{"id":95541,"date":"2017-01-19T10:21:48","date_gmt":"2017-01-19T12:21:48","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=95541"},"modified":"2017-01-19T10:25:26","modified_gmt":"2017-01-19T12:25:26","slug":"o-crime-do-padre-amaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-crime-do-padre-amaro","title":{"rendered":"O Crime do Padre Amaro"},"content":{"rendered":"<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"158\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#1\">Cap\u00edtulo I <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"96\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"152\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"94\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"178\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII <\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong><a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII <\/a><\/strong><\/span><strong><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I<\/h2>\n<p>Foi no domingo de P\u00e1scoa que se soube em Leiria, que o p\u00e1roco<br \/>\nda S\u00e9, Jos\u00e9 Migu\u00e9is, tinha morrido de madrugada com uma<br \/>\napoplexia. O p\u00e1roco era um homem sang\u00fc\u00edneo e nutrido, que<br \/>\npassava entre o clero diocesano pelo comil\u00e3o dos comil\u00f5es. Contavam-se<br \/>\nhist\u00f3rias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica &#8211; que o<br \/>\ndetestava &#8211; costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a<br \/>\nface afogueada de sangue, muito enfartado:<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vai a jib\u00f3ia esmoer. Um dia estoura!<\/p>\n<p>Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe &#8211; \u00e0 hora em que defronte,<br \/>\nna casa do doutor Godinho que fazia anos, se polcava com alarido. Ningu\u00e9m<br \/>\no lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral n\u00e3o era estimado.<br \/>\nEra um alde\u00e3o; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca,<br \/>\ncabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.<\/p>\n<p>Nunca fora querido das devotas; arrotava no confession\u00e1rio, e, tendo<br \/>\nvivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, n\u00e3o compreendia<br \/>\ncertas sensibilidades requintadas da devo\u00e7\u00e3o: perdera por isso,<br \/>\nlogo ao princ\u00edpio, quase todas as confessadas, que tinham passado para<br \/>\no polido padre Gusm\u00e3o, t\u00e3o cheio de l\u00e1bia!<\/p>\n<p>E quando as beatas, que lhe eram fi\u00e9is, lhe iam falar de escr\u00fapulos<br \/>\nde vis\u00f5es, Jos\u00e9 Migu\u00e9is escandalizava-as, rosnando:<\/p>\n<p>&#8211; Ora hist\u00f3rias, santinha! Pe\u00e7a ju\u00edzo a Deus! Mais miolo<br \/>\nna bola!<\/p>\n<p>As exagera\u00e7\u00f5es dos jejuns sobretudo irritavam-no:<\/p>\n<p>&#8211; Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, criatura!<\/p>\n<p>Era miguelista3 &#8211; e os partidos liberais, as suas opini\u00f5es, os seus<br \/>\njornais enchiam-no duma c\u00f3lera irracion\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8211; Cacete! cacete! exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos tomara h\u00e1bitos sedent\u00e1rios, e vivia<br \/>\nisolado &#8211; com uma criada velha e um c\u00e3o, o Joli. O seu \u00fanico<br \/>\namigo era o chantre Valadares, que governava ent\u00e3o o bispado, porque<br \/>\no senhor bispo D. Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta<br \/>\ndo Alto Minho. O p\u00e1roco tinha um grande respeito pelo chantre, homem<br \/>\nseco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ov\u00eddio &#8211;<br \/>\nque falava fazendo sempre boquinhas, e com alus\u00f5es mitol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei H\u00e9rcules.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e9rcules pela for\u00e7a &#8211; explicava sorrindo, Frei pela gula.<\/p>\n<p>No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe<br \/>\ntodos os dias rap\u00e9 da sua caixa de ouro, disse aos outros c\u00f4negos,<br \/>\nbaixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caix\u00e3o, segundo o ritual, o primeiro<br \/>\ntorr\u00e3o de terra:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a \u00faltima pitada que lhe dou!<\/p>\n<p>Todo o cabido riu muito com esta gra\u00e7a do senhor governador do bispado;<br \/>\no c\u00f4nego Campos contou-o \u00e0 noite ao ch\u00e1 em casa do deputado<br \/>\nNovais; foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do<br \/>\nchantre, e afirmou-se com respeito &#8211; que sua excel\u00eancia tinha muita<br \/>\npilh\u00e9ria!<\/p>\n<p>Dias depois do enterro apareceu, errando pela Pra\u00e7a, o c\u00e3o<br \/>\ndo p\u00e1roco, o Joli. A criada entrara com sez\u00f5es no hospital;<br \/>\na casa fora fechada; o c\u00e3o, abandonado, gemia a sua fome pelos portais.<br \/>\nEra um gozo pequeno, extremamente gordo, &#8211; que tinha vagas semelhan\u00e7as<br \/>\ncom o p\u00e1roco. Com o h\u00e1bito das batinas, \u00e1vido dum dono,<br \/>\napenas via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria<br \/>\no infeliz Joli; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-s\u00f3is; o c\u00e3o,<br \/>\nrepelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manh\u00e3<br \/>\napareceu morto ao p\u00e9 da Miseric\u00f3rdia; a carro\u00e7a do estrume<br \/>\nlevou-o e, como ningu\u00e9m tomou a ver o c\u00e3o, na Pra\u00e7a,<br \/>\no p\u00e1roco Jos\u00e9 Migu\u00e9is foi definitivamente esquecido.<\/p>\n<p>Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro p\u00e1roco.<br \/>\nDizia-se que era um homem muito novo, sa\u00eddo apenas do semin\u00e1rio.<br \/>\nO seu nome era Amaro Vieira. Atribu\u00eda-se a sua escolha a influ\u00eancias<br \/>\npol\u00edticas, e o jornal de Leiria, A Voz do Distrito, que estava na oposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfalou com amargura, citando o G\u00f3lgota, no favoritismo da corte e na<br \/>\nrea\u00e7\u00e3o clerical. Alguns padres tinham-se escandalizado com o<br \/>\nartigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, l\u00e1 que h\u00e1 favor, h\u00e1; e que<br \/>\no homem tem padrinhos, tem &#8211; disse o chantre. &#8211; A mim quem me escreveu para<br \/>\na confirma\u00e7\u00e3o foi o Brito Correia (Brito Correia era ent\u00e3o<br \/>\nministro da Justi\u00e7a).<\/p>\n<p>3 Miguelista: Partid\u00e1rio de D. Miguel (1802-1866), representante da<br \/>\npol\u00edtica absolutista, contr\u00e1ria ao liberalismo. (N.E.)<\/p>\n<p>At\u00e9 me diz na carta que o p\u00e1roco \u00e9 um belo rapag\u00e3o.<br \/>\nDe sorte que &#8211; acrescentou sorrindo com satisfa\u00e7\u00e3o &#8211; depois<br \/>\nde Frei H\u00e9rcules vamos talvez ter Frei Apolo.<\/p>\n<p>Em Leiria havia s\u00f3 uma pessoa que conhecia o p\u00e1roco novo: era<br \/>\no c\u00f4nego Dias, que fora nos primeiros anos do semin\u00e1rio seu mestre<br \/>\nde Moral. No seu tempo, dizia o c\u00f4nego, o p\u00e1roco era um rapaz<br \/>\nfranzino, acanhado, cheio de espinhas carnais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Parece que o estou a ver com a batina muito co\u00e7ada e cara de quem<br \/>\ntem lombrigas!&#8230; De resto bom rapaz! E espertote&#8230;<\/p>\n<p>O c\u00f4nego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordara,<br \/>\no ventre saliente enchia-lhe a batina e a sua cabecinha grisalha, as olheiras<br \/>\npapudas, o bei\u00e7o espesso faziam lembrar velhas anedotas de frades lascivos<br \/>\ne glut\u00f5es.<\/p>\n<p>O tio Patr\u00edcio, o Antigo, negociante da Pra\u00e7a, muito liberal<br \/>\ne que quando passava pelos padres rosnava como um velho c\u00e3o de fila,<br \/>\ndizia \u00e0s vezes ao v\u00ea-lo atravessar a Pra\u00e7a, pesado, ruminando<br \/>\na digest\u00e3o, encostado ao guarda-chuva:<\/p>\n<p>&#8211; Que maroto! Parece mesmo D. Jo\u00e3o VI!<\/p>\n<p>O c\u00f4nego vivia s\u00f3 com uma irm\u00e3 velha, a Sra. D. Josefa<br \/>\nDias, e uma criada, que todos conheciam tamb\u00e9m em Leiria, sempre na<br \/>\nrua, entrouxada num xale tingido de negro, e arrastando pesadamente as suas<br \/>\nchinelas de ourelo. O c\u00f4nego Dias passava por ser rico; trazia ao p\u00e9<br \/>\nde Leiria propriedades arrendadas, dava jantares com peru, e tinha reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\no seu vinho duque de 1815. Mas o fato saliente da sua vida &#8211; o fato comentado<br \/>\ne murmurado &#8211; era a sua antiga amizade com a Sra. Augusta Caminha, a quem<br \/>\nchamavam a S. Joaneira, por ser natural de S. Jo\u00e3o da Foz. A S. Joaneira<br \/>\nmorava na Rua da Miseric\u00f3rdia, e recebia h\u00f3spedes. Tinha uma<br \/>\nfilha, a Ameliazinha, rapariga de vinte e tr\u00eas anos, bonita, forte,<br \/>\nmuito desejada.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego Dias mostrara um grande contentamento com a nomea\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Amaro Vieira. Na botica do Carlos, na Pra\u00e7a, na sacristia da S\u00e9,<br \/>\nexaltou os seus bons estudos no semin\u00e1rio, a sua prud\u00eancia de<br \/>\ncostumes, a sua obedi\u00eancia: gabava-lhe mesmo a voz: &#8220;um timbre<br \/>\nque \u00e9 um regalo.'&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Para um bocado de sentimento nos serm\u00f5es da Semana Santa, est\u00e1<br \/>\na calhar!<\/p>\n<p>Predizia-lhe com \u00eanfase um destino feliz, uma conezia decerto, talvez<br \/>\na gl\u00f3ria de um bispado!<\/p>\n<p>E um dia, enfim, mostrou com satisfa\u00e7\u00e3o ao coadjutor da S\u00e9,<br \/>\ncriatura servil e calada, uma carta que recebera de Lisboa de Amaro Vieira.<\/p>\n<p>Era uma tarde de Agosto e passeavam ambos para os lados da Ponte Nova. Andava<br \/>\nent\u00e3o a construir-se a estrada da Figueira: o velho passadi\u00e7o<br \/>\nde pau sobre a ribeira do Lis tinha sido destru\u00eddo, j\u00e1 se passava<br \/>\nsobre a Ponte Nova, muito gabada, com os seus dois largos arcos de pedra,<br \/>\nfortes e atarracados. Para diante as obras estavam suspendidas por quest\u00f5es<br \/>\nde expropria\u00e7\u00e3o; ainda se via o lodoso caminho da freguesia<br \/>\nde Marrazes, que a estrada nova devia desbastar e incorporar; camadas de cascalho<br \/>\ncobriam o ch\u00e3o; e os grossos cilindros de pedra, que acalcam e recamam<br \/>\nos macadames, enterravam-se na terra negra e \u00famida das chuvas.<\/p>\n<p>Em roda da Ponte a paisagem \u00e9 larga e tranq\u00fcila. Para o lado<br \/>\nde onde o rio vem s\u00e3o colinas baixas, de formas arredondadas, cobertas<br \/>\nda rama verde-negra dos pinheiros novos; embaixo, na espessura dos arvoredos,<br \/>\nest\u00e3o os casais4 que d\u00e3o \u00e0queles lugares melanc\u00f3licos<br \/>\numa fei\u00e7\u00e3o mais viva e humana &#8211; com as suas alegres paredes<br \/>\ncaiadas que luzem ao sol, com os fumos das lareiras que pela tarde se azulam<br \/>\nnos ares sempre claros e lavados. Para o lado do mar, para onde o rio se arrasta<br \/>\nnas terras baixas entre dois renques de salgueiros p\u00e1lidos, estende-se<br \/>\nat\u00e9 os primeiros areais o campo de Leiria, largo, fecundo, com o aspecto<br \/>\nde \u00e1guas abundantes, cheio de luz. Da Ponte pouco se v\u00ea da cidade;<br \/>\napenas uma esquina das cantarias pesadas e jesu\u00edticas da S\u00e9,<br \/>\num canto do muro do cemit\u00e9rio coberto de pariet\u00e1rias, e pontas<br \/>\nagudas e negras dos ciprestes; o resto est\u00e1 escondido pelo duro monte<br \/>\nouri\u00e7ado de vegeta\u00e7\u00f5es rebeldes, onde destacam as ru\u00ednas<br \/>\ndo Castelo, todas envolvidas \u00e0 tarde nos largos v\u00f4os circulares<br \/>\ndos mochos, desmanteladas e com um grande ar hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 da Ponte, uma rampa desce para a alameda que se estende um pouco<br \/>\n\u00e0 beira do rio. \u00c9 um lugar recolhido, coberto de \u00e1rvores<br \/>\nantigas. Chamam-lhe a Alameda Velha. Ali, caminhando devagar, falando baixo,<br \/>\no c\u00f4nego consultava o coadjutor sobre a carta de Amaro Vieira, e sobre<br \/>\n&#8221;uma id\u00e9ia que ela lhe dera, que lhe parecia de mestre! De mestre!&#8221;<br \/>\nAmaro pedia-lhe com urg\u00eancia que lhe arranjasse uma casa de aluguel,<br \/>\nbarata, bem situada, e se fosse poss\u00edvel mobilada; falava sobretudo<br \/>\nde quartos numa casa de h\u00f3spedes respeit\u00e1vel. &#8220;Bem v\u00ea<br \/>\no meu caro padre-mestre, dizia Amaro, que era isto o que verdadeiramente me<br \/>\nconvinha; eu n\u00e3o quero luxos, est\u00e1 claro: um quarto e uma saleta<br \/>\nseria o bastante. O que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 que a casa seja<br \/>\nrespeit\u00e1vel, sossegada, central, que a patroa tenha bom g\u00eanio<br \/>\ne que n\u00e3o pe\u00e7a mundos e fundos; deixo tudo isto \u00e0 sua<br \/>\nprud\u00eancia e capacidade, e creia que todos estes favores n\u00e3o cair\u00e3o<br \/>\nem terreno ingrato. Sobretudo que a patroa seja pessoa acomodada e de boa<br \/>\nl\u00edngua.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Ora a minha id\u00e9ia, amigo Mendes, \u00e9 esta: met\u00ea-lo em<br \/>\ncasa da S. Joaneira! resumiu o c\u00f4nego com um grande contentamento. \u00c9<br \/>\nrica id\u00e9ia, hem!<\/p>\n<p>4 Casais. Pequenas propriedades; s\u00edtios. (N.E.)<\/p>\n<p>&#8211; Soberba id\u00e9ia, disse o coadjutor com a sua voz servil.<\/p>\n<p>&#8211; Ela tem o quarto de baixo, a saleta pegada e o outro quarto que pode servir<br \/>\nde escrit\u00f3rio. Tem boa mob\u00edlia, boas roupas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ricas roupas, disse o coadjutor com respeito.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego continuou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um belo neg\u00f3cio para a S. Joaneira: dando os quartos, roupas,<br \/>\ncomida, criada, pode muito bem pedir os seus seis tost\u00f5es por dia.<br \/>\nE depois sempre tem o p\u00e1roco de casa.<\/p>\n<p>&#8211; Por causa da Ameliazinha \u00e9 que eu n\u00e3o sei &#8211; considerou timidamente<br \/>\no coadjutor. &#8211; Sim, pode ser reparado. Uma rapariga nova&#8230; Diz que o senhor<br \/>\np\u00e1roco \u00e9 ainda novo&#8230; Vossa senhoria sabe o que s\u00e3o<br \/>\nl\u00ednguas do mundo.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego tinha parado:<\/p>\n<p>&#8211; Ora hist\u00f3rias! Ent\u00e3o o padre Joaquim n\u00e3o vive debaixo<br \/>\ndas mesmas telhas com a afilhada da m\u00e3e? E o c\u00f4nego Pedroso n\u00e3o<br \/>\nvive com a cunhada, e uma irm\u00e3 da cunhada, que \u00e9 uma rapariga<br \/>\nde dezenove anos? Ora essa!<\/p>\n<p>&#8211; Eu dizia&#8230; atenuou o coadjutor.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o vejo mal nenhum. A S. Joaneira aluga os seus quartos,<br \/>\n\u00e9 como se fosse uma hospedaria. Ent\u00e3o o secret\u00e1rio-geral<br \/>\nn\u00e3o esteve l\u00e1 uns poucos de meses?<\/p>\n<p>&#8211; Mas um eclesi\u00e1stico&#8230; insinuou o coadjutor.<\/p>\n<p>&#8211; Mais garantias, Sr. Mendes, mais garantias! exclamou o c\u00f4nego. E<br \/>\nparando, com uma atitude confidencial: &#8211; E depois a mim \u00e9 que me convinha,<br \/>\nMendes! A mim \u00e9 que me convinha, meu amigo!<\/p>\n<p>Houve um pequeno sil\u00eancio. O coadjutor disse, baixando a voz:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, vossa senhoria faz muito bem \u00e0 S. Joaneira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7o o que posso, meu caro amigo, fa\u00e7o o que posso, disse<br \/>\no c\u00f4nego. E com uma entona\u00e7\u00e3o terna, risonhamente paternal:<br \/>\n&#8211; que ela \u00e9 merecedora! \u00e9 merecedora. Boa at\u00e9 ali, meu<br \/>\namigo! &#8211; Parou, esgazeando os olhos: &#8211; Olhe que dia em que eu n\u00e3o lhe<br \/>\napare\u00e7a pela manh\u00e3 \u00e0s nove em ponto, est\u00e1 num<br \/>\nfrenesi! Oh criatura! digo-lhe eu, a senhora rala-se sem raz\u00e3o. Mas<br \/>\nent\u00e3o, \u00e9 aquilo! Pois quando eu tive a c\u00f3lica o ano passado!<br \/>\nEmagreceu, Sr. Mendes! E depois n\u00e3o h\u00e1 lembran\u00e7a que<br \/>\nn\u00e3o tenha! Agora, pela matan\u00e7a do porco, o melhor do animal<br \/>\n\u00e9 para o padre santo, voc\u00ea sabe? \u00e9 como ela me chama.<\/p>\n<p>Falava com os olhos luzidos, uma satisfa\u00e7\u00e3o babosa.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, Mendes! acrescentou, \u00e9 uma rica mulher!<\/p>\n<p>&#8211; E bonita mulher, disse o coadjutor respeitosamente.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 isso! exclamou o c\u00f4nego parando outra vez. L\u00e1 isso!<br \/>\nBem conservada at\u00e9 ali! Pois olhe que n\u00e3o \u00e9 uma crian\u00e7a!<br \/>\nMas nem um cabelo branco, nem um, nem um s\u00f3! E ent\u00e3o que cor<br \/>\nde pele! &#8211; E mais baixo, com um sorriso guloso: &#8211; E isto aqui! \u00f3 Mendes,<br \/>\ne isto aqui! &#8211; Indicava o lado do pesco\u00e7o debaixo do queixo, passando-lhe<br \/>\ndevagar por cima a sua m\u00e3o papuda: &#8211; \u00c9 uma perfei\u00e7\u00e3o!<br \/>\nE depois mulher de asseio, muit\u00edssimo asseio! E que lembran\u00e7azinhas!<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 dia que me n\u00e3o mande o seu presente! \u00e9<br \/>\no covilhete de gel\u00e9ia, \u00e9 o pratinho de arroz-doce, \u00e9<br \/>\na bela morcela de Arouca! Ontem me mandou ela uma torta de ma\u00e7\u00e3.<br \/>\nOra havia de voc\u00ea ver aquilo! A ma\u00e7\u00e3 parecia um creme!<br \/>\nAt\u00e9 a mana Josefa disse: &#8220;Est\u00e1 t\u00e3o boa que parece<br \/>\nque foi cozida em \u00e1gua benta!&#8221; &#8211; E pondo a m\u00e3o espalmada<br \/>\nsobre o peito: &#8211; S\u00e3o coisas que tocam a gente c\u00e1 por dentro,<br \/>\nMendes! N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 por dizer, mas n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 outra.<\/p>\n<p>O coadjutor escutava com a taciturnidade da inveja.<\/p>\n<p>&#8211; Eu bem sei, disse o c\u00f4nego parando de novo e tirando lentamente as<br \/>\npalavras, eu bem sei que por ai rosnam, rosnam&#8230; Pois \u00e9 uma grand\u00edssima<br \/>\ncal\u00fania! O que \u00e9, \u00e9 que eu tenho muito apego \u00e0quela<br \/>\ngente. J\u00e1 o tinha em tempo do marido. Voc\u00ea bem o sabe, Mendes.<\/p>\n<p>O coadjutor teve um gesto afirmativo.<\/p>\n<p>&#8211; A S. Joaneira \u00e9 uma pessoa de bem! olhe que \u00e9 uma pessoa<br \/>\nde bem, Mendes! exclamava o c\u00f4nego batendo no ch\u00e3o fortemente<br \/>\ncom a ponteira do guarda. sol.<\/p>\n<p>&#8211; As l\u00ednguas do mundo s\u00e3o venenosas, senhor c\u00f4nego, disse<br \/>\no coadjutor com uma voz chorosa. E depois dum sil\u00eancio, acrescentou<br \/>\nbaixo: &#8211; Mas aquilo a vossa senhoria deve-lhe sair caro!<\/p>\n<p>&#8211; Pois a\u00ed est\u00e1, meu amigo! Imagine voc\u00ea que desde que<br \/>\no secret\u00e1rio-geral se foi embora a pobre da mulher tem tido a casa<br \/>\nvazia: eu \u00e9 que tenho dado para a panela, Mendes!<\/p>\n<p>&#8211; Que ela tem uma fazendita, considerou o coadjutor.<\/p>\n<p>&#8211; Uma nesga5 de terra, meu rico senhor, uma nesga de terra! E depois as d\u00e9cimas,<br \/>\nos jornais! Por isso digo eu, o p\u00e1roco \u00e9 uma mina. Com os seis<br \/>\ntost\u00f5es que ele der, com que eu ajudar, com alguma coisa que ela tire<br \/>\nda hortali\u00e7a que vende da fazenda, j\u00e1 se governa. E para mim<br \/>\n\u00e9 um al\u00edvio, Mendes.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um al\u00edvio, senhor c\u00f4nego! repetiu o coadjutor.<\/p>\n<p>Ficaram calados. A tarde desca\u00eda muito l\u00edmpida; o alto c\u00e9u<br \/>\ntinha uma p\u00e1lida cor azul; o ar estava im\u00f3vel. Naquele tempo<br \/>\no rio ia muito vazio; peda\u00e7os de areia reluziam em seco; e a \u00e1gua<br \/>\nbaixa arrastava-se com um marulho brando, toda enrugada do ro\u00e7ar dos<br \/>\nseixos.<\/p>\n<p>Duas vacas, guardadas por uma rapariga, apareceram ent\u00e3o pelo caminho<br \/>\nlodoso que do outro lado do rio, defronte da alameda, corre junto de um silvado;<br \/>\nentraram no rio devagar, e estendendo o pesco\u00e7o pelado da canga, bebiam<br \/>\nde leve, sem ru\u00eddo; a espa\u00e7os erguiam a cabe\u00e7a bondosa,<br \/>\nolhavam em redor com a passiva tranq\u00fcilidade dos seres fartos &#8211; e fios<br \/>\nde \u00e1gua, babados, luzidios \u00e0 luz, pendiam-lhes dos cantos do<br \/>\nfocinho. Com a inclina\u00e7\u00e3o do sol a \u00e1gua perdia a sua<br \/>\nclaridade espelhada, estendiam-se as sombras dos arcos da Ponte. Do lado das<br \/>\ncolinas ia subindo um crep\u00fasculo esfumado, e as nuvens cor de sang\u00fc\u00ednea<br \/>\ne cor de laranja que anunciam o calor faziam, sobre os lados do mar, uma decora\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuito rica.<\/p>\n<p>&#8211; Bonita tarde! disse o coadjutor.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego bocejou, e fazendo uma cruz sobre o bocejo:<\/p>\n<p>&#8211; Vamo-nos chegando \u00e0s Ave-Marias, hem?<\/p>\n<p>Quando, da\u00ed a pouco, iam subindo as escadarias da S\u00e9, o c\u00f4nego<br \/>\nparou, e voltando-se para o coadjutor:<\/p>\n<p>&#8211; Pois est\u00e1 decidido, amigo Mendes, ferro o Amaro na casa da S. Joaneira!<br \/>\n\u00c9 uma pechincha para todos.<\/p>\n<p>&#8211; Uma grande pechincha! disse respeitosamente o coadjutor. Uma grande pechincha!<\/p>\n<p>E entraram na igreja, persignando-se.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h2>\n<p>Uma semana depois, soube-se que o novo p\u00e1roco devia chegar pela dilig\u00eancia<br \/>\nde Ch\u00e3o de Ma\u00e7\u00e3s, que traz o correio \u00e0 tarde;<br \/>\ne desde as seis horas o c\u00f4nego Dias e o coadjutor passeavam no Largo<br \/>\ndo Chafariz, \u00e0 espera de Amaro.<\/p>\n<p>Era ent\u00e3o nos fins de Agosto. Na longa alameda macadamizada que vai<br \/>\njunto do rio, entre os dois renques de velhos choupos, entreviam-se vestidos<br \/>\nclaros de senhoras passeando. Do lado do Arco, na correnteza de casebres pobres,<br \/>\nvelhas fiavam \u00e0 porta; crian\u00e7as sujas brincavam pelo ch\u00e3o,<br \/>\nmostrando seus enormes ventres nus; e galinhas em redor iam picando vorazmente<br \/>\nas imund\u00edcies esquecidas. Em redor do chafariz cheio de ru\u00eddo,<br \/>\nonde os c\u00e2ntaros arrastam sobre a pedra, criadas ralham, soldados, com<br \/>\na sua fardeta suja, enormes botas cambadas, namoravam, meneando a chibata<br \/>\nde junco; com o seu c\u00e2ntaro bojudo de barro equilibrado \u00e0 cabe\u00e7a<br \/>\nsobre a rodilha, raparigas iam-se aos pares, meneando os quadris; e dois oficiais<br \/>\nociosos, com a farda desapertada sobre o est\u00f4mago, conversavam, esperando,<br \/>\na ver quem viria. A dilig\u00eancia tardava. Quando o crep\u00fasculo desceu,<br \/>\numa lamparina luziu no nicho do santo, por cima do Arco; e defronte iam-se<br \/>\niluminando uma a uma, com uma luz soturna, as janelas do hospital.<\/p>\n<p>J\u00e1 tinha anoitecido quando a dilig\u00eancia, com as lanternas acesas,<br \/>\nentrou na Ponte ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e veio<br \/>\nparar ao p\u00e9 do chafariz, por baixo da estalagem do Cruz; o caixeiro<br \/>\ndo tio Patr\u00edcio partiu logo a correr para a Pra\u00e7a com o ma\u00e7o<br \/>\ndos Di\u00e1rios Populares; o tio Baptista, o patr\u00e3o, com o cachimbo<br \/>\nnegro ao canto da boca, desatrelava, praguejando tranq\u00fcilamente; e um<br \/>\nhomem que vinha na almofada, ao p\u00e9 do cocheiro, de chap\u00e9u alto<br \/>\ne comprido capote eclesi\u00e1stico, desceu cautelosamente, agarrando-se<br \/>\n\u00e0s guardas de ferro dos assentos, bateu com os p\u00e9s no ch\u00e3o<br \/>\npara os desentorpecer, e olhou em redor.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Amaro! gritou o c\u00f4nego, que se tinha aproximado, oh ladr\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Oh, padre-mestre! disse o outro com alegria. E abra\u00e7aram-se, enquanto<br \/>\no coadjutor, todo curvado, tinha o barrete na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco as pessoas que estavam nas lojas viram atravessar a Pra\u00e7a,<br \/>\nentre a corpul\u00eancia vagarosa do c\u00f4nego Dias e a figura esguia<br \/>\ndo coadjutor, um homem um pouco curvado, com um capote de padre. Soube- se<br \/>\nque era o p\u00e1roco novo; e disse-se logo na botica que era uma boa figura<br \/>\nde homem. O Jo\u00e3o Bicha levava adiante um ba\u00fa e um saco de chita;<br \/>\ne como aquela hora j\u00e1 estava b\u00eabedo, ia resmungando o Bendito.<\/p>\n<p>5 Nesga. Pequena por\u00e7\u00e3o de terra. (N.E.)<\/p>\n<p>Eram quase nove horas, a noite cerrara. Em redor da Pra\u00e7a as casas<br \/>\nestavam j\u00e1 adormecidas: das lojas debaixo da arcada sa\u00eda a luz<br \/>\ntriste dos candeeiros de petr\u00f3leo, entreviam-se dentro figuras sonolentas,<br \/>\ncaturrando em cavaqueira, ao balc\u00e3o. As ruas que vinham dar \u00e0<br \/>\nPra\u00e7a, tortuosas, tenebrosas, com um lampi\u00e3o morti\u00e7o,<br \/>\npareciam desabitadas. E no sil\u00eancio o sino da S\u00e9 dava vagarosamente<br \/>\no toque das almas.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego Dias ia explicando pachorrentamente ao p\u00e1roco &#8220;o<br \/>\nque lhe arranjara&#8221;. N\u00e3o lhe tinha procurado casa: seria necess\u00e1rio<br \/>\ncomprar mob\u00edlia, buscar criada, despesas inumer\u00e1veis! Parecera-lhe<br \/>\nmelhor tomar- lhe quartos numa casa de h\u00f3spedes respeit\u00e1vel,<br \/>\nde muito conchego &#8211; e nessas condi\u00e7\u00f5es (e ali estava o amigo<br \/>\ncoadjutor que o podia dizer), n\u00e3o havia como a da S. Joaneira. Era<br \/>\nbem arejada, muito asseio, a cozinha n\u00e3o deitava cheiro; tinha l\u00e1<br \/>\nestado o secret\u00e1rio-geral e o inspetor dos estudos; e a S. Joaneira<br \/>\n(o Mendes amigo conhecia-a bem) era uma mulher temente a Deus, de boas contas,<br \/>\nmuito econ\u00f4mica e cheia de condescend\u00eancias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea est\u00e1 ali como em sua casa! Tem o seu cozido, prato de<br \/>\nmeio, caf\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vamos a saber, padre-mestre: pre\u00e7o? disse o p\u00e1roco.<\/p>\n<p>&#8211; Seis tost\u00f5es. Que diabo! \u00e9 de gra\u00e7a! Tem um quarto,<br \/>\ntem uma saleta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uma rica saleta, comentou o coadjutor respeitosamente.<\/p>\n<p>&#8211; E \u00e9 longe da S\u00e9? perguntou Amaro.<\/p>\n<p>&#8211; Dois passos. Pode-se ir dizer missa de chinelos. Na casa h\u00e1 uma<br \/>\nrapariga, continuou com a sua voz pausada o c\u00f4nego Dias. E a filha da<br \/>\nS. Joaneira. Rapariga de vinte e dois anos. Bonita. Sua pontinha de g\u00eanio,<br \/>\nmas bom fundo&#8230; Aqui tem voc\u00ea a sua rua.<\/p>\n<p>Era estreita, de casas baixas e pobres, esmagada pelas altas paredes da velha<br \/>\nMiseric\u00f3rdia, com um lampi\u00e3o l\u00fagubre ao fundo.<\/p>\n<p>&#8211; E aqui tem voc\u00ea o seu pal\u00e1cio! disse o c\u00f4nego, batendo<br \/>\nna aldraba de uma porta esguia.<\/p>\n<p>No primeiro andar duas varandas de ferro, de aspecto antigo, faziam sali\u00eancia,<br \/>\ncom os seus arbustos de alecrim, que se arredondavam aos cantos em caixas<br \/>\nde madeira; as janelas de cima, pequeninas, eram de peitoril; e a parede,<br \/>\npelas suas irregularidades, fazia lembrar uma lata amolgada.<\/p>\n<p>A S. Joaneira esperava no alto da escada; uma criada, enfezada e sardenta,<br \/>\nalumiava com um candeeiro de petr\u00f3leo; e a figura da S. Joaneira destacava<br \/>\nplenamente na luz sobre a parede caiada. Era gorda, alta, muito branca, de<br \/>\naspecto pachorrento. Os seus olhos pretos tinham j\u00e1 em redor a pele<br \/>\nengelhada; os cabelos arrepiados, com um enfeite escarlate, eram j\u00e1<br \/>\nraros aos cantos da testa e no come\u00e7o da risca; mas percebiam-se uns<br \/>\nbra\u00e7os rechonchudos, um colo copioso e roupas asseadas.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tem a senhora o seu h\u00f3spede, disse o c\u00f4nego subindo.<\/p>\n<p>&#8211; Muita honra em receber o senhor p\u00e1roco! muita honra! H\u00e1-de<br \/>\nvir muito cansado! por for\u00e7a! Para aqui, tem a bondade? Cuidado com<br \/>\no degrauzinho.<\/p>\n<p>Levou-o para uma sala pequena, pintada de amarelo, com um vasto canap\u00e9<br \/>\nde palhinha encostado \u00e0 parede, e defronte, aberta, uma mesa forrada<br \/>\nde baeta verde.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a sua sala, senhor p\u00e1roco, disse a S. Joaneira. Para receber,<br \/>\npara espairecer&#8230; Aqui &#8211; acrescentou abrindo uma porta &#8211; \u00e9 o seu quarto<br \/>\nde dormir. Tem a sua c\u00f4moda, o seu guarda-roupa&#8230; &#8211; Abriu os gavet\u00f5es,<br \/>\ngabou a cama batendo a elasticidade dos colch\u00f5es. &#8211; Uma campainha para<br \/>\nchamar sempre que queira&#8230; As chavinhas da c\u00f4moda est\u00e3o aqui&#8230;<br \/>\nSe gosta de travesseirinho mais alto&#8230; Tem um cobertor s\u00f3, mas querendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem, est\u00e1 tudo muito bem, minha senhora, &#8211; disse o p\u00e1roco<br \/>\ncom a sua voz baixa e suave.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 pedir! O que h\u00e1, da melhor vontade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh criatura de Deus! interrompeu o c\u00f4nego jovialmente, o que ele<br \/>\nquer agora \u00e9 cear!<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m tem a ceiazinha pronta. Desde as seis que est\u00e1 o caldo<br \/>\na apurar&#8230;<\/p>\n<p>E saiu, para apressar a criada, dizendo logo do fundo da escada:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, Ru\u00e7a, mexe-te, mexe-te!&#8230;<\/p>\n<p>O c\u00f4nego sentou-se pesadamente no canap\u00e9, e sorvendo a sua pitada:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 contentar, meu rico. Foi o que se p\u00f4de arranjar.<\/p>\n<p>&#8211; Eu estou bem em toda parte, padre-mestre, disse o p\u00e1roco, ca\u00e7ando<br \/>\nos seus chinelos de ourelo. Olha o semin\u00e1rio!&#8230; E em Feir\u00e3o!<br \/>\nCa\u00eda- me a chuva na cama.<\/p>\n<p>Para o lado da Pra\u00e7a, ent\u00e3o, sentiu-se o toque de cometas.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 aquilo? perguntou Amaro, indo \u00e0 janela.<\/p>\n<p>&#8211; As nove e meia, o toque de recolher.<\/p>\n<p>Amaro abriu a vidra\u00e7a. Ao fim da rua um candeeiro esmorecia. A noite<br \/>\nestava muito negra. E havia sobre a cidade um sil\u00eancio c\u00f4ncavo,<br \/>\nde ab\u00f3bada.<\/p>\n<p>Depois das cometas, um rufar lento de tambores afastou-se para o lado do<br \/>\nquartel; por baixo da janela um soldado, que se demorara nalguma viela do<br \/>\nCastelo, passou correndo; e das paredes da Miseric\u00f3rdia sa\u00eda<br \/>\nconstantemente o agudo piar das corujas.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 triste isto, disse Amaro.<\/p>\n<p>Mas a S. Joaneira gritou de cima:<\/p>\n<p>&#8211; Pode subir, senhor c\u00f4nego! Est\u00e1 o caldo na mesa!<\/p>\n<p>&#8211; Ora v\u00e1, v\u00e1, que voc\u00ea deve estar a cair de fome, Amaro!<br \/>\n&#8211; disse o c\u00f4nego, erguendo-se muito pesado.<\/p>\n<p>E detendo um momento o p\u00e1roco, pela manga do casaco:<\/p>\n<p>&#8211; Vai voc\u00ea ver o que \u00e9 um caldo de galinha feito c\u00e1 pela<br \/>\nsenhora! Da gente se babar!&#8230;<\/p>\n<p>No meio da sala de jantar, forrada de papel escuro, a claridade da mesa alegrava,<br \/>\ncom a sua toalha muito branca, a lou\u00e7a, os copos reluzindo \u00e0<br \/>\nluz forte dum candeeiro de abajur verde. Da terrina subia o vapor cheiroso<br \/>\ndo caldo e, na larga travessa a galinha gorda, afogada num arroz \u00famido<br \/>\ne branco, rodeada de nacos de bom paio, tinha uma apar\u00eancia suculenta<br \/>\nde prato morgado. No arm\u00e1rio envidra\u00e7ado, um pouco na sombra,<br \/>\nviam-se cores claras de porcelana; a um canto, ao p\u00e9 da janela, estava<br \/>\no piano, coberto com uma colcha de cetim desbotado. Na cozinha frigia-se;<br \/>\ne sentindo o cheiro fresco que vinha dum tabuleiro de roupa lavada, o p\u00e1roco<br \/>\nesfregou as m\u00e3os, regalado.<\/p>\n<p>&#8211; Para aqui, senhor p\u00e1roco, para aqui, disse a S. Joaneira. Dai pode<br \/>\nvir-lhe frio. &#8211; Foi fechar as portadas das janelas; chegou-lhe um caix\u00e3o<br \/>\nde areia para as pontas dos cigarros. &#8211; E o senhor c\u00f4nego toma um copinho<br \/>\nde gel\u00e9ia, sim?<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 l\u00e1, para fazer companhia, disse jovialmente o c\u00f4nego,<br \/>\nsentando- se e desdobrando o guardanapo.<\/p>\n<p>A S. Joaneira, no entanto, mexendo-se pela sala, ia admirando o p\u00e1roco,<br \/>\nque, com a cabe\u00e7a sobre o prato, comia em sil\u00eancio o seu caldo,<br \/>\nsoprando a colher. Parecia bem-feito; tinha um cabelo muito preto, levemente<br \/>\nanelado. O rosto era oval, de pele trigueira e fina, os olhos negros e grandes,<br \/>\ncom pestanas compridas.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego, que n\u00e3o o via desde o semin\u00e1rio, achava-o mais<br \/>\nforte, mais viril.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea era enfezadito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Foi o ar da serra, dizia o p\u00e1roco, fez-me bem! &#8211; Contou ent\u00e3o<br \/>\na sua triste exist\u00eancia em Feir\u00e3o, na alta Beira, durante a aspereza<br \/>\ndo Inverno, s\u00f3 com pastores. O c\u00f4nego deitava-lhe o vinho de<br \/>\nalto, fazendo-o espumar.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 beber-lhe, homem! \u00e9 beber-lhe! Desta gota n\u00e3o<br \/>\npilhava voc\u00ea no semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Falaram do semin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Que ser\u00e1 feito do Rabicho, o despenseiro? disse o c\u00f4nego.<\/p>\n<p>&#8211; E do Carocho, que roubava as batatas?<\/p>\n<p>Riram; e bebendo, na alegria das reminisc\u00eancias, recordavam as hist\u00f3rias<br \/>\nde ent\u00e3o, o catarro do reitor, e o mestre do cantoch\u00e3o que deixara<br \/>\num dia cair do bolso as poesias obscenas de Bocage6.<\/p>\n<p>&#8211; Como o tempo passa, como o tempo passa! diziam.<\/p>\n<p>A S. Joaneira ent\u00e3o p\u00f4s na mesa um prato covo com ma\u00e7\u00e3s<br \/>\nassadas.<\/p>\n<p>&#8211; Viva! N\u00e3o, l\u00e1 nisso tamb\u00e9m eu entro! exclamou logo<br \/>\no c\u00f4nego. A bela ma\u00e7\u00e3 assada! nunca me escapa! Grande<br \/>\ndona de casa, meu amigo, rica dona de casa, c\u00e1 a nossa S. Joaneira!<br \/>\nGrande dona de casa!<\/p>\n<p>Ela ria; viam-se os seus dois dentes de diante, grandes e chumbados. Foi<br \/>\nbuscar uma garrafa de vinho do Porto; p\u00f4s no prato do c\u00f4nego,<br \/>\ncom requintes devotos, uma ma\u00e7\u00e3 desfeita, polvilhada de a\u00e7\u00facar;<br \/>\ne batendo-lhe nas costas com a m\u00e3o papuda e mole:<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 um santo, senhor p\u00e1roco, isto \u00e9 um santo! Ai!<br \/>\ndevo-lhe muitos favores!<\/p>\n<p>&#8211; Deixe falar, deixe falar, dizia o c\u00f4nego. &#8211; Espalhava-se-lhe no rosto<br \/>\num contentamento baboso. &#8211; Boa gota! acrescentou, saboreando o seu c\u00e1lice<br \/>\nde Porto. Boa gota!<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que ainda \u00e9 dos anos da Am\u00e9lia, senhor c\u00f4nego.<\/p>\n<p>6 Observe a cr\u00edtica ao clero desenvolvida pelo narrador desde o inicio<br \/>\nda narrativa Os religiosos agem apenas por interesses grosseiramente materiais:<br \/>\ndinheiro, alimento e sexo H\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o entre o<br \/>\nque realmente s\u00e3o e o que aparentam ser, como ocorre com o mestre de<br \/>\ncantoch\u00e3o (canto religioso mon\u00f3tono), que se divertia lendo<br \/>\npoemas obscenos do poeta pr\u00e9-rom\u00e2ntico portugu\u00eas Manuel<br \/>\nMaria Barbosa du Bocage (1765-1805) (N.E.)<\/p>\n<p>&#8211; E onde est\u00e1 ela, a pequena?<\/p>\n<p>&#8211; Foi ao Morenal com a D. Maria. Aquilo naturalmente foram para casa das<br \/>\nGansosos passar a noite.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1 esta senhora \u00e9 propriet\u00e1ria, explicou o c\u00f4nego,<br \/>\nfalando do Morenal. \u00c9 um condado! &#8211; Ria com bonomia, e os seus olhos<br \/>\nluzidios percorriam ternamente a corpul\u00eancia da S. Joaneira.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, senhor p\u00e1roco, deixe falar, \u00e9 uma nesga de terra&#8230; disse<br \/>\nela.<\/p>\n<p>Mas vendo a criada encostada \u00e0 parede, sacudida com afli\u00e7\u00f5es<br \/>\nde tosse:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 mulher, vai tossir l\u00e1 para dentro! credo!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a saiu, pondo o avental sobre a boca.<\/p>\n<p>&#8211; Parece doente, coitada, observou o p\u00e1roco.<\/p>\n<p>Muito achacada, muito!&#8230; A pobre de Cristo era sua afilhada, \u00f3rf\u00e3,<br \/>\ne estava quase t\u00edsica. Tinha-a tomado por piedade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E tamb\u00e9m porque a criada que c\u00e1 tinha foi para o hospital,<br \/>\na desavergonhada&#8230; Meteu-se a\u00ed com um soldado!&#8230;<\/p>\n<p>O padre Amaro baixou devagar os olhos &#8211; e trincando migalhas, perguntou se<br \/>\nhavia muitas doen\u00e7as naquele Ver\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Colerinas, das frutas verdes, rosnou o c\u00f4nego. Metem-se pelas melancias,<br \/>\ndepois tarra\u00e7adas de \u00e1gua&#8230; E suas febritas&#8230;<\/p>\n<p>Falaram ent\u00e3o das sez\u00f5es do campo, dos ares de Leiria.<\/p>\n<p>&#8211; Que eu agora, dizia o padre Amaro, ando mais forte. Louvado seja Nosso<br \/>\nSenhor Jesus Cristo, tenho sa\u00fade, tenho!<\/p>\n<p>&#8211; Ai, Nosso Senhor lha conserve, que nem sabe o bem que \u00e9! exclamou<br \/>\na S. Joaneira. &#8211; Contou imediatamente a grande desgra\u00e7a que tinha em<br \/>\ncasa, uma irm\u00e3 meio idiota entrevada havia dez anos! Ia fazer sessenta<br \/>\nanos&#8230; No Inverno viera-lhe um catarro, e desde ent\u00e3o, coitadinha,<br \/>\ndefinhava, definhava&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 bocado, ao fim da tarde, teve ela um ataque de tosse! Pensei<br \/>\nque se ia embora. Agora descansou mais&#8230;<\/p>\n<p>Continuou a falar &#8220;daquela tristeza&#8221;, depois da sua Ameliazinha,<br \/>\ndas Gansosos, do antigo chantre, da carestia de tudo &#8211; sentada, com o gato<br \/>\nno colo, rolando com os dois dedos, monotonamente, bolinhas de p\u00e3o.<br \/>\nO c\u00f4nego, pesado, cerrava as p\u00e1lpebras; tudo na sala parecia<br \/>\nir gradualmente adormecendo; a luz do candeeiro esmorecia.<\/p>\n<p>&#8211; Pois senhores, disse por fim o c\u00f4nego mexendo-se, isto s\u00e3o<br \/>\nhoras!<\/p>\n<p>O padre Amaro ergueu-se, e com os olhos baixos deu as gra\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor p\u00e1roco quer lamparina? perguntou cuidadosamente a S. Joaneira.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, minha senhora. N\u00e3o uso. Boas noites!<\/p>\n<p>E desceu devagar, palitando os dentes.<\/p>\n<p>A S. Joaneira alumiava no patamar, com o candeeiro. Mas nos primeiros degraus<br \/>\no p\u00e1roco parou, e voltando-se, afetuosamente:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, minha senhora, amanh\u00e3 \u00e9 sexta-feira, \u00e9<br \/>\njejum&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, acudiu o c\u00f4nego que se embrulhava na capa<br \/>\nde lustrina, bocejando, voc\u00ea amanh\u00e3 janta comigo. Eu venho por<br \/>\nc\u00e1, vamos ao chantre, \u00e1 S\u00e9, e por a\u00ed&#8230; E olhe<br \/>\nque tenho lulas. \u00c9 um milagre, que isto aqui nunca h\u00e1 peixe.<\/p>\n<p>A S. Joaneira tranq\u00fcilizou logo o p\u00e1roco.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, \u00e9 escusado lembrar os jejuns, senhor p\u00e1roco. Tenho o<br \/>\nmaior escr\u00fapulo!<\/p>\n<p>&#8211; Eu dizia, explicou o p\u00e1roco, porque infelizmente hoje em dia ningu\u00e9m<br \/>\ncumpre.<\/p>\n<p>&#8211; Tem vossa senhoria muita raz\u00e3o, atalhou ela. &#8211; Mas eu! credo!&#8230;<br \/>\nA salva\u00e7\u00e3o da minha alma antes de tudo!<\/p>\n<p>A campainha embaixo, ent\u00e3o, retiniu fortemente.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1-de ser a pequena, disse a S. Joaneira. Abre, Ru\u00e7a!<\/p>\n<p>A porta bateu, sentiram-se vozes, risinhos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s tu, Am\u00e9lia?<\/p>\n<p>Uma voz disse adeusinho! adeusinho! E apareceu, subindo quase a correr, com<br \/>\nos vestidos um pouco apanhados adiante, uma bela rapariga, forte, alta, bem-feita,<br \/>\ncom uma manta branca pela cabe\u00e7a e na m\u00e3o um ramo de alecrim.<\/p>\n<p>&#8211; Sobe, filha. Aqui est\u00e1 o senhor p\u00e1roco. Chegou agora \u00e0<br \/>\nnoitinha, sobe!<\/p>\n<p>Am\u00e9lia tinha parado um pouco embara\u00e7ada, olhando para os degraus<br \/>\nde cima, onde o p\u00e1roco ficara, encostado ao corrim\u00e3o. Respirava<br \/>\nfortemente de ter corrido; vinha corada; os seus olhos vivos e negros luziam;<br \/>\ne sa\u00eda dela uma sensa\u00e7\u00e3o de frescura e de prados atravessados.<\/p>\n<p>O p\u00e1roco desceu, cingido ao corrim\u00e3o, para a deixar passar,<br \/>\nmurmurando boas-noites! com a cabe\u00e7a baixa. O c\u00f4nego, que descia<br \/>\natr\u00e1s, pesadamente, tomou o meio da escada, diante de Am\u00e9lia:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o isto s\u00e3o horas, sua brejeira?<\/p>\n<p>Ela teve um risinho, encolheu-se.<\/p>\n<p>&#8211; Ora v\u00e1-se encomendar a Deus, v\u00e1! disse batendo-lhe no rosto<br \/>\ndevagarinho com a sua m\u00e3o grossa e cabeluda.<\/p>\n<p>Ela subiu a correr, enquanto o c\u00f4nego, depois de ir buscar o guarda-<br \/>\nsol \u00e0 saleta, sa\u00eda, dizendo \u00e0 criada, que erguia o candeeiro<br \/>\nsobre a escada:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bem, eu vejo, n\u00e3o apanhes frio, rapariga. Ent\u00e3o<br \/>\n\u00e0s oito, Amaro! Esteja a p\u00e9! Vai-te, rapariga, adeus! Reza \u00e0<br \/>\nSenhora da Piedade que te seque essa catarreira.<\/p>\n<p>O p\u00e1roco fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva,<br \/>\ntinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a gravura<br \/>\nantiga dum Cristo crucificado. Amaro abriu o seu Brevi\u00e1rio, ajoelhou<br \/>\naos p\u00e9s da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes<br \/>\nbocejos; e ent\u00e3o por cima, sobre o teto, atrav\u00e9s das ora\u00e7\u00f5es<br \/>\nrituais que maquinalmente ia lendo, come\u00e7ou a sentir o tique-tique<br \/>\ndas botinas de Am\u00e9lia e o ru\u00eddo das saias engomadas que ela<br \/>\nsacudia ao despir-se.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h2>\n<p>Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora marquesa de Alegros7. Seu<br \/>\npai era criado do marqu\u00eas; a m\u00e3e era criada de quarto; quase<br \/>\numa amiga da senhora marquesa. Amaro conservava ainda um livro, o Menino das<br \/>\nSelvas, com b\u00e1rbaras imagens coloridas que tinha escrito na primeira<br \/>\np\u00e1gina branca: \u00c0 minha muito estimada criada Joana Vieira e<br \/>\nverdadeira amiga que sempre tem sido, &#8211; Marquesa de Alegros. Possu\u00eda<br \/>\ntamb\u00e9m um dagtterre\u00f3tipo8 de sua m\u00e3e: era uma mulher<br \/>\nforte, de sobrancelhas cerradas, a boca larga e sensualmente fendida, e uma<br \/>\ncor ardente. O pai de Amaro tinha morrido de apoplexia; e a m\u00e3e, que<br \/>\nfora sempre t\u00e3o s\u00e3, sucumbiu, da\u00ed a um ano, a uma t\u00edsica<br \/>\nde laringe. Amaro completara ent\u00e3o seis anos. Tinha uma irm\u00e3<br \/>\nmais velha que desde pequena vivia com a av\u00f3 em Coimbra, e um tio,<br \/>\nmerceeiro abastado do bairro da Estrela. Mas a senhora marquesa ganhara amizade<br \/>\na Amaro; conservou-o em sua casa, por uma ado\u00e7\u00e3o t\u00e1cita:<br \/>\ne come\u00e7ou, com grandes escr\u00fapulos, a vigiar a sua educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A marquesa de Alegros ficara vi\u00fava aos quarenta e tr\u00eas anos,<br \/>\ne passava a maior parte do ano retirada na sua quinta de Carcavelos. Era uma<br \/>\npessoa passiva, de bondade indolente, com capela em casa, um respeito devoto<br \/>\npelos padres de S. Lu\u00eds, sempre preocupada dos interesses da Igreja.<br \/>\nAs suas duas filhas, educadas no receio do c\u00e9u e nas preocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\nda Moda, eram beatas e faziam o chique falando com igual fervor da humildade<br \/>\ncrist\u00e3 e do \u00faltimo figurino de Bruxelas. Um jornalista de ent\u00e3o<br \/>\ndissera delas: &#8211; Pensam todos os dias na toalete com que h\u00e3o-de entrar<br \/>\nno Para\u00edso.<\/p>\n<p>No isolamento de Carcavelos, naquela quinta de alamedas aristocr\u00e1ticas<br \/>\nonde os pav\u00f5es gritavam, as duas meninas enfastiavam-se. A Religi\u00e3o,<br \/>\na Caridade eram ent\u00e3o ocupa\u00e7\u00f5es avidamente aproveitadas:<br \/>\ncosiam vestidos para os pobres da freguesia, bordavam frontais para os altares<br \/>\nda igreja. De Maio a Outubro estavam inteiramente absorvidas pelo trabalho<br \/>\nde salvar a sua alma; liam os livros beatos e doces; como n\u00e3o tinham<br \/>\nS. Carlos, as visitas, a Aline, recebiam os padres e cochichavam sobre a virtude<br \/>\ndos santos. Deus era o seu luxo de Ver\u00e3o.<\/p>\n<p>A senhora marquesa resolvera desde logo fazer entrar Amaro na vida eclesi\u00e1stica.<br \/>\nA sua figura amarelada e magrita pedia aquele destino recolhido: era j\u00e1<br \/>\nafei\u00e7oado \u00e0s coisas de capela, e o seu encanto era estar aninhado<br \/>\nao p\u00e9 das mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo falar de santas.<br \/>\nA senhora marquesa n\u00e3o o quis mandar ao col\u00e9gio porque receava<br \/>\na impiedade dos tempos, e as camaradagens imorais. O capel\u00e3o da casa<br \/>\nensinava- lhe o latim, e a filha mais velha, a Sra. D. Lu\u00edsa, que tinha<br \/>\num nariz de cavalete e lia Chateaubriand9, dava-lhe li\u00e7\u00f5es de<br \/>\nfranc\u00eas e de geografia.<\/p>\n<p>7 Todo o capitulo III constitui um flash back, isto \u00e8, um retrocesso<br \/>\nda hist\u00f3ria narrada. Com ele, o narrador pretende fundamentar o car\u00e1ter<br \/>\nde padre Amaro, de acordo com os princ\u00edpios da est\u00e9tica realista-naturalista.<br \/>\n(N.E.)<\/p>\n<p>8 Daguerre\u00f3tipo: Fotografia obtida atrav\u00e9s do aparelho inventado<br \/>\npor Louis J M Daguerre (1787-1851). (N.E )<\/p>\n<p>Amaro era, como diziam os criados, um mosquinha-morta. Nunca brincava, nunca<br \/>\npulava ao sol. Se \u00e0 tarde acompanhava a senhora marquesa \u00e0s<br \/>\nalamedas da quinta, quando ela descia pelo bra\u00e7o do padre Liset ou<br \/>\ndo respeitoso procurador Freitas, ia a seu lado, mono, muito encolhido, torcendo<br \/>\ncom as m\u00e3os \u00famidas o forro das algibeiras, &#8211; vagamente assustado<br \/>\ndas espessuras de arvoredos e do vigor das relvas altas.<\/p>\n<p>Tomou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao p\u00e9 de uma ama velha.<br \/>\nAs criadas de resto feminizavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio<br \/>\ndelas, beijocavam-no, faziam-lhe c\u00f3cegas, e ele rolava por entre as<br \/>\nsaias, em contato com os corpos, com gritinhos de contentamento. \u00c0s<br \/>\nvezes, quando a senhora marquesa sa\u00eda, vestiam-no de mulher, entre<br \/>\ngrandes risadas; ele abandonava-se, meio nu, com os seus modos l\u00e2nguidos,<br \/>\nos olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As criadas, al\u00e9m<br \/>\ndisso, utilizavam-no nas suas intrigas umas com as outras: era Amaro o que<br \/>\nfazia as queixas. Tomou-se enredador, muito mentiroso.<\/p>\n<p>Aos onze anos ajudava \u00e0 missa, e aos s\u00e1bados limpava a capela.<br \/>\nEra o seu melhor dia; fechava-se por dentro, colocava os santos em plena luz<br \/>\nem cima duma mesa, beijando-os com ternuras devotas e satisfa\u00e7\u00f5es<br \/>\ngulosas; e toda a manh\u00e3, muito atarefado, cantarolando o Sant\u00edssimo,<br \/>\nia tirando a tra\u00e7a dos vestidos das Virgens e limpando com gesso e<br \/>\ncr\u00e9 as aur\u00e9olas dos M\u00e1rtires.<\/p>\n<p>No entanto crescia; o seu aspecto era o mesmo, mi\u00fado e amarelado;<br \/>\nnunca dava uma boa risada; trazia sempre as m\u00e3os nos bolsos. Estava<br \/>\nconstantemente metido nos quartos das criadas, remexendo as gavetas; bulia<br \/>\nnas saias sujas, cheirava os algod\u00f5es posti\u00e7os. Era extremamente<br \/>\npregui\u00e7oso, e custava de manh\u00e3 arranc\u00e1-lo a uma sonol\u00eancia<br \/>\ndoentia em que ficava amolecido, todo embrulhado nos cobertores e abra\u00e7ado<br \/>\nao travesseiro. J\u00e1 corcovava um pouco, e os criados chamavam-lhe o<br \/>\npadreca.<\/p>\n<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n<p>Num domingo gordo, uma manh\u00e3, depois da missa, ao chegar-se ao terra\u00e7o,<br \/>\na senhora marquesa de repente caiu morta com uma apoplexia. Deixava no seu<br \/>\ntestamento um legado para que Amaro, o filho da sua criada Joana, entrasse<br \/>\naos quinze anos no semin\u00e1rio e se ordenasse. O padre Liset ficava encarregado<br \/>\nde realizar esta disposi\u00e7\u00e3o piedosa. Amaro tinha ent\u00e3o<br \/>\ntreze anos.<\/p>\n<p>As filhas da senhora marquesa deixaram logo Carcavelos e foram para Lisboa,<br \/>\npara a casa da Sra. D. B\u00e1rbara de Noronha, sua tia paterna. Amaro foi<br \/>\nmandado para casa do tio, para a Estrela. O merceeiro era um homem obeso,<br \/>\ncasado com a filha dum pobre empregado p\u00fablico, que o aceitara para<br \/>\nsair da casa do pai, onde a mesa era escassa, ela devia fazer as camas e nunca<br \/>\nia ao teatro. Mas odiava o marido, as suas m\u00e3os cabeludas, a loja,<br \/>\no bairro, e o seu apelido de Sra. Gon\u00e7alves. O marido, esse adorava-a<br \/>\ncomo a del\u00edcia da sua vida, o seu luxo; carregava-a de j\u00f3ias<br \/>\ne chamava-lhe a sua duquesa.<\/p>\n<p>Amaro n\u00e3o encontrou ali o elemento feminino e carinhoso, em que estivera<br \/>\ntepidamente envolvido em Carcavelos. A tia quase n\u00e3o reparava nele;<br \/>\npassava os seus dias lendo romances, as an\u00e1lises dos teatros nos jornais,<br \/>\nvestida de seda, coberta de p\u00f3-de-arroz, o cabelo em cachos, esperando<br \/>\na hora em que passava debaixo das janelas, puxando os punhos, o Cardoso, gal\u00e3<br \/>\nda Trindade. O merceeiro apropriou-se ent\u00e3o de Amaro como duma utilidade<br \/>\nimprevista, mandou-o para o balc\u00e3o. Fazia-o erguer logo \u00e0s cinco<br \/>\nhoras da manh\u00e3; e o rapaz tremia na sua jaqueta de pano azul, molhando<br \/>\n\u00e0 pressa o p\u00e3o na ch\u00e1vena de caf\u00e9, ao canto da<br \/>\nmesa da cozinha. De resto detestavam-no; a tia chamava-lhe o cebola e o tio<br \/>\nchamava-lhe o burro. Pesava-lhes at\u00e9 o magro peda\u00e7o de vaca<br \/>\nque ele comia ao jantar. Amaro emagrecia, e todas as noites chorava.<\/p>\n<p>Sabia j\u00e1 que aos quinze anos devia entrar no semin\u00e1rio. O tio<br \/>\ntodos os dias lho lembrava:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, burro. Em tendo<br \/>\nquinze anos, \u00e9 para o semin\u00e1rio. N\u00e3o tenho obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde carregar contigo! Besta na argola, n\u00e3o est\u00e1 nos meus princ\u00edpios!<\/p>\n<p>E o rapaz desejava o semin\u00e1rio, como um libertamento.<\/p>\n<p>Nunca ningu\u00e9m consultara as suas tend\u00eancias ou a sua voca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nImpunham-lhe uma sobrepeliz; a sua natureza passiva, facilmente domin\u00e1vel,<br \/>\naceitava-a, como aceitaria uma farda. De resto n\u00e3o lhe desagradava<br \/>\nser padre. Desde que sa\u00edra das rezas perp\u00e9tuas de Carcavelos<br \/>\nconservara o seu medo do Inferno, mas perdera o fervor pelos santos; lembravam-lhe<br \/>\npor\u00e9m os padres que vira em casa da senhora marquesa, pessoas brancas<br \/>\ne bem tratadas, que comiam ao lado das fidalgas, e tomavam rap\u00e9 em<br \/>\ncaixas de ouro; e convinha-lhe aquela profiss\u00e3o em que se cantam bonitas<br \/>\nmissas, se comem doces finos, se fala baixo com as mulheres, &#8211; vivendo entre<br \/>\nelas, cochichando, sentindo-lhes o calor penetrante, &#8211; e se recebem presentes<br \/>\nem bandejas de prata. Recordava o padre Liset com um anel de rubi no dedo<br \/>\nm\u00ednimo; monsenhor Saavedra com os seus belos \u00f3culos de ouro,<br \/>\nbebendo aos goles o seu copo de Madeira. As filhas da senhora marquesa bordavam-lhes<br \/>\nchinelas. Um dia tinha visto um bispo que fora padre na Baia, viajara,<\/p>\n<p>9 Chateaubriand: Fran\u00e7ois-Ren\u00e8, visconde de Chateaubriand (1768-1848),<br \/>\nescritor pr\u00e9-rom\u00e2ntico franc\u00eas, com livros onde defende<br \/>\na religi\u00e3o crist\u00e3 (N E.)<\/p>\n<p>estivera em Roma, era muito jovial; e na sala, com as suas m\u00e3os ungidas<br \/>\nque cheiravam a \u00e1gua-de-col\u00f4nia, apoiadas ao cast\u00e3o de<br \/>\nouro da bengala, todo rodeado de senhoras em \u00eaxtase e cheias dum riso<br \/>\nbeato, cantava, para as entreter, com a sua bela voz:<\/p>\n<p>Mulatinha da Baia,<\/p>\n<p>Nascida no Capuj\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Um ano antes de entrar para o semin\u00e1rio, o tio f\u00ea-lo ir a um<br \/>\nmestre para se afirmar mais no latim, e dispensou-o de estar ao balc\u00e3o.<br \/>\nPela primeira vez na sua exist\u00eancia, Amaro possuiu liberdade. Ia s\u00f3<br \/>\n\u00e0 escola, passeava pelas ruas. Viu a cidade, o ex\u00e9rcito de infantaria,<br \/>\nespreitou \u00e0s portas dos caf\u00e9s, leu os cartazes dos teatros.<br \/>\nSobretudo come\u00e7ara a reparar muito nas mulheres &#8211; e vinham-lhe, de<br \/>\ntudo o que via, grandes melancolias. A sua hora triste era ao anoitecer, quando<br \/>\nvoltava da escola, ou aos domingos depois de ter ido passear com o caixeiro<br \/>\nao jardim da Estrela. O seu quarto ficava em cima, na trapeira, com uma janelinha<br \/>\nnum v\u00e3o sobre os telhados. Encostava-se ali olhando, e via parte da<br \/>\ncidade baixa, que a pouco e pouco se alumiava de pontos de g\u00e1s: parecia-lhe<br \/>\nperceber, vindo de l\u00e1, um rumor indefinido: era a vida que n\u00e3o<br \/>\nconhecia e que julgava maravilhosa, com caf\u00e9s abrasados de luz, e mulheres<br \/>\nque arrastam ruge-ruges de sedas pelos peristilos dos teatros; perdia-se em<br \/>\nimagina\u00e7\u00f5es vagas, e de repente apareciam-lhe no fundo negro<br \/>\nda noite formas femininas, por fragmentos, uma perna com botinas de duraque<br \/>\ne a meia muito branca, ou um bra\u00e7o roli\u00e7o arrega\u00e7ado<br \/>\nat\u00e9 ao ombro&#8230; Mas embaixo, na cozinha, a criada come\u00e7ava a<br \/>\nlavar a lou\u00e7a, cantando: era uma rapariga gorda, muito sardenta; e<br \/>\nvinham-lhe ent\u00e3o desejos de descer, ir ro\u00e7ar-se por ela, ou<br \/>\nestar a um canto a v\u00ea-la escaldar os pratos; lembravam-lhe outras mulheres<br \/>\nque vira nas vielas, de saias engomadas e ruidosas, passeando em cabelo, com<br \/>\nbotinas cambadas: e, da profundidade do seu ser, subia-lhe uma pregui\u00e7a,<br \/>\ncomo que a vontade de abra\u00e7ar algu\u00e9m, de n\u00e3o se sentir<br \/>\ns\u00f3. Julgava-se infeliz, pensava em matar-se. Mas o tio chamava-o de<br \/>\nbaixo:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o tu n\u00e3o estudas, mariola?<\/p>\n<p>E da\u00ed a pouco, sobre o Tito L\u00edvio cabeceando de sono, sentindo-se<br \/>\ndesgra\u00e7ado, ro\u00e7ando os joelhos um contra o outro, torturava<br \/>\no dicion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por esse tempo come\u00e7ava a sentir um certo afastamento pela vida de<br \/>\npadre, porque n\u00e3o poderia casar. J\u00e1 as conviv\u00eancias da<br \/>\nescola tinham introduzido na sua natureza efeminada curiosidades, corrup\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u00c0s escondidas fumava cigarros: emagrecia e andava mais amarelo10.<\/p>\n<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n<p>Entrou no semin\u00e1rio. Nos primeiros dias os longos corredores de pedra<br \/>\num pouco \u00famidos, as l\u00e2mpadas tristes, os quartos estreitos e<br \/>\ngradeados, as batinas negras, o sil\u00eancio regulamentado, o toque das<br \/>\nsinetas &#8211; deram-lhe uma tristeza l\u00fagubre, aterrada. Mas achou logo<br \/>\namizades; o seu rosto bonito agradou. Come\u00e7aram a trat\u00e1-lo por<br \/>\ntu, a admiti-lo, durante as horas de recreio ou nos passeios do domingo, \u00e0s<br \/>\nconversas em que se contavam anedotas dos mestres, se caluniava o reitor,<br \/>\ne perpetuamente se lamentavam as melancolias da clausura: porque quase todos<br \/>\nfalavam com saudade das exist\u00eancias livres que tinham deixado: os da<br \/>\naldeia n\u00e3o podiam esquecer as claras eiras batidas do sol, as esfolhadas<br \/>\ncheias de cantigas e de abra\u00e7os, as filas da boiada que recolhe, enquanto<br \/>\num vapor se exala dos prados; os que vinham das pequenas vilas lamentavam<br \/>\nas ruas tortuosas e tranq\u00fcilas de onde se namoravam as vizinhas, os alegres<br \/>\ndias de mercado, as grandes aventuras do tempo em que se estuda latim. N\u00e3o<br \/>\nlhes bastava o p\u00e1tio do recreio lajeado, com as suas \u00e1rvores<br \/>\ndefinhadas, os altos muros sonolentos, o mon\u00f3tono jogo da bola: abafavam<br \/>\nna estreiteza dos corredores, na sala de Santo In\u00e1cio, onde se faziam<br \/>\nas medita\u00e7\u00f5es da manh\u00e3 e se estudavam \u00e0 noite<br \/>\nas li\u00e7\u00f5es; e invejavam todos os destinos livres ainda os mais<br \/>\nhumildes &#8211; o almocreve que viam passar na estrada tocando os seus machos,<br \/>\no carreiro que ia cantarolando ao \u00e1spero chiar das rodas, e at\u00e9<br \/>\nos mendigos errantes, apoiados ao seu cajado, com o seu alforje escuro.<\/p>\n<p>10 Note que Amaro n\u00e3o possu\u00eda nenhuma voca\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o sacerd\u00f3cio. Aceita-o por comodismo; sua conduta covarde e encoberta<br \/>\nteria correspond\u00eancia com as atitudes de um sacerdote. (N.E.)<\/p>\n<p>Da janela dum corredor via-se uma volta de estrada: \u00e0 tardinha uma<br \/>\ndilig\u00eancia costumava passar, levantando a poeira, entre os estalidos<br \/>\ndo chicote, ao trote das tr\u00eas \u00e9guas, carregadas de bagagem; passageiros<br \/>\nalegres, que levavam os joelhos bem embrulhados, sopravam o fumo dos charutos;<br \/>\nquantos olhares os seguiam! quantos desejos iam viajando com eles para as<br \/>\nalegres vilas e para as cidades, pela frescura das madrugadas ou sob a claridade<br \/>\ndas estrelas!<\/p>\n<p>E no refeit\u00f3rio, diante do escasso caldo de hortali\u00e7a, quando<br \/>\no regente de voz grossa come\u00e7ava a ler monotonamente as cartas de algum<br \/>\nmission\u00e1rio da China ou as Pastorais do senhor bispo, quantas saudades<br \/>\ndos jantares de fam\u00edlia! As boas postas de peixe! O tempo da matan\u00e7a!<br \/>\nOs rij\u00f5es quentes que chiam no prato! Os sarrabulhos cheirosos!<\/p>\n<p>Amaro n\u00e3o deixava coisas queridas: vinha da brutalidade do tio, do<br \/>\nrosto enfastiado da tia coberto de p\u00f3-de-arroz; mas insensivelmente<br \/>\np\u00f4s-se tamb\u00e9m a ter saudades dos seus passeios aos domingos,<br \/>\nda claridade do g\u00e1s e das voltas da escola, com os livros numa correia,<br \/>\nquando parava encostado \u00e0 vitrina das lojas a contemplar a nudez das<br \/>\nbonecas!<\/p>\n<p>Lentamente, por\u00e9m, com a sua natureza incaracter\u00edstica, foi<br \/>\nentrando como uma ovelha indolente na regra do semin\u00e1rio. Decorava<br \/>\ncom regularidade os seus comp\u00eandios; tinha uma exatid\u00e3o prudente<br \/>\nnos servi\u00e7os eclesi\u00e1sticos; e calado, encolhido, curvando-se<br \/>\nmuito baixo diante dos lentes &#8211; chegou a ter boas notas.<\/p>\n<p>Nunca pudera compreender os que pareciam gozar o semin\u00e1rio com beatitude<br \/>\ne maceravam os joelhos, ruminando, com a cabe\u00e7a baixa, textos da Imita\u00e7\u00e3o<br \/>\nou de Santo In\u00e1cio; na capela, com os olhos em alvo, empalideciam de<br \/>\n\u00eaxtase; mesmo no recreio, ou nos passeios, iam lendo algum volumezinho<br \/>\nde Louvores a Maria; e cumpriam com del\u00edcia as regras mais mi\u00fadas<br \/>\n&#8211; at\u00e9 subir s\u00f3 um degrau de cada vez, como recomenda S. Boaventura.<br \/>\nA esses o semin\u00e1rio dava um antegosto do C\u00e9u: a ele s\u00f3<br \/>\nlhe oferecia as humilha\u00e7\u00f5es duma pris\u00e3o, com os t\u00e9dios<br \/>\nduma escola.<\/p>\n<p>N\u00e3o compreendia tamb\u00e9m os ambiciosos; os que queriam ser caudat\u00e1rios<br \/>\ndum bispo, e nas altas salas dos pa\u00e7os episcopais erguer os reposteiros<br \/>\nde velho damasco; os que desejavam viver nas cidades depois de ordenados,<br \/>\nservir uma Igreja aristocr\u00e1tica, e, diante das devotas ricas que se<br \/>\nacumulam no frufru das sedas sobre o tapete do altar-mor, cantar com voz sonora.<br \/>\nOutros sonhavam at\u00e9 destinos fora da Igreja: ambicionavam ser militares<br \/>\ne arrastar nas ruas lajeadas o tlintlim dum sabre; ou a farta vida da lavoura,<br \/>\ne desde a madrugada, com um chap\u00e9u desabado e bem montados, trotar<br \/>\npelos caminhos, dar ordens nas largas eiras cheias de medas, apear \u00e0<br \/>\nporta das adegas! E, a n\u00e3o ser alguns devotos, todos, ou aspirando<br \/>\nao sacerd\u00f3cio ou aos destinos seculares, queriam deixar a estreiteza<br \/>\ndo semin\u00e1rio para comer bem, ganhar dinheiro e conhecer as mulheres.<\/p>\n<p>Amaro n\u00e3o desejava nada:<\/p>\n<p>&#8211; Eu nem sei, dizia ele melancolicamente.<\/p>\n<p>No entretanto, escutando por simpatia aqueles para quem o semin\u00e1rio<br \/>\nera o &#8220;tempo das gal\u00e9s&#8221;, saia muito perturbado daquelas conversas<br \/>\ncheias de impaciente ambi\u00e7\u00e3o da vida livre. \u00c0s vezes<br \/>\nfalavam de fugir. Faziam planos, calculando a altura das janelas, as perip\u00e9cias<br \/>\nda noite negra pelos negros caminhos: anteviam balc\u00f5es de tabernas<br \/>\nonde se bebe, salas de bilhar, alcovas quentes de mulheres. Amaro ficava todo<br \/>\nnervoso: sobre o seu catre, alta noite, revolvia-se sem dormir, e, no fundo<br \/>\ndas suas imagina\u00e7\u00f5es e dos seus sonhos, ardia como uma brasa<br \/>\nsilenciosa o desejo da Mulher.<\/p>\n<p>Na sua cela havia uma imagem da Virgem coroada de estrelas, pousada sobre<br \/>\na esfera, com o olhar errante pela luz imortal, calcando aos p\u00e9s a<br \/>\nserpente. Amaro voltava-se para ela como para um ref\u00fagio, rezava-lhe<br \/>\na Salve-Rainha: mas, ficando a contemplar a litografia, esquecia a santidade<br \/>\nda Virgem, via apenas diante de si uma linda mo\u00e7a loura; amava-a; suspirava,<br \/>\ndespindo-se olhava-a de rev\u00e9s lubricamente; e mesmo a sua curiosidade<br \/>\nousava erguer as pregas castas da t\u00fanica azul da imagem e supor formas,<br \/>\nredondezas, uma carne branca&#8230; Julgava ent\u00e3o ver os olhos do Tentador<br \/>\nluzir na escurid\u00e3o do quarto; aspergia a cama de \u00e1gua benta;<br \/>\nmas n\u00e3o se atrevia a revelar estes del\u00edrios, no confession\u00e1rio,<br \/>\nao domingo11.<\/p>\n<p>Quantas vezes ouvira, nas pr\u00e9dicas, o mestre de Moral falar, com a<br \/>\nsua voz roufenha, do Pecado, compar\u00e1-lo \u00e0 serpente e com palavras<br \/>\nuntuosas e gestos arqueados, deixando cair vagarosamente a pompa mel\u00edflua<br \/>\ndos seus per\u00edodos, aconselhar os seminaristas a que, imitando a Virgem,<br \/>\ncalcassem aos p\u00e9s a serpente ominosa! E depois era o mestre de Teologia<br \/>\nm\u00edstica que falava, sorvendo o seu rap\u00e9, no dever de vencer<br \/>\na Natureza! E citando S. Jo\u00e3o de Damasco e S. Cris\u00f3logo, S.<br \/>\nCipriano e S. Jer\u00f4nimo, explicava os an\u00e1temas dos santos contra<br \/>\na Mulher, a quem chamava, segundo as express\u00f5es da Igreja, Serpente,<br \/>\nDardo, Filha da Mentira, Porta do Inferno, Cabe\u00e7a do Crime, Escorpi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>11 Verifique neste par\u00e1grafo a import\u00e2ncia da fisiologia na<br \/>\nescrita de E\u00e7a de Queir\u00f3s da fase realista-naturalista. A inautenticidade<br \/>\ndo processo educativo nos semin\u00e1rios leva a personagem a subverter<br \/>\nos pr\u00f3prios valores \u00e9ticos inculcados pelos padres (N.E.)<\/p>\n<p>&#8211; E como disse o nosso padre S. Jer\u00f4nimo &#8211; e assoava-se estrondosamente<br \/>\n&#8211; Caminho de iniq\u00fcidade, iniquita via!<\/p>\n<p>At\u00e9 nos comp\u00eandios encontrava a preocupa\u00e7\u00e3o da<br \/>\nMulher! Que ser era esse, pois, que atrav\u00e9s de toda a teologia ora<br \/>\nera colocada sobre o altar como a Rainha da Gra\u00e7a, ora amaldi\u00e7oada<br \/>\ncom ap\u00f3strofes b\u00e1rbaras? Que poder era o seu, que a legi\u00e3o<br \/>\ndos santos ora se arremessa ao seu encontro, numa paix\u00e3o ext\u00e1tica,<br \/>\ndando-lhe por aclama\u00e7\u00e3o o profundo reino dos C\u00e9us, &#8211;<br \/>\nora vai fugindo diante dela como do Universal Inimigo, com solu\u00e7os<br \/>\nde terror e gritos de \u00f3dio, e escondendo-se, para a n\u00e3o ver,<br \/>\nnas tebaidas e nos claustros, vai ali morrendo do mal de a ter amado? Sentia,<br \/>\nsem as definir, estas perturba\u00e7\u00f5es: elas renasciam, desmoralizavam-no<br \/>\nperpetuamente: e j\u00e1 antes de fazer os seus votos desfalecia no desejo<br \/>\nde os quebrar.<\/p>\n<p>E em redor dele, sentia iguais rebeli\u00f5es da natureza: os estudos,<br \/>\nos jejuns, as penit\u00eancias podiam domar o corpo, dar-lhe h\u00e1bitos<br \/>\nmaquinais, mas dentro os desejos moviam-se silenciosamente, como num ninho<br \/>\nserpentes imperturbadas. Os que mais sofriam eram os sang\u00fc\u00edneos,<br \/>\nt\u00e3o doloridamente apertados na Regra como os seus grossos pulsos plebeus<br \/>\nnos punhos das camisas. Assim, quando estavam s\u00f3s, o temperamento irrompia:<br \/>\nlutavam, faziam for\u00e7as, provocavam desordens. Nos linf\u00e1ticos<br \/>\na natureza comprimida produzia as grandes tristezas, os sil\u00eancios moles:<br \/>\ndesforravam-se ent\u00e3o no amor dos pequenos v\u00edcios: jogar com<br \/>\num velho baralho, ler um romance, obter de intrigas demoradas um ma\u00e7o<br \/>\nde cigarros &#8211; quantos encantos do pecado!<\/p>\n<p>Amaro por fim quase invejava os estudiosos; ao menos esses estavam contentes,<br \/>\nestudavam perpetuamente, escrevinhavam notas no sil\u00eancio da alta livraria,<br \/>\neram respeitados, usavam \u00f3culos, tomavam rap\u00e9. Ele mesmo tinha<br \/>\n\u00e0s vezes ambi\u00e7\u00f5es repentinas de ci\u00eancia; mas diante<br \/>\ndos vastos infolios vinha-lhe um t\u00e9dio insuper\u00e1vel. Era no entanto<br \/>\ndevoto: rezava, tinha f\u00e9 ilimitada em certos santos, um terror angustioso<br \/>\nde Deus. Mas odiava a clausura do semin\u00e1rio! A capela, os chor\u00f5es<br \/>\ndo p\u00e1tio, as comidas mon\u00f3tonas do longo refeit\u00f3rio lajeado,<br \/>\nos cheiros dos corredores, tudo lhe dava uma tristeza irritada: parecia-lhe<br \/>\nque seria bom, puro, crente, se estivesse na liberdade duma rua ou na paz<br \/>\ndum quintal, fora daquelas negras paredes. Emagrecia, tinha suores \u00e9ticos:<br \/>\ne mesmo no \u00faltimo ano, depois do servi\u00e7o pesado da Semana Santa,<br \/>\ncomo come\u00e7avam os calores, entrou na enfermaria com uma febre nervosa.<\/p>\n<p>Ordenou-se enfim pelas t\u00eamporas de S. Mateus; e pouco tempo depois<br \/>\nrecebeu, ainda no semin\u00e1rio, esta carta do Sr. padre Liset:<\/p>\n<p>&#8220;Meu querido filho e novo colega.- Agora que est\u00e1 ordenado, entendo<br \/>\nem minha consci\u00eancia que devo dar-lhe conta do estado dos seus neg\u00f3cios,<br \/>\npois quero cumprir at\u00e9 o fim o encargo com que carregou os meus ombros<br \/>\nd\u00e9beis a nossa chorada marquesa, atribuindo-me a honra de administrar<br \/>\no legado que lhe deixou. Porque, ainda que os bens mundanos pouco devam importar<br \/>\na uma alma votada ao sacerd\u00f3cio, s\u00e3o sempre as boas contas que<br \/>\nfazem os bons amigos. Saber\u00e1, pois, meu querido filho, que o legado<br \/>\nda querida marquesa &#8211; para quem deve erguer em sua alma uma gratid\u00e3o<br \/>\neterna &#8211; est\u00e1 inteiramente exausto. Aproveito esta ocasi\u00e3o para<br \/>\nlhe dizer que depois da morte de seu tio, sua tia, tendo liquidado o estabeleci<br \/>\nmento, se entregou a um caminho que o respeito me impede de qualificar: caiu<br \/>\nsob o imp\u00e9rio das paix\u00f5es, e tendo-se ligado ilegitimamente,<br \/>\nviu os seus bens perdidos juntamente com a sua pureza, e hoje estabeleceu<br \/>\numa casa de h\u00f3spedes na Rua dos Calafates n? 53. Se toco nestas impurezas,<br \/>\nt\u00e3o impr\u00f3prias de que um tenro levita, como o meu querido filho,<br \/>\ntenha delas conhecimento, \u00e9 porque lhe quero dar cabal rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua respeit\u00e1vel fam\u00edlia. Sua irm\u00e3, como decerto sabe,<br \/>\ncasou rica em Coimbra, e ainda que no casamento n\u00e3o \u00e9 o ouro<br \/>\nque devemos apreciar, \u00e9 todavia importante, para futuras circunst\u00e2ncias,<br \/>\nque o meu querido filho esteja de posse deste fato. Do que me escreveu o nosso<br \/>\nquerido reitor a respeito de o mandarmos para a freguesia de Feir\u00e3o,<br \/>\nna Gralheira, vou falar com algumas pessoas importantes que t\u00eam a extrema<br \/>\nbondade de atender um pobre padre que s\u00f3 pede a Deus miseric\u00f3rdia.<br \/>\nEspero, todavia, conseguir. Persevere, meu querido filho, nos caminhos da<br \/>\nvirtude, de que sei que a sua boa alma est\u00e1 repleta, e creia que se<br \/>\nencontra a felicidade neste nosso santo minist\u00e9rio quando sabemos compreender<br \/>\nquantos s\u00e3o os b\u00e1lsamos que derrama no peito e quantos os refrig\u00e9rios<br \/>\nque d\u00e1 &#8211; o servi\u00e7o de Deus.&#8217; Adeus, meu querido filho e novo<br \/>\ncolega. Creia que sempre o meu pensamento estar\u00e1 com o pupilo da nossa<br \/>\nchorada marquesa, que decerto do C\u00e9u, onde a elevaram as suas virtudes,<br \/>\nsuplica \u00e0 Virgem, que ela tanto serviu e amou, a felicidade do seu<br \/>\ncaro pupilo &#8220;. Liset.<\/p>\n<p>&#8220;P.S. &#8211; O apelido do marido de sua irm\u00e3 \u00e9 Trigoso. &#8221;<br \/>\nLiset.<\/p>\n<p>Dois meses depois Amaro foi nomeado p\u00e1roco de Feir\u00e3o, na Gralheira,<br \/>\nserra da Beira Alta. Esteve ali desde Outubro at\u00e9 o fim das neves.<\/p>\n<p>Feir\u00e3o \u00e9 uma par\u00f3quia pobre de pastores e naquela \u00e9poca<br \/>\nquase desabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu t\u00e9dio<br \/>\n\u00e0 lareira, ouvindo fora o Inverno bramir na serra. Pela Primavera vagaram<br \/>\nnos distritos de Santar\u00e9m e de Leiria par\u00f3quias populosas, com<br \/>\nboas c\u00f4ngruas12. Amaro escreveu logo \u00e0 irm\u00e3 contando a<br \/>\nsua pobreza em Feir\u00e3o; ela mandou- lhe, com recomenda\u00e7\u00f5es<br \/>\nde economia, doze moedas para ir a Lisboa requerer. Amaro partiu imediatamente.<br \/>\nOs ares lavados e vivos da serra tinham- lhe fortificado o sangue; voltava<br \/>\nrobusto, direito, simp\u00e1tico, com uma boa cor na pele trigueira.<\/p>\n<p>Logo que chegou a Lisboa foi \u00e0 Rua dos Calafates no 53, a casa da<br \/>\ntia: achou-a velha, com la\u00e7os vermelhos numa cuia enorme, toda coberta<br \/>\nde p\u00f3-de-arroz. Tinha-se feito devota, e foi com uma alegria piedosa<br \/>\nque abriu os seus magros bra\u00e7os a Amaro.<\/p>\n<p>&#8211; Como est\u00e1s bonito! Ora n\u00e3o h\u00e1! Quem te viu? Ih, Jesus!<br \/>\nQue mudan\u00e7a!<\/p>\n<p>Admirava-lhe a batina, a coroa: e contando-lhe as suas desgra\u00e7as,<br \/>\ncom exclama\u00e7\u00f5es sobre a salva\u00e7\u00e3o da sua alma e<br \/>\nsobre a carestia dos g\u00eaneros, foi-o levando para o terceiro andar, a<br \/>\num quarto que dava para o sagu\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ficas aqui como um abade, disse-lhe ela. E baratinho!&#8230; Ai! ter- te de<br \/>\ngra\u00e7a queria eu, mas&#8230; Tenho sido muito infeliz, Jo\u00e3ozinho!&#8230;<br \/>\nAi! desculpa, Amaro! Estou sempre com Jo\u00e3ozinho na cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Amaro procurou logo ao outro dia o padre Liset em S. Lu\u00eds. Tinha ido<br \/>\npara Fran\u00e7a. Lembrou-se ent\u00e3o da filha mais nova da senhora<br \/>\nmarquesa de Alegros, a Sra. D. Lu\u00edsa, que estava casada com o conde<br \/>\nde Ribamar, conselheiro de Estado, com influ\u00eancia, regenerador fiel<br \/>\ndesde cinq\u00fcenta e um, duas vezes ministro do reino.<\/p>\n<p>E, por conselho da tia, Amaro, logo que meteu o seu requerimento, foi uma<br \/>\nmanh\u00e3 a casa da Sra. condessa de Ribamar, a Buenos Aires. \u00c1<br \/>\nporta um coup\u00e9 esperava.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora condessa vai sair, disse um criado de gravata branca e quinzena<br \/>\nde alpaca, encostado \u00e0 ombreira do p\u00e1tio, de cigarro na boca.<\/p>\n<p>Nesse momento, duma porta de batentes de baeta verde, sobre um degrau de<br \/>\npedra, ao fundo do p\u00e1tio lajeado, uma senhora sa\u00eda, vestida<br \/>\nde claro. Era alta, magra, loura, com pequeninos cabelos frisados sobre a<br \/>\ntesta, lunetas de ouro num nariz comprido e agudo, e no queixo um sinalzinho<br \/>\nde cabelos claros.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora condessa j\u00e1 me n\u00e3o conhece? disse Amaro com o chap\u00e9u<br \/>\nna m\u00e3o, adiantando-se curvado. Sou o Amaro.<\/p>\n<p>&#8211; O Amaro? &#8211; disse ela, como estranha ao nome. Ah! bom Jesus, quem ele \u00e9!<br \/>\nOra n\u00e3o h\u00e1! Est\u00e1 um homem. Quem diria!<\/p>\n<p>Amaro sorria-se.<\/p>\n<p>&#8211; Eu podia l\u00e1 esperar! continuou ela admirada. E est\u00e1 agora<br \/>\nem Lisboa?<\/p>\n<p>Amaro contou a sua nomea\u00e7\u00e3o para Feir\u00e3o, a pobreza da<br \/>\npar\u00f3quia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De maneira que vim requerer, senhora condessa.<\/p>\n<p>Ela escutava-o com as m\u00e3os apoiadas numa alta sombrinha de seda clara,<br \/>\ne Amaro sentia vir dela um perfume de p\u00f3-de-arroz e uma frescura de<br \/>\ncambraias.<\/p>\n<p>&#8211; Pois deixe estar, disse ela, fique descansado. Meu marido h\u00e1-de<br \/>\nfalar. Eu me encarrego disso. Olhe, venha por c\u00e1. &#8211; E com o dedo sobre<br \/>\no canto da boca: &#8211; Espere, amanh\u00e3 vou para Sintra. Domingo, n\u00e3o.<br \/>\nO melhor \u00e9 daqui a quinze dias. Daqui a quinze dias pela manh\u00e3,<br \/>\nsou certa. &#8211; E rindo com os seus largos dentes frescos: &#8211; Parece que o estou<br \/>\na ver traduzir Chateaubriand com a mana Lu\u00edsa! Como o tempo passa!<\/p>\n<p>&#8211; Passa bem a senhora sua mana? perguntou Amaro.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, bem. Est\u00e1 numa quinta em Santar\u00e9m.<\/p>\n<p>Deu-lhe a m\u00e3o, cal\u00e7ada de peau de su\u00e8de, num aperto<br \/>\nsacudido que fez tilintar os seus braceletes de ouro, e saltou para o coup\u00e9,<br \/>\nmagra e ligeira, com um movimento que levantou brancuras de saias.<\/p>\n<p>Amaro come\u00e7ou ent\u00e3o a esperar. Era em Julho, no pleno calor.<br \/>\nDizia missa pela manh\u00e3 em S. Domingos, e durante o dia, de chinelos<br \/>\ne casaco de ganga, arrastava a sua ociosidade pela casa. \u00c0s vezes ia<br \/>\nconversar com a tia para a sala de jantar; as janelas estavam cerradas, na<br \/>\npenumbra zumbia a mon\u00f3tona sussurra\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>12 C\u00f4ngrua: Pens\u00e3o recebida pelos padres para o seu sustento<br \/>\n(N.E.)<\/p>\n<p>das moscas; a tia a um canto do velho canap\u00e9 de palhinha fazia croch\u00e9,<br \/>\ncom a luneta encavalada na ponta do nariz; Amaro, bocejando, folheava um antigo<br \/>\nvolume do Panorama13.<\/p>\n<p>\u00c0 noitinha sa\u00eda, a dar duas voltas no Rossio. Abafava-se, no<br \/>\nar pesado e im\u00f3vel: a todos os cantos se apregoava monotonamente \u00e1gua<br \/>\nfresca! Pelos bancos, debaixo das \u00e1rvores, vadios remendados dormitavam;<br \/>\nem redor da Pra\u00e7a, sem cessar, caleches de aluguel vazias rodavam vagarosamente;<br \/>\nas claridades dos caf\u00e9s reluziam; e gente encalmada, sem destino, movia,<br \/>\nbocejando, a sua pregui\u00e7a pelos passeios das ruas.<\/p>\n<p>Amaro ent\u00e3o recolhia, e no seu quarto, com a janela aberta ao calor<br \/>\nda noite, estirado em cima da cama, em mangas de camisa, sem botas, fumava<br \/>\ncigarros, ruminava as suas esperan\u00e7as. A cada momento lhe acudiam,<br \/>\ncom rebates de alegria, as palavras da senhora condessa: fique descansado,<br \/>\nmeu marido h\u00e1-de falar! E via-se j\u00e1 p\u00e1roco numa bonita<br \/>\nvila, numa casa com quintal cheio de couves e de saladas frescas, tranq\u00fcilo<br \/>\ne importante, recebendo bandejas de doce das devotas ricas.<\/p>\n<p>Vivia ent\u00e3o num estado de espirito muito repousado. As exalta\u00e7\u00f5es,<br \/>\nque no semin\u00e1rio lhe causava a contin\u00eancia, tinham-se acalmado<br \/>\ncom as satisfa\u00e7\u00f5es que lhe dera em Feir\u00e3o uma grossa<br \/>\npastora, que ele gostava de ver ao domingo tocar \u00e0 missa, dependurada<br \/>\nda corda do sino, rolando nas saias de sarago\u00e7a, e a face a estourar<br \/>\nde sangue. Agora, sereno, pagava pontualmente ao C\u00e9u as ora\u00e7\u00f5es<br \/>\nque manda o ritual, trazia a carne contente e calada, e procurava estabelecer-se<br \/>\nregaladamente.<\/p>\n<p>No fim de quinze dias foi a casa da senhora condessa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o est\u00e1, disse-lhe um criado da cavalari\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao outro dia voltou, j\u00e1 inquieto. Os batentes verdes estavam abertos;<br \/>\ne Amaro subiu devagar, pisando, muito acanhado, o largo tapete vermelho, fixado<br \/>\ncom var\u00f5es de metal. Da alta clarab\u00f3ia caia uma luz suave; ao<br \/>\ncimo da escada, no patamar, sentado numa banqueta de marroquim escarlate,<br \/>\num criado encostado \u00e0 parede branca envernizada, com a cabe\u00e7a<br \/>\npendente e o bei\u00e7o ca\u00eddo, dormia. Fazia um grande calor; aquele<br \/>\nalto sil\u00eancio aristocr\u00e1tico aterrava Amaro; esteve um momento,<br \/>\ncom o seu guarda-sol pendente do dedo m\u00ednimo, hesitando; tossiu devagarinho,<br \/>\npara acordar o criado que lhe parecia terr\u00edvel com a sua bela su\u00ed\u00e7a<br \/>\npreta, o seu rico grilh\u00e3o de ouro; e ia descer, quando ouviu por detr\u00e1s<br \/>\ndum reposteiro um riso grosso de homem. Sacudiu com o len\u00e7o o p\u00f3<br \/>\nesbranqui\u00e7ado dos sapatos, puxou os punhos, e entrou muito vermelho<br \/>\nnuma larga sala com estofos de damasco amarelo; uma grande luz entrava das<br \/>\nvarandas abertas, e viam- se arvoredos de jardim. No meio da sala tr\u00eas<br \/>\nhomens de p\u00e9 conversavam. Amaro adiantou-se, balbuciou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei se incomodo&#8230;<\/p>\n<p>Um homem alto, de bigode grisalho e \u00f3culos de ouro, voltou-se surpreendido,<br \/>\ncom o charuto ao canto da boca e as m\u00e3os nos bolsos. Era o senhor conde.<\/p>\n<p>&#8211; Sou o Amaro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah, disse o conde, o Sr. padre Amaro! Conhe\u00e7o muito bem! Tem a bondade&#8230;<br \/>\nMinha mulher falou-me. Tem a bondade.<\/p>\n<p>E dirigindo-se a um homem baixo e repleto, quase calvo, de cal\u00e7as<br \/>\nbrancas muito curtas:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a pessoa de quem lhe falei. &#8211; Voltou-se para Amaro: &#8211; \u00c9<br \/>\no senhor ministro.<\/p>\n<p>Amaro curvou-se, servilmente.<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. padre Amaro, disse o conde de Ribamar, foi criado de pequeno em casa<br \/>\nde minha sogra. Nasceu l\u00e1, creio eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Saiba o senhor conde que sim, disse Amaro, que se conservava afastado,<br \/>\ncom o guarda-sol na m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Minha sogra, que era toda devota e uma completa senhora &#8211; j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 disso! &#8211; f\u00ea-lo padre. Houve at\u00e9 um legado, creio eu&#8230;<br \/>\nEnfim, aqui o temos p\u00e1roco&#8230; Onde, Sr. padre Amaro?<\/p>\n<p>&#8211; Feir\u00e3o, excelent\u00edssimo senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Feir\u00e3o?&#8230; disse o ministro estranhando o nome.<\/p>\n<p>&#8211; Na serra da Gralheira, informou logo o outro sujeito, ao lado.<\/p>\n<p>Era um homem magro, entalado numa sobrecasaca azul, muito branco de pele,<br \/>\ncom soberbas su\u00ed\u00e7as dum negro de tinta, e um admir\u00e1vel<br \/>\ncabelo lustroso de pomada, apartado at\u00e9 ao cacha\u00e7o numa risca<br \/>\nperfeita.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, resumiu o conde, um horror! Na serra, uma freguesia pobre, sem distra\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncom um clima horr\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu meti j\u00e1 requerimento, excelent\u00edssimo senhor, arriscou<br \/>\nAmaro timidamente.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem, afirmou o ministro. H\u00e1-de arranjar-se, &#8211; e mascava o seu<br \/>\ncharuto.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma justi\u00e7a, disse o conde. Mais, \u00e9 uma necessidade!<br \/>\nOs homens novos e ativos devem estar nas par\u00f3quias dif\u00edceis,<br \/>\nnas cidades&#8230; \u00c9 claro! Mas n\u00e3o; olhe, l\u00e1 ao p\u00e9<br \/>\nda minha quinta, em Alcoba\u00e7a, h\u00e1 um velho, um gotoso, um padre-mestre<br \/>\nantigo, um imbecil!&#8230; Assim perde-se a f\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, disse o ministro, mas essas coloca\u00e7\u00f5es<br \/>\nnas boas par\u00f3quias devem naturalmente ser recompensas dos bons servi\u00e7os.<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio o est\u00edmulo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente, replicou o conde; mas servi\u00e7os religiosos, profissionais,<br \/>\nservi\u00e7os \u00e0 Igreja, n\u00e3o servi\u00e7os aos governos.<\/p>\n<p>13 Nos antigos volumes da revista portuguesa Panorama, encontramos novelas<br \/>\nhist\u00f3ricas rom\u00e2nticas, criticadas por E\u00e7a de Queir\u00f3s<br \/>\n(N.E.)<\/p>\n<p>O homem das soberbas su\u00ed\u00e7as negras teve um gesto de obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acha? perguntou-lhe o conde.<\/p>\n<p>&#8211; Respeito muito a opini\u00e3o de vossa excel\u00eancia, mas se me permite&#8230;<br \/>\nSim, digo eu, os p\u00e1rocos na cidade s\u00e3o-nos dum grande servi\u00e7o<br \/>\nnas crises eleitorais. Dum grande servi\u00e7o!<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim. Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olhe vossa excel\u00eancia, continuou ele, s\u00f4frego da palavra. Olhe<br \/>\nvossa excel\u00eancia em Tomar. Por que perdemos? Pela atitude dos p\u00e1rocos.<br \/>\nNada mais.<\/p>\n<p>O conde acudiu:<\/p>\n<p>&#8211; Mas perd\u00e3o, n\u00e3o deve ser assim; a religi\u00e3o, o clero<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o agentes eleitorais.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o.., queria interromper o outro.<\/p>\n<p>O conde suspendeu-o, com um gesto firme; e gravemente, em palavras pausadas,<br \/>\ncheias da autoridade dum vasto entendimento:<\/p>\n<p>&#8211; A religi\u00e3o, disse ele, pode, deve mesmo auxiliar os governos no<br \/>\nseu estabelecimento, operando, por assim dizer, como freio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso, isso! murmurou arrastadamente o ministro, cuspindo pel\u00edculas<br \/>\nmascadas de charuto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas descer \u00e0s intrigas, continuou o conde devagar, aos imbr\u00f3glios&#8230;<br \/>\nPerdoe-me meu caro amigo, mas n\u00e3o \u00e9 dum crist\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sou-o, senhor conde, exclamou o homem das su\u00ed\u00e7as soberbas.<br \/>\nSou-o a valer! Mas tamb\u00e9m sou liberal. E entendo que no governo representativo&#8230;<br \/>\nSim, digo eu&#8230; com as garantias mais s\u00f3lidas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, interrompeu o conde, sabe o que isso faz? desacredita o clero, e<br \/>\ndesacredita a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8211; Mas s\u00e3o ou n\u00e3o as maiorias um princ\u00edpio sagrado? gritava<br \/>\nrubro o das su\u00ed\u00e7as, acentuando o adjetivo.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o um principio respeit\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Upa! upa, excelent\u00edssimo senhor! Upa14!<\/p>\n<p>O padre Amaro escutava, im\u00f3vel.<\/p>\n<p>&#8211; Minha mulher h\u00e1-de querer v\u00ea-lo, disse-lhe ent\u00e3o o<br \/>\nconde. E dirigindo-se a um reposteiro que levantou: &#8211; Entre. \u00c9 o Sr.<br \/>\npadre Amaro, Joana!<\/p>\n<p>Era uma sala forrada de papel branco acetinado, com m\u00f3veis estofados<br \/>\nde casimira clara. Nos v\u00e3os das janelas, entre as cortinas de pregas<br \/>\nlargas duma fazenda adamascada cor de leite, apanhadas quase junto do ch\u00e3o<br \/>\npor faixas de seda, arbustos delgados, sem flor, erguiam em vasos brancos<br \/>\na sua folhagem fina. Uma meia-luz fresca dava a todas aquelas alvuras um tom<br \/>\ndelicado de nuvem. Nas costas duma cadeira uma arara empoleirada, firme num<br \/>\ns\u00f3 p\u00e9 negro, co\u00e7ava vagarosamente, com contra\u00e7\u00f5es<br \/>\naduncas, a sua cabe\u00e7a verde. Amaro, embara\u00e7ado, curvou-se logo<br \/>\npara um canto do sof\u00e1, onde viu os cabelinhos louros e frisados da<br \/>\nsenhora condessa que lhe enchiam vaporosamente a testa, e os aros de ouro<br \/>\nda sua luneta reluzindo. Um rapaz gordo, de face rechonchuda, sentado diante<br \/>\ndela numa cadeira baixa, com os cotovelos sobre os joelhos abertos, ocupava-<br \/>\nse em balan\u00e7ar, como um p\u00eandulo, um pince-nez de tartaruga. A<br \/>\ncondessa tinha no rega\u00e7o uma cadelinha, e com a sua m\u00e3o seca<br \/>\ne fina cheia de veias, acamava-lhe o p\u00ealo branco como algod\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Como est\u00e1, Sr. Amaro? &#8211; A cadela rosnou. &#8211; Quieta, J\u00f3ia.<br \/>\nSabe que j\u00e1 falei no seu neg\u00f3cio? Quieta, J\u00f3ia&#8230; O ministro<br \/>\nest\u00e1 ali.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha senhora, disse Amaro, de p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Sente-se aqui, Sr. padre Amaro.<\/p>\n<p>Amaro pousou-se \u00e0 beira dum fauteuil, com o seu guarda-sol na m\u00e3o,<br \/>\n&#8211; e reparou ent\u00e3o numa senhora alta que estava de p\u00e9, junto<br \/>\ndo piano, falando com um rapaz louro.<\/p>\n<p>&#8211; Que tem feito estes dias, Amaro? disse a condessa. Diga-me uma coisa: sua<br \/>\nirm\u00e3?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 em Coimbra, casou.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! casou! disse a condessa, fazendo girar os seus an\u00e9is.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio. Amaro, de olhos baixos, passava, com um gesto embara\u00e7ado<br \/>\ne errante, os dedos pelos bei\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. padre Liset est\u00e1 para fora? perguntou.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 em Nantes. Tinha uma irm\u00e3 a morrer, disse a condessa.<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 o mesmo sempre: muito am\u00e1vel, muito doce. \u00c9 a<br \/>\nalma mais virtuosa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu prefiro o padre F\u00e9lix, disse o rapaz gordo, estirando as pemas.<\/p>\n<p>14 Observe o di\u00e1logo entre as personagens envolvidas na pol\u00edtica<br \/>\ncorrupta do per\u00edodo da Regenera\u00e7\u00e3o (1850-1910), monarquia<br \/>\nconstitucional liberal-conservadora Ele evidencia o comprometimento do clero<br \/>\ncom a corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desse regime (N. E.)<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga isso, primo! Jesus, brada aos C\u00e9us! Pois ent\u00e3o,<br \/>\no padre Liset, t\u00e3o respeit\u00e1vel!&#8230; E depois outras maneiras<br \/>\nde dizer as coisas, com uma bondade&#8230; V\u00ea-se que \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndelicado&#8230; &#8216;<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, mas o padre F\u00e9lix&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ai, nem diga isso! Que o padre F\u00e9lix \u00e9 uma pessoa de muita<br \/>\nvirtude, decerto; mas o padre Liset tem uma religi\u00e3o mais&#8230; &#8211; e com<br \/>\num gesto delicado procurava a palavra: &#8211; mais fina, mais distinta&#8230; Enfim,<br \/>\nvive com outra gente. &#8211; E sorrindo para Amaro: &#8211; Pois n\u00e3o acha?<\/p>\n<p>Amaro n\u00e3o conhecia o padre F\u00e9lix, n\u00e3o se recordava do<br \/>\npadre Liset.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 \u00e9 velho o Sr. padre Liset, observou ao acaso.<\/p>\n<p>&#8211; Cr\u00ea? disse a condessa. Mas muito bem conservado! E que vivacidade,<br \/>\nque entusiasmo!&#8230; Ai, \u00e9 outra coisa! &#8211; E voltando-se para a senhora<br \/>\nque estava junto do piano: &#8211; Pois n\u00e3o achas, Teresa?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vou, respondeu Teresa, toda absorvida.<\/p>\n<p>Amaro afirmou-se ent\u00e3o nela. Pareceu-lhe uma rainha, ou uma deusa,<br \/>\ncom a sua alta e forte estatura, uma linha de ombros e de seio magn\u00edfica;<br \/>\nos cabelos pretos um pouco ondeados destacavam sobre a palidez do rosto aquilino<br \/>\nsemelhante ao perfil dominador de Maria Antonieta; o seu vestido preto, de<br \/>\nmangas curtas e decote quadrado, quebrava, com as pregas da cauda muito longa<br \/>\ntoda adornada de rendas negras, o tom mon\u00f3tono das alvuras da sala;<br \/>\no colo, os bra\u00e7os estavam cobertos por uma gaze preta, que fazia aparecer<br \/>\natrav\u00e9s da brancura da carne; e sentia-se nas suas formas a firmeza<br \/>\ndos m\u00e1rmores antigos, com o calor dum sangue rico.<\/p>\n<p>Falava baixo, sorrindo, numa l\u00edngua \u00e1spera que Amaro n\u00e3o<br \/>\ncompreendia, cerrando e abrindo o seu leque preto &#8211; e o rapaz louro, bonito,<br \/>\nescutava-a retorcendo a ponta de um bigode fino, com um quadrado de vidro<br \/>\nentalado no olho.<\/p>\n<p>&#8211; Havia muita devo\u00e7\u00e3o na sua par\u00f3quia, Sr. Amaro? perguntava,<br \/>\nno entanto, a condessa.<\/p>\n<p>&#8211; Muita, muito boa gente.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 onde ainda se encontra alguma f\u00e9, \u00e9 nas aldeias,<br \/>\nconsiderou ela com um tom piedoso. &#8211; Queixou-se da obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde viver na cidade, nos cativeiros do luxo: desejaria habitar sempre na sua<br \/>\nquinta de Carcavelos, rezar na pequena capela antiga, conversar com as boas<br \/>\nalmas da aldeia! &#8211; e a sua voz tornara-se terna.<\/p>\n<p>O rapaz rechonchudo ria-se:<\/p>\n<p>&#8211; Ora, prima! dizia, ora, prima! &#8211; N\u00e3o, ele, se o obrigassem a ouvir<br \/>\nmissa, numa capelinha de aldeia, at\u00e9 lhe parecia que perdia a f\u00e9!&#8230;<br \/>\nN\u00e3o compreendia, por exemplo, a religi\u00e3o sem m\u00fasica&#8230;<br \/>\nEra l\u00e1 poss\u00edvel uma festa religiosa, sem uma boa voz de contralto?<\/p>\n<p>&#8211; Sempre \u00e9 mais bonito, disse Amaro.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 claro que \u00e9. \u00c9 outra coisa! Tem cachet! \u00d3<br \/>\nprima, lembra-se daquele tenor&#8230; como se chamava ele? O Vidalti! Lembra-se<br \/>\ndo Vidalti, na quinta-feira de Endoen\u00e7as, nos Inglesinhos? O tantum<br \/>\nergo?<\/p>\n<p>&#8211; Eu preferia-o no Baile de M\u00e1scaras, disse a condessa.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que n\u00e3o sei, prima, olhe que n\u00e3o sei!<\/p>\n<p>No entanto o rapaz louro viera apertar a m\u00e3o \u00e0 senhora condessa,<br \/>\nfalando-lhe baixo, muito risonho; Amaro admirava a nobreza da sua estatura,<br \/>\na do\u00e7ura do seu olhar azul; reparou que lhe ca\u00edra uma luva,<br \/>\ne apanhou-lha servilmente. Quando ele saiu Teresa, depois de se ter aproximado<br \/>\nvagarosamente da janela e olhando para a rua &#8211; foi sentar-se numa causeuse<br \/>\ncom um abandono que punha em relevo a magn\u00edfica escultura do seu corpo,<br \/>\ne voltando-se pregui\u00e7osamente para o rapaz rechonchudo:<\/p>\n<p>&#8211; Vamo-nos, Jo\u00e3o?<\/p>\n<p>A condessa disse-lhe ent\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Sabes que o Sr. padre Amaro foi criado comigo em Benfica?<\/p>\n<p>Amaro fez-se vermelho: sentia que Teresa pousava sobre ele os seus belos<br \/>\nolhos dum negro \u00famido como o cetim preto coberto de \u00e1gua.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 na prov\u00edncia agora? perguntou ela, bocejando um pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha senhora, vim h\u00e1 dias.<\/p>\n<p>&#8211; Na aldeia? continuou ela, abrindo e cerrando vagarosamente o seu leque.<\/p>\n<p>Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus dedos finos; disse, acariciando<br \/>\no cabo do guarda-sol:<\/p>\n<p>&#8211; Na serra, minha senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Imagina tu, acudiu a condessa, \u00e9 um horror! H\u00e1 sempre neve,<br \/>\ndiz que a igreja n\u00e3o tem telhado, s\u00e3o tudo pastores. Uma desgra\u00e7a!<br \/>\nEu pedi ao ministro a ver se o mud\u00e1vamos. Pede-lhe tu tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? disse Teresa.<\/p>\n<p>A condessa contou que Amaro requerera para uma par\u00f3quia melhor. Falou<br \/>\nde sua m\u00e3e, da amizade que ela tinha a Amaro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Morria-se por ele. Ora um nome que ela lhe dava&#8230; N\u00e3o se lembra?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei, minha senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Frei Maleitas!&#8230; Tem gra\u00e7a! Como o Sr. Amaro era amarelito, sempre<br \/>\nmetido na capela&#8230;<\/p>\n<p>Mas Teresa, dirigindo-se \u00e0 condessa:<\/p>\n<p>&#8211; Sabes com quem se parece este senhor?<\/p>\n<p>A condessa afirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou a luneta.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se parece com aquele pianista do ano passado? continuou Teresa.<br \/>\nN\u00e3o me lembra agora o nome&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei, o Jalette, disse a condessa. &#8211; Bastante. No cabelo, n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 visto, o outro n\u00e3o tinha coroa!<\/p>\n<p>Amaro fez-se escarlate. Teresa ergueu-se arrastando a sua soberba cauda,<br \/>\nsentou-se ao piano.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe m\u00fasica? perguntou, voltando-se para Amaro.<\/p>\n<p>&#8211; A gente aprende no semin\u00e1rio, minha senhora.<\/p>\n<p>Ela correu a m\u00e3o, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas,<br \/>\ne tocou a frase do Rigoleto, parecida com o Minuete de Mozart15, que diz Francisco<br \/>\nI, despedindo-se, no sarau do primeiro ato, da senhora de Cr\u00e9cy, &#8211;<br \/>\ne cujo ritmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que findam, e de<br \/>\nbra\u00e7os que se desenla\u00e7am em despedidas supremas.<\/p>\n<p>Amaro estava enlevado. Aquela sala rica com as suas alvuras de nuvem, o piano<br \/>\napaixonado, o colo de Teresa que ele via sob a negra transpar\u00eancia da<br \/>\ngaze, as suas tran\u00e7as de deusa, os tranq\u00fcilos arvoredos de jardim<br \/>\nfidalgo davam-lhe vagamente a id\u00e9ia duma exist\u00eancia superior,<br \/>\nde romance, passada sobre alcatifas preciosas, em coup\u00e9s acolchoados,<br \/>\ncom \u00e1rias de \u00f3peras, melancolias de bom gosto e amores dum gozo<br \/>\nraro. Enterrado na elasticidade da causeuse, sentindo a m\u00fasica chorar<br \/>\naristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu cheiro de<br \/>\nrefogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e, assustado, demora<br \/>\no seu prazer &#8211; pensando que vai voltar \u00e0 dureza das c\u00f4deas secas<br \/>\ne \u00e0 poeira dos caminhos.<\/p>\n<p>No entanto Teresa, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga \u00e1ria<br \/>\ninglesa de Haydn, que diz t\u00e3o finamente as melancolias da separa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>The village seems dead and asleep<\/p>\n<p>When Lubin is away!&#8230;16<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! bravo! exclamou o ministro da Justi\u00e7a, aparecendo \u00e0<br \/>\nporta, batendo docemente as palmas. Muito bem, muito bem! Deliciosamente!<\/p>\n<p>&#8211; Tenho um pedido a fazer-lhe, Sr. Correia, disse Teresa erguendo- se logo.<\/p>\n<p>O ministro veio, com uma pressa galante:<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9, minha senhora? que \u00e9?<\/p>\n<p>O conde e o sujeito de magn\u00edficas su\u00ed\u00e7as tinham entrado<br \/>\ndiscutindo ainda.<\/p>\n<p>&#8211; A Joana e eu temos que lhe pedir, disse Teresa ao ministro.<\/p>\n<p>&#8211; Eu j\u00e1 pedi! j\u00e1 pedi mesmo duas vezes! acudiu a condessa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, minhas senhoras, disse o ministro, sentando-se confortavelmente, com<br \/>\nas pernas muito estiradas, a face satisfeita: de que se trata? \u00c9 uma<br \/>\ncoisa grave? meu Deus! prometo, prometo solenemente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, disse Teresa, batendo-lhe com o leque no bra\u00e7o. Ent\u00e3o<br \/>\nqual \u00e9 a melhor par\u00f3quia vaga?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! disse o ministro, compreendendo e olhando para Amaro, que vergou os<br \/>\nombros, corado.<\/p>\n<p>O homem das su\u00ed\u00e7as, que estava de p\u00e9 fazendo saltar<br \/>\ncircunspectamente os berloques, adiantou-se, cheio de informa\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; Das vagas, minha senhora, \u00e9 Leiria, capital do distrito e sede do<br \/>\nbispado.<\/p>\n<p>&#8211; Leiria? disse Teresa. Bem sei, \u00e9 onde h\u00e1 umas ru\u00ednas?<\/p>\n<p>&#8211; Um Castelo, minha senhora, edificado por D. Dinis.<\/p>\n<p>15 O Rigoleto \u00e8 uma composi\u00e7\u00e3o descontra\u00edda, melodram\u00e1tica,<br \/>\ndo italiano Giuseppe Verdi (1813-1901). \u00c9 diferente da \u00f3pera<br \/>\ndo austr\u00edaco Wolfgang A Mozart (1756-1791), bem mais contra\u00edda.<br \/>\nAs produ\u00e7\u00f5es de Mozart s\u00e3o consideradas de transi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Classicismo para o Romantismo. (N. E.)<\/p>\n<p>16 O compositor vienense Joseph Haydn (1732-1809) \u00e9 importante pela<br \/>\nrenova\u00e7\u00e3o musical de suas produ\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o da letra \u00e8 a seguinte:<\/p>\n<p>A cidade parece morta e adormecida<\/p>\n<p>Quando Lubin est\u00e1 fora!&#8230; (N. E.)<\/p>\n<p>&#8211; Leiria \u00e9 excelente!<\/p>\n<p>&#8211; Mas perd\u00e3o, perd\u00e3o! disse o ministro, Leiria, sede do bispado,<br \/>\numa cidade&#8230; O Sr. padre Amaro \u00e9 um eclesi\u00e1stico novo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, Sr. Correia! exclamou Teresa, e o senhor n\u00e3o \u00e9 novo?<\/p>\n<p>O ministro sorriu, curvando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Dize alguma coisa, tu, disse a condessa a seu marido, que co\u00e7ava<br \/>\nternamente a cabe\u00e7a da arara.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me in\u00fatil, o pobre Correia est\u00e1 vencido! A prima Teresa<br \/>\nchamou-lhe novo!<\/p>\n<p>&#8211; Mas perd\u00e3o, protestou o ministro. N\u00e3o me parece que seja<br \/>\numa lisonja excepcional; eu n\u00e3o sou tamb\u00e9m t\u00e3o antigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh, desgra\u00e7ado! gritou o conde, lembra-te que j\u00e1 conspiravas<br \/>\nem 1820.<\/p>\n<p>&#8211; Era meu pai, caluniador, era meu pai!<\/p>\n<p>Todos riram.<\/p>\n<p>&#8211; Sr. Correia, disse Teresa, est\u00e1 entendido. O Sr. padre Amaro vai<br \/>\npara Leiria!<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem, sucumbo, disse o ministro com gesto resignado. Mas \u00e9 uma<br \/>\ntirania!<\/p>\n<p>&#8211; Thank you, fez Teresa, estendendo-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, minha senhora, estou a estranh\u00e1-la, disse o ministro, fixando-a.<\/p>\n<p>&#8211; Estou contente hoje, disse ela. Olhou um momento para o ch\u00e3o, distra\u00edda,<br \/>\ndando pequeninas pancadas no vestido de seda, levantou-se, foi sentar-se ao<br \/>\npiano bruscamente, e recome\u00e7ou a doce \u00e1ria inglesa:<\/p>\n<p>The village seems dead and asleep<\/p>\n<p>When Lubin is away!&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, o conde tinha-se aproximado de Amaro, que se erguera.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 neg\u00f3cio feito, disse-lhe ele. O Correia entende-se com<br \/>\no bispo. Daqui a uma semana est\u00e1 nomeado. Pode ir descansado.<\/p>\n<p>Amaro fez uma cortesia, e, servil, foi dizer ao ministro que estava junto<br \/>\ndo piano:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor ministro, eu agrade\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 senhora condessa, \u00e0 senhora condessa, disse o ministro<br \/>\nsorrindo.<\/p>\n<p>&#8211; Minha senhora, eu agrade\u00e7o, veio ele dizer \u00e0 condessa, todo<br \/>\ncurvado.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, agrade\u00e7a a Teresa. Ela quer ganhar indulg\u00eancias, parece.<\/p>\n<p>&#8211; Lembre-me nas suas ora\u00e7\u00f5es, Sr. padre Amaro, disse ela. E<br \/>\ncontinuou, com a sua voz magoada, dizendo ao piano &#8211; as tristezas da aldeia<br \/>\nquando Lubin est\u00e1 ausente!<\/p>\n<p>Amaro da\u00ed a uma semana soube o seu despacho. Mas n\u00e3o tomara<br \/>\na esquecer aquela manh\u00e3 em casa da Sra. condessa de Ribamar, &#8211; o ministro<br \/>\nde cal\u00e7as muito curtas, enterrado na poltrona, prometendo o seu despacho;<br \/>\na luz clara e calma do jardim entrevisto; o rapaz alto e louro que dizia yes&#8230;<br \/>\nCantava-lhe sempre no c\u00e9rebro aquela \u00e1ria triste do Rigoleto:<br \/>\ne perseguia-o a brancura dos bra\u00e7os de Teresa, sob a gaze negra! Instintivamente<br \/>\nvia-os enla\u00e7arem-se devagar, devagar, em torno do pesco\u00e7o airoso<br \/>\ndo rapaz louro: detestava-o ent\u00e3o, e a l\u00edngua b\u00e1rbara<br \/>\nque falava, e a terra her\u00e9tica de onde viera: e latejavam-lhe as fontes<br \/>\n\u00e0 id\u00e9ia de que um dia pode- ria confessar aquela mulher divina,<br \/>\ne sentir o seu vestido de seda preta ro\u00e7ar pela sua batina de lustrina<br \/>\nvelha, na escura intimidade do confession\u00e1rio.<\/p>\n<p>Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abra\u00e7os da tia, partiu para<br \/>\nSanta Apol\u00f4nia, com um galego que lhe levava o ba\u00fa. A madrugada<br \/>\nrompia. A cidade estava silenciosa, os candeeiros apagavam-se. \u00c0s vezes,<br \/>\numa carro\u00e7a passava rolando, abalando a cal\u00e7ada; as ruas pareciam-lhe<br \/>\nintermin\u00e1veis; saloios come\u00e7avam a chegar montados nos seus<br \/>\nburros, com as pernas balou\u00e7adas, cobertas de altas botas enlameadas;<br \/>\nnuma ou noutra rua uma voz aguda j\u00e1 apregoava os jornais; e os mo\u00e7os<br \/>\ndos teatros corriam com o pote da massa, pregando nas esquinas os cartazes.<\/p>\n<p>Quando chegou a Santa Apol\u00f4nia a claridade do sol alaranjava o ar por<br \/>\ndetr\u00e1s dos montes da Outra Banda; o rio estendia-se, im\u00f3vel,<br \/>\nriscado de correntes de cor de a\u00e7o sem lustre; e j\u00e1 alguma vela<br \/>\nde falua passava, vagarosa e branca.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>Cap\u00edtulo IV<\/h2>\n<p>Ao outro dia, na cidade, falava-se da chegada do p\u00e1roco novo, e todos<br \/>\nsabiam j\u00e1 que tinha trazido um ba\u00fa de lata, que era magro e<br \/>\nalto, e que chamava Padre-Mestre ao c\u00f4nego Dias.<\/p>\n<p>As amigas da S. Joaneira &#8211; as \u00edntimas &#8211; a D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o,<br \/>\nas Gansosos, tinham ido logo pela manh\u00e3 a casa dela para se porem ao<br \/>\nfato&#8230; Eram nove horas, Amaro sa\u00edra com o c\u00f4nego. A S. Joaneira,<br \/>\nradiosa, importante, recebeu-as no alto da escada, de mangas arrega\u00e7adas,<br \/>\nnos arranjos da manh\u00e3; e imediatamente, com anima\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncontou a chegada do p\u00e1roco, as suas boas maneiras, o que tinha dito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas venham voc\u00eas c\u00e1 abaixo, sempre quero que vejam.<\/p>\n<p>Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o ba\u00fa de lata, uma prateleira<br \/>\nque lhe arranjara para os livros.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 muito bem, est\u00e1 muito bem, diziam as velhas andando<br \/>\npelo quarto, devagar, com respeito, como numa igreja.<\/p>\n<p>&#8211; Rico capote! &#8211; observou D. Joaquina Gansoso, apalpando o pano das largas<br \/>\nbandas que pendiam ao comprido do cabide. &#8211; \u00c9 obra para um par de moedas!<\/p>\n<p>&#8211; E a boa roupa branca! disse a S. Joaneira, erguendo a tampa do ba\u00fa.<\/p>\n<p>O grupo das velhas curvou-se com admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; A mim o que me consola \u00e9 que ele seja um rapaz novo, disse D. Maria<br \/>\nda Assun\u00e7\u00e3o, piedosamente.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m a mim, disse com autoridade a D. Joaquina Gansoso.<\/p>\n<p>Estar a gente a confessar-se e a ver o pingo do rap\u00e9, como era com<br \/>\no Raposo, credo! at\u00e9 se perde a devo\u00e7\u00e3o! E o bruto do<br \/>\nJos\u00e9 Migu\u00e9is! N\u00e3o, l\u00e1 isso Deus me mate com gente<br \/>\nnova!<\/p>\n<p>A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas do p\u00e1roco, &#8211; um crucifixo<br \/>\nque estava ainda embrulhado num jornal velho, o \u00e1lbum de retratos,<br \/>\nonde o primeiro cart\u00e3o era uma fotografia do Papa aben\u00e7oando<br \/>\na cristandade. Todas se extasiaram.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o mais que se pode, diziam, \u00e9 o mais que se pode!<\/p>\n<p>Ao sair, beijando muito a S. Joaneira, felicitaram-na porque adquirira, hospedando<br \/>\no p\u00e1roco, uma autoridade quase eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas apare\u00e7am \u00e0 noite, disse ela do alto da escada.<\/p>\n<p>&#8211; Pudera!&#8230; gritou D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o, j\u00e1 \u00e0<br \/>\nporta da rua, tra\u00e7ando o seu mantelete. &#8211; Pudera!&#8230; Para o vermos<br \/>\n\u00e0 vontade!<\/p>\n<p>Ao meio-dia veio o Libaninho, o beato mais ativo de Leiria; e subindo a correr<br \/>\nos degraus, j\u00e1 gritava com a sua voz fina:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 S. Joaneira!<\/p>\n<p>&#8211; Sobe, Libaninho, sobe, disse ela, que costurava \u00e0 janela.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o senhor p\u00e1roco veio, hem? perguntou o Libaninho, mostrando<br \/>\n\u00e0 porta da sala de jantar o seu rosto gordinho cor de lim\u00e3o,<br \/>\na calva luzidia; e vindo para ela com o passinho mi\u00fado, um gingar de<br \/>\nquadris:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que tal, que tal? tem bom feitio?<\/p>\n<p>A S. Joaneira recome\u00e7ou a glorifica\u00e7\u00e3o de Amaro: a sua<br \/>\nmocidade, o seu ar piedoso, a brancura dos seus dentes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se de ternura devota.<br \/>\n-. Mas n\u00e3o se podia demorar, ia para a reparti\u00e7\u00e3o! -.<br \/>\nAdeus, filhinha, adeus! &#8211; E batia com a sua m\u00e3o papuda no ombro da<br \/>\nS. Joaneira. &#8211; Est\u00e1s cada vez mais gordinha! Olha que rezei ontem a<br \/>\nSalve-Rainha que tu me pediste, ingrata!<\/p>\n<p>A criada tinha entrado.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, Ru\u00e7a! Est\u00e1s magrinha: pega-te com a Senhora M\u00e3e<br \/>\ndos Homens. &#8211; E avistando Am\u00e9lia pela porta do quarto entreaberta:<br \/>\n&#8211; Ai, que est\u00e1s mesmo uma flor, Melinha! Quem se salvava na tua gra\u00e7a<br \/>\nbem eu sei!<\/p>\n<p>E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho agudo, desceu a escada rapidamente,<br \/>\nganindo:<\/p>\n<p>&#8211; Adeusinho, adeusinho, pequenas!<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Libaninho, vens \u00e0 noite?<\/p>\n<p>&#8211; Ai, n\u00e3o posso, filha, n\u00e3o posso. &#8211; E a sua vozinha era quase<br \/>\nchorosa. &#8211; Olha que amanh\u00e3 \u00e9 Santa B\u00e1rbara: tem seis<br \/>\nPadre-Nossos de direito!<\/p>\n<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n<p>Amaro fora visitar o chantre com o c\u00f4nego Dias, e tinha-lhe entregado<br \/>\numa carta de recomenda\u00e7\u00e3o do Sr. conde de Ribamar.<\/p>\n<p>&#8211; Conheci muito o Sr, conde de Ribamar, disse o chantre. Em quarenta e seis,<br \/>\nno Porto. Somos amigos velhos! Era eu cura de Santo Ildefonso: h\u00e1 que<br \/>\nanos isso vai!<\/p>\n<p>E, reclinando-se na velha poltrona de damasco, falou com satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu tempo; contou anedotas da Junta, apreciou os homens de ent\u00e3o,<br \/>\nimitou-lhes a voz (era uma especialidade de sua excel\u00eancia), os tiques,<br \/>\nas caturrices, &#8211; sobretudo Manuel Passos, que ele descrevia passeando na Pra\u00e7a<br \/>\nNova, com o comprido casaco pardo e o chap\u00e9u de grandes abas, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c2nimo patriotas! o Xavier ag\u00fcenta-se!<\/p>\n<p>Os senhores eclesi\u00e1sticos da c\u00e2mara riram com gozo. Houve uma<br \/>\ngrande cordialidade. Amaro saiu muito lisonjeado.<\/p>\n<p>Depois jantou em casa do c\u00f4nego Dias, e foram passear ambos pela estrada<br \/>\nde Marrazes. Uma luz doce e esbatida alargava-se por todo o campo; havia nos<br \/>\nouteiros, no azul do ar, um aspecto de repouso, de meiga tranq\u00fcilidade;<br \/>\nfumos esbranqui\u00e7ados sa\u00edam dos casais, e sentiam-se os chocalhos<br \/>\nmelanc\u00f3licos dos gados que recolhem. Amaro parou junto da Ponte, e<br \/>\ndisse, olhando em redor a paisagem suave:<\/p>\n<p>&#8211; Pois senhores, parece-me que me hei-de dar bem aqui!<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1-de-se dar regaladamente, afirmou o c\u00f4nego, sorvendo o seu<br \/>\nrap\u00e9.<\/p>\n<p>Eram oito horas quando recolheram a casa da S. Joaneira.<\/p>\n<p>As velhas amigas estavam j\u00e1 na sala de jantar. Ao p\u00e9 do candeeiro<br \/>\nde petr\u00f3leo, Am\u00e9lia costurava,<\/p>\n<p>A Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o vestira-se, como nos domingos,<br \/>\nde seda preta: o seu chin\u00f3, dum louro avermelhado, estava coberto com<br \/>\nas rendas de um enfeite negro; as m\u00e3os descarnadas, cal\u00e7adas<br \/>\nde mitenes, solenemente pousadas no rega\u00e7o, reluziam de an\u00e9is;<br \/>\ndo broche sobre o pesco\u00e7o at\u00e9 ao cinto, um grosso grilh\u00e3o<br \/>\nde ouro ca\u00eda com passadores lavrados. Conservava-se direita e cerimoniosa,<br \/>\ncom a cabe\u00e7a um pouco de lado, os \u00f3culos de ouro assentes sobre<br \/>\no nariz acavalado: tinha no queixo um grande sinal cabeludo; e quando se falava<br \/>\nde devo\u00e7\u00f5es ou de milagres dava um jeito ao pesco\u00e7o,<br \/>\ne abria um sorriso mudo que descobria os seus enormes dentes esverdeados,<br \/>\ncravados nas gengivas como cunhas. Era vi\u00fava e rica, e sofria dum catarro<br \/>\ncr\u00f4nico.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tem o senhor p\u00e1roco novo, D. Maria, disse-lhe a S. Joaneira.<\/p>\n<p>Ela ergueu-se, fez uma mesura com um movimento de quadris, comovida.<\/p>\n<p>&#8211; Estas s\u00e3o as senhoras Gansosos, h\u00e1-de ter ouvido&#8230; disse<br \/>\na S. Joaneira ao p\u00e1roco.<\/p>\n<p>Amaro cumprimentou timidamente. Eram duas irm\u00e3s. Passavam por ter<br \/>\nalgum dinheiro, mas costumavam receber h\u00f3spedes. A mais velha, a Sra.<br \/>\nD. Joaquina Gansoso, era uma pessoa seca, com uma testa enorme e larga, dois<br \/>\nolhinhos vivos, o nariz arrebitado, a boca muito espremida. Embrulhada no<br \/>\nseu xale, direita, com os bra\u00e7os cruzados, falava perpetuamente, numa<br \/>\nvoz dominante e aguda, cheia de opini\u00f5es. Dizia mal dos homens e dava-se<br \/>\ntoda \u00e0 Igreja.<\/p>\n<p>A irm\u00e3, a Sra. D. Ana, era extremamente surda. Nunca falava, e com<br \/>\nos dedos cruzados sobre o rega\u00e7o, os olhos baixos, fazia girar tranq\u00fcilamente<br \/>\nos dois polegares. Nutrida, com o seu perp\u00e9tuo vestido preto de riscas<br \/>\namarelas, um rolo de arminho ao pesco\u00e7o, dormitava toda a noite, e<br \/>\ns\u00f3 acentuava a sua presen\u00e7a de vez em quando por suspiros agudos;<br \/>\ndizia- se que tinha uma paix\u00e3o funesta pelo recebedor do correio. Todos<br \/>\na lastimavam, e admirava-se a sua habilidade em recortar pap\u00e9is para<br \/>\ncaixas de doce.<\/p>\n<p>Estava tamb\u00e9m a Sra. D. Josefa, a irm\u00e3 do c\u00f4nego Dias.<br \/>\nTinha a alcunha de castanha pilada. Era uma criaturinha mirrada, de linhas<br \/>\naduncas, pele engelhada e cor de cidra, voz sibilante; vivia num perp\u00e9tuo<br \/>\nestado de irrita\u00e7\u00e3o, os olhinhos sempre assanhados, contra\u00e7\u00f5es<br \/>\nnervosas de birra, toda saturada de fel. Era temida. O maligno doutor Godinho<br \/>\nchamava-lhe a esta\u00e7\u00e3o central das intrigas de Leiria.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o passeou muito, senhor p\u00e1roco? perguntou ela logo empertigando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Fomos quase at\u00e9 l\u00e1 ao fim da estrada de Marrazes, disse o<br \/>\nc\u00f4nego, sentando-se pesadamente por detr\u00e1s da S. Joaneira.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o achou bonito, senhor p\u00e1roco? acudiu a Sra. D. Joaquina<br \/>\nGansoso.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bonito.<\/p>\n<p>Falaram das lindas paisagens de Leiria, das boas vistas: a Sra. D. Josefa<br \/>\ngostava muito do passeio ao p\u00e9 do rio; at\u00e9 j\u00e1 ouvira<br \/>\ndizer que nem em Lisboa havia coisa assim. D. Joaquina Gansoso preferia a<br \/>\nigreja da Encarna\u00e7\u00e3o, no alto.<\/p>\n<p>&#8211; Desfruta-se muito, dali.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia disse sorrindo:<\/p>\n<p>&#8211; Eu por mim gosto daquele bocado ao p\u00e9 da Ponte, debaixo dos chor\u00f5es.<br \/>\n&#8211; E partindo com os dentes o fio da costura: &#8211; \u00c9 t\u00e3o triste!<\/p>\n<p>Amaro olhou para ela, ent\u00e3o, pela primeira vez. Tinha um vestido azul<br \/>\nmuito justo ao seio bonito; o pesco\u00e7o branco e cheio sa\u00eda dum<br \/>\ncolarinho voltado; entre os bei\u00e7os vermelhos e frescos o esmalte dos<br \/>\ndentes brilhava; e pareceu ao p\u00e1roco que um bu\u00e7ozinho lhe punha<br \/>\naos cantos da boca uma sombra sutil e doce.<\/p>\n<p>Houve um pequeno sil\u00eancio, &#8211; o c\u00f4nego Dias com o bei\u00e7o<br \/>\ndesca\u00eddo ia j\u00e1 cerrando as p\u00e1lpebras.<\/p>\n<p>&#8211; Que ser\u00e1 feito do Sr. padre Brito? perguntou D. Joaquina Gansoso.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 talvez com a enxaqueca, pobre de Cristo! lembrou piedosamente<br \/>\na Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um rapaz que estava junto do aparador disse ent\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Eu vi-o hoje a cavalo, ia para os lados da Barrosa.<\/p>\n<p>&#8211; Homem! disse logo, com azedume, a irm\u00e3 do c\u00f4nego, a Sra. D.<br \/>\nJosefa Dias, \u00e9 milagre ter o senhor reparado!<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea, minha senhora? disse ele erguendo-se e chegando-se ao grupo<br \/>\ndas velhas.<\/p>\n<p>Era alto, todo vestido de preto: sobre o rosto de pele branca, regular, um<br \/>\npouco fatigado, destacava bem um bigode pequeno muito negro, ca\u00eddo<br \/>\naos cantos, que ele costumava mordicar com os dentes.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda ele o pergunta! exclamou a Sra. D. Josefa Dias. O senhor, que nem<br \/>\nlhe tira o chap\u00e9u!<\/p>\n<p>&#8211; Eu?<\/p>\n<p>&#8211; Disse-mo ele, afirmou ela com uma voz cortante. E acrescentou:<\/p>\n<p>Ai, senhor p\u00e1roco, bem pode chamar o Sr. Jo\u00e3o Eduardo para<br \/>\no bom caminho. &#8211; E teve um risinho maligno.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu parece-me que n\u00e3o ando no mau caminho, disse ele rindo, com<br \/>\nas m\u00e3os nos bolsos. E a cada momento os seus olhos se voltavam para<br \/>\nAm\u00e9lia.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma gra\u00e7a! exclamou a Sra. D. Joaquina Gansoso. Olhe, com<br \/>\no que o senhor disse hoje l\u00e1 em casa, de tarde, da Santa da Arregassa,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1-de ganhar o C\u00e9u!<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! gritou a irm\u00e3 do c\u00f4nego, voltando-se bruscamente<br \/>\npara Jo\u00e3o Eduardo. Ent\u00e3o o que tem o senhor a dizer da Santa?<br \/>\nAcha talvez que \u00e9 uma impostora?<\/p>\n<p>&#8211; Credo, Jesus! disse a Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o, apertando<br \/>\nas m\u00e3os e fitando Jo\u00e3o Eduardo, com um terror piedoso. Pois<br \/>\nele havia de dizer isso? Cruzes!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, o Sr. Jo\u00e3o Eduardo, afirmou gravemente o c\u00f4nego,<br \/>\nque espertara, desdobrando o seu len\u00e7o vermelho &#8211; n\u00e3o era capaz<br \/>\nde dizer uma dessas.<\/p>\n<p>Amaro perguntou ent\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 a Santa da Arregassa?<\/p>\n<p>&#8211; Credo! Pois n\u00e3o tem ouvido falar, senhor p\u00e1roco? exclamou<br \/>\nnuma admira\u00e7\u00e3o a Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1-de ter ouvido, afirmava a Sra. D. Josefa Dias com autoridade.<br \/>\nDiz que os jornais de Lisboa v\u00eam cheios disso!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, com efeito, uma coisa bem extraordin\u00e1ria, ponderou com<br \/>\num tom profundo o c\u00f4nego.<\/p>\n<p>A S. Joaneira interrompeu a meia, e tirando a luneta:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, n\u00e3o imagina, senhor p\u00e1roco, \u00e9 o milagre dos milagres!<\/p>\n<p>&#8211; Se \u00e9! se \u00e9!, disseram.<\/p>\n<p>Houve um recolhimento devoto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ent\u00e3o?&#8230; perguntou Amaro, todo curioso.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, senhor p\u00e1roco, come\u00e7ou a Sra. D. Joaquina Gansoso endireitando-se<br \/>\nno xale, falando com solenidade: a Santa \u00e9 uma mulher que aqui h\u00e1<br \/>\nnuma freguesia perto, que est\u00e1 h\u00e1 vinte anos na cama&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vinte e cinco, advertiu-lhe baixo D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o, tocando-<br \/>\nlhe com o leque no bra\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Vinte e cinco? Pois olha, ao senhor chantre ouvi eu dizer vinte.<\/p>\n<p>&#8211; Vinte e cinco, vinte e cinco, afirmou a S. Joaneira. E o c\u00f4nego apoiou-a,<br \/>\noscilando gravemente a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 entrevadinha de todo, senhor p\u00e1roco! rompeu a irm\u00e3<br \/>\ndo c\u00f4nego, \u00e1vida de falar. Parece uma alminha de Deus! Os bracinhos<br \/>\ns\u00e3o isto! &#8211; E mostrava o dedo m\u00ednimo. &#8211; Para a gente a ouvir<br \/>\n\u00e9 necess\u00e1rio p\u00f4r-lhe a orelha ao p\u00e9 da boca!<\/p>\n<p>&#8211; Pois se ela se sustenta da gra\u00e7a de Deus! disse lamentosamente a<br \/>\nSra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o. Coitadinha! que at\u00e9 a gente<br \/>\nlembra-se&#8230;<\/p>\n<p>Houve entre as velhas um sil\u00eancio comovido. Jo\u00e3o Eduardo, que<br \/>\npor tr\u00e1s das velhas, de p\u00e9, com as m\u00e3os nos bolsos, sorria<br \/>\nmordicando o bigode, disse ent\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, senhor p\u00e1roco, a coisa \u00e9 o que os m\u00e9dicos dizem:<br \/>\n\u00e9 que aquilo \u00e9 uma doen\u00e7a nervosa.<\/p>\n<p>Aquela irrever\u00eancia fez, entre as velhas devotas, um esc\u00e2ndalo;<br \/>\na Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o persignou-se logo \u00e0 &#8220;cautela&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo amor de Deus! gritou a Sra. D. Josefa Dias, o senhor diga isso, diante<br \/>\nde quem quiser, menos de mim! \u00c9 uma afronta!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que at\u00e9 pode cair um raio, dizia para os lados, baixo,<br \/>\na Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o, muito aterrada.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, tamb\u00e9m lho digo, exclamou a Sra. D. Josefa Dias, o senhor<br \/>\n\u00e9 um homem sem religi\u00e3o e sem respeito pelas coisas santas.<br \/>\n&#8211; E voltando- se para o lado de Am\u00e9lia, muito azeda: &#8211; Olhe, filha<br \/>\nminha \u00e9 que eu lhe n\u00e3o dava!<\/p>\n<p>Am\u00e9lia corou; e Jo\u00e3o Eduardo, fazendo-se vermelho tamb\u00e9m,<br \/>\ncurvou-se sarcasticamente:<\/p>\n<p>&#8211; Eu digo o que dizem os m\u00e9dicos. E de resto, acredite que n\u00e3o<br \/>\ntenho pretens\u00f5es a casar com pessoa da sua fam\u00edlia! Nem mesmo<br \/>\nconsigo, Sra. D. Josefa!<\/p>\n<p>O c\u00f4nego deu uma risada muito pesada.<\/p>\n<p>&#8211; Arreda! Cruzes! gritou ela, furiosa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que faz ent\u00e3o a Santa? perguntou o padre Amaro, para pacificar.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo, senhor p\u00e1roco, disse a Sra. D. Joaquina Gansoso: est\u00e1<br \/>\nsempre de cama, sabe rezas para tudo; pessoa por quem ela pe\u00e7a tem<br \/>\na gra\u00e7a do Senhor; \u00e9 a gente apegar-se com ela e cura-se de<br \/>\ntoda a mol\u00e9stia. E depois, quando comunga, come\u00e7a a erguer-se,<br \/>\ne fica com o corpo todo no ar, com os olhos erguidos para o C\u00e9u, que<br \/>\nat\u00e9 chega a fazer terror.<\/p>\n<p>Mas neste momento uma voz disse \u00e0 porta da sala:<\/p>\n<p>&#8211; Ora viva a sociedade! Isto hoje est\u00e1 de truz!<\/p>\n<p>Era um rapaz extremamente alto, amarelo, com as faces cavadas, uma grenha<br \/>\nri\u00e7ada, um bigode a D. Quixote; quando ria tinha uma sombra na boca,<br \/>\nporque lhe faltavam quase todos os dentes de diante; e nos seus olhos encovados,<br \/>\nde grandes olheiras, errava um sentimentalismo piegas. Trazia uma guitarra<br \/>\nna m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o como vai isso hoje? perguntaram-lhe logo.<\/p>\n<p>&#8211; Mal, respondeu ele com voz triste, sentando-se. Sempre as dores no peito,<br \/>\na tossezita.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o se dava bem com o \u00f3leo de f\u00edgados<br \/>\nde bacalhau?<\/p>\n<p>&#8211; Qual! fez ele desconsoladamente.<\/p>\n<p>&#8211; Uma viagem \u00e0 Madeira, isso \u00e9 que era, isso \u00e9 que era!<br \/>\ndisse a Sra. D. Joaquina Gansoso com autoridade.<\/p>\n<p>Ele riu, com uma jovialidade s\u00fabita:<\/p>\n<p>&#8211; Uma viagem \u00e0 Madeira! N\u00e3o est\u00e1 m\u00e1! A D. Joaquina<br \/>\nGansoso tem-nas boas! Um pobre amanuense de administra\u00e7\u00e3o com<br \/>\ndezoito vint\u00e9ns por dia, mulher e quatro filhos! Para a Madeira!<\/p>\n<p>&#8211; E como vai ela, a Joanita?<\/p>\n<p>&#8211; Coitadita, l\u00e1 vai! Tem sa\u00fade, gra\u00e7as a Deus! Gorda,<br \/>\nsempre com bom apetite. Os pequenos, os dois mais velhos \u00e9 que est\u00e3o<br \/>\ndoentes; demais a mais agora a criada tamb\u00e9m caiu de cama! \u00c9<br \/>\no diacho! Paci\u00eancia! Paci\u00eancia! &#8211; E encolhia os ombros.<\/p>\n<p>Mas voltando-se para a S. Joaneira, dando-lhe uma palmada no joelho:<\/p>\n<p>&#8211; E como vai a nossa Madre Abadessa?<\/p>\n<p>Todos riram: e a Sra. D. Joaquina Gansoso informou o p\u00e1roco que aquele<br \/>\nrapaz, o Artur Couceiro, era muito engra\u00e7ado e tinha uma bela voz.<br \/>\nEra a melhor da cidade para modinhas.<\/p>\n<p>A Ru\u00e7a tinha ent\u00e3o entrado com o ch\u00e1; a S. Joaneira,<br \/>\nenchendo as ch\u00e1venas de alto, dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Cheguem-se, cheguem-se, filhas, que este \u00e9 do bom! \u00c9 da loja<br \/>\ndo Sousa&#8230;<\/p>\n<p>E Artur oferecia a\u00e7\u00facar com o seu antigo gracejo:<\/p>\n<p>&#8211; Se est\u00e1 azedinho \u00e9 carregar-lhe no sal!<\/p>\n<p>As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires, escolhiam cuidadosamente<br \/>\nas torradas; sentia-se o mastigar ruminado dos queixos; e por causa dos pingos<br \/>\nda manteiga e das n\u00f3doas do ch\u00e1, estendiam prudentemente os<br \/>\nlen\u00e7os sobre o rega\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Vai um docinho, senhor p\u00e1roco? disse Am\u00e9lia, apresentando-lhe<br \/>\no prato. S\u00e3o da Encarna\u00e7\u00e3o, muito fresquinhos.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado.<\/p>\n<p>&#8211; Aquele ali. \u00c9 toucinho do C\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! se \u00e9 do C\u00e9u.., disse ele todo risonho. E olhou para ela,<br \/>\ntomando o bolo com a ponta dos dedos.<\/p>\n<p>O Sr. Artur costumava cantar depois do ch\u00e1. Sobre o piano uma vela<br \/>\nalumiava o caderno de m\u00fasica; e Am\u00e9lia, logo que a Ru\u00e7a<br \/>\nlevou a bandeja, acomodou-se, correu os dedos sobre o teclado amarelo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o hoje que h\u00e1-de ser? perguntou Artur.<\/p>\n<p>Os pedidos cruzaram-se:<\/p>\n<p>&#8211; O guerrilheiro! O noivado do sepulcro.&#8217; O descrido.&#8217; o nunca mais!<\/p>\n<p>O c\u00f4nego Dias disse do seu canto pesadamente:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Couceiro, v\u00e1 l\u00e1 aquela do Tio Cosme, meu brejeiro!<\/p>\n<p>As mulheres reprovaram:<\/p>\n<p>&#8211; Credo! por quem \u00e9, senhor c\u00f4nego! Que lembran\u00e7a! E<br \/>\na Sra. D. Joaquina Gansoso resumiu:<\/p>\n<p>&#8211; Nada: uma coisa de sentimento para o senhor p\u00e1roco fazer id\u00e9ia.<\/p>\n<p>&#8211; Isso, isso! disseram; uma coisa de sentimento, \u00f3 Artur, uma coisa<br \/>\nde sentimento!<\/p>\n<p>Artur pigarreou, cuspilhou; e dando subitamente \u00e0 face uma express\u00e3o<br \/>\ndolorosa, ergueu a voz, cantou lugubremente:<\/p>\n<p>Adeus, meu anjo! Eu vou partir sem ti!<\/p>\n<p>Era uma can\u00e7\u00e3o dos tempos rom\u00e2nticos de 51, o Adeus!<br \/>\nDizia uma suprema despedida, num bosque, por uma tarde p\u00e1lida de Outono;<br \/>\ndepois, o homem solit\u00e1rio e precito, que inspirara um amor funesto,<br \/>\nia errar desgrenhado \u00e0 beira do mar; havia uma sepultura esquecida<br \/>\nnum vale distante, brancas virgens vinham chorar \u00e0 claridade do luar!<\/p>\n<p>&#8211; Muito bonito, muito bonito! murmuravam.<\/p>\n<p>Artur cantava enternecido, o olhar vago; mas nos intervalos, durante o acompanhamento,<br \/>\nsorria em redor &#8211; e na sua boca cheia de sombra viam-se os restos de dentes<br \/>\npodres. O padre Amaro, ao p\u00e9 da janela, fumando, contemplava Am\u00e9lia,<br \/>\nenlevado naquela melodia sentimental e m\u00f3rbida: o seu perfil fino,<br \/>\nde encontro \u00e0 luz, tinha uma linha luminosa; destacava harmoniosamente<br \/>\na curva do seu peito; e ele seguia as suas p\u00e1lpebras de grandes pestanas,<br \/>\nque do teclado para a m\u00fasica se erguiam e se abaixavam com um movimento<br \/>\ndoce. Jo\u00e3o Eduardo, junto dela, voltava- lhe as folhas da m\u00fasica.<\/p>\n<p>Mas Artur, com a m\u00e3o sobre o peito, a outra erguida no ar, num gesto<br \/>\ndesolado e veemente, soltou a \u00faltima estrofe:<\/p>\n<p>E um dia, enfim, deste viver fatal,<\/p>\n<p>Repousarei na escurid\u00e3o da campa!<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! bravo! exclamaram.<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego Dias comentou baixo ao p\u00e1roco:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! para coisas de sentimento n\u00e3o h\u00e1 outro. &#8211; E bocejando<br \/>\nenormemente: Pois, menino, tenho tido toda a noite as lulas a conversar c\u00e1<br \/>\npor dentro17.<\/p>\n<p>Mas chegara a hora do loto. Cada um escolhia os seus cart\u00f5es habituais;<br \/>\ne a Sra. D. Josefa Dias, com o seu olho de avara a luzir, chocalhava j\u00e1<br \/>\nvivamente o grosso saco dos n\u00fameros.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tem um lugar, senhor p\u00e1roco, disse Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>Era junto dela. Ele hesitou; mas tinham aberto espa\u00e7o, e veio sentar-<br \/>\nse um pouco corado, ajeitando timidamente a volta.<\/p>\n<p>Fez-se logo um grande sil\u00eancio; e, com a voz dormente, o c\u00f4nego<br \/>\ncome\u00e7ou a tirar os n\u00fameros. A Sra. D. Ana Gansoso dormitava<br \/>\nao seu canto, ressonando ligeiramente.<\/p>\n<p>Com o abajur as cabe\u00e7as estavam na penumbra; e a luz crua, caindo<br \/>\nsobre o xale escuro que cobria a mesa, fazia destacar os cart\u00f5es enegrecidos<br \/>\ndo uso, e as m\u00e3os secas das velhas, pousadas em atitudes aduncas, remexendo<br \/>\nas marcas de vidro. Sobre o piano aberto a vela derretia-se com uma chama<br \/>\nalta e direita.<\/p>\n<p>17 Na situa\u00e7\u00e3o narrativa que aqui se encerra, h\u00e1 uma<br \/>\ncritica ao sentimentalismo m\u00f3rbido e piegas do Romantismo (N.E.)<\/p>\n<p>O c\u00f4nego rosnava os n\u00fameros com as pilh\u00e9rias vener\u00e1veis<br \/>\nda tradi\u00e7\u00e3o: 1, cabe\u00e7a de porco! &#8211; 3, figura de entrem\u00eas!<\/p>\n<p>&#8211; Precisa-se o vinte e um, dizia uma voz.<\/p>\n<p>&#8211; Temei &#8211; murmurava outra com gozo.<\/p>\n<p>E a irm\u00e3 do c\u00f4nego, s\u00f4frega:<\/p>\n<p>&#8211; Chocalhe esses n\u00fameros, mano Pl\u00e1cido! V\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; E traga-me esse quarenta e sete ainda que seja de rastos, dizia o Artur<br \/>\nCouceiro, com a cabe\u00e7a entre os punhos.<\/p>\n<p>Enfim o c\u00f4nego quinou. E Am\u00e9lia olhando em redor pela sala:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o joga, Sr. Jo\u00e3o Eduardo? disse ela. Onde<br \/>\nest\u00e1?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Eduardo saiu da sombra da janela, por tr\u00e1s da cortina.<\/p>\n<p>&#8211; Tome l\u00e1 este cart\u00e3o, ande, jogue.<\/p>\n<p>&#8211; E receba as entradas, j\u00e1 que est\u00e1 de p\u00e9, disse a S.<br \/>\nJoaneira. Seja o senhor recebedor!<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Eduardo foi em roda com o pires de porcelana. No fim faltavam<br \/>\ndez r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; Eu j\u00e1 dei, eu j\u00e1 dei! exclamavam todos, excitados.<\/p>\n<p>Fora a irm\u00e3 do c\u00f4nego que n\u00e3o tocara no seu cobre acastelado.<br \/>\nJo\u00e3o Eduardo disse, curvando-se:<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que a Sra. D. Josefa n\u00e3o entrou.<\/p>\n<p>&#8211; Eu?! gritou ela, furiosa. Olha uma destas! At\u00e9 fui a primeira! Credo!<br \/>\nDuas moedas de cinco r\u00e9is, por sinal! Que tal est\u00e1 o homem!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! bem, disse ele ent\u00e3o, fui eu que me esqueci! C\u00e1 ponho.<br \/>\n&#8211; E rosnou: beata e ladra!<\/p>\n<p>E a irm\u00e3 do c\u00f4nego dizia no entanto baixo \u00e0 Sra. D. Maria<br \/>\nda Assun\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Queria ver se escapava, o melro! Falta de temor a Deus!<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 quem n\u00e3o est\u00e1 feliz \u00e9 o senhor p\u00e1roco,<br \/>\nobservaram.<\/p>\n<p>Amaro sorriu. Estava distra\u00eddo, e fatigado; \u00e0s vezes mesmo<br \/>\nesquecia- se de marcar, e Am\u00e9lia dizia-lhe, tocando-lhe no cotovelo:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que n\u00e3o marcou, senhor p\u00e1roco.<\/p>\n<p>Tinham j\u00e1 apostado dois ternos; ela ganhara; depois faltou a ambos<br \/>\npara quinarem o n\u00famero trinta e seis.<\/p>\n<p>Em roda repararam.<\/p>\n<p>&#8211; Ora vamos a ver se quinam ambos, disse a Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o,<br \/>\nenvolvendo-os no mesmo olhar baboso.<\/p>\n<p>Mas o trinta e seis n\u00e3o sa\u00eda; havia outras quadras nos cart\u00f5es<br \/>\nalheios; Am\u00e9lia receava que quinasse a Sra. D. Joaquina Gansoso, que<br \/>\nse mexia muito na cadeira, pedindo o quarenta e oito. Amaro ria, involuntariamente<br \/>\ninteressado.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego tirava os n\u00fameros com uma pachorra maliciosa.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1! v\u00e1! Ande com isso, senhor c\u00f4nego! diziam-lhe.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia, debru\u00e7ada, os olhos vivos, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Dava tudo para que sa\u00edsse o trinta e seis!<\/p>\n<p>&#8211; Sim? A\u00ed o tem&#8230; Trinta e seis! disse o c\u00f4nego.<\/p>\n<p>&#8211; Quinamos! gritou ela, triunfante; e, tomando o cart\u00e3o do p\u00e1roco<br \/>\ne o seu mostrava-os, para conferirem, orgulhosa, muito corada.<\/p>\n<p>&#8211; Ora Deus os aben\u00e7oe, disse o c\u00f4nego, jovial, entornando-lhes<br \/>\ndiante o pires cheio de moedas de dez r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; Parece milagre! considerou a Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o, piedosamente.<\/p>\n<p>Mas tinham dado onze horas; e depois da tumba final as velhas come\u00e7aram<br \/>\na agasalhar-se. Am\u00e9lia sentou-se ao piano, tocando ao de leve uma polca.<br \/>\nJo\u00e3o Eduardo aproximou-se dela, e baixando a voz:<\/p>\n<p>&#8211; Muitos parab\u00e9ns por ter quinado com o senhor p\u00e1roco. Que<br \/>\nentusiasmo! &#8211; E como ela ia responder: &#8211; Boa noite! disse ele secamente, embrulhando-se<br \/>\nno seu xale-manta com despeito.<\/p>\n<p>A Ru\u00e7a alumiava. As velhas, pela escada, empacotadas nos abafos, iam<br \/>\nganindo adeusinhos. O Sr. Artur harpejava a guitarra, cantarolando o Descrido.<\/p>\n<p>Amaro foi para o seu quarto, come\u00e7ou a rezar no Brevi\u00e1rio;<br \/>\nmas distraia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes podres de<br \/>\nArtur, sobretudo o perfil de Am\u00e9lia. Sentado \u00e0 beira da cama,<br \/>\ncom o Brevi\u00e1rio aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas<br \/>\nm\u00e3os pequenas com os dedos um pouco trigueiros picados da agulha, o<br \/>\nseu bu\u00e7ozinho gracioso&#8230;<\/p>\n<p>Sentia a cabe\u00e7a pesada do jantar do c\u00f4nego e da monotonia do<br \/>\nquino, com uma grande sede al\u00e9m disso das lulas e do vinhito do Porto.<br \/>\nQuis beber, mas n\u00e3o tinha \u00e1gua no quarto. Lembrou-se ent\u00e3o<br \/>\nque na sala de jantar havia uma bilha de Extremoz com \u00e1gua fresca,<br \/>\nmuito boa, da nascente do Morenal. Cal\u00e7ou as chinelas, tomou o casti\u00e7al,<br \/>\nsubiu devagarinho. Havia luz na sala, estava o reposteiro corrido; ergueu-o<br \/>\ne recuou com um ah! Vira num relance Am\u00e9lia, em saia branca a desfazer<br \/>\no atacador do colete; estava junto do candeeiro e as mangas curtas, o decote<br \/>\nda camisa deixavam ver os seus bra\u00e7os brancos, o seio delicioso. Ela<br \/>\ndeu um pequeno grito, correu para o quarto.<\/p>\n<p>Amaro ficou im\u00f3vel, com um suor \u00e0 raiz dos cabelos. Poderiam<br \/>\nsuspeitar uma ofensa! Palavras indignadas iam sair decerto atrav\u00e9s<br \/>\ndo reposteiro do quarto, que ainda se balou\u00e7ava agitado!<\/p>\n<p>Mas a voz de Am\u00e9lia, serena, perguntou de dentro:<\/p>\n<p>&#8211; Que queria, senhor p\u00e1roco?<\/p>\n<p>&#8211; Vinha buscar \u00e1gua, balbuciou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Aquela Ru\u00e7a! aquela desleixada! Desculpe, senhor p\u00e1roco,<br \/>\ndesculpe. Olhe a\u00ed ao p\u00e9 da mesa, a bilha. Achou?<\/p>\n<p>&#8211; Achei! achei!<\/p>\n<p>Desceu devagar com o copo cheio: a m\u00e3o tremia-lhe, a \u00e1gua escorria-<br \/>\nlhe pelos dedos.<\/p>\n<p>Deitou-se sem rezar. Alta noite Am\u00e9lia sentiu por baixo passos nervosos<br \/>\npisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos ombros e em chinelas, fumava,<br \/>\nexcitado, pelo quarto.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>Cap\u00edtulo V<\/h2>\n<p>Ela, em cima, n\u00e3o dormia tamb\u00e9m. Sobre a c\u00f4moda, dentro<br \/>\nde uma bacia, a lamparina extinguia-se, com um mau cheiro de morr\u00e3o<br \/>\nde azeite; brancuras de saias ca\u00eddas no ch\u00e3o destacavam; e os<br \/>\nolhos do gato, que n\u00e3o sossegava, reluziam pela escurid\u00e3o do<br \/>\nquarto com uma claridade fosf\u00f3rica e verde.<\/p>\n<p>Na casa vizinha, uma crian\u00e7a chorava sem cessar. Am\u00e9lia sentia<br \/>\na m\u00e3e embalar-lhe o ber\u00e7o, cantar-lhe baixo:<\/p>\n<p>Dorme, dorme, meu menino,<\/p>\n<p>Que a tua m\u00e3e foi \u00e0 fonte!<\/p>\n<p>Era a pobre Catarina engomadeira, que o tenente Sousa deixara com um filho<br \/>\nno ber\u00e7o, e gr\u00e1vida de outro &#8211; para ir casar a Extremoz! T\u00e3o<br \/>\nbonita era, t\u00e3o loura &#8211; e mirrada agora, t\u00e3o chupada!<\/p>\n<p>Dorme, dorme, meu menino,<\/p>\n<p>Que a tua m\u00e3e foi \u00e0 fonte!<\/p>\n<p>Como ela conhecia aquela cantiga! Quando tinha sete anos sua m\u00e3e<br \/>\ndizia-a, nas longas noites de Inverno, ao irm\u00e3ozinho que morrera18!<\/p>\n<p>Lembrava-se bem! moravam ent\u00e3o noutra casa, ao p\u00e9 da estrada<br \/>\nde Lisboa; \u00e0 janela do seu quarto havia um limoeiro e a m\u00e3e<br \/>\npunha, na sua ramagem luzidia, os cueiros do Jo\u00e3ozinho, a secarem ao<br \/>\nsol. N\u00e3o conhecera o pap\u00e1. Fora militar, morrera novo; e a m\u00e3e<br \/>\nainda suspirava ao falar da sua bela figura com o uniforme de cavalaria. Aos<br \/>\noito anos ela foi para a mestra. Como se lembrava! A mestra era uma velhita<br \/>\nroli\u00e7a e branca, que fora tacho das freiras de Santa Joana de Aveiro;<br \/>\ncom os seus \u00f3culos redondos, junto \u00e0 janela, empurrando a agulha,<br \/>\nmorria-se por contar hist\u00f3rias do convento: as perrices da escriv\u00e3,<br \/>\nsempre a escabichar os dentes furados; a madre rodeira, pregui\u00e7osa<br \/>\ne pacata, com uma pron\u00fancia minhota; a mestra de cantoch\u00e3o,<br \/>\nadmiradora de Bocage e que se dizia descendente dos T\u00e1voras; e a legenda<br \/>\nde uma freira que morrera de amor, e cuja alma ainda em certas noites percorria<br \/>\nos corredores, soltando gemidos dolorosos e clamando: &#8211; Augusto! Augusto!<\/p>\n<p>Am\u00e9lia ouvia aquelas hist\u00f3rias, encantada. Gostava ent\u00e3o<br \/>\ntanto de festas de igreja e da conviv\u00eancia dos santos, que desejava<br \/>\nser uma &#8220;freirinha, muito bonita, com um veuzinho muito branco&#8221;.<\/p>\n<p>18 Inicia-se nesta passagem e vai at\u00e9 quase o final deste capitulo<br \/>\num novo flash back, desta vez para fundamentar o car\u00e1ter da educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nrecebida por Am\u00e9lia e circunst\u00e2ncias anteriores ao aparecimento<br \/>\nde Amaro (N. E.)<\/p>\n<p>A mam\u00e3 era muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa, um homem<br \/>\nvelho e robusto, que soprava de asma ao subir a escada e tinha uma voz fanhosa,<br \/>\nvinha todos os dias, como amigo da casa. Am\u00e9lia chamava-lhe padrinho.<br \/>\nQuando ela voltava da mestra, \u00e0 tarde, encontrava-o sempre a palestrar<br \/>\ncom a m\u00e3e, na sala, de batina desabotoada, deixando ver o longo colete<br \/>\nde veludo preto com raminhos bordados a amarelo. O senhor chantre perguntava-lhe<br \/>\npelas li\u00e7\u00f5es e fazia-a dizer a tabuada.<\/p>\n<p>\u00c0 noite havia reuni\u00f5es: vinha o padre Valente; o c\u00f4nego<br \/>\nCruz; e um velhito calvo, de perfil de p\u00e1ssaro, com \u00f3culos azuis,<br \/>\nque fora frade franciscano e a quem chamavam frei Andr\u00e9. Vinham as<br \/>\namigas da m\u00e3e, com as suas meias; e um capit\u00e3o Couceiro, de<br \/>\nca\u00e7adores, que tinha os dedos negros do cigarro e trazia sempre a sua<br \/>\nviola. Mas \u00e0s nove horas mandavam-na deitar; pela frincha do quarto<br \/>\nela via a luz, ouvia as vozes; depois fazia-se um sil\u00eancio, e o capit\u00e3o,<br \/>\nrepenicando a guitarra, cantava o lundum da Figueira.<\/p>\n<p>Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns eram-lhe antip\u00e1ticos:<br \/>\nsobretudo o padre Valente, t\u00e3o gordo, t\u00e3o suado, com umas m\u00e3os<br \/>\npapudas e moles, de unhas pequenas! Gostava de a ter entre os joelhos, torcer-lhe<br \/>\ndevagarinho a orelha, e ela sentia o seu h\u00e1lito impregnado de cebola<br \/>\ne de cigarro. O seu amiguinho era o c\u00f4nego Cruz, magro, com o cabelo<br \/>\ntodo branco, a volta sempre asseada, as fivelas luzidias; entrava devagarinho,<br \/>\ncumprimentando com a m\u00e3o sobre o peito, e uma voz suave cheia de ss.<br \/>\nJ\u00e1 ent\u00e3o sabia o catecismo e a doutrina: na mestra, em casa,<br \/>\npor qualquer &#8220;bagatela&#8221;, falavam-lhe sempre dos castigos do C\u00e9u;<br \/>\nde tal sorte que Deus aparecia-lhe como um ser que s\u00f3 sabe dar o sofrimento<br \/>\ne a morte, e que \u00e9 necess\u00e1rio abrandar, rezando e jejuando,<br \/>\nouvindo novenas, animando os padres. Por isso, se \u00e0s vezes ao deitar<br \/>\nlhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penit\u00eancia no outro dia, porque<br \/>\ntemia que Deus lhe mandasse sez\u00f5es ou a fizesse cair na escada.<\/p>\n<p>Mas o seu melhor tempo foi quando come\u00e7ou a tomar li\u00e7\u00f5es<br \/>\nde m\u00fasica. A m\u00e3e tinha na sala de jantar, ao canto, um velho<br \/>\npiano, coberto com um pano verde, t\u00e3o desafinado, que servia de aparador.<br \/>\nAm\u00e9lia costumava cantarolar pela casa; e a sua voz fina e fresca agradava<br \/>\nao senhor chantre, e as amigas da m\u00e3e diziam-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Tu tens a\u00ed um piano, por que n\u00e3o mandas ensinar a rapariga?<br \/>\nSempre \u00e9 uma prenda! olha que lhe pode servir de muito!<\/p>\n<p>O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista da S\u00e9 de \u00c9vora,<br \/>\nextremamente infeliz: a filha \u00fanica, muito linda, fugira-lhe com um<br \/>\nalferes para Lisboa; e, passados dois anos, o Silvestre da Pra\u00e7a, que<br \/>\nia muito \u00e0 capital, vira-a descer a Rua do Norte, de garibaldi escarlate<br \/>\ne alvaiade num olho, com um marinheiro ingl\u00eas. O velho ca\u00edra<br \/>\nem grande melancolia e grande mis\u00e9ria; e por piedade tinham-lhe dado<br \/>\num emprego no cart\u00f3rio da c\u00e2mara eclesi\u00e1stica. Era uma<br \/>\nfigura triste de romance picaresco. Muito magro, alto como um pinheiro, deixava<br \/>\ncrescer at\u00e9 os ombros os seus cabelos brancos e finos; os olhos, cansados,<br \/>\nlagrimejavam-lhe sempre; mas o seu sorriso resignado e bom enternecia: e parecia<br \/>\nmuito transido, no seu capote cor de vinho que s\u00f3 lhe chegava \u00e0<br \/>\ncintura e que tinha uma gola de astrac\u00e3. Chamavam-lhe o Tio Cegonha,<br \/>\npela sua alta magreza e o seu ar solit\u00e1rio. Am\u00e9lia um dia tinha-lhe<br \/>\nchamado Tio Cegonha; mas mordeu logo o bei\u00e7o, toda envergonhada.<\/p>\n<p>O velho p\u00f4s-se a sorrir:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, chame, minha rica menina, chame! Tio Cegonha?&#8230; ora, que tem? Cegonha<br \/>\nsou eu, e bem cegonha!<\/p>\n<p>Era ent\u00e3o no Inverno. As grandes chuvas com os sudoestes n\u00e3o<br \/>\ncessavam; a \u00e1spera esta\u00e7\u00e3o oprimia os pobres. Viam-se<br \/>\nnaquele ano fam\u00edlias esfomeadas indo \u00e0 c\u00e2mara pedir p\u00e3o.<br \/>\nO Tio Cegonha vinha sempre ao meio-dia dar a li\u00e7\u00e3o; o seu guarda-chuva<br \/>\nazul deixava um ribeiro na escada; tiritava; e quando se sentava escondia,<br \/>\nna sua vergonha de velho, as botas encharcadas com a sola aberta. Queixava-se<br \/>\nsobretudo do frio das m\u00e3os, que o impedia de ferir com justeza o teclado,<br \/>\ne n\u00e3o o deixava escrever no cart\u00f3rio. &#8216;<\/p>\n<p>&#8211; Prendem-se-me os dedos, dizia tristemente.<\/p>\n<p>Mas quando a S. Joaneira lhe pagou o primeiro m\u00eas das li\u00e7\u00f5es,<br \/>\no velho apareceu muito contente, com urnas grossas luvas de l\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, Tio Cegonha, como vem quentinho! disse-lhe Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora ando a juntar para umas meias<br \/>\nde l\u00e3. Deus a aben\u00e7oe, minha menina, Deus a aben\u00e7oe!<\/p>\n<p>E tinham-se-lhe arrasado os olhos de l\u00e1grimas. Am\u00e9lia tomara-se<br \/>\na &#8220;sua rica amiguinha&#8221;. J\u00e1 lhe fazia confid\u00eancias:<br \/>\ncontava-lhe as suas necessidades, as saudades da filha, as suas gl\u00f3rias<br \/>\nna S\u00e9 de \u00c9vora, quando diante do senhor arcebispo, vistoso na<br \/>\nsua sobrepeliz escarlate, acompanhava o Lausperene.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia n\u00e3o se esqueceu das meias de l\u00e3 do Tio Cegonha.<br \/>\nPediu ao chantre que lhe desse umas meias de l\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! para qu\u00ea? para ti? disse ele com o seu riso grosso.<\/p>\n<p>&#8211; Para mim, sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe falar, senhor chantre! disse a S. Joaneira. Olha a id\u00e9ia!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o deixe falar, n\u00e3o! d\u00ea, sim?!<\/p>\n<p>Lan\u00e7ou-lhe os bra\u00e7os ao pesco\u00e7o; fez-lhe olhinhos doces.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperan\u00e7as! h\u00e1-de<br \/>\nser o diabo!&#8230; Pois sim, a\u00ed tens. &#8211; E deu-lhe dois pintos para umas<br \/>\nmeias de l\u00e3.<\/p>\n<p>No dia seguinte tinha-os ela embrulhados num papel, que dizia por fora em<br \/>\nletras garrafais: Ao meu rico amigo Tio Cegonha, a sua disc\u00edpula.<\/p>\n<p>Uma manh\u00e3, depois, viu-o mais amarelo, mais chupado:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Tio Cegonha, disse de repente, quanto lhe d\u00e3o l\u00e1<br \/>\nno cart\u00f3rio?<\/p>\n<p>O velho sorriu-se:<\/p>\n<p>&#8211; Ora, minha rica menina, quanto me h\u00e3o-de dar? uma bagatela.<\/p>\n<p>Quatro vint\u00e9ns por dia. Mas o Sr. Neto faz-me algum bem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E chegam-lhe quatro vint\u00e9ns?<\/p>\n<p>&#8211; Ora! como h\u00e3o-de chegar?<\/p>\n<p>Sentiram-se os passos da m\u00e3e; e Am\u00e9lia, retomando gravemente<br \/>\na atitude de li\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou a solfejar alto, com um ar<br \/>\nprofundo.<\/p>\n<p>E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, que levou a m\u00e3e a dar<br \/>\nde almo\u00e7ar e de jantar ao Tio Cegonha nos dias de li\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAssim se estabeleceu entre ela e o velho uma grande intimidade. E o pobre<br \/>\nTio Cegonha, saindo do seu frio isolamento, acolhia-se \u00e0quela amizade<br \/>\ninesperada, como a um conchego t\u00e9pido. Encontrava nela o elemento feminino<br \/>\nque amam os velhos, com as car\u00edcias, as suavidades de voz, as delicadezas<br \/>\nde enfermeira; achava nela a \u00fanica admiradora da sua m\u00fasica;<br \/>\ne via-a sempre atenta \u00e0s hist\u00f3rias do seu tempo, \u00e0s recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\nda velha S\u00e9 de \u00c9vora que ele amava tanto, e que lhe fazia dizer,<br \/>\nquando se falava de prociss\u00f5es, ou de festas de igreja:<\/p>\n<p>&#8211; Para isso \u00c9vora! em \u00c9vora \u00e9 que \u00e9!<\/p>\n<p>Am\u00e9lia aplicava-se muito ao piano: era a coisa boa e delicada da sua<br \/>\nvida; j\u00e1 tocava contradan\u00e7as e antigas \u00e1rias de velhos<br \/>\ncompositores; a Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o estranhava que o mestre<br \/>\nlhe n\u00e3o ensinasse o Trovador.<\/p>\n<p>&#8211; Coisa mais linda! dizia.<\/p>\n<p>Mas o Tio Cegonha s\u00f3 conhecia a m\u00fasica cl\u00e1ssica, \u00e1rias<br \/>\ning\u00eanuas e doces de Lully, motivos de minuetes, motetes floridos e piedosos<br \/>\ndos doces tempos freir\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Uma manh\u00e3 o Tio Cegonha encontrou Am\u00e9lia muito amarela e triste.<br \/>\nDesde a v\u00e9spera queixava-se de &#8220;mal-estar&#8221;. Era um dia nublado,<br \/>\nmuito frio. O velho queria ir-se embora.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, Tio Cegonha, disse ela, toque alguma coisa para<br \/>\neu me entreter.<\/p>\n<p>Ele tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma melodia simples, mas extremamente<br \/>\nmelanc\u00f3lica.<\/p>\n<p>&#8211; Que lindo! que lindo! dizia Am\u00e9lia, de p\u00e9 junto ao piano.<\/p>\n<p>E quando o velho deu as \u00faltimas notas:<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9? perguntou ela.<\/p>\n<p>O Tio Cegonha contou-lhe que era o come\u00e7o de uma Medita\u00e7\u00e3o<br \/>\nfeita por um frade seu amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Coitado, disse, teve bem o seu tormento!<\/p>\n<p>Am\u00e9lia quis logo saber a hist\u00f3ria; e sentando-se no mocho do<br \/>\npiano, embrulhando-se no seu xale:<\/p>\n<p>&#8211; Diga, Tio Cegonha, diga!<\/p>\n<p>Era um homem que tivera em novo uma grande paix\u00e3o por uma freira;<br \/>\nela morrera no convento daquele amor infeliz; e ele, de dor e de saudade,<br \/>\nfizera-se frade franciscano&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Parece que o estou a ver&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Era bonito?<\/p>\n<p>&#8211; Se era! Um rapaz na flor da vida, rico&#8230; Um dia veio ter comigo ao \u00f3rg\u00e3o:<br \/>\n&#8220;Olha o que eu fiz&#8221;, disse-me ele. Era um papel de m\u00fasica.<br \/>\nAbria em r\u00e9 menor. P\u00f4s-se a tocar, a tocar&#8230; Ai, minha rica<br \/>\nmenina, que m\u00fasica! Mas n\u00e3o me lembra o resto!<\/p>\n<p>E o velho, comovido, repetiu no piano as notas plangentes da Medita\u00e7\u00e3o<br \/>\nem r\u00e9 menor.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia todo o dia pensou naquela hist\u00f3ria. De noite veio-lhe<br \/>\numa grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do frade franciscano,<br \/>\nna sombra do \u00f3rg\u00e3o da S\u00e9 de \u00c9vora. Via os seus<br \/>\nolhos profundos reluzirem numa face encovada: e, longe, a freira p\u00e1lida,<br \/>\nnos seus h\u00e1bitos brancos, encostada \u00e1s grades negras do mosteiro,<br \/>\nsacudida pelos prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades<br \/>\nfranciscanos caminhava para o coro: ele ia no fim de todos, curvado, com o<br \/>\ncapuz sobre o rosto, arrastando as sand\u00e1lias, enquanto um grande sino,<br \/>\nno ar nublado, tocava o dobre dos finados. Ent\u00e3o o sonho mudava: era<br \/>\num vasto c\u00e9u negro, onde duas almas enla\u00e7adas e amantes, com<br \/>\nh\u00e1bitos de convento e um ru\u00eddo inef\u00e1vel de beijos insaci\u00e1veis,<br \/>\ngiravam, levadas por um vento m\u00edstico; mas desvaneciam-se como n\u00e9voas,<br \/>\ne na vasta escurid\u00e3o ela via aparecer um grande cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nem carne viva, todo traspassado de espadas, e as gotas de sangue que ca\u00edam<br \/>\ndele enchiam o c\u00e9u duma chuva escarlate19.<\/p>\n<p>Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouveia tranq\u00fcilizou a S. Joaneira<br \/>\ncom uma simples palavra:<\/p>\n<p>&#8211; Nada de sustos, minha rica senhora, s\u00e3o os quinze anos da rapariga.<br \/>\nH\u00e3o-de-lhe vir amanh\u00e3 as vertigens e os enj\u00f4os&#8230; Depois<br \/>\nacabou-se. Temo-la mulher.<\/p>\n<p>A S. Joaneira compreendeu.<\/p>\n<p>&#8211; Esta rapariga tem o sangue vivo e h\u00e1-de ter as paix\u00f5es fortes!<br \/>\nacrescentou o velho pr\u00e1tico, sorrindo e sorvendo a sua pitada.<\/p>\n<p>Por esse tempo o senhor chantre, uma manh\u00e3, depois do seu almo\u00e7o<br \/>\nde a\u00e7orda, caiu de repente morto com uma apoplexia. Que consterna\u00e7\u00e3o<br \/>\ninesperada, para a S. Joaneira! Durante dois dias, esguedelhada, em saias<br \/>\nbrancas chorou, gemeu pelos quartos. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o, as<br \/>\nsenhoras Gansosos vieram acalmar, amansar a sua dor: e a Sra. D. Josefa Dias<br \/>\nresumiu as consola\u00e7\u00f5es de todos, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Deixa, filha, que te n\u00e3o h\u00e1-de faltar quem te ampare!<\/p>\n<p>Era ent\u00e3o no come\u00e7o de Setembro; a Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque tinha uma casa na praia da Vieira, prop\u00f4s levar a S. Joaneira e<br \/>\nAm\u00e9lia para a esta\u00e7\u00e3o dos banhos, para ela espalhar,<br \/>\nnos bons ares saud\u00e1veis, em lugar diferente, aquela dor.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma esmola que me fazes, dissera a S. Joaneira. Sempre me lembra<br \/>\nque era ali que ele punha o guarda-chuva&#8230; Ali que ele se sentava a ver-me<br \/>\ncosturar!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, est\u00e1 bom, deixa-te disso. Come e bebe, toma os<br \/>\nteus banhos, e o que l\u00e1 vai l\u00e1 vai. Olha que ele tinha bem os<br \/>\nseus sessenta.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, minha rica! a gente \u00e9 pela amizade que lhes ganha.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia tinha ent\u00e3o quinze anos, mas era j\u00e1 alta e de<br \/>\nbonitas formas. Foi uma alegria para ela a esta\u00e7\u00e3o na Vieira!<br \/>\nNunca vira o mar; e n\u00e3o se fartava de estar sentada na areia, fascinada<br \/>\npela vasta \u00e1gua azul, muito mansa, cheia de sol; \u00e0s vezes no<br \/>\nhorizonte passava um fumo delgado de paquete; a mon\u00f3tona e gemente<br \/>\ncad\u00eancia da vaga adormentava-a; e em redor o areal faiscava, a perder<br \/>\nde vista, sob o c\u00e9u azul-ferrete.<\/p>\n<p>Como se lembrava bem! Logo pela manh\u00e3 estava a p\u00e9! Era a hora<br \/>\ndo banho: as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras,<br \/>\nsentadas em cadeirinhas de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar, palrando;<br \/>\nos homens, de sapatos brancos estendidos em esteiras, chupavam o cigarro,<br \/>\nriscavam emblemas na areia; enquanto o poeta Carlos Alcoforado, muito fatal,<br \/>\nmuito olhado, passeava s\u00f3, soturno, junto da vaga, seguido do seu Terra-Nova.<br \/>\nEla sa\u00eda ent\u00e3o da barraca com o seu vestido de flanela azul,<br \/>\na toalha no bra\u00e7o, tiritando de susto e de frio: tinha- se persignado<br \/>\n\u00e0s escondidas e toda tr\u00eamula, agarrada \u00e0 m\u00e3o do<br \/>\nbanheiro, escorregando na areia, entrava na \u00e1gua, rompendo a custo<br \/>\na maresia esverdeada que fervia em redor. A onda vinha espumando, ela mergulhava,<br \/>\ne ficava aos saltos, sufocada e nervosa, cuspindo a \u00e1gua salgada. Mas,<br \/>\nquando sa\u00eda do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a toalha pela<br \/>\ncabe\u00e7a, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso do vestido<br \/>\nencharcado, risonha, cheia de rea\u00e7\u00e3o; e em redor vozes amigas<br \/>\nperguntavam:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que tal, que tal? Mais fresquinha, hem?<\/p>\n<p>Depois, de tarde, eram os passeios \u00e0 beira-mar, a apanhar conchinhas;<br \/>\no recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos milheiros, luzidia<br \/>\nsobre a areia molhada; e que longas perspectivas de ocasos ricamente dourados,<br \/>\nsobre a vastid\u00e3o do mar triste, que escurece e geme!<\/p>\n<p>D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o tinha sido visitada, logo ao chegar, por<br \/>\num rapaz, filho do Sr. Brito de Alcoba\u00e7a, seu parente. Chamava-se Agostinho,<br \/>\nia freq\u00fcentar o quinto ano de direito na Universidade. Era um mo\u00e7o<br \/>\ndelgado, de bigode castanho, p\u00eara, cabelo comprido deitado para tr\u00e1s,<br \/>\ne luneta: recitava versos, sabia tocar guitarra, contava anedotas de caloiros,<br \/>\nfazia partidas, e era famoso na Vieira, entre os homens, &#8220;por saber conversar<br \/>\ncom senhoras&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; O Agostinho, patife! diziam. \u00c9 chala\u00e7a a esta, chala\u00e7a<br \/>\n\u00e0quela. L\u00e1 para sociedade n\u00e3o h\u00e1 outro!<\/p>\n<p>19 Veja a associa\u00e7\u00e3o entre o sensualismo e o misticismo da<br \/>\npersonagem, que lhe trazem imagens on\u00edricas dilacerantes. (N. E )<\/p>\n<p>Logo desde os primeiros dias Am\u00e9lia reparou que os olhos do Sr. Agostinho<br \/>\nBrito se fitavam constantemente nela, &#8220;p&#8217;ra namoro&#8221;. Am\u00e9lia<br \/>\ncorava muito, sentia o seio alargar-se-lhe dentro do vestido; e admirava-o,<br \/>\nachava-o muito &#8220;dengueiro&#8221;.<\/p>\n<p>Um dia em casa da Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o pediram a Agostinho<br \/>\npara recitar.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, minhas senhoras, isto aqui n\u00e3o \u00e9 forja de ferreiro! exclamou<br \/>\nele, jovial.<\/p>\n<p>&#8211; Ora v\u00e1! n\u00e3o se fa\u00e7a rogado, disseram, insistindo.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem, por isso n\u00e3o nos havemos de zangar.<\/p>\n<p>&#8211; A Judia, Brito, lembrou o recebedor de Alcoba\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Qual Judia! disse ele, h\u00e1-de ser mas h\u00e1-de ser a Morena!<br \/>\n&#8211; E olhou para Am\u00e9lia. &#8211; Foi uma poesia que fiz ontem.<\/p>\n<p>&#8211; Valeu, valeu!<\/p>\n<p>&#8211; E c\u00e1 o rapaz acompanha, disse um sargento do 6 de Ca\u00e7adores,<br \/>\ntomando logo a guitarra.<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio: o Sr. Agostinho deitou o cabelo para tr\u00e1s,<br \/>\nfincou a luneta, apoiou as duas m\u00e3os \u00e0s costas duma cadeira,<br \/>\ne fitando Am\u00e9lia:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 Morena de Leiria! disse.<\/p>\n<p>Nasceste nos verdes campos<\/p>\n<p>Onde Leiria \u00e9 famosa,<\/p>\n<p>Tens a frescura da rosa, .<\/p>\n<p>E o teu nome sabe a mel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, exclamou o recebedor, a Sra. D. Juliana n\u00e3o est\u00e1<br \/>\nboa. Era a filha do escriv\u00e3o de direito de Alcoba\u00e7a; tinha-se<br \/>\nfeito muito p\u00e1lida, e, lentamente, desmaiava na cadeira, com os bra\u00e7os<br \/>\npendentes, o queixo sobre o peito. Borrifaram-na de \u00e1gua, levaram-na<br \/>\npara o quarto de Am\u00e9lia; quando lhe desapertaram o vestido e lhe deram<br \/>\nvinagre a respirar, ergueu- se sobre o cotovelo, olhou em redor, come\u00e7aram<br \/>\na tremer-lhe os bei\u00e7os e rompeu a chorar. Fora, os homens em grupo<br \/>\ncomentavam:<\/p>\n<p>&#8211; Foi o calor, diziam.<\/p>\n<p>&#8211; O calor que ela tinha sei eu, rosnou o sargento de ca\u00e7adores. O<br \/>\nSr. Agostinho torcia o bigode, contrariado. Algumas senhoras foram a casa<br \/>\nacompanhar a Sra. D. Juliana. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o e a S. Joaneira,<br \/>\natabafadas nos seus xales, iam tamb\u00e9m. Havia vento, um criado levava<br \/>\num lampi\u00e3o, e todos caminhavam na areia, calados.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo isto \u00e9 teu proveito, disse a Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o<br \/>\nbaixo \u00e0 S. Joaneira, demorando-se um pouco atr\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211; Meu!?<\/p>\n<p>&#8211; Teu. Pois tu n\u00e3o percebeste? A Juliana, em Alcoba\u00e7a, era<br \/>\nnamoro do Agostinho. Mas o rapaz aqui anda pelo bei\u00e7o pela Am\u00e9lia.<br \/>\nA Juliana percebeu, viu-o recitar aqueles versos, olhar para ela, z\u00e1s!<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa!&#8230; disse a S. Joaneira.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa l\u00e1, o Agostinho tem um par de mil cruzados que lhe deixam<br \/>\nas tias. \u00c9 um partid\u00e3o!<\/p>\n<p>Ao outro dia, \u00e0 hora do banho, a S. Joaneira vestia-se na sua barraca,<br \/>\ne Am\u00e9lia, sentada na areia, esperava, pasmada para o mar.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1! sozinha? disse uma voz por detr\u00e1s.<\/p>\n<p>Era Agostinho. Am\u00e9lia, calada, come\u00e7ou a riscar a areia com<br \/>\na sombrinha. O Sr. Agostinho suspirou, alisou outro peda\u00e7o de areia<br \/>\ncom o p\u00e9, escreveu &#8211; AM\u00c9LIA. Ela, muito vermelha, quis apagar<br \/>\ncom a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o! disse ele. E debru\u00e7ando-se, baixo: &#8211; \u00c9 o nome<br \/>\nda Morena, bem v\u00ea. O seu nome sabe a mel!&#8230;<\/p>\n<p>Ela sorriu:<\/p>\n<p>&#8211; Ande, que fez ontem desmaiar aquela pobre Juliana &#8211; disse.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! importa-me a mim bem com ela! Estou farto daquele estafermo! Ent\u00e3o<br \/>\nque quer? Eu c\u00e1 sou assim. Tanto digo que me n\u00e3o importo com<br \/>\nela, como digo que h\u00e1 uma pessoa por quem dava tudo&#8230; Eu sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9? \u00c9 a Sra. D. Bernarda?<\/p>\n<p>Era uma velha hedionda, vi\u00fava de um coronel.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, disse ele rindo. \u00c9 justamente por quem eu ando apaixonado<br \/>\n\u00e9 pela D. Bernarda.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! o senhor anda apaixonado! disse ela devagar, com os olhos baixos, riscando<br \/>\na areia.<\/p>\n<p>&#8211; Diga-me uma coisa, est\u00e1 a mangar comigo? exclamou Agostinho puxando<br \/>\npor uma cadeirinha, sentando-se junto dela.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia p\u00f4s-se de p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quer que eu me sente ao p\u00e9 de si? perguntou ele ofendido.<\/p>\n<p>&#8211; Eu \u00e9 que estava cansada de estar sentada.<\/p>\n<p>Calaram-se um momento.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 tomou banho? disse ela.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Estava frio hoje?<\/p>\n<p>&#8211; Estava.<\/p>\n<p>As palavras de Agostinho eram agora muito secas.<\/p>\n<p>&#8211; Zangou-se? disse ela docemente, pondo-lhe de leve a m\u00e3o no ombro.<br \/>\nAgostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto trigueiro, todo risonho,<br \/>\n&#8211; exclamou com veem\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Estou mesmo doido por si!<\/p>\n<p>&#8211; Chut!&#8230; disse ela.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Am\u00e9lia, levantando o pano da barraca, sa\u00eda,<br \/>\nmuito abafada, de len\u00e7o amarrado na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Mais fresquinha, hem? perguntou logo Agostinho, tirando o chap\u00e9u<br \/>\nde palha.<\/p>\n<p>&#8211; Estava por aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Vim dar uma vista de olhos. E agora toca ao almocinho, hem?<\/p>\n<p>&#8211; Se \u00e9 servido&#8230; disse a S. Joaneira.<\/p>\n<p>Agostinho, muito galante, ofereceu o bra\u00e7o \u00e0 mam\u00e3.<\/p>\n<p>E desde ent\u00e3o seguia sempre Am\u00e9lia, de manh\u00e3 no banho,<br \/>\nde tarde \u00e0 beira-mar; apanhava-lhe conchas; e tinha-lhe feito outros<br \/>\nversos &#8211; o Sonho. Uma estrofe era violenta:<\/p>\n<p>Senti-te contra o meu peito<\/p>\n<p>Tremer, palpitar, ceder&#8230;<\/p>\n<p>Ela murmurava-os com grande como\u00e7\u00e3o, de noite, suspirando,<br \/>\nabra\u00e7ando o travesseiro.<\/p>\n<p>Outubro findava, as f\u00e9rias tinham acabado. Uma noite o alegre rancho<br \/>\nda Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o e das amigas fora dar um passeio<br \/>\nao luar. \u00c0 volta, por\u00e9m, erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram<br \/>\no c\u00e9u, ca\u00edram gotas de \u00e1gua. Estavam ent\u00e3o junto<br \/>\na um pequeno pinheiral, e as senhoras, aos gritinhos, quiseram abrigar-se.<br \/>\nAgostinho, com Am\u00e9lia pelo bra\u00e7o, rindo alto, foi penetrando<br \/>\nlonge dos outros na espessura; e ent\u00e3o, sob o mon\u00f3tono e gemente<br \/>\nrumor das ramas, disse-lhe baixo, cerrando os dentes:<\/p>\n<p>&#8211; Estou doido por ti, filha!<\/p>\n<p>&#8211; Creio l\u00e1 nisso! murmurou ela.<\/p>\n<p>Mas Agostinho, tomando subitamente um tom grave:<\/p>\n<p>&#8211; Sabes? talvez eu tenha de me ir amanh\u00e3 embora.<\/p>\n<p>&#8211; Vai-se?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez; n\u00e3o sei ainda. Al\u00e9m de amanh\u00e3 \u00e9 a matr\u00edcula.<\/p>\n<p>&#8211; Vai-se&#8230; suspirou Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>Ele ent\u00e3o tomou-lhe a m\u00e3o, apertou-lha com furor:<\/p>\n<p>&#8211; Escreve-me! disse.<\/p>\n<p>&#8211; E a mim, escreve-me? disse ela.<\/p>\n<p>Agostinho agarrou-a pelos ombros e machucou-lhe a boca de beijos vorazes.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-me! deixe-me! dizia ela sufocada.<\/p>\n<p>De repente teve um gemido doce como um arrulho de ave, e abandonava-se &#8211;<br \/>\nquando a voz aguda de D. Joaquina Gansoso gritou:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 uma aberta. \u00c9 andar! \u00e9 andar!<\/p>\n<p>E Am\u00e9lia, desprendendo-se, atarantada, correu a agachar-se sob o guarda-chuva<br \/>\nda mam\u00e3.<\/p>\n<p>Ao outro dia, com efeito, o Sr. Agostinho partiu. Vieram as primeiras chuvas,<br \/>\ne dentro em pouco tamb\u00e9m Am\u00e9lia, a m\u00e3e, a Sra. D. Maria<br \/>\nda Assun\u00e7\u00e3o voltaram para Leiria.<\/p>\n<p>Passou o Inverno.<\/p>\n<p>E um dia, em casa da S. Joaneira, D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o deu<br \/>\nparte que o Agostinho Brito, segundo lhe escreviam de Alcoba\u00e7a, tinha<br \/>\no casamento justo com a menina do Vimeiro.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1spite! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha nada menos que os<br \/>\nseus trinta contos! Olha o meco!<\/p>\n<p>E diante de todos Am\u00e9lia rompeu a chorar.<\/p>\n<p>Amava Agostinho; e n\u00e3o podia esquecer aqueles beijos de noite no<br \/>\npinheiral cerrado. Pareceu-lhe ent\u00e3o que n\u00e3o tornaria a ter<br \/>\nalegria! Ainda lembrada daquele mo\u00e7o da hist\u00f3ria do Tio Cegonha,<br \/>\nque por amor se escondera na solid\u00e3o de um convento, come\u00e7ou<br \/>\na pensar em ser freira: deu-se a uma forte devo\u00e7\u00e3o, manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nexagerada das tend\u00eancias que desde pequenina as conviv\u00eancias de<br \/>\npadres tinham lentamente criado na sua natureza sens\u00edvel; lia todo<br \/>\no dia livros de rezas; encheu as paredes do quarto de litografias coloridas<br \/>\nde santos; passava longas horas na igreja, acumulando Salve-Rainhas \u00e0<br \/>\nSenhora da Encarna\u00e7\u00e3o. Ouvia todos os dias missa, quis comungar<br \/>\ntodas as semanas &#8211; e as amigas da m\u00e3e achavam-na &#8220;um modelo, de<br \/>\ndar virtude a incr\u00e9dulos&#8221; !<\/p>\n<p>Foi por esse tempo que o c\u00f4nego Dias e sua irm\u00e3, a Sra. D. Josefa<br \/>\nDias, come\u00e7aram a freq\u00fcentar a casa da S. Joaneira. Dentro em<br \/>\npouco o c\u00f4nego tornou-se o &#8220;amigo da fam\u00edlia&#8221;. Depois<br \/>\ndo almo\u00e7o era certo com a sua cadelinha, como outrora o chantre com<br \/>\no seu guarda-chuva.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, dizia a S. Joaneira. Mas o senhor<br \/>\nchantre n\u00e3o h\u00e1 dia nenhum que me n\u00e3o lembre dele!<\/p>\n<p>A irm\u00e3 do c\u00f4nego tinha ent\u00e3o organizado com a S. Joaneira<br \/>\na Associa\u00e7\u00e3o das Servas da Senhora da Piedade. A Sra. D. Maria<br \/>\nda Assun\u00e7\u00e3o, as Gansosos &#8220;filiaram-se&#8221;; e a casa da<br \/>\nS. Joaneira tornou-se um centro eclesi\u00e1stico. Foi esse o momento melhor<br \/>\nda vida da S. Joaneira; &#8220;a S\u00e9, como dizia com t\u00e9dio o Carlos<br \/>\nda botica, era agora na Rua da Miseric\u00f3rdia&#8221;. Parte dos c\u00f4negos,<br \/>\no novo chantre, vinham todas as sextas-feiras. Havia imagens de santos na<br \/>\nsala de jantar e na cozinha. As criadas, por escr\u00fapulo, eram examinadas<br \/>\nem doutrina antes de serem aceitas. Ali muito tempo fizeram-se as reputa\u00e7\u00f5es:<br \/>\nse se dizia de um homem: n\u00e3o \u00e9 temente a Deus, havia o dever<br \/>\nde o desacreditar santamente. As nomea\u00e7\u00f5es de sineiros, coveiros,<br \/>\nserventes de sacristia arranjavam-se ali por intrigas sutis e palavras piedosas.<br \/>\nTinham tomado um certo vestu\u00e1rio entre o preto e o roxo; toda a casa<br \/>\ncheirava a cera e a incenso; e a S. Joaneira, mesmo, monopolizara o com\u00e9rcio<br \/>\ndas h\u00f3stias.<\/p>\n<p>Assim passaram anos. Pouco a pouco, por\u00e9m, o grupo devoto dispersou-se:<br \/>\na liga\u00e7\u00e3o do c\u00f4nego Dias e da S. Joaneira, muito comentada,<br \/>\nafastou os padres do cabido; o novo chantre morrera de apoplexia tamb\u00e9m<br \/>\n&#8211; como era de tradi\u00e7\u00e3o naquela diocese, fatal aos chantres;<br \/>\ne j\u00e1 n\u00e3o eram divertidos os quinos das sextas-feiras. Am\u00e9lia<br \/>\nmudara muito; crescera: fizera-se uma bela mo\u00e7a de vinte e dois anos,<br \/>\nde olhar aveludado, bei\u00e7os muito frescos &#8211; e achava a sua paix\u00e3o<br \/>\npelo Agostinho uma &#8220;tontice de crian\u00e7a&#8221;. A sua devo\u00e7\u00e3o<br \/>\nsubsistia, mas alterada: o que amava agora na religi\u00e3o e na igreja<br \/>\nera o aparato, a festa &#8211; as belas missas cantadas ao \u00f3rg\u00e3o,<br \/>\nas capas recamadas de ouro, reluzindo entre os tocheiros, o altar-mor na gl\u00f3ria<br \/>\ndas flores cheirosas, o ro\u00e7ar das correntes dos incensadores de prata,<br \/>\nos un\u00edssonos que rompem briosamente no coro das aleluias. Tomava a<br \/>\nS\u00e9 como a sua \u00d3pera: Deus era o seu luxo. Nos domingos de missa<br \/>\ngostava de se vestir, de se perfumar com \u00e1gua-de-col\u00f4nia, de<br \/>\nse ir aninhar sobre o tapete do altar-mor, sorrindo ao padre Brito ou ao c\u00f4nego<br \/>\nSaldanha. Mas em certos dias, como dizia a m\u00e3e, &#8220;murchava&#8221;;<br \/>\nvoltavam ent\u00e3o os abatimentos de outrora, que a amarelavam, lhe punham<br \/>\nduas rugas velhas ao canto dos l\u00e1bios: tinha nessas ocasi\u00f5es<br \/>\nhoras duma vaga saudade parva e m\u00f3rbida, em que s\u00f2 a consolava<br \/>\ncantar pela casa o Sant\u00edssimo ou as notas l\u00fagubres do toque<br \/>\nda Agonia. Com a alegria voltava-lhe o rosto do culto alegre &#8211; e lamentava<br \/>\nent\u00e3o que a S\u00e9 fosse uma ampla estrutura de pedra dum estilo<br \/>\nfrio e jesu\u00edtico: quereria uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada,<br \/>\nforrada de papel, iluminada a g\u00e1s; e padres bonitos oficiando a um<br \/>\naltar ornado como uma \u00e9tag\u00e8re.<\/p>\n<p>Fizera vinte e tr\u00eas anos quando conheceu Jo\u00e3o Eduardo no dia<br \/>\nda prociss\u00e3o de Corpus-Christi, em casa do tabeli\u00e3o Nunes Ferral,<br \/>\nonde ele era escrevente. Am\u00e9lia, a m\u00e3e, a Sra. D. Josefa Dias<br \/>\ntinham ido ver a prociss\u00e3o da bela varanda do tabeli\u00e3o, guarnecida<br \/>\nde colchas de damasco amarelo. Jo\u00e3o Eduardo estava l\u00e1, modesto,<br \/>\ns\u00e9rio, todo vestido de preto. Havia muito que Am\u00e9lia o conhecia;<br \/>\nmas naquela tarde, reparando na brancura da sua pele e na gravidade com que<br \/>\najoelhava, pareceu-lhe &#8220;muito bom rapaz&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, depois do ch\u00e1, o gordalhufo Nunes, de colete branco,<br \/>\nfoi pela sala exclamando, entusiasmado, com a sua voz de grilo: &#8211; \u00c9<br \/>\ntirar pares, \u00e9 tirar pares! &#8211; enquanto a filha mais velha ao piano<br \/>\ntocava com brio estridente uma mazurca francesa. Jo\u00e3o Eduardo aproximou-se<br \/>\nde Am\u00e9lia:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, eu n\u00e3o dan\u00e7o! &#8211; disse ela logo com ar seco.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Eduardo n\u00e3o dan\u00e7ou tamb\u00e9m; foi encostar-se<br \/>\na uma ombreira com a m\u00e3o na abertura do colete, os olhos fitos em Am\u00e9lia.<br \/>\nEla percebia, desviava o rosto, mas estava contente; e quando Jo\u00e3o<br \/>\nEduardo, vendo uma cadeira vazia, veio sentar-se ao p\u00e9 dela, Am\u00e9lia<br \/>\nfez-lhe logo lugar acomodando os folhos de seda, agradada. O escrevente, embara\u00e7ado,<br \/>\ntorcia o bigode com a m\u00e3o tr\u00eamula. Por fim Am\u00e9lia voltando-se<br \/>\npara ele:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o senhor n\u00e3o dan\u00e7a tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211; E a Sra. D. Am\u00e9lia? disse ele baixo.<\/p>\n<p>Ela inclinou-se para tr\u00e1s, e batendo nas pregas do vestido:<\/p>\n<p>&#8211; Ai! eu estou velha para estes divertimentos, sou uma pessoa s\u00e9ria.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca se ri? perguntou ele, pondo na voz uma inten\u00e7\u00e3o fina.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0s vezes rio quando h\u00e1 de qu\u00ea, disse ela olhando-o<br \/>\nde lado.<\/p>\n<p>&#8211; De mim, por exemplo.<\/p>\n<p>&#8211; De si!? Ora essa! Est\u00e1 a ca\u00e7oar comigo? Por que me hei-de<br \/>\neu rir do senhor? Boa!&#8230; ent\u00e3o o senhor que tem que fa\u00e7a rir?<br \/>\n&#8211; e agitava o seu leque de seda preta.<\/p>\n<p>Ele calou-se, procurando as id\u00e9ias, as delicadezas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o s\u00e9rio, s\u00e9rio, n\u00e3o dan\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 lhe disse que n\u00e3o. Ai, que \u00e9 t\u00e3o perguntador!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 porque me interesso por si.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, deixe l\u00e1! disse ela fazendo um indolente gesto de negativa.<\/p>\n<p>&#8211; Palavra!<\/p>\n<p>Mas a Sra. D. Josefa Dias, que os vigiava, aproximou-se, de testa muito franzida,<br \/>\ne Jo\u00e3o Eduardo levantou-se, intimidado.<\/p>\n<p>\u00c0 sa\u00edda, quando Am\u00e9lia no corredor punha os seus agasalhos,<br \/>\nJo\u00e3o Eduardo veio dizer-lhe, de chap\u00e9u na m\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Cubra-se bem, n\u00e3o apanhe frio!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o continua a interessar-se por mim? &#8211; disse ela apertando em<br \/>\nredor do pesco\u00e7o as pontas da sua manta de l\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; O mais poss\u00edvel, creia.<\/p>\n<p>Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia ambulante de zarzuela20.<br \/>\nFalava-se muito da contralto, a Gamacho. A Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o<br \/>\ntinha um camarote, levou a S. Joaneira e Am\u00e9lia &#8211; que duas noites antes<br \/>\nestivera costurando, com uma pressa comovida, um vestido de cassa todo florido<br \/>\nde la\u00e7os de seda azul. Jo\u00e3o Eduardo na plat\u00e9ia &#8211; enquanto<br \/>\na Gamacho, empastada de p\u00f3-de-arroz sob a sua mantilha valenciana,<br \/>\nvibrando com uma gra\u00e7a decr\u00e9pita o leque de lantejoulas, garganteava<br \/>\nmalaguenhas agudas &#8211; n\u00e3o se fartou de contemplar, de desejar Am\u00e9lia.<br \/>\n\u00c0 sa\u00edda veio cumpriment\u00e1-la, oferecer-lhe o bra\u00e7o<br \/>\nat\u00e9 a Rua da Miseric\u00f3rdia; a S. Joaneira, a Sra. D. Maria da<br \/>\nAssun\u00e7\u00e3o seguiam atr\u00e1s com o tabeli\u00e3o Nunes.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o gostou da Gamacho, Sr. Jo\u00e3o Eduardo?<\/p>\n<p>&#8211; A falar-lhe a verdade nem sequer reparei nela.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que fez?<\/p>\n<p>&#8211; Olhei para si, respondeu ele resolutamente.<\/p>\n<p>Ela parou imediatamente, disse com a voz um pouco alterada:<\/p>\n<p>&#8211; Onde vem a mam\u00e3?<\/p>\n<p>&#8211; Deixe l\u00e1 a mam\u00e3!<\/p>\n<p>E Jo\u00e3o Eduardo, ent\u00e3o, falando-lhe junto do rosto, disse-lhe<br \/>\n&#8220;a sua grande paix\u00e3o&#8221;. Tomou-lhe a m\u00e3o, repetia todo<br \/>\nperturbado:<\/p>\n<p>&#8211; Gosto tanto de si! Gosto tanto de si!<\/p>\n<p>Am\u00e9lia estava nervosa da m\u00fasica, do teatro; a noite quente<br \/>\nde Ver\u00e3o, com a sua vasta cintila\u00e7\u00e3o de estrelas tomava-a<br \/>\ntoda l\u00e2nguida. Abandonou a m\u00e3o, suspirou baixinho.<\/p>\n<p>&#8211; Gosta de mim, n\u00e3o \u00e9 verdade? perguntou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, respondeu ela, e apertou os dedos de Jo\u00e3o Eduardo com paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, como ela pensou, &#8220;fora decerto um fogacho&#8221; &#8211; porque, dias<br \/>\ndepois, quando conheceu mais Jo\u00e3o Eduardo, quando p\u00f4de falar<br \/>\nlivremente com ele, reconheceu que &#8221;n\u00e3o tinha nenhuma inclina\u00e7\u00e3o<br \/>\npelo rapaz&#8221;. Estimava-o, achava-o simp\u00e1tico, bom mo\u00e7o; poderia<br \/>\nser um bom marido; mas sentia dentro em si o cora\u00e7\u00e3o adormecido.<\/p>\n<p>O escrevente por\u00e9m come\u00e7ou a ir \u00e0 Rua da Miseric\u00f3rdia<br \/>\nquase todas as noites. A S. Joaneira estimava-o pelo seu &#8220;prop\u00f3sito&#8221;<br \/>\ne pela sua honradez. Mas Am\u00e9lia ia-se mostrando &#8220;fria&#8221;: esperava-o<br \/>\n\u00e0 janela pela manh\u00e3 quando ele passava para o cart\u00f3rio,<br \/>\nfazia-lhe olhos doces \u00e0 noite, &#8211; mas s\u00f3 para o n\u00e3o descontentar,<br \/>\npara ter na sua exist\u00eancia desocupada um interessezinho amoroso.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Eduardo um dia falou \u00e0 m\u00e3e em casamento:<\/p>\n<p>&#8211; Como a Am\u00e9lia quiser, eu por mim&#8230; disse a S. Joaneira.<\/p>\n<p>E Am\u00e9lia, consultada, respondeu ambiguamente:<\/p>\n<p>&#8211; Mais tarde, por ora n\u00e3o me parece, veremos.<\/p>\n<p>20 Zarzuela. Composi\u00e7\u00e3o espanhola, onde se canta e declama,<br \/>\nde forma alternada (N.E.)<\/p>\n<p>Enfim acordou-se tacitamente em esperar, at\u00e9 que ele obtivesse o lugar<br \/>\nde amanuense do governo civil, rasgadamente prometido pelo doutor Godinho<br \/>\n&#8211; o temido doutor Godinho!<\/p>\n<p>Assim vivera Am\u00e9lia at\u00e9 a chegada de Amaro: e, durante a noite,<br \/>\nestas recorda\u00e7\u00f5es vinham-lhe por fragmentos, como peda\u00e7os<br \/>\nde nuvens que o vento vai trazendo e desmanchando. Adormeceu tarde, acordou<br \/>\nj\u00e1 o sol ia alto: e espregui\u00e7ava-se, quando ouviu dizer a Ru\u00e7a<br \/>\nna sala de jantar:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o senhor p\u00e1roco que vai sair com o senhor c\u00f4nego;<br \/>\nv\u00e3o \u00e0 S\u00e9.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia saltou da cama, correu \u00e0 janela em camisa, ergueu uma<br \/>\npontinha da cortina de cassa, olhou. A manh\u00e3 resplandecia: e o padre<br \/>\nAmaro pelo meio da rua conversando com o c\u00f4nego, assoava-se ao seu len\u00e7o<br \/>\nbranco, muito airoso na sua batina de pano fino.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>Cap\u00edtulo VI<\/h2>\n<p>Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente em comodidades, Amaro<br \/>\nsentiu-se feliz. A S. Joaneira, muito maternal, tomava um grande cuidado na<br \/>\nsua roupa branca, preparava-lhe petiscos, e o &#8220;quarto do senhor p\u00e1roco<br \/>\nandava que nem um brinco&#8221;! Am\u00e9lia tinha com ele uma familiaridade<br \/>\npicante de parenta bonita: &#8220;tinham calhado um com o outro&#8221;, como<br \/>\ndissera, encantada, D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o. Os dias iam assim<br \/>\npassando para Amaro, f\u00e1ceis, com boa mesa, colch\u00f5es macios e<br \/>\na conviv\u00eancia meiga de mulheres. A esta\u00e7\u00e3o ia t\u00e3o<br \/>\nlinda que at\u00e9 as t\u00edlias floresceram no jardim do Pa\u00e7o:<br \/>\n&#8220;quase milagre!&#8221;, disse-se: o senhor chantre, contemplando-as todas<br \/>\nas manh\u00e3s da janela do seu quarto, em robe-de-chambre, citava versos<br \/>\ndas \u00c9clogas. E depois das longas tristezas da casa do tio da Estrela,<br \/>\ndos desconsolos do semin\u00e1rio e do \u00e1spero Inverno na Gralheira<br \/>\n&#8211; aquela vida em Leiria era para Amaro como uma casa seca e abrigada onde<br \/>\no alegre lume estala e a sopa cheirosa fumega, depois duma noite de jornada<br \/>\nna serra, sob trov\u00f5es e chuveiros.<\/p>\n<p>Ia cedo dizer a missa \u00e0 S\u00e9, bem embrulhado no seu grande capote,<br \/>\ncom luvas de casimira, meias de l\u00e3s por baixo das botas de alto cano<br \/>\nvermelho. As manh\u00e3s estavam frias: e \u00e0quela hora s\u00f3 algumas<br \/>\ndevotas, com o mant\u00e9u escuro pela cabe\u00e7a, rezavam aqui e al\u00e9m,<br \/>\nao p\u00e9 dum altar envernizado de branco.<\/p>\n<p>Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa batendo os p\u00e9s no<br \/>\nlajedo, enquanto o sacrist\u00e3o, pachorrento, contava &#8220;as novidades<br \/>\ndo dia&#8221;.<\/p>\n<p>Depois, com o c\u00e1lice na m\u00e3o, de olhos baixos, passava \u00e0<br \/>\nigreja; e tendo dobrado o joelho rapidamente diante do Sant\u00edssimo Sacramento,<br \/>\nsubia devagar ao altar onde duas velas de cera esmoreciam com uma claridade<br \/>\np\u00e1lida na larga luz da manh\u00e3, juntava as m\u00e3os, murmurava,<br \/>\ncurvado:<\/p>\n<p>&#8211; Introibo ad altare Dei.<\/p>\n<p>&#8211; Ad Deum qui laetificat juventutem meam, resmungava, num latim silabado,<br \/>\no sacrist\u00e3o.<\/p>\n<p>Amaro j\u00e1 n\u00e3o celebrava a missa como nos primeiros tempos, com<br \/>\numa devo\u00e7\u00e3o enternecida. &#8220;Estava agora habituado&#8221;,<br \/>\ndizia. E como n\u00e3o ceava, e \u00e0quela hora em jejum, com a frescura<br \/>\ncortante do ar, j\u00e1 sentia apetite, engrolava depressa, monotonamente,<br \/>\nas santas leituras da Ep\u00edstola e dos Evangelhos. Por tr\u00e1s o<br \/>\nsacrist\u00e3o, com os bra\u00e7os cruzados, passava vagarosamente a m\u00e3o<br \/>\npela sua espessa barba bem rapada, olhando de rev\u00e9s para a Casimira<br \/>\nFran\u00e7a, mulher do carpinteiro da S\u00e9, muito devota, que ele &#8220;trazia<br \/>\nde olho&#8221; desde a P\u00e1scoa. Largas r\u00e9stias de sol caiam das<br \/>\njanelas laterais. Um vago aroma de junquilhos secos adocicava o ar.<\/p>\n<p>Amaro, depois de recitar rapidamente o ofert\u00f3rio, limpava o c\u00e1lice<br \/>\ncom o purificador; o sacrist\u00e3o, um pouco vergado dos rins, ia buscar<br \/>\nas galhetas, apresentava-as, curvado &#8211; e Amaro sentia o cheiro do \u00f3leo<br \/>\nran\u00e7oso que lhe reluzia no cabelo. Naquela parte da missa, por um antigo<br \/>\nh\u00e1bito de emo\u00e7\u00e3o m\u00edstica, Amaro tinha um recolhimento<br \/>\nsentido: com os bra\u00e7os abertos, voltava-se para a igreja, clamava,<br \/>\ncom largueza, a exorta\u00e7\u00e3o universal \u00e1 ora\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; Orate, fratres! E as velhas encostadas aos pilares de pedra, com o aspecto<br \/>\nidiota, a boca babosa, apertavam mais as m\u00e3os contra o peito, de onde<br \/>\npendiam grandes ros\u00e1rios negros. Ent\u00e3o o sacrist\u00e3o ia<br \/>\najoelhar-se por tr\u00e1s dele, sustentando ligeiramente com uma das m\u00e3os<br \/>\na capa, erguendo na outra a sineta. Amaro consagrava o vinho, levantava a<br \/>\nh\u00f3stia &#8211; Hoc est enim corpus meum! &#8211; elevando alto os bra\u00e7os<br \/>\npara o Cristo cheio de chagas roxas sobre a sua cruz de pau preto; a campainha<br \/>\ntocava devagar; as m\u00e3os batiam concavamente nos peitos; e no sil\u00eancio<br \/>\nsentiam-se os carros de bois rolando, com solavancos, sobre o largo lajeado<br \/>\nda S\u00e9, \u00e0 volta do mercado.<\/p>\n<p>&#8211; Ite, missa est! dizia Amaro enfim.<\/p>\n<p>&#8211; Deo gratias! respondia o sacrist\u00e3o respirando alto, com o al\u00edvio<br \/>\nda obriga\u00e7\u00e3o finda.<\/p>\n<p>E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro vinha do alto dos degraus<br \/>\ndar a b\u00ean\u00e7\u00e3o, era j\u00e1 pensando na alegria do almo\u00e7o,<br \/>\nna clara sala de jantar da S. Joaneira e nas boas torradas. \u00c0quela<br \/>\nhora j\u00e1<\/p>\n<p>Am\u00e9lia o esperava com o cabelo ca\u00eddo sobre o penteador, tendo<br \/>\nna pele fresca um bom cheiro de sab\u00e3o de am\u00eandoas.<\/p>\n<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n<p>Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia \u00e0 sala de jantar, onde<br \/>\na S. Joaneira e Am\u00e9lia costuravam. &#8220;Estava aborrecido embaixo,<br \/>\nvinha um bocado para o cavaco&#8221;, dizia. A S. Joaneira, numa cadeira pequena,<br \/>\nao p\u00e9 da janela, com o gato aninhado na roda do vestido de merino,<br \/>\ncosia de luneta na ponta do nariz. Am\u00e9lia, junto da mesa, trabalhava<br \/>\ncom o cesto da costura ao lado; a cabe\u00e7a inclinada sobre o trabalho<br \/>\nmostrava a sua risca fina, n\u00edtida, um pouco afogada na abund\u00e2ncia<br \/>\ndo cabelo; os seus grandes brincos de ouro, em forma de pingos de cera, oscilavam,<br \/>\nfaziam tremer e crescer sobre a finura do pesco\u00e7o uma pequenina sombra;<br \/>\nas olheiras leves cor de bistre esbatiam-se delicadamente sobre a pele de<br \/>\num trigueiro mimoso, que um sangue forte aviventava; e o seu peito cheio respirava<br \/>\ndevagar. \u00c0s vezes, cravando a agulha na fazenda, espregui\u00e7ava-se<br \/>\ndevagarinho, sorria, cansada. Ent\u00e3o Amare gracejava:<\/p>\n<p>&#8211; Ah pregui\u00e7osa, pregui\u00e7osa! Olha que mulher de casa!<\/p>\n<p>Ela ria; conversavam. A S. Joaneira sabia as coisas interessantes do dia:<br \/>\no major despedira a criada; ou havia quem oferecesse dez moedas pelo porco<br \/>\ndo Carlos do correio. De vez em quando a Ru\u00e7a vinha ao arm\u00e1rio<br \/>\nbuscar um prato ou uma colher; ent\u00e3o falava-se do pre\u00e7o dos<br \/>\ng\u00eaneros, do que havia para o jantar. A S. Joaneira tirava as lunetas,<br \/>\ntra\u00e7ava a perna, e balou\u00e7ando o p\u00e9 cal\u00e7ado numa<br \/>\nchinela de ourelo, punha-se a dizer os pratos.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje temos gr\u00e3o-de-bico. N\u00e3o sei se o senhor p\u00e1roco<br \/>\ngostar\u00e1, foi para variar&#8230;<\/p>\n<p>Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas comidas descobria afinidade<br \/>\nde gostos com Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>Depois, animando-se, bulia-lhe no cesto da costura. Um dia encontrara uma<br \/>\ncarta; perguntou-lhe pelo derri\u00e7o; ela respondeu, picando vivamente<br \/>\no pesponto:<\/p>\n<p>&#8211; Ai! a mim ningu\u00e9m me quer, senhor p\u00e1roco&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 tanto assim, acudiu ele. Mas suspendeu-se, muito vermelho,<br \/>\nafetando tossir.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia \u00e1s vezes fazia-se muito familiar; um dia mesmo, pediu-lhe<br \/>\npara sustentar nas m\u00e3os uma meadinha de retr\u00f3s que ela ia dobar.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe falar, senhor p\u00e1roco! exclamou a S. Joaneira. Ora a tolice!<br \/>\nIsto, em se lhe dando confian\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>Mas Amaro prontificou-se, rindo, todo contente: &#8211; ele estava ali para o que<br \/>\nquisessem, at\u00e9 para dobadoura! Era mandarem, era mandarem!&#8230; E as<br \/>\nduas mulheres riam, dum riso c\u00e1lido, enlevadas naquelas maneiras do<br \/>\nsenhor p\u00e1roco, &#8220;que at\u00e9 tocavam o cora\u00e7\u00e3o&#8221;<br \/>\n! \u00c0s vezes Am\u00e9lia pousava a costura e tomava o gato no colo;<br \/>\nAmaro chegava-se, corria a m\u00e3o pela espinha do malt\u00eas que se<br \/>\narredondava, fazendo um ronrom de gozo.<\/p>\n<p>&#8211; Gostas? dizia ela ao gato, um pouco corada, com os olhos muito ternos.<\/p>\n<p>E a voz de Amaro murmurava, perturbada:<\/p>\n<p>&#8211; Bichaninho gato! bichaninho gato!<\/p>\n<p>Depois a S. Joaneira erguia-se para dar o rem\u00e9dio \u00e0 idiota<br \/>\nou ir palrar \u00e0 cozinha. Eles ficavam s\u00f3s; n\u00e3o falavam,<br \/>\nmas os seus olhos tinham um longo di\u00e1logo mudo, que os ia penetrando<br \/>\nda mesma languidez dormente. Ent\u00e3o Am\u00e9lia cantarolava baixo<br \/>\no Adeus ou o Descrente: Amaro acendia o seu cigarro, e escutava, bamboleando<br \/>\na perna.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 t\u00e3o bonito isso! dizia.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia cantava mais acentuadamente, cosendo depressa; e a espa\u00e7os,<br \/>\nerguendo o busto, mirava o alinhavado ou o pesponto, passando-lhe por cima,<br \/>\npara o assentar, a sua unha polida e larga.<\/p>\n<p>Amaro achava aquelas unhas admir\u00e1veis, porque tudo que era ela ou<br \/>\nvinha dela lhe parecia perfeito: gostava da cor dos seus vestidos, do seu<br \/>\nandar, do modo de passar os dedos pelos cabelos, e olhava at\u00e9 com ternura<br \/>\npara as saias brancas que ela punha a secar \u00e0 janela do seu quarto,<br \/>\nenfiadas numa cana. Nunca estivera assim na intimidade duma mulher. Quando<br \/>\npercebia a porta do quarto dela entreaberta, ia resvalar para dentro olhares<br \/>\ngulosos, como para perspectivas dum para\u00edso: um saiote pendurado, uma<br \/>\nmeia estendida, uma liga que ficara sobre o ba\u00fa, eram como revela\u00e7\u00f5es<br \/>\nda sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo p\u00e1lido. E n\u00e3o<br \/>\nse saciava de a ver falar, rir, andar com as saias muito engomadas que batiam<br \/>\nas ombreiras das portas estreitas. Ao p\u00e9 dela, muito fraco, muito langoroso,<br \/>\nn\u00e3o lhe lembrava que era padre; o Sacerd\u00f3cio, Deus, a S\u00e9,<br \/>\no Pecado ficavam embaixo, longe, via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo,<br \/>\ncomo de um monte se v\u00eaem as casas desaparecer no nevoeiro dos vales;<br \/>\ne s\u00f3 pensava ent\u00e3o na do\u00e7ura infinita de lhe dar um beijo<br \/>\nna brancura do pesco\u00e7o, ou mordicar-lhe a orelhinha.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes revoltava-se contra estes desfalecimentos, batia o p\u00e9:<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo, \u00e9 necess\u00e1rio ter ju\u00edzo! \u00c9 necess\u00e1rio<br \/>\nser homem!<\/p>\n<p>Descia, ia folhear o seu Brevi\u00e1rio; mas a voz de Am\u00e9lia falava<br \/>\nem cima, o tique-tique das suas botinas batia o soalho&#8230; Adeus! a devo\u00e7\u00e3o<br \/>\ncaia como uma vela a que falta o vento; as boas resolu\u00e7\u00f5es fugiam,<br \/>\ne l\u00e1 voltavam as tenta\u00e7\u00f5es em bando a apoderar-se do<br \/>\nseu c\u00e9rebro, frementes, arrulhando, ro\u00e7ando-se umas pelas outras<br \/>\ncomo um bando de pombas que recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, sofria.<br \/>\nE lamentava ent\u00e3o a sua liberdade perdida: como desejaria n\u00e3o<br \/>\na ver, estar longe de Leiria, numa aldeia solit\u00e1ria, entre gente pacifica,<br \/>\ncom uma criada velha cheia de prov\u00e9rbios e de economia, e passear pela<br \/>\nsua horta quando as alfaces verdejam e os galos cacarejam ao sol! Mas Am\u00e9lia,<br \/>\nde cima, chamava-o &#8211; e o encanto recome\u00e7ava, mais penetrante.<\/p>\n<p>A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa e feliz, a melhor do<br \/>\ndia. A S. Joaneira trinchava, enquanto Amaro conversava cuspindo os caro\u00e7os<br \/>\ndas azeitonas na palma da m\u00e3o e enfileirando-os sobre a toalha. A Ru\u00e7a,<br \/>\ncada dia mais \u00e9tica, servia mal, sempre a tossir; Am\u00e9lia \u00e0s<br \/>\nvezes erguia-se para ir buscar uma faca, um prato ao aparador. Amaro queria<br \/>\nlevantar-se logo, atencioso.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor p\u00e1roco! dizia ela. E punha-<br \/>\nlhe a m\u00e3o no ombro, e os seus olhos encontravam-se.<\/p>\n<p>Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo sobre o est\u00f4mago, sentia-se<br \/>\nregalado, gozava muito no bom calor da sala; depois do segundo copo da Bairrada<br \/>\ntornava-se expansivo, tinha gracinhas; \u00e0s vezes mesmo, com um brilho<br \/>\nterno no olho, tocava fugitivamente o p\u00e9 de Am\u00e9lia debaixo da<br \/>\nmesa; ou, fazendo um ar sentido, dizia &#8220;que muito lhe pesava n\u00e3o<br \/>\nter uma irm\u00e3zinha assim&#8221; !<\/p>\n<p>Am\u00e9lia gostava de ensopar o miolo do p\u00e3o no molho do guisado:<br \/>\na m\u00e3e dizia-lhe sempre:<\/p>\n<p>&#8211; Embirro que fa\u00e7as isso diante do senhor p\u00e1roco.<\/p>\n<p>E ele ent\u00e3o rindo:<\/p>\n<p>&#8211; Pois olhe, tamb\u00e9m eu gosto. Simpatia! magnetismo!<\/p>\n<p>E molhavam ambos o p\u00e3o, e sem raz\u00e3o davam grandes risadas.<br \/>\nMas o crep\u00fasculo crescia, a Ru\u00e7a trazia o candeeiro. O brilho<br \/>\ndos copos e das lou\u00e7as alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava \u00e0<br \/>\nS. Joaneira mam\u00e3; Am\u00e9lia sorria, de olhos baixos, trincando<br \/>\ncom a ponta dos dentes cascas de tangerina. Da\u00ed a pouco vinha o caf\u00e9;<br \/>\ne o padre Amaro ficava muito tempo partindo nozes com as costas da faca, e<br \/>\nquebrando a cinza do cigarro na borda do pires.<\/p>\n<p>\u00c0quela hora aparecia sempre o c\u00f4nego Dias; sentiam-no subir<br \/>\npesadamente, dizendo da escada:<\/p>\n<p>&#8211; Licen\u00e7a para dois!<\/p>\n<p>Era ele e a cadela, a Trigueira.<\/p>\n<p>&#8211; Ora Nosso Senhor vos d\u00ea muito boas-noites! dizia assomando \u00e0<br \/>\nporta.<\/p>\n<p>&#8211; Vai a gotinha de caf\u00e9, senhor c\u00f4nego? perguntava logo a S.<br \/>\nJoaneira.<\/p>\n<p>Ele sentava-se, exalando um profundo uff! V\u00e1 l\u00e1 a gotinha do<br \/>\ncaf\u00e9! E batendo no ombro do p\u00e1roco, olhando para a S. Joaneira:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, como vai c\u00e1 o seu menino?<\/p>\n<p>Riam; vinham as hist\u00f3rias do dia. O c\u00f4nego costumava trazer<br \/>\nno bolso o Di\u00e1rio Popular; Am\u00e9lia interessava-se pelo romance,<br \/>\na S. Joaneira pelas correspond\u00eancias amorosas nos an\u00fancios.<\/p>\n<p>&#8211; Ora vejam que pouca-vergonha!&#8230; dizia ela, deliciando-se.<\/p>\n<p>Amaro ent\u00e3o falava de Lisboa, de esc\u00e2ndalos que lhe contara<br \/>\na tia: dos fidalgos que conhecera &#8220;em casa do Sr, conde de Ribamar&#8221;.<br \/>\nAm\u00e9lia, enlevada, escutava-o com os cotovelos sobre a mesa, roendo<br \/>\nvagarosamente a ponta do palito.<\/p>\n<p>Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina esmorecia \u00e0<br \/>\ncabeceira da cama: e a pobre velha, com uma medonha touca de rendas negras<br \/>\nque tornava mais l\u00edvida a sua carinha engelhada como uma ma\u00e7\u00e3<br \/>\nreineta, fazendo debaixo da roupa uma sali\u00eancia quase impercept\u00edvel,<br \/>\nfixava em todos, com susto, os seus olhinhos c\u00f4ncavos e chorosos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o senhor p\u00e1roco, tia Gertrudes! gritava-lhe Am\u00e9lia<br \/>\nao ouvido. Vem ver como est\u00e1.<\/p>\n<p>A velha fazia um esfor\u00e7o, e com uma voz gemida:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00e9 o menino!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o menino, \u00e9, diziam rindo.<\/p>\n<p>E a velha ficava a murmurar, espantada:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o menino, \u00e9 o menino!<\/p>\n<p>&#8211; Pobre de Cristo! dizia Amaro. Pobre de Cristo! Deus lhe d\u00ea uma boa<br \/>\nmorte!<\/p>\n<p>E voltavam para a sala de jantar onde o c\u00f4nego Dias, todo enterrado<br \/>\nna velha poltrona de chita verde, com as m\u00e3os cruzadas sobre o ventre,<br \/>\ndizia logo:<\/p>\n<p>&#8211; Ora v\u00e1 um bocadinho de m\u00fasica, pequena!<\/p>\n<p>Am\u00e9lia ia sentar-se ao piano.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 filha, toca o Adeus! recomendava a S. Joaneira come\u00e7ando<br \/>\na sua meia.<\/p>\n<p>E Am\u00e9lia, ferindo o teclado:<\/p>\n<p>Ai! adeus! acabaram-se os dias<\/p>\n<p>Que ditoso vivi a teu lado&#8230;<\/p>\n<p>A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro soprando o fumo do cigarro,<br \/>\nsentia-se todo enleado num sentimentalismo agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Quando descia para o seu quarto, \u00e0 noite, ia sempre exaltado. Punha-<br \/>\nse ent\u00e3o a ler os C\u00e2nticos a Jesus, tradu\u00e7\u00e3o do<br \/>\nfranc\u00eas publicada pela sociedade das Escravas de Jesus. \u00c9 uma<br \/>\nobrazinha beata, escrita com um lirismo equ\u00edvoco, quase torpe &#8211; que<br \/>\nd\u00e1 \u00e0 ora\u00e7\u00e3o a linguagem da lux\u00faria: Jesus<br \/>\n\u00e9 invocado, reclamado com as sofreguid\u00f5es balbuciantes de uma<br \/>\nconcupisc\u00eancia alucinada: &#8220;Oh! vem, amado do meu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncorpo ador\u00e1vel, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paix\u00e3o<br \/>\ne desespero! Abrasa-me! queima-me! Vem! esmaga-me! possui-me! &#8221; E um<br \/>\namor divino, ora grotesco pela inten\u00e7\u00e3o, ora obsceno pela materialidade,<br \/>\ngeme, ruge, declama assim em cem p\u00e1ginas inflamadas onde as palavras<br \/>\ngozo, del\u00edcia, del\u00edrio, \u00eaxtase, voltam a cada momento,<br \/>\ncom uma persist\u00eancia hist\u00e9rica. E depois de mon\u00f3logos<br \/>\nfren\u00e9ticos de onde se exala um bafo de cio m\u00edstico, v\u00eam<br \/>\nent\u00e3o imbecilidades de sacristia, notazinhas beatas resolvendo casos<br \/>\ndif\u00edceis de jejuns, e ora\u00e7\u00f5es para as dores do parto!<br \/>\nUm bispo aprovou aquele livrinho bem impresso; as educandas l\u00eaem-no<br \/>\nno convento. \u00c9 beato e excitante; tem as eloq\u00fc\u00eancias do<br \/>\nerotismo, todas as pieguices da devo\u00e7\u00e3o; encaderna-se em marroquim<br \/>\ne d\u00e1-se \u00e0s confessadas; \u00e9 a cant\u00e1rida can\u00f4nica21!<\/p>\n<p>Amaro lia at\u00e9 tarde, um pouco perturbado por aqueles per\u00edodos<br \/>\nsonoros, t\u00famidos de desejo; e no sil\u00eancio, por vezes, sentia<br \/>\nem cima ranger o leito de Am\u00e9lia; o livro escorregava-lhe das m\u00e3os,<br \/>\nencostava a cabe\u00e7a \u00e0s costas da poltrona, cerrava os olhos,<br \/>\ne parecia-lhe v\u00ea-la em colete diante do toucador desfazendo as tran\u00e7as;<br \/>\nou, curvada, desapertando as ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria<br \/>\nos dois seios muito brancos.<\/p>\n<p>Erguia-se, cerrando os dentes, com uma decis\u00e3o brutal de a possuir.<\/p>\n<p>Come\u00e7ara ent\u00e3o a recomendar-lhe a leitura dos C\u00e2nticos<br \/>\na Jesus.<\/p>\n<p>&#8211; Ver\u00e1, \u00e9 muito bonito, de muita devo\u00e7\u00e3o! disse<br \/>\nele, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto da costura.<\/p>\n<p>Ao outro dia, ao almo\u00e7o, Am\u00e9lia estava p\u00e1lida, com as<br \/>\nolheiras at\u00e9 o meio da face. Queixou-se de ins\u00f4nia, de palpita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, gostou dos C\u00e2nticos?<\/p>\n<p>&#8211; Muito. Ora\u00e7\u00f5es lindas! respondeu.<\/p>\n<p>Durante todo esse dia n\u00e3o ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste<br \/>\n&#8211; e sem raz\u00e3o, \u00e0s vezes, o rosto abrasava-se-lhe de sangue.<\/p>\n<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n<p>Os piores momentos para Amaro eram as segundas e quartas-feiras, quando Jo\u00e3o<br \/>\nEduardo vinha passar as noites em fam\u00edlia. At\u00e9 \u00e0s nove<br \/>\nhoras o p\u00e1roco n\u00e3o sa\u00eda do quarto; e quando subia para<br \/>\no ch\u00e1 desesperava-se de ver o escrevente embrulhado no seu xale-manta,<br \/>\nsentado junto de Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>&#8211; Ai o que estes dois t\u00eam para a\u00ed palrado, senhor p\u00e1roco!<br \/>\ndizia a S. Joaneira.<\/p>\n<p>Amaro tinha um sorriso l\u00edvido, partindo devagar a sua torrada, com<br \/>\nos olhos fitos na ch\u00e1vena.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia na presen\u00e7a de Jo\u00e3o Eduardo, agora, n\u00e3o<br \/>\ntinha com o p\u00e1roco a mesma familiaridade alegre, mal levantava os olhos<br \/>\nda costura; o escrevente, calado, chupava o cigarro; e havia grandes sil\u00eancios<br \/>\nem que se sentia o vento uivar, encanado na rua.<\/p>\n<p>&#8211; Olha quem andar agora nas \u00e1guas no mar! dizia a S. Joaneira, fazendo<br \/>\ndevagar a sua meia.<\/p>\n<p>&#8211; Safa! acrescentava Jo\u00e3o Eduardo.<\/p>\n<p>21 Observe a intrus\u00e3o emotiva do narrador neste par\u00e1grafo e<br \/>\nos efeitos de C\u00e2nticos a Jesus nas personagens protagonistas. (N.E.)<\/p>\n<p>As suas palavras, os seus modos irritavam o padre Amaro; detestava-o pela<br \/>\nsua pouca devo\u00e7\u00e3o, pelo seu bonito bigode preto. E diante dele<br \/>\nsentia-se mais enleado no seu acanhamento de padre.<\/p>\n<p>&#8211; Toca alguma coisa, filha, dizia a S. Joaneira.<\/p>\n<p>&#8211; Estou t\u00e3o cansada! respondia Am\u00e9lia apoiando-se nas costas<br \/>\nda cadeira, com um suspirozinho de fadiga.<\/p>\n<p>A S. Joaneira, ent\u00e3o, que n\u00e3o gostava de &#8220;ver gente mona&#8221;,<br \/>\npropunha uma bisca de tr\u00eas; e o padre Amaro, tomando o seu candeeiro<br \/>\nde lat\u00e3o, descia para o quarto, muito infeliz.<\/p>\n<p>Nessas noites quase detestava Am\u00e9lia; achava-a casmurra. A intimidade<br \/>\ndo escrevente na casa parecia-lhe escandalosa: decidiu mesmo falar \u00e1<br \/>\nS. Joaneira, dizer-lhe &#8220;que aquele namoro de portas adentro n\u00e3o<br \/>\npodia ser agrad\u00e1vel a Deus&#8221;. Depois, mais razo\u00e1vel, resolvia<br \/>\nesquec\u00ea-la, pensava em sair da casa, da par\u00f3quia. Representava-se<br \/>\nent\u00e3o Am\u00e9lia com a sua coroa de flores de laranjeira, e Jo\u00e3o<br \/>\nEduardo, muito vermelho, de casaca, voltando da S\u00e9, casados&#8230; Via<br \/>\na cama de noivado com os seus len\u00e7\u00f3is de renda&#8230; E todas as<br \/>\nprovas, as certezas do amor dela pelo &#8220;idiota do escrevente&#8221; cravavam-se-lhe<br \/>\nno peito como punhais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois que casem, e que os leve o diabo!&#8230;<\/p>\n<p>Odiava-a ent\u00e3o. Fechava violentamente a porta \u00e0 chave como<br \/>\npara impedir que lhe penetrasse no quarto o rumor da sua voz ou o frufru das<br \/>\nsuas saias. Mas da\u00ed a pouco, como todas as noites, escutava com o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\naos saltos, im\u00f3vel e ansioso, os ru\u00eddos que ela fazia em cima<br \/>\nao despir-se, palrando ainda com a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Um dia Amaro jantara em casa da Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o;<br \/>\nfora depois passear pela estrada de Marrazes, e \u00e0 volta, ao fim da<br \/>\ntarde, encontrou, ao entrar em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho,<br \/>\nno patamar, estavam os chinelos de ourelo da Ru\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi \u00e0 fonte e esqueceu-se de fechar<br \/>\na porta.<\/p>\n<p>Lembrou-se que Am\u00e9lia tinha ido passar a tarde com a Sra. D. Joaquina<br \/>\nGansoso, numa fazenda ao p\u00e9 da Piedade, e que a S. Joaneira falara<br \/>\nem ir \u00e0 irm\u00e3 do c\u00f4nego. Fechou devagar a cancela, subiu<br \/>\n\u00e0 cozinha a acender o seu candeeiro; como as ruas estavam molhadas<br \/>\nda chuva da manh\u00e3, trazia ainda galochas de borracha; os seus passos<br \/>\nn\u00e3o faziam rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu<br \/>\nno quarto da S. Joaneira, atrav\u00e9s do reposteiro de chita, uma tosse<br \/>\ngrossa; surpreendido, afastou sutilmente um lado do reposteiro, e pela porta<br \/>\nentreaberta espreitou. &#8211; Oh Deus de Miseric\u00f3rdia! a S. Joaneira, em<br \/>\nsaia branca, atacava o colete; e, sentado \u00e0 beira da cama, em mangas<br \/>\nde camisa, o c\u00f4nego Dias resfolegava grosso!<\/p>\n<p>Amaro desceu, colado ao corrim\u00e3o, fechou muito devagarinho a porta,<br \/>\ne foi ao acaso para os lados da S\u00e9. O c\u00e9u enevoara-se, leves<br \/>\ngotas de chuva ca\u00edam.<\/p>\n<p>&#8211; E esta! E esta! dizia ele assombrado.<\/p>\n<p>Nunca suspeitara um tal esc\u00e2ndalo! A S. Joaneira, a pachorrenta S.<br \/>\nJoaneira! O c\u00f4nego, seu mestre de Moral! E era um velho, sem os \u00edmpetos<br \/>\ndo sangue novo, j\u00e1 na paz que lhe deveriam ter dado a idade, a nutri\u00e7\u00e3o,<br \/>\nas dignidades eclesi\u00e1sticas! Que faria ent\u00e3o um homem novo e<br \/>\nforte, que sente uma vida abundante no fundo das suas veias reclamar e arder!&#8230;<br \/>\nEra, pois, verdade o que se cochichava no semin\u00e1rio, o que lhe dizia<br \/>\no velho padre Sequeira, cinq\u00fcenta anos padre da Gralheira: &#8211; &#8220;Todos<br \/>\ns\u00e3o do mesmo barro!&#8221; Todos s\u00e3o do mesmo barro, &#8211; sobem<br \/>\nem dignidades, entram nos cabidos, regem os semin\u00e1rios, dirigem as<br \/>\nconsci\u00eancias envoltos em Deus como numa absolvi\u00e7\u00e3o permanente,<br \/>\ne t\u00eam no entanto, numa viela, uma mulher pacata e gorda, em casa de<br \/>\nquem v\u00e3o repousar das atitudes devotas e da austeridade do of\u00edcio,<br \/>\nfumando cigarros de estanco e palpando uns bra\u00e7os rechonchudos!<\/p>\n<p>Vinham-lhe ent\u00e3o outras reflex\u00f5es: que gente era aquela, a<br \/>\nS. Joaneira e a filha, que viviam assim sustentadas pela lubricidade tardia<br \/>\nde um velho c\u00f4nego? A S. Joaneira fora decerto bonita, bem-feita, desej\u00e1vel<br \/>\n&#8211; outrora! Por quantos bra\u00e7os teria passado at\u00e9 chegar, pelos<br \/>\ndeclives da idade, \u00e0queles amores senis e mal pagos? As duas mulherinhas,<br \/>\nque diabo, n\u00e3o eram honestas! Recebiam h\u00f3spedes, viviam da concubinagem.<br \/>\nAm\u00e9lia ia sozinha \u00e0 igreja, \u00e0s compras, \u00e0 fazenda;<br \/>\ne com aqueles olhos t\u00e3o negros, talvez j\u00e1 tivesse tido um amante!<br \/>\n&#8211; Resumia, filiava certas recorda\u00e7\u00f5es: um dia que ela lhe estivera<br \/>\nmostrando na janela da cozinha um vaso de rain\u00fanculos, tinham ficado<br \/>\ns\u00f3s, e ela, muito corada, pusera-lhe a m\u00e3o sobre o ombro e os<br \/>\nseus olhos reluziam e pediam; outra ocasi\u00e3o ela ro\u00e7ara-lhe o<br \/>\npeito pelo bra\u00e7o! A noite ca\u00edra, com uma chuva fina. Amaro n\u00e3o<br \/>\na sentia, caminhando depressa, cheio de uma s\u00f3 id\u00e9ia deliciosa<br \/>\nque o fazia tremer: ser o amante da rapariga, como o c\u00f4nego era o amante<br \/>\nda m\u00e3e! Imaginava j\u00e0 a boa vida escandalosa e regalada; enquanto<br \/>\nem cima a grossa S. Joaneira beijocasse o seu c\u00f4nego cheio de dificuldades<br \/>\nasm\u00e1ticas &#8211; Am\u00e9lia desceria ao seu quarto, p\u00e9 ante p\u00e9,<br \/>\napanhando as saias brancas, com um xale sobre os ombros nus&#8230; Com que frenesi<br \/>\na esperaria! E j\u00e1 n\u00e3o sentia por ela o mesmo amor sentimental,<br \/>\nquase doloroso: agora a id\u00e9ia muito magana dos dois padres e as duas<br \/>\nconcubinas, de panelinha, dava \u00e0quele homem amarrado pelos votos uma<br \/>\nsatisfa\u00e7\u00e3o depravada! Ia aos pulinhos pela rua. &#8211; Que pechincha<br \/>\nde casa!<\/p>\n<p>A chuva ca\u00eda, grossa. Quando entrou havia j\u00e1 luz na sala de<br \/>\njantar. Subiu.<\/p>\n<p>&#8211; lh, como vem frio! disse-lhe Am\u00e9lia sentindo, ao apertar-lhe a m\u00e3o,<br \/>\na umidade da n\u00e9voa.<\/p>\n<p>Sentada \u00e0 mesa, costurava com um xale-manta pelos ombros: Jo\u00e3o<br \/>\nEduardo, ao p\u00e9, jogava a bisca com a S. Joaneira.<\/p>\n<p>Amaro sentou-se um pouco embara\u00e7ado; a presen\u00e7a do escrevente<br \/>\ndera-lhe de repente, sem saber por qu\u00ea, o duro choque duma realidade<br \/>\nantip\u00e1tica: e todas as esperan\u00e7as, que lhe tinham vindo a dan\u00e7ar<br \/>\numa sarabanda na imagina\u00e7\u00e3o, encolhiam-se uma a uma, murchavam<br \/>\n&#8211; vendo ali Am\u00e9lia ao p\u00e9 do noivo, curvada sobre uma costura<br \/>\nhonesta, com o seu escuro vestido afogado, junto do candeeiro de fam\u00edlia!<\/p>\n<p>E tudo em redor lhe parecia como mais recatado, as paredes com o seu papel<br \/>\nde ramagens verdes, o arm\u00e1rio cheio de lou\u00e7a luzidia da Vista<br \/>\nAlegre, o simp\u00e1tico e bojudo pote de \u00e1gua, o velho piano mal<br \/>\nfirme nos seus tr\u00eas p\u00e9s torneados; o paliteiro t\u00e3o querido<br \/>\nde todos &#8211; um Cupido rechonchudo com um guarda-chuva aberto eri\u00e7ado<br \/>\nde palitos, e aquela tranq\u00fcila bisca jogada com os dichotes cl\u00e1ssicos.<br \/>\nTudo t\u00e3o decente!<\/p>\n<p>Afirmava-se ent\u00e3o nas grossas roscas do pesco\u00e7o da S. Joaneira,<br \/>\ncomo para descobrir nelas as marcas das beijocas do c\u00f4nego: ah! tu,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, \u00e9s &#8220;uma barreg\u00e3 de<br \/>\ncl\u00e9rigo&#8221;. Mas Am\u00e9lia! com aquelas longas pestanas descidas,<br \/>\no bei\u00e7o t\u00e3o fresco!&#8230; Ignorava decerto as libertinagens da<br \/>\nm\u00e3e; ou, experiente, estava bem resolvida a estabelecer-se solidamente<br \/>\nna seguran\u00e7a dum amor legal! &#8211; E Amaro, da sombra, examinava-a longamente<br \/>\ncomo para se certificar, na placidez do seu rosto, da virgindade do seu passado.<\/p>\n<p>&#8211; Cansadinho, senhor p\u00e1roco, hem? disse a S. Joaneira. E para Jo\u00e3o<br \/>\nEduardo: &#8211; Trunfo, faz favor, seu cabe\u00e7a no ar!<\/p>\n<p>O escrevente, namorado, distra\u00eda-se.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o senhor a jogar, dizia-lhe a S. Joaneira a cada momento.<\/p>\n<p>Depois ele esquecia-se de comprar cartas.<\/p>\n<p>&#8211; Ah menino, menino! dizia ela com a sua voz pachorrenta, que lhe puxo essas<br \/>\norelhas!<\/p>\n<p>Am\u00e9lia ia cosendo com a cabe\u00e7a baixa: tinha um pequeno casabeque<br \/>\npreto com bot\u00f5es de vidro, que lhe disfar\u00e7ava a forma do seio.<\/p>\n<p>E Amaro irritava-se daqueles olhos fixos na costura, daquele casaco amplo<br \/>\nescondendo a beleza que mais apetecia nela! E nada a esperar. Nada dela lhe<br \/>\npertenceria, nem a luz daquelas pupilas, nem a brancura daqueles peitos! Queria<br \/>\ncasar &#8211; e guardava tudo para o outro, o idiota, que sorria baboso, jogando<br \/>\npaus! Odiou-o ent\u00e3o, dum \u00f3dio complicado de inveja ao seu bigode<br \/>\nnegro e ao seu direito de amar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 incomodado, senhor p\u00e1roco? perguntou Am\u00e9lia,<br \/>\nvendo-o mexer-se bruscamente na cadeira.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, disse ele secamente.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! fez ela, com um leve suspiro, picando rapidamente o pesponto.<\/p>\n<p>O escrevente, baralhando as cartas, come\u00e7ara a falar de uma casa que<br \/>\nqueria alugar; a conversa caiu sobre arranjos dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>&#8211; Traz-me luz! gritou Amaro \u00e0 Ru\u00e7a.<\/p>\n<p>Desceu para o seu quarto, desesperado. P\u00f4s a vela sobre a c\u00f4moda;<br \/>\no espelho estava defronte, e a sua imagem apareceu-lhe; sentiu-se feio, rid\u00edculo<br \/>\ncom a sua cara rapada, a volta hirta como uma coleira, e por tr\u00e1s a<br \/>\ncoroa hedionda. Comparou-se instintivamente com o outro que tinha um bigode,<br \/>\no seu cabelo todo, a sua liberdade! Para que hei-de eu estar a ralar- me?<br \/>\npensou. O outro era um marido; podia dar-lhe o seu nome, uma casa, a maternidade;<br \/>\nele s\u00f3 poderia dar-lhe sensa\u00e7\u00f5es criminosas, depois os<br \/>\nterrores do pecado! Ela simpatizava talvez com ele, apesar de padre; mas antes<br \/>\nde tudo, acima de tudo, queria casar; nada mais natural! Via-se pobre, bonita,<br \/>\ns\u00f3: cobi\u00e7ava uma situa\u00e7\u00e3o legitima e duradoura,<br \/>\no respeito das vizinhas, a considera\u00e7\u00e3o dos lojistas, todos<br \/>\nos proveitos da honra!<\/p>\n<p>Odiou-a ent\u00e3o, e o seu vestido afogado e a sua honestidade! A est\u00fapida,<br \/>\nque n\u00e3o percebia que ao p\u00e9 dela, sob uma negra batina, uma paix\u00e3o<br \/>\ndevota a espreitava, a seguia, tremia e morria de impaci\u00eancia! Desejou<br \/>\nque ela fosse como a m\u00e3e, &#8211; ou pior, toda livre, com vestidos garridos,<br \/>\numa cuia impudente, tra\u00e7ando a perna e fitando os homens, uma f\u00eamea<br \/>\nf\u00e1cil como uma porta aberta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Boa! Estou a desejar que a rapariga fosse uma desavergonhada! &#8211; pensou,<br \/>\nrecaindo em si um pouco envergonhado. Est\u00e1 claro: n\u00e3o podemos<br \/>\npensar em mulheres decentes, temos que reclamar prostitutas! Bonito dogma!<\/p>\n<p>Abafava. Abriu a janela. O c\u00e9u estava tenebroso; a chuva cessara; o<br \/>\npiar das corujas na Miseric\u00f3rdia cortava s\u00f3 o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Enterneceu-se, ent\u00e3o, com aquela escurid\u00e3o, aquela mudez de<br \/>\nvila adormecida. E sentiu subir outra vez, das profundidades do seu ser, o<br \/>\namor que sentira ao princ\u00edpio por ela, muito puro, dum sentimentalismo<br \/>\ndevoto: via a sua linda cabe\u00e7a, duma beleza transfigurada e luminosa,<br \/>\ndestacar da negrura espessa do ar; e toda a sua alma foi para ela num desfalecimento<br \/>\nde adora\u00e7\u00e3o, como no culto a Maria e na Sauda\u00e7\u00e3o<br \/>\nAng\u00e9lica; pediu-lhe perd\u00e3o ansiosamente de a ter ofendido; disse-lhe<br \/>\nalto: \u00c9s uma santa, perdoa! &#8211; Foi um momento muito doce, de renunciamento<br \/>\ncarnal&#8230;<\/p>\n<p>E, espantado quase daquelas delicadezas de sensibilidade que descobria subitamente<br \/>\nem si, p\u00f4s-se a pensar com saudade &#8211; que se fosse um homem livre seria<br \/>\num marido t\u00e3o bom! Amor\u00e1vel, delicado, dengueiro, sempre de<br \/>\njoelhos, todo de adora\u00e7\u00f5es! Como amaria o seu filho, muito pequerruchinho,<br \/>\na puxar-lhe as barbas! \u00c0 id\u00e9ia daquelas felicidades inacess\u00edveis,<br \/>\nos olhos arrasaram-se-lhe de l\u00e1grimas. Amaldi\u00e7oou, num desespero,<br \/>\n&#8220;a pega da marquesa que o fizera padre&#8221;, e o bispo que o confirmara22!<\/p>\n<p>&#8211; Perderam-me! perderam-me! dizia, um pouco desvairado.<\/p>\n<p>Sentiu ent\u00e3o os passos de Jo\u00e3o Eduardo que descia, e o rumor<br \/>\ndas saias de Am\u00e9lia. Correu a espreitar pela fechadura, cravando os<br \/>\ndentes no bei\u00e7o, de ci\u00fame. A cancela bateu, Am\u00e9lia subiu<br \/>\ncantarolando baixo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a sensa\u00e7\u00e3o do amor m\u00edstico que o penetrara um<br \/>\nmomento, olhando a noite, passara; e deitou-se, com um desejo furioso dela<br \/>\ne dos seus beijos.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>Cap\u00edtulo VII<\/h2>\n<p>Dias depois o padre Amaro e o c\u00f4nego Dias tinham ido jantar com o abade<br \/>\nda Cortegassa. &#8211; Era um velho jovial, muito caridoso, que vivia h\u00e1<br \/>\ntrinta anos naquela freguesia e passava por ser o melhor cozinheiro da diocese.<br \/>\nTodo o clero das vizinhan\u00e7as conhecia a sua famosa cabidela de ca\u00e7a.<br \/>\nO abade fazia anos, havia outros convidados &#8211; o padre Nat\u00e1rio e o padre<br \/>\nBrito: o padre Nat\u00e1rio era uma criaturinha biliosa, seca, com dois<br \/>\nolhos encovados, muito malignos, a pele picada das bexigas e extremamente<br \/>\nirrit\u00e1vel. Chamavam-lhe o Fur\u00e3o. Era esperto e questionador;<br \/>\ntinha fama de ser grande latinista, e ter uma l\u00f3gica de ferro; e dizia-se<br \/>\ndele: \u00e9 uma l\u00edngua de v\u00edbora! Vivia com duas sobrinhas<br \/>\n\u00f3rf\u00e3s, declarava-se extremoso por elas, gabava-lhes sempre a<br \/>\nvirtude, e costumava chamar-lhes as duas rosas do seu canteiro. O padre Brito<br \/>\nera o padre mais est\u00fapido e mais forte da diocese; tinha o aspecto,<br \/>\nos modos, a forte vida de um robusto beir\u00e3o que maneja bem o cajado,<br \/>\nemborca um almude de vinho, pega alegremente \u00e0 rabi\u00e7a do arado,<br \/>\nserve de trolha nos arranjos de um alpendre, e nas sestas quentes de Junho<br \/>\natira brutalmente as raparigas para cima das medas de milho. O senhor chantre,<br \/>\nsempre correto nas suas compara\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas, chamava-lhe<br \/>\n&#8211; o le\u00e3o de Nemeia.<\/p>\n<p>A sua cabe\u00e7a era enorme, de cabelo lan\u00edgero que lhe descia<br \/>\nat\u00e9 as . sobrancelhas: a pele curtida tinha um tom azulado, do esfor\u00e7o<br \/>\nda navalha de barba; e, nas suas risadas bestiais, mostrava dentinhos muito<br \/>\nmi\u00fados e muito brancos do uso da broa.<\/p>\n<p>Quando iam sentar-se \u00e0 mesa chegou o Libaninho todo azafamado, gingando<br \/>\nmuito, com a calva suada, exclamando logo em tons agudos:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei pela igreja<br \/>\nde Nossa Senhora da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma missa de inten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAi, filhos! papei-a logo, venho mesmo consoladinho!<\/p>\n<p>A Gertrudes, a velha e possante ama do abade, entrou ent\u00e3o com a vasta<br \/>\nterrina do caldo de galinha: e o Libaninho, saltitando em redor dela, come\u00e7ou<br \/>\nos seus gracejos:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, Gertrudinhas, quem tu fazias feliz, bem eu sei!<\/p>\n<p>A velha alde\u00e3 ria, com o seu espesso riso bondoso, que lhe sacudia<br \/>\na massa do seio.<\/p>\n<p>&#8211; Olha que arranjo me aparece agora pela tarde!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ai, filha! as mulheres querem-se como as p\u00earas, maduras e de sete<br \/>\ncotovelos. Ent\u00e3o \u00e9 que \u00e9 chup\u00e1-las!<\/p>\n<p>Os padres gargalharam; e, alegremente, acomodaram-se \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>O jantar fora todo cozinhado pelo abade: logo \u00e0 sopa as exclama\u00e7\u00f5es<br \/>\ncome\u00e7aram:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, famoso! Disto nem no C\u00e9u! Bela coisa!<\/p>\n<p>22 E\u00e7a de Queir\u00f3s coloca-se contra o celibato clerical. (N.E.)<\/p>\n<p>O excelente abade estava escarlate de satisfa\u00e7\u00e3o. Era, como<br \/>\ndizia o senhor chantre, &#8220;um divino artista&#8221; ! Lera todos os Cozinheiros<br \/>\ncompletos, sabia in\u00fameras receitas; era inventivo &#8211; e, como ele afirmava<br \/>\ndando marteladinhas no cr\u00e2nio, &#8220;tinha-lhe sa\u00eddo muito petisco<br \/>\ndaquela cachim\u00f4nia&#8221; ! Vivia t\u00e3o absorvido pela sua &#8220;arte&#8221;<br \/>\nque lhe acontecia, nos serm\u00f5es de domingo, dar aos fi\u00e9is ajoelhados<br \/>\npara receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre<br \/>\nos condimentos do sarrabulho. E ali vivia feliz, com a sua velha Gertrudes,<br \/>\nde muito bom paladar tamb\u00e9m, com o seu quintal de ricos legumes, sentindo<br \/>\numa s\u00f3 ambi\u00e7\u00e3o na vida &#8211; ter um dia a jantar o bispo!<\/p>\n<p>&#8211; Oh senhor p\u00e1roco! dizia ele a Amaro, por quem \u00e9! mais um<br \/>\nbocadinho de cabidela, fa\u00e7a favor! Essas codeazinhas de p\u00e3o<br \/>\nensopadas no molho! Isso! isso! Que tal, hem? &#8211; E com um aspecto modesto:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 l\u00e1 por dizer, mas a cabidela hoje saiu-me boa!<\/p>\n<p>Estava com efeito, como disse o c\u00f4nego Dias, de tentar Santo Ant\u00e3o<br \/>\nno deserto! Todos tinham tirado as capas, e, s\u00f3 com as batinas, as<br \/>\nvoltas alargadas, comiam devagar, falando pouco. Como no dia seguinte era<br \/>\na festa da Senhora da Alegria, os sinos na capela, ao lado, repicavam; e o<br \/>\nbom sol do meio-dia dava tons muito alegres \u00e0 lou\u00e7a, \u00e0s<br \/>\nbojudas canecas azuis com vinho da Bairrada, aos pires de piment\u00f5es<br \/>\nescarlates, \u00e0s frescas malgas de azeitonas pretas &#8211; enquanto o bom<br \/>\nabade, de olho arregalado, mordendo o bei\u00e7o, ia cortando com cuidado<br \/>\nnacos brancos do peito do cap\u00e3o recheado.<\/p>\n<p>As janelas abriam para o quintal. Viam-se dois largos p\u00e9s de cam\u00e9lias<br \/>\nvermelhas crescendo junto ao peitoril, e para al\u00e9m das copas das macieiras<br \/>\num peda\u00e7o muito vivo de c\u00e9u azul-ferrete. Uma nora chiava ao<br \/>\nlonge, lavadeiras batiam a roupa.<\/p>\n<p>Sobre a c\u00f4moda, entre in-folios, na sua peanha, um Cristo perfilava<br \/>\ntristemente contra a parede o seu corpo amarelo, coberto de chagas escarlates:<br \/>\ne, aos lados, simp\u00e1ticos santos sob redomas de vidro, lembravam legendas<br \/>\nmais doces de religi\u00e3o am\u00e1vel: o bom gigante S. Crist\u00f3v\u00e3o<br \/>\natravessando o rio com o divino pequerrucho que sorri, e faz saltar o mundo<br \/>\nsobre a sua m\u00e3ozinha como uma p\u00e9la; o doce pastor S. Jo\u00e3ozinho<br \/>\ncoberto com uma pele de ovelha, e guardando os seus rebanhos, n\u00e3o com<br \/>\num cajado, mas com uma cruz; o bom porteiro S. Pedro, tendo na sua m\u00e3o<br \/>\nde barro as duas santas chaves que servem nas fechaduras do C\u00e9u! Nas<br \/>\nparedes, em litografias de coloridos cru\u00e9is, o patriarca S. Jos\u00e9<br \/>\napoiava-se ao seu cajado onde florescem l\u00edrios brancos; o cavalo empinado<br \/>\ndo bravo S. Jorge pisava o ventre dum drag\u00e3o surpreendido; e o bom<br \/>\nSanto Ant\u00f4nio, \u00e0 beira dum regato, sorria, falando a um tubar\u00e3o.<br \/>\nO tlintlim dos copos, o ru\u00eddo das facas animava a velha sala, de teto<br \/>\nde carvalho defumado, duma alegria desusada. E Libaninho devorava, dizendo<br \/>\npilh\u00e9rias.<\/p>\n<p>&#8211; Gertrudinhas, flor do cani\u00e7o, passa-me as bages. N\u00e3o me olhes<br \/>\nassim, magana, que me fazes revolver os intestinos!<\/p>\n<p>&#8211; O diabo \u00e9 o homem! dizia a velha. Olha para o que lhe deu! Falasse-me<br \/>\naqui h\u00e1 trinta anos, seu perdido!<\/p>\n<p>&#8211; Ai, filha! exclamava revirando os olhos, nem me digas isso que sinto coisas<br \/>\npela espinha acima!<\/p>\n<p>Os padres engasgavam-se de riso. J\u00e1 duas canecas de vinho estavam<br \/>\nvazias: e o padre Brito desabotoara a batina, deixando ver a sua grossa camisola<br \/>\nde l\u00e3 da Covilh\u00e3, onde a marca da f\u00e1brica, feita de linha<br \/>\nazul, era uma cruz sobre o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um pobre ent\u00e3o viera \u00e0 porta rosnar lamentosamente Padre-Nossos;<br \/>\ne enquanto Gertrudes lhe metia no alforje metade duma broa, os padres falaram<br \/>\ndos bandos de mendigos que agora percorriam as freguesias.<\/p>\n<p>&#8211; Muita pobreza por aqui, muita pobreza! dizia o bom abade. \u00d3 Dias,<br \/>\nmais este bocadinho da asa!<\/p>\n<p>&#8211; Muita pobreza, mas muita pregui\u00e7a, considerou duramente o padre<br \/>\nNat\u00e1rio. &#8211; Em muitas fazendas sabia ele que havia falta de jornaleiros,<br \/>\ne viam-se marmanjos, rijos como pinheiros, a choramingar Padre-Nossos pelas<br \/>\nportas. &#8211; S\u00facia de mariolas, resumiu.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe l\u00e1, padre Nat\u00e1rio, deixe l\u00e1! disse o abade.<br \/>\nOlhe que h\u00e1 pobreza deveras. Por aqui h\u00e1 fam\u00edlias, homem,<br \/>\nmulher e cinco filhos, que dormem no ch\u00e3o como porcos e n\u00e3o<br \/>\ncomem sen\u00e3o ervas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que diabo querias tu que eles comessem? exclamou o c\u00f4nego<br \/>\nDias lambendo os dedos depois de ter esburgado a asa do cap\u00e3o. Querias<br \/>\nque comessem peru? Cada um como quem \u00e9!<\/p>\n<p>O bom abade puxou, repoltreando-se, o guardanapo para o est\u00f4mago, e<br \/>\ndisse com afeto:<\/p>\n<p>&#8211; A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Ai filhos! acudiu o Libaninho num tom choroso, se houvesse s\u00f3 pobrezinhos<br \/>\nisto era o reininho dos C\u00e9us!<\/p>\n<p>O padre Amaro considerou com gravidade:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bom que haja quem tenha cabedais para legados pios, edifica\u00e7\u00f5es<br \/>\nde capelas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A propriedade devia estar na m\u00e3o da Igreja, interrompeu Nat\u00e1rio<br \/>\ncom autoridade.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego Dias arrotou com estrondo e acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Para o esplendor do culto e propaga\u00e7\u00e3o da f\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a grande causa da mis\u00e9ria, dizia Nat\u00e1rio com uma voz<br \/>\npedante, era a grande imoralidade.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! l\u00e1 isso n\u00e3o falemos! exclamou o abade com desgosto. Neste<br \/>\nmomento h\u00e1 s\u00f3 aqui na freguesia mais de doze raparigas solteiras<br \/>\ngr\u00e1vidas! Pois senhores, se as chamo, se as repreendo, p\u00f5em-se<br \/>\na fungar de riso!<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 nos meus s\u00edtios, disse o padre Brito, quando foi pela<br \/>\napanha da azeitona, como h\u00e1 falta de bra\u00e7os, vieram as maltas<br \/>\ntrabalhar. Pois agora o ver\u00e1s! Que desaforo! &#8211; Contou a hist\u00f3ria<br \/>\ndas maltas, trabalhadores errantes, homens e mulheres, que andam oferecendo<br \/>\nos bra\u00e7os pelas fazendas, vivem na promiscuidade e morrem na mis\u00e9ria.<br \/>\n&#8211; Era necess\u00e1rio andar sempre de cajado em cima deles!<\/p>\n<p>&#8211; Ai! disse o Libaninho para os lados apertando as m\u00e3os na cabe\u00e7a.<br \/>\nAi, o pecado que vai pelo mundo! At\u00e9 se me est\u00e3o a eri\u00e7ar<br \/>\nos cabelos!<\/p>\n<p>Mas a freguesia de Santa Catarina era a pior! As mulheres casadas tinham<br \/>\nperdido todo o escr\u00fapulo.<\/p>\n<p>&#8211; Piores que cabras, dizia o padre Nat\u00e1rio alargando a fivela do colete.<\/p>\n<p>E o padre Brito falou dum caso na freguesia de Amor: raparigas de dezesseis<br \/>\ne dezoito anos que costumavam reunir-se num palheiro &#8211; o palheiro do Silv\u00e9rio<br \/>\n&#8211; e passavam l\u00e1 a noite com um bando de marmanjos!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o padre Nat\u00e1rio, que j\u00e1 tinha os olhos luzidios,<br \/>\na l\u00edngua solta, disse repoltreando-se na cadeira e espa\u00e7ando<br \/>\nas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o sei o que se passa l\u00e1 na tua freguesia, Brito; mas<br \/>\nse h\u00e1 alguma coisa, o exemplo vem de alto&#8230; A mim t\u00eam-me dito<br \/>\nque tu e a mulher do regedor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 mentira! exclamou o Brito, fazendo-se todo escarlate.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Brito! oh, Brito! disseram em redor, repreendendo-o com bondade.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 mentira! berrou ele.<\/p>\n<p>&#8211; E aqui para n\u00f3s, meus ricos, disse o c\u00f4nego Dias baixando<br \/>\na voz, com o olhinho aceso numa mal\u00edcia confidencial, sempre lhes digo<br \/>\nque \u00e9 uma mulher de m\u00e3o-cheia!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 mentira! clamou o Brito. E falando de um jato: &#8211; Quem anda a espalhar<br \/>\nisso \u00e9 o morgado da Cumiada, porque o regedor n\u00e3o votou com<br \/>\nele na elei\u00e7\u00e3o&#8230; Mas t\u00e3o certo como eu estar aqui, quebro-lhe<br \/>\nos ossos! &#8211; Tinha os olhos injetados, brandia o punho: &#8211; Quebro-lhe os ossos!<\/p>\n<p>&#8211; O caso n\u00e3o \u00e9 para tanto, homem, considerou Nat\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Quebro-lhe os ossos! N\u00e3o lhe deixo um inteiro!<\/p>\n<p>&#8211; Ai, sossega, le\u00e3ozinho! disse o Libaninho com ternura. N\u00e3o<br \/>\nte percas, filhinho!<\/p>\n<p>Mas recordando a influ\u00eancia do morgado da Cumiada, que era ent\u00e3o<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o e que levava duzentos votos \u00e0 uma, os padres<br \/>\nfalaram de elei\u00e7\u00f5es e dos seus epis\u00f3dios. Todos ali,<br \/>\na n\u00e3o ser o padre Amaro, sabiam, como disse Nat\u00e1rio, &#8220;cozinhar<br \/>\num deputadozinho&#8221;. Vieram anedotas; cada um celebrou as suas fa\u00e7anhas23.<\/p>\n<p>O padre Nat\u00e1rio na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o tinha arranjado<br \/>\noitenta votos!<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1spite! disseram.<\/p>\n<p>&#8211; Imaginem voc\u00eas como? Com um milagre!<\/p>\n<p>&#8211; Com um milagre? repetiram espantados.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhores.<\/p>\n<p>Tinha-se entendido com um mission\u00e1rio, e na v\u00e9spera da elei\u00e7\u00e3o<br \/>\nreceberam-se na freguesia cartas vindas do C\u00e9u e assinadas pela Virgem<br \/>\nMaria, pedindo, com promessas de salva\u00e7\u00e3o e amea\u00e7as do<br \/>\nInferno, votos para o candidato do governo. De chupeta, hem?<\/p>\n<p>&#8211; De m\u00e3o-cheia! disseram todos.<\/p>\n<p>S\u00f3 Amaro parecia surpreendido.<\/p>\n<p>&#8211; Homem! disse o abade com ingenuidade, disso \u00e9 que eu c\u00e1 precisava.<br \/>\nEu ent\u00e3o tenho de andar a\u00ed a estafar-me de porta em porta. &#8211;<br \/>\nE sorrindo bondosamente: &#8211; Com o que se faz ainda alguma coisita \u00e9<br \/>\ncom o relaxe da c\u00f4ngrua!<\/p>\n<p>&#8211; E com a confiss\u00e3o, disse o padre Nat\u00e1rio. A coisa ent\u00e3o<br \/>\nvai pelas mulheres, mas vai segura! Da confiss\u00e3o tira-se grande partido.<\/p>\n<p>O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente:<\/p>\n<p>23 O segmento narrativo mostra a participa\u00e7\u00e3o do clero em favor<br \/>\ndo governo rnon\u00e1rquico (N. E.)<\/p>\n<p>&#8211; Mas enfim a confiss\u00e3o \u00e9 um ato muito s\u00e9rio, e servir,<br \/>\nassim para elei\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>O padre Nat\u00e1rio, que tinha duas rosetas escarlates na face e gestos<br \/>\nexcitados, soltou uma palavra imprudente:<\/p>\n<p>&#8211; Pois o senhor toma a confiss\u00e3o a s\u00e9rio?<\/p>\n<p>Houve uma grande surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; Se tomo a confiss\u00e3o a s\u00e9rio? gritou o padre Amaro recuando<br \/>\na cadeira, com os olhos arregalados.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! exclamaram. Oh, Nat\u00e1rio! Oh, menino!<\/p>\n<p>O padre Nat\u00e1rio exaltado queria explicar, atenuar:<\/p>\n<p>&#8211; Escutem, criaturas de Deus! Eu n\u00e3o quero dizer que a confiss\u00e3o<br \/>\nseja uma brincadeira! Irra! Eu n\u00e3o sou pedreiro-livre24! O que eu quero<br \/>\ndizer \u00e9 que um meio de persuas\u00e3o, de saber o que se passa, de<br \/>\ndirigir o rebanho para aqui ou para ali&#8230; E quando \u00e9 para o servi\u00e7o<br \/>\nde Deus, \u00e9 uma arma. A\u00ed est\u00e1 o que \u00e9 &#8211; a absolvi\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 uma arma!<\/p>\n<p>&#8211; Uma arma! exclamaram.<\/p>\n<p>O abade protestava, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Nat\u00e1rio! oh, filho! isso n\u00e3o!<\/p>\n<p>O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, &#8220;tinha j\u00e1 um tal terror<br \/>\nque at\u00e9 lhe tremiam as pernas&#8221; !<\/p>\n<p>Nat\u00e1rio irritou-se:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o talvez me queiram dizer, gritou, que qualquer de n\u00f3s,<br \/>\npelo fato de ser padre, porque o bispo lhe imp\u00f4s tr\u00eas vezes as<br \/>\nm\u00e3os e porque lhe disse o accipe, tem miss\u00e3o direta de Deus,<br \/>\n&#8211; \u00e9 Deus mesmo para absolver? !<\/p>\n<p>&#8211; Decerto! exclamaram, decerto!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego Dias disse meneando uma garfada de bages:<\/p>\n<p>&#8211; Quorum remiseris peccata, remittuntur eis. \u00c9 a f\u00f3rmula. A<br \/>\nf\u00f3rmula \u00e9 tudo, menino&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A confiss\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia mesma do sacerd\u00f3cio,<br \/>\nsoltou o padre Amaro com gestos escolares, fulminando Nat\u00e1rio. Leia<br \/>\nSanto In\u00e1cio! Leia S. Tom\u00e1s!<\/p>\n<p>&#8211; Anda-me com ele! gritava o Libaninho pulando na cadeira, apoiando Amaro.<br \/>\n&#8211; Anda-me com ele, amigo p\u00e1roco! Salta-me no cacha\u00e7o do \u00edmpio!<\/p>\n<p>&#8211; Oh, senhores! berrou Nat\u00e1rio furioso com a contradi\u00e7\u00e3o,<br \/>\no que eu quero \u00e9 que me respondam a isto. E voltando-se para Amaro:<br \/>\n&#8211; O senhor, por exemplo, que acaba de almo\u00e7ar, que comeu o seu p\u00e3o<br \/>\ntorrado, tomou o seu caf\u00e9, fumou o seu cigarro, e que depois se vai<br \/>\nsentar no confession\u00e1rio, \u00e0s vezes preocupado com neg\u00f3cios<br \/>\nde fam\u00edlia ou com faltas de dinheiro, ou com dores de cabe\u00e7a,<br \/>\nou com dores de barriga, imagina o senhor que est\u00e1 ali como um Deus<br \/>\npara absolver?<\/p>\n<p>O argumento surpreendeu.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego Dias, pousando o talher, ergueu os bra\u00e7os, e com uma<br \/>\nsolenidade c\u00f4mica exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Hereticus est! \u00c9 herege!<\/p>\n<p>&#8211; Hereticus est! tamb\u00e9m eu digo, rosnou o padre Amaro.<\/p>\n<p>Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz-doce.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o falemos nessas coisas, n\u00e3o falemos nessas coisas, disse<br \/>\nlogo prudentemente o abade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, d\u00e1 c\u00e1<br \/>\na garrafinha do Porto!<\/p>\n<p>Nat\u00e1rio, debru\u00e7ado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos<br \/>\na Amaro:<\/p>\n<p>&#8211; Absolver \u00e9 exercer a gra\u00e7a. A gra\u00e7a s\u00f3 \u00e9<br \/>\natributo de Deus: em nenhum autor encontro que a gra\u00e7a seja transmiss\u00edvel.<br \/>\nLogo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ponho duas obje\u00e7\u00f5es&#8230; gritou Amaro, com o dedo em riste,<br \/>\nem atitude de pol\u00eamica.<\/p>\n<p>&#8211; Oh filhos! oh filhos, acudiu o bom abade aflito. Deixem a sabatina, que<br \/>\nat\u00e9 nem lhes sabe o arrozinho!<\/p>\n<p>Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com<br \/>\nas precau\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas:<\/p>\n<p>&#8211; Mil oitocentos e quinze! dizia. Disto n\u00e3o se bebe todos os dias.<\/p>\n<p>Para o saborear, depois de o fazer reluzir \u00e0 luz na transpar\u00eancia<br \/>\ndos copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; come\u00e7aram<br \/>\nas sa\u00fades! A primeira foi ao abade, que murmurava: &#8211; Muita honra&#8230;<br \/>\nmuita honra&#8230; Tinha os olhos chorosos de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; A Sua Santidade Pio IX! gritou ent\u00e3o o Libaninho brandindo o c\u00e1lice.<br \/>\nAo m\u00e1rtir!<\/p>\n<p>24 Pedreiro-livre: Membro da rna\u00e7onaria. Na origem, essa associa\u00e7\u00e3o<br \/>\nsecreta era constitu\u00edda por pedreiros, que eram livres da jurisdi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos bispos (N.E.)<\/p>\n<p>Todos beberam comovidos. Libaninho entoou em voz de falsete o hino de Pio<br \/>\nIX: o abade, prudente, f\u00ea-lo calar por causa do hortel\u00e3o que<br \/>\nno quintal aparava o buxo.<\/p>\n<p>A sobremesa foi longa, muito saboreada. Nat\u00e1rio tornara-se terno,<br \/>\nfalava das suas sobrinhas, &#8220;as suas duas rosas&#8221;, e citava Virg\u00edlio,<br \/>\nmolhando as castanhas em vinho. Amaro, todo deitado para tr\u00e1s na cadeira,<br \/>\nas m\u00e3os nos bolsos, olhava maquinalmente as \u00e1rvores do jardim,<br \/>\npensando vagamente em Am\u00e9lia, nas suas formas; suspirou mesmo com um<br \/>\ndesejo dela &#8211; enquanto o padre Brito, rubro, queria convencer os republicanos<br \/>\na marmeleiro.<\/p>\n<p>&#8211; Viva o marmeleiro do padre Brito! gritou entusiasmado o Libaninho.<\/p>\n<p>Mas Nat\u00e1rio come\u00e7ara a discutir com o c\u00f4nego hist\u00f3ria<br \/>\neclesi\u00e1stica: e, muito questionador, voltou aos seus argumentos vagos<br \/>\nsobre a doutrina da Gra\u00e7a: afirmava que um assassino, um parricida<br \/>\npoderia ser canonizado &#8211; se se tivesse revelado o estado de Gra\u00e7a!<br \/>\nDivagava, com frases de escola em que se lhe pegava a l\u00edngua. Citou<br \/>\nsantos que tinham sido escandalosos; outros que pela sua profiss\u00e3o<br \/>\ndeviam ter conhecido, praticado, amado o v\u00edcio. Exclamou com as m\u00e3os<br \/>\nna cinta:<\/p>\n<p>&#8211; Santo In\u00e1cio foi militar!<\/p>\n<p>&#8211; Militar? gritou o Libaninho. &#8211; E erguendo-se, correndo a Nat\u00e1rio,<br \/>\nlan\u00e7ando-lhe um bra\u00e7o ao pesco\u00e7o com uma ternura pueril<br \/>\ne avinhada: &#8211; Militar? E que era ele? Que era ele, o meu devoto Santo In\u00e1cio?<\/p>\n<p>Nat\u00e1rio repeliu-o:<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-me, homem! Era sargento de ca\u00e7adores.<\/p>\n<p>Houve uma enorme risada.<\/p>\n<p>O Libaninho ficara ext\u00e1tico.<\/p>\n<p>&#8211; Sargento de ca\u00e7adores! dizia erguendo as m\u00e3os num \u00edmpeto<br \/>\nbeato. Meu rico Santo In\u00e1cio! Bendito e louvado seja ele por toda a<br \/>\neternidade!<\/p>\n<p>E ent\u00e3o o abade prop\u00f4s que fossem tomar caf\u00e9 para debaixo<br \/>\nda parreira.<\/p>\n<p>Eram tr\u00eas horas. Ao erguer-se todos cambaleavam um pouco, arrotando<br \/>\nformidavelmente, com risadas espessas; s\u00f3 Amaro tinha a cabe\u00e7a<br \/>\nl\u00facida, as pernas firmes &#8211; e sentia-se muito terno.<\/p>\n<p>&#8211; Pois agora, colegas, disse o abade sorvendo o \u00faltimo gole de caf\u00e9,<br \/>\no que est\u00e1 a calhar \u00e9 um passeio \u00e0 fazenda.<\/p>\n<p>&#8211; Para esmoer, rosnou o c\u00f4nego erguendo-se com dificuldade. vamos l\u00e1<br \/>\n\u00e0 fazenda do abade!<\/p>\n<p>Foram pelo atalho da Barroca, um caminho estreito de carros. O dia estava<br \/>\nmuito azul, dum sol t\u00e9pido. A vereda seguia entre valados eri\u00e7ados<br \/>\nde silvas, para al\u00e9m as terras lisas estendiam-se cobertas de restolho;<br \/>\na espa\u00e7os as oliveiras destacavam, com grande nitidez, na sua folhagem<br \/>\nfina; para o horizonte arredondavam-se colinas cobertas da rama verde-negra<br \/>\ndos pinheiros; havia um grande sil\u00eancio; s\u00f3 \u00e0s vezes,<br \/>\nao longe, num caminho, um carro chiava. E naquela serenidade da paisagem e<br \/>\nda luz, os padres iam caminhando devagar, trope\u00e7ando um pouco, de olho<br \/>\naceso, est\u00f4mago enfartado, chacoteando e achando a vida boa.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego Dias e o abade, de bra\u00e7o dado, caturravam. O Brito,<br \/>\nao lado de Amaro, jurava que havia de beber o sangue ao morgado da Cumeada.<\/p>\n<p>&#8211; Prud\u00eancia, colega Brito, prud\u00eancia, dizia Amaro chupando o<br \/>\ncigarro.<\/p>\n<p>E o Brito, com passadas de carret\u00e3o, rosnava.<\/p>\n<p>&#8211; Hei-de comer-lhe os f\u00edgados.<\/p>\n<p>O Libaninho atr\u00e1s, s\u00f3, cantarolava em falsete:<\/p>\n<p>&#8211; Passarinho trigueiro,<\/p>\n<p>Salta c\u00e1 fora&#8230;<\/p>\n<p>Adiante de todos ia o padre Nat\u00e1rio: levava a capa no bra\u00e7o,<br \/>\narrastando pelo ch\u00e3o; a batinha desabotoada por tr\u00e1s deixava<br \/>\nver o forro imundo do colete; e as suas pernas escanifradas, com as meias<br \/>\npretas de l\u00e3 cheias de passagens, faziam bordos que o atiravam contra<br \/>\no silvado.<\/p>\n<p>E no entanto Brito, com grandes bafos de vinho, roncava:<\/p>\n<p>&#8211; Eu s\u00f3 me contentava em agarrar num cajado e correr tudo! tudo! &#8211;<br \/>\ne gesticulava com um gesto imenso que abrangia o mundo!<\/p>\n<p>&#8211; Tem as asas quebradas,<\/p>\n<p>N\u00e3o pode agora&#8230;<\/p>\n<p>Gania atr\u00e1s o Libaninho.<\/p>\n<p>Mas pararam de repente: Nat\u00e1rio adiante gritava com voz furiosa:<\/p>\n<p>&#8211; Seu burro, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea? Sua besta!<\/p>\n<p>Era \u00e0 volta do atalho. Trope\u00e7ara com um velho que conduzia<br \/>\numa ovelha; ia caindo; e amea\u00e7ava-o com o punho fechado numa raiva<br \/>\navinhada.<\/p>\n<p>&#8211; Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente o homem.<\/p>\n<p>&#8211; Sua besta! berrava Nat\u00e1rio com os olhos chamejantes. Que o racho!<\/p>\n<p>O homem balbuciava, tinha tirado o chap\u00e9u; viam-se os seus cabelos<br \/>\nbrancos; parecia ser um antigo criado da lavoura envelhecido no trabalho;<br \/>\nera talvez av\u00f4 &#8211; e curvado, vermelho de vergonha, encolhia-se com as<br \/>\nsebes para deixar passar no estreito caminho de carros os senhores padres<br \/>\njoviais e excitados da vinha\u00e7a!<\/p>\n<p>Amaro n\u00e3o os quis acompanhar at\u00e9 \u00e0 fazenda. Ao fim da<br \/>\naldeia, no cruzeiro, tomou pelo caminho de Sobros, voltou para Leiria.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que \u00e9 uma l\u00e9gua \u00e0 cidade, dizia o abade. Eu mando-lhe<br \/>\naparelhar a \u00e9gua, colega.<\/p>\n<p>&#8211; Qual hist\u00f3ria, abade, a perninha \u00e9 rija! &#8211; e, tra\u00e7ando<br \/>\nalegremente a capa, partiu cantarolando o Adeus&#8230;<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 da Cortegassa o atalho de Sobros alarga-se, ao comprido dum<br \/>\nmuro de quinta coberto de musgos e eri\u00e7ada no alto de luzidios fundos<br \/>\nde garrafas. Quando Amaro chegou pr\u00f3ximo ao port\u00e3o de carros,<br \/>\nbaixo e pintado de vermelho, encontrou no meio do caminho, parada, uma grande<br \/>\nvaca malhada; Amaro divertido espica\u00e7ou-a com o guarda-chuva; a vaca<br \/>\ntrotou balou\u00e7ando a papeira &#8211; e Amaro ao voltar-se viu Am\u00e9lia,<br \/>\nao port\u00e3o, que saudava, dizendo toda risonha:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o est\u00e1-me a espantar o gado, senhor p\u00e1roco?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a menina! Que milagre \u00e9 este?<\/p>\n<p>Ela fez-se um pouco vermelha:<\/p>\n<p>&#8211; Vim \u00e0 quinta com a D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o. Vim dar uma<br \/>\nvista de olhos \u00e0 fazenda.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 de Am\u00e9lia uma rapariga acamava couves numa canastra.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o esta \u00e9 que \u00e9 a quinta da D. Maria?<\/p>\n<p>E Amaro deu um passo para dentro do port\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma rua larga de velhos sobreiros, dando uma sombra doce, estendia-se at\u00e9<br \/>\n\u00e0 casa que se entrevia no fundo, branquejando ao sol.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. A nossa fazenda fica do outro lado, mas entra-se tamb\u00e9m<br \/>\npor aqui. V\u00e1, Joana, avia-te!<\/p>\n<p>A rapariga p\u00f4s a canastra \u00e0 cabe\u00e7a, deu as boas-tardes,<br \/>\nmeteu pelo caminho de Sobros, batendo muito os quadris.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor! sim, senhor! Parece uma boa propriedade, considerava o p\u00e1roco.<\/p>\n<p>&#8211; Venha ver a nossa fazenda! disse Am\u00e9lia. \u00c9 uma migalhinha<br \/>\nde terra, mais para fazer uma id\u00e9ia. Vai-se por aqui mesmo&#8230; Olhe,<br \/>\nvamos ter l\u00e1 baixo com a D. Maria, quer?<\/p>\n<p>&#8211; Valeu. Vamos l\u00e1 \u00e0 D. Maria, disse Amaro.<\/p>\n<p>Foram subindo a rua dos sobreiros, calados. O ch\u00e3o estava cheio de<br \/>\nfolhas secas, e, entre os troncos espa\u00e7ados, moutas de hort\u00eansias<br \/>\npendiam abatidas, amareladas dos chuveiros; ao fundo a casa baixa, velha,<br \/>\nde um andar s\u00f3, assentava pesadamente. Ao longo da parede grandes ab\u00f3boras<br \/>\namadureciam ao sol, e no telhado, todo negro do Inverno, esvoa\u00e7avam<br \/>\npombos. Por tr\u00e1s o laranjal formava uma massa de folhagens verde- escuras;<br \/>\numa nora chiava monotonamente.<\/p>\n<p>Um rapazinho passou com um balde de lavagem.<\/p>\n<p>&#8211; Para onde foi a senhora, Jo\u00e3o? perguntou Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>&#8211; Foi pro olival, disse o rapaz com a sua vozinha arrastada. O olival era<br \/>\nlonge, no fundo da quinta: havia ainda grandes lamas, n\u00e3o se podia<br \/>\nir l\u00e1 sem tamancos.<\/p>\n<p>&#8211; Vai-se a gente sujar toda, disse Am\u00e9lia. Deixar l\u00e1 a D. Maria,<br \/>\nhem? Vamos n\u00f3s ver a quinta&#8230; Por aqui, senhor p\u00e1roco&#8230;<\/p>\n<p>Estavam defronte dum velho muro onde cresciam clematites. Am\u00e9lia abriu<br \/>\numa porta verde; e por tr\u00eas degraus de pedra desconjuntados desceram<br \/>\na uma rua toldada por uma larga parreira. Junto do muro cresciam rosas de<br \/>\ntodo o ano; do outro lado, por entre os pilares de pedra que sustentavam a<br \/>\nlatada e os p\u00e9s torcidos das cepas, via-se, batido de luz, com tons<br \/>\namarelados, um grande campo de erva; os tetos baixos do curral coberto de<br \/>\ncolmo destacavam ao longe em escuro, e desse lado um fumozinho leve e branco<br \/>\nperdia-se no ar muito azul.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia a cada momento parava, explicava a quinta. &#8211; Ali ia semear-<br \/>\nse cevada; al\u00e9m havia de ver o cebolinho, estava muito bonito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! a D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o traz isto muito bem tratado!<\/p>\n<p>Amaro ouvia-a falar, com a cabe\u00e7a baixa, olhando-a de lado; a sua<br \/>\nvoz naquele sil\u00eancio dos campos parecia-lhe mais rica, mais doce; o<br \/>\ngrande ar dava-lhe uma cor mais picante \u00e0s faces; o seu olhar rebrilhava.<br \/>\nPara saltar umas lamas tinha apanhado o vestido; e a brancura da meia, que<br \/>\nele entreviu, perturbou-o como um come\u00e7o da sua nudez.<\/p>\n<p>Ao fundo da parreira atravessaram um campo ao comprido dum regueiro. Am\u00e9lia<br \/>\nriu muito do p\u00e1roco, que tinha medo dos sapos. Ele ent\u00e3o exagerou<br \/>\nos seus sustos. \u00d3 menina Am\u00e9lia, haveria v\u00edboras? Ele<br \/>\nro\u00e7ava-se por ela, afastando-se das ervas altas.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea aquele valado? Pois para o lado de l\u00e1 \u00e9 a nossa<br \/>\nfazenda. Entra- se pela cancela, v\u00ea? Mas veja l\u00e1 se est\u00e1<br \/>\ncansado! Que o senhor parece-me que n\u00e3o \u00e9 grande caminhador&#8230;<br \/>\nAi, um sapo!<\/p>\n<p>Amaro deu um pulinho, tocou-lhe o ombro. Ela empurrou-o docemente, e com<br \/>\num riso c\u00e1lido:<\/p>\n<p>&#8211; Seu medroso! seu medroso!<\/p>\n<p>Estava toda contente, toda viva. Falava na sua fazenda com uma vaidadezinha,<br \/>\nsatisfeita de entender da lavoura, de ser propriet\u00e1ria. &#8211; A cancela<br \/>\nest\u00e1 fechada, parece &#8211; disse Amaro.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1, fez ela. &#8211; Apanhou as saias, deu uma carreirinha. Estava fechada!<br \/>\nQue pena! E abalava, impaciente, as grades estreitas, entre as duas fortes<br \/>\nombreiras de madeira encravadas na espessura do silvado.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o caseiro que levou a chave!<\/p>\n<p>Agachou-se, gritou para o lado do campo, arrastando muito tempo a voz: &#8211;<br \/>\nAnt\u00f4nio! Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Anda l\u00e1 para o fundo da quinta! disse ela. Que seca! Se o senhor<br \/>\np\u00e1roco quisesse, aqui adiante pode-se passar. H\u00e1 uma abertura<br \/>\nno valado, chamam-lhe o salto da cabra. Pode a gente saltar para o outro lado.<\/p>\n<p>E caminhando rente ao silvado, chapinhando a lama, toda alegre:<\/p>\n<p>&#8211; Quando eu era pequena nunca passava pela cancela! Saltava sempre por ali.<br \/>\nE cada trambolh\u00e3o, quando o ch\u00e3o estava resvaladi\u00e7o com<br \/>\na chuva! Era um vivo dem\u00f4nio, aqui onde me v\u00ea! Ningu\u00e9m<br \/>\nh\u00e1-de dizer, senhor p\u00e1roco, hem? Ai! vou-me a fazer velha! &#8211;<br \/>\nE voltando-se para ele, com um risinho onde luzia o esmalte dos dentes:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 verdade? Estou-me a fazer velha, hem?<\/p>\n<p>Ele sorria. Custava-lhe falar. O sol, batendo-lhe nas costas, depois do vinho<br \/>\ndo abade, amolecia-o: e a figura dela, os seus ombros, os seus encontros davam-lhe<br \/>\num desejo cont\u00ednuo e intenso.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui est\u00e1 o salto da cabra, disse Am\u00e9lia parando.<\/p>\n<p>Era uma abertura estreita no valado: a terra do outro lado, mais baixa, estava<br \/>\ntoda lamacenta. Via-se dali a fazenda da S. Joaneira: o campo plano estendia-se<br \/>\nat\u00e9 um olival, com a erva fina muito estrelada de pequenos malmequeres<br \/>\nbrancos; uma vaca preta, de grandes malhas, pastava; e para al\u00e9m viam-se<br \/>\ntetos agu\u00e7ados dos casais, onde voavam revoadas de pardais.<\/p>\n<p>&#8211; E agora? perguntou Amaro.<\/p>\n<p>&#8211; Agora saltar, disse ela rindo.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1 vai! exclamou ele.<\/p>\n<p>Tra\u00e7ou a capa, saltou: mas escorregou nas ervas \u00famidas, &#8211; e<br \/>\nimediatamente Am\u00e9lia, debru\u00e7ando-se, rindo muito, com grandes<br \/>\nacenos de m\u00e3os:<\/p>\n<p>&#8211; E agora adeus, senhor p\u00e1roco, que eu vou ter com a D. Maria. A\u00ed<br \/>\nfica preso na fazenda. Para cima n\u00e3o pode o senhor pular, pela cancela<br \/>\nn\u00e3o pode o senhor passar! \u00c9 o senhor p\u00e1roco que est\u00e1<br \/>\npreso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 menina Am\u00e9lia! \u00f3 menina Am\u00e9lia!<\/p>\n<p>Ela cantarolava-lhe, escarnecendo:<\/p>\n<p>Fico sozinha \u00e0 varanda,<\/p>\n<p>Que o meu bem est\u00e1 na pris\u00e3o!<\/p>\n<p>Aquelas maneirinhas excitavam o padre &#8211; e com os bra\u00e7os erguidos,<br \/>\na voz c\u00e1lida:<\/p>\n<p>&#8211; Salte, salte!<\/p>\n<p>Ela ent\u00e3o fez voz de mimo:<\/p>\n<p>&#8211; Ai, tenho medinho! tenho medinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Salte, menina!<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vai! gritou ela bruscamente.<\/p>\n<p>Saltou, foi cair-lhe sobre o peito com um gritinho. Amaro resvalou, firmou-se<br \/>\n&#8211; e sentindo entre os bra\u00e7os o corpo dela, apertou-a brutalmente e<br \/>\nbeijou-a com furor no pesco\u00e7o Am\u00e9lia desprendeu-se, ficou diante<br \/>\ndele, sufocada, com a face em brasa, compondo na cabe\u00e7a e em roda do<br \/>\npesco\u00e7o, com as m\u00e3os tr\u00eamulas, as pregas da manta de l\u00e3.<br \/>\nAmaro disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Ameliazinha!<\/p>\n<p>Mas ela de repente apanhou os vestidos, correu ao comprido do valado. Amaro,<br \/>\ncom grandes passadas, seguiu-a atarantado. Quando chegou \u00e0 cancela,<br \/>\nAm\u00e9lia falava ao caseiro, que aparecia com a chave.<\/p>\n<p>Atravessaram o campo junto ao regueiro, depois a rua coberta com a parreira.<br \/>\nAm\u00e9lia adiante palrava com o caseiro; e atr\u00e1s Amaro, de cabe\u00e7a<br \/>\nbaixa, seguia muito murcho. Ao p\u00e9 da casa Am\u00e9lia parou, fazendo-se<br \/>\nvermelha, compondo sempre a manta em redor do pesco\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Ant\u00f4nio, disse, ensine o port\u00e3o ao senhor p\u00e1roco.<br \/>\nMuito boas tardes, senhor p\u00e1roco.<\/p>\n<p>E atrav\u00e9s das terras \u00famidas correu para o fundo da quinta,<br \/>\npara os lados do olival.<\/p>\n<p>A Sra. D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o ainda l\u00e1 estava, sentada<br \/>\nnuma pedra, tagarelando com o tio Patr\u00edcio; um bando de mulheres, com<br \/>\ngrandes varas, batiam em redor a ramagem das oliveiras.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso, tonta? De onde vens tu a correr, rapariga? Credo! que<br \/>\ndoida!<\/p>\n<p>&#8211; Vim a correr, disse ela toda vermelha, sufocada.<\/p>\n<p>Sentou-se ao p\u00e9 da velha; e ficou im\u00f3vel, com as m\u00e3os<br \/>\nca\u00eddas no rega\u00e7o, respirando fortemente, os bei\u00e7os entreabertos,<br \/>\nos olhos fixos numa abstra\u00e7\u00e3o. Todo o seu ser se abismava numa<br \/>\ns\u00f3 sensa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Gosta de mim! Gosta de mim!<\/p>\n<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n<p>Estava h\u00e1 muito namorada do padre Amaro &#8211; e \u00e0s vezes, s\u00f3,<br \/>\nno seu quarto, desesperava-se por imaginar que ele n\u00e3o percebia nos<br \/>\nseus olhos a confiss\u00e3o do seu amor! Desde os primeiros dias, apenas<br \/>\no ouvia pela manh\u00e3 pedir de baixo o almo\u00e7o, sentia uma alegria<br \/>\npenetrar todo o seu ser sem raz\u00e3o, punha-se a cantarolar com uma volubilidade<br \/>\nde p\u00e1ssaro. Depois via-o um pouco triste. Por qu\u00ea? N\u00e3o<br \/>\nconhecia o seu passado; e lembrada do frade de \u00c9vora, pensou que ele<br \/>\nse fizera padre por um desgosto de amor. Idealizou-o ent\u00e3o: supunha-lhe<br \/>\numa natureza muito terna, parecia- lhe que da sua pessoa airosa e p\u00e1lida<br \/>\nse desprendia uma fascina\u00e7\u00e3o. Desejou t\u00ea-lo por confessor:<br \/>\ncomo seria estar ajoelhada aos p\u00e9s dele, no confession\u00e1rio,<br \/>\nvendo de perto os seus olhos negros, sentindo a sua voz suave falar do Para\u00edso!<br \/>\nGostava muito da frescura da sua boca; fazia-se p\u00e1lida \u00e0 id\u00e9ia<br \/>\nde o poder abra\u00e7ar na sua longa batina preta! Quando Amaro sa\u00eda,<br \/>\nia ao quarto dele, beijava a travesseirinha, guardava os cabelos curtos que<br \/>\ntinham ficado nos dentes do pente. As faces abrasavam-se-lhe quando o ouvia<br \/>\ntocar a campainha.<\/p>\n<p>Se Amaro jantava fora com o c\u00f4nego Dias, estava todo o dia impertinente,<br \/>\nralhava com a Ru\u00e7a, \u00e0s vezes mesmo dizia mal dele, &#8220;que<br \/>\nera casmurro, que era t\u00e3o novo que nem inspirava respeito&#8221;. Quando<br \/>\nele falava de alguma nova confessada, amuava, com ci\u00fame pueril. A sua<br \/>\nantiga devo\u00e7\u00e3o renascia, cheia de um fervor sentimental: sentia<br \/>\num vago amor f\u00edsico pela Igreja; desejaria abra\u00e7ar, com pequeninos<br \/>\nbeijos demorados, o altar, o \u00f3rg\u00e3o, o missal, os santos, o C\u00e9u,<br \/>\nporque n\u00e3o os distinguia bem de Amaro, e pareciam-lhe depend\u00eancias<br \/>\nda sua pessoa. Lia o seu livro de missa pensando nele como no seu Deus particular.<br \/>\nE Amaro n\u00e3o sabia, quando passeava agitado pelo quarto, que ela em<br \/>\ncima o escutava, regulando as palpita\u00e7\u00f5es do seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npelas passadas dele, abra\u00e7ando o travesseiro, toda desfalecida de desejos,<br \/>\ndando beijos no ar, onde se lhe representavam os l\u00e1bios do p\u00e0roco25!<\/p>\n<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n<p>A tarde ca\u00eda quando D. Maria e Am\u00e9lia voltaram para a cidade.<br \/>\nAm\u00e9lia adiante, calada, chibatava a sua burrinha, enquanto D. Maria<br \/>\nda Assun\u00e7\u00e3o vinha palrando com o mo\u00e7o da quinta, que<br \/>\nsegurava a arreata. Ao passarem junto \u00e0 S\u00e9 tocou a Ave-Maria.<br \/>\nE Am\u00e9lia, rezando, n\u00e3o podia destacar os olhos das cantarias<br \/>\nda igreja t\u00e3o grandiosamente erguidas, decerto para que ele ali celebrasse!<br \/>\nLembravam-lhe ent\u00e3o domingos em que o vira, ao repicar dos sinos, dar<br \/>\na b\u00ean\u00e7\u00e3o dos degraus do altar-mor: e todos se curvavam,<br \/>\nmesmo as senhoras do morgado Carreiro, mesmo a Sra. baronesa da Via-Clara<br \/>\ne a mulher do governador civil, t\u00e3o orgulhosa com o seu nariz de cavalete!<br \/>\nDobravam-se sob os seus dedos erguidos, e achavam decerto tamb\u00e9m bonitos<br \/>\nos seus olhos negros! E era ele que a tinha apertado nos bra\u00e7os, ao<br \/>\np\u00e9 do valado! Sentia ainda no pesco\u00e7o a press\u00e3o c\u00e1lida<br \/>\ndos seus bei\u00e7os: uma paix\u00e3o flamejou como uma chama por todo<br \/>\no seu ser: largou a arreata do burrinho, apertou as m\u00e3os contra o peito,<br \/>\ne cerrando os olhos, lan\u00e7ando toda a sua alma numa devo\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Nossa Senhora das Dores, minha madrinha, faz que ele goste de mim!<\/p>\n<p>No adro lajeado c\u00f4negos passeavam, conversando. A botica defronte j\u00e1<br \/>\ntinha luz, os bocais reluziam; e por detr\u00e1s da balan\u00e7a a figura<br \/>\ndo farmac\u00eautico Carlos, com o seu bon\u00e9 bordado a mi\u00e7anga,<br \/>\nmovia-se majestosamente.<\/p>\n<p>25 0 sensualismo m\u00edstico de Am\u00e9lia leva-a a indefinir as fronteiras<br \/>\nentre mat\u00e9ria e esp\u00edrito. (N.E.)<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>Cap\u00edtulo VIII<\/h2>\n<p>O padre Amaro voltara para casa aterrado.<\/p>\n<p>&#8211; E agora? e agora? dizia ele, encostado ao canto da janela, sentindo o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nencolhido.<\/p>\n<p>Devia sair imediatamente da casa da S. Joaneira! N\u00e3o podia continuar<br \/>\nali, na mesma familiaridade, depois de ter tido &#8220;aquele atrevimento com<br \/>\na pequena&#8221;.<\/p>\n<p>Que ela n\u00e3o ficara muito indignada -. apenas atordoada; contivera-a<br \/>\ntalvez o respeito eclesi\u00e1stico, a delicadeza para com o h\u00f3spede,<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o para com o amigo do c\u00f4nego. Mas podia contar<br \/>\n\u00e0 m\u00e3e, ao escrevente&#8230; Que esc\u00e2ndalo! E via o senhor<br \/>\nchantre, tra\u00e7ando a perna e fitando-o, &#8211; que era a sua atitude de repreens\u00e3o<br \/>\n&#8211; dizer-lhe com pompa: &#8211; &#8220;S\u00e3o esses desregramentos que desonram<br \/>\no sacerd\u00f3cio. N\u00e3o se comportaria de outro modo um S\u00e1tiro<br \/>\nno monte Olimpo!&#8221; &#8211; Poderiam desterr\u00e1-lo outra vez para alguma<br \/>\nfreguesia da serra!&#8230; Que diria a Sra. condessa de Ribamar?<\/p>\n<p>E depois, se persistisse em v\u00ea-la na intimidade, ter constantemente<br \/>\npresentes aqueles olhos negros, o sorriso c\u00e1lido que lhe fazia uma<br \/>\ncovinha no queixo, a curva daquele peito &#8211; a sua paix\u00e3o, crescendo<br \/>\nsurdamente, irritada a toda a hora, recalcada para dentro, torn\u00e1-lo-ia<br \/>\ndoido, &#8220;podia fazer alguma asneira&#8221;!<\/p>\n<p>Decidiu-se ent\u00e3o a ir falar ao c\u00f4nego Dias: a sua natureza fraca<br \/>\nnecessitava sempre receber for\u00e7as duma raz\u00e3o, duma experi\u00eancia<br \/>\nalheia: costumava consultar ordinariamente o c\u00f4nego que, pelo h\u00e1bito<br \/>\nda disciplina eclesi\u00e1stica, ele julgava mais inteligente por ser seu<br \/>\nsuperior na hierarquia; e n\u00e3o perdera, desde o semin\u00e1rio, a<br \/>\nsua depend\u00eancia de disc\u00edpulo. Depois, se quisesse arranjar uma<br \/>\ncasa e uma criada para ir viver s\u00f3, necessitava o aux\u00edlio do<br \/>\nc\u00f4nego, que conhecia Leiria como se a tivesse edificado.<\/p>\n<p>Encontrou-o na sala de jantar. O candeeiro de azeite esmorecia com um morr\u00e3o<br \/>\navermelhado. Os ti\u00e7\u00f5es da braseira, cobertos duma pulveriza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde cinza, revermelhavam vagamente. E o c\u00f4nego, sentado numa cadeira<br \/>\nde bra\u00e7os, com o capote pelos ombros, os p\u00e9s embrulhados num<br \/>\ncobertor, amodorrado no calor do lume, com o Brevi\u00e1rio sobre os joelhos,<br \/>\ndormitava. Na dobra do cobertor, a Trigueira estirada dormitava como ele.<\/p>\n<p>Aos passos de Amaro o c\u00f4nego abriu muito devagar os olhos, rosnou:<\/p>\n<p>&#8211; Ia adormecendo, hem!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 cedo, disse o padre Amaro. Ainda n\u00e3o tocou a recolher.<br \/>\nEnt\u00e3o que pregui\u00e7a \u00e9 essa?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00e9 voc\u00ea? disse o c\u00f4nego com um enorme bocejo. Cheguei<br \/>\ntarde de casa do abade, tomei uma gota de ch\u00e1, veio o quebranto&#8230;<br \/>\nEnt\u00e3o que \u00e9 feito?<\/p>\n<p>&#8211; Vim por aqui.<\/p>\n<p>&#8211; Pois o abade deu-nos um rico jantar. A cabidela estava de m\u00e3o- cheia!<br \/>\nEu carreguei-me um bocado, disse o c\u00f4nego rufando com os dedos na capa<br \/>\ndo Brevi\u00e1rio.<\/p>\n<p>Amaro, sentado ao p\u00e9 dele, remexia devagar o brasido:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe voc\u00ea, padre-mestre? disse ele de repente. Ia acrescentar: &#8211;<br \/>\nAconteceu-me um caso! &#8211; Mas reteve-se, murmurou: &#8211; Estou hoje esquisito; tenho<br \/>\nandado ultimamente fora dos eixos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea, com efeito, anda amarelo, disse o c\u00f4nego, considerando-o.<br \/>\nPurgue-se, homem!<\/p>\n<p>Amaro esteve um momento calado, a olhar o lume.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe? estou com id\u00e9ia de mudar de casa.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego ergueu a cabe\u00e7a, arregalou os olhinhos sonolentos:<\/p>\n<p>&#8211; Mudar de casa! Ora essa! por qu\u00ea?<\/p>\n<p>O padre Amaro chegou a cadeira para ele, e falando baixo:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea percebe&#8230; Tenho estado a pensar, \u00e9 assim esquisito estar<br \/>\nem casa de duas mulheres, com uma rapariga&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, hist\u00f3rias! Que me vem voc\u00ea contar? Voc\u00ea \u00e9<br \/>\nh\u00f3spede&#8230; Deixe- se disso, homem! \u00c9 como quem est\u00e1 na<br \/>\nhospedaria.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, padre-mestre, eu c\u00e1 me entendo&#8230;<\/p>\n<p>E suspirou; desejava que o c\u00f4nego o interrogasse, facilitasse as confid\u00eancias.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o s\u00f3 hoje \u00e9 que pensa nisso, Amaro?!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, tenho estado a pensar hoje nisto. Tenho as minhas raz\u00f5es.<br \/>\n&#8211; Ia a dizer: &#8211; Fiz uma tolice, &#8211; mas acanhou-se.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego olhou para ele um momento:<\/p>\n<p>&#8211; Homem! seja franco!<\/p>\n<p>&#8211; Sou.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea acha aquilo caro?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! disse o outro com uma nega\u00e7\u00e3o impaciente.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, ent\u00e3o \u00e9 outra coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. Voc\u00ea que quer? &#8211; E num tom magano, com que julgou agradar<br \/>\nao c\u00f4nego: &#8211; A gente tamb\u00e9m gosta do que \u00e9 bom&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem, disse o c\u00f4nego rindo, percebo. Voc\u00ea, como eu sou<br \/>\namigo da casa, quer-me dizer por bons modos que tem nojo de tudo aquilo!<\/p>\n<p>&#8211; Tolice! disse Amaro, erguendo-se, irritado de tanta obtusidade.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, homem! exclamou o c\u00f4nego abrindo os bra\u00e7os. Voc\u00ea<br \/>\nquer sair da casa? Por alguma \u00e9! Ora a mim parece-me que melhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, \u00e9 verdade, dizia Amaro que dava agora grandes<br \/>\npassadas pela sala. Mas estou com esta ferrada! Veja voc\u00ea se me arranja<br \/>\numa casita barata com alguma mob\u00edlia&#8230; Voc\u00ea entende melhor dessas<br \/>\ncoisas&#8230;<\/p>\n<p>O c\u00f4nego ficou calado, muito enterrado na poltrona, co\u00e7ando<br \/>\ndevagar o queixo.<\/p>\n<p>&#8211; Uma casita barata, rosnou por fim. Eu verei, eu verei&#8230; talvez.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea compreende, acudiu vivamente Amaro, chegando-se ao c\u00f4nego.<br \/>\nA casa da S. Joaneira&#8230;<\/p>\n<p>Mas a porta rangeu, D. Josefa Dias entrou: e depois de conversarem sobre<br \/>\no jantar do abade, o catarro da pobre D. Maria da Assun\u00e7\u00e3o,<br \/>\na doen\u00e7a de f\u00edgado que ia minando o engra\u00e7ado c\u00f4nego<br \/>\nSanches &#8211; Amaro saiu, quase contente agora de se n\u00e3o &#8220;ter desabotoado<br \/>\ncom o padre-mestre&#8221;.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego ficou ainda ao p\u00e9 do lume, ruminando. Aquela resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Amaro de deixar a casa da S. Joaneira era bem-vinda: quando ele o trouxera<br \/>\nde h\u00f3spede para a Rua da Miseric\u00f3rdia, combinara com a S. Joaneira<br \/>\ndiminuir-lhe a mesada que havia anos lhe dava, regularmente, no dia 30. Mas<br \/>\narrependeu-se logo: a S. Joaneira, se n\u00e3o tinha h\u00f3spede, dormia<br \/>\ns\u00f3 no primeiro andar: o c\u00f4nego podia ent\u00e3o saborear livremente<br \/>\nos carinhos da sua velhota;- e Am\u00e9lia na sua alcova, em cima, era alheia<br \/>\na este &#8220;conchegozinho&#8221;. Quando veio o padre Amaro, a S. Joaneira<br \/>\ncedeu-lhe o quarto, e dormia numa cama de ferro ao p\u00e9 da filha: e o<br \/>\nc\u00f4nego ent\u00e3o reconheceu, como ele disse, desconsolado &#8211; &#8220;que<br \/>\naquele arranjo tinha estragado tudo&#8221;. Para gozar as do\u00e7uras da<br \/>\nsesta com a sua S. Joaneira, era necess\u00e1rio que Am\u00e9lia jantasse<br \/>\nfora, que a Ru\u00e7a estivesse na fonte, outras combina\u00e7\u00f5es<br \/>\nimportunas: e ele, c\u00f4nego do cabido, na ego\u00edsta velhice, quando<br \/>\nprecisava ter recato com a sua sa\u00fade, via-se obrigado a esperar, a<br \/>\nespreitar, a ter nos seus prazeres regulares e higi\u00eanicos as dificuldades<br \/>\ndum colegial que ama a senhora professora. Ora se Amaro sa\u00edsse, a S.<br \/>\nJoaneira descia ao seu quarto, no primeiro andar; vinham as antigas comodidades,<br \/>\nas tranq\u00fcilas sestas. \u00c9 verdade que tinha de dar a antiga mesada&#8230;<br \/>\nDaria a mesada!<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! ao menos est\u00e1 um homem \u00e0 sua vontade, resumiu<br \/>\nele.<\/p>\n<p>&#8211; Que est\u00e1 para a\u00ed o mano a falar s\u00f3? perguntou a Sra.<br \/>\nD. Josefa, despertando do quebranto em que ia caindo, ao p\u00e9 do lume.<\/p>\n<p>&#8211; Estava c\u00e1 a ma1ucar como hei-de castigar a carne na quaresma &#8211; disse<br \/>\no c\u00f4nego com um riso grosso.<\/p>\n<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n<p>A essa hora a Ru\u00e7a chamava o padre Amaro para o ch\u00e1: e ele<br \/>\nsubia devagar, com o cora\u00e7\u00e3o pequenino, receando encontrar a<br \/>\nS. Joaneira muito carrancuda, j\u00e1 informada do insulto. Achou s\u00f3<br \/>\nAm\u00e9lia &#8211; que tendo-lhe sentido os passos na escada tomara rapidamente<br \/>\na costura, e, com a cabe\u00e7a muito baixa, dava grandes agulhadas, vermelha<br \/>\ncomo o len\u00e7o que abainhava para o c\u00f4nego.<\/p>\n<p>&#8211; Muito boa noite, menina Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>&#8211; Muito boa noite, senhor p\u00e1roco.<\/p>\n<p>Am\u00e9lia costumava sempre ter um ol\u00e1! ou um ora viva! muito am\u00e1vel;<br \/>\naquela secura aterrou-o; disse-lhe logo muito perturbado:<\/p>\n<p>&#8211; Menina Am\u00e9lia, eu pe\u00e7o-lhe que me perdoe&#8230; Foi um atrevimento&#8230;<br \/>\nEu nem soube o que fiz&#8230; Mas acredite&#8230; Estou resolvido a sair daqui. At\u00e9<br \/>\nj\u00e1 pedi ao Sr, c\u00f4nego Dias que me arranjasse casa&#8230;<\/p>\n<p>Falava com o rosto baixo &#8211; e n\u00e3o via Am\u00e9lia erguer os olhos<br \/>\npara ele, surpreendida e toda desconsolada.<\/p>\n<p>Neste momento a S. Joaneira entrou, e logo da porta, abrindo os bra\u00e7os:<\/p>\n<p>&#8211; Viva! Ent\u00e3o j\u00e1 sei, j\u00e1 sei! Disse-me o Sr. padre Nat\u00e1rio:<br \/>\ngrande jantar! Conte l\u00e1, conte l\u00e1!<\/p>\n<p>Amaro teve de dizer os pratos, as pilh\u00e9rias do Libaninho, a discuss\u00e3o<br \/>\nteol\u00f3gica; depois falaram da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter atrevido<br \/>\na dizer \u00e0 S. Joaneira que ia deixar a casa, &#8211; o que era, coitada, para<br \/>\na pobre mulher, uma perda de seis tost\u00f5es por dial<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte o c\u00f4nego foi a casa de Amaro, pela manh\u00e3,<br \/>\nantes de ir ao coro. O p\u00e1roco fazia a barba \u00e0 janela:<\/p>\n<p>&#8211; O1\u00e1, padre-mestre! Que h\u00e1 de novo?<\/p>\n<p>&#8211; Parece-me que se arranja a coisa! E foi por acaso, esta manh\u00e3&#8230;<br \/>\nH\u00e1 uma casita l\u00e1 para os meus lados, que \u00e9 um achado.<br \/>\nEra do major Nunes, que vai mudado para o 5.<\/p>\n<p>Aquela precipita\u00e7\u00e3o desagradou a Amaro: perguntou, dando desconsoladamente<br \/>\no fio \u00e0 navalha:<\/p>\n<p>&#8211; Tem mob\u00edlia?<\/p>\n<p>&#8211; Tem mob\u00edlia, tem lou\u00e7as, tem roupas, tem tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 entrar e come\u00e7ar a gozar. E aqui para n\u00f3s,<br \/>\nAmaro, voc\u00ea tem raz\u00e3o. Estive a pensar no caso&#8230; \u00c9 melhor<br \/>\npara voc\u00ea viver s\u00f3. De modo que vista-se, e vamos ver a casita.<\/p>\n<p>Amaro, calado, rapava a cara com desespero.<\/p>\n<p>A casa era na Rua das Sousas, de um andar, muito velha, com a madeira carunchosa:<br \/>\na mob\u00edlia, como disse o c\u00f4nego, &#8220;podia passar a veteranos&#8221;;<br \/>\nalgumas litografias desbotadas pendiam lugubremente de grandes pregos negros;<br \/>\ne o imundo major Nunes deixara os vidros quebrados, os soalhos todos escarrados,<br \/>\nas paredes riscadas de f\u00f3sforos, e at\u00e9 sobre um poial da janela<br \/>\nduas pe\u00fagas quase negras.<\/p>\n<p>Amaro aceitou a casa. E nessa mesma manh\u00e3 o c\u00f4nego ajustou-lhe<br \/>\numa criada, a Sra. Maria Vic\u00eancia, pessoa muito devota, alta e magra<br \/>\ncomo um pinheiro, antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como considerou<br \/>\no c\u00f4nego Dias) era a pr\u00f3pria irm\u00e3 da famosa Dion\u00edsia!<\/p>\n<p>A Dion\u00edsia fora outrora a Dama das Cam\u00e9lias26, a Ninon de Lenclos,<br \/>\na Manon de Leiria: gozara a honra de ser concubina de dois governadores civis<br \/>\ne do terr\u00edvel morgado da Sertejeira; e as paix\u00f5es fren\u00e9ticas<br \/>\nque inspirara tinham sido para quase todas as m\u00e3es de fam\u00edlia<br \/>\nde Leiria causa de l\u00e1grimas e de fanicos. Agora engomava para fora,<br \/>\nencarregava-se de empenhar objetos, entendia muito de partos, protegia &#8220;o<br \/>\nrico adulteriozinho&#8221; segundo a singular express\u00e3o do velho D.<br \/>\nLu\u00eds da Barrosa, cognominado o infame, fornecia lavradeirinhas aos<br \/>\nsenhores empregados p\u00fablicos, sabia toda a hist\u00f3ria amorosa<br \/>\ndo distrito. E via-se sempre na rua a Dion\u00edsia com o seu xale de xadrez<br \/>\ntra\u00e7ado, o pesado seio tremendo dentro dum chambre sujo, o passinho<br \/>\ndiscreto e os antigos sorrisos &#8211; mas a que faltavam j\u00e1 os dois dentes<br \/>\nde diante.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego logo nessa tarde deu parte \u00e0 S. Joaneira da resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Amaro. Foi um grande espanto para a excelente senhora! Queixou-se, com<br \/>\namargura, da ingratid\u00e3o do senhor p\u00e1roco.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego tossiu grosso e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. E eu lhe digo por qu\u00ea:<br \/>\n\u00e9 que este arranjo do quarto em cima, etc., est\u00e1-me a arrasar<br \/>\na sa\u00fade.<\/p>\n<p>Deu outras raz\u00f5es de prud\u00eancia higi\u00eanica, e acrescentou<br \/>\npassando-lhe com bondade os dedos pelo pesco\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; E o que \u00e9 perder a conveni\u00eancia, n\u00e3o se aflija a senhora!<br \/>\nEu darei para a panela como dantes; e como a colheita foi boa porei mais meia<br \/>\nmoeda para os arrebiques da pequena. Ora venha de l\u00e1 uma beijoca, Augustinha,<br \/>\nsua brejeira! E ou\u00e7a, como-lhe c\u00e1 as sopas.<\/p>\n<p>Amaro no entanto embaixo ia emalando a sua roupa. Mas a cada momento parava,<br \/>\ndava um ai triste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama fofa, a mesa com<br \/>\na sua toalha branca, a larga cadeira forrada de chita onde ele lia o Brevi\u00e1rio,<br \/>\nouvindo, por cima, cantarolar Am\u00e9lia.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca mais! pensava. Nunca mais!<\/p>\n<p>Adeus as boas manh\u00e3s passadas ao p\u00e9 dela, vendo-a costurar!<br \/>\nAdeus as alegres sobremesas, que se prolongavam \u00e0 luz do candeeiro!<br \/>\nAdeus os ch\u00e1s, ao p\u00e9 da braseira, quando o vento uivava fora<br \/>\ne cantavam as frias goteiras! Tudo tinha acabado!<\/p>\n<p>26 A Dama das Cam\u00e9lias (1847): Romance de Alexandre Dumas, filho (1824-1895)<br \/>\nO escritor franc\u00eas criticou a hipocrisia social e defendeu a igualdade<br \/>\nsexual entre o homem e a mulher. (N.E.)<\/p>\n<p>A S. Joaneira e o c\u00f4nego apareceram ent\u00e3o \u00e0 porta do<br \/>\nquarto. O c\u00f4nego resplandecia; e a S. Joaneira disse, muito magoada:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei, j\u00e1 sei, seu ingrato!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo os ombros tristemente.<br \/>\nMas h\u00e1 raz\u00f5es&#8230; Eu sinto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, senhor p\u00e1roco, disse a S. Joaneira, n\u00e3o se ofenda com<br \/>\no que lhe vou dizer, mas eu j\u00e1 lhe queria como filho&#8230; e levou o len\u00e7o<br \/>\naos olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Tolices, exclamou o c\u00f4nego. Pois ent\u00e3o ele n\u00e3o pode<br \/>\nvir aqui em amizade, passar as noites para o cavaco, tomar o seu caf\u00e9?&#8230;<br \/>\nO homem n\u00e3o vai para o Brasil, senhora!<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, mas sempre era<br \/>\nt\u00ea-lo de portas adentro!<\/p>\n<p>Enfim, ela bem sabia que a gente na sua casa est\u00e1 muito melhor&#8230;<br \/>\nFez-lhe ent\u00e3o grandes recomenda\u00e7\u00f5es sobre a lavadeira,<br \/>\nque mandasse buscar o que quisesse, lou\u00e7as, len\u00e7\u00f3is&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E veja l\u00e1, n\u00e3o lhe esque\u00e7a alguma coisa, senhor p\u00e1roco!<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado.<\/p>\n<p>E continuando a arrumar a sua roupa, o p\u00e1roco desesperava-se agora<br \/>\ncontra a resolu\u00e7\u00e3o que tomara. A pequena evidentemente n\u00e3o<br \/>\ntinha aberto bico! Para que sairia ent\u00e3o daquela casa t\u00e3o barata,<br \/>\nt\u00e3o confort\u00e1vel, t\u00e3o amiga? E odiava o c\u00f4nego pelo<br \/>\nseu zelo t\u00e3o precipitado.<\/p>\n<p>O jantar foi triste. Am\u00e9lia, decerto para explicar a sua palidez,<br \/>\nqueixava-se de dores na cabe\u00e7a. Ao caf\u00e9 o c\u00f4nego quis<br \/>\na sua &#8220;dose de m\u00fasica&#8221;; e Am\u00e9lia, ou maquinalmente<br \/>\nou com inten\u00e7\u00e3o, disse a can\u00e7\u00e3o querida:<\/p>\n<p>Ai! adeus! acabaram-se os dias<\/p>\n<p>Que ditoso vivi a teu lado!<\/p>\n<p>Soa a hora, o momento fadado.<\/p>\n<p>\u00c9 for\u00e7oso deixar-te e partir!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e0quela chorosa melodia repassada das tristezas da separa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nAmaro sentiu-se t\u00e3o perturbado que teve de se erguer bruscamente, ir<br \/>\nencostar o rosto \u00e0 vidra\u00e7a, esconder as duas l\u00e1grimas<br \/>\nque irreprimivelmente lhe saltavam das p\u00e1lpebras. Os dedos de Am\u00e9lia<br \/>\nembrulhavam-se tamb\u00e9m no teclado; at\u00e9 a mesma S. Joaneira disse:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! filha, toca outra coisa, credo!<\/p>\n<p>Mas o c\u00f4nego, erguendo-se pesadamente:<\/p>\n<p>&#8211; Pois senhores, v\u00e3o sendo horas. Vamos l\u00e1, Amaro. Eu vou consigo<br \/>\nat\u00e9 a Rua das Sousas&#8230;<\/p>\n<p>Amaro ent\u00e3o quis dizer adeus \u00e0 idiota; mas depois de um forte<br \/>\nacesso de tosse, a velha dormia, muito fraca.<\/p>\n<p>&#8211; Deix\u00e1-la sossegada, disse Amaro. E apertando a m\u00e3o \u00e1<br \/>\nS. Joaneira: &#8211; Muito obrigado por tudo, minha senhora, acredite&#8230;<\/p>\n<p>Calou-se, com um solu\u00e7o na garganta.<\/p>\n<p>A S. Joaneira tinha levado aos olhos a ponta do seu avental branco.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, senhora! disse o c\u00f4nego rindo-se, j\u00e1 h\u00e1 bocado<br \/>\nlhe disse, o homem n\u00e3o vai para as \u00cdndias!<\/p>\n<p>&#8211; A gente \u00e9 pela amizade que lhes ganha, choramingou a S. Joaneira.<\/p>\n<p>Amaro tentou gracejar. Am\u00e9lia, muito branca, mordia o beicinho.<\/p>\n<p>Enfim Amaro desceu: e o Jo\u00e3o Ru\u00e7o, que na sua chegada a Leiria<br \/>\nlhe trouxera o ba\u00fa para a Rua da Miseric\u00f3rdia, muito b\u00eabedo,<br \/>\ncantarolando o Bendito, &#8211; levava-lho agora para a Rua das Sousas, b\u00eabedo<br \/>\ntamb\u00e9m, mas trauteando o Rei-chegou.<\/p>\n<p>\u2022\u2022\u2022<\/p>\n<p>Quando Amaro, nessa noite, se viu s\u00f3 naquela casa tristonha, sentiu<br \/>\numa melancolia t\u00e3o pungente e um t\u00e9dio t\u00e3o negro da vida,<br \/>\nque, com a sua natureza lassa, teve vontade de se encolher a um canto e ficar<br \/>\nali a morrer!<\/p>\n<p>Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em redor: a cama era de ferro,<br \/>\npequena, com um colch\u00e3o duro e uma coberta vermelha; o espelho com<br \/>\no a\u00e7o gasto luzia sobre a mesa; como n\u00e3o havia lavat\u00f3rio,<br \/>\na bacia e o jarro, com um bocadinho de sabonete, estavam sobre o poial da<br \/>\njanela; tudo ali cheirava a mofo; e fora, na rua negra, caia sem cessar a<br \/>\nchuva triste. Que exist\u00eancia! E seria sempre assim!&#8230;<\/p>\n<p>Desesperou-se ent\u00e3o contra Am\u00e9lia: acusou-a, com o punho fechado,<br \/>\ndas comodidades que perdera, da falta de mob\u00edlia, da despesa que ia<br \/>\nter, da solid\u00e3o que o regelava! Se fosse mulher de cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndevia ter vindo ao seu quarto, dizer-lhe: Sr. padre Amaro, para que sai de<br \/>\ncasa? Eu n\u00e3o estou zangada! &#8211; Porque enfim quem irritara o seu desejo?<br \/>\nEla, com as suas maneirinhas temas, os seus olhinhos adocicados! Mas n\u00e3o,<br \/>\ndeixara-o ema. lar a roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, indo tocar<br \/>\ncom estrondo a valsa do Beijo!<\/p>\n<p>Jurou ent\u00e3o n\u00e3o voltar a casa da S. Joaneira. E, a grandes<br \/>\npassadas pelo quarto, pensava &#8211; no que havia de fazer para humilhar Am\u00e9lia.<br \/>\nQ qu\u00ea? Desprez\u00e1-la como uma cadela! Ganhar influ\u00eancia na<br \/>\nsociedade devota de Leiria, ser muito do senhor chantre: afastar da Rua da<br \/>\nMiseric\u00f3rdia o c\u00f4nego e as Gansosos; intrigar com as senhoras<br \/>\nda boa roda para que se afastassem dela, com secura, no altar-mor, \u00e0<br \/>\nmissa do domingo; dar a entender que a m\u00e3e era uma prostituta&#8230; Enterr\u00e1-la!<br \/>\ncobri-la de lama! E na S\u00e9, ao sair da missa, regalar-se de a ver passar<br \/>\nencolhida no seu mantelete preto, escorra\u00e7ada de todos, enquanto ele,<br \/>\n\u00e0 porta, de prop\u00f3sito, conversaria com a mulher do governador<br \/>\ncivil e seria galante com a baronesa de Via-Clara!&#8230; Depois pregaria um grande<br \/>\nserm\u00e3o, na quaresma, e ela ouviria dizer, na arcada, nas lojas: &#8220;Grande<br \/>\nhomem, o padre Amaro!&#8221;. Tornar-se-ia ambicioso, intrigaria, e, protegido<br \/>\npela Sra. condessa de Ribamar, subiria nas dignidades eclesi\u00e1sticas:<br \/>\no que pensaria ela quando o visse um dia bispo de Leiria, p\u00e1lido e<br \/>\ninteressante na sua mitra toda dourada, passando, seguido dos incensadores,<br \/>\nao longo da nave da S\u00e9, entre um povo ajoelhado e penitente, sob os<br \/>\nroucos cantos do \u00f3rg\u00e3o? E ela o que seria ent\u00e3o? Uma<br \/>\nmagra criatura murcha, embrulhada num xale barato! E o Sr. Jo\u00e3o Eduardo,<br \/>\no escolhido de agora, o esposo? Seria um pobre amanuense mal pago, com uma<br \/>\nquinzena ro\u00e7ada, os dedos queimados do cigarro, curvado sobre o seu<br \/>\npapel alma\u00e7o, impercept\u00edvel na terra, adulando alto e invejando<br \/>\nbaixo! E ele, bispo, na vasta escadaria hier\u00e1rquica que sobe at\u00e9<br \/>\nao C\u00e9u, estaria j\u00e1 muito para cima dos homens, na zona de luz<br \/>\nque faz a face de Deus-Padre! &#8211; E seria par do reino, e os padres da sua diocese<br \/>\ntremeriam de o ver franzir a testa!<\/p>\n<p>Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.<\/p>\n<p>Que faria ela \u00e0quela hora? pensava. Costurava decerto, na sala de<br \/>\njantar: estava o escrevente: jogavam a bisca, riam &#8211; ela ro\u00e7ava-lhe<br \/>\ntalvez com o p\u00e9, no escuro, debaixo da mesa. Recordou o seu p\u00e9,<br \/>\no bocadinho da meia que vira quando ela saltava as lamas na quinta, e essa<br \/>\ncuriosidade inflamada subia pela curva da perna at\u00e9 ao seio, percorrendo<br \/>\nbelezas que suspeitava&#8230; O que ele gostava daquela maldita! E era imposs\u00edvel<br \/>\nobt\u00ea-la! E todo o homem feio e est\u00fapido podia ir \u00e0 Rua<br \/>\nda Miseric\u00f3rdia, pedi-la \u00e0 m\u00e3e, vir \u00e0 S\u00e9<br \/>\ndizer-lhe: &#8220;Senhor p\u00e1roco, case-me com esta mulher&#8221;, e beijar,<br \/>\nsob a prote\u00e7\u00e3o da Igreja e do Estado, aqueles bra\u00e7os<br \/>\ne aquele peito! Ele n\u00e3o. Era padre! Fora aquela infernal pega da marquesa<br \/>\nde Alegros!&#8230;<\/p>\n<p>Abominava ent\u00e3o todo o mundo secular &#8211; por lhe ter perdido para sempre<br \/>\nos privil\u00e9gios: e como o sacerd\u00f3cio o exclu\u00eda da participa\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos prazeres humanos e sociais, refugiava-se, em compensa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nna id\u00e9ia da superioridade espiritual que lhe dava sobre os homens.<br \/>\nAquele miser\u00e1vel escrevente podia casar e possuir a rapariga &#8211; mas<br \/>\nque era ele em compara\u00e7\u00e3o dum p\u00e1roco a quem Deus conferia<br \/>\no poder supremo de distribuir o C\u00e9u e o Inferno?&#8230; &#8211; E repastava-se<br \/>\ndeste sentimento, enchendo o esp\u00edrito de orgulhos sacerdotais. Mas<br \/>\nvinha-lhe bem depressa a desconsoladora id\u00e9ia que esse dom\u00ednio<br \/>\ns\u00f3 era v\u00e1lido na regi\u00e3o abstrata das almas; nunca o poderia<br \/>\nmanifestar, por atos triunfantes, em plena sociedade. Era um Deus dentro da<br \/>\nS\u00e9 &#8211; mas apenas saia para o largo, era apenas um plebeu obscuro. Um<br \/>\nmundo irreligioso reduzira toda a a\u00e7\u00e3o sacerdotal a uma mesquinha<br \/>\ninflu\u00eancia sobre almas de beatas&#8230; E era isto que lamentava, esta diminui\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial da Igreja, esta mutila\u00e7\u00e3o do poder eclesi\u00e1stico,<br \/>\nlimitado ao espiritual, sem direito sobre o corpo, a vida e a riqueza dos<br \/>\nhomens&#8230; O que lhe faltava era a autoridade dos tempos em que a Igreja era<br \/>\na na\u00e7\u00e3o e o p\u00e1roco dono temporal do rebanho. Que lhe<br \/>\nimportava, no seu caso, o direito m\u00edstico de abrir ou fechar as portas<br \/>\ndo C\u00e9u? O que ele queria era o velho direito de abrir ou fechar a porta<br \/>\ndas masmorras! Necessitava que os escreventes e as Am\u00e9lias tremessem<br \/>\nda sombra da sua batina&#8230; Desejaria ser um sacerdote da antiga Igreja, gozar<br \/>\ndas vantagens que d\u00e1 a den\u00fancia e dos terrores que inspira o<br \/>\ncarrasco, e ali naquela vila, sob a jurisdi\u00e7\u00e3o da sua S\u00e9,<br \/>\nfazer estremecer, \u00e0 id\u00e9ia de castigos torturantes, aqueles que<br \/>\naspirassem a realizar felicidades &#8211; que lhe eram a ele interditas; e pensando<br \/>\nem Jo\u00e3o Eduardo e em Am\u00e9lia; lamentava n\u00e3o poder acender<br \/>\nas fogueiras da Inquisi\u00e7\u00e3o! &#8211; Assim aquele inofensivo mo\u00e7o<br \/>\ntinha durante horas, sob a excita\u00e7\u00e3o col\u00e9rica duma paix\u00e3o<br \/>\ncontrariada, ambi\u00e7\u00f5es grandiosas de tirania cat\u00f3lica:<br \/>\n&#8211; porque todo o padre, o mais bo\u00e7al, tem um momento em que \u00e9<br \/>\npenetrado pelo espirito da Igreja ou nos seus lances de renunciamento m\u00edstico<br \/>\nou nas suas ambi\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o universal: todo<br \/>\no subdi\u00e1cono se julga uma hora capaz de ser santo ou de ser papa: n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 seminarista que n\u00e3o tenha, durante um instante, aspirado<br \/>\ncom ternura \u00e0 caverna no deserto em que S. Jer\u00f4nimo, olhando<br \/>\no c\u00e9u estrelado, sentia descer-lhe sobre o peito a Gra\u00e7a, como<br \/>\num abundante rio de leite: e o abade pan\u00e7udo que \u00e0 tardinha,<br \/>\n\u00e0 varanda, palita o dente furado saboreando o seu caf\u00e9 com um<br \/>\nar paterno, traz dentro em si os indistintos restos dum Torquemada27.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique\u00a0nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo I Foi no domingo de P\u00e1scoa que se soube em Leiria, que o p\u00e1roco da S\u00e9, Jos\u00e9 Migu\u00e9is, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. 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