janelas<br \/>\nalumiou o Loreto: e pelo port\u00e3o aberto, viram-se como outrora negrejar,<br \/>\nnas suas fardas de seda negra, as longas filas de lacaios decorativos.<\/p>\n<p>Logo, Lisboa, sem hesitar, se rojou aos meus p\u00e9s. A Madame Marques<br \/>\nchamou-me, chorando, \u00abfilho do seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb. Os<br \/>\njornais deram-me os qualificativos que, de antiga tradi\u00e7\u00e3o,<br \/>\npertencem \u00e0 Divindade: fui o Omnipotente, fui o Omnisciente! A Aristocracia<br \/>\nbeijou-me os dedos como a um tirano: e o Clero incensou-me como a um \u00eddolo.<br \/>\nE o meu desprezo pela humanidade foi t\u00e3o largo &#8211; que se estendeu ao<br \/>\nDeus que a criou.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o uma saciedade enervante mant\u00e9m-me semanas inteiras<br \/>\nnum sof\u00e1, mudo e soturno, pensando na felicidade do n\u00e3o-ser&#8230;<\/p>\n<p>Uma noite, recolhendo s\u00f3 por uma rua deserta, vi diante de mim o Personagem<br \/>\nvestido de preto com o guarda-chuva debaixo do bra\u00e7o, o mesmo que no<br \/>\nmeu quarto feliz da Travessa da Concei\u00e7\u00e3o me fizera, a um ti-li-tim<br \/>\nde campainha, herdar tantos milh\u00f5es detest\u00e1veis. Corri para<br \/>\nele, agarrei-me \u00e0s abas da sua sobrecasaca burguesa, bradei:<\/p>\n<p>&#8211; Livra-me das minhas riquezas! Ressuscita o Mandarim! Restitui-me a paz<br \/>\nda mis\u00e9ria!<\/p>\n<p>Ele passou gravemente o seu guarda-chuva para debaixo do outro bra\u00e7o,<br \/>\ne respondeu com bondade:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pode ser, meu prezado senhor, n\u00e3o pode ser&#8230;<\/p>\n<p>Eu atirei-me aos seus p\u00f3s numa suplica\u00e7\u00e3o abjecta: mas<br \/>\ns\u00f3 vi diante de mim, sob uma luz morti\u00e7a de g\u00e1s, a forma<br \/>\nmagra de um c\u00e3o farejando o lixo.<\/p>\n<p>Nunca mais encontrei este indiv\u00edduo. &#8211; E agora o mundo parece-me um<br \/>\nimenso mont\u00e3o de ru\u00ednas onde a minha alma solit\u00e1ria,<br \/>\ncomo um exilado que erra por entre colunas tombadas, geme, sem descontinuar&#8230;<\/p>\n<p>As flores dos meus aposentos murcham e ningu\u00e9m as renova: toda a luz<br \/>\nme parece uma tocha: e quando as minhas amantes v\u00eam, na brancura dos<br \/>\nseus penteadores, encostar-se ao meu leito, eu choro &#8211; como se avistasse a<br \/>\nlegi\u00e3o amortalhada das minhas alegrias defuntas&#8230;<\/p>\n<p>Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. Nele lego os meus milh\u00f5es<br \/>\nao Dem\u00f3nio; pertencem-lhe; ele que os reclame e que os reparta&#8230;<\/p>\n<p>E a v\u00f3s, homens, lego-vos apenas, sem coment\u00e1rios, estas palavras:<br \/>\n\u00abS\u00f3 sabe bem o p\u00e3o que dia a dia ganham as nossas m\u00e3os:<br \/>\nnunca mates o Mandarim!\u00bb<\/p>\n<p>E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte<br \/>\nao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tart\u00e1ria at\u00e9<br \/>\n\u00e0s ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Imp\u00e9rio da China, nenhum<br \/>\nmandarim ficaria vivo, se tu, t\u00e3o facilmente como eu, o pudesses suprimir<br \/>\ne herdar-lhe os milh\u00f5es, \u00f3 leitor, criatura improvisada por<br \/>\nDeus, obra m\u00e1 de m\u00e1 argila, meu semelhante e meu irm\u00e3o!<\/p>\n<p>Angers &#8211; Junho de 1880.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII &nbsp; PR\u00d3LOGO 1\u00ba Amigo (bebendo conhaque e soda, debaixo de \u00e1rvores, num terra\u00e7o, \u00e0 beira-d&#8217;\u00e1gua) Camarada, por estes calores do Estio que embotam a ponta da sagacidade, repousemos do \u00e1spero [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-95544","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Mandarim, E\u00e7a de Queir\u00f3s O Mandarim<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Mandarim, E\u00e7a de Queir\u00f3s, Livro, Obra Liter\u00e1ria, Novela, Teodoro, D. 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